MARCUS CLÁUDIO ACQUAVIVA

TEORIA GERAL DO

Teoria Geral

do Estado
3 a edição

Teoria Geral

do Estado
MARCUS CLÁUDIO ACQUAVIVA
Professor na Faculdade de Direito da Universidade Presbiteriana Mackenzie

3a edição

Manole

€ > Editora Manole Ltda., 2010, por meio dc contrato com o autor.

Capa: Departamento de Arte da Editora Manole Imagem da capa: Giuseppe Cesari Este livro contempla as regras do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa dc 1990, que entrou cm vigor no Brasil. Dados Internacionais de Catalogação 11a Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Acquaviva, Marcus Cláudio Teoria geral do Estado / Marcus Cláudio Acquaviva. - 3. ed. Barucri, SP : Manole, 2010. ISBN 978-85-204-3026-2 1. O Estado 2. Estado - Teoria I. Título.

09-12088

CDD-320.101

índice para catálogo sistemático: 1. Teoria geral do Estado : Ciência política

320.101

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“ PRAXÁGORAS - Quero que todos tenham um quinhão dos bens comuns, que a propriedade seja de todos; de hoje em diante, deixará de haver distinção entre pobres e ricos; não se repetirá o caso de possuir um homem vastas extensões de terras, enquanto outro não tem sequer o suficiente para cavar a sua sepultura... É meu propósito que seja um só o modo de vida de todos... Para começar, farei que toda a propriedade particular se torne bem comum. BLÉPIRO - Mas... quem fará todo o trabalho? PRAXÁGORAS - Para isso haverá escravos.” (Da comédia de Aristófanes Kcclesiazusae, apud Pitigrilli, Dicionário anti-loroteiro, Rio de Janeiro, Vecchi, 1956, p. 44)

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fiel ao juramento e friamente. os amamentou! Os dois cresceram e conheceram sua história. C. daria seu nome à nova urbe. Após oito gerações. Rômulo ganhou a aposta. . depuseram Amúlio e fizeram retornar Numitor. Numitor e Amúlio.. Remo. um príncipe. Quando os gregos conquistaram e destruíram Tróia. filha do rei Latino. menos a menina Réia Sílvia. quando se tratou do nome a ser dado à povoação. porém. por isso a cidade chamar-se-ia Roma. Dentre estes. Ainda que verdadeiro o episódio do abandono à morte dos gêmeos. História de RomaySào Paulo. para que se afogassem na correnteza. Quercus. porém. cidade eterna! Este conhecido axioma insinua a alta antiguidade des­ ta metrópole. constrangendo-a. a se tornar sacerdotisa da deusa Vesta. não ter filhos que pudes­ sem se vingar no futuro. passaram a disputar o trono da cidade. David. múnus que a obrigava a preservar a virgindade e. a pro­ 1 2 Imagem da capa: Rômulo e Remo amamentados pela loba.RÔMULO E REMO E AS ORIGENS MÍTICAS DE ROMA1 Roma. De onde vinham os dois? Vejamos. que após va­ gar sem destino pelo mundo. os recém-nascidos faziam ta­ manho berreiro que atraíram a atenção de uma loba. apesar de tudo. o vento soprava forte e o cesto encalhou a pequena distância. em per­ feita harmonia de ideais. Indro. que con­ sistiu em dois robustos garotos. 1-3. Empcrors ofRonte: the story of imperial Rome from Julius Caesar to the last emperor. com um pontapé. que fundou Alba Longa. m o n t a n e l l i . indo em busca de novas terras. onde. Ibrasa. começaram a discutir. aguardou o resultado. Fundaram uma pequena cidade. De­ marcaram os muros da cidade. derrubou. que expulsou seu concorrente e mandou matar todos os filhos deste. p. 1961. hoje. Enéias. Entretanto. dois irmãos descendentes de Ascânio. Ascânio. de Giuseppe Cesari. com vantagem para Amúlio. Sequiosos de aventura. acabando por se fixarem no mesmo local onde o cestinho em que embarcaram encalhara. com a qual teve um filho. A tradição a fez fundada aos 21 de abril de 753 a. 17. restaram pou­ cos sobreviventes entre os vencidos. um estudo mais sério dos fatos não admite mais tanta fantasia. Londres. não esperaram para receber a herança e o trono do avô. ao que Rômulo. pelo que retornaram a Alba Longa. até que combinaram o seguinte: aquele que adivinhasse o número de pássaros que num dado momento sobrevoariam o local. jurando que matariam quem ousasse transpô-los. Mandou colocar os gêmeos num cestinho de vime e soltá-los 110 rio Tibre. por obra dos irmãos Rôm ulo e Remo. p. o matou com um golpe de enxada!2 É evidente que. com isto. Ilustração extraí­ da de p o t t e r . os primeiros lances da construção. Acontece que o deus Marte se apaixonou por Réia Sílvia. que cm vez de matá-los. a quem deram o tro­ no. engravidando-a e suscitando a cólera de Amúlio que. chegou à Itália. 2007. na região do Lácio desposou a jovem Lavínia. que um dia foi a capital do mundo. despeitado pela derrota ou por infeliz gracejo.

p . a cidade parece ser bem mais antiga do que conta a tradição. no período republicano. a longa e profícua tra­ jetória do Estado romano. C. comportamento selvagem que lhe teria valido ser chamada. Notas introdutórias ao estudo do Direito. “a loba”. O fato é que os primeiros romanos. para que a sociedade nascente criasse personalidade forte. talvez a mais glo­ riosa epopeia de um povo. o espírito guerreiro e. não tinham. dominadora. p. de uma mulher chamada Aca Larência. heróica. inconfundível e perene. Pcrrópolis. Os gê­ meos que ela amamenta foram acrescentados no Renascimento. tangida por cidadãos cuja probidade e amor ao bem público esclarece. Vozes. zombeteiramente. sempre orgulhosos dc si mesmos. desde logo. malcria­ da. Parece que os primeiros habitantes da região.teção que lhes teria dado uma loba.3 Por outro lado. especialmente a partir da tomada do poder pelos monarcas etruscos. tratava-se de gente humilde ou foragi­ da que se ocultava nos pântanos e sobrevivia com dificuldade. origem nobre. pois numerosos testemunhos arqueológicos. literalmente um animal.4 O fato é que a cidade ingressa na História oficial com seus sete reis (753-509 a.. de muito antes de 753 a. São Paulo. consequentemente. 1992. melhor que qualquer outra circunstância. 3 4 a c q u a v iv a . as coisas não se passaram de forma tão romântica. sem dúvida. C. ate sobrenatural. C. Picrre.). seus costumes auste­ ros. 2 0 0 9. Tem início. É provável que as agruras por que passaram tenham forjado seu caráter rude. absolutamente. Introdução à história da antiguidade. violenta e adúltera. 48-9. na qual se destaca. seu expansionismo. na verdade. da era do bronze médio e recente. pois a 4 4 loba” não passaria. paludosa e insalubre. revelam a existência de comunidades remotas. criando um Estado em que a forma de governo alcançaria a perfeição. identificada com a cidade. Marcus Cláudio. . é pura lenda. se­ gundo Políbio de Megalópolis. criando-se. 3. preci­ savam passar para os filhos uma origem nobre. que civilizaria o mundo em nome do Direito e da Pax Romana. a imagem da loba romana. no fim do século VII a. Quanto às verdadeiras origens de Roma. cabanes. seu apego à terra. Foi o que ocorreu.. uma simbologia própria. na área em que se assenta Roma. ícone. logo mais. ed. 142.

............................................................................................1.ÍNDICE GERAL APRESENTAÇÃO .......................................................... do imperium e do domínio em inente.................................2..................................................................................................................20 4) Causas constitutivas do Estado...................................................................................................................................................................................................................... 24 4........ 4 1) Fundamento da sociedade............... conceito e evolução histórica da Teoria Geral do Estado.... 27 4...................................... 31 4........................................................ 10 0 ESTADO.....................2) O princípio da separação de Poderes segundo Montesquieu..............................................1.................3) T e rritório....................... 12 2) 0 Estado de Direito.............................................................................................................................................2) Causas fo rm a is ...........1 Natureza.................2........................................................ 45 IX 2 3 ........................................................................................................................ 1 A SOCIEDADE E O ESTADO......................................................... 8 3) Espécies de sociedades................2.............................................................. 37 4.............................................................................. 12 1) Conceito e evolução histórica do Estado...........................24 4............... 23 4....... 39 4.2) 0 princípio da separação de Poderes no Estado............ 39 4.......................4) Natureza das relações entre o Estado e seu território enquanto base física: teorias do direito real institucional..... 17 3) Direito e Estado.......1.......................................................1) Poder político...................2.............................................................................................................................. XV 1 A DISCIPLINA.........................................................................................................................2................1) Povo...................................................43 4............................1............................4 2) Definição de sociedade ..................43 4...1) Causas materiais.........................................2..........................1) Antecedentes.....2) N a ç ã o .........................

................4) C ícero........................................................................................ 86 1) União pessoal...........................................4) 0 Estado contemporâneo e a delegação de fu n çõ e s.......................5..........1) 0 liberalismo e o bem comum .......................................................................6) M ontesquieu.... 80 4) Revolução...........3.......................56 4...............................5) Causa final: o bem comum........................................................................................... 102 1.............................................5) Nicolau M aquiavel.............116 2.......................................................................................................8) Kelsen...................................................................................................................5) 0 caso brasileiro: medida provisória e lei delegada.....................................................................................3...................... 97 1...........................................................111 2.....113 2..........................2.............................. 87 4) Estado federal.................................................2) A ristó te le s........................3) A ristocracia........................................................................................................................ 53 4..................... 62 4.....................................................................................................................2...................................... 93 1) Classificações antigas e modernas................. 89 FORMAS DE GOVERNO......................47 4................................................................................................................... 118 5 6 ....................................................2) Concepção social do bem comum ..51 4.........X Teoria Geral do Estado 4.......................................................................3. 111 2.......................................99 1................................ 86 2) União real...........2) A doutrina do contrato s o c ia l....................................3) 0 Poder Legislativo............................. 53 4...................................................................... 57 4..........2...............................................................................95 1.............................82 FORMAS DE ESTADO.................................................. 93 1..........................................................................................................................2..................... 74 2) Espécies......................................3..........2................. 86 3) Estado u n itá rio ............................................................................................................................................................................................................................4) D em ocracia................................................... 77 3) Conteúdo político das Constituições.......................................................................................66 4 A CONSTITUIÇÃO..57 4...................................................................... 104 1...........................................7) Rousseau...............................................................................4) Ordem jurídica..................... 108 2) Formas de governo clássicas......3) Políbio de Megalópolis.............................................................5............................................................................2............................................................. 47 4.................................................................................................................................... 100 1.....4) Globalização e soberania .2) República...................................... golpe de Estado e insurreição............................................ 48 4..........................................................................................61 4...........................................74 1) Conceito e evolução h is tó rica .......1) M o narq uia.....1) A doutrina pactista medieval....3) Soberania............1) Platão (Arístocles)....................................................................................................................................................................... 93 1...........3) A doutrina da soberania lim itada.............................

............................................................173 1................................................................................................221 6.................................119 2.........165 REGIMES DE GOVERNO....................................................3) Controle policial pelo Estado......................................... 149 Tirania...............4............................................................1...................................8) O Estado nacional-socialista e os direitos subjetivos.....................1...................4........................................................................................................1....128 2.................... 220 6.................................................... 121 2........................................................2) Presidencialismo histórico e direito comparado.....................................................................................................................4.....4) Presidencialismo. 154 Demagogiae oclocracia.......................................................................................................................................................................................................4........................................151 Oligarquia.....................................1...... 226 6....226 6..........................................................1.................... 145 2...................221 6............................................. 186 2) Socialismo utópico........................7) A doutrina nacional-socialista...................................................................................................7) Democracia e comunicação de massa...................... 157 Caudilhismo...............................................................................................139 2.....................................1............................... 187 3) Materialismo histórico e ditadura do proletariado..........................................3) Presidencialismo versus parlamentarismo na América L a tin a ...................119 2....2) Sistema de partido único.......4. 186 1) Conceito de id e o lo g ia ................................... 180 IDEOLOGIAS............219 6................................................1) Ideologia o fic ia l............. militarismo e Igreja na América L a tin a ...... 177 1................................................................227 7) Humanismo s o c ia l..............................................................................1..........índice Geral XI 3) 4) 5) 6) 7) 7 2..................... 219 6..................................................... 191 4) Anarquismo e sindicalismo.............................................................................1) Introdução ao tem a.. 173 1...6............1....................................2) Democracia direta.......6) Direção estatal da economia .................9) 0 princípio da liderança (Führung) no Estado nacional-socialista..........5) Concentração dos meios militares.4) Concentração da propaganda nas mãos do Estado......................................6) Partidos políticos.....................4.................................176 1.......................................................1) Características do totalitarism o.......................................................4) Democracia sem id ire ta...220 6............................5) Sufrágio e voto......................................................................................................... sob o comando de um líder............................................................................................................................................... 203 5) Mecanicismo e org a n icism o .............................228 8 ....................................211 6) Totalitarismo: fascismo e nacional-socialismo.................................. 155 D itadura.3) Democracia representativa....................................................133 2..........................173 1) Presidencialism o..................................................4................................................4...1) Os partidos políticos no Brasil...............1.................. 219 6..................................... 179 2) Parlamentarismo..........................1) Introdução.........................................................214 6.....................................................

...............312 21) Hans Kelsen (Teoria geral do Direito e do Estado) ...................................................................310 20) Varlan Tcherkesoff (Erros e contradições do marxismo)..........................................................................................................................................269 10) Fustel de Coulanges (A cidade antiga) ..........................................................................................................277 11) Gustave Le Bon (Leis psicológicas da evolução dos povos ) .......................O N U ......................................A.................................................................................................................. de M aquiavel) ............................................................238 5) Os tratados internacionais (natureza e e ficá cia)................................................ 289 14) Francisco José de Oliveira Vianna (O ocaso do Im pério) .........................................280 12) Almeida Garrett (Obras)........... 303 18) Léon Duguit (Os elementos do Estado).....................257 7) Simón Bolívar (Discurso perante o Congresso Constituinte de B o lív ia ............... 233 1) Natureza das Organizações Interestatais................ Kovaliov (História de Roma)................235 4) O Mercado Comum do Sul .............................. 288 13) Alberto Torres (A organização nacional) ...............................................................................................242 10 LEITURAS COMPLEMENTARES....................................247 4) William Shakespeare (Júlio César) ....................... 249 5) Henry David Thoreau (Desobediência civil)...............................................309 19) Benito Mussolini (Prelúdio a O príncipe....292 15) Jacques Maritain (O homem e o Estado ) .............TPI... 246 3) Nicolau Maquiavel [O príncipe) ...........l..........1825)..................................UE............................................................................................. 243 1) Marco Túlio Cícero (Dos deveres) ...... Krutogolov (Palestras sobre a democracia soviética) .......... 230 9 0 ESTADO ENTRE ESTADOS:AS ORGANIZAÇÕES INTERESTATAIS.......... 339 ....... 320 23) José Pedro Galvão de Sousa (Conceito e natureza da sociedade política).................233 2) A Organização das Nações Unidas ............................................................................................................................ 325 24) M..............................................................................................332 25) S..............................238 6) 0 Tribunal Penal Internacional ...... 259 8) Karl Marx e Friedrich Engels (O manifesto com unista) ........ 229 9) Neoliberalism o................................................................................. 235 3) Direito comunitário: antecedentes da União Européia ....................301 17) Nikolaj Lênin (Como iludir o povo com os slogans de liberdade e igualdade) ...................M ercosul..........................................267 9) Ferdinand Lassalle (Que é uma Constituição?) ...........243 2) Santo Tomás de Aquino (Suma teológica e Suma contra os gentios) ........................................................................................................................................................................317 22) Alípio Silveira (Da interpretação das leis na Alemanha nacional-socialista e hitle rista ) .........................................................................................................255 6) Joseph De Maistre (O pensamento social cristão antes de M arx) ............................ 300 16) Georges Sorel (Reflexões sobre a violência).XII Teoria Geral do Estado 8) Social-democracia...................................................................................

..11....357 12) Preâmbulo do Ato Institucional n............................348 8) Decreto n..............342 3) Decreto n...1889 .. de 10.................. 343 5) Manifesto de S........................................ 364 ÍNDICE ALFABÉTIC0-REMISS1V0......06.04.....1948 ..........................................1890 (Liberdade de culto)............................ 19........... de 07............ de 15..índice Geral X III 11 DOCUMENTAÇÃO HISTÓRICO-LEGISLATIVA.....11. 367 ....... de 09................................1822). M..11......... Pedro 1.............. 342 4) Proclamação de D.......... 26...............1964.......1889 (Proclamação da República).................................363 13) Emenda Constitucional n......347 7) Decreto n...398.................................................................. de novembro de 1823....................... 350 10) Declaração Universal dos Direitos do Homem...... 1..09................353 11) Emenda Constitucional n........................................... 4....... 13................................ 341 1) Convocação da Assembleia Geral Constituinte e Legislativa (Decreto de 03.11..1985.............................1823).......... de 11.............. de 02........1930 (Institui o Governo Provisório da República dos Estados Unidos do Brasil)........ o Imperador aos brasileiros............ 344 6) Proclamação do Governo Provisório........................341 2) Dissolução da Assembleia Geral Constituinte e Legislativa (Decreto de 12............12.......................1961 (Sistemaparlamentarista).... de 27............................................................................................................................................. em 15.............................................................................349 9) Decreto n.....................01.....11....... 119-A......... 1....................

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po­ der político. evolução histórica e espécies). Dentre os tópicos constantes da obra. o Estado de Direito. o conceito e a evolução histórica do Estado. que muitos denominam “internacionais”. conhecido mestre de Direito.APRESENTAÇÃO Esta nova edição da obra Teoria Geral do Estado. a democracia. sindicalismo revolucionário. Consciente da necessidade de republicar a obra. social-democracia e outras) e as organizações interestatais. bem comum). território. análise minudente sobre o princípio da separação das funções do Estado e um capítulo sobre as organizações interestatais. o Prof. Acquaviva passou a dedicar grande parte de seu tempo na revisão e na ampliação substancial do conteúdo do livro. ordem jurídica. incluindo tópicos como o Direito Comunitário (an­ tecedentes da União Européia) e o Mercosul. recebeu. a Constituição política (con­ ceito. o fundamento. Várias inovações enriquecem a obra. por parte de colegas e alunos. Marcus Cláudio Acquaviva. inúmeros pedidos e incenti­ vo para a reedição do livro. as causas constitutivas do Estado (povo e nação. as formas de governo an­ tigas e modernas. marxismo-leninismo. os partidos políticos. cumpre mencionar a natureza. Além desse nobre material de pesqui­ XV . o con­ ceito e a evolução histórica da disciplina Teoria Geral do Estado. o sufrágio e o voto. acha-se inteiramente revista e ampliada. as formas de Estado. com destaque para uma abordagem aos partidos políticos no Brasil. esgotado há vários anos. os regimes de governo (presidencialismo e parlamentarismo). tendo em vista a dinâ­ mica do mundo globalizado e seus novos questionamentos. as ideologias políticas (anarquis­ mo. de modo a atender praticamen­ te a todos os programas da disciplina determinados por universidades e faculdades de Direito. soberania. No exercício de seu magistério. O autor. em São Paulo. a definição e as espécies de sociedade. do Prof. é advogado e leciona na Faculdade de Direito da Universidade Presbiteriana Mackenzie.

aumentada.09.11. Karl M arx e Friedrich Engels. dentre outros clássicos.1948 c a Emenda Constitucional n. uma oportuna documentação histórico-legislativa pertinente à Teoria Ge­ ral do Estado. Maquiavel. Cícero. Um dos maiores atrativos da obra.12. Lênin. uma pesquisa com mais conforto e rapidez. valendo des­ tacar o Decreto n. isso sem mencionarmos outros textos de grande valor doutrinário constantes da primeira parte da obra. passando a contar com mais ex­ certos de obras famosas e de difícil acesso para o estudante. e também para enriquecer a informação aca­ dêmica. de 10.XVI Teoria Geral do Estado sa. Gustave Le Bon. o autor promoveu inúmeros acréscimos ao próprio texto. Benito Mussolini e Hans Kelsen. cm face dc sua rarida­ de ou alto custo.398. de 15.11. a Declaração Univer­ sal dos Direitos do Homem.1889 (Proclamação da República). e mesmo ao professor. também. de 02. Encerrando o conteúdo desta. Shakespeare. a antologia de clássicos da Política e da Teoria Geral do Estado foi. dentre esses oportu­ nas referências a autores de nomeada. 4. .1930 (Governo Provisório da República). Santo Tomás de Aquino. a partir do Primeiro Império brasileiro até a atualidade. o Decreto n. Participam da antologia. Isso permitirá ao aluno.1961 (Sistema parlamentarista dc governo). 19. de 11. 1.

ainda. México. é o F^stado. mediante seus órgãos concretos. 1981. a Sociologia e a Economia visam propiciar conhecimentos bá­ sicos para a compreensão e a própria justificação de disciplinas mais específicas. Ao ingressar na Faculdade de Direito. São Paulo. a Anatomia e tantas outras matérias congêneres constituem a base dos estudos espe­ cíficos no campo das Ciências Médicas. o Direito Penal e o Direito Tributário. 1981. Forense. Da mesma forma que a Biologia. Quando um juiz comina pena de prisão. a Teoria Geral do Estado. a Introdução ao Estudo do Direito. uma autoridade judicial intima alguém para depor em proces­ so ou para atuar como mesário ou apurador de votos cm uma eleição ou. 1985. proíbe o fumo em bares. 2. ed. Elementos de teoria geral do Estado. entidade imaterial. Bushatsky. Paulo Jorge de. G. Nacional. .. 7. Dalmo de Abreu.. como o Direito Administrativo. f is c h b a c ii. Rio de Janeiro. s il v e ir a n e t o . fis­ cais e servidores públicos. 1970. lo. o iniciante do curso jurídico se depara com uma série de disciplinas denominadas básicas. um fiscal de rendas impõe multa ao contribuinte faltoso. Saraiva. Curso de teoria do Estado. à qual todos devem sub­ meter-se em prol do interesse público. cuja finalidade é orientá-lo quan­ to aos fundamentos do Direito e da sociedade. ed. Honório.A DISCIPLINA NATUREZA. 1 . Teoria do Estado. São Pau­ O. CONCEITO E EVOLUÇÃO HISTÓRICA DA TEORIA GERAL DO ESTADO Bibliografia: l im a DALLARI. Teoria general dei Estado. entre tantas outras. como magistrados. restaurantes e condomínios e o álcool nas rodovias. que faz valer a vontade da lei.

cujos escritos apresentam robusto matiz político. Science Politique. proveniente da expressão alemã Altgemeine Staatslehre. sob os mais variados pontos de vista. devido ao seu tratado Política (de polis. Quanto à evolução histórica da Teoria Geral do Estado. reitor da Universidade de Paris. com o tratado A ci­ dade de Deus. não só quanto ao seu conteúdo econômico-social como no tocante às suas formas jurídicas e. sendo suas obras principais a Suma teológica e a Suma contra os gentios.C. Daí a precisa definição da Teoria Geral do Estado formulada por Paulo Jorge de Lima: “disciplina de caráter teórico e geral. e Doutrina do Estado. às suas manifestações ideo­ lógicas”. como origem. Doutrina do Estado ou. portanto. como o demonstra o Prof. No ocaso da Idade Média surge Marsílio de Pádua. no curso jurídico. Conta-se que Aristóteles visitou nada menos do que 150 países. estudando suas instituições e leis. sempre recebeu críticas pelo adjetivo geral que contém. inevitavelmente. e não prática. ideias inseparáveis. como Parte Geral do Direito Constitucional Positivo. criada em 1672 pelo holandês Ulric Huber. e Santo Tomás de Aquino (1225-1274). uma vez que. na qual recomenda a separação e a mú­ tua independência entre Igreja e Estado. não podendo haver ciência do particular. se o instrumental de trabalho do bacharel em Direito é a lei.) e Cícero (106-43 a. A denominação Teoria Geral do Estado. sendo seu objeto não a análise dc um Estado concreto. em que analisa as origens do Estado e as formas de governo existentes em seu tempo. sendo a lei a formalização da vontade estatal. ingleses e norte-americanos denominam essa disciplina Political Science. Am­ bos dissertaram sobre temas referentes às relações entre o poder social e o poder espiritual. do que re­ sultou a mais famosa de suas obras. organização e ideologias políticas.C. adotada por Hermann Heller. a inteligência com a fé. que tem por objeto o estudo do Estado como fenômeno social e histórico. do Direito e da própria sociedade? Daí plenamente justificada a existência. uma teoria é. como sonegar ao estudante uma sólida formação ética a respeito dos funda­ mentos do Estado. e os franceses.C. preferida por Alessandro Groppali. vale observar que as obras ancestrais dessa disciplina são as de Platão (429-347 a. como instituição universal. o primeiro buscando conciliar o platonismo com os dog­ mas cristãos. e o segundo enaltecendo a ortodoxia católi­ ca. Direito Cons­ titucional I. Aristóteles (384322 a. Ora. José Pedro Galvão de Sousa .). pecando por redundância. com a obra Defensor pacis (1324). específico. também denominada Teoria do Estado. Todavia. Na Idade Média destacam-se Santo Agostinho (354-430). a Teoria Geral do Estado é especulativa. livro este considerado precursor da mo­ derna ideologia totalitária. ainda. embora Aristóteles seja considerado seu funda­ dor. dc uma disciplina como a Teoria Geral do Estado.).2 Teoria Geral do Estado Estado e Direito são. Sendo eminentemente teórica. inclusive. gerai D aí as vertentes Teoria do Estado (Staatslehre). mas o estudo do Estado em abstrato. cidade). evolução.

com Leviatã e Do cidadão. célebre escritor político florentino que viveu entre 1469 e 1527. com Georg Jellinek (1851-1911). até 1940 não se falava em Teoria Geral do Estado. a Teoria Geral do Estado tornou-se uma disciplina independente. como se constata em suas obras O príncipe e Dis­ cursos sobre a primeira década de Tito Lívio. Somente no século X IX . John Locke (1632-1704). Após Maquiavel. publicada em 1972. A evolução histórica da Teoria Geral do Estado recebe considerável impul­ so com Nicolau Maquiavel (ou Machiavelli). Nesse ano ocorreu a separação: a Teoria Geral do Estado passou a ser disciplina autônoma e o Direito Público e Constitucional a denominar-se apenas Direito Constitucional. com Tratado sobre o governo civil.1 A disciplina 3 em tese primorosa intitulada O totalitarismo nas origens da moderna teoria do Es­ tado. na Alemanha. N o Brasil. com O contrato social. . mas em Direito Piíblico e Constitucional. destacam-se Thomas Hobbes (1588-1679). ju­ rista emérito e fundador do Direito Público alemão. Montesquieu (1689-1755). que buscaram revelar o fundamento do poder político e da sociedade na própria natureza hu­ mana e na vida social. e Jean-Jacques Rousseau (1712-1778). com O espírito das leis.

raramente nos damos conta da importân­ cia disso para nossa realização plena. O pânico e a de­ sesperança acabam quando. São Paulo. porque nos consideramos ilimitadamente autossuficientes. 1926.. como queria Hegel.S. São Paulo.. conhecidas ou não. tradução e adap­ tação de D. 1949.2 A SOCIEDADE E O ESTADO 1) FUNDAMENTO DA SOCIEDADE Bibliografia: A política. do lado de fora. sem celular ou qualquer outro meio de comunicação. Pois bem. 1998. Geneviève.B. uma voz amiga e trêmula pelo susto das pancadas na porta nos acalma e garante que a assistência técnica não demora e que tudo está sob controle. Lisboa.. Leviatan. So u z a . é indispensável abordar a socie­ dade em geral. manifestação suprema do espírito objetivo no mundo. ed. México. Manual de philosophia. quem sabe. isolamo-nos de forma involuntária. Quando. Fondo de Cultura Econômica.). 5. Editorial Estampa. já vivenciou o leitor a desagradável experiência de permanecer trancado. 2000. Thomas. durante horas. in His­ tória dos costumes. A interação mais ou menos intensa que man­ temos com todos torna-se repetitiva e. ed. Mar­ Ar i s t ó t e l e s . 2. no 12° andar? Fim de semana. Por nascermos em sociedade. tins Fontes. v. Ludgero Jaspers O. em face de um infortúnio. por isso mesmo.. 2. num velho eleva­ dor. expediente encerrado. hobbes. José Pe­ Fjnbora seja o Estado a mais complexa das sociedades. prédio vazio e silencioso. porém. despertamos para a assustadora realidade da solidão e da impotência para sobreviver! Sozinhos. e “A palavra e o discurso”. Jean Poirier (org. pouco valori­ zada. dada a vinculação daquele a esta. 1984. São Paulo.. c a l a m e -g r i a u l e . despercebida. em convívio cotidiano com outras pessoas. Conceito e natureza da sociedade política. dro Ciaivão de. tradução de Roberto Leal. afasta­ 4 .

po­ rém. deixa o convívio social e retira-se para um . todas subordinadas ao corpo inteiro. portanto. ou não pode resolver-se a ficar com eles. ou um bruto. estaria sempre pronto para cair sobre os ou­ tros. considera que o homem. e todas inúteis quando desarticuladas. capazes. que se quebra na mais leve brisa. vale dizer. que não devemos confundir com os sons da voz. só conservam o nome e a aparência. mais social do que as abelhas e os outros animais que vivem juntos. do justo e do injusto. a do indivíduo que. Aquele que fosse assim por natureza só respiraria a guerra. o maior filósofo da Cristandade. A natureza. um ser sociável por natureza. existisse sem nenhuma pátria seria um indivíduo detestável. é até mesmo o primeiro objeto a que se propôs a natureza. concedeu apenas a ele o dom da palavra. a inclinação na­ tural levou os homens a este gênero de sociedade. O mesmo ocorre com os membros da Cidade: ne­ nhum pode bastar-se a si mesmo. ou seja. Assim. evidente que toda Cidade está na natureza c que o homem e natu­ ralmente feito para a sociedade política. do útil e do nocivo. Aristóteles nos ensina: É. segundo Homero: “ Um ser sem lar. Nada pior que o isolamento forçado. As sociedades domésticas e os indivíduos não são senão as par­ tes integrantes da Cidade. Em sua obra clássica Política. Este comercio da palavra é o laço de toda sociedade doméstica e civil. objetos para a mani­ festação dos quais nos foi principalmente dado o órgão da fala. Pois bem. senão o conhecimento desenvolvido. uma vez separados do corpo. o homem é um animal cívico. não sendo detido por ne­ nhum freio e. pelo menos o sentimento obs­ curo do bem c do mal.2 A sociedade e o Estado 5 dos de todo o conforto que a sociedade tecnológica proporciona. como uma ave de rapina. o homem se mostra uma cria­ tura eminentemente gregária e comunicativa por meio de uma linguagem articula­ da. sociável por natureza. damo-nos conta de nossa fraqueza perante o mundo natural. O todo existe necessaria­ mente antes da parte. vi­ veria em solidão apenas em três hipóteses: a) hipótese da natureza divina (excellentia naturae). sem família e sem leis”. inspi­ rando-se no próprio Aristóteles. o bom-senso e os conhecimentos que a própria sociedade nos transmite. Assim. nascendo e vivendo em sociedade. portanto. temos a mais. dotado de carisma (graça divina). como nós. Estes são apenas a expressão de sensações agradáveis ou desagradáveis. sem a realidade. Aquele que. Santo Tomás de Aquino (1225-1274). Aquele que não precisa dos outros homens. ou é um deus. o que levou o filósofo Aristóteles a considerá-lo um ser social e comunicativo por natureza. A natureza deu-lhes um órgão limitado a este único efeito. por sua natureza e não por obra do acaso. O Estado. muito acima ou muito abaixo do homem. Temos a nosso favor apenas a inteli­ gência. todas distintas por seus poderes e suas funções. como uma mão de pedra. ou sociedade política. semelhantes às mãos e aos pés que. que nada faz em vão. denominando-o por isso zoon politikon. con­ firmando a assertiva de Blaise Pascal de que o homem não passa de um caniço pen­ sante. nós. de que os outros animais são.

vivendo inconscientes.6 Teoria Geral do Estado local isolado. Tal a posição deThomas Hobbes (1588-1679). a destruir seus semelhantes. As vicissitudes da clássica personagem Robinson Crusoé e. como foi dito. Para outros autores. O homem. formando comunidades indesejáveis a grandes distâncias dos centros ur­ banos. Também os alienados mentais. ilustram bem a hipótese. o próprio Estado. orgulho e vaidade (superhia vitae). segundo Hobbes. autocrático e disposto a punir seus excessos sem contemplação poderia tornar possível a vida em sociedade. por não ter fundamento natu rala sociedade pressupõe uma disciplina férrea. para Hobbes. filme em que um grupo de garotos. viveriam isolados da socieda­ de. . de modo que somente 11111 governo severo. azar (mala fortuna). as quais criariam uma barreira entre eles e a sociedade. em que o indivíduo se vê privado do convívio social por um capricho do destino. e como fazem os ermitões. ou seja. como fez Jesus em seu retiro 110 deserto. c) hipótese da má sorte. como ocorreria com o sobreviven­ te de um naufrágio. o homem. torna-se selvagem. nesta. Ora. fundado em ambição. formas que exprimem o desejo de autoconservação. 11a aferição das origens do Estado. b) hipótese da natureza doentia (corruptio naturae). muito menos que a sociedade e. a natureza agressiva deste o leva a investir fisicamen­ te contra seus semelhantes. leva o homem a conquistar poder e glória a qualquer custo. pois 11a sua desgraça não teriam noção do mundo real. Ao contrário. filósofo inglês para quem. entretanto. alheio). Com efeito. monstro bíblico que empresta o nome à sua obra mais conhecida. imposta pelo Estado. no cinema con­ temporâneo. é resultado de um instinto. a dos indivíduos atingidos por anomalias físicas 011 mentais (moléstias contagiosas. Um apetite natural e irracional. alheios à realidade (daí. da queda dc uma aeronave ou. optam pela purificação e pelo aperfeiçoamento do espírito. mediante uma vio­ lenta submissão do próximo. desiludidos pelas mazelas do gênero hu­ mano. loucura). qual seja. indivíduos que. ingressando num monastério isolado. a ameaça da morte imprevista e dolorosa. o ser humano é impelido. formando grupos inimigos e chegando ao assassinato. Hobbes adverte que esse fre­ nesi de dominação encontra sério obstáculo: o medo de morrer (timor mortis). como é sabido. sem fa­ larmos no impressionante O senhor das moscas. escorraçados das cidades e obrigados a viver isolados. caso mais comum do que se pensa. entregando-se à meditação. da natureza gregária do ser humano. do náufrago vivido por Tom Hanks. frase criada pelo cronista latino Apuleio. a expressão alienado. por natural in­ clinação. sobreviventes a um desastre aéreo. sempre presente. do excursionista que se perde 11a mata espessa durante uma caminhada mais ousada. E o que ocorria. com os leprosos durante a Idade iMédia. Em sua visão pessimista. felizes na frugalidade da vida monástica e no silêncio austero que convida à espiritualidade. Enfim. que Hobbes denomina Leviatã. é a origem da lei e do Estado. a necessidade de sobreviver impele o homem à vida comunitária. é lobo do pró­ prio homem (homo homini lupus).

o homem pre­ cisa do auxílio de seus semelhantes e. vindo à luz. outro indício marcante da sociabilidade humana é a própria linguagem articulada. num processo assimilativo denominado socialização. ilustra bem a antiquíssima convicção. (Manual de philosophia. procura demonstrar. pois sem esta. p.2 A sociedade e o Estado 7 Uhotnme est né libre et partout il est dans les fers (O homem nasce livre. Enfim. a civil. sucumbe. relatada por Diderot. de quem ela é um privilégio. já para Rousseau. teria dito o cardeal de Polignac a um orangotango de aspecto muito huma­ no. Observa Cieneviève Calame-Griaule: A linguagem. cada vez mais avançados nos dias que correm. na concepção do próprio ho­ mem: para Hobbes. grande inspirador ideológico do individualismo da Revo­ lução Francesa e mesmo das democracias liberais modernas. iniciado no lar. que o ser humano nasce bom. como fenômeno universal. é ao mesmo tempo a condição necessá­ ria e suficiente para a definição do homem. desde o nascimento aptas à luta pela vida. Jean-Jacques Rousseau (1712-1778). este nasce individualista. o ser humano recém-nascido carece de total proteção. logo no início do primeiro capítulo de seu famoso livro O contrato social. especialmen­ te na infância? Ao contrário de muitas espécies animais. corrompe-se. prover sua subsistência. e não por uma suposta inclinação natural. le bon sauvage (o bom selvagem) típico do ro­ mantismo do referido pensador. mas a sociedade o corrompe de tal modo que e necessário restaurar sua primitiva liberdade individual. empre­ gada tal expressão no seu sentido rigorosamente filosófico. nada abalada pelos estudos. num pacto ou contrato social. Por outro lado. tangido pela razão.Como se vê. para realizar seus objetivos. A par disso. a liberdade individual. Todavia. Com esta preocupante sentença. o homem. já percebe o leitor. Como poderia o homem. No con­ vívio com o próximo. Diferem. que passa a ser um fim em si mesma. sobre a co­ municação animal. passando pela escola e pelos grupos sociais de variada natureza. cuja finalidade não poderia ser outra senão a comu­ nicação entre as pessoas. por isso. Esta célebre historieta. 91) . é graças à adaptação paulatina ao modo de ser da sociedade que o ser humano vai sendo condicionado a agir conforme os valores desta. Cabe a lei preser­ var. “ Fala. o homem nutre simpatia (do grego syrnpathia) pela vida cm sociedade. bom por natureza. limitada. Rousseau toma orientação semelhante à de Flobbes quanto à origem da so­ ciedade. tão precocemente perdida. perdendo sua liber­ dade natural e ingressando em outra espécie de liberdade.Na verdade. como adverte Lahr. ele nasce bom. à custa de seu semelhante. a própria natureza humana se inclina para a vida em sociedade. mas em todo lugar se acha acorrentado). por si só. e não como decorrência de uma natural in­ clinação do ser humano. a saber. a todo custo. livre e feliz. a disposição pura­ mente passiva dos seres sensíveis de compartilhar espontaneamente as emoções daque­ les com que vivem. celebra um pacto social com esses. e eu batizo-te”. sequioso de poder e glória.

define o homem como substância indivisível dotada de racio­ nalidadeypercebe-se que a razão é o elemento essencial da definição do ser humano. . pois a sociabilidade humana impli­ ca uma complexidade de relações muito mais profunda que a observada no agrega­ do animal. ed. a par dos elementos essenciais.8 Teoria Geral cio Estado 2) DEFINIÇÃO DE SOCIEDADE Bibliografia: 1948. e sem os quais este preserva sua essência. não sendo. porque o homem. indispensáveis à definição. DEL V E C C H I O . estaríamos pecando por acidentalidade. São Paulo. jo l iv e t Regis. denominados acidentais ou con­ tingentes.). retrocesso. 1984. se defi­ nirmos o homem como ser racional. A sociedade propriamente dita. A definição de sociedade nos impõe. portanto. George. humilde ou arrogante. mudando na busca da perfeição. desde logo. Haverá erros. por­ tanto. quando formos definir o que quer que seja. simplesmente. da ordem absoluta. Sem racionalidade. renovando seus valores. Boécio (474-524 d. Fruto da cultura e da experiência acumulada pelo homem. degeneração. Agnes e t i i i n e s . e o agregado animal (união estável de outros seres). a humana. o ser ou coisa careceria de existência. pois seria inconcebível um gênero humano desprovido de racionalidade. existem outros. honesto ou desonesto. estaremos revelando a própria essência da es­ pécie humana. embora sempre racional. características e atributos meramente acidentais. Assim. ligados entre si pela potência dos fenô­ menos interatrativos. que integram casualmente o objeto a definir. honesto ou desonesto. Dicionário geral das ciências humanas. Por exemplo. sempre. Definir é revelar a essência do definido. Muito cuidado. lempereur. entretanto? É tudo o que identifica o objeto a ser definido. portanto. São Paulo. . Lisboa. 1979. Saraiva.C. ela segue no rumo de formas de convi­ vência cada mais complexas. Como definir a sociedade? Do ponto de vista puramente biológico. ora evolui. não há que se falar em ser humano. Em princípio. mostra-se dinâmica e mutá­ vel. se definíssemos o homem como um ser racional bom ou mau. Curso de filosofia. ora regride. Agir. todavia a so­ ciedade estará. consideramos oportuno estabelecer uma discriminação con­ ceituai entre a sociedade propriamente dita (união estável de seres humanos). a sociedade é a comunidade animal natural que agrupa indivíduos da mesma espécie. Acontece que. 13. pode ser bom ou mau. esclarecer o que é definir. advertem Agnes Lempereur e Georges Thines. humilde ou arrogan­ te. devem constar de toda definição apenas as causas essenciais do que está sendo objeto de definição. e ocupando um biótopo que a comunidade condiciona estrei­ tamente. quando Anício Mânlio Torquato Severino Boécio ou.. O que é essência. Entretanto. Lições de filosofia do direito. mas sempre em perpétuo movimento. Sem seus elementos essenciais. filóso­ fo e teólogo romano. Giorgio. Edições 70. Omnia definitio periculosa est.

físicas ou morais. destacados dos outros. de di­ reitos e deveres. Del Vecchio deixa claro que a sociedade passa a ter existência própria. enfim. Sim. Nesta definição fica salientada a expressão relações. autônoma. passa a ter persona­ lidade jurídica. que tendem a fim comum. de cada sócio. fazê-la durar na consecução do bem social.2 A sociedade e o Estado 9 já proclamava a sabedoria latina. de­ finição que peca pela acidentalidade.. vale dizer. ou. a sociedade tem um ob­ jetivo. não obstante. Del Vecchio proclama que. O u ­ tra definição reconhecida é a do jurista e filósofo italiano Giorgio Del Vecchio. Há quem a defina como agrupamento duradouro. definida esta como a ação exercida mutuamente entre duas ou mais pessoas. Tentemos. pois nela não se inclui nenhu­ ma causa ou elemento acidental. apenas. De todo modo. graças ao qual vários seres indivi­ duais vivem e trabalham conjuntamente. sua causa última. . para que um conjunto de indivíduos possa ser qualificado como sociedade. poderiam deixar a sociedade por vontade própria ou por morte. embora inconfundível com a pessoa natural (ser humano dotado de direitos e deveres reconhecidos juridicamente) de cada um deles.. ressaltada. tendo existência própria. fica evidenciada a permanência. uma associação (entidade sem fins econômicos) ou uma sociedade stricto sensu (entidade com fins econômicos). considerados isoladamente. exemplo mais concreto do Direito Privado brasileiro. intenção que os romanos já denominavam affectio societatis. dotada. tem vida própria. interação. Quanto ao trecho superior uni­ dade. De fato. definir a sociedade. define a sociedade como a união moral es­ tável. muitas vezes egoístas. conhecido filósofo contemporâneo. de várias pessoas. estabilidade. Deve a sociedade. Regis Jolivet. No período convivem e trabalham conjunta­ mente. como seus filiados. Ação recíproca. Com a expressão nova unidade. a estabilidade. enfim. no sentido dc que a vida co­ munitária pressupõe um relacionamento que os sociólogos denominam. mesquinhas. dotado de um espaço territorial. daí surgindo nova e superior unidade. sugestiva­ mente. sob a forma de pessoa coletiva. o objetivo social está acima das ambições individuais. independente da figura dos indivíduos que a integram. quando sabemos que pode haver sociedades desprovidas de base física. como os nômades. uma finalidade transcendente. para quem a sociedade é um complexo de relações. Satisfatória se mostra essa definição. superior a cada um dos objetivos individuais dos sócios. que venha a ser despojada. de sua sede ou estabelecimento por motivo de dívidas. a essência da sociedade. e os indivíduos que dela participam. A sociedade ou pessoa coletiva comporta-se como uma pessoa natural. o desejo de todos de conviver permanentemente em sociedade. ser criada com a intenção de preservá-la. ou seja. a sociedade reconhecida pela lei consti­ tui uma nova unidade. e nem por isso a existência jurídica da sociedade seria afetada. é indispensável a característica de permanência. temporária ou definitivamente. portanto. ao incluir o espaço territorial (base física) como elemento essencial. sob uma única autoridade.

2002. t õ n n i e s . uma academia científica. 1999. A comunidade seria um produto espontâneo da vida social. Paulo José da e p e l l e g r i n i . Angiolo. 1. Sa­ raiva. costa j r CAETANO. correspondente à vida real. São Paulo. ambos alemães. Marcello Caetano observa que as diversas formas de sociedade são comunidades quando. na as­ sociação permanecem separados. São Paulo. em 1877. r o d r ig u e s Sílvio. Max. co. Saraiva. diante de um interesse material. Economia y sociedade. Curso de direito civil brasileiro . Ferdinand. v. Atlas. Direito civil . não conseguiram.. e serão associações quando. ainda. orgânica. Saraiva. Na co­ munidade os membros se acham unidos. o meio profissional.. Silvio de Salvo. os indivíduos se acham a elas vinculados pelo simples fato do nascimento. São Pau­ lo. uma sociedade comercial. v. 1. considera a comunidade o fruto de um sentimento subjetivo. de caráter emotivo. Fondo de Cultura Econômica. São Paulo. Direito civil . v e n o s a . salvetti n et t o . . g r o p p a l i. criadas pela vontade dos indivíduos. o meio residencial (a escolha de um local para viver integra. 1. México. a pessoa num meio social). Crimi­ d in iz nalidade organizada. ou por um ato que não tenha por fim imediato aderir a elas. Saraiva.Teoria geral do direito civil. . existindo indepen­ dentemente da vontade de seus membros. apesar de tudo quanto os separa. 2002. Manual de cicncia política e direito constitucional.10 Teoria Geral do Estado 3) ESPECIES DE SOCIEDADES Bibliografia: Marccllo.Introdução e Par­ te Geral. Lisboa. Do ponto de vista sociológico. uma classificação das relações sociais. caracterizam exemplos de comunidades: a nação. 32. uma irmandade religiosa.. uma entidade beneficente. Seguindo este critério. Princípios de sociologia. que impele os indivíduos a constituir um todo. Maria Helena.. bra. v. weber . Fondo de Cultura Fxonómica. resultarem da união daqueles que a elas resolvam aderir. mas entramos nas associações. ed. Curiosa a observação do autor citado: encontramo-nos nas comunidades. ed. a de Ferdinand Tõnnies e a dc Max Weber. 1972. 2002. São Paulo.. Coimbra. M éxi­ Classificar as sociedades é tão difícil como defini-las. 3. de simpatia. Introdução ao estudo do direito. Tõnnies apresentou. r. Quan­ to a Max Weber. D i­ reito civil brasileiro . duas orientações se tornaram clássicas. São Paulo. au­ tomaticamente. a família. 1. 1942.. apesar de tudo quanto fazem para se unir.Parte Geral. w a i . ed. dividindo-as cm comunidades e socie­ dades (associações). ao pas­ so que a associação seria resultante da vontade manifestada por um impulso racio­ . ed. embora respeitadas. una­ nimidade. 9. e que delam possam sair quando queiram. ed. ao passo que a associação resultaria da vonta­ de tangida pela razão. Coim­ .d . Exemplos dc asso­ ciações: um clube esportivo. 2. 1992. 1984. 2002. 1978. Sociólogos e juristas su­ gerem inúmeras tipologias que.Parte Geral. Alessandro. Curso de teoria do Estado. 18. 6.. ed. Jurídica Brasileira. Pedro. Coimbra. Arnold.

a Yakuza (máfia japonesa) e a Russkaja (máfia russa). que as tipifica em neces­ sárias c contingentes. a religiosa e a política. das sociedades regulares. porém. a Camorra napolitana.2 A sociedade e o Estado 11 nal. podendo deixar de existir (quod potest non esse). sem preconceitos. raramente realizáveis quando consideradas de maneira isolada. a elas se vincula. . porque numa determinada sociedade acham-se mesclados valores afetivos e objetivos racionais. e Angiolo Pellegrini. todavia. circunstancialmente. embora concorram. mesmo aquelas inimigas da ordem jurídica e. do próprio Estado. Do ponto de vista jurídico. a sociedade familial. ao passo que essas constituem obras da von­ tade humana. Assinala Weber. o qual. ilícitas. para o aprimoramento e o conforto do homem. Outra classificação é aventada por Pedro Salvetti Netto. não se mos­ tram indispensáveis à sua existência. por exemplo. tão logo vem à luz.o homem não pode prescindir. Das sociedades necessárias .a própria denominação adota­ da revela seu sentido . tais como a Máfia siciliana. Observa o autor citado que o maior traço distintivo entre as sociedades ne­ cessárias e as contingentes é o fato de que aquelas preexistem ao homem. Basta dizer que a Sociologia se interessa. ao passo que as contingentes. nem sempre tais classificações são satisfatórias. reprimidas pela lei. por toda espécie de sociedade. portanto. que comunidade e associação correspondem a tipos ideais. uma série de pressupostos inafastáveis para sua atuação. ao passo que a lei exige. cuja estrutu­ ra “administrativa” já recebeu um brilhante estudo dos juristas Paulo José da Cos­ ta Jr.

ed. a mais complexa e perfeita das sociedades civis. a sociedade política.Temis. Gustav. Aguilar. Dalloz. Filosofia do direito. Madri. qual seja. IntroducMareei e b o u l o u i s . 1896. Bogotá. condição pessoal do indivíduo perante os direitos ci­ vis e políticos (status civitatis. 672-3. 1997. 1965. status familiae). Quciróz. Bogotá. les gouvernants et les agents”. Temis. 6. Toda­ via. Em princípio. José Fraga Teixeira dc. “UÉtat. spengler. ed. p l a t Âo . A. Léon Chailley. 1998. Clóvis Lema c carvalho . Filosofia dei derecbo. m a q u ia v e l o Fontemoing. . a palavra Estado. Leyes que no son derecbo y derecbo por encima de Ias leyes. in Études de droit public. g a r c ia SOUZA. 1979. Rio dc Janeiro. 1986. m e jía Abel. agora com E maiúsculo. 1979.. Ciência política. Armênio Amado. marx gas. modernamente. .Título XII. . ed. radbruch ción a Ia teoria dei Estado. a expressão estado civil identifica o indivíduo solteiro ou casado. ao passo que status é um termo apli­ cável ao estado econômico daqueles bem-sucedidos no mundo dos negócios.3 0 ESTADO 1) CONCEITO E EVOLUÇÃO HISTÓRICA DO ESTADO Bibliografia: g u m p l o w i c z . Louis. A palavra estado apresenta vários sentidos inconfundíveis. 1971. Madri. Paris. que pode­ ria ser conceituada como a “sociedade civil politicamente soberana e internacio­ 12 . Livro I. Paris. n a r a n jo v il l e - . Hugo Palacios. Institutions politiques et droit constitutionnel. denomina. Léon. Aguillar. 1959. São Paulo. 1903. p. Karl. T. Paris. . Précis de sociologie.. Manifesto do Partido Comunista. El príncipe. José Pedro Galvão dc.. x\4odernamcntc. Sucessor. D i­ Oswald apud Paulo cionário de política. São Paulo. 1981. A República ou da justiça. 1978. Jean. prélot. 7. Barcelona. g u it du - . Coimbra. Nicolás. Bruguera. Bonavides. 6. o termo surge do latim status. Global. Forense.

e nacional-socialista. em viagem. res­ pectivamente. que diz: “H á algo de podre no reino da Dinamarca” (“ [. estariam cometendo crime contra o Estado. em sua obra imortal A cidade antiga (Capítulo XVIII). Fjigels. Execrado por uns (comunistas c anarquistas). rendo por objetivo o bem comum aos indivíduos e comuni­ dades sob seu império”. o termo estat ou état foi recebido do latim a partir do século XIII. dizia: “Tutti gli stati. mesmo forçada. Na Fran­ ça. ou nazista. ele se faz presente nos mínimos detalhes de nossa vida cotidiana. tutti /’ domini che hanno avuto e hanno impero sopra gli uominiy sono stati e sono repuhliche o principatr (“Todos os estados. . Gregos e romanos denominavam a sociedade política polis e res publica. se chorassem. foram e são repúblicas ou prin­ cipados”). pagar imposto sobre a renda. na Itália. Km William Shakespeare (1564-1616). não fumar em locais públicos ou ouvir. usar cinto de segurança). Modernamente. na Alemanha. todos os domínios que tiveram e têm poder sobre os homens. no sentido de situação de alguma coisa e. posição de uma pessoa. dois séculos depois. A palavra Estado passou a identificar a sociedade política a partir do Renascimento.] in the State of Danemark”). e somente ele tem a prerrogati­ va de nos dar a quitação respectiva. que. como o cartão de identidade. VIII. e 15. Fjn outras cidades. a carteira de trabalho. tam­ bém encontraremos a expressão Estado indicativa da sociedade política. pois. mais pre­ cisamente na tragédia Hamlet. nas pegadas de Maquiavel. IV). com o crescente intervencionismo estatal. endeusado por outros (fascistas e nazistas).. Hegel) e dc seus detra­ tores (Marx. 5o. a exacerbação do poder do Estado se mos­ tra cristalina e aterradora no delírio de dominação dos Estados fascista.3 0 Estado 13 nalmente reconhecida. as mães. compulsoriamente. como estado. ainda. Houve época. Bakunin). embora alguns escritores. senhoria (Seigneureries). como Jean Bodin. o Esta­ do sempre foi objeto de estudo dc seus defensores (Hobbes. pagar pedágio quando em viagem. que. na União Soviética. dedi­ cado aos candidatos a cargos públicos? Por que sem nossos documentos pessoais. arts. estalinista. Por que somos obri­ gados a fazer o serviço militar (CF. como Charles Loyseau.os homens serem obrigados a deixar crescer a bar­ ba e as mulheres não poderem levar. passou a ser empregado no sentido de sociedade política. trabalhar como mesário ou apurador nas eleições. o programa A Voz do Brasil ou. a ponto de . na antiga Grécia. mais do que três vestidos. pela boca da personagem Marcelo. tornamo-nos ilustres desco­ nhecidos perante a autoridade que no-los pede. No século XVI. tenham preferido o termo república (Republique) ou. conta-nos Fustcl de Coulanges. no seu livro clássico O prín­ cipe. sem falarmos os horrores da dita­ dura totalitária do proletariado. que recebiam os cadáveres dos filhos mortos em batalha. o Es­ tado sufocava por inteiro a liberdade natural do indivíduo.. com cara de poucos amigos? É que todos esses devores nos são impostos pelo Estado. deviam mostrar alegria.em algu­ mas cidades-Fstado helênicas . o notório horário político. e hoje. graças a Nicolau Maquiavel.

como ocorre em certos agregados animais complexos. a patrimonialista e a da força. dentre estas o próprio meio ambiente. Daí a natural inclinação desta doutrina para a monarquia. preconizada por Bossuet e Robert Filmer. 6. não podemos deixar de fazer algumas referências a tais defini­ ções. sendo esta a atuação de Deus na História. 351-2). desprovido de caráter científico (Teoria general dei Estado. do ponto de vista jurídico como “o sujeito da Ordem Ju­ rídica. de imediato.. desenvolvida ao longo do tempo por Demóstenes. surpreende no Estado a História em repouso. e a origem histórica de cada um destes. Bossuet e J. o surgimento de cada Estado se acha ligado a toda sorte de circunstâncias.14 Teoria Geral do Estado Sabemos que o Estado é uma sociedade necessária e condicionante das demais. A teoria patriarcalis­ ta. 2. Quanto às origens históricas do F'stado. Para Georges Burdeau. e conhecemos detalhadamente sua evolução histórica. Não obstante. Como. sendo as principais a patriarcalista. cujo instinto as leva a viver em função de uma abelha-rainha. da mesma forma que na família os filhos devem obediência aos pais. colhendo-as na seara do próprio Direito ou da Sociologia. chamado Bastiat. por exemplo o das abelhas. apresenta inúmeras variantes. que não se pode confundir uma única origem para todos os Estados. Paris. Dalloz. da sociedade política. reduzindo-o a mero juízo de valor. não se confun­ dindo mais com aquele que o encarna. pois este nada mais é que a união de muitas famílias. cumpre observar. citada por Paulo Bonavidcs. p. na qual se realiza a comunidade de vida de um povo” (Pbilosopbie du droit. devendo o rei governar como um pai para os sú­ ditos. Forense. várias doutrinas procuram demonstrar uma só origem. observa que. t. e na História o Estado cm marcha (Ciência política. ed. Rio de Janei­ ro. Luís XIV. Seja como for. propor vultosa recompensa a quem for­ mulasse um conceito de Estado unanimemente aceito. que têm em comum a ideia de que é da vontade de Deus o Estado existir. a ponto de um grande publicista do século X IX . dentre outros. Oswald Spengler. p.. a teocrática. A doutrina teocrática.. embora re­ mota. 1986. inspirador da célebre doutrina pura do Direito. O próprio Hans Kelscn (1881-1973). Stahl. 52). Ademais. porém. peculiar a todas as sociedades. Giorgio Del Vecchio define o Estado. Em que pese a razoabilidade de sua argumentação. Vamos resumi-las. vontade esta manifes­ tada concretamente pela Providência. já advertia que a vo­ lumosa soma de definições do Estado dificulta a precisão do termo. o gênero humano teria uma natural inclinação para a forma mo­ nárquica. 128). Assim. idealizada pela or­ todoxia doutrinária. . p. a contratualista. Em vez de um fenô­ meno recorrente. 3-4). o Estado se forma quando o poder torna-se uma instituição. todos eles devem obediência ao Esta­ do. eminente publicista contemporâ­ neo. o fato é que o patriarcalismo acabou por se tornar mera justificativa do poder monárquico. defini-lo? As definições são tantas quanto os autores que as formulam. No plano da Sociologia. p. mediante o fenômeno da institucionaliza­ ção do poder (Traité de science politique. F.

Gobineau. tangidos pela razão. ed. conflitantes.Thomas Carlyle. seja por razões genéticas. p. com fundamento na afirmação de que Deus. Hobbes e Grócio. 5. por razões radicalmente opostas. Franz Oppenheimer. respeitável publicista do início do século X X . inevitável. Paris. onde os mais fortes impõem sua vonta­ de aos mais fracos” (Droit constitutionnel. John Locke e Adam Smith. A tese do contrato social surgiu de pontos de vista diversos e. tido por mui­ tos como seu inspirador é. Em suas próprias palavras. pelo qual este se com­ prometia a obedecer àquele (pacta sunt servanda). muitas vezes. Gumplowicz. dentre outros. Ciência política. Para Locke. defendem-na. da dominação dos fracos pe­ los fortes. garantiria a liberdade (Rousseau). ora para explicar a origem do Estado (Hobbes). a paz (Hobbes) e a pro­ priedade (Locke). cit. Jean-Jacques Rousseau. ao eleger determinada forma de go­ verno. cm qualquer estágio histórico. um acordo entre os ho­ mens. aquela deve ser adotada. demonstrou à Humanidade ser esta sua Vontade. mais tarde. Quanto à doutrina contratualista. a teoria da força. Antes dele. situa a origem do Estado na violência imposta por um grupo social a outro. o Estado existe principalmente para proteger a propriedade individual. qual seja. raciais (Gobineau) ou econômicas (Marx e Engels). Franz Oppenheimer e Léon Duguit. como ocorreu na Idade Média. Seja para garantir um mínimo de liberdade (Rousseau). para adotar uma liberdade ci­ vil que. ou para evitar a guerra dc todos contra todos (Hobbes). 1954. Léon Duguit. ra­ zão pela qual. ao contrário do que se pensa. definindo-o como a “instituição social que um grupo vitorio­ so impôs a um grupo vencido. No que tange à doutrina patrimonialista. na verdade. Santo Agostinho. entre outros. p. os homens. p. entre outros. Marx e Engels. Por fim. desen­ volveram a ideia de que o Estado resulta de um contrato. 14-5). havendo uma corrente do patrimonialismo que justifica sua teoria pelo fato de o próprio Estado ter o direito natural de defender sua pro­ priedade. apud Paulo Bonavides. como assinala Leopold Uprimny (apud Hugo Palacios Mejía. é uma das mais antigas no tocante à origem do Estado. a monarquia. mostra o mesmo pessimismo de Oppenheimer ao conceituar o Estado como o “grupo huma­ no estabelecido em determinado território. natural a defesa de um direito divino dos reis pelos adeptos dessa doutrina. Stuttgart. p. 45). 4. Introducción a Ia teoria dei Estado.. 53). . um dos últimos. por Charles Darvvin e. com o objetivo de organizar o domínio do primei­ ro sobre o segundo e resguardar-se contra rebeliões intestinas e agressões estran­ geiras” (Der Staat. foram paulatinamente se congregando e abdican­ do de uma liberdade natural perigosa e irrealizável. mais remotamente. desenvolvida. Segundo tal doutrina. Platão. Suárez.3 0 Estado 15 Assim. haveria uma tendência natural. embora limitada.. período em que era usual reconhe­ cer a existência de um contrato entre o governante e o povo. ora para justificar o poder do príncipe.

as tirânicas.Nada disso. que sc Polidamante. Trasímaco? Não vai querer dizer. simplesmente? . . disse então [Trasímaco]: Para mim o justo não c outra coisa que o con­ veniente para o mais forte. querido amigo!. o que você quer dizer com isso. confesso. governantes e governados. de forma demo­ crática.Não sabe. disse Trasímaco. 1903.Não duvide que vou dá-la. todas as outras. outras de forma de­ mocrática e. Você diz que o justo c o que interessa ao mais forte? Pois bem. o poder legíti­ mo de impor suas ordens. não sei. Com o Estado desaparecerá o poder político. de forma le­ gítima. ao tomar minhas palavras de for­ ma tendenciosa. eu disse. na qualidade de governantes. O po­ der pertencente aos mais fortes. 1-2) O pai do socialismo científico. Curioso sc mostra. No momento. Entretanto. assim. Os governantes não têm o direito subjetivo de comandar. conceituam o Estado como um fe­ nômeno histórico transitório. pôr em prática a força de que dispõem. maioria. tal alimento será conveniente e.Você fala com despudor Sócrates.Portanto. in Études cie droit puhlic. eles podem.Sem dúvida! . p. que aca­ bo de dar? N ão vai querer responder. e mais forte que nós c lhe convem comer carne bovina para sustentar sua for­ ça física. ainda. ja­ mais legítimo em sua origem. Karl Marx (1818-1883). mais fracos que ele? . . outras por uma aristocracia? . em cada cidade não exerce o poder quem possui a força? .Claro que sei! . justo para nós. (“L’État. em detrimento da maioria explorada. mero resultado do aparecimento da luta de classes sociais. les gouvernants et les agents”. encontram-se submetidos à re­ gra de direito. que encontra seu verdadeiro fundamento na solidariedade social e se impõe a todos. o campeão da luta. a partir do momento em que. mas apenas o po­ der objetivo de querer conforme o direito e de assegurar a realização deste. 1981).Pois bem. também. o diálogo em que Platão coloca na boca de Trasímaco o seguinte: . da propriedade comunista. prejudicial.Ouça. Uma vez estabelecidas. Toda manifestação de vontade dos gover­ nantes é legítima quando está conforme o direito. passou-se à apro­ priação privada dos meios de produção. porventura respondeu . neste cipoal doutrinário. por exemplo. porque esta é empregada na realização do direito. de forma tirânica e. cada go­ verno estabelece as leis conforme o que lhe convier: as democráticas. Como todos os indivíduos. Os governantes que detêm este poder são indivíduos como tantos outros. Tra­ ta-se de instituição passageira. neste caso. classe. res­ pondi.que algumas cidades são governadas tiranicamente. depois que entender o que você quis dizer.16 Teoria Geral do Estado o Estado não é uma pessoa jurídica nem soberana. por que você não aprova esta resposta. e seu companheiro de ideias e de lutas Friedrich Engels (1820-1895). () Estado é o produto histórico de uma diferenciação social entre os fortes e os fracos cm determinada sociedade. é mero poder de fato. definido por Marx como “o poder organi­ zado de uma classe para oprimir outra” (Manifesto do Partido Conmnista. . pois nem sempre existiu e nem sempre existirá. sem nunca possuir. só desejo que você explique mais claramente o que significam suas palavras. indivíduo.

Rudolph von Ihering. É necessário compreen­ der que o direito subjetivo é uma faculdade ou um poder moral essencialmente vincu­ lado ao justo objetivo. é que em todas as cidades será justo tudo o que os governantes. luz que não ilumina”. que o Direito desprovido de força “é fogo que não queima. e depende deste. em obra primorosa: As concepções que tem idealizado o Estado dc Direito prescindindo do direito natural c encerrando-se nas perspectivas estreitas do positivismo jurídico. que são aqueles que mandam. antes de mais nada. para revelarmos o sentido da expressão Estado de Direi­ to. se o Direito é uma qualidade essencial de qualquer sociedade. assim entenderem. É preciso entender que a lei não cria o direito. importa. que nem sempre c um Estado dc justiça. Por isso. Vivendo em socieda­ de. mas plurívoco-analógico. Clóvis Lema Garcia e José Fraga Teixeira de Carvalho. não distinguem o que c legal do que c legítimo e não vão alem dc um Es­ tado dc legalidade. para quem quiser discutir este assunto com seriedade. refulgem o poder amparado na força. 2) 0 ESTADO DE DIREITO Ubi societas ibi jus (onde houver sociedade haverá direito). dentre os atribu­ tos essenciais do Estado. e aqueles que se afastarem deste ditame serão punidos como infratores das leis. ou aquilo que Jeremias Bentham denominava mínimo ético de convivência. Tal afirmação ainda é plenamente verdadeira. Com alguma dificuldade ele viverá. mas o reconhe­ ce e estabelece as condições de exercício dos direitos subjetivos. a expressão Estado de Direito seria tautológica. como energia elétrica. com inteira razão. porém. o homem pode ficar privado do conforto material c das utilidades que a tecno­ logia oferece. Daí a razão pela qual. a incerteza e os abusos des­ truiriam a sociedade quase na rapidez de um terremoto. o que é por justiça devido a outrem. uma pluralidade de or­ . O que eu quero dizer. a fortiori do Estado. afirmava. e o Direito que mo­ dela o exercício desta. o justo c sempre o mesmo.3 0 Estado 17 estas leis declaram que será justo para os governados apenas o que os governantes qui­ serem. apresenta uma pluralidade de sentidos conexos. o que convem ao mais forte. é imprescindível formularmos outra indagação: o que se deve entender por D i­ reito? Sabemos que esse vocábulo não é unívoco. pois há na sociedade política. Ora. ou seja. Sem um mínimo de ordem. É indispensável ter presente que no Estado não reside a fonte única das normas de direito. Cumpre partir do seu significado originário: o iu$ (de iustum). automóvel e mesmo educação escolar ou em­ prego fixo. reduzem o direito à lei. a vida não seria possível nem por um instante.500 anos. saber o que é o direito. A insegurança. ou seja. em sua obra clássica A luta pelo Direito. Observam José Pedro Galvão de Souza. de modo que. disse Aristóteles há 2. em correla­ ção com os grupos ou corpos intermediários que a constituem. para conceituar e justificar o Estado de Direito. meu bom amigo. Antes de mais nada.

na ple­ nitude do seu significado.na identidade da ordem jurídica e da estatal. im­ plantação do sufrágio censitário (só teria direito a voto quem tivesse um conside­ rável patrimônio econômico). Kant separava o Direito da Moral. um Estado de Direito marxistaleninista e. no seu destino transcendente e eterno.18 Teoria Geral do Estado denamentos jurídicos. 208-9) A concepção tradicional do Estado de Direito provém de Emmanuel Kant (1724-1804) e de Jcan-Jacqucs Rousseau (1712-1778). disciplina exclusivamente os atos internos. tentando superar a visão estreita do neopositivismo kelseniano. como se depreende de sua concepção individualista. 1998. não o inverso. Daí a expressão Estado de D i­ reito Liberal Burguês para denominar a concepção de Estado intransigentemente vinculado às garantias individuais. independentemente da lei moral. Os chamados elementos formadores do Estado. O Estado subordinado ao Direito. um Estado de Direito social-democrático. até mesmo. os direitos subjetivos fundam-se na pró­ pria natureza humana. na visão kelseniana. sendo aquele apenas um conjunto de condições destinadas. por isso a lei só é justa sc conforme a essa mesma ordem. um Estado de direito nacional-socialista. simplesmente. racionalista c voluntarista do Direito. segundo o kantismo. todo Estado é Estado de Direito. haveria um Estado de Direito liberal. Nesse caso. Ora. de foro íntimo. Mais moderada é a ponderação de Gustav Radbruch. simplesmente. proteção absoluta da propriedade privada. poder. que. Consequentemente só poderá haver Estado de Direito desde que haja respeito ao direito natural. a garan­ tir a coexistência das liberdades. disserta: . respeito à ordem superior. disso resultando que o Estado cria seu próprio Direito e impõe à sociedade a ordem jurídica a que esta deve amoldar-se. acredita . e que pode alte­ rar via poder constituinte. ideia que desenvolve à luz do formalismo positivista da sua famosa Teo­ ria Pura do Direito.e fez escola . Então. então é o Direito que depende do Estado. que cairia como uma luva nos interesses de uma nascente burguesia. F . o justo objetivo é inerente à ordem natural. povo. Jellinek considerava a possibilidade da autolimitação do poder do Estado pelo próprio direito positivo.. será um Estado de Justiça. (Dicionário de política. p. à vonta­ de dos detentores do poder c dos que fazem a lei. na dignidade pessoal do homem.. Das teses de Kant exsurgem duas doutrinas bem conhecidas pelos publicistas a de Georg Jcllinck c a de Hans Kelscn. pois esta. o conjunto das normas emenadas do Estado. prossegue Kant. abolição da representação profissional e outras me­ didas de caráter notoriamente individualista. Logo. o que acarreta notó­ ria aporia: se o Estado se limita pelo Direito que ele mesmo cria. territó­ rio. Quanto a Hans Kelsen. pertencem ao mundo exterior e passam a ter sentido apenas quando re­ lacionados ao Direito. assim procede para reger os atos externos do homem. o Estado de Direito. seria. na liberdade do ser racional. Quanto a este.

4o. como o art. que. como já foi mostrado (§ 10). um preceito jurídico de direito natural na base de todas as suas cons­ truções. considerando-a.3 0 Estado 19 somos sempre necessariamente compelidos. tenebroso. surge.f o direito à vida. respectivamente. ou a soberania popular (arts. que a própria razão assi­ mila e que. tal fato não desqualifica aquelas que. na fe­ liz imagem de Gustav Radbruch: Quando nem sequer se aspira a realizar a justiça. p. 1997. não podendo haver suas ordens jurídicas idênticas sem prejuízo da identidade dos povos. v. quando na formulação do di­ reito positivo se deixa de lado conscientemente a igualdade. 354-5) Na verdade. toda a Humanidade reconhece e institui juridicamente. Quando a maior parte das legislações oci­ dentais veda a poligamia. quando algumas Constituições adotam o sufrágio universal. tal fato não pode servir de argumento para considerar o regime familiar do sultanato oriental. e 14). ou. como a brasileira (art. 235). já se vê. g. (Le)>es que no son de­ recbo y derecbo por encima de Ias leyes. 14. quando levado logicamente às suas últimas conseqüências. 14) .. Assim. mas por normas. que constitui o núcleo da justiça. embora haja valores universais e perenes. Na verdade. No Brasil. mais para além do direito positivo e mais para além da realidade do Estado. a Constituição entroniza um Estado Democrático de Direito (art. será instituída sua ordem jurídi­ ca. adotam o sufrágio cultural. o que ele ordenar deve ser obedecido. cujas premissas serão encontradas em vários dispositivos. cujos incisos II e VIII preconizam. Uma ordem jurídica. a colocarmo-nos mais para além dum e doutro. v. por isso mesmo. todavia. isto é. a prevalência dos direitos huma­ nos e o repúdio ao terrorismo e ao racismo. um atentado ao Esta­ do de Direito. I o. Reitere-se. se quisermos achar uma solução para o problema da anterioridade ou posteridade do Direito com relação ao Estado. g. caput). se valores humanos universais são violados por um suposto Direito. que permite ao homem ter várias esposas (poliginia). representa a cosmovisão do legislador constituinte num Estado em particular e em dado momento histórico. não por fatos e realidades. caput). crime contra a família (art. I o. parágra­ fo único. 1971. na União norteamericana. então não estamos ante uma lei que estabelece um direito defeituoso. à expressão do pensamento ou de constituir família. Isto é: seremos levados a buscar essa solução num outro plano que não poderá deixar dc ser constituído. Eis esse preceito: quando numa coletividade existe um supremo governante. que não poderão ser as normas do direito positivo do Estado c só poderão ser as dum direito natural. Conforme as peculiaridades de cada povo. mas o que ocorre é que estamos ante um caso de ausência do direito. o positivismo jurídico c político pres­ supõe sempre. (Filosofia do direito. não é me­ nos verdade que o direito positivo dos povos acha-se impregnado de notória relati­ vidade. como o faz nosso Código Penal. p. um espectro de bom Direito. desde que tenha condições financeiras para isso.

20 Teoria Geral do Estado De qualquer forma. os esta­ . Santi. com a limitação do poder pelo direito positivo. Acadêmica. mesmo porque ubi societas ibi jus (onde houver sociedade haverá direito). sendo ambos unum et idem. e concluindo. são verdadeiros centros de produção de normas. como um prius deste. Enrique R. v. surgem duas teorias principais: a) teoria dualística. e a responsabilidade dos agentes públicos quanto a prejuízos causados aos particulares. México. Sansoni. deve ser considerado não como um produto exclusivamente estatal. recho y dei Estado. diz ele. Uordinamento giuridico. b) princípio da legalidade. b) teoria monista. assim também ao lado do D i­ reito Positivo ou estatal se encontram o Direito Canônico ou Eclesiástico. Para Santi Romano. A tais princípios acrescentem-se as garantias constitucionais de direitos. Coop. Introkel- ducción al derecho. Esta teoria se biparte em outras duas. pela qual o Estado e o Direito são duas realidades distin­ tasynão relacionadas. consolidado pelas garantias inerentes ao Judiciário (vitaliciedade. Unam. afirmou a existência de uma plu­ ralidade de ordens jurídicas. sempre. Firenze. de Derecho y Ciências Sociales. portanto.. Um grande jurista italiano. d) princípio da igualdade jurídica ou isonomia. babeas corpus e man­ dado de segurança. por­ tanto. mediante o qual ninguém será obrigado a fazer ou deixar dc fazer alguma coisa se­ não em virtude de lei. pelo qual a lei vale para todos e. qualquer organização estável e individuada tem o seu ordenamento ju­ rídico próprio e. inamovibilidade e irredutibilidade de vencimentos). como o pró­ prio Estado. assim como ao lado do Estado existe uma pluralidade de outras instituições mais amplas ou mais restritas. como dois mundos separados que se ignoram mutuamente.. sen. Teoria pura do direito. 1972. mas como um fenômeno verificável em todas as organizações sociais. diz Santi Roma­ no. Teoria general dei de. São Paulo. a todos deve ser aplicada. 1979. rom an o Hans. para resguardo dos di­ reitos adquiridos. como um posterius deste. olano . portanto. onde houver qualquer sociedade haverá. Quanto às relações entre o Direito e o Estado. 3) DIREITO E ESTADO Bibliografia: a m a l i ó n . Buenos Aires. as quais. ou como criação do Esta­ do. que reduz o Estado e o Direito a uma só entidade. Fernando Garcia e v i l a n o v a . de um pluralismo jurídico. 1939. e) princípio da independên­ cia funcional dos magistrados. 1967. c) princípio da irretroatividade da lei. podemos extrair alguns princípios da con­ cepção dominante de Estado de Direito: a) princípio da supremacia da lei (nde of law). direito. José. conforme seja o Direi­ to considerado criador do Estado. Qualquer institui­ ção. Santi Romano. g. O Direito.

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tutos da Máfia ou de qualquer outro bando organizado fora da lei. Então, prosse­ gue Santi Romano, não só o Estado, mas qualquer grupo social, é fonte do Direito, e se o Direito estatal é Direito, nem por isso o Direito deve ser sempre e necessaria­ mente estatal. Poder-se-ia acrescentar à tese de Santi Romano que o Estado somen­ te aparece depois de um lento processo evolutivo, ao passo que formas primitivas do Direito já regulavam a sociedade primitiva. O Estado surgiria tão somente para servir e manter o Direito, portanto é o Direito que atribui e limita ao Estado seu poder de império. Depreende-se, da teoria de Santi Romano, que podem coexistir várias ordens jurídicas: uma estatal, uma infraestatal (sociedades civis e comerciais), uma supraestatal (ONU, OEA) e uma paraestatal (indiferente ou contrária ao Es­ tado). Contra a doutrina de Romano se posiciona a teoria monística, esposada, en­ tre outros, por Hans Kelsen e Alessandro Groppali. Hans Kelsen, um dos grandes juristas do século X X , autor da obra clássica intitulada Teoria pura do direito, afirma, desde logo, que Direito e Estado se confun­ dem. O estudo do Direito e do Estado deve ser depurado, purificado - daí o título de sua obra - de toda contaminação emocional, ideológica, metafísica, sociológica ou política. Ora, um conhecimento ideologicamente livre, portanto desembaraça­ do dc toda metafísica, não pode reconhecer a essência do Estado a não ser como uma ordem coercitiva de normas. Ora, se o Estado é um sistema normativo, não pode ser outra coisa que a própria ordem jurídica positiva (imposta), já que é im­ possível admitir a validade simultânea de várias ordens normativas igualmente coer­ citivas. O Estado vem a ser, com efeito, a personalização da ordem jurídica. Poderíamos complementar tal pensamento deduzindo o seguinte: a) o Direito da sociedade arcaica, diluído no costume, se achava tão distante das formas claras, distintas e acabadas do Direito atual, como sua organização es­ tava longe do Estado moderno. b) o Direito é elaborado seguindo um roteiro traçado pelo Estado ou, pelo me­ nos, reconhecido por este (processo dc elaboração das leis e processo judicial). En­ tão, fora do Estado não pode haver Direito. c)a coercibilidade do Direito depende da atuação do Estado e, portanto, a atuação do Direito depende do Estado. d) a formação originária do Direito nos tratados confederativos e na revolu­ ção triunfante tem por base os Estados contratantes ou o Estado em que se impôs um novo regime político. l ogo, tais fenômenos jurídicos supõem a existência do Estado. Também para Alessandro Groppali, fora do Estado não pode haver Direito. As normas que qualquer outra sociedade expedir para sua própria organização e funcionamento são normas de caráter meramente social, e somente se tornam jurí­ dicas quando reconhecidas pelo Estado ou admitidas na ordem jurídica estatal. Os grupos sociais menores que existem no Estado, diz Groppali, podem ser regulados

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por um sistema próprio de normas, mas estas somente serão consideradas como or­ dens jurídicas válidas apenas 110 âmbito interno, pois, consideradas do lado de fora, isto é, do ponto de vista da ordem estatal, ficam imediatamente privadas de autono­ mia, pois sc forem contrárias à ordem jurídica estatal serão eliminadas. Mesmo uma quadrilha bem organizada, denominada societas sceleris, pode apresentar uma hie­ rarquia com especificação de “direitos” c “deveres”, c suas normas podem, ate, ser análogas às normas do Estado, mas nunca serão idênticas, pois não são verdadei­ ras, autênticas normas jurídicas; são o contrário disso. Seus membros agem em aber­ to contraste com a ordem jurídica que tutela um determinado conjunto de valores sociais. Aliás, prossegue Groppali, somente rendo como referência o Direito estatal é que podemos qualificar como ajurídicas, antijurídicas ou jurídicas as várias ordens normativas existentes. Em face de uma longa evolução histórica, ao cabo da qual seu poder tornou-se soberano (do latim superanus, supremitas, supremacia), o Es­ tado se impôs como entidade dotada de um poder incontrastável 110 âmbito inter­ no, assegurando para si, com hegemonia, o monopólio da criação das normas jurí­ dicas. Tendo Santi Rom ano afirm ado a juridicidadc das normas do Direito Canônico e do Direito Internacional, Groppali opôs as seguintes observações: quan­ to ao Direito Canônico, de fato, é um autêntico Direito, que encontra sua fonte 110 poder originário c independente da Igreja, poder que, embora de caráter espiritual, tem sobre os seguidores da religião católica uma notável eficácia. Entretanto, os fins do Direito Canônico são diversos dos fins do Estado, além do que, complementan­ do o pensamento de Groppali, lembraríamos o caráter de generalidade do Direito Estatal, seu alcance muito maior se comparado com os cânones eclesiásticos. Quanto ao Direito Internacional, Groppali afirma ser uma ordem normativa ainda em formação, sendo seus dispositivos desprovidos da eficácia que caracteri­ za as normas estatais. O Direito Internacional não possui outras fontes além dos tratados e do costume. Suas normas não são dotadas de poder coercitivo que ca­ racteriza a ordem estatal. Enquanto os ramos do Direito Positivo já apresentam um certo grau de estabilidade, o Direito Internacional nem codificado se acha, impos­ sibilitado, portanto, de atuar coercitivamente. O Estado totalitário, nas pegadas de Kelsen, considerou Direito apenas as normas estatais, sendo confrontados pela dou­ trina corporativista cristã, que afirma a necessidade de o Estado atuar apenas supletivamente perante os indivíduos e as sociedades menores, uma vez que o Esta­ do não seria a única fonte de normas jurídicas. Na verdade, Estado e Direito são irmãos xifópagos, predestinados a viver unidos, sem poder separar-se. Se, na ver­ dade, a ideia de um Direito difuso, espalhado pela comunidade primitiva, represen­ tado pelo totem ou mana, entidade espiritual que governaria os destinos da comu­ nidade, pode ser uma hipótese encantadora para explicar a precedência do Direito sobre o Estado, na verdade, quando surge este, passa tal entidade a ser a fonte su­ prema do Direito, superior em poder e eficácia a todas as outras, embora a existên­ cia destas não possa ser negada.

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4) CAUSAS CONSTITUTIVAS DO ESTADO
Bibliografia: a b b a g n a n o , Nicola. Dicionário de filosofia, São Paulo, Mestre Jou, 1982.
ARISTÓTELES.

Obras, M adri, Aguilar, 1982; Tratado dei alma.
salvetti n et t o ,

bacon

,

Francis. “Afo­

rismos sobre a interpretação da natureza e o reino do homem”, in Os pensadores, São Paulo, Abril Cultural, 1973, v. 13. Pedro. Curso de ciência política, Teoria Geral do Estado, São Paulo, Tribuna da Justiça/Hemeron, 1977, v. 1.

O conhecimento científico, verdadeiro, só é possível mediante a apuração das causas dos fatos naturais e humanos. Aristóteles, pioneiro na demonstração da ver­ dade pelas causas, já delimitara, em sua Metafísica, o termo princípio como causa em sentido amplo, abrangendo as causas formal, eficiente e final, às quais o médi­ co Galeno acrescentou a causa instrumental. Conhecer verdadeiramente, disse Fran­ cis Bacon séculos mais tarde, é conhecer pelas causas. Forte em Aristóteles asseve­ ra: “Afirma-se corretamente que o verdadeiro saber é o saber pelas causas. E, não indevidamente, estabelecem-se quatro coisas: a matéria, a forma, a causa eficiente, a causa final”. Nesta esteira de pensamento, Pedro Salvetti Netto adverte: “Não se conhece, cientificamente, pela verdade revelada nos livros sagrados, como se fizera durante a Idade Média, mas sim pela explicação causai do objeto do conhecimen­ to. Todas as coisas se explicam, considerando-lhes as causas”. Acrescentaríamos ao exposto o conceito dc causalidade, a saber, a conexão entre duas coisas, em virtu­ de da qual a segunda é univocamente previsível a partir da primeira, como assina­ la Nicola Abbagnano. Do exposto, podemos indicar quatro causas suscetíveis de revelar a natureza das coisas e dos seres: eficiente, material, instrumental, formal e final. A causa efi­ ciente (do latim facere, fazer, criar) revela o criador, o autor de algo, de modo que, num exemplo rudimentar, podemos dizer que a causa eficiente da mesa que tenho diante de mim é o marceneiro que a fez. Causa ou causas materiais vêm a ser a ma­ téria, o material com que este confeccionou a mesa (madeira, cola, pregos). Causa ou causas instrumentais, por sua vez, seriam os instrumentos utilizados no traba­ lho (martelo, serrote, formão). Causa formal seria a própria forma, aparência da mesa, permitindo-nos distingui-la de uma cadeira ou de outras mesas, embora to­ das resultantes da mesma causa eficiente, material e instrumental, faculdade ine­ rente mesmo aos deficientes visuais. Finalmente, a causa final, que nos revela o por­ quê da mesa, ou seja, sua finalidade. Para um selvagem, a mesa pode significar simplesmente um abrigo contra a chuva; para um homem civilizado, é um objeto para colocar alimentos e tomar refeições, redigir ou ler. Pois bem, se transportarmos essas ponderações para a sociedade em geral, per­ cebemos que essa nos revela, com clareza, sua causa eficiente (fundadores), causas

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Teoria Geral do Estado

materiais (seres humanos e base física), formais (órgãos diretivos e normas regula­ doras) e a final (pode ser de várias naturezas, conforme a espécie de sociedade). Em certas situações, seria polêmico, quando não embaraçoso, demonstrar a causa efi­ ciente da primeira sociedade, na verdade do próprio ser humano: Deus? Obra do acaso? Qual teria sido a primeira causa material? O barro, com que o Criador fez o homem e, de uma costela deste, a mulher? Questão de fé! Quanto ao Estado, se quisermos estudá-lo cientificamente, devemos fazê-lo mediante o estudo de suas causas constitutivas. Tal estudo se mostra indispensável, pois nos permite desconstruí-lo, estudando, pormenorizadamente, cada um de seus elementos. As causas constitutivas do Estado são materiais, formais e final. São causas materiais do Estado o povo, ou o elemento humano, e o território, ou base física, área material ou ideal em que o Estado faz valer seu Direito positivo. Quanto às causas formais, vale dizer, aquelas que identificam o Estado quanto à sua forma ju­ rídica ou constituição política, graças à qual um Estado não se confunde com ou­ tros - daí, a importância dc conhecer o Estado por sua constituição! - são a ordem jurídica e o poder político, exercido pelos governantes (do grego kubernetes, pilo­ to dc embarcação) que o encarnam em dado momento histórico. Quanto à causa final do Estado, vale lembrar que cada sociedade tem, conforme sua natureza, uma causa final específica. Assim, uma sociedade beneficente tem por causa final a prá­ tica da benemerência; outra, esportiva, tem por finalidade o aperfeiçoamento físi­ co e o lazer de seus filiados, enquanto uma sociedade empresarial tem por objeti­ vo o lucro, mediante a prática habitual de atos mercantis. Quanto ao Estado, tem por causa final o bem comum de todas as sociedades menores que atuam em seu território. O adjetivo comum atribuído ao bem visado pela sociedade política é bastante sugestivo: o Estado existe, por evidente, para rea­ lizar o bem-estar geral de todos, no tocante, por exemplo, à educação, à saúde e à segurança. Analisemos cada uma destas causas.

4.1) Causas m ateriais
4.1.1) Povo

Bibliografia:
1966.

a za m b u ja

,

Darcy. Teoria geral do Estado, 4. cd., Porto Alegre, Globo,
falcão,

b o n a v id e s ,

Paulo. Ciência política, Rio dc Janeiro, Forense, 1978.

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eino Pinto. Parte CeraI do Código Civil, Rio de Janeiro, Konfino, 1959.

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Sahid. DenniPedro.

Teoria geral do Estado, 13. ed., São Paulo, Sugestões Literárias, 1982.
son. Os soldados brasileiros de Hitler, Curitiba, Juruá, 2008.

o l iv e ir a

,

salvetti n e t t o ,

3 0 Estado

25

Curso de teoria do Estado, 4. ed., São Paulo, Saraiva, 1981.

sil v a ,

José Afonso da. Cur­

so de direito constitucional positivo, 2. ed., São Paulo, Revista dos Tribunais, 1984.

População é a totalidade das pessoas que se acham, num dado momento, em determinado Estado. Tal conceito inclui toda e qualquer pessoa, independentemen­ te de nacionalidade, idade, situação política etc. Por isso, quando dizemos que o Brasil tem uma população de quase duzentos milhões de habitantes, estamos em­ pregando corretamente o vocábulo. População é conceito eminentemente numéri­ co, quantitativo, demográfico e, portanto, não interessa, de imediato, ao Direito. Povo, todavia, é termo que pode revelar um conceito jurídico ou um conceito po­ lítico. São conceitos análogos, porém inconfundíveis. Com efeito, a palavra povo sugere pluralidade de sentidos análogos, sendo, portanto, plurívoco-analógica. Em sentido vulgar, ela pode designar as pessoas residentes de um bairro qualquer ou uma comunidade unida pela religião, pelo idioma ou pela etnia. Pode, até, ser em­ pregada pejorativamente, ao designar a parte menos instruída da sociedade, ou aquela colocada em posição hierarquicamente inferior das categorias sociais. Por exemplo, na França pré-revolucionária, havia três estamentos, pela ordem, clero, nobreza e povo, o célebre Terceiro Estado. A democracia grega, quando se referia à assembleia do povo, indicava uma minoria seleta que, pelos dotes intelectuais e pela origem, podia deliberar politica­ mente durante todo o dia. Tal atividade era denominada ócio, bastante respeitada então e longe de sofrer o sentido pejorativo de hoje. Aqueles que não tinham o di­ reito de deliberar, que não podiam nem mesmo residir na cidade, eram os nec ócio, isto é, os negociantes, escravos e estrangeiros. Montesquieu afirmava que o povo não podia ser confundido com a ralé, o populacho, devendo ser proibido o direito de voto àqueles que se encontrassem num estado demasiadamente profundo de baixeza. Dizia este notável pensador que, mesmo no governo do povo, o poder não poderia cair nas mãos do baixo povo. Madame de Lambert, discípula de Montesquieu chegou a definir o povo: “Chamo povo todos aqueles que pensam de maneira baixa e vulgar” . Não foi à toa, portanto, que a palavra povo já foi tida como o grande troca­

dilho da História. Classificada a palavra povo como plurívoco-analógica, sua análise torna-se mais fácil, cm que pese a diversidade de sentidos que ela apresenta. Ao Direito, em especial o direito constitucional, interessam os sentidos jurídico e político. Povo, no sentido jurídico, é o conjunto de indivíduos qualificados pela nacionalidade. Nele não sc incluem, já sc vê, estrangeiros e apátridas. Todavia, o sentido político é ain­ da mais restrito, pois exclui não só estrangeiros c apátridas, como também os me­ nores de 16 anos (CF, art. 14, §§ I o, II, c, e 2o), estando o povo político, tido como o conjunto dos cidadãos do Estado, vinculado à ideia de cidadania. Como se vê, não

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Teoria Geral do Estado

basta ser nacional para se obter a cidadania; a nacionalidade é pressuposto, condi­ ção necessária, mas não suficiente para alcançar o status de cidadão. A idade do na­ cional se mostra o grande empecilho à obtenção da cidadania, como se observa no art. 14, §§ I o, 1, e 3o, VI, a a d, da Constituição Federal. Todavia, há outras restri­ ções, como aquelas impostas aos militares no art. 14, § 8°, e a cassação de direitos políticos, nas hipóteses do art. 15. A nacionalidade, então, e vínculo meramente ju­ rídico, pertinente a direitos civis, em razão do local de nascimento ou da ascendên­ cia paterna (nacionalidade originária), ou, ainda, de manifestação de vontade do próprio interessado (nacionalidade secundária, obtida mediante naturalização). Na­ cional, portanto, é o brasileiro nato ou naturalizado, que integra o conceito jurídi­ co do povo, ao passo que cidadão é o nacional no gozo dos direitos políticos. Há dois critérios para a determinação da nacionalidade: o jus soli e o jus sanguinis. O jus soli leva em conta o local de nascimento do indivíduo, o solo, enfim. Trata-se de um critério normalmente adotado por Estados de forte contingente imigratório, isto é, que recebem imigrantes, estimulando-os a se radicarem, para compensar a rarefação demográfica. Por outro lado, o jus sanguinis é um critério dcterminativo da nacionalidade que considera a ascendência, o sangue paterno do indivíduo, para conferir-lhe a nacionalidade. Trata-se de critério típico de Estados de forte emigra­ ção, com o que se busca preservar a nacionalidade mediante a consangüinidade. O fundamento do jus sanguinis pode resvalar, perigosamente, o racismo, como ocorreu na Alemanha nacional-socialista, por acaso com cidadãos brasileiros. O pro­ fessor de História Dennison de Oliveira, em original e elucidativa monografia, tomou o depoimento dc um brasileiro descendente de alemães que, achando-se na Alemanha em 1943, foi convocado para o serviço militar em plena Segunda Guerra Mundial, pior, quando a derrota do país já se avizinhava. Assim o autor descreve o episódio:
Tendo atingido a idade para alistamento, ele compareceu diante da junta do ser­ viço militar local. Sua primeira inspiração foi alegar a condição de brasileiro (brasilia-

ner), nascido em São Paulo, como demonstravam seus documentos de identidade. Em
resposta teria ouvido a seguinte pergunta do encarregado do alistamento: “Mas se você

tivesse nascido na África isso faria de você um negro?”. Desconcertado, respondeu que
não, ouvindo em seguida a decisão de que ele teria de se alistar, uma vez que era des­ cendente de alemães. De fato, nos termos da jurisprudência alemã relativa à naciona­ lidade prevalece o princípio do jus sanguinis, isto é, aquela que deriva da nacionalida­ de dos pais, independentemente do local de nascimento (jus solis) que é típica da cultura brasileira, por exemplo.

De nada adiantou a alegação do pobre recruta de que lhe seria penoso lutar até a morte contra outros brasileiros; na iminência de uma condenação à morte por desobediência, acabou sendo salvo por um oficial médico nascido de pais alemães, imaginem, na Namíbia. O facultativo, sensibilizado pela situação do nosso brasi-

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lianer, conseguiu para este uma internação hospitalar por suposta moléstia conta­ giosa, que acabou livrando-o do processo... Um caso banal como este esclarece, mais que muitos livros sobre a matéria, como o nacional-socialismo encarava o ser humano; para ser um bom alemão, o importante era o sangue, não importava o local de nascimento, tanto que o pró­ prio Hitler não era natural da Alemanha, e sim austríaco. Daí, a política dc anexa­ ção, à Grande Alemanha, de territórios em que habitariam os chamados alemães raciais, residentes fora do Terceiro Reich, levando à prática o lema nacional-socialista: “Povos do mesmo sangue devem pertencer ao mesmo Estado A Constituição do Brasil adota um critério intermediário, pois faz concessões ao jus soli (art. 12,1 , a), e ao jus sanguinis (art. 12,1 , b e c). Pode ocorrer que o indi­ víduo não tenha nacionalidade, sendo, então, apátrida (sem pátria), submetido, em tal caso, à Convenção sobre o Estatuto dos Apátridos, adotada em 28.09.1954, pela Conferência de Plenipotenciários convocada pelo Conselho Econômico e Social das Nações Unidas, em sua Resolução n. 526-A (XVII), de 26.04.1954, tendo entrado em vigor no dia 06.06.1960. Se tiver mais dc uma nacionalidade, o indivíduo será polipátrida. Os critérios atributivos da nacionalidade decorrem da própria sobera­ nia do Estado, não da vontade dos interessados, de maneira que o apátrida estará nesta condição independentemente dc sua vontade, valendo o mesmo para o polipá­ trida. Quanto à naturalização (CF, art. 12, II), é forma de aquisição secundária ou derivada da nacionalidade. Pode ser expressa ou tácita. A naturalização expressa é aquela que resulta de pedido do interessado (CF, art. 12, II, a e b); a tácita, aquela que se confere ao indivíduo por iniciativa do próprio Estado (CF, art. 12, § 1°). No que se refere ao povo político, reitere-se que tal conceito liga-se, de imedia­ to, ao de cidadania. Com efeito, sendo proveniente do latim civitas (de eives, cida­ dão), o termo cidadania denomina o vínculo político que liga o indivíduo ao Estado, fruindo o cidadão de direitos e deveres de natureza política, com evidente exclusão dos estrangeiros. O termo povo contido no art. Io, parágrafo único, da Constituição Federal confunde-se com o conceito de cidadania, pois congrega exclusivamente os nacionais dotados de direitos políticos, nas diferentes gradações apontadas pela Cons­ tituição (art. 14, §§ I o a 9o). Portanto, nunca será demasiado repetir que, ao decla­ rar, no art. 1°, parágrafo único, que “todo o poder emana do povo”, a Constituição Federal refere-se ao conceito político do povo, excluindo estrangeiros, apátridas, me­ nores de idade, e, nos termos do art. 14, § 2o, os conscritos durante o período do ser­ viço militar (do latim conscriptu, recrutado, alistado, recruta).

4.1.2) N ação

Bibliografia:
1968.

a za m b u ja

,

Darcy. Teoria geral do Estado, 4. ed., Porto Alegre, Globo,
delos

b o n a v id e s ,

Paulo. Ciência política, Rio de Janeiro, Forense, 1986.

,J.T .

teoria do Estado. Revista dos Tribunais. a vontade de prosseguir fazendo valer a heran­ ça por todos recebida.d. eis o capital so­ cial em que se assenta a ideia nacional. o Estado pode surgir até dc modo abrupto. a nação não pode ser satisfatoriamente definida. Hans Kelsen distingue. ela ostenta “caráter fugaz. s il v a . O cul­ to dos antepassados. o desejo de viver junto. nem do curso dos rios. plurissignificante e até equívoco”. dentre todos. Uma encontra-se no passado. Ernesto. s. 1983. como afirma Sestan. Que es tina nación Pedro.28 Teoria Geral do Estado La nación. no presente. Dizia Ernesto Renan (1823-1892): Uma nação é uma alma. de glória. mantendo-se gra­ ças à coação exercida sobre cidadãos ou súditos. Saraiva. A nação . entretanto. pois este envolve um conceito eminentemente jurídico. seremos o que sois é. o hino abreviado dc toda pátria. c o mais legítimo. que se forma com o passar do tempo. O homem não c cscravo nem dc sua raça. mas a nação somente se forma mediante demorada gestação. ed. como objeto dc estudo da Teoria Geral do Estado. nem dc sua religião. porém. Centro de Estúdios Constitucionales. ao passo que aquela tem caráter tipicamente so­ ciológico. Curso de di­ Madrid. nem dc sua língua. ed. 4. 1989. O povo. é que a nação não se confunde com o Estado. Para muitos autores. 1981. ter realizado grandes obras em conjunto e querer realizá-las ain­ da. pois. uma realidade eminentemente sociológica. Certo. renan . uma nação? Seria a raça o único ingrediente a compor a receita da nação? Vacher da Lapouge. até que se sedimente aquele espírito nacional oriundo das tra­ dições e costumes comuns. na sua simplicidade. dc sacrifícios c dc desenvolvimento. Uma grande agregação dc homens. é entidade pura­ mente normativa” . Buenos Aires. salvetti n e t t o . cria uma consciência moral que sc chama nação! A nação é. um princípio espiritual. a outra.. Um passado heroico. São Paulo. O canto espartano: Somos o que fos- tes. reito constitucional positivo.. com sutileza. Nossos ancestrais nos moldaram o que hoje somos. Por isso. São Paulo. porque. Desclée Brouwer. de grandes homens.como o indivíduo . a outra. eis a condição para se ser um povo! E prossegue: Ama-se a casa que se construiu e se transmite.c conseqüência dc longo passado dc esforços. entre povo c nação: “a noção de povo não sc refere às qualidades físicas ou psíquicas dos ho­ mens. assim como o principal ideólogo do . Possuir glórias comuns no passado e vontade comum no presente. 5. Gobineau e Houston Stewart Chamberlain. nem da direção das cadeias dc montanhas. o consenso atual. Uma é a posse comum de um rico legado de tradição. Com efeito. Curso de José Afonso da. O homem não sc improvisa. sã dc espírito e cálida dc coração. Que será.

seria este o idioma? Também não. nação e raça com uma unidade biocspiritual de sangue e solo (blutt und boden). comandada por um úni­ co líder. alemão. “assentar a política na análise etnográfica é pretender assentá-la sobre uma quimera”. “uma su­ cessão de biografias que representam o espírito de cada nação de que cada grande homem faça parte” . Portanto. fala-se italiano. Mazzini? O que é a Gré­ cia. inspirando-se nestes autores. H á Estados ou comunidades nacio­ nais onde se falam vários idiomas. como adverte Renan. se não Shakespeare? Tal linha de pensamento talvez seja a mesma de Hegel (1770-1831). É das tradições comuns que brota o espírito da nacionalidade e o patriotismo. Alfredo Rosenberg. eminente historiador e biógrafo. isto é. autor da célebre obra Dos seis livros da República. espon­ taneamente. Na verdade. que a “ História Universal é no fundo a História dos grandes homens”. uma hierarquia. não há uma só raça pura e. que resultaria a identidade de sentimentos que leva uma comunidade a querer. Platão? O que é a Inglaterra. O nacionalsocialismo. A Alemanha é metade protes­ tante e metade católica. achavam que sim. línguas. inglês. confundiu povo. como há Esta­ dos em que se professa mais de um credo religioso. contempla a consciência de cada um ”. o catolicismo predomina em toda a Amé­ rica Latina. quando governa­ dos pela potência soberana de um ou diversos senhores. Por outro lado. Dizia Thomas Carlyle (1795-1881). permanecer existindo. apenas as tradições e os costumes devem ser levados em con­ ta quanto à criação de um espírito nacional. se não César. afirmou que “de muitos cidadãos se faz um Estado (república). sem contestação (Der Führer hat immer recht). pois que a História é mais sábia que qualquer razão individual. Se a raça não é o elemento imprescindível da nação. sendo protestante ou católico ou israelita ou mesmo ateu. O que é a Itália. o Es­ tado precede à nação. representada por nações superiores a outras. preco­ nizados por Mancini. Pode haver uma só religião em vários Estados. nas raças hu­ manas. costumes. para Bodin. que restam no passado. se tomado isoladamente. religiões e nações”. Na Suíça. Jean Bodin (1530-1596). Dante.3 0 Estado 29 nacional-socialismo. é possível ser francês. dos fatos heroicos. Pedro Salvetti Netto afirma que dos elementos constitutivos da nação. E quem poderia recusar ao povo suíço sua condição de nacional? Diz Renan: “Será que não é possível ter os mesmos sentimentos e pensamen­ tos e amar as mesmas coisas em línguas diferentes?”. . Seria das tradições comuns. A religião é individual. ainda que estejam diversi­ ficados em leis. D aí as palavras de Ernesto Renan: “Já não há religião de Estado. se não Péricles. para quem tais grandes ho­ mens seriam o instrumento da evolução histórica. Haveria. Se a religião não é o elemento imprescindível para formação da nação. seria este a religião? Também não. francês c alemão.

na concepção fascista não é algo pretérito. “é uma fé. Para Friedrich von Schlegel (1772-1829). que encerra em si o espírito e a vida. na qual a unidade de território. Portanto. um valor”. é antes de mais nada um mito. c) ele­ mento psicológico: consciência nacional. uma esperança. “Nosso mito [prossegue] é a nação” (Escritos e discursos. a sociedade c o Estado são organismos vivos. 370). que segue Bodin em tal pensamento. E o espírito. religião e leis. de costumes. território. a seu ver. Para Mussolini. conhecido como Novalis. um dos chefes do Partido Liberal italiano e autor de uma obra célebre. 3. Benito Mussolini (1883-1945) não se preocupa em definir a nação. Apesar das restrições a um conceito universal de nação. Por isso. sob o aspecto raça. Será uma realidade 110 sentido de que é uma fé. O que é um mito? O mito. O próprio Mancini aponta os elementos formadores de uma nação: a) elementos naturais: nação. A nação deve ser con­ cebida à maneira de um corpo místico ou de um organismo internamente animado pela vida espiritual. b) elementos históricos: costumes. a organização do Estado deve ser confundida com o espíri­ to nacional. criadora e conquistadora. p. 187). “A nação [diz ele] é fun­ damentalmente espiritual” (cit. lín­ gua. O espírito deve ser presente. ardente inimigo das concepções mecanicistas e racionalistas do Estado. Diz ele: “Para que se possa dizer que um Estado forma um todo vivente e que c uma grande individualidade.. nem mesmo é necessário que seja real. como essência. o Es­ tado deve confundir-se com a nação. ação atual. 2. diz o Duce. pois a política não é senão a forma de que se reveste a ação em sua vida pública. Também para o fascismo. que definia a nação como “uma socieda­ de natural de homens. levado às últimas conseqüências durante o nazismo. Dentre estes. para Novalis e Schlegel. Contemporaneamente. elaborados no decurso das idades. de língua e a comunhão de vida criaram a consciência social” . Novalis c Schlegel influenciaram o conceito naturalístico dc nação. de origem. o Estado pode forjar a consciên­ cia coletiva. t. A mesma vida que anima a nação há de vitalizar o terreno político. uma paixão. p. a nação é uma ideia. t.30 Teoria Geral do Estado Para Friedrich von Hardenberg (1772-1801). a solidariedade psicológica (expressão de Miguel Reale). Diz ele: A nação é um organismo histórico vivo. arquivado no museu da História. formados pela História. a nação deve estar identificada ao Estado. Pasquale Estanislao Mancini (18171 888). tradições. o Estado for­ ja a nação. esta. não faltam definições formuladas por autores de peso. A sociedade nada mais e que uma vida comum: uma pessoa indivisível que pensa e sente. formada pela cultura e pela religião. Segundo Novalis. é preciso que o Estado ou nação continuem vivendo sua vida histórica e que desenvolva e mantenha a vitalidade em seus órgãos”. in­ titulada Vida dos povos na humanidade. André Hauriou define a nação como “o grupo humano 110 qual os indivíduos se sentem mutuamen­ .

A palavra território apresenta uma etimologia à primeira vista estranha. a qualquer momento. submovendi ius babet” (“Território é a universalidade das terras dentro dos limites de cada Estado. cujo conjunto forma o povo. aquele que se vincula. Introducción a la teoria dei Estado. em razão do local de nascimento. o solo (CF. to­ dos estes fatores agregativos e pré-jurídicos”..3 0 Estado 31 te unidos por laços tanto materiais como espirituais.3) Território Bibliografia: b o n a v i d e s . Doutrina do Estado. r o d r ig u e s Dirccu A. Ciência política. dc nada ligado à terra. territo. Outro autor moderno. também: “Se vis pacem para bellum ” (“se queres a paz. consiste no vínculo jurídico que liga o indivíduo ao Estado. art. Diziam. José Afonso da Silva diz que “nacional” é o brasileiro nato ou naturalizado. bem como conscientes daqui­ lo que os distingue dos indivíduos integrantes de outros grupos nacionais” . dentro destas terras. Note-se a expressão pré-jurídicos nes­ ta definição. diziam os romanos: “ Territorium est universitas agrorum intra fines cuiusque civitatis quod ab eo dictum quidam aiunt. de religião. quod magistratus eius loci in­ tra eos fines terrendi. Sugestões Literárias. 9. como se vê. fa­ zendo concessões ora ao jus soli. lacios. da ascendência paterna ou da manifes­ tação de vontade do interessado. de afugentar”). id est. dc língua. a). e o jus sanguinis. São Paulo. Paulo. adota um critério misto. receio. para manter a soberania ín­ tegra. define a nação como: “o sentimento derivado da co­ munhão dc tradição. isto é. ao território do Brasil. 1968. a atestar que a nação precede o Estado. Quanto à nacionalidade. Forense. quando o Estado. conforme se poderia pensar. 1978. 4. ou seja. 2. de literatura e dc arte. espaço geográfico. Por isso. mesmo porque o Estado exerce o seu poder antevendo a possibilidade de. não importando o local de nascimento (CF. Rio de Janeiro. Bogotá. causo medo. cidadão é o nacional no gozo dos direitos po­ líticos”. b e c). Tcmis.1 . Hugo Pa. procura. Victor. não provém. Di­ ga-se o mesmo no âmbito externo. intimido. m e jía . 1 2 . Saraiva. g r o p p a ­ l i. 1979. alguns o chamam assim porque o ma­ gistrado desse lugar tem o direito de. 12. pre­ . isto é.. Há dois princípios básicos para a aferição da nacionalidade: o jus soli. Alessandro. na força das armas. que considera a ascendência do indivíduo. ed. utilizar a força (coerção) para ver suas determinações cumpridas pelos súditos. impor respeito às demais sociedades políticas. 1965. por nascimento ou naturalização. São Paulo.1. A Constituição Federal. aterrorizar. Dicionário de brocardos jurídicos. art. de história. que leva em conta o local de nascimento. ed.1 . Aldo Bozzi. ora ao jus sanguinis. mas do verbo latino terreo.

consideram-se como extensão do território nacional as embarcações e aeronaves brasileiras. o Estado manifesta o seu poder de império também sobre seus súditos que se encontram em outros Estados. seja para conservar-se íntegro. Então. as belonaves militares e as embaixadas serem considerados partes integrantes do território do Estado.que “onde fosse ouvida uma canção alemã. é o caso da extraterritorialidade das leis. um dado eminen­ temente abstrato.bazófia ou ameaça . Daí o espaço aéreo. designando. . Por outro lado. com rara fe­ licidade. 5o. estamos referindo-nos a um país e não a um território propria­ mente dito. em águas territoriais pertencentes a estado diverso. isto é. como ex­ plicar que um navio militar.. Tais arroubos e brocardos constituem um sintoma inevitável de que o Estado se mantém permanentemente em atitude de defesa ou dc ataque. ao pas­ so que a civitas era o elemento humano vivente na urbs. não simplesmente geográfico. a urbs era o conjunto de edifícios. seu poder de império ou seu direito de proprieda­ de sobre pessoas e coisas. cm nome do chamado espaço vital. a faixa de fronteira de um Estado tem caráter muito mais estratégico do que político. aí esta­ ria a Alemanha”. quando nos referimos à influência do solo. do clima. as características telúricas da base física de uma sociedade política. e a modernidade. do Código Penal brasileiro. O Direito Romano já fazia uma distinção entre o território e o elemento hu­ mano nele vivente. ideal. in verbis: Para os efeitos penais. este úl­ timo vocábulo. Conceito geográfico é o de base física e o de país. faz parte do território do Estado cuja bandeira ostenta? Assim.. § I o. ruas e logradouros. impor-se às outras sociedades políticas. o jargão: “ O preço da liberdade é a eterna vigilância”. o Estado exerce jurisdição sobre pessoas (poder de império) e direito de propriedade sobre seus bens. Se o território fosse mero espaço geográfico. atenta ao estado de tensão política que lateja entre os Estados contemporâneos. cunhou. no mesmo diapasão. seja para expandir-se à custa de seus vizinhos. sempre com o in­ tuito de intimidar. Com efeito. que se achem. Ademais. bem como as aeronaves e as embarcações brasi­ leiras. mercantes ou de propriedade privada. mera base física. de natureza pública ou a serviço do governo bra­ sileiro onde quer que se encontrem. sobre os homens de determinada região. como uma ficção jurídica. Hitler costumava afirmar . o território tanto pode ser uma parcela do solo. Assim. fazse oportuna a disposição do art. Era o prenuncio do cxpansionismo nacional-socialista. com exclusividade. como veremos mais adiante. no espa­ ço aéreo correspondente ou em alto-mar. o conceito de território é jurídico-político. Nesse sentido. Por isso.32 Teoria Geral do Estado para-te para a guerra”). respectivamente. pode o território ser definido como a área física ou ideal em que o Es­ tado exerce. na qual o Esta­ do exerce seu poder soberano.

pela Organização das Nações Unidas . sem qualquer discriminação. em águas ou ares que não pertençam a outro Estado. livremente. ao espaço exte­ rior e aos corpos celestes. deverão ter em mira o bem c o interesse de todos os países. nem por qualquer outro meio (art. modernamente. independentemente do local onde se encontrem.3 0 Estado 33 Dois elementos do território apresentam. em 1967 foi firmado o Tratado sobre Princípios Reguladores das Atividades dos Estados na Exploração e Uso do Espaço Cósmico. com a criação. por uso ou ocupação. zona de transição para o espaço cósmico. de 10 a 12 km de altitude. com cerca dc 100 km. Este tratado determina que a exploração e o uso do espaço cósmico. qualquer que seja o estágio de seu desenvolvimento econômico e científico. Por outro lado. Neste predominam as normas de Direito astronáutico. devendo haver liberdade de acesso a todas as re­ giões dos corpos celestes. interplanetá­ rio. os aviões civis de natureza pública usufruem de intangibilidade ao sobrevoarem ares estrangeiros. bem como o direito dc todos os Estados levarem a cabo explora­ ções cósmicas e a inapropriabilidade jurídica dos corpos celestes. por todos os Estados. inclusive a Lua c os demais corpos celestes. nor­ malmente não conferidas às aeronaves particulares. a ionosfera. bem como de isenções fiscais. encontrar-se-ão sempre sob a jurisdi­ ção do Estado a que pertençam. Quanto aos navios ou aeronaves militares. I o). em condições de igualdade e em conformida­ de com o Direito Internacional. Em 1961 foi criada a Resolução n. devendo. inclusive a Lua e os demais corpos celestes. inclusive a Lua e os demais corpos celestes. estará aberto às pesquisas científicas.O N U -. ser reservada uma zona de passagem inocente do território às aerona­ ves estrangeiras. não poderá ser ob­ jeto dc apropriação nacional por proclamação de soberania. a estratosfera. O espaço cósmico. No espaço aéreo predomina a teoria de Westlake (soberania plena). Depois. em 1958. estão sob a jurisdição do primei­ ro. O espaço cósmico. e são incumbência de toda a Humanidade. devendo os Estados facilitarem e en­ corajarem a cooperação internacional naquelas pesquisas (art. dos princípios do Direito Internacional e da Carta das Nações Unidas. importância muito grande: o espaço aéreo e o mar territorial Sobre o espaço aéreo. da Comissão para o uso pacífico do espaço cósmico. Desta forma. 1. espacial ou cósmico. o espaço cósmico. entretanto. Navios ou aviões civis que se encontrem fora do território de um Estado.721. que proclamou a extensão. Firmou-se a doutrina de que o espaço cósmico fica sob o império do Direito Internacional. 2°). a soberania do Estado alcança uma altitude que justi­ fica um interesse público que possa reclamar a ação do poder político. tal espaço compreende quatro camadas. bem determinadas: a troposfcra. dando-se o inverso caso tais navios ou aviões estejam em águas ou ares do segun­ do. de 100 a 600 km. Nesse sen­ tido. poderá ser explorado e utilizado. inclusive da Lua e demais corpos celestes. também denominado interestelar. . e a exosfera. inclusive a Lua e os demais corpos celestes.

Inicialmente. atualmente bastante sofisticado. o interesse eco­ nômico sobrepujou o fator político. onde alcançasse um tiro de canhão: terrae potestas finitur ubi finitur armorum vis. Em outras palavras. IV que o Estado contratante que não for o da ma­ trícula não poderá intervir no voo de uma aeronave a fim de exercer sua jurisdição penal em infrações cometidas a bordo. item I o. inclusive coercitivas. depois. porque. com a evolução do arma­ mento. em virtude de um acor­ do internacional multilateral. d) a infração constitua uma violação dos regulamentos relativos a voos ou manobras de aeronaves vigentes nesse Estado.34 Teoria Geral do Estado A Convenção Relativa a Infrações e a Certos Outros Atos Praticados a Bordo de Aeronave. VI contém importante disposição. todos os mares seriam águas territoriais ou. e que integra o território do Es­ tado. Normalmente. que sejam necessárias: a) para proteger a segurança da aeronave e das pessoas e bens a bordo. realizou-se em Montevidéu. a menos que: a) a infração produza efeitos no território desse Estado. a largura do mar territo­ rial é calculada a partir da linha de baixa-maré (baixa-mar). 1°. determina. com a participação de nove Es­ . 110 art. isto é. A observação dos infinitos recursos do mar ensejou a ampliação do mar territorial. sim­ plesmente. que é a altura mais baixa atingida pela maré. a Primeira Confe­ rência Latino-Americana sobre Direito Marítimo. c) a infração afe­ te a segurança desse Estado. passou a predominar a doutrina de que o poder do Estado no mar territo­ rial cessaria onde terminasse o poder das armas. pois com muito maior facilidade os Estados mais desenvolvidos tecnologicamente pode­ riam buscar as riquezas submersas. b) para manter a boa ordem e a disciplina a bordo. diz o art. vem a ser a faixa marítima que acompanha. distantes de seu litoral. O art. que o Estado de matrícula da aeronave será competente para exercer a jurisdição sobre infrações e atos praticados a bordo. e) seja necessário exercer a jurisdição para cumprir as obrigações desse Estado. III. quan­ do o comandante da aeronave tiver motivos justificados para crer que uma pessoa cometeu ou está na iminência de cometer a bordo uma infração ou um ato previsto 110 art. Quanto ao mar territorial. Desta forma. de 1963. c) para permitir-lhe en­ tregar essa pessoa às autoridades competentes ou desembarcá-la dc conformidade com as disposições da Convenção que disciplinam a matéria. com a evolução do armamento bélico. já não existiriam tais águas. Por outro lado. visto que os Estados alargaram a extensão de seu mar territorial na proporção inversa de seu desenvolvimento tecnológico. Como acentua Salvetti Netto. qual seja. no ano de 1970. b) a infração tenha sido cometida por ou contra um nacio­ nal desse Estado ou pessoa que tenha aí sua residência permanente. Ora. é a faixa marítima que banha as costas de um Estado e que se acha sob o poder de império deste. poderá impor a essa pessoa medidas razoáveis. ou: onde bá força. em largura variável. § I o. aí o di­ reito (ubi vis ibi jus). predominava a doutrina de que a soberania do Estado sobre o mar iria até onde a vista humana tivesse alcance. se aplicada. esta teoria ruiu. as sinuosidades da linha litorânea.

