MARCUS CLÁUDIO ACQUAVIVA

TEORIA GERAL DO

Teoria Geral

do Estado
3 a edição

Teoria Geral

do Estado
MARCUS CLÁUDIO ACQUAVIVA
Professor na Faculdade de Direito da Universidade Presbiteriana Mackenzie

3a edição

Manole

€ > Editora Manole Ltda., 2010, por meio dc contrato com o autor.

Capa: Departamento de Arte da Editora Manole Imagem da capa: Giuseppe Cesari Este livro contempla as regras do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa dc 1990, que entrou cm vigor no Brasil. Dados Internacionais de Catalogação 11a Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Acquaviva, Marcus Cláudio Teoria geral do Estado / Marcus Cláudio Acquaviva. - 3. ed. Barucri, SP : Manole, 2010. ISBN 978-85-204-3026-2 1. O Estado 2. Estado - Teoria I. Título.

09-12088

CDD-320.101

índice para catálogo sistemático: 1. Teoria geral do Estado : Ciência política

320.101

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“ PRAXÁGORAS - Quero que todos tenham um quinhão dos bens comuns, que a propriedade seja de todos; de hoje em diante, deixará de haver distinção entre pobres e ricos; não se repetirá o caso de possuir um homem vastas extensões de terras, enquanto outro não tem sequer o suficiente para cavar a sua sepultura... É meu propósito que seja um só o modo de vida de todos... Para começar, farei que toda a propriedade particular se torne bem comum. BLÉPIRO - Mas... quem fará todo o trabalho? PRAXÁGORAS - Para isso haverá escravos.” (Da comédia de Aristófanes Kcclesiazusae, apud Pitigrilli, Dicionário anti-loroteiro, Rio de Janeiro, Vecchi, 1956, p. 44)

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Após oito gerações. que após va­ gar sem destino pelo mundo. De­ marcaram os muros da cidade. jurando que matariam quem ousasse transpô-los. História de RomaySào Paulo. que cm vez de matá-los. 1-3. Fundaram uma pequena cidade. começaram a discutir. Ascânio. porém. o vento soprava forte e o cesto encalhou a pequena distância. Ilustração extraí­ da de p o t t e r . cidade eterna! Este conhecido axioma insinua a alta antiguidade des­ ta metrópole. hoje. pelo que retornaram a Alba Longa. derrubou. um príncipe. Rômulo ganhou a aposta. Acontece que o deus Marte se apaixonou por Réia Sílvia. de Giuseppe Cesari. que expulsou seu concorrente e mandou matar todos os filhos deste. Enéias. em per­ feita harmonia de ideais. C. Quercus. por obra dos irmãos Rôm ulo e Remo. fiel ao juramento e friamente. Indro. p. Mandou colocar os gêmeos num cestinho de vime e soltá-los 110 rio Tibre. não esperaram para receber a herança e o trono do avô. apesar de tudo. múnus que a obrigava a preservar a virgindade e. com um pontapé. Remo. Ainda que verdadeiro o episódio do abandono à morte dos gêmeos. acabando por se fixarem no mesmo local onde o cestinho em que embarcaram encalhara. Londres. que fundou Alba Longa. Numitor e Amúlio. 2007. Dentre estes. restaram pou­ cos sobreviventes entre os vencidos. depuseram Amúlio e fizeram retornar Numitor. com vantagem para Amúlio. porém. indo em busca de novas terras. dois irmãos descendentes de Ascânio.. p. até que combinaram o seguinte: aquele que adivinhasse o número de pássaros que num dado momento sobrevoariam o local. onde. daria seu nome à nova urbe. quando se tratou do nome a ser dado à povoação.RÔMULO E REMO E AS ORIGENS MÍTICAS DE ROMA1 Roma. Ibrasa. ao que Rômulo. os primeiros lances da construção. com isto. 1961. Quando os gregos conquistaram e destruíram Tróia. a se tornar sacerdotisa da deusa Vesta. por isso a cidade chamar-se-ia Roma. na região do Lácio desposou a jovem Lavínia. menos a menina Réia Sílvia. que con­ sistiu em dois robustos garotos. Entretanto. a quem deram o tro­ no. não ter filhos que pudes­ sem se vingar no futuro. os amamentou! Os dois cresceram e conheceram sua história. . para que se afogassem na correnteza. os recém-nascidos faziam ta­ manho berreiro que atraíram a atenção de uma loba. Empcrors ofRonte: the story of imperial Rome from Julius Caesar to the last emperor. com a qual teve um filho. m o n t a n e l l i . David. 17. De onde vinham os dois? Vejamos. engravidando-a e suscitando a cólera de Amúlio que. constrangendo-a. filha do rei Latino. Sequiosos de aventura. A tradição a fez fundada aos 21 de abril de 753 a. despeitado pela derrota ou por infeliz gracejo. passaram a disputar o trono da cidade. a pro­ 1 2 Imagem da capa: Rômulo e Remo amamentados pela loba. o matou com um golpe de enxada!2 É evidente que. que um dia foi a capital do mundo. aguardou o resultado. chegou à Itália. um estudo mais sério dos fatos não admite mais tanta fantasia.

Pcrrópolis. de muito antes de 753 a. seus costumes auste­ ros. revelam a existência de comunidades remotas. paludosa e insalubre. Foi o que ocorreu. na verdade. que civilizaria o mundo em nome do Direito e da Pax Romana. heróica. 3.). o espírito guerreiro e. na qual se destaca. consequentemente. uma simbologia própria. malcria­ da. a imagem da loba romana. inconfundível e perene. origem nobre. Vozes. O fato é que os primeiros romanos. 2 0 0 9. ate sobrenatural. São Paulo. pois a 4 4 loba” não passaria. “a loba”. tratava-se de gente humilde ou foragi­ da que se ocultava nos pântanos e sobrevivia com dificuldade. Introdução à história da antiguidade. Picrre. seu apego à terra. violenta e adúltera. É provável que as agruras por que passaram tenham forjado seu caráter rude. p.4 O fato é que a cidade ingressa na História oficial com seus sete reis (753-509 a. criando-se. talvez a mais glo­ riosa epopeia de um povo.. melhor que qualquer outra circunstância. Notas introdutórias ao estudo do Direito. a cidade parece ser bem mais antiga do que conta a tradição. Os gê­ meos que ela amamenta foram acrescentados no Renascimento. 142. tangida por cidadãos cuja probidade e amor ao bem público esclarece. identificada com a cidade. para que a sociedade nascente criasse personalidade forte. especialmente a partir da tomada do poder pelos monarcas etruscos. ed. Tem início. Quanto às verdadeiras origens de Roma. pois numerosos testemunhos arqueológicos. . não tinham. 1992. se­ gundo Políbio de Megalópolis. desde logo. p . C.teção que lhes teria dado uma loba. dominadora. a longa e profícua tra­ jetória do Estado romano. C. na área em que se assenta Roma. criando um Estado em que a forma de governo alcançaria a perfeição. absolutamente. seu expansionismo. de uma mulher chamada Aca Larência. da era do bronze médio e recente. literalmente um animal. cabanes. no fim do século VII a. preci­ savam passar para os filhos uma origem nobre. 48-9. comportamento selvagem que lhe teria valido ser chamada. as coisas não se passaram de forma tão romântica. 3 4 a c q u a v iv a .3 Por outro lado. zombeteiramente. sempre orgulhosos dc si mesmos. no período republicano. Parece que os primeiros habitantes da região.. logo mais. é pura lenda. ícone. Marcus Cláudio. sem dúvida. C.

.......................................................................... 45 IX 2 3 .............................................................. do imperium e do domínio em inente...........2.................... 39 4..................1) Poder político...............................................................24 4...........................................................................................................ÍNDICE GERAL APRESENTAÇÃO ........................................... 12 1) Conceito e evolução histórica do Estado................................................................................................................................................................... 31 4............................................ XV 1 A DISCIPLINA........... 24 4.................................2) Causas fo rm a is ................................ 27 4.................1) Causas materiais..........................................2... 17 3) Direito e Estado.......................1.............................................................................................2) N a ç ã o .......................2) O princípio da separação de Poderes segundo Montesquieu.............................................................................................................................................................1) Povo.... 37 4........43 4........... 4 1) Fundamento da sociedade..................................................................................................................... 12 2) 0 Estado de Direito..................................................................4 2) Definição de sociedade ............................................1......20 4) Causas constitutivas do Estado........................................................................................................................................................2................. 10 0 ESTADO...2) 0 princípio da separação de Poderes no Estado...........2............................1) Antecedentes.............................. 23 4.......................................... 8 3) Espécies de sociedades........................................................................................................ conceito e evolução histórica da Teoria Geral do Estado..............3) T e rritório...................................1 Natureza.........................1........... 1 A SOCIEDADE E O ESTADO...........4) Natureza das relações entre o Estado e seu território enquanto base física: teorias do direito real institucional...2..........43 4.............................................................................................................................2................. 39 4......................1..

............................................................................................ 86 1) União pessoal............................ 48 4......................X Teoria Geral do Estado 4.................................................................................................................3) A ristocracia............................................................ 111 2...................... 100 1..................................................................................................................................................5....................................................................................................... 97 1...........................2) República.....................................113 2....................................................4) C ícero...............................................................74 1) Conceito e evolução h is tó rica ...................... 86 2) União real........................................................2........................................................................................ 53 4....................3............................................................... golpe de Estado e insurreição.....................................................51 4.................................. 74 2) Espécies...........................................2.............................................7) Rousseau....................................................................................99 1.1) M o narq uia.............. 62 4.....................................4) 0 Estado contemporâneo e a delegação de fu n çõ e s.......................................................................................................8) Kelsen..............................................3) A doutrina da soberania lim itada...............2) A ristó te le s...............................................................................5) Causa final: o bem comum................................................................... 89 FORMAS DE GOVERNO.............................................5......................................................................................66 4 A CONSTITUIÇÃO............ 47 4................................111 2..2) Concepção social do bem comum .................116 2...... 93 1) Classificações antigas e modernas.................................................3.....................4) Globalização e soberania .......... 93 1....................... 77 3) Conteúdo político das Constituições...............................................1) A doutrina pactista medieval................................................................................5) Nicolau M aquiavel....6) M ontesquieu.............. 102 1........................3...... 104 1....................... 87 4) Estado federal......... 80 4) Revolução.....5) 0 caso brasileiro: medida provisória e lei delegada......................................... 57 4.............................................57 4...........................3) 0 Poder Legislativo......................................................95 1..........1) Platão (Arístocles)...........................................2............................2...4) Ordem jurídica............................82 FORMAS DE ESTADO... 108 2) Formas de governo clássicas...............................................................................................................................................................................................................3................................................ 93 1.......................................3) Políbio de Megalópolis.....4) D em ocracia......................................................................................................................... 118 5 6 ..................................2......................................................56 4.................................................................................................................... 53 4..........................................................................................1) 0 liberalismo e o bem comum ........3) Soberania............................................................................................................................................................................................. 86 3) Estado u n itá rio ........................................................2) A doutrina do contrato s o c ia l................................61 4...................2..............................47 4..................................................

...................................1..........6) Direção estatal da economia ..............................139 2.............4....................................................................................................................................................................................................................4) Concentração da propaganda nas mãos do Estado................................. sob o comando de um líder...................221 6................................ 220 6..1) Os partidos políticos no Brasil......4.................. 219 6........................ 203 5) Mecanicismo e org a n icism o ................219 6.....................................................................1...................................................................4.......5) Concentração dos meios militares..................2) Presidencialismo histórico e direito comparado............ 226 6...... 180 IDEOLOGIAS....................................................................................................3) Presidencialismo versus parlamentarismo na América L a tin a ............................133 2.....................220 6................................................ 155 D itadura.................................................7) Democracia e comunicação de massa................... 173 1..............2) Democracia direta.........176 1....3) Controle policial pelo Estado.....................1) Introdução ao tem a............................ 191 4) Anarquismo e sindicalismo...............................1...............................................4...................................211 6) Totalitarismo: fascismo e nacional-socialismo......................................................................................................................................5) Sufrágio e voto...4) Presidencialismo.....................................................................119 2...1) Introdução................ 154 Demagogiae oclocracia............... 186 2) Socialismo utópico... 219 6...................................................................................................................................173 1) Presidencialism o.......1...................................................4....................................214 6....................................................................128 2.........4.................6......................................................................................4............... 121 2.........119 2....................................6) Partidos políticos.. 179 2) Parlamentarismo.....................................................................2) Sistema de partido único...................................................................................................................................................................................................................................................173 1..................................................................................1............1...................... 157 Caudilhismo.. 187 3) Materialismo histórico e ditadura do proletariado........................................1.......................................................165 REGIMES DE GOVERNO...............................................3) Democracia representativa.....228 8 ................................................1.....8) O Estado nacional-socialista e os direitos subjetivos... 145 2............................................................221 6.............................. 186 1) Conceito de id e o lo g ia ............................1) Ideologia o fic ia l.......................................1.........4............................................ 177 1................................................índice Geral XI 3) 4) 5) 6) 7) 7 2..227 7) Humanismo s o c ia l....................................1) Características do totalitarism o.... 149 Tirania......................................................4) Democracia sem id ire ta.........................................................................9) 0 princípio da liderança (Führung) no Estado nacional-socialista................................... militarismo e Igreja na América L a tin a ..7) A doutrina nacional-socialista...........................................................................................................................................226 6.....151 Oligarquia..............................................

...........................TPI.238 6) 0 Tribunal Penal Internacional .....................................................233 2) A Organização das Nações Unidas ..................................................................... 300 16) Georges Sorel (Reflexões sobre a violência).........................................................255 6) Joseph De Maistre (O pensamento social cristão antes de M arx) .................332 25) S...........................238 5) Os tratados internacionais (natureza e e ficá cia)......................... 288 13) Alberto Torres (A organização nacional) ............ 259 8) Karl Marx e Friedrich Engels (O manifesto com unista) ...........................................................................292 15) Jacques Maritain (O homem e o Estado ) .........................................................................................................................................A......................................................................................................................................................................309 19) Benito Mussolini (Prelúdio a O príncipe..............1825).........................................................................................257 7) Simón Bolívar (Discurso perante o Congresso Constituinte de B o lív ia ......M ercosul....................................235 4) O Mercado Comum do Sul ..........269 10) Fustel de Coulanges (A cidade antiga) ..........................242 10 LEITURAS COMPLEMENTARES.........280 12) Almeida Garrett (Obras)..........................................................................267 9) Ferdinand Lassalle (Que é uma Constituição?) ............O N U .................................317 22) Alípio Silveira (Da interpretação das leis na Alemanha nacional-socialista e hitle rista ) ................................ 243 1) Marco Túlio Cícero (Dos deveres) .....................................277 11) Gustave Le Bon (Leis psicológicas da evolução dos povos ) .... 229 9) Neoliberalism o............................................. 246 3) Nicolau Maquiavel [O príncipe) ............. 339 ......................................................... 320 23) José Pedro Galvão de Sousa (Conceito e natureza da sociedade política)............ 289 14) Francisco José de Oliveira Vianna (O ocaso do Im pério) ............................................................................................. 303 18) Léon Duguit (Os elementos do Estado)...................................................................l..........................310 20) Varlan Tcherkesoff (Erros e contradições do marxismo)................................................................................312 21) Hans Kelsen (Teoria geral do Direito e do Estado) ............................................................................XII Teoria Geral do Estado 8) Social-democracia.................................... 249 5) Henry David Thoreau (Desobediência civil)......... 235 3) Direito comunitário: antecedentes da União Européia ........................UE........................................................................ 233 1) Natureza das Organizações Interestatais.................................................. Krutogolov (Palestras sobre a democracia soviética) ..............................243 2) Santo Tomás de Aquino (Suma teológica e Suma contra os gentios) ................................................................................................247 4) William Shakespeare (Júlio César) ...........................301 17) Nikolaj Lênin (Como iludir o povo com os slogans de liberdade e igualdade) ................... Kovaliov (História de Roma)................................................................ 230 9 0 ESTADO ENTRE ESTADOS:AS ORGANIZAÇÕES INTERESTATAIS.................................. de M aquiavel) ........... 325 24) M.........

..... 350 10) Declaração Universal dos Direitos do Homem...........342 3) Decreto n.... 26...................353 11) Emenda Constitucional n........1964.................................11............................. de 11................................................. de 15..........1823).......................................................1948 ..........349 9) Decreto n.......341 2) Dissolução da Assembleia Geral Constituinte e Legislativa (Decreto de 12.12......11...................................04.................................1930 (Institui o Governo Provisório da República dos Estados Unidos do Brasil)....... 13.. 343 5) Manifesto de S........... o Imperador aos brasileiros...................... de 02......1985..11..................... em 15................................... de 09...........348 8) Decreto n.........11...06.........1822)................ 344 6) Proclamação do Governo Provisório............................. 119-A.............................09..........................índice Geral X III 11 DOCUMENTAÇÃO HISTÓRICO-LEGISLATIVA......... de novembro de 1823............. de 27..............1961 (Sistemaparlamentarista).......357 12) Preâmbulo do Ato Institucional n.............................................................. M.... 367 .................347 7) Decreto n............ Pedro 1...........1890 (Liberdade de culto).........1889 .................. 4.......... 364 ÍNDICE ALFABÉTIC0-REMISS1V0..................01........................... de 10....................... 19.....363 13) Emenda Constitucional n....1889 (Proclamação da República)...................................................... 341 1) Convocação da Assembleia Geral Constituinte e Legislativa (Decreto de 03.........................................................398..... 342 4) Proclamação de D.. 1.............. 1.........................11......... de 07...

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o con­ ceito e a evolução histórica da disciplina Teoria Geral do Estado. com destaque para uma abordagem aos partidos políticos no Brasil. de modo a atender praticamen­ te a todos os programas da disciplina determinados por universidades e faculdades de Direito. as formas de governo an­ tigas e modernas. recebeu. o conceito e a evolução histórica do Estado. inúmeros pedidos e incenti­ vo para a reedição do livro. as formas de Estado. marxismo-leninismo. Consciente da necessidade de republicar a obra. o Prof. No exercício de seu magistério. os partidos políticos. Dentre os tópicos constantes da obra. Acquaviva passou a dedicar grande parte de seu tempo na revisão e na ampliação substancial do conteúdo do livro. cumpre mencionar a natureza.APRESENTAÇÃO Esta nova edição da obra Teoria Geral do Estado. tendo em vista a dinâ­ mica do mundo globalizado e seus novos questionamentos. os regimes de governo (presidencialismo e parlamentarismo). O autor. as ideologias políticas (anarquis­ mo. as causas constitutivas do Estado (povo e nação. Várias inovações enriquecem a obra. é advogado e leciona na Faculdade de Direito da Universidade Presbiteriana Mackenzie. o sufrágio e o voto. a Constituição política (con­ ceito. análise minudente sobre o princípio da separação das funções do Estado e um capítulo sobre as organizações interestatais. sindicalismo revolucionário. por parte de colegas e alunos. soberania. que muitos denominam “internacionais”. conhecido mestre de Direito. ordem jurídica. em São Paulo. incluindo tópicos como o Direito Comunitário (an­ tecedentes da União Européia) e o Mercosul. o Estado de Direito. po­ der político. Marcus Cláudio Acquaviva. bem comum). a definição e as espécies de sociedade. acha-se inteiramente revista e ampliada. Além desse nobre material de pesqui­ XV . a democracia. esgotado há vários anos. evolução histórica e espécies). território. o fundamento. social-democracia e outras) e as organizações interestatais. do Prof.

Benito Mussolini e Hans Kelsen. dentre outros clássicos. de 10. Participam da antologia. de 02.398. a Declaração Univer­ sal dos Direitos do Homem. 19. e também para enriquecer a informação aca­ dêmica.1889 (Proclamação da República). aumentada. Maquiavel. de 11.XVI Teoria Geral do Estado sa. também.1948 c a Emenda Constitucional n. Isso permitirá ao aluno. . o Decreto n. Encerrando o conteúdo desta. e mesmo ao professor. valendo des­ tacar o Decreto n. uma oportuna documentação histórico-legislativa pertinente à Teoria Ge­ ral do Estado. cm face dc sua rarida­ de ou alto custo. a partir do Primeiro Império brasileiro até a atualidade.11. Um dos maiores atrativos da obra. o autor promoveu inúmeros acréscimos ao próprio texto. isso sem mencionarmos outros textos de grande valor doutrinário constantes da primeira parte da obra. 1. Lênin.09.11. Karl M arx e Friedrich Engels. dentre esses oportu­ nas referências a autores de nomeada. Cícero. 4. Shakespeare. de 15.1930 (Governo Provisório da República). Santo Tomás de Aquino. passando a contar com mais ex­ certos de obras famosas e de difícil acesso para o estudante. Gustave Le Bon.1961 (Sistema parlamentarista dc governo).12. a antologia de clássicos da Política e da Teoria Geral do Estado foi. uma pesquisa com mais conforto e rapidez.

a Sociologia e a Economia visam propiciar conhecimentos bá­ sicos para a compreensão e a própria justificação de disciplinas mais específicas. o Direito Penal e o Direito Tributário. à qual todos devem sub­ meter-se em prol do interesse público. Saraiva. como o Direito Administrativo. que faz valer a vontade da lei. a Introdução ao Estudo do Direito. proíbe o fumo em bares. um fiscal de rendas impõe multa ao contribuinte faltoso. ainda. uma autoridade judicial intima alguém para depor em proces­ so ou para atuar como mesário ou apurador de votos cm uma eleição ou. México. a Anatomia e tantas outras matérias congêneres constituem a base dos estudos espe­ cíficos no campo das Ciências Médicas. Curso de teoria do Estado. 1985. a Teoria Geral do Estado. ed. ed. Elementos de teoria geral do Estado. entre tantas outras. lo. como magistrados.. 1981.A DISCIPLINA NATUREZA. São Paulo. fis­ cais e servidores públicos. 2. restaurantes e condomínios e o álcool nas rodovias. Nacional. s il v e ir a n e t o . cuja finalidade é orientá-lo quan­ to aos fundamentos do Direito e da sociedade.. G. São Pau­ O. entidade imaterial. mediante seus órgãos concretos. Quando um juiz comina pena de prisão. Forense. 1981. Rio de Janeiro. Honório. 1 . Ao ingressar na Faculdade de Direito. Bushatsky. Dalmo de Abreu. Da mesma forma que a Biologia. Teoria general dei Estado. CONCEITO E EVOLUÇÃO HISTÓRICA DA TEORIA GERAL DO ESTADO Bibliografia: l im a DALLARI. . Paulo Jorge de. é o F^stado. o iniciante do curso jurídico se depara com uma série de disciplinas denominadas básicas. 1970. 7. f is c h b a c ii. Teoria do Estado.

na qual recomenda a separação e a mú­ tua independência entre Igreja e Estado. uma vez que. e o segundo enaltecendo a ortodoxia católi­ ca.). Sendo eminentemente teórica. criada em 1672 pelo holandês Ulric Huber. estudando suas instituições e leis. às suas manifestações ideo­ lógicas”. e Santo Tomás de Aquino (1225-1274). organização e ideologias políticas. Doutrina do Estado ou. no curso jurídico. se o instrumental de trabalho do bacharel em Direito é a lei. também denominada Teoria do Estado. e Doutrina do Estado. ideias inseparáveis. inevitavelmente. sendo seu objeto não a análise dc um Estado concreto. sempre recebeu críticas pelo adjetivo geral que contém. Aristóteles (384322 a. com a obra Defensor pacis (1324). o primeiro buscando conciliar o platonismo com os dog­ mas cristãos. não só quanto ao seu conteúdo econômico-social como no tocante às suas formas jurídicas e. embora Aristóteles seja considerado seu funda­ dor. sendo suas obras principais a Suma teológica e a Suma contra os gentios. cujos escritos apresentam robusto matiz político. Na Idade Média destacam-se Santo Agostinho (354-430). No ocaso da Idade Média surge Marsílio de Pádua. ainda.2 Teoria Geral do Estado Estado e Direito são. preferida por Alessandro Groppali. pecando por redundância. e os franceses. mas o estudo do Estado em abstrato.) e Cícero (106-43 a. como sonegar ao estudante uma sólida formação ética a respeito dos funda­ mentos do Estado. Direito Cons­ titucional I. José Pedro Galvão de Sousa .C. como instituição universal. devido ao seu tratado Política (de polis. com o tratado A ci­ dade de Deus. Science Politique. do Direito e da própria sociedade? Daí plenamente justificada a existência. e não prática.C. sob os mais variados pontos de vista. dc uma disciplina como a Teoria Geral do Estado.). Conta-se que Aristóteles visitou nada menos do que 150 países. como origem. em que analisa as origens do Estado e as formas de governo existentes em seu tempo. proveniente da expressão alemã Altgemeine Staatslehre. como o demonstra o Prof. evolução. vale observar que as obras ancestrais dessa disciplina são as de Platão (429-347 a. como Parte Geral do Direito Constitucional Positivo. específico.C. do que re­ sultou a mais famosa de suas obras. não podendo haver ciência do particular. reitor da Universidade de Paris. ingleses e norte-americanos denominam essa disciplina Political Science. livro este considerado precursor da mo­ derna ideologia totalitária. Todavia. cidade). portanto. Ora. inclusive. adotada por Hermann Heller. sendo a lei a formalização da vontade estatal. gerai D aí as vertentes Teoria do Estado (Staatslehre). A denominação Teoria Geral do Estado. que tem por objeto o estudo do Estado como fenômeno social e histórico. Am­ bos dissertaram sobre temas referentes às relações entre o poder social e o poder espiritual. uma teoria é. a inteligência com a fé. a Teoria Geral do Estado é especulativa. Daí a precisa definição da Teoria Geral do Estado formulada por Paulo Jorge de Lima: “disciplina de caráter teórico e geral. Quanto à evolução histórica da Teoria Geral do Estado.

publicada em 1972. na Alemanha. célebre escritor político florentino que viveu entre 1469 e 1527. com O espírito das leis. com O contrato social. com Georg Jellinek (1851-1911). . Montesquieu (1689-1755). ju­ rista emérito e fundador do Direito Público alemão. Nesse ano ocorreu a separação: a Teoria Geral do Estado passou a ser disciplina autônoma e o Direito Público e Constitucional a denominar-se apenas Direito Constitucional. com Leviatã e Do cidadão. com Tratado sobre o governo civil. Após Maquiavel.1 A disciplina 3 em tese primorosa intitulada O totalitarismo nas origens da moderna teoria do Es­ tado. a Teoria Geral do Estado tornou-se uma disciplina independente. até 1940 não se falava em Teoria Geral do Estado. e Jean-Jacques Rousseau (1712-1778). A evolução histórica da Teoria Geral do Estado recebe considerável impul­ so com Nicolau Maquiavel (ou Machiavelli). John Locke (1632-1704). N o Brasil. destacam-se Thomas Hobbes (1588-1679). que buscaram revelar o fundamento do poder político e da sociedade na própria natureza hu­ mana e na vida social. Somente no século X IX . mas em Direito Piíblico e Constitucional. como se constata em suas obras O príncipe e Dis­ cursos sobre a primeira década de Tito Lívio.

quem sabe. pouco valori­ zada. Thomas. já vivenciou o leitor a desagradável experiência de permanecer trancado. José Pe­ Fjnbora seja o Estado a mais complexa das sociedades. Fondo de Cultura Econômica. Conceito e natureza da sociedade política. prédio vazio e silencioso. uma voz amiga e trêmula pelo susto das pancadas na porta nos acalma e garante que a assistência técnica não demora e que tudo está sob controle. raramente nos damos conta da importân­ cia disso para nossa realização plena. manifestação suprema do espírito objetivo no mundo.B. 2. 1998. num velho eleva­ dor. in His­ tória dos costumes. 5. 1949. conhecidas ou não. em face de um infortúnio. expediente encerrado.. Leviatan. Manual de philosophia. 1984. despercebida. por isso mesmo. Mar­ Ar i s t ó t e l e s . durante horas. São Paulo. So u z a .). dro Ciaivão de. c a l a m e -g r i a u l e . despertamos para a assustadora realidade da solidão e da impotência para sobreviver! Sozinhos. isolamo-nos de forma involuntária. Por nascermos em sociedade. em convívio cotidiano com outras pessoas. Pois bem. dada a vinculação daquele a esta. Quando. como queria Hegel. São Paulo. afasta­ 4 . Ludgero Jaspers O. porém. do lado de fora. Jean Poirier (org. ed. Editorial Estampa. Geneviève. A interação mais ou menos intensa que man­ temos com todos torna-se repetitiva e. porque nos consideramos ilimitadamente autossuficientes. 1926. 2000.. e “A palavra e o discurso”.S. hobbes.2 A SOCIEDADE E O ESTADO 1) FUNDAMENTO DA SOCIEDADE Bibliografia: A política. São Paulo. México. é indispensável abordar a socie­ dade em geral. no 12° andar? Fim de semana. ed. tins Fontes.. tradução de Roberto Leal. 2. sem celular ou qualquer outro meio de comunicação.. Lisboa. O pânico e a de­ sesperança acabam quando. tradução e adap­ tação de D.. v.

As sociedades domésticas e os indivíduos não são senão as par­ tes integrantes da Cidade. Nada pior que o isolamento forçado. Aquele que fosse assim por natureza só respiraria a guerra. o homem é um animal cívico. Assim. concedeu apenas a ele o dom da palavra. con­ firmando a assertiva de Blaise Pascal de que o homem não passa de um caniço pen­ sante. todas subordinadas ao corpo inteiro. denominando-o por isso zoon politikon. A natureza deu-lhes um órgão limitado a este único efeito. Aquele que. mais social do que as abelhas e os outros animais que vivem juntos. objetos para a mani­ festação dos quais nos foi principalmente dado o órgão da fala. deixa o convívio social e retira-se para um . o que levou o filósofo Aristóteles a considerá-lo um ser social e comunicativo por natureza. é até mesmo o primeiro objeto a que se propôs a natureza. sociável por natureza. po­ rém. um ser sociável por natureza. O Estado. Aristóteles nos ensina: É. que nada faz em vão. que se quebra na mais leve brisa. nós. portanto. não sendo detido por ne­ nhum freio e. nascendo e vivendo em sociedade. damo-nos conta de nossa fraqueza perante o mundo natural. por sua natureza e não por obra do acaso. do útil e do nocivo. ou não pode resolver-se a ficar com eles. dotado de carisma (graça divina). ou um bruto. evidente que toda Cidade está na natureza c que o homem e natu­ ralmente feito para a sociedade política. semelhantes às mãos e aos pés que.2 A sociedade e o Estado 5 dos de todo o conforto que a sociedade tecnológica proporciona. vale dizer. Temos a nosso favor apenas a inteli­ gência. Pois bem. sem a realidade. ou é um deus. de que os outros animais são. capazes. o homem se mostra uma cria­ tura eminentemente gregária e comunicativa por meio de uma linguagem articula­ da. como nós. que não devemos confundir com os sons da voz. estaria sempre pronto para cair sobre os ou­ tros. temos a mais. O mesmo ocorre com os membros da Cidade: ne­ nhum pode bastar-se a si mesmo. Santo Tomás de Aquino (1225-1274). o maior filósofo da Cristandade. Este comercio da palavra é o laço de toda sociedade doméstica e civil. uma vez separados do corpo. sem família e sem leis”. ou sociedade política. portanto. do justo e do injusto. senão o conhecimento desenvolvido. todas distintas por seus poderes e suas funções. muito acima ou muito abaixo do homem. Em sua obra clássica Política. Estes são apenas a expressão de sensações agradáveis ou desagradáveis. considera que o homem. pelo menos o sentimento obs­ curo do bem c do mal. a inclinação na­ tural levou os homens a este gênero de sociedade. inspi­ rando-se no próprio Aristóteles. como uma mão de pedra. existisse sem nenhuma pátria seria um indivíduo detestável. ou seja. a do indivíduo que. Assim. e todas inúteis quando desarticuladas. segundo Homero: “ Um ser sem lar. A natureza. vi­ veria em solidão apenas em três hipóteses: a) hipótese da natureza divina (excellentia naturae). como uma ave de rapina. O todo existe necessaria­ mente antes da parte. o bom-senso e os conhecimentos que a própria sociedade nos transmite. Aquele que não precisa dos outros homens. só conservam o nome e a aparência.

formando comunidades indesejáveis a grandes distâncias dos centros ur­ banos. escorraçados das cidades e obrigados a viver isolados.6 Teoria Geral do Estado local isolado. em que o indivíduo se vê privado do convívio social por um capricho do destino. viveriam isolados da socieda­ de. Em sua visão pessimista. entregando-se à meditação. nesta. é lobo do pró­ prio homem (homo homini lupus). o próprio Estado. no cinema con­ temporâneo. por natural in­ clinação. caso mais comum do que se pensa. c) hipótese da má sorte. torna-se selvagem. segundo Hobbes. do excursionista que se perde 11a mata espessa durante uma caminhada mais ousada. Também os alienados mentais. filósofo inglês para quem. formas que exprimem o desejo de autoconservação. Um apetite natural e irracional. imposta pelo Estado. como foi dito. a ameaça da morte imprevista e dolorosa. do náufrago vivido por Tom Hanks. a expressão alienado. Ao contrário. felizes na frugalidade da vida monástica e no silêncio austero que convida à espiritualidade. formando grupos inimigos e chegando ao assassinato. as quais criariam uma barreira entre eles e a sociedade. orgulho e vaidade (superhia vitae). de modo que somente 11111 governo severo. Para outros autores. Com efeito. monstro bíblico que empresta o nome à sua obra mais conhecida. por não ter fundamento natu rala sociedade pressupõe uma disciplina férrea. autocrático e disposto a punir seus excessos sem contemplação poderia tornar possível a vida em sociedade. que Hobbes denomina Leviatã. filme em que um grupo de garotos. a necessidade de sobreviver impele o homem à vida comunitária. com os leprosos durante a Idade iMédia. 11a aferição das origens do Estado. a destruir seus semelhantes. a dos indivíduos atingidos por anomalias físicas 011 mentais (moléstias contagiosas. . e como fazem os ermitões. sem fa­ larmos no impressionante O senhor das moscas. pois 11a sua desgraça não teriam noção do mundo real. sempre presente. para Hobbes. o homem. ou seja. leva o homem a conquistar poder e glória a qualquer custo. O homem. As vicissitudes da clássica personagem Robinson Crusoé e. sobreviventes a um desastre aéreo. alheios à realidade (daí. entretanto. Hobbes adverte que esse fre­ nesi de dominação encontra sério obstáculo: o medo de morrer (timor mortis). azar (mala fortuna). ilustram bem a hipótese. Enfim. muito menos que a sociedade e. desiludidos pelas mazelas do gênero hu­ mano. como é sabido. optam pela purificação e pelo aperfeiçoamento do espírito. como ocorreria com o sobreviven­ te de um naufrágio. loucura). Ora. alheio). como fez Jesus em seu retiro 110 deserto. o ser humano é impelido. a natureza agressiva deste o leva a investir fisicamen­ te contra seus semelhantes. mediante uma vio­ lenta submissão do próximo. é resultado de um instinto. da queda dc uma aeronave ou. E o que ocorria. ingressando num monastério isolado. frase criada pelo cronista latino Apuleio. b) hipótese da natureza doentia (corruptio naturae). é a origem da lei e do Estado. vivendo inconscientes. qual seja. indivíduos que. da natureza gregária do ser humano. Tal a posição deThomas Hobbes (1588-1679). fundado em ambição.

e não por uma suposta inclinação natural. a civil. ilustra bem a antiquíssima convicção. que o ser humano nasce bom. para realizar seus objetivos. sucumbe. pois sem esta. sobre a co­ municação animal. à custa de seu semelhante. p. especialmen­ te na infância? Ao contrário de muitas espécies animais. corrompe-se. Por outro lado. Enfim. como adverte Lahr. de quem ela é um privilégio. a própria natureza humana se inclina para a vida em sociedade. é ao mesmo tempo a condição necessá­ ria e suficiente para a definição do homem. Cabe a lei preser­ var. tão precocemente perdida. bom por natureza. “ Fala.Como se vê. é graças à adaptação paulatina ao modo de ser da sociedade que o ser humano vai sendo condicionado a agir conforme os valores desta. e não como decorrência de uma natural in­ clinação do ser humano. na concepção do próprio ho­ mem: para Hobbes. A par disso. Observa Cieneviève Calame-Griaule: A linguagem. perdendo sua liber­ dade natural e ingressando em outra espécie de liberdade. prover sua subsistência. o homem nutre simpatia (do grego syrnpathia) pela vida cm sociedade. Todavia. empre­ gada tal expressão no seu sentido rigorosamente filosófico. desde o nascimento aptas à luta pela vida. num pacto ou contrato social. por si só. passando pela escola e pelos grupos sociais de variada natureza. (Manual de philosophia. le bon sauvage (o bom selvagem) típico do ro­ mantismo do referido pensador. teria dito o cardeal de Polignac a um orangotango de aspecto muito huma­ no. o homem pre­ cisa do auxílio de seus semelhantes e. Rousseau toma orientação semelhante à de Flobbes quanto à origem da so­ ciedade. No con­ vívio com o próximo. relatada por Diderot. por isso. a todo custo. Como poderia o homem. a liberdade individual.2 A sociedade e o Estado 7 Uhotnme est né libre et partout il est dans les fers (O homem nasce livre. celebra um pacto social com esses. Jean-Jacques Rousseau (1712-1778). logo no início do primeiro capítulo de seu famoso livro O contrato social. grande inspirador ideológico do individualismo da Revo­ lução Francesa e mesmo das democracias liberais modernas. o homem. a saber. limitada. já percebe o leitor. nada abalada pelos estudos. o ser humano recém-nascido carece de total proteção. que passa a ser um fim em si mesma. vindo à luz. iniciado no lar. procura demonstrar. ele nasce bom. já para Rousseau. num processo assimilativo denominado socialização. cuja finalidade não poderia ser outra senão a comu­ nicação entre as pessoas. este nasce individualista. e eu batizo-te”. Diferem. livre e feliz. mas em todo lugar se acha acorrentado). sequioso de poder e glória. a disposição pura­ mente passiva dos seres sensíveis de compartilhar espontaneamente as emoções daque­ les com que vivem.Na verdade. mas a sociedade o corrompe de tal modo que e necessário restaurar sua primitiva liberdade individual. outro indício marcante da sociabilidade humana é a própria linguagem articulada. tangido pela razão. 91) . cada vez mais avançados nos dias que correm. Com esta preocupante sentença. Esta célebre historieta. como fenômeno universal.

existem outros. pois a sociabilidade humana impli­ ca uma complexidade de relações muito mais profunda que a observada no agrega­ do animal. portanto. Fruto da cultura e da experiência acumulada pelo homem. Boécio (474-524 d. Agnes e t i i i n e s . ed. São Paulo. o ser ou coisa careceria de existência. desde logo. a sociedade é a comunidade animal natural que agrupa indivíduos da mesma espécie. características e atributos meramente acidentais. da ordem absoluta. George. Omnia definitio periculosa est. Sem racionalidade. lempereur. não sendo. renovando seus valores. mudando na busca da perfeição. estaremos revelando a própria essência da es­ pécie humana. esclarecer o que é definir. humilde ou arrogante. 1984. Edições 70. A definição de sociedade nos impõe. e ocupando um biótopo que a comunidade condiciona estrei­ tamente. pois seria inconcebível um gênero humano desprovido de racionalidade. consideramos oportuno estabelecer uma discriminação con­ ceituai entre a sociedade propriamente dita (união estável de seres humanos). Em princípio. a humana.8 Teoria Geral cio Estado 2) DEFINIÇÃO DE SOCIEDADE Bibliografia: 1948. estaríamos pecando por acidentalidade. portanto. A sociedade propriamente dita. Curso de filosofia. . Acontece que. honesto ou desonesto. filóso­ fo e teólogo romano. Definir é revelar a essência do definido. ligados entre si pela potência dos fenô­ menos interatrativos. Lições de filosofia do direito. São Paulo. DEL V E C C H I O . Saraiva. e sem os quais este preserva sua essência. devem constar de toda definição apenas as causas essenciais do que está sendo objeto de definição. simplesmente. se defi­ nirmos o homem como ser racional. humilde ou arrogan­ te. honesto ou desonesto. Lisboa. ora regride. denominados acidentais ou con­ tingentes. porque o homem. que integram casualmente o objeto a definir. mostra-se dinâmica e mutá­ vel. define o homem como substância indivisível dotada de racio­ nalidadeypercebe-se que a razão é o elemento essencial da definição do ser humano. sempre. 13. todavia a so­ ciedade estará.C. . mas sempre em perpétuo movimento. não há que se falar em ser humano. Agir. Giorgio. degeneração. Haverá erros. quando Anício Mânlio Torquato Severino Boécio ou. e o agregado animal (união estável de outros seres). jo l iv e t Regis. Como definir a sociedade? Do ponto de vista puramente biológico. quando formos definir o que quer que seja. Dicionário geral das ciências humanas. entretanto? É tudo o que identifica o objeto a ser definido. Entretanto. embora sempre racional. pode ser bom ou mau. Por exemplo. retrocesso. advertem Agnes Lempereur e Georges Thines. ela segue no rumo de formas de convi­ vência cada mais complexas. a par dos elementos essenciais. 1979.). por­ tanto. Sem seus elementos essenciais. Muito cuidado. ora evolui. se definíssemos o homem como um ser racional bom ou mau.. O que é essência. Assim. indispensáveis à definição.

de di­ reitos e deveres. pois nela não se inclui nenhu­ ma causa ou elemento acidental. exemplo mais concreto do Direito Privado brasileiro.. sob uma única autoridade. fica evidenciada a permanência. apenas. Regis Jolivet. enfim. vale dizer. A sociedade ou pessoa coletiva comporta-se como uma pessoa natural. daí surgindo nova e superior unidade. ressaltada. enfim. não obstante. é indispensável a característica de permanência. que tendem a fim comum. de cada sócio. ao incluir o espaço territorial (base física) como elemento essencial. estabilidade. Há quem a defina como agrupamento duradouro. para quem a sociedade é um complexo de relações. sua causa última. poderiam deixar a sociedade por vontade própria ou por morte. Sim. temporária ou definitivamente. passa a ter persona­ lidade jurídica. definida esta como a ação exercida mutuamente entre duas ou mais pessoas.. como seus filiados. Deve a sociedade. e nem por isso a existência jurídica da sociedade seria afetada. Del Vecchio proclama que. Com a expressão nova unidade. Ação recíproca. graças ao qual vários seres indivi­ duais vivem e trabalham conjuntamente. ou seja. tem vida própria. de várias pessoas. a essência da sociedade. a sociedade tem um ob­ jetivo. embora inconfundível com a pessoa natural (ser humano dotado de direitos e deveres reconhecidos juridicamente) de cada um deles. Del Vecchio deixa claro que a sociedade passa a ter existência própria. define a sociedade como a união moral es­ tável. No período convivem e trabalham conjunta­ mente. uma associação (entidade sem fins econômicos) ou uma sociedade stricto sensu (entidade com fins econômicos). autônoma. de sua sede ou estabelecimento por motivo de dívidas. Satisfatória se mostra essa definição. independente da figura dos indivíduos que a integram. . O u ­ tra definição reconhecida é a do jurista e filósofo italiano Giorgio Del Vecchio. De fato. destacados dos outros. físicas ou morais. Nesta definição fica salientada a expressão relações. a sociedade reconhecida pela lei consti­ tui uma nova unidade. intenção que os romanos já denominavam affectio societatis. tendo existência própria. considerados isoladamente. no sentido dc que a vida co­ munitária pressupõe um relacionamento que os sociólogos denominam. conhecido filósofo contemporâneo. ser criada com a intenção de preservá-la. definir a sociedade. interação. quando sabemos que pode haver sociedades desprovidas de base física. que venha a ser despojada. De todo modo. uma finalidade transcendente. como os nômades. e os indivíduos que dela participam. ou. dotado de um espaço territorial. de­ finição que peca pela acidentalidade. muitas vezes egoístas. sugestiva­ mente. Quanto ao trecho superior uni­ dade. superior a cada um dos objetivos individuais dos sócios. a estabilidade. o objetivo social está acima das ambições individuais. dotada. para que um conjunto de indivíduos possa ser qualificado como sociedade. Tentemos. o desejo de todos de conviver permanentemente em sociedade. mesquinhas.2 A sociedade e o Estado 9 já proclamava a sabedoria latina. fazê-la durar na consecução do bem social. portanto. sob a forma de pessoa coletiva.

Na co­ munidade os membros se acham unidos. São Paulo. Coim­ . Direito civil . Introdução ao estudo do direito. Atlas. Curso de direito civil brasileiro . e serão associações quando. 2002.. Fondo de Cultura Fxonómica.Parte Geral. .d . Direito civil . e que delam possam sair quando queiram. Lisboa. ao passo que a associação resultaria da vonta­ de tangida pela razão. 1. Princípios de sociologia. Curso de teoria do Estado. ainda. v e n o s a . São Paulo. Sa­ raiva. 2002. Silvio de Salvo. uma sociedade comercial. 2002. v. São Pau­ lo. 1984. correspondente à vida real. 1. Saraiva. uma academia científica. 18. 1978. au­ tomaticamente. São Paulo. v. 1972. Do ponto de vista sociológico. Angiolo. uma entidade beneficente. dividindo-as cm comunidades e socie­ dades (associações). existindo indepen­ dentemente da vontade de seus membros. Pedro. orgânica. Jurídica Brasileira. D i­ reito civil brasileiro .Teoria geral do direito civil. Paulo José da e p e l l e g r i n i . o meio residencial (a escolha de um local para viver integra. não conseguiram.Introdução e Par­ te Geral. ed. ed. ed. 1. 3. weber . Saraiva. apesar de tudo quanto os separa. t õ n n i e s . w a i . Crimi­ d in iz nalidade organizada. Curiosa a observação do autor citado: encontramo-nos nas comunidades. Coimbra. criadas pela vontade dos indivíduos. mas entramos nas associações. 9. co. A comunidade seria um produto espontâneo da vida social. r. 32. uma classificação das relações sociais. costa j r CAETANO. caracterizam exemplos de comunidades: a nação. Arnold. que impele os indivíduos a constituir um todo.. Ferdinand. ed. a de Ferdinand Tõnnies e a dc Max Weber.10 Teoria Geral do Estado 3) ESPECIES DE SOCIEDADES Bibliografia: Marccllo. duas orientações se tornaram clássicas. São Paulo. ou por um ato que não tenha por fim imediato aderir a elas. Alessandro. de caráter emotivo.. São Paulo. Quan­ to a Max Weber. na as­ sociação permanecem separados. Coimbra.Parte Geral.. 6.. Marcello Caetano observa que as diversas formas de sociedade são comunidades quando. Exemplos dc asso­ ciações: um clube esportivo. una­ nimidade. ed. Fondo de Cultura Econômica. a família. Tõnnies apresentou. r o d r ig u e s Sílvio. Max. salvetti n et t o . uma irmandade religiosa. 1999. 1992. Saraiva. considera a comunidade o fruto de um sentimento subjetivo.. em 1877. resultarem da união daqueles que a elas resolvam aderir. v. 1942. ambos alemães. Sociólogos e juristas su­ gerem inúmeras tipologias que. México. bra. . apesar de tudo quanto fazem para se unir. o meio profissional. Economia y sociedade.. ed. embora respeitadas. 1. ao pas­ so que a associação seria resultante da vontade manifestada por um impulso racio­ . a pessoa num meio social). os indivíduos se acham a elas vinculados pelo simples fato do nascimento. 2. 2002. Manual de cicncia política e direito constitucional. de simpatia. Seguindo este critério. diante de um interesse material. Maria Helena. g r o p p a l i. M éxi­ Classificar as sociedades é tão difícil como defini-las.

não se mos­ tram indispensáveis à sua existência. ao passo que essas constituem obras da von­ tade humana. Observa o autor citado que o maior traço distintivo entre as sociedades ne­ cessárias e as contingentes é o fato de que aquelas preexistem ao homem. sem preconceitos. porém. Basta dizer que a Sociologia se interessa. por exemplo. embora concorram. do próprio Estado. que as tipifica em neces­ sárias c contingentes. porque numa determinada sociedade acham-se mesclados valores afetivos e objetivos racionais. tais como a Máfia siciliana. ilícitas. por toda espécie de sociedade. uma série de pressupostos inafastáveis para sua atuação. mesmo aquelas inimigas da ordem jurídica e. . ao passo que as contingentes. circunstancialmente. ao passo que a lei exige. a elas se vincula. Assinala Weber. Das sociedades necessárias . nem sempre tais classificações são satisfatórias. portanto. para o aprimoramento e o conforto do homem. podendo deixar de existir (quod potest non esse).o homem não pode prescindir.a própria denominação adota­ da revela seu sentido . Outra classificação é aventada por Pedro Salvetti Netto. e Angiolo Pellegrini. raramente realizáveis quando consideradas de maneira isolada. cuja estrutu­ ra “administrativa” já recebeu um brilhante estudo dos juristas Paulo José da Cos­ ta Jr. a Camorra napolitana. das sociedades regulares. a religiosa e a política. que comunidade e associação correspondem a tipos ideais. a Yakuza (máfia japonesa) e a Russkaja (máfia russa). Do ponto de vista jurídico. reprimidas pela lei. o qual. todavia. tão logo vem à luz. a sociedade familial.2 A sociedade e o Estado 11 nal.

Filosofia dei derecbo. Manifesto do Partido Comunista. Toda­ via. São Paulo. a expressão estado civil identifica o indivíduo solteiro ou casado. Bruguera. 1959. Bogotá. ed. ed. p. Dalloz. José Fraga Teixeira dc. Livro I. ed. São Paulo. Global. Paris. .3 0 ESTADO 1) CONCEITO E EVOLUÇÃO HISTÓRICA DO ESTADO Bibliografia: g u m p l o w i c z . A palavra estado apresenta vários sentidos inconfundíveis. in Études de droit public. Quciróz. T. A. 1986. IntroducMareei e b o u l o u i s . status familiae). 1903. a mais complexa e perfeita das sociedades civis. ao passo que status é um termo apli­ cável ao estado econômico daqueles bem-sucedidos no mundo dos negócios. Hugo Palacios. o termo surge do latim status. 1979. José Pedro Galvão dc. que pode­ ria ser conceituada como a “sociedade civil politicamente soberana e internacio­ 12 . . Karl.. Paris. Paris. a sociedade política. 6. Sucessor. D i­ Oswald apud Paulo cionário de política. Bonavides. agora com E maiúsculo. Louis. spengler. 6.. Barcelona. 1979.. condição pessoal do indivíduo perante os direitos ci­ vis e políticos (status civitatis. g a r c ia SOUZA. m e jía Abel.Temis. El príncipe. Coimbra. Leyes que no son derecbo y derecbo por encima de Ias leyes. p l a t Âo . 7. g u it du - . Jean. Armênio Amado. Aguillar. 1971. m a q u ia v e l o Fontemoing. 1998. radbruch ción a Ia teoria dei Estado. Bogotá. Temis. 1896. marx gas. Rio dc Janeiro. Ciência política. Gustav. Madri. . prélot. modernamente. . x\4odernamcntc. A República ou da justiça. Filosofia do direito. Madri. denomina. Em princípio. Précis de sociologie. qual seja. 1978. 1965. “UÉtat. Nicolás. a palavra Estado.Título XII. 672-3. 1981. Forense. Aguilar. les gouvernants et les agents”. Léon. Léon Chailley. n a r a n jo v il l e - . 1997. Institutions politiques et droit constitutionnel. Clóvis Lema c carvalho .

no seu livro clássico O prín­ cipe. A palavra Estado passou a identificar a sociedade política a partir do Renascimento. como estado. res­ pectivamente. dizia: “Tutti gli stati. compulsoriamente. e nacional-socialista. . Km William Shakespeare (1564-1616).os homens serem obrigados a deixar crescer a bar­ ba e as mulheres não poderem levar. Por que somos obri­ gados a fazer o serviço militar (CF. o programa A Voz do Brasil ou. senhoria (Seigneureries). pois. e 15.] in the State of Danemark”). sem falarmos os horrores da dita­ dura totalitária do proletariado. que. tenham preferido o termo república (Republique) ou. se chorassem. e somente ele tem a prerrogati­ va de nos dar a quitação respectiva. deviam mostrar alegria. o Esta­ do sempre foi objeto de estudo dc seus defensores (Hobbes. Gregos e romanos denominavam a sociedade política polis e res publica. rendo por objetivo o bem comum aos indivíduos e comuni­ dades sob seu império”. VIII. Bakunin). Hegel) e dc seus detra­ tores (Marx.3 0 Estado 13 nalmente reconhecida. em viagem. na União Soviética. Houve época. trabalhar como mesário ou apurador nas eleições. mais pre­ cisamente na tragédia Hamlet. na antiga Grécia. tutti /’ domini che hanno avuto e hanno impero sopra gli uominiy sono stati e sono repuhliche o principatr (“Todos os estados. foram e são repúblicas ou prin­ cipados”). mesmo forçada. a carteira de trabalho. dois séculos depois. estariam cometendo crime contra o Estado. ainda. com o crescente intervencionismo estatal.. na Itália. conta-nos Fustcl de Coulanges. Fjigels. IV). que recebiam os cadáveres dos filhos mortos em batalha. o Es­ tado sufocava por inteiro a liberdade natural do indivíduo. como o cartão de identidade. passou a ser empregado no sentido de sociedade política.em algu­ mas cidades-Fstado helênicas . mais do que três vestidos. usar cinto de segurança). pagar imposto sobre a renda. 5o. endeusado por outros (fascistas e nazistas). graças a Nicolau Maquiavel. o notório horário político. arts. como Jean Bodin. como Charles Loyseau. estalinista. ele se faz presente nos mínimos detalhes de nossa vida cotidiana. a exacerbação do poder do Estado se mos­ tra cristalina e aterradora no delírio de dominação dos Estados fascista. e hoje. embora alguns escritores. Execrado por uns (comunistas c anarquistas). todos os domínios que tiveram e têm poder sobre os homens. Modernamente. que. Fjn outras cidades. pagar pedágio quando em viagem. no sentido de situação de alguma coisa e. pela boca da personagem Marcelo. que diz: “H á algo de podre no reino da Dinamarca” (“ [. na Alemanha. tornamo-nos ilustres desco­ nhecidos perante a autoridade que no-los pede. nas pegadas de Maquiavel. a ponto de . Na Fran­ ça. No século XVI. em sua obra imortal A cidade antiga (Capítulo XVIII). o termo estat ou état foi recebido do latim a partir do século XIII. ou nazista.. dedi­ cado aos candidatos a cargos públicos? Por que sem nossos documentos pessoais. não fumar em locais públicos ou ouvir. tam­ bém encontraremos a expressão Estado indicativa da sociedade política. posição de uma pessoa. as mães. com cara de poucos amigos? É que todos esses devores nos são impostos pelo Estado.

Oswald Spengler. Giorgio Del Vecchio define o Estado. apresenta inúmeras variantes. dentre estas o próprio meio ambiente. Dalloz. p. 1986. 128). todos eles devem obediência ao Esta­ do. . Luís XIV. Rio de Janei­ ro. t. 6. Para Georges Burdeau. e a origem histórica de cada um destes. devendo o rei governar como um pai para os sú­ ditos.. propor vultosa recompensa a quem for­ mulasse um conceito de Estado unanimemente aceito. Bossuet e J. como ocorre em certos agregados animais complexos. a teocrática. Paris. o Estado se forma quando o poder torna-se uma instituição. idealizada pela or­ todoxia doutrinária. ed. O próprio Hans Kelscn (1881-1973). observa que. surpreende no Estado a História em repouso. do ponto de vista jurídico como “o sujeito da Ordem Ju­ rídica. colhendo-as na seara do próprio Direito ou da Sociologia. a ponto de um grande publicista do século X IX . desenvolvida ao longo do tempo por Demóstenes. 351-2). eminente publicista contemporâ­ neo. chamado Bastiat. vontade esta manifes­ tada concretamente pela Providência. p. Seja como for. o fato é que o patriarcalismo acabou por se tornar mera justificativa do poder monárquico. e conhecemos detalhadamente sua evolução histórica. F. Como. Não obstante. reduzindo-o a mero juízo de valor. que não se pode confundir uma única origem para todos os Estados. p. defini-lo? As definições são tantas quanto os autores que as formulam. mediante o fenômeno da institucionaliza­ ção do poder (Traité de science politique. Em vez de um fenô­ meno recorrente. da sociedade política. peculiar a todas as sociedades. porém. o surgimento de cada Estado se acha ligado a toda sorte de circunstâncias. Stahl. da mesma forma que na família os filhos devem obediência aos pais.. não se confun­ dindo mais com aquele que o encarna. que têm em comum a ideia de que é da vontade de Deus o Estado existir. já advertia que a vo­ lumosa soma de definições do Estado dificulta a precisão do termo. várias doutrinas procuram demonstrar uma só origem. sendo as principais a patriarcalista. 2. Em que pese a razoabilidade de sua argumentação. Daí a natural inclinação desta doutrina para a monarquia. pois este nada mais é que a união de muitas famílias. Ademais. A doutrina teocrática. preconizada por Bossuet e Robert Filmer. No plano da Sociologia. Forense. Assim. Vamos resumi-las. inspirador da célebre doutrina pura do Direito. a contratualista. 3-4).. p. Quanto às origens históricas do F'stado. na qual se realiza a comunidade de vida de um povo” (Pbilosopbie du droit. não podemos deixar de fazer algumas referências a tais defini­ ções. o gênero humano teria uma natural inclinação para a forma mo­ nárquica. desprovido de caráter científico (Teoria general dei Estado. por exemplo o das abelhas. A teoria patriarcalis­ ta. cumpre observar.14 Teoria Geral do Estado Sabemos que o Estado é uma sociedade necessária e condicionante das demais. e na História o Estado cm marcha (Ciência política. citada por Paulo Bonavidcs. sendo esta a atuação de Deus na História. embora re­ mota. 52). a patrimonialista e a da força. de imediato. dentre outros. cujo instinto as leva a viver em função de uma abelha-rainha.

qual seja. . tido por mui­ tos como seu inspirador é. um acordo entre os ho­ mens. entre outros. Marx e Engels. Suárez.. demonstrou à Humanidade ser esta sua Vontade. Hobbes e Grócio. 14-5). inevitável. para adotar uma liberdade ci­ vil que. por Charles Darvvin e. conflitantes. apud Paulo Bonavides. foram paulatinamente se congregando e abdican­ do de uma liberdade natural perigosa e irrealizável. respeitável publicista do início do século X X . 45). No que tange à doutrina patrimonialista. um dos últimos. Franz Oppenheimer e Léon Duguit. Para Locke. entre outros. ed. A tese do contrato social surgiu de pontos de vista diversos e. Gumplowicz.3 0 Estado 15 Assim. seja por razões genéticas. p. ra­ zão pela qual. ora para explicar a origem do Estado (Hobbes). com o objetivo de organizar o domínio do primei­ ro sobre o segundo e resguardar-se contra rebeliões intestinas e agressões estran­ geiras” (Der Staat. 53). Segundo tal doutrina. mostra o mesmo pessimismo de Oppenheimer ao conceituar o Estado como o “grupo huma­ no estabelecido em determinado território. 1954. com fundamento na afirmação de que Deus. desenvolvida. p. é uma das mais antigas no tocante à origem do Estado. Franz Oppenheimer. os homens. definindo-o como a “instituição social que um grupo vitorio­ so impôs a um grupo vencido. John Locke e Adam Smith. Gobineau. Antes dele. 5. período em que era usual reconhe­ cer a existência de um contrato entre o governante e o povo. ao eleger determinada forma de go­ verno. Stuttgart. a paz (Hobbes) e a pro­ priedade (Locke). mais remotamente. natural a defesa de um direito divino dos reis pelos adeptos dessa doutrina. na verdade. da dominação dos fracos pe­ los fortes. a teoria da força. haveria uma tendência natural. Léon Duguit. tangidos pela razão. pelo qual este se com­ prometia a obedecer àquele (pacta sunt servanda). cm qualquer estágio histórico. defendem-na. Santo Agostinho. ora para justificar o poder do príncipe. garantiria a liberdade (Rousseau). cit. como ocorreu na Idade Média. situa a origem do Estado na violência imposta por um grupo social a outro. o Estado existe principalmente para proteger a propriedade individual. 4. embora limitada. Em suas próprias palavras.. por razões radicalmente opostas. a monarquia. Introducción a Ia teoria dei Estado. Platão. Jean-Jacques Rousseau. Paris. aquela deve ser adotada. desen­ volveram a ideia de que o Estado resulta de um contrato. raciais (Gobineau) ou econômicas (Marx e Engels). Quanto à doutrina contratualista. p. havendo uma corrente do patrimonialismo que justifica sua teoria pelo fato de o próprio Estado ter o direito natural de defender sua pro­ priedade. dentre outros. Por fim. Seja para garantir um mínimo de liberdade (Rousseau). mais tarde. Ciência política. ao contrário do que se pensa. muitas vezes. como assinala Leopold Uprimny (apud Hugo Palacios Mejía. p.Thomas Carlyle. ou para evitar a guerra dc todos contra todos (Hobbes). onde os mais fortes impõem sua vonta­ de aos mais fracos” (Droit constitutionnel.

disse Trasímaco. passou-se à apro­ priação privada dos meios de produção.Ouça.16 Teoria Geral do Estado o Estado não é uma pessoa jurídica nem soberana. Com o Estado desaparecerá o poder político. 1981).Não duvide que vou dá-la. de forma tirânica e. Trasímaco? Não vai querer dizer. as tirânicas. Você diz que o justo c o que interessa ao mais forte? Pois bem. governantes e governados. . maioria. justo para nós.Não sabe.Nada disso. mas apenas o po­ der objetivo de querer conforme o direito e de assegurar a realização deste. p. ao tomar minhas palavras de for­ ma tendenciosa.que algumas cidades são governadas tiranicamente. . de forma le­ gítima. . Curioso sc mostra. confesso. ja­ mais legítimo em sua origem. porventura respondeu . O po­ der pertencente aos mais fortes. todas as outras. da propriedade comunista. eles podem. Karl Marx (1818-1883). 1-2) O pai do socialismo científico. que encontra seu verdadeiro fundamento na solidariedade social e se impõe a todos. mais fracos que ele? . sem nunca possuir. também. pois nem sempre existiu e nem sempre existirá. o que você quer dizer com isso. o poder legíti­ mo de impor suas ordens. porque esta é empregada na realização do direito.Portanto. a partir do momento em que. assim. in Études cie droit puhlic. por exemplo.Pois bem. 1903. por que você não aprova esta resposta. de forma demo­ crática. na qualidade de governantes. outras por uma aristocracia? . em cada cidade não exerce o poder quem possui a força? . res­ pondi. o campeão da luta. No momento. Tra­ ta-se de instituição passageira. cada go­ verno estabelece as leis conforme o que lhe convier: as democráticas. depois que entender o que você quis dizer. simplesmente? . classe. tal alimento será conveniente e. só desejo que você explique mais claramente o que significam suas palavras. neste cipoal doutrinário. o diálogo em que Platão coloca na boca de Trasímaco o seguinte: .Sem dúvida! . ainda. não sei. Como todos os indivíduos. eu disse. (“L’État. () Estado é o produto histórico de uma diferenciação social entre os fortes e os fracos cm determinada sociedade. em detrimento da maioria explorada. Uma vez estabelecidas. Os governantes que detêm este poder são indivíduos como tantos outros. indivíduo. é mero poder de fato. Entretanto. que aca­ bo de dar? N ão vai querer responder.Você fala com despudor Sócrates. encontram-se submetidos à re­ gra de direito. pôr em prática a força de que dispõem. les gouvernants et les agents”. e seu companheiro de ideias e de lutas Friedrich Engels (1820-1895). Os governantes não têm o direito subjetivo de comandar. querido amigo!. outras de forma de­ mocrática e. que sc Polidamante. disse então [Trasímaco]: Para mim o justo não c outra coisa que o con­ veniente para o mais forte. mero resultado do aparecimento da luta de classes sociais.Claro que sei! . neste caso. e mais forte que nós c lhe convem comer carne bovina para sustentar sua for­ ça física. Toda manifestação de vontade dos gover­ nantes é legítima quando está conforme o direito. definido por Marx como “o poder organi­ zado de uma classe para oprimir outra” (Manifesto do Partido Conmnista. prejudicial. conceituam o Estado como um fe­ nômeno histórico transitório.

que o Direito desprovido de força “é fogo que não queima. e o Direito que mo­ dela o exercício desta. Com alguma dificuldade ele viverá. para conceituar e justificar o Estado de Direito. O que eu quero dizer. Vivendo em socieda­ de. não distinguem o que c legal do que c legítimo e não vão alem dc um Es­ tado dc legalidade. a fortiori do Estado. reduzem o direito à lei. dentre os atribu­ tos essenciais do Estado. é que em todas as cidades será justo tudo o que os governantes. em correla­ ção com os grupos ou corpos intermediários que a constituem. como energia elétrica. para revelarmos o sentido da expressão Estado de Direi­ to. o que é por justiça devido a outrem. assim entenderem. que são aqueles que mandam. que nem sempre c um Estado dc justiça. Observam José Pedro Galvão de Souza. o que convem ao mais forte. antes de mais nada. o homem pode ficar privado do conforto material c das utilidades que a tecno­ logia oferece. Daí a razão pela qual. meu bom amigo. Antes de mais nada. para quem quiser discutir este assunto com seriedade. É indispensável ter presente que no Estado não reside a fonte única das normas de direito. É preciso entender que a lei não cria o direito. se o Direito é uma qualidade essencial de qualquer sociedade. mas o reconhe­ ce e estabelece as condições de exercício dos direitos subjetivos. disse Aristóteles há 2. Ora. refulgem o poder amparado na força.3 0 Estado 17 estas leis declaram que será justo para os governados apenas o que os governantes qui­ serem. ou aquilo que Jeremias Bentham denominava mínimo ético de convivência. com inteira razão. luz que não ilumina”. uma pluralidade de or­ . Tal afirmação ainda é plenamente verdadeira. ou seja. É necessário compreen­ der que o direito subjetivo é uma faculdade ou um poder moral essencialmente vincu­ lado ao justo objetivo. automóvel e mesmo educação escolar ou em­ prego fixo. porém. importa.500 anos. e aqueles que se afastarem deste ditame serão punidos como infratores das leis. em sua obra clássica A luta pelo Direito. mas plurívoco-analógico. Rudolph von Ihering. e depende deste. o justo c sempre o mesmo. Cumpre partir do seu significado originário: o iu$ (de iustum). apresenta uma pluralidade de sentidos conexos. afirmava. de modo que. é imprescindível formularmos outra indagação: o que se deve entender por D i­ reito? Sabemos que esse vocábulo não é unívoco. Clóvis Lema Garcia e José Fraga Teixeira de Carvalho. ou seja. a incerteza e os abusos des­ truiriam a sociedade quase na rapidez de um terremoto. a expressão Estado de Direito seria tautológica. em obra primorosa: As concepções que tem idealizado o Estado dc Direito prescindindo do direito natural c encerrando-se nas perspectivas estreitas do positivismo jurídico. Sem um mínimo de ordem. 2) 0 ESTADO DE DIREITO Ubi societas ibi jus (onde houver sociedade haverá direito). a vida não seria possível nem por um instante. A insegurança. Por isso. saber o que é o direito. pois há na sociedade política.

será um Estado de Justiça. Logo. Quanto a este. todo Estado é Estado de Direito. F . disciplina exclusivamente os atos internos. que. Kant separava o Direito da Moral. respeito à ordem superior.18 Teoria Geral do Estado denamentos jurídicos. um Estado de Direito marxistaleninista e. na liberdade do ser racional. e que pode alte­ rar via poder constituinte. o conjunto das normas emenadas do Estado. simplesmente. O Estado subordinado ao Direito. então é o Direito que depende do Estado. na visão kelseniana. à vonta­ de dos detentores do poder c dos que fazem a lei. pois esta. Os chamados elementos formadores do Estado. poder.e fez escola . até mesmo. 1998. Ora. disserta: . os direitos subjetivos fundam-se na pró­ pria natureza humana. haveria um Estado de Direito liberal. abolição da representação profissional e outras me­ didas de caráter notoriamente individualista. Quanto a Hans Kelsen. por isso a lei só é justa sc conforme a essa mesma ordem. racionalista c voluntarista do Direito. (Dicionário de política. proteção absoluta da propriedade privada. territó­ rio. como se depreende de sua concepção individualista. no seu destino transcendente e eterno. o Estado de Direito. Daí a expressão Estado de D i­ reito Liberal Burguês para denominar a concepção de Estado intransigentemente vinculado às garantias individuais. povo. segundo o kantismo. Das teses de Kant exsurgem duas doutrinas bem conhecidas pelos publicistas a de Georg Jcllinck c a de Hans Kelscn. na dignidade pessoal do homem. Então. tentando superar a visão estreita do neopositivismo kelseniano. Consequentemente só poderá haver Estado de Direito desde que haja respeito ao direito natural. que cairia como uma luva nos interesses de uma nascente burguesia. ideia que desenvolve à luz do formalismo positivista da sua famosa Teo­ ria Pura do Direito. um Estado de direito nacional-socialista. o justo objetivo é inerente à ordem natural. pertencem ao mundo exterior e passam a ter sentido apenas quando re­ lacionados ao Direito. seria. de foro íntimo.na identidade da ordem jurídica e da estatal. sendo aquele apenas um conjunto de condições destinadas. assim procede para reger os atos externos do homem. im­ plantação do sufrágio censitário (só teria direito a voto quem tivesse um conside­ rável patrimônio econômico).. Jellinek considerava a possibilidade da autolimitação do poder do Estado pelo próprio direito positivo. na ple­ nitude do seu significado. um Estado de Direito social-democrático. o que acarreta notó­ ria aporia: se o Estado se limita pelo Direito que ele mesmo cria. Nesse caso. a garan­ tir a coexistência das liberdades. disso resultando que o Estado cria seu próprio Direito e impõe à sociedade a ordem jurídica a que esta deve amoldar-se. simplesmente. não o inverso. Mais moderada é a ponderação de Gustav Radbruch. independentemente da lei moral.. 208-9) A concepção tradicional do Estado de Direito provém de Emmanuel Kant (1724-1804) e de Jcan-Jacqucs Rousseau (1712-1778). prossegue Kant. acredita . p.

como o faz nosso Código Penal. tal fato não desqualifica aquelas que. como já foi mostrado (§ 10). cujas premissas serão encontradas em vários dispositivos. Na verdade. o positivismo jurídico c político pres­ supõe sempre. isto é. todavia. 235). Quando a maior parte das legislações oci­ dentais veda a poligamia. 354-5) Na verdade. então não estamos ante uma lei que estabelece um direito defeituoso. um atentado ao Esta­ do de Direito. Eis esse preceito: quando numa coletividade existe um supremo governante. Uma ordem jurídica. se quisermos achar uma solução para o problema da anterioridade ou posteridade do Direito com relação ao Estado. No Brasil. à expressão do pensamento ou de constituir família. 14) . ou. mas por normas. a Constituição entroniza um Estado Democrático de Direito (art. mais para além do direito positivo e mais para além da realidade do Estado. adotam o sufrágio cultural. parágra­ fo único. será instituída sua ordem jurídi­ ca. v. 14. Assim. desde que tenha condições financeiras para isso. quando na formulação do di­ reito positivo se deixa de lado conscientemente a igualdade. embora haja valores universais e perenes. a prevalência dos direitos huma­ nos e o repúdio ao terrorismo e ao racismo. I o. como o art. que constitui o núcleo da justiça. ou a soberania popular (arts.. a colocarmo-nos mais para além dum e doutro. toda a Humanidade reconhece e institui juridicamente. p. surge. quando algumas Constituições adotam o sufrágio universal. caput). p. (Le)>es que no son de­ recbo y derecbo por encima de Ias leyes. que não poderão ser as normas do direito positivo do Estado c só poderão ser as dum direito natural. cujos incisos II e VIII preconizam. Reitere-se. e 14). g. quando levado logicamente às suas últimas conseqüências. se valores humanos universais são violados por um suposto Direito. já se vê. tenebroso. não é me­ nos verdade que o direito positivo dos povos acha-se impregnado de notória relati­ vidade. mas o que ocorre é que estamos ante um caso de ausência do direito. que a própria razão assi­ mila e que. v. que. representa a cosmovisão do legislador constituinte num Estado em particular e em dado momento histórico. na União norteamericana. não por fatos e realidades. não podendo haver suas ordens jurídicas idênticas sem prejuízo da identidade dos povos. (Filosofia do direito. tal fato não pode servir de argumento para considerar o regime familiar do sultanato oriental. um espectro de bom Direito. o que ele ordenar deve ser obedecido. por isso mesmo. 1997. 4o. 1971. Isto é: seremos levados a buscar essa solução num outro plano que não poderá deixar dc ser constituído.3 0 Estado 19 somos sempre necessariamente compelidos. crime contra a família (art. que permite ao homem ter várias esposas (poliginia). g. caput).f o direito à vida. como a brasileira (art. respectivamente. um preceito jurídico de direito natural na base de todas as suas cons­ truções. I o. Conforme as peculiaridades de cada povo. considerando-a. na fe­ liz imagem de Gustav Radbruch: Quando nem sequer se aspira a realizar a justiça.

Um grande jurista italiano. deve ser considerado não como um produto exclusivamente estatal. O Direito. José. pelo qual a lei vale para todos e. mediante o qual ninguém será obrigado a fazer ou deixar dc fazer alguma coisa se­ não em virtude de lei. Quanto às relações entre o Direito e o Estado. rom an o Hans. México. por­ tanto. Coop. diz Santi Roma­ no. b) teoria monista. 1972. Teoria pura do direito. babeas corpus e man­ dado de segurança. Qualquer institui­ ção. 1939. Enrique R. pela qual o Estado e o Direito são duas realidades distin­ tasynão relacionadas. Teoria general dei de. com a limitação do poder pelo direito positivo. qualquer organização estável e individuada tem o seu ordenamento ju­ rídico próprio e. para resguardo dos di­ reitos adquiridos. como um posterius deste. mesmo porque ubi societas ibi jus (onde houver sociedade haverá direito). de um pluralismo jurídico. podemos extrair alguns princípios da con­ cepção dominante de Estado de Direito: a) princípio da supremacia da lei (nde of law).20 Teoria Geral do Estado De qualquer forma.. as quais. Fernando Garcia e v i l a n o v a . diz ele. direito. e a responsabilidade dos agentes públicos quanto a prejuízos causados aos particulares.. portanto. assim também ao lado do D i­ reito Positivo ou estatal se encontram o Direito Canônico ou Eclesiástico. Para Santi Romano. A tais princípios acrescentem-se as garantias constitucionais de direitos. Santi Romano. d) princípio da igualdade jurídica ou isonomia. 1979. são verdadeiros centros de produção de normas. b) princípio da legalidade. surgem duas teorias principais: a) teoria dualística. Sansoni. e concluindo. Esta teoria se biparte em outras duas. São Paulo. que reduz o Estado e o Direito a uma só entidade. como o pró­ prio Estado. Firenze. Acadêmica. recho y dei Estado. os esta­ . inamovibilidade e irredutibilidade de vencimentos). e) princípio da independên­ cia funcional dos magistrados. como um prius deste. Buenos Aires. ou como criação do Esta­ do. de Derecho y Ciências Sociales. assim como ao lado do Estado existe uma pluralidade de outras instituições mais amplas ou mais restritas. Introkel- ducción al derecho. Unam. sempre. consolidado pelas garantias inerentes ao Judiciário (vitaliciedade. mas como um fenômeno verificável em todas as organizações sociais. sendo ambos unum et idem. a todos deve ser aplicada. portanto. olano . sen. 1967. onde houver qualquer sociedade haverá. Santi. c) princípio da irretroatividade da lei. conforme seja o Direi­ to considerado criador do Estado. g. como dois mundos separados que se ignoram mutuamente. v. Uordinamento giuridico. afirmou a existência de uma plu­ ralidade de ordens jurídicas. 3) DIREITO E ESTADO Bibliografia: a m a l i ó n .

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tutos da Máfia ou de qualquer outro bando organizado fora da lei. Então, prosse­ gue Santi Romano, não só o Estado, mas qualquer grupo social, é fonte do Direito, e se o Direito estatal é Direito, nem por isso o Direito deve ser sempre e necessaria­ mente estatal. Poder-se-ia acrescentar à tese de Santi Romano que o Estado somen­ te aparece depois de um lento processo evolutivo, ao passo que formas primitivas do Direito já regulavam a sociedade primitiva. O Estado surgiria tão somente para servir e manter o Direito, portanto é o Direito que atribui e limita ao Estado seu poder de império. Depreende-se, da teoria de Santi Romano, que podem coexistir várias ordens jurídicas: uma estatal, uma infraestatal (sociedades civis e comerciais), uma supraestatal (ONU, OEA) e uma paraestatal (indiferente ou contrária ao Es­ tado). Contra a doutrina de Romano se posiciona a teoria monística, esposada, en­ tre outros, por Hans Kelsen e Alessandro Groppali. Hans Kelsen, um dos grandes juristas do século X X , autor da obra clássica intitulada Teoria pura do direito, afirma, desde logo, que Direito e Estado se confun­ dem. O estudo do Direito e do Estado deve ser depurado, purificado - daí o título de sua obra - de toda contaminação emocional, ideológica, metafísica, sociológica ou política. Ora, um conhecimento ideologicamente livre, portanto desembaraça­ do dc toda metafísica, não pode reconhecer a essência do Estado a não ser como uma ordem coercitiva de normas. Ora, se o Estado é um sistema normativo, não pode ser outra coisa que a própria ordem jurídica positiva (imposta), já que é im­ possível admitir a validade simultânea de várias ordens normativas igualmente coer­ citivas. O Estado vem a ser, com efeito, a personalização da ordem jurídica. Poderíamos complementar tal pensamento deduzindo o seguinte: a) o Direito da sociedade arcaica, diluído no costume, se achava tão distante das formas claras, distintas e acabadas do Direito atual, como sua organização es­ tava longe do Estado moderno. b) o Direito é elaborado seguindo um roteiro traçado pelo Estado ou, pelo me­ nos, reconhecido por este (processo dc elaboração das leis e processo judicial). En­ tão, fora do Estado não pode haver Direito. c)a coercibilidade do Direito depende da atuação do Estado e, portanto, a atuação do Direito depende do Estado. d) a formação originária do Direito nos tratados confederativos e na revolu­ ção triunfante tem por base os Estados contratantes ou o Estado em que se impôs um novo regime político. l ogo, tais fenômenos jurídicos supõem a existência do Estado. Também para Alessandro Groppali, fora do Estado não pode haver Direito. As normas que qualquer outra sociedade expedir para sua própria organização e funcionamento são normas de caráter meramente social, e somente se tornam jurí­ dicas quando reconhecidas pelo Estado ou admitidas na ordem jurídica estatal. Os grupos sociais menores que existem no Estado, diz Groppali, podem ser regulados

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por um sistema próprio de normas, mas estas somente serão consideradas como or­ dens jurídicas válidas apenas 110 âmbito interno, pois, consideradas do lado de fora, isto é, do ponto de vista da ordem estatal, ficam imediatamente privadas de autono­ mia, pois sc forem contrárias à ordem jurídica estatal serão eliminadas. Mesmo uma quadrilha bem organizada, denominada societas sceleris, pode apresentar uma hie­ rarquia com especificação de “direitos” c “deveres”, c suas normas podem, ate, ser análogas às normas do Estado, mas nunca serão idênticas, pois não são verdadei­ ras, autênticas normas jurídicas; são o contrário disso. Seus membros agem em aber­ to contraste com a ordem jurídica que tutela um determinado conjunto de valores sociais. Aliás, prossegue Groppali, somente rendo como referência o Direito estatal é que podemos qualificar como ajurídicas, antijurídicas ou jurídicas as várias ordens normativas existentes. Em face de uma longa evolução histórica, ao cabo da qual seu poder tornou-se soberano (do latim superanus, supremitas, supremacia), o Es­ tado se impôs como entidade dotada de um poder incontrastável 110 âmbito inter­ no, assegurando para si, com hegemonia, o monopólio da criação das normas jurí­ dicas. Tendo Santi Rom ano afirm ado a juridicidadc das normas do Direito Canônico e do Direito Internacional, Groppali opôs as seguintes observações: quan­ to ao Direito Canônico, de fato, é um autêntico Direito, que encontra sua fonte 110 poder originário c independente da Igreja, poder que, embora de caráter espiritual, tem sobre os seguidores da religião católica uma notável eficácia. Entretanto, os fins do Direito Canônico são diversos dos fins do Estado, além do que, complementan­ do o pensamento de Groppali, lembraríamos o caráter de generalidade do Direito Estatal, seu alcance muito maior se comparado com os cânones eclesiásticos. Quanto ao Direito Internacional, Groppali afirma ser uma ordem normativa ainda em formação, sendo seus dispositivos desprovidos da eficácia que caracteri­ za as normas estatais. O Direito Internacional não possui outras fontes além dos tratados e do costume. Suas normas não são dotadas de poder coercitivo que ca­ racteriza a ordem estatal. Enquanto os ramos do Direito Positivo já apresentam um certo grau de estabilidade, o Direito Internacional nem codificado se acha, impos­ sibilitado, portanto, de atuar coercitivamente. O Estado totalitário, nas pegadas de Kelsen, considerou Direito apenas as normas estatais, sendo confrontados pela dou­ trina corporativista cristã, que afirma a necessidade de o Estado atuar apenas supletivamente perante os indivíduos e as sociedades menores, uma vez que o Esta­ do não seria a única fonte de normas jurídicas. Na verdade, Estado e Direito são irmãos xifópagos, predestinados a viver unidos, sem poder separar-se. Se, na ver­ dade, a ideia de um Direito difuso, espalhado pela comunidade primitiva, represen­ tado pelo totem ou mana, entidade espiritual que governaria os destinos da comu­ nidade, pode ser uma hipótese encantadora para explicar a precedência do Direito sobre o Estado, na verdade, quando surge este, passa tal entidade a ser a fonte su­ prema do Direito, superior em poder e eficácia a todas as outras, embora a existên­ cia destas não possa ser negada.

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4) CAUSAS CONSTITUTIVAS DO ESTADO
Bibliografia: a b b a g n a n o , Nicola. Dicionário de filosofia, São Paulo, Mestre Jou, 1982.
ARISTÓTELES.

Obras, M adri, Aguilar, 1982; Tratado dei alma.
salvetti n et t o ,

bacon

,

Francis. “Afo­

rismos sobre a interpretação da natureza e o reino do homem”, in Os pensadores, São Paulo, Abril Cultural, 1973, v. 13. Pedro. Curso de ciência política, Teoria Geral do Estado, São Paulo, Tribuna da Justiça/Hemeron, 1977, v. 1.

O conhecimento científico, verdadeiro, só é possível mediante a apuração das causas dos fatos naturais e humanos. Aristóteles, pioneiro na demonstração da ver­ dade pelas causas, já delimitara, em sua Metafísica, o termo princípio como causa em sentido amplo, abrangendo as causas formal, eficiente e final, às quais o médi­ co Galeno acrescentou a causa instrumental. Conhecer verdadeiramente, disse Fran­ cis Bacon séculos mais tarde, é conhecer pelas causas. Forte em Aristóteles asseve­ ra: “Afirma-se corretamente que o verdadeiro saber é o saber pelas causas. E, não indevidamente, estabelecem-se quatro coisas: a matéria, a forma, a causa eficiente, a causa final”. Nesta esteira de pensamento, Pedro Salvetti Netto adverte: “Não se conhece, cientificamente, pela verdade revelada nos livros sagrados, como se fizera durante a Idade Média, mas sim pela explicação causai do objeto do conhecimen­ to. Todas as coisas se explicam, considerando-lhes as causas”. Acrescentaríamos ao exposto o conceito dc causalidade, a saber, a conexão entre duas coisas, em virtu­ de da qual a segunda é univocamente previsível a partir da primeira, como assina­ la Nicola Abbagnano. Do exposto, podemos indicar quatro causas suscetíveis de revelar a natureza das coisas e dos seres: eficiente, material, instrumental, formal e final. A causa efi­ ciente (do latim facere, fazer, criar) revela o criador, o autor de algo, de modo que, num exemplo rudimentar, podemos dizer que a causa eficiente da mesa que tenho diante de mim é o marceneiro que a fez. Causa ou causas materiais vêm a ser a ma­ téria, o material com que este confeccionou a mesa (madeira, cola, pregos). Causa ou causas instrumentais, por sua vez, seriam os instrumentos utilizados no traba­ lho (martelo, serrote, formão). Causa formal seria a própria forma, aparência da mesa, permitindo-nos distingui-la de uma cadeira ou de outras mesas, embora to­ das resultantes da mesma causa eficiente, material e instrumental, faculdade ine­ rente mesmo aos deficientes visuais. Finalmente, a causa final, que nos revela o por­ quê da mesa, ou seja, sua finalidade. Para um selvagem, a mesa pode significar simplesmente um abrigo contra a chuva; para um homem civilizado, é um objeto para colocar alimentos e tomar refeições, redigir ou ler. Pois bem, se transportarmos essas ponderações para a sociedade em geral, per­ cebemos que essa nos revela, com clareza, sua causa eficiente (fundadores), causas

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Teoria Geral do Estado

materiais (seres humanos e base física), formais (órgãos diretivos e normas regula­ doras) e a final (pode ser de várias naturezas, conforme a espécie de sociedade). Em certas situações, seria polêmico, quando não embaraçoso, demonstrar a causa efi­ ciente da primeira sociedade, na verdade do próprio ser humano: Deus? Obra do acaso? Qual teria sido a primeira causa material? O barro, com que o Criador fez o homem e, de uma costela deste, a mulher? Questão de fé! Quanto ao Estado, se quisermos estudá-lo cientificamente, devemos fazê-lo mediante o estudo de suas causas constitutivas. Tal estudo se mostra indispensável, pois nos permite desconstruí-lo, estudando, pormenorizadamente, cada um de seus elementos. As causas constitutivas do Estado são materiais, formais e final. São causas materiais do Estado o povo, ou o elemento humano, e o território, ou base física, área material ou ideal em que o Estado faz valer seu Direito positivo. Quanto às causas formais, vale dizer, aquelas que identificam o Estado quanto à sua forma ju­ rídica ou constituição política, graças à qual um Estado não se confunde com ou­ tros - daí, a importância dc conhecer o Estado por sua constituição! - são a ordem jurídica e o poder político, exercido pelos governantes (do grego kubernetes, pilo­ to dc embarcação) que o encarnam em dado momento histórico. Quanto à causa final do Estado, vale lembrar que cada sociedade tem, conforme sua natureza, uma causa final específica. Assim, uma sociedade beneficente tem por causa final a prá­ tica da benemerência; outra, esportiva, tem por finalidade o aperfeiçoamento físi­ co e o lazer de seus filiados, enquanto uma sociedade empresarial tem por objeti­ vo o lucro, mediante a prática habitual de atos mercantis. Quanto ao Estado, tem por causa final o bem comum de todas as sociedades menores que atuam em seu território. O adjetivo comum atribuído ao bem visado pela sociedade política é bastante sugestivo: o Estado existe, por evidente, para rea­ lizar o bem-estar geral de todos, no tocante, por exemplo, à educação, à saúde e à segurança. Analisemos cada uma destas causas.

4.1) Causas m ateriais
4.1.1) Povo

Bibliografia:
1966.

a za m b u ja

,

Darcy. Teoria geral do Estado, 4. cd., Porto Alegre, Globo,
falcão,

b o n a v id e s ,

Paulo. Ciência política, Rio dc Janeiro, Forense, 1978.

Al-

eino Pinto. Parte CeraI do Código Civil, Rio de Janeiro, Konfino, 1959.

maluf,

Sahid. DenniPedro.

Teoria geral do Estado, 13. ed., São Paulo, Sugestões Literárias, 1982.
son. Os soldados brasileiros de Hitler, Curitiba, Juruá, 2008.

o l iv e ir a

,

salvetti n e t t o ,

3 0 Estado

25

Curso de teoria do Estado, 4. ed., São Paulo, Saraiva, 1981.

sil v a ,

José Afonso da. Cur­

so de direito constitucional positivo, 2. ed., São Paulo, Revista dos Tribunais, 1984.

População é a totalidade das pessoas que se acham, num dado momento, em determinado Estado. Tal conceito inclui toda e qualquer pessoa, independentemen­ te de nacionalidade, idade, situação política etc. Por isso, quando dizemos que o Brasil tem uma população de quase duzentos milhões de habitantes, estamos em­ pregando corretamente o vocábulo. População é conceito eminentemente numéri­ co, quantitativo, demográfico e, portanto, não interessa, de imediato, ao Direito. Povo, todavia, é termo que pode revelar um conceito jurídico ou um conceito po­ lítico. São conceitos análogos, porém inconfundíveis. Com efeito, a palavra povo sugere pluralidade de sentidos análogos, sendo, portanto, plurívoco-analógica. Em sentido vulgar, ela pode designar as pessoas residentes de um bairro qualquer ou uma comunidade unida pela religião, pelo idioma ou pela etnia. Pode, até, ser em­ pregada pejorativamente, ao designar a parte menos instruída da sociedade, ou aquela colocada em posição hierarquicamente inferior das categorias sociais. Por exemplo, na França pré-revolucionária, havia três estamentos, pela ordem, clero, nobreza e povo, o célebre Terceiro Estado. A democracia grega, quando se referia à assembleia do povo, indicava uma minoria seleta que, pelos dotes intelectuais e pela origem, podia deliberar politica­ mente durante todo o dia. Tal atividade era denominada ócio, bastante respeitada então e longe de sofrer o sentido pejorativo de hoje. Aqueles que não tinham o di­ reito de deliberar, que não podiam nem mesmo residir na cidade, eram os nec ócio, isto é, os negociantes, escravos e estrangeiros. Montesquieu afirmava que o povo não podia ser confundido com a ralé, o populacho, devendo ser proibido o direito de voto àqueles que se encontrassem num estado demasiadamente profundo de baixeza. Dizia este notável pensador que, mesmo no governo do povo, o poder não poderia cair nas mãos do baixo povo. Madame de Lambert, discípula de Montesquieu chegou a definir o povo: “Chamo povo todos aqueles que pensam de maneira baixa e vulgar” . Não foi à toa, portanto, que a palavra povo já foi tida como o grande troca­

dilho da História. Classificada a palavra povo como plurívoco-analógica, sua análise torna-se mais fácil, cm que pese a diversidade de sentidos que ela apresenta. Ao Direito, em especial o direito constitucional, interessam os sentidos jurídico e político. Povo, no sentido jurídico, é o conjunto de indivíduos qualificados pela nacionalidade. Nele não sc incluem, já sc vê, estrangeiros e apátridas. Todavia, o sentido político é ain­ da mais restrito, pois exclui não só estrangeiros c apátridas, como também os me­ nores de 16 anos (CF, art. 14, §§ I o, II, c, e 2o), estando o povo político, tido como o conjunto dos cidadãos do Estado, vinculado à ideia de cidadania. Como se vê, não

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Teoria Geral do Estado

basta ser nacional para se obter a cidadania; a nacionalidade é pressuposto, condi­ ção necessária, mas não suficiente para alcançar o status de cidadão. A idade do na­ cional se mostra o grande empecilho à obtenção da cidadania, como se observa no art. 14, §§ I o, 1, e 3o, VI, a a d, da Constituição Federal. Todavia, há outras restri­ ções, como aquelas impostas aos militares no art. 14, § 8°, e a cassação de direitos políticos, nas hipóteses do art. 15. A nacionalidade, então, e vínculo meramente ju­ rídico, pertinente a direitos civis, em razão do local de nascimento ou da ascendên­ cia paterna (nacionalidade originária), ou, ainda, de manifestação de vontade do próprio interessado (nacionalidade secundária, obtida mediante naturalização). Na­ cional, portanto, é o brasileiro nato ou naturalizado, que integra o conceito jurídi­ co do povo, ao passo que cidadão é o nacional no gozo dos direitos políticos. Há dois critérios para a determinação da nacionalidade: o jus soli e o jus sanguinis. O jus soli leva em conta o local de nascimento do indivíduo, o solo, enfim. Trata-se de um critério normalmente adotado por Estados de forte contingente imigratório, isto é, que recebem imigrantes, estimulando-os a se radicarem, para compensar a rarefação demográfica. Por outro lado, o jus sanguinis é um critério dcterminativo da nacionalidade que considera a ascendência, o sangue paterno do indivíduo, para conferir-lhe a nacionalidade. Trata-se de critério típico de Estados de forte emigra­ ção, com o que se busca preservar a nacionalidade mediante a consangüinidade. O fundamento do jus sanguinis pode resvalar, perigosamente, o racismo, como ocorreu na Alemanha nacional-socialista, por acaso com cidadãos brasileiros. O pro­ fessor de História Dennison de Oliveira, em original e elucidativa monografia, tomou o depoimento dc um brasileiro descendente de alemães que, achando-se na Alemanha em 1943, foi convocado para o serviço militar em plena Segunda Guerra Mundial, pior, quando a derrota do país já se avizinhava. Assim o autor descreve o episódio:
Tendo atingido a idade para alistamento, ele compareceu diante da junta do ser­ viço militar local. Sua primeira inspiração foi alegar a condição de brasileiro (brasilia-

ner), nascido em São Paulo, como demonstravam seus documentos de identidade. Em
resposta teria ouvido a seguinte pergunta do encarregado do alistamento: “Mas se você

tivesse nascido na África isso faria de você um negro?”. Desconcertado, respondeu que
não, ouvindo em seguida a decisão de que ele teria de se alistar, uma vez que era des­ cendente de alemães. De fato, nos termos da jurisprudência alemã relativa à naciona­ lidade prevalece o princípio do jus sanguinis, isto é, aquela que deriva da nacionalida­ de dos pais, independentemente do local de nascimento (jus solis) que é típica da cultura brasileira, por exemplo.

De nada adiantou a alegação do pobre recruta de que lhe seria penoso lutar até a morte contra outros brasileiros; na iminência de uma condenação à morte por desobediência, acabou sendo salvo por um oficial médico nascido de pais alemães, imaginem, na Namíbia. O facultativo, sensibilizado pela situação do nosso brasi-

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lianer, conseguiu para este uma internação hospitalar por suposta moléstia conta­ giosa, que acabou livrando-o do processo... Um caso banal como este esclarece, mais que muitos livros sobre a matéria, como o nacional-socialismo encarava o ser humano; para ser um bom alemão, o importante era o sangue, não importava o local de nascimento, tanto que o pró­ prio Hitler não era natural da Alemanha, e sim austríaco. Daí, a política dc anexa­ ção, à Grande Alemanha, de territórios em que habitariam os chamados alemães raciais, residentes fora do Terceiro Reich, levando à prática o lema nacional-socialista: “Povos do mesmo sangue devem pertencer ao mesmo Estado A Constituição do Brasil adota um critério intermediário, pois faz concessões ao jus soli (art. 12,1 , a), e ao jus sanguinis (art. 12,1 , b e c). Pode ocorrer que o indi­ víduo não tenha nacionalidade, sendo, então, apátrida (sem pátria), submetido, em tal caso, à Convenção sobre o Estatuto dos Apátridos, adotada em 28.09.1954, pela Conferência de Plenipotenciários convocada pelo Conselho Econômico e Social das Nações Unidas, em sua Resolução n. 526-A (XVII), de 26.04.1954, tendo entrado em vigor no dia 06.06.1960. Se tiver mais dc uma nacionalidade, o indivíduo será polipátrida. Os critérios atributivos da nacionalidade decorrem da própria sobera­ nia do Estado, não da vontade dos interessados, de maneira que o apátrida estará nesta condição independentemente dc sua vontade, valendo o mesmo para o polipá­ trida. Quanto à naturalização (CF, art. 12, II), é forma de aquisição secundária ou derivada da nacionalidade. Pode ser expressa ou tácita. A naturalização expressa é aquela que resulta de pedido do interessado (CF, art. 12, II, a e b); a tácita, aquela que se confere ao indivíduo por iniciativa do próprio Estado (CF, art. 12, § 1°). No que se refere ao povo político, reitere-se que tal conceito liga-se, de imedia­ to, ao de cidadania. Com efeito, sendo proveniente do latim civitas (de eives, cida­ dão), o termo cidadania denomina o vínculo político que liga o indivíduo ao Estado, fruindo o cidadão de direitos e deveres de natureza política, com evidente exclusão dos estrangeiros. O termo povo contido no art. Io, parágrafo único, da Constituição Federal confunde-se com o conceito de cidadania, pois congrega exclusivamente os nacionais dotados de direitos políticos, nas diferentes gradações apontadas pela Cons­ tituição (art. 14, §§ I o a 9o). Portanto, nunca será demasiado repetir que, ao decla­ rar, no art. 1°, parágrafo único, que “todo o poder emana do povo”, a Constituição Federal refere-se ao conceito político do povo, excluindo estrangeiros, apátridas, me­ nores de idade, e, nos termos do art. 14, § 2o, os conscritos durante o período do ser­ viço militar (do latim conscriptu, recrutado, alistado, recruta).

4.1.2) N ação

Bibliografia:
1968.

a za m b u ja

,

Darcy. Teoria geral do Estado, 4. ed., Porto Alegre, Globo,
delos

b o n a v id e s ,

Paulo. Ciência política, Rio de Janeiro, Forense, 1986.

,J.T .

dentre todos. nem da direção das cadeias dc montanhas.28 Teoria Geral do Estado La nación.d. a vontade de prosseguir fazendo valer a heran­ ça por todos recebida. Uma grande agregação dc homens. teoria do Estado. Hans Kelsen distingue. é entidade pura­ mente normativa” . até que se sedimente aquele espírito nacional oriundo das tra­ dições e costumes comuns. Nossos ancestrais nos moldaram o que hoje somos. s. como afirma Sestan. O homem não c cscravo nem dc sua raça. São Paulo. O homem não sc improvisa. entre povo c nação: “a noção de povo não sc refere às qualidades físicas ou psíquicas dos ho­ mens. 1981. uma nação? Seria a raça o único ingrediente a compor a receita da nação? Vacher da Lapouge. a outra. um princípio espiritual. porque. como objeto dc estudo da Teoria Geral do Estado. a nação não pode ser satisfatoriamente definida. ed. de glória. A nação . eis a condição para se ser um povo! E prossegue: Ama-se a casa que se construiu e se transmite. Centro de Estúdios Constitucionales. Ernesto. Curso de José Afonso da. ela ostenta “caráter fugaz. s il v a .. Que será. Dizia Ernesto Renan (1823-1892): Uma nação é uma alma.como o indivíduo . mantendo-se gra­ ças à coação exercida sobre cidadãos ou súditos. assim como o principal ideólogo do . com sutileza. renan . O povo. eis o capital so­ cial em que se assenta a ideia nacional. pois. nem dc sua religião. no presente. dc sacrifícios c dc desenvolvimento. é que a nação não se confunde com o Estado. nem dc sua língua. 4. Uma encontra-se no passado. o Estado pode surgir até dc modo abrupto. 1989. seremos o que sois é. O canto espartano: Somos o que fos- tes. Que es tina nación Pedro. de grandes homens. o hino abreviado dc toda pátria. Gobineau e Houston Stewart Chamberlain. Curso de di­ Madrid. na sua simplicidade. porém. salvetti n e t t o . Por isso. ao passo que aquela tem caráter tipicamente so­ ciológico. que se forma com o passar do tempo.c conseqüência dc longo passado dc esforços. Revista dos Tribunais. o desejo de viver junto. mas a nação somente se forma mediante demorada gestação. reito constitucional positivo. Certo. sã dc espírito e cálida dc coração. pois este envolve um conceito eminentemente jurídico. a outra. Possuir glórias comuns no passado e vontade comum no presente. ed. Buenos Aires. O cul­ to dos antepassados. cria uma consciência moral que sc chama nação! A nação é. Um passado heroico. 1983. plurissignificante e até equívoco”. o consenso atual. Saraiva. São Paulo. Desclée Brouwer. 5. c o mais legítimo. nem do curso dos rios. entretanto. Para muitos autores.. uma realidade eminentemente sociológica. Com efeito. Uma é a posse comum de um rico legado de tradição. ter realizado grandes obras em conjunto e querer realizá-las ain­ da.

inspirando-se nestes autores. Portanto. não há uma só raça pura e. afirmou que “de muitos cidadãos se faz um Estado (república). Se a religião não é o elemento imprescindível para formação da nação. seria este a religião? Também não. Na Suíça. A Alemanha é metade protes­ tante e metade católica. Alfredo Rosenberg. se não Péricles. uma hierarquia. Haveria. O nacionalsocialismo. Platão? O que é a Inglaterra. que resultaria a identidade de sentimentos que leva uma comunidade a querer. D aí as palavras de Ernesto Renan: “Já não há religião de Estado. como adverte Renan. permanecer existindo. pois que a História é mais sábia que qualquer razão individual. autor da célebre obra Dos seis livros da República. se não César. preco­ nizados por Mancini. o catolicismo predomina em toda a Amé­ rica Latina. “uma su­ cessão de biografias que representam o espírito de cada nação de que cada grande homem faça parte” . achavam que sim. como há Esta­ dos em que se professa mais de um credo religioso. se não Shakespeare? Tal linha de pensamento talvez seja a mesma de Hegel (1770-1831). eminente historiador e biógrafo. Dizia Thomas Carlyle (1795-1881). espon­ taneamente. Dante. Jean Bodin (1530-1596). quando governa­ dos pela potência soberana de um ou diversos senhores. Seria das tradições comuns. Na verdade. A religião é individual. isto é. seria este o idioma? Também não. É das tradições comuns que brota o espírito da nacionalidade e o patriotismo. se tomado isoladamente. E quem poderia recusar ao povo suíço sua condição de nacional? Diz Renan: “Será que não é possível ter os mesmos sentimentos e pensamen­ tos e amar as mesmas coisas em línguas diferentes?”. Por outro lado. nação e raça com uma unidade biocspiritual de sangue e solo (blutt und boden). religiões e nações”. nas raças hu­ manas. apenas as tradições e os costumes devem ser levados em con­ ta quanto à criação de um espírito nacional. O que é a Itália. costumes. Pedro Salvetti Netto afirma que dos elementos constitutivos da nação. é possível ser francês. ainda que estejam diversi­ ficados em leis. para quem tais grandes ho­ mens seriam o instrumento da evolução histórica. representada por nações superiores a outras. dos fatos heroicos. “assentar a política na análise etnográfica é pretender assentá-la sobre uma quimera”. inglês. que a “ História Universal é no fundo a História dos grandes homens”. francês c alemão. para Bodin.3 0 Estado 29 nacional-socialismo. sendo protestante ou católico ou israelita ou mesmo ateu. fala-se italiano. sem contestação (Der Führer hat immer recht). contempla a consciência de cada um ”. o Es­ tado precede à nação. Se a raça não é o elemento imprescindível da nação. Pode haver uma só religião em vários Estados. comandada por um úni­ co líder. Mazzini? O que é a Gré­ cia. . confundiu povo. H á Estados ou comunidades nacio­ nais onde se falam vários idiomas. alemão. línguas. que restam no passado.

elaborados no decurso das idades. de língua e a comunhão de vida criaram a consciência social” . 2. b) elementos históricos: costumes. a nação é uma ideia. a solidariedade psicológica (expressão de Miguel Reale). Benito Mussolini (1883-1945) não se preocupa em definir a nação.30 Teoria Geral do Estado Para Friedrich von Hardenberg (1772-1801). o Estado pode forjar a consciên­ cia coletiva. é antes de mais nada um mito. Contemporaneamente. a seu ver. formada pela cultura e pela religião. p. na concepção fascista não é algo pretérito. O próprio Mancini aponta os elementos formadores de uma nação: a) elementos naturais: nação. p. ação atual. 187). levado às últimas conseqüências durante o nazismo. que encerra em si o espírito e a vida. Também para o fascismo. diz o Duce. a organização do Estado deve ser confundida com o espíri­ to nacional. sob o aspecto raça. arquivado no museu da História. Segundo Novalis. Para Friedrich von Schlegel (1772-1829). criadora e conquistadora. o Es­ tado deve confundir-se com a nação. Apesar das restrições a um conceito universal de nação. esta. Novalis c Schlegel influenciaram o conceito naturalístico dc nação. o Estado for­ ja a nação. Será uma realidade 110 sentido de que é uma fé. in­ titulada Vida dos povos na humanidade. t. Diz ele: “Para que se possa dizer que um Estado forma um todo vivente e que c uma grande individualidade. Portanto. A sociedade nada mais e que uma vida comum: uma pessoa indivisível que pensa e sente. um valor”. pois a política não é senão a forma de que se reveste a ação em sua vida pública. na qual a unidade de território. O que é um mito? O mito. Por isso. é preciso que o Estado ou nação continuem vivendo sua vida histórica e que desenvolva e mantenha a vitalidade em seus órgãos”. tradições. uma esperança. lín­ gua. um dos chefes do Partido Liberal italiano e autor de uma obra célebre. ardente inimigo das concepções mecanicistas e racionalistas do Estado. religião e leis. nem mesmo é necessário que seja real. território. como essência. Diz ele: A nação é um organismo histórico vivo. t. “A nação [diz ele] é fun­ damentalmente espiritual” (cit.. E o espírito. uma paixão. formados pela História. não faltam definições formuladas por autores de peso. que definia a nação como “uma socieda­ de natural de homens. c) ele­ mento psicológico: consciência nacional. de costumes. conhecido como Novalis. “é uma fé. Dentre estes. que segue Bodin em tal pensamento. A mesma vida que anima a nação há de vitalizar o terreno político. O espírito deve ser presente. de origem. André Hauriou define a nação como “o grupo humano 110 qual os indivíduos se sentem mutuamen­ . a nação deve estar identificada ao Estado. 370). “Nosso mito [prossegue] é a nação” (Escritos e discursos. Pasquale Estanislao Mancini (18171 888). para Novalis e Schlegel. Para Mussolini. 3. a sociedade c o Estado são organismos vivos. A nação deve ser con­ cebida à maneira de um corpo místico ou de um organismo internamente animado pela vida espiritual.

lacios. art. de afugentar”). como se vê.. Saraiva. isto é. isto é. pre­ . g r o p p a ­ l i. para manter a soberania ín­ tegra. A Constituição Federal. causo medo.3 0 Estado 31 te unidos por laços tanto materiais como espirituais. Por isso. 2. define a nação como: “o sentimento derivado da co­ munhão dc tradição. Rio de Janeiro. também: “Se vis pacem para bellum ” (“se queres a paz. 1979. José Afonso da Silva diz que “nacional” é o brasileiro nato ou naturalizado. Bogotá. ao território do Brasil. a qualquer momento. impor respeito às demais sociedades políticas. fa­ zendo concessões ora ao jus soli. cidadão é o nacional no gozo dos direitos po­ líticos”. e o jus sanguinis. 1968. mesmo porque o Estado exerce o seu poder antevendo a possibilidade de. Di­ ga-se o mesmo no âmbito externo. id est.1 . dc nada ligado à terra. que considera a ascendência do indivíduo. utilizar a força (coerção) para ver suas determinações cumpridas pelos súditos. Sugestões Literárias. a atestar que a nação precede o Estado. Outro autor moderno. conforme se poderia pensar. Há dois princípios básicos para a aferição da nacionalidade: o jus soli. que leva em conta o local de nascimento. Introducción a la teoria dei Estado. cujo conjunto forma o povo. dc língua. adota um critério misto. r o d r ig u e s Dirccu A. de literatura e dc arte. consiste no vínculo jurídico que liga o indivíduo ao Estado. aterrorizar. Tcmis. Aldo Bozzi. Note-se a expressão pré-jurídicos nes­ ta definição. Diziam. em razão do local de nascimento. da ascendência paterna ou da manifes­ tação de vontade do interessado. não provém. aquele que se vincula. 4. bem como conscientes daqui­ lo que os distingue dos indivíduos integrantes de outros grupos nacionais” . Quanto à nacionalidade.3) Território Bibliografia: b o n a v i d e s . b e c). 1978. m e jía . alguns o chamam assim porque o ma­ gistrado desse lugar tem o direito de. Hugo Pa. quod magistratus eius loci in­ tra eos fines terrendi. ora ao jus sanguinis. submovendi ius babet” (“Território é a universalidade das terras dentro dos limites de cada Estado. na força das armas.1. Doutrina do Estado. 9. Alessandro. não importando o local de nascimento (CF. 1 2 . ed. Dicionário de brocardos jurídicos. A palavra território apresenta uma etimologia à primeira vista estranha. mas do verbo latino terreo. de religião. 12. diziam os romanos: “ Territorium est universitas agrorum intra fines cuiusque civitatis quod ab eo dictum quidam aiunt. art. espaço geográfico. 1965. de história. Ciência política. a). São Paulo. por nascimento ou naturalização. territo.. procura. São Paulo. intimido. Victor. ou seja. Paulo. quando o Estado. Forense. receio. ed.1 . dentro destas terras. o solo (CF. to­ dos estes fatores agregativos e pré-jurídicos”.

32 Teoria Geral do Estado para-te para a guerra”). um dado eminen­ temente abstrato. Por outro lado. bem como as aeronaves e as embarcações brasi­ leiras. as características telúricas da base física de uma sociedade política. seu poder de império ou seu direito de proprieda­ de sobre pessoas e coisas. seja para conservar-se íntegro. impor-se às outras sociedades políticas. Hitler costumava afirmar . o território tanto pode ser uma parcela do solo. cm nome do chamado espaço vital. que se achem. na qual o Esta­ do exerce seu poder soberano. como ex­ plicar que um navio militar. do Código Penal brasileiro. o jargão: “ O preço da liberdade é a eterna vigilância”. respectivamente. como veremos mais adiante. Por isso. no espa­ ço aéreo correspondente ou em alto-mar. do clima. Daí o espaço aéreo. fazse oportuna a disposição do art. de natureza pública ou a serviço do governo bra­ sileiro onde quer que se encontrem. Ademais. quando nos referimos à influência do solo. o Estado exerce jurisdição sobre pessoas (poder de império) e direito de propriedade sobre seus bens. com rara fe­ licidade. e a modernidade. consideram-se como extensão do território nacional as embarcações e aeronaves brasileiras. não simplesmente geográfico. em águas territoriais pertencentes a estado diverso. este úl­ timo vocábulo. in verbis: Para os efeitos penais. sobre os homens de determinada região. sempre com o in­ tuito de intimidar. atenta ao estado de tensão política que lateja entre os Estados contemporâneos. faz parte do território do Estado cuja bandeira ostenta? Assim. o conceito de território é jurídico-político. ideal. O Direito Romano já fazia uma distinção entre o território e o elemento hu­ mano nele vivente. a faixa de fronteira de um Estado tem caráter muito mais estratégico do que político. Tais arroubos e brocardos constituem um sintoma inevitável de que o Estado se mantém permanentemente em atitude de defesa ou dc ataque. é o caso da extraterritorialidade das leis. mercantes ou de propriedade privada. aí esta­ ria a Alemanha”. Então. pode o território ser definido como a área física ou ideal em que o Es­ tado exerce. ruas e logradouros. a urbs era o conjunto de edifícios. no mesmo diapasão. as belonaves militares e as embaixadas serem considerados partes integrantes do território do Estado. estamos referindo-nos a um país e não a um território propria­ mente dito.que “onde fosse ouvida uma canção alemã. Se o território fosse mero espaço geográfico. isto é. Era o prenuncio do cxpansionismo nacional-socialista. § I o.bazófia ou ameaça . Conceito geográfico é o de base física e o de país. seja para expandir-se à custa de seus vizinhos. 5o. Com efeito. ao pas­ so que a civitas era o elemento humano vivente na urbs. cunhou. mera base física. designando. Nesse sentido. . o Estado manifesta o seu poder de império também sobre seus súditos que se encontram em outros Estados. como uma ficção jurídica. Assim.. com exclusividade..

Quanto aos navios ou aeronaves militares. O espaço cósmico. os aviões civis de natureza pública usufruem de intangibilidade ao sobrevoarem ares estrangeiros. e são incumbência de toda a Humanidade. poderá ser explorado e utilizado. da Comissão para o uso pacífico do espaço cósmico. inclusive da Lua e demais corpos celestes. em 1967 foi firmado o Tratado sobre Princípios Reguladores das Atividades dos Estados na Exploração e Uso do Espaço Cósmico. Este tratado determina que a exploração e o uso do espaço cósmico. Em 1961 foi criada a Resolução n. Nesse sen­ tido.O N U -. modernamente. nor­ malmente não conferidas às aeronaves particulares. inclusive a Lua c os demais corpos celestes. Por outro lado. livremente. espacial ou cósmico. inclusive a Lua e os demais corpos celestes. interplanetá­ rio. encontrar-se-ão sempre sob a jurisdi­ ção do Estado a que pertençam. independentemente do local onde se encontrem. 2°). com cerca dc 100 km. ser reservada uma zona de passagem inocente do território às aerona­ ves estrangeiras. e a exosfera. 1. que proclamou a extensão. ao espaço exte­ rior e aos corpos celestes. entretanto. dando-se o inverso caso tais navios ou aviões estejam em águas ou ares do segun­ do. em 1958. a soberania do Estado alcança uma altitude que justi­ fica um interesse público que possa reclamar a ação do poder político. dos princípios do Direito Internacional e da Carta das Nações Unidas. nem por qualquer outro meio (art. por todos os Estados. devendo.721. a ionosfera. I o). o espaço cósmico. devendo haver liberdade de acesso a todas as re­ giões dos corpos celestes. Desta forma. estará aberto às pesquisas científicas. zona de transição para o espaço cósmico. devendo os Estados facilitarem e en­ corajarem a cooperação internacional naquelas pesquisas (art. por uso ou ocupação. em condições de igualdade e em conformida­ de com o Direito Internacional. sem qualquer discriminação. importância muito grande: o espaço aéreo e o mar territorial Sobre o espaço aéreo. qualquer que seja o estágio de seu desenvolvimento econômico e científico. inclusive a Lua e os demais corpos celestes. de 100 a 600 km. inclusive a Lua e os demais corpos celestes. com a criação. bem como o direito dc todos os Estados levarem a cabo explora­ ções cósmicas e a inapropriabilidade jurídica dos corpos celestes. Firmou-se a doutrina de que o espaço cósmico fica sob o império do Direito Internacional. não poderá ser ob­ jeto dc apropriação nacional por proclamação de soberania. de 10 a 12 km de altitude. bem como de isenções fiscais. No espaço aéreo predomina a teoria de Westlake (soberania plena). em águas ou ares que não pertençam a outro Estado.3 0 Estado 33 Dois elementos do território apresentam. estão sob a jurisdição do primei­ ro. deverão ter em mira o bem c o interesse de todos os países. Depois. tal espaço compreende quatro camadas. . Navios ou aviões civis que se encontrem fora do território de um Estado. O espaço cósmico. a estratosfera. Neste predominam as normas de Direito astronáutico. também denominado interestelar. pela Organização das Nações Unidas . bem determinadas: a troposfcra.

e) seja necessário exercer a jurisdição para cumprir as obrigações desse Estado. vem a ser a faixa marítima que acompanha. atualmente bastante sofisticado. poderá impor a essa pessoa medidas razoáveis. Ora. determina. com a participação de nove Es­ . A observação dos infinitos recursos do mar ensejou a ampliação do mar territorial. c) a infração afe­ te a segurança desse Estado. todos os mares seriam águas territoriais ou. e que integra o território do Es­ tado. O art. VI contém importante disposição. diz o art. § I o. em largura variável. IV que o Estado contratante que não for o da ma­ trícula não poderá intervir no voo de uma aeronave a fim de exercer sua jurisdição penal em infrações cometidas a bordo. onde alcançasse um tiro de canhão: terrae potestas finitur ubi finitur armorum vis. c) para permitir-lhe en­ tregar essa pessoa às autoridades competentes ou desembarcá-la dc conformidade com as disposições da Convenção que disciplinam a matéria. esta teoria ruiu. ou: onde bá força. aí o di­ reito (ubi vis ibi jus). b) a infração tenha sido cometida por ou contra um nacio­ nal desse Estado ou pessoa que tenha aí sua residência permanente. Normalmente. que é a altura mais baixa atingida pela maré. item I o. com a evolução do armamento bélico. é a faixa marítima que banha as costas de um Estado e que se acha sob o poder de império deste. se aplicada. d) a infração constitua uma violação dos regulamentos relativos a voos ou manobras de aeronaves vigentes nesse Estado. sim­ plesmente. isto é. Em outras palavras. Desta forma. a menos que: a) a infração produza efeitos no território desse Estado. inclusive coercitivas. 1°. qual seja. III. de 1963. passou a predominar a doutrina de que o poder do Estado no mar territo­ rial cessaria onde terminasse o poder das armas. depois. a Primeira Confe­ rência Latino-Americana sobre Direito Marítimo. realizou-se em Montevidéu. no ano de 1970. 110 art. com a evolução do arma­ mento. quan­ do o comandante da aeronave tiver motivos justificados para crer que uma pessoa cometeu ou está na iminência de cometer a bordo uma infração ou um ato previsto 110 art. b) para manter a boa ordem e a disciplina a bordo. já não existiriam tais águas. o interesse eco­ nômico sobrepujou o fator político. visto que os Estados alargaram a extensão de seu mar territorial na proporção inversa de seu desenvolvimento tecnológico. Quanto ao mar territorial. Por outro lado. as sinuosidades da linha litorânea. porque. em virtude de um acor­ do internacional multilateral.34 Teoria Geral do Estado A Convenção Relativa a Infrações e a Certos Outros Atos Praticados a Bordo de Aeronave. pois com muito maior facilidade os Estados mais desenvolvidos tecnologicamente pode­ riam buscar as riquezas submersas. que sejam necessárias: a) para proteger a segurança da aeronave e das pessoas e bens a bordo. predominava a doutrina de que a soberania do Estado sobre o mar iria até onde a vista humana tivesse alcance. que o Estado de matrícula da aeronave será competente para exercer a jurisdição sobre infrações e atos praticados a bordo. a largura do mar territo­ rial é calculada a partir da linha de baixa-maré (baixa-mar). Inicialmente. distantes de seu litoral. Como acentua Salvetti Netto.

