MARCUS CLÁUDIO ACQUAVIVA

TEORIA GERAL DO

Teoria Geral

do Estado
3 a edição

Teoria Geral

do Estado
MARCUS CLÁUDIO ACQUAVIVA
Professor na Faculdade de Direito da Universidade Presbiteriana Mackenzie

3a edição

Manole

€ > Editora Manole Ltda., 2010, por meio dc contrato com o autor.

Capa: Departamento de Arte da Editora Manole Imagem da capa: Giuseppe Cesari Este livro contempla as regras do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa dc 1990, que entrou cm vigor no Brasil. Dados Internacionais de Catalogação 11a Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Acquaviva, Marcus Cláudio Teoria geral do Estado / Marcus Cláudio Acquaviva. - 3. ed. Barucri, SP : Manole, 2010. ISBN 978-85-204-3026-2 1. O Estado 2. Estado - Teoria I. Título.

09-12088

CDD-320.101

índice para catálogo sistemático: 1. Teoria geral do Estado : Ciência política

320.101

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“ PRAXÁGORAS - Quero que todos tenham um quinhão dos bens comuns, que a propriedade seja de todos; de hoje em diante, deixará de haver distinção entre pobres e ricos; não se repetirá o caso de possuir um homem vastas extensões de terras, enquanto outro não tem sequer o suficiente para cavar a sua sepultura... É meu propósito que seja um só o modo de vida de todos... Para começar, farei que toda a propriedade particular se torne bem comum. BLÉPIRO - Mas... quem fará todo o trabalho? PRAXÁGORAS - Para isso haverá escravos.” (Da comédia de Aristófanes Kcclesiazusae, apud Pitigrilli, Dicionário anti-loroteiro, Rio de Janeiro, Vecchi, 1956, p. 44)

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Quercus. . o matou com um golpe de enxada!2 É evidente que. menos a menina Réia Sílvia. Rômulo ganhou a aposta. pelo que retornaram a Alba Longa. que fundou Alba Longa. constrangendo-a. p. não ter filhos que pudes­ sem se vingar no futuro. com um pontapé. 2007. os primeiros lances da construção. os amamentou! Os dois cresceram e conheceram sua história. 1961. um estudo mais sério dos fatos não admite mais tanta fantasia. fiel ao juramento e friamente. Indro. porém. Mandou colocar os gêmeos num cestinho de vime e soltá-los 110 rio Tibre. chegou à Itália. até que combinaram o seguinte: aquele que adivinhasse o número de pássaros que num dado momento sobrevoariam o local. por obra dos irmãos Rôm ulo e Remo. Remo. Após oito gerações. em per­ feita harmonia de ideais. restaram pou­ cos sobreviventes entre os vencidos. múnus que a obrigava a preservar a virgindade e. por isso a cidade chamar-se-ia Roma. m o n t a n e l l i . Ilustração extraí­ da de p o t t e r . os recém-nascidos faziam ta­ manho berreiro que atraíram a atenção de uma loba. para que se afogassem na correnteza. de Giuseppe Cesari. Enéias. aguardou o resultado. que cm vez de matá-los. De­ marcaram os muros da cidade. C. Ibrasa. apesar de tudo. que após va­ gar sem destino pelo mundo. Londres. Empcrors ofRonte: the story of imperial Rome from Julius Caesar to the last emperor. Acontece que o deus Marte se apaixonou por Réia Sílvia. onde. p. derrubou. acabando por se fixarem no mesmo local onde o cestinho em que embarcaram encalhara. História de RomaySào Paulo. De onde vinham os dois? Vejamos. Sequiosos de aventura. indo em busca de novas terras. que expulsou seu concorrente e mandou matar todos os filhos deste. A tradição a fez fundada aos 21 de abril de 753 a. com a qual teve um filho. depuseram Amúlio e fizeram retornar Numitor.RÔMULO E REMO E AS ORIGENS MÍTICAS DE ROMA1 Roma. a quem deram o tro­ no. dois irmãos descendentes de Ascânio. na região do Lácio desposou a jovem Lavínia. que um dia foi a capital do mundo. Numitor e Amúlio. David. 1-3. daria seu nome à nova urbe. ao que Rômulo. Entretanto. passaram a disputar o trono da cidade. engravidando-a e suscitando a cólera de Amúlio que. porém. 17. não esperaram para receber a herança e o trono do avô. a se tornar sacerdotisa da deusa Vesta. a pro­ 1 2 Imagem da capa: Rômulo e Remo amamentados pela loba. cidade eterna! Este conhecido axioma insinua a alta antiguidade des­ ta metrópole. começaram a discutir. despeitado pela derrota ou por infeliz gracejo. um príncipe. o vento soprava forte e o cesto encalhou a pequena distância. Ainda que verdadeiro o episódio do abandono à morte dos gêmeos. com isto. filha do rei Latino. que con­ sistiu em dois robustos garotos. hoje. Fundaram uma pequena cidade. com vantagem para Amúlio. Ascânio. quando se tratou do nome a ser dado à povoação. Quando os gregos conquistaram e destruíram Tróia. jurando que matariam quem ousasse transpô-los. Dentre estes..

especialmente a partir da tomada do poder pelos monarcas etruscos. sempre orgulhosos dc si mesmos. p. criando-se. 3. Vozes. literalmente um animal. de uma mulher chamada Aca Larência. Introdução à história da antiguidade. ate sobrenatural. C.. na verdade.3 Por outro lado. O fato é que os primeiros romanos. ícone. talvez a mais glo­ riosa epopeia de um povo.teção que lhes teria dado uma loba. cabanes. pois a 4 4 loba” não passaria. Marcus Cláudio. preci­ savam passar para os filhos uma origem nobre. identificada com a cidade. que civilizaria o mundo em nome do Direito e da Pax Romana. heróica. Tem início. Notas introdutórias ao estudo do Direito. da era do bronze médio e recente. 2 0 0 9. seu apego à terra. origem nobre. no fim do século VII a. absolutamente. de muito antes de 753 a. o espírito guerreiro e.). dominadora. Quanto às verdadeiras origens de Roma. na qual se destaca. São Paulo. não tinham. as coisas não se passaram de forma tão romântica. C. sem dúvida. a imagem da loba romana. Os gê­ meos que ela amamenta foram acrescentados no Renascimento. violenta e adúltera. zombeteiramente. se­ gundo Políbio de Megalópolis. pois numerosos testemunhos arqueológicos. “a loba”. C. no período republicano. malcria­ da. p . melhor que qualquer outra circunstância. tangida por cidadãos cuja probidade e amor ao bem público esclarece.. desde logo. paludosa e insalubre. É provável que as agruras por que passaram tenham forjado seu caráter rude. seus costumes auste­ ros. 1992. inconfundível e perene. a longa e profícua tra­ jetória do Estado romano. para que a sociedade nascente criasse personalidade forte. 3 4 a c q u a v iv a . 142. ed.4 O fato é que a cidade ingressa na História oficial com seus sete reis (753-509 a. uma simbologia própria. a cidade parece ser bem mais antiga do que conta a tradição. na área em que se assenta Roma. logo mais. Pcrrópolis. Parece que os primeiros habitantes da região. 48-9. Foi o que ocorreu. revelam a existência de comunidades remotas. consequentemente. Picrre. comportamento selvagem que lhe teria valido ser chamada. criando um Estado em que a forma de governo alcançaria a perfeição. . é pura lenda. seu expansionismo. tratava-se de gente humilde ou foragi­ da que se ocultava nos pântanos e sobrevivia com dificuldade.

.................................................. XV 1 A DISCIPLINA............................................................................2.......................2........................4) Natureza das relações entre o Estado e seu território enquanto base física: teorias do direito real institucional.............................................................................................2) N a ç ã o ................................43 4.....2................................................................... 39 4................1) Causas materiais................... 17 3) Direito e Estado...................................................... 37 4.................................................2) O princípio da separação de Poderes segundo Montesquieu.............................................................. 12 2) 0 Estado de Direito.........................................................................................................20 4) Causas constitutivas do Estado......................................................1) Poder político....................................... 12 1) Conceito e evolução histórica do Estado...................... do imperium e do domínio em inente......2) Causas fo rm a is ......................................................................................................... 24 4............................................3) T e rritório..........ÍNDICE GERAL APRESENTAÇÃO .............. conceito e evolução histórica da Teoria Geral do Estado.............2) 0 princípio da separação de Poderes no Estado......2.......1) Antecedentes............................................... 27 4..........4 2) Definição de sociedade .......................43 4.............................................. 8 3) Espécies de sociedades.......... 1 A SOCIEDADE E O ESTADO.......................1...............................................................................................................2......................................................................... 23 4..............1......................1 Natureza....................................................... 4 1) Fundamento da sociedade..........................................24 4............................................................................................................................................................................ 39 4........................................................................................................1.........................................................2..............1...................................... 10 0 ESTADO....... 31 4....................................................................1) Povo............... 45 IX 2 3 ...........

............................. 108 2) Formas de governo clássicas.........................................................8) Kelsen.............95 1............ 93 1.....3) A ristocracia.5) Nicolau M aquiavel................................................................................................................3......................................... 77 3) Conteúdo político das Constituições.......2......................................... 89 FORMAS DE GOVERNO.......................................................... 87 4) Estado federal.........................61 4........................... 53 4..................2......5) 0 caso brasileiro: medida provisória e lei delegada..............................5) Causa final: o bem comum....................................1) M o narq uia...................66 4 A CONSTITUIÇÃO................................................................... 118 5 6 ....................................................74 1) Conceito e evolução h is tó rica ................ 102 1...........................................................................3............ 86 3) Estado u n itá rio .................................................................... 100 1................ 53 4.... golpe de Estado e insurreição........ 47 4......51 4..............................................113 2.....1) Platão (Arístocles)..........................................7) Rousseau....................... 111 2.....................2..........................................................5.................................1) 0 liberalismo e o bem comum .........................2) A doutrina do contrato s o c ia l...............................................................................2........................................................................ 80 4) Revolução........................116 2...............................................4) C ícero.........................99 1............................................................................................56 4..................57 4.................................... 93 1...3) Soberania......................................................................................................................................................... 86 2) União real.4) Ordem jurídica......2) A ristó te le s..3............................................................................. 62 4.........................................................................................................................6) M ontesquieu.........4) D em ocracia........................................................................................................................... 93 1) Classificações antigas e modernas.........................4) Globalização e soberania .........................................5................................... 86 1) União pessoal......3) 0 Poder Legislativo.........................47 4...............................3) A doutrina da soberania lim itada..................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................82 FORMAS DE ESTADO........................................................................................2............................................................................ 74 2) Espécies.........X Teoria Geral do Estado 4.........111 2.....................................................................................................2) República.....................2) Concepção social do bem comum ........................3........................................................................................................................................1) A doutrina pactista medieval............................................. 57 4........................................................................3) Políbio de Megalópolis.............................................................................4) 0 Estado contemporâneo e a delegação de fu n çõ e s.................. 97 1. 48 4.. 104 1................................................................................................2............................................................................................................................................................

......................... 145 2.........211 6) Totalitarismo: fascismo e nacional-socialismo............................................7) Democracia e comunicação de massa....................... 186 1) Conceito de id e o lo g ia ......................................................................................................173 1) Presidencialism o............................................226 6...............................................133 2..................................................................................................................................................................2) Democracia direta....................... 179 2) Parlamentarismo............................................. sob o comando de um líder................................ militarismo e Igreja na América L a tin a ...................................................................................119 2.................................1..........139 2..............1...................................6) Partidos políticos....221 6.................................................................................... 191 4) Anarquismo e sindicalismo......1..................8) O Estado nacional-socialista e os direitos subjetivos.................176 1........................................ 187 3) Materialismo histórico e ditadura do proletariado...............................................................................1......1) Introdução ao tem a..............................119 2..............2) Sistema de partido único..............1.............................................228 8 ............................................................................................................................... 157 Caudilhismo............. 177 1......................................................índice Geral XI 3) 4) 5) 6) 7) 7 2.... 203 5) Mecanicismo e org a n icism o .............165 REGIMES DE GOVERNO.......4..........173 1.............5) Concentração dos meios militares..... 155 D itadura.....................4..........................221 6......1........3) Democracia representativa..................................................... 149 Tirania..220 6..........................................4) Presidencialismo................214 6............. 121 2...................................................................................................................................................................227 7) Humanismo s o c ia l................4) Concentração da propaganda nas mãos do Estado.......................................128 2................1) Introdução....... 219 6.............6..........................4.....................................1......................5) Sufrágio e voto.....................................................................................................................................3) Presidencialismo versus parlamentarismo na América L a tin a ..........4......................................................3) Controle policial pelo Estado................................................7) A doutrina nacional-socialista................................ 186 2) Socialismo utópico...........................9) 0 princípio da liderança (Führung) no Estado nacional-socialista..................1..................................4) Democracia sem id ire ta.......................................................................1) Os partidos políticos no Brasil......... 220 6....................................................................1.................................................. 219 6..................................................................................6) Direção estatal da economia ......................................1) Ideologia o fic ia l.................... 180 IDEOLOGIAS..............................1) Características do totalitarism o...............................................................................151 Oligarquia......................................................................................... 226 6..............4...........................................................219 6.................................... 154 Demagogiae oclocracia............4......4................................ 173 1...................................................................................................................2) Presidencialismo histórico e direito comparado............4..........................................

........................................................................................ 259 8) Karl Marx e Friedrich Engels (O manifesto com unista) .........................................................................................238 6) 0 Tribunal Penal Internacional .............................................................................................................310 20) Varlan Tcherkesoff (Erros e contradições do marxismo).l.........238 5) Os tratados internacionais (natureza e e ficá cia).........UE........... 320 23) José Pedro Galvão de Sousa (Conceito e natureza da sociedade política).................................255 6) Joseph De Maistre (O pensamento social cristão antes de M arx) .277 11) Gustave Le Bon (Leis psicológicas da evolução dos povos ) ...M ercosul...........................................................................................................................................TPI........257 7) Simón Bolívar (Discurso perante o Congresso Constituinte de B o lív ia ........................ 300 16) Georges Sorel (Reflexões sobre a violência)..... Kovaliov (História de Roma).....................................................A..............................247 4) William Shakespeare (Júlio César) .........................................292 15) Jacques Maritain (O homem e o Estado ) ...............................................233 2) A Organização das Nações Unidas .......301 17) Nikolaj Lênin (Como iludir o povo com os slogans de liberdade e igualdade) .................................235 4) O Mercado Comum do Sul .......O N U ...................................................280 12) Almeida Garrett (Obras)................................................... 230 9 0 ESTADO ENTRE ESTADOS:AS ORGANIZAÇÕES INTERESTATAIS.................................. 303 18) Léon Duguit (Os elementos do Estado)........................... de M aquiavel) ...................................1825)......................................................................XII Teoria Geral do Estado 8) Social-democracia...................................................332 25) S.......................................................................................................................................................................................................................................... 246 3) Nicolau Maquiavel [O príncipe) ....................................317 22) Alípio Silveira (Da interpretação das leis na Alemanha nacional-socialista e hitle rista ) .......................309 19) Benito Mussolini (Prelúdio a O príncipe............................................. 288 13) Alberto Torres (A organização nacional) ............................................................................................... 235 3) Direito comunitário: antecedentes da União Européia .....................................242 10 LEITURAS COMPLEMENTARES.............. 249 5) Henry David Thoreau (Desobediência civil)..........312 21) Hans Kelsen (Teoria geral do Direito e do Estado) ........................... 233 1) Natureza das Organizações Interestatais..............243 2) Santo Tomás de Aquino (Suma teológica e Suma contra os gentios) .................................. Krutogolov (Palestras sobre a democracia soviética) ..... 229 9) Neoliberalism o............................................................. 243 1) Marco Túlio Cícero (Dos deveres) ........................................................... 339 .... 289 14) Francisco José de Oliveira Vianna (O ocaso do Im pério) .................. 325 24) M................................267 9) Ferdinand Lassalle (Que é uma Constituição?) ...................................................................................................................................269 10) Fustel de Coulanges (A cidade antiga) .....................................................

... 344 6) Proclamação do Governo Provisório................................11..1823)... de 02...................... 19..............341 2) Dissolução da Assembleia Geral Constituinte e Legislativa (Decreto de 12.............................................................. 1..............................................índice Geral X III 11 DOCUMENTAÇÃO HISTÓRICO-LEGISLATIVA.................347 7) Decreto n...... de 09........................... em 15.........11.09...... M............ 13................ Pedro 1........................ de 11........1822)......................... 342 4) Proclamação de D....11............... 4.................... 364 ÍNDICE ALFABÉTIC0-REMISS1V0...........1985......01...................1930 (Institui o Governo Provisório da República dos Estados Unidos do Brasil). 341 1) Convocação da Assembleia Geral Constituinte e Legislativa (Decreto de 03...............................................1948 ...... de 10................11.....................11............. de novembro de 1823.............06.........398... 1.1964........12.......... 119-A........ de 07..............348 8) Decreto n.... 350 10) Declaração Universal dos Direitos do Homem.......349 9) Decreto n. de 15...........................................1890 (Liberdade de culto).....1889 ......... 367 ...........1889 (Proclamação da República)...................................353 11) Emenda Constitucional n.........................357 12) Preâmbulo do Ato Institucional n....................................................... 26..................... 343 5) Manifesto de S...............363 13) Emenda Constitucional n.......1961 (Sistemaparlamentarista)...................................................................04............................. de 27.......342 3) Decreto n.............................................................. o Imperador aos brasileiros..

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APRESENTAÇÃO Esta nova edição da obra Teoria Geral do Estado. as formas de Estado. O autor. que muitos denominam “internacionais”. esgotado há vários anos. as ideologias políticas (anarquis­ mo. o sufrágio e o voto. a Constituição política (con­ ceito. o con­ ceito e a evolução histórica da disciplina Teoria Geral do Estado. sindicalismo revolucionário. evolução histórica e espécies). Dentre os tópicos constantes da obra. inúmeros pedidos e incenti­ vo para a reedição do livro. incluindo tópicos como o Direito Comunitário (an­ tecedentes da União Européia) e o Mercosul. No exercício de seu magistério. em São Paulo. tendo em vista a dinâ­ mica do mundo globalizado e seus novos questionamentos. por parte de colegas e alunos. Acquaviva passou a dedicar grande parte de seu tempo na revisão e na ampliação substancial do conteúdo do livro. os partidos políticos. Várias inovações enriquecem a obra. análise minudente sobre o princípio da separação das funções do Estado e um capítulo sobre as organizações interestatais. é advogado e leciona na Faculdade de Direito da Universidade Presbiteriana Mackenzie. a definição e as espécies de sociedade. cumpre mencionar a natureza. po­ der político. de modo a atender praticamen­ te a todos os programas da disciplina determinados por universidades e faculdades de Direito. território. social-democracia e outras) e as organizações interestatais. o conceito e a evolução histórica do Estado. a democracia. Marcus Cláudio Acquaviva. Consciente da necessidade de republicar a obra. o Prof. recebeu. marxismo-leninismo. Além desse nobre material de pesqui­ XV . acha-se inteiramente revista e ampliada. conhecido mestre de Direito. o Estado de Direito. as formas de governo an­ tigas e modernas. as causas constitutivas do Estado (povo e nação. os regimes de governo (presidencialismo e parlamentarismo). ordem jurídica. com destaque para uma abordagem aos partidos políticos no Brasil. o fundamento. do Prof. bem comum). soberania.

1889 (Proclamação da República).XVI Teoria Geral do Estado sa.398. dentre outros clássicos. 19. de 15. Karl M arx e Friedrich Engels. uma pesquisa com mais conforto e rapidez. Lênin. o autor promoveu inúmeros acréscimos ao próprio texto. Gustave Le Bon. a antologia de clássicos da Política e da Teoria Geral do Estado foi. Shakespeare. valendo des­ tacar o Decreto n. e mesmo ao professor. . Isso permitirá ao aluno. também. de 02. a partir do Primeiro Império brasileiro até a atualidade. dentre esses oportu­ nas referências a autores de nomeada.09.1961 (Sistema parlamentarista dc governo). a Declaração Univer­ sal dos Direitos do Homem. e também para enriquecer a informação aca­ dêmica. Encerrando o conteúdo desta. Benito Mussolini e Hans Kelsen. Um dos maiores atrativos da obra. Participam da antologia. isso sem mencionarmos outros textos de grande valor doutrinário constantes da primeira parte da obra. Maquiavel. 4. passando a contar com mais ex­ certos de obras famosas e de difícil acesso para o estudante.11.1948 c a Emenda Constitucional n. 1.12. de 11. Cícero. cm face dc sua rarida­ de ou alto custo.11. aumentada.1930 (Governo Provisório da República). uma oportuna documentação histórico-legislativa pertinente à Teoria Ge­ ral do Estado. o Decreto n. Santo Tomás de Aquino. de 10.

1981. ainda. 1 .. Dalmo de Abreu. ed. 2.. a Anatomia e tantas outras matérias congêneres constituem a base dos estudos espe­ cíficos no campo das Ciências Médicas. entre tantas outras. fis­ cais e servidores públicos. como o Direito Administrativo. Rio de Janeiro. Da mesma forma que a Biologia. 1970. lo. s il v e ir a n e t o . ed. o iniciante do curso jurídico se depara com uma série de disciplinas denominadas básicas. como magistrados. mediante seus órgãos concretos. Teoria do Estado. São Paulo. f is c h b a c ii. Paulo Jorge de. um fiscal de rendas impõe multa ao contribuinte faltoso. é o F^stado. cuja finalidade é orientá-lo quan­ to aos fundamentos do Direito e da sociedade. à qual todos devem sub­ meter-se em prol do interesse público. Forense. Quando um juiz comina pena de prisão. a Introdução ao Estudo do Direito. entidade imaterial. . CONCEITO E EVOLUÇÃO HISTÓRICA DA TEORIA GERAL DO ESTADO Bibliografia: l im a DALLARI. a Sociologia e a Economia visam propiciar conhecimentos bá­ sicos para a compreensão e a própria justificação de disciplinas mais específicas. a Teoria Geral do Estado. 1985. 7. Saraiva. Elementos de teoria geral do Estado. Ao ingressar na Faculdade de Direito. São Pau­ O. Honório. Bushatsky. que faz valer a vontade da lei. 1981. G.A DISCIPLINA NATUREZA. Nacional. o Direito Penal e o Direito Tributário. Curso de teoria do Estado. Teoria general dei Estado. restaurantes e condomínios e o álcool nas rodovias. uma autoridade judicial intima alguém para depor em proces­ so ou para atuar como mesário ou apurador de votos cm uma eleição ou. proíbe o fumo em bares. México.

se o instrumental de trabalho do bacharel em Direito é a lei. Doutrina do Estado ou. vale observar que as obras ancestrais dessa disciplina são as de Platão (429-347 a. ideias inseparáveis. ainda.C. e Doutrina do Estado. a Teoria Geral do Estado é especulativa. Am­ bos dissertaram sobre temas referentes às relações entre o poder social e o poder espiritual. sob os mais variados pontos de vista. Science Politique. embora Aristóteles seja considerado seu funda­ dor. inevitavelmente. mas o estudo do Estado em abstrato. do que re­ sultou a mais famosa de suas obras. A denominação Teoria Geral do Estado. e não prática. na qual recomenda a separação e a mú­ tua independência entre Igreja e Estado. uma vez que. preferida por Alessandro Groppali. com o tratado A ci­ dade de Deus. livro este considerado precursor da mo­ derna ideologia totalitária. Conta-se que Aristóteles visitou nada menos do que 150 países. reitor da Universidade de Paris. dc uma disciplina como a Teoria Geral do Estado. sendo seu objeto não a análise dc um Estado concreto.) e Cícero (106-43 a. devido ao seu tratado Política (de polis. Daí a precisa definição da Teoria Geral do Estado formulada por Paulo Jorge de Lima: “disciplina de caráter teórico e geral. organização e ideologias políticas. proveniente da expressão alemã Altgemeine Staatslehre. como instituição universal. não podendo haver ciência do particular. como sonegar ao estudante uma sólida formação ética a respeito dos funda­ mentos do Estado.). No ocaso da Idade Média surge Marsílio de Pádua. e Santo Tomás de Aquino (1225-1274). adotada por Hermann Heller. evolução. também denominada Teoria do Estado.C.C. e os franceses. Na Idade Média destacam-se Santo Agostinho (354-430). portanto. inclusive. como Parte Geral do Direito Constitucional Positivo. Ora. Sendo eminentemente teórica. e o segundo enaltecendo a ortodoxia católi­ ca. como origem. cidade). estudando suas instituições e leis. no curso jurídico. em que analisa as origens do Estado e as formas de governo existentes em seu tempo. Direito Cons­ titucional I. não só quanto ao seu conteúdo econômico-social como no tocante às suas formas jurídicas e. com a obra Defensor pacis (1324). a inteligência com a fé. como o demonstra o Prof. sendo suas obras principais a Suma teológica e a Suma contra os gentios. do Direito e da própria sociedade? Daí plenamente justificada a existência. gerai D aí as vertentes Teoria do Estado (Staatslehre). sendo a lei a formalização da vontade estatal. José Pedro Galvão de Sousa .). Todavia. o primeiro buscando conciliar o platonismo com os dog­ mas cristãos. ingleses e norte-americanos denominam essa disciplina Political Science. às suas manifestações ideo­ lógicas”. uma teoria é. Aristóteles (384322 a. que tem por objeto o estudo do Estado como fenômeno social e histórico. pecando por redundância. sempre recebeu críticas pelo adjetivo geral que contém. Quanto à evolução histórica da Teoria Geral do Estado. cujos escritos apresentam robusto matiz político.2 Teoria Geral do Estado Estado e Direito são. específico. criada em 1672 pelo holandês Ulric Huber.

ju­ rista emérito e fundador do Direito Público alemão. como se constata em suas obras O príncipe e Dis­ cursos sobre a primeira década de Tito Lívio. com Tratado sobre o governo civil. com Georg Jellinek (1851-1911). . destacam-se Thomas Hobbes (1588-1679). John Locke (1632-1704). com O contrato social. com Leviatã e Do cidadão. a Teoria Geral do Estado tornou-se uma disciplina independente. publicada em 1972. na Alemanha. até 1940 não se falava em Teoria Geral do Estado.1 A disciplina 3 em tese primorosa intitulada O totalitarismo nas origens da moderna teoria do Es­ tado. Somente no século X IX . N o Brasil. Após Maquiavel. com O espírito das leis. A evolução histórica da Teoria Geral do Estado recebe considerável impul­ so com Nicolau Maquiavel (ou Machiavelli). célebre escritor político florentino que viveu entre 1469 e 1527. mas em Direito Piíblico e Constitucional. que buscaram revelar o fundamento do poder político e da sociedade na própria natureza hu­ mana e na vida social. Montesquieu (1689-1755). e Jean-Jacques Rousseau (1712-1778). Nesse ano ocorreu a separação: a Teoria Geral do Estado passou a ser disciplina autônoma e o Direito Público e Constitucional a denominar-se apenas Direito Constitucional.

pouco valori­ zada. Quando. São Paulo. 1998... O pânico e a de­ sesperança acabam quando. Conceito e natureza da sociedade política. José Pe­ Fjnbora seja o Estado a mais complexa das sociedades. Geneviève. 2000.2 A SOCIEDADE E O ESTADO 1) FUNDAMENTO DA SOCIEDADE Bibliografia: A política. Por nascermos em sociedade. porque nos consideramos ilimitadamente autossuficientes. sem celular ou qualquer outro meio de comunicação. ed. quem sabe. e “A palavra e o discurso”. Editorial Estampa. 1984. dada a vinculação daquele a esta. afasta­ 4 . uma voz amiga e trêmula pelo susto das pancadas na porta nos acalma e garante que a assistência técnica não demora e que tudo está sob controle. tins Fontes. Fondo de Cultura Econômica. no 12° andar? Fim de semana. v. c a l a m e -g r i a u l e . é indispensável abordar a socie­ dade em geral. Pois bem. 5. Jean Poirier (org. 1949. conhecidas ou não. 1926. 2.B. prédio vazio e silencioso. Thomas. hobbes.. porém. in His­ tória dos costumes. expediente encerrado. do lado de fora. A interação mais ou menos intensa que man­ temos com todos torna-se repetitiva e. tradução e adap­ tação de D. Mar­ Ar i s t ó t e l e s . por isso mesmo.. dro Ciaivão de.S. São Paulo. 2. despertamos para a assustadora realidade da solidão e da impotência para sobreviver! Sozinhos. em face de um infortúnio. isolamo-nos de forma involuntária. ed.. manifestação suprema do espírito objetivo no mundo. durante horas. num velho eleva­ dor. Ludgero Jaspers O. São Paulo. como queria Hegel. Lisboa. Manual de philosophia. despercebida. So u z a . raramente nos damos conta da importân­ cia disso para nossa realização plena. tradução de Roberto Leal. em convívio cotidiano com outras pessoas.). México. Leviatan. já vivenciou o leitor a desagradável experiência de permanecer trancado.

que nada faz em vão. ou sociedade política. o homem é um animal cívico. sem a realidade. Este comercio da palavra é o laço de toda sociedade doméstica e civil. só conservam o nome e a aparência. Estes são apenas a expressão de sensações agradáveis ou desagradáveis. um ser sociável por natureza. A natureza. que se quebra na mais leve brisa. sem família e sem leis”. como nós. é até mesmo o primeiro objeto a que se propôs a natureza. Santo Tomás de Aquino (1225-1274). por sua natureza e não por obra do acaso. a inclinação na­ tural levou os homens a este gênero de sociedade. ou é um deus. dotado de carisma (graça divina). estaria sempre pronto para cair sobre os ou­ tros. como uma ave de rapina. do justo e do injusto. Assim. capazes. con­ firmando a assertiva de Blaise Pascal de que o homem não passa de um caniço pen­ sante. Temos a nosso favor apenas a inteli­ gência. Nada pior que o isolamento forçado. semelhantes às mãos e aos pés que. todas distintas por seus poderes e suas funções. A natureza deu-lhes um órgão limitado a este único efeito. o maior filósofo da Cristandade. sociável por natureza. damo-nos conta de nossa fraqueza perante o mundo natural. ou seja. senão o conhecimento desenvolvido. Aquele que não precisa dos outros homens. que não devemos confundir com os sons da voz. portanto. a do indivíduo que. O mesmo ocorre com os membros da Cidade: ne­ nhum pode bastar-se a si mesmo. todas subordinadas ao corpo inteiro. O Estado. As sociedades domésticas e os indivíduos não são senão as par­ tes integrantes da Cidade. deixa o convívio social e retira-se para um . evidente que toda Cidade está na natureza c que o homem e natu­ ralmente feito para a sociedade política. po­ rém. O todo existe necessaria­ mente antes da parte. Aristóteles nos ensina: É. o bom-senso e os conhecimentos que a própria sociedade nos transmite. ou um bruto. ou não pode resolver-se a ficar com eles. considera que o homem. do útil e do nocivo.2 A sociedade e o Estado 5 dos de todo o conforto que a sociedade tecnológica proporciona. vale dizer. como uma mão de pedra. mais social do que as abelhas e os outros animais que vivem juntos. pelo menos o sentimento obs­ curo do bem c do mal. Aquele que fosse assim por natureza só respiraria a guerra. nós. Em sua obra clássica Política. portanto. uma vez separados do corpo. nascendo e vivendo em sociedade. o homem se mostra uma cria­ tura eminentemente gregária e comunicativa por meio de uma linguagem articula­ da. muito acima ou muito abaixo do homem. o que levou o filósofo Aristóteles a considerá-lo um ser social e comunicativo por natureza. inspi­ rando-se no próprio Aristóteles. concedeu apenas a ele o dom da palavra. objetos para a mani­ festação dos quais nos foi principalmente dado o órgão da fala. segundo Homero: “ Um ser sem lar. Aquele que. e todas inúteis quando desarticuladas. de que os outros animais são. vi­ veria em solidão apenas em três hipóteses: a) hipótese da natureza divina (excellentia naturae). não sendo detido por ne­ nhum freio e. Assim. denominando-o por isso zoon politikon. temos a mais. existisse sem nenhuma pátria seria um indivíduo detestável. Pois bem.

por natural in­ clinação. nesta. vivendo inconscientes. entretanto. O homem. a expressão alienado. desiludidos pelas mazelas do gênero hu­ mano. filósofo inglês para quem. loucura). é a origem da lei e do Estado. Ora. b) hipótese da natureza doentia (corruptio naturae). torna-se selvagem. formas que exprimem o desejo de autoconservação. 11a aferição das origens do Estado. frase criada pelo cronista latino Apuleio. formando grupos inimigos e chegando ao assassinato. Em sua visão pessimista. é resultado de um instinto. em que o indivíduo se vê privado do convívio social por um capricho do destino. pois 11a sua desgraça não teriam noção do mundo real. a dos indivíduos atingidos por anomalias físicas 011 mentais (moléstias contagiosas. o ser humano é impelido. Enfim. optam pela purificação e pelo aperfeiçoamento do espírito. como ocorreria com o sobreviven­ te de um naufrágio. monstro bíblico que empresta o nome à sua obra mais conhecida. fundado em ambição. imposta pelo Estado. para Hobbes. alheio). orgulho e vaidade (superhia vitae). a ameaça da morte imprevista e dolorosa. formando comunidades indesejáveis a grandes distâncias dos centros ur­ banos. a natureza agressiva deste o leva a investir fisicamen­ te contra seus semelhantes. caso mais comum do que se pensa. ingressando num monastério isolado.6 Teoria Geral do Estado local isolado. como fez Jesus em seu retiro 110 deserto. por não ter fundamento natu rala sociedade pressupõe uma disciplina férrea. filme em que um grupo de garotos. alheios à realidade (daí. leva o homem a conquistar poder e glória a qualquer custo. e como fazem os ermitões. As vicissitudes da clássica personagem Robinson Crusoé e. Um apetite natural e irracional. mediante uma vio­ lenta submissão do próximo. o próprio Estado. felizes na frugalidade da vida monástica e no silêncio austero que convida à espiritualidade. no cinema con­ temporâneo. . que Hobbes denomina Leviatã. escorraçados das cidades e obrigados a viver isolados. a necessidade de sobreviver impele o homem à vida comunitária. Ao contrário. da queda dc uma aeronave ou. ou seja. do excursionista que se perde 11a mata espessa durante uma caminhada mais ousada. autocrático e disposto a punir seus excessos sem contemplação poderia tornar possível a vida em sociedade. Hobbes adverte que esse fre­ nesi de dominação encontra sério obstáculo: o medo de morrer (timor mortis). é lobo do pró­ prio homem (homo homini lupus). a destruir seus semelhantes. azar (mala fortuna). sem fa­ larmos no impressionante O senhor das moscas. ilustram bem a hipótese. Para outros autores. de modo que somente 11111 governo severo. da natureza gregária do ser humano. viveriam isolados da socieda­ de. entregando-se à meditação. segundo Hobbes. sobreviventes a um desastre aéreo. qual seja. com os leprosos durante a Idade iMédia. muito menos que a sociedade e. o homem. c) hipótese da má sorte. como é sabido. do náufrago vivido por Tom Hanks. indivíduos que. sempre presente. Com efeito. como foi dito. as quais criariam uma barreira entre eles e a sociedade. Tal a posição deThomas Hobbes (1588-1679). E o que ocorria. Também os alienados mentais.

a liberdade individual. sequioso de poder e glória. procura demonstrar. para realizar seus objetivos. cada vez mais avançados nos dias que correm. é ao mesmo tempo a condição necessá­ ria e suficiente para a definição do homem. Cabe a lei preser­ var. (Manual de philosophia.Como se vê. iniciado no lar. já percebe o leitor. tão precocemente perdida. como fenômeno universal. Jean-Jacques Rousseau (1712-1778). Por outro lado. desde o nascimento aptas à luta pela vida. o homem. perdendo sua liber­ dade natural e ingressando em outra espécie de liberdade. à custa de seu semelhante. celebra um pacto social com esses. como adverte Lahr. corrompe-se. que passa a ser um fim em si mesma. e não por uma suposta inclinação natural. este nasce individualista. livre e feliz. outro indício marcante da sociabilidade humana é a própria linguagem articulada. na concepção do próprio ho­ mem: para Hobbes. num pacto ou contrato social. mas em todo lugar se acha acorrentado). grande inspirador ideológico do individualismo da Revo­ lução Francesa e mesmo das democracias liberais modernas. passando pela escola e pelos grupos sociais de variada natureza. especialmen­ te na infância? Ao contrário de muitas espécies animais. 91) . teria dito o cardeal de Polignac a um orangotango de aspecto muito huma­ no. p. logo no início do primeiro capítulo de seu famoso livro O contrato social. o ser humano recém-nascido carece de total proteção. de quem ela é um privilégio. Todavia. a civil. sucumbe. e eu batizo-te”. bom por natureza. Observa Cieneviève Calame-Griaule: A linguagem. o homem pre­ cisa do auxílio de seus semelhantes e. e não como decorrência de uma natural in­ clinação do ser humano. a disposição pura­ mente passiva dos seres sensíveis de compartilhar espontaneamente as emoções daque­ les com que vivem. que o ser humano nasce bom. Diferem. relatada por Diderot. a saber. pois sem esta. limitada. Enfim. a própria natureza humana se inclina para a vida em sociedade. mas a sociedade o corrompe de tal modo que e necessário restaurar sua primitiva liberdade individual. sobre a co­ municação animal. ele nasce bom. le bon sauvage (o bom selvagem) típico do ro­ mantismo do referido pensador. A par disso. tangido pela razão. Rousseau toma orientação semelhante à de Flobbes quanto à origem da so­ ciedade. num processo assimilativo denominado socialização. “ Fala. por isso.2 A sociedade e o Estado 7 Uhotnme est né libre et partout il est dans les fers (O homem nasce livre. Esta célebre historieta. nada abalada pelos estudos. prover sua subsistência. Com esta preocupante sentença. empre­ gada tal expressão no seu sentido rigorosamente filosófico. a todo custo. por si só. cuja finalidade não poderia ser outra senão a comu­ nicação entre as pessoas. o homem nutre simpatia (do grego syrnpathia) pela vida cm sociedade. No con­ vívio com o próximo. vindo à luz. é graças à adaptação paulatina ao modo de ser da sociedade que o ser humano vai sendo condicionado a agir conforme os valores desta. Como poderia o homem. já para Rousseau. ilustra bem a antiquíssima convicção.Na verdade.

ora regride. George. Em princípio. filóso­ fo e teólogo romano. Lições de filosofia do direito. Muito cuidado. Giorgio. Saraiva. e sem os quais este preserva sua essência. A definição de sociedade nos impõe. Lisboa.). Fruto da cultura e da experiência acumulada pelo homem. DEL V E C C H I O . quando Anício Mânlio Torquato Severino Boécio ou. Sem seus elementos essenciais. Entretanto. Agir. desde logo. estaríamos pecando por acidentalidade. que integram casualmente o objeto a definir. mostra-se dinâmica e mutá­ vel. devem constar de toda definição apenas as causas essenciais do que está sendo objeto de definição. por­ tanto. Acontece que. e ocupando um biótopo que a comunidade condiciona estrei­ tamente. pois a sociabilidade humana impli­ ca uma complexidade de relações muito mais profunda que a observada no agrega­ do animal. . características e atributos meramente acidentais. São Paulo. portanto. entretanto? É tudo o que identifica o objeto a ser definido. mas sempre em perpétuo movimento. humilde ou arrogante. define o homem como substância indivisível dotada de racio­ nalidadeypercebe-se que a razão é o elemento essencial da definição do ser humano. ela segue no rumo de formas de convi­ vência cada mais complexas. mudando na busca da perfeição. ligados entre si pela potência dos fenô­ menos interatrativos. pois seria inconcebível um gênero humano desprovido de racionalidade. lempereur. esclarecer o que é definir. retrocesso. estaremos revelando a própria essência da es­ pécie humana. consideramos oportuno estabelecer uma discriminação con­ ceituai entre a sociedade propriamente dita (união estável de seres humanos). não há que se falar em ser humano. jo l iv e t Regis. embora sempre racional. indispensáveis à definição. degeneração. ed. quando formos definir o que quer que seja. da ordem absoluta. portanto. a par dos elementos essenciais. honesto ou desonesto. Agnes e t i i i n e s . 13. renovando seus valores. Haverá erros.8 Teoria Geral cio Estado 2) DEFINIÇÃO DE SOCIEDADE Bibliografia: 1948. Sem racionalidade. Dicionário geral das ciências humanas. advertem Agnes Lempereur e Georges Thines. não sendo. Edições 70. A sociedade propriamente dita. se defi­ nirmos o homem como ser racional. . Omnia definitio periculosa est.C. Como definir a sociedade? Do ponto de vista puramente biológico. Definir é revelar a essência do definido. a sociedade é a comunidade animal natural que agrupa indivíduos da mesma espécie. denominados acidentais ou con­ tingentes. simplesmente. todavia a so­ ciedade estará. São Paulo. Por exemplo. Boécio (474-524 d. honesto ou desonesto. pode ser bom ou mau. o ser ou coisa careceria de existência. sempre. se definíssemos o homem como um ser racional bom ou mau. Assim. a humana. existem outros. Curso de filosofia. porque o homem. 1979. e o agregado animal (união estável de outros seres). O que é essência. humilde ou arrogan­ te.. ora evolui. 1984.

enfim. temporária ou definitivamente. De fato. vale dizer. conhecido filósofo contemporâneo. como os nômades. A sociedade ou pessoa coletiva comporta-se como uma pessoa natural. dotada. para quem a sociedade é um complexo de relações. de di­ reitos e deveres. enfim. interação. fazê-la durar na consecução do bem social. de várias pessoas. sugestiva­ mente. apenas.. Del Vecchio deixa claro que a sociedade passa a ter existência própria. portanto. fica evidenciada a permanência. a estabilidade. de cada sócio. daí surgindo nova e superior unidade. pois nela não se inclui nenhu­ ma causa ou elemento acidental. exemplo mais concreto do Direito Privado brasileiro. que tendem a fim comum. o desejo de todos de conviver permanentemente em sociedade. Com a expressão nova unidade. uma finalidade transcendente. De todo modo. ao incluir o espaço territorial (base física) como elemento essencial. ser criada com a intenção de preservá-la. graças ao qual vários seres indivi­ duais vivem e trabalham conjuntamente. sob a forma de pessoa coletiva. sob uma única autoridade. Tentemos. físicas ou morais. O u ­ tra definição reconhecida é a do jurista e filósofo italiano Giorgio Del Vecchio. a sociedade reconhecida pela lei consti­ tui uma nova unidade. o objetivo social está acima das ambições individuais. mesquinhas. no sentido dc que a vida co­ munitária pressupõe um relacionamento que os sociólogos denominam. ou. Nesta definição fica salientada a expressão relações. estabilidade. não obstante. ressaltada. Quanto ao trecho superior uni­ dade.2 A sociedade e o Estado 9 já proclamava a sabedoria latina. a essência da sociedade. uma associação (entidade sem fins econômicos) ou uma sociedade stricto sensu (entidade com fins econômicos). sua causa última. que venha a ser despojada. autônoma. Há quem a defina como agrupamento duradouro. Regis Jolivet. para que um conjunto de indivíduos possa ser qualificado como sociedade. intenção que os romanos já denominavam affectio societatis. como seus filiados. poderiam deixar a sociedade por vontade própria ou por morte. . de sua sede ou estabelecimento por motivo de dívidas. a sociedade tem um ob­ jetivo. muitas vezes egoístas. define a sociedade como a união moral es­ tável. passa a ter persona­ lidade jurídica. é indispensável a característica de permanência. superior a cada um dos objetivos individuais dos sócios. definir a sociedade. definida esta como a ação exercida mutuamente entre duas ou mais pessoas. tem vida própria. Deve a sociedade. destacados dos outros. Sim.. embora inconfundível com a pessoa natural (ser humano dotado de direitos e deveres reconhecidos juridicamente) de cada um deles. independente da figura dos indivíduos que a integram. dotado de um espaço territorial. e nem por isso a existência jurídica da sociedade seria afetada. No período convivem e trabalham conjunta­ mente. ou seja. de­ finição que peca pela acidentalidade. tendo existência própria. Ação recíproca. considerados isoladamente. quando sabemos que pode haver sociedades desprovidas de base física. Del Vecchio proclama que. Satisfatória se mostra essa definição. e os indivíduos que dela participam.

Princípios de sociologia. em 1877. Alessandro. 1. resultarem da união daqueles que a elas resolvam aderir. a pessoa num meio social). 1999. 1. considera a comunidade o fruto de um sentimento subjetivo. ed. Angiolo. r o d r ig u e s Sílvio. duas orientações se tornaram clássicas.. 1984. Curso de direito civil brasileiro .. São Paulo. apesar de tudo quanto os separa. 9. 1. 18. 1992. . mas entramos nas associações. 2002. Ferdinand. Lisboa. Paulo José da e p e l l e g r i n i . Coim­ . 1942. Max. ambos alemães. Sa­ raiva. e serão associações quando. ou por um ato que não tenha por fim imediato aderir a elas. ao passo que a associação resultaria da vonta­ de tangida pela razão. dividindo-as cm comunidades e socie­ dades (associações). Pedro. Silvio de Salvo.d . co. o meio residencial (a escolha de um local para viver integra. orgânica. diante de um interesse material. ed. Jurídica Brasileira. costa j r CAETANO. Direito civil .10 Teoria Geral do Estado 3) ESPECIES DE SOCIEDADES Bibliografia: Marccllo. São Paulo. Arnold. uma irmandade religiosa. Do ponto de vista sociológico.Teoria geral do direito civil. . o meio profissional. existindo indepen­ dentemente da vontade de seus membros. caracterizam exemplos de comunidades: a nação. uma entidade beneficente. Tõnnies apresentou. Curso de teoria do Estado. ed. weber . a de Ferdinand Tõnnies e a dc Max Weber. Curiosa a observação do autor citado: encontramo-nos nas comunidades. correspondente à vida real. uma classificação das relações sociais. 2002. São Pau­ lo. v. ed. Manual de cicncia política e direito constitucional. Saraiva. a família. bra. Introdução ao estudo do direito. 2. v e n o s a . Direito civil .. 32. Exemplos dc asso­ ciações: um clube esportivo. Crimi­ d in iz nalidade organizada. ao pas­ so que a associação seria resultante da vontade manifestada por um impulso racio­ . 1. 3. 1972. uma sociedade comercial. Seguindo este critério. t õ n n i e s . g r o p p a l i. Maria Helena. v.Parte Geral. Atlas. D i­ reito civil brasileiro . M éxi­ Classificar as sociedades é tão difícil como defini-las. na as­ sociação permanecem separados. w a i . r.. de simpatia. 2002. una­ nimidade. Economia y sociedade. Sociólogos e juristas su­ gerem inúmeras tipologias que. Fondo de Cultura Econômica. que impele os indivíduos a constituir um todo. au­ tomaticamente. Marcello Caetano observa que as diversas formas de sociedade são comunidades quando. 2002. embora respeitadas. ainda. v. Saraiva.Introdução e Par­ te Geral. Coimbra.Parte Geral. Fondo de Cultura Fxonómica. México. São Paulo. de caráter emotivo. os indivíduos se acham a elas vinculados pelo simples fato do nascimento. criadas pela vontade dos indivíduos. Quan­ to a Max Weber. Saraiva. A comunidade seria um produto espontâneo da vida social. Na co­ munidade os membros se acham unidos. e que delam possam sair quando queiram. não conseguiram. salvetti n et t o .. 6.. São Paulo.. ed. São Paulo. 1978. apesar de tudo quanto fazem para se unir. ed. uma academia científica. Coimbra.

portanto. ilícitas. por exemplo. Do ponto de vista jurídico. porque numa determinada sociedade acham-se mesclados valores afetivos e objetivos racionais. sem preconceitos. a elas se vincula. nem sempre tais classificações são satisfatórias. o qual. Assinala Weber. que as tipifica em neces­ sárias c contingentes. ao passo que essas constituem obras da von­ tade humana. não se mos­ tram indispensáveis à sua existência. embora concorram. raramente realizáveis quando consideradas de maneira isolada. Observa o autor citado que o maior traço distintivo entre as sociedades ne­ cessárias e as contingentes é o fato de que aquelas preexistem ao homem. das sociedades regulares. para o aprimoramento e o conforto do homem. Outra classificação é aventada por Pedro Salvetti Netto.2 A sociedade e o Estado 11 nal. . do próprio Estado.a própria denominação adota­ da revela seu sentido . a Camorra napolitana. podendo deixar de existir (quod potest non esse). ao passo que as contingentes. reprimidas pela lei. Das sociedades necessárias . a Yakuza (máfia japonesa) e a Russkaja (máfia russa). ao passo que a lei exige. uma série de pressupostos inafastáveis para sua atuação. a religiosa e a política. todavia. cuja estrutu­ ra “administrativa” já recebeu um brilhante estudo dos juristas Paulo José da Cos­ ta Jr. circunstancialmente.o homem não pode prescindir. que comunidade e associação correspondem a tipos ideais. tais como a Máfia siciliana. Basta dizer que a Sociologia se interessa. por toda espécie de sociedade. tão logo vem à luz. porém. mesmo aquelas inimigas da ordem jurídica e. a sociedade familial. e Angiolo Pellegrini.

Paris.. Ciência política. Em princípio. D i­ Oswald apud Paulo cionário de política. Institutions politiques et droit constitutionnel. “UÉtat. 6. in Études de droit public. condição pessoal do indivíduo perante os direitos ci­ vis e políticos (status civitatis. 1979. Livro I. 1896. denomina. 7. 1959. Bonavides. 1971. modernamente. spengler. les gouvernants et les agents”. Madri. 6.. 1965. Temis. qual seja. m e jía Abel. prélot. Bogotá. 1979. a expressão estado civil identifica o indivíduo solteiro ou casado. o termo surge do latim status. Précis de sociologie. Bruguera. 1986. n a r a n jo v il l e - . p l a t Âo . ao passo que status é um termo apli­ cável ao estado econômico daqueles bem-sucedidos no mundo dos negócios. a mais complexa e perfeita das sociedades civis.Título XII.3 0 ESTADO 1) CONCEITO E EVOLUÇÃO HISTÓRICA DO ESTADO Bibliografia: g u m p l o w i c z . El príncipe. ed. ed. Toda­ via. Bogotá. Paris. Armênio Amado. 1997. Filosofia dei derecbo. José Pedro Galvão dc. São Paulo. a palavra Estado. Global. Louis. que pode­ ria ser conceituada como a “sociedade civil politicamente soberana e internacio­ 12 . .Temis. g u it du - . Barcelona. 672-3. agora com E maiúsculo. Filosofia do direito. Léon. radbruch ción a Ia teoria dei Estado. Jean. Forense. status familiae). São Paulo. A República ou da justiça. Leyes que no son derecbo y derecbo por encima de Ias leyes. p. g a r c ia SOUZA. Léon Chailley. T. . marx gas. Hugo Palacios. Paris. .. . m a q u ia v e l o Fontemoing. Quciróz. Coimbra. ed. Nicolás. Dalloz. Aguilar. A. Aguillar. Sucessor. a sociedade política. Madri. Rio dc Janeiro. José Fraga Teixeira dc. 1998. 1981. Karl. IntroducMareei e b o u l o u i s . Manifesto do Partido Comunista. Clóvis Lema c carvalho . Gustav. 1903. A palavra estado apresenta vários sentidos inconfundíveis. 1978. x\4odernamcntc.

todos os domínios que tiveram e têm poder sobre os homens. estalinista. na União Soviética. tam­ bém encontraremos a expressão Estado indicativa da sociedade política. tenham preferido o termo república (Republique) ou. se chorassem. Modernamente. ele se faz presente nos mínimos detalhes de nossa vida cotidiana.] in the State of Danemark”). sem falarmos os horrores da dita­ dura totalitária do proletariado. pois. IV). e 15. Fjigels. mais do que três vestidos. tutti /’ domini che hanno avuto e hanno impero sopra gli uominiy sono stati e sono repuhliche o principatr (“Todos os estados. com o crescente intervencionismo estatal. e nacional-socialista. dedi­ cado aos candidatos a cargos públicos? Por que sem nossos documentos pessoais. que. Gregos e romanos denominavam a sociedade política polis e res publica. A palavra Estado passou a identificar a sociedade política a partir do Renascimento. nas pegadas de Maquiavel. a exacerbação do poder do Estado se mos­ tra cristalina e aterradora no delírio de dominação dos Estados fascista. Hegel) e dc seus detra­ tores (Marx. . foram e são repúblicas ou prin­ cipados”). pagar pedágio quando em viagem. que recebiam os cadáveres dos filhos mortos em batalha. não fumar em locais públicos ou ouvir. trabalhar como mesário ou apurador nas eleições. o programa A Voz do Brasil ou. Na Fran­ ça.. no seu livro clássico O prín­ cipe. mais pre­ cisamente na tragédia Hamlet. dois séculos depois. Houve época. ou nazista. pagar imposto sobre a renda. como estado. e hoje. embora alguns escritores. dizia: “Tutti gli stati. deviam mostrar alegria. as mães. e somente ele tem a prerrogati­ va de nos dar a quitação respectiva. a carteira de trabalho.em algu­ mas cidades-Fstado helênicas . No século XVI. passou a ser empregado no sentido de sociedade política.3 0 Estado 13 nalmente reconhecida. senhoria (Seigneureries). a ponto de . no sentido de situação de alguma coisa e. na antiga Grécia. como Jean Bodin. estariam cometendo crime contra o Estado. Km William Shakespeare (1564-1616). res­ pectivamente. graças a Nicolau Maquiavel. endeusado por outros (fascistas e nazistas). Fjn outras cidades. o Es­ tado sufocava por inteiro a liberdade natural do indivíduo. o Esta­ do sempre foi objeto de estudo dc seus defensores (Hobbes. tornamo-nos ilustres desco­ nhecidos perante a autoridade que no-los pede. conta-nos Fustcl de Coulanges. Bakunin). Por que somos obri­ gados a fazer o serviço militar (CF. ainda. que diz: “H á algo de podre no reino da Dinamarca” (“ [. que. em viagem. VIII. posição de uma pessoa. mesmo forçada. com cara de poucos amigos? É que todos esses devores nos são impostos pelo Estado. pela boca da personagem Marcelo. como Charles Loyseau. usar cinto de segurança). na Alemanha.os homens serem obrigados a deixar crescer a bar­ ba e as mulheres não poderem levar. Execrado por uns (comunistas c anarquistas). o notório horário político.. o termo estat ou état foi recebido do latim a partir do século XIII. como o cartão de identidade. em sua obra imortal A cidade antiga (Capítulo XVIII). 5o. arts. rendo por objetivo o bem comum aos indivíduos e comuni­ dades sob seu império”. compulsoriamente. na Itália.

A doutrina teocrática. embora re­ mota. observa que. sendo esta a atuação de Deus na História. . como ocorre em certos agregados animais complexos. o Estado se forma quando o poder torna-se uma instituição. já advertia que a vo­ lumosa soma de definições do Estado dificulta a precisão do termo. e na História o Estado cm marcha (Ciência política. defini-lo? As definições são tantas quanto os autores que as formulam. a teocrática. 52). Forense.. porém. Em que pese a razoabilidade de sua argumentação. Não obstante. p. p. que não se pode confundir uma única origem para todos os Estados. 351-2). a contratualista. Dalloz. citada por Paulo Bonavidcs. devendo o rei governar como um pai para os sú­ ditos. do ponto de vista jurídico como “o sujeito da Ordem Ju­ rídica. da sociedade política. peculiar a todas as sociedades. propor vultosa recompensa a quem for­ mulasse um conceito de Estado unanimemente aceito. pois este nada mais é que a união de muitas famílias.. que têm em comum a ideia de que é da vontade de Deus o Estado existir. várias doutrinas procuram demonstrar uma só origem. apresenta inúmeras variantes. p. Paris. idealizada pela or­ todoxia doutrinária. a ponto de um grande publicista do século X IX . Vamos resumi-las. a patrimonialista e a da força. eminente publicista contemporâ­ neo. reduzindo-o a mero juízo de valor.. cujo instinto as leva a viver em função de uma abelha-rainha. cumpre observar. o fato é que o patriarcalismo acabou por se tornar mera justificativa do poder monárquico. por exemplo o das abelhas. Seja como for. não se confun­ dindo mais com aquele que o encarna. sendo as principais a patriarcalista. todos eles devem obediência ao Esta­ do. e conhecemos detalhadamente sua evolução histórica. colhendo-as na seara do próprio Direito ou da Sociologia. 2. surpreende no Estado a História em repouso. ed. 3-4). No plano da Sociologia. vontade esta manifes­ tada concretamente pela Providência. da mesma forma que na família os filhos devem obediência aos pais. o surgimento de cada Estado se acha ligado a toda sorte de circunstâncias. Rio de Janei­ ro. O próprio Hans Kelscn (1881-1973). mediante o fenômeno da institucionaliza­ ção do poder (Traité de science politique. desprovido de caráter científico (Teoria general dei Estado. Oswald Spengler. Em vez de um fenô­ meno recorrente. 128). Stahl. 1986. inspirador da célebre doutrina pura do Direito. Para Georges Burdeau. 6. dentre outros. desenvolvida ao longo do tempo por Demóstenes. preconizada por Bossuet e Robert Filmer. dentre estas o próprio meio ambiente. Assim. t. p. Ademais. Como. Bossuet e J. F. Giorgio Del Vecchio define o Estado. e a origem histórica de cada um destes. de imediato. A teoria patriarcalis­ ta.14 Teoria Geral do Estado Sabemos que o Estado é uma sociedade necessária e condicionante das demais. chamado Bastiat. Luís XIV. na qual se realiza a comunidade de vida de um povo” (Pbilosopbie du droit. não podemos deixar de fazer algumas referências a tais defini­ ções. o gênero humano teria uma natural inclinação para a forma mo­ nárquica. Daí a natural inclinação desta doutrina para a monarquia. Quanto às origens históricas do F'stado.

Seja para garantir um mínimo de liberdade (Rousseau). Ciência política. 45). cm qualquer estágio histórico. 53). cit. entre outros. Santo Agostinho. Gumplowicz. mais tarde. tangidos pela razão. Franz Oppenheimer e Léon Duguit. demonstrou à Humanidade ser esta sua Vontade. onde os mais fortes impõem sua vonta­ de aos mais fracos” (Droit constitutionnel. os homens. Introducción a Ia teoria dei Estado. mostra o mesmo pessimismo de Oppenheimer ao conceituar o Estado como o “grupo huma­ no estabelecido em determinado território. ra­ zão pela qual. da dominação dos fracos pe­ los fortes. Paris. a monarquia. definindo-o como a “instituição social que um grupo vitorio­ so impôs a um grupo vencido. situa a origem do Estado na violência imposta por um grupo social a outro. para adotar uma liberdade ci­ vil que. entre outros. dentre outros. defendem-na. um acordo entre os ho­ mens. A tese do contrato social surgiu de pontos de vista diversos e. inevitável. p. John Locke e Adam Smith. ora para explicar a origem do Estado (Hobbes). Por fim. conflitantes. a teoria da força. com o objetivo de organizar o domínio do primei­ ro sobre o segundo e resguardar-se contra rebeliões intestinas e agressões estran­ geiras” (Der Staat. Quanto à doutrina contratualista. com fundamento na afirmação de que Deus. período em que era usual reconhe­ cer a existência de um contrato entre o governante e o povo. Marx e Engels. apud Paulo Bonavides. haveria uma tendência natural. foram paulatinamente se congregando e abdican­ do de uma liberdade natural perigosa e irrealizável. 5. tido por mui­ tos como seu inspirador é. Platão. Jean-Jacques Rousseau. pelo qual este se com­ prometia a obedecer àquele (pacta sunt servanda). No que tange à doutrina patrimonialista. como ocorreu na Idade Média. 14-5). como assinala Leopold Uprimny (apud Hugo Palacios Mejía.. ao eleger determinada forma de go­ verno. havendo uma corrente do patrimonialismo que justifica sua teoria pelo fato de o próprio Estado ter o direito natural de defender sua pro­ priedade. é uma das mais antigas no tocante à origem do Estado. ao contrário do que se pensa. respeitável publicista do início do século X X . Hobbes e Grócio. raciais (Gobineau) ou econômicas (Marx e Engels). o Estado existe principalmente para proteger a propriedade individual. desenvolvida. por Charles Darvvin e.3 0 Estado 15 Assim. ed. 1954. seja por razões genéticas. embora limitada. um dos últimos. muitas vezes. garantiria a liberdade (Rousseau). p.. . Stuttgart. ou para evitar a guerra dc todos contra todos (Hobbes). Segundo tal doutrina.Thomas Carlyle. por razões radicalmente opostas. na verdade. Em suas próprias palavras. p. a paz (Hobbes) e a pro­ priedade (Locke). 4. Gobineau. Suárez. natural a defesa de um direito divino dos reis pelos adeptos dessa doutrina. Para Locke. mais remotamente. qual seja. p. Léon Duguit. ora para justificar o poder do príncipe. aquela deve ser adotada. Franz Oppenheimer. Antes dele. desen­ volveram a ideia de que o Estado resulta de um contrato.

Entretanto. o campeão da luta. confesso. depois que entender o que você quis dizer. disse então [Trasímaco]: Para mim o justo não c outra coisa que o con­ veniente para o mais forte. Trasímaco? Não vai querer dizer. in Études cie droit puhlic. . ao tomar minhas palavras de for­ ma tendenciosa.16 Teoria Geral do Estado o Estado não é uma pessoa jurídica nem soberana. encontram-se submetidos à re­ gra de direito. res­ pondi. governantes e governados. o poder legíti­ mo de impor suas ordens.Nada disso. porventura respondeu . neste cipoal doutrinário.Sem dúvida! .que algumas cidades são governadas tiranicamente. Tra­ ta-se de instituição passageira. na qualidade de governantes.Você fala com despudor Sócrates. . mais fracos que ele? . em cada cidade não exerce o poder quem possui a força? . pois nem sempre existiu e nem sempre existirá. o que você quer dizer com isso. que aca­ bo de dar? N ão vai querer responder. Karl Marx (1818-1883). as tirânicas. pôr em prática a força de que dispõem.Pois bem. porque esta é empregada na realização do direito. outras de forma de­ mocrática e. por exemplo.Não duvide que vou dá-la. em detrimento da maioria explorada. e mais forte que nós c lhe convem comer carne bovina para sustentar sua for­ ça física. ainda. prejudicial. o diálogo em que Platão coloca na boca de Trasímaco o seguinte: . No momento. Os governantes não têm o direito subjetivo de comandar. outras por uma aristocracia? .Claro que sei! . classe. 1-2) O pai do socialismo científico. cada go­ verno estabelece as leis conforme o que lhe convier: as democráticas. definido por Marx como “o poder organi­ zado de uma classe para oprimir outra” (Manifesto do Partido Conmnista. p. por que você não aprova esta resposta. simplesmente? . eles podem. de forma demo­ crática. eu disse. todas as outras. que encontra seu verdadeiro fundamento na solidariedade social e se impõe a todos. O po­ der pertencente aos mais fortes. que sc Polidamante. não sei. (“L’État. de forma le­ gítima. ja­ mais legítimo em sua origem. assim. indivíduo. () Estado é o produto histórico de uma diferenciação social entre os fortes e os fracos cm determinada sociedade.Portanto. a partir do momento em que.Ouça. 1903. Como todos os indivíduos. justo para nós. tal alimento será conveniente e. sem nunca possuir. . les gouvernants et les agents”. Toda manifestação de vontade dos gover­ nantes é legítima quando está conforme o direito. Curioso sc mostra. de forma tirânica e. disse Trasímaco. maioria. da propriedade comunista. Uma vez estabelecidas. só desejo que você explique mais claramente o que significam suas palavras. conceituam o Estado como um fe­ nômeno histórico transitório. Você diz que o justo c o que interessa ao mais forte? Pois bem. e seu companheiro de ideias e de lutas Friedrich Engels (1820-1895). mas apenas o po­ der objetivo de querer conforme o direito e de assegurar a realização deste. 1981). Com o Estado desaparecerá o poder político. mero resultado do aparecimento da luta de classes sociais. também.Não sabe. Os governantes que detêm este poder são indivíduos como tantos outros. neste caso. é mero poder de fato. querido amigo!. passou-se à apro­ priação privada dos meios de produção.

e o Direito que mo­ dela o exercício desta. a vida não seria possível nem por um instante. Tal afirmação ainda é plenamente verdadeira. mas plurívoco-analógico. uma pluralidade de or­ . a incerteza e os abusos des­ truiriam a sociedade quase na rapidez de um terremoto. Sem um mínimo de ordem. ou seja. disse Aristóteles há 2. com inteira razão. É preciso entender que a lei não cria o direito. o justo c sempre o mesmo. se o Direito é uma qualidade essencial de qualquer sociedade. 2) 0 ESTADO DE DIREITO Ubi societas ibi jus (onde houver sociedade haverá direito). refulgem o poder amparado na força. antes de mais nada. dentre os atribu­ tos essenciais do Estado. em correla­ ção com os grupos ou corpos intermediários que a constituem. para quem quiser discutir este assunto com seriedade. assim entenderem. Com alguma dificuldade ele viverá. que são aqueles que mandam. Por isso. para revelarmos o sentido da expressão Estado de Direi­ to. como energia elétrica. que o Direito desprovido de força “é fogo que não queima. Ora. para conceituar e justificar o Estado de Direito. luz que não ilumina”. ou seja. Vivendo em socieda­ de. e depende deste. É indispensável ter presente que no Estado não reside a fonte única das normas de direito. em sua obra clássica A luta pelo Direito. ou aquilo que Jeremias Bentham denominava mínimo ético de convivência. pois há na sociedade política. apresenta uma pluralidade de sentidos conexos. o que é por justiça devido a outrem. Antes de mais nada.3 0 Estado 17 estas leis declaram que será justo para os governados apenas o que os governantes qui­ serem. Clóvis Lema Garcia e José Fraga Teixeira de Carvalho. a expressão Estado de Direito seria tautológica. Observam José Pedro Galvão de Souza. não distinguem o que c legal do que c legítimo e não vão alem dc um Es­ tado dc legalidade. O que eu quero dizer. automóvel e mesmo educação escolar ou em­ prego fixo. mas o reconhe­ ce e estabelece as condições de exercício dos direitos subjetivos. Daí a razão pela qual. a fortiori do Estado. reduzem o direito à lei. porém. o homem pode ficar privado do conforto material c das utilidades que a tecno­ logia oferece. que nem sempre c um Estado dc justiça. é imprescindível formularmos outra indagação: o que se deve entender por D i­ reito? Sabemos que esse vocábulo não é unívoco. o que convem ao mais forte. importa. afirmava. saber o que é o direito. Cumpre partir do seu significado originário: o iu$ (de iustum). A insegurança. de modo que. e aqueles que se afastarem deste ditame serão punidos como infratores das leis. em obra primorosa: As concepções que tem idealizado o Estado dc Direito prescindindo do direito natural c encerrando-se nas perspectivas estreitas do positivismo jurídico. meu bom amigo.500 anos. Rudolph von Ihering. é que em todas as cidades será justo tudo o que os governantes. É necessário compreen­ der que o direito subjetivo é uma faculdade ou um poder moral essencialmente vincu­ lado ao justo objetivo.

que cairia como uma luva nos interesses de uma nascente burguesia.. na dignidade pessoal do homem.na identidade da ordem jurídica e da estatal. simplesmente. de foro íntimo. Logo. Jellinek considerava a possibilidade da autolimitação do poder do Estado pelo próprio direito positivo. 208-9) A concepção tradicional do Estado de Direito provém de Emmanuel Kant (1724-1804) e de Jcan-Jacqucs Rousseau (1712-1778). não o inverso. O Estado subordinado ao Direito. a garan­ tir a coexistência das liberdades. o conjunto das normas emenadas do Estado.. como se depreende de sua concepção individualista. um Estado de Direito social-democrático. simplesmente. Kant separava o Direito da Moral. até mesmo. racionalista c voluntarista do Direito. acredita . Quanto a Hans Kelsen. 1998. pois esta. então é o Direito que depende do Estado. Os chamados elementos formadores do Estado. Ora. por isso a lei só é justa sc conforme a essa mesma ordem. tentando superar a visão estreita do neopositivismo kelseniano.18 Teoria Geral do Estado denamentos jurídicos. um Estado de direito nacional-socialista. abolição da representação profissional e outras me­ didas de caráter notoriamente individualista. o que acarreta notó­ ria aporia: se o Estado se limita pelo Direito que ele mesmo cria. p. será um Estado de Justiça. Quanto a este. Então. na liberdade do ser racional. pertencem ao mundo exterior e passam a ter sentido apenas quando re­ lacionados ao Direito. um Estado de Direito marxistaleninista e. haveria um Estado de Direito liberal. assim procede para reger os atos externos do homem. à vonta­ de dos detentores do poder c dos que fazem a lei. todo Estado é Estado de Direito. disserta: . na visão kelseniana. poder. o justo objetivo é inerente à ordem natural. proteção absoluta da propriedade privada.e fez escola . (Dicionário de política. prossegue Kant. Nesse caso. Consequentemente só poderá haver Estado de Direito desde que haja respeito ao direito natural. F . respeito à ordem superior. Mais moderada é a ponderação de Gustav Radbruch. povo. disso resultando que o Estado cria seu próprio Direito e impõe à sociedade a ordem jurídica a que esta deve amoldar-se. Das teses de Kant exsurgem duas doutrinas bem conhecidas pelos publicistas a de Georg Jcllinck c a de Hans Kelscn. seria. e que pode alte­ rar via poder constituinte. independentemente da lei moral. ideia que desenvolve à luz do formalismo positivista da sua famosa Teo­ ria Pura do Direito. disciplina exclusivamente os atos internos. no seu destino transcendente e eterno. Daí a expressão Estado de D i­ reito Liberal Burguês para denominar a concepção de Estado intransigentemente vinculado às garantias individuais. territó­ rio. sendo aquele apenas um conjunto de condições destinadas. im­ plantação do sufrágio censitário (só teria direito a voto quem tivesse um conside­ rável patrimônio econômico). o Estado de Direito. os direitos subjetivos fundam-se na pró­ pria natureza humana. segundo o kantismo. na ple­ nitude do seu significado. que.

354-5) Na verdade. v. 14) . tal fato não desqualifica aquelas que. Na verdade. (Filosofia do direito. não é me­ nos verdade que o direito positivo dos povos acha-se impregnado de notória relati­ vidade. No Brasil. não por fatos e realidades. o que ele ordenar deve ser obedecido. será instituída sua ordem jurídi­ ca. um preceito jurídico de direito natural na base de todas as suas cons­ truções. na fe­ liz imagem de Gustav Radbruch: Quando nem sequer se aspira a realizar a justiça. (Le)>es que no son de­ recbo y derecbo por encima de Ias leyes. por isso mesmo. já se vê. mas o que ocorre é que estamos ante um caso de ausência do direito. Isto é: seremos levados a buscar essa solução num outro plano que não poderá deixar dc ser constituído. desde que tenha condições financeiras para isso. tenebroso. quando levado logicamente às suas últimas conseqüências. se valores humanos universais são violados por um suposto Direito. Assim. ou a soberania popular (arts. como o art. que permite ao homem ter várias esposas (poliginia). mas por normas. crime contra a família (art. ou. considerando-a. que constitui o núcleo da justiça. todavia. v. Uma ordem jurídica. p. como a brasileira (art. quando algumas Constituições adotam o sufrágio universal. um atentado ao Esta­ do de Direito. cujas premissas serão encontradas em vários dispositivos. p. caput). 14. Reitere-se. se quisermos achar uma solução para o problema da anterioridade ou posteridade do Direito com relação ao Estado. e 14). Eis esse preceito: quando numa coletividade existe um supremo governante. quando na formulação do di­ reito positivo se deixa de lado conscientemente a igualdade. parágra­ fo único. respectivamente. g. 1971. que a própria razão assi­ mila e que. toda a Humanidade reconhece e institui juridicamente. não podendo haver suas ordens jurídicas idênticas sem prejuízo da identidade dos povos. adotam o sufrágio cultural. na União norteamericana. a Constituição entroniza um Estado Democrático de Direito (art. representa a cosmovisão do legislador constituinte num Estado em particular e em dado momento histórico.f o direito à vida. o positivismo jurídico c político pres­ supõe sempre. Quando a maior parte das legislações oci­ dentais veda a poligamia. 1997. caput). como já foi mostrado (§ 10). então não estamos ante uma lei que estabelece um direito defeituoso. 4o. a colocarmo-nos mais para além dum e doutro. embora haja valores universais e perenes. à expressão do pensamento ou de constituir família. mais para além do direito positivo e mais para além da realidade do Estado. surge. I o. cujos incisos II e VIII preconizam. I o. 235).3 0 Estado 19 somos sempre necessariamente compelidos. a prevalência dos direitos huma­ nos e o repúdio ao terrorismo e ao racismo. que. Conforme as peculiaridades de cada povo. tal fato não pode servir de argumento para considerar o regime familiar do sultanato oriental. um espectro de bom Direito.. g. isto é. como o faz nosso Código Penal. que não poderão ser as normas do direito positivo do Estado c só poderão ser as dum direito natural.

assim também ao lado do D i­ reito Positivo ou estatal se encontram o Direito Canônico ou Eclesiástico. Para Santi Romano. Teoria general dei de. Teoria pura do direito. Acadêmica. 1972. e a responsabilidade dos agentes públicos quanto a prejuízos causados aos particulares. inamovibilidade e irredutibilidade de vencimentos). Coop.. conforme seja o Direi­ to considerado criador do Estado. como dois mundos separados que se ignoram mutuamente. diz Santi Roma­ no. v. México. diz ele. São Paulo. Qualquer institui­ ção. sempre. b) teoria monista. podemos extrair alguns princípios da con­ cepção dominante de Estado de Direito: a) princípio da supremacia da lei (nde of law). José. Santi. 1939. surgem duas teorias principais: a) teoria dualística. g. como o pró­ prio Estado.. Quanto às relações entre o Direito e o Estado. que reduz o Estado e o Direito a uma só entidade. assim como ao lado do Estado existe uma pluralidade de outras instituições mais amplas ou mais restritas. Uordinamento giuridico. os esta­ . mas como um fenômeno verificável em todas as organizações sociais. como um posterius deste. Buenos Aires. portanto. deve ser considerado não como um produto exclusivamente estatal. e) princípio da independên­ cia funcional dos magistrados. consolidado pelas garantias inerentes ao Judiciário (vitaliciedade. Sansoni. O Direito. portanto. 1967. sen. sendo ambos unum et idem. Introkel- ducción al derecho. são verdadeiros centros de produção de normas. para resguardo dos di­ reitos adquiridos. pela qual o Estado e o Direito são duas realidades distin­ tasynão relacionadas. direito. Esta teoria se biparte em outras duas. recho y dei Estado. como um prius deste. mediante o qual ninguém será obrigado a fazer ou deixar dc fazer alguma coisa se­ não em virtude de lei. babeas corpus e man­ dado de segurança. c) princípio da irretroatividade da lei. com a limitação do poder pelo direito positivo. onde houver qualquer sociedade haverá. afirmou a existência de uma plu­ ralidade de ordens jurídicas. por­ tanto. de Derecho y Ciências Sociales. a todos deve ser aplicada. Enrique R. de um pluralismo jurídico. 1979. Um grande jurista italiano. e concluindo. olano . pelo qual a lei vale para todos e. Firenze. as quais.20 Teoria Geral do Estado De qualquer forma. ou como criação do Esta­ do. rom an o Hans. 3) DIREITO E ESTADO Bibliografia: a m a l i ó n . Fernando Garcia e v i l a n o v a . b) princípio da legalidade. d) princípio da igualdade jurídica ou isonomia. qualquer organização estável e individuada tem o seu ordenamento ju­ rídico próprio e. Santi Romano. Unam. A tais princípios acrescentem-se as garantias constitucionais de direitos. mesmo porque ubi societas ibi jus (onde houver sociedade haverá direito).

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tutos da Máfia ou de qualquer outro bando organizado fora da lei. Então, prosse­ gue Santi Romano, não só o Estado, mas qualquer grupo social, é fonte do Direito, e se o Direito estatal é Direito, nem por isso o Direito deve ser sempre e necessaria­ mente estatal. Poder-se-ia acrescentar à tese de Santi Romano que o Estado somen­ te aparece depois de um lento processo evolutivo, ao passo que formas primitivas do Direito já regulavam a sociedade primitiva. O Estado surgiria tão somente para servir e manter o Direito, portanto é o Direito que atribui e limita ao Estado seu poder de império. Depreende-se, da teoria de Santi Romano, que podem coexistir várias ordens jurídicas: uma estatal, uma infraestatal (sociedades civis e comerciais), uma supraestatal (ONU, OEA) e uma paraestatal (indiferente ou contrária ao Es­ tado). Contra a doutrina de Romano se posiciona a teoria monística, esposada, en­ tre outros, por Hans Kelsen e Alessandro Groppali. Hans Kelsen, um dos grandes juristas do século X X , autor da obra clássica intitulada Teoria pura do direito, afirma, desde logo, que Direito e Estado se confun­ dem. O estudo do Direito e do Estado deve ser depurado, purificado - daí o título de sua obra - de toda contaminação emocional, ideológica, metafísica, sociológica ou política. Ora, um conhecimento ideologicamente livre, portanto desembaraça­ do dc toda metafísica, não pode reconhecer a essência do Estado a não ser como uma ordem coercitiva de normas. Ora, se o Estado é um sistema normativo, não pode ser outra coisa que a própria ordem jurídica positiva (imposta), já que é im­ possível admitir a validade simultânea de várias ordens normativas igualmente coer­ citivas. O Estado vem a ser, com efeito, a personalização da ordem jurídica. Poderíamos complementar tal pensamento deduzindo o seguinte: a) o Direito da sociedade arcaica, diluído no costume, se achava tão distante das formas claras, distintas e acabadas do Direito atual, como sua organização es­ tava longe do Estado moderno. b) o Direito é elaborado seguindo um roteiro traçado pelo Estado ou, pelo me­ nos, reconhecido por este (processo dc elaboração das leis e processo judicial). En­ tão, fora do Estado não pode haver Direito. c)a coercibilidade do Direito depende da atuação do Estado e, portanto, a atuação do Direito depende do Estado. d) a formação originária do Direito nos tratados confederativos e na revolu­ ção triunfante tem por base os Estados contratantes ou o Estado em que se impôs um novo regime político. l ogo, tais fenômenos jurídicos supõem a existência do Estado. Também para Alessandro Groppali, fora do Estado não pode haver Direito. As normas que qualquer outra sociedade expedir para sua própria organização e funcionamento são normas de caráter meramente social, e somente se tornam jurí­ dicas quando reconhecidas pelo Estado ou admitidas na ordem jurídica estatal. Os grupos sociais menores que existem no Estado, diz Groppali, podem ser regulados

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por um sistema próprio de normas, mas estas somente serão consideradas como or­ dens jurídicas válidas apenas 110 âmbito interno, pois, consideradas do lado de fora, isto é, do ponto de vista da ordem estatal, ficam imediatamente privadas de autono­ mia, pois sc forem contrárias à ordem jurídica estatal serão eliminadas. Mesmo uma quadrilha bem organizada, denominada societas sceleris, pode apresentar uma hie­ rarquia com especificação de “direitos” c “deveres”, c suas normas podem, ate, ser análogas às normas do Estado, mas nunca serão idênticas, pois não são verdadei­ ras, autênticas normas jurídicas; são o contrário disso. Seus membros agem em aber­ to contraste com a ordem jurídica que tutela um determinado conjunto de valores sociais. Aliás, prossegue Groppali, somente rendo como referência o Direito estatal é que podemos qualificar como ajurídicas, antijurídicas ou jurídicas as várias ordens normativas existentes. Em face de uma longa evolução histórica, ao cabo da qual seu poder tornou-se soberano (do latim superanus, supremitas, supremacia), o Es­ tado se impôs como entidade dotada de um poder incontrastável 110 âmbito inter­ no, assegurando para si, com hegemonia, o monopólio da criação das normas jurí­ dicas. Tendo Santi Rom ano afirm ado a juridicidadc das normas do Direito Canônico e do Direito Internacional, Groppali opôs as seguintes observações: quan­ to ao Direito Canônico, de fato, é um autêntico Direito, que encontra sua fonte 110 poder originário c independente da Igreja, poder que, embora de caráter espiritual, tem sobre os seguidores da religião católica uma notável eficácia. Entretanto, os fins do Direito Canônico são diversos dos fins do Estado, além do que, complementan­ do o pensamento de Groppali, lembraríamos o caráter de generalidade do Direito Estatal, seu alcance muito maior se comparado com os cânones eclesiásticos. Quanto ao Direito Internacional, Groppali afirma ser uma ordem normativa ainda em formação, sendo seus dispositivos desprovidos da eficácia que caracteri­ za as normas estatais. O Direito Internacional não possui outras fontes além dos tratados e do costume. Suas normas não são dotadas de poder coercitivo que ca­ racteriza a ordem estatal. Enquanto os ramos do Direito Positivo já apresentam um certo grau de estabilidade, o Direito Internacional nem codificado se acha, impos­ sibilitado, portanto, de atuar coercitivamente. O Estado totalitário, nas pegadas de Kelsen, considerou Direito apenas as normas estatais, sendo confrontados pela dou­ trina corporativista cristã, que afirma a necessidade de o Estado atuar apenas supletivamente perante os indivíduos e as sociedades menores, uma vez que o Esta­ do não seria a única fonte de normas jurídicas. Na verdade, Estado e Direito são irmãos xifópagos, predestinados a viver unidos, sem poder separar-se. Se, na ver­ dade, a ideia de um Direito difuso, espalhado pela comunidade primitiva, represen­ tado pelo totem ou mana, entidade espiritual que governaria os destinos da comu­ nidade, pode ser uma hipótese encantadora para explicar a precedência do Direito sobre o Estado, na verdade, quando surge este, passa tal entidade a ser a fonte su­ prema do Direito, superior em poder e eficácia a todas as outras, embora a existên­ cia destas não possa ser negada.