I o e 3° e o § 1° deste: Art. cujo art. preconizavam a largura do mar territorial de 3 a 12 milhas. o controle de navegação para evitar polui­ ção das águas e outros temas. Panamá. 1° O mar territorial do Brasil abrange uma faixa dc 200 (duzentas) milhas marítimas dc largura. Uruguai. que. Esta norma acompanhou a Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar. O art. medidas a partir da linha dc baixa-mar do litoral continental c insular brasi­ leiro.098. de 04. tal como indicada nas cartas náuticas dc grande escala.1970. conhecida por Convenção de Montego Bay. Argentina. 8. Nicarágua. medidas a partir de linhas de base determinadas de conformidade com a presente Conven­ ção”.não esquecer que um dos principais produ­ tos de exportação daqueles dois Estados é o atum! .1993. advertiam que. o Brasil acompanhava Peru c Equador na ampliação de seu mar territorial para 200 milhas . diz: “Todo Estado tem o direito de fixar a largura do seu mar territorial ate um limite que não ultrapasse 12 milhas marítimas. de 1982. referente à largura do mar territorial.617.01. Importante ressaltar que já em 1958 e 1964. enquanto este limite não fos­ se fixado. em que pesem os esforços desenvolvidos por organismos internacio­ nais. sem o exercício de quaisquer atividades estranhas à navegação e sem outras paradas que não as incidentes à mesma navegação. duas Conferências sobre o Di­ reito do Mar. realizadas por iniciativa da O N U . § 1° Considera-se passagem inocente o simples trânsito pelo mar territorial. reconhecidas oficialmen­ te no Brasil. já em fevereiro de 1970. os arts. 1. Art. medidas a partir da linha da baixa-mar do litoral continental c insular brasileiro adotado como referencia nas cartas náuticas brasileiras. I o desta lei diz que o mar territorial brasileiro compreende uma faixa dc 12 (doze) milhas marítimas de largura. limi­ te aceito sem objeção por todos os Estados. Vale lembrar que os principais oposi­ . 3o. A Lei n. A conferência debateu a exploração das riquezas do mar. revogou este decreto. A ampliação unilateral do mar territorial provoca dificuldades nem sempre solucionadas. Já em 25. a repressão ao contrabando. El Salvador.03. não reconheceriam águas territoriais mais amplas do que 3 milhas. do qual transcrevemos. a segurança nacional.3 0 Estado 35 tados: Brasil. os Estados Unidos. Chi­ le e Peru. agora. Assim. emitiram nota de apoio ao limite de 12 milhas apenas.mediante o Decreto-lei n. 3° É reconhecido aos navios dc todas as nacionalidades o direito de passa­ gem inocente no mar territorial brasileiro. Equador.

ampliou unilateralmente esta largura em mais 50 milhas. Oportuno lembrar.36 Teoria Geral do Estado tores às 200 milhas marítimas para o mar territorial sempre foram Estados Unidos e União Soviética. a legislação marcava para a faixa de fronteira do Brasil uma largura de 10 léguas (60 km).634. e que se confronta com a linha de limi­ tes. I o. a ilha de Los Estados. situada no sul da Argentina. a partir da linha de limite. a pretexto dc preservar a pesca nas Malvinas. Ao tempo do Império. aliás. a linha de limite. portanto. muito mais do que uma expressão geográfica. sorrindo a vitória militar para os ingleses. a Inglaterra. é a seguinte: a base física é elemento . Com a tomada daquela medida. a Inglaterra tornou obrigatória uma licença para bar­ cos pesqueiros de qualquer país que esteja em atividade num raio de 150 milhas. de que o território. mesmo. celebrados entre a Argentina. A pala­ vra fronteira vem do latim fronsyfrontis (fachada. Atualmente nos termos da Lei n. com tal medida. tornar sem efeito prático os acordos de atividade pes­ queira na área. ao pas­ so que o conceito de limite vincula-se ao Direito propriamente dito. Questão que despertou polêmica momentânea entre dois notáveis juristas ita­ lianos.1979. do teor deste artigo ressalta a noção de limite: é a linha que separa a superfície do território de um Estado da superfície perten­ cente aos Estados vizinhos. a Bulgária e a União Soviética. revela. art. Do exemplo referido. de 02. 150 km. certamente. o po­ derio militar e estratégico de um Estado quando em confronto com outro. de 150 milhas. que já mantinha uma faixa de mar territorial na região. Como se percebe. frente). que colocou frente a frente. A Constituição de 1934 (art. nos quais sc incluem. os ingleses teriam um mar ter­ ritorial que invadiria nada menos do que sete territórios de países diversos. também. que será designa­ da como faixa de fronteira. que disputa­ vam o domínio daquelas. A fronteira é uma faixa de largura considerável. limite é linha. Recentemen­ te. foi mantida a largura de 150 km para a faixa de fronteira.05. Donato Donati e Alessandro Groppali. distinguir entre fronteira e limite no território do Estado. em 1982. conforme o caso. porém. agora. impondo formal e unilateralmente sua soberania num raio de 200 milhas! Agindo de maneira análoga na sua possessão de Gibraltar. 166) estipulou uma faixa dc fronteira de 100 km. Fronteira é faixa. na qual termina a ação jurisdicional do Estado. Entre dois Estados confrontantes existem. e as Constituições dc 1937 c 1946. Do território argen­ tino. duas faixas de fronteira opostas e divididas por uma linha divisória. a seqüela resultante da guerra das ilhas M alvi­ nas. a Inglaterra c a Argentina. a intercomunicação com povos vizinhos e a pro­ teção contra a hostilidade externa. fica a conclusão. Vale. portos europeus de grande movimento. a Inglaterra atingiu. A verdadeira razão que levou os britânicos a esta me­ dida temerária foi. 6. agora mais clara. São finalidades da faixa de fron­ teira a delimitação do território. Por outro lado. O conceito de fronteira liga-se à estratégia. paralela à linha divisória terrestre do território nacional. é considerada área indispensável à segurança nacional a faixa interna dc 150 km de largura.

integra a pró­ pria essência do Estado. temporariamente. sucumbe ao cabo de algum tempo.4) Natureza das relaçõ e s entre o Estado e seu te rritó rio enquanto base física: te o ria s do direito real institucio n al. os quais se refugiaram nos navios de Milcíadcs. para quem o território (como sinônimo de base física) não é elemento constitutivo do Estado. exemplificando sua assertiva com Estados que foram des­ pojados temporariamente de sua base física. considerou tão somente uma parcela do território (base física). ao lado do elemento humano e do poder soberano. sendo a República de Vichy. do im perium e do dom ínio em inente Quando se diz que determinado Estado cedeu a outro uma parcela de seu ter­ ritório. Alessandro Groppali contesta a dou­ trina de Donato Donati. já que a este se encontram integrados. fina­ liza Salvetti Netto. o Estado sucumbe. que. temporária. A base física está para o Estado como a água está para um ser aquático. o mar territorial. argumenta. A sociedade política pode existir. não essencial. aqueles F'stados Atenas e França . contudo. constitui um elemento essencial do Estado. portanto. o qual. No exemplo da França ocupada pela Alemanha. além do solo. e a soberania pressupõe a força necessária a sua autoconservação.permaneceriam existindo. o subsolo. A base física. Ocorreu. da base física. como Atenas. portanto. mera ocupação do solo. permanecia o Governo da Resistência. às embaixadas situa­ das em outros Estados c aos navios e aeronaves dc guerra. foi abandonada por seus habitantes. e este não constitui. a impor suas determinações às forças da restauração. embora. pois não há Estado sem poder soberano. o que certamente ocorreria em caso de per­ da definitiva. vassala do Terceiro Reich. sediado na In­ glaterra. invadida pelos per­ sas. Adepto da opinião de Groppali.1. não houve sequer perda temporária do território (base física). Sem território. é um elemento contingente. o espaço aéreo. por si só. Pedro Salvetti Netto lembra que. as aeronaves comerciais sobrevoando o espaço livre e as embaixadas. po­ rém.3 0 Estado 37 integrante do Estado? Donato Donati afirmou que o território (base física) não se­ ria elemento do Estado. mas simples condição da existência deste. sem ele. durante quatro anos. como visto. está-se fazendo referência a um autêntico direito de propriedade do Estado? . despojado daquele elemento vital. afirmando que a perda de fato. em todos os casos apontados por Donato Donati. porém mera ocupação do solo. Aquela não faz parte da essência deste. O território. Donato Donati. Conclui-se. não acarreta a desaparição do Estado. os navios e as aeronaves de guerra. uma organização política anômala. do Estado. a amplitude do território estatal. e não submissão total e definitiva. vencida e ocupada pela Alemanha nazista. onde quer que se encontrem os navios mercantes em alto-mar. 4. tomado como a expressão do poder de fato do Estado. assim. Tais ocupações teriam afeta­ do a existência dos Estados que as sofreram? Se adotarmos o pensamento de Dona­ to Donati. sendo possível acrescentar a tal exemplo o da França de 1940. que o território.

e a segun­ da expressa uma verdadeira relação direta entre o Estado e certas partes do territó­ rio. de duas classes. Os bens de pro­ priedade do Estado são especificados pela própria Constituição que lhe dá forma. em face do interesse público. O publicista colombiano Copcte Lizarralde propôs. esta concepção não explica como é possível coexistirem dois direitos de propriedade . mas sem recorrer à figura do direito particular de propriedade. Somente assim poderíamos admitir expressões como território do Estado e aceitar a possibilidade de cessões territoriais pelo Estado. Entretanto. do poder de império que. a ênfase recai justamente na ideia de soberania. Estas são. requisição ou confisco. com ressalva da originalidade da expressão domínio eminente. sem considerar as teses unitárias que defendem a existência apenas de direitos pessoais. como observa Hugo Palacios Mejía. portanto). denominada doutrina do imperium. na qualidade de pessoa jurídica.incidentes sobre um mesmo objeto. o Estado exerce sobre a propriedade privada. Trata-se. a vida jurídica do Estado deve estar. di­ reito pessoal. na ten­ tativa de solucionar a questão. ou melhor. Uma segunda doutrina. direito este. mais que um “direito do Estado sobre o território”.do Estado e dos particulares . a substituição do conceito de dominium pelo de imperium (direito dc compelir os habitantes do território a adotar certa conduta. lembran­ do que. . basicamente. quanto ao direito do Estado. a expressão domínio eminente do Estado. característica do poder do Estado que incide primeiro sobre as pessoas e. sob administra­ ção do próprio Estado. vale lembrar. que enseja diversas situações jurídicas. de exercer poder soberano sobre seu território e bens nele situados. A nosso ver. institucional. sempre. ficando a propriedade particular restringida por sua função social. sobre os bens. propondo. porém. distinto do regime jurídico da pro­ priedade particular. O território. A primeira refere-se à faculdade dc exercer o poder sobre as pessoas que vivem dentro de certas fronteiras. enfocada na perspectiva do Direito Público. há que distinguir o direito de propriedade do Estado. a teoria do direito real institucional parte do pressuposto de que o direito do Estado sobre seu território é verdadeiro direito dc propriedade. há um condicionamento territorial da vida do Estado. Na verdade.38 Teoria Geral do Estado Partindo da velha distinção romana entre direitos reais (aqueles que incidem sobre os bens) e direitos pessoais (aqueles que incidem sobre as pessoas). por isso. propugnada por Georg Jellinek. mas tão somente um direito pessoal sobre os indivíduos que vivem em seu território. dando a uma a denominação imperium e à outra domínio público. apenas secundariamente. de um direito de pro­ priedade especialíssimo. afir­ ma que não existe um direito real (dominium) do Estado sobre seu território. prossegue. Mas isso pouco difere do pa­ recer de Jellinek. inerente a qualquer pessoa jurídica. é um elemento do Estado. pelo qual. que apenas dá cumprimento às normas de desapropriação. Jelli­ nek considerava descabida a adoção de um conceito de direito civil 110 campo do direito público.

potere. Coimbra. é potência. São Paulo. Curso de teoria do Estado. Depalma. Manoel Gonçalves. Nesta definição se destacam dois elementos: força e ideia se interpenetram estreitamente. Método de la ciência política. A palavra tem origem no latim ar­ caico potis esse. enquanto se sucedem as figuras que exercem seus atributos. Carl. b u r d e a u . a força a serviço de uma ideia. Armênio Amado. c isolar o duradouro no fenômeno do poder. Sucessor. O poder é. s a l v e t t i n e t t o . Sc aquilo que pretendemos. que ela apresenta uma ideia exata da realidade. Teoria de la Constitución. c a b r a l d e m o n c a d a . Saraiva. veremos que o poder é menos a força exterior que se coloca a serviço dc uma ideia do que a potên­ cia mesma de tal ideia. 1981. Curso de direi­ to constitucional. Poder é a capacidade de impor obediência. Em sua obra Método de la ciência política. 11. Buenos Aires. daí. São Paulo. 1964. Poder. f e r r e i r a f i l h o . então. Enciclopédia de la política..3 0 Estado 39 4. O poder não é ação. Fondo de Cultura 1997. é possibilidade. México. Trata-se de uma força nascida da vontade social preponderante. Em outra obra de grande repercussão sobre a matéria. BORJA. Problemas de filosofia política . ed.. 1981 . bem como impor aos seus integrantes o comportamento ne­ cessário para tanto. intitulada singelamen­ te O Estado. destinada a dirigir a comunidade a uma ordem social que considera benéfica. Rodrigo. como efeito. e capaz.1) Poder político Bibliografia: Econômica. É uma força nascida da cons­ ciência coletiva e destinada simultaneamente a assegurar-lhe a perenidade do grupo. ed. A definição que pro­ pomos emprega os dois elementos do Poder: uma força c uma ideia. assim se expressa este publicista: O poder é uma força a serviço de uma ideia. em tais circunstân­ cias. é potência.2. Ora. Georges. portanto. contraída em posse e. Pedro. México. Ele se sustenta pela ideologia cristalizada na consciência coletiva de um grupo social. L u í s . potencialidade para a realização de algo. também. 1982.2) Causas formais 4. s c h m i t t . Nacional. se afastar­ mos momentaneamente os fenômenos concretos pelos quais se revela o Poder c cujo . o Poder é a encarnação de uma tal energia provoca­ da no grupo pela ideia de uma ordem social desejável. Burdeau assinala: Na sua essência profunda. 4. 1963. parece-nos. Saraiva. de impor aos membros a atitude requerida por esta busca. a conduzi-lo na busca do que ele considera como coisa sua. como define Burdeau.

pois. o imperium. o poder é essencial a qualquer sociedade. lhe votariam. Com efeito. respeito­ samente. temos. administrar) transmite-nos esta ideia. Por isso. deriva do verbo aitgere. a este brocardo Pedro Salvetti Netto acres­ ceu a expressão ac potestas. é comum denomi­ narmos os chefes do Poder Executivo governantes. amparado pela força. A força. Daí a distinção entre poder público e governo. ao poder. A simples expectativa do empre­ go da força chama-se coação (vis compulsiva). vale dizer. Poder social (socieda­ des condicionadas) ou poder político (poder do Estado. a vis materialis ou corporalis. com efeito. o consenso social. As pessoas simples. em especial aqueles do Poder Executivo estadual. onde houver sociedade haverá direito e po­ der. Autoridade é possibilidade de suscitar obediência espontânea c conscien­ te. eventualmente. contingencialmente. N ão é. quando se referem. A própria etimologia da palavra governo (conduzir. Exceção feita à utopia dos anarquistas. A cocrção é o emprego efetivo da força inerente ao poder. que o poder. é inerente ao poder. enfim. se for o caso. às palavras de um sábio. à coerção. Ubi societas ibi jus. assinala Georges Burdeau que o poder repousa numa ideia oriunda da consciência coletiva existente no grupo social. da reverência dos governados. O governo é a dinâmica do poder. o governo é ação. nem sempre disporá do assentimento social. Quem exerce ativa o poder. dizia Aristóteles. enfim. Se o po­ der fático é a capacidade de se fazer obedecer. do respeito que estes. O assentimen­ to. sociedade condicionante) são formas de poder inerentes ao convívio social. obtendo a obediência geral às regras deste. do latim auctoritas. que pretendem ver extinto o poder na vida em sociedade. Sc transportarmos a palavra poder para o campo da Ciência Política. se procurarmos o que é permanente no Poder enquanto passam as figuras que nele exercem as atribuições. Embora essencialmente sustentado pela força. aqui. que significa aumentar. autoridade. O vocábulo autoridade. governa. ela reside na ideia que o inspira. o poder público somente se legi­ tima quando seu exercício é consentido por aqueles que lhe obedecem. porém. O poder é potência. vale dizer. as denominam argumentos de autoridade.40 Teoria Geral do Estado fulgor se arrisca a obliterar a reflexão. Os governantes são a encarnação do poder. vemos que ele não é tan­ to uma força exterior que viesse pôr-se ao serviço de uma ideia como a mesma potên­ cia dessa ideia. algo que se acrescenta. o poder público nada mais é do que a capacidade de se fazer obedecer exercida pelo Estado. e pressuposto para a legitimação da ideia que anima aqueles que encarnam o poder. a fim de impor o cumprimento de um or­ denamento jurídico-político. sem recurso à força. A possibilidade de sua aplicação efe­ tiva chama-se coercibilidade. Vale frisar. O governo é o complexo de normas que disciplinam o exercício do poder. . exato que a realidade substancial do Poder seja o mando. dirigir. Faltará. chamado governadores. encon­ traremos o poder público ou do Estado definido por Alípio Valencia Vega como a força pública organizada coativamente.

como o consultor. Vejamos.a palavra carisma vem do grego cbarisma. Exemplos: as de produção. agora. determinando. aquele era a força em potência. tornar mais forte e poderoso alguém ou alguma coisa. graça divina . etc. com a singeleza recomen­ dada pelo caráter meramente introdutório desta obra. de que auctum é um particípio-adjetivo.3 0 Estado 41 No dizer de Cabral de Moncada. Poder constituinte é a capacidade de criar ou de alterar a ordem jurídica do Estado. o promotor. esta era a tra­ dição e o respeito. aquele que promove com o seu exemplo e conselho o bem de uma coisa (alem. conselho. A expressão vontade revela cm contraste com qualquer dependência referente a uma justiça normativa ou abstrata . o ga­ rante. foi assassinado. Por vezes o líder carismático pode ter consigo também a força. O direito público romano já fazia uma distinção entre imperium e auctoritas. símbolo vivo dc um fastígio secular alcançado pela altivez. Etimologicamente deriva de auctor e de augere. o conselheiro. Presume-se que sc cncontrc aí também a origem semântica da pala­ vra para significar mais tarde. por isso.o essen­ cialmente existencial deste fundamento de validade. isto sim. encarnados num órgão. prestígio. assim. o conceito de poder constituinte. aquele ou aqui­ lo que constituía a força e o vigor duma comunidade. embora desprovidos da força.são chefes necessariamente religiosos que fruem do respeito social. Augere. eis Maomé e os aiatolás contemporâneos. Para Schmitt. a existência da unidade política como um todo. o Senado. a evolução do termo autoridade foi a seguinte: A palavra autoridade. teve sempre nesta língua as mais variadas significações. acentua Salvetti Netto. não se vincula a tendências ideológicas ou a princípios norteadores deste ou . E o caso de Moisés. que sig­ nifica dom divino. embora dispusesse da força. poder constituinte é a vontade política cuja força ou autorida­ de é capaz de adotar a concreta decisão de conjunto sobre o modo c a forma da própria existência política. conforme ele próprio esclarece: Uma Constituição não se apoia numa norma cuja justiça seja fundamento de sua validade. César jamais teve a autoridade de um Cincinato. accrca do modo c da forma do próprio ser. criação. Os líderes carismáticos . Acha-se apoiada. derivada do latim auctoritas. exemplaridade. aumentar. por sua vez. O conceito de poder constituinte formulado por Schmitt. Befõrdern). Auctor era não só o autor. bravura e talento dos pais da pátria. Com efeito. a qualquer momento desencadeada. modelo. numa decisão política surgida dc um ser político. de Cristo e dos profetas. significava. antes de se fixar na de poder. fazer crescer. no caso. mediante uma transposição dc sentidos. desenvolver.

do melhor regime. Como o movimento vitorio­ so é legalizado? Pela edição de uma nova Constituição. mero executor de uma vontade superior. O poder constituinte é distinto dos poderes estabelecidos pela própria Cons­ tituição por ele criada. segundo Carlos Sanchez Viainonte. Importante. vontade fundada na coletividade e imposta igualmente a governantes e a governados. de caráter sagrado. Séculos mais tarde. Se os revolucionários alcançam o poder. seguido pela comunidade. o antecedente mais remoto rela­ tivo à doutrina da separação entre poder constituinte e poderes constituídos. a soberania não re­ sidia propriamente no monarca. em verdade. Concretizada esta. nestes dois Estados laicos. empunhando a bandeira de um ideá­ rio legítimo. que é aquele. Em muitos Estados da Antiguidade Oriental. inconstitucional. mesmo sendo ilegal. ele será sempre ilegal. en­ contraremos. entre a aparente desordem revolucionária e dos regimes seguros de si próprios. na Inglaterra. ele é aquela potência criadora da ordem jurídica da qual fixa os princípios c estabelece os instrumentos. prossegue. vitorioso. resta unicamente a le­ galização do movimento. ela pode ser legítima. dele será este mesmo poder. na Grécia clássica. aqui. se não estiver de acordo com o consenso social. desde que esteja de acordo com a ideia do justo que o sistema de referência social professa. como o titular da soberania. promulgado no ano de 1953. mais precisamente como documento deno­ minado Agreement ofthe people (Acordo ou Pacto Popular). o rei era. . repito. Não se trata. por Oliver Cromwell.42 Teoria Geral do Estado daquele regime político. Quando tal poder se manifesta mediante o emprego da força. A obra revolucionária é sempre ilegal. e a Constituição a causa instrumental da ação deste poder. em Atenas e Esparta. sendo este a cau­ sa eficiente. O ato constituinte seria aquele de natureza originária. ate o momento em que. é ele o titular do poder constituinte: se for o rei. entre a turbulência das forças sociais c a serenidade dos procedimentos legais. como geralmente se pensa. contudo. Desde que o povo seja capaz de organizar o Estado e exer­ cer o governo. é evidente que o poder constituinte derrubado incorrerá na ilegalidade e na ilegitimidade. Não passou despercebido a este autor que a pró­ pria soberania reside no querer irrecusável do poder constituinte. soberanamente. distinguir entre a mera legalidade e a legitimidade do poder constituinte. já se fazia uma distinção entre ato constituinte e ato legislativo. Alude-se ao que é e não ao que deve ser. surgin­ do o povo. teocráticos. No dizer de Burdeau. se institucionalize. mediante o qual se criava a nação e sua estrutura político-social. A obra revolucionária. Entretanto. no pla­ no do Direito Positivo. Mais tarde. pode­ rá ser ilegítima. Ele se encontra situado num ponto de intersecção entre a política c o di­ reito. aqui. sob a denominação Instrumento de Governo.

10.1) A nte ce d e n te s Desde que. São Paulo. Assim se expressa Aristóteles: . Martins Fontes... f e r r e ir a f il h o locke. lembra Ferreira Filho. 4. John. bastos. Política.2) 0 princípio da se p a ra çã o de Poderes no Estado Bibliografia: A r i s t ó t e l e s . tentará legitimar-se. Flá. 1999.C.3 0 Estado 43 Se o movimento triunfante não contar com a legalidade. o poder constituinte decorrente. dentre estes a insegurança imposta à liberdade individual. ed. não se acha submetido a nenhum princípio que não seja o daqueles que o encarnam. Do processo le­ Hely Lopes. No primeiro caso. Celso. apenas a modifica parcialmente. Dois tratados sobre o governo. Revista dos Tribunais. Paris.2. O poder constituinte originário é incondicionado. 1993. 1997. também. Tomemos como exemplo o seu art. não se encontra vinculado a nenhuma condição. é beneficiária dc um mecanismo psico­ lógico: o respeito à lei. em sua obra clássica Po­ lítica. Saraiva. ed. obtendo a aceitação dos governados. sécu­ los depois. Por isso. 25). m e ir e l l e s . 60. São Paulo. O homem é induzido a obedecer à lei. leis. no caso do Es­ tado federal (Constituição brasileira. 3. Martins Fontes. tradução de Cristina Murachco. Tal medida. ideia que seria retomada. uma de sua maiores preocupações foi evitar o arbítrio dos governantes e seus indesejá­ veis efeitos..). UNB. o homem passou a viver em sociedade. 1947. prenuncia a separação de funções no Estado. o poder constituinte pode ser originário e instituído ou derivado. 4. tradução de Mário da Gama Cury. Saraiva.. 3. Direito administra­ m o n t e s q u ie u gislativo. não a discuti-la. por natural tendência. São Paulo. Quanto a suas espécies. São Paulo. Manoel Gonçalves. ed. O espírito das Paul. . ed. v is s c iie r . 1984. 1995. Capítulo II. Assim Aristóteles (384-322 a. Curso de teoria do Fstado e ciência política. que é o poder dos Estados-Membros. tivo brasileiro. ele dá origem a uma nova Constituição.2. 4. no segun­ do. num esforço de legitimação daquilo que era ilegítimo. Les nouvelles tendances de la démocratie anglaise.2. por Montesquieu. art. os mais antigos e respeitadores pensadores já buscavam delinear soluções para o con­ trole do poder político. São Paulo. . Livro IV. sentimento que nos é incutido desde a mais tenra infância. 1998. Que vem a ser a legalização do movimento vitorioso? É o estabelecimento de normas positivas que justifiquem o conteúdo da obra revolucionária do poder cons­ tituinte.

tampouco pode edito algum de quem quer que seja. Embora autores que sucederam Aristóteles tenham dissertado a respeito do tema. consiste na conservação da sociedade e (até onde seja compatível com o bem pu­ blico) dc qualquer um dc seus integrantes.já que a lei natural primeira e fundamental. o consentimento da sociedade. notoriamente. como fez Cícero. e estando o principal instrumento para tal nas leis estabelecidas naquela sociedade. a segunda trata das funções públicas. o fato é que a separação de Poderes só voltaria a ser anali­ sada muito tempo depois. Ouçamo-lo: Sendo o principal objetivo da entrada dos homens em sociedades eles desfruta­ rem de suas propriedades em paz e segurança. uma doutrina mais detalhadas da separação de Poderes. se estas partes forem bem ordenadas a Constituição será necessariamente bem ordenada. a terceira trata dc como deve ser o Poder Judiciário. seja de forma concebido ou por que poder apoiado. Esse Legislativo e não apenas o poder su­ premo da sociedade política.44 Teoria Geral do Estado Todas as formas de Constituição apresentam três partes em referências às quais o bom legislador deve examinar o que é conveniente para cada Constituição. de exílio e de confisco da propriedade. Pois. qual deve ser sua autoridade específica. destinada a governar ate mesmo o próprio Legislati­ vo. John Locke (1632-1704). não fosse assim. equivocadamente. quanto às leis. Fala­ va ele numa função consultiva que se pronunciava acerca da guerra e da paz e acer­ ca das leis. e pela autoridade dela recebida. e quanto à prestação de contas dos funcio­ nários. A parte deliberativa é soberana quanto à guerra c a paz e a formação e dissolução de alianças. não teria a lei o que é absolutamente necessário à lei. considerado por muitos. quantos às sentenças de mor­ te. o inspirador original da separação de Poderes. sobre a qual ninguém pode ter o poder de elaborar leis salvo por seu pró­ prio consentimento. e como devem ser escolhidos os funcionários. privilegiando. uma função judiciária e de um magistrado incumbido dos restantes assuntos da administração. Destas três partes uma trata da deliberação sobre assuntos públicos. a lei positiva primeira e fundamental de todas as socicdadcs políticas c o cstabclccimcnto do Poder Legislativo . Bolingbroke e o próprio Montesquieu. o Legislativo. Talvez a sua linguagem fosse um pouco diferente. e na medida em que elas diferem uma das outras as Constituições também diferem entre si. Observa Celso Bastos que as três funções de que falava Aristóteles são as mes­ mas que hoje conhecemos. ou seja: quais são as que devem ser instituídas. por John Locke. pensador inglcs. . já desenvolvera. ter força e obrigação de lei se não for sancionado pelo Legislativo escolhido e nomeado pelo público. em sua obra Dois tratados sobre o governo. mais precisamente nos séculos XVII e XV III. como também é sagrado e inalterável nas mãos em que a comunidade o tenha antes depositado.

todavia. ele castiga os crimes. após considerar o Poder Legislativo como o mais importante dos três Poderes. ou dos nobres. pois o juiz seria legislador. § 6° (Da Constituição da Inglaterra): Existem cm cada Estado trcs tipos dc poder: o poder legislativo. A par do Poder Executivo. Quando. o poder execu­ tivo das coisas que dependem do direito das gentes e o poder executivo daquelas que dependem do direito civil. Com o segundo.. o príncipe ou magistrado cria leis por um tempo ou para sempre e corrige ou anula aquelas que foram feitas. mais precisamente Charles Louis dc Secondat. ou julga as querelas entre os particu­ lares. E assim acontece. Tampouco existe liberdade se o poder de julgar não for sepa­ rado do poder legislativo c do executivo. compreendendo um a execução das leis municipais da sociedade dentro de seus próprios limites sobre todos os que dela fazem parte e outro a gestão da se­ gurança e do interesse e o público externo. o juiz poderia ter a força de um opressor. firmar alianças e acordos com todas as pessoas e socie­ dades políticas internacionais. o poder legislativo está reunido ao poder executivo. instaura a segurança. Locke observa: como as leis elaboradas de imediato e em pouco tempo têm força constante e duradou­ ra. o de executar as resoluções pú­ blicas e o de julgar os crimes ou as querelas entre os particulares. Sc estivesse unido ao poder legislativo.2) 0 princípio da separação de Poderes segundo M on tesq uieu Quanto a Montesquieu (1689-1755). no clássico O espírito das leis. o po­ der sobre a vida c a liberdade dos cidadãos seria arbitrário. assim se expressa no Livro 11. e requerem uma perpétua execução ou assistência. até por­ que o povo.2. Esses dois Poderes.2. Chamaremos a este último poder de julgar e ao outro simplesmente poder exe­ cutivo do Estado [. embora distintos. envia ou recebe embaixadas. Locke vislumbra certo Poder Federativo.. não existe liberdade. Com o primeiro. na mesma pessoa ou no mesmo corpo de magistratu­ ra. fazer valer sua vontade soberana mediante seus representantes. que cuide da execução das leis que são elaboradas e permanecem vigentes. Tudo estaria perdido se o mesmo homem. Sc estivesse unido ao poder executivo. ele faz a paz ou a guerra. ou o mesmo corpo dos principais.3 0 Estado 45 Quanto ao Poder Executivo. Barão dc La Brède et de Montesquieu. é necessário haver um poder per­ manente. quase sempre estão unidos. . muitas vezes. apto a cuidar da guerra e da paz. porque se pode temer que o mesmo monarca ou o mesmo senado crie leis tirânicas para exe­ cutá-las tiranicamente. Executivo e Federativo. pode. ou do povo exercesse os três poderes: o de fazer as leis. com todos aqueles de que ela pode re­ ceber benefícios ou injúrias. Com o terceiro. previne invasões. não podendo exercer o autogoverno.]. que sejam separados os Poderes Legislativo e Executivo. 4.

Assim. ria point de constitutiori\ ou “Toda sociedade em que a garantia dos direitos não é assegurada. Não demoraria. assim. Ora. Tal interdependência autoriza qual­ quer das três funções a exercer atribuições naturalmente peculiares a um dos res­ tantes. o Legisla­ tivo (primeira e segunda câmaras. mas em equilíbrio. já se reconhecia que o Executivo poderia interferir no Legislativo. de 26. O eminente publicista Hely Lopes Meirelles adverte que apressados seguido­ res de Montesquieu interpretaram mal seu pensamento. câmara baixa e câmara alta) e o Judiciário (cor­ po de magistrados). o Poder Legislativo interferiria nas atribuições do Judiciário quan­ do do julgamento dos nobres pela Câmara dos Pares. Num dos maiores clássicos da Ciência Política. I e II). 16: “Toute societé dans laquelle Ia garantie des droits riest pas assurée. porque o poder político é. em face do direito de veto concedido ao monarca. James Madison eJohnJay advertem que a tripartição das funções do Estado não é apenas divisão. intitulado O federalista (The federalist). porque ju­ ridicamente é equivocada.1 . Cada um destes “ Poderes” exerceria suas atribuições sem qualquer interferência dos demais. nem a separa­ ção dc Poderes determinada. não tem constituição". como se esses fossem estanques. o Legislativo exerceria pressão sobre o Executivo. falando em divisão e sepa­ ração de Poderes. a). Assim. já mencionada. como a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão. ser mais apropriado o termo função . inspirando. mediante um sistema de freios e contrapesos (checks and balances). mesmo nos primórdios da aplicação práti­ ca das ideias de Montesquieu. Alexander Hamilton. a doutrina dos freios e contrapesos.08. entretanto. M adi­ son pregava a necessidade de disciplinar o relacionamento entre as funções do Es­ tado. que já dizia no art. a Constituição. na verdade. na medida em que controla as leis que vota. em vez de poder. criou-se em torno do ideário de Montesquieu a ideologia de um modelo político em que os três Poderes deve­ riam estar rigorosamente separados: o Executivo (o rei e seus ministros). a ex­ pressão separação de Poderes passa a ter conotação meramente política. na concessão de anistias e nos processos políticos que deviam ser apreciados pela câmara alta sob acusação da câmara baixa. podendo exigir aos ministros prestação de cotas dc sua administra­ ção. sc tomarmos como exemplo a Constituição brasileira. por sua vez. veremos que o Poder Executivo pode legislar (art. separação de Poderes no Estado. 9 6 . indivisível. c o Judiciário legislar (art. 62). uno. sem ferir. a doutrina da separação de Poderes foi prestigiada em célebres legislações. Daí. O próprio Montesquieu.1789. não disse haver três Poderes mutuamente isolados. de modo que cada “po­ der” limitaria os demais: Le pouvoir arrete le pouvoir. Não há.46 Teoria Geral do Estado Desde logo. com isso. por outro lado. a se delinear uma crítica robusta e profunda a seus princípios. naturalmente. quando é certo que o Governo . a fim de estabelecer uma interdependência entre elas. Com efeito. mas também equilíbrio. que ocasionaria seu declínio e sua transformação num mito. 52. o Legislativo julgar (art. diga-se de passagem. ni Ia séparation des pouvoirs determinée.

Isto não significa que apenas o Legislativo elabora nor­ mas jurídicas. por definição. ninguém mais poderá que outros ho­ mens devam elaborar leis para o povo. para quem atribuir a Montesquieu a separação absoluta de Poderes é ver­ dadeira escroqueria intelectual.2.2. Com a doutrina de Jean-Jacques Rousseau. senão em virtude de lei. e indicar em que mãos será depositado. não podendo votá-la diretamente. por uma concessão ou instituição positiva e voluntária.2. como o entendemos hoje. To­ davia. mesmo. N o mesmo sentido. que representa falsear totalmente o pensamento do ilustre autor dc O espírito da leis. Uma vez que o poder do legislativo deriva do povo. Todavia. as normas emanadas do Legislativo têm primazia sobre as outras. Paul Visscher.2. e tampouco pode ser este submetido a nenhu­ ma lei. diploma le­ gal discutido e referendado no próprio Legislativo. como se observa nesta sugestiva passagem de John Locke: não pode o legislativo transferir o poder de elaborar leis para outras mãos. pois também o Executivo e. que é apenas o de elaborar leis e não de fazer . 4. como já vimos. Somente ao povo é facultado designar a forma da sociedade política. pessoal­ mente. lei em sentido estrito. vale dizer. que a exprime por meio da lei. quando a nobreza e o próprio povo tentavam limitar a auto­ ridade absoluta dos reis. a competência de elaborar nor­ mas segundo um processo previamente estabelecido (processo legislativo). em face do princípio da legalidade. o povo se vê compelido a eleger seus representantes. parlamentares. o Judiciário. o enfraquecimento do poder real se acentuou em pro­ veito do Parlamento. Com efeito. não sendo ele senão um poder delegado pelo povo. senão àquelas promulgadas pelos indivíduos escolhidos c autorizados para for­ mular as leis da sociedade. ou seja.3 0 Estado 47 é resultante da interação dos três Poderes do Estado.4) 0 Estado con tem porâneo e a delegação de fu nções A doutrina clássica da separação de Poderes não admite a delegação de fun­ ções de um aos outros.3) 0 Poder Legislativo O Poder Legislativo. segundo Rousseau. que se dá através da constituição do legislativo. não pode ser ele diverso do poder transmitido por tal concessão positiva. perenizada em sua obra O contrato social. E quando o povo disser: submeter-nos-emos às regras e seremos governados pelas leis estabelecidas por tais homens e sob tais formas. du­ rante a Idade Média. pelo qual ninguém se obriga a fazer ou deixar de fazer algo. aqueles que o detêm não podem transmiti-los a outros. Ao Poder Legislativo se confere. a soberania reside no povo. teve origem na Inglaterra. 4. as quais inovam a ordem jurídica. que agi­ rão em nome do corpo eleitoral.

este a cúm u ­ lo de tarefas trouxe consigo a própria paralisia do Legislativo.2. sem coragem para tomar deci­ sões inadiáveis. obrigou os governos a repen­ sar o processo legislativo. O papel proeminente do Legislativo acarretou-lhe. . onde as discordâncias não iam alem dos pormenores. inatendidas em face da paralisia parlamentar. C o m o passar do tem po. com rapi­ dez. assim. não mostra mais ostensiva do que a retratada nalgumas Constituições posteriores à Segunda Guerra Mundial. Nestas. por decreto. a prerrogativa de anular decisões ju­ diciais. com o assinala M anoe l Gonçalves Ferreira Filho. para que este faça o que tem que ser feito. que para os democratas radicais do século passado lsic]. ou aparentemente irredutíveis. bem diferente dos tempos de Locke e M ontesquieu. perm itindo a rápid a edição de norm as jurídicas de alcance social. Deixa­ ram estas de ser grupos primários.]. a realidade hoje é outra.48 Teoria Geral do Estado legisladores. como eram enquanto só a burguesia participava in­ tensamente da vida política. com a inevitável delegação dc funções pelo Legislativo ao Executivo. para se tornarem o campo dc batalha onde cosmovisões hostis c interesses dc elasses irre­ dutíveis. inclusive modificando.2. a ascensão das massas ao processo de decisões políticas agravou a situação: O sufrágio universal. dentre as quais. o recrudescimento das reivindicações sociais no final do sécu­ lo X IX . parecia ensejar a plena realização da democracia. Observa M anoel Gonçalves Ferreira Filho: Incapazes dc fazer o que se torna imprescindível. em contrapartida.. na m edida do possível. dc sorte que não pode ter o legislativo nenhum poder de transferir sua autoridade de elaborar leis e colocá-la em mãos de terceiros. veio. em face das maiores possibilidades de legislar. u m acú­ m ulo de funções. lei delegada e m edida provisória. 4. o fortalecim ento do Executivo se m anifestou m ediante três espé­ cies de normas: decreto-lei. por interm édio da Corte de Cassação. agravando gravemente o órgão no seu entender principal. as leis do país. Em verdade. N ã o obstante. Por outro lado. como governo. e aguente as conseqüências [. na França. Por outro lado. porem impopulares. o sufrágio universal trouxe a divisão para o seio das assembleias. se digladiavam. buscando agilizá-lo. Tal fenôm eno mostrou-se ain d a mais evidente a partir de 1920. De tal evolução. abalar a estrutura des­ ta que lhes parecia perfeita. A decadência do Parlamento teve como contrapartida o engrandecimento do Executivo.5) 0 caso brasileiro: medida provisória e lei delegada N o Brasil. as câmaras dão plenos poderes ao Executivo. o an­ tigo Executivo passou a ser visto como poder governamental. p o r parte deste..

outorgada por Getúlio Var­ gas. se não forem convertidas em lei no prazo de sessenta dias. a Consolidação das Leis do Trabalho e a Lei de Introdução ao Código Civil. sem retroatividade. valendo lembrar que inú­ meras leis importantes da época . com esta. II . ou não desejan­ do comprometer-se com o todo-poderoso Governo Militar. o texto seria tido por aprovado. mesmo que rejeitado pelo Congres­ so. O decreto-lei surge no Di­ reito brasileiro com a Constituição autoritária de 1937. não havendo deliberação. assim dispondo o art. o Congresso Nacional o aprova­ rá ou rejeitará. nos seguintes termos: Art.. Por outro lado. a Lei de Contravenções Penais. nos termos do § 7°. já que o decreto-lei tem força de lei.yo Código Penal. § 2° A rejeição do decreto-lei não implicará a nulidade dos atos praticados durante a sua vigência. Este passou a legislar sozinho. por decreto legislativo. caput e § 3o: Art. as relações jurídicas delas decorrentes. de uma lei em sentido material. e desde que não haja aumento de despesa. pois a negativa do Legislativo tinha efeito meramente ex nunc. em meados dos anos de 1980.3 0 Estado 49 A natureza do decreto-lei é a de um diploma híbrido entre o decreto (mero ato administrativo) e a própria lei. com força dc lei. no § I o. sem manifestação. Assim. 62. o Código de Processo Penal. Em caso dc relevância c urgência. g. não houver deliberação. o Presidente da República poderá ado­ tar medidas provisórias. Repudiado na Constituição de 1946. e III . v. se. não podendo emendá-lo. seguindo processo legislativo próprio. os atos praticados durante a vigência do decreto-lei se tornavam plenamente vá­ lidos. prorrogável.finanças públicas. Ora. nesse prazo.criação de cargos públicos e fixação de vencimentos. Trata-se.segurança nacional. que terá vigência imediatamente. conforme advertia o § 2o. desde a edição. ou seja. emen­ dada em 1969. culminaria na Constituição de 05.. em resumo.são decretos-lei.ainda em vigor . devendo submetê-las dc imediato ao Congres­ so Nacional. tem força dc lei. inclusive normas tributárias. § 1° Publicado o texto. ficando o decreto-lei definitivamente aprovado por decurso de prazo. mediante decretos-lei.] § 3° As medidas provisórias. não dese­ jando os parlamentares aprovar medidas eventualmente antipáticas. devendo o Congresso Na­ cional disciplinar. poderá expedir decretos-leis sobre as seguintes matérias: 1 . ou seja. que não sendo o decreto-lei aprovado em sessenta dias.10. em casos de urgência ou de interesse públi­ co relevante. a redemocratização do País. velada sucesso­ ra do decreto-lei. ressalvado o disposto nos §§ 11 e 12 per­ derão eficácia. pois embora não tenha forma de lei. 55. o decreto-lei retornou na de 1967. uma vez por igual período. [. . deixavam aquele pra­ zo fluir in albis. O Presidente da República. Observa-se. dentro de sessenta dias. o texto será tido por aprovado. na medida provisória. 62.1988 e.

§ 2° Os decretos-lei deverão ser imediatamente submetidos a debate e votação pela totalidade dos membros do Congresso de Deputa­ dos. ele será apresentado à Sua Majestade. em matéria de decretos-lei fi­ cava limitado a uma atitude passiva: aprovava o texto. mediante o procedimento de urgência [. O Congresso deverá pronunciar-se expressamente. o que refor­ çava.] § 1° Sc um projeto dc lei. para o qual o Regulamento estabele­ cerá um procedimento especial c sumário. convocado para tanto. 86 da Constituição espanhola. o Governo adotar. pelo menos um mês antes do término da sessão legislativa.]. de 18. prazo este prorrogável (§ 3o).]. salvo se a Câ­ . Os decretos perderão todo o efeito desde o início. as quais. as Cortes poderão faze-los tramitar como projetos dc lei. 55. As Câmaras poderão. deverá apresentá-las no mesmo dia para sua conversão em lei às Câmaras. ao regime das Comunidades Autôno­ mas. 1° [. já que se esta não for apreciada pelo Legislativo perderá sua eficácia “desde a edição. e o I o da Lei britânica sobre o Parlamento. nem ao Direito Eleitoral Geral.. aprovado pela Câmara dos Comuns. for enviado à Câmara dos Lordes. que a atual Constituição favoreceu o Poder Legislativo. como vimos. o Governo poderá editar dispo­ sições legislativas provisórias... na Constituição anterior. sobre matéria fi­ nanceira... todavia.08. ou o rejeitava sem poder emendá-lo. 86. 77. sob sua responsabilidade. de imediato. as quais tomarão a forma de decretos-lei e não poderão conflitar com as instituições fundamentais do Estado. Percebe-se. constatam-se institutos assemelhados ao decreto-lei e à medida provisória. o Poder Executivo. sempre no prazo de sessenta dias contados de seu recebimento. se não for convertida em lei no prazo de sessenta dias”. com a medida provisória a situação se inverteu. Art.] § 1° Em caso de extraordinária e urgente necessidade. consideravelmente. Entretanto. sem delegação das Câmaras. Art. No direito comparado. se não forem convertidos cm lei (convertiti in legge) dentro dos sessenta dias de sua pu­ blicação. sobre sua convalidação ou derrogação. Além disso. se não estiver reunido. § I o). Nesse sentido.. cuja vigência era imediata (art. dispõem os arts. Quando. claro. serão devidamente convocadas e reunir-se-ão dentro dos cinco dias seguintes. [. mesmo dissolvidas. ditar decretos com força de lei ordinária.1911: Art. pois este. dentro de referi­ do prazo. 77 da Constituição italiana. regular mediante lei as relações jurídicas sur­ gidas em virtude daqueles decretos que não forem convertidos em lei [. e nesta não for aprovado sem emendas dentro do mês seguinte. § 3° Durante o prazo estabelecido no pará­ grafo anterior. com variantes compatíveis com as peculiaridades de cada ordem jurídica. no prazo dos trinta dias seguintes à sua promulgação. os direitos. deveres e liberdades dos cidadãos sob as normas do Título Primeiro.50 Teoria Geral do Estado Comparemos o decreto-lei da Constituição de 1967 e a medida provisória da Lei Magna de 1988. Não pode o Governo.. medidas provisórias (provvcdimcntiprov- visori) com força de lei. em casos extraordinários de necessidade e de urgência. a rejeição de um de­ creto-lei não implicava nulidade dos atos praticados na sua vigência..

entretanto. Wilson. Teoria geral do Estado. Não há Estado sem poder soberano. São Paulo. Teoria geral do Estado. Fnfim. no âm­ bito externo. ed. pois a soberania é a qualidade suprema do poder estatal. Assim. Rio de Janeiro. uma relação em que a igualdade se faz presente. indepen­ dentemente dc atos formais de reconhecimento. independentemente do voto da Câmara dos Lordes.3) Soberania Bibliografia: a za m b u ja a c c io l i. Curso de teoria do Estado. quando participa da sociedade mundial. mais recentemente. Rio dc Janeiro. Porto Alegre.3 0 Estado 51 mara dos Comuns decidir em contrário. com efeito. com os demais. não bastando a supremacia eventual ou momentânea. pois.. e converter-se-á em ato do Parlamento. o que se exige c que a sociedade polírica tenha condições dc assegurar o máximo de eficácia para sua ordenação num deter­ minado território c que isso ocorra dc maneira permanente. Darcy. Pedro. observa o professor Dalmo de Abreu Dallari: O mundo é uma sociedade de Estados. 1982. ed. Sugestões Literárias. o poder so­ berano reside nos órgãos dotados do poder de decidir em última instância. significando a inexistência de uma ordem jurídica dotada de maior grau de eficácia. realmen­ te. apesar de todas as restrições dos teóricos e dos próprios líderes políticos.. o Estado é uma pessoa jurídica de direito público internacional. Saraiva. 1968. São Paulo. cada uma mantém. Pau­ lo. ed. Elementos de teoria geral do Estado. Saraiva.. ed. No âmbito interno. o que distingue o Estado das demais pessoas ju­ rídicas de direito internacional público é a circunstância de que só ele tem soberania. do francês souveraineté. Forense. é ela . Esta. na qual a integração jurídica dos fatores políticos ainda se faz imperfeitamente. 6. d a l l a r i. que do ponto de vista interno do Estado é uma afirmação de poder superior a to­ dos os demais. A soberania é o atributo do poder do Estado que o torna independente no plano interno e interdependente no plano externo. o poder soberano é um elemento essencial do Estado. As duas palavras latinas das quais parece derivar. b o n a v id e s . 1964. Sahid. 6. Forense. Com efeito. . me­ diante sanção real. ficando na dependência da comprovação dc possuir soberania. 28. o reconhecimento dc um Estado como tal não obedece a uma regulação jurídica precisa. O termo soberania deriva do latim medieval superanus e. 2009. 4. Teoria geral do Estado. Globo. Dalmo de Abreu. 1986. Na prática. 1985. superanus e supremitas. sa l v e it i n et t o . o vocábulo souveraineté são. sob o ângulo externo é uma afirmação de independência. Referindo-se à posição do estado na ordem internacional.. Para o jurista. 13. São Paulo. maluf. Ciência política.

Daí a assertiva do professor Pedro Salvetti Netto: Assim como todas as sociedades possuem normas. a partir do século XI da Era Cristã. A Antiguidade já intuía a diferença entre as leis que estruturavam a organiza­ ção política e as que eram criadas por órgãos do governo. dentro de uma rigidez relativa. nas situações em que houver poder de decisão em úl­ tima instância. fundava-se numa economia agrária. Surge a classe dos senhores feudais. perdurar independentemente dos demais. como as que estabeleciam a cidadania. do poder político. sujeitam-se ao mando que caracteriza a sociedade po­ lítica. sendo este o único critério distintivo do Estado. Vimos. eram superiores às demais. a soberania é a diferença específica dc tal governo. e nas suas lides impunha seus costumes e suas leis. Em sua obra A política. surge o Feudalismo. social e econômico. estes tam­ bém. Politicamente. como resultado des­ te marco histórico. Séculos depois. O feudalismo. Haverá soberania nos casos em que houver poder de decisão em última instância. Aristóteles faz tal distinção. na qual cada castelo feudal buscava. no limite de seu território. e a dos servos da gleba. e no direito público de Ate­ nas havia a noção de que certas leis pertinentes à própria estrutura política da polis. se sobrepõem àquelas emanadas de outros organismos sociais. Na Alta Idade Média. o poder não se conser­ vou centralizado como no Império Romano. mas as leis. não reconhecendo nenhum outro poder que se lhe iguale. que a soberania é um atri­ buto essencial. mas fragmentou-se em miríades de se­ nhorios feudais. já havia uma dis­ tinção fugaz entre as leis constitucionais e as leis que poderíamos denominar leis ordinárias. com as invasões dos bárbaros no Império Romano. de um lado. concernentes à estrutura fundamental da cidade-Estado ateniense. haverá soberania. uma parcela do poder político. isto e. por direito próprio. Naquele pe­ . sistema político. Tal superioridade era garantida por um procedimento que poderia ser tido como o ancestral da nossa ação direta de inconstitucionalidade.52 Teoria Geral do Estado que distingue este poder daquele observado nos grupos sociais condicionados pelo Estado. Cada senhorio possuía. Que vem a ser um estamento? É uma ca­ mada social que compete com outras. Graças à soberania. uma qualidade do poder do Estado. é uma criação do Di­ reito Constitucional moderno. por outro lado. formada por estamentos. fenôme­ no que assinala o início da Idade Média. Se o go­ verno é uma das causas formais do Estado. o Estado torna-se uma sociedade condicionante. mesquinhamente. ao pas­ so que as sociedades menores tornam-se condicionadas pelo Estado. Por intermédio daquele procedimento era possível im­ pugnar a criação de leis que contradissessem as normas fundamentais. é seu traço identificador. que se originam do Estado. enfim. E isso porque o Estado é soberano. geralmente se pensa. vale dizer. que. a sociedade feudal converteu-se em estamentária. Conclui-se disso que. de outro. não dispensando o poder.

4.1) A doutrina pactista medieval Quanto à titularidade da soberania. John Locke e Jean-Jacques Rousseau. se não existisse a sociedade. mas os autores que difundiram a ideia do contrato social viam. mas. o clero e o povo formaram estamentos que lutavam para ascender politicamente e exercer o poder soberano. 4. O consentimento popular. os homens abdicariam de sua liberdade em favor de um monarca. Para evitar tais males. e nos três mais significativos autores da doutrina contratualista: Thomas Hobbes. Omnis potestas a Deo sed per populum. as lutas religiosas causadas pela Reforma ameaçaram destruir a própria sociedade civil. Mais tarde. O monarca não seria parte no contrato . Afirmava Hobbes que. para acentuar-se nos séculos XVII e XVIII. precursora do Estado absolutista. mas a doutrina do contrato social via em tal acordo de vontades a fonte da própria sociedade. autor de uma obra intitulada Os seis livros da República. tal perigo foi conjurado com o surgimento de uma sociedade intitulada “Os Políticos”. encabeçada por Hugo Grócio. são inúmeras as doutrinas a respeito. Para a doutrina pactista medieval a fonte da sociedade era a inclinação natu­ ral do homem. enfim. soberano. Supremus. dc tal poder. cuja função seria manter a paz. Tal consentimento importaria num verdadeiro pacto. isto é. Daí a expressão soberania. neste contrato. os homens estariam em guer­ ra continuamente: o homem seria lobo do próprio homem (homo homini lupus). ou sovrain (na França). Então. que pregava a necessidade de um poder supremo. na França. tinha um intermediário: o povo.3 0 Estado 53 ríodo histórico o rei. era a sociabilidade inata do homem. que reinasse sobre os litigantes. como predicava Santo Tomás de Aquino. Há uma diferença sutil entre a doutrina pactista medieval e a doutrina do con­ trato social: A doutrina pactista medieval via no acordo de vontades a fonte do go­ verno. apenas. a própria fonte da sociedade. A doutrina pactista medieval ensinava que todo o poder vem de Deus: Omnis potestas a Deo. tornava-se o estamento que passasse a exercer seu poder soberano sobre os demais. Nes­ sa sociedade pontificou Jean Bodin. como já vimos.3. sobre toda a nação. a nobreza. o chamado pactum subjectionis.3. seria a fonte do poder político. “Todo poder vem de Deus. por intermédio do povo”. que se desenvolve a partir do século XVI. tacitamente manifestado. A doutrina do contrato social pode ser ana­ lisada na célebre Escola do Direito Natural e das Gentes.2) A doutrina do con trato social A doutrina pactista medieval não deve ser confundida com a do contrato so­ cial.

aristocracia e demo­ cracia. tem uma importância prática muito maior. todo cidadão. Com a Revolução Francesa. com exceção da democracia. portanto. por alguns ou. ela é. entretanto? Para conceituar a nação. Rousseau afirma que o poder só é le­ gítimo quando se origina da vontade de todos os que serão governados. parte final). comunidade limita­ . os quais não se confundem com os interesses permanentes das gerações que se sucedem no tempo. pois o direito de votar não implica um dever de votar. se o fundamento da soberania fosse a vontade do povo. legitimidade somente se houver iden­ tificação entre governantes e governados. o poder estatal deverá estar em mãos de todos os indiví­ duos que compõem o povo. Governo tão perfeito não convém aos homens” (O contrato social. então. e a da sobe­ rania nacional. tomar as decisões e aplicá-las: “Se hou­ vesse um povo de deuses. Povo. por um único homem. presente. Vale notar. denominaríamos estipulação em favor de terceiro. as decisões fundamentais de­ vem partir da vontade geral. que a ideia rousseauniana de que o governo só é legítimo quando todos os cidadãos participam da tomada das decisões fundamentais deve ser apreciada em termos. seria uma comunida­ de concreta. que a participação política do cidadão não deve ser compulsória. então. que as três formas básicas de governo. já se vê. Conclui-se. no Estado consti­ tuído legitimamente. governar-se-ia democraticamente. Esta doutrina de Rousseau. mesmo. na verdade. em direito civil. Capítulo IV. Por isso Rousseau não acreditava na representação política e refugava os chamados representantes do povo. Siéyès começa por dizer que. Para que o Estado seja legitimado. Afirma Siéyès que o poder do Estado não é exercido em nome do povo. Não pretende Rousseau que todo o povo tome e execute as decisões. Cada cidadão é deten­ tor de uma fração da soberania. Haverá. sendo esta a vontade dos cidadãos sobre problemas de interesse comum.54 Teoria Geral do Estado social. vale dizer. a qual. Livro III. em tal concepção. porém. Por outro lado. por via de conseqüência. mas em nome da nação. indelegável. O que é a nação. poderiam ser legitimadas. Haveria um ato que. mas a aplicação das medidas decorrentes desta vontade pode ser feita por todos. sendo a soberania uma prerrogati­ va personalíssima. simultaneamente. seria o conjunto das pessoas con­ temporâneas que formaria o elemento humano do Estado num dado momento. seria mero beneficiário de uma delegação. é parte da soberania. Ela não se confunde com a doutrina da soberania nacional. são consagradas duas doutrinas de relevo sobre a soberania: a da soberania popular. Considera Rousseau. Segundo Rousseau. Em sua obra clássica O contrato social. em face disso. Ora. é a doutrina da soberania popular. Se o Estado possuir 10 mil cidadãos. cada um des­ tes será titular da fração correspondente da soberania. de Emmanuel Joseph Siéyès. numa sociedade historicamente considerada. porque somente um povo de deuses poderia. é um soberano. segundo Jean-Jacques Rousseau. todos os cidadãos devem participar da formação da von­ tade geral. com efeito. historicamente considerada. preconizada por Emmanuel Jo­ seph Siéyès (1748-1836). existem inte­ resses momentâneos. monarquia.

mas apura-se. seria substituído. todas as Constitui­ ções da França revolucionária adotaram o chamado sufrágio censitário. mas um dever. o sufrágio universal. percebe-se que a doutrina da soberania nacional originou. Em face disso. incumbido de repre­ sentar. se é a nação quem vai selecionar o corpo eleitoral destinado a eleger seus represen­ tantes. esta foi identificada com o povo. os represen­ tantes da nação? Tais representantes serão escolhidos por aqueles que a nação de­ signar como eleitores. não uma democracia com fundamento na nação. com total independência . Antes da Revolução Francesa. em face do progressivo declínio dos parlamentos. fica rompido um possível vínculo jurídico entre eleitor e eleito. Já se vê que o representante da nação não tem instruções de seus eleitores a cumprir. totalmente divorciada dos interesses populares. en­ sejado por fatores que não vêm. O destaque dc maior importância no raciocínio de Siéyès é que. com total liberdade e sem a pressão do eleitorado. nem contas a prestar. neste país. a menos que infrinja a Constituição. os interesses permanentes das gerações em sucessão poderiam ser ir­ remediavelmente lesados. nos termos da Constituição. Somen­ te em 1848 foi instituído. é evidente que ela pode restringir ou ampliar o número de participantes do sufrágio. afirmando-se que o povo é o soberano (!). en­ tretanto. em verdade. à balha. e não seus eleitores. como na doutrina da soberania popular. É preciso. se não cumprisse sua obrigação. Então os representantes da nação serão eleitos pelo povo todo. mas o par­ lamento. mesmo porque. que a nação seja representada por aqueles que atuem em seu nome. sendo a representação fundada na Constituição. as doutrinas da soberania popular e da soberania nacional acabaram por se fundir.3 0 Estado 55 da no tempo. é uma entidade imaterial. As gerações que se sucedem cons­ tituem a nação. O supremo poder do Estado. do pensamento do Siéyès. como se tornara difícil definir a nação. conforme institucionalizado em lei. pelo qual o representante de cada estamento comparecia às reuniões apenas para formalizar a vontade de seus representados perante o gover­ no e. pas­ sando a representação política a ter natureza institucional e não consensual. vale dizer. e levando-se em conta que os representantes da nação representam esta. Modernamente. entretanto. deve estar dirigido aos interesses permanentes da sociedade. entidade espiritual que é o fundamento da soberania. ainda assim sem parti­ cipação das mulheres. segundo os interes­ ses permanentes e definidos da sociedade. Como fazer valer a sua vontade? Diretamente. havia o mandato imperativo. Com Siéyès. adverte Siéyès. Disso decorre que o voto não representa um direito. Além disso. por ora. ou por uma parcela deste. mas uma oligarquia parlamentar. por influência do próprio Siéyès. o representante do povo passou a ser representante da nação. e não na vontade do eleito­ rado. Quem escolherá. nos termos. os interesses permanen­ tes da nação. seria impossível. tão somente. Com o passar do tempo. um munus. porém. entretanto. A res­ cisão da investidura do representante da nação não parte mais da vontade do elei­ tor. então. não sendo de todo falso afirmar que soberana não é a nação. A nação.

o eleitorado aos seus representantes. apoiando a política . mas três órgãos. ainda em vigor. há quem afirme que a soberania pertence ao próprio Estado. no Congresso norte-americano. podendo estes scr afastados do cargo pelos próprios elei­ tores. o comunista soviético e o capitalista ocidental. basicamente. uma reação contra a chamada Doutrina Truman. três Poderes. “su­ perior”. pelo próprio Truman. Só há um Direito: o Direito Positivo. mesmo. Depreen­ de-se disso que não há limitação ao poder do Estado. durante a chama­ da “Guerra Fria” conseqüência imediata da Segunda Guerra Mundial.56 Teoria Geral do Estado para os seus representantes. Não há que falar. como a da extinta União Soviética e. como admitir duas entidades “soberanas”. o poder soberano delega atribuições. 55 e 56 da Constituição brasileira. Se o adjetivo “soberano” significa “supremo”. Não existe. buscando vincular. por exemplo. em face da ausência da coercibilidade. É o que se constata. criado e imposto pelo Estado. a soberania é una porque não pode existir mais de um poder soberano num mesmo Estado. como o fazem Georg Jellinek e Hans Kelsen. e que se consagra na Constituição brasileira. portanto.3. divulgada em mar­ ço de 1947. características que lhe são es­ senciais. Vale notar que a soberania é una e indivisível. a doutrina de Brezhnev foi. são recentes. 4. um direito natural e. A ideia de soberania “limitada” foi afirmada pelo líder soviético Leonid Brezhnev em 1968. Na verdade. N ão há. para evi­ tar a desintegração do império soviético. para alguns. 2°. e que preconi­ zava a intervenção dos Estados Unidos naqueles Estados que. consistindo. em poderes do Es­ tado. de imediato. 53. este é criado por aquele. Como adverte Sahid Maluf. embora desaparecidas. cada qual atuando. perante o eleitorado. concomitantemente. que fruiriam de uma liberdade ou soberania meramente relativa. O Estado precede o Direito. no rí­ gido controle político dos Estados socialistas “satélites” da hoje extinta União So­ viética. um Direito Internacional. simplesmente. por ocasião da invasão militar da Checoslováquia pelas tropas soviéticas. estatal. reparte compe­ tências. de forma soberana.3) A doutrina da soberania limitada Trata-se de uma doutrina formulada pela União Soviética. numa mes­ ma sociedade política? A indivisibilidade da soberania é corolário de sua unidade. Se. que. a soberania pode ter por fundamento o povo (Rosseau) ou a nação (Siéyès). em verdade. caracteriza­ da por uma tensão permanente entre os dois grandes blocos ideológicos vencedo­ res. Constituições modernas volta­ ram-se para o mandato imperativo. art. Em princípio. da leitura conjunta dos arts. portanto. como na célebre tripartição de Poderes que nos vem de Aristóteles a Montesquieu. juridicamente. inerente à norma de direito positivo. a de Cuba. na esfera de sua competência. Como reação aos princípios da soberania nacional. mas não divide a soberania. Assim fizeram algumas Constituições modernas.

entretanto. sem considerar as conveniências sociais (Enciclopédia de la políti­ ca.3 0 Estado 57 norte-americana. em suas relações jurídicas. especialmen­ te o especulativo. 1985. 4. escolhendo os Estados que adotará como fonte de renda. em ques­ tão de segundos salta as fronteiras dos Estados. 1939. a partir da célula familiar e o municí­ pio. Como observa Rodrigo Borja. sendo disciplinado em suas relações de amizade. Goffredo. São Paulo. Com efeito. Acadêmica.. M ax Limonad. o homem não apenas age. São Paulo. então. México.. sociedade condicionante das demais e dotada de poder so­ berano. Curso de teoria do Estado. que dispõem da economia mundial em favor de seus interesses. no notável incremento do turismo internacional. cortesia e. passando por um processo de integração paulatina denominado socialização. principal­ mente. sal- Pedro. O direito quântico. o próprio Estado. na eliminação de barreiras fiscais em favor deste. Disciplinando as relações jurídicas . emigrando cm busca de maior lu­ cro. Conforme suas conveniências. move-se com espantosa rapidez e total liberdade. é imediatamente sancionado com a desinversão. forçoso reconhecer que o poder político dos Estados vem a ser superado pela planificação econômica das grandes empresas multinacionais. São Paulo. no fortalecimento das empresas multinacionais. o capital. formando-se o pânico nas suas bol­ sas. Impossível evitar. mas tam­ bém interage.4) Ordem jurídica Bibliografia: vetti n e t t o . sendo seu fundamen­ to. 1984. les j r kelsen. no fluxo internacional de capitais.3. O homem é um ser social. Quando um Estado deixa de oferecer condições vantajosas para este capital. 1997). mesmo. a perda do controle de sua economia e criar alterna­ tivas independentes da especulação internacional. Assim. nesta nova ordem econômica interna­ cional o capital criou sua própria “soberania” . ed. t e l - . Hans. na internacionalização da tecnologia e.4) Globalização e soberania O fenômeno da globalização da economia mundial se expressa na abertura dos mercados. Ao viver comunitariamente. 6. formando. 4. manter a paz social. Em sociedade. no livre comércio. diga-se de passagem. o poder po­ lítico tem por missão principal ordenar a vida em sociedade. Assim. Saraiva. estas garantidas pelo Estado. ele alcança seus objetivos individuais e satisfaz sua tendência gregária. estivessem ameaçados por minorias ativistas paramiiitares prósoviéticas. Fondo de Cultura Econômica. Teoria pura do direito.

conferindo-lhe uma direção con­ sagrada por determinada concepção dc ordem. Por isso. o vocábulo norma. portan­ to. Não houvesse ordem jurídica e teríamos o caos. E o que é uma norma? Norma é uma diretriz de conduta socialmente estabelecida. para que alguém faça ou deixe de fazer algo. o grande filósofo da Antiguidade Clássica. norma es­ tatal dotada de cocrcibilidadc. tão somente. oriente. afirmou que. a sim­ ples ameaça. de origem sânscrita: oryque significa diretriz. ao contrário de coação (coatividadc). quantas normas. Alguns filósofos do Direito não admitem a existência da desordem. Curiosamente. . algo que é direito. a vida em sociedade? Mediante a imposição de normas jurídicas. e não sinuoso. Mesmo os regimes políticos mais despóticos e injustos não podem deixar de se amparar num mínimo de legalidade. por exemplo. de afeto. Coercibilidade deriva de coerção. incerto. E como o Estado ordenaria. Assim. de caráter religioso e. pelo Estado. uma ordem inconveniente. a desordem seria. Veja-se que o termo norma traz. forma. restando evidente que a coerção somente pode ser exercida quando au­ torizada pela norma jurídica. não poderão. coativamente. daí a analogia. jurídicas. por exemplo. jamais. conexos. são dotadas de coercibilidade. a legítima defesa. nortear. posto. o jus positum era o direito criado pelo Estado e. ideológico. com atenção. de origem latina. já se disse. ficaremos impressionados. pois sen­ do o conceito de ordem eminentemente subjetivo. é preciso que existam normas que definam o que pode e o que não pode ser feito ou deixado de fazer. ele sempre está presente cm ter­ mos análogos.58 Teoria Geral do Estado entre as pessoas. principalmente. que denomina a pressão meramente psicológica. mas não essenciais. Então. direito imposto. deve haver uma ordem imposta na vida em sociedade. podendo ser definida como a unidade na multiplicidade ou a conveniente disposição de elementos para a realização de um fim. das mais variadas naturezas. entretanto. violência corporal. isto é. Quanto à norma jurídica. formar. como não poderia deixar dc ser. O vocábulo ordem traz consigo um radical antiquíssimo. por exemplo. vale dizer. Viven­ do em sociedade. significava régua. Para que haja or­ dem. possibilidade do emprego da violência física (vis materialis). o mesmo ra­ dical sânscrito or. Não foi sem razão que Aristóteles. Normas de polidez. rumo a seguir. em caso contrário eles próprios naufragariam na desordem e na insegurança. ordem implica a ideia de forma. cumprimos durante nosso cotidiano. é uma diretriz dc con­ duta socialmente estabelecida pelo direito positivo. a desordem. esqua­ dro. o Estado ordena a vida humana. reto. Es­ tas. orientar. dispensar a ordem jurídica. Se observarmos. positivo. con­ tornar. imposto. os homens poderão dispensar uma série de bens úteis. Daí direito positivo. “onde houver sociedade haverá direito” (ubi societas ibi jus). encontrado na palavra ordem. No direito romano.

no topo da qual se acha a Constituição. ordenado. formal. entretanto. convenientemente. uma sentença judicial somente são válidos se esti­ verem em conformidade com os demais diplomas legais. As normas jurídicas não sc acham soltas. As normas jurídicas de uma ordem jurídica não estão no mes­ mo plano de eficácia. Mas quando elas forem dispostas. formam uma multiplicidade que não satisfaz. parágrafos. teremos. e seu instinto pernicioso somente pode ser controlado por um poder político severo. Foram Hans Kelsen e Adolf Merkel que interpretaram a ordem jurídica como uma pirâmide escalonada. Esta ordem se formaliza. todas as normas jurídicas de uma ordem jurídica consistem no elemento multiplicidade. Uma norma só é válida se não conflitar com a ordem jurídica da qual faz parte. O complexo de normas ju­ rídicas em vigor numa sociedade não sc acha disposto mecanicamente. Qual o fundamento desta ideia? Se abrirmos uma coletânea de legislação e a analisarmos detidamente. mas não idêntica. fornecido pela razão. vale dizer. O que vem a ser. um conjunto harmônico. na tela em branco. a fim de iniciar a pintura da paisagem que contempla. ordenadamente. iso­ ladas umas das outras. Desta derivam todas as demais normas. A ordem jurídica é uma estrutura. no seu livro célebre intitulado Leviatã. Assim. em desconexão. embora formando o elemento multiplicidade. a ordem jurídica bem se assemelha às notas de uma melodia. com os demais. sem dúvida. sob o im­ pério da Constituição. necessariamente. orgânico. que. Sim. portanto. vere­ mos que ela apresenta uma estrutura. Já se percebe que a ordem jurídica é uma estrutura. Vejam a paleta na qual um pintor derrama suas tintas. a unidade. uma estrutura? É uma dispo­ sição harmoniosa das partes para a realização do todo. que o homem é lobo do próprio homem (horno homini lupus). Mas é preciso que haja outro elemento neste conceito. isto sim. um contrato. Ora. um preâmbulo. integra o conceito de ordem. complementado o conceito de ordem. uma melodia pois. uma característica sui generis: a hierarquia entre as normas. direta ou indiretamente. toma forma de normas jurídicas. Ela possui. Uma lei. umas dependem de outras. uma ordem que pareceu conveniente ao le­ gislador. contudo. Cada um dos dispositivos se relaciona. enfatizava. Inicialmente. mas sim de modo organizado. dc estrutura. carecem de unidade até que o compositor lhes dê uma dis­ posição estética conveniente. qual seja. am­ parado numa ordem jurídica férrea. sem­ . incisos e alí­ neas. por si só. estão. pois possui uma característica que lhe é essencial e que. Essas tintas estão em desali­ nho. à disposição ordenada dos capítulos de um livro. dispostas hierarquicamente. o artista. o inglês Thomas Hobbes. tudo disposto harmoniosamente. Pois bem. como vimos. de força. Várias notas musicais emi­ tidas ao léu não formam.3 0 Estado 59 Um dos maiores teóricos do absolutismo monárquico. contendo epígrafe. e não mera soma de partes simplesmente justapostas. umas complementam outras. o ser humano é perverso por índole. a distingue das outras: a hierarquia entre suas partes (normas) integrantes. a ordem jurídica é uma es­ trutura análoga a uma estrutura musical ou plástica. a or­ dem jurídica não é idêntica às demais estruturas.

é preciso fazer uma distinção: somente a Cons­ . como última fonte. Direito objetivo é o conjunto de todas as normas jurídicas em vigor no Estado. Numa passagem de grande vigor intelectual e de cla­ reza. Essa norma fundamental constitui. Conforme a espécie de norma fundamental. como o particular se subsume ao geral. o qual possui uma determinada qualidade. na verdade. por isso. formula-a a Teoria Pura do Direito pela maneira seguinte: o que é que estabelece a unidade de uma pluralidade de nor­ mas jurídicas? Por que razão uma determinada norma jurídica pertence a um certo sis­ tema dc Direito? Uma pluralidade dc normas constitui uma unidade. o Código Civil. con­ forme a natureza do princípio de validade. de compreender que as diversas normas da moral já se acham compreendidas numa nor­ ma básica. mediante uma opera­ ção lógica. derivam da norma fundamental da veracidade. “não deves enganar”. E as normas obtêm esta qualificação concreta pelo fato de estarem relacionadas com uma norma funda­ mental. da mesma maneira que o particular está contido no geral e que. Trata-se. cuja fonte é o Estado. formam um todo denominado direito positivo. “deves au­ xiliar o teu próximo em caso de necessidade” etc. As normas da primeira valem por si. o direito impositivo. direi­ to objetivo.é um sistema de normas jurídicas. Suponha­ mos a seguinte norma fundamental: “deves amar o próximo”. nem um decreto regulamentar pode dispor de modo contrário à lei que ele próprio está regulamentando. a cujo conteúdo está submetido o conteúdo das normas constitutivas da or­ dem em questão. p. qual é a norma fundamental de um determinado sistema de moral. 60-1) sintetiza seu pensamento a respeito: O Direito. uma ordem. é porque a sua validade pode ser referida à nor­ ma fundamental dessa ordem. os contra­ tos e os atos administrativos. isto é. podemos referir-lhe uma enorme quantidade de normas derivadas: “não deves prejudicar os outros”. se a sua validade puder ser referida a uma norma única como último funda­ mento dessa validade. enfim.a ordem jurídica . procedendo a uma dedução do geral para o parti­ cular. como ordem . somente limita­ das por outra norma estatal. a conduta por elas prescrita ao homem impõe-se pelo seu conteúdo. podemos distinguir duas espécies de ordem (sistemas normativos). O conjunto de todas as normas jurídicas no Estado chama-se.60 Teoria Geral do Estado pre hierarquicamente. um sistema. de evidência imediata. Porém. as normas “não deves mentir”. Não nos interessa saber. que lhes confere essa validade. imposto. Por exemplo. “deves cumprir tuas promessas” etc. E se uma norma pertence a uma determinada ordem. quer dizer. posto. Assim. da norma fundamental. Hans Kelsen (1939. São desta espécie as normas da moral. As normas jurídicas criadas pelo Estado são incontrastáveis. aqui. Essas normas jurídicas. então. a unida­ de da pluralidade de todas as normas que constituem uma ordem. a Constituição não pode ser ferida por uma lei ordi­ nária. E a primeira pergunta a que é preciso responder. isto é. todas as normas particulares da moral podem fazer-se derivar. são normas de direito objetivo a Constituição.

Igual­ mente. O. C. Conceito e natureza da sociedade política. 1979. Coimbra. t e l i . a palavra valor quando empregada corretamente. Curso de teoria do Estado.. souza . A doutrina social da Igreja. Armênio Amado. a não ser que se falsifique o senti­ do da palavra valor. Não se pode dar a uma coisa o nome de valor. 6.. m o n t e s q u i e u . g a l v Ão f e r r e ir a f il h o e Curso de direito constitucional. Goffre- Bem é tudo o que seja objeto do desejo humano. São Paulo. . São Paulo. o Código Penal e outras leis oriundas do Estado formam o direito positivo. ed. Mas não é um valor em si. vres completes.. Paulo kelsen. Oeli­ Encíclica Quadragésimo Anno. salvetti n e t t o . . o Código Civil.3 0 Estado 61 tituição. ed. porque se impõem a todas as outras. mas somente as normas jurídicas provenientes do Estado são normas de direito positivo. São Paulo. Hans. 1981. Afirmar que a san­ tidade é um valor e o mesmo que afirmar que uma joia e um valor. 1946. São Paulo. d a l l a r i. . . 11. l a s k i. Armênio Amado. Sucessor. Harold J. São Paulo. As coisas não constituem bens em si mesmas. Ci. 1979. Saraiva. . São Paulo. Os regimes políticos. 1969. 3. Todas as normas jurídicas são de direito objetivo. Mauricc. São Paulo. Moderna. 1966.5) Causa final: o bem comum Bibliografia: m oncada b ig o . c a b r a i.. o que realmente queremos dizer é que os bens de valor estão no cofre. 1981. Coimbra. São Paulo. São Paulo. - verger . O direito quãntico. ru it e n p io x i. Hachette. Uma coisa não pode ser um va­ lor. Os direitos sociais nas constituições. 1981. Braga. Teoria pura do direito. 4. a santidade é um bem de valor. São Paulo. Dalmo dc Abreu. Mas uma joia não é um valor. É uma coisa valiosa. A santidade tem va­ lor. por exemplo. Manoel Gonçalves.s do. É um bem a que se atribui valor. Rerum Novarum e Quadragésimo Anno. não e um valor. Difusão Européia do Livro. P. . ed. df. A democracia possível. Luís. 1982. sendo necessário que se lhes atribua um valor. Q uando dizemos os valores estão no cofre. Problemas de filosofia política. A santidade (ou o santo). ed. José Pedro Galjr vão de. Paris.f. du 1963. Saraiva. Saraiva. Que é valor? É a importância que se atribui a um bem. 1980. Zahar. um ideal mais alto do que os ou­ tros ideais. elucida o professor GoffredoTclles Júnior: De fato. Neste sentido. A doutrina social da igreja segundo as encíclicas Pedro. mas somente para quem vê nela um ideal de vida. Rio de Janeiro. O futuro do Estado. São Paulo. O mani­ festo Comunista de Marx e Engels. 1978. Nem mesmo seres ideais podem ser valores. Sucessor. 4. em seu sentido pró­ prio. Pierre. 1949. M ax Limonad. 1985. 1859. Ela e um bem. não designa a essência e a existência de coisas.

perío­ do de esplendor do Iluminismo. Conclui-se dessa breve digressão introdutória que o conceito de bem comum varia no tempo e no espaço. quando o intelecto valora um fato. a mera conservação da ordem social. evi­ dentemente. há uma liberdade de época de fartura que não é. bem comum era. nem sempre tal finalidade é alcançada. Por outro lado. desta formulação. então. sem ferir. Embora a ordem jurídica tenha por objetivo final o bem comum. em que o bem comum foi definido como a ordem jurídica. e para tanto deve atuar inci­ sivamente.1) 0 liberalism o e 0 bem com um Absoluta e unanimemente. enquanto válida. concebe e ado­ ta as normas jurídicas c morais. absolutamente. todos os sistemas políticos se declaram adeptos da liberdade individual. inquestionavelmente. que culminaria na Revolução Francesa. se a concepção totalitária de bem co­ mum supera. . a mesma liberdade de tempos de escassez. em pleno apogeu do Século das Luzes. a valoração dos bens varia no tempo e 110 espaço. como o próprio nome revela.5. Sim. contudo. A moral social. necessariamente. embora seja. o conceito de liberdade não é unívoco. mostrando-se o reto caminho das luzes da razão. com certeza. Estávamos. Enormes divergências entre os homens residem. alterando-se conforme o ensejarem novas circunstâncias. Foi aquele o século do racionalismo. não são perpétuos nem imutáveis numa mesma socieda­ de. O Estado não é mais do que um meio de realização do bem comum. nem por isso a norma jurídica. A ideia de justo ou de legitimidade de uma ordem jurídica fundamenta-se no consenso social. doutrina que. o preço a ser pago por essa superação é de tornar cada ser humano mera parcela do todo so­ cial. mesmo porque. então. como sinônimo de paz social. pre­ tendeu libertar o homem “das trevas da superstição medieval”. uma liberdade de tempos de paz. mais precisamen­ te o século XVIII. houve época. Infelizmente. somente será legítima se estiver conforme o consenso social. tida como o conjunto dos valores sociais. puro instrumento de um todo. Os valores sociais têm uma existência histórica. justa ou injusta.62 Teoria Geral do Estado Ora. e também do individualismo e do cidadão abstrato. na oportunidade. pois. Não é difícil depreender. que nem sempre a ordem jurídica é justa. essencial­ mente legal. ele varia com o tempo. A norma jurídica. caso contrário cairíamos no totalitarismo. legal. 11a disparidade das interpretações da liberdade. a liberdade e a iniciativa individuais. Cada sociedade. deixa de ser legal. Tal concepção chama-se con­ senso social. em diferentes épocas. pois. o faz com fundamento nos valores adotados pela comunidade. Causa final da sociedade política. adota uma tábua de valores c. A norma jurídica não se origina apenas do fato e da inteligência. a visão limitada do individualismo. Há uma liberdade de tempos de guerra que não é. consubstanciado 11a ideia de justo. confunde-se com a concepção do que é justo em determinada sociedade. 4. o bem comum deve ter como objetivo a plena realização espiritual e física do homem.

Tal postura revela bem a intervenção do poder político no domínio econômico-cultural. liberdade e igualdade. que a vida do gênero humano gira. entre independência c liberdade.3 0 Estado 63 Aquilo que para uns é liberdade. intelectual ou moral. mais tarde. um nível de vida que ofereça um mí­ nimo de decência aos menos favorecidos. redefinindo-a em forte matiz socialista. No campo da doutrina. colocou a liberdade nos governos democráticos e confundiu o poder do povo com a sua liberdade. não haveria mais liberdade. a exemplo de Kelsen. proporcionando. aparentemente. Duguit mudaria. a fim de impedir que a liberdade dos fracos seja sufocada pela liberdade de uma minoria. ademais e a todos. Já para Harold Laski. A liberdade . se hos­ tilizam e se excluem. assim como foram apresen­ tadas pelos pensadores da era do lluminismo e assim como se desenvolveram na teoria política das ideologias modernas. Silva Telles. a liberdade como a ausência de quaisquer laços obrigatórios para o indivíduo. É preciso distinguir. porque todos teriam o mesmo poder. ainda. publicista pátrio. a liberdade consiste em po­ der fazer o que se deve querer e em não ser obrigado a fazer o que não se deve que­ rer. Hans Kelsen. declarando que cada vez mais o Estado faz penetrar em seu ordenamento jurídico o elemento socialista. ora outro. faz o que deseja. se cada um dc nós pudesse fazer o que as leis proíbem. Ainda assim. posição esta reformulada mais tarde. não a percebendo nas monarquias. a liberdade será inatingível até que a paixão da igualdade seja satisfeita. o Estado lhe possa de­ terminar outras restrições senão aquelas necessárias à proteção da liberdade de to­ dos. Afirma. com isso. porém.possibilita o desenvolvimento das . porque naquela não têm. o grande Montesquieu. nas democracias. na prática. criador da célebre teoria pura do direito. quando passou a ver na li­ berdade política uma autodeterminação conseguida pela participação do indivíduo na criação da ordem social. que é verdade que. A liberdade política. os motivos de seus males. acuradamente. não significa fazer o que se quer. Aliás. em torno de dois valo­ res: indivíduo e coletividade. sua concep­ ção de liberdade. para alguns. Outro eminente publicista francês. em qualquer sociedade dotada de leis. Observa. e. é mais freqüente que a coloquem os povos na república. Afinal. prossegue. perpetuamente. definiu. a suprema liberdade. afirma que as duas ideias essenciais da democracia. porém. são dois conceitos que. sempre. defi­ nia a liberdade como o poder que pertence ao indivíduo de exercer e desenvolver sua atividade física. como nas democracias o povo tem mais facilidade para fazer quase tudo o que deseja. o povo. por sua vez. a essência da liberdade também está longe de ser revelada.prossegue . O equilíbrio entre ambos ainda não foi alcançado: ora predomina um. Cada homem denomina liberdade ao governo que mais sc ajusta aos seus costumes e inclinações pessoais. Léon Duguit. que não há palavra que te­ nha mais acepções e que tenha tanto impressionado os espíritos como a palavra li­ berdade. num primeiro momento de sua vida. diante de seus olhos. Em qualquer Estado. a renúncia à liberdade c. para outros é exatamente o oposto desta. Georg Jellinek afirmou. sem que. A liberdade é o direito de fazer o que as leis permitem.

a imensa mi­ séria das massas operárias entre os anos de 30 a 50 desse século. Tudo conseqüência do individualismo econômico apoiado no seu poderoso aliado. liberdade econômica. afinal a mais forte paixão da democracia.a outra irmã gêmea da liberdade e. e estes. o Estado intervém para nivelar as condições de vida. uma vez que. era a da igualdade . a baixa constante dos salários a um nível incom­ patível com toda a dignidade da vida humana. como esta: “O Estado que quisemos fraco demais para não nos oprimir foi também fraco demais para nos defender”. Não é à toa que o individualismo excessivo acarreta males gravíssimos para a vida em sociedade. as depressões econômicas. costumava dizer: “A liberdade é um bem tão precio­ so que deve ser racionada”. na realida­ de. consciente e esclarecedora é a formulada pelo eminente jurisfilósofo Cabral de Moncada. acham-se entrelaçadas e necessariamente inseridas no meio social. Era preciso deslocar ago­ ra o acento tônico da ideia de liberdade para outro elemento. Para Dallari. quanto mais procura impor a justiça igualitária. interfe­ rindo. por vingança. de Bossuct. ofende a liberdade dc alguns ou dc muitos c. a democracia viu-se obrigada a procurar uma ideia nova que lhe servisse de base. o liberalismo político da democracia reinante. Lenin. como antes se fizera com a de liberdade. então. a liberdade opri­ me e a lei liberta”. . li­ berdade pessoal. de Lacordaire. mas de verdade. o seu espírito de lucro insaciável. das máquinas da indústria algodoeira em Inglaterra. propiciando tiradas muito bem postas. até suprimi-la de vez. liberdade religiosa. deixarão de ter a liberdade apregoada. a superprodução. mais reduz a liberdade. cm preciosa síntese: São conhecidos os excessos a que conduziu o liberalismo econômico e político. Ou esta outra: “Entre o fraco e o forte. Dian­ te da pressão social.64 Teoria Geral do Estado diferenças entre os homens. o trabalho desumano das mulheres c das crianças nas fábricas. pois as liberdades dos indivíduos não podem ser tomadas isoladamente e colocadas uma ao lado de outra. as regulamentações artificiais do mercado pelos trusts c grandes monopólios. Mas ago­ ra uma igualdade. é a desigualdade econômica. justamente pelos meados do século X IX : o egoísmo desenfreado dos chefes de empre­ sa. não de pura teoria. liberdade de reunião etc. dotados de inclinações diversas e deixando-se plasmar por perspectivas diferentes. Para se defender destas conseqüências. que era preciso também hipostasiar e sublimar. E a ideia nova para a qual ficava agora aberto o caminho. o dia de trabalho das doze c mais horas sem limite. o grande revolucionário inspirador da re­ volução socialista da Rússia. com a destruição. no dizer de Herculano. e estes. criarão condições em que alguns poucos do­ minarão os muitos. Claro que existem várias espécies no gênero liberdade: liberdade política. Crítica bem posta. o desemprego das multidões proletá­ rias. a própria afirmação de que a liberdade de cada um termina onde começa a de outro é inaceitável. enfim. dominados. O resultado de certa concepção dc liberdade.

por intermédio de representantes periodicamente substituídos em eleições livres e sinceras. ao dizer: a liberdade começa com a vi­ gência dc leis registradas do Estado em que se desenvolve.corifeu do liberalis­ mo . condições propícias para o aparecimento dos totalitarismos e do socialismo exacerbado. não se pode colocar . Com frequência um indivíduo muito rico ou um poderoso grupo econômico reduz seriamente a liberdade de muitos indivíduos. todas estas. a Revolução Francesa destruiu o concei­ to tradicional dc poder político. a liberdade apregoada pelo liberalismo era uma liberdade sem pers­ pectivas. A liberdade não é o valor supremo da vida humana. ipso facto.que foi. ainda. em razão disso. Como acentua com muita clareza Dalmo de Abreu Dallari. até agora. que a liberdade política . ine­ rente à natureza do homem. ela pres­ supõe sempre uma razão que a justifica. e não um meio para o aperfei­ çoamento do homem. exaltando o indivíduo em detrimento do social. ser a liberdade a coragem de resistir. portanto. a tratada neste ca­ pítulo . Em razão disso.é a mais ampla de todas e que. Referi­ do Estado é aquele em que as leis não podem ter vigência nem ser modificadas se­ não por via legal. Já se disse até. de sua cooperação e participa­ ção direta ou indireta. sem fundamento na própria natureza humana. por meio da dominação econômica. porém.. impõe restrições aos possíveis excessos das liberdades civis e políticas. um interesse mais incisivo do leitor. compreende muitas liberdades. com Royer-Collard. a formação de um capitalismo monstruoso e a proletarização dos produtores. transformado este em mero fiscal da manutenção da ordem pú­ blica. da autoridade). A concepção de liberdade do liberalismo acabou por se autodestruir. o principal inimigo da liberdade individual nem sempre é o Poder Público. Tal liberdade era. Esta liberdade se chama liberdade política e o Estado em que ela existe se chama Estado dc Direito. prossegue o autor citado. pois colocava o indivíduo contra o Estado. Por outro lado. enquanto os desajustes econômicos se agravavam. Na verdade. um fim em si própria. O exces­ so de livre-concorrência gerou a exploração dos fracos pelos fortes e. Reagindo contra o absolutismo monárquico (deturpação do exercício legíti­ mo do poder e. Não foi sem fundamento que Montesquieu . E à liberdade po­ lítica que o filósofo Karl Jaspers se refere. com esta.3 0 Estado 65 É inegável. Nas sociedades indus­ triais do fim deste século X X . a vida em sociedade. contudo. Por esse motivo entendia-se que bastava impedir a interferên­ cia do poder público para que os indivíduos fossem livres. havendo mesmo inú­ meros casos em que o Poder Público se vê subjugado e inteiramente controlado por grupos econômicos. paradoxalmente. válido para todas as épocas e todos os lugares. ou até de um povo inteiro. despertando.definiu a liberdade como o direito de fazer aquilo que as leis permitem. no século XVII a afirmação da necessidade de liberdade foi feita em favor dos que já eram dotados de poder econômico. Já percebe o leitor a dificuldade existente na formulação de um conceito uni­ forme de liberdade. Esta via legal depende do povo..

vale dizer. direitos estes ditados pela própria natureza. de que a finalidade do Direito Objetivo não seria mais do que realizar a coexistência dos Direitos Sub­ jetivos. o liberalismo fez da liberdade ilimitada o valor supremo do ideal de­ mocrático. embora tardiamente. Ademais. partindo da premissa de Emmanuel Kant. ou seja. bus­ ca reequilibrar a vida em sociedade. o liberalismo consagrou a escola clássica do Direito Natural. Se todos os homens são livres e iguais e se os homens não vi­ vem isolados uns dos outros. uma série de pro­ vidências por parte do Estado. jurídica e social. a experiência tem demonstrado que a simples declaração dc que todos são livres torna-se completamente inútil sc apenas alguns puderem viver com liberdade. é necessário corrigir o sentido egoísta da liberdade individual. Além disso. finaliza. ao passo que as vantagens da igualdade brilham. que a liberdade é um valor destinado a oferecer seus benefícios apenas de quando em vez. seriam direitos abso­ lutos que o Estado deveria reconhecer e preservar. o ho­ mem isolado é mera abstração.2) C oncepção social do bem com um Os erros do liberalismo acarretaram. Os seguidores dessa escola não levaram em conta que o direito tem seu fundamento na própria sociedade. dando ênfase à igualdade e restringindo os ex­ cessos da liberdade. Alexis de Tocqueville já previra. Referidos direitos transcenderiam a própria lei escrita. anteriores ao surgimen­ to da própria sociedade. se tornou um organismo dinâmico. Enfim. a repartição dos bens e o acesso aos benefícios da vida social não permitam grandes desníveis. ao sustentar que o melhor meio de realizar a felicidade do homem é do­ tá-lo da maior liberdade possível. de mero espectador do drama humano que sua passividade havia desencadeado. à luz de três metas políticas. Por outro lado. o homem seria dotado dc direitos imprescritíveis. por isso na­ turais. adverte. diuturnamente. as desigualdades so­ ciais. não existe juridicamente. cedeu espaço ao moderno Estado de justiça. apanágio da liberal-democracia. acen­ tuando as desigualdades naturais e. Seria trágico. Por isso. e este pressupõe a sociedade. sendo o Estado mero coordenador desta liberda­ de. atuante e intervencionista. é preciso que a convivência. porém. por via de conseqüência. Muitas vezes é indispensável o fortalecimen­ to do Poder Público para impedir que os economicamente fortes reduzam a liber­ dade dos economicamente fracos e estabeleçam uma profunda desigualdade entre os indivíduos. restringindo-se a limitar a liberdade dc cada um ao mínimo exi­ gido pela sociedade. antever a possibilidade . com esplendor incomparável. 4. A mera legalidade. que. Por outro lado. a concepção eminentemente individualista da sociedade ensejaria a própria eliminação dos mais fracos pelos mais fortes. porque despojado de di­ reitos e deveres.66 Teoria Geral do Estado o controle do Poder Público de um Estado como necessário e suficiente para garan­ tir a liberdade dc todos os indivíduos. com muita proprie­ dade. Com efeito.5. que. o direito só frutifica no relacionamento humano.

numa comunidade em que o liberalismo econômico. mais do que os outros. então. depois. o uso dos computadores revolucionou a administração moderna. começa a substituir a figura do estadista convencional. Percebeu-se que o Estado deve. triunfante. adverte Manoel Gonçalves Ferreira Filho. O caráter essencialmente técnico de muitas decisões e a inconveniência do debate público. hoje mais . veio bruscamen­ te à luz: o sistema governamental norte-americano pareceu não estar mais à altu­ ra das novas tarefas político-econômicas. êmulo do executivo das empresas privadas. A própria doutrina da tripartição dc Poderes. outras. O crítico mais mordaz do princípio da tripartição dc poderes. órgão capaz de decisões mais rápidas. isolado dos demais povos. o Estado iniciou a sua atividade interveniente na vida econômica dos indivíduos. Como acentua Silveira Neto. A ideia do governante supergerente. ás ocultas ou ãs escancaras. dos quais não necessitava intensamente. Mesmo nos Estados Unidos da América. hoje freqüentíssima e inevitável. em busca do bem-estar social. Por outro lado. Os Estados em desenvolvimento. sendo acolhida. sentiram os reflexos dos novos tempos. como a criação e a gerência de serviços assistenciais. o mundo nor­ te-americano. foi colocada em questão no Estado contemporâneo. preeminência notável. com sua morte. definitivamente sistematizada por Montesquieu. sofreu um abalo mui­ to grande com o desenvolvimento da tecnologia. podia dar-se ao luxo de cometer seus erros ao abrigo de suas riquezas. pertinente a certos assuntos. foram substancialmente ampliadas. como bem frisa Ferreira Filho. O Executivo. O reforço do Poder Executivo é. esta última alternativa. de sua competência. é claro. dava aos chefes de indústria o poder real. A concepção secularmente arraigada do elemento político tor­ na-se menos importante que o elemento econômico. muito mais do que o valor liber­ dade. baluarte na luta contra a concentração do poder num órgão apenas. que se batia tenazmen­ te pela unidade c unicidade do poder estatal. conduziram os parlamentos ao dilema de paralisar sua atividade ou delegar pode­ res. hoje. passou a ter. universal.3 0 Estado 67 de efetivação de uma sociedade estandardizada. na qual todos vivessem e pensas­ sem da mesma forma. a democracia passou a ser muito mais atraente quando adjetivada dc social. como acentua Duverger. na ânsia dc correção dos desajustes sociais. oriunda dc Aristóteles e de Cícero. se o uso da pólvora liquidou o sistema das guerras medievais. Fruto disso é a delegação legislativa. Tal doutrina. Durante anos o talento de Roosevelt ocultou um mal que. bem como de Locke e. Mareei dc La Bignc de Villcncuvc. O adjetivo social tornou-se uma palavra mágica. hoje. É inegável que o valor igualdade atrai. Quando o Welfare State substituiu o État gendarme. sob o acicate de um poder irrestrito. o interven­ cionismo estatal foi ignorado durante um século e meio porque o Estado represen­ tava um papel secundário. tornou-se mais atual do que nunca. Novas tarefas ingressaram em sua esfera de ação. Todos os governos procuram adaptar-se às novas circunstâncias sociais. em razão de sua própria estrutura.

1937. o homem do cotidiano. numa autolimitação do poder do Estado que evocava para si deveres públicos subjetivos. A Constituição mexicana de 1917 e a Constituição de Weimar em 1919 pre­ viram direitos sociais. E regime muito mais de conteúdo que de forma. 145 a 162. a liberdade continua a ser valor transcendente do ideal democrático. dc outro. O trabalho intelectual. Por sua vez. A intervenção do Estado no domínio econômico só se legitima para suprir as deficiências da iniciativa individual e coordenar os fatores da produção. constitui um bem que é dever do Estado proteger. tutelados nas mais avançadas Constituições da época.09.11. com ou sem vontade. Como acentua Salvetti Netto. afirma Salvetti Netto. Logo após a Primeira Grande Guerra. funda-se a riqueza c a pros­ peridade nacional. A todos é garantido o direito de subsistir mediante o seu trabalho honesto. dc organização e de in­ venção do indivíduo.1946 dispunha sobre o assunto nos arts. o operário. se­ guida pela Constituição de 10. as profundas alterações ocorridas nas estrutu­ ras sociais motivaram a revisão do conceito de democracia e de representação. 115 e 143). também sob o título “Da Ordem Econômica e Social”. sendo a seguinte a redação do art. O trabalho é um dever social. surgem em nossa Lei Magna de 1934 dispositivos referen­ tes à matéria. livre por excelência.68 Teoria Geral do Estado do que nunca. assegurando-lhe condições favoráveis c meios dc defesa. além de definir e aplicar uma política exterior e manter um exército formidável. o art. 136. assim: . à liberdade agregou-se a igualdade. como meio de subsistência do in­ divíduo. e este. Em tal diapasâo. só atinge seus fins quando logra realizar o bem-estar da comunidade. representados pelo Estado. técnico e manual tem direito a proteção e solicitude especiais do Estado. que dispunha sobre a ordem econômica nos arts. De um lado. intervir. sur­ ge o homem concreto. nos tempos atuais. de maneira a evitar ou resolver os seus conflitos e introduzir no jogo das competições in­ dividuais o pensamento dos interesses da Nação. o fator econômico motivou a hipertrofia do Estado moderno. exercido nos limites do bem público. com seus problemas e sentimentos. na vida econômica e social. com o título “Da Ordem Econômica e Social” (arts. Em oposição ao cidadão abstrato. O governo democrático. A Constituição Federal de 18. 136 dispunha o seguinte: Art. surgem os direitos sociais. 135 a 155. no poder de criação. 135: Art. 135. Na iniciativa individual.

como se depreende de vários de seus dispositivos (arts. justa c solidária.erradicar a pobreza e a marginalização e reduzir as desigualdades sociais e regionais. ida­ de e quaisquer outras formas de discriminação. sexo. III .10. IV . a respeito da ordem econômi­ ca e socialydispondo o art. O trabalho e obrigação social.direitos sociais . Assim: Art. em seus arts. 160 o seguinte: Art. . Parágrafo único. A ordem econômica deve ser organizada conforme os princípios da justiça social.liberdade de iniciativa. constitui-se em Estado Democrático de Di­ reito e tem como fundamentos: III . III e IV. 6o . com a Emenda Constitucional n.1969. formada pela união indissolúvel dos Estados e Municípios e do Distrito Federal. de 17. 160 a 174. V .garantir o desenvolvimento nacional. I o A República Federativa do Brasil.construir uma sociedade livre. 3° Constituem objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil: I .1967.repressão ao abuso do poder econômico. cor.harmonia e solidariedade entre as categorias sociais de produção. Art. c VI . conciliando a liberdade de iniciativa com a valorização do trabalho hu­ mano.os valores sociais do trabalho e da livre iniciativa. com base nos seguintes princípios: I . II . I o. A ordem econômica e social tem por fim realizar o desenvolvimento nacional e a justiça social. III .promover o bem de todos. sem preconceitos de origem. a eliminação da concorrência c o aumento arbitrário dos lucros.a dignidade da pessoa humana. raça. [grifo nosso] A Constituição Federal vigente.e 170).3 0 Estado 69 Art. promulgada em 05. 3o.01. 1. [grifo nosso] A Constituição brasileira de 24. caracterizado pelo domínio dos mercados.1988.valorização do trabalho como condição da dignidade humana. A todos ó assegurado trabalho que possibilite existência digna.expansão das oportunidades dc emprego produtivo. estabelecia. IV .função social da propriedade. demonstra re­ dobrada preocupação com a questão social. II . 160. 145. IV .10.

Somente com a Constituição de Weimar de 1919 e a Constituição espanhola de 1931. Que vem a ser justiça social? Eis uma expressão de difícil delimitação. a segurança. 170. Do latim justitia. Vale assinalar que. VIII . embora situadas em pé de igualdade no caput do art. parece defender o princípio de que a democracia não pode de­ senvolver-se. 170 da Constituição em vigor. dessa forma. VI . A indevida repetição desse conceito terminou por desgastá-lo. emendada em 1969. houve uma tendência mais acentuada para acrescentar ao texto político fundamental os princípios destinados a reger o campo econômico-social. A Constituição de 1967. ela é bastante di­ vergente.propriedade privada.livre-concorrência.função social da propriedade. Até a eclosão da Primeira Grande Guerra. como a Constitui­ ção de Weimar e a Carta do Trabalho da Itália fascista. tem por fim assegurar a todos existência digna. a proteção à maternidade e à infância. preocupada com questão social. II . jus).70 Teoria Geral do Estado Art. o trabalho. o desenvolvimento nacional e a justiça social devem ser considerados. A ordem econômica. buscan­ do assegurar. a previdência social. conforme os ditames da justiça social. as Constituições dos diversos Es­ tados só se preocuparam com a organização política. a justiça foi defi­ nida por Ulpiano assim: “Justitia est constans et perpetua voluntas jus suum cuique tribuendr.defesa do consumidor. cumpre fazer algumas observações sobre o conceito dc justiça. a saúde. a menos que a organização econômica lhe seja propícia.defesa do meio ambiente. Art. exceção feita à Constituição mexicana de 1917. na forma desta Constituição.busca do pleno emprego. III . mesmo nesta. Vimos como as Constituições brasileiras de 1934 e 1937 trataram do proble­ ma. o desenvolvimento nacional não deve ser um fim em si mesmo. o desenvolvimen­ to e a segurança das próprias instituições políticas. por meio do plano econômico e social. trans­ . IV .soberania nacional. meio e fim. VII .tratamento favorecido para as empresas brasileiras de capital nacional de pequeno porte. dc justus (de acordo com o direito. respectivamente. V . fundada na valorização do trabalho humano e na livre iniciativa. Divul­ gada principalmente pela doutrina social da Igreja. Por outro lado. observados os seguintes princípios: I . IX .redução das desigualdades regionais e sociais. porém um meio de se alcançar a justiça social. o lazer. 6° São direitos sociais a educação. a assistência aos desam­ parados. sofrendo o influxo de vários diplomas legais estrangeiros.

cargos e funções. Não resta dúvida de que. o princípio de justiça é invocado exatamente para dirimir a disputa entre partes que invocam aquilo que é seu. sendo a justiça uma ideia de har­ monia e unidade. se o ideal do justo nasceu com a própria humanidade. observada uma igualdade proporcional ou relativa. como o corpo humano. Princípio regulador das relações entre a comunidade e seus membros. de governo. a segurança e o abastecimento do Estado. o princípio da justiça distributiva disciplina a fixação dos impostos. A justiça co­ municativa leva em conta as relações contratuais entre as pessoas. As­ sim. pre­ conizando a exata correspondência entre a coisa dada e a recebida. porém? Para se poder dar a cada um o seu. recompen­ sas. Ora. pulmões e estômago da sociedade. enfim. A concepção de justiça varia com as ideologias predomi­ nantes em cada momento histórico. a revelação da essência desse ideal ainda não ocorreu. divide a justiça em espécies: distributiva. os órgãos sociais devem restringir-se a suas atribuições impostas pela natureza. Essa divisão de classes e funções deve ser rígida. respectivamente. A justiça ju­ dicial é aquela dada pelo juiz. o valor predominante é a igual­ dade. ora na igual­ dade. Flóscolo da Nóbrega. a prestação de serviços e as relações entre todos. comutativa e judicial. Platão. por exemplo. estabelecendo a equivalência entre o que se dá e o que se recebe como compensação. A justiça equiparadora leva em conta o intercâmbio dos bens. pois. Qual o “seu” de cada um. a justiça é a ideia. discípulo dc Platão. exigindo paridade entre o dano e a reparação. o que pertence a cada um. o cri­ me e a pena a este cominada. como a liberdade o foi por ocasião da Revolução Francesa. a ideia dc justiça varia constantemente: o que era justo para os antigos talvez não o seja para nós. A verdade é que. desde logo. concebia a justiça como um princípio que impunha de­ terminada estrutura social. visto que a distribuição deve ter como referencial o mérito de seus destinatários. a aplicação de recursos da coletividade etc. Como assevera J. Platão compara o Estado a um ser humano e. ca­ beriam. a representação abstrata do estado de pleno equilíbrio da vida social. embora possa voltar a sê-lo no futuro. quando afirma o princípio da justiça distributiva.3 0 Estado 71 formando-se na fórmula: “A justiça consiste em dar a cada um o que é seu”. Ora. Em nosso entender. honras. afirma que os homens são naturalmente de­ siguais. respectivamente. pelo qual a comunidade distribui. a assistência social ao ho­ mem da cidade ou do campo. ora se assentando na liberdade. o elegante princípio de Ulpiano não resolve o problema. Aristóteles. equiparadora. pois deveria fornecer um critério para dizer qual “seu” devemos dar a cada um. Aos militares e operários. Os ins­ . será em Aristóteles que vamos encontrar o moderno sig­ nificado da justiça social. com cada um de seus membros. inafastável. tendo como pressuposto um valor. A justiça distributiva preconiza a distribuição das benesses sociais entre os membros da comu­ nidade. determinando a cada homem que se limitasse a fazer o que lhe fosse atribuído. modernamente. seria preciso sa­ ber. delineando as premissas do moderno organicismo. cabendo aos filósofos o papel de cérebro da sociedade. observada uma igualdade proporcional. os bens.

Por exemplo. Eis a doutrina da isonomia. repudiada unanimemente pelos ideólogos da liberal-democracia. Novas tarefas foram atribuídas ao Poder F^xecutivo. como acentuou M a­ noel Gonçalves Ferreira Filho. cm seu Curso de direito constitucional Tal delegação. 5°. então. conduziu os parlamentos ao dilema de paralisar a administração ou delegar poderes. Por outro lado. no pensamento aristotélico. o problema do reforço do Poder Executivo tornou-se uma realidade cristalina. porque o Estado representava um papel apenas secundário. O Poder Executivo. X. e a prudência implica a retidão moral da intenção. fixada no art. a seu encargo. se as pessoas são desiguais. justo legal é aquilo que o bem co­ mum justifica e exige. a função governamental. bem como a inconveniência do debate públi­ co relativo a certas matérias. foi imediatamente escolhida esta segunda alter­ nativa. da Constituição Federal. a von­ tade deve estar inclinada à realização do bem moral. o direito do trabalho e a previdência social. o Estado passou a ter uma missão de intervencionismo na vida econômica individual. podia dar-se ao luxo de cometer todos os erros ao abrigo de suas riquezas e de seus oceanos. preconizados por Montesquieu. o di­ reito fiscal. mas em requerer a prudência (Ética a Nicômaco. o intervencio­ nismo estatal foi ignorado durante cerca de 150 anos nos Estados Unidos. por sua própria estrutura. tendo em vista o papel cada vez mais dinâmico que o Estado vem desenvolvendo em face das novas c múltiplas reivindicações sociais. visto que estas devem ser distribuídas conforme o mérito dc seus destinatários. Quando o Welfare State substituiu o État gendarme.72 Teoria Geral do Estado trumentos de que se serve a justiça distributiva são o direito administrativo. a criação e a gerência de serviços assistenciais. I. a lei não consiste simplesmente 110 mandado por aqueles que têm. Devem-se dar coisas iguais aos iguais. invoca a proporcionalidade na distribuição das benesses sociais. Para Aristóteles. Modernamente. vale lembrar. e coisas desiguais aos desiguais.180/21). em busca do bemestar social. aquilo que o positivismo denomina com tal fórmula. a virtude moral que tem por objetivo o bem comum é o que Aristóteles chama de “justiça legal”. Para ele. A delegação legislativa é hoje prática correntia e inevitável “às ocultas ou às escancaras”. Como o caráter eminentemente técnico de muitas decisões que deve­ riam ser tomadas em tempo recorde. uma ascendência cada vez maior. a América. e aquelas que já eram de sua competência foram bastante ampliadas. Conforme acentua Duverger em sua obra Os regimes políticos. órgão capaz. passou a ter. colocou em xeque o caráter ideológico da chamada indelegabilidade de poderes. isolada de um mundo do qual não tinha necessidade. essa orientação de Aristóteles é de grande atualidade. 1. não se deve dar-lhes coisas iguais. Para horror dos defensores intransigentes da tripartição e separação absolu­ ta dos poderes políticos. ou seja. Além disso. A justiça distributiva. de decisões mais prontas. Aqui é importante notar que o “legalmente justo” não é. Quan­ . numa época em que o libera­ lismo econômico triunfante dava aos chefes de indústria o poder real.

mero cão dc guarda da ordem pública. de forma ativa. preconizada pelo liberalismo clássico de Emmanuel Kant. por exemplo. seu ordenamento jurídico. o bem comum nada mais era do que a manutenção da ordem pública pelo Estado. o Senado se recusava a ratificar o Tratado de Versalhes. previdenciárias e edu­ cacionais da coletividade. pois toda so­ ciedade tem. cuja função. tão eficiente quanto o executivo da empresa particular. queiram ou não queiram os governantes. a moder­ na concepção de bem comum exige a ação do Estado. isto é. continuar a ter guarida. Na verdade. apenas a Europa suportava as conseqüências. o século do individualismo. a justiça social. Do exposto. John Locke e outros. nem todo Estado de direito será Estado dc justiça. c) plano social. Não basta a garan­ tia dos direitos subjetivos para que o bem comum esteja alcançado. ao atender às necessidades assistenciais. Entretanto. A ideologia do gover­ nante supergerente. peculiar a uma fase da História da humanidade. que é o Estado que transcende a mera legalidade. que não pode. alcançando o campo da iniciativa privada. seria aquela de um gendarme (policial) na sarcástica imagem de Ferdinand Lassalle. substituindo a do estadista tradicional. O Estado deve intervir. quando ocorre a vacinação compulsória ou quando surgem restrições à frui­ ção irrestrita da propriedade. no mundo moderno. Em princípio. a agir. a iniciativa privada pode. às vezes. ao construir o Estado de justiça. que poderá ser justo. e que pas­ sa a atuar. vão longe os tempos da mera tutela da ordem jurídica pelo Estado. em muitos Estados. as condições sofreram uma mudança. amparado no consenso social ou não. Não. ao manter a legalidade pura e simplesmente. O aspecto político torna-se ate menos importante que o econômico.3 0 Estado 73 do. conclui-se que o conceito de bem comum foi bastante alterado com o surgimento de novas circunstâncias sociais. em nome de uma função social da propriedade. aliás. Para o exercício de suas funções sociais. Modernamente. dei­ xando de ser o Estado gendarme. essencialmente. em três planos bem definidos: a) plano político. em desenvolvimento. meramente passiva. ao manter sua segurança interna e externa. O Esta­ do que providencia o desenvolvimento não pode deixar dc ser preponderantemen­ te empreendedor. por exemplo. deve transcender a mera legalidade e buscar. b) plano jurídico. O Estado. que deve renunciar ao seu caráter passivo. seu direito. Como fruto do século XVIII. ser restringida. se todo Estado é Es­ tado de direito. acha-se. na vida socioeconômica dos indivíduos. . portanto. quando uma fá­ brica que causa poluição é obrigada a minorar este mal ou encerrar suas ativida­ des. todo Estado é Estado de Direito.

4

A CONSTITUIÇÃO

1) CONCEITO E EVOLUÇÃO HISTÓRICA
Bibliografia: f e r r e i r a
Manoel Gonçalves. Curso de direito constitucional, 11.
salvetti n e t t o ,

f il h o

,

ed., São Paulo, Saraiva, 1982. ed., São Paulo, Saraiva, 1981.

Pedro. Curso de teoria do Estado, 4.
,

SOUZA,

José Pedro Galvão de. História do direito polí­
v ia m o n t e

tico brasileiro, São Paulo, Saraiva, 1962.

Carlos Sanchez. El poder consti-

tuyente, Buenos Aires, Bibliográfica Argentina, s.d.

A palavra constituição vem do latim cum + stituto , constitutio , de constituere (constituir, construir, edificar, formar, organizar). Tem como sinônimo o vocábu­ lo com pleição , que também contém a ideia de um todo form ado , estruturado , orde­ nado , isto é, dc unidade na m ultiplicidade . O corpo humano tem uma constituição , uma com pleição; não é ele, porventura, um organism o ? Não nos referimos, às ve­ zes, ao vocábulo constituição como a ordenação que preside a organização dos cor­ pos físicos? Assim, a palavra constituição apresenta sentidos análogos; ela pode ser toma­ da em um sentido am plo; e em outro, estrito. Tomada num sentido am plo ypode-se dizer que todos os seres apresentam uma constituição que os identifica. Tomada cm sentido estrito , a palavra constituição vai revelar o m odo pelo qual um a sociedade
se estrutura basicamente .

Aristóteles conceituava a politeia (Constituição) como a ordem da vida em comum naturalmente existente entre os homens de uma cidade ou de um territó­ rio ou, simplesmente, a ordenação dos poderes do Estado .

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4 A Constituição

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Em termos jurídico-políticos, a Constituição é a lei fundamental do Estado, lei que um povo impõe aos que o governam, para garantir-se contra o despotismo destes, conforme doutrina Romagnosi. No dizer dc Manoel Gonçalves Ferreira Filho, a constituição em sentido jurídi­ co pode ser entendida como o “conjunto de regras concernentes à forma do Esta­ do, à forma do governo, ao modo de aquisição c exercício do poder, ao estabelecimen­ to de seus órgãos, aos limites da sua ação” . Ou seja, a base fixada juridicamente da organização política. Segundo Pedro Salvetti Netto, a Constituição política estrutura a organização do Estado, disciplina o exercício do poder político e discrimina a competência para tal exercício, definindo-a como o “conjunto de normas que, estruturando a orga­ nização do Estado, estabelece relações de natureza política entre governantes e go­ vernados” ou, levando-se em conta o advento dos direitos sociais no mundo mo­ derno, o “conjunto de normas que, estruturando a organização do Estado, limita politicamente o exercício do poder e declara os direitos individuais e sociais e suas respectivas garantias” . “ Ubi societas ibi jus”, já dizia Aristóteles, ou seja, onde houver sociedade have­ rá normas dc conduta, haverá Constituição. Da mesma forma que todos os seres têm uma Constituição própria (causa formal), a fortiori a sociedade terá, por sua essência, uma forma de organização. Ser eminentemente social, o homem agrega-se a seus semelhantes organicamente, formando grupos sociais estruturados, sendo in­ concebível, mera abstração, a concepção mecânica da sociedade. Pois bem, as or­ ganizações sociais surgem, inicialmente, no seio da família, do clã, da tribo, até que cheguemos ao Estado, a mais perfeita forma de convivência social. As normas cons­ titutivas das sociedades primárias repousam nos hábitos sociais consagrados pelo tempo. Com o aparecimento do Estado, sociedade necessária dotada de poder so­ berano e voltada para o bem comum, surge a Constituição política. Conforme aduz Pedro Salvetti Netto, não há que se falar em Constituição política antes que o Es­ tado se organize, antes que nele se integrem seus elementos constituintes. Somente quando se verificam tais exigências é que aparece a Constituição política, justamen­ te para, estruturando a organização do Estado, disciplinar o exercício do poder po­ lítico e discriminar a competência para tal exercício. A tendência das sociedades de se estruturarem sob a égide de uma lei funda­ mental surge muito cedo na História humana. Inicialmente, ela tem caráter religio­ so, místico, revelando a vontade divina (mana) sob a forma de tabu, como acentua Viamonte. Tal norma fundamental tem natureza consuetudinária, costumeira, não se apresenta sob a forma escrita. Com maior razão, os gregos já distinguiam as normas jurídicas pela hierar­ quia, classificando-as como leis constitucionais e leis comuns, a exemplo dos roma­ nos, que, ao se referirem à elaboração daquelas, usavam a expressão rem publicam constituere. As leis de Licurgo, em Esparta, de Drácon e de Sólon, em Atenas, são

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Teoria Geral do Estado

verdadeiras Constituições, imperando sobre as demais normas. Conforme adverte Carlos Sanchez Viamonte, essas leis fundamentais de Licurgo e de Sólon constituem a expressão unificada da vontade nacional em cada caso, e com elas é criada a na­ ção como unidade política e jurídica e atribui-se forma à sociedade e ao governo. Nisso consiste a essência do ato constituinte. No dizer de Pedro Salvetti Netto, as primeiras Constituições sistematicamen­ te codificadas apareceram no século XVII, por influência, segundo alguns autores, das tradições puritanas, cujas normas eram efetivamente escritas e codificadas - os covernants -, destinadas à estruturação da igreja e do culto. Em razão disso, a In­ glaterra foi estruturada, durante o governo do puritano Oliver Cromwell (15991658), por uma Constituição escrita, única em sua História, o Instrument of Go­ vernment, calcada numa doutrina absolutista do poder político, fundada, aliás, no exacerbado puritanismo de Cromwell. Na História constitucional inglesa encontraremos, ainda na Idade Media, pac­ tos, forais e cartas de franquia. Conforme aduz Manoel Gonçalves Ferreira Filho, tais documentos firmaram a ideia de texto escrito destinado ao resguardo de direi­ tos individuais, que a Constituição iria englobar a seu tempo. Tais direitos, contu­ do, prossegue o autor citado, sempre se afirmaram imemoriais, fundados no tem­ po passado, enquanto eram particulares a homens determinados e não apanágio do homem, ou seja, do ser humano enquanto tal. Ainda segundo Manoel Gonçalves Ferreira Filho, próximos dos pactos, de cujo caráter participavam pela sanção real, mas já bem próximos da ideia setecentista de Constituição, situam-se os contratos de colonização, peculiares à História das colônias da América do Norte. Chegados ao Novo Mundo, os peregrinos, mor­ mente puritanos, imbuídos de igualitarismo, não encontrando na nova terra poder estabelecido, fixaram, por mútuo consenso, as regras por que haveriam de se go­ vernar. Os chefes de família firmam, a bordo do Mayflower; o célebre Compact (1620); desse modo, são estabelecidas as Fundamental Orders of Connecticut (1639), mais tarde confirmadas pelo rei Carlos II, que as incorporou à carta outorgada cm 1662. Transparece aí - finaliza - a ideia de estabelecimento e organização do gover­ no pelos próprios governados, que é outro dos pilares da ideia de Constituição. Profunda influência, além da tradição puritana, sobre o advento das Consti­ tuições escritas, vai exercer a doutrina do contrato social, preconizada por Jean-Jacques Rousseau. A cláusula pacta sunt servanda ou pacta quantumcumque nuda servanda sunt, isto é, os contratos devem ser cumpridos pelas partes, peculiar às relações jurídicas de caráter privado, contida na forma escrita e solene exigida, é transportada para o Direito Público, assegurando melhor direitos e deveres de go­ vernantes e governados. Como acentua Pedro Salvetti Netto, a Constituição escri­ ta revela a preocupação de asseverar, em seus artigos, compromissos recíprocos de governantes e súditos.

4 A Constituição

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Com efeito, adverte Manoel Gonçalves Ferreira Filho que somente no século XV III - o Século das Luzes, daí a expressão Iluminismo - é que se concretizou, na Europa, a ideia de que o homem pode estabelecer a organização do Estado, segun­ do sua vontade, numa Constituição. Antes do Iluminismo, ninguém ousara afirmar que o homem poderia modelar uma organização política segundo um ideal racio­ nalmente estabelecido. Daí reafirmar-se a importância dc Rousseau para a filoso­ fia iluminista e para a Revolução Francesa e, como conseqüência, para a consoli­ dação das Constituições escritas.

2) ESPÉCIES
Bibliografia:
Marcus Cláudio. Constituição da República Federativa do
b is p o

a c q u a v iv a

,

Brasil anotada, São Paulo, Global, 1987. brasileiro, São Paulo, Saraiva, 1981. do, 6. ed., São Paulo, Saraiva, 1984.

,

Luís. Curso de direito constitucional Pedro. Curso de teoria do Esta­

salvetti n e t t o ,

Quanto às espécies dc Constituições, sintetizando as várias classificações exis­ tentes, podemos apresentar o seguinte esquema:

1. Quanto à forma:

escritas

orgameas inorgânicas rígidas

2. Quanto à estabilidade ou I possibilidade de reforma i

sem.rng.das flexíveis

3. Quanto à origem

í

f editadas, também denominadas votadas outorgadas

Vejamos cada uma dessas espécies e subespécies. Inicialmente, as Constitui­

ções escritas. Constituições escritas orgânicas: são aquelas que se acham formalizadas ex­ pressamente em um documento escrito ou em vários. No primeiro caso, teremos as Constituições escritas orgânicas (um só documento); no segundo, as Constituições escritas inorgânicas (várias leis escritas, de natureza constitucional). A origem das Constituições escritas orgânicas encontra-se nos séculos XVII e XVIII, inicialmente por influência dos covenants, documentos escritos que forma­ lizavam os preceitos da religião puritana, na Inglaterra.