Uruguai. Já em 25. agora. de 1982.098. medidas a partir da linha da baixa-mar do litoral continental c insular brasileiro adotado como referencia nas cartas náuticas brasileiras. Esta norma acompanhou a Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar. O art. A ampliação unilateral do mar territorial provoca dificuldades nem sempre solucionadas. o controle de navegação para evitar polui­ ção das águas e outros temas.617.mediante o Decreto-lei n.não esquecer que um dos principais produ­ tos de exportação daqueles dois Estados é o atum! . diz: “Todo Estado tem o direito de fixar a largura do seu mar territorial ate um limite que não ultrapasse 12 milhas marítimas.1993.3 0 Estado 35 tados: Brasil. revogou este decreto. Chi­ le e Peru. 8. 1° O mar territorial do Brasil abrange uma faixa dc 200 (duzentas) milhas marítimas dc largura. Equador. medidas a partir da linha dc baixa-mar do litoral continental c insular brasi­ leiro. 3o. El Salvador. 3° É reconhecido aos navios dc todas as nacionalidades o direito de passa­ gem inocente no mar territorial brasileiro. já em fevereiro de 1970. Assim. preconizavam a largura do mar territorial de 3 a 12 milhas. § 1° Considera-se passagem inocente o simples trânsito pelo mar territorial. I o desta lei diz que o mar territorial brasileiro compreende uma faixa dc 12 (doze) milhas marítimas de largura. Importante ressaltar que já em 1958 e 1964. tal como indicada nas cartas náuticas dc grande escala. referente à largura do mar territorial. os arts. não reconheceriam águas territoriais mais amplas do que 3 milhas. a repressão ao contrabando. do qual transcrevemos. Vale lembrar que os principais oposi­ . os Estados Unidos. realizadas por iniciativa da O N U . conhecida por Convenção de Montego Bay. de 04. reconhecidas oficialmen­ te no Brasil. cujo art. a segurança nacional.01. advertiam que. sem o exercício de quaisquer atividades estranhas à navegação e sem outras paradas que não as incidentes à mesma navegação. Argentina. em que pesem os esforços desenvolvidos por organismos internacio­ nais. Art. medidas a partir de linhas de base determinadas de conformidade com a presente Conven­ ção”. A Lei n. que.1970. o Brasil acompanhava Peru c Equador na ampliação de seu mar territorial para 200 milhas .03. A conferência debateu a exploração das riquezas do mar. enquanto este limite não fos­ se fixado. Panamá. Nicarágua. emitiram nota de apoio ao limite de 12 milhas apenas. 1. I o e 3° e o § 1° deste: Art. limi­ te aceito sem objeção por todos os Estados. duas Conferências sobre o Di­ reito do Mar.

sorrindo a vitória militar para os ingleses. Vale.1979. Entre dois Estados confrontantes existem. 150 km. o po­ derio militar e estratégico de um Estado quando em confronto com outro. conforme o caso. com tal medida. Por outro lado. ampliou unilateralmente esta largura em mais 50 milhas. Atualmente nos termos da Lei n. que já mantinha uma faixa de mar territorial na região. a pretexto dc preservar a pesca nas Malvinas. celebrados entre a Argentina. A verdadeira razão que levou os britânicos a esta me­ dida temerária foi. Oportuno lembrar. e as Constituições dc 1937 c 1946. aliás.05. a Inglaterra atingiu. fica a conclusão. limite é linha. a legislação marcava para a faixa de fronteira do Brasil uma largura de 10 léguas (60 km). Com a tomada daquela medida. que disputa­ vam o domínio daquelas. Donato Donati e Alessandro Groppali. I o. O conceito de fronteira liga-se à estratégia. a Bulgária e a União Soviética. é considerada área indispensável à segurança nacional a faixa interna dc 150 km de largura. portos europeus de grande movimento. os ingleses teriam um mar ter­ ritorial que invadiria nada menos do que sete territórios de países diversos. de que o território. a partir da linha de limite. a Inglaterra. a seqüela resultante da guerra das ilhas M alvi­ nas. é a seguinte: a base física é elemento . A Constituição de 1934 (art. frente). tornar sem efeito prático os acordos de atividade pes­ queira na área. agora. em 1982. paralela à linha divisória terrestre do território nacional. e que se confronta com a linha de limi­ tes. distinguir entre fronteira e limite no território do Estado. também. nos quais sc incluem. do teor deste artigo ressalta a noção de limite: é a linha que separa a superfície do território de um Estado da superfície perten­ cente aos Estados vizinhos. impondo formal e unilateralmente sua soberania num raio de 200 milhas! Agindo de maneira análoga na sua possessão de Gibraltar. de 150 milhas. Recentemen­ te. a Inglaterra c a Argentina. ao pas­ so que o conceito de limite vincula-se ao Direito propriamente dito. situada no sul da Argentina. foi mantida a largura de 150 km para a faixa de fronteira. certamente. que será designa­ da como faixa de fronteira. art. porém. agora mais clara. A pala­ vra fronteira vem do latim fronsyfrontis (fachada. Fronteira é faixa. mesmo. de 02. Do exemplo referido.36 Teoria Geral do Estado tores às 200 milhas marítimas para o mar territorial sempre foram Estados Unidos e União Soviética. Ao tempo do Império. que colocou frente a frente. Do território argen­ tino. São finalidades da faixa de fron­ teira a delimitação do território. revela. a intercomunicação com povos vizinhos e a pro­ teção contra a hostilidade externa. portanto. 6. duas faixas de fronteira opostas e divididas por uma linha divisória. a Inglaterra tornou obrigatória uma licença para bar­ cos pesqueiros de qualquer país que esteja em atividade num raio de 150 milhas. muito mais do que uma expressão geográfica. a ilha de Los Estados. na qual termina a ação jurisdicional do Estado. 166) estipulou uma faixa dc fronteira de 100 km. Como se percebe. A fronteira é uma faixa de largura considerável. Questão que despertou polêmica momentânea entre dois notáveis juristas ita­ lianos. a linha de limite.634.

como visto. do im perium e do dom ínio em inente Quando se diz que determinado Estado cedeu a outro uma parcela de seu ter­ ritório. fina­ liza Salvetti Netto. Pedro Salvetti Netto lembra que. não houve sequer perda temporária do território (base física). para quem o território (como sinônimo de base física) não é elemento constitutivo do Estado. o subsolo. em todos os casos apontados por Donato Donati. A base física está para o Estado como a água está para um ser aquático. temporariamente. considerou tão somente uma parcela do território (base física). e não submissão total e definitiva.permaneceriam existindo. sediado na In­ glaterra. os quais se refugiaram nos navios de Milcíadcs. assim. e a soberania pressupõe a força necessária a sua autoconservação. o espaço aéreo. Ocorreu. às embaixadas situa­ das em outros Estados c aos navios e aeronaves dc guerra. vencida e ocupada pela Alemanha nazista. as aeronaves comerciais sobrevoando o espaço livre e as embaixadas. os navios e as aeronaves de guerra. sucumbe ao cabo de algum tempo. está-se fazendo referência a um autêntico direito de propriedade do Estado? . sendo a República de Vichy. mas simples condição da existência deste. A sociedade política pode existir. foi abandonada por seus habitantes. o que certamente ocorreria em caso de per­ da definitiva. Sem território. 4. portanto. Aquela não faz parte da essência deste. argumenta. sendo possível acrescentar a tal exemplo o da França de 1940. Alessandro Groppali contesta a dou­ trina de Donato Donati. mera ocupação do solo. constitui um elemento essencial do Estado. aqueles F'stados Atenas e França . pois não há Estado sem poder soberano. embora. o qual. O território. durante quatro anos. No exemplo da França ocupada pela Alemanha. que. por si só.4) Natureza das relaçõ e s entre o Estado e seu te rritó rio enquanto base física: te o ria s do direito real institucio n al.1. po­ rém. não essencial. que o território. Adepto da opinião de Groppali. a impor suas determinações às forças da restauração. temporária. como Atenas. portanto.3 0 Estado 37 integrante do Estado? Donato Donati afirmou que o território (base física) não se­ ria elemento do Estado. sem ele. Conclui-se. além do solo. já que a este se encontram integrados. não acarreta a desaparição do Estado. contudo. onde quer que se encontrem os navios mercantes em alto-mar. integra a pró­ pria essência do Estado. o mar territorial. despojado daquele elemento vital. invadida pelos per­ sas. e este não constitui. Tais ocupações teriam afeta­ do a existência dos Estados que as sofreram? Se adotarmos o pensamento de Dona­ to Donati. afirmando que a perda de fato. ao lado do elemento humano e do poder soberano. da base física. do Estado. permanecia o Governo da Resistência. Donato Donati. uma organização política anômala. a amplitude do território estatal. A base física. tomado como a expressão do poder de fato do Estado. exemplificando sua assertiva com Estados que foram des­ pojados temporariamente de sua base física. o Estado sucumbe. porém mera ocupação do solo. é um elemento contingente. vassala do Terceiro Reich.

denominada doutrina do imperium. Os bens de pro­ priedade do Estado são especificados pela própria Constituição que lhe dá forma. basicamente. O publicista colombiano Copcte Lizarralde propôs. a expressão domínio eminente do Estado. dando a uma a denominação imperium e à outra domínio público.do Estado e dos particulares . que apenas dá cumprimento às normas de desapropriação. sobre os bens. a teoria do direito real institucional parte do pressuposto de que o direito do Estado sobre seu território é verdadeiro direito dc propriedade. com ressalva da originalidade da expressão domínio eminente. Somente assim poderíamos admitir expressões como território do Estado e aceitar a possibilidade de cessões territoriais pelo Estado. institucional. requisição ou confisco. a ênfase recai justamente na ideia de soberania. por isso. pelo qual. di­ reito pessoal. e a segun­ da expressa uma verdadeira relação direta entre o Estado e certas partes do territó­ rio. O território. Entretanto. Trata-se. propugnada por Georg Jellinek. apenas secundariamente. Mas isso pouco difere do pa­ recer de Jellinek. em face do interesse público. sempre. porém. prossegue. lembran­ do que. de duas classes. do poder de império que. Jelli­ nek considerava descabida a adoção de um conceito de direito civil 110 campo do direito público. distinto do regime jurídico da pro­ priedade particular. ficando a propriedade particular restringida por sua função social. portanto). mais que um “direito do Estado sobre o território”. Uma segunda doutrina. A primeira refere-se à faculdade dc exercer o poder sobre as pessoas que vivem dentro de certas fronteiras. enfocada na perspectiva do Direito Público. como observa Hugo Palacios Mejía. na qualidade de pessoa jurídica. Na verdade.incidentes sobre um mesmo objeto. quanto ao direito do Estado. sem considerar as teses unitárias que defendem a existência apenas de direitos pessoais. mas sem recorrer à figura do direito particular de propriedade. que enseja diversas situações jurídicas. o Estado exerce sobre a propriedade privada. de exercer poder soberano sobre seu território e bens nele situados. sob administra­ ção do próprio Estado. direito este.38 Teoria Geral do Estado Partindo da velha distinção romana entre direitos reais (aqueles que incidem sobre os bens) e direitos pessoais (aqueles que incidem sobre as pessoas). a substituição do conceito de dominium pelo de imperium (direito dc compelir os habitantes do território a adotar certa conduta. característica do poder do Estado que incide primeiro sobre as pessoas e. esta concepção não explica como é possível coexistirem dois direitos de propriedade . Estas são. inerente a qualquer pessoa jurídica. a vida jurídica do Estado deve estar. na ten­ tativa de solucionar a questão. de um direito de pro­ priedade especialíssimo. mas tão somente um direito pessoal sobre os indivíduos que vivem em seu território. propondo. afir­ ma que não existe um direito real (dominium) do Estado sobre seu território. é um elemento do Estado. A nosso ver. há que distinguir o direito de propriedade do Estado. ou melhor. vale lembrar. há um condicionamento territorial da vida do Estado. .

Coimbra. Nacional. 1963. Sucessor. enquanto se sucedem as figuras que exercem seus atributos. como efeito. a força a serviço de uma ideia. 11. 1964. México. portanto. Carl. o Poder é a encarnação de uma tal energia provoca­ da no grupo pela ideia de uma ordem social desejável. Teoria de la Constitución. Fondo de Cultura 1997. Depalma. México. 1981 . ed. Ora. s c h m i t t . Poder é a capacidade de impor obediência. intitulada singelamen­ te O Estado.2) Causas formais 4. Buenos Aires. s a l v e t t i n e t t o . L u í s . Saraiva. Em sua obra Método de la ciência política. potere. daí. 1982.2. se afastar­ mos momentaneamente os fenômenos concretos pelos quais se revela o Poder c cujo . parece-nos. Curso de teoria do Estado. contraída em posse e. também. Pedro. O poder não é ação.3 0 Estado 39 4. São Paulo. Sc aquilo que pretendemos. Enciclopédia de la política. que ela apresenta uma ideia exata da realidade. veremos que o poder é menos a força exterior que se coloca a serviço dc uma ideia do que a potên­ cia mesma de tal ideia. Método de la ciência política. Burdeau assinala: Na sua essência profunda. 1981. bem como impor aos seus integrantes o comportamento ne­ cessário para tanto. a conduzi-lo na busca do que ele considera como coisa sua. de impor aos membros a atitude requerida por esta busca. como define Burdeau. f e r r e i r a f i l h o . Manoel Gonçalves. Georges. em tais circunstân­ cias. Problemas de filosofia política . BORJA. destinada a dirigir a comunidade a uma ordem social que considera benéfica. é possibilidade. O poder é. É uma força nascida da cons­ ciência coletiva e destinada simultaneamente a assegurar-lhe a perenidade do grupo. b u r d e a u . A palavra tem origem no latim ar­ caico potis esse.. São Paulo. c a b r a l d e m o n c a d a . 4. Poder. assim se expressa este publicista: O poder é uma força a serviço de uma ideia. Rodrigo. Em outra obra de grande repercussão sobre a matéria. Ele se sustenta pela ideologia cristalizada na consciência coletiva de um grupo social. é potência. Nesta definição se destacam dois elementos: força e ideia se interpenetram estreitamente. então. c isolar o duradouro no fenômeno do poder. potencialidade para a realização de algo. e capaz. ed. Saraiva. A definição que pro­ pomos emprega os dois elementos do Poder: uma força c uma ideia. Curso de direi­ to constitucional. Armênio Amado.. é potência. Trata-se de uma força nascida da vontade social preponderante.1) Poder político Bibliografia: Econômica.

O governo é o complexo de normas que disciplinam o exercício do poder. se procurarmos o que é permanente no Poder enquanto passam as figuras que nele exercem as atribuições. vale dizer. às palavras de um sábio. obtendo a obediência geral às regras deste. dirigir. Exceção feita à utopia dos anarquistas. aqui. deriva do verbo aitgere. o imperium. à coerção. da reverência dos governados. dizia Aristóteles. algo que se acrescenta. Sc transportarmos a palavra poder para o campo da Ciência Política. assinala Georges Burdeau que o poder repousa numa ideia oriunda da consciência coletiva existente no grupo social. enfim. e pressuposto para a legitimação da ideia que anima aqueles que encarnam o poder. contingencialmente. lhe votariam. o governo é ação. vemos que ele não é tan­ to uma força exterior que viesse pôr-se ao serviço de uma ideia como a mesma potên­ cia dessa ideia. pois. o poder público nada mais é do que a capacidade de se fazer obedecer exercida pelo Estado. sociedade condicionante) são formas de poder inerentes ao convívio social. O poder é potência. A própria etimologia da palavra governo (conduzir. . se for o caso. é comum denomi­ narmos os chefes do Poder Executivo governantes. ela reside na ideia que o inspira. vale dizer. onde houver sociedade haverá direito e po­ der. Embora essencialmente sustentado pela força. Poder social (socieda­ des condicionadas) ou poder político (poder do Estado. que pretendem ver extinto o poder na vida em sociedade. amparado pela força. autoridade. do latim auctoritas. Daí a distinção entre poder público e governo.40 Teoria Geral do Estado fulgor se arrisca a obliterar a reflexão. governa. O assentimen­ to. respeito­ samente. ao poder. A força. Se o po­ der fático é a capacidade de se fazer obedecer. do respeito que estes. N ão é. A cocrção é o emprego efetivo da força inerente ao poder. temos. Quem exerce ativa o poder. Faltará. o poder é essencial a qualquer sociedade. a este brocardo Pedro Salvetti Netto acres­ ceu a expressão ac potestas. porém. com efeito. em especial aqueles do Poder Executivo estadual. Ubi societas ibi jus. a fim de impor o cumprimento de um or­ denamento jurídico-político. o consenso social. Com efeito. O governo é a dinâmica do poder. As pessoas simples. sem recurso à força. Vale frisar. quando se referem. A simples expectativa do empre­ go da força chama-se coação (vis compulsiva). exato que a realidade substancial do Poder seja o mando. Autoridade é possibilidade de suscitar obediência espontânea c conscien­ te. O vocábulo autoridade. encon­ traremos o poder público ou do Estado definido por Alípio Valencia Vega como a força pública organizada coativamente. que significa aumentar. a vis materialis ou corporalis. Os governantes são a encarnação do poder. que o poder. Por isso. nem sempre disporá do assentimento social. o poder público somente se legi­ tima quando seu exercício é consentido por aqueles que lhe obedecem. as denominam argumentos de autoridade. enfim. administrar) transmite-nos esta ideia. é inerente ao poder. A possibilidade de sua aplicação efe­ tiva chama-se coercibilidade. eventualmente. chamado governadores.

de que auctum é um particípio-adjetivo. exemplaridade. o conselheiro. foi assassinado. Com efeito. poder constituinte é a vontade política cuja força ou autorida­ de é capaz de adotar a concreta decisão de conjunto sobre o modo c a forma da própria existência política. eis Maomé e os aiatolás contemporâneos. não se vincula a tendências ideológicas ou a princípios norteadores deste ou . como o consultor. Por vezes o líder carismático pode ter consigo também a força. numa decisão política surgida dc um ser político. César jamais teve a autoridade de um Cincinato. antes de se fixar na de poder. aumentar. aquele era a força em potência. significava. a qualquer momento desencadeada.são chefes necessariamente religiosos que fruem do respeito social. mediante uma transposição dc sentidos. por isso.o essen­ cialmente existencial deste fundamento de validade. de Cristo e dos profetas. Auctor era não só o autor. etc. o ga­ rante. isto sim. fazer crescer. a existência da unidade política como um todo. o promotor. por sua vez. O direito público romano já fazia uma distinção entre imperium e auctoritas. Poder constituinte é a capacidade de criar ou de alterar a ordem jurídica do Estado. Para Schmitt.3 0 Estado 41 No dizer de Cabral de Moncada. Vejamos. conselho. esta era a tra­ dição e o respeito. Etimologicamente deriva de auctor e de augere. derivada do latim auctoritas. no caso. Acha-se apoiada. conforme ele próprio esclarece: Uma Constituição não se apoia numa norma cuja justiça seja fundamento de sua validade. Befõrdern). assim. prestígio. A expressão vontade revela cm contraste com qualquer dependência referente a uma justiça normativa ou abstrata . símbolo vivo dc um fastígio secular alcançado pela altivez. determinando. graça divina . embora desprovidos da força. E o caso de Moisés. Presume-se que sc cncontrc aí também a origem semântica da pala­ vra para significar mais tarde. que sig­ nifica dom divino. o conceito de poder constituinte. aquele ou aqui­ lo que constituía a força e o vigor duma comunidade. com a singeleza recomen­ dada pelo caráter meramente introdutório desta obra. acentua Salvetti Netto. teve sempre nesta língua as mais variadas significações. tornar mais forte e poderoso alguém ou alguma coisa. aquele que promove com o seu exemplo e conselho o bem de uma coisa (alem. criação. desenvolver. Exemplos: as de produção. Augere. o Senado. accrca do modo c da forma do próprio ser. modelo. agora. bravura e talento dos pais da pátria. O conceito de poder constituinte formulado por Schmitt. a evolução do termo autoridade foi a seguinte: A palavra autoridade. Os líderes carismáticos . encarnados num órgão.a palavra carisma vem do grego cbarisma. embora dispusesse da força.

na Inglaterra. de caráter sagrado. mediante o qual se criava a nação e sua estrutura político-social. inconstitucional. a soberania não re­ sidia propriamente no monarca. segundo Carlos Sanchez Viainonte. entre a aparente desordem revolucionária e dos regimes seguros de si próprios. Entretanto. o rei era. que é aquele. Em muitos Estados da Antiguidade Oriental. O ato constituinte seria aquele de natureza originária. no pla­ no do Direito Positivo. en­ contraremos. Desde que o povo seja capaz de organizar o Estado e exer­ cer o governo. resta unicamente a le­ galização do movimento. A obra revolucionária é sempre ilegal. ate o momento em que. se não estiver de acordo com o consenso social. Não passou despercebido a este autor que a pró­ pria soberania reside no querer irrecusável do poder constituinte. Séculos mais tarde. A obra revolucionária. mais precisamente como documento deno­ minado Agreement ofthe people (Acordo ou Pacto Popular). ele será sempre ilegal. seguido pela comunidade. prossegue. empunhando a bandeira de um ideá­ rio legítimo. repito. Quando tal poder se manifesta mediante o emprego da força. Alude-se ao que é e não ao que deve ser. No dizer de Burdeau. aqui. pode­ rá ser ilegítima. O poder constituinte é distinto dos poderes estabelecidos pela própria Cons­ tituição por ele criada. é evidente que o poder constituinte derrubado incorrerá na ilegalidade e na ilegitimidade. se institucionalize. em Atenas e Esparta. surgin­ do o povo. é ele o titular do poder constituinte: se for o rei. e a Constituição a causa instrumental da ação deste poder. nestes dois Estados laicos. Ele se encontra situado num ponto de intersecção entre a política c o di­ reito. Importante. vitorioso. sendo este a cau­ sa eficiente. soberanamente. Não se trata. mero executor de uma vontade superior. o antecedente mais remoto rela­ tivo à doutrina da separação entre poder constituinte e poderes constituídos. como geralmente se pensa. em verdade. Mais tarde. desde que esteja de acordo com a ideia do justo que o sistema de referência social professa. aqui. Se os revolucionários alcançam o poder. vontade fundada na coletividade e imposta igualmente a governantes e a governados. Concretizada esta. teocráticos. do melhor regime. na Grécia clássica. ela pode ser legítima. mesmo sendo ilegal. sob a denominação Instrumento de Governo. ele é aquela potência criadora da ordem jurídica da qual fixa os princípios c estabelece os instrumentos. promulgado no ano de 1953. distinguir entre a mera legalidade e a legitimidade do poder constituinte.42 Teoria Geral do Estado daquele regime político. por Oliver Cromwell. . contudo. dele será este mesmo poder. como o titular da soberania. entre a turbulência das forças sociais c a serenidade dos procedimentos legais. Como o movimento vitorio­ so é legalizado? Pela edição de uma nova Constituição. já se fazia uma distinção entre ato constituinte e ato legislativo.

ed. ed.C. 25)..).. Do processo le­ Hely Lopes. Tomemos como exemplo o seu art. ideia que seria retomada. sécu­ los depois.2) 0 princípio da se p a ra çã o de Poderes no Estado Bibliografia: A r i s t ó t e l e s . no segun­ do.2. Assim Aristóteles (384-322 a. Política. São Paulo. bastos. dentre estes a insegurança imposta à liberdade individual. O poder constituinte originário é incondicionado. que é o poder dos Estados-Membros. tivo brasileiro. em sua obra clássica Po­ lítica. São Paulo. tradução de Mário da Gama Cury. Assim se expressa Aristóteles: . Por isso. o poder constituinte decorrente. é beneficiária dc um mecanismo psico­ lógico: o respeito à lei. prenuncia a separação de funções no Estado. .. São Paulo. não se acha submetido a nenhum princípio que não seja o daqueles que o encarnam. ed. ed. Capítulo II. uma de sua maiores preocupações foi evitar o arbítrio dos governantes e seus indesejá­ veis efeitos. tentará legitimar-se. Martins Fontes. 60.2. Les nouvelles tendances de la démocratie anglaise. Manoel Gonçalves. apenas a modifica parcialmente. os mais antigos e respeitadores pensadores já buscavam delinear soluções para o con­ trole do poder político. 4. Que vem a ser a legalização do movimento vitorioso? É o estabelecimento de normas positivas que justifiquem o conteúdo da obra revolucionária do poder cons­ tituinte. m e ir e l l e s . Martins Fontes. Dois tratados sobre o governo. 1995. não a discuti-la. 1997. São Paulo. lembra Ferreira Filho. 3. Direito administra­ m o n t e s q u ie u gislativo. também. Livro IV. obtendo a aceitação dos governados. num esforço de legitimação daquilo que era ilegítimo. Quanto a suas espécies. tradução de Cristina Murachco. por natural tendência.3 0 Estado 43 Se o movimento triunfante não contar com a legalidade. Paris. v is s c iie r . Flá. Celso. ele dá origem a uma nova Constituição.1) A nte ce d e n te s Desde que. UNB. 1984. não se encontra vinculado a nenhuma condição. o homem passou a viver em sociedade. 4. O espírito das Paul. 1999. São Paulo. sentimento que nos é incutido desde a mais tenra infância.2. Curso de teoria do Fstado e ciência política. . o poder constituinte pode ser originário e instituído ou derivado. leis. 1998. f e r r e ir a f il h o locke. 10. Revista dos Tribunais. 3. no caso do Es­ tado federal (Constituição brasileira. por Montesquieu. O homem é induzido a obedecer à lei. 4. 1947. Tal medida. 1993. John. art. No primeiro caso.. Saraiva. Saraiva.

de exílio e de confisco da propriedade. não teria a lei o que é absolutamente necessário à lei. considerado por muitos. pensador inglcs. ter força e obrigação de lei se não for sancionado pelo Legislativo escolhido e nomeado pelo público. a segunda trata das funções públicas. Embora autores que sucederam Aristóteles tenham dissertado a respeito do tema.já que a lei natural primeira e fundamental. e como devem ser escolhidos os funcionários. uma doutrina mais detalhadas da separação de Poderes. a lei positiva primeira e fundamental de todas as socicdadcs políticas c o cstabclccimcnto do Poder Legislativo . a terceira trata dc como deve ser o Poder Judiciário. ou seja: quais são as que devem ser instituídas. Pois. Observa Celso Bastos que as três funções de que falava Aristóteles são as mes­ mas que hoje conhecemos.44 Teoria Geral do Estado Todas as formas de Constituição apresentam três partes em referências às quais o bom legislador deve examinar o que é conveniente para cada Constituição. o fato é que a separação de Poderes só voltaria a ser anali­ sada muito tempo depois. consiste na conservação da sociedade e (até onde seja compatível com o bem pu­ blico) dc qualquer um dc seus integrantes. o consentimento da sociedade. Talvez a sua linguagem fosse um pouco diferente. não fosse assim. John Locke (1632-1704). . já desenvolvera. Bolingbroke e o próprio Montesquieu. como também é sagrado e inalterável nas mãos em que a comunidade o tenha antes depositado. A parte deliberativa é soberana quanto à guerra c a paz e a formação e dissolução de alianças. Ouçamo-lo: Sendo o principal objetivo da entrada dos homens em sociedades eles desfruta­ rem de suas propriedades em paz e segurança. se estas partes forem bem ordenadas a Constituição será necessariamente bem ordenada. e estando o principal instrumento para tal nas leis estabelecidas naquela sociedade. quanto às leis. como fez Cícero. e na medida em que elas diferem uma das outras as Constituições também diferem entre si. o Legislativo. Esse Legislativo e não apenas o poder su­ premo da sociedade política. equivocadamente. sobre a qual ninguém pode ter o poder de elaborar leis salvo por seu pró­ prio consentimento. quantos às sentenças de mor­ te. notoriamente. qual deve ser sua autoridade específica. Fala­ va ele numa função consultiva que se pronunciava acerca da guerra e da paz e acer­ ca das leis. privilegiando. em sua obra Dois tratados sobre o governo. destinada a governar ate mesmo o próprio Legislati­ vo. tampouco pode edito algum de quem quer que seja. seja de forma concebido ou por que poder apoiado. e quanto à prestação de contas dos funcio­ nários. uma função judiciária e de um magistrado incumbido dos restantes assuntos da administração. Destas três partes uma trata da deliberação sobre assuntos públicos. por John Locke. mais precisamente nos séculos XVII e XV III. o inspirador original da separação de Poderes. e pela autoridade dela recebida.

ele faz a paz ou a guerra.2. A par do Poder Executivo. envia ou recebe embaixadas. com todos aqueles de que ela pode re­ ceber benefícios ou injúrias. e requerem uma perpétua execução ou assistência. até por­ que o povo. compreendendo um a execução das leis municipais da sociedade dentro de seus próprios limites sobre todos os que dela fazem parte e outro a gestão da se­ gurança e do interesse e o público externo. assim se expressa no Livro 11. Chamaremos a este último poder de julgar e ao outro simplesmente poder exe­ cutivo do Estado [. que cuide da execução das leis que são elaboradas e permanecem vigentes. Locke observa: como as leis elaboradas de imediato e em pouco tempo têm força constante e duradou­ ra. Sc estivesse unido ao poder legislativo. no clássico O espírito das leis. § 6° (Da Constituição da Inglaterra): Existem cm cada Estado trcs tipos dc poder: o poder legislativo. Tampouco existe liberdade se o poder de julgar não for sepa­ rado do poder legislativo c do executivo. embora distintos. porque se pode temer que o mesmo monarca ou o mesmo senado crie leis tirânicas para exe­ cutá-las tiranicamente. o de executar as resoluções pú­ blicas e o de julgar os crimes ou as querelas entre os particulares. Executivo e Federativo. Locke vislumbra certo Poder Federativo.3 0 Estado 45 Quanto ao Poder Executivo. que sejam separados os Poderes Legislativo e Executivo. pois o juiz seria legislador. previne invasões. Quando. quase sempre estão unidos. firmar alianças e acordos com todas as pessoas e socie­ dades políticas internacionais. pode. na mesma pessoa ou no mesmo corpo de magistratu­ ra. ou julga as querelas entre os particu­ lares. não existe liberdade. Barão dc La Brède et de Montesquieu. o poder execu­ tivo das coisas que dependem do direito das gentes e o poder executivo daquelas que dependem do direito civil. mais precisamente Charles Louis dc Secondat.. após considerar o Poder Legislativo como o mais importante dos três Poderes. 4. o príncipe ou magistrado cria leis por um tempo ou para sempre e corrige ou anula aquelas que foram feitas. ele castiga os crimes.2. o poder legislativo está reunido ao poder executivo. ou o mesmo corpo dos principais. E assim acontece. não podendo exercer o autogoverno. ou do povo exercesse os três poderes: o de fazer as leis.2) 0 princípio da separação de Poderes segundo M on tesq uieu Quanto a Montesquieu (1689-1755). Sc estivesse unido ao poder executivo. ou dos nobres. fazer valer sua vontade soberana mediante seus representantes. Esses dois Poderes.. Com o segundo. instaura a segurança.]. muitas vezes. Com o terceiro. apto a cuidar da guerra e da paz. . todavia. o po­ der sobre a vida c a liberdade dos cidadãos seria arbitrário. Com o primeiro. é necessário haver um poder per­ manente. o juiz poderia ter a força de um opressor. Tudo estaria perdido se o mesmo homem.

que ocasionaria seu declínio e sua transformação num mito. naturalmente. mesmo nos primórdios da aplicação práti­ ca das ideias de Montesquieu. quando é certo que o Governo . assim. diga-se de passagem. Tal interdependência autoriza qual­ quer das três funções a exercer atribuições naturalmente peculiares a um dos res­ tantes. ria point de constitutiori\ ou “Toda sociedade em que a garantia dos direitos não é assegurada. M adi­ son pregava a necessidade de disciplinar o relacionamento entre as funções do Es­ tado. o Legislativo exerceria pressão sobre o Executivo. por sua vez. 52. Cada um destes “ Poderes” exerceria suas atribuições sem qualquer interferência dos demais. Não demoraria. podendo exigir aos ministros prestação de cotas dc sua administra­ ção. Num dos maiores clássicos da Ciência Política. de 26. a doutrina da separação de Poderes foi prestigiada em célebres legislações. como se esses fossem estanques. Não há. já mencionada. nem a separa­ ção dc Poderes determinada. mediante um sistema de freios e contrapesos (checks and balances). câmara baixa e câmara alta) e o Judiciário (cor­ po de magistrados). já se reconhecia que o Executivo poderia interferir no Legislativo.1789. 62). O eminente publicista Hely Lopes Meirelles adverte que apressados seguido­ res de Montesquieu interpretaram mal seu pensamento. criou-se em torno do ideário de Montesquieu a ideologia de um modelo político em que os três Poderes deve­ riam estar rigorosamente separados: o Executivo (o rei e seus ministros). uno.46 Teoria Geral do Estado Desde logo. mas também equilíbrio. I e II). o Legisla­ tivo (primeira e segunda câmaras. Assim. O próprio Montesquieu. separação de Poderes no Estado. a doutrina dos freios e contrapesos. o Legislativo julgar (art. entretanto. veremos que o Poder Executivo pode legislar (art. sc tomarmos como exemplo a Constituição brasileira. em vez de poder. Daí. Com efeito. não tem constituição". não disse haver três Poderes mutuamente isolados. 16: “Toute societé dans laquelle Ia garantie des droits riest pas assurée. inspirando. o Poder Legislativo interferiria nas atribuições do Judiciário quan­ do do julgamento dos nobres pela Câmara dos Pares. a ex­ pressão separação de Poderes passa a ter conotação meramente política. ser mais apropriado o termo função . porque ju­ ridicamente é equivocada. a). intitulado O federalista (The federalist). a se delinear uma crítica robusta e profunda a seus princípios. sem ferir. na concessão de anistias e nos processos políticos que deviam ser apreciados pela câmara alta sob acusação da câmara baixa. de modo que cada “po­ der” limitaria os demais: Le pouvoir arrete le pouvoir. que já dizia no art. a Constituição. a fim de estabelecer uma interdependência entre elas. 9 6 . James Madison eJohnJay advertem que a tripartição das funções do Estado não é apenas divisão. ni Ia séparation des pouvoirs determinée. Alexander Hamilton. mas em equilíbrio. indivisível.1 . Ora. por outro lado. porque o poder político é.08. Assim. com isso. como a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão. em face do direito de veto concedido ao monarca. falando em divisão e sepa­ ração de Poderes. c o Judiciário legislar (art. na verdade. na medida em que controla as leis que vota.

2. e tampouco pode ser este submetido a nenhu­ ma lei. o enfraquecimento do poder real se acentuou em pro­ veito do Parlamento. ou seja. To­ davia.2. diploma le­ gal discutido e referendado no próprio Legislativo. Com a doutrina de Jean-Jacques Rousseau. Somente ao povo é facultado designar a forma da sociedade política. senão em virtude de lei. não pode ser ele diverso do poder transmitido por tal concessão positiva.3 0 Estado 47 é resultante da interação dos três Poderes do Estado. o povo se vê compelido a eleger seus representantes. pessoal­ mente. para quem atribuir a Montesquieu a separação absoluta de Poderes é ver­ dadeira escroqueria intelectual. 4. que se dá através da constituição do legislativo. pelo qual ninguém se obriga a fazer ou deixar de fazer algo. vale dizer. senão àquelas promulgadas pelos indivíduos escolhidos c autorizados para for­ mular as leis da sociedade. E quando o povo disser: submeter-nos-emos às regras e seremos governados pelas leis estabelecidas por tais homens e sob tais formas. que é apenas o de elaborar leis e não de fazer . como já vimos. 4.4) 0 Estado con tem porâneo e a delegação de fu nções A doutrina clássica da separação de Poderes não admite a delegação de fun­ ções de um aos outros. em face do princípio da legalidade. por uma concessão ou instituição positiva e voluntária. as normas emanadas do Legislativo têm primazia sobre as outras.2. e indicar em que mãos será depositado. que representa falsear totalmente o pensamento do ilustre autor dc O espírito da leis. N o mesmo sentido. mesmo. por definição. o Judiciário. a soberania reside no povo. Todavia. não sendo ele senão um poder delegado pelo povo. ninguém mais poderá que outros ho­ mens devam elaborar leis para o povo. as quais inovam a ordem jurídica. como o entendemos hoje. Com efeito. segundo Rousseau. que a exprime por meio da lei. quando a nobreza e o próprio povo tentavam limitar a auto­ ridade absoluta dos reis. Ao Poder Legislativo se confere.2. teve origem na Inglaterra. Uma vez que o poder do legislativo deriva do povo. perenizada em sua obra O contrato social.3) 0 Poder Legislativo O Poder Legislativo. como se observa nesta sugestiva passagem de John Locke: não pode o legislativo transferir o poder de elaborar leis para outras mãos. aqueles que o detêm não podem transmiti-los a outros. a competência de elaborar nor­ mas segundo um processo previamente estabelecido (processo legislativo). lei em sentido estrito. pois também o Executivo e. parlamentares. que agi­ rão em nome do corpo eleitoral. não podendo votá-la diretamente. du­ rante a Idade Média. Isto não significa que apenas o Legislativo elabora nor­ mas jurídicas. Paul Visscher.

as leis do país. porem impopulares. O papel proeminente do Legislativo acarretou-lhe. onde as discordâncias não iam alem dos pormenores. com rapi­ dez. o an­ tigo Executivo passou a ser visto como poder governamental. para que este faça o que tem que ser feito. sem coragem para tomar deci­ sões inadiáveis. agravando gravemente o órgão no seu entender principal. C o m o passar do tem po. Deixa­ ram estas de ser grupos primários. lei delegada e m edida provisória. que para os democratas radicais do século passado lsic]. com o assinala M anoe l Gonçalves Ferreira Filho. em face das maiores possibilidades de legislar. a realidade hoje é outra. obrigou os governos a repen­ sar o processo legislativo. Observa M anoel Gonçalves Ferreira Filho: Incapazes dc fazer o que se torna imprescindível. com a inevitável delegação dc funções pelo Legislativo ao Executivo. a prerrogativa de anular decisões ju­ diciais.5) 0 caso brasileiro: medida provisória e lei delegada N o Brasil. ou aparentemente irredutíveis. Por outro lado. De tal evolução.].2.48 Teoria Geral do Estado legisladores. por decreto. inclusive modificando. na m edida do possível. como governo. para se tornarem o campo dc batalha onde cosmovisões hostis c interesses dc elasses irre­ dutíveis. por interm édio da Corte de Cassação. 4.. este a cúm u ­ lo de tarefas trouxe consigo a própria paralisia do Legislativo. o recrudescimento das reivindicações sociais no final do sécu­ lo X IX . u m acú­ m ulo de funções. a ascensão das massas ao processo de decisões políticas agravou a situação: O sufrágio universal. perm itindo a rápid a edição de norm as jurídicas de alcance social. abalar a estrutura des­ ta que lhes parecia perfeita. as câmaras dão plenos poderes ao Executivo. parecia ensejar a plena realização da democracia. Por outro lado. Nestas. A decadência do Parlamento teve como contrapartida o engrandecimento do Executivo. N ã o obstante. buscando agilizá-lo. Tal fenôm eno mostrou-se ain d a mais evidente a partir de 1920. dentre as quais. p o r parte deste. na França. inatendidas em face da paralisia parlamentar.2. veio. bem diferente dos tempos de Locke e M ontesquieu. em contrapartida. o sufrágio universal trouxe a divisão para o seio das assembleias. como eram enquanto só a burguesia participava in­ tensamente da vida política. dc sorte que não pode ter o legislativo nenhum poder de transferir sua autoridade de elaborar leis e colocá-la em mãos de terceiros. . não mostra mais ostensiva do que a retratada nalgumas Constituições posteriores à Segunda Guerra Mundial. Em verdade. o fortalecim ento do Executivo se m anifestou m ediante três espé­ cies de normas: decreto-lei. se digladiavam. e aguente as conseqüências [.. assim.

em resumo. poderá expedir decretos-leis sobre as seguintes matérias: 1 . Observa-se. uma vez por igual período.yo Código Penal. em meados dos anos de 1980.1988 e. outorgada por Getúlio Var­ gas. sem manifestação. o Presidente da República poderá ado­ tar medidas provisórias. § 1° Publicado o texto. mediante decretos-lei. assim dispondo o art. dentro de sessenta dias. 55. ou não desejan­ do comprometer-se com o todo-poderoso Governo Militar. pois embora não tenha forma de lei. ressalvado o disposto nos §§ 11 e 12 per­ derão eficácia. nos termos do § 7°. . ou seja. Assim.10. Este passou a legislar sozinho. de uma lei em sentido material. por decreto legislativo. a Consolidação das Leis do Trabalho e a Lei de Introdução ao Código Civil. desde a edição. O decreto-lei surge no Di­ reito brasileiro com a Constituição autoritária de 1937. valendo lembrar que inú­ meras leis importantes da época . g. o texto será tido por aprovado. inclusive normas tributárias. devendo o Congresso Na­ cional disciplinar. nesse prazo. emen­ dada em 1969. 62. mesmo que rejeitado pelo Congres­ so. não podendo emendá-lo. prorrogável. Ora. e III . [. no § I o. que não sendo o decreto-lei aprovado em sessenta dias. nos seguintes termos: Art. Repudiado na Constituição de 1946. não dese­ jando os parlamentares aprovar medidas eventualmente antipáticas. com esta. se. em casos de urgência ou de interesse públi­ co relevante. tem força dc lei. O Presidente da República. 62. ou seja. os atos praticados durante a vigência do decreto-lei se tornavam plenamente vá­ lidos. deixavam aquele pra­ zo fluir in albis. se não forem convertidas em lei no prazo de sessenta dias. sem retroatividade. caput e § 3o: Art.criação de cargos públicos e fixação de vencimentos. o Congresso Nacional o aprova­ rá ou rejeitará.] § 3° As medidas provisórias. não houver deliberação. a redemocratização do País. não havendo deliberação. conforme advertia o § 2o. velada sucesso­ ra do decreto-lei. o Código de Processo Penal. o decreto-lei retornou na de 1967.segurança nacional.finanças públicas. o texto seria tido por aprovado. e desde que não haja aumento de despesa. Trata-se.. que terá vigência imediatamente. na medida provisória.3 0 Estado 49 A natureza do decreto-lei é a de um diploma híbrido entre o decreto (mero ato administrativo) e a própria lei. com força dc lei. Por outro lado.ainda em vigor . v.são decretos-lei. seguindo processo legislativo próprio. devendo submetê-las dc imediato ao Congres­ so Nacional. § 2° A rejeição do decreto-lei não implicará a nulidade dos atos praticados durante a sua vigência. culminaria na Constituição de 05. já que o decreto-lei tem força de lei. a Lei de Contravenções Penais. ficando o decreto-lei definitivamente aprovado por decurso de prazo.. II . pois a negativa do Legislativo tinha efeito meramente ex nunc. as relações jurídicas delas decorrentes. Em caso dc relevância c urgência.

em matéria de decretos-lei fi­ cava limitado a uma atitude passiva: aprovava o texto. que a atual Constituição favoreceu o Poder Legislativo. de imediato. sem delegação das Câmaras. cuja vigência era imediata (art. 86. o Poder Executivo. Art. o Governo poderá editar dispo­ sições legislativas provisórias. o Governo adotar.1911: Art.. Percebe-se. salvo se a Câ­ . Não pode o Governo. 77.50 Teoria Geral do Estado Comparemos o decreto-lei da Constituição de 1967 e a medida provisória da Lei Magna de 1988. como vimos. no prazo dos trinta dias seguintes à sua promulgação. ou o rejeitava sem poder emendá-lo. deveres e liberdades dos cidadãos sob as normas do Título Primeiro. de 18. Nesse sentido. dispõem os arts. medidas provisórias (provvcdimcntiprov- visori) com força de lei. se não estiver reunido. constatam-se institutos assemelhados ao decreto-lei e à medida provisória.. nem ao Direito Eleitoral Geral.08. O Congresso deverá pronunciar-se expressamente. As Câmaras poderão. aprovado pela Câmara dos Comuns. 86 da Constituição espanhola.. 1° [. para o qual o Regulamento estabele­ cerá um procedimento especial c sumário. ele será apresentado à Sua Majestade. No direito comparado. pois este. [. sob sua responsabilidade. em casos extraordinários de necessidade e de urgência. § 3° Durante o prazo estabelecido no pará­ grafo anterior.. se não for convertida em lei no prazo de sessenta dias”. prazo este prorrogável (§ 3o). se não forem convertidos cm lei (convertiti in legge) dentro dos sessenta dias de sua pu­ blicação. ditar decretos com força de lei ordinária. com a medida provisória a situação se inverteu. com variantes compatíveis com as peculiaridades de cada ordem jurídica. pelo menos um mês antes do término da sessão legislativa.] § 1° Em caso de extraordinária e urgente necessidade.].]. e nesta não for aprovado sem emendas dentro do mês seguinte. e o I o da Lei britânica sobre o Parlamento. as Cortes poderão faze-los tramitar como projetos dc lei. § I o). a rejeição de um de­ creto-lei não implicava nulidade dos atos praticados na sua vigência.. mediante o procedimento de urgência [. sobre matéria fi­ nanceira. serão devidamente convocadas e reunir-se-ão dentro dos cinco dias seguintes. todavia. as quais. deverá apresentá-las no mesmo dia para sua conversão em lei às Câmaras. sobre sua convalidação ou derrogação. Entretanto. claro. Art. for enviado à Câmara dos Lordes. consideravelmente. sempre no prazo de sessenta dias contados de seu recebimento. as quais tomarão a forma de decretos-lei e não poderão conflitar com as instituições fundamentais do Estado. § 2° Os decretos-lei deverão ser imediatamente submetidos a debate e votação pela totalidade dos membros do Congresso de Deputa­ dos.] § 1° Sc um projeto dc lei.. convocado para tanto. o que refor­ çava. 77 da Constituição italiana. já que se esta não for apreciada pelo Legislativo perderá sua eficácia “desde a edição. ao regime das Comunidades Autôno­ mas.. dentro de referi­ do prazo. mesmo dissolvidas. Quando. na Constituição anterior. os direitos. 55. Os decretos perderão todo o efeito desde o início. regular mediante lei as relações jurídicas sur­ gidas em virtude daqueles decretos que não forem convertidos em lei [.. Além disso.

pois a soberania é a qualidade suprema do poder estatal. Saraiva. pois.. o reconhecimento dc um Estado como tal não obedece a uma regulação jurídica precisa. d a l l a r i. Rio de Janeiro. observa o professor Dalmo de Abreu Dallari: O mundo é uma sociedade de Estados. apesar de todas as restrições dos teóricos e dos próprios líderes políticos. Elementos de teoria geral do Estado. Teoria geral do Estado. Não há Estado sem poder soberano. uma relação em que a igualdade se faz presente. Teoria geral do Estado. O termo soberania deriva do latim medieval superanus e. que do ponto de vista interno do Estado é uma afirmação de poder superior a to­ dos os demais. Forense. Assim. e converter-se-á em ato do Parlamento. Dalmo de Abreu. Esta. Curso de teoria do Estado. ed. Globo. o vocábulo souveraineté são. Para o jurista. São Paulo. realmen­ te. sob o ângulo externo é uma afirmação de independência. b o n a v id e s . 1964. ed. o poder soberano é um elemento essencial do Estado. independentemente do voto da Câmara dos Lordes. não bastando a supremacia eventual ou momentânea. Na prática.. sa l v e it i n et t o . Referindo-se à posição do estado na ordem internacional. Ciência política. ficando na dependência da comprovação dc possuir soberania.. o poder so­ berano reside nos órgãos dotados do poder de decidir em última instância. Sugestões Literárias. São Paulo. 6. quando participa da sociedade mundial. do francês souveraineté. 13. As duas palavras latinas das quais parece derivar. ed. significando a inexistência de uma ordem jurídica dotada de maior grau de eficácia. superanus e supremitas. com efeito. A soberania é o atributo do poder do Estado que o torna independente no plano interno e interdependente no plano externo.3) Soberania Bibliografia: a za m b u ja a c c io l i. me­ diante sanção real. com os demais. na qual a integração jurídica dos fatores políticos ainda se faz imperfeitamente. São Paulo. mais recentemente. Com efeito. ed.3 0 Estado 51 mara dos Comuns decidir em contrário. 1985. o Estado é uma pessoa jurídica de direito público internacional. Rio dc Janeiro. Porto Alegre. o que se exige c que a sociedade polírica tenha condições dc assegurar o máximo de eficácia para sua ordenação num deter­ minado território c que isso ocorra dc maneira permanente. Darcy. 28. 1968. Forense. .. 6. maluf. indepen­ dentemente dc atos formais de reconhecimento. cada uma mantém. No âmbito interno. Teoria geral do Estado. Wilson. Fnfim. 4. 1982. Saraiva. Pau­ lo. entretanto. 2009. Sahid. é ela . Pedro. no âm­ bito externo. 1986. o que distingue o Estado das demais pessoas ju­ rídicas de direito internacional público é a circunstância de que só ele tem soberania.

na qual cada castelo feudal buscava. uma parcela do poder político. mesquinhamente. que a soberania é um atri­ buto essencial. de um lado. Em sua obra A política. Cada senhorio possuía. Por intermédio daquele procedimento era possível im­ pugnar a criação de leis que contradissessem as normas fundamentais. e nas suas lides impunha seus costumes e suas leis. a soberania é a diferença específica dc tal governo. social e econômico. como resultado des­ te marco histórico. e a dos servos da gleba. é seu traço identificador. Graças à soberania. enfim. Conclui-se disso que. que se originam do Estado. Daí a assertiva do professor Pedro Salvetti Netto: Assim como todas as sociedades possuem normas. Vimos. não dispensando o poder. perdurar independentemente dos demais. com as invasões dos bárbaros no Império Romano. do poder político. por outro lado. Na Alta Idade Média. e no direito público de Ate­ nas havia a noção de que certas leis pertinentes à própria estrutura política da polis. o Estado torna-se uma sociedade condicionante. Politicamente. concernentes à estrutura fundamental da cidade-Estado ateniense.52 Teoria Geral do Estado que distingue este poder daquele observado nos grupos sociais condicionados pelo Estado. fenôme­ no que assinala o início da Idade Média. Que vem a ser um estamento? É uma ca­ mada social que compete com outras. de outro. vale dizer. é uma criação do Di­ reito Constitucional moderno. sendo este o único critério distintivo do Estado. a sociedade feudal converteu-se em estamentária. E isso porque o Estado é soberano. isto e. Séculos depois. a partir do século XI da Era Cristã. fundava-se numa economia agrária. O feudalismo. mas fragmentou-se em miríades de se­ nhorios feudais. já havia uma dis­ tinção fugaz entre as leis constitucionais e as leis que poderíamos denominar leis ordinárias. como as que estabeleciam a cidadania. geralmente se pensa. Surge a classe dos senhores feudais. surge o Feudalismo. estes tam­ bém. sujeitam-se ao mando que caracteriza a sociedade po­ lítica. formada por estamentos. dentro de uma rigidez relativa. ao pas­ so que as sociedades menores tornam-se condicionadas pelo Estado. Haverá soberania nos casos em que houver poder de decisão em última instância. A Antiguidade já intuía a diferença entre as leis que estruturavam a organiza­ ção política e as que eram criadas por órgãos do governo. eram superiores às demais. Tal superioridade era garantida por um procedimento que poderia ser tido como o ancestral da nossa ação direta de inconstitucionalidade. não reconhecendo nenhum outro poder que se lhe iguale. Aristóteles faz tal distinção. mas as leis. se sobrepõem àquelas emanadas de outros organismos sociais. haverá soberania. que. uma qualidade do poder do Estado. Se o go­ verno é uma das causas formais do Estado. nas situações em que houver poder de decisão em úl­ tima instância. no limite de seu território. o poder não se conser­ vou centralizado como no Império Romano. Naquele pe­ . por direito próprio. sistema político.

Mais tarde. os homens estariam em guer­ ra continuamente: o homem seria lobo do próprio homem (homo homini lupus). Para evitar tais males. apenas.3 0 Estado 53 ríodo histórico o rei. como já vimos. neste contrato. autor de uma obra intitulada Os seis livros da República.3. Daí a expressão soberania. e nos três mais significativos autores da doutrina contratualista: Thomas Hobbes. Nes­ sa sociedade pontificou Jean Bodin.3. O monarca não seria parte no contrato . “Todo poder vem de Deus. são inúmeras as doutrinas a respeito. Afirmava Hobbes que. 4. Omnis potestas a Deo sed per populum. O consentimento popular. A doutrina do contrato social pode ser ana­ lisada na célebre Escola do Direito Natural e das Gentes. a própria fonte da sociedade. na França. tacitamente manifestado. que reinasse sobre os litigantes. tornava-se o estamento que passasse a exercer seu poder soberano sobre os demais. 4. que pregava a necessidade de um poder supremo. como predicava Santo Tomás de Aquino. mas os autores que difundiram a ideia do contrato social viam. soberano. ou sovrain (na França). dc tal poder. John Locke e Jean-Jacques Rousseau. cuja função seria manter a paz.1) A doutrina pactista medieval Quanto à titularidade da soberania. as lutas religiosas causadas pela Reforma ameaçaram destruir a própria sociedade civil. por intermédio do povo”. os homens abdicariam de sua liberdade em favor de um monarca. Há uma diferença sutil entre a doutrina pactista medieval e a doutrina do con­ trato social: A doutrina pactista medieval via no acordo de vontades a fonte do go­ verno. Então.2) A doutrina do con trato social A doutrina pactista medieval não deve ser confundida com a do contrato so­ cial. tal perigo foi conjurado com o surgimento de uma sociedade intitulada “Os Políticos”. enfim. sobre toda a nação. A doutrina pactista medieval ensinava que todo o poder vem de Deus: Omnis potestas a Deo. mas a doutrina do contrato social via em tal acordo de vontades a fonte da própria sociedade. que se desenvolve a partir do século XVI. tinha um intermediário: o povo. Tal consentimento importaria num verdadeiro pacto. Supremus. mas. era a sociabilidade inata do homem. o chamado pactum subjectionis. precursora do Estado absolutista. Para a doutrina pactista medieval a fonte da sociedade era a inclinação natu­ ral do homem. isto é. se não existisse a sociedade. encabeçada por Hugo Grócio. seria a fonte do poder político. para acentuar-se nos séculos XVII e XVIII. a nobreza. o clero e o povo formaram estamentos que lutavam para ascender politicamente e exercer o poder soberano.

mas em nome da nação. seria uma comunida­ de concreta. numa sociedade historicamente considerada. Não pretende Rousseau que todo o povo tome e execute as decisões. de Emmanuel Joseph Siéyès. Segundo Rousseau. Rousseau afirma que o poder só é le­ gítimo quando se origina da vontade de todos os que serão governados. em direito civil. mas a aplicação das medidas decorrentes desta vontade pode ser feita por todos. pois o direito de votar não implica um dever de votar. em face disso. é a doutrina da soberania popular. entretanto? Para conceituar a nação. com efeito. cada um des­ tes será titular da fração correspondente da soberania. por via de conseqüência. aristocracia e demo­ cracia. então. o poder estatal deverá estar em mãos de todos os indiví­ duos que compõem o povo. as decisões fundamentais de­ vem partir da vontade geral. que a ideia rousseauniana de que o governo só é legítimo quando todos os cidadãos participam da tomada das decisões fundamentais deve ser apreciada em termos. por alguns ou. presente. Afirma Siéyès que o poder do Estado não é exercido em nome do povo. portanto. Ela não se confunde com a doutrina da soberania nacional. seria o conjunto das pessoas con­ temporâneas que formaria o elemento humano do Estado num dado momento. denominaríamos estipulação em favor de terceiro. já se vê. mesmo. ela é. Ora. poderiam ser legitimadas. preconizada por Emmanuel Jo­ seph Siéyès (1748-1836). Por isso Rousseau não acreditava na representação política e refugava os chamados representantes do povo. Se o Estado possuir 10 mil cidadãos. Por outro lado. em tal concepção. é parte da soberania. seria mero beneficiário de uma delegação. tem uma importância prática muito maior. monarquia. parte final). tomar as decisões e aplicá-las: “Se hou­ vesse um povo de deuses. Siéyès começa por dizer que. Povo. que a participação política do cidadão não deve ser compulsória. Cada cidadão é deten­ tor de uma fração da soberania. Haverá. então. os quais não se confundem com os interesses permanentes das gerações que se sucedem no tempo. simultaneamente. e a da sobe­ rania nacional. vale dizer. Com a Revolução Francesa. a qual. segundo Jean-Jacques Rousseau. na verdade. com exceção da democracia. legitimidade somente se houver iden­ tificação entre governantes e governados. Esta doutrina de Rousseau.54 Teoria Geral do Estado social. Vale notar. sendo esta a vontade dos cidadãos sobre problemas de interesse comum. Conclui-se. que as três formas básicas de governo. porém. Livro III. Para que o Estado seja legitimado. se o fundamento da soberania fosse a vontade do povo. são consagradas duas doutrinas de relevo sobre a soberania: a da soberania popular. existem inte­ resses momentâneos. todo cidadão. Governo tão perfeito não convém aos homens” (O contrato social. todos os cidadãos devem participar da formação da von­ tade geral. governar-se-ia democraticamente. comunidade limita­ . porque somente um povo de deuses poderia. sendo a soberania uma prerrogati­ va personalíssima. Capítulo IV. historicamente considerada. Considera Rousseau. Haveria um ato que. indelegável. Em sua obra clássica O contrato social. no Estado consti­ tuído legitimamente. O que é a nação. por um único homem. é um soberano.

fica rompido um possível vínculo jurídico entre eleitor e eleito. os interesses permanen­ tes da nação. em verdade. Com o passar do tempo. entretanto. porém. o representante do povo passou a ser representante da nação. nos termos. deve estar dirigido aos interesses permanentes da sociedade. é uma entidade imaterial. do pensamento do Siéyès.3 0 Estado 55 da no tempo. afirmando-se que o povo é o soberano (!). então. é evidente que ela pode restringir ou ampliar o número de participantes do sufrágio. ou por uma parcela deste. Disso decorre que o voto não representa um direito. mas um dever. Já se vê que o representante da nação não tem instruções de seus eleitores a cumprir. como na doutrina da soberania popular. Quem escolherá. mas uma oligarquia parlamentar. os interesses permanentes das gerações em sucessão poderiam ser ir­ remediavelmente lesados. um munus. Antes da Revolução Francesa. Em face disso. incumbido de repre­ sentar. e não seus eleitores. percebe-se que a doutrina da soberania nacional originou. se é a nação quem vai selecionar o corpo eleitoral destinado a eleger seus represen­ tantes. Modernamente. à balha. seria impossível. A nação. o sufrágio universal. Como fazer valer a sua vontade? Diretamente. e não na vontade do eleito­ rado. A res­ cisão da investidura do representante da nação não parte mais da vontade do elei­ tor. Com Siéyès. adverte Siéyès. se não cumprisse sua obrigação. mesmo porque. vale dizer. entidade espiritual que é o fundamento da soberania. como se tornara difícil definir a nação. É preciso. Então os representantes da nação serão eleitos pelo povo todo. havia o mandato imperativo. todas as Constitui­ ções da França revolucionária adotaram o chamado sufrágio censitário. segundo os interes­ ses permanentes e definidos da sociedade. nos termos da Constituição. nem contas a prestar. tão somente. neste país. a menos que infrinja a Constituição. esta foi identificada com o povo. com total independência . O destaque dc maior importância no raciocínio de Siéyès é que. mas apura-se. os represen­ tantes da nação? Tais representantes serão escolhidos por aqueles que a nação de­ signar como eleitores. por influência do próprio Siéyès. com total liberdade e sem a pressão do eleitorado. As gerações que se sucedem cons­ tituem a nação. não uma democracia com fundamento na nação. em face do progressivo declínio dos parlamentos. O supremo poder do Estado. conforme institucionalizado em lei. por ora. Além disso. seria substituído. en­ tretanto. sendo a representação fundada na Constituição. que a nação seja representada por aqueles que atuem em seu nome. as doutrinas da soberania popular e da soberania nacional acabaram por se fundir. mas o par­ lamento. ainda assim sem parti­ cipação das mulheres. entretanto. e levando-se em conta que os representantes da nação representam esta. en­ sejado por fatores que não vêm. totalmente divorciada dos interesses populares. pelo qual o representante de cada estamento comparecia às reuniões apenas para formalizar a vontade de seus representados perante o gover­ no e. Somen­ te em 1848 foi instituído. não sendo de todo falso afirmar que soberana não é a nação. pas­ sando a representação política a ter natureza institucional e não consensual.

reparte compe­ tências. que fruiriam de uma liberdade ou soberania meramente relativa. características que lhe são es­ senciais. Como adverte Sahid Maluf. a soberania pode ter por fundamento o povo (Rosseau) ou a nação (Siéyès). Vale notar que a soberania é una e indivisível. juridicamente. em verdade. Se.56 Teoria Geral do Estado para os seus representantes. mas não divide a soberania. a soberania é una porque não pode existir mais de um poder soberano num mesmo Estado. estatal. art. no Congresso norte-americano. É o que se constata. caracteriza­ da por uma tensão permanente entre os dois grandes blocos ideológicos vencedo­ res. Constituições modernas volta­ ram-se para o mandato imperativo. por exemplo. para evi­ tar a desintegração do império soviético. Só há um Direito: o Direito Positivo. por ocasião da invasão militar da Checoslováquia pelas tropas soviéticas. consistindo. pelo próprio Truman. em face da ausência da coercibilidade. apoiando a política . mas três órgãos. mesmo. na esfera de sua competência. portanto. 55 e 56 da Constituição brasileira. o eleitorado aos seus representantes. da leitura conjunta dos arts. 53. um direito natural e. durante a chama­ da “Guerra Fria” conseqüência imediata da Segunda Guerra Mundial. embora desaparecidas. cada qual atuando. de imediato. A ideia de soberania “limitada” foi afirmada pelo líder soviético Leonid Brezhnev em 1968. como na célebre tripartição de Poderes que nos vem de Aristóteles a Montesquieu. N ão há. a doutrina de Brezhnev foi. Como reação aos princípios da soberania nacional. há quem afirme que a soberania pertence ao próprio Estado. podendo estes scr afastados do cargo pelos próprios elei­ tores. são recentes. divulgada em mar­ ço de 1947. para alguns. três Poderes. Depreen­ de-se disso que não há limitação ao poder do Estado. como o fazem Georg Jellinek e Hans Kelsen. este é criado por aquele. Na verdade. ainda em vigor. que. Em princípio. perante o eleitorado. simplesmente. 2°. como admitir duas entidades “soberanas”. o comunista soviético e o capitalista ocidental. como a da extinta União Soviética e. criado e imposto pelo Estado. uma reação contra a chamada Doutrina Truman. no rí­ gido controle político dos Estados socialistas “satélites” da hoje extinta União So­ viética.3. um Direito Internacional. Não existe. Se o adjetivo “soberano” significa “supremo”. e que preconi­ zava a intervenção dos Estados Unidos naqueles Estados que. numa mes­ ma sociedade política? A indivisibilidade da soberania é corolário de sua unidade. “su­ perior”. Não há que falar. Assim fizeram algumas Constituições modernas. de forma soberana. a de Cuba. O Estado precede o Direito. 4. concomitantemente. o poder soberano delega atribuições. e que se consagra na Constituição brasileira. inerente à norma de direito positivo.3) A doutrina da soberania limitada Trata-se de uma doutrina formulada pela União Soviética. basicamente. buscando vincular. portanto. em poderes do Es­ tado.

Assim. Saraiva. Hans. é imediatamente sancionado com a desinversão. Ao viver comunitariamente. o capital. 4. Disciplinando as relações jurídicas .3 0 Estado 57 norte-americana. O direito quântico. Assim. t e l - . Acadêmica. México. passando por um processo de integração paulatina denominado socialização. 1997). ele alcança seus objetivos individuais e satisfaz sua tendência gregária. em suas relações jurídicas. no fortalecimento das empresas multinacionais. no livre comércio. no fluxo internacional de capitais.4) Globalização e soberania O fenômeno da globalização da economia mundial se expressa na abertura dos mercados. manter a paz social. na internacionalização da tecnologia e.4) Ordem jurídica Bibliografia: vetti n e t t o . diga-se de passagem. ed.3. sendo disciplinado em suas relações de amizade. Em sociedade. Impossível evitar. mas tam­ bém interage. São Paulo. forçoso reconhecer que o poder político dos Estados vem a ser superado pela planificação econômica das grandes empresas multinacionais. 6. que dispõem da economia mundial em favor de seus interesses. M ax Limonad. Com efeito. O homem é um ser social. 4. Goffredo. 1984.. Conforme suas conveniências.. escolhendo os Estados que adotará como fonte de renda. move-se com espantosa rapidez e total liberdade. sociedade condicionante das demais e dotada de poder so­ berano. então. o próprio Estado. a perda do controle de sua economia e criar alterna­ tivas independentes da especulação internacional. 1939. em ques­ tão de segundos salta as fronteiras dos Estados. Quando um Estado deixa de oferecer condições vantajosas para este capital. formando. na eliminação de barreiras fiscais em favor deste. no notável incremento do turismo internacional. cortesia e. sal- Pedro. 1985. Como observa Rodrigo Borja. Teoria pura do direito. formando-se o pânico nas suas bol­ sas. sendo seu fundamen­ to. Curso de teoria do Estado. o homem não apenas age. sem considerar as conveniências sociais (Enciclopédia de la políti­ ca. Fondo de Cultura Econômica. emigrando cm busca de maior lu­ cro. a partir da célula familiar e o municí­ pio. entretanto. les j r kelsen. o poder po­ lítico tem por missão principal ordenar a vida em sociedade. São Paulo. estivessem ameaçados por minorias ativistas paramiiitares prósoviéticas. São Paulo. nesta nova ordem econômica interna­ cional o capital criou sua própria “soberania” . principal­ mente. especialmen­ te o especulativo. mesmo. estas garantidas pelo Estado.

são dotadas de coercibilidade. forma. já se disse. ao contrário de coação (coatividadc). Mesmo os regimes políticos mais despóticos e injustos não podem deixar de se amparar num mínimo de legalidade. formar. principalmente. O vocábulo ordem traz consigo um radical antiquíssimo. os homens poderão dispensar uma série de bens úteis. esqua­ dro. con­ tornar. E como o Estado ordenaria. Para que haja or­ dem. de origem latina. uma ordem inconveniente. orientar. Daí direito positivo. Assim. norma es­ tatal dotada de cocrcibilidadc. e não sinuoso. portan­ to. o jus positum era o direito criado pelo Estado e. de afeto. ele sempre está presente cm ter­ mos análogos. Curiosamente. algo que é direito. afirmou que. ordem implica a ideia de forma. em caso contrário eles próprios naufragariam na desordem e na insegurança. imposto.58 Teoria Geral do Estado entre as pessoas. é uma diretriz dc con­ duta socialmente estabelecida pelo direito positivo. que denomina a pressão meramente psicológica. tão somente. de origem sânscrita: oryque significa diretriz. a desordem seria. E o que é uma norma? Norma é uma diretriz de conduta socialmente estabelecida. a legítima defesa. conexos. com atenção. Normas de polidez. a sim­ ples ameaça. ficaremos impressionados. deve haver uma ordem imposta na vida em sociedade. posto. por exemplo. nortear. daí a analogia. possibilidade do emprego da violência física (vis materialis). Coercibilidade deriva de coerção. Viven­ do em sociedade. o mesmo ra­ dical sânscrito or. isto é. mas não essenciais. vale dizer. Veja-se que o termo norma traz. violência corporal. encontrado na palavra ordem. Então. rumo a seguir. o vocábulo norma. restando evidente que a coerção somente pode ser exercida quando au­ torizada pela norma jurídica. jurídicas. conferindo-lhe uma direção con­ sagrada por determinada concepção dc ordem. pelo Estado. significava régua. o grande filósofo da Antiguidade Clássica. quantas normas. cumprimos durante nosso cotidiano. positivo. . No direito romano. é preciso que existam normas que definam o que pode e o que não pode ser feito ou deixado de fazer. podendo ser definida como a unidade na multiplicidade ou a conveniente disposição de elementos para a realização de um fim. oriente. “onde houver sociedade haverá direito” (ubi societas ibi jus). a desordem. das mais variadas naturezas. direito imposto. Es­ tas. incerto. para que alguém faça ou deixe de fazer algo. ideológico. por exemplo. como não poderia deixar dc ser. Não houvesse ordem jurídica e teríamos o caos. por exemplo. Se observarmos. Quanto à norma jurídica. de caráter religioso e. Alguns filósofos do Direito não admitem a existência da desordem. coativamente. Não foi sem razão que Aristóteles. reto. pois sen­ do o conceito de ordem eminentemente subjetivo. Por isso. jamais. não poderão. entretanto. dispensar a ordem jurídica. o Estado ordena a vida humana. a vida em sociedade? Mediante a imposição de normas jurídicas.

Mas quando elas forem dispostas. sem­ . pois possui uma característica que lhe é essencial e que. necessariamente. O que vem a ser. Desta derivam todas as demais normas. na tela em branco. contendo epígrafe. que o homem é lobo do próprio homem (horno homini lupus). fornecido pela razão. uma característica sui generis: a hierarquia entre as normas. vere­ mos que ela apresenta uma estrutura. um conjunto harmônico. Uma lei. contudo. teremos. mas sim de modo organizado. a fim de iniciar a pintura da paisagem que contempla. à disposição ordenada dos capítulos de um livro. vale dizer. umas dependem de outras. sob o im­ pério da Constituição. iso­ ladas umas das outras. umas complementam outras. isto sim. Foram Hans Kelsen e Adolf Merkel que interpretaram a ordem jurídica como uma pirâmide escalonada. estão. o inglês Thomas Hobbes. Pois bem. Vejam a paleta na qual um pintor derrama suas tintas. tudo disposto harmoniosamente. uma melodia pois. Assim. em desconexão. Essas tintas estão em desali­ nho. por si só. portanto. no topo da qual se acha a Constituição. a distingue das outras: a hierarquia entre suas partes (normas) integrantes. a unidade. uma ordem que pareceu conveniente ao le­ gislador. mas não idêntica. Mas é preciso que haja outro elemento neste conceito. formal. embora formando o elemento multiplicidade. Cada um dos dispositivos se relaciona. a or­ dem jurídica não é idêntica às demais estruturas. uma sentença judicial somente são válidos se esti­ verem em conformidade com os demais diplomas legais. As normas jurídicas não sc acham soltas. ordenadamente. Esta ordem se formaliza. incisos e alí­ neas. am­ parado numa ordem jurídica férrea. dc estrutura. enfatizava. todas as normas jurídicas de uma ordem jurídica consistem no elemento multiplicidade. integra o conceito de ordem. o artista. formam uma multiplicidade que não satisfaz. o ser humano é perverso por índole. uma estrutura? É uma dispo­ sição harmoniosa das partes para a realização do todo. Já se percebe que a ordem jurídica é uma estrutura. Uma norma só é válida se não conflitar com a ordem jurídica da qual faz parte. complementado o conceito de ordem. toma forma de normas jurídicas. um contrato. que. como vimos. e seu instinto pernicioso somente pode ser controlado por um poder político severo. dispostas hierarquicamente. com os demais. ordenado. Várias notas musicais emi­ tidas ao léu não formam. A ordem jurídica é uma estrutura. e não mera soma de partes simplesmente justapostas. Ela possui. a ordem jurídica bem se assemelha às notas de uma melodia.3 0 Estado 59 Um dos maiores teóricos do absolutismo monárquico. As normas jurídicas de uma ordem jurídica não estão no mes­ mo plano de eficácia. Ora. entretanto. direta ou indiretamente. no seu livro célebre intitulado Leviatã. Sim. a ordem jurídica é uma es­ trutura análoga a uma estrutura musical ou plástica. Qual o fundamento desta ideia? Se abrirmos uma coletânea de legislação e a analisarmos detidamente. qual seja. orgânico. carecem de unidade até que o compositor lhes dê uma dis­ posição estética conveniente. sem dúvida. um preâmbulo. convenientemente. parágrafos. O complexo de normas ju­ rídicas em vigor numa sociedade não sc acha disposto mecanicamente. de força. Inicialmente.

Essa norma fundamental constitui. se a sua validade puder ser referida a uma norma única como último funda­ mento dessa validade. um sistema. Não nos interessa saber. que lhes confere essa validade. é preciso fazer uma distinção: somente a Cons­ . Conforme a espécie de norma fundamental. direi­ to objetivo. de compreender que as diversas normas da moral já se acham compreendidas numa nor­ ma básica. formam um todo denominado direito positivo. Assim. como última fonte. con­ forme a natureza do princípio de validade. O conjunto de todas as normas jurídicas no Estado chama-se. a unida­ de da pluralidade de todas as normas que constituem uma ordem. quer dizer. podemos distinguir duas espécies de ordem (sistemas normativos). a conduta por elas prescrita ao homem impõe-se pelo seu conteúdo. podemos referir-lhe uma enorme quantidade de normas derivadas: “não deves prejudicar os outros”. a cujo conteúdo está submetido o conteúdo das normas constitutivas da or­ dem em questão. a Constituição não pode ser ferida por uma lei ordi­ nária. da norma fundamental.é um sistema de normas jurídicas. o Código Civil. o qual possui uma determinada qualidade. Numa passagem de grande vigor intelectual e de cla­ reza. “não deves enganar”. “deves au­ xiliar o teu próximo em caso de necessidade” etc. como ordem . Hans Kelsen (1939. enfim. as normas “não deves mentir”. por isso. As normas da primeira valem por si. cuja fonte é o Estado. E se uma norma pertence a uma determinada ordem. o direito impositivo. derivam da norma fundamental da veracidade. Essas normas jurídicas. posto. uma ordem. São desta espécie as normas da moral. é porque a sua validade pode ser referida à nor­ ma fundamental dessa ordem. “deves cumprir tuas promessas” etc. são normas de direito objetivo a Constituição. como o particular se subsume ao geral. de evidência imediata. Porém. nem um decreto regulamentar pode dispor de modo contrário à lei que ele próprio está regulamentando. 60-1) sintetiza seu pensamento a respeito: O Direito. E a primeira pergunta a que é preciso responder. Direito objetivo é o conjunto de todas as normas jurídicas em vigor no Estado. Suponha­ mos a seguinte norma fundamental: “deves amar o próximo”. qual é a norma fundamental de um determinado sistema de moral. procedendo a uma dedução do geral para o parti­ cular. os contra­ tos e os atos administrativos. da mesma maneira que o particular está contido no geral e que.60 Teoria Geral do Estado pre hierarquicamente. imposto. isto é.a ordem jurídica . isto é. somente limita­ das por outra norma estatal. mediante uma opera­ ção lógica. As normas jurídicas criadas pelo Estado são incontrastáveis. então. formula-a a Teoria Pura do Direito pela maneira seguinte: o que é que estabelece a unidade de uma pluralidade de nor­ mas jurídicas? Por que razão uma determinada norma jurídica pertence a um certo sis­ tema dc Direito? Uma pluralidade dc normas constitui uma unidade. todas as normas particulares da moral podem fazer-se derivar. E as normas obtêm esta qualificação concreta pelo fato de estarem relacionadas com uma norma funda­ mental. aqui. Trata-se. na verdade. p. Por exemplo.

não e um valor. salvetti n e t t o . Todas as normas jurídicas são de direito objetivo. Saraiva. Ci. O mani­ festo Comunista de Marx e Engels. d a l l a r i. . Coimbra. Conceito e natureza da sociedade política. porque se impõem a todas as outras. Igual­ mente. São Paulo. José Pedro Galjr vão de. Paulo kelsen. m o n t e s q u i e u . ed. Nem mesmo seres ideais podem ser valores. 1979. Neste sentido. mas somente as normas jurídicas provenientes do Estado são normas de direito positivo. mas somente para quem vê nela um ideal de vida. São Paulo. São Paulo. . um ideal mais alto do que os ou­ tros ideais. A doutrina social da igreja segundo as encíclicas Pedro. 1981. Q uando dizemos os valores estão no cofre. Armênio Amado. Rio de Janeiro. Que é valor? É a importância que se atribui a um bem.. Goffre- Bem é tudo o que seja objeto do desejo humano. 1981. Pierre. 1966. Coimbra. em seu sentido pró­ prio. df. - verger . elucida o professor GoffredoTclles Júnior: De fato. M ax Limonad. a não ser que se falsifique o senti­ do da palavra valor. o Código Civil. As coisas não constituem bens em si mesmas. Os regimes políticos. Zahar. Sucessor. vres completes. Luís. Rerum Novarum e Quadragésimo Anno. ru it e n p io x i. 1978. 4. Hans. Dalmo dc Abreu. a palavra valor quando empregada corretamente. 1981. A santidade (ou o santo). Armênio Amado. souza . Manoel Gonçalves. Os direitos sociais nas constituições. A doutrina social da Igreja. 3. Mas não é um valor em si. A democracia possível. Curso de teoria do Estado. por exemplo. Braga.. O direito quãntico. . Sucessor. Harold J. 1979.s do. l a s k i. 4. São Paulo. 1946. Saraiva. c a b r a i. Uma coisa não pode ser um va­ lor.. 1980. São Paulo. São Paulo. São Paulo. 1969. 11.3 0 Estado 61 tituição. ed. Afirmar que a san­ tidade é um valor e o mesmo que afirmar que uma joia e um valor. 1949. P. São Paulo. ed. sendo necessário que se lhes atribua um valor. É uma coisa valiosa. São Paulo. Não se pode dar a uma coisa o nome de valor. Problemas de filosofia política. . t e l i . Saraiva. A santidade tem va­ lor. ed. o Código Penal e outras leis oriundas do Estado formam o direito positivo. g a l v Ão f e r r e ir a f il h o e Curso de direito constitucional. Mauricc.5) Causa final: o bem comum Bibliografia: m oncada b ig o . O futuro do Estado. Difusão Européia do Livro. 6. Mas uma joia não é um valor.. São Paulo. . Paris. o que realmente queremos dizer é que os bens de valor estão no cofre. não designa a essência e a existência de coisas. du 1963. . Hachette. Ela e um bem. 1982. 1985. a santidade é um bem de valor. São Paulo. É um bem a que se atribui valor.f. Oeli­ Encíclica Quadragésimo Anno. 1859. C. O. Teoria pura do direito. Moderna.

em pleno apogeu do Século das Luzes. o conceito de liberdade não é unívoco. confunde-se com a concepção do que é justo em determinada sociedade. que nem sempre a ordem jurídica é justa. pois. A ideia de justo ou de legitimidade de uma ordem jurídica fundamenta-se no consenso social. mais precisamen­ te o século XVIII. Há uma liberdade de tempos de guerra que não é. justa ou injusta. como o próprio nome revela. há uma liberdade de época de fartura que não é. Enormes divergências entre os homens residem. todos os sistemas políticos se declaram adeptos da liberdade individual. bem comum era. O Estado não é mais do que um meio de realização do bem comum. o faz com fundamento nos valores adotados pela comunidade. evi­ dentemente. Cada sociedade. inquestionavelmente. adota uma tábua de valores c. legal. Causa final da sociedade política. na oportunidade. desta formulação. como sinônimo de paz social. A moral social. concebe e ado­ ta as normas jurídicas c morais. e para tanto deve atuar inci­ sivamente. Não é difícil depreender. doutrina que. a mesma liberdade de tempos de escassez. a liberdade e a iniciativa individuais. essencial­ mente legal. se a concepção totalitária de bem co­ mum supera. a mera conservação da ordem social. contudo. a visão limitada do individualismo. a valoração dos bens varia no tempo e 110 espaço. embora seja. enquanto válida. Conclui-se dessa breve digressão introdutória que o conceito de bem comum varia no tempo e no espaço. Os valores sociais têm uma existência histórica. então. consubstanciado 11a ideia de justo. em que o bem comum foi definido como a ordem jurídica. . deixa de ser legal. que culminaria na Revolução Francesa. puro instrumento de um todo. pre­ tendeu libertar o homem “das trevas da superstição medieval”. o preço a ser pago por essa superação é de tornar cada ser humano mera parcela do todo so­ cial. não são perpétuos nem imutáveis numa mesma socieda­ de. nem sempre tal finalidade é alcançada. Sim. sem ferir. e também do individualismo e do cidadão abstrato. tida como o conjunto dos valores sociais. o bem comum deve ter como objetivo a plena realização espiritual e física do homem. Tal concepção chama-se con­ senso social.1) 0 liberalism o e 0 bem com um Absoluta e unanimemente. Estávamos. perío­ do de esplendor do Iluminismo. em diferentes épocas.62 Teoria Geral do Estado Ora. 4. com certeza. Por outro lado. mesmo porque. nem por isso a norma jurídica. alterando-se conforme o ensejarem novas circunstâncias. quando o intelecto valora um fato. A norma jurídica. A norma jurídica não se origina apenas do fato e da inteligência. 11a disparidade das interpretações da liberdade. caso contrário cairíamos no totalitarismo. pois.5. Foi aquele o século do racionalismo. mostrando-se o reto caminho das luzes da razão. somente será legítima se estiver conforme o consenso social. absolutamente. uma liberdade de tempos de paz. então. Embora a ordem jurídica tenha por objetivo final o bem comum. houve época. Infelizmente. necessariamente. ele varia com o tempo.

ademais e a todos. ora outro. a liberdade como a ausência de quaisquer laços obrigatórios para o indivíduo. em qualquer sociedade dotada de leis. mais tarde. Observa. para outros é exatamente o oposto desta. nas democracias. a liberdade será inatingível até que a paixão da igualdade seja satisfeita. o Estado lhe possa de­ terminar outras restrições senão aquelas necessárias à proteção da liberdade de to­ dos. É preciso distinguir. não a percebendo nas monarquias. na prática. os motivos de seus males. Tal postura revela bem a intervenção do poder político no domínio econômico-cultural. a suprema liberdade. porque todos teriam o mesmo poder. a exemplo de Kelsen. e. definiu. Georg Jellinek afirmou. se hos­ tilizam e se excluem. Cada homem denomina liberdade ao governo que mais sc ajusta aos seus costumes e inclinações pessoais. o povo. Ainda assim. Duguit mudaria.3 0 Estado 63 Aquilo que para uns é liberdade. porém. sem que. liberdade e igualdade. declarando que cada vez mais o Estado faz penetrar em seu ordenamento jurídico o elemento socialista. com isso. ainda. sua concep­ ção de liberdade. não significa fazer o que se quer. para alguns. porque naquela não têm. um nível de vida que ofereça um mí­ nimo de decência aos menos favorecidos. em torno de dois valo­ res: indivíduo e coletividade. Hans Kelsen. Outro eminente publicista francês. Afirma. a renúncia à liberdade c. afirma que as duas ideias essenciais da democracia. Aliás. No campo da doutrina. a liberdade consiste em po­ der fazer o que se deve querer e em não ser obrigado a fazer o que não se deve que­ rer. A liberdade é o direito de fazer o que as leis permitem. aparentemente.possibilita o desenvolvimento das . que não há palavra que te­ nha mais acepções e que tenha tanto impressionado os espíritos como a palavra li­ berdade. quando passou a ver na li­ berdade política uma autodeterminação conseguida pela participação do indivíduo na criação da ordem social. a essência da liberdade também está longe de ser revelada. criador da célebre teoria pura do direito. se cada um dc nós pudesse fazer o que as leis proíbem. assim como foram apresen­ tadas pelos pensadores da era do lluminismo e assim como se desenvolveram na teoria política das ideologias modernas. porém. perpetuamente. A liberdade política. colocou a liberdade nos governos democráticos e confundiu o poder do povo com a sua liberdade. Afinal. diante de seus olhos. Em qualquer Estado. intelectual ou moral. prossegue. redefinindo-a em forte matiz socialista. não haveria mais liberdade. a fim de impedir que a liberdade dos fracos seja sufocada pela liberdade de uma minoria. é mais freqüente que a coloquem os povos na república. Silva Telles. por sua vez. como nas democracias o povo tem mais facilidade para fazer quase tudo o que deseja. publicista pátrio. Já para Harold Laski. proporcionando. num primeiro momento de sua vida. defi­ nia a liberdade como o poder que pertence ao indivíduo de exercer e desenvolver sua atividade física. A liberdade . que a vida do gênero humano gira. posição esta reformulada mais tarde. que é verdade que. acuradamente. O equilíbrio entre ambos ainda não foi alcançado: ora predomina um. Léon Duguit. faz o que deseja.prossegue . são dois conceitos que. sempre. entre independência c liberdade. o grande Montesquieu.

a baixa constante dos salários a um nível incom­ patível com toda a dignidade da vida humana. li­ berdade pessoal. o liberalismo político da democracia reinante. interfe­ rindo. o dia de trabalho das doze c mais horas sem limite. a imensa mi­ séria das massas operárias entre os anos de 30 a 50 desse século. uma vez que. Claro que existem várias espécies no gênero liberdade: liberdade política. ofende a liberdade dc alguns ou dc muitos c. pois as liberdades dos indivíduos não podem ser tomadas isoladamente e colocadas uma ao lado de outra. a superprodução. não de pura teoria. Para se defender destas conseqüências. o seu espírito de lucro insaciável. era a da igualdade . e estes. Lenin.64 Teoria Geral do Estado diferenças entre os homens. Tudo conseqüência do individualismo econômico apoiado no seu poderoso aliado. as depressões econômicas. O resultado de certa concepção dc liberdade. na realida­ de. que era preciso também hipostasiar e sublimar. no dizer de Herculano. como antes se fizera com a de liberdade. deixarão de ter a liberdade apregoada. mais reduz a liberdade. costumava dizer: “A liberdade é um bem tão precio­ so que deve ser racionada”. de Bossuct. Não é à toa que o individualismo excessivo acarreta males gravíssimos para a vida em sociedade. Ou esta outra: “Entre o fraco e o forte. Dian­ te da pressão social. o trabalho desumano das mulheres c das crianças nas fábricas. o grande revolucionário inspirador da re­ volução socialista da Rússia. quanto mais procura impor a justiça igualitária.a outra irmã gêmea da liberdade e. as regulamentações artificiais do mercado pelos trusts c grandes monopólios. de Lacordaire. como esta: “O Estado que quisemos fraco demais para não nos oprimir foi também fraco demais para nos defender”. dotados de inclinações diversas e deixando-se plasmar por perspectivas diferentes. então. liberdade econômica. o Estado intervém para nivelar as condições de vida. enfim. o desemprego das multidões proletá­ rias. a democracia viu-se obrigada a procurar uma ideia nova que lhe servisse de base. liberdade religiosa. Para Dallari. Era preciso deslocar ago­ ra o acento tônico da ideia de liberdade para outro elemento. propiciando tiradas muito bem postas. das máquinas da indústria algodoeira em Inglaterra. consciente e esclarecedora é a formulada pelo eminente jurisfilósofo Cabral de Moncada. cm preciosa síntese: São conhecidos os excessos a que conduziu o liberalismo econômico e político. dominados. a própria afirmação de que a liberdade de cada um termina onde começa a de outro é inaceitável. . acham-se entrelaçadas e necessariamente inseridas no meio social. justamente pelos meados do século X IX : o egoísmo desenfreado dos chefes de empre­ sa. afinal a mais forte paixão da democracia. com a destruição. e estes. E a ideia nova para a qual ficava agora aberto o caminho. Mas ago­ ra uma igualdade. até suprimi-la de vez. a liberdade opri­ me e a lei liberta”. é a desigualdade econômica. liberdade de reunião etc. mas de verdade. por vingança. criarão condições em que alguns poucos do­ minarão os muitos. Crítica bem posta.

por meio da dominação econômica. com Royer-Collard. a tratada neste ca­ pítulo . exaltando o indivíduo em detrimento do social. Por esse motivo entendia-se que bastava impedir a interferên­ cia do poder público para que os indivíduos fossem livres. paradoxalmente. a formação de um capitalismo monstruoso e a proletarização dos produtores. ser a liberdade a coragem de resistir. ainda.que foi. a vida em sociedade. um interesse mais incisivo do leitor. de sua cooperação e participa­ ção direta ou indireta. Na verdade.3 0 Estado 65 É inegável. Já se disse até. Esta via legal depende do povo. pois colocava o indivíduo contra o Estado. prossegue o autor citado. que a liberdade política . a Revolução Francesa destruiu o concei­ to tradicional dc poder político. sem fundamento na própria natureza humana. ou até de um povo inteiro. despertando.é a mais ampla de todas e que. um fim em si própria.definiu a liberdade como o direito de fazer aquilo que as leis permitem. Por outro lado. com esta. não se pode colocar . ine­ rente à natureza do homem. Esta liberdade se chama liberdade política e o Estado em que ela existe se chama Estado dc Direito. o principal inimigo da liberdade individual nem sempre é o Poder Público. havendo mesmo inú­ meros casos em que o Poder Público se vê subjugado e inteiramente controlado por grupos econômicos. Nas sociedades indus­ triais do fim deste século X X . da autoridade). condições propícias para o aparecimento dos totalitarismos e do socialismo exacerbado. A concepção de liberdade do liberalismo acabou por se autodestruir. contudo. E à liberdade po­ lítica que o filósofo Karl Jaspers se refere. no século XVII a afirmação da necessidade de liberdade foi feita em favor dos que já eram dotados de poder econômico. portanto. por intermédio de representantes periodicamente substituídos em eleições livres e sinceras. Em razão disso. A liberdade não é o valor supremo da vida humana. O exces­ so de livre-concorrência gerou a exploração dos fracos pelos fortes e. Com frequência um indivíduo muito rico ou um poderoso grupo econômico reduz seriamente a liberdade de muitos indivíduos.. compreende muitas liberdades. ao dizer: a liberdade começa com a vi­ gência dc leis registradas do Estado em que se desenvolve. Não foi sem fundamento que Montesquieu . em razão disso. ela pres­ supõe sempre uma razão que a justifica. até agora. porém.corifeu do liberalis­ mo . a liberdade apregoada pelo liberalismo era uma liberdade sem pers­ pectivas. Reagindo contra o absolutismo monárquico (deturpação do exercício legíti­ mo do poder e. impõe restrições aos possíveis excessos das liberdades civis e políticas. enquanto os desajustes econômicos se agravavam. transformado este em mero fiscal da manutenção da ordem pú­ blica. Já percebe o leitor a dificuldade existente na formulação de um conceito uni­ forme de liberdade. Tal liberdade era.. todas estas. e não um meio para o aperfei­ çoamento do homem. ipso facto. Referi­ do Estado é aquele em que as leis não podem ter vigência nem ser modificadas se­ não por via legal. Como acentua com muita clareza Dalmo de Abreu Dallari. válido para todas as épocas e todos os lugares.

o direito só frutifica no relacionamento humano. ou seja. bus­ ca reequilibrar a vida em sociedade. anteriores ao surgimen­ to da própria sociedade. por isso na­ turais. é necessário corrigir o sentido egoísta da liberdade individual. Seria trágico. jurídica e social. não existe juridicamente. Enfim. ao passo que as vantagens da igualdade brilham.2) C oncepção social do bem com um Os erros do liberalismo acarretaram. que a liberdade é um valor destinado a oferecer seus benefícios apenas de quando em vez. Se todos os homens são livres e iguais e se os homens não vi­ vem isolados uns dos outros. cedeu espaço ao moderno Estado de justiça. a concepção eminentemente individualista da sociedade ensejaria a própria eliminação dos mais fracos pelos mais fortes. apanágio da liberal-democracia. à luz de três metas políticas. restringindo-se a limitar a liberdade dc cada um ao mínimo exi­ gido pela sociedade. porque despojado de di­ reitos e deveres. Por outro lado. as desigualdades so­ ciais. Além disso. embora tardiamente. Referidos direitos transcenderiam a própria lei escrita. de que a finalidade do Direito Objetivo não seria mais do que realizar a coexistência dos Direitos Sub­ jetivos. que. que. Muitas vezes é indispensável o fortalecimen­ to do Poder Público para impedir que os economicamente fortes reduzam a liber­ dade dos economicamente fracos e estabeleçam uma profunda desigualdade entre os indivíduos. antever a possibilidade . dando ênfase à igualdade e restringindo os ex­ cessos da liberdade.66 Teoria Geral do Estado o controle do Poder Público de um Estado como necessário e suficiente para garan­ tir a liberdade dc todos os indivíduos. atuante e intervencionista. 4. vale dizer. com muita proprie­ dade. a experiência tem demonstrado que a simples declaração dc que todos são livres torna-se completamente inútil sc apenas alguns puderem viver com liberdade. Alexis de Tocqueville já previra. por via de conseqüência. Os seguidores dessa escola não levaram em conta que o direito tem seu fundamento na própria sociedade. o liberalismo fez da liberdade ilimitada o valor supremo do ideal de­ mocrático. finaliza. de mero espectador do drama humano que sua passividade havia desencadeado. direitos estes ditados pela própria natureza. partindo da premissa de Emmanuel Kant. o liberalismo consagrou a escola clássica do Direito Natural. porém. A mera legalidade. Ademais. acen­ tuando as desigualdades naturais e. a repartição dos bens e o acesso aos benefícios da vida social não permitam grandes desníveis. seriam direitos abso­ lutos que o Estado deveria reconhecer e preservar.5. com esplendor incomparável. diuturnamente. é preciso que a convivência. se tornou um organismo dinâmico. o ho­ mem isolado é mera abstração. Por outro lado. adverte. ao sustentar que o melhor meio de realizar a felicidade do homem é do­ tá-lo da maior liberdade possível. e este pressupõe a sociedade. o homem seria dotado dc direitos imprescritíveis. Com efeito. uma série de pro­ vidências por parte do Estado. Por isso. sendo o Estado mero coordenador desta liberda­ de.

se o uso da pólvora liquidou o sistema das guerras medievais. Quando o Welfare State substituiu o État gendarme. depois. O adjetivo social tornou-se uma palavra mágica. triunfante. veio bruscamen­ te à luz: o sistema governamental norte-americano pareceu não estar mais à altu­ ra das novas tarefas político-econômicas. o uso dos computadores revolucionou a administração moderna. Mareei dc La Bignc de Villcncuvc. A ideia do governante supergerente. o interven­ cionismo estatal foi ignorado durante um século e meio porque o Estado represen­ tava um papel secundário. O reforço do Poder Executivo é.3 0 Estado 67 de efetivação de uma sociedade estandardizada. sob o acicate de um poder irrestrito. isolado dos demais povos. a democracia passou a ser muito mais atraente quando adjetivada dc social. O caráter essencialmente técnico de muitas decisões e a inconveniência do debate público. órgão capaz de decisões mais rápidas. bem como de Locke e. que se batia tenazmen­ te pela unidade c unicidade do poder estatal. é claro. numa comunidade em que o liberalismo econômico. dava aos chefes de indústria o poder real. O crítico mais mordaz do princípio da tripartição dc poderes. Os Estados em desenvolvimento. mais do que os outros. tornou-se mais atual do que nunca. como a criação e a gerência de serviços assistenciais. podia dar-se ao luxo de cometer seus erros ao abrigo de suas riquezas. baluarte na luta contra a concentração do poder num órgão apenas. na qual todos vivessem e pensas­ sem da mesma forma. preeminência notável. hoje mais . conduziram os parlamentos ao dilema de paralisar sua atividade ou delegar pode­ res. de sua competência. sendo acolhida. foi colocada em questão no Estado contemporâneo. Durante anos o talento de Roosevelt ocultou um mal que. pertinente a certos assuntos. em busca do bem-estar social. passou a ter. foram substancialmente ampliadas. êmulo do executivo das empresas privadas. A própria doutrina da tripartição dc Poderes. então. Tal doutrina. o Estado iniciou a sua atividade interveniente na vida econômica dos indivíduos. outras. definitivamente sistematizada por Montesquieu. Todos os governos procuram adaptar-se às novas circunstâncias sociais. dos quais não necessitava intensamente. Mesmo nos Estados Unidos da América. Como acentua Silveira Neto. Novas tarefas ingressaram em sua esfera de ação. Percebeu-se que o Estado deve. hoje. hoje. O Executivo. como acentua Duverger. É inegável que o valor igualdade atrai. Fruto disso é a delegação legislativa. o mundo nor­ te-americano. muito mais do que o valor liber­ dade. universal. esta última alternativa. em razão de sua própria estrutura. como bem frisa Ferreira Filho. começa a substituir a figura do estadista convencional. hoje freqüentíssima e inevitável. na ânsia dc correção dos desajustes sociais. ás ocultas ou ãs escancaras. sofreu um abalo mui­ to grande com o desenvolvimento da tecnologia. adverte Manoel Gonçalves Ferreira Filho. com sua morte. A concepção secularmente arraigada do elemento político tor­ na-se menos importante que o elemento econômico. sentiram os reflexos dos novos tempos. Por outro lado. oriunda dc Aristóteles e de Cícero.

E regime muito mais de conteúdo que de forma. Em tal diapasâo. à liberdade agregou-se a igualdade. O governo democrático. de maneira a evitar ou resolver os seus conflitos e introduzir no jogo das competições in­ dividuais o pensamento dos interesses da Nação. 135 a 155.11. Logo após a Primeira Grande Guerra. que dispunha sobre a ordem econômica nos arts. o art. intervir. se­ guida pela Constituição de 10. A todos é garantido o direito de subsistir mediante o seu trabalho honesto. a liberdade continua a ser valor transcendente do ideal democrático. constitui um bem que é dever do Estado proteger. as profundas alterações ocorridas nas estrutu­ ras sociais motivaram a revisão do conceito de democracia e de representação. Em oposição ao cidadão abstrato. e este. com ou sem vontade. O trabalho é um dever social. A Constituição mexicana de 1917 e a Constituição de Weimar em 1919 pre­ viram direitos sociais. 135. 136. também sob o título “Da Ordem Econômica e Social”. o operário. sur­ ge o homem concreto. como meio de subsistência do in­ divíduo. O trabalho intelectual. A intervenção do Estado no domínio econômico só se legitima para suprir as deficiências da iniciativa individual e coordenar os fatores da produção. dc outro. no poder de criação. De um lado. além de definir e aplicar uma política exterior e manter um exército formidável. assegurando-lhe condições favoráveis c meios dc defesa. nos tempos atuais.1937. o homem do cotidiano. Por sua vez. 115 e 143). exercido nos limites do bem público. tutelados nas mais avançadas Constituições da época. com o título “Da Ordem Econômica e Social” (arts. representados pelo Estado. assim: . surgem os direitos sociais. técnico e manual tem direito a proteção e solicitude especiais do Estado. o fator econômico motivou a hipertrofia do Estado moderno. 135: Art. Como acentua Salvetti Netto. Na iniciativa individual.1946 dispunha sobre o assunto nos arts. A Constituição Federal de 18. dc organização e de in­ venção do indivíduo. funda-se a riqueza c a pros­ peridade nacional. 136 dispunha o seguinte: Art. só atinge seus fins quando logra realizar o bem-estar da comunidade.09. na vida econômica e social. sendo a seguinte a redação do art. com seus problemas e sentimentos. livre por excelência. numa autolimitação do poder do Estado que evocava para si deveres públicos subjetivos. afirma Salvetti Netto. surgem em nossa Lei Magna de 1934 dispositivos referen­ tes à matéria.68 Teoria Geral do Estado do que nunca. 145 a 162.

c VI . [grifo nosso] A Constituição Federal vigente. 1. III .1988. de 17. Parágrafo único.os valores sociais do trabalho e da livre iniciativa. estabelecia. raça. 3o.direitos sociais .1967. IV .10. IV . com a Emenda Constitucional n. A ordem econômica deve ser organizada conforme os princípios da justiça social. com base nos seguintes princípios: I . A ordem econômica e social tem por fim realizar o desenvolvimento nacional e a justiça social. sem preconceitos de origem.garantir o desenvolvimento nacional.e 170). O trabalho e obrigação social.01. 145. cor. constitui-se em Estado Democrático de Di­ reito e tem como fundamentos: III . 160 o seguinte: Art. como se depreende de vários de seus dispositivos (arts. III . . I o. 160 a 174. formada pela união indissolúvel dos Estados e Municípios e do Distrito Federal.10.repressão ao abuso do poder econômico. III e IV. V . [grifo nosso] A Constituição brasileira de 24.função social da propriedade.valorização do trabalho como condição da dignidade humana. em seus arts. I o A República Federativa do Brasil. demonstra re­ dobrada preocupação com a questão social. II .3 0 Estado 69 Art.1969.a dignidade da pessoa humana. caracterizado pelo domínio dos mercados. Assim: Art. A todos ó assegurado trabalho que possibilite existência digna.promover o bem de todos.erradicar a pobreza e a marginalização e reduzir as desigualdades sociais e regionais. a respeito da ordem econômi­ ca e socialydispondo o art.harmonia e solidariedade entre as categorias sociais de produção.liberdade de iniciativa. a eliminação da concorrência c o aumento arbitrário dos lucros. 160. II . 3° Constituem objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil: I . conciliando a liberdade de iniciativa com a valorização do trabalho hu­ mano. ida­ de e quaisquer outras formas de discriminação. IV .construir uma sociedade livre. promulgada em 05. 6o . justa c solidária. Art. sexo.expansão das oportunidades dc emprego produtivo.

defesa do meio ambiente. III . A indevida repetição desse conceito terminou por desgastá-lo. o lazer. a previdência social. sofrendo o influxo de vários diplomas legais estrangeiros. a justiça foi defi­ nida por Ulpiano assim: “Justitia est constans et perpetua voluntas jus suum cuique tribuendr. a proteção à maternidade e à infância. por meio do plano econômico e social. conforme os ditames da justiça social.70 Teoria Geral do Estado Art. VIII .defesa do consumidor. Até a eclosão da Primeira Grande Guerra.redução das desigualdades regionais e sociais.tratamento favorecido para as empresas brasileiras de capital nacional de pequeno porte. fundada na valorização do trabalho humano e na livre iniciativa. na forma desta Constituição. a saúde. a segurança. Somente com a Constituição de Weimar de 1919 e a Constituição espanhola de 1931. parece defender o princípio de que a democracia não pode de­ senvolver-se. VII . porém um meio de se alcançar a justiça social. mesmo nesta. tem por fim assegurar a todos existência digna. 6° São direitos sociais a educação. 170. Que vem a ser justiça social? Eis uma expressão de difícil delimitação. cumpre fazer algumas observações sobre o conceito dc justiça. A ordem econômica. o trabalho.soberania nacional. o desenvolvimento nacional e a justiça social devem ser considerados. jus). dc justus (de acordo com o direito. VI . dessa forma.livre-concorrência. exceção feita à Constituição mexicana de 1917.função social da propriedade. a assistência aos desam­ parados.propriedade privada. as Constituições dos diversos Es­ tados só se preocuparam com a organização política. como a Constitui­ ção de Weimar e a Carta do Trabalho da Itália fascista. Por outro lado. o desenvolvimento nacional não deve ser um fim em si mesmo.busca do pleno emprego. Vale assinalar que. 170 da Constituição em vigor. preocupada com questão social. a menos que a organização econômica lhe seja propícia. V . II . Vimos como as Constituições brasileiras de 1934 e 1937 trataram do proble­ ma. trans­ . IV . IX . buscan­ do assegurar. A Constituição de 1967. houve uma tendência mais acentuada para acrescentar ao texto político fundamental os princípios destinados a reger o campo econômico-social. o desenvolvimen­ to e a segurança das próprias instituições políticas. Divul­ gada principalmente pela doutrina social da Igreja. meio e fim. ela é bastante di­ vergente. Do latim justitia. emendada em 1969. Art. respectivamente. embora situadas em pé de igualdade no caput do art. observados os seguintes princípios: I .

observada uma igualdade proporcional ou relativa. seria preciso sa­ ber. a assistência social ao ho­ mem da cidade ou do campo. ora se assentando na liberdade. a segurança e o abastecimento do Estado. Ora. A concepção de justiça varia com as ideologias predomi­ nantes em cada momento histórico. cabendo aos filósofos o papel de cérebro da sociedade. Platão compara o Estado a um ser humano e. o elegante princípio de Ulpiano não resolve o problema. inafastável. Como assevera J. visto que a distribuição deve ter como referencial o mérito de seus destinatários. modernamente. recompen­ sas. determinando a cada homem que se limitasse a fazer o que lhe fosse atribuído. respectivamente. embora possa voltar a sê-lo no futuro. cargos e funções. A justiça equiparadora leva em conta o intercâmbio dos bens. comutativa e judicial. com cada um de seus membros. sendo a justiça uma ideia de har­ monia e unidade. o valor predominante é a igual­ dade. concebia a justiça como um princípio que impunha de­ terminada estrutura social. por exemplo. A verdade é que. afirma que os homens são naturalmente de­ siguais. o princípio da justiça distributiva disciplina a fixação dos impostos. Flóscolo da Nóbrega. ora na igual­ dade. a representação abstrata do estado de pleno equilíbrio da vida social. Os ins­ . quando afirma o princípio da justiça distributiva. discípulo dc Platão. pois. observada uma igualdade proporcional. A justiça distributiva preconiza a distribuição das benesses sociais entre os membros da comu­ nidade. Não resta dúvida de que. tendo como pressuposto um valor. A justiça ju­ dicial é aquela dada pelo juiz. Princípio regulador das relações entre a comunidade e seus membros. Ora. se o ideal do justo nasceu com a própria humanidade. a ideia dc justiça varia constantemente: o que era justo para os antigos talvez não o seja para nós. a prestação de serviços e as relações entre todos. o princípio de justiça é invocado exatamente para dirimir a disputa entre partes que invocam aquilo que é seu. como a liberdade o foi por ocasião da Revolução Francesa. Em nosso entender. a revelação da essência desse ideal ainda não ocorreu. Platão. a aplicação de recursos da coletividade etc. pulmões e estômago da sociedade. a justiça é a ideia. delineando as premissas do moderno organicismo. de governo. ca­ beriam. porém? Para se poder dar a cada um o seu. desde logo. respectivamente. pre­ conizando a exata correspondência entre a coisa dada e a recebida. Qual o “seu” de cada um. os órgãos sociais devem restringir-se a suas atribuições impostas pela natureza. exigindo paridade entre o dano e a reparação. Aos militares e operários. o que pertence a cada um. As­ sim. Aristóteles. pelo qual a comunidade distribui. enfim. divide a justiça em espécies: distributiva. o cri­ me e a pena a este cominada. equiparadora. como o corpo humano. A justiça co­ municativa leva em conta as relações contratuais entre as pessoas. estabelecendo a equivalência entre o que se dá e o que se recebe como compensação. honras. os bens. Essa divisão de classes e funções deve ser rígida. pois deveria fornecer um critério para dizer qual “seu” devemos dar a cada um.3 0 Estado 71 formando-se na fórmula: “A justiça consiste em dar a cada um o que é seu”. será em Aristóteles que vamos encontrar o moderno sig­ nificado da justiça social.

Modernamente. A delegação legislativa é hoje prática correntia e inevitável “às ocultas ou às escancaras”. e aquelas que já eram de sua competência foram bastante ampliadas. e coisas desiguais aos desiguais. Para ele. o direito do trabalho e a previdência social. de decisões mais prontas. passou a ter. órgão capaz. o di­ reito fiscal. o intervencio­ nismo estatal foi ignorado durante cerca de 150 anos nos Estados Unidos. essa orientação de Aristóteles é de grande atualidade. se as pessoas são desiguais. cm seu Curso de direito constitucional Tal delegação. O Poder Executivo. Conforme acentua Duverger em sua obra Os regimes políticos. Devem-se dar coisas iguais aos iguais. a criação e a gerência de serviços assistenciais. Além disso. e a prudência implica a retidão moral da intenção. Quando o Welfare State substituiu o État gendarme. Quan­ . podia dar-se ao luxo de cometer todos os erros ao abrigo de suas riquezas e de seus oceanos. justo legal é aquilo que o bem co­ mum justifica e exige. isolada de um mundo do qual não tinha necessidade. Eis a doutrina da isonomia. invoca a proporcionalidade na distribuição das benesses sociais. foi imediatamente escolhida esta segunda alter­ nativa. da Constituição Federal. como acentuou M a­ noel Gonçalves Ferreira Filho. a lei não consiste simplesmente 110 mandado por aqueles que têm. fixada no art. 5°. Novas tarefas foram atribuídas ao Poder F^xecutivo. ou seja. por sua própria estrutura. não se deve dar-lhes coisas iguais. a função governamental.72 Teoria Geral do Estado trumentos de que se serve a justiça distributiva são o direito administrativo. o Estado passou a ter uma missão de intervencionismo na vida econômica individual. A justiça distributiva. vale lembrar. uma ascendência cada vez maior. repudiada unanimemente pelos ideólogos da liberal-democracia. 1. a seu encargo. conduziu os parlamentos ao dilema de paralisar a administração ou delegar poderes. Para Aristóteles. o problema do reforço do Poder Executivo tornou-se uma realidade cristalina. mas em requerer a prudência (Ética a Nicômaco. a virtude moral que tem por objetivo o bem comum é o que Aristóteles chama de “justiça legal”.180/21). preconizados por Montesquieu. Por exemplo. a América. a von­ tade deve estar inclinada à realização do bem moral. tendo em vista o papel cada vez mais dinâmico que o Estado vem desenvolvendo em face das novas c múltiplas reivindicações sociais. visto que estas devem ser distribuídas conforme o mérito dc seus destinatários. Para horror dos defensores intransigentes da tripartição e separação absolu­ ta dos poderes políticos. Como o caráter eminentemente técnico de muitas decisões que deve­ riam ser tomadas em tempo recorde. no pensamento aristotélico. aquilo que o positivismo denomina com tal fórmula. Por outro lado. em busca do bemestar social. porque o Estado representava um papel apenas secundário. X. I. então. bem como a inconveniência do debate públi­ co relativo a certas matérias. Aqui é importante notar que o “legalmente justo” não é. numa época em que o libera­ lismo econômico triunfante dava aos chefes de indústria o poder real. colocou em xeque o caráter ideológico da chamada indelegabilidade de poderes.

a agir. a justiça social. isto é. o século do individualismo. Na verdade. por exemplo. essencialmente. preconizada pelo liberalismo clássico de Emmanuel Kant. ser restringida. Não. ao manter sua segurança interna e externa. que é o Estado que transcende a mera legalidade. aliás.3 0 Estado 73 do. . c) plano social. na vida socioeconômica dos indivíduos. a iniciativa privada pode. o Senado se recusava a ratificar o Tratado de Versalhes. se todo Estado é Es­ tado de direito. O aspecto político torna-se ate menos importante que o econômico. a moder­ na concepção de bem comum exige a ação do Estado. Em princípio. meramente passiva. mero cão dc guarda da ordem pública. b) plano jurídico. A ideologia do gover­ nante supergerente. todo Estado é Estado de Direito. ao atender às necessidades assistenciais. em nome de uma função social da propriedade. e que pas­ sa a atuar. O Estado deve intervir. substituindo a do estadista tradicional. Como fruto do século XVIII. as condições sofreram uma mudança. seu direito. Do exposto. ao manter a legalidade pura e simplesmente. nem todo Estado de direito será Estado dc justiça. seria aquela de um gendarme (policial) na sarcástica imagem de Ferdinand Lassalle. acha-se. pois toda so­ ciedade tem. portanto. amparado no consenso social ou não. cuja função. às vezes. em muitos Estados. O Esta­ do que providencia o desenvolvimento não pode deixar dc ser preponderantemen­ te empreendedor. tão eficiente quanto o executivo da empresa particular. quando uma fá­ brica que causa poluição é obrigada a minorar este mal ou encerrar suas ativida­ des. em três planos bem definidos: a) plano político. no mundo moderno. o bem comum nada mais era do que a manutenção da ordem pública pelo Estado. que não pode. apenas a Europa suportava as conseqüências. alcançando o campo da iniciativa privada. em desenvolvimento. Para o exercício de suas funções sociais. que deve renunciar ao seu caráter passivo. Modernamente. O Estado. de forma ativa. peculiar a uma fase da História da humanidade. conclui-se que o conceito de bem comum foi bastante alterado com o surgimento de novas circunstâncias sociais. Não basta a garan­ tia dos direitos subjetivos para que o bem comum esteja alcançado. quando ocorre a vacinação compulsória ou quando surgem restrições à frui­ ção irrestrita da propriedade. ao construir o Estado de justiça. queiram ou não queiram os governantes. vão longe os tempos da mera tutela da ordem jurídica pelo Estado. continuar a ter guarida. Entretanto. John Locke e outros. dei­ xando de ser o Estado gendarme. seu ordenamento jurídico. que poderá ser justo. por exemplo. previdenciárias e edu­ cacionais da coletividade. deve transcender a mera legalidade e buscar.

4

A CONSTITUIÇÃO

1) CONCEITO E EVOLUÇÃO HISTÓRICA
Bibliografia: f e r r e i r a
Manoel Gonçalves. Curso de direito constitucional, 11.
salvetti n e t t o ,

f il h o

,

ed., São Paulo, Saraiva, 1982. ed., São Paulo, Saraiva, 1981.

Pedro. Curso de teoria do Estado, 4.
,

SOUZA,

José Pedro Galvão de. História do direito polí­
v ia m o n t e

tico brasileiro, São Paulo, Saraiva, 1962.

Carlos Sanchez. El poder consti-

tuyente, Buenos Aires, Bibliográfica Argentina, s.d.

A palavra constituição vem do latim cum + stituto , constitutio , de constituere (constituir, construir, edificar, formar, organizar). Tem como sinônimo o vocábu­ lo com pleição , que também contém a ideia de um todo form ado , estruturado , orde­ nado , isto é, dc unidade na m ultiplicidade . O corpo humano tem uma constituição , uma com pleição; não é ele, porventura, um organism o ? Não nos referimos, às ve­ zes, ao vocábulo constituição como a ordenação que preside a organização dos cor­ pos físicos? Assim, a palavra constituição apresenta sentidos análogos; ela pode ser toma­ da em um sentido am plo; e em outro, estrito. Tomada num sentido am plo ypode-se dizer que todos os seres apresentam uma constituição que os identifica. Tomada cm sentido estrito , a palavra constituição vai revelar o m odo pelo qual um a sociedade
se estrutura basicamente .

Aristóteles conceituava a politeia (Constituição) como a ordem da vida em comum naturalmente existente entre os homens de uma cidade ou de um territó­ rio ou, simplesmente, a ordenação dos poderes do Estado .

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4 A Constituição

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Em termos jurídico-políticos, a Constituição é a lei fundamental do Estado, lei que um povo impõe aos que o governam, para garantir-se contra o despotismo destes, conforme doutrina Romagnosi. No dizer dc Manoel Gonçalves Ferreira Filho, a constituição em sentido jurídi­ co pode ser entendida como o “conjunto de regras concernentes à forma do Esta­ do, à forma do governo, ao modo de aquisição c exercício do poder, ao estabelecimen­ to de seus órgãos, aos limites da sua ação” . Ou seja, a base fixada juridicamente da organização política. Segundo Pedro Salvetti Netto, a Constituição política estrutura a organização do Estado, disciplina o exercício do poder político e discrimina a competência para tal exercício, definindo-a como o “conjunto de normas que, estruturando a orga­ nização do Estado, estabelece relações de natureza política entre governantes e go­ vernados” ou, levando-se em conta o advento dos direitos sociais no mundo mo­ derno, o “conjunto de normas que, estruturando a organização do Estado, limita politicamente o exercício do poder e declara os direitos individuais e sociais e suas respectivas garantias” . “ Ubi societas ibi jus”, já dizia Aristóteles, ou seja, onde houver sociedade have­ rá normas dc conduta, haverá Constituição. Da mesma forma que todos os seres têm uma Constituição própria (causa formal), a fortiori a sociedade terá, por sua essência, uma forma de organização. Ser eminentemente social, o homem agrega-se a seus semelhantes organicamente, formando grupos sociais estruturados, sendo in­ concebível, mera abstração, a concepção mecânica da sociedade. Pois bem, as or­ ganizações sociais surgem, inicialmente, no seio da família, do clã, da tribo, até que cheguemos ao Estado, a mais perfeita forma de convivência social. As normas cons­ titutivas das sociedades primárias repousam nos hábitos sociais consagrados pelo tempo. Com o aparecimento do Estado, sociedade necessária dotada de poder so­ berano e voltada para o bem comum, surge a Constituição política. Conforme aduz Pedro Salvetti Netto, não há que se falar em Constituição política antes que o Es­ tado se organize, antes que nele se integrem seus elementos constituintes. Somente quando se verificam tais exigências é que aparece a Constituição política, justamen­ te para, estruturando a organização do Estado, disciplinar o exercício do poder po­ lítico e discriminar a competência para tal exercício. A tendência das sociedades de se estruturarem sob a égide de uma lei funda­ mental surge muito cedo na História humana. Inicialmente, ela tem caráter religio­ so, místico, revelando a vontade divina (mana) sob a forma de tabu, como acentua Viamonte. Tal norma fundamental tem natureza consuetudinária, costumeira, não se apresenta sob a forma escrita. Com maior razão, os gregos já distinguiam as normas jurídicas pela hierar­ quia, classificando-as como leis constitucionais e leis comuns, a exemplo dos roma­ nos, que, ao se referirem à elaboração daquelas, usavam a expressão rem publicam constituere. As leis de Licurgo, em Esparta, de Drácon e de Sólon, em Atenas, são

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Teoria Geral do Estado

verdadeiras Constituições, imperando sobre as demais normas. Conforme adverte Carlos Sanchez Viamonte, essas leis fundamentais de Licurgo e de Sólon constituem a expressão unificada da vontade nacional em cada caso, e com elas é criada a na­ ção como unidade política e jurídica e atribui-se forma à sociedade e ao governo. Nisso consiste a essência do ato constituinte. No dizer de Pedro Salvetti Netto, as primeiras Constituições sistematicamen­ te codificadas apareceram no século XVII, por influência, segundo alguns autores, das tradições puritanas, cujas normas eram efetivamente escritas e codificadas - os covernants -, destinadas à estruturação da igreja e do culto. Em razão disso, a In­ glaterra foi estruturada, durante o governo do puritano Oliver Cromwell (15991658), por uma Constituição escrita, única em sua História, o Instrument of Go­ vernment, calcada numa doutrina absolutista do poder político, fundada, aliás, no exacerbado puritanismo de Cromwell. Na História constitucional inglesa encontraremos, ainda na Idade Media, pac­ tos, forais e cartas de franquia. Conforme aduz Manoel Gonçalves Ferreira Filho, tais documentos firmaram a ideia de texto escrito destinado ao resguardo de direi­ tos individuais, que a Constituição iria englobar a seu tempo. Tais direitos, contu­ do, prossegue o autor citado, sempre se afirmaram imemoriais, fundados no tem­ po passado, enquanto eram particulares a homens determinados e não apanágio do homem, ou seja, do ser humano enquanto tal. Ainda segundo Manoel Gonçalves Ferreira Filho, próximos dos pactos, de cujo caráter participavam pela sanção real, mas já bem próximos da ideia setecentista de Constituição, situam-se os contratos de colonização, peculiares à História das colônias da América do Norte. Chegados ao Novo Mundo, os peregrinos, mor­ mente puritanos, imbuídos de igualitarismo, não encontrando na nova terra poder estabelecido, fixaram, por mútuo consenso, as regras por que haveriam de se go­ vernar. Os chefes de família firmam, a bordo do Mayflower; o célebre Compact (1620); desse modo, são estabelecidas as Fundamental Orders of Connecticut (1639), mais tarde confirmadas pelo rei Carlos II, que as incorporou à carta outorgada cm 1662. Transparece aí - finaliza - a ideia de estabelecimento e organização do gover­ no pelos próprios governados, que é outro dos pilares da ideia de Constituição. Profunda influência, além da tradição puritana, sobre o advento das Consti­ tuições escritas, vai exercer a doutrina do contrato social, preconizada por Jean-Jacques Rousseau. A cláusula pacta sunt servanda ou pacta quantumcumque nuda servanda sunt, isto é, os contratos devem ser cumpridos pelas partes, peculiar às relações jurídicas de caráter privado, contida na forma escrita e solene exigida, é transportada para o Direito Público, assegurando melhor direitos e deveres de go­ vernantes e governados. Como acentua Pedro Salvetti Netto, a Constituição escri­ ta revela a preocupação de asseverar, em seus artigos, compromissos recíprocos de governantes e súditos.

4 A Constituição

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Com efeito, adverte Manoel Gonçalves Ferreira Filho que somente no século XV III - o Século das Luzes, daí a expressão Iluminismo - é que se concretizou, na Europa, a ideia de que o homem pode estabelecer a organização do Estado, segun­ do sua vontade, numa Constituição. Antes do Iluminismo, ninguém ousara afirmar que o homem poderia modelar uma organização política segundo um ideal racio­ nalmente estabelecido. Daí reafirmar-se a importância dc Rousseau para a filoso­ fia iluminista e para a Revolução Francesa e, como conseqüência, para a consoli­ dação das Constituições escritas.

2) ESPÉCIES
Bibliografia:
Marcus Cláudio. Constituição da República Federativa do
b is p o

a c q u a v iv a

,

Brasil anotada, São Paulo, Global, 1987. brasileiro, São Paulo, Saraiva, 1981. do, 6. ed., São Paulo, Saraiva, 1984.

,

Luís. Curso de direito constitucional Pedro. Curso de teoria do Esta­

salvetti n e t t o ,

Quanto às espécies dc Constituições, sintetizando as várias classificações exis­ tentes, podemos apresentar o seguinte esquema:

1. Quanto à forma:

escritas

orgameas inorgânicas rígidas

2. Quanto à estabilidade ou I possibilidade de reforma i

sem.rng.das flexíveis

3. Quanto à origem

í

f editadas, também denominadas votadas outorgadas

Vejamos cada uma dessas espécies e subespécies. Inicialmente, as Constitui­

ções escritas. Constituições escritas orgânicas: são aquelas que se acham formalizadas ex­ pressamente em um documento escrito ou em vários. No primeiro caso, teremos as Constituições escritas orgânicas (um só documento); no segundo, as Constituições escritas inorgânicas (várias leis escritas, de natureza constitucional). A origem das Constituições escritas orgânicas encontra-se nos séculos XVII e XVIII, inicialmente por influência dos covenants, documentos escritos que forma­ lizavam os preceitos da religião puritana, na Inglaterra.