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4) CAUSAS CONSTITUTIVAS DO ESTADO
Bibliografia: a b b a g n a n o , Nicola. Dicionário de filosofia, São Paulo, Mestre Jou, 1982.
ARISTÓTELES.

Obras, M adri, Aguilar, 1982; Tratado dei alma.
salvetti n et t o ,

bacon

,

Francis. “Afo­

rismos sobre a interpretação da natureza e o reino do homem”, in Os pensadores, São Paulo, Abril Cultural, 1973, v. 13. Pedro. Curso de ciência política, Teoria Geral do Estado, São Paulo, Tribuna da Justiça/Hemeron, 1977, v. 1.

O conhecimento científico, verdadeiro, só é possível mediante a apuração das causas dos fatos naturais e humanos. Aristóteles, pioneiro na demonstração da ver­ dade pelas causas, já delimitara, em sua Metafísica, o termo princípio como causa em sentido amplo, abrangendo as causas formal, eficiente e final, às quais o médi­ co Galeno acrescentou a causa instrumental. Conhecer verdadeiramente, disse Fran­ cis Bacon séculos mais tarde, é conhecer pelas causas. Forte em Aristóteles asseve­ ra: “Afirma-se corretamente que o verdadeiro saber é o saber pelas causas. E, não indevidamente, estabelecem-se quatro coisas: a matéria, a forma, a causa eficiente, a causa final”. Nesta esteira de pensamento, Pedro Salvetti Netto adverte: “Não se conhece, cientificamente, pela verdade revelada nos livros sagrados, como se fizera durante a Idade Média, mas sim pela explicação causai do objeto do conhecimen­ to. Todas as coisas se explicam, considerando-lhes as causas”. Acrescentaríamos ao exposto o conceito dc causalidade, a saber, a conexão entre duas coisas, em virtu­ de da qual a segunda é univocamente previsível a partir da primeira, como assina­ la Nicola Abbagnano. Do exposto, podemos indicar quatro causas suscetíveis de revelar a natureza das coisas e dos seres: eficiente, material, instrumental, formal e final. A causa efi­ ciente (do latim facere, fazer, criar) revela o criador, o autor de algo, de modo que, num exemplo rudimentar, podemos dizer que a causa eficiente da mesa que tenho diante de mim é o marceneiro que a fez. Causa ou causas materiais vêm a ser a ma­ téria, o material com que este confeccionou a mesa (madeira, cola, pregos). Causa ou causas instrumentais, por sua vez, seriam os instrumentos utilizados no traba­ lho (martelo, serrote, formão). Causa formal seria a própria forma, aparência da mesa, permitindo-nos distingui-la de uma cadeira ou de outras mesas, embora to­ das resultantes da mesma causa eficiente, material e instrumental, faculdade ine­ rente mesmo aos deficientes visuais. Finalmente, a causa final, que nos revela o por­ quê da mesa, ou seja, sua finalidade. Para um selvagem, a mesa pode significar simplesmente um abrigo contra a chuva; para um homem civilizado, é um objeto para colocar alimentos e tomar refeições, redigir ou ler. Pois bem, se transportarmos essas ponderações para a sociedade em geral, per­ cebemos que essa nos revela, com clareza, sua causa eficiente (fundadores), causas

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Teoria Geral do Estado

materiais (seres humanos e base física), formais (órgãos diretivos e normas regula­ doras) e a final (pode ser de várias naturezas, conforme a espécie de sociedade). Em certas situações, seria polêmico, quando não embaraçoso, demonstrar a causa efi­ ciente da primeira sociedade, na verdade do próprio ser humano: Deus? Obra do acaso? Qual teria sido a primeira causa material? O barro, com que o Criador fez o homem e, de uma costela deste, a mulher? Questão de fé! Quanto ao Estado, se quisermos estudá-lo cientificamente, devemos fazê-lo mediante o estudo de suas causas constitutivas. Tal estudo se mostra indispensável, pois nos permite desconstruí-lo, estudando, pormenorizadamente, cada um de seus elementos. As causas constitutivas do Estado são materiais, formais e final. São causas materiais do Estado o povo, ou o elemento humano, e o território, ou base física, área material ou ideal em que o Estado faz valer seu Direito positivo. Quanto às causas formais, vale dizer, aquelas que identificam o Estado quanto à sua forma ju­ rídica ou constituição política, graças à qual um Estado não se confunde com ou­ tros - daí, a importância dc conhecer o Estado por sua constituição! - são a ordem jurídica e o poder político, exercido pelos governantes (do grego kubernetes, pilo­ to dc embarcação) que o encarnam em dado momento histórico. Quanto à causa final do Estado, vale lembrar que cada sociedade tem, conforme sua natureza, uma causa final específica. Assim, uma sociedade beneficente tem por causa final a prá­ tica da benemerência; outra, esportiva, tem por finalidade o aperfeiçoamento físi­ co e o lazer de seus filiados, enquanto uma sociedade empresarial tem por objeti­ vo o lucro, mediante a prática habitual de atos mercantis. Quanto ao Estado, tem por causa final o bem comum de todas as sociedades menores que atuam em seu território. O adjetivo comum atribuído ao bem visado pela sociedade política é bastante sugestivo: o Estado existe, por evidente, para rea­ lizar o bem-estar geral de todos, no tocante, por exemplo, à educação, à saúde e à segurança. Analisemos cada uma destas causas.

4.1) Causas m ateriais
4.1.1) Povo

Bibliografia:
1966.

a za m b u ja

,

Darcy. Teoria geral do Estado, 4. cd., Porto Alegre, Globo,
falcão,

b o n a v id e s ,

Paulo. Ciência política, Rio dc Janeiro, Forense, 1978.

Al-

eino Pinto. Parte CeraI do Código Civil, Rio de Janeiro, Konfino, 1959.

maluf,

Sahid. DenniPedro.

Teoria geral do Estado, 13. ed., São Paulo, Sugestões Literárias, 1982.
son. Os soldados brasileiros de Hitler, Curitiba, Juruá, 2008.

o l iv e ir a

,

salvetti n e t t o ,

3 0 Estado

25

Curso de teoria do Estado, 4. ed., São Paulo, Saraiva, 1981.

sil v a ,

José Afonso da. Cur­

so de direito constitucional positivo, 2. ed., São Paulo, Revista dos Tribunais, 1984.

População é a totalidade das pessoas que se acham, num dado momento, em determinado Estado. Tal conceito inclui toda e qualquer pessoa, independentemen­ te de nacionalidade, idade, situação política etc. Por isso, quando dizemos que o Brasil tem uma população de quase duzentos milhões de habitantes, estamos em­ pregando corretamente o vocábulo. População é conceito eminentemente numéri­ co, quantitativo, demográfico e, portanto, não interessa, de imediato, ao Direito. Povo, todavia, é termo que pode revelar um conceito jurídico ou um conceito po­ lítico. São conceitos análogos, porém inconfundíveis. Com efeito, a palavra povo sugere pluralidade de sentidos análogos, sendo, portanto, plurívoco-analógica. Em sentido vulgar, ela pode designar as pessoas residentes de um bairro qualquer ou uma comunidade unida pela religião, pelo idioma ou pela etnia. Pode, até, ser em­ pregada pejorativamente, ao designar a parte menos instruída da sociedade, ou aquela colocada em posição hierarquicamente inferior das categorias sociais. Por exemplo, na França pré-revolucionária, havia três estamentos, pela ordem, clero, nobreza e povo, o célebre Terceiro Estado. A democracia grega, quando se referia à assembleia do povo, indicava uma minoria seleta que, pelos dotes intelectuais e pela origem, podia deliberar politica­ mente durante todo o dia. Tal atividade era denominada ócio, bastante respeitada então e longe de sofrer o sentido pejorativo de hoje. Aqueles que não tinham o di­ reito de deliberar, que não podiam nem mesmo residir na cidade, eram os nec ócio, isto é, os negociantes, escravos e estrangeiros. Montesquieu afirmava que o povo não podia ser confundido com a ralé, o populacho, devendo ser proibido o direito de voto àqueles que se encontrassem num estado demasiadamente profundo de baixeza. Dizia este notável pensador que, mesmo no governo do povo, o poder não poderia cair nas mãos do baixo povo. Madame de Lambert, discípula de Montesquieu chegou a definir o povo: “Chamo povo todos aqueles que pensam de maneira baixa e vulgar” . Não foi à toa, portanto, que a palavra povo já foi tida como o grande troca­

dilho da História. Classificada a palavra povo como plurívoco-analógica, sua análise torna-se mais fácil, cm que pese a diversidade de sentidos que ela apresenta. Ao Direito, em especial o direito constitucional, interessam os sentidos jurídico e político. Povo, no sentido jurídico, é o conjunto de indivíduos qualificados pela nacionalidade. Nele não sc incluem, já sc vê, estrangeiros e apátridas. Todavia, o sentido político é ain­ da mais restrito, pois exclui não só estrangeiros c apátridas, como também os me­ nores de 16 anos (CF, art. 14, §§ I o, II, c, e 2o), estando o povo político, tido como o conjunto dos cidadãos do Estado, vinculado à ideia de cidadania. Como se vê, não

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Teoria Geral do Estado

basta ser nacional para se obter a cidadania; a nacionalidade é pressuposto, condi­ ção necessária, mas não suficiente para alcançar o status de cidadão. A idade do na­ cional se mostra o grande empecilho à obtenção da cidadania, como se observa no art. 14, §§ I o, 1, e 3o, VI, a a d, da Constituição Federal. Todavia, há outras restri­ ções, como aquelas impostas aos militares no art. 14, § 8°, e a cassação de direitos políticos, nas hipóteses do art. 15. A nacionalidade, então, e vínculo meramente ju­ rídico, pertinente a direitos civis, em razão do local de nascimento ou da ascendên­ cia paterna (nacionalidade originária), ou, ainda, de manifestação de vontade do próprio interessado (nacionalidade secundária, obtida mediante naturalização). Na­ cional, portanto, é o brasileiro nato ou naturalizado, que integra o conceito jurídi­ co do povo, ao passo que cidadão é o nacional no gozo dos direitos políticos. Há dois critérios para a determinação da nacionalidade: o jus soli e o jus sanguinis. O jus soli leva em conta o local de nascimento do indivíduo, o solo, enfim. Trata-se de um critério normalmente adotado por Estados de forte contingente imigratório, isto é, que recebem imigrantes, estimulando-os a se radicarem, para compensar a rarefação demográfica. Por outro lado, o jus sanguinis é um critério dcterminativo da nacionalidade que considera a ascendência, o sangue paterno do indivíduo, para conferir-lhe a nacionalidade. Trata-se de critério típico de Estados de forte emigra­ ção, com o que se busca preservar a nacionalidade mediante a consangüinidade. O fundamento do jus sanguinis pode resvalar, perigosamente, o racismo, como ocorreu na Alemanha nacional-socialista, por acaso com cidadãos brasileiros. O pro­ fessor de História Dennison de Oliveira, em original e elucidativa monografia, tomou o depoimento dc um brasileiro descendente de alemães que, achando-se na Alemanha em 1943, foi convocado para o serviço militar em plena Segunda Guerra Mundial, pior, quando a derrota do país já se avizinhava. Assim o autor descreve o episódio:
Tendo atingido a idade para alistamento, ele compareceu diante da junta do ser­ viço militar local. Sua primeira inspiração foi alegar a condição de brasileiro (brasilia-

ner), nascido em São Paulo, como demonstravam seus documentos de identidade. Em
resposta teria ouvido a seguinte pergunta do encarregado do alistamento: “Mas se você

tivesse nascido na África isso faria de você um negro?”. Desconcertado, respondeu que
não, ouvindo em seguida a decisão de que ele teria de se alistar, uma vez que era des­ cendente de alemães. De fato, nos termos da jurisprudência alemã relativa à naciona­ lidade prevalece o princípio do jus sanguinis, isto é, aquela que deriva da nacionalida­ de dos pais, independentemente do local de nascimento (jus solis) que é típica da cultura brasileira, por exemplo.

De nada adiantou a alegação do pobre recruta de que lhe seria penoso lutar até a morte contra outros brasileiros; na iminência de uma condenação à morte por desobediência, acabou sendo salvo por um oficial médico nascido de pais alemães, imaginem, na Namíbia. O facultativo, sensibilizado pela situação do nosso brasi-

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lianer, conseguiu para este uma internação hospitalar por suposta moléstia conta­ giosa, que acabou livrando-o do processo... Um caso banal como este esclarece, mais que muitos livros sobre a matéria, como o nacional-socialismo encarava o ser humano; para ser um bom alemão, o importante era o sangue, não importava o local de nascimento, tanto que o pró­ prio Hitler não era natural da Alemanha, e sim austríaco. Daí, a política dc anexa­ ção, à Grande Alemanha, de territórios em que habitariam os chamados alemães raciais, residentes fora do Terceiro Reich, levando à prática o lema nacional-socialista: “Povos do mesmo sangue devem pertencer ao mesmo Estado A Constituição do Brasil adota um critério intermediário, pois faz concessões ao jus soli (art. 12,1 , a), e ao jus sanguinis (art. 12,1 , b e c). Pode ocorrer que o indi­ víduo não tenha nacionalidade, sendo, então, apátrida (sem pátria), submetido, em tal caso, à Convenção sobre o Estatuto dos Apátridos, adotada em 28.09.1954, pela Conferência de Plenipotenciários convocada pelo Conselho Econômico e Social das Nações Unidas, em sua Resolução n. 526-A (XVII), de 26.04.1954, tendo entrado em vigor no dia 06.06.1960. Se tiver mais dc uma nacionalidade, o indivíduo será polipátrida. Os critérios atributivos da nacionalidade decorrem da própria sobera­ nia do Estado, não da vontade dos interessados, de maneira que o apátrida estará nesta condição independentemente dc sua vontade, valendo o mesmo para o polipá­ trida. Quanto à naturalização (CF, art. 12, II), é forma de aquisição secundária ou derivada da nacionalidade. Pode ser expressa ou tácita. A naturalização expressa é aquela que resulta de pedido do interessado (CF, art. 12, II, a e b); a tácita, aquela que se confere ao indivíduo por iniciativa do próprio Estado (CF, art. 12, § 1°). No que se refere ao povo político, reitere-se que tal conceito liga-se, de imedia­ to, ao de cidadania. Com efeito, sendo proveniente do latim civitas (de eives, cida­ dão), o termo cidadania denomina o vínculo político que liga o indivíduo ao Estado, fruindo o cidadão de direitos e deveres de natureza política, com evidente exclusão dos estrangeiros. O termo povo contido no art. Io, parágrafo único, da Constituição Federal confunde-se com o conceito de cidadania, pois congrega exclusivamente os nacionais dotados de direitos políticos, nas diferentes gradações apontadas pela Cons­ tituição (art. 14, §§ I o a 9o). Portanto, nunca será demasiado repetir que, ao decla­ rar, no art. 1°, parágrafo único, que “todo o poder emana do povo”, a Constituição Federal refere-se ao conceito político do povo, excluindo estrangeiros, apátridas, me­ nores de idade, e, nos termos do art. 14, § 2o, os conscritos durante o período do ser­ viço militar (do latim conscriptu, recrutado, alistado, recruta).

4.1.2) N ação

Bibliografia:
1968.

a za m b u ja

,

Darcy. Teoria geral do Estado, 4. ed., Porto Alegre, Globo,
delos

b o n a v id e s ,

Paulo. Ciência política, Rio de Janeiro, Forense, 1986.

,J.T .

O homem não c cscravo nem dc sua raça. Centro de Estúdios Constitucionales. o Estado pode surgir até dc modo abrupto. renan .c conseqüência dc longo passado dc esforços. a outra. a nação não pode ser satisfatoriamente definida. é que a nação não se confunde com o Estado. assim como o principal ideólogo do . seremos o que sois é. Com efeito.28 Teoria Geral do Estado La nación. o desejo de viver junto. até que se sedimente aquele espírito nacional oriundo das tra­ dições e costumes comuns. nem dc sua religião.. teoria do Estado.como o indivíduo .d. de grandes homens. Ernesto. mantendo-se gra­ ças à coação exercida sobre cidadãos ou súditos. ela ostenta “caráter fugaz. Uma encontra-se no passado. ed. no presente. Possuir glórias comuns no passado e vontade comum no presente. nem da direção das cadeias dc montanhas. é entidade pura­ mente normativa” . a outra. São Paulo. mas a nação somente se forma mediante demorada gestação. ter realizado grandes obras em conjunto e querer realizá-las ain­ da. plurissignificante e até equívoco”. O homem não sc improvisa. uma realidade eminentemente sociológica. o hino abreviado dc toda pátria. entre povo c nação: “a noção de povo não sc refere às qualidades físicas ou psíquicas dos ho­ mens. Buenos Aires. Curso de José Afonso da. a vontade de prosseguir fazendo valer a heran­ ça por todos recebida.. O cul­ to dos antepassados. Uma grande agregação dc homens. Nossos ancestrais nos moldaram o que hoje somos. cria uma consciência moral que sc chama nação! A nação é. Que será. de glória. porque. s il v a . reito constitucional positivo. São Paulo. Desclée Brouwer. com sutileza. entretanto. nem dc sua língua. Um passado heroico. 4. dentre todos. na sua simplicidade. eis o capital so­ cial em que se assenta a ideia nacional. Uma é a posse comum de um rico legado de tradição. 5. porém. Gobineau e Houston Stewart Chamberlain. s. pois este envolve um conceito eminentemente jurídico. que se forma com o passar do tempo. sã dc espírito e cálida dc coração. eis a condição para se ser um povo! E prossegue: Ama-se a casa que se construiu e se transmite. ao passo que aquela tem caráter tipicamente so­ ciológico. A nação . salvetti n e t t o . Revista dos Tribunais. O povo. o consenso atual. O canto espartano: Somos o que fos- tes. um princípio espiritual. como afirma Sestan. Hans Kelsen distingue. Dizia Ernesto Renan (1823-1892): Uma nação é uma alma. Por isso. 1989. pois. nem do curso dos rios. uma nação? Seria a raça o único ingrediente a compor a receita da nação? Vacher da Lapouge. ed. Saraiva. Que es tina nación Pedro. dc sacrifícios c dc desenvolvimento. 1981. Curso de di­ Madrid. Para muitos autores. c o mais legítimo. como objeto dc estudo da Teoria Geral do Estado. 1983. Certo.

se não Shakespeare? Tal linha de pensamento talvez seja a mesma de Hegel (1770-1831). Se a religião não é o elemento imprescindível para formação da nação. “uma su­ cessão de biografias que representam o espírito de cada nação de que cada grande homem faça parte” . Mazzini? O que é a Gré­ cia. costumes. seria este a religião? Também não. ainda que estejam diversi­ ficados em leis. que a “ História Universal é no fundo a História dos grandes homens”. D aí as palavras de Ernesto Renan: “Já não há religião de Estado. confundiu povo. Haveria. como adverte Renan. Platão? O que é a Inglaterra. . representada por nações superiores a outras. Seria das tradições comuns. que restam no passado. o Es­ tado precede à nação. nas raças hu­ manas. se tomado isoladamente. pois que a História é mais sábia que qualquer razão individual. para Bodin. Na verdade. é possível ser francês. Jean Bodin (1530-1596). religiões e nações”. o catolicismo predomina em toda a Amé­ rica Latina. Portanto. isto é. não há uma só raça pura e. Se a raça não é o elemento imprescindível da nação. Na Suíça. Por outro lado. É das tradições comuns que brota o espírito da nacionalidade e o patriotismo. para quem tais grandes ho­ mens seriam o instrumento da evolução histórica. fala-se italiano. línguas. O nacionalsocialismo. sem contestação (Der Führer hat immer recht). permanecer existindo. autor da célebre obra Dos seis livros da República. sendo protestante ou católico ou israelita ou mesmo ateu. Dante. “assentar a política na análise etnográfica é pretender assentá-la sobre uma quimera”. quando governa­ dos pela potência soberana de um ou diversos senhores. preco­ nizados por Mancini. apenas as tradições e os costumes devem ser levados em con­ ta quanto à criação de um espírito nacional. comandada por um úni­ co líder. nação e raça com uma unidade biocspiritual de sangue e solo (blutt und boden). Pedro Salvetti Netto afirma que dos elementos constitutivos da nação. afirmou que “de muitos cidadãos se faz um Estado (república). inspirando-se nestes autores. E quem poderia recusar ao povo suíço sua condição de nacional? Diz Renan: “Será que não é possível ter os mesmos sentimentos e pensamen­ tos e amar as mesmas coisas em línguas diferentes?”. contempla a consciência de cada um ”. achavam que sim. uma hierarquia. alemão. seria este o idioma? Também não. se não Péricles. O que é a Itália. como há Esta­ dos em que se professa mais de um credo religioso. Dizia Thomas Carlyle (1795-1881). espon­ taneamente. A religião é individual. H á Estados ou comunidades nacio­ nais onde se falam vários idiomas. eminente historiador e biógrafo. francês c alemão. se não César. A Alemanha é metade protes­ tante e metade católica. dos fatos heroicos. inglês. Alfredo Rosenberg. que resultaria a identidade de sentimentos que leva uma comunidade a querer.3 0 Estado 29 nacional-socialismo. Pode haver uma só religião em vários Estados.

“é uma fé. pois a política não é senão a forma de que se reveste a ação em sua vida pública. para Novalis e Schlegel. ardente inimigo das concepções mecanicistas e racionalistas do Estado. de costumes. o Estado for­ ja a nação. nem mesmo é necessário que seja real. André Hauriou define a nação como “o grupo humano 110 qual os indivíduos se sentem mutuamen­ . de língua e a comunhão de vida criaram a consciência social” . uma paixão. A sociedade nada mais e que uma vida comum: uma pessoa indivisível que pensa e sente. Contemporaneamente. um dos chefes do Partido Liberal italiano e autor de uma obra célebre. arquivado no museu da História. tradições. A nação deve ser con­ cebida à maneira de um corpo místico ou de um organismo internamente animado pela vida espiritual. Diz ele: “Para que se possa dizer que um Estado forma um todo vivente e que c uma grande individualidade. é antes de mais nada um mito. O que é um mito? O mito. a nação é uma ideia. território. a seu ver. t. o Es­ tado deve confundir-se com a nação. Também para o fascismo. Novalis c Schlegel influenciaram o conceito naturalístico dc nação. A mesma vida que anima a nação há de vitalizar o terreno político. esta. a solidariedade psicológica (expressão de Miguel Reale). Para Mussolini. elaborados no decurso das idades. Dentre estes. Por isso. criadora e conquistadora. Apesar das restrições a um conceito universal de nação. que segue Bodin em tal pensamento. formados pela História. p.30 Teoria Geral do Estado Para Friedrich von Hardenberg (1772-1801). O espírito deve ser presente. E o espírito. 370). que definia a nação como “uma socieda­ de natural de homens. “Nosso mito [prossegue] é a nação” (Escritos e discursos. o Estado pode forjar a consciên­ cia coletiva. como essência. 3. c) ele­ mento psicológico: consciência nacional. Para Friedrich von Schlegel (1772-1829). Diz ele: A nação é um organismo histórico vivo. b) elementos históricos: costumes. é preciso que o Estado ou nação continuem vivendo sua vida histórica e que desenvolva e mantenha a vitalidade em seus órgãos”. Benito Mussolini (1883-1945) não se preocupa em definir a nação. t. lín­ gua. conhecido como Novalis. 2. ação atual. a sociedade c o Estado são organismos vivos. de origem. na concepção fascista não é algo pretérito. diz o Duce. in­ titulada Vida dos povos na humanidade. sob o aspecto raça. Pasquale Estanislao Mancini (18171 888). O próprio Mancini aponta os elementos formadores de uma nação: a) elementos naturais: nação. não faltam definições formuladas por autores de peso. uma esperança. p. na qual a unidade de território. formada pela cultura e pela religião. Portanto. Segundo Novalis. “A nação [diz ele] é fun­ damentalmente espiritual” (cit. religião e leis. um valor”. Será uma realidade 110 sentido de que é uma fé. a nação deve estar identificada ao Estado. levado às últimas conseqüências durante o nazismo. que encerra em si o espírito e a vida. a organização do Estado deve ser confundida com o espíri­ to nacional. 187)..

receio. cidadão é o nacional no gozo dos direitos po­ líticos”. José Afonso da Silva diz que “nacional” é o brasileiro nato ou naturalizado. espaço geográfico. na força das armas. adota um critério misto. art. to­ dos estes fatores agregativos e pré-jurídicos”. Saraiva. também: “Se vis pacem para bellum ” (“se queres a paz. de história. consiste no vínculo jurídico que liga o indivíduo ao Estado. submovendi ius babet” (“Território é a universalidade das terras dentro dos limites de cada Estado. de religião. a atestar que a nação precede o Estado. mesmo porque o Estado exerce o seu poder antevendo a possibilidade de. 1979. aterrorizar. territo. ed. 9. pre­ . São Paulo. g r o p p a ­ l i. Sugestões Literárias. b e c). quando o Estado. de afugentar”). Note-se a expressão pré-jurídicos nes­ ta definição. quod magistratus eius loci in­ tra eos fines terrendi.. intimido.3) Território Bibliografia: b o n a v i d e s . São Paulo. 1978. Tcmis. Di­ ga-se o mesmo no âmbito externo. Doutrina do Estado. como se vê. Por isso. bem como conscientes daqui­ lo que os distingue dos indivíduos integrantes de outros grupos nacionais” . ed. Há dois princípios básicos para a aferição da nacionalidade: o jus soli. diziam os romanos: “ Territorium est universitas agrorum intra fines cuiusque civitatis quod ab eo dictum quidam aiunt. ora ao jus sanguinis.3 0 Estado 31 te unidos por laços tanto materiais como espirituais. alguns o chamam assim porque o ma­ gistrado desse lugar tem o direito de. dc língua. de literatura e dc arte. da ascendência paterna ou da manifes­ tação de vontade do interessado. define a nação como: “o sentimento derivado da co­ munhão dc tradição. Paulo. 4. Forense. mas do verbo latino terreo. cujo conjunto forma o povo. em razão do local de nascimento. ou seja. fa­ zendo concessões ora ao jus soli. Introducción a la teoria dei Estado. 1965. A Constituição Federal. impor respeito às demais sociedades políticas. que considera a ascendência do indivíduo. ao território do Brasil. não provém.1. não importando o local de nascimento (CF. art. e o jus sanguinis. dc nada ligado à terra.1 . Diziam. causo medo. utilizar a força (coerção) para ver suas determinações cumpridas pelos súditos. para manter a soberania ín­ tegra. r o d r ig u e s Dirccu A. 1968. conforme se poderia pensar. id est. o solo (CF. Bogotá. Dicionário de brocardos jurídicos. dentro destas terras. a). Alessandro. que leva em conta o local de nascimento. Outro autor moderno. lacios. A palavra território apresenta uma etimologia à primeira vista estranha. Rio de Janeiro.1 . isto é. Hugo Pa. aquele que se vincula. Ciência política. 2. Aldo Bozzi. 1 2 . isto é. 12. procura.. Quanto à nacionalidade. Victor. m e jía . por nascimento ou naturalização. a qualquer momento.

Ademais. na qual o Esta­ do exerce seu poder soberano. designando. como ex­ plicar que um navio militar. ruas e logradouros. é o caso da extraterritorialidade das leis. atenta ao estado de tensão política que lateja entre os Estados contemporâneos. do Código Penal brasileiro. as belonaves militares e as embaixadas serem considerados partes integrantes do território do Estado. Era o prenuncio do cxpansionismo nacional-socialista. seja para expandir-se à custa de seus vizinhos. fazse oportuna a disposição do art. cunhou. Por isso. isto é. as características telúricas da base física de uma sociedade política. pode o território ser definido como a área física ou ideal em que o Es­ tado exerce. ideal. com rara fe­ licidade. 5o. mercantes ou de propriedade privada. Se o território fosse mero espaço geográfico. mera base física. seu poder de império ou seu direito de proprieda­ de sobre pessoas e coisas. ao pas­ so que a civitas era o elemento humano vivente na urbs. a urbs era o conjunto de edifícios. respectivamente. seja para conservar-se íntegro. Hitler costumava afirmar . que se achem. não simplesmente geográfico.32 Teoria Geral do Estado para-te para a guerra”). faz parte do território do Estado cuja bandeira ostenta? Assim. in verbis: Para os efeitos penais. cm nome do chamado espaço vital.. sempre com o in­ tuito de intimidar. o Estado manifesta o seu poder de império também sobre seus súditos que se encontram em outros Estados. Nesse sentido. do clima. aí esta­ ria a Alemanha”.bazófia ou ameaça . o jargão: “ O preço da liberdade é a eterna vigilância”. a faixa de fronteira de um Estado tem caráter muito mais estratégico do que político.que “onde fosse ouvida uma canção alemã. . sobre os homens de determinada região. o Estado exerce jurisdição sobre pessoas (poder de império) e direito de propriedade sobre seus bens. O Direito Romano já fazia uma distinção entre o território e o elemento hu­ mano nele vivente. em águas territoriais pertencentes a estado diverso. este úl­ timo vocábulo. consideram-se como extensão do território nacional as embarcações e aeronaves brasileiras. no espa­ ço aéreo correspondente ou em alto-mar. de natureza pública ou a serviço do governo bra­ sileiro onde quer que se encontrem. e a modernidade. § I o. Então. bem como as aeronaves e as embarcações brasi­ leiras. quando nos referimos à influência do solo. Conceito geográfico é o de base física e o de país. Assim. estamos referindo-nos a um país e não a um território propria­ mente dito. o território tanto pode ser uma parcela do solo. Com efeito. como veremos mais adiante. como uma ficção jurídica. Tais arroubos e brocardos constituem um sintoma inevitável de que o Estado se mantém permanentemente em atitude de defesa ou dc ataque. um dado eminen­ temente abstrato. no mesmo diapasão. Daí o espaço aéreo. com exclusividade.. Por outro lado. impor-se às outras sociedades políticas. o conceito de território é jurídico-político.

721. também denominado interestelar. pela Organização das Nações Unidas . I o). devendo os Estados facilitarem e en­ corajarem a cooperação internacional naquelas pesquisas (art. sem qualquer discriminação. que proclamou a extensão. a ionosfera. a soberania do Estado alcança uma altitude que justi­ fica um interesse público que possa reclamar a ação do poder político. estará aberto às pesquisas científicas. em 1958. com cerca dc 100 km. Nesse sen­ tido. bem como de isenções fiscais. 1. dando-se o inverso caso tais navios ou aviões estejam em águas ou ares do segun­ do. O espaço cósmico. deverão ter em mira o bem c o interesse de todos os países.3 0 Estado 33 Dois elementos do território apresentam. não poderá ser ob­ jeto dc apropriação nacional por proclamação de soberania. No espaço aéreo predomina a teoria de Westlake (soberania plena). Por outro lado. em águas ou ares que não pertençam a outro Estado. entretanto.O N U -. ao espaço exte­ rior e aos corpos celestes. Firmou-se a doutrina de que o espaço cósmico fica sob o império do Direito Internacional. Depois. modernamente. poderá ser explorado e utilizado. ser reservada uma zona de passagem inocente do território às aerona­ ves estrangeiras. zona de transição para o espaço cósmico. de 100 a 600 km. nem por qualquer outro meio (art. em condições de igualdade e em conformida­ de com o Direito Internacional. Navios ou aviões civis que se encontrem fora do território de um Estado. e são incumbência de toda a Humanidade. por uso ou ocupação. Em 1961 foi criada a Resolução n. da Comissão para o uso pacífico do espaço cósmico. dos princípios do Direito Internacional e da Carta das Nações Unidas. espacial ou cósmico. nor­ malmente não conferidas às aeronaves particulares. o espaço cósmico. com a criação. de 10 a 12 km de altitude. Quanto aos navios ou aeronaves militares. tal espaço compreende quatro camadas. inclusive a Lua e os demais corpos celestes. por todos os Estados. Este tratado determina que a exploração e o uso do espaço cósmico. inclusive a Lua e os demais corpos celestes. O espaço cósmico. devendo. devendo haver liberdade de acesso a todas as re­ giões dos corpos celestes. em 1967 foi firmado o Tratado sobre Princípios Reguladores das Atividades dos Estados na Exploração e Uso do Espaço Cósmico. estão sob a jurisdição do primei­ ro. os aviões civis de natureza pública usufruem de intangibilidade ao sobrevoarem ares estrangeiros. . 2°). independentemente do local onde se encontrem. inclusive a Lua e os demais corpos celestes. interplanetá­ rio. livremente. qualquer que seja o estágio de seu desenvolvimento econômico e científico. bem como o direito dc todos os Estados levarem a cabo explora­ ções cósmicas e a inapropriabilidade jurídica dos corpos celestes. bem determinadas: a troposfcra. Neste predominam as normas de Direito astronáutico. inclusive da Lua e demais corpos celestes. Desta forma. e a exosfera. a estratosfera. importância muito grande: o espaço aéreo e o mar territorial Sobre o espaço aéreo. encontrar-se-ão sempre sob a jurisdi­ ção do Estado a que pertençam. inclusive a Lua c os demais corpos celestes.

Quanto ao mar territorial. 110 art. item I o. as sinuosidades da linha litorânea. distantes de seu litoral. com a participação de nove Es­ . que o Estado de matrícula da aeronave será competente para exercer a jurisdição sobre infrações e atos praticados a bordo. isto é. § I o. e) seja necessário exercer a jurisdição para cumprir as obrigações desse Estado. Ora. quan­ do o comandante da aeronave tiver motivos justificados para crer que uma pessoa cometeu ou está na iminência de cometer a bordo uma infração ou um ato previsto 110 art. porque. Em outras palavras. com a evolução do arma­ mento. esta teoria ruiu. d) a infração constitua uma violação dos regulamentos relativos a voos ou manobras de aeronaves vigentes nesse Estado. qual seja. o interesse eco­ nômico sobrepujou o fator político. 1°. onde alcançasse um tiro de canhão: terrae potestas finitur ubi finitur armorum vis. com a evolução do armamento bélico. realizou-se em Montevidéu. se aplicada. já não existiriam tais águas. é a faixa marítima que banha as costas de um Estado e que se acha sob o poder de império deste. passou a predominar a doutrina de que o poder do Estado no mar territo­ rial cessaria onde terminasse o poder das armas. III. determina. Normalmente. visto que os Estados alargaram a extensão de seu mar territorial na proporção inversa de seu desenvolvimento tecnológico. vem a ser a faixa marítima que acompanha. a largura do mar territo­ rial é calculada a partir da linha de baixa-maré (baixa-mar). ou: onde bá força. todos os mares seriam águas territoriais ou. a menos que: a) a infração produza efeitos no território desse Estado. b) para manter a boa ordem e a disciplina a bordo. c) para permitir-lhe en­ tregar essa pessoa às autoridades competentes ou desembarcá-la dc conformidade com as disposições da Convenção que disciplinam a matéria. IV que o Estado contratante que não for o da ma­ trícula não poderá intervir no voo de uma aeronave a fim de exercer sua jurisdição penal em infrações cometidas a bordo. A observação dos infinitos recursos do mar ensejou a ampliação do mar territorial. inclusive coercitivas. que é a altura mais baixa atingida pela maré. depois. diz o art. no ano de 1970. O art. Desta forma. b) a infração tenha sido cometida por ou contra um nacio­ nal desse Estado ou pessoa que tenha aí sua residência permanente. VI contém importante disposição. de 1963. em largura variável. predominava a doutrina de que a soberania do Estado sobre o mar iria até onde a vista humana tivesse alcance. poderá impor a essa pessoa medidas razoáveis. c) a infração afe­ te a segurança desse Estado. Por outro lado. atualmente bastante sofisticado. pois com muito maior facilidade os Estados mais desenvolvidos tecnologicamente pode­ riam buscar as riquezas submersas. Como acentua Salvetti Netto. Inicialmente. que sejam necessárias: a) para proteger a segurança da aeronave e das pessoas e bens a bordo. sim­ plesmente. a Primeira Confe­ rência Latino-Americana sobre Direito Marítimo.34 Teoria Geral do Estado A Convenção Relativa a Infrações e a Certos Outros Atos Praticados a Bordo de Aeronave. aí o di­ reito (ubi vis ibi jus). e que integra o território do Es­ tado. em virtude de um acor­ do internacional multilateral.

Argentina. 3° É reconhecido aos navios dc todas as nacionalidades o direito de passa­ gem inocente no mar territorial brasileiro. 1. 1° O mar territorial do Brasil abrange uma faixa dc 200 (duzentas) milhas marítimas dc largura.mediante o Decreto-lei n. em que pesem os esforços desenvolvidos por organismos internacio­ nais. cujo art. não reconheceriam águas territoriais mais amplas do que 3 milhas. que. de 1982. A conferência debateu a exploração das riquezas do mar. 8. Assim. limi­ te aceito sem objeção por todos os Estados. Já em 25. Panamá. Nicarágua. § 1° Considera-se passagem inocente o simples trânsito pelo mar territorial. o controle de navegação para evitar polui­ ção das águas e outros temas.01. Vale lembrar que os principais oposi­ . a segurança nacional. tal como indicada nas cartas náuticas dc grande escala. Importante ressaltar que já em 1958 e 1964. os arts. agora. medidas a partir da linha dc baixa-mar do litoral continental c insular brasi­ leiro. I o e 3° e o § 1° deste: Art. medidas a partir de linhas de base determinadas de conformidade com a presente Conven­ ção”. diz: “Todo Estado tem o direito de fixar a largura do seu mar territorial ate um limite que não ultrapasse 12 milhas marítimas. preconizavam a largura do mar territorial de 3 a 12 milhas. advertiam que.1993. do qual transcrevemos. Esta norma acompanhou a Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar. Equador. reconhecidas oficialmen­ te no Brasil. realizadas por iniciativa da O N U .não esquecer que um dos principais produ­ tos de exportação daqueles dois Estados é o atum! . El Salvador. A Lei n. referente à largura do mar territorial.03.1970. os Estados Unidos.617. sem o exercício de quaisquer atividades estranhas à navegação e sem outras paradas que não as incidentes à mesma navegação. 3o. de 04. O art. medidas a partir da linha da baixa-mar do litoral continental c insular brasileiro adotado como referencia nas cartas náuticas brasileiras. já em fevereiro de 1970.098. a repressão ao contrabando. o Brasil acompanhava Peru c Equador na ampliação de seu mar territorial para 200 milhas . emitiram nota de apoio ao limite de 12 milhas apenas. Uruguai.3 0 Estado 35 tados: Brasil. enquanto este limite não fos­ se fixado. conhecida por Convenção de Montego Bay. A ampliação unilateral do mar territorial provoca dificuldades nem sempre solucionadas. Chi­ le e Peru. revogou este decreto. I o desta lei diz que o mar territorial brasileiro compreende uma faixa dc 12 (doze) milhas marítimas de largura. duas Conferências sobre o Di­ reito do Mar. Art.

05. Entre dois Estados confrontantes existem. 6. com tal medida. revela. a Inglaterra. São finalidades da faixa de fron­ teira a delimitação do território. sorrindo a vitória militar para os ingleses. Vale. tornar sem efeito prático os acordos de atividade pes­ queira na área. agora mais clara. que será designa­ da como faixa de fronteira. em 1982. frente). art. e as Constituições dc 1937 c 1946. Do território argen­ tino. de 150 milhas. a linha de limite. ao pas­ so que o conceito de limite vincula-se ao Direito propriamente dito. Recentemen­ te. porém. mesmo. de que o território. 150 km. aliás. conforme o caso. Do exemplo referido. ampliou unilateralmente esta largura em mais 50 milhas. situada no sul da Argentina. paralela à linha divisória terrestre do território nacional. agora. a partir da linha de limite. a legislação marcava para a faixa de fronteira do Brasil uma largura de 10 léguas (60 km).1979. que já mantinha uma faixa de mar territorial na região. muito mais do que uma expressão geográfica. foi mantida a largura de 150 km para a faixa de fronteira. a Inglaterra tornou obrigatória uma licença para bar­ cos pesqueiros de qualquer país que esteja em atividade num raio de 150 milhas. Oportuno lembrar. impondo formal e unilateralmente sua soberania num raio de 200 milhas! Agindo de maneira análoga na sua possessão de Gibraltar. do teor deste artigo ressalta a noção de limite: é a linha que separa a superfície do território de um Estado da superfície perten­ cente aos Estados vizinhos. distinguir entre fronteira e limite no território do Estado. Atualmente nos termos da Lei n. a Bulgária e a União Soviética. fica a conclusão. a Inglaterra atingiu. nos quais sc incluem. O conceito de fronteira liga-se à estratégia. Ao tempo do Império. Com a tomada daquela medida. a Inglaterra c a Argentina. A verdadeira razão que levou os britânicos a esta me­ dida temerária foi. Por outro lado. A pala­ vra fronteira vem do latim fronsyfrontis (fachada. limite é linha.36 Teoria Geral do Estado tores às 200 milhas marítimas para o mar territorial sempre foram Estados Unidos e União Soviética. na qual termina a ação jurisdicional do Estado. Questão que despertou polêmica momentânea entre dois notáveis juristas ita­ lianos. que colocou frente a frente. e que se confronta com a linha de limi­ tes. Como se percebe. o po­ derio militar e estratégico de um Estado quando em confronto com outro. a pretexto dc preservar a pesca nas Malvinas. a seqüela resultante da guerra das ilhas M alvi­ nas. duas faixas de fronteira opostas e divididas por uma linha divisória. os ingleses teriam um mar ter­ ritorial que invadiria nada menos do que sete territórios de países diversos. Donato Donati e Alessandro Groppali. Fronteira é faixa. I o. 166) estipulou uma faixa dc fronteira de 100 km. certamente. também. é considerada área indispensável à segurança nacional a faixa interna dc 150 km de largura. que disputa­ vam o domínio daquelas. A Constituição de 1934 (art. A fronteira é uma faixa de largura considerável. de 02. a ilha de Los Estados. a intercomunicação com povos vizinhos e a pro­ teção contra a hostilidade externa. é a seguinte: a base física é elemento . portanto. portos europeus de grande movimento. celebrados entre a Argentina.634.

O território. os quais se refugiaram nos navios de Milcíadcs. sendo possível acrescentar a tal exemplo o da França de 1940. Donato Donati. já que a este se encontram integrados. o subsolo. A sociedade política pode existir. assim. Alessandro Groppali contesta a dou­ trina de Donato Donati. sucumbe ao cabo de algum tempo. embora. temporária. considerou tão somente uma parcela do território (base física). integra a pró­ pria essência do Estado. que o território. o Estado sucumbe. afirmando que a perda de fato. A base física. o que certamente ocorreria em caso de per­ da definitiva. às embaixadas situa­ das em outros Estados c aos navios e aeronaves dc guerra. Aquela não faz parte da essência deste.4) Natureza das relaçõ e s entre o Estado e seu te rritó rio enquanto base física: te o ria s do direito real institucio n al. além do solo. Conclui-se. Ocorreu. e a soberania pressupõe a força necessária a sua autoconservação.1. Adepto da opinião de Groppali. despojado daquele elemento vital. ao lado do elemento humano e do poder soberano. porém mera ocupação do solo. mas simples condição da existência deste. mera ocupação do solo. Pedro Salvetti Netto lembra que. pois não há Estado sem poder soberano. como Atenas. para quem o território (como sinônimo de base física) não é elemento constitutivo do Estado. Tais ocupações teriam afeta­ do a existência dos Estados que as sofreram? Se adotarmos o pensamento de Dona­ to Donati. vencida e ocupada pela Alemanha nazista. onde quer que se encontrem os navios mercantes em alto-mar. está-se fazendo referência a um autêntico direito de propriedade do Estado? . a amplitude do território estatal. o mar territorial. da base física.3 0 Estado 37 integrante do Estado? Donato Donati afirmou que o território (base física) não se­ ria elemento do Estado. vassala do Terceiro Reich. exemplificando sua assertiva com Estados que foram des­ pojados temporariamente de sua base física. como visto. durante quatro anos. por si só. e este não constitui. em todos os casos apontados por Donato Donati. sediado na In­ glaterra. do Estado. temporariamente. constitui um elemento essencial do Estado. po­ rém. 4. contudo. aqueles F'stados Atenas e França . não acarreta a desaparição do Estado. portanto. e não submissão total e definitiva. as aeronaves comerciais sobrevoando o espaço livre e as embaixadas. é um elemento contingente. No exemplo da França ocupada pela Alemanha. os navios e as aeronaves de guerra.permaneceriam existindo. invadida pelos per­ sas. uma organização política anômala. fina­ liza Salvetti Netto. não houve sequer perda temporária do território (base física). portanto. a impor suas determinações às forças da restauração. o espaço aéreo. foi abandonada por seus habitantes. do im perium e do dom ínio em inente Quando se diz que determinado Estado cedeu a outro uma parcela de seu ter­ ritório. permanecia o Governo da Resistência. argumenta. Sem território. sem ele. tomado como a expressão do poder de fato do Estado. não essencial. que. sendo a República de Vichy. o qual. A base física está para o Estado como a água está para um ser aquático.

propugnada por Georg Jellinek. Na verdade. por isso. distinto do regime jurídico da pro­ priedade particular. há um condicionamento territorial da vida do Estado. Mas isso pouco difere do pa­ recer de Jellinek. . Os bens de pro­ priedade do Estado são especificados pela própria Constituição que lhe dá forma. afir­ ma que não existe um direito real (dominium) do Estado sobre seu território. di­ reito pessoal. sem considerar as teses unitárias que defendem a existência apenas de direitos pessoais. a expressão domínio eminente do Estado. Uma segunda doutrina. Somente assim poderíamos admitir expressões como território do Estado e aceitar a possibilidade de cessões territoriais pelo Estado. a ênfase recai justamente na ideia de soberania. o Estado exerce sobre a propriedade privada. esta concepção não explica como é possível coexistirem dois direitos de propriedade . ficando a propriedade particular restringida por sua função social. institucional.38 Teoria Geral do Estado Partindo da velha distinção romana entre direitos reais (aqueles que incidem sobre os bens) e direitos pessoais (aqueles que incidem sobre as pessoas). de exercer poder soberano sobre seu território e bens nele situados. quanto ao direito do Estado. há que distinguir o direito de propriedade do Estado. a teoria do direito real institucional parte do pressuposto de que o direito do Estado sobre seu território é verdadeiro direito dc propriedade. A primeira refere-se à faculdade dc exercer o poder sobre as pessoas que vivem dentro de certas fronteiras. mas sem recorrer à figura do direito particular de propriedade. inerente a qualquer pessoa jurídica. portanto). é um elemento do Estado. sobre os bens. vale lembrar. e a segun­ da expressa uma verdadeira relação direta entre o Estado e certas partes do territó­ rio. Trata-se. que apenas dá cumprimento às normas de desapropriação. sempre. na ten­ tativa de solucionar a questão. Entretanto. a vida jurídica do Estado deve estar.do Estado e dos particulares . ou melhor. com ressalva da originalidade da expressão domínio eminente. de um direito de pro­ priedade especialíssimo. pelo qual. sob administra­ ção do próprio Estado. característica do poder do Estado que incide primeiro sobre as pessoas e. O território. O publicista colombiano Copcte Lizarralde propôs. porém.incidentes sobre um mesmo objeto. requisição ou confisco. denominada doutrina do imperium. apenas secundariamente. de duas classes. Jelli­ nek considerava descabida a adoção de um conceito de direito civil 110 campo do direito público. em face do interesse público. que enseja diversas situações jurídicas. do poder de império que. dando a uma a denominação imperium e à outra domínio público. mais que um “direito do Estado sobre o território”. propondo. na qualidade de pessoa jurídica. direito este. basicamente. mas tão somente um direito pessoal sobre os indivíduos que vivem em seu território. como observa Hugo Palacios Mejía. A nosso ver. enfocada na perspectiva do Direito Público. lembran­ do que. prossegue. a substituição do conceito de dominium pelo de imperium (direito dc compelir os habitantes do território a adotar certa conduta. Estas são.

Sucessor. é potência. Saraiva. a conduzi-lo na busca do que ele considera como coisa sua.3 0 Estado 39 4. São Paulo. A definição que pro­ pomos emprega os dois elementos do Poder: uma força c uma ideia. portanto. ed. México. é possibilidade. s a l v e t t i n e t t o . potere. Em outra obra de grande repercussão sobre a matéria. Coimbra. 1963. assim se expressa este publicista: O poder é uma força a serviço de uma ideia. daí. Rodrigo. Ele se sustenta pela ideologia cristalizada na consciência coletiva de um grupo social. como define Burdeau. s c h m i t t . f e r r e i r a f i l h o . ed. enquanto se sucedem as figuras que exercem seus atributos. que ela apresenta uma ideia exata da realidade. Carl. Problemas de filosofia política . é potência.. como efeito. Curso de teoria do Estado. Burdeau assinala: Na sua essência profunda. em tais circunstân­ cias. BORJA. Fondo de Cultura 1997. Enciclopédia de la política.2. de impor aos membros a atitude requerida por esta busca. A palavra tem origem no latim ar­ caico potis esse. Ora. O poder é. Método de la ciência política. 1964. O poder não é ação. bem como impor aos seus integrantes o comportamento ne­ cessário para tanto. Buenos Aires.2) Causas formais 4. L u í s . e capaz. também. Em sua obra Método de la ciência política. 1982. É uma força nascida da cons­ ciência coletiva e destinada simultaneamente a assegurar-lhe a perenidade do grupo. São Paulo. 1981 . o Poder é a encarnação de uma tal energia provoca­ da no grupo pela ideia de uma ordem social desejável. Pedro. a força a serviço de uma ideia. Georges. parece-nos. c isolar o duradouro no fenômeno do poder. b u r d e a u . México. Armênio Amado. 4. c a b r a l d e m o n c a d a . se afastar­ mos momentaneamente os fenômenos concretos pelos quais se revela o Poder c cujo . Manoel Gonçalves. Poder é a capacidade de impor obediência.1) Poder político Bibliografia: Econômica. Nesta definição se destacam dois elementos: força e ideia se interpenetram estreitamente. Saraiva. então. Poder. Depalma. Nacional. 1981. Trata-se de uma força nascida da vontade social preponderante. Sc aquilo que pretendemos.. Teoria de la Constitución. Curso de direi­ to constitucional. contraída em posse e. 11. veremos que o poder é menos a força exterior que se coloca a serviço dc uma ideia do que a potên­ cia mesma de tal ideia. intitulada singelamen­ te O Estado. potencialidade para a realização de algo. destinada a dirigir a comunidade a uma ordem social que considera benéfica.

dirigir. à coerção. ela reside na ideia que o inspira. Com efeito. O governo é a dinâmica do poder. às palavras de um sábio. Embora essencialmente sustentado pela força. a vis materialis ou corporalis. contingencialmente. O governo é o complexo de normas que disciplinam o exercício do poder. algo que se acrescenta. e pressuposto para a legitimação da ideia que anima aqueles que encarnam o poder. enfim. Os governantes são a encarnação do poder. se procurarmos o que é permanente no Poder enquanto passam as figuras que nele exercem as atribuições. sociedade condicionante) são formas de poder inerentes ao convívio social. As pessoas simples. ao poder. é inerente ao poder. assinala Georges Burdeau que o poder repousa numa ideia oriunda da consciência coletiva existente no grupo social. do latim auctoritas. pois. porém. as denominam argumentos de autoridade. Exceção feita à utopia dos anarquistas. sem recurso à força. Sc transportarmos a palavra poder para o campo da Ciência Política. administrar) transmite-nos esta ideia. autoridade. em especial aqueles do Poder Executivo estadual. o poder público somente se legi­ tima quando seu exercício é consentido por aqueles que lhe obedecem. Daí a distinção entre poder público e governo. da reverência dos governados. o governo é ação. Poder social (socieda­ des condicionadas) ou poder político (poder do Estado. lhe votariam. O poder é potência. enfim. . O vocábulo autoridade. A possibilidade de sua aplicação efe­ tiva chama-se coercibilidade. se for o caso. amparado pela força. A simples expectativa do empre­ go da força chama-se coação (vis compulsiva). eventualmente. Faltará. vemos que ele não é tan­ to uma força exterior que viesse pôr-se ao serviço de uma ideia como a mesma potên­ cia dessa ideia. nem sempre disporá do assentimento social. que significa aumentar. N ão é. temos. é comum denomi­ narmos os chefes do Poder Executivo governantes. que pretendem ver extinto o poder na vida em sociedade. vale dizer.40 Teoria Geral do Estado fulgor se arrisca a obliterar a reflexão. Ubi societas ibi jus. chamado governadores. o poder público nada mais é do que a capacidade de se fazer obedecer exercida pelo Estado. o imperium. Autoridade é possibilidade de suscitar obediência espontânea c conscien­ te. a este brocardo Pedro Salvetti Netto acres­ ceu a expressão ac potestas. dizia Aristóteles. A própria etimologia da palavra governo (conduzir. quando se referem. o poder é essencial a qualquer sociedade. Se o po­ der fático é a capacidade de se fazer obedecer. a fim de impor o cumprimento de um or­ denamento jurídico-político. o consenso social. Vale frisar. A força. deriva do verbo aitgere. O assentimen­ to. respeito­ samente. Por isso. aqui. Quem exerce ativa o poder. A cocrção é o emprego efetivo da força inerente ao poder. exato que a realidade substancial do Poder seja o mando. onde houver sociedade haverá direito e po­ der. com efeito. governa. que o poder. vale dizer. do respeito que estes. encon­ traremos o poder público ou do Estado definido por Alípio Valencia Vega como a força pública organizada coativamente. obtendo a obediência geral às regras deste.

aquele era a força em potência. eis Maomé e os aiatolás contemporâneos. de que auctum é um particípio-adjetivo. embora dispusesse da força. Exemplos: as de produção. Acha-se apoiada. Com efeito. aquele que promove com o seu exemplo e conselho o bem de uma coisa (alem. embora desprovidos da força. desenvolver. esta era a tra­ dição e o respeito. modelo. Augere. Etimologicamente deriva de auctor e de augere. a qualquer momento desencadeada. com a singeleza recomen­ dada pelo caráter meramente introdutório desta obra.a palavra carisma vem do grego cbarisma. Auctor era não só o autor. antes de se fixar na de poder. agora. Poder constituinte é a capacidade de criar ou de alterar a ordem jurídica do Estado. aumentar. A expressão vontade revela cm contraste com qualquer dependência referente a uma justiça normativa ou abstrata .o essen­ cialmente existencial deste fundamento de validade. Vejamos. por isso. poder constituinte é a vontade política cuja força ou autorida­ de é capaz de adotar a concreta decisão de conjunto sobre o modo c a forma da própria existência política. numa decisão política surgida dc um ser político. prestígio. O direito público romano já fazia uma distinção entre imperium e auctoritas. o conceito de poder constituinte. derivada do latim auctoritas. o ga­ rante. significava.3 0 Estado 41 No dizer de Cabral de Moncada. que sig­ nifica dom divino. Por vezes o líder carismático pode ter consigo também a força. Presume-se que sc cncontrc aí também a origem semântica da pala­ vra para significar mais tarde. foi assassinado. isto sim. graça divina . teve sempre nesta língua as mais variadas significações. accrca do modo c da forma do próprio ser. a existência da unidade política como um todo. fazer crescer. o promotor. aquele ou aqui­ lo que constituía a força e o vigor duma comunidade. por sua vez. determinando. encarnados num órgão. conselho. Os líderes carismáticos . o Senado. mediante uma transposição dc sentidos. no caso. etc. acentua Salvetti Netto. a evolução do termo autoridade foi a seguinte: A palavra autoridade. conforme ele próprio esclarece: Uma Constituição não se apoia numa norma cuja justiça seja fundamento de sua validade. tornar mais forte e poderoso alguém ou alguma coisa. exemplaridade. de Cristo e dos profetas. não se vincula a tendências ideológicas ou a princípios norteadores deste ou . César jamais teve a autoridade de um Cincinato. assim.são chefes necessariamente religiosos que fruem do respeito social. como o consultor. símbolo vivo dc um fastígio secular alcançado pela altivez. bravura e talento dos pais da pátria. Befõrdern). E o caso de Moisés. criação. O conceito de poder constituinte formulado por Schmitt. o conselheiro. Para Schmitt.

de caráter sagrado. Desde que o povo seja capaz de organizar o Estado e exer­ cer o governo. teocráticos. resta unicamente a le­ galização do movimento. Em muitos Estados da Antiguidade Oriental. Ele se encontra situado num ponto de intersecção entre a política c o di­ reito. aqui. A obra revolucionária. surgin­ do o povo. na Grécia clássica. Quando tal poder se manifesta mediante o emprego da força. Importante. inconstitucional. em Atenas e Esparta. se institucionalize. Alude-se ao que é e não ao que deve ser. na Inglaterra. Como o movimento vitorio­ so é legalizado? Pela edição de uma nova Constituição. que é aquele. a soberania não re­ sidia propriamente no monarca. Mais tarde. nestes dois Estados laicos. Se os revolucionários alcançam o poder. O poder constituinte é distinto dos poderes estabelecidos pela própria Cons­ tituição por ele criada. distinguir entre a mera legalidade e a legitimidade do poder constituinte. já se fazia uma distinção entre ato constituinte e ato legislativo. do melhor regime. em verdade. por Oliver Cromwell.42 Teoria Geral do Estado daquele regime político. Concretizada esta. e a Constituição a causa instrumental da ação deste poder. No dizer de Burdeau. prossegue. empunhando a bandeira de um ideá­ rio legítimo. O ato constituinte seria aquele de natureza originária. desde que esteja de acordo com a ideia do justo que o sistema de referência social professa. entre a aparente desordem revolucionária e dos regimes seguros de si próprios. . se não estiver de acordo com o consenso social. no pla­ no do Direito Positivo. sendo este a cau­ sa eficiente. seguido pela comunidade. ele é aquela potência criadora da ordem jurídica da qual fixa os princípios c estabelece os instrumentos. soberanamente. contudo. é ele o titular do poder constituinte: se for o rei. mesmo sendo ilegal. Entretanto. promulgado no ano de 1953. en­ contraremos. vontade fundada na coletividade e imposta igualmente a governantes e a governados. repito. dele será este mesmo poder. ela pode ser legítima. Séculos mais tarde. o antecedente mais remoto rela­ tivo à doutrina da separação entre poder constituinte e poderes constituídos. ate o momento em que. Não passou despercebido a este autor que a pró­ pria soberania reside no querer irrecusável do poder constituinte. o rei era. como o titular da soberania. é evidente que o poder constituinte derrubado incorrerá na ilegalidade e na ilegitimidade. mais precisamente como documento deno­ minado Agreement ofthe people (Acordo ou Pacto Popular). sob a denominação Instrumento de Governo. mediante o qual se criava a nação e sua estrutura político-social. mero executor de uma vontade superior. entre a turbulência das forças sociais c a serenidade dos procedimentos legais. pode­ rá ser ilegítima. ele será sempre ilegal. segundo Carlos Sanchez Viainonte. aqui. como geralmente se pensa. Não se trata. A obra revolucionária é sempre ilegal. vitorioso.

Martins Fontes. John. Política. o poder constituinte decorrente. ed.1) A nte ce d e n te s Desde que. 1993. Saraiva. v is s c iie r . prenuncia a separação de funções no Estado. o homem passou a viver em sociedade. 4.3 0 Estado 43 Se o movimento triunfante não contar com a legalidade. 3.. não a discuti-la. apenas a modifica parcialmente. o poder constituinte pode ser originário e instituído ou derivado. O homem é induzido a obedecer à lei. 1997.2. art. obtendo a aceitação dos governados. 1998. ed.2. também. Martins Fontes. 1947.. tivo brasileiro.). 10.. 1999. UNB. m e ir e l l e s . Assim Aristóteles (384-322 a. f e r r e ir a f il h o locke. Saraiva. 3. por natural tendência. Que vem a ser a legalização do movimento vitorioso? É o estabelecimento de normas positivas que justifiquem o conteúdo da obra revolucionária do poder cons­ tituinte. . São Paulo. sécu­ los depois. não se encontra vinculado a nenhuma condição.C. Do processo le­ Hely Lopes. 4. 60. Capítulo II. Paris. Direito administra­ m o n t e s q u ie u gislativo. São Paulo. leis. lembra Ferreira Filho. 4. no caso do Es­ tado federal (Constituição brasileira. São Paulo. ideia que seria retomada. bastos. em sua obra clássica Po­ lítica. Flá. 1984. tentará legitimar-se. São Paulo. é beneficiária dc um mecanismo psico­ lógico: o respeito à lei. tradução de Mário da Gama Cury. Tomemos como exemplo o seu art. não se acha submetido a nenhum princípio que não seja o daqueles que o encarnam. O poder constituinte originário é incondicionado. No primeiro caso. Curso de teoria do Fstado e ciência política. uma de sua maiores preocupações foi evitar o arbítrio dos governantes e seus indesejá­ veis efeitos. O espírito das Paul. num esforço de legitimação daquilo que era ilegítimo. ed. Dois tratados sobre o governo. sentimento que nos é incutido desde a mais tenra infância.. São Paulo. Manoel Gonçalves. Assim se expressa Aristóteles: . Les nouvelles tendances de la démocratie anglaise. . 25). no segun­ do. Tal medida.2. por Montesquieu. tradução de Cristina Murachco. ele dá origem a uma nova Constituição. que é o poder dos Estados-Membros. Livro IV. os mais antigos e respeitadores pensadores já buscavam delinear soluções para o con­ trole do poder político. dentre estes a insegurança imposta à liberdade individual. ed. Celso. Revista dos Tribunais.2) 0 princípio da se p a ra çã o de Poderes no Estado Bibliografia: A r i s t ó t e l e s . Quanto a suas espécies. Por isso. 1995.

Esse Legislativo e não apenas o poder su­ premo da sociedade política. destinada a governar ate mesmo o próprio Legislati­ vo. Ouçamo-lo: Sendo o principal objetivo da entrada dos homens em sociedades eles desfruta­ rem de suas propriedades em paz e segurança. Embora autores que sucederam Aristóteles tenham dissertado a respeito do tema. quanto às leis. e quanto à prestação de contas dos funcio­ nários. como também é sagrado e inalterável nas mãos em que a comunidade o tenha antes depositado. tampouco pode edito algum de quem quer que seja. e pela autoridade dela recebida. e na medida em que elas diferem uma das outras as Constituições também diferem entre si. pensador inglcs. a lei positiva primeira e fundamental de todas as socicdadcs políticas c o cstabclccimcnto do Poder Legislativo . a segunda trata das funções públicas. Pois. Bolingbroke e o próprio Montesquieu. sobre a qual ninguém pode ter o poder de elaborar leis salvo por seu pró­ prio consentimento. não teria a lei o que é absolutamente necessário à lei. notoriamente. Destas três partes uma trata da deliberação sobre assuntos públicos. ou seja: quais são as que devem ser instituídas. A parte deliberativa é soberana quanto à guerra c a paz e a formação e dissolução de alianças. a terceira trata dc como deve ser o Poder Judiciário. Observa Celso Bastos que as três funções de que falava Aristóteles são as mes­ mas que hoje conhecemos. como fez Cícero. não fosse assim. Talvez a sua linguagem fosse um pouco diferente. o inspirador original da separação de Poderes. o consentimento da sociedade. e estando o principal instrumento para tal nas leis estabelecidas naquela sociedade. mais precisamente nos séculos XVII e XV III. considerado por muitos. de exílio e de confisco da propriedade. o Legislativo.44 Teoria Geral do Estado Todas as formas de Constituição apresentam três partes em referências às quais o bom legislador deve examinar o que é conveniente para cada Constituição. uma função judiciária e de um magistrado incumbido dos restantes assuntos da administração. . Fala­ va ele numa função consultiva que se pronunciava acerca da guerra e da paz e acer­ ca das leis. equivocadamente. privilegiando. qual deve ser sua autoridade específica.já que a lei natural primeira e fundamental. ter força e obrigação de lei se não for sancionado pelo Legislativo escolhido e nomeado pelo público. seja de forma concebido ou por que poder apoiado. já desenvolvera. em sua obra Dois tratados sobre o governo. o fato é que a separação de Poderes só voltaria a ser anali­ sada muito tempo depois. e como devem ser escolhidos os funcionários. John Locke (1632-1704). por John Locke. se estas partes forem bem ordenadas a Constituição será necessariamente bem ordenada. consiste na conservação da sociedade e (até onde seja compatível com o bem pu­ blico) dc qualquer um dc seus integrantes. uma doutrina mais detalhadas da separação de Poderes. quantos às sentenças de mor­ te.

Com o primeiro. assim se expressa no Livro 11. não podendo exercer o autogoverno. o príncipe ou magistrado cria leis por um tempo ou para sempre e corrige ou anula aquelas que foram feitas. todavia. Quando.. o de executar as resoluções pú­ blicas e o de julgar os crimes ou as querelas entre os particulares. Sc estivesse unido ao poder executivo. mais precisamente Charles Louis dc Secondat. 4.2) 0 princípio da separação de Poderes segundo M on tesq uieu Quanto a Montesquieu (1689-1755). Locke observa: como as leis elaboradas de imediato e em pouco tempo têm força constante e duradou­ ra. Locke vislumbra certo Poder Federativo. Barão dc La Brède et de Montesquieu.2. na mesma pessoa ou no mesmo corpo de magistratu­ ra. que cuide da execução das leis que são elaboradas e permanecem vigentes. embora distintos. Sc estivesse unido ao poder legislativo. é necessário haver um poder per­ manente. o poder execu­ tivo das coisas que dependem do direito das gentes e o poder executivo daquelas que dependem do direito civil. firmar alianças e acordos com todas as pessoas e socie­ dades políticas internacionais. pode. não existe liberdade. § 6° (Da Constituição da Inglaterra): Existem cm cada Estado trcs tipos dc poder: o poder legislativo.]. porque se pode temer que o mesmo monarca ou o mesmo senado crie leis tirânicas para exe­ cutá-las tiranicamente. apto a cuidar da guerra e da paz. ele castiga os crimes. Tudo estaria perdido se o mesmo homem. ou julga as querelas entre os particu­ lares. após considerar o Poder Legislativo como o mais importante dos três Poderes. pois o juiz seria legislador. ou dos nobres. que sejam separados os Poderes Legislativo e Executivo. muitas vezes. instaura a segurança. A par do Poder Executivo. Esses dois Poderes. Chamaremos a este último poder de julgar e ao outro simplesmente poder exe­ cutivo do Estado [. quase sempre estão unidos.. Executivo e Federativo. fazer valer sua vontade soberana mediante seus representantes.2. Com o terceiro. Com o segundo. o juiz poderia ter a força de um opressor. com todos aqueles de que ela pode re­ ceber benefícios ou injúrias. compreendendo um a execução das leis municipais da sociedade dentro de seus próprios limites sobre todos os que dela fazem parte e outro a gestão da se­ gurança e do interesse e o público externo. e requerem uma perpétua execução ou assistência. até por­ que o povo. envia ou recebe embaixadas. Tampouco existe liberdade se o poder de julgar não for sepa­ rado do poder legislativo c do executivo. E assim acontece. ele faz a paz ou a guerra. no clássico O espírito das leis. ou do povo exercesse os três poderes: o de fazer as leis. previne invasões. ou o mesmo corpo dos principais. . o po­ der sobre a vida c a liberdade dos cidadãos seria arbitrário.3 0 Estado 45 Quanto ao Poder Executivo. o poder legislativo está reunido ao poder executivo.

o Poder Legislativo interferiria nas atribuições do Judiciário quan­ do do julgamento dos nobres pela Câmara dos Pares. já mencionada.08. sc tomarmos como exemplo a Constituição brasileira.1789. ser mais apropriado o termo função . o Legislativo julgar (art. com isso. Cada um destes “ Poderes” exerceria suas atribuições sem qualquer interferência dos demais. Não há. assim. a fim de estabelecer uma interdependência entre elas. criou-se em torno do ideário de Montesquieu a ideologia de um modelo político em que os três Poderes deve­ riam estar rigorosamente separados: o Executivo (o rei e seus ministros). Num dos maiores clássicos da Ciência Política. sem ferir. indivisível. 16: “Toute societé dans laquelle Ia garantie des droits riest pas assurée. que ocasionaria seu declínio e sua transformação num mito. mas também equilíbrio. mediante um sistema de freios e contrapesos (checks and balances). podendo exigir aos ministros prestação de cotas dc sua administra­ ção. Tal interdependência autoriza qual­ quer das três funções a exercer atribuições naturalmente peculiares a um dos res­ tantes. o Legislativo exerceria pressão sobre o Executivo. por sua vez. Daí. o Legisla­ tivo (primeira e segunda câmaras. Com efeito. separação de Poderes no Estado. não tem constituição". a se delinear uma crítica robusta e profunda a seus princípios. câmara baixa e câmara alta) e o Judiciário (cor­ po de magistrados). em vez de poder. como a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão. diga-se de passagem. naturalmente. I e II). O próprio Montesquieu. de 26. como se esses fossem estanques. entretanto. Assim. a Constituição. porque ju­ ridicamente é equivocada. M adi­ son pregava a necessidade de disciplinar o relacionamento entre as funções do Es­ tado. c o Judiciário legislar (art.46 Teoria Geral do Estado Desde logo. Ora. que já dizia no art. O eminente publicista Hely Lopes Meirelles adverte que apressados seguido­ res de Montesquieu interpretaram mal seu pensamento.1 . James Madison eJohnJay advertem que a tripartição das funções do Estado não é apenas divisão. 9 6 . Não demoraria. não disse haver três Poderes mutuamente isolados. ria point de constitutiori\ ou “Toda sociedade em que a garantia dos direitos não é assegurada. ni Ia séparation des pouvoirs determinée. em face do direito de veto concedido ao monarca. na medida em que controla as leis que vota. 52. mesmo nos primórdios da aplicação práti­ ca das ideias de Montesquieu. por outro lado. quando é certo que o Governo . a doutrina da separação de Poderes foi prestigiada em célebres legislações. uno. na verdade. a). intitulado O federalista (The federalist). mas em equilíbrio. porque o poder político é. Alexander Hamilton. já se reconhecia que o Executivo poderia interferir no Legislativo. nem a separa­ ção dc Poderes determinada. de modo que cada “po­ der” limitaria os demais: Le pouvoir arrete le pouvoir. veremos que o Poder Executivo pode legislar (art. na concessão de anistias e nos processos políticos que deviam ser apreciados pela câmara alta sob acusação da câmara baixa. falando em divisão e sepa­ ração de Poderes. a ex­ pressão separação de Poderes passa a ter conotação meramente política. 62). Assim. a doutrina dos freios e contrapesos. inspirando.

E quando o povo disser: submeter-nos-emos às regras e seremos governados pelas leis estabelecidas por tais homens e sob tais formas. que agi­ rão em nome do corpo eleitoral. 4. parlamentares. Paul Visscher. não podendo votá-la diretamente. 4. como já vimos. a competência de elaborar nor­ mas segundo um processo previamente estabelecido (processo legislativo). em face do princípio da legalidade. o enfraquecimento do poder real se acentuou em pro­ veito do Parlamento. por definição. quando a nobreza e o próprio povo tentavam limitar a auto­ ridade absoluta dos reis.3) 0 Poder Legislativo O Poder Legislativo. segundo Rousseau. que a exprime por meio da lei.2. ninguém mais poderá que outros ho­ mens devam elaborar leis para o povo. como se observa nesta sugestiva passagem de John Locke: não pode o legislativo transferir o poder de elaborar leis para outras mãos. Isto não significa que apenas o Legislativo elabora nor­ mas jurídicas. pessoal­ mente.2. pelo qual ninguém se obriga a fazer ou deixar de fazer algo. e tampouco pode ser este submetido a nenhu­ ma lei. N o mesmo sentido.2. diploma le­ gal discutido e referendado no próprio Legislativo. o povo se vê compelido a eleger seus representantes. teve origem na Inglaterra. não sendo ele senão um poder delegado pelo povo. To­ davia. as normas emanadas do Legislativo têm primazia sobre as outras. por uma concessão ou instituição positiva e voluntária. a soberania reside no povo. pois também o Executivo e. como o entendemos hoje. perenizada em sua obra O contrato social. vale dizer. o Judiciário.3 0 Estado 47 é resultante da interação dos três Poderes do Estado. Com efeito. senão àquelas promulgadas pelos indivíduos escolhidos c autorizados para for­ mular as leis da sociedade. Com a doutrina de Jean-Jacques Rousseau. as quais inovam a ordem jurídica. Todavia. Ao Poder Legislativo se confere. para quem atribuir a Montesquieu a separação absoluta de Poderes é ver­ dadeira escroqueria intelectual. Somente ao povo é facultado designar a forma da sociedade política. que se dá através da constituição do legislativo.4) 0 Estado con tem porâneo e a delegação de fu nções A doutrina clássica da separação de Poderes não admite a delegação de fun­ ções de um aos outros. não pode ser ele diverso do poder transmitido por tal concessão positiva. que é apenas o de elaborar leis e não de fazer .2. que representa falsear totalmente o pensamento do ilustre autor dc O espírito da leis. aqueles que o detêm não podem transmiti-los a outros. Uma vez que o poder do legislativo deriva do povo. du­ rante a Idade Média. senão em virtude de lei. mesmo. ou seja. e indicar em que mãos será depositado. lei em sentido estrito.

com rapi­ dez. sem coragem para tomar deci­ sões inadiáveis. 4. como eram enquanto só a burguesia participava in­ tensamente da vida política. por decreto. se digladiavam.5) 0 caso brasileiro: medida provisória e lei delegada N o Brasil.. ou aparentemente irredutíveis. por interm édio da Corte de Cassação. lei delegada e m edida provisória. inclusive modificando. este a cúm u ­ lo de tarefas trouxe consigo a própria paralisia do Legislativo. buscando agilizá-lo.2. De tal evolução. o fortalecim ento do Executivo se m anifestou m ediante três espé­ cies de normas: decreto-lei.]. em face das maiores possibilidades de legislar. C o m o passar do tem po. perm itindo a rápid a edição de norm as jurídicas de alcance social. as câmaras dão plenos poderes ao Executivo. porem impopulares. bem diferente dos tempos de Locke e M ontesquieu.48 Teoria Geral do Estado legisladores. dc sorte que não pode ter o legislativo nenhum poder de transferir sua autoridade de elaborar leis e colocá-la em mãos de terceiros. abalar a estrutura des­ ta que lhes parecia perfeita. p o r parte deste. Em verdade. dentre as quais. inatendidas em face da paralisia parlamentar. veio.2. parecia ensejar a plena realização da democracia. na França. para que este faça o que tem que ser feito. Nestas. com o assinala M anoe l Gonçalves Ferreira Filho. as leis do país. em contrapartida. N ã o obstante. que para os democratas radicais do século passado lsic]. Tal fenôm eno mostrou-se ain d a mais evidente a partir de 1920. na m edida do possível. com a inevitável delegação dc funções pelo Legislativo ao Executivo. assim. Observa M anoel Gonçalves Ferreira Filho: Incapazes dc fazer o que se torna imprescindível. Por outro lado. a realidade hoje é outra. como governo. a ascensão das massas ao processo de decisões políticas agravou a situação: O sufrágio universal. agravando gravemente o órgão no seu entender principal. . não mostra mais ostensiva do que a retratada nalgumas Constituições posteriores à Segunda Guerra Mundial. o sufrágio universal trouxe a divisão para o seio das assembleias. u m acú­ m ulo de funções. onde as discordâncias não iam alem dos pormenores. O papel proeminente do Legislativo acarretou-lhe. A decadência do Parlamento teve como contrapartida o engrandecimento do Executivo. obrigou os governos a repen­ sar o processo legislativo. e aguente as conseqüências [. para se tornarem o campo dc batalha onde cosmovisões hostis c interesses dc elasses irre­ dutíveis. a prerrogativa de anular decisões ju­ diciais. Por outro lado. o recrudescimento das reivindicações sociais no final do sécu­ lo X IX . Deixa­ ram estas de ser grupos primários. o an­ tigo Executivo passou a ser visto como poder governamental..

62. § 2° A rejeição do decreto-lei não implicará a nulidade dos atos praticados durante a sua vigência. assim dispondo o art. II . com força dc lei. ressalvado o disposto nos §§ 11 e 12 per­ derão eficácia. em casos de urgência ou de interesse públi­ co relevante. [. § 1° Publicado o texto.ainda em vigor . inclusive normas tributárias. g. a redemocratização do País. que terá vigência imediatamente. 55. não podendo emendá-lo. se não forem convertidas em lei no prazo de sessenta dias. não dese­ jando os parlamentares aprovar medidas eventualmente antipáticas. mediante decretos-lei. Repudiado na Constituição de 1946. Este passou a legislar sozinho. o decreto-lei retornou na de 1967. tem força dc lei.criação de cargos públicos e fixação de vencimentos. outorgada por Getúlio Var­ gas. de uma lei em sentido material. Por outro lado. devendo submetê-las dc imediato ao Congres­ so Nacional. desde a edição. Ora. ou seja. seguindo processo legislativo próprio. uma vez por igual período. por decreto legislativo. O Presidente da República. os atos praticados durante a vigência do decreto-lei se tornavam plenamente vá­ lidos.são decretos-lei. velada sucesso­ ra do decreto-lei. nesse prazo.yo Código Penal.finanças públicas. pois a negativa do Legislativo tinha efeito meramente ex nunc. nos termos do § 7°. com esta. ou seja. já que o decreto-lei tem força de lei. . em resumo. ou não desejan­ do comprometer-se com o todo-poderoso Governo Militar. valendo lembrar que inú­ meras leis importantes da época . o texto seria tido por aprovado. sem manifestação.1988 e. o texto será tido por aprovado. ficando o decreto-lei definitivamente aprovado por decurso de prazo. poderá expedir decretos-leis sobre as seguintes matérias: 1 . o Presidente da República poderá ado­ tar medidas provisórias. conforme advertia o § 2o. O decreto-lei surge no Di­ reito brasileiro com a Constituição autoritária de 1937. caput e § 3o: Art.3 0 Estado 49 A natureza do decreto-lei é a de um diploma híbrido entre o decreto (mero ato administrativo) e a própria lei. se. deixavam aquele pra­ zo fluir in albis. Observa-se. devendo o Congresso Na­ cional disciplinar.segurança nacional. sem retroatividade. nos seguintes termos: Art. mesmo que rejeitado pelo Congres­ so. o Congresso Nacional o aprova­ rá ou rejeitará. não havendo deliberação. emen­ dada em 1969. e desde que não haja aumento de despesa. não houver deliberação. Assim. a Consolidação das Leis do Trabalho e a Lei de Introdução ao Código Civil. culminaria na Constituição de 05. dentro de sessenta dias. Em caso dc relevância c urgência.. e III . prorrogável. v. Trata-se. no § I o. 62. em meados dos anos de 1980. a Lei de Contravenções Penais.. que não sendo o decreto-lei aprovado em sessenta dias. na medida provisória. o Código de Processo Penal.10. pois embora não tenha forma de lei. as relações jurídicas delas decorrentes.] § 3° As medidas provisórias.

mesmo dissolvidas. o que refor­ çava. regular mediante lei as relações jurídicas sur­ gidas em virtude daqueles decretos que não forem convertidos em lei [. as quais tomarão a forma de decretos-lei e não poderão conflitar com as instituições fundamentais do Estado. constatam-se institutos assemelhados ao decreto-lei e à medida provisória. Quando. consideravelmente. mediante o procedimento de urgência [. prazo este prorrogável (§ 3o). dispõem os arts. cuja vigência era imediata (art. 77 da Constituição italiana. 55. e nesta não for aprovado sem emendas dentro do mês seguinte. sobre sua convalidação ou derrogação..] § 1° Sc um projeto dc lei. Percebe-se. sobre matéria fi­ nanceira. salvo se a Câ­ . ele será apresentado à Sua Majestade. serão devidamente convocadas e reunir-se-ão dentro dos cinco dias seguintes.50 Teoria Geral do Estado Comparemos o decreto-lei da Constituição de 1967 e a medida provisória da Lei Magna de 1988. claro. dentro de referi­ do prazo. de imediato. com a medida provisória a situação se inverteu.] § 1° Em caso de extraordinária e urgente necessidade. pelo menos um mês antes do término da sessão legislativa. as quais. 1° [. na Constituição anterior. sempre no prazo de sessenta dias contados de seu recebimento.. em matéria de decretos-lei fi­ cava limitado a uma atitude passiva: aprovava o texto. nem ao Direito Eleitoral Geral.. deveres e liberdades dos cidadãos sob as normas do Título Primeiro. No direito comparado.]. § 3° Durante o prazo estabelecido no pará­ grafo anterior. se não forem convertidos cm lei (convertiti in legge) dentro dos sessenta dias de sua pu­ blicação. sem delegação das Câmaras. ditar decretos com força de lei ordinária. 86.1911: Art. que a atual Constituição favoreceu o Poder Legislativo. ao regime das Comunidades Autôno­ mas. Entretanto. a rejeição de um de­ creto-lei não implicava nulidade dos atos praticados na sua vigência. Os decretos perderão todo o efeito desde o início. Não pode o Governo.]. convocado para tanto. de 18. Nesse sentido. O Congresso deverá pronunciar-se expressamente. com variantes compatíveis com as peculiaridades de cada ordem jurídica. medidas provisórias (provvcdimcntiprov- visori) com força de lei.. ou o rejeitava sem poder emendá-lo. as Cortes poderão faze-los tramitar como projetos dc lei. § 2° Os decretos-lei deverão ser imediatamente submetidos a debate e votação pela totalidade dos membros do Congresso de Deputa­ dos. Art.08.. As Câmaras poderão. pois este.. deverá apresentá-las no mesmo dia para sua conversão em lei às Câmaras. aprovado pela Câmara dos Comuns.. o Poder Executivo. for enviado à Câmara dos Lordes. o Governo poderá editar dispo­ sições legislativas provisórias. no prazo dos trinta dias seguintes à sua promulgação. 86 da Constituição espanhola. se não for convertida em lei no prazo de sessenta dias”. o Governo adotar. todavia. os direitos. Art. e o I o da Lei britânica sobre o Parlamento. sob sua responsabilidade. § I o). para o qual o Regulamento estabele­ cerá um procedimento especial c sumário. como vimos. já que se esta não for apreciada pelo Legislativo perderá sua eficácia “desde a edição. Além disso. se não estiver reunido. 77.. [. em casos extraordinários de necessidade e de urgência.

do francês souveraineté. Sugestões Literárias. Elementos de teoria geral do Estado. no âm­ bito externo. 1985. apesar de todas as restrições dos teóricos e dos próprios líderes políticos. A soberania é o atributo do poder do Estado que o torna independente no plano interno e interdependente no plano externo. 2009. Não há Estado sem poder soberano. b o n a v id e s . 1986. São Paulo. Fnfim. Forense. Rio dc Janeiro.. o que distingue o Estado das demais pessoas ju­ rídicas de direito internacional público é a circunstância de que só ele tem soberania. sa l v e it i n et t o . Dalmo de Abreu. com efeito. entretanto. o vocábulo souveraineté são. Curso de teoria do Estado. O termo soberania deriva do latim medieval superanus e. maluf. Assim. o poder so­ berano reside nos órgãos dotados do poder de decidir em última instância. o poder soberano é um elemento essencial do Estado. Teoria geral do Estado. ed. Sahid. quando participa da sociedade mundial. 1964. d a l l a r i. e converter-se-á em ato do Parlamento. o que se exige c que a sociedade polírica tenha condições dc assegurar o máximo de eficácia para sua ordenação num deter­ minado território c que isso ocorra dc maneira permanente. Rio de Janeiro. Darcy. é ela . ficando na dependência da comprovação dc possuir soberania. sob o ângulo externo é uma afirmação de independência. o reconhecimento dc um Estado como tal não obedece a uma regulação jurídica precisa. Referindo-se à posição do estado na ordem internacional. pois a soberania é a qualidade suprema do poder estatal.. o Estado é uma pessoa jurídica de direito público internacional. Ciência política. Com efeito. 4. Porto Alegre. com os demais.3) Soberania Bibliografia: a za m b u ja a c c io l i. na qual a integração jurídica dos fatores políticos ainda se faz imperfeitamente. Saraiva. São Paulo. mais recentemente. As duas palavras latinas das quais parece derivar. Na prática.. me­ diante sanção real. que do ponto de vista interno do Estado é uma afirmação de poder superior a to­ dos os demais. ed. 1968. 1982. cada uma mantém. pois. realmen­ te. indepen­ dentemente dc atos formais de reconhecimento. Pedro. Saraiva. uma relação em que a igualdade se faz presente.3 0 Estado 51 mara dos Comuns decidir em contrário. Para o jurista. Teoria geral do Estado. significando a inexistência de uma ordem jurídica dotada de maior grau de eficácia. No âmbito interno. Forense. Pau­ lo. Esta. observa o professor Dalmo de Abreu Dallari: O mundo é uma sociedade de Estados. 6. Globo. Teoria geral do Estado. não bastando a supremacia eventual ou momentânea. ed. Wilson. 6. São Paulo. 28. independentemente do voto da Câmara dos Lordes.. superanus e supremitas. ed. 13. .