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Teoria Geral do Estado

Depois, já no século XV III, em razão da doutrina do contrato social desen­ volvida por Jean-Jacques Rousseau, que vai inspirar, na França, a ideia de que uma Constituição deve ser, necessariamente, escrita, para maior garantia dos direitos dos governados. As Constituições escritas orgânicas têm a natureza dc uma codificação, isto é, de um corpo único e sistematizado de normas. A Constituição escrita orgânica se acha contida, portanto, em uma única lei. As inorgânicas, porém, não têm forma de uma única lei; com efeito, uma Consti­ tuição escrita inorgânica é formada por várias leis, encontra-se espalhada por inú­ meros diplomas legais de natureza constitucional. Assim, enquanto a Constituição escrita orgânica tem a natureza de uma co­ dificação, a Constituição escrita inorgânica se assemelha muito mais a uma simples compilação, vale dizer, leis dispostas ordenadamente e atualizadas, sem que com isto cada uma dessas perca sua existência autônoma. Dessa ordem é a Constitui­ ção britânica, que muitos autores afirmam ser apenas costumeira. Existiria, entre­ tanto, uma Constituição formada apenas por costumes e nada mais? Isto seria im­ possível. A Constituição britânica se constitui em volumes e mais volumes dc leis e acórdãos. O que a caracteriza não é o fato de não ser escrita, mas sim de não estar sistematizada em um Código; não estar; enfim, codificada. Nem por isso se negue o grande papel desempenhado pelo costume nas Cons­ tituições. Diga-se de passagem que o costume pode influenciar a própria Constitui­ ção escrita orgânica, por exemplo, o caso célebre da reeleição, por uma terceira vez, dos presidentes da República norte-americana. Nos primeiros tempos da vigência da Constituição dos Estados Unidos, o presidente podia candidatar-se à reeleição quantas vezes quisesse. Bastou, contudo, que George Washington e, mais tarde, Thomas Jefferson se recusassem a disputar uma terceira reeleição para que seus su­ cessores não se sentissem encorajados a fazê-lo. Quando, três quartos de séculos mais tarde, Ulysses Grant postulou sua reeleição pela terceira vez, sua candidatu­ ra fracassou. Tempos depois, uma exceção: Theodoro Roosevelt seria reeleito vá­ rias vezes, em face das vicissitudes da situação internacional; entretanto, depois de Roosevelt, a Emenda X X II vetaria, expressamente, o terceiro mandato. Constituições rígidas, semirrígidas e flexíveis: quanto à estabilidade ou possi­ bilidade de reforma, as Constituições podem ser rígidas, semirrígidas e flexíveis. As flexíveis podem ser modificadas sem a exigência de um procedimento mais comple­ xo; assim, uma lei ordinária pode alterá-la; não é preciso um procedimento legis­ lativo mais trabalhoso. Exemplos: as Constituições da Noruega, da França e a Cons­ tituição do antigo Reino da Itália, chamada Estatuto Albertino. Semirrígidas são aquelas que, em parte, podem ser alteradas mediante um pro­ cedimento comum, ordinário, e, em outros artigos, somente por meio de um proce­ dimento mais dificultoso. Exemplo: a Constituição do Império do Brasil, de 1824.

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Finalmente, as Constituições rígidas, assim denominadas porque só podem ser alteradas por intermédio dc um rito legislativo próprio, destinado a dificultar os abusos reformistas. Exemplos: as Constituições dos EUA, da Austrália, da D i­ namarca, da Suíça e do Brasil em vigor. Com efeito, a nossa Constituição só pode ser alterada ou corrigida por via dc emenda (art. 60), sendo que este dispositivo exige seja a proposta firmada por um terço, no mínimo, dos membros da Câmara dos Deputados ou do Senado Federal (art. 60, I), pelo Presidente da República e por mais da metade das Assembléias Legislativas das unidades da Federação, ma­ nifestando-se, cada uma delas, pela maioria relativa de seus membros. Ademais, o § 4° introduz uma cláusula pétrea no tocante a determinados assuntos, cuja disci­ plina jurídica não pode ser, em qualquer hipótese, modificada. Por exemplo, os dis­ positivos do art. 5° sobre direitos e garantias individuais (art. 60, § 4°, IV). Importante notar que a facilidade ou a frequência com que uma Constituição pode ser alterada não depende, apenas, do disposto na lei, mas também de fatores políticos, por exemplo, a predominância desta ou daquela ideologia num dado mo­ mento histórico. Assim, a Constituição suíça, rígida, foi modificada muito mais fre­ quentemente do que a Constituição francesa da III República, cuja alteração de­ pendia apenas de uma sessão conjunta do Parlamento. Ademais, o conceito de Constituição escrita não se confunde com o conceito de Constituição rígida, pois o Estatuto Albertino (Constituição do antigo Reino da Itália), embora escrito, era, como vimos, modificável por via de lei ordinária, por­ tanto, flexível. Constituições outorgadas e Constituições editadas ou votadas: quanto à ori­ gem, as Constituições podem ser outorgadas e editadas, conhecidas estas últimas também como votadas. As outorgadas são impostas à nação pelo próprio agente do poder constituinte originário, sendo, posteriormente, submetidas a referendo popular, pois o povo é, em última análise, o titular do poder político. Exemplos: as Constituições brasileiras de 1824,1891,1937 e 1967. Quanto às Constituições editadas (votadas), são discutidas pelo próprio povo, diretamente ou mediante a eleição de uma assembleia constituinte, formada por re­ presentantes da nação. Em nome desta, a assembleia irá elaborar, com total inde­ pendência, uma nova Constituição. Se não houver independência da constituinte, não se pode falar em Constituição editada. Por exemplo, quando D. Pedro I enviou, logo após a Independência, uma recomendação à Assembleia Constituinte incumbi­ da de elaborar a nova Constituição do Império, Assembleia depois desfeita, exigiu que a nova Lei Magna deveria conservar a dinastia governante e a religião católi­ ca apostólica romana na qualidade de crença oficial do Estado, tolhendo, portan­ to, a liberdade da assembleia, que, por ser constituinte, deveria estar investida de um poder incondicionado.

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Teoria Geral do Estado

3) CONTEÚDO POLÍTICO DAS CONSTITUIÇÕES
Bibliografia:
Ferdinand. Que é uma Constituição?, São Paulo, Edições e Pu­
m arx

lassalle,

blicações Brasil, 1933.

,

Karl e e n g e l s , Friedrich. O manifesto do partido comu­
salvetti n e t t o ,

nista, 6. ed., São Paulo, Global, 1986. tado, 4. ed., São Paulo, Saraiva, 1981.

Pedro. Curso de teoria do Es­

Uma Constituição não é apenas a mais política, como também a mais pole­ mica das leis. Fundamento da ordem jurídica, dela derivam, por conseqüência, to­ das as demais leis. Por isso, já dizia Ferdinand Lassalle, que a alteração das leis or­ dinárias não desperta, via de regra, a atenção da sociedade, ao passo que a reforma ou a substituição de uma Constituição por outra acarretam comoção social. Daí a constatação evidente de que uma Constituição não é apenas um documento for­ mal, pois que se reveste de um conteúdo ideológico, que espelha ou deve espelhar os fatores de ordem política e econômica que prevalecem no momento de sua ela­ boração. Tal conteúdo varia, portanto, na medida em que mudam as circunstân­ cias históricas. Como acentua Salvetti Netto, a uma Constituição de caráter liberal-democrático, vicejante à época do apogeu do liberalismo político e econômico, jamais ocor­ reria declarar os direitos sociais ou disciplinar as relações entre o capital e o traba­ lho, hoje as grandes preocupações das Constituições em vigor. Assim, uma Constituição, para ser bem entendida, deve ser analisada sob dois pontos de vista: a) como ordenamento jurídico estruturador do Estado; b)como objeto das ideologias que, predominantes num dado momento histó­ rico, são recolhidas pelo legislador constituinte. Pelo menos nos primórdios do movimento conhecido como constitucionalismo, isto é, a aceitação unânime da Constituição como documento escrito, esta cui­ dava apenas da estruturação política do Estado, vale dizer, da forma de Estado, da forma de governo e do regime de governo. No Brasil, por exemplo, a forma de na­ tureza monárquica sucede a dc natureza republicana. Uma Constituição elaborada em disfunção com os valores sociais predomi­ nantes num dado momento nada mais seria que um corpo sem alma, mera folha

de papel. Qualquer Constituição, afirma Lassalle, deve representar a soma dos fatores reais do poder existentes na sociedade. Os fatores reais do poder são essa força ati­ va e eficaz que informa todas as leis e instituições jurídicas da sociedade, determi­ nando que não possam ser, em substância, a não ser tal como elas são.

os que. este documento.4 A Constituição 81 Lassalle é o típico representante da corrente doutrinária denominada socia­ lismo constitucional. qualquer Estado é. observados certos procedimentos. representando a norma suprema da organização estatal. Estado e Direito são meras superestruturas que se sustentam sobre as relações de produção da sociedade dividida em classes. Es­ tado e Direito são o produto da divisão da sociedade em classes antagônicas e cons­ tituem um instrumento nas mãos da classe dominante. ao passo que o Direito representa a vontade desta classe. Para o marxismo. estribado numa concepção me­ . no sul. como afirmam os juristas. Na concepção marxista. mas de poder. afirma Lassalle. a organização política da classe dominante. por longos tempos. a menos que venham a ser a expressão fiel dos fatores reais do poder. mero documento ou folha de papel. há. também a concepção marxista de Cons­ tituição é sociológica. contra a lei e será castiga­ do. Esta folha de papel. só será durável se corresponder à constituição real. Beard e Harold Laski. Segundo Lassalle. são transformados em uma folha de papel. assim como esta não foi criada por todo o povo. pura e simplesmente. e a escrita. mas transmutam-se em direito. 1. os fatores reais do poder constituem-se fatores jurí­ dicos quando. Acusado de professar uma doutrina que afirmava o predomínio do poder sobre o direito. A doutrina dos fatores reais do poder foi tacitamente comprovada por várias obras de conhecidos autores. e quem atentar contra eles atentará. Foi obra de um grupo compacto. 35. pro­ blemas de direito. Lassalle defendeu-se afirmando que sua teoria era desenvolvida 110 plano do que real e efetivamente é. a Constituição é um produto das relações de produção e visa assegurar os interesses da classe dominante. as Constituições escritas não têm valor nem são duráveis. desejavam anulá-la. Ruy Bar­ bosa afirmava que “as constituições são conseqüências da irreversível evolução eco­ nômica do mundo”. Em seus Comentários à Constituição Federal brasileira. cujos interesses não reconheciam fron­ teiras estaduais e que eram realmente de âmbito nacional. e não no pla­ no do dever ser. determinada pelas condições da existência material. aquela que tem suas raí­ zes nos fatores reais de poder. enfim. A exemplo da concepção de Lassalle. que garan­ te seus interesses de classe. Para ele. v. p. como Charles A. a verdadeira Constituição é a real e efetiva. a maior parte dos membros da Convenção de Fila­ délfia reconhecia que a propriedade tinha direito especial na Constituição. formada pela soma dos fatores reais e efetivos que imperam na sociedade. não são. recebendo expressão escrita: a partir de então já não são mais simples fa­ tores reais do poder. No surgimento dos EUA. e tampouco pelos Estados. primariamente. Para o marxismo. Os problemas constitucionais. duas Constituições num Estado: a real e efe­ tiva. na verdade. como sustentaram. Em posição antagônica ao sociologismo constitucional de Lassalle e Marx sur­ ge o normativismo metodológico de Flans Kelsen. cm instituições jurídicas. antes de mais nada.

1980. a Revolução Francesa (1789) e a socialista russa (1917). da forma de governo (de monárqui­ ca para republicana) e do regime de governo (de parlamentarista para presidencia­ lista). pareto. Já se vê que. a ordem jurídica vigente. ele afirma que o estudo de tais fenômenos não compete ao jurista. sexual. Vilfredo. in Dicionário de ciências so­ ciais. e sim ao so­ ciólogo e ao filósofo.82 Teoria Geral do Estado ramente jurídica da Constituição. Com efeito. Esta pode ser definida como a mudança repentina. quando houve substituição dos governantes. J. “Revolução”. que a ela. S. Para Kelsen a norma constitucional é norma pu­ ra. bem como os próprios governantes. o poder revolucionário a uma Assembleia Constituinte? Sem o emprego da força. Lisboa. c que também o Direito é inspirado por teorias e princípios filosó­ ficos. 4) REVOLUÇÃO. sem nenhuma pretensão a fundamentações sociológicas. Axel. soi disant. M adrid. GOLPE DE ESTADO E INSURREIÇÃO Bibliografia: Marcello. Como exemplo dc revolução não violenta podemos citar a Revolução Re­ publicana do Brasil (1889). f e r r e ir a f il h o Manoel Gonçalves. Coimbra Editora. em verbete intitulado “Revolução”. Diccionario de ciência política.Fundação de Assistência ao Estudante. na revolução política tudo é subvertido: os governantes são apeados do poder. Direito constitucional comparado. artística e até. caetano. políticas ou filosóficas. 1986. embora a violência psicológica (vis compulsiva) seja inafastável nos movimentos de fato. A teoria pura do Direito busca justamente expurgar da ciência jurídica toda classe de juízo de valor moral ou político. social ou filosófico. . ju­ rídica. in Dicionário de ciências sociais. g õ r l it z Bushatsky/Edusp. o emprego efetivo da violência material (vis ma­ terialis) ou coerção nem sempre é necessário. econômica. Manual de ciência política e direito constitucional. 1981. 1972. aponta três correntes moder­ . substituin­ do-a por outra. por inteiro. pode esta Assembleia subverter. Fundação Getúlio Vargas/MEC . bem como da forma de Estado (de unitária para federal). J. devem cur­ var-se.Fundação de Assistência ao Estudante. Trattato di sociologia generale. em nome de uma nova ideologia. Fundação Getúlio Vargas/MEC . O termo revolução denomina a mudança brusca e radical de convicções so­ ciais. Apontam-se. Como negar. evidentemente. o Direito deve ser concebido estritamente como direito positivo. Erõs. re . como exemplos tí­ picos de revoluções violentas. e as leis que haviam consagrado são substituídas. erõs. entretanto. violenta ou não. Embora Kelsen admita que na base do Direito existem dados sociais. São Paulo. das instituições e dos governantes. S. Edizioni di Comunim o li n a tà. vo l . 1986. uma realidade social comple­ xa que o explica. na revolução. Interessa-nos. Hugo. soberana. Milano. Tais convicções podem ter a mais variada natureza: política. o conceito de revolução política. Alianza. “Golpe de Estado”.

No dizer de Pareto. que não encontra mais solução 110 modo de produção tradicional. na concepção positivista. Curiosas se mostram as doutrinas de Karl Marx e Vilfredo Pareto sobre a re­ volução. acarretando o congelamento do desen­ volvimento social e. estes. precisamente. o Estado é dinamizado por dois setores sociais. mostrando mais preocupação com a liberdade individual. Ora. uma parcela de subjetividade. desde que se possa aferir que elas sejam apoiadas por uma camada considerável da coletividade. a somatória dos pequenos benefícios que cada movimento revolu­ cionário irá incorporar às conquistas sociais acarretará. Contudo. A conjunção de todos estes fatores acarreta a re­ volução. de forma inevitável. conhecido sociólogo ítalo-francês que elaborou um ma­ gistral tratado de sociologia. estático. como resultado da con­ tradição entre as possibilidades de trabalho. veementemente. Para os conservadores. que ele considera não científica. e as forças de produção. mostrando-se incontroláveis e destrutivas. afirmando que as re­ voluções constituem etapas do progresso inevitável da Humanidade. tradicionalista. diz Pareto. surgem movimentos tendentes a estabelecer uma nova ordem. em todas as épocas e lugares. teocrática ou monarquista. Com efeito. segundo Lenin. Quando a elite dirigente se torna esclerosada e corrompida. Isto só pode levar a uma solução revolucionária. necessariamente. a vitória da igualdade no mundo. haverá. Com ou sem sufrágio universal. con­ gregando homens de esquerda e liberais-democratas. então. essencialmente dinâmicas. Marx nega. a conservadora e a positivista ou científica. tal contradição chega. rumo ao igualitarismo. Para os anarquistas. mesmo porque as classes possuidoras dos meios de produção estão. Para esta corrente. sem qualquer conotação ideológica. inevitavelmente.4 A Constituição 83 nas do estudo da revolução: a progressista ou evolucionária. Temos. Isto é inelutável. inte­ ressadas na manutenção do status quo. uma confron­ tação entre o ordenamento social estabelecido. a revolução surge. Aqueles. a tensão social. na revolução. Baku­ nin e Kropotkin. Para ele. é sempre uma mino­ ria que governa e que sabe dar a expressão que deseja à vontade popular. a um ponto crítico. as ferramentas correspondentes (for­ ças de produção) e as relações de fortuna e trabalho (relações de produção). as revoluções são meras explorações dos sentimentos populares. toda elite dirigente. e suas concepções têm natureza feudal. A concepção progressista pontificou no século X IX . A corrente conservadora mostra-se uma reação à Revolução Francesa. vale dizer. a atividade dos grupos sociais e dos partidos. que vêm a ser. mais preocupados com o incentivo à sublevação das massas contra os déspotas. da confrontação entre classes sociais. o termo revolução apresenta um matiz pura­ mente descritivo. a teoria da revolução deflagrada em nome dos direitos naturais. Tais fatores são objetivos. felizmente. manifestações de regressão à mentalidade primitiva. po­ rém. uma revolução não passa da substituição de um déspota por ou­ tro. uma elite que governa e ou­ tra que é governada. como Proudhon. todas as revoluções são genuínas. por conseqüência. . Fi­ nalmente.

mas a revolução atinge. pela manifestação violenta de for­ ças sociais estranhas à organização do Estado. uma classe ou partido. os governantes de leões fazem-se raposas. rebelião. quando um movimento político repentino é um golpe de Estado ou uma revolução. a usurpação. no Brasil. entretanto. revolta 011 pronunciamento (do espanhol pronunciamiento) são as várias denominações que toma a manifestação das Forças Armadas. do Ju­ diciário. Constitui. como exemplo típico de golpe de Estado. a outorga da Constituição de 1937. a influência de fatores negativos. por Getúlio Vargas. a agita­ ção política e a intranqüilidade social.. impondo à Nação uma carta constitucional de caráter autoritário. Desta forma. Podemos citar. a ideologia dominante. traz consigo o vigor e a coragem dos leões. vem a ser a substituição de alguns ou de todos os pressupostos da ordem jurídica vigente. invariavelmente. a ascendência de demagogos e pacifistas. a própria ordem constitucional. consoante advertência de Hugo Revol Molina. com o fito de mu­ dar o regime político. ate. põe abaixo o ordenamento corrompido. o caudilho antecipou-se a qualquer tentativa deste naipe. O golpista ou golpistas contam. então. imposta pelos próprios governantes. pressionado pelos litígios partidários. o abrandamento dos costumes. casta e portadora de novos ideais.por exemplo. contra os governantes. É chegado. das prerrogativas do Legislativo e. desde logo. já a par de sua própria debilidade. no mais das vezes. É a massa. e antecipando-se a uma possível tentativa insurrecional por parte de uma pequena facção das For­ ças Armadas. com a finalidade de permanecerem no exercício do poder. pois visa apenas à derrubada dos governantes . a qual instaurou o chamado Estado Novo. Ao perceber que seu po­ der começava a esmaecer. com o apoio dc uma par­ cela considerável das Forças Armadas para o reforço de seu poder.84 Teoria Geral do Estado inicialmente jovem e vigorosa. realizando obra tão interessante como a destruição de anim ais daninhos. na revolução ou na insurreição a principal finalidade é substituí-los.. com o apoio ou não das Forças Armadas. Quanto ao golpe de Estado. tudo isso faz com que a elite dirigente. Insurreição. pois as primeiras ações e decisões do grupo que . por definição. a insurrei­ ção de março de 1964 -. desde logo. Assim. ao estahlishment. alterando a estrutura social. como a corrupção econômica. comece a confiar mais na astúcia do que na força. por isso. as leis e instituições e o pessoal gover­ nante. enfim. substituindo a ideologia dominante e criando um novo ordenamento jurídico. cheia de ideais. apoiadas ou não em outras forças sociais. A revolução caracteriza-se. quase sempre. que. pode ficar difícil para o analista estabelecer. alteram as instituições neste sentido. a fim de substi­ tuí-los ou lhes impor orientação política diversa. o mo­ mento propício ao surgimento de uma nova elite dirigente. Seja como for. se pelo golpe de Estado os governantes pretendem manter-se no poder e. A insurreição pode não alcançar as instituições. e reforçou bruscamente o seu poder. pelo Poder Executivo.

che­ gam ao poder. mediante uma ação apoiada na violência ou na ameaça desta. embora os grupos que. na América Latina. A diferença entre golpe dc Estado e revolução somente pode ser es­ tabelecida ex post facto. a medidas destinadas a consolidar a posição alcançada. a análise sociológico-política encarada sob uma perspectiva histórica permitiu mostrar que. salvo raras exceções. resumiu-se a meros golpes de Es­ tado. a maioria das ações desse tipo.4 A Constituição 85 toma o poder político resumem-se. Dessa forma. via de regra. . ocorridas no século X X . qualifi­ quem sua posterior ação governamental como revolução. não obstante as manifestações verbais que as acompanharam.

Ciência política.FORMAS DE ESTADO 1) UNIÃO PESSOAL Bibliografia: Paulo. c) inexiste fundamento jurídico unitário entre os Estados par­ ticipantes da união. em que. 1986. Pedro. as leis de sucessão monárquica ensejam a coincidência de um só príncipe ocupar dois tronos. Curso de teoria do Estado. constitui. hoje. Constituem exemplos históricos de uniões pessoais: Espanha e Portugal (1580-1640). 6. b) é transitória. SALVETTI n e t t o . Alemanha e Espanha (1519-1556). Pedro. mera figura histó­ rica. salvetti n e t t o . Rio de Janeiro. 86 . Curso de teoria do Estado. assim como a união real... aci­ dental e involuntariamente. 1986. Inglaterra e Hanovcr (1714-1837). decorrendo de mera coincidência na or­ dem sucessória dinástica. tornando-se o titular comum do poder em F^stados que preservam sua soberania. 6. São Paulo. São Paulo. Saraiva. Ciência política. b o n a v id e s . fortuita. os quais mantêm incólume sua soberania. A união pessoal de Estados vem a ser uma espécie de federação. ed. A união pessoal. Saraiva. 2) UNIÃO REAL Bibliografia: b o n a v i d e s . 1986. em face do declínio da forma monárquica de governo. A união pessoal: a) é casual. sendo a União des­ tituída de personalidade jurídica internacional. pois cessa o vínculo com a extinção da dinastia imperante. Paulo. Forense. Rio de Janeiro. ed. 1986. Forense.

v. portanto. Pedro. - Sahid. mas a uma coisa (res)yum objetivo concreto. São Paulo. um Estado chama-se unitário quando suas instituições de . m a Mariano. Essa forma de Estado mostra-se politicamente cen­ tralizada. São Paulo. e Carlos IV. quando a Áustria e a Hungria se agregaram sob a autoridade de Francisco José. ras. x if r a saliie - V E T O NETTO. Madrid. a união real. Paulo. Curso de teoria do Estado. c) a soberania de cada Estado permanece intacta. Bosch. 1982. Im­ pério Austro-Hungaro (1867-1918). 1986. embora dotada de descentralização meramente administrativa. Ciência política. Preleciona Sahid M aluf que o Estado unitário é aquele que apresenta uma or­ ganização política singular. 2. luf. 1979. Dinamarca e Islândia (de 1815 até a deflagração da Segunda Grande Guerra). Cumpre ressaltar que o adjetivo real atribuído à união não se refere. A for­ ma simples de Estado é representada pelo Estado unitário. Teoria geral do Estado. 3) ESTADO UNITÁRIO Bibliografia: daranas. 6. como rei da Hungria. podendo dissolver-se por acordo entre os Estados participantes. admitindo administração comum e economia societária. Carac­ teriza-se o Estado unitário. O poder central irradia-se por todo o território. 1986. A união real: a) não cria um novo Estado. as formas compostas de Estado correspondem às federações. Las constituciones europeas. Curso de derecbo constitucional Barcelona. Sugestões Literárias. e adota-se a mesma política ex­ terna. b) abrange. necessaria­ mente. que são: a união pessoal. pela caducidade dos tratados ou pelo desaparecimento da dinastia governante. Forense. e) sua duração pode ser permanente ou transitória. Vejamos o Estado unitário. Estados contíguos. da união de Estados em torno de um objetivo comum (res). As formas de Estado podem ser resumidas a duas: simples e compostas. Saraiva. g) o governante e seus ministros não atuam como representantes de cada Es­ tado participante. d) exclui administração uniforme e nacionalidade pró­ pria. na quali­ dade dc Imperador da Áustria.5 Formas de Estado 87 A união real de Estados é uma espécie de federação consistente na celebração. v. consciente e voluntária. monarca. 2. do qual trataremos a se­ guir. limitando-se a formar uma união de Estados. Constituem exemplos de uniões reais: Suécia c Noruega (1815-1905). b o n a v id e s . a confederação de Estados e o Estado federal. h) as relações entre dois Estados da união real são relações in­ ternacionais. Jorge. pela unicidade do poder. f) criam-se exército e marinha comuns. 1962. Nacional. cd.. sem limitações de natureza política. cd.. a rei. com um governo único de plena jurisdição nacional. sem divisões internas que não sejam simplesmente de ordem administrativa. 13. Este monarca chamava-se Carlos I. por via de regra. Rio de Janeiro. No di­ zer de Jorge Xifra Heras.

entre Estado unitário descentralizado e Estado federal aponta­ da por Paulo Bonavides: naquele. tende à unidade. Na centralização concentrada. porém. embora a Constituição ita­ liana proclame. a verdade é que a moderna doutrina já distingue. ao passo que nesta os órgãos descentralizados atuam em nome da entidade secundária da qual se originam. os agentes das entidades administrativas são meros núncios das decisões do poder central. portanto. desde a promulgação da Constituição de 1824. a região é uma entidade orgânica dc caráter histórico. Se a centralização política c a des­ centralização administrativa são as características marcantes do Estado unitário. ser a Itália uma república una e indivisível. não como poder originário ou de auto-organização (self-government). entre centrali­ zação concentrada e centralização desconcentrada. e que empolga. ao mesmo regime constitu­ cional e a uma ordem jurídica comum. permanentemente. por vezes. porque naquela os agentes atuam em nome do próprio Estado. to­ dos os cidadãos estão sujeitos a uma autoridade única. porém. como sociedade necessária. Análoga é a distin­ ção. no Estado unitário. Assim. que enseja. como mera delegação do poder central. O Estado. mediante a Lei de 12 de agosto. A forma política unitária corresponde a uma exigência natural. quando. embora persista a dependência hierárquica. ain­ da aqui. que marcou as atribuições dos presiden­ tes das províncias. Com efeito. na Itália. neste. no art. Não se confundem. somente durante o Império tivemos como forma de Estado a unitária. é delegado. chamada Ato Adicional. 5°. . No Estado unitário. porquanto.. tanto no que fazer quanto no como fazer. O problema surge quando se trata de estabelecer o grau ou intensidade desta unidade. promoveu-se alguma descentralização política. Por via de regra. é o regionalismo. a independência desses mesmos órgãos. complementada pela Lei de 3 de outubro do mesmo ano. já se observa certo grau de competência atribuído aos agen­ tes periféricos do poder. de modo que não passam de simples cumpridores dessas determinações. confere às regiões a mais ampla autonomia político-administrativa (arts. tudo. Quanto ao Brasil. estruturada sob uma or­ dem e um objetivo social. que permitiu a cada província eleger suas próprias assembleias legislativas. sempre válida. que go­ zam de relativa autonomia quanto aos serviços dc seu interesse. Na centralização desconcentrada. Fenômeno intimamente ligado ao Estado unitário. unidade lingüística e até racial. a ponto de algumas regiões dc Estados unitários demonstrarem maior unidade do que certos Estados federais.88 Teoria Geral do Estado governo constituem um único centro de impulsão política. temos a dependência dos órgãos descentraliza­ dos quanto ao Estado unitário. sem qualquer autonomia. por outro lado. não autônomo . até 1834. no caso do Estado federal. dotada de leis próprias. a doutrina. O poder. a referida centralização desconcentrada e a descentralização propriamente dita. de centralização concentrada. não é tarefa das mais fá­ ceis caracterizar este Estado como unitário. 115 e 1 17). a própria confusão entre Estado unitário e Estado federal. observa-se que o Estado unitário desconcentrado divide-se em departamentos e comunas.

construção permitida na língua inglesa graças ao artigo invariável: “ The Uni­ ted States /s. proibia-se à Con­ federação impor tributos aos Estados confederados. salvetti n e t t o . que consolidaram a doutrina do federalismo. . conforme estabelecido no documento chamado Artigos de Confederação. Jorge. Curso de direito constitucional 16. 1962. Daí a tradicional epígrafe Estados Unidos da América. 1986. Não mais os treze Estados de logo após a Independência. x i f r a celona. Las constituciones europeas. que exigiram fosse man­ tida a denominação Estado para cada uma das colônias integrantes do pacto fede­ rativo. e o Congresso. que resultou no aparecimento dos Estados Unidos da América do Norte. mostravam-se frágeis neste tipo de união. 1976.5 Formas de Estado 89 4) ESTADO FEDERAL Bibliografia: daranas. que esclarece a natureza e as vantagens do Estado federal. Curso de teoria do Estado. oportunamente. Ciência política. Sahid. 2. souza . 1982. Bosch. de um ór­ gão inútil” . r e ir a f il iio b o n a v id e s . 1979. A situação mostrava-se insustentável. 2. pois. Para solucionar o impasse.. Sugestões Li­ Pedro. fer­ Mariano. reuniram-se os representantes dos Estados confederados para rever os Artigos de Confederação. Não assim no caso brasileiro. Esta forma de Estado constitui uma espécie do gênero federação. As treze colônias vitoriosas sobre o domínio inglês.ed. no caso norte-americano.. 2. Madison e Jay.”. maluf. Como lembra. São Paulo. de 1777. no clássico O federalista. Saraiva. Rio dc Janeiro. então. José Pedro Galvão de. Por outro lado. 1987.. . a partir de então o Estado era um só. São Paulo. Refulgem. Madrid. 1986. Curso de dereebo constitucional Bar­ Revista dos Tribunais. ed. Tal doutrina calou fundo na opinião pública. na célebre Convenção da Filadélfia. heras.. v. Os doutrinadores norte-americanos que inicialmente cos­ tumavam dizer: “ The United States are. os memoráveis escritos de três jornalistas: Hamilton. inicialmente unidas em confederação.. Nacional. como assinala Pedro Salvetti Netto.” acabaram por empregar o verbo no sin­ gular. o autor citado: o nome do Estado aplicado a uma entidade não soberana explica-se. Surgiu com a Revolução norte-americana do século XVIII. São Paulo. Paulo. em virtude das circunstâncias históricas. Forense. e logo a Constituição terminou por ser ratificada pelos Estados. Teoria geral do Estado. Era um Estado constituído por Estados que se haviam federalizado. Saraiva. Como assinala José Pedro Galvão de Souza. Iniciação à teoria do Estado. São Paulo. cd. 6. reunida... Manoel Gonçalves. v. mediante a Constituição de 1787. 13. empenhada cm gravames financeiros para sustentar a frágil união. ed. levando George Washington a dizer: “A Confederação não passa de uma sombra sem substância. posteriormente. terárias.. de modo que se exauriam os cofres daquela.

a par da competên­ cia dos Estados-Membros (CF. com ressalva da competência comum (CF. Tem suas próprias competências (CF.90 Teoria Geral do Estado quando se começou a chamar de Estados as antigas províncias do Império. sempre. 34. (Iniciação à teoria do Estado. é a pessoa jurídica de direito público que representa o Esta­ do federal. § 1°). Os Estados-Mcmbros passam a dispor de mera autonomia. sendo dotado do poder de auto-organizar-se e dc autoadministrar-se limitado pela Constituição Federal. entidades políticas dotadas de poder soberano. p. apesar de Estado federal. em proveito do próprio Esta­ do federal. desde os primórdios da colonização. composta por unida­ des que. caput. V. vale dizer. que a intervenção federal é uma exceção à re­ gra da não intervenção. chegou-se ao Estado federal partindo da unidade para a multiplicidade. arts. é a unidade básica do Estado federal. o Estado federal é uma espécie de federação. o poder de se separar da União. submetendo-se a uma Constituição Federal. as entidades interventoras não atuam em nome próprio. e destes nos municípios (CF. A doutrina clássica é taxativa: os Estados federados não têm o direito de secessão. Vale lembrar. da Constituição . 30). arts. 25. 62) Fato curioso é que o Estado dc Nova Iorque somente ratificou a Constituição norte-americana após um ano da vigência desta. como se observa do art. arts. o Brasil. vale dizer. tal foi o furor imitativo dos primeiros homens da República. Quanto à União. 21 c 22). art. cm 1788. art. incondicionado. adota a denominação pro­ víncias para as unidades federadas. aliás. Com efeito. e sim com vistas à integridade do próprio Estado federal como um todo. isto é. representado pela União. o direito de se separarem da União.145 e 155) e da intervenção federal da União nos Estados-Membros (CF. quando a Carolina do Sul separou-se da União. autos = por si só + nomos = norma) e se sub­ mete ao poder soberano do Estado federal. É célebre a Guerra da Secessão. o Estado federal não se confunde com a confederação. porque esta é formada por Estados propriamente ditos. embora dotadas de capacidade de auto-organização e de autoadministração. O Estado-Membro ou Estado federado. ao passo que no caso dos Estados Unidos partiu-se da unidade para chegar à unidade. 1°. não são dotadas de soberania. Tal po­ der chama-se autonomia (do grego. Um Estado só havia sido. A Argentina. para usar a terminologia da própria Constituição. 23. e dos municípios (CF. seguida nesta atitude por outros Estados-Mcmbros. deflagrada nos Estados Uni­ dos da América do Norte entre 1861 e 1865. ainda aqui. sem poder interferir na competência das demais entidades federadas. como se percebe do texto do art. salvo a malograda e efêmera experiên­ cia das capitanias. através dc uma confederação em seguida à qual surgiu o Estado federal. mas. art. 21. submeten­ do-se a uma Constituição que lhes proíbe o direito de secessão. Tanto no caso do Brasil como no da Argentina. ao passo que no Estado federal os Estados-Membros renunciam ou são despojados de sua soberania. Pois bem. e 34). 35). cada qual dentro de seu campo de ação.

no qual cada Estado federado e o Distrito Federal contam com três senadores (art. $ I o). dotado de poder de auto-organização (art.1. Se a União pode intervir no Estado federa­ do. vale dizer. art. tam­ bém. com ressalva. ca­ put). ficam constituindo os Estados Unidos do Brasil”. A exemplo da federação norte-americana (Constituição dos EUA. da competência comum a todos (CF. concedida esta. e 34). sob pena de inconstitucionalidade. 1. I o e 2o. Concluindo: no Estado federal brasileiro. caput). no art. mediante o Senado Federal (CF. 2 1 . 2o. art. 72. 155). caput). estando submetido. 34. expressamente. como vimos. intervir nos seus municípios (art. cujo art. 3 4 . ao estruturar o Estado federal socialista. pes­ soa jurídica de direito público (arts. Nenhuma dessas entidades federadas poderá invadir a competência das demais. por sua vez. 35). 46. 23). como vimos. 2°: “As províncias do Brasil. A doutrina clássica é taxativa: os Estados federados não têm o direito de se­ cessão. 17° Aditamen­ to ao texto).02. à Constituição Federal. arts. livremente. Em qualquer caso. VII. V) nos ca­ sos do art. de 24. . 46). 1°. e 84. 25) sem a necessária autonomia financeira (art. este pode intervir no município (art. 155) e aos municípios (art. Exceção ao princípio da indissolubilidade do Estado federal nos dava a extin­ ta Constituição soviética de 1977. art. A forma federativa de Estado surge no Brasil com o advento da República (Decreto n. a intervenção é exceção. não regra.11. Tal orientação será definitiva­ mente confirmada com a primeira Constituição republicana. parte final. 1°. a intervenção é exceção. No caso específico do Brasil. em vez de duas.1). 21. reunidas pelo laço da federação. o Estado federal brasileiro conta com a participação dos Estados fe­ derados na formação da vontade nacional. qualquer tentati­ va separatista será tolhida pela intervenção federal (art. da URSS”. mas em qualquer caso. sendo o próprio Estado Federal representado pela União. X IX . que. 25. limitado pela Constituição Federal (arts. promovida pela União (art. o poder de se separar da União (art. na expressão união indissolúvel nele constante. I o. ao Distrito Federal (art. 25.1891. de 15. Tal po­ der de auto-organização chama-se autonomia. a dos Estados federados e a dos municípios. 35). 1°. porém. pois de nada valeria a autonomia políti­ ca (art.1889). que “cada república da União conserva o direi­ to de se separar. VIII. caput. jamais regra.5 Formas de Estado 91 Federal. como se deduz.a República Federativa”. O Estado federado pode. admitia. X X e XXII). como já foi visto. há três ordens de competências: a da União. caput. o Estado federado é entidade integrante do Es­ tado federal (CF. Seção 3a. 156). e o art. art. I o estabelece: “ Fica proclamada proviso­ riamente e decretada como a forma de governo da nação brasileira . A Constituição Federal assegura a autonomia política e financeira dos Esta­ dos federados ao longo de vários artigos. Qualquer tentativa de se­ paração ensejará a intervenção federal.

III . ressalva­ das. . § 3°. A exemplo dos Es­ tados Unidos da América (Constituição dos Estados Unidos da América. as decorrentes dc obras da União. 46). Se­ ção 3a e 17° Aditamento ao texto). nas ilhas oceânicas c costeiras.92 Teoria Geral do Estado claramente.as águas superficiais ou subterrâneas. neste caso. a Constituição confere.as áreas. art. ou formarem novos Estados ou Territórios Federais. no art. da Constituição: Os Estados podem incorporar-se entre si. II . 26. Quanto à criação de novos Estados federados. por intermédio do Senado Fe­ deral (art. 155). 18. a federação brasileira prevê a participação dos Estados federados na formação da vontade nacional. autonomia financeira (art. fluentes. A Constituição Federal aponta. 34 e 35. A par da autonomia política. que estiverem no seu domínio. subdividir-se ou desmembrar-se para se anexarem a outros. mediante aprovação da população diretamente interessada. na forma da lei. aos Estados federados. Municípios ou terceiros. através de plebiscito. por lei complementar. assim dispõe o art. I o. IV .as terras devolutas não compreendidas entre as da União. e do Congres­ so Nacional. excluídas aquelas sob do­ mínio da União.as ilhas fluviais c lacustres não perten­ centes à União. emergentes e em depósito. do teor dos arts. como bens dos Estados federados: I .

Adolfo Casais Monteiro. Quis este famoso literato enfatizar a importância da herança cultural helêni93 . les. teremos como forma de governo a República. La República. p l a t Ão l in a r e s q u in t a n a . Tal relaciona­ mento é chamado regime de governo. as expressões Estado unitário e Estado federal indicam formas de Esta­ do . dc modo que esta expressão afere qual ór­ gão exerce a função governamental. a M onarquia. I.FORMAS DE GOVERNO 1) CLASSIFICAÇÕES ANTIGAS E MODERNAS 1. temos o Estado unitário. de nítida descentralização político-administrativa. Lisboa. ocorre-nos a sugestiva tirada do poeta inglês Percy B. Buenos Aires. Se este é centralizado ou centrípeto. v. form a de governo e regime de governo . I. caracte­ rizado pela centralização político-adm inistrativa. No primeiro caso. É imperioso distinguir entre form a de Estado. e Las leyes. Na série de classificações de formas de governo que ora iniciamos. Centro de Estúdios Constitucionales. Shelley (1792-1822): “Somos todos gre­ gos”. no segundo.1) Platão (Arístocles) Bibliografia: Segundo V. trad. Sistemas cie partidos y sistemas políticos. 1981. Ora. Plus Ultra. A expressão form a de Estado indica a maior ou menor irradiação do po­ der político. Centro de Estúdios Constitucionar o b in Léon. teremos o Estado federal. v. . 1976. Madrid. Em face disso. se é descentralizado ou centrífu­ go. Platão. . Inquérito. Madrid. Já a expressão form a de governo revela se o poder é exercido temporária ou vitaliciamente. em cada form a de governo democrática desenvolve-se um relacionamento peculiar entre as funções executiva c legislativa.

No livro D a república.. outras formas.C. Denis o ex­ pulsou da cidade. honra. e kratos. Incomodado. Dedica-se à filosofia. discípulo de Sócrates (470-399 a. povo. que revela seu pensamento definitivo. tentou persuadir o tirano Denis. a aceitar as ideias que expôs no Livro Quinto de sua obra D a república. Tudo isso leva à tirania. quando concluía sua obra As leis. e kratos. ex­ pressão que passou a designar as sociedades científicas. colocação à qual aderimos sem hesitar. uma mino­ ria abastada impõe sua arrogância a toda a sociedade. poder) e tirania . as Constituições políticas abundam e as boas leis são desprezadas. Platão morreu em 347 a. partem. secunda­ do pela corrupção.C. com a conseqüente ascensão da massa. Surge a timocracia quando indivíduos de condição social inferior enriquecem e tentam chegar ao poder pela astúcia. Platão. às suas expensas. pelo sangue materno.C. Em 404 a. Platão idealiza um processo dinâmico de rodízio das formas de governo. A timocracia. em meio à qual se eleva­ va um ginásio. numa seqüência inevitável. gover­ no).C. Platão fundou sua própria escola. melhores. Todavia. enaltecendo o valor dos filó­ sofos e criticando a frivolidade e a devassidão da corte. pois além dos ricos são banidos os sábios. pois a liberdade tornada licenciosa só pode levar à escravidão. Na timo­ cracia surge agudo conflito entre o bem e o mal. democracia (dc demos. implantando-se a mais grosseira mediocridade. sendo o dinheiro. desiludido com a condena­ ção de Sócrates.. e arche. Da aristocracia (de aristoi. forma que considera a melhor de todas. parente do grande legislador Sólon. cujo verdadeiro nome era Arístocles (o apelido derivou do fato de este filósofo ter as espáduas largas. o Antigo. favorecendo a ascensão política de Platão. Tal situação insustentável vem abai­ xo quando se instala a democracia. descrê da organização política tradicional de sua pátria. entretanto. oligarquia (de oligoi.. forma em que os ricos são expulsos do poder.C. no que são impedidos pelos militares. com a tomada de Atenas por Lisandro. quando. começaremos este tópico com um panorama das ideias de Platão (429-347 a. Por isso. poder). de modo que logo a desordem campeia irrefreada. nos arredores dc Ate­ nas. a aristocracia chega ao poder. Em homenagem a Academus.C. degenera em oligarquia. e kratos . aos 82 anos dc idade. pertencia a uma famí­ lia aristocrática. sendo.) e mestre de Aristóteles (384-322 a.do qual tornou-se grande conhecedor .e pela Mag­ na Grécia. fundado num determinismo inafastável. poder) ou autocracia militar. Em 387 a. que passam a exercer o poder oprimindo aqueles a quem deveriam proteção.). então. Assim: timocracia (de tim os. viajando pelo Egito . a única chave para as portas da ascensão social e política. literárias ou esportivas. por sua vez.94 Teoria Geral do Estado ca. evocando o termo om oplata ). também ocorrem graves disfunções sociais. conhecida como o parque do herói Academus. poucos.). mesclando-se uma sã filosofia dc vida com a sede crescente de honras e bens materiais. a escola platônica foi denominada Academia. A corrupção cam­ peia. considerados perigosos para a nova ordem. numa bela propriedade arborizada e regada por nascentes. . Em Siracusa.

c r o ix G. levando em conta o intuito de o governante ou gover­ nantes administrarem visando ao interesse geral ou ao benefício pessoal. fundadas em princípios opostos. que soube dar ao filho refinada formação intelectual. Barcelona. numa combinação harmoniosa de princípios opos­ tos. discípulo de Platão. com o qual classificou tais formas consoante o número de indivíduos que governam. para tanto. Aristóteles teve oportunidade de visitar e estudar cerca de 150 Constituições de po­ vos diversos. Plus Ultra. 1988. Platão se antecipa a muitas classificações posteriores. Aristóteles correspondeu por inteiro à expectativa do pai. Em As leis. um. Quanto ao número de pessoas a exercer o poder (critério numérico). e arche. Acompanhando seu discípulo nas expedições que caracterizaram a vida deste. um equilíbrio de forças políticas antagônicas. de. senhor de vasto império. seu mestre Platão. graças às suas conquistas mi­ litares. pelo qual classificou tais formas em puras e impuras. E. Reunindo este valioso material em obra notável. Bologna. conta-se. Madrid. Sistemas de partidos y sistemas políticos. porém igualmente le­ gítimos: a autoridade e a liberdade. 1. que se tornaria. Aristóteles (384-322 a. Depois de estudar durante vinte anos com Platão. 1976. E.6 Formas de governo 95 Na obra As leis. foi encarregado por Filipe da Macedônia de educar Alexandre. que num dia em que faltou à aula. Era um típico aristocrata. não se configuram nem poder. ao preconizar uma forma mis­ ta de governo. já não pretende descrever um Estado ideal. Então afirma existirem. Platão mostra-se mais realista. ao observar os alunos presen­ tes e constatar a ausência de Aristóteles. adotando. con­ terrâneo de Filipe e do filho deste. Assim. era natural da Macedônia. Política. e o critério moral.). s. ste. . l in a r e s q u in t a n a Segundo V. teria dito: “Hoje a inteligência faltou!”. em que haveria. Nicômaco. Zanichelli. nem liberdade excessivos. 1983.d. intitulada Política. Buenos . fi­ lho de um médico abastado.C. barker. governo). The political thought of Plato and Aristotle. chamado monarquia (de monos. e a democracia à obe­ diência. Editorial Crítica. Alexandre Magno. até.2) Aristóteles Bibliografia: A r i s t ó t e l e s . formulou sua célebre classificação das formas de governo. dois critérios: o critério numérico. fundamentalmente. e La política (passi scelti e commentati da Giuseppe Saitta). New York. duas formas de governo: a monarquia c a democracia. temos o governo de um apenas. Centro de Estúdios Constitucionales. Dover Publications. 1947. Aires. . mas aquele que mais se coadune com a praxe política. porque mais maduro. Las luchas de clases en el mundo grie- go antiguo. Cada uma dessas duas formas de governo só subsiste se faz concessões à outra: a monarquia à liberdade. M. sendo cognominado o Grande ou Alexandre Mag­ no.

povo. ou tirania. governo). Em face do exposto. sur­ ge a politeia . as multidões desorganizadas. temos a aristo­ cracia (de aristoi. poder).96 Teoria Geral do Estado quando o poder é exercido no interesse geral. poucos. forma pura . visando tão somente seu próprio be­ nefício. surge a oligarquia (de oligoi. quando é exercido no próprio interesse do governante. forma impura. Sendo o poder exercido por uma minoria no interesse geral. porem. quando a minoria dominante se sustenta na força do dinheiro ou na hereditariedade. quando o poder é exercido por muitos no interesse de todos. levadas à deriva por aven­ tureiros inescrupulosos. podemos esquematizar as formas de governo aristotélicas assim: Critério numérico (Leva-se em conta o número dc pessoas que governam) Monarquia: governo de um Aristocracia: governo de poucos Politeia: governo de muitos Tirania: governo de um Oligarquia: governo de poucos Democracia: governo de muitos Demagogia: governo de todos Critério moral (Leva-se cm conta a intenção dos que governam) • Formas puras Monarquia: governo de um no interesse geral Aristocracia: governo de poucos no interesse geral Politeia: governo de muitos no interesse geral • Formas impuras Tirania: governo de um no interesse pessoal Oligarquia: governo de poucos no próprio interesse Democracia: governo de muitos no próprio interesse Demagogia: governo de todos. situação gravíssima em que todos se julgam aptos a governar. portanto. melhores. e agost orador). em que os pobres governam no próprio interesse. em que predominam as paixões e a desordem . ou a demagogia (de demos. e kratos. termo que. cor­ rupção da aristocracia. e arche. e kratos. graças a uma empolgante e astuta oratória. sendo as massas. Finalmente. cujas formas corrompidas são a democracia (de demos. tem sentido original bem diferente do atual. poder). povo. como se vê.

restaram os primeiros cinco li­ vros e anotações dos Livros I e XIII) tentou explicar como Roma. Editorial Crítica. porque a virtude e o poder raramente andam juntos. Barcelona. Sistemas de partidos y sistemas políticos. num total de quarenta. viajou e escreveu livremente. Seu trabalho. Ele afirma que cada Estado deve adotar a forma de governo que mais se coa­ dune com suas peculiaridades. é também a mais estável de todas estas formas de governo ( Política . G. Iberia.C. de. cit. . embora afetado em alguns pontos por naturais deficiências. Presença. porque nos regimes oligárquicos a revolução pode operar contra os próprios governantes ou contra o povo. a monarquia é. c r o ix prélot. Por outro lado. na democracia. Sc. pois a aspiração maior do rei é a virtude. Embora bem-nascido e exercesse importante papel durante a guerra entre Roma e a Macedônia (171 a 168 a. diretamente. na teoria. de m e g a l ó p o l is l in a r e s q u in t a n a . até porque a melhor forma de governo é aquela que tem os melhores governantes (Política . 1988.6 Formas de governo 97 Aristóteles não propende. Muntaner. Historia universal duran­ Mareei. líticas. 1. 1973. Um povo jamais se volta contra si próprio. M . e a politeia. em menos de duas gerações.). Plus Ultra.C. a forma ideal de governo. Em sua obra (da qual. Natural da Arcádia. a própria democracia é mais estável que a oligarquia. Capítulo V). sendo-lhe conferida a administração da Acaia. Livro VIII. lançou-se à empre­ sa de escrever a história deste período da civilização romana. a subversão atua apenas contra a minoria oligárquica. Barcelona. . Livro III. seu talento logo foi percebido nos altos círculos dc Roma e. Lisboa. enquanto a do tirano é o prazer. identificando na sadia concepção e organização da ordem jurídico-política a razão maior de seu sucesso. Capítulo I). foi conduzido à condição de escravo após o conflito.. ao passo que. obtendo a proteção dos Cipiões. acha-se estribado em séria e copiosa documentação. Políbio (205-125 a. As doutrinas po­ te Ia república romana. La Incha de clases en el mundo griego antiguo. ao comandar a cavalaria da liga aqueia. E. a monarquia é mais suscetí­ vel de corrupção. na prática. conquistou o mundo conhecido na época. mais precisamente de Megalópolis. Impressionado com a organização da República romana. ste.) foi um historiador grego que recebeu profunda influência das instituições romanas de seu tempo. Todavia.3) Políbio de M egalópolis Bibliografia: Segundo V. p o l íb io . 1976. forma cm que predomina a classe média e que tem mais afinidades com a democracia do que com a oligarquia. por um lado. para esta ou aquela forma pura de go­ verno. Buenos Aires. v. 1.

busca reparar os desvios dos go­ vernantes. Finalmente. mas apenas aquela que conta com súditos voluntários. perfeitamente equilibrado. na Lacedemônia. Políbio reconhece três espécies boas de governo: a realeza. que se busca passar por aristocracia. Por outro lado. Não são as únicas nem as melhores. quando o povo. mas apenas aquela em que o povo venera os deuses. o elemento democrático. porque . A realeza pode contrair vícios que a transformam em tirania. continua Políbio.e nisto reside a originalidade de Políbio . não é a democracia a forma de governo em que o populacho faz o que bem entende. distinguindo entre m onarquia e realeza.. A Constituição da República romana. multidão. irritado. cit. cit. as três formas puras de governo não são as únicas.. Por outro lado. surge a democracia. Na sua H istória u n i­ versal durante a República rom ana . Políbio indica a de Licurgo. e esta. por sua vez. a aristocracia c a democracia. só pode trazer bons resultados. fazer-se passar por reis. por natureza governo de pou­ cos. adverte Políbio. que há seis formas de governo: três que todo mundo conhece e outras três que com elas se relacionam. Seria dc sc perguntar. Capítulo II). mas apenas aquela em que governam os mais justos e sá­ bios. Desta. observa Políbio. Outro grande mérito da forma mista de governo c o de resistir à natural deteriora­ .. cit. Livro VI. o Senado.a m elhor form a de governo é aquela que sintetiza as virtudes das demais. há muitos Estados governados por uma minoria. Fique assentado. por várias ou por muitas pessoas. e foi durante sua vigência que Roma conquistou Cartago e estendeu seu império pelo Mediterrâneo. ou a oclocracia (de o cios. bem assim por democracia (H istória . reúne as três formas puras de governo: monarquia. como se disse. em dupla. Livro VI. em que o povo se torna insolente e menospreza as leis. Capítulo II). sendo que o governo pode ser exercido por uma. o regime se assemelha ao monárquico. aristocracia e democracia.98 Teoria Geral do Estado Assim como Aristóteles. Políbio adverte que os conhecedores da Políti­ ca veem três formas boas de governo: a realeza. tal sistema misto. dele deriva a realeza. poder). exerciam a administração pública em substituição ao rei). pela equidade e a razão. se tais formas são as únicas ou as melhores. respeita os pais. jamais por medo ou violência. implantando a irracionalidade e a inseguran­ ça ( H istória . Capítulo II). O governo de um ou monarquia estabele­ ceu-se sem arte. Em qualquer caso há equívoco. traz consigo a feição aristocrática da República romana e. adverte Políbio. pois. Como exemplo de Constituição política deste tipo. por mero impulso da natureza. Da mesma forma. e kratos. e que é exercida pela razão. Ora. nem toda oligarquia merece o cpíteto de aristocracia. que se im ­ planta com arte e correção. vemos certas monarquias ou tiranias distancia­ rem-se muitíssimo da realeza. no que tange aos comícios populares e tribunos da plebe. a aristocracia c a democracia. Observa Políbio que nem toda monarquia é realeza. Livro VI. na medida do possível. Em relação aos cônsules (magistrados eleitos anualmente que. pois. reverencia os idosos e obedece às leis. sen­ do aquela obtida pela força. embora monarcas e tiranos procurem. Haverá democracia onde tais senti­ mentos prevalecerem (H istória . de cujas ruínas surge a aristocracia.

visto que não há uma natural desigualdade fundada no merecimento (Da república. legou à posteridade escritos de gran­ de valor para a literatura e a ciência política. Cícero se antecipa à moderna teoria de separa­ ção de Poderes do Estado ao advertir que: . advogado e político. aristocracia e governo popular. 2 v. Para Políbio. Embora considerando a monarquia a forma ideal de governo (Da república. Marco Túlio Cícero (106-43 a. Presença. Lisboa. nada é estático. obras importantíssimas para o Direito Público. como Políbio. Toda Constituição políti­ ca. porque contém em si o germe de sua própria morte. do qual apenas em 1814 foi localizado.). e o governo do povo a pior.6 Formas de governo 99 ção pelo tempo. o Estado imóvel. ao que parece. afirmando. o príncipe dos jurisconsultos romanos. porque não precisa intervir nas assembléias. eei. são privados quase completamen­ te dc direitos e da participação nos negócios públicos.. Neste campo. Livro I. l in a r e s q u in t a n a . Todavia. c íc e r o . com apenas três dos seis livros para os quais a obra foi planejada. 1927. Título II). Cícero não se mostra muito original. a que todas as outras estão sujeitas. Athcna. cit. Quanto às formas de governo. Segundo V. por outro lado. por excelente que seja. Quanto ao Das leis. ficou. Rio dc Janeiro. Políbio observa que tudo está em movimento perpétuo. tende à degeneração e ao perecimento. Buenos Aires. é irrealizável.. com recí­ proca moderação (Da república. Para Cícero. conforme as circunstâncias existentes em cada Estado. inconcluso. exceto o monarca. escreveu Da república e Das leis. Emilio. 1973. cada uma destas formas tem seus próprios de­ feitos: na monarquia. Título II). Curioso observar que no Livro II. por Angelo Mai. Título II.d. pois. nem detém qualquer poder. costa. Livro I. Ciceprélot. Plus Ultra. As doutrinas políticas. escrito em exaltação às leis romanas. Da república é um tra­ tado formado por seis livros. no Estado popular. de Da república. todos. enquanto no governo aris­ tocrático apenas o povo é livre. cit. 1. além de notável orador. embora se pense que tudo é justo e moderado. Bologna. ao seguir a classificação tradicional de realeza. s. catalisador das três formas apontadas. v. Sis­ M ar­ temas de partidos y sistemas políticos. 1976.. cit. qualquer destas espécies de governo se mostra a ideal. propugna. um antiquíssimo palimpsesto com o texto integral da obra. estacionário. a verdade é que prevalece a iniqüidade. 1. rone giureconsulto. um sistema misto.4) Cícero Bibliografia: Da república. Título II). Livro I. Finalmente.C. fundado 11a filosofia de Heráclito. Zanichelli. que nenhuma forma de governo será a ideal se considerada isoladamente.

dc 1532. Logo na abertura desta última obra adverte: “ Tutti gli stati. traição. 2. equivocadamente. mas segun­ do o ideal dc um Estado que sc tem dc constituir c dc manter. O que o autoriza a escapar à moral é o fato de estar colocado acima da mediocridade ambiente. Niccolò Machiavelli (1469-1527) ou. 1976. Presença. Na verdade. M aquia­ vel expõe seus conceitos referentes à forma republicana. uma suposta doutrina em que a má-fé e a traição prevalecem. e não é este o momento adequado para demonstrá-lo. todos os meios são considerados honestos. 2. As doutrinas políticas. Sistemas de partidos y sistemas políticos. e O príncipe. Maquiavel formula suas espécies. com realismo e frieza. dolo. visto que tudo isso não deve ser julgado segundo a bitola comum que rege a vida privada. observe-se a clareza com que Marcel Prélot sin­ tetiza o pensamento de Maquiavel: A simulação e a dissimulação: o Príncipe é conhecedor das circunstâncias. p. cm duas obras fundamentais: os Discursos sobre a primeira década de Tito Lívio. Nos Discursos. quaisquer meios. de Florença. Edi- l in a r e s q u in t a n a . fraude. capacidade. não se pode esperar que a ordem es­ tabelecida dure muito tempo.5) Nicolau M aquiavel Bibliografia: pem. perfídia. 1973. Plus Ultra. ao passo que cm O prín­ cipe o faz relativamente à forma monárquica. v. Segundo V. Buenos Aires. rou­ bo. Marcel. grande amador da astúcia e grande adorador da força. v. A grandeza: o Príncipe está acima do comum. mas é também o que engana a sorte. M a­ quiavel pôs a nu a dinâmica política. cargos e obrigações. é cola­ borador avisado da Providência. m a c iiia v e l l i. Desde que o Príncipe al­ cance o resultado desejado. tutti i domini cbe banno avuto e banno impero sopra li uo- . velhacaria. que deu origem ao substantivo “ maquiavelismo”. caracterizando o indivíduo “ maquiavélico” . para denominar. os poderosos ex­ cessiva autoridade e o povo exagerada liberdade. em vernáculo. libertinagem. Novara. de tal forma que os magistrados tenham poder excessivo. Situa-se para além do bem e do mal. vendo na Política uma técnica de alcançar o poder e permanecer nele. publicada cm 1531. e a dinâmi­ ca respectiva. 40) Quanto às formas de governo. empregando. desde que o objetivo fosse legítimo. Daí a frase que lhe é atribuída: “O fim justifica os meios”. (/\ s doutrinas políticas. para tanto. 1. que importam. é o famoso pensador italiano. em sua obra O príncipe. Nesse sentido. 1973.10 0 Teoria Geral do Estado sc em determinada sociedade não são divididos equitativamente os direitos. Nicolau Maquiavel. Lisboa. deboche. prélot. Cupidez. // príncipe e altri scritti.

por sua curta duração. Maquiavel não reconhece a existência de três ou seis formas de governo. mais do que duas formas de governo: república e tirania. a aristocracia e a democracia. onde as cidades formavam verdadeiros Estados em luta. Todas as for­ mas de governo. dividido por lutas internas. sono stati e sono o republiche o principati” (“Todos os Estados. fatalmente. e as demais pela malignidade que lhes é intrínseca. mas apenas duas. de­ vendo os legisladores de cada Estado optar por uma delas. classi­ ficavam as formas de governo em seis. cada uma destas formas vigia e reprime o abuso das demais (Discursos. aris­ tocracia e democracia. como o faz em O príncipe: a m onarquia e a república . isoladamente consideradas.. uma vez que não percebe que ela. Na obra Discurso sobre a reforma da Constituição de Florença. são nocivas: as três consideradas boas. Seu país. Capítu­ lo 11). assume postura diversa da adotada . O legis­ lador prudente não as levará em conta. mesmo sendo boas. porque. três péssimas e três boas . Assim. Ao contrário da maior parte dos autores clássicos. foram e são repúblicas ou prin­ cipados”). Livro I. na prática. todavia. todos os do­ mínios que tiveram e tem poder sobre os homens. numa Cons­ tituição em que coexistam a monarquia. a aristocrática e a democrática. Nos Discursos Maquiavel lembra que pensadores antigos reconheciam três espécies de formas de governo: a monárquica. o faz por pou­ co tempo.monarquia. quando o legislador orga­ niza o Estado sob a égide de uma das três boas formas de governo. acham-se tão expostas à corrupção que chegam a ser perniciosas também.6 Formas de governo 101 I Nicolau Maquiavel (1469-1527) m ini. em seu tempo. se corrompe. era um campo fértil para as ambições de tiranos e demagogos. a qual será mais firme e estável. Outros. estabelecendo um a form a mista de que to­ das as formas boas participem . porém estas. cit. Aliás. Maquiavel não conhe­ ceu.

comunicações sobre certas doenças. STAHL. Capítulo Primeiro). 3. perto dc Bordéus. sença. afirmando que não se pode garantir a Constituição dc um Estado senão estabelecendo uma verdadeira repú­ blica ou uma verdadeira monarquia. mas sim buscar o verdadeiro “espírito das leis’'. pana Moderna.6) Montesquieu Bibliografia: LINARES Segundo V. após nada menos do que vinte anos de esforços. Marcel. D o p ré lo t. dois anos após. Buenos Aires. Alquebrado pelo trabalho. prossegue. vê sua saúde arruinada. apaná­ gio dos Estados democráticos contemporâneos. em 1755. por não desejar ficar adstrito aos textos legais. Fez excelentes relações de amizade.102 Teoria Geral do Estado nos Discursos. é evidente: tais governos concorrem para a destruição tanto da república como da monarquia. Pertencente à antiga nobreza. já com mais de sessenta anos de idade. mais conhecido como princípio da separação de Poderes. pelas ciências puras e pela própria anatomia. Historia de la filosofia dei derecho. Madrid. demonstrou pendor não só pela História e pelas letras. Talentoso. m o n te s q u ie u . s. v. v.d. As doutrinas políticas. também. com base na experiência adquirida cm suas viagens. 1. toda­ via. estudou Direito sem ter ficado muito satisfeito. A razão. 1976. La Es- Charles-Louis dc Secondat. sendo tido por muitos como o precursor da Sociologia. q u in ta n a . nasceu em Bròdc. Lisboa. Difu­ são Européia do Livro. das quais poderia ter tirado grande proveito. Plus Ultra. conforme a forma mista deriva para uma ou outra destas formas. Montesquieu foi o grande sistematizador do princípio da separação das fun­ ções do Estado. enveredando. Barão dc la Brcde c dc Montesquieu (1689-1755). ao questionar a forma mista de governo. vindo a falecer em Paris. Em O espírito das leis (Primeira Parte. Montesquieu afirma: . de um suplemento intitulado Em defesa do espírito das leis. Em 1734 publica a mo­ nografia Considerações sobre as causas da grandeza e da decadência dos romanos e. Sistemas de partidos y sistemas políticos. escreveu sobre as glândulas renais e chegou a iniciar uma H istória física da terra antiga e moderna. publicando. 1962. São Paulo. também. Pre­ Federico Julio. em especial a Inglaterra. Livro Segundo. Em 1716 pu­ blicou sua Dissertação sobre a política dos romanos na religiãoycriou um prêmio para trabalhos sobre anatomia. espírito das leis. preferiu retirar-se para um castelo de sua cidade natal e trabalhar cm novas obras. Conheceu toda a Europa. sua maior obra O es­ pírito das leis} seguida. sendo defeituosos todos os sistemas interme­ diários. em 1748. 1.

igualmente o povo. não saberá. ou somente uma parcela do povo. da natureza do governo procede aquilo a que chamamos. isso é suficiente para que possa escolher um edil. como um todo. v. uma só pessoa. há que se identificar uma natureza e um princípio. as ocasiões. três fatos: um. Suponho três definições ou. que muita gente sai dc seu tribunal satisfeita com ele. vale dizer. que possui suficiente capaci­ dade para julgar da gestão dos outros. 58-9). tra­ ta-se de uma Democracia. trata-se de uma Aristocracia. o monárquico e o despótico. mas dc acordo com leis fixas c estabelecidas. ou seja. os momentos e aproveitá-los? Não. O povo é admirável para escolher aqueles a quem deve confiar parte de sua au­ toridade. a monarquia é aquele em que um só governa. Estas visam a conservação dc certo meio e a escolha dc certas orientações. é. possui o poder soberano. Diría­ mos. atualmente. a mode­ lar o espírito geral. sua estrutura e seu mecanismo. não está apto para governar por si próprio. o súdito. vem a ser aquilo que faz o governo agir. Sabe muito bem que determinado homem esteve muitas ve­ zes em guerra e que obteve tais e tais êxitos. antes. . adverte iMontesquieu. Do princípio do governo provêm as leis civis e as leis sociais. derivam as “ leis políticas”. enquanto no governo despótico. o monarca. Tal como a maioria dos cidadãos que possuem suficiente capacidade para eleger mas não a possuem para ser eleitos. O povo. que princípio informa o direito público geral (As doutrinas polí­ ticas. capaz de eleger um general. di­ reito constitucional. Por outras palavras. Para descobrir-lhes a natureza. Só pode decidir-se por coisas que não pode ignorar e por fatos que estão ao alcance de seus sentidos. sem obedecer a leis e regras. 3. é. conhecer os lugares. na democracia. Quanto ao princípio. Sabe que um juiz é assíduo. é suficiente a ideia que deles têm os homens menos ins­ truídos. realiza tudo por sua vontade c seus caprichos. A natureza de um governo é o que faz com que ele seja o que é. Da natureza do governo em Montesquieu. Quando o poder soberano está nas mãos de uma parte do povo. numa republica. Em cada forma de governo. que nao sc pode corrompc-lo: isso é suficiente para que eleja um pretor.6 Formas de governo 103 Existem três espécies de governo: o republicano. Quando. p. hoje. que o governo republicano é aquele em que o povo. Sc está impressiona­ do com a magnificência ou com as riquezas de um cidadão. saberá o povo dirigir um negócio. Entretanto. o povo como um todo possui o poder soberano. a motivação das ações do cidadão. aquelas que têm como objetivo a organização governamental. sob outros. Todas essas coisas sao fatos que o povo aprende melhor na praça pública do que um monarca em seu palácio. sob alguns aspectos. adverte Marcel Prélot. então.

O po­ der político implica. que restringem a vontade momentânea e caprichosa de um só homem. Quanto ao despotismo. 1976. o mais natu­ ral. Eis o governo despótico”.. (O espírito das leis. moreau Joseph. O prin­ cípio desta forma de governo é o medo. não concentra em si toda a autoridade. Na república democrática. na república aristocrática chama-se moderação por parte dos governantes. a virtude chama-se civismo. referindo-se. Sistemas de partidos y sistemas políticos. porque isto nos liberaria de ser­ vi-lo. pois. depois da morte dos irmãos. a república e uma forma de governo adequada a Estados de peque­ nas dimensões. tendo a Natureza estabelecido o poder paterno. .7) Rousseau Bibliografia: l i n a r e s Segundo V. cit. Rousseau y la fundamentación de Ia . a qual nos diz que um rei ja­ mais deve ordenar uma ação que nos envergonhe. a fim de que o povo tenha alguma participação política. sendo um terceiro organismo um corpo de magistrados que zela pela preservação das leis e que lembra ao monarca o dever de cumpri-las. Primeira Parte. Plus Ultra. Buenos Aires. e lembra. depois da morte do pai. Hmbora o rei seja a fonte de todo o poder. Porém. porém submetido ao império de leis previamente esta­ belecidas. Quanto à monarquia. o exemplo do poder paterno nada prova. à melhor forma de governo. o da nobreza. o governo de um só estaria mais de acordo com a Natureza. q u in t a n a . mostra sua natureza no fato de o poder político estar nas mãos de um só homem. guiando-se apenas por sua vontade e seus caprichos. as­ sim doutrina íMontesquieu: A força geral pode ser colocada nas mãos de apenas um ou nas mãos de muitos. O princípio da monarquia vincula-sc à honra. e assegurar a continuidade e o cumprimento das leis fundamentais. o princípio das republicas é a virtude. a união de muitas famílias. Livro Primeiro. porque também é próprio da natureza da monarquia haver órgãos in­ termediários subordinados e dependentes. termo que na obra de Montesquieu denomina a primazia dada ao interesse publico.104 Teoria Geral do Estado Ora. Alguns pensaram que. o poder dos irmãos ou. É melhor dizer que o governo mais de acordo com a Natureza é aquele cuja disposição particular melhor sc relaciona com as disposições do povo para o qual foi estabclccido. cortam uma árvore pela raiz e apanham-nas. necessariamente. Em qualquer caso. indiretamente. se o poder do pai está relacionado com o governo de um só. Capítulo Segundo) 1. muitos. sua natureza reside no fato de o rei governar sem le­ var em conta as leis. Por outro lado. ironicamente: “Quando os indí­ genas da Luisiana querem colher frutas. O poder intermediário mais conveniente é o do clero.

A aristocracia. O contrato social. Cultrix. Isaac Rousseau e Suzanne Bernard. Espasa-Calpe. que influenciaria pensadores de todo o mundo. e seu pai.6 Formas de governo 105 democracia. todavia. diz Rousseau. até oito imperadores si­ multaneamente. O único período realmen­ te feliz da Humanidade. Esparta. Ou pode então restringir o governo às mãos dc um pequeno número. O contrato social resume o ideal rousseauniano de um governo que limite ao mínimo sua intro­ missão na liberdade dos indivíduos. em 1762. que orientou Jean-Jacques em suas primeiras leituras. a mais ampla par­ ticipação política. Em 1753. são sus­ cetíveis de maior ou menor e mesmo de grande latitude. porque a democracia pode abarcar todo o povo. Sua mãe faleceu poucos dias após o parto. v. nasceu em Genebra. premido por dificuldades financeiras. ou ao menos as duas primeiras. a obra continua a ser um clássico da literatura política e sociológica. filho de um casal de protestantes. por falta de convicção do autor em determinadas passagens. As doutrinas políticas. O contrato social e outros escritos. N o seu trabalho sobre a origem e o fundamen­ to da igualdade entre os homens. confiar o depósito do governo ao povo em conjun­ to ou à maioria do povo. 3. Rous­ seau publica o ensaio Origem da desigualdade entre os homens. foi o estágio tribal. de início. porque nele ainda não existia a desigualdade social e econômica que viria depois. por sua vez. As­ . Devo assinalar que todas essas formas. e chama-se monarquia. 1977. cheia de vicissitudes. e houve. no Império Romano. Madrid. cujas únicas motiva­ ções seriam igualar-se a Montesquieu e adquirir prestígio fácil. pode o soberano concentrar todo o gover­ no cm mãos dc um magistrado único. rousseau prélot. pecando. conferindo a estes. Em O contrato social Rousseau formula uma classificação das formas de go­ verno nos moldes tradicionais: O soberano pode. Paulo. emigrando. ou então restringir-se até a metade. foi tido por muitos como uma obra cheia de contradições. c esta forma dc governo rcccbc o nome de aristocracia. toda­ via. dei­ xando-o com sua tia. passa por uma vida atribulada. mesmo. Isaac. Lis­ . Presença. Seja como for. Finalmente. de modo a haver maior número de cidadãos magistrados que simples cidadãos particulares. boa. sempre teve dois reis. Esta terceira forma é a mais comum de todas. de acordo com sua Cons­ tituição. Dá-se a essa forma de governo o nome de democracia. do qual todos os demais recebem o poder. sua obra mais conhecida: O contrato social. dc sorte a haver maior número dc cidadãos particulares que dc magistrados. Mareei. Rousseau expõe sua famosa teoria do “bom sel­ vagem”. ou governo real. São Jean-Jacques Rousseau (1712-1778). resolveu emigrar. A própria monarquia é suscetível de alguma partilha. Jcan-Jacques. pode restringir-se da metade do povo até indeterminadamente ao menor número. sem que por isso se pudesse dizer que o Império estava dividido.

Mas. a terceira é o pior de todos os governos. trcs cspccics dc aristocracia: natural. senado. e vê-se que apenas sob três formas dc domínio já se mostra o governo capaz de adqui­ rir tantos aspectos diversos quantos cidadãos possui o Estado. um povo que sempre governasse bem. Quanto à monarquia. Os chefes de família deliberavam entre si sobre os negócios públicos. em geral. em várias partes. É impossível admitir esteja o povo incessantemente reunido para cuidar dos negó­ cios públicos. e viram-se então senado­ res dc apenas vinte anos. Tão per­ feito governo não convém aos homens. Temos agora a considerar . uma administrada dc certa maneira. não teria necessidade de ser governado. A primeira não convém senão a povos simples. pode re­ sultar dessas trcs formas combinadas uma infinidade dc formas mistas. a segunda é a melhor: é a aristocracia propriamente dita. torna o governo hereditário. unida pela força das leis. Contraria a ordem natural o grande número governar e ser o pequeno governa­ do. o aristocrático aos Estados médios. sem mudar a forma da administração. o número de su­ premos magistrados deve estar constituído em razão inversa do número dos cidadãos. Os jovens cediam sem dificuldade pe­ rante a autoridade da experiência. a riqueza ou o poder foi preferido à idade. Rousseau demonstra sua ojeriza por tal forma dc go­ verno. nunca existiu verdadeira democracia nem jamais exis­ tirá. Se houvesse um povo de deuses. cnobrcccndo as famílias. gerontes. outra dc maneira diversa. e são muito bem governados. Há. Há mais: podendo um mesmo governo subdividir-se. c c fácil dc ver que não poderia ele estabelecer comissões para isso. Discutiu-se cm todos os tempos a melhor forma de governo. Rigorosamente falando. ele se governaria democraticamente.10 6 Teoria Geral do Estado sim sendo. pois. Um povo que jamais abusaria do governo também jamais abusaria da independência. sem considerar que cada uma delas é a melhor em determinados casos e a pior em outros. o governo democrático é o que mais convém aos pequenos Es­ tados. Daí os nomes de padres. o poder. transmitido juntamente com os bens dos pais aos filhos. cada uma das quais suscetível dc ser multiplicávcl por todas as formas simples. existe um ponto em que cada forma de governo se confunde com a seguinte. eletiva c he­ reditária. segue-se que. c a aristocracia pas­ sa a ser eletiva. concedendo-lhe poucas virtudes: Até aqui consideramos o príncipe como uma pessoa moral e coletiva. Se. As primeiras sociedades governaram-se aristocraticamente. anciãos. e a monarquia aos grandes. Finalmente. nos diferentes Estados. à medida que a desigualdade de instituição sobrepujou a desigualdade natural. Os selvagens da América setentrional ainda assim se governam em nossos dias. por diversos motivos. e depositária no Estado do Poder Executivo.

Ao contrário das outras administrações. e a própria força da administração gira sem cessar em prejuízo do Estado. e a força particular do governo. a vontade do povo. desse modo. a unidade moral que constitui o príncipe é simultaneamente uma unidade física. E o que se chama um monarca ou um rei. sc achcm natural­ mente reunidas. Mas se governo não há mais rigoroso que este. temível. de um homem real. neste último. e jamais lhes possa resistir. o tornasse temido dc seus vizinhos. cujos pequenos engenhos. Os reis desejam ser absolutos. quando lhes ape­ tece. deu-as ele. está em que.6 Formas de governo 107 este poder reunido em mãos de uma pessoa natural. a fim dc que. imaginando os vassalos sempre inteira­ mente submissos. sempre rirão disso nas cortes. ao passo que. todas as molas da máquina estão na mesma mão. pequenos velhacos. também outro não há em que a vontade particular seja mais respeitada e mais facilmente domine as outras. e as duas suposições sc mos­ tram incompatíveis. único investido do direito de dele dispor segundo as leis. O príncipe de Maquiavel é o livro dos republicanos. sem cessarem de ser os senhores. com tantos esforços. em que um ser coletivo representa um indivíduo. sendo dele tal poder. é o que Maquiavel demonstrou com evidência. Os melhores reis desejam ser malvados. os que se elevam são. que sempre porá o governo monárquico abai­ xo do republicano. na qual todas as faculdades que a lei reuniu na outra. c dc longe lhes bradamos que a melhor maneira dc o scrcm consiste cm se fazerem amar por seus povos. numeroso. e grandes. tudo caminha para o mesmo objetivo: não há mo­ vimentos adversos que se destruam mutuamente. e a vontade do príncipe. mas precário e condicional. pequenos intrigantes. Esta máxima é muito bela c ver­ dadeira cm certo sentido. Fingindo dar lições aos reis. é o que Samuel. nas monarquias. Seu interesse pessoal está. porém. O poder oriundo do amor dos povos é sem dúvida o maior. com vigor. os príncipes ja­ mais se contentarão com ele. eles sabem perfeitamente que tal coisa não é verdade. Por mais que se esforce um orador político em adverti-los de que a força do povo é a sua própria e de que seu maior interesse deve consistir em que o povo seja florescente. pe­ quenos rixentos. é verdade. e não se pode imaginar nenhuma es­ pécie de constituição em que um esforço menor produza uma ação mais considerável. mas esse objetivo não é o da felicidade pú­ blica. tudo ca­ minha para o mesmo objetivo. Assim. apontava aos hebreus. antes de mais nada. em que o povo seja débil. Confesso que. . miserá­ vel. Infelizmente. é natural que os príncipes deem sempre preferência à sentença mais imediatamente útil para eles. tudo enfim responde ao mesmo móbil. me parece que o interesse dos príncipes residiria na existência de um povo poderoso. nesta aqui é um indivíduo que representa um ser coletivo. tal interesse é secundário c subordinado. Um defeito essencial e inevitável. as mais das vezes. e a força pública do Estado. a voz pública quase nunca eleva aos primeiros postos homens que não sejam esclarecidos e capazes e não os ocupem com dignidade. aos povos. como.

04.8) Kelsen Bibliografia: a i . são tempestuosas. Nacional Autônoma dc Mcxico. Hans. métall.10. De ascendência israelita. cit. nasceu em 11. As eleições abrem intervalos perigosos. e não se indenize. na Califórnia. 1976. Vale lembrar. . as dis­ putas e a corrupção se misturam. cm 11. de Praga. para Rousseau. Não era austríaco.1973. No tocante a essa escolha. não o venda por seu turno. que forma nos dois outros uma ligação ininterrupta. Um inconveniente mais sensível do governo de uma única pessoa consiste na fal­ ta dessa sucessão contínua. Mcxico. de uma integridade acima dos méritos desse governo. o criador da famosa Teoria pura do direito. Hans Kelsen. de Viena. alcançar os grandes postos. que a democracia eleita por Rousseau é a democracia di­ reta. adverte Rousseau (O contrato social. Univcrsidad kelsen. a forma ideal de governo é a democracia. do dinheiro que os poderosos lhe extorquiram. Hans Kelsen ( Vida y obra). Mcxico. Buenos Aires. de sorte que é quase tão raro encontrar um homem de real mérito no ministério quanto um tolo à testa de um go­ verno republicano. entretanto. mas tchecoslovaco.. Na verdade. Quanto menos numerosos forem os cidadãos mais a opinião de cada um terá peso. Livro III. 1. de modo que o ideal democrático é viável apenas nos pequenos Estados da Antiguidade: “Quan­ to maior o Estado. somente quando participa diretamente da elaboração das leis o cidadão reafirma sua condição e é verdadeiramente livre. Cedo ou tarde tudo se torna venal sob semelhante admi­ nistração. e a menos que os cidadãos se­ jam de um desinteresse. só lhes servem para demons­ trar ao público o quanto são ineptos. pois o governo representativo é uma forma de escravidão (O contrato social. Segundo V. Teoria general dei derecho y dei Estado. nas cortes. como geralmente se pensa. que ele aprendeu a admirar observando a antiga Roma republicana e os cantões suíços. o povo se engana bem menos que o príncipe. Univcrsidad Nacional Autônoma dc Mcxico.1881 c morreu cm Berkeley.108 Teoria Geral do Estado que permitem. c a paz de que se desfruta sob o governo dos reis passa a ser então pior que a desordem dos interregnos. Sistemas de partidos y sistemas políticos. Plus Ultra. menor a liberdade”.a d á r Rudolf. tão logo aí consigam chegar. à custa dos fracos. 1979. cit. 1976.. Livro III. É difícil que aquele. Capítulo XV). Capítulo I). l i n a r e s q u i n t a n a . a quem o Estado foi vendido.

sob a presidência de Karl Schmitt. o professor Erich Jung referiu-se a Kelsen como Kelsen Kohn.6 Formas de governo 109 sua vida foi pautada por perseguições raciais. 335) que o problema da teoria política é a clas­ sificação dos governos. ao criar uma originalíssima Teoria do Direito. 1979. a respeito. Conta-nos. A organização do poder é tida como o critério em que a referida classificação se fundamenta. foram organizadas pelo Grupo de Professores de Educação Superior da Liga Nacional-Sociaiista dos defensores do Direito. aristocracia e democracia. 9) Tido por muitos como o grande jurista do século X X . Certamente sessões como esta. Embora sua obra mais conhecida seja A teoria pura do direito. real­ mente. p. verdade que durante uma sessão sobre o tema Os judeus na ciência do Direi­ to. seus pais ou mais re­ motos ancestrais não sc chamassem Kelsen. como sc fosse vergonhoso alguém sc chamar Kohn ou Cohn. (Hans Kelsen . A teoria política da Antiguidade distinguiu três formas de Estado (s/c): monarquia. Universidad Nacio­ nal Autônoma de México. realizadas em 3 e 4 de outubro de 1936. não havendo nenhum exage­ ro em afirmar que ele representa para a ciência jurídica o que Karl Marx represen­ ta para a ciência econômica. Afirma Kelsen (Teoria general dei dereebo y dei Estado. Rudolf Aladár Métall: F . Kelsen inovou. é sobre a Teoria geral do direito e do Estado que nos debruçaremos para observar como Kelsen aborda as formas de governo. em especial durante o período nacional-socialista.Vida y obra. p. Quando o poder soberano de uma comunida- Hans Kelsen (1881-1973) . ou como sc a importân­ cia dc Hans Kelsen como cientista fosse ofuscada se ele próprio. por um professor austríaco. e a moderna doutrina ainda não superou essa tricotomia. O boato de uma pretensa mudança de nome de Kohn para Kelsen foi repetido quase 30 anos depois.

por natureza. juridicamente. Nesta forma de governo.. e a aristocrática da democracia. na verdade. deve fazer coincide com aquilo que deseja fazer. Assim definidas. e a vontade estatal nada mais é do que a ima­ gem do sistema normativo unitário da ordem estatal. à organização da legislação. 336). a democracia e a autocracia não são realmente descrições de Constituições historicamente consideradas. 337). a ordem jurídica é criada. p. p. usado este termo no seu sentido ma­ terial. o legisla­ dor... A república será uma aristocracia ou uma democracia conforme o poder pertença a uma minoria ou a uma maioria do povo. Politicamente livre é o indivíduo que se encon­ tra submetido a uma ordem jurídica de cuja criação tenha participado. com exclusividade. A classificação das formas de governo é.110 Teoria Geral do Estado de pertence a um indivíduo. Para Kelsen. um Estado é democrático se nele prevalece o princípio democrático. Um Estado é considerado democracia ou aristocra­ cia sc a sua legislação é dc natureza democrática ou aristocrática. uma classificação das Constituições. confor­ me a Constituição. Assim. cit. e autocrático se nele predomina o dogma autocrático (Teoria general. reside no modo de criação da ordem jurídica. os sú­ ditos se acham excluídos da criação da ordem jurídica. mesmo que a administração e o Poder Judiciário possam ter caráter diverso. apenas dois tipos de Constituição: a democracia e a autocracia. o número dc indivíduos em quem reside o poder e um critério muito superficial (Teo­ ria general. Na realidade po­ lítica não há nenhum Estado que se ligue. à Teoria do Estado. 337). cit. basicamen­ te. O critério pelo qual a forma monárquica se distingue da republicana. razão pela qual não há garantia dc que esta se harmoniza com a vontade popular (Teoria general. prossegue Kelsen. com funda­ mento na ideia de liberdade política. a Constituição se diz repu­ blicana. no campo do Poder Judiciário. de acordo com a ordem social. de tal forma que algumas sociedades se aproximam mais do primeiro destes modelos. cit. em vez de três. p. Entre estes extremos há uma infinidade de etapas intermediárias. mas jurídica. afirma-se que o governo ou a Constituição são monár­ quicos. a um ou outro des­ tes tipos ideais. mesmo quando seu poder nesta parcela do Executivo se ache rigorosamente restringido e. . A vontade do Estado não pode ser uma vontade psicológi­ ca. cit. A democracia significa que a vontade representada na or­ dem legal do Estado é idêntica às vontades dos cidadãos. A distinção entre monarquia. então é melhor distinguir. Todavia. mas sim tipos ideais. a maioria das quais não possui uma terminologia específica.. Conforme a termino­ logia usual. pois a produção de um ato psíquico de vontade é uma questão psi­ cológica. praticamente inexista (Teoria general. Da mesma forma o Estado sc classifica como monarquia quando o monarca é. A forma oposta à demo­ cracia reside na servidão imposta pela autocracia. Um indiví­ duo é livre se aquilo que. se o critério de classificação consiste na forma em que. alheia. o querer do Estado é o dever ser de sua ordem jurídica. p. Quando o poder pertence a vários indivíduos. aristocracia e democracia se refere. Cada Estado representa uma mescla de elementos de ambos. 336). ou­ tras do segundo.

Régia. tentou perpetuar-se no poder. empolga o poder pela in­ timidação ou pelo favorecimento de um estamento social. exercida em fraude à lei. México. Antonio Joaquim de. deve ser chamada realeza. Lisboa. Novíssimo dicionário jurídico.. um. a c q u a v iv a . f ig g is . São Paulo. 2. denomina-se despotia ou des­ potismo. se o monarca faz tábua rasa da lei. v. instrumentalizando-os juridicamente para o que são há muito tempo: órgãos para a formação da vontade estatal. A monarquia constitucional. El derecho divino de los reyes. 2. 1824. temos o cesarismo. Quando o governante. Impressão John Neville. Quando a monarquia é exercida visando ao bem comum. a forma de governo cha­ ma-se tirania ou caudilhismo. Ignacio. Por outro lado. todavia. Monarquia (do grego monos. tornando-se arbitrário. São Paulo. Saraiva. quando serve ape­ nas de instrumento para os interesses do governante.6 Formas de governo 111 Segundo Kelsen. a monarquia constitucional mostra-se limitada pela lei: rex sub legem quia lex faciat regem. errandonea gouvea bordes Jacqueline. consagrado. governo) é a forma de governo vi­ talícia em que apenas uma pessoa exerce o poder político. Exercida sob a égide da legalidade. 1991. porque foi Júlio César que. Pedro. a monarquia chama-se realeza cons­ titucional. sem justo título de monarca.C. mas. sendo assassinado no ano de 44 a. a democracia moderna sustenta-se nos partidos políticos. o rei exerce plenamente a função governamental. 1982.1) Monarquia Bibliografia: Marcus Cláudio. a seu turno. . Por outro lado. o princípio da separação e independência . v. Cultura Econômica. porém visando ao bem comum. divide-se em mo­ narquia constitucional pura e monarquia constitucional parlamentar. sem legitimidade. no intuito velado do monarca de se manter. 1954. 2) FORMAS DE GOVERNO CLÁSSICAS 2. 4. PINTO. que governa desvinculado de qualquer limitação jurídica (solutus legibus). Diccionario dei mundo clásico. ed. Fondo de salvetti n e t t o . Pedro Salvetti Netto classifica as monarquias em absolutas ou constitucionais. porém. Curso de teoria do Estado. Politeia. Por isso considera natural a tendência a institucionalizar expressamente os par­ tidos no texto constitucional. e arche. A monarquia absoluta caracteriza-se pela concentração do poder e pelo arbítrio do rei. Les Belles Lettres. Paris. Brasiliense. cuja significação cresce com o fortalecimento progressivo do princípio democráti­ co. Labor. Na primeira. na condição de chefe de Estado e chefe de governo. . deve ser denominada realeza absoluta. Barcelona. no comando do Estado. Os caracteres da monarquia. 1981. 1942. traindo a República.

não há que falar em monarquia patriarcal. eleição e cooptação. o dos anglos ou saxões. e os Estados que resultaram do esfacelamento do Império Romano foram. na Borgonha. e os príncipes decretam leis justas” (Provérbios. na Espanha. por outro lado. todos. Monarcas governaram egípcios. que implantou a centralização do poder. na Hungria. Na Grécia antiga. O monoteísmo hebraico proibia a divinização do monarca. demonstram que Deus lhes confiara sua autoridade: “ Per me Reges regnant. et Legum Conditores justa decernunt” ou “Por mim reinam os reis. medas. na França. o dos hunos. o dos vândalos. o dos borgonheses. consolidando-se com Davi c seu filho Salomão (1082-975 a. per­ sas. o próprio sucessor. a ele pres­ tando obediência Seth e sua família. durante o pe­ ríodo monárquico (753-509 a. na Bulgária. Entre os hebreus. Quanto à forma de sucessão.112 Teoria Geral do Estado dos poderes. na Áfri­ ca. Sem dúvida a mais antiga das formas de governo. em que uma tendência inata impele estes insetos a viver em função de uma abelha-rainha. Isto significa que rei­ nam os reis não por convenção humana ou capricho. sendo peculiar aos agregados de animais complexos. na Itália. 15).C. e em Fanuel. a monarquia é tida por mui­ tos como instintiva. na monarquia há três: hereditariedade. Todavia. que todo o poder vem de Deus.C. como a tribo. o de Nerva. se­ .). A monarquia teria passado por quatro estágios históricos. babilônios. até o rei Túlio Hostílio. 23. 6). a monarquia começou a sc firmar no período dos juizes.). investido na Justiça de Deus para castigar a abominação e a idolatria do povo. pois a monarquia exige um Estado perfeita­ mente integrado em seus elementos formadores. sem concelho popular nem con­ firmação por senadores. de príncipes e de legisladores pertenceram aos patriarcas bíblicos. ostrogodos e longobardos. Exemplo contemporâ­ neo de monarquia eletiva temos na eleição do Papa. para alguns autores. efetuada por um colégio cardinalício. na Inglaterra. Monarquia eletiva encontramos na história de Roma. Quanto à cooptação. o poder absoluto de Josué em Socota. como afirmavam os profetas. A força de Moisés. Mesopotâmia c Arábia. 8. mas por Deus. Os filhos de Heth (hititas) chama­ ram a Abraão “senhor” e “príncipe de Deus” (Gênesis. a saber: o familiar ou patriarcal.). o guerreiro. o dos sarracenos. livremente. nem por necessidade ou aca­ so. como o das abelhas. Roma inicia e termina sua história sob a égide da monarquia. afirmando. rece­ bendo referências nas obras de Homero (século IX a. na Síria.C. a monarquia já era praticada na civilização micênica. o dos godos. assírios. o dos hérulos. na segunda. pois a chefia de go­ verno é exercida pelo gabinete ou conselho de ministros. Os títulos de pais de família. monárquicos: o dos francos. Egito. o monarca é apenas chefe de Estado. Como exemplo. o teocrático e o civil. trata-se de uma forma de investidura em que o sucedido escolhe. gregos e macedônios. A História Sagrada nos ensina que Adão foi o primeiro monarca. o dos búlgaros. ao passo que o patriarcado era exercido em comunidades pouco desenvolvidas.

Madri. São Paulo. Cotillon. por não ser vitalícia como a monarquia. Difusão Européia do Livro. Hachette. B. Nicola. propria­ mente. em que a comunidade escolhe seus representantes políti­ cos. 2. te u c c i. o termo república indica. Rio de Janeiro. m a le t. manifestada por eleições. Jean. qualidades há essenciais. s a m p a io dó- Direito constitucional 5. E.porque há monarquias eletivas.6 Formas de governo 113 nador romano. ed. Cours de droit constitutionnei Paris. romano (História e fontes). república significa uma forma de go­ verno caracterizada. 3. b e n e y to perez. de Norberto Bobbio e Silvio A. Buenos Aires. N o governo republicano.u . ria . em que ela manifesta. pois seus cargos políticos são preenchidos. Márcia Cristina. des institutions 6c des lois pendant la Révolution Française. entre elas. como o Papado. do ponto de vista semântico. 1992. c íc e ro . Saraiva. São Paulo. c r e t e l l a j r. 1977. De modo usual. por maioria. “ República”. v. atributos pri­ . 1985. fundador da dinastia. 1950. ou seja. ocasionaram sangrenta guerra civil.. 1962. 1. Institutions politiques et droit constitutionnei 7. Os herdeiros. México. Aguilar. Sampaio Dória: República é governo do povo. b o d in . que escolheu como sucessor Trajano. sempre. Guillaumin. 1946. 1968. D o Nicola Matteucci. Paris. o próprio interesse público. Libr. Nova terminologia jurídica. um de seus generais. Curso de la fe rriè re . a essência da república não reside. Dalloz. por exemplo -. pelo rei Huayna Capac. Então. todavia. 1978. para o povo. essencialmente. Pelo povo. ed. in Diccionario de política. v. periodicamente. v.. Alberto. Juan. Delia repubblica.d. Forense. s. Scientia Verlag. ro s s i. que deveriam governar um império fragmentado em duas metades.2) República Bibliografia: a n a n i a s Rideel. José. t. Histoire des princim at- pes. São Paulo. leisySão Paulo.d. no fato de ser eletiva . 2.. Mareei e Pcllcgrino.. reis peruanos que criaram vasto im­ pério na América do Sul pré-colombiana. mas no fato de seus cargos políticos não serem vitalícios. Paris. Jean. Do latim res publica (aquilo que pertence ao povo). ed. espírito das b o u lo u is . 1851-1852. Historia de las doctrinas políticas. tudo o que é ine­ rente à sociedade. Observa o Prof. mutuamente enciumados. direito romano. conforme a vontade do povo.. M . Les six livres de la republique. m e ira . neves. quando representativo. Historia romana. que ensejaria a fácil conquista do Peru pelos espanhóis comandados por Francisco Pizarro. p r é l o t . sua vontade a respeito de ou­ tros assuntos de seu interesse. Também na história dos Incas. 1975. Curso de direito m o n te s q u if. Sigla X X I. 2. F. s. temos exemplo de cooptação na escolha aleatória.. e. ou votações. Max Limonad. 1. Garzanti. 1. 2. Aalen. Libr. ed. 1866. v. dc seus filhos Huáscar e Ataualpa. Marco Túlio.

re­ sultante da queda da monarquia etrusca. foi deposto. princi­ palmente.114 Teoria Geral do Estado vativos. t. Então. 155) Sendo popular.C. Entretanto. a república apresenta analogia com a democracia da antiga Atenas. que não prefira o governo. governo). muito mais do que uma forma de gover­ no como a monarquia. Na época monárquica.sempre patrícios . e povo não é mero ajuntamento de pessoas postas lado a lado. O que realmente caracteriza a república como elemento privativo é a eletividade e a temporariedade do chefe do exe­ cutivo. o patriciado. de modo que a derrubada da monarquia foi vista com indiferença pela plebe. ao demonstrar que “ res publica res populi.C.. a investidura consular durava apenas um ano. (Direito constitucional. por tempo determinado. evidentemente. 1. com que se esperava inibir dc vez qualquer tentativa de restaura­ ção da monarquia. Não há república. como já foi dito. Mas esta qualidade. a par do rei atuavam os cônsules e o Senado. senão quando c o chefe eleito pelos governados. aquilo que é inerente à sociedade. com precisão. p. populis autem non omnia hominum coetus quoquo modo congregatus. reconhecimento oficial e inapelável de sua investidura pelo Senado. sed coetus multitudinis iuris consensu et utilitatis communione sociatus”. o consenso sobre uma lei comum. por volta de 510 ou 506 a. Os cônsules . c por tempo certo. A investidura dos cônsules lhes dava o imperium (poder de man­ do) e a auctoritas patrum. o Soberbo. Livro I. sobre os negócios dc Estado. 1. § XXV). Onde houver governo com chefe eleito pelo povo. no final do século VI a. Esta. sua qualidade específica. e não apenas denominações de for­ mas de organização do poder. ou “a república é coisa do povo. aí se terá república. Foi Marco Túlio Cícero quem delimitou. O rei foi substituído por dois cônsules ou praetores. Na verdade.eram eleitos por uma assembleia em que pre­ dominava. embora essencial à república. e Tarquínio Colatino. o sentido mais autên­ tico de res publica. o consulado apresentava duas características essenciais: cole- . diretamente. termo que ressalta a raiz arquia (do grego arche. dos quais os primeiros foram Lúcio Júnio Bruto. a república surgiu como uma inovação revolucionária. quando o rei Tarquínio. Não há republica representativa sem eletividade dos que fazem a lei. Ao destacar como elementos essenciais da república o interesse comum e. mediante a qual uma comunidade afir­ ma sua ideia dc justiça. pois que também pode existir na monarquia. este for­ mado exclusivamente por patrícios. direto. Cícero opôs à república todas as formas dc governo injustas. não lhe é exclusiva. fato este visto como mais um reflexo da de­ cadência das monarquias então existentes na Itália. No plano histórico. v. que comandou a deposição de Tarquínio. república (latim) e politeia (grego) são expressões que denotam o próprio interes­ se público . mas uma convivên­ cia consciente de pessoas que se torna sociedade pelo reconhecimento de um direi­ to e de um objetivo comuns” (Da república. onde uma parcela da população deliberava.

e o despotismo. Já na Idade Moderna. a forma monárquica pela repu­ blicana. mais singela: repúblicas e principados. a aristocracia e a democracia. sabe escolher seus representantes legisladores. denominado sistema de freios e contrapesos ou checks and balances. mas também na implantação de uma demo­ cracia representativa. a forma unitária de Estado e a monarquia constitucional como forma de governo. ao passo que a monarquia exige uma área física considerável. Entretanto. indistintamente. mas é no melhor de seus livros. Na monarquia. integrando a natureza mesma desta forma de governo. Jean Bodin emprega o termo república para denomi­ nar. aristocracia. das formas políticas fun­ dadas na violência ou na desordem. popular. a tradicional classificação das formas de governo (monarquia. trazendo uma nova forma de Estado. sem falar no afastamen­ to compulsório de Pedro II. nas repúblicas. que estuda a república. Ademais. quem faz a lei é o monarca. a fe­ derativa. a república . democracia e governo misto) é substituída por outra. cuja distinção reside no fato de. não só no fato do repúdio à monarquia. fundada. a Proclamação da República. sc na república há uma relativa igualdade. e o regime parlamentarista pelo presidencialista.6 Formas de governo 115 gialidade (eram dois os cônsules. embora tolhido em eventuais arbitrarieda­ des pelas Constituições. na monarquia a desigualdade em favor da nobreza c verdadeiro pressuposto. em 1889. adotamos com a independência e a primeira Constituição. distinguindo-as. e uma robusta concepção de república. numa república as leis vêm a ser a expressão da vontade do povo. entretanto. substituindo-se a forma unitária de Estado pela forma federativa.di­ vidida em aristocrática e democrática . doutrinariamente. porque se o povo não é apto a legislar. prossegue. Para Montesquieu. e a anualidade. portanto. Com a independência das colônias norte-americanas em 1776. que torna­ va a república inconfundível com a monarquia. os magistrados serem eleitos. as formas de governo são a monarquia. surgiram os Estados Unidos da América do Norte. pois todas as instituições foram subvertidas. atuando em conjunto). A república floresce em Es­ tados de pequena extensão territorial. a monarquia. Maquiavel tratou do principado ou monarquia na sua obra mais conhecida. Com Nicolau Maquiavel. portanto. a desigualdade se torna escravidão. e o despotismo outra ainda maior. na qual haveria separação de poderes fun­ dada num sistema de fiscalização mútua entre estes. Discursos sobre a primeira década de Tito Lívio. desde que dota­ das de um droit gouvernement. no despotismo. Quanto ao Brasil. . O príncipe. ao passo que o déspota governa e julga mediante leis arbi­ trárias e ocasionais. Por outro lado. qual seja. representou verdadei­ ra revolução política. enquanto. de 1824.

02. p o n s a t i. 1. e constitui-se. cm Estados Unidos do Brasil. a volta da monarquia. a possibilidade de o povo se manifestar. de 24. direta­ mente. por união perpétua e indissolúvel das suas antigas províncias. assim: A Nação Brasileira adota como forma de governo. Nicola. v.1988. 15 dc novembro. 1°. A cidade grega.1889. graças ao art. dc 24. como definida por Márcia Cristina Ananias Neves. 178. já no dia mesmo da procla­ mação. 1988. Siglo X X I. p.1891. § 6o. Com isto. § 4°. Arturo D. que impede qualquer emenda que vise a abolir direitos e garantias individuais. ficou abolida a cláusula pétrea ou de imutabilidade da forma dc governo. GARNIER-PAGES. da atual Constituição. 90. § 4o. 1967 e 1988) adota­ ram a república como forma de governo. trou­ xe significativa inovação. sob o regime representati­ vo. vem a ser a norma constitucional que impede. cm plebiscito. Paris. sendo que a vigente.1891. vedando.11. que proibia a abolição da forma republicana federativa. Norberto e m a t t e u c c i . 1. 2°. em 1889. com isto. São Paulo.3) Aristocracia Bibliografia: v. 1848. 1. a atuação dos monarquistas em prol da restauração da realeza. sobre a forma dc governo. 2. da Constituição de 1946. Novara. b o b b io .a República Federativa” . glotz . conforme previsto no art. Lecciones de . que constava dos arts. proclamada a 15 de novembro de 1889. 2° do Ato das Disposições Transitórias. embora permitindo. 1992. a República Federativa. Assim o art. o Governo Provisório emitia o Decreto n. da Constituição de 1967. Diccionario de política.11 6 Teoria Geral do Estado A partir da Proclamação da República. 217. da Constituição de 1934. co. mesmo por via de emenda. 1985. 1979. § 4°. das Dis­ posições Transitórias. Méxi­ E. da mesma forma. dc 15.. I o declarava: “Fica proclamada provisoriamente e decretada como a forma de gover­ no da nação brasileira . Cláusula pétrea. c Dizionario enciclopedico dei diritto. e 47. qual seja. o art. Pagncrre. § 5o. de 05. cujo art. Tal decisão seria confirmada com a primeira Constituição republicana. 90. Edipcm. Rideel. 60. Gusta- ve.1946.1937. As demais Constituições brasileiras (1934. Dictionnaire politique. a revogação ou modificação dc determinados artigos. em seu art.02. 1.10. § I o. Difusão Editorial. (Nova terminologia jurídica. 72 do Decreto n. da Constituição de 1891. 70) 2. ed. dc forma absoluta. caput. da primeira Constituição republicana.

Aristocracia (do grego aristoi. mas também moral. prudentemente. . fizeram. o verdadeiro centro da estrutura política do Estado romano. o bastião largamente inexpugnável de sua injustificável dominação (Lecciones de historia de las instituciones. portanto. Em Roma. a periodici­ dade e a colegialidade da magistratura transformaram o Senado no órgão estável por excelência da República. Buenos Aires.C. que individualizou com maestria essa forma de governo. sem distinções de nascimento ou riqueza (Polí­ tica. em oligarquias socialmen­ te disfuncionais que haviam perdido o fundamento moral de seu poder. dc muitos). A par da monarquia e da isonomia (em substituição à demo­ cracia). enfim. Em Platão. poder.). Aristóteles. Picard. a denominação aristocracia. Antiquités grecques. Na antiga Grécia. as origens da aristocracia remontam aos tempos homéricos. V). que sucessivamente exerceram o poder social e po­ lítico em Roma.C. men­ cionava trcs formas de governo (de um. orientação destinada a enorme ressonância. de má índole. melhores.C. a plebe. li­ teralmente. enfim. 1976. IV. por serem moral e intelectualmente superio­ res. dirigir o Estado no rumo do verdadeiro bem (A república. em oposição aos kakói ou mal-nascidos. enfim. Por outro lado. e que seria denominada oligarquia. de poucos.C. como assinala Arturo D. o equilíbrio da Constituição romana já não era o mesmo no século II a. os aristoi. Paris. II. governo dos melhores. por outro lado. Heródoto faz menção à oligarquia. e kratos. aos melhores. p.6 Formas de governo 117 historia de las instituciones. Caberia aos sábios. (J. do Senado o instrumento e símbolo de sua as­ cendência. A intermitência dos comícios populares. já Heródoto (480-425 a.). 313). As minorias dirigentes. s c h o e m a n n . mas na virtude e na sabedoria. se definições clássicas de aristocracia as encontramos em Pla­ tão e Aristóteles. daqueles que apresentam su­ perioridade não só intelectual. Segundo Platão e Aristóteles. Astrea. domínio) significa. mas na ri­ queza pecuniária. t. o termo aristocracia não se funda nas virtudes militares (inerentes à primitiva nobreza grega). F. designando o estamento que limitava o poder do rei (basileus). não podem deixar de ser aqueles que pertencem às classes mais elevadas da so­ ciedade. afirmou que a aristocracia é o governo con­ fiado aos melhores pelos cidadãos. a aristocracia teve seu maior destaque durante a república senato­ rial (509-27 a. quase não tratando da aristocracia. ocorreram sensíveis modificações socioeconômicas. ao contrário do que proclamaram Políbio e Cícero. 1884. surgindo uma nova elite. Buenos Aires. 1. Ponsatti. dos sábios. estribada não mais na propriedade fundiária ou no sangue. encontraram no Senado o reduto dc seus privilégios. 5. 10). cognominado o pai da História. e ao transformar-se em minorias dominantes. Astrea. 1976. embora mantendo em seu tempo. Durante o sé­ culo VII a.

1965. com o aparecimento do Estado moderno. Revista dos Tribunais. Estado. ed. tado.118 Teoria Geral do Estado A partir da Idade Média. d a i . Polí­ tica e teoria do Estado. Saraiva. 1981. e Direito constitucional comparado% São Paulo. 1981. R. Elemen­ Marcel. Rodrigo c v i a n n a .l a r i . Rio dc Janeiro. as mutações eco­ nômicas diminuíram substancialmente a importância da aristocracia. 1972. de la Flor. 1979. v. La constituzione salvetti n e t t o . I. . soviética dei 1977. Armênio Dalmo de Abreu. e p e t e r s o n . Freitas Bastos. Tres teorias sobre la prensa. Forense. Com a Revolução Francesa. vani b e n f ic a Francisco. da Europa. Emmanuel Joseph. 1979. 1990. Aguilar. História Fred S. Curso de teoria do .. sincera da França. pla- o c t a v io . v. Briguict. 2. 1970. São b o n a v id e s bastos. w . Robcrt. e p o h l - F. Fernando.. José Pedro Galvão de. 1979. TÃo.l l a . Los partidos políticos. . 1974. telles j r souza . Madri. 1963. 1986. ed. São Paulo. Giuffrè.. 1984. Martins Fontes.. 1949. Curso de teoria do Estado/Di­ v ie ir a reito constitucional /. A democracia e o Brasii São Paulo. Saraiva. taker d a c u n iia . Saraiva. Rio dc Janeiro. 1931. Labor. A democracia possível. Todavia. Jean-Marie. Saraiva. Casa Subirana. 2. que veio a perder para a burguesia a condição dc sustentáculo das monarquias absolutas. Coimbra. 1963. Barcelona. f u s t e l d e c o u i . Introdução ao estudo do Estado e do direito. 1984. São Paulo. f e r r e ir a f il h o Manoel Gonçalves. São Paulo. Curso de teoria do Estado e ciência política. 1931. Paulo. Rio de Janeiro. Bushatsky/Universidade de São Paulo. 1938. São Paulo. tos de direito público e constitucional brasileiro. Ama­ h i- ral. . Ciência política . . uma forma dc governo para indicar um estamento diverso da burguesia e do cle­ ro. Cíenève. por com­ pleto.. São Paulo. Elementos de teoria geral do Es­ dom enach Amado. Politique d'Aristote. Ed. São Paulo. Rio dc Janeiro. a aristocracia deixou de ser. Amorrortu. Sucessor. ed.a n g e s . 1986. Conceito c natureza da sociedade . PUE. r u f f ia prélot. Theodos ié y è s . Pa­ Pedro. Paulo D. . Rio de Janeiro. m a is c h Numa Denis. Buenos Aires. Celso Ribeiro. m ic h e l s m f . a aristocracia. 1950. Obras completas. Reghizzi Gabriele. no seu sentido original. 1957. Buenos Aires. Saraiva. 2. terminologicamente. Paolo Biscaretti di e c r e s p i . São Paulo. re. Vásquez dc. Teoria geral do Estado/Introdução ao direito constitucional. política. São Paulo. . desapareceu. s ie b e r t . Forense. Milano. Forense. Droz. 1989. Paulo. 6. Nacional. Roberto A. ed.4) Democracia Bibliografia: 1978. ris. e que se sobressaía pelos altos postos militares e por privilégios transmitidos hereditariamente. s e ig n o b o s Charles. e 4. Quest-ce que le Tiers État?. Problemas de filosofia política. Instituciones griegas. Obras completas. 14. A cidade antiga. Barcelona. . 1927. Goffredo. Difusão Européia do Livro. tica. cabral de m o n c a d a . ham m er . Luís. A propaganda polí­ .

um exame mais atento. Rio de Janeiro. lhe garantia os direitos subjetivos. e sim uma realidade palpável.1) Introdução ao tem a Dividiremos este capítulo. O ateniense. sem intermediação de representantes. que deliberava com ar­ dor sobre as questões do Estado. Paris. Fundação Getúlio mossh. À primeira vista. Isto era possível na prática porque a cidade era de reduzidas dimensões e a população diminuta. em duas partes: evolução da doutrina democrática e espécies de democracia. o Estado não era uma abstração somen­ te compreensível com o auxílio de um mapa.4. Claude. sementes que foram conservadas pelos filósofos da Idade Média e que frutificaram na modernidade. contudo. governo cons­ titucional . com finalidade didática. Neste país surgiram inúmeras pequenas comunidades. via na participação da vida pública o supremo bem a ser almejado por um homem. Rio dc Janeiro. executiva e judicial. na cidade grega. um povo. Paulo.surgiram na antiga Grécia. Alcan. a democracia foi praticada na forma direta. separados um dos outros por baías e cadeias de montanhas.6 Formas de governo 119 2. A cida­ de não era um produto da razão. pois. Jorge Zahar. que se voltava por inteiro à coisa pública. Já se dis­ se que a maioria dos ideais políticos modernos .justiça. todas elas ani­ madas dc fervoroso patriotismo. era a chamada demo­ cracia clássicayna qual os membros de uma comunidade deliberam diretamente. onde os cidadãos sc congregassem todos para o cxcrcício do poder político. N irri. 2. de um povo que desco­ nhecia a vida civil. além de lhe assegurar a participação efetiva na vida pública. um conjunto de cidadãos. uma pra­ ça. a Grécia parece formar uma unidade geográfica. Para elas. mostra-nos que a natureza dividiu aquele conjunto num gran­ de número de vales e planícies. . D i­ cionário da civilização grega. era. La démocratie. Na Grécia. isto sim.2) D em ocracia direta Bibliografia: b o n a v id e s . que fazia de sua assembleia um poder concentrado no exercício da plena soberania legislativa. Francesco. Foram os gregos os primeiros a lançar as sementes da ideia democrática. liberdade. em especial. Cada cidade que se prezasse da prática do sistema democrático manteria com orgulho um Agora. Iniciemo-lo com a concepção de democracia entre os antigos gregos. 2004. Vargas. 1933. A cidadania era grande objetivo do ateniense. Ciência política . O Ago­ ra. 1974.4. Assinala Paulo Bonavides: A democracia antiga era a democracia de uma cidade. fazia pois o papel do Parlamento nos tempos modernos. dotados de inabalável consciência social e de zelo pela tradição.

Assim. Com efeito. O cida­ dão. um lugar privilegiado se reserva à ágora. o ateniense sc voltava para a atividade política. Por outro lado. Empregava-se então a expressão nec ócio (daí. costume já mencionado por Homero. Como os cidadãos eram frequentemente chamados a participar das assembleias. de um prestígio muito maior do que o ócio. vivendo com simplicidade e modéstia. a pólis via seu elemento humano formado por três estamentos: inicialmente.120 Teoria Geral do Estado Para se ter presente o apego do antigo grego à sua cidade. O segundo estamen­ to compreendia os metecos ou estrangeiros que não participavam da vida pública. embora fossem livres e sua exclusão da política não significasse discriminação so­ cial. tido este como falta de vontade e entusiasmo para o trabalho. que significa gover­ no do demos. Aristóteles costumava dizer que todo c qualquer trabalho manual deveria ser executado por escravos. dirigido por um de­ marca. o negócio desfruta. aquele que tem o direito de falar). Em Atenas. mesmo porque na própria atualidade o estrangeiro não possui certos privilé­ gios atribuídos ao cidadão nato. Por outro lado. dotados do direito de par­ ticipação na vida política. considerava o ócio a mais pura atividade espiritual. O terceiro e último estamento era formado pelos escravos. O grego era considerado cidadão da pólis a que pertenciam seus pais. a par­ tir de meados do século VIII a. Estes realizavam serviços manuais e eram benignamente tratados. onde deliberavam os prítanes. que não era opulento. voltada à contemplação e ao estudo dos te­ mas filosóficos. consideravam um povo sem ágo­ ra um povo escravo. de forma que os cidadãos pudessem dispor de seu tempo para as atividades políticas. os cidadãos (enpátridas). aqueles que residiam fora da cidade não eram considerados cidadãos. poden­ . o grande número de escravos existente em Atenas permitia que o tempo do cidadão dedicado à política fosse quase integral. por ele consideradas desprezíveis. hoje.C. quando não vadiagem pura e simples. Os gregos. As assembléias eram realizadas numa praça denominada agora (do grego agos. Tão logo se desobrigava de suas ocu­ pações habituais. orador. a ágora tem seu prestígio au­ mentado e as reuniões passam a ser mais freqüentes. no bouleuterion e na tholos. quase sempre. magistrados que presidiam as sessões do conselho e da assembleia. sendo tal direito transmitido de pai para filho. participavam da política. sem liberdade de opinião e de sufrágio. na qual se cruzam as principais artérias da cidade. puramente materiais. A civilização contemporânea. perverteu o sentido original destes vocábulos de tal forma que seu valor foi inver­ tido.. que eram os únicos a possuir armas. pragmática e materialista. Daí a expressão democracia. com o triunfo da democracia direta. sua defesa dependia dos próprios cidadãos. apenas aqueles que integravam um demos (município). as expressões negó­ cio e negociante) para designar atividades lucrativas. lembra Francesco Nitti. Tais assembléias ti­ nham caráter informal e não desfrutavam de poder relevante. basta lembrar que a pólis não era dotada do exército permanente.

Frise-se que o próprio Estado podia ter escravos. com suas ultrapassadas concepções criadas para manter o po­ der do clero e da monarquia absoluta. que. que exerciam funções publi­ cas menos significativas. O eforato era um órgão importantíssimo na política espartana. cidade situada no alto do vale do Eurotas. No seu modo de ver. Ao eupátrida ateniense correspondia o esparciata ou lacedemônio. consagrava.4. já se fazia presente. pela leitura do texto. São figu­ ras de realce no pensamento liberal individualista John Locke. a liberal-democracia. criada. imperando a lei da natureza. não sen­ do raras. Locke procura fundamentar a forma de governo parlamentar introduzida 11a Inglaterra pela Revolução de 1688. a re­ pública aristocrática governada por um conselho de trinta membros. os homens viviam.3) D em ocracia representativa Justificada. entretanto. 11a verdade. c) a vida do homem em liberdade absoluta. Percebe-se. periecos e ilotas. estes últimos o estamento mais numeroso. a par de inegáveis conquistas 110 campo da liberdade e da propriedade individuais. tendo por missão proteger os interesses dos esparciatas (cidadãos) nas relações com outros Es­ tados. Não havia. despro­ vida de poder. em parte. no capítulo XV III de sua obra A cidade antiga. 11111 dos criadores da ideolo­ gia iluminista. originalmen­ te. Quem nos dá uma visão realista da democracia grega é Fustel de Coulanges. até mesmo no modo de trajar do ho­ mem ou da mulher. que a participação do cidadão 110 processo político era muito mais um dever do que um direito. A mentalidade totalitária ou organicista. a organização política. Seus preceitos básicos po­ deriam ser resumidos em três: a) o guia infalível da sabedoria é a razão. de Thomas Hobbes. em liberdade e igualdade absolutas. mi­ lênios depois. contudo. em Esparta. na própria natureza. a palavra aterradora totalitarismo. Jean-Jacques Rous­ seau e Emmanuel Joseph Siéyès. auxiliado por dois reis. pelos excessos do absolutismo em França. pelo fascismo. é preferível à vida em civilização. contra periecos e ilotas. A metecos e escravos em Atenas correspondiam. então. Em Esparta. diga-se de passagem. torna-se insuportável. b) inexiste o pecado original: o homem é levado à corrupção pelo próprio poder político. iniciada na Inglaterra por volta de 1680 e fundamentada cm rígido racionalismo oriundo. fertilíssima região da Grécia. de forma que não é difícil chegar-se à desagradável conclusão de que o ideal totalitário se amalgamava com a própria democracia grega. Em sua obra Segundo tratado do governo civil. cm especial. fundamentou aberrações doutrinárias de malévolos efeitos. condenando o absolutismo. O Estado intervinha em tudo. Para melhor alcançar seus objetivos in­ . numa sociedade anárquica.6 Formas de governo 121 do alcançar sua liberação em face de bons serviços prestados aos seus proprietá­ rios. as tiradas organicistas de Platão e dc Aristóteles nas respectivas obras. respectivamente. 2. fundada na monarquia. Locke é. isto é.

relegada a um segundo plano toda a ideia dc progresso e de bem-estar social. a sociedade polí­ tica conveniente é aquela que garante a mais ampla autonomia individual. o chamado estado de natureza . Emmanuel Joseph Siéyès (1748-1836) .. se Locke tivesse de optar entre a desordem e o despotismo. como tal. portanto. Rousseau. Essas ideias de Rousseau acham-se situadas especialmente em O contrato so­ cial1 . a primeira hipótese. rebelar-se contra os possíveis excessos dos governantes. sem dúvida. aliás.122 Teoria Geral do Estado dividuais. escolheria. sua natureza é sã. Perdida a liberdade natural. reduz o casa­ mento a um contrato e. O individualismo. que podem dissolvê-lo livremente. A única função do Estado seria. Discurso sobre a origem da desigualdade entre os homens e N ova Eloísa. O homem. a qualquer momento. fruto da vontade e não de uma inclinação natural. A própria família somen­ te se mantém em razão de laços contratuais. contudo. o homem perde tal liberdade e se corrom­ pe. é aque­ la que reduz ao mínimo os vínculos sociais c a pressão exercida pela sociedade sobre o homem. man­ ter a ordem. ideal maior do Estado. era. dependente de um acordo de vontades. A comunidade teria. a ser um fim em si mesma. outorgando a esta um poder de mando destinado a executar a referida lei natural. Já se disse que. por conseguinte. no qual também a felicidade seria abso­ luta. mediante um pacto voluntário . Rousseau afirma que o homem surge num estado de liberdade absoluta. Como Locke. a restauração do caráter do homem se faz com a liberdade civil. é a liberdade dos bons tempos que o faz bom: portanto. diz ele. então. resolveram. Ora. e a própria sociedade nada mais é que o objeto de um con­ trato. um dos corifeus da Revolução Francesa. instituir a sociedade política. por sua vez. A liberdade passa. direito de. daí o divórcio. dizia em sua obra O contrato social: “O homem nasce livre e em toda parte se acha aprisiona­ do'’. mas a sociedade o corrom­ pe. preservando a liberdade individual. é um bom selvagem . Quando surge a vida em sociedade.