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Teoria Geral do Estado

Depois, já no século XV III, em razão da doutrina do contrato social desen­ volvida por Jean-Jacques Rousseau, que vai inspirar, na França, a ideia de que uma Constituição deve ser, necessariamente, escrita, para maior garantia dos direitos dos governados. As Constituições escritas orgânicas têm a natureza dc uma codificação, isto é, de um corpo único e sistematizado de normas. A Constituição escrita orgânica se acha contida, portanto, em uma única lei. As inorgânicas, porém, não têm forma de uma única lei; com efeito, uma Consti­ tuição escrita inorgânica é formada por várias leis, encontra-se espalhada por inú­ meros diplomas legais de natureza constitucional. Assim, enquanto a Constituição escrita orgânica tem a natureza de uma co­ dificação, a Constituição escrita inorgânica se assemelha muito mais a uma simples compilação, vale dizer, leis dispostas ordenadamente e atualizadas, sem que com isto cada uma dessas perca sua existência autônoma. Dessa ordem é a Constitui­ ção britânica, que muitos autores afirmam ser apenas costumeira. Existiria, entre­ tanto, uma Constituição formada apenas por costumes e nada mais? Isto seria im­ possível. A Constituição britânica se constitui em volumes e mais volumes dc leis e acórdãos. O que a caracteriza não é o fato de não ser escrita, mas sim de não estar sistematizada em um Código; não estar; enfim, codificada. Nem por isso se negue o grande papel desempenhado pelo costume nas Cons­ tituições. Diga-se de passagem que o costume pode influenciar a própria Constitui­ ção escrita orgânica, por exemplo, o caso célebre da reeleição, por uma terceira vez, dos presidentes da República norte-americana. Nos primeiros tempos da vigência da Constituição dos Estados Unidos, o presidente podia candidatar-se à reeleição quantas vezes quisesse. Bastou, contudo, que George Washington e, mais tarde, Thomas Jefferson se recusassem a disputar uma terceira reeleição para que seus su­ cessores não se sentissem encorajados a fazê-lo. Quando, três quartos de séculos mais tarde, Ulysses Grant postulou sua reeleição pela terceira vez, sua candidatu­ ra fracassou. Tempos depois, uma exceção: Theodoro Roosevelt seria reeleito vá­ rias vezes, em face das vicissitudes da situação internacional; entretanto, depois de Roosevelt, a Emenda X X II vetaria, expressamente, o terceiro mandato. Constituições rígidas, semirrígidas e flexíveis: quanto à estabilidade ou possi­ bilidade de reforma, as Constituições podem ser rígidas, semirrígidas e flexíveis. As flexíveis podem ser modificadas sem a exigência de um procedimento mais comple­ xo; assim, uma lei ordinária pode alterá-la; não é preciso um procedimento legis­ lativo mais trabalhoso. Exemplos: as Constituições da Noruega, da França e a Cons­ tituição do antigo Reino da Itália, chamada Estatuto Albertino. Semirrígidas são aquelas que, em parte, podem ser alteradas mediante um pro­ cedimento comum, ordinário, e, em outros artigos, somente por meio de um proce­ dimento mais dificultoso. Exemplo: a Constituição do Império do Brasil, de 1824.

4 A Constituição

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Finalmente, as Constituições rígidas, assim denominadas porque só podem ser alteradas por intermédio dc um rito legislativo próprio, destinado a dificultar os abusos reformistas. Exemplos: as Constituições dos EUA, da Austrália, da D i­ namarca, da Suíça e do Brasil em vigor. Com efeito, a nossa Constituição só pode ser alterada ou corrigida por via dc emenda (art. 60), sendo que este dispositivo exige seja a proposta firmada por um terço, no mínimo, dos membros da Câmara dos Deputados ou do Senado Federal (art. 60, I), pelo Presidente da República e por mais da metade das Assembléias Legislativas das unidades da Federação, ma­ nifestando-se, cada uma delas, pela maioria relativa de seus membros. Ademais, o § 4° introduz uma cláusula pétrea no tocante a determinados assuntos, cuja disci­ plina jurídica não pode ser, em qualquer hipótese, modificada. Por exemplo, os dis­ positivos do art. 5° sobre direitos e garantias individuais (art. 60, § 4°, IV). Importante notar que a facilidade ou a frequência com que uma Constituição pode ser alterada não depende, apenas, do disposto na lei, mas também de fatores políticos, por exemplo, a predominância desta ou daquela ideologia num dado mo­ mento histórico. Assim, a Constituição suíça, rígida, foi modificada muito mais fre­ quentemente do que a Constituição francesa da III República, cuja alteração de­ pendia apenas de uma sessão conjunta do Parlamento. Ademais, o conceito de Constituição escrita não se confunde com o conceito de Constituição rígida, pois o Estatuto Albertino (Constituição do antigo Reino da Itália), embora escrito, era, como vimos, modificável por via de lei ordinária, por­ tanto, flexível. Constituições outorgadas e Constituições editadas ou votadas: quanto à ori­ gem, as Constituições podem ser outorgadas e editadas, conhecidas estas últimas também como votadas. As outorgadas são impostas à nação pelo próprio agente do poder constituinte originário, sendo, posteriormente, submetidas a referendo popular, pois o povo é, em última análise, o titular do poder político. Exemplos: as Constituições brasileiras de 1824,1891,1937 e 1967. Quanto às Constituições editadas (votadas), são discutidas pelo próprio povo, diretamente ou mediante a eleição de uma assembleia constituinte, formada por re­ presentantes da nação. Em nome desta, a assembleia irá elaborar, com total inde­ pendência, uma nova Constituição. Se não houver independência da constituinte, não se pode falar em Constituição editada. Por exemplo, quando D. Pedro I enviou, logo após a Independência, uma recomendação à Assembleia Constituinte incumbi­ da de elaborar a nova Constituição do Império, Assembleia depois desfeita, exigiu que a nova Lei Magna deveria conservar a dinastia governante e a religião católi­ ca apostólica romana na qualidade de crença oficial do Estado, tolhendo, portan­ to, a liberdade da assembleia, que, por ser constituinte, deveria estar investida de um poder incondicionado.

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Teoria Geral do Estado

3) CONTEÚDO POLÍTICO DAS CONSTITUIÇÕES
Bibliografia:
Ferdinand. Que é uma Constituição?, São Paulo, Edições e Pu­
m arx

lassalle,

blicações Brasil, 1933.

,

Karl e e n g e l s , Friedrich. O manifesto do partido comu­
salvetti n e t t o ,

nista, 6. ed., São Paulo, Global, 1986. tado, 4. ed., São Paulo, Saraiva, 1981.

Pedro. Curso de teoria do Es­

Uma Constituição não é apenas a mais política, como também a mais pole­ mica das leis. Fundamento da ordem jurídica, dela derivam, por conseqüência, to­ das as demais leis. Por isso, já dizia Ferdinand Lassalle, que a alteração das leis or­ dinárias não desperta, via de regra, a atenção da sociedade, ao passo que a reforma ou a substituição de uma Constituição por outra acarretam comoção social. Daí a constatação evidente de que uma Constituição não é apenas um documento for­ mal, pois que se reveste de um conteúdo ideológico, que espelha ou deve espelhar os fatores de ordem política e econômica que prevalecem no momento de sua ela­ boração. Tal conteúdo varia, portanto, na medida em que mudam as circunstân­ cias históricas. Como acentua Salvetti Netto, a uma Constituição de caráter liberal-democrático, vicejante à época do apogeu do liberalismo político e econômico, jamais ocor­ reria declarar os direitos sociais ou disciplinar as relações entre o capital e o traba­ lho, hoje as grandes preocupações das Constituições em vigor. Assim, uma Constituição, para ser bem entendida, deve ser analisada sob dois pontos de vista: a) como ordenamento jurídico estruturador do Estado; b)como objeto das ideologias que, predominantes num dado momento histó­ rico, são recolhidas pelo legislador constituinte. Pelo menos nos primórdios do movimento conhecido como constitucionalismo, isto é, a aceitação unânime da Constituição como documento escrito, esta cui­ dava apenas da estruturação política do Estado, vale dizer, da forma de Estado, da forma de governo e do regime de governo. No Brasil, por exemplo, a forma de na­ tureza monárquica sucede a dc natureza republicana. Uma Constituição elaborada em disfunção com os valores sociais predomi­ nantes num dado momento nada mais seria que um corpo sem alma, mera folha

de papel. Qualquer Constituição, afirma Lassalle, deve representar a soma dos fatores reais do poder existentes na sociedade. Os fatores reais do poder são essa força ati­ va e eficaz que informa todas as leis e instituições jurídicas da sociedade, determi­ nando que não possam ser, em substância, a não ser tal como elas são.

mas transmutam-se em direito. qualquer Estado é. são transformados em uma folha de papel. Es­ tado e Direito são o produto da divisão da sociedade em classes antagônicas e cons­ tituem um instrumento nas mãos da classe dominante. primariamente. pura e simplesmente. que garan­ te seus interesses de classe. e não no pla­ no do dever ser. a menos que venham a ser a expressão fiel dos fatores reais do poder. 35. assim como esta não foi criada por todo o povo. a organização política da classe dominante. No surgimento dos EUA. A exemplo da concepção de Lassalle. enfim. Na concepção marxista. a Constituição é um produto das relações de produção e visa assegurar os interesses da classe dominante. Em seus Comentários à Constituição Federal brasileira. no sul. mas de poder.4 A Constituição 81 Lassalle é o típico representante da corrente doutrinária denominada socia­ lismo constitucional. Para ele. formada pela soma dos fatores reais e efetivos que imperam na sociedade. Foi obra de um grupo compacto. este documento. pro­ blemas de direito. na verdade. Esta folha de papel. também a concepção marxista de Cons­ tituição é sociológica. representando a norma suprema da organização estatal. e a escrita. como sustentaram. os que. Os problemas constitucionais. Em posição antagônica ao sociologismo constitucional de Lassalle e Marx sur­ ge o normativismo metodológico de Flans Kelsen. cm instituições jurídicas. não são. p. a verdadeira Constituição é a real e efetiva. há. A doutrina dos fatores reais do poder foi tacitamente comprovada por várias obras de conhecidos autores. estribado numa concepção me­ . recebendo expressão escrita: a partir de então já não são mais simples fa­ tores reais do poder. Ruy Bar­ bosa afirmava que “as constituições são conseqüências da irreversível evolução eco­ nômica do mundo”. v. Para o marxismo. duas Constituições num Estado: a real e efe­ tiva. 1. Acusado de professar uma doutrina que afirmava o predomínio do poder sobre o direito. observados certos procedimentos. aquela que tem suas raí­ zes nos fatores reais de poder. Lassalle defendeu-se afirmando que sua teoria era desenvolvida 110 plano do que real e efetivamente é. contra a lei e será castiga­ do. desejavam anulá-la. só será durável se corresponder à constituição real. como afirmam os juristas. a maior parte dos membros da Convenção de Fila­ délfia reconhecia que a propriedade tinha direito especial na Constituição. Para o marxismo. e tampouco pelos Estados. Estado e Direito são meras superestruturas que se sustentam sobre as relações de produção da sociedade dividida em classes. Beard e Harold Laski. mero documento ou folha de papel. ao passo que o Direito representa a vontade desta classe. as Constituições escritas não têm valor nem são duráveis. os fatores reais do poder constituem-se fatores jurí­ dicos quando. e quem atentar contra eles atentará. como Charles A. por longos tempos. determinada pelas condições da existência material. antes de mais nada. afirma Lassalle. cujos interesses não reconheciam fron­ teiras estaduais e que eram realmente de âmbito nacional. Segundo Lassalle.

f e r r e ir a f il h o Manoel Gonçalves. quando houve substituição dos governantes. Como negar. da forma de governo (de monárqui­ ca para republicana) e do regime de governo (de parlamentarista para presidencia­ lista). São Paulo. a ordem jurídica vigente. e sim ao so­ ciólogo e ao filósofo. in Dicionário de ciências so­ ciais. o Direito deve ser concebido estritamente como direito positivo. embora a violência psicológica (vis compulsiva) seja inafastável nos movimentos de fato. o conceito de revolução política. 4) REVOLUÇÃO. . erõs. Embora Kelsen admita que na base do Direito existem dados sociais. O termo revolução denomina a mudança brusca e radical de convicções so­ ciais. Lisboa. bem como da forma de Estado (de unitária para federal). por inteiro. sem nenhuma pretensão a fundamentações sociológicas. violenta ou não. ele afirma que o estudo de tais fenômenos não compete ao jurista. 1980. soi disant. que a ela. em nome de uma nova ideologia. 1986. bem como os próprios governantes. Diccionario de ciência política. “Revolução”. Vilfredo. sexual. J. M adrid. das instituições e dos governantes. Já se vê que. na revolução política tudo é subvertido: os governantes são apeados do poder. ju­ rídica. c que também o Direito é inspirado por teorias e princípios filosó­ ficos. Para Kelsen a norma constitucional é norma pu­ ra. econômica. o emprego efetivo da violência material (vis ma­ terialis) ou coerção nem sempre é necessário. “Golpe de Estado”. re . Como exemplo dc revolução não violenta podemos citar a Revolução Re­ publicana do Brasil (1889). 1981. uma realidade social comple­ xa que o explica. Coimbra Editora. GOLPE DE ESTADO E INSURREIÇÃO Bibliografia: Marcello. artística e até. substituin­ do-a por outra. o poder revolucionário a uma Assembleia Constituinte? Sem o emprego da força. Direito constitucional comparado. Milano. 1972. aponta três correntes moder­ . S. g õ r l it z Bushatsky/Edusp. a Revolução Francesa (1789) e a socialista russa (1917). Alianza.82 Teoria Geral do Estado ramente jurídica da Constituição. vo l . entretanto. 1986. pode esta Assembleia subverter.Fundação de Assistência ao Estudante. como exemplos tí­ picos de revoluções violentas. evidentemente. Hugo. Trattato di sociologia generale. Esta pode ser definida como a mudança repentina. políticas ou filosóficas. J. Tais convicções podem ter a mais variada natureza: política. pareto. A teoria pura do Direito busca justamente expurgar da ciência jurídica toda classe de juízo de valor moral ou político. Axel. Fundação Getúlio Vargas/MEC . Manual de ciência política e direito constitucional. in Dicionário de ciências sociais.Fundação de Assistência ao Estudante. Interessa-nos. Com efeito. e as leis que haviam consagrado são substituídas. Apontam-se. social ou filosófico. na revolução. em verbete intitulado “Revolução”. Erõs. soberana. Edizioni di Comunim o li n a tà. Fundação Getúlio Vargas/MEC . devem cur­ var-se. caetano. S.

diz Pareto. uma revolução não passa da substituição de um déspota por ou­ tro. afirmando que as re­ voluções constituem etapas do progresso inevitável da Humanidade. a revolução surge. Para os conservadores. que não encontra mais solução 110 modo de produção tradicional. necessariamente. da confrontação entre classes sociais. mais preocupados com o incentivo à sublevação das massas contra os déspotas. a conservadora e a positivista ou científica. é sempre uma mino­ ria que governa e que sabe dar a expressão que deseja à vontade popular. teocrática ou monarquista. mesmo porque as classes possuidoras dos meios de produção estão. Para ele. sem qualquer conotação ideológica. Isto só pode levar a uma solução revolucionária. e as forças de produção. como Proudhon. surgem movimentos tendentes a estabelecer uma nova ordem. tal contradição chega. essencialmente dinâmicas. Para os anarquistas. No dizer de Pareto. então. a tensão social. Quando a elite dirigente se torna esclerosada e corrompida. acarretando o congelamento do desen­ volvimento social e. po­ rém. tradicionalista. a somatória dos pequenos benefícios que cada movimento revolu­ cionário irá incorporar às conquistas sociais acarretará. como resultado da con­ tradição entre as possibilidades de trabalho. estes. que ele considera não científica. de forma inevitável. rumo ao igualitarismo. a teoria da revolução deflagrada em nome dos direitos naturais. Tais fatores são objetivos. Baku­ nin e Kropotkin. . felizmente. as revoluções são meras explorações dos sentimentos populares. a um ponto crítico. A concepção progressista pontificou no século X IX . Ora. haverá. e suas concepções têm natureza feudal. Fi­ nalmente. o termo revolução apresenta um matiz pura­ mente descritivo. toda elite dirigente. A corrente conservadora mostra-se uma reação à Revolução Francesa. o Estado é dinamizado por dois setores sociais. Com efeito. Isto é inelutável. todas as revoluções são genuínas. con­ gregando homens de esquerda e liberais-democratas. a vitória da igualdade no mundo. inevitavelmente. por conseqüência. uma parcela de subjetividade. mostrando mais preocupação com a liberdade individual. na concepção positivista. uma elite que governa e ou­ tra que é governada. mostrando-se incontroláveis e destrutivas. uma confron­ tação entre o ordenamento social estabelecido. Com ou sem sufrágio universal. na revolução. precisamente. vale dizer. estático. A conjunção de todos estes fatores acarreta a re­ volução. desde que se possa aferir que elas sejam apoiadas por uma camada considerável da coletividade. conhecido sociólogo ítalo-francês que elaborou um ma­ gistral tratado de sociologia. inte­ ressadas na manutenção do status quo. em todas as épocas e lugares. manifestações de regressão à mentalidade primitiva. segundo Lenin. Aqueles. a atividade dos grupos sociais e dos partidos.4 A Constituição 83 nas do estudo da revolução: a progressista ou evolucionária. Marx nega. que vêm a ser. Temos. Para esta corrente. as ferramentas correspondentes (for­ ças de produção) e as relações de fortuna e trabalho (relações de produção). veementemente. Curiosas se mostram as doutrinas de Karl Marx e Vilfredo Pareto sobre a re­ volução. Contudo.

A insurreição pode não alcançar as instituições. É chegado. É a massa. a usurpação. Assim. com o fito de mu­ dar o regime político. ate. pois as primeiras ações e decisões do grupo que . na revolução ou na insurreição a principal finalidade é substituí-los. então. a agita­ ção política e a intranqüilidade social. o mo­ mento propício ao surgimento de uma nova elite dirigente. como exemplo típico de golpe de Estado. Seja como for. que. o caudilho antecipou-se a qualquer tentativa deste naipe. as leis e instituições e o pessoal gover­ nante. a qual instaurou o chamado Estado Novo. enfim. mas a revolução atinge. pressionado pelos litígios partidários. a ideologia dominante. quase sempre. por Getúlio Vargas. cheia de ideais. Desta forma. no mais das vezes. casta e portadora de novos ideais.por exemplo. a outorga da Constituição de 1937. entretanto. apoiadas ou não em outras forças sociais.. contra os governantes. os governantes de leões fazem-se raposas. e reforçou bruscamente o seu poder. põe abaixo o ordenamento corrompido. das prerrogativas do Legislativo e.. Podemos citar. imposta pelos próprios governantes. a fim de substi­ tuí-los ou lhes impor orientação política diversa. com a finalidade de permanecerem no exercício do poder. a influência de fatores negativos. invariavelmente. O golpista ou golpistas contam. o abrandamento dos costumes. por definição. Constitui. ao estahlishment. do Ju­ diciário. se pelo golpe de Estado os governantes pretendem manter-se no poder e. pelo Poder Executivo. com o apoio ou não das Forças Armadas. já a par de sua própria debilidade. pode ficar difícil para o analista estabelecer. tudo isso faz com que a elite dirigente. desde logo. traz consigo o vigor e a coragem dos leões. e antecipando-se a uma possível tentativa insurrecional por parte de uma pequena facção das For­ ças Armadas. consoante advertência de Hugo Revol Molina. pela manifestação violenta de for­ ças sociais estranhas à organização do Estado. a ascendência de demagogos e pacifistas. rebelião. alteram as instituições neste sentido. vem a ser a substituição de alguns ou de todos os pressupostos da ordem jurídica vigente. A revolução caracteriza-se. Ao perceber que seu po­ der começava a esmaecer. pois visa apenas à derrubada dos governantes . alterando a estrutura social. impondo à Nação uma carta constitucional de caráter autoritário. no Brasil. a própria ordem constitucional.84 Teoria Geral do Estado inicialmente jovem e vigorosa. com o apoio dc uma par­ cela considerável das Forças Armadas para o reforço de seu poder. revolta 011 pronunciamento (do espanhol pronunciamiento) são as várias denominações que toma a manifestação das Forças Armadas. uma classe ou partido. a insurrei­ ção de março de 1964 -. substituindo a ideologia dominante e criando um novo ordenamento jurídico. realizando obra tão interessante como a destruição de anim ais daninhos. Quanto ao golpe de Estado. comece a confiar mais na astúcia do que na força. Insurreição. quando um movimento político repentino é um golpe de Estado ou uma revolução. desde logo. como a corrupção econômica. por isso.

che­ gam ao poder. a medidas destinadas a consolidar a posição alcançada. ocorridas no século X X . resumiu-se a meros golpes de Es­ tado. a análise sociológico-política encarada sob uma perspectiva histórica permitiu mostrar que. . Dessa forma. a maioria das ações desse tipo. A diferença entre golpe dc Estado e revolução somente pode ser es­ tabelecida ex post facto. embora os grupos que. via de regra. na América Latina. salvo raras exceções. mediante uma ação apoiada na violência ou na ameaça desta.4 A Constituição 85 toma o poder político resumem-se. não obstante as manifestações verbais que as acompanharam. qualifi­ quem sua posterior ação governamental como revolução.

c) inexiste fundamento jurídico unitário entre os Estados par­ ticipantes da união. Rio de Janeiro. as leis de sucessão monárquica ensejam a coincidência de um só príncipe ocupar dois tronos. decorrendo de mera coincidência na or­ dem sucessória dinástica. Pedro. 86 . fortuita. Saraiva. Forense. 1986. Inglaterra e Hanovcr (1714-1837). em que. hoje. os quais mantêm incólume sua soberania. ed. Ciência política. A união pessoal.. Curso de teoria do Estado. constitui. SALVETTI n e t t o . Rio de Janeiro. pois cessa o vínculo com a extinção da dinastia imperante. A união pessoal: a) é casual. São Paulo. ed. aci­ dental e involuntariamente. 2) UNIÃO REAL Bibliografia: b o n a v i d e s . salvetti n e t t o . em face do declínio da forma monárquica de governo. Forense.FORMAS DE ESTADO 1) UNIÃO PESSOAL Bibliografia: Paulo. mera figura histó­ rica. b o n a v id e s .. 1986. Paulo. Curso de teoria do Estado. A união pessoal de Estados vem a ser uma espécie de federação. Pedro. São Paulo. Constituem exemplos históricos de uniões pessoais: Espanha e Portugal (1580-1640). 1986. Alemanha e Espanha (1519-1556). 1986. b) é transitória. sendo a União des­ tituída de personalidade jurídica internacional. tornando-se o titular comum do poder em F^stados que preservam sua soberania. 6. Ciência política. 6. Saraiva. assim como a união real.

m a Mariano. 6. No di­ zer de Jorge Xifra Heras. 1986. portanto. - Sahid. e adota-se a mesma política ex­ terna. como rei da Hungria. Pedro. as formas compostas de Estado correspondem às federações. a confederação de Estados e o Estado federal. 1986. da união de Estados em torno de um objetivo comum (res). Sugestões Literárias. b o n a v id e s . sem divisões internas que não sejam simplesmente de ordem administrativa. Paulo. Essa forma de Estado mostra-se politicamente cen­ tralizada.. Im­ pério Austro-Hungaro (1867-1918). São Paulo. Forense. Las constituciones europeas. consciente e voluntária. O poder central irradia-se por todo o território. 13. Constituem exemplos de uniões reais: Suécia c Noruega (1815-1905). c) a soberania de cada Estado permanece intacta. 1982. embora dotada de descentralização meramente administrativa. admitindo administração comum e economia societária. Ciência política. Preleciona Sahid M aluf que o Estado unitário é aquele que apresenta uma or­ ganização política singular. ras. Madrid. do qual trataremos a se­ guir. luf. a união real. h) as relações entre dois Estados da união real são relações in­ ternacionais. g) o governante e seus ministros não atuam como representantes de cada Es­ tado participante.. A for­ ma simples de Estado é representada pelo Estado unitário. Dinamarca e Islândia (de 1815 até a deflagração da Segunda Grande Guerra). e) sua duração pode ser permanente ou transitória. na quali­ dade dc Imperador da Áustria. Jorge. um Estado chama-se unitário quando suas instituições de . pela unicidade do poder. São Paulo. 1979. por via de regra. v. Este monarca chamava-se Carlos I. Curso de derecbo constitucional Barcelona. mas a uma coisa (res)yum objetivo concreto. quando a Áustria e a Hungria se agregaram sob a autoridade de Francisco José. necessaria­ mente. A união real: a) não cria um novo Estado.5 Formas de Estado 87 A união real de Estados é uma espécie de federação consistente na celebração. Nacional. Bosch. 2. cd. As formas de Estado podem ser resumidas a duas: simples e compostas. f) criam-se exército e marinha comuns. Curso de teoria do Estado. com um governo único de plena jurisdição nacional. que são: a união pessoal. limitando-se a formar uma união de Estados. 1962. Vejamos o Estado unitário. Carac­ teriza-se o Estado unitário. podendo dissolver-se por acordo entre os Estados participantes. d) exclui administração uniforme e nacionalidade pró­ pria. Saraiva. Rio de Janeiro. x if r a saliie - V E T O NETTO. Teoria geral do Estado. monarca. cd. v. Cumpre ressaltar que o adjetivo real atribuído à união não se refere. sem limitações de natureza política. b) abrange. pela caducidade dos tratados ou pelo desaparecimento da dinastia governante. 2. 3) ESTADO UNITÁRIO Bibliografia: daranas. a rei. e Carlos IV. Estados contíguos.

que marcou as atribuições dos presiden­ tes das províncias. ao passo que nesta os órgãos descentralizados atuam em nome da entidade secundária da qual se originam. Análoga é a distin­ ção. não é tarefa das mais fá­ ceis caracterizar este Estado como unitário. a ponto de algumas regiões dc Estados unitários demonstrarem maior unidade do que certos Estados federais. O Estado. dotada de leis próprias. chamada Ato Adicional. complementada pela Lei de 3 de outubro do mesmo ano. A forma política unitária corresponde a uma exigência natural. ser a Itália uma república una e indivisível.88 Teoria Geral do Estado governo constituem um único centro de impulsão política. porém. tanto no que fazer quanto no como fazer. 5°. que go­ zam de relativa autonomia quanto aos serviços dc seu interesse. unidade lingüística e até racial. Fenômeno intimamente ligado ao Estado unitário. entre Estado unitário descentralizado e Estado federal aponta­ da por Paulo Bonavides: naquele. no caso do Estado federal. os agentes das entidades administrativas são meros núncios das decisões do poder central. que enseja. temos a dependência dos órgãos descentraliza­ dos quanto ao Estado unitário. mediante a Lei de 12 de agosto. Assim. quando. Na centralização concentrada. ao mesmo regime constitu­ cional e a uma ordem jurídica comum. Quanto ao Brasil. sem qualquer autonomia. ain­ da aqui. portanto. entre centrali­ zação concentrada e centralização desconcentrada. sempre válida. to­ dos os cidadãos estão sujeitos a uma autoridade única. no art. não autônomo . embora persista a dependência hierárquica. observa-se que o Estado unitário desconcentrado divide-se em departamentos e comunas. permanentemente. Na centralização desconcentrada. no Estado unitário. como mera delegação do poder central. já se observa certo grau de competência atribuído aos agen­ tes periféricos do poder. tende à unidade. Se a centralização política c a des­ centralização administrativa são as características marcantes do Estado unitário. a doutrina. na Itália. No Estado unitário. porquanto. estruturada sob uma or­ dem e um objetivo social. confere às regiões a mais ampla autonomia político-administrativa (arts. porque naquela os agentes atuam em nome do próprio Estado. como sociedade necessária. a região é uma entidade orgânica dc caráter histórico. Por via de regra. a verdade é que a moderna doutrina já distingue. e que empolga. que permitiu a cada província eleger suas próprias assembleias legislativas. a independência desses mesmos órgãos. tudo. porém. embora a Constituição ita­ liana proclame. é delegado. Não se confundem. . 115 e 1 17). é o regionalismo. por outro lado. O poder. a própria confusão entre Estado unitário e Estado federal. por vezes. não como poder originário ou de auto-organização (self-government). até 1834. O problema surge quando se trata de estabelecer o grau ou intensidade desta unidade. promoveu-se alguma descentralização política. de modo que não passam de simples cumpridores dessas determinações. a referida centralização desconcentrada e a descentralização propriamente dita. de centralização concentrada. desde a promulgação da Constituição de 1824. somente durante o Império tivemos como forma de Estado a unitária.. neste. Com efeito.

1962. 6. Saraiva. e o Congresso. inicialmente unidas em confederação. 2.. Curso de dereebo constitucional Bar­ Revista dos Tribunais. proibia-se à Con­ federação impor tributos aos Estados confederados. 1986. heras. ed. salvetti n e t t o . Nacional. Bosch. . no clássico O federalista. Ciência política. São Paulo. v. Tal doutrina calou fundo na opinião pública. os memoráveis escritos de três jornalistas: Hamilton. reunida. . Sugestões Li­ Pedro. então. Iniciação à teoria do Estado. 2. Curso de direito constitucional 16. que consolidaram a doutrina do federalismo. 13. Sahid.. que esclarece a natureza e as vantagens do Estado federal. Não mais os treze Estados de logo após a Independência. e logo a Constituição terminou por ser ratificada pelos Estados. como assinala Pedro Salvetti Netto. reuniram-se os representantes dos Estados confederados para rever os Artigos de Confederação. Saraiva. Refulgem. 1982. São Paulo. na célebre Convenção da Filadélfia. no caso norte-americano. Forense. oportunamente. que resultou no aparecimento dos Estados Unidos da América do Norte. Manoel Gonçalves. Jorge. Por outro lado.. Rio dc Janeiro. fer­ Mariano. Para solucionar o impasse. levando George Washington a dizer: “A Confederação não passa de uma sombra sem substância. conforme estabelecido no documento chamado Artigos de Confederação. de 1777. souza . 1979. José Pedro Galvão de. As treze colônias vitoriosas sobre o domínio inglês. que exigiram fosse man­ tida a denominação Estado para cada uma das colônias integrantes do pacto fede­ rativo.. x i f r a celona. r e ir a f il iio b o n a v id e s . Curso de teoria do Estado. a partir de então o Estado era um só. posteriormente. 1987. Daí a tradicional epígrafe Estados Unidos da América.. Paulo. Como lembra. Esta forma de Estado constitui uma espécie do gênero federação. empenhada cm gravames financeiros para sustentar a frágil união. mostravam-se frágeis neste tipo de união.” acabaram por empregar o verbo no sin­ gular. Surgiu com a Revolução norte-americana do século XVIII. cd. em virtude das circunstâncias históricas. ed. construção permitida na língua inglesa graças ao artigo invariável: “ The Uni­ ted States /s. A situação mostrava-se insustentável. Os doutrinadores norte-americanos que inicialmente cos­ tumavam dizer: “ The United States are. terárias..ed.”. de modo que se exauriam os cofres daquela. pois. São Paulo. Teoria geral do Estado.. São Paulo. 1976.. maluf. o autor citado: o nome do Estado aplicado a uma entidade não soberana explica-se. mediante a Constituição de 1787. Era um Estado constituído por Estados que se haviam federalizado. v.5 Formas de Estado 89 4) ESTADO FEDERAL Bibliografia: daranas. 1986. Madison e Jay. Madrid. de um ór­ gão inútil” . Não assim no caso brasileiro. Como assinala José Pedro Galvão de Souza. Las constituciones europeas. 2.

p. art. Com efeito. e dos municípios (CF. embora dotadas de capacidade de auto-organização e de autoadministração. 23. as entidades interventoras não atuam em nome próprio. que a intervenção federal é uma exceção à re­ gra da não intervenção. o poder de se separar da União. o Brasil. Os Estados-Mcmbros passam a dispor de mera autonomia. arts. 25. vale dizer. Tem suas próprias competências (CF. da Constituição . 21. ao passo que no caso dos Estados Unidos partiu-se da unidade para chegar à unidade. tal foi o furor imitativo dos primeiros homens da República. sempre. arts. salvo a malograda e efêmera experiên­ cia das capitanias. composta por unida­ des que. o Estado federal não se confunde com a confederação. não são dotadas de soberania. Vale lembrar. Pois bem. representado pela União. autos = por si só + nomos = norma) e se sub­ mete ao poder soberano do Estado federal. entidades políticas dotadas de poder soberano. como se observa do art. Um Estado só havia sido. vale dizer. o direito de se separarem da União. incondicionado. § 1°). É célebre a Guerra da Secessão. O Estado-Membro ou Estado federado. art. arts. 21 c 22). 62) Fato curioso é que o Estado dc Nova Iorque somente ratificou a Constituição norte-americana após um ano da vigência desta. 1°. submeten­ do-se a uma Constituição que lhes proíbe o direito de secessão. e sim com vistas à integridade do próprio Estado federal como um todo. apesar de Estado federal. Tal po­ der chama-se autonomia (do grego. e destes nos municípios (CF. porque esta é formada por Estados propriamente ditos. mas. submetendo-se a uma Constituição Federal. Tanto no caso do Brasil como no da Argentina. A Argentina. cada qual dentro de seu campo de ação. seguida nesta atitude por outros Estados-Mcmbros. Quanto à União. 34. cm 1788. e 34). a par da competên­ cia dos Estados-Membros (CF. adota a denominação pro­ víncias para as unidades federadas. ainda aqui. V. quando a Carolina do Sul separou-se da União. 30). para usar a terminologia da própria Constituição. é a pessoa jurídica de direito público que representa o Esta­ do federal. deflagrada nos Estados Uni­ dos da América do Norte entre 1861 e 1865. aliás. isto é. com ressalva da competência comum (CF. é a unidade básica do Estado federal. o Estado federal é uma espécie de federação. chegou-se ao Estado federal partindo da unidade para a multiplicidade. A doutrina clássica é taxativa: os Estados federados não têm o direito de secessão.90 Teoria Geral do Estado quando se começou a chamar de Estados as antigas províncias do Império. art. caput. ao passo que no Estado federal os Estados-Membros renunciam ou são despojados de sua soberania. através dc uma confederação em seguida à qual surgiu o Estado federal. sem poder interferir na competência das demais entidades federadas. desde os primórdios da colonização. (Iniciação à teoria do Estado. em proveito do próprio Esta­ do federal. 35). sendo dotado do poder de auto-organizar-se e dc autoadministrar-se limitado pela Constituição Federal. como se percebe do texto do art.145 e 155) e da intervenção federal da União nos Estados-Membros (CF.

X IX . 25. 1°. 35). 35). art.1. 34. 155). 17° Aditamen­ to ao texto). livremente. de 15. sob pena de inconstitucionalidade. 3 4 . que. 25) sem a necessária autonomia financeira (art. 23). 2°: “As províncias do Brasil. Concluindo: no Estado federal brasileiro. . Seção 3a. arts. como se deduz. 155) e aos municípios (art. como vimos. 2o. mas em qualquer caso. A doutrina clássica é taxativa: os Estados federados não têm o direito de se­ cessão. estando submetido. como já foi visto. em vez de duas. 25.1889). 1°. ao Distrito Federal (art. ao estruturar o Estado federal socialista. 1. cujo art.1). 1°. a dos Estados federados e a dos municípios. e 34). 2 1 . à Constituição Federal. qualquer tentati­ va separatista será tolhida pela intervenção federal (art. vale dizer. pois de nada valeria a autonomia políti­ ca (art. ficam constituindo os Estados Unidos do Brasil”. sendo o próprio Estado Federal representado pela União. A forma federativa de Estado surge no Brasil com o advento da República (Decreto n. no qual cada Estado federado e o Distrito Federal contam com três senadores (art. Exceção ao princípio da indissolubilidade do Estado federal nos dava a extin­ ta Constituição soviética de 1977. parte final. I o. tam­ bém. X X e XXII). No caso específico do Brasil. o Estado federado é entidade integrante do Es­ tado federal (CF. caput. mediante o Senado Federal (CF. Em qualquer caso. 156). concedida esta. expressamente. caput. Qualquer tentativa de se­ paração ensejará a intervenção federal. o Estado federal brasileiro conta com a participação dos Estados fe­ derados na formação da vontade nacional. limitado pela Constituição Federal (arts. na expressão união indissolúvel nele constante. a intervenção é exceção. jamais regra.02. 46. porém. VIII. art. Se a União pode intervir no Estado federa­ do. que “cada república da União conserva o direi­ to de se separar. VII. admitia. reunidas pelo laço da federação. com ressalva. e o art. A exemplo da federação norte-americana (Constituição dos EUA.5 Formas de Estado 91 Federal. 72. da URSS”. de 24. I o e 2o. por sua vez.11.a República Federativa”. a intervenção é exceção. caput). este pode intervir no município (art. e 84. Tal orientação será definitiva­ mente confirmada com a primeira Constituição republicana. O Estado federado pode.1891. Tal po­ der de auto-organização chama-se autonomia. pes­ soa jurídica de direito público (arts. promovida pela União (art. como vimos. art. A Constituição Federal assegura a autonomia política e financeira dos Esta­ dos federados ao longo de vários artigos. dotado de poder de auto-organização (art. há três ordens de competências: a da União. da competência comum a todos (CF. o poder de se separar da União (art. I o estabelece: “ Fica proclamada proviso­ riamente e decretada como a forma de governo da nação brasileira . caput). não regra. ca­ put). Nenhuma dessas entidades federadas poderá invadir a competência das demais. intervir nos seus municípios (art. V) nos ca­ sos do art. 46). no art. 21. $ I o). art.

ou formarem novos Estados ou Territórios Federais. A par da autonomia política.92 Teoria Geral do Estado claramente. do teor dos arts. neste caso.as águas superficiais ou subterrâneas. A exemplo dos Es­ tados Unidos da América (Constituição dos Estados Unidos da América. no art. 46). Municípios ou terceiros. emergentes e em depósito. através de plebiscito. nas ilhas oceânicas c costeiras. as decorrentes dc obras da União. 34 e 35. . I o. a federação brasileira prevê a participação dos Estados federados na formação da vontade nacional. 155). assim dispõe o art. fluentes. Se­ ção 3a e 17° Aditamento ao texto). 18. § 3°. por intermédio do Senado Fe­ deral (art. autonomia financeira (art. ressalva­ das. por lei complementar. e do Congres­ so Nacional. na forma da lei. subdividir-se ou desmembrar-se para se anexarem a outros.as áreas. aos Estados federados. Quanto à criação de novos Estados federados. como bens dos Estados federados: I . art. excluídas aquelas sob do­ mínio da União. da Constituição: Os Estados podem incorporar-se entre si.as terras devolutas não compreendidas entre as da União. a Constituição confere. que estiverem no seu domínio. II . 26.as ilhas fluviais c lacustres não perten­ centes à União. mediante aprovação da população diretamente interessada. A Constituição Federal aponta. IV . III .

de nítida descentralização político-administrativa. se é descentralizado ou centrífu­ go. Madrid. Sistemas cie partidos y sistemas políticos.FORMAS DE GOVERNO 1) CLASSIFICAÇÕES ANTIGAS E MODERNAS 1. 1976. Buenos Aires.1) Platão (Arístocles) Bibliografia: Segundo V. v. Lisboa. A expressão form a de Estado indica a maior ou menor irradiação do po­ der político. form a de governo e regime de governo . Já a expressão form a de governo revela se o poder é exercido temporária ou vitaliciamente. Shelley (1792-1822): “Somos todos gre­ gos”. Plus Ultra. I. teremos o Estado federal. caracte­ rizado pela centralização político-adm inistrativa. trad. Platão. a M onarquia. Na série de classificações de formas de governo que ora iniciamos. as expressões Estado unitário e Estado federal indicam formas de Esta­ do . em cada form a de governo democrática desenvolve-se um relacionamento peculiar entre as funções executiva c legislativa. les. 1981. Inquérito. No primeiro caso. Quis este famoso literato enfatizar a importância da herança cultural helêni93 . Centro de Estúdios Constitucionales. v. Centro de Estúdios Constitucionar o b in Léon. Tal relaciona­ mento é chamado regime de governo. . dc modo que esta expressão afere qual ór­ gão exerce a função governamental. Se este é centralizado ou centrípeto. . no segundo. ocorre-nos a sugestiva tirada do poeta inglês Percy B. p l a t Ão l in a r e s q u in t a n a . temos o Estado unitário. teremos como forma de governo a República. La República. É imperioso distinguir entre form a de Estado. e Las leyes. I. Adolfo Casais Monteiro. Madrid. Ora. Em face disso.

fundado num determinismo inafastável. então. Em 404 a. forma que considera a melhor de todas.. outras formas. partem. Surge a timocracia quando indivíduos de condição social inferior enriquecem e tentam chegar ao poder pela astúcia. democracia (dc demos. A timocracia. forma em que os ricos são expulsos do poder. cujo verdadeiro nome era Arístocles (o apelido derivou do fato de este filósofo ter as espáduas largas. sendo o dinheiro. degenera em oligarquia.. conhecida como o parque do herói Academus. honra. a aceitar as ideias que expôs no Livro Quinto de sua obra D a república. em meio à qual se eleva­ va um ginásio.). viajando pelo Egito .). poucos. e kratos. numa seqüência inevitável. No livro D a república. que passam a exercer o poder oprimindo aqueles a quem deveriam proteção.e pela Mag­ na Grécia.. evocando o termo om oplata ). Em homenagem a Academus.C. pois a liberdade tornada licenciosa só pode levar à escravidão.do qual tornou-se grande conhecedor . pertencia a uma famí­ lia aristocrática.94 Teoria Geral do Estado ca. quando. tentou persuadir o tirano Denis. Incomodado. secunda­ do pela corrupção.C. pois além dos ricos são banidos os sábios. a escola platônica foi denominada Academia. entretanto. aos 82 anos dc idade. oligarquia (de oligoi. Platão morreu em 347 a. poder) ou autocracia militar. Tudo isso leva à tirania. que revela seu pensamento definitivo. quando concluía sua obra As leis.C. Tal situação insustentável vem abai­ xo quando se instala a democracia. literárias ou esportivas. nos arredores dc Ate­ nas. Dedica-se à filosofia. mesclando-se uma sã filosofia dc vida com a sede crescente de honras e bens materiais. gover­ no). Em 387 a. as Constituições políticas abundam e as boas leis são desprezadas. a aristocracia chega ao poder.C. . Platão fundou sua própria escola. uma mino­ ria abastada impõe sua arrogância a toda a sociedade. pelo sangue materno. a única chave para as portas da ascensão social e política. descrê da organização política tradicional de sua pátria. sendo. Platão.C. implantando-se a mais grosseira mediocridade. Denis o ex­ pulsou da cidade. com a tomada de Atenas por Lisandro. desiludido com a condena­ ção de Sócrates. começaremos este tópico com um panorama das ideias de Platão (429-347 a. poder) e tirania . também ocorrem graves disfunções sociais. A corrupção cam­ peia. Na timo­ cracia surge agudo conflito entre o bem e o mal. enaltecendo o valor dos filó­ sofos e criticando a frivolidade e a devassidão da corte. e kratos.C. às suas expensas. no que são impedidos pelos militares. discípulo de Sócrates (470-399 a. numa bela propriedade arborizada e regada por nascentes. Todavia. colocação à qual aderimos sem hesitar. povo. Por isso. melhores. por sua vez. e arche. Em Siracusa.) e mestre de Aristóteles (384-322 a. poder). o Antigo. com a conseqüente ascensão da massa. de modo que logo a desordem campeia irrefreada. parente do grande legislador Sólon. Da aristocracia (de aristoi. favorecendo a ascensão política de Platão. Platão idealiza um processo dinâmico de rodízio das formas de governo. considerados perigosos para a nova ordem. ex­ pressão que passou a designar as sociedades científicas. Assim: timocracia (de tim os. e kratos .

l in a r e s q u in t a n a Segundo V. que num dia em que faltou à aula. era natural da Macedônia. até. formulou sua célebre classificação das formas de governo. um equilíbrio de forças políticas antagônicas. Aristóteles teve oportunidade de visitar e estudar cerca de 150 Constituições de po­ vos diversos. The political thought of Plato and Aristotle. Cada uma dessas duas formas de governo só subsiste se faz concessões à outra: a monarquia à liberdade. con­ terrâneo de Filipe e do filho deste. mas aquele que mais se coadune com a praxe política. Aristóteles correspondeu por inteiro à expectativa do pai. pelo qual classificou tais formas em puras e impuras. . Aires. Era um típico aristocrata.d. numa combinação harmoniosa de princípios opos­ tos. e arche. não se configuram nem poder. E. Centro de Estúdios Constitucionales. fundadas em princípios opostos. Barcelona. 1947. Bologna. Assim. e a democracia à obe­ diência. teria dito: “Hoje a inteligência faltou!”. temos o governo de um apenas. e o critério moral. foi encarregado por Filipe da Macedônia de educar Alexandre. senhor de vasto império. Las luchas de clases en el mundo grie- go antiguo. porém igualmente le­ gítimos: a autoridade e a liberdade. fundamentalmente. com o qual classificou tais formas consoante o número de indivíduos que governam. New York. 1. conta-se. Então afirma existirem. nem liberdade excessivos. Buenos . Sistemas de partidos y sistemas políticos. fi­ lho de um médico abastado. . M. discípulo de Platão. Quanto ao número de pessoas a exercer o poder (critério numérico).C. graças às suas conquistas mi­ litares. Depois de estudar durante vinte anos com Platão. Alexandre Magno. que soube dar ao filho refinada formação intelectual. Aristóteles (384-322 a. que se tornaria. porque mais maduro. Reunindo este valioso material em obra notável. governo). ao observar os alunos presen­ tes e constatar a ausência de Aristóteles. Editorial Crítica. ao preconizar uma forma mis­ ta de governo. barker. sendo cognominado o Grande ou Alexandre Mag­ no. 1983. Platão se antecipa a muitas classificações posteriores.6 Formas de governo 95 Na obra As leis. adotando. Plus Ultra. e La política (passi scelti e commentati da Giuseppe Saitta). c r o ix G. chamado monarquia (de monos. Acompanhando seu discípulo nas expedições que caracterizaram a vida deste. levando em conta o intuito de o governante ou gover­ nantes administrarem visando ao interesse geral ou ao benefício pessoal. intitulada Política. para tanto. em que haveria. duas formas de governo: a monarquia c a democracia. Nicômaco. Em As leis. dois critérios: o critério numérico. Platão mostra-se mais realista. 1976.2) Aristóteles Bibliografia: A r i s t ó t e l e s . já não pretende descrever um Estado ideal. Dover Publications. Madrid. Política. Zanichelli.). E. s. um. ste. de. seu mestre Platão. 1988.

cujas formas corrompidas são a democracia (de demos. situação gravíssima em que todos se julgam aptos a governar. quando é exercido no próprio interesse do governante. levadas à deriva por aven­ tureiros inescrupulosos. podemos esquematizar as formas de governo aristotélicas assim: Critério numérico (Leva-se em conta o número dc pessoas que governam) Monarquia: governo de um Aristocracia: governo de poucos Politeia: governo de muitos Tirania: governo de um Oligarquia: governo de poucos Democracia: governo de muitos Demagogia: governo de todos Critério moral (Leva-se cm conta a intenção dos que governam) • Formas puras Monarquia: governo de um no interesse geral Aristocracia: governo de poucos no interesse geral Politeia: governo de muitos no interesse geral • Formas impuras Tirania: governo de um no interesse pessoal Oligarquia: governo de poucos no próprio interesse Democracia: governo de muitos no próprio interesse Demagogia: governo de todos. as multidões desorganizadas. tem sentido original bem diferente do atual. portanto. ou a demagogia (de demos. surge a oligarquia (de oligoi. governo). povo. temos a aristo­ cracia (de aristoi. Sendo o poder exercido por uma minoria no interesse geral. e kratos. ou tirania. em que os pobres governam no próprio interesse. forma pura . poder). Em face do exposto. Finalmente. termo que. povo. melhores.96 Teoria Geral do Estado quando o poder é exercido no interesse geral. visando tão somente seu próprio be­ nefício. graças a uma empolgante e astuta oratória. e arche. sendo as massas. sur­ ge a politeia . e kratos. cor­ rupção da aristocracia. poucos. forma impura. quando a minoria dominante se sustenta na força do dinheiro ou na hereditariedade. em que predominam as paixões e a desordem . porem. e agost orador). poder). quando o poder é exercido por muitos no interesse de todos. como se vê.

6 Formas de governo 97 Aristóteles não propende. p o l íb io . identificando na sadia concepção e organização da ordem jurídico-política a razão maior de seu sucesso. em menos de duas gerações. Presença. ao comandar a cavalaria da liga aqueia. c r o ix prélot. líticas. Natural da Arcádia.). Um povo jamais se volta contra si próprio. Historia universal duran­ Mareei. Embora bem-nascido e exercesse importante papel durante a guerra entre Roma e a Macedônia (171 a 168 a. mais precisamente de Megalópolis. embora afetado em alguns pontos por naturais deficiências. ao passo que. Seu trabalho. E. Sc.3) Políbio de M egalópolis Bibliografia: Segundo V. cit. a própria democracia é mais estável que a oligarquia. de. Todavia. Capítulo I). seu talento logo foi percebido nos altos círculos dc Roma e. lançou-se à empre­ sa de escrever a história deste período da civilização romana. Muntaner. M . e a politeia. na teoria. na democracia. a forma ideal de governo. 1988. obtendo a proteção dos Cipiões. 1973. de m e g a l ó p o l is l in a r e s q u in t a n a . 1. Iberia. Livro III. por um lado. G. ste. acha-se estribado em séria e copiosa documentação. foi conduzido à condição de escravo após o conflito. viajou e escreveu livremente. a monarquia é. Lisboa. . v.. restaram os primeiros cinco li­ vros e anotações dos Livros I e XIII) tentou explicar como Roma. As doutrinas po­ te Ia república romana. Por outro lado. conquistou o mundo conhecido na época. pois a aspiração maior do rei é a virtude. a monarquia é mais suscetí­ vel de corrupção. Capítulo V). La Incha de clases en el mundo griego antiguo. diretamente. para esta ou aquela forma pura de go­ verno. é também a mais estável de todas estas formas de governo ( Política . forma cm que predomina a classe média e que tem mais afinidades com a democracia do que com a oligarquia. Buenos Aires. Políbio (205-125 a. porque a virtude e o poder raramente andam juntos. na prática. enquanto a do tirano é o prazer. Ele afirma que cada Estado deve adotar a forma de governo que mais se coa­ dune com suas peculiaridades. Sistemas de partidos y sistemas políticos. porque nos regimes oligárquicos a revolução pode operar contra os próprios governantes ou contra o povo.C. Barcelona. Barcelona. sendo-lhe conferida a administração da Acaia. 1976. 1. Plus Ultra. Impressionado com a organização da República romana. até porque a melhor forma de governo é aquela que tem os melhores governantes (Política . Livro VIII. Em sua obra (da qual. num total de quarenta.C. a subversão atua apenas contra a minoria oligárquica. Editorial Crítica.) foi um historiador grego que recebeu profunda influência das instituições romanas de seu tempo. .

se tais formas são as únicas ou as melhores. dele deriva a realeza. aristocracia e democracia. em dupla. Por outro lado. cit. Outro grande mérito da forma mista de governo c o de resistir à natural deteriora­ . respeita os pais. as três formas puras de governo não são as únicas. perfeitamente equilibrado. embora monarcas e tiranos procurem. reúne as três formas puras de governo: monarquia. por natureza governo de pou­ cos. não é a democracia a forma de governo em que o populacho faz o que bem entende. Por outro lado. Finalmente. na medida do possível. adverte Políbio. Políbio indica a de Licurgo. Capítulo II). no que tange aos comícios populares e tribunos da plebe. busca reparar os desvios dos go­ vernantes. há muitos Estados governados por uma minoria. Seria dc sc perguntar. Livro VI. por mero impulso da natureza.e nisto reside a originalidade de Políbio . reverencia os idosos e obedece às leis. e esta. tal sistema misto. Como exemplo de Constituição política deste tipo. O governo de um ou monarquia estabele­ ceu-se sem arte. pela equidade e a razão. Políbio adverte que os conhecedores da Políti­ ca veem três formas boas de governo: a realeza. que se im ­ planta com arte e correção. Ora. Livro VI. sen­ do aquela obtida pela força. exerciam a administração pública em substituição ao rei). ou a oclocracia (de o cios. poder). mas apenas aquela em que o povo venera os deuses. só pode trazer bons resultados. Em relação aos cônsules (magistrados eleitos anualmente que. Não são as únicas nem as melhores. quando o povo. cit..98 Teoria Geral do Estado Assim como Aristóteles. continua Políbio. Livro VI. o Senado. a aristocracia c a democracia. implantando a irracionalidade e a inseguran­ ça ( H istória . Da mesma forma. e que é exercida pela razão. Capítulo II). fazer-se passar por reis. e foi durante sua vigência que Roma conquistou Cartago e estendeu seu império pelo Mediterrâneo.a m elhor form a de governo é aquela que sintetiza as virtudes das demais. adverte Políbio. Observa Políbio que nem toda monarquia é realeza. Na sua H istória u n i­ versal durante a República rom ana . vemos certas monarquias ou tiranias distancia­ rem-se muitíssimo da realeza. de cujas ruínas surge a aristocracia. sendo que o governo pode ser exercido por uma.. por sua vez. observa Políbio. Capítulo II). o elemento democrático. a aristocracia c a democracia. em que o povo se torna insolente e menospreza as leis. por várias ou por muitas pessoas.. A Constituição da República romana. nem toda oligarquia merece o cpíteto de aristocracia. traz consigo a feição aristocrática da República romana e. porque . que se busca passar por aristocracia. bem assim por democracia (H istória . pois. Desta. e kratos. mas apenas aquela que conta com súditos voluntários. mas apenas aquela em que governam os mais justos e sá­ bios. cit. o regime se assemelha ao monárquico. A realeza pode contrair vícios que a transformam em tirania. distinguindo entre m onarquia e realeza. na Lacedemônia. como se disse. pois. Em qualquer caso há equívoco. irritado. jamais por medo ou violência. que há seis formas de governo: três que todo mundo conhece e outras três que com elas se relacionam. Fique assentado. Haverá democracia onde tais senti­ mentos prevalecerem (H istória . multidão. Políbio reconhece três espécies boas de governo: a realeza. surge a democracia.

1. qualquer destas espécies de governo se mostra a ideal.d. Da república é um tra­ tado formado por seis livros. Título II).C. por Angelo Mai. por excelente que seja. Zanichelli. Cícero não se mostra muito original. conforme as circunstâncias existentes em cada Estado. o príncipe dos jurisconsultos romanos. pois.4) Cícero Bibliografia: Da república. cit. a verdade é que prevalece a iniqüidade.. Athcna. 1927. Curioso observar que no Livro II.6 Formas de governo 99 ção pelo tempo. porque contém em si o germe de sua própria morte. ao seguir a classificação tradicional de realeza. Presença. Neste campo. Bologna. Para Políbio. por outro lado. enquanto no governo aris­ tocrático apenas o povo é livre. Quanto ao Das leis. Segundo V. tende à degeneração e ao perecimento. Embora considerando a monarquia a forma ideal de governo (Da república. a que todas as outras estão sujeitas. embora se pense que tudo é justo e moderado. costa. que nenhuma forma de governo será a ideal se considerada isoladamente. Sis­ M ar­ temas de partidos y sistemas políticos. Finalmente. aristocracia e governo popular. propugna. com recí­ proca moderação (Da república. fundado 11a filosofia de Heráclito. As doutrinas políticas. Título II). Rio dc Janeiro. 1973. Livro I. além de notável orador. Marco Túlio Cícero (106-43 a. escreveu Da república e Das leis. 1. Lisboa. cit. Título II. eei. de Da república. Todavia. Cícero se antecipa à moderna teoria de separa­ ção de Poderes do Estado ao advertir que: . porque não precisa intervir nas assembléias. catalisador das três formas apontadas. Plus Ultra. é irrealizável. Ciceprélot. inconcluso. Toda Constituição políti­ ca. um sistema misto. l in a r e s q u in t a n a . são privados quase completamen­ te dc direitos e da participação nos negócios públicos. visto que não há uma natural desigualdade fundada no merecimento (Da república. cit. Título II).). do qual apenas em 1814 foi localizado. Políbio observa que tudo está em movimento perpétuo. v. todos. legou à posteridade escritos de gran­ de valor para a literatura e a ciência política. 2 v. e o governo do povo a pior. c íc e r o . estacionário. cada uma destas formas tem seus próprios de­ feitos: na monarquia. Livro I. ao que parece. nada é estático. com apenas três dos seis livros para os quais a obra foi planejada. como Políbio. s. Emilio. advogado e político. Buenos Aires. ficou. Livro I. um antiquíssimo palimpsesto com o texto integral da obra. nem detém qualquer poder. no Estado popular. 1976. obras importantíssimas para o Direito Público. escrito em exaltação às leis romanas. exceto o monarca.. o Estado imóvel. Para Cícero.. Quanto às formas de governo. afirmando. rone giureconsulto.

Nos Discursos.5) Nicolau M aquiavel Bibliografia: pem. As doutrinas políticas. Nicolau Maquiavel. para denominar. em vernáculo. com realismo e frieza. O que o autoriza a escapar à moral é o fato de estar colocado acima da mediocridade ambiente. 40) Quanto às formas de governo. visto que tudo isso não deve ser julgado segundo a bitola comum que rege a vida privada. rou­ bo. caracterizando o indivíduo “ maquiavélico” . fraude. ao passo que cm O prín­ cipe o faz relativamente à forma monárquica. todos os meios são considerados honestos. observe-se a clareza com que Marcel Prélot sin­ tetiza o pensamento de Maquiavel: A simulação e a dissimulação: o Príncipe é conhecedor das circunstâncias. capacidade. Nesse sentido. A grandeza: o Príncipe está acima do comum. uma suposta doutrina em que a má-fé e a traição prevalecem. e a dinâmi­ ca respectiva. e não é este o momento adequado para demonstrá-lo. Daí a frase que lhe é atribuída: “O fim justifica os meios”. 1973. 1. Na verdade. velhacaria. mas segun­ do o ideal dc um Estado que sc tem dc constituir c dc manter. e O príncipe. Presença. 1976. em sua obra O príncipe. equivocadamente. Desde que o Príncipe al­ cance o resultado desejado. M aquia­ vel expõe seus conceitos referentes à forma republicana. libertinagem. 2. tutti i domini cbe banno avuto e banno impero sopra li uo- . quaisquer meios. Buenos Aires. v. Maquiavel formula suas espécies. prélot. p. publicada cm 1531. 1973. é o famoso pensador italiano. 2. dolo. Situa-se para além do bem e do mal. v. m a c iiia v e l l i. que importam. cargos e obrigações.10 0 Teoria Geral do Estado sc em determinada sociedade não são divididos equitativamente os direitos. Novara. cm duas obras fundamentais: os Discursos sobre a primeira década de Tito Lívio. grande amador da astúcia e grande adorador da força. Niccolò Machiavelli (1469-1527) ou. de Florença. deboche. Plus Ultra. não se pode esperar que a ordem es­ tabelecida dure muito tempo. Edi- l in a r e s q u in t a n a . Segundo V. os poderosos ex­ cessiva autoridade e o povo exagerada liberdade. é cola­ borador avisado da Providência. Logo na abertura desta última obra adverte: “ Tutti gli stati. traição. perfídia. vendo na Política uma técnica de alcançar o poder e permanecer nele. para tanto. desde que o objetivo fosse legítimo. de tal forma que os magistrados tenham poder excessivo. Sistemas de partidos y sistemas políticos. empregando. Marcel. que deu origem ao substantivo “ maquiavelismo”. // príncipe e altri scritti. Cupidez. dc 1532. mas é também o que engana a sorte. Lisboa. (/\ s doutrinas políticas. M a­ quiavel pôs a nu a dinâmica política.

são nocivas: as três consideradas boas. Na obra Discurso sobre a reforma da Constituição de Florença. a qual será mais firme e estável. assume postura diversa da adotada . O legis­ lador prudente não as levará em conta. se corrompe. Todas as for­ mas de governo. acham-se tão expostas à corrupção que chegam a ser perniciosas também. fatalmente. mais do que duas formas de governo: república e tirania. Outros. e as demais pela malignidade que lhes é intrínseca. estabelecendo um a form a mista de que to­ das as formas boas participem . Aliás. dividido por lutas internas. numa Cons­ tituição em que coexistam a monarquia. como o faz em O príncipe: a m onarquia e a república . Maquiavel não conhe­ ceu. mesmo sendo boas. de­ vendo os legisladores de cada Estado optar por uma delas. mas apenas duas. Nos Discursos Maquiavel lembra que pensadores antigos reconheciam três espécies de formas de governo: a monárquica. foram e são repúblicas ou prin­ cipados”).monarquia. sono stati e sono o republiche o principati” (“Todos os Estados. aris­ tocracia e democracia. cit. por sua curta duração. isoladamente consideradas. Maquiavel não reconhece a existência de três ou seis formas de governo. todavia. onde as cidades formavam verdadeiros Estados em luta. Ao contrário da maior parte dos autores clássicos.. era um campo fértil para as ambições de tiranos e demagogos. Seu país. na prática. classi­ ficavam as formas de governo em seis. todos os do­ mínios que tiveram e tem poder sobre os homens. quando o legislador orga­ niza o Estado sob a égide de uma das três boas formas de governo. a aristocrática e a democrática. em seu tempo. porém estas.6 Formas de governo 101 I Nicolau Maquiavel (1469-1527) m ini. Livro I. Capítu­ lo 11). Assim. três péssimas e três boas . cada uma destas formas vigia e reprime o abuso das demais (Discursos. o faz por pou­ co tempo. uma vez que não percebe que ela. a aristocracia e a democracia. porque.

vê sua saúde arruinada. 1976. v. Pertencente à antiga nobreza. Em 1734 publica a mo­ nografia Considerações sobre as causas da grandeza e da decadência dos romanos e. de um suplemento intitulado Em defesa do espírito das leis. 1962. toda­ via. também. Sistemas de partidos y sistemas políticos. vindo a falecer em Paris. já com mais de sessenta anos de idade. Em 1716 pu­ blicou sua Dissertação sobre a política dos romanos na religiãoycriou um prêmio para trabalhos sobre anatomia. publicando. São Paulo.102 Teoria Geral do Estado nos Discursos. com base na experiência adquirida cm suas viagens. ao questionar a forma mista de governo. Em O espírito das leis (Primeira Parte. enveredando. v. Conheceu toda a Europa. após nada menos do que vinte anos de esforços. Livro Segundo. demonstrou pendor não só pela História e pelas letras. Fez excelentes relações de amizade. mas sim buscar o verdadeiro “espírito das leis’'. pelas ciências puras e pela própria anatomia. espírito das leis. Barão dc la Brcde c dc Montesquieu (1689-1755). apaná­ gio dos Estados democráticos contemporâneos. prossegue. Capítulo Primeiro). em 1755. 1. afirmando que não se pode garantir a Constituição dc um Estado senão estabelecendo uma verdadeira repú­ blica ou uma verdadeira monarquia. Montesquieu afirma: . sua maior obra O es­ pírito das leis} seguida. Montesquieu foi o grande sistematizador do princípio da separação das fun­ ções do Estado. escreveu sobre as glândulas renais e chegou a iniciar uma H istória física da terra antiga e moderna. estudou Direito sem ter ficado muito satisfeito. conforme a forma mista deriva para uma ou outra destas formas. Historia de la filosofia dei derecho. também. La Es- Charles-Louis dc Secondat. q u in ta n a . sendo defeituosos todos os sistemas interme­ diários. Difu­ são Européia do Livro. pana Moderna. em especial a Inglaterra. STAHL. mais conhecido como princípio da separação de Poderes. A razão. Alquebrado pelo trabalho. Lisboa. das quais poderia ter tirado grande proveito. Talentoso. dois anos após. Plus Ultra. é evidente: tais governos concorrem para a destruição tanto da república como da monarquia. As doutrinas políticas. 1.d. D o p ré lo t. comunicações sobre certas doenças. nasceu em Bròdc. m o n te s q u ie u . sença. Pre­ Federico Julio. s. em 1748.6) Montesquieu Bibliografia: LINARES Segundo V. por não desejar ficar adstrito aos textos legais. 3. Marcel. sendo tido por muitos como o precursor da Sociologia. perto dc Bordéus. Madrid. Buenos Aires. preferiu retirar-se para um castelo de sua cidade natal e trabalhar cm novas obras.

atualmente. é suficiente a ideia que deles têm os homens menos ins­ truídos. Sc está impressiona­ do com a magnificência ou com as riquezas de um cidadão. Para descobrir-lhes a natureza. então. hoje. que muita gente sai dc seu tribunal satisfeita com ele. mas dc acordo com leis fixas c estabelecidas. Diría­ mos. vem a ser aquilo que faz o governo agir. capaz de eleger um general. Do princípio do governo provêm as leis civis e as leis sociais. 3. Entretanto. a monarquia é aquele em que um só governa. vale dizer. Estas visam a conservação dc certo meio e a escolha dc certas orientações. isso é suficiente para que possa escolher um edil. antes. saberá o povo dirigir um negócio. Só pode decidir-se por coisas que não pode ignorar e por fatos que estão ao alcance de seus sentidos. o povo como um todo possui o poder soberano. di­ reito constitucional. igualmente o povo. tra­ ta-se de uma Democracia. sob outros. os momentos e aproveitá-los? Não. três fatos: um. numa republica. A natureza de um governo é o que faz com que ele seja o que é. adverte iMontesquieu. Suponho três definições ou. o monarca. o monárquico e o despótico. há que se identificar uma natureza e um princípio. . a mode­ lar o espírito geral. Todas essas coisas sao fatos que o povo aprende melhor na praça pública do que um monarca em seu palácio. na democracia. Quando. conhecer os lugares. enquanto no governo despótico. Sabe muito bem que determinado homem esteve muitas ve­ zes em guerra e que obteve tais e tais êxitos. o súdito. v. sem obedecer a leis e regras. ou seja. que possui suficiente capaci­ dade para julgar da gestão dos outros. as ocasiões. a motivação das ações do cidadão. derivam as “ leis políticas”.6 Formas de governo 103 Existem três espécies de governo: o republicano. O povo é admirável para escolher aqueles a quem deve confiar parte de sua au­ toridade. Quanto ao princípio. não está apto para governar por si próprio. como um todo. Tal como a maioria dos cidadãos que possuem suficiente capacidade para eleger mas não a possuem para ser eleitos. é. que nao sc pode corrompc-lo: isso é suficiente para que eleja um pretor. Em cada forma de governo. possui o poder soberano. que o governo republicano é aquele em que o povo. trata-se de uma Aristocracia. aquelas que têm como objetivo a organização governamental. sob alguns aspectos. que princípio informa o direito público geral (As doutrinas polí­ ticas. adverte Marcel Prélot. Por outras palavras. é. uma só pessoa. O povo. realiza tudo por sua vontade c seus caprichos. ou somente uma parcela do povo. p. da natureza do governo procede aquilo a que chamamos. 58-9). não saberá. Quando o poder soberano está nas mãos de uma parte do povo. Sabe que um juiz é assíduo. Da natureza do governo em Montesquieu. sua estrutura e seu mecanismo.

a república e uma forma de governo adequada a Estados de peque­ nas dimensões. Primeira Parte. cortam uma árvore pela raiz e apanham-nas. É melhor dizer que o governo mais de acordo com a Natureza é aquele cuja disposição particular melhor sc relaciona com as disposições do povo para o qual foi estabclccido. Alguns pensaram que. o mais natu­ ral. guiando-se apenas por sua vontade e seus caprichos. O po­ der político implica. pois. Buenos Aires. indiretamente. Na república democrática. as­ sim doutrina íMontesquieu: A força geral pode ser colocada nas mãos de apenas um ou nas mãos de muitos. Livro Primeiro. porque também é próprio da natureza da monarquia haver órgãos in­ termediários subordinados e dependentes. Rousseau y la fundamentación de Ia . mostra sua natureza no fato de o poder político estar nas mãos de um só homem. e lembra. o da nobreza. à melhor forma de governo. o princípio das republicas é a virtude. a virtude chama-se civismo. Hmbora o rei seja a fonte de todo o poder. O prin­ cípio desta forma de governo é o medo. O poder intermediário mais conveniente é o do clero. sendo um terceiro organismo um corpo de magistrados que zela pela preservação das leis e que lembra ao monarca o dever de cumpri-las. cit. Em qualquer caso. Sistemas de partidos y sistemas políticos. o exemplo do poder paterno nada prova. que restringem a vontade momentânea e caprichosa de um só homem. Quanto ao despotismo. ironicamente: “Quando os indí­ genas da Luisiana querem colher frutas. sua natureza reside no fato de o rei governar sem le­ var em conta as leis. e assegurar a continuidade e o cumprimento das leis fundamentais.104 Teoria Geral do Estado Ora. Por outro lado. Eis o governo despótico”. q u in t a n a . a fim de que o povo tenha alguma participação política.. necessariamente. na república aristocrática chama-se moderação por parte dos governantes. depois da morte dos irmãos. O princípio da monarquia vincula-sc à honra. porém submetido ao império de leis previamente esta­ belecidas. Porém. Quanto à monarquia. porque isto nos liberaria de ser­ vi-lo. Plus Ultra. muitos. se o poder do pai está relacionado com o governo de um só. moreau Joseph. a qual nos diz que um rei ja­ mais deve ordenar uma ação que nos envergonhe.7) Rousseau Bibliografia: l i n a r e s Segundo V. referindo-se. tendo a Natureza estabelecido o poder paterno. o poder dos irmãos ou. (O espírito das leis. a união de muitas famílias. termo que na obra de Montesquieu denomina a primazia dada ao interesse publico. não concentra em si toda a autoridade. o governo de um só estaria mais de acordo com a Natureza. depois da morte do pai. Capítulo Segundo) 1. 1976. .

Madrid. por falta de convicção do autor em determinadas passagens. de acordo com sua Cons­ tituição. Em 1753. resolveu emigrar. O contrato social resume o ideal rousseauniano de um governo que limite ao mínimo sua intro­ missão na liberdade dos indivíduos. sua obra mais conhecida: O contrato social. Isaac. Seja como for. ou governo real. ou ao menos as duas primeiras. dc sorte a haver maior número dc cidadãos particulares que dc magistrados. no Império Romano. v. Dá-se a essa forma de governo o nome de democracia. filho de um casal de protestantes. N o seu trabalho sobre a origem e o fundamen­ to da igualdade entre os homens. e houve. As­ . sempre teve dois reis. Isaac Rousseau e Suzanne Bernard. rousseau prélot. até oito imperadores si­ multaneamente. são sus­ cetíveis de maior ou menor e mesmo de grande latitude. As doutrinas políticas. A própria monarquia é suscetível de alguma partilha. pode restringir-se da metade do povo até indeterminadamente ao menor número. Jcan-Jacques. confiar o depósito do governo ao povo em conjun­ to ou à maioria do povo. boa. por sua vez. Rous­ seau publica o ensaio Origem da desigualdade entre os homens. foi tido por muitos como uma obra cheia de contradições. São Jean-Jacques Rousseau (1712-1778). porque nele ainda não existia a desigualdade social e econômica que viria depois. e seu pai. Rousseau expõe sua famosa teoria do “bom sel­ vagem”. pecando. do qual todos os demais recebem o poder. porque a democracia pode abarcar todo o povo. Esparta. nasceu em Genebra. O único período realmen­ te feliz da Humanidade. cujas únicas motiva­ ções seriam igualar-se a Montesquieu e adquirir prestígio fácil. Paulo. a mais ampla par­ ticipação política.6 Formas de governo 105 democracia. O contrato social. de início. cheia de vicissitudes. Ou pode então restringir o governo às mãos dc um pequeno número. Devo assinalar que todas essas formas. 3. que influenciaria pensadores de todo o mundo. e chama-se monarquia. dei­ xando-o com sua tia. todavia. a obra continua a ser um clássico da literatura política e sociológica. Mareei. foi o estágio tribal. premido por dificuldades financeiras. Lis­ . que orientou Jean-Jacques em suas primeiras leituras. emigrando. diz Rousseau. conferindo a estes. pode o soberano concentrar todo o gover­ no cm mãos dc um magistrado único. Esta terceira forma é a mais comum de todas. Sua mãe faleceu poucos dias após o parto. Espasa-Calpe. 1977. Cultrix. A aristocracia. Em O contrato social Rousseau formula uma classificação das formas de go­ verno nos moldes tradicionais: O soberano pode. de modo a haver maior número de cidadãos magistrados que simples cidadãos particulares. Presença. Finalmente. mesmo. sem que por isso se pudesse dizer que o Império estava dividido. em 1762. passa por uma vida atribulada. O contrato social e outros escritos. c esta forma dc governo rcccbc o nome de aristocracia. toda­ via. ou então restringir-se até a metade.

um povo que sempre governasse bem. cada uma das quais suscetível dc ser multiplicávcl por todas as formas simples. trcs cspccics dc aristocracia: natural. Tão per­ feito governo não convém aos homens. Os jovens cediam sem dificuldade pe­ rante a autoridade da experiência. Há.10 6 Teoria Geral do Estado sim sendo. Se. à medida que a desigualdade de instituição sobrepujou a desigualdade natural. ele se governaria democraticamente. gerontes. Os selvagens da América setentrional ainda assim se governam em nossos dias. unida pela força das leis. pois. em geral. por diversos motivos. e viram-se então senado­ res dc apenas vinte anos. em várias partes. segue-se que. senado. o número de su­ premos magistrados deve estar constituído em razão inversa do número dos cidadãos. e são muito bem governados. Se houvesse um povo de deuses. sem considerar que cada uma delas é a melhor em determinados casos e a pior em outros. Rousseau demonstra sua ojeriza por tal forma dc go­ verno. transmitido juntamente com os bens dos pais aos filhos. Há mais: podendo um mesmo governo subdividir-se. torna o governo hereditário. c a aristocracia pas­ sa a ser eletiva. outra dc maneira diversa. A primeira não convém senão a povos simples. Finalmente. Mas. As primeiras sociedades governaram-se aristocraticamente. uma administrada dc certa maneira. nos diferentes Estados. o governo democrático é o que mais convém aos pequenos Es­ tados. pode re­ sultar dessas trcs formas combinadas uma infinidade dc formas mistas. a terceira é o pior de todos os governos. Quanto à monarquia. c c fácil dc ver que não poderia ele estabelecer comissões para isso. Daí os nomes de padres. concedendo-lhe poucas virtudes: Até aqui consideramos o príncipe como uma pessoa moral e coletiva. cnobrcccndo as famílias. Um povo que jamais abusaria do governo também jamais abusaria da independência. sem mudar a forma da administração. a segunda é a melhor: é a aristocracia propriamente dita. Rigorosamente falando. e a monarquia aos grandes. existe um ponto em que cada forma de governo se confunde com a seguinte. e depositária no Estado do Poder Executivo. Temos agora a considerar . anciãos. o poder. Os chefes de família deliberavam entre si sobre os negócios públicos. o aristocrático aos Estados médios. a riqueza ou o poder foi preferido à idade. nunca existiu verdadeira democracia nem jamais exis­ tirá. e vê-se que apenas sob três formas dc domínio já se mostra o governo capaz de adqui­ rir tantos aspectos diversos quantos cidadãos possui o Estado. não teria necessidade de ser governado. Contraria a ordem natural o grande número governar e ser o pequeno governa­ do. É impossível admitir esteja o povo incessantemente reunido para cuidar dos negó­ cios públicos. eletiva c he­ reditária. Discutiu-se cm todos os tempos a melhor forma de governo.

e a vontade do príncipe. é o que Samuel.6 Formas de governo 107 este poder reunido em mãos de uma pessoa natural. sc achcm natural­ mente reunidas. Um defeito essencial e inevitável. c dc longe lhes bradamos que a melhor maneira dc o scrcm consiste cm se fazerem amar por seus povos. imaginando os vassalos sempre inteira­ mente submissos. quando lhes ape­ tece. temível. mas esse objetivo não é o da felicidade pú­ blica. O príncipe de Maquiavel é o livro dos republicanos. antes de mais nada. Esta máxima é muito bela c ver­ dadeira cm certo sentido. pequenos intrigantes. sem cessarem de ser os senhores. também outro não há em que a vontade particular seja mais respeitada e mais facilmente domine as outras. e não se pode imaginar nenhuma es­ pécie de constituição em que um esforço menor produza uma ação mais considerável. cujos pequenos engenhos. tal interesse é secundário c subordinado. com tantos esforços. a unidade moral que constitui o príncipe é simultaneamente uma unidade física. aos povos. pe­ quenos rixentos. apontava aos hebreus. desse modo. O poder oriundo do amor dos povos é sem dúvida o maior. nesta aqui é um indivíduo que representa um ser coletivo. deu-as ele. Confesso que. é natural que os príncipes deem sempre preferência à sentença mais imediatamente útil para eles. Seu interesse pessoal está. tudo ca­ minha para o mesmo objetivo. e jamais lhes possa resistir. a voz pública quase nunca eleva aos primeiros postos homens que não sejam esclarecidos e capazes e não os ocupem com dignidade. . a vontade do povo. pequenos velhacos. Ao contrário das outras administrações. neste último. e grandes. Mas se governo não há mais rigoroso que este. sempre rirão disso nas cortes. Infelizmente. que sempre porá o governo monárquico abai­ xo do republicano. de um homem real. Os melhores reis desejam ser malvados. na qual todas as faculdades que a lei reuniu na outra. em que o povo seja débil. Por mais que se esforce um orador político em adverti-los de que a força do povo é a sua própria e de que seu maior interesse deve consistir em que o povo seja florescente. os que se elevam são. e a força pública do Estado. todas as molas da máquina estão na mesma mão. e as duas suposições sc mos­ tram incompatíveis. Os reis desejam ser absolutos. as mais das vezes. único investido do direito de dele dispor segundo as leis. miserá­ vel. em que um ser coletivo representa um indivíduo. numeroso. tudo enfim responde ao mesmo móbil. como. está em que. e a força particular do governo. eles sabem perfeitamente que tal coisa não é verdade. é verdade. a fim dc que. é o que Maquiavel demonstrou com evidência. me parece que o interesse dos príncipes residiria na existência de um povo poderoso. mas precário e condicional. E o que se chama um monarca ou um rei. e a própria força da administração gira sem cessar em prejuízo do Estado. nas monarquias. porém. sendo dele tal poder. o tornasse temido dc seus vizinhos. os príncipes ja­ mais se contentarão com ele. com vigor. ao passo que. tudo caminha para o mesmo objetivo: não há mo­ vimentos adversos que se destruam mutuamente. Fingindo dar lições aos reis. Assim.

. Na verdade. Cedo ou tarde tudo se torna venal sob semelhante admi­ nistração.a d á r Rudolf. Hans.04. de Praga. Livro III. l i n a r e s q u i n t a n a .. Livro III. o povo se engana bem menos que o príncipe. mas tchecoslovaco. c a paz de que se desfruta sob o governo dos reis passa a ser então pior que a desordem dos interregnos. a quem o Estado foi vendido. Quanto menos numerosos forem os cidadãos mais a opinião de cada um terá peso. que forma nos dois outros uma ligação ininterrupta. são tempestuosas. que a democracia eleita por Rousseau é a democracia di­ reta. de modo que o ideal democrático é viável apenas nos pequenos Estados da Antiguidade: “Quan­ to maior o Estado. só lhes servem para demons­ trar ao público o quanto são ineptos. pois o governo representativo é uma forma de escravidão (O contrato social. tão logo aí consigam chegar. do dinheiro que os poderosos lhe extorquiram. na Califórnia. Vale lembrar.8) Kelsen Bibliografia: a i . cm 11. Capítulo I). não o venda por seu turno. Sistemas de partidos y sistemas políticos. como geralmente se pensa. de sorte que é quase tão raro encontrar um homem de real mérito no ministério quanto um tolo à testa de um go­ verno republicano. Teoria general dei derecho y dei Estado. Segundo V. Mcxico. que ele aprendeu a admirar observando a antiga Roma republicana e os cantões suíços.. 1979. e não se indenize. É difícil que aquele. 1976. Capítulo XV). Nacional Autônoma dc Mcxico. cit. Mcxico.108 Teoria Geral do Estado que permitem. somente quando participa diretamente da elaboração das leis o cidadão reafirma sua condição e é verdadeiramente livre. e a menos que os cidadãos se­ jam de um desinteresse. menor a liberdade”. para Rousseau. as dis­ putas e a corrupção se misturam. à custa dos fracos. Não era austríaco. Plus Ultra. a forma ideal de governo é a democracia. Univcrsidad Nacional Autônoma dc Mcxico. alcançar os grandes postos. o criador da famosa Teoria pura do direito.1881 c morreu cm Berkeley. de Viena. Univcrsidad kelsen. cit. De ascendência israelita. Buenos Aires.10. nasceu em 11. métall. adverte Rousseau (O contrato social. Hans Kelsen. de uma integridade acima dos méritos desse governo. No tocante a essa escolha. nas cortes. entretanto. 1976.1973. 1. Hans Kelsen ( Vida y obra). As eleições abrem intervalos perigosos. Um inconveniente mais sensível do governo de uma única pessoa consiste na fal­ ta dessa sucessão contínua.

sob a presidência de Karl Schmitt.Vida y obra. 335) que o problema da teoria política é a clas­ sificação dos governos. em especial durante o período nacional-socialista. Afirma Kelsen (Teoria general dei dereebo y dei Estado. por um professor austríaco. A teoria política da Antiguidade distinguiu três formas de Estado (s/c): monarquia. não havendo nenhum exage­ ro em afirmar que ele representa para a ciência jurídica o que Karl Marx represen­ ta para a ciência econômica.6 Formas de governo 109 sua vida foi pautada por perseguições raciais. (Hans Kelsen . O boato de uma pretensa mudança de nome de Kohn para Kelsen foi repetido quase 30 anos depois. é sobre a Teoria geral do direito e do Estado que nos debruçaremos para observar como Kelsen aborda as formas de governo. Kelsen inovou. realizadas em 3 e 4 de outubro de 1936. a respeito. Certamente sessões como esta. o professor Erich Jung referiu-se a Kelsen como Kelsen Kohn. Universidad Nacio­ nal Autônoma de México. verdade que durante uma sessão sobre o tema Os judeus na ciência do Direi­ to. Conta-nos. e a moderna doutrina ainda não superou essa tricotomia. como sc fosse vergonhoso alguém sc chamar Kohn ou Cohn. p. ao criar uma originalíssima Teoria do Direito. 1979. ou como sc a importân­ cia dc Hans Kelsen como cientista fosse ofuscada se ele próprio. A organização do poder é tida como o critério em que a referida classificação se fundamenta. seus pais ou mais re­ motos ancestrais não sc chamassem Kelsen. 9) Tido por muitos como o grande jurista do século X X . Quando o poder soberano de uma comunida- Hans Kelsen (1881-1973) . Rudolf Aladár Métall: F . foram organizadas pelo Grupo de Professores de Educação Superior da Liga Nacional-Sociaiista dos defensores do Direito. Embora sua obra mais conhecida seja A teoria pura do direito. aristocracia e democracia. p. real­ mente.

. A classificação das formas de governo é. aristocracia e democracia se refere. O critério pelo qual a forma monárquica se distingue da republicana. mesmo quando seu poder nesta parcela do Executivo se ache rigorosamente restringido e. um Estado é democrático se nele prevalece o princípio democrático. o número dc indivíduos em quem reside o poder e um critério muito superficial (Teo­ ria general. mas jurídica. o legisla­ dor. juridicamente. os sú­ ditos se acham excluídos da criação da ordem jurídica. e autocrático se nele predomina o dogma autocrático (Teoria general. Para Kelsen. Nesta forma de governo. em vez de três. 337). p.. . A república será uma aristocracia ou uma democracia conforme o poder pertença a uma minoria ou a uma maioria do povo. a ordem jurídica é criada. Quando o poder pertence a vários indivíduos. p. A democracia significa que a vontade representada na or­ dem legal do Estado é idêntica às vontades dos cidadãos. Todavia. cit. Na realidade po­ lítica não há nenhum Estado que se ligue. o querer do Estado é o dever ser de sua ordem jurídica. e a aristocrática da democracia. praticamente inexista (Teoria general. usado este termo no seu sentido ma­ terial. A distinção entre monarquia. Assim.. se o critério de classificação consiste na forma em que. de acordo com a ordem social. deve fazer coincide com aquilo que deseja fazer. a um ou outro des­ tes tipos ideais. p. na verdade. razão pela qual não há garantia dc que esta se harmoniza com a vontade popular (Teoria general. Assim definidas. pois a produção de um ato psíquico de vontade é uma questão psi­ cológica. Um Estado é considerado democracia ou aristocra­ cia sc a sua legislação é dc natureza democrática ou aristocrática. cit. à Teoria do Estado. Conforme a termino­ logia usual. mas sim tipos ideais. uma classificação das Constituições. apenas dois tipos de Constituição: a democracia e a autocracia. a democracia e a autocracia não são realmente descrições de Constituições historicamente consideradas. Da mesma forma o Estado sc classifica como monarquia quando o monarca é. cit. ou­ tras do segundo. e a vontade estatal nada mais é do que a ima­ gem do sistema normativo unitário da ordem estatal. A forma oposta à demo­ cracia reside na servidão imposta pela autocracia. 336). à organização da legislação. afirma-se que o governo ou a Constituição são monár­ quicos. Entre estes extremos há uma infinidade de etapas intermediárias. 337). Um indiví­ duo é livre se aquilo que.. cit. com exclusividade. alheia. 336). no campo do Poder Judiciário. a Constituição se diz repu­ blicana. então é melhor distinguir. confor­ me a Constituição. Politicamente livre é o indivíduo que se encon­ tra submetido a uma ordem jurídica de cuja criação tenha participado. a maioria das quais não possui uma terminologia específica. Cada Estado representa uma mescla de elementos de ambos. por natureza. basicamen­ te. com funda­ mento na ideia de liberdade política. mesmo que a administração e o Poder Judiciário possam ter caráter diverso. prossegue Kelsen. de tal forma que algumas sociedades se aproximam mais do primeiro destes modelos. reside no modo de criação da ordem jurídica. p. A vontade do Estado não pode ser uma vontade psicológi­ ca.110 Teoria Geral do Estado de pertence a um indivíduo.

Ignacio. A monarquia absoluta caracteriza-se pela concentração do poder e pelo arbítrio do rei. empolga o poder pela in­ timidação ou pelo favorecimento de um estamento social. a forma de governo cha­ ma-se tirania ou caudilhismo. Antonio Joaquim de. Os caracteres da monarquia.. Por outro lado. Barcelona. a seu turno. Quando o governante. exercida em fraude à lei. o princípio da separação e independência . Na primeira. todavia. 1991. Pedro Salvetti Netto classifica as monarquias em absolutas ou constitucionais. deve ser chamada realeza. deve ser denominada realeza absoluta. Exercida sob a égide da legalidade. no comando do Estado. um. Monarquia (do grego monos. porém. Novíssimo dicionário jurídico. 1954. divide-se em mo­ narquia constitucional pura e monarquia constitucional parlamentar. a monarquia chama-se realeza cons­ titucional. Curso de teoria do Estado. a c q u a v iv a . São Paulo. sendo assassinado no ano de 44 a. 1981. A monarquia constitucional. ed. Diccionario dei mundo clásico. . PINTO. sem justo título de monarca. Labor. tentou perpetuar-se no poder. 1982. Les Belles Lettres. a monarquia constitucional mostra-se limitada pela lei: rex sub legem quia lex faciat regem. porque foi Júlio César que. governo) é a forma de governo vi­ talícia em que apenas uma pessoa exerce o poder político. 4.1) Monarquia Bibliografia: Marcus Cláudio. mas. 2. 1824.6 Formas de governo 111 Segundo Kelsen. se o monarca faz tábua rasa da lei. 2. o rei exerce plenamente a função governamental. Quando a monarquia é exercida visando ao bem comum. instrumentalizando-os juridicamente para o que são há muito tempo: órgãos para a formação da vontade estatal. v. Fondo de salvetti n e t t o . Brasiliense. f ig g is . cuja significação cresce com o fortalecimento progressivo do princípio democráti­ co. Impressão John Neville. no intuito velado do monarca de se manter. 2) FORMAS DE GOVERNO CLÁSSICAS 2.C. na condição de chefe de Estado e chefe de governo. consagrado. errandonea gouvea bordes Jacqueline. Lisboa. v. El derecho divino de los reyes. porém visando ao bem comum. Por isso considera natural a tendência a institucionalizar expressamente os par­ tidos no texto constitucional. 1942. e arche. Cultura Econômica. Saraiva. . Por outro lado. quando serve ape­ nas de instrumento para os interesses do governante. Pedro. a democracia moderna sustenta-se nos partidos políticos. que governa desvinculado de qualquer limitação jurídica (solutus legibus). sem legitimidade. Régia. São Paulo. Politeia. tornando-se arbitrário. traindo a República. denomina-se despotia ou des­ potismo. Paris. temos o cesarismo. México.

A História Sagrada nos ensina que Adão foi o primeiro monarca. na Áfri­ ca. efetuada por um colégio cardinalício. que implantou a centralização do poder. demonstram que Deus lhes confiara sua autoridade: “ Per me Reges regnant. ao passo que o patriarcado era exercido em comunidades pouco desenvolvidas. sem concelho popular nem con­ firmação por senadores. livremente. na Inglaterra. babilônios. Egito. Isto significa que rei­ nam os reis não por convenção humana ou capricho.112 Teoria Geral do Estado dos poderes. o dos sarracenos. na Itália. na Síria. o teocrático e o civil. 23. nem por necessidade ou aca­ so. trata-se de uma forma de investidura em que o sucedido escolhe. Entre os hebreus. investido na Justiça de Deus para castigar a abominação e a idolatria do povo. o dos vândalos. 8. A monarquia teria passado por quatro estágios históricos. o de Nerva. a monarquia é tida por mui­ tos como instintiva. na Espanha. sendo peculiar aos agregados de animais complexos. como o das abelhas. na segunda. Monarquia eletiva encontramos na história de Roma. eleição e cooptação. o dos godos. o dos borgonheses. até o rei Túlio Hostílio.C. para alguns autores. pois a chefia de go­ verno é exercida pelo gabinete ou conselho de ministros. a saber: o familiar ou patriarcal. e os Estados que resultaram do esfacelamento do Império Romano foram. ostrogodos e longobardos. O monoteísmo hebraico proibia a divinização do monarca. A força de Moisés. a ele pres­ tando obediência Seth e sua família. assírios. como afirmavam os profetas. Mesopotâmia c Arábia. consolidando-se com Davi c seu filho Salomão (1082-975 a. o monarca é apenas chefe de Estado. na Borgonha. na Bulgária. Os títulos de pais de família. gregos e macedônios. afirmando.). monárquicos: o dos francos. por outro lado. não há que falar em monarquia patriarcal.C. de príncipes e de legisladores pertenceram aos patriarcas bíblicos. na França. como a tribo. em que uma tendência inata impele estes insetos a viver em função de uma abelha-rainha. o dos búlgaros. Todavia. que todo o poder vem de Deus. o próprio sucessor. o dos hunos.). durante o pe­ ríodo monárquico (753-509 a. se­ . medas. pois a monarquia exige um Estado perfeita­ mente integrado em seus elementos formadores. Quanto à cooptação. 15). Sem dúvida a mais antiga das formas de governo.C. todos.). o dos anglos ou saxões. Roma inicia e termina sua história sob a égide da monarquia. na monarquia há três: hereditariedade. Na Grécia antiga. Os filhos de Heth (hititas) chama­ ram a Abraão “senhor” e “príncipe de Deus” (Gênesis. Exemplo contemporâ­ neo de monarquia eletiva temos na eleição do Papa. o dos hérulos. 6). o poder absoluto de Josué em Socota. na Hungria. a monarquia começou a sc firmar no período dos juizes. e os príncipes decretam leis justas” (Provérbios. Como exemplo. Quanto à forma de sucessão. Monarcas governaram egípcios. per­ sas. rece­ bendo referências nas obras de Homero (século IX a. a monarquia já era praticada na civilização micênica. mas por Deus. et Legum Conditores justa decernunt” ou “Por mim reinam os reis. e em Fanuel. o guerreiro.

c r e t e l l a j r. Alberto. de Norberto Bobbio e Silvio A. 1950. que escolheu como sucessor Trajano. Sampaio Dória: República é governo do povo. reis peruanos que criaram vasto im­ pério na América do Sul pré-colombiana. Curso de la fe rriè re . Também na história dos Incas. m e ira . pois seus cargos políticos são preenchidos. v. Juan. periodicamente. B. in Diccionario de política.6 Formas de governo 113 nador romano. qualidades há essenciais. que deveriam governar um império fragmentado em duas metades. fundador da dinastia. um de seus generais. Nova terminologia jurídica. Rio de Janeiro. 1. Jean. ed. conforme a vontade do povo. F. 1946. te u c c i. Hachette. sua vontade a respeito de ou­ tros assuntos de seu interesse. Observa o Prof. que ensejaria a fácil conquista do Peru pelos espanhóis comandados por Francisco Pizarro. Saraiva.2) República Bibliografia: a n a n i a s Rideel. neves. N o governo republicano. Libr. t. Histoire des princim at- pes. leisySão Paulo. Mareei e Pcllcgrino.. b o d in .. São Paulo. De modo usual. Institutions politiques et droit constitutionnei 7.. dc seus filhos Huáscar e Ataualpa. mas no fato de seus cargos políticos não serem vitalícios. ed.d. Historia de las doctrinas políticas. México. Cotillon. Marco Túlio. Jean.. Guillaumin. por maioria.. p r é l o t . 2. José. 1968. ou seja. v. entre elas. Madri. Max Limonad. 2. Scientia Verlag. 1. pelo rei Huayna Capac. 1985. ed. M . 1. e. D o Nicola Matteucci. Pelo povo. 1962.u . Márcia Cristina. Sigla X X I.porque há monarquias eletivas. São Paulo. s. Paris. quando representativo. romano (História e fontes). tudo o que é ine­ rente à sociedade. todavia. des institutions 6c des lois pendant la Révolution Française. Libr. s. 1978. ocasionaram sangrenta guerra civil. 1992. por não ser vitalícia como a monarquia. atributos pri­ . ed. São Paulo. m a le t. temos exemplo de cooptação na escolha aleatória. Difusão Européia do Livro. Curso de direito m o n te s q u if. 1851-1852. ou votações. ria . Paris.d. c íc e ro . v. Os herdeiros. no fato de ser eletiva . propria­ mente. Cours de droit constitutionnei Paris. 1977. direito romano. Delia repubblica. espírito das b o u lo u is . mutuamente enciumados. ro s s i. 1866. sempre. Forense.. do ponto de vista semântico. o termo república indica. o próprio interesse público. Nicola. 2. Historia romana. a essência da república não reside. Dalloz. Les six livres de la republique. 2. E. como o Papado. república significa uma forma de go­ verno caracterizada. Buenos Aires. Do latim res publica (aquilo que pertence ao povo). em que a comunidade escolhe seus representantes políti­ cos. Então. v. s a m p a io dó- Direito constitucional 5. manifestada por eleições. Garzanti. por exemplo -. essencialmente. b e n e y to perez. 3. 1975. para o povo. “ República”. em que ela manifesta. Aalen. Aguilar.

eram eleitos por uma assembleia em que pre­ dominava. fato este visto como mais um reflexo da de­ cadência das monarquias então existentes na Itália. ao demonstrar que “ res publica res populi. termo que ressalta a raiz arquia (do grego arche. dos quais os primeiros foram Lúcio Júnio Bruto.sempre patrícios . Mas esta qualidade. t. aquilo que é inerente à sociedade. re­ sultante da queda da monarquia etrusca. Entretanto. evidentemente. Então. o Soberbo. a investidura consular durava apenas um ano. senão quando c o chefe eleito pelos governados. Ao destacar como elementos essenciais da república o interesse comum e.C. No plano histórico. mediante a qual uma comunidade afir­ ma sua ideia dc justiça. governo). Não há republica representativa sem eletividade dos que fazem a lei. república (latim) e politeia (grego) são expressões que denotam o próprio interes­ se público . quando o rei Tarquínio. § XXV). onde uma parcela da população deliberava. a república surgiu como uma inovação revolucionária. por volta de 510 ou 506 a. Não há república. Onde houver governo com chefe eleito pelo povo. foi deposto. que não prefira o governo. 155) Sendo popular. (Direito constitucional. de modo que a derrubada da monarquia foi vista com indiferença pela plebe. p. o consulado apresentava duas características essenciais: cole- . direto. Foi Marco Túlio Cícero quem delimitou. e Tarquínio Colatino. por tempo determinado. e povo não é mero ajuntamento de pessoas postas lado a lado. aí se terá república. Livro I. sua qualidade específica. no final do século VI a. com precisão. princi­ palmente. populis autem non omnia hominum coetus quoquo modo congregatus. reconhecimento oficial e inapelável de sua investidura pelo Senado. c por tempo certo. Cícero opôs à república todas as formas dc governo injustas. A investidura dos cônsules lhes dava o imperium (poder de man­ do) e a auctoritas patrum. a par do rei atuavam os cônsules e o Senado. este for­ mado exclusivamente por patrícios. v. muito mais do que uma forma de gover­ no como a monarquia. que comandou a deposição de Tarquínio. embora essencial à república. e não apenas denominações de for­ mas de organização do poder. o patriciado.C. Esta. a república apresenta analogia com a democracia da antiga Atenas. sobre os negócios dc Estado. 1. sed coetus multitudinis iuris consensu et utilitatis communione sociatus”. Na verdade. pois que também pode existir na monarquia. como já foi dito. mas uma convivên­ cia consciente de pessoas que se torna sociedade pelo reconhecimento de um direi­ to e de um objetivo comuns” (Da república. Na época monárquica. o sentido mais autên­ tico de res publica.. não lhe é exclusiva. 1. ou “a república é coisa do povo. o consenso sobre uma lei comum. diretamente. O rei foi substituído por dois cônsules ou praetores.114 Teoria Geral do Estado vativos. com que se esperava inibir dc vez qualquer tentativa de restaura­ ção da monarquia. O que realmente caracteriza a república como elemento privativo é a eletividade e a temporariedade do chefe do exe­ cutivo. Os cônsules .

a forma unitária de Estado e a monarquia constitucional como forma de governo. atuando em conjunto). sem falar no afastamen­ to compulsório de Pedro II. a aristocracia e a democracia. popular. desde que dota­ das de um droit gouvernement. substituindo-se a forma unitária de Estado pela forma federativa. denominado sistema de freios e contrapesos ou checks and balances. trazendo uma nova forma de Estado. Na monarquia. a Proclamação da República. no despotismo. a república . Jean Bodin emprega o termo república para denomi­ nar. ao passo que o déspota governa e julga mediante leis arbi­ trárias e ocasionais. as formas de governo são a monarquia. a tradicional classificação das formas de governo (monarquia. portanto. aristocracia. e uma robusta concepção de república.6 Formas de governo 115 gialidade (eram dois os cônsules. que estuda a república. a monarquia. Já na Idade Moderna. a forma monárquica pela repu­ blicana. os magistrados serem eleitos. porque se o povo não é apto a legislar. democracia e governo misto) é substituída por outra. na monarquia a desigualdade em favor da nobreza c verdadeiro pressuposto.di­ vidida em aristocrática e democrática . das formas políticas fun­ dadas na violência ou na desordem.e o despotismo. fundada. sc na república há uma relativa igualdade. Para Montesquieu. portanto. doutrinariamente. indistintamente. mas também na implantação de uma demo­ cracia representativa. mas é no melhor de seus livros. Com a independência das colônias norte-americanas em 1776. que torna­ va a república inconfundível com a monarquia. qual seja. não só no fato do repúdio à monarquia. e a anualidade. nas repúblicas. e o regime parlamentarista pelo presidencialista. integrando a natureza mesma desta forma de governo. entretanto. embora tolhido em eventuais arbitrarieda­ des pelas Constituições. prossegue. A república floresce em Es­ tados de pequena extensão territorial. representou verdadei­ ra revolução política. cuja distinção reside no fato de. quem faz a lei é o monarca. em 1889. pois todas as instituições foram subvertidas. mais singela: repúblicas e principados. surgiram os Estados Unidos da América do Norte. O príncipe. enquanto. na qual haveria separação de poderes fun­ dada num sistema de fiscalização mútua entre estes. Ademais. Maquiavel tratou do principado ou monarquia na sua obra mais conhecida. distinguindo-as. Quanto ao Brasil. adotamos com a independência e a primeira Constituição. a fe­ derativa. . Entretanto. sabe escolher seus representantes legisladores. Por outro lado. a desigualdade se torna escravidão. de 1824. Com Nicolau Maquiavel. ao passo que a monarquia exige uma área física considerável. Discursos sobre a primeira década de Tito Lívio. numa república as leis vêm a ser a expressão da vontade do povo. e o despotismo outra ainda maior.

que constava dos arts. § 5o. Méxi­ E. 1985. da Constituição de 1967. sendo que a vigente. 1992. da primeira Constituição republicana. ficou abolida a cláusula pétrea ou de imutabilidade da forma dc governo. o art. 60. c Dizionario enciclopedico dei diritto. Edipcm. mesmo por via de emenda.1891. a atuação dos monarquistas em prol da restauração da realeza. 1967 e 1988) adota­ ram a república como forma de governo. Rideel. 1848. 72 do Decreto n. graças ao art.1988.a República Federativa” . 178. a revogação ou modificação dc determinados artigos. Gusta- ve. cm plebiscito. com isto. Difusão Editorial. Norberto e m a t t e u c c i . já no dia mesmo da procla­ mação. Siglo X X I.1891. Nicola. e constitui-se. Assim o art. e 47. § 4°. de 05.11. embora permitindo. sobre a forma dc governo. 217. 90. dc 15. I o declarava: “Fica proclamada provisoriamente e decretada como a forma de gover­ no da nação brasileira . 2. cujo art. 1. dc 24. da Constituição de 1946.1937. Diccionario de política. 1. da Constituição de 1891. 90. a República Federativa. b o b b io . Paris. da mesma forma. As demais Constituições brasileiras (1934.02. da Constituição de 1934. sob o regime representati­ vo. o Governo Provisório emitia o Decreto n. § 4°.02. Novara. Cláusula pétrea.1889. que impede qualquer emenda que vise a abolir direitos e garantias individuais. em seu art. vedando. § I o. GARNIER-PAGES. São Paulo. em 1889. 70) 2. caput. p.10. conforme previsto no art. assim: A Nação Brasileira adota como forma de governo. A cidade grega. a volta da monarquia. por união perpétua e indissolúvel das suas antigas províncias. 2°. cm Estados Unidos do Brasil. 15 dc novembro. 1. vem a ser a norma constitucional que impede.3) Aristocracia Bibliografia: v. Lecciones de . Dictionnaire politique. das Dis­ posições Transitórias. Com isto. da atual Constituição. (Nova terminologia jurídica. 1. como definida por Márcia Cristina Ananias Neves. dc forma absoluta. Pagncrre. ed. 1988. § 6o. qual seja. direta­ mente. 1°. p o n s a t i. co. v. de 24. 1979.11 6 Teoria Geral do Estado A partir da Proclamação da República. § 4o. que proibia a abolição da forma republicana federativa. proclamada a 15 de novembro de 1889.1946. Arturo D. Tal decisão seria confirmada com a primeira Constituição republicana. trou­ xe significativa inovação. a possibilidade de o povo se manifestar. 2° do Ato das Disposições Transitórias.. glotz .

V). Durante o sé­ culo VII a. 1884. governo dos melhores. por outro lado. Ponsatti. mas na ri­ queza pecuniária. a periodici­ dade e a colegialidade da magistratura transformaram o Senado no órgão estável por excelência da República. dc muitos). Aristóteles.C. já Heródoto (480-425 a. 1976. ao contrário do que proclamaram Políbio e Cícero. o verdadeiro centro da estrutura política do Estado romano. 1976. fizeram. Aristocracia (do grego aristoi. estribada não mais na propriedade fundiária ou no sangue.C. enfim. e ao transformar-se em minorias dominantes. as origens da aristocracia remontam aos tempos homéricos. como assinala Arturo D. mas na virtude e na sabedoria. men­ cionava trcs formas de governo (de um. Astrea. . li­ teralmente. embora mantendo em seu tempo. Antiquités grecques. Buenos Aires. em oligarquias socialmen­ te disfuncionais que haviam perdido o fundamento moral de seu poder. A par da monarquia e da isonomia (em substituição à demo­ cracia).C. cognominado o pai da História.6 Formas de governo 117 historia de las instituciones. IV. afirmou que a aristocracia é o governo con­ fiado aos melhores pelos cidadãos. não podem deixar de ser aqueles que pertencem às classes mais elevadas da so­ ciedade. do Senado o instrumento e símbolo de sua as­ cendência. de má índole. orientação destinada a enorme ressonância. por serem moral e intelectualmente superio­ res. Por outro lado. portanto. encontraram no Senado o reduto dc seus privilégios. se definições clássicas de aristocracia as encontramos em Pla­ tão e Aristóteles. melhores. que individualizou com maestria essa forma de governo. o equilíbrio da Constituição romana já não era o mesmo no século II a. 5. 1. o termo aristocracia não se funda nas virtudes militares (inerentes à primitiva nobreza grega). os aristoi. As minorias dirigentes. enfim. sem distinções de nascimento ou riqueza (Polí­ tica. 10). daqueles que apresentam su­ perioridade não só intelectual. p. Heródoto faz menção à oligarquia. Em Roma. aos melhores.). II. designando o estamento que limitava o poder do rei (basileus). Na antiga Grécia. t.). Em Platão.C. mas também moral. Paris. e que seria denominada oligarquia. Picard. dos sábios. a aristocracia teve seu maior destaque durante a república senato­ rial (509-27 a. F. ocorreram sensíveis modificações socioeconômicas. de poucos. dirigir o Estado no rumo do verdadeiro bem (A república. Segundo Platão e Aristóteles. Caberia aos sábios. a plebe. e kratos. o bastião largamente inexpugnável de sua injustificável dominação (Lecciones de historia de las instituciones. domínio) significa. s c h o e m a n n . 313). Buenos Aires. quase não tratando da aristocracia. enfim. poder. a denominação aristocracia. A intermitência dos comícios populares. (J. Astrea. surgindo uma nova elite. prudentemente. que sucessivamente exerceram o poder social e po­ lítico em Roma. em oposição aos kakói ou mal-nascidos.

R. terminologicamente. tica. Revista dos Tribunais. Barcelona. ed. Theodos ié y è s . Nacional. no seu sentido original. Saraiva. Instituciones griegas. Briguict. s ie b e r t . 1990. Los partidos políticos. e p o h l - F. Obras completas. São Paulo. 14. História Fred S. Tres teorias sobre la prensa. Giuffrè. desapareceu. 1938. 1989. ed. Bushatsky/Universidade de São Paulo. . São Paulo. São Paulo. São Paulo. Ama­ h i- ral. Obras completas. e Direito constitucional comparado% São Paulo. Amorrortu. São Paulo. São Paulo.4) Democracia Bibliografia: 1978. telles j r souza . que veio a perder para a burguesia a condição dc sustentáculo das monarquias absolutas. Rio dc Janeiro.. 1984. Vásquez dc. A cidade antiga. 1950. soviética dei 1977. tos de direito público e constitucional brasileiro. Rio dc Janeiro. TÃo. . w . Pa­ Pedro. 1970. Sucessor. Saraiva.l a r i . . Forense.. a aristocracia. José Pedro Galvão de. I.. política. A democracia e o Brasii São Paulo. Emmanuel Joseph.. Buenos Aires. a aristocracia deixou de ser. Elementos de teoria geral do Es­ dom enach Amado. 6. Casa Subirana. Reghizzi Gabriele. 1931. Introdução ao estudo do Estado e do direito. r u f f ia prélot. Celso Ribeiro. da Europa.. Roberto A. re. Robcrt. v. . Conceito c natureza da sociedade . Paulo. ed. La constituzione salvetti n e t t o . São b o n a v id e s bastos.118 Teoria Geral do Estado A partir da Idade Média. sincera da França. A democracia possível. Coimbra. Forense. v. 1986. 1963. Rio dc Janeiro. Milano. São Paulo. São Paulo. 1931. Todavia. Droz. Quest-ce que le Tiers État?.a n g e s . f u s t e l d e c o u i . Paulo D. Luís. 1957. taker d a c u n iia . Saraiva. s e ig n o b o s Charles. Labor. Rio de Janeiro. com o aparecimento do Estado moderno. Paolo Biscaretti di e c r e s p i . Saraiva. 1949. Forense. pla- o c t a v io . Elemen­ Marcel. e que se sobressaía pelos altos postos militares e por privilégios transmitidos hereditariamente. 1981. Freitas Bastos. 1927. tado. 1972. . Rio de Janeiro. de la Flor. uma forma dc governo para indicar um estamento diverso da burguesia e do cle­ ro. Goffredo. Problemas de filosofia política. 1965. e 4. m ic h e l s m f . Ed. por com­ pleto. Curso de teoria do Estado e ciência política. Aguilar. . ris. 2. Politique d'Aristote. 2. PUE. Barcelona. cabral de m o n c a d a . Curso de teoria do . Estado. Madri. Difusão Européia do Livro. 1974. Teoria geral do Estado/Introdução ao direito constitucional. 1981. Paulo. Armênio Dalmo de Abreu. Rodrigo c v i a n n a . A propaganda polí­ . Saraiva. m a is c h Numa Denis. as mutações eco­ nômicas diminuíram substancialmente a importância da aristocracia. Ciência política . d a i .l l a . Cíenève. Com a Revolução Francesa. 1984. ed. 1979. Curso de teoria do Estado/Di­ v ie ir a reito constitucional /. 1979. Fernando. . Martins Fontes. Buenos Aires. ham m er . e p e t e r s o n . 2. vani b e n f ic a Francisco. 1986. Jean-Marie. 1963. 1979. f e r r e ir a f il h o Manoel Gonçalves. Polí­ tica e teoria do Estado.

executiva e judicial. Claude.6 Formas de governo 119 2. Assinala Paulo Bonavides: A democracia antiga era a democracia de uma cidade. todas elas ani­ madas dc fervoroso patriotismo. Já se dis­ se que a maioria dos ideais políticos modernos . Francesco. 1974. separados um dos outros por baías e cadeias de montanhas. um povo. governo cons­ titucional .4. Paulo. um conjunto de cidadãos. D i­ cionário da civilização grega. Cada cidade que se prezasse da prática do sistema democrático manteria com orgulho um Agora. onde os cidadãos sc congregassem todos para o cxcrcício do poder político. era. na cidade grega. Ciência política . Paris.1) Introdução ao tem a Dividiremos este capítulo. a democracia foi praticada na forma direta. Jorge Zahar. 1933.surgiram na antiga Grécia. À primeira vista. O Ago­ ra. que deliberava com ar­ dor sobre as questões do Estado. pois. a Grécia parece formar uma unidade geográfica. liberdade. em especial. Alcan. um exame mais atento. Isto era possível na prática porque a cidade era de reduzidas dimensões e a população diminuta. Para elas.justiça. lhe garantia os direitos subjetivos. Rio dc Janeiro. Vargas. o Estado não era uma abstração somen­ te compreensível com o auxílio de um mapa. Iniciemo-lo com a concepção de democracia entre os antigos gregos. fazia pois o papel do Parlamento nos tempos modernos. de um povo que desco­ nhecia a vida civil. via na participação da vida pública o supremo bem a ser almejado por um homem. era a chamada demo­ cracia clássicayna qual os membros de uma comunidade deliberam diretamente. N irri. e sim uma realidade palpável. Rio de Janeiro. dotados de inabalável consciência social e de zelo pela tradição. que se voltava por inteiro à coisa pública. Fundação Getúlio mossh. uma pra­ ça. mostra-nos que a natureza dividiu aquele conjunto num gran­ de número de vales e planícies. além de lhe assegurar a participação efetiva na vida pública. A cidadania era grande objetivo do ateniense. contudo. em duas partes: evolução da doutrina democrática e espécies de democracia. A cida­ de não era um produto da razão. Neste país surgiram inúmeras pequenas comunidades.2) D em ocracia direta Bibliografia: b o n a v id e s . O ateniense. La démocratie. Foram os gregos os primeiros a lançar as sementes da ideia democrática. . que fazia de sua assembleia um poder concentrado no exercício da plena soberania legislativa.4. com finalidade didática. 2. Na Grécia. sem intermediação de representantes. 2004. sementes que foram conservadas pelos filósofos da Idade Média e que frutificaram na modernidade. isto sim.

Por outro lado. aqueles que residiam fora da cidade não eram considerados cidadãos. tido este como falta de vontade e entusiasmo para o trabalho. de um prestígio muito maior do que o ócio. mesmo porque na própria atualidade o estrangeiro não possui certos privilé­ gios atribuídos ao cidadão nato. que significa gover­ no do demos. que eram os únicos a possuir armas. apenas aqueles que integravam um demos (município). Empregava-se então a expressão nec ócio (daí. a pólis via seu elemento humano formado por três estamentos: inicialmente. O cida­ dão. Daí a expressão democracia. dotados do direito de par­ ticipação na vida política. um lugar privilegiado se reserva à ágora.120 Teoria Geral do Estado Para se ter presente o apego do antigo grego à sua cidade. A civilização contemporânea.C. Por outro lado. Estes realizavam serviços manuais e eram benignamente tratados. dirigido por um de­ marca. basta lembrar que a pólis não era dotada do exército permanente. sendo tal direito transmitido de pai para filho. o grande número de escravos existente em Atenas permitia que o tempo do cidadão dedicado à política fosse quase integral. orador. lembra Francesco Nitti. As assembléias eram realizadas numa praça denominada agora (do grego agos. O grego era considerado cidadão da pólis a que pertenciam seus pais. Aristóteles costumava dizer que todo c qualquer trabalho manual deveria ser executado por escravos.. sua defesa dependia dos próprios cidadãos. magistrados que presidiam as sessões do conselho e da assembleia. por ele consideradas desprezíveis. a ágora tem seu prestígio au­ mentado e as reuniões passam a ser mais freqüentes. a par­ tir de meados do século VIII a. Como os cidadãos eram frequentemente chamados a participar das assembleias. Em Atenas. aquele que tem o direito de falar). Com efeito. pragmática e materialista. onde deliberavam os prítanes. vivendo com simplicidade e modéstia. quando não vadiagem pura e simples. de forma que os cidadãos pudessem dispor de seu tempo para as atividades políticas. Tão logo se desobrigava de suas ocu­ pações habituais. costume já mencionado por Homero. O terceiro e último estamento era formado pelos escravos. consideravam um povo sem ágo­ ra um povo escravo. as expressões negó­ cio e negociante) para designar atividades lucrativas. O segundo estamen­ to compreendia os metecos ou estrangeiros que não participavam da vida pública. os cidadãos (enpátridas). Assim. quase sempre. participavam da política. perverteu o sentido original destes vocábulos de tal forma que seu valor foi inver­ tido. o ateniense sc voltava para a atividade política. com o triunfo da democracia direta. Os gregos. Tais assembléias ti­ nham caráter informal e não desfrutavam de poder relevante. na qual se cruzam as principais artérias da cidade. sem liberdade de opinião e de sufrágio. considerava o ócio a mais pura atividade espiritual. poden­ . que não era opulento. embora fossem livres e sua exclusão da política não significasse discriminação so­ cial. no bouleuterion e na tholos. o negócio desfruta. voltada à contemplação e ao estudo dos te­ mas filosóficos. hoje. puramente materiais.

a palavra aterradora totalitarismo. periecos e ilotas. Não havia. mi­ lênios depois. numa sociedade anárquica. que exerciam funções publi­ cas menos significativas. Ao eupátrida ateniense correspondia o esparciata ou lacedemônio. Jean-Jacques Rous­ seau e Emmanuel Joseph Siéyès. entretanto. contra periecos e ilotas. criada. que. Percebe-se. originalmen­ te. condenando o absolutismo. 2. cidade situada no alto do vale do Eurotas. O Estado intervinha em tudo. a re­ pública aristocrática governada por um conselho de trinta membros. 11a verdade. de Thomas Hobbes. auxiliado por dois reis. tendo por missão proteger os interesses dos esparciatas (cidadãos) nas relações com outros Es­ tados. então.3) D em ocracia representativa Justificada. já se fazia presente. 11111 dos criadores da ideolo­ gia iluminista. fundada na monarquia. imperando a lei da natureza. Em Esparta. não sen­ do raras. os homens viviam. Quem nos dá uma visão realista da democracia grega é Fustel de Coulanges. A metecos e escravos em Atenas correspondiam. pelo fascismo.6 Formas de governo 121 do alcançar sua liberação em face de bons serviços prestados aos seus proprietá­ rios. que a participação do cidadão 110 processo político era muito mais um dever do que um direito. no capítulo XV III de sua obra A cidade antiga. a par de inegáveis conquistas 110 campo da liberdade e da propriedade individuais. No seu modo de ver. na própria natureza. pelos excessos do absolutismo em França. cm especial. despro­ vida de poder. consagrava. São figu­ ras de realce no pensamento liberal individualista John Locke. A mentalidade totalitária ou organicista. a liberal-democracia. Locke procura fundamentar a forma de governo parlamentar introduzida 11a Inglaterra pela Revolução de 1688. Seus preceitos básicos po­ deriam ser resumidos em três: a) o guia infalível da sabedoria é a razão. até mesmo no modo de trajar do ho­ mem ou da mulher. em Esparta. em liberdade e igualdade absolutas. em parte. c) a vida do homem em liberdade absoluta. fertilíssima região da Grécia. as tiradas organicistas de Platão e dc Aristóteles nas respectivas obras. Frise-se que o próprio Estado podia ter escravos. de forma que não é difícil chegar-se à desagradável conclusão de que o ideal totalitário se amalgamava com a própria democracia grega.4. torna-se insuportável. Para melhor alcançar seus objetivos in­ . é preferível à vida em civilização. Em sua obra Segundo tratado do governo civil. contudo. a organização política. isto é. O eforato era um órgão importantíssimo na política espartana. b) inexiste o pecado original: o homem é levado à corrupção pelo próprio poder político. estes últimos o estamento mais numeroso. com suas ultrapassadas concepções criadas para manter o po­ der do clero e da monarquia absoluta. iniciada na Inglaterra por volta de 1680 e fundamentada cm rígido racionalismo oriundo. respectivamente. Locke é. fundamentou aberrações doutrinárias de malévolos efeitos. diga-se de passagem. pela leitura do texto.

era. A comunidade teria. por sua vez. escolheria. Perdida a liberdade natural. Rousseau afirma que o homem surge num estado de liberdade absoluta. Ora. sua natureza é sã. no qual também a felicidade seria abso­ luta. então. sem dúvida. outorgando a esta um poder de mando destinado a executar a referida lei natural. A única função do Estado seria. Essas ideias de Rousseau acham-se situadas especialmente em O contrato so­ cial1 . o homem perde tal liberdade e se corrom­ pe. e a própria sociedade nada mais é que o objeto de um con­ trato. daí o divórcio. rebelar-se contra os possíveis excessos dos governantes. por conseguinte. contudo. dependente de um acordo de vontades. se Locke tivesse de optar entre a desordem e o despotismo. direito de. que podem dissolvê-lo livremente. instituir a sociedade política. mediante um pacto voluntário .. relegada a um segundo plano toda a ideia dc progresso e de bem-estar social. um dos corifeus da Revolução Francesa. a primeira hipótese. a sociedade polí­ tica conveniente é aquela que garante a mais ampla autonomia individual. man­ ter a ordem. como tal. Emmanuel Joseph Siéyès (1748-1836) . Rousseau. é a liberdade dos bons tempos que o faz bom: portanto. preservando a liberdade individual. O homem. portanto. Quando surge a vida em sociedade. reduz o casa­ mento a um contrato e. ideal maior do Estado. O individualismo.122 Teoria Geral do Estado dividuais. Já se disse que. a restauração do caráter do homem se faz com a liberdade civil. dizia em sua obra O contrato social: “O homem nasce livre e em toda parte se acha aprisiona­ do'’. é um bom selvagem . resolveram. a qualquer momento. é aque­ la que reduz ao mínimo os vínculos sociais c a pressão exercida pela sociedade sobre o homem. a ser um fim em si mesma. o chamado estado de natureza . Discurso sobre a origem da desigualdade entre os homens e N ova Eloísa. diz ele. fruto da vontade e não de uma inclinação natural. A própria família somen­ te se mantém em razão de laços contratuais. A liberdade passa. mas a sociedade o corrom­ pe. aliás. Como Locke.