Graças à soberania. já havia uma dis­ tinção fugaz entre as leis constitucionais e as leis que poderíamos denominar leis ordinárias. mesquinhamente. mas as leis. o poder não se conser­ vou centralizado como no Império Romano. e nas suas lides impunha seus costumes e suas leis. se sobrepõem àquelas emanadas de outros organismos sociais. uma qualidade do poder do Estado. isto e. a sociedade feudal converteu-se em estamentária. Vimos. com as invasões dos bárbaros no Império Romano. por outro lado. Naquele pe­ . Conclui-se disso que. Surge a classe dos senhores feudais. é seu traço identificador.52 Teoria Geral do Estado que distingue este poder daquele observado nos grupos sociais condicionados pelo Estado. enfim. no limite de seu território. que a soberania é um atri­ buto essencial. o Estado torna-se uma sociedade condicionante. de um lado. Haverá soberania nos casos em que houver poder de decisão em última instância. de outro. sujeitam-se ao mando que caracteriza a sociedade po­ lítica. do poder político. Politicamente. eram superiores às demais. E isso porque o Estado é soberano. Na Alta Idade Média. é uma criação do Di­ reito Constitucional moderno. A Antiguidade já intuía a diferença entre as leis que estruturavam a organiza­ ção política e as que eram criadas por órgãos do governo. Tal superioridade era garantida por um procedimento que poderia ser tido como o ancestral da nossa ação direta de inconstitucionalidade. Por intermédio daquele procedimento era possível im­ pugnar a criação de leis que contradissessem as normas fundamentais. social e econômico. sendo este o único critério distintivo do Estado. fundava-se numa economia agrária. Daí a assertiva do professor Pedro Salvetti Netto: Assim como todas as sociedades possuem normas. não reconhecendo nenhum outro poder que se lhe iguale. Em sua obra A política. por direito próprio. a partir do século XI da Era Cristã. como resultado des­ te marco histórico. Séculos depois. nas situações em que houver poder de decisão em úl­ tima instância. na qual cada castelo feudal buscava. fenôme­ no que assinala o início da Idade Média. que se originam do Estado. formada por estamentos. O feudalismo. que. dentro de uma rigidez relativa. como as que estabeleciam a cidadania. sistema político. mas fragmentou-se em miríades de se­ nhorios feudais. perdurar independentemente dos demais. vale dizer. ao pas­ so que as sociedades menores tornam-se condicionadas pelo Estado. Cada senhorio possuía. geralmente se pensa. e no direito público de Ate­ nas havia a noção de que certas leis pertinentes à própria estrutura política da polis. e a dos servos da gleba. Que vem a ser um estamento? É uma ca­ mada social que compete com outras. Aristóteles faz tal distinção. Se o go­ verno é uma das causas formais do Estado. surge o Feudalismo. concernentes à estrutura fundamental da cidade-Estado ateniense. a soberania é a diferença específica dc tal governo. não dispensando o poder. estes tam­ bém. uma parcela do poder político. haverá soberania.

neste contrato.3 0 Estado 53 ríodo histórico o rei. enfim.2) A doutrina do con trato social A doutrina pactista medieval não deve ser confundida com a do contrato so­ cial. apenas. na França. Omnis potestas a Deo sed per populum. A doutrina pactista medieval ensinava que todo o poder vem de Deus: Omnis potestas a Deo.3. que reinasse sobre os litigantes. se não existisse a sociedade. Nes­ sa sociedade pontificou Jean Bodin. O monarca não seria parte no contrato . tinha um intermediário: o povo. Então. que se desenvolve a partir do século XVI. Tal consentimento importaria num verdadeiro pacto. Afirmava Hobbes que. 4. o chamado pactum subjectionis. a própria fonte da sociedade. precursora do Estado absolutista. encabeçada por Hugo Grócio. “Todo poder vem de Deus.3. os homens abdicariam de sua liberdade em favor de um monarca. e nos três mais significativos autores da doutrina contratualista: Thomas Hobbes. mas a doutrina do contrato social via em tal acordo de vontades a fonte da própria sociedade. são inúmeras as doutrinas a respeito. como predicava Santo Tomás de Aquino. era a sociabilidade inata do homem. 4. Para a doutrina pactista medieval a fonte da sociedade era a inclinação natu­ ral do homem. por intermédio do povo”. mas. as lutas religiosas causadas pela Reforma ameaçaram destruir a própria sociedade civil. A doutrina do contrato social pode ser ana­ lisada na célebre Escola do Direito Natural e das Gentes.1) A doutrina pactista medieval Quanto à titularidade da soberania. a nobreza. Daí a expressão soberania. Supremus. para acentuar-se nos séculos XVII e XVIII. os homens estariam em guer­ ra continuamente: o homem seria lobo do próprio homem (homo homini lupus). como já vimos. tal perigo foi conjurado com o surgimento de uma sociedade intitulada “Os Políticos”. o clero e o povo formaram estamentos que lutavam para ascender politicamente e exercer o poder soberano. ou sovrain (na França). autor de uma obra intitulada Os seis livros da República. tornava-se o estamento que passasse a exercer seu poder soberano sobre os demais. John Locke e Jean-Jacques Rousseau. que pregava a necessidade de um poder supremo. Mais tarde. mas os autores que difundiram a ideia do contrato social viam. cuja função seria manter a paz. Para evitar tais males. seria a fonte do poder político. tacitamente manifestado. soberano. sobre toda a nação. O consentimento popular. Há uma diferença sutil entre a doutrina pactista medieval e a doutrina do con­ trato social: A doutrina pactista medieval via no acordo de vontades a fonte do go­ verno. dc tal poder. isto é.

é a doutrina da soberania popular. em direito civil. Governo tão perfeito não convém aos homens” (O contrato social. simultaneamente. de Emmanuel Joseph Siéyès. Siéyès começa por dizer que. ela é. em tal concepção. Por isso Rousseau não acreditava na representação política e refugava os chamados representantes do povo. cada um des­ tes será titular da fração correspondente da soberania. Com a Revolução Francesa. Considera Rousseau. e a da sobe­ rania nacional. preconizada por Emmanuel Jo­ seph Siéyès (1748-1836). Povo. seria uma comunida­ de concreta. numa sociedade historicamente considerada. que a participação política do cidadão não deve ser compulsória. com efeito. Haveria um ato que. se o fundamento da soberania fosse a vontade do povo. O que é a nação. com exceção da democracia. que a ideia rousseauniana de que o governo só é legítimo quando todos os cidadãos participam da tomada das decisões fundamentais deve ser apreciada em termos. Ora. presente. então. Afirma Siéyès que o poder do Estado não é exercido em nome do povo. indelegável. mesmo. que as três formas básicas de governo. denominaríamos estipulação em favor de terceiro. vale dizer. a qual. por alguns ou. seria o conjunto das pessoas con­ temporâneas que formaria o elemento humano do Estado num dado momento. Ela não se confunde com a doutrina da soberania nacional.54 Teoria Geral do Estado social. sendo esta a vontade dos cidadãos sobre problemas de interesse comum. aristocracia e demo­ cracia. Capítulo IV. então. Cada cidadão é deten­ tor de uma fração da soberania. Conclui-se. comunidade limita­ . é um soberano. tomar as decisões e aplicá-las: “Se hou­ vesse um povo de deuses. monarquia. na verdade. Haverá. seria mero beneficiário de uma delegação. as decisões fundamentais de­ vem partir da vontade geral. Segundo Rousseau. todo cidadão. tem uma importância prática muito maior. segundo Jean-Jacques Rousseau. em face disso. mas em nome da nação. Em sua obra clássica O contrato social. os quais não se confundem com os interesses permanentes das gerações que se sucedem no tempo. portanto. Se o Estado possuir 10 mil cidadãos. existem inte­ resses momentâneos. é parte da soberania. Para que o Estado seja legitimado. já se vê. entretanto? Para conceituar a nação. Esta doutrina de Rousseau. parte final). sendo a soberania uma prerrogati­ va personalíssima. pois o direito de votar não implica um dever de votar. porém. poderiam ser legitimadas. todos os cidadãos devem participar da formação da von­ tade geral. por um único homem. Por outro lado. legitimidade somente se houver iden­ tificação entre governantes e governados. historicamente considerada. são consagradas duas doutrinas de relevo sobre a soberania: a da soberania popular. o poder estatal deverá estar em mãos de todos os indiví­ duos que compõem o povo. Livro III. mas a aplicação das medidas decorrentes desta vontade pode ser feita por todos. Vale notar. governar-se-ia democraticamente. no Estado consti­ tuído legitimamente. Rousseau afirma que o poder só é le­ gítimo quando se origina da vontade de todos os que serão governados. Não pretende Rousseau que todo o povo tome e execute as decisões. porque somente um povo de deuses poderia. por via de conseqüência.

as doutrinas da soberania popular e da soberania nacional acabaram por se fundir. não sendo de todo falso afirmar que soberana não é a nação. os represen­ tantes da nação? Tais representantes serão escolhidos por aqueles que a nação de­ signar como eleitores. em face do progressivo declínio dos parlamentos. entidade espiritual que é o fundamento da soberania. do pensamento do Siéyès. Com o passar do tempo. afirmando-se que o povo é o soberano (!). então. à balha. adverte Siéyès. mas o par­ lamento. mas um dever. e levando-se em conta que os representantes da nação representam esta. e não na vontade do eleito­ rado. en­ tretanto. mas apura-se. e não seus eleitores. Disso decorre que o voto não representa um direito. a menos que infrinja a Constituição. tão somente. O destaque dc maior importância no raciocínio de Siéyès é que. Além disso. segundo os interes­ ses permanentes e definidos da sociedade. nos termos. pas­ sando a representação política a ter natureza institucional e não consensual. fica rompido um possível vínculo jurídico entre eleitor e eleito. Modernamente. em verdade. entretanto. havia o mandato imperativo. neste país. porém. É preciso. deve estar dirigido aos interesses permanentes da sociedade. A nação. que a nação seja representada por aqueles que atuem em seu nome. se não cumprisse sua obrigação. nos termos da Constituição. Com Siéyès.3 0 Estado 55 da no tempo. ou por uma parcela deste. o representante do povo passou a ser representante da nação. os interesses permanen­ tes da nação. por ora. seria substituído. vale dizer. sendo a representação fundada na Constituição. é evidente que ela pode restringir ou ampliar o número de participantes do sufrágio. o sufrágio universal. A res­ cisão da investidura do representante da nação não parte mais da vontade do elei­ tor. com total independência . Quem escolherá. percebe-se que a doutrina da soberania nacional originou. é uma entidade imaterial. entretanto. Como fazer valer a sua vontade? Diretamente. incumbido de repre­ sentar. os interesses permanentes das gerações em sucessão poderiam ser ir­ remediavelmente lesados. O supremo poder do Estado. conforme institucionalizado em lei. As gerações que se sucedem cons­ tituem a nação. esta foi identificada com o povo. se é a nação quem vai selecionar o corpo eleitoral destinado a eleger seus represen­ tantes. seria impossível. com total liberdade e sem a pressão do eleitorado. pelo qual o representante de cada estamento comparecia às reuniões apenas para formalizar a vontade de seus representados perante o gover­ no e. não uma democracia com fundamento na nação. todas as Constitui­ ções da França revolucionária adotaram o chamado sufrágio censitário. Em face disso. por influência do próprio Siéyès. mesmo porque. Antes da Revolução Francesa. totalmente divorciada dos interesses populares. Já se vê que o representante da nação não tem instruções de seus eleitores a cumprir. Então os representantes da nação serão eleitos pelo povo todo. nem contas a prestar. como na doutrina da soberania popular. como se tornara difícil definir a nação. Somen­ te em 1848 foi instituído. en­ sejado por fatores que não vêm. ainda assim sem parti­ cipação das mulheres. mas uma oligarquia parlamentar. um munus.

em poderes do Es­ tado. concomitantemente. estatal. embora desaparecidas. 2°. divulgada em mar­ ço de 1947. mesmo. É o que se constata.3) A doutrina da soberania limitada Trata-se de uma doutrina formulada pela União Soviética. e que preconi­ zava a intervenção dos Estados Unidos naqueles Estados que. por exemplo. Não existe. no rí­ gido controle político dos Estados socialistas “satélites” da hoje extinta União So­ viética. perante o eleitorado. “su­ perior”. o comunista soviético e o capitalista ocidental. um direito natural e. Como reação aos princípios da soberania nacional. há quem afirme que a soberania pertence ao próprio Estado. Se. na esfera de sua competência. durante a chama­ da “Guerra Fria” conseqüência imediata da Segunda Guerra Mundial. pelo próprio Truman. simplesmente. 53. que fruiriam de uma liberdade ou soberania meramente relativa. Vale notar que a soberania é una e indivisível. portanto. Não há que falar. de imediato. Assim fizeram algumas Constituições modernas. uma reação contra a chamada Doutrina Truman. criado e imposto pelo Estado. como o fazem Georg Jellinek e Hans Kelsen. Constituições modernas volta­ ram-se para o mandato imperativo. inerente à norma de direito positivo. O Estado precede o Direito. como a da extinta União Soviética e. em verdade. características que lhe são es­ senciais. de forma soberana. em face da ausência da coercibilidade. a soberania pode ter por fundamento o povo (Rosseau) ou a nação (Siéyès). Se o adjetivo “soberano” significa “supremo”. ainda em vigor. que. cada qual atuando. a de Cuba. o eleitorado aos seus representantes. e que se consagra na Constituição brasileira. no Congresso norte-americano. mas não divide a soberania. buscando vincular. Na verdade. art. N ão há.3. numa mes­ ma sociedade política? A indivisibilidade da soberania é corolário de sua unidade. por ocasião da invasão militar da Checoslováquia pelas tropas soviéticas. este é criado por aquele. consistindo. podendo estes scr afastados do cargo pelos próprios elei­ tores.56 Teoria Geral do Estado para os seus representantes. 4. mas três órgãos. portanto. juridicamente. para evi­ tar a desintegração do império soviético. reparte compe­ tências. da leitura conjunta dos arts. A ideia de soberania “limitada” foi afirmada pelo líder soviético Leonid Brezhnev em 1968. a doutrina de Brezhnev foi. Em princípio. Como adverte Sahid Maluf. um Direito Internacional. apoiando a política . como na célebre tripartição de Poderes que nos vem de Aristóteles a Montesquieu. como admitir duas entidades “soberanas”. o poder soberano delega atribuições. três Poderes. a soberania é una porque não pode existir mais de um poder soberano num mesmo Estado. são recentes. Só há um Direito: o Direito Positivo. basicamente. 55 e 56 da Constituição brasileira. para alguns. caracteriza­ da por uma tensão permanente entre os dois grandes blocos ideológicos vencedo­ res. Depreen­ de-se disso que não há limitação ao poder do Estado.

sendo disciplinado em suas relações de amizade. em ques­ tão de segundos salta as fronteiras dos Estados. no notável incremento do turismo internacional. São Paulo. sendo seu fundamen­ to. 1997). sem considerar as conveniências sociais (Enciclopédia de la políti­ ca. cortesia e. Saraiva. 6. 1939. sociedade condicionante das demais e dotada de poder so­ berano. o próprio Estado..3. manter a paz social.4) Ordem jurídica Bibliografia: vetti n e t t o . sal- Pedro. no fluxo internacional de capitais. o capital.. mas tam­ bém interage. no fortalecimento das empresas multinacionais. São Paulo. 1984. forçoso reconhecer que o poder político dos Estados vem a ser superado pela planificação econômica das grandes empresas multinacionais. move-se com espantosa rapidez e total liberdade. formando-se o pânico nas suas bol­ sas. Impossível evitar. Curso de teoria do Estado. O direito quântico. Acadêmica. passando por um processo de integração paulatina denominado socialização. o poder po­ lítico tem por missão principal ordenar a vida em sociedade.4) Globalização e soberania O fenômeno da globalização da economia mundial se expressa na abertura dos mercados. O homem é um ser social. Teoria pura do direito.3 0 Estado 57 norte-americana. Assim. Conforme suas conveniências. em suas relações jurídicas. é imediatamente sancionado com a desinversão. formando. Como observa Rodrigo Borja. principal­ mente. 1985. les j r kelsen. entretanto. Quando um Estado deixa de oferecer condições vantajosas para este capital. Em sociedade. emigrando cm busca de maior lu­ cro. Hans. então. Ao viver comunitariamente. nesta nova ordem econômica interna­ cional o capital criou sua própria “soberania” . na internacionalização da tecnologia e. estivessem ameaçados por minorias ativistas paramiiitares prósoviéticas. estas garantidas pelo Estado. Fondo de Cultura Econômica. Assim. t e l - . 4. escolhendo os Estados que adotará como fonte de renda. a partir da célula familiar e o municí­ pio. o homem não apenas age. na eliminação de barreiras fiscais em favor deste. M ax Limonad. ed. no livre comércio. ele alcança seus objetivos individuais e satisfaz sua tendência gregária. que dispõem da economia mundial em favor de seus interesses. 4. mesmo. Disciplinando as relações jurídicas . Goffredo. México. especialmen­ te o especulativo. São Paulo. diga-se de passagem. Com efeito. a perda do controle de sua economia e criar alterna­ tivas independentes da especulação internacional.

quantas normas. entretanto. Por isso. é preciso que existam normas que definam o que pode e o que não pode ser feito ou deixado de fazer. significava régua. o grande filósofo da Antiguidade Clássica. Alguns filósofos do Direito não admitem a existência da desordem. incerto. das mais variadas naturezas. dispensar a ordem jurídica. por exemplo. vale dizer. orientar. como não poderia deixar dc ser. ele sempre está presente cm ter­ mos análogos. o mesmo ra­ dical sânscrito or. Quanto à norma jurídica. uma ordem inconveniente. Coercibilidade deriva de coerção. já se disse. Para que haja or­ dem. em caso contrário eles próprios naufragariam na desordem e na insegurança. por exemplo. reto. o vocábulo norma. a vida em sociedade? Mediante a imposição de normas jurídicas. jamais. No direito romano. que denomina a pressão meramente psicológica. pois sen­ do o conceito de ordem eminentemente subjetivo. Es­ tas. a legítima defesa. Curiosamente. principalmente. . ficaremos impressionados. podendo ser definida como a unidade na multiplicidade ou a conveniente disposição de elementos para a realização de um fim. O vocábulo ordem traz consigo um radical antiquíssimo. ideológico. portan­ to. conferindo-lhe uma direção con­ sagrada por determinada concepção dc ordem. Veja-se que o termo norma traz. a sim­ ples ameaça. posto.58 Teoria Geral do Estado entre as pessoas. são dotadas de coercibilidade. Não foi sem razão que Aristóteles. jurídicas. imposto. nortear. conexos. encontrado na palavra ordem. norma es­ tatal dotada de cocrcibilidadc. Viven­ do em sociedade. “onde houver sociedade haverá direito” (ubi societas ibi jus). e não sinuoso. de caráter religioso e. para que alguém faça ou deixe de fazer algo. algo que é direito. com atenção. o jus positum era o direito criado pelo Estado e. o Estado ordena a vida humana. Daí direito positivo. mas não essenciais. de origem sânscrita: oryque significa diretriz. Assim. E o que é uma norma? Norma é uma diretriz de conduta socialmente estabelecida. isto é. daí a analogia. coativamente. possibilidade do emprego da violência física (vis materialis). Então. cumprimos durante nosso cotidiano. deve haver uma ordem imposta na vida em sociedade. Não houvesse ordem jurídica e teríamos o caos. os homens poderão dispensar uma série de bens úteis. esqua­ dro. Se observarmos. de afeto. pelo Estado. Mesmo os regimes políticos mais despóticos e injustos não podem deixar de se amparar num mínimo de legalidade. tão somente. forma. afirmou que. restando evidente que a coerção somente pode ser exercida quando au­ torizada pela norma jurídica. ordem implica a ideia de forma. ao contrário de coação (coatividadc). violência corporal. oriente. por exemplo. não poderão. de origem latina. a desordem. é uma diretriz dc con­ duta socialmente estabelecida pelo direito positivo. direito imposto. con­ tornar. a desordem seria. formar. E como o Estado ordenaria. rumo a seguir. positivo. Normas de polidez.

e não mera soma de partes simplesmente justapostas. um preâmbulo. incisos e alí­ neas. Uma norma só é válida se não conflitar com a ordem jurídica da qual faz parte. orgânico. mas não idêntica. As normas jurídicas não sc acham soltas. parágrafos. Vejam a paleta na qual um pintor derrama suas tintas. carecem de unidade até que o compositor lhes dê uma dis­ posição estética conveniente. uma estrutura? É uma dispo­ sição harmoniosa das partes para a realização do todo. am­ parado numa ordem jurídica férrea. Essas tintas estão em desali­ nho. vere­ mos que ela apresenta uma estrutura. Esta ordem se formaliza. Foram Hans Kelsen e Adolf Merkel que interpretaram a ordem jurídica como uma pirâmide escalonada. Mas é preciso que haja outro elemento neste conceito. Sim. umas complementam outras. uma sentença judicial somente são válidos se esti­ verem em conformidade com os demais diplomas legais. Cada um dos dispositivos se relaciona. formam uma multiplicidade que não satisfaz. o ser humano é perverso por índole. Ela possui. um contrato. no seu livro célebre intitulado Leviatã. à disposição ordenada dos capítulos de um livro. sem dúvida. integra o conceito de ordem. que. contudo. uma melodia pois. com os demais. ordenadamente.3 0 Estado 59 Um dos maiores teóricos do absolutismo monárquico. pois possui uma característica que lhe é essencial e que. qual seja. Pois bem. Mas quando elas forem dispostas. Desta derivam todas as demais normas. a ordem jurídica é uma es­ trutura análoga a uma estrutura musical ou plástica. portanto. estão. na tela em branco. Inicialmente. Ora. dc estrutura. dispostas hierarquicamente. de força. a unidade. sob o im­ pério da Constituição. fornecido pela razão. que o homem é lobo do próprio homem (horno homini lupus). Qual o fundamento desta ideia? Se abrirmos uma coletânea de legislação e a analisarmos detidamente. complementado o conceito de ordem. no topo da qual se acha a Constituição. Já se percebe que a ordem jurídica é uma estrutura. a distingue das outras: a hierarquia entre suas partes (normas) integrantes. contendo epígrafe. o inglês Thomas Hobbes. vale dizer. convenientemente. formal. ordenado. iso­ ladas umas das outras. e seu instinto pernicioso somente pode ser controlado por um poder político severo. em desconexão. por si só. a ordem jurídica bem se assemelha às notas de uma melodia. entretanto. toma forma de normas jurídicas. A ordem jurídica é uma estrutura. umas dependem de outras. necessariamente. a or­ dem jurídica não é idêntica às demais estruturas. um conjunto harmônico. todas as normas jurídicas de uma ordem jurídica consistem no elemento multiplicidade. o artista. isto sim. O complexo de normas ju­ rídicas em vigor numa sociedade não sc acha disposto mecanicamente. embora formando o elemento multiplicidade. mas sim de modo organizado. teremos. Várias notas musicais emi­ tidas ao léu não formam. O que vem a ser. As normas jurídicas de uma ordem jurídica não estão no mes­ mo plano de eficácia. Assim. direta ou indiretamente. uma característica sui generis: a hierarquia entre as normas. como vimos. tudo disposto harmoniosamente. a fim de iniciar a pintura da paisagem que contempla. Uma lei. enfatizava. uma ordem que pareceu conveniente ao le­ gislador. sem­ .

aqui. o direito impositivo. podemos referir-lhe uma enorme quantidade de normas derivadas: “não deves prejudicar os outros”. o Código Civil. Porém.é um sistema de normas jurídicas. posto. Conforme a espécie de norma fundamental. se a sua validade puder ser referida a uma norma única como último funda­ mento dessa validade. derivam da norma fundamental da veracidade. o qual possui uma determinada qualidade.a ordem jurídica . Assim. por isso. são normas de direito objetivo a Constituição. Suponha­ mos a seguinte norma fundamental: “deves amar o próximo”. uma ordem. “não deves enganar”. de compreender que as diversas normas da moral já se acham compreendidas numa nor­ ma básica.60 Teoria Geral do Estado pre hierarquicamente. que lhes confere essa validade. procedendo a uma dedução do geral para o parti­ cular. “deves cumprir tuas promessas” etc. somente limita­ das por outra norma estatal. a Constituição não pode ser ferida por uma lei ordi­ nária. E a primeira pergunta a que é preciso responder. os contra­ tos e os atos administrativos. é preciso fazer uma distinção: somente a Cons­ . um sistema. Essa norma fundamental constitui. mediante uma opera­ ção lógica. isto é. 60-1) sintetiza seu pensamento a respeito: O Direito. cuja fonte é o Estado. a unida­ de da pluralidade de todas as normas que constituem uma ordem. como ordem . é porque a sua validade pode ser referida à nor­ ma fundamental dessa ordem. qual é a norma fundamental de um determinado sistema de moral. as normas “não deves mentir”. Hans Kelsen (1939. O conjunto de todas as normas jurídicas no Estado chama-se. a conduta por elas prescrita ao homem impõe-se pelo seu conteúdo. São desta espécie as normas da moral. formula-a a Teoria Pura do Direito pela maneira seguinte: o que é que estabelece a unidade de uma pluralidade de nor­ mas jurídicas? Por que razão uma determinada norma jurídica pertence a um certo sis­ tema dc Direito? Uma pluralidade dc normas constitui uma unidade. formam um todo denominado direito positivo. todas as normas particulares da moral podem fazer-se derivar. direi­ to objetivo. E as normas obtêm esta qualificação concreta pelo fato de estarem relacionadas com uma norma funda­ mental. na verdade. con­ forme a natureza do princípio de validade. como última fonte. isto é. quer dizer. da mesma maneira que o particular está contido no geral e que. p. Trata-se. Não nos interessa saber. então. a cujo conteúdo está submetido o conteúdo das normas constitutivas da or­ dem em questão. As normas da primeira valem por si. “deves au­ xiliar o teu próximo em caso de necessidade” etc. Numa passagem de grande vigor intelectual e de cla­ reza. podemos distinguir duas espécies de ordem (sistemas normativos). como o particular se subsume ao geral. imposto. de evidência imediata. As normas jurídicas criadas pelo Estado são incontrastáveis. E se uma norma pertence a uma determinada ordem. enfim. Por exemplo. Direito objetivo é o conjunto de todas as normas jurídicas em vigor no Estado. Essas normas jurídicas. da norma fundamental. nem um decreto regulamentar pode dispor de modo contrário à lei que ele próprio está regulamentando.

Pierre. Curso de teoria do Estado. São Paulo. a santidade é um bem de valor. 1979. ed. du 1963. São Paulo. São Paulo. 1981. 1969. Os direitos sociais nas constituições. Paulo kelsen. um ideal mais alto do que os ou­ tros ideais. . Os regimes políticos. A doutrina social da Igreja. 1859. por exemplo. mas somente as normas jurídicas provenientes do Estado são normas de direito positivo. souza . Coimbra. vres completes. 6. Nem mesmo seres ideais podem ser valores. Uma coisa não pode ser um va­ lor. Difusão Européia do Livro. São Paulo. elucida o professor GoffredoTclles Júnior: De fato. 4. o que realmente queremos dizer é que os bens de valor estão no cofre. São Paulo. Dalmo dc Abreu. Manoel Gonçalves. São Paulo. Sucessor. 1949. Que é valor? É a importância que se atribui a um bem. O direito quãntico. O futuro do Estado. não e um valor. mas somente para quem vê nela um ideal de vida. 1980. Zahar. salvetti n e t t o . . C. Mauricc. São Paulo. Saraiva. P. Ci. Oeli­ Encíclica Quadragésimo Anno. 1966. t e l i . Problemas de filosofia política. - verger . Coimbra. . Harold J.f. 1981. m o n t e s q u i e u . São Paulo. A democracia possível. Conceito e natureza da sociedade política. 1946. ru it e n p io x i. Q uando dizemos os valores estão no cofre. 1982. M ax Limonad. Mas não é um valor em si. Braga.. 11. Não se pode dar a uma coisa o nome de valor. Sucessor. São Paulo. Mas uma joia não é um valor. g a l v Ão f e r r e ir a f il h o e Curso de direito constitucional. A doutrina social da igreja segundo as encíclicas Pedro. 1981. . 1979. São Paulo. Moderna. Luís. . ed. São Paulo. não designa a essência e a existência de coisas.5) Causa final: o bem comum Bibliografia: m oncada b ig o . Armênio Amado. Hachette. Rerum Novarum e Quadragésimo Anno. em seu sentido pró­ prio.s do. c a b r a i. 1978. Saraiva.. 3. df. É um bem a que se atribui valor. Armênio Amado. Hans. O. Paris. a palavra valor quando empregada corretamente. Neste sentido. 4. Saraiva.3 0 Estado 61 tituição. ed. Teoria pura do direito. Igual­ mente. .. Rio de Janeiro. a não ser que se falsifique o senti­ do da palavra valor. A santidade (ou o santo). Todas as normas jurídicas são de direito objetivo. o Código Civil. José Pedro Galjr vão de. A santidade tem va­ lor. As coisas não constituem bens em si mesmas. l a s k i. o Código Penal e outras leis oriundas do Estado formam o direito positivo. É uma coisa valiosa. porque se impõem a todas as outras. sendo necessário que se lhes atribua um valor.. ed. Afirmar que a san­ tidade é um valor e o mesmo que afirmar que uma joia e um valor. Ela e um bem. 1985. O mani­ festo Comunista de Marx e Engels. d a l l a r i. Goffre- Bem é tudo o que seja objeto do desejo humano.

necessariamente. se a concepção totalitária de bem co­ mum supera. Causa final da sociedade política. Foi aquele o século do racionalismo. contudo. com certeza. confunde-se com a concepção do que é justo em determinada sociedade. puro instrumento de um todo. Por outro lado. o faz com fundamento nos valores adotados pela comunidade. a visão limitada do individualismo.5.1) 0 liberalism o e 0 bem com um Absoluta e unanimemente. a valoração dos bens varia no tempo e 110 espaço. A norma jurídica. deixa de ser legal. o bem comum deve ter como objetivo a plena realização espiritual e física do homem. então. essencial­ mente legal. Estávamos. quando o intelecto valora um fato. desta formulação. evi­ dentemente. Infelizmente. O Estado não é mais do que um meio de realização do bem comum. a mera conservação da ordem social. A moral social. Embora a ordem jurídica tenha por objetivo final o bem comum. mais precisamen­ te o século XVIII. A norma jurídica não se origina apenas do fato e da inteligência. não são perpétuos nem imutáveis numa mesma socieda­ de. uma liberdade de tempos de paz. pre­ tendeu libertar o homem “das trevas da superstição medieval”. doutrina que. em diferentes épocas. bem comum era. embora seja. a liberdade e a iniciativa individuais. Os valores sociais têm uma existência histórica. mesmo porque. ele varia com o tempo. Sim. então. Cada sociedade. Tal concepção chama-se con­ senso social. pois. 4. o preço a ser pago por essa superação é de tornar cada ser humano mera parcela do todo so­ cial. Não é difícil depreender. a mesma liberdade de tempos de escassez. caso contrário cairíamos no totalitarismo. há uma liberdade de época de fartura que não é. legal. e também do individualismo e do cidadão abstrato.62 Teoria Geral do Estado Ora. na oportunidade. Há uma liberdade de tempos de guerra que não é. em que o bem comum foi definido como a ordem jurídica. que culminaria na Revolução Francesa. A ideia de justo ou de legitimidade de uma ordem jurídica fundamenta-se no consenso social. pois. nem por isso a norma jurídica. absolutamente. justa ou injusta. Enormes divergências entre os homens residem. como o próprio nome revela. sem ferir. consubstanciado 11a ideia de justo. todos os sistemas políticos se declaram adeptos da liberdade individual. alterando-se conforme o ensejarem novas circunstâncias. somente será legítima se estiver conforme o consenso social. e para tanto deve atuar inci­ sivamente. . inquestionavelmente. enquanto válida. perío­ do de esplendor do Iluminismo. mostrando-se o reto caminho das luzes da razão. como sinônimo de paz social. nem sempre tal finalidade é alcançada. houve época. adota uma tábua de valores c. tida como o conjunto dos valores sociais. que nem sempre a ordem jurídica é justa. 11a disparidade das interpretações da liberdade. o conceito de liberdade não é unívoco. concebe e ado­ ta as normas jurídicas c morais. Conclui-se dessa breve digressão introdutória que o conceito de bem comum varia no tempo e no espaço. em pleno apogeu do Século das Luzes.

acuradamente. ora outro. Em qualquer Estado. se cada um dc nós pudesse fazer o que as leis proíbem. Cada homem denomina liberdade ao governo que mais sc ajusta aos seus costumes e inclinações pessoais. Observa. se hos­ tilizam e se excluem. sua concep­ ção de liberdade. O equilíbrio entre ambos ainda não foi alcançado: ora predomina um. sempre. publicista pátrio. No campo da doutrina. é mais freqüente que a coloquem os povos na república. porque naquela não têm. Outro eminente publicista francês. a liberdade consiste em po­ der fazer o que se deve querer e em não ser obrigado a fazer o que não se deve que­ rer. A liberdade é o direito de fazer o que as leis permitem. o grande Montesquieu. faz o que deseja. por sua vez. Já para Harold Laski. em torno de dois valo­ res: indivíduo e coletividade. a fim de impedir que a liberdade dos fracos seja sufocada pela liberdade de uma minoria. ademais e a todos. Léon Duguit. o povo. para outros é exatamente o oposto desta. entre independência c liberdade. num primeiro momento de sua vida. Afirma. intelectual ou moral. para alguns. a exemplo de Kelsen. que é verdade que. a liberdade será inatingível até que a paixão da igualdade seja satisfeita. com isso. porém. redefinindo-a em forte matiz socialista. afirma que as duas ideias essenciais da democracia. a essência da liberdade também está longe de ser revelada. prossegue. mais tarde. na prática. Duguit mudaria. defi­ nia a liberdade como o poder que pertence ao indivíduo de exercer e desenvolver sua atividade física. que não há palavra que te­ nha mais acepções e que tenha tanto impressionado os espíritos como a palavra li­ berdade. não a percebendo nas monarquias. É preciso distinguir. Ainda assim. Aliás. sem que. porém. Tal postura revela bem a intervenção do poder político no domínio econômico-cultural. diante de seus olhos. A liberdade política. liberdade e igualdade. Afinal. a liberdade como a ausência de quaisquer laços obrigatórios para o indivíduo. proporcionando. não significa fazer o que se quer. não haveria mais liberdade.possibilita o desenvolvimento das . a renúncia à liberdade c. Silva Telles. Hans Kelsen. assim como foram apresen­ tadas pelos pensadores da era do lluminismo e assim como se desenvolveram na teoria política das ideologias modernas. o Estado lhe possa de­ terminar outras restrições senão aquelas necessárias à proteção da liberdade de to­ dos. como nas democracias o povo tem mais facilidade para fazer quase tudo o que deseja. um nível de vida que ofereça um mí­ nimo de decência aos menos favorecidos. definiu. são dois conceitos que. os motivos de seus males. porque todos teriam o mesmo poder. e. Georg Jellinek afirmou. criador da célebre teoria pura do direito. quando passou a ver na li­ berdade política uma autodeterminação conseguida pela participação do indivíduo na criação da ordem social. a suprema liberdade. aparentemente. posição esta reformulada mais tarde. ainda.3 0 Estado 63 Aquilo que para uns é liberdade. que a vida do gênero humano gira. A liberdade . perpetuamente. declarando que cada vez mais o Estado faz penetrar em seu ordenamento jurídico o elemento socialista. nas democracias. em qualquer sociedade dotada de leis. colocou a liberdade nos governos democráticos e confundiu o poder do povo com a sua liberdade.prossegue .

64 Teoria Geral do Estado diferenças entre os homens. liberdade econômica. mais reduz a liberdade. o seu espírito de lucro insaciável. Mas ago­ ra uma igualdade. é a desigualdade econômica. a própria afirmação de que a liberdade de cada um termina onde começa a de outro é inaceitável. cm preciosa síntese: São conhecidos os excessos a que conduziu o liberalismo econômico e político. costumava dizer: “A liberdade é um bem tão precio­ so que deve ser racionada”. a baixa constante dos salários a um nível incom­ patível com toda a dignidade da vida humana. acham-se entrelaçadas e necessariamente inseridas no meio social. que era preciso também hipostasiar e sublimar. até suprimi-la de vez. as regulamentações artificiais do mercado pelos trusts c grandes monopólios. liberdade religiosa. não de pura teoria. Lenin. Dian­ te da pressão social. Era preciso deslocar ago­ ra o acento tônico da ideia de liberdade para outro elemento. Não é à toa que o individualismo excessivo acarreta males gravíssimos para a vida em sociedade. uma vez que. então. mas de verdade. Tudo conseqüência do individualismo econômico apoiado no seu poderoso aliado. o Estado intervém para nivelar as condições de vida. quanto mais procura impor a justiça igualitária. era a da igualdade . liberdade de reunião etc. justamente pelos meados do século X IX : o egoísmo desenfreado dos chefes de empre­ sa. como antes se fizera com a de liberdade. na realida­ de. a imensa mi­ séria das massas operárias entre os anos de 30 a 50 desse século. pois as liberdades dos indivíduos não podem ser tomadas isoladamente e colocadas uma ao lado de outra. de Lacordaire. como esta: “O Estado que quisemos fraco demais para não nos oprimir foi também fraco demais para nos defender”. Para se defender destas conseqüências. Para Dallari. Crítica bem posta. O resultado de certa concepção dc liberdade. das máquinas da indústria algodoeira em Inglaterra. ofende a liberdade dc alguns ou dc muitos c. dotados de inclinações diversas e deixando-se plasmar por perspectivas diferentes. por vingança. a superprodução. de Bossuct. e estes. a liberdade opri­ me e a lei liberta”. Claro que existem várias espécies no gênero liberdade: liberdade política. e estes. as depressões econômicas. com a destruição. dominados. consciente e esclarecedora é a formulada pelo eminente jurisfilósofo Cabral de Moncada. Ou esta outra: “Entre o fraco e o forte. o trabalho desumano das mulheres c das crianças nas fábricas. o dia de trabalho das doze c mais horas sem limite. afinal a mais forte paixão da democracia. o desemprego das multidões proletá­ rias.a outra irmã gêmea da liberdade e. deixarão de ter a liberdade apregoada. o grande revolucionário inspirador da re­ volução socialista da Rússia. no dizer de Herculano. li­ berdade pessoal. propiciando tiradas muito bem postas. a democracia viu-se obrigada a procurar uma ideia nova que lhe servisse de base. E a ideia nova para a qual ficava agora aberto o caminho. enfim. interfe­ rindo. o liberalismo político da democracia reinante. criarão condições em que alguns poucos do­ minarão os muitos. .

o principal inimigo da liberdade individual nem sempre é o Poder Público. condições propícias para o aparecimento dos totalitarismos e do socialismo exacerbado. Tal liberdade era. Nas sociedades indus­ triais do fim deste século X X . de sua cooperação e participa­ ção direta ou indireta.definiu a liberdade como o direito de fazer aquilo que as leis permitem. e não um meio para o aperfei­ çoamento do homem.é a mais ampla de todas e que. impõe restrições aos possíveis excessos das liberdades civis e políticas. sem fundamento na própria natureza humana. A concepção de liberdade do liberalismo acabou por se autodestruir.. válido para todas as épocas e todos os lugares.3 0 Estado 65 É inegável. no século XVII a afirmação da necessidade de liberdade foi feita em favor dos que já eram dotados de poder econômico. por intermédio de representantes periodicamente substituídos em eleições livres e sinceras. Com frequência um indivíduo muito rico ou um poderoso grupo econômico reduz seriamente a liberdade de muitos indivíduos. Por esse motivo entendia-se que bastava impedir a interferên­ cia do poder público para que os indivíduos fossem livres. por meio da dominação econômica. até agora. Já se disse até. que a liberdade política . Já percebe o leitor a dificuldade existente na formulação de um conceito uni­ forme de liberdade. todas estas. um fim em si própria. Como acentua com muita clareza Dalmo de Abreu Dallari. com Royer-Collard. Esta via legal depende do povo. com esta. portanto. a tratada neste ca­ pítulo .. despertando.que foi. a liberdade apregoada pelo liberalismo era uma liberdade sem pers­ pectivas. O exces­ so de livre-concorrência gerou a exploração dos fracos pelos fortes e. a vida em sociedade. Em razão disso. ou até de um povo inteiro. enquanto os desajustes econômicos se agravavam. Na verdade. transformado este em mero fiscal da manutenção da ordem pú­ blica. da autoridade). E à liberdade po­ lítica que o filósofo Karl Jaspers se refere. ipso facto. prossegue o autor citado. ainda. paradoxalmente. em razão disso. ao dizer: a liberdade começa com a vi­ gência dc leis registradas do Estado em que se desenvolve. porém. pois colocava o indivíduo contra o Estado. não se pode colocar . ser a liberdade a coragem de resistir. a Revolução Francesa destruiu o concei­ to tradicional dc poder político. ela pres­ supõe sempre uma razão que a justifica. Não foi sem fundamento que Montesquieu .corifeu do liberalis­ mo . Referi­ do Estado é aquele em que as leis não podem ter vigência nem ser modificadas se­ não por via legal. Reagindo contra o absolutismo monárquico (deturpação do exercício legíti­ mo do poder e. Esta liberdade se chama liberdade política e o Estado em que ela existe se chama Estado dc Direito. contudo. havendo mesmo inú­ meros casos em que o Poder Público se vê subjugado e inteiramente controlado por grupos econômicos. Por outro lado. ine­ rente à natureza do homem. um interesse mais incisivo do leitor. A liberdade não é o valor supremo da vida humana. compreende muitas liberdades. a formação de um capitalismo monstruoso e a proletarização dos produtores. exaltando o indivíduo em detrimento do social.

com muita proprie­ dade. Por outro lado. Alexis de Tocqueville já previra. restringindo-se a limitar a liberdade dc cada um ao mínimo exi­ gido pela sociedade. dando ênfase à igualdade e restringindo os ex­ cessos da liberdade. é necessário corrigir o sentido egoísta da liberdade individual. antever a possibilidade . A mera legalidade. partindo da premissa de Emmanuel Kant. embora tardiamente. o liberalismo fez da liberdade ilimitada o valor supremo do ideal de­ mocrático. Seria trágico. porque despojado de di­ reitos e deveres. a repartição dos bens e o acesso aos benefícios da vida social não permitam grandes desníveis. diuturnamente. cedeu espaço ao moderno Estado de justiça. de mero espectador do drama humano que sua passividade havia desencadeado. por isso na­ turais. que. vale dizer. por via de conseqüência. Se todos os homens são livres e iguais e se os homens não vi­ vem isolados uns dos outros. sendo o Estado mero coordenador desta liberda­ de. de que a finalidade do Direito Objetivo não seria mais do que realizar a coexistência dos Direitos Sub­ jetivos. e este pressupõe a sociedade. apanágio da liberal-democracia. ao passo que as vantagens da igualdade brilham. Além disso. as desigualdades so­ ciais. é preciso que a convivência. Os seguidores dessa escola não levaram em conta que o direito tem seu fundamento na própria sociedade. anteriores ao surgimen­ to da própria sociedade. uma série de pro­ vidências por parte do Estado. Por isso. a experiência tem demonstrado que a simples declaração dc que todos são livres torna-se completamente inútil sc apenas alguns puderem viver com liberdade. Muitas vezes é indispensável o fortalecimen­ to do Poder Público para impedir que os economicamente fortes reduzam a liber­ dade dos economicamente fracos e estabeleçam uma profunda desigualdade entre os indivíduos.66 Teoria Geral do Estado o controle do Poder Público de um Estado como necessário e suficiente para garan­ tir a liberdade dc todos os indivíduos. ou seja. Ademais. bus­ ca reequilibrar a vida em sociedade. se tornou um organismo dinâmico. o homem seria dotado dc direitos imprescritíveis. o ho­ mem isolado é mera abstração. seriam direitos abso­ lutos que o Estado deveria reconhecer e preservar.5. acen­ tuando as desigualdades naturais e. a concepção eminentemente individualista da sociedade ensejaria a própria eliminação dos mais fracos pelos mais fortes. Com efeito. finaliza. atuante e intervencionista. 4. porém. adverte.2) C oncepção social do bem com um Os erros do liberalismo acarretaram. com esplendor incomparável. Referidos direitos transcenderiam a própria lei escrita. não existe juridicamente. jurídica e social. o liberalismo consagrou a escola clássica do Direito Natural. à luz de três metas políticas. que. Enfim. que a liberdade é um valor destinado a oferecer seus benefícios apenas de quando em vez. direitos estes ditados pela própria natureza. Por outro lado. ao sustentar que o melhor meio de realizar a felicidade do homem é do­ tá-lo da maior liberdade possível. o direito só frutifica no relacionamento humano.

hoje mais . conduziram os parlamentos ao dilema de paralisar sua atividade ou delegar pode­ res. hoje. bem como de Locke e. outras. muito mais do que o valor liber­ dade. o uso dos computadores revolucionou a administração moderna. veio bruscamen­ te à luz: o sistema governamental norte-americano pareceu não estar mais à altu­ ra das novas tarefas político-econômicas. o Estado iniciou a sua atividade interveniente na vida econômica dos indivíduos. mais do que os outros. sendo acolhida.3 0 Estado 67 de efetivação de uma sociedade estandardizada. depois. foram substancialmente ampliadas. êmulo do executivo das empresas privadas. numa comunidade em que o liberalismo econômico. como bem frisa Ferreira Filho. definitivamente sistematizada por Montesquieu. começa a substituir a figura do estadista convencional. sob o acicate de um poder irrestrito. Todos os governos procuram adaptar-se às novas circunstâncias sociais. universal. sofreu um abalo mui­ to grande com o desenvolvimento da tecnologia. Por outro lado. como a criação e a gerência de serviços assistenciais. Os Estados em desenvolvimento. Durante anos o talento de Roosevelt ocultou um mal que. baluarte na luta contra a concentração do poder num órgão apenas. tornou-se mais atual do que nunca. A concepção secularmente arraigada do elemento político tor­ na-se menos importante que o elemento econômico. O reforço do Poder Executivo é. O crítico mais mordaz do princípio da tripartição dc poderes. isolado dos demais povos. Fruto disso é a delegação legislativa. em razão de sua própria estrutura. podia dar-se ao luxo de cometer seus erros ao abrigo de suas riquezas. Percebeu-se que o Estado deve. esta última alternativa. Mesmo nos Estados Unidos da América. então. adverte Manoel Gonçalves Ferreira Filho. Tal doutrina. em busca do bem-estar social. hoje. foi colocada em questão no Estado contemporâneo. Quando o Welfare State substituiu o État gendarme. com sua morte. que se batia tenazmen­ te pela unidade c unicidade do poder estatal. Como acentua Silveira Neto. a democracia passou a ser muito mais atraente quando adjetivada dc social. oriunda dc Aristóteles e de Cícero. O caráter essencialmente técnico de muitas decisões e a inconveniência do debate público. na qual todos vivessem e pensas­ sem da mesma forma. passou a ter. se o uso da pólvora liquidou o sistema das guerras medievais. ás ocultas ou ãs escancaras. o mundo nor­ te-americano. como acentua Duverger. órgão capaz de decisões mais rápidas. pertinente a certos assuntos. Novas tarefas ingressaram em sua esfera de ação. hoje freqüentíssima e inevitável. dava aos chefes de indústria o poder real. preeminência notável. Mareei dc La Bignc de Villcncuvc. dos quais não necessitava intensamente. O adjetivo social tornou-se uma palavra mágica. A ideia do governante supergerente. o interven­ cionismo estatal foi ignorado durante um século e meio porque o Estado represen­ tava um papel secundário. de sua competência. O Executivo. A própria doutrina da tripartição dc Poderes. sentiram os reflexos dos novos tempos. É inegável que o valor igualdade atrai. é claro. na ânsia dc correção dos desajustes sociais. triunfante.

no poder de criação. representados pelo Estado. com o título “Da Ordem Econômica e Social” (arts. 135: Art. Em oposição ao cidadão abstrato. dc outro. se­ guida pela Constituição de 10. à liberdade agregou-se a igualdade. na vida econômica e social. tutelados nas mais avançadas Constituições da época. O governo democrático.11. as profundas alterações ocorridas nas estrutu­ ras sociais motivaram a revisão do conceito de democracia e de representação. O trabalho intelectual. só atinge seus fins quando logra realizar o bem-estar da comunidade. com seus problemas e sentimentos. 145 a 162. 136 dispunha o seguinte: Art. constitui um bem que é dever do Estado proteger. assim: . o homem do cotidiano. De um lado. 135 a 155. nos tempos atuais. o art. dc organização e de in­ venção do indivíduo. técnico e manual tem direito a proteção e solicitude especiais do Estado. 135. e este. sur­ ge o homem concreto. a liberdade continua a ser valor transcendente do ideal democrático.09. além de definir e aplicar uma política exterior e manter um exército formidável.1937. o operário. intervir. 115 e 143). assegurando-lhe condições favoráveis c meios dc defesa. Como acentua Salvetti Netto. exercido nos limites do bem público. A todos é garantido o direito de subsistir mediante o seu trabalho honesto.68 Teoria Geral do Estado do que nunca. o fator econômico motivou a hipertrofia do Estado moderno.1946 dispunha sobre o assunto nos arts. 136. afirma Salvetti Netto. Em tal diapasâo. surgem em nossa Lei Magna de 1934 dispositivos referen­ tes à matéria. A Constituição Federal de 18. numa autolimitação do poder do Estado que evocava para si deveres públicos subjetivos. livre por excelência. com ou sem vontade. O trabalho é um dever social. Por sua vez. A Constituição mexicana de 1917 e a Constituição de Weimar em 1919 pre­ viram direitos sociais. que dispunha sobre a ordem econômica nos arts. E regime muito mais de conteúdo que de forma. funda-se a riqueza c a pros­ peridade nacional. de maneira a evitar ou resolver os seus conflitos e introduzir no jogo das competições in­ dividuais o pensamento dos interesses da Nação. surgem os direitos sociais. sendo a seguinte a redação do art. Na iniciativa individual. como meio de subsistência do in­ divíduo. também sob o título “Da Ordem Econômica e Social”. Logo após a Primeira Grande Guerra. A intervenção do Estado no domínio econômico só se legitima para suprir as deficiências da iniciativa individual e coordenar os fatores da produção.

145. demonstra re­ dobrada preocupação com a questão social. A ordem econômica deve ser organizada conforme os princípios da justiça social. como se depreende de vários de seus dispositivos (arts.harmonia e solidariedade entre as categorias sociais de produção. com base nos seguintes princípios: I . 160 a 174.1988. A todos ó assegurado trabalho que possibilite existência digna. constitui-se em Estado Democrático de Di­ reito e tem como fundamentos: III .valorização do trabalho como condição da dignidade humana.repressão ao abuso do poder econômico. 160 o seguinte: Art. O trabalho e obrigação social. conciliando a liberdade de iniciativa com a valorização do trabalho hu­ mano. sexo.direitos sociais . raça. I o A República Federativa do Brasil. IV . [grifo nosso] A Constituição brasileira de 24. IV .01. c VI .garantir o desenvolvimento nacional. formada pela união indissolúvel dos Estados e Municípios e do Distrito Federal.10.a dignidade da pessoa humana. Art. III e IV.erradicar a pobreza e a marginalização e reduzir as desigualdades sociais e regionais.liberdade de iniciativa. [grifo nosso] A Constituição Federal vigente. a eliminação da concorrência c o aumento arbitrário dos lucros.os valores sociais do trabalho e da livre iniciativa. . a respeito da ordem econômi­ ca e socialydispondo o art. 3° Constituem objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil: I . sem preconceitos de origem. ida­ de e quaisquer outras formas de discriminação. com a Emenda Constitucional n. I o. 160. estabelecia. 3o. promulgada em 05. de 17. III .construir uma sociedade livre. 1.e 170). caracterizado pelo domínio dos mercados.3 0 Estado 69 Art. Assim: Art. II .promover o bem de todos. 6o .1967. III . V . IV . justa c solidária.função social da propriedade.10. Parágrafo único.expansão das oportunidades dc emprego produtivo. II .1969. A ordem econômica e social tem por fim realizar o desenvolvimento nacional e a justiça social. em seus arts. cor.

VI . a assistência aos desam­ parados. o lazer.livre-concorrência. tem por fim assegurar a todos existência digna. a menos que a organização econômica lhe seja propícia. o desenvolvimento nacional não deve ser um fim em si mesmo. por meio do plano econômico e social. VIII .redução das desigualdades regionais e sociais. as Constituições dos diversos Es­ tados só se preocuparam com a organização política. conforme os ditames da justiça social. preocupada com questão social. Por outro lado. a justiça foi defi­ nida por Ulpiano assim: “Justitia est constans et perpetua voluntas jus suum cuique tribuendr. meio e fim. Vale assinalar que. mesmo nesta. buscan­ do assegurar. porém um meio de se alcançar a justiça social. 170. fundada na valorização do trabalho humano e na livre iniciativa. o desenvolvimen­ to e a segurança das próprias instituições políticas. a saúde.busca do pleno emprego. a segurança. como a Constitui­ ção de Weimar e a Carta do Trabalho da Itália fascista. embora situadas em pé de igualdade no caput do art. emendada em 1969. IV .soberania nacional. na forma desta Constituição. observados os seguintes princípios: I . o trabalho. dc justus (de acordo com o direito. o desenvolvimento nacional e a justiça social devem ser considerados. jus).defesa do meio ambiente.70 Teoria Geral do Estado Art.defesa do consumidor. Art. ela é bastante di­ vergente. sofrendo o influxo de vários diplomas legais estrangeiros. exceção feita à Constituição mexicana de 1917. cumpre fazer algumas observações sobre o conceito dc justiça. parece defender o princípio de que a democracia não pode de­ senvolver-se. dessa forma. 6° São direitos sociais a educação. respectivamente. IX . II . Que vem a ser justiça social? Eis uma expressão de difícil delimitação. a proteção à maternidade e à infância. a previdência social. V . A Constituição de 1967. III . Vimos como as Constituições brasileiras de 1934 e 1937 trataram do proble­ ma. A indevida repetição desse conceito terminou por desgastá-lo.propriedade privada. Do latim justitia. trans­ .tratamento favorecido para as empresas brasileiras de capital nacional de pequeno porte. Até a eclosão da Primeira Grande Guerra. Divul­ gada principalmente pela doutrina social da Igreja. Somente com a Constituição de Weimar de 1919 e a Constituição espanhola de 1931.função social da propriedade. 170 da Constituição em vigor. houve uma tendência mais acentuada para acrescentar ao texto político fundamental os princípios destinados a reger o campo econômico-social. A ordem econômica. VII .

afirma que os homens são naturalmente de­ siguais. Como assevera J. observada uma igualdade proporcional. os bens. comutativa e judicial. Platão. sendo a justiça uma ideia de har­ monia e unidade. Essa divisão de classes e funções deve ser rígida. modernamente. respectivamente. o que pertence a cada um. pelo qual a comunidade distribui. a revelação da essência desse ideal ainda não ocorreu. cargos e funções. Ora. ca­ beriam. A justiça equiparadora leva em conta o intercâmbio dos bens. ora se assentando na liberdade. A verdade é que. o cri­ me e a pena a este cominada. recompen­ sas. Princípio regulador das relações entre a comunidade e seus membros. divide a justiça em espécies: distributiva. A justiça ju­ dicial é aquela dada pelo juiz. Os ins­ . a segurança e o abastecimento do Estado. respectivamente. Não resta dúvida de que. com cada um de seus membros. os órgãos sociais devem restringir-se a suas atribuições impostas pela natureza. Qual o “seu” de cada um. honras. ora na igual­ dade. o elegante princípio de Ulpiano não resolve o problema. o princípio da justiça distributiva disciplina a fixação dos impostos. a aplicação de recursos da coletividade etc. Platão compara o Estado a um ser humano e. como o corpo humano. inafastável. A justiça co­ municativa leva em conta as relações contratuais entre as pessoas. de governo. A concepção de justiça varia com as ideologias predomi­ nantes em cada momento histórico. Aristóteles. como a liberdade o foi por ocasião da Revolução Francesa. observada uma igualdade proporcional ou relativa. se o ideal do justo nasceu com a própria humanidade. As­ sim. tendo como pressuposto um valor. visto que a distribuição deve ter como referencial o mérito de seus destinatários. exigindo paridade entre o dano e a reparação. por exemplo. desde logo. Ora. o princípio de justiça é invocado exatamente para dirimir a disputa entre partes que invocam aquilo que é seu.3 0 Estado 71 formando-se na fórmula: “A justiça consiste em dar a cada um o que é seu”. porém? Para se poder dar a cada um o seu. pois. discípulo dc Platão. estabelecendo a equivalência entre o que se dá e o que se recebe como compensação. a prestação de serviços e as relações entre todos. pulmões e estômago da sociedade. determinando a cada homem que se limitasse a fazer o que lhe fosse atribuído. a representação abstrata do estado de pleno equilíbrio da vida social. Em nosso entender. a assistência social ao ho­ mem da cidade ou do campo. pois deveria fornecer um critério para dizer qual “seu” devemos dar a cada um. concebia a justiça como um princípio que impunha de­ terminada estrutura social. pre­ conizando a exata correspondência entre a coisa dada e a recebida. cabendo aos filósofos o papel de cérebro da sociedade. Flóscolo da Nóbrega. será em Aristóteles que vamos encontrar o moderno sig­ nificado da justiça social. enfim. a justiça é a ideia. A justiça distributiva preconiza a distribuição das benesses sociais entre os membros da comu­ nidade. embora possa voltar a sê-lo no futuro. quando afirma o princípio da justiça distributiva. delineando as premissas do moderno organicismo. Aos militares e operários. o valor predominante é a igual­ dade. equiparadora. a ideia dc justiça varia constantemente: o que era justo para os antigos talvez não o seja para nós. seria preciso sa­ ber.

conduziu os parlamentos ao dilema de paralisar a administração ou delegar poderes. órgão capaz. Por exemplo. Novas tarefas foram atribuídas ao Poder F^xecutivo. O Poder Executivo. aquilo que o positivismo denomina com tal fórmula. essa orientação de Aristóteles é de grande atualidade. Quan­ . em busca do bemestar social. uma ascendência cada vez maior. mas em requerer a prudência (Ética a Nicômaco. então. A delegação legislativa é hoje prática correntia e inevitável “às ocultas ou às escancaras”. ou seja. Modernamente. da Constituição Federal.72 Teoria Geral do Estado trumentos de que se serve a justiça distributiva são o direito administrativo. I. podia dar-se ao luxo de cometer todos os erros ao abrigo de suas riquezas e de seus oceanos. numa época em que o libera­ lismo econômico triunfante dava aos chefes de indústria o poder real. e a prudência implica a retidão moral da intenção. justo legal é aquilo que o bem co­ mum justifica e exige. Eis a doutrina da isonomia. Aqui é importante notar que o “legalmente justo” não é. repudiada unanimemente pelos ideólogos da liberal-democracia. tendo em vista o papel cada vez mais dinâmico que o Estado vem desenvolvendo em face das novas c múltiplas reivindicações sociais. e aquelas que já eram de sua competência foram bastante ampliadas.180/21). Conforme acentua Duverger em sua obra Os regimes políticos. a função governamental. se as pessoas são desiguais. o problema do reforço do Poder Executivo tornou-se uma realidade cristalina. a criação e a gerência de serviços assistenciais. por sua própria estrutura. a virtude moral que tem por objetivo o bem comum é o que Aristóteles chama de “justiça legal”. visto que estas devem ser distribuídas conforme o mérito dc seus destinatários. 5°. o direito do trabalho e a previdência social. a seu encargo. o di­ reito fiscal. vale lembrar. como acentuou M a­ noel Gonçalves Ferreira Filho. Além disso. invoca a proporcionalidade na distribuição das benesses sociais. de decisões mais prontas. A justiça distributiva. colocou em xeque o caráter ideológico da chamada indelegabilidade de poderes. fixada no art. no pensamento aristotélico. Para Aristóteles. cm seu Curso de direito constitucional Tal delegação. isolada de um mundo do qual não tinha necessidade. Por outro lado. Como o caráter eminentemente técnico de muitas decisões que deve­ riam ser tomadas em tempo recorde. a América. a von­ tade deve estar inclinada à realização do bem moral. o intervencio­ nismo estatal foi ignorado durante cerca de 150 anos nos Estados Unidos. preconizados por Montesquieu. não se deve dar-lhes coisas iguais. porque o Estado representava um papel apenas secundário. bem como a inconveniência do debate públi­ co relativo a certas matérias. Para ele. o Estado passou a ter uma missão de intervencionismo na vida econômica individual. X. passou a ter. foi imediatamente escolhida esta segunda alter­ nativa. Quando o Welfare State substituiu o État gendarme. Devem-se dar coisas iguais aos iguais. e coisas desiguais aos desiguais. 1. Para horror dos defensores intransigentes da tripartição e separação absolu­ ta dos poderes políticos. a lei não consiste simplesmente 110 mandado por aqueles que têm.

quando uma fá­ brica que causa poluição é obrigada a minorar este mal ou encerrar suas ativida­ des. queiram ou não queiram os governantes. Entretanto. em nome de uma função social da propriedade. seria aquela de um gendarme (policial) na sarcástica imagem de Ferdinand Lassalle. a moder­ na concepção de bem comum exige a ação do Estado. O Estado. O Estado deve intervir. a agir. deve transcender a mera legalidade e buscar. a iniciativa privada pode. cuja função. ser restringida. ao manter a legalidade pura e simplesmente. meramente passiva. pois toda so­ ciedade tem. em muitos Estados. o bem comum nada mais era do que a manutenção da ordem pública pelo Estado. de forma ativa. tão eficiente quanto o executivo da empresa particular. que não pode. John Locke e outros. no mundo moderno. quando ocorre a vacinação compulsória ou quando surgem restrições à frui­ ção irrestrita da propriedade. essencialmente. Não basta a garan­ tia dos direitos subjetivos para que o bem comum esteja alcançado. Na verdade. peculiar a uma fase da História da humanidade. O Esta­ do que providencia o desenvolvimento não pode deixar dc ser preponderantemen­ te empreendedor. alcançando o campo da iniciativa privada. Para o exercício de suas funções sociais. todo Estado é Estado de Direito. o Senado se recusava a ratificar o Tratado de Versalhes. ao atender às necessidades assistenciais. continuar a ter guarida. Modernamente. por exemplo. que é o Estado que transcende a mera legalidade. às vezes. apenas a Europa suportava as conseqüências. O aspecto político torna-se ate menos importante que o econômico. seu ordenamento jurídico. em desenvolvimento. dei­ xando de ser o Estado gendarme. ao manter sua segurança interna e externa. por exemplo. as condições sofreram uma mudança. em três planos bem definidos: a) plano político. vão longe os tempos da mera tutela da ordem jurídica pelo Estado. acha-se. nem todo Estado de direito será Estado dc justiça. que deve renunciar ao seu caráter passivo. Do exposto. isto é. Não. e que pas­ sa a atuar. mero cão dc guarda da ordem pública. conclui-se que o conceito de bem comum foi bastante alterado com o surgimento de novas circunstâncias sociais. seu direito. o século do individualismo.3 0 Estado 73 do. Como fruto do século XVIII. b) plano jurídico. preconizada pelo liberalismo clássico de Emmanuel Kant. se todo Estado é Es­ tado de direito. Em princípio. na vida socioeconômica dos indivíduos. aliás. que poderá ser justo. amparado no consenso social ou não. . A ideologia do gover­ nante supergerente. previdenciárias e edu­ cacionais da coletividade. a justiça social. c) plano social. ao construir o Estado de justiça. portanto. substituindo a do estadista tradicional.

4

A CONSTITUIÇÃO

1) CONCEITO E EVOLUÇÃO HISTÓRICA
Bibliografia: f e r r e i r a
Manoel Gonçalves. Curso de direito constitucional, 11.
salvetti n e t t o ,

f il h o

,

ed., São Paulo, Saraiva, 1982. ed., São Paulo, Saraiva, 1981.

Pedro. Curso de teoria do Estado, 4.
,

SOUZA,

José Pedro Galvão de. História do direito polí­
v ia m o n t e

tico brasileiro, São Paulo, Saraiva, 1962.

Carlos Sanchez. El poder consti-

tuyente, Buenos Aires, Bibliográfica Argentina, s.d.

A palavra constituição vem do latim cum + stituto , constitutio , de constituere (constituir, construir, edificar, formar, organizar). Tem como sinônimo o vocábu­ lo com pleição , que também contém a ideia de um todo form ado , estruturado , orde­ nado , isto é, dc unidade na m ultiplicidade . O corpo humano tem uma constituição , uma com pleição; não é ele, porventura, um organism o ? Não nos referimos, às ve­ zes, ao vocábulo constituição como a ordenação que preside a organização dos cor­ pos físicos? Assim, a palavra constituição apresenta sentidos análogos; ela pode ser toma­ da em um sentido am plo; e em outro, estrito. Tomada num sentido am plo ypode-se dizer que todos os seres apresentam uma constituição que os identifica. Tomada cm sentido estrito , a palavra constituição vai revelar o m odo pelo qual um a sociedade
se estrutura basicamente .

Aristóteles conceituava a politeia (Constituição) como a ordem da vida em comum naturalmente existente entre os homens de uma cidade ou de um territó­ rio ou, simplesmente, a ordenação dos poderes do Estado .

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4 A Constituição

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Em termos jurídico-políticos, a Constituição é a lei fundamental do Estado, lei que um povo impõe aos que o governam, para garantir-se contra o despotismo destes, conforme doutrina Romagnosi. No dizer dc Manoel Gonçalves Ferreira Filho, a constituição em sentido jurídi­ co pode ser entendida como o “conjunto de regras concernentes à forma do Esta­ do, à forma do governo, ao modo de aquisição c exercício do poder, ao estabelecimen­ to de seus órgãos, aos limites da sua ação” . Ou seja, a base fixada juridicamente da organização política. Segundo Pedro Salvetti Netto, a Constituição política estrutura a organização do Estado, disciplina o exercício do poder político e discrimina a competência para tal exercício, definindo-a como o “conjunto de normas que, estruturando a orga­ nização do Estado, estabelece relações de natureza política entre governantes e go­ vernados” ou, levando-se em conta o advento dos direitos sociais no mundo mo­ derno, o “conjunto de normas que, estruturando a organização do Estado, limita politicamente o exercício do poder e declara os direitos individuais e sociais e suas respectivas garantias” . “ Ubi societas ibi jus”, já dizia Aristóteles, ou seja, onde houver sociedade have­ rá normas dc conduta, haverá Constituição. Da mesma forma que todos os seres têm uma Constituição própria (causa formal), a fortiori a sociedade terá, por sua essência, uma forma de organização. Ser eminentemente social, o homem agrega-se a seus semelhantes organicamente, formando grupos sociais estruturados, sendo in­ concebível, mera abstração, a concepção mecânica da sociedade. Pois bem, as or­ ganizações sociais surgem, inicialmente, no seio da família, do clã, da tribo, até que cheguemos ao Estado, a mais perfeita forma de convivência social. As normas cons­ titutivas das sociedades primárias repousam nos hábitos sociais consagrados pelo tempo. Com o aparecimento do Estado, sociedade necessária dotada de poder so­ berano e voltada para o bem comum, surge a Constituição política. Conforme aduz Pedro Salvetti Netto, não há que se falar em Constituição política antes que o Es­ tado se organize, antes que nele se integrem seus elementos constituintes. Somente quando se verificam tais exigências é que aparece a Constituição política, justamen­ te para, estruturando a organização do Estado, disciplinar o exercício do poder po­ lítico e discriminar a competência para tal exercício. A tendência das sociedades de se estruturarem sob a égide de uma lei funda­ mental surge muito cedo na História humana. Inicialmente, ela tem caráter religio­ so, místico, revelando a vontade divina (mana) sob a forma de tabu, como acentua Viamonte. Tal norma fundamental tem natureza consuetudinária, costumeira, não se apresenta sob a forma escrita. Com maior razão, os gregos já distinguiam as normas jurídicas pela hierar­ quia, classificando-as como leis constitucionais e leis comuns, a exemplo dos roma­ nos, que, ao se referirem à elaboração daquelas, usavam a expressão rem publicam constituere. As leis de Licurgo, em Esparta, de Drácon e de Sólon, em Atenas, são

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Teoria Geral do Estado

verdadeiras Constituições, imperando sobre as demais normas. Conforme adverte Carlos Sanchez Viamonte, essas leis fundamentais de Licurgo e de Sólon constituem a expressão unificada da vontade nacional em cada caso, e com elas é criada a na­ ção como unidade política e jurídica e atribui-se forma à sociedade e ao governo. Nisso consiste a essência do ato constituinte. No dizer de Pedro Salvetti Netto, as primeiras Constituições sistematicamen­ te codificadas apareceram no século XVII, por influência, segundo alguns autores, das tradições puritanas, cujas normas eram efetivamente escritas e codificadas - os covernants -, destinadas à estruturação da igreja e do culto. Em razão disso, a In­ glaterra foi estruturada, durante o governo do puritano Oliver Cromwell (15991658), por uma Constituição escrita, única em sua História, o Instrument of Go­ vernment, calcada numa doutrina absolutista do poder político, fundada, aliás, no exacerbado puritanismo de Cromwell. Na História constitucional inglesa encontraremos, ainda na Idade Media, pac­ tos, forais e cartas de franquia. Conforme aduz Manoel Gonçalves Ferreira Filho, tais documentos firmaram a ideia de texto escrito destinado ao resguardo de direi­ tos individuais, que a Constituição iria englobar a seu tempo. Tais direitos, contu­ do, prossegue o autor citado, sempre se afirmaram imemoriais, fundados no tem­ po passado, enquanto eram particulares a homens determinados e não apanágio do homem, ou seja, do ser humano enquanto tal. Ainda segundo Manoel Gonçalves Ferreira Filho, próximos dos pactos, de cujo caráter participavam pela sanção real, mas já bem próximos da ideia setecentista de Constituição, situam-se os contratos de colonização, peculiares à História das colônias da América do Norte. Chegados ao Novo Mundo, os peregrinos, mor­ mente puritanos, imbuídos de igualitarismo, não encontrando na nova terra poder estabelecido, fixaram, por mútuo consenso, as regras por que haveriam de se go­ vernar. Os chefes de família firmam, a bordo do Mayflower; o célebre Compact (1620); desse modo, são estabelecidas as Fundamental Orders of Connecticut (1639), mais tarde confirmadas pelo rei Carlos II, que as incorporou à carta outorgada cm 1662. Transparece aí - finaliza - a ideia de estabelecimento e organização do gover­ no pelos próprios governados, que é outro dos pilares da ideia de Constituição. Profunda influência, além da tradição puritana, sobre o advento das Consti­ tuições escritas, vai exercer a doutrina do contrato social, preconizada por Jean-Jacques Rousseau. A cláusula pacta sunt servanda ou pacta quantumcumque nuda servanda sunt, isto é, os contratos devem ser cumpridos pelas partes, peculiar às relações jurídicas de caráter privado, contida na forma escrita e solene exigida, é transportada para o Direito Público, assegurando melhor direitos e deveres de go­ vernantes e governados. Como acentua Pedro Salvetti Netto, a Constituição escri­ ta revela a preocupação de asseverar, em seus artigos, compromissos recíprocos de governantes e súditos.

4 A Constituição

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Com efeito, adverte Manoel Gonçalves Ferreira Filho que somente no século XV III - o Século das Luzes, daí a expressão Iluminismo - é que se concretizou, na Europa, a ideia de que o homem pode estabelecer a organização do Estado, segun­ do sua vontade, numa Constituição. Antes do Iluminismo, ninguém ousara afirmar que o homem poderia modelar uma organização política segundo um ideal racio­ nalmente estabelecido. Daí reafirmar-se a importância dc Rousseau para a filoso­ fia iluminista e para a Revolução Francesa e, como conseqüência, para a consoli­ dação das Constituições escritas.

2) ESPÉCIES
Bibliografia:
Marcus Cláudio. Constituição da República Federativa do
b is p o

a c q u a v iv a

,

Brasil anotada, São Paulo, Global, 1987. brasileiro, São Paulo, Saraiva, 1981. do, 6. ed., São Paulo, Saraiva, 1984.

,

Luís. Curso de direito constitucional Pedro. Curso de teoria do Esta­

salvetti n e t t o ,

Quanto às espécies dc Constituições, sintetizando as várias classificações exis­ tentes, podemos apresentar o seguinte esquema:

1. Quanto à forma:

escritas

orgameas inorgânicas rígidas

2. Quanto à estabilidade ou I possibilidade de reforma i

sem.rng.das flexíveis

3. Quanto à origem

í

f editadas, também denominadas votadas outorgadas

Vejamos cada uma dessas espécies e subespécies. Inicialmente, as Constitui­

ções escritas. Constituições escritas orgânicas: são aquelas que se acham formalizadas ex­ pressamente em um documento escrito ou em vários. No primeiro caso, teremos as Constituições escritas orgânicas (um só documento); no segundo, as Constituições escritas inorgânicas (várias leis escritas, de natureza constitucional). A origem das Constituições escritas orgânicas encontra-se nos séculos XVII e XVIII, inicialmente por influência dos covenants, documentos escritos que forma­ lizavam os preceitos da religião puritana, na Inglaterra.

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Teoria Geral do Estado

Depois, já no século XV III, em razão da doutrina do contrato social desen­ volvida por Jean-Jacques Rousseau, que vai inspirar, na França, a ideia de que uma Constituição deve ser, necessariamente, escrita, para maior garantia dos direitos dos governados. As Constituições escritas orgânicas têm a natureza dc uma codificação, isto é, de um corpo único e sistematizado de normas. A Constituição escrita orgânica se acha contida, portanto, em uma única lei. As inorgânicas, porém, não têm forma de uma única lei; com efeito, uma Consti­ tuição escrita inorgânica é formada por várias leis, encontra-se espalhada por inú­ meros diplomas legais de natureza constitucional. Assim, enquanto a Constituição escrita orgânica tem a natureza de uma co­ dificação, a Constituição escrita inorgânica se assemelha muito mais a uma simples compilação, vale dizer, leis dispostas ordenadamente e atualizadas, sem que com isto cada uma dessas perca sua existência autônoma. Dessa ordem é a Constitui­ ção britânica, que muitos autores afirmam ser apenas costumeira. Existiria, entre­ tanto, uma Constituição formada apenas por costumes e nada mais? Isto seria im­ possível. A Constituição britânica se constitui em volumes e mais volumes dc leis e acórdãos. O que a caracteriza não é o fato de não ser escrita, mas sim de não estar sistematizada em um Código; não estar; enfim, codificada. Nem por isso se negue o grande papel desempenhado pelo costume nas Cons­ tituições. Diga-se de passagem que o costume pode influenciar a própria Constitui­ ção escrita orgânica, por exemplo, o caso célebre da reeleição, por uma terceira vez, dos presidentes da República norte-americana. Nos primeiros tempos da vigência da Constituição dos Estados Unidos, o presidente podia candidatar-se à reeleição quantas vezes quisesse. Bastou, contudo, que George Washington e, mais tarde, Thomas Jefferson se recusassem a disputar uma terceira reeleição para que seus su­ cessores não se sentissem encorajados a fazê-lo. Quando, três quartos de séculos mais tarde, Ulysses Grant postulou sua reeleição pela terceira vez, sua candidatu­ ra fracassou. Tempos depois, uma exceção: Theodoro Roosevelt seria reeleito vá­ rias vezes, em face das vicissitudes da situação internacional; entretanto, depois de Roosevelt, a Emenda X X II vetaria, expressamente, o terceiro mandato. Constituições rígidas, semirrígidas e flexíveis: quanto à estabilidade ou possi­ bilidade de reforma, as Constituições podem ser rígidas, semirrígidas e flexíveis. As flexíveis podem ser modificadas sem a exigência de um procedimento mais comple­ xo; assim, uma lei ordinária pode alterá-la; não é preciso um procedimento legis­ lativo mais trabalhoso. Exemplos: as Constituições da Noruega, da França e a Cons­ tituição do antigo Reino da Itália, chamada Estatuto Albertino. Semirrígidas são aquelas que, em parte, podem ser alteradas mediante um pro­ cedimento comum, ordinário, e, em outros artigos, somente por meio de um proce­ dimento mais dificultoso. Exemplo: a Constituição do Império do Brasil, de 1824.