Só pode haver democracia. Q u c ft-cc que le Tiers-Ecat » T o u t . Frontispício da obra clássica de Siéyès Que é o Terceiro Estado? Já estamos vendo que.6 Formas cie governo 123 Q U E S T -C E Q U E LE TIERS-ÉTAT? X j E plan d c cct E c m c ít aflèz fimplc. nada com o ouro. 3°. cc q u i rtjle i fairc au Ticrs pour prendre U p h cc qvú lui cft dúc. Enfin .i voirfi les reponfes font juftes. en c ffc t. N um Estado verdadeiramente livre. naturalmente independente. 1®. Todos estão certos de que ja­ . a liberdade é o bem supremo do ideal democrático. Num Estado bem dirigido. Rousseau é bastante claro e incisivo a esse respeito: Logo que a função pública deixa de ser a principal atividade dos cidadãos. tanto para Locke como para Rousseau. C c que les Miniftrcs ont ttn ti. os cidadãos fazem tudo com a força dc seus braços. sem intermediá­ rios. Inércia e dinheiro ensejam soldados para dominar a pátria e deputados para a venderem. 5 °. Rousseau vai ao ponto de afirmar que o ho­ mem. afin que IcTicrsEtat d evien n e. Capítulo XV). onde houver deliberações tomadas diretamente pela comunidade. Q u a-t-il & c jufqti a prcfcnt dans 1'ordrc p olitiquci RiEM. N oui avons trois queftions i nous faire. dizia Rousseau. não pagam para se desobrigar dc suas obrigações. & c e q u e Privilegies cux-m cm cs propofaic cn fa faveur. quclqu* chofe. Rousseau era adversário ferrenho da chamada democracia representativa. Num dos mais valiosos capítulos de seu O contrato social (Livro Terceiro. Nous c x imincrons cnluitc les rooyensquc 1on a eflayés / íc c c u x q n c l on doic prendre. Q tiç dcmandc-c-il f A dcvcnir QUELQUE G H O SE. não pode participar da vida em sociedade a não ser conservando sua soberania pessoal. por ser contrária à lei natural a proposição de que a maioria governa a minoria. que se preocupam mais com o dinheiro do que com sua própria pessoa. todos freqüentam as assembleias. A i. É preciso combater? Pagam a mercenários e ficam em casa. í®. mas com um mau governo ninguém se interessa pelo que nelas se delibere. mas para as cumprirem. Ainft nous d iro n s: * 4 ° . Por isso. É preciso ir ao parlamento? Nomeiam deputados e continuam a ficar em casa. O n v. C ° . C c q u o n auroit Jú fairc. o Estado se encon­ tra à beira do colapso.

c esta não admite representantes. a própria ideia de privilégio. Que era. no sentido moderno que atribuímos à expressão clas­ se social. que significa. efetivamente existentes em dado momento histórico. como contrária à natureza. o Terceiro Estado. que bem merece perdê-la. concretos. A nação não é o conjunto de homens reais. Toda lei que o povo. foi adversário de Robespierre. e Que é o Terceiro Estado?. passa a ser escravo e nada é. antecedido pela nobreza e pelo clero. propondo a unidade da na­ ção e do chamado Terceiro Estado (o povo). estratificação trazem consigo um semantema (ra­ dical) st. exatamente. só é livre durante a eleição dos membros do parla­ mento. classes sociais na França. quando muito. logo que estes são eleitos. imutabilidade. Os deputados não são c nem podem ser representantes do povo. Se Rousseau é inimigo figadal da democracia chamada representativa. presidente da Constituinte francesa re­ volucionária. A soberania não pode ser representada. com todo o Terceiro Estado. más leis acarretam outras piores. Emmanuel Joseph Siéyès foi um abade que teve uma vida política destacada. e isto não ocorria então. Esses dois panfletos se intitulam Ensaio sobre os privilégios. mas sim o conjunto daqueles que viveram. as palavras casta. estamento. estado. afinal. . pois uma sociedade estruturada em classes admite a mobilidade social. considerados tão importantes para a Revolução Francesa como o Manifesto comunista. Aliás. Deputado do povo. Boas leis criam outras melhores. afirma que a soberania do Estado reside na nação. Nesta segunda obra. ou é ela ou não e. em pessoa. Não havia. elementos de uma comissão e não podem concluir nada em definitivo. Nos poucos momentos em que usufrui de liberdade. denotando a rigidez das sociedades estruturadas em estamentos.124 Teoria Geral do Estado mais a vontade geral prevalecerá. A ideia de nação em Siéyès confunde-se. não há meiotermo. estratificados. O povo inglês pensa que é livre. utiliza tão mal esta. de Marx e Engels. voltou para a França em 1830. são. Quem inte­ grava um estamento inferior não podia galgar um estamento privilegiado. mas não conseguiu que seu projeto de Constituição fosse adotado. Exilado. na França pré-revolucionária? Era o ter­ ceiro estamento social. com efei­ to. porém está enganado. no qual Siéyès incrimina. com efeito. mesmo porque as ocupações particulares ocupam todo o tempo. de origem indo-europeia. não aprove. jamais será uma lei. Apoiou Bonaparte no golpe do 18 Brumário. per­ manência. elemento mais numeroso e mais sig­ nificativo economicamente. para a Re­ volução soviética. sendo os três estados estanques. aparentemente. Siéyès escreveu dois explosivos panfletos. obra da qual se serve para combater a pluralidade de es­ tamentos do ordenamento constitucional monárquico. E quando alguém diz: Que me importa o E s ta d o este está perdido. é nula. Siéyès será o grande inspirador desta. Ela se expres­ sa pela vontade geral. pois não admite alienação. que vivem e que viverão.

A nação. que fixará a competência e os deveres dos representantes da na­ ção. preâmbulo do título terceiro. ambos concor­ dam num ponto: todo e qualquer organismo intermediário entre os indivíduos e o poder político deve ser eliminado. Que deseja ele? Chegar a ser algo”. e a perda do exercício do cargo não decorre da vontade dos governados. para Siéyès. consequentemente. pois as mãos simbolizam a fidelidade (per dexteram era per fidem). passa a pertencer à nação. contratualística. a nação é uma entidade abstrata. vinculação jurídica entre representantes e representados. não se confunde com as gerações que passam. arts. não integra o Terceiro Estado. mas de toda a nação. não po­ derá haver mandato imperativo. “da qual emanam todos os direitos” (Constituição de 1791. isto é. no pen­ samento de Siéyès. mas das próprias normas da Constituição. c nenhum mandato lhes poderá ser atribuído”. I o e 2o). diz ele. a representação da nação será atri­ buída a quem ela determinar. O Terceiro Estado. Enquanto o mandato imperativo tem natureza consensual. for­ malizando-se o pacto por um aperto de mãos. os interesses da nação suplantam os interesses momentâneos do povo. Que tem sido até agora no ordenamento político? Nada. no capítulo II: É preciso entender por Terceiro Estado o conjunto dos cidadãos que se acham submetidos a um ordenamento comum. deve ser direta. segundo Rous­ seau.6 Formas de governo 125 Clero e nobreza eram dotados de privilégios com os quais não era contempla­ do o povo ou Terceiro Estado. contudo. ao passo que. vinculação jurídica entre man­ . 7°: “Os representantes elei­ tos nos parlamentos não serão representantes de um departamento particular. Ora. mas com os interesses permanentes do Estado. Todo aquele que é privilegiado pela lei sai do ordenamento comum e. a representação política é obra do poder constituinte. para que haja vontade gerai Entretanto. que pertencia ao rei. sendo que a participação do povo. reitere-se. a Constituição francesa de 1791 estabeleceu em seu art. Não há. Já o disse­ mos: uma lei comum c uma representação comum e o que constitui uma nação. Mais adiante. e seria bem melhor se os outros Estados não existissem. consistindo num vínculo contratual entre representante e representado. a posição de Rousseau é oposta à de Siéyès. Nação e Terceiro Estado confundem-se. que representa os interesses perma­ nentes do elemento humano do Estado. Assim. da mesma forma que no direito civil temos um contrato denominado mandato (do latim manus dare). é uma nação completa. Em razão disso é que Siéyès abre seu famoso apúsculo com as incisivas palavras: “ Que é o Terceiro Estado? Tudo. A responsabilidade dos representantes apura-se nos termos da Constituição. sendo a nação uma entidade abstrata. A sobe­ rania. Nada pode progredir sem ele. e sim mera representação política. porque segundo ele é imprescindível a participação direta da comunidade nas deliberações políticas. Em razão da doutrina de Siéyès. Por isso. Nisto.

bem como pelos operários. sejam estes dc natureza econômica. animal social por natureza (zoon politikon ). A representação por meio de partidos. representado pelo Exército. Assim. da virtu­ de. porque lá eles sempre estiveram identificados a classes sociais. Se as primitivas sociedades eram ho­ mogêneas e a solidariedade social puramente mecânica. muitas vezes. a pri­ meira medida dos partidos que formam o parlamento é procurar uma informação pú­ blica. o interesse material. ao passo que o mandato imperativo tem natureza consensual. o interesse docente. não poderá jamais. intelectual. o interesse da defesa. não podendo ser negadas sem que sc negue uma na­ ção. Vásquez de Mella adverte: O que se deve representar é o homem de classe e de grupo. e como as classes são categorias sociais permanentes. procurando rebater os excessos do absolutismo monárquico. da linhagem. Quan­ do o parlamento representar todas essas forças. faze-los desaparecer. quando surge uma crise agrícola ou industrial. artísticos. pela in­ dústria e a agricultura. revelando a inclinação do homem para uma agregação orgânica e não puramente mecânica. então o espelho da sociedade será ele mesmo. por exemplo. que. e não se dará esse caso vergonhoso . representado pelas corporações científicas. Ora. como frisa Galvão dc Souza.dc que. pelas universidades e academias. ainda saindo das camadas inferiores. incorreu no extremo oposto. pelo menos até o momento inexpressi­ va e fictícia em nosso País e em quase toda a América Latina. têm direito a brilhar nas alturas. política. contu­ do. para sc inteirar do que sc passa lá fora. somente se agrega aos seus semelhantes que tenham os mesmos interesses. e sim a formação de grupos sociais que surgem espontaneamente. a ele vedada uma participação efeti­ va nas decisões dos governantes. A representação nacional tem natureza institucionalvem de cima para baixo. antecedem no próprio Fi­ tado. daquelas autoridades sociais que for­ mam a aristocracia de todos: os méritos científicos. Foi olvidada a ideia de que o Estado não tem no elemento humano a mera soma dos indivíduos. tal concepção de democracia. colocando o indivíduo numa po­ sição dc desamparo perante o poder político.prova de que não são representativos os parlamentos modernos .126 Teoria Geral do Estado dante e mandatário. surgindo a solidariedade orgânica e a divisão do trabalho. representado pelo comércio. é necessário que essas forças estejam representadas nas Cortes. É preciso que aí estejam os interesses dc que vos falei: o interesse religioso c moral representado pelo clero. apresentou bons resul­ tados na Inglaterra. e surgem espontaneamente. o Partido Con­ . grupos que. e o interesse das superioridades. o processo denominado in­ tegração ensejou a diferenciação paulatina de tais grupos. De fato. em perfeita integração com os organismos vivos da nação. a família e o município. o homem. de acordo de vontades. Surgem grupos das mais diversas espécies e fina­ lidades. religiosa ou in­ telectual. O Estado poderá ató desconhecer tais grupos.

Goffredo Telles Jr. o pragmatismo suplantou as abstrações ideoló­ gicas. Partidos políticos do tipo dos nossos não são órgãos naturais da sociedade. dc certa forma isolada do drama políti­ co que se desenrolava no continente europeu. no sentimento do povo. muito mais importante do que um partido. Na democracia liberal e individualista surgem. sim­ ples rótulos. Dissolvidos os órgãos naturais de representação da sociedade. por exemplo. por influência de Siéyès. Em preciosa monografia intitulada A democracia e o Brasil.6 Formas de governo 127 servador sempre esteve ligado aos grandes proprietários. o da Inglaterra. os agrupamen­ tos intermediários da família ao Estado. veículos que a representam. a ponto de não haver uma diferença bem definida nos dois grandes partidos aí existentes. mas em concreto. na América Latina tornaram-se quase sempre órgãos deformados. Os quadros partidários não correspondem à organização natu­ ral da sociedade que visam representar. já escrevia antes mesmo da insurreição de 1964: Os partidos políticos brasileiros. e também instrumentos para orientála. Se na liberal-democracia os partidos apareceram para preencher o vazio dei­ xado pelos corpos intermediários extintos em 1791. não em doutrina. Pois aí está o dc que muitos se esquecem. em seu real funcionamento. portanto. incapazes. Não são produtos das exigências comuns da vida humana. e. a Inglaterra. da aristocracia. em especial na França. onde. Servem apenas de instrumento para o registro de candidatos no tribunal com­ petente. então aparecem os partidos para substituí-los. partido representante. o Liberal. não devemos nos esquecer de que os partidos ingleses se acham intimamente ligados a determinadas classes ou a grupos . vazias embalagens. Entretanto. Galvão de Souza também se mostra incisivo e claro a esse respeito: Os partidos podem ser indispensáveis num determinado tipo de democracia. ocorreu nos Estados Unidos da América do Norte. representando a classe média burguesa. Por que não substituir a representação par­ tidária pela representação corporativa? A representação feita através dos partidos é inexpressiva e fictícia. o Trabalhista. de orientar a opinião de quem quer que seja sobre os problemas sociais. não em abstrato. Em nada se prendem ao drama quotidiano do cidadão. identificado com a classe operária e as agre­ miações sindicais (trade unions). bem apontado por Maurice Duverger. como órgãos de expressão da opinião pública. Fenômeno semelhante. isto é. Um sindicato ou um clube de fu­ tebol é. isto é. meros instrumen­ tos dc grupos ou de chefes políticos arrivistas. Além disso. no tocante à representação partidária. não em todos. por­ tanto. observados não em tese. Nada dizem à alma popular. finalmente. sofreu menos o impacto das novas ideias revolucionárias. sem nenhum conteúdo doutrinário e programático. Há casos que poderiam ser apontados como exceções. são meras siglas.

Inicialmente. Modernamente.01. Esta intervenção compreende. a fim de que esta sc manifeste a respeito de sua conveniência ou não. ao lado da natureza representativa de seu sistema político. Hitler realizou vários plebiscitos. em nome da fidelidade partidária.1961. formulando um programa de governo e designando candidatos que se vinculam. ten­ do origem na Lex Hortensia (século IV a. pois o deputado pode ser desligado de seu partido caso sc des­ ligue da linha de conduta que lhe for traçada. veto popular. recall e mandato im­ perativo. aliás. a vinculação do parlamentar ao seu partido.1963. Embora adotando. Deputados e senadores serão man­ datários de seus partidos. portanto. mediante um plebiscito no qual o eleitorado refugou o regime parlamentarista de governo. o constitucionalismo brasileiro ensejou a participação popular direta em 1963. iniciativa popular.128 Teoria Geral do Estado sociais. a tal programa. que havia sido adotado em 02. Como se poderia compreender o desenvolvimento do Partido Trabalhista sem a base sindical do “trade-unionismo” ? E o Partido Conservador não tira a sua força do elemento aristocrático? As aberrações e os abusos cometidos cm nome da chamada democracia re­ presentativa ensejaram uma série de providências saneadoras do Estado Moderno. nela se admite a utilização esporádica da intervenção direta dos governados em certas delibera­ ções dos governantes. obrigatoriamente. a função do partido político é preparar a de­ cisão popular. O termo plebiscito deriva de plebs. um retorno ao mandato imperativo. Após a Segunda Guerra M undial. referendo. por intermédio de plebiscitos. O parlamentar.). por intermédio da Emenda Constitucional n. no que foi imitado por Napoleão III.4) D em ocracia sem idireta A terceira espécie de democracia é a democracia semidireta. os governantes france­ ses usaram largamente do plebiscito. Plebiscito: a expressão denomina uma consulta prévia que sc faz à coletivi­ dade. 4. tradicionalmente. o que ocorreria com a Emenda n. de certa forma. que concedeu aos plebeus o direito de participar do processo político na antiga Roma republicana. Na democracia partidária. destacando-se aquele que ensejou a anexação (Anscbliiss) da Áustria à Alemanha. o instituto adotado por Napoleão Ikmaparte para obter o aval popular das mudanças constitucionais dc seu governo. 6.09. à volta do regime presidencialista. Isto marca. a de­ mocracia representativa. de 23. por conseqüência. 2. Os governantes consideram oportuna a medida. sendo. basicamente.C. plebe. Ele se sujeita ao programa partidário. manifestando-se favoravelmente. os seguintes ins­ titutos: plebiscito. não decide mais por si próprio. mas antes dc efetivá-la consideram necessário que o povo se manifeste. .4. assim nominada porque. quando garantiu o apoio da maioria para suas medidas. o povo francês manifestou-se durante a Grande Re­ volução.

Como assinala Georges Burdeau. a que mais aten­ de às exigências populares de uma participação efetiva no processo político é a ini­ ciativa das leis pelo próprio povo. um projeto de lei determinado será exposto à Assembleia. 1962.. a iniciativa popular obriga o parlamento a legislar.. No caso. g.6 Formas de governo 129 A Constituição brasileira prevê. Iniciativa popular: eis o mais significativo instituto da democracia semidire­ ta. Referendo: o referendo e o mecanismo da democracia semidireta pelo qual os cidadãos são convocados para se manifestar a respeito da conveniência ou não de medida já tomada pelos governantes. E uma das razões para o seu fortalecimento recente é que as pessoas estão exigindo maior prestação de contas. então. 1 4 . 133). que autoriza o seu exercício por um mínimo de dez mil cidadãos. os cida­ dãos não legislam. mas fazem com que se legisle. Nisto difere do plebiscito. 14. p. Publicações Europa/ América. 2o das Disposições Transitórias). Na iniciativa popular o povo exercc apenas um direito dc petição “reforçado”. Trata-se. bem como a discuti-lo e a votá-lo.1 ) c como instrumento da vontade popular na manutenção ou modificação da forma de governo e do regime de governo (art. 71. de todas as instituições da democracia semidireta. A diferença entre os projetos de lei originados da comunidade c os plebiscitos é que os primeiros aparecem na votação através de ação direta do cidadão. que de­ verá examiná-lo c emitir um parecer (/l democracia. a moção. Ressurgiu. 86. A iniciativa popular é encontrada. depois. na Constituição de Weimar. da Constituição italiana de 1947 determina que cinqüenta mil eleitores podem obrigar o parlamento a discutir um projeto de lei oriundo de iniciativa popular. como desejam cidadãos informados e educados. enfim. expressamente. II. porque. da Constituição de Cuba. no Estado de Dakota do Sul (1898) e no Oregon (1904). de ratificação popular de algo que já está feito. Dá-se o nome de referendo também à manifestação popular sobre a entrada em vigor de leis já elaboradas pelo parlamento. também. O primeiro projeto dc lei estadual originado da comunidade nos Estados Unidos ocorreu no Oregon em 1904. Como acentua John Naisbitt cm sugestiva monografia: Os projetos de lei originados das comunidades e os plebiscitos são as ferramen­ tas da nova democracia. na Ve­ nezuela e na Itália. juntamente com o plebiscito e o recall (que permi­ te aos eleitores revogarem o mandato de um representante eleito e que é legal em doze . Realmente. pelo qual pressiona o parlamento a reparar um projeto de lei sobre determinado assunto. no art. in fine. Lisboa. Lembra Salvetti Netto que o Le­ gislativo não está obrigado a acatar a iniciativa popular. O art. O aumento desses projetos. c os plebiscitos são uma maneira dc os cidadãos aprovarem ou não a ação do legislativo. se um determinado número dc ci­ dadãos o exige. Estes instrumentos criam acesso direto à decisão política. Também o referendo é previsto pela Constituição brasileira no art. a realização de plebiscitos como forma de exercício da soberania popular (art. A iniciati­ va popular foi empregada pela primeira vez nos EUA.

Quando um juiz se nega a aplicar uma lei. e com a iniciativa popular pode obrigar o Legislativo a fazer leis socialmente úteis. de democracia semidireta lhe permite anular a ação dos juizes. alegando o vício de inconstitucionalidade. por julgá-la inconstitucional. o pioneiro na inovação do recall quanto às decisões judiciárias. caracteriza magistralmente o recall dos cargos eletivos assim: Comumente vinculado à democracia semidireta está o recall. sendo o instituto adotado.130 Teoria Geral do Estado estados).a magistratura eletiva de vários Estados tem entravado. instrumentos-chave na nova democracia participativa. 1982. nos Es­ tados do Oregon e da Califórnia. sem dúvida . e 61. Pode ocorrer no plebiscito ou no referendo. de uma medida governamental. arrojada e singular. quando estes. uma forma audaciosa e perigosa. 14. impedir). sua finalidade: permitir que o eleitorado possa destituir. mas a única arma que o povo americano encontrou para combater um perigo muito maior . pelo povo. oportunamente. William Bennett Munro. Nem o Poder Judiciário escapa ao raio de ação do recall. Theodore Roosevelt foi. decla­ rar inconstitucional a lei e obrigar a sua aplicação. 162-3) A vigente Constituição brasileira. E. a partir de 1912. É o recall das decisões judiciárias.10. um órgão público que tenha afrontado a confiança do povo e a dignidade do cargo. Ele pode ser defi­ nido como o direito de um determinado número de eleitores solicitar a destituição ime­ diata de um governador ou de qualquer outro detentor de cargo eletivo.prossegue Azambu­ ja . Uma petição . inovou na or­ dem jurídica ao adotar a iniciativa popular nos arts. p. representa uma exigência inequívoca de parte dos eleitores de prestação de contas do governo. com o referendum. em manifestação direta. III. e c esta. às decisões da Suprema Corte. 321). 1985. citado por Wilson Accioli (Teoria ge­ ral do Estado. se. Não se aplica.a elegibilidade dos juizes. uma outra forma. Isso se dá . por imposi­ ção do capitalismo que a elege. negam-se a executar certas leis oriundas da iniciativa popu­ lar. anular.principalmente em relação à legislação social que . reparar. Darcy Azambuja. Como assinala. Rio de Janeiro. em nenhuma hipótese. Li­ vros Abril/Círculo do Livro. adotado em doze Estados da Federação norte-americana. con­ trárias ao interesse coletivo. o veto popular significa a re­ jeição. (Megatendências. 26. Forense.1988. permitem às pessoas passar por cima dos processos representativos tra­ dicionais e moldar o sistema político com suas próprias mãos.finaliza -. Veto popular: do latim vetare (proibir. Estes novos dispositivos. a maioria dos eleitores pode anular a decisão. Recall: o termo recall significa revogar.segundo muitos autores americanos . verdadeira­ mente. modernamente. § 4o. p. o povo americano pode inutilizar certas leis. caput e § 2°. promulgada em 05. e obter que seu pedido seja submetido aos eleitores para que estes possam decidir.

Surgido por volta do século IX. para o que. cuja denominação . ele continua no cargo. o recall é um ins­ trumento político indicado para assegurar a mais rigorosa responsabilidade funcional ao eleitorado. O recalled pode apresentar-se à reeleição. aliás. muito pouco usado. ordenam uma eleição para decidir sobre a matéria. em face disto. sob o impacto da doutrina de Siéyès. e. p. 11a forma da lei. prestar. Se reeleito. porque o “mandato” polí­ tico se referiria a toda a nação. assinala Darcy Azambuja. Com o surgimento da chamada de­ mocracia representativa. o recall tem obtido. Por outro lado. a responsabilidade dos parlamentares apurar-se-ia tão somente nos casos rigidamen­ te instituídos pela Constituição. evidentemente. em apenas um governador e uma meia dúzia de outros importantes funcionários estatais foram destituídos. de fato. portanto obriga­ tória. 672) Entretanto. natureza contratual. na Es­ panha. New York. estabelecendo as razões indicadoras da ação pretendida. desfez-se. 1959.6 Formas de governo 131 deste tipo. quando suficientes assinaturas (usualmen­ te um número igual a cinco por cento do eleitorado registrado) forem obtidas. ser usado er­ radamente. Sc a maioria dos eleitores sc pronuncia cm favor do re­ call. o vínculo jurídico existente entre representantes e representados. o funcionário é destituído imediatamente. como já vimos no estudo da democracia representativa. espécie de pacto que. de modo que estes. previamente. e não institucional. o termo man­ dato não casa bem com democracia representativa. Tem. lar­ ga aplicação em alguns Estados norte-americanos. Desde sua introdução. Mandato imperativo: o mandato imperativo é o vínculo jurídico que liga o re­ presentante do povo aos seus próprios eleitores. quando desa­ pareceu na voragem do absolutismo nascente. de modo fácil. Mas ele tem sido. podem rescindir\ dissolver esta ligação. os peticionários do recall devem reembolsar o acusado das despesas feitas com a eleição. em razão disso. que é um procedimento semijudicial normalmente usado para livrar o governo de um funcionário culpado de atos criminosos. do contrário. até 1601. como ocorre no mandato político. em caso de o candidato eleito não estar correspondendo aos anseios do eleitorado. o que pareceria indicar que é geralmente visto como uma arma a ser mantida de reserva. caução. MacM illan. Permite ao povo destituir qualquer detentor de cargo público que dei­ xou de atender à sua confiança. o recall é 1908. e não apenas ao corpo eleitoral. Ao contrário do impeachment. 11111 instrumento que pode. ultimamente. sendo seus alvos os órgãos dos três Poderes da União. Vejamos: a expressão manda­ to vem do latim mandatum. a peti­ ção é submetida às próprias autoridades que. o mandato imperativo teve seu apogeu 11a França. con­ sensual. Um percentual de 20 a 25% do total de eleitores de cada Estado requer que o órgão seja submetido ao recall. entre mandante e mandatário. juntando à cédula do voto sua defesa. é redigida e posta em circulação para receber as assinaturas. mais para uma emergência do que para o uso mais in­ tenso. Embora empregado a partir de então. é reforçado pela vinculação jurídica. Torna a responsabilidade funcional permanente e di­ reta. (The govemment o f United States.

pelo menos. realizar o ideal democrático. aos poucos. a da democracia direta. a liberal-democracia. costumava dizer que a confusão está a se esconder numa palavra: democracia. Cabral de Moncada nos diz que a democracia é um tecido com o qual se pode tecer todo tipo de roupa. Uma coisa é certa: não pode haver democra­ cia onde não houver uma participação permanente c consciente dos cidadãos or­ ganizados em povo político. Cada uma delas buscou alcançar o ideal democrático. Não foi à toa que Jacques Maritain afirmou. exigindo dos governantes a melhor orientação. que a tragédia das democracias contemporâneas con­ siste em que elas não conseguiram. retornando à prática política. Abolido violentamente pelo furor revolucionário na França. mas o sociólogo norte-americano Robert Dahl catalogou nada menos do que quinhentas conceituações! Em pitoresca ima­ gem. di­ zem seus porta-vozes. para mui­ tos. investidura. mas poder do povo. Curiosa esta última posição: será a democracia o governo do povo ou. Infelizmente. com franqueza e pessimismo. a liberal-democracia. governo do povo. Ora. com seu espírito pragmático.132 Teoria Geral do Estado correta seria. a qualificação de um Estado como democrático não se acha vinculada a nenhuma ideologia. Descar­ tada a primeira hipótese. a representa­ tiva e a semidireta. o mandato imperativo vai. por irrealizável no mun­ do moderno. três espécies de democracia: a direta ou clássica. propriamente. embora nunca de medida e padrão únicos. então. Um recente estudo levado a efeito pela Unesco revelou a existência de. Guizot. restaria indagar qual a verdadeira essência do ideal democrático. Atualmen­ te. 250 definições de democracia. consiste em tomar a parte pelo todo. o controle do poder político pelo povo. Com efei­ to. todos os Estados Modernos se proclamam ardentemente democráticos. Pela própria etimologia da palavra democracia (demos = povo e kratos = poder). quando o que está realmente em crise é uma simples forma histórica da democracia. . Frederico II não fazia por menos e costuma­ va resumir seu pensamento a esse respeito em poucas palavras: tudo para o povo. tão bem sintetizaram com esta elegante expressão: popularii potentia. em lógica. sob pena de aberrante deformação da realidade. Come­ te-se o erro que. é correntio ouvir falar em crise da democracia. em tabu. portanto. menos por suas virtudes intrínsecas do que pela inegável desmoralização da repre­ sentação política cunhada pela liberal-democracia. Crise da liberal-democracia é crise do próprio ideal democrático. que os romanos. resta claro que o termo não significa. em oposição a arche (governo)? Assegurar os meios da permanente penetração dos governados nas decisões dos governantes. como querem alguns. nada pelo povo. da mes­ ma forma que todos os políticos se proclamam honestos. eis o grande desafio. qual seja. primeiro-ministro de Luís Felipe. ainda. transformou-se. Eis. que nada mais é do que uma espécie entre as inúmeras que buscam alcançar o ideal democrático.

pode haver votação sem eleição . embora na demo­ cracia representativa e na semidireta não possa haver eleição sem prévia votação. direta ou indireta. diz-se que há votação. o homem abstrato vão deixando o seu lugar para um ser totalmente novo. estabelecidos na própria Constitui­ ção. Por isso. o que vem a ser democracia? Democracia é o processo político que autoriza a permanente par­ ticipação. o sufrágio apresenta duas espécies: o sufrágio-direito e o sufrágio-função. Que é. Entretanto. e esta não admite repre­ sentantes” . O sufrágio-direito parte de Jean-Jacques Rous­ seau. fica esclareci­ do quem terá o direito ao voto. Entretanto. pois não admite alienação. Tais requisitos. Ela se expressa pela vontade geral. para quem. àqueles que têm o direito dc votar. qual seja. decide diretamente a respeito dc determinado assunto. Pelo sufrágio. Belas ficções. descreve em seu precioso opúsculo sobre a democracia. mas inexoravelmente. então. com muita graça. ao conjunto daqueles que são dota­ dos de cidadania. Rousseau é muito claro a respeito: “a soberania não pode ser representada. da com unidade. estabelecer os requisitos para a obtenção dc tal direito. que Georgcs Burdeau.5) Sufrágio e voto Tanto a democracia representativa como a democracia semidireta apresentam um pressuposto que se destaca de imediato. é ele titular de parte ou fração da própria soberania. quem se refere à democra­ cia. enfim. Quanto ao voto. 2. ao votar. é costume dizer que há eleição. Pelo sufrágio. Então. transformadas em dogmas da política. previamente selecionado por determinado tipo de su­ frágio. o nacional torna-se cidadão e começa a exercer o direito de votar. para se sa­ ber quem terá o direito de votar c preciso. o sufrágio1 Do latim suffragari. escolhendo seus candidatos. refere-se. legalização do aborto. livre e consciente. mas o voto é um ato de escolha. o cidadão. começam a perder o en­ canto original. O sufrágio é. e sen­ do a soberania indelegável. mediante o sufrágio. é um pro­ cesso de seleção daqueles que terão o direito de votar. simplesmente. mediante elei­ ções. nada mais é do que o instrumento para exercer o direito de deliberação ou de escolher candidatos a cargos políticos. afirmam alguns doutrinadores. o eleitorado está elegendo. Por isso. portanto.4. o da existência de um corpo eleitoral periodicamente renovado. adoção de determinado regime dc gover­ no. ao eleitorado. implan­ tação do divórcio. preliminarmente. constituem o sufrágio. por exemplo. No mundo moderno. perdendo ter­ reno. Atendidos os requisitos constitucionais. Quanto ao fundamento da soberania. paulatina. um processo de escolha de eleitores. nas deliberações dos governantes. o célebre genebrino costumava dizer: “o voto é um direito que . o homem situado. sendo cada cidadão uma parcela da coletividade política. O sufrágio é um processo de escolha. inevitavelmente. O súdito. quando. Quando o eleitorado. o nacional passa a ser cidadão.6 Formas de governo 133 Num mundo em que as realidades palpáveis se fazem cada vez mais candentcs. as abstrações do passado vão.

os interesses per­ manentes da comunidade. do exposto. entre indivíduo e Estado. mas cumpre uma função inafastável. A nação. consequentemente. abstrata. com sua concepção de nação. A nação. participar do processo eleitoral é mais uma faculdade do que um direito público subjetivo. Daí a sugestiva denominação dada ao sufrágio que expressa a soberania nacional: sufrágio-função. amealhando considerável patrimônio e. A nação. uma vontade coletiva? N ão há outra alternativa: por intermédio de uma comunidade concreta. Aquela é uma simples comunidade organizada e considerada num dado momento histórico. no sé­ culo XIX. é uma entidade espiritual.134 Teoria Geral do Estado ninguém pode subtrair aos cidadãos”. O eleitor não exerce ape­ nas uma faculdade. Ora. mas o fundamento desta continua a residir na nação. o sufrágio censitário. para fruir de um maior bem-estar material. sob . fundado no volume de bens de que cada cidadão pode dispor. Esta espécie de sufrágio teve seu apogeu com a liberal-democracia burguesa. poderá sacrificar. devem ar­ car com tal ônus. Por outro lado. O povo elegerá. tem-se como certo. da mesma forma que uns poucos demonstraram capacidade de trabalho e de realização pes­ soal. Segundo a doutrina do sufrágio-direito. o povo. que se mostram nas gerações que se suce­ dem. Bem diferente se mostra a teoria do sufrágio-fun­ ção. ela é a própria permanência da comunidade no tempo. e que nem sempre coincidem com os interesses passageiros de uma única ge­ ração. o direito ao voto. Assim. Ela parte de Emmanuel Joseph Siéyès. então. não podendo a nação manifestar-se diretamente. uma ideia. é mais do que isso. diz. Seu fundamento ideológico reside na argumentação de que o Estado deve preparar uma elite governante. que. um órgão por intermédio do qual a nação expressa a sua vonta­ de. Em outras palavras. compulsória: a de votar. Cada cidadão é titular da fração da soberania que lhe cabe. Percebe-se. Ora. enfim. mais rapida­ mente a sociedade consolidará o governo dos melhores. ser obrigatório. Tais representantes serão os titulares do exercí­ cio da soberania. e. pois. e para usar uma terminologia de Ortega y Gasset. e não apenas dele. restringindo-se o direito ao voto. seus interesses permanentes. portanto. e a exerce como lhe apraz. inarredavelmente. O povo transforma-se. por intermédio do povo. repita-se. segundo Siéyès. aqueles que irão fazê-lo em seu nome. os representantes de uma entidade ideal. portanto. em determinado momento da vida da nação. Cada época histórica consagrou um tipo determinado de sufrágio. irremediavelmente. porém. perceptível aos sentidos. um vínculo dc compulsoriedade. não cons­ titui uma obrigação à qual corresponda. destacando-se dos demais. no caso. na participação política. que estará. mas permanente: a nação. por ser uma en­ tidade abstrata. obtiveram o direito de dirigir a coisa pública. seria o conjunto das pessoas coetâneas (mesma idade) e contemporâneas (mesma época). Assim. não se confunde com o povo. portanto. povo. o povo. com isto. O voto deve. no eleitorado que levará ao poder os representantes da nação. O eleitor é mero instrumento de manifestação da vontade nacional. como pode um ente abstrato manifestar sua vontade. Povo. excluídas as gerações passadas e futuras.

seria formada pe­ los ignorantes. em sua plenitude. mas também de ser vo­ tada. Outra espécie de sufrágio. desinteressados de tudo. somente incorporado à Constituição Federal em 1920. pois as mulheres votaram para a escolha de senadores. algumas entidades federadas exigem que o direito ao voto esteja vinculado à capacidade de entender o disposto na Constituição. pela primeira vez. adotada ainda hoje. e dos bens de cada cidadão. também consagrava o sufrágio censitário.. no Rio Grande do Norte. o sufrá­ gio racial. com a Emenda X IX . veio somente em 1932. Por exemplo. Alzira Floriano. c o seu direito não devia ultrapassar o âmbito estadual. estudante de Direito. por completo. O terceiro e úl­ timo estamento compunha nada menos do que 83% dos contribuintes. 7° da Constituição Federal.. na antiga Roma republicana. quan­ . na Prússia. com a divisão dos contribuintes cm três estamentos. permitindo a consolidação de uma elite intelectual. nos Estados Unidos da América do Norte. mer­ gulhados nas sombras de uma vida mesquinha e medíocre. o direito de as mulheres participarem do processo político aparece. O sufrágio ccnsitário existiu a partir de 1850. principalmente da política. A Constituição do Império do Brasil. No Bra­ sil. cuja denomi­ nação já revela que. seria cons­ tituído pela camada mais informada. com fundamento no art. excluindo do direito de voto. aqueles que não apresentassem uma renda mínima anual. esta. As mulheres são excluídas do direito ao voto sob a alegação de sua “inabilidade congênita” e “insensibilidade para as questões políticas”. em face do qual somente votam aqueles que demonstrarem um nível míni­ mo de erudição e informação política. os ignorantes e os analfabetos. nos Estados Uni­ dos. entretanto. apenas a partir de 1971. Já se percebe que o fundamento desta espé­ cie de sufrágio é afastar do processo político os inaptos. atribuição conferida. nos seus termos. Em 1929 foi eleita a primeira prefeita do Brasil.6 Formas de governo 135 excelente gestão. embora do­ tado de ínfima representação. Nesta espécie de sufrágio. e que consistia na exata aferição do nume­ ro de pessoas. em 1869. Paulo Bonavides refere-se a uma odiosa espécie de sufrágio restrito. de 25.1824. pleiteou e obteve. o parlamento. por intermédio do Código Eleitoral brasileiro. No Ocidente. que definia os eleitores como os cidadãos maio­ res de 21 anos. Os votos foram anulados. nos arts. com Getúlio Vargas. em 1927. sem discriminação expressa da mulher. de forma dissimulada. realmente interessada no aperfeiçoamento das instituições e na realização dos objetivos sociais. Fm 1928. Mietta Santiago. no Wyoming. Na Suíça. A expressão ccnsitário deriva de censo. Ainda hoje. alienados. não apenas o direito de votar. dos quais o primeiro era composto pelos cida­ dãos mais afastados. que dominavam. o voto feminino aparecc. adotado. 92 e 94. di­ zem seus defensores. Uma terceira espécie de sufrágio restrito é o sufrágio masculino. mas a con­ solidação do direito de a mulher participar do processo político. é o sufrágio cultural ou capacitário. somente o homem pode votar. fica patente a distinção entre povo e massa: aquele. inicialmente. aos censores.03. no mais das vezes. semoventes.

. Esta. que alterou a Constituição Federal de 1967. Da mesma forma que cem tolos não formam um sábio. Com tal Emenda e. mais aperfeiçoado. compreender e interpretar “convenientemente” a Constituição. religião.05. tais restrições não podem ser ampliadas mediante lei ordinária. não será aumentando o número de participantes do sufrágio que este ficará. infelizmente. é aquele que busca conferir o direito de voto ao maior número possível dc nacionais. a). No Brasil. II. de 15. são mais numerosos do que no sufrágio universal. 14. A rigor todo sufrágio é restrito. o que se pretendia era excluir os negros do processo político. veladamente. sen­ do inelegíveis os inalistáveis e os analfabetos (art. posteriormente. Tal invectiva não colhe. um instrumento nas mãos dos demagogos sequiosos de votos. 14. seja qual for o ponto dc vista que se adote para o problema. constituem exceções ao sufrágio universal os menores de dezes­ seis anos (CF. Até a Emenda Consti­ tucional n. São restrições que .136 Teoria Geral do Estado do a legislação do Estado do Mississipi. § 4o).não são inexpugnáveis. c). os estrangeiros e os conscritos (art.1985. em razão da idade e do con­ seqüente amadurecimento pessoal. excluído do sufrágio uni­ versal. obriga a ler. a concessão do direito de votar ao analfabeto não se justifica. art. Evidente. Oportuna a observação de Paulo Bonavides: . estando. § I o. 14. o analfabeto não tinha o direito de votar. 25. nível de conhecimentos. ele passou a ter o direito dc voto facultativo (art. contudo. no sufrágio restrito. portanto. Poder-se-ia argumentar com o fato de que alguns analfabetos se interessam muito mais pelos problemas políticos e sociais do que muitos cidadãos alfabetiza­ dos. em vigor. distinção essencial en­ tre sufrágio restrito c sufrágio universal. É bom notar que as restrições ao direito de voto numa ordem jurídica que consagra o sufrágio universal estão previstas somente na própria Constituição. Na verdade. como a ob­ tenção de níveis mais altos de escolaridade. aliás os grandes beneficiários desta infortunada ampliação do sufrágio. atualmente. A regra. Não há sufrágio plenamente universalizado e não há.. portanto. A diferença é puramente quantitativa: os impedimentos do direito de voto. con­ tribui para com o aprimoramento da vida em sociedade. nos Estados Unidos da América do Norte. Quanto ao sufrágio universal. qua­ se absoluta. porque não se argumenta com exceções. obedecendo-se. raça. a Constituição de 1988. é que o analfabeto torna-se. A própria expressão universal já revela que deve ter o direito de voto a universalidade. que mesmo o sufrágio universal comporta restrições ao direito de voto. ou em face de seu esforço próprio.é bom notar . portanto. pois cada qual. e nem poderia ser de outra forma. § I o. não po­ derá restringir o eleitoral além dos limites preestabelecidos na Constituição. 14. II. a generalidade das pessoas. isto é. § 2o). necessariamente. pois a cada momento da vida o nacional vai abatendo-as. independentemente de sexo. a um critério menos capacitário do que racial.

falto dos predicados essenciais ao seu exercício e néscio sobre os prin­ cípios políticos institucionais que a informam. onde cidadãos conscientes e politi­ camente responsáveis participem do processo eleitoral.6 Formas de governo 137 Quanto ao argumento que gira ao redor da dialética qualidade-quantidade. A singeleza da prova eliminaria a formação de um colégio eleitoral elitista.semelhante. o princípio qualita­ tivo do que o princípio quantitativo. in verbis: Como escolher-se. não resta dúvida que o princípio democrático envolve da parte do colégio eleitoral uma compreensão política mais apurada. um senador ou um deputado. Por outro lado. sobre rudimentos da organiza­ ção político-constitucional. tais providências valeriam para diminuir os perigos da demagogia. Com isto.versando. Ainda que se mostre mais difícil o afastamento da segunda. com fa­ cilidade. também. se não se tem co­ nhecimento de suas atribuições e nem sequer se sabe o que é o Senado ou a Câmara dos Deputados? Daí a razão por que julgamos absolutamente imprescindível para a constituição de uma democracia qualitativa e real. não se atribuindo a prerrogativa do sufrágio tão só a uma minoria qualificada por tí­ tulos formais de sabedoria ou a uma aristocracia de classe. qualificar-se-ia o regime democrático. forma impura do governo democrático c capaz dc. Tal como o candidato àquela outorga. como. que deve revelar um conhecimento tcórico relativo aos sinais. na forma. à que se faz mister para a concessão da carteira dc habilitação para dirigir . seria subsídio valioso para a constituição de um eleitorado consciente e responsável. A exigência de um conhe­ cimento mínimo relativo ao mecanismo de governo. Incisiva. torna-se natural ameaça ao regime de­ mocrático. impor-sc na proporção direta da dcsqualificação política do eleitorado. é absolutamente certo que o germe da igno­ rância não só pode ser combatido. Daí pesar mais em favor do bom mecanismo institucional do governo demo­ crático. encontra dois caminhos para alastrar-se: a ignorância e a crença. à outorga do título de eleitor. mas necessários. Não seria absurdo dizer-se constituir a ignorância do cidadão terreno fértil à expansão de­ magógica. difícil de formar-se no seio da multidão espessa e ignara. pois ninguém pode dizer-se infenso ao poder pessoal. o postulan­ te à cidadania. siglas c regras básicas dc trânsito. De conseguinte deve ele submeter-se a singela prova escrita . sem impedir-se o defe­ rimento da cidadania àqueles que demonstrassem possuir as condições elementares para seu exercício racional. como ocorrido na Alemanha intelectualizada de Hitler. como governo dc livre manifestação da vontade popular. porém. a observação dc Pedro Salvetti Netto. por exemplo. uma comprovação de habili­ tação política. eficazmente debelado. a respeito. pela qual o candidato à cidadania demonstre conhecimentos mínimos. com efeito. carismático e místico do demagogo. sem o que se tornaria evidente perigo à integridade física e ao patrimônio de todos. Daí . assimilável por todos os que sai­ bam ler e escrever. Um colégio eleitoral qualificado pelo conhecimento necessário e básico da organização constitu­ cional e do funcionamento do governo o eliminaria do processo político-elcitoral. Esta.

em face do pequeno número de seus integrantes. em qualquer destas espécies. o voto para a eleição do Presidente da República era indireto.1985. na sua forma de expressão. tal só pode consti­ tuir situação excepcional e. para o corpo eleitoral intermediário. não deve ter o direito de votar. O voto pode ser também. intermediários.eles mesmos já uma elite . não seria este o argumento hábil capaz dc refutar a proposição por nós sustentada. sem intermediação.13 8 Teoria Geral do Estado porque não nos sensibiliza a pregação. delegados. proporção máxima. dos votos do analfabe­ to. por sua vez. entretanto. O voto é direto quando o eleitor. 25. de modo que os eleitores secundários . Até o advento da Emenda Constitucional n. que. 14.05. em secreto ou aberto. de 15. por via dc regra. Então. o voto é dito indireto quan­ do o eleitorado elege. está submetido à burocracia estatal e ao poder econômico. pois este não se sente estimulado a participar de uma eleição que não é decisiva. escolhe seus próprios re­ presentantes. enfreando as paixões políti­ cas. assim. por inteiro. b) o voto indireto não raro é empregado como meio de resistir ao sufrágio universal. porquanto.ficam em condições de sufragar ou selecionar os mais capazes e competen­ tes. abrindo espaço à reflexão. a tendência moderna é francamente favorável ao voto secre­ to. como já vimos. b) atua o voto indireto como força moderadora. sendo Tancredo Neves o último candidato eleito por um colégio eleitoral restrito. é mais suscetível a pressões e à cor­ rupção. razão pela qual o voto secreto acalmará as preocupações legítimas e reanimará os poltrões. Paulo Bonavides apon­ ta os seguintes argumentos a favor ou contra este tipo de voto: a) os graus interpostos operam como filtros. classifica-se. d) o voto indireto ocasiona volumosa abstenção por parte do eleitorado de primeiro grau. que melhor assegura a independência do eleitor a que se tem procurado cercar de todos os elementos materiais para garantir o sigilo. ensejando a prudência das designações. subdividindo-se este úl­ timo em escrito e verbal. cuja influên­ cia toma. fa­ rão. Quanto ao voto. de viseira erguida. embora possa haver entre aqueles ignorantes no ler e escrever alguns naturalmente sensíveis às coisas públicas e com elas preocupados. caput). É a espécie adotada pela Constituição brasileira (art. c) o colégio eleitoral de segundo grau. O fundamento do voto secreto é evitar pressões sobre o eleitorado. o eleitor. Na ver­ . Com efeito. em direto ou indi­ reto e. pois o eleitor que não tem coragem e senso de responsabilidade para votar abertamente. como qualquer raciocínio lógico rejeita a exceção para a pesquisa da verdade metodológica. secreto ou aberto. Os ad­ versários do voto secreto retrucam: ele é mais uma prova da desilusão das demo­ cracias modernas. portanto o poder de decisão da massa sufragante se transfere. Os argumen­ tos em desfavor do voto indireto também são ponderáveis: a) caráter manifestamente menos democrático que o sufrágio direto. a escolha definitiva dos governantes. para nós demagógica. em segundo grau. Como acentuam Rodrigo Octavio e Paulo D. Vianna. inicialmente.

O voto aberto pode ser escrito ou verbal. Vota secretamente quem se achar coagido ou temeroso de manifestar de modo aberto sua opinião. finalmente. O art. Por esta espécie dc voto o cidadão elege representantes dc seu próprio distrito eleitoral (daí a adjetivação distrital). de modo a minimizar a influência do poder econômico e dos meios de co­ municação nas eleições. este também conhecido como ostensivo. Por outro lado. políticas. Assim. Aplica-se ao artigo em epí­ grafe. a interpretação finalística ou teleológica. ao passo que. afirmam. desejar expressar aber­ tamente sua vontade. uma facção política. nem por isso desdenha sua plena realização como ser social. ensejando um maior contato entre o candidato e even­ tuais eleitores. cada candidato concorre com outros candidatos de partidos diferentes. Afirmam os defensores do voto distrital que este atrai os candidatos para mais perto do eleitor. todos aqueles que. Espécie de voto que vem amealhando número cada vez maior dc simpatizan­ tes é o chamado voto distrital. tendo inclinações co­ muns. que congregam indivíduos que. dc modo a compati­ bilizar população e território. forte na sua ideologia. 2. As sociedades podem apresentar as mais diversas fina­ lidades: culturais. com grave risco para sua liberdade de manifestação de pensamento. candida­ tos de um mesmo partido se digladiam na mesma região eleitoral. Buscando sua realização pessoal. sua vontade. um partido político revelam.6 Formas de governo 139 dade. expressamente. econômicas e. caso em que se obriga o eleitor ou o delegado a revelar. comerciais. professam as mesmas ideias. ser social. portanto. 14 da Constituição brasileira não deve ser interpretado literalmente. tão caro ao legislador pátrio. pelo sistema distrital. a ânsia de participação efetiva do homem nos problemas da comunidade em que vive. esportivas. em busca de objetivos mais eleva­ dos. O voto distrital funda-se no princípio de que a escolha dc parlamentares pelo eleitorado deve ocorrer em âmbito o mais reduzido possível. tende a se agregar aos seus semelhantes de forma orgânica. É sabi­ do que o homem. entretanto. mas deve ser facultado ao eleitor manifestar secreta ou abertamente sua escolha. um movimento político e. com apa­ . formando grupos. o voto distrital torna os partidos políticos mais homogêneos. Obrigar o eleitorado a votar secretamente parece-nos mais uma exacer­ bação do formalismo. sim. Na verdade. aquele que. não deve ser impedido dc faze-lo. O voto é obrigatório. isto pelo seguinte: no sistema proporcional. enfraquecendo o próprio partido. a solução satisfatória deveria estar no meio-termo. pois a finalidade do dis­ positivo é garantir o sigilo do voto apenas para aqueles que acharem inconveniente revelá-lo. propiciando um controle mais efetivo dos candidatos eleitos. Análoga é a situação do voto aberto.6) Partidos políticos A formação de associações que visam alcançar um objetivo político determi­ nado vai longe na História.4. pertinente ao âmbito espacial de atuação do candi­ dato eleito. no mais das vezes. no caso.

e não se confunde. pelo menos. contu­ do. sem­ pre sob a liderança dc um homem virtuoso ou dc um mecenas disposto a financiar uma ideia. longe estavam dc possuir a estrutura. num pro­ cesso de cooperação. Ora. originando o apa­ recimento de inúmeras facções políticas. a noção de partido político começa a ser delineada: grupo de pessoas que se unem para promover. com a eliminação de todo e qualquer ideário diverso. a diver­ sidade de opiniões políticas não se manifestou mediante partidos como entende­ mos. não se confunde. a assertiva de Marx de que o partido político é sempre um órgão de classe. Por isso. Com o aparecimento do Estado liberal-democrático. a expressão partido. O surgimento de facções políticas remonta. mas mediante facções da burguesia. tolerado pela lei. do latim pars. na Itália. den­ tro do próprio partido. duas partes (daí. portanto. depois. a expressão partido político. a fim de impor sua própria cosmovisão a todos. na Idade Média. a burocracia c o reconhecimento legal de que hoje desfrutam os partidos políticos. ainda nos séculos XVII e XVIII não se fazia distinção entre par­ tido e facção política. no Esta­ do absolutista. que procura congre­ gar o povo numa ideologia política exclusivista e intransigente. como foi o caso de guelfos e gibelinos na Alemanha e. Até mesmo simples caprichos de família provocariam dissensões formadoras de grupos políticos inimigos. pelo menos. mediante o emprego de um processo es­ pecífico. dizia Bluntschli. também. Seja como for. cada uma dela dirigida por um líder. Tais facções. à Antiguidade Clássica. Ela surge de maneira autônoma. o interesse nacional. questões políticas gravíssimas ensejaram lutas entre suseranos e vassalos. Somente a partir de 1770. Esta. Da mesma forma. a antiga Grécia e Roma. procurando minar as diretrizes aprovadas pela maioria. Da mesma maneira que o partido político não se confunde com a mera facção política. Ainda na sociedade estamentária medieval.140 Teoria Geral do Estado tia e indiferença. Daí a sugestiva definição de partido político que nos oferece Povina: “agrupamento permanente e . as facções políticas surgem quase sempre vinculadas aos seus estamentos. Modernamente. um partido não se confunde com a mera facção política porque ou é reconhecido ou. hoje. com o movimento político. que são o desgoverno das massas despolitizadas. Georges Burdeau definiu o partido como a associação de caráter político organiza­ da para dar forma e eficácia a um poder de fato. no caso. com o qual todos os seus membros sc acham de acordo. no interesse destas c dos nobres. ademais. é a caricatura do partido. com Edmund Burke. O partido político visa à conquista do poder nos termos da lei. como uma entidade rebelde que se posiciona. corroborando. com o movimento político excludente dos partidos. a facção utiliza-se de todos os meios para atingir e man­ ter o poder. porque a própria ideia de partido pressupõe a existência de. alegam desinteresse pela atividade política direta ou indireta não cumprem um dever cívico inafastável c contribuem para o surgimento das dema­ gogias. que designa uma fração do todo). muitas vezes. as facções estruturam-se à luz das dinastias reinantes.

se pro­ põe a realizar. tenderia. que rejeitava todo e qualquer corpo social entre o poder e o cidadão. O moderno partido político . outros tomaram a denominação dos meses do ano. Em sua obra De eive. os brancos. e tivemos.assinala Ferreira Filho e. reconheceu. que demonstrava certo receio pela divisão da repúbli­ ca norte-americana em dois grandes partidos. Seja como for. Modernamen­ te. liberal. considerando-se o verdadeiro porta-voz da comunidade. Como accntua Burdcau. natural­ mente. Todo partido pressupõe dois elementos: o vínculo sociológico. o veículo utilizado por uma grande corrente dc opinião pública para conquistar o poder. que a divisão da sociedade em partidos geraria a revolta e a guerra civil. Hobbes afirmou. mais tarde. mais dinâmicos c objetivos. Na verdade. mediante a conquista legal do poder público. facilmente. John Adams. Tornaram-se. para os quais o regime de pluralidade partidária descambaria. os partidos lembra­ ram. representado por uma ideologia comum ou dc interesses comuns. Cada partido. os negros e os verme­ lhos. são os partidos ideológicos. tories (bandidos) etc. pois este pensador era adepto ferre­ nho da democracia individualista. Em outros casos. opinião ainda lembrada por autores de renome. c a finalidade política. muitos se associaram às cores. republicano. a se tornar intolerante para com os outros. para o predomínio de um partido sobre os demais. peremptoriamente. ademarista etc. outubristas e dezembristas. que vem a ser a conquista do poder. por excelência. causas de supressão da própria ideia de democracia. como é o caso dos movimentos de índo­ le totalitária. A História registra casos curiosíssimos de denominações de partidos. os partidos buscam revelar. tendendo a impor à coletividade uma unificação espi­ ritual pelo reconhecimento de sua infalibilidade. bonapartistas. então. na direção do Estado. comunista e assim por diante. Denominações ainda mais pitorescas jamais fal­ taram para tais agremiações: wbigs (escória). janista. o partido digno desse nome é um grupo or­ ganizado que disputa o poder para realizar uma política. determinado programa político-social”. E o instrumento median­ te o qual uma ideia de direito busca sua realização. os nomes de seus inspiradores: orleanistas. pelo que surgiram os polí­ ticos setembristas. inteiramente válida se mostra a observação de Mac Iver de . Por isso. socialista. irremediavelmente refratários à sua integração nos mecanismos tradicionais da democracia. cm sua nominação. conservador. em razão dc seu dogmatismo espiritual e seu im­ perialismo político. saaverista. Tal observação não deixa de ter fundamento na epoca dc partidos dc massas cm que vivemos. que a verda­ deira solução para a existência destes residiria em controlar rigidamente sua ativi­ dade. em sua denominação. fascista.6 Formas de governo 141 organizado de cidadãos que. A denominação atribuída ao partido é muito importante para sua imediata identificação. portanto. Aqueles que se inspiraram nas ideias de representações políticas de Jean-Jacques Rousseau repudiaram o partido político. entretanto. a ideologia abraçada: monárquico.

. para representá-los enquanto horticultores ou artesãos. Aliás. dois sistemas partidá­ rios: a) monopartidário (partido único). embora não haja no Estado dualismo partidário. no mais das vezes. é possível que vá­ rios partidos concorram às urnas. Pouco sentido prático teria. aparentemente consolidadora do ideal da representação política. mas geralmente o sistema se encontra de tal for­ ma estruturado que apenas dois partidos reúnem. desde que os dois partidos sejam efetivamente homogê­ neos e disciplinados. uma longa digressão a respei­ to da conveniência ou não dos partidos políticos. profundamente afetados pelo Estado-providência. enquanto ope­ rários ou industriais. permanentemente. as únicas formas de alcançar o poder seriam o gol­ pe de Estado. sem os partidos políticos. Obrigados a incluir sob seu manto protetor categorias sociais que envolvem os mais díspares interesses. dualidade de tendências. Das mais oportunas é a advertência de Ferreira Filho: Raramente o deputado escolhido para representar a ideologia predominante num eleitorado é o mesmo homem que seria escolhido por seus eleitores. ha­ verá. literalmen­ te. criam programas de ação absolutamente quiméricos. E Manoel Gonçalves Ferreira Filho considera o bipartidarismo o sistema partidário ideal. Por outro lado. Eles aí estão c. não raro sociais. portanto. seria imperdoável equívoco supor que o sistema bipartidário significa. junto aos órgãos de planejamento econômico e semelhantes. inexequíveis. a existência tão somente de dois partidos. em suas linhas básicas. fundamentalmente. Acentua Duverger que. A própria palavra plural refere-se a mais de um. como lembra Bonavides.142 Teoria Geral do Estado que. A verdade é que haverá pluralidade partidária onde houver dois ou mais par­ tidos. sucintamente. des­ vinculados da realidade. b) pluripartidário. na verdade. que jamais poderão ser cobrados pelo eleitorado. só nos resta analisá-los. c) monopartidário. porém. a maioria dos autores afirma a existência de uma classifica­ ção supostamente mais precisa: a) bipartidário. nesta obra. O Estado contemporâneo apresenta. b) pluripartidário (dois ou mais partidos). aumentam as divergências e a desorientação popular. Ensejando a contraditoriedade dos princípios ideológicos cada vez mais díspares. A multiplicação desordenada dc partidos. ou frações pon­ deráveis destes. As­ sim o ideologicamente representado não se sente representado quanto a seus interesses econômicos. na verdade o condena. c a expressão pluralidade re­ vela qualidade atribuída a mais de um ser ou coisa. a insurreição ou a revolução. condições de chegar ao poder. pois.

nova e superior unidade. mas a utilização deste em proveito próprio. que. A fideli­ dade partidária consagra a chamada democracia partidária. que se acha. os representantes da coletividade têm enfraquecida sua individualidade a favor da vinculação integral às diretrizes dos partidos. exigindo que os grupos empenhados em defender interesses particulares junto ao Congresso estejam devidamente registrados e dotados da competente conta­ bilidade. que reúnem seus filiados com base na situação econômica de cada um. A moderna concepção dc democracia não se compadece da democracia indi­ vidualista. a existência de um partido deve ser permanente. Os métodos empregados pelos grupos de pressão variam conforme as circuns­ tâncias: apoio eleitoral a um partido que com eles se ache comprometido. tais interesses pertinem. passa a ter um objetivo mais palpável. ao passo que o interesse do grupo de pressão é transitório. sem considerar as condições eco­ nômicas de cada um. Os tradicionais partidos de opinião. que buscavam evitar dogmatismos compromete­ dores dc suas transações políticas. Embora organizado em torno dos interesses de uma parcela do povo. Estes. em verda­ deiro mandato imperativo de índole partidária. no mais das vezes. O partido. passam a ser substituídos pelos partidos de massa. o que não ocorre. surgem como o fruto de novas condições socioeconômicas criadas pelo capitalismo e pela falta de representatividade dos par­ tidos políticos. Acentua Burdeau que à democracia política sucede a democracia social. o objetivo do grupo dc pressão é quase sempre econômico. Não se confundem com os partidos porque seu objetivo não é a to­ mada do poder. como diria Giorgio dei Vecchio. adotando uma estrutura interna bastante maleá­ vel para atrair o maior número de simpatizantes. à margem do ordenamento jurídico. a toda a coletividade. Mais: o partido político é reconheci­ do ou tacitamente admitido pela lei. com o grupo de pressão. São partidos de massa porque as individualidades renunciam à sua autonomia em proveito do partido. não podendo eliminar os grupos de pressão. se destaca em razão de sua disciplina e do seu dogmatismo doutrinário. a de­ mocracia governante. A legislação norteamericana. houve por bem reconhecêlos. por outro lado. como assinala Bonavides. pressão direta sobre os membros do poder executivo ou do legislativo. Um partido político deve estar estruturado numa ideia e num programa exe­ qüíveis. dos homens situados e não mais dc cidadãos abstratos. referindo-se às sociedades em geral. que transcende os meros interesses in­ dividuais de seus filiados. a partir do momento cm que os partidos de opinião vão cedendo terre­ no aos partidos de massa.6 Formas de governo 143 Os partidos políticos encontram fortes concorrentes nos grupos de pressão. enquanto o do partido é político. pela qual o povo esco­ lheria muito mais um programa de ação do que representantes. pelo menos mediatamente. Além disso. no transcorrer do século X X . por outro lado. quase sempre. Daí a impor­ .

não a demagogia. estabelecendo soluções exeqüíveis. como uma clas­ se (proletariado. indiretamente. também. Diga-se de passagem que a Itália fascista e. o próprio Partido Comunista. o partido deve apresentar uma orga­ nização administrativa e uma estrutura material destinadas a garantir a sua nor­ mal atividade. a palavra-chavc ou o sinal distintivo do partido. qual seja. Por outro lado. a dos operários e camponeses. Tais órgãos poderão ser diretivos e burocráticos. Disso os adeptos deste partido concluem. O partido único. por vá­ rias razões. Os simpatizantes são aqueles que. para uma só classe. No Estado socialista. movimento este que tanto pode congregar uma nação (Itália fascista c Alemanha nacional-socialista). nas quais impere a franqueza e a sinceridade. Não pode haver. mediante a adoção de uma cosmovisão (W eltanschauung) que represente uma interpretação clara e consciente do universo. na URSS).144 Teoria Geral do Estado tância da interação partido-sociedade-interesses na propagação e cumprimento de um sistema ideológico plausível. filia­ dos e simpatizantes. cujo apogeu foi alcançado no período compreendido entre as duas Grandes Guerras. que o Partido Comunista sempre afirmará o seu di­ reito de lutar ao lado de . d) motivações simbólicas (slogans). por via de conseqüência. via de regra. um cxcclcntc veículo para a transmissão simplificada das ideias.ou contra . a adaptação do programa geral às novas situações. contudo. a Alemanha nazista encontraram inspiração para seu m ovim ento no próprio marxismo. portanto. os integrantes do partido deverão adequar o pro­ grama geral do partido às tendências e necessidades de cada circunscrição eleito­ ral. pois cada partido representaria uma classe social. existiria apenas uma classe. expresso sob quatro aspectos: a) visão do mundo ou cosmovisão. o auxiliam. Os filiados são aqueles regularmente inscritos ao partido e do­ tados de direitos e deveres partidários. todo partido deve sustentar-se num conjunto de princípios ideoló­ gicos sólidos e coerentes acerca dos problemas do Estado. devidamente transmitida aos eleitores. mais do que um partido. numa sociedade de mas­ sas. Quanto ao progra­ ma ideológico. em seu funcionamento.outros partidos nas sociedades não marxis­ . não podem filiar-se ao partido. As motivações simbólicas (slogans) vêm a ser. cada partido apresenta. No to­ cante às plataformas eleitorais. mas um organis­ mo em permanente elucubração e modernização doutrinárias. Poderão scr o grito dc guerra. Um partido político não deve ser o túmulo do pensamento. Este afirma que a pluralidade partidária espelha a própria luta de classes. b) programa ideológico. com muita graça e sagacidade. daí a existência de vários partidos numa sociedade formada por classes antagônicas. Um partido político seria parte de uma classe social determinada. cujos interesses seriam comuns. mas que. vem a ser muito mais um m ovim ento de reação antipartidária do que um partido propriamente dito. c) plataformas eleitorais. No tocante à m ilitância partidária. Tais plataformas exigem.

Na Regência Trina Permanente. afirmava ser o partido a vanguarda organizada e disciplinada do proletariado re­ volucionário. ainda. ao contrário dos exaltados. o outro. de apoio ao Impera­ dor Pedro I e. hostis e inconciliáveis. afirmava que o partido é parte da classe. Formam-se espontaneamente dois grupos. tam­ bém marxista. durante o Primeiro Reinado (1822-1831). 2. Franz Oppcnheimer. Por outro lado. a dos moderados. Regência Una do Padre Feijó (1835-1837) e Regência Una de Pedro de Araújo Lima (1837-1840). declarava que o partido é. em vigorosa expressão que seria encampada pelas Constituições soviéticas. por exemplo.. mas cm facções que. mas reivindicará sua exclu­ sividade 110 advento do Estado socialista. Durante o período regencial as posições políticas vão ficando mais bem definidas. formado por liberais. quais sejam Regência Trina Pro­ visória (1831-1832). os moderados continuam a . mutuamente. Na verdade.6. e em face da menoridade de seu filho. atuantes de forma franca e aguerrida. Nem por isso os marxistas deixam de continuar afirmando que o proletariado deve estruturar-se num movimento políti­ co destinado a sustentar sua missão de exercer uma ditadura que permitirá a abo­ lição das classes e do Estado. de forma unânime. em nome da pluralidade de classes nelas existentes. sua parte mais progressista. oposicionista.6 Formas de governo 145 tas. nesta última proclamada a maioridade de Pedro II. Durante a Regência Trina Provisória prevalecem os oposicionistas. o que vem a dar no mes­ mo. Joscph Stalin. num partido político. por to­ dos os teóricos do marxismo. divididos em duas facções. nos Estados de ins­ piração marxista. ser dever do pro­ letariado organizar-sc numa classe. ainda não se pode falar em partidos políticos. ao passo que Lenin. sendo que o pluripartidarismo so­ mente pode existir numa sociedade onde haja antagonismos de classes. na Assembleia Constituinte de 1823. ipso facto. um situacionista .4.. levando a efeito uma política conciliatória. aglutinaram-se em dois grupos antagônicos. Doutrinariamente. Regência Trina Permanente (1832-1835). o Brasil passou por vá­ rios períodos de governo denominados Regências. os absolutistas e os liberais. propugnando uma descentralização mais sim­ pática às províncias.1) Os partidos políticos no Brasil No Brasil. que se apoderam dos principais cargos gover­ namentais. com a abdicação dc Pedro I. a tese marxista torna-se vulnerável quando se consta que não foi demonstrado. na sua origem e continuidade. o partido único foi enaltecido. Marx afirma. Numa de suas escassas referencias aos partidos políticos. tenham desaparecido as classes sociais. com a Assembleia Geral ou Parlamento. principalmente desde 1826. respectivamente apoiando ou se opondo ao Imperador. apenas a representação organizada de uma classe. Eis por que a vigente Constituição soviética se refere ao Estado socialista como o Estado de todo o povo . que nclcs existe somente uma classe ou. no célebre M anifesto comunista. cujos inte­ resses se mostram.

Em 1835. sob a pitoresca denominação de chimangos. supremo regulador do sistema parlamentar. Havia . concentraram suas forças em torno do Partido Conservador. Ouçamo-lo: O traço característico desse grande movimento da opinião. evocando o município fluminense de Saquarema. Esta opinião. Enquanto os conservadores eram escravocratas e tradicionalistas. com a institucionalização da ideia de Regência Una. difusa. Que dizer dos partidos políticos do Império? Aquele que. os Partidos Conservador e Liberal foram os mais importantes para não dizer os únicos . um governo cuja instituição num dado povo pressupõe a existência de uma opi­ nião pública organizada. nas sociedade maçônicas e principalmen­ te na Imprensa.146 Teoria Geral do Estado controlar o poder. era quase sem­ pre um reflexo americano das agitações europeias. que se seguiu ao gol­ pe do Imperador contra os liberais em 68. tinham como plataforma a volta de Pedro I ao poder. Os filiados a este partido passaram a ser conheci­ dos por saquaremas. foram vencidos por Caxias. inorgânica. onde se acha­ va a fazenda do líder conservador Visconde de Itaboraí. Benjamin Constante Lopes Trovão.partidos do Império. é essencialmente um governo de opinião. con­ tou desde logo com a colaboração dc grandes figuras como Quintino Bocaiúva. ao passo que os liberais. isto é. denominados caramurus. Faltavam à nossa sociedade todas as condições para isto.uma opinião informe. considerado pelos liberais como uma deturpação do Po­ der Moderador. era o de uma irritação viva. com meridiana clare­ za os retratou Oliveira Vianna. ardente. com a proclamação da República e a queda do Gabinete do Visconde dc Ouro Preto. tinha sempre um caráter artificial. nem hoje. foi eleito Re­ gente o Padre Diogo Antonio Fcijó. por sua vez. quando. ain­ da atual como perceberá o leitor neste parêntese dos mais oportunos. esta opinião pública organizada. A par dessas fac­ ções surge uma terceira. continuamente. Ora. Porque só os que ignorassem os nossos costumes políticos e a mentali­ dade dos nossos partidos poderiam supor possível que o Poder Moderador. na locali­ dade de Santa Luzia. em obra clássica intitulada O ocaso do império. como já vimos. Os adversários do Regente. pudesse funcionar aqui com a mesma perfeição com que funcionava entre os ingleses. Na verdade. capaz dc governo. cujos seguidores. já o dissemos por que. nos clubes políticos. Esta alternância no poder durou até 1889. que a Constituição confiava à Coroa. que serviria dc base para a fundação do Par­ tido Liberal.como ainda há hoje . aliás. alhures. o qual. nem outrora. explo­ siva contra o Poder pessoal. Vale lembrar que já cm 1870 fora criado o Partido Republicano. nun­ ca existiu aqui. E a verdade é que esta irritação era inevitável. chimango (moderado) que dedicou-se com fir­ meza à criação do Partido Progessista. alcunhados luzias porque ligados à Revolução Liberal de 1842. revezando-se. O governo parlamentar. os liberais desejavam a abolição e maiores liberdades para as províncias. Só exprimia realmente o pensamen­ . no poder. embora sem grande prestígio de início. de orientação liberal. que era a que se formava nos centros universitários.

o partido liberal quer mantê-las. ao aceno da Coroa. o Partido Republicano. Esta perplexi­ dade do Imperador não devia ser menor quando ele. é uma prova do vago. pode-se afirmar com fundamento que os partidos políticos não representavam realmente correntes de opinião. no caso da Abolição. como cm 68. Certo. não tinham propriamente uma opinião. eram simples agregados de clans organizados para a exploração em co­ mum das vantagens do Poder. liberais. O argumento poderia ser invertido pelos liberais. Então. extintos os partidos do Império e preser­ vado. imponentes embora pela sua massa. em regra. liberais. Porque os partidos políticos do Império. é liberal. os programas que ostentavam eram. no caso da Federação. de origem habitualmente exótica.e passavam a ser [. do 1° Reinado e da Regência. Já em 53. logo.dizia ele . sem outra significação que a de ró­ tulos. em que.6 Formas de governo 147 to de uma pequena parcela das classes cultas do País. muito comprometida com o espírito de facção. O programa liberal era uma es­ pécie dc trombeta sonora. porque a Constituição do Brasil contém instituições santas.e assim o fez no caso da eleição direta. desde logo. do indefinido. Zacharias exprimiu muito bem este fato no seu discurso dc 18 dc junho dc 1870. muito impregnada das animosidadcs do partidarismo. buscava-a. ao contrário. Depois dessa grande fase histórica. quando no governo. evidentemente. chamando a postos as consciên­ cias altivas para a defesa da Pátria. a tendência à . nunca aparecia pura e extreme.envol­ ve uma confusão de ideias manifesta: O conservador no Brasil é necessariamente libe­ ral. na opinião dos partidos.] como os conservadores. E. justamente. um dos grandes motivos de perplexidade. da Democracia e a Liberdade. formou-se. todo o País acordava sob um estridor imenso de toques de alar­ ma. sempre se mostrava. logo. a chamada política da conciliação. Desde o momento. O Imperador não desdenhava de atendê-la . na verdade. o conserva­ dor quer manter estas instituições. Tanto que os liberais. o Imperador os atirava momentaneamente no ostracismo. cessavam de súbito o trom­ betear formidável . que os liberais só sc lembravam dc clarinar com fogo. quando. simples rótulos. difícil esta discriminação muito nítida das opiniões. agiam sempre de maneira idêntica aos conservadores: o inebriamento do poder como que os fazia olvidarem os seus mais caros ideais. O fato é que ne­ nhum desses dois programas representava convicções definitivas e sinceras. houve aqui uma fase em que os partidos tiveram verdadeiramente uma opinião: foi o período da Independência. ou tentava buscá-la. de Paraná. porém. Com a proclamação da República. calo­ rosamente pregados quando nas agruras da oposição. ela devia ter constituído para o Imperador. só o liberal é conservador”. por isso.. com brio.. aliás. aliás. de sonoridades marciais. com ímpeto. para que sc pu­ desse considerá-la sempre como um índice sadio da opinião nacional. retornavam ao poder. todas as vezes que era obrigado a organizar novo Gabinete. do incerto contido nos programas dos dois grandes partidos do Império. O próprio liberalismo da Constituição tornara. de cânticos de guerra. no Senado: “O argumento do nobre senador . Esta opinião. no intuito de conhecer a opinião do País. dizendo: A Constituição brasileira contém instituições santas.

Este. 2.1979. favorecendo governadores que apoiavam o governo central. ao extinguir a Arena e o M DB. o Partido Social Demo­ crático (PSD) e o Partido Trabalhista Brasileiro (PTB). Em 1922 foi fundado o Partido Comunista brasileiro. O Ato Complementar n. afrontando a dignidade da Política e o bom senso da cidadania. em 27. a União Democrática Nacional. porém. Tem início. o Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB).12. de 25.148 Teoria Geral do Estado criação de partidos locais. sendo a nova denominação derivada do fato dc a Lei n. a par­ tir daí. o Partido Popular (PP).1945. Lei n. já havia treze partidos na ativa. o Partido Trabalhista Brasileiro (P I B) e o Partido dos Tra­ balhadores (PT). o Tribunal Superior Eleitoral aprovou o re­ gistro provisório de um Partido Humanista (?) Nacional e de um Partido Nacional dos aposentados (!).1965. sem falarmos nas inovações introduzidas pela Constituição de 1967. e a Aliança Nacional Libertado­ ra. como a União Democrática Nacio­ nal. a Lei n.11. a Lei Orgânica dos Partidos Políticos e a Lei das Inelegibilidades. A partir daí. 9. A derrota do nazi-fascismo. Entre 1930 e 1937. após permanecer durante quinze anos no poder. permitira a criação de duas agre­ miações partidárias. Todavia.08. permitiu a criação de no­ vos partidos. 5. substancialmente emendadas em 1969. Na iminência do movimento militar de 1964. prenunciava seu declínio. a legislação eleitoral foi se tornando mais e mais per­ missiva. a pulverizar a opinião pública.682/71 (antigas Lei Or­ gânica dos Partidos Políticos. deflagrou um golpe de Estado para fortalecer seu poder e depurar as hostes inimigas. Ti­ nham real prestígio. fechado o Congresso Nacional e controla­ da a imprensa. bastando lembrar que. logo posto na clandestinidade. Getúlio foi deposto em 29. 6. Dissolvidos os partidos exis­ tentes e exilados seus principais líderes. foram criadas a Ação Integralista Brasileira (1932). dissolvidos. 5°. alguns notório significado. que lançou como candidato à Presidência da República Armando Salles de O li­ veira. . formaram-se inúmeros partidos. de modo que. Daí. Além destas duas agremiações partidárias foram criadas outras. 4. § I o. A partir daí. pelo Ato Institucional n. contudo. outros nem tanto.1988.1965. revogada pela atual. no art. propiciando o surgimento de nada menos que trinta (!) novos partidos. uma febricitante elaboração legislativa.676. então. de modo que cada Estado contaria com seu próprio par­ tido republicano. exigir a expressão partido na sigla identificadora dos novos partidos. sucessor do M DB. destacando-se o Código Eleitoral. herdeiro da Are­ na. dc tendência comunista.10. em oposição a Getúlio Vargas. o Estado autoritário alcançava seu máximo prestígio.096/95) determinar. conduzida por Luís Carlos Prestes. transformadas em partidos desde 1967. a Aliança Renovadora Nacional (Arena) e o Movimento De­ mocrático Brasileiro (MDB). de 20. o recrudescimento da perigosa patologia política do muitipartidarismo. em 1937.10. dentre os quais o Partido Democrático Social (PDS). em 15. nos mol­ des dos movimentos fascista e nacional-socialista.

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2.4.7) D em ocracia e co m u n ica ç ã o de massa
A comunidade nacional é soberana. Todo o poder emana do povo. Antes do advento do liberalismo político, dizia-se que o poder vinha de Deus. Hoje, pratica­ mente, todas as Constituições consagram a soberania popular ou nacional. Como a democracia direta não é mais praticável atualmente, o povo ou a nação escolhem seus representantes por meio de eleições. Eis a democracia representativa. O povo ou a nação são soberanos e a soberania é indelegável, inalienável. A democracia re­ presentativa deve, portanto, apoiar-se na opinião pública. Mesmo nos Estados totalitários, como o Estado nacional-socialista alemão, havia a realização do plebiscito, a fim de que o Führer auscultasse a chamada opi­ nião pública. Auscultar a opinião pública que seja a lídima, a verdadeira opinião pública, eis o ponto-chave da democracia. Como acentua Salvetti Netto:
o mecanismo democrático, que se sustem na representação popular, será tanto mais eficaz para atender aos fins da própria democracia, quanto mais propiciar as condi­ ções necessárias a uma estreita conformidade entre as deliberações dos órgãos gover­ namentais e os interesses da coletividade. Não pode haver representação onde inexis-

tirem cidadãos politizados, onde não houver fontes informativas da opinião pública, livres, desobrigadas e autônomas...

Em face disso ocorrem na America Latina e nos Estados política e economi­ camente subdesenvolvidos crises políticas incessantes. Na maioria desses Estados existe uma democracia meramente formal, em opo­ sição a uma democracia concreta, substancial. Em razão do exposto percebemos a importância e a responsabilidade dos meios de comunicação de massa na atualidade. Tais meios se confundem com aqui­ lo que costumamos denominar imprensa. Nesta incluem-se todos os meios de co­ municação de massa, embora seja instintivo nos referirmos aos meios de impressão com maior frequência do que ao rádio ou ao cinema, mesmo porque aqueles são mais antigos e acumularam ao seu redor a maioria das concepções teóricas da co­ municação de massa. Em seu livro Tres teorias sobre la prensa, Siebcrt e Peterson apresentam trcs teorias referentes à liberdade dc imprensa e as relações desta com o Estado: A teoria autoritária: esta teoria surgiu no clima autoritário do Renascimento, pouco depois da invenção da imprensa. Acreditava-se, então, que a verdade era apa­ nágio de alguns homens em posição de dirigir seus governados. A imprensa atuava de cima para baixo. Somente mediante permissão especial era permitida a proprie­ dade privada de órgãos da imprensa, e esta permissão podia ser cassada a qualquer momento. As publicações abrigavam, então, uma espécie de contrato entre os go­

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vernantes e os editores, pelo qual aqueles concediam um monopólio e estes, em con­ trapartida, deviam prestar “apoio'’ incondicional aos detentores do poder. Ora, tal concepção da imprensa eliminava de pronto o que, 11a época, chegou a ser uma dc suas funções mais comuns: controlar o governo. Esta teoria da im ­ prensa como mera servidora dos governantes foi accita universalmente no século XV I e parte do século XVII. A teoria libertária da imprensa: a liberal-democracia, a liberdade religiosa, a expansão da liberdade de comércio, a aceitação da economia do laissez-faire e o cli­ ma da ideologia iluminista minaram paulatinamente o autoritarismo, reclamando um novo conceito de liberdade de imprensa. Esta nova teoria tem seu início no sé­ culo XVII, alcançando seu apogeu no século X IX . A teoria libertária não concebe o homem como um ser que deve ser dirigido, mas como ser racional capaz de discernir entre o certo e o errado. A verdade deixa, então, de ser privilégio do poder. O direi­ to de procurar a verdade torna-se um dos mais prestigiosos direitos naturais do ho­ mem. A imprensa passa a ser considerada uma companheira em busca da verdade. Na teoria libertária, a imprensa não é um instrumento dc governo, mas um recurso para apresentar provas e argumentos sobre a atuação dos governantes c controlá-los. Portanto, para esta teoria é indispensável que a imprensa esteja a salvo do controle c influência governamentais. Para que possa surgir a verdade, é preciso aferir todas as opiniões; deverá haver um “mercado livre” de ideias e informações. A teoria de responsabilidade social da imprensa: a teoria da responsabilida­ de social da imprensa resultou de um problema surgido há cerca de trinta anos, com a revolução das comunicações. Quando as estações de rádio começaram a se multiplicar, a exemplo dos jornais e livros, sua organização foi tornando-se cada vez mais complexa, exigindo capitais de vulto. A imprensa - como nos tempos do autoritarismo da imprensa - passou a cair nas mãos de uns poucos poderosos. Se estes homens, muitas vezes apolíticos, buscavam de todas as formas uma indepen­ dência de informação relativamente ao governo, não é menos verdade que a opi­ nião pública passou a correr novo perigo, qual seja, o poder incontrastável da im­ prensa cm mãos dc particulares. A proteção da imprensa contra a influencia do governo deixou dc ser suficiente para garantir a oportunidade de alguém expressar suas ideias, pois os donos e gerentes da imprensa determinariam as pessoas, os fa­ tos, as versões destes que seriam dadas ao público. Foi este problema que consti­ tuiu a base do desenvolvimento da teoria da responsabilidade social, 011 seja, a po­ sição de poder e quase monopólio dos meios de comunicação. Deve haver então, segundo esta teoria, a institucionalização da responsabilidade social das empresas para que todas as opiniões se apresentem imparcialmente, para que o público pos­ sa imparcialmente decidir. Na verdade, o problema da liberdade de imprensa tem de ser cuidadosamen­ te estudado, pois sua existência ou não sempre impele a nau do Estado pelos mais inesperados caminhos. Seignobos, 11a sua magistral H istória sincera da França , e

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Domenach, em A propaganda política, demonstraram à saciedade o papel da im­ prensa, especialmente a clandestina, na disseminação das ideologias na França iluminista e na Rússia de 1917. Nos dias em que vivemos, o problema agravou-se com o embate ideológico, verdadeiro caleidoscópio político, pois os meios de comunicação, cada vez mais perfeitos c objetivos, são dc fácil apreensão pela massa. Abordando o tema, Ferreira Filho (A democracia possível) adverte que quem controla os meios de comunicação de massa tem a possibilidade, mais que isso, a tentação, de manipular o seu auditório, infundindo-lhe as próprias concepções.

3) TIRANIA
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A tirania é uma forma autocrática de exercício do poder político que tem ori­ gem asiática, passando para a Grécia a partir do século VI a.C. O vocábulo tirania tanto pode ser originário da Lídia, sendo o rei Giges o primeiro a ser chamado ti­ rano, como de Canaã, de serens, nome bíblico atribuído aos filisteus de origem no­ bre. Pode, até, ser originário dos etruscos, da expressão turan, que significa poder ou senhoria, ou de nomes próprios da Etrúria (o rei Turuns ou a deusa Juturna). Aliás, já sc disse que os etruscos, que desenvolveram a mais adiantada cultura da antiga Itália, antes dos romanos, eram descendentes dos lídios, sendo sua origem asiática, portanto. Consequentemente, a palavra tirania não é grega; designa, antes de mais nada, a forma de governo da moda existente na Ásia Menor, em dado momento históri­ co, não tendo absolutamente, como sugere o vocábulo, sentido pejorativo, malévo­ lo. Com efeito, a exemplo da ditadura romana, a tirania asiática não se apresenta como uma forma de exercício do poder necessariamente perniciosa. Diga-se o mes­ mo da sua versão grega que representou, no mais das vezes, os interesses coletivos, como veremos adiante. Em detrimento da verdade histórica, a tirania passou, com o tempo, a significar uma forma política essencialmente indesejável, preconceito

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Teoria Geral do Estado

este arraigado até mesmo entre estudiosos da história política e que cumpre-se ex­ tirpar de vez. Vejamos, entretanto, a evolução da tirania grega. É durante o século VI a.C. que desaparecem, em grande número dc cidades gregas, as velhas Constituições aris­ tocráticas, como fruto do descontentamento dc comerciantes e industriais que, en­ riquecidos em sua atividade, passam a almejar os cargos públicos. A aristocracia, sem se renovar, é dividida por lutas internas e enfraquecida cada vez mais. Sua de­ cadência vai ensejar o aparecimento de uma nova forma política, oriunda da Asia, a tirania. Esta forma de governo vai permitir o restabelecimento da ordem e uma política de expansão territorial e, consequentemente, de desenvolvimento econômi­ co, como corolário do espírito empreendedor dos gregos do século VII a.C. A tira­ nia, diga-se mais uma vez, não indicava uma ideia de dominação necessariamente opressiva, mas a forma de poder exercido por um homem cujo direito de governar era fundado não mais na religião ou na hereditariedade, como a antiga monarquia, porém no prestígio pessoal, 110 apoio dos estamentos inferiores, comerciantes e gen­ te humilde. Acrescentc-sc a isto um forte aparato militar. Claro, houve abusos por parte dc inúmeros tiranos; muitos, contudo, criaram constituições democráticas, de­ fendendo os interesses dos menos favorecidos, exercendo uma forma política em muito semelhante à denominada ditadura proletária a que sc refere Burdeau. Com efeito, as massas, em sua fraqueza, não encontraram outro meio de com­ bater os excessos da aristocracia senão o de lhe opor uma nova espécie de monar­ quia, seja na Grécia ou em Roma. Quando, em toda parte, os reis foram vencidos e a aristocracia se firmou 110 poder, o povo não se limitou a lastimar a queda da monarquia, mas procurou restaurá-la sob nova roupagem. Em seus primórdios, a tirania vem a ser uma forma política responsável pelo esplendor e pelo desenvolvimento econômico das cidades. Destacam-se tiranos no­ táveis: Trasíbulo, em Mileto; Pitágoras, em Éfeso; Polícrates, 11a ilha de Samos. Este cria uma potência marítima comparável à do Egito e da Pérsia, dedicando-se, ade­ mais, a proteger sábios, cientistas c poetas e a edificar majestosas obras públicas. Outro notável tirano, Pisístrato, governa Atenas com sabedoria e moderação, res­ peitando a legislação de Sólon, impedindo a formação dc latifúndios, realizando ampla reforma fiscal e embelezando a cidade. O tirano não altera, geralmente, a Constituição. As magistraturas são manti­ das, devidamente encarnadas em homens de sua inteira confiança. O conselho e a assembleia determinam a nova política, embora severamente fiscalizadas pelo tira­ no, que se faz acompanhar, prudentemente, de robusta guarda pessoal. A aristocra­ cia é perseguida. O tirano Trasíbulo pediu, certa vez, conselho a Periandro, tirano de Corinto, que era, por sinal, 11111 dos sete sábios da Grécia, a respeito da arte de governar. Periandro não respondeu: como ambos se achavam num trigal, limitou-se a cortar algumas espigas que se sobressaíam em altura das demais, insinuando, com

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isso, que a tirania não pode tolerar que os mais capazes adquiram demasiado pres­ tígio. Em Corinto, Cípselo confisca as terras aos nobres e as distribui entre as mas­ sas desfavorecidas; em Mégara, Teágenes pura e simplesmente massacra os rebanhos dos ricos, captando a simpatia popular. Os miseráveis vecm sua revolta c desdita mi­ noradas, pois os grandes empreendimentos públicos oferecem trabalho c as terras confiscadas lhes propiciam a fixação à terra. Tais situações atendem plenamente aos interesses do tirano, preocupado permanentemente com a hostilidade potencial dos aristocratas e com a sublevação das massas. Além disso, o tirano utiliza-se, frequen­ temente, dos cultos religiosos, os quais, excelente veículo de propaganda, contribuem para a estratificação do poder pessoal. Na verdade, à época das tiranias, comba­ tia-se ou pela liberdade ou pela tirania. Liberdade, para o proletariado, quer dizer governo dos ricos; tirania significava o governo de um líder antiaristocrático e, in­ diretamente, popular. Segundo o próprio Aristóteles, o tirano não tinha por missão mais do que proteger o povo contra os ricos, sendo da essência da tirania a guerra à aristocracia. A tirania é oriunda, em última análise, dos anseios dc uma burguesia florescente e, paradoxalmente, da miséria das massas e, claro, da audácia dc indiví­ duos sequiosos dc poder e decididos a tudo para triunfar. A tirania perduraria desde o século VI a.C. até meados do século seguinte, es­ tendendo-se, por todo o mundo grego, mas em cada caso particular jamais durou muito tempo. Em Esparta, aliás, a tirania jamais foi bem vista, talvez pela natural desconfiança do espartano em relação ao indivíduo enquanto tal. Na expressão do historiador ateniense Tucídides, Esparta não suportava os tiranos; tal aversão, de­ nominada atyranneutos, revela-se plenamente quando a política exterior esparta­ na intervém contra Polícrates e contra os Pisistrátidas, quando apeia do poder Ligdamis de Naxos e quando repudia a aliança a Corinto e Sicione, enquanto estas cidades são governadas por tiranos. A tirania decadente tornar-se-ia hereditária; então, as qualidades de energia, audácia e talento político, peculiares ao bom tirano, já se faziam escassas. A tira­ nia arcaica continha em si mesma os germes de seu desaparecimento, ou seja, a composição das crises sociais que a originaram. Com o desaparecimento destas, mediante as próprias reformas tirânicas, os cidadãos desejariam o retorno a uma forma de governo regular, em que o exercício do poder não se limitasse a um só homem. A tirania foi, na verdade, uma etapa necessária no caminho da democra­ cia, como acentua François Chamoux, pois à tirania se sucede uma aristocracia mo­ derada. O mundo moderno conheceu uma forma de exercício do poder político céle­ bre, aquela exercida por Oliver Cromwell (1599-1658), que, fazendo condenar à morte o rei Carlos I, em 1649, fez-se nomear Lorde Protetor da República da In­ glaterra (Commonwealth). O poder de Cromwell lembra, estranhamente, as tira­ nias gregas. Homem de caráter enigmático, ora iluminado, ora calculista, genero­

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so e cruel, dotado do mais refinado bom senso ou da mais escandalosa extravagância, era, fanaticamente, puritano, dissolveu o parlamento 110 dia 30.04.1653, tratando os parlamentares de ladrões e covardes, fechou as portas da casa legislativa e guar­ dou as chaves no bolso... Proclamada a República em 16.12.1653, instalou-se no palácio de Whitewall c iniciou um governo rude, que promoveu a dissolução de quatro parlamentos sucessivos, mas que tornou a Inglaterra respeitada c temida, adquirindo Dunquerque e apossando-se da Jamaica. Reprimiu revoltas na Irlanda e na Escócia, e sua violência foi tamanha que os irlandeses se tornaram inimigos latentes dos anglo-saxões. Cromwell, que sonhava, certamente, em se tornar rei, não conseguiu seu desideraro, deixando seu posto para seu filho Ricardo, que, lon­ ge de possuir as qualidades do pai, logo abdicou. Cláudio de Cicco, em síntese so­ bre a História Universal, ressalta bem a influência da religião puritana sobre Cromwell, que, aliás, vituperava o rei Carlos I, sob os epítetos de anticristo e dragão do apo­ calipse. Os seguidores de Cromwell entremeavam seus combates com cânticos e salmodias, sendo o respeito para com o chefe absoluto. Ainda Cláudio de Cicco aponta, com muita agudeza, que o Navigation Actypromulgado por Cromwell, para proteger a burguesia de armadores e proprietários de companhias mercantis, mos­ tra bem o nexo entre o mercantilismo capitalista c o luteranismo dc Cromwell.

4) OLIGARQUIA
Bibliografia: A r i s t ó t e l e s . Política, Madrid, Centro dc Estúdios Constitucionales, 1983.
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Norbcrto c
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Ro-

bert. Los partidos políticos, Buenos Aires, Amorrortu, s.d., 2 v. Madrid, Centro de Estúdios Constitucionales, 1981, t. 3.

La república,

Do grego ol igoi, poucos, e arche, governo, oligarquia significa, literalmente, governo de poucos. Entretanto, como aristocracia significa, também, governo de poucos - porém, os melhores -, tem-se por oligarquia o governo de poucos em be­ nefício próprio, com amparo na riqueza pecuniária. Em outras palavras, o termo apresenta um conteúdo eticamente negativo ao denominar o governo dos ricos, em­ bora possa indicar, também, o governo de poucos mantido pela intimidação, como no caso da oligarquia militar. Modernamente, são usados mais dois termos para denominar o governo pernicioso de uma minoria, quais sejam, plutocracia e nepo­ tismo. Plutocracia é termo de origem grega (de ploútos, riqueza, e kratos, poder), daí ploutokratía, plutocracia, ou governo fundado 110 dinheiro, na corrupção. Quan­ to a nepotismo, a expressão é de origem latina, de nepote, neto 011 segundo sobri­

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nho; nepote, por sua vez, deriva de ncpos, termo latino que denomina simplesmen­ te o escorpião, aracnídeo cuja fêmea é devorada pela própria ninhada, como a parentela se aproveita dos ascendentes bem situados, assumindo os melhores car­ gos públicos, cm detrimento dos mais capacitados. Em suma, favorecimento de ami­ gos e parentes da minoria governante. Diz Platão: “A que tipo de Constituição - disse - chamas oligarquia? Ao go­ verno baseado no censo - disse eu - no qual mandam os ricos, sem que o pobre te­ nha acesso ao governo” (> 4 república, 550, c). Aristóteles, por sua vez, doutrina: “ Há democracia quando os livres governam, com maior razão que há uma oligar­ quia quando os ricos governam, e, geralmente, os livres são muitos e os ricos pou­ cos (Política, 1290, b). Na distinção aristotélica entre formas de governo puras e impuras, a oligarquia, como governo dos ricos, é a forma impura da aristocracia, que é o governo dos melhores (Política, 1279, b). O sentido negativo da oligarquia c uma constante no pensamento grego clássico, bem assim no pensamento moder­ no e contemporâneo. Veja-se, por exemplo, Jean Bodin numa das mais festejadas obras da teoria política: “Da mesma forma que a monarquia pode ser real, despó­ tica, tirânica, assim a aristocracia pode ser despótica, legítima, facciosa; este tipo dc governo, na Antiguidade, era chamado oligarquia, vale dizer, domínio cxcrcido por uma minoria [...]. Por isso os antigos usavam este termo com significado nega­ tivo, e aristocracia com sentido positivo (Les six livres de Ia république, Livro II, Capítulo IV). Muitos autores contemporâneos, como Robert Michels e Caetano Mosca, sus­ tentam que em todas as organizações de massa brotam, naturalmente, facções oligárquicas destinadas a se tornar verdadeiras elites. Robert Michels chama este fe­ nômeno de “lei de ferro da oligarquia”. Quanto ao marxismo, considera a democracia liberal uma oligarquia disfarçada, mesmo sendo assegurado o sufrágio universal. Paradoxalmente, o marxismo-leninismo exige, no período de transição entre o ca­ pitalismo e o comunismo, denominado ditadura do proletariado, o governo de uma minoria seleta, investida dc plenos poderes, que evoca, sem dúvida, as elites diri­ gentes da República de Platão.

5) DEMAGOGIA E 0CL0CRACIA
Bibliografia: AMARAL
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l in a r e s q u in t a n a

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Segundo V. Sistemas de partidos y

sistemas políticos, Buenos Aires, Plus Ultra, 1976.

ao sabor da irracionalidade das multidões. condicionada a atitudes políticas e sociais não racionais. fazendo valer seus mais insensatos caprichos. sendo demagogia a arte de conduzir o povo. que não sentia grande atração pelas democracias (Apologia de Sócra­ tes. e do papel cada vez mais ativo das massas.C. Foi com o grande historiador ateniense Tucídides (460-395 a. E preciso. Então. garan­ tida pelos guerreiros e acima de todo e qualquer egoísmo pela comunhão de bens.15 6 Teoria Geral do Estado Demagogia vem do grego demos. impondo-se ao tirano. Daí agog-os. Platão. leva ao isolamento das pessoas e à sua angústia permanente. A oclocracia é definida na famosa enciclopédia. uma forma de governo. Ressalte-se que na antiga Grécia. causada pelo aparecimento da máquina. O termo oclocracia indica o jugo imposto pelo populacho inorgânico ao poder legítimo e à lei. e agein. 35 a-b). que acabam por implantar um governo autoritário. 1]. forma corrupta da de­ mocracia e que leva à implantação de um governo despótico das classes sociais mais baixas. via na liberdade individual uma distorção da verdadeira convivência social. a demagogia é tida como a política por meio da qual os go­ vernantes buscam impressionar as massas com falsas promessas. impor que todos pensem da mesma for­ ma sobre todas as coisas. Aristóteles advertia para o fato de que a demagogia. cortejando o populacho com leis inexequíveis e uma sórdida campanha de calúnias e difamações contra os verdadeiros magistrados. rigo­ rosamente. É neste sentido que Políbio emprega o termo. orador que conduz. bem como à desordem e à corrupção. Na demagogia. multidão. A atro­ fia da individualidade criadora. mas uma situação crítica que vivem as institui­ ções. durante muito tempo. VI (IV). A de­ . conduzir pela palavra. impor a ordem no Estado e nas almas. denominando a atitude daqueles que “conduzem o povo lisonjeando seus sentimentos”. Quanto à oclocracia (do grego oklos. Progressivamente. esclarecia o povo com sabedoria e justiça.) que a de­ magogia principiou a ter sentido negativo. eliminar as particularidades. deformação dos fatos e adulações grosseiras. Isto só será possível quando a casta dos filósofos. das mulheres e das crianças dominar a multidão ignara dos trabalhadores. seu com­ portamento torna-se uma conduta massificada. Ainda é Aristóteles que adverte ser a demagogia a corrupção da politeia [Política. eliminar as diferen­ ças pessoais. não é. povo. elaborada pelos enciclopedis­ tas franceses. a conotação pejorativa de hoje. Tal estado de coisas é resultante do rápido desenvol­ vimento industrial e tecnológico. Modernamente. os cidadãos mais capazes são relegados ao esquecimento e os aduladores cobram rápida ascensão. poder). demagogo é aquele que conduz o povo. o termo de­ magogia não teve. provoca a reação de comuni­ dades organizadas. 2. como sendo o “abuso que se instala no governo democrático quan­ do o populacho vil se torna o senhor dos negócios públicos”. e kratos. diz ele. sendo o demagogo aquele que.

. Pielte. Curso de teoria do Estado. Le sénat de la république romaine. Paris. . 123). presta-se a uma série de preconceitos e mal-entendidos. ao passo que a oclocra­ cia implica a própria ausência de qualquer ordem. 1981. é o oposto deste ideal. . na oclocracia. 1980. 1977. Tal definição pode parecer estranha a quem estiver habituado ao uso indiscri­ minado do vocábulo. Quando o Estado sc encontra em tal situação. Estado democrático e Estado autoritárioy Rio dc Janeiro. Paris. Torino. fazendo a moderação passar por fraqueza e o escrúpulo por ingenuidade. A cidade grega. M ilano. F. salvetti n e t t o . Samuel. Droit constitutionnel et institutions politiques. Dictionnaire des antiquités romaines. Com efeito. reside no fato de que. Nicolò. burdhse.6 Formas de governo 157 mocracia. inevitavelmente. w i l l e m s . Pichon. Théodore. denomina as medidas de emergência que toma o Estado contemporâneo. Paris. Saraiva. a palavra ditadura pode ser tomada num sentido amplo ou num sentido estrito. ao sa­ bor dos interesses mesquinhos. Pedro. Ao reconhecer a todos os desejos a mesma legitimidade. 1766. f e r r e ir a f i­ m a c h ia v e l l i. 1. na primeira. pois esta é alterada incessantemente. 1979. Diritto pubblico romano. 1968. 1968. falso falar de uma só Constituição. Saraiva. São Paulo. São Paulo. sendo.apresenta vários sentidos correlatos. A igualdade de que ela se vangloria. Madrid. há uma ordem viciosa imposta pelos demagogos. caracterizado pela concentração de atribuições prefixadas e destinado a sanar mal público iminente ou real. 1975. ao colocar na mesma casta homens desiguais. prossegue. La dietadura. r e in a c h p it is c u s . 1885. Manoel Gonçalves. Saraiva. Scientia Verlag. São Paulo. . De Vétat de siège. unipessoal ou colegiado. 6) DITADURA Bibliografia: LGDJ. p in t o f e r r e ir a Luiz. O estado de sítio. II príncipe e discorsi sopra la prima deca di Tito Livio. Ditadura é o exercício temporário do poder político. Re­ vista de Occidente. Feltrinelli. A democracia culmina. análogos. Teoria geral do Estado. 1964. A. v. lho burdeau . s c h m i t t . e o domínio monstruoso que é a multidão (thrémma méga kai iskhurón) não passa de um despertar da natureza tirânica (palaià gigantikê phúsis) (apud Gustave Glotz. quando suas instituições encontram-se ameaçadas por . Utet. 1969. Georges. Zahar. neum ann Franz. por ter natureza analógica . mes­ mo. Quanto à diferença entre demagogia e oclocracia. embora não idênticos. p. Carl. cria a desordem e a imoralidade. ao defender um individualismo em que cada um age como bem entende. é uma gritante desigualdade. que. Em sentido amplo. a sua Constituição é instável e deformada.

ex. a ditadura romana 110 tempo e nas instituições republicanas da antiga Roma. desde que não houvesse dado a esta. sendo responsáveis perante a lei e submetidos à intercessio.. vale dizer. dc dictare.. a própria . aprimorando-se. o ditador não estava subme­ tido à intercessio nem à provocatio. Ele se achava.. Já se percebe que a ditadura romana vinha a ser uma magistratura extra­ ordinária\ prevista na Constituição. várias magistraturas. contudo.] duo cônsules inde comitiis centuriatis a praefecto urbis ex cornentariis Servii Tulli creat sunt [. enfim. O imperium . a adoção do estado de sítio ou da lei marcial). vale acrescentar. Não podia. conforme ensina Théodore Reinach. O período dc transição entre a monarquia e a república não ensejou. Em sentido estrito. Fora destas restrições. A expulsão dos reis beneficiou a aristocracia. pois sabe-se que muitas ideias de ori­ gem republicana já vinham sendo experimentadas durante o reinado de Sérvio Tú­ lio. Situemos. aumentativo dc dicere. o monarca postava-se acima da comunidade. Ora. sendo irresponsável no exercício do cargo. nem intervir em demandas legais ou impor novos tributos. desde então. Vale frisar. O próprio termo dita­ dura origina-se do Direito Público romano. cm sua investidura. dictator. mas agora o magistrado republicano achava-se subordinado à lei.. é bom lembrar. é bem verdade. anteriormente.. e sim ma­ gister populi. Mediante a intercessio. Reza a tradição que a História da Cidade Eterna co­ meça aos 21 de abril do ano 753 a. aos princípios da anualidade c da colegialidade. apa­ recem dois cônsules.]” . entretanto. então. que a denominação dictator não era a mais indicada para designar aquele que encarnava tal magistratura. concentrava nas mãos todo o poder.C. refere-se a uma espécie de magistratura de caráter extraordiná­ rio.C. de forma a impedir que fosse restaurado o poder pessoal dos mo­ narcas. significava a plenitude dos poderes judiciários e militares. e até o ano dc 509 a. de imediato.. em sanar graves crises sociais com medidas drásticas. prevista na Constituição da antiga Roma republicana. a partir de então. to­ mando-se a expressão no sentido enérgico dc comandar. curvando-se.158 Teoria Geral do Estado um perigo interno ou externo (p. alterar a Constituição ou declarar a guerra. Daí. ao veto do colega. A missão do magister populi ou dictator consistia. em cuja aplicação dispunha da mais ampla liberdade. perdurando até 27 a. ao contrário do que sc pensa. dotada de objetivos específicos e destinada a salvar a República e as liberdades dos cidadãos. quando tem início o período denominado principado. seu consentimento. Substituindo o rei. sob o lema salus rei publicae su­ prema lex est. adotou-se a forma monárquica de governo. a república sc impõe. que buscou. sendo plena­ mente irresponsável.C. rees­ truturar o poder. nestas incluído o próprio consulado. que exercem o poder em colegiado e pelo período de um ano. a luta armada e a sucessão violenta de instituições. investido do imperium maximum ou majuSy e durante sua atuação todas as magistraturas eram suspensas. Nos tempos da realeza. nesta incluído o poder de vida e de morte sobre seus conci­ dadãos.. um dos cônsules podia anular qualquer medida tomada isoladamente pelo outro. basicamente. como faz ver o historiador Tito Lívio: “ [.

paulatinamente. daí. havia outros magistrados que se enquadravam em magistraturas de caráter ordinário ou de caráter extraordiná­ rio. como vocábulo cor­ respondente a imperium. Magis­ trados extraordinários . direito de convocar e de presidir o Senado (senatum vocare). mais recente (imperium ). por sua vez. Cônsules e outros magistrados voltavam a ser. iMais tarde. Admitir que uma magistratura fosse ocupada sem limite de tempo. depois judices. A potestas. ad tempus certum e ad tempus incertum. O imperium inclui todas as atribuições da potestas e mais: o direito de tomar os auspícios fora de Roma. o direito de organizar e comandar o exército.pelo menos teoricamente . ligado à religião (auctoritas) e um poder jurí­ dico c militar. o direito de exercer coerção (coercitio).6 Formas de governo 159 soberania encarnada pelos reis de Roma e transmitida aos magistrados republica­ nos. compreende: o direito de tomar os auspícios dentro da ci­ dade. sendo suas funções delimitadas no tempo. Além dos cônsules. direito de convocar o povo dentro da cidade. a palavra ti­ rania? Havia ademais uma distinção entre imperium e potestas.a possibilidade de in vicem parere atque imperitare. Os etruscos adotavam. impor multas (jus multae dictionis). apenas aos magistrados stricto sensu: cônsules. truna. A ideia de imperium . que eram dotados. portan­ to. ditadores e pretores. apenas da potestas. cidadãos comuns. originariamente. ao cabo de um ano. da monarquia etrusca. quem sabe. publicar os editos (jus edicendi). no mais das vezes.eram aqueles cujas atribuições não tinham duração limitada pela lei. As magistraturas republicanas eram. a atribuição estendeu-se aos censores. pois todo e qualquer cidadão tinha . sendo seu símbolo o fasces. portanto. deriva. entre os magistrados. a jurisdição (poder de dizer o Direito). para lhe dirigir a palavra e para fazê-lo vo­ tar. que significava poder. com nuanças religiosas. era magistratura de caráter extraordinário e. aquele que ia à frente do exército). quando a salvação da . A ditadura. mas limitada em razão das circuns­ tâncias. determinar que este aprecie um caso determinado (referre ad senatum) e que delibere e vote (cum patribus agere). aos edis e aos tribunos. inicialmente denominados praetores (de praetor. O império era atribuído. o direito de convocar o povo fora de Roma. ad tempus incertumysendo invocada. Havia um conceito primitivo de soberania. Magistrados ordinários eram aqueles que exerciam funções inerentes à norma­ lidade da vida administrativa. repartida. nos comícios centuriados. segundo Pallotino. aos questores. eqüi­ valeria a atribuir ao cidadão uma situação privilegiada que ofenderia o princípio da isonomia.a própria denominação faz ver . consistente em deter o cidadão e obrigá-lo a comparecer perante a autoridade. porém. também de origem etrusca. isto é. inicialmente.

esse órgão autorizava os cônsules a escolher. vivia situa­ ções que exigiam decisões rápidas. eram os cônsules. Nos momentos de crises político-sociais. cm tais casos. em conjunto. O ditador era investido 110 poder militar (gerundae causa e seditionis sedandae causa) e. encarnada pelo magis­ ter populi ou praetor maximus. pois várias culturas vizinhas à Cidade Eterna conheciam uma instituição semelhante. A própria nomeação do ditador seguia certos preceitos religiosos: o cônsul procedia à escolha do ditador somente após tomar os auspícios. É um erro . feita à noite e em segredo. evidentemente. pois Roma. literalmente. levado a efeito com a máxima discrição. mas podia haver nomeação de um ditador para funções administrativas ou religiosas específicas e. basicamente. neste caso. fixar um prego numa parede do Capitólio. tínhamos a ditadura imminuto jure. Se apenas um dos cônsules se encontrasse na cidade. por outro lado. este desprovi­ do do imperium majus. como visto. ao menos. que a colegialidade do consulado não poderia. tínhamos as ditaduras oprimo jure. estranha cerimônia cujo significado escapa à moderna pesqui­ sa histórica. A expressão magis­ ter populi significa. já sc percebia que os cônsules. Acentua Pierrc Grimal que a dita­ dura se apresentava muito aparentada à monarquia no tocante a certas funções ex­ clusivas do rei (rex sacrorum) ligadas à religião. da infantaria romana. Em razão disso surge a ditadura. Encontraremos uma das mais profundas raízes da ditadura 110 gênio pragmá­ tico dos romanos. deliberando. Se fosse o caso. mediante au­ torização do Senado. Quem nomeava o ditador romano. silentio). por exemplo. ficando o magister equitum. dominava a sedição (seditionis sedandae causa) e podia permane­ cer 110 exercício de suas funções até quando as necessidades o exigissem. dotado apenas da potestas consularis. ao qual. ordinária e colegiada. embora não se pudesse fugir. chefe dos patrícios. com suas tendências expansionistas. incumbido da cavalaria. em segredo (nocteyoriens. isto é. e esta era. simbolicamente. eles deviam consul­ tar o Senado a respeito das medidas a tomar. Alba Longa. a função do ditador: comandar a infantaria. a lei suprema é a salvação da coisa pública). ser um mal necessário. a ele caberia a escolha. Frisemos. que a ditadura não era uma criação inteiramente do Direito Público romano. a ditadura latina dessemelhava-se da romana por ser anual (ad tempus certum). encontravam inúmeras dificuldades para atuar no âmbito externo. embora resolvessem o problema da administração inter­ na. Com efeito. O ditador romano dispunha do direito de vida e morte.160 Teoria Geral do Estado república exigisse a suspensão das prerrogativas pessoais (salus rei publicae supre­ ma lex est. era. assessorado pelo magister equitum. durante a noite. ainda nos primórdios do período republicano. quase sempre em estado de guerra. Por exemplo. dirigia a guerra (rei gerendae causa). como a própria denominação insinua. propiciar. um ditador ou tirando a sorte para determinar qual deles faria a seleção. revelava. Tusculum e Lanuvium. Este curioso ritual demonstra bem o es­ pírito do antigo romano: a elevação de um homem acima das leis. Entretanto.

. impondo severa derrota ao inimigo. desprendimento e consciência social deveriam inspirar a modernidade. Reduzido à miséria por despender os poucos recursos que possuía. Da mesma forma que a célebre Cornélia. a socieda­ de foi declarada incompatível com a República e desfeita. e não seria equivocado concluir que. tentando cobrir a fiança exigida por influência dc seus inimi­ gos políticos. perpetuada na pátria da Democracia ocidental. que amanhava numa tosca charrua. em 1873. lembrado por seus compatriotas. no século V a. e que Marco Pórcio Catão. vários casos dc permanência dilatada do ditador cm seu posto. hoje. o ditador não podia renunciar à sua missão antes dc complctá-la. Entretanto. a memória do ditador Cincinato é. Esquecido por todos. Padrão dc honra. Patrício dc origem. na pequenina propriedade agríco­ la que lhe restara. em grande parte por desconhecimento da História. ele que havia sido reduzido à humilhação c à pobreza por ten­ tar libertar o filho.C. repugna a palavra ditadu­ ra. sustentáculo da família e do lar. para a felicidade e o progresso de um Estado. à sua vida austera c dc hábitos morigerados. dignidade c perseverança. causado a morte do filho de um senador. sempre levou vida modesta. levantou o sítio em apenas dezoito dias. traziam uma medalha representando o ditador em sua charrua. cumprindo sua missão ao cabo dc vinte c um dias. constatando-se. o arquétipo do herói romano. para tentar levantar o cerco que os équos impu­ nham a Roma. Seus membros. culposamente. cumu­ lar poder e glória. os Estados Unidos da Amé­ rica do Norte. foi novamente investido na ditadura. ao tomarem Cincinato como mo­ delo de conduta. Aos 80 anos de idade. sociedade patriótica fundada nos Estados Unidos da América do Norte. as insígnias de dictator.6 Formas de governo 161 pensar. se o desejasse. com altivez. Investido na função de dictator. Eis. nomea­ do ditador por mais de uma vez. simboliza a virtude da mulher romana. co­ ragem. não . mãe dos Gracos. impediu a deflagração da guerra civil entre patrícios e plebeus. foi em inteira justiça. sempre. A Ordem de Cincinato. personifica a probidade administrativa no combate à corrupção. voltando. admitindo a hereditariedade na sucessão de seus membros. que havia. na cidade de Cincinatti. portanto. o Censor. até amealhar o dinheiro necessário para afiançar a liberdade do filho. Lúcio Quíncio Cincinato vem a ser.. Cincinato poderia. com Cincinato. cujo amor à pátria. De­ volveu.C. para libertar seu filho Ceson. Roma apresenta-nos exemplos de ditadores notáveis. que a ditadura não podia ultrapassar seis meses de duração. era formada por todos aqueles que se haviam desta­ cado na Guerra da Independência. mas nem por isso pensou em locupletar-se ou em vingar-se. um exemplo da grandeza moral do antigo romano. passando a viver do culti­ vo da terra. em sen­ tido inverso. Em qualquer caso. Polí­ tico hábil. contudo. à qual. no ano de 458 a. e retornou à lavoura. sempre renunciou às honrarias após cumprida sua missão. mes­ mo porque a história romana é pródiga em exemplos de ditadores que encerraram sua missão muito antes de se escoar o prazo de seis meses. ficou reduzido à pobreza.

Após a Lex Hortensia. é preciso. a ditadura prosperou e foi útil.C. ficando estes reduzidos à condição dc meros agentes executores. a figura do dictator seditionis sedandae causa. 48. bem como o justitium (suspensão da atividade dos tribunais). ao cabo dos quais renunciou ao posto. Não teria sido por acaso que Dante Alighieri colocou Cincinato e Cornélia no Paraíso. imediata­ mente. e aquilo que pensa constituir um vitupério é. fora da lei e inimigo.. 46 e 44 a. a ditadura foi suspensa por dois anos. Em 46 a. efetivamente. tendo por missão constituere rem publicam. o Senado já se encontrava reforçado a ponto de enfraquecer enormemente o poder dos cônsules. qualquer aventureiro político que vem a ser qualificado como ditador. aos quais se deve a Lei das Doze Tá­ buas.162 Teoria Geral do Estado bastam instituições políticas formalmente perfeitas. a luta secular entre patrícios e plebeus.C. o ditador de empalmar o po­ der absoluto. e XV. que os ho­ mens que as encarnem sejam dignos destas. exemplo universal dc patriota. 45. Sila permane­ ceu no poder durante três anos. logo.. todo aquele que conspirasse contra o Estado.. que a palavra ditadura possui uma carga histórica que deve ser respeitada. As denominadas ditaduras de Lúcio Cornélio Sila e de Caio Júlio César apre­ sentam caráter completamente diverso da ditadura original. ao enal­ tecer a figura do ditador romano. por oca­ sião das agitações de Tibério Semprônio Graco. de 286 a. Em 451 a.. a dita­ . atribuído ao Senado e destinado a declarar hostil. motivadora da nomeação dc vários ditadores. por ocasião da nomeação dc dois colégios decenviros legibus scribundis. exerceu por quatro vezes a ditadura política. a anulação de determinadas leis e a suspen­ são do poder de certos magistrados. praticamente desaparece c. se zanga. como percebe com clare­ za Maquiavel cm sua obra Discursos sobre a primeira década de Tito Ltvio. Então. Não havia. O senatus consultus ultimum era acompanhado da patética expressão “videant cônsules ne quid res publica detrimenti capiat!' \ com a qual se alertava a comuni­ dade sobre a gravidade da situação. A deturpação do sentido de um vocábulo emprega­ do sem discriminação séculos afora acarreta enganos insanáveis. respectivamente em 49. 129). A partir do ano 133 a. haveria duas nomeações.C. Modernamente.. que estava exigindo soluções drásticas. em 249 e 216 a. um ime­ recido elogio. na verdade. a importância do ditador já estava bastante reduzida pelo fato da ad­ missão da intercessio dos tribunos da plebe contra o poder incondicionado do dita­ dor. Além disso. isto é.C. com efeito. um mecanismo que impedisse. e que os norte-americanos honra­ ram a memória do grande romano na cidade de Cincinatti. líder agrário. em sua bela e tremenda Divina comédia (VI. Percebe-se. no entanto. declarava a tumultus (rebelião). Quanto a Júlio César.C. foi criada uma institui­ ção que substituiria a tradicional ditadura: o senatus consultus ultimum. pois se destinavam a reestruturar o Estado e a elaborar um novo ordenamento jurídico. com ela. jamais aviltada. também. Quanto ao ditador rei gerundae cau­ sa. graças à sua aliança com os tribunos da plebe e à assimilação paulatina das atribuições anteriormente priva­ tivas dos cônsules. na República romana.C.

primeiramente chamado de Otávio (63-14 a. a partir de então. na França revolucionária. finalmente. tudo leva a crer que Júlio César desejava instituir sua nova concepção de ditadura na figura de Otávio.6 Formas de governo 163 dura cesariana fez-se permanente e ordinária.teórica. pois este já se tornara seu fi­ lho adotivo. evidentemente . instruções a respeito do que fazer. Otaviano Augusto. Assim. na Idade Média.C.C. fruto da reação do Senado. Tais aberrações levaram ao seu assassínio. ainda em 44 a. no qual pontificou Robespierre. quando a Convenção Nacional. colocada acima do consulado. depois. por intermédio da Lex Antonia de dictatura in perpetuum tollenda. Já em 10. por exemplo.). sucessor de César. no ano de 1793. Além do mais. o Senado eliminou a nova magistratura. cuja eleição . por delegação. teremos. proposta. também denominada tirania. evitou. a delegar am­ plos poderes a um colégio de nove membros. a duração do exercício do cargo comissarial era rigorosamente transitória. em­ bora o como fazer ficasse a cargo deste mandatário. o moderno estado de sítio (état . Quando o cesarismo enseja o favorecimento de poucos. dc César. mediante um decreto. por Marco Antônio. Tomando a expressão ditadura em sentido amplo. em razão da desordem imperante. a figura do princeps e abstendo-se de alterar o quadro das anti­ gas magistraturas.seria anual e reservada ao povo. Exemplo de poder ditatorial colegiado poderemos encontrar.01. funcionário nomeado para exercer atribuições extraordinárias e específicas. parente). com prudência. O fato é que as formas corruptas da ditadura romana devem ter denomina­ ção diversa. que instituiu o tribunal revolucionário e se mostrou fanático defensor da República. mas burlando-a. a governantes legal­ mente constituídos. foi obrigada. restabelecer quaisquer resquícios da ditadura. a exemplo da aesymnetia grega. encarnada no denominado comissá­ rio. medidas excepcionais que lembram. temos o nepotismo (de nepote. O co­ missário recebia do príncipe. incumbida de redigir uma nova Constituição e transmitir o poder. A pa­ lavra cesarismo vem.. por um estado de terror.C. evidentemente. sufocar revoltas populares.. César subs­ tituiria os antigos magistrados por um apenas. ele próprio. criando. o cesarismo é a forma dc exercício do poder político na qual o governante busca perpetuar-se no poder sem infringir a lei. o que o torna irregular é a «ânsia da perpetuidade cm fraude à lei.1791. criava-se na França revolucionária. César obteve a garantia de que sua ditadura seria perpétua. em detrimento da coletividade. Na verdade. denominado Junta da Salvação Pú­ blica ( Comitê de Salut Public). O governo cesarista nem sempre é mau. contudo. Em 44 a. em razão da falta de higiene existente nas cidades etc. de imediato. uma instituição análoga à ditadura romana. administrar a extirpação dc focos de epide­ mias comuns à época. Procurando dissimular a transformação da República em regnum. responsável. quiçá. Após a morte de César.