Capítulo XV). C c que les Miniftrcs ont ttn ti. C ° . & c e q u e Privilegies cux-m cm cs propofaic cn fa faveur. Q u a-t-il & c jufqti a prcfcnt dans 1'ordrc p olitiquci RiEM. nada com o ouro. Nous c x imincrons cnluitc les rooyensquc 1on a eflayés / íc c c u x q n c l on doic prendre. C c q u o n auroit Jú fairc. Enfin . a liberdade é o bem supremo do ideal democrático.6 Formas cie governo 123 Q U E S T -C E Q U E LE TIERS-ÉTAT? X j E plan d c cct E c m c ít aflèz fimplc. Todos estão certos de que ja­ . A i. mas para as cumprirem. não pode participar da vida em sociedade a não ser conservando sua soberania pessoal. os cidadãos fazem tudo com a força dc seus braços. O n v. 1®. sem intermediá­ rios. o Estado se encon­ tra à beira do colapso. 3°. Por isso. quclqu* chofe. Num Estado bem dirigido. todos freqüentam as assembleias. que se preocupam mais com o dinheiro do que com sua própria pessoa. Só pode haver democracia. tanto para Locke como para Rousseau. onde houver deliberações tomadas diretamente pela comunidade. cc q u i rtjle i fairc au Ticrs pour prendre U p h cc qvú lui cft dúc. N oui avons trois queftions i nous faire. Q u c ft-cc que le Tiers-Ecat » T o u t . mas com um mau governo ninguém se interessa pelo que nelas se delibere. 5 °. por ser contrária à lei natural a proposição de que a maioria governa a minoria. Rousseau é bastante claro e incisivo a esse respeito: Logo que a função pública deixa de ser a principal atividade dos cidadãos. Inércia e dinheiro ensejam soldados para dominar a pátria e deputados para a venderem. não pagam para se desobrigar dc suas obrigações. É preciso combater? Pagam a mercenários e ficam em casa. dizia Rousseau. Ainft nous d iro n s: * 4 ° . Rousseau era adversário ferrenho da chamada democracia representativa. N um Estado verdadeiramente livre. Rousseau vai ao ponto de afirmar que o ho­ mem. en c ffc t. É preciso ir ao parlamento? Nomeiam deputados e continuam a ficar em casa.i voirfi les reponfes font juftes. afin que IcTicrsEtat d evien n e. Frontispício da obra clássica de Siéyès Que é o Terceiro Estado? Já estamos vendo que. í®. Q tiç dcmandc-c-il f A dcvcnir QUELQUE G H O SE. Num dos mais valiosos capítulos de seu O contrato social (Livro Terceiro. naturalmente independente.

efetivamente existentes em dado momento histórico. quando muito. Boas leis criam outras melhores. logo que estes são eleitos. que vivem e que viverão. O povo inglês pensa que é livre. utiliza tão mal esta. c esta não admite representantes. Nesta segunda obra. jamais será uma lei. A nação não é o conjunto de homens reais. que bem merece perdê-la. voltou para a França em 1830. o Terceiro Estado. Exilado. considerados tão importantes para a Revolução Francesa como o Manifesto comunista. para a Re­ volução soviética. na França pré-revolucionária? Era o ter­ ceiro estamento social. em pessoa. elemento mais numeroso e mais sig­ nificativo economicamente. e isto não ocorria então. A ideia de nação em Siéyès confunde-se. não há meiotermo. porém está enganado. como contrária à natureza. aparentemente. passa a ser escravo e nada é. presidente da Constituinte francesa re­ volucionária. é nula. Siéyès escreveu dois explosivos panfletos. não aprove. mas não conseguiu que seu projeto de Constituição fosse adotado. Se Rousseau é inimigo figadal da democracia chamada representativa. . a própria ideia de privilégio. afirma que a soberania do Estado reside na nação. Os deputados não são c nem podem ser representantes do povo. estamento. exatamente. Apoiou Bonaparte no golpe do 18 Brumário. obra da qual se serve para combater a pluralidade de es­ tamentos do ordenamento constitucional monárquico. Aliás. estratificação trazem consigo um semantema (ra­ dical) st. classes sociais na França. Esses dois panfletos se intitulam Ensaio sobre os privilégios. estratificados. E quando alguém diz: Que me importa o E s ta d o este está perdido. de Marx e Engels. Toda lei que o povo. mesmo porque as ocupações particulares ocupam todo o tempo. com efeito. com efei­ to. de origem indo-europeia. ou é ela ou não e. Siéyès será o grande inspirador desta. denotando a rigidez das sociedades estruturadas em estamentos. Deputado do povo. pois uma sociedade estruturada em classes admite a mobilidade social. são. com todo o Terceiro Estado. pois não admite alienação. antecedido pela nobreza e pelo clero. concretos. estado. Quem inte­ grava um estamento inferior não podia galgar um estamento privilegiado. más leis acarretam outras piores. sendo os três estados estanques. as palavras casta. foi adversário de Robespierre. per­ manência. Nos poucos momentos em que usufrui de liberdade. Ela se expres­ sa pela vontade geral. só é livre durante a eleição dos membros do parla­ mento. A soberania não pode ser representada. imutabilidade. no qual Siéyès incrimina. elementos de uma comissão e não podem concluir nada em definitivo. Emmanuel Joseph Siéyès foi um abade que teve uma vida política destacada. no sentido moderno que atribuímos à expressão clas­ se social. e Que é o Terceiro Estado?. propondo a unidade da na­ ção e do chamado Terceiro Estado (o povo). afinal.124 Teoria Geral do Estado mais a vontade geral prevalecerá. mas sim o conjunto daqueles que viveram. Não havia. que significa. Que era.

para que haja vontade gerai Entretanto. contudo. Mais adiante. para Siéyès. ao passo que. Em razão disso é que Siéyès abre seu famoso apúsculo com as incisivas palavras: “ Que é o Terceiro Estado? Tudo. Que tem sido até agora no ordenamento político? Nada. Em razão da doutrina de Siéyès. A sobe­ rania. Assim. a representação da nação será atri­ buída a quem ela determinar. preâmbulo do título terceiro. Não há. Que deseja ele? Chegar a ser algo”. não integra o Terceiro Estado. contratualística. 7°: “Os representantes elei­ tos nos parlamentos não serão representantes de um departamento particular. da mesma forma que no direito civil temos um contrato denominado mandato (do latim manus dare). diz ele. consistindo num vínculo contratual entre representante e representado. sendo a nação uma entidade abstrata. Nada pode progredir sem ele. O Terceiro Estado. Ora. Nação e Terceiro Estado confundem-se. isto é. ambos concor­ dam num ponto: todo e qualquer organismo intermediário entre os indivíduos e o poder político deve ser eliminado. reitere-se. é uma nação completa. não se confunde com as gerações que passam. arts. a nação é uma entidade abstrata. mas com os interesses permanentes do Estado. sendo que a participação do povo. os interesses da nação suplantam os interesses momentâneos do povo. Todo aquele que é privilegiado pela lei sai do ordenamento comum e. vinculação jurídica entre man­ . a Constituição francesa de 1791 estabeleceu em seu art.6 Formas de governo 125 Clero e nobreza eram dotados de privilégios com os quais não era contempla­ do o povo ou Terceiro Estado. A responsabilidade dos representantes apura-se nos termos da Constituição. porque segundo ele é imprescindível a participação direta da comunidade nas deliberações políticas. que representa os interesses perma­ nentes do elemento humano do Estado. pois as mãos simbolizam a fidelidade (per dexteram era per fidem). Por isso. a representação política é obra do poder constituinte. que pertencia ao rei. deve ser direta. “da qual emanam todos os direitos” (Constituição de 1791. e sim mera representação política. que fixará a competência e os deveres dos representantes da na­ ção. c nenhum mandato lhes poderá ser atribuído”. consequentemente. A nação. segundo Rous­ seau. I o e 2o). passa a pertencer à nação. Nisto. mas de toda a nação. Enquanto o mandato imperativo tem natureza consensual. vinculação jurídica entre representantes e representados. não po­ derá haver mandato imperativo. mas das próprias normas da Constituição. e a perda do exercício do cargo não decorre da vontade dos governados. for­ malizando-se o pacto por um aperto de mãos. Já o disse­ mos: uma lei comum c uma representação comum e o que constitui uma nação. a posição de Rousseau é oposta à de Siéyès. no pen­ samento de Siéyès. no capítulo II: É preciso entender por Terceiro Estado o conjunto dos cidadãos que se acham submetidos a um ordenamento comum. e seria bem melhor se os outros Estados não existissem.

Assim. A representação nacional tem natureza institucionalvem de cima para baixo. É preciso que aí estejam os interesses dc que vos falei: o interesse religioso c moral representado pelo clero. bem como pelos operários. ainda saindo das camadas inferiores. política. sejam estes dc natureza econômica. para sc inteirar do que sc passa lá fora. artísticos. Se as primitivas sociedades eram ho­ mogêneas e a solidariedade social puramente mecânica. porque lá eles sempre estiveram identificados a classes sociais. como frisa Galvão dc Souza. o interesse material. pelas universidades e academias. De fato. Vásquez de Mella adverte: O que se deve representar é o homem de classe e de grupo. A representação por meio de partidos. daquelas autoridades sociais que for­ mam a aristocracia de todos: os méritos científicos. em perfeita integração com os organismos vivos da nação. animal social por natureza (zoon politikon ). é necessário que essas forças estejam representadas nas Cortes. intelectual. tal concepção de democracia. contu­ do. representado pelo Exército. procurando rebater os excessos do absolutismo monárquico. o interesse da defesa.126 Teoria Geral do Estado dante e mandatário. a pri­ meira medida dos partidos que formam o parlamento é procurar uma informação pú­ blica. Quan­ do o parlamento representar todas essas forças. e surgem espontaneamente. pela in­ dústria e a agricultura. e sim a formação de grupos sociais que surgem espontaneamente. Surgem grupos das mais diversas espécies e fina­ lidades. e o interesse das superioridades. religiosa ou in­ telectual. surgindo a solidariedade orgânica e a divisão do trabalho. antecedem no próprio Fi­ tado. representado pelas corporações científicas. não poderá jamais. e como as classes são categorias sociais permanentes. Ora. Foi olvidada a ideia de que o Estado não tem no elemento humano a mera soma dos indivíduos. e não se dará esse caso vergonhoso .dc que. então o espelho da sociedade será ele mesmo. o Partido Con­ . pelo menos até o momento inexpressi­ va e fictícia em nosso País e em quase toda a América Latina. colocando o indivíduo numa po­ sição dc desamparo perante o poder político. O Estado poderá ató desconhecer tais grupos. não podendo ser negadas sem que sc negue uma na­ ção. somente se agrega aos seus semelhantes que tenham os mesmos interesses. que. grupos que. ao passo que o mandato imperativo tem natureza consensual. apresentou bons resul­ tados na Inglaterra. o processo denominado in­ tegração ensejou a diferenciação paulatina de tais grupos. o homem.prova de que não são representativos os parlamentos modernos . têm direito a brilhar nas alturas. muitas vezes. da virtu­ de. incorreu no extremo oposto. a ele vedada uma participação efeti­ va nas decisões dos governantes. de acordo de vontades. representado pelo comércio. por exemplo. a família e o município. quando surge uma crise agrícola ou industrial. o interesse docente. da linhagem. faze-los desaparecer. revelando a inclinação do homem para uma agregação orgânica e não puramente mecânica.

Um sindicato ou um clube de fu­ tebol é. Na democracia liberal e individualista surgem. não em doutrina. ocorreu nos Estados Unidos da América do Norte. veículos que a representam. Os quadros partidários não correspondem à organização natu­ ral da sociedade que visam representar. Há casos que poderiam ser apontados como exceções. por exemplo. vazias embalagens. e. Em nada se prendem ao drama quotidiano do cidadão. no tocante à representação partidária. muito mais importante do que um partido. partido representante. não em abstrato. Por que não substituir a representação par­ tidária pela representação corporativa? A representação feita através dos partidos é inexpressiva e fictícia. Galvão de Souza também se mostra incisivo e claro a esse respeito: Os partidos podem ser indispensáveis num determinado tipo de democracia. sim­ ples rótulos. Pois aí está o dc que muitos se esquecem. não devemos nos esquecer de que os partidos ingleses se acham intimamente ligados a determinadas classes ou a grupos . sem nenhum conteúdo doutrinário e programático. isto é. por influência de Siéyès. Além disso.6 Formas de governo 127 servador sempre esteve ligado aos grandes proprietários. Entretanto. observados não em tese. em especial na França. o Liberal. incapazes. não em todos. então aparecem os partidos para substituí-los. já escrevia antes mesmo da insurreição de 1964: Os partidos políticos brasileiros. na América Latina tornaram-se quase sempre órgãos deformados. identificado com a classe operária e as agre­ miações sindicais (trade unions). representando a classe média burguesa. o da Inglaterra. e também instrumentos para orientála. Se na liberal-democracia os partidos apareceram para preencher o vazio dei­ xado pelos corpos intermediários extintos em 1791. sofreu menos o impacto das novas ideias revolucionárias. a Inglaterra. são meras siglas. Em preciosa monografia intitulada A democracia e o Brasil. o pragmatismo suplantou as abstrações ideoló­ gicas. como órgãos de expressão da opinião pública. portanto. Fenômeno semelhante. finalmente. dc certa forma isolada do drama políti­ co que se desenrolava no continente europeu. de orientar a opinião de quem quer que seja sobre os problemas sociais. Goffredo Telles Jr. os agrupamen­ tos intermediários da família ao Estado. Servem apenas de instrumento para o registro de candidatos no tribunal com­ petente. da aristocracia. bem apontado por Maurice Duverger. em seu real funcionamento. Partidos políticos do tipo dos nossos não são órgãos naturais da sociedade. meros instrumen­ tos dc grupos ou de chefes políticos arrivistas. mas em concreto. Não são produtos das exigências comuns da vida humana. isto é. o Trabalhista. Dissolvidos os órgãos naturais de representação da sociedade. por­ tanto. a ponto de não haver uma diferença bem definida nos dois grandes partidos aí existentes. onde. no sentimento do povo. Nada dizem à alma popular.

destacando-se aquele que ensejou a anexação (Anscbliiss) da Áustria à Alemanha. Deputados e senadores serão man­ datários de seus partidos. sendo. Plebiscito: a expressão denomina uma consulta prévia que sc faz à coletivi­ dade. portanto. no que foi imitado por Napoleão III. O parlamentar. de certa forma. Inicialmente. o constitucionalismo brasileiro ensejou a participação popular direta em 1963. um retorno ao mandato imperativo.01. a vinculação do parlamentar ao seu partido. formulando um programa de governo e designando candidatos que se vinculam. assim nominada porque. a fim de que esta sc manifeste a respeito de sua conveniência ou não. Embora adotando. 6. em nome da fidelidade partidária.1961. a função do partido político é preparar a de­ cisão popular. mas antes dc efetivá-la consideram necessário que o povo se manifeste. Ele se sujeita ao programa partidário. pois o deputado pode ser desligado de seu partido caso sc des­ ligue da linha de conduta que lhe for traçada. Os governantes consideram oportuna a medida. quando garantiu o apoio da maioria para suas medidas. que havia sido adotado em 02. por intermédio da Emenda Constitucional n. basicamente. iniciativa popular. Isto marca. que concedeu aos plebeus o direito de participar do processo político na antiga Roma republicana. os governantes france­ ses usaram largamente do plebiscito. Após a Segunda Guerra M undial.09. não decide mais por si próprio. referendo. Como se poderia compreender o desenvolvimento do Partido Trabalhista sem a base sindical do “trade-unionismo” ? E o Partido Conservador não tira a sua força do elemento aristocrático? As aberrações e os abusos cometidos cm nome da chamada democracia re­ presentativa ensejaram uma série de providências saneadoras do Estado Moderno. de 23. Esta intervenção compreende. à volta do regime presidencialista. Na democracia partidária.). mediante um plebiscito no qual o eleitorado refugou o regime parlamentarista de governo. o que ocorreria com a Emenda n. ao lado da natureza representativa de seu sistema político. os seguintes ins­ titutos: plebiscito. ten­ do origem na Lex Hortensia (século IV a. por intermédio de plebiscitos. o instituto adotado por Napoleão Ikmaparte para obter o aval popular das mudanças constitucionais dc seu governo. recall e mandato im­ perativo. a tal programa. por conseqüência. obrigatoriamente. a de­ mocracia representativa. O termo plebiscito deriva de plebs.1963.4. aliás.C. plebe. Modernamente. 4.4) D em ocracia sem idireta A terceira espécie de democracia é a democracia semidireta. 2. manifestando-se favoravelmente. tradicionalmente. Hitler realizou vários plebiscitos. . o povo francês manifestou-se durante a Grande Re­ volução. veto popular.128 Teoria Geral do Estado sociais. nela se admite a utilização esporádica da intervenção direta dos governados em certas delibera­ ções dos governantes.

juntamente com o plebiscito e o recall (que permi­ te aos eleitores revogarem o mandato de um representante eleito e que é legal em doze . a iniciativa popular obriga o parlamento a legislar. E uma das razões para o seu fortalecimento recente é que as pessoas estão exigindo maior prestação de contas.1 ) c como instrumento da vontade popular na manutenção ou modificação da forma de governo e do regime de governo (art. 1962. 1 4 . na Constituição de Weimar. a moção. no art. também. Como acentua John Naisbitt cm sugestiva monografia: Os projetos de lei originados das comunidades e os plebiscitos são as ferramen­ tas da nova democracia. O art. expressamente. g. porque. Referendo: o referendo e o mecanismo da democracia semidireta pelo qual os cidadãos são convocados para se manifestar a respeito da conveniência ou não de medida já tomada pelos governantes.. da Constituição de Cuba. A diferença entre os projetos de lei originados da comunidade c os plebiscitos é que os primeiros aparecem na votação através de ação direta do cidadão. Também o referendo é previsto pela Constituição brasileira no art. que de­ verá examiná-lo c emitir um parecer (/l democracia. que autoriza o seu exercício por um mínimo de dez mil cidadãos. então. 14. se um determinado número dc ci­ dadãos o exige. no Estado de Dakota do Sul (1898) e no Oregon (1904). pelo qual pressiona o parlamento a reparar um projeto de lei sobre determinado assunto. Trata-se. Como assinala Georges Burdeau. Nisto difere do plebiscito. O aumento desses projetos. os cida­ dãos não legislam. A iniciati­ va popular foi empregada pela primeira vez nos EUA. Ressurgiu. da Constituição italiana de 1947 determina que cinqüenta mil eleitores podem obrigar o parlamento a discutir um projeto de lei oriundo de iniciativa popular. Publicações Europa/ América. de todas as instituições da democracia semidireta. c os plebiscitos são uma maneira dc os cidadãos aprovarem ou não a ação do legislativo. II. como desejam cidadãos informados e educados. p. Dá-se o nome de referendo também à manifestação popular sobre a entrada em vigor de leis já elaboradas pelo parlamento. No caso. a que mais aten­ de às exigências populares de uma participação efetiva no processo político é a ini­ ciativa das leis pelo próprio povo. enfim. bem como a discuti-lo e a votá-lo. 86. Iniciativa popular: eis o mais significativo instituto da democracia semidire­ ta. 133). 2o das Disposições Transitórias). 71. Estes instrumentos criam acesso direto à decisão política.6 Formas de governo 129 A Constituição brasileira prevê. Na iniciativa popular o povo exercc apenas um direito dc petição “reforçado”. Realmente. mas fazem com que se legisle. um projeto de lei determinado será exposto à Assembleia. in fine. Lembra Salvetti Netto que o Le­ gislativo não está obrigado a acatar a iniciativa popular. de ratificação popular de algo que já está feito. O primeiro projeto dc lei estadual originado da comunidade nos Estados Unidos ocorreu no Oregon em 1904. depois.. A iniciativa popular é encontrada. Lisboa. a realização de plebiscitos como forma de exercício da soberania popular (art. na Ve­ nezuela e na Itália.

sendo o instituto adotado. às decisões da Suprema Corte. Li­ vros Abril/Círculo do Livro. Ele pode ser defi­ nido como o direito de um determinado número de eleitores solicitar a destituição ime­ diata de um governador ou de qualquer outro detentor de cargo eletivo. a maioria dos eleitores pode anular a decisão. Theodore Roosevelt foi. 321). William Bennett Munro. a partir de 1912. 14. em manifestação direta. quando estes. (Megatendências. e obter que seu pedido seja submetido aos eleitores para que estes possam decidir. E. verdadeira­ mente. Forense. Quando um juiz se nega a aplicar uma lei. citado por Wilson Accioli (Teoria ge­ ral do Estado. e c esta.principalmente em relação à legislação social que . mas a única arma que o povo americano encontrou para combater um perigo muito maior .a magistratura eletiva de vários Estados tem entravado. Como assinala. arrojada e singular. de democracia semidireta lhe permite anular a ação dos juizes. o veto popular significa a re­ jeição. Recall: o termo recall significa revogar.10. caput e § 2°. p. p. Uma petição . Estes novos dispositivos. impedir). decla­ rar inconstitucional a lei e obrigar a sua aplicação. caracteriza magistralmente o recall dos cargos eletivos assim: Comumente vinculado à democracia semidireta está o recall. negam-se a executar certas leis oriundas da iniciativa popu­ lar. con­ trárias ao interesse coletivo. Isso se dá . Não se aplica. uma outra forma. § 4o. promulgada em 05. 162-3) A vigente Constituição brasileira. o pioneiro na inovação do recall quanto às decisões judiciárias. Rio de Janeiro. nos Es­ tados do Oregon e da Califórnia.1988. sua finalidade: permitir que o eleitorado possa destituir. modernamente. Darcy Azambuja. pelo povo. III. por julgá-la inconstitucional. de uma medida governamental. adotado em doze Estados da Federação norte-americana. instrumentos-chave na nova democracia participativa. reparar.prossegue Azambu­ ja . 26.finaliza -. se. representa uma exigência inequívoca de parte dos eleitores de prestação de contas do governo. um órgão público que tenha afrontado a confiança do povo e a dignidade do cargo. Pode ocorrer no plebiscito ou no referendo. por imposi­ ção do capitalismo que a elege.130 Teoria Geral do Estado estados). Nem o Poder Judiciário escapa ao raio de ação do recall. É o recall das decisões judiciárias. Veto popular: do latim vetare (proibir. sem dúvida . com o referendum. alegando o vício de inconstitucionalidade.segundo muitos autores americanos . em nenhuma hipótese. permitem às pessoas passar por cima dos processos representativos tra­ dicionais e moldar o sistema político com suas próprias mãos. o povo americano pode inutilizar certas leis. e 61. anular. e com a iniciativa popular pode obrigar o Legislativo a fazer leis socialmente úteis. inovou na or­ dem jurídica ao adotar a iniciativa popular nos arts. uma forma audaciosa e perigosa. 1982.a elegibilidade dos juizes. oportunamente. 1985.

estabelecendo as razões indicadoras da ação pretendida. Ao contrário do impeachment. O recalled pode apresentar-se à reeleição. portanto obriga­ tória. juntando à cédula do voto sua defesa. cuja denominação . como ocorre no mandato político. Surgido por volta do século IX. e não institucional. Por outro lado. o termo man­ dato não casa bem com democracia representativa. o recall é um ins­ trumento político indicado para assegurar a mais rigorosa responsabilidade funcional ao eleitorado. Se reeleito. em razão disso. que é um procedimento semijudicial normalmente usado para livrar o governo de um funcionário culpado de atos criminosos. p. quando suficientes assinaturas (usualmen­ te um número igual a cinco por cento do eleitorado registrado) forem obtidas. ser usado er­ radamente. ultimamente. é reforçado pela vinculação jurídica. o mandato imperativo teve seu apogeu 11a França. o recall tem obtido. Mandato imperativo: o mandato imperativo é o vínculo jurídico que liga o re­ presentante do povo aos seus próprios eleitores. é redigida e posta em circulação para receber as assinaturas. MacM illan. na Es­ panha. Mas ele tem sido. evidentemente. do contrário. Tem. o vínculo jurídico existente entre representantes e representados. entre mandante e mandatário. previamente. mais para uma emergência do que para o uso mais in­ tenso. a responsabilidade dos parlamentares apurar-se-ia tão somente nos casos rigidamen­ te instituídos pela Constituição. em face disto. con­ sensual. prestar. lar­ ga aplicação em alguns Estados norte-americanos. o recall é 1908. natureza contratual. quando desa­ pareceu na voragem do absolutismo nascente. para o que. Torna a responsabilidade funcional permanente e di­ reta. sob o impacto da doutrina de Siéyès. o que pareceria indicar que é geralmente visto como uma arma a ser mantida de reserva. ele continua no cargo. Permite ao povo destituir qualquer detentor de cargo público que dei­ xou de atender à sua confiança. Sc a maioria dos eleitores sc pronuncia cm favor do re­ call. a peti­ ção é submetida às próprias autoridades que. 672) Entretanto. New York. e. porque o “mandato” polí­ tico se referiria a toda a nação. em caso de o candidato eleito não estar correspondendo aos anseios do eleitorado. (The govemment o f United States. até 1601. Um percentual de 20 a 25% do total de eleitores de cada Estado requer que o órgão seja submetido ao recall. e não apenas ao corpo eleitoral. Desde sua introdução. ordenam uma eleição para decidir sobre a matéria. de modo fácil. caução. os peticionários do recall devem reembolsar o acusado das despesas feitas com a eleição. podem rescindir\ dissolver esta ligação.6 Formas de governo 131 deste tipo. aliás. muito pouco usado. Vejamos: a expressão manda­ to vem do latim mandatum. desfez-se. 1959. de fato. de modo que estes. assinala Darcy Azambuja. Embora empregado a partir de então. Com o surgimento da chamada de­ mocracia representativa. 11111 instrumento que pode. 11a forma da lei. sendo seus alvos os órgãos dos três Poderes da União. em apenas um governador e uma meia dúzia de outros importantes funcionários estatais foram destituídos. espécie de pacto que. o funcionário é destituído imediatamente. como já vimos no estudo da democracia representativa.

a da democracia direta. realizar o ideal democrático. eis o grande desafio. da mes­ ma forma que todos os políticos se proclamam honestos. em oposição a arche (governo)? Assegurar os meios da permanente penetração dos governados nas decisões dos governantes. propriamente. é correntio ouvir falar em crise da democracia. o mandato imperativo vai. para mui­ tos. Abolido violentamente pelo furor revolucionário na França. Um recente estudo levado a efeito pela Unesco revelou a existência de. então. Cada uma delas buscou alcançar o ideal democrático. Frederico II não fazia por menos e costuma­ va resumir seu pensamento a esse respeito em poucas palavras: tudo para o povo. primeiro-ministro de Luís Felipe. o controle do poder político pelo povo. mas poder do povo. Com efei­ to. 250 definições de democracia. em lógica. governo do povo. di­ zem seus porta-vozes. com seu espírito pragmático. a liberal-democracia. costumava dizer que a confusão está a se esconder numa palavra: democracia. portanto. Atualmen­ te. retornando à prática política. sob pena de aberrante deformação da realidade. embora nunca de medida e padrão únicos. a qualificação de um Estado como democrático não se acha vinculada a nenhuma ideologia. com franqueza e pessimismo. Cabral de Moncada nos diz que a democracia é um tecido com o qual se pode tecer todo tipo de roupa.132 Teoria Geral do Estado correta seria. quando o que está realmente em crise é uma simples forma histórica da democracia. resta claro que o termo não significa. consiste em tomar a parte pelo todo. Uma coisa é certa: não pode haver democra­ cia onde não houver uma participação permanente c consciente dos cidadãos or­ ganizados em povo político. como querem alguns. transformou-se. que os romanos. restaria indagar qual a verdadeira essência do ideal democrático. Crise da liberal-democracia é crise do próprio ideal democrático. nada pelo povo. que nada mais é do que uma espécie entre as inúmeras que buscam alcançar o ideal democrático. aos poucos. Eis. Não foi à toa que Jacques Maritain afirmou. a representa­ tiva e a semidireta. investidura. ainda. em tabu. Infelizmente. menos por suas virtudes intrínsecas do que pela inegável desmoralização da repre­ sentação política cunhada pela liberal-democracia. exigindo dos governantes a melhor orientação. Guizot. tão bem sintetizaram com esta elegante expressão: popularii potentia. Curiosa esta última posição: será a democracia o governo do povo ou. Descar­ tada a primeira hipótese. mas o sociólogo norte-americano Robert Dahl catalogou nada menos do que quinhentas conceituações! Em pitoresca ima­ gem. todos os Estados Modernos se proclamam ardentemente democráticos. que a tragédia das democracias contemporâneas con­ siste em que elas não conseguiram. Pela própria etimologia da palavra democracia (demos = povo e kratos = poder). qual seja. . pelo menos. três espécies de democracia: a direta ou clássica. a liberal-democracia. Ora. por irrealizável no mun­ do moderno. Come­ te-se o erro que.

estabelecidos na própria Constitui­ ção. Rousseau é muito claro a respeito: “a soberania não pode ser representada. afirmam alguns doutrinadores. Por isso. o célebre genebrino costumava dizer: “o voto é um direito que . O sufrágio é um processo de escolha. constituem o sufrágio. previamente selecionado por determinado tipo de su­ frágio. o sufrágio1 Do latim suffragari. diz-se que há votação. pois não admite alienação. paulatina. é um pro­ cesso de seleção daqueles que terão o direito de votar. quem se refere à democra­ cia. fica esclareci­ do quem terá o direito ao voto. O sufrágio é. qual seja. para quem. Tais requisitos. adoção de determinado regime dc gover­ no. Que é. Quanto ao voto. as abstrações do passado vão. simplesmente. mediante elei­ ções. o que vem a ser democracia? Democracia é o processo político que autoriza a permanente par­ ticipação. pode haver votação sem eleição . o nacional torna-se cidadão e começa a exercer o direito de votar. enfim. por exemplo. começam a perder o en­ canto original. o homem situado. embora na demo­ cracia representativa e na semidireta não possa haver eleição sem prévia votação. estabelecer os requisitos para a obtenção dc tal direito. para se sa­ ber quem terá o direito de votar c preciso. o homem abstrato vão deixando o seu lugar para um ser totalmente novo. implan­ tação do divórcio. direta ou indireta. refere-se. preliminarmente. Então. Pelo sufrágio.6 Formas de governo 133 Num mundo em que as realidades palpáveis se fazem cada vez mais candentcs. nas deliberações dos governantes. e esta não admite repre­ sentantes” . ao conjunto daqueles que são dota­ dos de cidadania. transformadas em dogmas da política. Entretanto. é costume dizer que há eleição. inevitavelmente. portanto. Ela se expressa pela vontade geral. perdendo ter­ reno. legalização do aborto. Quanto ao fundamento da soberania. nada mais é do que o instrumento para exercer o direito de deliberação ou de escolher candidatos a cargos políticos. descreve em seu precioso opúsculo sobre a democracia. Entretanto. Belas ficções. ao votar. mas inexoravelmente.4. o nacional passa a ser cidadão. é ele titular de parte ou fração da própria soberania. No mundo moderno. então. O sufrágio-direito parte de Jean-Jacques Rous­ seau. o da existência de um corpo eleitoral periodicamente renovado. ao eleitorado. sendo cada cidadão uma parcela da coletividade política. o sufrágio apresenta duas espécies: o sufrágio-direito e o sufrágio-função. e sen­ do a soberania indelegável. escolhendo seus candidatos. que Georgcs Burdeau. o cidadão. da com unidade. livre e consciente. 2. quando. decide diretamente a respeito dc determinado assunto. àqueles que têm o direito dc votar.5) Sufrágio e voto Tanto a democracia representativa como a democracia semidireta apresentam um pressuposto que se destaca de imediato. o eleitorado está elegendo. O súdito. Quando o eleitorado. mas o voto é um ato de escolha. um processo de escolha de eleitores. mediante o sufrágio. Atendidos os requisitos constitucionais. Por isso. Pelo sufrágio. com muita graça.

como pode um ente abstrato manifestar sua vontade. mas o fundamento desta continua a residir na nação. povo. poderá sacrificar. que estará. A nação. amealhando considerável patrimônio e. Daí a sugestiva denominação dada ao sufrágio que expressa a soberania nacional: sufrágio-função. no eleitorado que levará ao poder os representantes da nação. O povo transforma-se. excluídas as gerações passadas e futuras. O eleitor não exerce ape­ nas uma faculdade. o povo. segundo Siéyès. da mesma forma que uns poucos demonstraram capacidade de trabalho e de realização pes­ soal. ser obrigatório. com isto. perceptível aos sentidos. Percebe-se. e. destacando-se dos demais. do exposto. Assim. abstrata. que. participar do processo eleitoral é mais uma faculdade do que um direito público subjetivo. irremediavelmente. com sua concepção de nação. e a exerce como lhe apraz. portanto. Ora. o direito ao voto. Seu fundamento ideológico reside na argumentação de que o Estado deve preparar uma elite governante. restringindo-se o direito ao voto. compulsória: a de votar. na participação política. repita-se. Esta espécie de sufrágio teve seu apogeu com a liberal-democracia burguesa. A nação. Por outro lado. não podendo a nação manifestar-se diretamente. Segundo a doutrina do sufrágio-direito. A nação. que se mostram nas gerações que se suce­ dem. uma vontade coletiva? N ão há outra alternativa: por intermédio de uma comunidade concreta. Em outras palavras. fundado no volume de bens de que cada cidadão pode dispor. uma ideia. pois. ela é a própria permanência da comunidade no tempo. Povo. Tais representantes serão os titulares do exercí­ cio da soberania. é mais do que isso. por intermédio do povo. diz. Ora. aqueles que irão fazê-lo em seu nome. um vínculo dc compulsoriedade. Bem diferente se mostra a teoria do sufrágio-fun­ ção. obtiveram o direito de dirigir a coisa pública. um órgão por intermédio do qual a nação expressa a sua vonta­ de. no sé­ culo XIX. enfim. mas cumpre uma função inafastável. O eleitor é mero instrumento de manifestação da vontade nacional. para fruir de um maior bem-estar material. O voto deve. e que nem sempre coincidem com os interesses passageiros de uma única ge­ ração. seus interesses permanentes. Aquela é uma simples comunidade organizada e considerada num dado momento histórico. portanto. Ela parte de Emmanuel Joseph Siéyès. não se confunde com o povo.134 Teoria Geral do Estado ninguém pode subtrair aos cidadãos”. inarredavelmente. então. mas permanente: a nação. entre indivíduo e Estado. Cada época histórica consagrou um tipo determinado de sufrágio. e para usar uma terminologia de Ortega y Gasset. consequentemente. Assim. não cons­ titui uma obrigação à qual corresponda. mais rapida­ mente a sociedade consolidará o governo dos melhores. sob . porém. o povo. tem-se como certo. por ser uma en­ tidade abstrata. no caso. os representantes de uma entidade ideal. Cada cidadão é titular da fração da soberania que lhe cabe. O povo elegerá. devem ar­ car com tal ônus. portanto. seria o conjunto das pessoas coetâneas (mesma idade) e contemporâneas (mesma época). em determinado momento da vida da nação. é uma entidade espiritual. e não apenas dele. os interesses per­ manentes da comunidade. o sufrágio censitário.

o voto feminino aparecc. em face do qual somente votam aqueles que demonstrarem um nível míni­ mo de erudição e informação política. di­ zem seus defensores. 7° da Constituição Federal. cuja denomi­ nação já revela que. Ainda hoje. nos Estados Unidos da América do Norte. e dos bens de cada cidadão. permitindo a consolidação de uma elite intelectual. é o sufrágio cultural ou capacitário. pela primeira vez. no Wyoming. e que consistia na exata aferição do nume­ ro de pessoas. somente o homem pode votar. pleiteou e obteve. seria formada pe­ los ignorantes. por completo. também consagrava o sufrágio censitário. desinteressados de tudo. apenas a partir de 1971. com a divisão dos contribuintes cm três estamentos.1824. veio somente em 1932. entretanto. o direito de as mulheres participarem do processo político aparece. no mais das vezes. sem discriminação expressa da mulher. excluindo do direito de voto. na Prússia. na antiga Roma republicana. adotada ainda hoje. aos censores. que dominavam. Mietta Santiago. com Getúlio Vargas. Na Suíça. por intermédio do Código Eleitoral brasileiro. pois as mulheres votaram para a escolha de senadores. de 25. com a Emenda X IX . inicialmente. Os votos foram anulados. mer­ gulhados nas sombras de uma vida mesquinha e medíocre. nos arts. quan­ . estudante de Direito. Paulo Bonavides refere-se a uma odiosa espécie de sufrágio restrito. o sufrá­ gio racial. em sua plenitude. Por exemplo. Alzira Floriano. não apenas o direito de votar. O terceiro e úl­ timo estamento compunha nada menos do que 83% dos contribuintes. nos seus termos. adotado. Uma terceira espécie de sufrágio restrito é o sufrágio masculino. que definia os eleitores como os cidadãos maio­ res de 21 anos. de forma dissimulada.6 Formas de governo 135 excelente gestão. semoventes. A Constituição do Império do Brasil. no Rio Grande do Norte. O sufrágio ccnsitário existiu a partir de 1850. mas também de ser vo­ tada. Já se percebe que o fundamento desta espé­ cie de sufrágio é afastar do processo político os inaptos. dos quais o primeiro era composto pelos cida­ dãos mais afastados. com fundamento no art. No Bra­ sil. algumas entidades federadas exigem que o direito ao voto esteja vinculado à capacidade de entender o disposto na Constituição. Fm 1928.. As mulheres são excluídas do direito ao voto sob a alegação de sua “inabilidade congênita” e “insensibilidade para as questões políticas”. em 1869. principalmente da política. alienados. A expressão ccnsitário deriva de censo. embora do­ tado de ínfima representação. nos Estados Uni­ dos. o parlamento. somente incorporado à Constituição Federal em 1920.. 92 e 94. em 1927. seria cons­ tituído pela camada mais informada. os ignorantes e os analfabetos. c o seu direito não devia ultrapassar o âmbito estadual. No Ocidente. mas a con­ solidação do direito de a mulher participar do processo político. atribuição conferida. aqueles que não apresentassem uma renda mínima anual. fica patente a distinção entre povo e massa: aquele. realmente interessada no aperfeiçoamento das instituições e na realização dos objetivos sociais. esta. Outra espécie de sufrágio.03. Em 1929 foi eleita a primeira prefeita do Brasil. Nesta espécie de sufrágio.

necessariamente. c). pois a cada momento da vida o nacional vai abatendo-as. o que se pretendia era excluir os negros do processo político. Até a Emenda Consti­ tucional n. atualmente. con­ tribui para com o aprimoramento da vida em sociedade. é aquele que busca conferir o direito de voto ao maior número possível dc nacionais. Na verdade. seja qual for o ponto dc vista que se adote para o problema. Evidente. 14. a). II. é que o analfabeto torna-se. § 2o). qua­ se absoluta.é bom notar . art. veladamente. A diferença é puramente quantitativa: os impedimentos do direito de voto. o analfabeto não tinha o direito de votar. É bom notar que as restrições ao direito de voto numa ordem jurídica que consagra o sufrágio universal estão previstas somente na própria Constituição. § 4o). porque não se argumenta com exceções. Não há sufrágio plenamente universalizado e não há. que alterou a Constituição Federal de 1967. 14. obedecendo-se. a um critério menos capacitário do que racial. mais aperfeiçoado. a Constituição de 1988. II.05. em razão da idade e do con­ seqüente amadurecimento pessoal. constituem exceções ao sufrágio universal os menores de dezes­ seis anos (CF. infelizmente. um instrumento nas mãos dos demagogos sequiosos de votos. nível de conhecimentos. Poder-se-ia argumentar com o fato de que alguns analfabetos se interessam muito mais pelos problemas políticos e sociais do que muitos cidadãos alfabetiza­ dos. Com tal Emenda e. 25. § I o. são mais numerosos do que no sufrágio universal. ele passou a ter o direito dc voto facultativo (art. pois cada qual. A regra. não será aumentando o número de participantes do sufrágio que este ficará. contudo.não são inexpugnáveis.. 14. posteriormente. Quanto ao sufrágio universal. portanto. A rigor todo sufrágio é restrito. a concessão do direito de votar ao analfabeto não se justifica. § I o. portanto. raça. a generalidade das pessoas. sen­ do inelegíveis os inalistáveis e os analfabetos (art. obriga a ler. de 15. não po­ derá restringir o eleitoral além dos limites preestabelecidos na Constituição. independentemente de sexo.1985. São restrições que . estando. A própria expressão universal já revela que deve ter o direito de voto a universalidade. tais restrições não podem ser ampliadas mediante lei ordinária. Oportuna a observação de Paulo Bonavides: . isto é. 14. em vigor. e nem poderia ser de outra forma. ou em face de seu esforço próprio. que mesmo o sufrágio universal comporta restrições ao direito de voto.136 Teoria Geral do Estado do a legislação do Estado do Mississipi. os estrangeiros e os conscritos (art. distinção essencial en­ tre sufrágio restrito c sufrágio universal. No Brasil. Tal invectiva não colhe. Da mesma forma que cem tolos não formam um sábio. no sufrágio restrito. aliás os grandes beneficiários desta infortunada ampliação do sufrágio. religião. como a ob­ tenção de níveis mais altos de escolaridade. portanto. nos Estados Unidos da América do Norte. Esta. compreender e interpretar “convenientemente” a Constituição. excluído do sufrágio uni­ versal..

De conseguinte deve ele submeter-se a singela prova escrita . que deve revelar um conhecimento tcórico relativo aos sinais. se não se tem co­ nhecimento de suas atribuições e nem sequer se sabe o que é o Senado ou a Câmara dos Deputados? Daí a razão por que julgamos absolutamente imprescindível para a constituição de uma democracia qualitativa e real. Incisiva. porém. Ainda que se mostre mais difícil o afastamento da segunda. A exigência de um conhe­ cimento mínimo relativo ao mecanismo de governo. não se atribuindo a prerrogativa do sufrágio tão só a uma minoria qualificada por tí­ tulos formais de sabedoria ou a uma aristocracia de classe. não resta dúvida que o princípio democrático envolve da parte do colégio eleitoral uma compreensão política mais apurada. como ocorrido na Alemanha intelectualizada de Hitler. difícil de formar-se no seio da multidão espessa e ignara. Com isto. encontra dois caminhos para alastrar-se: a ignorância e a crença. mas necessários. Daí . pois ninguém pode dizer-se infenso ao poder pessoal. in verbis: Como escolher-se. Tal como o candidato àquela outorga. Daí pesar mais em favor do bom mecanismo institucional do governo demo­ crático. Não seria absurdo dizer-se constituir a ignorância do cidadão terreno fértil à expansão de­ magógica. o postulan­ te à cidadania. Por outro lado. torna-se natural ameaça ao regime de­ mocrático. é absolutamente certo que o germe da igno­ rância não só pode ser combatido. sem impedir-se o defe­ rimento da cidadania àqueles que demonstrassem possuir as condições elementares para seu exercício racional. sem o que se tornaria evidente perigo à integridade física e ao patrimônio de todos. qualificar-se-ia o regime democrático. com efeito. Esta. a observação dc Pedro Salvetti Netto. carismático e místico do demagogo. como governo dc livre manifestação da vontade popular. impor-sc na proporção direta da dcsqualificação política do eleitorado. eficazmente debelado. o princípio qualita­ tivo do que o princípio quantitativo. na forma.semelhante. assimilável por todos os que sai­ bam ler e escrever. pela qual o candidato à cidadania demonstre conhecimentos mínimos. com fa­ cilidade. um senador ou um deputado. siglas c regras básicas dc trânsito. como. a respeito.6 Formas de governo 137 Quanto ao argumento que gira ao redor da dialética qualidade-quantidade. Um colégio eleitoral qualificado pelo conhecimento necessário e básico da organização constitu­ cional e do funcionamento do governo o eliminaria do processo político-elcitoral. falto dos predicados essenciais ao seu exercício e néscio sobre os prin­ cípios políticos institucionais que a informam. por exemplo. onde cidadãos conscientes e politi­ camente responsáveis participem do processo eleitoral. forma impura do governo democrático c capaz dc. sobre rudimentos da organiza­ ção político-constitucional. à que se faz mister para a concessão da carteira dc habilitação para dirigir . à outorga do título de eleitor. tais providências valeriam para diminuir os perigos da demagogia. seria subsídio valioso para a constituição de um eleitorado consciente e responsável. também. uma comprovação de habili­ tação política.versando. A singeleza da prova eliminaria a formação de um colégio eleitoral elitista.

escolhe seus próprios re­ presentantes. em qualquer destas espécies. em segundo grau. ensejando a prudência das designações. c) o colégio eleitoral de segundo grau. embora possa haver entre aqueles ignorantes no ler e escrever alguns naturalmente sensíveis às coisas públicas e com elas preocupados. enfreando as paixões políti­ cas. de 15. O voto é direto quando o eleitor.13 8 Teoria Geral do Estado porque não nos sensibiliza a pregação. a tendência moderna é francamente favorável ao voto secre­ to. Os argumen­ tos em desfavor do voto indireto também são ponderáveis: a) caráter manifestamente menos democrático que o sufrágio direto. sendo Tancredo Neves o último candidato eleito por um colégio eleitoral restrito. por via dc regra. fa­ rão. que. intermediários. portanto o poder de decisão da massa sufragante se transfere. b) o voto indireto não raro é empregado como meio de resistir ao sufrágio universal. Vianna. Como acentuam Rodrigo Octavio e Paulo D. delegados. Quanto ao voto. Paulo Bonavides apon­ ta os seguintes argumentos a favor ou contra este tipo de voto: a) os graus interpostos operam como filtros. na sua forma de expressão. razão pela qual o voto secreto acalmará as preocupações legítimas e reanimará os poltrões. sem intermediação. secreto ou aberto. 14. está submetido à burocracia estatal e ao poder econômico. o eleitor. Com efeito. pois o eleitor que não tem coragem e senso de responsabilidade para votar abertamente. como qualquer raciocínio lógico rejeita a exceção para a pesquisa da verdade metodológica. Na ver­ . em direto ou indi­ reto e. É a espécie adotada pela Constituição brasileira (art. abrindo espaço à reflexão. para nós demagógica.05.ficam em condições de sufragar ou selecionar os mais capazes e competen­ tes. a escolha definitiva dos governantes. entretanto. não deve ter o direito de votar. b) atua o voto indireto como força moderadora. proporção máxima.1985. em face do pequeno número de seus integrantes. para o corpo eleitoral intermediário. de viseira erguida. tal só pode consti­ tuir situação excepcional e. caput). Os ad­ versários do voto secreto retrucam: ele é mais uma prova da desilusão das demo­ cracias modernas. não seria este o argumento hábil capaz dc refutar a proposição por nós sustentada. O voto pode ser também. subdividindo-se este úl­ timo em escrito e verbal. O fundamento do voto secreto é evitar pressões sobre o eleitorado. dos votos do analfabe­ to. classifica-se. cuja influên­ cia toma. o voto é dito indireto quan­ do o eleitorado elege. inicialmente. o voto para a eleição do Presidente da República era indireto. por sua vez.eles mesmos já uma elite . em secreto ou aberto. que melhor assegura a independência do eleitor a que se tem procurado cercar de todos os elementos materiais para garantir o sigilo. como já vimos. 25. de modo que os eleitores secundários . assim. por inteiro. pois este não se sente estimulado a participar de uma eleição que não é decisiva. porquanto. é mais suscetível a pressões e à cor­ rupção. Até o advento da Emenda Constitucional n. d) o voto indireto ocasiona volumosa abstenção por parte do eleitorado de primeiro grau. Então.

de modo a minimizar a influência do poder econômico e dos meios de co­ municação nas eleições. isto pelo seguinte: no sistema proporcional. As sociedades podem apresentar as mais diversas fina­ lidades: culturais. sua vontade. 14 da Constituição brasileira não deve ser interpretado literalmente. não deve ser impedido dc faze-lo. pois a finalidade do dis­ positivo é garantir o sigilo do voto apenas para aqueles que acharem inconveniente revelá-lo. professam as mesmas ideias. Espécie de voto que vem amealhando número cada vez maior dc simpatizan­ tes é o chamado voto distrital. formando grupos. que congregam indivíduos que. tende a se agregar aos seus semelhantes de forma orgânica. comerciais. Por esta espécie dc voto o cidadão elege representantes dc seu próprio distrito eleitoral (daí a adjetivação distrital). Obrigar o eleitorado a votar secretamente parece-nos mais uma exacer­ bação do formalismo. tão caro ao legislador pátrio. uma facção política. um partido político revelam. com grave risco para sua liberdade de manifestação de pensamento. É sabi­ do que o homem. a ânsia de participação efetiva do homem nos problemas da comunidade em que vive. mas deve ser facultado ao eleitor manifestar secreta ou abertamente sua escolha. enfraquecendo o próprio partido. aquele que. ser social. 2. em busca de objetivos mais eleva­ dos. expressamente. candida­ tos de um mesmo partido se digladiam na mesma região eleitoral. forte na sua ideologia. O voto aberto pode ser escrito ou verbal. afirmam. finalmente. um movimento político e. caso em que se obriga o eleitor ou o delegado a revelar. O voto é obrigatório. desejar expressar aber­ tamente sua vontade. no mais das vezes. propiciando um controle mais efetivo dos candidatos eleitos. com apa­ . a solução satisfatória deveria estar no meio-termo. econômicas e.6 Formas de governo 139 dade. Assim. O art. este também conhecido como ostensivo. no caso.4. Afirmam os defensores do voto distrital que este atrai os candidatos para mais perto do eleitor. cada candidato concorre com outros candidatos de partidos diferentes. tendo inclinações co­ muns. Buscando sua realização pessoal. pelo sistema distrital. nem por isso desdenha sua plena realização como ser social. o voto distrital torna os partidos políticos mais homogêneos. Aplica-se ao artigo em epí­ grafe. políticas. entretanto. dc modo a compati­ bilizar população e território. O voto distrital funda-se no princípio de que a escolha dc parlamentares pelo eleitorado deve ocorrer em âmbito o mais reduzido possível. sim. portanto. Na verdade. a interpretação finalística ou teleológica. Análoga é a situação do voto aberto. ensejando um maior contato entre o candidato e even­ tuais eleitores. pertinente ao âmbito espacial de atuação do candi­ dato eleito. esportivas. Por outro lado.6) Partidos políticos A formação de associações que visam alcançar um objetivo político determi­ nado vai longe na História. ao passo que. Vota secretamente quem se achar coagido ou temeroso de manifestar de modo aberto sua opinião. todos aqueles que.

O surgimento de facções políticas remonta. a assertiva de Marx de que o partido político é sempre um órgão de classe. Seja como for. que designa uma fração do todo). no interesse destas c dos nobres. que são o desgoverno das massas despolitizadas. ainda nos séculos XVII e XVIII não se fazia distinção entre par­ tido e facção política. portanto. porque a própria ideia de partido pressupõe a existência de. ademais. longe estavam dc possuir a estrutura. tolerado pela lei. questões políticas gravíssimas ensejaram lutas entre suseranos e vassalos. as facções políticas surgem quase sempre vinculadas aos seus estamentos. den­ tro do próprio partido. as facções estruturam-se à luz das dinastias reinantes. O partido político visa à conquista do poder nos termos da lei. como foi o caso de guelfos e gibelinos na Alemanha e. pelo menos. no caso. como uma entidade rebelde que se posiciona. é a caricatura do partido. a noção de partido político começa a ser delineada: grupo de pessoas que se unem para promover. Até mesmo simples caprichos de família provocariam dissensões formadoras de grupos políticos inimigos. não se confunde. Ora. um partido não se confunde com a mera facção política porque ou é reconhecido ou. do latim pars. Da mesma forma. a expressão partido. Georges Burdeau definiu o partido como a associação de caráter político organiza­ da para dar forma e eficácia a um poder de fato. na Idade Média. também. mediante o emprego de um processo es­ pecífico. com o qual todos os seus membros sc acham de acordo. Daí a sugestiva definição de partido político que nos oferece Povina: “agrupamento permanente e . a fim de impor sua própria cosmovisão a todos. no Esta­ do absolutista. sem­ pre sob a liderança dc um homem virtuoso ou dc um mecenas disposto a financiar uma ideia. Esta. na Itália. Ela surge de maneira autônoma. corroborando. Da mesma maneira que o partido político não se confunde com a mera facção política. Modernamente. a facção utiliza-se de todos os meios para atingir e man­ ter o poder. muitas vezes. e não se confunde. cada uma dela dirigida por um líder. a burocracia c o reconhecimento legal de que hoje desfrutam os partidos políticos. hoje. depois. Tais facções. alegam desinteresse pela atividade política direta ou indireta não cumprem um dever cívico inafastável c contribuem para o surgimento das dema­ gogias. a expressão partido político. Somente a partir de 1770.140 Teoria Geral do Estado tia e indiferença. contu­ do. que procura congre­ gar o povo numa ideologia política exclusivista e intransigente. à Antiguidade Clássica. num pro­ cesso de cooperação. o interesse nacional. Com o aparecimento do Estado liberal-democrático. duas partes (daí. dizia Bluntschli. a diver­ sidade de opiniões políticas não se manifestou mediante partidos como entende­ mos. com o movimento político excludente dos partidos. mas mediante facções da burguesia. a antiga Grécia e Roma. com a eliminação de todo e qualquer ideário diverso. Por isso. com Edmund Burke. com o movimento político. pelo menos. originando o apa­ recimento de inúmeras facções políticas. procurando minar as diretrizes aprovadas pela maioria. Ainda na sociedade estamentária medieval.

se pro­ põe a realizar. os brancos. a se tornar intolerante para com os outros. Todo partido pressupõe dois elementos: o vínculo sociológico. que rejeitava todo e qualquer corpo social entre o poder e o cidadão. facilmente. como é o caso dos movimentos de índo­ le totalitária. então. representado por uma ideologia comum ou dc interesses comuns. causas de supressão da própria ideia de democracia. reconheceu. Como accntua Burdcau. conservador. cm sua nominação. em sua denominação. que demonstrava certo receio pela divisão da repúbli­ ca norte-americana em dois grandes partidos. mediante a conquista legal do poder público. comunista e assim por diante. e tivemos. Por isso. os partidos lembra­ ram. irremediavelmente refratários à sua integração nos mecanismos tradicionais da democracia. em razão dc seu dogmatismo espiritual e seu im­ perialismo político. mais dinâmicos c objetivos. que vem a ser a conquista do poder.assinala Ferreira Filho e. O moderno partido político . por excelência. os partidos buscam revelar. muitos se associaram às cores. Tal observação não deixa de ter fundamento na epoca dc partidos dc massas cm que vivemos. são os partidos ideológicos. janista. bonapartistas. entretanto. determinado programa político-social”. saaverista. mais tarde. que a verda­ deira solução para a existência destes residiria em controlar rigidamente sua ativi­ dade. opinião ainda lembrada por autores de renome. Cada partido. Em sua obra De eive. Aqueles que se inspiraram nas ideias de representações políticas de Jean-Jacques Rousseau repudiaram o partido político. natural­ mente. outubristas e dezembristas. Em outros casos. os nomes de seus inspiradores: orleanistas. pois este pensador era adepto ferre­ nho da democracia individualista. Na verdade. portanto. Seja como for. inteiramente válida se mostra a observação de Mac Iver de . tendendo a impor à coletividade uma unificação espi­ ritual pelo reconhecimento de sua infalibilidade. na direção do Estado. os negros e os verme­ lhos. ademarista etc. para os quais o regime de pluralidade partidária descambaria. republicano. John Adams. socialista. A denominação atribuída ao partido é muito importante para sua imediata identificação. a ideologia abraçada: monárquico. Denominações ainda mais pitorescas jamais fal­ taram para tais agremiações: wbigs (escória). para o predomínio de um partido sobre os demais. peremptoriamente. tenderia. considerando-se o verdadeiro porta-voz da comunidade. fascista. Modernamen­ te. tories (bandidos) etc. o veículo utilizado por uma grande corrente dc opinião pública para conquistar o poder. pelo que surgiram os polí­ ticos setembristas. o partido digno desse nome é um grupo or­ ganizado que disputa o poder para realizar uma política. que a divisão da sociedade em partidos geraria a revolta e a guerra civil. A História registra casos curiosíssimos de denominações de partidos. Hobbes afirmou. E o instrumento median­ te o qual uma ideia de direito busca sua realização. outros tomaram a denominação dos meses do ano.6 Formas de governo 141 organizado de cidadãos que. liberal. c a finalidade política. Tornaram-se.

condições de chegar ao poder. seria imperdoável equívoco supor que o sistema bipartidário significa. não raro sociais. Acentua Duverger que. dois sistemas partidá­ rios: a) monopartidário (partido único). para representá-los enquanto horticultores ou artesãos. aumentam as divergências e a desorientação popular. mas geralmente o sistema se encontra de tal for­ ma estruturado que apenas dois partidos reúnem. Das mais oportunas é a advertência de Ferreira Filho: Raramente o deputado escolhido para representar a ideologia predominante num eleitorado é o mesmo homem que seria escolhido por seus eleitores. uma longa digressão a respei­ to da conveniência ou não dos partidos políticos. O Estado contemporâneo apresenta. Aliás. em suas linhas básicas. sucintamente. no mais das vezes. na verdade. profundamente afetados pelo Estado-providência. na verdade o condena. como lembra Bonavides. embora não haja no Estado dualismo partidário. inexequíveis. aparentemente consolidadora do ideal da representação política. literalmen­ te. criam programas de ação absolutamente quiméricos. porém. a existência tão somente de dois partidos. c) monopartidário. E Manoel Gonçalves Ferreira Filho considera o bipartidarismo o sistema partidário ideal. portanto. desde que os dois partidos sejam efetivamente homogê­ neos e disciplinados. junto aos órgãos de planejamento econômico e semelhantes. b) pluripartidário (dois ou mais partidos). só nos resta analisá-los. Por outro lado.142 Teoria Geral do Estado que. Obrigados a incluir sob seu manto protetor categorias sociais que envolvem os mais díspares interesses. pois. Pouco sentido prático teria. ou frações pon­ deráveis destes. b) pluripartidário. A própria palavra plural refere-se a mais de um. nesta obra. fundamentalmente. a maioria dos autores afirma a existência de uma classifica­ ção supostamente mais precisa: a) bipartidário. sem os partidos políticos. Eles aí estão c. permanentemente. ha­ verá. des­ vinculados da realidade. dualidade de tendências. as únicas formas de alcançar o poder seriam o gol­ pe de Estado. que jamais poderão ser cobrados pelo eleitorado. A verdade é que haverá pluralidade partidária onde houver dois ou mais par­ tidos. Ensejando a contraditoriedade dos princípios ideológicos cada vez mais díspares. c a expressão pluralidade re­ vela qualidade atribuída a mais de um ser ou coisa. As­ sim o ideologicamente representado não se sente representado quanto a seus interesses econômicos. a insurreição ou a revolução. enquanto ope­ rários ou industriais. é possível que vá­ rios partidos concorram às urnas. A multiplicação desordenada dc partidos. .

O partido. mas a utilização deste em proveito próprio. por outro lado. ao passo que o interesse do grupo de pressão é transitório. pela qual o povo esco­ lheria muito mais um programa de ação do que representantes. a toda a coletividade. a existência de um partido deve ser permanente. em verda­ deiro mandato imperativo de índole partidária. adotando uma estrutura interna bastante maleá­ vel para atrair o maior número de simpatizantes. a de­ mocracia governante. Estes. nova e superior unidade. Daí a impor­ . dos homens situados e não mais dc cidadãos abstratos. o objetivo do grupo dc pressão é quase sempre econômico. que. sem considerar as condições eco­ nômicas de cada um. como assinala Bonavides. houve por bem reconhecêlos. o que não ocorre. Os tradicionais partidos de opinião. por outro lado. Os métodos empregados pelos grupos de pressão variam conforme as circuns­ tâncias: apoio eleitoral a um partido que com eles se ache comprometido. não podendo eliminar os grupos de pressão. exigindo que os grupos empenhados em defender interesses particulares junto ao Congresso estejam devidamente registrados e dotados da competente conta­ bilidade. tais interesses pertinem. A moderna concepção dc democracia não se compadece da democracia indi­ vidualista. Acentua Burdeau que à democracia política sucede a democracia social. que buscavam evitar dogmatismos compromete­ dores dc suas transações políticas. que transcende os meros interesses in­ dividuais de seus filiados. surgem como o fruto de novas condições socioeconômicas criadas pelo capitalismo e pela falta de representatividade dos par­ tidos políticos. pelo menos mediatamente. os representantes da coletividade têm enfraquecida sua individualidade a favor da vinculação integral às diretrizes dos partidos. Um partido político deve estar estruturado numa ideia e num programa exe­ qüíveis. Além disso. se destaca em razão de sua disciplina e do seu dogmatismo doutrinário. no transcorrer do século X X . quase sempre. com o grupo de pressão. passam a ser substituídos pelos partidos de massa. que reúnem seus filiados com base na situação econômica de cada um. como diria Giorgio dei Vecchio. à margem do ordenamento jurídico.6 Formas de governo 143 Os partidos políticos encontram fortes concorrentes nos grupos de pressão. pressão direta sobre os membros do poder executivo ou do legislativo. passa a ter um objetivo mais palpável. a partir do momento cm que os partidos de opinião vão cedendo terre­ no aos partidos de massa. Não se confundem com os partidos porque seu objetivo não é a to­ mada do poder. A fideli­ dade partidária consagra a chamada democracia partidária. A legislação norteamericana. referindo-se às sociedades em geral. Mais: o partido político é reconheci­ do ou tacitamente admitido pela lei. São partidos de massa porque as individualidades renunciam à sua autonomia em proveito do partido. no mais das vezes. Embora organizado em torno dos interesses de uma parcela do povo. que se acha. enquanto o do partido é político.

mediante a adoção de uma cosmovisão (W eltanschauung) que represente uma interpretação clara e consciente do universo. mais do que um partido. não a demagogia. não podem filiar-se ao partido. Disso os adeptos deste partido concluem. c) plataformas eleitorais. a palavra-chavc ou o sinal distintivo do partido. pois cada partido representaria uma classe social. por via de conseqüência. Os filiados são aqueles regularmente inscritos ao partido e do­ tados de direitos e deveres partidários. Quanto ao progra­ ma ideológico. os integrantes do partido deverão adequar o pro­ grama geral do partido às tendências e necessidades de cada circunscrição eleito­ ral. via de regra. cujos interesses seriam comuns. Diga-se de passagem que a Itália fascista e. por vá­ rias razões. como uma clas­ se (proletariado. Não pode haver. Um partido político seria parte de uma classe social determinada. filia­ dos e simpatizantes. também. Este afirma que a pluralidade partidária espelha a própria luta de classes. a dos operários e camponeses. o próprio Partido Comunista. a Alemanha nazista encontraram inspiração para seu m ovim ento no próprio marxismo. mas que. No tocante à m ilitância partidária. cada partido apresenta. O partido único. daí a existência de vários partidos numa sociedade formada por classes antagônicas.ou contra . Poderão scr o grito dc guerra. o partido deve apresentar uma orga­ nização administrativa e uma estrutura material destinadas a garantir a sua nor­ mal atividade. movimento este que tanto pode congregar uma nação (Itália fascista c Alemanha nacional-socialista). em seu funcionamento. d) motivações simbólicas (slogans). Tais plataformas exigem. Os simpatizantes são aqueles que. mas um organis­ mo em permanente elucubração e modernização doutrinárias. a adaptação do programa geral às novas situações. vem a ser muito mais um m ovim ento de reação antipartidária do que um partido propriamente dito. estabelecendo soluções exeqüíveis. com muita graça e sagacidade. um cxcclcntc veículo para a transmissão simplificada das ideias. qual seja. para uma só classe. No Estado socialista. numa sociedade de mas­ sas.outros partidos nas sociedades não marxis­ . portanto. Por outro lado. que o Partido Comunista sempre afirmará o seu di­ reito de lutar ao lado de . devidamente transmitida aos eleitores. As motivações simbólicas (slogans) vêm a ser. nas quais impere a franqueza e a sinceridade. Tais órgãos poderão ser diretivos e burocráticos. na URSS). todo partido deve sustentar-se num conjunto de princípios ideoló­ gicos sólidos e coerentes acerca dos problemas do Estado. expresso sob quatro aspectos: a) visão do mundo ou cosmovisão. Um partido político não deve ser o túmulo do pensamento. contudo.144 Teoria Geral do Estado tância da interação partido-sociedade-interesses na propagação e cumprimento de um sistema ideológico plausível. o auxiliam. existiria apenas uma classe. No to­ cante às plataformas eleitorais. b) programa ideológico. indiretamente. cujo apogeu foi alcançado no período compreendido entre as duas Grandes Guerras.

nesta última proclamada a maioridade de Pedro II. Numa de suas escassas referencias aos partidos políticos. um situacionista . a dos moderados. no célebre M anifesto comunista. com a Assembleia Geral ou Parlamento. Eis por que a vigente Constituição soviética se refere ao Estado socialista como o Estado de todo o povo . os absolutistas e os liberais. na sua origem e continuidade. sua parte mais progressista. ipso facto. mutuamente. Regência Una do Padre Feijó (1835-1837) e Regência Una de Pedro de Araújo Lima (1837-1840).6.6 Formas de governo 145 tas. respectivamente apoiando ou se opondo ao Imperador. Nem por isso os marxistas deixam de continuar afirmando que o proletariado deve estruturar-se num movimento políti­ co destinado a sustentar sua missão de exercer uma ditadura que permitirá a abo­ lição das classes e do Estado. cujos inte­ resses se mostram. Na Regência Trina Permanente. na Assembleia Constituinte de 1823. ainda não se pode falar em partidos políticos.4. Doutrinariamente.. Formam-se espontaneamente dois grupos. tam­ bém marxista. ao contrário dos exaltados. de apoio ao Impera­ dor Pedro I e. Por outro lado. a tese marxista torna-se vulnerável quando se consta que não foi demonstrado. divididos em duas facções.. de forma unânime. mas reivindicará sua exclu­ sividade 110 advento do Estado socialista. tenham desaparecido as classes sociais. hostis e inconciliáveis. ao passo que Lenin. apenas a representação organizada de uma classe. os moderados continuam a . oposicionista. o que vem a dar no mes­ mo. declarava que o partido é. Regência Trina Permanente (1832-1835). mas cm facções que. atuantes de forma franca e aguerrida. o outro. que se apoderam dos principais cargos gover­ namentais. principalmente desde 1826. que nclcs existe somente uma classe ou.1) Os partidos políticos no Brasil No Brasil. num partido político. o Brasil passou por vá­ rios períodos de governo denominados Regências. durante o Primeiro Reinado (1822-1831). e em face da menoridade de seu filho. quais sejam Regência Trina Pro­ visória (1831-1832). Durante o período regencial as posições políticas vão ficando mais bem definidas. por to­ dos os teóricos do marxismo. Marx afirma. nos Estados de ins­ piração marxista. aglutinaram-se em dois grupos antagônicos. levando a efeito uma política conciliatória. Durante a Regência Trina Provisória prevalecem os oposicionistas. Na verdade. afirmava que o partido é parte da classe. o partido único foi enaltecido. 2. em vigorosa expressão que seria encampada pelas Constituições soviéticas. Joscph Stalin. por exemplo. Franz Oppcnheimer. sendo que o pluripartidarismo so­ mente pode existir numa sociedade onde haja antagonismos de classes. formado por liberais. em nome da pluralidade de classes nelas existentes. ainda. propugnando uma descentralização mais sim­ pática às províncias. afirmava ser o partido a vanguarda organizada e disciplinada do proletariado re­ volucionário. ser dever do pro­ letariado organizar-sc numa classe. com a abdicação dc Pedro I.

aliás. nem hoje. continuamente. no poder. inorgânica. Na verdade. que a Constituição confiava à Coroa. que se seguiu ao gol­ pe do Imperador contra os liberais em 68. Porque só os que ignorassem os nossos costumes políticos e a mentali­ dade dos nossos partidos poderiam supor possível que o Poder Moderador. nem outrora. o qual. quando. é essencialmente um governo de opinião.como ainda há hoje . cujos seguidores. revezando-se. Benjamin Constante Lopes Trovão. Vale lembrar que já cm 1870 fora criado o Partido Republicano. O governo parlamentar. con­ tou desde logo com a colaboração dc grandes figuras como Quintino Bocaiúva. que era a que se formava nos centros universitários. tinham como plataforma a volta de Pedro I ao poder.146 Teoria Geral do Estado controlar o poder. Os adversários do Regente. Esta opinião. era quase sem­ pre um reflexo americano das agitações europeias. explo­ siva contra o Poder pessoal. Enquanto os conservadores eram escravocratas e tradicionalistas. nos clubes políticos. nas sociedade maçônicas e principalmen­ te na Imprensa. embora sem grande prestígio de início.partidos do Império. com meridiana clare­ za os retratou Oliveira Vianna. ain­ da atual como perceberá o leitor neste parêntese dos mais oportunos. sob a pitoresca denominação de chimangos. isto é. ardente. Esta alternância no poder durou até 1889. Em 1835. esta opinião pública organizada.uma opinião informe. os Partidos Conservador e Liberal foram os mais importantes para não dizer os únicos . considerado pelos liberais como uma deturpação do Po­ der Moderador. alhures. foram vencidos por Caxias. foi eleito Re­ gente o Padre Diogo Antonio Fcijó. Havia . evocando o município fluminense de Saquarema. era o de uma irritação viva. concentraram suas forças em torno do Partido Conservador. em obra clássica intitulada O ocaso do império. um governo cuja instituição num dado povo pressupõe a existência de uma opi­ nião pública organizada. onde se acha­ va a fazenda do líder conservador Visconde de Itaboraí. Só exprimia realmente o pensamen­ . Ouçamo-lo: O traço característico desse grande movimento da opinião. Faltavam à nossa sociedade todas as condições para isto. capaz dc governo. com a institucionalização da ideia de Regência Una. por sua vez. com a proclamação da República e a queda do Gabinete do Visconde dc Ouro Preto. Que dizer dos partidos políticos do Império? Aquele que. ao passo que os liberais. A par dessas fac­ ções surge uma terceira. nun­ ca existiu aqui. Ora. tinha sempre um caráter artificial. como já vimos. na locali­ dade de Santa Luzia. Os filiados a este partido passaram a ser conheci­ dos por saquaremas. difusa. alcunhados luzias porque ligados à Revolução Liberal de 1842. supremo regulador do sistema parlamentar. chimango (moderado) que dedicou-se com fir­ meza à criação do Partido Progessista. pudesse funcionar aqui com a mesma perfeição com que funcionava entre os ingleses. os liberais desejavam a abolição e maiores liberdades para as províncias. E a verdade é que esta irritação era inevitável. denominados caramurus. já o dissemos por que. de orientação liberal. que serviria dc base para a fundação do Par­ tido Liberal.

o conserva­ dor quer manter estas instituições. Com a proclamação da República. todo o País acordava sob um estridor imenso de toques de alar­ ma. o Imperador os atirava momentaneamente no ostracismo.dizia ele . cessavam de súbito o trom­ betear formidável . quando no governo. sempre se mostrava. o partido liberal quer mantê-las. eram simples agregados de clans organizados para a exploração em co­ mum das vantagens do Poder. como cm 68. no caso da Abolição. ao contrário. E. para que sc pu­ desse considerá-la sempre como um índice sadio da opinião nacional. em que. na opinião dos partidos. é liberal. Depois dessa grande fase histórica. de cânticos de guerra. extintos os partidos do Império e preser­ vado. de origem habitualmente exótica. que os liberais só sc lembravam dc clarinar com fogo. Então. aliás. houve aqui uma fase em que os partidos tiveram verdadeiramente uma opinião: foi o período da Independência. O fato é que ne­ nhum desses dois programas representava convicções definitivas e sinceras.6 Formas de governo 147 to de uma pequena parcela das classes cultas do País. difícil esta discriminação muito nítida das opiniões. Certo. do indefinido. com brio. Já em 53. nunca aparecia pura e extreme. O Imperador não desdenhava de atendê-la . um dos grandes motivos de perplexidade. evidentemente. Esta opinião. porque a Constituição do Brasil contém instituições santas..] como os conservadores.e passavam a ser [. calo­ rosamente pregados quando nas agruras da oposição. com ímpeto. desde logo. Esta perplexi­ dade do Imperador não devia ser menor quando ele. de Paraná. Tanto que os liberais. ou tentava buscá-la. simples rótulos. liberais. quando. logo.e assim o fez no caso da eleição direta. Desde o momento. a tendência à . no Senado: “O argumento do nobre senador . ao aceno da Coroa. o Partido Republicano. justamente. da Democracia e a Liberdade. no caso da Federação. é uma prova do vago. do 1° Reinado e da Regência. de sonoridades marciais. não tinham propriamente uma opinião. logo. Porque os partidos políticos do Império. do incerto contido nos programas dos dois grandes partidos do Império. liberais. os programas que ostentavam eram. retornavam ao poder. O argumento poderia ser invertido pelos liberais.envol­ ve uma confusão de ideias manifesta: O conservador no Brasil é necessariamente libe­ ral. porém. na verdade. imponentes embora pela sua massa. Zacharias exprimiu muito bem este fato no seu discurso dc 18 dc junho dc 1870. a chamada política da conciliação.. ela devia ter constituído para o Imperador. sem outra significação que a de ró­ tulos. no intuito de conhecer a opinião do País. em regra. aliás. buscava-a. só o liberal é conservador”. dizendo: A Constituição brasileira contém instituições santas. chamando a postos as consciên­ cias altivas para a defesa da Pátria. O programa liberal era uma es­ pécie dc trombeta sonora. agiam sempre de maneira idêntica aos conservadores: o inebriamento do poder como que os fazia olvidarem os seus mais caros ideais. por isso. muito impregnada das animosidadcs do partidarismo. pode-se afirmar com fundamento que os partidos políticos não representavam realmente correntes de opinião. muito comprometida com o espírito de facção. todas as vezes que era obrigado a organizar novo Gabinete. formou-se. O próprio liberalismo da Constituição tornara.

Na iminência do movimento militar de 1964. 5°. afrontando a dignidade da Política e o bom senso da cidadania. O Ato Complementar n. 9. sucessor do M DB. a pulverizar a opinião pública. bastando lembrar que. 4. favorecendo governadores que apoiavam o governo central. substancialmente emendadas em 1969. Tem início. permitira a criação de duas agre­ miações partidárias. no art. . nos mol­ des dos movimentos fascista e nacional-socialista. sem falarmos nas inovações introduzidas pela Constituição de 1967. a legislação eleitoral foi se tornando mais e mais per­ missiva. o Estado autoritário alcançava seu máximo prestígio. outros nem tanto. em oposição a Getúlio Vargas. prenunciava seu declínio. 5. que lançou como candidato à Presidência da República Armando Salles de O li­ veira. o Partido Popular (PP). § I o. a Aliança Renovadora Nacional (Arena) e o Movimento De­ mocrático Brasileiro (MDB). Ti­ nham real prestígio. logo posto na clandestinidade. Getúlio foi deposto em 29. de 20. Todavia. deflagrou um golpe de Estado para fortalecer seu poder e depurar as hostes inimigas. dentre os quais o Partido Democrático Social (PDS).12. herdeiro da Are­ na.10. de modo que. como a União Democrática Nacio­ nal.1988. A partir daí.148 Teoria Geral do Estado criação de partidos locais.1945. alguns notório significado. Entre 1930 e 1937. já havia treze partidos na ativa. A derrota do nazi-fascismo.682/71 (antigas Lei Or­ gânica dos Partidos Políticos. dissolvidos. revogada pela atual. após permanecer durante quinze anos no poder. dc tendência comunista. foram criadas a Ação Integralista Brasileira (1932).096/95) determinar. em 27.676. Lei n. formaram-se inúmeros partidos. porém. Daí. uma febricitante elaboração legislativa. o recrudescimento da perigosa patologia política do muitipartidarismo.1965. de modo que cada Estado contaria com seu próprio par­ tido republicano. de 25. pelo Ato Institucional n. Além destas duas agremiações partidárias foram criadas outras. fechado o Congresso Nacional e controla­ da a imprensa. a par­ tir daí.11. Dissolvidos os partidos exis­ tentes e exilados seus principais líderes.1979. a União Democrática Nacional. transformadas em partidos desde 1967. A partir daí. o Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB).10. destacando-se o Código Eleitoral. permitiu a criação de no­ vos partidos. exigir a expressão partido na sigla identificadora dos novos partidos.1965. a Lei n. ao extinguir a Arena e o M DB. o Tribunal Superior Eleitoral aprovou o re­ gistro provisório de um Partido Humanista (?) Nacional e de um Partido Nacional dos aposentados (!). contudo. conduzida por Luís Carlos Prestes. o Partido Trabalhista Brasileiro (P I B) e o Partido dos Tra­ balhadores (PT). então. sendo a nova denominação derivada do fato dc a Lei n. Este. 6.08. em 1937. e a Aliança Nacional Libertado­ ra. propiciando o surgimento de nada menos que trinta (!) novos partidos. o Partido Social Demo­ crático (PSD) e o Partido Trabalhista Brasileiro (PTB). 2. a Lei Orgânica dos Partidos Políticos e a Lei das Inelegibilidades. Em 1922 foi fundado o Partido Comunista brasileiro. em 15.

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2.4.7) D em ocracia e co m u n ica ç ã o de massa
A comunidade nacional é soberana. Todo o poder emana do povo. Antes do advento do liberalismo político, dizia-se que o poder vinha de Deus. Hoje, pratica­ mente, todas as Constituições consagram a soberania popular ou nacional. Como a democracia direta não é mais praticável atualmente, o povo ou a nação escolhem seus representantes por meio de eleições. Eis a democracia representativa. O povo ou a nação são soberanos e a soberania é indelegável, inalienável. A democracia re­ presentativa deve, portanto, apoiar-se na opinião pública. Mesmo nos Estados totalitários, como o Estado nacional-socialista alemão, havia a realização do plebiscito, a fim de que o Führer auscultasse a chamada opi­ nião pública. Auscultar a opinião pública que seja a lídima, a verdadeira opinião pública, eis o ponto-chave da democracia. Como acentua Salvetti Netto:
o mecanismo democrático, que se sustem na representação popular, será tanto mais eficaz para atender aos fins da própria democracia, quanto mais propiciar as condi­ ções necessárias a uma estreita conformidade entre as deliberações dos órgãos gover­ namentais e os interesses da coletividade. Não pode haver representação onde inexis-

tirem cidadãos politizados, onde não houver fontes informativas da opinião pública, livres, desobrigadas e autônomas...

Em face disso ocorrem na America Latina e nos Estados política e economi­ camente subdesenvolvidos crises políticas incessantes. Na maioria desses Estados existe uma democracia meramente formal, em opo­ sição a uma democracia concreta, substancial. Em razão do exposto percebemos a importância e a responsabilidade dos meios de comunicação de massa na atualidade. Tais meios se confundem com aqui­ lo que costumamos denominar imprensa. Nesta incluem-se todos os meios de co­ municação de massa, embora seja instintivo nos referirmos aos meios de impressão com maior frequência do que ao rádio ou ao cinema, mesmo porque aqueles são mais antigos e acumularam ao seu redor a maioria das concepções teóricas da co­ municação de massa. Em seu livro Tres teorias sobre la prensa, Siebcrt e Peterson apresentam trcs teorias referentes à liberdade dc imprensa e as relações desta com o Estado: A teoria autoritária: esta teoria surgiu no clima autoritário do Renascimento, pouco depois da invenção da imprensa. Acreditava-se, então, que a verdade era apa­ nágio de alguns homens em posição de dirigir seus governados. A imprensa atuava de cima para baixo. Somente mediante permissão especial era permitida a proprie­ dade privada de órgãos da imprensa, e esta permissão podia ser cassada a qualquer momento. As publicações abrigavam, então, uma espécie de contrato entre os go­

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Teoria Geral do Estado

vernantes e os editores, pelo qual aqueles concediam um monopólio e estes, em con­ trapartida, deviam prestar “apoio'’ incondicional aos detentores do poder. Ora, tal concepção da imprensa eliminava de pronto o que, 11a época, chegou a ser uma dc suas funções mais comuns: controlar o governo. Esta teoria da im ­ prensa como mera servidora dos governantes foi accita universalmente no século XV I e parte do século XVII. A teoria libertária da imprensa: a liberal-democracia, a liberdade religiosa, a expansão da liberdade de comércio, a aceitação da economia do laissez-faire e o cli­ ma da ideologia iluminista minaram paulatinamente o autoritarismo, reclamando um novo conceito de liberdade de imprensa. Esta nova teoria tem seu início no sé­ culo XVII, alcançando seu apogeu no século X IX . A teoria libertária não concebe o homem como um ser que deve ser dirigido, mas como ser racional capaz de discernir entre o certo e o errado. A verdade deixa, então, de ser privilégio do poder. O direi­ to de procurar a verdade torna-se um dos mais prestigiosos direitos naturais do ho­ mem. A imprensa passa a ser considerada uma companheira em busca da verdade. Na teoria libertária, a imprensa não é um instrumento dc governo, mas um recurso para apresentar provas e argumentos sobre a atuação dos governantes c controlá-los. Portanto, para esta teoria é indispensável que a imprensa esteja a salvo do controle c influência governamentais. Para que possa surgir a verdade, é preciso aferir todas as opiniões; deverá haver um “mercado livre” de ideias e informações. A teoria de responsabilidade social da imprensa: a teoria da responsabilida­ de social da imprensa resultou de um problema surgido há cerca de trinta anos, com a revolução das comunicações. Quando as estações de rádio começaram a se multiplicar, a exemplo dos jornais e livros, sua organização foi tornando-se cada vez mais complexa, exigindo capitais de vulto. A imprensa - como nos tempos do autoritarismo da imprensa - passou a cair nas mãos de uns poucos poderosos. Se estes homens, muitas vezes apolíticos, buscavam de todas as formas uma indepen­ dência de informação relativamente ao governo, não é menos verdade que a opi­ nião pública passou a correr novo perigo, qual seja, o poder incontrastável da im­ prensa cm mãos dc particulares. A proteção da imprensa contra a influencia do governo deixou dc ser suficiente para garantir a oportunidade de alguém expressar suas ideias, pois os donos e gerentes da imprensa determinariam as pessoas, os fa­ tos, as versões destes que seriam dadas ao público. Foi este problema que consti­ tuiu a base do desenvolvimento da teoria da responsabilidade social, 011 seja, a po­ sição de poder e quase monopólio dos meios de comunicação. Deve haver então, segundo esta teoria, a institucionalização da responsabilidade social das empresas para que todas as opiniões se apresentem imparcialmente, para que o público pos­ sa imparcialmente decidir. Na verdade, o problema da liberdade de imprensa tem de ser cuidadosamen­ te estudado, pois sua existência ou não sempre impele a nau do Estado pelos mais inesperados caminhos. Seignobos, 11a sua magistral H istória sincera da França , e

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Domenach, em A propaganda política, demonstraram à saciedade o papel da im­ prensa, especialmente a clandestina, na disseminação das ideologias na França iluminista e na Rússia de 1917. Nos dias em que vivemos, o problema agravou-se com o embate ideológico, verdadeiro caleidoscópio político, pois os meios de comunicação, cada vez mais perfeitos c objetivos, são dc fácil apreensão pela massa. Abordando o tema, Ferreira Filho (A democracia possível) adverte que quem controla os meios de comunicação de massa tem a possibilidade, mais que isso, a tentação, de manipular o seu auditório, infundindo-lhe as próprias concepções.

3) TIRANIA
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A tirania é uma forma autocrática de exercício do poder político que tem ori­ gem asiática, passando para a Grécia a partir do século VI a.C. O vocábulo tirania tanto pode ser originário da Lídia, sendo o rei Giges o primeiro a ser chamado ti­ rano, como de Canaã, de serens, nome bíblico atribuído aos filisteus de origem no­ bre. Pode, até, ser originário dos etruscos, da expressão turan, que significa poder ou senhoria, ou de nomes próprios da Etrúria (o rei Turuns ou a deusa Juturna). Aliás, já sc disse que os etruscos, que desenvolveram a mais adiantada cultura da antiga Itália, antes dos romanos, eram descendentes dos lídios, sendo sua origem asiática, portanto. Consequentemente, a palavra tirania não é grega; designa, antes de mais nada, a forma de governo da moda existente na Ásia Menor, em dado momento históri­ co, não tendo absolutamente, como sugere o vocábulo, sentido pejorativo, malévo­ lo. Com efeito, a exemplo da ditadura romana, a tirania asiática não se apresenta como uma forma de exercício do poder necessariamente perniciosa. Diga-se o mes­ mo da sua versão grega que representou, no mais das vezes, os interesses coletivos, como veremos adiante. Em detrimento da verdade histórica, a tirania passou, com o tempo, a significar uma forma política essencialmente indesejável, preconceito

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Teoria Geral do Estado

este arraigado até mesmo entre estudiosos da história política e que cumpre-se ex­ tirpar de vez. Vejamos, entretanto, a evolução da tirania grega. É durante o século VI a.C. que desaparecem, em grande número dc cidades gregas, as velhas Constituições aris­ tocráticas, como fruto do descontentamento dc comerciantes e industriais que, en­ riquecidos em sua atividade, passam a almejar os cargos públicos. A aristocracia, sem se renovar, é dividida por lutas internas e enfraquecida cada vez mais. Sua de­ cadência vai ensejar o aparecimento de uma nova forma política, oriunda da Asia, a tirania. Esta forma de governo vai permitir o restabelecimento da ordem e uma política de expansão territorial e, consequentemente, de desenvolvimento econômi­ co, como corolário do espírito empreendedor dos gregos do século VII a.C. A tira­ nia, diga-se mais uma vez, não indicava uma ideia de dominação necessariamente opressiva, mas a forma de poder exercido por um homem cujo direito de governar era fundado não mais na religião ou na hereditariedade, como a antiga monarquia, porém no prestígio pessoal, 110 apoio dos estamentos inferiores, comerciantes e gen­ te humilde. Acrescentc-sc a isto um forte aparato militar. Claro, houve abusos por parte dc inúmeros tiranos; muitos, contudo, criaram constituições democráticas, de­ fendendo os interesses dos menos favorecidos, exercendo uma forma política em muito semelhante à denominada ditadura proletária a que sc refere Burdeau. Com efeito, as massas, em sua fraqueza, não encontraram outro meio de com­ bater os excessos da aristocracia senão o de lhe opor uma nova espécie de monar­ quia, seja na Grécia ou em Roma. Quando, em toda parte, os reis foram vencidos e a aristocracia se firmou 110 poder, o povo não se limitou a lastimar a queda da monarquia, mas procurou restaurá-la sob nova roupagem. Em seus primórdios, a tirania vem a ser uma forma política responsável pelo esplendor e pelo desenvolvimento econômico das cidades. Destacam-se tiranos no­ táveis: Trasíbulo, em Mileto; Pitágoras, em Éfeso; Polícrates, 11a ilha de Samos. Este cria uma potência marítima comparável à do Egito e da Pérsia, dedicando-se, ade­ mais, a proteger sábios, cientistas c poetas e a edificar majestosas obras públicas. Outro notável tirano, Pisístrato, governa Atenas com sabedoria e moderação, res­ peitando a legislação de Sólon, impedindo a formação dc latifúndios, realizando ampla reforma fiscal e embelezando a cidade. O tirano não altera, geralmente, a Constituição. As magistraturas são manti­ das, devidamente encarnadas em homens de sua inteira confiança. O conselho e a assembleia determinam a nova política, embora severamente fiscalizadas pelo tira­ no, que se faz acompanhar, prudentemente, de robusta guarda pessoal. A aristocra­ cia é perseguida. O tirano Trasíbulo pediu, certa vez, conselho a Periandro, tirano de Corinto, que era, por sinal, 11111 dos sete sábios da Grécia, a respeito da arte de governar. Periandro não respondeu: como ambos se achavam num trigal, limitou-se a cortar algumas espigas que se sobressaíam em altura das demais, insinuando, com

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isso, que a tirania não pode tolerar que os mais capazes adquiram demasiado pres­ tígio. Em Corinto, Cípselo confisca as terras aos nobres e as distribui entre as mas­ sas desfavorecidas; em Mégara, Teágenes pura e simplesmente massacra os rebanhos dos ricos, captando a simpatia popular. Os miseráveis vecm sua revolta c desdita mi­ noradas, pois os grandes empreendimentos públicos oferecem trabalho c as terras confiscadas lhes propiciam a fixação à terra. Tais situações atendem plenamente aos interesses do tirano, preocupado permanentemente com a hostilidade potencial dos aristocratas e com a sublevação das massas. Além disso, o tirano utiliza-se, frequen­ temente, dos cultos religiosos, os quais, excelente veículo de propaganda, contribuem para a estratificação do poder pessoal. Na verdade, à época das tiranias, comba­ tia-se ou pela liberdade ou pela tirania. Liberdade, para o proletariado, quer dizer governo dos ricos; tirania significava o governo de um líder antiaristocrático e, in­ diretamente, popular. Segundo o próprio Aristóteles, o tirano não tinha por missão mais do que proteger o povo contra os ricos, sendo da essência da tirania a guerra à aristocracia. A tirania é oriunda, em última análise, dos anseios dc uma burguesia florescente e, paradoxalmente, da miséria das massas e, claro, da audácia dc indiví­ duos sequiosos dc poder e decididos a tudo para triunfar. A tirania perduraria desde o século VI a.C. até meados do século seguinte, es­ tendendo-se, por todo o mundo grego, mas em cada caso particular jamais durou muito tempo. Em Esparta, aliás, a tirania jamais foi bem vista, talvez pela natural desconfiança do espartano em relação ao indivíduo enquanto tal. Na expressão do historiador ateniense Tucídides, Esparta não suportava os tiranos; tal aversão, de­ nominada atyranneutos, revela-se plenamente quando a política exterior esparta­ na intervém contra Polícrates e contra os Pisistrátidas, quando apeia do poder Ligdamis de Naxos e quando repudia a aliança a Corinto e Sicione, enquanto estas cidades são governadas por tiranos. A tirania decadente tornar-se-ia hereditária; então, as qualidades de energia, audácia e talento político, peculiares ao bom tirano, já se faziam escassas. A tira­ nia arcaica continha em si mesma os germes de seu desaparecimento, ou seja, a composição das crises sociais que a originaram. Com o desaparecimento destas, mediante as próprias reformas tirânicas, os cidadãos desejariam o retorno a uma forma de governo regular, em que o exercício do poder não se limitasse a um só homem. A tirania foi, na verdade, uma etapa necessária no caminho da democra­ cia, como acentua François Chamoux, pois à tirania se sucede uma aristocracia mo­ derada. O mundo moderno conheceu uma forma de exercício do poder político céle­ bre, aquela exercida por Oliver Cromwell (1599-1658), que, fazendo condenar à morte o rei Carlos I, em 1649, fez-se nomear Lorde Protetor da República da In­ glaterra (Commonwealth). O poder de Cromwell lembra, estranhamente, as tira­ nias gregas. Homem de caráter enigmático, ora iluminado, ora calculista, genero­

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Teoria Geral do Estado

so e cruel, dotado do mais refinado bom senso ou da mais escandalosa extravagância, era, fanaticamente, puritano, dissolveu o parlamento 110 dia 30.04.1653, tratando os parlamentares de ladrões e covardes, fechou as portas da casa legislativa e guar­ dou as chaves no bolso... Proclamada a República em 16.12.1653, instalou-se no palácio de Whitewall c iniciou um governo rude, que promoveu a dissolução de quatro parlamentos sucessivos, mas que tornou a Inglaterra respeitada c temida, adquirindo Dunquerque e apossando-se da Jamaica. Reprimiu revoltas na Irlanda e na Escócia, e sua violência foi tamanha que os irlandeses se tornaram inimigos latentes dos anglo-saxões. Cromwell, que sonhava, certamente, em se tornar rei, não conseguiu seu desideraro, deixando seu posto para seu filho Ricardo, que, lon­ ge de possuir as qualidades do pai, logo abdicou. Cláudio de Cicco, em síntese so­ bre a História Universal, ressalta bem a influência da religião puritana sobre Cromwell, que, aliás, vituperava o rei Carlos I, sob os epítetos de anticristo e dragão do apo­ calipse. Os seguidores de Cromwell entremeavam seus combates com cânticos e salmodias, sendo o respeito para com o chefe absoluto. Ainda Cláudio de Cicco aponta, com muita agudeza, que o Navigation Actypromulgado por Cromwell, para proteger a burguesia de armadores e proprietários de companhias mercantis, mos­ tra bem o nexo entre o mercantilismo capitalista c o luteranismo dc Cromwell.

4) OLIGARQUIA
Bibliografia: A r i s t ó t e l e s . Política, Madrid, Centro dc Estúdios Constitucionales, 1983.
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Norbcrto c
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La república,

Do grego ol igoi, poucos, e arche, governo, oligarquia significa, literalmente, governo de poucos. Entretanto, como aristocracia significa, também, governo de poucos - porém, os melhores -, tem-se por oligarquia o governo de poucos em be­ nefício próprio, com amparo na riqueza pecuniária. Em outras palavras, o termo apresenta um conteúdo eticamente negativo ao denominar o governo dos ricos, em­ bora possa indicar, também, o governo de poucos mantido pela intimidação, como no caso da oligarquia militar. Modernamente, são usados mais dois termos para denominar o governo pernicioso de uma minoria, quais sejam, plutocracia e nepo­ tismo. Plutocracia é termo de origem grega (de ploútos, riqueza, e kratos, poder), daí ploutokratía, plutocracia, ou governo fundado 110 dinheiro, na corrupção. Quan­ to a nepotismo, a expressão é de origem latina, de nepote, neto 011 segundo sobri­

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nho; nepote, por sua vez, deriva de ncpos, termo latino que denomina simplesmen­ te o escorpião, aracnídeo cuja fêmea é devorada pela própria ninhada, como a parentela se aproveita dos ascendentes bem situados, assumindo os melhores car­ gos públicos, cm detrimento dos mais capacitados. Em suma, favorecimento de ami­ gos e parentes da minoria governante. Diz Platão: “A que tipo de Constituição - disse - chamas oligarquia? Ao go­ verno baseado no censo - disse eu - no qual mandam os ricos, sem que o pobre te­ nha acesso ao governo” (> 4 república, 550, c). Aristóteles, por sua vez, doutrina: “ Há democracia quando os livres governam, com maior razão que há uma oligar­ quia quando os ricos governam, e, geralmente, os livres são muitos e os ricos pou­ cos (Política, 1290, b). Na distinção aristotélica entre formas de governo puras e impuras, a oligarquia, como governo dos ricos, é a forma impura da aristocracia, que é o governo dos melhores (Política, 1279, b). O sentido negativo da oligarquia c uma constante no pensamento grego clássico, bem assim no pensamento moder­ no e contemporâneo. Veja-se, por exemplo, Jean Bodin numa das mais festejadas obras da teoria política: “Da mesma forma que a monarquia pode ser real, despó­ tica, tirânica, assim a aristocracia pode ser despótica, legítima, facciosa; este tipo dc governo, na Antiguidade, era chamado oligarquia, vale dizer, domínio cxcrcido por uma minoria [...]. Por isso os antigos usavam este termo com significado nega­ tivo, e aristocracia com sentido positivo (Les six livres de Ia république, Livro II, Capítulo IV). Muitos autores contemporâneos, como Robert Michels e Caetano Mosca, sus­ tentam que em todas as organizações de massa brotam, naturalmente, facções oligárquicas destinadas a se tornar verdadeiras elites. Robert Michels chama este fe­ nômeno de “lei de ferro da oligarquia”. Quanto ao marxismo, considera a democracia liberal uma oligarquia disfarçada, mesmo sendo assegurado o sufrágio universal. Paradoxalmente, o marxismo-leninismo exige, no período de transição entre o ca­ pitalismo e o comunismo, denominado ditadura do proletariado, o governo de uma minoria seleta, investida dc plenos poderes, que evoca, sem dúvida, as elites diri­ gentes da República de Platão.

5) DEMAGOGIA E 0CL0CRACIA
Bibliografia: AMARAL
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l in a r e s q u in t a n a

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Segundo V. Sistemas de partidos y

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Quanto à oclocracia (do grego oklos. que não sentia grande atração pelas democracias (Apologia de Sócra­ tes. causada pelo aparecimento da máquina. das mulheres e das crianças dominar a multidão ignara dos trabalhadores. condicionada a atitudes políticas e sociais não racionais.) que a de­ magogia principiou a ter sentido negativo. eliminar as particularidades. provoca a reação de comuni­ dades organizadas. cortejando o populacho com leis inexequíveis e uma sórdida campanha de calúnias e difamações contra os verdadeiros magistrados. esclarecia o povo com sabedoria e justiça. como sendo o “abuso que se instala no governo democrático quan­ do o populacho vil se torna o senhor dos negócios públicos”. rigo­ rosamente. A de­ . diz ele. seu com­ portamento torna-se uma conduta massificada. bem como à desordem e à corrupção. o termo de­ magogia não teve. ao sabor da irracionalidade das multidões. que acabam por implantar um governo autoritário. É neste sentido que Políbio emprega o termo. mas uma situação crítica que vivem as institui­ ções. impondo-se ao tirano. Ainda é Aristóteles que adverte ser a demagogia a corrupção da politeia [Política. durante muito tempo. e do papel cada vez mais ativo das massas. Progressivamente. Platão. Na demagogia. conduzir pela palavra. E preciso. 1]. deformação dos fatos e adulações grosseiras. Modernamente.C. O termo oclocracia indica o jugo imposto pelo populacho inorgânico ao poder legítimo e à lei. denominando a atitude daqueles que “conduzem o povo lisonjeando seus sentimentos”. e agein. forma corrupta da de­ mocracia e que leva à implantação de um governo despótico das classes sociais mais baixas.15 6 Teoria Geral do Estado Demagogia vem do grego demos. impor que todos pensem da mesma for­ ma sobre todas as coisas. sendo demagogia a arte de conduzir o povo. e kratos. Ressalte-se que na antiga Grécia. Daí agog-os. eliminar as diferen­ ças pessoais. Foi com o grande historiador ateniense Tucídides (460-395 a. Então. elaborada pelos enciclopedis­ tas franceses. garan­ tida pelos guerreiros e acima de todo e qualquer egoísmo pela comunhão de bens. os cidadãos mais capazes são relegados ao esquecimento e os aduladores cobram rápida ascensão. Isto só será possível quando a casta dos filósofos. multidão. poder). via na liberdade individual uma distorção da verdadeira convivência social. orador que conduz. a demagogia é tida como a política por meio da qual os go­ vernantes buscam impressionar as massas com falsas promessas. povo. A atro­ fia da individualidade criadora. a conotação pejorativa de hoje. Tal estado de coisas é resultante do rápido desenvol­ vimento industrial e tecnológico. uma forma de governo. A oclocracia é definida na famosa enciclopédia. 2. demagogo é aquele que conduz o povo. não é. fazendo valer seus mais insensatos caprichos. 35 a-b). leva ao isolamento das pessoas e à sua angústia permanente. VI (IV). impor a ordem no Estado e nas almas. Aristóteles advertia para o fato de que a demagogia. sendo o demagogo aquele que.

Com efeito. é o oposto deste ideal. São Paulo. salvetti n e t t o . 1964. Torino. fazendo a moderação passar por fraqueza e o escrúpulo por ingenuidade. 1. p in t o f e r r e ir a Luiz. Manoel Gonçalves. Quanto à diferença entre demagogia e oclocracia. Madrid. 1977. Samuel. Pedro. por ter natureza analógica . Nicolò. Curso de teoria do Estado. . Saraiva. falso falar de uma só Constituição. Théodore. II príncipe e discorsi sopra la prima deca di Tito Livio. Carl. caracterizado pela concentração de atribuições prefixadas e destinado a sanar mal público iminente ou real. inevitavelmente. . lho burdeau . La dietadura. r e in a c h p it is c u s . Droit constitutionnel et institutions politiques.apresenta vários sentidos correlatos. Teoria geral do Estado. f e r r e ir a f i­ m a c h ia v e l l i. Ao reconhecer a todos os desejos a mesma legitimidade. Le sénat de la république romaine. presta-se a uma série de preconceitos e mal-entendidos. que. Pielte. O estado de sítio. é uma gritante desigualdade. cria a desordem e a imoralidade. Dictionnaire des antiquités romaines. ao sa­ bor dos interesses mesquinhos. mes­ mo. 1766. 1980. embora não idênticos. a palavra ditadura pode ser tomada num sentido amplo ou num sentido estrito. Utet. s c h m i t t . unipessoal ou colegiado. Georges. São Paulo. Saraiva. ao colocar na mesma casta homens desiguais. Paris. reside no fato de que. v. 1885. 1981. F. análogos. Em sentido amplo. São Paulo. p. 1979. burdhse. Quando o Estado sc encontra em tal situação. Paris. Re­ vista de Occidente. Ditadura é o exercício temporário do poder político. 1968. Pichon. Feltrinelli. há uma ordem viciosa imposta pelos demagogos. na primeira. Paris. . . prossegue. 1969. A igualdade de que ela se vangloria. Saraiva. e o domínio monstruoso que é a multidão (thrémma méga kai iskhurón) não passa de um despertar da natureza tirânica (palaià gigantikê phúsis) (apud Gustave Glotz. Zahar. na oclocracia. a sua Constituição é instável e deformada. ao defender um individualismo em que cada um age como bem entende. A cidade grega. neum ann Franz.6 Formas de governo 157 mocracia. 1968. Tal definição pode parecer estranha a quem estiver habituado ao uso indiscri­ minado do vocábulo. De Vétat de siège. Estado democrático e Estado autoritárioy Rio dc Janeiro. quando suas instituições encontram-se ameaçadas por . A. A democracia culmina. Diritto pubblico romano. 1975. w i l l e m s . denomina as medidas de emergência que toma o Estado contemporâneo. ao passo que a oclocra­ cia implica a própria ausência de qualquer ordem. pois esta é alterada incessantemente. 6) DITADURA Bibliografia: LGDJ. M ilano. 123). Scientia Verlag. sendo.

ao veto do colega. ao contrário do que sc pensa. O imperium . concentrava nas mãos todo o poder. A missão do magister populi ou dictator consistia. em cuja aplicação dispunha da mais ampla liberdade. conforme ensina Théodore Reinach. de imediato. que exercem o poder em colegiado e pelo período de um ano. sendo irresponsável no exercício do cargo. um dos cônsules podia anular qualquer medida tomada isoladamente pelo outro. a partir de então. várias magistraturas. nem intervir em demandas legais ou impor novos tributos. prevista na Constituição da antiga Roma republicana. alterar a Constituição ou declarar a guerra. Situemos. como faz ver o historiador Tito Lívio: “ [. a adoção do estado de sítio ou da lei marcial). Fora destas restrições. contudo. sob o lema salus rei publicae su­ prema lex est. Já se percebe que a ditadura romana vinha a ser uma magistratura extra­ ordinária\ prevista na Constituição. seu consentimento. dc dictare. a república sc impõe. é bem verdade. curvando-se. que buscou. em sanar graves crises sociais com medidas drásticas. enfim. vale acrescentar. quando tem início o período denominado principado. mas agora o magistrado republicano achava-se subordinado à lei. Daí. aumentativo dc dicere.. rees­ truturar o poder. ex. anteriormente. O próprio termo dita­ dura origina-se do Direito Público romano. Em sentido estrito. sendo responsáveis perante a lei e submetidos à intercessio. aos princípios da anualidade c da colegialidade. basicamente. Ora. o monarca postava-se acima da comunidade. a ditadura romana 110 tempo e nas instituições republicanas da antiga Roma. perdurando até 27 a. Nos tempos da realeza.. nesta incluído o poder de vida e de morte sobre seus conci­ dadãos.. é bom lembrar. a luta armada e a sucessão violenta de instituições. vale dizer.C. pois sabe-se que muitas ideias de ori­ gem republicana já vinham sendo experimentadas durante o reinado de Sérvio Tú­ lio.C. então. e até o ano dc 509 a. de forma a impedir que fosse restaurado o poder pessoal dos mo­ narcas.] duo cônsules inde comitiis centuriatis a praefecto urbis ex cornentariis Servii Tulli creat sunt [. a própria . refere-se a uma espécie de magistratura de caráter extraordiná­ rio.158 Teoria Geral do Estado um perigo interno ou externo (p. e sim ma­ gister populi. to­ mando-se a expressão no sentido enérgico dc comandar. Mediante a intercessio.. desde então.. Não podia. Vale frisar. A expulsão dos reis beneficiou a aristocracia. dotada de objetivos específicos e destinada a salvar a República e as liberdades dos cidadãos. significava a plenitude dos poderes judiciários e militares. cm sua investidura. Reza a tradição que a História da Cidade Eterna co­ meça aos 21 de abril do ano 753 a. O período dc transição entre a monarquia e a república não ensejou. que a denominação dictator não era a mais indicada para designar aquele que encarnava tal magistratura.C. dictator. Substituindo o rei. entretanto. investido do imperium maximum ou majuSy e durante sua atuação todas as magistraturas eram suspensas. adotou-se a forma monárquica de governo. Ele se achava. desde que não houvesse dado a esta. aprimorando-se.]” ... apa­ recem dois cônsules. sendo plena­ mente irresponsável. o ditador não estava subme­ tido à intercessio nem à provocatio. nestas incluído o próprio consulado.

a própria denominação faz ver . porém. Magis­ trados extraordinários . pois todo e qualquer cidadão tinha . o direito de exercer coerção (coercitio). eqüi­ valeria a atribuir ao cidadão uma situação privilegiada que ofenderia o princípio da isonomia. apenas aos magistrados stricto sensu: cônsules. da monarquia etrusca. sendo seu símbolo o fasces. truna. ad tempus certum e ad tempus incertum. direito de convocar e de presidir o Senado (senatum vocare). Cônsules e outros magistrados voltavam a ser. quando a salvação da . direito de convocar o povo dentro da cidade. As magistraturas republicanas eram. era magistratura de caráter extraordinário e. Havia um conceito primitivo de soberania. aos edis e aos tribunos. isto é. depois judices. A ideia de imperium . ad tempus incertumysendo invocada. impor multas (jus multae dictionis). ligado à religião (auctoritas) e um poder jurí­ dico c militar. quem sabe. O império era atribuído. também de origem etrusca. Magistrados ordinários eram aqueles que exerciam funções inerentes à norma­ lidade da vida administrativa. Além dos cônsules. mas limitada em razão das circuns­ tâncias. como vocábulo cor­ respondente a imperium. daí. portan­ to. aos questores.pelo menos teoricamente . publicar os editos (jus edicendi). que eram dotados. A ditadura. aquele que ia à frente do exército). repartida. por sua vez.6 Formas de governo 159 soberania encarnada pelos reis de Roma e transmitida aos magistrados republica­ nos. ao cabo de um ano.a possibilidade de in vicem parere atque imperitare. A potestas. apenas da potestas. compreende: o direito de tomar os auspícios dentro da ci­ dade. segundo Pallotino. inicialmente denominados praetores (de praetor.eram aqueles cujas atribuições não tinham duração limitada pela lei. iMais tarde. portanto. havia outros magistrados que se enquadravam em magistraturas de caráter ordinário ou de caráter extraordiná­ rio. Admitir que uma magistratura fosse ocupada sem limite de tempo. cidadãos comuns. O imperium inclui todas as atribuições da potestas e mais: o direito de tomar os auspícios fora de Roma. ditadores e pretores. entre os magistrados. consistente em deter o cidadão e obrigá-lo a comparecer perante a autoridade. originariamente. mais recente (imperium ). para lhe dirigir a palavra e para fazê-lo vo­ tar. no mais das vezes. paulatinamente. que significava poder. com nuanças religiosas. o direito de organizar e comandar o exército. determinar que este aprecie um caso determinado (referre ad senatum) e que delibere e vote (cum patribus agere). sendo suas funções delimitadas no tempo. a atribuição estendeu-se aos censores. nos comícios centuriados. deriva. a jurisdição (poder de dizer o Direito). o direito de convocar o povo fora de Roma. a palavra ti­ rania? Havia ademais uma distinção entre imperium e potestas. inicialmente. Os etruscos adotavam.

A própria nomeação do ditador seguia certos preceitos religiosos: o cônsul procedia à escolha do ditador somente após tomar os auspícios. um ditador ou tirando a sorte para determinar qual deles faria a seleção. propiciar. dotado apenas da potestas consularis. incumbido da cavalaria. fixar um prego numa parede do Capitólio. a função do ditador: comandar a infantaria. evidentemente. Quem nomeava o ditador romano. silentio). este desprovi­ do do imperium majus. ao qual. Entretanto. É um erro . ser um mal necessário. estranha cerimônia cujo significado escapa à moderna pesqui­ sa histórica. Nos momentos de crises político-sociais. em conjunto. tínhamos a ditadura imminuto jure. ordinária e colegiada. eles deviam consul­ tar o Senado a respeito das medidas a tomar. A expressão magis­ ter populi significa. quase sempre em estado de guerra. ainda nos primórdios do período republicano. mediante au­ torização do Senado. a ditadura latina dessemelhava-se da romana por ser anual (ad tempus certum). como a própria denominação insinua. Frisemos. tínhamos as ditaduras oprimo jure. ficando o magister equitum. assessorado pelo magister equitum. eram os cônsules. Se apenas um dos cônsules se encontrasse na cidade. embora não se pudesse fugir. Com efeito.160 Teoria Geral do Estado república exigisse a suspensão das prerrogativas pessoais (salus rei publicae supre­ ma lex est. a ele caberia a escolha. Tusculum e Lanuvium. Por exemplo. dirigia a guerra (rei gerendae causa). ao menos. em segredo (nocteyoriens. chefe dos patrícios. O ditador romano dispunha do direito de vida e morte. feita à noite e em segredo. levado a efeito com a máxima discrição. embora resolvessem o problema da administração inter­ na. pois várias culturas vizinhas à Cidade Eterna conheciam uma instituição semelhante. cm tais casos. isto é. dominava a sedição (seditionis sedandae causa) e podia permane­ cer 110 exercício de suas funções até quando as necessidades o exigissem. por outro lado. pois Roma. por exemplo. O ditador era investido 110 poder militar (gerundae causa e seditionis sedandae causa) e. simbolicamente. Se fosse o caso. Este curioso ritual demonstra bem o es­ pírito do antigo romano: a elevação de um homem acima das leis. Alba Longa. deliberando. como visto. durante a noite. esse órgão autorizava os cônsules a escolher. já sc percebia que os cônsules. da infantaria romana. neste caso. Acentua Pierrc Grimal que a dita­ dura se apresentava muito aparentada à monarquia no tocante a certas funções ex­ clusivas do rei (rex sacrorum) ligadas à religião. com suas tendências expansionistas. encarnada pelo magis­ ter populi ou praetor maximus. a lei suprema é a salvação da coisa pública). encontravam inúmeras dificuldades para atuar no âmbito externo. que a colegialidade do consulado não poderia. basicamente. e esta era. mas podia haver nomeação de um ditador para funções administrativas ou religiosas específicas e. era. literalmente. que a ditadura não era uma criação inteiramente do Direito Público romano. vivia situa­ ções que exigiam decisões rápidas. Encontraremos uma das mais profundas raízes da ditadura 110 gênio pragmá­ tico dos romanos. Em razão disso surge a ditadura. revelava.

que a ditadura não podia ultrapassar seis meses de duração. para tentar levantar o cerco que os équos impu­ nham a Roma. sempre renunciou às honrarias após cumprida sua missão. com altivez. causado a morte do filho de um senador. no século V a. e não seria equivocado concluir que. se o desejasse. sociedade patriótica fundada nos Estados Unidos da América do Norte. Reduzido à miséria por despender os poucos recursos que possuía. tentando cobrir a fiança exigida por influência dc seus inimi­ gos políticos. nomea­ do ditador por mais de uma vez.. co­ ragem. Cincinato poderia. cumu­ lar poder e glória. um exemplo da grandeza moral do antigo romano. em sen­ tido inverso. Padrão dc honra. que amanhava numa tosca charrua. o Censor. personifica a probidade administrativa no combate à corrupção. impediu a deflagração da guerra civil entre patrícios e plebeus. Roma apresenta-nos exemplos de ditadores notáveis. no ano de 458 a. cumprindo sua missão ao cabo dc vinte c um dias. os Estados Unidos da Amé­ rica do Norte. cujo amor à pátria.C. perpetuada na pátria da Democracia ocidental. sustentáculo da família e do lar. Seus membros. mes­ mo porque a história romana é pródiga em exemplos de ditadores que encerraram sua missão muito antes de se escoar o prazo de seis meses. impondo severa derrota ao inimigo. em grande parte por desconhecimento da História.6 Formas de governo 161 pensar. Aos 80 anos de idade. até amealhar o dinheiro necessário para afiançar a liberdade do filho. que havia. desprendimento e consciência social deveriam inspirar a modernidade. sempre levou vida modesta. constatando-se. vários casos dc permanência dilatada do ditador cm seu posto. não . culposamente. à sua vida austera c dc hábitos morigerados. dignidade c perseverança. Investido na função de dictator. com Cincinato. contudo. foi novamente investido na ditadura. portanto. Em qualquer caso. sempre. o arquétipo do herói romano. Eis. simboliza a virtude da mulher romana. para a felicidade e o progresso de um Estado. voltando. ficou reduzido à pobreza. mãe dos Gracos. mas nem por isso pensou em locupletar-se ou em vingar-se. as insígnias de dictator. e que Marco Pórcio Catão. para libertar seu filho Ceson. De­ volveu. ele que havia sido reduzido à humilhação c à pobreza por ten­ tar libertar o filho. ao tomarem Cincinato como mo­ delo de conduta. foi em inteira justiça. hoje. levantou o sítio em apenas dezoito dias. em 1873. à qual. Polí­ tico hábil. traziam uma medalha representando o ditador em sua charrua. na pequenina propriedade agríco­ la que lhe restara. passando a viver do culti­ vo da terra. Esquecido por todos. o ditador não podia renunciar à sua missão antes dc complctá-la. admitindo a hereditariedade na sucessão de seus membros. era formada por todos aqueles que se haviam desta­ cado na Guerra da Independência. Entretanto. na cidade de Cincinatti. a socieda­ de foi declarada incompatível com a República e desfeita. Da mesma forma que a célebre Cornélia. A Ordem de Cincinato. lembrado por seus compatriotas. Patrício dc origem. Lúcio Quíncio Cincinato vem a ser. repugna a palavra ditadu­ ra.C.. e retornou à lavoura. a memória do ditador Cincinato é.