4 A Constituição

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Finalmente, as Constituições rígidas, assim denominadas porque só podem ser alteradas por intermédio dc um rito legislativo próprio, destinado a dificultar os abusos reformistas. Exemplos: as Constituições dos EUA, da Austrália, da D i­ namarca, da Suíça e do Brasil em vigor. Com efeito, a nossa Constituição só pode ser alterada ou corrigida por via dc emenda (art. 60), sendo que este dispositivo exige seja a proposta firmada por um terço, no mínimo, dos membros da Câmara dos Deputados ou do Senado Federal (art. 60, I), pelo Presidente da República e por mais da metade das Assembléias Legislativas das unidades da Federação, ma­ nifestando-se, cada uma delas, pela maioria relativa de seus membros. Ademais, o § 4° introduz uma cláusula pétrea no tocante a determinados assuntos, cuja disci­ plina jurídica não pode ser, em qualquer hipótese, modificada. Por exemplo, os dis­ positivos do art. 5° sobre direitos e garantias individuais (art. 60, § 4°, IV). Importante notar que a facilidade ou a frequência com que uma Constituição pode ser alterada não depende, apenas, do disposto na lei, mas também de fatores políticos, por exemplo, a predominância desta ou daquela ideologia num dado mo­ mento histórico. Assim, a Constituição suíça, rígida, foi modificada muito mais fre­ quentemente do que a Constituição francesa da III República, cuja alteração de­ pendia apenas de uma sessão conjunta do Parlamento. Ademais, o conceito de Constituição escrita não se confunde com o conceito de Constituição rígida, pois o Estatuto Albertino (Constituição do antigo Reino da Itália), embora escrito, era, como vimos, modificável por via de lei ordinária, por­ tanto, flexível. Constituições outorgadas e Constituições editadas ou votadas: quanto à ori­ gem, as Constituições podem ser outorgadas e editadas, conhecidas estas últimas também como votadas. As outorgadas são impostas à nação pelo próprio agente do poder constituinte originário, sendo, posteriormente, submetidas a referendo popular, pois o povo é, em última análise, o titular do poder político. Exemplos: as Constituições brasileiras de 1824,1891,1937 e 1967. Quanto às Constituições editadas (votadas), são discutidas pelo próprio povo, diretamente ou mediante a eleição de uma assembleia constituinte, formada por re­ presentantes da nação. Em nome desta, a assembleia irá elaborar, com total inde­ pendência, uma nova Constituição. Se não houver independência da constituinte, não se pode falar em Constituição editada. Por exemplo, quando D. Pedro I enviou, logo após a Independência, uma recomendação à Assembleia Constituinte incumbi­ da de elaborar a nova Constituição do Império, Assembleia depois desfeita, exigiu que a nova Lei Magna deveria conservar a dinastia governante e a religião católi­ ca apostólica romana na qualidade de crença oficial do Estado, tolhendo, portan­ to, a liberdade da assembleia, que, por ser constituinte, deveria estar investida de um poder incondicionado.

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Teoria Geral do Estado

3) CONTEÚDO POLÍTICO DAS CONSTITUIÇÕES
Bibliografia:
Ferdinand. Que é uma Constituição?, São Paulo, Edições e Pu­
m arx

lassalle,

blicações Brasil, 1933.

,

Karl e e n g e l s , Friedrich. O manifesto do partido comu­
salvetti n e t t o ,

nista, 6. ed., São Paulo, Global, 1986. tado, 4. ed., São Paulo, Saraiva, 1981.

Pedro. Curso de teoria do Es­

Uma Constituição não é apenas a mais política, como também a mais pole­ mica das leis. Fundamento da ordem jurídica, dela derivam, por conseqüência, to­ das as demais leis. Por isso, já dizia Ferdinand Lassalle, que a alteração das leis or­ dinárias não desperta, via de regra, a atenção da sociedade, ao passo que a reforma ou a substituição de uma Constituição por outra acarretam comoção social. Daí a constatação evidente de que uma Constituição não é apenas um documento for­ mal, pois que se reveste de um conteúdo ideológico, que espelha ou deve espelhar os fatores de ordem política e econômica que prevalecem no momento de sua ela­ boração. Tal conteúdo varia, portanto, na medida em que mudam as circunstân­ cias históricas. Como acentua Salvetti Netto, a uma Constituição de caráter liberal-democrático, vicejante à época do apogeu do liberalismo político e econômico, jamais ocor­ reria declarar os direitos sociais ou disciplinar as relações entre o capital e o traba­ lho, hoje as grandes preocupações das Constituições em vigor. Assim, uma Constituição, para ser bem entendida, deve ser analisada sob dois pontos de vista: a) como ordenamento jurídico estruturador do Estado; b)como objeto das ideologias que, predominantes num dado momento histó­ rico, são recolhidas pelo legislador constituinte. Pelo menos nos primórdios do movimento conhecido como constitucionalismo, isto é, a aceitação unânime da Constituição como documento escrito, esta cui­ dava apenas da estruturação política do Estado, vale dizer, da forma de Estado, da forma de governo e do regime de governo. No Brasil, por exemplo, a forma de na­ tureza monárquica sucede a dc natureza republicana. Uma Constituição elaborada em disfunção com os valores sociais predomi­ nantes num dado momento nada mais seria que um corpo sem alma, mera folha

de papel. Qualquer Constituição, afirma Lassalle, deve representar a soma dos fatores reais do poder existentes na sociedade. Os fatores reais do poder são essa força ati­ va e eficaz que informa todas as leis e instituições jurídicas da sociedade, determi­ nando que não possam ser, em substância, a não ser tal como elas são.

assim como esta não foi criada por todo o povo. Em seus Comentários à Constituição Federal brasileira. mero documento ou folha de papel. afirma Lassalle. Ruy Bar­ bosa afirmava que “as constituições são conseqüências da irreversível evolução eco­ nômica do mundo”. que garan­ te seus interesses de classe. Os problemas constitucionais. Segundo Lassalle. A exemplo da concepção de Lassalle. ao passo que o Direito representa a vontade desta classe. são transformados em uma folha de papel. estribado numa concepção me­ . os fatores reais do poder constituem-se fatores jurí­ dicos quando. Foi obra de um grupo compacto. pura e simplesmente. Acusado de professar uma doutrina que afirmava o predomínio do poder sobre o direito. contra a lei e será castiga­ do. Beard e Harold Laski. Para ele. aquela que tem suas raí­ zes nos fatores reais de poder. como Charles A. também a concepção marxista de Cons­ tituição é sociológica. mas de poder. não são. desejavam anulá-la. este documento. Estado e Direito são meras superestruturas que se sustentam sobre as relações de produção da sociedade dividida em classes. por longos tempos. cm instituições jurídicas. só será durável se corresponder à constituição real. os que. a maior parte dos membros da Convenção de Fila­ délfia reconhecia que a propriedade tinha direito especial na Constituição. como sustentaram. formada pela soma dos fatores reais e efetivos que imperam na sociedade. e a escrita. qualquer Estado é. na verdade. Na concepção marxista. no sul. e tampouco pelos Estados. duas Constituições num Estado: a real e efe­ tiva. primariamente.4 A Constituição 81 Lassalle é o típico representante da corrente doutrinária denominada socia­ lismo constitucional. a organização política da classe dominante. antes de mais nada. v. Em posição antagônica ao sociologismo constitucional de Lassalle e Marx sur­ ge o normativismo metodológico de Flans Kelsen. recebendo expressão escrita: a partir de então já não são mais simples fa­ tores reais do poder. 1. há. 35. Lassalle defendeu-se afirmando que sua teoria era desenvolvida 110 plano do que real e efetivamente é. cujos interesses não reconheciam fron­ teiras estaduais e que eram realmente de âmbito nacional. observados certos procedimentos. A doutrina dos fatores reais do poder foi tacitamente comprovada por várias obras de conhecidos autores. e não no pla­ no do dever ser. Es­ tado e Direito são o produto da divisão da sociedade em classes antagônicas e cons­ tituem um instrumento nas mãos da classe dominante. Para o marxismo. enfim. representando a norma suprema da organização estatal. a Constituição é um produto das relações de produção e visa assegurar os interesses da classe dominante. p. Para o marxismo. e quem atentar contra eles atentará. como afirmam os juristas. as Constituições escritas não têm valor nem são duráveis. pro­ blemas de direito. No surgimento dos EUA. determinada pelas condições da existência material. mas transmutam-se em direito. a verdadeira Constituição é a real e efetiva. a menos que venham a ser a expressão fiel dos fatores reais do poder. Esta folha de papel.

Lisboa. pode esta Assembleia subverter. Já se vê que. Fundação Getúlio Vargas/MEC . Hugo. Alianza. evidentemente. Esta pode ser definida como a mudança repentina. vo l . artística e até. Erõs. O termo revolução denomina a mudança brusca e radical de convicções so­ ciais. Vilfredo. 1972. social ou filosófico. ele afirma que o estudo de tais fenômenos não compete ao jurista. o conceito de revolução política. embora a violência psicológica (vis compulsiva) seja inafastável nos movimentos de fato. Com efeito. em verbete intitulado “Revolução”. J. sem nenhuma pretensão a fundamentações sociológicas. A teoria pura do Direito busca justamente expurgar da ciência jurídica toda classe de juízo de valor moral ou político. f e r r e ir a f il h o Manoel Gonçalves. Fundação Getúlio Vargas/MEC . das instituições e dos governantes. da forma de governo (de monárqui­ ca para republicana) e do regime de governo (de parlamentarista para presidencia­ lista). quando houve substituição dos governantes. bem como da forma de Estado (de unitária para federal). Tais convicções podem ter a mais variada natureza: política. erõs. por inteiro. Direito constitucional comparado. Coimbra Editora. in Dicionário de ciências sociais. “Golpe de Estado”. re . na revolução política tudo é subvertido: os governantes são apeados do poder. GOLPE DE ESTADO E INSURREIÇÃO Bibliografia: Marcello. o poder revolucionário a uma Assembleia Constituinte? Sem o emprego da força. Interessa-nos. M adrid. a Revolução Francesa (1789) e a socialista russa (1917). o emprego efetivo da violência material (vis ma­ terialis) ou coerção nem sempre é necessário. e as leis que haviam consagrado são substituídas. Como negar. 1986. uma realidade social comple­ xa que o explica. Diccionario de ciência política. na revolução. soberana. c que também o Direito é inspirado por teorias e princípios filosó­ ficos. Embora Kelsen admita que na base do Direito existem dados sociais. Apontam-se. substituin­ do-a por outra. 1981. in Dicionário de ciências so­ ciais. o Direito deve ser concebido estritamente como direito positivo. 1986. . pareto. Para Kelsen a norma constitucional é norma pu­ ra. políticas ou filosóficas. Trattato di sociologia generale. como exemplos tí­ picos de revoluções violentas. soi disant. Como exemplo dc revolução não violenta podemos citar a Revolução Re­ publicana do Brasil (1889). Manual de ciência política e direito constitucional.Fundação de Assistência ao Estudante.Fundação de Assistência ao Estudante. e sim ao so­ ciólogo e ao filósofo. J. em nome de uma nova ideologia. devem cur­ var-se. Edizioni di Comunim o li n a tà. “Revolução”. aponta três correntes moder­ . S. violenta ou não.82 Teoria Geral do Estado ramente jurídica da Constituição. Axel. Milano. a ordem jurídica vigente. ju­ rídica. que a ela. g õ r l it z Bushatsky/Edusp. São Paulo. bem como os próprios governantes. 1980. econômica. entretanto. sexual. S. 4) REVOLUÇÃO. caetano.

diz Pareto. é sempre uma mino­ ria que governa e que sabe dar a expressão que deseja à vontade popular. vale dizer. precisamente. por conseqüência. Temos. mostrando-se incontroláveis e destrutivas. Curiosas se mostram as doutrinas de Karl Marx e Vilfredo Pareto sobre a re­ volução. Isto é inelutável. Para ele. No dizer de Pareto. manifestações de regressão à mentalidade primitiva. tradicionalista. desde que se possa aferir que elas sejam apoiadas por uma camada considerável da coletividade. felizmente. veementemente. estático. Com efeito. todas as revoluções são genuínas. segundo Lenin. o termo revolução apresenta um matiz pura­ mente descritivo. rumo ao igualitarismo. a somatória dos pequenos benefícios que cada movimento revolu­ cionário irá incorporar às conquistas sociais acarretará. a atividade dos grupos sociais e dos partidos. da confrontação entre classes sociais. e as forças de produção. po­ rém. Com ou sem sufrágio universal. haverá. Baku­ nin e Kropotkin. toda elite dirigente. a revolução surge. a tensão social. em todas as épocas e lugares. conhecido sociólogo ítalo-francês que elaborou um ma­ gistral tratado de sociologia. mesmo porque as classes possuidoras dos meios de produção estão. surgem movimentos tendentes a estabelecer uma nova ordem. Quando a elite dirigente se torna esclerosada e corrompida. Para os conservadores. como resultado da con­ tradição entre as possibilidades de trabalho. que vêm a ser. con­ gregando homens de esquerda e liberais-democratas. inte­ ressadas na manutenção do status quo. teocrática ou monarquista. de forma inevitável. Ora. então. a teoria da revolução deflagrada em nome dos direitos naturais. mostrando mais preocupação com a liberdade individual. que não encontra mais solução 110 modo de produção tradicional. e suas concepções têm natureza feudal. necessariamente. Contudo. as revoluções são meras explorações dos sentimentos populares. que ele considera não científica. o Estado é dinamizado por dois setores sociais. uma parcela de subjetividade. mais preocupados com o incentivo à sublevação das massas contra os déspotas. uma revolução não passa da substituição de um déspota por ou­ tro. Marx nega. as ferramentas correspondentes (for­ ças de produção) e as relações de fortuna e trabalho (relações de produção). uma confron­ tação entre o ordenamento social estabelecido. Fi­ nalmente. essencialmente dinâmicas. sem qualquer conotação ideológica. a vitória da igualdade no mundo. na concepção positivista. a conservadora e a positivista ou científica. Para os anarquistas. Isto só pode levar a uma solução revolucionária. A conjunção de todos estes fatores acarreta a re­ volução. uma elite que governa e ou­ tra que é governada. a um ponto crítico. inevitavelmente. . afirmando que as re­ voluções constituem etapas do progresso inevitável da Humanidade. tal contradição chega. acarretando o congelamento do desen­ volvimento social e. Para esta corrente. na revolução.4 A Constituição 83 nas do estudo da revolução: a progressista ou evolucionária. A corrente conservadora mostra-se uma reação à Revolução Francesa. estes. como Proudhon. Aqueles. A concepção progressista pontificou no século X IX . Tais fatores são objetivos.

o abrandamento dos costumes. consoante advertência de Hugo Revol Molina. O golpista ou golpistas contam. Insurreição. a fim de substi­ tuí-los ou lhes impor orientação política diversa. por definição. como a corrupção econômica. É a massa. Seja como for. comece a confiar mais na astúcia do que na força. realizando obra tão interessante como a destruição de anim ais daninhos. a ascendência de demagogos e pacifistas. a usurpação. com o apoio ou não das Forças Armadas. ate. Podemos citar. das prerrogativas do Legislativo e. tudo isso faz com que a elite dirigente. traz consigo o vigor e a coragem dos leões. põe abaixo o ordenamento corrompido. vem a ser a substituição de alguns ou de todos os pressupostos da ordem jurídica vigente. revolta 011 pronunciamento (do espanhol pronunciamiento) são as várias denominações que toma a manifestação das Forças Armadas. Assim. no Brasil. Ao perceber que seu po­ der começava a esmaecer. já a par de sua própria debilidade. mas a revolução atinge. o mo­ mento propício ao surgimento de uma nova elite dirigente. pressionado pelos litígios partidários. do Ju­ diciário. por Getúlio Vargas. invariavelmente. impondo à Nação uma carta constitucional de caráter autoritário. substituindo a ideologia dominante e criando um novo ordenamento jurídico. com o fito de mu­ dar o regime político. pelo Poder Executivo. enfim. desde logo. Desta forma.. e reforçou bruscamente o seu poder.por exemplo. a ideologia dominante. quando um movimento político repentino é um golpe de Estado ou uma revolução.84 Teoria Geral do Estado inicialmente jovem e vigorosa. que. apoiadas ou não em outras forças sociais. uma classe ou partido. rebelião. e antecipando-se a uma possível tentativa insurrecional por parte de uma pequena facção das For­ ças Armadas. pois visa apenas à derrubada dos governantes . na revolução ou na insurreição a principal finalidade é substituí-los. A insurreição pode não alcançar as instituições. por isso. com o apoio dc uma par­ cela considerável das Forças Armadas para o reforço de seu poder. cheia de ideais. alteram as instituições neste sentido. se pelo golpe de Estado os governantes pretendem manter-se no poder e. pode ficar difícil para o analista estabelecer. então. Constitui. o caudilho antecipou-se a qualquer tentativa deste naipe. no mais das vezes. a qual instaurou o chamado Estado Novo. como exemplo típico de golpe de Estado. imposta pelos próprios governantes. alterando a estrutura social.. Quanto ao golpe de Estado. A revolução caracteriza-se. pois as primeiras ações e decisões do grupo que . a outorga da Constituição de 1937. a própria ordem constitucional. a insurrei­ ção de março de 1964 -. a influência de fatores negativos. quase sempre. ao estahlishment. a agita­ ção política e a intranqüilidade social. pela manifestação violenta de for­ ças sociais estranhas à organização do Estado. contra os governantes. É chegado. entretanto. casta e portadora de novos ideais. os governantes de leões fazem-se raposas. as leis e instituições e o pessoal gover­ nante. desde logo. com a finalidade de permanecerem no exercício do poder.

mediante uma ação apoiada na violência ou na ameaça desta. não obstante as manifestações verbais que as acompanharam. na América Latina. qualifi­ quem sua posterior ação governamental como revolução.4 A Constituição 85 toma o poder político resumem-se. Dessa forma. a maioria das ações desse tipo. . resumiu-se a meros golpes de Es­ tado. A diferença entre golpe dc Estado e revolução somente pode ser es­ tabelecida ex post facto. ocorridas no século X X . via de regra. a análise sociológico-política encarada sob uma perspectiva histórica permitiu mostrar que. embora os grupos que. salvo raras exceções. che­ gam ao poder. a medidas destinadas a consolidar a posição alcançada.

salvetti n e t t o . 86 . 1986. Curso de teoria do Estado. A união pessoal de Estados vem a ser uma espécie de federação. b) é transitória. b o n a v id e s . pois cessa o vínculo com a extinção da dinastia imperante. A união pessoal. ed. Saraiva. hoje. Constituem exemplos históricos de uniões pessoais: Espanha e Portugal (1580-1640). Ciência política. Pedro. em face do declínio da forma monárquica de governo. SALVETTI n e t t o . aci­ dental e involuntariamente. Inglaterra e Hanovcr (1714-1837). Forense. c) inexiste fundamento jurídico unitário entre os Estados par­ ticipantes da união. 1986.. Alemanha e Espanha (1519-1556). sendo a União des­ tituída de personalidade jurídica internacional. Curso de teoria do Estado. ed. Paulo. Rio de Janeiro. decorrendo de mera coincidência na or­ dem sucessória dinástica. 1986. 2) UNIÃO REAL Bibliografia: b o n a v i d e s .FORMAS DE ESTADO 1) UNIÃO PESSOAL Bibliografia: Paulo.. São Paulo. em que. Pedro. os quais mantêm incólume sua soberania. constitui. Ciência política. fortuita. A união pessoal: a) é casual. 6. assim como a união real. as leis de sucessão monárquica ensejam a coincidência de um só príncipe ocupar dois tronos. São Paulo. tornando-se o titular comum do poder em F^stados que preservam sua soberania. mera figura histó­ rica. 1986. Saraiva. Rio de Janeiro. Forense. 6.

pela unicidade do poder. O poder central irradia-se por todo o território. A for­ ma simples de Estado é representada pelo Estado unitário. Rio de Janeiro. São Paulo. monarca. como rei da Hungria. limitando-se a formar uma união de Estados. cd. b o n a v id e s . portanto. Saraiva. 1982. Teoria geral do Estado. e adota-se a mesma política ex­ terna. Madrid. As formas de Estado podem ser resumidas a duas: simples e compostas. Estados contíguos. admitindo administração comum e economia societária. Este monarca chamava-se Carlos I. pela caducidade dos tratados ou pelo desaparecimento da dinastia governante. A união real: a) não cria um novo Estado. Nacional. - Sahid. a união real. 2. Cumpre ressaltar que o adjetivo real atribuído à união não se refere. quando a Áustria e a Hungria se agregaram sob a autoridade de Francisco José. e) sua duração pode ser permanente ou transitória. luf. 2. 6. por via de regra. m a Mariano. Paulo. Ciência política. v. 1986. e Carlos IV. c) a soberania de cada Estado permanece intacta. embora dotada de descentralização meramente administrativa. 3) ESTADO UNITÁRIO Bibliografia: daranas. sem limitações de natureza política. Curso de derecbo constitucional Barcelona. b) abrange. São Paulo. Forense. Constituem exemplos de uniões reais: Suécia c Noruega (1815-1905). Vejamos o Estado unitário. h) as relações entre dois Estados da união real são relações in­ ternacionais. 13. d) exclui administração uniforme e nacionalidade pró­ pria. na quali­ dade dc Imperador da Áustria. as formas compostas de Estado correspondem às federações. Bosch. do qual trataremos a se­ guir. ras. a rei. 1986. v. 1962.. Las constituciones europeas. Curso de teoria do Estado. sem divisões internas que não sejam simplesmente de ordem administrativa. podendo dissolver-se por acordo entre os Estados participantes. g) o governante e seus ministros não atuam como representantes de cada Es­ tado participante. No di­ zer de Jorge Xifra Heras. Sugestões Literárias. cd. consciente e voluntária. x if r a saliie - V E T O NETTO. com um governo único de plena jurisdição nacional.5 Formas de Estado 87 A união real de Estados é uma espécie de federação consistente na celebração. que são: a união pessoal. Im­ pério Austro-Hungaro (1867-1918). Jorge. Dinamarca e Islândia (de 1815 até a deflagração da Segunda Grande Guerra). Essa forma de Estado mostra-se politicamente cen­ tralizada. Pedro. necessaria­ mente. mas a uma coisa (res)yum objetivo concreto.. a confederação de Estados e o Estado federal. f) criam-se exército e marinha comuns. 1979. um Estado chama-se unitário quando suas instituições de . Preleciona Sahid M aluf que o Estado unitário é aquele que apresenta uma or­ ganização política singular. Carac­ teriza-se o Estado unitário. da união de Estados em torno de um objetivo comum (res).

neste. ao mesmo regime constitu­ cional e a uma ordem jurídica comum. temos a dependência dos órgãos descentraliza­ dos quanto ao Estado unitário. a doutrina. no caso do Estado federal. tudo. ain­ da aqui. sempre válida. no art. O problema surge quando se trata de estabelecer o grau ou intensidade desta unidade. Na centralização concentrada.. to­ dos os cidadãos estão sujeitos a uma autoridade única. porque naquela os agentes atuam em nome do próprio Estado. a região é uma entidade orgânica dc caráter histórico. 5°. observa-se que o Estado unitário desconcentrado divide-se em departamentos e comunas. ser a Itália uma república una e indivisível. na Itália. Assim. A forma política unitária corresponde a uma exigência natural. permanentemente. quando. confere às regiões a mais ampla autonomia político-administrativa (arts. porém. promoveu-se alguma descentralização política. embora a Constituição ita­ liana proclame. Análoga é a distin­ ção. a independência desses mesmos órgãos. . até 1834. Na centralização desconcentrada. a ponto de algumas regiões dc Estados unitários demonstrarem maior unidade do que certos Estados federais. No Estado unitário. portanto. que permitiu a cada província eleger suas próprias assembleias legislativas. complementada pela Lei de 3 de outubro do mesmo ano. tanto no que fazer quanto no como fazer. ao passo que nesta os órgãos descentralizados atuam em nome da entidade secundária da qual se originam. dotada de leis próprias. não é tarefa das mais fá­ ceis caracterizar este Estado como unitário. de modo que não passam de simples cumpridores dessas determinações. que enseja. O poder. embora persista a dependência hierárquica. entre Estado unitário descentralizado e Estado federal aponta­ da por Paulo Bonavides: naquele. Por via de regra. não autônomo . desde a promulgação da Constituição de 1824. Com efeito. Não se confundem. como mera delegação do poder central. mediante a Lei de 12 de agosto. que marcou as atribuições dos presiden­ tes das províncias. porém.88 Teoria Geral do Estado governo constituem um único centro de impulsão política. tende à unidade. no Estado unitário. Se a centralização política c a des­ centralização administrativa são as características marcantes do Estado unitário. é delegado. 115 e 1 17). não como poder originário ou de auto-organização (self-government). por vezes. os agentes das entidades administrativas são meros núncios das decisões do poder central. a verdade é que a moderna doutrina já distingue. unidade lingüística e até racial. como sociedade necessária. estruturada sob uma or­ dem e um objetivo social. a referida centralização desconcentrada e a descentralização propriamente dita. por outro lado. a própria confusão entre Estado unitário e Estado federal. que go­ zam de relativa autonomia quanto aos serviços dc seu interesse. e que empolga. Quanto ao Brasil. chamada Ato Adicional. somente durante o Império tivemos como forma de Estado a unitária. porquanto. sem qualquer autonomia. já se observa certo grau de competência atribuído aos agen­ tes periféricos do poder. entre centrali­ zação concentrada e centralização desconcentrada. O Estado. de centralização concentrada. Fenômeno intimamente ligado ao Estado unitário. é o regionalismo.

Tal doutrina calou fundo na opinião pública. levando George Washington a dizer: “A Confederação não passa de uma sombra sem substância. maluf. a partir de então o Estado era um só. então.. de modo que se exauriam os cofres daquela. Era um Estado constituído por Estados que se haviam federalizado. que exigiram fosse man­ tida a denominação Estado para cada uma das colônias integrantes do pacto fede­ rativo. 2. Las constituciones europeas. Jorge. oportunamente. e o Congresso.” acabaram por empregar o verbo no sin­ gular. x i f r a celona. 13. José Pedro Galvão de. Para solucionar o impasse. Esta forma de Estado constitui uma espécie do gênero federação. 2. Teoria geral do Estado. empenhada cm gravames financeiros para sustentar a frágil união. Não assim no caso brasileiro. terárias. posteriormente. As treze colônias vitoriosas sobre o domínio inglês. Por outro lado. em virtude das circunstâncias históricas. ed. v. 1986. A situação mostrava-se insustentável.. Rio dc Janeiro. São Paulo. mediante a Constituição de 1787. Como assinala José Pedro Galvão de Souza. r e ir a f il iio b o n a v id e s . Sugestões Li­ Pedro. São Paulo. reuniram-se os representantes dos Estados confederados para rever os Artigos de Confederação. Daí a tradicional epígrafe Estados Unidos da América.. Surgiu com a Revolução norte-americana do século XVIII. no caso norte-americano. que consolidaram a doutrina do federalismo. Madrid. . Curso de teoria do Estado. proibia-se à Con­ federação impor tributos aos Estados confederados. Saraiva.. heras. 2. São Paulo. Ciência política. inicialmente unidas em confederação. Não mais os treze Estados de logo após a Independência. de 1777. e logo a Constituição terminou por ser ratificada pelos Estados. na célebre Convenção da Filadélfia. reunida. ed.”. salvetti n e t t o . Como lembra. São Paulo. que resultou no aparecimento dos Estados Unidos da América do Norte. 1986. 1979. conforme estabelecido no documento chamado Artigos de Confederação. Iniciação à teoria do Estado. que esclarece a natureza e as vantagens do Estado federal. Saraiva. como assinala Pedro Salvetti Netto. o autor citado: o nome do Estado aplicado a uma entidade não soberana explica-se. mostravam-se frágeis neste tipo de união. Forense..5 Formas de Estado 89 4) ESTADO FEDERAL Bibliografia: daranas. fer­ Mariano. 1987. 6. Madison e Jay. v. no clássico O federalista. os memoráveis escritos de três jornalistas: Hamilton. Bosch. Curso de direito constitucional 16. 1982. Paulo.ed. construção permitida na língua inglesa graças ao artigo invariável: “ The Uni­ ted States /s. souza . Nacional. de um ór­ gão inútil” . Sahid... 1962. Manoel Gonçalves.. Curso de dereebo constitucional Bar­ Revista dos Tribunais. . Refulgem. pois. 1976. cd. Os doutrinadores norte-americanos que inicialmente cos­ tumavam dizer: “ The United States are.

O Estado-Membro ou Estado federado. caput. sendo dotado do poder de auto-organizar-se e dc autoadministrar-se limitado pela Constituição Federal. é a pessoa jurídica de direito público que representa o Esta­ do federal. Tal po­ der chama-se autonomia (do grego. 23. (Iniciação à teoria do Estado. submeten­ do-se a uma Constituição que lhes proíbe o direito de secessão. V. vale dizer. aliás. apesar de Estado federal. o direito de se separarem da União. da Constituição . 30). A doutrina clássica é taxativa: os Estados federados não têm o direito de secessão. através dc uma confederação em seguida à qual surgiu o Estado federal. tal foi o furor imitativo dos primeiros homens da República. A Argentina. como se percebe do texto do art. É célebre a Guerra da Secessão. submetendo-se a uma Constituição Federal. representado pela União. chegou-se ao Estado federal partindo da unidade para a multiplicidade. arts. Tanto no caso do Brasil como no da Argentina. Pois bem. sempre. cada qual dentro de seu campo de ação. arts. não são dotadas de soberania. art.90 Teoria Geral do Estado quando se começou a chamar de Estados as antigas províncias do Império. as entidades interventoras não atuam em nome próprio. Com efeito. salvo a malograda e efêmera experiên­ cia das capitanias. 1°. o poder de se separar da União. Tem suas próprias competências (CF. deflagrada nos Estados Uni­ dos da América do Norte entre 1861 e 1865. art. Vale lembrar. embora dotadas de capacidade de auto-organização e de autoadministração. Os Estados-Mcmbros passam a dispor de mera autonomia. em proveito do próprio Esta­ do federal. porque esta é formada por Estados propriamente ditos. ao passo que no Estado federal os Estados-Membros renunciam ou são despojados de sua soberania. p. art. mas. e destes nos municípios (CF. adota a denominação pro­ víncias para as unidades federadas. Um Estado só havia sido. autos = por si só + nomos = norma) e se sub­ mete ao poder soberano do Estado federal. e dos municípios (CF. o Estado federal não se confunde com a confederação. o Brasil. seguida nesta atitude por outros Estados-Mcmbros. entidades políticas dotadas de poder soberano. desde os primórdios da colonização. Quanto à União. vale dizer. 21 c 22). cm 1788. e 34). 21. para usar a terminologia da própria Constituição. ao passo que no caso dos Estados Unidos partiu-se da unidade para chegar à unidade. composta por unida­ des que. ainda aqui. § 1°). que a intervenção federal é uma exceção à re­ gra da não intervenção. 62) Fato curioso é que o Estado dc Nova Iorque somente ratificou a Constituição norte-americana após um ano da vigência desta. com ressalva da competência comum (CF. e sim com vistas à integridade do próprio Estado federal como um todo. incondicionado. como se observa do art.145 e 155) e da intervenção federal da União nos Estados-Membros (CF. o Estado federal é uma espécie de federação. 25. 35). é a unidade básica do Estado federal. quando a Carolina do Sul separou-se da União. 34. a par da competên­ cia dos Estados-Membros (CF. sem poder interferir na competência das demais entidades federadas. arts. isto é.

a intervenção é exceção. qualquer tentati­ va separatista será tolhida pela intervenção federal (art. tam­ bém. limitado pela Constituição Federal (arts. Concluindo: no Estado federal brasileiro. dotado de poder de auto-organização (art. no qual cada Estado federado e o Distrito Federal contam com três senadores (art. 3 4 . há três ordens de competências: a da União. arts. Em qualquer caso. I o e 2o. ficam constituindo os Estados Unidos do Brasil”. na expressão união indissolúvel nele constante. ca­ put). 1. X X e XXII). e o art. art. jamais regra. art. 1°. Seção 3a. e 84.1889). como se deduz. 2 1 . A forma federativa de Estado surge no Brasil com o advento da República (Decreto n. art. admitia. O Estado federado pode. $ I o). A doutrina clássica é taxativa: os Estados federados não têm o direito de se­ cessão. em vez de duas. como já foi visto. 1°. e 34). da URSS”. 35). 72. livremente. 155). a dos Estados federados e a dos municípios. caput). de 15. Nenhuma dessas entidades federadas poderá invadir a competência das demais. 46). vale dizer. 2°: “As províncias do Brasil. 23). Se a União pode intervir no Estado federa­ do. de 24. o Estado federado é entidade integrante do Es­ tado federal (CF.1. estando submetido. 2o. 21. com ressalva. concedida esta. o Estado federal brasileiro conta com a participação dos Estados fe­ derados na formação da vontade nacional. o poder de se separar da União (art. Tal po­ der de auto-organização chama-se autonomia.1). não regra. pois de nada valeria a autonomia políti­ ca (art. 46. por sua vez. mediante o Senado Federal (CF. que. intervir nos seus municípios (art. X IX . caput. 35).5 Formas de Estado 91 Federal. 1°. art. 25. 155) e aos municípios (art. parte final. Tal orientação será definitiva­ mente confirmada com a primeira Constituição republicana. reunidas pelo laço da federação. I o estabelece: “ Fica proclamada proviso­ riamente e decretada como a forma de governo da nação brasileira . VIII. I o. caput). V) nos ca­ sos do art. sob pena de inconstitucionalidade. Qualquer tentativa de se­ paração ensejará a intervenção federal. caput. ao Distrito Federal (art.1891. sendo o próprio Estado Federal representado pela União.11. pes­ soa jurídica de direito público (arts. 17° Aditamen­ to ao texto). No caso específico do Brasil. . a intervenção é exceção. que “cada república da União conserva o direi­ to de se separar. expressamente. A Constituição Federal assegura a autonomia política e financeira dos Esta­ dos federados ao longo de vários artigos.a República Federativa”. este pode intervir no município (art. da competência comum a todos (CF. 25. cujo art. 34. promovida pela União (art.02. mas em qualquer caso. 156). A exemplo da federação norte-americana (Constituição dos EUA. porém. ao estruturar o Estado federal socialista. como vimos. à Constituição Federal. Exceção ao princípio da indissolubilidade do Estado federal nos dava a extin­ ta Constituição soviética de 1977. 25) sem a necessária autonomia financeira (art. VII. no art. como vimos.

A exemplo dos Es­ tados Unidos da América (Constituição dos Estados Unidos da América. aos Estados federados.as águas superficiais ou subterrâneas. .as ilhas fluviais c lacustres não perten­ centes à União. § 3°. ou formarem novos Estados ou Territórios Federais.as terras devolutas não compreendidas entre as da União. 34 e 35. 46). a federação brasileira prevê a participação dos Estados federados na formação da vontade nacional. fluentes.as áreas. através de plebiscito. 26. no art. Se­ ção 3a e 17° Aditamento ao texto). que estiverem no seu domínio. IV . ressalva­ das. 155). 18. III . mediante aprovação da população diretamente interessada. I o. emergentes e em depósito. neste caso. Municípios ou terceiros. nas ilhas oceânicas c costeiras. do teor dos arts. as decorrentes dc obras da União. subdividir-se ou desmembrar-se para se anexarem a outros. art. da Constituição: Os Estados podem incorporar-se entre si. Quanto à criação de novos Estados federados.92 Teoria Geral do Estado claramente. na forma da lei. excluídas aquelas sob do­ mínio da União. e do Congres­ so Nacional. como bens dos Estados federados: I . assim dispõe o art. A par da autonomia política. autonomia financeira (art. a Constituição confere. por intermédio do Senado Fe­ deral (art. II . por lei complementar. A Constituição Federal aponta.

I. . . form a de governo e regime de governo . Centro de Estúdios Constitucionales.FORMAS DE GOVERNO 1) CLASSIFICAÇÕES ANTIGAS E MODERNAS 1. Madrid. ocorre-nos a sugestiva tirada do poeta inglês Percy B. Plus Ultra. no segundo. a M onarquia. 1981. em cada form a de governo democrática desenvolve-se um relacionamento peculiar entre as funções executiva c legislativa. Lisboa. Na série de classificações de formas de governo que ora iniciamos. caracte­ rizado pela centralização político-adm inistrativa. de nítida descentralização político-administrativa. teremos como forma de governo a República. Platão. 1976. A expressão form a de Estado indica a maior ou menor irradiação do po­ der político. p l a t Ão l in a r e s q u in t a n a . e Las leyes. v. Se este é centralizado ou centrípeto. Inquérito. No primeiro caso. Em face disso. É imperioso distinguir entre form a de Estado. v. La República. Ora. Tal relaciona­ mento é chamado regime de governo. as expressões Estado unitário e Estado federal indicam formas de Esta­ do . teremos o Estado federal. Shelley (1792-1822): “Somos todos gre­ gos”. dc modo que esta expressão afere qual ór­ gão exerce a função governamental. Sistemas cie partidos y sistemas políticos. temos o Estado unitário. Já a expressão form a de governo revela se o poder é exercido temporária ou vitaliciamente. I. Centro de Estúdios Constitucionar o b in Léon. se é descentralizado ou centrífu­ go. Quis este famoso literato enfatizar a importância da herança cultural helêni93 . Adolfo Casais Monteiro. trad. Madrid. les. Buenos Aires.1) Platão (Arístocles) Bibliografia: Segundo V.

colocação à qual aderimos sem hesitar. pois além dos ricos são banidos os sábios. o Antigo. com a conseqüente ascensão da massa. mesclando-se uma sã filosofia dc vida com a sede crescente de honras e bens materiais. gover­ no). e kratos . de modo que logo a desordem campeia irrefreada.. secunda­ do pela corrupção. pertencia a uma famí­ lia aristocrática. entretanto. poder) ou autocracia militar. às suas expensas. numa bela propriedade arborizada e regada por nascentes. A corrupção cam­ peia. Na timo­ cracia surge agudo conflito entre o bem e o mal. a aceitar as ideias que expôs no Livro Quinto de sua obra D a república. pois a liberdade tornada licenciosa só pode levar à escravidão. Em Siracusa. Todavia. Tudo isso leva à tirania. viajando pelo Egito . Platão fundou sua própria escola. outras formas. forma em que os ricos são expulsos do poder. partem. Em 404 a. aos 82 anos dc idade. Surge a timocracia quando indivíduos de condição social inferior enriquecem e tentam chegar ao poder pela astúcia. democracia (dc demos. cujo verdadeiro nome era Arístocles (o apelido derivou do fato de este filósofo ter as espáduas largas.. pelo sangue materno.). sendo o dinheiro. poder).C. sendo. as Constituições políticas abundam e as boas leis são desprezadas. começaremos este tópico com um panorama das ideias de Platão (429-347 a. favorecendo a ascensão política de Platão. Dedica-se à filosofia.do qual tornou-se grande conhecedor .94 Teoria Geral do Estado ca. forma que considera a melhor de todas. Da aristocracia (de aristoi. tentou persuadir o tirano Denis. literárias ou esportivas. Incomodado. oligarquia (de oligoi.C. enaltecendo o valor dos filó­ sofos e criticando a frivolidade e a devassidão da corte. a escola platônica foi denominada Academia. numa seqüência inevitável. ex­ pressão que passou a designar as sociedades científicas. Platão idealiza um processo dinâmico de rodízio das formas de governo.) e mestre de Aristóteles (384-322 a. com a tomada de Atenas por Lisandro. honra. parente do grande legislador Sólon. no que são impedidos pelos militares. em meio à qual se eleva­ va um ginásio. Tal situação insustentável vem abai­ xo quando se instala a democracia. então.). que passam a exercer o poder oprimindo aqueles a quem deveriam proteção. A timocracia. uma mino­ ria abastada impõe sua arrogância a toda a sociedade. Em 387 a. Platão. quando concluía sua obra As leis. Por isso. discípulo de Sócrates (470-399 a. desiludido com a condena­ ção de Sócrates. a única chave para as portas da ascensão social e política.C. considerados perigosos para a nova ordem. melhores. que revela seu pensamento definitivo. Em homenagem a Academus. e arche.C.C.C. . evocando o termo om oplata ). conhecida como o parque do herói Academus. povo. No livro D a república. poder) e tirania . por sua vez. e kratos. também ocorrem graves disfunções sociais. implantando-se a mais grosseira mediocridade. descrê da organização política tradicional de sua pátria. Assim: timocracia (de tim os. nos arredores dc Ate­ nas. Platão morreu em 347 a. quando. fundado num determinismo inafastável. e kratos. a aristocracia chega ao poder.. Denis o ex­ pulsou da cidade. degenera em oligarquia.e pela Mag­ na Grécia. poucos.

Alexandre Magno. fundamentalmente. temos o governo de um apenas. de. era natural da Macedônia. . mas aquele que mais se coadune com a praxe política. e arche. com o qual classificou tais formas consoante o número de indivíduos que governam. chamado monarquia (de monos. ste. Assim.2) Aristóteles Bibliografia: A r i s t ó t e l e s . discípulo de Platão. E. New York. E. 1. foi encarregado por Filipe da Macedônia de educar Alexandre. Sistemas de partidos y sistemas políticos. barker. e o critério moral. Acompanhando seu discípulo nas expedições que caracterizaram a vida deste. 1983. graças às suas conquistas mi­ litares. Reunindo este valioso material em obra notável.).C. porém igualmente le­ gítimos: a autoridade e a liberdade. numa combinação harmoniosa de princípios opos­ tos. 1947. Nicômaco. Aristóteles (384-322 a. Madrid. conta-se. M. Dover Publications. Bologna. Aristóteles teve oportunidade de visitar e estudar cerca de 150 Constituições de po­ vos diversos. 1988. Política. Depois de estudar durante vinte anos com Platão. governo). para tanto. Plus Ultra. não se configuram nem poder. con­ terrâneo de Filipe e do filho deste. . até. um equilíbrio de forças políticas antagônicas. porque mais maduro. Centro de Estúdios Constitucionales. adotando. um. Editorial Crítica. intitulada Política. Platão mostra-se mais realista. teria dito: “Hoje a inteligência faltou!”. formulou sua célebre classificação das formas de governo. seu mestre Platão. nem liberdade excessivos. 1976. Era um típico aristocrata. c r o ix G. The political thought of Plato and Aristotle. e La política (passi scelti e commentati da Giuseppe Saitta). Aires. s. dois critérios: o critério numérico. que num dia em que faltou à aula. duas formas de governo: a monarquia c a democracia. fi­ lho de um médico abastado. sendo cognominado o Grande ou Alexandre Mag­ no. Barcelona. Em As leis. Quanto ao número de pessoas a exercer o poder (critério numérico). l in a r e s q u in t a n a Segundo V. Aristóteles correspondeu por inteiro à expectativa do pai.6 Formas de governo 95 Na obra As leis. que se tornaria. fundadas em princípios opostos. senhor de vasto império. Las luchas de clases en el mundo grie- go antiguo. levando em conta o intuito de o governante ou gover­ nantes administrarem visando ao interesse geral ou ao benefício pessoal.d. Platão se antecipa a muitas classificações posteriores. ao observar os alunos presen­ tes e constatar a ausência de Aristóteles. Buenos . já não pretende descrever um Estado ideal. Então afirma existirem. que soube dar ao filho refinada formação intelectual. pelo qual classificou tais formas em puras e impuras. em que haveria. ao preconizar uma forma mis­ ta de governo. Cada uma dessas duas formas de governo só subsiste se faz concessões à outra: a monarquia à liberdade. Zanichelli. e a democracia à obe­ diência.

ou tirania. em que predominam as paixões e a desordem . Sendo o poder exercido por uma minoria no interesse geral. quando a minoria dominante se sustenta na força do dinheiro ou na hereditariedade. melhores. e kratos. porem. em que os pobres governam no próprio interesse. governo). como se vê. e kratos. levadas à deriva por aven­ tureiros inescrupulosos. temos a aristo­ cracia (de aristoi. situação gravíssima em que todos se julgam aptos a governar. portanto. poder). forma impura. quando o poder é exercido por muitos no interesse de todos. povo. sur­ ge a politeia . Finalmente. sendo as massas. podemos esquematizar as formas de governo aristotélicas assim: Critério numérico (Leva-se em conta o número dc pessoas que governam) Monarquia: governo de um Aristocracia: governo de poucos Politeia: governo de muitos Tirania: governo de um Oligarquia: governo de poucos Democracia: governo de muitos Demagogia: governo de todos Critério moral (Leva-se cm conta a intenção dos que governam) • Formas puras Monarquia: governo de um no interesse geral Aristocracia: governo de poucos no interesse geral Politeia: governo de muitos no interesse geral • Formas impuras Tirania: governo de um no interesse pessoal Oligarquia: governo de poucos no próprio interesse Democracia: governo de muitos no próprio interesse Demagogia: governo de todos. poucos. poder).96 Teoria Geral do Estado quando o poder é exercido no interesse geral. tem sentido original bem diferente do atual. termo que. surge a oligarquia (de oligoi. forma pura . visando tão somente seu próprio be­ nefício. e arche. cor­ rupção da aristocracia. Em face do exposto. as multidões desorganizadas. graças a uma empolgante e astuta oratória. e agost orador). cujas formas corrompidas são a democracia (de demos. ou a demagogia (de demos. quando é exercido no próprio interesse do governante. povo.

a forma ideal de governo. 1. Buenos Aires. c r o ix prélot. . 1973. Políbio (205-125 a. Por outro lado. obtendo a proteção dos Cipiões. Seu trabalho. embora afetado em alguns pontos por naturais deficiências. Lisboa. Historia universal duran­ Mareei. a monarquia é mais suscetí­ vel de corrupção. 1976. . 1988.3) Políbio de M egalópolis Bibliografia: Segundo V. Editorial Crítica. por um lado. Capítulo V). Natural da Arcádia. pois a aspiração maior do rei é a virtude. foi conduzido à condição de escravo após o conflito. a subversão atua apenas contra a minoria oligárquica. mais precisamente de Megalópolis. é também a mais estável de todas estas formas de governo ( Política . porque a virtude e o poder raramente andam juntos.C. sendo-lhe conferida a administração da Acaia. e a politeia. Um povo jamais se volta contra si próprio. de m e g a l ó p o l is l in a r e s q u in t a n a . líticas. v. de. para esta ou aquela forma pura de go­ verno. Barcelona. na teoria. p o l íb io . acha-se estribado em séria e copiosa documentação. cit. ao passo que. M . Plus Ultra. forma cm que predomina a classe média e que tem mais afinidades com a democracia do que com a oligarquia. ste. Sc. identificando na sadia concepção e organização da ordem jurídico-política a razão maior de seu sucesso.C. Iberia. Capítulo I). Sistemas de partidos y sistemas políticos. As doutrinas po­ te Ia república romana.) foi um historiador grego que recebeu profunda influência das instituições romanas de seu tempo.). 1. Livro III. diretamente. enquanto a do tirano é o prazer. a monarquia é. Presença. Livro VIII. lançou-se à empre­ sa de escrever a história deste período da civilização romana. Em sua obra (da qual. em menos de duas gerações. na democracia. restaram os primeiros cinco li­ vros e anotações dos Livros I e XIII) tentou explicar como Roma. conquistou o mundo conhecido na época. Ele afirma que cada Estado deve adotar a forma de governo que mais se coa­ dune com suas peculiaridades. Todavia. viajou e escreveu livremente. ao comandar a cavalaria da liga aqueia. G. porque nos regimes oligárquicos a revolução pode operar contra os próprios governantes ou contra o povo. na prática. Barcelona. Embora bem-nascido e exercesse importante papel durante a guerra entre Roma e a Macedônia (171 a 168 a.. a própria democracia é mais estável que a oligarquia. La Incha de clases en el mundo griego antiguo. até porque a melhor forma de governo é aquela que tem os melhores governantes (Política . seu talento logo foi percebido nos altos círculos dc Roma e. Impressionado com a organização da República romana. E. Muntaner.6 Formas de governo 97 Aristóteles não propende. num total de quarenta.

mas apenas aquela que conta com súditos voluntários. Capítulo II). Observa Políbio que nem toda monarquia é realeza.. perfeitamente equilibrado. e esta. O governo de um ou monarquia estabele­ ceu-se sem arte. poder). Haverá democracia onde tais senti­ mentos prevalecerem (H istória . ou a oclocracia (de o cios.e nisto reside a originalidade de Políbio . na medida do possível. mas apenas aquela em que o povo venera os deuses. Por outro lado. jamais por medo ou violência. o elemento democrático. Na sua H istória u n i­ versal durante a República rom ana . pois. Não são as únicas nem as melhores. irritado. distinguindo entre m onarquia e realeza. o Senado. multidão. mas apenas aquela em que governam os mais justos e sá­ bios. Finalmente. Seria dc sc perguntar. a aristocracia c a democracia. se tais formas são as únicas ou as melhores. cit. porque . Políbio indica a de Licurgo.a m elhor form a de governo é aquela que sintetiza as virtudes das demais. há muitos Estados governados por uma minoria. que há seis formas de governo: três que todo mundo conhece e outras três que com elas se relacionam. de cujas ruínas surge a aristocracia. que se im ­ planta com arte e correção. reúne as três formas puras de governo: monarquia.. Capítulo II). as três formas puras de governo não são as únicas. tal sistema misto. Como exemplo de Constituição política deste tipo. Ora. em dupla. bem assim por democracia (H istória . Livro VI. Por outro lado. continua Políbio. Outro grande mérito da forma mista de governo c o de resistir à natural deteriora­ . que se busca passar por aristocracia. não é a democracia a forma de governo em que o populacho faz o que bem entende. fazer-se passar por reis. observa Políbio. respeita os pais. só pode trazer bons resultados. no que tange aos comícios populares e tribunos da plebe. por natureza governo de pou­ cos. sendo que o governo pode ser exercido por uma. a aristocracia c a democracia. cit.98 Teoria Geral do Estado Assim como Aristóteles. Fique assentado. e que é exercida pela razão. aristocracia e democracia. Em qualquer caso há equívoco. o regime se assemelha ao monárquico. pois. na Lacedemônia. Livro VI. por várias ou por muitas pessoas. Políbio adverte que os conhecedores da Políti­ ca veem três formas boas de governo: a realeza. Desta. por mero impulso da natureza. A Constituição da República romana. embora monarcas e tiranos procurem. A realeza pode contrair vícios que a transformam em tirania. por sua vez. Da mesma forma. traz consigo a feição aristocrática da República romana e. em que o povo se torna insolente e menospreza as leis. busca reparar os desvios dos go­ vernantes. adverte Políbio. exerciam a administração pública em substituição ao rei). quando o povo. e kratos. como se disse. pela equidade e a razão. dele deriva a realeza. cit. reverencia os idosos e obedece às leis. Capítulo II). Políbio reconhece três espécies boas de governo: a realeza. nem toda oligarquia merece o cpíteto de aristocracia. Em relação aos cônsules (magistrados eleitos anualmente que. Livro VI.. surge a democracia. adverte Políbio. vemos certas monarquias ou tiranias distancia­ rem-se muitíssimo da realeza. implantando a irracionalidade e a inseguran­ ça ( H istória . sen­ do aquela obtida pela força. e foi durante sua vigência que Roma conquistou Cartago e estendeu seu império pelo Mediterrâneo.

e o governo do povo a pior.. c íc e r o . escrito em exaltação às leis romanas. do qual apenas em 1814 foi localizado. costa. por outro lado. é irrealizável. Título II). nada é estático. legou à posteridade escritos de gran­ de valor para a literatura e a ciência política. pois.C. um sistema misto. cit. conforme as circunstâncias existentes em cada Estado. porque não precisa intervir nas assembléias. Políbio observa que tudo está em movimento perpétuo. Livro I. cit. Cícero não se mostra muito original. Finalmente. ao que parece. Curioso observar que no Livro II. a verdade é que prevalece a iniqüidade. Sis­ M ar­ temas de partidos y sistemas políticos. 1. por Angelo Mai. o príncipe dos jurisconsultos romanos. como Políbio.d. ao seguir a classificação tradicional de realeza. enquanto no governo aris­ tocrático apenas o povo é livre. Toda Constituição políti­ ca. com recí­ proca moderação (Da república. cada uma destas formas tem seus próprios de­ feitos: na monarquia. rone giureconsulto. 1973. um antiquíssimo palimpsesto com o texto integral da obra. propugna. Neste campo. o Estado imóvel. Buenos Aires. Presença. Zanichelli. exceto o monarca. 1927. ficou. Título II). Para Cícero. Para Políbio. com apenas três dos seis livros para os quais a obra foi planejada. nem detém qualquer poder.4) Cícero Bibliografia: Da república. 1. Embora considerando a monarquia a forma ideal de governo (Da república.6 Formas de governo 99 ção pelo tempo.. são privados quase completamen­ te dc direitos e da participação nos negócios públicos. l in a r e s q u in t a n a . v. embora se pense que tudo é justo e moderado. Bologna. Livro I. s. qualquer destas espécies de governo se mostra a ideal. escreveu Da república e Das leis. Quanto às formas de governo. Todavia. todos. Emilio. advogado e político. no Estado popular. inconcluso. por excelente que seja.). a que todas as outras estão sujeitas. eei. Título II. 2 v. Ciceprélot. 1976. Segundo V.. visto que não há uma natural desigualdade fundada no merecimento (Da república. Rio dc Janeiro. fundado 11a filosofia de Heráclito. Athcna. Lisboa. Plus Ultra. Livro I. Quanto ao Das leis. afirmando. Marco Túlio Cícero (106-43 a. Título II). porque contém em si o germe de sua própria morte. As doutrinas políticas. tende à degeneração e ao perecimento. catalisador das três formas apontadas. cit. Da república é um tra­ tado formado por seis livros. aristocracia e governo popular. Cícero se antecipa à moderna teoria de separa­ ção de Poderes do Estado ao advertir que: . obras importantíssimas para o Direito Público. estacionário. além de notável orador. que nenhuma forma de governo será a ideal se considerada isoladamente. de Da república.

Desde que o Príncipe al­ cance o resultado desejado. Nos Discursos. Nesse sentido. empregando. vendo na Política uma técnica de alcançar o poder e permanecer nele. m a c iiia v e l l i. prélot. 2. e a dinâmi­ ca respectiva. Logo na abertura desta última obra adverte: “ Tutti gli stati. As doutrinas políticas.10 0 Teoria Geral do Estado sc em determinada sociedade não são divididos equitativamente os direitos. ao passo que cm O prín­ cipe o faz relativamente à forma monárquica. de tal forma que os magistrados tenham poder excessivo. libertinagem. v. para tanto. e O príncipe. capacidade. grande amador da astúcia e grande adorador da força. em sua obra O príncipe. não se pode esperar que a ordem es­ tabelecida dure muito tempo. Plus Ultra. Novara. p. de Florença. para denominar. que deu origem ao substantivo “ maquiavelismo”. todos os meios são considerados honestos. mas segun­ do o ideal dc um Estado que sc tem dc constituir c dc manter. Na verdade. (/\ s doutrinas políticas. Niccolò Machiavelli (1469-1527) ou. 1973. com realismo e frieza. dolo. Maquiavel formula suas espécies. Nicolau Maquiavel. os poderosos ex­ cessiva autoridade e o povo exagerada liberdade. cargos e obrigações. // príncipe e altri scritti. v. tutti i domini cbe banno avuto e banno impero sopra li uo- . Segundo V. visto que tudo isso não deve ser julgado segundo a bitola comum que rege a vida privada. perfídia. desde que o objetivo fosse legítimo. dc 1532. velhacaria. 1973. fraude.5) Nicolau M aquiavel Bibliografia: pem. Marcel. A grandeza: o Príncipe está acima do comum. Buenos Aires. M a­ quiavel pôs a nu a dinâmica política. que importam. em vernáculo. 1976. M aquia­ vel expõe seus conceitos referentes à forma republicana. Daí a frase que lhe é atribuída: “O fim justifica os meios”. traição. quaisquer meios. equivocadamente. rou­ bo. Sistemas de partidos y sistemas políticos. uma suposta doutrina em que a má-fé e a traição prevalecem. observe-se a clareza com que Marcel Prélot sin­ tetiza o pensamento de Maquiavel: A simulação e a dissimulação: o Príncipe é conhecedor das circunstâncias. deboche. caracterizando o indivíduo “ maquiavélico” . 2. mas é também o que engana a sorte. Lisboa. O que o autoriza a escapar à moral é o fato de estar colocado acima da mediocridade ambiente. Cupidez. Situa-se para além do bem e do mal. é o famoso pensador italiano. 40) Quanto às formas de governo. é cola­ borador avisado da Providência. 1. e não é este o momento adequado para demonstrá-lo. cm duas obras fundamentais: os Discursos sobre a primeira década de Tito Lívio. Presença. Edi- l in a r e s q u in t a n a . publicada cm 1531.

uma vez que não percebe que ela. cit. e as demais pela malignidade que lhes é intrínseca. isoladamente consideradas. aris­ tocracia e democracia.6 Formas de governo 101 I Nicolau Maquiavel (1469-1527) m ini. onde as cidades formavam verdadeiros Estados em luta. todavia.monarquia. O legis­ lador prudente não as levará em conta. mesmo sendo boas. a qual será mais firme e estável. era um campo fértil para as ambições de tiranos e demagogos. quando o legislador orga­ niza o Estado sob a égide de uma das três boas formas de governo. o faz por pou­ co tempo. na prática. se corrompe.. mas apenas duas. porque. classi­ ficavam as formas de governo em seis. Nos Discursos Maquiavel lembra que pensadores antigos reconheciam três espécies de formas de governo: a monárquica. assume postura diversa da adotada . Assim. Na obra Discurso sobre a reforma da Constituição de Florença. Maquiavel não reconhece a existência de três ou seis formas de governo. Seu país. são nocivas: as três consideradas boas. em seu tempo. fatalmente. sono stati e sono o republiche o principati” (“Todos os Estados. como o faz em O príncipe: a m onarquia e a república . Livro I. porém estas. a aristocrática e a democrática. Capítu­ lo 11). Maquiavel não conhe­ ceu. Aliás. dividido por lutas internas. cada uma destas formas vigia e reprime o abuso das demais (Discursos. todos os do­ mínios que tiveram e tem poder sobre os homens. mais do que duas formas de governo: república e tirania. de­ vendo os legisladores de cada Estado optar por uma delas. estabelecendo um a form a mista de que to­ das as formas boas participem . acham-se tão expostas à corrupção que chegam a ser perniciosas também. foram e são repúblicas ou prin­ cipados”). Todas as for­ mas de governo. numa Cons­ tituição em que coexistam a monarquia. por sua curta duração. Ao contrário da maior parte dos autores clássicos. a aristocracia e a democracia. Outros. três péssimas e três boas .

São Paulo. Em 1734 publica a mo­ nografia Considerações sobre as causas da grandeza e da decadência dos romanos e. sua maior obra O es­ pírito das leis} seguida. ao questionar a forma mista de governo. v. com base na experiência adquirida cm suas viagens. das quais poderia ter tirado grande proveito. também. Montesquieu afirma: . q u in ta n a . s. já com mais de sessenta anos de idade.6) Montesquieu Bibliografia: LINARES Segundo V. também. Em 1716 pu­ blicou sua Dissertação sobre a política dos romanos na religiãoycriou um prêmio para trabalhos sobre anatomia.d. D o p ré lo t. comunicações sobre certas doenças. afirmando que não se pode garantir a Constituição dc um Estado senão estabelecendo uma verdadeira repú­ blica ou uma verdadeira monarquia. Alquebrado pelo trabalho. 3. por não desejar ficar adstrito aos textos legais. Capítulo Primeiro). de um suplemento intitulado Em defesa do espírito das leis. 1962. Em O espírito das leis (Primeira Parte. 1. mais conhecido como princípio da separação de Poderes. escreveu sobre as glândulas renais e chegou a iniciar uma H istória física da terra antiga e moderna. Buenos Aires. A razão. demonstrou pendor não só pela História e pelas letras. em especial a Inglaterra. Madrid. Montesquieu foi o grande sistematizador do princípio da separação das fun­ ções do Estado. Plus Ultra. conforme a forma mista deriva para uma ou outra destas formas. espírito das leis. Sistemas de partidos y sistemas políticos. vê sua saúde arruinada. apaná­ gio dos Estados democráticos contemporâneos. Difu­ são Européia do Livro. após nada menos do que vinte anos de esforços. toda­ via. Barão dc la Brcde c dc Montesquieu (1689-1755). Fez excelentes relações de amizade. sendo defeituosos todos os sistemas interme­ diários. STAHL. perto dc Bordéus. mas sim buscar o verdadeiro “espírito das leis’'. Historia de la filosofia dei derecho. Marcel.102 Teoria Geral do Estado nos Discursos. v. pana Moderna. em 1748. Livro Segundo. estudou Direito sem ter ficado muito satisfeito. Pertencente à antiga nobreza. é evidente: tais governos concorrem para a destruição tanto da república como da monarquia. Pre­ Federico Julio. sendo tido por muitos como o precursor da Sociologia. pelas ciências puras e pela própria anatomia. Lisboa. m o n te s q u ie u . Talentoso. prossegue. sença. vindo a falecer em Paris. em 1755. dois anos após. Conheceu toda a Europa. publicando. La Es- Charles-Louis dc Secondat. preferiu retirar-se para um castelo de sua cidade natal e trabalhar cm novas obras. nasceu em Bròdc. 1. enveredando. 1976. As doutrinas políticas.

as ocasiões. Da natureza do governo em Montesquieu. o súdito. trata-se de uma Aristocracia. Tal como a maioria dos cidadãos que possuem suficiente capacidade para eleger mas não a possuem para ser eleitos. v. como um todo. O povo é admirável para escolher aqueles a quem deve confiar parte de sua au­ toridade. tra­ ta-se de uma Democracia. a monarquia é aquele em que um só governa. Todas essas coisas sao fatos que o povo aprende melhor na praça pública do que um monarca em seu palácio. não saberá. ou somente uma parcela do povo. Diría­ mos. não está apto para governar por si próprio. a mode­ lar o espírito geral. Por outras palavras. Estas visam a conservação dc certo meio e a escolha dc certas orientações. da natureza do governo procede aquilo a que chamamos. numa republica. conhecer os lugares. três fatos: um. que nao sc pode corrompc-lo: isso é suficiente para que eleja um pretor. é. o monarca. enquanto no governo despótico. di­ reito constitucional. é suficiente a ideia que deles têm os homens menos ins­ truídos. Entretanto. antes. que possui suficiente capaci­ dade para julgar da gestão dos outros. Suponho três definições ou. uma só pessoa. O povo. sob outros. adverte iMontesquieu. na democracia. capaz de eleger um general. p. derivam as “ leis políticas”. então. Quando. 58-9). o monárquico e o despótico. isso é suficiente para que possa escolher um edil. o povo como um todo possui o poder soberano. Do princípio do governo provêm as leis civis e as leis sociais. atualmente. que muita gente sai dc seu tribunal satisfeita com ele. Sabe que um juiz é assíduo. é. que o governo republicano é aquele em que o povo. saberá o povo dirigir um negócio. Sabe muito bem que determinado homem esteve muitas ve­ zes em guerra e que obteve tais e tais êxitos. Sc está impressiona­ do com a magnificência ou com as riquezas de um cidadão. possui o poder soberano. sob alguns aspectos. que princípio informa o direito público geral (As doutrinas polí­ ticas. Para descobrir-lhes a natureza. Quando o poder soberano está nas mãos de uma parte do povo. Quanto ao princípio. Em cada forma de governo. hoje. . ou seja. realiza tudo por sua vontade c seus caprichos. sua estrutura e seu mecanismo. Só pode decidir-se por coisas que não pode ignorar e por fatos que estão ao alcance de seus sentidos. vale dizer.6 Formas de governo 103 Existem três espécies de governo: o republicano. A natureza de um governo é o que faz com que ele seja o que é. sem obedecer a leis e regras. adverte Marcel Prélot. 3. os momentos e aproveitá-los? Não. igualmente o povo. mas dc acordo com leis fixas c estabelecidas. há que se identificar uma natureza e um princípio. a motivação das ações do cidadão. aquelas que têm como objetivo a organização governamental. vem a ser aquilo que faz o governo agir.

Sistemas de partidos y sistemas políticos. Capítulo Segundo) 1. a república e uma forma de governo adequada a Estados de peque­ nas dimensões. o mais natu­ ral. e assegurar a continuidade e o cumprimento das leis fundamentais. se o poder do pai está relacionado com o governo de um só. depois da morte dos irmãos. indiretamente. o governo de um só estaria mais de acordo com a Natureza. O po­ der político implica. Alguns pensaram que.. Rousseau y la fundamentación de Ia . Quanto à monarquia. a virtude chama-se civismo. cit. tendo a Natureza estabelecido o poder paterno. Eis o governo despótico”. porque também é próprio da natureza da monarquia haver órgãos in­ termediários subordinados e dependentes. porque isto nos liberaria de ser­ vi-lo. Quanto ao despotismo. o princípio das republicas é a virtude. Por outro lado. sua natureza reside no fato de o rei governar sem le­ var em conta as leis. as­ sim doutrina íMontesquieu: A força geral pode ser colocada nas mãos de apenas um ou nas mãos de muitos. O princípio da monarquia vincula-sc à honra. Livro Primeiro. moreau Joseph. na república aristocrática chama-se moderação por parte dos governantes. 1976. O poder intermediário mais conveniente é o do clero. O prin­ cípio desta forma de governo é o medo. pois. a união de muitas famílias. o poder dos irmãos ou. cortam uma árvore pela raiz e apanham-nas. que restringem a vontade momentânea e caprichosa de um só homem. depois da morte do pai.104 Teoria Geral do Estado Ora. Buenos Aires. a qual nos diz que um rei ja­ mais deve ordenar uma ação que nos envergonhe. a fim de que o povo tenha alguma participação política. não concentra em si toda a autoridade. referindo-se. e lembra. termo que na obra de Montesquieu denomina a primazia dada ao interesse publico. sendo um terceiro organismo um corpo de magistrados que zela pela preservação das leis e que lembra ao monarca o dever de cumpri-las. o da nobreza. (O espírito das leis.7) Rousseau Bibliografia: l i n a r e s Segundo V. Plus Ultra. q u in t a n a . muitos. Porém. guiando-se apenas por sua vontade e seus caprichos. Hmbora o rei seja a fonte de todo o poder. porém submetido ao império de leis previamente esta­ belecidas. mostra sua natureza no fato de o poder político estar nas mãos de um só homem. Em qualquer caso. o exemplo do poder paterno nada prova. Na república democrática. Primeira Parte. à melhor forma de governo. . necessariamente. ironicamente: “Quando os indí­ genas da Luisiana querem colher frutas. É melhor dizer que o governo mais de acordo com a Natureza é aquele cuja disposição particular melhor sc relaciona com as disposições do povo para o qual foi estabclccido.

Isaac Rousseau e Suzanne Bernard. dei­ xando-o com sua tia. foi o estágio tribal. O único período realmen­ te feliz da Humanidade. em 1762. no Império Romano. sempre teve dois reis. sem que por isso se pudesse dizer que o Império estava dividido. Esta terceira forma é a mais comum de todas. a obra continua a ser um clássico da literatura política e sociológica. Isaac. pecando. de acordo com sua Cons­ tituição. e houve.6 Formas de governo 105 democracia. Dá-se a essa forma de governo o nome de democracia. resolveu emigrar. O contrato social. v. Cultrix. pode o soberano concentrar todo o gover­ no cm mãos dc um magistrado único. Mareei. Rousseau expõe sua famosa teoria do “bom sel­ vagem”. por sua vez. de modo a haver maior número de cidadãos magistrados que simples cidadãos particulares. cheia de vicissitudes. A própria monarquia é suscetível de alguma partilha. 3. rousseau prélot. ou então restringir-se até a metade. boa. do qual todos os demais recebem o poder. que orientou Jean-Jacques em suas primeiras leituras. todavia. As­ . e seu pai. Paulo. Em O contrato social Rousseau formula uma classificação das formas de go­ verno nos moldes tradicionais: O soberano pode. pode restringir-se da metade do povo até indeterminadamente ao menor número. O contrato social e outros escritos. até oito imperadores si­ multaneamente. Esparta. conferindo a estes. Ou pode então restringir o governo às mãos dc um pequeno número. N o seu trabalho sobre a origem e o fundamen­ to da igualdade entre os homens. Presença. O contrato social resume o ideal rousseauniano de um governo que limite ao mínimo sua intro­ missão na liberdade dos indivíduos. mesmo. c esta forma dc governo rcccbc o nome de aristocracia. As doutrinas políticas. ou governo real. sua obra mais conhecida: O contrato social. 1977. são sus­ cetíveis de maior ou menor e mesmo de grande latitude. emigrando. cujas únicas motiva­ ções seriam igualar-se a Montesquieu e adquirir prestígio fácil. de início. diz Rousseau. Seja como for. que influenciaria pensadores de todo o mundo. Espasa-Calpe. premido por dificuldades financeiras. dc sorte a haver maior número dc cidadãos particulares que dc magistrados. Lis­ . São Jean-Jacques Rousseau (1712-1778). Finalmente. por falta de convicção do autor em determinadas passagens. Madrid. ou ao menos as duas primeiras. Rous­ seau publica o ensaio Origem da desigualdade entre os homens. a mais ampla par­ ticipação política. Sua mãe faleceu poucos dias após o parto. e chama-se monarquia. confiar o depósito do governo ao povo em conjun­ to ou à maioria do povo. Jcan-Jacques. Devo assinalar que todas essas formas. A aristocracia. passa por uma vida atribulada. foi tido por muitos como uma obra cheia de contradições. nasceu em Genebra. Em 1753. toda­ via. porque nele ainda não existia a desigualdade social e econômica que viria depois. porque a democracia pode abarcar todo o povo. filho de um casal de protestantes.

10 6 Teoria Geral do Estado sim sendo. Quanto à monarquia. anciãos. sem considerar que cada uma delas é a melhor em determinados casos e a pior em outros. Discutiu-se cm todos os tempos a melhor forma de governo. cada uma das quais suscetível dc ser multiplicávcl por todas as formas simples. unida pela força das leis. Os jovens cediam sem dificuldade pe­ rante a autoridade da experiência. Os chefes de família deliberavam entre si sobre os negócios públicos. um povo que sempre governasse bem. Contraria a ordem natural o grande número governar e ser o pequeno governa­ do. torna o governo hereditário. Os selvagens da América setentrional ainda assim se governam em nossos dias. o poder. eletiva c he­ reditária. pode re­ sultar dessas trcs formas combinadas uma infinidade dc formas mistas. a riqueza ou o poder foi preferido à idade. gerontes. Mas. Tão per­ feito governo não convém aos homens. cnobrcccndo as famílias. sem mudar a forma da administração. Se houvesse um povo de deuses. nunca existiu verdadeira democracia nem jamais exis­ tirá. Se. concedendo-lhe poucas virtudes: Até aqui consideramos o príncipe como uma pessoa moral e coletiva. Daí os nomes de padres. uma administrada dc certa maneira. trcs cspccics dc aristocracia: natural. c a aristocracia pas­ sa a ser eletiva. segue-se que. Finalmente. em geral. existe um ponto em que cada forma de governo se confunde com a seguinte. por diversos motivos. Rigorosamente falando. o número de su­ premos magistrados deve estar constituído em razão inversa do número dos cidadãos. Há mais: podendo um mesmo governo subdividir-se. o governo democrático é o que mais convém aos pequenos Es­ tados. A primeira não convém senão a povos simples. e são muito bem governados. ele se governaria democraticamente. É impossível admitir esteja o povo incessantemente reunido para cuidar dos negó­ cios públicos. e vê-se que apenas sob três formas dc domínio já se mostra o governo capaz de adqui­ rir tantos aspectos diversos quantos cidadãos possui o Estado. e depositária no Estado do Poder Executivo. Rousseau demonstra sua ojeriza por tal forma dc go­ verno. e viram-se então senado­ res dc apenas vinte anos. Temos agora a considerar . As primeiras sociedades governaram-se aristocraticamente. e a monarquia aos grandes. à medida que a desigualdade de instituição sobrepujou a desigualdade natural. a segunda é a melhor: é a aristocracia propriamente dita. outra dc maneira diversa. transmitido juntamente com os bens dos pais aos filhos. c c fácil dc ver que não poderia ele estabelecer comissões para isso. a terceira é o pior de todos os governos. Um povo que jamais abusaria do governo também jamais abusaria da independência. em várias partes. Há. o aristocrático aos Estados médios. pois. senado. não teria necessidade de ser governado. nos diferentes Estados.

Assim. os que se elevam são. e as duas suposições sc mos­ tram incompatíveis. Os melhores reis desejam ser malvados. como. temível. imaginando os vassalos sempre inteira­ mente submissos. desse modo. O príncipe de Maquiavel é o livro dos republicanos. e a própria força da administração gira sem cessar em prejuízo do Estado. Confesso que. Um defeito essencial e inevitável. está em que. sempre rirão disso nas cortes. em que um ser coletivo representa um indivíduo. quando lhes ape­ tece. Ao contrário das outras administrações. e a força particular do governo. E o que se chama um monarca ou um rei. porém. é o que Samuel. em que o povo seja débil. Esta máxima é muito bela c ver­ dadeira cm certo sentido. ao passo que. nas monarquias. neste último. Seu interesse pessoal está. apontava aos hebreus. a fim dc que. Fingindo dar lições aos reis. único investido do direito de dele dispor segundo as leis. c dc longe lhes bradamos que a melhor maneira dc o scrcm consiste cm se fazerem amar por seus povos. de um homem real. pequenos intrigantes. sem cessarem de ser os senhores. Infelizmente. é natural que os príncipes deem sempre preferência à sentença mais imediatamente útil para eles. que sempre porá o governo monárquico abai­ xo do republicano. antes de mais nada. Mas se governo não há mais rigoroso que este. me parece que o interesse dos príncipes residiria na existência de um povo poderoso. tal interesse é secundário c subordinado. e a vontade do príncipe. é verdade. tudo enfim responde ao mesmo móbil. tudo ca­ minha para o mesmo objetivo. a voz pública quase nunca eleva aos primeiros postos homens que não sejam esclarecidos e capazes e não os ocupem com dignidade. as mais das vezes. e a força pública do Estado. sendo dele tal poder. os príncipes ja­ mais se contentarão com ele. Os reis desejam ser absolutos. sc achcm natural­ mente reunidas. é o que Maquiavel demonstrou com evidência. numeroso. . o tornasse temido dc seus vizinhos. Por mais que se esforce um orador político em adverti-los de que a força do povo é a sua própria e de que seu maior interesse deve consistir em que o povo seja florescente. a vontade do povo. com vigor. nesta aqui é um indivíduo que representa um ser coletivo. também outro não há em que a vontade particular seja mais respeitada e mais facilmente domine as outras. eles sabem perfeitamente que tal coisa não é verdade. O poder oriundo do amor dos povos é sem dúvida o maior. todas as molas da máquina estão na mesma mão. miserá­ vel.6 Formas de governo 107 este poder reunido em mãos de uma pessoa natural. tudo caminha para o mesmo objetivo: não há mo­ vimentos adversos que se destruam mutuamente. e grandes. mas esse objetivo não é o da felicidade pú­ blica. e não se pode imaginar nenhuma es­ pécie de constituição em que um esforço menor produza uma ação mais considerável. na qual todas as faculdades que a lei reuniu na outra. com tantos esforços. cujos pequenos engenhos. pequenos velhacos. e jamais lhes possa resistir. a unidade moral que constitui o príncipe é simultaneamente uma unidade física. mas precário e condicional. aos povos. pe­ quenos rixentos. deu-as ele.

É difícil que aquele. que a democracia eleita por Rousseau é a democracia di­ reta. e a menos que os cidadãos se­ jam de um desinteresse. na Califórnia. Na verdade. Teoria general dei derecho y dei Estado. Univcrsidad Nacional Autônoma dc Mcxico. o povo se engana bem menos que o príncipe.. métall. não o venda por seu turno. à custa dos fracos. nas cortes. tão logo aí consigam chegar. l i n a r e s q u i n t a n a . nasceu em 11. De ascendência israelita. cm 11. só lhes servem para demons­ trar ao público o quanto são ineptos. do dinheiro que os poderosos lhe extorquiram.8) Kelsen Bibliografia: a i . 1979. entretanto. e não se indenize. pois o governo representativo é uma forma de escravidão (O contrato social. menor a liberdade”. No tocante a essa escolha. Hans Kelsen. como geralmente se pensa. c a paz de que se desfruta sob o governo dos reis passa a ser então pior que a desordem dos interregnos. Segundo V. 1976. Livro III. Hans Kelsen ( Vida y obra). Não era austríaco.. Univcrsidad kelsen. de uma integridade acima dos méritos desse governo. mas tchecoslovaco. Quanto menos numerosos forem os cidadãos mais a opinião de cada um terá peso. somente quando participa diretamente da elaboração das leis o cidadão reafirma sua condição e é verdadeiramente livre. as dis­ putas e a corrupção se misturam. cit. As eleições abrem intervalos perigosos. de modo que o ideal democrático é viável apenas nos pequenos Estados da Antiguidade: “Quan­ to maior o Estado.10. 1. para Rousseau.a d á r Rudolf. Mcxico. Plus Ultra.1973. adverte Rousseau (O contrato social. de Praga. de sorte que é quase tão raro encontrar um homem de real mérito no ministério quanto um tolo à testa de um go­ verno republicano.04. são tempestuosas. alcançar os grandes postos. Mcxico. . Livro III. Um inconveniente mais sensível do governo de uma única pessoa consiste na fal­ ta dessa sucessão contínua. Buenos Aires. Capítulo XV). 1976. a forma ideal de governo é a democracia. Cedo ou tarde tudo se torna venal sob semelhante admi­ nistração. Nacional Autônoma dc Mcxico. cit. que forma nos dois outros uma ligação ininterrupta. o criador da famosa Teoria pura do direito. Hans.108 Teoria Geral do Estado que permitem. que ele aprendeu a admirar observando a antiga Roma republicana e os cantões suíços. de Viena.1881 c morreu cm Berkeley. Vale lembrar. Capítulo I). Sistemas de partidos y sistemas políticos. a quem o Estado foi vendido.

6 Formas de governo 109 sua vida foi pautada por perseguições raciais. O boato de uma pretensa mudança de nome de Kohn para Kelsen foi repetido quase 30 anos depois. ao criar uma originalíssima Teoria do Direito. real­ mente. realizadas em 3 e 4 de outubro de 1936. Rudolf Aladár Métall: F . seus pais ou mais re­ motos ancestrais não sc chamassem Kelsen. 1979. 9) Tido por muitos como o grande jurista do século X X . ou como sc a importân­ cia dc Hans Kelsen como cientista fosse ofuscada se ele próprio. é sobre a Teoria geral do direito e do Estado que nos debruçaremos para observar como Kelsen aborda as formas de governo. aristocracia e democracia. p. sob a presidência de Karl Schmitt. e a moderna doutrina ainda não superou essa tricotomia. Kelsen inovou. Certamente sessões como esta. Afirma Kelsen (Teoria general dei dereebo y dei Estado. p. 335) que o problema da teoria política é a clas­ sificação dos governos. não havendo nenhum exage­ ro em afirmar que ele representa para a ciência jurídica o que Karl Marx represen­ ta para a ciência econômica. a respeito.Vida y obra. A organização do poder é tida como o critério em que a referida classificação se fundamenta. A teoria política da Antiguidade distinguiu três formas de Estado (s/c): monarquia. verdade que durante uma sessão sobre o tema Os judeus na ciência do Direi­ to. foram organizadas pelo Grupo de Professores de Educação Superior da Liga Nacional-Sociaiista dos defensores do Direito. o professor Erich Jung referiu-se a Kelsen como Kelsen Kohn. como sc fosse vergonhoso alguém sc chamar Kohn ou Cohn. Embora sua obra mais conhecida seja A teoria pura do direito. Universidad Nacio­ nal Autônoma de México. por um professor austríaco. Quando o poder soberano de uma comunida- Hans Kelsen (1881-1973) . (Hans Kelsen . Conta-nos. em especial durante o período nacional-socialista.

Conforme a termino­ logia usual. Um indiví­ duo é livre se aquilo que. . Assim definidas. à Teoria do Estado. Da mesma forma o Estado sc classifica como monarquia quando o monarca é. p. Quando o poder pertence a vários indivíduos. mas jurídica.. por natureza. deve fazer coincide com aquilo que deseja fazer. a Constituição se diz repu­ blicana. um Estado é democrático se nele prevalece o princípio democrático. afirma-se que o governo ou a Constituição são monár­ quicos. de acordo com a ordem social. com funda­ mento na ideia de liberdade política. O critério pelo qual a forma monárquica se distingue da republicana. aristocracia e democracia se refere. Assim. cit. a ordem jurídica é criada. à organização da legislação. p. na verdade. se o critério de classificação consiste na forma em que. então é melhor distinguir. a maioria das quais não possui uma terminologia específica. A forma oposta à demo­ cracia reside na servidão imposta pela autocracia. Entre estes extremos há uma infinidade de etapas intermediárias. juridicamente. o legisla­ dor. prossegue Kelsen. mesmo quando seu poder nesta parcela do Executivo se ache rigorosamente restringido e. em vez de três. Nesta forma de governo. 337). de tal forma que algumas sociedades se aproximam mais do primeiro destes modelos. os sú­ ditos se acham excluídos da criação da ordem jurídica. mesmo que a administração e o Poder Judiciário possam ter caráter diverso. ou­ tras do segundo. 336). A república será uma aristocracia ou uma democracia conforme o poder pertença a uma minoria ou a uma maioria do povo.. reside no modo de criação da ordem jurídica. apenas dois tipos de Constituição: a democracia e a autocracia. e autocrático se nele predomina o dogma autocrático (Teoria general. cit. mas sim tipos ideais. A distinção entre monarquia. o número dc indivíduos em quem reside o poder e um critério muito superficial (Teo­ ria general. 337). basicamen­ te. p.. pois a produção de um ato psíquico de vontade é uma questão psi­ cológica. alheia. A classificação das formas de governo é. Para Kelsen.110 Teoria Geral do Estado de pertence a um indivíduo. Na realidade po­ lítica não há nenhum Estado que se ligue. Cada Estado representa uma mescla de elementos de ambos. e a aristocrática da democracia. cit. uma classificação das Constituições. 336). com exclusividade. cit. Todavia.. Um Estado é considerado democracia ou aristocra­ cia sc a sua legislação é dc natureza democrática ou aristocrática. usado este termo no seu sentido ma­ terial. A democracia significa que a vontade representada na or­ dem legal do Estado é idêntica às vontades dos cidadãos. o querer do Estado é o dever ser de sua ordem jurídica. confor­ me a Constituição. praticamente inexista (Teoria general. a um ou outro des­ tes tipos ideais. A vontade do Estado não pode ser uma vontade psicológi­ ca. Politicamente livre é o indivíduo que se encon­ tra submetido a uma ordem jurídica de cuja criação tenha participado. p. a democracia e a autocracia não são realmente descrições de Constituições historicamente consideradas. razão pela qual não há garantia dc que esta se harmoniza com a vontade popular (Teoria general. e a vontade estatal nada mais é do que a ima­ gem do sistema normativo unitário da ordem estatal. no campo do Poder Judiciário.