Friedrich denomina ditaduras constitucionais as medidas de caráter ex­ traordinário. logo após. Bur­ deau aponta formas de cesarismo e ditaduras. estágio final da evolução humana. visto que a principal característica da ditadura é justamente a concentração do po­ der em uma ou . o estado de sítio ou de urgência são exemplos de tais métodos. foi promulgada uma Constitui­ ção inspirada pelo próprio Francis. muito adequadamente. pois uma ditadura sem ditadores. cujo secretário era Gaspar Rodríguez Francis.guardadas as devidas proporções! . A lei marcial. para um futuro promissor. poderemos. Pois bem. Carl J. será um efêmero presidente de alguma república andina. mas isto já seria impossível no caso de todos exerce­ rem uma ditadura. uma ditadura coletiva. vítima inevitável de alguma rebe­ lião ou pronunciamento. inaugurando o período conhecido. sendo no­ meado. adotadas pela maior parte dos Estados contemporâneos. a ditadura do proletaria­ do. Indepen­ dente a partir de 1811. classe social destinada a dirigir a tarefa dc libertação das mas­ sas trabalhadoras exploradas pela burguesia. Seja o poder ditatorial enfeixado nas mãos de um órgão apenas (sentido estrito) ou em vários órgãos (sentido amplo). inicialmen­ te. forma política que dispensa qualquer ideolo­ gia: um chefe é incondicionalmente obedecido. em 1813. era o período em que o proletariado. mesmo antes do transcurso deste prazo. elasse exploradora. exercia um poder ditatorial sobre esta.quando muito . Se ele for um gênio. e. De início. simplesmente porque sabe fazer-se obedecer. o Direito Públi­ co russo referia-se a uma expressão célebre. falar cm ditadura. indispensável ao advento do comunismo. Que vem a ser a ditadura do proletariado? Segundo a doutrina marxista. individualista por excelência. Referindo-se aos regimes autoritários modernos. no mínimo. para fazer frente às crises político-sociais. como “Terror”. confor­ me o caso. ditador por três anos e. esta república sul-americana teve a governá-la. conseguiu tomar-se ditador supremo e perpétuo! Até o aparecimento da vigente Constituição soviética (1977). se não for. jamais o seu desmembra­ mento numa coletividade. Exemplo curiosíssimo de forma política que recorda o consulado e a ditadu­ ra romanas . mas desde logo Francis se desfez do colega. . o cesarismo empírico. Na verdade. já não seria di­ tadura.16 4 Teoria Geral do Estado de siège). de classe é. a ditadura do proletariado. convenhamos. o próprio Marx. o homem liberto dos grilhões do poder político do Estado.oferece-nos o Paraguai.em algumas pessoas. segundo a qual a república seria dirigida por dois cônsules eleitos anualmente. até que o Estado desaparecesse e surgisse a sociedade comunis­ ta. que antevia. surgiam as prisões em massa e as execuções. necessária. uma Junta de cinco membros. um contrassenso. não renegava uma concepção toda própria de ditadura. pela Assembleia. diz Burdeau. Como se vê. Os cônsules seriam ele próprio e Yegros. eis um Napoleão. exatamente como na antiga Roma. sob a presidência do General Yegros.

El totalitarismo.1 1. Afonso Arinos de. 1957. a exemplo dos demagogos das antigas tipologias das for­ mas de governo. dizia o seguinte: Meu caro General. No seu livro Carta a respeito do programa de Gotha. Os regimes políticos. Simón. Embora aparentada à ditadura do proletariado imaginada por Marx. Sabe V. as mais baixas paixões do populacho. São Paulo. muito mais refinada e subs­ tanciosa 110 que se refere à doutrina. ela marcará o definhamento e a desaparição do Estado. terceiro. o general Juan José Flores. El cons- titucionalismo brasileno en la primera mitad dei siglo X IX . a única coisa que se pode fazer na América é emigrar. o ditador não se satisfaz. ele não po­ deria tomar tal iniciativa a não ser renunciando à própria existência. Nesse caso. . No dia 09. uma ideologia político-social destinada a legitimar. du - . 1977. as quais ele dirige a seu talante. O chefe restringe-se a explorar. 1966. Editorial Estampa. a ditadura do proletariado. Paidós. Marx antevê a liberação do indivíduo mediante uma fase necessária de vio­ lência.1830. classe do­ minada). Burdeau aponta a ditadura ideológica. absolu­ tamente. Escritos políticos. Seria pueril. instrumento de opressão de uma classe sobre outra. México. enfaticamente e com dureza. com o fato de seu poder ser mantido apenas pela força. fazer uma revolução é lavrar no mar. que governei durante vinte anos c que desse tem­ po poucos foram os resultados certos que obtive: primeiro. supor que o Estado tende a eliminar as relações de subordinação. m elo franco William. a América é ingovernável por nós. nem de longe possui o embasamento doutrinário desta. Maurice. pois. A libertação do homem só será possível com a desaparição do poder político e com a submis­ são da classe dirigente (a burguesia) a uma ditadura (a do proletariado. com o advento da sociedade comunista. ele desenvolve. Exa. isto sim.6 Formas de governo 165 A seguir. na qual. Difel. quarto. o chefe busca apoiar-se nas camadas sociais menos favorecidas. Finalmente. Lisboa. 1965. que viria a ser o primeiro presidente do Equador. 7) CAUDILHISMO Bibliografia: verger b o l ív a r . Nela. Buenos Aires. à qual já nos referimos. Tal ditadura será transitória. Unam. este país irá cair infalivelmente nas mãos de uma multidão desenfreada para passar depois a tiranetes quase imperceptíveis de to­ . A ditadura proletária é outra espécie de ditadura moderna apontada por Bur­ deau. para usar uma expressão do próprio Marx. de modo rudimentar. e b e n s t e in . Por seu inter­ médio. na qual o proletariado intervirá despoticamente. Marx insiste no caráter inelutável desta ditadura. Simón Bolívar enviou uma carta a um de seus colabora­ dores. segundo. diz Marx.

o desenvolvimento econômico. os serviços postais. estabeleceu-se uma profunda relação afetiva entre o governante e o povo. Ora. note-se bem. autoritários. deitam suas raízes nas velhas capitais indígenas ou nas divisões estabelecidas durante o perío­ do colonial. quinto. verá que rodos se entregarão à torrente da demagogia c desgraçados dos povos. O poder se achava centralizado no vice-rei. desde os antigos impérios pré-colombianos até os modernos presidentes latino-america­ nos. o exacerbado individualismo c a quase ausência dc senso dc responsabilidade social trariam as disfunções políticas que todos conhe­ cemos. foram ins­ talados também os primeiros estabelecimentos espanhóis. assim o império inca. o cabildo. a segunda causará o mesmo efeiro neste vasto continente. tal afirmação é válida ape­ nas do ponto de vista político. Assim. os europeus não se dignarão conquistar-nos. como veremos.166 Teoria Geral do Estado das as cores c raças. algumas dc suas atribuições . o vice-rei espanhol tornou-se a encarnação suprema do Estado espanhol nas índias. se fosse possível a uma par­ te do mundo voltar ao caos primitivo. a instrução pública e a previdência social. governador do Reino c presidente da audiência. se a unanimidade dos historiadores situa o nascimento oficial dos Estados latino-americanos em princípios do século X IX . pois sob o ângulo histórico esta orientação trunca uma parte importante de sua evolução. que do pon­ to de vista administrativo tinha a seu cargo os serviços gerais. da qual derivou o paternalismo ainda hoje encontrado na política americana. a dis­ tribuição de provisões. o incontornável atavismo do poder pes­ soal. Era. nos locais onde se desenvolveram as sociedades indígenas. tornou-se ponta avan­ çada do movimento libertário e órgão de transição entre a autoridade do Vicc-Rcinado e a América independente. convertida em Vice-Reinado e. o superintendente da Fazenda Real. Pois bem. des­ graçados dos governos! Ninguém melhor do que o Libertador conhecia o temperamento e as inclina­ ções do latino-americano! Inicialmente. o ccnso. devorados por todos os crimes e consumidos pela feroci­ dade. Era dotado dos títulos de capitão-geral. mais tarde. Por ou­ tro lado. as obras públicas. pelo moderno Estado peruano. Por outro lado. A súbita reação da ideologia exagerada vai pre­ sentear-nos com quantos males nos faltavam e exagerar os que já possuíamos. sexto. este seria o ultimo período da América. na América espanhola. Destes períodos nos vem profunda tradição de poder pessoal. A primeira revolução francesa provocou a decapitação das Antilhas. pois tanto o monar­ ca indígena como o vice-rei foram executivos centralizados. su­ cedido pelo Vice-Reinado e. os centros atuais do poder político. Exa. V. Em verdade. e a confe­ deração asteca. a saúde pública. dificilmente conseguiríamos compreender alguns traços das instituições políti­ cas latino-americanas sem examinar as influências do passado indígena e colonial. no México atual. Como acentua Salvador Valencia Carmo­ na. precisamente uma instituição colonial. depois. depois.

bem como a dificuldade dos meios de comunicação. talvez. desenvolvem-se as guerras de independência dos Estados latino-americanos. No Brasil. o temperamento do espanhol à época da conquista e da colonização. mui­ to mais de forma do que de substância. Por outro lado. e logo se tratou de levar à prá­ tica exóticas experimentações. como os decretos-leis contemporâneos. a administração foi confiada a grandes senhores. plenos poderes. difícil de acreditar. dão-se ares de fidalgos e preferem ser soldados ou (antes do tempo de Fer­ nando) salteadores de estrada a fazerem-se mercadores ou exercer qualquer função se­ melhante. sendo. e profundas transformações. faziam com que o vicerei tivesse. rápidos e peritos no manejo das armas. São mais belicosos. foram desen­ cadeadas apaixonantes controvérsias doutrinárias. Em torno dela. Aparentam ser muito religiosos. expedia atos administrativos de­ nominados instrucciones. os donatá­ rios. a função executiva passa a cobrar um interesse axial. desde o descobrimento. do que qualquer outra nação cristã. com pouca submissão à Coroa. a consolidação do poder personalizado. Assim: .. até que outras potências europeias começaram a co­ biçá-las. A princípio. Curioso e sintomático. vão ocorrer. Num breve período de quinze anos (1810-1825). divididos em doze capitanias hereditárias e dotados de grande poder. mas não o são realmente. por outro lado. sob Filipe II.6 Formas de governo 167 transcendiam a função executiva e alcançavam o plano legislativo e o judicial: além dc participar da audiência da qual era presidente. mas em suas casas levam uma existência miserável. basicamente. Os espanhóis são amigos da ostentação. fazem ponto de honra em preferir a morte a submeter-se à vergonha. os alcaidcs e os fiscais. de fato. sendo dcscortescs para com eles. que. que consideram degradante. Por isso. embora sujeitos à revisão pelo Conselho das índias. conceder indultos de penas impostas pelos tribunais. a administração espanhola ampliou sua influência sobre a administração das colônias lusas e.”. c ágeis. quatro os modelos a ele referentes.. 'Iodos os espanhóis desdenham o comércio. apontado com muita ojeriza por Francesco Guicciardini: São orgulhosos por natureza c não gostam dc estrangeiros. com isto. costuma-se denominar aqueles quinze anos o período de ensaio e de formação do Executivo. Para as novas Constituições. sistema que obteve pouco sucesso ao retardar a exploração econômica e a implantação de uma administração realmente eficaz no Brasil. da qual pode­ riam dizer “obedecemos sem cumprir. No plano judi­ ciário podia atuar de ofício ou mediante invocação da parte contra os ouvidores. Durante a união pessoal imposta a Portugal e seus domínios pela Espanha (1580-1640). a grande distância que separava o novo continente da metró­ pole. a preocupação de Portugal continuou vol­ tada para as índias Orientais. tinham vigência imediata. vestem belas roupas e montam vis­ tosos cavalos.

em 1825. Comte rejeitava as abstrações sociais de ordem metafísica e propunha-se a aplicar à sociedade os mé­ todos positivos. como se percebe. um homem dotado de grande descortino político. restariam. 8°). a fim de cuidar da conservação da independência. menos pelas virtudes ínsitas à ideologia do que pelas circunstâncias históricas. fato que trouxe para o Brasil um desenvolvimento inimaginável até então. isto é. seu filho. por Benjamin Constant Botelho de Magalhães. b) Executivo vitalício: inspirado na Ideologia de Augusto Comte (1798-1857) c de Simón Bolívar (1783-1830). Dava ênfase especial ao progresso técnico mediante a utilização social das capacidades humanas e preconizava a aplicação dos métodos científicos à organização e controle das relações sociais. empíricos e experimentais. por costumes e tradições antiquados. no qual foi apresentado o Projeto de Constituição para aquele país. dc certo modo. coetâneos. tornando a monarquia rejuvenescida ideologicamente. a) Executivo monárquico: nos primórdios da independência as ideias monár­ quicas ainda gozavam de grande prestígio. ainda. do equilíbrio e da harmonia dos poderes (art. autóctone. de acordo com as verdades posi­ tivas da ciência. respectivamente.exercia forte atração sobre os latino-americanos. As tentativas de instauração da monarquia no Haiti e no México. derivado do sistema político norte-americano. gra­ ças à doutrina do Poder Moderador. o imperador ficava dotado. Repudiava com uma concepção romântica o velho liberalismo e pretendia substituí-lo pelo planejamento social. d) o presidencialista. desenvolvida por Clermont Tonnerre e haurida.a expressão é do próprio Comte . adver­ te Afonso Arinos de Melo Franco que Pedro I teria sido o grande inspirador da in­ serção do Poder Moderador na Constituição Imperial. em grande parte. ainda dominadas. além das funções exe­ cutivas. oriundo do pensamento de Bolívar. da “chave de toda a organização política”. os fatos de ter sido Pe­ dro I o procurador da independência e Pedro II.168 Teoria Geral do Estado a) o monárquico. num discurso perante o Congresso Constituinte da Bolí­ via. b) o colegiado. no Brasil. assim é que Bolívar. Aliás. O requisito de uma ditadura . por Cristophe e Iturbide. c)o vitalício. vinculado às velhas tradições. com o fito de consolidar sua posição pessoal perante os demais poderes políticos. remanescendo o Brasil sob o velho regime algum tempo. Com o Poder Moderador. a sociedade seria dirigida por sábios. não fosse a emigração da Corte para o Brasil. cm função do expansionismo napoleônico. terminaram breve e tragicamen­ te. embora irreversivelmente condenadas pela roda da História. Com efeito. que pôde manifestar-se na Constituição de 1824. das ciências físicas. Dentro des­ sa filosofia. de inspiração francesa e. Isto somente seria conseguido mediante uma república ditatorial. assim se referiu ao cargo dc Presidente da República: .

Para a Bolívia esse ponto é o presidente vitalício. de ditadura vitalícia. deveria haver. aparentemente monárquica. o executivo vitalício seria intermediário entre a monarquia c a república. em 1811. Nele se estriba toda a nossa ordem. Algumas Constituições estabeleceram o colegiado sob forma velada. firme em seu centro. Suas fontes são as Constituições francesas de 1793 e 1795. foi revogada logo em 1831. Despreparados. desde logo. Também a Constituição do Equador de 1812. tiveram curta duração. inicialmente. Para Bolívar. reflete a mesma ambigüidade no Poder Executivo. desde que este viesse para Santa Fé de Bo­ gotá para exercê-lo. A Constituição de Cundinamarca de 181 1. três assistentes e dois secretários com voto informativo que nomeará o congresso” . como tribunos. ao qual re­ conhece como monarca. ainda. diz o art. ação. como o Sol que. sendo. . “amor e fidelidade constante” ao rei Fernando VII. ao dedicar. para fruir dos benefícios dos institutos do liberalismo. no art. o projeto de Constituição bolivariano previa muitas magistraturas à romana. o Poder Executivo seria exer­ cido pelo presidente da representação nacional e por dois conselheiros. enraizadas na consciência popu­ lar. “será exercido por um presidente. contudo. uma vez que nos sistemas sem hierarquias. A Constituição de Bolívar. que é encomen­ dado. qualificada de curiosa mescla de princípios republicanos e monárquicos. 9o. por parte dele. um pe­ ríodo de transição. Esta suprema autoridade deve ser perpé­ tua. para remediar a eventualidade dc o rei espanhol ocupar o cargo. Os novos ideais. no mesmo ano. cujo Exccutivo. 5°. nas primei­ ras Constituições latino-americanas. A Argentina adotou o Executivo colegiado. e do México.dá vida ao Universo. sem que isso implique. censores e se­ nadores. caso contrário. escolhido um diretor supremo das provín­ cias unidas. ironicamente. na nossa Constituição. Cortou-se-lhe a cabeça para que ninguém receie as suas intenções e ataram-sc-lhc as mãos para que não cause dano a n in ­ guém. c) Executivo colegiado: o Executivo colegiado surge. formado por três pessoas. então.6 Formas de governo 169 O Presidente da República acaba por ser. dizia um antigo. um executivo assim concebido permitiria a transição do velho ordena­ mento colonial para um Estado liberal dc feição moderna. considerada a “Arca da Aliança” dos povos latino-americanos e a “transição entre Europa e América”. Aliás. em 1814. se torna necessá­ rio um ponto fixo à volta do qual devem girar os magistrados e os cidadãos: os ho­ mens c as coisas. Desde logo. Diga-se o mesmo do Chile. pois em todo o restante de seus artigos fala dc um Estado independente. até que. da Venezuela. restringe-se a isto na adoção da monarquia. a de mais curta vigência. em sua ausência. a ideia de Executivo colegiado se mostrou inefi­ . tornando-se. ao cabo deste período. Dai-me um ponto fixo e com ele moverei o mundo. ao rei Fernando VII. tais instituições se sobrepusessem às vigentes. mais que nos outros. dc 1811 a 1814.

. governou um Executivo dualista. que conhecia de perto. os constituintes traziam nas mãos um exemplar da Constituição norte-americana. Bem mais significativa foi a experiência uruguaia do colegiado. tornando o sistema inaceitável. Assim. com efeito. A ideia do colegiado foi introduzida no Uru­ guai por José Batle y Ordónez. A obra propugnava uma junta governamental dc nove membros. em péssima tradução e impressão ainda pior. 97 e 105). o colegiado sofreu um forte abalo. no México de 1823. as duas tendências celebraram uma síntese que mesclava presidencialismo c colegiado. durante os períodos de colegiado. uma reforma constitucional trouxe de volta o colegiado. com a ado­ ção. ensejando o aparecimento das Constituições de 1934 e de 1942. político de grande prestígio e admirador das insti­ tuições helvéticas. o impressio­ nante porte político de seus primeiros presidentes. talvez porque tenha funcionado razoavelmente num país que havia deixado de ser colônia ao mesmo tempo que os países latinos. Cinco anos mais tarde. o excessivo aumento dos integrantes do colegiado. que exigem decisões rápidas. conta-se. 85. No primeiro. de inclinação parlamentarista. dividido cm dois órgãos sepa­ rados e independentes: a Presidência da República e o Conselho Nacional de Ad­ ministração (art. fundamentando-se na ideologia de que esta forma de organização política impede o poder excessivo de um só homem. Com a Grande Depressão de 1929. aos quais caberia a administração (arts. A atração por esse regime de governo foi. visitou a Suíça. se impôs aos latino-americanos. um colegiado de nove membros. segundo. eleitos pelo povo para um mandato de seis anos. que tornou o país conhecido como a “Suíça sul-americana” . 70). sua inadequação a tempos de agitação social. O inegável progresso econômico dos Estados Unidos. os quais suscitaram viva polêmica entre colegialistas c anticolcgialistas. ao passo que o Conselho seria formado por nove ministros. além de per­ mitir a participação política de todas as facções. feitas em Puebla de Los Angeles. incluída a oposição. irresistível nessa parte do mundo. desta feita. d) O presidencialismo: o modelo presidencial dos Estados Unidos foi aquele que. e Gabriel Terra promoveu profundas reformas políticas no Uruguai. afinal. Foram dois períodos. logo após sua primeira gestão na presidência (1903-1905). onde colheu subsídios para a implan­ tação do colegiado em seu país. o efeito retórico de sua Consti­ tuição apaixonaram os latinos a tal ponto que. seguras e inquestionáveis. que somente seria abolido de vez cm 1964. o fato é que. tendo a seu cargo a chefia de Estado (arts. dc 1919 a 1933 c dc 1952 a 1967. no segun­ do. Em 1952. o Uruguai experimentou um notável surto de progresso. Coincidência ou não. Em 1913.170 Teoria Geral do Estado caz por dois motivos: primeiro. 71 e 79). destina­ da a substituir o executivo presidencial. do presidencialismo. a Cons­ tituição de 1918 criou o Poder Executivo dualista. Batle y Ordónez publicou seus Apuntes sobre el colegiado. O presidente seria eleito por um período de quatro anos. Com efeito. 82.

A principal razão dc que cm nosso século sc tenha prestado tão pouca atenção ao autoritarismo reside. ao mesmo tempo. França ou Bélgica. nada pelo povo”. embora sua sociabilidade ou comunicabilidade seja percebida de imediato. aguçadamente. Ao cabo de poucos anos. Isto. provavelmente. por uma constituição demo­ crática. desde logo. Após a Independência. legada pela metrópole europeia: Grã-Bretanha. acentuando a rivalidade entre democracia e totalitarismo como o referencial político do século. então.”. desaparecendo esta democra­ cia artificial. que definiu. o apego ao poder pessoal. acar­ retado pelo desaparecimento da autoridade dos vice-reis. com mordacidade. o caudilhismo. o individualismo típico dos latinoamericanos torna-se infenso à solidariedade.. em razão disso. moldado no militarismo prussiano e no nacionalismo exacerbado. em certa medida. a nova nação se estrutura. a América Latina passou por um período crítico. Tal fato é fácil de compreen­ der se observarmos a grande quantidade de países subdesenvolvidos que se tornaram independentes a partir do fim da Segunda Guerra Mundial. um percentual de liberdade de expressão em questões não políticas. um alto grau de responsabilidade de que muito poucos são capazes de aceitar.por sistemas autoritários. O autoritarismo nega a liberdade e a responsabilidade da opção e ação políticas. a Ebenstein. o que levou Duverger a afirmar que na América Latina “seguem-se homens e não ideias. houve um . mas exige. não deveria dissimular o fato de que a grande maioria das nações estão go­ vernadas . O totalitarismo é o extremo oposto: livra os homens da carga da responsabilidade e. pois não foi por acaso que Kbenstein apontou. O latino-americano é. entre outras. no curso da História. em verdade. tem predominado o autoritarismo é provavelmente psicológica: a demo­ cracia oferece aos homens o máximo dc liberdade. fenômeno já notado por Ferreira Filho. apresentou causas mui­ to bem lançadas por William Ebenstein. Grã-Bretanha. Ao receber sua indepen­ dência. se produz um retorno à natureza. pouco voltado para a vida política. como veremos a seguir.6 Formas de governo 171 Infelizmente o presidencialismo à norte-americana logo se corromperia numa autocracia muito latina. Foi Frederico. somente age mediante provocação e. contudo. mais uma semente para o futuro totalitarismo nacional-socialista. a democracia: “Tudo para o povo. de forma condicionada. o Grande. um governo autoritário. embora permita. por um breve período. Kste princípio do impressionante prus­ siano bem poderia aplicar-se à América recém-emancipada. qual seja. que. restringe sua liberdade e o campo para expressar-se individualmente.são ou democráticas ou totalitárias.EUA. criando. via de regra. portanto. Razão não falta. Este é o efeito de outro fenômeno tipicamente latino-americano. contudo. Alemanha e URSS .hoje como ontem . c surgindo.. no fato de que as potências modernas . com seu despotismo esclarecido. A razão pela qual. as raízes psicológicas do autoritarismo la­ tino-americano. o caudilhismo.

que. A história dos primeiros tempos da América emancipada é. os presidentes. feneceu paulatinamen­ te à institucionalização das ideias moderadas e ao declínio da instabilidade política. diferentemente dos demais Estados latino-americanos. se não era expressamente previsto na Constituição. intranqüilidade social. N a­ ções por edificar. eminentemente biográfica. Corroborando a intranqüilidade destes primeiros tempos. Ora. juntando-se a isto a inexistência dc uma aristocracia já sedimentada. de imediato. isto nos leva. que conviene recordar en todo momento. governante hábil que. No Brasil. contudo. ocorreu na América Latina. amigo das artes e das letras. Enquanto os caudilhos hispânicos ad­ miravam Napoleão em suas aventuras bélicas. ausência dc uma classe dirigente preparada para o mando. O poder pessoal coloca-sc acima das ideias e das insti­ tuições. tudo inspirava o aparecimento de ho­ mens fortes. reitere-se. não ocorreram as vicissitudcs do caudilhismo. Pedro II. Grande parte da nossa evolução. el Brasil siempre evolucionó politicamente mediante formas que garantizaron su continuidad institucional. fenômeno que. que costumava afirmar que à aristocracia ou governo dos melhores (aristoi: melhor + kratos: poder) sempre se sucederia um período de tirania. pôde desenvolver. Em nosso país as elites políticas resolveram as criscs dc maneira pacífica. e que ocorreria também na Alemanha. A etapa dos caudilhos não terminou de maneira brusca. quando a decadência da aris­ tocracia marcaria o início da gestação do nazismo. a Aristóteles. homens de armas. no exercício da função executi­ va c da moderadora. como acentuam Salvador Valencia Carmona e Jacqucs Lambert. tanto antes como después de su independencia. dc tal forma que Jorge Reinaldo Vanossi afirmou ser a institucionalidadc uma cons­ tante na História do Brasil: Una nota característica. em parceria com uma aristocracia liberal c ilustrada. a D. No bubo lapsus ni anarquias prolongadas y menos aún situaciones de división estatal frente a la comunidad internacional. ao longo do século X IX . um regime parlamentarista. Pedro II situava Pasteur e Victor Hugo acima de todos os homens. é devida. contudo. mediante os caudilhos castrenses dos primórdios da independência. logo preenchido por homens fortes durante todo o século X IX . es que. encontrava apoio no costume. supriu-se o vazio de poder deixado pela monarquia espanhola. via de regra. os caudilhos eram. e traduzia Shakespeare. assim. . Aos caudilhos castrenses sucederam os caudilhos civis e. pacífica. a estes. fre­ qüentes guerras civis.172 Teoria Geral do Estado vazio do poder.

. Edi­ f e r r e ir a f i­ . William. São Paulo. America Latina... ­ Teoria geral do Estado. lho e b e n s t e in . ed. A forma de Estado se acha ligada ao modo pelo qual o Estado se mostra estruturado em sua totalidade.povo. Globo. El totalitarismo. 1977. duverger . Difel. América I. ses. 1966. Lisboa.REGIMES DE GOVERNO 7 1) PRESIDENCIALISMO Bibliografia: a g e s t a . Universidad de Madrid. governo e normas jurídicas . n o s s i. 1. zer melo franco marquand c o Donald. Forma de Estado refere-se às relações que os elementos do Estado . Cooperadora de Derecho y Ciências Sociales. 1983. . Saraiva. ed. Jacques. 1957. México. particularmente quanto aos 173 . Unam. 1964. Porto Alegre. Nacional. Buenos Aires. território. 1980. lambert. Paidós. v a Jorge Rcinaldo. Curso de derecbo constitucional comparado. 1979. São Paulo. Simón. Manoel Gonçalves. Buenos Aires. 1965. torial Estampa.apresentam entre si. São Paulo. El constitucionalismo hrasileho en Ia primera mitad m ir a n d a deI siglo X /X . El Poder Ejecu- tivo latinoamericano.1) Introdução Para revelarmos a natureza do presidencialismo é preciso esclarecer as expres­ sões forma de Estado. Curso de direito constitucional. 1980.atina: uma perspectiva histórica. forma de governo e regime de governo. Jorge. Lisboa. . Imprensa Nacional. maluf. Afonso Ari nos de. 1979. Sánchez. Constituições de diversos paí­ . Escritos políticos. 1979. Mab o l ív a r L uís drid. Sugestões Literárias. 12. Universidad Nacional Autônoma dc México. Maurice. México. 1966. v a l e n c ia c a r m o n a Salvador. . Sahid. 11. São Paulo. Os regimes políticos. Presidencialismo y parlamentarismo en cl Brasil.

isto é. art. o presidente da República. quem exerce o poder. refere-se ao modo pelo qual o Estado se estrutura para o exercício do poder político. e Constituição do Brasil. com separação integral de poderes. a monarquia foi. às novas circunstâncias. por assim dizer. Os mi­ nistros de Estado são meros auxiliares no âmbito puramente administrativo. encarnado apenas pelo presidente. as figuras de che­ fe de Estado e de chefe de governo confundem-se no presidencialismo (Constitui­ ção do Brasil. o que não ocorre no regime parlamentarista. por atos do presidente.174 Teoria Geral do Estado seus elementos constitutivos. O presidente da República evocaria o monarca inglês. vale dizer. . apanágio da forma republicana de governo desde Maquiavel. formadas a federação. Incumbi­ do das funções de administração e de representação. a uma simples monarquia limitada por um parlamento. Quando os reis de Roma foram expulsos. governa. e as instituições britânicas muito se as­ semelhavam. É bom lem­ brar que o Poder Executivo é uno. II). A própria denominação do re­ gime .já revela a preeminência do presidente neste regime.um ). 87 e parágrafo único). uma espécie de monarquia temporária. Como adverte Duverger. compete a um só órgão (mono . entretan­ to. de certa forma. mas o de 1787. impediu o arbítrio sempre laten­ te na monarquia. 84. a monarquia inglesa para o Novo Mundo. com as instituições da Inglaterra. Cria­ ram. VII e VIII).1. 76 e 84. Já a expressão regime de governo diz respeito ao modo pelo qual os Poderes Executivo-Legislativo se relacio­ nam. no caso o presidente da República (Constituição dos EUA. sua pátria-mãe. o que. Por isso e que se diz que o presidencialismo é o regime de governo em que a chefia de Estado (representação do Estado) c a chefia de governo (administração) são encarnadas num só órgão. no qual as figuras de chefe de Estado e de chefe de governo são distintas. deu bons frutos. portanto. e nem por isso deixaram de adaptá-la. A origem do presidencialismo se encontra na própria formação dos Estados Unidos. o sistema inglês assimilado pela Convenção de Fila­ délfia não é o de hoje. Como visto. Isso não ocorre no parlamentarismo. Não respondem. o presidente é auxiliado por ministros de Estado (Constituição do Brasil. pura e simplesmente. pois a forma monárquica de governo é sempre vitalícia. 2o. bem diferente: o regime parlamentar ainda não se achava definitivamente estabelecido. Os norte-americanos perceberam que seria difícil transplantar. abruptamente.presidencialismo . em tese. art. O gover­ no é a dinâmica do poder. é ab­ surdo. O constitucionalista James Bryce faz sugestiva comparação entre o presiden­ cialismo norte-americano e a república romana. Independentes as colônias. A vitaliciedade e a hereditariedade peculiares à monarquia foram substituídas pela temporariedade dos mandatos e pela eletividade para os cargos públicos. pois a temporariedade do mandato do presidente. Seção 1. os norte-americanos não romperam. Quanto à expressão forma de governo. preservada na figura dos cônsules. art. mas seu poder seria limitado no tempo e pela lei. então. cujo possível arbítrio era severamente reduzido pela temporariedade e pela colegialida­ de do cargo. arts. A prática. com vantagens. O Poder Executivo no presidencialismo é monocrático. II.

Unidades fe­ deradas mais populosas. elaborado por Heródoto. I). art. Seção I. Illinois e Ohio. de Hamilton. a). Cícero. realizada justamente para derrubar o poder pessoal. é exigida a idade mínima de 35 anos para o exercício das funções presidenciais. plasmando. 2o) excluem a possibilidade de dissolução do Legislativo pelo Executivo e vice-versa. a inclinação do latino-americano para regimes de caráter autocráti­ co. Lembra oportunamente Duvcrgcr que a relativa frieza demonstrada pelos Es­ tados europeus quanto ao regime presidencialista é decorrente sem dúvida. A tripartição de Poderes é apanágio do regime presidencialista. Tanto nos EUA (Constituição. embora a prática demonstrasse a inevitabilidade da predominância. no Brasil. Daí o fascínio do presidencialismo. A separação e a independência dos Poderes (Constituição do Brasil. . Ao cacique sucederiam conquistadores aventu­ reiros. no caso. 2o.que se recusou a disputar um terceiro mandato e a aceitar o próprio título de rei que alguns admiradores lhe que­ riam outorgar . a escolha dos ministros não depende do referendo do Legislativo. e tal mandato não poderá ser renovado por mais de uma vez (Emenda à Constituição dos EUA n. Por outro lado. Seção 1. § 3o. 5) como no Brasil (Constitui­ ção. mas também equilíbrio. O presidente norte-americano é eleito para um mandato de qua­ tro anos de duração (Constituição dos EUA. 2o.. art. bem como os líderes da emancipação. 12. Tal princípio. embora a delegação de atribuições de um Poder a outro seja uma realidade. a tradição liga-se à psicologia para tender ao poder pessoal. votar no candidato da preferência de seus eleitores. na América Latina. sendo que a Lei Magna brasileira estabelece que o presiden­ te deverá ser brasileiro nato (art. contudo.fosse criada uma tradição respeitada por todos os presidentes. têm direito a um maior número de votos do que entidades menos populosas. à ideo­ logia liberal da Revolução Francesa. em man­ dato imperativo. Antes dc referido aditamento. como Nova York. do monarca. um colégio eleitoral que vai. Por isso se diz que na América Latina seguem-se homens e não ideias. Aristóteles. art.7 Regimes de governo 175 regime no qual os ministros integram o próprio Poder Executivo. como ocorre nos EUA. até Roosevelt. em definitivo.1). embora desde George Washington . 22. Neste livro. Daí o interesse dos candida­ tos em captar votos nos Estados-chave. VI. foi substituído pelo poderio espanhol e seus vice-reis. aquilo que repelia o presidencialismo na Euro­ pa seria o motivo de sua imediata adoção na América Latina: o poder personaliza­ do nos caudilhos. a tripartição de Poderes não é apenas divisão. art. sedimentado ao longo de séculos sob o poder férreo de monarcas absolutos. Nos EUA a eleição presidencial é feita em dois turnos: no primeiro os eleitores escolhem. cm cada Estado-Membro. 14. Ora. é contradiço na obra capital do presidencialismo e do fede­ ralismo norte-americanos: O federalista.1). ora de um. via de regra. Madison e Jay. § 3o. Com efeito. Locke e definitivamente sistematiza­ do por Montesquieu. o presidente poderia ser indefinida­ mente reelegível.. O vasto império dos incas. ora de outro Poder. vice-reis e corregedores. facilmente deformado pelo caudilhismo.

com suas . Depois da insurreição de 1964. a democracia providencialista. ser brasileiro nato (CF art. De 1822 até hoje o Poder Executivo no Brasil foi exercido.01. com breve interregno parlamentarista (Emenda 11. ativamente. 1a VI. o presidente sempre foi eleito pelo sufrá­ gio popular. a eleição indireta foi a preferida. 6). 1). as correntes socialis­ ta e antiburguesa. então. não educando c não sen­ do ético. ensejada pelos anseios populares e pela atuação in­ cisiva de personalidades de escol do pensamento liberal. A Constituição de 1824 conferia a chefia do Executivo ao imperador (art. bem como registrado em partido político (CF. de forma monocrática. da Constituição.176 Teoria Geral do Estado Finalizando: 110 Brasil. entretanto. que dariam vida ao perío­ do que vivemos. que. 77. o presidente passaria a ser eleito mediante voto direto e secreto. num só turno. Deve. o bem-estar social. Surge. O art. costumava o grande pensador católico Bossuet afirmar que “o Estado que pretendemos fraco demais para não nos oprimir tornou-se fraco demais para nos defender”. Do século XVIII para cá. 102). Dc janeiro de 1963 em diante o poder monocrático do presidente da República con­ solidou-se ainda mais. o presidente. O candidato vencedor que não obtiver maio­ ria absoluta de votos. 12.2) Presidencialism o histórico e direito comparado Referindo-se ao Estado liberal. o Estado deveria ter como única missão preservar a inviolabilidade da pessoa c a iniciativa privada no setor econômico. § 3°. estar 110 gozo dos direitos políticos.. concorrendo com o segundo candidato mais vota­ do. conforme determina o art. Difunde-se e consagra-se o entendimento de que o Estado não deve apenas assegurar a liberdade. 14. que vi­ gorou de 02. §§ 2° e 3°. Entretanto. deixando a cada um.1963. De 1891 a 1961 é evidente que nosso Poder Executivo foi monista.] muda a concepção da missão do Estado. a partir daí. prccatados dos excessos do absolutismo na França. de 15. cm sessão pública e mediante votação nominal. § 3o. com estas. 74 da Constituição Federal de 1969 dispu­ nha que o presidente seria eleito pelo sufrágio de um colégio eleitoral. art. corporifica o Estado-providência: [. dando-se a eleição. surgiram novas necessidades sociais e. na concepção de Ferreira Filho. o poder pessoal tem uma longa tradição histórica. por maioria simples. pressionando os governos a deixarem a postura de inércia do État gendarme e a promoverem.1961 a 23. praticamente sem interrupção. quando foi revogada pela Emenda 11. não computados os em branco e os nulos. direito majoritário. deverá subme­ ter-se a uma segunda votação. a).05. Realmente. em decorrência da difusão das ideias so­ cialistas e do próprio catolicismo social. com o advento da Emenda Cons­ titucional n.. o mundo passou por grandes trans­ formações.09. bem como a propriedade individual. Tradicionalmente. 1. conhecido como “Nova República”. para os ideólogos do liberalis­ mo clássico. 4. mediante uma in­ tervenção mais incisiva na esfera individual.1985. 25.

penoso e inquietante. O fenômeno descrito surge. com efeito. confrontada pela telocracia do Executivo. de forma cristalina. é intuitivo que a fun­ ção executiva se torna a mais qualificada para esta nova missão. a conquista do bem-estar. mas também o bem-estar de todos. no período de cinco anos. para ser legítima. as decisões eram tomadas pela maioria pre­ cária de cinco contra quatro votos. Este percebeu. Os juizes da Suprema Corte seriam a personificação da nomocracia. desde logo. Estados em desenvolvimento. de Budin. manteve-se como tendência dominante nas Constituições americanas. pela telocracia (g. Assim. sob o pesado fardo das questões econômicas. vale dizer. uma vez que aquela mal se adapta a reger a política econômica. tudo isto é aparência: o presidente dos Estados latino-americanos se mostra. nomos: norma). tam­ bém a América Latina sofreu a influência ideológica e institucional do Estado in­ tervencionista. de caráter fortemente intervencionista. em não reconhecer validade às leis do Congresso. pro­ venientes em grande parte da aristocracia sulista. para reproduzir o velho conceito tomista acerca da essência do bem co­ mum.3) Presidencialism o versus parlamentarismo na Am érica Latina O regime presidencialista. Os poderes atribuídos ao presidente vão muito além da função mera­ mente representativa. A Suprema Corte nor­ te-americana. porque não estavam previstas. téleios. a predominância da finalidade da lei. como queria o pensamento de Bolívar. que as novas medidas que tomariam despertariam a aver­ são da Suprema Corte. traz consigo a inevitável aporia . Por isso. por aqueles “que nunca se aposentam e raramente morrem”. timbrou.7 Regimes de governo 177 próprias forças. contudo. Os novos tempos. da norma em si. 1. formada. atualmente. ou seja. renova-se a concepção medie­ val de que o estado tem por missão garantir para todos o bem-estar. já que somente nesta concepção o homem estará plenamente realizado. passando a ser denominadas. O processo desenvolvimentista. final). embora num atavismo tipicamente rousscauniano as Constituições ame­ ricanas timbrem em colocar o Legislativo antes dos demais poderes. uma Constituição não deve visar apenas a liberdade. a anular 377 leis! Mesmo assim. Para intervir de maneira determinada o Estado carece de dois pressupostos: ra­ pidez nas decisões e conhecimento técnico das questões. não se circunscreveram aos Estados Unidos. aqui. um sol ao redor do qual giram as forças sociais. com o advento da política do New Deal do Presidente Rooscvclt. five to four e profligadas num panfleto intitulado Government by Judieiary. uma vida huma­ na e digna. segundo alguns. adotado desde logo nos primórdios do constitucionalismo latino-americano. parcialmente em descompasso com os novos tempos. ironicamente. Ora. fundamental no Estado moderno. Magistrados conservadores. advertia Rooscvclt que. Ao contrário. na Consti­ tuição. chegaram. expressamente. especialmente por termos. Trata-se da supe­ ração da nomocracia (g. pois se lhe outorga um amplíssimo poder para dirigir o gover­ no.

. procede de uma arraigada tradição: nas épo­ cas indígena e colonial tivemos executivos fortes. depois. g. a de Honduras. se propugna o retorno ao parlamentarismo como regime de governo em nosso país. o parlamentarismo deixou.1917. a Constituição me­ xicana de 31. autoritários. Relativamente ao parlamentarismo. o princípio da irrelegibilidade constitui a conquista mais signifi­ cativa do constitucionalismo. v. havia condições favoráveis ao parlamentarismo. com a in­ dependência. Até o momento.01. O Executivo latino-americano distingue-se por seu acentuado caráter unipessoal. agrários e previdenciários. a da Bolívia. o parlamentarismo parece muito complexo para nações que ainda não alcançaram um amadurecimento político indispensável. Outras Constituições que adotaram institutos do parlamentarismo: as de 1806. os latino-americanos jamais demonstra­ ram uma inclinação maior. Na verdade. as Constituições latino-americanas. na verda­ de. reação contra o excessivo poder presidencial: redução da duração do mandato pre­ sidencial. de 1838-1889.. que intro­ duziu o voto de censura que subsiste em textos posteriores. conferem atribuições importantes ao presidente para intervir nos problemas econômicos. O primeiro período parlamentarista brasileiro. cláusula antirreeleicionista. como vimos. sequer o mencionava. inaugurou. desenvolvimento nacional e justiça social”. em várias Constituições encontraremos diversas nuanças parlamentaris­ tas. edu­ cacionais. Não obstante isso. pelos caudilhos civis. foram substituídos por caudilhos militares e. a do Peru. estavam obriga­ dos a se demitir. e. No Brasil tivemos experiências parlamentaristas entre 1838 e 1889 e de 1961 a 1963. na América Latina. marcando o ad­ vento do Estado do bem-estar social neste continente. os chamados mecanismos anticaudilhistas. então. de 1825/30. a in­ serção dc uma ordem econômica e social no ordenamento jurídico. um valioso ensaio de José Miranda considera o enfraqueci­ mento e a constrição do Executivo como uma das tendências mais recentes do constitucionalismo latino-americano. por isso. atualmente. 1859 e de 1867 do Haiti.178 Teoria Geral do Estado “democracia liberal.1874 e 1891. Enquanto o presidencialismo enseja uma centralização considerável do poder e proporciona instrumentos de controle ao governante. Em contrapartida. incorporação ao presidencialismo de alguns institutos parlamentaristas etc. Em tal sentido. 123 e segs. foi. em seus arts. de 1933. no Novo Mundo. assim. Sob o impulso das correntes socialistas que floresceram na Europa do século X IX . e a do Uruguai. 1845. uma herança significativa para o direito constitucional. como vimos. que estabeleciam que os ministros poderiam ser censurados pela Câmara dos Deputados e. as da Venezuela de 1864. embora velado: . firma-se a tendência de conside­ rar o presidente da República o principal órgão propulsor do desenvolvimento na­ cional. tal característica. em maior ou menor grau. sendo que. Aqui. enunciação expressa das atribuições presidenciais. de 1934. de 1931/37. o resultado de uma longa evolução consuetudinária. os quais. pois a Constituição não previa o regime parlamentarista. Diga-se o mesmo da Constituição equatoriana de 1878.

Dessa forma. 99 se resolvem por si só e uma não tem. tendo a Constituição por este criada per­ durado até a queda de Allende. . Constituem as Forças Armadas o fator real de poder de maior peso na Amé­ rica Latina. eram considerados um tanto extra­ vagantes e pouca influencia exerciam nos acontecimentos. indiretamente. 1. bem como pela introdução da tec­ nologia em seus quadros. Havia. denominada pretoriana. Desacreditado. elementos mais radicais ou exaltados. c claro que os problemas sociais te­ nham a sua solução retardada. Por volta dc 1880.7 Regimes de governo 179 A geração de homens públicos que criou a constituição do império era. Dizia-se. submetidas à vontade do caudilho. e por seus representantes mais significativos.que pressionam. então. Particularmente. que. dc cem questões que afligem o Estado. o Poder Executivo latino-americano. ironicamente. os militares transformaram-se em ver­ dadeiros árbitros ou tutores do poder político velada ou ostensivamente. acumulando-se e ensejando as criscs. c quando dizemos “Poder Executivo” estamos nos referindo. Despreparadas e desprovidas de espírito profissional. em última análise. ao próprio presidente da Rcpública. partidária do regime monárquico parlamentário e moderado. que preconizavam uma democracia avançada e sonhavam com a república. cm maior ou menor escala. contudo. Nos Estados latino-americanos. surge a época do profissionalismo. por iniciativa do Presidente Alessandri. improvisadas. formando coalizões fugazes e desmoralizadoras para o regime: entre 1891 e 1920. São estas forças. As Forças Armadas eram. então. já se per­ cebe. pelo desenvolvimento econômico c pela estabilização po­ lítica.4) Presidencialismo. estavam sempre prontas para motins e quarteladas. no Chile foi agitada a política parlamentarista: os partidos políticos aumentaram em número. Numa primeira fase do militarismo latino-americano. situamo-nos na época da emancipação. fatores reais do poder para empregarmos uma expressão típica de Lassalle . sc as condições políticas do jogo parlamcntário não permi­ tem a continuidade dc uma política ministerial. motivada especialmentc pela decadência do militarismo caudilhista. embora rara­ mente o proclamassem. na maio­ ria. que não seria de se preocupar com os problemas políticos. pois. Tais elementos. se confunde com o órgão. o regime parlamentarista foi definitivamente extinto em 1925. sem dúvida. solução. real­ mente. daí a im­ portância de se mencionar o fenômeno. incipien­ tes. as Forças Armadas e a Igreja. com o conseqüente surgimento de governos civis. militarism o e Igreja na Am érica Latina Não podemos deixar dc registrar duas forças sociais. em 1973. houve nada menos do que oitenta mudanças mi­ nisteriais.

exercendo. As Constituições. de relativo prestígio junto ao Poder Executivo. da Constituição brasileira. Para a vigilância e conservação da ordem públi­ ca. o art. definitivamente. agora. da dominicana. duverger de - Louis. 53 da Constituição colombiana e 6° da Cons­ tituição do Paraguai. 55. da Constituição argentina. 2° e 86. 172). 86. haja vista a Constituição do Império exigir. embora não incisivamente como as Forças Armadas. 180. além de nomear seus principais oficiais. os arts. XV. logo depois os norte-americanos substituiriam. IV a VII. pois estão convencidos de que sua participação política é. criam medidas para refrear os arroubos do militarismo. a defesa do Estado contra a agressão externa. e dispondo delas para a segurança interna e externa do país. § I o. §§ 15 a 17. estabelecem uma teia indissolúvel de articula­ ções entre o presidente e as Forças Armadas. a profissão de fé católica para o exercício da função de senador. A partir de então desejam gover­ nar. 184. na América Latina. a Igreja ainda joga importante papel. X III. o art. da paraguaia. ensejando normas que orientam e limi­ tam a atuação do Executivo. haja vista os arts. o art. c o art. da equatoriana. Outras Constituições. Belo Horizonte. da panamenha. 89. §§ 14 a 17. C. os quais modernizaram o aparato bélico e a administração militar. sem dúvida. 9° e 14. por sua vez. §§ 15 a 17. art. militares e técnicos alemães c franceses. desfru­ ta. haja vista o art. 190 c os Capítulos III e IV da venezuelana. sendo instruídas para o desempenho de sua principal missão. atuarão as forças policiais necessárias”. no art. apoderando-se do poder e não mais se conformando em simples­ mente restaurar o regime para entregá-lo aos civis. da mexicana. 12: “ Fica proscrito o Exér­ cito como instituição permanente. da Constituição boliviana. Uteha. o sistema capitalista entra em crise. o art. é o caso da Constituição da Costa Rica. ceram . 84. então.180 Teoria Geral do Estado Com a profissionalização. 1957. En­ tre tais normas. Em outras Constitui­ ções. o art. Itatiaia. O segredo dos hititas. o art. 2) PARLAMENTARISMO Bibliografia: LAPORTE. embora não referentes a este de maneira expressa. III. México. Em 1929. inicialmente. 76) e do Paraguai (art. preceito este seguido pelas Constituições da Argentina (art. § 11. Os regimes . determinando que aquele será seu co­ mandante-em-chefe. necessária. então. 95. e os militares surgem. sobrevêm a Grande Depressão. mencionam-se as que declaram religião oficial a católica. . 2° e 94. 189 e 193 da nicaraguense. as que concedem franquias tributárias à Igreja. considerável poder de controle sobre as Forças Armadas. as Forças Armadas adquirem esprit de corps. Seus instrutores foram. 164. Los hititas. prestígio este que já foi imenso. da argentina. §§ 8o. as que obrigam o Estado a celebrar concordatas. como um fator de poder que rapi­ damente se politiza. W. os europeus neste mister. Quanto à Igreja. 1957. entretanto. Maurice.

The English parliament. por todas as formas. Assim. a partir do século passado várias expedições arqueológicas começaram a comprovar que os hititas desempenharam papel dos mais importantes na histó­ ria política da Antiguidade oriental. São Paulo. ed. l in d o s o .. mes- . Habitaram a Ásia Menor. como visto. e importante notar. f e r r e ir a f il h o . São Paulo. se a forma do go­ verno for a monárquica. Parlamentarismo é o regime de governo em que a chefia de governo (adminis­ tração) é confiada ao próprio parlamento . pois há regimes. r o d r ig u e s alves f i­ F. United Kingdom. as origens históricas das práticas parlamentaristas são. há parlamento no Brasil. constituinte e Constituição. nos Estados Uni­ dos e na Suíça. 1966. Elas poderiam ser identificadas como um povo da Antiguidade oriental. Mário Curtis Giordani apon­ ta alguns trechos dos Livros Santos que mencionam os hititas (Gênesis 23. Fixados naquela região desde o segundo milênio antes de Cristo.1) desposara mulheres hititas. que tinham. O protótipo do regime parlamentarista é o parlamentarismo britânico. Saraiva. çalves. 1963. como faz Maurice Duverger. Curso de teoria do Estado.. foi ardentemente desejada pelo rei David. em que há um parlamento (Congresso). 29-32) sobre o episódio da compra de um terreno sepulcral por Abraão. incidentalmente mencionado na Bíblia. como os frígios e os celtas. 9 e 49. a nosso ver. que apresenta uma longa evolução histórica. 34-35) e Salomão (3 Reis 11. muito mais antigas do que sc pensa. Necessário notar. Mário Curtis. Saraiva. Até pouco tempo. e por exemplo. 5. José. que um regime parlamentar não é. a sua consagração definitiva. uma vez que a chefia de governo e atribuída ao presi­ dente da República. 3-20. São Paulo. Saraiva. 1961. Kenneth. O que é parlamentarismo? São Paulo. São Paulo. Embora. 1982. Betsabé. um regime parlamentarista. salvetti n e t t o . Penguin Books. Vozes. Entretanto. mas não há parlamentarismo. os hititas nada mais eram do que um povo obscuro. 1986. Difusão Européia do Livro. origem indo-europeia. como o presidencialista. que buscou.7 Regimes de governo 181 políticos. necessariamente. na Inglaterra. História da antiguidade oriental Petrópolis. Exemplificando. . 1982. mas não há parlamentarismo. mas eram de origem indo-europeia. ed. Pouco mais do que isso era ditado a respeito dos habitantes do “país de Hatti”. lho m a c k f . Vejamos.daí a expressão parlamentarismo sen­ do exercida por um primeiro-ministro que comanda um gabinete formado por ministros auxiliares. os hititas. Pedro. mulher do hitita Urias. os hititas são mencionados como um povo felizardo que ha­ bitava uma terra na qual brotavam o leite e o mel. No Êxodo (3. Esaú (Gênesis 26. as instituições parlamentaristas encontrem. ao rei. Estado. Curso de direito constitucional 11. 8). 1968.n z i e . eliminar seu marido. Manoel Gon­ g io r d a n i. ao passo que a chefia de Estado (representação do Estado pe­ rante outros Estados) é confiada ao presidente da República ou. 25.

de resto. que implicava o direito de o rei escolher seu sucessor junto a qualquer membro da no­ breza. ademais. veremos que também as ins­ tituições hititas apresentam forte conotação ocidental. a ponto de se afirmar que um alemão contemporâneo compreenderia. por incluir línguas da índia. até a consolidação do despotismo monárquico no século XVI. que comprovou ser o hitita também um idioma eu­ ropeu.linguista alemão (1791-1867). selar a união com seus vizinhos. deliberar so­ bre matéria fiscal. embora a escolha devesse ser referendada pela assembleia denominada “pankus” ou “p a n k u s h Assim. As instituições políticas hititas nada têm em comum com as dos povos semi­ tas. com o estabelecimento do Foral de Sobrarbe. as Cor­ tes de Aragão escolhiam para chefe Inigo Arista. Mesmo que deixemos de lado o fator lingüístico. formando o então denominado Condado Portucalense. implorando por água: alemão/vasser = hitita!vâder. A palavra comer. o clamor de um hitita perdido no deserto. conforme adverte M ário Curtis Giordani). A princípio eletiva. também as instituições parla­ . estas verdadeiramente des­ póticas. provavelmente. reuniam-se assembleias para escolha do sucessor. a partir do século X I. a realeza seguiu. após a morte do rei.. ressurgiriam com as modifica­ ções peculiares a cada época. mesmo. Em terras hispânicas. em todos os Estados orientais. Os hititas. O regime político era o monárquico. sendo rigidamente controlado pela assembleia. Mesmo sua atitude para com os povos vencidos denota um elogiável humanitarismo c um sábio tato diplomático: ao invés de massacres odiosos. tal concepção política é inteiramente estranha às outras monarquias orientais. ao país. que no inglês é eat. Ademais. afirmam inúmeros pesquisadores. semelhança com o hitita ezzatteni. Em Portugal. já no século IX. Desde os estudos dc Franz Bopp . milhares de anos mais tarde. e deste continente trouxe­ ram instituições que. muitos aspectos obscuros do idioma hitita foram esclarecidos. evidentemente. como ocorria em Astúrias e Leão. Nem por isso alguns autores deixam de ver as origens do parlamentarismo moderno na Espanha e Portugal medievais. como aqueles que levaram a efeito os terríveis assírios. no antigo alto germânico ezzan. poderia ser qualificado dc indo-europeu . como. as Cortes podiam.até as conclusões levadas a efeito por Friedrich Hrozny. depois. que integra­ va os domínios hispânicos. perfeitamente. Na Espanha. como visto. indo-europeia. procediam da Europa. indo-europeus. de origem asiânica (esta palavra designa os povos da Ásia Ocidental que não são semitas nem.182 Teoria Geral do Estado ciaram-se com populações autóctones. evitando. mediante matrimô­ nios reais. no latim edo. o monarca hitita não era dotado de poder abso­ luto. O caráter dc indo-europeu atribuído aos hititas parece ter mais conotação lin­ güística do que racial. bem como da maior par­ te da Europa. despertar o ódio dos vencidos em virtude de atos atrabiliários. da Ásia Central e Ocidental. Ora. que provou existir um grupo dc idiomas que. que daria origem. apresenta. o sistema de cooptação. os hititas buscavam. vetando a criação de novos impostos.

além disso. as instituições políticas me­ dievais européias evoluíram de maneira diversa no continente e na Inglaterra. Como assinala Maurice Duvcrger. Na França. de tal forma que. desinteressou-se dc participar das reuniões do gabinete. A partir do Bill of Rights. Sendo o gabinete formado por membros do próprio parlamento. limitada. havendo duas facções bem deter­ minadas no parlamento. que. em definitivo. o rei não poderia mais governar sem o apoio parlamentar. opera-se a queda do gabinete. sobrepondo-se ao parlamento. a monarquia feudal cederia lugar à monarquia absoluta. com a monarquia ab­ soluta enfraquecendo paulatinamente. pressionada por vizi­ nhos continentais. o fator de sua fraqueza. passou a escolher. que dependia de um imposto também permanente. passando dc monarquia limitada para mo­ narquia parlamentar. continuan­ do o gabinete a assumir a responsabilidade pela atividade governamental. então. um que atuasse como intérprete. alemão de origem. se ao gabinete compete a função governamental. com Jorge I. já se nota que. ao passo que o povo francês ajudava seu monarca a superar a tutela feudal. ocorreu o inverso. se entendia o inglês. O rei. A Inglaterra. como resultado disso. Pode. ao contrário. den­ tre seus membros mais ativos. Com efeito. Daí a sugestiva expres­ são de Bertrand Russell: “O Primeiro-Ministro tem mais poder do que glória. por exemplo. imediatamente. recebe des­ te moção de confiança. Com o Ato do Estabelecimento. o poder do rei inglês foi. cobrando o parlamento autono­ mia sempre maior. de tal sorte que ele passou a formar um conselho (gabinete) junto aos membros mais eminen­ tes do partido majoritário. Surge. entre­ . acelerada por circunstâncias histó­ ricas. o surgimento da figura do primeiro-ministro. a França necessitava de um exército permanente. No século XVI a monarquia inglesa tentou restaurar seu poder. por outro lado. não se viu às voltas com tais necessidades. Este curioso fenômeno prosseguiu com Jorge II. O surgimento do gabinete antecederia. Retirada esta. pois do próprio parlamento dependeria a administração das Forças Armadas e a cobrança de impostos. e ligado à Dinastia de Hannover. por isso. Ora. ao monar­ ca resta apenas a função representativa ou chefia de Estado. entretanto desejando conhecer as deliberações do gabinete. passando este órgão a governar. o rei in­ glês tornou-se fraco e o da França. não o falava. contribuía para tal evolução. Entretanto. não haveria outra alternativa para o rei a não ser buscar apoio do grupo majoritário para criar tributos e controlar o Exército. pois o povo e a burguesia uniram-se aos barões para minar as prerrogativas reais. no dealbar do século XVIII. criou-se um impasse: o novo rei não falava o inglês c. com o qual os Estados Gerais foram forçados a concordar. a monarquia tornou-se. muito forte. paradoxalmente. a fi­ gura do primeiro-ministro. e por isso o rei via-se obrigado a convocar o parlamento sempre que precisava de dinheiro. mas Jaime II foi deposto e. daí a periodicidade do parlamento britânico.7 Regimes de governo 183 mentares desfrutaram de grande prestígio. A situação geográfica da Inglater­ ra e da França. e o rei mais glória do que poder”. longe do continente. en­ quanto na Inglaterra. com a promulgação da Declaração de Direitos (Bill of Rights).

além disso. a verdade ê que. entre 1961 e 1963. treze por hostilidade da Câmara ou por falta de apoio parlamentar. se a primeira Constituição brasileira. portanto. d) gabinete exercente das atribuições inerentes à chefia de governo. Durante meio século de Segundo Império. como observa Pe­ dro Salvetti Netto. pois esta não tem outra missão a não ser rejeitar os projetos votados pelos Comuns que não tenham caráter finan­ ceiro. caíram cinco ministérios devido a moções de descon­ fiança da Câmara dos Deputados. sendo o pri­ meiro-ministro líder da maioria. a Câmara dos Comuns pode recolocar o pro­ jeto vetado em nova votação. confere o direito de participação da Câmara dos Lordes (pariato). o regi­ me parlamentarista. o incipiente parlamentarismo brasileiro caracterizava-se pela instabilidade mi­ nisterial. No Brasil. durante o Segundo Império. em­ bora seja o rei que designa os membros do gabinete. pois os gabinetes não ultrapassavam. pode o speaker (presidente) trancar a discussão e aprovar a emenda que con­ siderar a melhor. tivemos duas experiências parlamentaristas. c) primeiro-ministro. A Câmara dos Co­ muns possui maior ascendência que a dos Lordes. solidariamente responsáveis pelas deliberações tomadas. de fato. com este. A primeira. Em tese. Com efeito. militares e eclesiásticos. conclui-se que o parla­ mentarismo inglês apresenta quatro características marcantes: a) responsabilidade política do gabinete. Im­ portante notar que os ministros que assessoram o primeiro-ministro e que. Na prática. e 22 simplesmente retiraram-se do poder por desentendi­ mento com o imperador ou por mágoa. de 1824. o gabinete e o parla­ mento. Eis por­ que a opinião pública constitui o fundamento do regime parlamentarista inglês. já por volta de 1827. Do exposto. a Coroa apresenta inúmeras prerrogativas: nomeia funcionários civis. todos. que ao povo se atribui a decisão definitiva e irrecorrível. atribui condecorações. dois anos de duração. por influência do sistema político inglês. portanto: a Coroa. o gabinete dissolver o parlamento e convocar o povo para eleições gerais.184 Teoria Geral do Estado tanto. Nota-se. no mundo moderno rara é a lei importante que não tem caráter finan­ ceiro e. constatavam-se práticas parlamentaristas no País. de direito. o fato é que. Importantíssimo ressaltar a severidade na exigência da tramitação mais rápida dos projetos de lei. O parlamento é formado por duas câmaras: a Câmara dos Comuns (eleita por su­ frágio universal) e a Câmara dos Lordes (nomeada pelo rei). líder do gabi­ nete. b) gabinete formado com os membros do partido majoritário no parlamento. havendo rejeição. representada pelo sistema da guilho­ tina. expressamente. São ór­ gãos essenciais ao parlamentarismo inglês. a segunda. Já naquela épo­ ca. aos quais se junta o Poder Judiciário. chefe do partido majoritário. em face da ingerência deste na Adminis­ . se os debates ameaçam ultrapassar o prazo fixado para as discus­ sões. fatalmente será ele quem escolherá seus ministros. tor­ nando impossível o planejamento de um programa administrativo. não previa. se ocorrer dissídio político entre os dois órgãos. Ora. formam o gabinete são. como faz ver Pedro Salvetti Netto. mas sem­ pre referendando as decisões previamente tomadas pelo gabinete. pelo qual. em média.

. Com efeito. o regime parlamentarista é propício apenas aos sistemas bipartidários. nos quais não ocorre a fragmentação indesejável da opinião parlamentar e. Por isso. o Presidente João Goulart. panaccia que permitiria a posse de João Goulart.e também frustrada . Enfim. Foi. 4. as Forças Armadas. portan­ to.09. mas ao mesmo tempo sua total imobilidade quanto a uma efetiva função governamental. depois. Ape­ nas quinze meses após.7 Regimes de governo 185 tração. muitos autores apontam o sucesso do parlamentarismo inglês como o resultado de dois fatores peculiares aos anglo-saxões: uma profunda consciência nacional demonstrada no respeito às tra­ dições políticas c às instituições c. que instituiu o parlamentarismo. A segunda . a existência dc apenas dois partidos que efetivamente decidem as eleições. João Goulart.implantação do parlamentarismo entre nós ocorreu cm 1961. motivada por um casuísmo desmoralizador do regime. com a revogação do Ato Adicional. a estabilidade ministerial é muito maior. então. e seus seguidores pressionaram as lideranças par­ tidárias para que fosse adotado o regime parlamentarista. que ficaria a cargo do gabinete.1961). de 02. que consagrou o retorno ao regime presidencialista. O resto é história. Entretanto. votado o Ato Adicional (EC n. es­ timulou e obteve a realização de um referendo popular. a renúncia de Jânio Quadros ensejaria a imediata ascensão à presidência do vice. preocupadas com as tendências esquerdistas do novo presidente. insatisfeito com a situação.

Unesp/Boitempo. Mestre Jou.8 IDEOLOGIAS 1) CONCEITO DE IDEOLOGIA Bibliografia: a b b a g n a n o . denominando a “análise das sensações e das ideias”.] a ideologia não é apenas um sistema de ideias sobre a ordem social. x if r a Robert e outros. portanto. 1982.. Dirige-se às massas. age como um motor que gera a força motriz da História. Bosch. Casa Editorial. pela ação direta. totalitária. expressando o clima social e o esta­ do de ânimo próprio de uma sociedade concreta. . certo falseamento da reali­ dade. simples­ mente. Uma ideologia política vem a ser um sistema de crenças aceitas como verdades inelutáveis. nesse sentido. fala-se em ideologia burguesa. expressa-se de forma simplificada. Toda ideologia tem as vistas voltadas para a ação. em 1801. A ideologia se caracteriza.. irracional. criando-a. e c c l e s iia l l . O termo ideologia foi criado por Destut de Tracy. rudimentar. Ideologia. Nicola. muitas vezes violenta. São Paulo. Dicionário de filosofia>2. 2004. o pen- 186 . Editorial Tecnos. eagleton . Trata-se de uma concepção pecu­ liar do mundo c da Humanidade e. Ideologias políticas. Las ideologias dei poder en la Antigiiedad. tolerando. São Paulo. em face do exposto. Jordi. 1983. mas princi­ palmente sobre as ações a serem levadas a efeito sobre esta.. ed.. M adrid. Como assinala com clareza Jordi Xifra [. modificando-a ou. justificando-a. 1997.. Terry. volta-se muito mais para os que “atendem” que para os que “entendem”. li­ beral. marxista e tantas mais. c a ponte que une a teoria à prática. mesmo. Trata-se de um princípio ativo destinado a atuar sobre a realidade social. Barcelona. Em outras palavras.

desprezado por Marx justamente por ser utópico. vários trechos da Bíblia estão impregnados de ideias socialis­ tas: Jeremias clama contra “os gordos a luzirem gordura”. Júcar. justamente. m os São Paulo. o grande erro dos socialistas utópicos vem a ser. Segundo a doutrina marxista. Rio de Janeiro. seu socialismo científico. interpretar cientificamente os fatos sociais.C. tem a ideologia como um complexo dc concepções falsas. jo u . mas es­ tes socialistas não souberam explicar o modo de produção do capitalismo. Los anarquistas. por completo. a idealização de vastos planos de reconstrução social sem levar em con­ ta a vida real da sociedade. irracionais. Global. na mesma linha Karl Mannheim. nettlau. e Louis Althusser que considerava incompatíveis ideologia e ciência. enfim. afirmava. Vejamos algumas ideologias que fizeram escola e agitaram as massas.. do modo de produção econômico. portanto. D aí Marx jactar-se de opor. Reconhecem os marxistas que alguns socialistas pré-marxistas teriam percebido as contradições inerentes ao capitalismo e que a propriedade privada deveria desaparecer. James. ignorando. Do socialismo utópico ao socialismo científico. Histórias das doutrinas políticas. negação. Bouthoul. Ezequiel atribui a Jeo­ . sempre a serviço do status quo. Friedrich. Grijalbo. em maior ou menor escala.. O primeiro pensador a empregar a palavra como modelo político teria sido Thomas Morus. 1985. Madrid. Barcelona. pensador da Renascença que imortali­ zou o vocábulo cm obra famosa Utopia. O socialismo utópico. um lugar inexistente. designando. Que é uma utopia ? Esta palavra é forma­ da por dois semantemas gregos: w. a luta de classes. a ordem estabelecida. não sou­ beram. que a ausên­ cia dc amor recíproco entre os homens era a fonte dc toda a miséria.8 Ideologias 187 sarnento à ação. na China. Zahar. 7. 500 a. Atua como uma filosofia militante que norteia o desenvolvimento de um sistema sociocultural. simplificadas. ­ Gaetano e g a s t o n . O luxo c a de­ sigualdade social deveriam scr severamente combatidos. O marxismo. na pretensão de cientificidade de seu socialismo autonominado “científico”. assim é que já Mit-sé (Micius). mas também equivocadas. engels. 1977. 1978. imaginário. a um socialismo utópico. 2) SOCIALISMO UTÓPICO Bibliografia: ca. O certo é que o ideal socialista sempre despertou a atenção de filósofos e po­ líticos.. c topos. a respeito da qual trataremos mais adian­ te. 1975. enfim. La anarquia a través de los tiempos. foi verberado severamente pelos marxistas. lugar. ed. que viu nas ideologias concepções não só conservadoras. Max. a im­ portância da vida material. subver­ tendo. Por outro lado.

Isto somente seria possível pela educação. critica a situação econômica da Inglaterra de sua época. auxiliados pelos escravos.188 Teoria Geral do Estado vá estas palavras: “para cima com os humildes. matemática e história. cuidando do problema maior do Estado . fez com que houves­ . na qual. a propriedade privada. Acusado de alta traição. cuja missão seria legislar e velar pela execu­ ção das leis. instituições humanas que seriam. então. contrárias ao desejo da divindade. sendo que cada homem possuiria uma gleba dc terra indivisível. e estas seriam comuns a todos. um pregador de nome Mazdak. ao lado do homem. os nobres ocio­ sos tinham em torno de si inúmeros criados. Isaías sonha com um reino de paz e dc justiça. após exame de seleção.o da educação -. considerado santo por ter recusado a acei­ tar o casamento do rei Henrique VIII com Ana Bolena. Em sua obra A república. indiretamente. O Estado ficaria encarregado de educar o cidadão. foi condenado à morte e executa­ do. Escreveu uma obra intitulada Utopia. Os filósofos nada poderiam possuir dc seu. Eu o re­ duzirei a ruínas. artífices e comerciantes caberia. para o socialismo. Aos quatro anos de idade seria iniciada a educação da criança. na qual se mostra mais realista. segundo ele. Platão critica as desigualdades sociais no tempo da Atenas de Péricles. desde a mais tenra idade. receberiam o sustento da classe trabalhadora e deveriam residir em habitações coletivas com as mulheres que lhes fossem destinadas pelo Estado. com vistas à florescente exportação de lã para o exterior.C. Os demais pros­ seguiriam seus estudos. mediante o repúdio da rai­ nha Catarina de Aragão. Morus era admirador de Platão e da obra deste.) surge. bem como da família. inalienável e transmissível hereditariamente apenas. Aos agricultores. a ruínas!”. Na mesma época de Mit-sé (século V a. admitindo. o aban­ dono da cultura agrícola com a transformação dos campos em pastagens de ove­ lhas. pois Platão vi­ sava à participação da mulher. a dos filósofos. na Pérsia. Mais tarde Platão escreveu outra obra As leis. passavam ao abandono e ao dilema de furtar. 110 qual as crianças aprenderiam música. um curso de filosofia política. visando preencher cargos públicos. sustentar os filóso­ fos. permanecendo nas filei­ ras do exército aqueles que revelassem menor aptidão intelectual. apenas. afirmando a igualdade natural de todos os homens e sugerindo a supressão da propriedade. Previa o banimento da propriedade privada e da liberdade eco­ nômica. pois Pla­ tão estava convencido de que os males que afligem o Estado não teriam fim enquan­ to os filósofos não chegassem ao poder ou os governantes não fossem filósofos. Fariam. por morte do amo. nos problemas políticos. de forma que o pai não viesse a conhecer o filho e vice-versa. que. abaixo com os orgulhosos. a ruínas. Thomas Morus: humanista inglês. Por outro lado. com reservas. roubar ou morrer de fome. os jovens prestariam o serviço militar (homens e mulheres). Enquanto as guerras contínuas enchiam o país de inválidos. sem separação de sexos. que lhes permitiria ascender à casta mais elevada e nobre. Após um curso geral. 110 qual “o lobo repousará junto ao cordeiro e a pantera ao lado do cabrito”.

Somente 110 reinado de Henrique VIII foram enforcados 72 mil ladrões. A monogamia é pa­ drão em Utopia. e estes. o ouro e a prata não possuem utilidade real e constituem um perigo para a vida so­ cial e intelectual. da Calábria. por sua vez. O próprio Morus. mediante sorteio. fundamentada na Utopia de Morus. Tommasso Campanella (1568-1639): foi um pensador italiano. Thomas Morus volta-se indiretamente contra este esta­ do de coisas ao escrever Utopia. assaltos. que escreveu uma obra intitulada Città dei sole. os noivos devem apresentar-se despidos. Thomas Morus não admite a comunhão sexual de homens e mulheres preco­ nizada por Platão. porém. apenas as belezas morais. para que nelas possa entrar quem quiser. e a religião. Para Morelly. o filarca. Morelly: em 1753 escreveu uma obra intitulada Brasilíada. passar um ano na cidade e dois 110 campo. Não há desocupados a consumir o produto do trabalho alheio. admite que sua Uto­ pia (o título completo da obra é Libelus yere aureus nec minus salutaris quam festivus de optimo rei publicae statu deque nova insula Utopia). A mudança de residência depende dc autorização. A terra e os instrumentos de produção devem pertencer ao Estado. alguns membros de famílias numerosas são transferidos para as menos numerosas. Os filarcas. até para os filósofos. As casas são redistribuídas de dez em dez anos. vadiagem. mas cada um aprende um ofí­ cio extra. . Cada grupo de trinta famílias escolhe seu chefe. o grande mal da Humanidade é a propriedade pri­ vada. podendo. porque “ne­ nhum homem será tão filósofo de ver. todos devem dedicar uma parte de seu tempo à agricultura. Em Utopia o trabalho diário é redu­ zido a seis horas: três pela manhã e três à tarde. quando muito. Não havendo comércio em Utopia. depois. a ativi­ dades menos penosas. na mulher. assim. o príncipe. com todas as suas seqüelas: miséria. Em matéria religiosa os utopistas são tolerantes. embora eficaz em ter­ mos objetivos. compromete toda a beleza e o ornamento do Estado. reuni­ dos.8 Ideologias 189 se um encarecimento brutal dos gêneros de primeira necessidade. Até os 25 anos. A família deve ser conservada. Entretanto. rival dos je­ suítas que seguiam Aristóteles. à fabricação de grilhões para os escra­ vos. sendo a esta reduzidos os criminosos. elegem os superfilarcas. mas a mulher deve ser ouvida antes de sua decretação. Para evitar a concentração excessiva de pessoas em certas áreas. os adúlteros e os prisioneiros de guerra. O divórcio existe para os casos de adultério. Existe na ilha a escravidão. meramente tole­ rada. e não possuem chaves. dispensada estava a moeda. o atrativo físico é importante”. dividida em cinqüenta e quatro distritos. Todos são agricultores. que dirige o Estado e que só pode ser deposto se tentar o cesarismo. As viagens ao exterior são proibidas. Ca­ da distrito tem na sua parte central uma cidade espaçosa. Em sua obra preconizava um sistema comunista ideal. Religioso dominicano. que contém os edifícios da administração. Destina-se. Campanella acatava as ideias de Platão. quando se casam. em de­ trimento dc outras. Utopia é uma ilha inexpugnável. da indústria e do ensino. Por outro lado.

com abolição da propriedade privada. então. Inteligên­ cia. fundou no Canadá diversas cidades-modelos. devendo o Estado ser tido como herdeiro. Anti-Dühring. Afirmava que a sociedade deveria ser organi­ zada cm comunidades denominadas falanstérios. Não tinha grandes ilusões. passa a trabalhar como em­ pregado de um comerciante de cereais em Marselha. O período era de fome e o pa­ trão de Fourier. escreveu uma verdadeira apologia do furto e do roubo. Passou a afirmar. mas den­ tro das possibilidades reais. Filantropo. até que o Poder Público assumisse o controle de toda a propriedade privada. de acordo com as necessidades de cada uma. Posto em liberdade. Brissot de Warville: impressionado pelo rigor da legislação dos crimes contra o patrimônio (furto e latrocínio). em caso de não ha­ ver descendência direta. a produção e a distribuição das terras eram regulados pelos prin­ cípios comunistas clássicos. para elevar os preços. Charles Fourier (1722-1837): preso durante a Revolução Francesa por per­ tencer ao partido dos girondinos. nas quais a divisão do trabalho seria feita por intermédio da chamada atração passional ou vocações. nas quais o trabalho. as obras de Dühring não têm a divulgação merecida e. um sistema como este não seria adotado em sua pureza original. mas a igualdade material ou eco­ nômica. jogou ao mar enorme quantidade de arroz. abraçando uma ideo­ logia dc forte matiz socialista. que tem como conseqüência tornar a produção inferior àquela que seria concretizada se o traba­ lho fosse cientificamente organizado. Toda a produção da terra deveria ser armazenada em silos públicos e distribuída entre as famílias. Brissot dc Warville afirma que a propriedade é um direito natural que deve ser limitado às reais necessidades de cada um. perspicácia e uma sólida formação intelectual enciclopédica. não podemos deixar de fazer um reparo a esse respeito e de dizer algo de seu trabalho. muito sugestivamente. Considerava ser imprescindível abolir o regime de su­ cessão hereditária. que a verdadeira igualdade não é a igualdade meramente formal ou jurídica. A partir daí a propriedade passa a ser um roubo. da monarquia. Robert Owen (1771-1858): foi o criador das primeiras cooperativas de pro­ dução e consumo. Inicialmente defensor do Velho Regime. com sua frase célebre: “A propriedade é um roubo”. Impressionado. e deveria ser ado­ tado pela sociedade contemporânea. por isso mesmo. havia renunciado à carreira religiosa de pastor para dedicar-se ao cargo de secretário no Ministério dos Negócios Estrangeiros. afirmando que a falta de or­ ganização do trabalho produz um enorme desperdício de forças. ele começa a estudar a questão social. porém. pensamento que seria depois assimilado por Pierre-Joseph Proudhon.190 Teoria Geral do Estado Gabriel Bonnot de Mably (1709-1785): filósofo e historiador francês. isto é. Infelizmente. jurista e economista alemão. Eugen Karl Dühring (1833-1921): filósofo. Dühring está longe de ser a figura ridícula em que Engels pretende transformá-lo na virulenta obra intitulada. mudou radicalmente de posição cm 1757. O regime comunista seria peculiar à sociedade primitiva. eis o resumo des­ .

que logo foi interrompida em virtude de uma doença dos olhos que o deixou quase cego. Avante!. A . harnecker . Nasceu perto de Berlim e. em economia. 3) MATERIALISMO HISTÓRICO E DITADURA DO PROLETARIADO Bibliografia: a r d u i n i . ed. 1963. v. ed. então. embora injustificadamente. 2. Progresso. 1986. 2. que muito o respeitava. chakhnazárov G. 1983. Combatendo o materialismo mecanicista.. consis­ tente na conciliação das classes sociais. Princípios elementares de filosofia. e foi considerado antissemita por se opor aos elementos judaicos do Cristianismo. 1974. São p o l it z e r Paulo. 1981. Paz e Terra. z\gir. iniciando bri­ lhante carreira de advogado. trad. ed. Fondo dc Cultura Econômica. Era ateu. O marxismo. Dominus. Rio de Janeiro. 2. . He- batalla. e Anti-Dühring. Moscou. 6. porém excessivamente agressiva à própria pessoa de Dühring. logo depois. como já frisamos. Marta. v. mas a de seus abu­ sos. c O 18 brumário de Louis Bonaparte. Karl e e n g e l s . Dentre suas obras destacam-se: O moderno espírito dos povos. Fundamentos do marxismo-leninismo. preconiza uma etapa final da evolução da sociedade. Em 1863 doutorou-se cm filosofia c. 2. 1976. cujo pensamento já está a mere­ cer um pouco mais de atenção que não seja aquela que Engels lhe atribuiu. nesta cidade. Alarmados. Rebatendo a dou­ trina da luta de classes. José Barata-Moura c Eduardo Chitas. ed. 1. Na verdade. El capitai México. Dühring rompe definitivamente com o socialismo marxista. Dedicou-se. . Historia crítica dei concepto de la democracia. apenas o fizemos para efeitos didáticos. São Paulo.. 1979. Entre 1870 c 1878. São Paulo. Tomás. Juvenal. dialética. Rio de Janeiro.. 1979. c a r r il l o barbuy. porque assim Marx o consideraria. O manifesto do partido comunista. . estudou Direito. Dühring foi um teórico e um militante de real significado.. Os concei­ marx tos elementares do materialismo histórico. suas ideias começam a ganhar terreno na doutrina social-democrata. e tal refutação sobrevêm sob a forma de uma obra robusta. Global. Friedrich. E. 1965. Em 1878. m arx . A dialética da natureza. 1959. os dirigentes do partido incumbem Engels de refutar as heréticas colocações de Dühring. Lisboa. Paz f o u l q u ié e Terra. 1984. Rio de Janeiro. Marxismo e religião. Friedrich. mediante uma incisiva intervenção do movimento operário. e iú.8 Ideologias 191 te pensador. Prelo. Lisboa. graças ao auxílio dc amigos. ideias que representam sérias objeções ao pensamento de Marx. passando a defender o ideal da não eliminação do capitalismo. 1983. Lisboa. Karl. afirma uma realidade dinâmico-orgânica da vida. História crítica da economia política e do socialismo c Lógica e teoria da ciência. . Publicações Europa/América. No exercício do magistério tornou-se um líder da ju­ ventude radical. sc colocamos Dühring entre os so­ cialistas utópicos. ao magistério e à investiga­ ção científica. engels. raldo. Paul. Global. Caracas. Georges. Krássine. Monte Avila.

pelos con­ trários. cujo contrário. mas também pela obs­ curidade com que as expunha. a ideia precede a matéria. sendo. Enquanto a retórica pretende impressionar e captar. e é com eles. por sua vez. isto é. diz ele. Tudo é engendrado pela luta. Hegel define a dialética como a conciliação dos contrários nas coisas e no es­ pírito. com justiça. Heráclito insiste na luta dos contrários no mundo da natureza. ao mesmo tempo. idealis­ ta. portanto. enfim. da contradição. que. filósofo do século V a. autor da notável Filosofia da história. e a gramática só se realiza com o contraste entre vogais e consoantes. indefinidamente. O scmantcma dia exprime uma ideia dc reciprocidade. por isso. Uma coisa é ela mes­ ma e o seu próprio contrário. Assim. A natureza. a música só se torna possível com a contraditoriedade dos sons graves e agudos. originará uma antítese e assim por dian­ te. A dialética é a arte da discussão. vai engendrar uma nova tese. Karl Marx (1818-1883) foi muito influenciado pelo pensamento de Hegel. a dialética bus­ ca não apenas convencer. A natureza aprecia os contrários. é o proletário. que traz consigo os germes de seu próprio contrário. Diz ele: Nós somos e. o criador do marxismo costumava ironizar o pensamento hegeliano pelo fato deste afirmar a precedência do espírito à matéria. Dessa forma. de iní­ cio. a dialética com­ preende o raciocínio que busca a verdade por intermédio da oposição c da conciliação de contradições. que ela produz a harmonia. O burguês é o burguês. Heráclito de Efeso. jamais com os semelhantes. não obstante isso. As coisas sc encontram cm perpétuo movimento. A uma tese opõe-se uma antítese. Ela não se confun­ de com a retórica. esta síntese. o pensador hegeliano é tão profundo quanto cerrado. o conceito dc dialética. dizia ele.. consta de três momentos: tese. o conflito destas vai originar uma síntese. luta essencial para o surgimento da harmonia. não somos. entretanto. dos sons diversos resulta a mais bela harmonia. antítese e sínte­ se. as coi­ sas e os fenômenos estão em perpétuo movimento. A natureza une o macho à fêmea. num manual didático como este. Georg Wilhelm Friedrich Hegel. Vamos desmembrar esta expressão apresentando. Heráclito é. en­ fim. pelo que nos restringiremos a apresentar. como já afirmava Herá­ clito. mas ao mesmo tempo a sua condição de burguês é a afirmação da realidade cuja negação.C. a pintura resulta das cores claras e escuras. as linhas essenciais de seu conceito de dialética. diálogo. encontra-se em constante mutação. enquanto Marx afirmava a precedência da ma­ . desenvolveu a ideia dc uma dia­ lética da natureza. O método dialético afirma a identidade dos contrários. consi­ derado o filósofo da mudança e da instabilidade. Realmente.192 Teoria Geral do Estado Materialismo dialético. foi com­ parado a Heráclito não apenas pela semelhança das ideias. de troca de palavras. O processo dialético. mas também levar à compreensão. Os contrários põem-se de acordo.

fundada sob o idealismo. cujo desígnio é eter­ no. entretanto. numa concepção essencialmente otimista. nada mais seriam do que o produto da consciência humana. A mistificação que a dialéti­ ca atingiu em Hegel em nada impede este filósofo de ter sido o primeiro a expor. o pensamento de Hegel achava-se estruturado em magnífica pirâmide. contudo. processo autônomo. é precisamente seu contrário. Para que o pensamento hegeliano se tornasse perfeito. É preciso invertê-la se queremos. isto é.8 Ideologias 193 téria sobre a ideia. do espírito. Em O capital. na qual a História da Humanidade surge como um processo desenvolvido por uma razão universal. Segundo Marx. ad­ vertia Marx. a natureza. despojado do idealis­ mo. o que eqüivale ao materialismo. seria preciso colocá-lo na posição correta. desvendar o núcleo racional. do invólucro místico. enfim. sob o nome de ideia. esta­ ria voltado para baixo. o mundo material existe independentemente da ideia. apenas a nossa consciência teria existência real. o mundo das ideias é apenas o mun­ do material. não é mais do que o seu fenômeno exterior. cujo vértice. o processo do pensamento. criador da realidade. assim ele critica o sistema hegeliano: Meu método dialético não difere somente quanto ao fundamento do processo hegeliano. de que ele faz mesmo. de maneira completa e consciente. da ideia absoluta. o materialismo dialético marxista difere fundamentalmente da dialé­ tica hegeliana. Mas nele a dialética está ao contrário. O mundo material. Segundo a filosofia idealista. Para Hegel. transposto e traduzido no espírito humano. Karl M arx (1818-1883) . as formas gerais do movimento. Assim. a que se referia Hegel em sua Filosofia da his­ tória. O idealismo interpreta o mundo como uma encarnação da consciência do espírito universal. Para Marx. Para Hegel. Para mim. o processo dialético da reali­ dade que denominamos objetiva não é mais do que uma manifestação da ideia.

O princípio essencial do materialismo é o reconhecimento de que o fator pri­ mário é a matéria. a filosofia marxista é muito mais ideologia do que filosofia. E. dizem os materialistas. o secundário. o espaço e o tempo são formas objeti­ vas da existência da matéria. Se se considera que a matéria é o secundário. Não há problema fi­ losófico cuja solução não dependa da maneira como sc resolva a questão fundamen­ tal da filosofia. Em sua 1 Ia Tese sobre Feuerbach. e a consciência. reconhece-se implicitamente que o movimento. Se se aceita o primado da matéria e a sua independência em relação à consciência. quando. Assim. sendo impotentes para a ação sobre as condições do mundo real. ou como o fruto da atividade da consciência humana. Marx emite uma frase curiosa: “Os filósofos não têm feito nada além de interpretar o mundo. baseando-se na experiência social e nas ciências naturais. Assim é que Marx decreta a morte da filosofia contemplativa. desde logo. o problema da relação entre a matéria e a cons­ ciência foi qualificado como a questão fundamental da filosofia. A solução idealista obriga a vê-las como uma manifestação da razão universal. [grifo nosso] No dizer de Marx. Ao contrário do que se pode pensar. o ser. o espaço e o tempo como formas da consciência. é alertar para a necessidade de um conhecimento prévio da realidade que se pretende transformar. que idealismo e materialismo são ideias que hurient de se trouver ensemble. inversa­ mente. Assim: C) materialismo e o idealismo. Chakhnazárov e Iú Krássine emi­ tem com muita clareza. Da resposta que se lhe dê depende também a solução das outras questões relativas à concepção do mun­ do.194 Teoria Geral do Estado Conclui-se. pois se volta para a ação. Será que aqui Marx defende a necessidade da ação di­ reta apregoada pelos anarquistas ou sindicalistas revolucionários? Não . O ser determina a consciência. tentando explicar como as coisas realmente são. Consideremos a questão das leis científicas: a solução mate­ rialista da questão fundamental da filosofia leva diretamente a reconhecer a objetivi­ dade dessas leis. do espírito.. o que ele pretende. cada um à sua maneira. então há que ver o movimento. na verdade. em verdade. o secundário. dois campos inconciliáveis em filosofia. como e por que o homem está alienado. exegeta contemporânea do . todas as filosofias anteriores ao marxismo são alienações puras. A linha divisória entre os dois é o seu diferente modo de resolver o problema da relação entre a matéria e a cons­ ciência. Marx foi notável teórico. para determinar as posições filosóficas. são duas cor­ rentes contrárias. É a afirmação que G. o im­ portante é transformá-lo!”. tendo deixado uma infinidade de obras de real significado para a interpretação da História. o princípio essencial do idealismo c a afirmação dc que o fator primário é a consciência. Pela extraordinária importância que tem. a linha dc Dcmócrito e a de Platão. Todas as filosofias que contemplam o mundo para justificá-lo são meras alienações.. Marta Harnecker. que deriva da consciência. c a matéria.

nem pode existir. vibrações moleculares sob a forma de calor. O movimento é o modo de existência da matéria. análise e síntese química. Não há matéria sem movimento e muito menos movimento sem matéria. Em Anti-Dühring. O que até esse momento existia. da sociedade e sua história. de corrente elétrica ou magnética. de­ fine a dialética materialista como a ciência “das leis mais gerais que regem a dinâ­ mica e o desenvolvimento da natureza. escrito para refutar as ideias do alemão Karl Eugen Dühring. sendo incapazes de transformá-lo porque não conheciam o mecanismo de funciona­ mento das sociedades. da sociedade e do pensamento”. uma das ideias mais vazias e insípidas que há. que funda um campo científico novo: a ciência da História. um puro sonho febril. não. matéria sem movimento. como afirmam os metafísicos. buscando o significado mais profundo deste: A 11a Tese sobre Feuerbach não anuncia a morte de toda teoria. mas uma rup­ tura com as teorias a respeito do homem. existiu.8 Ideologias 195 pensamento de iMarx. aquilo de que as coisas são feitas. eram: teorias filosóficas acerca da História ou filosofias da História. funda um novo campo científico. e anuncia a chegada de uma teoria científica nova. e que somente se transforma sob a ação de forças que sobre ela atuam. da mesma maneira que a teoria científica de Cíalileu. M o ­ vimento no espaço. Friedrich Engcls. A matéria sem movimento é tão inconce­ bível como o movimento sem matéria. chama a atenção para a inconveniência de uma interpreta­ ção frívola do referido texto. uma ruptu­ ra com todas as teorias filosóficas sobre o homem e a História. Engels assim se referiu ao tema matéria/movimento: Nunca. A 1T‘ Tese sobre Feuerbach indica. movimento mecânico das massas mais pequenas sobre cada um dos corpos celestes. ou em várias ao mesmo tempo. isto é. que se encontra cada átomo da matéria no mundo em cada momento dado. que se limitavam a contemplar e interpretar o mundo. em relação à sociedade e sua história. ou então narrações históricas c análises sociológicas que sc limitavam a descrever os fatos que ocorriam nas diferentes sociedades. a maneira de ser a matéria. para os marxistas e os materialistas em geral a . Enquanto para os seguidores de Aristóteles a matéria é causa material. a ciência física. é numa ou em outra dessas for­ mas de movimento. materialista alemão c parceiro intelectual de Karl Marx. ela é essencialmente dinamismo e movimento. que até esse mo­ mento eram teorias filosóficas. O que não existia era um conhecimento científico da sociedade e sua história. Imaginar um estado da matéria sem movimen­ to é. portanto. vida orgânica. Os adep­ tos do materialismo dialético afirmam que a matéria não é uma realidade passiva e inerte. em parte alguma. consequentemente. a teoria científica da História ou materialismo histórico. que não fazem mais do que interpretar o mundo.

fundamentalmen­ te. O materialismo marxista vem a ser.. porém. Já é hora. Fala-se. . isto sim. como substân­ cia indivisa dotada da razão. suas ideias e sentimentos são produ­ tos de seus sentidos. c sim as ideias é que dependem das condições econômicas da sociedade. todos os seres relativos são com­ postos de matéria e dc forma. E se a sociedade muda. eliminada qualquer atividade autônoma do espírito. em verdade. ex. em sua obra Marxismo e religião. ao passo que as ideologias consistem em meras superestruturas con­ dicionadas pela infraestrutura econômica. conclui Barbuy. afirmar que os homens jamais pode­ riam viver numa sociedade comunista. em Aristóteles e nos escolásticos. consiste em assu­ mir uma indesejável postura metafísica de identidade e imobilismo. filosofia e artes são o puro resultado dos sentidos. O empirismo é a teoria do conhecimento segundo a qual a única fonte do conhecimento é a experiência sensível. dizem os marxistas. no grego. Dessa forma. Segundo Marx. Vimos que Karl Marx é materialista. sendo ela. a expressão hileia amazônica). Marx não se preocupa com questões de ordem meramente filosófica. que significa floresta. metafísica. e assim da própria matéria. em matéria-prima ou matéria secunda. Mas o marxismo apresenta uma carac­ terística que lhe é essencial: preocupado. como o fazem muitos autores modernos. Diz ele que o sentido original da palavra matéria é bem diferente do sentido atual. Portanto. Pois bem. enfim. indicando o princípio materno. uma concepção explicativa da História que afirma. O materialismo sem­ pre reduz o homem à sua atividade sensorial. não há maior absurdo do que falar em materialismo grego. concluem.196 Teoria Geral do Estado matéria é causa eficiente. em face de seu egoísmo. também está em constante evolução. nenhuma palavra que signifique matéria no senti­ do materialista contemporâneo. pois o homem. Depreende-se disso que o marxismo derivou. também o homem. especulativa. sua doutrina se opõe ao idealismo. só assume existência efetiva quando recebe uma forma. Das mais interessantes é a tese sobre o materialismo no pensamento antigo formulada por Heraldo Barbuy. para o sen­ sualismo. Vale lembrar que madeira é tradução portuguesa de matéria. Matéria foi a palavra utilizada pelos latinos para traduzir o termo grego hyle. que constitui a estrutura essencial das re­ lações sociais. então. do empirismo e do sensualismo. isto é. ao passo que. mas não se fala em matéria no sentido que os materialistas atribuem à palavra. a economia. em grande parte. o princípio que faz as coisas. que não são as ideias que governam o mundo. madeira e fecundidade (p. pois. a fonte exclusiva do conhecimento são os sentidos corporais. religião. com as graves ques­ tões sociais da época em que viveu. na magistral definição de Boécio. de dizermos algo a respeito do materialismo histórico. antes de mais nada. Personalidade. a economia engloba o conjunto dos esforços do homem para se apropriar da ma­ téria e explorá-la. Matéria deri­ va de mater. que rejeita a precedência da matéria ao espírito. nos filósofos clássicos a expressão matéria é sempre tomada no sen­ tido de princípio passivo e de matriz. Não há.

que são sempre a infraestrutura da sociedade que explica a superestrutura das instituições políticas. mestres de corporações contra jornaleiros. Já para Politzer. 11a Idade Média. após uso prolongado e muitos consertos. a cada momento. das duas uma: sim. Doutrina Engels: [. segundo o marxismo. de alterações nos méto­ dos de produção e de troca. Ao fim de cer­ to tempo. sejam quais forem suas características aparentes. como se eles estivessem. Para ele. a ação. será esta. Na Antiguidade. para considerar apenas a identidade.. No dizer de En­ gels. enfocados uns após outros. Assim é. em sua totalidade. o resto sobra. opostas entre si como as fases do processo dialético. não. Paralelamente vão desenvolvendo-se fundamentos de um sistema oposto. mas um conhecimento eficaz traduzido numa técnica. não é mais do que a própria histó­ ria da luta de classes.. para o metafísico os objetos e suas imagens no pensamento. 11a Ida­ de Contemporânea. estará pronto para a convivência despojada do fator propriedade.8 Ideologias 197 evoluído psicologicamente. ser comparado ao exemplo de uma pessoa que adquire um par de sapatos amarelos. o enfoque metafísico poderia. embora estes já estejam deformados. Amos..] percebe-se que a História. a religião. das relações econômicas. em última análise.. dizem os marxistas. Pensa apenas em antíteses desconexas. ironicamente. a História é uma seqüência de lutas de classes. a postura do metafísico.. a determinante final da evolução his­ tórica. novos. a pessoa continuará a se refe­ rir a seus sapatos amarelos. ainda. resultam. A explicação do fenômeno histó­ rico é orientada para a praxis. até que o antigo seja engolfado por este.. sim. que estas classes sociais que se digladiam são. lutavam amos contra escravos. perfeitamente integrado numa so­ ciedade comunista. patrícios contra plebeus. Todas as transformações históricas fundamentais. os conceitos. que não admite o advento de um novo homem. Assim. Tal pessoa não considerou as mudanças operadas em seu calçado. enquanto a cias­ . Cada sistema econômico cresce até um ponto determi­ nado. são objetos de investigação isolados. a partir do qual surgem em seu seio contradições e fraquezas que acarretam sua decadência. imóveis. capitalistas contra proletários. não. para Marx. A postura metafísica é severamente criticada pelos marxistas. diz Politzer. a filosofia e a arte possam até agir sobre a pró­ pria economia. patrícios. o produto das relações de produção e troca. mestres de cor­ porações e capitalistas detiveram e detêm os meios de produção. a ciência não é mera compreensão ou contemplação. Ela dirá: “vou calçar meus sapatos amarelos”. Embora a política. como algo determinado e eterno. fixos. Assim. religiosas c filosóficas. manchados e descoloridos.

na antiga Roma. todos viverão do seu trabalho. o Estado nada mais é do que o reflexo dc uma sociedade dividida cm classes antagô­ nicas. anotando o Programa do Partido Operário Alemão: . num dado momento histórico. o desaparecimento do Estado coincidirá com a desaparição da propriedade privada. sendo. se o Estado encontra seu fundamento e sua sustentação na luta de classes. segundo o marxismo. Segun­ do o próprio Marx.o Estado . como acentua Duruy. o Estado. que vai para as mãos do capitalista. no qual o Estado será perfeitamente dispensável. Ora. daí a expressão proletariado. não haverá classes sociais. cujos haveres. Quando o capitalismo e seu escudo protetor . assim. o valor das utilidades é determinado pela quantidade de trabalho necessária para produzi-las. sim. da essência da sociedade comunista o pagamento conforme as necessida­ des de cada um. entretanto. Para o marxismo. a ditadura do proletariado. não impediam que seus proprietários. por vezes consideráveis. um pouco mais de­ talhadamente. vejamos. qual seja. O sistema de salários será extinto. ao lado do machado de bronze e da roca de fiar. retorno às primeiras comunidades humanas. então. que se digladiam velada ou ostensivamente. Ora.198 Teoria Geral do Estado se dominada sempre dependeu de um salário. recebe um salário suficiente apenas para prover sua subsistência e sua reprodução. categoria social que. Proletários e oerarius tinham as mesmas incapacidades políticas. igualmente comunistas. É o lucro. sua proprie­ dade e seus interesses. Enquanto esta visão paradisíaca não se configura. ao contrário. era formada por pessoas completamente desprovidas de bens e cuja única finalidade era constituir prole. Depois. em razão da origem. meta final da evolução histó­ rica. Será o império do socialismo de Estado. O proletário ou capite census não tinha o censo necessário para entrar nas classes e. será precedido de um fenômeno marcante. é o resultado de antagonismos sociais incontroláveis. Como as classes sociais têm origem na propriedade privada dos meios de produção. mas os tribunos falavam apenas a favor dos proletários. torna-se claro que o desaparecimento das classes determinará o surgimen­ to de um novo estágio histórico. O Estado. isto é. portanto. podendo os indivíduos possuir apenas bens de consumo. O desaparecimento do Estado capitalista. fos­ sem privados dc certos direitos.receberem o golpe dc morte das mãos do proletariado. dar filhos à pátria e à guerra. vendendo a força de seus braços para sobreviver. Ocorre que o trabalhador não recebe o valor total da­ quilo que o seu trabalho cria. terá desaparecido e passado a pertencer ao museu de antiguidades da História. Então. A diferença entre o valor daquilo que o trabalhador produz e o que ele rece­ be é a plus valia (mais-valia). O Estado seria o aparato utiliza­ do pelas classes dominantes para defender. no qual os bens de produção pertencerão ao Estado. ocorrerá uma fase de transição denominada ditadura do proletariado. em que consiste essa ditadura do proletariado. Segundo Engels. não se confundia com o oerarius. virá o verdadeiro comunismo. ninguém viverá da propriedade. cada pessoa trabalhará de acordo com sua capacidade e receberá uma quantia proporcional às suas necessidades.

do coletivismo ab­ soluto. vadios. já vernaculizada como lumpemproletariado.] o proletariado tem de original. trapo. e proletariat. como as antigas classes dominantes. dc todas as garantias dc existência individual. que farão com que o proletariado desça cada vez mais na escala social. dc todas as formas dc apropriação da riqueza. esfarrapado. de tudo quanto já foi clas­ se no sentido próprio do termo. E. ele não é nada.. Tal expressão. Mas o capitalismo tem tais leis internas dc acumulação c con­ centração do capital (longamente estudadas por Marx no fim do L. soldados desmobilizados. segundo o M a­ nifesto. previsto por Marx (fatal porque dialeticamente ine­ vitável). é a negação de tudo quanto já foi categoria histórica.8 Ideologias 199 Entre a sociedade capitalista e a sociedade comunista renasce o período da trans­ formação revolucionária da primeira na segunda. o advento fatal do proletariado. querer impor um estilo de vida. c lumperei. daí lumpig. Marx reconhece. a revolução sc dará por si mesma. malvado. segundo o marxismo. miserável. cujo caráter internacional tem como denominador comum ser a massa dos oprimidos. É o estabelecimento. não depende da vontade de ninguém impedir essa revolução total: porque a con­ tradição burguesia versus proletariado há dc chegar a um ponto em que o capitalismo não poderá sequer manter o proletariado como classe oprimida. Sendo a negação de tudo. ensinam Marx e Engels. o lumpenproletariaty que qualifica dc “lixo de todas as classes” (do ale­ mão himpen. pelo menos ao nível dc subsistência. Tal ditadura será exercida por uma classe que jamais possuiu coisa alguma e que. Por isso. a par do proletariado propriamente dito. segundo a dialética marxis­ ta. o proletariado não pode. cujo Estado não pode ser outro senão a ditadura re­ volucionária do proletariado. a pauperização gradual tornará completamente impossível a subsistência do proletariado no regime capitalista dc produção c. Barbuy anota. malfei- . dentro de certo prazo. dc todos os mo­ delos dc vida. dos que não têm. portanto. não ser uma classe como as demais. proletariado. significará a destruição dc tudo quanto existiu anteriormente. Sendo o proletariado a classe mais baixa das sociedades atuais (está quase ao nível do subterrâneo social chamado Lumpenproletariat)> quando cie se levantar. uma camada so­ cial difusa. com muita perspicácia. em todos os tempos passados. A este período corresponde também um período político de transição.. não poderá deixar de abater tudo quanto está acima de si. se acha desprovida de maiores ambições. não tem modo de existência parti­ cular. a natureza do proletariado na concepção comunista: [. os senhores mantiveram os escravos. velhacaria. denomina a “massa informe de indivíduos arrui­ nados e aventureiros saídos da burguesia. patifaria). farrapo. que não possui. nem são nada. que no passado lutaram pelo poder: não pode nem mesmo ser chamado pro­ priamente de classe. É o anonimato absoluto. não tem nada. 1° d 'O Capital). dos miseráveis. nesse dia.

Sociedade de Beneficência na medida cm que todos os membros sentiam. vigaristas. organi­ zou-se o lumpemproletariado de Paris em seções secretas. com ele aparentado. Os autores marxistas consideram o lumpemproletariado um elemento de­ cisivo na ascensão violenta dos fascismos. finalmente.000 miseráveis do lumpen. jogadores. detritos e escória de todas as classes a única classe em que pode apoiar-se incondicionalmente. p. mendigos. o proletariado esfarrapado (lumpenproletariat) em sentido . os que se refu­ giam na órbita do pauperismo: Deixando de lado os vagabundos. é o autêntico Bonapartc. Aconteceu assim no seu cortejo a Estrasburgo. caldeireiros. amoladores. Juntamen­ te com roués (devassos) arruinados. flu­ tuante a que os franceses chamam Ia bohcme. era constan­ temente acompanhado por filiados da Sociedade do 10 de dezembro. que só neste encontra de forma maciça os interesses que ele pes­ soalmente persegue. cada uma das quais dirigi­ da por agentes bonapartistas e um general bonapartista à cabeça de todas. toda essa massa indefinida. as prostitutas. no sentido mais ordinário da palavra. burlões. juntamente com rebentos degenerados e aventureiros da burguesia. carregadores. o leão. rufiões. vaga­ bundos. escribas. Na sua Sociedade do 10 de dezembro reúne 10. o Bonapartc sans phrase. em que os grandes trajos. Esta sociedade data do ano de 1849. com meios de subsistência equívocos e equívoca proveniência. a ncccssidadc dc be­ neficiar à custa da nação trabalhadora. donos de bordéis. que teriam dc representar o povo. em que o abutre suíço amestrado representou a águia napoleônica.200 Teoria Geral do Estado rores recém-saídos da prisão. Este Bonapartc. que perderam o sentido de sua classe social. como Klaus Zcttcl. (Karl Marx. galerianos desertores. Sob o pretexto de criar uma sociedade de beneficência. de modo que. Velho roué manhoso. os criminosos. soldados desmobilizados. naturalmente. Para a sua incursão em Boulogne. que sc constitui cm chefe do lumpemproletariado. carteiristas. palavras e poses servem de máscara à ca­ nalhice mais baixa. tornam-se uma excelente massa de manobra que os fascismos utilizam na conquis­ ta do poder. assim: Nestes cortejos que o grande Moniteur oficial c os pequenos moniteurs privados dc Bonapartc tinham. for­ mou Bonapartc a cepa da Sociedade do 10 dc dezembro. tal como Bonapartc. desagregada. lazzaroni. como uma mascarada. 0 18 brumário de Louis Bonapartc. 79-80) [grifo nosso] Os últimos despojos da superpopulação relativa são. trapeiros. enfia uns quantos lacaios de Lordes cm uniformes franceses. maquereaus (cáftens). Eles representam o exér­ cito. reclusos postos em liberdade. deste elemento. que reconhece nestas fezes. que festejar como cortejos triunfais. numa palavra. concebe a vida histórica dos povos e as ações principais destes como uma comédia. batedores de carteiras. os déclassés ou massas empobrecidas da classe média baixa. Marx faz referência ao lumpemproletariado em duas passagens bas­ tante claras. mendigos e tantos mais” . charlatães. numa palavra. tocadores de realejo. nas condições extremas de crise e desintegração sociais de uma sociedade capitalista.

pois. um modelo acabado de instituições político-jurídicas referente à organização do proletariado como agente de uma di­ tadura. eliminando. na concepção marxista. A teoria marxista do Estado não chegou. terceira: degradados. ditatorialmente. Estes seres são candidatos ao exercito dc reserva da indústria. a delinear. referido por Camillo Batalla: . a partir do momento em que a revolução sentiu a necessidade de novas formas jurídico-políticas. 545-6) [grifo nosso] O proletariado dirigirá a tarefa de libertação das massas trabalhadoras explo­ radas. destinada a fundamentar o novo Estado socialista. O proletariado inter­ vém despoticamente . segundo pitores­ ca observação do próprio Marx. marca o período intermediário entre uma fase capitalista e ou­ tra comunista. a imediata desaparição do Estado.8 Ideologias 201 estrito.. incapazes para o trabalho. esta camada social se acha formada por três categorias: primeira. das vítimas da indústria. segunda. e com ela constitui uma das condições de vida da produção capitalista e do desenvolvimento da riqueza. cm verdade. muito menos. as minas. Basta consultar superficialmente a estatística do pauperismo inglês para se convencer de que o número destas pessoas aumenta com todas as crises e diminui quando os negócios sc recuperam. criada pelo próprio Marx. quando são arrolados prontamente c cm massa dos quadros dc trabalhadores da ativa. em razão da imobilidade que lhes im­ põe a divisão do trabalho. não implicará. Por isso. cujo número aumenta com as máquinas pe­ rigosas. São seres condenados a desaparecer. () pauperismo é o asilo de inválidos do exército de operários em atividade e o peso morto do exército de reserva da indústria. incidirá no reforço deste. órfãos e filhos de pobres. dos mutilados. a doutrina mar­ xista pressupõe que a ditadura do proletariado não é mera substituição daqueles que exerciam o poder político. como cm 1860. as viúvas etc. os doentes. o desaparecimento definitivo do Estado será lento e gradual. Como assinala com clareza Farberov. Assim. p. definitiva­ mente. rumo à verdadeira metamorfose do Estado. as indústrias químicas etc. Seja como for. dos operários que sobrevivem à idade normal de sua clas­ se e. Não. pelo contrário.a expressão é do próprio Marx . sua necessidade em sua necessidade. alterando a própria natureza do poder político. (Karl Marx. vai criar uma forma original de poder. parteira da História. comunista. Seja como for. contudo. a burguesia. por exemplo.no direito de propriedade e nas relações de produção. A expressão ditadura do proletariado. El capital. Tal ditadura é inelutável. Sua existência segue implícita na existência da superpopulação relativa. despojos. a ditadura do proletariado não é uma forma política dc caráter demo­ crático e. de forma mais concreta. o poder proletário é original. A revolução proletária. a oposição capitalista-burguesa. nada pode evitá-la. c sempre cm grande ati­ vidade. apoderando-se do aparelho estatal e utilizando-o para dominar. tomou realmente a importância de uma Constitui­ ção. finalmente. pessoas ca­ pacitadas para o trabalho.

se mostraram contrários ao marxismo puro. consequentemente. mas não ao comunismo. porém. finalmente. enquanto a economia rumava. e a reação popular ensejada pela abertura política foi tamanha que a própria União Soviética soçobrou. a sociedade socialista ainda não alcançou essa fase dc desenvolvimento. jamais. mediante uma revolução violenta. como ideologia preconizadora de uma sociedade sem . A verdade é que. celeremente. longe do estágio de um capitalismo avançado. a partir do momento em que desconsideraram a afir­ mação marxista de que a revolução proletária seria viável apenas quando cumpri­ das as condições objetivas da deflagração do movimento. o qual.a odiosa Nomenklatura verdadeira gerontocracia ou governo “daqueles que nunca se aposentam e raramen­ te morrem”. Pelo contrário. mesmo assim tentou-se adaptar um momento de crise político-econômica a um princípio que sempre se afirmou científico! Foram seten­ ta anos de autoritarismo que desembocaram. Ora. a Rússia dc 1917. imaginar! Não se pode. deverá reforçar o seu poder. porém. tirar ilações apressadas c. além disso.202 Teoria Geral do Estado Marx e Lenin. o Estado socialista não desaparecerá. Enquanto. Marx preten­ deu que o Estado poderia ser utilizado mediante uma ditadura proletária. mas o marxismo puro. A celebérrima ditadura do proletariado não se tornou uma ditadura do proletariado. Entretanto. ponto inicial da construção paulatina do socialismo. Desaparecidas as classes sociais. equivo­ cadas do ocorrido na ex-União Soviética. na dolorosa crise do so­ cialismo soviético. conduziria ao desaparecimento das diferenças entre as classes sociais. por intermédio da dita­ dura do proletariado marxista. em prazo tão curto que os mais ferrenhos c otimistas inimigos do regime não poderiam. cm guerra com o Império Austro-Húngaro ou Alemanha. adiantado grau de industrialização do Estado capitalista e insustentável concentração do capi­ tal nas mãos da classe dominante. quais sejam. ressaltaram. ao estabelecercm a lei da extinção do Estado. Sim. a experiência russa demonstrou muito bem que. se Bakunin buscava. o Estado leninista acabou para sem­ pre. En­ tretanto. Os objetivos do leninismo não se concretizaram e. e à abundância de bens ma­ teriais e culturais a serem distribuídos conforme as necessidades de cada um. de­ sapareceria o Estado. que isto envolveria um processo histórico demorado. houver presença da ameaça representada pelos Estados ca­ pitalistas. sem­ pre. chega-se a um capitalismo de Estado. todavia. e que usufruía de todas as benesses de um verdadeiro regime capita­ lista. mas uma ditadura sobre o proletariado. até a consolidação mundial do comunismo. cedendo lugar a uma administração de bens espontânea. ainda era um Estado feudal. a su­ pressão do Estado para um desenvolvimento original da sociedade. A Perestroika e a Glasnost dc Mikhail Gorbachev puseram a nu a constran­ gedora situação. a um ní­ vel tão alto dc conscientização e organização sociais que a obediência natural às re­ gras dc convivência será uma necessidade permanente para todos. para a catástrofe. submetido a uma casta parasitária .

1986. Siglo X X I. Estatismo y anarquia. . 1986. Dalmo dc Abreu. FGV/MEC. igualmente. FGV/MEC. g o n z a l e s -b l a n c o g u é r in Saraiva. isto é. História das idéias políticas. Elementos de teoria geral do Estado. Publicações Europa/América. n o m a d gaard . Scritti politici. Ao vocábulo anarquis­ mo. ed. . v. in Dicionário de ciências sociais. livres. Germinal. . embora ainda utópico. Marins. touchard Georges. “Sindicalismo”. na qual o homem afirmar-se-ia. dirigido por Norberto Bobbio. México. “Anarquismo”. . Jasón. Siglo X X I. Edmundo. prossegue. Etimologicamente. São Paulo. entretanto. 1976.8 Ideologias 203 classes. Mikhail. sempre foi associada a ideia de uma sociedade livre de toda sujeição política autoritária. Madrid. b a k u n in . Cieorge H. im­ postas por uma classe dominante. é fácil depreender que por anarquis­ mo entende-se toda doutrina que afirme ser o poder político. Diccionario dc política. N. Júcar. sorel. Madrid. cias sociais. Rio de Janeiro. “Anarquismo latino-americano”. 7. 1981. é impossível dar uma definição precisa do anarquismo. 7. em verbete no Dicionário de política. e sim uma aspiração permanente. Ettore. 1963. o vocábulo anarquismo deriva do grego a = negação + arche = governo. I 'anarquia. 2. Nicola. Fundo de Cultura. 1971. Rio dc Janeiro. 1976. b o b b io . representando. Não se deve ca­ talogar. Carlos M . Turim. z o c c o l i. Heréticos da política. v. Rio de Janeiro. Como assinala Gian M a­ rio Bravo. Historia de Ia teoria política. desenvolvida livremente. Los sistemas sociales contemporâneos. 1985. entretanto. 1930. inexistência. sempre. o marxismo como uma espécie de anarquismo. sob a égide do regime comunista. 1907. em razão de sua própria atividade. 1985. Mulford Q. . s a b in e . não um objetivo cumprido e elaborado em definitivo. nômica. Daniel. Utet. num contexto sociopolítico no qual to­ dos seriam. Madrid. in Dicionário de ciên­ k e g in i. Seja como for. 4) ANARQUISMO E SINDICALISMO Bibliografia: d a l l a r i. Fratelli Bocca. Turim. dominação do homem sobre seus semelhantes. Norberto e m a t t e u c c i . porque o ideal a que se refe­ re o termo jamais sc consolida. in Dic­ cionario de política. Anarquismo. de Norberto Bobbio e Nicola Matteucci. oster- M adrid. Lisboa. “Sindicalismo”. in Dicionário de ciências sociais. Rio de Janeiro. 1. v. Neste sentido. pelo menos só com a ruína do Estado soviético. ainda não foram totalmente desmentidos.. 1976. Max. G. porque seus postulados. 1968. FGV/ rama M EC. Jean. desnecessidade ou repúdio a qualquer forma de governo. o próprio marxis­ mo antevê uma sociedade futura desprovida de normas coercitivas de conduta. 1986. Rio de Janeiro. distor­ cidos pelo leninismo. permanece íntegro. mesmo porque Marx destacava sua doutrina das demais doutrinas antiestatais por considerá-la a . Fondo de Cultura Eco­ s ib l e y . a organização social e a autoridade religiosa perfeitamente dispensáveis.

aspirando a uma fraterni­ dade universal e à condenação da luta pelo poder. como veremos. e o Estado deve ser abolido” (B. mostrando-se indiferente à organização social. Referido autor compilou suges­ tivas conceituações do anarquismo. em grego. não a agride. os hip­ pies da época. conforme a natureza) e os epicuristas (exaltação do prazer individual e consequentemente recusa das imposições sociais) foram correntes antecessoras do moderno anarquismo. As origens históricas do anarquismo (ou anarquismos) exigem. Enfim. Sua primeira manifestação pode ser encontrada na an­ tiga Grécia. na Enciclo­ pédia Anarquista: “o anarquismo se resume a uma só palavra: LIBERDADE”. Mulford Q. socialismo científico. Zenker). política. notoriamente. desde logo. Sibley destaca algumas características comuns aos anarquismos: a) cooperação voluntária e ajuda mútua na vida do homem. não existe um anarquismo apenas. V. social ou econômica. não sobre os outros homens”. uma dicotomia inicial quanto às espécies de anarquismo: a) anarquismo ro­ mântico. em sua feição original. mais os assemelharia aos cães. corrente de pensamento que teve em Diógenes um de seus expoentes. b) anarquismo pragmático. pois a sociedade. b) repulsa ao Estado. coercitiva. mas vários. não a aceita. defensor intransigente da propriedade privada das coisas materiais. seja qual for sua natureza. o anarquismo vem a ser um ideal que propugna. respeitar con­ venções ou submeter-se às leis e convenções sociais. Por outro lado. então.C. a raiz da palavra cínico: ela deriva de cinos. porém. Seriam. principal obstáculo à realização indi­ vidual plena do homem. c) divergencia quanto à aceitação da propriedade indivi­ dual. R. “doutrina segundo a qual todos os negócios dos homens devem ser conduzidos pe­ los indivíduos ou por associações voluntárias. O cristianismo. assim: “etiologicamente. por volta de 1920. com a aspiração a um Estado mundial governado pela Igre­ ja Católica. havendo um anarquismo individualista. em sua des­ crição. com repúdio à coopera­ ção forçada. que sustenta dever a pro­ priedade ser administrada por grupos voluntários. Também os estoicos (vida espontânea. e um anarquismo comunista. nominando-a. porque convertido ao cristia­ . ideológica. com os cínicos. sem a preocupação de obter bens terrenos. não aceitando os cínicos em seu estranho modo de vida. Na esteira do pensamento de Santo Agostinho vêm Isidoro de Sevilha e Dante Alighieri. estes cínicos. a liberta­ ção de todo poder superior. não deixou de apresentar simpatia pela afirmação de uma igualdade essencial entre os homens. significa cão. não sendo difícil perceber. Diz ele: “Deus concedeu aos homens o domínio sobre os irracionais. O anarquismo romântico é aquele que se vol­ ta para a vida contemplativa. no qual o homem seria realmente livre. Talvez por isto Sébastien Faure anotou. que. Afirmavam os cínicos que o homem deve viver de acordo com a natureza. o anarquismo pode ser definido como descrença da necessidade da sociedade constituída” (E. Tucker). no século V a. “teoria que se opõe a qualquer tipo de governo forçado” (Bertrand Russel).. Santo Agostinho em sua obra A cidade de Deus afirma a ilegitimidade de todo poder de um homem sobre o outro.204 Teoria Geral do Estado única verdadeiramente científica.

foi considerado como invo­ luntário precursor do fascismo. em 1872. que concederia crédi­ tos gratuitos a todos aqueles que desejassem tornar-se produtores. Embora a obra de Proudhon esteja. preconizava um federalismo singular. na Primeira Internacional. o cristianismo anárquico original vai perdendo sua pureza doutrinária já com a afirmação de São Paulo. embora um dos expoentes do anarquismo. halbúrdia.1-7).8 Ideologias 205 nismo. Logo simpatizou com a doutrina dc Proudhon e a dc Marx. as concepções vigorosas dos anarquistas Pierre-Joseph Proudhon (1809-1865). Proudhon preconiza­ va a organização de estabelecimentos de crédito populares. Iniciado na car­ reira militar. tudo isto matizado ainda mais pelo nacionalismo eslavo. mas de um girondino. controlada por Marx. que não era sua. consubstanciado nas sentenças: “Dar a Cé­ sar o que e de César e a Deus o que é de Deus” e “Todo o poder vem de Deus”. aplicado aos seus seguido­ res. cm princípio. condena as tendências anarquistas do cristianismo primitivo e afirma o dever cris­ tão de obediência à autoridade terrena. não se restringindo a refrear sua antipatia ao campo verbal. mediante a divisão da França em doze regiões independentes. Adversário do capitalismo. Daí o apoio às suas ideias proporcionado por profissionais de nível superior e al­ tamente qualificados. na França. ingressou. na Bélgica c na Suíça. logo a abandonou. mediante sociedades dc crédito mútuo. da qual foi expulso. a concepção materialista da História e a ditadura do proletariado. desorganização . Cunhado pelo próprio Bakunin. no segundo. no primeiro. Quanto a Mikahil Bakunin. hoje. na Epístola aos Romanos (13. Muitos séculos mais tarde encontraremos. procurando firmar bem que o ideal a que ele aspirava seria o de uma vida comunitária sem governo. Após muitas vicissitudes. em busca de independência econômica. forma­ da por trabalhadores independentes. Brissot de Warville. como visto. Proudhon foi o primeiro teó­ rico a autodenominar-se anarquista . que. pendor que demonstrou no auge da cisão anarquis­ . Mikhail Bakunin (1814-1876). de ancestrais czaristas e latifundiários. contudo. e Piotr Kropotkin (1842-1921). Advogava. com seus partidários. à parte as velhas utopias dc Thomas Morus e Tommaso Campanella. e pressionada tanto pela alta finança como pelos operários revolucionários de nível mais baixo. inevitáveis na carreira de um homem de ação. Entretanto. a tutela dos interesses dos pequenos produtores. também francês. Por defender os direitos de uma classe média. Dotado de temperamento violento. com efeito. dela restou uma frase célebre: “A propriedade é um roubo!”. dedicando-se ao estudo da filosofia na Alemanha. que desejassem plena autonom ia cm sua atividade. a dissentir da orien­ tação dada por Marx ao movimento revolucionário. a afirmação libertária e a negação do Estado e. não tardaria. Ferrenho adversário do Estado. desor­ dem. pro­ vinha da aristocracia russa. incensando. em 1868. é nesta época que surge o adjetivo anarquista. an-arquista. o que não significaria. um tanto esquecida. colocando um hífen entre os semantemas an e arquista . que ele rebatizou com o nome de ditadura invisível.