O senatus consultus ultimum era acompanhado da patética expressão “videant cônsules ne quid res publica detrimenti capiat!' \ com a qual se alertava a comuni­ dade sobre a gravidade da situação. atribuído ao Senado e destinado a declarar hostil. Em 46 a. 48.C.C. haveria duas nomeações. tendo por missão constituere rem publicam. por ocasião da nomeação dc dois colégios decenviros legibus scribundis. no entanto. que a palavra ditadura possui uma carga histórica que deve ser respeitada. também. líder agrário. imediata­ mente. Modernamente. praticamente desaparece c. que estava exigindo soluções drásticas.C. As denominadas ditaduras de Lúcio Cornélio Sila e de Caio Júlio César apre­ sentam caráter completamente diverso da ditadura original. Então. jamais aviltada. a luta secular entre patrícios e plebeus..162 Teoria Geral do Estado bastam instituições políticas formalmente perfeitas. Quanto a Júlio César. a importância do ditador já estava bastante reduzida pelo fato da ad­ missão da intercessio dos tribunos da plebe contra o poder incondicionado do dita­ dor. em sua bela e tremenda Divina comédia (VI. exerceu por quatro vezes a ditadura política. Percebe-se. ao cabo dos quais renunciou ao posto. um ime­ recido elogio. na verdade. pois se destinavam a reestruturar o Estado e a elaborar um novo ordenamento jurídico. Após a Lex Hortensia. Quanto ao ditador rei gerundae cau­ sa. bem como o justitium (suspensão da atividade dos tribunais). exemplo universal dc patriota. que os ho­ mens que as encarnem sejam dignos destas. é preciso. ao enal­ tecer a figura do ditador romano. e aquilo que pensa constituir um vitupério é. se zanga. um mecanismo que impedisse. todo aquele que conspirasse contra o Estado. motivadora da nomeação dc vários ditadores. fora da lei e inimigo. por oca­ sião das agitações de Tibério Semprônio Graco. graças à sua aliança com os tribunos da plebe e à assimilação paulatina das atribuições anteriormente priva­ tivas dos cônsules. a ditadura prosperou e foi útil. e XV. e que os norte-americanos honra­ ram a memória do grande romano na cidade de Cincinatti. em 249 e 216 a. respectivamente em 49. logo. 45. A deturpação do sentido de um vocábulo emprega­ do sem discriminação séculos afora acarreta enganos insanáveis. 129). efetivamente. declarava a tumultus (rebelião). a ditadura foi suspensa por dois anos. a figura do dictator seditionis sedandae causa. foi criada uma institui­ ção que substituiria a tradicional ditadura: o senatus consultus ultimum. Além disso.. Em 451 a.. isto é. aos quais se deve a Lei das Doze Tá­ buas.. ficando estes reduzidos à condição dc meros agentes executores. a dita­ . Não havia. o ditador de empalmar o po­ der absoluto. Não teria sido por acaso que Dante Alighieri colocou Cincinato e Cornélia no Paraíso. Sila permane­ ceu no poder durante três anos. com ela.C. qualquer aventureiro político que vem a ser qualificado como ditador. 46 e 44 a. o Senado já se encontrava reforçado a ponto de enfraquecer enormemente o poder dos cônsules. de 286 a. A partir do ano 133 a. na República romana.C. com efeito.C. como percebe com clare­ za Maquiavel cm sua obra Discursos sobre a primeira década de Tito Ltvio.. a anulação de determinadas leis e a suspen­ são do poder de certos magistrados.

em­ bora o como fazer ficasse a cargo deste mandatário.seria anual e reservada ao povo. a governantes legal­ mente constituídos.. depois.C. em razão da falta de higiene existente nas cidades etc.teórica.01. instruções a respeito do que fazer. Após a morte de César. ele próprio. de imediato. que instituiu o tribunal revolucionário e se mostrou fanático defensor da República. criando. pois este já se tornara seu fi­ lho adotivo. Tais aberrações levaram ao seu assassínio. em detrimento da coletividade.. encarnada no denominado comissá­ rio. finalmente. o cesarismo é a forma dc exercício do poder político na qual o governante busca perpetuar-se no poder sem infringir a lei. administrar a extirpação dc focos de epide­ mias comuns à época. evidentemente . evidentemente. denominado Junta da Salvação Pú­ blica ( Comitê de Salut Public). o Senado eliminou a nova magistratura. O fato é que as formas corruptas da ditadura romana devem ter denomina­ ção diversa. medidas excepcionais que lembram. uma instituição análoga à ditadura romana. cuja eleição . Exemplo de poder ditatorial colegiado poderemos encontrar. responsável. ainda em 44 a. fruto da reação do Senado. contudo. na França revolucionária. colocada acima do consulado. foi obrigada. por intermédio da Lex Antonia de dictatura in perpetuum tollenda. Procurando dissimular a transformação da República em regnum. César subs­ tituiria os antigos magistrados por um apenas. a duração do exercício do cargo comissarial era rigorosamente transitória. quando a Convenção Nacional. incumbida de redigir uma nova Constituição e transmitir o poder. O co­ missário recebia do príncipe. por Marco Antônio. na Idade Média. por um estado de terror. restabelecer quaisquer resquícios da ditadura. César obteve a garantia de que sua ditadura seria perpétua. proposta. Além do mais. por exemplo. evitou.1791. mediante um decreto. temos o nepotismo (de nepote. primeiramente chamado de Otávio (63-14 a. o moderno estado de sítio (état . sucessor de César. dc César. Quando o cesarismo enseja o favorecimento de poucos. criava-se na França revolucionária. quiçá. funcionário nomeado para exercer atribuições extraordinárias e específicas. O governo cesarista nem sempre é mau. Tomando a expressão ditadura em sentido amplo. a figura do princeps e abstendo-se de alterar o quadro das anti­ gas magistraturas.6 Formas de governo 163 dura cesariana fez-se permanente e ordinária. sufocar revoltas populares.). com prudência. o que o torna irregular é a «ânsia da perpetuidade cm fraude à lei. também denominada tirania. Assim. Em 44 a. a partir de então. a delegar am­ plos poderes a um colégio de nove membros. em razão da desordem imperante. tudo leva a crer que Júlio César desejava instituir sua nova concepção de ditadura na figura de Otávio. mas burlando-a. no qual pontificou Robespierre. Na verdade.C. teremos. a exemplo da aesymnetia grega. Já em 10.C. A pa­ lavra cesarismo vem. parente). no ano de 1793. Otaviano Augusto. por delegação.

em 1813. será um efêmero presidente de alguma república andina. surgiam as prisões em massa e as execuções. Bur­ deau aponta formas de cesarismo e ditaduras. diz Burdeau. ditador por três anos e. pois uma ditadura sem ditadores. Carl J. para um futuro promissor. para fazer frente às crises político-sociais. exatamente como na antiga Roma. simplesmente porque sabe fazer-se obedecer. eis um Napoleão. Seja o poder ditatorial enfeixado nas mãos de um órgão apenas (sentido estrito) ou em vários órgãos (sentido amplo). estágio final da evolução humana. Indepen­ dente a partir de 1811. Que vem a ser a ditadura do proletariado? Segundo a doutrina marxista. . uma ditadura coletiva. elasse exploradora. classe social destinada a dirigir a tarefa dc libertação das mas­ sas trabalhadoras exploradas pela burguesia. no mínimo. se não for. Exemplo curiosíssimo de forma política que recorda o consulado e a ditadu­ ra romanas . como “Terror”. era o período em que o proletariado. a ditadura do proletaria­ do. vítima inevitável de alguma rebe­ lião ou pronunciamento. Se ele for um gênio. já não seria di­ tadura. o cesarismo empírico. e. o Direito Públi­ co russo referia-se a uma expressão célebre. mas isto já seria impossível no caso de todos exerce­ rem uma ditadura. de classe é. visto que a principal característica da ditadura é justamente a concentração do po­ der em uma ou . adotadas pela maior parte dos Estados contemporâneos. muito adequadamente.em algumas pessoas. De início. até que o Estado desaparecesse e surgisse a sociedade comunis­ ta. inaugurando o período conhecido.quando muito . pela Assembleia. Referindo-se aos regimes autoritários modernos. exercia um poder ditatorial sobre esta. falar cm ditadura. a ditadura do proletariado. o próprio Marx. mesmo antes do transcurso deste prazo. cujo secretário era Gaspar Rodríguez Francis. foi promulgada uma Constitui­ ção inspirada pelo próprio Francis. segundo a qual a república seria dirigida por dois cônsules eleitos anualmente. sendo no­ meado. não renegava uma concepção toda própria de ditadura. Como se vê. esta república sul-americana teve a governá-la. uma Junta de cinco membros. individualista por excelência.guardadas as devidas proporções! . um contrassenso. convenhamos. necessária.oferece-nos o Paraguai. o homem liberto dos grilhões do poder político do Estado. A lei marcial. sob a presidência do General Yegros. logo após. Friedrich denomina ditaduras constitucionais as medidas de caráter ex­ traordinário. confor­ me o caso. o estado de sítio ou de urgência são exemplos de tais métodos. Os cônsules seriam ele próprio e Yegros. conseguiu tomar-se ditador supremo e perpétuo! Até o aparecimento da vigente Constituição soviética (1977). Pois bem. poderemos. inicialmen­ te. mas desde logo Francis se desfez do colega.16 4 Teoria Geral do Estado de siège). forma política que dispensa qualquer ideolo­ gia: um chefe é incondicionalmente obedecido. Na verdade. jamais o seu desmembra­ mento numa coletividade. indispensável ao advento do comunismo. que antevia.

a América é ingovernável por nós. este país irá cair infalivelmente nas mãos de uma multidão desenfreada para passar depois a tiranetes quase imperceptíveis de to­ . O chefe restringe-se a explorar. o ditador não se satisfaz. na qual o proletariado intervirá despoticamente. m elo franco William. El totalitarismo. que viria a ser o primeiro presidente do Equador. Difel. . instrumento de opressão de uma classe sobre outra. a única coisa que se pode fazer na América é emigrar. dizia o seguinte: Meu caro General. as mais baixas paixões do populacho. as quais ele dirige a seu talante. Sabe V. Por seu inter­ médio. de modo rudimentar. Simón. 1965. e b e n s t e in . a ditadura do proletariado. São Paulo. Afonso Arinos de.1830.1 1. Unam. Maurice. classe do­ minada). o chefe busca apoiar-se nas camadas sociais menos favorecidas. 1977. Marx insiste no caráter inelutável desta ditadura. México. Buenos Aires. du - . com o advento da sociedade comunista. Exa. ele desenvolve. Marx antevê a liberação do indivíduo mediante uma fase necessária de vio­ lência. Escritos políticos. Os regimes políticos. Simón Bolívar enviou uma carta a um de seus colabora­ dores. supor que o Estado tende a eliminar as relações de subordinação. Burdeau aponta a ditadura ideológica. Nela. isto sim.6 Formas de governo 165 A seguir. No dia 09. que governei durante vinte anos c que desse tem­ po poucos foram os resultados certos que obtive: primeiro. uma ideologia político-social destinada a legitimar. à qual já nos referimos. Tal ditadura será transitória. Seria pueril. a exemplo dos demagogos das antigas tipologias das for­ mas de governo. o general Juan José Flores. diz Marx. 1957. No seu livro Carta a respeito do programa de Gotha. quarto. nem de longe possui o embasamento doutrinário desta. terceiro. pois. na qual. A libertação do homem só será possível com a desaparição do poder político e com a submis­ são da classe dirigente (a burguesia) a uma ditadura (a do proletariado. Nesse caso. Embora aparentada à ditadura do proletariado imaginada por Marx. muito mais refinada e subs­ tanciosa 110 que se refere à doutrina. ele não po­ deria tomar tal iniciativa a não ser renunciando à própria existência. 7) CAUDILHISMO Bibliografia: verger b o l ív a r . enfaticamente e com dureza. Finalmente. ela marcará o definhamento e a desaparição do Estado. com o fato de seu poder ser mantido apenas pela força. para usar uma expressão do próprio Marx. absolu­ tamente. Lisboa. A ditadura proletária é outra espécie de ditadura moderna apontada por Bur­ deau. 1966. El cons- titucionalismo brasileno en la primera mitad dei siglo X IX . fazer uma revolução é lavrar no mar. Paidós. Editorial Estampa. segundo.

na América espanhola. o exacerbado individualismo c a quase ausência dc senso dc responsabilidade social trariam as disfunções políticas que todos conhe­ cemos. foram ins­ talados também os primeiros estabelecimentos espanhóis. os europeus não se dignarão conquistar-nos. a saúde pública.166 Teoria Geral do Estado das as cores c raças. o cabildo. o superintendente da Fazenda Real. desde os antigos impérios pré-colombianos até os modernos presidentes latino-america­ nos. tornou-se ponta avan­ çada do movimento libertário e órgão de transição entre a autoridade do Vicc-Rcinado e a América independente. estabeleceu-se uma profunda relação afetiva entre o governante e o povo. governador do Reino c presidente da audiência. e a confe­ deração asteca. Em verdade. quinto. Exa. su­ cedido pelo Vice-Reinado e. assim o império inca. o vice-rei espanhol tornou-se a encarnação suprema do Estado espanhol nas índias. Ora. Era. depois. Pois bem. a segunda causará o mesmo efeiro neste vasto continente. note-se bem. que do pon­ to de vista administrativo tinha a seu cargo os serviços gerais. A primeira revolução francesa provocou a decapitação das Antilhas. verá que rodos se entregarão à torrente da demagogia c desgraçados dos povos. Como acentua Salvador Valencia Carmo­ na. depois. o incontornável atavismo do poder pes­ soal. este seria o ultimo período da América. tal afirmação é válida ape­ nas do ponto de vista político. Destes períodos nos vem profunda tradição de poder pessoal. Por outro lado. des­ graçados dos governos! Ninguém melhor do que o Libertador conhecia o temperamento e as inclina­ ções do latino-americano! Inicialmente. pelo moderno Estado peruano. o ccnso. Por ou­ tro lado. V. Era dotado dos títulos de capitão-geral. se a unanimidade dos historiadores situa o nascimento oficial dos Estados latino-americanos em princípios do século X IX . dificilmente conseguiríamos compreender alguns traços das instituições políti­ cas latino-americanas sem examinar as influências do passado indígena e colonial. precisamente uma instituição colonial. se fosse possível a uma par­ te do mundo voltar ao caos primitivo. o desenvolvimento econômico. pois tanto o monar­ ca indígena como o vice-rei foram executivos centralizados. devorados por todos os crimes e consumidos pela feroci­ dade. nos locais onde se desenvolveram as sociedades indígenas. as obras públicas. como veremos. O poder se achava centralizado no vice-rei. mais tarde. no México atual. os centros atuais do poder político. algumas dc suas atribuições . a dis­ tribuição de provisões. os serviços postais. a instrução pública e a previdência social. A súbita reação da ideologia exagerada vai pre­ sentear-nos com quantos males nos faltavam e exagerar os que já possuíamos. pois sob o ângulo histórico esta orientação trunca uma parte importante de sua evolução. deitam suas raízes nas velhas capitais indígenas ou nas divisões estabelecidas durante o perío­ do colonial. autoritários. da qual derivou o paternalismo ainda hoje encontrado na política americana. Assim. convertida em Vice-Reinado e. sexto.

Os espanhóis são amigos da ostentação. a administração espanhola ampliou sua influência sobre a administração das colônias lusas e. com isto. de fato. desde o descobrimento. divididos em doze capitanias hereditárias e dotados de grande poder. a preocupação de Portugal continuou vol­ tada para as índias Orientais. expedia atos administrativos de­ nominados instrucciones. São mais belicosos. costuma-se denominar aqueles quinze anos o período de ensaio e de formação do Executivo. vestem belas roupas e montam vis­ tosos cavalos.6 Formas de governo 167 transcendiam a função executiva e alcançavam o plano legislativo e o judicial: além dc participar da audiência da qual era presidente. embora sujeitos à revisão pelo Conselho das índias. a consolidação do poder personalizado. desenvolvem-se as guerras de independência dos Estados latino-americanos. como os decretos-leis contemporâneos.. difícil de acreditar. sendo. os alcaidcs e os fiscais.. No Brasil. rápidos e peritos no manejo das armas. e logo se tratou de levar à prá­ tica exóticas experimentações. que consideram degradante. foram desen­ cadeadas apaixonantes controvérsias doutrinárias. apontado com muita ojeriza por Francesco Guicciardini: São orgulhosos por natureza c não gostam dc estrangeiros. mui­ to mais de forma do que de substância. 'Iodos os espanhóis desdenham o comércio. os donatá­ rios. basicamente. o temperamento do espanhol à época da conquista e da colonização. da qual pode­ riam dizer “obedecemos sem cumprir. plenos poderes. que. até que outras potências europeias começaram a co­ biçá-las. do que qualquer outra nação cristã. a administração foi confiada a grandes senhores. fazem ponto de honra em preferir a morte a submeter-se à vergonha. Em torno dela. quatro os modelos a ele referentes. Durante a união pessoal imposta a Portugal e seus domínios pela Espanha (1580-1640). Num breve período de quinze anos (1810-1825). c ágeis. por outro lado. Para as novas Constituições. faziam com que o vicerei tivesse. sob Filipe II. Assim: . Curioso e sintomático. talvez. a função executiva passa a cobrar um interesse axial. bem como a dificuldade dos meios de comunicação. Por outro lado.”. sistema que obteve pouco sucesso ao retardar a exploração econômica e a implantação de uma administração realmente eficaz no Brasil. mas em suas casas levam uma existência miserável. dão-se ares de fidalgos e preferem ser soldados ou (antes do tempo de Fer­ nando) salteadores de estrada a fazerem-se mercadores ou exercer qualquer função se­ melhante. mas não o são realmente. a grande distância que separava o novo continente da metró­ pole. vão ocorrer. No plano judi­ ciário podia atuar de ofício ou mediante invocação da parte contra os ouvidores. conceder indultos de penas impostas pelos tribunais. tinham vigência imediata. Aparentam ser muito religiosos. Por isso. e profundas transformações. sendo dcscortescs para com eles. A princípio. com pouca submissão à Coroa.

gra­ ças à doutrina do Poder Moderador. no qual foi apresentado o Projeto de Constituição para aquele país. desenvolvida por Clermont Tonnerre e haurida. a fim de cuidar da conservação da independência. de inspiração francesa e. Aliás. terminaram breve e tragicamen­ te. com o fito de consolidar sua posição pessoal perante os demais poderes políticos. isto é. Comte rejeitava as abstrações sociais de ordem metafísica e propunha-se a aplicar à sociedade os mé­ todos positivos. a sociedade seria dirigida por sábios. os fatos de ter sido Pe­ dro I o procurador da independência e Pedro II. fato que trouxe para o Brasil um desenvolvimento inimaginável até então. por costumes e tradições antiquados. remanescendo o Brasil sob o velho regime algum tempo. em 1825. um homem dotado de grande descortino político. Dentro des­ sa filosofia. oriundo do pensamento de Bolívar. embora irreversivelmente condenadas pela roda da História. ainda. em grande parte. ainda dominadas. por Cristophe e Iturbide. dc certo modo. menos pelas virtudes ínsitas à ideologia do que pelas circunstâncias históricas. Com o Poder Moderador. de acordo com as verdades posi­ tivas da ciência. assim se referiu ao cargo dc Presidente da República: . no Brasil. Com efeito. além das funções exe­ cutivas. das ciências físicas. seu filho. vinculado às velhas tradições. empíricos e experimentais. O requisito de uma ditadura . autóctone. b) o colegiado. da “chave de toda a organização política”. assim é que Bolívar. adver­ te Afonso Arinos de Melo Franco que Pedro I teria sido o grande inspirador da in­ serção do Poder Moderador na Constituição Imperial. por Benjamin Constant Botelho de Magalhães. c)o vitalício. tornando a monarquia rejuvenescida ideologicamente. o imperador ficava dotado. Isto somente seria conseguido mediante uma república ditatorial. do equilíbrio e da harmonia dos poderes (art. não fosse a emigração da Corte para o Brasil. b) Executivo vitalício: inspirado na Ideologia de Augusto Comte (1798-1857) c de Simón Bolívar (1783-1830). restariam. a) Executivo monárquico: nos primórdios da independência as ideias monár­ quicas ainda gozavam de grande prestígio. cm função do expansionismo napoleônico. derivado do sistema político norte-americano. 8°). As tentativas de instauração da monarquia no Haiti e no México. respectivamente. d) o presidencialista.a expressão é do próprio Comte .168 Teoria Geral do Estado a) o monárquico. Dava ênfase especial ao progresso técnico mediante a utilização social das capacidades humanas e preconizava a aplicação dos métodos científicos à organização e controle das relações sociais. como se percebe. Repudiava com uma concepção romântica o velho liberalismo e pretendia substituí-lo pelo planejamento social. coetâneos. que pôde manifestar-se na Constituição de 1824. num discurso perante o Congresso Constituinte da Bolí­ via.exercia forte atração sobre os latino-americanos.

caso contrário. pois em todo o restante de seus artigos fala dc um Estado independente.6 Formas de governo 169 O Presidente da República acaba por ser. diz o art. ação. Despreparados. Para Bolívar. “amor e fidelidade constante” ao rei Fernando VII. 5°. Algumas Constituições estabeleceram o colegiado sob forma velada. um pe­ ríodo de transição. A Constituição de Bolívar. foi revogada logo em 1831. ao qual re­ conhece como monarca. cujo Exccutivo. na nossa Constituição. considerada a “Arca da Aliança” dos povos latino-americanos e a “transição entre Europa e América”. que é encomen­ dado. Esta suprema autoridade deve ser perpé­ tua. Diga-se o mesmo do Chile. e do México. reflete a mesma ambigüidade no Poder Executivo. em 1814. 9o.dá vida ao Universo. enraizadas na consciência popu­ lar. inicialmente. mais que nos outros. tais instituições se sobrepusessem às vigentes. tornando-se. até que. então. . Para a Bolívia esse ponto é o presidente vitalício. deveria haver. Suas fontes são as Constituições francesas de 1793 e 1795. um executivo assim concebido permitiria a transição do velho ordena­ mento colonial para um Estado liberal dc feição moderna. ao rei Fernando VII. “será exercido por um presidente. ainda. desde logo. ao dedicar. no mesmo ano. em sua ausência. A Argentina adotou o Executivo colegiado. como tribunos. ao cabo deste período. escolhido um diretor supremo das provín­ cias unidas. em 1811. da Venezuela. tiveram curta duração. dizia um antigo. Também a Constituição do Equador de 1812. se torna necessá­ rio um ponto fixo à volta do qual devem girar os magistrados e os cidadãos: os ho­ mens c as coisas. desde que este viesse para Santa Fé de Bo­ gotá para exercê-lo. para fruir dos benefícios dos institutos do liberalismo. ironicamente. Desde logo. sendo. aparentemente monárquica. Dai-me um ponto fixo e com ele moverei o mundo. restringe-se a isto na adoção da monarquia. Cortou-se-lhe a cabeça para que ninguém receie as suas intenções e ataram-sc-lhc as mãos para que não cause dano a n in ­ guém. a ideia de Executivo colegiado se mostrou inefi­ . para remediar a eventualidade dc o rei espanhol ocupar o cargo. qualificada de curiosa mescla de princípios republicanos e monárquicos. formado por três pessoas. firme em seu centro. A Constituição de Cundinamarca de 181 1. por parte dele. no art. censores e se­ nadores. contudo. o projeto de Constituição bolivariano previa muitas magistraturas à romana. c) Executivo colegiado: o Executivo colegiado surge. como o Sol que. uma vez que nos sistemas sem hierarquias. dc 1811 a 1814. Os novos ideais. Aliás. o Poder Executivo seria exer­ cido pelo presidente da representação nacional e por dois conselheiros. Nele se estriba toda a nossa ordem. nas primei­ ras Constituições latino-americanas. três assistentes e dois secretários com voto informativo que nomeará o congresso” . sem que isso implique. a de mais curta vigência. de ditadura vitalícia. o executivo vitalício seria intermediário entre a monarquia c a república.

. tornando o sistema inaceitável. que tornou o país conhecido como a “Suíça sul-americana” . visitou a Suíça. aos quais caberia a administração (arts. o fato é que. em péssima tradução e impressão ainda pior.170 Teoria Geral do Estado caz por dois motivos: primeiro. que somente seria abolido de vez cm 1964. A obra propugnava uma junta governamental dc nove membros. eleitos pelo povo para um mandato de seis anos. se impôs aos latino-americanos. um colegiado de nove membros. 70). o Uruguai experimentou um notável surto de progresso. Coincidência ou não. Batle y Ordónez publicou seus Apuntes sobre el colegiado. uma reforma constitucional trouxe de volta o colegiado. desta feita. governou um Executivo dualista. o excessivo aumento dos integrantes do colegiado. sua inadequação a tempos de agitação social. 82. e Gabriel Terra promoveu profundas reformas políticas no Uruguai. d) O presidencialismo: o modelo presidencial dos Estados Unidos foi aquele que. que exigem decisões rápidas. Foram dois períodos. A ideia do colegiado foi introduzida no Uru­ guai por José Batle y Ordónez. talvez porque tenha funcionado razoavelmente num país que havia deixado de ser colônia ao mesmo tempo que os países latinos. que conhecia de perto. O inegável progresso econômico dos Estados Unidos. feitas em Puebla de Los Angeles. Bem mais significativa foi a experiência uruguaia do colegiado. ao passo que o Conselho seria formado por nove ministros. Assim. o impressio­ nante porte político de seus primeiros presidentes. 97 e 105). o colegiado sofreu um forte abalo. de inclinação parlamentarista. o efeito retórico de sua Consti­ tuição apaixonaram os latinos a tal ponto que. destina­ da a substituir o executivo presidencial. com a ado­ ção. no segun­ do. onde colheu subsídios para a implan­ tação do colegiado em seu país. no México de 1823. dc 1919 a 1933 c dc 1952 a 1967. durante os períodos de colegiado. incluída a oposição. as duas tendências celebraram uma síntese que mesclava presidencialismo c colegiado. fundamentando-se na ideologia de que esta forma de organização política impede o poder excessivo de um só homem. Em 1952. a Cons­ tituição de 1918 criou o Poder Executivo dualista. Em 1913. 85. os quais suscitaram viva polêmica entre colegialistas c anticolcgialistas. além de per­ mitir a participação política de todas as facções. dividido cm dois órgãos sepa­ rados e independentes: a Presidência da República e o Conselho Nacional de Ad­ ministração (art. afinal. A atração por esse regime de governo foi. tendo a seu cargo a chefia de Estado (arts. No primeiro. ensejando o aparecimento das Constituições de 1934 e de 1942. Com efeito. do presidencialismo. Com a Grande Depressão de 1929. com efeito. segundo. político de grande prestígio e admirador das insti­ tuições helvéticas. os constituintes traziam nas mãos um exemplar da Constituição norte-americana. conta-se. Cinco anos mais tarde. seguras e inquestionáveis. 71 e 79). logo após sua primeira gestão na presidência (1903-1905). O presidente seria eleito por um período de quatro anos. irresistível nessa parte do mundo.

desaparecendo esta democra­ cia artificial. pois não foi por acaso que Kbenstein apontou. Foi Frederico. o caudilhismo. portanto. no curso da História.por sistemas autoritários. Ao cabo de poucos anos. por um breve período. como veremos a seguir. tem predominado o autoritarismo é provavelmente psicológica: a demo­ cracia oferece aos homens o máximo dc liberdade. com seu despotismo esclarecido. ao mesmo tempo. O totalitarismo é o extremo oposto: livra os homens da carga da responsabilidade e. a democracia: “Tudo para o povo. em certa medida. um percentual de liberdade de expressão em questões não políticas. qual seja. que definiu.são ou democráticas ou totalitárias. as raízes psicológicas do autoritarismo la­ tino-americano. restringe sua liberdade e o campo para expressar-se individualmente. Após a Independência. contudo. fenômeno já notado por Ferreira Filho. c surgindo.6 Formas de governo 171 Infelizmente o presidencialismo à norte-americana logo se corromperia numa autocracia muito latina. mais uma semente para o futuro totalitarismo nacional-socialista. nada pelo povo”. a nova nação se estrutura. Kste princípio do impressionante prus­ siano bem poderia aplicar-se à América recém-emancipada.hoje como ontem . O autoritarismo nega a liberdade e a responsabilidade da opção e ação políticas. Isto. criando. desde logo. um governo autoritário. a Ebenstein. aguçadamente. não deveria dissimular o fato de que a grande maioria das nações estão go­ vernadas . o que levou Duverger a afirmar que na América Latina “seguem-se homens e não ideias. contudo. moldado no militarismo prussiano e no nacionalismo exacerbado. em razão disso. o caudilhismo. Razão não falta.”. que. pouco voltado para a vida política. a América Latina passou por um período crítico. acentuando a rivalidade entre democracia e totalitarismo como o referencial político do século.. legada pela metrópole europeia: Grã-Bretanha. A razão pela qual.. Alemanha e URSS . A principal razão dc que cm nosso século sc tenha prestado tão pouca atenção ao autoritarismo reside. via de regra. embora permita. o individualismo típico dos latinoamericanos torna-se infenso à solidariedade. entre outras. o Grande. Tal fato é fácil de compreen­ der se observarmos a grande quantidade de países subdesenvolvidos que se tornaram independentes a partir do fim da Segunda Guerra Mundial. Ao receber sua indepen­ dência. um alto grau de responsabilidade de que muito poucos são capazes de aceitar. apresentou causas mui­ to bem lançadas por William Ebenstein. se produz um retorno à natureza. O latino-americano é. no fato de que as potências modernas . então. o apego ao poder pessoal. Grã-Bretanha. acar­ retado pelo desaparecimento da autoridade dos vice-reis.EUA. em verdade. houve um . de forma condicionada. Este é o efeito de outro fenômeno tipicamente latino-americano. somente age mediante provocação e. com mordacidade. França ou Bélgica. embora sua sociabilidade ou comunicabilidade seja percebida de imediato. mas exige. por uma constituição demo­ crática. provavelmente.

que. Pedro II. No bubo lapsus ni anarquias prolongadas y menos aún situaciones de división estatal frente a la comunidad internacional. Em nosso país as elites políticas resolveram as criscs dc maneira pacífica. A história dos primeiros tempos da América emancipada é. quando a decadência da aris­ tocracia marcaria o início da gestação do nazismo. fenômeno que. ausência dc uma classe dirigente preparada para o mando. Aos caudilhos castrenses sucederam os caudilhos civis e. que conviene recordar en todo momento. Enquanto os caudilhos hispânicos ad­ miravam Napoleão em suas aventuras bélicas. A etapa dos caudilhos não terminou de maneira brusca.172 Teoria Geral do Estado vazio do poder. em parceria com uma aristocracia liberal c ilustrada. e traduzia Shakespeare. encontrava apoio no costume. intranqüilidade social. O poder pessoal coloca-sc acima das ideias e das insti­ tuições. contudo. a D. diferentemente dos demais Estados latino-americanos. fre­ qüentes guerras civis. juntando-se a isto a inexistência dc uma aristocracia já sedimentada. feneceu paulatinamen­ te à institucionalização das ideias moderadas e ao declínio da instabilidade política. No Brasil. el Brasil siempre evolucionó politicamente mediante formas que garantizaron su continuidad institucional. tudo inspirava o aparecimento de ho­ mens fortes. a Aristóteles. que costumava afirmar que à aristocracia ou governo dos melhores (aristoi: melhor + kratos: poder) sempre se sucederia um período de tirania. os caudilhos eram. homens de armas. amigo das artes e das letras. contudo. os presidentes. como acentuam Salvador Valencia Carmona e Jacqucs Lambert. assim. não ocorreram as vicissitudcs do caudilhismo. é devida. mediante os caudilhos castrenses dos primórdios da independência. um regime parlamentarista. tanto antes como después de su independencia. via de regra. se não era expressamente previsto na Constituição. reitere-se. a estes. N a­ ções por edificar. dc tal forma que Jorge Reinaldo Vanossi afirmou ser a institucionalidadc uma cons­ tante na História do Brasil: Una nota característica. ao longo do século X IX . pacífica. ocorreu na América Latina. logo preenchido por homens fortes durante todo o século X IX . . Grande parte da nossa evolução. pôde desenvolver. Corroborando a intranqüilidade destes primeiros tempos. e que ocorreria também na Alemanha. supriu-se o vazio de poder deixado pela monarquia espanhola. governante hábil que. eminentemente biográfica. es que. isto nos leva. Pedro II situava Pasteur e Victor Hugo acima de todos os homens. no exercício da função executi­ va c da moderadora. de imediato. Ora.

Curso de derecbo constitucional comparado. 1979. Constituições de diversos paí­ . El totalitarismo. Sugestões Literárias. Universidad de Madrid.REGIMES DE GOVERNO 7 1) PRESIDENCIALISMO Bibliografia: a g e s t a . Buenos Aires. particularmente quanto aos 173 . América I. 1957. Cooperadora de Derecho y Ciências Sociales.1) Introdução Para revelarmos a natureza do presidencialismo é preciso esclarecer as expres­ sões forma de Estado. Afonso Ari nos de. A forma de Estado se acha ligada ao modo pelo qual o Estado se mostra estruturado em sua totalidade. 1966. Difel. . 1965. Jorge. Curso de direito constitucional. 1980.apresentam entre si. México. zer melo franco marquand c o Donald. . 11. ­ Teoria geral do Estado. William. torial Estampa. America Latina. 1966. forma de governo e regime de governo. Universidad Nacional Autônoma dc México. Sánchez. Paidós. El constitucionalismo hrasileho en Ia primera mitad m ir a n d a deI siglo X /X . 1. v a l e n c ia c a r m o n a Salvador.atina: uma perspectiva histórica. v a Jorge Rcinaldo. duverger . território. Saraiva. Globo.. . governo e normas jurídicas . ses. 12. maluf. ed. Simón. Jacques. São Paulo. Lisboa. lambert. São Paulo. Nacional. 1979. Os regimes políticos. Unam. Forma de Estado refere-se às relações que os elementos do Estado . . Escritos políticos. Presidencialismo y parlamentarismo en cl Brasil. Mab o l ív a r L uís drid. Edi­ f e r r e ir a f i­ . Sahid. lho e b e n s t e in . n o s s i. São Paulo. Imprensa Nacional. Lisboa. Manoel Gonçalves. Porto Alegre. 1983. Buenos Aires. 1979. ed. 1964.povo. El Poder Ejecu- tivo latinoamericano.. São Paulo. Maurice. 1977. México. 1980.

e nem por isso deixaram de adaptá-la. É bom lem­ brar que o Poder Executivo é uno. o que não ocorre no regime parlamentarista. O constitucionalista James Bryce faz sugestiva comparação entre o presiden­ cialismo norte-americano e a república romana. no caso o presidente da República (Constituição dos EUA. a monarquia inglesa para o Novo Mundo. 2o. pois a forma monárquica de governo é sempre vitalícia. art. Os norte-americanos perceberam que seria difícil transplantar. com separação integral de poderes. uma espécie de monarquia temporária. em tese. sua pátria-mãe. de certa forma. preservada na figura dos cônsules. o sistema inglês assimilado pela Convenção de Fila­ délfia não é o de hoje. o presidente é auxiliado por ministros de Estado (Constituição do Brasil. no qual as figuras de chefe de Estado e de chefe de governo são distintas. por assim dizer. A prática. 84. 87 e parágrafo único).presidencialismo . a uma simples monarquia limitada por um parlamento. VII e VIII). . é ab­ surdo. apanágio da forma republicana de governo desde Maquiavel. pura e simplesmente. II).174 Teoria Geral do Estado seus elementos constitutivos. O Poder Executivo no presidencialismo é monocrático.um ). Cria­ ram. Quanto à expressão forma de governo. abruptamente. os norte-americanos não romperam. mas seu poder seria limitado no tempo e pela lei. O gover­ no é a dinâmica do poder. A vitaliciedade e a hereditariedade peculiares à monarquia foram substituídas pela temporariedade dos mandatos e pela eletividade para os cargos públicos. Incumbi­ do das funções de administração e de representação. O presidente da República evocaria o monarca inglês. 76 e 84. governa. refere-se ao modo pelo qual o Estado se estrutura para o exercício do poder político. Como adverte Duverger. o que. e Constituição do Brasil. Já a expressão regime de governo diz respeito ao modo pelo qual os Poderes Executivo-Legislativo se relacio­ nam. com vantagens. Não respondem. Os mi­ nistros de Estado são meros auxiliares no âmbito puramente administrativo. bem diferente: o regime parlamentar ainda não se achava definitivamente estabelecido. encarnado apenas pelo presidente. art. a monarquia foi. com as instituições da Inglaterra. arts. entretan­ to. pois a temporariedade do mandato do presidente. então. Quando os reis de Roma foram expulsos.1. o presidente da República. Por isso e que se diz que o presidencialismo é o regime de governo em que a chefia de Estado (representação do Estado) c a chefia de governo (administração) são encarnadas num só órgão. compete a um só órgão (mono . A própria denominação do re­ gime . Seção 1. isto é. as figuras de che­ fe de Estado e de chefe de governo confundem-se no presidencialismo (Constitui­ ção do Brasil. e as instituições britânicas muito se as­ semelhavam. vale dizer. por atos do presidente. deu bons frutos. formadas a federação. cujo possível arbítrio era severamente reduzido pela temporariedade e pela colegialida­ de do cargo. quem exerce o poder. portanto. A origem do presidencialismo se encontra na própria formação dos Estados Unidos. art. Isso não ocorre no parlamentarismo. às novas circunstâncias. mas o de 1787. Como visto. Independentes as colônias.já revela a preeminência do presidente neste regime. impediu o arbítrio sempre laten­ te na monarquia. II.

Tal princípio. 5) como no Brasil (Constitui­ ção. mas também equilíbrio. Seção I. bem como os líderes da emancipação. O presidente norte-americano é eleito para um mandato de qua­ tro anos de duração (Constituição dos EUA. Madison e Jay. a). ora de um. embora a prática demonstrasse a inevitabilidade da predominância. art. a tradição liga-se à psicologia para tender ao poder pessoal. VI. . contudo. plasmando. sendo que a Lei Magna brasileira estabelece que o presiden­ te deverá ser brasileiro nato (art. A separação e a independência dos Poderes (Constituição do Brasil. Cícero.fosse criada uma tradição respeitada por todos os presidentes. Antes dc referido aditamento. cm cada Estado-Membro. § 3o. elaborado por Heródoto. facilmente deformado pelo caudilhismo. embora desde George Washington . de Hamilton.7 Regimes de governo 175 regime no qual os ministros integram o próprio Poder Executivo. à ideo­ logia liberal da Revolução Francesa. Daí o fascínio do presidencialismo. realizada justamente para derrubar o poder pessoal. Nos EUA a eleição presidencial é feita em dois turnos: no primeiro os eleitores escolhem. Ao cacique sucederiam conquistadores aventu­ reiros. do monarca. votar no candidato da preferência de seus eleitores. como Nova York. como ocorre nos EUA.1). foi substituído pelo poderio espanhol e seus vice-reis. Ora. Lembra oportunamente Duvcrgcr que a relativa frieza demonstrada pelos Es­ tados europeus quanto ao regime presidencialista é decorrente sem dúvida. a inclinação do latino-americano para regimes de caráter autocráti­ co. art. a tripartição de Poderes não é apenas divisão. Locke e definitivamente sistematiza­ do por Montesquieu. Por outro lado. 2o. têm direito a um maior número de votos do que entidades menos populosas. Tanto nos EUA (Constituição. é exigida a idade mínima de 35 anos para o exercício das funções presidenciais. 14. no Brasil. um colégio eleitoral que vai. 2o) excluem a possibilidade de dissolução do Legislativo pelo Executivo e vice-versa. ora de outro Poder. art. Unidades fe­ deradas mais populosas. O vasto império dos incas.. Seção 1. vice-reis e corregedores.que se recusou a disputar um terceiro mandato e a aceitar o próprio título de rei que alguns admiradores lhe que­ riam outorgar . Por isso se diz que na América Latina seguem-se homens e não ideias.. art. Daí o interesse dos candida­ tos em captar votos nos Estados-chave. I). § 3o. Com efeito.1). sedimentado ao longo de séculos sob o poder férreo de monarcas absolutos. 2o. A tripartição de Poderes é apanágio do regime presidencialista. até Roosevelt. no caso. em definitivo. embora a delegação de atribuições de um Poder a outro seja uma realidade. Illinois e Ohio. na América Latina. 22. a escolha dos ministros não depende do referendo do Legislativo. via de regra. Aristóteles. é contradiço na obra capital do presidencialismo e do fede­ ralismo norte-americanos: O federalista. Neste livro. 12. e tal mandato não poderá ser renovado por mais de uma vez (Emenda à Constituição dos EUA n. o presidente poderia ser indefinida­ mente reelegível. em man­ dato imperativo. aquilo que repelia o presidencialismo na Euro­ pa seria o motivo de sua imediata adoção na América Latina: o poder personaliza­ do nos caudilhos.

o presidente sempre foi eleito pelo sufrá­ gio popular. 102). A Constituição de 1824 conferia a chefia do Executivo ao imperador (art. na concepção de Ferreira Filho. o Estado deveria ter como única missão preservar a inviolabilidade da pessoa c a iniciativa privada no setor econômico. o presidente passaria a ser eleito mediante voto direto e secreto. conhecido como “Nova República”. 1. prccatados dos excessos do absolutismo na França. com o advento da Emenda Cons­ titucional n.1961 a 23. direito majoritário.] muda a concepção da missão do Estado. Tradicionalmente.1963. para os ideólogos do liberalis­ mo clássico. num só turno.2) Presidencialism o histórico e direito comparado Referindo-se ao Estado liberal. as correntes socialis­ ta e antiburguesa. De 1822 até hoje o Poder Executivo no Brasil foi exercido. 77.09. bem como a propriedade individual.01. entretanto. pressionando os governos a deixarem a postura de inércia do État gendarme e a promoverem. em decorrência da difusão das ideias so­ cialistas e do próprio catolicismo social. Entretanto. a partir daí. 1). ativamente.05. de 15. o bem-estar social. conforme determina o art. Difunde-se e consagra-se o entendimento de que o Estado não deve apenas assegurar a liberdade.176 Teoria Geral do Estado Finalizando: 110 Brasil. deverá subme­ ter-se a uma segunda votação. deixando a cada um. Dc janeiro de 1963 em diante o poder monocrático do presidente da República con­ solidou-se ainda mais. Surge. com estas. O candidato vencedor que não obtiver maio­ ria absoluta de votos. Realmente. a democracia providencialista. 74 da Constituição Federal de 1969 dispu­ nha que o presidente seria eleito pelo sufrágio de um colégio eleitoral. praticamente sem interrupção. mediante uma in­ tervenção mais incisiva na esfera individual. não computados os em branco e os nulos. com suas . 14. ensejada pelos anseios populares e pela atuação in­ cisiva de personalidades de escol do pensamento liberal. §§ 2° e 3°. 12. 25. § 3o. a eleição indireta foi a preferida. o poder pessoal tem uma longa tradição histórica. art. o presidente. 4. 6). 1a VI. da Constituição. que dariam vida ao perío­ do que vivemos. ser brasileiro nato (CF art. O art. § 3°. bem como registrado em partido político (CF. de forma monocrática.. surgiram novas necessidades sociais e. não educando c não sen­ do ético. quando foi revogada pela Emenda 11. cm sessão pública e mediante votação nominal. o mundo passou por grandes trans­ formações. costumava o grande pensador católico Bossuet afirmar que “o Estado que pretendemos fraco demais para não nos oprimir tornou-se fraco demais para nos defender”. estar 110 gozo dos direitos políticos.1985. então. Deve. que. que vi­ gorou de 02. por maioria simples.. com breve interregno parlamentarista (Emenda 11. dando-se a eleição. a). corporifica o Estado-providência: [. Do século XVIII para cá. Depois da insurreição de 1964. De 1891 a 1961 é evidente que nosso Poder Executivo foi monista. concorrendo com o segundo candidato mais vota­ do.

advertia Rooscvclt que. Ao contrário. contudo. de forma cristalina. adotado desde logo nos primórdios do constitucionalismo latino-americano. especialmente por termos. tudo isto é aparência: o presidente dos Estados latino-americanos se mostra. formada. Os poderes atribuídos ao presidente vão muito além da função mera­ mente representativa. pela telocracia (g. mas também o bem-estar de todos. penoso e inquietante. não se circunscreveram aos Estados Unidos. Estados em desenvolvimento. com efeito. ou seja. 1. tam­ bém a América Latina sofreu a influência ideológica e institucional do Estado in­ tervencionista. aqui. ironicamente. a anular 377 leis! Mesmo assim. Assim. as decisões eram tomadas pela maioria pre­ cária de cinco contra quatro votos. já que somente nesta concepção o homem estará plenamente realizado. téleios. nomos: norma). pro­ venientes em grande parte da aristocracia sulista. a predominância da finalidade da lei. na Consti­ tuição. embora num atavismo tipicamente rousscauniano as Constituições ame­ ricanas timbrem em colocar o Legislativo antes dos demais poderes. da norma em si. five to four e profligadas num panfleto intitulado Government by Judieiary. sob o pesado fardo das questões econômicas. Magistrados conservadores. final). pois se lhe outorga um amplíssimo poder para dirigir o gover­ no. que as novas medidas que tomariam despertariam a aver­ são da Suprema Corte.3) Presidencialism o versus parlamentarismo na Am érica Latina O regime presidencialista. Os juizes da Suprema Corte seriam a personificação da nomocracia. uma vez que aquela mal se adapta a reger a política econômica. confrontada pela telocracia do Executivo. timbrou. atualmente. A Suprema Corte nor­ te-americana. de caráter fortemente intervencionista. é intuitivo que a fun­ ção executiva se torna a mais qualificada para esta nova missão. Para intervir de maneira determinada o Estado carece de dois pressupostos: ra­ pidez nas decisões e conhecimento técnico das questões. parcialmente em descompasso com os novos tempos. manteve-se como tendência dominante nas Constituições americanas. Trata-se da supe­ ração da nomocracia (g. desde logo. O processo desenvolvimentista. uma vida huma­ na e digna. uma Constituição não deve visar apenas a liberdade. fundamental no Estado moderno. porque não estavam previstas.7 Regimes de governo 177 próprias forças. com o advento da política do New Deal do Presidente Rooscvclt. para ser legítima. por aqueles “que nunca se aposentam e raramente morrem”. traz consigo a inevitável aporia . passando a ser denominadas. renova-se a concepção medie­ val de que o estado tem por missão garantir para todos o bem-estar. um sol ao redor do qual giram as forças sociais. para reproduzir o velho conceito tomista acerca da essência do bem co­ mum. expressamente. O fenômeno descrito surge. a conquista do bem-estar. de Budin. em não reconhecer validade às leis do Congresso. Os novos tempos. vale dizer. Este percebeu. no período de cinco anos. como queria o pensamento de Bolívar. segundo alguns. chegaram. Por isso. Ora.

as Constituições latino-americanas. enunciação expressa das atribuições presidenciais. Em contrapartida. os quais. a de Honduras. 1859 e de 1867 do Haiti. por isso. como vimos. firma-se a tendência de conside­ rar o presidente da República o principal órgão propulsor do desenvolvimento na­ cional. que estabeleciam que os ministros poderiam ser censurados pela Câmara dos Deputados e. foi. com a in­ dependência. autoritários. Diga-se o mesmo da Constituição equatoriana de 1878. que intro­ duziu o voto de censura que subsiste em textos posteriores. depois. atualmente. desenvolvimento nacional e justiça social”. estavam obriga­ dos a se demitir. se propugna o retorno ao parlamentarismo como regime de governo em nosso país. Enquanto o presidencialismo enseja uma centralização considerável do poder e proporciona instrumentos de controle ao governante. agrários e previdenciários. como vimos. 123 e segs. pelos caudilhos civis. de 1825/30. Sob o impulso das correntes socialistas que floresceram na Europa do século X IX . de 1933. edu­ cacionais.1917. Aqui. as da Venezuela de 1864. o parlamentarismo deixou. tal característica. os latino-americanos jamais demonstra­ ram uma inclinação maior. o resultado de uma longa evolução consuetudinária.. na América Latina. Não obstante isso. no Novo Mundo. sendo que.178 Teoria Geral do Estado “democracia liberal. a da Bolívia. a in­ serção dc uma ordem econômica e social no ordenamento jurídico. O primeiro período parlamentarista brasileiro. 1845. marcando o ad­ vento do Estado do bem-estar social neste continente.01. o princípio da irrelegibilidade constitui a conquista mais signifi­ cativa do constitucionalismo. havia condições favoráveis ao parlamentarismo. Na verdade. então. Em tal sentido. Até o momento.1874 e 1891. foram substituídos por caudilhos militares e. um valioso ensaio de José Miranda considera o enfraqueci­ mento e a constrição do Executivo como uma das tendências mais recentes do constitucionalismo latino-americano. de 1931/37. g. reação contra o excessivo poder presidencial: redução da duração do mandato pre­ sidencial.. conferem atribuições importantes ao presidente para intervir nos problemas econômicos. pois a Constituição não previa o regime parlamentarista. sequer o mencionava. em várias Constituições encontraremos diversas nuanças parlamentaris­ tas. de 1838-1889. embora velado: . Relativamente ao parlamentarismo. procede de uma arraigada tradição: nas épo­ cas indígena e colonial tivemos executivos fortes. assim. a do Peru. inaugurou. No Brasil tivemos experiências parlamentaristas entre 1838 e 1889 e de 1961 a 1963. v. cláusula antirreeleicionista. os chamados mecanismos anticaudilhistas. e a do Uruguai. uma herança significativa para o direito constitucional. o parlamentarismo parece muito complexo para nações que ainda não alcançaram um amadurecimento político indispensável. e. em seus arts. incorporação ao presidencialismo de alguns institutos parlamentaristas etc. O Executivo latino-americano distingue-se por seu acentuado caráter unipessoal. de 1934. em maior ou menor grau. a Constituição me­ xicana de 31. na verda­ de. Outras Constituições que adotaram institutos do parlamentarismo: as de 1806.

ironicamente. As Forças Armadas eram. que não seria de se preocupar com os problemas políticos. em 1973. cm maior ou menor escala. Por volta dc 1880. Despreparadas e desprovidas de espírito profissional. e por seus representantes mais significativos. Dizia-se. Numa primeira fase do militarismo latino-americano. incipien­ tes. Desacreditado.que pressionam. as Forças Armadas e a Igreja. submetidas à vontade do caudilho. surge a época do profissionalismo. acumulando-se e ensejando as criscs. sem dúvida. eram considerados um tanto extra­ vagantes e pouca influencia exerciam nos acontecimentos. Nos Estados latino-americanos. ao próprio presidente da Rcpública.7 Regimes de governo 179 A geração de homens públicos que criou a constituição do império era. bem como pela introdução da tec­ nologia em seus quadros.4) Presidencialismo. fatores reais do poder para empregarmos uma expressão típica de Lassalle . então. na maio­ ria. que preconizavam uma democracia avançada e sonhavam com a república. os militares transformaram-se em ver­ dadeiros árbitros ou tutores do poder político velada ou ostensivamente. pelo desenvolvimento econômico c pela estabilização po­ lítica. São estas forças. Havia. indiretamente. c quando dizemos “Poder Executivo” estamos nos referindo. partidária do regime monárquico parlamentário e moderado. em última análise. daí a im­ portância de se mencionar o fenômeno. Dessa forma. que. já se per­ cebe. houve nada menos do que oitenta mudanças mi­ nisteriais. c claro que os problemas sociais te­ nham a sua solução retardada. dc cem questões que afligem o Estado. estavam sempre prontas para motins e quarteladas. Particularmente. situamo-nos na época da emancipação. pois. tendo a Constituição por este criada per­ durado até a queda de Allende. militarism o e Igreja na Am érica Latina Não podemos deixar dc registrar duas forças sociais. Constituem as Forças Armadas o fator real de poder de maior peso na Amé­ rica Latina. com o conseqüente surgimento de governos civis. por iniciativa do Presidente Alessandri. improvisadas. o regime parlamentarista foi definitivamente extinto em 1925. formando coalizões fugazes e desmoralizadoras para o regime: entre 1891 e 1920. 1. o Poder Executivo latino-americano. real­ mente. no Chile foi agitada a política parlamentarista: os partidos políticos aumentaram em número. Tais elementos. elementos mais radicais ou exaltados. se confunde com o órgão. solução. motivada especialmentc pela decadência do militarismo caudilhista. . 99 se resolvem por si só e uma não tem. contudo. embora rara­ mente o proclamassem. então. denominada pretoriana. sc as condições políticas do jogo parlamcntário não permi­ tem a continuidade dc uma política ministerial.

Itatiaia. haja vista a Constituição do Império exigir.180 Teoria Geral do Estado Com a profissionalização. III. § I o. os arts. 190 c os Capítulos III e IV da venezuelana. 184. da paraguaia. além de nomear seus principais oficiais. 76) e do Paraguai (art. 12: “ Fica proscrito o Exér­ cito como instituição permanente. embora não incisivamente como as Forças Armadas. 180. o art. IV a VII. o art. determinando que aquele será seu co­ mandante-em-chefe. entretanto. o art. os europeus neste mister. § 11. da argentina. criam medidas para refrear os arroubos do militarismo. 2) PARLAMENTARISMO Bibliografia: LAPORTE. haja vista o art. os quais modernizaram o aparato bélico e a administração militar. ceram . a defesa do Estado contra a agressão externa. Los hititas. XV. En­ tre tais normas. 189 e 193 da nicaraguense. 89. as que obrigam o Estado a celebrar concordatas. duverger de - Louis. desfru­ ta. 53 da Constituição colombiana e 6° da Cons­ tituição do Paraguai. da Constituição argentina. 95. Uteha. na América Latina. sendo instruídas para o desempenho de sua principal missão. da Constituição brasileira. militares e técnicos alemães c franceses. da dominicana. da mexicana. As Constituições. de relativo prestígio junto ao Poder Executivo. Em 1929. Para a vigilância e conservação da ordem públi­ ca. §§ 15 a 17. 164. logo depois os norte-americanos substituiriam. 9° e 14. inicialmente. §§ 8o. e dispondo delas para a segurança interna e externa do país. pois estão convencidos de que sua participação política é. sobrevêm a Grande Depressão. Quanto à Igreja. 2° e 86. Os regimes . 172). exercendo. estabelecem uma teia indissolúvel de articula­ ções entre o presidente e as Forças Armadas. 86. preceito este seguido pelas Constituições da Argentina (art. 2° e 94. prestígio este que já foi imenso. no art. então. §§ 15 a 17. definitivamente. A partir de então desejam gover­ nar. por sua vez. embora não referentes a este de maneira expressa. c o art. necessária. ensejando normas que orientam e limi­ tam a atuação do Executivo. o art. da equatoriana. a Igreja ainda joga importante papel. e os militares surgem. apoderando-se do poder e não mais se conformando em simples­ mente restaurar o regime para entregá-lo aos civis. considerável poder de controle sobre as Forças Armadas. é o caso da Constituição da Costa Rica. W. as Forças Armadas adquirem esprit de corps. §§ 14 a 17. sem dúvida. as que concedem franquias tributárias à Igreja. a profissão de fé católica para o exercício da função de senador. Seus instrutores foram. art. então. Em outras Constitui­ ções. Maurice. 1957. atuarão as forças policiais necessárias”. O segredo dos hititas. Belo Horizonte. da Constituição boliviana. o art. da panamenha. o art. mencionam-se as que declaram religião oficial a católica. o sistema capitalista entra em crise. como um fator de poder que rapi­ damente se politiza. 1957. X III. haja vista os arts. 55. C. México. agora. . 84. Outras Constituições.

l in d o s o . Curso de teoria do Estado. Saraiva. lho m a c k f . Esaú (Gênesis 26. 5. r o d r ig u e s alves f i­ F. há parlamento no Brasil. 1986. em que há um parlamento (Congresso). São Paulo. 1968. São Paulo. Pedro. 1966. um regime parlamentarista. No Êxodo (3. Parlamentarismo é o regime de governo em que a chefia de governo (adminis­ tração) é confiada ao próprio parlamento . Fixados naquela região desde o segundo milênio antes de Cristo. mas não há parlamentarismo. 34-35) e Salomão (3 Reis 11.. Assim. Difusão Européia do Livro. por todas as formas. mas eram de origem indo-europeia. Mário Curtis. a nosso ver. Exemplificando. Habitaram a Ásia Menor.1) desposara mulheres hititas. 8). Até pouco tempo. pois há regimes. Mário Curtis Giordani apon­ ta alguns trechos dos Livros Santos que mencionam os hititas (Gênesis 23. Elas poderiam ser identificadas como um povo da Antiguidade oriental. uma vez que a chefia de governo e atribuída ao presi­ dente da República. origem indo-europeia. Pouco mais do que isso era ditado a respeito dos habitantes do “país de Hatti”. 1982. que buscou. como o presidencialista. 1982. as instituições parlamentaristas encontrem. f e r r e ir a f il h o . ed. nos Estados Uni­ dos e na Suíça. que apresenta uma longa evolução histórica. Entretanto. ed. se a forma do go­ verno for a monárquica. mas não há parlamentarismo. incidentalmente mencionado na Bíblia. Embora. como os frígios e os celtas. The English parliament. constituinte e Constituição. 1963.n z i e . História da antiguidade oriental Petrópolis. muito mais antigas do que sc pensa. 9 e 49. Saraiva. a partir do século passado várias expedições arqueológicas começaram a comprovar que os hititas desempenharam papel dos mais importantes na histó­ ria política da Antiguidade oriental. salvetti n e t t o . Saraiva. que tinham. como faz Maurice Duverger. O que é parlamentarismo? São Paulo. São Paulo. foi ardentemente desejada pelo rei David. e por exemplo. Penguin Books. Kenneth. 1961. mes- . eliminar seu marido. ao rei. os hititas são mencionados como um povo felizardo que ha­ bitava uma terra na qual brotavam o leite e o mel. os hititas. os hititas nada mais eram do que um povo obscuro. São Paulo. e importante notar.. O protótipo do regime parlamentarista é o parlamentarismo britânico. Curso de direito constitucional 11. Manoel Gon­ g io r d a n i.daí a expressão parlamentarismo sen­ do exercida por um primeiro-ministro que comanda um gabinete formado por ministros auxiliares. . Betsabé. Necessário notar. 25. Vozes. José. que um regime parlamentar não é. a sua consagração definitiva. as origens históricas das práticas parlamentaristas são. United Kingdom.7 Regimes de governo 181 políticos. ao passo que a chefia de Estado (representação do Estado pe­ rante outros Estados) é confiada ao presidente da República ou. necessariamente. na Inglaterra. como visto. Vejamos. Estado. mulher do hitita Urias. 29-32) sobre o episódio da compra de um terreno sepulcral por Abraão. çalves. 3-20.

após a morte do rei. O caráter dc indo-europeu atribuído aos hititas parece ter mais conotação lin­ güística do que racial. reuniam-se assembleias para escolha do sucessor.linguista alemão (1791-1867). Na Espanha. A palavra comer. Mesmo que deixemos de lado o fator lingüístico. Em terras hispânicas. no antigo alto germânico ezzan. e deste continente trouxe­ ram instituições que. Nem por isso alguns autores deixam de ver as origens do parlamentarismo moderno na Espanha e Portugal medievais. sendo rigidamente controlado pela assembleia. Em Portugal. mediante matrimô­ nios reais. vetando a criação de novos impostos. que implicava o direito de o rei escolher seu sucessor junto a qualquer membro da no­ breza. embora a escolha devesse ser referendada pela assembleia denominada “pankus” ou “p a n k u s h Assim. o sistema de cooptação. como visto. de resto. formando o então denominado Condado Portucalense. O regime político era o monárquico. ao país. afirmam inúmeros pesquisadores. Ora. milhares de anos mais tarde. poderia ser qualificado dc indo-europeu . A princípio eletiva.. o monarca hitita não era dotado de poder abso­ luto. selar a união com seus vizinhos. que daria origem. estas verdadeiramente des­ póticas. mesmo. Os hititas. indo-europeus. já no século IX. ressurgiriam com as modifica­ ções peculiares a cada época. deliberar so­ bre matéria fiscal. Ademais. as Cor­ tes de Aragão escolhiam para chefe Inigo Arista. veremos que também as ins­ tituições hititas apresentam forte conotação ocidental. até a consolidação do despotismo monárquico no século XVI. com o estabelecimento do Foral de Sobrarbe. indo-europeia. de origem asiânica (esta palavra designa os povos da Ásia Ocidental que não são semitas nem. muitos aspectos obscuros do idioma hitita foram esclarecidos. como aqueles que levaram a efeito os terríveis assírios. semelhança com o hitita ezzatteni. evitando. as Cortes podiam.até as conclusões levadas a efeito por Friedrich Hrozny. que provou existir um grupo dc idiomas que. Desde os estudos dc Franz Bopp . tal concepção política é inteiramente estranha às outras monarquias orientais. depois. implorando por água: alemão/vasser = hitita!vâder. que integra­ va os domínios hispânicos. conforme adverte M ário Curtis Giordani). a ponto de se afirmar que um alemão contemporâneo compreenderia. apresenta. também as instituições parla­ . perfeitamente. por incluir línguas da índia. As instituições políticas hititas nada têm em comum com as dos povos semi­ tas. que comprovou ser o hitita também um idioma eu­ ropeu. os hititas buscavam. o clamor de um hitita perdido no deserto. em todos os Estados orientais. como. Mesmo sua atitude para com os povos vencidos denota um elogiável humanitarismo c um sábio tato diplomático: ao invés de massacres odiosos. procediam da Europa. a partir do século X I.182 Teoria Geral do Estado ciaram-se com populações autóctones. ademais. que no inglês é eat. bem como da maior par­ te da Europa. a realeza seguiu. como ocorria em Astúrias e Leão. provavelmente. da Ásia Central e Ocidental. evidentemente. despertar o ódio dos vencidos em virtude de atos atrabiliários. no latim edo.

no dealbar do século XVIII. passando dc monarquia limitada para mo­ narquia parlamentar.7 Regimes de governo 183 mentares desfrutaram de grande prestígio. de tal forma que. Como assinala Maurice Duvcrger. como resultado disso. que dependia de um imposto também permanente. não o falava. de tal sorte que ele passou a formar um conselho (gabinete) junto aos membros mais eminen­ tes do partido majoritário. passou a escolher. a monarquia tornou-se. as instituições políticas me­ dievais européias evoluíram de maneira diversa no continente e na Inglaterra. acelerada por circunstâncias histó­ ricas. Surge. e por isso o rei via-se obrigado a convocar o parlamento sempre que precisava de dinheiro. com a promulgação da Declaração de Direitos (Bill of Rights). ao passo que o povo francês ajudava seu monarca a superar a tutela feudal. com a monarquia ab­ soluta enfraquecendo paulatinamente. e o rei mais glória do que poder”. entretanto desejando conhecer as deliberações do gabinete. mas Jaime II foi deposto e. a fi­ gura do primeiro-ministro. Com o Ato do Estabelecimento. pois o povo e a burguesia uniram-se aos barões para minar as prerrogativas reais. se entendia o inglês. en­ quanto na Inglaterra. que. não haveria outra alternativa para o rei a não ser buscar apoio do grupo majoritário para criar tributos e controlar o Exército. ao monar­ ca resta apenas a função representativa ou chefia de Estado. Com efeito. Pode. pressionada por vizi­ nhos continentais. alemão de origem. Entretanto. cobrando o parlamento autono­ mia sempre maior. Sendo o gabinete formado por membros do próprio parlamento. havendo duas facções bem deter­ minadas no parlamento. daí a periodicidade do parlamento britânico. o rei não poderia mais governar sem o apoio parlamentar. opera-se a queda do gabinete. paradoxalmente. longe do continente. por outro lado. a França necessitava de um exército permanente. com o qual os Estados Gerais foram forçados a concordar. Ora. A situação geográfica da Inglater­ ra e da França. contribuía para tal evolução. O rei. sobrepondo-se ao parlamento. ocorreu o inverso. O surgimento do gabinete antecederia. Este curioso fenômeno prosseguiu com Jorge II. Daí a sugestiva expres­ são de Bertrand Russell: “O Primeiro-Ministro tem mais poder do que glória. muito forte. o rei in­ glês tornou-se fraco e o da França. em definitivo. A Inglaterra. Na França. limitada. entre­ . passando este órgão a governar. por isso. o surgimento da figura do primeiro-ministro. além disso. se ao gabinete compete a função governamental. o poder do rei inglês foi. a monarquia feudal cederia lugar à monarquia absoluta. com Jorge I. e ligado à Dinastia de Hannover. Retirada esta. No século XVI a monarquia inglesa tentou restaurar seu poder. não se viu às voltas com tais necessidades. um que atuasse como intérprete. imediatamente. ao contrário. continuan­ do o gabinete a assumir a responsabilidade pela atividade governamental. desinteressou-se dc participar das reuniões do gabinete. recebe des­ te moção de confiança. criou-se um impasse: o novo rei não falava o inglês c. pois do próprio parlamento dependeria a administração das Forças Armadas e a cobrança de impostos. por exemplo. já se nota que. A partir do Bill of Rights. então. o fator de sua fraqueza. den­ tre seus membros mais ativos.

portanto. o regi­ me parlamentarista. militares e eclesiásticos. confere o direito de participação da Câmara dos Lordes (pariato). pelo qual. se os debates ameaçam ultrapassar o prazo fixado para as discus­ sões. b) gabinete formado com os membros do partido majoritário no parlamento. atribui condecorações. em­ bora seja o rei que designa os membros do gabinete. portanto: a Coroa. que ao povo se atribui a decisão definitiva e irrecorrível. A Câmara dos Co­ muns possui maior ascendência que a dos Lordes. entre 1961 e 1963. Do exposto. todos. e 22 simplesmente retiraram-se do poder por desentendi­ mento com o imperador ou por mágoa. no mundo moderno rara é a lei importante que não tem caráter finan­ ceiro e. de fato. sendo o pri­ meiro-ministro líder da maioria.184 Teoria Geral do Estado tanto. além disso. pois esta não tem outra missão a não ser rejeitar os projetos votados pelos Comuns que não tenham caráter finan­ ceiro. Im­ portante notar que os ministros que assessoram o primeiro-ministro e que. chefe do partido majoritário. como observa Pe­ dro Salvetti Netto. Com efeito. Nota-se. dois anos de duração. tivemos duas experiências parlamentaristas. representada pelo sistema da guilho­ tina. No Brasil. d) gabinete exercente das atribuições inerentes à chefia de governo. já por volta de 1827. Durante meio século de Segundo Império. expressamente. Em tese. se ocorrer dissídio político entre os dois órgãos. durante o Segundo Império. como faz ver Pedro Salvetti Netto. mas sem­ pre referendando as decisões previamente tomadas pelo gabinete. treze por hostilidade da Câmara ou por falta de apoio parlamentar. Eis por­ que a opinião pública constitui o fundamento do regime parlamentarista inglês. em média. conclui-se que o parla­ mentarismo inglês apresenta quatro características marcantes: a) responsabilidade política do gabinete. com este. pois os gabinetes não ultrapassavam. a Câmara dos Comuns pode recolocar o pro­ jeto vetado em nova votação. em face da ingerência deste na Adminis­ . solidariamente responsáveis pelas deliberações tomadas. c) primeiro-ministro. líder do gabi­ nete. constatavam-se práticas parlamentaristas no País. o fato é que. o gabinete dissolver o parlamento e convocar o povo para eleições gerais. o gabinete e o parla­ mento. não previa. se a primeira Constituição brasileira. de 1824. a verdade ê que. Ora. a segunda. aos quais se junta o Poder Judiciário. formam o gabinete são. por influência do sistema político inglês. havendo rejeição. O parlamento é formado por duas câmaras: a Câmara dos Comuns (eleita por su­ frágio universal) e a Câmara dos Lordes (nomeada pelo rei). Na prática. caíram cinco ministérios devido a moções de descon­ fiança da Câmara dos Deputados. a Coroa apresenta inúmeras prerrogativas: nomeia funcionários civis. Já naquela épo­ ca. o incipiente parlamentarismo brasileiro caracterizava-se pela instabilidade mi­ nisterial. Importantíssimo ressaltar a severidade na exigência da tramitação mais rápida dos projetos de lei. pode o speaker (presidente) trancar a discussão e aprovar a emenda que con­ siderar a melhor. São ór­ gãos essenciais ao parlamentarismo inglês. de direito. fatalmente será ele quem escolherá seus ministros. A primeira. tor­ nando impossível o planejamento de um programa administrativo.

Com efeito. Enfim. . a renúncia de Jânio Quadros ensejaria a imediata ascensão à presidência do vice. insatisfeito com a situação. Por isso. então.09. João Goulart. Ape­ nas quinze meses após. A segunda . O resto é história. preocupadas com as tendências esquerdistas do novo presidente. as Forças Armadas. a existência dc apenas dois partidos que efetivamente decidem as eleições. motivada por um casuísmo desmoralizador do regime. de 02. a estabilidade ministerial é muito maior. Foi.1961). 4. que consagrou o retorno ao regime presidencialista. es­ timulou e obteve a realização de um referendo popular. votado o Ato Adicional (EC n. portan­ to. o Presidente João Goulart. que instituiu o parlamentarismo.implantação do parlamentarismo entre nós ocorreu cm 1961. nos quais não ocorre a fragmentação indesejável da opinião parlamentar e. Entretanto.7 Regimes de governo 185 tração. mas ao mesmo tempo sua total imobilidade quanto a uma efetiva função governamental. que ficaria a cargo do gabinete. muitos autores apontam o sucesso do parlamentarismo inglês como o resultado de dois fatores peculiares aos anglo-saxões: uma profunda consciência nacional demonstrada no respeito às tra­ dições políticas c às instituições c. e seus seguidores pressionaram as lideranças par­ tidárias para que fosse adotado o regime parlamentarista. o regime parlamentarista é propício apenas aos sistemas bipartidários. depois. panaccia que permitiria a posse de João Goulart.e também frustrada . com a revogação do Ato Adicional.

Jordi. A ideologia se caracteriza. certo falseamento da reali­ dade.8 IDEOLOGIAS 1) CONCEITO DE IDEOLOGIA Bibliografia: a b b a g n a n o . Dicionário de filosofia>2. fala-se em ideologia burguesa. M adrid. Como assinala com clareza Jordi Xifra [. Mestre Jou. São Paulo. eagleton . Dirige-se às massas. rudimentar. marxista e tantas mais. Unesp/Boitempo. criando-a. 1983. simples­ mente. portanto. Em outras palavras. mas princi­ palmente sobre as ações a serem levadas a efeito sobre esta. Editorial Tecnos. Nicola. Ideologia. Uma ideologia política vem a ser um sistema de crenças aceitas como verdades inelutáveis. pela ação direta. o pen- 186 . 1982. li­ beral. e c c l e s iia l l . em face do exposto. O termo ideologia foi criado por Destut de Tracy. tolerando.] a ideologia não é apenas um sistema de ideias sobre a ordem social. mesmo. Barcelona. Bosch. Trata-se de um princípio ativo destinado a atuar sobre a realidade social. Casa Editorial. Las ideologias dei poder en la Antigiiedad. ed. age como um motor que gera a força motriz da História. volta-se muito mais para os que “atendem” que para os que “entendem”. . modificando-a ou. totalitária.. expressando o clima social e o esta­ do de ânimo próprio de uma sociedade concreta. 1997. Toda ideologia tem as vistas voltadas para a ação.. Trata-se de uma concepção pecu­ liar do mundo c da Humanidade e.. muitas vezes violenta. irracional. x if r a Robert e outros. em 1801.. Terry. Ideologias políticas. denominando a “análise das sensações e das ideias”.. expressa-se de forma simplificada. c a ponte que une a teoria à prática. nesse sentido. justificando-a. São Paulo. 2004.

Bouthoul. um lugar inexistente. a im­ portância da vida material. do modo de produção econômico. interpretar cientificamente os fatos sociais. Reconhecem os marxistas que alguns socialistas pré-marxistas teriam percebido as contradições inerentes ao capitalismo e que a propriedade privada deveria desaparecer. a ordem estabelecida. Vejamos algumas ideologias que fizeram escola e agitaram as massas. imaginário.C. Atua como uma filosofia militante que norteia o desenvolvimento de um sistema sociocultural. subver­ tendo. na pretensão de cientificidade de seu socialismo autonominado “científico”. engels. ed. 500 a. m os São Paulo.. 2) SOCIALISMO UTÓPICO Bibliografia: ca. Barcelona. ­ Gaetano e g a s t o n . vários trechos da Bíblia estão impregnados de ideias socialis­ tas: Jeremias clama contra “os gordos a luzirem gordura”. Júcar. O certo é que o ideal socialista sempre despertou a atenção de filósofos e po­ líticos. foi verberado severamente pelos marxistas. tem a ideologia como um complexo dc concepções falsas. justamente. 1975. Segundo a doutrina marxista.. enfim. Madrid. assim é que já Mit-sé (Micius). na China. portanto. O luxo c a de­ sigualdade social deveriam scr severamente combatidos. desprezado por Marx justamente por ser utópico. que viu nas ideologias concepções não só conservadoras. Por outro lado. por completo. Ezequiel atribui a Jeo­ .. mas es­ tes socialistas não souberam explicar o modo de produção do capitalismo. nettlau. lugar. designando. Global. Zahar. Max. mas também equivocadas. o grande erro dos socialistas utópicos vem a ser. ignorando. a luta de classes. a um socialismo utópico. na mesma linha Karl Mannheim. simplificadas. não sou­ beram. James. e Louis Althusser que considerava incompatíveis ideologia e ciência. Rio de Janeiro. pensador da Renascença que imortali­ zou o vocábulo cm obra famosa Utopia. Que é uma utopia ? Esta palavra é forma­ da por dois semantemas gregos: w. negação. 1978. a respeito da qual trataremos mais adian­ te. Los anarquistas. c topos.8 Ideologias 187 sarnento à ação. Friedrich. O primeiro pensador a empregar a palavra como modelo político teria sido Thomas Morus. O socialismo utópico. jo u . enfim. seu socialismo científico. a idealização de vastos planos de reconstrução social sem levar em con­ ta a vida real da sociedade. 1985. Do socialismo utópico ao socialismo científico. afirmava. que a ausên­ cia dc amor recíproco entre os homens era a fonte dc toda a miséria. irracionais. sempre a serviço do status quo. D aí Marx jactar-se de opor. Grijalbo. em maior ou menor escala. La anarquia a través de los tiempos. 1977. Histórias das doutrinas políticas. O marxismo. 7.

Aos agricultores.) surge. pois Platão vi­ sava à participação da mulher. Os filósofos nada poderiam possuir dc seu.o da educação -. com reservas. pois Pla­ tão estava convencido de que os males que afligem o Estado não teriam fim enquan­ to os filósofos não chegassem ao poder ou os governantes não fossem filósofos. a ruínas. fez com que houves­ . na Pérsia. a dos filósofos. Enquanto as guerras contínuas enchiam o país de inválidos. e estas seriam comuns a todos. auxiliados pelos escravos. afirmando a igualdade natural de todos os homens e sugerindo a supressão da propriedade. Acusado de alta traição. 110 qual as crianças aprenderiam música. sem separação de sexos. considerado santo por ter recusado a acei­ tar o casamento do rei Henrique VIII com Ana Bolena. que. por morte do amo. Morus era admirador de Platão e da obra deste. na qual. de forma que o pai não viesse a conhecer o filho e vice-versa. um curso de filosofia política. a propriedade privada. que lhes permitiria ascender à casta mais elevada e nobre. os jovens prestariam o serviço militar (homens e mulheres). Platão critica as desigualdades sociais no tempo da Atenas de Péricles. Thomas Morus: humanista inglês. admitindo. após exame de seleção. abaixo com os orgulhosos. cuja missão seria legislar e velar pela execu­ ção das leis. sustentar os filóso­ fos. Escreveu uma obra intitulada Utopia. Isaías sonha com um reino de paz e dc justiça. na qual se mostra mais realista. contrárias ao desejo da divindade. Mais tarde Platão escreveu outra obra As leis. mediante o repúdio da rai­ nha Catarina de Aragão. foi condenado à morte e executa­ do. a ruínas!”. um pregador de nome Mazdak. Os demais pros­ seguiriam seus estudos.188 Teoria Geral do Estado vá estas palavras: “para cima com os humildes. indiretamente. nos problemas políticos.C. sendo que cada homem possuiria uma gleba dc terra indivisível. com vistas à florescente exportação de lã para o exterior. permanecendo nas filei­ ras do exército aqueles que revelassem menor aptidão intelectual. o aban­ dono da cultura agrícola com a transformação dos campos em pastagens de ove­ lhas. bem como da família. inalienável e transmissível hereditariamente apenas. receberiam o sustento da classe trabalhadora e deveriam residir em habitações coletivas com as mulheres que lhes fossem destinadas pelo Estado. Eu o re­ duzirei a ruínas. Após um curso geral. os nobres ocio­ sos tinham em torno de si inúmeros criados. Previa o banimento da propriedade privada e da liberdade eco­ nômica. desde a mais tenra idade. visando preencher cargos públicos. O Estado ficaria encarregado de educar o cidadão. Por outro lado. 110 qual “o lobo repousará junto ao cordeiro e a pantera ao lado do cabrito”. critica a situação econômica da Inglaterra de sua época. Na mesma época de Mit-sé (século V a. matemática e história. Fariam. apenas. instituições humanas que seriam. cuidando do problema maior do Estado . ao lado do homem. segundo ele. passavam ao abandono e ao dilema de furtar. para o socialismo. roubar ou morrer de fome. Aos quatro anos de idade seria iniciada a educação da criança. Em sua obra A república. artífices e comerciantes caberia. Isto somente seria possível pela educação. então.

porque “ne­ nhum homem será tão filósofo de ver. que escreveu uma obra intitulada Città dei sole. Entretanto. quando se casam. Não havendo comércio em Utopia. A mudança de residência depende dc autorização. A terra e os instrumentos de produção devem pertencer ao Estado. embora eficaz em ter­ mos objetivos. em de­ trimento dc outras. mas cada um aprende um ofí­ cio extra. na mulher. O divórcio existe para os casos de adultério. Os filarcas. até para os filósofos. o filarca. vadiagem. porém. Existe na ilha a escravidão. meramente tole­ rada. Todos são agricultores. A família deve ser conservada. depois. mediante sorteio. e a religião.8 Ideologias 189 se um encarecimento brutal dos gêneros de primeira necessidade. Em Utopia o trabalho diário é redu­ zido a seis horas: três pela manhã e três à tarde. o príncipe. elegem os superfilarcas. Religioso dominicano. As viagens ao exterior são proibidas. Cada grupo de trinta famílias escolhe seu chefe. Thomas Morus não admite a comunhão sexual de homens e mulheres preco­ nizada por Platão. Utopia é uma ilha inexpugnável. Morelly: em 1753 escreveu uma obra intitulada Brasilíada. Em matéria religiosa os utopistas são tolerantes. rival dos je­ suítas que seguiam Aristóteles. apenas as belezas morais. da Calábria. reuni­ dos. para que nelas possa entrar quem quiser. podendo. o atrativo físico é importante”. da indústria e do ensino. mas a mulher deve ser ouvida antes de sua decretação. e estes. à fabricação de grilhões para os escra­ vos. Para Morelly. os noivos devem apresentar-se despidos. Campanella acatava as ideias de Platão. compromete toda a beleza e o ornamento do Estado. passar um ano na cidade e dois 110 campo. os adúlteros e os prisioneiros de guerra. dividida em cinqüenta e quatro distritos. Thomas Morus volta-se indiretamente contra este esta­ do de coisas ao escrever Utopia. A monogamia é pa­ drão em Utopia. Somente 110 reinado de Henrique VIII foram enforcados 72 mil ladrões. quando muito. o ouro e a prata não possuem utilidade real e constituem um perigo para a vida so­ cial e intelectual. e não possuem chaves. o grande mal da Humanidade é a propriedade pri­ vada. assaltos. admite que sua Uto­ pia (o título completo da obra é Libelus yere aureus nec minus salutaris quam festivus de optimo rei publicae statu deque nova insula Utopia). Destina-se. com todas as suas seqüelas: miséria. que contém os edifícios da administração. Ca­ da distrito tem na sua parte central uma cidade espaçosa. fundamentada na Utopia de Morus. Tommasso Campanella (1568-1639): foi um pensador italiano. . por sua vez. dispensada estava a moeda. Em sua obra preconizava um sistema comunista ideal. Até os 25 anos. As casas são redistribuídas de dez em dez anos. que dirige o Estado e que só pode ser deposto se tentar o cesarismo. alguns membros de famílias numerosas são transferidos para as menos numerosas. todos devem dedicar uma parte de seu tempo à agricultura. O próprio Morus. Não há desocupados a consumir o produto do trabalho alheio. assim. Para evitar a concentração excessiva de pessoas em certas áreas. a ativi­ dades menos penosas. Por outro lado. sendo a esta reduzidos os criminosos.

Infelizmente. que tem como conseqüência tornar a produção inferior àquela que seria concretizada se o traba­ lho fosse cientificamente organizado. e deveria ser ado­ tado pela sociedade contemporânea. um sistema como este não seria adotado em sua pureza original. com abolição da propriedade privada. ele começa a estudar a questão social. Inteligên­ cia. havia renunciado à carreira religiosa de pastor para dedicar-se ao cargo de secretário no Ministério dos Negócios Estrangeiros. Brissot dc Warville afirma que a propriedade é um direito natural que deve ser limitado às reais necessidades de cada um. nas quais a divisão do trabalho seria feita por intermédio da chamada atração passional ou vocações. escreveu uma verdadeira apologia do furto e do roubo. Considerava ser imprescindível abolir o regime de su­ cessão hereditária. Anti-Dühring. de acordo com as necessidades de cada uma. Passou a afirmar. Inicialmente defensor do Velho Regime. abraçando uma ideo­ logia dc forte matiz socialista. devendo o Estado ser tido como herdeiro. nas quais o trabalho. por isso mesmo. perspicácia e uma sólida formação intelectual enciclopédica. a produção e a distribuição das terras eram regulados pelos prin­ cípios comunistas clássicos. não podemos deixar de fazer um reparo a esse respeito e de dizer algo de seu trabalho. O regime comunista seria peculiar à sociedade primitiva. mas a igualdade material ou eco­ nômica. pensamento que seria depois assimilado por Pierre-Joseph Proudhon. passa a trabalhar como em­ pregado de um comerciante de cereais em Marselha. O período era de fome e o pa­ trão de Fourier. Impressionado. Robert Owen (1771-1858): foi o criador das primeiras cooperativas de pro­ dução e consumo. então. jogou ao mar enorme quantidade de arroz. Eugen Karl Dühring (1833-1921): filósofo. Posto em liberdade. as obras de Dühring não têm a divulgação merecida e. que a verdadeira igualdade não é a igualdade meramente formal ou jurídica.190 Teoria Geral do Estado Gabriel Bonnot de Mably (1709-1785): filósofo e historiador francês. Não tinha grandes ilusões. eis o resumo des­ . da monarquia. Brissot de Warville: impressionado pelo rigor da legislação dos crimes contra o patrimônio (furto e latrocínio). até que o Poder Público assumisse o controle de toda a propriedade privada. Dühring está longe de ser a figura ridícula em que Engels pretende transformá-lo na virulenta obra intitulada. porém. mudou radicalmente de posição cm 1757. para elevar os preços. A partir daí a propriedade passa a ser um roubo. fundou no Canadá diversas cidades-modelos. em caso de não ha­ ver descendência direta. Filantropo. afirmando que a falta de or­ ganização do trabalho produz um enorme desperdício de forças. mas den­ tro das possibilidades reais. jurista e economista alemão. Afirmava que a sociedade deveria ser organi­ zada cm comunidades denominadas falanstérios. muito sugestivamente. Toda a produção da terra deveria ser armazenada em silos públicos e distribuída entre as famílias. isto é. com sua frase célebre: “A propriedade é um roubo”. Charles Fourier (1722-1837): preso durante a Revolução Francesa por per­ tencer ao partido dos girondinos.

raldo. Paul. z\gir. Prelo. suas ideias começam a ganhar terreno na doutrina social-democrata. Global. ed.. He- batalla. Era ateu. Monte Avila. 1984. Karl e e n g e l s . 2. Fondo dc Cultura Econômica. Paz f o u l q u ié e Terra. A dialética da natureza. Global. Entre 1870 c 1878. Marta. Em 1863 doutorou-se cm filosofia c. Lisboa. . Dühring foi um teórico e um militante de real significado. porque assim Marx o consideraria. chakhnazárov G. v. Friedrich. 1979. São p o l it z e r Paulo. O marxismo. Tomás. mediante uma incisiva intervenção do movimento operário. El capitai México. Na verdade. Dühring rompe definitivamente com o socialismo marxista. Rio de Janeiro. Rio de Janeiro. Combatendo o materialismo mecanicista. Nasceu perto de Berlim e. 1965. Fundamentos do marxismo-leninismo. O manifesto do partido comunista. ao magistério e à investiga­ ção científica. Rebatendo a dou­ trina da luta de classes. 1974. História crítica da economia política e do socialismo c Lógica e teoria da ciência. nesta cidade. harnecker . . São Paulo. 1983. m arx . ed. Krássine.. 1959. Rio de Janeiro. Karl. iniciando bri­ lhante carreira de advogado. e Anti-Dühring. engels. Marxismo e religião. Os concei­ marx tos elementares do materialismo histórico. Progresso. c O 18 brumário de Louis Bonaparte. consis­ tente na conciliação das classes sociais. Dedicou-se. Lisboa. trad. 2. Friedrich. logo depois.8 Ideologias 191 te pensador. em economia. Georges. embora injustificadamente. que logo foi interrompida em virtude de uma doença dos olhos que o deixou quase cego. Publicações Europa/América. cujo pensamento já está a mere­ cer um pouco mais de atenção que não seja aquela que Engels lhe atribuiu. 6. Historia crítica dei concepto de la democracia. mas a de seus abu­ sos. 1. 1981. afirma uma realidade dinâmico-orgânica da vida. ideias que representam sérias objeções ao pensamento de Marx. apenas o fizemos para efeitos didáticos. v. os dirigentes do partido incumbem Engels de refutar as heréticas colocações de Dühring. 1986. Juvenal. 1963. Paz e Terra. ed. E. A . 2. 2. e tal refutação sobrevêm sob a forma de uma obra robusta. dialética. 1983. .. passando a defender o ideal da não eliminação do capitalismo. São Paulo. . Dominus. e iú. preconiza uma etapa final da evolução da sociedade. 1979. sc colocamos Dühring entre os so­ cialistas utópicos. Moscou. que muito o respeitava. Avante!. Em 1878. Alarmados. José Barata-Moura c Eduardo Chitas. como já frisamos. estudou Direito. Dentre suas obras destacam-se: O moderno espírito dos povos. Lisboa. e foi considerado antissemita por se opor aos elementos judaicos do Cristianismo. porém excessivamente agressiva à própria pessoa de Dühring. c a r r il l o barbuy. 1976. graças ao auxílio dc amigos.. então. No exercício do magistério tornou-se um líder da ju­ ventude radical. Princípios elementares de filosofia. Caracas. ed. 3) MATERIALISMO HISTÓRICO E DITADURA DO PROLETARIADO Bibliografia: a r d u i n i .

A natureza une o macho à fêmea. Dessa forma. Os contrários põem-se de acordo. A natureza aprecia os contrários. mas também levar à compreensão. indefinidamente. que traz consigo os germes de seu próprio contrário. a música só se torna possível com a contraditoriedade dos sons graves e agudos. por isso. filósofo do século V a. Heráclito de Efeso. diz ele. pelos con­ trários. como já afirmava Herá­ clito. com justiça. o conceito dc dialética. consi­ derado o filósofo da mudança e da instabilidade. luta essencial para o surgimento da harmonia. Realmente. Ela não se confun­ de com a retórica. sendo. por sua vez. consta de três momentos: tese. Georg Wilhelm Friedrich Hegel. o pensador hegeliano é tão profundo quanto cerrado. de troca de palavras.C. a ideia precede a matéria. desenvolveu a ideia dc uma dia­ lética da natureza. O método dialético afirma a identidade dos contrários. idealis­ ta. diálogo. de iní­ cio. não somos. e a gramática só se realiza com o contraste entre vogais e consoantes. que. e é com eles. originará uma antítese e assim por dian­ te. Uma coisa é ela mes­ ma e o seu próprio contrário. Heráclito é. mas ao mesmo tempo a sua condição de burguês é a afirmação da realidade cuja negação. A uma tese opõe-se uma antítese. não obstante isso. mas também pela obs­ curidade com que as expunha. pelo que nos restringiremos a apresentar. Tudo é engendrado pela luta. autor da notável Filosofia da história. en­ fim.. esta síntese. a pintura resulta das cores claras e escuras. foi com­ parado a Heráclito não apenas pela semelhança das ideias. encontra-se em constante mutação. O scmantcma dia exprime uma ideia dc reciprocidade. cujo contrário. o criador do marxismo costumava ironizar o pensamento hegeliano pelo fato deste afirmar a precedência do espírito à matéria. o conflito destas vai originar uma síntese. Diz ele: Nós somos e.192 Teoria Geral do Estado Materialismo dialético. A natureza. da contradição. antítese e sínte­ se. dizia ele. entretanto. a dialética com­ preende o raciocínio que busca a verdade por intermédio da oposição c da conciliação de contradições. Vamos desmembrar esta expressão apresentando. Hegel define a dialética como a conciliação dos contrários nas coisas e no es­ pírito. dos sons diversos resulta a mais bela harmonia. As coisas sc encontram cm perpétuo movimento. Heráclito insiste na luta dos contrários no mundo da natureza. as linhas essenciais de seu conceito de dialética. Enquanto a retórica pretende impressionar e captar. ao mesmo tempo. as coi­ sas e os fenômenos estão em perpétuo movimento. vai engendrar uma nova tese. A dialética é a arte da discussão. que ela produz a harmonia. jamais com os semelhantes. Assim. O burguês é o burguês. a dialética bus­ ca não apenas convencer. portanto. enfim. é o proletário. isto é. O processo dialético. Karl Marx (1818-1883) foi muito influenciado pelo pensamento de Hegel. num manual didático como este. enquanto Marx afirmava a precedência da ma­ .

de maneira completa e consciente. o mundo material existe independentemente da ideia. a que se referia Hegel em sua Filosofia da his­ tória. O mundo material. fundada sob o idealismo. as formas gerais do movimento. despojado do idealis­ mo. Para que o pensamento hegeliano se tornasse perfeito. do espírito. não é mais do que o seu fenômeno exterior. do invólucro místico. enfim. esta­ ria voltado para baixo. assim ele critica o sistema hegeliano: Meu método dialético não difere somente quanto ao fundamento do processo hegeliano. isto é. Para Marx. apenas a nossa consciência teria existência real.8 Ideologias 193 téria sobre a ideia. a natureza. seria preciso colocá-lo na posição correta. cujo desígnio é eter­ no. nada mais seriam do que o produto da consciência humana. Em O capital. transposto e traduzido no espírito humano. Karl M arx (1818-1883) . cujo vértice. criador da realidade. o mundo das ideias é apenas o mun­ do material. processo autônomo. desvendar o núcleo racional. o processo do pensamento. Para Hegel. o processo dialético da reali­ dade que denominamos objetiva não é mais do que uma manifestação da ideia. contudo. ad­ vertia Marx. numa concepção essencialmente otimista. entretanto. o que eqüivale ao materialismo. Assim. o materialismo dialético marxista difere fundamentalmente da dialé­ tica hegeliana. O idealismo interpreta o mundo como uma encarnação da consciência do espírito universal. é precisamente seu contrário. Segundo a filosofia idealista. Mas nele a dialética está ao contrário. Segundo Marx. É preciso invertê-la se queremos. o pensamento de Hegel achava-se estruturado em magnífica pirâmide. na qual a História da Humanidade surge como um processo desenvolvido por uma razão universal. da ideia absoluta. Para Hegel. A mistificação que a dialéti­ ca atingiu em Hegel em nada impede este filósofo de ter sido o primeiro a expor. de que ele faz mesmo. Para mim. sob o nome de ideia.

desde logo. Se se aceita o primado da matéria e a sua independência em relação à consciência. todas as filosofias anteriores ao marxismo são alienações puras. Será que aqui Marx defende a necessidade da ação di­ reta apregoada pelos anarquistas ou sindicalistas revolucionários? Não . c a matéria. do espírito. baseando-se na experiência social e nas ciências naturais. quando. cada um à sua maneira. dizem os materialistas. que idealismo e materialismo são ideias que hurient de se trouver ensemble. E. o secundário. [grifo nosso] No dizer de Marx. exegeta contemporânea do . Assim: C) materialismo e o idealismo. tendo deixado uma infinidade de obras de real significado para a interpretação da História. na verdade. o que ele pretende. o im­ portante é transformá-lo!”. Se se considera que a matéria é o secundário. Marx emite uma frase curiosa: “Os filósofos não têm feito nada além de interpretar o mundo. Pela extraordinária importância que tem. o ser. Ao contrário do que se pode pensar. o espaço e o tempo são formas objeti­ vas da existência da matéria. A solução idealista obriga a vê-las como uma manifestação da razão universal. então há que ver o movimento. Assim. dois campos inconciliáveis em filosofia. Marx foi notável teórico. Chakhnazárov e Iú Krássine emi­ tem com muita clareza. ou como o fruto da atividade da consciência humana. a filosofia marxista é muito mais ideologia do que filosofia. para determinar as posições filosóficas. É a afirmação que G. que deriva da consciência. tentando explicar como as coisas realmente são. Marta Harnecker.194 Teoria Geral do Estado Conclui-se. Não há problema fi­ losófico cuja solução não dependa da maneira como sc resolva a questão fundamen­ tal da filosofia. o princípio essencial do idealismo c a afirmação dc que o fator primário é a consciência. A linha divisória entre os dois é o seu diferente modo de resolver o problema da relação entre a matéria e a cons­ ciência. o secundário. e a consciência. reconhece-se implicitamente que o movimento. como e por que o homem está alienado. o espaço e o tempo como formas da consciência. são duas cor­ rentes contrárias.. o problema da relação entre a matéria e a cons­ ciência foi qualificado como a questão fundamental da filosofia. Em sua 1 Ia Tese sobre Feuerbach. em verdade. Todas as filosofias que contemplam o mundo para justificá-lo são meras alienações. Consideremos a questão das leis científicas: a solução mate­ rialista da questão fundamental da filosofia leva diretamente a reconhecer a objetivi­ dade dessas leis.. Assim é que Marx decreta a morte da filosofia contemplativa. O princípio essencial do materialismo é o reconhecimento de que o fator pri­ mário é a matéria. é alertar para a necessidade de um conhecimento prévio da realidade que se pretende transformar. a linha dc Dcmócrito e a de Platão. sendo impotentes para a ação sobre as condições do mundo real. Da resposta que se lhe dê depende também a solução das outras questões relativas à concepção do mun­ do. inversa­ mente. O ser determina a consciência. pois se volta para a ação.

sendo incapazes de transformá-lo porque não conheciam o mecanismo de funciona­ mento das sociedades. é numa ou em outra dessas for­ mas de movimento. em parte alguma. Não há matéria sem movimento e muito menos movimento sem matéria. Friedrich Engcls. uma das ideias mais vazias e insípidas que há. ou em várias ao mesmo tempo. que funda um campo científico novo: a ciência da História. eram: teorias filosóficas acerca da História ou filosofias da História. materialista alemão c parceiro intelectual de Karl Marx.8 Ideologias 195 pensamento de iMarx. análise e síntese química. e que somente se transforma sob a ação de forças que sobre ela atuam. que até esse mo­ mento eram teorias filosóficas. escrito para refutar as ideias do alemão Karl Eugen Dühring. que não fazem mais do que interpretar o mundo. O que até esse momento existia. a maneira de ser a matéria. que se limitavam a contemplar e interpretar o mundo. isto é. de­ fine a dialética materialista como a ciência “das leis mais gerais que regem a dinâ­ mica e o desenvolvimento da natureza. existiu. ela é essencialmente dinamismo e movimento. A matéria sem movimento é tão inconce­ bível como o movimento sem matéria. da mesma maneira que a teoria científica de Cíalileu. mas uma rup­ tura com as teorias a respeito do homem. M o ­ vimento no espaço. como afirmam os metafísicos. vibrações moleculares sob a forma de calor. movimento mecânico das massas mais pequenas sobre cada um dos corpos celestes. e anuncia a chegada de uma teoria científica nova. consequentemente. nem pode existir. a teoria científica da História ou materialismo histórico. a ciência física. que se encontra cada átomo da matéria no mundo em cada momento dado. vida orgânica. da sociedade e do pensamento”. não. para os marxistas e os materialistas em geral a . A 1T‘ Tese sobre Feuerbach indica. um puro sonho febril. em relação à sociedade e sua história. da sociedade e sua história. O que não existia era um conhecimento científico da sociedade e sua história. O movimento é o modo de existência da matéria. Em Anti-Dühring. chama a atenção para a inconveniência de uma interpreta­ ção frívola do referido texto. funda um novo campo científico. aquilo de que as coisas são feitas. ou então narrações históricas c análises sociológicas que sc limitavam a descrever os fatos que ocorriam nas diferentes sociedades. Enquanto para os seguidores de Aristóteles a matéria é causa material. uma ruptu­ ra com todas as teorias filosóficas sobre o homem e a História. buscando o significado mais profundo deste: A 11a Tese sobre Feuerbach não anuncia a morte de toda teoria. Engels assim se referiu ao tema matéria/movimento: Nunca. de corrente elétrica ou magnética. Os adep­ tos do materialismo dialético afirmam que a matéria não é uma realidade passiva e inerte. Imaginar um estado da matéria sem movimen­ to é. portanto. matéria sem movimento.

ex. também está em constante evolução. para o sen­ sualismo. Vale lembrar que madeira é tradução portuguesa de matéria. Mas o marxismo apresenta uma carac­ terística que lhe é essencial: preocupado. Dessa forma.. madeira e fecundidade (p. Personalidade. metafísica. a economia. isto sim. Das mais interessantes é a tese sobre o materialismo no pensamento antigo formulada por Heraldo Barbuy. dizem os marxistas. Matéria deri­ va de mater. Matéria foi a palavra utilizada pelos latinos para traduzir o termo grego hyle. nenhuma palavra que signifique matéria no senti­ do materialista contemporâneo. que significa floresta. sendo ela. c sim as ideias é que dependem das condições econômicas da sociedade. concluem. Portanto. em matéria-prima ou matéria secunda. que não são as ideias que governam o mundo. a fonte exclusiva do conhecimento são os sentidos corporais. como o fazem muitos autores modernos. O materialismo sem­ pre reduz o homem à sua atividade sensorial. que rejeita a precedência da matéria ao espírito. ao passo que as ideologias consistem em meras superestruturas con­ dicionadas pela infraestrutura econômica. Fala-se. a expressão hileia amazônica). pois o homem. então. em Aristóteles e nos escolásticos. consiste em assu­ mir uma indesejável postura metafísica de identidade e imobilismo. Já é hora. porém. em verdade. todos os seres relativos são com­ postos de matéria e dc forma. especulativa. que constitui a estrutura essencial das re­ lações sociais. só assume existência efetiva quando recebe uma forma. afirmar que os homens jamais pode­ riam viver numa sociedade comunista. enfim. Não há. com as graves ques­ tões sociais da época em que viveu. em sua obra Marxismo e religião. pois. do empirismo e do sensualismo. Segundo Marx. Diz ele que o sentido original da palavra matéria é bem diferente do sentido atual. E se a sociedade muda. Vimos que Karl Marx é materialista. religião. conclui Barbuy. Marx não se preocupa com questões de ordem meramente filosófica. O materialismo marxista vem a ser. antes de mais nada. . filosofia e artes são o puro resultado dos sentidos. uma concepção explicativa da História que afirma. no grego. nos filósofos clássicos a expressão matéria é sempre tomada no sen­ tido de princípio passivo e de matriz. de dizermos algo a respeito do materialismo histórico. O empirismo é a teoria do conhecimento segundo a qual a única fonte do conhecimento é a experiência sensível. Pois bem. em grande parte. em face de seu egoísmo. mas não se fala em matéria no sentido que os materialistas atribuem à palavra. eliminada qualquer atividade autônoma do espírito. como substân­ cia indivisa dotada da razão. também o homem. isto é. ao passo que. Depreende-se disso que o marxismo derivou. o princípio que faz as coisas. na magistral definição de Boécio.196 Teoria Geral do Estado matéria é causa eficiente. não há maior absurdo do que falar em materialismo grego. indicando o princípio materno. suas ideias e sentimentos são produ­ tos de seus sentidos. fundamentalmen­ te. a economia engloba o conjunto dos esforços do homem para se apropriar da ma­ téria e explorá-la. e assim da própria matéria. sua doutrina se opõe ao idealismo.

Pensa apenas em antíteses desconexas. mas um conhecimento eficaz traduzido numa técnica.. Cada sistema econômico cresce até um ponto determi­ nado. o produto das relações de produção e troca. dizem os marxistas. Todas as transformações históricas fundamentais. para considerar apenas a identidade. enfocados uns após outros. imóveis. Assim. Na Antiguidade. Amos. a História é uma seqüência de lutas de classes. a partir do qual surgem em seu seio contradições e fraquezas que acarretam sua decadência. fixos. para o metafísico os objetos e suas imagens no pensamento. manchados e descoloridos. patrícios.8 Ideologias 197 evoluído psicologicamente. os conceitos. a cada momento.. como algo determinado e eterno. Embora a política... em sua totalidade. a ação. das duas uma: sim. enquanto a cias­ . mestres de cor­ porações e capitalistas detiveram e detêm os meios de produção. sim. Ao fim de cer­ to tempo.. para Marx. até que o antigo seja engolfado por este. No dizer de En­ gels. capitalistas contra proletários. Paralelamente vão desenvolvendo-se fundamentos de um sistema oposto. ser comparado ao exemplo de uma pessoa que adquire um par de sapatos amarelos. opostas entre si como as fases do processo dialético. patrícios contra plebeus. 11a Idade Média.] percebe-se que a História. a pessoa continuará a se refe­ rir a seus sapatos amarelos. mestres de corporações contra jornaleiros. religiosas c filosóficas. que não admite o advento de um novo homem. de alterações nos méto­ dos de produção e de troca. a religião. a postura do metafísico. como se eles estivessem. diz Politzer. sejam quais forem suas características aparentes. Assim é. A explicação do fenômeno histó­ rico é orientada para a praxis. após uso prolongado e muitos consertos. a filosofia e a arte possam até agir sobre a pró­ pria economia. não é mais do que a própria histó­ ria da luta de classes. Para ele. lutavam amos contra escravos. ironicamente. Tal pessoa não considerou as mudanças operadas em seu calçado. não. resultam. a ciência não é mera compreensão ou contemplação. que são sempre a infraestrutura da sociedade que explica a superestrutura das instituições políticas. A postura metafísica é severamente criticada pelos marxistas. Ela dirá: “vou calçar meus sapatos amarelos”. são objetos de investigação isolados. Assim. novos. o enfoque metafísico poderia. Já para Politzer. será esta. Doutrina Engels: [.. estará pronto para a convivência despojada do fator propriedade. não. a determinante final da evolução his­ tórica. o resto sobra. embora estes já estejam deformados. perfeitamente integrado numa so­ ciedade comunista. 11a Ida­ de Contemporânea. segundo o marxismo. das relações econômicas. em última análise. que estas classes sociais que se digladiam são. ainda.

recebe um salário suficiente apenas para prover sua subsistência e sua reprodução. então. virá o verdadeiro comunismo. um pouco mais de­ talhadamente. em que consiste essa ditadura do proletariado. anotando o Programa do Partido Operário Alemão: . ao lado do machado de bronze e da roca de fiar. num dado momento histórico. Ora. podendo os indivíduos possuir apenas bens de consumo. todos viverão do seu trabalho. isto é. não impediam que seus proprietários.o Estado . vendendo a força de seus braços para sobreviver. Proletários e oerarius tinham as mesmas incapacidades políticas. portanto. qual seja. assim. era formada por pessoas completamente desprovidas de bens e cuja única finalidade era constituir prole. Ora. Ocorre que o trabalhador não recebe o valor total da­ quilo que o seu trabalho cria. O sistema de salários será extinto. Enquanto esta visão paradisíaca não se configura. como acentua Duruy. em razão da origem. da essência da sociedade comunista o pagamento conforme as necessida­ des de cada um. o desaparecimento do Estado coincidirá com a desaparição da propriedade privada. dar filhos à pátria e à guerra. segundo o marxismo. Quando o capitalismo e seu escudo protetor . é o resultado de antagonismos sociais incontroláveis. mas os tribunos falavam apenas a favor dos proletários. O Estado seria o aparato utiliza­ do pelas classes dominantes para defender. Segun­ do o próprio Marx. que vai para as mãos do capitalista.receberem o golpe dc morte das mãos do proletariado. A diferença entre o valor daquilo que o trabalhador produz e o que ele rece­ be é a plus valia (mais-valia). sim. na antiga Roma. Depois. categoria social que. O Estado.198 Teoria Geral do Estado se dominada sempre dependeu de um salário. entretanto. por vezes consideráveis. não se confundia com o oerarius. sendo. daí a expressão proletariado. igualmente comunistas. ao contrário. será precedido de um fenômeno marcante. fos­ sem privados dc certos direitos. retorno às primeiras comunidades humanas. ocorrerá uma fase de transição denominada ditadura do proletariado. o valor das utilidades é determinado pela quantidade de trabalho necessária para produzi-las. no qual os bens de produção pertencerão ao Estado. cujos haveres. se o Estado encontra seu fundamento e sua sustentação na luta de classes. Será o império do socialismo de Estado. o Estado. sua proprie­ dade e seus interesses. no qual o Estado será perfeitamente dispensável. Para o marxismo. O desaparecimento do Estado capitalista. o Estado nada mais é do que o reflexo dc uma sociedade dividida cm classes antagô­ nicas. a ditadura do proletariado. Segundo Engels. não haverá classes sociais. que se digladiam velada ou ostensivamente. terá desaparecido e passado a pertencer ao museu de antiguidades da História. É o lucro. O proletário ou capite census não tinha o censo necessário para entrar nas classes e. Como as classes sociais têm origem na propriedade privada dos meios de produção. ninguém viverá da propriedade. meta final da evolução histó­ rica. vejamos. torna-se claro que o desaparecimento das classes determinará o surgimen­ to de um novo estágio histórico. Então. cada pessoa trabalhará de acordo com sua capacidade e receberá uma quantia proporcional às suas necessidades.

que farão com que o proletariado desça cada vez mais na escala social. o proletariado não pode. a revolução sc dará por si mesma. de tudo quanto já foi clas­ se no sentido próprio do termo. a par do proletariado propriamente dito.8 Ideologias 199 Entre a sociedade capitalista e a sociedade comunista renasce o período da trans­ formação revolucionária da primeira na segunda. do coletivismo ab­ soluto. trapo. vadios. Por isso.. pelo menos ao nível dc subsistência. dentro de certo prazo. uma camada so­ cial difusa. c lumperei. A este período corresponde também um período político de transição. dc todos os mo­ delos dc vida. dc todas as garantias dc existência individual. cujo Estado não pode ser outro senão a ditadura re­ volucionária do proletariado. a natureza do proletariado na concepção comunista: [.] o proletariado tem de original. o lumpenproletariaty que qualifica dc “lixo de todas as classes” (do ale­ mão himpen. denomina a “massa informe de indivíduos arrui­ nados e aventureiros saídos da burguesia. dos miseráveis. patifaria). em todos os tempos passados. significará a destruição dc tudo quanto existiu anteriormente. malfei- . Mas o capitalismo tem tais leis internas dc acumulação c con­ centração do capital (longamente estudadas por Marx no fim do L. com muita perspicácia. a pauperização gradual tornará completamente impossível a subsistência do proletariado no regime capitalista dc produção c. ensinam Marx e Engels. não ser uma classe como as demais. Tal ditadura será exercida por uma classe que jamais possuiu coisa alguma e que. E. 1° d 'O Capital). velhacaria. e proletariat. dos que não têm. Marx reconhece. É o estabelecimento. ele não é nada. cujo caráter internacional tem como denominador comum ser a massa dos oprimidos. como as antigas classes dominantes. Tal expressão. previsto por Marx (fatal porque dialeticamente ine­ vitável). miserável. que não possui. portanto. é a negação de tudo quanto já foi categoria histórica. Sendo o proletariado a classe mais baixa das sociedades atuais (está quase ao nível do subterrâneo social chamado Lumpenproletariat)> quando cie se levantar. não tem nada. os senhores mantiveram os escravos. se acha desprovida de maiores ambições. não tem modo de existência parti­ cular. soldados desmobilizados. segundo a dialética marxis­ ta. nesse dia. esfarrapado. nem são nada. não depende da vontade de ninguém impedir essa revolução total: porque a con­ tradição burguesia versus proletariado há dc chegar a um ponto em que o capitalismo não poderá sequer manter o proletariado como classe oprimida. o advento fatal do proletariado. daí lumpig. farrapo.. Sendo a negação de tudo. segundo o marxismo. Barbuy anota. já vernaculizada como lumpemproletariado. segundo o M a­ nifesto. querer impor um estilo de vida. que no passado lutaram pelo poder: não pode nem mesmo ser chamado pro­ priamente de classe. malvado. dc todas as formas dc apropriação da riqueza. É o anonimato absoluto. proletariado. não poderá deixar de abater tudo quanto está acima de si.

como Klaus Zcttcl. que teriam dc representar o povo. Velho roué manhoso. carteiristas. palavras e poses servem de máscara à ca­ nalhice mais baixa. detritos e escória de todas as classes a única classe em que pode apoiar-se incondicionalmente. batedores de carteiras. que sc constitui cm chefe do lumpemproletariado. maquereaus (cáftens). que perderam o sentido de sua classe social. 79-80) [grifo nosso] Os últimos despojos da superpopulação relativa são. cada uma das quais dirigi­ da por agentes bonapartistas e um general bonapartista à cabeça de todas. Aconteceu assim no seu cortejo a Estrasburgo. for­ mou Bonapartc a cepa da Sociedade do 10 dc dezembro. Na sua Sociedade do 10 de dezembro reúne 10. tornam-se uma excelente massa de manobra que os fascismos utilizam na conquis­ ta do poder. charlatães. burlões. deste elemento. mendigos e tantos mais” . de modo que. juntamente com rebentos degenerados e aventureiros da burguesia. que reconhece nestas fezes. é o autêntico Bonapartc. naturalmente. Para a sua incursão em Boulogne. numa palavra. tocadores de realejo. que só neste encontra de forma maciça os interesses que ele pes­ soalmente persegue. escribas. soldados desmobilizados. com meios de subsistência equívocos e equívoca proveniência. Esta sociedade data do ano de 1849. com ele aparentado. em que o abutre suíço amestrado representou a águia napoleônica. jogadores. p. finalmente. concebe a vida histórica dos povos e as ações principais destes como uma comédia. numa palavra. (Karl Marx. reclusos postos em liberdade. Este Bonapartc. vigaristas. os que se refu­ giam na órbita do pauperismo: Deixando de lado os vagabundos. desagregada.000 miseráveis do lumpen. donos de bordéis. vaga­ bundos. flu­ tuante a que os franceses chamam Ia bohcme. enfia uns quantos lacaios de Lordes cm uniformes franceses. carregadores. era constan­ temente acompanhado por filiados da Sociedade do 10 de dezembro. a ncccssidadc dc be­ neficiar à custa da nação trabalhadora. mendigos. galerianos desertores. nas condições extremas de crise e desintegração sociais de uma sociedade capitalista. Sociedade de Beneficência na medida cm que todos os membros sentiam. caldeireiros. lazzaroni. o proletariado esfarrapado (lumpenproletariat) em sentido . Eles representam o exér­ cito. Os autores marxistas consideram o lumpemproletariado um elemento de­ cisivo na ascensão violenta dos fascismos. tal como Bonapartc. Juntamen­ te com roués (devassos) arruinados. o leão. toda essa massa indefinida.200 Teoria Geral do Estado rores recém-saídos da prisão. como uma mascarada. Marx faz referência ao lumpemproletariado em duas passagens bas­ tante claras. amoladores. que festejar como cortejos triunfais. organi­ zou-se o lumpemproletariado de Paris em seções secretas. rufiões. trapeiros. Sob o pretexto de criar uma sociedade de beneficência. os déclassés ou massas empobrecidas da classe média baixa. os criminosos. o Bonapartc sans phrase. 0 18 brumário de Louis Bonapartc. no sentido mais ordinário da palavra. em que os grandes trajos. assim: Nestes cortejos que o grande Moniteur oficial c os pequenos moniteurs privados dc Bonapartc tinham. as prostitutas.

rumo à verdadeira metamorfose do Estado. c sempre cm grande ati­ vidade. destinada a fundamentar o novo Estado socialista. a doutrina mar­ xista pressupõe que a ditadura do proletariado não é mera substituição daqueles que exerciam o poder político. Basta consultar superficialmente a estatística do pauperismo inglês para se convencer de que o número destas pessoas aumenta com todas as crises e diminui quando os negócios sc recuperam.. na concepção marxista. não implicará. p. () pauperismo é o asilo de inválidos do exército de operários em atividade e o peso morto do exército de reserva da indústria. as viúvas etc. nada pode evitá-la. comunista. tomou realmente a importância de uma Constitui­ ção. eliminando. como cm 1860. despojos. (Karl Marx. a partir do momento em que a revolução sentiu a necessidade de novas formas jurídico-políticas. 545-6) [grifo nosso] O proletariado dirigirá a tarefa de libertação das massas trabalhadoras explo­ radas. muito menos.a expressão é do próprio Marx . a oposição capitalista-burguesa. Por isso. Assim. a delinear. segunda. órfãos e filhos de pobres. e com ela constitui uma das condições de vida da produção capitalista e do desenvolvimento da riqueza. definitiva­ mente.no direito de propriedade e nas relações de produção. dos operários que sobrevivem à idade normal de sua clas­ se e. segundo pitores­ ca observação do próprio Marx. de forma mais concreta. A expressão ditadura do proletariado. as indústrias químicas etc. o poder proletário é original. sua necessidade em sua necessidade. terceira: degradados. contudo. incapazes para o trabalho. Tal ditadura é inelutável. Seja como for. incidirá no reforço deste. os doentes. alterando a própria natureza do poder político. ditatorialmente. a burguesia. em razão da imobilidade que lhes im­ põe a divisão do trabalho. das vítimas da indústria. Sua existência segue implícita na existência da superpopulação relativa. parteira da História. por exemplo. A revolução proletária. marca o período intermediário entre uma fase capitalista e ou­ tra comunista. Não.8 Ideologias 201 estrito. Seja como for. esta camada social se acha formada por três categorias: primeira. a imediata desaparição do Estado. cujo número aumenta com as máquinas pe­ rigosas. Como assinala com clareza Farberov. as minas. criada pelo próprio Marx. o desaparecimento definitivo do Estado será lento e gradual. pois. pessoas ca­ pacitadas para o trabalho. São seres condenados a desaparecer. O proletariado inter­ vém despoticamente . finalmente. a ditadura do proletariado não é uma forma política dc caráter demo­ crático e. El capital. referido por Camillo Batalla: . vai criar uma forma original de poder. quando são arrolados prontamente c cm massa dos quadros dc trabalhadores da ativa. dos mutilados. A teoria marxista do Estado não chegou. apoderando-se do aparelho estatal e utilizando-o para dominar. cm verdade. Estes seres são candidatos ao exercito dc reserva da indústria. um modelo acabado de instituições político-jurídicas referente à organização do proletariado como agente de uma di­ tadura. pelo contrário.

o Estado socialista não desaparecerá. adiantado grau de industrialização do Estado capitalista e insustentável concentração do capi­ tal nas mãos da classe dominante. submetido a uma casta parasitária . jamais. e à abundância de bens ma­ teriais e culturais a serem distribuídos conforme as necessidades de cada um. cedendo lugar a uma administração de bens espontânea. Sim. Ora. longe do estágio de um capitalismo avançado. todavia. Enquanto. A Perestroika e a Glasnost dc Mikhail Gorbachev puseram a nu a constran­ gedora situação. chega-se a um capitalismo de Estado. mediante uma revolução violenta. na dolorosa crise do so­ cialismo soviético. o qual. se mostraram contrários ao marxismo puro. a Rússia dc 1917. sem­ pre. o Estado leninista acabou para sem­ pre. porém. A verdade é que. de­ sapareceria o Estado. A celebérrima ditadura do proletariado não se tornou uma ditadura do proletariado. para a catástrofe. a experiência russa demonstrou muito bem que. Os objetivos do leninismo não se concretizaram e. Pelo contrário. En­ tretanto. celeremente. em prazo tão curto que os mais ferrenhos c otimistas inimigos do regime não poderiam. ainda era um Estado feudal. a sociedade socialista ainda não alcançou essa fase dc desenvolvimento. imaginar! Não se pode. enquanto a economia rumava. até a consolidação mundial do comunismo. Marx preten­ deu que o Estado poderia ser utilizado mediante uma ditadura proletária. e que usufruía de todas as benesses de um verdadeiro regime capita­ lista. como ideologia preconizadora de uma sociedade sem . deverá reforçar o seu poder. consequentemente. ponto inicial da construção paulatina do socialismo. a partir do momento em que desconsideraram a afir­ mação marxista de que a revolução proletária seria viável apenas quando cumpri­ das as condições objetivas da deflagração do movimento. a um ní­ vel tão alto dc conscientização e organização sociais que a obediência natural às re­ gras dc convivência será uma necessidade permanente para todos. Entretanto. finalmente. conduziria ao desaparecimento das diferenças entre as classes sociais. mas não ao comunismo.a odiosa Nomenklatura verdadeira gerontocracia ou governo “daqueles que nunca se aposentam e raramen­ te morrem”. equivo­ cadas do ocorrido na ex-União Soviética. e a reação popular ensejada pela abertura política foi tamanha que a própria União Soviética soçobrou. houver presença da ameaça representada pelos Estados ca­ pitalistas. cm guerra com o Império Austro-Húngaro ou Alemanha. a su­ pressão do Estado para um desenvolvimento original da sociedade. Desaparecidas as classes sociais. mas uma ditadura sobre o proletariado. que isto envolveria um processo histórico demorado. mas o marxismo puro. mesmo assim tentou-se adaptar um momento de crise político-econômica a um princípio que sempre se afirmou científico! Foram seten­ ta anos de autoritarismo que desembocaram. tirar ilações apressadas c. se Bakunin buscava. além disso. ressaltaram. porém. por intermédio da dita­ dura do proletariado marxista. quais sejam. ao estabelecercm a lei da extinção do Estado.202 Teoria Geral do Estado Marx e Lenin.

7. Estatismo y anarquia. pelo menos só com a ruína do Estado soviético. 1985. b o b b io . inexistência. Madrid. num contexto sociopolítico no qual to­ dos seriam. Júcar. Germinal. FGV/MEC. Madrid. im­ postas por uma classe dominante. entretanto. porque seus postulados. desenvolvida livremente. Max. Fundo de Cultura. Fratelli Bocca. permanece íntegro. . Norberto e m a t t e u c c i . e sim uma aspiração permanente. Daniel. Rio de Janeiro. na qual o homem afirmar-se-ia. sempre. . in Dic­ cionario de política. livres. o próprio marxis­ mo antevê uma sociedade futura desprovida de normas coercitivas de conduta. Turim. Siglo X X I. FGV/ rama M EC. Cieorge H. in Dicionário de ciên­ k e g in i. Carlos M . Lisboa. 1976. 1986. Rio dc Janeiro. a organização social e a autoridade religiosa perfeitamente dispensáveis. isto é. o vocábulo anarquismo deriva do grego a = negação + arche = governo. Diccionario dc política. 7. s a b in e . v. desnecessidade ou repúdio a qualquer forma de governo. nômica. Como assinala Gian M a­ rio Bravo. Scritti politici. 1971. Siglo X X I. 4) ANARQUISMO E SINDICALISMO Bibliografia: d a l l a r i. ed. sempre foi associada a ideia de uma sociedade livre de toda sujeição política autoritária. é impossível dar uma definição precisa do anarquismo. 1986. 1968. Mulford Q. porque o ideal a que se refe­ re o termo jamais sc consolida. Dalmo dc Abreu. “Sindicalismo”. Historia de Ia teoria política. igualmente. 1976. Jean. 1930. sorel. Turim. dominação do homem sobre seus semelhantes.8 Ideologias 203 classes. 1963. 1. Rio de Janeiro. prossegue. Jasón. “Sindicalismo”. Los sistemas sociales contemporâneos. Neste sentido. é fácil depreender que por anarquis­ mo entende-se toda doutrina que afirme ser o poder político. História das idéias políticas. 1986. sob a égide do regime comunista. em verbete no Dicionário de política. Ettore. Marins.. touchard Georges. FGV/MEC. Nicola. n o m a d gaard . 2. Edmundo. 1976. Publicações Europa/América. in Dicionário de ciências sociais. de Norberto Bobbio e Nicola Matteucci. . . Etimologicamente. São Paulo. b a k u n in . o marxismo como uma espécie de anarquismo. 1985. distor­ cidos pelo leninismo. “Anarquismo latino-americano”. in Dicionário de ciências sociais. Heréticos da política. I 'anarquia. . 1981. v. g o n z a l e s -b l a n c o g u é r in Saraiva. embora ainda utópico. Elementos de teoria geral do Estado. em razão de sua própria atividade. dirigido por Norberto Bobbio. oster- M adrid. Rio de Janeiro. Rio de Janeiro. z o c c o l i. “Anarquismo”. G. Madrid. Utet. Fondo de Cultura Eco­ s ib l e y . cias sociais. Seja como for. entretanto. Ao vocábulo anarquis­ mo. Não se deve ca­ talogar. Anarquismo. Mikhail. N. representando. México. não um objetivo cumprido e elaborado em definitivo. ainda não foram totalmente desmentidos. mesmo porque Marx destacava sua doutrina das demais doutrinas antiestatais por considerá-la a . 1907. v.

não sendo difícil perceber. o anarquismo vem a ser um ideal que propugna. Enfim. que sustenta dever a pro­ priedade ser administrada por grupos voluntários. O anarquismo romântico é aquele que se vol­ ta para a vida contemplativa. R. então.C. Por outro lado. mostrando-se indiferente à organização social. em grego. com a aspiração a um Estado mundial governado pela Igre­ ja Católica. Seriam. como veremos. ideológica. estes cínicos. os hip­ pies da época.. não sobre os outros homens”. pois a sociedade. na Enciclo­ pédia Anarquista: “o anarquismo se resume a uma só palavra: LIBERDADE”. mais os assemelharia aos cães. defensor intransigente da propriedade privada das coisas materiais. corrente de pensamento que teve em Diógenes um de seus expoentes. “teoria que se opõe a qualquer tipo de governo forçado” (Bertrand Russel). e o Estado deve ser abolido” (B. b) repulsa ao Estado. Talvez por isto Sébastien Faure anotou. socialismo científico. em sua des­ crição. por volta de 1920. em sua feição original. Diz ele: “Deus concedeu aos homens o domínio sobre os irracionais. com repúdio à coopera­ ção forçada. Mulford Q. notoriamente. não a aceita. Referido autor compilou suges­ tivas conceituações do anarquismo. principal obstáculo à realização indi­ vidual plena do homem. política. mas vários. coercitiva. Tucker). no século V a. não aceitando os cínicos em seu estranho modo de vida. significa cão. que. Também os estoicos (vida espontânea. sem a preocupação de obter bens terrenos. não deixou de apresentar simpatia pela afirmação de uma igualdade essencial entre os homens. a raiz da palavra cínico: ela deriva de cinos.204 Teoria Geral do Estado única verdadeiramente científica. Zenker). desde logo. O cristianismo. no qual o homem seria realmente livre. porque convertido ao cristia­ . social ou econômica. c) divergencia quanto à aceitação da propriedade indivi­ dual. respeitar con­ venções ou submeter-se às leis e convenções sociais. Afirmavam os cínicos que o homem deve viver de acordo com a natureza. uma dicotomia inicial quanto às espécies de anarquismo: a) anarquismo ro­ mântico. a liberta­ ção de todo poder superior. o anarquismo pode ser definido como descrença da necessidade da sociedade constituída” (E. e um anarquismo comunista. Santo Agostinho em sua obra A cidade de Deus afirma a ilegitimidade de todo poder de um homem sobre o outro. “doutrina segundo a qual todos os negócios dos homens devem ser conduzidos pe­ los indivíduos ou por associações voluntárias. conforme a natureza) e os epicuristas (exaltação do prazer individual e consequentemente recusa das imposições sociais) foram correntes antecessoras do moderno anarquismo. nominando-a. aspirando a uma fraterni­ dade universal e à condenação da luta pelo poder. assim: “etiologicamente. Sibley destaca algumas características comuns aos anarquismos: a) cooperação voluntária e ajuda mútua na vida do homem. b) anarquismo pragmático. havendo um anarquismo individualista. porém. V. Na esteira do pensamento de Santo Agostinho vêm Isidoro de Sevilha e Dante Alighieri. não existe um anarquismo apenas. Sua primeira manifestação pode ser encontrada na an­ tiga Grécia. As origens históricas do anarquismo (ou anarquismos) exigem. com os cínicos. não a agride. seja qual for sua natureza.