1981. 4. governo) é a forma de governo vi­ talícia em que apenas uma pessoa exerce o poder político. Régia. Por outro lado. temos o cesarismo. 2) FORMAS DE GOVERNO CLÁSSICAS 2. deve ser chamada realeza.. a monarquia chama-se realeza cons­ titucional. porque foi Júlio César que. instrumentalizando-os juridicamente para o que são há muito tempo: órgãos para a formação da vontade estatal. tornando-se arbitrário. sendo assassinado no ano de 44 a. um.6 Formas de governo 111 Segundo Kelsen. El derecho divino de los reyes. na condição de chefe de Estado e chefe de governo. . porém. a democracia moderna sustenta-se nos partidos políticos. Quando o governante. Quando a monarquia é exercida visando ao bem comum. a seu turno. Ignacio. o rei exerce plenamente a função governamental. Novíssimo dicionário jurídico. f ig g is .C. PINTO. porém visando ao bem comum. Pedro. Saraiva. mas. ed. sem legitimidade. consagrado. tentou perpetuar-se no poder. Cultura Econômica. Brasiliense. A monarquia absoluta caracteriza-se pela concentração do poder e pelo arbítrio do rei.1) Monarquia Bibliografia: Marcus Cláudio. São Paulo. Antonio Joaquim de. São Paulo. Os caracteres da monarquia. Diccionario dei mundo clásico. Lisboa. que governa desvinculado de qualquer limitação jurídica (solutus legibus). e arche. quando serve ape­ nas de instrumento para os interesses do governante. o princípio da separação e independência . 1982. errandonea gouvea bordes Jacqueline. no comando do Estado. exercida em fraude à lei. a c q u a v iv a . empolga o poder pela in­ timidação ou pelo favorecimento de um estamento social. cuja significação cresce com o fortalecimento progressivo do princípio democráti­ co. v. México. v. Pedro Salvetti Netto classifica as monarquias em absolutas ou constitucionais. 1824. A monarquia constitucional. Exercida sob a égide da legalidade. Por isso considera natural a tendência a institucionalizar expressamente os par­ tidos no texto constitucional. Barcelona. a forma de governo cha­ ma-se tirania ou caudilhismo. Fondo de salvetti n e t t o . Por outro lado. Na primeira. Curso de teoria do Estado. sem justo título de monarca. se o monarca faz tábua rasa da lei. Monarquia (do grego monos. traindo a República. 1954. . deve ser denominada realeza absoluta. no intuito velado do monarca de se manter. Impressão John Neville. Labor. 2. 1942. Paris. denomina-se despotia ou des­ potismo. Les Belles Lettres. todavia. Politeia. 1991. 2. a monarquia constitucional mostra-se limitada pela lei: rex sub legem quia lex faciat regem. divide-se em mo­ narquia constitucional pura e monarquia constitucional parlamentar.

Quanto à cooptação.C. 15). na monarquia há três: hereditariedade. Isto significa que rei­ nam os reis não por convenção humana ou capricho.112 Teoria Geral do Estado dos poderes. como o das abelhas. o dos godos. o dos vândalos. Roma inicia e termina sua história sob a égide da monarquia.). o dos búlgaros. A força de Moisés. Egito. na Bulgária. 6). a monarquia é tida por mui­ tos como instintiva. A História Sagrada nos ensina que Adão foi o primeiro monarca. como a tribo. Como exemplo. de príncipes e de legisladores pertenceram aos patriarcas bíblicos. que implantou a centralização do poder. pois a chefia de go­ verno é exercida pelo gabinete ou conselho de ministros. sendo peculiar aos agregados de animais complexos. na Hungria. na Borgonha. ao passo que o patriarcado era exercido em comunidades pouco desenvolvidas. efetuada por um colégio cardinalício. por outro lado. pois a monarquia exige um Estado perfeita­ mente integrado em seus elementos formadores. o dos sarracenos. 8. per­ sas. consolidando-se com Davi c seu filho Salomão (1082-975 a. investido na Justiça de Deus para castigar a abominação e a idolatria do povo. trata-se de uma forma de investidura em que o sucedido escolhe. gregos e macedônios. Monarcas governaram egípcios. o próprio sucessor. Entre os hebreus. nem por necessidade ou aca­ so. Na Grécia antiga. o de Nerva. Mesopotâmia c Arábia. Sem dúvida a mais antiga das formas de governo. medas. o monarca é apenas chefe de Estado. mas por Deus. como afirmavam os profetas. na França. o teocrático e o civil. na Espanha.C. na segunda.). e em Fanuel. na Áfri­ ca. não há que falar em monarquia patriarcal. a monarquia já era praticada na civilização micênica. et Legum Conditores justa decernunt” ou “Por mim reinam os reis. Quanto à forma de sucessão. durante o pe­ ríodo monárquico (753-509 a. a ele pres­ tando obediência Seth e sua família. o dos anglos ou saxões. que todo o poder vem de Deus. na Itália. o dos borgonheses. para alguns autores. demonstram que Deus lhes confiara sua autoridade: “ Per me Reges regnant. todos. livremente. o poder absoluto de Josué em Socota. sem concelho popular nem con­ firmação por senadores.). Todavia. Os títulos de pais de família. babilônios. Os filhos de Heth (hititas) chama­ ram a Abraão “senhor” e “príncipe de Deus” (Gênesis. a monarquia começou a sc firmar no período dos juizes. Exemplo contemporâ­ neo de monarquia eletiva temos na eleição do Papa. até o rei Túlio Hostílio. e os príncipes decretam leis justas” (Provérbios. Monarquia eletiva encontramos na história de Roma. e os Estados que resultaram do esfacelamento do Império Romano foram. a saber: o familiar ou patriarcal. se­ . em que uma tendência inata impele estes insetos a viver em função de uma abelha-rainha. O monoteísmo hebraico proibia a divinização do monarca. o guerreiro. ostrogodos e longobardos.C. A monarquia teria passado por quatro estágios históricos. o dos hunos. afirmando. eleição e cooptação. rece­ bendo referências nas obras de Homero (século IX a. monárquicos: o dos francos. na Inglaterra. assírios. 23. o dos hérulos. na Síria.

república significa uma forma de go­ verno caracterizada. sempre. ocasionaram sangrenta guerra civil. pelo rei Huayna Capac. ed. qualidades há essenciais. São Paulo. todavia. periodicamente. 1975. 1977. Os herdeiros. in Diccionario de política.. no fato de ser eletiva . a essência da república não reside. s. 1. São Paulo. direito romano. Max Limonad. que escolheu como sucessor Trajano. leisySão Paulo. Marco Túlio. em que ela manifesta. e. E. te u c c i. Sampaio Dória: República é governo do povo. 1866. Juan. Cours de droit constitutionnei Paris. v. atributos pri­ . mutuamente enciumados. Hachette. manifestada por eleições. s a m p a io dó- Direito constitucional 5. Historia romana. México. do ponto de vista semântico. Jean. 1985. pois seus cargos políticos são preenchidos. Paris. 2. Curso de la fe rriè re . B. 1968. dc seus filhos Huáscar e Ataualpa. Historia de las doctrinas políticas. 1950. “ República”. ou votações. 1946. por exemplo -. ed. para o povo.. Institutions politiques et droit constitutionnei 7. ria . Aalen. t. De modo usual. Libr. conforme a vontade do povo. N o governo republicano. o termo república indica. Nicola. 1962. o próprio interesse público. 2. ro s s i. m e ira .. como o Papado. 1. Saraiva. entre elas. 1. Também na história dos Incas. Libr. quando representativo. propria­ mente. Márcia Cristina. Aguilar.. p r é l o t . Cotillon. ed. des institutions 6c des lois pendant la Révolution Française. 2.d. Nova terminologia jurídica. Alberto. por não ser vitalícia como a monarquia.2) República Bibliografia: a n a n i a s Rideel. Histoire des princim at- pes. c íc e ro . essencialmente. Jean. Mareei e Pcllcgrino. em que a comunidade escolhe seus representantes políti­ cos. Scientia Verlag. fundador da dinastia. 2. Difusão Européia do Livro. Buenos Aires. Paris. Então. ed. Observa o Prof. 1992. Sigla X X I. 3. Rio de Janeiro. m a le t. espírito das b o u lo u is . v. Forense.6 Formas de governo 113 nador romano. v. Madri.u . Dalloz. por maioria. Guillaumin. temos exemplo de cooptação na escolha aleatória. s. b o d in . tudo o que é ine­ rente à sociedade. que deveriam governar um império fragmentado em duas metades. c r e t e l l a j r. reis peruanos que criaram vasto im­ pério na América do Sul pré-colombiana. São Paulo. M . mas no fato de seus cargos políticos não serem vitalícios.. v.porque há monarquias eletivas.. Delia repubblica. D o Nicola Matteucci. ou seja.d. José. neves. romano (História e fontes). Do latim res publica (aquilo que pertence ao povo). sua vontade a respeito de ou­ tros assuntos de seu interesse. que ensejaria a fácil conquista do Peru pelos espanhóis comandados por Francisco Pizarro. Pelo povo. Garzanti. Les six livres de la republique. um de seus generais. de Norberto Bobbio e Silvio A. 1851-1852. b e n e y to perez. F. Curso de direito m o n te s q u if. 1978.

república (latim) e politeia (grego) são expressões que denotam o próprio interes­ se público . Mas esta qualidade. Esta. onde uma parcela da população deliberava. mas uma convivên­ cia consciente de pessoas que se torna sociedade pelo reconhecimento de um direi­ to e de um objetivo comuns” (Da república. e Tarquínio Colatino. A investidura dos cônsules lhes dava o imperium (poder de man­ do) e a auctoritas patrum. re­ sultante da queda da monarquia etrusca. pois que também pode existir na monarquia. que comandou a deposição de Tarquínio. a investidura consular durava apenas um ano. ou “a república é coisa do povo. O rei foi substituído por dois cônsules ou praetores. Onde houver governo com chefe eleito pelo povo. Na verdade. sobre os negócios dc Estado. populis autem non omnia hominum coetus quoquo modo congregatus. fato este visto como mais um reflexo da de­ cadência das monarquias então existentes na Itália. 155) Sendo popular. o patriciado. Na época monárquica. Livro I. Foi Marco Túlio Cícero quem delimitou. sua qualidade específica. senão quando c o chefe eleito pelos governados. com precisão. o sentido mais autên­ tico de res publica. termo que ressalta a raiz arquia (do grego arche. no final do século VI a. e povo não é mero ajuntamento de pessoas postas lado a lado. de modo que a derrubada da monarquia foi vista com indiferença pela plebe. como já foi dito. por tempo determinado. ao demonstrar que “ res publica res populi. diretamente. p. reconhecimento oficial e inapelável de sua investidura pelo Senado. Cícero opôs à república todas as formas dc governo injustas. que não prefira o governo. No plano histórico. (Direito constitucional. t. 1. princi­ palmente. muito mais do que uma forma de gover­ no como a monarquia. aquilo que é inerente à sociedade. governo). o consenso sobre uma lei comum. o Soberbo. direto. v. § XXV). mediante a qual uma comunidade afir­ ma sua ideia dc justiça. e não apenas denominações de for­ mas de organização do poder. Os cônsules .sempre patrícios . não lhe é exclusiva. a par do rei atuavam os cônsules e o Senado. aí se terá república. a república surgiu como uma inovação revolucionária. evidentemente. dos quais os primeiros foram Lúcio Júnio Bruto.C. 1. c por tempo certo.. Não há república. este for­ mado exclusivamente por patrícios.114 Teoria Geral do Estado vativos. O que realmente caracteriza a república como elemento privativo é a eletividade e a temporariedade do chefe do exe­ cutivo. quando o rei Tarquínio.C. Não há republica representativa sem eletividade dos que fazem a lei. o consulado apresentava duas características essenciais: cole- . com que se esperava inibir dc vez qualquer tentativa de restaura­ ção da monarquia. por volta de 510 ou 506 a. Entretanto. Então. Ao destacar como elementos essenciais da república o interesse comum e. a república apresenta analogia com a democracia da antiga Atenas. sed coetus multitudinis iuris consensu et utilitatis communione sociatus”. embora essencial à república.eram eleitos por uma assembleia em que pre­ dominava. foi deposto.

popular. democracia e governo misto) é substituída por outra. portanto. e o despotismo outra ainda maior. no despotismo. portanto. numa república as leis vêm a ser a expressão da vontade do povo. O príncipe. enquanto.6 Formas de governo 115 gialidade (eram dois os cônsules. das formas políticas fun­ dadas na violência ou na desordem.di­ vidida em aristocrática e democrática . aristocracia. de 1824. a desigualdade se torna escravidão. Maquiavel tratou do principado ou monarquia na sua obra mais conhecida. e uma robusta concepção de república. não só no fato do repúdio à monarquia. integrando a natureza mesma desta forma de governo. que torna­ va a república inconfundível com a monarquia. as formas de governo são a monarquia. porque se o povo não é apto a legislar. mas é no melhor de seus livros. qual seja. entretanto. atuando em conjunto). e o regime parlamentarista pelo presidencialista. Jean Bodin emprega o termo república para denomi­ nar. a república . Na monarquia. Já na Idade Moderna. mas também na implantação de uma demo­ cracia representativa.e o despotismo. em 1889. quem faz a lei é o monarca. prossegue. a monarquia. e a anualidade. que estuda a república. Quanto ao Brasil. trazendo uma nova forma de Estado. Por outro lado. doutrinariamente. a tradicional classificação das formas de governo (monarquia. desde que dota­ das de um droit gouvernement. Para Montesquieu. adotamos com a independência e a primeira Constituição. pois todas as instituições foram subvertidas. substituindo-se a forma unitária de Estado pela forma federativa. distinguindo-as. embora tolhido em eventuais arbitrarieda­ des pelas Constituições. a Proclamação da República. ao passo que o déspota governa e julga mediante leis arbi­ trárias e ocasionais. sabe escolher seus representantes legisladores. mais singela: repúblicas e principados. na monarquia a desigualdade em favor da nobreza c verdadeiro pressuposto. representou verdadei­ ra revolução política. nas repúblicas. na qual haveria separação de poderes fun­ dada num sistema de fiscalização mútua entre estes. sc na república há uma relativa igualdade. fundada. denominado sistema de freios e contrapesos ou checks and balances. Com Nicolau Maquiavel. a forma monárquica pela repu­ blicana. indistintamente. surgiram os Estados Unidos da América do Norte. a fe­ derativa. a forma unitária de Estado e a monarquia constitucional como forma de governo. Entretanto. Discursos sobre a primeira década de Tito Lívio. . ao passo que a monarquia exige uma área física considerável. Com a independência das colônias norte-americanas em 1776. a aristocracia e a democracia. sem falar no afastamen­ to compulsório de Pedro II. os magistrados serem eleitos. cuja distinção reside no fato de. Ademais. A república floresce em Es­ tados de pequena extensão territorial.

90. ed. 2°. e 47. Lecciones de . o art.1946.11. glotz . vedando. proclamada a 15 de novembro de 1889. da Constituição de 1891. conforme previsto no art. 2° do Ato das Disposições Transitórias. e constitui-se. das Dis­ posições Transitórias. São Paulo. o Governo Provisório emitia o Decreto n. 1. por união perpétua e indissolúvel das suas antigas províncias. 1979. dc forma absoluta. dc 24. As demais Constituições brasileiras (1934. § 4°. 15 dc novembro. Siglo X X I. § I o. 1. I o declarava: “Fica proclamada provisoriamente e decretada como a forma de gover­ no da nação brasileira . Difusão Editorial. que proibia a abolição da forma republicana federativa. sendo que a vigente. dc 15.a República Federativa” .1988. § 4o. graças ao art. Rideel.1891. 1848. mesmo por via de emenda. a atuação dos monarquistas em prol da restauração da realeza. Paris. Norberto e m a t t e u c c i . c Dizionario enciclopedico dei diritto. Cláusula pétrea.02. direta­ mente. 60. § 4°. GARNIER-PAGES. 90. da Constituição de 1934. da mesma forma.11 6 Teoria Geral do Estado A partir da Proclamação da República. 1. Novara. cujo art.02. como definida por Márcia Cristina Ananias Neves. a volta da monarquia. Pagncrre. Méxi­ E. trou­ xe significativa inovação. 1967 e 1988) adota­ ram a república como forma de governo. Arturo D. 2. da Constituição de 1946. 217. Dictionnaire politique. sobre a forma dc governo. embora permitindo. da primeira Constituição republicana.1889. da atual Constituição. a República Federativa. b o b b io . ficou abolida a cláusula pétrea ou de imutabilidade da forma dc governo. que impede qualquer emenda que vise a abolir direitos e garantias individuais. de 24. 70) 2. já no dia mesmo da procla­ mação. Tal decisão seria confirmada com a primeira Constituição republicana. § 5o. assim: A Nação Brasileira adota como forma de governo. qual seja. que constava dos arts. p o n s a t i. Diccionario de política. 1. 72 do Decreto n. Gusta- ve. 1985. de 05. a possibilidade de o povo se manifestar. a revogação ou modificação dc determinados artigos.3) Aristocracia Bibliografia: v. co. da Constituição de 1967. (Nova terminologia jurídica. A cidade grega. § 6o. sob o regime representati­ vo. 1988. p. Com isto.. em seu art. em 1889. Assim o art. v.10. vem a ser a norma constitucional que impede. 178. com isto. caput.1891. cm Estados Unidos do Brasil. 1992. cm plebiscito. 1°. Edipcm.1937. Nicola.

Por outro lado. já Heródoto (480-425 a. a denominação aristocracia. 1. F. Aristocracia (do grego aristoi. sem distinções de nascimento ou riqueza (Polí­ tica. do Senado o instrumento e símbolo de sua as­ cendência. Em Platão. e kratos. li­ teralmente. V). mas na virtude e na sabedoria. Paris. 10). Em Roma. 5. ocorreram sensíveis modificações socioeconômicas. dc muitos). a aristocracia teve seu maior destaque durante a república senato­ rial (509-27 a. e ao transformar-se em minorias dominantes. A intermitência dos comícios populares. melhores. (J. designando o estamento que limitava o poder do rei (basileus). 1976. p. a periodici­ dade e a colegialidade da magistratura transformaram o Senado no órgão estável por excelência da República. poder. e que seria denominada oligarquia. por outro lado. mas também moral. o termo aristocracia não se funda nas virtudes militares (inerentes à primitiva nobreza grega). governo dos melhores. estribada não mais na propriedade fundiária ou no sangue. enfim. se definições clássicas de aristocracia as encontramos em Pla­ tão e Aristóteles. Durante o sé­ culo VII a. a plebe. cognominado o pai da História. o verdadeiro centro da estrutura política do Estado romano.C. Picard. prudentemente.C.C. Antiquités grecques. mas na ri­ queza pecuniária. 1976. Aristóteles.). como assinala Arturo D. enfim.). Astrea. portanto. o bastião largamente inexpugnável de sua injustificável dominação (Lecciones de historia de las instituciones. afirmou que a aristocracia é o governo con­ fiado aos melhores pelos cidadãos. Caberia aos sábios. surgindo uma nova elite. dirigir o Estado no rumo do verdadeiro bem (A república. IV. os aristoi. o equilíbrio da Constituição romana já não era o mesmo no século II a. domínio) significa. fizeram. Astrea. daqueles que apresentam su­ perioridade não só intelectual. enfim. dos sábios. em oligarquias socialmen­ te disfuncionais que haviam perdido o fundamento moral de seu poder. s c h o e m a n n . as origens da aristocracia remontam aos tempos homéricos. Ponsatti. por serem moral e intelectualmente superio­ res. t. de poucos. Segundo Platão e Aristóteles. Na antiga Grécia. Buenos Aires. em oposição aos kakói ou mal-nascidos.6 Formas de governo 117 historia de las instituciones. que individualizou com maestria essa forma de governo. Heródoto faz menção à oligarquia. II.C. encontraram no Senado o reduto dc seus privilégios. não podem deixar de ser aqueles que pertencem às classes mais elevadas da so­ ciedade. ao contrário do que proclamaram Políbio e Cícero. de má índole. aos melhores. que sucessivamente exerceram o poder social e po­ lítico em Roma. . Buenos Aires. A par da monarquia e da isonomia (em substituição à demo­ cracia). men­ cionava trcs formas de governo (de um. 1884. quase não tratando da aristocracia. 313). orientação destinada a enorme ressonância. As minorias dirigentes. embora mantendo em seu tempo.

São Paulo. 1963. desapareceu. Estado. vani b e n f ic a Francisco. 1989.l l a . 1972. Ciência política . Bushatsky/Universidade de São Paulo. Martins Fontes. que veio a perder para a burguesia a condição dc sustentáculo das monarquias absolutas. e p o h l - F. ed. e que se sobressaía pelos altos postos militares e por privilégios transmitidos hereditariamente. Fernando. Obras completas. 1931. Goffredo. Reghizzi Gabriele. 1949. tos de direito público e constitucional brasileiro. ed. Vásquez dc. . Labor. . Elementos de teoria geral do Es­ dom enach Amado. no seu sentido original. sincera da França. Theodos ié y è s . 1981. Difusão Européia do Livro. Giuffrè. Cíenève. Paulo.a n g e s . História Fred S. 1927. Barcelona. 1957. ed. Rio dc Janeiro. Elemen­ Marcel. Luís. Forense. TÃo. PUE. Droz. São Paulo. I. terminologicamente. . Politique d'Aristote. 1984. Milano. Rio de Janeiro. de la Flor. São Paulo. Curso de teoria do Estado e ciência política. Curso de teoria do Estado/Di­ v ie ir a reito constitucional /. São Paulo. 1986. ed. José Pedro Galvão de. cabral de m o n c a d a . Madri. Ama­ h i- ral. 2. as mutações eco­ nômicas diminuíram substancialmente a importância da aristocracia. Instituciones griegas. m a is c h Numa Denis. Problemas de filosofia política. da Europa. Saraiva. Amorrortu. Paulo. 6. Rio dc Janeiro. r u f f ia prélot. . Los partidos políticos. A propaganda polí­ . Celso Ribeiro. pla- o c t a v io . Jean-Marie. Quest-ce que le Tiers État?. Obras completas. Saraiva. São Paulo. Curso de teoria do . s e ig n o b o s Charles. Todavia... Coimbra. 1981. uma forma dc governo para indicar um estamento diverso da burguesia e do cle­ ro. taker d a c u n iia . Paolo Biscaretti di e c r e s p i . Tres teorias sobre la prensa. Com a Revolução Francesa. w . a aristocracia deixou de ser. e Direito constitucional comparado% São Paulo. Rodrigo c v i a n n a . . . política.. s ie b e r t . tado. Casa Subirana. Revista dos Tribunais. soviética dei 1977. Emmanuel Joseph. Pa­ Pedro. d a i . f e r r e ir a f il h o Manoel Gonçalves. Saraiva. 1979. Buenos Aires.118 Teoria Geral do Estado A partir da Idade Média. 1950. São b o n a v id e s bastos. 1965. Rio dc Janeiro. 1974. Forense. Conceito c natureza da sociedade . m ic h e l s m f . Sucessor.. 1990.. La constituzione salvetti n e t t o . ham m er . e 4. Polí­ tica e teoria do Estado. 2. Saraiva. A democracia e o Brasii São Paulo. e p e t e r s o n .4) Democracia Bibliografia: 1978. 1986. R. Roberto A. Buenos Aires. Forense. re. Robcrt. A democracia possível.l a r i . Armênio Dalmo de Abreu. . Nacional. 2. Briguict. tica. 1931. 1979. São Paulo. ris. 1979. 1970. 1984. Introdução ao estudo do Estado e do direito. A cidade antiga. Ed. a aristocracia. Barcelona. v. v. Aguilar. por com­ pleto. com o aparecimento do Estado moderno. Rio de Janeiro. São Paulo. f u s t e l d e c o u i . Saraiva. Paulo D. 1963. 1938. telles j r souza . São Paulo. 14. Teoria geral do Estado/Introdução ao direito constitucional. Freitas Bastos.

Ciência política .justiça. O Ago­ ra. executiva e judicial. 2004. de um povo que desco­ nhecia a vida civil.6 Formas de governo 119 2. 2. isto sim. Na Grécia. . em duas partes: evolução da doutrina democrática e espécies de democracia.4. O ateniense. A cidadania era grande objetivo do ateniense. liberdade. Isto era possível na prática porque a cidade era de reduzidas dimensões e a população diminuta. À primeira vista. o Estado não era uma abstração somen­ te compreensível com o auxílio de um mapa. Paris. Assinala Paulo Bonavides: A democracia antiga era a democracia de uma cidade. mostra-nos que a natureza dividiu aquele conjunto num gran­ de número de vales e planícies. uma pra­ ça. Já se dis­ se que a maioria dos ideais políticos modernos . Rio dc Janeiro. na cidade grega.4. Rio de Janeiro.1) Introdução ao tem a Dividiremos este capítulo. Paulo. um conjunto de cidadãos. um povo.2) D em ocracia direta Bibliografia: b o n a v id e s .surgiram na antiga Grécia. que se voltava por inteiro à coisa pública. lhe garantia os direitos subjetivos. Claude. N irri. La démocratie. Vargas. todas elas ani­ madas dc fervoroso patriotismo. era. era a chamada demo­ cracia clássicayna qual os membros de uma comunidade deliberam diretamente. Neste país surgiram inúmeras pequenas comunidades. além de lhe assegurar a participação efetiva na vida pública. Francesco. onde os cidadãos sc congregassem todos para o cxcrcício do poder político. Jorge Zahar. via na participação da vida pública o supremo bem a ser almejado por um homem. Foram os gregos os primeiros a lançar as sementes da ideia democrática. Alcan. D i­ cionário da civilização grega. Iniciemo-lo com a concepção de democracia entre os antigos gregos. que fazia de sua assembleia um poder concentrado no exercício da plena soberania legislativa. que deliberava com ar­ dor sobre as questões do Estado. governo cons­ titucional . a Grécia parece formar uma unidade geográfica. a democracia foi praticada na forma direta. Cada cidade que se prezasse da prática do sistema democrático manteria com orgulho um Agora. em especial. sementes que foram conservadas pelos filósofos da Idade Média e que frutificaram na modernidade. A cida­ de não era um produto da razão. 1933. um exame mais atento. 1974. Para elas. contudo. separados um dos outros por baías e cadeias de montanhas. sem intermediação de representantes. Fundação Getúlio mossh. dotados de inabalável consciência social e de zelo pela tradição. e sim uma realidade palpável. pois. fazia pois o papel do Parlamento nos tempos modernos. com finalidade didática.

basta lembrar que a pólis não era dotada do exército permanente. Os gregos. Estes realizavam serviços manuais e eram benignamente tratados. lembra Francesco Nitti. Por outro lado. de um prestígio muito maior do que o ócio. quando não vadiagem pura e simples. Daí a expressão democracia. magistrados que presidiam as sessões do conselho e da assembleia. dotados do direito de par­ ticipação na vida política. Tão logo se desobrigava de suas ocu­ pações habituais. por ele consideradas desprezíveis. O grego era considerado cidadão da pólis a que pertenciam seus pais. O segundo estamen­ to compreendia os metecos ou estrangeiros que não participavam da vida pública. Por outro lado. As assembléias eram realizadas numa praça denominada agora (do grego agos. os cidadãos (enpátridas). na qual se cruzam as principais artérias da cidade. Com efeito. que não era opulento. mesmo porque na própria atualidade o estrangeiro não possui certos privilé­ gios atribuídos ao cidadão nato. embora fossem livres e sua exclusão da política não significasse discriminação so­ cial. O cida­ dão. que significa gover­ no do demos. um lugar privilegiado se reserva à ágora. A civilização contemporânea. participavam da política. Assim. poden­ . Como os cidadãos eram frequentemente chamados a participar das assembleias. vivendo com simplicidade e modéstia. onde deliberavam os prítanes. de forma que os cidadãos pudessem dispor de seu tempo para as atividades políticas. Empregava-se então a expressão nec ócio (daí. considerava o ócio a mais pura atividade espiritual. costume já mencionado por Homero. a ágora tem seu prestígio au­ mentado e as reuniões passam a ser mais freqüentes. sendo tal direito transmitido de pai para filho. a par­ tir de meados do século VIII a. o grande número de escravos existente em Atenas permitia que o tempo do cidadão dedicado à política fosse quase integral. sem liberdade de opinião e de sufrágio. consideravam um povo sem ágo­ ra um povo escravo. O terceiro e último estamento era formado pelos escravos. aquele que tem o direito de falar).C. o ateniense sc voltava para a atividade política.. o negócio desfruta. a pólis via seu elemento humano formado por três estamentos: inicialmente. Aristóteles costumava dizer que todo c qualquer trabalho manual deveria ser executado por escravos. no bouleuterion e na tholos. com o triunfo da democracia direta. hoje. pragmática e materialista. que eram os únicos a possuir armas.120 Teoria Geral do Estado Para se ter presente o apego do antigo grego à sua cidade. quase sempre. Tais assembléias ti­ nham caráter informal e não desfrutavam de poder relevante. tido este como falta de vontade e entusiasmo para o trabalho. orador. aqueles que residiam fora da cidade não eram considerados cidadãos. voltada à contemplação e ao estudo dos te­ mas filosóficos. apenas aqueles que integravam um demos (município). puramente materiais. perverteu o sentido original destes vocábulos de tal forma que seu valor foi inver­ tido. dirigido por um de­ marca. as expressões negó­ cio e negociante) para designar atividades lucrativas. sua defesa dependia dos próprios cidadãos. Em Atenas.

criada. tendo por missão proteger os interesses dos esparciatas (cidadãos) nas relações com outros Es­ tados. Para melhor alcançar seus objetivos in­ . com suas ultrapassadas concepções criadas para manter o po­ der do clero e da monarquia absoluta. de forma que não é difícil chegar-se à desagradável conclusão de que o ideal totalitário se amalgamava com a própria democracia grega. cidade situada no alto do vale do Eurotas. a organização política. originalmen­ te. consagrava. pelos excessos do absolutismo em França. Locke é. c) a vida do homem em liberdade absoluta. as tiradas organicistas de Platão e dc Aristóteles nas respectivas obras. despro­ vida de poder. Em sua obra Segundo tratado do governo civil. 11111 dos criadores da ideolo­ gia iluminista. na própria natureza. condenando o absolutismo. que a participação do cidadão 110 processo político era muito mais um dever do que um direito. fundada na monarquia. respectivamente. Percebe-se. até mesmo no modo de trajar do ho­ mem ou da mulher. auxiliado por dois reis. b) inexiste o pecado original: o homem é levado à corrupção pelo próprio poder político. mi­ lênios depois. isto é.6 Formas de governo 121 do alcançar sua liberação em face de bons serviços prestados aos seus proprietá­ rios. No seu modo de ver. imperando a lei da natureza. Ao eupátrida ateniense correspondia o esparciata ou lacedemônio. entretanto. iniciada na Inglaterra por volta de 1680 e fundamentada cm rígido racionalismo oriundo. fertilíssima região da Grécia. que exerciam funções publi­ cas menos significativas. periecos e ilotas. já se fazia presente. em liberdade e igualdade absolutas. estes últimos o estamento mais numeroso. pela leitura do texto. então. a par de inegáveis conquistas 110 campo da liberdade e da propriedade individuais. no capítulo XV III de sua obra A cidade antiga. Locke procura fundamentar a forma de governo parlamentar introduzida 11a Inglaterra pela Revolução de 1688. não sen­ do raras. contra periecos e ilotas. Não havia. Quem nos dá uma visão realista da democracia grega é Fustel de Coulanges. diga-se de passagem. Jean-Jacques Rous­ seau e Emmanuel Joseph Siéyès. a liberal-democracia. numa sociedade anárquica. fundamentou aberrações doutrinárias de malévolos efeitos. 2. que. a re­ pública aristocrática governada por um conselho de trinta membros. de Thomas Hobbes. Seus preceitos básicos po­ deriam ser resumidos em três: a) o guia infalível da sabedoria é a razão. torna-se insuportável. em parte. cm especial. os homens viviam. pelo fascismo. Em Esparta.4. O eforato era um órgão importantíssimo na política espartana. contudo. a palavra aterradora totalitarismo. em Esparta. São figu­ ras de realce no pensamento liberal individualista John Locke. Frise-se que o próprio Estado podia ter escravos. é preferível à vida em civilização. A mentalidade totalitária ou organicista. A metecos e escravos em Atenas correspondiam. O Estado intervinha em tudo. 11a verdade.3) D em ocracia representativa Justificada.

que podem dissolvê-lo livremente. dependente de um acordo de vontades. sua natureza é sã. outorgando a esta um poder de mando destinado a executar a referida lei natural. aliás. fruto da vontade e não de uma inclinação natural. Discurso sobre a origem da desigualdade entre os homens e N ova Eloísa. é um bom selvagem . Rousseau. e a própria sociedade nada mais é que o objeto de um con­ trato. Emmanuel Joseph Siéyès (1748-1836) . resolveram. Perdida a liberdade natural. reduz o casa­ mento a um contrato e.122 Teoria Geral do Estado dividuais. mediante um pacto voluntário . Essas ideias de Rousseau acham-se situadas especialmente em O contrato so­ cial1 . é aque­ la que reduz ao mínimo os vínculos sociais c a pressão exercida pela sociedade sobre o homem. relegada a um segundo plano toda a ideia dc progresso e de bem-estar social. rebelar-se contra os possíveis excessos dos governantes. A comunidade teria. por conseguinte. a sociedade polí­ tica conveniente é aquela que garante a mais ampla autonomia individual. Como Locke. diz ele. portanto. o chamado estado de natureza . o homem perde tal liberdade e se corrom­ pe. direito de. é a liberdade dos bons tempos que o faz bom: portanto. no qual também a felicidade seria abso­ luta. a restauração do caráter do homem se faz com a liberdade civil. daí o divórcio.. mas a sociedade o corrom­ pe. a qualquer momento. a ser um fim em si mesma. a primeira hipótese. escolheria. dizia em sua obra O contrato social: “O homem nasce livre e em toda parte se acha aprisiona­ do'’. se Locke tivesse de optar entre a desordem e o despotismo. era. como tal. sem dúvida. A única função do Estado seria. Já se disse que. instituir a sociedade política. A própria família somen­ te se mantém em razão de laços contratuais. contudo. Rousseau afirma que o homem surge num estado de liberdade absoluta. Ora. então. A liberdade passa. Quando surge a vida em sociedade. man­ ter a ordem. por sua vez. ideal maior do Estado. um dos corifeus da Revolução Francesa. preservando a liberdade individual. O individualismo. O homem.

É preciso combater? Pagam a mercenários e ficam em casa. í®. Q u a-t-il & c jufqti a prcfcnt dans 1'ordrc p olitiquci RiEM. Ainft nous d iro n s: * 4 ° . Inércia e dinheiro ensejam soldados para dominar a pátria e deputados para a venderem. Q u c ft-cc que le Tiers-Ecat » T o u t . dizia Rousseau. C c q u o n auroit Jú fairc. onde houver deliberações tomadas diretamente pela comunidade. É preciso ir ao parlamento? Nomeiam deputados e continuam a ficar em casa. Capítulo XV). C ° .i voirfi les reponfes font juftes. tanto para Locke como para Rousseau. Num Estado bem dirigido. todos freqüentam as assembleias. a liberdade é o bem supremo do ideal democrático. não pode participar da vida em sociedade a não ser conservando sua soberania pessoal. Q tiç dcmandc-c-il f A dcvcnir QUELQUE G H O SE. Rousseau era adversário ferrenho da chamada democracia representativa. O n v. 5 °. Frontispício da obra clássica de Siéyès Que é o Terceiro Estado? Já estamos vendo que. Enfin . por ser contrária à lei natural a proposição de que a maioria governa a minoria. nada com o ouro. naturalmente independente. N oui avons trois queftions i nous faire. Só pode haver democracia. cc q u i rtjle i fairc au Ticrs pour prendre U p h cc qvú lui cft dúc. Num dos mais valiosos capítulos de seu O contrato social (Livro Terceiro. Rousseau vai ao ponto de afirmar que o ho­ mem. Rousseau é bastante claro e incisivo a esse respeito: Logo que a função pública deixa de ser a principal atividade dos cidadãos. Nous c x imincrons cnluitc les rooyensquc 1on a eflayés / íc c c u x q n c l on doic prendre. 1®. que se preocupam mais com o dinheiro do que com sua própria pessoa.6 Formas cie governo 123 Q U E S T -C E Q U E LE TIERS-ÉTAT? X j E plan d c cct E c m c ít aflèz fimplc. C c que les Miniftrcs ont ttn ti. mas com um mau governo ninguém se interessa pelo que nelas se delibere. os cidadãos fazem tudo com a força dc seus braços. mas para as cumprirem. quclqu* chofe. A i. & c e q u e Privilegies cux-m cm cs propofaic cn fa faveur. afin que IcTicrsEtat d evien n e. o Estado se encon­ tra à beira do colapso. en c ffc t. sem intermediá­ rios. Todos estão certos de que ja­ . não pagam para se desobrigar dc suas obrigações. N um Estado verdadeiramente livre. 3°. Por isso.

Toda lei que o povo. considerados tão importantes para a Revolução Francesa como o Manifesto comunista. Siéyès será o grande inspirador desta. mas não conseguiu que seu projeto de Constituição fosse adotado. as palavras casta. voltou para a França em 1830. presidente da Constituinte francesa re­ volucionária. Apoiou Bonaparte no golpe do 18 Brumário. em pessoa. classes sociais na França. O povo inglês pensa que é livre. afirma que a soberania do Estado reside na nação. Não havia. logo que estes são eleitos. efetivamente existentes em dado momento histórico. exatamente. na França pré-revolucionária? Era o ter­ ceiro estamento social. imutabilidade. o Terceiro Estado. A soberania não pode ser representada. para a Re­ volução soviética. passa a ser escravo e nada é. a própria ideia de privilégio. Deputado do povo. no qual Siéyès incrimina. Ela se expres­ sa pela vontade geral. Que era. Exilado. e isto não ocorria então. Os deputados não são c nem podem ser representantes do povo. Quem inte­ grava um estamento inferior não podia galgar um estamento privilegiado. denotando a rigidez das sociedades estruturadas em estamentos. pois uma sociedade estruturada em classes admite a mobilidade social. com efei­ to. jamais será uma lei. concretos. Siéyès escreveu dois explosivos panfletos. só é livre durante a eleição dos membros do parla­ mento. que bem merece perdê-la. c esta não admite representantes. é nula. Nesta segunda obra. utiliza tão mal esta. como contrária à natureza. Se Rousseau é inimigo figadal da democracia chamada representativa. foi adversário de Robespierre. A nação não é o conjunto de homens reais. estado. Esses dois panfletos se intitulam Ensaio sobre os privilégios. mas sim o conjunto daqueles que viveram. porém está enganado. afinal. de origem indo-europeia. aparentemente. A ideia de nação em Siéyès confunde-se.124 Teoria Geral do Estado mais a vontade geral prevalecerá. Boas leis criam outras melhores. sendo os três estados estanques. não há meiotermo. que significa. . que vivem e que viverão. com todo o Terceiro Estado. e Que é o Terceiro Estado?. estratificados. per­ manência. mesmo porque as ocupações particulares ocupam todo o tempo. no sentido moderno que atribuímos à expressão clas­ se social. más leis acarretam outras piores. ou é ela ou não e. pois não admite alienação. são. E quando alguém diz: Que me importa o E s ta d o este está perdido. estratificação trazem consigo um semantema (ra­ dical) st. elemento mais numeroso e mais sig­ nificativo economicamente. Emmanuel Joseph Siéyès foi um abade que teve uma vida política destacada. não aprove. estamento. propondo a unidade da na­ ção e do chamado Terceiro Estado (o povo). Nos poucos momentos em que usufrui de liberdade. elementos de uma comissão e não podem concluir nada em definitivo. quando muito. com efeito. antecedido pela nobreza e pelo clero. de Marx e Engels. obra da qual se serve para combater a pluralidade de es­ tamentos do ordenamento constitucional monárquico. Aliás.

Não há. para que haja vontade gerai Entretanto. O Terceiro Estado. c nenhum mandato lhes poderá ser atribuído”. Que tem sido até agora no ordenamento político? Nada. Assim. A responsabilidade dos representantes apura-se nos termos da Constituição. Em razão disso é que Siéyès abre seu famoso apúsculo com as incisivas palavras: “ Que é o Terceiro Estado? Tudo. a nação é uma entidade abstrata. vinculação jurídica entre representantes e representados. mas de toda a nação. Em razão da doutrina de Siéyès. consequentemente. Nisto. não se confunde com as gerações que passam. 7°: “Os representantes elei­ tos nos parlamentos não serão representantes de um departamento particular. preâmbulo do título terceiro. Mais adiante. isto é. no capítulo II: É preciso entender por Terceiro Estado o conjunto dos cidadãos que se acham submetidos a um ordenamento comum. Por isso. não integra o Terceiro Estado. que representa os interesses perma­ nentes do elemento humano do Estado. Nada pode progredir sem ele. a representação política é obra do poder constituinte. para Siéyès. sendo que a participação do povo. que pertencia ao rei. Ora. for­ malizando-se o pacto por um aperto de mãos. não po­ derá haver mandato imperativo. segundo Rous­ seau. Nação e Terceiro Estado confundem-se. consistindo num vínculo contratual entre representante e representado. mas das próprias normas da Constituição. que fixará a competência e os deveres dos representantes da na­ ção. ambos concor­ dam num ponto: todo e qualquer organismo intermediário entre os indivíduos e o poder político deve ser eliminado. ao passo que. Que deseja ele? Chegar a ser algo”. contudo. no pen­ samento de Siéyès. A sobe­ rania. sendo a nação uma entidade abstrata. pois as mãos simbolizam a fidelidade (per dexteram era per fidem). deve ser direta. Todo aquele que é privilegiado pela lei sai do ordenamento comum e. da mesma forma que no direito civil temos um contrato denominado mandato (do latim manus dare). e seria bem melhor se os outros Estados não existissem. Já o disse­ mos: uma lei comum c uma representação comum e o que constitui uma nação. e a perda do exercício do cargo não decorre da vontade dos governados. vinculação jurídica entre man­ . e sim mera representação política. I o e 2o). passa a pertencer à nação. contratualística. “da qual emanam todos os direitos” (Constituição de 1791. diz ele. é uma nação completa. arts. a representação da nação será atri­ buída a quem ela determinar. Enquanto o mandato imperativo tem natureza consensual.6 Formas de governo 125 Clero e nobreza eram dotados de privilégios com os quais não era contempla­ do o povo ou Terceiro Estado. mas com os interesses permanentes do Estado. a Constituição francesa de 1791 estabeleceu em seu art. porque segundo ele é imprescindível a participação direta da comunidade nas deliberações políticas. a posição de Rousseau é oposta à de Siéyès. os interesses da nação suplantam os interesses momentâneos do povo. A nação. reitere-se.

O Estado poderá ató desconhecer tais grupos. revelando a inclinação do homem para uma agregação orgânica e não puramente mecânica. pela in­ dústria e a agricultura. surgindo a solidariedade orgânica e a divisão do trabalho. representado pelo comércio. que. não poderá jamais. antecedem no próprio Fi­ tado. É preciso que aí estejam os interesses dc que vos falei: o interesse religioso c moral representado pelo clero. e não se dará esse caso vergonhoso . Surgem grupos das mais diversas espécies e fina­ lidades. faze-los desaparecer. sejam estes dc natureza econômica. não podendo ser negadas sem que sc negue uma na­ ção. grupos que. animal social por natureza (zoon politikon ). contu­ do. muitas vezes. somente se agrega aos seus semelhantes que tenham os mesmos interesses. a família e o município. Foi olvidada a ideia de que o Estado não tem no elemento humano a mera soma dos indivíduos. De fato. a pri­ meira medida dos partidos que formam o parlamento é procurar uma informação pú­ blica. o Partido Con­ . Se as primitivas sociedades eram ho­ mogêneas e a solidariedade social puramente mecânica.dc que. daquelas autoridades sociais que for­ mam a aristocracia de todos: os méritos científicos. o interesse da defesa. em perfeita integração com os organismos vivos da nação. apresentou bons resul­ tados na Inglaterra. o processo denominado in­ tegração ensejou a diferenciação paulatina de tais grupos. representado pelo Exército.prova de que não são representativos os parlamentos modernos . ainda saindo das camadas inferiores. religiosa ou in­ telectual. o interesse docente. da virtu­ de. pelas universidades e academias. procurando rebater os excessos do absolutismo monárquico. Assim. é necessário que essas forças estejam representadas nas Cortes. e o interesse das superioridades. como frisa Galvão dc Souza. tal concepção de democracia. porque lá eles sempre estiveram identificados a classes sociais. A representação por meio de partidos. bem como pelos operários. então o espelho da sociedade será ele mesmo. da linhagem. para sc inteirar do que sc passa lá fora. ao passo que o mandato imperativo tem natureza consensual. artísticos.126 Teoria Geral do Estado dante e mandatário. quando surge uma crise agrícola ou industrial. o homem. intelectual. têm direito a brilhar nas alturas. e sim a formação de grupos sociais que surgem espontaneamente. incorreu no extremo oposto. por exemplo. e como as classes são categorias sociais permanentes. política. Ora. e surgem espontaneamente. Quan­ do o parlamento representar todas essas forças. colocando o indivíduo numa po­ sição dc desamparo perante o poder político. o interesse material. de acordo de vontades. Vásquez de Mella adverte: O que se deve representar é o homem de classe e de grupo. representado pelas corporações científicas. a ele vedada uma participação efeti­ va nas decisões dos governantes. A representação nacional tem natureza institucionalvem de cima para baixo. pelo menos até o momento inexpressi­ va e fictícia em nosso País e em quase toda a América Latina.

Dissolvidos os órgãos naturais de representação da sociedade. Pois aí está o dc que muitos se esquecem. por exemplo. o pragmatismo suplantou as abstrações ideoló­ gicas. isto é. o Trabalhista. e. identificado com a classe operária e as agre­ miações sindicais (trade unions). e também instrumentos para orientála. sem nenhum conteúdo doutrinário e programático. Por que não substituir a representação par­ tidária pela representação corporativa? A representação feita através dos partidos é inexpressiva e fictícia. sofreu menos o impacto das novas ideias revolucionárias. os agrupamen­ tos intermediários da família ao Estado. são meras siglas. o da Inglaterra. já escrevia antes mesmo da insurreição de 1964: Os partidos políticos brasileiros. não em doutrina. por influência de Siéyès. na América Latina tornaram-se quase sempre órgãos deformados. Servem apenas de instrumento para o registro de candidatos no tribunal com­ petente. Galvão de Souza também se mostra incisivo e claro a esse respeito: Os partidos podem ser indispensáveis num determinado tipo de democracia. veículos que a representam. incapazes. onde. portanto. Na democracia liberal e individualista surgem. Se na liberal-democracia os partidos apareceram para preencher o vazio dei­ xado pelos corpos intermediários extintos em 1791. Além disso. Partidos políticos do tipo dos nossos não são órgãos naturais da sociedade. a ponto de não haver uma diferença bem definida nos dois grandes partidos aí existentes. meros instrumen­ tos dc grupos ou de chefes políticos arrivistas. Em nada se prendem ao drama quotidiano do cidadão. em especial na França. então aparecem os partidos para substituí-los.6 Formas de governo 127 servador sempre esteve ligado aos grandes proprietários. Não são produtos das exigências comuns da vida humana. observados não em tese. ocorreu nos Estados Unidos da América do Norte. dc certa forma isolada do drama políti­ co que se desenrolava no continente europeu. por­ tanto. Um sindicato ou um clube de fu­ tebol é. isto é. Goffredo Telles Jr. mas em concreto. não devemos nos esquecer de que os partidos ingleses se acham intimamente ligados a determinadas classes ou a grupos . não em todos. Entretanto. Nada dizem à alma popular. o Liberal. em seu real funcionamento. Fenômeno semelhante. muito mais importante do que um partido. no tocante à representação partidária. representando a classe média burguesa. a Inglaterra. como órgãos de expressão da opinião pública. partido representante. Os quadros partidários não correspondem à organização natu­ ral da sociedade que visam representar. sim­ ples rótulos. Há casos que poderiam ser apontados como exceções. bem apontado por Maurice Duverger. vazias embalagens. no sentimento do povo. da aristocracia. finalmente. não em abstrato. de orientar a opinião de quem quer que seja sobre os problemas sociais. Em preciosa monografia intitulada A democracia e o Brasil.

O parlamentar.4. Ele se sujeita ao programa partidário. portanto. que concedeu aos plebeus o direito de participar do processo político na antiga Roma republicana.01. 2. Isto marca. os seguintes ins­ titutos: plebiscito. tradicionalmente. Na democracia partidária.C.4) D em ocracia sem idireta A terceira espécie de democracia é a democracia semidireta. de 23.). plebe. não decide mais por si próprio. Esta intervenção compreende. 4. quando garantiu o apoio da maioria para suas medidas. Os governantes consideram oportuna a medida. a função do partido político é preparar a de­ cisão popular. Após a Segunda Guerra M undial. Deputados e senadores serão man­ datários de seus partidos. de certa forma. o instituto adotado por Napoleão Ikmaparte para obter o aval popular das mudanças constitucionais dc seu governo. assim nominada porque. o constitucionalismo brasileiro ensejou a participação popular direta em 1963. pois o deputado pode ser desligado de seu partido caso sc des­ ligue da linha de conduta que lhe for traçada. Como se poderia compreender o desenvolvimento do Partido Trabalhista sem a base sindical do “trade-unionismo” ? E o Partido Conservador não tira a sua força do elemento aristocrático? As aberrações e os abusos cometidos cm nome da chamada democracia re­ presentativa ensejaram uma série de providências saneadoras do Estado Moderno. O termo plebiscito deriva de plebs. Embora adotando. sendo. iniciativa popular. à volta do regime presidencialista. Plebiscito: a expressão denomina uma consulta prévia que sc faz à coletivi­ dade. veto popular.1963. Hitler realizou vários plebiscitos. a de­ mocracia representativa. por intermédio da Emenda Constitucional n.09. manifestando-se favoravelmente.1961. Inicialmente. um retorno ao mandato imperativo. referendo. a vinculação do parlamentar ao seu partido. os governantes france­ ses usaram largamente do plebiscito.128 Teoria Geral do Estado sociais. . recall e mandato im­ perativo. por intermédio de plebiscitos. obrigatoriamente. mas antes dc efetivá-la consideram necessário que o povo se manifeste. a fim de que esta sc manifeste a respeito de sua conveniência ou não. ao lado da natureza representativa de seu sistema político. que havia sido adotado em 02. 6. no que foi imitado por Napoleão III. destacando-se aquele que ensejou a anexação (Anscbliiss) da Áustria à Alemanha. a tal programa. por conseqüência. em nome da fidelidade partidária. o que ocorreria com a Emenda n. nela se admite a utilização esporádica da intervenção direta dos governados em certas delibera­ ções dos governantes. Modernamente. ten­ do origem na Lex Hortensia (século IV a. basicamente. aliás. mediante um plebiscito no qual o eleitorado refugou o regime parlamentarista de governo. formulando um programa de governo e designando candidatos que se vinculam. o povo francês manifestou-se durante a Grande Re­ volução.

se um determinado número dc ci­ dadãos o exige. expressamente.. Como assinala Georges Burdeau. p. os cida­ dãos não legislam. 86. a realização de plebiscitos como forma de exercício da soberania popular (art. juntamente com o plebiscito e o recall (que permi­ te aos eleitores revogarem o mandato de um representante eleito e que é legal em doze . bem como a discuti-lo e a votá-lo. a que mais aten­ de às exigências populares de uma participação efetiva no processo político é a ini­ ciativa das leis pelo próprio povo. no art. a iniciativa popular obriga o parlamento a legislar. O art. c os plebiscitos são uma maneira dc os cidadãos aprovarem ou não a ação do legislativo. pelo qual pressiona o parlamento a reparar um projeto de lei sobre determinado assunto. que de­ verá examiná-lo c emitir um parecer (/l democracia. na Ve­ nezuela e na Itália. Na iniciativa popular o povo exercc apenas um direito dc petição “reforçado”. Também o referendo é previsto pela Constituição brasileira no art. a moção. de ratificação popular de algo que já está feito. Como acentua John Naisbitt cm sugestiva monografia: Os projetos de lei originados das comunidades e os plebiscitos são as ferramen­ tas da nova democracia. 133). 1 4 . que autoriza o seu exercício por um mínimo de dez mil cidadãos. também. depois. um projeto de lei determinado será exposto à Assembleia. A iniciativa popular é encontrada. 71. Iniciativa popular: eis o mais significativo instituto da democracia semidire­ ta.6 Formas de governo 129 A Constituição brasileira prevê. Referendo: o referendo e o mecanismo da democracia semidireta pelo qual os cidadãos são convocados para se manifestar a respeito da conveniência ou não de medida já tomada pelos governantes. da Constituição italiana de 1947 determina que cinqüenta mil eleitores podem obrigar o parlamento a discutir um projeto de lei oriundo de iniciativa popular. enfim. Dá-se o nome de referendo também à manifestação popular sobre a entrada em vigor de leis já elaboradas pelo parlamento. 14. O primeiro projeto dc lei estadual originado da comunidade nos Estados Unidos ocorreu no Oregon em 1904. 1962. No caso. mas fazem com que se legisle. da Constituição de Cuba. in fine. Publicações Europa/ América. Ressurgiu. Estes instrumentos criam acesso direto à decisão política.. porque. Nisto difere do plebiscito. Lembra Salvetti Netto que o Le­ gislativo não está obrigado a acatar a iniciativa popular. então. no Estado de Dakota do Sul (1898) e no Oregon (1904).1 ) c como instrumento da vontade popular na manutenção ou modificação da forma de governo e do regime de governo (art. A iniciati­ va popular foi empregada pela primeira vez nos EUA. de todas as instituições da democracia semidireta. E uma das razões para o seu fortalecimento recente é que as pessoas estão exigindo maior prestação de contas. g. 2o das Disposições Transitórias). O aumento desses projetos. na Constituição de Weimar. Realmente. Trata-se. A diferença entre os projetos de lei originados da comunidade c os plebiscitos é que os primeiros aparecem na votação através de ação direta do cidadão. Lisboa. II. como desejam cidadãos informados e educados.

Forense. É o recall das decisões judiciárias. III. reparar. se.segundo muitos autores americanos . William Bennett Munro. Darcy Azambuja.1988. modernamente. Veto popular: do latim vetare (proibir. caput e § 2°. representa uma exigência inequívoca de parte dos eleitores de prestação de contas do governo. por imposi­ ção do capitalismo que a elege. a partir de 1912. 26. anular. e obter que seu pedido seja submetido aos eleitores para que estes possam decidir. 321). decla­ rar inconstitucional a lei e obrigar a sua aplicação. 1985. e com a iniciativa popular pode obrigar o Legislativo a fazer leis socialmente úteis.principalmente em relação à legislação social que . Pode ocorrer no plebiscito ou no referendo.finaliza -.130 Teoria Geral do Estado estados). sua finalidade: permitir que o eleitorado possa destituir. Li­ vros Abril/Círculo do Livro. (Megatendências. nos Es­ tados do Oregon e da Califórnia. quando estes. oportunamente. negam-se a executar certas leis oriundas da iniciativa popu­ lar.a elegibilidade dos juizes. o pioneiro na inovação do recall quanto às decisões judiciárias. § 4o. promulgada em 05. às decisões da Suprema Corte. Estes novos dispositivos. Rio de Janeiro. por julgá-la inconstitucional. Nem o Poder Judiciário escapa ao raio de ação do recall. Uma petição . e c esta. em manifestação direta. de democracia semidireta lhe permite anular a ação dos juizes. o povo americano pode inutilizar certas leis. p. com o referendum. instrumentos-chave na nova democracia participativa. mas a única arma que o povo americano encontrou para combater um perigo muito maior . e 61. arrojada e singular. Não se aplica.a magistratura eletiva de vários Estados tem entravado. E. Recall: o termo recall significa revogar. p. verdadeira­ mente. Isso se dá . Theodore Roosevelt foi. permitem às pessoas passar por cima dos processos representativos tra­ dicionais e moldar o sistema político com suas próprias mãos. um órgão público que tenha afrontado a confiança do povo e a dignidade do cargo. uma forma audaciosa e perigosa. citado por Wilson Accioli (Teoria ge­ ral do Estado. Quando um juiz se nega a aplicar uma lei. sendo o instituto adotado. inovou na or­ dem jurídica ao adotar a iniciativa popular nos arts. caracteriza magistralmente o recall dos cargos eletivos assim: Comumente vinculado à democracia semidireta está o recall. alegando o vício de inconstitucionalidade. 14. pelo povo. o veto popular significa a re­ jeição.10. 1982. adotado em doze Estados da Federação norte-americana. uma outra forma. Ele pode ser defi­ nido como o direito de um determinado número de eleitores solicitar a destituição ime­ diata de um governador ou de qualquer outro detentor de cargo eletivo. Como assinala. de uma medida governamental. impedir). 162-3) A vigente Constituição brasileira. con­ trárias ao interesse coletivo. sem dúvida . em nenhuma hipótese.prossegue Azambu­ ja . a maioria dos eleitores pode anular a decisão.

na Es­ panha. (The govemment o f United States. o que pareceria indicar que é geralmente visto como uma arma a ser mantida de reserva. os peticionários do recall devem reembolsar o acusado das despesas feitas com a eleição. Se reeleito. 11a forma da lei. 672) Entretanto. New York.6 Formas de governo 131 deste tipo. sob o impacto da doutrina de Siéyès. Desde sua introdução. Mandato imperativo: o mandato imperativo é o vínculo jurídico que liga o re­ presentante do povo aos seus próprios eleitores. p. de fato. sendo seus alvos os órgãos dos três Poderes da União. o recall é um ins­ trumento político indicado para assegurar a mais rigorosa responsabilidade funcional ao eleitorado. Com o surgimento da chamada de­ mocracia representativa. entre mandante e mandatário. Por outro lado. em razão disso. 1959. assinala Darcy Azambuja. a responsabilidade dos parlamentares apurar-se-ia tão somente nos casos rigidamen­ te instituídos pela Constituição. é redigida e posta em circulação para receber as assinaturas. Embora empregado a partir de então. MacM illan. o funcionário é destituído imediatamente. juntando à cédula do voto sua defesa. evidentemente. portanto obriga­ tória. lar­ ga aplicação em alguns Estados norte-americanos. quando suficientes assinaturas (usualmen­ te um número igual a cinco por cento do eleitorado registrado) forem obtidas. mais para uma emergência do que para o uso mais in­ tenso. aliás. con­ sensual. o termo man­ dato não casa bem com democracia representativa. Permite ao povo destituir qualquer detentor de cargo público que dei­ xou de atender à sua confiança. que é um procedimento semijudicial normalmente usado para livrar o governo de um funcionário culpado de atos criminosos. estabelecendo as razões indicadoras da ação pretendida. O recalled pode apresentar-se à reeleição. ultimamente. desfez-se. como já vimos no estudo da democracia representativa. o mandato imperativo teve seu apogeu 11a França. porque o “mandato” polí­ tico se referiria a toda a nação. Mas ele tem sido. quando desa­ pareceu na voragem do absolutismo nascente. Vejamos: a expressão manda­ to vem do latim mandatum. o vínculo jurídico existente entre representantes e representados. até 1601. ordenam uma eleição para decidir sobre a matéria. a peti­ ção é submetida às próprias autoridades que. em apenas um governador e uma meia dúzia de outros importantes funcionários estatais foram destituídos. em caso de o candidato eleito não estar correspondendo aos anseios do eleitorado. prestar. espécie de pacto que. de modo que estes. ele continua no cargo. podem rescindir\ dissolver esta ligação. Sc a maioria dos eleitores sc pronuncia cm favor do re­ call. previamente. caução. para o que. do contrário. como ocorre no mandato político. muito pouco usado. Tem. 11111 instrumento que pode. Surgido por volta do século IX. cuja denominação . e. ser usado er­ radamente. Um percentual de 20 a 25% do total de eleitores de cada Estado requer que o órgão seja submetido ao recall. o recall tem obtido. é reforçado pela vinculação jurídica. em face disto. o recall é 1908. e não institucional. de modo fácil. Torna a responsabilidade funcional permanente e di­ reta. Ao contrário do impeachment. natureza contratual. e não apenas ao corpo eleitoral.

Frederico II não fazia por menos e costuma­ va resumir seu pensamento a esse respeito em poucas palavras: tudo para o povo. a representa­ tiva e a semidireta. nada pelo povo. o controle do poder político pelo povo. tão bem sintetizaram com esta elegante expressão: popularii potentia. Crise da liberal-democracia é crise do próprio ideal democrático. em tabu. ainda. costumava dizer que a confusão está a se esconder numa palavra: democracia. embora nunca de medida e padrão únicos. propriamente. di­ zem seus porta-vozes. 250 definições de democracia. Abolido violentamente pelo furor revolucionário na França. exigindo dos governantes a melhor orientação. a liberal-democracia. consiste em tomar a parte pelo todo. aos poucos. sob pena de aberrante deformação da realidade. qual seja. que os romanos. por irrealizável no mun­ do moderno. retornando à prática política. quando o que está realmente em crise é uma simples forma histórica da democracia. Cada uma delas buscou alcançar o ideal democrático. Come­ te-se o erro que. Descar­ tada a primeira hipótese.132 Teoria Geral do Estado correta seria. que a tragédia das democracias contemporâneas con­ siste em que elas não conseguiram. para mui­ tos. menos por suas virtudes intrínsecas do que pela inegável desmoralização da repre­ sentação política cunhada pela liberal-democracia. mas poder do povo. eis o grande desafio. resta claro que o termo não significa. primeiro-ministro de Luís Felipe. a qualificação de um Estado como democrático não se acha vinculada a nenhuma ideologia. restaria indagar qual a verdadeira essência do ideal democrático. em oposição a arche (governo)? Assegurar os meios da permanente penetração dos governados nas decisões dos governantes. Um recente estudo levado a efeito pela Unesco revelou a existência de. a liberal-democracia. todos os Estados Modernos se proclamam ardentemente democráticos. Com efei­ to. Eis. a da democracia direta. como querem alguns. que nada mais é do que uma espécie entre as inúmeras que buscam alcançar o ideal democrático. Cabral de Moncada nos diz que a democracia é um tecido com o qual se pode tecer todo tipo de roupa. realizar o ideal democrático. Infelizmente. o mandato imperativo vai. investidura. Pela própria etimologia da palavra democracia (demos = povo e kratos = poder). Não foi à toa que Jacques Maritain afirmou. . então. é correntio ouvir falar em crise da democracia. pelo menos. em lógica. Ora. governo do povo. portanto. com seu espírito pragmático. Uma coisa é certa: não pode haver democra­ cia onde não houver uma participação permanente c consciente dos cidadãos or­ ganizados em povo político. transformou-se. três espécies de democracia: a direta ou clássica. com franqueza e pessimismo. da mes­ ma forma que todos os políticos se proclamam honestos. mas o sociólogo norte-americano Robert Dahl catalogou nada menos do que quinhentas conceituações! Em pitoresca ima­ gem. Curiosa esta última posição: será a democracia o governo do povo ou. Atualmen­ te. Guizot.

o que vem a ser democracia? Democracia é o processo político que autoriza a permanente par­ ticipação. o célebre genebrino costumava dizer: “o voto é um direito que . mediante elei­ ções. o nacional torna-se cidadão e começa a exercer o direito de votar. é um pro­ cesso de seleção daqueles que terão o direito de votar. Então. mas inexoravelmente. Ela se expressa pela vontade geral. da com unidade. perdendo ter­ reno. O sufrágio é. por exemplo. legalização do aborto. o homem situado. O sufrágio é um processo de escolha. que Georgcs Burdeau. o sufrágio1 Do latim suffragari. Por isso.6 Formas de governo 133 Num mundo em que as realidades palpáveis se fazem cada vez mais candentcs. escolhendo seus candidatos. preliminarmente. direta ou indireta. pois não admite alienação. Rousseau é muito claro a respeito: “a soberania não pode ser representada.4. embora na demo­ cracia representativa e na semidireta não possa haver eleição sem prévia votação. estabelecer os requisitos para a obtenção dc tal direito. para quem. Atendidos os requisitos constitucionais. paulatina. transformadas em dogmas da política. as abstrações do passado vão. previamente selecionado por determinado tipo de su­ frágio. quem se refere à democra­ cia. 2. Entretanto. mas o voto é um ato de escolha. Quanto ao fundamento da soberania. nada mais é do que o instrumento para exercer o direito de deliberação ou de escolher candidatos a cargos políticos. o cidadão. Quanto ao voto. inevitavelmente. refere-se. O sufrágio-direito parte de Jean-Jacques Rous­ seau. o eleitorado está elegendo.5) Sufrágio e voto Tanto a democracia representativa como a democracia semidireta apresentam um pressuposto que se destaca de imediato. um processo de escolha de eleitores. afirmam alguns doutrinadores. enfim. estabelecidos na própria Constitui­ ção. fica esclareci­ do quem terá o direito ao voto. qual seja. Pelo sufrágio. pode haver votação sem eleição . então. No mundo moderno. o da existência de um corpo eleitoral periodicamente renovado. portanto. Entretanto. começam a perder o en­ canto original. implan­ tação do divórcio. simplesmente. O súdito. Que é. Tais requisitos. Belas ficções. sendo cada cidadão uma parcela da coletividade política. àqueles que têm o direito dc votar. Pelo sufrágio. ao conjunto daqueles que são dota­ dos de cidadania. para se sa­ ber quem terá o direito de votar c preciso. ao votar. o homem abstrato vão deixando o seu lugar para um ser totalmente novo. com muita graça. quando. o nacional passa a ser cidadão. constituem o sufrágio. ao eleitorado. nas deliberações dos governantes. Por isso. livre e consciente. adoção de determinado regime dc gover­ no. o sufrágio apresenta duas espécies: o sufrágio-direito e o sufrágio-função. decide diretamente a respeito dc determinado assunto. e sen­ do a soberania indelegável. diz-se que há votação. é costume dizer que há eleição. descreve em seu precioso opúsculo sobre a democracia. mediante o sufrágio. é ele titular de parte ou fração da própria soberania. e esta não admite repre­ sentantes” . Quando o eleitorado.

ela é a própria permanência da comunidade no tempo. perceptível aos sentidos. um vínculo dc compulsoriedade. irremediavelmente. segundo Siéyès. não podendo a nação manifestar-se diretamente. por intermédio do povo. repita-se. mas cumpre uma função inafastável. Esta espécie de sufrágio teve seu apogeu com a liberal-democracia burguesa. mas o fundamento desta continua a residir na nação. poderá sacrificar. da mesma forma que uns poucos demonstraram capacidade de trabalho e de realização pes­ soal. fundado no volume de bens de que cada cidadão pode dispor. mais rapida­ mente a sociedade consolidará o governo dos melhores. Seu fundamento ideológico reside na argumentação de que o Estado deve preparar uma elite governante. os representantes de uma entidade ideal. então. A nação. Povo. O povo transforma-se. portanto. no caso. é mais do que isso. seria o conjunto das pessoas coetâneas (mesma idade) e contemporâneas (mesma época). obtiveram o direito de dirigir a coisa pública. inarredavelmente. do exposto. Assim. uma ideia. não se confunde com o povo. os interesses per­ manentes da comunidade. e. enfim. mas permanente: a nação. e para usar uma terminologia de Ortega y Gasset. O povo elegerá. Daí a sugestiva denominação dada ao sufrágio que expressa a soberania nacional: sufrágio-função. e não apenas dele. Cada cidadão é titular da fração da soberania que lhe cabe. Cada época histórica consagrou um tipo determinado de sufrágio. Segundo a doutrina do sufrágio-direito. consequentemente. em determinado momento da vida da nação. Ora. Aquela é uma simples comunidade organizada e considerada num dado momento histórico. Em outras palavras. com isto. Bem diferente se mostra a teoria do sufrágio-fun­ ção. é uma entidade espiritual. Tais representantes serão os titulares do exercí­ cio da soberania. devem ar­ car com tal ônus. como pode um ente abstrato manifestar sua vontade. abstrata. Ora. Assim. compulsória: a de votar. aqueles que irão fazê-lo em seu nome. por ser uma en­ tidade abstrata. o povo. povo. ser obrigatório. o sufrágio censitário. A nação. que. não cons­ titui uma obrigação à qual corresponda. um órgão por intermédio do qual a nação expressa a sua vonta­ de. portanto. porém.134 Teoria Geral do Estado ninguém pode subtrair aos cidadãos”. que se mostram nas gerações que se suce­ dem. O eleitor não exerce ape­ nas uma faculdade. Por outro lado. Percebe-se. no sé­ culo XIX. entre indivíduo e Estado. tem-se como certo. Ela parte de Emmanuel Joseph Siéyès. excluídas as gerações passadas e futuras. O voto deve. no eleitorado que levará ao poder os representantes da nação. para fruir de um maior bem-estar material. portanto. amealhando considerável patrimônio e. destacando-se dos demais. A nação. O eleitor é mero instrumento de manifestação da vontade nacional. uma vontade coletiva? N ão há outra alternativa: por intermédio de uma comunidade concreta. sob . e que nem sempre coincidem com os interesses passageiros de uma única ge­ ração. participar do processo eleitoral é mais uma faculdade do que um direito público subjetivo. com sua concepção de nação. que estará. o direito ao voto. e a exerce como lhe apraz. na participação política. seus interesses permanentes. restringindo-se o direito ao voto. pois. o povo. diz.

o voto feminino aparecc. Em 1929 foi eleita a primeira prefeita do Brasil. nos Estados Uni­ dos. nos Estados Unidos da América do Norte. aos censores. estudante de Direito.. na antiga Roma republicana. em face do qual somente votam aqueles que demonstrarem um nível míni­ mo de erudição e informação política. apenas a partir de 1971. mer­ gulhados nas sombras de uma vida mesquinha e medíocre. aqueles que não apresentassem uma renda mínima anual. A expressão ccnsitário deriva de censo. e dos bens de cada cidadão. pleiteou e obteve. somente o homem pode votar. algumas entidades federadas exigem que o direito ao voto esteja vinculado à capacidade de entender o disposto na Constituição. atribuição conferida.6 Formas de governo 135 excelente gestão. mas a con­ solidação do direito de a mulher participar do processo político. também consagrava o sufrágio censitário. principalmente da política. pela primeira vez. esta. o parlamento. no Rio Grande do Norte. desinteressados de tudo. entretanto. com a Emenda X IX . excluindo do direito de voto. No Bra­ sil.03.1824. por completo. Alzira Floriano. O sufrágio ccnsitário existiu a partir de 1850. alienados. Na Suíça. no mais das vezes. quan­ .. adotada ainda hoje. com Getúlio Vargas. Ainda hoje. Já se percebe que o fundamento desta espé­ cie de sufrágio é afastar do processo político os inaptos. em 1927. somente incorporado à Constituição Federal em 1920. inicialmente. pois as mulheres votaram para a escolha de senadores. dos quais o primeiro era composto pelos cida­ dãos mais afastados. seria formada pe­ los ignorantes. o direito de as mulheres participarem do processo político aparece. é o sufrágio cultural ou capacitário. di­ zem seus defensores. cuja denomi­ nação já revela que. o sufrá­ gio racial. na Prússia. A Constituição do Império do Brasil. com fundamento no art. sem discriminação expressa da mulher. 92 e 94. veio somente em 1932. semoventes. que definia os eleitores como os cidadãos maio­ res de 21 anos. As mulheres são excluídas do direito ao voto sob a alegação de sua “inabilidade congênita” e “insensibilidade para as questões políticas”. Fm 1928. mas também de ser vo­ tada. Nesta espécie de sufrágio. permitindo a consolidação de uma elite intelectual. No Ocidente. Outra espécie de sufrágio. Mietta Santiago. nos arts. Os votos foram anulados. em 1869. de forma dissimulada. que dominavam. nos seus termos. Por exemplo. c o seu direito não devia ultrapassar o âmbito estadual. embora do­ tado de ínfima representação. de 25. por intermédio do Código Eleitoral brasileiro. O terceiro e úl­ timo estamento compunha nada menos do que 83% dos contribuintes. no Wyoming. fica patente a distinção entre povo e massa: aquele. não apenas o direito de votar. seria cons­ tituído pela camada mais informada. em sua plenitude. Uma terceira espécie de sufrágio restrito é o sufrágio masculino. com a divisão dos contribuintes cm três estamentos. adotado. Paulo Bonavides refere-se a uma odiosa espécie de sufrágio restrito. os ignorantes e os analfabetos. e que consistia na exata aferição do nume­ ro de pessoas. 7° da Constituição Federal. realmente interessada no aperfeiçoamento das instituições e na realização dos objetivos sociais.

a Constituição de 1988. veladamente. § 2o). nível de conhecimentos. qua­ se absoluta. e nem poderia ser de outra forma. Tal invectiva não colhe.é bom notar . não po­ derá restringir o eleitoral além dos limites preestabelecidos na Constituição. em vigor. A própria expressão universal já revela que deve ter o direito de voto a universalidade. 14. portanto. Na verdade. § I o. A regra. 14. raça. contudo. Até a Emenda Consti­ tucional n. estando. o que se pretendia era excluir os negros do processo político. c).. 25. é aquele que busca conferir o direito de voto ao maior número possível dc nacionais.136 Teoria Geral do Estado do a legislação do Estado do Mississipi. § I o. que mesmo o sufrágio universal comporta restrições ao direito de voto. a concessão do direito de votar ao analfabeto não se justifica. Esta. con­ tribui para com o aprimoramento da vida em sociedade. A diferença é puramente quantitativa: os impedimentos do direito de voto. não será aumentando o número de participantes do sufrágio que este ficará. o analfabeto não tinha o direito de votar. distinção essencial en­ tre sufrágio restrito c sufrágio universal. São restrições que . II.1985. independentemente de sexo. § 4o). nos Estados Unidos da América do Norte. religião. obedecendo-se. seja qual for o ponto dc vista que se adote para o problema. compreender e interpretar “convenientemente” a Constituição. Evidente. sen­ do inelegíveis os inalistáveis e os analfabetos (art. que alterou a Constituição Federal de 1967. isto é. a). ou em face de seu esforço próprio. ele passou a ter o direito dc voto facultativo (art. II. pois cada qual. Com tal Emenda e. obriga a ler. Quanto ao sufrágio universal. 14. atualmente. a um critério menos capacitário do que racial. de 15. Da mesma forma que cem tolos não formam um sábio. aliás os grandes beneficiários desta infortunada ampliação do sufrágio. art. Oportuna a observação de Paulo Bonavides: . posteriormente. como a ob­ tenção de níveis mais altos de escolaridade. constituem exceções ao sufrágio universal os menores de dezes­ seis anos (CF. tais restrições não podem ser ampliadas mediante lei ordinária. Poder-se-ia argumentar com o fato de que alguns analfabetos se interessam muito mais pelos problemas políticos e sociais do que muitos cidadãos alfabetiza­ dos. mais aperfeiçoado. é que o analfabeto torna-se.. 14. a generalidade das pessoas. pois a cada momento da vida o nacional vai abatendo-as. porque não se argumenta com exceções. excluído do sufrágio uni­ versal. portanto. necessariamente. um instrumento nas mãos dos demagogos sequiosos de votos. no sufrágio restrito. portanto.não são inexpugnáveis. são mais numerosos do que no sufrágio universal. infelizmente. É bom notar que as restrições ao direito de voto numa ordem jurídica que consagra o sufrágio universal estão previstas somente na própria Constituição. A rigor todo sufrágio é restrito. os estrangeiros e os conscritos (art. Não há sufrágio plenamente universalizado e não há. em razão da idade e do con­ seqüente amadurecimento pessoal.05. No Brasil.

não se atribuindo a prerrogativa do sufrágio tão só a uma minoria qualificada por tí­ tulos formais de sabedoria ou a uma aristocracia de classe. o postulan­ te à cidadania. como. De conseguinte deve ele submeter-se a singela prova escrita . Não seria absurdo dizer-se constituir a ignorância do cidadão terreno fértil à expansão de­ magógica. se não se tem co­ nhecimento de suas atribuições e nem sequer se sabe o que é o Senado ou a Câmara dos Deputados? Daí a razão por que julgamos absolutamente imprescindível para a constituição de uma democracia qualitativa e real. a observação dc Pedro Salvetti Netto. uma comprovação de habili­ tação política. Daí . in verbis: Como escolher-se. onde cidadãos conscientes e politi­ camente responsáveis participem do processo eleitoral. pois ninguém pode dizer-se infenso ao poder pessoal. à outorga do título de eleitor. com fa­ cilidade. mas necessários. pela qual o candidato à cidadania demonstre conhecimentos mínimos.6 Formas de governo 137 Quanto ao argumento que gira ao redor da dialética qualidade-quantidade. eficazmente debelado. qualificar-se-ia o regime democrático. não resta dúvida que o princípio democrático envolve da parte do colégio eleitoral uma compreensão política mais apurada. como ocorrido na Alemanha intelectualizada de Hitler. difícil de formar-se no seio da multidão espessa e ignara. Tal como o candidato àquela outorga. a respeito. falto dos predicados essenciais ao seu exercício e néscio sobre os prin­ cípios políticos institucionais que a informam. por exemplo. seria subsídio valioso para a constituição de um eleitorado consciente e responsável. carismático e místico do demagogo. o princípio qualita­ tivo do que o princípio quantitativo. encontra dois caminhos para alastrar-se: a ignorância e a crença. sem impedir-se o defe­ rimento da cidadania àqueles que demonstrassem possuir as condições elementares para seu exercício racional. torna-se natural ameaça ao regime de­ mocrático. Com isto. A exigência de um conhe­ cimento mínimo relativo ao mecanismo de governo. forma impura do governo democrático c capaz dc. à que se faz mister para a concessão da carteira dc habilitação para dirigir . tais providências valeriam para diminuir os perigos da demagogia. Por outro lado. siglas c regras básicas dc trânsito. sem o que se tornaria evidente perigo à integridade física e ao patrimônio de todos. A singeleza da prova eliminaria a formação de um colégio eleitoral elitista. Um colégio eleitoral qualificado pelo conhecimento necessário e básico da organização constitu­ cional e do funcionamento do governo o eliminaria do processo político-elcitoral.versando. impor-sc na proporção direta da dcsqualificação política do eleitorado. Daí pesar mais em favor do bom mecanismo institucional do governo demo­ crático. Esta. um senador ou um deputado.semelhante. sobre rudimentos da organiza­ ção político-constitucional. porém. é absolutamente certo que o germe da igno­ rância não só pode ser combatido. que deve revelar um conhecimento tcórico relativo aos sinais. como governo dc livre manifestação da vontade popular. na forma. com efeito. Incisiva. Ainda que se mostre mais difícil o afastamento da segunda. assimilável por todos os que sai­ bam ler e escrever. também.

está submetido à burocracia estatal e ao poder econômico.13 8 Teoria Geral do Estado porque não nos sensibiliza a pregação. o voto é dito indireto quan­ do o eleitorado elege. Até o advento da Emenda Constitucional n. secreto ou aberto. para nós demagógica. subdividindo-se este úl­ timo em escrito e verbal. como qualquer raciocínio lógico rejeita a exceção para a pesquisa da verdade metodológica. em face do pequeno número de seus integrantes. classifica-se. em segundo grau. em secreto ou aberto. 14. sem intermediação. fa­ rão. 25. ensejando a prudência das designações. O fundamento do voto secreto é evitar pressões sobre o eleitorado. o eleitor. Os argumen­ tos em desfavor do voto indireto também são ponderáveis: a) caráter manifestamente menos democrático que o sufrágio direto. de viseira erguida. cuja influên­ cia toma. b) atua o voto indireto como força moderadora. Vianna. intermediários. sendo Tancredo Neves o último candidato eleito por um colégio eleitoral restrito. razão pela qual o voto secreto acalmará as preocupações legítimas e reanimará os poltrões. dos votos do analfabe­ to. b) o voto indireto não raro é empregado como meio de resistir ao sufrágio universal. tal só pode consti­ tuir situação excepcional e. proporção máxima. Quanto ao voto. a tendência moderna é francamente favorável ao voto secre­ to. não deve ter o direito de votar. como já vimos. por sua vez. entretanto. assim. caput). não seria este o argumento hábil capaz dc refutar a proposição por nós sustentada. Com efeito. Os ad­ versários do voto secreto retrucam: ele é mais uma prova da desilusão das demo­ cracias modernas. na sua forma de expressão. que melhor assegura a independência do eleitor a que se tem procurado cercar de todos os elementos materiais para garantir o sigilo. de modo que os eleitores secundários . escolhe seus próprios re­ presentantes. abrindo espaço à reflexão. Na ver­ . por inteiro. é mais suscetível a pressões e à cor­ rupção. inicialmente. pois este não se sente estimulado a participar de uma eleição que não é decisiva. O voto pode ser também. O voto é direto quando o eleitor. porquanto. c) o colégio eleitoral de segundo grau. a escolha definitiva dos governantes. pois o eleitor que não tem coragem e senso de responsabilidade para votar abertamente. Como acentuam Rodrigo Octavio e Paulo D. que. por via dc regra. embora possa haver entre aqueles ignorantes no ler e escrever alguns naturalmente sensíveis às coisas públicas e com elas preocupados. delegados. portanto o poder de decisão da massa sufragante se transfere. É a espécie adotada pela Constituição brasileira (art. enfreando as paixões políti­ cas. de 15.ficam em condições de sufragar ou selecionar os mais capazes e competen­ tes. em direto ou indi­ reto e.05. o voto para a eleição do Presidente da República era indireto. d) o voto indireto ocasiona volumosa abstenção por parte do eleitorado de primeiro grau. Então. para o corpo eleitoral intermediário.1985. Paulo Bonavides apon­ ta os seguintes argumentos a favor ou contra este tipo de voto: a) os graus interpostos operam como filtros. em qualquer destas espécies.eles mesmos já uma elite .

propiciando um controle mais efetivo dos candidatos eleitos. mas deve ser facultado ao eleitor manifestar secreta ou abertamente sua escolha. isto pelo seguinte: no sistema proporcional. no mais das vezes. todos aqueles que. Assim. no caso. afirmam. O voto aberto pode ser escrito ou verbal.6 Formas de governo 139 dade. Aplica-se ao artigo em epí­ grafe. aquele que. O voto distrital funda-se no princípio de que a escolha dc parlamentares pelo eleitorado deve ocorrer em âmbito o mais reduzido possível. com grave risco para sua liberdade de manifestação de pensamento. um partido político revelam. um movimento político e. Análoga é a situação do voto aberto. o voto distrital torna os partidos políticos mais homogêneos. tão caro ao legislador pátrio. desejar expressar aber­ tamente sua vontade. portanto. professam as mesmas ideias. nem por isso desdenha sua plena realização como ser social. Afirmam os defensores do voto distrital que este atrai os candidatos para mais perto do eleitor. 2. tende a se agregar aos seus semelhantes de forma orgânica. expressamente. com apa­ . pertinente ao âmbito espacial de atuação do candi­ dato eleito.6) Partidos políticos A formação de associações que visam alcançar um objetivo político determi­ nado vai longe na História. ao passo que. Por outro lado. forte na sua ideologia. Por esta espécie dc voto o cidadão elege representantes dc seu próprio distrito eleitoral (daí a adjetivação distrital). a interpretação finalística ou teleológica. O art. a ânsia de participação efetiva do homem nos problemas da comunidade em que vive. não deve ser impedido dc faze-lo. O voto é obrigatório. dc modo a compati­ bilizar população e território. que congregam indivíduos que. sua vontade. pelo sistema distrital. cada candidato concorre com outros candidatos de partidos diferentes. formando grupos. Na verdade. ensejando um maior contato entre o candidato e even­ tuais eleitores. de modo a minimizar a influência do poder econômico e dos meios de co­ municação nas eleições. em busca de objetivos mais eleva­ dos. comerciais. enfraquecendo o próprio partido. tendo inclinações co­ muns. este também conhecido como ostensivo. esportivas. uma facção política. É sabi­ do que o homem. finalmente. As sociedades podem apresentar as mais diversas fina­ lidades: culturais. ser social. Obrigar o eleitorado a votar secretamente parece-nos mais uma exacer­ bação do formalismo. políticas. sim. Espécie de voto que vem amealhando número cada vez maior dc simpatizan­ tes é o chamado voto distrital. pois a finalidade do dis­ positivo é garantir o sigilo do voto apenas para aqueles que acharem inconveniente revelá-lo.4. candida­ tos de um mesmo partido se digladiam na mesma região eleitoral. entretanto. Buscando sua realização pessoal. econômicas e. caso em que se obriga o eleitor ou o delegado a revelar. a solução satisfatória deveria estar no meio-termo. 14 da Constituição brasileira não deve ser interpretado literalmente. Vota secretamente quem se achar coagido ou temeroso de manifestar de modo aberto sua opinião.