110 mínimo. mais precisamente da primeira dinastia da Rússia. especialmente A conquista do pão e Me­ mórias de um revolucionário. mesmo nos tempos pré-históricos. a tese de que. muito menos. sem trabalho e. na obra Ajuda mútua. na sociedade humana. não ficou impressionado ou estarrecido com as concepções de um Proudhon. defendendo. oriundo da Escandinávia. o auxílio mútuo entre as pessoas seria um fator natural da evolução. e que. já se vê. Quem. funda­ das na solidariedade inata do homem e na celebração de contratos espontâneos e as­ sociações voluntárias. então: A destruição do Estado permitirá o surgimento de relações sociais livres. do poder. Admirador sincero de Bakunin. sem fama. por isso devemos acres­ . ele idealiza um permanente estado de alerta da so­ ciedade contra a exploração do homem pelo homem. livre de explorações e de injustiças. logo tornou-se adepto de Babeuf. ao contrário daquilo que fora previsto por Marx. Afirmava que qualquer meio é válido para a defesa de uma boa causa. não deixava de ser um sonhador. Bakunin advogava a imediata supressão do Estado. e desde que educado nos princípios sadios do anarquismo. e contra o Estado e o capitalis­ mo. que cultivava a geografia e a zoologia. Ao longo de suas obras. A nova sociedade ensejará o aparecimento de associações natu­ rais. segundo se afirmou. naturalmente honesto. Desesperados. Ao contrário de Bakunin. mas uma denúncia permanente contra as injustiças sociais. desenhada por Marx. de cor­ po e alma. a mera encampação dos meios de produção pelo Estado e a organização de uma ditadura do proletariado. fun­ dada pelo príncipe Rurik. de um Bakunin ou de um Kropotkin. alarma­ do com as ideias de Sergei Netchaiev (1847-1882). Blanqui e Bakunin. Kro­ potkin era um verdadeiro intelectual. até agora. dinheiro.206 Teoria Geral do Estado tas/marxistas. até que seja efetuada a completa unificação internacional. Com tal concepção. em sua profunda erudição. dedicar-se. que o havia acusado de pertencer à polícia secreta da Rússia czarista. ou seja. Kropotkin não foi um revolucionário 110 sen­ tido estrito do termo. cada qual não recusaria. Estudante na Universidade de São Petersburgo. por outro lado. ficará. em prol do bem de todos. eles viam na abolição imediata e radical do Estado uma solução muito mais promissora do que aquela da desaparição gradual do Estado. por conseqüência. Porque para ele o ho­ mem é bom. Seu anarquismo não visa. com a subsequente im­ plantação dc um coletivismo representado pela tomada violenta dos meios de pro­ dução pelos trabalhadores. ao agredir com bengaladas. ao trabalho comunitário. durante seis anos. Piotr ou Pedro Kropotkin também era des­ cendente da nobreza russa. mais do que a luta pela vida. embora curtindo a desdita do cárcere comum aos agitadores. a abolição imediata do Estado e. Afirmava Bakunin. em âmbito cada vez mais amplo. o próprio Marx. não foi difícil para Bakunin ar­ regimentar toda sorte de intelectuais e profissionais frustrados da classe média.

tudo seria válido para este enfant terrible do anarquismo. originalmente transcritos por Max Nomad em sua obra Heréticos da política: 1. instados a fazer declarações práticas subversivas. é o famoso Catecismo do revolucionário. Se tiver que continuar a viver nele. Entre ele. Em nome dos princípios anarquistas revolucio­ nários. de modo que não lhes sobre nenhum caminho para fu­ gir c usá-los como instrumentos dc perturbação da ordem do país. 20. Para ele o que quer que ajude o triunfo da revolução 6 ético. o Estado e as classes dominantes há uma guerra contínua c irreconciliável . conspiradores. Ele despreza a opinião pública. uma camarada que se recusara a obedecê-lo incondicionalmente. dedicações. que. 19. e do qual extraímos estes excertos. um só pensamento. não deve esperar compai­ xão. No mais íntimo do seu ser. com as leis. É impiedoso cm relação ao Esta­ do c a todo o sistema das classes privilegiadas. assassinou. comprometê-los ao máximo. Deve estar pronto para morrer a qualquer momento. que já dissera. aparências e convenções ou moralismos geralmente aceitos neste mundo que para ele é um inimigo impiedoso. A quinta categoria . Despreza e odeia a moral dos dias de hoje com todas as suas motivações e manifestações. sentimentos. séculos antes: “O fim justifica os meios” . que expõem suas ideias pe­ rante grupos ou pelos jornais. cujo resul­ . que alguns atribuem indevidamente ao próprio Bakunin. certamente. por sua vez. 4. uma só paixão . O revolucionário é um homem condenado. mas que são pouco ativos. pessoalmente. propriedade. o revolucio­ nário não tem qualquer ligação com a ordem social e com o mundo civilizado. será somente com o propósito de destruí-lo com mais certeza. onde cstivera preso. nem sequer um nome.a revolução. como a de escapar da inexpugnável fortaleza dc São Pedro e São Pau­ lo. ne­ gócios. tudo o que o impede é contrário à ética e criminoso. não apenas em palavras mas em atos. De sua autoria.8 Ideologias 207 centar à sua lista de mestres o notório Nicolau Maquiavel. O revolucionário é um homem condenado. De­ ve-se convencê-los de que são obedecidos cegamente..teóricos (refere-se aos adversários dc Bakunin dentro do campo revolucionário). Tudo nele é absor­ vido por um exclusivo interesse. 2. entre inúme­ ras façanhas. e deve treinar para suportar torturas. mas ao mesmo tempo não se deve permitir que escapem mais. 5. revolucionários. Ele não tem interesses pessoais. A quarta categoria consiste nas autoridades ambiciosas e liberais de vários matizes.que pode ser travada secretamente ou abertamente. Eles devem ser continuamen­ te impelidos para diante. Todo o ignóbil sistema social deve ser dividido em várias categorias. É preciso entrar na posse de todos os seus segredos.. pois com eles pode-se conspirar nos termos dos seus próprios programas. 15.

embora possa não haver o poder. enfim. esses devem cooperar da . de a. O que o anarquismo .208 Teoria Geral do Estado tado seria a completa destruição da maioria e o verdadeiro treinamento revolucionário de apenas alguns. Ubi societas ibi jus. negação. respectivamente). nos EUA. Portanto. No que tange ao sindicalismo. Apelando sempre mais para a violência. para nos aproximarmos cada vez mais do povo. afirmava Aristóteles. despoja­ das. desde a fundação do poder estatal dc Moscou. no Brasil. Em Chicago. da jurisdicidade. governo. onde houver sociedade haverá direito. das quais poderiam ser apontadas duas: “ação coletiva para proteger c me­ lhorar o próprio nível de vida por parte dos indivíduos que vendem sua força de trabalho” (Allen). na base de sociedades livres. como o sindicalismo revolucionário e o sindicalismo reformista. o clero. isto é. trata-se de uma corrente ideológico-pragmática. ou “um estado da sociedade em que a indústria será controlada pelos que nela trabalham. na ver­ dade. b) ação mi­ litante por parte dos sindicatos operários. vale dizer. oriunda da Revolução Industrial. sem necessidade de um órgão que as faça cumprir pela força. direta ou indiretamente. jamais cessaram dc protestar não só com palavras. inexistência degoverno. mas também com fa­ tos contra tudo o que. Anarquismo não significa confusão.sugere é. ele c grego. as guildas (significando os comerciantes e capitalistas em geral) e contra o parasitismo dos kulaks. este. É justamente nisto que reside o ponto original do anarquismo: a inexistên­ cia de poder coercitivo. e arkos. da coercibilidade. ainda no final do século X IX . Confor­ me G. o anarquismo foi perdendo adeptos. Ostergaard. a burocracia. realizaram inúmeras greves e. bem como do rei Humberto I. segundo os anar­ quistas. Estendamos as mãos à raça audaciosa dos bandidos . mediante um consenso social. Existem inúmeras definições dc sindica­ lismo. a vida em sociedade por normas espontaneamente cumpridas. devemos antes de tudo ligar-nos àqueles elementos das massas que. em São Paulo e Rio de Janeiro.os únicos genuínos revolucionários da Rússia. embora as normas sociais continuem existindo. Desmembremos o vocábulo anarquia. império da de­ sordem. N. grupos de imigrantes italianos e espanhóis formaram grupos anarquistas que realizaram uma vasta greve operária no ano de 1917. estivesse ligado ao Estado: contra a no­ breza. É no estudo do anarquismo clássico que perceberemos a imprescindibilidade das normas sociais de conduta. moderado.embora no mundo das utopias . segundo o qual os sindicatos operários devem ser a base da administração social e industrial numa sociedade socialista. não de normas sociais. seu canto de cisne foi a prática de tremendos atentados terroristas: aos seguidores de Bakunin se atribuem os assassínios dos pre­ sidentes McKinley e Carnot (dos EUA e da França. o termo sindicalismo pode ser empregado em dois sentidos: a) doutrina ou movimento social. mas. da Itália. então. após a qual começou o declínio do movimento também em todo o País. e que apresenta inúmeras variantes. 25.

Curiosamente. Embora seja autor dc inúmeras obras c tenha dirigido várias publi­ cações de caráter político. a greve geral seria o mito do futuro. Curiosa­ mente. Vitorioso o movimento sindicalista. organização de imagens que levam ao combate e à batalha. Após a Primeira Grande Guer­ ra. Não se pretende. somente podendo ser admitidos a seus quadros operários ou pequenos artesãos. na concepção soreliana? Mito . enfim. uma elite. originando uma variante nova do movimento operário. recebendo influências doutrinárias dc Pierre-Joseph Proudhon. o mito da greve gerai No dizer de Sorel. O mundo res­ sente-se da falta de mitos. teria início a reconstrução social. Sorel dedicou-se. porém. tendo realizado seu propósito para com o sistema capitalista'’ (Mann). assim. fundado no princípio dc que o próprio sindicato seria o instrumento dc luta re­ volucionária. Uma socie­ dade na qual os parlamentos e governos terão desaparecido. esta organização evidenciaria. continua. Interessa-nos. neste capítulo. aos problemas so­ ciais. mas servirá para arrancar as massas trabalhadoras de seu marasmo! Tal movimen­ to é. Tal doutrina. igualdade . desejando ressaltar seu caráter antiestatal c descentralizador. sua variante mais original. Henri Bcrgson e Karl Marx.é o conjunto ligado por imagens motoras. seu criador granjeou grande parte de sua fama por ter sido cultuado e invocado na praxis política de um notó­ rio adepto da violência: Benito Mussolini.8 Ideologias 209 maneira mais eficiente na produção de todas as necessidades da vida. porém.diz ele . o inspirador do fascismo. Existe. fazer neste manual introdutório um estudo mais alentado do sindicalismo in genere. Pelloutier enveredou pelo anarquismo. do qual se desiludiu em face dos métodos terroristas atribuídos a esta doutrina. embora atribuída por muitos a Georges Sorel (1846-1922). Desejoso dc consolidar uma nova ideologia que estabelecesse uma pon­ te entre a revolução e o meio operário. hipótese de resto confirmada pelo próprio Sorel. pa­ rece encontrar sua paternidade em Ferdinand Pelloutier (1867-1901). Tais ideias seriam robustecidas pela doutrina de Georges Sorel. que. fundada nos mitos revolucionários e na violência passiva da greve geral. comandada por uma fe­ deração universal de sindicatos operários. o sindicalismo revolucionário. alguns sindicalistas bandearam para as fileiras do anarquismo. um mito. e organizadora de uma comunidade sem a carapaça estatal. al­ guma originalidade no pensamento soreliano. batizaram-no com o nome de anarcossindicalismo. a partir dc 1892. de índole meramente cooperativa. caracterizando esta luta a ação direta e a greve geral. Os mitos do liberalismo (liberdade. entretanto. de imedia­ to. na qual prega a revolução proletária mediante a atuação violenta de uma facção operária mais hábil e inteligente. profunda hostilidade contra o intelectualismo. Engenheiro dc profissão. o próprio Sorel admite que tal movimento não terá condições de se impor. criou o próprio sindicalismo revolucioná­ rio. O que vem a ser mito. Marxista de início. agora detentora dc todos os meios de produção. Sorel tornou-se conhecido principalmente pela obra Re­ flexões sobre a violência. sem dúvida.

sendo certo que o fascismo adotou várias posições sorelianas. o determinismo dialético marxista. portanto. Sorel esclarece: É necessário considerar os mitos como meios de atuar sobre o presente. em nome de uma intervenção meramente voluntária das massas. inadaptável à sensibilidade das massas e aos instintos destas. a necessidade da violência e a organização corporativa do Estado. Fundamentalmente. pois. sociólogos ou pessoas propensas à ciência prática. que critica­ va. onde o que conta é o di­ nheiro. com desprezo. dentro de sua experiên­ cia histórica.os sindicalistas . Para apreen­ der o verdadeiro alcance da ideia de greve geral é preciso. é o mito em conjunto: suas partes so­ mente oferecem interesse pelo relevo que dão à ideia contida nessa construção. Ao lado de Sorel. portanto. Paradoxalmente. como foi dito. mesmo que os revolucionários se equivocassem totalmente ao criar um panorama fantástico da greve geral. o sindicalismo soreliano exige a abolição do capitalismo e do Estado e a nova estruturação da sociedade em associação produtora. bem como sobre os conflitos decisivos que venham a dar a vitória ao proletariado. ademais. e trouxesse ao conjunto das ideologias revolucio­ nárias uma precisão e um rigor não contidos em outras formas de pensar. em face das cisões ocorridas nos movimentos socialistas deste país. a organização sindical da sociedade e a rejeição do determinismo de Marx. efetivamente. comparando. Distingue. qual­ quer discussão a respeito de como aplicá-los materialmente no transcurso da História carece de sentido. Em Sorel. Se a influência do sindicalismo foi considerável na França. a democracia parlamentar à bolsa de valores. encontraremos influência de Flegel. deixar de lado to­ das as formas de discussão comuns entre políticos. É inú­ til. como o predomínio das elites. a influência dc Sorel sobre Lenin não foi menor. tal panorama poderia constituir. todas as aspirações do socialismo. ser o marxismo uma “ciência exata”. durante a prepa­ ração da revolução. de Marx. em Marx. mito e utopia. Sorel viria a ser o profeta do sindicalismo revolucionário. Ele recusa. As massas agem por intuição.210 Teoria Geral do Estado e progresso) devem ser substituídos pelos mitos revolucionários. Já se percebe que várias premissas podem ser pinçadas no cerrado pensamen­ to de Sorel: a ação direta em oposição aos meios parlamentares da luta pelo poder. raciocinar a respeito de incidentes que se possam produzir no curso da guerra social. a influência de Sorel na Itália foi ainda maior. bem como dos anarquistas pragmáticos. este apoiado em mitos. sempre que admitisse. Só a inter­ venção “violenta” de uma fração esclarecida da classe operária . exemplificando com o socialismo utópi­ co e o socialismo científico. um elemento fundamental. O que importa. e vão atuar dentro das únicas organizações adaptadas à sua sensibi­ lidade: os sindicatos. merece destaque o marxista Antonio Labriola (1843-1904). integralmente. Em Reflexões sobre a violên­ cia. de Bergson e de Proudhon. a revolução operária somente será realizada mediante a violência.

mas apenas a soma . Substituindo o Estado na condição de proprietário e de administrador dos meios de produção. a sabotagem. representado pela sociedade. ed. dotado de fins próprios. dupréel. Aristóte­ les (Vicia. platão. Gregorio R. Ismael S. 5) MECANIC1SM0 E 0RGANIC1SM0 Bibliografia: La política. v. de. Embora jamais tenha sido muito clara a doutrina sindicalista no tocante à na­ tureza da estrutura social que substituirá o Estado. Traitc dc morale. eviden­ temente. Madrid. cada qual dirigindo seus sindicalizados enquanto produtores. Aguilar. Por outro lado. O grande pu­ blicista León Duguit demonstrou certa simpatia por algumas premissas do sindica­ lismo. Madrid. a greve geral abolirá o Estado. que busca não destruir as estruturas sociais. mediante a greve geral. negam a própria socieda­ de. o terrorismo: tudo é lícito para prejudicar o empregador capitalista. porem aperfeiçoá-las. os sindicalistas não fazem alusões quanto à capacidade das massas para o autogoverno. 1963. 1967. O objetivo social. Os sindicatos subs­ tituiriam o Estado. vendo nesta não um ser autônomo. Enquanto a greve parcial não passa dc um meio de agitação e de organização local. Madrid. a finalidade para a qual foi criada a sociedade. Espasa-Calpe.8 Ideologias 211 revolucionários . deve. 1979 (Obras completas). tirar as massas de seu eterno tor­ por. também. pecando pelo radicalismo. Totalitarismo y egolatría. Ao lado do sindicalismo revolucionário fala-se num sindicalismo reformista. à gui­ sa dc correção dos desajustes trazidos pelo excessivo individualismo. e a sociedade passará a ser gerida pelos sindi­ catos dc produtores. q u il e s . o papel dos sindicatos e de outros grupos sociais. Madrid. 1962. Eugè- ne. foi imenso o fascínio exercido por seus exponentes em todo o mundo. I. inegável. Bruxelles. para este fim. Espasa-Calpe. mais moderado. Ar i s t ó t e l e s . Presses Universitaires de Bruxelles.. 2. e o interesse particular? Muitos. O sindicalismo revolucionário exige a abolição do capitalismo do Estado. Aguilar. Por outro lado. que o homem faz parte da sociedade visando a satis­ fação de seu interesse em aprimorar-se.poderá. ressaltando. Há semelhança entre o sindicalismo revolucionário e o anarquismo no tocan­ te à adoção da ação direta para a destruição do Estado: ambos admitem a greve. Como encon­ trar o ponto de equilíbrio entre o interesse coletivo. La república. material ou espiritualmente. os sindicalis­ tas buscam atribuir tais funções aos sindicatos de produtores. 3. estar acima dos objetivos particulares dos indivíduos que a integram. 1982. y u r r e . reorganizando a sociedade em associações de produtores. escritos y doctrina).

ele não distingue . que encon­ trou seu epicentro na Alemanha derrotada por Napoleão. por intermédio da qual os indivíduos recebem a vida espiritual e o bem-estar. As primeiras críticas. Adam Müller (1779-1829). sugestivamente. suspeita. que se expressa prin­ cipalmente nas célebres Reflexões sobre a Revolução Francesa. Embora partidário da Revolução em sua juventude. ao enaltecer a razão triun­ fante sobre as trevas da Idade Média. Destacam-se figuras do porte de Novalis (1772-1801). como reação ao absolutismo monárquico ain­ da imperante na França. pelo anarquismo. denominado Século das Luzes. A sociedade ou Estado . portanto. em oposição ao racionalismo e o universalismo da Revolução. mas negam a floresta. denota de imediato uma tendência organicista. Com efeito. O romântico afirma que toda nação é um organismo que possui um modo próprio de vida. representado. Schlegel (1772-1829). como ocorre nas associações mercantis. Edmund Burke (1729-1797) mostrou-se um crítico implacável do pensamento revolucionário. a nação como um todo. Veem as árvores. tímidas. a emancipação do indivíduo perante suas alienações políticas e religiosas. particularmente.não é um simples agregado de seres humanos voltado para a satisfação de fins estritamente materiais. criadoras de uma nova visão do mundo. Diga-se o mesmo do individualismo proveniente do liberalis­ mo da Revolução Francesa. Porém. A norma fundamental deste individualismo seria a opinião individual. messianicamente. o im­ pulso vital da sociedade. Johan Gottlieb Fichte (1762-1814) e Georg Wilhelm Friedrich Hegel (1770-1831). logo tornaram-se uma avalancha de objeções. de Yurre. enaltecedora da sociedade. Foi na Alemanha. os ex­ cessos que este movimento tremendo produziu acabaram por minar a admiração pelo iluminismo. visto que esta não passaria de mera soma dos indivíduos. porém. É muito mais do que isso: é uma comunidade mística. regida pelos critérios utilitaristas do máximo prazer. Sua obra. de início. A reação não tardaria. que o organicismo e a supervalorização do Estado chegaram ao seu grau máximo. que nega o próprio poder político. temporal.212 Teoria Geral do Estado dos indivíduos que a integram. que foi. representado pela filosofia iluminista do século XVIII. revolucionária e. O ro­ mantismo. Tal pensamento não ficou circunscrito à Ale­ manha. O próprio marxismo enquadra-se cm tal concepção mecanicista do convívio humano ao preconizar. suas instituições e seus costu­ mes são inconfundíveis com as demais. Veio representada pelo romantismo organicista. Schlegel muda bruscamen­ te seu pensamento a partir de 1804. para um futuro dirigido pelo determinismo dialético. sinceros admiradores dos princípios individualistas que embasaram a Revolução Francesa. O móvel da ação individual do homem rebelde entronizado por esta ideologia seria. Passa a considerar a sociedade e o Estado or­ . o iluminismo proclamou a supre­ macia da razão individual sobre todo e qualquer princípio ou instituição fundados em fatores superiores ao indivíduo. também. É o caso do individualismo extremado. muitos intelectuais ligados ao romantismo foram. pois mesmo 11a liberal Inglaterra. reconhe­ ce o todo nacional. refratária a uma França liberal. Como lembra Gregorio R. devendo cada homem ter a mais ampla esfera de au­ tonomia de conduta.

nega que o indivíduo seja anterior ao Estado. a origem da guerra reside na desigualdade econômica entre os Estados. resultantes da evolução histórica. Os ideais de Hegel eram pro­ fundamente anti-individualistas. e esta. pois que esta é uma concessão do Estado. O Estado controlará severamente a saída de seus súditos para o exterior. pois a oscilação da moeda repercute. e os seres humanos são apenas células que participam dessa vida. a iniciativa e a liberdade individual não constituem o funda­ mento da vida social. é inimaginável a existência do homem apar­ tado do Estado ou anteriormente a este. A economia planificada deve fechar as portas do Estado ao comércio exterior. que arrasou as estruturas orgânicas do Estado e reduziu a nação a um agregado inorgânico de átomos. Não há direito anterior ou superior ao do direito imposto pelo Estado. como afirmava o pensamento liberal. plasma-se a es­ trutura orgânica da nação.8 Ideologias 213 ganismos vivos. da mesma ma­ neira que as células se desenvolvem no organismo vivo. Quanto a Fichte. classes e corporações. Evidente­ mente. A preservação desta estru­ tura é pressuposto inafastável de qualquer Constituição. No decurso dos séculos. com suas famílias. ficando as viagens ao exterior circunscritas às necessidades de es­ tudo e ciência. ao publicar sua obra O Estado comer­ cial fechado. impedindo que eles deixem o país. com seus costumes e tradições. O Estado autárquico será rigidamente planificado. é o Estado que cria o indivíduo. o que a alma e a natureza exterior significam para os organismos biológicos. Adam Müller. A História. o Estado é fonte de todo o direito. lança as bases do futuro nacional-socialismo. na economia nacional. Daí sua aversão pelas tendências mecanicistas e individualistas da Revolução. a guerra. basta lembrar que seu pensamento constituiu a base de correntes opostas como o fascismo e o marxismo. e na tendên­ cia de cada qual buscar sua hegemonia entre os demais. mostrando-se uma reação às tendências liberais do seu tempo e à divisão da Alemanha em Estados independentes. a vida econômica deve estar rigidamente controlada pelo Estado. Para que a importância de sua contribuição para as ideias políticas seja aferida de pronto. significa. é lógico que ele não pode arguir direitos contra o Estado. por sua vez. O indivíduo não cria o Estado. Se o indivíduo não tem. Para ele. desfavoravelmen­ te. O Es­ tado é um organismo do qual depende a vida humana em sua totalidade. personali­ dade. pois toda definição implica limitar o definido. com o fim de lazer ou curiosidade. por si mesmo. Para Fichte. para os organismos sociais. até mes­ mo a ciência é parte do Estado. como manifestação da vida espiritual. unicamente. Hegel. que se torna indefinível. O livro é eminentemen­ te anti-individualista. A estabilização da moeda é também um pon­ to programático de relevo. pelo contrário. até que seja alcançado o estado de autarquia. Finalmente. até que se obtenha o equi­ líbrio entre a produção e o consumo. O Estado é algo tão grandioso e abran­ gente. especialmente 110 que toca à apologia do . O comércio exterior ense­ ja a concorrência. O Es­ tado é um organismo vivo. Sua influência sobre o fascismo italiano foi admirável.

] a cidade (Estado) e. Gcorge. Astcr. tou . que formam a pedra angular da estrutura política.. Permitir-nos-emos fazer referência. . 1950.com agudeza. Capítulo II). É necessário que o todo anteceda a parte [. roux . Curiosamente. por exemplo. intitulada Política: “ [. aqui. 1963. Porto Alegre. não as árvores. sur­ gem prematuramente na História. 2. glorificador da sociedade em detrimento do indivíduo. História das idéias políticas. que. Adolf. não deixou de assimilar. Aristóteles. deixando fluir.. até chegarmos aos dois maiores totalitarismos do século X X : o fascismo. de maneira absoluta. por natureza. Barcelona. Mcxico. b) Hegel constrói sua teoria sobre a supremacia do Estado. Lisboa. sobre as partes.]” (Livro Primei­ ro. Lisboa.. 7. mas sim na nação (Volk). Jean. a influência de Hegel sobre o nacional-socialismo não foi das maiores. tem apenas deveres para com o Pastado. Ao contrário do mecanicismo anarquista. 11a Alemanha. esta exótica tendência. Os perigos do organicismo radical. 1940. na Itália.214 Teoria Geral do Estado Estado. El Estado corporativo fascista. . de certa forma.. naquela concepção. Bosch. O elemento bási­ co da Weltanschauung nacional-socialista é a raça (racismo). . 6) TOTALITARISMO: FASCISMO E NACIONAL-SOCIALISMO Bibliografia: mallén bonnard . r ta. 1976. as diferenças essenciais entre o pensamento hegeliano e o nacional-socialista: a) o elemento básico da filosofia hcgcliana c a ideia (idealismo): o mundo é uma revelação da ideia. e o nacional-socialismo. Na linha do pensamento organicista. e o nacional-socialismo reduz o Estado à ca­ tegoria de meio e instrumento em mãos do Führer e de seu partido. Minha luta . v. El derecho y el estado en la d octrina nacional-socialish i t i . o todo prevalecendo. Filósofos do porte de Platão e Aristóteles deixa­ ram-se empolgar pela suposta natureza totalitária do Estado. incensando a prevalência absoluta do Estado sobre o indivíduo.f. Gregorio R. o organicismo radical (totalitarismo) vê a floresta. portanto. ed. antecipando muitas premissas do totalitarismo contemporâneo. o espírito de seu tempo. a algumas passagens da obra capital de Aristóteles. dc Yurrc aponta. Roger. Facultad dc Ciências y Políticas chard Sociales. - Rubén Salazar. tido como a criação mais perfeita do homem.. mesmo porque esta ideo­ logia totalitária não via 110 Estado o fundamento da sociedade. desenvolver-se-ia um inadmissível organicismo radical. em al­ gumas passagens de sua obra. anterior à família e a cada um dc nós conside­ rados individualmente. Globo. 1977. Publicações Europa/América. Mussolini.

de Platão. eis que. Não foi por acaso. antes que apareçam a vida c a sensibilidade do embrião. certamente. colo­ . Capítulo II). ao mesmo tempo. já que cada um é parte deste” (Livro Oitavo.. temos que admitir que os cidadãos não se pertencem. Sc um casal fecundar fora deste li­ mite. se o número de nascimen­ tos se mostrar excessivo. Capítulo XVI). pois todos per­ tencem ao Estado.. A ideia totalitária. Em outras passagens da Política. tendo sido criado pelo próprio Mussolini... Entretanto. no Quarto Con­ gresso do Partido Nacional Fascista. É fácil para o legislador assegurar isto. por natureza. já se vê. e se a tradição proibir a exposição do recém-nascido. e que ela esteja a cargo do Estado e não dos particulares (Livro Sétimo. o termo totalitarismo é relativamente recente. Tais indícios revelam. deve ser estabelecido um limite numérico à procriação.] visto que é dever do legislador considerar.] as mulheres grávidas devem cuidar de seu corpo. A palavra totalitarismo refere-se a uma concepção política que sc mostra cm franca oposição à doutrina do cidadão abstrato. é necessário atentar para a disciplina das uniões conjugais. Aristóteles revela xenofobia.. estabelecendo quando e em que condições um casal pode procriar (... “Como a finalidade do Estado é uma só. é necessário promulgar uma lei que proíba a sobrevivência dos seres disformes. do homem soberano. Por outro lado. sem evitar exercícios nem to­ mar uma dieta excessivamente frugal. criada pelo liberalismo. dc que forma as crianças terão uma constituição física perfeita. ordenan­ do-lhes que programem um passeio diário. desde logo. se a concepção organicista ou totalitária da sociedade é tão antiga. “ [. precedeu o verbo. no qual honrarão as divindades protetoras do bom parto” (Livro Sétimo. o bárbaro no mesmo nível do escravo: “é normal que os gregos governem os bárbaros. em discurso célebre proferido no dia 22 de junho de 1925. “No que toca à exposição e criação dos infantes. ao colocar. fica evidente que a própria educação de to­ dos há de ser necessariamente una e idêntica. à saciedade. Enquanto este se fundamentava na plena autonomia individual. ci­ tando Eurípedes.. Capítulo XVI). que iMussolini tinha como um de seus livros prediletos A república. Capítulo I).) ” (Li­ vro Sétimo.]” (Livro Primeiro. c para que tal prática possa ser considerada respeitável ou desprezível. Capítulo XVI).8 Ideologias 215 “As questões de interesse público devem estar sujeitas a uma supervisão pública. “ [. será praticado o aborto. bárbaro e escravo são a mesma coi­ sa [. os germes do totalitarismo moderno. Capítulo I). levar-se-á cm conta a ausência ou presença de sensação e vida” (Livro Sétimo.

movimenta e domina toda a vida do povo. no verbete intitulado “A doutrina do fascismo”. O fascismo opõe-se. as duas doutrinas totalitárias do século X X .partidos políticos. Numa obra intitulada A doutrina do fascismo e o seu lugar na história do pensamento político. a fortiori. exatamente como todos os di­ reitos individuais. então o fascismo opta pela liberdade. que a concepção atomística e mecânica da sociedade c do Estado. É contrário ao liberalismo clássico. cm 1925. que militou politicamente nas fileiras do fascismo. Os direitos do indivíduo . era totalmente estranha ao pensamento italiano. a concepção fascista é para o Estado e para o indivíduo. relativo é o interes­ se individual. classes . que cnccrrou sua missão histórica.fora do Estado. a liberdade é uma concessão do Estado. ao socialismo.diz Rocco não são mais que o reflexo dos direitos do Estado. Absoluto é o interesse social. a socie­ dade não tem vida distinta dos indivíduos. c na von­ tade do povo. interpreta. Rocco abre comba­ te contra a liberal-democracia e o socialismo. ao passo que para o fascismo. o fascismo eleva o Estado à condição da verdadeira realidade do indivíduo. sendo o indivíduo o fim e a sociedade o meio. Mais adiante. eminente jurista italiano. o próprio Mussolini esclarece: Anti-individualista. nada tem valor fora do Estado. o principal problema é o do direito do Esta­ do e do dever do indivíduo e das classes. resultante da Reforma protestante e do jusnaturalismo dos séculos XVII e XVIII. nascido da ncccssidadc dc reagir contra o absolutismo. vão mostrar poderosas reações a tal concepção. que funde as classes . sindicatos. fascismo e nacional-socialismo. E se a liberdade deve ser o atributo do homem concreto e não do fantoche abstrato criado pelo liberalismo indi­ vidualista. Por isso. que paralisa o movi­ mento histórico na luta de classes e ignora a unidade do Estado.216 Teoria Geral do Estado cando a liberdade individual no ápice da escala de valores a ser respeitada pelo Es­ tado e atribuindo ao poder político apenas e tão somente a manutenção da ordem pública. a liberdade do Estado e do indivíduo no Estado. porque. O liberalismo negava o Estado em favor do indivíduo. portanto. Alfredo Rocco (1875-1935). integrante da famosa Enciclopédia italiana. síntese e unidade dc todo valor. associações. que se tornaria uma das principais características do fascismo: Nem indivíduos nem grupos . para estas doutrinas. já afir­ mava. Mussolini refere-se ao sistema corporativista. para o fascismo tudo está no Estado e nada humano nem espiritual existe e. Com efeito. à medida que este sc harmoniza com o Estado. Esta opção é pela única liberdade que pode ser considerada seriamente. a concepção fascista da sociedade é totalitária: a totalidade dos indivíduos submetidos ao poder político e a totalidade da manifestação pessoal de cada um acham-se sob a égide do Estado. e o Es­ tado fascista. Como se percebe desde logo. Neste sentido o fascismo c totalitário. consciência c vontade universal do ho­ mem cm sua existência histórica.

a representação profissional. em uma espécie de Estado já in fieri. que é uma vontade de existência e dc poder: é consciência dc si. em seu aspecto qualitativo e não meramente quantitativo. consciente de sua própria unidade moral. O fascismo. são. isoladas ou agrupadas.A nação italiana é um organismo dotado de fins. na órbita do Estado. uma vontade e. Ao contrário. . Não é a nação que cria o Estado. uma existência real. cria o direito. Com efeito. pelo menos se o povo for concebido. personali­ dade. seguem a mesma linha de desenvolvimento e de formação espiritual. Sem embargo disso. antes dc tudo c sobretudo. É uma unidade moral. e sim numa consciência ativa. com maior clareza ainda. portanto. isto é. que instituiu. no qual tais interesses se conciliam na unidade do Estado. e as considera no siste­ ma corporativo. encontram-se sindicalizados confor­ me as diversas. em virtude da natureza ou da história. as exigências reais que deram origem ao movimento socialista e ao sindicalista sejam reconhecidas. documento que inspirou inúmeras Constituições da época.. era esta a redação do art. dc uma multiplicidade unificada por uma ideia. por conseguinte. O direito de uma nação à independência não se acha fundado na consciência literária ou ideal de sua própria existência e. De todos aqueles que. como uma única consciência e uma única vontade. como um ideal que tende a se realizar na consciência e na vontade de todos. I o da referida Carta: I . N ão se trata de raça ou de uma região geográfica determinada. sob a inspiração italiana. menos ainda. Os indiví­ duos formam as classes conforme seus interesses. como dizia a velha concepção naturalista. política e econômica. e também ao sindicalismo de classe. O Estado. o fascis­ mo é a forma pura de democracia. a nação é criada pelo Estado. que dá ao povo. 30. formam etnicamente uma nação. como deve ser. porém. que se encarna 110 povo como consciência e vontade de um pequeno número ou de um apenas. integralmente. o fascismo pretende que. mais coerente e mais verdadeira. Tal personalidade superior é nação enquanto Estado. vida. mas de um agrupamento que sc perpetua historicamente.1927. que se realiza. que a formam. numa vontade política que atua e que está disposta a demonstrar o seu direito. As tendências organicistas e totalitárias do fascismo italiano ressaltam-se. publicada na Gazzeta Ufficiale. como vontade ética universal.8 Ideologias 217 numa única realidade econômica e moral. opõe-se à democracia que absorve o povo na maioria dos indivíduos e o rebaixa a tal nível. e significar a ideia mais po­ derosa por ser a mais moral. Porém. numa situação de fato mais ou menos inconsciente e inerte. em espe­ cial a brasileira de 1934.04. atividades econômicas e cointeressadas. no Estado fascista.. o Estado. na famosa Carta dei lavoro. meios de ação supe­ riores em poder e duração àqueles das pessoas. Este não é nem o número nem a soma dos indivíduos que for­ mam a maioria de um povo. que servia de base aos estudos dos publicistas dos Estados nacionais do século X IX .

ao versar o Estado em sua autobiografia intitulada Mein Kampf (Minha luta). embora anti-individualista como o fascismo. segundo seus doutrinadores. sendo substituído por uma espé­ cie de doutrina do direito livre. mas uma nova entidade. antes de mais nada. exclui o conceito da Rechtsgemeinschaft. o desenvolvimento es­ piritual. Como adverte Guido Fassó. é o verdadeiro intérprete da alma popular (Volksgeist). desaparecesse a civilização ao nível em que é encontrada atualmente nas nações mais adiantadas. a ser repudiado.218 Teoria Geral do Estado Já para o nacional-socialismo não vigorava um princípio positivista na concep­ ção do Estado. a única fonte do direito. o espírito (Volksgeist) da nação deve ser quase misticamente intuído pelo juiz. O positivismo vem. mas como um meio. Com a. Tal cultura depende da existência dc uma raça superior. é muito claro neste sen­ tido. mesmo porque jamais negaram tal postu­ ra justificada. cxcrcsccncias da vida social. tudo o que diz respeito à defesa da raça. sem o qual não se pode falar em nacional-socialismo. comunidade vi­ vente. mas não c a causa desta. Essa conserva­ ção abarca. pela qual o juiz. considerado. o nacional-socialismo não vê o Estado como um fim cm si mesmo. os dois Estados essencialmente totalitários na modernidade. na doutrina fascista. É a base sobre que deve repousar uma mais elevada cultura humana. comunidade abstrata. pelos excessos do individualismo liberal. utilização dc tais forças. Fundamentado no sangue e na raça. Em suma. e implica o enfraquecimento de qualquer direito do indivíduo. certamente. desta forma. assim. a expansão dc todas as forças a cia imanentes. de capaci­ dade civilizadora. formadores de cultura. sob a liderança (Führung) de um chefe (Führer). . promover-se-á a defesa da vida física e. Sua finalidade consiste na conservação e no progresso de uma coletividade sob o ponto de vista físico e espiritual. fonte primária do di­ reito. por outro lado. embora organicista e totalitário como o fascismo. mais do que criar o direito com base em sua própria valoração do interesse social. permitindo. Poderia haver centenas dc Estados-modclo no mundo c isso não im­ pediria que. que. O Estado fascista e o nacional-socialismo foram. a nação (Volksgemeinschaft). tal doutrina não contrapunha ao indivíduo o Estado. Adolf Hitler. com o desaparecimento dos arianos. em última análise. Os Estados que não atendem a tal objetivo são seres artificiais. deve decidir inspirado no que­ rer supremo do Führer. Ouçamo-lo: O grande princípio que nunca deveremos perder de vista é que o Estado é um meio e não um fim. Mais adiante: () Estado é um meio para um fim. que possui direitos apenas en­ quanto membro da comunidade e de acordo com os fins desta. o conceito de Volksgemeinschaft.

fenômeno da tecnologia moderna e da democracia de massas. f) direção estatal da economia. sendo.8 Ideologias 219 O Estado socialista soviético é totalitário. 6. liberalismo. sim. em especial. Ao contrário. Por exemplo. o Estado já estará extinto e fazendo parte do museu da História. que nos períodos de ditadura conhecia um poder transitório. característica do fascismo e do nacional-socialismo. por outro lado. mas apenas à medida que cons­ titui uma etapa necessária na marcha para o comunismo. que não vicejava. é. 6. Quando a sociedade comunista chegar. Analisemos. 6. O desenvolvimento do liberalismo acarreta. que abrange to­ dos os aspectos da vida humana. envolve um poder político que não c. dirigido por um líder. reside no fato de o poder político ser exercido independentemente de limitação constitucional e dc participação do povo na esco­ lha c nas deliberações dos governantes. Nisto reside. inevitavelmente. b) sistema de partido único. exaltando apenas a totalidade dos indivíduos . o totalitarismo é uma concepção global do Estado que não adm ite a supremacia do individual so­ bre o social. autocrático. anarquismo e socialismo são filiações de uma mesma concepção da sociedade. contudo. Pode-se.2) Sistema de partido único. em essência. o socialismo. aliás.1. a Roma republicana. num Estado totalitário.1. Apenas aparentemente o liberalismo é antípoda do socialismo.1) Ideologia oficial No Estado totalitário há um corpo oficializado de doutrina. A autocracia é uma forma de governo. definida por Hans Kelsen como a forma de governo que. conceber um poder autoritário num Estado que não seja totalitário. não é totalitário. enquanto doutrina dc libertação do indivíduo . na verdade. totalitário. sob o com ando de um líder O sistema de partido único. c) controle policial da manifestação política exercido pelo Estado. cada uma destas características. preconizada por Marx.1) Características do totalitarism o Quais as características do totalitarismo? Carl Joachin Friedrich afirma que o totalitarismo. originário da União Soviética. A autocracia. na irônica obser­ vação dc Engels. e) concentração dos meios militares. uma das diferenças en­ tre a autocracia e o totalitarism o . apre­ senta os seguintes dados identificadores: a) ideologia oficial. ao lado da pedra lascada e da roca dc fiar. um dos pilares do . com brevidade. ne­ cessariamente. a única diferença entre ambos reside no método adotado por um e ou­ tro na persecução da mesma finalidade : a liberação do indivíduo dos excessos do poder absolutista ou do poder econômico dc uma classe dominante. O marxismo. d) concentração dos meios de propaganda no Estado.

de que penetra a massa por mil caminhos. de uma po­ lícia de caráter político. pode ficar fora da órbita do Estado. polvo. que. o Esta­ do fascista não é um Estado democrático no sentido clássico da palavra democracia. Daí é fácil depreender a necessidade.3) Controle policial pelo Estado Segundo a concepção totalitária do Estado. adepto ferrenho de Marx. a nação deve estar articulada em torno de um partido hicrarquizado. Na Alemanha nacional-socialista tivemos a célebre Gestapo (Geheime Staatspolizei). mas para o povo em sua totalidade. Mussolini foi. a diferença entre a polícia política e a polícia administrativa e a judiciária. ao realizar a unidade popular. de que está em constante contato com ele. na Itália fas­ cista tivemos a OVRA (sigla proveniente dc piovra. coordena-lhe a atividade” . pois. 6. encontraremas o próprio Duce. um partido na acepção do termo.4) C oncentração da propaganda nas mãos do Estado A propaganda reveste-se de enorme importância atualmente. Salvetti Netto aponta. e contrária à comunidade. mas é um Estado democrático no sentido “de que adere estreitamente ao povo. a fim de reprimir qualquer manifestação contrária ao Es­ tado. sente-lhe as necessidades. Conforme doutrina Alfredo Rocco. nenhuma socie­ dade particular. mas por­ que o movimento. No século XV III as con­ . em plena era tec­ nológica. Mussolini. para impor-se à maioria. que administra e fiscaliza. no cimo de sua hierar­ quia. 6. a identificar-se. com seus tentáculos).1. in­ cessantemente. Ora. a vida de cada cidadão.220 Teoria Geral do Estado marxismo-leninismo. vive-lhe a vida. As polícias administrativa e a judiciária (polí­ cia comum) existem em todos os Estados.1. socialista exaltado. será convertido em verdadeira en­ carnação c representação visível da unidade do povo. obtido. pelos próprios adeptos do nazismo. com precisão. com a abolição global do isolamento humano. no Estado totalitário. em certo período de sua vida. Ele pretende ser o representante visível da referida unidade: o seu fim não é orde­ nar ou exercer coerção. Partido e povo tendem. sendo sua finalidade prevenir (polícia ad­ ministrativa) e reprimir (polícia judiciária) as condutas antijurídicas. O partido deve ser a coluna dorsal do Estado c. a influência do mestre socialista vai tornar-se patente no papel transcendental que o Partido Fascista terá no Estado mussoliniano. guia-se espiritualmente. não pelo fato de que todos sejam filiados ao partido. e sim um movimento (Bewegung) que pretende representar não uma opinião pú­ blica particular para certo grupo de interesses. nunca foi considerado. denotando bem o múl­ tiplo alcance do órgão. por ser contrária ao Estado. Quanto ao Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães (Nationalsoziãlistiche deutsebe Arbeitpartei). nenhuma atitude. mas estimular os indivíduos a ade­ rirem à ideia nacional-socialista de união da nação alemã. figurativamente. Segundo Mussolini.

desde logo. . a iniciativa privada. Um grande sociólogo de nossa época. Dizia a doutrina fascista que a luta é a origem de todas as coisas.6) D ireção estatal da econom ia Haba define o totalitarismo como “o tipo de organização jurídico-social ca­ racterizada basicamente por um Estado que tende a expandir ao máximo sua esfe­ ra de intervenção. ministro da Propaganda do Terceiro Reich. 6. o que fez com que vários Estados hesi­ tassem em se aliar aos alemães. Lenin afirmava ser indispensável a agitação social e a propaganda política entre as camadas do povo. Em 1938. jamais intelecto”. A guerra exalta e enobrece o cidadão e regenera os povos ociosos e decadentes. o intelecto precisa ser complementado pela fé mís­ tica. com restrições.5) C oncentração dos meios militares Sendo o militarismo um dos mais expressivos meios do Estado totalitário para alcançar seus fins imediatos (segurança interna) e mediatos (expansionismo ou im­ perialismo) depreende-se a sua importância para doutrinas como o fascismo e o nazismo. Alfred Sauvy.8 Ideologias 221 cepções políticas da Revolução Francesa são divulgadas em livros. o excelente trabalho levado a efeito por Joscph Goebbels. para a própria sobrevivência da ideologia revolucionária.1. os aliados não teriam podido contar com os Estados ocupados pe­ los alemães. foi derrotada. resultando dis­ so restrita ao máximo a liberdade individual”. Quando a Alemanha titubeou na guerra psicológica que era travada pa­ ralelamente ao conflito armado. b) Hitler não teria dado muita importância à guer­ ra revolucionária. abarcando a generalidade das relações humanas. afirmou que. Chevallaz. deixando dc mobilizar as forças militares e morais do povo. As na­ ções que não se expandem acabam por desaparecer. pelo autossacrifício e pelo culto do heroísmo e da força. “O espírito fascista é vontade.prosse­ guem os doutrinadores fascistas. graças à força da propagan­ da. Enquanto no socialismo soviético a propriedade dos meios de produção fica abolida. Na Alemanha. nenhum Estado totalitário de orientação fascista foi destruído sem intervenções externas. A razão jamais poderá ser um instrumento adequado para a solução dos grandes problemas nacionais . seus objetivos. panfletos e vá­ rias publicações “subversivas” . Por outro lado. ensejou a consolida­ ção do poder de Hitler e dos objetivos do Partido Nazista. o Estado fascista e o nacional-so­ cialista admitem. Cheysens e Launay demonstram que a Ale­ manha foi derrotada na Segunda Guerra Mundial por dois motivos: a) falta de uma definição precisa dos objetivos da guerra. Num livro intitulado Os arquivos da segunda guerra mundial.1. se as forças de resistência ao nazismo não tivessem definido. a anexação da Áustria à Alemanha hitleriana foi o fruto de notável propaganda. 6.

Outra tendência radical. havia traços comuns a quase todos: 1) nacionalismo extremado. desde logo. que visava. po­ rém. 3) invocação às classes médias e ao proletariado para livrá-los do marxismo (socialismo e internacionalismo) e formar uma base popular para novos movimen­ tos. Num sentido amplo. parecia indispensável uma base popular para enfrentar o liberalismo. que denunciava os judeus como criadores dos males do marxismo e do capitalismo. receosa de perder sua posição social. . o socialismo e o co­ munismo. pontificando neste sentimento o movimento boulangerista (denominação inspirada no general Boulanger). alguns autores denominam fascistas os movimentos reivindicatórios da classe media dc alguns países europeus. protestantes. embora sem nenhuma possibilidade de alcançar o poder.222 Teoria Geral do Estado Quanto às origens do fascismo. Por outro lado. Surge o periódico La libre parole. A reação da clas­ se média não foi causa imediata do surgimento dos movimentos fascistas. seus líderes tornar-se-iam mais ativos do que nunca em sua doutrinação. em 1871. é preciso tomarmos a expressão fascismo em sentido amplo e em sentido estrito. pouco antes da Primeira Grande Guerra. a emancipa­ ção dc minorias raciais e religiosas (judeus. Entretanto. pois. mas criou condições propícias para tal. Como se situavam tais movimentos? Vejamos. 2) forte antissemitismo. Na Europa Ocidental o co­ lonialismo e sua manutenção impunham gastos aos Estados. a Rússia já estava ameaçada por uma tremenda re­ volução. Em sua exacerbação e em seus rompantes. começava a encontrar um ponto de apoio em sua propaganda. Embora divergindo em alguns aspectos de somenos. mas garantiam mui­ tos empregos. eslavos) só fez aumentar os temores da classe média. A Europa anterior à Primeira Guerra Mundial desfrutou de um período de paz. Em nenhum país da Europa Ocidental a lei e a ordem estavam seriamente ameaçadas. Embora embrionários pouco antes e durante a Primeira Grande Guerra. colo­ car este militar no poder. graças a alguns escândalos financeiros internacionais que pas­ saram a ser atribuídos à “alta finança judaica”. embora a época ainda não fosse a de uma democracia de massas. a concentração das empresas e as exigências cada vez maiores do operariado pressionavam a classe média. Havia prosperi­ dade econômica. prenunciada em 1905. o boulangerismo prometia recuperar as possessões perdidas durante a guerra. O último grande movimento revolucionário fora a Proclamação da Comuna de Paris. Apesar de tais condições. todavia. com um levante popular motivado pela perda da guerra russo-japonesa. os movimentos políticos nacionalistas que se identificariam com o fascismo já estavam se firmando. Na França. Durante a Guerra. que seria a de outubro de 1917. a derrota do país na Guerra Franco-Prussiana (1870-1871) fez re­ crudescer o nacionalismo e. Não teve êxito.

uma virulenta xenofobia. Brumont afirmava que os judeus eram detesta­ dos pelos pequenos comerciantes e empresários e pelos artesãos. A violência. cm defesa de Dreyfus. velada ou expressamente. eram as principais vítimas. mais tarde. grupos que pretendiam evitar que a Itália ingressasse na Primeira Guerra Mundial. A partir de 1918. sua inocência foi comprovada. Espancamen­ tos. fascismo é o movimento político surgido na Itália. a documentação que servira de base para a acusação era consi­ derada fraudulenta. os fascii transformaram-se em grupos de squadristi. com o apoio dado por Mussolini à intervenção italiana em favor dos aliados.8 Ideologias 223 fundado por Édouard Brumont. aplicação de doses de óleo de rícino eram a tônica. sob o comando de um antigo revolucionário socialista. com destaque para o antissemitismo. apoiando o ingresso da Itália na guerra. torturas. Quanto às causas imediatas da ascensão do fascismo italiano. desempregados e descontentes de todo o tipo. havia muitas pessoas implicadas na condena­ ção dc Dreyfus c o preconceito racial já não via freios à sua atividade. agora. da ordem capitalista destruidora. o caso Dreyfus. nacionalistas extrema­ dos. se suicidou. os únicos que obtiveram vantagens com a Revolução France­ sa foram os judeus. basicamente. O caso não ficou. André Dreyfus foi um oficial fran­ cês. O oficial denunciante dc Dreyfus. valorosa. porém. anti­ go símbolo de origem etrusca. graças aos escritos de um sindicalista revolucionário. O caso não teria maio­ res repercussões se ele não fosse judeu. que estava na moda.como Rothschild e outros. con­ quistada e destruída pelos judeus”. A partir daí tais movimentos nacionalistas não deixariam dc adotar. cuja expressão mais trágica seria mostrada na Alemanha nacional-socialista (19331945) e. em menor escala. campeava. em 1881. Foi o que bastou para que toda a França se empolgasse com o caso. Agravando tais tendências. trabalhadores da classe média. Benito Mussollini (1883-1945). Proprietários ru­ rais e comerciantes. b) a desastrosa derrota sofrida em 1890. encampado pelos latinos e que representa a união. a causa de todos os males da nação. o coronel Henry. que clamavam pela revisão do processo. intitula­ do La France juive. na própria Itália fascista. Émile Zola escreveu Jíaccuse. acusado de fazer espionagem em favor da Alemanha. foram. graças a um movimento levado a efeito por seus simpa­ tizantes. Integravam os fascii jovens futuristas. fazendo a apologia de uma França “romântica. destinados a combater o derrotismo e todos aqueles que fos­ sem considerados inimigos do povo. Segundo Brumont. supostamente desonestos. encerrado. por vol­ ta de 1914. haviam se apo­ derado dos bens dos franceses e eram. as se­ guintes: a) um nacionalismo humilhado e exacerbado pelas decepções da anexação da Tunísia pela França. idealistas. que já havia escrito um livro antissemita. Georges Sorel. Dreyfus foi condenado à prisão perpétua. A origem do vocábulo fascismo reside no fasces (fascio). diante . Os imigrantes hebreus. pois constituíam o símbolo do poder do ouro. especialmente a partir de 1938 ede 1943. A organização do movimento pressupunha a formação dos “fascii” de combatimento. Em sentido estrito.

temos a coragem dc repudiar todas as teorias políticas tradicionais. revolucioná­ rios c reacionários. g) a intran­ qüilidade generalizada. alta de preços. somos aristocratas c democratas. todavia. logo apoiou o movimento fascista. afinal? Filho de Alessandro Mussolini e de Rosa Maltoni. Quem era Benito Mussolini. Hegel e Platão. como Sérgio Panunzio. Entre 1929 e 1930. pacifistas c antipacifistas. contudo.. A mãe de Benito. confiando ao filósofo Giovanni Gentile tal in­ cumbência. Ao seu surgimento. Al­ fredo Rocco. foi imensa a influência de Marx sobre sua formação doutrinária. f) a escalada dc grupos anarquistas e comunistas e as greves freqüentes. era católica fervorosa e conservado­ ra. Outros jurisfilósofos robusteccm. O fascismo não carece dc dogmas. d) inflação. até se firmar definitivamente. c) posição intermediária entre o coletivismo e o individualismo: o Estado de­ ver ser a união de grupos e de corporações. ainda mais. temerosa da as­ censão bolchevista. que procurava adaptar-se a quaisquer novas circunstâncias sociais. e) o descrédito e o colapso do regime parlamentar. nasceu em Predappio. era um socialista radical. b) afirmação de um movimento reivindicatório contra o Tratado de Versalhes. professora. d) adoção do pensamento de Hegel. Diga-se de passagem que. como Proudhon e Sorel. considerável foi a atenção que Mussolini dispensou a Maquiavel. os pontos principais da ideologia fascista: a) afirmação do nacionalismo. numa infeliz guerra de conquista. Mussolini di­ zia então: Nossa doutrina são os fatos.224 Teoria Geral do Estado dos nativos abissínios. Guido Bortolotto. em Versalhes. violento e irascível. Giuseppc Prczzolini e outros. o fascismo italiano não apresenta uma doutri­ na preestabelecida. adepto ferrenho de KarI Marx e agitador con­ tumaz. Nós. que. ferreiro de profissão. c) a desilusão sofrida pela partilha do botim de guerra. marcariam muito a formação do fu­ turo Duce da Itália. Surgem então. f) o homem não tem mais direito do que aqueles que o Estado lhe concede. e) o Estado cria o Direito e a Moral. sendo seu pensamento quase todo calcado nos autores anarquistas e sindicalistas do século X IX . . a linha programática do movimento fascista. tão paradoxais. mais remotamente. especulação e desemprego 110 pós-guerra. fascistas. em 1883. mas sim dc disciplina. Hobbes e das teorias do poder absoluto. no centro da Itália. Seu pai. destinado a restaurar o Estado contra a desin­ tegração socioeconômica do capitalismo e contra a infiltração comunista. ele sente a necessidade de consolidar o caleidos­ cópio de ideias que era o fascismo. formalizados. As influências de ambos. Giuseppc Botai. Embora tivesse o temperamento do pai. principalmente junto à classe média. contudo. proletários c antiprolctários. A ação deve sobrepor-se à palavra. Era um movimento oportunista.

ao interesse do Estado. po­ rém. h) sindicalismo e condenação do liberalismo e do socialismo marxista. Adolf Hitler (1889-1945). o Partido Nacional-Socialista recolheu grande número de adeptos. de sua mãe. m)o trabalho como dever social. Profundo admirador das artes plásticas. porque a primeira expressão designa também aqueles que produzem pelo intelecto). de orientação direitista. Reprovado no vestibular e profundamente desgostoso. j) resolução dos conflitos entre o capital e o trabalho por intermédio de con­ tratos coletivos e de uma organização corporativa das categorias profissionais. Nesta. o Partido dos Trabalhadores Alemães. I) manutenção da iniciativa privada e da livre-concorrência. Quanto ao nacional-socialismo. foi influenciado por duas tendências. i) subordinação das corporações ao Partido Nacional Fascista. e um suposto plano dos judeus para domi­ nar o mundo. plano este resumido num livreto de origem duvidosa intitulado Os protocolos dos sábios de Sião. Filho de um funcionário público chamado Aleis Hitler. Em 1919 entrou em contato com um pequeno partido formado por operá­ rios. nada contra o Estado. nada fora do Estado. como vender cartões-postais de sua autoria. Tais corporações não distinguem entre patrões e operários. como já foi visto. norte da Áustria. Com Hitler. em 1921 Adolf Hitler foi nomeado seu presidente. doutrinariamente. logo depois. subordinadas. os indiví­ duos e os grupos são relativos. a fórmula: Tudo dentro do Estado. o partido tomou maior alento. o fascismo afirma que o Estado é absoluto. Hitler tentou o poder. mas aca­ bou sendo preso e condenado a cinco anos de cadeia. não pode ser tratado. Em 1923. que o queria ver funcio­ nário público. alistou-se como voluntário. Daí. . sendo ferido e recebendo a Cruz de Ferro. n) abolição do direito de greve. escreveu sua autobiogra­ fia intitulada Minha luta9na qual afirma a superioridade racial do ramo germânico da “raça ariana” sobre as demais raças. em Braunau. expressão mais conhecida por sua forma abre­ viada nazismo.1889. A partir de 1929. e. aproveitando-se da crise econô­ mica mundial. ficou órfão de pai aos 16 anos. contrariando seu pai. pretendia seguir a carreira de pintor. sendo substituída a antiga denominação por uma nova: Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães (NSDP).04. que acompanhariam seu pensamen­ to até a morte: nacionalismo extremado e antissemitismo. Ao estourar a Primeira Guerra Mundial. em vez de operários. Agru­ pamento em corporações dos membros de cada ramo da produção (Mussolini usa a expressão produtores. Adolf Schickelgruber Hitler nasceu em 20. Adolf Hitler passa a viver de pequenos expedientes. Ninguém po­ deria exercer nenhuma atividade sem autorização da corporação correspondente.8 Ideologias 225 g) amparado em Hegel. Quan­ do jovem. sem que mencionemos a tremenda figura de seu criador.

conduzido por um guia.01. bem como à ideia de que o Estado consti­ tui uma pessoa jurídica e. que vem a ser um todo orgânico.1. um condutor (Führer). 6. A doutrina nacionalsocialista repudia frontalmente as ficções da democracia liberal e pretende expor tão somente realidades.1945. O Estado nacional-socialista não é individualista porque o fim essencial do Estado não é o indivíduo. reduzido. Após várias campanhas políticas de maior êxito. quando os russos tomaram Berlim. mas era guiado.1933. A origem de todo Direito acha-se no Volksgeist (espírito do povo). suicidan­ do-se nos porões da chancelaria. O Estado encontra-se a serviço da comunidade. política. ao direito positivo. aparelho a serviço da nação. Laband. vivo e real. Por outro lado. . 6. como tal. devendo satis­ fazer.04. antes de mais nada. existe uma situação jurídica de membro da comunidade. profundamente. em linhas gerais. histórica. moral e. e ao povo “atomístico” da democracia burguesa do século X IX . portanto. em vez dos chamados direitos pú­ blicos subjetivos.226 Teoria Geral do Estado pessoas desgostosas com a situação política e econômica intolerável e pequenos empresários temerosos da atividade desenvolvida pelos comunistas. porém. Volksgemeinscbaft. que de­ fendiam o positivismo jurídico (o Direito seria criado pela vontade do Estado).1. atuando por meio de órgãos. a Volksgemeinscbaft corresponderia.8) 0 Estado na cion al-socialista e os direitos subjetivos Para o nacional-socialismo o Estado é meio e não fim. Enquanto a doutrina italiana do fascismo sofreu profun­ da influência dos juristas alemães. Hitler foi nomeado chanceler em 30. No Estado nacional-socialista o indivíduo. ao proletariado e sua ditadura na Rússia. prin­ cipalmente. racial. o nacional-socialismo afirma que a origem de todo o Direito e poder resi­ de na própria comunidade (Volksgemeinscbaft). O governo passava a ser considerado como uma emanação direta da própria comu­ nidade (Fiihrung). única realidade social. Constitui tão somente meio para o aprimoramento e a expansão da comunidade (Volksgemeinscbaft). Por outro lado. não tem relações com a comunidade. pois seria impossível. por isso. a própria comunidade. a concepção do chamado Estado dc Direito na doutrina nacional-socialista difere. da concepção liberal e indivi­ dualista. Ficou no poder ate o dia 30. O povo não se autogovernava. o Estado nacional-socialista não é liberal porque não reconhece ao indivíduo uma esfera de liberdade que deva ser respeitada absolutamente. Enfim. como Gerber. Jellinek. chamada. Gierke. os interesses desta.7) A doutrina nacional-socialista O nacional-socialismo deu origem a uma doutrina completamente nova so­ bre o Estado e o Direito. seria titular da soberania. como vimos.

1. abstratas. Isto deve ocorrer até mesmo nas decisões tomadas contrariamente às leis promulgadas pelo próprio Führer. reforçada. no Führerstaat a autoridade da vontade pessoal do Führer supera a lei. poder-se-ia dizer que o Estado liberal seria um Estado legal. mero corolário da sua autonomia. esta é apenas uma parte do D i­ reito. em desconformidade com o ordenamento vital do povo. expres­ sa cm forma dc regras genéricas. se no Estado liberal-democrático a lei domina todo o sistema político. em excelente exposição sobre as instituições nacionais-socialistas. Qualquer oposição. sendo. o Estado nacional-socialista seria um Estado de Direito.9) 0 princípio da liderança (Führung) no Estado nacional-socialista O principal e mais interessante instituto do direito público nacional-socialis­ ta é a Führung. nem mesmo à autoridade da lei. 6. o poder do líder é autoritário. O povo confia em seu líder porque este apresenta as qualidades necessárias para o seu cargo. é porque há fidelidade c confiança mútuas. o nacionalsocialismo afirma que o Direito se sobrepõe à lei. não será admitida. de condução da comunidade (Volksgemeinschaft). poder e decisões devem predominar em qualquer caso. Finalmente. assim.8 Ideologias 227 Enquanto o liberalismo identifica o Direito e a lei (positivismo). é autônomo porque o Führer não se submete a nenhuma autorida­ de. em razão de mudança das cir­ cunstâncias. Esta é guiada. pois referidas leis podem estar. as de­ cisões do líder não podem sofrer oposição. Na doutrina nacional-socialista a juridicidade substitui a mera legalidade. contendo-se apenas na lei o direito seria estabelecido independentemente do legis­ lador e da lei. em sua doutrina de uma razão universal dirigindo o Estado. declarava Hitler:4 4 Eu não teria existido não fosse minha fé poderosa no povo alemão. Como acentua Roger Bonnard. chefe. Se o exercício do poder se limita a uma condução. Por isso. Na Führung encontramos o eco de várias passa­ gens de Hegel. Com efeito. pela fé e a con­ fiança do povo alemão em m im ”. formando seu séquito ( Gefolgschaft). como vontade da pessoa-Estado. autônomo e autoritário. seja pelas vias de direito ou pelos recur­ sos jurisdicionais. Como a Führung deve estar em consonância com o ordenamento vital do povo. o poder de Führung é necessariamente pessoal. . sendo originário. sua vontade. e como é o Führer quem possui em mais alto grau consciência do referido ordena­ mento. Por outro lado. E originário porque não foi conferido pelo povo ou qualquer autoridade e porque quem o exerce o faz pelo simples fato de ser Führer. O Estado nacional-socialista é. e se a comunidade segue espontaneamente seu chefe. sem cessar. então. afir­ mando-se que a matéria jurídica nâo seria obra própria c exclusiva do legislador. dirigida por um Führer. protegidos os direitos in­ dividuais. contra as decisões do líder. Daí a expressão Führer. Sofismando. um Führerstaat. Em que consiste a Führung? Cons­ titui um princípio de liderança. de fato ou de direito.

fenômeno este . mas que integre o indivíduo ao Estado. pois que revelam. em harmoniosa composição. não certezas. tais grupos devem ser su­ focados pela prevalência absoluta deste Moloch chamado Estado. naquele. Tais grupos surgem natural­ mente. é preciso salien­ tar as diferenças entre o corpo social e o organismo biológico: neste constata-se unidade física ou substancial. entre o indivíduo e o poder político. devem fruir da autonomia e da assistência do Estado. escolhendo. no seio da sociedade. Para o organicismo radical. o sindicato. adaptando-a. tais grupos constituem meras associa­ ções voluntárias. bem assegura e salienta a impropriedade do organicismo radical. para o liberalismo. 1967. ine­ xoráveis e imutáveis. como a família. o indivíduo. Em meio ao cipoal dc ideologias políticas radicais c dc práticas políticas de­ finitivamente ultrapassadas. postulando um organicismo moderado. como se ambos ti­ vessem a mesma natureza. expressa apenas tendências. sirva de instrumento de realização pessoal e social. reformando-a. berna . age livremente. Esta doutrina chama-se huma­ nismo social. o município.. Esses grupos são como flores de variadíssima natureza. o organicismo radical. o indivíduo jamais alcançará a ple­ nitude do seu desenvolvimento. muito mais do que o próprio Estado. conforme adverte Pedro Salvetti Netto. optando. a parte contra o todo. Curso de teoria do Estado. suplantadas pelos partidos políticos. pois que este confunde o organismo social e o organismo biológico. A doutrina do humanismo social busca integrar o homem ao Estado. movido por seu arbítrio.228 Teoria Geral do Estado 7) H U M A N ISM O SOCIAL Bibliografia: A. que. procu­ ra o meio-termo entre o mecanicismo e o organicismo. A nature­ za das leis éticas. Madrid. cuja atuação. Por outro lado. mas condena. São Paulo. salvetti n e t t o . Ora. 1982. pelo menos no Brasil. devem ser órgãos legítimos de intermediação entre o in­ divíduo e o Estado. Na verdade. ed. a suas aspirações. partin­ do da afirmação de que. Curso de doctrina social católica. se bem que não soberanos. ct al. fazendo com que este. Tal liberdade dc ação. a sociabilidade ina­ ta do homem. que brotam espontaneamente. sensatamente. Católica. revelam uma tendência natural do ser humano dc sc realizar c de se proteger e. portanto. não percebida no organismo físico. La Editorial Pedro. os quais. pois. enfim. possibi­ lidades. en­ quanto os órgãos que compõem o corpo humano obedecem a leis biológicas. até mesmo na sua grafia. que não oponha o Estado ao indivíduo ou vice-versa. surgiu uma nova doutrina. alterando-a. existem grupos natu­ rais. sem a participação do Estado. pode o indivíduo voltar-se contra as estruturas sociais. também. Saraiva. condena frontalmente o me­ canicismo. Como faz ver José Pedro Galvão de Souza. Tal concepção. ordenatórias da vida social. 5. unidade moral ou de ordem. tem sido inexpressiva.

Finlândia. a social-democracia logo conquistou Hungria. 8) SOCIAL-DEMOCRACIA Bibliografia: a r a ú j o de Nilson. daria origem ao bolchevismo. Na Rússia. A history of Western political thought. Paolo. Fondo dc Cultura Econômica. Alemanha e Dinamarca. pareça ter sido criada pelos próprios marxistas ortodoxos. 1996. G lo­ . México. 1996. 1997. isso só se­ ria possível graças ao sacrifício da liberdade econômica plena. b is c a re tti di r u f f ía . São Paulo. o socialismo . J. Embora a ex­ pressão revisionismoy com sentido pejorativo. sob o comando de Lenin. . o próprio Lenin e. inicialmente na Alemanha. Depalma.cm todas as suas vertentes . Bulgária e Escandinávia. A conformação da sociedade. Enciclopédia de la política. estruturado pela facção ma­ joritária daquele partido. 1980. mais tar­ de. Noruega. verdadeiro simulacro do autêntico corporativismo. Reagindo a isso. b o r ja Rodrigo. Routledge. como Karl Kautsky (1854-1939). ja­ mais simples veículos da vontade dos governantes. Ao preconizar a máxima liberdade políti­ ca. M c C le lla n d . Não o corporativismo fascista. Introducción al derecbo constitucional com­ paradoi. México. bal. Fondo de Cultura Econômica. Considerada a vertente socialista dos Estados altamente industrializados do norte europeu. Introducción a la teoria dei Estado. fundado em 1898.visou corri­ gir tal desvio. 1995. e a adjetivação revisionista com que a orto­ doxia passou a acicatar os seguidores da chamada terceira via. o Partido Social-Democrático Ope­ rário. M ao Tsé-Tung deveriam ser considerados revisionistas por excelência. A social-democracia se mostra um efeito recente da antinomia liberdade/igual­ dade deflagrada na Revolução Francesa. o liberalismo agravou a desigualdade econômica. London-NewYork. Todavia. pois os grupos sociais autênticos devem ser dotados da mais ampla liberdade possível. Martin. ambos estagnados num estágio feudal de desenvolvimento. como alternativa entre o socialismo revolucionário e internacionalista e os princípios da liberal-democracia. O colapso do neoliberalismo. deve ser eminentemente corporativa. Desta síntese exsurge o caráter mais reformista que revolucionário da nova ideologia. como Suécia. mais precisamente durante a Segunda Internacional Socialista (1889). graças à livre-concorrência absoluta. como uma ideologia revisio­ nista do marxismo elaborada por Edward Bernstein (1850-1932). Buenos Aires. a socialdemocracia surgiu na segunda metade do século X IX . mediante a abolição dos privilégios da burguesia. souza . Daí o surgimento da social-democracia.8 Ideologias 229 já previsto por Thomas Hobbes em sua obra clássica Leviatà. S. Desfrutando de cres­ cente prestígio. já que ambos ousaram adaptar a ortodoxia da concepção marxista da revolução aos seus próprios países. k rie le . para o humanismo social.

É sabido que não foi bem isso o que ocorreu. A omissão do Estado quanto à disciplina da atividade econômica ensejaria a concen­ . enlaçar sem traumas liberdade política. parecem ser medidas radicais e violentas. mesmo que por vias alternativas. quando isso ocorre. então. proporcionando ao indivíduo a máxima autonomia de vontade.230 Teoria Geral do Estado Hoje. individualis­ mo c liberdade econômica. res­ tando para as classes menos favorecidas apenas uma liberdade e um bem-estar eco­ nômico meramente formais. onde as únicas soluções viáveis para o subdesenvolvimento. A mão invisível da Natureza . como verdade absoluta. obtendo-as. a social-dcmocracia defende uma ordem econômica eclética. nos Estados mais adiantados. pela via refor­ mista. sempre.utiliza unicamente meios pacíficos na composição dos conflitos de classe. Na verdade. retrógrada. criar a infraestrutura de uma nova social-democracia. o liberalismo nascente elegeu. conforme necessá­ rio. a social-democracia defende a economia de mercado com a participação de todos. nos Estados menos desenvolvidos passou a ser considerada. altera. Afirmando dois valores básicos. a situação do Terceiro M undo perante a social-democracia é bem diferente: buscam-se mudanças políticas e sociais extremadas para. flatus voeis de uma ordem econômica irrealizável. Os Estados menos desenvolvidos pouco têm a defender e muito a conquistar. mas não admite que indivíduos ou gru­ pos pretendam monopolizar a atividade econômica. A realiza­ ção do bem individual de cada cidadão representaria o próprio bem comum. uma ideologia conservadora. o Gover­ no intervém para restabelecer o equilíbrio ameaçado. e as crises pe­ riódicas que o afligem.a expressão é do pró­ prio Adam Smith . pois a liberdade burguesa só existe para a própria burguesia. devendo o Estado abster-se dc interferir na atividade eco­ nômica. conseguindo. exclusivamente. vale reconhecer. Enquanto a so­ cial-democracia europeia . prosperida­ de econômica e assistência social. na defesa de seus próprios interesses. mera somatória de interesses privados. limitando-se o Estado a zelar pela preservação de ordem tipicamente burguesa.que tem muito do socialismo fabiano ou contemporizador . 9) NEOLIBERALISMO O liberalismo clássico surgiu com a desagregação do feudalismo e o conse­ qüente aparecimento do capitalismo. a social-democracia ainda não se adaptou inteiramente ao Terceiro Mundo. Relativamente bem-sucedida nos Estados mais evoluídos política e econo­ micamente. ipso facto. na qual tem vez tanto os mecanismos de mercado quanto a planificação econômica estatal. a orientação dc Adam Smith de que o homem age. Doutrina flexível.se encarregaria de ordenar as relações entre os homens. bem assim a propriedade pri­ vada restringida pelo interesse social. sem perceber que a classe trabalhadora dos Estados nórdicos que a adotaram não carece de medidas revolucionárias violentas para suas conquistas. enca­ minhando-os para um sistema econômico perfeito. métodos e objetivos. Em suma.

Referido autor não leva em conta que a liberdade entre desiguais conduz à injustiça. . o neoli­ beralismo. em potencial ameaça às instituições burguesas. equiparar a liberdade de vida. Ao observador atento e sereno. foi uma tentativa desesperada de reavivar a atividade econômica estagnada pelo ma­ rasmo burocrático. cujos efeitos já se fazem sentir. O próprio poder de Esta­ dos subdesenvolvidos ou em desenvolvimento acha-se condicionado à planificação e operação das grandes empresas nacionais ou transnacionais. o neoliberalismo. com inteira procedência. enriquecer. ter empresas. na realidade voltada para a ressurreição das leis de mercado. já em fins dos anos 1980 e no início da década dos 1990.8 Ideologias 231 tração dos meios de produção nas mãos de alguns privilegiados. enfim. qual seja. que simbolizou a própria queda de um socialismo viciado e o término da chamada Guerra Fria. na União Soviética e nos Estados socialistas do Leste Europeu. Articuladas entre si. de opinião. mas sim um mercado dirigido por corporações transnacionais. mas pela iniciativa privada. se no Ocidente o neoliberalismo foi uma resposta. o regime so­ cialista cederia. após décadas de experimentação socialista. Nisso há uma total falta de perspectiva. manipulam a economia na direção de seus próprios interesses. passagem ao seu rival histórico. Observa. Huntington. Ora. de imprensa ou qualquer das liberdades fundamentais do ser humano à liberdade de investir na economia. uma preocupante maioria de despossuídos. passando a economia. não uma teórica liberdade de mercado. no mundo con­ temporâneo. que adotam notória estratégia de dominação dos mercados. O que ele c outros neoliberais defendem é uma liberdade que termina por autodestruir-se (Enciclopédia de la política. involuindo para os bons tempos do laissez-faire. o capitalismo. em con­ trapartida. p. investir e ter propriedades sem a intervenção do Estado pertence ao mesmo gênero das grandes liberdades do homem. sob o pretexto de modernizar o Esta­ do e reduzir seu tamanho. se o de­ sabamento dos regimes marxistas revelou a ineficácia de um sistema estratificador dos meios de produção. como o faz Samuel P. que a liberdade de trabalhar. Rodrigo Borja que o neoliberalismo se funda em enorme falácia. então diretor do Instituto de Estudos Estratégicos da Universidade de Harvard. Com a derrubada do muro de Berlim. Vale-se do prestígio da palavra liberdade para sustentar. Pois bem. dirigida e ad­ ministrada não pelo Estado. liberando a propriedade privada de encargos sociais e colocando a di­ reção da economia nas mãos dc particulares. pretensamente uma nova doutrina. é na verdade planificada. embora pífia. seja no plano interno ou no internacional. 683). ao descontentamento com o liberalismo. descontentes dc toda espé­ cie. surgindo. não é menos verdade que este foi substituído por uma de­ sordenada privatização de bens públicos. Disso resulta que a atividade econômica. aparentemente livre. Surgiu. assim. Em outras palavras. resta evidente que prevalece. abrindo as fronteiras dos Estados menos desenvolvidos para uma indiscriminada exploração econômica estrangeira. para a iniciativa privada.

a fim de fortalecer o sistema capitalista e resistir à pressão dos Estados socialistas da Europa e do Terceiro M undo.mais propriamente.10. e o elemento central da ideologia da oligarquia financeira que domina o mundo. É uma ideolo­ gia . na atual etapa do capitalismo.1973. Nem muito menos uma cor­ rente de pensamento científico. políticos e economistas influentes dos Estados Unidos. reuniu-se uma Comissão denominada Trilateral. Desse fato. (O colapso do neoliberalismo. 9) . Não chega também a ser uma doutrina. formada por empresários. na cidade de Tóquio.232 Teoria Geral do Estado Em 23. para estabelecer uma coesão maior entre as gran­ des corporações transnacionais. como tantos outros semelhantes. p. cabe razão a Nilson Araújo dc Souza quando afirma: o chamado neoliberalismo não é uma teoria científica. da Europa e do Japão.

Rio de Janeiro/São Paulo. Alexandre III. Impetus. mas. São Pau­ lo.0 ESTADO ENTRE ESTADOS: AS ORGANIZAÇÕES INTERESTATAIS Bibliografia: a c c i o l y .d. . v. Niterói. Dictionnaire des civilisations de VOrient ancien. Itatiaia. Pedro. salvetti n e t t o . 1986. Direito internacional convencionai Ijuí. s h ip l e y . Curso de direito internacional b r ie n d público. Manual de direito internacional público. C. após derrotar os persas. 1) NATUREZA DAS ORGANIZAÇÕES INTERESTATAIS A ideia da universalização de uma dada cultura superior. The Cambridge Dictionary of Classical Civilization. Jacques e ou­ - tros. 2006. 1994. de. W. Larousse. foi um dos primeiros a levar a civilização helênica aos povos deno­ minados “ bárbaros”. t e i x e i r a Jair.. que venha a benefi­ ciar toda a humanidade. O segredo dos hititas. Larousse. universalizar a civilização grega. Saraiva. Tratados y juramentos en el antiguo Oriente Proximo. Camd o s r e is . Celso D. e fundando um Estado universal. com isso. Catheri- ne. Divino. 2002. 1977. Tribuna da Justiça. 1. 14. 2008. Renovar. não foi estranha a grandes vultos da História. Larissa.l e s . Tanto que o próprio Alexan­ dre. Civilisations antiques. v. Navarra. I. ra ra Guy. Editorial Verbo . s. e fez com que muitos de seus generais se casassem com mulheres persas. Graham e outros. São Paulo.. Resumo de direito internacional e comunitário. Unijuí. s a i . chet. Hildebrando. ed. m in a ceram . levando-a da Europa até os confins da Ásia Me­ nor. buscando. Belo Horizonte. 2. Curso de ciência política (teoria do Estado). simplesmente. ed. casou-se com uma das filhas do rei Dario III. Al b u q u e r q u e m e l l o . Paris. bridge. 2008. 1957. designativo daqueles que não falavam a língua grega. voz que não tinha conteúdo pejorativo. 2008. Cambridge University Press. Paris. O historiador Plutarco afirma que os povos da época em que Alexandre expandia seu império aceitavam dc bom grado fazer 233 . o Grande.

A obra de integração engendrada pelo gênio de Roma. anteviam o futuro e conduziam os povos no rumo do congraçamento político destes. seus costumes. o Estado. pela mística de segurança que aqueles invencíveis exércitos podiam levar a grupos beligerantes. que. em razão da contínua sucessão das lutas entre eles. este obra não de um homem apenas. por conseqüência. sua religião aos povos vencidos. muito aci­ ma da visão estreita dos medíocres. merece especial referência o expansionismo romano. antes respeitando-lhes as instituições culturais. de forma absoluta. Pedro Salvetti Netto sintetiza. da mesma forma que a pessoa natural busca. ensejando conflitos que cumpre ao Poder Judiciário compor. Após a tentativa de Alexandre. tenha a formação dc um império per­ durado por tantos séculos a impor sua autoridade. remanesceram na Baixa Idade Média. única forma de alcançar plenamente seus objetivos. mais que isso. Sob a tutela do Império. E da mesma forma que a pessoa natural nem sempre mantém um relaciona­ mento amistoso com outras pessoas. visando aumentar seus territórios. expansionistas. também cada Estado pode acabar se envolvendo contra seus pa­ res em conflitos velados ou guerras declaradas para alcançar objetivos puramente econômicos 011. a 180 d. o relacionamen­ to social e econômico com seus semelhantes. impondo a notória Pax roma­ na (30 a. De fato. impor suas tradições. po­ rém.C. permaneceu ainda mesmo depois que as hostes germânicas derrotaram as legiões de Roma. o fato é que. pela perspicácia do vencedor em não pretender. a necessidade de instituir. como sc afirmou. Pois bem. que é pessoa jurídica de direito internacional público. de forma semelhante aos tribunais no âmbito interno desses. pre­ cisa interagir com outros Estados para realizar seu objetivo maior que é o bem co­ mum.C. diante das vantagens oferecidas pela civilização grega. ao formar-se. por isso mesmo in­ satisfeitos e. Roma prometeu a paz ao mundo com todas as suas con­ seqüências benéficas de prosperidade. independentemente dos grandes vultos da História. sobre povos dc culturas tão diferenciadas. esse período da bela História Romana: É realmente singular. inseguros. mesmo. com maestria. instintivamente. já então notável. compreende-se: de um lado. da própria Organização das Nações Unidas. mas dc inúmeros vultos que foram se sucedendo e ampliando as fronteiras do império. Napoleão Bo­ napartc inspirou-se consideravelmente nas realizações de Alexandre. Esses órgãos são entidades interestatais. dessa paz. de outro. cm toda a história.). na esfera interestatal. Daí. cuja natureza é a de associações de Estados criadas mediante tratados e dotadas de personalidade .234 Teoria Geral do Estado parte desse. e muitos au­ tores veem nele um precursor da Liga das Nações e. O mito dessa segurança. sob a égide de uma lei universal. sob a inspiração legendária do Im ­ pério c a influência. o chamado Sacro Império Ro­ mano Germânico. da Igreja Cristã. órgãos decisórios que fazem às vezes de árbitros nas querelas de Estados em conflito.

como a Organização dos Estados Americanos (OEA).9 0 Estado entre Estados: as organizações interestatais 235 e ordem jurídica próprias.UE A ideia de uma unificação econômica e. Além dessas espé­ cies. e não prestar auxílio a Estado contra o qual a organização estiver impondo sanções. Tais organizações têm fins universais. e os demais não permanentes. objetivando a solução pacífica dos questiona­ mentos mútuos que possam surgir entre seus filiados. ex­ ceto o Tribunal Internacional de Justiça. distintas das de seus filiados e com objetivos específicos. o maior número de Estados. como sc depreende dos versos de Quinto Horácio Flaco: . cuja vinculação decorre de um tra­ tado (Carta da ONU) que discorre sobre os direitos e as obrigações daqueles. existem as organizações de fim específico. em alguns aspectos. eleitos pela Assembleia Geral por dois anos. Conselho Econômico e Social. pois visa congregar todos os Estados do mundo e compor seus conflitos mú­ tuos na qualidade de guardiã da paz. como o Fundo Monetário Interna­ cional (FMI). criada logo após a Primeira Guerra Mundial. e que aca­ bou fracassando principalmente por não contar. b) obrigação dc seus filiados dc cumprir os compromissos da Carta. Conselho de Se­ gurança. São princípios instituídos pela ONU: a) princípio da igualdade soberana dc todos os seus membros. Rússia. França e China). Outras também visam objetivos também amplos. todos situados na própria sede da ONU (Nova York). f) pressionar Estados não filiados a não tomar medidas prejudiciais à paz e à segurança internacionais. 2) A ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS . A ON U conta com 192 Estados filiados. quando visam congregar. 3) DIREITO COMUNITÁRIO: ANTECEDENTES DA UNIÃO EUROPEIA . entre seus filiados. na medida do pos­ sível. É o caso da Organização das Nações Unidas (ONU). a Organização Internacional do Trabalho (OIT) e o Banco Inter­ nacional de Reconstrução e Desenvolvimento (Bird). Tribunal Internacional de Justiça e Secretariado. dos quais cinco são permanentes (Estados Uni­ dos. política dos Es­ tados europeus é anseio que se desenvolveu na própria Antiguidade Clássica. na Conferência de Versalhes dc 1919. e) obrigação de colaborar com as medidas tomadas pela organização em conformidade com a Carta. É a sucessora da Liga das Nações. As deliberações do Conselho de Segurança obrigam os filiados à organização. Conselho de Tutela. O Conselho de Seguran­ ça é formado por quinze membros. Grã-Bretanha. A or­ ganização compreende seis órgãos principais: Assembleia Geral. sediado em Haia. c) composição dc litígios internacionais por meios pacíficos.ONU A Organização das Nações Unidas (ONU) é uma instituição de caráter uni­ versal. embora regionais. com os Estados Unidos da América do Norte e a União Soviética. d) absten­ ção do emprego de ameaça ou força material contra outros Estados.

publicando. Kalergi passou a ser considerado um verdadeiro apóstolo da unificação. um jovem aristocrata húngaro. 3° e 3°-A. na qual expunha suas ideias. Dante Alighieri retomou o assunto e. um alto grau de convergência dos comportamen­ tos das economias. em 1304 o jurista Pierre Dubois concebeu um projeto de Estados Uni­ dos da Europa. o Presidente da República Francesa. Com o tempo. sem o saber. Sua Majestade o Rei de Espanha. em face do autoisolamento do Leste Europeu. o aumento do nível e da qualidade dc vida. 27) Séculos mais tarde. Churchill pronunciou.03. mulher do invencível Júpiter! Deixa de soluçar e aprende a fruir uma grande fortuna: uma parte do globo receberá teu nome. dirigiu à imprensa europeia uma mensagem reafirmando a necessidade de uma União Pan-Europeia.. Napoleão c Hitler tentaram a unificação pela força intimidatória das armas.1992 foi assinado o Tratado de Maastricht. 2o: A Comunidade tem como missão a criação de um mercado comum e de uma União Econômica e Monetária e da aplicação das políticas ou ações comuns a que se referem os arts. o desenvolvimento har­ monioso e equilibrado das atividades econômicas. quase contemporaneamente. uma obra de grande repercussão. que instituiu a União Europeia. que instituiu a Comunidade Europeia. porém fracassaram. o Presidente da Ir­ . esses dois Estados.1957 foi firmado o Tratado dc Roma.. um crescimento sustentável c não inflacionista que respeite o ambiente.] Mas Venus lhe disse: . Em 25. um discurso consa­ grado à unificação europeia. restando evidente que apenas pela força do Direito a união seria possível. cuja exposição de motivos é sumamente elucidativa: Sua Majestade o Rei dos Belgas. sobre o qual empregou. o Conde Coudenhove-Kalergi. intitulada Pan-Europa. promover.Tu és. na Universidade de Zurique. Em 1946. Sua Majestade a Rainha da Dinamarca. ressaltando a necessidade da organização do Ociden­ te. Em 1922.02. no que foi seguido por Jean-Jacques Rousseau e Saint-Simon.] Empalideceu com a sua própria coragem chorando o ato vergonhoso [. no ano seguinte. o Presidente da República Helênica. mas não se chamará França.236 Teoria Geral do Estado Europa entregou ao Touro sedutor o seu flanco de neve [. (Carmine. na oca­ sião e pela primeira vez. o Pre­ sidente da República Federal da Alemanha.. Em 07. determinado seu art. de comum acordo. em toda a Comunidade.] esta nação terá por capital Paris. uma confederação apta a unir seus destinos.. II. criando.. a célebre expressão Cortina dc Ferro: “Uma cortina de ferro acaba de tombar sobre a Europa! ” Na oportunidade. fez uma exortação à França e à Alemanha que se reconciliassem.. va­ lendo lembrar que em 1867 Victor Hugo profetizara: “ No século X X haverá uma Nação extraordinária [. a coesão econômica e social e a solidariedade entre os Estados-membros. e sim Europa”. um elevado nível dc emprego e dc proteção social.

e a aplicar políticas que garantam que os progres­ sos na integração econômica sejam acompanhados dc progressos paralelos noutras áreas. Resolvidos a continuar o processo dc criação dc uma união cada vez mais estreita entre os povos da Europa. à qual sc submetem os Estados signatários. Decidiram instituir uma União Europeia. no momento próprio. assim. pela autoridade comunitária (duo Comissão-Conselho). Confirmando o seu apego aos princípios da liberdade. uma moeda única e estável. Sua Majestade a Rainha do Reino Unido da Grã-Bretanha e da Irlanda do Norte. Estas últimas nor­ mas. nos termos das disposições do presente Tra­ tado. as tarefas que lhes estão confiadas. incluindo. de acordo com o princípio da subsidiariedade. constituindo o cha­ mado direito comunitário originário. a fim de lhes permitir me­ lhor desempenhar. Resolvidos a conseguir o reforço e a convergência das suas economias e a instituir uma União Econômica e Monetária. em que as de­ cisões sejam tomadas no nível mais próximo possível dos cidadãos. Assinala João Mota de Cam­ pos que uma parte dessas normas consta dos próprios Tratados. a pra­ zo. Rea­ firmando o seu objetivo de facilitar a livre circulação de pessoas. a uma defesa comum. Determinados a promover o progresso econômico e social dos seus povos. Comunidade Econômica Europeia e Comunidade Europeia da Energia Atômica). o Presidente da República Portu­ guesa. em ordem a promover a paz.. no contexto da realização do mercado interno e do reforço da coesão e da proteção do ambiente. os Tratados de Paris e de Roma instituíram uma ordem jurídica própria. de disposi­ ções relativas à justiça e aos assuntos internos. num quadro institucional único. Resolvidos a instituir uma cidadania comum aos nacionais dos seus países.9 0 Estado entre Estados: as organizações interestatais 237 landa. Na perspectiva das etapas ulteriores a transpor para fa­ zer progredir a integração europeia. Sua Majestade a Rainha dos Países Baixos. recomendações ou diretivas c decisões). da democracia.. a segurança e o progresso na Europa e no mundo. Re­ solvidos a executar uma política externa e dc segurança que inclua a definição. Sua Alteza Real o Grão-Duque do Luxem­ burgo. e que por isso deles derivam. Recordando a importância his­ tórica do fim da divisão do Continente Europeu c a necessidade da criação dc bases sólidas para a construção da futura Europa. de atos normativos diversos (decisões ge­ rais ou regulamentos. no presente Tratado. resultado de uma produção legislativa realizada na conformidade dos Trata­ dos. sem deixar de garan­ tir a segurança dos seus povos mediante a inclusão. Desejando reforçar o caráter democrático e a eficácia do funcionamento das instituições. Resolvidos a assinalar uma nova fase no processo de integração europeia ini­ ciado com a instituição das Comunidades Européias. cultura e tradições. Com a criação das três Comunidades Européias (Comunidade Europeia do Carvão e do Aço. respeitando a sua História. constituem o direito comunitário derivado (Direito . do respeito pelos direitos do Homem e liberdades fun­ damentais e do Estado de Direito. de uma política de defesa comum que poderá conduzir. Desejando aprofundar a solidariedade entre os seus povos. fortalecendo. outras resultam da adoção. o Presidente da Republica Italiana. a identidade europeia e a sua independência.

. propiciando condições de concorrência entre os Estados-membros. c) a criação de uma tarifa externa e dc uma política comercial comuns. fiscal. após dramática batalha. aceitou o desafio e a guerra foi inevitável. industrial. Ramsés II. sem dúvida. editando nada me­ nos que 46 exemplares do texto. de transportes e comunicações. ampliada pelo Tratado de Assunção. como visto. que emprestaria seu nome à celebre batalha. cujo resul­ tado ainda hoje não ficou claro. 5) OS TRATADOS INTERNACIONAIS (NATUREZA E EFICÁCIA) Por volta do remoto período entre 2404 e 2375 a. 13 e scgs.C. cidade do sul da Mesopotâmia. Fundação Calouste Gulbenkian. um rei do Elam. no tocante ao comércio exterior. de 1980.12.). passou a se proclamar vencedor. com vistas à inte­ gração do chamado Cone Sul. eclodindo na localidade de Kadesh. cambial c de capitais. Seriam estes os primeiros tratados internacionais registrados pela História.1991. agrícola. v.C.C. 2. 19 e segs. que teria sobrevivido milagrosamente no embate. formalizado numa tabuinha de argila encontrada por arqueólogos c enviada ao Museu do Louvre. monetário. Pouco mais tarde. outro tratado de paz.238 Teoria Geral do Estado comunitário. b) a livre circulação de bens e serviços entre os Estados-membros. sendo estes os seguintes: a) a adaptação da legisla­ ção de cada Estado-membro à legislação dos demais. forma­ da apenas por Brasil e Argentina e. Argentina. que assinalava os confins do império dos hititas. alfandegários. p. p. na antiga Mesopotâmia (atual Iraque). país situado no sudoeste do atual Irã. O rei hitita. de 26. mediante a supressão de direitos alfandegá­ rios. embora sua importância fosse. o Mercado Comum do Sul (Mercosul) congrega Brasil. Esta­ mos nos referindo ao célebre tratado de paz entre Ramsés II. outro tratado seria. em alguma data entre 2291 e 2255 antes da Era Cristã. Paraguai e Uruguai. 1. indevidamente. d) a coordenação de políticas macroeconômicas e setoriais entre os Estados-membros. Ramsés II contestara as fronteiras do Egito e da região que hoje é a Síria. conside­ rado o mais antigo. muito maior. celebrou com Akkadc ou Agadé. em 1296 a. monarca egípcio e Muwatalis. e v. Seu histórico remonta ao Tratado de Montevidéu. 4) 0 MERCADO COM UM DO S U L-M E R C O S U L Instituído pelo Tratado de Assunção. entretanto. soberano hitita.. que estruturou ór­ gãos e objetivos do Mercosul. depois. Muwatalis. provavelmente em 2400 a. embora seja admiti­ .. Após o conflito. Em 17. dois príncipes das cidades sumérias de Lagash e Uruk. mais tarde. dc serviços. que criou a Associação Latino-Americana de Integração (Aladi).03. povo indo-europeu de grande poderio militar.1994.. foi assinado o Protocolo de Ouro Preto. Lisboa. celebraram um tratado de paz e fraternidade.

E o que acontecia aos países entre o Nilo e o Tigre era. confere a seguinte definição des­ te ato: Tratado significa um acordo internacional concluído entre Estados. a outro ou outros Estados qualquer conduta de seu ex­ clusivo interesse. de 1969. sanções de ordem econômica. A complexidade crescente das relações da comunidade internacional. unilateralmente. bem demonstra que os governantes já intuíam a importância dos tra­ tados. Ela decidiu o destino da Síria e da Palestina. Hoje. consideram prudente alternativa compor suas querelas e atender seus interesses suasoriamente. a antiguidade do acordo celebrado entre egípcios c hititas. . A Convenção de Viena. E na sua esteira veio o primeiro tratado dc paz detalhado de que temos conheci­ mento.9 0 Estado entre Estados: as organizações interestatais 239 do por muitos historiadores que os egípcios teriam sido fragorosamente derrota­ dos. se não foi o pri­ meiro. a história do mundo. imediatamente. morais se fariam sentir. entre o faraó Ramsés II e o rei hitita Muwatalis. principalmente os de paz. em forma escrita e regulado pelo Direito Internacional. um pacto que ultrapassa. foi o mais significativo da História antiga do Próximo Oriente. C. O fato é que dessa animosidade surgiu um tratado de paz que. no mí­ nimo. o fato é que por seu intermédio se regem as matérias mais importantes. É a primeira batalha da que somos capazes dc recons­ truir. naqueles tempos. 177) Vejam. cm época tão remota. Ceram assinala: A batalha de Kadesh. travada no ano de 1296 antes de Cristo. muitos dos tratados de paz que têm sido produzidos pelas nações do vigésimo século da Era Cristã. sobre tratados. política ou. (p. consubstanciado em um único instru­ mento ou em dois ou mais instrumentos conexos. em sabedoria política. além de ser manifestação de vontade objetiva democrá­ tica por excelência. seria praticamente impossível um Estado impor. já reconheciam as vantagens da composição amigável de suas dissidências. venha a sc impor a outro pela força. a interde­ pendência cada vez maior imposta a cada Estado em relação aos demais. Em sua obra O segredo dos hititas. supostamente. W. Como as pessoas naturais. Há outro aspecto fascinante nesta batalha junto ao rio Orontes. tendo em vista a participação direta dos Estados interessados. Qual a natureza do tratado internacional? Qual sua eficácia? O tratado é a fonte primeira do direito internacional c. verdadeiramente figura entre essas batalhas de primei­ ra importância para o mundo. assim como da balança do poder entre o Egito e Hatti. também as antigas sociedades políticas. qualquer que seja a sua designação específica. tangidas pela razão. sem falarmos no ubíquo terrorismo que solapa o mo­ ral de qualquer Estado que. conduzi­ das por seus governantes. embora haja acordos de outra natureza no plano interestatal. tem ense­ jado a multiplicação dos tratados. mediante contratos.

84. enquanto a interna se ocupa somente de pes­ soas naturais e jurídicas. 259. A teoria dualista foi elaborada por Heinrich Triepel. é relativamente ao concurso entre o tratado internacional e as nor­ mas internas de cada Estado que surgem a maiores indagações.trata-se dc um ato com objetivos econômico-financeiros ou cul­ turais. resultando da vontade de vários Estados contratantes. a ordem internacional obtém sua validade em pro­ cedimentos típicos da comunidade internacional. b) protocolo-acordo . no art. c) Protocolo . Nesse senti­ do. a saber. podendo estas ser nacionais ou estrangeiras. é fato que alguns autores ainda consideram a forma oral de certos acordos internacionais. VIII. Havendo conflito entre a norma internacional e a norma interna. c) consentimento mútuo c válido. a dualista e a monista. o referendo do Congresso Nacional (CF. inconfundíveis. Ora. VIII). Quanto à eficácia dos tratados. a norma internacional deve ser admitida oficialmente no âmbito des­ te. valendo uma referência aos seguintes: a) Declaração . b) habilitação dos agentes signatários. g) Convênio .o termo tem dois significados: c. que brota da vontade de um Estado apenas.ato que estabelece as regras de criação e funcionamento de novos ór­ gãos.ato utilizado para acordos sobre litígios que vão ser submetidos à arbitragem. Ademais. obje­ to lícito e possível. c. como no caso dc notas diplomáticas confirmando acordos verbais anteriores (cf. d) Acordo . orientação adotada em 1928 na Convenção de Havana sobre tra­ tados. geralmente tribunais internacionais (Estatuto de Roma do Tribunal Penal In­ ternacional. a) a ata de uma conferência. ao passo que a ordem interna funda-se na Constituição. esta pressupõe: a) capacidade dos contratan­ tes. de Albuquerque Mello. b) Estatuto . que a eficácia dos tratados no territó­ . Entretanto.tratado em que são criadas normas jurí­ dicas. a CF adverte. e) Concordata . exclusivamente. qual delas deve prevalecer? Duas correntes doutrinárias se opõem no tocante à vigência dos tratados no plano inter­ no de cada Estado.ato destinado a instituir princípios jurídicos ou reafirmar uma atitude política comum. de 1998. O tratado é apenas uma dentre as espécies da grande família dos atos inter­ nacionais de consenso. com fundamentos e des­ tinatários distintos. 84. conforme a teoria dualista. Para o dualismo a ordem interna­ cional e a interna são realidades distintas. art. Celso D. embora a denominação dualista a ela atribuída seja de Alfred Verdross. No Brasil. para ter validade e eficácia no âmbito inter­ no do Estado. a ordem jurídica interna disciplina as relações entre pessoas naturais (relações de direito privado) ou entre estas e o próprio Estado em que se situam (relações de direito público interno).trata de matéria de competência comum da Igreja e do Esta­ do. nota). p. Com efeito. Curso de direito internacional público. d) no caso do Brasil. f) Compromisso . a ordem internacional rege rela­ ções entre Estados.240 Teoria Geral do Estado Embora a forma escrita seja exigida para a validade do tratado devido à im­ portância deste.ato que versa matéria cultural ou transporte.

a norma de direito internacional fundada no costume. O monismo viria a se cindir cm duas correntes. re­ tira sua validade daquela que lhe é imediatamente superior. Se a organização do Estado mudar. norma que se conjuga com o art. Kelsen justifica o monismo invocando sua conhecida teoria da pirâmide nor­ mativa. a ordem jurídica internacional c as ordens jurídicas in­ ternas seriam apenas comunicantes. de 1928. que elaborou com outro jurista. o qual. até chegarmos ao ápice da pirâmide. por divisão de território ou por ou­ tros motivos análogos. Assim. A superioridade hierárquica do direito internacional sobre o direito interno seria es­ sencial da própria existência deste. Quanto à teoria monista. existindo duas ordens jurídicas independentes. não pode haver duas ordens jurídicas independentes. Para o conhecido mestre vienense. acordos ou atos internacionais que acarretem encargos ou compromissos gravosos ao patrimônio nacional.... no caso. exclusivamente. 11 da Convenção de Havana sobre tratados. 26. 11. Kelsen afirma o primado do direito internacional.1.] não haveria conflito de fontes nas relações entre Direito Internacional e Direito Interno. e 26 e 27 da Convenção de Viena sobre o Direito dos Tratados entre Estados e organizações internacionais ou entre organizações internacionais. que diz competir. A primeira afirma a absoluta primazia do trata­ do sobre a ordem interna: havendo conflito entre eles. Uma norma. (Pacta sunt servanda) Todo tratado em vigor obriga as partes e deve ser cumprido por . a Gründnorm ou norma fundamental. segundo a qual. sobre tratados. ao Congresso Nacional resolver.. de maneira que a execução seja impossível. haja vista terem. mostra-se antípoda do pensamento dualista. a do monismo internacionalista e a do monismo nacionalista. Estado so­ berano é aquele que se acha diretamente subordinado ao direito internacional. validade decorrente daquele. diz Kelsen. de 1986. como lembra Larissa Ramina. Os tratados continuarão a produzir os seus efeitos. [. as normas de direito interno. definitivamente. os tratados serão adaptados às novas condições. a partir do momento da transformação da norma internacional cm norma interna. desvinculado daquele. como se observa nos arts. estas não poderiam se chocar: a recepção do Direito Internacional seria realizada mediante sua transforma­ ção cm Direito Interno. dispositivos estes que dizem: Art. mas apenas uma. ainda quando se mo­ difique a constituição interna dos Estados contratantes. 4 9 .] Art. soberana. pacta sunt servanda. onde reina. cujo expoente é Hans Kelsen. pois. prevalece a norma de direi­ to internacional. o que se coaduna com a moderna concepção da soberania. da Lei Magna. a não ser a moral. daí a denominação de sua dou­ trina. como observa Larissa Ramina [. não es­ taria subordinado a qualquer espécie de ordem.9 0 Estado entre Estados: as organizações interestatais 241 rio brasileiro depende de referendo do Congresso Nacional. qual seja. ademais. Assim. Adolf Mcrkl.

com vista a determinar se uma ou mais pessoas identificadas deverão ser acusadas da prática desses crimes. Qualquer Estado-parte poderá denunciar ao procurador uma situação em que haja indícios de ter ocorrido a prática de um ou vários crimes da competência do Tribunal e solicitar ao procurador que a investigue. vinculada à União Europeia (UE). 112.06.09. tendo por objetivo julgar os crimes de genocídio. do qual o Brasil é signa­ tário desde 07. c) crimes dc guerra (art.2002.Países Baixos (art. deve prevalecer aquela. b) crimes contra a humanidade (art. Quanto à teoria monista nacionalista. I o) e sede em Flaia .TPl O Tribunal Penal Internacional (TPI) é uma pessoa jurídica de direito públi­ co externo.1 . devem ser obedecidos os dispositivos constitucionais respectivos. a qualquer mo­ mento.2002. §§ 2o e 3o. mediante o Decreto Legislativo n. 1. caráter permanente (art. O Estado da execução não obstará a que o condenado apresente um tal pedido. Foi instituído pelo chamado Estatuto de Roma. impõe-se a to­ das as outras. Tem personalidade jurídica internacional (art. e promulgado internamen­ te pelo Decreto n.1998. O Tribunal terá competência exclusiva para decisões sobre qualquer pedido de revisão ou recurso. de 06. 6) 0 TRIBUNAL PENAL INTERNACIONAL . bem assim outros crimes contra a humanidade.2002. 4°. decidir transferir um condenado para uma prisão de outro Estado. 4 9 .5o. pois a Constituição Federal.242 Teoria Geral do Estado elas de boa-fé. 1). havendo conflito entre uma norma interna e uma internacional. caput. . de 25. esta afirma a primazia da Constituição do Estado sobre as normas internacionais. III e V. Um Estado-parte de um tratado não pode invocar as disposições de seu direito interno para justificar o inadimplemento de um tratado.07. incluída a internacional. As penas privativas de liberdade serão cumpridas num Estado indicado pelo Tribunal. Art.02. a qualquer momento. e 109. O direito público brasileiro consagra essa corrente. 4.2000. d) crime de agressão. E para que haja recepção dessa pela ordem ju­ rídica brasileira. 7°). 27. solicitar sua transferência do Estado incumbido da execução. 4o. VIII. A competência do Tribunal restringir-se-á aos crimes mais graves que afetam a comunidade internacional. II.388. a pessoa condenada pelo Tribunal poderá. 1). 8o). arts. 6o). O Tribunal poderá. a sa­ ber. item 1°. de 17.06. a saber: a) crimes de genocídio (art. guerra e agressão. 84. a partir de uma lista de Estados que lhe tenham manifestado a sua dis­ ponibilidade para receber pessoas condenadas. 3o. Por ou­ tro lado. com recepção na ordem jurídica brasileira desde 06. 48. como norma fundante primeira.

LEITURAS COMPLEMENTARES 10 Na seleção dos textos a seguir. Rio de Janeiro. e notas de Maximiano Augusto Gonçalves. Dos deveres e Da República. o acesso a obras hoje raras fica. De officiis. concretizado. o que torna os textos que o leitor tem. Saraiva. e notas de João Mendes Neto. do que à sua brilhante produção jurídica e filosófica. hoje. trad. durante a qual manteve. escritor e político ro­ mano. consistente em obras ainda hoje prestigiadas. Nes­ te diapasão. de modo que o intento de facilitar. diante de si. Vale acrescentar que tais escritos revelam ideologias dc toda ordem. Nestor Silveira Chaves.). H. Dos deveres. Ed. Cultura Brasileira. e clássicos não envelhecem. trad. Vale lembrar que são textos pouco conhecidos da maioria do público. deve sua fama menos à sua atividade política. s. trad. Da velhice. como o leitor perceberá de imediato.. São Paulo. Livr. príncipe dos advogados e célebre orador. na medida de nossas possibilidades. nos sebos. embora de notória importância. nas quais refulge a chamada humanitas ou sabedoria civil e moral tipicamente romana. ao mestre e ao aluno. A maior parte desta coletânea é. 1) MARCO TÚLIO CÍCERO1 Dos deveres ("De o ffic iis ") (Tratado dos deveres. não levamos em conta a vetustez ou modernida­ de dos autores. mesmo. como Do orador. de modo a ativar o senso crítico do leitor iniciante. cumpre ressaltar que evitamos a inclusão de excertos já conhecidos por todos. facilmente encontrados num sem-número de recentes antologias. Antunes. quase sempre. um excelente complemento para a pesquisa acadêmica. Bruto.) 1 Marco Túlio Cícero (106-43 a. 243 . em respeito ao mais autêntico espírito democrá­ tico e à liberdade de opinião. postu­ ra ambígua. São Paulo.d. dificilmente encontrada nas livra­ rias ou.C. Integram o rol seleto dos clássicos.

que dela fazia parte. receber generosamente os sitiados que depuseram ar­ mas e se colocaram à disposição do general. Lê-se na Lei das Doze Tábuas: Aut dies status cum hoste. governador de uma província. ao contrário. como gostava de guerra. De um lado. XII Sobre isso quero observar: mudamos o nome de perduellis. pois que. que servia na Macedônia na época da guerra contra Perseu: “Soube. não é menos indispensável a existência de uma razão legítima. a honra. uma guerra dessa natureza deve ser conduzida com maior animosidade. se quisessem me ouvir. Mesmo quando se luta pela supremacia. tinha no seu exército um filho de Ca­ tão. se ele consentisse em ter seu filho sob sua bandeira. e o filho de Catão. não se tem o direito de combater”. se encontrava licenciado. e mais adiante Auctoritas aeterna adversus hostem. pelo de hostis. os Cartagineses. com os latinos. só combatemos pelo império. De outro lado. quando estabelece como única guerra legítima aquela que é feita para reivindicar um território usurpado. Catão escreveu a Pompílio que. ainda quando o cerco começa a pene­ trar na muralha. propriamente. Fizemos a guerra aos Celtibcros c aos Cimbros como a inimigos. uma magistratura. Há alguma coisa mais humana que dar nomes tão moderados a quem nos faz a guerra? Contudo. era preciso engajá-lo de novo. o nome se tornou duro. os Sânitas. e só se diz de quem toma armas contra nós. a justiça foi tão bem observada por nossos maiores que aqueles que tinham recebido a submissão das cidades e nações tornavam-se seus protetores. com o outro se defende a vida. quando não há aparência de perfídia. inimigo. talvez a melhor de todas. Nas guer­ ras civis se comportam diferentemente com um inimigo e com um competidor. nossos maiores chamavam hostis os que chamamos agora perigrinus. temperando assim a doçura da palavra com a dureza da coisa. com o tempo. mas. os Sabinos. Esse general deliberou licenciar uma legião. por uma questão de existência e não de supremacia.244 Teoria Geral do Estado Por mim. As condições que justificam uma guerra têm sido santamente consignadas no direito do povo romano. contendo os motivos. com este sc disputa uma dignidade. que fazia suas primeiras armas. ou depois dc declaração formal. e não a que existe. tendo sido o pri­ meiro dispensado. Os . não podia legalmente combater o inimigo: tanto era ele rigoroso em observar as leis de guerra. Cuidado em se meter em qualquer comba­ te: desde que não se é soldado. que designava. Temos ainda a carta que o velho Catão escreveu a seu filho Marcos. é preciso consolar os que foram vencidos pela força. sendo a glória a finalidade da guer­ ra. ao rei Pyrro. Sobre isso. ficou no exército. Pompílio. teríamos uma república. diz ele. entendo que nunca sc deve rejeitar proposições de paz. de outro. Com efeito. que foste licenciado pelo Cônsul.

. No tempo da segunda guerra púnica. c jurou voltar. fez uma promessa ao inimigo. saindo do acampamento com permissão de Aníbal. Escutai minhas palavras! Àqueles que o destino da batalha poupar. cruel. São palavras dignas de um rei. Com efeito. e preferiu submeter-se ao suplício a faltar com a palavra dada ao inimigo. dignas do sangue de Eacides. Lembra-se a nobre resposta de Pyrro quando se tratou do resgate dos pri­ sioneiros: Romanos. foram degradados pelos censores e relegados toda a vida para a classe dos tributários. Aníbal. deve manter sua palavra. Um trânsfuga do exército de Pyrro ofereceu-se ao Senado para envenenar o rei. depois de tê-los fei­ to jurar que retornariam se nada obtivessem. Quando chegou. o Se­ nado e C. Aníbal en­ viou prisioneiros a Roma para negociarem o resgate de cativos. a palavra empenhada deve sempre refletir o que se pensa e não o que sc diz. os que se tornaram perjuros. preso pelos Cartagineses. voltou sob o pretexto de que havia esquecido qualquer coisa. Levareis vossos prisioneiros. são aqueles que são tratados como mercenários aos quais se exige trabalho a troco do necessário para viverem. Recusaram assim comprar com um crime a morte de um inimigo poderoso e que declarou guerra sem ser provoca­ do. Nossos antepassados deram um lindo exemplo de justiça para o inimigo. crendo-se quite com a sua palavra por não ter estado nos termos do tratado. Ora. Eu juro deixar a doce liberdade. XIII O cidadão. Fabricius entregaram o trânsfuga a Pyrro. Tomando por testemunha a majestade dos deuses.10 Leituras Complementares 245 cartagineses foram pérfidos. retornou em seguida. Regulus. Ninguém de mais humilde condição que os escravos. mas os outros não se mostravam mais justos. Pyrro os devolverá. aconse­ lhou o Senado a não devolver os cativos. Mas é o bastante sobre os deveres na guerra. nem resgate para mim! Não transformemos a guerra num tráfico infame! Que o ferro. decida a nossa sorte. para mim nem o ouro. Para saber quem possuirá o Império! Que o valor decida. Na primeira guerra púnica. apesar das súplicas de parentes e amigos. voltou. sem exclusão do que recorreu à astúcia para se desembaraçar de compromisso. Observemos ainda que devemos praticar justiça mesmo com as pessoas de baixo nível. mesmo sob pressão dc circunstâncias. depois. que. antes da batalha de Cannes. foi enviado a Roma para tratar da troca de prisioneiros. não o ouro.

e era excelente7 ’ (1. Suma teológica. Sen­ do.246 Teoria Geral do Estado Quanto à injustiça. Em cada uma dessas classes encontram-se espécies mais perfeitas do que as outras..) Tradução do autor. I. q. procuram parecer homens de bem. à perfeição do universo contribui não só haver muitos indivíduos. a Divina Sabedoria a causa da distinção das coisas para a perfeição do universo.). Livro II. . mais acrescenta a bondade do universo a multiplicidade das es­ pécies do que a dos indivíduos de uma mesma espécie. Ao Sumo Bem compete fazer o que é melhor. era-Lhc conveniente fazer muitos graus de cria­ turas. v. Daí dizer-se no Gênesis: “Viu Deus tudo o que tinha feito.] A diversidade e a desigualdade das criaturas não procede do acaso. nem da diversidade da matéria. os animais do que as plantas e os homens do que os outros animais.. Ademais. mas procede da própria intenção de Deus. outra ao leão. Encyclopaedia Britannica. 19. é finita a bondade de toda criatura. Logo. Suma con­ tra os gentios. logo. [. Por isso. mas a fraude é mais odiosa. 47. Logo.31) (Suma contra os gentios. como o formal exce­ de o material. os compostos são mais perfeitos do que os elementos. in Britannica Great Books o f the Western World. pois teriam o que tem este e ainda mais.. diferentes graus de coisas (Santo Tomás de Aquino. Pois não seria perfeito o univer­ so se nas coisas só se encontrasse um grau de bondade (Santo Tomás de Aquino. que quis dar à criatura a perfeição que lhe era possível ter. 2) SANTO TOMAS DE AQUINO Suma teológica e Suma contra os gentios (Thomas Aquinas. De todas as injustiças. é mais perfeito o universo ha­ vendo muitas criaturas do que se houvesse um único grau delas. mas haver diferentes espécies e. Ora. por conseguinte. nem da intervenção de al­ gumas causas ou méritos. Todas as duas são indignas do homem. a. quando enganam. pois. as plantas do que os mi­ nerais. a mais abominável é a desses homens que. Uma pertence à raposa. 45)..J Muitos bens finitos são melhores do que um só. a bondade da espécie excede a do indivíduo. É o bastante so­ bre a justiça. Nos seres naturais vemos que as espccies são gradativamente ordenadas. 2) [. é cometida de duas maneiras: pela violência e pela frau­ de. pois é deficitária da infinita bondade de Deus. As­ sim. cit. Gap. também será causa da sua desigualdade.

sem que seus detratores se apercebessem de que O príncipe não fora escrito para todos os povos e todas as épocas. principalmente pelo prestígio de que ain­ da frui O príncipe. porque cumprida sua missão. e Tutte le opere. Esses domínios assim obtidos estão acostumados ou a viver submetidos a um príncipe ou a ser livres. deve ter o cuida­ do de não usar mal essa piedade. que lhe inspiraram a feitura de inúmeros escritos. ou novos. sua obra mais conhecida. mas sim para um momento grave da história de uma nação. o príncipe seria perfeitamente descartável. Sendo esse objetivo nobre. todos os governos que tiveram e têm poder sobre os ho­ mens. todos os meios para alcan­ çá-lo seriam válidos.10 Leituras Complementares 247 3) NICOLAU MAQUIAVEL2 O príncipe (Machiavelli. Stabilimenti Grafici Bemporad Marzoco. ou membros acrescidos ao Estado hereditário do príncipe.) Tradução do autor. deixou que Pis- Nicolau Maquiavel (1469-1527). II príncipe. Edipem. entre 1503 e 1512. César Bórgia era considerado cruel. essa sua crueldade tinha recuperado a Romanha. Firenze. O que. Os principados são hereditários. especialmente os Discursos sobre a primeira década de Tito Lívio c O príncipe. digo que cada príncipe deve desejar ser tido como piedoso e não como cruel. Novara. para fugir à pecha de cruel. Os novos podem ser totalmente novos. o qual. tomar-se-ia um dos mais conhecidos doutrinadores do seu tempo e da atualidade. sendo adquiridos com tropas de ou­ trem ou com as próprias. se bem considerado for. entretanto. procurou demonstrar como deveria agir o homem providencial que unificaria os italianos e emanciparia a Itália. foi incumbido. de várias missões diplomáticas junto à corte francesa. dedicou-se à pesquisa histórica e à ela­ boração de obras que se tornariam célebres. logrando uni-la e pô-la em paz e em lealdade. 1969. . Nomeado secretário da senhoria de Florença em 1498. como é o reino de Nápoles em relação ao rei da Espanha. como foi M ilão com Francisco Sforza. 1980. mostrará ter sido ele muito mais pie­ doso do que o povo florentino. entretanto. foram e são repúblicas ou principados. Exilado em 15 12. Conseguida a unifi­ cação. pensador italiano natural de Florença. Capítulo XVII Da crueldade e da piedade: se é m elhor ser tem ido ou ser amado Reportando-me às outras qualidades já mencionadas. quan­ do o sangue senhorial é nobre já há muito tempo. bem como pela fortuna ou por virtude. Itália. Tal diretriz acarretou-lhe a má fama dc escritor cínico e insensível. que os adquire. Nesta. Capítulo I De quantas espécies são os principados e de que form as são adquiridos Todos os Estados. a italiana.

geralmente. por excessiva piedade. ele será mais piedoso do que aqueles que. que jamais se aban­ dona. como é difícil reuni-las. O príncipe. desde que. c. nunca fal­ tam motivos para justificar as expropriações. deve ser lento no crer e no agir. fazer-se temer. pois. desde que por ela conserve seus súditos unidos e leais. está perdido: as amizades que se adquirem por dinheiro. Além disso. Mas quando o príncipe está à frente de seus exércitos e tem sob seu coman­ do uma multidão de soldados. revoltam-se. com mui poucos exemplos. tementes do perigo. contudo. E os homens têm menos escrúpulo em ofender a alguém que se faça amar do que a quem se faça temer. E. que. não se alarmar por si mesmo e proceder por forma equilibrada. são todos teus.248 Teoria Geral do Estado toia fosse destruída. ao passo que as ra­ zões para o derramamento de sangue são mais raras e esgotam-se mais depressa. abster-se dos bens alheios. temer a fama de cruel. A resposta é que seria necessário ser uma coisa e outra. e aquele que começa a viver de rapi­ nagem sempre encontra razões para apossar-se dos bens alheios. mas o temor é mantido pelo receio de castigo. a vida. os filhos. mesmo porque podem muito bem coexistir o ser temido c o não ser odiado: isso conseguirá sempre que se abstenha de tomar os bens e as mu­ lheres de seus cidadãos e de seus súditos. si­ muladores. a necessidade esteja longe de ti. Um príncipe não deve. buscan­ do evitar que a excessiva confiança o torne incauto e a demasiada desconfiança o faça intolerável. cm tendo que faltar uma das duas é muito mais seguro ser temido do que amado. faça-o quando existir conveniente justificativa e causa manifes­ ta. é ao novo que se torna impossível fugir à pecha de cruel. é quebrado em cada oportunidade que a eles convenha. Isso porque dos homens pode-se dizer. e não pela grandeza e nobreza de alma. fuja ao ódio. não obstante. com prudência e humanidade. posto que a amizade é mantida por um vínculo de obrigação. encon­ trando-se destituído de outros meios de defesa. Nasce daí uma questão: se é melhor ser amado que temido ou o contrário. enquanto lhes fizeres bem. volúveis. sobretudo. Diz Virgílio. ambiciosos dc ganho. porque estes costumam prejudicar a comunidade inteira. quando esta se avizinha. os bens. não se torna possível utilizá-las. visto serem os Estados novos cheios de pe­ rigos. deixam acontecer as desordens das quais resultam assassínios ou rapinagens. que são ingratos. pela boca de Dido: “ Res dura. no momento oportuno. Deve o príncipe. em se lhe tomando necessário derramar o sangue de alguém. po­ rém. mas com elas não se pode contar e. se não conquistar o amor. Deve. e. mas. dentre todos os príncipes. como se disse acima. por serem os homens maus. pois que. et regni novitas me talia cogunt moliri. então é de todo necessário não se importar com a . E o príncipe que confiou inteiramente em suas palavras. de forma que. enquanto aquelas execuções que emanam do prín­ cipe atingem apenas um indivíduo. et late fines custode tuerr. são compradas. oferecem-te o próprio sangue. posto que os homens esquecem mais rapidamente a morte do pai do que a perda do patrimônio.