Adversário do capitalismo. na França. a dissentir da orien­ tação dada por Marx ao movimento revolucionário. embora um dos expoentes do anarquismo. Logo simpatizou com a doutrina dc Proudhon e a dc Marx. à parte as velhas utopias dc Thomas Morus e Tommaso Campanella. que concederia crédi­ tos gratuitos a todos aqueles que desejassem tornar-se produtores. e Piotr Kropotkin (1842-1921). Entretanto. halbúrdia. a afirmação libertária e a negação do Estado e.1-7). e pressionada tanto pela alta finança como pelos operários revolucionários de nível mais baixo. contudo. logo a abandonou. foi considerado como invo­ luntário precursor do fascismo. em busca de independência econômica. mediante a divisão da França em doze regiões independentes. como visto. não tardaria. Proudhon preconiza­ va a organização de estabelecimentos de crédito populares. dedicando-se ao estudo da filosofia na Alemanha. mediante sociedades dc crédito mútuo. a concepção materialista da História e a ditadura do proletariado. Brissot de Warville. não se restringindo a refrear sua antipatia ao campo verbal. que. cm princípio. controlada por Marx. em 1872. com efeito. na Primeira Internacional. ingressou. tudo isto matizado ainda mais pelo nacionalismo eslavo. desor­ dem. também francês. hoje. dela restou uma frase célebre: “A propriedade é um roubo!”. Após muitas vicissitudes. que não era sua. preconizava um federalismo singular. Ferrenho adversário do Estado. Por defender os direitos de uma classe média. aplicado aos seus seguido­ res. pro­ vinha da aristocracia russa. consubstanciado nas sentenças: “Dar a Cé­ sar o que e de César e a Deus o que é de Deus” e “Todo o poder vem de Deus”. as concepções vigorosas dos anarquistas Pierre-Joseph Proudhon (1809-1865). com seus partidários. no primeiro. desorganização . colocando um hífen entre os semantemas an e arquista . o que não significaria. um tanto esquecida. da qual foi expulso. é nesta época que surge o adjetivo anarquista. Iniciado na car­ reira militar. que desejassem plena autonom ia cm sua atividade. inevitáveis na carreira de um homem de ação. de ancestrais czaristas e latifundiários. em 1868. an-arquista. o cristianismo anárquico original vai perdendo sua pureza doutrinária já com a afirmação de São Paulo. incensando. que ele rebatizou com o nome de ditadura invisível. Quanto a Mikahil Bakunin. procurando firmar bem que o ideal a que ele aspirava seria o de uma vida comunitária sem governo. Proudhon foi o primeiro teó­ rico a autodenominar-se anarquista . no segundo. mas de um girondino. na Epístola aos Romanos (13. Cunhado pelo próprio Bakunin. Advogava. Embora a obra de Proudhon esteja. condena as tendências anarquistas do cristianismo primitivo e afirma o dever cris­ tão de obediência à autoridade terrena. Muitos séculos mais tarde encontraremos. Dotado de temperamento violento. forma­ da por trabalhadores independentes. na Bélgica c na Suíça. a tutela dos interesses dos pequenos produtores. pendor que demonstrou no auge da cisão anarquis­ . Mikhail Bakunin (1814-1876). Daí o apoio às suas ideias proporcionado por profissionais de nível superior e al­ tamente qualificados.8 Ideologias 205 nismo.

muito menos. não ficou impressionado ou estarrecido com as concepções de um Proudhon. de cor­ po e alma. Ao contrário de Bakunin. e contra o Estado e o capitalis­ mo. livre de explorações e de injustiças. ou seja. oriundo da Escandinávia. especialmente A conquista do pão e Me­ mórias de um revolucionário. com a subsequente im­ plantação dc um coletivismo representado pela tomada violenta dos meios de pro­ dução pelos trabalhadores. ficará. Afirmava Bakunin. ao agredir com bengaladas. Blanqui e Bakunin. por conseqüência. naturalmente honesto. Admirador sincero de Bakunin. o próprio Marx. mas uma denúncia permanente contra as injustiças sociais. na sociedade humana. Seu anarquismo não visa. e desde que educado nos princípios sadios do anarquismo. Bakunin advogava a imediata supressão do Estado. dinheiro. a abolição imediata do Estado e. Estudante na Universidade de São Petersburgo. Porque para ele o ho­ mem é bom. não deixava de ser um sonhador. do poder. Ao longo de suas obras. defendendo. sem fama. de um Bakunin ou de um Kropotkin. que cultivava a geografia e a zoologia. e que. ele idealiza um permanente estado de alerta da so­ ciedade contra a exploração do homem pelo homem. a tese de que. então: A destruição do Estado permitirá o surgimento de relações sociais livres. Desesperados. eles viam na abolição imediata e radical do Estado uma solução muito mais promissora do que aquela da desaparição gradual do Estado. ao contrário daquilo que fora previsto por Marx. mesmo nos tempos pré-históricos. sem trabalho e. mais do que a luta pela vida. cada qual não recusaria. 110 mínimo. Kropotkin não foi um revolucionário 110 sen­ tido estrito do termo. que o havia acusado de pertencer à polícia secreta da Rússia czarista. Com tal concepção. por outro lado. alarma­ do com as ideias de Sergei Netchaiev (1847-1882). ao trabalho comunitário. funda­ das na solidariedade inata do homem e na celebração de contratos espontâneos e as­ sociações voluntárias. em prol do bem de todos. embora curtindo a desdita do cárcere comum aos agitadores. a mera encampação dos meios de produção pelo Estado e a organização de uma ditadura do proletariado. Kro­ potkin era um verdadeiro intelectual. por isso devemos acres­ . o auxílio mútuo entre as pessoas seria um fator natural da evolução. Piotr ou Pedro Kropotkin também era des­ cendente da nobreza russa. Quem. dedicar-se. não foi difícil para Bakunin ar­ regimentar toda sorte de intelectuais e profissionais frustrados da classe média. mais precisamente da primeira dinastia da Rússia. durante seis anos. desenhada por Marx. até agora. em âmbito cada vez mais amplo. já se vê. na obra Ajuda mútua.206 Teoria Geral do Estado tas/marxistas. segundo se afirmou. em sua profunda erudição. até que seja efetuada a completa unificação internacional. fun­ dada pelo príncipe Rurik. A nova sociedade ensejará o aparecimento de associações natu­ rais. logo tornou-se adepto de Babeuf. Afirmava que qualquer meio é válido para a defesa de uma boa causa.

aparências e convenções ou moralismos geralmente aceitos neste mundo que para ele é um inimigo impiedoso. No mais íntimo do seu ser. sentimentos. Eles devem ser continuamen­ te impelidos para diante. tudo seria válido para este enfant terrible do anarquismo. propriedade. entre inúme­ ras façanhas..a revolução. 2. certamente. ne­ gócios. Se tiver que continuar a viver nele. de modo que não lhes sobre nenhum caminho para fu­ gir c usá-los como instrumentos dc perturbação da ordem do país. Para ele o que quer que ajude o triunfo da revolução 6 ético. 5.teóricos (refere-se aos adversários dc Bakunin dentro do campo revolucionário). Entre ele. é o famoso Catecismo do revolucionário. revolucionários. De sua autoria. instados a fazer declarações práticas subversivas.8 Ideologias 207 centar à sua lista de mestres o notório Nicolau Maquiavel. como a de escapar da inexpugnável fortaleza dc São Pedro e São Pau­ lo.. uma só paixão . Tudo nele é absor­ vido por um exclusivo interesse. pessoalmente. 15. mas que são pouco ativos. Ele não tem interesses pessoais. não apenas em palavras mas em atos. Deve estar pronto para morrer a qualquer momento. nem sequer um nome. É preciso entrar na posse de todos os seus segredos. originalmente transcritos por Max Nomad em sua obra Heréticos da política: 1.que pode ser travada secretamente ou abertamente. 4. pois com eles pode-se conspirar nos termos dos seus próprios programas. A quinta categoria . Em nome dos princípios anarquistas revolucio­ nários. mas ao mesmo tempo não se deve permitir que escapem mais. e do qual extraímos estes excertos. que. Todo o ignóbil sistema social deve ser dividido em várias categorias. cujo resul­ . não deve esperar compai­ xão. por sua vez. dedicações. e deve treinar para suportar torturas. comprometê-los ao máximo. o Estado e as classes dominantes há uma guerra contínua c irreconciliável . onde cstivera preso. assassinou. 20. conspiradores. tudo o que o impede é contrário à ética e criminoso. A quarta categoria consiste nas autoridades ambiciosas e liberais de vários matizes. O revolucionário é um homem condenado. O revolucionário é um homem condenado. séculos antes: “O fim justifica os meios” . que alguns atribuem indevidamente ao próprio Bakunin. Ele despreza a opinião pública. um só pensamento. De­ ve-se convencê-los de que são obedecidos cegamente. que já dissera. que expõem suas ideias pe­ rante grupos ou pelos jornais. 19. uma camarada que se recusara a obedecê-lo incondicionalmente. será somente com o propósito de destruí-lo com mais certeza. É impiedoso cm relação ao Esta­ do c a todo o sistema das classes privilegiadas. Despreza e odeia a moral dos dias de hoje com todas as suas motivações e manifestações. com as leis. o revolucio­ nário não tem qualquer ligação com a ordem social e com o mundo civilizado.

seu canto de cisne foi a prática de tremendos atentados terroristas: aos seguidores de Bakunin se atribuem os assassínios dos pre­ sidentes McKinley e Carnot (dos EUA e da França. É justamente nisto que reside o ponto original do anarquismo: a inexistên­ cia de poder coercitivo. desde a fundação do poder estatal dc Moscou.208 Teoria Geral do Estado tado seria a completa destruição da maioria e o verdadeiro treinamento revolucionário de apenas alguns. respectivamente). enfim. bem como do rei Humberto I. da jurisdicidade. a vida em sociedade por normas espontaneamente cumpridas. embora as normas sociais continuem existindo. 25. no Brasil. e que apresenta inúmeras variantes. realizaram inúmeras greves e. império da de­ sordem. N. como o sindicalismo revolucionário e o sindicalismo reformista. na ver­ dade. trata-se de uma corrente ideológico-pragmática. governo. negação. esses devem cooperar da . da Itália. Anarquismo não significa confusão. Portanto. segundo o qual os sindicatos operários devem ser a base da administração social e industrial numa sociedade socialista. Estendamos as mãos à raça audaciosa dos bandidos . mediante um consenso social. então. Confor­ me G. das quais poderiam ser apontadas duas: “ação coletiva para proteger c me­ lhorar o próprio nível de vida por parte dos indivíduos que vendem sua força de trabalho” (Allen). Desmembremos o vocábulo anarquia.os únicos genuínos revolucionários da Rússia. mas. Existem inúmeras definições dc sindica­ lismo. direta ou indiretamente. a burocracia. em São Paulo e Rio de Janeiro. Apelando sempre mais para a violência. o clero.sugere é. o termo sindicalismo pode ser empregado em dois sentidos: a) doutrina ou movimento social. No que tange ao sindicalismo. oriunda da Revolução Industrial. embora possa não haver o poder. não de normas sociais. após a qual começou o declínio do movimento também em todo o País. O que o anarquismo . as guildas (significando os comerciantes e capitalistas em geral) e contra o parasitismo dos kulaks. para nos aproximarmos cada vez mais do povo. ou “um estado da sociedade em que a indústria será controlada pelos que nela trabalham. grupos de imigrantes italianos e espanhóis formaram grupos anarquistas que realizaram uma vasta greve operária no ano de 1917. Ubi societas ibi jus. ainda no final do século X IX . o anarquismo foi perdendo adeptos. estivesse ligado ao Estado: contra a no­ breza. na base de sociedades livres. onde houver sociedade haverá direito. moderado. isto é. ele c grego. nos EUA. Em Chicago. devemos antes de tudo ligar-nos àqueles elementos das massas que. b) ação mi­ litante por parte dos sindicatos operários. inexistência degoverno. e arkos. Ostergaard. jamais cessaram dc protestar não só com palavras. mas também com fa­ tos contra tudo o que. da coercibilidade. segundo os anar­ quistas. É no estudo do anarquismo clássico que perceberemos a imprescindibilidade das normas sociais de conduta. vale dizer. este. sem necessidade de um órgão que as faça cumprir pela força. despoja­ das. afirmava Aristóteles.embora no mundo das utopias . de a.

mas servirá para arrancar as massas trabalhadoras de seu marasmo! Tal movimen­ to é. Interessa-nos. embora atribuída por muitos a Georges Sorel (1846-1922). sua variante mais original. batizaram-no com o nome de anarcossindicalismo. recebendo influências doutrinárias dc Pierre-Joseph Proudhon. O que vem a ser mito. na concepção soreliana? Mito . porém. al­ guma originalidade no pensamento soreliano. Tais ideias seriam robustecidas pela doutrina de Georges Sorel. fundado no princípio dc que o próprio sindicato seria o instrumento dc luta re­ volucionária. na qual prega a revolução proletária mediante a atuação violenta de uma facção operária mais hábil e inteligente. Sorel dedicou-se. Henri Bcrgson e Karl Marx. Não se pretende. a partir dc 1892. esta organização evidenciaria. enfim. o mito da greve gerai No dizer de Sorel. de imedia­ to.8 Ideologias 209 maneira mais eficiente na produção de todas as necessidades da vida. do qual se desiludiu em face dos métodos terroristas atribuídos a esta doutrina. Marxista de início. que. Curiosa­ mente. continua. profunda hostilidade contra o intelectualismo. desejando ressaltar seu caráter antiestatal c descentralizador. Desejoso dc consolidar uma nova ideologia que estabelecesse uma pon­ te entre a revolução e o meio operário. entretanto. criou o próprio sindicalismo revolucioná­ rio. Pelloutier enveredou pelo anarquismo. porém. fundada nos mitos revolucionários e na violência passiva da greve geral. neste capítulo. Curiosamente. e organizadora de uma comunidade sem a carapaça estatal. somente podendo ser admitidos a seus quadros operários ou pequenos artesãos. Existe. fazer neste manual introdutório um estudo mais alentado do sindicalismo in genere.diz ele . agora detentora dc todos os meios de produção. Sorel tornou-se conhecido principalmente pela obra Re­ flexões sobre a violência. teria início a reconstrução social. igualdade . uma elite. pa­ rece encontrar sua paternidade em Ferdinand Pelloutier (1867-1901). comandada por uma fe­ deração universal de sindicatos operários. originando uma variante nova do movimento operário. o próprio Sorel admite que tal movimento não terá condições de se impor. organização de imagens que levam ao combate e à batalha. alguns sindicalistas bandearam para as fileiras do anarquismo. o sindicalismo revolucionário.é o conjunto ligado por imagens motoras. sem dúvida. de índole meramente cooperativa. seu criador granjeou grande parte de sua fama por ter sido cultuado e invocado na praxis política de um notó­ rio adepto da violência: Benito Mussolini. O mundo res­ sente-se da falta de mitos. Os mitos do liberalismo (liberdade. Engenheiro dc profissão. Uma socie­ dade na qual os parlamentos e governos terão desaparecido. hipótese de resto confirmada pelo próprio Sorel. um mito. caracterizando esta luta a ação direta e a greve geral. Vitorioso o movimento sindicalista. Embora seja autor dc inúmeras obras c tenha dirigido várias publi­ cações de caráter político. tendo realizado seu propósito para com o sistema capitalista'’ (Mann). Tal doutrina. a greve geral seria o mito do futuro. assim. o inspirador do fascismo. aos problemas so­ ciais. Após a Primeira Grande Guer­ ra.

bem como sobre os conflitos decisivos que venham a dar a vitória ao proletariado. Sorel esclarece: É necessário considerar os mitos como meios de atuar sobre o presente. a necessidade da violência e a organização corporativa do Estado. efetivamente. a democracia parlamentar à bolsa de valores. portanto. a organização sindical da sociedade e a rejeição do determinismo de Marx. a influência de Sorel na Itália foi ainda maior.os sindicalistas . de Bergson e de Proudhon. Distingue. integralmente. dentro de sua experiên­ cia histórica. como foi dito. com desprezo. o determinismo dialético marxista. onde o que conta é o di­ nheiro. como o predomínio das elites. a influência dc Sorel sobre Lenin não foi menor. o sindicalismo soreliano exige a abolição do capitalismo e do Estado e a nova estruturação da sociedade em associação produtora. que critica­ va. e vão atuar dentro das únicas organizações adaptadas à sua sensibi­ lidade: os sindicatos. a revolução operária somente será realizada mediante a violência. pois. O que importa. Para apreen­ der o verdadeiro alcance da ideia de greve geral é preciso. encontraremos influência de Flegel. um elemento fundamental. em nome de uma intervenção meramente voluntária das massas. Em Sorel. ademais. todas as aspirações do socialismo. Fundamentalmente. deixar de lado to­ das as formas de discussão comuns entre políticos. tal panorama poderia constituir. É inú­ til. Só a inter­ venção “violenta” de uma fração esclarecida da classe operária . este apoiado em mitos. comparando. Sorel viria a ser o profeta do sindicalismo revolucionário. em Marx. mito e utopia. sendo certo que o fascismo adotou várias posições sorelianas. exemplificando com o socialismo utópi­ co e o socialismo científico. raciocinar a respeito de incidentes que se possam produzir no curso da guerra social. durante a prepa­ ração da revolução. mesmo que os revolucionários se equivocassem totalmente ao criar um panorama fantástico da greve geral. bem como dos anarquistas pragmáticos. As massas agem por intuição. Já se percebe que várias premissas podem ser pinçadas no cerrado pensamen­ to de Sorel: a ação direta em oposição aos meios parlamentares da luta pelo poder. é o mito em conjunto: suas partes so­ mente oferecem interesse pelo relevo que dão à ideia contida nessa construção. qual­ quer discussão a respeito de como aplicá-los materialmente no transcurso da História carece de sentido.210 Teoria Geral do Estado e progresso) devem ser substituídos pelos mitos revolucionários. Em Reflexões sobre a violên­ cia. sempre que admitisse. e trouxesse ao conjunto das ideologias revolucio­ nárias uma precisão e um rigor não contidos em outras formas de pensar. Se a influência do sindicalismo foi considerável na França. Ao lado de Sorel. de Marx. inadaptável à sensibilidade das massas e aos instintos destas. merece destaque o marxista Antonio Labriola (1843-1904). sociólogos ou pessoas propensas à ciência prática. Ele recusa. Paradoxalmente. ser o marxismo uma “ciência exata”. em face das cisões ocorridas nos movimentos socialistas deste país. portanto.

à gui­ sa dc correção dos desajustes trazidos pelo excessivo individualismo. a greve geral abolirá o Estado. Como encon­ trar o ponto de equilíbrio entre o interesse coletivo. I. O objetivo social. vendo nesta não um ser autônomo. 1962. Por outro lado. pecando pelo radicalismo. dupréel. Aristóte­ les (Vicia.. Enquanto a greve parcial não passa dc um meio de agitação e de organização local. eviden­ temente. Ar i s t ó t e l e s . Espasa-Calpe. Ismael S. Espasa-Calpe. Presses Universitaires de Bruxelles. Eugè- ne. inegável. 1967. Gregorio R.8 Ideologias 211 revolucionários . e o interesse particular? Muitos. reorganizando a sociedade em associações de produtores. o papel dos sindicatos e de outros grupos sociais. 2. Madrid. Madrid. negam a própria socieda­ de. Totalitarismo y egolatría. platão. 3. Bruxelles. escritos y doctrina). também.poderá. O sindicalismo revolucionário exige a abolição do capitalismo do Estado. Os sindicatos subs­ tituiriam o Estado. Substituindo o Estado na condição de proprietário e de administrador dos meios de produção. que busca não destruir as estruturas sociais. estar acima dos objetivos particulares dos indivíduos que a integram. ressaltando. Aguilar. Por outro lado. a finalidade para a qual foi criada a sociedade. Madrid. y u r r e . Madrid. material ou espiritualmente. v. a sabotagem. dotado de fins próprios. Ao lado do sindicalismo revolucionário fala-se num sindicalismo reformista. para este fim. O grande pu­ blicista León Duguit demonstrou certa simpatia por algumas premissas do sindica­ lismo. mediante a greve geral. ed. porem aperfeiçoá-las. Aguilar. Há semelhança entre o sindicalismo revolucionário e o anarquismo no tocan­ te à adoção da ação direta para a destruição do Estado: ambos admitem a greve. o terrorismo: tudo é lícito para prejudicar o empregador capitalista. Traitc dc morale. foi imenso o fascínio exercido por seus exponentes em todo o mundo. e a sociedade passará a ser gerida pelos sindi­ catos dc produtores. cada qual dirigindo seus sindicalizados enquanto produtores. representado pela sociedade. q u il e s . que o homem faz parte da sociedade visando a satis­ fação de seu interesse em aprimorar-se. de. os sindicalis­ tas buscam atribuir tais funções aos sindicatos de produtores. deve. 1963. Embora jamais tenha sido muito clara a doutrina sindicalista no tocante à na­ tureza da estrutura social que substituirá o Estado. mas apenas a soma . tirar as massas de seu eterno tor­ por. 1979 (Obras completas). La república. 5) MECANIC1SM0 E 0RGANIC1SM0 Bibliografia: La política. 1982. os sindicalistas não fazem alusões quanto à capacidade das massas para o autogoverno. mais moderado.

Como lembra Gregorio R. A sociedade ou Estado . regida pelos critérios utilitaristas do máximo prazer. mas negam a floresta. visto que esta não passaria de mera soma dos indivíduos. Passa a considerar a sociedade e o Estado or­ . Diga-se o mesmo do individualismo proveniente do liberalis­ mo da Revolução Francesa. sinceros admiradores dos princípios individualistas que embasaram a Revolução Francesa. tímidas. denominado Século das Luzes. reconhe­ ce o todo nacional. como reação ao absolutismo monárquico ain­ da imperante na França. O móvel da ação individual do homem rebelde entronizado por esta ideologia seria.ele não distingue . como ocorre nas associações mercantis. ao enaltecer a razão triun­ fante sobre as trevas da Idade Média. denota de imediato uma tendência organicista. muitos intelectuais ligados ao romantismo foram. As primeiras críticas. de Yurre. que nega o próprio poder político. devendo cada homem ter a mais ampla esfera de au­ tonomia de conduta. representado. Com efeito. Porém. É o caso do individualismo extremado. o iluminismo proclamou a supre­ macia da razão individual sobre todo e qualquer princípio ou instituição fundados em fatores superiores ao indivíduo. a emancipação do indivíduo perante suas alienações políticas e religiosas. Edmund Burke (1729-1797) mostrou-se um crítico implacável do pensamento revolucionário. O ro­ mantismo. Veem as árvores. que encon­ trou seu epicentro na Alemanha derrotada por Napoleão. o im­ pulso vital da sociedade. pois mesmo 11a liberal Inglaterra. criadoras de uma nova visão do mundo. pelo anarquismo. Adam Müller (1779-1829). para um futuro dirigido pelo determinismo dialético. os ex­ cessos que este movimento tremendo produziu acabaram por minar a admiração pelo iluminismo. a nação como um todo. refratária a uma França liberal. por intermédio da qual os indivíduos recebem a vida espiritual e o bem-estar. Schlegel (1772-1829). Embora partidário da Revolução em sua juventude.212 Teoria Geral do Estado dos indivíduos que a integram. porém. Johan Gottlieb Fichte (1762-1814) e Georg Wilhelm Friedrich Hegel (1770-1831). particularmente. que foi. O romântico afirma que toda nação é um organismo que possui um modo próprio de vida. que se expressa prin­ cipalmente nas célebres Reflexões sobre a Revolução Francesa. sugestivamente. também.não é um simples agregado de seres humanos voltado para a satisfação de fins estritamente materiais. Tal pensamento não ficou circunscrito à Ale­ manha. de início. Sua obra. A reação não tardaria. portanto. temporal. representado pela filosofia iluminista do século XVIII. logo tornaram-se uma avalancha de objeções. enaltecedora da sociedade. revolucionária e. O próprio marxismo enquadra-se cm tal concepção mecanicista do convívio humano ao preconizar. suas instituições e seus costu­ mes são inconfundíveis com as demais. em oposição ao racionalismo e o universalismo da Revolução. Veio representada pelo romantismo organicista. Foi na Alemanha. Schlegel muda bruscamen­ te seu pensamento a partir de 1804. Destacam-se figuras do porte de Novalis (1772-1801). que o organicismo e a supervalorização do Estado chegaram ao seu grau máximo. A norma fundamental deste individualismo seria a opinião individual. suspeita. É muito mais do que isso: é uma comunidade mística. messianicamente.

por sua vez. impedindo que eles deixem o país. pois toda definição implica limitar o definido. A economia planificada deve fechar as portas do Estado ao comércio exterior. que se torna indefinível. com suas famílias. como afirmava o pensamento liberal. é lógico que ele não pode arguir direitos contra o Estado. O Estado autárquico será rigidamente planificado. da mesma ma­ neira que as células se desenvolvem no organismo vivo. nega que o indivíduo seja anterior ao Estado. ao publicar sua obra O Estado comer­ cial fechado. Para que a importância de sua contribuição para as ideias políticas seja aferida de pronto. e os seres humanos são apenas células que participam dessa vida. para os organismos sociais. Adam Müller. A estabilização da moeda é também um pon­ to programático de relevo. Hegel. a guerra. especialmente 110 que toca à apologia do . Evidente­ mente. o que a alma e a natureza exterior significam para os organismos biológicos. Daí sua aversão pelas tendências mecanicistas e individualistas da Revolução. No decurso dos séculos. a vida econômica deve estar rigidamente controlada pelo Estado. classes e corporações. A História. até que seja alcançado o estado de autarquia. na economia nacional. O livro é eminentemen­ te anti-individualista. significa. O comércio exterior ense­ ja a concorrência. a iniciativa e a liberdade individual não constituem o funda­ mento da vida social. O Estado controlará severamente a saída de seus súditos para o exterior. Quanto a Fichte. Sua influência sobre o fascismo italiano foi admirável. com seus costumes e tradições. é o Estado que cria o indivíduo. ficando as viagens ao exterior circunscritas às necessidades de es­ tudo e ciência. a origem da guerra reside na desigualdade econômica entre os Estados. Os ideais de Hegel eram pro­ fundamente anti-individualistas. pelo contrário. A preservação desta estru­ tura é pressuposto inafastável de qualquer Constituição. e esta. O Es­ tado é um organismo do qual depende a vida humana em sua totalidade. basta lembrar que seu pensamento constituiu a base de correntes opostas como o fascismo e o marxismo. o Estado é fonte de todo o direito. desfavoravelmen­ te. O Es­ tado é um organismo vivo. pois que esta é uma concessão do Estado. pois a oscilação da moeda repercute. Finalmente. Não há direito anterior ou superior ao do direito imposto pelo Estado. até mes­ mo a ciência é parte do Estado.8 Ideologias 213 ganismos vivos. com o fim de lazer ou curiosidade. até que se obtenha o equi­ líbrio entre a produção e o consumo. O indivíduo não cria o Estado. resultantes da evolução histórica. personali­ dade. que arrasou as estruturas orgânicas do Estado e reduziu a nação a um agregado inorgânico de átomos. como manifestação da vida espiritual. Para ele. é inimaginável a existência do homem apar­ tado do Estado ou anteriormente a este. Para Fichte. plasma-se a es­ trutura orgânica da nação. e na tendên­ cia de cada qual buscar sua hegemonia entre os demais. unicamente. lança as bases do futuro nacional-socialismo. mostrando-se uma reação às tendências liberais do seu tempo e à divisão da Alemanha em Estados independentes. O Estado é algo tão grandioso e abran­ gente. por si mesmo. Se o indivíduo não tem.

com agudeza. até chegarmos aos dois maiores totalitarismos do século X X : o fascismo. Lisboa. a algumas passagens da obra capital de Aristóteles. . por natureza. em al­ gumas passagens de sua obra. naquela concepção. tou . tido como a criação mais perfeita do homem. Barcelona. 1977. v. sur­ gem prematuramente na História. Aristóteles.. na Itália. o espírito de seu tempo. portanto. Mcxico... 1976. esta exótica tendência. por exemplo. Filósofos do porte de Platão e Aristóteles deixa­ ram-se empolgar pela suposta natureza totalitária do Estado. Astcr. não as árvores. o organicismo radical (totalitarismo) vê a floresta. e o nacional-socialismo. as diferenças essenciais entre o pensamento hegeliano e o nacional-socialista: a) o elemento básico da filosofia hcgcliana c a ideia (idealismo): o mundo é uma revelação da ideia. glorificador da sociedade em detrimento do indivíduo. Publicações Europa/América. 2. que. b) Hegel constrói sua teoria sobre a supremacia do Estado. - Rubén Salazar. antecipando muitas premissas do totalitarismo contemporâneo. Os perigos do organicismo radical. Facultad dc Ciências y Políticas chard Sociales. desenvolver-se-ia um inadmissível organicismo radical. Gregorio R. Minha luta . Roger. 7. Permitir-nos-emos fazer referência. mas sim na nação (Volk). El derecho y el estado en la d octrina nacional-socialish i t i . 1940. Mussolini. El Estado corporativo fascista. História das idéias políticas. mesmo porque esta ideo­ logia totalitária não via 110 Estado o fundamento da sociedade. Globo.214 Teoria Geral do Estado Estado. a influência de Hegel sobre o nacional-socialismo não foi das maiores. 1963. não deixou de assimilar. O elemento bási­ co da Weltanschauung nacional-socialista é a raça (racismo). r ta. deixando fluir. Adolf. que formam a pedra angular da estrutura política. e o nacional-socialismo reduz o Estado à ca­ tegoria de meio e instrumento em mãos do Führer e de seu partido.. Curiosamente. tem apenas deveres para com o Pastado. ed. Jean. roux . o todo prevalecendo. 11a Alemanha. Porto Alegre. de maneira absoluta.] a cidade (Estado) e. anterior à família e a cada um dc nós conside­ rados individualmente. Bosch. . intitulada Política: “ [. 1950. incensando a prevalência absoluta do Estado sobre o indivíduo.. Gcorge. dc Yurrc aponta. . Capítulo II). 6) TOTALITARISMO: FASCISMO E NACIONAL-SOCIALISMO Bibliografia: mallén bonnard . Lisboa. de certa forma. É necessário que o todo anteceda a parte [.f.]” (Livro Primei­ ro. aqui. Ao contrário do mecanicismo anarquista. sobre as partes. Na linha do pensamento organicista.

Capítulo I).. se a concepção organicista ou totalitária da sociedade é tão antiga. Entretanto..] as mulheres grávidas devem cuidar de seu corpo. criada pelo liberalismo. será praticado o aborto. tendo sido criado pelo próprio Mussolini. ordenan­ do-lhes que programem um passeio diário.. sem evitar exercícios nem to­ mar uma dieta excessivamente frugal. “Como a finalidade do Estado é uma só. em discurso célebre proferido no dia 22 de junho de 1925.] visto que é dever do legislador considerar. Não foi por acaso. eis que. é necessário promulgar uma lei que proíba a sobrevivência dos seres disformes. levar-se-á cm conta a ausência ou presença de sensação e vida” (Livro Sétimo. Capítulo I). “ [. Sc um casal fecundar fora deste li­ mite. já que cada um é parte deste” (Livro Oitavo.. temos que admitir que os cidadãos não se pertencem. no Quarto Con­ gresso do Partido Nacional Fascista. que iMussolini tinha como um de seus livros prediletos A república. do homem soberano. e que ela esteja a cargo do Estado e não dos particulares (Livro Sétimo. deve ser estabelecido um limite numérico à procriação. Em outras passagens da Política. certamente.. c para que tal prática possa ser considerada respeitável ou desprezível. Capítulo II). dc que forma as crianças terão uma constituição física perfeita.. estabelecendo quando e em que condições um casal pode procriar (. Capítulo XVI). antes que apareçam a vida c a sensibilidade do embrião. pois todos per­ tencem ao Estado.8 Ideologias 215 “As questões de interesse público devem estar sujeitas a uma supervisão pública. já se vê. o termo totalitarismo é relativamente recente.) ” (Li­ vro Sétimo. ao mesmo tempo. A palavra totalitarismo refere-se a uma concepção política que sc mostra cm franca oposição à doutrina do cidadão abstrato.. o bárbaro no mesmo nível do escravo: “é normal que os gregos governem os bárbaros. ci­ tando Eurípedes. “ [. Por outro lado. A ideia totalitária. Aristóteles revela xenofobia. os germes do totalitarismo moderno. à saciedade. no qual honrarão as divindades protetoras do bom parto” (Livro Sétimo. Enquanto este se fundamentava na plena autonomia individual. Capítulo XVI). desde logo. bárbaro e escravo são a mesma coi­ sa [.]” (Livro Primeiro. Capítulo XVI). É fácil para o legislador assegurar isto. se o número de nascimen­ tos se mostrar excessivo. “No que toca à exposição e criação dos infantes. precedeu o verbo. ao colocar. e se a tradição proibir a exposição do recém-nascido.. Tais indícios revelam. por natureza. fica evidente que a própria educação de to­ dos há de ser necessariamente una e idêntica. de Platão. é necessário atentar para a disciplina das uniões conjugais. colo­ .

a concepção fascista da sociedade é totalitária: a totalidade dos indivíduos submetidos ao poder político e a totalidade da manifestação pessoal de cada um acham-se sob a égide do Estado. e o Es­ tado fascista. porque. c na von­ tade do povo. que se tornaria uma das principais características do fascismo: Nem indivíduos nem grupos . cm 1925. à medida que este sc harmoniza com o Estado. que paralisa o movi­ mento histórico na luta de classes e ignora a unidade do Estado. ao passo que para o fascismo. É contrário ao liberalismo clássico. fascismo e nacional-socialismo. O fascismo opõe-se. vão mostrar poderosas reações a tal concepção. E se a liberdade deve ser o atributo do homem concreto e não do fantoche abstrato criado pelo liberalismo indi­ vidualista. Como se percebe desde logo. Os direitos do indivíduo . no verbete intitulado “A doutrina do fascismo”. Com efeito. já afir­ mava. movimenta e domina toda a vida do povo. relativo é o interes­ se individual.diz Rocco não são mais que o reflexo dos direitos do Estado. associações.partidos políticos. que funde as classes . a liberdade é uma concessão do Estado. Rocco abre comba­ te contra a liberal-democracia e o socialismo. Esta opção é pela única liberdade que pode ser considerada seriamente. que cnccrrou sua missão histórica. o principal problema é o do direito do Esta­ do e do dever do indivíduo e das classes. sindicatos. que militou politicamente nas fileiras do fascismo. exatamente como todos os di­ reitos individuais. sendo o indivíduo o fim e a sociedade o meio. portanto. Por isso. então o fascismo opta pela liberdade. síntese e unidade dc todo valor. Neste sentido o fascismo c totalitário. ao socialismo. eminente jurista italiano. que a concepção atomística e mecânica da sociedade c do Estado. Mais adiante. nascido da ncccssidadc dc reagir contra o absolutismo. Alfredo Rocco (1875-1935). consciência c vontade universal do ho­ mem cm sua existência histórica.216 Teoria Geral do Estado cando a liberdade individual no ápice da escala de valores a ser respeitada pelo Es­ tado e atribuindo ao poder político apenas e tão somente a manutenção da ordem pública. resultante da Reforma protestante e do jusnaturalismo dos séculos XVII e XVIII. Mussolini refere-se ao sistema corporativista.fora do Estado. era totalmente estranha ao pensamento italiano. para o fascismo tudo está no Estado e nada humano nem espiritual existe e. interpreta. a concepção fascista é para o Estado e para o indivíduo. classes . integrante da famosa Enciclopédia italiana. as duas doutrinas totalitárias do século X X . a liberdade do Estado e do indivíduo no Estado. a fortiori. o fascismo eleva o Estado à condição da verdadeira realidade do indivíduo. para estas doutrinas. a socie­ dade não tem vida distinta dos indivíduos. nada tem valor fora do Estado. Absoluto é o interesse social. o próprio Mussolini esclarece: Anti-individualista. O liberalismo negava o Estado em favor do indivíduo. Numa obra intitulada A doutrina do fascismo e o seu lugar na história do pensamento político.

como vontade ética universal. o fascismo pretende que. que servia de base aos estudos dos publicistas dos Estados nacionais do século X IX . encontram-se sindicalizados confor­ me as diversas. Ao contrário. personali­ dade. no Estado fascista. isto é. que instituiu. que dá ao povo. são. uma existência real. era esta a redação do art. Tal personalidade superior é nação enquanto Estado. política e econômica. em espe­ cial a brasileira de 1934. como uma única consciência e uma única vontade. como deve ser. que é uma vontade de existência e dc poder: é consciência dc si. sob a inspiração italiana. como dizia a velha concepção naturalista.1927. em uma espécie de Estado já in fieri. I o da referida Carta: I .. isoladas ou agrupadas. Com efeito. Sem embargo disso. O fascismo. mais coerente e mais verdadeira. O direito de uma nação à independência não se acha fundado na consciência literária ou ideal de sua própria existência e. como um ideal que tende a se realizar na consciência e na vontade de todos. Não é a nação que cria o Estado. que se encarna 110 povo como consciência e vontade de um pequeno número ou de um apenas. consciente de sua própria unidade moral. N ão se trata de raça ou de uma região geográfica determinada. a representação profissional. integralmente. e também ao sindicalismo de classe. numa situação de fato mais ou menos inconsciente e inerte. De todos aqueles que. . uma vontade e. com maior clareza ainda. porém. opõe-se à democracia que absorve o povo na maioria dos indivíduos e o rebaixa a tal nível. mas de um agrupamento que sc perpetua historicamente. em virtude da natureza ou da história.A nação italiana é um organismo dotado de fins.04. pelo menos se o povo for concebido. o fascis­ mo é a forma pura de democracia. e sim numa consciência ativa. a nação é criada pelo Estado. portanto. e significar a ideia mais po­ derosa por ser a mais moral. numa vontade política que atua e que está disposta a demonstrar o seu direito. que se realiza. menos ainda. na órbita do Estado.. meios de ação supe­ riores em poder e duração àqueles das pessoas. documento que inspirou inúmeras Constituições da época. Este não é nem o número nem a soma dos indivíduos que for­ mam a maioria de um povo. e as considera no siste­ ma corporativo. O Estado. que a formam. formam etnicamente uma nação. publicada na Gazzeta Ufficiale. antes dc tudo c sobretudo.8 Ideologias 217 numa única realidade econômica e moral. as exigências reais que deram origem ao movimento socialista e ao sindicalista sejam reconhecidas. Os indiví­ duos formam as classes conforme seus interesses. seguem a mesma linha de desenvolvimento e de formação espiritual. cria o direito. dc uma multiplicidade unificada por uma ideia. vida. Porém. o Estado. no qual tais interesses se conciliam na unidade do Estado. 30. As tendências organicistas e totalitárias do fascismo italiano ressaltam-se. É uma unidade moral. na famosa Carta dei lavoro. por conseguinte. em seu aspecto qualitativo e não meramente quantitativo. atividades econômicas e cointeressadas.

desaparecesse a civilização ao nível em que é encontrada atualmente nas nações mais adiantadas. fonte primária do di­ reito. . deve decidir inspirado no que­ rer supremo do Führer. comunidade abstrata. O Estado fascista e o nacional-socialismo foram. mas como um meio. embora organicista e totalitário como o fascismo. com o desaparecimento dos arianos. considerado. sem o qual não se pode falar em nacional-socialismo. formadores de cultura. tudo o que diz respeito à defesa da raça. os dois Estados essencialmente totalitários na modernidade. É a base sobre que deve repousar uma mais elevada cultura humana. por outro lado. o espírito (Volksgeist) da nação deve ser quase misticamente intuído pelo juiz. Mais adiante: () Estado é um meio para um fim. é muito claro neste sen­ tido. cxcrcsccncias da vida social. tal doutrina não contrapunha ao indivíduo o Estado. que. Com a. o conceito de Volksgemeinschaft. a ser repudiado. Sua finalidade consiste na conservação e no progresso de uma coletividade sob o ponto de vista físico e espiritual. a expansão dc todas as forças a cia imanentes. assim. Ouçamo-lo: O grande princípio que nunca deveremos perder de vista é que o Estado é um meio e não um fim. segundo seus doutrinadores. permitindo. de capaci­ dade civilizadora. O positivismo vem. desta forma. Essa conserva­ ção abarca. exclui o conceito da Rechtsgemeinschaft. sob a liderança (Führung) de um chefe (Führer). sendo substituído por uma espé­ cie de doutrina do direito livre. na doutrina fascista. o nacional-socialismo não vê o Estado como um fim cm si mesmo. Os Estados que não atendem a tal objetivo são seres artificiais. Em suma. Poderia haver centenas dc Estados-modclo no mundo c isso não im­ pediria que. Fundamentado no sangue e na raça. pelos excessos do individualismo liberal. o desenvolvimento es­ piritual. utilização dc tais forças. mais do que criar o direito com base em sua própria valoração do interesse social. a única fonte do direito. Adolf Hitler. pela qual o juiz. Tal cultura depende da existência dc uma raça superior. é o verdadeiro intérprete da alma popular (Volksgeist).218 Teoria Geral do Estado Já para o nacional-socialismo não vigorava um princípio positivista na concep­ ção do Estado. certamente. embora anti-individualista como o fascismo. comunidade vi­ vente. mesmo porque jamais negaram tal postu­ ra justificada. ao versar o Estado em sua autobiografia intitulada Mein Kampf (Minha luta). em última análise. mas não c a causa desta. mas uma nova entidade. Como adverte Guido Fassó. a nação (Volksgemeinschaft). e implica o enfraquecimento de qualquer direito do indivíduo. que possui direitos apenas en­ quanto membro da comunidade e de acordo com os fins desta. promover-se-á a defesa da vida física e. antes de mais nada.

8 Ideologias 219 O Estado socialista soviético é totalitário.1. uma das diferenças en­ tre a autocracia e o totalitarism o . ao lado da pedra lascada e da roca dc fiar. Analisemos. b) sistema de partido único. enquanto doutrina dc libertação do indivíduo . sim. que nos períodos de ditadura conhecia um poder transitório. dirigido por um líder. 6. é. Quando a sociedade comunista chegar. não é totalitário. Nisto reside. liberalismo. a única diferença entre ambos reside no método adotado por um e ou­ tro na persecução da mesma finalidade : a liberação do indivíduo dos excessos do poder absolutista ou do poder econômico dc uma classe dominante. fenômeno da tecnologia moderna e da democracia de massas. originário da União Soviética.1) Características do totalitarism o Quais as características do totalitarismo? Carl Joachin Friedrich afirma que o totalitarismo. com brevidade. inevitavelmente. d) concentração dos meios de propaganda no Estado. ne­ cessariamente. Pode-se. cada uma destas características. aliás. sob o com ando de um líder O sistema de partido único. Por exemplo. em essência. o totalitarismo é uma concepção global do Estado que não adm ite a supremacia do individual so­ bre o social. A autocracia. o socialismo. Apenas aparentemente o liberalismo é antípoda do socialismo. sendo. 6. que não vicejava. característica do fascismo e do nacional-socialismo. definida por Hans Kelsen como a forma de governo que. o Estado já estará extinto e fazendo parte do museu da História. O desenvolvimento do liberalismo acarreta. f) direção estatal da economia. que abrange to­ dos os aspectos da vida humana. autocrático. Ao contrário. num Estado totalitário. conceber um poder autoritário num Estado que não seja totalitário. A autocracia é uma forma de governo. em especial.1) Ideologia oficial No Estado totalitário há um corpo oficializado de doutrina. c) controle policial da manifestação política exercido pelo Estado. um dos pilares do . O marxismo. 6. por outro lado.1. na verdade. apre­ senta os seguintes dados identificadores: a) ideologia oficial. na irônica obser­ vação dc Engels.2) Sistema de partido único. contudo. mas apenas à medida que cons­ titui uma etapa necessária na marcha para o comunismo. a Roma republicana. anarquismo e socialismo são filiações de uma mesma concepção da sociedade. totalitário. envolve um poder político que não c. reside no fato de o poder político ser exercido independentemente de limitação constitucional e dc participação do povo na esco­ lha c nas deliberações dos governantes. exaltando apenas a totalidade dos indivíduos . e) concentração dos meios militares. preconizada por Marx.

1. ao realizar a unidade popular. na Itália fas­ cista tivemos a OVRA (sigla proveniente dc piovra. encontraremas o próprio Duce. Partido e povo tendem. Quanto ao Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães (Nationalsoziãlistiche deutsebe Arbeitpartei). coordena-lhe a atividade” . nenhuma socie­ dade particular. com seus tentáculos). e contrária à comunidade.3) Controle policial pelo Estado Segundo a concepção totalitária do Estado. nunca foi considerado. pois. figurativamente. No século XV III as con­ . sente-lhe as necessidades. com a abolição global do isolamento humano.4) C oncentração da propaganda nas mãos do Estado A propaganda reveste-se de enorme importância atualmente. para impor-se à maioria. denotando bem o múl­ tiplo alcance do órgão. um partido na acepção do termo.220 Teoria Geral do Estado marxismo-leninismo. Ora. adepto ferrenho de Marx. de uma po­ lícia de caráter político. Daí é fácil depreender a necessidade. não pelo fato de que todos sejam filiados ao partido. Segundo Mussolini. o Esta­ do fascista não é um Estado democrático no sentido clássico da palavra democracia. As polícias administrativa e a judiciária (polí­ cia comum) existem em todos os Estados. a nação deve estar articulada em torno de um partido hicrarquizado. in­ cessantemente. 6. Na Alemanha nacional-socialista tivemos a célebre Gestapo (Geheime Staatspolizei). pelos próprios adeptos do nazismo. socialista exaltado. nenhuma atitude. será convertido em verdadeira en­ carnação c representação visível da unidade do povo. mas é um Estado democrático no sentido “de que adere estreitamente ao povo. guia-se espiritualmente. O partido deve ser a coluna dorsal do Estado c. a identificar-se. de que penetra a massa por mil caminhos. de que está em constante contato com ele. Ele pretende ser o representante visível da referida unidade: o seu fim não é orde­ nar ou exercer coerção. por ser contrária ao Estado. a fim de reprimir qualquer manifestação contrária ao Es­ tado. que. Mussolini foi. no cimo de sua hierar­ quia. vive-lhe a vida. a influência do mestre socialista vai tornar-se patente no papel transcendental que o Partido Fascista terá no Estado mussoliniano. com precisão. sendo sua finalidade prevenir (polícia ad­ ministrativa) e reprimir (polícia judiciária) as condutas antijurídicas.1. Conforme doutrina Alfredo Rocco. mas estimular os indivíduos a ade­ rirem à ideia nacional-socialista de união da nação alemã. que administra e fiscaliza. 6. mas por­ que o movimento. a vida de cada cidadão. no Estado totalitário. Salvetti Netto aponta. obtido. a diferença entre a polícia política e a polícia administrativa e a judiciária. em plena era tec­ nológica. pode ficar fora da órbita do Estado. em certo período de sua vida. mas para o povo em sua totalidade. Mussolini. polvo. e sim um movimento (Bewegung) que pretende representar não uma opinião pú­ blica particular para certo grupo de interesses.

a anexação da Áustria à Alemanha hitleriana foi o fruto de notável propaganda. Enquanto no socialismo soviético a propriedade dos meios de produção fica abolida. o que fez com que vários Estados hesi­ tassem em se aliar aos alemães. nenhum Estado totalitário de orientação fascista foi destruído sem intervenções externas. 6. A razão jamais poderá ser um instrumento adequado para a solução dos grandes problemas nacionais . o intelecto precisa ser complementado pela fé mís­ tica. . deixando dc mobilizar as forças militares e morais do povo. Quando a Alemanha titubeou na guerra psicológica que era travada pa­ ralelamente ao conflito armado. Um grande sociólogo de nossa época. seus objetivos. para a própria sobrevivência da ideologia revolucionária. Por outro lado. se as forças de resistência ao nazismo não tivessem definido. b) Hitler não teria dado muita importância à guer­ ra revolucionária. o excelente trabalho levado a efeito por Joscph Goebbels. Cheysens e Launay demonstram que a Ale­ manha foi derrotada na Segunda Guerra Mundial por dois motivos: a) falta de uma definição precisa dos objetivos da guerra. graças à força da propagan­ da. os aliados não teriam podido contar com os Estados ocupados pe­ los alemães. ensejou a consolida­ ção do poder de Hitler e dos objetivos do Partido Nazista. “O espírito fascista é vontade. ministro da Propaganda do Terceiro Reich. afirmou que. desde logo. 6. a iniciativa privada. o Estado fascista e o nacional-so­ cialista admitem. As na­ ções que não se expandem acabam por desaparecer. com restrições. jamais intelecto”. panfletos e vá­ rias publicações “subversivas” . pelo autossacrifício e pelo culto do heroísmo e da força. Dizia a doutrina fascista que a luta é a origem de todas as coisas. resultando dis­ so restrita ao máximo a liberdade individual”. Alfred Sauvy.6) D ireção estatal da econom ia Haba define o totalitarismo como “o tipo de organização jurídico-social ca­ racterizada basicamente por um Estado que tende a expandir ao máximo sua esfe­ ra de intervenção. Chevallaz. Na Alemanha. Lenin afirmava ser indispensável a agitação social e a propaganda política entre as camadas do povo. Em 1938.1. A guerra exalta e enobrece o cidadão e regenera os povos ociosos e decadentes. foi derrotada.8 Ideologias 221 cepções políticas da Revolução Francesa são divulgadas em livros.5) C oncentração dos meios militares Sendo o militarismo um dos mais expressivos meios do Estado totalitário para alcançar seus fins imediatos (segurança interna) e mediatos (expansionismo ou im­ perialismo) depreende-se a sua importância para doutrinas como o fascismo e o nazismo.prosse­ guem os doutrinadores fascistas. Num livro intitulado Os arquivos da segunda guerra mundial. abarcando a generalidade das relações humanas.1.

3) invocação às classes médias e ao proletariado para livrá-los do marxismo (socialismo e internacionalismo) e formar uma base popular para novos movimen­ tos. eslavos) só fez aumentar os temores da classe média. a Rússia já estava ameaçada por uma tremenda re­ volução. Por outro lado. Apesar de tais condições. é preciso tomarmos a expressão fascismo em sentido amplo e em sentido estrito. seus líderes tornar-se-iam mais ativos do que nunca em sua doutrinação. Entretanto. pontificando neste sentimento o movimento boulangerista (denominação inspirada no general Boulanger). embora sem nenhuma possibilidade de alcançar o poder. mas garantiam mui­ tos empregos. receosa de perder sua posição social. o socialismo e o co­ munismo. 2) forte antissemitismo. prenunciada em 1905. . Em nenhum país da Europa Ocidental a lei e a ordem estavam seriamente ameaçadas. Durante a Guerra. Embora divergindo em alguns aspectos de somenos. Como se situavam tais movimentos? Vejamos. pois. embora a época ainda não fosse a de uma democracia de massas. po­ rém. Surge o periódico La libre parole. desde logo. pouco antes da Primeira Grande Guerra. Havia prosperi­ dade econômica. Embora embrionários pouco antes e durante a Primeira Grande Guerra. protestantes. o boulangerismo prometia recuperar as possessões perdidas durante a guerra. que denunciava os judeus como criadores dos males do marxismo e do capitalismo. a emancipa­ ção dc minorias raciais e religiosas (judeus. Em sua exacerbação e em seus rompantes. graças a alguns escândalos financeiros internacionais que pas­ saram a ser atribuídos à “alta finança judaica”. parecia indispensável uma base popular para enfrentar o liberalismo. alguns autores denominam fascistas os movimentos reivindicatórios da classe media dc alguns países europeus. Outra tendência radical. O último grande movimento revolucionário fora a Proclamação da Comuna de Paris.222 Teoria Geral do Estado Quanto às origens do fascismo. com um levante popular motivado pela perda da guerra russo-japonesa. havia traços comuns a quase todos: 1) nacionalismo extremado. mas criou condições propícias para tal. A Europa anterior à Primeira Guerra Mundial desfrutou de um período de paz. Na França. a concentração das empresas e as exigências cada vez maiores do operariado pressionavam a classe média. a derrota do país na Guerra Franco-Prussiana (1870-1871) fez re­ crudescer o nacionalismo e. todavia. Não teve êxito. que visava. começava a encontrar um ponto de apoio em sua propaganda. A reação da clas­ se média não foi causa imediata do surgimento dos movimentos fascistas. que seria a de outubro de 1917. Num sentido amplo. Na Europa Ocidental o co­ lonialismo e sua manutenção impunham gastos aos Estados. os movimentos políticos nacionalistas que se identificariam com o fascismo já estavam se firmando. em 1871. colo­ car este militar no poder.

Émile Zola escreveu Jíaccuse. uma virulenta xenofobia. Proprietários ru­ rais e comerciantes. com destaque para o antissemitismo. Benito Mussollini (1883-1945). Foi o que bastou para que toda a França se empolgasse com o caso. os fascii transformaram-se em grupos de squadristi. haviam se apo­ derado dos bens dos franceses e eram. eram as principais vítimas. Em sentido estrito. agora. aplicação de doses de óleo de rícino eram a tônica. torturas. Integravam os fascii jovens futuristas. se suicidou. sob o comando de um antigo revolucionário socialista. A partir daí tais movimentos nacionalistas não deixariam dc adotar. a causa de todos os males da nação. os únicos que obtiveram vantagens com a Revolução France­ sa foram os judeus. O caso não ficou. A organização do movimento pressupunha a formação dos “fascii” de combatimento. valorosa. Dreyfus foi condenado à prisão perpétua. Brumont afirmava que os judeus eram detesta­ dos pelos pequenos comerciantes e empresários e pelos artesãos. idealistas. especialmente a partir de 1938 ede 1943. encampado pelos latinos e que representa a união. velada ou expressamente. cm defesa de Dreyfus. André Dreyfus foi um oficial fran­ cês. Segundo Brumont. A origem do vocábulo fascismo reside no fasces (fascio). desempregados e descontentes de todo o tipo. sua inocência foi comprovada. por vol­ ta de 1914. acusado de fazer espionagem em favor da Alemanha. mais tarde. destinados a combater o derrotismo e todos aqueles que fos­ sem considerados inimigos do povo. Agravando tais tendências.como Rothschild e outros. trabalhadores da classe média. cuja expressão mais trágica seria mostrada na Alemanha nacional-socialista (19331945) e. as se­ guintes: a) um nacionalismo humilhado e exacerbado pelas decepções da anexação da Tunísia pela França. na própria Itália fascista. A partir de 1918. supostamente desonestos. o caso Dreyfus. graças a um movimento levado a efeito por seus simpa­ tizantes. da ordem capitalista destruidora. grupos que pretendiam evitar que a Itália ingressasse na Primeira Guerra Mundial. A violência. fazendo a apologia de uma França “romântica. anti­ go símbolo de origem etrusca. foram. nacionalistas extrema­ dos. Espancamen­ tos. havia muitas pessoas implicadas na condena­ ção dc Dreyfus c o preconceito racial já não via freios à sua atividade. diante . O caso não teria maio­ res repercussões se ele não fosse judeu. porém. Georges Sorel. em 1881. Os imigrantes hebreus. con­ quistada e destruída pelos judeus”.8 Ideologias 223 fundado por Édouard Brumont. b) a desastrosa derrota sofrida em 1890. campeava. intitula­ do La France juive. encerrado. Quanto às causas imediatas da ascensão do fascismo italiano. basicamente. pois constituíam o símbolo do poder do ouro. apoiando o ingresso da Itália na guerra. o coronel Henry. em menor escala. que clamavam pela revisão do processo. que estava na moda. que já havia escrito um livro antissemita. graças aos escritos de um sindicalista revolucionário. fascismo é o movimento político surgido na Itália. a documentação que servira de base para a acusação era consi­ derada fraudulenta. O oficial denunciante dc Dreyfus. com o apoio dado por Mussolini à intervenção italiana em favor dos aliados.

e) o descrédito e o colapso do regime parlamentar. logo apoiou o movimento fascista. pacifistas c antipacifistas. ferreiro de profissão.224 Teoria Geral do Estado dos nativos abissínios. adepto ferrenho de KarI Marx e agitador con­ tumaz. Nós. principalmente junto à classe média. A mãe de Benito. destinado a restaurar o Estado contra a desin­ tegração socioeconômica do capitalismo e contra a infiltração comunista. A ação deve sobrepor-se à palavra. professora. Ao seu surgimento. e) o Estado cria o Direito e a Moral. revolucioná­ rios c reacionários. o fascismo italiano não apresenta uma doutri­ na preestabelecida. f) a escalada dc grupos anarquistas e comunistas e as greves freqüentes. marcariam muito a formação do fu­ turo Duce da Itália. Embora tivesse o temperamento do pai. temerosa da as­ censão bolchevista. Hobbes e das teorias do poder absoluto. era católica fervorosa e conservado­ ra. era um socialista radical. As influências de ambos. b) afirmação de um movimento reivindicatório contra o Tratado de Versalhes. como Proudhon e Sorel. Surgem então. afinal? Filho de Alessandro Mussolini e de Rosa Maltoni. Al­ fredo Rocco. O fascismo não carece dc dogmas. temos a coragem dc repudiar todas as teorias políticas tradicionais. nasceu em Predappio. foi imensa a influência de Marx sobre sua formação doutrinária. todavia. especulação e desemprego 110 pós-guerra.. Diga-se de passagem que. ainda mais. Guido Bortolotto. d) inflação. em 1883. até se firmar definitivamente. contudo. que procurava adaptar-se a quaisquer novas circunstâncias sociais. Mussolini di­ zia então: Nossa doutrina são os fatos. considerável foi a atenção que Mussolini dispensou a Maquiavel. somos aristocratas c democratas. que. formalizados. no centro da Itália. numa infeliz guerra de conquista. Outros jurisfilósofos robusteccm. . fascistas. Hegel e Platão. Era um movimento oportunista. Quem era Benito Mussolini. c) posição intermediária entre o coletivismo e o individualismo: o Estado de­ ver ser a união de grupos e de corporações. Entre 1929 e 1930. a linha programática do movimento fascista. g) a intran­ qüilidade generalizada. mas sim dc disciplina. em Versalhes. alta de preços. ele sente a necessidade de consolidar o caleidos­ cópio de ideias que era o fascismo. Giuseppc Prczzolini e outros. violento e irascível. mais remotamente. d) adoção do pensamento de Hegel. proletários c antiprolctários. Seu pai. tão paradoxais. os pontos principais da ideologia fascista: a) afirmação do nacionalismo. confiando ao filósofo Giovanni Gentile tal in­ cumbência. f) o homem não tem mais direito do que aqueles que o Estado lhe concede. c) a desilusão sofrida pela partilha do botim de guerra. sendo seu pensamento quase todo calcado nos autores anarquistas e sindicalistas do século X IX . como Sérgio Panunzio. contudo. Giuseppc Botai.

como já foi visto. logo depois. expressão mais conhecida por sua forma abre­ viada nazismo. nada fora do Estado. Quanto ao nacional-socialismo. que acompanhariam seu pensamen­ to até a morte: nacionalismo extremado e antissemitismo.1889. plano este resumido num livreto de origem duvidosa intitulado Os protocolos dos sábios de Sião. Com Hitler. Adolf Hitler (1889-1945). po­ rém. Adolf Hitler passa a viver de pequenos expedientes. como vender cartões-postais de sua autoria. Hitler tentou o poder. Tais corporações não distinguem entre patrões e operários. Adolf Schickelgruber Hitler nasceu em 20. o partido tomou maior alento. o Partido dos Trabalhadores Alemães. i) subordinação das corporações ao Partido Nacional Fascista. Agru­ pamento em corporações dos membros de cada ramo da produção (Mussolini usa a expressão produtores. Ninguém po­ deria exercer nenhuma atividade sem autorização da corporação correspondente. em Braunau. e um suposto plano dos judeus para domi­ nar o mundo. n) abolição do direito de greve. A partir de 1929. o Partido Nacional-Socialista recolheu grande número de adeptos. m)o trabalho como dever social. em vez de operários. Em 1919 entrou em contato com um pequeno partido formado por operá­ rios. Em 1923. escreveu sua autobiogra­ fia intitulada Minha luta9na qual afirma a superioridade racial do ramo germânico da “raça ariana” sobre as demais raças. I) manutenção da iniciativa privada e da livre-concorrência.04. de orientação direitista. . mas aca­ bou sendo preso e condenado a cinco anos de cadeia. h) sindicalismo e condenação do liberalismo e do socialismo marxista. de sua mãe. norte da Áustria. e. j) resolução dos conflitos entre o capital e o trabalho por intermédio de con­ tratos coletivos e de uma organização corporativa das categorias profissionais. Reprovado no vestibular e profundamente desgostoso. sendo ferido e recebendo a Cruz de Ferro. aproveitando-se da crise econô­ mica mundial. em 1921 Adolf Hitler foi nomeado seu presidente. sem que mencionemos a tremenda figura de seu criador. Nesta. doutrinariamente. Profundo admirador das artes plásticas. que o queria ver funcio­ nário público. ao interesse do Estado. contrariando seu pai. porque a primeira expressão designa também aqueles que produzem pelo intelecto). o fascismo afirma que o Estado é absoluto. Quan­ do jovem. ficou órfão de pai aos 16 anos.8 Ideologias 225 g) amparado em Hegel. sendo substituída a antiga denominação por uma nova: Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães (NSDP). os indiví­ duos e os grupos são relativos. pretendia seguir a carreira de pintor. nada contra o Estado. Ao estourar a Primeira Guerra Mundial. subordinadas. Filho de um funcionário público chamado Aleis Hitler. Daí. a fórmula: Tudo dentro do Estado. alistou-se como voluntário. foi influenciado por duas tendências. não pode ser tratado.

vivo e real. No Estado nacional-socialista o indivíduo. a Volksgemeinscbaft corresponderia. por isso. a concepção do chamado Estado dc Direito na doutrina nacional-socialista difere. um condutor (Führer). porém. ao direito positivo. Enquanto a doutrina italiana do fascismo sofreu profun­ da influência dos juristas alemães. . como vimos. a própria comunidade. Jellinek. como tal. O governo passava a ser considerado como uma emanação direta da própria comu­ nidade (Fiihrung). seria titular da soberania. bem como à ideia de que o Estado consti­ tui uma pessoa jurídica e. não tem relações com a comunidade. portanto. o Estado nacional-socialista não é liberal porque não reconhece ao indivíduo uma esfera de liberdade que deva ser respeitada absolutamente. Volksgemeinscbaft. ao proletariado e sua ditadura na Rússia.01.04. única realidade social. da concepção liberal e indivi­ dualista. Ficou no poder ate o dia 30. Após várias campanhas políticas de maior êxito. mas era guiado. O Estado encontra-se a serviço da comunidade. existe uma situação jurídica de membro da comunidade. A origem de todo Direito acha-se no Volksgeist (espírito do povo). suicidan­ do-se nos porões da chancelaria.1. reduzido.7) A doutrina nacional-socialista O nacional-socialismo deu origem a uma doutrina completamente nova so­ bre o Estado e o Direito. Por outro lado. política. histórica. em vez dos chamados direitos pú­ blicos subjetivos.1. que vem a ser um todo orgânico. o nacional-socialismo afirma que a origem de todo o Direito e poder resi­ de na própria comunidade (Volksgemeinscbaft). os interesses desta. pois seria impossível. moral e. profundamente. Hitler foi nomeado chanceler em 30. O povo não se autogovernava.1933. como Gerber. 6. Por outro lado. racial.8) 0 Estado na cion al-socialista e os direitos subjetivos Para o nacional-socialismo o Estado é meio e não fim. O Estado nacional-socialista não é individualista porque o fim essencial do Estado não é o indivíduo. 6. em linhas gerais. e ao povo “atomístico” da democracia burguesa do século X IX . Enfim. antes de mais nada.1945. que de­ fendiam o positivismo jurídico (o Direito seria criado pela vontade do Estado). Gierke. devendo satis­ fazer. aparelho a serviço da nação. prin­ cipalmente. conduzido por um guia. atuando por meio de órgãos. Laband. chamada. A doutrina nacionalsocialista repudia frontalmente as ficções da democracia liberal e pretende expor tão somente realidades. Constitui tão somente meio para o aprimoramento e a expansão da comunidade (Volksgemeinscbaft).226 Teoria Geral do Estado pessoas desgostosas com a situação política e econômica intolerável e pequenos empresários temerosos da atividade desenvolvida pelos comunistas. quando os russos tomaram Berlim.

. Finalmente. chefe. e como é o Führer quem possui em mais alto grau consciência do referido ordena­ mento. Em que consiste a Führung? Cons­ titui um princípio de liderança. Isto deve ocorrer até mesmo nas decisões tomadas contrariamente às leis promulgadas pelo próprio Führer. as de­ cisões do líder não podem sofrer oposição. como vontade da pessoa-Estado. Daí a expressão Führer. e se a comunidade segue espontaneamente seu chefe. protegidos os direitos in­ dividuais. declarava Hitler:4 4 Eu não teria existido não fosse minha fé poderosa no povo alemão. se no Estado liberal-democrático a lei domina todo o sistema político. é porque há fidelidade c confiança mútuas. E originário porque não foi conferido pelo povo ou qualquer autoridade e porque quem o exerce o faz pelo simples fato de ser Führer. é autônomo porque o Führer não se submete a nenhuma autorida­ de. expres­ sa cm forma dc regras genéricas. então. de condução da comunidade (Volksgemeinschaft). Sofismando. um Führerstaat. em sua doutrina de uma razão universal dirigindo o Estado. em excelente exposição sobre as instituições nacionais-socialistas.8 Ideologias 227 Enquanto o liberalismo identifica o Direito e a lei (positivismo). em desconformidade com o ordenamento vital do povo. formando seu séquito ( Gefolgschaft). autônomo e autoritário. não será admitida. Com efeito. Na Führung encontramos o eco de várias passa­ gens de Hegel. dirigida por um Führer. Como a Führung deve estar em consonância com o ordenamento vital do povo. o poder do líder é autoritário. sem cessar. Na doutrina nacional-socialista a juridicidade substitui a mera legalidade. abstratas. esta é apenas uma parte do D i­ reito. afir­ mando-se que a matéria jurídica nâo seria obra própria c exclusiva do legislador. assim. sendo. 6. poder-se-ia dizer que o Estado liberal seria um Estado legal. Por outro lado. no Führerstaat a autoridade da vontade pessoal do Führer supera a lei. pela fé e a con­ fiança do povo alemão em m im ”. Esta é guiada. Qualquer oposição. mero corolário da sua autonomia. pois referidas leis podem estar.1. o nacionalsocialismo afirma que o Direito se sobrepõe à lei. O povo confia em seu líder porque este apresenta as qualidades necessárias para o seu cargo. o Estado nacional-socialista seria um Estado de Direito. de fato ou de direito. contendo-se apenas na lei o direito seria estabelecido independentemente do legis­ lador e da lei. poder e decisões devem predominar em qualquer caso.9) 0 princípio da liderança (Führung) no Estado nacional-socialista O principal e mais interessante instituto do direito público nacional-socialis­ ta é a Führung. sendo originário. contra as decisões do líder. o poder de Führung é necessariamente pessoal. Por isso. sua vontade. Como acentua Roger Bonnard. reforçada. em razão de mudança das cir­ cunstâncias. Se o exercício do poder se limita a uma condução. nem mesmo à autoridade da lei. seja pelas vias de direito ou pelos recur­ sos jurisdicionais. O Estado nacional-socialista é.

Ora. age livremente. pois. muito mais do que o próprio Estado. o organicismo radical. reformando-a. salvetti n e t t o . que. mas que integre o indivíduo ao Estado. bem assegura e salienta a impropriedade do organicismo radical. fenômeno este . A nature­ za das leis éticas. Tal concepção. sirva de instrumento de realização pessoal e social. São Paulo. se bem que não soberanos. em harmoniosa composição. ed. a parte contra o todo. surgiu uma nova doutrina. Por outro lado. ine­ xoráveis e imutáveis. 5. sem a participação do Estado. pois que este confunde o organismo social e o organismo biológico. o município. que brotam espontaneamente. não percebida no organismo físico.228 Teoria Geral do Estado 7) H U M A N ISM O SOCIAL Bibliografia: A. La Editorial Pedro. pelo menos no Brasil. 1967. como a família. tais grupos devem ser su­ focados pela prevalência absoluta deste Moloch chamado Estado. a sociabilidade ina­ ta do homem. berna . postulando um organicismo moderado. partin­ do da afirmação de que. escolhendo. até mesmo na sua grafia. ordenatórias da vida social. movido por seu arbítrio. existem grupos natu­ rais. suplantadas pelos partidos políticos. naquele. que não oponha o Estado ao indivíduo ou vice-versa. Como faz ver José Pedro Galvão de Souza. conforme adverte Pedro Salvetti Netto. possibi­ lidades. o indivíduo jamais alcançará a ple­ nitude do seu desenvolvimento. optando. é preciso salien­ tar as diferenças entre o corpo social e o organismo biológico: neste constata-se unidade física ou substancial. revelam uma tendência natural do ser humano dc sc realizar c de se proteger e. 1982. pode o indivíduo voltar-se contra as estruturas sociais.. cuja atuação. portanto. Católica. os quais. procu­ ra o meio-termo entre o mecanicismo e o organicismo. mas condena. para o liberalismo. condena frontalmente o me­ canicismo. Para o organicismo radical. enfim. Madrid. tais grupos constituem meras associa­ ções voluntárias. Tal liberdade dc ação. expressa apenas tendências. o indivíduo. tem sido inexpressiva. A doutrina do humanismo social busca integrar o homem ao Estado. adaptando-a. Esta doutrina chama-se huma­ nismo social. também. en­ quanto os órgãos que compõem o corpo humano obedecem a leis biológicas. unidade moral ou de ordem. a suas aspirações. sensatamente. como se ambos ti­ vessem a mesma natureza. Tais grupos surgem natural­ mente. fazendo com que este. no seio da sociedade. devem fruir da autonomia e da assistência do Estado. não certezas. Esses grupos são como flores de variadíssima natureza. devem ser órgãos legítimos de intermediação entre o in­ divíduo e o Estado. o sindicato. Curso de teoria do Estado. entre o indivíduo e o poder político. Em meio ao cipoal dc ideologias políticas radicais c dc práticas políticas de­ finitivamente ultrapassadas. Na verdade. alterando-a. ct al. Saraiva. pois que revelam. Curso de doctrina social católica.

Desfrutando de cres­ cente prestígio. Ao preconizar a máxima liberdade políti­ ca. Todavia. 1996. 1980. São Paulo. A social-democracia se mostra um efeito recente da antinomia liberdade/igual­ dade deflagrada na Revolução Francesa. pareça ter sido criada pelos próprios marxistas ortodoxos. o liberalismo agravou a desigualdade econômica. sob o comando de Lenin. A conformação da sociedade. souza . mais precisamente durante a Segunda Internacional Socialista (1889). Desta síntese exsurge o caráter mais reformista que revolucionário da nova ideologia. k rie le . o próprio Lenin e. bal. Routledge. México. Reagindo a isso. 1997. 1995. Finlândia. fundado em 1898. Embora a ex­ pressão revisionismoy com sentido pejorativo. pois os grupos sociais autênticos devem ser dotados da mais ampla liberdade possível. Noruega.8 Ideologias 229 já previsto por Thomas Hobbes em sua obra clássica Leviatà. como alternativa entre o socialismo revolucionário e internacionalista e os princípios da liberal-democracia. mais tar­ de. M c C le lla n d . Bulgária e Escandinávia. Alemanha e Dinamarca. 1996.visou corri­ gir tal desvio. Enciclopédia de la política. mediante a abolição dos privilégios da burguesia. 8) SOCIAL-DEMOCRACIA Bibliografia: a r a ú j o de Nilson. ja­ mais simples veículos da vontade dos governantes. Martin. b is c a re tti di r u f f ía . London-NewYork. já que ambos ousaram adaptar a ortodoxia da concepção marxista da revolução aos seus próprios países. . verdadeiro simulacro do autêntico corporativismo. ambos estagnados num estágio feudal de desenvolvimento. Considerada a vertente socialista dos Estados altamente industrializados do norte europeu. Introducción a la teoria dei Estado. graças à livre-concorrência absoluta. México. como Karl Kautsky (1854-1939). Paolo. G lo­ . J. a socialdemocracia surgiu na segunda metade do século X IX . M ao Tsé-Tung deveriam ser considerados revisionistas por excelência. e a adjetivação revisionista com que a orto­ doxia passou a acicatar os seguidores da chamada terceira via. Daí o surgimento da social-democracia. Fondo de Cultura Econômica. b o r ja Rodrigo. o Partido Social-Democrático Ope­ rário. o socialismo . como uma ideologia revisio­ nista do marxismo elaborada por Edward Bernstein (1850-1932). isso só se­ ria possível graças ao sacrifício da liberdade econômica plena. Introducción al derecbo constitucional com­ paradoi. estruturado pela facção ma­ joritária daquele partido. daria origem ao bolchevismo. deve ser eminentemente corporativa. a social-democracia logo conquistou Hungria. para o humanismo social. Fondo dc Cultura Econômica. como Suécia. Na Rússia. inicialmente na Alemanha.cm todas as suas vertentes . A history of Western political thought. Depalma. S. Não o corporativismo fascista. O colapso do neoliberalismo. Buenos Aires.

então. Enquanto a so­ cial-democracia europeia . na defesa de seus próprios interesses. Em suma. a social-dcmocracia defende uma ordem econômica eclética. A realiza­ ção do bem individual de cada cidadão representaria o próprio bem comum. enlaçar sem traumas liberdade política. a social-democracia ainda não se adaptou inteiramente ao Terceiro Mundo. A mão invisível da Natureza . devendo o Estado abster-se dc interferir na atividade eco­ nômica. flatus voeis de uma ordem econômica irrealizável. mesmo que por vias alternativas.utiliza unicamente meios pacíficos na composição dos conflitos de classe. nos Estados mais adiantados. nos Estados menos desenvolvidos passou a ser considerada. o Gover­ no intervém para restabelecer o equilíbrio ameaçado. pela via refor­ mista. conforme necessá­ rio. É sabido que não foi bem isso o que ocorreu. pois a liberdade burguesa só existe para a própria burguesia. mera somatória de interesses privados. e as crises pe­ riódicas que o afligem. Relativamente bem-sucedida nos Estados mais evoluídos política e econo­ micamente. limitando-se o Estado a zelar pela preservação de ordem tipicamente burguesa.se encarregaria de ordenar as relações entre os homens. a social-democracia defende a economia de mercado com a participação de todos. Os Estados menos desenvolvidos pouco têm a defender e muito a conquistar. proporcionando ao indivíduo a máxima autonomia de vontade. conseguindo. vale reconhecer. retrógrada. criar a infraestrutura de uma nova social-democracia. a orientação dc Adam Smith de que o homem age.230 Teoria Geral do Estado Hoje. quando isso ocorre. parecem ser medidas radicais e violentas. prosperida­ de econômica e assistência social. o liberalismo nascente elegeu. onde as únicas soluções viáveis para o subdesenvolvimento. métodos e objetivos. Doutrina flexível. enca­ minhando-os para um sistema econômico perfeito. sempre. bem assim a propriedade pri­ vada restringida pelo interesse social. como verdade absoluta. uma ideologia conservadora. a situação do Terceiro M undo perante a social-democracia é bem diferente: buscam-se mudanças políticas e sociais extremadas para. Na verdade. sem perceber que a classe trabalhadora dos Estados nórdicos que a adotaram não carece de medidas revolucionárias violentas para suas conquistas. na qual tem vez tanto os mecanismos de mercado quanto a planificação econômica estatal. mas não admite que indivíduos ou gru­ pos pretendam monopolizar a atividade econômica. A omissão do Estado quanto à disciplina da atividade econômica ensejaria a concen­ . 9) NEOLIBERALISMO O liberalismo clássico surgiu com a desagregação do feudalismo e o conse­ qüente aparecimento do capitalismo.que tem muito do socialismo fabiano ou contemporizador . Afirmando dois valores básicos. res­ tando para as classes menos favorecidas apenas uma liberdade e um bem-estar eco­ nômico meramente formais. individualis­ mo c liberdade econômica.a expressão é do pró­ prio Adam Smith . exclusivamente. obtendo-as. ipso facto. altera.

ao descontentamento com o liberalismo. qual seja. Observa. assim. equiparar a liberdade de vida. é na verdade planificada. O próprio poder de Esta­ dos subdesenvolvidos ou em desenvolvimento acha-se condicionado à planificação e operação das grandes empresas nacionais ou transnacionais. 683). p. Em outras palavras. Referido autor não leva em conta que a liberdade entre desiguais conduz à injustiça. manipulam a economia na direção de seus próprios interesses. dirigida e ad­ ministrada não pelo Estado. na União Soviética e nos Estados socialistas do Leste Europeu. o neoli­ beralismo. na realidade voltada para a ressurreição das leis de mercado. o regime so­ cialista cederia. foi uma tentativa desesperada de reavivar a atividade econômica estagnada pelo ma­ rasmo burocrático. então diretor do Instituto de Estudos Estratégicos da Universidade de Harvard. Ao observador atento e sereno. uma preocupante maioria de despossuídos. se no Ocidente o neoliberalismo foi uma resposta. Surgiu. não é menos verdade que este foi substituído por uma de­ sordenada privatização de bens públicos. Ora. Com a derrubada do muro de Berlim. Articuladas entre si. de opinião. o capitalismo. com inteira procedência. Huntington. que adotam notória estratégia de dominação dos mercados. já em fins dos anos 1980 e no início da década dos 1990. Rodrigo Borja que o neoliberalismo se funda em enorme falácia. enfim. o neoliberalismo. abrindo as fronteiras dos Estados menos desenvolvidos para uma indiscriminada exploração econômica estrangeira. se o de­ sabamento dos regimes marxistas revelou a ineficácia de um sistema estratificador dos meios de produção. como o faz Samuel P. . cujos efeitos já se fazem sentir. passando a economia. para a iniciativa privada. que simbolizou a própria queda de um socialismo viciado e o término da chamada Guerra Fria. embora pífia. ter empresas. passagem ao seu rival histórico. não uma teórica liberdade de mercado. investir e ter propriedades sem a intervenção do Estado pertence ao mesmo gênero das grandes liberdades do homem. O que ele c outros neoliberais defendem é uma liberdade que termina por autodestruir-se (Enciclopédia de la política. liberando a propriedade privada de encargos sociais e colocando a di­ reção da economia nas mãos dc particulares. enriquecer. mas sim um mercado dirigido por corporações transnacionais. Nisso há uma total falta de perspectiva. que a liberdade de trabalhar. Vale-se do prestígio da palavra liberdade para sustentar. seja no plano interno ou no internacional. pretensamente uma nova doutrina. aparentemente livre.8 Ideologias 231 tração dos meios de produção nas mãos de alguns privilegiados. Pois bem. em potencial ameaça às instituições burguesas. após décadas de experimentação socialista. resta evidente que prevalece. Disso resulta que a atividade econômica. involuindo para os bons tempos do laissez-faire. descontentes dc toda espé­ cie. mas pela iniciativa privada. de imprensa ou qualquer das liberdades fundamentais do ser humano à liberdade de investir na economia. em con­ trapartida. surgindo. sob o pretexto de modernizar o Esta­ do e reduzir seu tamanho. no mundo con­ temporâneo.

10. na cidade de Tóquio. (O colapso do neoliberalismo. 9) . da Europa e do Japão. como tantos outros semelhantes.1973. formada por empresários. políticos e economistas influentes dos Estados Unidos. É uma ideolo­ gia . e o elemento central da ideologia da oligarquia financeira que domina o mundo. Desse fato. para estabelecer uma coesão maior entre as gran­ des corporações transnacionais.mais propriamente. na atual etapa do capitalismo. reuniu-se uma Comissão denominada Trilateral.232 Teoria Geral do Estado Em 23. cabe razão a Nilson Araújo dc Souza quando afirma: o chamado neoliberalismo não é uma teoria científica. Nem muito menos uma cor­ rente de pensamento científico. Não chega também a ser uma doutrina. p. a fim de fortalecer o sistema capitalista e resistir à pressão dos Estados socialistas da Europa e do Terceiro M undo.

Celso D. com isso. Graham e outros. Tanto que o próprio Alexan­ dre. Unijuí. 1) NATUREZA DAS ORGANIZAÇÕES INTERESTATAIS A ideia da universalização de uma dada cultura superior. de. C. ed. Alexandre III. O historiador Plutarco afirma que os povos da época em que Alexandre expandia seu império aceitavam dc bom grado fazer 233 . 1994. chet. voz que não tinha conteúdo pejorativo. São Paulo. s h ip l e y . Editorial Verbo . simplesmente. Curso de ciência política (teoria do Estado). salvetti n e t t o . Dictionnaire des civilisations de VOrient ancien. ra ra Guy. Al b u q u e r q u e m e l l o . bridge. Curso de direito internacional b r ie n d público. o Grande. Larissa. 1957. que venha a benefi­ ciar toda a humanidade. 2. . 1977. universalizar a civilização grega. 1. O segredo dos hititas. Cambridge University Press. 14. buscando. Catheri- ne. Renovar. I. v. Civilisations antiques. Niterói. e fundando um Estado universal. s. s a i . foi um dos primeiros a levar a civilização helênica aos povos deno­ minados “ bárbaros”. Navarra. Larousse. Tratados y juramentos en el antiguo Oriente Proximo. 2002.. Camd o s r e is .l e s . Direito internacional convencionai Ijuí. Larousse. designativo daqueles que não falavam a língua grega. após derrotar os persas. Hildebrando.. Divino. 1986. e fez com que muitos de seus generais se casassem com mulheres persas. t e i x e i r a Jair. Itatiaia. não foi estranha a grandes vultos da História. Resumo de direito internacional e comunitário.0 ESTADO ENTRE ESTADOS: AS ORGANIZAÇÕES INTERESTATAIS Bibliografia: a c c i o l y . Saraiva.d. São Pau­ lo. ed. v. The Cambridge Dictionary of Classical Civilization. Jacques e ou­ - tros. Belo Horizonte. Impetus. Paris. Rio de Janeiro/São Paulo. 2006. 2008. mas. 2008. m in a ceram . Manual de direito internacional público. Pedro. levando-a da Europa até os confins da Ásia Me­ nor. Tribuna da Justiça. casou-se com uma das filhas do rei Dario III. 2008. W. Paris.

instintivamente. Napoleão Bo­ napartc inspirou-se consideravelmente nas realizações de Alexandre. por isso mesmo in­ satisfeitos e. que. seus costumes. na esfera interestatal. permaneceu ainda mesmo depois que as hostes germânicas derrotaram as legiões de Roma. Sob a tutela do Império.C. com maestria. inseguros. cuja natureza é a de associações de Estados criadas mediante tratados e dotadas de personalidade . Pedro Salvetti Netto sintetiza. o relacionamen­ to social e econômico com seus semelhantes.C. po­ rém. Daí. mas dc inúmeros vultos que foram se sucedendo e ampliando as fronteiras do império. de forma semelhante aos tribunais no âmbito interno desses. cm toda a história. o chamado Sacro Império Ro­ mano Germânico. De fato. também cada Estado pode acabar se envolvendo contra seus pa­ res em conflitos velados ou guerras declaradas para alcançar objetivos puramente econômicos 011. Esses órgãos são entidades interestatais. A obra de integração engendrada pelo gênio de Roma. por conseqüência. em razão da contínua sucessão das lutas entre eles. única forma de alcançar plenamente seus objetivos. da mesma forma que a pessoa natural busca. Pois bem. e muitos au­ tores veem nele um precursor da Liga das Nações e. O mito dessa segurança. que é pessoa jurídica de direito internacional público. diante das vantagens oferecidas pela civilização grega. mesmo. Roma prometeu a paz ao mundo com todas as suas con­ seqüências benéficas de prosperidade. impor suas tradições. antes respeitando-lhes as instituições culturais. tenha a formação dc um império per­ durado por tantos séculos a impor sua autoridade. sobre povos dc culturas tão diferenciadas. sob a égide de uma lei universal. de outro. pela perspicácia do vencedor em não pretender. impondo a notória Pax roma­ na (30 a. da Igreja Cristã. da própria Organização das Nações Unidas. merece especial referência o expansionismo romano. compreende-se: de um lado. expansionistas. pela mística de segurança que aqueles invencíveis exércitos podiam levar a grupos beligerantes. de forma absoluta. sua religião aos povos vencidos. ensejando conflitos que cumpre ao Poder Judiciário compor. anteviam o futuro e conduziam os povos no rumo do congraçamento político destes. este obra não de um homem apenas. o Estado. o fato é que. já então notável. Após a tentativa de Alexandre. mais que isso. como sc afirmou. E da mesma forma que a pessoa natural nem sempre mantém um relaciona­ mento amistoso com outras pessoas. independentemente dos grandes vultos da História. a 180 d. muito aci­ ma da visão estreita dos medíocres. pre­ cisa interagir com outros Estados para realizar seu objetivo maior que é o bem co­ mum. ao formar-se. visando aumentar seus territórios. remanesceram na Baixa Idade Média.234 Teoria Geral do Estado parte desse. dessa paz.). esse período da bela História Romana: É realmente singular. órgãos decisórios que fazem às vezes de árbitros nas querelas de Estados em conflito. a necessidade de instituir. sob a inspiração legendária do Im ­ pério c a influência.

A or­ ganização compreende seis órgãos principais: Assembleia Geral. É a sucessora da Liga das Nações. ex­ ceto o Tribunal Internacional de Justiça. 3) DIREITO COMUNITÁRIO: ANTECEDENTES DA UNIÃO EUROPEIA . em alguns aspectos. a Organização Internacional do Trabalho (OIT) e o Banco Inter­ nacional de Reconstrução e Desenvolvimento (Bird).9 0 Estado entre Estados: as organizações interestatais 235 e ordem jurídica próprias. São princípios instituídos pela ONU: a) princípio da igualdade soberana dc todos os seus membros. e os demais não permanentes. Rússia. na medida do pos­ sível. Conselho Econômico e Social. o maior número de Estados.UE A ideia de uma unificação econômica e. quando visam congregar. Tais organizações têm fins universais. pois visa congregar todos os Estados do mundo e compor seus conflitos mú­ tuos na qualidade de guardiã da paz. cuja vinculação decorre de um tra­ tado (Carta da ONU) que discorre sobre os direitos e as obrigações daqueles. f) pressionar Estados não filiados a não tomar medidas prejudiciais à paz e à segurança internacionais. As deliberações do Conselho de Segurança obrigam os filiados à organização. França e China). e não prestar auxílio a Estado contra o qual a organização estiver impondo sanções. como a Organização dos Estados Americanos (OEA). É o caso da Organização das Nações Unidas (ONU). b) obrigação dc seus filiados dc cumprir os compromissos da Carta. na Conferência de Versalhes dc 1919. O Conselho de Seguran­ ça é formado por quinze membros. 2) A ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS . eleitos pela Assembleia Geral por dois anos. d) absten­ ção do emprego de ameaça ou força material contra outros Estados. criada logo após a Primeira Guerra Mundial. como sc depreende dos versos de Quinto Horácio Flaco: . embora regionais. Além dessas espé­ cies. e que aca­ bou fracassando principalmente por não contar. A ON U conta com 192 Estados filiados. todos situados na própria sede da ONU (Nova York). sediado em Haia. política dos Es­ tados europeus é anseio que se desenvolveu na própria Antiguidade Clássica. objetivando a solução pacífica dos questiona­ mentos mútuos que possam surgir entre seus filiados. Grã-Bretanha.ONU A Organização das Nações Unidas (ONU) é uma instituição de caráter uni­ versal. com os Estados Unidos da América do Norte e a União Soviética. Conselho de Se­ gurança. entre seus filiados. e) obrigação de colaborar com as medidas tomadas pela organização em conformidade com a Carta. dos quais cinco são permanentes (Estados Uni­ dos. Outras também visam objetivos também amplos. Conselho de Tutela. distintas das de seus filiados e com objetivos específicos. existem as organizações de fim específico. Tribunal Internacional de Justiça e Secretariado. c) composição dc litígios internacionais por meios pacíficos. como o Fundo Monetário Interna­ cional (FMI).

a coesão econômica e social e a solidariedade entre os Estados-membros. o Presidente da República Helênica. Kalergi passou a ser considerado um verdadeiro apóstolo da unificação. quase contemporaneamente. o Pre­ sidente da República Federal da Alemanha. na qual expunha suas ideias.. de comum acordo. na Universidade de Zurique.02.. va­ lendo lembrar que em 1867 Victor Hugo profetizara: “ No século X X haverá uma Nação extraordinária [. um crescimento sustentável c não inflacionista que respeite o ambiente. II. em toda a Comunidade. Em 1922. em face do autoisolamento do Leste Europeu.236 Teoria Geral do Estado Europa entregou ao Touro sedutor o seu flanco de neve [. no que foi seguido por Jean-Jacques Rousseau e Saint-Simon. criando. dirigiu à imprensa europeia uma mensagem reafirmando a necessidade de uma União Pan-Europeia. sobre o qual empregou. no ano seguinte. ressaltando a necessidade da organização do Ociden­ te. que instituiu a Comunidade Europeia.. o aumento do nível e da qualidade dc vida. Churchill pronunciou. na oca­ sião e pela primeira vez. restando evidente que apenas pela força do Direito a união seria possível. 3° e 3°-A. que instituiu a União Europeia. o Conde Coudenhove-Kalergi. uma obra de grande repercussão. (Carmine. mas não se chamará França. esses dois Estados. Em 1946.1957 foi firmado o Tratado dc Roma. Em 25. cuja exposição de motivos é sumamente elucidativa: Sua Majestade o Rei dos Belgas. um jovem aristocrata húngaro. 2o: A Comunidade tem como missão a criação de um mercado comum e de uma União Econômica e Monetária e da aplicação das políticas ou ações comuns a que se referem os arts. Sua Majestade a Rainha da Dinamarca. sem o saber. o Presidente da Ir­ . Sua Majestade o Rei de Espanha.. Em 07. o Presidente da República Francesa. um discurso consa­ grado à unificação europeia. uma confederação apta a unir seus destinos. fez uma exortação à França e à Alemanha que se reconciliassem.] Mas Venus lhe disse: .] esta nação terá por capital Paris. publicando. 27) Séculos mais tarde. promover. o desenvolvimento har­ monioso e equilibrado das atividades econômicas. em 1304 o jurista Pierre Dubois concebeu um projeto de Estados Uni­ dos da Europa. e sim Europa”.1992 foi assinado o Tratado de Maastricht. porém fracassaram. intitulada Pan-Europa.03.Tu és. Dante Alighieri retomou o assunto e. um alto grau de convergência dos comportamen­ tos das economias.. determinado seu art.] Empalideceu com a sua própria coragem chorando o ato vergonhoso [. Napoleão c Hitler tentaram a unificação pela força intimidatória das armas. mulher do invencível Júpiter! Deixa de soluçar e aprende a fruir uma grande fortuna: uma parte do globo receberá teu nome. um elevado nível dc emprego e dc proteção social. a célebre expressão Cortina dc Ferro: “Uma cortina de ferro acaba de tombar sobre a Europa! ” Na oportunidade.. Com o tempo.

o Presidente da República Portu­ guesa. em ordem a promover a paz. a uma defesa comum. constituindo o cha­ mado direito comunitário originário. uma moeda única e estável. em que as de­ cisões sejam tomadas no nível mais próximo possível dos cidadãos. no presente Tratado. Resolvidos a assinalar uma nova fase no processo de integração europeia ini­ ciado com a instituição das Comunidades Européias. no contexto da realização do mercado interno e do reforço da coesão e da proteção do ambiente. Estas últimas nor­ mas.. nos termos das disposições do presente Tra­ tado. recomendações ou diretivas c decisões). a fim de lhes permitir me­ lhor desempenhar. outras resultam da adoção. Desejando reforçar o caráter democrático e a eficácia do funcionamento das instituições. Rea­ firmando o seu objetivo de facilitar a livre circulação de pessoas. assim. respeitando a sua História. Sua Alteza Real o Grão-Duque do Luxem­ burgo. sem deixar de garan­ tir a segurança dos seus povos mediante a inclusão. do respeito pelos direitos do Homem e liberdades fun­ damentais e do Estado de Direito. as tarefas que lhes estão confiadas. a identidade europeia e a sua independência. de atos normativos diversos (decisões ge­ rais ou regulamentos. à qual sc submetem os Estados signatários. cultura e tradições.. Assinala João Mota de Cam­ pos que uma parte dessas normas consta dos próprios Tratados. Re­ solvidos a executar uma política externa e dc segurança que inclua a definição. Com a criação das três Comunidades Européias (Comunidade Europeia do Carvão e do Aço. da democracia. Recordando a importância his­ tórica do fim da divisão do Continente Europeu c a necessidade da criação dc bases sólidas para a construção da futura Europa. e a aplicar políticas que garantam que os progres­ sos na integração econômica sejam acompanhados dc progressos paralelos noutras áreas. fortalecendo. de disposi­ ções relativas à justiça e aos assuntos internos. Decidiram instituir uma União Europeia. de acordo com o princípio da subsidiariedade. Desejando aprofundar a solidariedade entre os seus povos. e que por isso deles derivam. de uma política de defesa comum que poderá conduzir. resultado de uma produção legislativa realizada na conformidade dos Trata­ dos. Comunidade Econômica Europeia e Comunidade Europeia da Energia Atômica). Sua Majestade a Rainha dos Países Baixos. Na perspectiva das etapas ulteriores a transpor para fa­ zer progredir a integração europeia. constituem o direito comunitário derivado (Direito . Confirmando o seu apego aos princípios da liberdade. Resolvidos a instituir uma cidadania comum aos nacionais dos seus países. os Tratados de Paris e de Roma instituíram uma ordem jurídica própria. pela autoridade comunitária (duo Comissão-Conselho). a segurança e o progresso na Europa e no mundo. incluindo. Resolvidos a continuar o processo dc criação dc uma união cada vez mais estreita entre os povos da Europa. num quadro institucional único. Sua Majestade a Rainha do Reino Unido da Grã-Bretanha e da Irlanda do Norte. Determinados a promover o progresso econômico e social dos seus povos.9 0 Estado entre Estados: as organizações interestatais 237 landa. Resolvidos a conseguir o reforço e a convergência das suas economias e a instituir uma União Econômica e Monetária. o Presidente da Republica Italiana. no momento próprio. a pra­ zo.

alfandegários. Fundação Calouste Gulbenkian. sem dúvida. embora seja admiti­ . Paraguai e Uruguai. cujo resul­ tado ainda hoje não ficou claro. industrial. p. O rei hitita. 13 e scgs.C. outro tratado seria. depois. que criou a Associação Latino-Americana de Integração (Aladi). que emprestaria seu nome à celebre batalha. que assinalava os confins do império dos hititas. após dramática batalha. Lisboa. Seriam estes os primeiros tratados internacionais registrados pela História. Ramsés II contestara as fronteiras do Egito e da região que hoje é a Síria. provavelmente em 2400 a. dois príncipes das cidades sumérias de Lagash e Uruk. outro tratado de paz. celebrou com Akkadc ou Agadé. de transportes e comunicações. povo indo-europeu de grande poderio militar. em 1296 a. na antiga Mesopotâmia (atual Iraque). mais tarde. 1. que teria sobrevivido milagrosamente no embate. 2. embora sua importância fosse. agrícola. Pouco mais tarde. p. de 1980.. editando nada me­ nos que 46 exemplares do texto. b) a livre circulação de bens e serviços entre os Estados-membros. c) a criação de uma tarifa externa e dc uma política comercial comuns. indevidamente. Esta­ mos nos referindo ao célebre tratado de paz entre Ramsés II. aceitou o desafio e a guerra foi inevitável. v. Ramsés II. em alguma data entre 2291 e 2255 antes da Era Cristã. dc serviços. como visto. Muwatalis. fiscal. cidade do sul da Mesopotâmia. um rei do Elam..1991. Após o conflito. eclodindo na localidade de Kadesh.C. sendo estes os seguintes: a) a adaptação da legisla­ ção de cada Estado-membro à legislação dos demais. 5) OS TRATADOS INTERNACIONAIS (NATUREZA E EFICÁCIA) Por volta do remoto período entre 2404 e 2375 a. com vistas à inte­ gração do chamado Cone Sul. de 26. celebraram um tratado de paz e fraternidade. Seu histórico remonta ao Tratado de Montevidéu. 4) 0 MERCADO COM UM DO S U L-M E R C O S U L Instituído pelo Tratado de Assunção. ampliada pelo Tratado de Assunção. forma­ da apenas por Brasil e Argentina e. país situado no sudoeste do atual Irã.C. monetário.). muito maior.. monarca egípcio e Muwatalis. passou a se proclamar vencedor.238 Teoria Geral do Estado comunitário. formalizado numa tabuinha de argila encontrada por arqueólogos c enviada ao Museu do Louvre. conside­ rado o mais antigo. entretanto. d) a coordenação de políticas macroeconômicas e setoriais entre os Estados-membros. cambial c de capitais.03. mediante a supressão de direitos alfandegá­ rios. Em 17. que estruturou ór­ gãos e objetivos do Mercosul.1994. 19 e segs.. e v. o Mercado Comum do Sul (Mercosul) congrega Brasil. foi assinado o Protocolo de Ouro Preto.12. propiciando condições de concorrência entre os Estados-membros. no tocante ao comércio exterior. soberano hitita. Argentina.

seria praticamente impossível um Estado impor. política ou. Ela decidiu o destino da Síria e da Palestina. naqueles tempos. O fato é que dessa animosidade surgiu um tratado de paz que. consideram prudente alternativa compor suas querelas e atender seus interesses suasoriamente. entre o faraó Ramsés II e o rei hitita Muwatalis. além de ser manifestação de vontade objetiva democrá­ tica por excelência. Ceram assinala: A batalha de Kadesh. confere a seguinte definição des­ te ato: Tratado significa um acordo internacional concluído entre Estados. Hoje. morais se fariam sentir. embora haja acordos de outra natureza no plano interestatal. a história do mundo. A complexidade crescente das relações da comunidade internacional. É a primeira batalha da que somos capazes dc recons­ truir. já reconheciam as vantagens da composição amigável de suas dissidências. um pacto que ultrapassa. verdadeiramente figura entre essas batalhas de primei­ ra importância para o mundo. o fato é que por seu intermédio se regem as matérias mais importantes. Como as pessoas naturais. travada no ano de 1296 antes de Cristo. qualquer que seja a sua designação específica. E na sua esteira veio o primeiro tratado dc paz detalhado de que temos conheci­ mento. mediante contratos. tendo em vista a participação direta dos Estados interessados. C. sem falarmos no ubíquo terrorismo que solapa o mo­ ral de qualquer Estado que. no mí­ nimo. tangidas pela razão. sobre tratados. a antiguidade do acordo celebrado entre egípcios c hititas. E o que acontecia aos países entre o Nilo e o Tigre era. Há outro aspecto fascinante nesta batalha junto ao rio Orontes. tem ense­ jado a multiplicação dos tratados. conduzi­ das por seus governantes. em forma escrita e regulado pelo Direito Internacional. a outro ou outros Estados qualquer conduta de seu ex­ clusivo interesse. assim como da balança do poder entre o Egito e Hatti. de 1969. (p. muitos dos tratados de paz que têm sido produzidos pelas nações do vigésimo século da Era Cristã. Em sua obra O segredo dos hititas. 177) Vejam. unilateralmente. consubstanciado em um único instru­ mento ou em dois ou mais instrumentos conexos. W. imediatamente. Qual a natureza do tratado internacional? Qual sua eficácia? O tratado é a fonte primeira do direito internacional c. principalmente os de paz. também as antigas sociedades políticas. bem demonstra que os governantes já intuíam a importância dos tra­ tados. supostamente. cm época tão remota. a interde­ pendência cada vez maior imposta a cada Estado em relação aos demais. A Convenção de Viena.9 0 Estado entre Estados: as organizações interestatais 239 do por muitos historiadores que os egípcios teriam sido fragorosamente derrota­ dos. foi o mais significativo da História antiga do Próximo Oriente. . sanções de ordem econômica. venha a sc impor a outro pela força. se não foi o pri­ meiro. em sabedoria política.

qual delas deve prevalecer? Duas correntes doutrinárias se opõem no tocante à vigência dos tratados no plano inter­ no de cada Estado. de Albuquerque Mello. de 1998. e) Concordata .tratado em que são criadas normas jurí­ dicas. c. a ordem jurídica interna disciplina as relações entre pessoas naturais (relações de direito privado) ou entre estas e o próprio Estado em que se situam (relações de direito público interno). Havendo conflito entre a norma internacional e a norma interna. p. a dualista e a monista. b) habilitação dos agentes signatários.240 Teoria Geral do Estado Embora a forma escrita seja exigida para a validade do tratado devido à im­ portância deste.ato utilizado para acordos sobre litígios que vão ser submetidos à arbitragem. podendo estas ser nacionais ou estrangeiras.ato que estabelece as regras de criação e funcionamento de novos ór­ gãos. VIII. é fato que alguns autores ainda consideram a forma oral de certos acordos internacionais. a) a ata de uma conferência. art. c) Protocolo . a ordem internacional obtém sua validade em pro­ cedimentos típicos da comunidade internacional. Curso de direito internacional público. resultando da vontade de vários Estados contratantes. g) Convênio . que a eficácia dos tratados no territó­ . nota). O tratado é apenas uma dentre as espécies da grande família dos atos inter­ nacionais de consenso. 84. é relativamente ao concurso entre o tratado internacional e as nor­ mas internas de cada Estado que surgem a maiores indagações. 259. Entretanto. geralmente tribunais internacionais (Estatuto de Roma do Tribunal Penal In­ ternacional. c) consentimento mútuo c válido. a norma internacional deve ser admitida oficialmente no âmbito des­ te. o referendo do Congresso Nacional (CF. f) Compromisso . No Brasil. a ordem internacional rege rela­ ções entre Estados. exclusivamente. enquanto a interna se ocupa somente de pes­ soas naturais e jurídicas. obje­ to lícito e possível. ao passo que a ordem interna funda-se na Constituição. d) no caso do Brasil. esta pressupõe: a) capacidade dos contratan­ tes. b) protocolo-acordo . que brota da vontade de um Estado apenas.ato que versa matéria cultural ou transporte.trata-se dc um ato com objetivos econômico-financeiros ou cul­ turais. Celso D. b) Estatuto . Com efeito. com fundamentos e des­ tinatários distintos. Nesse senti­ do. como no caso dc notas diplomáticas confirmando acordos verbais anteriores (cf. 84. d) Acordo . conforme a teoria dualista. A teoria dualista foi elaborada por Heinrich Triepel. orientação adotada em 1928 na Convenção de Havana sobre tra­ tados.o termo tem dois significados: c. valendo uma referência aos seguintes: a) Declaração . no art. VIII). a CF adverte. Ademais. inconfundíveis. embora a denominação dualista a ela atribuída seja de Alfred Verdross. Ora. Para o dualismo a ordem interna­ cional e a interna são realidades distintas. Quanto à eficácia dos tratados.trata de matéria de competência comum da Igreja e do Esta­ do. a saber.ato destinado a instituir princípios jurídicos ou reafirmar uma atitude política comum. para ter validade e eficácia no âmbito inter­ no do Estado.

9 0 Estado entre Estados: as organizações interestatais 241 rio brasileiro depende de referendo do Congresso Nacional. cujo expoente é Hans Kelsen. prevalece a norma de direi­ to internacional. [. de maneira que a execução seja impossível. A primeira afirma a absoluta primazia do trata­ do sobre a ordem interna: havendo conflito entre eles. A superioridade hierárquica do direito internacional sobre o direito interno seria es­ sencial da própria existência deste. não pode haver duas ordens jurídicas independentes. a Gründnorm ou norma fundamental. Assim. diz Kelsen. Quanto à teoria monista. sobre tratados. no caso.. acordos ou atos internacionais que acarretem encargos ou compromissos gravosos ao patrimônio nacional.] não haveria conflito de fontes nas relações entre Direito Internacional e Direito Interno. O monismo viria a se cindir cm duas correntes. o que se coaduna com a moderna concepção da soberania. soberana. onde reina. que elaborou com outro jurista. estas não poderiam se chocar: a recepção do Direito Internacional seria realizada mediante sua transforma­ ção cm Direito Interno. daí a denominação de sua dou­ trina. por divisão de território ou por ou­ tros motivos análogos. 11 da Convenção de Havana sobre tratados. de 1928. ainda quando se mo­ difique a constituição interna dos Estados contratantes. como lembra Larissa Ramina. e 26 e 27 da Convenção de Viena sobre o Direito dos Tratados entre Estados e organizações internacionais ou entre organizações internacionais. Kelsen justifica o monismo invocando sua conhecida teoria da pirâmide nor­ mativa. validade decorrente daquele. não es­ taria subordinado a qualquer espécie de ordem. até chegarmos ao ápice da pirâmide. a partir do momento da transformação da norma internacional cm norma interna. dispositivos estes que dizem: Art. pois. como observa Larissa Ramina [. Assim. de 1986. mostra-se antípoda do pensamento dualista. desvinculado daquele. re­ tira sua validade daquela que lhe é imediatamente superior. segundo a qual.1. haja vista terem. Estado so­ berano é aquele que se acha diretamente subordinado ao direito internacional. da Lei Magna. Uma norma. que diz competir. (Pacta sunt servanda) Todo tratado em vigor obriga as partes e deve ser cumprido por . a não ser a moral.. as normas de direito interno. o qual. Kelsen afirma o primado do direito internacional. exclusivamente. como se observa nos arts.. existindo duas ordens jurídicas independentes. Adolf Mcrkl. a do monismo internacionalista e a do monismo nacionalista.. Os tratados continuarão a produzir os seus efeitos. a norma de direito internacional fundada no costume. qual seja. Para o conhecido mestre vienense.] Art. Se a organização do Estado mudar. pacta sunt servanda. norma que se conjuga com o art. ademais. 11. os tratados serão adaptados às novas condições. 4 9 . mas apenas uma. definitivamente. 26. a ordem jurídica internacional c as ordens jurídicas in­ ternas seriam apenas comunicantes. ao Congresso Nacional resolver.

mediante o Decreto Legislativo n. 8o). Art.06.09. 3o. com recepção na ordem jurídica brasileira desde 06. a qualquer momento. O Estado da execução não obstará a que o condenado apresente um tal pedido. O Tribunal poderá. Quanto à teoria monista nacionalista. c) crimes dc guerra (art. caput. VIII. b) crimes contra a humanidade (art. 4°. Foi instituído pelo chamado Estatuto de Roma. pois a Constituição Federal. Tem personalidade jurídica internacional (art. e 109. de 17. tendo por objetivo julgar os crimes de genocídio.02. arts. Por ou­ tro lado. item 1°. 112. 6) 0 TRIBUNAL PENAL INTERNACIONAL . 4 9 .TPl O Tribunal Penal Internacional (TPI) é uma pessoa jurídica de direito públi­ co externo. vinculada à União Europeia (UE). §§ 2o e 3o.06.242 Teoria Geral do Estado elas de boa-fé. guerra e agressão. 7°).2000. incluída a internacional. O direito público brasileiro consagra essa corrente. devem ser obedecidos os dispositivos constitucionais respectivos. havendo conflito entre uma norma interna e uma internacional.2002. a sa­ ber. As penas privativas de liberdade serão cumpridas num Estado indicado pelo Tribunal.2002. . II. impõe-se a to­ das as outras. 6o). 48. 1. decidir transferir um condenado para uma prisão de outro Estado.5o. O Tribunal terá competência exclusiva para decisões sobre qualquer pedido de revisão ou recurso. a qualquer mo­ mento. 4.2002. como norma fundante primeira. III e V. Qualquer Estado-parte poderá denunciar ao procurador uma situação em que haja indícios de ter ocorrido a prática de um ou vários crimes da competência do Tribunal e solicitar ao procurador que a investigue.07.1 . bem assim outros crimes contra a humanidade. deve prevalecer aquela. de 25. do qual o Brasil é signa­ tário desde 07. e promulgado internamen­ te pelo Decreto n. de 06. 84. A competência do Tribunal restringir-se-á aos crimes mais graves que afetam a comunidade internacional. Um Estado-parte de um tratado não pode invocar as disposições de seu direito interno para justificar o inadimplemento de um tratado. 1). a pessoa condenada pelo Tribunal poderá. 4o. a saber: a) crimes de genocídio (art.1998. esta afirma a primazia da Constituição do Estado sobre as normas internacionais. d) crime de agressão. a partir de uma lista de Estados que lhe tenham manifestado a sua dis­ ponibilidade para receber pessoas condenadas. I o) e sede em Flaia . solicitar sua transferência do Estado incumbido da execução. 27.Países Baixos (art. caráter permanente (art.388. com vista a determinar se uma ou mais pessoas identificadas deverão ser acusadas da prática desses crimes. 1). E para que haja recepção dessa pela ordem ju­ rídica brasileira.

Dos deveres. como o leitor perceberá de imediato. do que à sua brilhante produção jurídica e filosófica. postu­ ra ambígua. escritor e político ro­ mano. nas quais refulge a chamada humanitas ou sabedoria civil e moral tipicamente romana.d. quase sempre. H. s. cumpre ressaltar que evitamos a inclusão de excertos já conhecidos por todos.) 1 Marco Túlio Cícero (106-43 a. Bruto. o acesso a obras hoje raras fica. Nestor Silveira Chaves. trad. Nes­ te diapasão. Livr. o que torna os textos que o leitor tem. mesmo. durante a qual manteve. em respeito ao mais autêntico espírito democrá­ tico e à liberdade de opinião. dificilmente encontrada nas livra­ rias ou. Vale acrescentar que tais escritos revelam ideologias dc toda ordem. São Paulo. Saraiva. Dos deveres e Da República. e clássicos não envelhecem. Integram o rol seleto dos clássicos. como Do orador. e notas de Maximiano Augusto Gonçalves.LEITURAS COMPLEMENTARES 10 Na seleção dos textos a seguir. concretizado.C. facilmente encontrados num sem-número de recentes antologias. Cultura Brasileira. na medida de nossas possibilidades. Ed.). A maior parte desta coletânea é. e notas de João Mendes Neto. não levamos em conta a vetustez ou modernida­ de dos autores. trad. príncipe dos advogados e célebre orador. hoje. embora de notória importância. consistente em obras ainda hoje prestigiadas. nos sebos. Da velhice. ao mestre e ao aluno. São Paulo. Rio de Janeiro. deve sua fama menos à sua atividade política. de modo que o intento de facilitar. De officiis. de modo a ativar o senso crítico do leitor iniciante. trad. Antunes.. um excelente complemento para a pesquisa acadêmica. Vale lembrar que são textos pouco conhecidos da maioria do público. 243 . diante de si. 1) MARCO TÚLIO CÍCERO1 Dos deveres ("De o ffic iis ") (Tratado dos deveres.

Os . As condições que justificam uma guerra têm sido santamente consignadas no direito do povo romano. ao contrário. não podia legalmente combater o inimigo: tanto era ele rigoroso em observar as leis de guerra. ou depois dc declaração formal. XII Sobre isso quero observar: mudamos o nome de perduellis. uma guerra dessa natureza deve ser conduzida com maior animosidade. Catão escreveu a Pompílio que. não se tem o direito de combater”. a honra. com o tempo. e só se diz de quem toma armas contra nós. Com efeito. diz ele. não é menos indispensável a existência de uma razão legítima. Nas guer­ ras civis se comportam diferentemente com um inimigo e com um competidor. entendo que nunca sc deve rejeitar proposições de paz. governador de uma província. era preciso engajá-lo de novo. por uma questão de existência e não de supremacia. com este sc disputa uma dignidade. temperando assim a doçura da palavra com a dureza da coisa. com os latinos.244 Teoria Geral do Estado Por mim. quando não há aparência de perfídia. que foste licenciado pelo Cônsul. com o outro se defende a vida. Fizemos a guerra aos Celtibcros c aos Cimbros como a inimigos. Lê-se na Lei das Doze Tábuas: Aut dies status cum hoste. é preciso consolar os que foram vencidos pela força. pois que. os Cartagineses. Há alguma coisa mais humana que dar nomes tão moderados a quem nos faz a guerra? Contudo. De um lado. inimigo. uma magistratura. e o filho de Catão. que servia na Macedônia na época da guerra contra Perseu: “Soube. tinha no seu exército um filho de Ca­ tão. e não a que existe. Temos ainda a carta que o velho Catão escreveu a seu filho Marcos. talvez a melhor de todas. se encontrava licenciado. sendo a glória a finalidade da guer­ ra. De outro lado. a justiça foi tão bem observada por nossos maiores que aqueles que tinham recebido a submissão das cidades e nações tornavam-se seus protetores. tendo sido o pri­ meiro dispensado. se quisessem me ouvir. mas. Sobre isso. ainda quando o cerco começa a pene­ trar na muralha. e mais adiante Auctoritas aeterna adversus hostem. os Sabinos. teríamos uma república. pelo de hostis. que fazia suas primeiras armas. se ele consentisse em ter seu filho sob sua bandeira. que designava. que dela fazia parte. nossos maiores chamavam hostis os que chamamos agora perigrinus. ficou no exército. como gostava de guerra. quando estabelece como única guerra legítima aquela que é feita para reivindicar um território usurpado. Esse general deliberou licenciar uma legião. os Sânitas. receber generosamente os sitiados que depuseram ar­ mas e se colocaram à disposição do general. propriamente. o nome se tornou duro. Cuidado em se meter em qualquer comba­ te: desde que não se é soldado. de outro. só combatemos pelo império. Pompílio. Mesmo quando se luta pela supremacia. contendo os motivos. ao rei Pyrro.

os que se tornaram perjuros. foi enviado a Roma para tratar da troca de prisioneiros. e preferiu submeter-se ao suplício a faltar com a palavra dada ao inimigo. depois. Nossos antepassados deram um lindo exemplo de justiça para o inimigo. Ora. mesmo sob pressão dc circunstâncias. Com efeito. que. Tomando por testemunha a majestade dos deuses. retornou em seguida. Levareis vossos prisioneiros. No tempo da segunda guerra púnica. não o ouro. a palavra empenhada deve sempre refletir o que se pensa e não o que sc diz. Ninguém de mais humilde condição que os escravos. são aqueles que são tratados como mercenários aos quais se exige trabalho a troco do necessário para viverem. depois de tê-los fei­ to jurar que retornariam se nada obtivessem. dignas do sangue de Eacides. Para saber quem possuirá o Império! Que o valor decida.10 Leituras Complementares 245 cartagineses foram pérfidos. Observemos ainda que devemos praticar justiça mesmo com as pessoas de baixo nível. voltou. saindo do acampamento com permissão de Aníbal. Um trânsfuga do exército de Pyrro ofereceu-se ao Senado para envenenar o rei. deve manter sua palavra. Aníbal en­ viou prisioneiros a Roma para negociarem o resgate de cativos. preso pelos Cartagineses. aconse­ lhou o Senado a não devolver os cativos. apesar das súplicas de parentes e amigos. para mim nem o ouro. Regulus. Aníbal. decida a nossa sorte. Quando chegou. fez uma promessa ao inimigo. sem exclusão do que recorreu à astúcia para se desembaraçar de compromisso. voltou sob o pretexto de que havia esquecido qualquer coisa. o Se­ nado e C. Escutai minhas palavras! Àqueles que o destino da batalha poupar. Eu juro deixar a doce liberdade. . crendo-se quite com a sua palavra por não ter estado nos termos do tratado. Mas é o bastante sobre os deveres na guerra. Na primeira guerra púnica. Lembra-se a nobre resposta de Pyrro quando se tratou do resgate dos pri­ sioneiros: Romanos. nem resgate para mim! Não transformemos a guerra num tráfico infame! Que o ferro. Pyrro os devolverá. XIII O cidadão. foram degradados pelos censores e relegados toda a vida para a classe dos tributários. Fabricius entregaram o trânsfuga a Pyrro. c jurou voltar. antes da batalha de Cannes. Recusaram assim comprar com um crime a morte de um inimigo poderoso e que declarou guerra sem ser provoca­ do. São palavras dignas de um rei. mas os outros não se mostravam mais justos. cruel.

). Ademais. como o formal exce­ de o material. que quis dar à criatura a perfeição que lhe era possível ter. Encyclopaedia Britannica.] A diversidade e a desigualdade das criaturas não procede do acaso. pois teriam o que tem este e ainda mais. nem da intervenção de al­ gumas causas ou méritos. procuram parecer homens de bem. 47. quando enganam. era-Lhc conveniente fazer muitos graus de cria­ turas.. é cometida de duas maneiras: pela violência e pela frau­ de. Por isso. De todas as injustiças. mais acrescenta a bondade do universo a multiplicidade das es­ pécies do que a dos indivíduos de uma mesma espécie. 45). também será causa da sua desigualdade. Nos seres naturais vemos que as espccies são gradativamente ordenadas. Suma teológica. Livro II. a bondade da espécie excede a do indivíduo. e era excelente7 ’ (1. pois é deficitária da infinita bondade de Deus. os compostos são mais perfeitos do que os elementos. mas a fraude é mais odiosa. 2) [. Pois não seria perfeito o univer­ so se nas coisas só se encontrasse um grau de bondade (Santo Tomás de Aquino. É o bastante so­ bre a justiça.J Muitos bens finitos são melhores do que um só.31) (Suma contra os gentios. Uma pertence à raposa. diferentes graus de coisas (Santo Tomás de Aquino. Sen­ do. Ora.. v. Logo. As­ sim. 2) SANTO TOMAS DE AQUINO Suma teológica e Suma contra os gentios (Thomas Aquinas. Suma con­ tra os gentios. Todas as duas são indignas do homem. mas procede da própria intenção de Deus. é finita a bondade de toda criatura. Daí dizer-se no Gênesis: “Viu Deus tudo o que tinha feito. é mais perfeito o universo ha­ vendo muitas criaturas do que se houvesse um único grau delas. por conseguinte. . 19. as plantas do que os mi­ nerais. I. Logo. a mais abominável é a desses homens que.. a Divina Sabedoria a causa da distinção das coisas para a perfeição do universo. Ao Sumo Bem compete fazer o que é melhor. cit. os animais do que as plantas e os homens do que os outros animais. outra ao leão.) Tradução do autor. [.. Gap. in Britannica Great Books o f the Western World.246 Teoria Geral do Estado Quanto à injustiça. logo. mas haver diferentes espécies e. à perfeição do universo contribui não só haver muitos indivíduos. nem da diversidade da matéria. q. pois. a. Em cada uma dessas classes encontram-se espécies mais perfeitas do que as outras.

dedicou-se à pesquisa histórica e à ela­ boração de obras que se tornariam célebres. 1980. porque cumprida sua missão. Firenze. . o príncipe seria perfeitamente descartável. deixou que Pis- Nicolau Maquiavel (1469-1527). entretanto. de várias missões diplomáticas junto à corte francesa. que lhe inspiraram a feitura de inúmeros escritos. foram e são repúblicas ou principados. deve ter o cuida­ do de não usar mal essa piedade. especialmente os Discursos sobre a primeira década de Tito Lívio c O príncipe. e Tutte le opere. foi incumbido. se bem considerado for. Tal diretriz acarretou-lhe a má fama dc escritor cínico e insensível. todos os meios para alcan­ çá-lo seriam válidos. que os adquire. Capítulo I De quantas espécies são os principados e de que form as são adquiridos Todos os Estados. todos os governos que tiveram e têm poder sobre os ho­ mens. César Bórgia era considerado cruel. sua obra mais conhecida. procurou demonstrar como deveria agir o homem providencial que unificaria os italianos e emanciparia a Itália. como foi M ilão com Francisco Sforza. ou novos. Esses domínios assim obtidos estão acostumados ou a viver submetidos a um príncipe ou a ser livres. II príncipe. principalmente pelo prestígio de que ain­ da frui O príncipe. logrando uni-la e pô-la em paz e em lealdade.10 Leituras Complementares 247 3) NICOLAU MAQUIAVEL2 O príncipe (Machiavelli. mostrará ter sido ele muito mais pie­ doso do que o povo florentino. o qual. a italiana. Sendo esse objetivo nobre. ou membros acrescidos ao Estado hereditário do príncipe. digo que cada príncipe deve desejar ser tido como piedoso e não como cruel. pensador italiano natural de Florença. para fugir à pecha de cruel. bem como pela fortuna ou por virtude. Novara. O que. como é o reino de Nápoles em relação ao rei da Espanha. Nesta. entretanto. tomar-se-ia um dos mais conhecidos doutrinadores do seu tempo e da atualidade. sem que seus detratores se apercebessem de que O príncipe não fora escrito para todos os povos e todas as épocas. 1969.) Tradução do autor. Edipem. Nomeado secretário da senhoria de Florença em 1498. entre 1503 e 1512. Exilado em 15 12. Os principados são hereditários. sendo adquiridos com tropas de ou­ trem ou com as próprias. Itália. Stabilimenti Grafici Bemporad Marzoco. Conseguida a unifi­ cação. essa sua crueldade tinha recuperado a Romanha. Capítulo XVII Da crueldade e da piedade: se é m elhor ser tem ido ou ser amado Reportando-me às outras qualidades já mencionadas. quan­ do o sangue senhorial é nobre já há muito tempo. Os novos podem ser totalmente novos. mas sim para um momento grave da história de uma nação.