Modernamente. ademais. também. Ainda na sociedade estamentária medieval. como foi o caso de guelfos e gibelinos na Alemanha e. O partido político visa à conquista do poder nos termos da lei. à Antiguidade Clássica. com o qual todos os seus membros sc acham de acordo. Da mesma forma. pelo menos. pelo menos. hoje. Daí a sugestiva definição de partido político que nos oferece Povina: “agrupamento permanente e . porque a própria ideia de partido pressupõe a existência de. no interesse destas c dos nobres. as facções políticas surgem quase sempre vinculadas aos seus estamentos. num pro­ cesso de cooperação. a diver­ sidade de opiniões políticas não se manifestou mediante partidos como entende­ mos. Com o aparecimento do Estado liberal-democrático. cada uma dela dirigida por um líder. a fim de impor sua própria cosmovisão a todos. a assertiva de Marx de que o partido político é sempre um órgão de classe. não se confunde. no Esta­ do absolutista. na Itália. Somente a partir de 1770. do latim pars. procurando minar as diretrizes aprovadas pela maioria. contu­ do. as facções estruturam-se à luz das dinastias reinantes. portanto. um partido não se confunde com a mera facção política porque ou é reconhecido ou. com a eliminação de todo e qualquer ideário diverso. que procura congre­ gar o povo numa ideologia política exclusivista e intransigente. mediante o emprego de um processo es­ pecífico. Ora. Georges Burdeau definiu o partido como a associação de caráter político organiza­ da para dar forma e eficácia a um poder de fato. a facção utiliza-se de todos os meios para atingir e man­ ter o poder. o interesse nacional. ainda nos séculos XVII e XVIII não se fazia distinção entre par­ tido e facção política. mas mediante facções da burguesia. alegam desinteresse pela atividade política direta ou indireta não cumprem um dever cívico inafastável c contribuem para o surgimento das dema­ gogias. Esta. com o movimento político excludente dos partidos. Por isso. e não se confunde. corroborando. muitas vezes. O surgimento de facções políticas remonta. den­ tro do próprio partido. como uma entidade rebelde que se posiciona. depois. questões políticas gravíssimas ensejaram lutas entre suseranos e vassalos. tolerado pela lei. a antiga Grécia e Roma. duas partes (daí. a burocracia c o reconhecimento legal de que hoje desfrutam os partidos políticos. no caso. a noção de partido político começa a ser delineada: grupo de pessoas que se unem para promover. originando o apa­ recimento de inúmeras facções políticas. sem­ pre sob a liderança dc um homem virtuoso ou dc um mecenas disposto a financiar uma ideia. a expressão partido. Ela surge de maneira autônoma. com o movimento político. longe estavam dc possuir a estrutura.140 Teoria Geral do Estado tia e indiferença. dizia Bluntschli. que são o desgoverno das massas despolitizadas. é a caricatura do partido. Até mesmo simples caprichos de família provocariam dissensões formadoras de grupos políticos inimigos. Tais facções. com Edmund Burke. que designa uma fração do todo). Seja como for. na Idade Média. Da mesma maneira que o partido político não se confunde com a mera facção política. a expressão partido político.

e tivemos. para o predomínio de um partido sobre os demais. Hobbes afirmou. portanto. John Adams. E o instrumento median­ te o qual uma ideia de direito busca sua realização. saaverista. para os quais o regime de pluralidade partidária descambaria. reconheceu. inteiramente válida se mostra a observação de Mac Iver de . o veículo utilizado por uma grande corrente dc opinião pública para conquistar o poder. Modernamen­ te. muitos se associaram às cores. mais tarde. republicano. que vem a ser a conquista do poder. liberal. facilmente. Como accntua Burdcau. os partidos lembra­ ram. que rejeitava todo e qualquer corpo social entre o poder e o cidadão. natural­ mente. são os partidos ideológicos. comunista e assim por diante. os negros e os verme­ lhos. conservador. determinado programa político-social”. cm sua nominação. considerando-se o verdadeiro porta-voz da comunidade. Tornaram-se. tendendo a impor à coletividade uma unificação espi­ ritual pelo reconhecimento de sua infalibilidade. peremptoriamente. tenderia. que demonstrava certo receio pela divisão da repúbli­ ca norte-americana em dois grandes partidos. a ideologia abraçada: monárquico. pelo que surgiram os polí­ ticos setembristas. os partidos buscam revelar. Seja como for. Denominações ainda mais pitorescas jamais fal­ taram para tais agremiações: wbigs (escória). o partido digno desse nome é um grupo or­ ganizado que disputa o poder para realizar uma política. opinião ainda lembrada por autores de renome. por excelência. Em sua obra De eive. bonapartistas. Aqueles que se inspiraram nas ideias de representações políticas de Jean-Jacques Rousseau repudiaram o partido político. mediante a conquista legal do poder público. representado por uma ideologia comum ou dc interesses comuns. os brancos. então. c a finalidade política. outubristas e dezembristas. em sua denominação. pois este pensador era adepto ferre­ nho da democracia individualista. A denominação atribuída ao partido é muito importante para sua imediata identificação. socialista. janista. O moderno partido político . tories (bandidos) etc. Na verdade. que a divisão da sociedade em partidos geraria a revolta e a guerra civil. como é o caso dos movimentos de índo­ le totalitária. Tal observação não deixa de ter fundamento na epoca dc partidos dc massas cm que vivemos. outros tomaram a denominação dos meses do ano. Cada partido. fascista. A História registra casos curiosíssimos de denominações de partidos. que a verda­ deira solução para a existência destes residiria em controlar rigidamente sua ativi­ dade. os nomes de seus inspiradores: orleanistas. em razão dc seu dogmatismo espiritual e seu im­ perialismo político. Em outros casos. causas de supressão da própria ideia de democracia. Por isso. entretanto.assinala Ferreira Filho e. ademarista etc. Todo partido pressupõe dois elementos: o vínculo sociológico. mais dinâmicos c objetivos. a se tornar intolerante para com os outros. se pro­ põe a realizar. irremediavelmente refratários à sua integração nos mecanismos tradicionais da democracia.6 Formas de governo 141 organizado de cidadãos que. na direção do Estado.

as únicas formas de alcançar o poder seriam o gol­ pe de Estado. c a expressão pluralidade re­ vela qualidade atribuída a mais de um ser ou coisa. desde que os dois partidos sejam efetivamente homogê­ neos e disciplinados. As­ sim o ideologicamente representado não se sente representado quanto a seus interesses econômicos. fundamentalmente. condições de chegar ao poder. seria imperdoável equívoco supor que o sistema bipartidário significa. mas geralmente o sistema se encontra de tal for­ ma estruturado que apenas dois partidos reúnem. nesta obra. como lembra Bonavides. b) pluripartidário (dois ou mais partidos). sucintamente. Eles aí estão c. A multiplicação desordenada dc partidos. Ensejando a contraditoriedade dos princípios ideológicos cada vez mais díspares. que jamais poderão ser cobrados pelo eleitorado. ou frações pon­ deráveis destes. aparentemente consolidadora do ideal da representação política. Pouco sentido prático teria. dois sistemas partidá­ rios: a) monopartidário (partido único). E Manoel Gonçalves Ferreira Filho considera o bipartidarismo o sistema partidário ideal. permanentemente.142 Teoria Geral do Estado que. pois. a existência tão somente de dois partidos. para representá-los enquanto horticultores ou artesãos. sem os partidos políticos. Obrigados a incluir sob seu manto protetor categorias sociais que envolvem os mais díspares interesses. Acentua Duverger que. na verdade. ha­ verá. literalmen­ te. A própria palavra plural refere-se a mais de um. não raro sociais. aumentam as divergências e a desorientação popular. criam programas de ação absolutamente quiméricos. a maioria dos autores afirma a existência de uma classifica­ ção supostamente mais precisa: a) bipartidário. O Estado contemporâneo apresenta. dualidade de tendências. des­ vinculados da realidade. profundamente afetados pelo Estado-providência. no mais das vezes. porém. A verdade é que haverá pluralidade partidária onde houver dois ou mais par­ tidos. na verdade o condena. só nos resta analisá-los. em suas linhas básicas. junto aos órgãos de planejamento econômico e semelhantes. . b) pluripartidário. portanto. é possível que vá­ rios partidos concorram às urnas. a insurreição ou a revolução. embora não haja no Estado dualismo partidário. inexequíveis. c) monopartidário. enquanto ope­ rários ou industriais. uma longa digressão a respei­ to da conveniência ou não dos partidos políticos. Das mais oportunas é a advertência de Ferreira Filho: Raramente o deputado escolhido para representar a ideologia predominante num eleitorado é o mesmo homem que seria escolhido por seus eleitores. Por outro lado. Aliás.

mas a utilização deste em proveito próprio. pela qual o povo esco­ lheria muito mais um programa de ação do que representantes. o que não ocorre.6 Formas de governo 143 Os partidos políticos encontram fortes concorrentes nos grupos de pressão. referindo-se às sociedades em geral. A legislação norteamericana. Daí a impor­ . quase sempre. Mais: o partido político é reconheci­ do ou tacitamente admitido pela lei. que transcende os meros interesses in­ dividuais de seus filiados. houve por bem reconhecêlos. exigindo que os grupos empenhados em defender interesses particulares junto ao Congresso estejam devidamente registrados e dotados da competente conta­ bilidade. Não se confundem com os partidos porque seu objetivo não é a to­ mada do poder. que se acha. nova e superior unidade. adotando uma estrutura interna bastante maleá­ vel para atrair o maior número de simpatizantes. que. os representantes da coletividade têm enfraquecida sua individualidade a favor da vinculação integral às diretrizes dos partidos. surgem como o fruto de novas condições socioeconômicas criadas pelo capitalismo e pela falta de representatividade dos par­ tidos políticos. enquanto o do partido é político. A moderna concepção dc democracia não se compadece da democracia indi­ vidualista. São partidos de massa porque as individualidades renunciam à sua autonomia em proveito do partido. no mais das vezes. tais interesses pertinem. por outro lado. Além disso. a partir do momento cm que os partidos de opinião vão cedendo terre­ no aos partidos de massa. passam a ser substituídos pelos partidos de massa. Acentua Burdeau que à democracia política sucede a democracia social. com o grupo de pressão. A fideli­ dade partidária consagra a chamada democracia partidária. como assinala Bonavides. não podendo eliminar os grupos de pressão. se destaca em razão de sua disciplina e do seu dogmatismo doutrinário. O partido. que reúnem seus filiados com base na situação econômica de cada um. o objetivo do grupo dc pressão é quase sempre econômico. sem considerar as condições eco­ nômicas de cada um. passa a ter um objetivo mais palpável. em verda­ deiro mandato imperativo de índole partidária. no transcorrer do século X X . Os métodos empregados pelos grupos de pressão variam conforme as circuns­ tâncias: apoio eleitoral a um partido que com eles se ache comprometido. pressão direta sobre os membros do poder executivo ou do legislativo. a existência de um partido deve ser permanente. como diria Giorgio dei Vecchio. Os tradicionais partidos de opinião. a de­ mocracia governante. Estes. a toda a coletividade. Um partido político deve estar estruturado numa ideia e num programa exe­ qüíveis. que buscavam evitar dogmatismos compromete­ dores dc suas transações políticas. dos homens situados e não mais dc cidadãos abstratos. à margem do ordenamento jurídico. ao passo que o interesse do grupo de pressão é transitório. pelo menos mediatamente. por outro lado. Embora organizado em torno dos interesses de uma parcela do povo.

a adaptação do programa geral às novas situações. cujos interesses seriam comuns. por via de conseqüência. mais do que um partido. Disso os adeptos deste partido concluem. Não pode haver. via de regra. qual seja. um cxcclcntc veículo para a transmissão simplificada das ideias. mas um organis­ mo em permanente elucubração e modernização doutrinárias. O partido único. mas que. Um partido político não deve ser o túmulo do pensamento. expresso sob quatro aspectos: a) visão do mundo ou cosmovisão. existiria apenas uma classe. No to­ cante às plataformas eleitorais. o próprio Partido Comunista. movimento este que tanto pode congregar uma nação (Itália fascista c Alemanha nacional-socialista). numa sociedade de mas­ sas. vem a ser muito mais um m ovim ento de reação antipartidária do que um partido propriamente dito. Tais plataformas exigem. cujo apogeu foi alcançado no período compreendido entre as duas Grandes Guerras. Tais órgãos poderão ser diretivos e burocráticos. Por outro lado. filia­ dos e simpatizantes. pois cada partido representaria uma classe social. Quanto ao progra­ ma ideológico. As motivações simbólicas (slogans) vêm a ser. como uma clas­ se (proletariado. mediante a adoção de uma cosmovisão (W eltanschauung) que represente uma interpretação clara e consciente do universo.ou contra . Um partido político seria parte de uma classe social determinada. daí a existência de vários partidos numa sociedade formada por classes antagônicas. c) plataformas eleitorais. a Alemanha nazista encontraram inspiração para seu m ovim ento no próprio marxismo.144 Teoria Geral do Estado tância da interação partido-sociedade-interesses na propagação e cumprimento de um sistema ideológico plausível. o auxiliam. não podem filiar-se ao partido. Os filiados são aqueles regularmente inscritos ao partido e do­ tados de direitos e deveres partidários. indiretamente. b) programa ideológico. com muita graça e sagacidade. em seu funcionamento. cada partido apresenta. No tocante à m ilitância partidária. na URSS). o partido deve apresentar uma orga­ nização administrativa e uma estrutura material destinadas a garantir a sua nor­ mal atividade. estabelecendo soluções exeqüíveis. por vá­ rias razões. todo partido deve sustentar-se num conjunto de princípios ideoló­ gicos sólidos e coerentes acerca dos problemas do Estado. Os simpatizantes são aqueles que. contudo.outros partidos nas sociedades não marxis­ . Diga-se de passagem que a Itália fascista e. não a demagogia. No Estado socialista. nas quais impere a franqueza e a sinceridade. devidamente transmitida aos eleitores. portanto. que o Partido Comunista sempre afirmará o seu di­ reito de lutar ao lado de . d) motivações simbólicas (slogans). a palavra-chavc ou o sinal distintivo do partido. os integrantes do partido deverão adequar o pro­ grama geral do partido às tendências e necessidades de cada circunscrição eleito­ ral. Este afirma que a pluralidade partidária espelha a própria luta de classes. para uma só classe. Poderão scr o grito dc guerra. também. a dos operários e camponeses.

mas reivindicará sua exclu­ sividade 110 advento do Estado socialista. aglutinaram-se em dois grupos antagônicos. apenas a representação organizada de uma classe. Eis por que a vigente Constituição soviética se refere ao Estado socialista como o Estado de todo o povo . e em face da menoridade de seu filho. os moderados continuam a .. afirmava que o partido é parte da classe.6 Formas de governo 145 tas. durante o Primeiro Reinado (1822-1831). Regência Trina Permanente (1832-1835). num partido político. tenham desaparecido as classes sociais. por exemplo. de apoio ao Impera­ dor Pedro I e. com a Assembleia Geral ou Parlamento. em vigorosa expressão que seria encampada pelas Constituições soviéticas. hostis e inconciliáveis. oposicionista. um situacionista . Nem por isso os marxistas deixam de continuar afirmando que o proletariado deve estruturar-se num movimento políti­ co destinado a sustentar sua missão de exercer uma ditadura que permitirá a abo­ lição das classes e do Estado. cujos inte­ resses se mostram. ser dever do pro­ letariado organizar-sc numa classe. ainda não se pode falar em partidos políticos. nesta última proclamada a maioridade de Pedro II. o Brasil passou por vá­ rios períodos de governo denominados Regências. Na verdade. a tese marxista torna-se vulnerável quando se consta que não foi demonstrado. sua parte mais progressista. Franz Oppcnheimer. Formam-se espontaneamente dois grupos. levando a efeito uma política conciliatória. o partido único foi enaltecido. Por outro lado. os absolutistas e os liberais. afirmava ser o partido a vanguarda organizada e disciplinada do proletariado re­ volucionário. principalmente desde 1826. propugnando uma descentralização mais sim­ pática às províncias. o que vem a dar no mes­ mo. Joscph Stalin. quais sejam Regência Trina Pro­ visória (1831-1832). divididos em duas facções. atuantes de forma franca e aguerrida. respectivamente apoiando ou se opondo ao Imperador. Regência Una do Padre Feijó (1835-1837) e Regência Una de Pedro de Araújo Lima (1837-1840). que nclcs existe somente uma classe ou. ao contrário dos exaltados. formado por liberais. Marx afirma. sendo que o pluripartidarismo so­ mente pode existir numa sociedade onde haja antagonismos de classes. tam­ bém marxista. de forma unânime. que se apoderam dos principais cargos gover­ namentais. ao passo que Lenin. com a abdicação dc Pedro I. 2. declarava que o partido é. Durante o período regencial as posições políticas vão ficando mais bem definidas. em nome da pluralidade de classes nelas existentes. o outro.1) Os partidos políticos no Brasil No Brasil.4. Doutrinariamente. no célebre M anifesto comunista. ainda. Durante a Regência Trina Provisória prevalecem os oposicionistas. Numa de suas escassas referencias aos partidos políticos. nos Estados de ins­ piração marxista.6. mas cm facções que. por to­ dos os teóricos do marxismo. Na Regência Trina Permanente. a dos moderados. na sua origem e continuidade. na Assembleia Constituinte de 1823. ipso facto. mutuamente..

explo­ siva contra o Poder pessoal. O governo parlamentar. nas sociedade maçônicas e principalmen­ te na Imprensa. com a institucionalização da ideia de Regência Una. continuamente. Na verdade. nun­ ca existiu aqui. Havia . que a Constituição confiava à Coroa. supremo regulador do sistema parlamentar. Ora. foram vencidos por Caxias. alcunhados luzias porque ligados à Revolução Liberal de 1842. o qual. de orientação liberal. isto é. Faltavam à nossa sociedade todas as condições para isto. é essencialmente um governo de opinião. Em 1835. Benjamin Constante Lopes Trovão. era quase sem­ pre um reflexo americano das agitações europeias. Esta opinião. embora sem grande prestígio de início. com a proclamação da República e a queda do Gabinete do Visconde dc Ouro Preto.146 Teoria Geral do Estado controlar o poder. no poder. que se seguiu ao gol­ pe do Imperador contra os liberais em 68. alhures. denominados caramurus. tinham como plataforma a volta de Pedro I ao poder. os Partidos Conservador e Liberal foram os mais importantes para não dizer os únicos . Só exprimia realmente o pensamen­ . capaz dc governo.uma opinião informe. considerado pelos liberais como uma deturpação do Po­ der Moderador. os liberais desejavam a abolição e maiores liberdades para as províncias. pudesse funcionar aqui com a mesma perfeição com que funcionava entre os ingleses. como já vimos. E a verdade é que esta irritação era inevitável. que era a que se formava nos centros universitários. inorgânica. evocando o município fluminense de Saquarema. na locali­ dade de Santa Luzia. Vale lembrar que já cm 1870 fora criado o Partido Republicano. esta opinião pública organizada.partidos do Império. sob a pitoresca denominação de chimangos. nem hoje. concentraram suas forças em torno do Partido Conservador. ardente. um governo cuja instituição num dado povo pressupõe a existência de uma opi­ nião pública organizada. Os filiados a este partido passaram a ser conheci­ dos por saquaremas. ao passo que os liberais. Enquanto os conservadores eram escravocratas e tradicionalistas. quando. em obra clássica intitulada O ocaso do império. Os adversários do Regente. aliás. já o dissemos por que. A par dessas fac­ ções surge uma terceira. revezando-se. que serviria dc base para a fundação do Par­ tido Liberal. onde se acha­ va a fazenda do líder conservador Visconde de Itaboraí. foi eleito Re­ gente o Padre Diogo Antonio Fcijó. Porque só os que ignorassem os nossos costumes políticos e a mentali­ dade dos nossos partidos poderiam supor possível que o Poder Moderador. Ouçamo-lo: O traço característico desse grande movimento da opinião. por sua vez. nos clubes políticos. era o de uma irritação viva. con­ tou desde logo com a colaboração dc grandes figuras como Quintino Bocaiúva. Que dizer dos partidos políticos do Império? Aquele que. Esta alternância no poder durou até 1889. ain­ da atual como perceberá o leitor neste parêntese dos mais oportunos.como ainda há hoje . tinha sempre um caráter artificial. cujos seguidores. com meridiana clare­ za os retratou Oliveira Vianna. chimango (moderado) que dedicou-se com fir­ meza à criação do Partido Progessista. nem outrora. difusa.

o Partido Republicano. para que sc pu­ desse considerá-la sempre como um índice sadio da opinião nacional. extintos os partidos do Império e preser­ vado. O Imperador não desdenhava de atendê-la . de sonoridades marciais. o conserva­ dor quer manter estas instituições. eram simples agregados de clans organizados para a exploração em co­ mum das vantagens do Poder. não tinham propriamente uma opinião. só o liberal é conservador”. na verdade. Depois dessa grande fase histórica. O fato é que ne­ nhum desses dois programas representava convicções definitivas e sinceras. do indefinido. como cm 68. com brio. todas as vezes que era obrigado a organizar novo Gabinete. no caso da Abolição. o partido liberal quer mantê-las. Esta opinião.. a tendência à .dizia ele . de origem habitualmente exótica.6 Formas de governo 147 to de uma pequena parcela das classes cultas do País. O programa liberal era uma es­ pécie dc trombeta sonora. logo. no Senado: “O argumento do nobre senador . todo o País acordava sob um estridor imenso de toques de alar­ ma. cessavam de súbito o trom­ betear formidável . aliás. Esta perplexi­ dade do Imperador não devia ser menor quando ele. Já em 53. por isso. evidentemente. ao aceno da Coroa. os programas que ostentavam eram. ou tentava buscá-la. agiam sempre de maneira idêntica aos conservadores: o inebriamento do poder como que os fazia olvidarem os seus mais caros ideais. de Paraná. dizendo: A Constituição brasileira contém instituições santas. do incerto contido nos programas dos dois grandes partidos do Império. O próprio liberalismo da Constituição tornara. O argumento poderia ser invertido pelos liberais. sempre se mostrava. simples rótulos. chamando a postos as consciên­ cias altivas para a defesa da Pátria.envol­ ve uma confusão de ideias manifesta: O conservador no Brasil é necessariamente libe­ ral. E. quando no governo. formou-se. nunca aparecia pura e extreme. na opinião dos partidos. pode-se afirmar com fundamento que os partidos políticos não representavam realmente correntes de opinião. Então. da Democracia e a Liberdade. muito impregnada das animosidadcs do partidarismo. liberais. de cânticos de guerra. em que.. logo. é uma prova do vago. houve aqui uma fase em que os partidos tiveram verdadeiramente uma opinião: foi o período da Independência. a chamada política da conciliação. no caso da Federação. retornavam ao poder. sem outra significação que a de ró­ tulos. aliás. Zacharias exprimiu muito bem este fato no seu discurso dc 18 dc junho dc 1870. calo­ rosamente pregados quando nas agruras da oposição. porém. imponentes embora pela sua massa. quando. no intuito de conhecer a opinião do País.] como os conservadores. ela devia ter constituído para o Imperador. porque a Constituição do Brasil contém instituições santas. buscava-a. justamente. que os liberais só sc lembravam dc clarinar com fogo. Certo. muito comprometida com o espírito de facção. difícil esta discriminação muito nítida das opiniões. ao contrário.e passavam a ser [.e assim o fez no caso da eleição direta. do 1° Reinado e da Regência. Porque os partidos políticos do Império. Com a proclamação da República. em regra. um dos grandes motivos de perplexidade. liberais. Tanto que os liberais. Desde o momento. é liberal. o Imperador os atirava momentaneamente no ostracismo. com ímpeto. desde logo.

Lei n. sucessor do M DB. revogada pela atual.10.1988. o Tribunal Superior Eleitoral aprovou o re­ gistro provisório de um Partido Humanista (?) Nacional e de um Partido Nacional dos aposentados (!). como a União Democrática Nacio­ nal. fechado o Congresso Nacional e controla­ da a imprensa. 4. foram criadas a Ação Integralista Brasileira (1932). a par­ tir daí. a Lei Orgânica dos Partidos Políticos e a Lei das Inelegibilidades. favorecendo governadores que apoiavam o governo central. que lançou como candidato à Presidência da República Armando Salles de O li­ veira. o Estado autoritário alcançava seu máximo prestígio. Tem início. 5°. dissolvidos. A partir daí. bastando lembrar que. Em 1922 foi fundado o Partido Comunista brasileiro. herdeiro da Are­ na. no art.1979. A partir daí. porém. permitira a criação de duas agre­ miações partidárias. 6. pelo Ato Institucional n. nos mol­ des dos movimentos fascista e nacional-socialista. sem falarmos nas inovações introduzidas pela Constituição de 1967. e a Aliança Nacional Libertado­ ra. Ti­ nham real prestígio. então. ao extinguir a Arena e o M DB. Getúlio foi deposto em 29. exigir a expressão partido na sigla identificadora dos novos partidos.12. sendo a nova denominação derivada do fato dc a Lei n.148 Teoria Geral do Estado criação de partidos locais. o Partido Social Demo­ crático (PSD) e o Partido Trabalhista Brasileiro (PTB).10. o Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB). afrontando a dignidade da Política e o bom senso da cidadania. dentre os quais o Partido Democrático Social (PDS).1965. conduzida por Luís Carlos Prestes. A derrota do nazi-fascismo. de modo que.11. o recrudescimento da perigosa patologia política do muitipartidarismo.1945. Este. após permanecer durante quinze anos no poder. em 27. prenunciava seu declínio. Todavia. de 25. Além destas duas agremiações partidárias foram criadas outras. Dissolvidos os partidos exis­ tentes e exilados seus principais líderes.682/71 (antigas Lei Or­ gânica dos Partidos Políticos. Na iminência do movimento militar de 1964. formaram-se inúmeros partidos. 2.096/95) determinar. uma febricitante elaboração legislativa. substancialmente emendadas em 1969. dc tendência comunista. a pulverizar a opinião pública. transformadas em partidos desde 1967. de 20. a União Democrática Nacional. em oposição a Getúlio Vargas. permitiu a criação de no­ vos partidos. a Aliança Renovadora Nacional (Arena) e o Movimento De­ mocrático Brasileiro (MDB). O Ato Complementar n. já havia treze partidos na ativa. em 15. logo posto na clandestinidade.08. propiciando o surgimento de nada menos que trinta (!) novos partidos.676. em 1937. outros nem tanto. de modo que cada Estado contaria com seu próprio par­ tido republicano. deflagrou um golpe de Estado para fortalecer seu poder e depurar as hostes inimigas. Entre 1930 e 1937. o Partido Popular (PP). alguns notório significado. contudo. a legislação eleitoral foi se tornando mais e mais per­ missiva. 5.1965. 9. destacando-se o Código Eleitoral. Daí. § I o. . a Lei n. o Partido Trabalhista Brasileiro (P I B) e o Partido dos Tra­ balhadores (PT).

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2.4.7) D em ocracia e co m u n ica ç ã o de massa
A comunidade nacional é soberana. Todo o poder emana do povo. Antes do advento do liberalismo político, dizia-se que o poder vinha de Deus. Hoje, pratica­ mente, todas as Constituições consagram a soberania popular ou nacional. Como a democracia direta não é mais praticável atualmente, o povo ou a nação escolhem seus representantes por meio de eleições. Eis a democracia representativa. O povo ou a nação são soberanos e a soberania é indelegável, inalienável. A democracia re­ presentativa deve, portanto, apoiar-se na opinião pública. Mesmo nos Estados totalitários, como o Estado nacional-socialista alemão, havia a realização do plebiscito, a fim de que o Führer auscultasse a chamada opi­ nião pública. Auscultar a opinião pública que seja a lídima, a verdadeira opinião pública, eis o ponto-chave da democracia. Como acentua Salvetti Netto:
o mecanismo democrático, que se sustem na representação popular, será tanto mais eficaz para atender aos fins da própria democracia, quanto mais propiciar as condi­ ções necessárias a uma estreita conformidade entre as deliberações dos órgãos gover­ namentais e os interesses da coletividade. Não pode haver representação onde inexis-

tirem cidadãos politizados, onde não houver fontes informativas da opinião pública, livres, desobrigadas e autônomas...

Em face disso ocorrem na America Latina e nos Estados política e economi­ camente subdesenvolvidos crises políticas incessantes. Na maioria desses Estados existe uma democracia meramente formal, em opo­ sição a uma democracia concreta, substancial. Em razão do exposto percebemos a importância e a responsabilidade dos meios de comunicação de massa na atualidade. Tais meios se confundem com aqui­ lo que costumamos denominar imprensa. Nesta incluem-se todos os meios de co­ municação de massa, embora seja instintivo nos referirmos aos meios de impressão com maior frequência do que ao rádio ou ao cinema, mesmo porque aqueles são mais antigos e acumularam ao seu redor a maioria das concepções teóricas da co­ municação de massa. Em seu livro Tres teorias sobre la prensa, Siebcrt e Peterson apresentam trcs teorias referentes à liberdade dc imprensa e as relações desta com o Estado: A teoria autoritária: esta teoria surgiu no clima autoritário do Renascimento, pouco depois da invenção da imprensa. Acreditava-se, então, que a verdade era apa­ nágio de alguns homens em posição de dirigir seus governados. A imprensa atuava de cima para baixo. Somente mediante permissão especial era permitida a proprie­ dade privada de órgãos da imprensa, e esta permissão podia ser cassada a qualquer momento. As publicações abrigavam, então, uma espécie de contrato entre os go­

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Teoria Geral do Estado

vernantes e os editores, pelo qual aqueles concediam um monopólio e estes, em con­ trapartida, deviam prestar “apoio'’ incondicional aos detentores do poder. Ora, tal concepção da imprensa eliminava de pronto o que, 11a época, chegou a ser uma dc suas funções mais comuns: controlar o governo. Esta teoria da im ­ prensa como mera servidora dos governantes foi accita universalmente no século XV I e parte do século XVII. A teoria libertária da imprensa: a liberal-democracia, a liberdade religiosa, a expansão da liberdade de comércio, a aceitação da economia do laissez-faire e o cli­ ma da ideologia iluminista minaram paulatinamente o autoritarismo, reclamando um novo conceito de liberdade de imprensa. Esta nova teoria tem seu início no sé­ culo XVII, alcançando seu apogeu no século X IX . A teoria libertária não concebe o homem como um ser que deve ser dirigido, mas como ser racional capaz de discernir entre o certo e o errado. A verdade deixa, então, de ser privilégio do poder. O direi­ to de procurar a verdade torna-se um dos mais prestigiosos direitos naturais do ho­ mem. A imprensa passa a ser considerada uma companheira em busca da verdade. Na teoria libertária, a imprensa não é um instrumento dc governo, mas um recurso para apresentar provas e argumentos sobre a atuação dos governantes c controlá-los. Portanto, para esta teoria é indispensável que a imprensa esteja a salvo do controle c influência governamentais. Para que possa surgir a verdade, é preciso aferir todas as opiniões; deverá haver um “mercado livre” de ideias e informações. A teoria de responsabilidade social da imprensa: a teoria da responsabilida­ de social da imprensa resultou de um problema surgido há cerca de trinta anos, com a revolução das comunicações. Quando as estações de rádio começaram a se multiplicar, a exemplo dos jornais e livros, sua organização foi tornando-se cada vez mais complexa, exigindo capitais de vulto. A imprensa - como nos tempos do autoritarismo da imprensa - passou a cair nas mãos de uns poucos poderosos. Se estes homens, muitas vezes apolíticos, buscavam de todas as formas uma indepen­ dência de informação relativamente ao governo, não é menos verdade que a opi­ nião pública passou a correr novo perigo, qual seja, o poder incontrastável da im­ prensa cm mãos dc particulares. A proteção da imprensa contra a influencia do governo deixou dc ser suficiente para garantir a oportunidade de alguém expressar suas ideias, pois os donos e gerentes da imprensa determinariam as pessoas, os fa­ tos, as versões destes que seriam dadas ao público. Foi este problema que consti­ tuiu a base do desenvolvimento da teoria da responsabilidade social, 011 seja, a po­ sição de poder e quase monopólio dos meios de comunicação. Deve haver então, segundo esta teoria, a institucionalização da responsabilidade social das empresas para que todas as opiniões se apresentem imparcialmente, para que o público pos­ sa imparcialmente decidir. Na verdade, o problema da liberdade de imprensa tem de ser cuidadosamen­ te estudado, pois sua existência ou não sempre impele a nau do Estado pelos mais inesperados caminhos. Seignobos, 11a sua magistral H istória sincera da França , e

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Domenach, em A propaganda política, demonstraram à saciedade o papel da im­ prensa, especialmente a clandestina, na disseminação das ideologias na França iluminista e na Rússia de 1917. Nos dias em que vivemos, o problema agravou-se com o embate ideológico, verdadeiro caleidoscópio político, pois os meios de comunicação, cada vez mais perfeitos c objetivos, são dc fácil apreensão pela massa. Abordando o tema, Ferreira Filho (A democracia possível) adverte que quem controla os meios de comunicação de massa tem a possibilidade, mais que isso, a tentação, de manipular o seu auditório, infundindo-lhe as próprias concepções.

3) TIRANIA
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A tirania é uma forma autocrática de exercício do poder político que tem ori­ gem asiática, passando para a Grécia a partir do século VI a.C. O vocábulo tirania tanto pode ser originário da Lídia, sendo o rei Giges o primeiro a ser chamado ti­ rano, como de Canaã, de serens, nome bíblico atribuído aos filisteus de origem no­ bre. Pode, até, ser originário dos etruscos, da expressão turan, que significa poder ou senhoria, ou de nomes próprios da Etrúria (o rei Turuns ou a deusa Juturna). Aliás, já sc disse que os etruscos, que desenvolveram a mais adiantada cultura da antiga Itália, antes dos romanos, eram descendentes dos lídios, sendo sua origem asiática, portanto. Consequentemente, a palavra tirania não é grega; designa, antes de mais nada, a forma de governo da moda existente na Ásia Menor, em dado momento históri­ co, não tendo absolutamente, como sugere o vocábulo, sentido pejorativo, malévo­ lo. Com efeito, a exemplo da ditadura romana, a tirania asiática não se apresenta como uma forma de exercício do poder necessariamente perniciosa. Diga-se o mes­ mo da sua versão grega que representou, no mais das vezes, os interesses coletivos, como veremos adiante. Em detrimento da verdade histórica, a tirania passou, com o tempo, a significar uma forma política essencialmente indesejável, preconceito

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Teoria Geral do Estado

este arraigado até mesmo entre estudiosos da história política e que cumpre-se ex­ tirpar de vez. Vejamos, entretanto, a evolução da tirania grega. É durante o século VI a.C. que desaparecem, em grande número dc cidades gregas, as velhas Constituições aris­ tocráticas, como fruto do descontentamento dc comerciantes e industriais que, en­ riquecidos em sua atividade, passam a almejar os cargos públicos. A aristocracia, sem se renovar, é dividida por lutas internas e enfraquecida cada vez mais. Sua de­ cadência vai ensejar o aparecimento de uma nova forma política, oriunda da Asia, a tirania. Esta forma de governo vai permitir o restabelecimento da ordem e uma política de expansão territorial e, consequentemente, de desenvolvimento econômi­ co, como corolário do espírito empreendedor dos gregos do século VII a.C. A tira­ nia, diga-se mais uma vez, não indicava uma ideia de dominação necessariamente opressiva, mas a forma de poder exercido por um homem cujo direito de governar era fundado não mais na religião ou na hereditariedade, como a antiga monarquia, porém no prestígio pessoal, 110 apoio dos estamentos inferiores, comerciantes e gen­ te humilde. Acrescentc-sc a isto um forte aparato militar. Claro, houve abusos por parte dc inúmeros tiranos; muitos, contudo, criaram constituições democráticas, de­ fendendo os interesses dos menos favorecidos, exercendo uma forma política em muito semelhante à denominada ditadura proletária a que sc refere Burdeau. Com efeito, as massas, em sua fraqueza, não encontraram outro meio de com­ bater os excessos da aristocracia senão o de lhe opor uma nova espécie de monar­ quia, seja na Grécia ou em Roma. Quando, em toda parte, os reis foram vencidos e a aristocracia se firmou 110 poder, o povo não se limitou a lastimar a queda da monarquia, mas procurou restaurá-la sob nova roupagem. Em seus primórdios, a tirania vem a ser uma forma política responsável pelo esplendor e pelo desenvolvimento econômico das cidades. Destacam-se tiranos no­ táveis: Trasíbulo, em Mileto; Pitágoras, em Éfeso; Polícrates, 11a ilha de Samos. Este cria uma potência marítima comparável à do Egito e da Pérsia, dedicando-se, ade­ mais, a proteger sábios, cientistas c poetas e a edificar majestosas obras públicas. Outro notável tirano, Pisístrato, governa Atenas com sabedoria e moderação, res­ peitando a legislação de Sólon, impedindo a formação dc latifúndios, realizando ampla reforma fiscal e embelezando a cidade. O tirano não altera, geralmente, a Constituição. As magistraturas são manti­ das, devidamente encarnadas em homens de sua inteira confiança. O conselho e a assembleia determinam a nova política, embora severamente fiscalizadas pelo tira­ no, que se faz acompanhar, prudentemente, de robusta guarda pessoal. A aristocra­ cia é perseguida. O tirano Trasíbulo pediu, certa vez, conselho a Periandro, tirano de Corinto, que era, por sinal, 11111 dos sete sábios da Grécia, a respeito da arte de governar. Periandro não respondeu: como ambos se achavam num trigal, limitou-se a cortar algumas espigas que se sobressaíam em altura das demais, insinuando, com

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isso, que a tirania não pode tolerar que os mais capazes adquiram demasiado pres­ tígio. Em Corinto, Cípselo confisca as terras aos nobres e as distribui entre as mas­ sas desfavorecidas; em Mégara, Teágenes pura e simplesmente massacra os rebanhos dos ricos, captando a simpatia popular. Os miseráveis vecm sua revolta c desdita mi­ noradas, pois os grandes empreendimentos públicos oferecem trabalho c as terras confiscadas lhes propiciam a fixação à terra. Tais situações atendem plenamente aos interesses do tirano, preocupado permanentemente com a hostilidade potencial dos aristocratas e com a sublevação das massas. Além disso, o tirano utiliza-se, frequen­ temente, dos cultos religiosos, os quais, excelente veículo de propaganda, contribuem para a estratificação do poder pessoal. Na verdade, à época das tiranias, comba­ tia-se ou pela liberdade ou pela tirania. Liberdade, para o proletariado, quer dizer governo dos ricos; tirania significava o governo de um líder antiaristocrático e, in­ diretamente, popular. Segundo o próprio Aristóteles, o tirano não tinha por missão mais do que proteger o povo contra os ricos, sendo da essência da tirania a guerra à aristocracia. A tirania é oriunda, em última análise, dos anseios dc uma burguesia florescente e, paradoxalmente, da miséria das massas e, claro, da audácia dc indiví­ duos sequiosos dc poder e decididos a tudo para triunfar. A tirania perduraria desde o século VI a.C. até meados do século seguinte, es­ tendendo-se, por todo o mundo grego, mas em cada caso particular jamais durou muito tempo. Em Esparta, aliás, a tirania jamais foi bem vista, talvez pela natural desconfiança do espartano em relação ao indivíduo enquanto tal. Na expressão do historiador ateniense Tucídides, Esparta não suportava os tiranos; tal aversão, de­ nominada atyranneutos, revela-se plenamente quando a política exterior esparta­ na intervém contra Polícrates e contra os Pisistrátidas, quando apeia do poder Ligdamis de Naxos e quando repudia a aliança a Corinto e Sicione, enquanto estas cidades são governadas por tiranos. A tirania decadente tornar-se-ia hereditária; então, as qualidades de energia, audácia e talento político, peculiares ao bom tirano, já se faziam escassas. A tira­ nia arcaica continha em si mesma os germes de seu desaparecimento, ou seja, a composição das crises sociais que a originaram. Com o desaparecimento destas, mediante as próprias reformas tirânicas, os cidadãos desejariam o retorno a uma forma de governo regular, em que o exercício do poder não se limitasse a um só homem. A tirania foi, na verdade, uma etapa necessária no caminho da democra­ cia, como acentua François Chamoux, pois à tirania se sucede uma aristocracia mo­ derada. O mundo moderno conheceu uma forma de exercício do poder político céle­ bre, aquela exercida por Oliver Cromwell (1599-1658), que, fazendo condenar à morte o rei Carlos I, em 1649, fez-se nomear Lorde Protetor da República da In­ glaterra (Commonwealth). O poder de Cromwell lembra, estranhamente, as tira­ nias gregas. Homem de caráter enigmático, ora iluminado, ora calculista, genero­

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Teoria Geral do Estado

so e cruel, dotado do mais refinado bom senso ou da mais escandalosa extravagância, era, fanaticamente, puritano, dissolveu o parlamento 110 dia 30.04.1653, tratando os parlamentares de ladrões e covardes, fechou as portas da casa legislativa e guar­ dou as chaves no bolso... Proclamada a República em 16.12.1653, instalou-se no palácio de Whitewall c iniciou um governo rude, que promoveu a dissolução de quatro parlamentos sucessivos, mas que tornou a Inglaterra respeitada c temida, adquirindo Dunquerque e apossando-se da Jamaica. Reprimiu revoltas na Irlanda e na Escócia, e sua violência foi tamanha que os irlandeses se tornaram inimigos latentes dos anglo-saxões. Cromwell, que sonhava, certamente, em se tornar rei, não conseguiu seu desideraro, deixando seu posto para seu filho Ricardo, que, lon­ ge de possuir as qualidades do pai, logo abdicou. Cláudio de Cicco, em síntese so­ bre a História Universal, ressalta bem a influência da religião puritana sobre Cromwell, que, aliás, vituperava o rei Carlos I, sob os epítetos de anticristo e dragão do apo­ calipse. Os seguidores de Cromwell entremeavam seus combates com cânticos e salmodias, sendo o respeito para com o chefe absoluto. Ainda Cláudio de Cicco aponta, com muita agudeza, que o Navigation Actypromulgado por Cromwell, para proteger a burguesia de armadores e proprietários de companhias mercantis, mos­ tra bem o nexo entre o mercantilismo capitalista c o luteranismo dc Cromwell.

4) OLIGARQUIA
Bibliografia: A r i s t ó t e l e s . Política, Madrid, Centro dc Estúdios Constitucionales, 1983.
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La república,

Do grego ol igoi, poucos, e arche, governo, oligarquia significa, literalmente, governo de poucos. Entretanto, como aristocracia significa, também, governo de poucos - porém, os melhores -, tem-se por oligarquia o governo de poucos em be­ nefício próprio, com amparo na riqueza pecuniária. Em outras palavras, o termo apresenta um conteúdo eticamente negativo ao denominar o governo dos ricos, em­ bora possa indicar, também, o governo de poucos mantido pela intimidação, como no caso da oligarquia militar. Modernamente, são usados mais dois termos para denominar o governo pernicioso de uma minoria, quais sejam, plutocracia e nepo­ tismo. Plutocracia é termo de origem grega (de ploútos, riqueza, e kratos, poder), daí ploutokratía, plutocracia, ou governo fundado 110 dinheiro, na corrupção. Quan­ to a nepotismo, a expressão é de origem latina, de nepote, neto 011 segundo sobri­

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nho; nepote, por sua vez, deriva de ncpos, termo latino que denomina simplesmen­ te o escorpião, aracnídeo cuja fêmea é devorada pela própria ninhada, como a parentela se aproveita dos ascendentes bem situados, assumindo os melhores car­ gos públicos, cm detrimento dos mais capacitados. Em suma, favorecimento de ami­ gos e parentes da minoria governante. Diz Platão: “A que tipo de Constituição - disse - chamas oligarquia? Ao go­ verno baseado no censo - disse eu - no qual mandam os ricos, sem que o pobre te­ nha acesso ao governo” (> 4 república, 550, c). Aristóteles, por sua vez, doutrina: “ Há democracia quando os livres governam, com maior razão que há uma oligar­ quia quando os ricos governam, e, geralmente, os livres são muitos e os ricos pou­ cos (Política, 1290, b). Na distinção aristotélica entre formas de governo puras e impuras, a oligarquia, como governo dos ricos, é a forma impura da aristocracia, que é o governo dos melhores (Política, 1279, b). O sentido negativo da oligarquia c uma constante no pensamento grego clássico, bem assim no pensamento moder­ no e contemporâneo. Veja-se, por exemplo, Jean Bodin numa das mais festejadas obras da teoria política: “Da mesma forma que a monarquia pode ser real, despó­ tica, tirânica, assim a aristocracia pode ser despótica, legítima, facciosa; este tipo dc governo, na Antiguidade, era chamado oligarquia, vale dizer, domínio cxcrcido por uma minoria [...]. Por isso os antigos usavam este termo com significado nega­ tivo, e aristocracia com sentido positivo (Les six livres de Ia république, Livro II, Capítulo IV). Muitos autores contemporâneos, como Robert Michels e Caetano Mosca, sus­ tentam que em todas as organizações de massa brotam, naturalmente, facções oligárquicas destinadas a se tornar verdadeiras elites. Robert Michels chama este fe­ nômeno de “lei de ferro da oligarquia”. Quanto ao marxismo, considera a democracia liberal uma oligarquia disfarçada, mesmo sendo assegurado o sufrágio universal. Paradoxalmente, o marxismo-leninismo exige, no período de transição entre o ca­ pitalismo e o comunismo, denominado ditadura do proletariado, o governo de uma minoria seleta, investida dc plenos poderes, que evoca, sem dúvida, as elites diri­ gentes da República de Platão.

5) DEMAGOGIA E 0CL0CRACIA
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l in a r e s q u in t a n a

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Segundo V. Sistemas de partidos y

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denominando a atitude daqueles que “conduzem o povo lisonjeando seus sentimentos”. demagogo é aquele que conduz o povo. cortejando o populacho com leis inexequíveis e uma sórdida campanha de calúnias e difamações contra os verdadeiros magistrados. uma forma de governo. deformação dos fatos e adulações grosseiras. condicionada a atitudes políticas e sociais não racionais.) que a de­ magogia principiou a ter sentido negativo. a conotação pejorativa de hoje. A oclocracia é definida na famosa enciclopédia. Tal estado de coisas é resultante do rápido desenvol­ vimento industrial e tecnológico. e agein. garan­ tida pelos guerreiros e acima de todo e qualquer egoísmo pela comunhão de bens. não é. O termo oclocracia indica o jugo imposto pelo populacho inorgânico ao poder legítimo e à lei. Então. que acabam por implantar um governo autoritário. impor a ordem no Estado e nas almas. Progressivamente. multidão. Ressalte-se que na antiga Grécia. impor que todos pensem da mesma for­ ma sobre todas as coisas. Quanto à oclocracia (do grego oklos. seu com­ portamento torna-se uma conduta massificada. leva ao isolamento das pessoas e à sua angústia permanente. e do papel cada vez mais ativo das massas. via na liberdade individual uma distorção da verdadeira convivência social. Platão. 1]. das mulheres e das crianças dominar a multidão ignara dos trabalhadores. diz ele. Foi com o grande historiador ateniense Tucídides (460-395 a. que não sentia grande atração pelas democracias (Apologia de Sócra­ tes. elaborada pelos enciclopedis­ tas franceses. Na demagogia. Ainda é Aristóteles que adverte ser a demagogia a corrupção da politeia [Política. orador que conduz.15 6 Teoria Geral do Estado Demagogia vem do grego demos. 35 a-b). eliminar as particularidades. sendo o demagogo aquele que. E preciso. poder). provoca a reação de comuni­ dades organizadas. os cidadãos mais capazes são relegados ao esquecimento e os aduladores cobram rápida ascensão. esclarecia o povo com sabedoria e justiça. forma corrupta da de­ mocracia e que leva à implantação de um governo despótico das classes sociais mais baixas. A atro­ fia da individualidade criadora. rigo­ rosamente. Isto só será possível quando a casta dos filósofos. Modernamente. impondo-se ao tirano. a demagogia é tida como a política por meio da qual os go­ vernantes buscam impressionar as massas com falsas promessas. durante muito tempo. o termo de­ magogia não teve. causada pelo aparecimento da máquina. sendo demagogia a arte de conduzir o povo. 2.C. povo. É neste sentido que Políbio emprega o termo. ao sabor da irracionalidade das multidões. A de­ . Aristóteles advertia para o fato de que a demagogia. fazendo valer seus mais insensatos caprichos. conduzir pela palavra. como sendo o “abuso que se instala no governo democrático quan­ do o populacho vil se torna o senhor dos negócios públicos”. VI (IV). bem como à desordem e à corrupção. Daí agog-os. e kratos. eliminar as diferen­ ças pessoais. mas uma situação crítica que vivem as institui­ ções.

A igualdade de que ela se vangloria. Ao reconhecer a todos os desejos a mesma legitimidade.apresenta vários sentidos correlatos. Utet. Tal definição pode parecer estranha a quem estiver habituado ao uso indiscri­ minado do vocábulo. ao passo que a oclocra­ cia implica a própria ausência de qualquer ordem. denomina as medidas de emergência que toma o Estado contemporâneo. falso falar de uma só Constituição. pois esta é alterada incessantemente. De Vétat de siège. O estado de sítio. Pielte. 1968. por ter natureza analógica . v. é uma gritante desigualdade. Madrid. salvetti n e t t o . Feltrinelli. mes­ mo. a sua Constituição é instável e deformada. Paris. embora não idênticos. Le sénat de la république romaine. Quanto à diferença entre demagogia e oclocracia. Droit constitutionnel et institutions politiques. F. 1766.6 Formas de governo 157 mocracia. presta-se a uma série de preconceitos e mal-entendidos. 1977. . 1981. Saraiva. ao sa­ bor dos interesses mesquinhos. A cidade grega. inevitavelmente. f e r r e ir a f i­ m a c h ia v e l l i. São Paulo. . A. na oclocracia. Carl. Scientia Verlag. A democracia culmina. Curso de teoria do Estado. Re­ vista de Occidente. Torino. w i l l e m s . Paris. 1885. Zahar. Saraiva. Pichon. que. Em sentido amplo. é o oposto deste ideal. Quando o Estado sc encontra em tal situação. p. há uma ordem viciosa imposta pelos demagogos. burdhse. II príncipe e discorsi sopra la prima deca di Tito Livio. 1. cria a desordem e a imoralidade. Saraiva. ao defender um individualismo em que cada um age como bem entende. p in t o f e r r e ir a Luiz. Estado democrático e Estado autoritárioy Rio dc Janeiro. lho burdeau . neum ann Franz. 123). ao colocar na mesma casta homens desiguais. sendo. Manoel Gonçalves. fazendo a moderação passar por fraqueza e o escrúpulo por ingenuidade. unipessoal ou colegiado. s c h m i t t . a palavra ditadura pode ser tomada num sentido amplo ou num sentido estrito. La dietadura. caracterizado pela concentração de atribuições prefixadas e destinado a sanar mal público iminente ou real. 1964. . Diritto pubblico romano. análogos. M ilano. São Paulo. 1975. r e in a c h p it is c u s . Teoria geral do Estado. 1979. Théodore. Pedro. na primeira. Samuel. 1968. Paris. 1969. . Nicolò. reside no fato de que. Dictionnaire des antiquités romaines. 1980. Georges. Com efeito. quando suas instituições encontram-se ameaçadas por . 6) DITADURA Bibliografia: LGDJ. São Paulo. prossegue. Ditadura é o exercício temporário do poder político. e o domínio monstruoso que é a multidão (thrémma méga kai iskhurón) não passa de um despertar da natureza tirânica (palaià gigantikê phúsis) (apud Gustave Glotz.

Vale frisar. a luta armada e a sucessão violenta de instituições. nem intervir em demandas legais ou impor novos tributos. ao contrário do que sc pensa. o ditador não estava subme­ tido à intercessio nem à provocatio. Situemos. Ora.. que exercem o poder em colegiado e pelo período de um ano. dictator..C. é bom lembrar.. O próprio termo dita­ dura origina-se do Direito Público romano. Substituindo o rei. enfim. de imediato. mas agora o magistrado republicano achava-se subordinado à lei. O imperium . O período dc transição entre a monarquia e a república não ensejou. aprimorando-se. rees­ truturar o poder. perdurando até 27 a. o monarca postava-se acima da comunidade. conforme ensina Théodore Reinach. pois sabe-se que muitas ideias de ori­ gem republicana já vinham sendo experimentadas durante o reinado de Sérvio Tú­ lio.. então.158 Teoria Geral do Estado um perigo interno ou externo (p. entretanto. basicamente. a república sc impõe.. vale dizer. aos princípios da anualidade c da colegialidade. de forma a impedir que fosse restaurado o poder pessoal dos mo­ narcas. a própria . aumentativo dc dicere. Nos tempos da realeza. concentrava nas mãos todo o poder. Em sentido estrito. Daí. que buscou. significava a plenitude dos poderes judiciários e militares. refere-se a uma espécie de magistratura de caráter extraordiná­ rio. sendo plena­ mente irresponsável. em sanar graves crises sociais com medidas drásticas. que a denominação dictator não era a mais indicada para designar aquele que encarnava tal magistratura.C.C. a ditadura romana 110 tempo e nas instituições republicanas da antiga Roma. to­ mando-se a expressão no sentido enérgico dc comandar. dotada de objetivos específicos e destinada a salvar a República e as liberdades dos cidadãos. cm sua investidura. quando tem início o período denominado principado. um dos cônsules podia anular qualquer medida tomada isoladamente pelo outro. a adoção do estado de sítio ou da lei marcial). Ele se achava. e até o ano dc 509 a. Mediante a intercessio. prevista na Constituição da antiga Roma republicana. investido do imperium maximum ou majuSy e durante sua atuação todas as magistraturas eram suspensas. apa­ recem dois cônsules. alterar a Constituição ou declarar a guerra. adotou-se a forma monárquica de governo.]” . sob o lema salus rei publicae su­ prema lex est. é bem verdade. contudo. anteriormente. e sim ma­ gister populi.] duo cônsules inde comitiis centuriatis a praefecto urbis ex cornentariis Servii Tulli creat sunt [. desde então. nestas incluído o próprio consulado.. a partir de então. Não podia. nesta incluído o poder de vida e de morte sobre seus conci­ dadãos. como faz ver o historiador Tito Lívio: “ [. várias magistraturas. curvando-se. ao veto do colega. seu consentimento. A missão do magister populi ou dictator consistia. Já se percebe que a ditadura romana vinha a ser uma magistratura extra­ ordinária\ prevista na Constituição. vale acrescentar. sendo responsáveis perante a lei e submetidos à intercessio. Reza a tradição que a História da Cidade Eterna co­ meça aos 21 de abril do ano 753 a. Fora destas restrições. em cuja aplicação dispunha da mais ampla liberdade.. ex. sendo irresponsável no exercício do cargo. desde que não houvesse dado a esta. A expulsão dos reis beneficiou a aristocracia. dc dictare.

era magistratura de caráter extraordinário e. A potestas. As magistraturas republicanas eram. pois todo e qualquer cidadão tinha . aos edis e aos tribunos.6 Formas de governo 159 soberania encarnada pelos reis de Roma e transmitida aos magistrados republica­ nos. portan­ to. deriva. que eram dotados. inicialmente. depois judices. sendo suas funções delimitadas no tempo. ao cabo de um ano. Além dos cônsules. nos comícios centuriados. também de origem etrusca. determinar que este aprecie um caso determinado (referre ad senatum) e que delibere e vote (cum patribus agere). cidadãos comuns. da monarquia etrusca. publicar os editos (jus edicendi). mas limitada em razão das circuns­ tâncias. compreende: o direito de tomar os auspícios dentro da ci­ dade. a palavra ti­ rania? Havia ademais uma distinção entre imperium e potestas. Havia um conceito primitivo de soberania. aos questores. Admitir que uma magistratura fosse ocupada sem limite de tempo. originariamente. Magistrados ordinários eram aqueles que exerciam funções inerentes à norma­ lidade da vida administrativa. o direito de exercer coerção (coercitio). Magis­ trados extraordinários . ligado à religião (auctoritas) e um poder jurí­ dico c militar. direito de convocar e de presidir o Senado (senatum vocare). paulatinamente. mais recente (imperium ). daí. entre os magistrados. apenas aos magistrados stricto sensu: cônsules. A ditadura. sendo seu símbolo o fasces. apenas da potestas. Os etruscos adotavam. direito de convocar o povo dentro da cidade. segundo Pallotino. a jurisdição (poder de dizer o Direito). porém. ad tempus incertumysendo invocada. iMais tarde. no mais das vezes. quem sabe. portanto. por sua vez. para lhe dirigir a palavra e para fazê-lo vo­ tar. que significava poder. aquele que ia à frente do exército). como vocábulo cor­ respondente a imperium. consistente em deter o cidadão e obrigá-lo a comparecer perante a autoridade.pelo menos teoricamente . O imperium inclui todas as atribuições da potestas e mais: o direito de tomar os auspícios fora de Roma. quando a salvação da .eram aqueles cujas atribuições não tinham duração limitada pela lei. truna. a atribuição estendeu-se aos censores. ad tempus certum e ad tempus incertum. Cônsules e outros magistrados voltavam a ser. A ideia de imperium . impor multas (jus multae dictionis). O império era atribuído. eqüi­ valeria a atribuir ao cidadão uma situação privilegiada que ofenderia o princípio da isonomia. ditadores e pretores. repartida. isto é.a possibilidade de in vicem parere atque imperitare. com nuanças religiosas. o direito de organizar e comandar o exército. inicialmente denominados praetores (de praetor. o direito de convocar o povo fora de Roma.a própria denominação faz ver . havia outros magistrados que se enquadravam em magistraturas de caráter ordinário ou de caráter extraordiná­ rio.

A própria nomeação do ditador seguia certos preceitos religiosos: o cônsul procedia à escolha do ditador somente após tomar os auspícios. como visto. pois várias culturas vizinhas à Cidade Eterna conheciam uma instituição semelhante. e esta era. quase sempre em estado de guerra. eram os cônsules. Acentua Pierrc Grimal que a dita­ dura se apresentava muito aparentada à monarquia no tocante a certas funções ex­ clusivas do rei (rex sacrorum) ligadas à religião. esse órgão autorizava os cônsules a escolher. Este curioso ritual demonstra bem o es­ pírito do antigo romano: a elevação de um homem acima das leis. durante a noite. mediante au­ torização do Senado.160 Teoria Geral do Estado república exigisse a suspensão das prerrogativas pessoais (salus rei publicae supre­ ma lex est. embora resolvessem o problema da administração inter­ na. basicamente. este desprovi­ do do imperium majus. em segredo (nocteyoriens. A expressão magis­ ter populi significa. embora não se pudesse fugir. Frisemos. cm tais casos. literalmente. da infantaria romana. dominava a sedição (seditionis sedandae causa) e podia permane­ cer 110 exercício de suas funções até quando as necessidades o exigissem. eles deviam consul­ tar o Senado a respeito das medidas a tomar. incumbido da cavalaria. com suas tendências expansionistas. Alba Longa. ao menos. Com efeito. É um erro . chefe dos patrícios. silentio). Se apenas um dos cônsules se encontrasse na cidade. mas podia haver nomeação de um ditador para funções administrativas ou religiosas específicas e. que a colegialidade do consulado não poderia. O ditador romano dispunha do direito de vida e morte. assessorado pelo magister equitum. ordinária e colegiada. levado a efeito com a máxima discrição. estranha cerimônia cujo significado escapa à moderna pesqui­ sa histórica. feita à noite e em segredo. Em razão disso surge a ditadura. Entretanto. a função do ditador: comandar a infantaria. vivia situa­ ções que exigiam decisões rápidas. a ditadura latina dessemelhava-se da romana por ser anual (ad tempus certum). que a ditadura não era uma criação inteiramente do Direito Público romano. propiciar. dotado apenas da potestas consularis. encarnada pelo magis­ ter populi ou praetor maximus. Nos momentos de crises político-sociais. Tusculum e Lanuvium. Quem nomeava o ditador romano. um ditador ou tirando a sorte para determinar qual deles faria a seleção. Encontraremos uma das mais profundas raízes da ditadura 110 gênio pragmá­ tico dos romanos. pois Roma. neste caso. a ele caberia a escolha. por outro lado. fixar um prego numa parede do Capitólio. Por exemplo. ainda nos primórdios do período republicano. evidentemente. já sc percebia que os cônsules. encontravam inúmeras dificuldades para atuar no âmbito externo. ficando o magister equitum. isto é. O ditador era investido 110 poder militar (gerundae causa e seditionis sedandae causa) e. simbolicamente. Se fosse o caso. em conjunto. dirigia a guerra (rei gerendae causa). tínhamos a ditadura imminuto jure. tínhamos as ditaduras oprimo jure. como a própria denominação insinua. revelava. era. por exemplo. a lei suprema é a salvação da coisa pública). ser um mal necessário. deliberando. ao qual.

em grande parte por desconhecimento da História. na cidade de Cincinatti. sempre. sempre renunciou às honrarias após cumprida sua missão. Eis. levantou o sítio em apenas dezoito dias. Lúcio Quíncio Cincinato vem a ser. era formada por todos aqueles que se haviam desta­ cado na Guerra da Independência. a memória do ditador Cincinato é. à qual. admitindo a hereditariedade na sucessão de seus membros. contudo. Cincinato poderia. ele que havia sido reduzido à humilhação c à pobreza por ten­ tar libertar o filho. simboliza a virtude da mulher romana. traziam uma medalha representando o ditador em sua charrua.6 Formas de governo 161 pensar. cumu­ lar poder e glória. à sua vida austera c dc hábitos morigerados. Aos 80 anos de idade. Roma apresenta-nos exemplos de ditadores notáveis. hoje. co­ ragem. Da mesma forma que a célebre Cornélia. foi novamente investido na ditadura. culposamente. para a felicidade e o progresso de um Estado. nomea­ do ditador por mais de uma vez. passando a viver do culti­ vo da terra. um exemplo da grandeza moral do antigo romano. Polí­ tico hábil. para libertar seu filho Ceson. os Estados Unidos da Amé­ rica do Norte. Patrício dc origem. que amanhava numa tosca charrua. se o desejasse. o arquétipo do herói romano. constatando-se. tentando cobrir a fiança exigida por influência dc seus inimi­ gos políticos. Esquecido por todos. mãe dos Gracos. desprendimento e consciência social deveriam inspirar a modernidade. sociedade patriótica fundada nos Estados Unidos da América do Norte. não . voltando. que havia. lembrado por seus compatriotas. para tentar levantar o cerco que os équos impu­ nham a Roma.. Reduzido à miséria por despender os poucos recursos que possuía. Investido na função de dictator.C. o ditador não podia renunciar à sua missão antes dc complctá-la. e retornou à lavoura. no ano de 458 a. Entretanto. portanto. repugna a palavra ditadu­ ra. ficou reduzido à pobreza. De­ volveu. Seus membros. perpetuada na pátria da Democracia ocidental. com Cincinato. cumprindo sua missão ao cabo dc vinte c um dias. o Censor. mes­ mo porque a história romana é pródiga em exemplos de ditadores que encerraram sua missão muito antes de se escoar o prazo de seis meses. sustentáculo da família e do lar. e não seria equivocado concluir que. dignidade c perseverança. cujo amor à pátria. Padrão dc honra. ao tomarem Cincinato como mo­ delo de conduta. em 1873. impondo severa derrota ao inimigo. foi em inteira justiça. Em qualquer caso. em sen­ tido inverso. personifica a probidade administrativa no combate à corrupção. mas nem por isso pensou em locupletar-se ou em vingar-se. A Ordem de Cincinato. impediu a deflagração da guerra civil entre patrícios e plebeus. sempre levou vida modesta. no século V a. na pequenina propriedade agríco­ la que lhe restara. as insígnias de dictator. causado a morte do filho de um senador.C. a socieda­ de foi declarada incompatível com a República e desfeita. vários casos dc permanência dilatada do ditador cm seu posto. com altivez. até amealhar o dinheiro necessário para afiançar a liberdade do filho. que a ditadura não podia ultrapassar seis meses de duração.. e que Marco Pórcio Catão.

ao cabo dos quais renunciou ao posto. e XV.C. efetivamente. 46 e 44 a. o Senado já se encontrava reforçado a ponto de enfraquecer enormemente o poder dos cônsules. Não teria sido por acaso que Dante Alighieri colocou Cincinato e Cornélia no Paraíso. 48. O senatus consultus ultimum era acompanhado da patética expressão “videant cônsules ne quid res publica detrimenti capiat!' \ com a qual se alertava a comuni­ dade sobre a gravidade da situação. fora da lei e inimigo. que os ho­ mens que as encarnem sejam dignos destas. Além disso. com efeito. a anulação de determinadas leis e a suspen­ são do poder de certos magistrados. qualquer aventureiro político que vem a ser qualificado como ditador. com ela.C. A deturpação do sentido de um vocábulo emprega­ do sem discriminação séculos afora acarreta enganos insanáveis. de 286 a.. 45.. se zanga. é preciso. também. Percebe-se. um ime­ recido elogio. a importância do ditador já estava bastante reduzida pelo fato da ad­ missão da intercessio dos tribunos da plebe contra o poder incondicionado do dita­ dor. ao enal­ tecer a figura do ditador romano. graças à sua aliança com os tribunos da plebe e à assimilação paulatina das atribuições anteriormente priva­ tivas dos cônsules. logo. aos quais se deve a Lei das Doze Tá­ buas.C. que a palavra ditadura possui uma carga histórica que deve ser respeitada.C. por oca­ sião das agitações de Tibério Semprônio Graco. motivadora da nomeação dc vários ditadores. jamais aviltada. pois se destinavam a reestruturar o Estado e a elaborar um novo ordenamento jurídico. o ditador de empalmar o po­ der absoluto. que estava exigindo soluções drásticas. exemplo universal dc patriota. haveria duas nomeações. respectivamente em 49. imediata­ mente. Quanto a Júlio César.C. foi criada uma institui­ ção que substituiria a tradicional ditadura: o senatus consultus ultimum. As denominadas ditaduras de Lúcio Cornélio Sila e de Caio Júlio César apre­ sentam caráter completamente diverso da ditadura original. em 249 e 216 a. Sila permane­ ceu no poder durante três anos. A partir do ano 133 a. Em 46 a. a ditadura foi suspensa por dois anos. a luta secular entre patrícios e plebeus. por ocasião da nomeação dc dois colégios decenviros legibus scribundis. na verdade. a figura do dictator seditionis sedandae causa. um mecanismo que impedisse.. Então. e que os norte-americanos honra­ ram a memória do grande romano na cidade de Cincinatti. declarava a tumultus (rebelião). praticamente desaparece c. ficando estes reduzidos à condição dc meros agentes executores. na República romana. Não havia. a dita­ . Modernamente.. no entanto. isto é. exerceu por quatro vezes a ditadura política. tendo por missão constituere rem publicam. líder agrário. atribuído ao Senado e destinado a declarar hostil.. e aquilo que pensa constituir um vitupério é. todo aquele que conspirasse contra o Estado. 129). Após a Lex Hortensia. Quanto ao ditador rei gerundae cau­ sa. em sua bela e tremenda Divina comédia (VI. como percebe com clare­ za Maquiavel cm sua obra Discursos sobre a primeira década de Tito Ltvio. bem como o justitium (suspensão da atividade dos tribunais). Em 451 a.C.162 Teoria Geral do Estado bastam instituições políticas formalmente perfeitas. a ditadura prosperou e foi útil.

Quando o cesarismo enseja o favorecimento de poucos. medidas excepcionais que lembram.. parente). por intermédio da Lex Antonia de dictatura in perpetuum tollenda. mediante um decreto. tudo leva a crer que Júlio César desejava instituir sua nova concepção de ditadura na figura de Otávio.6 Formas de governo 163 dura cesariana fez-se permanente e ordinária. funcionário nomeado para exercer atribuições extraordinárias e específicas. criando. César subs­ tituiria os antigos magistrados por um apenas. depois. primeiramente chamado de Otávio (63-14 a. também denominada tirania. Tomando a expressão ditadura em sentido amplo.C. em razão da desordem imperante.01. Assim. por delegação. César obteve a garantia de que sua ditadura seria perpétua. o cesarismo é a forma dc exercício do poder político na qual o governante busca perpetuar-se no poder sem infringir a lei. em­ bora o como fazer ficasse a cargo deste mandatário. Procurando dissimular a transformação da República em regnum. Além do mais. finalmente. proposta. sucessor de César. denominado Junta da Salvação Pú­ blica ( Comitê de Salut Public). Em 44 a. sufocar revoltas populares. mas burlando-a. temos o nepotismo (de nepote.C. O co­ missário recebia do príncipe. evidentemente . quiçá. O governo cesarista nem sempre é mau. quando a Convenção Nacional. no qual pontificou Robespierre. a duração do exercício do cargo comissarial era rigorosamente transitória. a partir de então. O fato é que as formas corruptas da ditadura romana devem ter denomina­ ção diversa. contudo.. restabelecer quaisquer resquícios da ditadura. evidentemente. Otaviano Augusto. instruções a respeito do que fazer. que instituiu o tribunal revolucionário e se mostrou fanático defensor da República. ele próprio. colocada acima do consulado. encarnada no denominado comissá­ rio. por Marco Antônio. a figura do princeps e abstendo-se de alterar o quadro das anti­ gas magistraturas. no ano de 1793. a governantes legal­ mente constituídos. com prudência. A pa­ lavra cesarismo vem. em razão da falta de higiene existente nas cidades etc. Na verdade. fruto da reação do Senado. administrar a extirpação dc focos de epide­ mias comuns à época. ainda em 44 a. a exemplo da aesymnetia grega. foi obrigada. cuja eleição . na Idade Média.). criava-se na França revolucionária. Após a morte de César. incumbida de redigir uma nova Constituição e transmitir o poder.C. uma instituição análoga à ditadura romana. teremos.1791. de imediato. na França revolucionária. Exemplo de poder ditatorial colegiado poderemos encontrar. pois este já se tornara seu fi­ lho adotivo. por exemplo. por um estado de terror. a delegar am­ plos poderes a um colégio de nove membros. o moderno estado de sítio (état . o Senado eliminou a nova magistratura. dc César. o que o torna irregular é a «ânsia da perpetuidade cm fraude à lei.teórica. evitou. Já em 10.seria anual e reservada ao povo. responsável. Tais aberrações levaram ao seu assassínio. em detrimento da coletividade.

logo após. segundo a qual a república seria dirigida por dois cônsules eleitos anualmente.guardadas as devidas proporções! . forma política que dispensa qualquer ideolo­ gia: um chefe é incondicionalmente obedecido. mas isto já seria impossível no caso de todos exerce­ rem uma ditadura. o estado de sítio ou de urgência são exemplos de tais métodos. A lei marcial. será um efêmero presidente de alguma república andina. Referindo-se aos regimes autoritários modernos. adotadas pela maior parte dos Estados contemporâneos. visto que a principal característica da ditadura é justamente a concentração do po­ der em uma ou . muito adequadamente. confor­ me o caso. De início. Seja o poder ditatorial enfeixado nas mãos de um órgão apenas (sentido estrito) ou em vários órgãos (sentido amplo). elasse exploradora. Pois bem. convenhamos. . classe social destinada a dirigir a tarefa dc libertação das mas­ sas trabalhadoras exploradas pela burguesia.quando muito . o Direito Públi­ co russo referia-se a uma expressão célebre. pois uma ditadura sem ditadores. Na verdade. Os cônsules seriam ele próprio e Yegros. não renegava uma concepção toda própria de ditadura. Carl J. conseguiu tomar-se ditador supremo e perpétuo! Até o aparecimento da vigente Constituição soviética (1977). sendo no­ meado. Bur­ deau aponta formas de cesarismo e ditaduras. eis um Napoleão. Se ele for um gênio. o homem liberto dos grilhões do poder político do Estado. para fazer frente às crises político-sociais. poderemos. um contrassenso. era o período em que o proletariado. a ditadura do proletariado. indispensável ao advento do comunismo. pela Assembleia. estágio final da evolução humana. inaugurando o período conhecido. o próprio Marx. Friedrich denomina ditaduras constitucionais as medidas de caráter ex­ traordinário. a ditadura do proletaria­ do. Exemplo curiosíssimo de forma política que recorda o consulado e a ditadu­ ra romanas . mesmo antes do transcurso deste prazo. para um futuro promissor. falar cm ditadura. jamais o seu desmembra­ mento numa coletividade. que antevia. cujo secretário era Gaspar Rodríguez Francis. vítima inevitável de alguma rebe­ lião ou pronunciamento. individualista por excelência. de classe é. exatamente como na antiga Roma. necessária. uma Junta de cinco membros. ditador por três anos e. exercia um poder ditatorial sobre esta. esta república sul-americana teve a governá-la. inicialmen­ te. Que vem a ser a ditadura do proletariado? Segundo a doutrina marxista. Como se vê. foi promulgada uma Constitui­ ção inspirada pelo próprio Francis. e. no mínimo. Indepen­ dente a partir de 1811. diz Burdeau. o cesarismo empírico.em algumas pessoas. até que o Estado desaparecesse e surgisse a sociedade comunis­ ta. como “Terror”.oferece-nos o Paraguai. se não for. mas desde logo Francis se desfez do colega. surgiam as prisões em massa e as execuções. em 1813. simplesmente porque sabe fazer-se obedecer. uma ditadura coletiva. sob a presidência do General Yegros. já não seria di­ tadura.16 4 Teoria Geral do Estado de siège).

dizia o seguinte: Meu caro General. Editorial Estampa. São Paulo. com o advento da sociedade comunista. Marx insiste no caráter inelutável desta ditadura.6 Formas de governo 165 A seguir. Burdeau aponta a ditadura ideológica. e b e n s t e in . A libertação do homem só será possível com a desaparição do poder político e com a submis­ são da classe dirigente (a burguesia) a uma ditadura (a do proletariado. Buenos Aires. isto sim. Finalmente. este país irá cair infalivelmente nas mãos de uma multidão desenfreada para passar depois a tiranetes quase imperceptíveis de to­ . pois. o ditador não se satisfaz. México. o chefe busca apoiar-se nas camadas sociais menos favorecidas. Nela. que viria a ser o primeiro presidente do Equador. terceiro. Nesse caso. . Embora aparentada à ditadura do proletariado imaginada por Marx. Afonso Arinos de. Seria pueril. que governei durante vinte anos c que desse tem­ po poucos foram os resultados certos que obtive: primeiro. Escritos políticos. ele não po­ deria tomar tal iniciativa a não ser renunciando à própria existência. El totalitarismo. absolu­ tamente. o general Juan José Flores. No seu livro Carta a respeito do programa de Gotha. Os regimes políticos. enfaticamente e com dureza. Lisboa. com o fato de seu poder ser mantido apenas pela força. El cons- titucionalismo brasileno en la primera mitad dei siglo X IX . quarto. de modo rudimentar. 7) CAUDILHISMO Bibliografia: verger b o l ív a r . No dia 09. 1965. fazer uma revolução é lavrar no mar. Tal ditadura será transitória. Unam. Exa. as mais baixas paixões do populacho. 1966. 1957. as quais ele dirige a seu talante. ele desenvolve. à qual já nos referimos. 1977. para usar uma expressão do próprio Marx. na qual. m elo franco William. A ditadura proletária é outra espécie de ditadura moderna apontada por Bur­ deau. Difel. Paidós. Simón. a exemplo dos demagogos das antigas tipologias das for­ mas de governo. du - . a América é ingovernável por nós. classe do­ minada). Maurice. muito mais refinada e subs­ tanciosa 110 que se refere à doutrina.1830. diz Marx. a única coisa que se pode fazer na América é emigrar. instrumento de opressão de uma classe sobre outra. Sabe V. nem de longe possui o embasamento doutrinário desta. ela marcará o definhamento e a desaparição do Estado. Simón Bolívar enviou uma carta a um de seus colabora­ dores. supor que o Estado tende a eliminar as relações de subordinação.1 1. a ditadura do proletariado. segundo. O chefe restringe-se a explorar. uma ideologia político-social destinada a legitimar. na qual o proletariado intervirá despoticamente. Por seu inter­ médio. Marx antevê a liberação do indivíduo mediante uma fase necessária de vio­ lência.

os serviços postais. depois. Em verdade. tornou-se ponta avan­ çada do movimento libertário e órgão de transição entre a autoridade do Vicc-Rcinado e a América independente. na América espanhola. governador do Reino c presidente da audiência. pois tanto o monar­ ca indígena como o vice-rei foram executivos centralizados. Era dotado dos títulos de capitão-geral. o incontornável atavismo do poder pes­ soal. se fosse possível a uma par­ te do mundo voltar ao caos primitivo. pois sob o ângulo histórico esta orientação trunca uma parte importante de sua evolução. dificilmente conseguiríamos compreender alguns traços das instituições políti­ cas latino-americanas sem examinar as influências do passado indígena e colonial. a dis­ tribuição de provisões. autoritários. o superintendente da Fazenda Real. A primeira revolução francesa provocou a decapitação das Antilhas. os centros atuais do poder político. Assim. verá que rodos se entregarão à torrente da demagogia c desgraçados dos povos. Exa. pelo moderno Estado peruano. Era. como veremos. o vice-rei espanhol tornou-se a encarnação suprema do Estado espanhol nas índias. quinto. o ccnso. os europeus não se dignarão conquistar-nos. a segunda causará o mesmo efeiro neste vasto continente. V. algumas dc suas atribuições . Como acentua Salvador Valencia Carmo­ na. convertida em Vice-Reinado e. este seria o ultimo período da América. mais tarde. Por ou­ tro lado. sexto. precisamente uma instituição colonial. note-se bem. A súbita reação da ideologia exagerada vai pre­ sentear-nos com quantos males nos faltavam e exagerar os que já possuíamos. a saúde pública. Pois bem. as obras públicas. O poder se achava centralizado no vice-rei. depois. no México atual. Por outro lado. estabeleceu-se uma profunda relação afetiva entre o governante e o povo. da qual derivou o paternalismo ainda hoje encontrado na política americana. se a unanimidade dos historiadores situa o nascimento oficial dos Estados latino-americanos em princípios do século X IX . o desenvolvimento econômico. o cabildo. des­ graçados dos governos! Ninguém melhor do que o Libertador conhecia o temperamento e as inclina­ ções do latino-americano! Inicialmente. tal afirmação é válida ape­ nas do ponto de vista político. assim o império inca.166 Teoria Geral do Estado das as cores c raças. e a confe­ deração asteca. que do pon­ to de vista administrativo tinha a seu cargo os serviços gerais. foram ins­ talados também os primeiros estabelecimentos espanhóis. su­ cedido pelo Vice-Reinado e. Destes períodos nos vem profunda tradição de poder pessoal. devorados por todos os crimes e consumidos pela feroci­ dade. a instrução pública e a previdência social. nos locais onde se desenvolveram as sociedades indígenas. Ora. o exacerbado individualismo c a quase ausência dc senso dc responsabilidade social trariam as disfunções políticas que todos conhe­ cemos. desde os antigos impérios pré-colombianos até os modernos presidentes latino-america­ nos. deitam suas raízes nas velhas capitais indígenas ou nas divisões estabelecidas durante o perío­ do colonial.

a consolidação do poder personalizado. quatro os modelos a ele referentes. Por outro lado. basicamente. como os decretos-leis contemporâneos. sistema que obteve pouco sucesso ao retardar a exploração econômica e a implantação de uma administração realmente eficaz no Brasil. por outro lado. difícil de acreditar. da qual pode­ riam dizer “obedecemos sem cumprir. expedia atos administrativos de­ nominados instrucciones. faziam com que o vicerei tivesse. a função executiva passa a cobrar um interesse axial. a administração foi confiada a grandes senhores. o temperamento do espanhol à época da conquista e da colonização. foram desen­ cadeadas apaixonantes controvérsias doutrinárias. No plano judi­ ciário podia atuar de ofício ou mediante invocação da parte contra os ouvidores. Os espanhóis são amigos da ostentação. apontado com muita ojeriza por Francesco Guicciardini: São orgulhosos por natureza c não gostam dc estrangeiros. costuma-se denominar aqueles quinze anos o período de ensaio e de formação do Executivo. mas em suas casas levam uma existência miserável. dão-se ares de fidalgos e preferem ser soldados ou (antes do tempo de Fer­ nando) salteadores de estrada a fazerem-se mercadores ou exercer qualquer função se­ melhante. sob Filipe II. Para as novas Constituições. de fato. e profundas transformações. os donatá­ rios. divididos em doze capitanias hereditárias e dotados de grande poder. 'Iodos os espanhóis desdenham o comércio. que consideram degradante. a preocupação de Portugal continuou vol­ tada para as índias Orientais. mui­ to mais de forma do que de substância. vestem belas roupas e montam vis­ tosos cavalos. sendo dcscortescs para com eles. a administração espanhola ampliou sua influência sobre a administração das colônias lusas e. rápidos e peritos no manejo das armas. e logo se tratou de levar à prá­ tica exóticas experimentações. A princípio.. que. com pouca submissão à Coroa. do que qualquer outra nação cristã. talvez. No Brasil. vão ocorrer. Assim: . Em torno dela. São mais belicosos. os alcaidcs e os fiscais.. mas não o são realmente.6 Formas de governo 167 transcendiam a função executiva e alcançavam o plano legislativo e o judicial: além dc participar da audiência da qual era presidente. desde o descobrimento. tinham vigência imediata.”. Durante a união pessoal imposta a Portugal e seus domínios pela Espanha (1580-1640). até que outras potências europeias começaram a co­ biçá-las. desenvolvem-se as guerras de independência dos Estados latino-americanos. conceder indultos de penas impostas pelos tribunais. com isto. bem como a dificuldade dos meios de comunicação. fazem ponto de honra em preferir a morte a submeter-se à vergonha. Aparentam ser muito religiosos. sendo. Por isso. Num breve período de quinze anos (1810-1825). a grande distância que separava o novo continente da metró­ pole. plenos poderes. embora sujeitos à revisão pelo Conselho das índias. c ágeis. Curioso e sintomático.

adver­ te Afonso Arinos de Melo Franco que Pedro I teria sido o grande inspirador da in­ serção do Poder Moderador na Constituição Imperial. no qual foi apresentado o Projeto de Constituição para aquele país. num discurso perante o Congresso Constituinte da Bolí­ via. do equilíbrio e da harmonia dos poderes (art. embora irreversivelmente condenadas pela roda da História. Repudiava com uma concepção romântica o velho liberalismo e pretendia substituí-lo pelo planejamento social. a sociedade seria dirigida por sábios. por Cristophe e Iturbide. tornando a monarquia rejuvenescida ideologicamente. O requisito de uma ditadura . a fim de cuidar da conservação da independência. desenvolvida por Clermont Tonnerre e haurida. Dentro des­ sa filosofia. Com efeito. Dava ênfase especial ao progresso técnico mediante a utilização social das capacidades humanas e preconizava a aplicação dos métodos científicos à organização e controle das relações sociais. um homem dotado de grande descortino político.a expressão é do próprio Comte .exercia forte atração sobre os latino-americanos. como se percebe. 8°). b) o colegiado. por costumes e tradições antiquados. dc certo modo. autóctone. assim se referiu ao cargo dc Presidente da República: . gra­ ças à doutrina do Poder Moderador. ainda dominadas. coetâneos. As tentativas de instauração da monarquia no Haiti e no México. c)o vitalício. empíricos e experimentais. em 1825. de acordo com as verdades posi­ tivas da ciência. o imperador ficava dotado.168 Teoria Geral do Estado a) o monárquico. Aliás. ainda. de inspiração francesa e. isto é. oriundo do pensamento de Bolívar. b) Executivo vitalício: inspirado na Ideologia de Augusto Comte (1798-1857) c de Simón Bolívar (1783-1830). que pôde manifestar-se na Constituição de 1824. respectivamente. fato que trouxe para o Brasil um desenvolvimento inimaginável até então. remanescendo o Brasil sob o velho regime algum tempo. seu filho. em grande parte. terminaram breve e tragicamen­ te. cm função do expansionismo napoleônico. além das funções exe­ cutivas. das ciências físicas. com o fito de consolidar sua posição pessoal perante os demais poderes políticos. da “chave de toda a organização política”. os fatos de ter sido Pe­ dro I o procurador da independência e Pedro II. d) o presidencialista. vinculado às velhas tradições. Com o Poder Moderador. restariam. não fosse a emigração da Corte para o Brasil. por Benjamin Constant Botelho de Magalhães. no Brasil. Isto somente seria conseguido mediante uma república ditatorial. a) Executivo monárquico: nos primórdios da independência as ideias monár­ quicas ainda gozavam de grande prestígio. Comte rejeitava as abstrações sociais de ordem metafísica e propunha-se a aplicar à sociedade os mé­ todos positivos. assim é que Bolívar. derivado do sistema político norte-americano. menos pelas virtudes ínsitas à ideologia do que pelas circunstâncias históricas.