Pedro Salvetti Netto adverte ser fundamental que a opinião pública autêntica só é possível . deve apoiar-se naquilo que é seu e não no que é dos outros. sem aquela crueldade. Rio de Janeiro. tanto assim que. de outro. condenam a principal causa da mesma. menciona-se esta: tendo um exército imenso. de um lado. Os locrences. Ora enaltecendo Brutus e ultrajando o cadáver de Cé­ sar. paradoxalmente. tanto 11a má como na boa fortuna. mas vivendo sob o governo do Senado. tivesse ele perseverado no coman­ do. Júlio César. admiram. constituído de homens de inúmeras raças. Isso não pode resultar dc outra coisa senão da­ quela sua desumana crueldade. v. bem. pois. sem ela. resultando tudo isso de sua natureza fácil. não foram por ele vingados. o qual o chamou de corruptor da milícia romana. demonstra. pois que havia concedido aos seus soldados mais liberdades do que convinha à disciplina militar. amando os homens como a eles agrada e sendo por eles temido como dese­ ja. já que. tragédias. tão logo se soube que este deixava bens ao povo. e. 447 c scgs. o Prof. que. realmente. como foi dito. as outras suas virtudes não seriam bastantes. tremendo texto. voltando à questão de ser temido e amado. em face de seus interesses imediatos. escritores nisto pouco ponderados. conduzido a batalhar em terras alheias. todavia. que um príncipe sábio. Dentre as admiráveis ações de Aníbal. disse haver muitos homens que me­ lhor sabiam não errar do que corrigir os erros. cujos exérci­ tos se revoltaram na Espanha em conseqüência de sua excessiva piedade. deve apenas empe­ nhar-se em fugir ao ódio. Nova Aguilar. jamais se conservará exército unido e disposto a al­ guma empresa. Ed.) Este belo e. tendo sido arruinados e abatidos por um legado de Cipião. o tornou sem­ pre venerado e terrível no conceito de seus soldados. Tal fato foi-lhe censurado no Senado por Fábio iMáximo. que­ rendo alguém desculpá-lo perante o Senado. aliada às suas infinitas virtudes. Para prova de que. como lhe resultou em glória. esta sua prejudicial qualidade não só desapareceu. a mutabilidade da chamada opinião pública. Em festejada obra. fruto do gênio de Shakespearc. 1988. Concluo.10 Leituras Complementares 249 fama de cruel. percebe-se a volubilidade do ser humano. p. nunca surgiu qualquer dissensão entre eles ou contra o príncipe. essa sua atuação e. homem dos mais notáveis não somente nos seus tempos mas também na memória de todos os fatos conhecidos. nem a insolência daquele lega­ do foi reprimida. as vir­ tudes não lhe teriam bastado para surtir tal efeito. 4) W IL U A M SHAKESPEARE J ú lio César3 {Obras completas. ora amaldiçoando Brutus e divinizando César. Essa sua natureza teria com o tempo sacrificado a fama e a glória de Cipião. pode-se considerar o caso de Cipião. 1.

o homem desce vários degraus na escada da civilização. mesmo. . / \ideia de decadência na história ocidental. a regressão em massa a um estado primitivo. como o Redemptor Hominis e o Messias . Sa­ raiva. p. Record Ed. ora a tributar-lhe a glória. (Sai Cássio com al­ guns Cidadãos. São Paulo. 137-8). meus amigos.. na qual afirmava que. Se houver nesta assembleia algum amigo caro a César. Silêncio! Br u t o . Arthur Herman. eu me alegro. os romanos. 1979. transforma-se num bárbaro capaz das ações mais brutais e irracionais. . compatriotas e amigos! Escutai-me defender minha causa e guardai silêncio para que possais ouvir-me. C id a d ã o s . eu o venero. quando tivermos ouvido separadamente um e outro. 1999. mas. honra para seu valor. exal­ tando Cristo em um domingo.250 Teoria Geral do Estado CENA 11:0 Fórum Entram Bruto e Cássio com uma turba de Cidadãos. seguidamente. provocam. levá-lo à rocha Tarpeia” (Curso de teoria do Estado. como foi ambicioso. Gustave Le Bon.O nobre Bruto já está na tribuna. c morte para sua ambição. prossegue. que fale. 89-90). quan­ do as pessoas se juntam numa reunião política ou.Então. na visão intuitiva da própria psicologia das massas.Sede pacientes até o fim! Romanos. lhe murmurava aos ouvidos: Lembra-te de que és homem. digo-lhe que o afeto de Bruto por César não era menor do que o dele. médico de profissão. . Se então esse amigo perguntar por que Bru­ to se levantou contra César. pode ser uma pessoa sóbria e refinada. ed. um escravo que. se responsável.São Paulo. Quem é aqui tão vil que deseje ser escravo? Se alguém existe. S e g u n d o C i d a d ã o . ao agraciarem o conquistador com as pompas e as honras do triunfo. a César morresse e vivêsseis todos livres? César gostava de mim e eu choro por ele. fiquem aqui. faziam-no acom­ panhar.Eu ouvirei Bruto falar. porque eu o ofendi! Quem é aqui tão estú- se conscientizada. Fora disso.levou-o à cruz cinco dias depois. “a opinião das massas é so­ bremaneira influenciável e. Bruto sobe à tribuna. que caracterizam uma rixa ou uma horda de linchadores (cf. Em 1895.. . Os que desejarem ouvir-me. ele foi afortunado. numa via pública. bem pode­ ria. Os que deseja­ rem acompanhar Cássio. Por si mesmo. na biga majestosa. Acreditai-me por minha honra e respeitai minha honra para que possais acreditar-me. portanto. se informada. . Na percepção genial do agir humano. esta é minha resposta: “Não que amasse menos César. Cássio. foi valente. para adverti-lo de que a mesma multidão. Julgai-me com vossa sabedoria e avivai vossos sentidos para que possais ser melhores juizes. ide à outra rua e dividi a multidão. 3. eu o matei. . na multidão. publicou uma pequena obra intitulada A psicologia das multidões. P r i m e i r o C i d a d ã o . Há lágrimas para sua amizade.Queremos que nos seja dada uma explicação! Dai-nos explicação! B r u t o . poderão acompanhá-lo. Pelo simples fato de fazer parte dc uma mul­ tidão. Preferiríeis que César vivesse e morrêsseis to­ dos escravos. acompanhai-me e escutai.) Te r c e ir o C i d a d ã o . uns nos outros. Serão expostas publicamente as razões da morte de César. Rio de Janeiro . advertia Le Bon. júbilo para sua fortuna.Eu ouvirei Cássio e assim poderemos comparar-lhes as opiniões. um eminente sociólogo francês. p. . tão volúvel como a pluma ao vento da ópera de Verdi. em tempo próximo. porém porque amava mais Rom a” .

Viva Bruto! Viva! Viva! P r i m e i r o C i d a d ã o . Quem de vós não conseguirá outro tanto? Ainda uma palavra e partirei.) P r i m e i r o C i d a d ã o . . sem tomar parte em sua morte.Vamos erigir-lhe uma estátua junto de seus antepas­ sados! T e r c e ir o C i d a d ã o . S e g u n d o C i d a d ã o . nem foram exage­ radas as ofensas que lhe valeram a morte. Se matei meu melhor amigo pela felicidade de Roma. em considera­ ção a mim. Antônio pronunciará. .Não há. Vamos! B r u t o . e. que fale.Vamos nomeá-lo César! Q u a r t o C i d a d ã o . . estou pronto a usar meu punhal contra mim. . pranteado por Marco Antônio.Seria melhor que não falasse mal de Bruto aqui.Calem.Q u e disse de Bruto? T e r c e ir o C i d a d ã o . não ofendi ninguém. . Honrai o cadáver dc César e ouvi a apo­ logia de suas glórias que.Então.C alem ! Silêncio! Fala B ruto. . . Es­ pero uma resposta. deixai-me ir embora sozinho. T e r c e ir o C i d a d ã o . que. Q uarto C i d a d ã o . . com nosso beneplácito. não foi diminuída.Caros compatriotas. To d o s .Sim.) Q uarto C i d a d ã o . porque eu o ofendi! Quem é aqui tão baixo que não ame sua pátria? Se existir. dela auferirá benefícios. não há! B r u t o . porque eu o ofendi. . Subi. Suplicovos! Ninguém deve afastar-se. (Entram Antônio e outros com o corpo de César. (Sai. P r i m e i r o C i d a d ã o . tenho uma obrigação para convosco. . . permanecei aqui com Antônio.. .Fiquemos! Vamos ouvir Marco Antônio. Foi uma bênção para nós que Roma se tivesse libertado dele. . Bruto. um lugar na República. . . . .Vamos carregá-lo para casa em triunfo! Se g u n d o C i d a d ã o . se mi­ nha pátria quiser reclamar minha morte. .Vamos levá-lo para casa com vivas e aclamações! Br u t o .) Aqui chega o corpo dele.As melhores qualidades dc César sejam coroadas em Bruto! P r i m e i r o C i d a d ã o . que fale. . Nada mais fiz com César do que teríeis feito com Bruto! Os motivos da morte dele estão registrados no Capitólio. por consideração a Bruto. até que Antônio haja acabado de falar.10 Leituras Complementares 251 pido que não queira ser romano? Se existir. . (Sobe na tribuna.Esse César foi u m tirano! Te r c e ir o C id a d ã o .Que suba à tribuna pública: nós o escutaremos. A gló­ ria. P r i m e i r o C i d a d ã o .Meus compatriotas!. To d o s . somente. nobre Antônio! A n t ô n i o ..Em consideração a Bruto. . exceto eu. tem uma obrigação para com todos nós.Diz que. que lhe valeram os méritos que possuía. não há dúvida.

Bruto disse que ele era ambicioso e Bruto é um homem hon­ rado. neste particular. o bem que fizeram é sepultado com os próprios ossos! Que assim seja com César! O nobre Bruto vos disse que César era ambicioso. A n t ô n i o . T e r c e ir o C i d a d ã o . prestai-me atenção! Estou aqui para sepultar César. T e r c e ir o C i d a d ã o .. venho falar nos funerais de César. César derramava lágrimas. não lhe presta uma só homenagem! Ó senhores. Não quero ser . . era uma grave falta e César a pagou gravemente. Bruto é um homem honrado.Notastes as palavras que pronunciou? Não quis aceitar a coroa.. cujos resgates encheram os cofres do Estado. Era meu amigo. então.Silêncio! Vamos ouvi-lo. Trouxe muitos cativos para Roma.. . romanos. Se g u n d o C i d a d ã o . Que razão. Q u a r t o C i d a d ã o .Silêncio! Vamos ouvir o que Antônio tem para dizer.Não existe homem mais nobre em Roma do que An­ tônio. .Vamos observá-lo agora. . Portanto. César.Acho que tem muita razão no que está dizendo. Se assim foi. compatriotas. com a permissão de Bruto e dos demais (pois Bruto é um homem honrado.Não é. cidadãos? Temo que um pior do que ele possa substituí-lo. não sem motivo. mas Bruto diz que era ambicioso. Bruto disse que ele era am­ bicioso. . os quais. mas aqui estou para falar sobre aquilo que conheço! To­ dos vós já o amastes. c. como todos vós sabeis. .252 Teoria Geral do Estado S e g u n d o C i d a d ã o . são homens honrados.Nobres romanos!. O mal que fazem os homens perdura de­ pois deles! Frequentemente. . Aqui. Q uarto C i d a d ã o . Está recomeçando a falar. não há dúvida de que não fosse ambicioso. fugiste para os irracionais. ali ele jaz e ninguém. não para glorificá-lo.Pobre coitado! Está com os olhos vermelhos como fogo de tanto chorar. P r i m e i r o C i d a d ã o . Desculpai-me! Meu coração está ali com César. A n t ô n i o . alguns terão que pagar caro. parecia ambicioso? Quando os pobres deixavam ouvir suas vozes lastimosas. Isto era ambição? Entretanto.Ainda ontem a palavra de César podia ser mais forte do que o universo! Agora.Amigos. agora. sem dúvida alguma. Não falo para desa­ provar o que Bruto disse. A n t ô n i o . S e g u n d o C id a d ã o . vos detém.Se considerares devidam ente o assunto. A ambição deveria ter um coração mais duro! Entretanto. e preciso esperar até que ele para mim volte! P r i m e i r o C i d a d ã o . . To d o s . . pois os homens perderam o juízo!. e Bruto é um homem honrado. para pranteá-lo? Oh! inteligência.. seria injusto com Bruto e com Cássio. com eteram um grande erro c o m César. . leal e justo comigo. se estivesse disposto a excitar vos­ sos corações e vossos espíritos para o motim e a cólera. como todos os demais são homens honrados). .Sc for exato. . Todos vós o vistes nas Lupercais: três vezes eu lhe apresentei uma coroa real e três vezes ele a recusou. . mesmo que seja o mais miserável possível.

mas sois humanos e. preparai-vos agora para derramá-las. . .Recuai! Dai lugar! Retirai-vos! A n t ô n i o . Não é bom que saibais que sois o herdeiro dele. amáveis amigos! Não devo lê-lo! Não é conve­ niente que saibais quanto César vos amava! Não sois de madeira. quando morrer.Lede o testam ento! Q uerem os ouvi-lo. como precioso legado. para transmi­ ti-lo. . Q u a r t o C i d a d ã o . para o nobilíssimo Antônio! A n t ô n i o . . dentro da tenda. .Sua última vontade! O testamento! S e g u n d o C i d a d ã o . P r i m e i r o C i d a d ã o .Formai um círculo.Não vos aperteis tanto assim contra mim! Permanecei bem longe! To d o s .D am o s! (Antônio desce do púlpito. -Tereis paciência? Esperareis um pouco? Fui longe demais contan- do-vos isto.São covardes. assassinos! O testamento! Lede o testa­ mento! A n t ô n i o .Lugar para Antônio. observai como o san­ gue de César parece que se lançou atrás dele. c irá beijar as feridas de César morto. . mergulhando os lenços em seu sangue sagrado! Mendigará um ca­ belo como relíquia e. para sua descendência. Posso descer? Vós me dareis vossa permissão? To d o s . o bem-amado Bruto o feriu! E. . a ser injus­ to com homens tão honrados! Mas. sendo homens. ficareis enlouquecidos. Colocai-vos cm volta.Quereis compelir-me então a ler o testamento? Pois. Eu o encontrei 110 gabinete dele: são as suas últimas vontades. Todos vós conheceis este manto. . .Sede pacientes.Se tiverdes lágrimas. ao ouvirdes o testamento de César.10 Leituras Complementares 253 injusto com eles! Prefiro ser injusto com o morto. Q u a r t o C i d a d ã o . então.O testamento! O testamento! Queremos ouvir o testamento de César. . . no dia em que venceu os nérvios.Estais autorizado.Não vos aproximeis do ataúde! Não vos aproximeis do corpo! S e g u n d o C i d a d ã o .Descei! . como se quisesse certificar-se de que S e g u n d o C i d a d ã o . Marco Antônio! To d o s . Era uma tarde de verão.São traidores: Homens honrados! To d o s . A n t ô n i o . comigo e convosco. não pretenda lê-lo). Olhai: por este lugar penetrou o punhal de Cássio! Vede que rasgão abriu o invejoso Casca! Por este. se vós o soubésseis. A n tô n io ! É pre­ ciso que leiais o testam ento! O testam ento de César! A n t ô n i o . for­ mai um círculo em torno do cadáver de César e deixai-me mostrar-vos aquele que fez o testamento. . . aqui está um pergaminho com o selo de César. desculpai-me. lembro-me da primeira vez que César o usou.Queremos ouvir o testamento! Lede-o.) T e r c e ir o C i d a d ã o . o mencionará nos testamentos. . cujos punhais feriram Cé­ sar! É o que temo! Q u a r t o C i d a d ã o . ficareis inflamados. . Ouça somente o povo este testamento (embora. Temo ser injusto com os homens honrados. ao retirar o maldito aço. não sois de pe­ dra. 0 I1 ! que poderia acontecer? Q uarto C i d a d ã o . .

para roubar vossos corações! Não sou orador como Bruto. como todos vós sabeis.Oh! nobre César! T e r c e ir o C i d a d ã o .Vingança!. c.Vamos. como sa­ beis. .Ouvi-me ainda. mais poderosa do que os braços dos traidores. a ingratidão. compatriotas! P r i m e i r o C i d a d ã o . um homem franco e simples que amava meu amigo e isso sabem perfeitamente bem os que me deram publicamente licença para falar a respeito dele.Bons amigos. pois.Nós nos revoltaremos! P r i m e i r o C i d a d ã o . vós e todos caímos. Oh! que queda foi aquela.254 Teoria Geral do Estado era ou não Bruto quem tão desumanamente abria a porta! Porque Bruto. .Seremos vingados! To d o s . apresentarão a todos vós as razões que possuíam. .. desfigurado pelos traidores! P r i m e i r o C i d a d ã o ... enquanto triunfava sobre nós a traição sangrenta! Oh! Estais choran­ do agora e percebo que sentis a marca da piedade! São lágrimas generosas! Almas bondosas. pobres. meus compatriotas! Naquele momento. .Oh! visão sangrenta! S e g u n d o C i d a d ã o . nem eloqüência. onde o sangue não parava de jor­ rar!. era o anjo de César! Julgai... Não deixemos que nenhum traidor fique vivo! A n t ô n i o .Esperai. com que ternura César o amava! Esse foi o mais cruel de todos os golpes. por que chorais. Estou mos­ trando as feridas do bondoso César.Oh! dia calamitoso! Q u a r t o C i d a d ã o . compatriotas! Ouvi-me ainda falar! . . nem palavras.Nós o escutaremos! Nós o seguiremos! Nós morrere­ mos com ele! A n t ô n i o . .. o grande César caiu aos pés da estátua dc Pompcu.. Queimemos!.. Eles são sensatos e honrados e. . venceu-o completa­ mente! Então.Incendiemos a casa de Bruto! Te r c e ir o C id a d ã o . meus amigos. como estais vendo. eu. Não vim aqui. ó deuses. Vamos!. esse Antônio perturbaria a serenidade de vossos espíritos e colocaria uma língua em cada uma das feridas de César. e se Bruto fosse Antônio. capaz de comover e levantar em motim as pedras de Roma! Todos.Oh! traidores. . nem o poder da palavra capazes de excitar o sangue dos ho­ mens! Falo muito claramente e só vos digo o que todos vós já conheceis. bandidos! P r i m e i r o C i d a d ã o .Silêncio! Escutai o nobre Antônio! S e g u n d o C i d a d ã o . pobres bocas mudas e peço-lhes que fa­ lem por mim! Se eu fosse Bruto. nem mérito. Degolemos!. . então! Vinde! Vamos procurar os conspiradores! A n t ô n i o ... não me deixeis excitar-vos com esta repentina explosão de revolta! Aqueles que consumaram este ato são homens hon­ rados. Procuremos!. Quais eram as queixas secretas que tinham para fazê-lo? Ai! E O que igno­ ro. .. sem dúvida.. mas. Não tenho espírito. .. estalou seu poderoso coração. Matemos!. . amáveis amigos. quando o nobre César viu que ele o feria. nem ação. .Oh! lamentável espetáculo! S e g u n d o C i d a d ã o . . cobrindo o rosto com o manto.. quando só vistes ainda as feridas do manto de César? Olhai: aqui está o próprio César. .

ele vos deixa todos os seus passeios.Além disso. dadãos transportando o corpo de César. até que o Estado reconheça o poder do indivíduo como um poder mais alto e independente.Ouvi-me com paciência! T o d o s . .Silêncio! A n t ô n i o . para que possais passear e divertir-vos. T o d o s . 1985. seus pomares recém-plantados deste lado do Tibre.) Tradução do autor. seus jardins pri­ vados. . Lega-os perpetuamente para vós e para vossos herdeiros como parques públicos. Desobediência civil. ele lega setenta e cinco dracm as. . . não sabcis o que ides fazer! Que fez César para assim merecer vossos afetos? Ai.Ide procurar o fogo! T e r c e i r o C i d a d ã o . . a cada h o m e m . Esquecestes o tes­ tamento de que vos falei. um Estado realmente livre e esclarecido. Cultivou um individualismo radical.Silêncio! Ouçamos Antônio!. . a menos que absolutamente necessária. . vós o ignorais! Devo. p.) 5) HENRY DAVID THOREAU4 Desobediência c iv il (Madrid. .. . . Nobilíssimo Antônio! A n t ô n i o .10 Leituras Complementares 255 . jamais. vamos embora! Queimemos o corpo dele em lugar sagrado c com as tochas incendiaremos as casas dos traidores! Levantai o corpo! S e g u n d o C i d a d ã o . nem praticar a resignação. ensaísta e poeta norte-americano.Derrubai os bancos! Q u a r t o C i d a d ã o . A n t ô n i o . . 47-8. ten­ do sido aluno e grande amigo de Ralph Waldo Emerson..Nobilíssimo César! Vingaremos a morte dele! T e r c e i r o C i d a d ã o . po­ rém romântico. . .É verdade! O testamento! Fiquemos para escutar o testamento! To d o s . Grupo Cultural Zero.Nunca. do qual derivam seu próprio po­ der e sua autoridade”. seu individualismo resta patente quan­ do diz: “Não haverá. Em sua obra mais conhecida.Derrubai as arquibancadas. in d iv id u alm e n te . nunca! Vinde. da qual pinçamos um trecho.Oh! régio César! A n t ô n i o . então. A cada c id a d ã o ro m a n o . formou-se em Harvard. 4 Henry David Thoreau (1817-1862). dizer-vos. estranho ao individualismo egoísta burguês.A q u i está ele c c o m o selo de César. Dele se disse que não desejava viver o que não c vida. as janelas e tudo! (Saem Ci­ Se g u n d o C id a d ã o .Amigos. Aqui estava um César! Quando aparecerá outro? P r i m e i r o C i d a d ã o .

Gostaria de vê-lo realizado de uma forma mais rápida e sistemática. mesmo. . o governo será tanto mais útil quanto mais deixe em paz os governados. antes de mais nada. O governo. sem maiores preocupações. o México perdeu o Texas. algumas vezes. Quanto ao “atual conflito mexicano” referido na antologia. incólume. N ão pacifica o oeste. mas que perde. senão uma tradição. porque as pessoas querem ter uma maquinaria complicada e ouvir seu estrondo para satisfazer a ideia que têm do governo. corre o risco de ser violado e corrompido antes que o povo possa fazer valer sua vontade por seu intermédio. porque um só homem pode dobrá-lo à sua vontade. o povo não deu seu consentimento a esse ponto. desacreditados os ideais pacifistas de Thomas Jefferson e iniciado o processo imperialista estadunidense nas Américas. Porque o go­ verno é um recurso mediante o qual os homens conseguiriam viver em paz uns com os outros c. todos devemos aceitá-lo. tal será a espécie de governo que terão. Nela. Apesar disso. O gover­ no americano o que é. As objeções que foram feitas ao exército per­ manente. a não ser abandonar o próprio rumo. para seu próprio proveito. e conseguiriam muito mais se o governo não se intrometesse. uma parte de sua integridade? Não tem a vitalidade ou a força de um mero ser huma­ no.256 Teoria Geral do Estado Aceito. especialmente na Amé­ rica do Sul. embora a maioria dos governos. embora recente. não passa de um artifício. o lema: “ O melhor governo é aquele que me­ nos governa”. até a posteridade. que é apenas a forma escolhida pelo povo para fazer va­ ler sua vontade. Desta maneira os governos demonstram com que sucesso é possível enganar os homens e. normalmente. esse governo jamais assumiu qualquer responsabilidade espontaneamente. Não educa. nos anos 1846 a 1848. após o que chegaríamos àquele em que também creio: “O melhor governo é o que não governa nada cm absoluto”. por­ que. útil. conforme se disse. terminada com o Tratado de Guadalupe/Hidalgo. que se esforça por prolongar-se. N ão mantém o país livre. mas nem por isso é menos necessário. É excelente. O exército permanente é apenas o braço do governo perma­ nente. Observem que no atual conflito mexi­ cano um pequeno grupo utiliza o governo permanente em benefício próprio. Foi graças ao próprio caráter que os americanos conseguiram o que pos­ suem. sejam inúteis. na melhor das hipóteses. com a maior convicção. trata-se da guer­ ra travada entre os Estados Unidos e o México. o Novo México e a Califórnia. muitas respeitáveis e que devem prevalecer. Não passa de uma escope­ ta de madeira. c to­ dos. enganar-se a si mesmos. O mesmo governo. e quando os homens estiverem preparados para ele. a cada momento. oxalá também se façam ao governo permanente.

a imaginação fica estarrecida ante o número formidável de reis que morrem sem ter reinado. É impossível imaginar uma soberania. eis a explicação. e 700 deputados com mandatos de dois anos. p. . Mas é mister examinar com mais seriedade a questão. porque o povo que manda não é o povo que obedece. porque todos temos um pai e uma mãe. exerce a sua soberania através de seus representantes. 1972. Fernando Bastos de Ávila S. A coisa come­ ça a se esclarecer. Co­ mecemos pois por situar claramente a questão. Mas então o povo é também vassalo. ao menos no sistema francês. 20-5. é o mesmo que dizer que Deus não é o cria­ dor do homem. Assim pois. durante certo tem­ po. terminaria a soberania. Mas soberano de quem? Pelo visto de si mesmo. Por exemplo: suponhamos que existam hoje na França 25 milhões de homens sem contar as mulheres.10 Leituras Complementares 257 6) JOSEPH DE MAISTRE O pensamento s o c ia l cristão antes de M arx (Textos e comentários pelo P. é bem verda­ de que a soberania sc funda no conscntimento humano.) A soberania do povo O povo é soberano! É o que sc diz. Tal comentário não se fará esperar. cada francês se veria eleito soberano. . Mas como neste período continua-se a morrer. Basta enunciar o slogan: o povo é soberano. se os adversários da origem divina do poder não pretendem dizer mais que isto. O povo é um soberano que não pode exercer a soberania. Se esses 25 milhões de homens fossem imortais e se os deputados não fossem reelcgívcis. A ver as coisas de modo sumário e num nível mais terra-a-terra. de repente. Tem-se discutido com veemência o problema da origem do poder: a sobera­ nia vem de Deus ou dos homens? Não sei se já se observou que as duas alternati­ vas podem ser verdadeiras. O povo. sem imaginar um povo que consente cm obedecer. para não dizer um erro. e como os eleitos po­ dem reeleger os já eleitos. A Deus não interes­ sava empregar meios sobrenaturais para fundar impérios. como sobre tantos outros. porque Ele se serve dos homens para a constituir. Sobre este ponto. é possível que as partes não se tenham feito bem entender.J. Somen­ te cada indivíduo do sexo masculino tem sua vez de comandar.Livraria José Olympio Editora. Tudo devia ser feito por intermédio dos homens. vez por outra. se decidisse cm bloco a não obedecer. para sentir que ele care­ ce de um comentário. aqui se esconde al­ gum equívoco. estão com a razão e seria completamente inútil continuar a discutir. Mas dizer que a soberania não vem de Deus. Evidentemente. Se um povo. numa periodicidade mais ou menos de 3500 anos.

Quanta balela! Nas revoluções. autor especialmente da sociedade. por conseguinte. a soberania vem de Deus.. Foi Deus que assim quis a sociedade e. não será o povo que terá decretado a sua volta. em certo sentido. contentemo-nos em examinar juntos o que há de divino e o que há de humano na soberania..258 Teoria Geral do Estado Todos os teístas haverão de convir que aquele que viola as leis se opõe à von­ tade divina e se torna culpado perante Deus... Da mesma forma. ou seja que a forma de go­ verno é estabelecida e proclamada pelo consentimento humano. Mas esta vem também dos homens. Os partidários da origem divina do poder não podem negar que a vontade humana desempenha um certo papel na criação dos governos. estas duas proposições: a soberania vem de Deus e a soberania vem dos homens. exce­ to do mal. porque foi Deus que criou o homem sociável. é apenas como instrumento meramente passivo. Talvez não mais do que qua­ tro ou cinco pessoas darão amanhã um rei à França. sem as quais uma so­ ciedade não pode subsistir.. autor de tudo. que não pode existir sem a soberania. Assim. o povo não consentirá jamais. e os partidários do sistema oposto não podem negar.” Se voltar a mo­ narquia.. de vez que são eles que as elaboram. não é do in­ teresse do povo. porque na rua será um atropelo. como não foi o povo que a baniu. salvo uns 20. As leis vêm pois de Deus. para inaugurar o governo revolucionário. haverão de tomar conhe­ cimento de manhã ao acordar que eles têm um rei. sem as con­ fundir.. o povo quer. pôr as ideias no seu lugar. F ' as províncias gritarão: Viva o Rei! Em Paris mesmo todos os habitantes. não se contradizem de for­ ma alguma. Basta pois se entender sobre os termos. que Deus seja. Cartas despachadas dc Paris anunciarão às províncias que a França tem um rei. como também não é contraditório afirmar que as leis vêm de Deus e que elas vêm dos homens. . no entanto. neste sentido que Ele quer que existam leis c que se­ jam obedecidas. o autor desses mesmos governos. apesar de violar apenas disposições humanas... também a soberania e as leis. por excelência e de modo eminente. essas leis vêm também dos homens. (Este povo soberano tem alguma interferência na escolha do regime pelo qual será governado? Que papel desempenha ele nas mudanças eventuais de regime?) É muito comum o erro de raciocínio que consiste em pensar que uma even­ tual contrarrevolução só poderia ocorrer como o resultado de uma deliberação po­ pular: “o povo teme. Sabem qual será sua reação? “ Possível? Que coisa curiosa! Por que porta o rei haverá de entrar? E melhor ir tra­ tando de alugar alguma sacada.”. por sua vez. o povo está por fora e se nelas entra... Com estas precauções estamos certos de não nos extraviar e assim podere­ mos aceitar sem riscos o que disse aquele escritor: não venho aqui dizer-vos que a soberania vem de Deus ou que ela vem dos homens.

151-67. magistrados. Que guia será o nosso . juizes e pastores. interrompidos por breves relâmpagos de ventura. 1977. sinto-me dominado pela confusão c pela timidez.. Quando considero que a sabedoria de todos os scculos não é suficiente para criar uma lei fundamental que seja perfeita c que o mais esclareci­ do legislador pode ser a causa imediata da infelicidade humana e ludibrio. p. Os colégios elei­ torais de cada província representam os seus interesses e necessidades e servem de veículo às queixas das infrações das leis e dos abusos cometidos pelos magistrados. sem com isso complicar a divisão clássica de cada um dos outros. nascido en­ tre escravos e sepultado nos desertos da sua pátria. tendo-se portanto acrescentado mais um.pelos males que deveis temer das leis que me haveis pedido. As­ . se eu . Tende em vista esse mar que ireis sulcar com frágil barca e cujo timoneiro é tão inexperiente. apenas pôde ver cativos com grilhetas e companheiros como armas para destrui-las? Legislador. pro­ víncia ou cantão. do seu ministério divino . pelos princípios adotados entre os povos livres.10 Leituras Complementares 259 7) SIM ON BOLÍVAR Discurso perante o Congresso Constituinte de Bolívia (1825) (Lisboa. e não sei quem so­ fre mais neste horrível conflito: se vós . O vosso engano e o meu compromisso disputam entre si a preferência. Editorial Estampa.) Legisladores! Ao oferecer-vos o Projeto de Constituição da Bolívia. Reuni todas as minhas forças para vos expor as opiniões que mantenho sobre o modo de dirigir homens livres. Pareceu-me não só conveniente e útil. O eleitoral recebeu faculdades que não lhe eram assinaladas nos outros governos que se julgam entre os mais liberais. conceder aos representantes imediatos do povo os privilégios que mais podem desejar os cidadãos dc cada departamento. pois estou convencido da minha incapaci­ dade para fazer leis. eu?.que poderei dizer-vos do soldado que. para depois vos atacarem simultanea­ mente: a tirania e a anarquia constituem um oceano imenso de opressão. como também fácil.à sombra de tão tenebrosos exemplos? Legisladores! o vosso dever chama-vos a resistir ao choque de dois monstros inimigos que reciprocamente se combatem.pelo opróbrio a que me condenais com a vossa confian­ ça. digamos assim. ainda que as lições e a experiência nos mostrem apenas vastos períodos de desas­ tres. Estas atribui­ ções aproximam-se bastante das que existem no sistema liberal. O Projeto de Constituição para a Bolívia está dividido em quatro poderes po­ líticos. Nenhum objeto pode ser mais importante para um cidadão do que a eleição dos seus legisladores. envolven­ do a pequena ilha da liberdade que se vê perpetuamente sujeita à violência das va­ gas e furacões em fúria e que procuram submergi-la. Atrever-me-ia a afirmar com alguma exatidão que esta representatividade partici­ pa dos direitos de que gozam os governos particulares dos estados federados..

os arcebispos. seria pois absurdo que nos interes­ ses mais árduos da sociedade se desprezasse tal providência ditada por uma neces­ sidade imperiosa. Cada dez cidadãos nomearão um eleitor c assim se achará representada a na­ ção pelo décimo dos seus cidadãos. duas. para poderem deliberar ausentes de paixões e com a calma da sabedoria. Saber e honradez. zelando para que a Constituição e os tratados públicos se­ . já que foi sua colônia. onde.260 Teoria Geral do Estado sim se colocou novo peso na balança contra o Executivo. nem é ne­ cessário possuir bens para representar a augusta função de soberano. Os senadores criam os códigos e regulamentos eclesiásticos e velam sobre os tribunais e o culto. onde a nobreza e o povo estão representados em duas Câmaras. será analisada uma. Cabe ao Senado escolher os prefeitos. que nos serviu de modelo. como acontece quando existem apenas duas Câmaras. da ociosidade e da ignorância absoluta. mais popularidade. mas deve o cidadão saber escrever as suas votações. Serão eles os fiscalizadores junto do governo. e a questão examinada pelas duas partes contendentes terá uma. adquirindo o governo mais garantias. novos títulos e distinguindo-se entre os mais de­ mocráticos. Não lhe são postas outras exclusões que não sejam as do crime. não dinheiro. a discórdia entre duas será sempre resolvida pela terceira. O que é verda­ de é que dois corpos deliberantes acabam por combater-se mutuamente. pelo menos. antes de sofrer a negativa. e o mesmo acontece na América do Norte. Não são exigidas nem capacidades. go­ vernadores. os juizes do distrito. bis­ pos. é o que o exercício do poder público exige. Tem a seu cargo a inspeção imediata dos ra­ mos que o Executivo administra com menos intervenção do Legislativo. Clássico absurdo! A primeira Câmara é a dos tribunos e goza da atribuição de dar início às leis relativas à Fazenda. Em todos os assuntos entre dois contrários sc nomeará um terceiro para decidir. Terá de professar uma ciência ou arte que lhe assegure um alimento honesto. podemos to­ davia imaginar que se inspirou naquele país. que a jul­ ga. O Corpo Legislativo apresenta uma composição que o torna necessariamen­ te harmonioso entre as diversas partes: jamais se encontrará dividido por falta de um juiz árbitro. Assim acontece com a Inglaterra. Dir-me-ão que os Congressos modernos se compõem apenas de duas seções. Essa a ra­ zão por que Siéyès apenas defendia a existência de um. Os censores exercem um poder político e moral que tem certa semelhança com o do Areópago de Atenas e o dos censores de Roma. não existindo nobreza. dignidades e cônegos. Pro­ põe à Câmara dos Censores os membros do Tribunal Supremo. assinar o seu nome e ler as leis. três vezes. deste modo nenhuma lei útil ficará sem efeito ou. Assim as Câmaras guardarão entre si as considerações que são indispensáveis para conservar a união do todo. corregedores e todos os subalternos do departamento de Justiça. à Paz e à Guerra. Como pas­ sarão a existir três. imparcial. É do pelouro do Senado tudo quanto pertence à religião e às leis.

e com ele moverei o mundo. A ilha de Haiti (seja-me permitida esta digressão) encontra-se em permanen­ te insurreição: depois de haver experimentado o império. re­ presentaram o mais pequeno perigo para o Estado. mais que nos outros. a instrução e a im­ prensa. com direitos para nomear sucessor. ainda que se trate de faltas insignificantes. dá vida ao Universo.10 Leituras Complementares 261 jam observados com zelo. A sua duração é a mesma dos presidentes do Haiti. Para a Bolívia esse ponto é o presidente vitalício. tudo continuou sob o signo Boyer. O fiel da glória estará confiado às suas mãos. E sob a sua égide se encontra também o Juízo Nacional. pois são eles que devem levantar a voz contra os seus profanadores. O presidente da Bolívia será menos perigoso que o do Haiti. nem juizes ou dignidades eclesiásticas. Esta suprema autoridade deve ser perpétua. mas com restrições favoráveis ao povo. Confiaram nele e os destinos de Haiti não vacilaram mais. firme 110 seu centro. viu-se forçada a recorrer ao ilustre Petion para que a salvasse. na nossa Constituição. o presidente da Bolívia fica privado de todas as influências: não nomeia magistrados. Cortou-se-lhe a cabeça para que ninguém receie as suas intenções e ataram-se-lhe as mãos para que não cause dano a ninguém. Dai-me um ponto fixo. como o Sol que. uma vez que nos sistemas sem hierarquias. A mais terrível e a mais augusta das missões pertence pois aos censores. Trouxe para a Bolívia o sistema executivo da república mais democrática do mundo. os censores devem gozar de uma inocência intacta e de uma vida sem mancha. e o modo de su­ cessão mais seguro para o bem do Estado. to­ dos os governos conhecidos e alguns mais. O presidente da República acaba por ser. Os sacerdo­ . as artes. as ciências. os homens e as coisas. é a inspiração mais sublime na or­ dem republicana. Com a designação de Petion para presidente vitalício. sem que isso implique. por mais pequenas que sejam. por isso mesmo. O presidente da Bolívia participa das faculdades do Executivo americano. São os censores quem protege a moral. Concederão honras públicas aos serviços c às virtudes dos ci­ dadãos ilustres. Prova triunfante de que um presiden­ te vitalício. a república. que deve decidir da boa ou má administração do Executivo. A estes sacer­ dotes das leis confiei a conservação das nossas tábuas sagradas. na tranqüilidade de um reino legítimo. dizia um antigo. Além disso. se torna necessário um ponto fixo à volta do qual devem girar os magistrados e os cidadãos. ação. o reino. Eles condenarão ao opróbrio eterno os usurpadores da autoridade soberana e os crimi­ nosos importantes. por parte dele. Se trans­ gredirem serão acusados. Esta diminuição de poderes ainda ne­ nhum governo bem constituído a sofreu nos nossos dias: ela virá trazer entraves sobre entraves à autoridade de um chefe que sempre se apresentará ao povo sob o domínio dos que exercem as funções mais importantes da sociedade. nem a morte desse grande homem. Nele se estriba toda a nossa ordem. nem a sucessão do novo presidente. com faculdades de eleger su­ cessor.

A administração pcrtencc toda ao ministério. Devendo estes ao povo as suas dignidades. os juizes sobre a propriedade. E sc o grande Napolcão não conseguiu manter-se contra a ligação de republi­ canos c aristocratas quem. não logrou triunfar de tal regra. O vice-presidente é o magistrado mais manietado que serviu o mando: obe­ dece simultaneamente ao Legislativo e ao Executivo de um governo republicano. juizes c ci­ dadãos. Bonapartc. alcançará fundar monarquias. São estas as suas funções. c se alguns ambiciosos se empenham em levantar im­ périos. do segundo as ordens. e satisfaz-se com a sua conservação. apesar da influência que goza. num solo incendiado pelas chamas brilhantes da liberdade. está longe de as­ pirar ao domínio. Legisladores! A liberdade de hoje. erguerão túmulos para as suas cinzas. Obser­ ve-se a natureza selvagem deste continente que só por si exclui a ordem monárqui­ ca. os mais adequados para lhe captar a aura popular. na verdade. Do primeiro recebe as leis. os ti­ ranos não são permanentes. magistrados. vence­ dor de todos os exércitos. Não existem nobres importantes ou grandes eclesiásticos. e entre estas duas barreiras vê-se obrigado a avançar por um caminho angustiado e flanqueado de precipícios. logo são informados do que os espera. assim a sua influência é nula. não poderá o presidente esperar complicá-los com as suas ambiciosas pretensões. parece-me que há razão para ficarmos seguros da usurpação do poder público ser mais longínqua nesta forma de governo do que em qualquer outra. a honra e a vida. Ape­ sar de tantos inconvenientes. Sem estes dois apoios. Cristóbal. únicos agentes deste ministério. e os magistrados cm todos os atos públicos. Dessalines. jamais será destruída na América. responsável perante os censores e está sujeita à vigilância zelosa dc todos os legisladores. Não há poder mais difícil de manter do que o dc um novo príncipe. As barreiras constitucionais integram uma consciência política e con­ ferem-lhe a firme esperança de encontrar o farol que a guie entre os escolhos que . As nossas riquezas eram praticamente nulas. mais forte que os impé­ rios. legisladores: não temais os pretendentes a coroas: elas serão para as suas cabeças a espada suspensa sobre Dionísio (sic). Os aduaneiros e os soldados. Se acrescentarmos a esta consideração as que naturalmen­ te surgem das oposições gerais que enfrenta um governo democrático cm todos os momentos da sua administração. na América. testemunhando no futuro dos séculos a sua fátua ambição pela li­ berdade e pela glória. devorador de entraves erguidas e criador de cadafalsos régios? Não.262 Teoria Geral do Estado tes mandam sobre as consciências. a paz e guerra e a mandar no exército. Os limites constitucionais do presidente da Bolívia são os mais estreitos que se conhecem: limita-se a nomear os funcionários da Fazenda. A igreja. Iturbide. é preferível governar assim a ter nas mãos um impé­ rio absoluto. não são. glória e fortuna. Os príncipes flamantes que se afadigam a construir tronos sobre os escombros da liberdade.

em toda a sua pureza. educado pela adulação e conduzido por todas as paixões. O Cor­ po Legislativo e o povo exigirão capacidades c talentos da parte deste magistrado e pedir-lhe-ão uma cega obediência às leis da liberdade. a monarquia que governa a terra obteve os seus títulos de aprovação da herança que a torna estável. se pusessem à frente da ad­ ministração? Haveria. e da unidade que a torna forte. sem dúvida. como este método: reúne a vantagem de colocar à cabeça da administra­ ção um indivíduo experimentado no manejo do Estado. pelos seus serviços. mas pelo mérito e. O Poder Judicial que proponho goza de uma independência absoluta: em ne­ nhuma outra parte tem tanta. quanto mais útil não é o método que acabo de propor para a sucessão? Que aconteceria se os príncipes fossem eleitos.o mundo supremo. manda no gênero humano. e a mais terrível tirania é exercida pelos tribunais . legisladores. não pela sorte. concertadas com os interesses alheios.10 Leituras Complementares 263 a rodeiam: servirão de apoio contra os impulsos das nossas paixões. os direitos indi­ viduais. Estes direitos. todas as garantias da ordem social. este príncipe a que me atreveria a chamar a ironia do homem. são os que constituem a liberdade. Este vice-presidente terá dc esforçar-se por merecer. O presidente da república nomeia o vice-presidente para que este administre o Estado e lhe suceda no mando. Apoderei-me desta ideia e estabeleci-a como lei. senhores legisladores. O povo apresenta os candidatos. Com esta providência se evitam as eleições. E ainda que um príncipe soberano seja um menino mimado. a anarquia que é o luxo da tirania e o perigo mais imediato e mais terrível dos governos populares. fechado no seu palácio. que estas grandes vantagens se encontram reunidas no presidente vitalício e no vice-presidente hereditário. o crédito que necessita para desempenhar as mais al­ tas funções e esperar a grande recompensa nacional . deverá temê-lo como inimigo encarniçado e suspei­ tar até das suas ambições mais secretas. Considerai. numa re­ pública. A verdadeira constituição liberal está nos códigos civis e penais. porque conserva a ordem das coisas e a subordinação entre os ci­ dadãos. monarcas mais esclarecidos e dispostos a faze­ rem felizes os povos que governassem. Se o Poder Judicial não tiver esta origem ser-lhe-á impossível conservar. No governo dos Estados Unidos observou-se ultimamente a prática de nomear o primeiro-ministro para suceder ao presidente. Reparei no que acon­ tece nos reinos legítimos. que produzem grandes reveses nas repúblicas. na tremenda crise das repúblicas! O vice-presidente deve ser o homem mais puro: pois se o primeiro magistra­ do não elege um cidadão justo. levando consigo a auréola da popularida­ de e uma prática consumada. Nada c tão conveniente. Quando inicia o exercício das suas novas funções já vai formado. com um poder firme e uma ação constante. Sendo a herança aquilo que perpetua o regime monárquico e assim acontece na quase generalidade. e o Legislativo es­ colhe os indivíduos que hão de formar os tribunais. legisladores. a segurança. Sim. em lugar de se ficarem inativos e ignorantes. a igualdade.

Nunca será demasiada a atenção que prestardes ao bom regime dos departamentos. que é o fim da sociedade. seria de esperar que proibíssemos o uso da tortura e das confissões. esquadra. A fiscalização militar é preferível em todos os aspectos aos guardas. mas os tribunais são os árbitros das coisas próprias . Este ponto é da predileção da ciência legislativa e. que as nações são formadas por cidades e aldeias. Atrevo-me a instar encarecidamente junto dos legisladores para que ditem leis for­ tes e determinantes sobre esta matéria. as outras são nominais ou de pouca influência no respeitante aos ci­ dadãos. Geralmente. interessa à república guarnecer as fron­ teiras com tropas de linha e tropas de fiscalização contra a guerra da fraude. serão distribuídos através des­ se poder. por isso. O território da república é governado por prefeitos. Por isso recomendo uma lei que prescreva um método de responsabili­ dade anual para cada funcionário. Garantiu-se a segurança pessoal. O Poder Judicial contém a medida do bem ou do mal dos ci­ dadãos. e que do bem-estar destas resulta a felicidade do Estado. contudo. A força armada divide-a em quatro partes: exército dc linha. governadores. e da qual dima- . e se houver liberdade e justiça na república. o Estado é um caos.264 Teoria Geral do Estado através do instrumento das leis. Os trâmites da reforma foram assinalados nos termos que julguei mais apropriados ao caso. o Executivo não é mais que um depo­ sitário da coisa pública. não obstante. Sem responsabilidade. Toda gente fala em liberdade. Deus nos preserve de ele voltar as armas contra os cidadãos! Basta a milícia na­ cional para conservar a ordem interna. Pouco importa. juizes de paz e alcaides. Tende presente. A Bolívia não possui grandes costas e por isso é inútil a marinha: apesar disso esperamos obter um dia uma e outra coisa. Não pude entrar no regime interno e nas faculdades destas jurisdições. é meu dever recomendar ao Congresso os regulamen­ tos respeitantes ao serviço dos departamentos e províncias. a organização política: o importante é que a civil seja perfeita.das coisas dos indivíduos. mas quase sempre não se passa de palavras. muitas vezes. Foram estabelecidas as garantias mais perfeitas: a liberdade civil é a verdadei­ ra liberdade. corregedo­ res. milí­ cia nacional e fiscalização militar. O destino do exército é o de guarnecer a frontei­ ra. A responsabilidade dos funcionários fica assinalada na Constituição bolivia­ na da forma mais efetiva. juizes e funcionários abusam das suas faculdades porque não se detêm com rigor os agentes da administração. Pensei que a Constituição da Bolívia devesse reformar-se por períodos. sem repressão. Não existe responsabilidade. que as leis se cumpram religiosamente e se tenham por inexo­ ráveis como o destino. legisladores: os ma­ gistrados. De acordo com as ideias em voga. e que encurtássemos a duração dos pleitos no intricado la­ birinto das apelações. legisla­ dores. bastas vezes desdenhado. um serviço seme­ lhante é mais imoral que supérfluo. e entretanto as vítimas deste abuso são os cidadãos. segun­ do as exigências do movimento do mundo moral.

10 Leituras Complementares 265 nam as outras. Mas não: Deus destinou o homem à liberdade e protege-o para que exerça a fun­ ção celeste do livre-arbítrio. Numa Constituição política não deverá prescrever-se uma profis­ são religiosa. que lei ou poder será capaz dc sancionar o domínio sobre tais vítimas? Transmitir. devia omitir. Legisladores! Farei agora menção de um artigo que. Um homem na posse de outro! Um homem proprie­ dade! Uma imagem de Deus subjugada como um animal! Dizei-me: onde estão os títulos dos usurpadores do homem? Foram-nos enviados pela Guiné. estou convencido que não existe um único boliviano tão depravado que pretenda legitimar a mais insigne vio­ lação da dignidade humana.a igualdade sem ela. Legisladores. Transplantadas para aqui estas relíquias das tribos africanas. segundo a minha consciên­ cia. desaparecem todas as garan­ tias. A lei que a conservas­ se seria a mais sacrílega das leis. essa depende do código civil que a vossa sabedoria deverá redigir em seguida. para descanso dos vossos concidadãos. à de um cativo ao serviço de um infame tirano que. velar pelo cumprimento das leis religiosas e atribuir prêmio ou castigo. Con­ servei intacta a lei das leis . a infame escravatura. quan­ do os tribunais estão no céu e quando Deus é o juiz? Só a Inquisição seria capaz de substituí-los neste mundo. pois a África devastada pelo fratricídio só nos apresenta crimes. Que direitos poderão ser alegados para que se mantenha? Observe-se este crime sob todos os aspectos. prorrogar. Basear um princípio de posse sobre a mais fe­ roz delinqüência só poderá conceber-se com a alteração dos elementos do direito c a perversão mais absoluta das noções do dever. Toda lei sobre ela a anula. poderá um Estado reger a consciência dos seus sú­ ditos. coberta de humilhação. parece-me o ultraje mais chocante. porque segundo as melhores doutrinas sobre as leis fundamentais es­ tas são as garantias dos direitos políticos c civis. Os preceitos e dogmas sa­ . que é a base da religião. Aplicando estas considerações. A religião governa o homem em casa. Voltará ainda a Inquisição com os seus archotes incen­ diários? A religião é a lei da consciência. provocasse a ira do céu. As leis. todos os direitos. mas a religião não se integra em nenhum destes direitos. têm em vista a superfície das coisas: governam fora da casa dos cidadãos. Ninguém pode violar o santo dog­ ma da igualdade. A seus pós colo­ quei. é de natureza indefinível na ordem social c pertence à mo­ ral intelectual. dentro de si pró­ prio: ela apenas tem o direito de examinar a sua consciência íntima. não por usurpadores. preferiria a sorte de um leão generoso dominando nos desertos e bosques. eternizar este crime eivado de suplícios. E se não houvesse um Deus Protetor da inocência e da liberdade. pelo contrário. no gabinete. Quanto à propriedade. a infração dc todas as leis é a escravatura. cúmplice dos seus crimes. E poderá haver escravatura onde reina a igualdade? Uma tal con­ tradição seria mais o vitupério da nossa razão do que da nossa justiça: reputados por dementes. porque impondo a necessidade tira mérito à fé. Por ela devemos fazer todos os sacrifícios.

antecipou-sc todos os meus serviços e é infinitamente superior a quantos bens possam trazer-me os homens. o homem apoia a sua moral nas verdades reveladas e professa de fato a religião. porque é au­ mentada a grande família dos povos. como a de Deus. Onde está a repúbli­ ca. dedicando-me uma nação. Por outro lado.vendo-me em igualdade com o mais célebre dos antigos . deverão receber recompensas imortais. quando este progresso é conseguido. mas a minha. . Os pastores espirituais estão obrigados a ensinar a ciência do céu: o exemplo dos verdadeiros discípulos de Jesus c o mestre mais eloqüente da sua divina moral. não é político. quando ela jamais conseguirá alcançar a expres­ são do que eu sinto com a vossa bondade que. de modo algum. as virtudes. que mais eficaz se torna quando adquirida por investi­ gações próprias. sendo os seus primeiros benfeitores. o Corpo Nacional que dirige o poder público para objetos pura­ mente temporais. o próprio gênio do maior dos heróis. os pais de família não podem descuidar o dever religio­ so para com os filhos. Bolívia que quer dizer? Um amor arrebatado pela liberdade e que o vosso impulso ao recebê-la. mas este dever é moral.266 Teoria Geral do Estado grados são úteis. parece-me à primeira vista sacrílego e profano misturar as nossas prescrições como os mandamentos do Senhor. nem a força deve ser empregada em dar conselhos. onde a cidade que fundei? A vossa exuberância.o Pai da Cidade Eterna! Esta glória pertence de direito aos criadores das nações que. O progresso moral do homem é a intenção primeira do legislador. Inebriados por tal explosão de senti­ mentos. Qual não será o dos seus fundadores . mas. além de imortal tem o mérito de ser gratuita porque não merecida. a lei deixa de ser lei.e o meu! . neste mundo. Legisladores. Deus c os seus ministros são as au­ toridades da religião que atua por meios e órgãos exclusivamente espirituais. os direitos do homem para com a re­ ligião? Esses direitos estão no céu. luminosos e de evidência metafísica. Legislar sobre a religião não cabe ao legislador que deve sim prescrever penas às infrações das leis para que estas não se­ jam meros conselhos. Além disso. mas a moral não se impõe. ultrapassa todos os limites! Sim: só Deus teria poder para chamar a esta terra Bolívia. Mas o meu desespero aumenta ao contemplar a imensidade do vosso prêmio. ao ver proclamada a nova nação boliviana quão generosas e su­ blimes considerações deverão elevar as vossas almas! A entrada de um novo Esta­ do na sociedade dos outros é motivo de júbilo para o gênero humano. não me sinto digno de merecer o nome que lhe haveis querido dar-lhe . acabais por ligar o meu nome a todas as vossas gerações.. porque depois de haver esgotado os talentos. Sendo tudo isto de juris­ dição divina.o meu! Falar da minha gratidão.. nada mais viu que fosse igual ao seu valor. todos devemos professá-los. lá se encontra o tribunal que recompensa o mé­ rito e faz justiça segundo o código ditado pelo legislador. nem o que ordena é senhor. Não havendo castigos temporais nem juizes que os apliquem. quais são.

23 de maio de 1826 8) KARL MARX E FRIEDRICH ENGELS 0 manifesto comunista (Manifesto dei Partido Comunista. mestre de corporação e companheiro. Este feito. mestres. a apenas dois campos hostis. paulatina­ mente.. repito. Tal feito mostrará aos tempos que estão 110 pensamento do Eterno. é-o ainda mais na história dos desprendimentos sublimes. de forma tal que a sociedade como um todo vai se reduzindo. Laski. não aboliu os antagonismos de classe. com novas classes sociais e novos meios de opressão. que surgiu dos escombros da sociedade feudal. em suma. vassalos. trad. ligadas a uma progressiva modifica­ ção nas condições de vida. provará que sois crcdores dc obter a grande benção do Céu . se confunde com a his­ tória das lutas de classes. opressores e oprimidos em confli­ to permanente entre si. encontra-se.c a Soberania do Povo . Manifesto do Partido Comunista . plebeus e escravos. ed. apenas substituiu as antigas formas de luta por outras. e que deve perpetuar uma ditosa existência sob as leis ditadas pela vossa sabedoria. nos­ sa sociedade burguesa se caracterizou pela simplificação dos antagonismos entre as classes. Dentro de cada uma de todas estas classes. Lima. Entretanto. até hoje existentes. a existên­ cia de diversas camadas sociais subordinadas. que é a posse de exercer as vir­ tudes políticas. uma cla­ ra divisão da sociedade cm classes diferentes. que é inaudito na história dos séculos. 1978. 1978. Zahar. Na Roma antiga. senhor e servo. Turim. 2. A sociedade burguesa atual. Desde os primórdios da História. Legisladores.10 Leituras Complementares 267 Isto. duas grandes classes que se defrontam: a bur­ guesia e o proletariado! . temos os patrícios. Einaudi. constata-se. senhores. Homem livre e escravo. em todos os lugares. Regina Lúcia E de Moraes. Na Idade Média. e que decidis na posse dos vossos direitos. cavaleiros. ainda. 1981. ou pela reestruturação revo­ lucionária da sociedade como um todo ou pela destruição das classes em choque. a cada vez. Rio de Janei­ ro. O manifes­ to comunista de Marx e Engels. patrício e plebeu. Harokl J. na calma que se sucedeu à tempestade da guerra. a qual sempre se encerrou.) I . e o gozo dc serem homens. aprendizes e servos. companheiros. São Paulo. Global. às claras ou dissi­ muladamente.Burgueses e proletários A história de todas as sociedades. felizes vós que presidis aos destinos de uma república que nasceu coroada com os louros de Ayacucho.a única autori­ dade legítima das nações. levado a efeito numa guerra incessante.

no período manufatureiro. historicamente. nunca antes verificado. a burguesia. a evolução notável dos mecanismos de troca c o aumento das mercadorias cm geral foram os fatores que ensejaram um desenvolvimento. os primeiros representantes da burguesia de hoje. Então. já não poderia mais atender à crescente demanda dos novos mercados. e como fundamento principal das grandes monarquias. trazendo com isto o apressamento do processo revolucionário 110 seio da enfraquecida sociedade feudal. Dilacerou. Os mercados. Conforme se desenvolviam a indústria. a colonização do Novo Mundo. Os mercados da índia Oriental e da China. em face da divisão do trabalho em cada oficina. que a burguesia atual é o produto de um longo proces­ so de desenvolvimento. cruelmente. Os mestres das corporações foram substituídos pela pequena burguesia industrial. O sistema feudal. sendo que este promoveu um espantoso desenvolvimento do co­ mércio. aqui. república urbana indepen­ dente (como na Itália e na Alemanha). ela destruiu to­ das as relações feudais. a burguesia desempenhou um papel revolucionário dos mais significativos. patriarcais e idílicas. destes. Cada fase na formação histórica da burguesia veio acompanhada de um processo político correlato: a classe oprimida pelo feudalismo despótico sc organi­ za cm associação armada e autônoma na Comuna. tributário da monarquia (como na França). os diversos la­ ços que uniam o homem feudal aos seus superiores naturais. Não há dúvida de que.268 Teoria Geral do Estado Dos servos da Idade Média surgiram os burgueses privilegiados das antigas cidades e. Neste. para que subsistisse . o vapor e as má­ quinas revolucionaram a produção industrial. Conclui-se. da navegação e dos meios de comunicação. senhores dc verdadeiros exércitos industriais. o governo não passa de um órgão destinado a gerenciar os interesses comuns de toda a bur­ guesia. da navega­ ção e da indústria. constituindo a bur­ guesia moderna. do comércio. continuavam em expansão e a demanda aumentando sem parar. ali. como contrapeso da no­ breza. terceiro estado. Onde conquistou o poder. aumentando seu capital e colocan­ do em plano secundário toda classe oriunda da Idade Média. e a divisão do trabalho entre as di­ ferentes corporações foi extinta. a na­ vegação e as ferrovias. Tal redundou numa expansão ainda maior da indústria. entrementes. Mais tarde. o comércio com as colônias. com o estabelecimento da indústria moderna e do mercado mundial. e a classe média industrial ultrapassada pelos capi­ tães dc indústria. de uma escalada de revoluções nos modos de produção e dc troca. A própria manufatura não mais atendia a esta. com sua produção industrial monopolizada por grupos fe­ chados. A descoberta da América e a circunavegação da África abriram para a bur­ guesia emergente novas alternativas. A descoberta do Novo Mundo permitiu que a indústria moderna criasse seu mercado mundial. portanto. a burguesia se firmava. o comércio. A produção manufatureira tomou o seu lugar. conquistou afinal o domínio político exclusivo do Estado representativo moderno. A manufatura foi substituída pela gigantesca indústria moderna.

força-as a optarem pelo que ela considera civilização. Kairós. liberando imensos contingentes do embrutecimento da vida rural. com a ameaça de seu desaparecimento. cm nome dc todas as liberdades conquis­ tadas. Sua mercadoria barata constitui sua mais poderosa arma. Graças ao incrível desenvolvimento dos meios de produção e às facilidades ensejadas pelos meios de comunicação. Que é uma Constituiçãof. Col. até então. o ju­ rista. transformar o mundo à sua imagem e semelhança! O sistema burguês submeteu o campo à cidade. Arran­ cou o véu sentimental que envolvia as relações familiares. submeteu. São Paulo. Manoel Soares. capaz dc derrubar até as muralhas da China e de subjugar os bárbaros mais desconfiados. visando. mesmo as mais atrasa­ das. de maneira ir­ resistível. cínica. do sentimentalismo pequeno-burguês nas águas geladas do cálculo egoísta. Brasil. Walter Stõnncr. em síntese. o poeta. também. direta e brutal. Com mão dc ferro. o homem de ciência. dando origem a gigantescos aglomerados urbanos. Ed. 1933. se não o fizerem. São Paulo. o insensível “pagamento a vista” nas relações hu­ manas. o padre.10 Leituras Complementares 269 apenas o laço frio do interesse. 1985. trad. Sufocou o êxtase sagrado do fervor religioso. Estudos Político-Sociais. respeitáveis e veneráveis. reduzindo-as a meras es­ peculações financeiras. A burguesia retirou a auréola de todas as atividades consideradas. a burguesia consegue atrair. Em suma. 1987. Global. para adotar a exploração aber­ ta. Assim como submeteu o campo à cidade. São Paulo. o Oriente ao Ocidente. Fez da dignidade pessoal mero valor dc troca c. em trabalhadores assalariados. afastou a explo­ ração camuflada pelas ilusões religiosas e políticas. aumentando descontroladamente a população das cidades e esvaziando os campos. trad. e os países atrasados ou me­ nos evoluídos aos civilizados. estabeleceu a implacável liberdade do comercio. Que é uma Constituição?. todas as nações para o seu modelo de civilização. os povos agrícolas aos povos bur­ gueses. obriga todas as nações a adotarem um modo burguês dc produção.) . transformando o médico. do entusiasmo cavalheiresco. e Publ. 9) FERDINAND LASSALLE Que é uma Constituição? (O que é uma Constituição política .

porém não esclarecem onde está o conceito de toda Constituição. Mas isso não seria. boa ou má. e porque. porém. pois existe também a Constituição nos países de governo republica­ no: “A Constituição é a lei fundamental proclamada pelo país. responder à minha pergunta. mas não explicam o que é uma Constituição. certamente. Dão-nos critérios. pois. para responder-nos. Não basta apre­ sentar a matéria concreta de uma determinada Constituição. seja qual for o seu conteúdo. isto é. minha palestra com esta pergunta: o que é uma Constituição? Qual a verdadeira essência de uma Constituição? Em todos os lugares e a toda hora. pois para isso se­ ria necessário que explicassem o seu conceito. para responder satisfatoriamente à pergunta por mim formulada: onde podemos encontrar o conceito de uma Constituição. seja ela qual for? Se fizesse esta indagação a um jurisconsulto. procurariam o volume que fala da legislação prussiana de 1850 até encontrarem os dispositivos da Constituição do reino da Prússia. . pois. porém. O u ge­ neralizando. formulo em termos precisos esta pergun­ ta: qual a verdadeira essência. distanciam-se muito de explicar cabalmente a pergunta que fiz. existem muito pou­ cas que possam dar-nos uma resposta satisfatória. factível ou irrealizável. O conceito de Constituição . Primeiramente torna-se necessário sabermos qual é a verdadeira essência de uma Constituição. iVIuitos. poderemos saber se a Carta Constitucional determinada e concreta que estamos examinando se acomoda ou não às exigências substanciais. duradoura ou insustentável. notas explicativas para conhecer juridicamente uma Constituição. proclamando-as Constituições. para orientar-nos sobre se uma determinada Constituição é.como demonstrarei logo . entre essas milhares de pessoas que falam desta. está claro. Não servem. receberia mais ou menos esta res­ posta: “Constituição é um pacto juramentado entre o rei e o povo. à tarde. sejam quais forem. depois. e.270 Teoria Geral do Estado Capítulo 0 que é uma Constituição? Inicio. ou outras parecidas que se possam dar. a da Prússia ou outra qualquer. de nada servirão as definições jurídicas que podem ser aplicadas a todos os papéis assinados por uma nação ou por esta e o seu rei. nos cafés e nos restaurantes é este o assunto obrigatório de todas as conversas. pela manhã e à noite. limitam-se a descrever exteriormente como se formam as Constituições e o que fazem. o verdadeiro conceito de uma Constituição? Estou certo de que. a essência constitucional. estamos ouvindo falar da Constituição e de seus pro­ blemas constitucionais. Estas. ou por isso mesmo. na qual se baseia a organização do Direito público dessa nação”. apesar disso. Na imprensa. Todas essas respostas jurídicas. estabelecendo os princípios alicerçadores da legislação e do governo dentro de um país”. sem penetrarmos na sua essência. E. nos clubes. Para isso.é a fonte primitiva da qual nascem a arte e a sabedoria cons­ titucionais.

pois é agora que vamos desvendá-lo. Uma Constituição. Faço outra vez a pergunta anterior: qual a diferença entre uma Constituição e uma simples lei? . uma essência genética co­ mum. po­ deria demonstrá-lo com centenas de exemplos. para reger. protestamos e gritamos: Deixai a Constitui­ ção! Qual é a origem dessa diferença? Esta diferença é tão inegável que existem. uma Constituição deve ser qualquer coisa de mais sagrado. Este método é muito simples. todos nós sabemos que se torna necessário que to­ dos os anos seja criado maior ou menor número de leis. ad hoc. não protesta pelo fato de constantemente serem apro­ vadas novas leis. Todos esses fatos demonstraram que.. minha pergunta: Que é uma Constituição? Onde encontrar a verdadeira essência. esforçando-nos para pene­ trar clara e nitidamente nas diferenças que afastam uma da outra. uma simples lei. porém. Não pode. Constituições que dispõem taxativamente que a Constituição não poderá ser alterada de modo algum. deverá ser nomeada uma nova Assembleia Legislativa. pergunto: Qual a diferença entre uma Constituição e uma lei? Ambas. não protestamos quando as leis são modificadas. Esta.10 Leituras Complementares 271 Repito. se a nova lei não motivasse modificações no aparelhamento legal vigente. de mais firme e de mais imó­ vel que uma lei comum. que faz com que a Constituição seja mais do que simples lei. para reformá-la. têm. necessita a aprovação legislativa. existem ainda algumas onde se declara que não é da compe­ tência dos Corpos Legislativos sua modificação. Todavia. pois. criada expressa e exclusivamente para esse fim. isto é. Entre os dois conceitos não existe somente afinidade. para que se ma­ nifeste sobre a oportunidade ou conveniência de ser a Constituição modificada. Lei e Constituição Aplicando esse método. não é uma lei como as outras.. Por isso. decre­ tar-se uma única lei que seja nova sem alterar a situação legislativa vigente no momento da sua aprovação. senão que. noutras. evidentemente. tem que ser também lei. pois. consta que para reformá-la não é o bastante que uma simples maioria assim o deseje. o verdadeiro conceito de uma Constituição? Como o ignoramos. Baseia-se em compararmos a coisa cujo conceito não sabemos com outra semelhante a ela. por exemplo. mas será necessário obter dois terços dos vo­ tos do Parlamento. seria absolutamente supérflua e não teria motivos para ser aprovada. Mas. nem mesmo unidos ao Poder Executivo. O país. e estamos cientes disso. é mais do que isso. aplicaremos um mé­ todo que é de utilidade pôr em prática sempre que quisermos esclarecer o concei­ to de uma coisa. quando mexem na Constituição. pois no­ tamos. a lei e a Constituição. há também desse­ melhança. no espírito unânime dos povos. até. pelo contrário. que é esta a missão normal e natural dos governos.

Intentemos. é uma lei fundam ental da nação. a noção de uma necessidade ativa . a fundamentos exatos. com que todas as outras leis e instituições jurídicas vigentes no país sejam o que real­ . a verdade que estamos investigando. que de nada nos servirá enquanto não soubermos explicar qual é. como indica seu próprio nome: “fundamental”. Somente as coisas que carecem de fundamento. Mas a mes­ ma. embora de modo obscuro. ou não? Se não existissem tais fundamen­ tos. É possível. ou. indagando que ideias ou que noções são as que vão associadas a esse nome de4 4 lei fundamentar’. 3) mas as coisas que têm um fundamento não o são assim por um capricho. sua trajetória seria casual e poderia variar a todo momento. movem-se de um modo determinado. Imediatamente surge. em outros termos. se é o resultado como preten­ dem os cientistas da força da atração do Sol. um termo novo. se dc fato responde a um fundamento. que nesta resposta se en­ contre. pois. O fundamento a que respondem não permite serem de outro modo. esta interrogação: como distinguir uma lei da lei fundam ental? Como podeis ver. aprofundar um pouco mais no assunto.272 Teoria Geral do Estado A esta pergunta responderão: Constituição não é uma lei como as outras. isto c. Os planetas. mais do que as outras comuns. é o bastante isto para que o movimen­ to dos planetas seja regido e governado de tal modo por esse fundamento que não possa ser de outro modo. implicitamente.e agora já co­ meçamos a sair das trevas . como já vimos. a lei fundamental. continuamos onde começamos. a diferença entre lei fundam ental e outra lei qualquer.o verdadeiro fundamento das outras leis. Mas. A ideia de fundamento traz. Para isso será necessário: 1) que a lei fundamental seja uma lei básica . para sê-lo. podem ser como são ou mesmo de qualquer outra for­ ma. existem porque necessariamente devem existir. Este movimento res­ ponde a causas. será . se realmente pretende ser merecedora desse nome. deverá. assim formulada. dc forma bastante confusa. pois. 2) que constitua . substituindo a outra. ou. atuar e irradiar através das leis comuns do país. as que possuem um fundamento não. “lei fundamental”. pois aqui rege a lei da necessidade. ou melhor. uma força ativa que faz.qualquer coisa que logo poderemos definir e esclare­ cer. Sendo a Constituição a lei fundam ental de uma nação. A lei fundamental. deverá informar e engendrar as ou­ tras leis comuns originárias da mesma.pois de outra forma não poderíamos chamá-la de funda­ mental . que são as casuais e as fortuitas. não poder deixar-nos satisfeitos. a não ser tal como de fato é. por exemplo. como poderíamos distinguir uma “lei fundamental” de outra lei qualquer para que a primeira possa justificar o nome que lhe foi assinalado. uma exigência da necessidade. quer dizer seria variável. repito. meus senhores. de uma força eficaz que toma por lei da necessidade que o que sobre ela se baseia seja assim e não de outro m odo . Somente ganhamos um vocábulo novo.

Suponhamos ainda que o país. até certo ponto. Vou esclarecer isto com um exemplo. embora este exemplo possa dar-se dc outra forma. o que são e como são sem poder ser de outro modo f Capítulo II Os fatores reais do poder Sim. Naturalmente. Suponhamos isto. completamente livre. Vamos supor. e esta incógnita que estamos investigando apoia-se. nos fatores reais do poder que regem uma determinada sociedade.alguma força ativa que possa influir dc tal forma que todas as suas leis. Julgai que neste caso o legislador. por causa deste sinistro.igual desastre se desse em todas as cidades do país. que um grande incêndio irrompesse e que nele se queimassem todos os arquivos do Estado. como vou expô-lo. existem sem dúvida. a não ser tal como elas são. por uma triste coincidência . desaparecendo in­ clusive todas as bibliotecas particulares onde existissem coleções.10 Leituras Complementares 273 mente são. Porém. desde os alicerces até o telhado. a partir desse instante. não interessa sabermos se o fato pode ou não acontecer. pergunto eu. todas as bibliotecas públicas. que as obrigue a serem necessariamente. este exemplo. Não ignoram os meus ouvintes que na Prússia somente tem força de lei os tex­ tos publicados na Coleção legislativa. . não pode realmente acontecer. em substância. mas sim o que o exemplo nos possa ensinar se este chegasse a ser realidade. bibliotecas e depósitos guardam-se as coleções le­ gislativas impressas. não podem decretar. dc tal maneira que em toda a Prússia não fosse possível achar um único exemplar das leis do país. embora quisessem.e fazendo esta per­ gunta os horizontes clareiam . por um momento. Os fatores reais do poder que regulam no seio de cada sociedade são essa força ativa e eficaz que informa todas as leis e instituições jurídicas da sociedade em apre­ ço.estamos no terreno das suposições . será que existe em algum país . que o sinistro destruísse também a tipografia concessionária onde se imprimia a Cole­ ção legislativa e que ainda. ficasse sem nenhuma das leis que o governavam e que por força das circunstâncias fosse necessário de­ cretar novas leis. naquele país. e em outros arquivos. outras quaisquer: M uito bem. Os originais das leis guardam-se nos arquivos do Estado. Esta Coleção imprime-se numa tipografia concessionária instalada em Berlim. de tal forma que.. simplesmente. determinando que não possam ser. poderia fazer leis a ca­ pricho de acordo com o seu modo de pensar? A m onarquia Suponhamos que os senhores respondam: visto que as leis desapareceram e que vamos redigir outras completamente novas.

Possivelmente teriam mais que fazer para li­ vrar-se deles. É sabido que o “grande” capital não poderia. como se este aparelhamento da força estivesse “ diretamente” ao seu dispor. é uma parte da Constituição. apoiado neste poder real. como uma nobreza influente e bem vista pelo rei e sua cortc é também uma parte da Constituição.. as fábricas e a produção mecanizada. cada vez menor. Entre outros motivos. isto é. a realida­ de é que o Exército subsiste e me obedece.274 Teoria Geral do Estado nelas não reconheceremos à monarquia as prerrogativas que até agora gozou ao amparo das leis destruídas. há dc possuir tanta influencia nos destinos do país como os restantes milhões de habitantes reunidos. mais ainda. “para nada”. aplicada a toda a organização social. por . não tolero que venham impor-me posições e prerrogativas em desacordo comigo. pois. Imaginemos que os meus ou­ vintes dissessem: destruídas as leis do passado. pretendessem impor o sistema que regeu na Idade Média. não queremos a monarquia. a realidade é que os comandantes dos arsenais e quartéis põem na rua os canhões e as baionetas quan­ do eu o ordenar. e. a suposição de que o rei e a nobreza aliados entre si para restabelecer a organização medieval. enfim. eleita esta pelos votos de todos os cidadãos. acatando minhas ordens. Mas a gravidade do caso está em que os grandes fazendeiros da nobreza tive­ ram sempre muita influência na Corte e esta influência garante-lhe a saída do Exér­ cito e dos canhões para seus fins. mas não ao pequeno proprietário. Reconheço que não seria fácil à nobreza atirar contra o povo que assim pen­ sasse seus exércitos de camponeses. impedindo-se seu desenvolvimento sob aquele regime. Não sabemos por que esse punhado. A grande burguesia Ocorre-me agora assentar o suposto ao inverso. O monarca responderia assim: podem estar destruídas as leis. um rei a quem obedecem o Exército e os canhões. da Câmara senhorial. progredir e mesmo viver sob o sistema medieval. quer dizer. não respeitaremos prerrogativas nem atri­ buições de espécie alguma. entre os quais somente existe um punhado cada vez menor de grandes pro­ prietários de terras pertencentes à nobreza.. sem excluir a grande indústria. de forma alguma. efetivo. formando somente eles uma Câmara Alta que fiscaliza os acordos da Câmara dos Deputados. Como podeis ver. recusando sistematicamente todos os acordos que julgarem prejudiciais aos seus interesses. porém. porque neste regime se levantaria uma série de barreiras legais entre os diversos ramos de produção. A aristocracia Suponhamos agora que os senhores dissessem: somos tantos milhões de prus­ sianos. das baionetas e dos canhões. somos todos “iguais” e não preci­ samos absolutamente. Vejam. dc grandes proprietários agrícolas.

grande número de pequenos industriais seria obrigado a fechar suas oficinas e esta multidão de homens sem tra­ balho sairia à praça pública pedindo. na qual o triunfo não seria certamente das armas. Que viria a acontecer se. nestas condições e a despeito de tudo. Egels. . mas o governo atual não poderia impor presentemente medida semelhante. Ademais. e até as companhias de estrada de ferro seriam obrigadas a agir da mesma forma. Egels etc. sob o sistema gremial daquele tempo.e necessita como o ar que respiramos -. e nenhum industrial poderia reunir duas ou mais indústrias em suas mãos. animando-a com a sua influência. que os Borsig. Neste caso. Suponhamos isto e tam­ bém que ao Banco da Nação pretendesse dar a organização adequada para obter esse resultado. os fabricantes dc sedas etc. por um instante. Isto basta para compreender que a grande produção. Os banqueiros Suponhamos. ne­ cessitando ao mesmo tempo da produção em “massa” e a livre concorrência. O comércio e a indústria ficariam paralisados. que é a de baratear mais ainda o crédi­ to aos grandes banqueiros e aos capitalistas que possuem por razão natural todo o crédito e todo o dinheiro do país e que são os únicos que podem descontar as suas firmas. A grande indústria exige. Poderia isto prevalecer? Não vou dizer que isto desencadeasse uma revolta. fechariam as suas fábricas despedindo os seus ope­ rários. assim. a estamparia não poderia empregar em sua fábrica somente a um tintureiro etc.10 Leituras Complementares 275 muita afinidade que os mesmos tivessem. sustentando-a e alentando-a com o seu dinheiro. por exemplo. são todos. os grandes industriais. sem restrições. a gran­ de burguesia. obstinadamen­ te implantassem hoje a Constituição gremial? Aconteceria que os senhores Borsig. estabelecer-se-ia por lei a quantidade estrita dc produção de cada industrial e cada indús­ tria somente poderia ocupar um determinado número de operários por igual. viria fatalmente à luta. que esse mesmo governo entendesse. Atrás dela. enfim. uma parte da Constituição. quer dizer.. exigindo pão e trabalho. por exemplo. não poderia progredir com uma Constituição do tipo gremial. sobretudo . entre as corporações dos fabricantes de pregos e os ferreiros existiriam constantes processos para deslindar as suas respectivas jurisdições. que o governo pretendesse implantar uma des­ sas medidas excepcionais. a possibilidade de empregar quantos operários necessitar. isto é. que obtêm numerário naquele estabelecimento bancário para to­ mar acessível o crédito à gente humilde e à classe média. abertamente lesivas aos interesses dos grandes banquei­ ros. que o Banco da Nação não foi criado para a função que hoje cumpre. os grandes industriais de teci­ dos. a indústria mecanizada. também. instigando-a com o seu prestígio. ampla liberdade da fu­ são dos mais diferentes ramos do trabalho nas mãos de um mesmo capitalista. Demonstrara-se.

dos grandes industriais c dos grandes capitalistas. punindo na pessoa dos pais os rou­ bos cometidos pelos filhos. Mas. A pequena burguesia e a classe operária Imaginemos agora que o governo. Essa lei não poderia reger. contrair empréstimos. e o governo necessita do dinheiro logo e de urna vez. e se o governo pretendesse tirar à pequena burguesia e ao operariado não somente as suas liberdades políticas. Vemos. o que é a mesma coisa. como Mendclssohn. burocratas e conselheiros do Estado ergueriam as mãos para o céu. correndo depois por sua conta a colocação. isto é. o papel da dívida pública. Estes inter­ mediários são os grandes banqueiros c. tornando-o à situação em que viveu durante os tempos da Idade Média? Subsistiria essa pre­ tensão? Não. com toda a energia possível. por esse motivo. De vez em quando o governo sente apertos financeiros devido à necessidade de investir grandes quantias de dinheiro que não tem coragem de tirar do povo por meio dc novos impostos ou aumento dos existentes. ten­ tasse privar das suas liberdades políticas a pequena burguesia e a classe operária. pois contra ela se levantaria o protesto. . indispor-se com eles. querendo proteger c satisfazer os privilégios da nobreza. da cultura coletiva e da consciência social do país. que os grandes banqueiros. Nesses casos. hoje em dia. senão sua liberdade pessoal. entregando. a maior parte daqueles títulos da dívida vol­ ta às mãos da gente rica e dos pequenos capitalistas do país. da Constituição. de intermediários que lhe adiantem as quantias de que precisa. É certo que. os fatos nos de­ monstram que poderia. resta a alterna­ tiva dc consumir dinheiro futuro. isto é. sim. dos banqueiros. do papel da dívida locupletando-se também com a alta da cotação que a esses títulos lhe dá a Bolsa artificialmente. Para isto necessita dos banqueiros. mas isto requer tem­ po. Suponhamos que o governo intentasse promulgar uma lei penal semelhante à que prevaleceu durante algum tempo na China. Schickler. Poderia fazê-lo? Infelizmente. a nenhum governo con­ vém. dentro de certos limites. embora estivessem aliados ao rei a nobreza e toda a grande burguesia. e não pequenas. mesmo que fosse transitoriamente. Para conseguir o dinheiro. serve-se dos particulares. ou. pouco a pouco. poderia. Todos os funcionários. ou em pequenos prazos. mais uma vez. cm troca do dinheiro que recebe adiantadamente. também a consciência coletiva e a cultura geral da Nação são partículas. às vezes muito tempo. É que. a Bolsa. mais dia menos dia. se pre­ tendesse transformar pessoalmente o trabalhador em escravo ou servo.276 Teoria Geral do Estado Demonstrarei por quê. e até os sisudos senadores teriam de discordar de tamanho absur­ do. são também partes da Constituição.

em essência. somos uma parte integrante da Constituição. v. dali também a sua onipotência e o império absoluto que exercia sobre os seus membros. Lisboa. incorporados a um papel. mas sim verdadeiro direito. o in­ dustrial. Teixeira. dá-sc-lhcs expressão escrita e. Mas que relação existe entre o que vulgarmente denominamos Constituição e a Constituição jurídica? Não é difícil compreender a relação que os dois concei­ tos guardam entre si. 10) FUSTELDECOULANGES A cidade antiga (Trad.. a nobreza. o povo são um fragmento da Constituição. M .) Capítulo XVIII Da onipotência do Estado. e quem atentar contra cies atenta contra a lei. nós to­ dos. transformando-os desta maneira em fatores jurídicos. 2. ed. A religião que criara o Estado e o Estado que sustentava a religião reciprocamente se auxiliavam e formavam um . Numa sociedade estabelecida sobre tais princípios. pertencia-lhe inteiramente. e por conseguinte é punido. Está claro que não aparece neles a declaração de que o senhor Borsig. Juntam-se esses fatores reais do poder. O cidadão estava submetido em todas as coisas e sem reserva alguma à cidade. mais diplomática. a Constituição de um país: a soma dos fato­ res reais do poder que regem um país. não. Sousa Costa. ou que o banquei­ ro X é também outro pedaço. isto se define de outra maneira mais limpa. escrevemo-los em uma folha de papel. a liberdade individual não podia existir. a partir desse momento. gritando: antes morrer do que ser escravo! A multidão sairia à rua e não haveria a necessidade de que seus patrões fechassem as fábricas. em síntese. Clássica de A. Daí a sua força. 1. os antigos não co n h e ce ra m a liberdade individual A cidade foi fundada sobre uma religião e constituída como uma igreja. pois nos casos extremos c desesperados também o povo. a pequena burguesia juntar-se-ia solidariamente ao povo e a resistência desse blo­ co seria invencível. nas instituições jurí­ dicas. Capítulo III Os fatores do poder e as instituições jurídicas Essa é. O povo protestaria.10 Leituras Complementares 277 Seria tempo perdido. não são simples fatores reais do poder. Não desconheceis também o processo que se segue para transformar esses escri­ tos em fatores reais do poder.

Os seus haveres es­ tavam sempre à disposição do Estado. Aquela que sabia que nunca mais veria o seu. Esparta punia não só aquele que não casava. mostrava-se aflita c chorava. Tinha o dever de votar na assembleia e de ser. O Estado. Por conseqüência. Encontra-se esta lei nos antigos códigos de Esparta e de Roma. podia ordenar às mulheres que lhe entregassem as joias. ao qual a alma c o corpo estavam igualmente subordinados. O seu corpo pertencia ao Es­ tado c estava voltado à sua defesa. por seu turno. magistrado. o filósofo. Tal era o poder do Esta­ do que ordenava a transposição dos sentimentos naturais e se fazia obedecer. em Marselha. o pai não tinha direito algum sobre a educação . Exercia a sua tirania até nas mais pequenas coisas. No homem nada havia que fosse independente. em Atenas. O Estado não admitia que um homem fosse indiferente aos seus interesses. estes dois poderes associados e confundidos formavam um poder quase sobre-humano. os parentes dos mortos foram obrigados a aparecer em público dc cara alegre. Em Esparta. em Bizâncio. O Estado tinha o direito de não tolerar que os seus cidadãos fossem disfor­ mes ou contrafeitos. Era 110 que o Estado ti­ nha mais predomínio. Muitas cidades gregas proibiam ao homem o ficar celibatário. Há na história de Esparta um fato muito admirado por Pintarcho e Rousseau. exigia que se rapasse o bigode. aos donos das oliveiras que lhe cedessem gratuitamente o azeite fabri­ cado. em Roma o serviço militar era obrigatório ate aos quarenta c seis anos. sabemos só que Aristóteles e Platão a inscreveram nas suas legislações ideais. o homem de estudo. aos credores o abandono das dívidas. em Locres.278 Teoria Geral do Estado só corpo. em Roma. a lei proibia o fazer a barba. A esta notícia. podia prescrever o trabalho. a lei proibia aos homens beber vinho puro. a quem nascesse assim um filho. em Esparta. Em Rodes. punia com uma multa quem possuísse uma navalha de barba. que sabia que o filho escapara do desastre c ia tornar a vê-lo. a ociosidade. em Esparta. a legislação de Esparta regulava o penteado das mulheres e a dc Atenas proi­ bia-lhes levar cm viagem mais dc três vestidos. se a cidade tinha necessidade de dinheiro. que o matasse. pelo contrário. de­ via combater com um ou outro partido. mas o que casava tarde. ordenava ao pai. Não sabemos se também existia em Atenas. não tinha o direito de viver isolado. em Atenas e em Esparta toda a vida. em Mileto. proibia-o às mulheres. a lei ateniense não permitia ao cidadão a neutralidade. A mãe. Num tempo em que as dis­ córdias eram freqüentes. a perda do direito de cidade. A educação entre os gregos estava longe de ser livre. A vida privada não escapava a esta onipotência do Estado. Era vulgar que a forma de vestir fosse determinada pelas leis dc cada ci­ dade. aquele que quisesse estar afastado das fac­ ções infligia a lei uma pena severa. mostra­ va alegria e percorria os templos agradecendo aos deuses. Esparta acabava de ser derrotada em Lentra e muitos dos seus cidadãos tinham mor­ rido.

O Estado queria ser só a dirigir a educação c Platão diz o motivo desta exi­ gência: “Os pais não devem ter liberdade de enviar ou não os seus filhos para os mestres que a cidade escolheu. Cibele ou Juno. um direito de justiça relativamente aos cidadãos. Aristófanes. A liberdade de pensar sobre religião era absolutamente desconhecida entre os antigos. ou do Erechtea ou de Cecropa. à neve ou ao sol forte. Mas cuidado em não duvidar da Athene Poliada. Atenas promulgou um dia uma lei que proibia instruir os moços. O Estado não tinha só. e esta arma devia ser tão forte e tão manejável quanto possível. mostra-nos as crianças de Atenas a caminho da es­ cola. Podia odiar-se ou desprezar-se os deuses da cidade vizinha. por suas virtudes.10 Leituras Complementares 279 do filho. Podia punir sem que houvesse culpa e só porque o seu interesse es­ tava em jogo. se ele quisesse. O homem não tinha escolha dc crenças. podia tornar perigosa. caminham em filas cerradas. mas a cidade tinha o direito de expulsá-lo do seu território pelo único motivo de Aristides ter adquirido. queria formar esse corpo e essa alma de modo a tirar dele o melhor par­ tido. à chuva. embora a cidade obrigas­ se a que a educação fosse comum e dada por mestres escolhidos por ela. encontrava-se em Argos. quanto às divindades de um caráter geral e universal. Reconhecia-se ao Estado o direito de impedir que houvesse um ensino livre ao lado do seu. como Júpiter Celeste. e Aristóteles dava a entender que existia em todas as cidades gregas que ti­ . Aristides certamente não cometera crime algum e nem mesmo se tor­ nara suspeito disso. em Megara. porque os filhos são menos de seus pais do que da cidade” . figurar em todas as procissões. O Estado considerava como pertença sua o corpo e a alma do cidadão. essas crianças mostram compreender que cumprem um dever cívico. por isso. tinha-se liberdade de crer nelas ou não. Deviam conformar-se com todas as regras do culto. como nas sociedades modernas. A legislação ateniense punia com forte pena aqueles que se abstivessem de ce­ lebrar religiosamente uma festa nacional. portanto. Esta ins­ tituição não era particular a Atenas. porque se precisava deste conhecimento para a boa execução dos sacrifícios e das festas da cidade. o que o Estado puniria severamen­ te. os hinos e as danças sagradas. Parece que em Arenas a lei foi menos rigorosa. nem a da educação. distribuídas por bairros. Ensinava-lhe ginástica. A pessoa humana tinha pequeníssimo valor perante essa autoridade santa e quase divina. que se chamava pátria ou Estado. Chamava-se a isso ostracismo. numa eloqüente passagem. por ordem. que. nem a liberdade da vida privada. influência demasiada. Ensinava-lhe também os cantos religiosos. Sócrates foi condenado à morte por esse crime. porque o corpo do homem era uma arma para a cida­ de. Nisso haveria uma grande impiedade que atingiria a religião e o Estado ao mesmo tempo. tomar parte nos repastos sagrados. sem uma autorização dos magistrados. em Siracusa. Os antigos não conheciam. e uma outra que proibia especialmente en­ sinar filosofia. nem a religiosa. Devia crer na religião da cidade e sub­ meter-se a ela.

p. o ostracismo não era um castigo. entre todos os erros humanos. 1910.280 Teoria Geral do Estado nham um governo democrático. Roma promulgou uma lei. mas nenhuma dessas revoluções deu aos homens a verdadeira liberda­ de. . que o governo muitas vezes mudou de forma. Pensava-se que o di­ reito. aristocracia. nas suas grandes linhas. É. isto devido. Como as instituições derivam da alma dos povos A história. a moral. nomear magistrados. Desde que se tratasse do interesse da cidade. Agostinho Fortes. Em Atenas podia acusar-se e condenar-se um homem por incivismo. 11) GUSTAVELEBON Leis psicológicas da evolução dos povos Trad. era uma precaução tomada pela cidade contra um cidadão que ela suspeitava que podia um dia incomodá-la. Em todas as manifestações de vida de uma nação. pela qual cra permitido matar qualquer homem que tivesse a intenção de se tornar rei. Os antigos. acreditar que nas cidades antigas o homem gozava liberdade. eis o que eu chamava liberdade. Veremos. exageravam sempre a importân­ cia e os direitos da sociedade. um erro singular. O governo denominou-se alternativamente monarquia. Sem o prévio conhecimento da constituição mental de um povo. provém dessa constituição assim como os órgãos respiratórios dos peixes se adaptam com a sua vida aquática. mas a natureza do Estado ficou. ao caráter sagrado e religio­ so que a sociedade originariamente revestiu. Francisco Luiz Gonçalves. votar. por falta de afeto para com o Estado. c sobretudo os gregos. que parecem provir meramente do acaso. pode considerar-se como a simples expo­ sição dos resultados produzidos pela constituição psicológica das raças. isto c. Não julgava que pudesse existir direito em frente da cidade e dos seus deuses. dentro em pouco. a liberdade individual. poder scr arcontc. democracia. mas o homem estava subordinadíssimo ao Estado. a sua vida apresenta-se-nos como a conseqüência regular e fatal dos seus caracte­ res psicológicos. encontramos sempre a alma imutável da raça elaborando o seu próprio destino. Não tinha sequer a mais ligeira ideia dela. pouco mais ou menos. a mesma e a sua onipotência não diminuiu. Ora. nenhuma garantia havia para a vida do homem. quando. sem dúvida. portanto. Lisboa. pelo contrário. Ter direitos políticos. a alma de um povo nos é conhecida. a história deste transforma-se num caos de acontecimentos. A máxima funesta de que a salva­ ção do Estado é a lei suprema foi formulada pela antiguidade. tudo devia ceder perante o interesse da pátria. 109-27. a justiça.

país em que. além disso. tentou alterar semelhante obra. apresentariam algumas críticas e fariam. que nem sequer percebemos as ilusões de que somos vítimas. a continuação do ideal monárquico e a expressão de gênio da raça. socialis­ tas. quer imperador. porventura. Consideremos primeiro a França. portanto. presidente. a ideia de que um governo novo fará a nossa sorte mais feliz. estes ilustres fantasmas. nenhum dos diversos re­ gimes que se têm sucedido na França. o fruto de urna evolução regular. O que todos com o mesmo ardor querem é o velho regime centralizador e cesarista. monárquicos. em uma palavra todos os defensores das mais diversas doutrinas. Intransigentes. na realidade. acabando a obra da centralização. e sem dar por isso. nos levam a mudarmos incessantemente as nossas ins­ tituições. o nosso extremo nervosismo. na realidade. Sem dúvida. verificariam. cm que os partidos parecem mais divergentes. Luís XIII e Luís XIV. a regular e absorver tudo. condena-nos a só mudar­ mos palavras e aparências. Na verdade. observar que . esse poder. po­ rém. forçosamente há dc ter o mesmo ideal. procuram com etiquetas diversas atingir um fim perfeitamente idêntico. o que facilmente provaremos com alguns exemplos. se apenas nos ativermos as aparências. em poucos anos. radicais. dispensando estes de manifesta­ rem qualquer movimento de reflexão c de iniciativa. a absorção do indi­ víduo pelo Estado. que é a expressão dos sentimentos da alma da raça.10 Leituras Complementares 281 É. a grande voz dos mortos que é quem nos guia. há séculos já iniciada pela monarquia. estes partidos incessantemente em luta. ou seja. precisamente re­ presentante do ideal da nossa raça. Se. Se encararmos. a nossa extraordinária facilidade em estarmos descontentes com o que nos cerca. têm todos um fundo comum perfeitamente idêntico. pelo critério psicológico. Quer o poder posto à frente do Estado se chame rei. tanto ela e. principalmente. se se erguessem de seus túmulos para julgarem a obra da revolução. o Estado a dirigir tudo. seja qual for. mais radical­ mente as instituições políticas parecem ter mudado. nas instituições políticas que mais visivelmente se manifes­ ta o poder soberano da alma da raça. na realidade. é fora de dúvida que censurariam algumas das violências que acompanharam a sua reali­ zação. mas considerá-la-iam rigorosamente em harmonia com as suas tradições e com os seus programas. Nem esta consentiria outro. regulamentando os mais insignificantes pormenores da vida dos cidadãos. devido à sua gran­ de experiência. que. ou qualquer outra coisa. a revolução não fez mais do que continuar a tradição real. confessariam que um ministro por eles encarregado de exe­ cutar os seus planos não teria conseguido realizar melhor os seus desígnios e diriam que o menos revolucionário dos governos franceses foi precisamente o da revolução. O poder inconsciente da alma da nossa raça é tamanho. nada é mais diferente do antigo regime do que o que foi criado pela nossa grande revolução. de há um século a esta parte. estas opiniões aparente­ mente tão divergentes. verificaremos que. um dos países que mais sujeitos tem estado às mais profundas alterações.

ou ti­ rá-las a um que as possua. Portos. É pura quimera pensar-se que os governos e as constituições têm alguma ação nos destinos de um povo. É 110 povo e não em circunstâncias exteriores que deve­ . nas instituições dum povo. caminhos dc ferro. e sem o auxílio de qualquer outra revolução.. não há revoluções. uma série de condições que necessariamente o levarão a ser senhor único. precisamente como a areia revolta pela tem­ pestade. que parece escapar momentaneamente às leis da atração.282 Teoria Geral do Estado tendo sido substituída a casta aristocrática governamental pela casta administrativa. os mil laços que hoje cercam o mais insignificante ato da vida. de que a re­ volução do século XVIII foi apenas uma fase aceleradora. Pode porventura. e as leis permanentes que temos procurado determinar. nos encontraremos espontaneamente. provêm do caráter dos povos. nem déspotas que possam dar a um povo que as não possua. por acaso. criam o des­ tino das nações. espírito de corpo­ ração. despojando o cidadão de toda e qualquer iniciativa. em pleno socialismo. Não insistiram muito. a in­ glesa. entre os ingleses. Quer os ingleses tenham à sua frente um monarca. nem constituições. quando o Es­ tado haja absorvido e regulamentado tudo. As circunstâncias acidentais criam os nomes. encontramos ao mesmo tempo as circuns­ tâncias acidentais. se criara 110 Estado um poder impessoal mais temível que o da antiga nobreza. é possível também que achassem bastante excessivos e assás tirânicos os inumeráveis regulamentos. à falta delas as luzes matemáticas que ensinam que os efeitos aumentam em progres­ são geométrica quando as mesmas causas subsistam. por isso que só ele. estabele­ cimentos de instrução. se. é apenas por instantes rápidos. ausência de responsabilidade e perpetuidade. motivo este pelo qual as suas instituições se afastarão também radicalmente das nossas. que mencionamos no começo desta obra. as leis fundamentais. as qualidades de caráter de que as suas instituições de­ rivam. serão sempre construídos e conserva­ dos pela iniciativa dos particulares e nunca pela do Estado. cuja constituição psicológica é muito diferente da nossa. isto é. escapando às mudanças políticas. como na Inglaterra. considerando que os povos latinos. permitir-lhes-iam conceber que o socialismo não é mais do que a expressão última da ideia monárquica. conceber-se que tivessem outros? Daqui a pouco mostraremos com diversos exemplos que um povo se não sub­ trai às conseqüências da sua constituição mental. facilmente suportam todos os despotismos. a redução ao mínimo da ação do Estado e o desenvolvimento máximo da ação dos particulares. o que é pre­ cisamente o contrário do ideal latino. canais. 011 que. o seu governo apre­ sentará sempre as mesmas características fundamentais. a elas se subtrai. Assim. as aparências. e provável é também que fizessem notar que. possui tradições. Tem-se dito muitas vezes que os povos têm os governos que merecem. e estas. des­ de que estes sejam impessoais. quer um presidente como nos Estados Unidos da América do Norte. nesta objeção. preocupando-se muito pouco com a liberdade e muito com a igualdade. acreditamo-lo. Mas então as luzes divinas que iluminam os reis. Ao exemplo precedente podemos opor o de uma outra raça. etc.

Escrever-se-iam muitos livros. tiveram instinto político bastante hábil que os levou a respeitarem os costumes dos povos conquistados. o árabe e o francês. se os povos pudessem evitar os fatalismos de raça. se a esse povo é fácil mudar as formas das ins­ tituições. estrangeiros. que nem sequer podiam pensar em sc unirem. por um lado. se a voz da razão não fos­ se sempre abafada pela voz imperiosa dos mortos. só com as maiores di­ ficuldades e à custa de incessantes revoluções é que se têm mantido sob as mesmas leis. O francês e o inglês. ao lado uma da outra. se quiséssemos indicar todas as conseqüências da constituição psicológica dos povos. com o pretexto de que a respiração aérea cabe a todos os animais superiores. O mais que podemos exigir de um go­ verno é que seja a expressão dos sentimentos c das ideias do povo que dirige e de que. E devido apenas ao fato da diversidade da sua constituição mental. a América. divergindo apenas no caráter. o eslavo e o húngaro. Estes exemplos. em que vivem. O governo do rei dc Daomé cra provavelmente um governo excelente para o povo que administrava. em condições de meio pouco diferentes. por­ tanto. duas raças europeias igualmente civilizadas e inteligentes. quando têm tido alguma duração. povo esse para que seria má a mais sábia constituição europeia. deixando-os viver com as leis que lhes eram próprias. Os grandes impérios que abrangem povos diversos têm sido sempre condena­ dos à efêmera existência. lhe é todavia impossível mudar-lhes o fundo. as superfícies de cada um . Não há governos nem instituições que possamos chamar absolutamente bons ou maus. tem sido. as colônias podem governar-se com as instituições das suas metrópoles. Vamos agora mostrar com exemplos muito precisos a que ponto a alma de um povo rege os destinos deste e o insignificante papel que as instituições desempenham nesses destinos.10 Leituras Complementares 283 mos procurar o destino desse mesmo povo. tomá-los-emos em uma região. que po­ vos diferentes não poderiam por muito tempo subsistir sob um regime idêntico. Esta é formada por dois continentes distintos. pode­ mos avançar mesmo que semelhante estudo evitaria muitos erros e muitas altera­ ções. como o dos mongóis e depois o dos ingleses na índia. rivais. reunidos por um istmo. portanto. porque as raças em presen­ ça eram por tal forma numerosas c diferentes c. isto eqüivale a querer persuadir os peixes a que vivam no ar. é a imagem. por outro lado porque o dos senhores. Capítulo II A p lica ç ã o dos princípios pre cedentes ao estudo com parado da evolução dos Estados Unidos da A m érica do Norte e das Repúblicas H ispano-A m ericanas As breves considerações precedentes mostram que as instituições de um povo são a expressão da sua alma e que. pelo fato da existência. É isto o que desgraçadamente ig­ noram os estadistas que imaginam ser um governo objeto de exportação e que. Ora. refazer-se-ia até toda história sob um critério novo. O seu estudo cuidado devia ser a base da política e da educação.

.284 Teoria Geral do Estado destes continentes são quase iguais. um tal ou qual acanhamento de espírito. o outro pela raça espanhola. encarado filoso­ ficamente. que nada se encontrem nas outras nações civilizadas. Talvez nenhuma outra haja no mundo que. sentiam pelos bárbaros. de mais fácil definição. atividade poderosa. O desprezo pelo estrangeiro e pelos usos deste so­ brepuja. pois que as re­ publicas da America do Sul tomaram como modelo a dos Estados Unidos. que impede de ver os lados fracos das coisas religiosas. moralidade muito fixa. pois. estas crenças ao abrigo da discussão. que povoou os Estados Unidos. portanto. e. na Inglaterra. um sentimento de ordem inferior. sem dúvida. é um dos sentimentos que contribuem para a força da Inglaterra. Es­ tas duas raças vivem com constituições republicanas semelhantes. certamente. que os ingleses empregavam tantos esforços como os chineses para im­ pedirem a entrada de qualquer ação estranha. em suas linhas gerais. na época dc sua gran­ deza. como muito justamente nota o general inglês Wolseley. sentimentos religiosos muito vivos. se tenha feito mais homogênea e cuja cons­ tituição mental seja. e muito nítida ideia do dever. A estas características gerais deve acrescentar-se o otimismo completo do ho­ mem cujo caminho está bem traçado na vida e que pressupõe até que não pode escolher outro melhor. mas. o solo de um e de outro muito semelhante. possuíram. As características preponderantes desta constituição mental são. em presença mais do que as diferenças de raças para sc explicarem os destinos diversos destes povos. N ão há nenhum estadista inglês que não julgue perfeitamente legítimo. é tão grande que para com os estrangeiros toda regra moral desaparece. a família e os deuses. na linha de conduta para com os outros povos. o que tais diferenças produziram. isto é. a propósito da sua. não obstante a diversidade de origem. No ponto de vista intelectual. de resto muito judiciosa. Este otimismo vai ao ponto de fazer considerar como extremamente des­ prezível tudo que é estrangeiro. uma energia indomável. sentimento de independência levado até excessiva insociabilidade. que sabe sempre o que lhe exigem a pátria. Um deles foi conquistado e povoado pela raça inglesa. extraordinária iniciativa. que facilitaria imenso as relações com o continente. Vejamos. é extremamente útil. Só há a notar um juízo seguro que permite aprender o lado prá­ tico e positivo das coisas sem se perderem em investigações quiméricas. exceto talvez os romanos. Antes. não podem dar-se características especiais. porém resumamos em algumas palavras os caracteres da raça anglo-saxônica. Com razão se disse. não podem indicar-se elementos particulares. recusa em consentirem 110 es­ tabelecimento de um túnel na Mancha. império absoluto sobre si. Este sentimento de desdém pelo estrangeiro é. Não há. o que outrora os romanos. se atendermos à prosperidade de um povo. gosto mui­ to acentuado pelos fatos e medíocre pelas ideias gerais. por conseqüência. no que diz respeito ao caráter: uma força de vontade que muito poucos povos. pondo. atos que provocariam a mais profunda e a mais unânime indignação se fossem praticados contra compa­ triotas.

10 Leituras Complementares

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Todos os caracteres que acabamos de enumerar se encontram nas diversas ca­ madas sociais; nenhum elemento da civilização inglesa se encontra que não tenha fortemente gravados esses caracteres; o estrangeiro que visitar a Inglaterra, embo­ ra com pouca demora, conhecerá claramente esse fato, verificará a necessidade da vida independente na casa do mais modesto empregado, que habita, sem dúvida, uma moradia estreita mas ao abrigo de qualquer constrangimento e isolada de quaisquer vizinhos; nas gares mais freqüentadas, onde o público circula a toda hora, sem estar encurralado como um rebanho de carneiros dóceis por trás de um corri­ mão guardado por um policial, como se fosse necessário assegurar pela força a se­ gurança de pessoas incapazes de encontrarem em si a atenção necessária para não serem esmagadas. Encontrará a energia da raça tanto no trabalho duro do operá­ rio como no de estudante que, entregue a si, desde a mais tenra idade, aprende a conduzir-se sozinho nos seus atos e fica desde logo sabendo que pela vida fora só ele e mais ninguém se preocupará com o seu destino; nos professores, que pouca importância ligam à instrução por a concederem principalmente ao caráter, por eles considerado uma das maiores forças motoras do mundo. Se entrar na vida públi­ ca do cidadão, verá que não é para o Estado, mas para a iniciativa individual que sempre se apela, quer se trate de reparar a fonte de uma aldeia, de construir um porto dc mar ou criar um caminho de ferro; continuando o seu inquérito, reconhe­ cerá, bem depressa que esse povo, não obstante os defeitos que fazem dele o mais insuportável dos povos para o estrangeiro, é o único verdadeiramente livre, porque é o único que, tendo aprendido a governar-se por si, deixou ao governo o mínimo de ação. Se percorrermos a sua história, veremos que foi o povo inglês o primeiro que soube libertar-se de qualquer domínio, quer da Igreja: quer do rei. Já no sécu­ lo XV, o legista Fortscue opunha a lei rom ana, herança dos povos latinos , à lei in­
glesa; um a obra de príncipes absolutos e destinada exclusivamente a sacrificar o in­ divíduo, a outra obra da vontade com um e sempre pronta a proteger a pessoa.

Seja qual for o lugar do globo para que um povo semelhante a este emigre, esse povo será imediatamente preponderante e fundará impérios poderosos. Sc a raça invadida, como os pelcs-vermelhas da América, por exemplo, for bastante fra­ ca e pouco utilizável, será metodicamente exterminada; se, como a das populações da índia, for muito numerosa para que possa ser destruída e, além disso, dê traba­ lho produtivo, ficará simplesmente reduzida a dura vassalagem e será obrigada a trabalhar quase exclusivamente para os seus senhores. E, porém, num país novo, como a América, que devemos principalmente acom­ panhar os progressos espantosos devido à constituição mental da raça inglesa. Trans­ portada para regiões incultas, só habitadas por alguns selvagens, contando só con­ sigo, sabemos bem o que contudo fez; bastou-lhe um século para se colocar na primeira linha das grandes potências do mundo e ninguém hoje há que possa lutar contra ela. Às pessoas desejosas de conhecer a enorme soma de iniciativa e energia individuais empregadas pelos cidadãos da grande república norte-americana, reco­

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mendamos a leitura dos livros de Rousier e Paulo Bourgel. A aptidão dos homens em se governarem por si, cm se associarem para fundar grandes empresas, fundar cidades, escolas, portos, caminhos de ferro, etc. é levada a tal máximo e a ação do Estado reduzida a tal mínimo que quase pode dizer-se que não existem lá poderes públicos, pois que, se tirarmos a polícia c a representação diplomática, não e pos­ sível descortinar-sc para que esses poderes possam servir. Nos Estados Unidos só é possível prosperar quem possua as qualidades de ca­ ráter que acabamos de indicar, e a isto se deve o não poderem as imigrações estrangei­ ras modificar o espírito geral da raça. As condições de existência são tais que todos aqueles que não possuam as qualidades indicadas estão condenados a desapareci­ mento rápido; nesta atmosfera, saturada de independência e de energia, só pode vi­ ver o anglo-saxão; o italiano morre aí de fome, o irlandês e o negro apenas conse­ guem vegetar em condições perfeitamente subalternas. A grande república, a que nos vimos referindo, é seguramente a terra da liber­ dade, mas não é com certeza a terra da igualdade e da fraternidade, as duas quime­ ras latinas que às leis do progresso não c dado conhecerem; em nenhuma região do globo, a seleção natural tem feito sentir mais rudemente o seu férreo braço. É descaroávcl, não há dúvida; mas é precisamente por não ter compaixão que a raça, para cuja formação a seleção contribuiu, conserva o seu poder e a sua energia. No solo dos Estados Unidos não há lugar para fracos, para os medíocres, nem para os incapazes de qualquer coisa. Indivíduos isolados ou raças inteiras estão destinados a desaparecer só pelo fato de serem inferiores; os peles-vermelhas, havendo-se tor­ nado inúteis, foram exterminados a tiro ou condenados a morrer de fome. Os ope­ rários chineses, cujo trabalho constitui incômoda concorrência, acabarão por so­ frer sorte análoga. À lei que ordenou a expulsão total dos chineses não pôde ser aplicada, devido às despesas enormes que da sua execução proviriam. Sem dúvida, será prontamente substituída por uma instrução metódica iniciada já em alguns distritos mineiros. Recentemente foram votadas outras leis proibitivas da entrada no território americano a imigrantes pobres. Com respeito aos negros, que servi­ ram de pretexto à guerra da secessão, entre os que tinham escravos c os que, não podendo tê-los, não podiam sofrer que os outros tivessem, são apenas, por assim dizer, tolerados, por isso que ficam adstritos a funções subalternas que nenhum ci­ dadão americano quereria para si. Teoricamente, os negros têm todos os direitos; praticamente, são tratados como animais semiúteis dos quais se desembaraçam logo que se tornem perigosos. Os processos sumários da lei de Lynch são reconhecidos geralmente como bastante para eles; ao primeiro delito que pratiquem, fuzilados ou enforcados. Estas são, sem dúvida, as manchas do quadro, que é, contudo, suficientemen­ te brilhante para que diminua de valor. Se forçoso fosse definir-se por uma palavra a diferença entre a Europa continental e os Estados Unidos, poderíamos dizer que a primeira representa o máximo do que pode dar a regulamentação oficial substi­

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tuindo a iniciativa individual, os segundos o máximo que pode dar a iniciativa in­ dividual absolutamente desembaraçada de qualquer regulamentação oficial. Estas diferenças fundamentais são exclusivamente conseqüências do caráter. Não é no solo da rede república norte-americana que o socialismo europeu tem probabilida­ des dc vir um dia a implantar-sc. Última expressão da tirania do Estado, o socialis­ mo só poderá prosperar nas raças envelhecidas, sujeitas há séculos a um regime que lhes tirou toda e qualquer capacidade de governo próprio e pessoal. Acabamos de ver o que numa parte da América produziu uma raça possuido­ ra de certa constituição mental em que predominam a perseverança, a energia e a vontade; falta que mostremos no que se transformou um país, quase semelhante, nas mãos de uma outra raça, muito inteligente, na verdade, mas sem possuir ne­ nhuma das qualidades de caráter cujos efeitos passamos em revista. A América do Sul é, atendendo-se às suas produções naturais, uma das mais ricas regiões do globo. Duas vezes maior que a Europa e dez vezes menos povoa­ da, a terra não faz falta e está, por assim dizer, à disposição de todos. A população preponderante, de origem espanhola e portuguesa, está dividida em numerosas re­ públicas, Argentina, Brasil, Chile, Peru etc. Todas elas adotaram a constituição po­ lítica dos Estados Unidos do Norte e, por conseqüência, vivem sob a ação de leis idênticas. Pois, simplesmente pelo fato da raça ser diferente e lhe faltarem as qua­ lidades fundamentais que possui a raça que povoa os Estados Unidos, todas estas repúblicas, sem exceção, são presa perpétua da mais sangrenta anarquia e, não obs­ tante as extraordinárias riquezas do seu solo, sossobram, umas após outras, em de­ la pidações de toda espécie, falências e despotismos. Lendo-se a notável e imparcial obra de Th. Child acerca das repúblicas lati­ no-americanas, apreciar-se-á com exatidão a profundeza da sua decadência. As cau­ sas encontram-se todas na constituição mental de uma raça sem energia, nem von­ tade, nem moralidade. A ausência de moralidade, principalmente, excede tudo o que de pior conhecemos da Europa. Referindo-se a uma das cidades mais impor­ tantes, Buenos Aires, o autor declara-a inabitável para quem quer que seja que te­ nha delicadeza dc consciência e alguma moralidade, c a propósito dc uma das me­ nos degradadas dessas repúblicas, a Argentina, o mesmo escritor diz que, se a examinarmos sob o ponto de vista comercial, ficaremos abismados com a imorali­ dade que aí se manifesta. Nenhum exemplo há que melhor mostre quanto as instituições são filhas da raça e portanto, a impossibilidade de se transferirem de um povo para outro. Seria interessantíssimo saber-se o que aconteceria às instituições tão liberais dos Estados Unidos da América do Norte, se fossem transportadas para uma raça inferior. Es­ tes países, diz-nos Child, falando das diversas repúblicas latino-americanas, estão sob a férula de presidentes que exercem uma autocracia não menos absoluta que a do czar de todas as Rússias; mais absoluta até, por isso que estão ao abrigo de to­ das as importunações e da ação da censura europeia, o pessoal administrativo é ex­

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clusivamente constituído por criaturas dos presidentes...; os cidadãos votam como melhor lhes parece, mas ninguém dá importância aos seus sufrágios. A República Argentina é apenas república no nome, porque, na realidade, é uma oligarquia de indivíduos que fazem da política verdadeiro negócio. Só um país, o Brasil, escapara um pouco a tão profunda decadência, mercê de um regime monárquico, que colocava o poder a coberto das lutas de competido­ res. Demasiadamente liberal para raças sem energia e sem vontade, a monarquia brasileira sucumbiu, caindo desde logo o país em plena anarquia. Dentro de pou­ cos anos, a gente do poder delapidou por tal forma o tesouro que os impostos au­ mentaram em mais de sessenta por cento. Não é só na política, muito naturalmente, que se manifesta a decadência da raça latina que povoou a América, mas sim em todos os elementos da civilização. Reduzidas aos seus próprios recursos, estas desgraçadas repúblicas regressariam ao barbarismo puro; toda a indústria e todo o comércio estão em mãos de estrangei­ ros: ingleses, americanos e alemães. Valparaíso é uma cidade inglesa, e nada ficaria no Chile se lhe tirassem os estrangeiros; mercê destes é que estas regiões conservam ainda um verniz de civilização que ilude a Europa. A República Argentina tem qua­ tro milhões dc brancos de origem espanhola; não sabemos se poderemos citar um branco que seja, além dos estrangeiros, que se encontre à frente dc uma indústria verdadeiramente importante. Esta terrível decadência da raça latina, abandonada a si mesma, posta em con­ fronto com a prosperidade da raça inglesa numa região vizinha, é uma das mais sombrias, mais tristes e, ao mesmo tempo, das mais instrutivas experiências que po­ demos citar para apoio das leis psicológicas que expusemos.

12) ALMEIDA GARRETT

Obras
(Porto, Lello 6c Irmão, Editores, 1963, v. 1, p. 734-5.)