é ao novo que se torna impossível fugir à pecha de cruel. cm tendo que faltar uma das duas é muito mais seguro ser temido do que amado. com prudência e humanidade. E o príncipe que confiou inteiramente em suas palavras. fuja ao ódio. oferecem-te o próprio sangue. fazer-se temer. Além disso. enquanto lhes fizeres bem. são compradas. faça-o quando existir conveniente justificativa e causa manifes­ ta. volúveis. encon­ trando-se destituído de outros meios de defesa. pois que. é quebrado em cada oportunidade que a eles convenha. de forma que. desde que por ela conserve seus súditos unidos e leais. sobretudo. porque estes costumam prejudicar a comunidade inteira. ele será mais piedoso do que aqueles que. pela boca de Dido: “ Res dura. Deve. por excessiva piedade. desde que. Mas quando o príncipe está à frente de seus exércitos e tem sob seu coman­ do uma multidão de soldados. está perdido: as amizades que se adquirem por dinheiro. e. E. e não pela grandeza e nobreza de alma. mas. que. deve ser lento no crer e no agir. mas com elas não se pode contar e. et late fines custode tuerr. et regni novitas me talia cogunt moliri. si­ muladores. nunca fal­ tam motivos para justificar as expropriações. Deve o príncipe. buscan­ do evitar que a excessiva confiança o torne incauto e a demasiada desconfiança o faça intolerável. posto que a amizade é mantida por um vínculo de obrigação. não se alarmar por si mesmo e proceder por forma equilibrada. e aquele que começa a viver de rapi­ nagem sempre encontra razões para apossar-se dos bens alheios. em se lhe tomando necessário derramar o sangue de alguém. se não conquistar o amor. A resposta é que seria necessário ser uma coisa e outra. Isso porque dos homens pode-se dizer. abster-se dos bens alheios. que são ingratos.248 Teoria Geral do Estado toia fosse destruída. posto que os homens esquecem mais rapidamente a morte do pai do que a perda do patrimônio. po­ rém. não se torna possível utilizá-las. a necessidade esteja longe de ti. mesmo porque podem muito bem coexistir o ser temido c o não ser odiado: isso conseguirá sempre que se abstenha de tomar os bens e as mu­ lheres de seus cidadãos e de seus súditos. com mui poucos exemplos. E os homens têm menos escrúpulo em ofender a alguém que se faça amar do que a quem se faça temer. Um príncipe não deve. geralmente. então é de todo necessário não se importar com a . enquanto aquelas execuções que emanam do prín­ cipe atingem apenas um indivíduo. O príncipe. ambiciosos dc ganho. c. pois. deixam acontecer as desordens das quais resultam assassínios ou rapinagens. os filhos. quando esta se avizinha. ao passo que as ra­ zões para o derramamento de sangue são mais raras e esgotam-se mais depressa. Nasce daí uma questão: se é melhor ser amado que temido ou o contrário. a vida. no momento oportuno. Diz Virgílio. mas o temor é mantido pelo receio de castigo. contudo. que jamais se aban­ dona. por serem os homens maus. como é difícil reuni-las. não obstante. são todos teus. os bens. temer a fama de cruel. visto serem os Estados novos cheios de pe­ rigos. revoltam-se. dentre todos os príncipes. tementes do perigo. como se disse acima.

o tornou sem­ pre venerado e terrível no conceito de seus soldados. Os locrences. nunca surgiu qualquer dissensão entre eles ou contra o príncipe.) Este belo e. v. ora amaldiçoando Brutus e divinizando César. sem ela. Para prova de que. 4) W IL U A M SHAKESPEARE J ú lio César3 {Obras completas. resultando tudo isso de sua natureza fácil. Tal fato foi-lhe censurado no Senado por Fábio iMáximo. deve apoiar-se naquilo que é seu e não no que é dos outros. mas vivendo sob o governo do Senado. conduzido a batalhar em terras alheias. Concluo. que um príncipe sábio. Essa sua natureza teria com o tempo sacrificado a fama e a glória de Cipião. jamais se conservará exército unido e disposto a al­ guma empresa. nem a insolência daquele lega­ do foi reprimida. bem. 1. Dentre as admiráveis ações de Aníbal. tão logo se soube que este deixava bens ao povo. Isso não pode resultar dc outra coisa senão da­ quela sua desumana crueldade. tivesse ele perseverado no coman­ do. em face de seus interesses imediatos. tremendo texto. deve apenas empe­ nhar-se em fugir ao ódio. como foi dito. fruto do gênio de Shakespearc. paradoxalmente. pois que havia concedido aos seus soldados mais liberdades do que convinha à disciplina militar. Em festejada obra. tragédias. como lhe resultou em glória. cujos exérci­ tos se revoltaram na Espanha em conseqüência de sua excessiva piedade. Rio de Janeiro. Ed. de outro. de um lado. o Prof. tendo sido arruinados e abatidos por um legado de Cipião. a mutabilidade da chamada opinião pública. Nova Aguilar. admiram. percebe-se a volubilidade do ser humano. disse haver muitos homens que me­ lhor sabiam não errar do que corrigir os erros. não foram por ele vingados. p. esta sua prejudicial qualidade não só desapareceu. as vir­ tudes não lhe teriam bastado para surtir tal efeito. constituído de homens de inúmeras raças. as outras suas virtudes não seriam bastantes. escritores nisto pouco ponderados. amando os homens como a eles agrada e sendo por eles temido como dese­ ja. voltando à questão de ser temido e amado. Ora enaltecendo Brutus e ultrajando o cadáver de Cé­ sar. aliada às suas infinitas virtudes. demonstra. pois. e. Júlio César. Pedro Salvetti Netto adverte ser fundamental que a opinião pública autêntica só é possível .10 Leituras Complementares 249 fama de cruel. homem dos mais notáveis não somente nos seus tempos mas também na memória de todos os fatos conhecidos. que. sem aquela crueldade. 1988. o qual o chamou de corruptor da milícia romana. pode-se considerar o caso de Cipião. menciona-se esta: tendo um exército imenso. já que. todavia. que­ rendo alguém desculpá-lo perante o Senado. essa sua atuação e. tanto 11a má como na boa fortuna. tanto assim que. condenam a principal causa da mesma. realmente. 447 c scgs.

Julgai-me com vossa sabedoria e avivai vossos sentidos para que possais ser melhores juizes. numa via pública. Pelo simples fato de fazer parte dc uma mul­ tidão. como o Redemptor Hominis e o Messias . exal­ tando Cristo em um domingo. Se então esse amigo perguntar por que Bru­ to se levantou contra César. “a opinião das massas é so­ bremaneira influenciável e. . Record Ed. Bruto sobe à tribuna. / \ideia de decadência na história ocidental. faziam-no acom­ panhar. médico de profissão. tão volúvel como a pluma ao vento da ópera de Verdi. Há lágrimas para sua amizade. Rio de Janeiro . um eminente sociólogo francês.Sede pacientes até o fim! Romanos. foi valente. Fora disso. acompanhai-me e escutai. bem pode­ ria. poderão acompanhá-lo.São Paulo. transforma-se num bárbaro capaz das ações mais brutais e irracionais. 1999. 3. ora a tributar-lhe a glória.Eu ouvirei Bruto falar. o homem desce vários degraus na escada da civilização. se informada. 137-8). esta é minha resposta: “Não que amasse menos César. Arthur Herman. Quem é aqui tão vil que deseje ser escravo? Se alguém existe. como foi ambicioso. provocam. Os que desejarem ouvir-me. Preferiríeis que César vivesse e morrêsseis to­ dos escravos. quan­ do as pessoas se juntam numa reunião política ou. 1979. S e g u n d o C i d a d ã o . . levá-lo à rocha Tarpeia” (Curso de teoria do Estado. p. Serão expostas publicamente as razões da morte de César. para adverti-lo de que a mesma multidão. lhe murmurava aos ouvidos: Lembra-te de que és homem. 89-90). na qual afirmava que. Se houver nesta assembleia algum amigo caro a César. que caracterizam uma rixa ou uma horda de linchadores (cf. meus amigos..levou-o à cruz cinco dias depois. Na percepção genial do agir humano. C id a d ã o s . quando tivermos ouvido separadamente um e outro.O nobre Bruto já está na tribuna. eu me alegro. advertia Le Bon. a César morresse e vivêsseis todos livres? César gostava de mim e eu choro por ele. compatriotas e amigos! Escutai-me defender minha causa e guardai silêncio para que possais ouvir-me. P r i m e i r o C i d a d ã o . porém porque amava mais Rom a” . Gustave Le Bon. na multidão. . mesmo. os romanos. a regressão em massa a um estado primitivo. eu o venero. eu o matei. portanto. seguidamente. que fale. honra para seu valor. São Paulo.250 Teoria Geral do Estado CENA 11:0 Fórum Entram Bruto e Cássio com uma turba de Cidadãos. se responsável. prossegue.Eu ouvirei Cássio e assim poderemos comparar-lhes as opiniões. ele foi afortunado. Em 1895. fiquem aqui. Os que deseja­ rem acompanhar Cássio.Queremos que nos seja dada uma explicação! Dai-nos explicação! B r u t o . digo-lhe que o afeto de Bruto por César não era menor do que o dele. p.. . porque eu o ofendi! Quem é aqui tão estú- se conscientizada. ide à outra rua e dividi a multidão. Sa­ raiva. mas. . uns nos outros.Então. um escravo que. Por si mesmo. ao agraciarem o conquistador com as pompas e as honras do triunfo. . na visão intuitiva da própria psicologia das massas. Silêncio! Br u t o . júbilo para sua fortuna. publicou uma pequena obra intitulada A psicologia das multidões. pode ser uma pessoa sóbria e refinada. (Sai Cássio com al­ guns Cidadãos. na biga majestosa. . Acreditai-me por minha honra e respeitai minha honra para que possais acreditar-me. Cássio. ed. c morte para sua ambição.) Te r c e ir o C i d a d ã o . em tempo próximo.

Diz que.As melhores qualidades dc César sejam coroadas em Bruto! P r i m e i r o C i d a d ã o . . Honrai o cadáver dc César e ouvi a apo­ logia de suas glórias que. que fale.Então. até que Antônio haja acabado de falar. Vamos! B r u t o . S e g u n d o C i d a d ã o .Viva Bruto! Viva! Viva! P r i m e i r o C i d a d ã o . com nosso beneplácito. Foi uma bênção para nós que Roma se tivesse libertado dele. Suplicovos! Ninguém deve afastar-se. To d o s .Esse César foi u m tirano! Te r c e ir o C id a d ã o . permanecei aqui com Antônio. P r i m e i r o C i d a d ã o . Se matei meu melhor amigo pela felicidade de Roma. dela auferirá benefícios. que lhe valeram os méritos que possuía. . . .) P r i m e i r o C i d a d ã o . . Quem de vós não conseguirá outro tanto? Ainda uma palavra e partirei. . (Entram Antônio e outros com o corpo de César.Não há. se mi­ nha pátria quiser reclamar minha morte. porque eu o ofendi! Quem é aqui tão baixo que não ame sua pátria? Se existir.Vamos levá-lo para casa com vivas e aclamações! Br u t o . sem tomar parte em sua morte. em considera­ ção a mim. . não foi diminuída. exceto eu. . estou pronto a usar meu punhal contra mim. .Sim. nem foram exage­ radas as ofensas que lhe valeram a morte. . . . não há! B r u t o . que.) Aqui chega o corpo dele. A gló­ ria. To d o s . Antônio pronunciará. . não há dúvida.Em consideração a Bruto. Bruto.Fiquemos! Vamos ouvir Marco Antônio.C alem ! Silêncio! Fala B ruto. tenho uma obrigação para convosco. deixai-me ir embora sozinho. . . por consideração a Bruto. P r i m e i r o C i d a d ã o . .Seria melhor que não falasse mal de Bruto aqui.Vamos erigir-lhe uma estátua junto de seus antepas­ sados! T e r c e ir o C i d a d ã o . não ofendi ninguém. somente. .Meus compatriotas!.) Q uarto C i d a d ã o .. Subi. .. e.Q u e disse de Bruto? T e r c e ir o C i d a d ã o . que fale. .Caros compatriotas. . Q uarto C i d a d ã o . Nada mais fiz com César do que teríeis feito com Bruto! Os motivos da morte dele estão registrados no Capitólio. Es­ pero uma resposta.Vamos carregá-lo para casa em triunfo! Se g u n d o C i d a d ã o . (Sobe na tribuna. tem uma obrigação para com todos nós.Vamos nomeá-lo César! Q u a r t o C i d a d ã o .Calem.10 Leituras Complementares 251 pido que não queira ser romano? Se existir. T e r c e ir o C i d a d ã o . pranteado por Marco Antônio.Que suba à tribuna pública: nós o escutaremos. porque eu o ofendi. um lugar na República. nobre Antônio! A n t ô n i o . (Sai. .

A n t ô n i o . . mas aqui estou para falar sobre aquilo que conheço! To­ dos vós já o amastes. To d o s .Silêncio! Vamos ouvir o que Antônio tem para dizer.. c. parecia ambicioso? Quando os pobres deixavam ouvir suas vozes lastimosas.Ainda ontem a palavra de César podia ser mais forte do que o universo! Agora. Aqui. prestai-me atenção! Estou aqui para sepultar César. P r i m e i r o C i d a d ã o .Pobre coitado! Está com os olhos vermelhos como fogo de tanto chorar. .Vamos observá-lo agora. neste particular. se estivesse disposto a excitar vos­ sos corações e vossos espíritos para o motim e a cólera. Todos vós o vistes nas Lupercais: três vezes eu lhe apresentei uma coroa real e três vezes ele a recusou. leal e justo comigo. era uma grave falta e César a pagou gravemente. Não quero ser . os quais. Q u a r t o C i d a d ã o . sem dúvida alguma. não lhe presta uma só homenagem! Ó senhores.. então. agora.Sc for exato. Bruto disse que ele era ambicioso e Bruto é um homem hon­ rado. como todos vós sabeis.. e Bruto é um homem honrado. mas Bruto diz que era ambicioso. Trouxe muitos cativos para Roma. .Amigos. César. O mal que fazem os homens perdura de­ pois deles! Frequentemente. Está recomeçando a falar.Não existe homem mais nobre em Roma do que An­ tônio. T e r c e ir o C i d a d ã o . .. . compatriotas. Bruto disse que ele era am­ bicioso. Q uarto C i d a d ã o . para pranteá-lo? Oh! inteligência. romanos. não há dúvida de que não fosse ambicioso. . Se assim foi.Notastes as palavras que pronunciou? Não quis aceitar a coroa. . S e g u n d o C id a d ã o . A n t ô n i o . são homens honrados. . fugiste para os irracionais.Nobres romanos!. alguns terão que pagar caro. Não falo para desa­ provar o que Bruto disse. Bruto é um homem honrado. Desculpai-me! Meu coração está ali com César. A n t ô n i o . .Não é. não para glorificá-lo. venho falar nos funerais de César. Se g u n d o C i d a d ã o . César derramava lágrimas. Era meu amigo. seria injusto com Bruto e com Cássio. como todos os demais são homens honrados). cujos resgates encheram os cofres do Estado. .Acho que tem muita razão no que está dizendo. Isto era ambição? Entretanto. .252 Teoria Geral do Estado S e g u n d o C i d a d ã o . . não sem motivo. e preciso esperar até que ele para mim volte! P r i m e i r o C i d a d ã o . Portanto. mesmo que seja o mais miserável possível. com a permissão de Bruto e dos demais (pois Bruto é um homem honrado.Se considerares devidam ente o assunto. A ambição deveria ter um coração mais duro! Entretanto. pois os homens perderam o juízo!. T e r c e ir o C i d a d ã o . com eteram um grande erro c o m César. o bem que fizeram é sepultado com os próprios ossos! Que assim seja com César! O nobre Bruto vos disse que César era ambicioso. . vos detém. Que razão. cidadãos? Temo que um pior do que ele possa substituí-lo. ali ele jaz e ninguém.Silêncio! Vamos ouvi-lo.

se vós o soubésseis.Sede pacientes. . preparai-vos agora para derramá-las. Posso descer? Vós me dareis vossa permissão? To d o s . . P r i m e i r o C i d a d ã o .Queremos ouvir o testamento! Lede-o. aqui está um pergaminho com o selo de César. mergulhando os lenços em seu sangue sagrado! Mendigará um ca­ belo como relíquia e. não sois de pe­ dra. .São covardes. . -Tereis paciência? Esperareis um pouco? Fui longe demais contan- do-vos isto.O testamento! O testamento! Queremos ouvir o testamento de César. A n t ô n i o . mas sois humanos e. . Q u a r t o C i d a d ã o . o mencionará nos testamentos. não pretenda lê-lo). Q u a r t o C i d a d ã o . desculpai-me. . como precioso legado. observai como o san­ gue de César parece que se lançou atrás dele. amáveis amigos! Não devo lê-lo! Não é conve­ niente que saibais quanto César vos amava! Não sois de madeira. A n tô n io ! É pre­ ciso que leiais o testam ento! O testam ento de César! A n t ô n i o . .Quereis compelir-me então a ler o testamento? Pois. Não é bom que saibais que sois o herdeiro dele.Se tiverdes lágrimas.Recuai! Dai lugar! Retirai-vos! A n t ô n i o . cujos punhais feriram Cé­ sar! É o que temo! Q u a r t o C i d a d ã o . como se quisesse certificar-se de que S e g u n d o C i d a d ã o . quando morrer. no dia em que venceu os nérvios. Olhai: por este lugar penetrou o punhal de Cássio! Vede que rasgão abriu o invejoso Casca! Por este. para sua descendência. Marco Antônio! To d o s . . o bem-amado Bruto o feriu! E. .Lede o testam ento! Q uerem os ouvi-lo. então.Não vos aproximeis do ataúde! Não vos aproximeis do corpo! S e g u n d o C i d a d ã o . 0 I1 ! que poderia acontecer? Q uarto C i d a d ã o .Não vos aperteis tanto assim contra mim! Permanecei bem longe! To d o s .São traidores: Homens honrados! To d o s .) T e r c e ir o C i d a d ã o . assassinos! O testamento! Lede o testa­ mento! A n t ô n i o . lembro-me da primeira vez que César o usou. Ouça somente o povo este testamento (embora.Formai um círculo. for­ mai um círculo em torno do cadáver de César e deixai-me mostrar-vos aquele que fez o testamento. Temo ser injusto com os homens honrados. Eu o encontrei 110 gabinete dele: são as suas últimas vontades. dentro da tenda. . a ser injus­ to com homens tão honrados! Mas. ao retirar o maldito aço.Lugar para Antônio.D am o s! (Antônio desce do púlpito. ficareis enlouquecidos. .10 Leituras Complementares 253 injusto com eles! Prefiro ser injusto com o morto. ficareis inflamados. para o nobilíssimo Antônio! A n t ô n i o . Era uma tarde de verão.Estais autorizado. .Descei! . Colocai-vos cm volta. .Sua última vontade! O testamento! S e g u n d o C i d a d ã o . Todos vós conheceis este manto. c irá beijar as feridas de César morto. sendo homens. . . . ao ouvirdes o testamento de César. comigo e convosco. para transmi­ ti-lo.

. pobres bocas mudas e peço-lhes que fa­ lem por mim! Se eu fosse Bruto. como todos vós sabeis. meus amigos.. mais poderosa do que os braços dos traidores. .254 Teoria Geral do Estado era ou não Bruto quem tão desumanamente abria a porta! Porque Bruto. apresentarão a todos vós as razões que possuíam. por que chorais.Oh! dia calamitoso! Q u a r t o C i d a d ã o . pois. com que ternura César o amava! Esse foi o mais cruel de todos os golpes. . .Vamos.Oh! visão sangrenta! S e g u n d o C i d a d ã o ..Nós o escutaremos! Nós o seguiremos! Nós morrere­ mos com ele! A n t ô n i o . desfigurado pelos traidores! P r i m e i r o C i d a d ã o . o grande César caiu aos pés da estátua dc Pompcu.. . Não tenho espírito. Estou mos­ trando as feridas do bondoso César.. meus compatriotas! Naquele momento. . . a ingratidão. nem eloqüência. . capaz de comover e levantar em motim as pedras de Roma! Todos.. cobrindo o rosto com o manto. onde o sangue não parava de jor­ rar!. Não deixemos que nenhum traidor fique vivo! A n t ô n i o . como estais vendo.Oh! lamentável espetáculo! S e g u n d o C i d a d ã o . Oh! que queda foi aquela. nem o poder da palavra capazes de excitar o sangue dos ho­ mens! Falo muito claramente e só vos digo o que todos vós já conheceis. . esse Antônio perturbaria a serenidade de vossos espíritos e colocaria uma língua em cada uma das feridas de César. Queimemos!... como sa­ beis. estalou seu poderoso coração.. um homem franco e simples que amava meu amigo e isso sabem perfeitamente bem os que me deram publicamente licença para falar a respeito dele. Vamos!.Bons amigos. enquanto triunfava sobre nós a traição sangrenta! Oh! Estais choran­ do agora e percebo que sentis a marca da piedade! São lágrimas generosas! Almas bondosas.Vingança!.. Quais eram as queixas secretas que tinham para fazê-lo? Ai! E O que igno­ ro. Degolemos!.Incendiemos a casa de Bruto! Te r c e ir o C id a d ã o . para roubar vossos corações! Não sou orador como Bruto. nem ação. eu. venceu-o completa­ mente! Então. não me deixeis excitar-vos com esta repentina explosão de revolta! Aqueles que consumaram este ato são homens hon­ rados. então! Vinde! Vamos procurar os conspiradores! A n t ô n i o . . nem mérito.Silêncio! Escutai o nobre Antônio! S e g u n d o C i d a d ã o . quando só vistes ainda as feridas do manto de César? Olhai: aqui está o próprio César.. . e se Bruto fosse Antônio. pobres. . mas. Não vim aqui. Matemos!.Nós nos revoltaremos! P r i m e i r o C i d a d ã o . ó deuses. era o anjo de César! Julgai. compatriotas! P r i m e i r o C i d a d ã o .Seremos vingados! To d o s .Ouvi-me ainda..Esperai. . Procuremos!. compatriotas! Ouvi-me ainda falar! .. nem palavras..Oh! nobre César! T e r c e ir o C i d a d ã o . . sem dúvida. amáveis amigos. quando o nobre César viu que ele o feria.. Eles são sensatos e honrados e.Oh! traidores. . bandidos! P r i m e i r o C i d a d ã o . c. vós e todos caímos.

a cada h o m e m .Derrubai os bancos! Q u a r t o C i d a d ã o . um Estado realmente livre e esclarecido.) Tradução do autor. da qual pinçamos um trecho. Cultivou um individualismo radical. T o d o s . . .) 5) HENRY DAVID THOREAU4 Desobediência c iv il (Madrid. vós o ignorais! Devo. não sabcis o que ides fazer! Que fez César para assim merecer vossos afetos? Ai.Derrubai as arquibancadas. .Nobilíssimo César! Vingaremos a morte dele! T e r c e i r o C i d a d ã o . seu individualismo resta patente quan­ do diz: “Não haverá.Ide procurar o fogo! T e r c e i r o C i d a d ã o . A cada c id a d ã o ro m a n o . . Dele se disse que não desejava viver o que não c vida. Em sua obra mais conhecida.Além disso. .Silêncio! Ouçamos Antônio!. ele vos deixa todos os seus passeios. nem praticar a resignação. até que o Estado reconheça o poder do indivíduo como um poder mais alto e independente. estranho ao individualismo egoísta burguês. . . Lega-os perpetuamente para vós e para vossos herdeiros como parques públicos. então.. 1985. .Oh! régio César! A n t ô n i o . Nobilíssimo Antônio! A n t ô n i o . as janelas e tudo! (Saem Ci­ Se g u n d o C id a d ã o . formou-se em Harvard. a menos que absolutamente necessária.Ouvi-me com paciência! T o d o s . nunca! Vinde. do qual derivam seu próprio po­ der e sua autoridade”. ensaísta e poeta norte-americano.10 Leituras Complementares 255 . dadãos transportando o corpo de César. . . ten­ do sido aluno e grande amigo de Ralph Waldo Emerson. jamais. p. . 4 Henry David Thoreau (1817-1862). seus pomares recém-plantados deste lado do Tibre. 47-8. seus jardins pri­ vados. Esquecestes o tes­ tamento de que vos falei.A q u i está ele c c o m o selo de César. Aqui estava um César! Quando aparecerá outro? P r i m e i r o C i d a d ã o . para que possais passear e divertir-vos.Amigos. A n t ô n i o . . in d iv id u alm e n te . dizer-vos.É verdade! O testamento! Fiquemos para escutar o testamento! To d o s . Grupo Cultural Zero. vamos embora! Queimemos o corpo dele em lugar sagrado c com as tochas incendiaremos as casas dos traidores! Levantai o corpo! S e g u n d o C i d a d ã o . Desobediência civil. . po­ rém romântico. ele lega setenta e cinco dracm as.Silêncio! A n t ô n i o .Nunca..

que se esforça por prolongar-se. N ão mantém o país livre. Gostaria de vê-lo realizado de uma forma mais rápida e sistemática. desacreditados os ideais pacifistas de Thomas Jefferson e iniciado o processo imperialista estadunidense nas Américas. nos anos 1846 a 1848. embora recente. o México perdeu o Texas. a cada momento. corre o risco de ser violado e corrompido antes que o povo possa fazer valer sua vontade por seu intermédio. O mesmo governo. oxalá também se façam ao governo permanente. O exército permanente é apenas o braço do governo perma­ nente. especialmente na Amé­ rica do Sul. e quando os homens estiverem preparados para ele. a não ser abandonar o próprio rumo. O gover­ no americano o que é. N ão pacifica o oeste. . enganar-se a si mesmos. útil. O governo. É excelente. incólume. todos devemos aceitá-lo. e conseguiriam muito mais se o governo não se intrometesse. Quanto ao “atual conflito mexicano” referido na antologia. Apesar disso. para seu próprio proveito. mas que perde. As objeções que foram feitas ao exército per­ manente. com a maior convicção. Porque o go­ verno é um recurso mediante o qual os homens conseguiriam viver em paz uns com os outros c. c to­ dos. conforme se disse. terminada com o Tratado de Guadalupe/Hidalgo.256 Teoria Geral do Estado Aceito. sem maiores preocupações. mesmo. Observem que no atual conflito mexi­ cano um pequeno grupo utiliza o governo permanente em benefício próprio. sejam inúteis. mas nem por isso é menos necessário. uma parte de sua integridade? Não tem a vitalidade ou a força de um mero ser huma­ no. trata-se da guer­ ra travada entre os Estados Unidos e o México. porque um só homem pode dobrá-lo à sua vontade. algumas vezes. o povo não deu seu consentimento a esse ponto. o Novo México e a Califórnia. muitas respeitáveis e que devem prevalecer. Nela. embora a maioria dos governos. normalmente. Não passa de uma escope­ ta de madeira. senão uma tradição. Foi graças ao próprio caráter que os americanos conseguiram o que pos­ suem. por­ que. que é apenas a forma escolhida pelo povo para fazer va­ ler sua vontade. até a posteridade. esse governo jamais assumiu qualquer responsabilidade espontaneamente. antes de mais nada. não passa de um artifício. Desta maneira os governos demonstram com que sucesso é possível enganar os homens e. porque as pessoas querem ter uma maquinaria complicada e ouvir seu estrondo para satisfazer a ideia que têm do governo. o lema: “ O melhor governo é aquele que me­ nos governa”. tal será a espécie de governo que terão. Não educa. após o que chegaríamos àquele em que também creio: “O melhor governo é o que não governa nada cm absoluto”. na melhor das hipóteses. o governo será tanto mais útil quanto mais deixe em paz os governados.

1972. Evidentemente. Sobre este ponto. Co­ mecemos pois por situar claramente a questão. para sentir que ele care­ ce de um comentário. Mas soberano de quem? Pelo visto de si mesmo. ao menos no sistema francês. Se esses 25 milhões de homens fossem imortais e se os deputados não fossem reelcgívcis. A Deus não interes­ sava empregar meios sobrenaturais para fundar impérios. Tal comentário não se fará esperar. e como os eleitos po­ dem reeleger os já eleitos. porque todos temos um pai e uma mãe. Se um povo. 20-5. numa periodicidade mais ou menos de 3500 anos. porque Ele se serve dos homens para a constituir. Somen­ te cada indivíduo do sexo masculino tem sua vez de comandar. Por exemplo: suponhamos que existam hoje na França 25 milhões de homens sem contar as mulheres. cada francês se veria eleito soberano. É impossível imaginar uma soberania. aqui se esconde al­ gum equívoco. Assim pois. a imaginação fica estarrecida ante o número formidável de reis que morrem sem ter reinado. como sobre tantos outros. porque o povo que manda não é o povo que obedece. A ver as coisas de modo sumário e num nível mais terra-a-terra. Fernando Bastos de Ávila S. Tudo devia ser feito por intermédio dos homens. de repente. Basta enunciar o slogan: o povo é soberano. . e 700 deputados com mandatos de dois anos. vez por outra. se decidisse cm bloco a não obedecer. durante certo tem­ po. Mas então o povo é também vassalo. é o mesmo que dizer que Deus não é o cria­ dor do homem. Mas como neste período continua-se a morrer. exerce a sua soberania através de seus representantes. Mas dizer que a soberania não vem de Deus.J. é bem verda­ de que a soberania sc funda no conscntimento humano.10 Leituras Complementares 257 6) JOSEPH DE MAISTRE O pensamento s o c ia l cristão antes de M arx (Textos e comentários pelo P. é possível que as partes não se tenham feito bem entender. p.Livraria José Olympio Editora. O povo. estão com a razão e seria completamente inútil continuar a discutir. A coisa come­ ça a se esclarecer. para não dizer um erro. Mas é mister examinar com mais seriedade a questão. Tem-se discutido com veemência o problema da origem do poder: a sobera­ nia vem de Deus ou dos homens? Não sei se já se observou que as duas alternati­ vas podem ser verdadeiras. O povo é um soberano que não pode exercer a soberania. sem imaginar um povo que consente cm obedecer. terminaria a soberania. se os adversários da origem divina do poder não pretendem dizer mais que isto. eis a explicação.) A soberania do povo O povo é soberano! É o que sc diz. .

de vez que são eles que as elaboram. Da mesma forma.258 Teoria Geral do Estado Todos os teístas haverão de convir que aquele que viola as leis se opõe à von­ tade divina e se torna culpado perante Deus. F ' as províncias gritarão: Viva o Rei! Em Paris mesmo todos os habitantes. que não pode existir sem a soberania.. por sua vez. autor especialmente da sociedade. . autor de tudo. estas duas proposições: a soberania vem de Deus e a soberania vem dos homens. o povo não consentirá jamais.... porque foi Deus que criou o homem sociável.. (Este povo soberano tem alguma interferência na escolha do regime pelo qual será governado? Que papel desempenha ele nas mudanças eventuais de regime?) É muito comum o erro de raciocínio que consiste em pensar que uma even­ tual contrarrevolução só poderia ocorrer como o resultado de uma deliberação po­ pular: “o povo teme. é apenas como instrumento meramente passivo. Basta pois se entender sobre os termos. Mas esta vem também dos homens.” Se voltar a mo­ narquia. salvo uns 20. que Deus seja. apesar de violar apenas disposições humanas. não será o povo que terá decretado a sua volta. em certo sentido. Talvez não mais do que qua­ tro ou cinco pessoas darão amanhã um rei à França. Quanta balela! Nas revoluções.. contentemo-nos em examinar juntos o que há de divino e o que há de humano na soberania. ou seja que a forma de go­ verno é estabelecida e proclamada pelo consentimento humano.. sem as quais uma so­ ciedade não pode subsistir. Foi Deus que assim quis a sociedade e. Assim. Cartas despachadas dc Paris anunciarão às províncias que a França tem um rei. neste sentido que Ele quer que existam leis c que se­ jam obedecidas. no entanto. por conseguinte. também a soberania e as leis. Com estas precauções estamos certos de não nos extraviar e assim podere­ mos aceitar sem riscos o que disse aquele escritor: não venho aqui dizer-vos que a soberania vem de Deus ou que ela vem dos homens. haverão de tomar conhe­ cimento de manhã ao acordar que eles têm um rei.. o povo quer. não se contradizem de for­ ma alguma. por excelência e de modo eminente. o autor desses mesmos governos.”. sem as con­ fundir. a soberania vem de Deus. para inaugurar o governo revolucionário. como também não é contraditório afirmar que as leis vêm de Deus e que elas vêm dos homens.. Os partidários da origem divina do poder não podem negar que a vontade humana desempenha um certo papel na criação dos governos... o povo está por fora e se nelas entra. Sabem qual será sua reação? “ Possível? Que coisa curiosa! Por que porta o rei haverá de entrar? E melhor ir tra­ tando de alugar alguma sacada. essas leis vêm também dos homens. pôr as ideias no seu lugar. e os partidários do sistema oposto não podem negar. porque na rua será um atropelo. como não foi o povo que a baniu. exce­ to do mal. As leis vêm pois de Deus. não é do in­ teresse do povo.

Nenhum objeto pode ser mais importante para um cidadão do que a eleição dos seus legisladores. sem com isso complicar a divisão clássica de cada um dos outros. pois estou convencido da minha incapaci­ dade para fazer leis.10 Leituras Complementares 259 7) SIM ON BOLÍVAR Discurso perante o Congresso Constituinte de Bolívia (1825) (Lisboa. apenas pôde ver cativos com grilhetas e companheiros como armas para destrui-las? Legislador. como também fácil. As­ . sinto-me dominado pela confusão c pela timidez. interrompidos por breves relâmpagos de ventura. eu?.. Que guia será o nosso . Atrever-me-ia a afirmar com alguma exatidão que esta representatividade partici­ pa dos direitos de que gozam os governos particulares dos estados federados. O Projeto de Constituição para a Bolívia está dividido em quatro poderes po­ líticos. O vosso engano e o meu compromisso disputam entre si a preferência. Estas atribui­ ções aproximam-se bastante das que existem no sistema liberal. p. Quando considero que a sabedoria de todos os scculos não é suficiente para criar uma lei fundamental que seja perfeita c que o mais esclareci­ do legislador pode ser a causa imediata da infelicidade humana e ludibrio. Pareceu-me não só conveniente e útil. tendo-se portanto acrescentado mais um. 1977. magistrados.pelo opróbrio a que me condenais com a vossa confian­ ça. se eu .) Legisladores! Ao oferecer-vos o Projeto de Constituição da Bolívia. 151-67. envolven­ do a pequena ilha da liberdade que se vê perpetuamente sujeita à violência das va­ gas e furacões em fúria e que procuram submergi-la. digamos assim. conceder aos representantes imediatos do povo os privilégios que mais podem desejar os cidadãos dc cada departamento. ainda que as lições e a experiência nos mostrem apenas vastos períodos de desas­ tres.que poderei dizer-vos do soldado que. Reuni todas as minhas forças para vos expor as opiniões que mantenho sobre o modo de dirigir homens livres. pelos princípios adotados entre os povos livres. Os colégios elei­ torais de cada província representam os seus interesses e necessidades e servem de veículo às queixas das infrações das leis e dos abusos cometidos pelos magistrados. Tende em vista esse mar que ireis sulcar com frágil barca e cujo timoneiro é tão inexperiente. nascido en­ tre escravos e sepultado nos desertos da sua pátria. O eleitoral recebeu faculdades que não lhe eram assinaladas nos outros governos que se julgam entre os mais liberais.à sombra de tão tenebrosos exemplos? Legisladores! o vosso dever chama-vos a resistir ao choque de dois monstros inimigos que reciprocamente se combatem. e não sei quem so­ fre mais neste horrível conflito: se vós . do seu ministério divino . pro­ víncia ou cantão. juizes e pastores. Editorial Estampa.pelos males que deveis temer das leis que me haveis pedido. para depois vos atacarem simultanea­ mente: a tirania e a anarquia constituem um oceano imenso de opressão..

Clássico absurdo! A primeira Câmara é a dos tribunos e goza da atribuição de dar início às leis relativas à Fazenda. corregedores e todos os subalternos do departamento de Justiça. à Paz e à Guerra. onde. Os censores exercem um poder político e moral que tem certa semelhança com o do Areópago de Atenas e o dos censores de Roma. da ociosidade e da ignorância absoluta. go­ vernadores. Essa a ra­ zão por que Siéyès apenas defendia a existência de um. Não são exigidas nem capacidades. deste modo nenhuma lei útil ficará sem efeito ou. Não lhe são postas outras exclusões que não sejam as do crime. Assim acontece com a Inglaterra. antes de sofrer a negativa.260 Teoria Geral do Estado sim se colocou novo peso na balança contra o Executivo. Cabe ao Senado escolher os prefeitos. para poderem deliberar ausentes de paixões e com a calma da sabedoria. que nos serviu de modelo. pelo menos. zelando para que a Constituição e os tratados públicos se­ . Dir-me-ão que os Congressos modernos se compõem apenas de duas seções. onde a nobreza e o povo estão representados em duas Câmaras. e o mesmo acontece na América do Norte. mas deve o cidadão saber escrever as suas votações. adquirindo o governo mais garantias. O Corpo Legislativo apresenta uma composição que o torna necessariamen­ te harmonioso entre as diversas partes: jamais se encontrará dividido por falta de um juiz árbitro. É do pelouro do Senado tudo quanto pertence à religião e às leis. é o que o exercício do poder público exige. não existindo nobreza. imparcial. mais popularidade. Tem a seu cargo a inspeção imediata dos ra­ mos que o Executivo administra com menos intervenção do Legislativo. como acontece quando existem apenas duas Câmaras. seria pois absurdo que nos interes­ ses mais árduos da sociedade se desprezasse tal providência ditada por uma neces­ sidade imperiosa. já que foi sua colônia. Em todos os assuntos entre dois contrários sc nomeará um terceiro para decidir. O que é verda­ de é que dois corpos deliberantes acabam por combater-se mutuamente. Saber e honradez. a discórdia entre duas será sempre resolvida pela terceira. podemos to­ davia imaginar que se inspirou naquele país. Assim as Câmaras guardarão entre si as considerações que são indispensáveis para conservar a união do todo. três vezes. Serão eles os fiscalizadores junto do governo. Pro­ põe à Câmara dos Censores os membros do Tribunal Supremo. duas. não dinheiro. Terá de professar uma ciência ou arte que lhe assegure um alimento honesto. nem é ne­ cessário possuir bens para representar a augusta função de soberano. Cada dez cidadãos nomearão um eleitor c assim se achará representada a na­ ção pelo décimo dos seus cidadãos. novos títulos e distinguindo-se entre os mais de­ mocráticos. assinar o seu nome e ler as leis. os arcebispos. Como pas­ sarão a existir três. bis­ pos. os juizes do distrito. dignidades e cônegos. que a jul­ ga. e a questão examinada pelas duas partes contendentes terá uma. Os senadores criam os códigos e regulamentos eclesiásticos e velam sobre os tribunais e o culto. será analisada uma.

com direitos para nomear sucessor. os censores devem gozar de uma inocência intacta e de uma vida sem mancha. A sua duração é a mesma dos presidentes do Haiti. que deve decidir da boa ou má administração do Executivo. a instrução e a im­ prensa. E sob a sua égide se encontra também o Juízo Nacional. Para a Bolívia esse ponto é o presidente vitalício. São os censores quem protege a moral. O fiel da glória estará confiado às suas mãos. viu-se forçada a recorrer ao ilustre Petion para que a salvasse. O presidente da República acaba por ser. mais que nos outros. A estes sacer­ dotes das leis confiei a conservação das nossas tábuas sagradas. ainda que se trate de faltas insignificantes. Nele se estriba toda a nossa ordem. dá vida ao Universo. na tranqüilidade de um reino legítimo. com faculdades de eleger su­ cessor. Esta diminuição de poderes ainda ne­ nhum governo bem constituído a sofreu nos nossos dias: ela virá trazer entraves sobre entraves à autoridade de um chefe que sempre se apresentará ao povo sob o domínio dos que exercem as funções mais importantes da sociedade. O presidente da Bolívia participa das faculdades do Executivo americano. firme 110 seu centro. se torna necessário um ponto fixo à volta do qual devem girar os magistrados e os cidadãos. Eles condenarão ao opróbrio eterno os usurpadores da autoridade soberana e os crimi­ nosos importantes. pois são eles que devem levantar a voz contra os seus profanadores. o presidente da Bolívia fica privado de todas as influências: não nomeia magistrados. na nossa Constituição. Cortou-se-lhe a cabeça para que ninguém receie as suas intenções e ataram-se-lhe as mãos para que não cause dano a ninguém. e com ele moverei o mundo. Com a designação de Petion para presidente vitalício. como o Sol que. to­ dos os governos conhecidos e alguns mais. Confiaram nele e os destinos de Haiti não vacilaram mais. é a inspiração mais sublime na or­ dem republicana. por mais pequenas que sejam. as ciências. por parte dele. Os sacerdo­ . os homens e as coisas. por isso mesmo. nem juizes ou dignidades eclesiásticas. a república. Trouxe para a Bolívia o sistema executivo da república mais democrática do mundo. ação. as artes. mas com restrições favoráveis ao povo. A ilha de Haiti (seja-me permitida esta digressão) encontra-se em permanen­ te insurreição: depois de haver experimentado o império. nem a morte desse grande homem. Além disso. Prova triunfante de que um presiden­ te vitalício. dizia um antigo. o reino. A mais terrível e a mais augusta das missões pertence pois aos censores. uma vez que nos sistemas sem hierarquias. Concederão honras públicas aos serviços c às virtudes dos ci­ dadãos ilustres. Esta suprema autoridade deve ser perpétua.10 Leituras Complementares 261 jam observados com zelo. nem a sucessão do novo presidente. Dai-me um ponto fixo. tudo continuou sob o signo Boyer. sem que isso implique. e o modo de su­ cessão mais seguro para o bem do Estado. Se trans­ gredirem serão acusados. re­ presentaram o mais pequeno perigo para o Estado. O presidente da Bolívia será menos perigoso que o do Haiti.

Dessalines. legisladores: não temais os pretendentes a coroas: elas serão para as suas cabeças a espada suspensa sobre Dionísio (sic). Os príncipes flamantes que se afadigam a construir tronos sobre os escombros da liberdade. magistrados. responsável perante os censores e está sujeita à vigilância zelosa dc todos os legisladores. não são. Os aduaneiros e os soldados. As barreiras constitucionais integram uma consciência política e con­ ferem-lhe a firme esperança de encontrar o farol que a guie entre os escolhos que . os ti­ ranos não são permanentes. Iturbide. Obser­ ve-se a natureza selvagem deste continente que só por si exclui a ordem monárqui­ ca. num solo incendiado pelas chamas brilhantes da liberdade. devorador de entraves erguidas e criador de cadafalsos régios? Não. A igreja. os mais adequados para lhe captar a aura popular. Não há poder mais difícil de manter do que o dc um novo príncipe. na verdade. apesar da influência que goza. únicos agentes deste ministério. Devendo estes ao povo as suas dignidades. e os magistrados cm todos os atos públicos. As nossas riquezas eram praticamente nulas. glória e fortuna. erguerão túmulos para as suas cinzas. c se alguns ambiciosos se empenham em levantar im­ périos. não logrou triunfar de tal regra.262 Teoria Geral do Estado tes mandam sobre as consciências. Sem estes dois apoios. juizes c ci­ dadãos. e satisfaz-se com a sua conservação. a paz e guerra e a mandar no exército. e entre estas duas barreiras vê-se obrigado a avançar por um caminho angustiado e flanqueado de precipícios. Bonapartc. Os limites constitucionais do presidente da Bolívia são os mais estreitos que se conhecem: limita-se a nomear os funcionários da Fazenda. E sc o grande Napolcão não conseguiu manter-se contra a ligação de republi­ canos c aristocratas quem. Não existem nobres importantes ou grandes eclesiásticos. mais forte que os impé­ rios. vence­ dor de todos os exércitos. não poderá o presidente esperar complicá-los com as suas ambiciosas pretensões. está longe de as­ pirar ao domínio. São estas as suas funções. Legisladores! A liberdade de hoje. os juizes sobre a propriedade. do segundo as ordens. logo são informados do que os espera. A administração pcrtencc toda ao ministério. assim a sua influência é nula. é preferível governar assim a ter nas mãos um impé­ rio absoluto. Cristóbal. testemunhando no futuro dos séculos a sua fátua ambição pela li­ berdade e pela glória. O vice-presidente é o magistrado mais manietado que serviu o mando: obe­ dece simultaneamente ao Legislativo e ao Executivo de um governo republicano. Se acrescentarmos a esta consideração as que naturalmen­ te surgem das oposições gerais que enfrenta um governo democrático cm todos os momentos da sua administração. Do primeiro recebe as leis. a honra e a vida. Ape­ sar de tantos inconvenientes. na América. alcançará fundar monarquias. jamais será destruída na América. parece-me que há razão para ficarmos seguros da usurpação do poder público ser mais longínqua nesta forma de governo do que em qualquer outra.

a segurança. a monarquia que governa a terra obteve os seus títulos de aprovação da herança que a torna estável. este príncipe a que me atreveria a chamar a ironia do homem. e o Legislativo es­ colhe os indivíduos que hão de formar os tribunais. a igualdade. que estas grandes vantagens se encontram reunidas no presidente vitalício e no vice-presidente hereditário. com um poder firme e uma ação constante. Reparei no que acon­ tece nos reinos legítimos. legisladores. em lugar de se ficarem inativos e ignorantes. como este método: reúne a vantagem de colocar à cabeça da administra­ ção um indivíduo experimentado no manejo do Estado.10 Leituras Complementares 263 a rodeiam: servirão de apoio contra os impulsos das nossas paixões. pelos seus serviços. Com esta providência se evitam as eleições. se pusessem à frente da ad­ ministração? Haveria. fechado no seu palácio. Sim. todas as garantias da ordem social. O Cor­ po Legislativo e o povo exigirão capacidades c talentos da parte deste magistrado e pedir-lhe-ão uma cega obediência às leis da liberdade. No governo dos Estados Unidos observou-se ultimamente a prática de nomear o primeiro-ministro para suceder ao presidente.o mundo supremo. não pela sorte. são os que constituem a liberdade. Nada c tão conveniente. a anarquia que é o luxo da tirania e o perigo mais imediato e mais terrível dos governos populares. E ainda que um príncipe soberano seja um menino mimado. monarcas mais esclarecidos e dispostos a faze­ rem felizes os povos que governassem. na tremenda crise das repúblicas! O vice-presidente deve ser o homem mais puro: pois se o primeiro magistra­ do não elege um cidadão justo. sem dúvida. educado pela adulação e conduzido por todas as paixões. mas pelo mérito e. senhores legisladores. o crédito que necessita para desempenhar as mais al­ tas funções e esperar a grande recompensa nacional . A verdadeira constituição liberal está nos códigos civis e penais. legisladores. Se o Poder Judicial não tiver esta origem ser-lhe-á impossível conservar. porque conserva a ordem das coisas e a subordinação entre os ci­ dadãos. que produzem grandes reveses nas repúblicas. em toda a sua pureza. Quando inicia o exercício das suas novas funções já vai formado. Sendo a herança aquilo que perpetua o regime monárquico e assim acontece na quase generalidade. manda no gênero humano. O presidente da república nomeia o vice-presidente para que este administre o Estado e lhe suceda no mando. Este vice-presidente terá dc esforçar-se por merecer. numa re­ pública. os direitos indi­ viduais. deverá temê-lo como inimigo encarniçado e suspei­ tar até das suas ambições mais secretas. O povo apresenta os candidatos. quanto mais útil não é o método que acabo de propor para a sucessão? Que aconteceria se os príncipes fossem eleitos. e da unidade que a torna forte. levando consigo a auréola da popularida­ de e uma prática consumada. Apoderei-me desta ideia e estabeleci-a como lei. Estes direitos. O Poder Judicial que proponho goza de uma independência absoluta: em ne­ nhuma outra parte tem tanta. concertadas com os interesses alheios. Considerai. e a mais terrível tirania é exercida pelos tribunais .

Por isso recomendo uma lei que prescreva um método de responsabili­ dade anual para cada funcionário. interessa à república guarnecer as fron­ teiras com tropas de linha e tropas de fiscalização contra a guerra da fraude. O território da república é governado por prefeitos. um serviço seme­ lhante é mais imoral que supérfluo. não obstante. A Bolívia não possui grandes costas e por isso é inútil a marinha: apesar disso esperamos obter um dia uma e outra coisa. legisladores: os ma­ gistrados. bastas vezes desdenhado. Não pude entrar no regime interno e nas faculdades destas jurisdições. mas quase sempre não se passa de palavras. e da qual dima- . Não existe responsabilidade. corregedo­ res. Este ponto é da predileção da ciência legislativa e. e se houver liberdade e justiça na república. A fiscalização militar é preferível em todos os aspectos aos guardas. Deus nos preserve de ele voltar as armas contra os cidadãos! Basta a milícia na­ cional para conservar a ordem interna. sem repressão. segun­ do as exigências do movimento do mundo moral. as outras são nominais ou de pouca influência no respeitante aos ci­ dadãos. O destino do exército é o de guarnecer a frontei­ ra. é meu dever recomendar ao Congresso os regulamen­ tos respeitantes ao serviço dos departamentos e províncias. Foram estabelecidas as garantias mais perfeitas: a liberdade civil é a verdadei­ ra liberdade.das coisas dos indivíduos. o Executivo não é mais que um depo­ sitário da coisa pública. o Estado é um caos. De acordo com as ideias em voga. muitas vezes. governadores. seria de esperar que proibíssemos o uso da tortura e das confissões. Toda gente fala em liberdade. mas os tribunais são os árbitros das coisas próprias . juizes e funcionários abusam das suas faculdades porque não se detêm com rigor os agentes da administração. O Poder Judicial contém a medida do bem ou do mal dos ci­ dadãos. Geralmente. A força armada divide-a em quatro partes: exército dc linha. Pouco importa. Atrevo-me a instar encarecidamente junto dos legisladores para que ditem leis for­ tes e determinantes sobre esta matéria. Pensei que a Constituição da Bolívia devesse reformar-se por períodos. que as nações são formadas por cidades e aldeias.264 Teoria Geral do Estado através do instrumento das leis. e entretanto as vítimas deste abuso são os cidadãos. Nunca será demasiada a atenção que prestardes ao bom regime dos departamentos. Sem responsabilidade. e que do bem-estar destas resulta a felicidade do Estado. juizes de paz e alcaides. serão distribuídos através des­ se poder. Os trâmites da reforma foram assinalados nos termos que julguei mais apropriados ao caso. que as leis se cumpram religiosamente e se tenham por inexo­ ráveis como o destino. A responsabilidade dos funcionários fica assinalada na Constituição bolivia­ na da forma mais efetiva. por isso. Garantiu-se a segurança pessoal. contudo. esquadra. a organização política: o importante é que a civil seja perfeita. que é o fim da sociedade. legisla­ dores. Tende presente. milí­ cia nacional e fiscalização militar. e que encurtássemos a duração dos pleitos no intricado la­ birinto das apelações.

para descanso dos vossos concidadãos. Basear um princípio de posse sobre a mais fe­ roz delinqüência só poderá conceber-se com a alteração dos elementos do direito c a perversão mais absoluta das noções do dever. a infração dc todas as leis é a escravatura. têm em vista a superfície das coisas: governam fora da casa dos cidadãos. A religião governa o homem em casa. provocasse a ira do céu. parece-me o ultraje mais chocante. Ninguém pode violar o santo dog­ ma da igualdade. preferiria a sorte de um leão generoso dominando nos desertos e bosques.10 Leituras Complementares 265 nam as outras. Toda lei sobre ela a anula. Por ela devemos fazer todos os sacrifícios. Voltará ainda a Inquisição com os seus archotes incen­ diários? A religião é a lei da consciência. cúmplice dos seus crimes. Um homem na posse de outro! Um homem proprie­ dade! Uma imagem de Deus subjugada como um animal! Dizei-me: onde estão os títulos dos usurpadores do homem? Foram-nos enviados pela Guiné. porque segundo as melhores doutrinas sobre as leis fundamentais es­ tas são as garantias dos direitos políticos c civis. porque impondo a necessidade tira mérito à fé. As leis. Transplantadas para aqui estas relíquias das tribos africanas. quan­ do os tribunais estão no céu e quando Deus é o juiz? Só a Inquisição seria capaz de substituí-los neste mundo. mas a religião não se integra em nenhum destes direitos. coberta de humilhação. A lei que a conservas­ se seria a mais sacrílega das leis. Mas não: Deus destinou o homem à liberdade e protege-o para que exerça a fun­ ção celeste do livre-arbítrio. A seus pós colo­ quei. Legisladores. essa depende do código civil que a vossa sabedoria deverá redigir em seguida. segundo a minha consciên­ cia. Con­ servei intacta a lei das leis . eternizar este crime eivado de suplícios. pois a África devastada pelo fratricídio só nos apresenta crimes. Numa Constituição política não deverá prescrever-se uma profis­ são religiosa. não por usurpadores. devia omitir. Que direitos poderão ser alegados para que se mantenha? Observe-se este crime sob todos os aspectos. velar pelo cumprimento das leis religiosas e atribuir prêmio ou castigo. a infame escravatura. pelo contrário. E poderá haver escravatura onde reina a igualdade? Uma tal con­ tradição seria mais o vitupério da nossa razão do que da nossa justiça: reputados por dementes. Legisladores! Farei agora menção de um artigo que.a igualdade sem ela. prorrogar. Quanto à propriedade. no gabinete. E se não houvesse um Deus Protetor da inocência e da liberdade. à de um cativo ao serviço de um infame tirano que. é de natureza indefinível na ordem social c pertence à mo­ ral intelectual. Os preceitos e dogmas sa­ . que lei ou poder será capaz dc sancionar o domínio sobre tais vítimas? Transmitir. Aplicando estas considerações. poderá um Estado reger a consciência dos seus sú­ ditos. estou convencido que não existe um único boliviano tão depravado que pretenda legitimar a mais insigne vio­ lação da dignidade humana. todos os direitos. que é a base da religião. dentro de si pró­ prio: ela apenas tem o direito de examinar a sua consciência íntima. desaparecem todas as garan­ tias.

Onde está a repúbli­ ca. o próprio gênio do maior dos heróis. mas a moral não se impõe. luminosos e de evidência metafísica. ao ver proclamada a nova nação boliviana quão generosas e su­ blimes considerações deverão elevar as vossas almas! A entrada de um novo Esta­ do na sociedade dos outros é motivo de júbilo para o gênero humano. Por outro lado.o Pai da Cidade Eterna! Esta glória pertence de direito aos criadores das nações que. as virtudes. o homem apoia a sua moral nas verdades reveladas e professa de fato a religião. O progresso moral do homem é a intenção primeira do legislador. mas. . nada mais viu que fosse igual ao seu valor. todos devemos professá-los. Qual não será o dos seus fundadores . não me sinto digno de merecer o nome que lhe haveis querido dar-lhe . Bolívia que quer dizer? Um amor arrebatado pela liberdade e que o vosso impulso ao recebê-la. acabais por ligar o meu nome a todas as vossas gerações. que mais eficaz se torna quando adquirida por investi­ gações próprias.. Sendo tudo isto de juris­ dição divina. Além disso..e o meu! .vendo-me em igualdade com o mais célebre dos antigos . neste mundo. parece-me à primeira vista sacrílego e profano misturar as nossas prescrições como os mandamentos do Senhor. dedicando-me uma nação. ultrapassa todos os limites! Sim: só Deus teria poder para chamar a esta terra Bolívia. antecipou-sc todos os meus serviços e é infinitamente superior a quantos bens possam trazer-me os homens.266 Teoria Geral do Estado grados são úteis. onde a cidade que fundei? A vossa exuberância. deverão receber recompensas imortais.o meu! Falar da minha gratidão. quais são. Deus c os seus ministros são as au­ toridades da religião que atua por meios e órgãos exclusivamente espirituais. a lei deixa de ser lei. Legislar sobre a religião não cabe ao legislador que deve sim prescrever penas às infrações das leis para que estas não se­ jam meros conselhos. sendo os seus primeiros benfeitores. como a de Deus. o Corpo Nacional que dirige o poder público para objetos pura­ mente temporais. Mas o meu desespero aumenta ao contemplar a imensidade do vosso prêmio. lá se encontra o tribunal que recompensa o mé­ rito e faz justiça segundo o código ditado pelo legislador. quando ela jamais conseguirá alcançar a expres­ são do que eu sinto com a vossa bondade que. Inebriados por tal explosão de senti­ mentos. Os pastores espirituais estão obrigados a ensinar a ciência do céu: o exemplo dos verdadeiros discípulos de Jesus c o mestre mais eloqüente da sua divina moral. mas este dever é moral. quando este progresso é conseguido. Não havendo castigos temporais nem juizes que os apliquem. de modo algum. mas a minha. não é político. os pais de família não podem descuidar o dever religio­ so para com os filhos. Legisladores. porque é au­ mentada a grande família dos povos. além de imortal tem o mérito de ser gratuita porque não merecida. porque depois de haver esgotado os talentos. nem o que ordena é senhor. nem a força deve ser empregada em dar conselhos. os direitos do homem para com a re­ ligião? Esses direitos estão no céu.

Zahar. em suma. a existên­ cia de diversas camadas sociais subordinadas. Na Idade Média. Homem livre e escravo. ainda.) I . Manifesto do Partido Comunista . Dentro de cada uma de todas estas classes. ou pela reestruturação revo­ lucionária da sociedade como um todo ou pela destruição das classes em choque. vassalos. mestre de corporação e companheiro. com novas classes sociais e novos meios de opressão. Regina Lúcia E de Moraes. Einaudi. Desde os primórdios da História. e que deve perpetuar uma ditosa existência sob as leis ditadas pela vossa sabedoria. Global. patrício e plebeu. se confunde com a his­ tória das lutas de classes. ed. de forma tal que a sociedade como um todo vai se reduzindo. cavaleiros. A sociedade burguesa atual. 1978. que é inaudito na história dos séculos. Rio de Janei­ ro. Turim. nos­ sa sociedade burguesa se caracterizou pela simplificação dos antagonismos entre as classes. paulatina­ mente. aprendizes e servos. provará que sois crcdores dc obter a grande benção do Céu . uma cla­ ra divisão da sociedade cm classes diferentes. constata-se. repito. trad. Legisladores. senhores. senhor e servo. duas grandes classes que se defrontam: a bur­ guesia e o proletariado! . opressores e oprimidos em confli­ to permanente entre si. Entretanto. 1978. Lima. até hoje existentes. a apenas dois campos hostis. Harokl J. é-o ainda mais na história dos desprendimentos sublimes. na calma que se sucedeu à tempestade da guerra.Burgueses e proletários A história de todas as sociedades. em todos os lugares. que é a posse de exercer as vir­ tudes políticas. mestres. a qual sempre se encerrou. felizes vós que presidis aos destinos de uma república que nasceu coroada com os louros de Ayacucho. e que decidis na posse dos vossos direitos. a cada vez. 23 de maio de 1826 8) KARL MARX E FRIEDRICH ENGELS 0 manifesto comunista (Manifesto dei Partido Comunista. que surgiu dos escombros da sociedade feudal. Este feito. 1981. levado a efeito numa guerra incessante.10 Leituras Complementares 267 Isto. companheiros. temos os patrícios.c a Soberania do Povo . Na Roma antiga. às claras ou dissi­ muladamente. 2. Tal feito mostrará aos tempos que estão 110 pensamento do Eterno. plebeus e escravos. O manifes­ to comunista de Marx e Engels. ligadas a uma progressiva modifica­ ção nas condições de vida. não aboliu os antagonismos de classe.a única autori­ dade legítima das nações. São Paulo. Laski. e o gozo dc serem homens. encontra-se. apenas substituiu as antigas formas de luta por outras..

patriarcais e idílicas. senhores dc verdadeiros exércitos industriais. A própria manufatura não mais atendia a esta. que a burguesia atual é o produto de um longo proces­ so de desenvolvimento. de uma escalada de revoluções nos modos de produção e dc troca. o vapor e as má­ quinas revolucionaram a produção industrial. Cada fase na formação histórica da burguesia veio acompanhada de um processo político correlato: a classe oprimida pelo feudalismo despótico sc organi­ za cm associação armada e autônoma na Comuna. da navegação e dos meios de comunicação. Mais tarde. Então. terceiro estado. Dilacerou. a evolução notável dos mecanismos de troca c o aumento das mercadorias cm geral foram os fatores que ensejaram um desenvolvimento. nunca antes verificado. Tal redundou numa expansão ainda maior da indústria. com o estabelecimento da indústria moderna e do mercado mundial. Os mercados da índia Oriental e da China. como contrapeso da no­ breza. Não há dúvida de que. a burguesia. Conforme se desenvolviam a indústria. a colonização do Novo Mundo. a burguesia desempenhou um papel revolucionário dos mais significativos. destes. da navega­ ção e da indústria. sendo que este promoveu um espantoso desenvolvimento do co­ mércio. ali. no período manufatureiro. constituindo a bur­ guesia moderna. para que subsistisse . A descoberta da América e a circunavegação da África abriram para a bur­ guesia emergente novas alternativas. Os mercados. os diversos la­ ços que uniam o homem feudal aos seus superiores naturais. A produção manufatureira tomou o seu lugar. O sistema feudal. já não poderia mais atender à crescente demanda dos novos mercados. o comércio com as colônias. e a divisão do trabalho entre as di­ ferentes corporações foi extinta. continuavam em expansão e a demanda aumentando sem parar. o governo não passa de um órgão destinado a gerenciar os interesses comuns de toda a bur­ guesia. república urbana indepen­ dente (como na Itália e na Alemanha). em face da divisão do trabalho em cada oficina. e a classe média industrial ultrapassada pelos capi­ tães dc indústria. Conclui-se. A manufatura foi substituída pela gigantesca indústria moderna. Neste. Onde conquistou o poder. o comércio. a na­ vegação e as ferrovias. Os mestres das corporações foram substituídos pela pequena burguesia industrial. aumentando seu capital e colocan­ do em plano secundário toda classe oriunda da Idade Média. os primeiros representantes da burguesia de hoje. com sua produção industrial monopolizada por grupos fe­ chados. conquistou afinal o domínio político exclusivo do Estado representativo moderno. e como fundamento principal das grandes monarquias. tributário da monarquia (como na França). ela destruiu to­ das as relações feudais. A descoberta do Novo Mundo permitiu que a indústria moderna criasse seu mercado mundial. a burguesia se firmava. trazendo com isto o apressamento do processo revolucionário 110 seio da enfraquecida sociedade feudal. do comércio. aqui. cruelmente.268 Teoria Geral do Estado Dos servos da Idade Média surgiram os burgueses privilegiados das antigas cidades e. entrementes. historicamente. portanto.

direta e brutal. o poeta. Assim como submeteu o campo à cidade. capaz dc derrubar até as muralhas da China e de subjugar os bárbaros mais desconfiados. Sua mercadoria barata constitui sua mais poderosa arma. submeteu. também. Estudos Político-Sociais. Graças ao incrível desenvolvimento dos meios de produção e às facilidades ensejadas pelos meios de comunicação. Col. trad. Que é uma Constituiçãof. liberando imensos contingentes do embrutecimento da vida rural. Kairós. Walter Stõnncr. 1985. todas as nações para o seu modelo de civilização. transformar o mundo à sua imagem e semelhança! O sistema burguês submeteu o campo à cidade. Global.10 Leituras Complementares 269 apenas o laço frio do interesse. 1933. São Paulo. até então. e Publ. São Paulo. Brasil. do entusiasmo cavalheiresco.) . Arran­ cou o véu sentimental que envolvia as relações familiares. Que é uma Constituição?. cm nome dc todas as liberdades conquis­ tadas. com a ameaça de seu desaparecimento. o insensível “pagamento a vista” nas relações hu­ manas. A burguesia retirou a auréola de todas as atividades consideradas. o homem de ciência. se não o fizerem. os povos agrícolas aos povos bur­ gueses. cínica. afastou a explo­ ração camuflada pelas ilusões religiosas e políticas. respeitáveis e veneráveis. reduzindo-as a meras es­ peculações financeiras. de maneira ir­ resistível. Ed. Fez da dignidade pessoal mero valor dc troca c. e os países atrasados ou me­ nos evoluídos aos civilizados. o padre. 1987. 9) FERDINAND LASSALLE Que é uma Constituição? (O que é uma Constituição política . do sentimentalismo pequeno-burguês nas águas geladas do cálculo egoísta. o ju­ rista. São Paulo. Manoel Soares. Em suma. mesmo as mais atrasa­ das. o Oriente ao Ocidente. transformando o médico. obriga todas as nações a adotarem um modo burguês dc produção. visando. dando origem a gigantescos aglomerados urbanos. para adotar a exploração aber­ ta. estabeleceu a implacável liberdade do comercio. força-as a optarem pelo que ela considera civilização. em síntese. a burguesia consegue atrair. Com mão dc ferro. Sufocou o êxtase sagrado do fervor religioso. em trabalhadores assalariados. aumentando descontroladamente a população das cidades e esvaziando os campos. trad.

sem penetrarmos na sua essência.270 Teoria Geral do Estado Capítulo 0 que é uma Constituição? Inicio. a da Prússia ou outra qualquer.como demonstrarei logo . certamente. Primeiramente torna-se necessário sabermos qual é a verdadeira essência de uma Constituição. para orientar-nos sobre se uma determinada Constituição é. sejam quais forem. O conceito de Constituição . Não basta apre­ sentar a matéria concreta de uma determinada Constituição. pela manhã e à noite. para responder satisfatoriamente à pergunta por mim formulada: onde podemos encontrar o conceito de uma Constituição. receberia mais ou menos esta res­ posta: “Constituição é um pacto juramentado entre o rei e o povo. poderemos saber se a Carta Constitucional determinada e concreta que estamos examinando se acomoda ou não às exigências substanciais. ou outras parecidas que se possam dar. a essência constitucional. apesar disso. na qual se baseia a organização do Direito público dessa nação”. Todas essas respostas jurídicas. porém.é a fonte primitiva da qual nascem a arte e a sabedoria cons­ titucionais. Na imprensa. estabelecendo os princípios alicerçadores da legislação e do governo dentro de um país”. . limitam-se a descrever exteriormente como se formam as Constituições e o que fazem. formulo em termos precisos esta pergun­ ta: qual a verdadeira essência. E. pois. está claro. depois. pois existe também a Constituição nos países de governo republica­ no: “A Constituição é a lei fundamental proclamada pelo país. boa ou má. iVIuitos. procurariam o volume que fala da legislação prussiana de 1850 até encontrarem os dispositivos da Constituição do reino da Prússia. seja ela qual for? Se fizesse esta indagação a um jurisconsulto. e. porém. à tarde. duradoura ou insustentável. distanciam-se muito de explicar cabalmente a pergunta que fiz. responder à minha pergunta. mas não explicam o que é uma Constituição. factível ou irrealizável. porém não esclarecem onde está o conceito de toda Constituição. entre essas milhares de pessoas que falam desta. Não servem. ou por isso mesmo. o verdadeiro conceito de uma Constituição? Estou certo de que. Estas. Dão-nos critérios. pois. estamos ouvindo falar da Constituição e de seus pro­ blemas constitucionais. proclamando-as Constituições. Para isso. seja qual for o seu conteúdo. notas explicativas para conhecer juridicamente uma Constituição. nos clubes. isto é. nos cafés e nos restaurantes é este o assunto obrigatório de todas as conversas. O u ge­ neralizando. existem muito pou­ cas que possam dar-nos uma resposta satisfatória. pois para isso se­ ria necessário que explicassem o seu conceito. para responder-nos. de nada servirão as definições jurídicas que podem ser aplicadas a todos os papéis assinados por uma nação ou por esta e o seu rei. minha palestra com esta pergunta: o que é uma Constituição? Qual a verdadeira essência de uma Constituição? Em todos os lugares e a toda hora. Mas isso não seria. e porque.

isto é. Uma Constituição. que faz com que a Constituição seja mais do que simples lei. não é uma lei como as outras. por exemplo. Por isso. porém. consta que para reformá-la não é o bastante que uma simples maioria assim o deseje. senão que. Lei e Constituição Aplicando esse método. Constituições que dispõem taxativamente que a Constituição não poderá ser alterada de modo algum. Todavia. pois no­ tamos. Esta. pois. seria absolutamente supérflua e não teria motivos para ser aprovada. O país. se a nova lei não motivasse modificações no aparelhamento legal vigente. necessita a aprovação legislativa. Não pode.. ad hoc. é mais do que isso. Baseia-se em compararmos a coisa cujo conceito não sabemos com outra semelhante a ela. esforçando-nos para pene­ trar clara e nitidamente nas diferenças que afastam uma da outra. Todos esses fatos demonstraram que. nem mesmo unidos ao Poder Executivo. pois. que é esta a missão normal e natural dos governos. minha pergunta: Que é uma Constituição? Onde encontrar a verdadeira essência. deverá ser nomeada uma nova Assembleia Legislativa.. de mais firme e de mais imó­ vel que uma lei comum. mas será necessário obter dois terços dos vo­ tos do Parlamento. criada expressa e exclusivamente para esse fim. existem ainda algumas onde se declara que não é da compe­ tência dos Corpos Legislativos sua modificação. para reger. para reformá-la. tem que ser também lei.10 Leituras Complementares 271 Repito. pois é agora que vamos desvendá-lo. uma Constituição deve ser qualquer coisa de mais sagrado. evidentemente. até. Mas. quando mexem na Constituição. há também desse­ melhança. não protesta pelo fato de constantemente serem apro­ vadas novas leis. o verdadeiro conceito de uma Constituição? Como o ignoramos. uma essência genética co­ mum. Faço outra vez a pergunta anterior: qual a diferença entre uma Constituição e uma simples lei? . e estamos cientes disso. todos nós sabemos que se torna necessário que to­ dos os anos seja criado maior ou menor número de leis. no espírito unânime dos povos. decre­ tar-se uma única lei que seja nova sem alterar a situação legislativa vigente no momento da sua aprovação. noutras. a lei e a Constituição. pergunto: Qual a diferença entre uma Constituição e uma lei? Ambas. têm. uma simples lei. para que se ma­ nifeste sobre a oportunidade ou conveniência de ser a Constituição modificada. po­ deria demonstrá-lo com centenas de exemplos. pelo contrário. aplicaremos um mé­ todo que é de utilidade pôr em prática sempre que quisermos esclarecer o concei­ to de uma coisa. protestamos e gritamos: Deixai a Constitui­ ção! Qual é a origem dessa diferença? Esta diferença é tão inegável que existem. não protestamos quando as leis são modificadas. Entre os dois conceitos não existe somente afinidade. Este método é muito simples.

a noção de uma necessidade ativa . não poder deixar-nos satisfeitos. atuar e irradiar através das leis comuns do país. um termo novo. “lei fundamental”. existem porque necessariamente devem existir. movem-se de um modo determinado. que nesta resposta se en­ contre. que de nada nos servirá enquanto não soubermos explicar qual é. Somente ganhamos um vocábulo novo. por exemplo. Este movimento res­ ponde a causas.272 Teoria Geral do Estado A esta pergunta responderão: Constituição não é uma lei como as outras. a fundamentos exatos. com que todas as outras leis e instituições jurídicas vigentes no país sejam o que real­ . indagando que ideias ou que noções são as que vão associadas a esse nome de4 4 lei fundamentar’. substituindo a outra. isto c. uma força ativa que faz. se é o resultado como preten­ dem os cientistas da força da atração do Sol. mais do que as outras comuns. Mas.o verdadeiro fundamento das outras leis. Somente as coisas que carecem de fundamento. embora de modo obscuro. quer dizer seria variável. a verdade que estamos investigando. se realmente pretende ser merecedora desse nome. é uma lei fundam ental da nação. É possível. que são as casuais e as fortuitas. Imediatamente surge. implicitamente. A lei fundamental. A ideia de fundamento traz. a lei fundamental. 3) mas as coisas que têm um fundamento não o são assim por um capricho. como indica seu próprio nome: “fundamental”.pois de outra forma não poderíamos chamá-la de funda­ mental . ou. uma exigência da necessidade. para sê-lo. Sendo a Constituição a lei fundam ental de uma nação. se dc fato responde a um fundamento. podem ser como são ou mesmo de qualquer outra for­ ma. pois aqui rege a lei da necessidade. Intentemos. pois. continuamos onde começamos. assim formulada. meus senhores. ou não? Se não existissem tais fundamen­ tos. pois.qualquer coisa que logo poderemos definir e esclare­ cer. esta interrogação: como distinguir uma lei da lei fundam ental? Como podeis ver. Mas a mes­ ma. 2) que constitua . ou. como já vimos. Para isso será necessário: 1) que a lei fundamental seja uma lei básica . as que possuem um fundamento não. como poderíamos distinguir uma “lei fundamental” de outra lei qualquer para que a primeira possa justificar o nome que lhe foi assinalado. deverá. é o bastante isto para que o movimen­ to dos planetas seja regido e governado de tal modo por esse fundamento que não possa ser de outro modo.e agora já co­ meçamos a sair das trevas . Os planetas. sua trajetória seria casual e poderia variar a todo momento. será . repito. ou melhor. deverá informar e engendrar as ou­ tras leis comuns originárias da mesma. O fundamento a que respondem não permite serem de outro modo. de uma força eficaz que toma por lei da necessidade que o que sobre ela se baseia seja assim e não de outro m odo . aprofundar um pouco mais no assunto. dc forma bastante confusa. a não ser tal como de fato é. em outros termos. a diferença entre lei fundam ental e outra lei qualquer.

Porém. será que existe em algum país . poderia fazer leis a ca­ pricho de acordo com o seu modo de pensar? A m onarquia Suponhamos que os senhores respondam: visto que as leis desapareceram e que vamos redigir outras completamente novas. Não ignoram os meus ouvintes que na Prússia somente tem força de lei os tex­ tos publicados na Coleção legislativa. Naturalmente. desaparecendo in­ clusive todas as bibliotecas particulares onde existissem coleções. completamente livre. existem sem dúvida. . Vamos supor. desde os alicerces até o telhado. em substância. não pode realmente acontecer. o que são e como são sem poder ser de outro modo f Capítulo II Os fatores reais do poder Sim. por causa deste sinistro. como vou expô-lo. de tal forma que. que as obrigue a serem necessariamente. embora quisessem. não podem decretar. determinando que não possam ser. até certo ponto. a partir desse instante. naquele país. Vou esclarecer isto com um exemplo. outras quaisquer: M uito bem.. dc tal maneira que em toda a Prússia não fosse possível achar um único exemplar das leis do país. pergunto eu. mas sim o que o exemplo nos possa ensinar se este chegasse a ser realidade. ficasse sem nenhuma das leis que o governavam e que por força das circunstâncias fosse necessário de­ cretar novas leis. que um grande incêndio irrompesse e que nele se queimassem todos os arquivos do Estado.10 Leituras Complementares 273 mente são. embora este exemplo possa dar-se dc outra forma. que o sinistro destruísse também a tipografia concessionária onde se imprimia a Cole­ ção legislativa e que ainda. Julgai que neste caso o legislador. por uma triste coincidência . nos fatores reais do poder que regem uma determinada sociedade. e esta incógnita que estamos investigando apoia-se. bibliotecas e depósitos guardam-se as coleções le­ gislativas impressas. todas as bibliotecas públicas. Suponhamos ainda que o país. e em outros arquivos.e fazendo esta per­ gunta os horizontes clareiam . simplesmente. Esta Coleção imprime-se numa tipografia concessionária instalada em Berlim. este exemplo.estamos no terreno das suposições . não interessa sabermos se o fato pode ou não acontecer.igual desastre se desse em todas as cidades do país. Os originais das leis guardam-se nos arquivos do Estado. por um momento. Os fatores reais do poder que regulam no seio de cada sociedade são essa força ativa e eficaz que informa todas as leis e instituições jurídicas da sociedade em apre­ ço.alguma força ativa que possa influir dc tal forma que todas as suas leis. Suponhamos isto. a não ser tal como elas são.

por . a realida­ de é que o Exército subsiste e me obedece. da Câmara senhorial. Possivelmente teriam mais que fazer para li­ vrar-se deles. A grande burguesia Ocorre-me agora assentar o suposto ao inverso. É sabido que o “grande” capital não poderia. progredir e mesmo viver sob o sistema medieval. dc grandes proprietários agrícolas. enfim. mais ainda. somos todos “iguais” e não preci­ samos absolutamente. e. entre os quais somente existe um punhado cada vez menor de grandes pro­ prietários de terras pertencentes à nobreza. há dc possuir tanta influencia nos destinos do país como os restantes milhões de habitantes reunidos. formando somente eles uma Câmara Alta que fiscaliza os acordos da Câmara dos Deputados. a suposição de que o rei e a nobreza aliados entre si para restabelecer a organização medieval. quer dizer. porque neste regime se levantaria uma série de barreiras legais entre os diversos ramos de produção. sem excluir a grande indústria.. eleita esta pelos votos de todos os cidadãos. porém. Mas a gravidade do caso está em que os grandes fazendeiros da nobreza tive­ ram sempre muita influência na Corte e esta influência garante-lhe a saída do Exér­ cito e dos canhões para seus fins. “para nada”. aplicada a toda a organização social. apoiado neste poder real. cada vez menor. isto é. O monarca responderia assim: podem estar destruídas as leis. um rei a quem obedecem o Exército e os canhões. de forma alguma. das baionetas e dos canhões.274 Teoria Geral do Estado nelas não reconheceremos à monarquia as prerrogativas que até agora gozou ao amparo das leis destruídas. como se este aparelhamento da força estivesse “ diretamente” ao seu dispor. Imaginemos que os meus ou­ vintes dissessem: destruídas as leis do passado. Entre outros motivos. é uma parte da Constituição.. Reconheço que não seria fácil à nobreza atirar contra o povo que assim pen­ sasse seus exércitos de camponeses. Vejam. Não sabemos por que esse punhado. A aristocracia Suponhamos agora que os senhores dissessem: somos tantos milhões de prus­ sianos. mas não ao pequeno proprietário. a realidade é que os comandantes dos arsenais e quartéis põem na rua os canhões e as baionetas quan­ do eu o ordenar. não respeitaremos prerrogativas nem atri­ buições de espécie alguma. efetivo. impedindo-se seu desenvolvimento sob aquele regime. as fábricas e a produção mecanizada. recusando sistematicamente todos os acordos que julgarem prejudiciais aos seus interesses. pretendessem impor o sistema que regeu na Idade Média. Como podeis ver. não queremos a monarquia. acatando minhas ordens. pois. não tolero que venham impor-me posições e prerrogativas em desacordo comigo. como uma nobreza influente e bem vista pelo rei e sua cortc é também uma parte da Constituição.

nestas condições e a despeito de tudo. sem restrições. a gran­ de burguesia.e necessita como o ar que respiramos -. Neste caso. A grande indústria exige. isto é. obstinadamen­ te implantassem hoje a Constituição gremial? Aconteceria que os senhores Borsig. assim. Suponhamos isto e tam­ bém que ao Banco da Nação pretendesse dar a organização adequada para obter esse resultado. os grandes industriais. estabelecer-se-ia por lei a quantidade estrita dc produção de cada industrial e cada indús­ tria somente poderia ocupar um determinado número de operários por igual. também. exigindo pão e trabalho. abertamente lesivas aos interesses dos grandes banquei­ ros. Ademais. instigando-a com o seu prestígio. sustentando-a e alentando-a com o seu dinheiro. quer dizer. sob o sistema gremial daquele tempo. que os Borsig. ne­ cessitando ao mesmo tempo da produção em “massa” e a livre concorrência. são todos. por exemplo. Os banqueiros Suponhamos. a estamparia não poderia empregar em sua fábrica somente a um tintureiro etc. que o governo pretendesse implantar uma des­ sas medidas excepcionais. O comércio e a indústria ficariam paralisados. os grandes industriais de teci­ dos. não poderia progredir com uma Constituição do tipo gremial. por um instante. uma parte da Constituição. que esse mesmo governo entendesse. e nenhum industrial poderia reunir duas ou mais indústrias em suas mãos. fechariam as suas fábricas despedindo os seus ope­ rários. Que viria a acontecer se. que o Banco da Nação não foi criado para a função que hoje cumpre. Atrás dela. entre as corporações dos fabricantes de pregos e os ferreiros existiriam constantes processos para deslindar as suas respectivas jurisdições. Egels. sobretudo . animando-a com a sua influência. enfim. . grande número de pequenos industriais seria obrigado a fechar suas oficinas e esta multidão de homens sem tra­ balho sairia à praça pública pedindo.10 Leituras Complementares 275 muita afinidade que os mesmos tivessem. que obtêm numerário naquele estabelecimento bancário para to­ mar acessível o crédito à gente humilde e à classe média. Egels etc. os fabricantes dc sedas etc. Isto basta para compreender que a grande produção. que é a de baratear mais ainda o crédi­ to aos grandes banqueiros e aos capitalistas que possuem por razão natural todo o crédito e todo o dinheiro do país e que são os únicos que podem descontar as suas firmas. a possibilidade de empregar quantos operários necessitar. viria fatalmente à luta. a indústria mecanizada. Demonstrara-se. por exemplo. e até as companhias de estrada de ferro seriam obrigadas a agir da mesma forma. ampla liberdade da fu­ são dos mais diferentes ramos do trabalho nas mãos de um mesmo capitalista.. mas o governo atual não poderia impor presentemente medida semelhante. Poderia isto prevalecer? Não vou dizer que isto desencadeasse uma revolta. na qual o triunfo não seria certamente das armas.

pouco a pouco. Estes inter­ mediários são os grandes banqueiros c. os fatos nos de­ monstram que poderia. são também partes da Constituição. da cultura coletiva e da consciência social do país. mas isto requer tem­ po. Vemos. a nenhum governo con­ vém. mesmo que fosse transitoriamente. serve-se dos particulares. cm troca do dinheiro que recebe adiantadamente. e se o governo pretendesse tirar à pequena burguesia e ao operariado não somente as suas liberdades políticas. Para isto necessita dos banqueiros. dos banqueiros. isto é. Poderia fazê-lo? Infelizmente. A pequena burguesia e a classe operária Imaginemos agora que o governo. também a consciência coletiva e a cultura geral da Nação são partículas. de intermediários que lhe adiantem as quantias de que precisa. dos grandes industriais c dos grandes capitalistas. pois contra ela se levantaria o protesto. às vezes muito tempo. indispor-se com eles. a maior parte daqueles títulos da dívida vol­ ta às mãos da gente rica e dos pequenos capitalistas do país. mais dia menos dia. ou. Essa lei não poderia reger. burocratas e conselheiros do Estado ergueriam as mãos para o céu. e não pequenas. É que.276 Teoria Geral do Estado Demonstrarei por quê. e até os sisudos senadores teriam de discordar de tamanho absur­ do. com toda a energia possível. ten­ tasse privar das suas liberdades políticas a pequena burguesia e a classe operária. De vez em quando o governo sente apertos financeiros devido à necessidade de investir grandes quantias de dinheiro que não tem coragem de tirar do povo por meio dc novos impostos ou aumento dos existentes. Nesses casos. embora estivessem aliados ao rei a nobreza e toda a grande burguesia. mais uma vez. correndo depois por sua conta a colocação. É certo que. que os grandes banqueiros. o papel da dívida pública. como Mendclssohn. ou em pequenos prazos. o que é a mesma coisa. contrair empréstimos. e o governo necessita do dinheiro logo e de urna vez. Suponhamos que o governo intentasse promulgar uma lei penal semelhante à que prevaleceu durante algum tempo na China. Schickler. Todos os funcionários. Para conseguir o dinheiro. resta a alterna­ tiva dc consumir dinheiro futuro. do papel da dívida locupletando-se também com a alta da cotação que a esses títulos lhe dá a Bolsa artificialmente. isto é. entregando. poderia. tornando-o à situação em que viveu durante os tempos da Idade Média? Subsistiria essa pre­ tensão? Não. senão sua liberdade pessoal. sim. querendo proteger c satisfazer os privilégios da nobreza. . Mas. por esse motivo. dentro de certos limites. a Bolsa. da Constituição. hoje em dia. punindo na pessoa dos pais os rou­ bos cometidos pelos filhos. se pre­ tendesse transformar pessoalmente o trabalhador em escravo ou servo.

dá-sc-lhcs expressão escrita e. transformando-os desta maneira em fatores jurídicos. pois nos casos extremos c desesperados também o povo. 1. nós to­ dos. 10) FUSTELDECOULANGES A cidade antiga (Trad. a liberdade individual não podia existir. não. a Constituição de um país: a soma dos fato­ res reais do poder que regem um país. nas instituições jurí­ dicas. o povo são um fragmento da Constituição. ed. O povo protestaria. Teixeira. em essência. e quem atentar contra cies atenta contra a lei. isto se define de outra maneira mais limpa. o in­ dustrial. Sousa Costa. Capítulo III Os fatores do poder e as instituições jurídicas Essa é. O cidadão estava submetido em todas as coisas e sem reserva alguma à cidade. Clássica de A. incorporados a um papel. somos uma parte integrante da Constituição. mais diplomática. Daí a sua força.) Capítulo XVIII Da onipotência do Estado. Juntam-se esses fatores reais do poder. Lisboa.. a partir desse momento. ou que o banquei­ ro X é também outro pedaço. dali também a sua onipotência e o império absoluto que exercia sobre os seus membros. em síntese. os antigos não co n h e ce ra m a liberdade individual A cidade foi fundada sobre uma religião e constituída como uma igreja. Numa sociedade estabelecida sobre tais princípios. Não desconheceis também o processo que se segue para transformar esses escri­ tos em fatores reais do poder. escrevemo-los em uma folha de papel. gritando: antes morrer do que ser escravo! A multidão sairia à rua e não haveria a necessidade de que seus patrões fechassem as fábricas. M . Está claro que não aparece neles a declaração de que o senhor Borsig. Mas que relação existe entre o que vulgarmente denominamos Constituição e a Constituição jurídica? Não é difícil compreender a relação que os dois concei­ tos guardam entre si.10 Leituras Complementares 277 Seria tempo perdido. 2. a nobreza. pertencia-lhe inteiramente. a pequena burguesia juntar-se-ia solidariamente ao povo e a resistência desse blo­ co seria invencível. A religião que criara o Estado e o Estado que sustentava a religião reciprocamente se auxiliavam e formavam um . v. não são simples fatores reais do poder. e por conseguinte é punido. mas sim verdadeiro direito.

Esparta punia não só aquele que não casava. No homem nada havia que fosse independente. de­ via combater com um ou outro partido. em Atenas. que sabia que o filho escapara do desastre c ia tornar a vê-lo. Tinha o dever de votar na assembleia e de ser. O Estado. em Esparta. Num tempo em que as dis­ córdias eram freqüentes. Não sabemos se também existia em Atenas. Muitas cidades gregas proibiam ao homem o ficar celibatário. a lei proibia o fazer a barba. Encontra-se esta lei nos antigos códigos de Esparta e de Roma. a lei proibia aos homens beber vinho puro. em Esparta. estes dois poderes associados e confundidos formavam um poder quase sobre-humano. aos donos das oliveiras que lhe cedessem gratuitamente o azeite fabri­ cado. o homem de estudo. ao qual a alma c o corpo estavam igualmente subordinados. Por conseqüência. O Estado tinha o direito de não tolerar que os seus cidadãos fossem disfor­ mes ou contrafeitos. a lei ateniense não permitia ao cidadão a neutralidade. aos credores o abandono das dívidas. em Mileto. a perda do direito de cidade. não tinha o direito de viver isolado. ordenava ao pai. proibia-o às mulheres. Era 110 que o Estado ti­ nha mais predomínio. Há na história de Esparta um fato muito admirado por Pintarcho e Rousseau. o filósofo. o pai não tinha direito algum sobre a educação . aquele que quisesse estar afastado das fac­ ções infligia a lei uma pena severa. se a cidade tinha necessidade de dinheiro. podia prescrever o trabalho. a quem nascesse assim um filho. pelo contrário. A educação entre os gregos estava longe de ser livre. os parentes dos mortos foram obrigados a aparecer em público dc cara alegre. punia com uma multa quem possuísse uma navalha de barba. A esta notícia. Aquela que sabia que nunca mais veria o seu. Em Rodes. em Atenas e em Esparta toda a vida. A vida privada não escapava a esta onipotência do Estado. em Locres. a legislação de Esparta regulava o penteado das mulheres e a dc Atenas proi­ bia-lhes levar cm viagem mais dc três vestidos. Tal era o poder do Esta­ do que ordenava a transposição dos sentimentos naturais e se fazia obedecer. Os seus haveres es­ tavam sempre à disposição do Estado. Exercia a sua tirania até nas mais pequenas coisas. em Roma. A mãe. magistrado. Esparta acabava de ser derrotada em Lentra e muitos dos seus cidadãos tinham mor­ rido. O seu corpo pertencia ao Es­ tado c estava voltado à sua defesa. a ociosidade. podia ordenar às mulheres que lhe entregassem as joias. Era vulgar que a forma de vestir fosse determinada pelas leis dc cada ci­ dade. sabemos só que Aristóteles e Platão a inscreveram nas suas legislações ideais. mostra­ va alegria e percorria os templos agradecendo aos deuses. Em Esparta. que o matasse. em Roma o serviço militar era obrigatório ate aos quarenta c seis anos. mas o que casava tarde. por seu turno. mostrava-se aflita c chorava. exigia que se rapasse o bigode.278 Teoria Geral do Estado só corpo. em Marselha. O Estado não admitia que um homem fosse indiferente aos seus interesses. em Bizâncio.

O Estado considerava como pertença sua o corpo e a alma do cidadão. essas crianças mostram compreender que cumprem um dever cívico. sem uma autorização dos magistrados. encontrava-se em Argos. tomar parte nos repastos sagrados. em Megara. Sócrates foi condenado à morte por esse crime. queria formar esse corpo e essa alma de modo a tirar dele o melhor par­ tido. figurar em todas as procissões. Aristides certamente não cometera crime algum e nem mesmo se tor­ nara suspeito disso. à neve ou ao sol forte. Ensinava-lhe também os cantos religiosos. se ele quisesse. Aristófanes. A liberdade de pensar sobre religião era absolutamente desconhecida entre os antigos. nem a liberdade da vida privada. Chamava-se a isso ostracismo. O Estado queria ser só a dirigir a educação c Platão diz o motivo desta exi­ gência: “Os pais não devem ter liberdade de enviar ou não os seus filhos para os mestres que a cidade escolheu. Atenas promulgou um dia uma lei que proibia instruir os moços. influência demasiada. um direito de justiça relativamente aos cidadãos. em Siracusa. distribuídas por bairros. Nisso haveria uma grande impiedade que atingiria a religião e o Estado ao mesmo tempo. porque os filhos são menos de seus pais do que da cidade” . e uma outra que proibia especialmente en­ sinar filosofia. porque o corpo do homem era uma arma para a cida­ de. ou do Erechtea ou de Cecropa. Ensinava-lhe ginástica. quanto às divindades de um caráter geral e universal. nem a da educação. Podia punir sem que houvesse culpa e só porque o seu interesse es­ tava em jogo. caminham em filas cerradas. Devia crer na religião da cidade e sub­ meter-se a ela. que se chamava pátria ou Estado. Parece que em Arenas a lei foi menos rigorosa. por suas virtudes. A legislação ateniense punia com forte pena aqueles que se abstivessem de ce­ lebrar religiosamente uma festa nacional. o que o Estado puniria severamen­ te. podia tornar perigosa. Reconhecia-se ao Estado o direito de impedir que houvesse um ensino livre ao lado do seu. mostra-nos as crianças de Atenas a caminho da es­ cola. nem a religiosa. mas a cidade tinha o direito de expulsá-lo do seu território pelo único motivo de Aristides ter adquirido. embora a cidade obrigas­ se a que a educação fosse comum e dada por mestres escolhidos por ela. numa eloqüente passagem. e Aristóteles dava a entender que existia em todas as cidades gregas que ti­ . porque se precisava deste conhecimento para a boa execução dos sacrifícios e das festas da cidade. à chuva. como nas sociedades modernas. por isso. os hinos e as danças sagradas. Mas cuidado em não duvidar da Athene Poliada. que. Esta ins­ tituição não era particular a Atenas. e esta arma devia ser tão forte e tão manejável quanto possível.10 Leituras Complementares 279 do filho. Os antigos não conheciam. A pessoa humana tinha pequeníssimo valor perante essa autoridade santa e quase divina. Cibele ou Juno. Deviam conformar-se com todas as regras do culto. Podia odiar-se ou desprezar-se os deuses da cidade vizinha. como Júpiter Celeste. por ordem. O Estado não tinha só. tinha-se liberdade de crer nelas ou não. portanto. O homem não tinha escolha dc crenças.

Sem o prévio conhecimento da constituição mental de um povo. Francisco Luiz Gonçalves. a mesma e a sua onipotência não diminuiu. O governo denominou-se alternativamente monarquia. a liberdade individual. sem dúvida. Agostinho Fortes. a sua vida apresenta-se-nos como a conseqüência regular e fatal dos seus caracte­ res psicológicos. mas a natureza do Estado ficou. p. um erro singular. nas suas grandes linhas. o ostracismo não era um castigo. dentro em pouco. votar. encontramos sempre a alma imutável da raça elaborando o seu próprio destino. a alma de um povo nos é conhecida. pela qual cra permitido matar qualquer homem que tivesse a intenção de se tornar rei. a justiça. que o governo muitas vezes mudou de forma. tudo devia ceder perante o interesse da pátria. mas o homem estava subordinadíssimo ao Estado. 109-27. c sobretudo os gregos. aristocracia. nenhuma garantia havia para a vida do homem. É. Veremos. pouco mais ou menos.280 Teoria Geral do Estado nham um governo democrático. Em todas as manifestações de vida de uma nação. Pensava-se que o di­ reito. eis o que eu chamava liberdade. portanto. a moral. exageravam sempre a importân­ cia e os direitos da sociedade. a história deste transforma-se num caos de acontecimentos. ao caráter sagrado e religio­ so que a sociedade originariamente revestiu. Ter direitos políticos. quando. isto devido. por falta de afeto para com o Estado. nomear magistrados. acreditar que nas cidades antigas o homem gozava liberdade. Não julgava que pudesse existir direito em frente da cidade e dos seus deuses. pode considerar-se como a simples expo­ sição dos resultados produzidos pela constituição psicológica das raças. entre todos os erros humanos. Em Atenas podia acusar-se e condenar-se um homem por incivismo. Ora. Roma promulgou uma lei. . isto c. Não tinha sequer a mais ligeira ideia dela. A máxima funesta de que a salva­ ção do Estado é a lei suprema foi formulada pela antiguidade. Desde que se tratasse do interesse da cidade. poder scr arcontc. 11) GUSTAVELEBON Leis psicológicas da evolução dos povos Trad. mas nenhuma dessas revoluções deu aos homens a verdadeira liberda­ de. Os antigos. que parecem provir meramente do acaso. 1910. democracia. era uma precaução tomada pela cidade contra um cidadão que ela suspeitava que podia um dia incomodá-la. provém dessa constituição assim como os órgãos respiratórios dos peixes se adaptam com a sua vida aquática. Como as instituições derivam da alma dos povos A história. Lisboa. pelo contrário.

que é a expressão dos sentimentos da alma da raça. que. na realidade. a regular e absorver tudo. na realidade. principalmente. há séculos já iniciada pela monarquia. a continuação do ideal monárquico e a expressão de gênio da raça. tentou alterar semelhante obra. em uma palavra todos os defensores das mais diversas doutrinas. Intransigentes. quer imperador. Se. radicais. seja qual for. confessariam que um ministro por eles encarregado de exe­ cutar os seus planos não teria conseguido realizar melhor os seus desígnios e diriam que o menos revolucionário dos governos franceses foi precisamente o da revolução. ou qualquer outra coisa. a grande voz dos mortos que é quem nos guia. é fora de dúvida que censurariam algumas das violências que acompanharam a sua reali­ zação. que nem sequer percebemos as ilusões de que somos vítimas. um dos países que mais sujeitos tem estado às mais profundas alterações. verificariam. Na verdade. cm que os partidos parecem mais divergentes. na realidade. presidente.10 Leituras Complementares 281 É. estes ilustres fantasmas. Consideremos primeiro a França. apresentariam algumas críticas e fariam. estas opiniões aparente­ mente tão divergentes. a revolução não fez mais do que continuar a tradição real. verificaremos que. O que todos com o mesmo ardor querem é o velho regime centralizador e cesarista. regulamentando os mais insignificantes pormenores da vida dos cidadãos. Sem dúvida. e sem dar por isso. po­ rém. o Estado a dirigir tudo. nos levam a mudarmos incessantemente as nossas ins­ tituições. O poder inconsciente da alma da nossa raça é tamanho. se apenas nos ativermos as aparências. o nosso extremo nervosismo. pelo critério psicológico. monárquicos. de há um século a esta parte. precisamente re­ presentante do ideal da nossa raça. tanto ela e. observar que . esse poder. ou seja. o que facilmente provaremos com alguns exemplos. procuram com etiquetas diversas atingir um fim perfeitamente idêntico. a ideia de que um governo novo fará a nossa sorte mais feliz. porventura. dispensando estes de manifesta­ rem qualquer movimento de reflexão c de iniciativa. Quer o poder posto à frente do Estado se chame rei. além disso. Nem esta consentiria outro. a nossa extraordinária facilidade em estarmos descontentes com o que nos cerca. mais radical­ mente as instituições políticas parecem ter mudado. estes partidos incessantemente em luta. se se erguessem de seus túmulos para julgarem a obra da revolução. acabando a obra da centralização. Se encararmos. condena-nos a só mudar­ mos palavras e aparências. o fruto de urna evolução regular. em poucos anos. forçosamente há dc ter o mesmo ideal. nas instituições políticas que mais visivelmente se manifes­ ta o poder soberano da alma da raça. socialis­ tas. mas considerá-la-iam rigorosamente em harmonia com as suas tradições e com os seus programas. nenhum dos diversos re­ gimes que se têm sucedido na França. nada é mais diferente do antigo regime do que o que foi criado pela nossa grande revolução. a absorção do indi­ víduo pelo Estado. devido à sua gran­ de experiência. país em que. portanto. têm todos um fundo comum perfeitamente idêntico. Luís XIII e Luís XIV.

as aparências. o seu governo apre­ sentará sempre as mesmas características fundamentais. espírito de corpo­ ração. nem constituições. as qualidades de caráter de que as suas instituições de­ rivam. as leis fundamentais. permitir-lhes-iam conceber que o socialismo não é mais do que a expressão última da ideia monárquica. Portos. possui tradições.. uma série de condições que necessariamente o levarão a ser senhor único. facilmente suportam todos os despotismos. e as leis permanentes que temos procurado determinar. ou ti­ rá-las a um que as possua. cuja constituição psicológica é muito diferente da nossa. É pura quimera pensar-se que os governos e as constituições têm alguma ação nos destinos de um povo. Não insistiram muito. a in­ glesa. à falta delas as luzes matemáticas que ensinam que os efeitos aumentam em progres­ são geométrica quando as mesmas causas subsistam. de que a re­ volução do século XVIII foi apenas uma fase aceleradora. a elas se subtrai. se criara 110 Estado um poder impessoal mais temível que o da antiga nobreza. que parece escapar momentaneamente às leis da atração. precisamente como a areia revolta pela tem­ pestade. É 110 povo e não em circunstâncias exteriores que deve­ . des­ de que estes sejam impessoais. Quer os ingleses tenham à sua frente um monarca. os mil laços que hoje cercam o mais insignificante ato da vida. é apenas por instantes rápidos. é possível também que achassem bastante excessivos e assás tirânicos os inumeráveis regulamentos. como na Inglaterra. estabele­ cimentos de instrução. preocupando-se muito pouco com a liberdade e muito com a igualdade. a redução ao mínimo da ação do Estado e o desenvolvimento máximo da ação dos particulares. Tem-se dito muitas vezes que os povos têm os governos que merecem. Ao exemplo precedente podemos opor o de uma outra raça. isto é. Mas então as luzes divinas que iluminam os reis. caminhos dc ferro. e estas. escapando às mudanças políticas. encontramos ao mesmo tempo as circuns­ tâncias acidentais. e provável é também que fizessem notar que. nesta objeção. nas instituições dum povo. acreditamo-lo. que mencionamos no começo desta obra. canais. 011 que. etc. As circunstâncias acidentais criam os nomes. quando o Es­ tado haja absorvido e regulamentado tudo. motivo este pelo qual as suas instituições se afastarão também radicalmente das nossas. criam o des­ tino das nações. entre os ingleses. provêm do caráter dos povos. nos encontraremos espontaneamente. e sem o auxílio de qualquer outra revolução. em pleno socialismo. despojando o cidadão de toda e qualquer iniciativa. se. o que é pre­ cisamente o contrário do ideal latino. ausência de responsabilidade e perpetuidade. por isso que só ele. nem déspotas que possam dar a um povo que as não possua. considerando que os povos latinos.282 Teoria Geral do Estado tendo sido substituída a casta aristocrática governamental pela casta administrativa. por acaso. Assim. conceber-se que tivessem outros? Daqui a pouco mostraremos com diversos exemplos que um povo se não sub­ trai às conseqüências da sua constituição mental. não há revoluções. Pode porventura. quer um presidente como nos Estados Unidos da América do Norte. serão sempre construídos e conserva­ dos pela iniciativa dos particulares e nunca pela do Estado.

por outro lado porque o dos senhores. Vamos agora mostrar com exemplos muito precisos a que ponto a alma de um povo rege os destinos deste e o insignificante papel que as instituições desempenham nesses destinos. O mais que podemos exigir de um go­ verno é que seja a expressão dos sentimentos c das ideias do povo que dirige e de que. se quiséssemos indicar todas as conseqüências da constituição psicológica dos povos. o árabe e o francês. lhe é todavia impossível mudar-lhes o fundo. quando têm tido alguma duração. Esta é formada por dois continentes distintos. isto eqüivale a querer persuadir os peixes a que vivam no ar. como o dos mongóis e depois o dos ingleses na índia. estrangeiros. se a voz da razão não fos­ se sempre abafada pela voz imperiosa dos mortos. porque as raças em presen­ ça eram por tal forma numerosas c diferentes c. é a imagem. O governo do rei dc Daomé cra provavelmente um governo excelente para o povo que administrava. pelo fato da existência. que po­ vos diferentes não poderiam por muito tempo subsistir sob um regime idêntico. reunidos por um istmo. Ora. tomá-los-emos em uma região. refazer-se-ia até toda história sob um critério novo. rivais. ao lado uma da outra. Escrever-se-iam muitos livros. em que vivem. com o pretexto de que a respiração aérea cabe a todos os animais superiores. que nem sequer podiam pensar em sc unirem. só com as maiores di­ ficuldades e à custa de incessantes revoluções é que se têm mantido sob as mesmas leis. Não há governos nem instituições que possamos chamar absolutamente bons ou maus.10 Leituras Complementares 283 mos procurar o destino desse mesmo povo. as superfícies de cada um . por­ tanto. tem sido. por um lado. O francês e o inglês. Estes exemplos. as colônias podem governar-se com as instituições das suas metrópoles. portanto. É isto o que desgraçadamente ig­ noram os estadistas que imaginam ser um governo objeto de exportação e que. em condições de meio pouco diferentes. O seu estudo cuidado devia ser a base da política e da educação. E devido apenas ao fato da diversidade da sua constituição mental. a América. divergindo apenas no caráter. Capítulo II A p lica ç ã o dos princípios pre cedentes ao estudo com parado da evolução dos Estados Unidos da A m érica do Norte e das Repúblicas H ispano-A m ericanas As breves considerações precedentes mostram que as instituições de um povo são a expressão da sua alma e que. Os grandes impérios que abrangem povos diversos têm sido sempre condena­ dos à efêmera existência. povo esse para que seria má a mais sábia constituição europeia. o eslavo e o húngaro. duas raças europeias igualmente civilizadas e inteligentes. tiveram instinto político bastante hábil que os levou a respeitarem os costumes dos povos conquistados. pode­ mos avançar mesmo que semelhante estudo evitaria muitos erros e muitas altera­ ções. se a esse povo é fácil mudar as formas das ins­ tituições. deixando-os viver com as leis que lhes eram próprias. se os povos pudessem evitar os fatalismos de raça.

que nada se encontrem nas outras nações civilizadas. não obstante a diversidade de origem. em presença mais do que as diferenças de raças para sc explicarem os destinos diversos destes povos. Este otimismo vai ao ponto de fazer considerar como extremamente des­ prezível tudo que é estrangeiro. moralidade muito fixa. em suas linhas gerais. N ão há nenhum estadista inglês que não julgue perfeitamente legítimo. Antes. atividade poderosa. a propósito da sua. uma energia indomável. que povoou os Estados Unidos. o solo de um e de outro muito semelhante. de mais fácil definição. de resto muito judiciosa. que facilitaria imenso as relações com o continente. e. extraordinária iniciativa. na época dc sua gran­ deza. exceto talvez os romanos. portanto.284 Teoria Geral do Estado destes continentes são quase iguais. na Inglaterra. No ponto de vista intelectual. Só há a notar um juízo seguro que permite aprender o lado prá­ tico e positivo das coisas sem se perderem em investigações quiméricas. se atendermos à prosperidade de um povo. sentiam pelos bárbaros. . Es­ tas duas raças vivem com constituições republicanas semelhantes. Vejamos. um sentimento de ordem inferior. não podem dar-se características especiais. e muito nítida ideia do dever. Com razão se disse. mas. recusa em consentirem 110 es­ tabelecimento de um túnel na Mancha. pondo. Talvez nenhuma outra haja no mundo que. porém resumamos em algumas palavras os caracteres da raça anglo-saxônica. certamente. um tal ou qual acanhamento de espírito. sem dúvida. não podem indicar-se elementos particulares. que impede de ver os lados fracos das coisas religiosas. se tenha feito mais homogênea e cuja cons­ tituição mental seja. o que tais diferenças produziram. na linha de conduta para com os outros povos. As características preponderantes desta constituição mental são. pois. império absoluto sobre si. isto é. que sabe sempre o que lhe exigem a pátria. encarado filoso­ ficamente. é tão grande que para com os estrangeiros toda regra moral desaparece. sentimentos religiosos muito vivos. sentimento de independência levado até excessiva insociabilidade. possuíram. Um deles foi conquistado e povoado pela raça inglesa. gosto mui­ to acentuado pelos fatos e medíocre pelas ideias gerais. O desprezo pelo estrangeiro e pelos usos deste so­ brepuja. por conseqüência. Este sentimento de desdém pelo estrangeiro é. é extremamente útil. como muito justamente nota o general inglês Wolseley. atos que provocariam a mais profunda e a mais unânime indignação se fossem praticados contra compa­ triotas. a família e os deuses. o que outrora os romanos. o outro pela raça espanhola. A estas características gerais deve acrescentar-se o otimismo completo do ho­ mem cujo caminho está bem traçado na vida e que pressupõe até que não pode escolher outro melhor. no que diz respeito ao caráter: uma força de vontade que muito poucos povos. pois que as re­ publicas da America do Sul tomaram como modelo a dos Estados Unidos. é um dos sentimentos que contribuem para a força da Inglaterra. estas crenças ao abrigo da discussão. Não há. que os ingleses empregavam tantos esforços como os chineses para im­ pedirem a entrada de qualquer ação estranha.

10 Leituras Complementares

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Todos os caracteres que acabamos de enumerar se encontram nas diversas ca­ madas sociais; nenhum elemento da civilização inglesa se encontra que não tenha fortemente gravados esses caracteres; o estrangeiro que visitar a Inglaterra, embo­ ra com pouca demora, conhecerá claramente esse fato, verificará a necessidade da vida independente na casa do mais modesto empregado, que habita, sem dúvida, uma moradia estreita mas ao abrigo de qualquer constrangimento e isolada de quaisquer vizinhos; nas gares mais freqüentadas, onde o público circula a toda hora, sem estar encurralado como um rebanho de carneiros dóceis por trás de um corri­ mão guardado por um policial, como se fosse necessário assegurar pela força a se­ gurança de pessoas incapazes de encontrarem em si a atenção necessária para não serem esmagadas. Encontrará a energia da raça tanto no trabalho duro do operá­ rio como no de estudante que, entregue a si, desde a mais tenra idade, aprende a conduzir-se sozinho nos seus atos e fica desde logo sabendo que pela vida fora só ele e mais ninguém se preocupará com o seu destino; nos professores, que pouca importância ligam à instrução por a concederem principalmente ao caráter, por eles considerado uma das maiores forças motoras do mundo. Se entrar na vida públi­ ca do cidadão, verá que não é para o Estado, mas para a iniciativa individual que sempre se apela, quer se trate de reparar a fonte de uma aldeia, de construir um porto dc mar ou criar um caminho de ferro; continuando o seu inquérito, reconhe­ cerá, bem depressa que esse povo, não obstante os defeitos que fazem dele o mais insuportável dos povos para o estrangeiro, é o único verdadeiramente livre, porque é o único que, tendo aprendido a governar-se por si, deixou ao governo o mínimo de ação. Se percorrermos a sua história, veremos que foi o povo inglês o primeiro que soube libertar-se de qualquer domínio, quer da Igreja: quer do rei. Já no sécu­ lo XV, o legista Fortscue opunha a lei rom ana, herança dos povos latinos , à lei in­
glesa; um a obra de príncipes absolutos e destinada exclusivamente a sacrificar o in­ divíduo, a outra obra da vontade com um e sempre pronta a proteger a pessoa.

Seja qual for o lugar do globo para que um povo semelhante a este emigre, esse povo será imediatamente preponderante e fundará impérios poderosos. Sc a raça invadida, como os pelcs-vermelhas da América, por exemplo, for bastante fra­ ca e pouco utilizável, será metodicamente exterminada; se, como a das populações da índia, for muito numerosa para que possa ser destruída e, além disso, dê traba­ lho produtivo, ficará simplesmente reduzida a dura vassalagem e será obrigada a trabalhar quase exclusivamente para os seus senhores. E, porém, num país novo, como a América, que devemos principalmente acom­ panhar os progressos espantosos devido à constituição mental da raça inglesa. Trans­ portada para regiões incultas, só habitadas por alguns selvagens, contando só con­ sigo, sabemos bem o que contudo fez; bastou-lhe um século para se colocar na primeira linha das grandes potências do mundo e ninguém hoje há que possa lutar contra ela. Às pessoas desejosas de conhecer a enorme soma de iniciativa e energia individuais empregadas pelos cidadãos da grande república norte-americana, reco­

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mendamos a leitura dos livros de Rousier e Paulo Bourgel. A aptidão dos homens em se governarem por si, cm se associarem para fundar grandes empresas, fundar cidades, escolas, portos, caminhos de ferro, etc. é levada a tal máximo e a ação do Estado reduzida a tal mínimo que quase pode dizer-se que não existem lá poderes públicos, pois que, se tirarmos a polícia c a representação diplomática, não e pos­ sível descortinar-sc para que esses poderes possam servir. Nos Estados Unidos só é possível prosperar quem possua as qualidades de ca­ ráter que acabamos de indicar, e a isto se deve o não poderem as imigrações estrangei­ ras modificar o espírito geral da raça. As condições de existência são tais que todos aqueles que não possuam as qualidades indicadas estão condenados a desapareci­ mento rápido; nesta atmosfera, saturada de independência e de energia, só pode vi­ ver o anglo-saxão; o italiano morre aí de fome, o irlandês e o negro apenas conse­ guem vegetar em condições perfeitamente subalternas. A grande república, a que nos vimos referindo, é seguramente a terra da liber­ dade, mas não é com certeza a terra da igualdade e da fraternidade, as duas quime­ ras latinas que às leis do progresso não c dado conhecerem; em nenhuma região do globo, a seleção natural tem feito sentir mais rudemente o seu férreo braço. É descaroávcl, não há dúvida; mas é precisamente por não ter compaixão que a raça, para cuja formação a seleção contribuiu, conserva o seu poder e a sua energia. No solo dos Estados Unidos não há lugar para fracos, para os medíocres, nem para os incapazes de qualquer coisa. Indivíduos isolados ou raças inteiras estão destinados a desaparecer só pelo fato de serem inferiores; os peles-vermelhas, havendo-se tor­ nado inúteis, foram exterminados a tiro ou condenados a morrer de fome. Os ope­ rários chineses, cujo trabalho constitui incômoda concorrência, acabarão por so­ frer sorte análoga. À lei que ordenou a expulsão total dos chineses não pôde ser aplicada, devido às despesas enormes que da sua execução proviriam. Sem dúvida, será prontamente substituída por uma instrução metódica iniciada já em alguns distritos mineiros. Recentemente foram votadas outras leis proibitivas da entrada no território americano a imigrantes pobres. Com respeito aos negros, que servi­ ram de pretexto à guerra da secessão, entre os que tinham escravos c os que, não podendo tê-los, não podiam sofrer que os outros tivessem, são apenas, por assim dizer, tolerados, por isso que ficam adstritos a funções subalternas que nenhum ci­ dadão americano quereria para si. Teoricamente, os negros têm todos os direitos; praticamente, são tratados como animais semiúteis dos quais se desembaraçam logo que se tornem perigosos. Os processos sumários da lei de Lynch são reconhecidos geralmente como bastante para eles; ao primeiro delito que pratiquem, fuzilados ou enforcados. Estas são, sem dúvida, as manchas do quadro, que é, contudo, suficientemen­ te brilhante para que diminua de valor. Se forçoso fosse definir-se por uma palavra a diferença entre a Europa continental e os Estados Unidos, poderíamos dizer que a primeira representa o máximo do que pode dar a regulamentação oficial substi­

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tuindo a iniciativa individual, os segundos o máximo que pode dar a iniciativa in­ dividual absolutamente desembaraçada de qualquer regulamentação oficial. Estas diferenças fundamentais são exclusivamente conseqüências do caráter. Não é no solo da rede república norte-americana que o socialismo europeu tem probabilida­ des dc vir um dia a implantar-sc. Última expressão da tirania do Estado, o socialis­ mo só poderá prosperar nas raças envelhecidas, sujeitas há séculos a um regime que lhes tirou toda e qualquer capacidade de governo próprio e pessoal. Acabamos de ver o que numa parte da América produziu uma raça possuido­ ra de certa constituição mental em que predominam a perseverança, a energia e a vontade; falta que mostremos no que se transformou um país, quase semelhante, nas mãos de uma outra raça, muito inteligente, na verdade, mas sem possuir ne­ nhuma das qualidades de caráter cujos efeitos passamos em revista. A América do Sul é, atendendo-se às suas produções naturais, uma das mais ricas regiões do globo. Duas vezes maior que a Europa e dez vezes menos povoa­ da, a terra não faz falta e está, por assim dizer, à disposição de todos. A população preponderante, de origem espanhola e portuguesa, está dividida em numerosas re­ públicas, Argentina, Brasil, Chile, Peru etc. Todas elas adotaram a constituição po­ lítica dos Estados Unidos do Norte e, por conseqüência, vivem sob a ação de leis idênticas. Pois, simplesmente pelo fato da raça ser diferente e lhe faltarem as qua­ lidades fundamentais que possui a raça que povoa os Estados Unidos, todas estas repúblicas, sem exceção, são presa perpétua da mais sangrenta anarquia e, não obs­ tante as extraordinárias riquezas do seu solo, sossobram, umas após outras, em de­ la pidações de toda espécie, falências e despotismos. Lendo-se a notável e imparcial obra de Th. Child acerca das repúblicas lati­ no-americanas, apreciar-se-á com exatidão a profundeza da sua decadência. As cau­ sas encontram-se todas na constituição mental de uma raça sem energia, nem von­ tade, nem moralidade. A ausência de moralidade, principalmente, excede tudo o que de pior conhecemos da Europa. Referindo-se a uma das cidades mais impor­ tantes, Buenos Aires, o autor declara-a inabitável para quem quer que seja que te­ nha delicadeza dc consciência e alguma moralidade, c a propósito dc uma das me­ nos degradadas dessas repúblicas, a Argentina, o mesmo escritor diz que, se a examinarmos sob o ponto de vista comercial, ficaremos abismados com a imorali­ dade que aí se manifesta. Nenhum exemplo há que melhor mostre quanto as instituições são filhas da raça e portanto, a impossibilidade de se transferirem de um povo para outro. Seria interessantíssimo saber-se o que aconteceria às instituições tão liberais dos Estados Unidos da América do Norte, se fossem transportadas para uma raça inferior. Es­ tes países, diz-nos Child, falando das diversas repúblicas latino-americanas, estão sob a férula de presidentes que exercem uma autocracia não menos absoluta que a do czar de todas as Rússias; mais absoluta até, por isso que estão ao abrigo de to­ das as importunações e da ação da censura europeia, o pessoal administrativo é ex­

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clusivamente constituído por criaturas dos presidentes...; os cidadãos votam como melhor lhes parece, mas ninguém dá importância aos seus sufrágios. A República Argentina é apenas república no nome, porque, na realidade, é uma oligarquia de indivíduos que fazem da política verdadeiro negócio. Só um país, o Brasil, escapara um pouco a tão profunda decadência, mercê de um regime monárquico, que colocava o poder a coberto das lutas de competido­ res. Demasiadamente liberal para raças sem energia e sem vontade, a monarquia brasileira sucumbiu, caindo desde logo o país em plena anarquia. Dentro de pou­ cos anos, a gente do poder delapidou por tal forma o tesouro que os impostos au­ mentaram em mais de sessenta por cento. Não é só na política, muito naturalmente, que se manifesta a decadência da raça latina que povoou a América, mas sim em todos os elementos da civilização. Reduzidas aos seus próprios recursos, estas desgraçadas repúblicas regressariam ao barbarismo puro; toda a indústria e todo o comércio estão em mãos de estrangei­ ros: ingleses, americanos e alemães. Valparaíso é uma cidade inglesa, e nada ficaria no Chile se lhe tirassem os estrangeiros; mercê destes é que estas regiões conservam ainda um verniz de civilização que ilude a Europa. A República Argentina tem qua­ tro milhões dc brancos de origem espanhola; não sabemos se poderemos citar um branco que seja, além dos estrangeiros, que se encontre à frente dc uma indústria verdadeiramente importante. Esta terrível decadência da raça latina, abandonada a si mesma, posta em con­ fronto com a prosperidade da raça inglesa numa região vizinha, é uma das mais sombrias, mais tristes e, ao mesmo tempo, das mais instrutivas experiências que po­ demos citar para apoio das leis psicológicas que expusemos.

12) ALMEIDA GARRETT

Obras
(Porto, Lello 6c Irmão, Editores, 1963, v. 1, p. 734-5.)