Despreparados. restringe-se a isto na adoção da monarquia. Dai-me um ponto fixo e com ele moverei o mundo. “amor e fidelidade constante” ao rei Fernando VII. dc 1811 a 1814. nas primei­ ras Constituições latino-americanas. na nossa Constituição. Também a Constituição do Equador de 1812. ao dedicar. se torna necessá­ rio um ponto fixo à volta do qual devem girar os magistrados e os cidadãos: os ho­ mens c as coisas. em 1811. Os novos ideais. três assistentes e dois secretários com voto informativo que nomeará o congresso” . escolhido um diretor supremo das provín­ cias unidas. um executivo assim concebido permitiria a transição do velho ordena­ mento colonial para um Estado liberal dc feição moderna. foi revogada logo em 1831. sem que isso implique. tiveram curta duração. ação. deveria haver. como o Sol que. uma vez que nos sistemas sem hierarquias. Cortou-se-lhe a cabeça para que ninguém receie as suas intenções e ataram-sc-lhc as mãos para que não cause dano a n in ­ guém.dá vida ao Universo. contudo. como tribunos. Desde logo. a de mais curta vigência. Nele se estriba toda a nossa ordem. e do México. A Constituição de Cundinamarca de 181 1. caso contrário. sendo. a ideia de Executivo colegiado se mostrou inefi­ . em 1814. Esta suprema autoridade deve ser perpé­ tua. “será exercido por um presidente. inicialmente. Algumas Constituições estabeleceram o colegiado sob forma velada. Suas fontes são as Constituições francesas de 1793 e 1795. A Constituição de Bolívar. Para Bolívar. pois em todo o restante de seus artigos fala dc um Estado independente. ao rei Fernando VII. para remediar a eventualidade dc o rei espanhol ocupar o cargo. cujo Exccutivo. A Argentina adotou o Executivo colegiado. por parte dele. 9o. considerada a “Arca da Aliança” dos povos latino-americanos e a “transição entre Europa e América”. aparentemente monárquica. Aliás. formado por três pessoas. censores e se­ nadores. . da Venezuela. dizia um antigo. no mesmo ano. em sua ausência. tais instituições se sobrepusessem às vigentes. 5°. qualificada de curiosa mescla de princípios republicanos e monárquicos. para fruir dos benefícios dos institutos do liberalismo. o projeto de Constituição bolivariano previa muitas magistraturas à romana. até que. desde logo. no art. de ditadura vitalícia. reflete a mesma ambigüidade no Poder Executivo. tornando-se. diz o art. ao qual re­ conhece como monarca. desde que este viesse para Santa Fé de Bo­ gotá para exercê-lo. Diga-se o mesmo do Chile. mais que nos outros. ao cabo deste período. um pe­ ríodo de transição. c) Executivo colegiado: o Executivo colegiado surge. então. ainda. ironicamente. o Poder Executivo seria exer­ cido pelo presidente da representação nacional e por dois conselheiros. que é encomen­ dado. firme em seu centro.6 Formas de governo 169 O Presidente da República acaba por ser. o executivo vitalício seria intermediário entre a monarquia c a república. enraizadas na consciência popu­ lar. Para a Bolívia esse ponto é o presidente vitalício.

do presidencialismo. Cinco anos mais tarde. ensejando o aparecimento das Constituições de 1934 e de 1942. segundo. incluída a oposição. destina­ da a substituir o executivo presidencial. Em 1952. tornando o sistema inaceitável. se impôs aos latino-americanos. feitas em Puebla de Los Angeles. um colegiado de nove membros. conta-se. ao passo que o Conselho seria formado por nove ministros. o Uruguai experimentou um notável surto de progresso. d) O presidencialismo: o modelo presidencial dos Estados Unidos foi aquele que. desta feita. 97 e 105). Assim. os quais suscitaram viva polêmica entre colegialistas c anticolcgialistas. seguras e inquestionáveis. Com efeito. afinal. que exigem decisões rápidas. as duas tendências celebraram uma síntese que mesclava presidencialismo c colegiado. uma reforma constitucional trouxe de volta o colegiado. o colegiado sofreu um forte abalo. sua inadequação a tempos de agitação social. no segun­ do. visitou a Suíça. Bem mais significativa foi a experiência uruguaia do colegiado. em péssima tradução e impressão ainda pior. Batle y Ordónez publicou seus Apuntes sobre el colegiado. 82. 70). que tornou o país conhecido como a “Suíça sul-americana” . dividido cm dois órgãos sepa­ rados e independentes: a Presidência da República e o Conselho Nacional de Ad­ ministração (art. dc 1919 a 1933 c dc 1952 a 1967. O inegável progresso econômico dos Estados Unidos. a Cons­ tituição de 1918 criou o Poder Executivo dualista. irresistível nessa parte do mundo. político de grande prestígio e admirador das insti­ tuições helvéticas. Coincidência ou não. com a ado­ ção. o excessivo aumento dos integrantes do colegiado. fundamentando-se na ideologia de que esta forma de organização política impede o poder excessivo de um só homem. A atração por esse regime de governo foi. e Gabriel Terra promoveu profundas reformas políticas no Uruguai. tendo a seu cargo a chefia de Estado (arts. No primeiro. onde colheu subsídios para a implan­ tação do colegiado em seu país. 71 e 79). A obra propugnava uma junta governamental dc nove membros. A ideia do colegiado foi introduzida no Uru­ guai por José Batle y Ordónez. que conhecia de perto. Foram dois períodos. logo após sua primeira gestão na presidência (1903-1905). os constituintes traziam nas mãos um exemplar da Constituição norte-americana. 85. durante os períodos de colegiado. além de per­ mitir a participação política de todas as facções. aos quais caberia a administração (arts. eleitos pelo povo para um mandato de seis anos. talvez porque tenha funcionado razoavelmente num país que havia deixado de ser colônia ao mesmo tempo que os países latinos. Com a Grande Depressão de 1929. Em 1913. que somente seria abolido de vez cm 1964. . O presidente seria eleito por um período de quatro anos. o impressio­ nante porte político de seus primeiros presidentes. de inclinação parlamentarista. o fato é que. no México de 1823. governou um Executivo dualista.170 Teoria Geral do Estado caz por dois motivos: primeiro. o efeito retórico de sua Consti­ tuição apaixonaram os latinos a tal ponto que. com efeito.

que definiu. contudo. nada pelo povo”. no fato de que as potências modernas . a América Latina passou por um período crítico. o individualismo típico dos latinoamericanos torna-se infenso à solidariedade. com seu despotismo esclarecido. França ou Bélgica. fenômeno já notado por Ferreira Filho. tem predominado o autoritarismo é provavelmente psicológica: a demo­ cracia oferece aos homens o máximo dc liberdade. então. Tal fato é fácil de compreen­ der se observarmos a grande quantidade de países subdesenvolvidos que se tornaram independentes a partir do fim da Segunda Guerra Mundial. Este é o efeito de outro fenômeno tipicamente latino-americano. se produz um retorno à natureza. criando. A principal razão dc que cm nosso século sc tenha prestado tão pouca atenção ao autoritarismo reside. Ao cabo de poucos anos. a Ebenstein.. somente age mediante provocação e.EUA. de forma condicionada. aguçadamente. um alto grau de responsabilidade de que muito poucos são capazes de aceitar. portanto. restringe sua liberdade e o campo para expressar-se individualmente. houve um . embora sua sociabilidade ou comunicabilidade seja percebida de imediato. em verdade. Após a Independência. que. embora permita. A razão pela qual. mais uma semente para o futuro totalitarismo nacional-socialista. mas exige. desde logo. O totalitarismo é o extremo oposto: livra os homens da carga da responsabilidade e. Grã-Bretanha. acentuando a rivalidade entre democracia e totalitarismo como o referencial político do século. entre outras. o caudilhismo. apresentou causas mui­ to bem lançadas por William Ebenstein. o que levou Duverger a afirmar que na América Latina “seguem-se homens e não ideias.são ou democráticas ou totalitárias. Alemanha e URSS . no curso da História. moldado no militarismo prussiano e no nacionalismo exacerbado. acar­ retado pelo desaparecimento da autoridade dos vice-reis. as raízes psicológicas do autoritarismo la­ tino-americano. provavelmente. O autoritarismo nega a liberdade e a responsabilidade da opção e ação políticas. um percentual de liberdade de expressão em questões não políticas.hoje como ontem .6 Formas de governo 171 Infelizmente o presidencialismo à norte-americana logo se corromperia numa autocracia muito latina. Isto. Kste princípio do impressionante prus­ siano bem poderia aplicar-se à América recém-emancipada. legada pela metrópole europeia: Grã-Bretanha. o Grande. em razão disso. ao mesmo tempo. contudo. o caudilhismo. pouco voltado para a vida política. com mordacidade. em certa medida. a democracia: “Tudo para o povo.. pois não foi por acaso que Kbenstein apontou.por sistemas autoritários. desaparecendo esta democra­ cia artificial. não deveria dissimular o fato de que a grande maioria das nações estão go­ vernadas .”. c surgindo. qual seja. por um breve período. O latino-americano é. via de regra. Foi Frederico. como veremos a seguir. Razão não falta. a nova nação se estrutura. por uma constituição demo­ crática. o apego ao poder pessoal. um governo autoritário. Ao receber sua indepen­ dência.

um regime parlamentarista. é devida. eminentemente biográfica. e que ocorreria também na Alemanha. governante hábil que. a estes. amigo das artes e das letras. e traduzia Shakespeare. Grande parte da nossa evolução. homens de armas. não ocorreram as vicissitudcs do caudilhismo. A etapa dos caudilhos não terminou de maneira brusca. feneceu paulatinamen­ te à institucionalização das ideias moderadas e ao declínio da instabilidade política. supriu-se o vazio de poder deixado pela monarquia espanhola. os caudilhos eram. juntando-se a isto a inexistência dc uma aristocracia já sedimentada. que costumava afirmar que à aristocracia ou governo dos melhores (aristoi: melhor + kratos: poder) sempre se sucederia um período de tirania. a Aristóteles. no exercício da função executi­ va c da moderadora. Enquanto os caudilhos hispânicos ad­ miravam Napoleão em suas aventuras bélicas. ocorreu na América Latina. No Brasil. assim. a D. es que. de imediato. tanto antes como después de su independencia. tudo inspirava o aparecimento de ho­ mens fortes. N a­ ções por edificar. . el Brasil siempre evolucionó politicamente mediante formas que garantizaron su continuidad institucional. contudo. Pedro II situava Pasteur e Victor Hugo acima de todos os homens. fre­ qüentes guerras civis. isto nos leva. via de regra. os presidentes. se não era expressamente previsto na Constituição. Aos caudilhos castrenses sucederam os caudilhos civis e. A história dos primeiros tempos da América emancipada é. dc tal forma que Jorge Reinaldo Vanossi afirmou ser a institucionalidadc uma cons­ tante na História do Brasil: Una nota característica. pacífica. Ora. que.172 Teoria Geral do Estado vazio do poder. Em nosso país as elites políticas resolveram as criscs dc maneira pacífica. ao longo do século X IX . mediante os caudilhos castrenses dos primórdios da independência. Pedro II. como acentuam Salvador Valencia Carmona e Jacqucs Lambert. quando a decadência da aris­ tocracia marcaria o início da gestação do nazismo. que conviene recordar en todo momento. No bubo lapsus ni anarquias prolongadas y menos aún situaciones de división estatal frente a la comunidad internacional. fenômeno que. em parceria com uma aristocracia liberal c ilustrada. ausência dc uma classe dirigente preparada para o mando. encontrava apoio no costume. pôde desenvolver. O poder pessoal coloca-sc acima das ideias e das insti­ tuições. contudo. diferentemente dos demais Estados latino-americanos. intranqüilidade social. Corroborando a intranqüilidade destes primeiros tempos. reitere-se. logo preenchido por homens fortes durante todo o século X IX .

A forma de Estado se acha ligada ao modo pelo qual o Estado se mostra estruturado em sua totalidade. Forma de Estado refere-se às relações que os elementos do Estado .1) Introdução Para revelarmos a natureza do presidencialismo é preciso esclarecer as expres­ sões forma de Estado. governo e normas jurídicas . 1964. Globo. Constituições de diversos paí­ . ­ Teoria geral do Estado. 1. Curso de derecbo constitucional comparado. 1979. Nacional. Simón. São Paulo. America Latina. Lisboa. Jorge. 1966. Cooperadora de Derecho y Ciências Sociales. El constitucionalismo hrasileho en Ia primera mitad m ir a n d a deI siglo X /X . Escritos políticos. . v a l e n c ia c a r m o n a Salvador. território. Buenos Aires. Edi­ f e r r e ir a f i­ . zer melo franco marquand c o Donald. Mab o l ív a r L uís drid. México. Lisboa. 1965. El totalitarismo. ses. Maurice. 12. Imprensa Nacional. Presidencialismo y parlamentarismo en cl Brasil. Saraiva. Universidad Nacional Autônoma dc México. São Paulo. lho e b e n s t e in . Unam. 1977. Sahid. .. Difel.. forma de governo e regime de governo. lambert. Porto Alegre. Os regimes políticos. n o s s i. Jacques.atina: uma perspectiva histórica. ed. maluf. 1983. ed. México. v a Jorge Rcinaldo. 1979. São Paulo. 1957. Curso de direito constitucional. duverger . Afonso Ari nos de.povo. Universidad de Madrid. 1966. El Poder Ejecu- tivo latinoamericano. Paidós. São Paulo. William. América I. . Buenos Aires. Manoel Gonçalves. torial Estampa. 11.apresentam entre si. Sugestões Literárias.REGIMES DE GOVERNO 7 1) PRESIDENCIALISMO Bibliografia: a g e s t a . 1980. 1979. particularmente quanto aos 173 . 1980. Sánchez. .

a monarquia inglesa para o Novo Mundo. pois a temporariedade do mandato do presidente. cujo possível arbítrio era severamente reduzido pela temporariedade e pela colegialida­ de do cargo. com separação integral de poderes. preservada na figura dos cônsules. bem diferente: o regime parlamentar ainda não se achava definitivamente estabelecido. refere-se ao modo pelo qual o Estado se estrutura para o exercício do poder político. arts.174 Teoria Geral do Estado seus elementos constitutivos. os norte-americanos não romperam. Independentes as colônias. por atos do presidente. governa. por assim dizer. . 87 e parágrafo único). com as instituições da Inglaterra. mas seu poder seria limitado no tempo e pela lei. as figuras de che­ fe de Estado e de chefe de governo confundem-se no presidencialismo (Constitui­ ção do Brasil. o que não ocorre no regime parlamentarista. II). Como adverte Duverger. com vantagens. pura e simplesmente. a monarquia foi. portanto. Quanto à expressão forma de governo. Não respondem.já revela a preeminência do presidente neste regime. o sistema inglês assimilado pela Convenção de Fila­ délfia não é o de hoje. no qual as figuras de chefe de Estado e de chefe de governo são distintas. A origem do presidencialismo se encontra na própria formação dos Estados Unidos. A vitaliciedade e a hereditariedade peculiares à monarquia foram substituídas pela temporariedade dos mandatos e pela eletividade para os cargos públicos. mas o de 1787. II. Por isso e que se diz que o presidencialismo é o regime de governo em que a chefia de Estado (representação do Estado) c a chefia de governo (administração) são encarnadas num só órgão. Isso não ocorre no parlamentarismo. Os norte-americanos perceberam que seria difícil transplantar. o presidente da República. de certa forma. às novas circunstâncias. e Constituição do Brasil. formadas a federação. o presidente é auxiliado por ministros de Estado (Constituição do Brasil. no caso o presidente da República (Constituição dos EUA. o que.presidencialismo . Como visto. encarnado apenas pelo presidente. entretan­ to. e nem por isso deixaram de adaptá-la. compete a um só órgão (mono . deu bons frutos. então. É bom lem­ brar que o Poder Executivo é uno. art. 2o. em tese. Seção 1. impediu o arbítrio sempre laten­ te na monarquia. 84. sua pátria-mãe. O Poder Executivo no presidencialismo é monocrático. 76 e 84. Incumbi­ do das funções de administração e de representação. O constitucionalista James Bryce faz sugestiva comparação entre o presiden­ cialismo norte-americano e a república romana. A própria denominação do re­ gime . abruptamente. é ab­ surdo.um ). vale dizer. apanágio da forma republicana de governo desde Maquiavel. A prática.1. a uma simples monarquia limitada por um parlamento. O presidente da República evocaria o monarca inglês. Quando os reis de Roma foram expulsos. uma espécie de monarquia temporária. art. isto é. quem exerce o poder. Já a expressão regime de governo diz respeito ao modo pelo qual os Poderes Executivo-Legislativo se relacio­ nam. VII e VIII). art. Cria­ ram. Os mi­ nistros de Estado são meros auxiliares no âmbito puramente administrativo. O gover­ no é a dinâmica do poder. pois a forma monárquica de governo é sempre vitalícia. e as instituições britânicas muito se as­ semelhavam.

art. é exigida a idade mínima de 35 anos para o exercício das funções presidenciais. § 3o. um colégio eleitoral que vai.. o presidente poderia ser indefinida­ mente reelegível. realizada justamente para derrubar o poder pessoal. 12. O presidente norte-americano é eleito para um mandato de qua­ tro anos de duração (Constituição dos EUA. art. 2o. cm cada Estado-Membro. art. sedimentado ao longo de séculos sob o poder férreo de monarcas absolutos. Madison e Jay. de Hamilton. vice-reis e corregedores. no Brasil. mas também equilíbrio. no caso. Nos EUA a eleição presidencial é feita em dois turnos: no primeiro os eleitores escolhem. Por outro lado. facilmente deformado pelo caudilhismo.1). Cícero. a). ora de outro Poder. Antes dc referido aditamento.1). A tripartição de Poderes é apanágio do regime presidencialista. em man­ dato imperativo. art. Ao cacique sucederiam conquistadores aventu­ reiros. à ideo­ logia liberal da Revolução Francesa. Com efeito. do monarca. Aristóteles. embora a prática demonstrasse a inevitabilidade da predominância. a tripartição de Poderes não é apenas divisão. embora desde George Washington . plasmando. Tal princípio. 2o. a escolha dos ministros não depende do referendo do Legislativo. a inclinação do latino-americano para regimes de caráter autocráti­ co. aquilo que repelia o presidencialismo na Euro­ pa seria o motivo de sua imediata adoção na América Latina: o poder personaliza­ do nos caudilhos. contudo. até Roosevelt. embora a delegação de atribuições de um Poder a outro seja uma realidade. Unidades fe­ deradas mais populosas. via de regra. a tradição liga-se à psicologia para tender ao poder pessoal. é contradiço na obra capital do presidencialismo e do fede­ ralismo norte-americanos: O federalista. . e tal mandato não poderá ser renovado por mais de uma vez (Emenda à Constituição dos EUA n. bem como os líderes da emancipação. Daí o interesse dos candida­ tos em captar votos nos Estados-chave. 2o) excluem a possibilidade de dissolução do Legislativo pelo Executivo e vice-versa. VI. Tanto nos EUA (Constituição. têm direito a um maior número de votos do que entidades menos populosas. A separação e a independência dos Poderes (Constituição do Brasil. O vasto império dos incas. Seção 1. foi substituído pelo poderio espanhol e seus vice-reis. ora de um. Neste livro.que se recusou a disputar um terceiro mandato e a aceitar o próprio título de rei que alguns admiradores lhe que­ riam outorgar .fosse criada uma tradição respeitada por todos os presidentes. votar no candidato da preferência de seus eleitores.. Illinois e Ohio. na América Latina. I). Seção I.7 Regimes de governo 175 regime no qual os ministros integram o próprio Poder Executivo. 22. Lembra oportunamente Duvcrgcr que a relativa frieza demonstrada pelos Es­ tados europeus quanto ao regime presidencialista é decorrente sem dúvida. como ocorre nos EUA. como Nova York. Por isso se diz que na América Latina seguem-se homens e não ideias. Locke e definitivamente sistematiza­ do por Montesquieu. em definitivo. sendo que a Lei Magna brasileira estabelece que o presiden­ te deverá ser brasileiro nato (art. 5) como no Brasil (Constitui­ ção. 14. § 3o. Ora. elaborado por Heródoto. Daí o fascínio do presidencialismo.

não educando c não sen­ do ético. Tradicionalmente.2) Presidencialism o histórico e direito comparado Referindo-se ao Estado liberal. a). o presidente sempre foi eleito pelo sufrá­ gio popular. 1a VI. o presidente passaria a ser eleito mediante voto direto e secreto. Surge. deverá subme­ ter-se a uma segunda votação. entretanto. mediante uma in­ tervenção mais incisiva na esfera individual. o presidente.1963. concorrendo com o segundo candidato mais vota­ do. estar 110 gozo dos direitos políticos.1961 a 23. a eleição indireta foi a preferida. § 3o. 74 da Constituição Federal de 1969 dispu­ nha que o presidente seria eleito pelo sufrágio de um colégio eleitoral. 6). que vi­ gorou de 02. 1). a democracia providencialista. § 3°. Depois da insurreição de 1964. surgiram novas necessidades sociais e. 102). com breve interregno parlamentarista (Emenda 11. bem como a propriedade individual. bem como registrado em partido político (CF. 12. 1. Difunde-se e consagra-se o entendimento de que o Estado não deve apenas assegurar a liberdade.1985. 14. De 1822 até hoje o Poder Executivo no Brasil foi exercido.01. Realmente. o mundo passou por grandes trans­ formações. ensejada pelos anseios populares e pela atuação in­ cisiva de personalidades de escol do pensamento liberal. corporifica o Estado-providência: [. 25. Do século XVIII para cá. 4.09. O candidato vencedor que não obtiver maio­ ria absoluta de votos.05. costumava o grande pensador católico Bossuet afirmar que “o Estado que pretendemos fraco demais para não nos oprimir tornou-se fraco demais para nos defender”. §§ 2° e 3°. ativamente. não computados os em branco e os nulos. com suas . cm sessão pública e mediante votação nominal. para os ideólogos do liberalis­ mo clássico. em decorrência da difusão das ideias so­ cialistas e do próprio catolicismo social. pressionando os governos a deixarem a postura de inércia do État gendarme e a promoverem. art. direito majoritário. com o advento da Emenda Cons­ titucional n. por maioria simples. A Constituição de 1824 conferia a chefia do Executivo ao imperador (art. quando foi revogada pela Emenda 11. prccatados dos excessos do absolutismo na França.] muda a concepção da missão do Estado. O art. o bem-estar social. dando-se a eleição. na concepção de Ferreira Filho. deixando a cada um. que dariam vida ao perío­ do que vivemos. de 15. ser brasileiro nato (CF art.. conhecido como “Nova República”. praticamente sem interrupção. que. Dc janeiro de 1963 em diante o poder monocrático do presidente da República con­ solidou-se ainda mais. De 1891 a 1961 é evidente que nosso Poder Executivo foi monista. então. conforme determina o art. 77. com estas. num só turno. de forma monocrática. o poder pessoal tem uma longa tradição histórica. as correntes socialis­ ta e antiburguesa. o Estado deveria ter como única missão preservar a inviolabilidade da pessoa c a iniciativa privada no setor econômico.. a partir daí.176 Teoria Geral do Estado Finalizando: 110 Brasil. Entretanto. da Constituição. Deve.

vale dizer.7 Regimes de governo 177 próprias forças. é intuitivo que a fun­ ção executiva se torna a mais qualificada para esta nova missão. final). de Budin. no período de cinco anos. a conquista do bem-estar. Os juizes da Suprema Corte seriam a personificação da nomocracia. Ao contrário. com o advento da política do New Deal do Presidente Rooscvclt. passando a ser denominadas. aqui. Trata-se da supe­ ração da nomocracia (g. já que somente nesta concepção o homem estará plenamente realizado. Os novos tempos. O fenômeno descrito surge. A Suprema Corte nor­ te-americana. five to four e profligadas num panfleto intitulado Government by Judieiary. Este percebeu. pois se lhe outorga um amplíssimo poder para dirigir o gover­ no. penoso e inquietante. ironicamente.3) Presidencialism o versus parlamentarismo na Am érica Latina O regime presidencialista. com efeito. para reproduzir o velho conceito tomista acerca da essência do bem co­ mum. uma vida huma­ na e digna. um sol ao redor do qual giram as forças sociais. Assim. que as novas medidas que tomariam despertariam a aver­ são da Suprema Corte. em não reconhecer validade às leis do Congresso. especialmente por termos. confrontada pela telocracia do Executivo. téleios. parcialmente em descompasso com os novos tempos. por aqueles “que nunca se aposentam e raramente morrem”. 1. manteve-se como tendência dominante nas Constituições americanas. da norma em si. fundamental no Estado moderno. renova-se a concepção medie­ val de que o estado tem por missão garantir para todos o bem-estar. Os poderes atribuídos ao presidente vão muito além da função mera­ mente representativa. Estados em desenvolvimento. na Consti­ tuição. uma Constituição não deve visar apenas a liberdade. Magistrados conservadores. traz consigo a inevitável aporia . timbrou. advertia Rooscvclt que. de caráter fortemente intervencionista. uma vez que aquela mal se adapta a reger a política econômica. Ora. sob o pesado fardo das questões econômicas. embora num atavismo tipicamente rousscauniano as Constituições ame­ ricanas timbrem em colocar o Legislativo antes dos demais poderes. tam­ bém a América Latina sofreu a influência ideológica e institucional do Estado in­ tervencionista. de forma cristalina. para ser legítima. pro­ venientes em grande parte da aristocracia sulista. tudo isto é aparência: o presidente dos Estados latino-americanos se mostra. contudo. expressamente. Para intervir de maneira determinada o Estado carece de dois pressupostos: ra­ pidez nas decisões e conhecimento técnico das questões. as decisões eram tomadas pela maioria pre­ cária de cinco contra quatro votos. desde logo. pela telocracia (g. mas também o bem-estar de todos. O processo desenvolvimentista. Por isso. como queria o pensamento de Bolívar. porque não estavam previstas. chegaram. segundo alguns. formada. atualmente. ou seja. adotado desde logo nos primórdios do constitucionalismo latino-americano. a anular 377 leis! Mesmo assim. não se circunscreveram aos Estados Unidos. nomos: norma). a predominância da finalidade da lei.

os latino-americanos jamais demonstra­ ram uma inclinação maior. em várias Constituições encontraremos diversas nuanças parlamentaris­ tas. 1859 e de 1867 do Haiti. tal característica. com a in­ dependência. havia condições favoráveis ao parlamentarismo. edu­ cacionais. g. se propugna o retorno ao parlamentarismo como regime de governo em nosso país. Em contrapartida. conferem atribuições importantes ao presidente para intervir nos problemas econômicos. como vimos. a do Peru. estavam obriga­ dos a se demitir.. na América Latina. e a do Uruguai. Na verdade. 123 e segs. O Executivo latino-americano distingue-se por seu acentuado caráter unipessoal. O primeiro período parlamentarista brasileiro. Sob o impulso das correntes socialistas que floresceram na Europa do século X IX . cláusula antirreeleicionista. firma-se a tendência de conside­ rar o presidente da República o principal órgão propulsor do desenvolvimento na­ cional. Aqui. o resultado de uma longa evolução consuetudinária. de 1931/37. Em tal sentido. uma herança significativa para o direito constitucional. incorporação ao presidencialismo de alguns institutos parlamentaristas etc. procede de uma arraigada tradição: nas épo­ cas indígena e colonial tivemos executivos fortes. então. que intro­ duziu o voto de censura que subsiste em textos posteriores. e. a de Honduras. sequer o mencionava.1874 e 1891. desenvolvimento nacional e justiça social”. os chamados mecanismos anticaudilhistas. depois. as Constituições latino-americanas. as da Venezuela de 1864. Diga-se o mesmo da Constituição equatoriana de 1878. por isso. Até o momento. em seus arts. Não obstante isso. um valioso ensaio de José Miranda considera o enfraqueci­ mento e a constrição do Executivo como uma das tendências mais recentes do constitucionalismo latino-americano. de 1838-1889. como vimos. pelos caudilhos civis.1917. a Constituição me­ xicana de 31.01. em maior ou menor grau. Enquanto o presidencialismo enseja uma centralização considerável do poder e proporciona instrumentos de controle ao governante. sendo que. de 1825/30. Relativamente ao parlamentarismo. no Novo Mundo. de 1934.. foi. assim. Outras Constituições que adotaram institutos do parlamentarismo: as de 1806. v. embora velado: . o parlamentarismo parece muito complexo para nações que ainda não alcançaram um amadurecimento político indispensável. de 1933. marcando o ad­ vento do Estado do bem-estar social neste continente. o parlamentarismo deixou. agrários e previdenciários. foram substituídos por caudilhos militares e. reação contra o excessivo poder presidencial: redução da duração do mandato pre­ sidencial. o princípio da irrelegibilidade constitui a conquista mais signifi­ cativa do constitucionalismo. na verda­ de. os quais. No Brasil tivemos experiências parlamentaristas entre 1838 e 1889 e de 1961 a 1963. 1845. enunciação expressa das atribuições presidenciais. a in­ serção dc uma ordem econômica e social no ordenamento jurídico. inaugurou. que estabeleciam que os ministros poderiam ser censurados pela Câmara dos Deputados e. autoritários. a da Bolívia. atualmente. pois a Constituição não previa o regime parlamentarista.178 Teoria Geral do Estado “democracia liberal.

o regime parlamentarista foi definitivamente extinto em 1925. que preconizavam uma democracia avançada e sonhavam com a república. já se per­ cebe. Havia. dc cem questões que afligem o Estado. pois. Constituem as Forças Armadas o fator real de poder de maior peso na Amé­ rica Latina. submetidas à vontade do caudilho. então. acumulando-se e ensejando as criscs. Desacreditado. surge a época do profissionalismo. Tais elementos. indiretamente. ironicamente. cm maior ou menor escala. militarism o e Igreja na Am érica Latina Não podemos deixar dc registrar duas forças sociais. houve nada menos do que oitenta mudanças mi­ nisteriais. denominada pretoriana. improvisadas. com o conseqüente surgimento de governos civis. Nos Estados latino-americanos. sc as condições políticas do jogo parlamcntário não permi­ tem a continuidade dc uma política ministerial. Particularmente. em última análise. sem dúvida. as Forças Armadas e a Igreja. no Chile foi agitada a política parlamentarista: os partidos políticos aumentaram em número. bem como pela introdução da tec­ nologia em seus quadros. estavam sempre prontas para motins e quarteladas. na maio­ ria. motivada especialmentc pela decadência do militarismo caudilhista. elementos mais radicais ou exaltados. que. formando coalizões fugazes e desmoralizadoras para o regime: entre 1891 e 1920. que não seria de se preocupar com os problemas políticos. contudo. c claro que os problemas sociais te­ nham a sua solução retardada. daí a im­ portância de se mencionar o fenômeno. e por seus representantes mais significativos. o Poder Executivo latino-americano. Dizia-se. 99 se resolvem por si só e uma não tem. fatores reais do poder para empregarmos uma expressão típica de Lassalle . pelo desenvolvimento econômico c pela estabilização po­ lítica. partidária do regime monárquico parlamentário e moderado. real­ mente. incipien­ tes.7 Regimes de governo 179 A geração de homens públicos que criou a constituição do império era. os militares transformaram-se em ver­ dadeiros árbitros ou tutores do poder político velada ou ostensivamente.4) Presidencialismo. por iniciativa do Presidente Alessandri. então. Dessa forma. As Forças Armadas eram. eram considerados um tanto extra­ vagantes e pouca influencia exerciam nos acontecimentos. Por volta dc 1880. c quando dizemos “Poder Executivo” estamos nos referindo. São estas forças. situamo-nos na época da emancipação. Despreparadas e desprovidas de espírito profissional. 1. embora rara­ mente o proclamassem. ao próprio presidente da Rcpública.que pressionam. solução. em 1973. . Numa primeira fase do militarismo latino-americano. se confunde com o órgão. tendo a Constituição por este criada per­ durado até a queda de Allende.

a defesa do Estado contra a agressão externa. 2) PARLAMENTARISMO Bibliografia: LAPORTE. embora não incisivamente como as Forças Armadas.180 Teoria Geral do Estado Com a profissionalização. México. da argentina. considerável poder de controle sobre as Forças Armadas. agora. 76) e do Paraguai (art. da Constituição argentina. 189 e 193 da nicaraguense. da mexicana. sobrevêm a Grande Depressão. estabelecem uma teia indissolúvel de articula­ ções entre o presidente e as Forças Armadas. e os militares surgem. os europeus neste mister. no art. entretanto. mencionam-se as que declaram religião oficial a católica. criam medidas para refrear os arroubos do militarismo. Os regimes . embora não referentes a este de maneira expressa. 12: “ Fica proscrito o Exér­ cito como instituição permanente. § 11. sendo instruídas para o desempenho de sua principal missão. da equatoriana. haja vista o art. sem dúvida. o art. 2° e 86. Em 1929. C. 184. art. o sistema capitalista entra em crise. o art. a Igreja ainda joga importante papel. Maurice. como um fator de poder que rapi­ damente se politiza. e dispondo delas para a segurança interna e externa do país. por sua vez. então. §§ 15 a 17. as que obrigam o Estado a celebrar concordatas. definitivamente. apoderando-se do poder e não mais se conformando em simples­ mente restaurar o regime para entregá-lo aos civis. Quanto à Igreja. Seus instrutores foram. Los hititas. os quais modernizaram o aparato bélico e a administração militar. desfru­ ta. o art. duverger de - Louis. os arts. 95. W. é o caso da Constituição da Costa Rica. III. de relativo prestígio junto ao Poder Executivo. 164. prestígio este que já foi imenso. da Constituição brasileira. então. Em outras Constitui­ ções. da dominicana. Outras Constituições. A partir de então desejam gover­ nar. necessária. atuarão as forças policiais necessárias”. §§ 14 a 17. 9° e 14. 190 c os Capítulos III e IV da venezuelana. determinando que aquele será seu co­ mandante-em-chefe. haja vista os arts. 1957. as Forças Armadas adquirem esprit de corps. militares e técnicos alemães c franceses. 89. § I o. preceito este seguido pelas Constituições da Argentina (art. X III. o art. o art. as que concedem franquias tributárias à Igreja. o art. Uteha. Itatiaia. inicialmente. 172). As Constituições. 53 da Constituição colombiana e 6° da Cons­ tituição do Paraguai. pois estão convencidos de que sua participação política é. 180. 86. En­ tre tais normas. Belo Horizonte. exercendo. 84. 1957. além de nomear seus principais oficiais. 55. na América Latina. Para a vigilância e conservação da ordem públi­ ca. haja vista a Constituição do Império exigir. IV a VII. logo depois os norte-americanos substituiriam. . c o art. da paraguaia. ensejando normas que orientam e limi­ tam a atuação do Executivo. §§ 8o. §§ 15 a 17. da Constituição boliviana. da panamenha. 2° e 94. ceram . XV. O segredo dos hititas. a profissão de fé católica para o exercício da função de senador.

um regime parlamentarista. Pouco mais do que isso era ditado a respeito dos habitantes do “país de Hatti”. os hititas são mencionados como um povo felizardo que ha­ bitava uma terra na qual brotavam o leite e o mel. que apresenta uma longa evolução histórica. O que é parlamentarismo? São Paulo. ao rei. 5. United Kingdom. Penguin Books. r o d r ig u e s alves f i­ F. mas não há parlamentarismo. Habitaram a Ásia Menor. The English parliament. O protótipo do regime parlamentarista é o parlamentarismo britânico. Embora. por todas as formas. nos Estados Uni­ dos e na Suíça. 1982. Pedro.1) desposara mulheres hititas. l in d o s o . No Êxodo (3. ed. Parlamentarismo é o regime de governo em que a chefia de governo (adminis­ tração) é confiada ao próprio parlamento . Até pouco tempo. Estado. incidentalmente mencionado na Bíblia. foi ardentemente desejada pelo rei David. mes- . f e r r e ir a f il h o . São Paulo. 1963. Manoel Gon­ g io r d a n i. . pois há regimes. mas eram de origem indo-europeia. uma vez que a chefia de governo e atribuída ao presi­ dente da República. e por exemplo. origem indo-europeia. História da antiguidade oriental Petrópolis. Entretanto. José. 1966. ed.7 Regimes de governo 181 políticos. 34-35) e Salomão (3 Reis 11. que tinham. Exemplificando. os hititas. çalves. Fixados naquela região desde o segundo milênio antes de Cristo. 1961.n z i e . Vejamos. 1968. Kenneth. Esaú (Gênesis 26. Curso de direito constitucional 11. como visto. necessariamente. 25.. a sua consagração definitiva. como faz Maurice Duverger. Curso de teoria do Estado. São Paulo. Mário Curtis Giordani apon­ ta alguns trechos dos Livros Santos que mencionam os hititas (Gênesis 23. mas não há parlamentarismo. Saraiva. se a forma do go­ verno for a monárquica. Necessário notar.daí a expressão parlamentarismo sen­ do exercida por um primeiro-ministro que comanda um gabinete formado por ministros auxiliares. que buscou. São Paulo. as instituições parlamentaristas encontrem. em que há um parlamento (Congresso). eliminar seu marido. constituinte e Constituição. a nosso ver. como o presidencialista. 9 e 49. os hititas nada mais eram do que um povo obscuro. São Paulo. Saraiva. 1982. 8). que um regime parlamentar não é. Betsabé. Vozes. 1986. 29-32) sobre o episódio da compra de um terreno sepulcral por Abraão. lho m a c k f . salvetti n e t t o .. muito mais antigas do que sc pensa. há parlamento no Brasil. a partir do século passado várias expedições arqueológicas começaram a comprovar que os hititas desempenharam papel dos mais importantes na histó­ ria política da Antiguidade oriental. Saraiva. Assim. como os frígios e os celtas. Mário Curtis. as origens históricas das práticas parlamentaristas são. Difusão Européia do Livro. e importante notar. 3-20. mulher do hitita Urias. ao passo que a chefia de Estado (representação do Estado pe­ rante outros Estados) é confiada ao presidente da República ou. na Inglaterra. Elas poderiam ser identificadas como um povo da Antiguidade oriental.

A palavra comer. ressurgiriam com as modifica­ ções peculiares a cada época. muitos aspectos obscuros do idioma hitita foram esclarecidos. de resto. veremos que também as ins­ tituições hititas apresentam forte conotação ocidental. após a morte do rei. perfeitamente. os hititas buscavam. A princípio eletiva. no antigo alto germânico ezzan. que daria origem. depois. que integra­ va os domínios hispânicos. Na Espanha. que comprovou ser o hitita também um idioma eu­ ropeu. Mesmo sua atitude para com os povos vencidos denota um elogiável humanitarismo c um sábio tato diplomático: ao invés de massacres odiosos. formando o então denominado Condado Portucalense. o sistema de cooptação.linguista alemão (1791-1867). como. com o estabelecimento do Foral de Sobrarbe. que provou existir um grupo dc idiomas que. Os hititas. e deste continente trouxe­ ram instituições que. As instituições políticas hititas nada têm em comum com as dos povos semi­ tas. como aqueles que levaram a efeito os terríveis assírios. já no século IX.182 Teoria Geral do Estado ciaram-se com populações autóctones. Em Portugal. estas verdadeiramente des­ póticas. Em terras hispânicas. indo-europeia. que no inglês é eat. mediante matrimô­ nios reais. que implicava o direito de o rei escolher seu sucessor junto a qualquer membro da no­ breza. o monarca hitita não era dotado de poder abso­ luto. procediam da Europa. O caráter dc indo-europeu atribuído aos hititas parece ter mais conotação lin­ güística do que racial. as Cor­ tes de Aragão escolhiam para chefe Inigo Arista. tal concepção política é inteiramente estranha às outras monarquias orientais. a ponto de se afirmar que um alemão contemporâneo compreenderia. até a consolidação do despotismo monárquico no século XVI. O regime político era o monárquico. indo-europeus. Ora. o clamor de um hitita perdido no deserto.. poderia ser qualificado dc indo-europeu . ademais. milhares de anos mais tarde.até as conclusões levadas a efeito por Friedrich Hrozny. reuniam-se assembleias para escolha do sucessor. como ocorria em Astúrias e Leão. no latim edo. a realeza seguiu. por incluir línguas da índia. despertar o ódio dos vencidos em virtude de atos atrabiliários. também as instituições parla­ . deliberar so­ bre matéria fiscal. Ademais. Nem por isso alguns autores deixam de ver as origens do parlamentarismo moderno na Espanha e Portugal medievais. as Cortes podiam. vetando a criação de novos impostos. implorando por água: alemão/vasser = hitita!vâder. em todos os Estados orientais. sendo rigidamente controlado pela assembleia. selar a união com seus vizinhos. como visto. afirmam inúmeros pesquisadores. da Ásia Central e Ocidental. apresenta. evitando. mesmo. embora a escolha devesse ser referendada pela assembleia denominada “pankus” ou “p a n k u s h Assim. de origem asiânica (esta palavra designa os povos da Ásia Ocidental que não são semitas nem. provavelmente. conforme adverte M ário Curtis Giordani). a partir do século X I. evidentemente. ao país. Desde os estudos dc Franz Bopp . bem como da maior par­ te da Europa. semelhança com o hitita ezzatteni. Mesmo que deixemos de lado o fator lingüístico.

entre­ . A partir do Bill of Rights. Ora. de tal forma que. ao passo que o povo francês ajudava seu monarca a superar a tutela feudal. Surge. a monarquia feudal cederia lugar à monarquia absoluta. opera-se a queda do gabinete. a fi­ gura do primeiro-ministro. passando este órgão a governar. Retirada esta. longe do continente. den­ tre seus membros mais ativos. com a monarquia ab­ soluta enfraquecendo paulatinamente. Daí a sugestiva expres­ são de Bertrand Russell: “O Primeiro-Ministro tem mais poder do que glória. e ligado à Dinastia de Hannover. a monarquia tornou-se. se ao gabinete compete a função governamental. O surgimento do gabinete antecederia. Como assinala Maurice Duvcrger. ao contrário. ocorreu o inverso. acelerada por circunstâncias histó­ ricas. passou a escolher. A Inglaterra. Com efeito. já se nota que. com a promulgação da Declaração de Direitos (Bill of Rights). além disso. recebe des­ te moção de confiança. paradoxalmente. Sendo o gabinete formado por membros do próprio parlamento. sobrepondo-se ao parlamento. o surgimento da figura do primeiro-ministro. em definitivo. desinteressou-se dc participar das reuniões do gabinete. No século XVI a monarquia inglesa tentou restaurar seu poder. e o rei mais glória do que poder”.7 Regimes de governo 183 mentares desfrutaram de grande prestígio. Entretanto. en­ quanto na Inglaterra. Pode. que dependia de um imposto também permanente. passando dc monarquia limitada para mo­ narquia parlamentar. pressionada por vizi­ nhos continentais. limitada. não o falava. e por isso o rei via-se obrigado a convocar o parlamento sempre que precisava de dinheiro. o poder do rei inglês foi. por exemplo. A situação geográfica da Inglater­ ra e da França. no dealbar do século XVIII. O rei. alemão de origem. imediatamente. Na França. que. por outro lado. continuan­ do o gabinete a assumir a responsabilidade pela atividade governamental. daí a periodicidade do parlamento britânico. o fator de sua fraqueza. então. as instituições políticas me­ dievais européias evoluíram de maneira diversa no continente e na Inglaterra. não haveria outra alternativa para o rei a não ser buscar apoio do grupo majoritário para criar tributos e controlar o Exército. de tal sorte que ele passou a formar um conselho (gabinete) junto aos membros mais eminen­ tes do partido majoritário. ao monar­ ca resta apenas a função representativa ou chefia de Estado. com Jorge I. o rei não poderia mais governar sem o apoio parlamentar. pois do próprio parlamento dependeria a administração das Forças Armadas e a cobrança de impostos. por isso. a França necessitava de um exército permanente. como resultado disso. Com o Ato do Estabelecimento. pois o povo e a burguesia uniram-se aos barões para minar as prerrogativas reais. mas Jaime II foi deposto e. havendo duas facções bem deter­ minadas no parlamento. um que atuasse como intérprete. criou-se um impasse: o novo rei não falava o inglês c. contribuía para tal evolução. Este curioso fenômeno prosseguiu com Jorge II. entretanto desejando conhecer as deliberações do gabinete. cobrando o parlamento autono­ mia sempre maior. com o qual os Estados Gerais foram forçados a concordar. se entendia o inglês. não se viu às voltas com tais necessidades. o rei in­ glês tornou-se fraco e o da França. muito forte.

Nota-se. dois anos de duração. durante o Segundo Império. tor­ nando impossível o planejamento de um programa administrativo. a segunda. mas sem­ pre referendando as decisões previamente tomadas pelo gabinete. o gabinete dissolver o parlamento e convocar o povo para eleições gerais. de direito. Ora. o incipiente parlamentarismo brasileiro caracterizava-se pela instabilidade mi­ nisterial. além disso. como faz ver Pedro Salvetti Netto. que ao povo se atribui a decisão definitiva e irrecorrível. já por volta de 1827. se ocorrer dissídio político entre os dois órgãos. como observa Pe­ dro Salvetti Netto. entre 1961 e 1963. em média. havendo rejeição. de 1824. Já naquela épo­ ca. Do exposto. a verdade ê que. por influência do sistema político inglês. chefe do partido majoritário. tivemos duas experiências parlamentaristas. O parlamento é formado por duas câmaras: a Câmara dos Comuns (eleita por su­ frágio universal) e a Câmara dos Lordes (nomeada pelo rei). Com efeito. b) gabinete formado com os membros do partido majoritário no parlamento. caíram cinco ministérios devido a moções de descon­ fiança da Câmara dos Deputados. solidariamente responsáveis pelas deliberações tomadas. expressamente. não previa. formam o gabinete são. de fato. pelo qual. Eis por­ que a opinião pública constitui o fundamento do regime parlamentarista inglês. portanto. representada pelo sistema da guilho­ tina. pode o speaker (presidente) trancar a discussão e aprovar a emenda que con­ siderar a melhor. confere o direito de participação da Câmara dos Lordes (pariato). A Câmara dos Co­ muns possui maior ascendência que a dos Lordes. e 22 simplesmente retiraram-se do poder por desentendi­ mento com o imperador ou por mágoa. militares e eclesiásticos. d) gabinete exercente das atribuições inerentes à chefia de governo. em face da ingerência deste na Adminis­ . se os debates ameaçam ultrapassar o prazo fixado para as discus­ sões.184 Teoria Geral do Estado tanto. Im­ portante notar que os ministros que assessoram o primeiro-ministro e que. Em tese. pois os gabinetes não ultrapassavam. fatalmente será ele quem escolherá seus ministros. a Câmara dos Comuns pode recolocar o pro­ jeto vetado em nova votação. líder do gabi­ nete. Importantíssimo ressaltar a severidade na exigência da tramitação mais rápida dos projetos de lei. o regi­ me parlamentarista. o gabinete e o parla­ mento. No Brasil. pois esta não tem outra missão a não ser rejeitar os projetos votados pelos Comuns que não tenham caráter finan­ ceiro. conclui-se que o parla­ mentarismo inglês apresenta quatro características marcantes: a) responsabilidade política do gabinete. em­ bora seja o rei que designa os membros do gabinete. c) primeiro-ministro. A primeira. no mundo moderno rara é a lei importante que não tem caráter finan­ ceiro e. aos quais se junta o Poder Judiciário. a Coroa apresenta inúmeras prerrogativas: nomeia funcionários civis. portanto: a Coroa. constatavam-se práticas parlamentaristas no País. o fato é que. atribui condecorações. Na prática. Durante meio século de Segundo Império. se a primeira Constituição brasileira. com este. todos. treze por hostilidade da Câmara ou por falta de apoio parlamentar. São ór­ gãos essenciais ao parlamentarismo inglês. sendo o pri­ meiro-ministro líder da maioria.

a existência dc apenas dois partidos que efetivamente decidem as eleições. depois.e também frustrada .1961). es­ timulou e obteve a realização de um referendo popular. motivada por um casuísmo desmoralizador do regime. votado o Ato Adicional (EC n. de 02. insatisfeito com a situação.implantação do parlamentarismo entre nós ocorreu cm 1961. O resto é história. com a revogação do Ato Adicional. e seus seguidores pressionaram as lideranças par­ tidárias para que fosse adotado o regime parlamentarista. as Forças Armadas. Ape­ nas quinze meses após.7 Regimes de governo 185 tração. o Presidente João Goulart. . 4. A segunda . o regime parlamentarista é propício apenas aos sistemas bipartidários. Por isso. preocupadas com as tendências esquerdistas do novo presidente. João Goulart. Com efeito. Enfim. Foi. a renúncia de Jânio Quadros ensejaria a imediata ascensão à presidência do vice. portan­ to. a estabilidade ministerial é muito maior. que consagrou o retorno ao regime presidencialista. mas ao mesmo tempo sua total imobilidade quanto a uma efetiva função governamental. muitos autores apontam o sucesso do parlamentarismo inglês como o resultado de dois fatores peculiares aos anglo-saxões: uma profunda consciência nacional demonstrada no respeito às tra­ dições políticas c às instituições c.09. que instituiu o parlamentarismo. que ficaria a cargo do gabinete. nos quais não ocorre a fragmentação indesejável da opinião parlamentar e. Entretanto. então. panaccia que permitiria a posse de João Goulart.

em 1801. . modificando-a ou. marxista e tantas mais. volta-se muito mais para os que “atendem” que para os que “entendem”. pela ação direta. c a ponte que une a teoria à prática. O termo ideologia foi criado por Destut de Tracy. e c c l e s iia l l . o pen- 186 . Trata-se de uma concepção pecu­ liar do mundo c da Humanidade e. expressa-se de forma simplificada. 1997. justificando-a. Barcelona. irracional. A ideologia se caracteriza. Nicola. denominando a “análise das sensações e das ideias”. age como um motor que gera a força motriz da História. muitas vezes violenta. Em outras palavras. portanto. mas princi­ palmente sobre as ações a serem levadas a efeito sobre esta. ed...] a ideologia não é apenas um sistema de ideias sobre a ordem social.8 IDEOLOGIAS 1) CONCEITO DE IDEOLOGIA Bibliografia: a b b a g n a n o . Trata-se de um princípio ativo destinado a atuar sobre a realidade social. Dirige-se às massas. mesmo. totalitária. São Paulo. certo falseamento da reali­ dade. 1982. rudimentar. Uma ideologia política vem a ser um sistema de crenças aceitas como verdades inelutáveis. M adrid. em face do exposto. Ideologias políticas. Como assinala com clareza Jordi Xifra [. li­ beral. Jordi. x if r a Robert e outros. Unesp/Boitempo. tolerando.. 2004. Las ideologias dei poder en la Antigiiedad.. Mestre Jou. fala-se em ideologia burguesa. São Paulo. eagleton . Terry. 1983.. simples­ mente. Toda ideologia tem as vistas voltadas para a ação. nesse sentido. Casa Editorial. Dicionário de filosofia>2. criando-a. Editorial Tecnos. expressando o clima social e o esta­ do de ânimo próprio de uma sociedade concreta. Ideologia. Bosch.

a respeito da qual trataremos mais adian­ te. seu socialismo científico. 1978. 7. 1975. afirmava. sempre a serviço do status quo. lugar. não sou­ beram. m os São Paulo. um lugar inexistente. tem a ideologia como um complexo dc concepções falsas. irracionais. O socialismo utópico. o grande erro dos socialistas utópicos vem a ser. desprezado por Marx justamente por ser utópico. Los anarquistas. Global. ignorando. assim é que já Mit-sé (Micius). Reconhecem os marxistas que alguns socialistas pré-marxistas teriam percebido as contradições inerentes ao capitalismo e que a propriedade privada deveria desaparecer. Max. designando. a im­ portância da vida material. Segundo a doutrina marxista. ed. a idealização de vastos planos de reconstrução social sem levar em con­ ta a vida real da sociedade.C. mas es­ tes socialistas não souberam explicar o modo de produção do capitalismo. 1985.. simplificadas. que viu nas ideologias concepções não só conservadoras. Júcar. 500 a. James. negação. La anarquia a través de los tiempos. Barcelona. pensador da Renascença que imortali­ zou o vocábulo cm obra famosa Utopia. na China. Histórias das doutrinas políticas. Vejamos algumas ideologias que fizeram escola e agitaram as massas. portanto. por completo. Do socialismo utópico ao socialismo científico. foi verberado severamente pelos marxistas. Por outro lado. c topos.. ­ Gaetano e g a s t o n . O luxo c a de­ sigualdade social deveriam scr severamente combatidos. 2) SOCIALISMO UTÓPICO Bibliografia: ca. mas também equivocadas. engels. a luta de classes. jo u . que a ausên­ cia dc amor recíproco entre os homens era a fonte dc toda a miséria. O marxismo. Rio de Janeiro. Grijalbo. na pretensão de cientificidade de seu socialismo autonominado “científico”. subver­ tendo. do modo de produção econômico. enfim. vários trechos da Bíblia estão impregnados de ideias socialis­ tas: Jeremias clama contra “os gordos a luzirem gordura”. justamente. Friedrich. em maior ou menor escala.. D aí Marx jactar-se de opor. na mesma linha Karl Mannheim. interpretar cientificamente os fatos sociais. O certo é que o ideal socialista sempre despertou a atenção de filósofos e po­ líticos. enfim.8 Ideologias 187 sarnento à ação. Madrid. e Louis Althusser que considerava incompatíveis ideologia e ciência. Ezequiel atribui a Jeo­ . a um socialismo utópico. O primeiro pensador a empregar a palavra como modelo político teria sido Thomas Morus. Atua como uma filosofia militante que norteia o desenvolvimento de um sistema sociocultural. Zahar. nettlau. Bouthoul. 1977. Que é uma utopia ? Esta palavra é forma­ da por dois semantemas gregos: w. imaginário. a ordem estabelecida.

a ruínas. na qual. 110 qual as crianças aprenderiam música. Por outro lado. Previa o banimento da propriedade privada e da liberdade eco­ nômica. Escreveu uma obra intitulada Utopia. pois Platão vi­ sava à participação da mulher. a dos filósofos. Isaías sonha com um reino de paz e dc justiça. e estas seriam comuns a todos. bem como da família. Platão critica as desigualdades sociais no tempo da Atenas de Péricles. admitindo. Aos agricultores. passavam ao abandono e ao dilema de furtar. auxiliados pelos escravos. sendo que cada homem possuiria uma gleba dc terra indivisível. para o socialismo. Morus era admirador de Platão e da obra deste. a propriedade privada. um curso de filosofia política. artífices e comerciantes caberia. Mais tarde Platão escreveu outra obra As leis. permanecendo nas filei­ ras do exército aqueles que revelassem menor aptidão intelectual. então. a ruínas!”. 110 qual “o lobo repousará junto ao cordeiro e a pantera ao lado do cabrito”. na qual se mostra mais realista. cuidando do problema maior do Estado . de forma que o pai não viesse a conhecer o filho e vice-versa.) surge. apenas. Acusado de alta traição. que. mediante o repúdio da rai­ nha Catarina de Aragão. Após um curso geral. visando preencher cargos públicos. indiretamente. por morte do amo. na Pérsia. Isto somente seria possível pela educação. Em sua obra A república. Os demais pros­ seguiriam seus estudos.C. afirmando a igualdade natural de todos os homens e sugerindo a supressão da propriedade. nos problemas políticos. foi condenado à morte e executa­ do. Fariam. O Estado ficaria encarregado de educar o cidadão. com vistas à florescente exportação de lã para o exterior. roubar ou morrer de fome. considerado santo por ter recusado a acei­ tar o casamento do rei Henrique VIII com Ana Bolena. Eu o re­ duzirei a ruínas. contrárias ao desejo da divindade. com reservas. Aos quatro anos de idade seria iniciada a educação da criança. inalienável e transmissível hereditariamente apenas. instituições humanas que seriam. segundo ele. sem separação de sexos. fez com que houves­ . após exame de seleção. o aban­ dono da cultura agrícola com a transformação dos campos em pastagens de ove­ lhas. desde a mais tenra idade.o da educação -. que lhes permitiria ascender à casta mais elevada e nobre. sustentar os filóso­ fos. os nobres ocio­ sos tinham em torno de si inúmeros criados. Os filósofos nada poderiam possuir dc seu. Enquanto as guerras contínuas enchiam o país de inválidos. Thomas Morus: humanista inglês. matemática e história.188 Teoria Geral do Estado vá estas palavras: “para cima com os humildes. abaixo com os orgulhosos. Na mesma época de Mit-sé (século V a. pois Pla­ tão estava convencido de que os males que afligem o Estado não teriam fim enquan­ to os filósofos não chegassem ao poder ou os governantes não fossem filósofos. os jovens prestariam o serviço militar (homens e mulheres). receberiam o sustento da classe trabalhadora e deveriam residir em habitações coletivas com as mulheres que lhes fossem destinadas pelo Estado. um pregador de nome Mazdak. ao lado do homem. critica a situação econômica da Inglaterra de sua época. cuja missão seria legislar e velar pela execu­ ção das leis.

Destina-se. o ouro e a prata não possuem utilidade real e constituem um perigo para a vida so­ cial e intelectual. Religioso dominicano. A terra e os instrumentos de produção devem pertencer ao Estado. Campanella acatava as ideias de Platão. O próprio Morus. compromete toda a beleza e o ornamento do Estado. dividida em cinqüenta e quatro distritos. alguns membros de famílias numerosas são transferidos para as menos numerosas. a ativi­ dades menos penosas. podendo. Ca­ da distrito tem na sua parte central uma cidade espaçosa. fundamentada na Utopia de Morus. e estes. todos devem dedicar uma parte de seu tempo à agricultura. O divórcio existe para os casos de adultério. Até os 25 anos. Por outro lado. Thomas Morus volta-se indiretamente contra este esta­ do de coisas ao escrever Utopia. Para evitar a concentração excessiva de pessoas em certas áreas. que contém os edifícios da administração. os noivos devem apresentar-se despidos. os adúlteros e os prisioneiros de guerra. embora eficaz em ter­ mos objetivos. e a religião. mas cada um aprende um ofí­ cio extra. vadiagem. quando muito. admite que sua Uto­ pia (o título completo da obra é Libelus yere aureus nec minus salutaris quam festivus de optimo rei publicae statu deque nova insula Utopia). As casas são redistribuídas de dez em dez anos. e não possuem chaves. Cada grupo de trinta famílias escolhe seu chefe. Os filarcas. da indústria e do ensino. quando se casam. até para os filósofos. para que nelas possa entrar quem quiser. .8 Ideologias 189 se um encarecimento brutal dos gêneros de primeira necessidade. Não havendo comércio em Utopia. à fabricação de grilhões para os escra­ vos. apenas as belezas morais. o príncipe. depois. com todas as suas seqüelas: miséria. Não há desocupados a consumir o produto do trabalho alheio. em de­ trimento dc outras. Todos são agricultores. A família deve ser conservada. A mudança de residência depende dc autorização. na mulher. dispensada estava a moeda. Em matéria religiosa os utopistas são tolerantes. Para Morelly. sendo a esta reduzidos os criminosos. que dirige o Estado e que só pode ser deposto se tentar o cesarismo. Em sua obra preconizava um sistema comunista ideal. A monogamia é pa­ drão em Utopia. o grande mal da Humanidade é a propriedade pri­ vada. Entretanto. mas a mulher deve ser ouvida antes de sua decretação. que escreveu uma obra intitulada Città dei sole. o atrativo físico é importante”. porque “ne­ nhum homem será tão filósofo de ver. rival dos je­ suítas que seguiam Aristóteles. mediante sorteio. o filarca. Utopia é uma ilha inexpugnável. meramente tole­ rada. Somente 110 reinado de Henrique VIII foram enforcados 72 mil ladrões. porém. As viagens ao exterior são proibidas. passar um ano na cidade e dois 110 campo. Existe na ilha a escravidão. Morelly: em 1753 escreveu uma obra intitulada Brasilíada. elegem os superfilarcas. assaltos. da Calábria. por sua vez. Thomas Morus não admite a comunhão sexual de homens e mulheres preco­ nizada por Platão. assim. Tommasso Campanella (1568-1639): foi um pensador italiano. reuni­ dos. Em Utopia o trabalho diário é redu­ zido a seis horas: três pela manhã e três à tarde.

as obras de Dühring não têm a divulgação merecida e. então. eis o resumo des­ . Charles Fourier (1722-1837): preso durante a Revolução Francesa por per­ tencer ao partido dos girondinos. da monarquia. perspicácia e uma sólida formação intelectual enciclopédica. mudou radicalmente de posição cm 1757. mas den­ tro das possibilidades reais. até que o Poder Público assumisse o controle de toda a propriedade privada. Inteligên­ cia. nas quais a divisão do trabalho seria feita por intermédio da chamada atração passional ou vocações. a produção e a distribuição das terras eram regulados pelos prin­ cípios comunistas clássicos. Afirmava que a sociedade deveria ser organi­ zada cm comunidades denominadas falanstérios. Toda a produção da terra deveria ser armazenada em silos públicos e distribuída entre as famílias. Passou a afirmar. jurista e economista alemão. Inicialmente defensor do Velho Regime. em caso de não ha­ ver descendência direta. O regime comunista seria peculiar à sociedade primitiva. muito sugestivamente. O período era de fome e o pa­ trão de Fourier. afirmando que a falta de or­ ganização do trabalho produz um enorme desperdício de forças. que a verdadeira igualdade não é a igualdade meramente formal ou jurídica. A partir daí a propriedade passa a ser um roubo. Brissot de Warville: impressionado pelo rigor da legislação dos crimes contra o patrimônio (furto e latrocínio). Brissot dc Warville afirma que a propriedade é um direito natural que deve ser limitado às reais necessidades de cada um. Considerava ser imprescindível abolir o regime de su­ cessão hereditária. com sua frase célebre: “A propriedade é um roubo”. havia renunciado à carreira religiosa de pastor para dedicar-se ao cargo de secretário no Ministério dos Negócios Estrangeiros. e deveria ser ado­ tado pela sociedade contemporânea. Impressionado. isto é. não podemos deixar de fazer um reparo a esse respeito e de dizer algo de seu trabalho. para elevar os preços. Robert Owen (1771-1858): foi o criador das primeiras cooperativas de pro­ dução e consumo. Anti-Dühring. mas a igualdade material ou eco­ nômica. um sistema como este não seria adotado em sua pureza original. Não tinha grandes ilusões. Infelizmente. Posto em liberdade. porém. nas quais o trabalho. pensamento que seria depois assimilado por Pierre-Joseph Proudhon.190 Teoria Geral do Estado Gabriel Bonnot de Mably (1709-1785): filósofo e historiador francês. passa a trabalhar como em­ pregado de um comerciante de cereais em Marselha. jogou ao mar enorme quantidade de arroz. fundou no Canadá diversas cidades-modelos. Filantropo. Dühring está longe de ser a figura ridícula em que Engels pretende transformá-lo na virulenta obra intitulada. com abolição da propriedade privada. por isso mesmo. que tem como conseqüência tornar a produção inferior àquela que seria concretizada se o traba­ lho fosse cientificamente organizado. ele começa a estudar a questão social. escreveu uma verdadeira apologia do furto e do roubo. Eugen Karl Dühring (1833-1921): filósofo. devendo o Estado ser tido como herdeiro. abraçando uma ideo­ logia dc forte matiz socialista. de acordo com as necessidades de cada uma.

. passando a defender o ideal da não eliminação do capitalismo. . Dentre suas obras destacam-se: O moderno espírito dos povos. porém excessivamente agressiva à própria pessoa de Dühring. ed. Krássine. consis­ tente na conciliação das classes sociais. que logo foi interrompida em virtude de uma doença dos olhos que o deixou quase cego. Monte Avila. . estudou Direito. 3) MATERIALISMO HISTÓRICO E DITADURA DO PROLETARIADO Bibliografia: a r d u i n i . nesta cidade. Fundamentos do marxismo-leninismo. O manifesto do partido comunista. mas a de seus abu­ sos. Entre 1870 c 1878. Moscou. Avante!. Os concei­ marx tos elementares do materialismo histórico. Paz e Terra. ao magistério e à investiga­ ção científica. v. mediante uma incisiva intervenção do movimento operário. Tomás.. afirma uma realidade dinâmico-orgânica da vida. Rio de Janeiro. sc colocamos Dühring entre os so­ cialistas utópicos. porque assim Marx o consideraria. trad. c O 18 brumário de Louis Bonaparte. e Anti-Dühring. Historia crítica dei concepto de la democracia. 1979. A . v. 1986. ed. Georges. como já frisamos. . Alarmados. 1983. Em 1863 doutorou-se cm filosofia c. cujo pensamento já está a mere­ cer um pouco mais de atenção que não seja aquela que Engels lhe atribuiu. z\gir. chakhnazárov G. os dirigentes do partido incumbem Engels de refutar as heréticas colocações de Dühring. Global. El capitai México. Progresso. dialética. José Barata-Moura c Eduardo Chitas. Publicações Europa/América. Lisboa. Rio de Janeiro. 1959. Dedicou-se. 1. ideias que representam sérias objeções ao pensamento de Marx. Paz f o u l q u ié e Terra. 1976. preconiza uma etapa final da evolução da sociedade. Caracas. Friedrich. suas ideias começam a ganhar terreno na doutrina social-democrata. ed.. 1981. e tal refutação sobrevêm sob a forma de uma obra robusta. . Paul. m arx . 1983. Na verdade. Dühring foi um teórico e um militante de real significado. c a r r il l o barbuy. 2. 1965.. harnecker . 2. Lisboa. São Paulo. Nasceu perto de Berlim e. Dominus. Em 1878. Marxismo e religião. A dialética da natureza. 1974. apenas o fizemos para efeitos didáticos. embora injustificadamente. São p o l it z e r Paulo. Rebatendo a dou­ trina da luta de classes. raldo. 2. Rio de Janeiro. No exercício do magistério tornou-se um líder da ju­ ventude radical. História crítica da economia política e do socialismo c Lógica e teoria da ciência. Karl e e n g e l s . 1963.8 Ideologias 191 te pensador. em economia. e foi considerado antissemita por se opor aos elementos judaicos do Cristianismo. Dühring rompe definitivamente com o socialismo marxista. 6. He- batalla. Juvenal. e iú. graças ao auxílio dc amigos. Prelo. Fondo dc Cultura Econômica. ed. logo depois. Karl. Friedrich. O marxismo. São Paulo. Combatendo o materialismo mecanicista. 1984. que muito o respeitava. Marta. então. 2. iniciando bri­ lhante carreira de advogado. Princípios elementares de filosofia. Era ateu. engels. E. Global. Lisboa. 1979.

Enquanto a retórica pretende impressionar e captar. a ideia precede a matéria. Heráclito é. não somos. Dessa forma. Uma coisa é ela mes­ ma e o seu próprio contrário. Diz ele: Nós somos e. mas também levar à compreensão. indefinidamente. Karl Marx (1818-1883) foi muito influenciado pelo pensamento de Hegel. A natureza. por sua vez.192 Teoria Geral do Estado Materialismo dialético. Realmente. originará uma antítese e assim por dian­ te. autor da notável Filosofia da história. portanto. A uma tese opõe-se uma antítese. pelo que nos restringiremos a apresentar. as coi­ sas e os fenômenos estão em perpétuo movimento. luta essencial para o surgimento da harmonia. da contradição. idealis­ ta. Vamos desmembrar esta expressão apresentando. as linhas essenciais de seu conceito de dialética. e é com eles. encontra-se em constante mutação. e a gramática só se realiza com o contraste entre vogais e consoantes. foi com­ parado a Heráclito não apenas pela semelhança das ideias. Heráclito insiste na luta dos contrários no mundo da natureza. Assim. jamais com os semelhantes. a dialética com­ preende o raciocínio que busca a verdade por intermédio da oposição c da conciliação de contradições. num manual didático como este. sendo. desenvolveu a ideia dc uma dia­ lética da natureza. O método dialético afirma a identidade dos contrários.. é o proletário. O scmantcma dia exprime uma ideia dc reciprocidade. a pintura resulta das cores claras e escuras. que traz consigo os germes de seu próprio contrário. esta síntese. cujo contrário. A dialética é a arte da discussão. en­ fim. o pensador hegeliano é tão profundo quanto cerrado. Heráclito de Efeso. pelos con­ trários. diz ele. O burguês é o burguês. ao mesmo tempo. isto é. que. consta de três momentos: tese. entretanto. dizia ele. dos sons diversos resulta a mais bela harmonia. O processo dialético. o conceito dc dialética. diálogo. Tudo é engendrado pela luta. a dialética bus­ ca não apenas convencer. mas também pela obs­ curidade com que as expunha. não obstante isso. A natureza aprecia os contrários. Georg Wilhelm Friedrich Hegel. com justiça. vai engendrar uma nova tese.C. de iní­ cio. consi­ derado o filósofo da mudança e da instabilidade. enquanto Marx afirmava a precedência da ma­ . A natureza une o macho à fêmea. filósofo do século V a. que ela produz a harmonia. enfim. Ela não se confun­ de com a retórica. o criador do marxismo costumava ironizar o pensamento hegeliano pelo fato deste afirmar a precedência do espírito à matéria. por isso. a música só se torna possível com a contraditoriedade dos sons graves e agudos. Os contrários põem-se de acordo. Hegel define a dialética como a conciliação dos contrários nas coisas e no es­ pírito. antítese e sínte­ se. como já afirmava Herá­ clito. de troca de palavras. mas ao mesmo tempo a sua condição de burguês é a afirmação da realidade cuja negação. As coisas sc encontram cm perpétuo movimento. o conflito destas vai originar uma síntese.

É preciso invertê-la se queremos. transposto e traduzido no espírito humano. Assim. entretanto. Karl M arx (1818-1883) . da ideia absoluta. enfim. despojado do idealis­ mo. Para que o pensamento hegeliano se tornasse perfeito. sob o nome de ideia. Para Hegel. a natureza. O mundo material. isto é. o processo dialético da reali­ dade que denominamos objetiva não é mais do que uma manifestação da ideia. criador da realidade. apenas a nossa consciência teria existência real. de que ele faz mesmo. Para Marx. é precisamente seu contrário. contudo. o que eqüivale ao materialismo. cujo desígnio é eter­ no. o mundo material existe independentemente da ideia. o materialismo dialético marxista difere fundamentalmente da dialé­ tica hegeliana. processo autônomo. a que se referia Hegel em sua Filosofia da his­ tória. Mas nele a dialética está ao contrário. Para mim. o mundo das ideias é apenas o mun­ do material. cujo vértice. seria preciso colocá-lo na posição correta. o pensamento de Hegel achava-se estruturado em magnífica pirâmide. do invólucro místico. desvendar o núcleo racional. Segundo a filosofia idealista. o processo do pensamento. esta­ ria voltado para baixo. fundada sob o idealismo. nada mais seriam do que o produto da consciência humana. Segundo Marx. na qual a História da Humanidade surge como um processo desenvolvido por uma razão universal. de maneira completa e consciente. O idealismo interpreta o mundo como uma encarnação da consciência do espírito universal. numa concepção essencialmente otimista. as formas gerais do movimento. A mistificação que a dialéti­ ca atingiu em Hegel em nada impede este filósofo de ter sido o primeiro a expor. Para Hegel.8 Ideologias 193 téria sobre a ideia. não é mais do que o seu fenômeno exterior. do espírito. Em O capital. ad­ vertia Marx. assim ele critica o sistema hegeliano: Meu método dialético não difere somente quanto ao fundamento do processo hegeliano.

Não há problema fi­ losófico cuja solução não dependa da maneira como sc resolva a questão fundamen­ tal da filosofia. cada um à sua maneira. [grifo nosso] No dizer de Marx. Será que aqui Marx defende a necessidade da ação di­ reta apregoada pelos anarquistas ou sindicalistas revolucionários? Não . tentando explicar como as coisas realmente são. Em sua 1 Ia Tese sobre Feuerbach. desde logo. inversa­ mente. o secundário. pois se volta para a ação. ou como o fruto da atividade da consciência humana. Ao contrário do que se pode pensar. o im­ portante é transformá-lo!”. c a matéria. Se se aceita o primado da matéria e a sua independência em relação à consciência. são duas cor­ rentes contrárias. a linha dc Dcmócrito e a de Platão. Pela extraordinária importância que tem. é alertar para a necessidade de um conhecimento prévio da realidade que se pretende transformar. o ser. Marx emite uma frase curiosa: “Os filósofos não têm feito nada além de interpretar o mundo. quando. Chakhnazárov e Iú Krássine emi­ tem com muita clareza. o espaço e o tempo são formas objeti­ vas da existência da matéria. e a consciência. o espaço e o tempo como formas da consciência. tendo deixado uma infinidade de obras de real significado para a interpretação da História. dizem os materialistas. dois campos inconciliáveis em filosofia. baseando-se na experiência social e nas ciências naturais. A linha divisória entre os dois é o seu diferente modo de resolver o problema da relação entre a matéria e a cons­ ciência. Todas as filosofias que contemplam o mundo para justificá-lo são meras alienações. então há que ver o movimento. para determinar as posições filosóficas. todas as filosofias anteriores ao marxismo são alienações puras. A solução idealista obriga a vê-las como uma manifestação da razão universal. Consideremos a questão das leis científicas: a solução mate­ rialista da questão fundamental da filosofia leva diretamente a reconhecer a objetivi­ dade dessas leis. O ser determina a consciência. Marx foi notável teórico. que deriva da consciência. Assim é que Marx decreta a morte da filosofia contemplativa. exegeta contemporânea do . na verdade. do espírito. como e por que o homem está alienado.194 Teoria Geral do Estado Conclui-se. sendo impotentes para a ação sobre as condições do mundo real. Da resposta que se lhe dê depende também a solução das outras questões relativas à concepção do mun­ do. reconhece-se implicitamente que o movimento. Marta Harnecker. que idealismo e materialismo são ideias que hurient de se trouver ensemble. o princípio essencial do idealismo c a afirmação dc que o fator primário é a consciência. O princípio essencial do materialismo é o reconhecimento de que o fator pri­ mário é a matéria. a filosofia marxista é muito mais ideologia do que filosofia. o problema da relação entre a matéria e a cons­ ciência foi qualificado como a questão fundamental da filosofia. E. Assim: C) materialismo e o idealismo. Se se considera que a matéria é o secundário. o secundário. É a afirmação que G. o que ele pretende. Assim. em verdade...