Justiça (Lúcio Júnio Bruto, juiz de seus filhos)
Lúcio Júnio Bruto era cônsul ou primeiro magistrado de Roma; e, na ocasião em que a cidade era sitiada por um poderoso exército inimigo, foi descoberta uma conspiração de traidores que tentavam entregar-la. Entrava nesta conspiração gran­ de número dos principais do Estado e com eles os filhos do cônsul. Foram todos presos e processados por tão horrível crime; que o não há maior nem mais atroz. Chegou a hora tremenda em que os réus deviam ser afinal julgados. Apareceu o cônsul Lúcio Júnio Bruto em seu tribunal no foro ou praça pública de Roma, ro­

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deado do senado, que era o conselho dos anciãos e homens bons do Estado, e dian­ te de todo o povo - porque em Roma foram sempre públicos os processos, para que nem as paixões dos julgadores nem as peitas dos culpados os pudessem torcer, mas se fizesse sempre justiça direita e lisa. Compareceram os acusados diante do cônsul; dentre estes, seus próprios filhos. Todo o povo tinha os olhos neles e no pai, c parecia duvidar que o sangue c a natu­ reza não movessem da justiça o ânimo do magistrado. íMas o cônsul interrogou seus filhos com a mesma tranqüilidade e firmeza com que fez aos outros. O crime foi pro­ vado; eles confessaram: e não restava senão pronunciar o juiz a sentença. Hoje dá-se aos condenados tempo suficiente para se prepararem a aparecer na presença de seu Deus, tribunal mais terrível porque são eternas suas decisões, porém mais indulgente porque lhe cabe perdoar crimes provados e confessados quando deles há verdadeiro arrependimento. Mas nesses tempos a religião cristã, que é toda humanidade e brandura, não tinha ainda adoçado os costumes daque­ les honrados mas ferozes republicanos. Os réus convencidos e julgados iam ser para logo executados. Lúcio Júnio Bruto, rodeado de lictorcs - oficiais públicos a quem incumbia pôr cm continente por obra os mandatos do cônsul-, pronuncia a fatal sentença: 4 4 O crime está provado; os acusados são réus dc alta traição: lictorcs feri, executai a sentença da república”. A natureza não podia com mais: o cônsul cobriu o rosto com a toga... e as ca­ beças dos filhos rolaram a seus pés. Mas Roma foi salva, a rebelião afogou-se; e Júnio Bruto, órfão de seus filhos, não o foi da pátria. Tal é um dos maiores exemplos de justiça que já se deram no mundo.

13) ALBERTO TORRES

A Organização N acional
Cia. Editora Nacional, São Paulo, 1978, 3. ed.

0 espírito e as te n d ê n cia s da política
Em outros tempos, no período de romantismo político que sucedeu à Revo­ lução Francesa, quando a questão das formas de governo era a tese predileta dos publicistas, a unidade e a continuidade da política pareciam aos olhos dos partidá­ rios do regime monárquico a grande causa de sua superioridade. A pretensão era falaz, como todas as ideias a priori da política. A unidade e a continuidade da política resultam da existência de um caráter nacional. Onde há uma nação, homogênea em seus elementos, ou fortemente subordinada a um espíri­

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to, um móvel, uma aspiração, ou uma classe preponderante, define-se uma políti­ ca: os órgãos dessa política surgem da reação dos acontecimentos, e, seja dinástica ou republicana a forma do governo, o poder vem a cair nas mãos dos combaten­ tes mais fortes, dos representativos. Em Washington, como cm Bismarck, encontra-se o mesmo traço das perso­ nalidades dominantes, os eleitos desse sufrágio tácito, que faz brotar os proto-homens do tempo, em sua terra - como a flor brota da planta, na estação própria, sobre a haste do valor pessoal. Homens dessa têmpera comandam as gerações a que pertencem, nas grandes épocas de crise nacional, e impulsionam o movimen­ to que se perpetua pelas gerações adiante. Há casos notabilíssimos de proeminência de um homem, ou de uma aristocra­ cia mental, sobre os destinos de um povo, nenhum, porém, mais expressivo que o dos Estados Unidos, onde um grupo de precursores eminentes assentou, nos primei­ ros dias da constituição do país, os princípios que o haviam de dirigir até hoje. Quem lê o Federalista, as cartas e os manifestos de Washington, os trabalhos de Jefferson, dc Hamilton, dc Madison c de Franklin, encontra estudados, nessas soberbas profis­ sões dc fé, os caracteres práticos e morais da nacionalidade, expostos os seus pro­ blemas, indicadas as suas soluções, previstos os seus destinos, com precisão e clare­ za tão fortes que projetam luz sobre o futuro da grande pátria, até nossos dias. Esses homens deram aos olhos de sua pátria a consciência do nosce te ipsum; mostram-lhe as suas necessidades, os seus problemas, as suas soluções, os seus des­ tinos. A nação despertou formada, cônscia de sua posição e de seu papel no mun­ do, pronta para caminhar com os olhos fitos num objeto conhecido. Sua história foi o desenvolvimento natural de um atleta. Esta preparação inicial era mais difícil, entre nós, por causas geográficas e por causas históricas. Território heterogêneo, de conformação longitudinal, com rios e vias de comunicação menos favoráveis, eriçado de cadeias de montanhas que o di­ videm e separam, era mais penoso ligar e abranger, num todo, as diversas zonas, para lhes estudar o caráter comum c prefixar as condições de unidade e dc solida­ riedade. Não era fácil assimilá-lo, com seus produtos exóticos, às condições nor­ mais do comércio internacional, entremeando os seus interesses nas correntes or­ dinárias dos negócios. O comércio brasileiro ficou, como todos os que versam sobre especiarias, sujeito às oscilações, aos entraves, às espoliações, que acompanham, em toda parte, os negócios sobre gêneros que não são de uso necessário. Os homens públicos estavam, por outro lado, longe de possuir o preparo dos fundadores da república americana. Cientistas, literatos e juristas da escola de Coim­ bra trouxeram, para o nosso meio, brilhantes ideias, conceitos teóricos, fórmulas jurídicas, instituições administrativas, estudados nos centros europeus. Com tal es­ pólio de doutrinas e de imitações, arquitetou-se um edifício governamental, feito de materiais alheios, artificial, burocrático. Os problemas da terra, da sociedade, da produção, da povoação, da viação e da unidade econômica e social, ficaram en­

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tregues ao acaso; o Estado só os olhava com os olhos do fisco; e os homens públi­ cos - doutos parlamentares e criteriosos administradores - não eram políticos, nem estadistas; bordavam, sobre a realidade da nossa vida, uma teia de discussões abs­ tratas, ou retóricas; digladiavam-sc em torno dc fórmulas constitucionais, france­ sas ou inglesas; tratavam das eleições, discutiam teses jurídicas, cuidavam do exer­ cito, da armada, da instrução, das repartições, das secretarias, das finanças, das relações exteriores, imitando ou transplantando instituições e princípios europeus. Sob a impetuosidade do primeiro monarca e o academicismo do segundo, o meca­ nismo governamental trabalhou sempre, desorientado e sem guia, estranho às ne­ cessidades íntimas, essenciais, do nosso meio físico e social. A República desenvolveu consideravelmente a curiosidade intelectual, nas le­ tras, nas ciências, na política. Conservando a maioria na representação nacional, viram-se os juristas cercados de outras aptidões e capacidades. Moços, ardentes, ambiciosos, os políticos do novo regime lançaram-se à pesquisa de novos assuntos, novos problemas, novas conquistas a explorar, nos anais do Congresso, na impren­ sa, cm periódicos c livros, multiplicaram-se estudos c investigações, de incontestá­ vel mérito e marcada originalidade - mas esses trabalhos mostravam, em regra, a tara da nossa tendência e a lacuna do nosso preparo: eram teóricos, analíticos, li­ mitados a uma especialidade, a um ramo dc conhecimentos, alheios aos problemas concretos e oportunos. O regime não trouxe consigo os estadistas que o haviam de construir. Os estudos ganharam em variedade, mas perderam, em dispersão e inde­ finido, alguma precisão que os antigos tinham. É certo que os manifestos e mensagens presidenciais sumariam, com mais ou menos amplitude, notas sobre os departamentos dos serviços públicos, faces diver­ sas dos problemas nacionais, e que sugerem alvitres e soluções sobre variados as­ suntos; por amplos que sejam, têm, contudo, todos eles, um caráter, minucioso e pormenorizado, de catálogos de sugestões e propostas, para aplicações parciais, sem espírito de conjunto, sem vista geral e coordenada de nossa fisionomia social, política e econômica, de seus problemas, de suas soluções. São programas de ges­ tão transitória, para os quatro anos de período; faltam-lhes a envergadura e a luz, com que costumam verdadeiros estadistas concentrar, em traços fortes e nítidos, o sistema da política prática, o estudo positivo da fisiologia de um país, para lhes in­ dicar o movimento e a direção. Esses programas quadrienais, esboçados no curto período de cada governo, são esquecidos, para se dar começo a novos ensaios e tentativas, na seguinte presidência. A história da política republicana, em seu conjunto e em seus vários interesses, é uma jornada de marchas e contramarchas, de experiências e retrocessos... Somos um país sem direção política e sem orientação social e econômica. Este é o espírito que cumpre criar. O patriotismo sem bússola, a ciência sem síntese, as letras sem ideal, a economia sem solidariedade, as finanças sem continuidade; a educação sem sistema, o trabalho e a produção sem harmonia e sem apoio, atuam

ame­ ricanos da fase constitucional. para conhecer os elementos e aptidões de sua exploração e cultura. aos desvios. foi em climas médios. O Brasil não tem história. vínculo íntimo e profundo. que acidentes. a sua estrutura orográfica. A zona intcrtropical é o berço do animal humano. os seus vasos hidrográficos. as incursões bárbaras e as guerras conseguiram arremessar grandes massas de população para zonas frias. que sc fixou o tipo mais perfeito do reino animal. as aspirações e os desejos dos homens de todas as regiões! Só o esgotamento do solo. econômica e social. que tiveram dc vencer. sobre a ruína da vida comum. aliás. para aí convergem. meramente política. O destino de um país e função de sua história e de sua geografia. Estudar a geografia de um país não em seu aspecto descritivo.) . eis o que deverá ser o lema do patriotismo e do zelo pela sor­ te de nossa terra. Sem esse estudo. aí floresceram as primei­ ras e mais luxuriantes civilizações. dc episódios militares e governamen­ tais: sua história étnica. Estudar o Brasil. entretanto. a sua fauna. O Brasil é. um dos países que apresentam mais sólidos elementos dc prosperidade c mostram condições para um mais nobre e brilhante destino. interesses ocasionais ou parciais. 1933. p. aos azares. ou cálidos. como a vida dos homens sem ob­ jetivo e sem método. eis o pon­ to dc partida dc toda política sensata e prática.292 Teoria Geral do Estado como elementos contrários e desconexos. procurando apreender o caráter das diversas zonas geológicas e mineralógicas. naturalmente. Tal foi a obra dos estadistas. que a unidade política está lon­ ge de realizar. a marcha de um país fica. erros de apreciação. sujeita às oscilações. vão produzindo. sempre que aí encontre terras férteis c climas propícios à vida. 14) FRANCISCO JOSÉ DE OLIVEIRA VIA N N A 0 ocaso do Império (2. c a sucessão. e ao mesmo tempo as condições necessárias ao espírito de unidade social e econômica e à solidariedade entre os interesses e tendências divergentes.. a sua flora. mas em sua na­ tureza dinâmica e funcional. destroem-se reciprocamente. São Paulo. 29-42. a prolife­ ração das populações. e os egoísmos e interesses ilegítimos florescem. É natural que o homem tente vol­ tar para seu berço. E em sua geografia e no quadro da sociedade contemporânea que está a base do conhecimento de sua sorte. que tal nome não merece a série cronológica dos fastos das colônias dispersas. Melhoramentos. ed. uma gravíssima dificul­ dade: a tendência separatista das antigas colônias. só começará a formar-sc quando mais estreita c solidariedade entre os habitantes das várias zonas lhe der a consciência dc uma unidade moral.

No fundo. No Brasil. de volume pequeníssimo em relação à massa da população. o liberal flagela o conservador . O processo eleitoral. como observava Luís Couty. não existe povo no sentido político da expressão. Honório. O imperador apelou para ele várias vezes. tendo modificado a colora­ ção política do Gabinete. conquistado este. Hra este o principal programa dos liberais como o era dos conservadores. uma bela prova disto. “Mas. não dava importância alguma à opinião dos partidos. dizendo que aqui “povo é uma reunião dc homens. que porventura animassem a consciência do país. onde estão os nossos partidos?” perguntava. Ninguém exprimiu melhor.e o resultado é que a Coroa tem cm má conta um e outro'’. num país como o nosso. dissolvia a Câmara e procurava informar-se da opinião do país através da coloração partidária do futuro Parlamento. quando chamou Sinimbu. nunca teve espírito político. Só nos países de opinião organizada é que o processo eleito­ ral pode ser um meio eficaz de sondagem da opinião do povo. com efeito. a vida política foi sempre preocupação e obra de uma minoria diminuta. o liberal não respeita o conservador. dentro dos princípios de pura teoria do regime representativo. não. quando concedia a dis­ solução da Câmara. Realmente. o conservador flagela o liberal. Dis­ se ele. O golpe parlamentar de 68 é. na sessão de 18 de junho de 1870: “O conservador não respeita o liberal. Entre nós. quando chamou Itaboraí. Falta-nos organização de classes. O objetivo era a conquista do poder e. conservá-lo a todo transe: nada mais. Essa atitude dos dois grupos partidários fazia com que o imperador acabasse convencido de que não podia encontrar na opinião dos partidos nenhum índice se­ guro das correntes interiores. O grosso do povo. espírito público nunca existiu no Brasil. VI Havia. como não tinham programas. o recurso das eleições. Em tese. Sr. era este o mais legítimo processo de sondagem da opinião pública. do que o próprio Zacarias este estado de alma do imperador. em 53. E um espírito irreverente expri­ miu uma vez este mesmo pensamento. Foi o que fez em 78. entretanto. nem consciência al­ guma do papel que estava representando. certo. Num e noutro caso. também não lhe dava nenhum índice seguro da opinião nacional. Falta-nos espírito público. e com maior conheci­ mento de causa. . Foi o que fez em 68. como se vê. Falta-nos li­ berdade civil. não tinham opinião.10 Leituras Complementares 293 Os dois velhos partidos do Império. como porcada é uma reunião de porcos”. sente-se que ele dava uma importância pequena. levado às urnas apenas pela pressão dos caudilhos territoriais. na verdade. ou mesmo. a Paraná.

uma pura ficção constitucional. e o partido que estivesse “debaixo”.ne­ nhum antagonismo entre as populações dos campos e as populações das cidades. Igualmente não se havia cons­ tituído aqui . devido à extrema simplificação trazida à nossa estrutura social pelos grandes domínios independentes. a fraude não a deixaria revelar-se . nem a plebe dos campos tives­ se. Num povo sem educação eleitoral e de opinião embrionária. Mesmo que o nosso povo tivesse opinião. a dissolução da Câmara para a consulta à Nação se havia transfor­ mado numa farsa ridícula. estava realmente conde­ nado a ser. próprios às sociedades de alta or­ ganização industrial. esta eleição faz a maioria É que nos faltavam então . no seio da população dos campos. o processo de “consulta à nação”. opinião. Em síntese: pela grande simplicidade da nossa estrutura social. estava ainda em condição muito rudimentar. antes. Durante o período imperial tínhamos. como sempre foi. Nabuco. Então. não tinham ainda razão de ser. de maneira que a vida política não se distribuía por vários centros da atividade. O processo de sondagem por meio das eleições não podia trazer. como nunca se formaram.as condições necessá­ rias para eleições livres. uma estrutura social muito simplificada. Demais.e isto porque o partido que estivesse no poder ganhava sempre.como na Argentina da época caudilheira. pela ausência de antagonismo de classe. os interesses das classes po­ pulares rurais não estavam propriamente em oposição aos da aristocracia territo­ rial. o velho. capazes de revelar-se no processo eleitoral. pela feição acentuadamente patriarcal da nossa socieda­ de. capaz de dar ao processo eleitoral uma significação realmente democrática. sob o segundo Império.294 Teoria Geral do Estado Organização de classes também não existia. como ainda não existe. VII Demais. perdia sempre . correntes de opinião desencontradas. na oposição. que era a gran­ de aristocracia territorial. Uma dessas condições é precisamente que cada um dos ci­ . De modo que. verdadeira burla . pois. não se dispartia por várias classes ou grupos profissionais: concentrava-se quase toda numa classe única. ou pudesse ter. esta pessoa faz a eleição. à maneira britâ­ nica ou norte-americana. ao imperador nenhum elemento seguro de orientação. a “opinião do povo”. a estrutura social era quase tão rudimentar como nos campos. não se podiam formar. os conflitos dc classes. ainda mais do que hoje. Esta preponderância tão absorvente da grande aristocra­ cia da terra fazia com que nem a classe média rural.tal como hoje. chegou mesmo a formular esta lei no seu famoso sorites: “O Poder Moderador pode chamar quem quiser para organizar Ministérios.dada a corrupção do próprio proces­ so eleitoral. porque há de fazê-la. Nos grupos urbanos. segundo Sarmiento .e ainda nos faltam agora . por sua vez. próprio aos governos parlamentares. acordavam-se.

cada um dos eleitores. Só Saraiva.e era isto o que não acontecia aqui. Era esta. com efeito. afinal. expressão de um partido. através da poderosa máquina centralizadora. “ O Governo. à maneira da Inglaterra.e nenhum deles.dizia. tanto li­ berais como conservadores . nunca existiram grandes tradições de legalidade. que punha uma tão confiada arrogância no coração do moleiro de Frederico. em 1840. substituiu-o um Gabinete liberal. conservadora. voltou soberbamente liberal! Certamente. Itaboraí. Dis­ solvida a Câmara. desmentiu esta regra . esse prestígio. Esta Câmara. dos chefes de Gabinete. Esta doutrina absurda pode-se dizer que era a expressão do pensamento íntimo de todos os políticos no poder. que substituiu o velho sistema da . É certo que a Reforma Judiciária de 71 assegurou um pouco mais os particulares contra o arbítrio das autoridades. eleita no mesmo ano. ou mais exatamente. dei­ xando o homem do povo na iminência ou na atualidade dos golpes de vindita dos poderosos. Antônio Carlos. todos esses mandões locais estavam na dependência dos Gabinetes. Aqui. Este.10 Leituras Complementares 295 dadãos. Era debalde que as oposições tentavam lutar con­ tra a força irresistível dessa compressão organizada. os velhos costumes permaneceram . si je ne pars hientôt. O recurso da dissolução da Câmara. tem o direito de intervir no processo eleitoral” . em que ninguém mais acreditava. essa autoridade. il me faut vendre tout et quitter le pays. se havia transformado numa verdadeira burla. onde os preceitos da common law tem qualquer coisa dc sagrado aos olhos das autoridades c aos olhos das multidões. dc garantias no papel. foi o Gabine­ te conservador que caiu. C'est fait de moi. em 82. Cada homem do sertão ou da mata entre nós bem podia dizer como aque­ le camponês de Paul Louis Courier: Je suis malheureux: )'ai fáché monsieur le maire. tenha perfeitamente assegurada a sua liberdade ci­ vil . reformas várias do mecanismo eleitoral procuravam pôr um óbi­ ce a estes desmandos da fraude . Estas garantias. não passavam. o Grande. na execução da lei da eleição direta.o que lhe valeu uma ascendência imensa sobre todos os políticos do seu tempo. Em julho de 68 caía o gabinete Zacarias com uma Câmara unanimemente liberal. na verdade. pelo mecanismo da centralização. veio unanimemente conservadora! Em 1878 deu-se o contrário. na prá­ tica. a condição das nossas massas populares sob a lei de 3 de dezembro de 41. Em nosso país. soberbamente conservadora. entretanto.que a nova Câmara vinha inteiramente à feição do novo Gabinete.e a lei Saraiva. o Gabinete Sinimbu: e a Câmara. mobilizava à sua vontade esse formi­ dável exército de tiranetes locais. deixou de aplicá-la integralmente. o expediente da “consulta à Nação”. todos esses aparelhos protetores das liberdades individuais sempre funcionaram mal.e estes asseguravam o mais completo absolutismo aos mandões locais. por exemplo. Nem a Magis­ tratura aqui teve jamais essa força. continuaram a scr precárias. dissolvida. Ora. tanto liberais como conservadores. dissolveu: a Câmara nova. já se sabia de antemão .com a certeza certa de uma previsão astronômica .

invencíveis no prodigioso diabolismo das suas habilidades de prcstímanos. Este sistema havia aparecido nos nossos meios partidários como uma criação miraculosa do engenho político. eram nada diante dos truques sugeridos pela inventiva maravilhosa desses Fregolis da cabala. Falhara a reforma de 60. mas apenas uma prolação do movimento europeu neste sentido. Então. Falhara a “lei dos círculos”. cheios de esperanças. intangíveis. insinuou Sinimbu a agitar o problema e promover a sua solução parlamentar. com o estímulo do imperador. mas uma legítima expres­ são da vontade nacional. mas uma questão nacional: todo o país a reclamava! O imperador foi um dos primeiros a perceber isto e foi ele quem. Falhara a reforma de 75. Esta tendência atingia o seu máxi­ mo dc intensidade. Com o sufrágio direto. não mais uma ques­ tão de partido. à primeira vista. tinham falhado. Refletíamos os clamores dos partidos europeus e as aspirações que agitavam o ve­ lho mundo. Porque o nosso movimento pela eleição direta não foi original. o Parlamento seria. Todos os outros sistemas eleitorais.c os espíritos mais impacientes volta­ ram-se. Estes sempre se mos­ traram inapreensíveis. ao contrário de Zacarias. não tinha o temperamen­ . Coube a Saraiva a execução da lei de 81. o sufrágio revelava ali uma tendência a generalizar-se. nem as leis anteriores pu­ deram contravir às artimanhas dos nossos bosses eleitorais. para o sistema da eleição direta.e nossa esperança qua­ se messiânica na eleição direta não era senão a esperança contemporânea de todos os povos civilizados no sufrágio universal. saídos dos conluios dos gabinetes ministeriais. até então praticados. a apro­ ximar-se cada vez mais das maiorias populares. o sistema dos dois graus falhara: mostrara-se extremamente dócil à vontade do poder. tamanha a fé nas suas virtudes. Todas elas deixavam brechas por onde o governo pudera insinuar-se. Houve um momen­ to mesmo cm que foi tamanho o entusiasmo pela eleição direta. Esta contemporaneidade dos dois movimentos mostra o caráter meramente reflexo do nosso .296 Teoria Geral do Estado eleição de dois graus pela eleição direta. com a sua alta autoridade. que era. em que se consubstanciara a gran­ de aspiração nacional. de 55. com os seus distritos de três deputados. impor a sua vontade c o seu arbítrio. não mais uma massa passiva de de­ pendentes. aliás. Em suma. como confessava Sinimbu. que estabelecera o princípio da repre­ sentação das minorias. o idealismo do mundo. Por mais cautelosas c casuísticas que fossem todas es­ tas leis. Sente-se que ele se deixara tomar também do idealismo ambiente. Saraiva. Estávamos na convicção dc que o novo sistema eleitoral armaria o povo com uma arma invencível contra o arbítrio do po­ der. O que aconteceu com o sistema da eleição direta é típico. ter conseguido este grande objetivo. O mal devia estar então neste sistema . pareceu. Mas a verdade c que nem esta lei. justamente na época em que iniciávamos aqui. que ela passara a ser. o movimento pela eleição direta.

mandando às Câmaras uma representação que fosse a expressão legítima da sua vontade. Nenhum mais se resignou a sofrer a provação da sua derrota. o sentimento da verdade pura. desde que ela se lhe revelasse de uma maneira clara e insofismável. Quem ler hoje a correspondência dele com Dantas por essa época. Nas eleições seguintes restauravam-se as velhas praxes opressivas. Por isso. mas não do seu direito divino.. ele não teria nenhuma repugnância em acatar a opinião do povo. com o seu vivo sentimento partidário não a executaria . cm parte. Ele confessou. a do terço etc. não poderá deixar de sentir uma emoção comovida diante deste ancião. a este estado dc exaltação gene­ rosa e idealista. necessárias a assegurar uma execução perfeita àquela grande lei. Nenhum dos homens do poder teve mais a abnegação de Saraiva. A oposição. junto a Dantas. insusceptível ao fanatismo das grandes convicções e inapto às grandes vibrações do entusiasmo. nas elei­ ções de 84. porém. quase redunda­ va em preferência pelos adversários” . mesmo.diz um historiador. por oca­ sião da primeira experiência da lei de 80. Ninguém mais capaz de executar uma lei. D. a dos círculos. que acompanha sempre a estreia das grandes reformas e sob a qual todos os pequenos egoísmos. O governo. senão dc es­ panto. como ou- . aliás. Pedro sentia que o resultado bom ou mau da lei Saraiva ia dar a prova crucial da excelência do velho regime. em parte.10 Leituras Complementares 297 to de um homem de partido: era uma natureza álgida. como outrora. como todas as outras leis. cioso da sua dignidade de rei. e mesmo depois. “O Imperador se tornou o fiscal-mor da oposição junto ao ministério. também. passou a ganhar sempre. ao pon­ to de Dantas considerar que aquela preocupação.como não a executariam Paulino ou Sinimbu. em que certamen­ te não acreditava. ao seu pequeno horizonte intelectual e voltam a viver dentro do seu egoísmo anterior. por exagerada. cuja compressão eleitoral dc 78 enchera de surpresa. todas as pequenas impurezas da nossa pobre huma­ nidade como que se fundem ou se volatizam. mas atento aos menores detalhes e às me­ nores providências. O nosso povo teve por um momento a impressão que havia encontrado nela a chave da sua liberdade políti­ ca: pela primeira vez o governo fora derrotado! Para este magnífico êxito não contribuiu apenas a retidão e a imparcialidade de Saraiva: há que contar também com a intervenção direta do imperador. a consciência do país. O êxito inicial da lei Saraiva foi devido. Soberano visceralmente democráti­ co. a fria imparcialidade. em que a qualidade principal do executor seria o des­ prendimento. a lei Saraiva também falhou. Nada mais comprobativo da alta compreensão que o velho dinasta tinha da sua grande missão constitucional do que a sua insistente diligência junto a Saraiva. Zacarias. os homens retornam logo ao seu pequeno horizonte emotivo e. à ação conjugada do impe­ rador e do chefe do Gabinete. Os resultados da nova lei foram surpreendentes. isto mesmo nas suas notas ao livro de Tito Franco. Passada. sobrecarrega­ do das mil preocupações do seu cargo. esta fase climática de exaltação. No fundo.

desta ficção. passou a perder sempre. desta artifi­ cialidade do regime representativo no Brasil do que D. exercido à maneira in­ glesa. não na opinião do povo. ele adotasse sistematicamente a fórmula britânica e formasse sempre Gabinetes da mesma coloração da Câmara. sem dar nenhuma consideração apreciável à opinião da Câmara. ao sopro violento das “der­ rubadas” . Sc cra conservador o Ga­ binete. Se. seria reduzida a destroços. em vez de formar um Gabinete de coloração contrária. Numa Câmara liberal. pois. à vontade: bastava para isto pôr nas mãos de Z a­ carias ou de Itaboraí. Voltaram as Câmaras unânimes . Ele bem compreendia que o papel do rei constitucional.e com elas o pro­ testo. Ora chamava um. ora chamava outro ao poder. como costumava de quando em quando fazer. Por isso mesmo. adotara uma atitude de paternal e displicente imparcialidade para com os dois partidos. Pedro era um espírito liberal e equânime. mas. todas as vezes que se abria uma crise de Gabinete. pois.sem conceder a dissolução da Câmara seria logicamente impossibilitar àquele os meios de governo. Em suma. essas belas unanimidades parlamentares. dependente de um simples aceno do im­ perador .e é isto justamente que transparece das suas notas ao livro de Tito Franco. o destino dos partidos estava.e a política rotativa do imperador sempre permitia que isto acontecesse .fixar 110 poder ad aetermitatem o partido do Gabinete. o clamor. sem gosto nenhum pela política e as suas agitações. O destino dos partidos estava. Seria o que Saraiva chamava “a condenação dos adversários ao inferno de Dante” . desta burla. com as situações locais c provinciais. Estes c que davam aos partidos no poder. todo o país se revestia de uma coloração conservadora. de Nabuco ou de Uruguai. e julgando-se indesmontáveis. de Saraiva ou de Cotegipe.o matiz político que cobria o país passava a ser desde então impressionadoramente liberal! IX Ninguém mais convencido de tudo isto.chamando este ou aquele prócer partidário ao Paço.ele bem o sentia . mas. . o desespero dos condenados às geenas do ostracismo. quando no poder. D. con­ tra que investia a cólera dos políticos caídos em desgraça. mas na opinião dos Gabinetes. seria aqui absolutamente irrepresentável por qualquer soberano que aspiras­ se ao título de justo. por exemplo. durante o império.ao ostracismo permanente e irremissível. que os próprios partidos. Compreende-se. os admiráveis mecanismos de compressão política. a de­ licadeza da sua situação no exercício da grande faculdade constitucional. seria isto . Pedro . por mais sólida que fosse. concedida a dis­ solução.298 Teoria Geral do Estado trora. Ele fazia cair os par­ tidos e fazia subir os partidos. puro homem de bem. cujas origens espúrias bem conhecia. isto importaria na vitória segura do novo Gabinete: e a situação anterior. quando se operava uma crise ministerial. haviam organizado. se acontecia ser liberal o Gabinete . sc ele chamasse um Gabinete conservador .

não compreendiam (ou fingiam não compreender) esta imparcialidade do imperador. todos os que formavam o estado-maior deste partido nos municípios. se não há engano na filosofia de Quincas Borba. entretanto. Realiza­ va assim. Num país assim. que deixava o campo inteiramente lim­ po e aberto ao assalto dos vencedores. fazia subir ao poder. quando teve que deixar a pasta de ministro: Perdi o emprego! Era um graccjo. O partido que subia derrubava tudo . Em 1868. Em nosso país. quando caía um Gabinete. aquilo que o povo. o poder é disputado pelos proventos que concede aos políticos e aos seus clãs.quer dizer: sa­ cudia para fora dos cargos públicos. Estes se julgavam sempre esbulhados. que essa posse também dá.c todos acham infinitamente mais docc viver do Estado do que de outra coisa. Entre nós a política é. pelo menos mal aceita pe­ los detentores eventuais dos instrumentos do governo. com surpresa geral. depois de seis anos de domínio do par­ tido liberal. não sabia realizar. aliás. que. X Os políticos. todos os ocupan­ tes adversários. ingrata . Era uma vassourada geral. Em 1878. locais. quando o imperador os fazia apearem-se do poder. an­ tes dc tudo. como sc vive da lavoura. provinciais e gerais. fazia subir os liberais. nas províncias. ou antes. do co­ mércio c da indústria . a frase motejadora de Martinho: também eles perdiam o emprego! Está claro que. não a podiam admitir. o exercício do Poder Moderador num sistema parlamentar é uma tarefa delicada. nada mais lógico do que a irritação dos políticos contra esse personagem. quando não mal compreendida. mas há tam­ bém os proventos materiais. Sabe-se. aquele dito espiri­ tuoso de Martinho de Campos. depois dc dez anos dc governo conservador. espinhosa. no centro repetiam. Desde que nada podia explicar esta queda senão a vontade do monarca. No fundo. os partidos não disputam o poder para realizar ideias. Daí a áspera violência das famosas “derrubadas” . em- . a conquista do poder é um fato inquestionavelmente mais sério e mais dramático do que em outro país.porque fatalmen­ te mal compreendida e. com a sua equanimidade. ou podiam repetir realmente. mas este graccjo encerra a síntese dc toda a filosofia política no Brasil. Em boa verdade não a podiam compreender. Eqüivale dizer que cabiam a estes as batatas. um meio dc vida: vive-se do Estado.10 Leituras Complementares 299 Nestas alternativas das situações partidárias. num país em que a vida política se modela por esse padrão e se restringe a esses objetivos personalíssimos. com efeito. o partido conservador. Há os proventos morais. que sempre dá a posse da autoridade. com a sua incapacidade de­ mocrática. o imperador parecia não ter ou­ tro critcrio senão o do tempo: ele fazia o revezamento dos partidos conforme o tempo da estada deles no poder. em que os indivíduos vão ao poder no intuito altruístico de realizar um grande ideal coletivo.

uma encarnação superior da razão. O Estado é uma parte que se especializa no interes­ se do todo. como o acreditava Hegel. filósofo e diplomata francês. O Estado é apenas uma insti­ tuição autorizada a usar do poder e da coação. Homens de clã para quem o inimigo político era quase sempre inimigo doméstico e a luta política uma luta pessoal. universidades de Toronto. Arte e escolástica. Não é um homem ou um grupo de homens. em frases de recriminação violen­ ta ou cólera impulsiva. Colúmbia. O Estado não é a suprema encarnação da ideia. Tal obra de arte foi construída pelo homem e serve-se dos cérebros e das energias humanas e nada é sem o homem. eles não se sentiam apenas esbulhados com o ato da Coroa que cha­ mava ao poder os adversários: sentiam-se também humilhados. mais impiedosa também do que em nossas vidas individuais. mais separada das contingências. Rio de Janeiro. Escreveu inúmeras obras. um instrumento ao 5 Jacques Maritain (1882-1973). 3. os destituía das suas situações de mando. com destaque para Filosofia moral (1960). de rancor. às vezes mesmo. e constituída por técnicos e espe­ cialistas em questões de ordem e bem-estar público.300 Teoria Geral do Estado buçado dentro de uma prerrogativa constitucional. Chicago e Princeton (1948-1960). p. obra que escolhemos para transcrever o trecho supra.) 0 Estado O Estado é unicamente a parte do corpo político que se refere especialmente à manutenção da lei. Professor do Instituto Católico de Paris {1914-1940). No campo da filosofia política legou-nos O homem e o Estado. lecio­ nou também na América do Norte e no Canadá. ar­ ticulada pela lei e por um sistema de normas universais. con­ vertendo-se ao catolicismo em 1906. uma superestrutura impessoal e duradoura. Kste explodia. Embaixador da França no Vaticano (1945-1948). tornou-se adversário do Concilio Vaticano e do movimento neomodernista. estudou em Paris e Heidelberg. ed. na medida em que a atividade racional nele envolvida. O Estado não é uma espécie de super-homem coletivo. Alceii Amoroso Lima. feridos no seu pundonor pessoal c guardavam do imperador uma sorte de ressentimento íntimo. da experiência c da individualidade. 22-3. às vezes. cujo funcionamento pode ser considerado como ra­ cional em segundo grau. 1959. . Agir. sem outra razão senão as razões do seu capricho. 15) JACQUES M ARITAIN5 0 homem e o Estado (Trad.. é um conjunto de institui­ ções combinadas em uma máquina altamente aperfeiçoada. constitui. é mais abstrata. ao fomento do bem comum e da ordem pública e à adminis­ tração dos negócios públicos. todavia. em suma.

Ensaios dc crítica do marxismo e. um clássico da Política. por inclinação natural. mas o cor­ po político existe para a pessoa humana como pessoa. de forma re­ lativamente profunda. Pierre Joseph-Proudhon e Henri Bergson. sobre a violência proletária. o mais significativo dos mitos proletários. seu famoso sindicalismo revolucionário. existe para o Estado. isto sim. é durante as greves que o proletariado reafirma sua existência. Mas o homem. as quais levariam o trabalhador à sua eman­ cipação mediante o estímulo a uma greve geral e universal. não se dei­ xando condicionar por metáforas. .) Tradução do autor. tornou-se. Para eles o socialismo se reduz à ideia. Trata-se. Tal concepção não implica nenhuma das sutis interpretações em que se esmera Jaurès. um notá­ vel ideólogo. porque os trabalhadores levam tais expressões ao pé da letra. Vergastando a burguesia e a democracia parlamentar. engenheiro de profissão. de uma transformação radical. Quando. Deixou várias obras de considerável significado. em 1905. Aqueles que dirigem ao povo palavras revolucionárias têm a obrigação de ser sinceros. da qual cada grande greve constitui mero episó­ dio. o mais importante de seus trabalhos. Colocar o homem a serviço desse instrumento é uma perversão política. A pessoa humana como indivíduo existe para o corpo político. semelhantemente a uma batalha napolcônica. simultaneamente. Tenho certeza de que o socialismo não sobreviverá sem a apologia da violência. construindo. A greve é uma guerra! Consequentemente. 16) GEORGES SOREL6 Reflexões sobre a violência (Réflcxions sur la violence. inspirando-se principalmente em Karl Marx. Não me conformo com a visão limitada de alguns em considerar as greves como algo seme­ lhante a uma desavença comercial entre um feirante e seu fornecedor. destinado a desaparecer das greves. é uma grande mentira dizer que a violência não passa de um fenômeno acidental. Dedicou-se à questão social desde 1892.10 Leituras Complementares 301 serviço do homem. Collcction Rcssourccs. O Estado e que existe para o homem. eis por que os sindicalistas se referem a tal revolução empregando o linguajar típico das greves. resolvi escrever. suprimirá um regi­ me condenado. de maneira alguma. espera e preparação da greve geral. Sua importância para as ideias políticas pode ser resumida no fato de que inspirou. A revolução social é o prolongamento desta guerra. Com efeito. dois ilustres discípulos: Lenin e Mussolini. acre­ ditava na formação de elites no seio do proletariado. com a eli­ Georges Sorel (1847-1922). Paris-Genève. 1981. Reflexões so­ bre a violência (1906). que. estava consciente da grande res­ ponsabilidade que assumia ao tentar demonstrar a importância histórica de ccrtas ações que nossos socialistas “parlamentários” tentam ocultar com suas artimanhas. com bruscas alterações de rumo. entre elas A ruína do mundo antigo.

as ideias que constituem o mais belo monumento da moderna civilização. desenvolvida pela prática de greves violentas. esta mc pareceria decisi­ va cm favor dos apologistas da violência. enquanto o sindicalismo revolucionário corres­ ponderia. e os socialistas “parlamentários”. Incansavelmente. A ideia de greve geral.salvo D ’Estournelles de Constant . chamo a aten­ ção de meus jovens discípulos para os problemas que o socialismo apresenta. Por isso. temível e sublime como esta. Fecunda dc conseqüências c a comparação que estabelecemos entre as greves violentas e a guerra. e tornam-se dignos de ensinar ao mundo novos caminhos. para a qual o proletariado não cessa de se preparar nos sindicatos. ao levar a efeito obra tão séria. ao apelar para o sentimento de honra que se desenvolve naturalmente em todo exército organizado. A guerra social. algo tremendo. Somente a guer­ ra social. cujos soldados levam a efeito .que a guerra proporcionou. Ainda que não houvesse outra razão para atribuir ao sindicalismo revolucionário um elevado papel civilizador. já que tais sentimentos são demasiado fortes para que exortações inconseqüentes possam reprimi-los. típica de um povo de produtores. hoje. a apologia da violência me é particular­ mente simpática. Todavia.302 Teoria Geral do Estado minação dos patrões e do Estado pelos produtores organizados. Jamais nutri por certo “ódio criador” a admiração que lhe concedeu Jaurcs. Seria caso de se comparar os socialistas “parlamentários” aos servidores com que Napoleão formara uma nobreza. é sobre seu enorme alcance que a democracia fundamenta sobretudo sua força. serão relegados à sua literatura. vai-se fir­ mando uma filosofia até pouco tempo despercebida. com precisão. Há. aliás. Não adiantaria tentar convencer os pobres de que estão equivocados ao nu­ trirem inveja e rancor contra seus patrões. que parecerá ainda mais impressionante quanto maior for o convencimento alcançado pela violência no ânimo dos proletários. que vêem na organização criada pela burguesia os meios que lhes permitem dominar uma parccla do poder. A guerra travada de peito aberto. pelos guilhotinadores. comprovo que. c cnchc-mc dc horror qualquer medida que atinge o mais fraco sob um dis­ farce judicial. traz consigo o ideal de uma grande transformação. visando a destruir um inimigo irreconciliável. os socialistas situam-se em nível superior ao da nossa leviana sociedade. do ponto de vista de uma civilização de produtores. filosofia esta profundamente vinculada à apologia da violência. sem hipocrisia. sc tornarão inúteis. que esperam obter da democracia os melhores cargos. em tudo isto. Nossos intelec­ tuais. aos exércitos napoleônicos. a mesma indulgência com que ele os en­ carou. exclui todas as abominações que desonraram a revolu­ ção burguesa do século XVIII. Ninguém duvida . e que trabalhavam para o fortalecimento do Estado legado pelo Antigo Regime. nem experimento. pode dar origem aos fundamentos de uma nova civilização. às repúblicas antigas. contra os quais a mo­ ral continuaria impotente. pode suprimir tais sentimentos vis.

Como sabem. Imperialismo. desenvolveu inten­ sa atividade intelectual e de ativista político. 24-34. São suas obras principais Materialismo e empiriocriticismo (1909). última fase do capitalismo (1919). a sua causa é injusta” .A atitude em relação à Democracia em ge­ ral. Tcórico brilhante da doutrina marxista.ntre 1900 e 1917 viveu no exterior. . ed. de seu país. endereçada aos revolucionários dc seu país. p. tendo sido preso em 1895. líder revolucionário soviético. K assim que ele argumenta. por um lado. travada contra o Império Austro-Húngaro.10 Leituras Complementares 303 tantas proezas. mesmo sabendo que continuariam pobres. Em 1919 organizou a Terceira Internacional. portanto. Refugiando-se no exterior dois anos mais tarde. lançando as bases de um novo Estado socialista de inspiração marxista. Kautsky. A ditadura do proletariado e o renegado Kautsky (1919). os bolcheviqucs escolheram o mé­ todo da ditadura e. por outro rejeitou as correntes radicais dc extrema esquerda. 1980. Esta conclusão apareceu milhares de vezes em todo o lado e aparece constantemen­ te em toda a imprensa e nos jornais já mencionados por mim. Eclodindo a Revolução dc 1917. é igualdade. preparando a segunda fase do processo revo­ lucionário. F. anali­ sou a chamada fase imperialista do capitalismo e elaborou o conceito de ditadura do proletariado. e o que perdurará no movimen­ to socialista atual será a epopeia das greves. apareceu na literatura eu­ ropeia como o mais decisivo representante deste ponto de vista: “Os bolcheviqucs escolheram um método que viola a Democracia. voltou novamente à Rússia. Entre outros temas.. Já tive várias vezes que fazer notar que a justificação. nos seus argumentos. membro da Internacional dc Berna. Tornou-se militante ainda jovem. exigindo a imediata retirada. doença infantil do comunismo (1920). Assumindo o poder. impediu a intervenção mili­ tar estrangeira em seu país e deu início à sua reconstrução econômica. é a decisão da maioria. Toda a intelligentsia o repete constantemente e. em que todas as facções socialistas que o apoiavam o elegeram como o grande líder do movimento operá­ rio internacional. se. contestou o revisionismo desta. os filisteus repetem-no. por vezes. semiconscientemente. até agora. que pode haver de mais importante do que a liberdade. voltando à Rússia para se tornar o chefe da Revolução Socialista deflagrada em 1905. é a referência à Democracia. “A Democracia é liberdade.) Passarei agora à questão seguinte . Global. Que restou do Império? Nada mais do que a cpopeia da Grande Armada. é claro. Estado e revolução (1917). a igualdade. a de­ Nikolaj Lenin era o pseudônimo de Vladimir Ulianov (1870-1924). da Primeira Guerra Mundial. e Extremismo. São Paulo. 17) NIKOLAJ LÊNIN7 Como ilu d ir o povo com os slogans de liberdade e igualdade (3. a defesa mais proveito­ sa destas posições políticas que os democratas lançam contra nós. bem como a distribuição das terras aos camponeses e a atribuição de todo o poder aos sovietes. passando três anos deportado na Si­ béria. o chefe ideológico da Segunda Interna­ cional e. encerrou a guerra civil.

adeptos da pura Democracia. dissemos. no programa do partido. c inútil acentuá-lo. que criou a liber­ dade burguesa. 110 seu tempo. nesse momento histórico. igualdade. pois desejamos clareza acima de tudo. Serão os democratas puros real­ mente censuráveis por ensinarem a pura Democracia. fraudulentamente. consideramo-los como aliados de Kolchak. “Liberdade”. preferindo direta ou indiretamente esta à ditadura do proletariado. Mas o nosso programa declara: “A Liberdade 6 uma frau­ de se se opõe à emancipação do Trabalho da opressão do Capital”. porque a liberdade. como declaramos claramen­ te no nosso programa do partido. vontade da maioria e a todas as espécies de Benthams que o descrevem. ou são censuráveis por surgirem ao lado da classe capitalista.sabe que ele devotou a maior parte da sua vida. se afastaram disto. está a serviço dos exploradores e nada mais. . quando não subordinada aos interesses da emanci­ pação do Trabalho do jugo do Capital. quando a principal tarefa for a luta das classes trabalhadoras pelo total aniquilamento do Capital. é uma fraude. teve à sua fren­ te a tarefa de criar a liberdade. sabemos perfeitamente que o Capital mundial. muito importante em qualquer revolução. ou mesmo num país. que não lançamos. em nome desta liberdade. sabemos perfeitamente que isto foi um progresso histórico mundial. em tal momento po­ lítico. bolcheviques. e só contamos com o setor avançado dos trabalhadores que tem uma real e verda­ deira consciência da sua posição. utilize as palavras “Liberdade em geral”. mas é fundamental do ponto de vista da nossa propaganda e educação. por defenderem-na contra os usurpadores. tais slogans altissonantes. socialista ou democrática. e dizemo-lo sempre. que. Talvez isto seja supérfluo do ponto de vista da formulação externa do programa. do ponto de vista dos fundamentos da luta proletária e do poder proletário. a liberdade do Capital. então não se surpreendam e não se queixem se vos chamarem dc usurpadores e violadores!” De modo algum nos surpreendemos. Sim. como “liberdade”. das suas obras. no nosso pro­ grama. que destruiu a escravatura feudal. e ainda tiveram a ou­ sadia de declarar abertamente que são mais importantes que a liberdade. pois é necessário esclarecê-lo. adep­ tos da Democracia consistente. para provar que por detrás destas frases se encontram os interesses da liberdade do proprietário. “igualdade” e “a vontade da maioria”. No momento em que se atingir a destruição do poder do Capital em todo o mundo. E qualquer pes­ soa que tiver lido Marx . c um slogan muito. atue contra a ditadura do proletariado. e que con­ sideramos esses que se intitulam democratas. Sabemos perfeitamente que temos que lutar contra o Capital mun­ dial. e a maior parte das suas investigações científicas exatamente à ridicularização da li­ berdade. para oprimir as massas trabalha­ doras. Esclareça-se. e a decisão da maioria. ao lado de Kolchak? Comecemos por esclarccer a noção de “liberdade” . é sua aliada. pela com­ pleta destruição da produção mercantil.304 Teoria Geral do Estado cisão da maioria! Se vocês. qualquer pessoa que. a igual­ dade.quem quer que tenha lido mesmo uma divulgação po­ pular de Marx .

Sim. Mas talvez isto seja impossível? Talvez seja impossível que a liberdade seja contrária à emancipação do Trabalho do jugo do Capital. mas isso é propriedade privada. Inglaterra. desculpem-me.é assim na realidade que está es­ crito na vossa Constituição. Reparem em todos os países da Europa Ocidental. Mas a vossa liberdade é de uma tal espécie que é uma liberdade no papel e não na prática. E nós respondemos. dizem eles. contra o Capitalismo Republi­ cano. cavalheiros ingleses. por exemplo. Isto significa que os grandes auditórios que existem nas grandes ci­ dades. um imenso progresso em comparação com a ordem feudal. contra o livre Capitalismo e. sc é contrária aos interesses da emancipação do Tra­ balho da opressão do Capital.erguem esse es­ tandarte. franceses. mas a informação chega-nos pelo telégrafo. se está em contradição com a emancipação do Trabalho da opressão do Capital. América . contra o Capitalismo Democrático. onde quer que tenham estado. Esqueceram um pormenor.10 Leituras Complementares 305 E declaramos que somos contra o Capital em geral. cla­ ro. ame­ ricanos. dado que por enquanto ainda é impossível cercar o ar.França. respondemos nós. esquece­ ram que a vossa liberdade está escrita numa Constituição que legaliza a proprieda­ de privada. como este onde agora nos encontramos. Todos os socialistas o reconheceram ao utilizar esta liberdade da sociedade burguesa para ensinar ao proletariado o modo de acabar com a opres­ são do Capitalismo. Qualquer espé­ cie de Liberdade é uma fraude. “ Isto”. “A Sala dos Nobres”. violaram a liberdade de reunião”. o seu sistema é descrito como o sistema mais livre. O fato dc reconhecerem a liberdade de reunião é. civilizados cavalheiros. indo contra os bolcheviques c apoiando os seus adversários.recebemos agora raramente os jornais franceses porque estamos cercados por um anel. Consideramos essencial dar-lhe esta resposta no nosso programa.consegui ler nos boletins emitidos pelo governo francês dc rapina que. E a que chamam eles liberdade? Estes “civilizados” franceses. Juntamente com a liberdade. claro está. é uma fraude. com a lei de servi­ dão medieval. É esta a essência do problema. e agora esses “países civilizados” . bolche­ viques. marcham contra os bolcheviques “em nome da liberdade” . pertencem aos capitalistas e aos proprietários e chamam-se. E vocês. a França está a manter mais que nunca o seu “alto ideal dc Liberdade”. Na Constituição deve es­ tar escrito: “ Liberdade de reunião para todos os cidadãos”. e ouvimos as emissões de rádio estrangei­ ras . ingleses e ame­ ricanos chamam liberdade mesmo à liberdade de reunião. Ainda há pou­ cos dias atrás . a vossa liberdade. “é o verdadeiro significado e a principal manifestação de liberdade. Podeis reunir-vos livremente com cidadãos da República Democrática Russa. tendes que respeitar a propriedade . a propriedade . sabemos que ele erguerá a bandeira da liberdade contra nós. ou sobre os quais te­ nham lido. isto é usual cm todas as suas polêmicas contra nós. Encontramos coisas deste gênero a cada passo. Em todos os livros.

Quando isto acontecer. Primeiro trans­ formamos este edifício. Estamos numa batalha . isto constrói essa verdadeira li­ berdade. sob a qual não existirão grandes edifícios onde apenas uma família vive e que pertence a um único indivíduo . gatunos. Q uando só houver no mundo trabalhadores e as pessoas se esquecerem dc pensar cm como era possível ser um membro da sociedade e não um trabalhador . Primeiro apoderemo-nos dos melhores edi­ fícios e. quando queremos nos reunir. aos cavalheiros que apoiam a Democracia. Também sabe­ mos como tratar os cavalheiros capitalistas. de um ca­ pitalista ou de uma sociedade anônima. Passou o tempo em que era possível iludirmo-nos a nós mesmos e aos ou­ tros com estas histórias de fadas. ladrões. Aos cavalheiros intelectuais burgueses. Pas­ saram os dias do Socialismo ingênuo. dizemos: Vocês mentem quando nos atiram à cara a acusação de es­ tarmos destruindo a liberdade! Quando os vossos grandes revolucionários burgue­ ses. nem pelo palavreado de muitas das revoluções dc 1848. mecânico e intelectual. pois sabemos como tratar de emanci­ par os trabalhadores do jugo do Capital. A Revolução Francesa e chamada a Grande.é este o significado da ditadura do proletariado. depois falaremos sobre liberdade. nós afirmamos que qualquer liberdade não subordinada aos interesses da emancipação do Trabalho da opressão do Capital ê uma fraude. A li­ berdade de reunião. e havemos de abolir esta liberdade. na Inglaterra de 1649. como também os suprimiu. que reconhece como inevitável a . que não é mais que a liberdade de reunião dos contrarrevolucionários. então. meias-tintas. Isto ajuda a emancipação do Trabalho da opressão do Capital. incluída nas Constituições de todas as repúblicas burguesas. e porque foi uma revolução a serio que não só derrubou os monárquicos. Mas nós dizemos: Estamos virando isto “de pernas pro ar”. fantasista. pessoas in­ solentes. desencadearam uma revolução. protegidos do tempo. e a cul­ pa é dos cavalheiros burgueses. dos contrarrevolucionários.trata-se aqui de um proprietário. criminosos. Lu­ tamos contra eles. então o povo se es­ quecerá de que é possível existirem edifícios públicos propriedade de um particu­ lar. O Marxismo. os melho­ res edifícios são propriedade privada.306 Teoria Geral do Estado privada senão passais a ser Bolcheviques. é necessário retirar ou cortar-lhes a sua “liberdade” . na França de 1792-1793. Nessa altura seremos pela total “liberdade”. utópico.isto não acontecerá tão cedo. é uma fraude porque. quando se pensava que bastava convencer a maioria das pessoas e pintar um belo quadro da sociedade socialista para que a maioria adotasse o ponto de vista do So­ cialismo. assim como dos cavalheiros intelectuais burgueses -. num edifício das organizações dos trabalhadores e só então falaremos dc liberdade dc reunião. porque não se caracterizou por molezas. é necessário retirar a liberdade de reunião aos capitalistas. Vocês acusam-nos de violarmos a liberdade. a “Sala dos Nobres”. então seremos pela liberdade de reunião para todos. não permitiram a liberdade de reunião aos monárquicos. Afirmamos que a liberdade de reunião para os capitalistas é o maior crime contra os trabalhadores. mas hoje a liberdade de reu­ nião significa liberdade de reunião dos capitalistas.

e. a tarefa chegou ao fim. Que é liberdade de reunião quando os trabalhadores são esmagados pela es­ cravatura do Capital e pelo trabalho para o Capital? É uma fraude. tão “monstruoso”. até hoje. para se con­ seguir a liberdade dos trabalhadores. foram a liberdade e a Democracia dos proprietários e meras migalhas para os sem-propriedades. portanto. precisamente por não estar ainda totalmente derrubada. que refle­ tiram. c ainda não cm todos. é necessário. e. portanto. que foi derrubada num único país. sangrenta e terrível. que lhes permitem conservar milhões de pessoas em escravatura salarial. Não pode ser de outro modo aos olhos daqueles que refletiram sobre a luta de classes. Se os socialistas lançaram um tal slogan é porque sabem que a elasse dos exploradores só cederá em resultado duma luta desesperada c sem piedade c tentará disfarçar o seu domínio por meio das mais variadas palavras agradáveis. e na véspera da Revolução de Outubro gracejava ainda muito feliz e despreocupada. sobre as relações dos trabalhadores em revolta con­ tra a burguesia. Se pudessem ver o que está se passando na “livre” Suíça. é uma fraude porque sabemos perfeitamente que a burguesia fará tudo para derrubar este poder. concreta e claramente. e tais palavras não devem ser atiradas levianamente. como estão a armar lite­ ralmente todos os burgueses. antes de tudo. Ditadura é uma palavra crua. Hoje a luta estendeu-se a todo o mundo. que consideravam a sua “repúbli­ ca democrática” como uma armadura que os defendia. como está sendo criada uma Guarda Branca porque sabem que as coisas chegaram a um ponto em que se põe a questão de consegui­ rem manter os seus privilégios. Liberdade de reunião . pois não compreende que a liberdade e a Democra­ cia. c que.10 Leituras Complementares 307 luta de classes. viram e reconheceram tam­ bém que as coisas tinham tomado um aspecto sério e agora estão todos a armar-se. “ Liberdade”. franceses e suíços. se lança à luta com o maior ódio. Gracejavam porque não tomavam as coisas seriamente. dado que a bur­ guesia foi derrubada. quem hoje nos ataca com palavras como “Democracia”. por­ que a burguesia ainda não acredita que foi derrubada. afirma: A humanidade só pode atingir o Socialismo através da D i­ tadura do Proletariado. no início.haverá outra palavra que soe melhor? Será possível imaginar o desenvolvimento da consciência de classe dos trabalhadores sem liber­ dade de reunião? íYlas nós afirmamos que a liberdade de reunião nas Constituições da Inglaterra e dos Estados Unidos da América do Norte é uma fraude porque ata as mãos das massas trabalhadoras durante o período de transição para o Socialis­ mo. mas agora viram que as coisas eram sérias. Exatamente depois da destruição da burguesia. vencer a resistên­ . Milyukov gracejava as­ sim como Chernov e os seguidores do jornal Novaya Zbizn. que é tão insólito. ilude o povo. está ao lado da classe capitalista. H apenas o começo e não o fim. os cavalheiros burgueses ingleses. séria. a luta de classes assume as suas mais profundas formas e esses democratas e socialistas não servem para nada e enganam-se a si próprios e depois os outros ao afirmarem que.

pensavam c consideravam. Neste caso estamos diante de uma questão ainda mais séria. que provoca de­ sacordos ainda maiores e mais violentos. IV Passo agora da liberdade para a igualdade. mas é impossível continuar a repeti-lo sem fim. e é totalmente verdade. Todos são iguais. quem tiver dinheiro. A revolução fez-se contra os pro­ prietários sob o slogan de igualdade. isso.era assim que os revolucionários do período que ficou na história como o período da Grande Revolução Francesa sinccramentc falavam. Eis o que é o dinheiro. até as conseguirmos. é a pro­ va do tributo dc todos os trabalhadores. mas se eu tenho de me haver com a resistência de toda uma classe. inclusive o milionário c o vagabundo . Aqui o problema é ainda mais com­ plexo. mas. Primeiro destruiu a monarquia e entendeu por liberdade simplesmente a existência do poder eleitoral. Poderá ser destruído de uma hora para outra? Não. todos são iguais. é necessário manter uma igualdade em palavras na Constituição. a “nata” do trabalho social. sejam quais forem os seus bens. A revolução. quanto à propriedade em dinheiro. por experiência. e isto durante um largo espaço de tempo. de uma república. destrói uma após outra as classes exploradoras. contra o feudalismo. é a relíquia da antiga exploração. Antes da Re­ volução Socialista. Diz que a “igualdade” .não o dissemos especialmente no nos­ so programa. e vocês sabem que toda a luta contra a ordem medieval. dado ser tão claro como o que dissemos sobre a liberdade . uma fraude. no seu curso. é possível apossarmo-nos relativamente depressa do Ca­ pital e dos instrumentos de produção.! O dinheiro é a “nata” da riqueza social.diz que a igualdade é uma fraude quan­ do em contradição com a emancipação do Trabalho da opressão do Capital. Ainda não conseguimos abolir totalmente o di­ nheiro.. então c óbvio que não posso prometer nem liberdade. e podemos confirmá-lo.. nem igualdade ou mesmo decisão majoritária a essa classe. e afirmava-se que a igualdade era a condição sob a qual o milionário c o trabalhador deviam possuir iguais direitos. Afir­ mamo-lo. Em seguida destruiu os proprietários. afirmamos que o dinheiro se manterá. porque na realidade a igualdade não existe nem pode existir. os socialistas afirmaram que era impossível abolir imediatamen­ te o dinheiro.308 Teoria Geral do Estado cia dos exploradores. A revolu­ ção avançou mais. durante o período transitório do velho sistema capitalista ao novo sistema .organizacionais. do dinheiro e do Capital. e. de fato. Para abolir o dinheiro são necessárias grandes conquistas técnicas e . e conservar condições tais que.o que é muito mais difícil e importante . Afirmamos que uma república democrática com igualdade é uma mentira. se fez sob o slogan de “igualdade”. É possível apossarmo-nos imediatamente da propriedade e dos edifícios suntuosos. o direito de explorar. pos­ sui. em virtude da propriedade privada dos meios de produção.

não é senão uma frase sem sentido e uma invenção estúpi­ da do intelectual. é uma for­ ça que se impõe pelo constrangimento material... pág. não podemos falar de igualdade sem correr o risco de fazer o jogo da burguesia. Lisboa. mas sob a forma de abolição de classes. Mas. A igualdade é uma fraude se está em oposição aos interesses da emanci­ pação do Trabalho da opressão do Capital. tinham razão. Só existe verdadeiramente Estado num certo país quando um homem ou certo grupo de homens dispõe nesse país duma força material preponderante. Eduardo Salgueiro. Só destruindo as classes haverá igualdade.. Engels tem toda a razão quando afirma que o conceito de igualdade é um pre­ conceito estúpido c absurdo.) O elemento essencial do Estado é a força. 41-2. Quando Ihering escrevia .10 Leituras Complementares 309 socialista. 311) . não sabiam que os socialistas. e especialmente os funda­ dores do moderno Socialismo Científico. Assim e também necessário destruir a diferença de classe entre trabalhadores e camponeses.. A igualdade é o nosso objetivo. Tentaram atribuir aos socialistas este absurdo por eles inventado. mas a sua doutrina implicava um erro irremissível e era por virtude disso abominável. que. separadamente da abolição de classes. nem socialista. É este precisamente o nosso objetivo. Ed. antes de tudo. mas não vale a pena discutir pala­ vras. 2. mesmo se se intitula escritor e por vezes mesmo como um ho­ mem culto. p. ed. E é isto que afirmamos.e quando Treitschke formulava o adágio que se tornou célebre . Inquérito.“a falta de poder material (Macht) é pecado mor­ tal do Estado. Aque­ . na sua ignorância. mas não tem qualquer significado. Uma coisa é certa: enquanto houver diferenças de classe entre trabalhadores e camponeses. ou qualquer outra coisa. O Estado. 18) LÉON DUGUIT Os elementos do Estado (Trad. s. Mas.. ainda poderia chamar-se socialista. d. pretender que queremos fazer com que todos sejam iguais. um Estado sem poder material de constrangimento é uma contra­ dição em si” (“Der Zveck im Recht”. mas isto é um mero jogo de palavras. tinham afirmado: a Igual­ dade é uma frase oca a não ser que por igualdade se entenda a abolição de classes. Se interpretarmos a palavra socialismo num certo sentido. O Socialismo é a primeira fase do Comunismo.Der Staat ist Macht . deturpa as palavras. Alguns profes­ sores burgueses tentaram convencer-nos dum conceito de igualdade pelo qual to­ dos seriam iguais. por vezes conscientemente. Marx e Engels. Uma sociedade cm que se mantém a diferença dc classe entre trabalhadores e camponeses não é nem comunista..

p. força que só le­ gitimamente se impõe quando atua em conformidade com essa regra de direito. o que resta de válido na obra O Príncipe? Os conselhos de Maquiavel ainda poderiam ser úteis para os modernos governantes? O valor do sistema político de O Príncipe fica circunscrito à época em que tal livro foi escrito. 473-9. dc orientar. mas força subordinada a uma regra de direito superior a ele. Resulta evidente. Roma. antes de proceder a uma análise do sistema político maquiavélico. Doutrina ignóbil. Libreria dei Littorio. hoje. a vida individual. mais viva que há qua­ tro séculos. quase sempre. “O direito é a política da força” dizia Ihering. seu egoísmo e seus interesses cm face de objetivos gerais que trans­ cendem. A indagação se impõe: após quatro séculos. na forma condensada de O Príncipe. é universal e. ou seja. Afirmo que a doutrina de Maquiavel está. Se houve inúmeras modificações sociais. atual? Minha tese responde a tais perguntas. querendo exprimir que.) Tradução do autor. “A for­ ça cria o direito” dizia Treitschke. caduco ou. 1930. de M aquiavel (in II príncipe. em parte. ou no sentido amplo e intemporal do gênero humano? Creio que. portanto. Ele é o seu ponto de partida. para conseguirem ser mais obedecidos. principalmente. inevitavelmente limitado e. imperioso estabelecer o conceito de Maquiavel sobre a humanida­ de em geral e sobre os italianos em particular. é por mera política. Se o direito sem a força se arrisca a ser impotente. que ele conhecia tão bem. então o pressuposto dessa arte é o próprio homem. a força sem o direito é simplesmen­ te barbaria. Sim. mesmo numa lei­ tura superficial de O Príncipe. 19) BENITO MUSSOLINI Prelúdio a 0 príncipe. não se verificaram alterações consideráveis na mentalidade dos indivíduos e dos povos. pelo contrário.310 Teoria Geral do Estado la força de constrangimento era para eles ilimitada ou pelo menos só era limitada pela regra de direito na medida em que os governantes se lhe submetessem. o Estado é a força. se os governantes aceitam que a sua força seja regulada pelo direito. porque projetadas no futuro. se isto é a política. Sc a política é a arte de conduzir os homens. Que representam os homens no sistema político de Maquiavel? Que pen­ sa Maquiavel a respeito dos homens? Ele é otimista ou pessimista? Dizendo ho­ mens devemos restringir tal vocábulo aos italianos de seu tempo. que levou a Alemanha a cometer os crimes mais monstruosos da história. utilizar. edu­ car suas paixões. o pessimismo de Maquiavel sobre a natureza huma­ . doutrina contra a qual se levantou todo o universo civilizado.

. A exemplo de muitos que pesquisaram e conviveram com os mais diversos tipos humanos. não fazia referência apenas àqueles de seu tempo: florentinos. o Estado repre­ . os homens são mórbidos. o direito perdido”. mais apegados aos bens mate­ riais que aos próprios pais.10 Leituras Complementares 311 na. Segundo Maquiavel. a não ser por interesse. também. levados pelo egoísmo. mas poderá fazer valer. entre os séculos XV e XVI ainda andavam a cavalo. e que esta­ rão. em nada. porque sc a própria morte pode scr esque­ cida. Porque o amor cria um vínculo de deveres que. nessa posição inicial. os filhos. pelo próprio ca­ ráter dos homens. Enquanto os indi­ víduos se inclinam. As antíteses príncipe/povo e Estado/indivíduo são cruciais no conceito de Maquiavel. os bens materiais não. para o atomismo social. que con­ tra o assassinato dc seus pais ou irmãos. Maquiavel c bastante claro: “Dos homens é pos­ sível dizer que. são ingratos. mas se me fos­ se permitido julgar meus contemporâneos. Meu tempo ainda não passou.] Os homens nunca fazem o bem. mas também ao próprio gênero humano. demonstram uma falsa fidelidade. N ão va­ cilam em ofender e magoar um príncipe que se limite a ser amado. e o governante crédulo cai. em desgraça. Esse ponto inicial c essencial precisa scr considcrado para entendermos bem o desenvolvimento das ideias dc Maquiavel. julgando como julgava os homens. toscanos. prontos a agir com maldade logo que surja a ocasião para isto [. E no Capí­ tulo Terceiro dos Discursos: “Como demonstram aqueles que meditam sobre a so­ ciedade civil. não atenuaria. ao passo que a intimidação impõe um receio dc ser castigado que não os abandona jamais”.. quando exigidos. encontro na correspondência (Cartas Variadas) de Maquiavel. intemporal. Qualquer um sabe que uma revolução não trará de volta os mortos. dispostos a mudar seus sentimentos. simuladores ou dissimuladores. confundindo-se com a licenciosidade. mas característica do pensamento maquiavélico. As tristezas aqui reportadas são suficientes para demonstrar que a opinião negativa sobre os homens não é casual. imperioso a quem dirige uma república e legisla para tanto pressupor que seus governados são maus. volúveis. logo imperam a incerteza e a desordem”. mas isto não é necessário. Por outro lado. e como é cheia de exemplos a História. Merecida c desanimadora convicção. Ao contrário. Maquiavel não se deixa iludir e não ilude o príncipe. se rebelam. estando. oferecendo a própria vida e. Maquiavel tinha bem pouca consideração pelos homens. Acha-se pre­ sente em toda a sua obra. Outras citações poderiam ser feitas. avessos ao perigo e ávidos dc lucro. na doutrina de Maquiavel o príncipe é o próprio Estado. porém. eu a consideraria suave. será facilmente rompido. evidente que Maquiavel. mesmo. geralmente. Tudo o que foi denominado utilitarismo. Enquanto lhes fazem benefícios. a opinião de Maquiavel. desiludido. sempre. o seguinte: “Os ho­ mens sc revoltam mais contra a perda de uma insignificante prerrogativa. No Capítulo XVII dc O Príncipe. Quanto ao egoísmo humano. pragmatismo ou cinismo maquiavélicos se baseia. e onde a liberdade é excessiva. italianos que. não assim aque­ le que se faz temer. e não titubea­ va em apresentá-los nos seus aspectos mais negativos. novamente. evidentemente. sempre. É.

du­ rante as quais nada se pergunta ao povo. mas difícil mantê-los persuadidos desta. Mesmo nos países onde tais mecanismos são tradicionais. Regimes políticos exclusivamente consensuais nunca existiram. Porque [. O adjetivo soberano. de seus deveres.. provavelmente. a esquivar-se de participar da guerra. jamais existirão.o conflito entre força organizada do Estado e tendência ao atomismo de indivíduos e grupos. Quando interesses supre­ mos de um povo estão em jogo. porque é sabido que a resposta seria fa­ tal: arrancar coroas c cabeças imperiais. mesmo os governos ultrademocráticos se abstêm de expô-los à apreciação popular. por ex­ cesso de otimismo . Rio de Janeiro. é uma trágica farsa. Os sistemas representativos pertencem mais à mecânica que à moral. aplicado ao povo. que a soberania generosamente atribuída ao povo. portanto. s. Resta inevitável. de Roberto das Neves.sacrificam a própria vida no altar do Estado. continuamente. Se­ ria possível imaginar uma guerra declarada mediante referendum popular? Com efeito. portanto.d.que pecavam. e só. quando não acreditarem mais pela persuasão.he­ róis ou santos . delega. Antes de mais nada. O povo. Vejam. considerando o poder uma emanação da vontade livre do povo. sendo fácil incutir-lhes uma ideia. Os demais estão em permanente revolta contra o Estado. se ordena ao povo. Teseu e Rômulo jamais teriam conseguido fazer seus povos cumpri­ rem as leis.. quando muito. c os desarma­ dos são vencidos.) . Ciro. Maquiavel já escrevia em O Príncipe (Ca­ pítulo VI): “Disto se conclui que todos os profetas armados vencem. até nos regimes polí­ ticos idealizados pelos enciclopedistas . Ninguém sabe onde começa ou termina. sem maiores explicações. M uito antes de meu conhecido artigo Força e Consenso. sendo necessário organizar-se de tal modo que. Tem permissão para utilizá-la somente cm questões de administração ordinária. segundo Rousseau. O indivíduo tende a se es­ quivar. É uma entidade abstrata como entidade política. que aceita a revolução ou marche para o desconhecido de uma guerra. não existem e. 20) VARLAN TCHERKESOFF Erros e contradições do marxismo (Trad. boas somente em tempo de paz! Por isso. creiam pela força. se não empregassem a intimidação” . sobrevêm situações graves. Tende a descumprir a lei. lhe é subtraída justamente nos momentos em que mais necessária se mostra. o povo jamais foi definido. Pouquíssimos são aqueles que . o referendum é excelente quando se trata de escolher o melhor local para instalar a fonte luminosa de um pequeno município. As revoluções dos séculos XVII c XVIII ten­ taram resolver essa antinomia. a não pagar impostos. mas não exerce soberania algu­ ma. E nada mais lhe resta que um monossílabo para aceitar e obedecer. M undo Livre.312 Teoria Geral do Estado senta uma organização e uma limitação a tal tendência. Trata-se de mais uma ficção ilusória dentre tantas.] a natureza dos povos é variada. e introd. Moisés.

Niebuhr. e a (segunda explica as causas). Michelet. o economismo não constitui a doutrina materialista. “A economia política explica as causas dos fatos econômicos”. em 1825. e consultarmos Vico (1668-1744) e o seu tradutor francês. de Michelet. Nun­ ca houve mais de dois partidos que se enfrentassem . um elemen­ to entre muitos outros que servem às generalidades evolucionistas. vermelhos e brancos. que tratava a história de “antagonismo das classes” na Inglaterra. J. ao fazer a classificação das escolas históricas. nos princípios do século. Se remontarmos ao primeiro historiador que tenha cogitado da influência das condições cósmicas e econômicas sobre o progresso e o desenvolvi­ mento da Humanidade. fundador da economia política. do modo seguinte. Entre outros. disse Blanqui. Mas Niebuhr. guelfos e gibelinos. Mill. Temos Niebuhr. Este modesto filó­ sofo jamais pretendeu o materialismo. outro homem de gênio. que chamamos “economismo”. O mesmo disseram os seus contemporâneos Mignet. o qual exprimiu.. menos profun­ do e menos original que Adam Smith. temos Guizot. Patrícios e plebeus... não somente idealistas e metafísicos. e que eram. Na Inglaterra. Outro economista.l Mais ainda. entretanto.. Agustin Thierry c outros. as duas fórmulas fundamentais: a) o trabalho é a única origem da riqueza social. não são senão uma variedade da mesma espécie”. o pa­ pel que representam os elementos econômicos na história: “Não tardei em advertir que existiam entre estas duas ciências (a histórica e a econômico-política) relações de tal modo íntimas que não se pode estudar uma sem a outra. da qual Momm­ sen é um dos mais brilhantes representantes. mas até deístas con­ victos e fervorosos cristãos. ou melhor. e que era tão beato como um trapista. Segui passo a passo os grandes acontecimentos. Delas saíram as minuciosas investigações de Mommsen. com a sua habitual . frisa. cavaleiros e peões. li­ berais c servis. na sua análise do primeiro volume da História da França. decla­ rou que a lenda dc Tito Lívio sobre a fundação de Roma dcvc ser desprezada. O mesmo se verifica com Adam Smith. Delas foram extraídos os estudos clássicos sobre a legislação agrária de Licinius. no século XVII. O modo de produção é somente “um” fator.10 Leituras Complementares 313 O conjunto dos fatores econômicos. o grande fundador da escola histórica alemã. Conhecemos muitos autores que admitiam a influên­ cia das condições e das relações econômicas sobre o desenvolvimento da Humanida­ de. Mommsen e toda a escola alemã estavam longe do materialismo f. S. formulou. não é ainda o “materialismo”. b) o aumento das riquezas depende das condiçõcs econômicas c sociais do trabalho e da relação entre o número de produtores e de não produtores. pois é necessário estudar a história segundo as condições econômicas e sociais do povo ro­ mano. em 1776. A parte não pode conter o todo. que por sua vez insistia sobre o estado econômico da nação. Blanqui.o dos que querem viver do seu trabalho e o dos que querem viver do trabalho dos outros. escravos e libertos.J A primeira fornece os fatos. de Solon e dos Gracos. nem aprofundá-las separadamente [. veremos que não fazem menção ao materialismo. conhecidas pelo nome de doutrinas materialistas.

Como aconteceu. Um contemporâneo de Marx e Engels. contou tantas lorotas aos bravos e honrados traba­ lhadores que confiavam na sua palavra? Que resultado se obtém com tão estranho método? O dos politiqueiros.48. Uma vez enviados ao par­ lamento pelos trabalhadores enganados em sua boa-fé. e que com tal bagagem se dão ares de homens de ciência. o socialismo teve representação no parlamento [. a ciência de­ monstra que o bem-estar c o progresso do gênero humano são criados pelo vosso trabalho. Aplicaram o método das investigações científicas ao estudo da história. havia alguns anos que estava embebido na leitura dos folhetos e publicações do partido. em vez de dizer aos trabalhadores: “Amigos. quando. em vez de fa­ zer uma exposição científica. é obrigatório para a classe trabalhadora destruir. 50 c 53). por conseguinte. O nosso interlocutor lera-nos. um dos mais impor­ tantes” (p. mas que. a organização do Es­ tado e das classes exploradoras e opressoras”. com ares triunfais. do menor trabalho intelectual. como ciência moderna. sobre muitos aspectos. que pos­ suía uma boa instrução e que havia lido muito. abrirem os olhos e compreenderem a mistificação de que foram vítimas! Lembramo-nos de uma discussão com um jovem social-democrata.T. que o futuro da humanidade depende da nossa felicidade c dc condições favoráveis à vossa atividade produtiva (Smith). 38.] Como se nunca tivessem existido Louis Blanc. Buckle. pois. incapazes. Rogers. por que. se ocupa das leis sociais e cósmicas que regem o desenvolvimento da Humanidade (“Dissertation ct discussion”). investigadores da verdade. Selva­ gens impotentes diante da natureza. T. como se fosse uma coisa nova e completamente “materialista”. publicou o seu volume “Interpretação econômica da história”. perguntamos. o mais depressa possível.314 Teoria Geral do Estado lucidez. que. IT. chamou “materialismo” ao que os sábios chamaram “cconomismo” ? Por que. sem nenhuma ideia da sua própria força e das . na bela tentativa que fez para retraçar a influência das leis cósmicas. c. publicações “censuradas” por Engels e Auer. não. e que decoram dois pequenos folhetos de Engels e uma vulgarização de Marx. o autor da grande obra Seis séculos de trabalho e de salário. mas que os des­ conhecia por completo. a humanidade apareceu na história em estado semi-selvagem. declaram que jamais. um dia. Proudhon c outros. Foram sábios.. desgraçadamente para ele. por sua ignorância. e não puderam dar aos resultados dos seus traba­ lhos outro nome a não ser o de “interpretação econômica da história”.. que Engels. que a história. antes deles. das condições sociais c ate da manutenção da história. cscrcvendo especialmente para os traba­ lhadores esmagados pelo trabalho incessante e que não têm tempo nem meios para verificar as suas afirmações. ho­ mens sem escrúpulos. no qual analisa toda a história da Inglaterra sob o ponto de vista econômico. Que decepção para as pessoas honradas. disse que “a acumulação da ri­ queza é um dos principais fatores. uma passagem da polêmica de Engels com o professor Diihring: “Saída de uma ori­ gem animal. Pode-se cha­ mar “materialistas” a estes sábios de nacionalidades diferentes? Certamente.

por Voltaire e os enciclopedistas e por toda a filosofia inglesa. guia­ do e governado tão somente pela sua natureza. e que. como veremos diante. de Darwin c dc Hemholtz é pura metafísica. que tiveram a desgra­ ça de ler os folhetos de Engels. A ciên­ cia não tem culpa se Engels fez uma mistura extravagante de várias coisas. Era de ver a decepção que o nosso interlocutor experimentou. uma concepção conhecida somente pelos homens de gênio excepcional. indivíduo pretensioso. a Adam Smith. estão convencidos de que a metafísica de Hegel é a ciência com os seus sistemas de transformismo. propagou as ideias do seu tem­ po. acercou-se de um ser que lhe era parecido e perpetuou a es­ pécie” (Les ruines. enganou-se lastimavelmente. de Lamarck. foi porque a obra de Darwin apa­ receu em 1859. por . é neces­ sário estudar. desde o princípio do século XV III. errou no meio dos bosques. não a natureza. A ciência designava sob o nome de metafísica uma parvoíce escolástica. mas uma doutrina corrente e aceita pelos espíritos esclarecidos. e se. se converteria num benfeitor da humanidade. Esses gloriosos precursores da ciência dos nossos dias estabeleceram que o nosso saber e as nossas ideias são o resultado da observação e do estudo da natureza. com talento literário incomum. O golpe mortal nessa estupidez teológica e sobrenatural foi vibrado por Ba­ con e Locke. dc evolução c de monismo. qualquer um diria que Engels copiara Volney. Pela atra­ ção de um forte poder. Por mais in­ verossímil que pareça. o único que a ciência afirma. e ele pôde ler este trecho. e os operários alemães. não. se amalgamou a metafísica com o economismo. “saído da animalidade”. assimilando as ideias expandidas desde mui­ to tempo. nu dc corpo c de espírito. e Engels. para ser lido. ou aos filósofos ingleses. Mas foi acaso Volney o iniciador da doutrina da evolução? Absolutamente. mas os fatos e os fenômenos sobrenaturais do espí­ rito. sem experiência do passado c sem entrever o futuro. Paris. e que. procurou os alimentos. cncontrou-se sobre a Terra confusa c selvagem. Em resposta. Se Engels acreditou que. o fato deu-se. enquan­ to a ciência indutiva de Bacon. Afora isto. que pregou o absurdo de que a natureza e tudo o que nos rodeia é apenas um reflexo das nossas ideias inatas.10 Leituras Complementares 315 suas capacidades. Acicatado pela fome. aos enciclopedistas. Espírito claro. Citando Volney e Blanqui. As intempéries levaram-no a cobrir o corpo. pretendemos provar que a explicação econômica não era. ano 12 da República). pla­ giado por Engels: “Na sua origem. os homens eram pobres e miseráveis como os animais e produ­ ziam pouco mais do que estes”. para conhecer o mundo físico. a descendência do homem por ele provada. Parecido com os restantes animais. e assim se vestiu. do que derivou a palavra “metafísica” (por cima da física e da natureza). dc Locke. a Niebuhr ou à brilhante escola histórica alemã. se pronunciou contra o materialismo dos naturalistas. o homem. se bem que oposto ao materialismo dos naturalistas. abrimos-lhe as Ruínas de Volney. Se em Volney faltam as três palavras. A glória da descoberta não pertence a Vico. admitiu.

a metafísica do século 17 tirou a sua desforra e a sua restauração na filosofia especulativa alemã do século 19. emprestou-lhe os seus sentimentos” (p.a de ter o homem divinizado a sua própria natureza na pessoa dos deuses . por que empre­ gou tanta má-fé e se esforçou em criar uma confusão mais que deplorável na cons­ ciência do proletariado? Com que objetivo desviou a opinião dos seus leitores? Se­ guramente. Sim. este método (concepção indutiva da natureza) produziu o acanhamento intelectual bem característico dos tempos antigos (?) e criou o método do raciocínio metafísico. Sobre o materialismo francês no século 18). isto é. De outra maneira não poderíamos explicar as suas ridículas pretensões. deri­ vam da filosofia de Hegel são erros palmares. numa das suas obras. neste caso. foram renovados e dirigidos em geral contra toda a filosofia especulati­ va. não foi em proveito do socialismo. Seja. análogos aos do sé­ culo 18. Sabeis o que ensinou Engels aos trabalhadores? “Transportado à filosofia por Bacon e Locke.” Esta afirmação dc Engels. deu-lhe o seu espírito. Nas Ruínas. imutáveis na sua essência” (p. Foi Marx em pessoa quem a desmentiu solenemente: “Denunciada e derro­ tada pelo materialismo francês. 85). as suas expressões muito pouco “científicas” . era uma expressão das suas ideias barrocas. lemos: “Do mesmo modo que o mun­ do. do qual é parte. conseqüentes nos seus efeitos. A ciência não tem culpa sc Engels. dc que as doutrinas evolucionistas e transformistas. a ciência dos naturalistas. mas sim o homem quem fez Deus à sua. e que a isso se deve atribuir a sua estranha mania de reivindicar a paternidade das ideias e dos sistemas elaborados pela ciência muito tempo antes do seu nascimen­ to. Desde que Hegel fun­ dou o seu império metafísico universal. . Acaso devemos supor que Engels não suspei­ tava sequer da existência de toda essa literatura histórica? Neste caso é de lastimar tão estranho “chefe” da ciência de um partido “cien­ tífico”.era coisa corrente entre os filósofos e publicistas franceses desde mais de meio século antes da publicação da obra dc Feuerbach. Um exemplo nos mostrará a sua maneira de agir. Marx. acreditou até 1842 que o mundo. 30). é necessário estudar a natureza e seus fenômenos em suas manifesta­ ções e em sua origem. os ataques à teologia. a bela natureza viva e vivificantc. Ele ignora completamen­ te que a ideia principal da doutrina ateísta de Feuerbach . que a natureza. “ Não foi Deus que fez o homem à sua imagem. Foi devido a tal crença metafísica que tudo que lia ou via achava que devia ser um reflexo das suas próprias ideias. regulares em seu curso. o homem é regido por leis naturais.316 Teoria Geral do Estado conseguinte. Dir-me-ão que Engels sabia tudo isso. dc Volney. contrários a toda terminologia cien­ tífica. afundado nos absurdos metafísicos. contra toda a metafísica” (K. Mas. segundo o método indutivo. revestiu-o dos seus atributos.

Na maioria delas. p. A fic ç ã o da representação A diferenciação das condições sociais conduz à divisão do trabalho não ape­ nas na produção econômica. Trad. Não há dúvida dc que. O que foi dito implica um considerável enfraquecimento do princípio da au­ todeterminação política. Garner. como também na criação do direito. não basta que o re­ presentante seja nomeado ou eleito pelo representado. enquanto no poder. representativa. de fato não re­ presentam a vontade da maioria dos eleitores. O princípio democrático da autodeterminação é limitado ao procedi­ mento pelo qual tais órgãos são designados. México. 343-7. submetida a tal critério. também. Trata-se dc uma democracia em que a função legislativa é cxcrcida por um parlamento dc eleição popular. ou que. cuja conduta se acha regulada por essas normas. os ór­ gãos administrativos c judiciários são selecionados mediante critérios diversos da eleição popular. especial­ mente o Chefe de Estado.10 Leituras Complementares 317 21) HANS KELSEN Teoria g e ra l do D ireito e do Estado (Teoria general dei derecbo y dei Estado. Esta é uma característica chamada democracia indireta ou representativa. c cm quase todas as chamadas democracias “representativas” os membros eleitos do parlamento e outros funcionários de eleição popular. do Executivo ou do Judiciário. Political Science and governmenty 1928. O órgão autorizado a criar ou executar as normas jurídicas é eleito pelos súditos. responsáveis perante o corpo elei­ toral. A função do go­ verno é transferida dos cidadãos organizados em assembleia popular para órgãos específicos. e as funções administrativa c judicial por funcionários que são. nomeados por eleição. não são. esp. W. “não é verdadeiramente representativo um go­ verno em que os funcionários. realmente. um governo é representativo quando e na medida em que seus funcio­ nários refletem. a vontade do eleitorado e são responsáveis pe­ rante este. Conforme tal definição.) Tradução do autor. embora eleitos por um corpo democrático constituído. É necessário que o represen­ . Para estabelecer uma verdadeira relação de representação. 317). são nomeados ou selecionados mediante procedimentos distintos da eleição popu­ lar. juridicamente. 1979. sejam do Legislativo. p. Eduardo Garcia Máynez. A forma democrática de indicação é eletiva. nenhuma das democracias de­ nominadas “representativas” é. Dc acordo com a definição tradicional. ou não têm uma responsabilidade que o corpo eleitoral seja capaz de tornar efetiva” (J. Universidad Autônoma de México.

Tal independência do parlamento pe­ rante o corpo eleitoral é um dado característico do parlamentarismo moderno. já que se achavam submetidos a certas instruções e a qualquer momento podiam ser removidos pelos representados. Muitas Constituições democráticas estipulam. expressamente. Prin­ cipalmente nas democracias modernas. que. A recusa cm removê-lo dc seu cargo. mediante decisão dos tribunais. de todo o Es­ . via de regra. nem podem ser removidos por este. e que o cumprimento desta obrigação esteja garantido juridicamente. X X III. Os membros eleitos de um parlamento moderno não se acham juridica­ mente ligados por quaisquer instruções do corpo eleitoral. ou. no caso de as atividades deste último não se ajustarem aos desejos do primeiro. que os elegiam. procedimento ao qual se dá o nome de remoção [.. antes do término do mandato. verda­ deiros agentes da classe ou grupo profissional. a Constituição da Califórnia. no art. Seção Primei­ ra. estabelece: “O Presidente do Reicb pode.318 Teoria Geral do Estado tante se ache juridicamente obrigado a cumprir a vontade do representado. os membros do parlamento não são. É precisamente nesta independência à frente do corpo eleitoral que o parlamento mo­ derno se distingue dos corpos legislativos de eleição do período anterior à Revolu­ ção Francesa.]”. eqüivale a uma reelei­ ção e tem como conseqüência a dissolução do parlamento”. A garantia. Como exceções. antes do término do seu mandato. mediante o procedimento e na forma aqui estabele­ cida. Os membros destes corpos eram verdadeiros representantes. mas de toda a nação. juridicamente responsáveis perante o eleitorado. ser removido de seu cargo. as Constituições das democracias modernas apenas excepcionalmente concedem ao eleitorado o po­ der de revogar o mandato dos funcionários eleitos. estabelece: “Todo funcionário público do Estado da Califórnia pode. Seu mandato legislativo não tem o caráter de um mandat impératif’ como os franceses denominam a função do deputado eleito que se acha juridicamente obrigado a executar a vontade dos eleitores. que no art. podemos citar as Constituições de alguns Estados-Membros dos Estados Unidos da América do Norte. Normalmente. no caso. a qualquer tempo. A de­ cisão do parlamento deve ser adotada por uma maioria dc dois terços. que têm a prerrogativa de votar por um sucessor do removido. o Chefe eleito do Estado e outros órgãos de eleição somente po­ dem ser removidos de seu cargo. o presidente do Reicb fica impedido de continuar no exercício do cargo. como dizem alguns autores. por exemplo. Não obstante. expressa no voto popular. por voto popular. Adotada tal resolução. e apenas em caso de violação da Constituição ou de outras leis. ser removido de seu posto pelos eleitores.. 43. é o poder representado de destituir o representante. Outra exceção nos oferece a Constituição alemã de Weimar. mediante solicitação do Parlamento. A fórmula segundo a qual o membro do parlamento não é representante de seus eleitores. A Constituição francesa de 1791 foi a que proclamou solenemente o princípio de que não deveriam ser dadas instruções aos deputados. porque estes não devem ser representantes de nenhum distrito em especial. mas de todo o povo. a indepen­ dência dos deputados perante seus eleitores.

se o eleitorado se acha democraticamen­ te organizado. Semelhante órgão “representa” o Estado de uma forma que não difere daque­ la em que é representante do Estado um monarca hereditário ou um funcionário nomeado por este. na medida do possível. Sc os escritores políticos insistem cm caracterizar o parlamento da democra­ cia moderna como órgão “representativo”. por razões técnicas. e estes são juridica­ mente independentes dos eleitores. tal responsabilidade é inteiramen­ te distinta da jurídica e não justifica a afirmação de que o órgão de eleição é um re­ presentante jurídico de quem o elegeu. de modo a ser necessário conferir a função de legislar a um parlamento eleito pelo povo. portanto. substituído . A resposta à pergunta sobre se de lege ferenda o membro eleito do corpo le­ gislativo se encontra juridicamente obrigado a executar a vontade de seus eleitores c. tal poder c cxcrcido por mandato. O fato de que um órgão de eleição não tenha a probabilidade de ser reelei­ to ou a circunstância de que tal probabilidade se acha diminuída se sua atividade não é considerada por seus eleitores como satisfatória. A independência jurídica do parlamento diante do corpo eleitoral somente pode ser justificada pela opinião de que o Poder Legislativo se encontra mais bem organizado quando o princípio democrático de que o legislador deve ser o povo não é levado ao extremo. então será demo­ crático garantir. mas preconizando uma ideologia política. scr responsável perante estes depende da opinião sobre em que medi­ da seja desejável realizar a ideia da Democracia. A função desta ideologia é ocultar a situação real e manter a ilusão de que o legisla­ dor é o povo.10 Leituras Complementares 319 tado. porém. uma espécie de responsabilidade política. como o povo não pode exercer de forma direta c imediata o poder de legislar. que a atividade de cada membro do parla­ mento reflita a vontade dos eleitores. do corpo eleitoral . Se é democrático que a legislação seja elaborada pelo povo c se. é impossível estabelecer uma democracia direta. nem pode ser remo­ vido por estes. O chamado mandat impératif e a destituição dos eleitos são instituições democráticas. ao agirem assim não es­ tão propondo uma teoria científica. verdadeiramente. na realidade. em certa medida. A independência jurídica dos eleitos perante os eleitores é incompatível com a representação legal. Todavia. apesar de que. apesar de sua independência jurídica à frente do corpo eleitoral. não há qualquer relação de representação ou de mandato. constitui. é uma ficção política. a função do povo . e alguns tratadistas chegam a declarar que o mandat impératifé contrário ao princípio do governo representativo.se acha limitada à criação do órgão legislativo. A afirmação de que o povo se acha representado pelo parlamento significa que. sc não há nenhuma garantia jurídica de que a vontade do eleitorado seja cumprida pelos eleitores.ou. razão por que não se liga às instruções dos seus eleitores. A independência jurídica do parlamento à frente do povo significa que o princípio da democracia é. muito menos a afirmação de que um órgão de eleição só pode formar parte do povo se é o representante jurídico de todo o Es­ tado. mais precisamen­ te.

a independência c a imparcialidade dos magistrados são supridas. constitucionalmente “represen­ ta ”.). s. pág. Periodicamente são publicadas “ins­ truções” impondo aos juizes as interpretações oficiais. p.. e a pena pode ser apli­ cada a delitos cometidos antes de ela ter sido editada.320 Teoria Geral do Estado pelo da divisão do trabalho. I. usa-se a ficção de que o parlamento “representa” o povo. Para ocultar tal desvio de um princípio a outro.) Observemos preliminarmente. EDU ARDO THEILER. 29) ALÍPIO SILVEIRA Da interpretação das leis na Alemanha nacional-socialista e hitlerista (In Da interpretação das leis em face dos vários regimes políticos. não obstante.que domina o direito penal clássico e tem sido sempre considerada como essencial (EDUARDO THEILER. em seu magnífico “Tratado de Direito Civil Brasileiro” (vol. Ficção semelhante é a empregada para ocultar a perda de poder sofrida pelo monarca ao scr consumada a independência dos tribunais. em espírito. Um julgamento de 1936 declarou que o acusado não podia invocar que em Junho de 1935 os casamentos entre judeus e arianos não eram ainda legalmente in­ terditos. O Secretário de Estado da Justiça fixou publicamente a atitude dos juizes nestes termos: “o juiz não pode ter em face do direito e da lei uma atitude conforme ao dever do Estado Nacional-Socialista. “Crise no Direito Moderno” ). que na Alemanha nazista. o princípio da não retroatividade das leis. Ainda na Alemanha atual. 1939. Os eminentes jurisconsultos EDUARDO ESPÍNOLA e EDUARDO ESPÍNOLA FILHO. op. no momento em que a decisão do tribunal é pronunciada. d. é considerado como ideia antiquada. afirmou este julgamento que . 74) ensinam a respeito da interpretação na Alemanha nacional-socialista: “Embora continuem vigentes as grandes codificações alemãs. 133-8. cit. A ideologia da monar­ quia constitucional traz consigo a doutrina dc que o juiz. . contrariamente à regra res­ tritiva . apesar dc que em sua fun­ ção não restam vestígios da influência do monarca. No direito inglês chega-se ao extremo de supor que o rei está presente. mesmo as penais. deixa de existir qualquer prazo de prescrição.nulla poena sine proevia lege . senão renunciando à neutralidade” (V. devem os juizes interpretar essas leis segundo a mentalidade nacional-socialista.“é absolutamente indiferente buscar a épo­ ca na qual o Estado julgou necessário sancionar por uma interdição legal seus prin­ cípios racistas Assim. a este: as decisões judiciais são dadas “em nome do rei” .

que manda interpretar as leis fiscais de acordo com a Weltanscbauung nacional socialista. “Assim e que um juiz se recusou a inscrever no Grundbuch o título de pro­ priedade de um judeu. Em outra parte de seu Tratado. “Num discurso proferido numa reunião de juristas. cumpre verificar em que si­ tuação político jurídica ficou a Alemanha. ao proferir uma decisão.10 Leituras Complementares 321 “Tem-se entendido que o art.La conception nacionale-socialiste du droit des gens. “A Constituição de W EIM A R não está mais em vigor. 1938. págs. pergunte a si mesmo: .JACQUES FOURNIER .como decidiria o Führer em meu lugar? Esta deci­ são estará de acordo com a consciência nacional-socialista do povo alemão? Então terá ele uma base de consciência bem firme. ainda que não expres­ samente revogada. poden­ do pronunciar sentenças imediatamente executórias. e op. Mas o juiz. fora de todo o texto legal e sem qualquer forma (MARCEL COT . por efeito de sua vitória. haurida na unidade do todo popular nacional-socialista e do reconhecimento da vontade do Führer Adolf Hitler’ (Apud M. separar ou opor a soberania.La conception bitlérienne du droit. Não! o povo quer ser conduzido e governado. I o da lei de 16 de Outubro de 1934 (Steueranpassungsgesetz). estabelece uma regra geral aplicável a todos os domínios do di­ reito. cit. os ESPÍNOLA observam: “HITLER é o soberano legislador e a mais alta encarnação da justiça. 1938. 207-208. FRANK. pág. é expressão suprema o Führer. assim também os seus atos independentemente da forma. que cita ECKHARDT). COT . não obedeceria a um imperativo nacional-socialista. considerando como deve o juiz completar a lei: ‘cumpre que o juiz. levando à esfera de sua decisão a au­ toridade do IIIo Reich. antes das leis de Nuremberg (COT. V. “Se o nacional-socialismo seguiu a orientação do programa com que se apre­ sentou o partido operário alemão em Munich (1921). um dos grandes erros do liberalismo consiste em crer que o povo deseja governar-se a si mesmo. “ Citam-se as palavras do constitucionalista CARL SCHMITT: ‘o verdadeiro chefe deve ser ao mesmo tempo juiz. 54). " O indivíduo é absorvido no Volksgeist. “Não somente as leis do Führer devem ser obedecidas incondicionalmente. também . porque se tornou incompatível com o programa e os princípios do nacional-socialismo. e a jurisdição é fazer do juiz um adversário do Führer’ (A. como se disse.La con­ ception hitlcrienne du droit. 1939)” . porque é ao Führer que compete fixar o grau de realização da Weltanscbauung (concepção filosófica). c que foi recusado o casamento dum judeu com uma aria­ na. que re­ cusasse reconhecer o caráter obrigatório do pagamento dos juros de um mútuo. dizia H. sob o fundamento de que o programa do partido exige o ‘fim da escravidão dos ju­ ros’. O povo alemão foi poderoso enquanto foi conduzido). do qual. em 1936. . Observa COT que segundo G Ò R IN G e H Õ H N . inamovível e irresponsável.

tomo 28. intitu­ lado Der deutsebe Ricbter. pág. e se funda em copiosa bibliografia.) Alguns autores legitimam a interpretação contra legem ‘quando o bem do Estado manifestamente o exige’ (SAUER. com as modifica­ ções introduzidas pelo imperativo do novo regime. um vasto movimento geral de dou­ trina que seus autores chamam Kampf wieder das subjektive Recht . e incorporou-as habilmente à sua mística nacional” (“Introduction à la Théorie Générale et à la Philosophie du Droit”. mas na concepção universalista do direito e do Estado (BINDER. KISCH. 262). 1937. as gerações novas confiam no senso inato do direito que o juiz descobre em si. f. 6. 44 c 82). não num individualismo obsoleto. como uma pessoa jurídica de di­ . “Zeitschrift fiir das gesamtc Handelsrecht”. sucumbe o próprio Estado.1934-35.322 Teoria Geral do Estado “De modo geral. págs. Nesta luta para a abolição do direito subjetivo. Phil. 1934. Recht und Wolksmoral im Führerstaat. para o povo alemão. que não mais é considerado. (“Tratado” citado. O eminente jurisconsulte uruguaio. A doutrina nacional-socialista apropriou-se assim de algumas das ideias pre­ conizadas pelos adeptos do Freiesrecht. Soz. ao tratar dos métodos novos de inter­ pretação na Alemanha atual assim se exprime: “O advento do Nacional-socialismo em 1933 acarretou uma completa reno­ vação das ideias reinantes na Alemanha sobre o direito e sobre a missão do juiz. com a condição que seja de raça pura e que se inspire. junho de 1934. professor EDUARDO J. COUTURE. mas não é o único’. Existe. As construções lógicas dos romanistas foram repudiadas. Arch. Existe também ‘um direito não escrito que se des­ prende da alma do povo alemão e que é conforme às necessidades da vida nacio­ nal. Vejamos sua douta exposição. págs. 1940) versa este aspecto da doutrina nacional-socialista. ou melhor. na Alemanha nacional-socialista. cujo horizonte político cra entretanto mui­ to diferente. O professor CLAUDE DU PASQUIER.a luta contra o direito subjetivo. “Aliás ‘a lei não é senão um dos aspectos do direito na técnica da vida públi­ ca moderna. págs. muito embora se proclame que a sua interpretação e a sua aplicação se subordinam aos princípios dominantes na organização político-social do terceiro Reich. artigo do professor W. no brilhante estudo “Trayectoria y destino dei Derecho Procesal Civil Hispano-Ame­ ricano” (Cordoba. vice-presidente da referida academia. uma constituição nova.. muito em­ bora em todos os pontos substanciais sc tenha tornado incompatível com as leis fundamentais da Alemanha atual. pág. na doutrina recente. permaneceram as grandes leis e códigos. sentido e energicamente realizado pelo juiz alemão’ (Número inaugural de 1 ’Akademie für deutsches Recht. “A própria Constituição de Weimar não foi expressamente abolida. 202-203). social e jurídica”. até hoje não foi decretada. direito reconhecido. Rechts u. que lhe trace definidamente os fundamentos da vida polí­ tica. 201-202).

diferentemente da doutrina fascista. o pró­ prio receptáculo do direito. um dos mais importantes executores da vontade do Führer. Mas esta doutrina. para decidir seus conflitos particulares. que o direito pronunciado 011 declarado pelo juiz da sentença. O direito nacional-socia­ lista é. são: “ Deve-se partir do conceito do povo como comunidade vivente no qual o cidadão reveste a condição dc membro. com isso. inspiran­ do-se nos sentimentos dessa comunidade à qual serve e pertence” (“Gedankcn zur Neugestaltung des Zivilprozesses”. a admitir outro direito além do que vive na consciência popular. e. in “Zeitchrift der Akademie für Deutsches Recht”. tal como é interpretada pelo Führer. p. ou assinala ao tri­ bunal os inconvenientes que sua decisão acarreta para o ideal nacional-socialista. admite-se que o interprete da vontade popular c o Führer. Derivou-se toda a ordem jurídica processual civil do princípio do Rechtsfinder. mas um representante soberano da lei. in “Deutsches Recht”. a dc que não podem existir na Alemanha tantos Führer fieis intérpretes do direito. embora emane do órgão definitivo da justiça. e ver no di­ reito a ordenação da vida desta comunidade”. que c quem levou mais longe este desenvolvimento. que nccessita de interprete. o Führer exami­ na essa sentença e dissuade ao cidadão se este estiver equivocado. mas ape­ nas se afirma que o Führer é o intérprete autêntico e único deste estado de consciên­ cia. e a existência de um direito ocasional para cada caso concreto. o Reichsgericht. segundo a qual o juiz é o Führer dentro do processo. que em 1938 (“Nazional socialistichc Recht und Rechtsdenken”. Este princípio do povo como comunidade vivente. a base. . Se o cidadão se queixa ao Führer que a sentença é injusta. opúsculo) sustentou. No processo judiciário o direito é declarado através da única expressão possí­ vel. admite sempre uma espécie de recurso hie­ rárquico. Não se chega. que é a do Führer. mas o povo. tomando como ponto de partida o acima menciona­ do.). “O juiz não seria mais um meio que o Estado põe à disposição das partes. evidente­ mente. Pelo contrário. Mas. ROTHENBERGER. 1935. 504 e segs. não pôde suportar algumas objeções fundamentais.10 Leituras Complementares 323 reito subjetivo. como novo aspecto da doutrina. que parecia destinada a triunfar. consequen­ temente. não é o Estado. pp. um estado de consciência popular. que o direito é o reflexo da consciência popular. a supressão do direito como norma. Pois que o direito (nessa doutrina) reside no povo e é mister interpretá-lo. a doutrina procurou novos fundamentos para assentar o princípio: De um lado. sustenta. Isto supõe. 1937. em um ensaio aparecido em 1937 (“ Richterliche Unabhãngigkeit und Dienstaufschit”. segundo seus próprios definidores. em compensação. por exemplo. 637). O Führer é o investigador ou pesquisador do direito. e como o povo não tem fisicamente um órgão único de expressão. mas como membro ativo da comunidade. e trata de ex­ traí-lo na forma mais pura possível da consciência popular. As palavras textuais dc SEYDEL. Uma delas. conduziu ao que se chamou “doutrina do Führerprinzip”. Não está acima das partes como órgão neutro. Outra fundamentação ou justificação mais profunda do referido princípio provém dc FREISLER.

em sua feição extremada de niilismo legislativo. acrescenta a respeito: “ Acceptance o f it leads to the logical consequence that rules o f law have no official or hinding character and are in their nature oflittle importance. pg. de acordo com esta tendência extrema. in “Récueil”. Neste dia o Führer dis­ se. of aholishing or wishing to abolish ali conceptual thinking in law.324 Teoria Geral do Estado A culminância desta doutrina foi efetuada por BAUMBACH (“Zivilprozess und frciwillige Gerichtsbarkeit”. Esta é a doutrina alemã até I o de Setembro de 1939. não obstante. Freies Recht). it would seem. and discretion” (“Libre Recherche in America”. apenas uma espécie de absolutismo invertido. tome II . é nada” (“The Problem of the unprovided case”. O professor americano ALBERT KOKOUREK assim descreve as tendências extremistas que surgiram nos Estados Unidos: “Some writers have gone to the length. Some of th em would rest legal judgements entirely on the intuition of the judge. in “Zeitschrift der Akademie”. cit. Ao passo que sob o velho absolutismo a re­ gra legal era tudo. rules. Vemos como ele friza.Les sources générales des systèmes juridiques actuels”. na doutrina de FREISLER. Vemos aí a cha­ mada individualização do direito. . cit. standards. segundo o qual devia ser suprimida a jurisdição. 1938. A doutrina dc BAUMBACH. a individualização extremada do direito é uma ideia preconizada pelos adeptos do Freiesrecht. uma observação à exposição do professor COUTURE. “free judge” movement. “free judicial power” movement. No que toca ao aspecto político das ideias extremadas do direito livre. Law would not any longer he a compound of unformulated postulates. By th is Une of reasoning the judge is made free. principies. if not as a rational human heing E KOKOUREK conclui com acerto: “In its extreme forms the \ fre ejudge’ movement in America is nihilistic in tendency”. que ficaria absorvida pelo que hoje chamamos “jurisdição voluntária”. as regras legais deixam dc ter razão de existência numa orga­ nização jurídica perfeita. o pro­ fessor americano JO H N D ICK IN SON afirma que tais ideias são “de fato. sob o novo absolutismo. suprimir a justiça para transformá-la cm um poder administrativo dc fundamento discrecionário. 583). mas os fatos. que não era mais o direito. Ora.). e a existência de um direito ocasional para cada caso concreto.. Adiante. Esta escola ou método (direito livre. in “Récuéil d’études sur les Sources du Droit en Phonneur de François Gény. 461). que começavam a funcionar. Agora. as an officer o f the State. em sua qualidade de chefe de governo. a supressão do direito como norma. é de tendência niilista. pelo menos quando considerada em seus repre­ sentantes mais extremados. p. Com efeito. não fez caminho.

com efeito. pg. Esta atitude da Escola Histórica . con­ cepção do direito livre foi forjada pelo hitlerismo. tirania ou despotismo. 1932. que é uma expressão das tendências extremadas do Freies Recht. subs­ tituindo a “consciência coletiva” pela “consciência nacional-socialista”.que o eminente T H E O D O R STERNBERG apodou de fetichismo espiritual . 23) JOSÉ PEDRO GALVÃO DE SOUSA Conceito e natureza da sociedade p o lítica (São Paulo. O Estado Nacional-Socialista habilmente apossou-se das ideias básicas da Es­ cola Histórica de SAVIGNY. uma nova e original. a ce qu il considere comme rexpression de la conscience collective du peuple. e incorporou-as cm seu misticismo jurídico. Ela é. na extensão em que ele não é ligado pela lei. il rihésitera guère à préférer a sou imparfaite traduction la révélation directe de cette source commune et plus profonde” (“Méthode dMntérpretation et Sources en Droit Privé Positif”. pois assevera: “Ser governado por um juiz é. mas também paradoxal e ilusória. mas não deixa de ser tirania” (“Positivism and the Limits of Idealism in the Law”. 258). 1927. Deve também observar-se que a “consciência nacional-socialista” e a “vontade do Führer” se confundem praticamente. 237).10 Leituras Complementares 325 O professor M O R R IS R. 27. O resultado final é um critério perfeitamente autocrático de aplicação. au moment ou il doit appliquer la loi. répugne.1.) . Ela pode muitas vezes ser inteligente e benevolente. C O H E N é exatamente da mesma opinião de DICKINSON. 1949. Se a doutrina nacional-socialista parece aderir a este niilismo legislativo. afim de afastá-las pela simples ação do juiz. A atitude da Escola Histórica em face da autoridade da lei é assim sintetizada por GÉNY: “5/ la pensée du législateur. “ Columbia Law Review”. KOKOUREK também é do mesmo sentir: “To rest the task o f legal justice entirely on the judgey s discretion would be nothing less tban a surrender to tyranny” (op. cumpre observar que seu horizonte político é muito diferente.foi adotada pelo Estado Nacional-Socialista. lamen­ tavelmente enxertado no tradicional corpo dc leis que o nacional-socialismo já en­ contrara. paradoxal e ilusória porque o intérprete tem de ater-se à vontade real ou presumida do Führer. telle qu’elle se dégage du sens naturel et normal du texte. suivant le sentiment personnel de /’interprete. cit). Em conclusão.

E. em tor­ . lembremos antes dc mais nada o conceito dc sociedade cm geral. resultante da prática de actos racionais e livres. Chegamos assim ao terceiro elemento de toda sociedade: a união moral. quer dizer. pois como nos ensina a filosofia o fim é a primeira das causas. “c uma substância individual dc natureza racional” . Não se deve confundir sociedade com multidão. Para determinar exatamente o conceito c a natureza da sociedade política. b) pessoas ou indivíduos racionais. o filósofo que. A palavra originária. por exemplo. Os primeiros desses tipos. Quanto à aldeia.326 Teoria Geral do Estado 1a Parte A sociedade política. é muitas vezes um tipo interme­ diário entre a família e a tribo. Sociedade é uma reunião de pessoas. com o ajuntamento de pessoas numa praça. Tornou-se clássica a definição dc pessoa formulada por Boccio. dc civitas. num estádio. Só entre pessoas há sociedade. pro­ curava a consolação da filosofia para balsamizar seus sofrimentos. escre­ via Boccio. de polis. o fim. a razão de ser de qual­ quer sociedade: o bem comum. torna-se fácil perceber cm todos eles alguns característicos fundamentais comuns. quer dizer. Sem colaboração voluntária dos sócios não pode haver sociedade. de seres racionais. além de voluntária. o que não se dá. pois lhes falta o conhecimento do fim social e a cola­ boração voluntária para alcançá-lo. tem a mesma significação: a cidade. Sociedade c a união moral e permanente dc várias pessoas cm vista dc um fim comum. tal colaboração deve ser permanente. Em primeiro lugar. designando não a urbs. “civil". pela sua maior simplicidade e também pela ordem cronológica. isto é. Os animais gregários. como as abelhas ou os castores. c) união moral e permanente. Nessa breve definição encontramos os seguintes elementos: a) fim ou bem comum. Analisando-sc os diversos tipos dc sociedade política encontrados através da história. o que hoje chamamos de Estado. Todas essas notas do conceito genérico de sociedade devem naturalmente exis­ tir no conceito dc socicdadc civil ou política. grega ou latina. Resta saber quais as notas específicas deste último. “Pessoa”. num teatro. Caracteriza-se pela localização territorial. no cárcere. são a aldeia e a tribo. não consti­ tuem verdadeira sociedade. seus elem entos com pon entes e principais ca ra cte rística s As expressões “sociedade política” e “sociedade civil” equivalem-se na etimo­ logia: “política”. Reaparece frequentemente 11a linguagem dos escritores de hoje uma ex­ pressão muito antiga das mais sugestivas para indicar o fim. mas a comunidade or­ ganizada politicamente. a tribo fun­ da-se em vínculos de parentesco. Sociedade de pequenas dimensões.

da aldeia c da tribo. Com efeito. pois. no sentido em que aqui o tomamos. Dcssc caos originário te­ riam saído.10 Leituras Complementares 327 no do mercado ou da cidadela. O Império. Uma transformação em tudo semelhante ao processo evolutivo do cosmos. Partindo. Em todas essas formas dc sociedade política um fato resulta desde logo pa­ tente. O indivíduo nunca está abandonado a si mesmo ou aos poderes absolutos da comunidade total. é formada por famílias de procedência diversa associadas num mesmo local. A organização política da N a­ ção é o que propriamente sc entende hoje por Estado. de­ senvolvendo-se em torno de um mesmo tronco. aplicando-se aqui os elementos acima discriminados como partes lógicas do conceito de sociedade. podendo neste caso também haver associação ou confederação de Estados. sociedade rudimentar e indifercnciada. aos poucos. as sociedades heterogêneas cm que os grupos familiares sc foram constituindo até chegar aos clãs matronímicos ou patronímicos e depois às pequenas famílias agrupadas em aldeias. cujos membros estariam dc tal modo absorvidos pelo todo coletivo que nem sequer teriam consciência dc sua existência pessoal. A tribo. Fato importantíssimo este para assinalarmos com precisão a natureza da so­ ciedade política. . Sociólogos evolucionistas falam-nos da horda. à formação dos mundos oriundos da nebulosa primitiva e à diferenciação das espécies segundo o quadro traçado em esquemas simplifica dores e arbitrários. A cidade pode ser constituída por uma confederação de tribos que se torna se­ dentária. O postulado da horda é uma hipótese absurda. É um pressuposto ideológico que tem contra si o relato bíblico da criação do homem e da constituição da primeira socie­ dade por Deus. seja esse povo dominan­ te de estrutura tribal e patriarcal (Impérios do oriente). apresenta-nos um vasto organismo administrativo e a centraliza­ ção política com o predomínio de um povo sobre outros. devemos fazê-lo levando em conta as peculiari­ dades distintivas do tipo de sociedade cuja fisionomia nos interessa agora traçar. o Império c a Nação. Repelem-no a história e a etnologia. dá origem às sociedades patriar­ cais. podemos considerar os diversos tipos dc sociedade política na ordem cm que sc sucederam historicamente c veremos então formarem-se a confederação dc tribos. Daí a polis e a civitas dos antigos. gerada pelo naturalismo so­ ciológico do nosso tempo. a tradição oral dos povos mais antigos e dos selvagens de hoje. de organização citadina (Império Romano: predomínio de uma “cidade” sobre outras e sobre outros po­ vos) ou de formação nacional (Império Britânico). e além disso faz parte de outros agrupamentos sobrepostos ou de qualquer modo relacionados entre si. Outras vezes. surgindo quase sempre no centro de uma área de terra cultivada. a cidadc. Pertence sempre a um grupo familiar que se integra no todo social.

nos é dada pela pró­ pria união dos seus membros. do seu constitutivo essencial. que não exclui a liberdade. É através desses agrupamentos. a sociedade política não resulta de uma simples soma de indi­ víduos. Apliquemos. Fica faltando a causa eficiente. princípio de uni­ dade social. Se isto se dá com as coisas da natureza física. A sociedade política resulta da ten­ dência natural do homem para a vida em comum. Como ficou dito. causas intrínsecas. fator da efetiva coordenação das vontades individuais em vista do bem comum. unificando-os na prossecução do bem comum. como de toda sociedade. por essa conjugação de esforços que a autoridade torna efetiva e assegura permanentemente sob uma determinada ordenação jurídica. A causa material da sociedade política está nas famílias e nas outras associa­ ções. pois. Para saber cm que consiste o bem comum. é prcciso. nunca se vê o indivíduo isolado sem vínculos sociais em face da civitas. Toda sociedade requer necessariamente uma autoridade. Tanto a causa final como a causa eficiente são causas extrínsccas. que pela sua ação forma todas as sociedades de que participa. Causa final é o bem comum das pessoas reunidas política 011 civilmcntc. sem cuja ação unificadora e coordenadora nem a causa final seria alcançada. Muitos erros se têm cometido por não se levar em conta devidamente qual a matéria societatis nas comunidades politicamente organizadas. Causa eficiente é o próprio homem. especialmente a família. Mas a constituição de qualquer coisa depende do fim para que é feita. A causa formal e a causa material. A forma de um instrumento se modela con­ forme o fim a que se destina. E a sua matéria. e sua matéria não consiste 11a massa amorfa dos cidadãos. cuja determinação nos faz conhecer a origem da sociedade. ter presente a finalidade pessoal do homem. temos que considerar a autoridade. naturais ou voluntárias. pela sua cooperação voluntária em vista do escopo comum. não me­ nos importante é a consideração do fim em se tratando do ser social. cuja natureza nos escapará por completo se não tivermos presente a razão de ser sociedade. a causa material (pessoas) e a causa formal (união moral).328 Teoria Geral do Estado Os elementos já mencionados indicam-nos a causa final da sociedade (bem co­ mum). A forma da sociedade política. antes de mais nada. Toda sociedade política é uma sociedade composta de outros agrupa­ mentos reunidos entre si e subordinados ao poder que se constitui acima destes cír­ culos sociais menores. Por outras palavras. Além desses elementos. dc que se constitui? Aqui está um ponto nevrálgico na concepção da sociedade civil. é que nos dão propriamente o conhecimento da natu­ reza de um ser. nem a causa formal teria realização concreta. que o indivíduo se integra 11a vida social. que a compõem. Esta causalidade eficiente pode dar-se pela vontade livre do homem (sociedades puramente voluntárias) ou então por uma inclinação natural. estes elementos à sociedade política. O Estado é pre­ . su­ bordinados a uma autoridade suprema. isto e. é o termo a que se dirigem as so­ ciedades mais simples.

na ordem social. Podem mesmo deixar de existir. O núcleo familiar exis­ te sempre. além da pluralidade de pessoas. em que se decompõe o complexo orgânico. sem cair no exagero dos que a identificam em tudo aos corpos vivos. estas energias. que geralmente compreende também outros agrupamentos. Como a célula é a última parcela de vida. de época para época. Comparando-se a sociedade a um grande organismo. formam a socie­ dade civil ou política. sc bem que imperfeito. Nações independentes constituem-se em Estado. Estes agrupamentos. resultam do trabalho das células assimilando os elementos indispensáveis à subsistência de todo o corpo. O Estado é a sociedade política mais desenvolvida. por sua vez. cons­ titui o núcleo fundamental da comunidade. Supõe agrupamentos de longa formação histórica. 3) Organização dos bens particulares. c o Estado pode ser defini­ do como a organização política da Nação. variam de sociedade para sociedade. Mas a so­ ciedade política supõe. assim definir a sociedade política: conjunto de famílias e de outros grupos. tampouco na organização da coletividade pelo poder central. pois necessita. a aldeia. A família é unidade social. a não ser em sociedades decadentes e profundamente alteradas 110 ínti­ . pois. simples reuniões de famílias.10 Leituras Complementares 329 cedido de uma estrutura social organizada que nele se aperfeiçoa e cujo fundamen­ to natural e histórico não está na ação dos indivíduos solitários. cujo remate é quase sempre uma nacionalidade plena­ mente constituída. organizados juridicamente. Entretanto. Podemos. para dar à Nação existência ju­ rídica. das energias que circulam por todo o organismo. À família se tem chamado a “célula social”. para subsistir. A célula é unidade vital. Constitui um centro relativamente autônomo de vida. É uma sociedade composta de outras menores. Dentre estas merece particular aten­ ção a família. Surge 110 termo dessa formação. § 1o Pluralidade de grupos E óbvio que sem pluralidade de pessoas não pode haver sociedade. como se dá com as sociedades políticas mais elementares: a tribo. sob a direção dc uma autoridade cen­ tral suprema. Passemos a um breve exame dc tais propriedades. assim também a família. mas no dinamismo dos grupos so­ ciais autônomos convergindo para uma commnnitas communitatum. pode-se verificar que a família aí exerce uma função análoga à da célula num todo orgânico. porém. pluralidade de grupos. 4) Unidade interior dos vínculos sociais c coordenação exterior. 2) Formação histórico-natural. Reunidas as famílias. Em toda sociedade política e particularmente no Estado encontramos os se­ guintes característicos: 1) Pluralidade de grupos.

Eis por que a organização corporativa da sociedade é algo que corresponde à própria natureza das coisas. c um organismo completo. Outra formação natural que poderíamos ainda citar é o município ou a comuna. Mas esta integração sc faz também através dc outros agrupamentos. não admira que haja uma tendência nos trabalhadores de determinada profissão para se associarem ten­ do em vista o aperfeiçoamento do ofício. Inserindo-se no plano do espiritual e do temporal. preparando-o para alcançar todos os bens da natureza racional. Dccorre da própria constituição do ser humano e da diferença de sexos. A agre­ miação profissional é uma sociedade de