Justiça (Lúcio Júnio Bruto, juiz de seus filhos)
Lúcio Júnio Bruto era cônsul ou primeiro magistrado de Roma; e, na ocasião em que a cidade era sitiada por um poderoso exército inimigo, foi descoberta uma conspiração de traidores que tentavam entregar-la. Entrava nesta conspiração gran­ de número dos principais do Estado e com eles os filhos do cônsul. Foram todos presos e processados por tão horrível crime; que o não há maior nem mais atroz. Chegou a hora tremenda em que os réus deviam ser afinal julgados. Apareceu o cônsul Lúcio Júnio Bruto em seu tribunal no foro ou praça pública de Roma, ro­

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deado do senado, que era o conselho dos anciãos e homens bons do Estado, e dian­ te de todo o povo - porque em Roma foram sempre públicos os processos, para que nem as paixões dos julgadores nem as peitas dos culpados os pudessem torcer, mas se fizesse sempre justiça direita e lisa. Compareceram os acusados diante do cônsul; dentre estes, seus próprios filhos. Todo o povo tinha os olhos neles e no pai, c parecia duvidar que o sangue c a natu­ reza não movessem da justiça o ânimo do magistrado. íMas o cônsul interrogou seus filhos com a mesma tranqüilidade e firmeza com que fez aos outros. O crime foi pro­ vado; eles confessaram: e não restava senão pronunciar o juiz a sentença. Hoje dá-se aos condenados tempo suficiente para se prepararem a aparecer na presença de seu Deus, tribunal mais terrível porque são eternas suas decisões, porém mais indulgente porque lhe cabe perdoar crimes provados e confessados quando deles há verdadeiro arrependimento. Mas nesses tempos a religião cristã, que é toda humanidade e brandura, não tinha ainda adoçado os costumes daque­ les honrados mas ferozes republicanos. Os réus convencidos e julgados iam ser para logo executados. Lúcio Júnio Bruto, rodeado de lictorcs - oficiais públicos a quem incumbia pôr cm continente por obra os mandatos do cônsul-, pronuncia a fatal sentença: 4 4 O crime está provado; os acusados são réus dc alta traição: lictorcs feri, executai a sentença da república”. A natureza não podia com mais: o cônsul cobriu o rosto com a toga... e as ca­ beças dos filhos rolaram a seus pés. Mas Roma foi salva, a rebelião afogou-se; e Júnio Bruto, órfão de seus filhos, não o foi da pátria. Tal é um dos maiores exemplos de justiça que já se deram no mundo.

13) ALBERTO TORRES

A Organização N acional
Cia. Editora Nacional, São Paulo, 1978, 3. ed.

0 espírito e as te n d ê n cia s da política
Em outros tempos, no período de romantismo político que sucedeu à Revo­ lução Francesa, quando a questão das formas de governo era a tese predileta dos publicistas, a unidade e a continuidade da política pareciam aos olhos dos partidá­ rios do regime monárquico a grande causa de sua superioridade. A pretensão era falaz, como todas as ideias a priori da política. A unidade e a continuidade da política resultam da existência de um caráter nacional. Onde há uma nação, homogênea em seus elementos, ou fortemente subordinada a um espíri­

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to, um móvel, uma aspiração, ou uma classe preponderante, define-se uma políti­ ca: os órgãos dessa política surgem da reação dos acontecimentos, e, seja dinástica ou republicana a forma do governo, o poder vem a cair nas mãos dos combaten­ tes mais fortes, dos representativos. Em Washington, como cm Bismarck, encontra-se o mesmo traço das perso­ nalidades dominantes, os eleitos desse sufrágio tácito, que faz brotar os proto-homens do tempo, em sua terra - como a flor brota da planta, na estação própria, sobre a haste do valor pessoal. Homens dessa têmpera comandam as gerações a que pertencem, nas grandes épocas de crise nacional, e impulsionam o movimen­ to que se perpetua pelas gerações adiante. Há casos notabilíssimos de proeminência de um homem, ou de uma aristocra­ cia mental, sobre os destinos de um povo, nenhum, porém, mais expressivo que o dos Estados Unidos, onde um grupo de precursores eminentes assentou, nos primei­ ros dias da constituição do país, os princípios que o haviam de dirigir até hoje. Quem lê o Federalista, as cartas e os manifestos de Washington, os trabalhos de Jefferson, dc Hamilton, dc Madison c de Franklin, encontra estudados, nessas soberbas profis­ sões dc fé, os caracteres práticos e morais da nacionalidade, expostos os seus pro­ blemas, indicadas as suas soluções, previstos os seus destinos, com precisão e clare­ za tão fortes que projetam luz sobre o futuro da grande pátria, até nossos dias. Esses homens deram aos olhos de sua pátria a consciência do nosce te ipsum; mostram-lhe as suas necessidades, os seus problemas, as suas soluções, os seus des­ tinos. A nação despertou formada, cônscia de sua posição e de seu papel no mun­ do, pronta para caminhar com os olhos fitos num objeto conhecido. Sua história foi o desenvolvimento natural de um atleta. Esta preparação inicial era mais difícil, entre nós, por causas geográficas e por causas históricas. Território heterogêneo, de conformação longitudinal, com rios e vias de comunicação menos favoráveis, eriçado de cadeias de montanhas que o di­ videm e separam, era mais penoso ligar e abranger, num todo, as diversas zonas, para lhes estudar o caráter comum c prefixar as condições de unidade e dc solida­ riedade. Não era fácil assimilá-lo, com seus produtos exóticos, às condições nor­ mais do comércio internacional, entremeando os seus interesses nas correntes or­ dinárias dos negócios. O comércio brasileiro ficou, como todos os que versam sobre especiarias, sujeito às oscilações, aos entraves, às espoliações, que acompanham, em toda parte, os negócios sobre gêneros que não são de uso necessário. Os homens públicos estavam, por outro lado, longe de possuir o preparo dos fundadores da república americana. Cientistas, literatos e juristas da escola de Coim­ bra trouxeram, para o nosso meio, brilhantes ideias, conceitos teóricos, fórmulas jurídicas, instituições administrativas, estudados nos centros europeus. Com tal es­ pólio de doutrinas e de imitações, arquitetou-se um edifício governamental, feito de materiais alheios, artificial, burocrático. Os problemas da terra, da sociedade, da produção, da povoação, da viação e da unidade econômica e social, ficaram en­

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tregues ao acaso; o Estado só os olhava com os olhos do fisco; e os homens públi­ cos - doutos parlamentares e criteriosos administradores - não eram políticos, nem estadistas; bordavam, sobre a realidade da nossa vida, uma teia de discussões abs­ tratas, ou retóricas; digladiavam-sc em torno dc fórmulas constitucionais, france­ sas ou inglesas; tratavam das eleições, discutiam teses jurídicas, cuidavam do exer­ cito, da armada, da instrução, das repartições, das secretarias, das finanças, das relações exteriores, imitando ou transplantando instituições e princípios europeus. Sob a impetuosidade do primeiro monarca e o academicismo do segundo, o meca­ nismo governamental trabalhou sempre, desorientado e sem guia, estranho às ne­ cessidades íntimas, essenciais, do nosso meio físico e social. A República desenvolveu consideravelmente a curiosidade intelectual, nas le­ tras, nas ciências, na política. Conservando a maioria na representação nacional, viram-se os juristas cercados de outras aptidões e capacidades. Moços, ardentes, ambiciosos, os políticos do novo regime lançaram-se à pesquisa de novos assuntos, novos problemas, novas conquistas a explorar, nos anais do Congresso, na impren­ sa, cm periódicos c livros, multiplicaram-se estudos c investigações, de incontestá­ vel mérito e marcada originalidade - mas esses trabalhos mostravam, em regra, a tara da nossa tendência e a lacuna do nosso preparo: eram teóricos, analíticos, li­ mitados a uma especialidade, a um ramo dc conhecimentos, alheios aos problemas concretos e oportunos. O regime não trouxe consigo os estadistas que o haviam de construir. Os estudos ganharam em variedade, mas perderam, em dispersão e inde­ finido, alguma precisão que os antigos tinham. É certo que os manifestos e mensagens presidenciais sumariam, com mais ou menos amplitude, notas sobre os departamentos dos serviços públicos, faces diver­ sas dos problemas nacionais, e que sugerem alvitres e soluções sobre variados as­ suntos; por amplos que sejam, têm, contudo, todos eles, um caráter, minucioso e pormenorizado, de catálogos de sugestões e propostas, para aplicações parciais, sem espírito de conjunto, sem vista geral e coordenada de nossa fisionomia social, política e econômica, de seus problemas, de suas soluções. São programas de ges­ tão transitória, para os quatro anos de período; faltam-lhes a envergadura e a luz, com que costumam verdadeiros estadistas concentrar, em traços fortes e nítidos, o sistema da política prática, o estudo positivo da fisiologia de um país, para lhes in­ dicar o movimento e a direção. Esses programas quadrienais, esboçados no curto período de cada governo, são esquecidos, para se dar começo a novos ensaios e tentativas, na seguinte presidência. A história da política republicana, em seu conjunto e em seus vários interesses, é uma jornada de marchas e contramarchas, de experiências e retrocessos... Somos um país sem direção política e sem orientação social e econômica. Este é o espírito que cumpre criar. O patriotismo sem bússola, a ciência sem síntese, as letras sem ideal, a economia sem solidariedade, as finanças sem continuidade; a educação sem sistema, o trabalho e a produção sem harmonia e sem apoio, atuam

sujeita às oscilações. aliás. ame­ ricanos da fase constitucional. a sua fauna. as incursões bárbaras e as guerras conseguiram arremessar grandes massas de população para zonas frias. Estudar o Brasil. a sua flora. uma gravíssima dificul­ dade: a tendência separatista das antigas colônias. interesses ocasionais ou parciais. vão produzindo. entretanto. vínculo íntimo e profundo. naturalmente. aos azares. 14) FRANCISCO JOSÉ DE OLIVEIRA VIA N N A 0 ocaso do Império (2. destroem-se reciprocamente. meramente política. mas em sua na­ tureza dinâmica e funcional. Tal foi a obra dos estadistas. São Paulo. Sem esse estudo. que acidentes. para conhecer os elementos e aptidões de sua exploração e cultura. 1933. que a unidade política está lon­ ge de realizar. as aspirações e os desejos dos homens de todas as regiões! Só o esgotamento do solo.. a sua estrutura orográfica. procurando apreender o caráter das diversas zonas geológicas e mineralógicas. um dos países que apresentam mais sólidos elementos dc prosperidade c mostram condições para um mais nobre e brilhante destino. só começará a formar-sc quando mais estreita c solidariedade entre os habitantes das várias zonas lhe der a consciência dc uma unidade moral. O Brasil não tem história. que tal nome não merece a série cronológica dos fastos das colônias dispersas. que sc fixou o tipo mais perfeito do reino animal. 29-42. Melhoramentos. como a vida dos homens sem ob­ jetivo e sem método. c a sucessão. eis o pon­ to dc partida dc toda política sensata e prática. os seus vasos hidrográficos.) . sobre a ruína da vida comum. eis o que deverá ser o lema do patriotismo e do zelo pela sor­ te de nossa terra. a prolife­ ração das populações. É natural que o homem tente vol­ tar para seu berço. para aí convergem. aos desvios. a marcha de um país fica. e os egoísmos e interesses ilegítimos florescem. sempre que aí encontre terras férteis c climas propícios à vida. erros de apreciação. Estudar a geografia de um país não em seu aspecto descritivo. e ao mesmo tempo as condições necessárias ao espírito de unidade social e econômica e à solidariedade entre os interesses e tendências divergentes.292 Teoria Geral do Estado como elementos contrários e desconexos. que tiveram dc vencer. O Brasil é. aí floresceram as primei­ ras e mais luxuriantes civilizações. dc episódios militares e governamen­ tais: sua história étnica. ou cálidos. O destino de um país e função de sua história e de sua geografia. A zona intcrtropical é o berço do animal humano. ed. E em sua geografia e no quadro da sociedade contemporânea que está a base do conhecimento de sua sorte. foi em climas médios. econômica e social. p.

Falta-nos organização de classes. “Mas. dizendo que aqui “povo é uma reunião dc homens. conservá-lo a todo transe: nada mais. O objetivo era a conquista do poder e. Honório. sente-se que ele dava uma importância pequena. nunca teve espírito político. na sessão de 18 de junho de 1870: “O conservador não respeita o liberal. No Brasil. ou mesmo. o liberal flagela o conservador . Realmente. não tinham opinião. o conservador flagela o liberal. VI Havia. quando chamou Itaboraí. conquistado este. Em tese. O golpe parlamentar de 68 é. como porcada é uma reunião de porcos”. o recurso das eleições. como não tinham programas. uma bela prova disto. e com maior conheci­ mento de causa. não. a Paraná. como observava Luís Couty. em 53. quando chamou Sinimbu. onde estão os nossos partidos?” perguntava. Ninguém exprimiu melhor. de volume pequeníssimo em relação à massa da população. certo. também não lhe dava nenhum índice seguro da opinião nacional. a vida política foi sempre preocupação e obra de uma minoria diminuta. levado às urnas apenas pela pressão dos caudilhos territoriais. dissolvia a Câmara e procurava informar-se da opinião do país através da coloração partidária do futuro Parlamento. como se vê. que porventura animassem a consciência do país. Dis­ se ele. E um espírito irreverente expri­ miu uma vez este mesmo pensamento. nem consciência al­ guma do papel que estava representando. Falta-nos li­ berdade civil. quando concedia a dis­ solução da Câmara. Entre nós. O grosso do povo. Num e noutro caso. Essa atitude dos dois grupos partidários fazia com que o imperador acabasse convencido de que não podia encontrar na opinião dos partidos nenhum índice se­ guro das correntes interiores. do que o próprio Zacarias este estado de alma do imperador. espírito público nunca existiu no Brasil. não existe povo no sentido político da expressão.10 Leituras Complementares 293 Os dois velhos partidos do Império. o liberal não respeita o conservador. Falta-nos espírito público. na verdade. Foi o que fez em 78. tendo modificado a colora­ ção política do Gabinete. O processo eleitoral. Só nos países de opinião organizada é que o processo eleito­ ral pode ser um meio eficaz de sondagem da opinião do povo. Hra este o principal programa dos liberais como o era dos conservadores. O imperador apelou para ele várias vezes. Sr. No fundo. . Foi o que fez em 68. não dava importância alguma à opinião dos partidos. entretanto. com efeito. num país como o nosso.e o resultado é que a Coroa tem cm má conta um e outro'’. dentro dos princípios de pura teoria do regime representativo. era este o mais legítimo processo de sondagem da opinião pública.

a estrutura social era quase tão rudimentar como nos campos. não se podiam formar. devido à extrema simplificação trazida à nossa estrutura social pelos grandes domínios independentes. perdia sempre . nem a plebe dos campos tives­ se. esta eleição faz a maioria É que nos faltavam então . por sua vez. não se dispartia por várias classes ou grupos profissionais: concentrava-se quase toda numa classe única.e ainda nos faltam agora . Demais. verdadeira burla . próprio aos governos parlamentares. Nos grupos urbanos. à maneira britâ­ nica ou norte-americana.tal como hoje.as condições necessá­ rias para eleições livres. opinião. estava ainda em condição muito rudimentar. pois.ne­ nhum antagonismo entre as populações dos campos e as populações das cidades. Num povo sem educação eleitoral e de opinião embrionária. Uma dessas condições é precisamente que cada um dos ci­ . no seio da população dos campos. Esta preponderância tão absorvente da grande aristocra­ cia da terra fazia com que nem a classe média rural. porque há de fazê-la. capaz de dar ao processo eleitoral uma significação realmente democrática. O processo de sondagem por meio das eleições não podia trazer. Durante o período imperial tínhamos. o processo de “consulta à nação”. a fraude não a deixaria revelar-se . Nabuco. capazes de revelar-se no processo eleitoral. na oposição. estava realmente conde­ nado a ser. como ainda não existe. de maneira que a vida política não se distribuía por vários centros da atividade. os interesses das classes po­ pulares rurais não estavam propriamente em oposição aos da aristocracia territo­ rial.dada a corrupção do próprio proces­ so eleitoral. e o partido que estivesse “debaixo”. Então. sob o segundo Império. o velho. antes. correntes de opinião desencontradas. pela ausência de antagonismo de classe.como na Argentina da época caudilheira. que era a gran­ de aristocracia territorial. acordavam-se. ou pudesse ter.294 Teoria Geral do Estado Organização de classes também não existia. Em síntese: pela grande simplicidade da nossa estrutura social. Igualmente não se havia cons­ tituído aqui . Mesmo que o nosso povo tivesse opinião. ainda mais do que hoje. próprios às sociedades de alta or­ ganização industrial. VII Demais.e isto porque o partido que estivesse no poder ganhava sempre. De modo que. a “opinião do povo”. os conflitos dc classes. uma estrutura social muito simplificada. chegou mesmo a formular esta lei no seu famoso sorites: “O Poder Moderador pode chamar quem quiser para organizar Ministérios. esta pessoa faz a eleição. não tinham ainda razão de ser. a dissolução da Câmara para a consulta à Nação se havia transfor­ mado numa farsa ridícula. ao imperador nenhum elemento seguro de orientação. segundo Sarmiento . pela feição acentuadamente patriarcal da nossa socieda­ de. uma pura ficção constitucional. como nunca se formaram. como sempre foi.

eleita no mesmo ano. Estas garantias. soberbamente conservadora.o que lhe valeu uma ascendência imensa sobre todos os políticos do seu tempo. tem o direito de intervir no processo eleitoral” . C'est fait de moi. tanto liberais como conservadores. si je ne pars hientôt. na prá­ tica. tanto li­ berais como conservadores . em 1840. o expediente da “consulta à Nação”. veio unanimemente conservadora! Em 1878 deu-se o contrário. dissolveu: a Câmara nova. pelo mecanismo da centralização. Era debalde que as oposições tentavam lutar con­ tra a força irresistível dessa compressão organizada. Esta doutrina absurda pode-se dizer que era a expressão do pensamento íntimo de todos os políticos no poder. Só Saraiva. dc garantias no papel. afinal. que punha uma tão confiada arrogância no coração do moleiro de Frederico. dissolvida. em que ninguém mais acreditava. a condição das nossas massas populares sob a lei de 3 de dezembro de 41. esse prestígio. com efeito. desmentiu esta regra . O recurso da dissolução da Câmara. Em nosso país. voltou soberbamente liberal! Certamente. já se sabia de antemão . Era esta. Esta Câmara. Itaboraí. dos chefes de Gabinete. ou mais exatamente. deixou de aplicá-la integralmente. através da poderosa máquina centralizadora.dizia. se havia transformado numa verdadeira burla. os velhos costumes permaneceram . entretanto. em 82. mobilizava à sua vontade esse formi­ dável exército de tiranetes locais. Ora. Este. “ O Governo. por exemplo. à maneira da Inglaterra. cada um dos eleitores. todos esses aparelhos protetores das liberdades individuais sempre funcionaram mal.que a nova Câmara vinha inteiramente à feição do novo Gabinete. todos esses mandões locais estavam na dependência dos Gabinetes.e nenhum deles. não passavam. Em julho de 68 caía o gabinete Zacarias com uma Câmara unanimemente liberal.e a lei Saraiva. conservadora. Dis­ solvida a Câmara. onde os preceitos da common law tem qualquer coisa dc sagrado aos olhos das autoridades c aos olhos das multidões. essa autoridade. na verdade. Cada homem do sertão ou da mata entre nós bem podia dizer como aque­ le camponês de Paul Louis Courier: Je suis malheureux: )'ai fáché monsieur le maire. Antônio Carlos. o Grande. expressão de um partido. o Gabinete Sinimbu: e a Câmara.e estes asseguravam o mais completo absolutismo aos mandões locais.e era isto o que não acontecia aqui. il me faut vendre tout et quitter le pays. tenha perfeitamente assegurada a sua liberdade ci­ vil . reformas várias do mecanismo eleitoral procuravam pôr um óbi­ ce a estes desmandos da fraude .10 Leituras Complementares 295 dadãos. na execução da lei da eleição direta. foi o Gabine­ te conservador que caiu. nunca existiram grandes tradições de legalidade. Nem a Magis­ tratura aqui teve jamais essa força. substituiu-o um Gabinete liberal. continuaram a scr precárias. dei­ xando o homem do povo na iminência ou na atualidade dos golpes de vindita dos poderosos.com a certeza certa de uma previsão astronômica . É certo que a Reforma Judiciária de 71 assegurou um pouco mais os particulares contra o arbítrio das autoridades. que substituiu o velho sistema da . Aqui.

de 55. Esta contemporaneidade dos dois movimentos mostra o caráter meramente reflexo do nosso . que era. Sente-se que ele se deixara tomar também do idealismo ambiente. para o sistema da eleição direta. Estes sempre se mos­ traram inapreensíveis. o movimento pela eleição direta. com os seus distritos de três deputados. Todos os outros sistemas eleitorais. que ela passara a ser. o sufrágio revelava ali uma tendência a generalizar-se. o Parlamento seria. eram nada diante dos truques sugeridos pela inventiva maravilhosa desses Fregolis da cabala. Então. cheios de esperanças. com a sua alta autoridade. Saraiva. pareceu. saídos dos conluios dos gabinetes ministeriais. com o estímulo do imperador. Falhara a reforma de 60. não tinha o temperamen­ .c os espíritos mais impacientes volta­ ram-se. impor a sua vontade c o seu arbítrio. Este sistema havia aparecido nos nossos meios partidários como uma criação miraculosa do engenho político. que estabelecera o princípio da repre­ sentação das minorias. insinuou Sinimbu a agitar o problema e promover a sua solução parlamentar. como confessava Sinimbu. tinham falhado. o sistema dos dois graus falhara: mostrara-se extremamente dócil à vontade do poder. em que se consubstanciara a gran­ de aspiração nacional. aliás. a apro­ ximar-se cada vez mais das maiorias populares. nem as leis anteriores pu­ deram contravir às artimanhas dos nossos bosses eleitorais. Esta tendência atingia o seu máxi­ mo dc intensidade. Estávamos na convicção dc que o novo sistema eleitoral armaria o povo com uma arma invencível contra o arbítrio do po­ der. Em suma. mas uma questão nacional: todo o país a reclamava! O imperador foi um dos primeiros a perceber isto e foi ele quem. Todas elas deixavam brechas por onde o governo pudera insinuar-se. O que aconteceu com o sistema da eleição direta é típico. Refletíamos os clamores dos partidos europeus e as aspirações que agitavam o ve­ lho mundo. invencíveis no prodigioso diabolismo das suas habilidades de prcstímanos. à primeira vista. mas apenas uma prolação do movimento europeu neste sentido. O mal devia estar então neste sistema .e nossa esperança qua­ se messiânica na eleição direta não era senão a esperança contemporânea de todos os povos civilizados no sufrágio universal. não mais uma ques­ tão de partido. ao contrário de Zacarias. Coube a Saraiva a execução da lei de 81. intangíveis. Por mais cautelosas c casuísticas que fossem todas es­ tas leis. Mas a verdade c que nem esta lei. Houve um momen­ to mesmo cm que foi tamanho o entusiasmo pela eleição direta. mas uma legítima expres­ são da vontade nacional. o idealismo do mundo. até então praticados. Porque o nosso movimento pela eleição direta não foi original.296 Teoria Geral do Estado eleição de dois graus pela eleição direta. justamente na época em que iniciávamos aqui. tamanha a fé nas suas virtudes. Falhara a “lei dos círculos”. Falhara a reforma de 75. ter conseguido este grande objetivo. Com o sufrágio direto. não mais uma massa passiva de de­ pendentes.

com o seu vivo sentimento partidário não a executaria . aliás. e mesmo depois. como todas as outras leis. os homens retornam logo ao seu pequeno horizonte emotivo e.10 Leituras Complementares 297 to de um homem de partido: era uma natureza álgida. O nosso povo teve por um momento a impressão que havia encontrado nela a chave da sua liberdade políti­ ca: pela primeira vez o governo fora derrotado! Para este magnífico êxito não contribuiu apenas a retidão e a imparcialidade de Saraiva: há que contar também com a intervenção direta do imperador. Ninguém mais capaz de executar uma lei. cuja compressão eleitoral dc 78 enchera de surpresa. não poderá deixar de sentir uma emoção comovida diante deste ancião. Soberano visceralmente democráti­ co. sobrecarrega­ do das mil preocupações do seu cargo. nas elei­ ções de 84. Nenhum dos homens do poder teve mais a abnegação de Saraiva. mesmo. No fundo. Pedro sentia que o resultado bom ou mau da lei Saraiva ia dar a prova crucial da excelência do velho regime. por exagerada. ao pon­ to de Dantas considerar que aquela preocupação. quase redunda­ va em preferência pelos adversários” . Nenhum mais se resignou a sofrer a provação da sua derrota. que acompanha sempre a estreia das grandes reformas e sob a qual todos os pequenos egoísmos. a do terço etc. a consciência do país. a lei Saraiva também falhou. ao seu pequeno horizonte intelectual e voltam a viver dentro do seu egoísmo anterior. à ação conjugada do impe­ rador e do chefe do Gabinete. “O Imperador se tornou o fiscal-mor da oposição junto ao ministério. Os resultados da nova lei foram surpreendentes. A oposição. O governo. cm parte. Nas eleições seguintes restauravam-se as velhas praxes opressivas. Por isso. mandando às Câmaras uma representação que fosse a expressão legítima da sua vontade. O êxito inicial da lei Saraiva foi devido. como ou- . junto a Dantas. mas não do seu direito divino. o sentimento da verdade pura. cioso da sua dignidade de rei. esta fase climática de exaltação. insusceptível ao fanatismo das grandes convicções e inapto às grandes vibrações do entusiasmo. a este estado dc exaltação gene­ rosa e idealista. por oca­ sião da primeira experiência da lei de 80. a dos círculos. em parte.diz um historiador. Quem ler hoje a correspondência dele com Dantas por essa época. em que a qualidade principal do executor seria o des­ prendimento. também. em que certamen­ te não acreditava. como outrora. Passada. Nada mais comprobativo da alta compreensão que o velho dinasta tinha da sua grande missão constitucional do que a sua insistente diligência junto a Saraiva. ele não teria nenhuma repugnância em acatar a opinião do povo. D. todas as pequenas impurezas da nossa pobre huma­ nidade como que se fundem ou se volatizam. necessárias a assegurar uma execução perfeita àquela grande lei. Ele confessou. desde que ela se lhe revelasse de uma maneira clara e insofismável. porém.. passou a ganhar sempre. isto mesmo nas suas notas ao livro de Tito Franco. Zacarias.como não a executariam Paulino ou Sinimbu. mas atento aos menores detalhes e às me­ nores providências. senão dc es­ panto. a fria imparcialidade.

o matiz político que cobria o país passava a ser desde então impressionadoramente liberal! IX Ninguém mais convencido de tudo isto. . Por isso mesmo.chamando este ou aquele prócer partidário ao Paço. puro homem de bem. Seria o que Saraiva chamava “a condenação dos adversários ao inferno de Dante” . Pedro era um espírito liberal e equânime. todo o país se revestia de uma coloração conservadora. a de­ licadeza da sua situação no exercício da grande faculdade constitucional. os admiráveis mecanismos de compressão política. e julgando-se indesmontáveis. essas belas unanimidades parlamentares. desta burla. de Nabuco ou de Uruguai. pois. sem gosto nenhum pela política e as suas agitações. Em suma. quando no poder.sem conceder a dissolução da Câmara seria logicamente impossibilitar àquele os meios de governo. Se. Pedro . adotara uma atitude de paternal e displicente imparcialidade para com os dois partidos.ele bem o sentia . ao sopro violento das “der­ rubadas” . cujas origens espúrias bem conhecia. Compreende-se. o desespero dos condenados às geenas do ostracismo.e é isto justamente que transparece das suas notas ao livro de Tito Franco. quando se operava uma crise ministerial.fixar 110 poder ad aetermitatem o partido do Gabinete. ora chamava outro ao poder. mas. seria aqui absolutamente irrepresentável por qualquer soberano que aspiras­ se ao título de justo. por exemplo. desta ficção. como costumava de quando em quando fazer. ele adotasse sistematicamente a fórmula britânica e formasse sempre Gabinetes da mesma coloração da Câmara. sc ele chamasse um Gabinete conservador . o clamor. mas na opinião dos Gabinetes.ao ostracismo permanente e irremissível. desta artifi­ cialidade do regime representativo no Brasil do que D. seria isto .e com elas o pro­ testo. que os próprios partidos. exercido à maneira in­ glesa. mas. Estes c que davam aos partidos no poder. Numa Câmara liberal. passou a perder sempre. Ele fazia cair os par­ tidos e fazia subir os partidos. dependente de um simples aceno do im­ perador . haviam organizado. à vontade: bastava para isto pôr nas mãos de Z a­ carias ou de Itaboraí. seria reduzida a destroços. com as situações locais c provinciais. concedida a dis­ solução. de Saraiva ou de Cotegipe. todas as vezes que se abria uma crise de Gabinete.298 Teoria Geral do Estado trora. Voltaram as Câmaras unânimes . se acontecia ser liberal o Gabinete . O destino dos partidos estava. Sc cra conservador o Ga­ binete. durante o império.e a política rotativa do imperador sempre permitia que isto acontecesse . não na opinião do povo. por mais sólida que fosse. sem dar nenhuma consideração apreciável à opinião da Câmara. Ele bem compreendia que o papel do rei constitucional. isto importaria na vitória segura do novo Gabinete: e a situação anterior. con­ tra que investia a cólera dos políticos caídos em desgraça. pois. o destino dos partidos estava. em vez de formar um Gabinete de coloração contrária. D. Ora chamava um.

locais. nada mais lógico do que a irritação dos políticos contra esse personagem. Em 1878. fazia subir os liberais. no centro repetiam. em que os indivíduos vão ao poder no intuito altruístico de realizar um grande ideal coletivo. Sabe-se.c todos acham infinitamente mais docc viver do Estado do que de outra coisa. se não há engano na filosofia de Quincas Borba. ou antes. todos os que formavam o estado-maior deste partido nos municípios. que essa posse também dá. o poder é disputado pelos proventos que concede aos políticos e aos seus clãs. Eqüivale dizer que cabiam a estes as batatas. mas este graccjo encerra a síntese dc toda a filosofia política no Brasil. Entre nós a política é.porque fatalmen­ te mal compreendida e. não sabia realizar. em- . quando não mal compreendida. Em boa verdade não a podiam compreender. No fundo. o partido conservador. Em nosso país. que sempre dá a posse da autoridade. ingrata . depois dc dez anos dc governo conservador. Daí a áspera violência das famosas “derrubadas” . não compreendiam (ou fingiam não compreender) esta imparcialidade do imperador. pelo menos mal aceita pe­ los detentores eventuais dos instrumentos do governo. com a sua equanimidade. nas províncias. como sc vive da lavoura. num país em que a vida política se modela por esse padrão e se restringe a esses objetivos personalíssimos. que deixava o campo inteiramente lim­ po e aberto ao assalto dos vencedores. a frase motejadora de Martinho: também eles perdiam o emprego! Está claro que. os partidos não disputam o poder para realizar ideias. Há os proventos morais. ou podiam repetir realmente. quando caía um Gabinete. quando o imperador os fazia apearem-se do poder. fazia subir ao poder. depois de seis anos de domínio do par­ tido liberal. mas há tam­ bém os proventos materiais. Desde que nada podia explicar esta queda senão a vontade do monarca. do co­ mércio c da indústria . todos os ocupan­ tes adversários. aquilo que o povo. provinciais e gerais. X Os políticos. aliás. an­ tes dc tudo. espinhosa. Era uma vassourada geral. a conquista do poder é um fato inquestionavelmente mais sério e mais dramático do que em outro país. o exercício do Poder Moderador num sistema parlamentar é uma tarefa delicada. O partido que subia derrubava tudo . um meio dc vida: vive-se do Estado. não a podiam admitir. que. com a sua incapacidade de­ mocrática. Estes se julgavam sempre esbulhados. Num país assim. com surpresa geral.quer dizer: sa­ cudia para fora dos cargos públicos. quando teve que deixar a pasta de ministro: Perdi o emprego! Era um graccjo. o imperador parecia não ter ou­ tro critcrio senão o do tempo: ele fazia o revezamento dos partidos conforme o tempo da estada deles no poder. Realiza­ va assim. aquele dito espiri­ tuoso de Martinho de Campos. com efeito. Em 1868. entretanto.10 Leituras Complementares 299 Nestas alternativas das situações partidárias.

O Estado não é a suprema encarnação da ideia. uma superestrutura impessoal e duradoura. na medida em que a atividade racional nele envolvida. universidades de Toronto. No campo da filosofia política legou-nos O homem e o Estado. O Estado é uma parte que se especializa no interes­ se do todo. ed.. às vezes mesmo. Agir. de rancor. da experiência c da individualidade. filósofo e diplomata francês. é mais abstrata. obra que escolhemos para transcrever o trecho supra. O Estado é apenas uma insti­ tuição autorizada a usar do poder e da coação. lecio­ nou também na América do Norte e no Canadá. constitui.300 Teoria Geral do Estado buçado dentro de uma prerrogativa constitucional. como o acreditava Hegel. os destituía das suas situações de mando. Tal obra de arte foi construída pelo homem e serve-se dos cérebros e das energias humanas e nada é sem o homem. Rio de Janeiro. 22-3. O Estado não é uma espécie de super-homem coletivo. e constituída por técnicos e espe­ cialistas em questões de ordem e bem-estar público. p. eles não se sentiam apenas esbulhados com o ato da Coroa que cha­ mava ao poder os adversários: sentiam-se também humilhados. con­ vertendo-se ao catolicismo em 1906. Homens de clã para quem o inimigo político era quase sempre inimigo doméstico e a luta política uma luta pessoal. ar­ ticulada pela lei e por um sistema de normas universais. mais impiedosa também do que em nossas vidas individuais. mais separada das contingências. estudou em Paris e Heidelberg. 15) JACQUES M ARITAIN5 0 homem e o Estado (Trad. Professor do Instituto Católico de Paris {1914-1940). tornou-se adversário do Concilio Vaticano e do movimento neomodernista. às vezes. todavia. com destaque para Filosofia moral (1960). Escreveu inúmeras obras. Não é um homem ou um grupo de homens. . em suma. é um conjunto de institui­ ções combinadas em uma máquina altamente aperfeiçoada. Chicago e Princeton (1948-1960). feridos no seu pundonor pessoal c guardavam do imperador uma sorte de ressentimento íntimo. Colúmbia. 1959. um instrumento ao 5 Jacques Maritain (1882-1973). Kste explodia. uma encarnação superior da razão. Alceii Amoroso Lima. ao fomento do bem comum e da ordem pública e à adminis­ tração dos negócios públicos.) 0 Estado O Estado é unicamente a parte do corpo político que se refere especialmente à manutenção da lei. Arte e escolástica. 3. sem outra razão senão as razões do seu capricho. Embaixador da França no Vaticano (1945-1948). cujo funcionamento pode ser considerado como ra­ cional em segundo grau. em frases de recriminação violen­ ta ou cólera impulsiva.

Com efeito. Vergastando a burguesia e a democracia parlamentar. 1981. Colocar o homem a serviço desse instrumento é uma perversão política. é durante as greves que o proletariado reafirma sua existência. Pierre Joseph-Proudhon e Henri Bergson. O Estado e que existe para o homem. não se dei­ xando condicionar por metáforas. porque os trabalhadores levam tais expressões ao pé da letra. um notá­ vel ideólogo. tornou-se. Tal concepção não implica nenhuma das sutis interpretações em que se esmera Jaurès. que. engenheiro de profissão. por inclinação natural. de forma re­ lativamente profunda. inspirando-se principalmente em Karl Marx. Paris-Genève. Quando. espera e preparação da greve geral. Tenho certeza de que o socialismo não sobreviverá sem a apologia da violência. simultaneamente. as quais levariam o trabalhador à sua eman­ cipação mediante o estímulo a uma greve geral e universal. com a eli­ Georges Sorel (1847-1922). com bruscas alterações de rumo. Trata-se. o mais significativo dos mitos proletários. isto sim. destinado a desaparecer das greves. eis por que os sindicalistas se referem a tal revolução empregando o linguajar típico das greves.10 Leituras Complementares 301 serviço do homem. entre elas A ruína do mundo antigo. semelhantemente a uma batalha napolcônica. de maneira alguma. 16) GEORGES SOREL6 Reflexões sobre a violência (Réflcxions sur la violence. Ensaios dc crítica do marxismo e. o mais importante de seus trabalhos. dois ilustres discípulos: Lenin e Mussolini. existe para o Estado. um clássico da Política. Aqueles que dirigem ao povo palavras revolucionárias têm a obrigação de ser sinceros. sobre a violência proletária. Sua importância para as ideias políticas pode ser resumida no fato de que inspirou. Collcction Rcssourccs. A greve é uma guerra! Consequentemente. é uma grande mentira dizer que a violência não passa de um fenômeno acidental. A pessoa humana como indivíduo existe para o corpo político. de uma transformação radical. seu famoso sindicalismo revolucionário. estava consciente da grande res­ ponsabilidade que assumia ao tentar demonstrar a importância histórica de ccrtas ações que nossos socialistas “parlamentários” tentam ocultar com suas artimanhas. A revolução social é o prolongamento desta guerra. acre­ ditava na formação de elites no seio do proletariado. resolvi escrever. Para eles o socialismo se reduz à ideia. Não me conformo com a visão limitada de alguns em considerar as greves como algo seme­ lhante a uma desavença comercial entre um feirante e seu fornecedor.) Tradução do autor. da qual cada grande greve constitui mero episó­ dio. mas o cor­ po político existe para a pessoa humana como pessoa. em 1905. Reflexões so­ bre a violência (1906). suprimirá um regi­ me condenado. Deixou várias obras de considerável significado. Dedicou-se à questão social desde 1892. . Mas o homem. construindo.

salvo D ’Estournelles de Constant . Ainda que não houvesse outra razão para atribuir ao sindicalismo revolucionário um elevado papel civilizador. Incansavelmente. pode suprimir tais sentimentos vis. aos exércitos napoleônicos. Ninguém duvida . sem hipocrisia. a apologia da violência me é particular­ mente simpática.que a guerra proporcionou. Todavia. e tornam-se dignos de ensinar ao mundo novos caminhos. aliás. do ponto de vista de uma civilização de produtores. típica de um povo de produtores. serão relegados à sua literatura. A guerra social. traz consigo o ideal de uma grande transformação. sc tornarão inúteis. contra os quais a mo­ ral continuaria impotente. algo tremendo. é sobre seu enorme alcance que a democracia fundamenta sobretudo sua força.302 Teoria Geral do Estado minação dos patrões e do Estado pelos produtores organizados. Fecunda dc conseqüências c a comparação que estabelecemos entre as greves violentas e a guerra. A guerra travada de peito aberto. enquanto o sindicalismo revolucionário corres­ ponderia. para a qual o proletariado não cessa de se preparar nos sindicatos. pelos guilhotinadores. ao levar a efeito obra tão séria. Nossos intelec­ tuais. ao apelar para o sentimento de honra que se desenvolve naturalmente em todo exército organizado. exclui todas as abominações que desonraram a revolu­ ção burguesa do século XVIII. comprovo que. as ideias que constituem o mais belo monumento da moderna civilização. Seria caso de se comparar os socialistas “parlamentários” aos servidores com que Napoleão formara uma nobreza. já que tais sentimentos são demasiado fortes para que exortações inconseqüentes possam reprimi-los. filosofia esta profundamente vinculada à apologia da violência. com precisão. visando a destruir um inimigo irreconciliável. que vêem na organização criada pela burguesia os meios que lhes permitem dominar uma parccla do poder. esta mc pareceria decisi­ va cm favor dos apologistas da violência. Somente a guer­ ra social. que parecerá ainda mais impressionante quanto maior for o convencimento alcançado pela violência no ânimo dos proletários. pode dar origem aos fundamentos de uma nova civilização. em tudo isto. Não adiantaria tentar convencer os pobres de que estão equivocados ao nu­ trirem inveja e rancor contra seus patrões. desenvolvida pela prática de greves violentas. os socialistas situam-se em nível superior ao da nossa leviana sociedade. hoje. e os socialistas “parlamentários”. temível e sublime como esta. cujos soldados levam a efeito . que esperam obter da democracia os melhores cargos. e que trabalhavam para o fortalecimento do Estado legado pelo Antigo Regime. Há. c cnchc-mc dc horror qualquer medida que atinge o mais fraco sob um dis­ farce judicial. Jamais nutri por certo “ódio criador” a admiração que lhe concedeu Jaurcs. Por isso. às repúblicas antigas. vai-se fir­ mando uma filosofia até pouco tempo despercebida. A ideia de greve geral. a mesma indulgência com que ele os en­ carou. chamo a aten­ ção de meus jovens discípulos para os problemas que o socialismo apresenta. nem experimento.

) Passarei agora à questão seguinte . ed. é a decisão da maioria.. p. por outro rejeitou as correntes radicais dc extrema esquerda. . que pode haver de mais importante do que a liberdade. Esta conclusão apareceu milhares de vezes em todo o lado e aparece constantemen­ te em toda a imprensa e nos jornais já mencionados por mim. mesmo sabendo que continuariam pobres. 24-34. Eclodindo a Revolução dc 1917. membro da Internacional dc Berna. Em 1919 organizou a Terceira Internacional. Como sabem. Que restou do Império? Nada mais do que a cpopeia da Grande Armada. os bolcheviqucs escolheram o mé­ todo da ditadura e. portanto. travada contra o Império Austro-Húngaro. endereçada aos revolucionários dc seu país. desenvolveu inten­ sa atividade intelectual e de ativista político. bem como a distribuição das terras aos camponeses e a atribuição de todo o poder aos sovietes. Global. e Extremismo. lançando as bases de um novo Estado socialista de inspiração marxista. última fase do capitalismo (1919). “A Democracia é liberdade. 17) NIKOLAJ LÊNIN7 Como ilu d ir o povo com os slogans de liberdade e igualdade (3. Refugiando-se no exterior dois anos mais tarde. a igualdade. São Paulo. é igualdade. Já tive várias vezes que fazer notar que a justificação. até agora. apareceu na literatura eu­ ropeia como o mais decisivo representante deste ponto de vista: “Os bolcheviqucs escolheram um método que viola a Democracia. é a referência à Democracia. de seu país. da Primeira Guerra Mundial.10 Leituras Complementares 303 tantas proezas. é claro. São suas obras principais Materialismo e empiriocriticismo (1909). líder revolucionário soviético. por um lado. F. passando três anos deportado na Si­ béria. preparando a segunda fase do processo revo­ lucionário. semiconscientemente. Estado e revolução (1917). Assumindo o poder. 1980. Entre outros temas. os filisteus repetem-no. o chefe ideológico da Segunda Interna­ cional e. doença infantil do comunismo (1920). a defesa mais proveito­ sa destas posições políticas que os democratas lançam contra nós.A atitude em relação à Democracia em ge­ ral. Toda a intelligentsia o repete constantemente e. e o que perdurará no movimen­ to socialista atual será a epopeia das greves. Imperialismo. por vezes. A ditadura do proletariado e o renegado Kautsky (1919). impediu a intervenção mili­ tar estrangeira em seu país e deu início à sua reconstrução econômica. a sua causa é injusta” .ntre 1900 e 1917 viveu no exterior. tendo sido preso em 1895. voltou novamente à Rússia. Kautsky. nos seus argumentos. a de­ Nikolaj Lenin era o pseudônimo de Vladimir Ulianov (1870-1924). se. K assim que ele argumenta. Tornou-se militante ainda jovem. em que todas as facções socialistas que o apoiavam o elegeram como o grande líder do movimento operá­ rio internacional. anali­ sou a chamada fase imperialista do capitalismo e elaborou o conceito de ditadura do proletariado. exigindo a imediata retirada. contestou o revisionismo desta. encerrou a guerra civil. Tcórico brilhante da doutrina marxista. voltando à Rússia para se tornar o chefe da Revolução Socialista deflagrada em 1905.

para provar que por detrás destas frases se encontram os interesses da liberdade do proprietário. e dizemo-lo sempre. consideramo-los como aliados de Kolchak. então não se surpreendam e não se queixem se vos chamarem dc usurpadores e violadores!” De modo algum nos surpreendemos. “Liberdade”. Esclareça-se. como “liberdade”. c inútil acentuá-lo. das suas obras. igualdade. é sua aliada. teve à sua fren­ te a tarefa de criar a liberdade. pois é necessário esclarecê-lo. está a serviço dos exploradores e nada mais. sabemos perfeitamente que o Capital mundial. no nosso pro­ grama. nesse momento histórico. pela com­ pleta destruição da produção mercantil. em tal momento po­ lítico. . “igualdade” e “a vontade da maioria”. e ainda tiveram a ou­ sadia de declarar abertamente que são mais importantes que a liberdade. pois desejamos clareza acima de tudo. sabemos perfeitamente que isto foi um progresso histórico mundial.304 Teoria Geral do Estado cisão da maioria! Se vocês. por defenderem-na contra os usurpadores. que destruiu a escravatura feudal. fraudulentamente. Serão os democratas puros real­ mente censuráveis por ensinarem a pura Democracia. ou são censuráveis por surgirem ao lado da classe capitalista. se afastaram disto. mas é fundamental do ponto de vista da nossa propaganda e educação. que não lançamos. ou mesmo num país. No momento em que se atingir a destruição do poder do Capital em todo o mundo. Talvez isto seja supérfluo do ponto de vista da formulação externa do programa. a liberdade do Capital. a igual­ dade. preferindo direta ou indiretamente esta à ditadura do proletariado. que. Sim. porque a liberdade. ao lado de Kolchak? Comecemos por esclarccer a noção de “liberdade” . vontade da maioria e a todas as espécies de Benthams que o descrevem. e só contamos com o setor avançado dos trabalhadores que tem uma real e verda­ deira consciência da sua posição. atue contra a ditadura do proletariado. tais slogans altissonantes.sabe que ele devotou a maior parte da sua vida. e a maior parte das suas investigações científicas exatamente à ridicularização da li­ berdade. E qualquer pes­ soa que tiver lido Marx . Mas o nosso programa declara: “A Liberdade 6 uma frau­ de se se opõe à emancipação do Trabalho da opressão do Capital”. e a decisão da maioria. quando a principal tarefa for a luta das classes trabalhadoras pelo total aniquilamento do Capital. dissemos. que criou a liber­ dade burguesa. adep­ tos da Democracia consistente. socialista ou democrática. como declaramos claramen­ te no nosso programa do partido. do ponto de vista dos fundamentos da luta proletária e do poder proletário. utilize as palavras “Liberdade em geral”. c um slogan muito. e que con­ sideramos esses que se intitulam democratas. Sabemos perfeitamente que temos que lutar contra o Capital mun­ dial. no programa do partido. 110 seu tempo. qualquer pessoa que. muito importante em qualquer revolução. bolcheviques. para oprimir as massas trabalha­ doras. em nome desta liberdade. adeptos da pura Democracia.quem quer que tenha lido mesmo uma divulgação po­ pular de Marx . quando não subordinada aos interesses da emanci­ pação do Trabalho do jugo do Capital. é uma fraude.

Sim. isto é usual cm todas as suas polêmicas contra nós. onde quer que tenham estado. cla­ ro. ou sobre os quais te­ nham lido. “A Sala dos Nobres”.recebemos agora raramente os jornais franceses porque estamos cercados por um anel. pertencem aos capitalistas e aos proprietários e chamam-se. a vossa liberdade. civilizados cavalheiros.consegui ler nos boletins emitidos pelo governo francês dc rapina que. Em todos os livros. “ Isto”. bolche­ viques. E vocês. desculpem-me. mas a informação chega-nos pelo telégrafo. tendes que respeitar a propriedade . contra o Capitalismo Republi­ cano. dizem eles. o seu sistema é descrito como o sistema mais livre. Reparem em todos os países da Europa Ocidental. violaram a liberdade de reunião”. Qualquer espé­ cie de Liberdade é uma fraude. claro está. América . franceses. esquece­ ram que a vossa liberdade está escrita numa Constituição que legaliza a proprieda­ de privada. indo contra os bolcheviques c apoiando os seus adversários. Esqueceram um pormenor. marcham contra os bolcheviques “em nome da liberdade” . é uma fraude. cavalheiros ingleses. a França está a manter mais que nunca o seu “alto ideal dc Liberdade”. contra o livre Capitalismo e. se está em contradição com a emancipação do Trabalho da opressão do Capital. Todos os socialistas o reconheceram ao utilizar esta liberdade da sociedade burguesa para ensinar ao proletariado o modo de acabar com a opres­ são do Capitalismo. por exemplo. Na Constituição deve es­ tar escrito: “ Liberdade de reunião para todos os cidadãos”. Isto significa que os grandes auditórios que existem nas grandes ci­ dades.França. um imenso progresso em comparação com a ordem feudal.é assim na realidade que está es­ crito na vossa Constituição. dado que por enquanto ainda é impossível cercar o ar. “é o verdadeiro significado e a principal manifestação de liberdade. ame­ ricanos. como este onde agora nos encontramos. Mas a vossa liberdade é de uma tal espécie que é uma liberdade no papel e não na prática. Mas talvez isto seja impossível? Talvez seja impossível que a liberdade seja contrária à emancipação do Trabalho do jugo do Capital. com a lei de servi­ dão medieval. Encontramos coisas deste gênero a cada passo. sc é contrária aos interesses da emancipação do Tra­ balho da opressão do Capital. E nós respondemos. e ouvimos as emissões de rádio estrangei­ ras . Podeis reunir-vos livremente com cidadãos da República Democrática Russa. É esta a essência do problema. Consideramos essencial dar-lhe esta resposta no nosso programa. e agora esses “países civilizados” . a propriedade . sabemos que ele erguerá a bandeira da liberdade contra nós. Ainda há pou­ cos dias atrás . ingleses e ame­ ricanos chamam liberdade mesmo à liberdade de reunião.erguem esse es­ tandarte. contra o Capitalismo Democrático. O fato dc reconhecerem a liberdade de reunião é. respondemos nós. mas isso é propriedade privada. E a que chamam eles liberdade? Estes “civilizados” franceses. Juntamente com a liberdade. Inglaterra.10 Leituras Complementares 305 E declaramos que somos contra o Capital em geral.

que reconhece como inevitável a . protegidos do tempo. então seremos pela liberdade de reunião para todos. mecânico e intelectual. a “Sala dos Nobres”. Q uando só houver no mundo trabalhadores e as pessoas se esquecerem dc pensar cm como era possível ser um membro da sociedade e não um trabalhador . de um ca­ pitalista ou de uma sociedade anônima. pessoas in­ solentes. meias-tintas. não permitiram a liberdade de reunião aos monárquicos. Mas nós dizemos: Estamos virando isto “de pernas pro ar”. Lu­ tamos contra eles. Passou o tempo em que era possível iludirmo-nos a nós mesmos e aos ou­ tros com estas histórias de fadas. então. criminosos. depois falaremos sobre liberdade. A Revolução Francesa e chamada a Grande. nem pelo palavreado de muitas das revoluções dc 1848.306 Teoria Geral do Estado privada senão passais a ser Bolcheviques. Primeiro apoderemo-nos dos melhores edi­ fícios e. e havemos de abolir esta liberdade. Afirmamos que a liberdade de reunião para os capitalistas é o maior crime contra os trabalhadores. desencadearam uma revolução. que não é mais que a liberdade de reunião dos contrarrevolucionários. fantasista. Também sabe­ mos como tratar os cavalheiros capitalistas. aos cavalheiros que apoiam a Democracia. O Marxismo. mas hoje a liberdade de reu­ nião significa liberdade de reunião dos capitalistas. dizemos: Vocês mentem quando nos atiram à cara a acusação de es­ tarmos destruindo a liberdade! Quando os vossos grandes revolucionários burgue­ ses.é este o significado da ditadura do proletariado. sob a qual não existirão grandes edifícios onde apenas uma família vive e que pertence a um único indivíduo . porque não se caracterizou por molezas. dos contrarrevolucionários. os melho­ res edifícios são propriedade privada. é uma fraude porque. Nessa altura seremos pela total “liberdade”. e a cul­ pa é dos cavalheiros burgueses. Pas­ saram os dias do Socialismo ingênuo. utópico.trata-se aqui de um proprietário. Estamos numa batalha . e porque foi uma revolução a serio que não só derrubou os monárquicos. ladrões. quando queremos nos reunir. quando se pensava que bastava convencer a maioria das pessoas e pintar um belo quadro da sociedade socialista para que a maioria adotasse o ponto de vista do So­ cialismo. isto constrói essa verdadeira li­ berdade. é necessário retirar a liberdade de reunião aos capitalistas. num edifício das organizações dos trabalhadores e só então falaremos dc liberdade dc reunião. Vocês acusam-nos de violarmos a liberdade. Isto ajuda a emancipação do Trabalho da opressão do Capital. nós afirmamos que qualquer liberdade não subordinada aos interesses da emancipação do Trabalho da opressão do Capital ê uma fraude. assim como dos cavalheiros intelectuais burgueses -. gatunos. na França de 1792-1793. A li­ berdade de reunião. como também os suprimiu. Quando isto acontecer. pois sabemos como tratar de emanci­ par os trabalhadores do jugo do Capital. é necessário retirar ou cortar-lhes a sua “liberdade” . Primeiro trans­ formamos este edifício. Aos cavalheiros intelectuais burgueses.isto não acontecerá tão cedo. incluída nas Constituições de todas as repúblicas burguesas. na Inglaterra de 1649. então o povo se es­ quecerá de que é possível existirem edifícios públicos propriedade de um particu­ lar.

séria. os cavalheiros burgueses ingleses. mas agora viram que as coisas eram sérias. c que. portanto. Ditadura é uma palavra crua. a luta de classes assume as suas mais profundas formas e esses democratas e socialistas não servem para nada e enganam-se a si próprios e depois os outros ao afirmarem que. a tarefa chegou ao fim. Milyukov gracejava as­ sim como Chernov e os seguidores do jornal Novaya Zbizn. como está sendo criada uma Guarda Branca porque sabem que as coisas chegaram a um ponto em que se põe a questão de consegui­ rem manter os seus privilégios. quem hoje nos ataca com palavras como “Democracia”. no início. precisamente por não estar ainda totalmente derrubada. Liberdade de reunião . foram a liberdade e a Democracia dos proprietários e meras migalhas para os sem-propriedades. está ao lado da classe capitalista. viram e reconheceram tam­ bém que as coisas tinham tomado um aspecto sério e agora estão todos a armar-se. vencer a resistên­ . Que é liberdade de reunião quando os trabalhadores são esmagados pela es­ cravatura do Capital e pelo trabalho para o Capital? É uma fraude. Hoje a luta estendeu-se a todo o mundo. para se con­ seguir a liberdade dos trabalhadores. é uma fraude porque sabemos perfeitamente que a burguesia fará tudo para derrubar este poder. que lhes permitem conservar milhões de pessoas em escravatura salarial. c ainda não cm todos. dado que a bur­ guesia foi derrubada. se lança à luta com o maior ódio.haverá outra palavra que soe melhor? Será possível imaginar o desenvolvimento da consciência de classe dos trabalhadores sem liber­ dade de reunião? íYlas nós afirmamos que a liberdade de reunião nas Constituições da Inglaterra e dos Estados Unidos da América do Norte é uma fraude porque ata as mãos das massas trabalhadoras durante o período de transição para o Socialis­ mo. Se os socialistas lançaram um tal slogan é porque sabem que a elasse dos exploradores só cederá em resultado duma luta desesperada c sem piedade c tentará disfarçar o seu domínio por meio das mais variadas palavras agradáveis. franceses e suíços. “ Liberdade”. Exatamente depois da destruição da burguesia. que foi derrubada num único país. pois não compreende que a liberdade e a Democra­ cia. é necessário. e tais palavras não devem ser atiradas levianamente. por­ que a burguesia ainda não acredita que foi derrubada. como estão a armar lite­ ralmente todos os burgueses. tão “monstruoso”. e. que refle­ tiram. que consideravam a sua “repúbli­ ca democrática” como uma armadura que os defendia. até hoje. portanto. concreta e claramente.10 Leituras Complementares 307 luta de classes. Gracejavam porque não tomavam as coisas seriamente. sangrenta e terrível. antes de tudo. ilude o povo. e na véspera da Revolução de Outubro gracejava ainda muito feliz e despreocupada. Não pode ser de outro modo aos olhos daqueles que refletiram sobre a luta de classes. Se pudessem ver o que está se passando na “livre” Suíça. e. H apenas o começo e não o fim. sobre as relações dos trabalhadores em revolta con­ tra a burguesia. afirma: A humanidade só pode atingir o Socialismo através da D i­ tadura do Proletariado. que é tão insólito.

A revolução. é possível apossarmo-nos relativamente depressa do Ca­ pital e dos instrumentos de produção.não o dissemos especialmente no nos­ so programa. pensavam c consideravam. e vocês sabem que toda a luta contra a ordem medieval.. o direito de explorar. no seu curso. isso. durante o período transitório do velho sistema capitalista ao novo sistema . até as conseguirmos. A revolução fez-se contra os pro­ prietários sob o slogan de igualdade. de uma república. os socialistas afirmaram que era impossível abolir imediatamen­ te o dinheiro. Em seguida destruiu os proprietários. e afirmava-se que a igualdade era a condição sob a qual o milionário c o trabalhador deviam possuir iguais direitos. e. e é totalmente verdade.diz que a igualdade é uma fraude quan­ do em contradição com a emancipação do Trabalho da opressão do Capital. Para abolir o dinheiro são necessárias grandes conquistas técnicas e . É possível apossarmo-nos imediatamente da propriedade e dos edifícios suntuosos. mas se eu tenho de me haver com a resistência de toda uma classe. é necessário manter uma igualdade em palavras na Constituição.! O dinheiro é a “nata” da riqueza social. Eis o que é o dinheiro. nem igualdade ou mesmo decisão majoritária a essa classe. contra o feudalismo. mas. Aqui o problema é ainda mais com­ plexo. destrói uma após outra as classes exploradoras. por experiência. A revolu­ ção avançou mais. em virtude da propriedade privada dos meios de produção. então c óbvio que não posso prometer nem liberdade. quanto à propriedade em dinheiro.308 Teoria Geral do Estado cia dos exploradores. mas é impossível continuar a repeti-lo sem fim. Poderá ser destruído de uma hora para outra? Não. é a relíquia da antiga exploração.o que é muito mais difícil e importante . Afir­ mamo-lo. de fato. pos­ sui. porque na realidade a igualdade não existe nem pode existir. sejam quais forem os seus bens.organizacionais. Antes da Re­ volução Socialista. Afirmamos que uma república democrática com igualdade é uma mentira.era assim que os revolucionários do período que ficou na história como o período da Grande Revolução Francesa sinccramentc falavam. quem tiver dinheiro. e isto durante um largo espaço de tempo. Diz que a “igualdade” . afirmamos que o dinheiro se manterá. e podemos confirmá-lo. Todos são iguais. e conservar condições tais que. dado ser tão claro como o que dissemos sobre a liberdade .. uma fraude. Primeiro destruiu a monarquia e entendeu por liberdade simplesmente a existência do poder eleitoral. IV Passo agora da liberdade para a igualdade. que provoca de­ sacordos ainda maiores e mais violentos. se fez sob o slogan de “igualdade”. Neste caso estamos diante de uma questão ainda mais séria. do dinheiro e do Capital. todos são iguais. inclusive o milionário c o vagabundo . a “nata” do trabalho social. Ainda não conseguimos abolir totalmente o di­ nheiro. é a pro­ va do tributo dc todos os trabalhadores.

que. ainda poderia chamar-se socialista. é uma for­ ça que se impõe pelo constrangimento material. p..) O elemento essencial do Estado é a força. não é senão uma frase sem sentido e uma invenção estúpi­ da do intelectual. Assim e também necessário destruir a diferença de classe entre trabalhadores e camponeses. 18) LÉON DUGUIT Os elementos do Estado (Trad. É este precisamente o nosso objetivo. Aque­ . E é isto que afirmamos..e quando Treitschke formulava o adágio que se tornou célebre . Engels tem toda a razão quando afirma que o conceito de igualdade é um pre­ conceito estúpido c absurdo. Mas. A igualdade é o nosso objetivo. não sabiam que os socialistas. 311) . deturpa as palavras. 41-2. Marx e Engels.10 Leituras Complementares 309 socialista. A igualdade é uma fraude se está em oposição aos interesses da emanci­ pação do Trabalho da opressão do Capital. mas não tem qualquer significado. Só existe verdadeiramente Estado num certo país quando um homem ou certo grupo de homens dispõe nesse país duma força material preponderante. tinham razão. antes de tudo.. nem socialista. separadamente da abolição de classes. mas sob a forma de abolição de classes. Se interpretarmos a palavra socialismo num certo sentido.. mas não vale a pena discutir pala­ vras. Tentaram atribuir aos socialistas este absurdo por eles inventado..Der Staat ist Macht . mas isto é um mero jogo de palavras. Eduardo Salgueiro. O Socialismo é a primeira fase do Comunismo. e especialmente os funda­ dores do moderno Socialismo Científico. tinham afirmado: a Igual­ dade é uma frase oca a não ser que por igualdade se entenda a abolição de classes. um Estado sem poder material de constrangimento é uma contra­ dição em si” (“Der Zveck im Recht”. Lisboa. O Estado. Alguns profes­ sores burgueses tentaram convencer-nos dum conceito de igualdade pelo qual to­ dos seriam iguais.“a falta de poder material (Macht) é pecado mor­ tal do Estado. pretender que queremos fazer com que todos sejam iguais. Quando Ihering escrevia . s. não podemos falar de igualdade sem correr o risco de fazer o jogo da burguesia. Inquérito. Mas. mas a sua doutrina implicava um erro irremissível e era por virtude disso abominável. mesmo se se intitula escritor e por vezes mesmo como um ho­ mem culto. Só destruindo as classes haverá igualdade. pág. Uma sociedade cm que se mantém a diferença dc classe entre trabalhadores e camponeses não é nem comunista. Ed.. ou qualquer outra coisa. ed. d. na sua ignorância. 2. por vezes conscientemente. Uma coisa é certa: enquanto houver diferenças de classe entre trabalhadores e camponeses.

o que resta de válido na obra O Príncipe? Os conselhos de Maquiavel ainda poderiam ser úteis para os modernos governantes? O valor do sistema político de O Príncipe fica circunscrito à época em que tal livro foi escrito. é universal e. se isto é a política. na forma condensada de O Príncipe. então o pressuposto dessa arte é o próprio homem. de M aquiavel (in II príncipe. ou no sentido amplo e intemporal do gênero humano? Creio que. portanto. a força sem o direito é simplesmen­ te barbaria. porque projetadas no futuro. é por mera política. “A for­ ça cria o direito” dizia Treitschke. para conseguirem ser mais obedecidos. edu­ car suas paixões. ou seja. dc orientar. hoje. p. pelo contrário. seu egoísmo e seus interesses cm face de objetivos gerais que trans­ cendem. Afirmo que a doutrina de Maquiavel está. Doutrina ignóbil. Ele é o seu ponto de partida. A indagação se impõe: após quatro séculos. Se o direito sem a força se arrisca a ser impotente. principalmente. que ele conhecia tão bem. antes de proceder a uma análise do sistema político maquiavélico. 473-9. Que representam os homens no sistema político de Maquiavel? Que pen­ sa Maquiavel a respeito dos homens? Ele é otimista ou pessimista? Dizendo ho­ mens devemos restringir tal vocábulo aos italianos de seu tempo. mesmo numa lei­ tura superficial de O Príncipe. imperioso estabelecer o conceito de Maquiavel sobre a humanida­ de em geral e sobre os italianos em particular. Roma.310 Teoria Geral do Estado la força de constrangimento era para eles ilimitada ou pelo menos só era limitada pela regra de direito na medida em que os governantes se lhe submetessem. o Estado é a força. o pessimismo de Maquiavel sobre a natureza huma­ . querendo exprimir que. se os governantes aceitam que a sua força seja regulada pelo direito. atual? Minha tese responde a tais perguntas. caduco ou. Sim. “O direito é a política da força” dizia Ihering. Resulta evidente. utilizar. 19) BENITO MUSSOLINI Prelúdio a 0 príncipe. mas força subordinada a uma regra de direito superior a ele. a vida individual. mais viva que há qua­ tro séculos. Sc a política é a arte de conduzir os homens. Se houve inúmeras modificações sociais. que levou a Alemanha a cometer os crimes mais monstruosos da história.) Tradução do autor. não se verificaram alterações consideráveis na mentalidade dos indivíduos e dos povos. força que só le­ gitimamente se impõe quando atua em conformidade com essa regra de direito. quase sempre. Libreria dei Littorio. 1930. em parte. inevitavelmente limitado e. doutrina contra a qual se levantou todo o universo civilizado.

mas poderá fazer valer. Tudo o que foi denominado utilitarismo. o seguinte: “Os ho­ mens sc revoltam mais contra a perda de uma insignificante prerrogativa. e como é cheia de exemplos a História. encontro na correspondência (Cartas Variadas) de Maquiavel. será facilmente rompido. desiludido. ao passo que a intimidação impõe um receio dc ser castigado que não os abandona jamais”. não atenuaria. Esse ponto inicial c essencial precisa scr considcrado para entendermos bem o desenvolvimento das ideias dc Maquiavel. evidente que Maquiavel. Meu tempo ainda não passou. Maquiavel c bastante claro: “Dos homens é pos­ sível dizer que. porque sc a própria morte pode scr esque­ cida. avessos ao perigo e ávidos dc lucro. É. entre os séculos XV e XVI ainda andavam a cavalo. Segundo Maquiavel. demonstram uma falsa fidelidade. em nada. em desgraça. a não ser por interesse. sempre. a opinião de Maquiavel. intemporal. N ão va­ cilam em ofender e magoar um príncipe que se limite a ser amado. levados pelo egoísmo. No Capítulo XVII dc O Príncipe. nessa posição inicial. e o governante crédulo cai.] Os homens nunca fazem o bem. E no Capí­ tulo Terceiro dos Discursos: “Como demonstram aqueles que meditam sobre a so­ ciedade civil. os filhos. pelo próprio ca­ ráter dos homens. As tristezas aqui reportadas são suficientes para demonstrar que a opinião negativa sobre os homens não é casual. porém. prontos a agir com maldade logo que surja a ocasião para isto [. volúveis. eu a consideraria suave. não assim aque­ le que se faz temer. o Estado repre­ ..10 Leituras Complementares 311 na. Maquiavel tinha bem pouca consideração pelos homens. geralmente. oferecendo a própria vida e. mais apegados aos bens mate­ riais que aos próprios pais. pragmatismo ou cinismo maquiavélicos se baseia. imperioso a quem dirige uma república e legisla para tanto pressupor que seus governados são maus. mas também ao próprio gênero humano. julgando como julgava os homens. Maquiavel não se deixa iludir e não ilude o príncipe. Quanto ao egoísmo humano. os homens são mórbidos. simuladores ou dissimuladores. mas característica do pensamento maquiavélico. confundindo-se com a licenciosidade. toscanos. novamente. sempre. As antíteses príncipe/povo e Estado/indivíduo são cruciais no conceito de Maquiavel. Enquanto lhes fazem benefícios.. Outras citações poderiam ser feitas. Enquanto os indi­ víduos se inclinam. dispostos a mudar seus sentimentos. Ao contrário. e que esta­ rão. Qualquer um sabe que uma revolução não trará de volta os mortos. que con­ tra o assassinato dc seus pais ou irmãos. para o atomismo social. italianos que. logo imperam a incerteza e a desordem”. mesmo. Acha-se pre­ sente em toda a sua obra. Merecida c desanimadora convicção. Por outro lado. o direito perdido”. e não titubea­ va em apresentá-los nos seus aspectos mais negativos. e onde a liberdade é excessiva. evidentemente. são ingratos. quando exigidos. estando. mas se me fos­ se permitido julgar meus contemporâneos. também. na doutrina de Maquiavel o príncipe é o próprio Estado. os bens materiais não. mas isto não é necessário. Porque o amor cria um vínculo de deveres que. se rebelam. A exemplo de muitos que pesquisaram e conviveram com os mais diversos tipos humanos. não fazia referência apenas àqueles de seu tempo: florentinos.

Tende a descumprir a lei. que aceita a revolução ou marche para o desconhecido de uma guerra. a não pagar impostos. O povo. Porque [. Resta inevitável. Tem permissão para utilizá-la somente cm questões de administração ordinária. sem maiores explicações. se ordena ao povo. não existem e. Antes de mais nada. mas não exerce soberania algu­ ma. s.que pecavam. M uito antes de meu conhecido artigo Força e Consenso. sobrevêm situações graves. considerando o poder uma emanação da vontade livre do povo. Moisés. e só. provavelmente. por ex­ cesso de otimismo . O indivíduo tende a se es­ quivar. boas somente em tempo de paz! Por isso. quando não acreditarem mais pela persuasão. a esquivar-se de participar da guerra. É uma entidade abstrata como entidade política. Os sistemas representativos pertencem mais à mecânica que à moral. sendo fácil incutir-lhes uma ideia. Rio de Janeiro.he­ róis ou santos . continuamente.) . mas difícil mantê-los persuadidos desta. O adjetivo soberano.o conflito entre força organizada do Estado e tendência ao atomismo de indivíduos e grupos. segundo Rousseau. Pouquíssimos são aqueles que . du­ rante as quais nada se pergunta ao povo.d. o referendum é excelente quando se trata de escolher o melhor local para instalar a fonte luminosa de um pequeno município. é uma trágica farsa. de Roberto das Neves. jamais existirão.. Regimes políticos exclusivamente consensuais nunca existiram. o povo jamais foi definido. Teseu e Rômulo jamais teriam conseguido fazer seus povos cumpri­ rem as leis.312 Teoria Geral do Estado senta uma organização e uma limitação a tal tendência. porque é sabido que a resposta seria fa­ tal: arrancar coroas c cabeças imperiais. lhe é subtraída justamente nos momentos em que mais necessária se mostra. c os desarma­ dos são vencidos. se não empregassem a intimidação” . delega. aplicado ao povo. até nos regimes polí­ ticos idealizados pelos enciclopedistas . e introd. 20) VARLAN TCHERKESOFF Erros e contradições do marxismo (Trad. creiam pela força.] a natureza dos povos é variada. M undo Livre. quando muito. As revoluções dos séculos XVII c XVIII ten­ taram resolver essa antinomia. de seus deveres.sacrificam a própria vida no altar do Estado. Os demais estão em permanente revolta contra o Estado. Vejam. sendo necessário organizar-se de tal modo que. Se­ ria possível imaginar uma guerra declarada mediante referendum popular? Com efeito. Ciro. portanto. que a soberania generosamente atribuída ao povo. Mesmo nos países onde tais mecanismos são tradicionais. Quando interesses supre­ mos de um povo estão em jogo. mesmo os governos ultrademocráticos se abstêm de expô-los à apreciação popular. portanto. Ninguém sabe onde começa ou termina. Maquiavel já escrevia em O Príncipe (Ca­ pítulo VI): “Disto se conclui que todos os profetas armados vencem.. E nada mais lhe resta que um monossílabo para aceitar e obedecer. Trata-se de mais uma ficção ilusória dentre tantas.

O mesmo se verifica com Adam Smith. Niebuhr. “A economia política explica as causas dos fatos econômicos”. menos profun­ do e menos original que Adam Smith. ou melhor. mas até deístas con­ victos e fervorosos cristãos. Entre outros. J. fundador da economia política. um elemen­ to entre muitos outros que servem às generalidades evolucionistas. O mesmo disseram os seus contemporâneos Mignet. veremos que não fazem menção ao materialismo. não é ainda o “materialismo”. o qual exprimiu. A parte não pode conter o todo. de Michelet. Michelet.10 Leituras Complementares 313 O conjunto dos fatores econômicos. que por sua vez insistia sobre o estado econômico da nação. em 1825.l Mais ainda. entretanto. decla­ rou que a lenda dc Tito Lívio sobre a fundação de Roma dcvc ser desprezada. Delas saíram as minuciosas investigações de Mommsen. as duas fórmulas fundamentais: a) o trabalho é a única origem da riqueza social. não somente idealistas e metafísicos. do modo seguinte. nos princípios do século. e consultarmos Vico (1668-1744) e o seu tradutor francês. frisa. b) o aumento das riquezas depende das condiçõcs econômicas c sociais do trabalho e da relação entre o número de produtores e de não produtores. não são senão uma variedade da mesma espécie”. outro homem de gênio. Outro economista.. no século XVII. de Solon e dos Gracos. Mill. e que eram. com a sua habitual . o economismo não constitui a doutrina materialista. pois é necessário estudar a história segundo as condições econômicas e sociais do povo ro­ mano. Segui passo a passo os grandes acontecimentos. conhecidas pelo nome de doutrinas materialistas. Se remontarmos ao primeiro historiador que tenha cogitado da influência das condições cósmicas e econômicas sobre o progresso e o desenvolvi­ mento da Humanidade. ao fazer a classificação das escolas históricas. Delas foram extraídos os estudos clássicos sobre a legislação agrária de Licinius. Na Inglaterra.J A primeira fornece os fatos. e a (segunda explica as causas). escravos e libertos. e que era tão beato como um trapista.. nem aprofundá-las separadamente [. que tratava a história de “antagonismo das classes” na Inglaterra. formulou. O modo de produção é somente “um” fator. vermelhos e brancos. Nun­ ca houve mais de dois partidos que se enfrentassem . na sua análise do primeiro volume da História da França. da qual Momm­ sen é um dos mais brilhantes representantes. cavaleiros e peões. li­ berais c servis. Agustin Thierry c outros... guelfos e gibelinos. Patrícios e plebeus. S. Este modesto filó­ sofo jamais pretendeu o materialismo.o dos que querem viver do seu trabalho e o dos que querem viver do trabalho dos outros. disse Blanqui. Blanqui. Temos Niebuhr. em 1776. o grande fundador da escola histórica alemã. que chamamos “economismo”. temos Guizot. Mommsen e toda a escola alemã estavam longe do materialismo f. o pa­ pel que representam os elementos econômicos na história: “Não tardei em advertir que existiam entre estas duas ciências (a histórica e a econômico-política) relações de tal modo íntimas que não se pode estudar uma sem a outra. Mas Niebuhr. Conhecemos muitos autores que admitiam a influên­ cia das condições e das relações econômicas sobre o desenvolvimento da Humanida­ de.

incapazes. que o futuro da humanidade depende da nossa felicidade c dc condições favoráveis à vossa atividade produtiva (Smith). com ares triunfais. Que decepção para as pessoas honradas. T. em vez de dizer aos trabalhadores: “Amigos. publicações “censuradas” por Engels e Auer. que a história. antes deles. perguntamos. desgraçadamente para ele. do menor trabalho intelectual. por sua ignorância. chamou “materialismo” ao que os sábios chamaram “cconomismo” ? Por que.48. na bela tentativa que fez para retraçar a influência das leis cósmicas. havia alguns anos que estava embebido na leitura dos folhetos e publicações do partido. Buckle. ho­ mens sem escrúpulos. se ocupa das leis sociais e cósmicas que regem o desenvolvimento da Humanidade (“Dissertation ct discussion”). uma passagem da polêmica de Engels com o professor Diihring: “Saída de uma ori­ gem animal. por conseguinte. é obrigatório para a classe trabalhadora destruir. que Engels. contou tantas lorotas aos bravos e honrados traba­ lhadores que confiavam na sua palavra? Que resultado se obtém com tão estranho método? O dos politiqueiros. O nosso interlocutor lera-nos. como ciência moderna. que. um dia. a humanidade apareceu na história em estado semi-selvagem. e que decoram dois pequenos folhetos de Engels e uma vulgarização de Marx. em vez de fa­ zer uma exposição científica. o mais depressa possível. abrirem os olhos e compreenderem a mistificação de que foram vítimas! Lembramo-nos de uma discussão com um jovem social-democrata. e que com tal bagagem se dão ares de homens de ciência. Como aconteceu. cscrcvendo especialmente para os traba­ lhadores esmagados pelo trabalho incessante e que não têm tempo nem meios para verificar as suas afirmações. Pode-se cha­ mar “materialistas” a estes sábios de nacionalidades diferentes? Certamente. que pos­ suía uma boa instrução e que havia lido muito. Foram sábios. IT. Rogers. a organização do Es­ tado e das classes exploradoras e opressoras”. a ciência de­ monstra que o bem-estar c o progresso do gênero humano são criados pelo vosso trabalho. sobre muitos aspectos. Aplicaram o método das investigações científicas ao estudo da história. 38. e não puderam dar aos resultados dos seus traba­ lhos outro nome a não ser o de “interpretação econômica da história”. um dos mais impor­ tantes” (p. c. das condições sociais c ate da manutenção da história. investigadores da verdade.. pois.] Como se nunca tivessem existido Louis Blanc. Um contemporâneo de Marx e Engels. o autor da grande obra Seis séculos de trabalho e de salário. não. Proudhon c outros. no qual analisa toda a história da Inglaterra sob o ponto de vista econômico. Selva­ gens impotentes diante da natureza. por que. sem nenhuma ideia da sua própria força e das . 50 c 53). mas que. disse que “a acumulação da ri­ queza é um dos principais fatores. quando. Uma vez enviados ao par­ lamento pelos trabalhadores enganados em sua boa-fé..314 Teoria Geral do Estado lucidez. mas que os des­ conhecia por completo. o socialismo teve representação no parlamento [.T. publicou o seu volume “Interpretação econômica da história”. declaram que jamais. como se fosse uma coisa nova e completamente “materialista”.

Por mais in­ verossímil que pareça. para conhecer o mundo físico. sem experiência do passado c sem entrever o futuro. os homens eram pobres e miseráveis como os animais e produ­ ziam pouco mais do que estes”. guia­ do e governado tão somente pela sua natureza. A ciên­ cia não tem culpa se Engels fez uma mistura extravagante de várias coisas. A glória da descoberta não pertence a Vico. indivíduo pretensioso. e que. A ciência designava sob o nome de metafísica uma parvoíce escolástica. errou no meio dos bosques. não. dc evolução c de monismo. como veremos diante. mas os fatos e os fenômenos sobrenaturais do espí­ rito. admitiu. a Adam Smith. a descendência do homem por ele provada. Parecido com os restantes animais. Se em Volney faltam as três palavras. por Voltaire e os enciclopedistas e por toda a filosofia inglesa. estão convencidos de que a metafísica de Hegel é a ciência com os seus sistemas de transformismo. foi porque a obra de Darwin apa­ receu em 1859. e ele pôde ler este trecho. Pela atra­ ção de um forte poder. Paris. Se Engels acreditou que. desde o princípio do século XV III. procurou os alimentos. nu dc corpo c de espírito. não a natureza. enganou-se lastimavelmente. pla­ giado por Engels: “Na sua origem. e que. e se. Afora isto. ano 12 da República). se pronunciou contra o materialismo dos naturalistas. mas uma doutrina corrente e aceita pelos espíritos esclarecidos. cncontrou-se sobre a Terra confusa c selvagem. Espírito claro. se converteria num benfeitor da humanidade. Era de ver a decepção que o nosso interlocutor experimentou. e assim se vestiu. enquan­ to a ciência indutiva de Bacon. abrimos-lhe as Ruínas de Volney. uma concepção conhecida somente pelos homens de gênio excepcional. Em resposta. a Niebuhr ou à brilhante escola histórica alemã. Esses gloriosos precursores da ciência dos nossos dias estabeleceram que o nosso saber e as nossas ideias são o resultado da observação e do estudo da natureza. assimilando as ideias expandidas desde mui­ to tempo. por . é neces­ sário estudar. e os operários alemães. propagou as ideias do seu tem­ po. se amalgamou a metafísica com o economismo. Mas foi acaso Volney o iniciador da doutrina da evolução? Absolutamente. que tiveram a desgra­ ça de ler os folhetos de Engels.10 Leituras Complementares 315 suas capacidades. pretendemos provar que a explicação econômica não era. acercou-se de um ser que lhe era parecido e perpetuou a es­ pécie” (Les ruines. Citando Volney e Blanqui. dc Locke. ou aos filósofos ingleses. o fato deu-se. aos enciclopedistas. se bem que oposto ao materialismo dos naturalistas. o homem. e Engels. com talento literário incomum. As intempéries levaram-no a cobrir o corpo. Acicatado pela fome. “saído da animalidade”. o único que a ciência afirma. que pregou o absurdo de que a natureza e tudo o que nos rodeia é apenas um reflexo das nossas ideias inatas. O golpe mortal nessa estupidez teológica e sobrenatural foi vibrado por Ba­ con e Locke. para ser lido. de Darwin c dc Hemholtz é pura metafísica. de Lamarck. do que derivou a palavra “metafísica” (por cima da física e da natureza). qualquer um diria que Engels copiara Volney.

lemos: “Do mesmo modo que o mun­ do. Sim. Ele ignora completamen­ te que a ideia principal da doutrina ateísta de Feuerbach . dc que as doutrinas evolucionistas e transformistas. imutáveis na sua essência” (p. Marx. emprestou-lhe os seus sentimentos” (p. análogos aos do sé­ culo 18. neste caso. era uma expressão das suas ideias barrocas. por que empre­ gou tanta má-fé e se esforçou em criar uma confusão mais que deplorável na cons­ ciência do proletariado? Com que objetivo desviou a opinião dos seus leitores? Se­ guramente. 85).a de ter o homem divinizado a sua própria natureza na pessoa dos deuses . contra toda a metafísica” (K. deri­ vam da filosofia de Hegel são erros palmares. segundo o método indutivo.” Esta afirmação dc Engels. De outra maneira não poderíamos explicar as suas ridículas pretensões. é necessário estudar a natureza e seus fenômenos em suas manifesta­ ções e em sua origem. Desde que Hegel fun­ dou o seu império metafísico universal. e que a isso se deve atribuir a sua estranha mania de reivindicar a paternidade das ideias e dos sistemas elaborados pela ciência muito tempo antes do seu nascimen­ to. foram renovados e dirigidos em geral contra toda a filosofia especulati­ va. do qual é parte. acreditou até 1842 que o mundo. as suas expressões muito pouco “científicas” . mas sim o homem quem fez Deus à sua. . numa das suas obras. o homem é regido por leis naturais. que a natureza. conseqüentes nos seus efeitos. Foi Marx em pessoa quem a desmentiu solenemente: “Denunciada e derro­ tada pelo materialismo francês. “ Não foi Deus que fez o homem à sua imagem.era coisa corrente entre os filósofos e publicistas franceses desde mais de meio século antes da publicação da obra dc Feuerbach. revestiu-o dos seus atributos. deu-lhe o seu espírito. 30). isto é. Seja. não foi em proveito do socialismo. Nas Ruínas. Foi devido a tal crença metafísica que tudo que lia ou via achava que devia ser um reflexo das suas próprias ideias. regulares em seu curso. A ciência não tem culpa sc Engels. este método (concepção indutiva da natureza) produziu o acanhamento intelectual bem característico dos tempos antigos (?) e criou o método do raciocínio metafísico. a bela natureza viva e vivificantc. os ataques à teologia. Dir-me-ão que Engels sabia tudo isso. Acaso devemos supor que Engels não suspei­ tava sequer da existência de toda essa literatura histórica? Neste caso é de lastimar tão estranho “chefe” da ciência de um partido “cien­ tífico”. afundado nos absurdos metafísicos. Mas. Sabeis o que ensinou Engels aos trabalhadores? “Transportado à filosofia por Bacon e Locke. Sobre o materialismo francês no século 18). a metafísica do século 17 tirou a sua desforra e a sua restauração na filosofia especulativa alemã do século 19.316 Teoria Geral do Estado conseguinte. contrários a toda terminologia cien­ tífica. a ciência dos naturalistas. Um exemplo nos mostrará a sua maneira de agir. dc Volney.

México. Dc acordo com a definição tradicional. O órgão autorizado a criar ou executar as normas jurídicas é eleito pelos súditos. Eduardo Garcia Máynez. Trad. Political Science and governmenty 1928. de fato não re­ presentam a vontade da maioria dos eleitores.) Tradução do autor. realmente. p. 1979. representativa. cuja conduta se acha regulada por essas normas. A função do go­ verno é transferida dos cidadãos organizados em assembleia popular para órgãos específicos. ou não têm uma responsabilidade que o corpo eleitoral seja capaz de tornar efetiva” (J. “não é verdadeiramente representativo um go­ verno em que os funcionários. esp. c cm quase todas as chamadas democracias “representativas” os membros eleitos do parlamento e outros funcionários de eleição popular. Conforme tal definição. não basta que o re­ presentante seja nomeado ou eleito pelo representado. O princípio democrático da autodeterminação é limitado ao procedi­ mento pelo qual tais órgãos são designados. Para estabelecer uma verdadeira relação de representação. nenhuma das democracias de­ nominadas “representativas” é. O que foi dito implica um considerável enfraquecimento do princípio da au­ todeterminação política. também. W. Universidad Autônoma de México. 317). os ór­ gãos administrativos c judiciários são selecionados mediante critérios diversos da eleição popular. submetida a tal critério. p. juridicamente. e as funções administrativa c judicial por funcionários que são. A fic ç ã o da representação A diferenciação das condições sociais conduz à divisão do trabalho não ape­ nas na produção econômica. um governo é representativo quando e na medida em que seus funcio­ nários refletem. são nomeados ou selecionados mediante procedimentos distintos da eleição popu­ lar. Esta é uma característica chamada democracia indireta ou representativa. Na maioria delas. Trata-se dc uma democracia em que a função legislativa é cxcrcida por um parlamento dc eleição popular. ou que. É necessário que o represen­ . responsáveis perante o corpo elei­ toral. enquanto no poder. embora eleitos por um corpo democrático constituído. A forma democrática de indicação é eletiva. como também na criação do direito. sejam do Legislativo. 343-7. do Executivo ou do Judiciário. não são. especial­ mente o Chefe de Estado. nomeados por eleição.10 Leituras Complementares 317 21) HANS KELSEN Teoria g e ra l do D ireito e do Estado (Teoria general dei derecbo y dei Estado. Não há dúvida dc que. a vontade do eleitorado e são responsáveis pe­ rante este. Garner.

43. juridicamente responsáveis perante o eleitorado. a Constituição da Califórnia. a indepen­ dência dos deputados perante seus eleitores. Não obstante. Adotada tal resolução. nem podem ser removidos por este. Outra exceção nos oferece a Constituição alemã de Weimar. procedimento ao qual se dá o nome de remoção [.]”. estabelece: “O Presidente do Reicb pode. É precisamente nesta independência à frente do corpo eleitoral que o parlamento mo­ derno se distingue dos corpos legislativos de eleição do período anterior à Revolu­ ção Francesa. podemos citar as Constituições de alguns Estados-Membros dos Estados Unidos da América do Norte. A Constituição francesa de 1791 foi a que proclamou solenemente o princípio de que não deveriam ser dadas instruções aos deputados. por voto popular. no caso de as atividades deste último não se ajustarem aos desejos do primeiro. Seção Primei­ ra. no caso. Os membros destes corpos eram verdadeiros representantes.. expressa no voto popular. A garantia. e apenas em caso de violação da Constituição ou de outras leis. mediante solicitação do Parlamento. e que o cumprimento desta obrigação esteja garantido juridicamente. A fórmula segundo a qual o membro do parlamento não é representante de seus eleitores. expressamente. Os membros eleitos de um parlamento moderno não se acham juridica­ mente ligados por quaisquer instruções do corpo eleitoral. A de­ cisão do parlamento deve ser adotada por uma maioria dc dois terços. antes do término do seu mandato. Seu mandato legislativo não tem o caráter de um mandat impératif’ como os franceses denominam a função do deputado eleito que se acha juridicamente obrigado a executar a vontade dos eleitores. antes do término do mandato. já que se achavam submetidos a certas instruções e a qualquer momento podiam ser removidos pelos representados. Muitas Constituições democráticas estipulam. Como exceções. que no art. Normalmente. mediante o procedimento e na forma aqui estabele­ cida. que os elegiam. estabelece: “Todo funcionário público do Estado da Califórnia pode.. a qualquer tempo. verda­ deiros agentes da classe ou grupo profissional.318 Teoria Geral do Estado tante se ache juridicamente obrigado a cumprir a vontade do representado. mas de toda a nação. por exemplo. as Constituições das democracias modernas apenas excepcionalmente concedem ao eleitorado o po­ der de revogar o mandato dos funcionários eleitos. que têm a prerrogativa de votar por um sucessor do removido. Prin­ cipalmente nas democracias modernas. porque estes não devem ser representantes de nenhum distrito em especial. via de regra. eqüivale a uma reelei­ ção e tem como conseqüência a dissolução do parlamento”. o Chefe eleito do Estado e outros órgãos de eleição somente po­ dem ser removidos de seu cargo. o presidente do Reicb fica impedido de continuar no exercício do cargo. X X III. os membros do parlamento não são. A recusa cm removê-lo dc seu cargo. como dizem alguns autores. mas de todo o povo. ser removido de seu cargo. ou. ser removido de seu posto pelos eleitores. mediante decisão dos tribunais. no art. de todo o Es­ . que. é o poder representado de destituir o representante. Tal independência do parlamento pe­ rante o corpo eleitoral é um dado característico do parlamentarismo moderno.

do corpo eleitoral . portanto. ao agirem assim não es­ tão propondo uma teoria científica. e estes são juridica­ mente independentes dos eleitores. e alguns tratadistas chegam a declarar que o mandat impératifé contrário ao princípio do governo representativo. nem pode ser remo­ vido por estes. Sc os escritores políticos insistem cm caracterizar o parlamento da democra­ cia moderna como órgão “representativo”. mais precisamen­ te. se o eleitorado se acha democraticamen­ te organizado. A independência jurídica do parlamento diante do corpo eleitoral somente pode ser justificada pela opinião de que o Poder Legislativo se encontra mais bem organizado quando o princípio democrático de que o legislador deve ser o povo não é levado ao extremo. que a atividade de cada membro do parla­ mento reflita a vontade dos eleitores. A independência jurídica do parlamento à frente do povo significa que o princípio da democracia é. razão por que não se liga às instruções dos seus eleitores. A independência jurídica dos eleitos perante os eleitores é incompatível com a representação legal. constitui. na medida do possível. é uma ficção política. Todavia.se acha limitada à criação do órgão legislativo. scr responsável perante estes depende da opinião sobre em que medi­ da seja desejável realizar a ideia da Democracia. por razões técnicas. não há qualquer relação de representação ou de mandato. é impossível estabelecer uma democracia direta. apesar de sua independência jurídica à frente do corpo eleitoral. muito menos a afirmação de que um órgão de eleição só pode formar parte do povo se é o representante jurídico de todo o Es­ tado. porém.ou. A função desta ideologia é ocultar a situação real e manter a ilusão de que o legisla­ dor é o povo. Se é democrático que a legislação seja elaborada pelo povo c se. O fato de que um órgão de eleição não tenha a probabilidade de ser reelei­ to ou a circunstância de que tal probabilidade se acha diminuída se sua atividade não é considerada por seus eleitores como satisfatória. apesar de que. A resposta à pergunta sobre se de lege ferenda o membro eleito do corpo le­ gislativo se encontra juridicamente obrigado a executar a vontade de seus eleitores c. sc não há nenhuma garantia jurídica de que a vontade do eleitorado seja cumprida pelos eleitores. de modo a ser necessário conferir a função de legislar a um parlamento eleito pelo povo. na realidade. verdadeiramente. O chamado mandat impératif e a destituição dos eleitos são instituições democráticas. Semelhante órgão “representa” o Estado de uma forma que não difere daque­ la em que é representante do Estado um monarca hereditário ou um funcionário nomeado por este.10 Leituras Complementares 319 tado. uma espécie de responsabilidade política. substituído . tal poder c cxcrcido por mandato. então será demo­ crático garantir. mas preconizando uma ideologia política. tal responsabilidade é inteiramen­ te distinta da jurídica e não justifica a afirmação de que o órgão de eleição é um re­ presentante jurídico de quem o elegeu. em certa medida. como o povo não pode exercer de forma direta c imediata o poder de legislar. A afirmação de que o povo se acha representado pelo parlamento significa que. a função do povo .

deixa de existir qualquer prazo de prescrição. s. No direito inglês chega-se ao extremo de supor que o rei está presente. no momento em que a decisão do tribunal é pronunciada. mesmo as penais. 29) ALÍPIO SILVEIRA Da interpretação das leis na Alemanha nacional-socialista e hitlerista (In Da interpretação das leis em face dos vários regimes políticos.nulla poena sine proevia lege . pág. 133-8. em espírito. senão renunciando à neutralidade” (V.320 Teoria Geral do Estado pelo da divisão do trabalho. Ainda na Alemanha atual. em seu magnífico “Tratado de Direito Civil Brasileiro” (vol. usa-se a ficção de que o parlamento “representa” o povo. não obstante. Um julgamento de 1936 declarou que o acusado não podia invocar que em Junho de 1935 os casamentos entre judeus e arianos não eram ainda legalmente in­ terditos. que na Alemanha nazista. o princípio da não retroatividade das leis. apesar dc que em sua fun­ ção não restam vestígios da influência do monarca. 74) ensinam a respeito da interpretação na Alemanha nacional-socialista: “Embora continuem vigentes as grandes codificações alemãs.que domina o direito penal clássico e tem sido sempre considerada como essencial (EDUARDO THEILER. afirmou este julgamento que . I. a independência c a imparcialidade dos magistrados são supridas. é considerado como ideia antiquada. Para ocultar tal desvio de um princípio a outro. Os eminentes jurisconsultos EDUARDO ESPÍNOLA e EDUARDO ESPÍNOLA FILHO. EDU ARDO THEILER. Periodicamente são publicadas “ins­ truções” impondo aos juizes as interpretações oficiais. p.. a este: as decisões judiciais são dadas “em nome do rei” . A ideologia da monar­ quia constitucional traz consigo a doutrina dc que o juiz. devem os juizes interpretar essas leis segundo a mentalidade nacional-socialista.“é absolutamente indiferente buscar a épo­ ca na qual o Estado julgou necessário sancionar por uma interdição legal seus prin­ cípios racistas Assim. Ficção semelhante é a empregada para ocultar a perda de poder sofrida pelo monarca ao scr consumada a independência dos tribunais. op. contrariamente à regra res­ tritiva . “Crise no Direito Moderno” ).) Observemos preliminarmente. . constitucionalmente “represen­ ta ”. O Secretário de Estado da Justiça fixou publicamente a atitude dos juizes nestes termos: “o juiz não pode ter em face do direito e da lei uma atitude conforme ao dever do Estado Nacional-Socialista. d. cit. e a pena pode ser apli­ cada a delitos cometidos antes de ela ter sido editada. 1939.).

levando à esfera de sua decisão a au­ toridade do IIIo Reich. Em outra parte de seu Tratado. 1938. . por efeito de sua vitória.10 Leituras Complementares 321 “Tem-se entendido que o art. “Se o nacional-socialismo seguiu a orientação do programa com que se apre­ sentou o partido operário alemão em Munich (1921). pág. “Não somente as leis do Führer devem ser obedecidas incondicionalmente. págs. pergunte a si mesmo: . V. I o da lei de 16 de Outubro de 1934 (Steueranpassungsgesetz). haurida na unidade do todo popular nacional-socialista e do reconhecimento da vontade do Führer Adolf Hitler’ (Apud M. um dos grandes erros do liberalismo consiste em crer que o povo deseja governar-se a si mesmo. fora de todo o texto legal e sem qualquer forma (MARCEL COT . “Assim e que um juiz se recusou a inscrever no Grundbuch o título de pro­ priedade de um judeu. 1939)” . os ESPÍNOLA observam: “HITLER é o soberano legislador e a mais alta encarnação da justiça. Mas o juiz. porque se tornou incompatível com o programa e os princípios do nacional-socialismo. que cita ECKHARDT). assim também os seus atos independentemente da forma. Observa COT que segundo G Ò R IN G e H Õ H N . “Num discurso proferido numa reunião de juristas. " O indivíduo é absorvido no Volksgeist.JACQUES FOURNIER . cumpre verificar em que si­ tuação político jurídica ficou a Alemanha. sob o fundamento de que o programa do partido exige o ‘fim da escravidão dos ju­ ros’. como se disse. poden­ do pronunciar sentenças imediatamente executórias.La conception nacionale-socialiste du droit des gens. “ Citam-se as palavras do constitucionalista CARL SCHMITT: ‘o verdadeiro chefe deve ser ao mesmo tempo juiz. considerando como deve o juiz completar a lei: ‘cumpre que o juiz. FRANK.La con­ ception hitlcrienne du droit. antes das leis de Nuremberg (COT. Não! o povo quer ser conduzido e governado. porque é ao Führer que compete fixar o grau de realização da Weltanscbauung (concepção filosófica). cit. ao proferir uma decisão. que re­ cusasse reconhecer o caráter obrigatório do pagamento dos juros de um mútuo. e op.La conception bitlérienne du droit. não obedeceria a um imperativo nacional-socialista. inamovível e irresponsável. do qual. separar ou opor a soberania. e a jurisdição é fazer do juiz um adversário do Führer’ (A. é expressão suprema o Führer. 1938. que manda interpretar as leis fiscais de acordo com a Weltanscbauung nacional socialista. 54). em 1936. 207-208. também . estabelece uma regra geral aplicável a todos os domínios do di­ reito. ainda que não expres­ samente revogada. c que foi recusado o casamento dum judeu com uma aria­ na. COT . “A Constituição de W EIM A R não está mais em vigor.como decidiria o Führer em meu lugar? Esta deci­ são estará de acordo com a consciência nacional-socialista do povo alemão? Então terá ele uma base de consciência bem firme. O povo alemão foi poderoso enquanto foi conduzido). dizia H.

322 Teoria Geral do Estado “De modo geral. 1934. um vasto movimento geral de dou­ trina que seus autores chamam Kampf wieder das subjektive Recht . KISCH. permaneceram as grandes leis e códigos. 1940) versa este aspecto da doutrina nacional-socialista. mas na concepção universalista do direito e do Estado (BINDER. f. intitu­ lado Der deutsebe Ricbter. pág. O professor CLAUDE DU PASQUIER. as gerações novas confiam no senso inato do direito que o juiz descobre em si. 202-203). junho de 1934. cujo horizonte político cra entretanto mui­ to diferente.a luta contra o direito subjetivo. não num individualismo obsoleto. para o povo alemão.1934-35. como uma pessoa jurídica de di­ . Vejamos sua douta exposição. que lhe trace definidamente os fundamentos da vida polí­ tica. O eminente jurisconsulte uruguaio. muito embora se proclame que a sua interpretação e a sua aplicação se subordinam aos princípios dominantes na organização político-social do terceiro Reich. que não mais é considerado. artigo do professor W. na Alemanha nacional-socialista. 262). “A própria Constituição de Weimar não foi expressamente abolida. 1937. 201-202). As construções lógicas dos romanistas foram repudiadas.. págs. no brilhante estudo “Trayectoria y destino dei Derecho Procesal Civil Hispano-Ame­ ricano” (Cordoba. com a condição que seja de raça pura e que se inspire. vice-presidente da referida academia. Nesta luta para a abolição do direito subjetivo. pág. “Zeitschrift fiir das gesamtc Handelsrecht”. uma constituição nova. (“Tratado” citado. e se funda em copiosa bibliografia. 6. Existe. professor EDUARDO J. social e jurídica”. págs. Existe também ‘um direito não escrito que se des­ prende da alma do povo alemão e que é conforme às necessidades da vida nacio­ nal. págs. ou melhor. na doutrina recente. Phil. COUTURE. A doutrina nacional-socialista apropriou-se assim de algumas das ideias pre­ conizadas pelos adeptos do Freiesrecht. até hoje não foi decretada. muito em­ bora em todos os pontos substanciais sc tenha tornado incompatível com as leis fundamentais da Alemanha atual. Soz. “Aliás ‘a lei não é senão um dos aspectos do direito na técnica da vida públi­ ca moderna. Recht und Wolksmoral im Führerstaat. ao tratar dos métodos novos de inter­ pretação na Alemanha atual assim se exprime: “O advento do Nacional-socialismo em 1933 acarretou uma completa reno­ vação das ideias reinantes na Alemanha sobre o direito e sobre a missão do juiz. sucumbe o próprio Estado. mas não é o único’. 44 c 82).) Alguns autores legitimam a interpretação contra legem ‘quando o bem do Estado manifestamente o exige’ (SAUER. sentido e energicamente realizado pelo juiz alemão’ (Número inaugural de 1 ’Akademie für deutsches Recht. com as modifica­ ções introduzidas pelo imperativo do novo regime. e incorporou-as habilmente à sua mística nacional” (“Introduction à la Théorie Générale et à la Philosophie du Droit”. Rechts u. direito reconhecido. Arch. tomo 28.

637). a supressão do direito como norma. “O juiz não seria mais um meio que o Estado põe à disposição das partes. que o direito é o reflexo da consciência popular.10 Leituras Complementares 323 reito subjetivo. admite sempre uma espécie de recurso hie­ rárquico. mas um representante soberano da lei. por exemplo. que em 1938 (“Nazional socialistichc Recht und Rechtsdenken”. evidente­ mente. inspiran­ do-se nos sentimentos dessa comunidade à qual serve e pertence” (“Gedankcn zur Neugestaltung des Zivilprozesses”. Este princípio do povo como comunidade vivente. não pôde suportar algumas objeções fundamentais. Se o cidadão se queixa ao Führer que a sentença é injusta. para decidir seus conflitos particulares. in “Deutsches Recht”. admite-se que o interprete da vontade popular c o Führer. tomando como ponto de partida o acima menciona­ do. As palavras textuais dc SEYDEL. segundo seus próprios definidores. e a existência de um direito ocasional para cada caso concreto. Não se chega. o pró­ prio receptáculo do direito. que c quem levou mais longe este desenvolvimento. Outra fundamentação ou justificação mais profunda do referido princípio provém dc FREISLER. em compensação. segundo a qual o juiz é o Führer dentro do processo. Derivou-se toda a ordem jurídica processual civil do princípio do Rechtsfinder. tal como é interpretada pelo Führer. são: “ Deve-se partir do conceito do povo como comunidade vivente no qual o cidadão reveste a condição dc membro. in “Zeitchrift der Akademie für Deutsches Recht”. um estado de consciência popular. a doutrina procurou novos fundamentos para assentar o princípio: De um lado.). que parecia destinada a triunfar. pp. e como o povo não tem fisicamente um órgão único de expressão. mas o povo. e. conduziu ao que se chamou “doutrina do Führerprinzip”. No processo judiciário o direito é declarado através da única expressão possí­ vel. 1937. que é a do Führer. e trata de ex­ traí-lo na forma mais pura possível da consciência popular. que o direito pronunciado 011 declarado pelo juiz da sentença. em um ensaio aparecido em 1937 (“ Richterliche Unabhãngigkeit und Dienstaufschit”. Mas esta doutrina. mas como membro ativo da comunidade. Não está acima das partes como órgão neutro. Isto supõe. O Führer é o investigador ou pesquisador do direito. a admitir outro direito além do que vive na consciência popular. Uma delas. . o Führer exami­ na essa sentença e dissuade ao cidadão se este estiver equivocado. embora emane do órgão definitivo da justiça. Pelo contrário. mas ape­ nas se afirma que o Führer é o intérprete autêntico e único deste estado de consciên­ cia. que nccessita de interprete. consequen­ temente. Mas. a base. 1935. um dos mais importantes executores da vontade do Führer. Pois que o direito (nessa doutrina) reside no povo e é mister interpretá-lo. diferentemente da doutrina fascista. não é o Estado. ou assinala ao tri­ bunal os inconvenientes que sua decisão acarreta para o ideal nacional-socialista. como novo aspecto da doutrina. p. o Reichsgericht. opúsculo) sustentou. a dc que não podem existir na Alemanha tantos Führer fieis intérpretes do direito. e ver no di­ reito a ordenação da vida desta comunidade”. O direito nacional-socia­ lista é. com isso. ROTHENBERGER. sustenta. 504 e segs.

acrescenta a respeito: “ Acceptance o f it leads to the logical consequence that rules o f law have no official or hinding character and are in their nature oflittle importance.324 Teoria Geral do Estado A culminância desta doutrina foi efetuada por BAUMBACH (“Zivilprozess und frciwillige Gerichtsbarkeit”. . it would seem. Esta é a doutrina alemã até I o de Setembro de 1939. de acordo com esta tendência extrema. uma observação à exposição do professor COUTURE. é de tendência niilista. and discretion” (“Libre Recherche in America”. Vemos como ele friza.. principies. a supressão do direito como norma. “free judge” movement. Some of th em would rest legal judgements entirely on the intuition of the judge. Ao passo que sob o velho absolutismo a re­ gra legal era tudo. é nada” (“The Problem of the unprovided case”. não obstante. in “Récuéil d’études sur les Sources du Droit en Phonneur de François Gény. segundo o qual devia ser suprimida a jurisdição. in “Récueil”. Esta escola ou método (direito livre.). tome II . Neste dia o Führer dis­ se. 461). que começavam a funcionar. Ora. as an officer o f the State. na doutrina de FREISLER. as regras legais deixam dc ter razão de existência numa orga­ nização jurídica perfeita. o pro­ fessor americano JO H N D ICK IN SON afirma que tais ideias são “de fato. O professor americano ALBERT KOKOUREK assim descreve as tendências extremistas que surgiram nos Estados Unidos: “Some writers have gone to the length. cit. 1938. em sua qualidade de chefe de governo. Law would not any longer he a compound of unformulated postulates. pelo menos quando considerada em seus repre­ sentantes mais extremados. Vemos aí a cha­ mada individualização do direito. não fez caminho. mas os fatos. a individualização extremada do direito é uma ideia preconizada pelos adeptos do Freiesrecht. Agora. No que toca ao aspecto político das ideias extremadas do direito livre. “free judicial power” movement. Com efeito. 583). Adiante. By th is Une of reasoning the judge is made free. rules. em sua feição extremada de niilismo legislativo. A doutrina dc BAUMBACH. suprimir a justiça para transformá-la cm um poder administrativo dc fundamento discrecionário. if not as a rational human heing E KOKOUREK conclui com acerto: “In its extreme forms the \ fre ejudge’ movement in America is nihilistic in tendency”. standards. of aholishing or wishing to abolish ali conceptual thinking in law. e a existência de um direito ocasional para cada caso concreto. pg. cit. apenas uma espécie de absolutismo invertido. que não era mais o direito. in “Zeitschrift der Akademie”. sob o novo absolutismo.Les sources générales des systèmes juridiques actuels”. que ficaria absorvida pelo que hoje chamamos “jurisdição voluntária”. Freies Recht). p.

subs­ tituindo a “consciência coletiva” pela “consciência nacional-socialista”. suivant le sentiment personnel de /’interprete. C O H E N é exatamente da mesma opinião de DICKINSON.foi adotada pelo Estado Nacional-Socialista. com efeito. 1932. pois assevera: “Ser governado por um juiz é. que é uma expressão das tendências extremadas do Freies Recht. lamen­ tavelmente enxertado no tradicional corpo dc leis que o nacional-socialismo já en­ contrara.) . mas não deixa de ser tirania” (“Positivism and the Limits of Idealism in the Law”. a ce qu il considere comme rexpression de la conscience collective du peuple.1. O resultado final é um critério perfeitamente autocrático de aplicação.10 Leituras Complementares 325 O professor M O R R IS R. paradoxal e ilusória porque o intérprete tem de ater-se à vontade real ou presumida do Führer. Esta atitude da Escola Histórica . Deve também observar-se que a “consciência nacional-socialista” e a “vontade do Führer” se confundem praticamente. con­ cepção do direito livre foi forjada pelo hitlerismo. na extensão em que ele não é ligado pela lei. e incorporou-as cm seu misticismo jurídico. telle qu’elle se dégage du sens naturel et normal du texte. Em conclusão. 1949. il rihésitera guère à préférer a sou imparfaite traduction la révélation directe de cette source commune et plus profonde” (“Méthode dMntérpretation et Sources en Droit Privé Positif”. uma nova e original. pg. tirania ou despotismo.que o eminente T H E O D O R STERNBERG apodou de fetichismo espiritual . répugne. au moment ou il doit appliquer la loi. 1927. 258). O Estado Nacional-Socialista habilmente apossou-se das ideias básicas da Es­ cola Histórica de SAVIGNY. 27. cit). Se a doutrina nacional-socialista parece aderir a este niilismo legislativo. cumpre observar que seu horizonte político é muito diferente. 23) JOSÉ PEDRO GALVÃO DE SOUSA Conceito e natureza da sociedade p o lítica (São Paulo. Ela é. mas também paradoxal e ilusória. “ Columbia Law Review”. Ela pode muitas vezes ser inteligente e benevolente. KOKOUREK também é do mesmo sentir: “To rest the task o f legal justice entirely on the judgey s discretion would be nothing less tban a surrender to tyranny” (op. 237). afim de afastá-las pela simples ação do juiz. A atitude da Escola Histórica em face da autoridade da lei é assim sintetizada por GÉNY: “5/ la pensée du législateur.

Chegamos assim ao terceiro elemento de toda sociedade: a união moral. Os primeiros desses tipos. Sociedade c a união moral e permanente dc várias pessoas cm vista dc um fim comum. Sem colaboração voluntária dos sócios não pode haver sociedade. Sociedade de pequenas dimensões. Resta saber quais as notas específicas deste último. dc civitas. o filósofo que. de polis. Tornou-se clássica a definição dc pessoa formulada por Boccio. num teatro. pois como nos ensina a filosofia o fim é a primeira das causas. grega ou latina. escre­ via Boccio. A palavra originária. no cárcere. pro­ curava a consolação da filosofia para balsamizar seus sofrimentos. Em primeiro lugar. o que hoje chamamos de Estado. não consti­ tuem verdadeira sociedade. em tor­ . Sociedade é uma reunião de pessoas. pela sua maior simplicidade e também pela ordem cronológica. “civil". com o ajuntamento de pessoas numa praça. por exemplo. Para determinar exatamente o conceito c a natureza da sociedade política. Os animais gregários. é muitas vezes um tipo interme­ diário entre a família e a tribo. c) união moral e permanente. o fim. como as abelhas ou os castores. “c uma substância individual dc natureza racional” . Caracteriza-se pela localização territorial. Não se deve confundir sociedade com multidão. além de voluntária. a razão de ser de qual­ quer sociedade: o bem comum. lembremos antes dc mais nada o conceito dc sociedade cm geral. tem a mesma significação: a cidade. quer dizer. mas a comunidade or­ ganizada politicamente. tal colaboração deve ser permanente. Reaparece frequentemente 11a linguagem dos escritores de hoje uma ex­ pressão muito antiga das mais sugestivas para indicar o fim. torna-se fácil perceber cm todos eles alguns característicos fundamentais comuns. o que não se dá. designando não a urbs.326 Teoria Geral do Estado 1a Parte A sociedade política. Só entre pessoas há sociedade. de seres racionais. pois lhes falta o conhecimento do fim social e a cola­ boração voluntária para alcançá-lo. Analisando-sc os diversos tipos dc sociedade política encontrados através da história. num estádio. b) pessoas ou indivíduos racionais. quer dizer. E. isto é. a tribo fun­ da-se em vínculos de parentesco. Nessa breve definição encontramos os seguintes elementos: a) fim ou bem comum. seus elem entos com pon entes e principais ca ra cte rística s As expressões “sociedade política” e “sociedade civil” equivalem-se na etimo­ logia: “política”. Todas essas notas do conceito genérico de sociedade devem naturalmente exis­ tir no conceito dc socicdadc civil ou política. Quanto à aldeia. resultante da prática de actos racionais e livres. são a aldeia e a tribo. “Pessoa”.

O Império. Outras vezes. as sociedades heterogêneas cm que os grupos familiares sc foram constituindo até chegar aos clãs matronímicos ou patronímicos e depois às pequenas famílias agrupadas em aldeias. é formada por famílias de procedência diversa associadas num mesmo local. A tribo. aos poucos. o Império c a Nação. apresenta-nos um vasto organismo administrativo e a centraliza­ ção política com o predomínio de um povo sobre outros. da aldeia c da tribo. de­ senvolvendo-se em torno de um mesmo tronco.10 Leituras Complementares 327 no do mercado ou da cidadela. A organização política da N a­ ção é o que propriamente sc entende hoje por Estado. Repelem-no a história e a etnologia. pois. O indivíduo nunca está abandonado a si mesmo ou aos poderes absolutos da comunidade total. Em todas essas formas dc sociedade política um fato resulta desde logo pa­ tente. devemos fazê-lo levando em conta as peculiari­ dades distintivas do tipo de sociedade cuja fisionomia nos interessa agora traçar. no sentido em que aqui o tomamos. cujos membros estariam dc tal modo absorvidos pelo todo coletivo que nem sequer teriam consciência dc sua existência pessoal. a tradição oral dos povos mais antigos e dos selvagens de hoje. Sociólogos evolucionistas falam-nos da horda. e além disso faz parte de outros agrupamentos sobrepostos ou de qualquer modo relacionados entre si. É um pressuposto ideológico que tem contra si o relato bíblico da criação do homem e da constituição da primeira socie­ dade por Deus. podemos considerar os diversos tipos dc sociedade política na ordem cm que sc sucederam historicamente c veremos então formarem-se a confederação dc tribos. surgindo quase sempre no centro de uma área de terra cultivada. Partindo. Pertence sempre a um grupo familiar que se integra no todo social. podendo neste caso também haver associação ou confederação de Estados. Com efeito. sociedade rudimentar e indifercnciada. A cidade pode ser constituída por uma confederação de tribos que se torna se­ dentária. seja esse povo dominan­ te de estrutura tribal e patriarcal (Impérios do oriente). dá origem às sociedades patriar­ cais. O postulado da horda é uma hipótese absurda. aplicando-se aqui os elementos acima discriminados como partes lógicas do conceito de sociedade. gerada pelo naturalismo so­ ciológico do nosso tempo. Fato importantíssimo este para assinalarmos com precisão a natureza da so­ ciedade política. à formação dos mundos oriundos da nebulosa primitiva e à diferenciação das espécies segundo o quadro traçado em esquemas simplifica dores e arbitrários. Daí a polis e a civitas dos antigos. . de organização citadina (Império Romano: predomínio de uma “cidade” sobre outras e sobre outros po­ vos) ou de formação nacional (Império Britânico). a cidadc. Dcssc caos originário te­ riam saído. Uma transformação em tudo semelhante ao processo evolutivo do cosmos.

estes elementos à sociedade política. Toda sociedade política é uma sociedade composta de outros agrupa­ mentos reunidos entre si e subordinados ao poder que se constitui acima destes cír­ culos sociais menores. Esta causalidade eficiente pode dar-se pela vontade livre do homem (sociedades puramente voluntárias) ou então por uma inclinação natural. antes de mais nada. não me­ nos importante é a consideração do fim em se tratando do ser social. Como ficou dito. Por outras palavras. que não exclui a liberdade. por essa conjugação de esforços que a autoridade torna efetiva e assegura permanentemente sob uma determinada ordenação jurídica. nem a causa formal teria realização concreta. A forma da sociedade política. dc que se constitui? Aqui está um ponto nevrálgico na concepção da sociedade civil. ter presente a finalidade pessoal do homem. O Estado é pre­ . Apliquemos. que pela sua ação forma todas as sociedades de que participa. Para saber cm que consiste o bem comum. pela sua cooperação voluntária em vista do escopo comum. causas intrínsecas. A forma de um instrumento se modela con­ forme o fim a que se destina. Causa final é o bem comum das pessoas reunidas política 011 civilmcntc. Além desses elementos. isto e. unificando-os na prossecução do bem comum. su­ bordinados a uma autoridade suprema. sem cuja ação unificadora e coordenadora nem a causa final seria alcançada. nos é dada pela pró­ pria união dos seus membros. fator da efetiva coordenação das vontades individuais em vista do bem comum. cuja natureza nos escapará por completo se não tivermos presente a razão de ser sociedade. naturais ou voluntárias. Se isto se dá com as coisas da natureza física. a causa material (pessoas) e a causa formal (união moral). Causa eficiente é o próprio homem. princípio de uni­ dade social. A causa formal e a causa material. Mas a constituição de qualquer coisa depende do fim para que é feita. e sua matéria não consiste 11a massa amorfa dos cidadãos. E a sua matéria. Fica faltando a causa eficiente.328 Teoria Geral do Estado Os elementos já mencionados indicam-nos a causa final da sociedade (bem co­ mum). temos que considerar a autoridade. especialmente a família. é o termo a que se dirigem as so­ ciedades mais simples. A causa material da sociedade política está nas famílias e nas outras associa­ ções. É através desses agrupamentos. cuja determinação nos faz conhecer a origem da sociedade. Muitos erros se têm cometido por não se levar em conta devidamente qual a matéria societatis nas comunidades politicamente organizadas. é prcciso. do seu constitutivo essencial. que o indivíduo se integra 11a vida social. a sociedade política não resulta de uma simples soma de indi­ víduos. é que nos dão propriamente o conhecimento da natu­ reza de um ser. que a compõem. como de toda sociedade. pois. Tanto a causa final como a causa eficiente são causas extrínsccas. A sociedade política resulta da ten­ dência natural do homem para a vida em comum. Toda sociedade requer necessariamente uma autoridade. nunca se vê o indivíduo isolado sem vínculos sociais em face da civitas.

de época para época. mas no dinamismo dos grupos so­ ciais autônomos convergindo para uma commnnitas communitatum. Reunidas as famílias. que geralmente compreende também outros agrupamentos. Em toda sociedade política e particularmente no Estado encontramos os se­ guintes característicos: 1) Pluralidade de grupos. Estes agrupamentos. por sua vez. Passemos a um breve exame dc tais propriedades. À família se tem chamado a “célula social”. porém. O Estado é a sociedade política mais desenvolvida. Dentre estas merece particular aten­ ção a família. 3) Organização dos bens particulares. 4) Unidade interior dos vínculos sociais c coordenação exterior. Entretanto. a não ser em sociedades decadentes e profundamente alteradas 110 ínti­ . em que se decompõe o complexo orgânico. Supõe agrupamentos de longa formação histórica. pois necessita. § 1o Pluralidade de grupos E óbvio que sem pluralidade de pessoas não pode haver sociedade. A célula é unidade vital. organizados juridicamente. resultam do trabalho das células assimilando os elementos indispensáveis à subsistência de todo o corpo. para subsistir. sob a direção dc uma autoridade cen­ tral suprema. assim também a família. variam de sociedade para sociedade. 2) Formação histórico-natural. tampouco na organização da coletividade pelo poder central. O núcleo familiar exis­ te sempre. Podem mesmo deixar de existir. Mas a so­ ciedade política supõe. Como a célula é a última parcela de vida. pois. como se dá com as sociedades políticas mais elementares: a tribo. É uma sociedade composta de outras menores. c o Estado pode ser defini­ do como a organização política da Nação. a aldeia. Nações independentes constituem-se em Estado. além da pluralidade de pessoas. simples reuniões de famílias. sc bem que imperfeito. sem cair no exagero dos que a identificam em tudo aos corpos vivos. pluralidade de grupos. estas energias. na ordem social. pode-se verificar que a família aí exerce uma função análoga à da célula num todo orgânico.10 Leituras Complementares 329 cedido de uma estrutura social organizada que nele se aperfeiçoa e cujo fundamen­ to natural e histórico não está na ação dos indivíduos solitários. das energias que circulam por todo o organismo. Podemos. A família é unidade social. cons­ titui o núcleo fundamental da comunidade. para dar à Nação existência ju­ rídica. Surge 110 termo dessa formação. cujo remate é quase sempre uma nacionalidade plena­ mente constituída. Comparando-se a sociedade a um grande organismo. Constitui um centro relativamente autônomo de vida. assim definir a sociedade política: conjunto de famílias e de outros grupos. formam a socie­ dade civil ou política.

A autonomia da família como centro de atividade social é. Sendo assim. No paralelo entre a família c a célula. Dccorre da própria constituição do ser humano e da diferença de sexos. bens que a sociedade civil deve ajudar a conseguir na ordem física. Em conseqüência do pecado. O domínio do mundo físico. Sabemos como se deu a formação das cidades na Idade M é­ dia. A família. O municípi