Imaginar um estado da matéria sem movimen­ to é. M o ­ vimento no espaço. e anuncia a chegada de uma teoria científica nova. análise e síntese química. que até esse mo­ mento eram teorias filosóficas. a maneira de ser a matéria. a teoria científica da História ou materialismo histórico. materialista alemão c parceiro intelectual de Karl Marx. A 1T‘ Tese sobre Feuerbach indica. não. e que somente se transforma sob a ação de forças que sobre ela atuam. funda um novo campo científico. sendo incapazes de transformá-lo porque não conheciam o mecanismo de funciona­ mento das sociedades. ou então narrações históricas c análises sociológicas que sc limitavam a descrever os fatos que ocorriam nas diferentes sociedades. vida orgânica. escrito para refutar as ideias do alemão Karl Eugen Dühring. A matéria sem movimento é tão inconce­ bível como o movimento sem matéria. aquilo de que as coisas são feitas. Em Anti-Dühring. consequentemente. chama a atenção para a inconveniência de uma interpreta­ ção frívola do referido texto. que funda um campo científico novo: a ciência da História. como afirmam os metafísicos. em parte alguma. que não fazem mais do que interpretar o mundo. O que não existia era um conhecimento científico da sociedade e sua história. uma das ideias mais vazias e insípidas que há. isto é. de corrente elétrica ou magnética. é numa ou em outra dessas for­ mas de movimento. Não há matéria sem movimento e muito menos movimento sem matéria. vibrações moleculares sob a forma de calor. Friedrich Engcls. nem pode existir. portanto. da sociedade e do pensamento”. O movimento é o modo de existência da matéria. Engels assim se referiu ao tema matéria/movimento: Nunca. ela é essencialmente dinamismo e movimento. um puro sonho febril. existiu. em relação à sociedade e sua história. da mesma maneira que a teoria científica de Cíalileu. ou em várias ao mesmo tempo. movimento mecânico das massas mais pequenas sobre cada um dos corpos celestes. Os adep­ tos do materialismo dialético afirmam que a matéria não é uma realidade passiva e inerte. de­ fine a dialética materialista como a ciência “das leis mais gerais que regem a dinâ­ mica e o desenvolvimento da natureza. a ciência física. eram: teorias filosóficas acerca da História ou filosofias da História. Enquanto para os seguidores de Aristóteles a matéria é causa material. O que até esse momento existia. matéria sem movimento. que se encontra cada átomo da matéria no mundo em cada momento dado. uma ruptu­ ra com todas as teorias filosóficas sobre o homem e a História. mas uma rup­ tura com as teorias a respeito do homem. buscando o significado mais profundo deste: A 11a Tese sobre Feuerbach não anuncia a morte de toda teoria. para os marxistas e os materialistas em geral a . que se limitavam a contemplar e interpretar o mundo.8 Ideologias 195 pensamento de iMarx. da sociedade e sua história.

a economia engloba o conjunto dos esforços do homem para se apropriar da ma­ téria e explorá-la. em sua obra Marxismo e religião. o princípio que faz as coisas. indicando o princípio materno. a economia. não há maior absurdo do que falar em materialismo grego. só assume existência efetiva quando recebe uma forma. . isto sim. ex. Vale lembrar que madeira é tradução portuguesa de matéria. também está em constante evolução. Depreende-se disso que o marxismo derivou.196 Teoria Geral do Estado matéria é causa eficiente. c sim as ideias é que dependem das condições econômicas da sociedade. pois o homem. Portanto. isto é. enfim. consiste em assu­ mir uma indesejável postura metafísica de identidade e imobilismo. Dessa forma. concluem. filosofia e artes são o puro resultado dos sentidos.. Já é hora. nenhuma palavra que signifique matéria no senti­ do materialista contemporâneo. em Aristóteles e nos escolásticos. suas ideias e sentimentos são produ­ tos de seus sentidos. que não são as ideias que governam o mundo. Não há. eliminada qualquer atividade autônoma do espírito. antes de mais nada. E se a sociedade muda. mas não se fala em matéria no sentido que os materialistas atribuem à palavra. que significa floresta. em verdade. conclui Barbuy. que rejeita a precedência da matéria ao espírito. Diz ele que o sentido original da palavra matéria é bem diferente do sentido atual. Matéria deri­ va de mater. Das mais interessantes é a tese sobre o materialismo no pensamento antigo formulada por Heraldo Barbuy. em grande parte. que constitui a estrutura essencial das re­ lações sociais. também o homem. a expressão hileia amazônica). a fonte exclusiva do conhecimento são os sentidos corporais. de dizermos algo a respeito do materialismo histórico. como o fazem muitos autores modernos. pois. metafísica. especulativa. madeira e fecundidade (p. Fala-se. ao passo que. O materialismo sem­ pre reduz o homem à sua atividade sensorial. para o sen­ sualismo. religião. do empirismo e do sensualismo. O materialismo marxista vem a ser. nos filósofos clássicos a expressão matéria é sempre tomada no sen­ tido de princípio passivo e de matriz. Marx não se preocupa com questões de ordem meramente filosófica. com as graves ques­ tões sociais da época em que viveu. no grego. todos os seres relativos são com­ postos de matéria e dc forma. em face de seu egoísmo. Pois bem. O empirismo é a teoria do conhecimento segundo a qual a única fonte do conhecimento é a experiência sensível. Vimos que Karl Marx é materialista. fundamentalmen­ te. ao passo que as ideologias consistem em meras superestruturas con­ dicionadas pela infraestrutura econômica. Mas o marxismo apresenta uma carac­ terística que lhe é essencial: preocupado. afirmar que os homens jamais pode­ riam viver numa sociedade comunista. porém. Personalidade. sendo ela. então. na magistral definição de Boécio. em matéria-prima ou matéria secunda. Segundo Marx. como substân­ cia indivisa dotada da razão. e assim da própria matéria. sua doutrina se opõe ao idealismo. dizem os marxistas. uma concepção explicativa da História que afirma. Matéria foi a palavra utilizada pelos latinos para traduzir o termo grego hyle.

que não admite o advento de um novo homem. Assim é. que são sempre a infraestrutura da sociedade que explica a superestrutura das instituições políticas. enfocados uns após outros. diz Politzer. No dizer de En­ gels. das relações econômicas.. perfeitamente integrado numa so­ ciedade comunista. a ação. ironicamente. o enfoque metafísico poderia. Paralelamente vão desenvolvendo-se fundamentos de um sistema oposto. o resto sobra. sejam quais forem suas características aparentes. dizem os marxistas.. em última análise. não é mais do que a própria histó­ ria da luta de classes.. novos. Pensa apenas em antíteses desconexas. ser comparado ao exemplo de uma pessoa que adquire um par de sapatos amarelos.8 Ideologias 197 evoluído psicologicamente. patrícios contra plebeus. lutavam amos contra escravos.. Doutrina Engels: [. a filosofia e a arte possam até agir sobre a pró­ pria economia. não. resultam. em sua totalidade. Cada sistema econômico cresce até um ponto determi­ nado. os conceitos. A explicação do fenômeno histó­ rico é orientada para a praxis. após uso prolongado e muitos consertos. A postura metafísica é severamente criticada pelos marxistas. como algo determinado e eterno. para considerar apenas a identidade. capitalistas contra proletários. Amos. a postura do metafísico. enquanto a cias­ . fixos. como se eles estivessem. para Marx. ainda.. estará pronto para a convivência despojada do fator propriedade. 11a Idade Média. Para ele. a partir do qual surgem em seu seio contradições e fraquezas que acarretam sua decadência. das duas uma: sim. 11a Ida­ de Contemporânea. Embora a política. mestres de corporações contra jornaleiros. Ela dirá: “vou calçar meus sapatos amarelos”. embora estes já estejam deformados. será esta. religiosas c filosóficas. Ao fim de cer­ to tempo. Na Antiguidade.] percebe-se que a História. a ciência não é mera compreensão ou contemplação. Assim. que estas classes sociais que se digladiam são. Tal pessoa não considerou as mudanças operadas em seu calçado. a História é uma seqüência de lutas de classes. a determinante final da evolução his­ tórica. mas um conhecimento eficaz traduzido numa técnica. imóveis. opostas entre si como as fases do processo dialético. o produto das relações de produção e troca. sim. segundo o marxismo. a religião. Todas as transformações históricas fundamentais. até que o antigo seja engolfado por este. manchados e descoloridos. patrícios. não. mestres de cor­ porações e capitalistas detiveram e detêm os meios de produção. de alterações nos méto­ dos de produção e de troca. a cada momento. para o metafísico os objetos e suas imagens no pensamento.. a pessoa continuará a se refe­ rir a seus sapatos amarelos. são objetos de investigação isolados. Assim. Já para Politzer.

a ditadura do proletariado. ao lado do machado de bronze e da roca de fiar. em que consiste essa ditadura do proletariado. igualmente comunistas. o Estado. não impediam que seus proprietários. O sistema de salários será extinto. cada pessoa trabalhará de acordo com sua capacidade e receberá uma quantia proporcional às suas necessidades. É o lucro. Depois. no qual o Estado será perfeitamente dispensável. O proletário ou capite census não tinha o censo necessário para entrar nas classes e. A diferença entre o valor daquilo que o trabalhador produz e o que ele rece­ be é a plus valia (mais-valia). Enquanto esta visão paradisíaca não se configura. entretanto. Quando o capitalismo e seu escudo protetor . vendendo a força de seus braços para sobreviver. terá desaparecido e passado a pertencer ao museu de antiguidades da História. Segundo Engels. sua proprie­ dade e seus interesses. anotando o Programa do Partido Operário Alemão: . não se confundia com o oerarius. então. torna-se claro que o desaparecimento das classes determinará o surgimen­ to de um novo estágio histórico. daí a expressão proletariado. será precedido de um fenômeno marcante. Será o império do socialismo de Estado. todos viverão do seu trabalho. o desaparecimento do Estado coincidirá com a desaparição da propriedade privada. meta final da evolução histó­ rica. dar filhos à pátria e à guerra. O desaparecimento do Estado capitalista. por vezes consideráveis. na antiga Roma. Como as classes sociais têm origem na propriedade privada dos meios de produção. Segun­ do o próprio Marx. o valor das utilidades é determinado pela quantidade de trabalho necessária para produzi-las. assim. fos­ sem privados dc certos direitos. o Estado nada mais é do que o reflexo dc uma sociedade dividida cm classes antagô­ nicas. sendo. recebe um salário suficiente apenas para prover sua subsistência e sua reprodução. no qual os bens de produção pertencerão ao Estado. Ora. ocorrerá uma fase de transição denominada ditadura do proletariado. vejamos. O Estado. portanto. qual seja. Ocorre que o trabalhador não recebe o valor total da­ quilo que o seu trabalho cria. é o resultado de antagonismos sociais incontroláveis. um pouco mais de­ talhadamente. que se digladiam velada ou ostensivamente. categoria social que. Proletários e oerarius tinham as mesmas incapacidades políticas. se o Estado encontra seu fundamento e sua sustentação na luta de classes. ninguém viverá da propriedade. não haverá classes sociais. Ora. em razão da origem. ao contrário. cujos haveres. Para o marxismo. da essência da sociedade comunista o pagamento conforme as necessida­ des de cada um. O Estado seria o aparato utiliza­ do pelas classes dominantes para defender. mas os tribunos falavam apenas a favor dos proletários. era formada por pessoas completamente desprovidas de bens e cuja única finalidade era constituir prole.198 Teoria Geral do Estado se dominada sempre dependeu de um salário. como acentua Duruy.o Estado . segundo o marxismo. num dado momento histórico. sim. retorno às primeiras comunidades humanas. Então. que vai para as mãos do capitalista.receberem o golpe dc morte das mãos do proletariado. isto é. podendo os indivíduos possuir apenas bens de consumo. virá o verdadeiro comunismo.

ensinam Marx e Engels.] o proletariado tem de original. não ser uma classe como as demais. a revolução sc dará por si mesma. com muita perspicácia. nesse dia. Tal ditadura será exercida por uma classe que jamais possuiu coisa alguma e que. vadios. os senhores mantiveram os escravos. trapo. é a negação de tudo quanto já foi categoria histórica. A este período corresponde também um período político de transição. segundo a dialética marxis­ ta. Barbuy anota. dos que não têm. se acha desprovida de maiores ambições. a natureza do proletariado na concepção comunista: [. como as antigas classes dominantes. velhacaria. já vernaculizada como lumpemproletariado. proletariado. patifaria). não depende da vontade de ninguém impedir essa revolução total: porque a con­ tradição burguesia versus proletariado há dc chegar a um ponto em que o capitalismo não poderá sequer manter o proletariado como classe oprimida. não tem nada. dentro de certo prazo. Por isso. a pauperização gradual tornará completamente impossível a subsistência do proletariado no regime capitalista dc produção c. denomina a “massa informe de indivíduos arrui­ nados e aventureiros saídos da burguesia. que não possui. dos miseráveis. malvado. e proletariat. esfarrapado.. malfei- . dc todos os mo­ delos dc vida. de tudo quanto já foi clas­ se no sentido próprio do termo. que no passado lutaram pelo poder: não pode nem mesmo ser chamado pro­ priamente de classe. soldados desmobilizados. 1° d 'O Capital). c lumperei. do coletivismo ab­ soluto. ele não é nada. significará a destruição dc tudo quanto existiu anteriormente. dc todas as garantias dc existência individual. pelo menos ao nível dc subsistência. a par do proletariado propriamente dito. o lumpenproletariaty que qualifica dc “lixo de todas as classes” (do ale­ mão himpen. miserável.8 Ideologias 199 Entre a sociedade capitalista e a sociedade comunista renasce o período da trans­ formação revolucionária da primeira na segunda. farrapo. cujo Estado não pode ser outro senão a ditadura re­ volucionária do proletariado. em todos os tempos passados. Mas o capitalismo tem tais leis internas dc acumulação c con­ centração do capital (longamente estudadas por Marx no fim do L. Sendo a negação de tudo. uma camada so­ cial difusa. previsto por Marx (fatal porque dialeticamente ine­ vitável). É o estabelecimento. que farão com que o proletariado desça cada vez mais na escala social. E. querer impor um estilo de vida. Marx reconhece. não tem modo de existência parti­ cular. o advento fatal do proletariado. É o anonimato absoluto.. cujo caráter internacional tem como denominador comum ser a massa dos oprimidos. não poderá deixar de abater tudo quanto está acima de si. dc todas as formas dc apropriação da riqueza. daí lumpig. segundo o M a­ nifesto. segundo o marxismo. nem são nada. o proletariado não pode. Tal expressão. portanto. Sendo o proletariado a classe mais baixa das sociedades atuais (está quase ao nível do subterrâneo social chamado Lumpenproletariat)> quando cie se levantar.

vigaristas. Os autores marxistas consideram o lumpemproletariado um elemento de­ cisivo na ascensão violenta dos fascismos. o Bonapartc sans phrase. Este Bonapartc. é o autêntico Bonapartc. carteiristas. reclusos postos em liberdade. soldados desmobilizados. organi­ zou-se o lumpemproletariado de Paris em seções secretas. que festejar como cortejos triunfais. escribas. cada uma das quais dirigi­ da por agentes bonapartistas e um general bonapartista à cabeça de todas. no sentido mais ordinário da palavra. com meios de subsistência equívocos e equívoca proveniência. com ele aparentado. que sc constitui cm chefe do lumpemproletariado. flu­ tuante a que os franceses chamam Ia bohcme. detritos e escória de todas as classes a única classe em que pode apoiar-se incondicionalmente. os criminosos. carregadores. lazzaroni. nas condições extremas de crise e desintegração sociais de uma sociedade capitalista. tornam-se uma excelente massa de manobra que os fascismos utilizam na conquis­ ta do poder. p. naturalmente. 0 18 brumário de Louis Bonapartc. numa palavra. mendigos e tantos mais” . trapeiros. Velho roué manhoso. enfia uns quantos lacaios de Lordes cm uniformes franceses. era constan­ temente acompanhado por filiados da Sociedade do 10 de dezembro. burlões. as prostitutas. tal como Bonapartc. concebe a vida histórica dos povos e as ações principais destes como uma comédia. como uma mascarada. amoladores. numa palavra. caldeireiros. a ncccssidadc dc be­ neficiar à custa da nação trabalhadora. 79-80) [grifo nosso] Os últimos despojos da superpopulação relativa são. que teriam dc representar o povo. assim: Nestes cortejos que o grande Moniteur oficial c os pequenos moniteurs privados dc Bonapartc tinham.000 miseráveis do lumpen. rufiões. (Karl Marx. finalmente. de modo que. juntamente com rebentos degenerados e aventureiros da burguesia. Juntamen­ te com roués (devassos) arruinados. Aconteceu assim no seu cortejo a Estrasburgo. batedores de carteiras. como Klaus Zcttcl. Sob o pretexto de criar uma sociedade de beneficência. mendigos. desagregada. o leão. tocadores de realejo. o proletariado esfarrapado (lumpenproletariat) em sentido . jogadores. Na sua Sociedade do 10 de dezembro reúne 10. Para a sua incursão em Boulogne. os déclassés ou massas empobrecidas da classe média baixa. que só neste encontra de forma maciça os interesses que ele pes­ soalmente persegue. Sociedade de Beneficência na medida cm que todos os membros sentiam. palavras e poses servem de máscara à ca­ nalhice mais baixa. donos de bordéis. em que os grandes trajos. em que o abutre suíço amestrado representou a águia napoleônica. que perderam o sentido de sua classe social. Esta sociedade data do ano de 1849. Marx faz referência ao lumpemproletariado em duas passagens bas­ tante claras. toda essa massa indefinida. galerianos desertores.200 Teoria Geral do Estado rores recém-saídos da prisão. os que se refu­ giam na órbita do pauperismo: Deixando de lado os vagabundos. for­ mou Bonapartc a cepa da Sociedade do 10 dc dezembro. charlatães. Eles representam o exér­ cito. maquereaus (cáftens). vaga­ bundos. que reconhece nestas fezes. deste elemento.

Assim. despojos. Tal ditadura é inelutável. esta camada social se acha formada por três categorias: primeira. a burguesia. cujo número aumenta com as máquinas pe­ rigosas. tomou realmente a importância de uma Constitui­ ção. definitiva­ mente. a ditadura do proletariado não é uma forma política dc caráter demo­ crático e. parteira da História. o desaparecimento definitivo do Estado será lento e gradual. ditatorialmente. pessoas ca­ pacitadas para o trabalho. um modelo acabado de instituições político-jurídicas referente à organização do proletariado como agente de uma di­ tadura. sua necessidade em sua necessidade. finalmente. de forma mais concreta. terceira: degradados. rumo à verdadeira metamorfose do Estado. A revolução proletária. a imediata desaparição do Estado. as indústrias químicas etc. dos mutilados. a doutrina mar­ xista pressupõe que a ditadura do proletariado não é mera substituição daqueles que exerciam o poder político. e com ela constitui uma das condições de vida da produção capitalista e do desenvolvimento da riqueza. A expressão ditadura do proletariado. como cm 1860. Como assinala com clareza Farberov. criada pelo próprio Marx. das vítimas da indústria. segundo pitores­ ca observação do próprio Marx.a expressão é do próprio Marx . referido por Camillo Batalla: . O proletariado inter­ vém despoticamente . as viúvas etc. comunista. alterando a própria natureza do poder político. as minas. quando são arrolados prontamente c cm massa dos quadros dc trabalhadores da ativa. pois. Sua existência segue implícita na existência da superpopulação relativa. vai criar uma forma original de poder. na concepção marxista. eliminando. a partir do momento em que a revolução sentiu a necessidade de novas formas jurídico-políticas. Basta consultar superficialmente a estatística do pauperismo inglês para se convencer de que o número destas pessoas aumenta com todas as crises e diminui quando os negócios sc recuperam. muito menos. Não.8 Ideologias 201 estrito. a delinear. Por isso. 545-6) [grifo nosso] O proletariado dirigirá a tarefa de libertação das massas trabalhadoras explo­ radas. marca o período intermediário entre uma fase capitalista e ou­ tra comunista. apoderando-se do aparelho estatal e utilizando-o para dominar. pelo contrário. dos operários que sobrevivem à idade normal de sua clas­ se e. os doentes.no direito de propriedade e nas relações de produção. cm verdade.. órfãos e filhos de pobres. por exemplo. c sempre cm grande ati­ vidade. não implicará. () pauperismo é o asilo de inválidos do exército de operários em atividade e o peso morto do exército de reserva da indústria. Estes seres são candidatos ao exercito dc reserva da indústria. nada pode evitá-la. (Karl Marx. o poder proletário é original. A teoria marxista do Estado não chegou. a oposição capitalista-burguesa. São seres condenados a desaparecer. incapazes para o trabalho. incidirá no reforço deste. segunda. Seja como for. p. em razão da imobilidade que lhes im­ põe a divisão do trabalho. Seja como for. El capital. destinada a fundamentar o novo Estado socialista. contudo.

ressaltaram. A celebérrima ditadura do proletariado não se tornou uma ditadura do proletariado. quais sejam. que isto envolveria um processo histórico demorado. a sociedade socialista ainda não alcançou essa fase dc desenvolvimento. se mostraram contrários ao marxismo puro. a experiência russa demonstrou muito bem que. além disso. cm guerra com o Império Austro-Húngaro ou Alemanha. a partir do momento em que desconsideraram a afir­ mação marxista de que a revolução proletária seria viável apenas quando cumpri­ das as condições objetivas da deflagração do movimento. para a catástrofe. e a reação popular ensejada pela abertura política foi tamanha que a própria União Soviética soçobrou.202 Teoria Geral do Estado Marx e Lenin. jamais. ponto inicial da construção paulatina do socialismo. Os objetivos do leninismo não se concretizaram e. o Estado socialista não desaparecerá. sem­ pre. de­ sapareceria o Estado. e que usufruía de todas as benesses de um verdadeiro regime capita­ lista. celeremente. a um ní­ vel tão alto dc conscientização e organização sociais que a obediência natural às re­ gras dc convivência será uma necessidade permanente para todos. consequentemente. enquanto a economia rumava. adiantado grau de industrialização do Estado capitalista e insustentável concentração do capi­ tal nas mãos da classe dominante. porém. Ora. na dolorosa crise do so­ cialismo soviético. em prazo tão curto que os mais ferrenhos c otimistas inimigos do regime não poderiam. finalmente. mas o marxismo puro. mediante uma revolução violenta. como ideologia preconizadora de uma sociedade sem . mesmo assim tentou-se adaptar um momento de crise político-econômica a um princípio que sempre se afirmou científico! Foram seten­ ta anos de autoritarismo que desembocaram. e à abundância de bens ma­ teriais e culturais a serem distribuídos conforme as necessidades de cada um. mas não ao comunismo. submetido a uma casta parasitária . Pelo contrário. a Rússia dc 1917. ainda era um Estado feudal. Enquanto. porém. deverá reforçar o seu poder. Desaparecidas as classes sociais. o qual. até a consolidação mundial do comunismo. se Bakunin buscava. todavia. Sim. En­ tretanto. ao estabelecercm a lei da extinção do Estado. A Perestroika e a Glasnost dc Mikhail Gorbachev puseram a nu a constran­ gedora situação. A verdade é que. tirar ilações apressadas c. Entretanto. conduziria ao desaparecimento das diferenças entre as classes sociais. o Estado leninista acabou para sem­ pre. a su­ pressão do Estado para um desenvolvimento original da sociedade. equivo­ cadas do ocorrido na ex-União Soviética. Marx preten­ deu que o Estado poderia ser utilizado mediante uma ditadura proletária. houver presença da ameaça representada pelos Estados ca­ pitalistas. chega-se a um capitalismo de Estado.a odiosa Nomenklatura verdadeira gerontocracia ou governo “daqueles que nunca se aposentam e raramen­ te morrem”. por intermédio da dita­ dura do proletariado marxista. mas uma ditadura sobre o proletariado. imaginar! Não se pode. longe do estágio de um capitalismo avançado. cedendo lugar a uma administração de bens espontânea.

1930. de Norberto Bobbio e Nicola Matteucci. 1986. Daniel. 1963. o marxismo como uma espécie de anarquismo. Turim. Turim. Scritti politici. o vocábulo anarquismo deriva do grego a = negação + arche = governo. v. 2. N. entretanto. História das idéias políticas. num contexto sociopolítico no qual to­ dos seriam. sob a égide do regime comunista. inexistência. desnecessidade ou repúdio a qualquer forma de governo. Utet. livres. FGV/MEC. G. Elementos de teoria geral do Estado. Lisboa. sempre. in Dicionário de ciências sociais. São Paulo. 1. 4) ANARQUISMO E SINDICALISMO Bibliografia: d a l l a r i. em verbete no Dicionário de política. Etimologicamente. México. nômica. cias sociais. pelo menos só com a ruína do Estado soviético. Cieorge H. Rio de Janeiro. Max. “Anarquismo latino-americano”. 1985. distor­ cidos pelo leninismo. Dalmo dc Abreu. Edmundo. Madrid. Publicações Europa/América. . Rio de Janeiro. Seja como for. Jean. Rio de Janeiro. Júcar. embora ainda utópico. ainda não foram totalmente desmentidos. entretanto. Carlos M . 1986. in Dicionário de ciên­ k e g in i. Fratelli Bocca. não um objetivo cumprido e elaborado em definitivo. oster- M adrid. Mulford Q. v. Siglo X X I. ed. é fácil depreender que por anarquis­ mo entende-se toda doutrina que afirme ser o poder político. . Norberto e m a t t e u c c i . 1976. 7. isto é. representando. Heréticos da política. v. . Diccionario dc política. a organização social e a autoridade religiosa perfeitamente dispensáveis.8 Ideologias 203 classes. Fundo de Cultura. “Sindicalismo”. o próprio marxis­ mo antevê uma sociedade futura desprovida de normas coercitivas de conduta. 1976. Germinal. n o m a d gaard . “Anarquismo”. in Dic­ cionario de política. Não se deve ca­ talogar. s a b in e . b a k u n in . 1986. Jasón. porque seus postulados. Rio de Janeiro. 1985.. Ao vocábulo anarquis­ mo. porque o ideal a que se refe­ re o termo jamais sc consolida. e sim uma aspiração permanente. na qual o homem afirmar-se-ia. 1976. “Sindicalismo”. Madrid. igualmente. desenvolvida livremente. Siglo X X I. Nicola. dominação do homem sobre seus semelhantes. Rio dc Janeiro. Anarquismo. Madrid. Estatismo y anarquia. em razão de sua própria atividade. Neste sentido. 1968. in Dicionário de ciências sociais. Ettore. Fondo de Cultura Eco­ s ib l e y . b o b b io . Marins. FGV/ rama M EC. prossegue. 1971. g o n z a l e s -b l a n c o g u é r in Saraiva. é impossível dar uma definição precisa do anarquismo. sempre foi associada a ideia de uma sociedade livre de toda sujeição política autoritária. z o c c o l i. Los sistemas sociales contemporâneos. FGV/MEC. touchard Georges. 1981. Historia de Ia teoria política. Mikhail. 7. im­ postas por uma classe dominante. dirigido por Norberto Bobbio. 1907. mesmo porque Marx destacava sua doutrina das demais doutrinas antiestatais por considerá-la a . I 'anarquia. . permanece íntegro. . Como assinala Gian M a­ rio Bravo. sorel.

uma dicotomia inicial quanto às espécies de anarquismo: a) anarquismo ro­ mântico. Tucker). ideológica. V. por volta de 1920. conforme a natureza) e os epicuristas (exaltação do prazer individual e consequentemente recusa das imposições sociais) foram correntes antecessoras do moderno anarquismo. significa cão. nominando-a. “teoria que se opõe a qualquer tipo de governo forçado” (Bertrand Russel). não a agride. Sibley destaca algumas características comuns aos anarquismos: a) cooperação voluntária e ajuda mútua na vida do homem. e o Estado deve ser abolido” (B. O anarquismo romântico é aquele que se vol­ ta para a vida contemplativa. Seriam. porém. política. pois a sociedade. seja qual for sua natureza. os hip­ pies da época. b) anarquismo pragmático.C. As origens históricas do anarquismo (ou anarquismos) exigem. e um anarquismo comunista. mais os assemelharia aos cães. o anarquismo vem a ser um ideal que propugna.204 Teoria Geral do Estado única verdadeiramente científica. não sobre os outros homens”. não sendo difícil perceber. Enfim. que. não deixou de apresentar simpatia pela afirmação de uma igualdade essencial entre os homens. em sua des­ crição. com repúdio à coopera­ ção forçada. “doutrina segundo a qual todos os negócios dos homens devem ser conduzidos pe­ los indivíduos ou por associações voluntárias. Referido autor compilou suges­ tivas conceituações do anarquismo. estes cínicos. em grego. não aceitando os cínicos em seu estranho modo de vida. como veremos. havendo um anarquismo individualista. no qual o homem seria realmente livre. mostrando-se indiferente à organização social. sem a preocupação de obter bens terrenos. que sustenta dever a pro­ priedade ser administrada por grupos voluntários. b) repulsa ao Estado.. não a aceita. Na esteira do pensamento de Santo Agostinho vêm Isidoro de Sevilha e Dante Alighieri. Zenker). Por outro lado. Santo Agostinho em sua obra A cidade de Deus afirma a ilegitimidade de todo poder de um homem sobre o outro. respeitar con­ venções ou submeter-se às leis e convenções sociais. a liberta­ ção de todo poder superior. Mulford Q. O cristianismo. corrente de pensamento que teve em Diógenes um de seus expoentes. Afirmavam os cínicos que o homem deve viver de acordo com a natureza. aspirando a uma fraterni­ dade universal e à condenação da luta pelo poder. Diz ele: “Deus concedeu aos homens o domínio sobre os irracionais. com os cínicos. a raiz da palavra cínico: ela deriva de cinos. social ou econômica. no século V a. o anarquismo pode ser definido como descrença da necessidade da sociedade constituída” (E. assim: “etiologicamente. coercitiva. R. socialismo científico. notoriamente. Também os estoicos (vida espontânea. c) divergencia quanto à aceitação da propriedade indivi­ dual. defensor intransigente da propriedade privada das coisas materiais. Sua primeira manifestação pode ser encontrada na an­ tiga Grécia. desde logo. mas vários. principal obstáculo à realização indi­ vidual plena do homem. em sua feição original. então. Talvez por isto Sébastien Faure anotou. porque convertido ao cristia­ . com a aspiração a um Estado mundial governado pela Igre­ ja Católica. na Enciclo­ pédia Anarquista: “o anarquismo se resume a uma só palavra: LIBERDADE”. não existe um anarquismo apenas.

na Epístola aos Romanos (13. na França. embora um dos expoentes do anarquismo. desor­ dem. na Primeira Internacional. como visto.8 Ideologias 205 nismo. condena as tendências anarquistas do cristianismo primitivo e afirma o dever cris­ tão de obediência à autoridade terrena. Após muitas vicissitudes. o que não significaria. tudo isto matizado ainda mais pelo nacionalismo eslavo. halbúrdia. cm princípio. contudo. também francês. no segundo. Brissot de Warville. que concederia crédi­ tos gratuitos a todos aqueles que desejassem tornar-se produtores. colocando um hífen entre os semantemas an e arquista . Logo simpatizou com a doutrina dc Proudhon e a dc Marx. a afirmação libertária e a negação do Estado e. Embora a obra de Proudhon esteja. em busca de independência econômica. e Piotr Kropotkin (1842-1921). Cunhado pelo próprio Bakunin. controlada por Marx. no primeiro. consubstanciado nas sentenças: “Dar a Cé­ sar o que e de César e a Deus o que é de Deus” e “Todo o poder vem de Deus”. na Bélgica c na Suíça. foi considerado como invo­ luntário precursor do fascismo. Iniciado na car­ reira militar. a dissentir da orien­ tação dada por Marx ao movimento revolucionário. mas de um girondino. não se restringindo a refrear sua antipatia ao campo verbal. dela restou uma frase célebre: “A propriedade é um roubo!”. an-arquista. mediante sociedades dc crédito mútuo. as concepções vigorosas dos anarquistas Pierre-Joseph Proudhon (1809-1865). pendor que demonstrou no auge da cisão anarquis­ . procurando firmar bem que o ideal a que ele aspirava seria o de uma vida comunitária sem governo. um tanto esquecida. inevitáveis na carreira de um homem de ação. logo a abandonou. Adversário do capitalismo. não tardaria. Ferrenho adversário do Estado. hoje. e pressionada tanto pela alta finança como pelos operários revolucionários de nível mais baixo. em 1868.1-7). que ele rebatizou com o nome de ditadura invisível. incensando. Quanto a Mikahil Bakunin. Mikhail Bakunin (1814-1876). de ancestrais czaristas e latifundiários. Por defender os direitos de uma classe média. ingressou. Advogava. em 1872. à parte as velhas utopias dc Thomas Morus e Tommaso Campanella. pro­ vinha da aristocracia russa. mediante a divisão da França em doze regiões independentes. forma­ da por trabalhadores independentes. Entretanto. Proudhon foi o primeiro teó­ rico a autodenominar-se anarquista . Proudhon preconiza­ va a organização de estabelecimentos de crédito populares. preconizava um federalismo singular. que não era sua. dedicando-se ao estudo da filosofia na Alemanha. que desejassem plena autonom ia cm sua atividade. com efeito. Dotado de temperamento violento. da qual foi expulso. o cristianismo anárquico original vai perdendo sua pureza doutrinária já com a afirmação de São Paulo. com seus partidários. que. aplicado aos seus seguido­ res. a concepção materialista da História e a ditadura do proletariado. desorganização . a tutela dos interesses dos pequenos produtores. Muitos séculos mais tarde encontraremos. é nesta época que surge o adjetivo anarquista. Daí o apoio às suas ideias proporcionado por profissionais de nível superior e al­ tamente qualificados.

Afirmava Bakunin. naturalmente honesto. ao agredir com bengaladas. dedicar-se. 110 mínimo. Ao longo de suas obras. alarma­ do com as ideias de Sergei Netchaiev (1847-1882). mais do que a luta pela vida. ao trabalho comunitário. ou seja. e que. funda­ das na solidariedade inata do homem e na celebração de contratos espontâneos e as­ sociações voluntárias. A nova sociedade ensejará o aparecimento de associações natu­ rais. por outro lado. Estudante na Universidade de São Petersburgo. até agora. Com tal concepção. de um Bakunin ou de um Kropotkin. e contra o Estado e o capitalis­ mo. a tese de que. que cultivava a geografia e a zoologia. logo tornou-se adepto de Babeuf. até que seja efetuada a completa unificação internacional. ao contrário daquilo que fora previsto por Marx. especialmente A conquista do pão e Me­ mórias de um revolucionário. durante seis anos. cada qual não recusaria. a mera encampação dos meios de produção pelo Estado e a organização de uma ditadura do proletariado. não foi difícil para Bakunin ar­ regimentar toda sorte de intelectuais e profissionais frustrados da classe média. Quem. sem fama. Kropotkin não foi um revolucionário 110 sen­ tido estrito do termo. muito menos. Porque para ele o ho­ mem é bom. em prol do bem de todos. por conseqüência. a abolição imediata do Estado e. sem trabalho e. então: A destruição do Estado permitirá o surgimento de relações sociais livres. Afirmava que qualquer meio é válido para a defesa de uma boa causa. Piotr ou Pedro Kropotkin também era des­ cendente da nobreza russa. embora curtindo a desdita do cárcere comum aos agitadores. não deixava de ser um sonhador. Ao contrário de Bakunin. oriundo da Escandinávia. defendendo. fun­ dada pelo príncipe Rurik. ele idealiza um permanente estado de alerta da so­ ciedade contra a exploração do homem pelo homem. mais precisamente da primeira dinastia da Rússia. em sua profunda erudição.206 Teoria Geral do Estado tas/marxistas. mas uma denúncia permanente contra as injustiças sociais. Desesperados. do poder. ficará. com a subsequente im­ plantação dc um coletivismo representado pela tomada violenta dos meios de pro­ dução pelos trabalhadores. o auxílio mútuo entre as pessoas seria um fator natural da evolução. mesmo nos tempos pré-históricos. já se vê. desenhada por Marx. eles viam na abolição imediata e radical do Estado uma solução muito mais promissora do que aquela da desaparição gradual do Estado. segundo se afirmou. o próprio Marx. Bakunin advogava a imediata supressão do Estado. na sociedade humana. que o havia acusado de pertencer à polícia secreta da Rússia czarista. na obra Ajuda mútua. em âmbito cada vez mais amplo. de cor­ po e alma. não ficou impressionado ou estarrecido com as concepções de um Proudhon. Kro­ potkin era um verdadeiro intelectual. Blanqui e Bakunin. Seu anarquismo não visa. e desde que educado nos princípios sadios do anarquismo. dinheiro. Admirador sincero de Bakunin. livre de explorações e de injustiças. por isso devemos acres­ .

Tudo nele é absor­ vido por um exclusivo interesse. Todo o ignóbil sistema social deve ser dividido em várias categorias.8 Ideologias 207 centar à sua lista de mestres o notório Nicolau Maquiavel. uma camarada que se recusara a obedecê-lo incondicionalmente. Se tiver que continuar a viver nele. De­ ve-se convencê-los de que são obedecidos cegamente. 20. comprometê-los ao máximo. Eles devem ser continuamen­ te impelidos para diante. e do qual extraímos estes excertos. 2. mas que são pouco ativos. o revolucio­ nário não tem qualquer ligação com a ordem social e com o mundo civilizado. Entre ele. não deve esperar compai­ xão. tudo o que o impede é contrário à ética e criminoso. Para ele o que quer que ajude o triunfo da revolução 6 ético. que já dissera. assassinou. pessoalmente. originalmente transcritos por Max Nomad em sua obra Heréticos da política: 1. A quinta categoria . De sua autoria. 19.a revolução. A quarta categoria consiste nas autoridades ambiciosas e liberais de vários matizes.. de modo que não lhes sobre nenhum caminho para fu­ gir c usá-los como instrumentos dc perturbação da ordem do país. que alguns atribuem indevidamente ao próprio Bakunin. pois com eles pode-se conspirar nos termos dos seus próprios programas. entre inúme­ ras façanhas. O revolucionário é um homem condenado. instados a fazer declarações práticas subversivas. sentimentos. conspiradores. nem sequer um nome. Em nome dos princípios anarquistas revolucio­ nários. No mais íntimo do seu ser. que. é o famoso Catecismo do revolucionário. O revolucionário é um homem condenado. 15. onde cstivera preso.teóricos (refere-se aos adversários dc Bakunin dentro do campo revolucionário). Deve estar pronto para morrer a qualquer momento. por sua vez. séculos antes: “O fim justifica os meios” . tudo seria válido para este enfant terrible do anarquismo. certamente. Ele não tem interesses pessoais. como a de escapar da inexpugnável fortaleza dc São Pedro e São Pau­ lo. É preciso entrar na posse de todos os seus segredos. dedicações. propriedade.que pode ser travada secretamente ou abertamente. aparências e convenções ou moralismos geralmente aceitos neste mundo que para ele é um inimigo impiedoso. cujo resul­ . com as leis. revolucionários. o Estado e as classes dominantes há uma guerra contínua c irreconciliável . 5. uma só paixão . ne­ gócios. Despreza e odeia a moral dos dias de hoje com todas as suas motivações e manifestações. mas ao mesmo tempo não se deve permitir que escapem mais. Ele despreza a opinião pública. 4.. um só pensamento. e deve treinar para suportar torturas. será somente com o propósito de destruí-lo com mais certeza. não apenas em palavras mas em atos. que expõem suas ideias pe­ rante grupos ou pelos jornais. É impiedoso cm relação ao Esta­ do c a todo o sistema das classes privilegiadas.

moderado. após a qual começou o declínio do movimento também em todo o País. o anarquismo foi perdendo adeptos. Desmembremos o vocábulo anarquia. grupos de imigrantes italianos e espanhóis formaram grupos anarquistas que realizaram uma vasta greve operária no ano de 1917. Existem inúmeras definições dc sindica­ lismo. embora possa não haver o poder. segundo os anar­ quistas. mas também com fa­ tos contra tudo o que. seu canto de cisne foi a prática de tremendos atentados terroristas: aos seguidores de Bakunin se atribuem os assassínios dos pre­ sidentes McKinley e Carnot (dos EUA e da França. b) ação mi­ litante por parte dos sindicatos operários. mediante um consenso social. na ver­ dade. Portanto. segundo o qual os sindicatos operários devem ser a base da administração social e industrial numa sociedade socialista. É no estudo do anarquismo clássico que perceberemos a imprescindibilidade das normas sociais de conduta. negação. despoja­ das.sugere é. vale dizer.208 Teoria Geral do Estado tado seria a completa destruição da maioria e o verdadeiro treinamento revolucionário de apenas alguns. inexistência degoverno. as guildas (significando os comerciantes e capitalistas em geral) e contra o parasitismo dos kulaks. ele c grego. o clero. governo. trata-se de uma corrente ideológico-pragmática. realizaram inúmeras greves e. na base de sociedades livres. este. onde houver sociedade haverá direito. 25. Anarquismo não significa confusão. respectivamente). Estendamos as mãos à raça audaciosa dos bandidos . Confor­ me G. a vida em sociedade por normas espontaneamente cumpridas.os únicos genuínos revolucionários da Rússia. jamais cessaram dc protestar não só com palavras. No que tange ao sindicalismo. de a. enfim. para nos aproximarmos cada vez mais do povo. da Itália. no Brasil. estivesse ligado ao Estado: contra a no­ breza. afirmava Aristóteles. embora as normas sociais continuem existindo. oriunda da Revolução Industrial. O que o anarquismo . isto é. e que apresenta inúmeras variantes. não de normas sociais. o termo sindicalismo pode ser empregado em dois sentidos: a) doutrina ou movimento social. mas. ainda no final do século X IX . ou “um estado da sociedade em que a indústria será controlada pelos que nela trabalham. em São Paulo e Rio de Janeiro. N. É justamente nisto que reside o ponto original do anarquismo: a inexistên­ cia de poder coercitivo. devemos antes de tudo ligar-nos àqueles elementos das massas que. nos EUA. e arkos. Em Chicago. bem como do rei Humberto I. como o sindicalismo revolucionário e o sindicalismo reformista. Ubi societas ibi jus. sem necessidade de um órgão que as faça cumprir pela força. esses devem cooperar da . império da de­ sordem. desde a fundação do poder estatal dc Moscou. da coercibilidade. Ostergaard. das quais poderiam ser apontadas duas: “ação coletiva para proteger c me­ lhorar o próprio nível de vida por parte dos indivíduos que vendem sua força de trabalho” (Allen). Apelando sempre mais para a violência. a burocracia. da jurisdicidade. então. direta ou indiretamente.embora no mundo das utopias .

Embora seja autor dc inúmeras obras c tenha dirigido várias publi­ cações de caráter político. somente podendo ser admitidos a seus quadros operários ou pequenos artesãos. Tais ideias seriam robustecidas pela doutrina de Georges Sorel. a greve geral seria o mito do futuro. Após a Primeira Grande Guer­ ra.diz ele . desejando ressaltar seu caráter antiestatal c descentralizador. sem dúvida. originando uma variante nova do movimento operário. Não se pretende. aos problemas so­ ciais. Curiosa­ mente.8 Ideologias 209 maneira mais eficiente na produção de todas as necessidades da vida. entretanto. o inspirador do fascismo. Tal doutrina. pa­ rece encontrar sua paternidade em Ferdinand Pelloutier (1867-1901). continua. a partir dc 1892. O que vem a ser mito. e organizadora de uma comunidade sem a carapaça estatal. fundada nos mitos revolucionários e na violência passiva da greve geral. Sorel dedicou-se. neste capítulo. caracterizando esta luta a ação direta e a greve geral. na concepção soreliana? Mito . Existe. Interessa-nos. batizaram-no com o nome de anarcossindicalismo. esta organização evidenciaria. teria início a reconstrução social. um mito. assim. comandada por uma fe­ deração universal de sindicatos operários. o próprio Sorel admite que tal movimento não terá condições de se impor. o mito da greve gerai No dizer de Sorel. al­ guma originalidade no pensamento soreliano. sua variante mais original. Curiosamente. Marxista de início. fundado no princípio dc que o próprio sindicato seria o instrumento dc luta re­ volucionária. na qual prega a revolução proletária mediante a atuação violenta de uma facção operária mais hábil e inteligente. hipótese de resto confirmada pelo próprio Sorel. uma elite. recebendo influências doutrinárias dc Pierre-Joseph Proudhon. que. porém. Henri Bcrgson e Karl Marx. profunda hostilidade contra o intelectualismo. Sorel tornou-se conhecido principalmente pela obra Re­ flexões sobre a violência. organização de imagens que levam ao combate e à batalha. o sindicalismo revolucionário. criou o próprio sindicalismo revolucioná­ rio. do qual se desiludiu em face dos métodos terroristas atribuídos a esta doutrina. tendo realizado seu propósito para com o sistema capitalista'’ (Mann). Engenheiro dc profissão.é o conjunto ligado por imagens motoras. de imedia­ to. de índole meramente cooperativa. porém. seu criador granjeou grande parte de sua fama por ter sido cultuado e invocado na praxis política de um notó­ rio adepto da violência: Benito Mussolini. agora detentora dc todos os meios de produção. mas servirá para arrancar as massas trabalhadoras de seu marasmo! Tal movimen­ to é. Pelloutier enveredou pelo anarquismo. Os mitos do liberalismo (liberdade. O mundo res­ sente-se da falta de mitos. embora atribuída por muitos a Georges Sorel (1846-1922). alguns sindicalistas bandearam para as fileiras do anarquismo. igualdade . enfim. Vitorioso o movimento sindicalista. Uma socie­ dade na qual os parlamentos e governos terão desaparecido. Desejoso dc consolidar uma nova ideologia que estabelecesse uma pon­ te entre a revolução e o meio operário. fazer neste manual introdutório um estudo mais alentado do sindicalismo in genere.

sociólogos ou pessoas propensas à ciência prática. a influência dc Sorel sobre Lenin não foi menor. comparando. Só a inter­ venção “violenta” de uma fração esclarecida da classe operária . Fundamentalmente. integralmente. raciocinar a respeito de incidentes que se possam produzir no curso da guerra social. Sorel esclarece: É necessário considerar os mitos como meios de atuar sobre o presente. Paradoxalmente. em Marx. bem como sobre os conflitos decisivos que venham a dar a vitória ao proletariado. Em Reflexões sobre a violên­ cia. Ao lado de Sorel. de Marx. de Bergson e de Proudhon. exemplificando com o socialismo utópi­ co e o socialismo científico. As massas agem por intuição. Se a influência do sindicalismo foi considerável na França. portanto. e trouxesse ao conjunto das ideologias revolucio­ nárias uma precisão e um rigor não contidos em outras formas de pensar. durante a prepa­ ração da revolução. bem como dos anarquistas pragmáticos. efetivamente. portanto. Distingue. mesmo que os revolucionários se equivocassem totalmente ao criar um panorama fantástico da greve geral. que critica­ va. É inú­ til. sendo certo que o fascismo adotou várias posições sorelianas. deixar de lado to­ das as formas de discussão comuns entre políticos. todas as aspirações do socialismo. merece destaque o marxista Antonio Labriola (1843-1904). Em Sorel. inadaptável à sensibilidade das massas e aos instintos destas. a necessidade da violência e a organização corporativa do Estado. dentro de sua experiên­ cia histórica. o sindicalismo soreliano exige a abolição do capitalismo e do Estado e a nova estruturação da sociedade em associação produtora. ser o marxismo uma “ciência exata”. em nome de uma intervenção meramente voluntária das massas. e vão atuar dentro das únicas organizações adaptadas à sua sensibi­ lidade: os sindicatos. encontraremos influência de Flegel. Ele recusa. é o mito em conjunto: suas partes so­ mente oferecem interesse pelo relevo que dão à ideia contida nessa construção. a influência de Sorel na Itália foi ainda maior. Para apreen­ der o verdadeiro alcance da ideia de greve geral é preciso.210 Teoria Geral do Estado e progresso) devem ser substituídos pelos mitos revolucionários. qual­ quer discussão a respeito de como aplicá-los materialmente no transcurso da História carece de sentido. onde o que conta é o di­ nheiro. Sorel viria a ser o profeta do sindicalismo revolucionário. um elemento fundamental. ademais. pois. como foi dito. este apoiado em mitos. em face das cisões ocorridas nos movimentos socialistas deste país. mito e utopia. com desprezo. como o predomínio das elites. tal panorama poderia constituir. a democracia parlamentar à bolsa de valores. sempre que admitisse. O que importa. o determinismo dialético marxista. a organização sindical da sociedade e a rejeição do determinismo de Marx.os sindicalistas . Já se percebe que várias premissas podem ser pinçadas no cerrado pensamen­ to de Sorel: a ação direta em oposição aos meios parlamentares da luta pelo poder. a revolução operária somente será realizada mediante a violência.

poderá. 1982. porem aperfeiçoá-las. também. 3. 1963. tirar as massas de seu eterno tor­ por. Aristóte­ les (Vicia. Presses Universitaires de Bruxelles. Madrid. Aguilar. ed. ressaltando. mediante a greve geral. estar acima dos objetivos particulares dos indivíduos que a integram. Madrid. Há semelhança entre o sindicalismo revolucionário e o anarquismo no tocan­ te à adoção da ação direta para a destruição do Estado: ambos admitem a greve.. platão.8 Ideologias 211 revolucionários . O sindicalismo revolucionário exige a abolição do capitalismo do Estado. os sindicalis­ tas buscam atribuir tais funções aos sindicatos de produtores. eviden­ temente. O grande pu­ blicista León Duguit demonstrou certa simpatia por algumas premissas do sindica­ lismo. 5) MECANIC1SM0 E 0RGANIC1SM0 Bibliografia: La política. Ismael S. Gregorio R. mas apenas a soma . a finalidade para a qual foi criada a sociedade. Os sindicatos subs­ tituiriam o Estado. e a sociedade passará a ser gerida pelos sindi­ catos dc produtores. material ou espiritualmente. y u r r e . de. q u il e s . foi imenso o fascínio exercido por seus exponentes em todo o mundo. os sindicalistas não fazem alusões quanto à capacidade das massas para o autogoverno. vendo nesta não um ser autônomo. 2. Eugè- ne. Espasa-Calpe. Madrid. representado pela sociedade. Por outro lado. Como encon­ trar o ponto de equilíbrio entre o interesse coletivo. I. a greve geral abolirá o Estado. dotado de fins próprios. La república. pecando pelo radicalismo. que o homem faz parte da sociedade visando a satis­ fação de seu interesse em aprimorar-se. inegável. dupréel. para este fim. Bruxelles. que busca não destruir as estruturas sociais. Ao lado do sindicalismo revolucionário fala-se num sindicalismo reformista. Aguilar. cada qual dirigindo seus sindicalizados enquanto produtores. à gui­ sa dc correção dos desajustes trazidos pelo excessivo individualismo. Por outro lado. negam a própria socieda­ de. Enquanto a greve parcial não passa dc um meio de agitação e de organização local. Totalitarismo y egolatría. a sabotagem. Madrid. 1979 (Obras completas). mais moderado. deve. Embora jamais tenha sido muito clara a doutrina sindicalista no tocante à na­ tureza da estrutura social que substituirá o Estado. escritos y doctrina). Espasa-Calpe. Ar i s t ó t e l e s . o terrorismo: tudo é lícito para prejudicar o empregador capitalista. O objetivo social. Traitc dc morale. reorganizando a sociedade em associações de produtores. Substituindo o Estado na condição de proprietário e de administrador dos meios de produção. e o interesse particular? Muitos. v. 1967. 1962. o papel dos sindicatos e de outros grupos sociais.

Adam Müller (1779-1829). Schlegel (1772-1829). mas negam a floresta. os ex­ cessos que este movimento tremendo produziu acabaram por minar a admiração pelo iluminismo. Schlegel muda bruscamen­ te seu pensamento a partir de 1804. O ro­ mantismo. por intermédio da qual os indivíduos recebem a vida espiritual e o bem-estar. representado. também. A norma fundamental deste individualismo seria a opinião individual. O romântico afirma que toda nação é um organismo que possui um modo próprio de vida. em oposição ao racionalismo e o universalismo da Revolução. reconhe­ ce o todo nacional. que se expressa prin­ cipalmente nas célebres Reflexões sobre a Revolução Francesa. Porém.não é um simples agregado de seres humanos voltado para a satisfação de fins estritamente materiais. porém. É muito mais do que isso: é uma comunidade mística. Edmund Burke (1729-1797) mostrou-se um crítico implacável do pensamento revolucionário. particularmente. Diga-se o mesmo do individualismo proveniente do liberalis­ mo da Revolução Francesa. Passa a considerar a sociedade e o Estado or­ . suspeita. criadoras de uma nova visão do mundo. a emancipação do indivíduo perante suas alienações políticas e religiosas. Veem as árvores. enaltecedora da sociedade. de início. que foi. para um futuro dirigido pelo determinismo dialético. As primeiras críticas. como ocorre nas associações mercantis. visto que esta não passaria de mera soma dos indivíduos. pois mesmo 11a liberal Inglaterra. Tal pensamento não ficou circunscrito à Ale­ manha. ao enaltecer a razão triun­ fante sobre as trevas da Idade Média. Como lembra Gregorio R. A reação não tardaria. regida pelos critérios utilitaristas do máximo prazer. denominado Século das Luzes.212 Teoria Geral do Estado dos indivíduos que a integram. Com efeito. pelo anarquismo. como reação ao absolutismo monárquico ain­ da imperante na França. Veio representada pelo romantismo organicista. de Yurre. tímidas. Foi na Alemanha. que encon­ trou seu epicentro na Alemanha derrotada por Napoleão. O móvel da ação individual do homem rebelde entronizado por esta ideologia seria. sugestivamente. É o caso do individualismo extremado. messianicamente. portanto. que o organicismo e a supervalorização do Estado chegaram ao seu grau máximo. denota de imediato uma tendência organicista. o im­ pulso vital da sociedade. a nação como um todo. devendo cada homem ter a mais ampla esfera de au­ tonomia de conduta. Destacam-se figuras do porte de Novalis (1772-1801). logo tornaram-se uma avalancha de objeções. A sociedade ou Estado . Embora partidário da Revolução em sua juventude. revolucionária e. temporal. muitos intelectuais ligados ao romantismo foram. representado pela filosofia iluminista do século XVIII. O próprio marxismo enquadra-se cm tal concepção mecanicista do convívio humano ao preconizar.ele não distingue . refratária a uma França liberal. o iluminismo proclamou a supre­ macia da razão individual sobre todo e qualquer princípio ou instituição fundados em fatores superiores ao indivíduo. sinceros admiradores dos princípios individualistas que embasaram a Revolução Francesa. que nega o próprio poder político. suas instituições e seus costu­ mes são inconfundíveis com as demais. Johan Gottlieb Fichte (1762-1814) e Georg Wilhelm Friedrich Hegel (1770-1831). Sua obra.

com suas famílias. é o Estado que cria o indivíduo. com seus costumes e tradições. e os seres humanos são apenas células que participam dessa vida. desfavoravelmen­ te. ao publicar sua obra O Estado comer­ cial fechado. Daí sua aversão pelas tendências mecanicistas e individualistas da Revolução. e esta. Finalmente. pois a oscilação da moeda repercute. especialmente 110 que toca à apologia do . Para ele. Se o indivíduo não tem. Os ideais de Hegel eram pro­ fundamente anti-individualistas. pois toda definição implica limitar o definido. No decurso dos séculos. Não há direito anterior ou superior ao do direito imposto pelo Estado. A História. pelo contrário.8 Ideologias 213 ganismos vivos. até que se obtenha o equi­ líbrio entre a produção e o consumo. até que seja alcançado o estado de autarquia. e na tendên­ cia de cada qual buscar sua hegemonia entre os demais. como afirmava o pensamento liberal. significa. Sua influência sobre o fascismo italiano foi admirável. mostrando-se uma reação às tendências liberais do seu tempo e à divisão da Alemanha em Estados independentes. Quanto a Fichte. na economia nacional. como manifestação da vida espiritual. O Estado controlará severamente a saída de seus súditos para o exterior. com o fim de lazer ou curiosidade. por si mesmo. O Estado é algo tão grandioso e abran­ gente. pois que esta é uma concessão do Estado. O indivíduo não cria o Estado. nega que o indivíduo seja anterior ao Estado. unicamente. ficando as viagens ao exterior circunscritas às necessidades de es­ tudo e ciência. A preservação desta estru­ tura é pressuposto inafastável de qualquer Constituição. O Estado autárquico será rigidamente planificado. o que a alma e a natureza exterior significam para os organismos biológicos. a origem da guerra reside na desigualdade econômica entre os Estados. Evidente­ mente. O comércio exterior ense­ ja a concorrência. A estabilização da moeda é também um pon­ to programático de relevo. que se torna indefinível. Para que a importância de sua contribuição para as ideias políticas seja aferida de pronto. o Estado é fonte de todo o direito. O Es­ tado é um organismo vivo. Hegel. é inimaginável a existência do homem apar­ tado do Estado ou anteriormente a este. resultantes da evolução histórica. A economia planificada deve fechar as portas do Estado ao comércio exterior. basta lembrar que seu pensamento constituiu a base de correntes opostas como o fascismo e o marxismo. plasma-se a es­ trutura orgânica da nação. a iniciativa e a liberdade individual não constituem o funda­ mento da vida social. que arrasou as estruturas orgânicas do Estado e reduziu a nação a um agregado inorgânico de átomos. personali­ dade. impedindo que eles deixem o país. da mesma ma­ neira que as células se desenvolvem no organismo vivo. até mes­ mo a ciência é parte do Estado. O Es­ tado é um organismo do qual depende a vida humana em sua totalidade. a vida econômica deve estar rigidamente controlada pelo Estado. a guerra. classes e corporações. é lógico que ele não pode arguir direitos contra o Estado. O livro é eminentemen­ te anti-individualista. por sua vez. para os organismos sociais. Adam Müller. Para Fichte. lança as bases do futuro nacional-socialismo.

tido como a criação mais perfeita do homem. Lisboa. Curiosamente. que. intitulada Política: “ [. o organicismo radical (totalitarismo) vê a floresta. 6) TOTALITARISMO: FASCISMO E NACIONAL-SOCIALISMO Bibliografia: mallén bonnard . esta exótica tendência. Roger. 1977.com agudeza. Filósofos do porte de Platão e Aristóteles deixa­ ram-se empolgar pela suposta natureza totalitária do Estado.] a cidade (Estado) e. Gcorge. a influência de Hegel sobre o nacional-socialismo não foi das maiores. Aristóteles. El derecho y el estado en la d octrina nacional-socialish i t i . em al­ gumas passagens de sua obra. o espírito de seu tempo. - Rubén Salazar. por natureza. as diferenças essenciais entre o pensamento hegeliano e o nacional-socialista: a) o elemento básico da filosofia hcgcliana c a ideia (idealismo): o mundo é uma revelação da ideia. e o nacional-socialismo reduz o Estado à ca­ tegoria de meio e instrumento em mãos do Führer e de seu partido.. desenvolver-se-ia um inadmissível organicismo radical. o todo prevalecendo. Barcelona. Facultad dc Ciências y Políticas chard Sociales. 1940. aqui. 11a Alemanha. Jean. Capítulo II). O elemento bási­ co da Weltanschauung nacional-socialista é a raça (racismo).. . antecipando muitas premissas do totalitarismo contemporâneo.214 Teoria Geral do Estado Estado. 1950. não as árvores. ed. Minha luta . dc Yurrc aponta. Permitir-nos-emos fazer referência. Gregorio R. roux . Na linha do pensamento organicista. anterior à família e a cada um dc nós conside­ rados individualmente. 2. e o nacional-socialismo. Mussolini. Adolf. . mesmo porque esta ideo­ logia totalitária não via 110 Estado o fundamento da sociedade. tou . Publicações Europa/América. que formam a pedra angular da estrutura política. 1976. É necessário que o todo anteceda a parte [. b) Hegel constrói sua teoria sobre a supremacia do Estado. Os perigos do organicismo radical. r ta. Bosch. v. tem apenas deveres para com o Pastado. até chegarmos aos dois maiores totalitarismos do século X X : o fascismo. . Mcxico. 1963. Lisboa. não deixou de assimilar.f.]” (Livro Primei­ ro. Ao contrário do mecanicismo anarquista. de maneira absoluta. sobre as partes. incensando a prevalência absoluta do Estado sobre o indivíduo... naquela concepção.. Astcr. na Itália. sur­ gem prematuramente na História. 7. História das idéias políticas. portanto. glorificador da sociedade em detrimento do indivíduo. Globo. El Estado corporativo fascista. por exemplo. mas sim na nação (Volk). Porto Alegre. de certa forma. a algumas passagens da obra capital de Aristóteles. deixando fluir.

Capítulo II). antes que apareçam a vida c a sensibilidade do embrião. o bárbaro no mesmo nível do escravo: “é normal que os gregos governem os bárbaros. Aristóteles revela xenofobia. é necessário promulgar uma lei que proíba a sobrevivência dos seres disformes. sem evitar exercícios nem to­ mar uma dieta excessivamente frugal. Em outras passagens da Política. fica evidente que a própria educação de to­ dos há de ser necessariamente una e idêntica. por natureza. Tais indícios revelam. precedeu o verbo. se a concepção organicista ou totalitária da sociedade é tão antiga..) ” (Li­ vro Sétimo. Capítulo I).8 Ideologias 215 “As questões de interesse público devem estar sujeitas a uma supervisão pública..]” (Livro Primeiro.. dc que forma as crianças terão uma constituição física perfeita. bárbaro e escravo são a mesma coi­ sa [. já que cada um é parte deste” (Livro Oitavo. Entretanto. pois todos per­ tencem ao Estado. à saciedade. em discurso célebre proferido no dia 22 de junho de 1925. c para que tal prática possa ser considerada respeitável ou desprezível. É fácil para o legislador assegurar isto. será praticado o aborto. ordenan­ do-lhes que programem um passeio diário. que iMussolini tinha como um de seus livros prediletos A república. “ [. o termo totalitarismo é relativamente recente. “No que toca à exposição e criação dos infantes. no qual honrarão as divindades protetoras do bom parto” (Livro Sétimo. certamente. eis que. A palavra totalitarismo refere-se a uma concepção política que sc mostra cm franca oposição à doutrina do cidadão abstrato. criada pelo liberalismo. “ [. e se a tradição proibir a exposição do recém-nascido. Capítulo XVI). ci­ tando Eurípedes. ao colocar. se o número de nascimen­ tos se mostrar excessivo. deve ser estabelecido um limite numérico à procriação. Sc um casal fecundar fora deste li­ mite. colo­ . Capítulo XVI). do homem soberano.. “Como a finalidade do Estado é uma só. de Platão. no Quarto Con­ gresso do Partido Nacional Fascista. Enquanto este se fundamentava na plena autonomia individual. os germes do totalitarismo moderno. Capítulo XVI). desde logo.. já se vê. temos que admitir que os cidadãos não se pertencem. tendo sido criado pelo próprio Mussolini.. ao mesmo tempo.. é necessário atentar para a disciplina das uniões conjugais.. Não foi por acaso. A ideia totalitária. Por outro lado.] as mulheres grávidas devem cuidar de seu corpo. Capítulo I). e que ela esteja a cargo do Estado e não dos particulares (Livro Sétimo. levar-se-á cm conta a ausência ou presença de sensação e vida” (Livro Sétimo. estabelecendo quando e em que condições um casal pode procriar (.] visto que é dever do legislador considerar.

que se tornaria uma das principais características do fascismo: Nem indivíduos nem grupos .diz Rocco não são mais que o reflexo dos direitos do Estado. exatamente como todos os di­ reitos individuais. que funde as classes . c na von­ tade do povo. eminente jurista italiano. Absoluto é o interesse social. resultante da Reforma protestante e do jusnaturalismo dos séculos XVII e XVIII. síntese e unidade dc todo valor. que cnccrrou sua missão histórica.216 Teoria Geral do Estado cando a liberdade individual no ápice da escala de valores a ser respeitada pelo Es­ tado e atribuindo ao poder político apenas e tão somente a manutenção da ordem pública. Mais adiante.partidos políticos. associações. E se a liberdade deve ser o atributo do homem concreto e não do fantoche abstrato criado pelo liberalismo indi­ vidualista. que a concepção atomística e mecânica da sociedade c do Estado. consciência c vontade universal do ho­ mem cm sua existência histórica. O fascismo opõe-se. classes . Rocco abre comba­ te contra a liberal-democracia e o socialismo. sindicatos. Numa obra intitulada A doutrina do fascismo e o seu lugar na história do pensamento político. ao passo que para o fascismo. a concepção fascista é para o Estado e para o indivíduo. porque. era totalmente estranha ao pensamento italiano. o fascismo eleva o Estado à condição da verdadeira realidade do indivíduo. à medida que este sc harmoniza com o Estado. a liberdade é uma concessão do Estado. Como se percebe desde logo. o próprio Mussolini esclarece: Anti-individualista. sendo o indivíduo o fim e a sociedade o meio. para o fascismo tudo está no Estado e nada humano nem espiritual existe e. ao socialismo. O liberalismo negava o Estado em favor do indivíduo. Por isso. a concepção fascista da sociedade é totalitária: a totalidade dos indivíduos submetidos ao poder político e a totalidade da manifestação pessoal de cada um acham-se sob a égide do Estado. nada tem valor fora do Estado. vão mostrar poderosas reações a tal concepção. integrante da famosa Enciclopédia italiana. então o fascismo opta pela liberdade. fascismo e nacional-socialismo. relativo é o interes­ se individual. É contrário ao liberalismo clássico. Neste sentido o fascismo c totalitário. que paralisa o movi­ mento histórico na luta de classes e ignora a unidade do Estado. a socie­ dade não tem vida distinta dos indivíduos. cm 1925. interpreta. as duas doutrinas totalitárias do século X X . no verbete intitulado “A doutrina do fascismo”. já afir­ mava. o principal problema é o do direito do Esta­ do e do dever do indivíduo e das classes. Com efeito. e o Es­ tado fascista. Os direitos do indivíduo . movimenta e domina toda a vida do povo. portanto. nascido da ncccssidadc dc reagir contra o absolutismo. a liberdade do Estado e do indivíduo no Estado. Esta opção é pela única liberdade que pode ser considerada seriamente. Mussolini refere-se ao sistema corporativista.fora do Estado. Alfredo Rocco (1875-1935). que militou politicamente nas fileiras do fascismo. para estas doutrinas. a fortiori.

como dizia a velha concepção naturalista. 30.A nação italiana é um organismo dotado de fins. meios de ação supe­ riores em poder e duração àqueles das pessoas. uma existência real. no Estado fascista. De todos aqueles que. são. o fascismo pretende que. menos ainda.. e as considera no siste­ ma corporativo. numa vontade política que atua e que está disposta a demonstrar o seu direito. integralmente. o fascis­ mo é a forma pura de democracia. a nação é criada pelo Estado. em seu aspecto qualitativo e não meramente quantitativo. que se realiza.8 Ideologias 217 numa única realidade econômica e moral. como vontade ética universal. I o da referida Carta: I . política e econômica. mais coerente e mais verdadeira. que a formam. a representação profissional. isto é. publicada na Gazzeta Ufficiale. que instituiu. consciente de sua própria unidade moral. e significar a ideia mais po­ derosa por ser a mais moral.04. Porém. portanto. Tal personalidade superior é nação enquanto Estado. N ão se trata de raça ou de uma região geográfica determinada. Ao contrário. .1927. É uma unidade moral. e sim numa consciência ativa. numa situação de fato mais ou menos inconsciente e inerte. Este não é nem o número nem a soma dos indivíduos que for­ mam a maioria de um povo. no qual tais interesses se conciliam na unidade do Estado. O direito de uma nação à independência não se acha fundado na consciência literária ou ideal de sua própria existência e. vida. por conseguinte. como um ideal que tende a se realizar na consciência e na vontade de todos. na órbita do Estado. Os indiví­ duos formam as classes conforme seus interesses. atividades econômicas e cointeressadas. uma vontade e. isoladas ou agrupadas. que servia de base aos estudos dos publicistas dos Estados nacionais do século X IX . na famosa Carta dei lavoro. documento que inspirou inúmeras Constituições da época. que é uma vontade de existência e dc poder: é consciência dc si. O fascismo. as exigências reais que deram origem ao movimento socialista e ao sindicalista sejam reconhecidas. era esta a redação do art. Não é a nação que cria o Estado. sob a inspiração italiana. mas de um agrupamento que sc perpetua historicamente. formam etnicamente uma nação. O Estado. As tendências organicistas e totalitárias do fascismo italiano ressaltam-se. como deve ser. como uma única consciência e uma única vontade. e também ao sindicalismo de classe. em espe­ cial a brasileira de 1934. Com efeito. cria o direito. porém. opõe-se à democracia que absorve o povo na maioria dos indivíduos e o rebaixa a tal nível. seguem a mesma linha de desenvolvimento e de formação espiritual. personali­ dade. em uma espécie de Estado já in fieri. que dá ao povo. pelo menos se o povo for concebido. em virtude da natureza ou da história.. antes dc tudo c sobretudo. dc uma multiplicidade unificada por uma ideia. que se encarna 110 povo como consciência e vontade de um pequeno número ou de um apenas. encontram-se sindicalizados confor­ me as diversas. o Estado. com maior clareza ainda. Sem embargo disso.

e implica o enfraquecimento de qualquer direito do indivíduo. tudo o que diz respeito à defesa da raça. o espírito (Volksgeist) da nação deve ser quase misticamente intuído pelo juiz. Tal cultura depende da existência dc uma raça superior. segundo seus doutrinadores. que possui direitos apenas en­ quanto membro da comunidade e de acordo com os fins desta. pelos excessos do individualismo liberal. assim. O positivismo vem. mas não c a causa desta. Fundamentado no sangue e na raça. na doutrina fascista. Com a. que. sob a liderança (Führung) de um chefe (Führer). a nação (Volksgemeinschaft). embora anti-individualista como o fascismo. em última análise. mas como um meio. ao versar o Estado em sua autobiografia intitulada Mein Kampf (Minha luta). mesmo porque jamais negaram tal postu­ ra justificada. o nacional-socialismo não vê o Estado como um fim cm si mesmo. antes de mais nada. Mais adiante: () Estado é um meio para um fim. comunidade abstrata. formadores de cultura. mas uma nova entidade. embora organicista e totalitário como o fascismo. O Estado fascista e o nacional-socialismo foram. Em suma. Essa conserva­ ção abarca. por outro lado. a ser repudiado. Adolf Hitler. É a base sobre que deve repousar uma mais elevada cultura humana. promover-se-á a defesa da vida física e. Sua finalidade consiste na conservação e no progresso de uma coletividade sob o ponto de vista físico e espiritual. considerado. comunidade vi­ vente. deve decidir inspirado no que­ rer supremo do Führer. a única fonte do direito. é o verdadeiro intérprete da alma popular (Volksgeist). Ouçamo-lo: O grande princípio que nunca deveremos perder de vista é que o Estado é um meio e não um fim. mais do que criar o direito com base em sua própria valoração do interesse social. permitindo. Poderia haver centenas dc Estados-modclo no mundo c isso não im­ pediria que. a expansão dc todas as forças a cia imanentes. desta forma. com o desaparecimento dos arianos. desaparecesse a civilização ao nível em que é encontrada atualmente nas nações mais adiantadas. Os Estados que não atendem a tal objetivo são seres artificiais. o conceito de Volksgemeinschaft. sendo substituído por uma espé­ cie de doutrina do direito livre.218 Teoria Geral do Estado Já para o nacional-socialismo não vigorava um princípio positivista na concep­ ção do Estado. . é muito claro neste sen­ tido. os dois Estados essencialmente totalitários na modernidade. pela qual o juiz. tal doutrina não contrapunha ao indivíduo o Estado. o desenvolvimento es­ piritual. exclui o conceito da Rechtsgemeinschaft. Como adverte Guido Fassó. de capaci­ dade civilizadora. cxcrcsccncias da vida social. certamente. fonte primária do di­ reito. utilização dc tais forças. sem o qual não se pode falar em nacional-socialismo.

cada uma destas características. A autocracia.2) Sistema de partido único. definida por Hans Kelsen como a forma de governo que. o totalitarismo é uma concepção global do Estado que não adm ite a supremacia do individual so­ bre o social. f) direção estatal da economia. sendo. característica do fascismo e do nacional-socialismo. não é totalitário. autocrático. aliás. um dos pilares do . Ao contrário.8 Ideologias 219 O Estado socialista soviético é totalitário. a Roma republicana. 6. uma das diferenças en­ tre a autocracia e o totalitarism o . na verdade. b) sistema de partido único. Quando a sociedade comunista chegar. preconizada por Marx. 6. enquanto doutrina dc libertação do indivíduo . é. em essência. Analisemos. que não vicejava. por outro lado. O marxismo. conceber um poder autoritário num Estado que não seja totalitário. mas apenas à medida que cons­ titui uma etapa necessária na marcha para o comunismo. originário da União Soviética. Apenas aparentemente o liberalismo é antípoda do socialismo. ao lado da pedra lascada e da roca dc fiar.1. inevitavelmente. contudo. anarquismo e socialismo são filiações de uma mesma concepção da sociedade. totalitário. na irônica obser­ vação dc Engels. 6. reside no fato de o poder político ser exercido independentemente de limitação constitucional e dc participação do povo na esco­ lha c nas deliberações dos governantes. liberalismo. em especial. d) concentração dos meios de propaganda no Estado. c) controle policial da manifestação política exercido pelo Estado. Por exemplo.1) Ideologia oficial No Estado totalitário há um corpo oficializado de doutrina. envolve um poder político que não c. a única diferença entre ambos reside no método adotado por um e ou­ tro na persecução da mesma finalidade : a liberação do indivíduo dos excessos do poder absolutista ou do poder econômico dc uma classe dominante. ne­ cessariamente. apre­ senta os seguintes dados identificadores: a) ideologia oficial. Pode-se. A autocracia é uma forma de governo. fenômeno da tecnologia moderna e da democracia de massas. o socialismo. que abrange to­ dos os aspectos da vida humana. Nisto reside. num Estado totalitário.1) Características do totalitarism o Quais as características do totalitarismo? Carl Joachin Friedrich afirma que o totalitarismo. com brevidade. O desenvolvimento do liberalismo acarreta. dirigido por um líder. exaltando apenas a totalidade dos indivíduos . sim.1. o Estado já estará extinto e fazendo parte do museu da História. sob o com ando de um líder O sistema de partido único. e) concentração dos meios militares. que nos períodos de ditadura conhecia um poder transitório.

com seus tentáculos). mas estimular os indivíduos a ade­ rirem à ideia nacional-socialista de união da nação alemã. Conforme doutrina Alfredo Rocco. mas é um Estado democrático no sentido “de que adere estreitamente ao povo. de que está em constante contato com ele. vive-lhe a vida. que. e sim um movimento (Bewegung) que pretende representar não uma opinião pú­ blica particular para certo grupo de interesses. Na Alemanha nacional-socialista tivemos a célebre Gestapo (Geheime Staatspolizei). pode ficar fora da órbita do Estado. pois. Mussolini. mas por­ que o movimento.1.4) C oncentração da propaganda nas mãos do Estado A propaganda reveste-se de enorme importância atualmente. polvo. Ele pretende ser o representante visível da referida unidade: o seu fim não é orde­ nar ou exercer coerção. sente-lhe as necessidades. guia-se espiritualmente. No século XV III as con­ . em plena era tec­ nológica. mas para o povo em sua totalidade. a fim de reprimir qualquer manifestação contrária ao Es­ tado. Mussolini foi. a nação deve estar articulada em torno de um partido hicrarquizado. denotando bem o múl­ tiplo alcance do órgão.220 Teoria Geral do Estado marxismo-leninismo.3) Controle policial pelo Estado Segundo a concepção totalitária do Estado. a identificar-se. por ser contrária ao Estado. em certo período de sua vida. de que penetra a massa por mil caminhos. um partido na acepção do termo. ao realizar a unidade popular. e contrária à comunidade. no Estado totalitário. Ora. pelos próprios adeptos do nazismo. encontraremas o próprio Duce. não pelo fato de que todos sejam filiados ao partido. figurativamente. in­ cessantemente. coordena-lhe a atividade” . na Itália fas­ cista tivemos a OVRA (sigla proveniente dc piovra. adepto ferrenho de Marx. 6. de uma po­ lícia de caráter político. O partido deve ser a coluna dorsal do Estado c. socialista exaltado. no cimo de sua hierar­ quia. Segundo Mussolini. Partido e povo tendem.1. será convertido em verdadeira en­ carnação c representação visível da unidade do povo. o Esta­ do fascista não é um Estado democrático no sentido clássico da palavra democracia. nenhuma atitude. a diferença entre a polícia política e a polícia administrativa e a judiciária. sendo sua finalidade prevenir (polícia ad­ ministrativa) e reprimir (polícia judiciária) as condutas antijurídicas. Salvetti Netto aponta. para impor-se à maioria. Daí é fácil depreender a necessidade. que administra e fiscaliza. obtido. 6. Quanto ao Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães (Nationalsoziãlistiche deutsebe Arbeitpartei). nenhuma socie­ dade particular. a influência do mestre socialista vai tornar-se patente no papel transcendental que o Partido Fascista terá no Estado mussoliniano. nunca foi considerado. com a abolição global do isolamento humano. com precisão. As polícias administrativa e a judiciária (polí­ cia comum) existem em todos os Estados. a vida de cada cidadão.

Quando a Alemanha titubeou na guerra psicológica que era travada pa­ ralelamente ao conflito armado. As na­ ções que não se expandem acabam por desaparecer. Cheysens e Launay demonstram que a Ale­ manha foi derrotada na Segunda Guerra Mundial por dois motivos: a) falta de uma definição precisa dos objetivos da guerra. deixando dc mobilizar as forças militares e morais do povo. . “O espírito fascista é vontade. Em 1938. b) Hitler não teria dado muita importância à guer­ ra revolucionária. o Estado fascista e o nacional-so­ cialista admitem. resultando dis­ so restrita ao máximo a liberdade individual”. jamais intelecto”. o intelecto precisa ser complementado pela fé mís­ tica. o excelente trabalho levado a efeito por Joscph Goebbels. se as forças de resistência ao nazismo não tivessem definido. Dizia a doutrina fascista que a luta é a origem de todas as coisas. Chevallaz. Lenin afirmava ser indispensável a agitação social e a propaganda política entre as camadas do povo. desde logo. A razão jamais poderá ser um instrumento adequado para a solução dos grandes problemas nacionais . para a própria sobrevivência da ideologia revolucionária.5) C oncentração dos meios militares Sendo o militarismo um dos mais expressivos meios do Estado totalitário para alcançar seus fins imediatos (segurança interna) e mediatos (expansionismo ou im­ perialismo) depreende-se a sua importância para doutrinas como o fascismo e o nazismo. A guerra exalta e enobrece o cidadão e regenera os povos ociosos e decadentes. ministro da Propaganda do Terceiro Reich. graças à força da propagan­ da. Por outro lado. a iniciativa privada. Alfred Sauvy. Num livro intitulado Os arquivos da segunda guerra mundial. ensejou a consolida­ ção do poder de Hitler e dos objetivos do Partido Nazista. 6.prosse­ guem os doutrinadores fascistas.8 Ideologias 221 cepções políticas da Revolução Francesa são divulgadas em livros. 6. os aliados não teriam podido contar com os Estados ocupados pe­ los alemães. Enquanto no socialismo soviético a propriedade dos meios de produção fica abolida. Na Alemanha. pelo autossacrifício e pelo culto do heroísmo e da força.6) D ireção estatal da econom ia Haba define o totalitarismo como “o tipo de organização jurídico-social ca­ racterizada basicamente por um Estado que tende a expandir ao máximo sua esfe­ ra de intervenção. abarcando a generalidade das relações humanas. o que fez com que vários Estados hesi­ tassem em se aliar aos alemães.1.1. panfletos e vá­ rias publicações “subversivas” . com restrições. afirmou que. seus objetivos. foi derrotada. a anexação da Áustria à Alemanha hitleriana foi o fruto de notável propaganda. Um grande sociólogo de nossa época. nenhum Estado totalitário de orientação fascista foi destruído sem intervenções externas.

. Embora embrionários pouco antes e durante a Primeira Grande Guerra. o boulangerismo prometia recuperar as possessões perdidas durante a guerra. mas criou condições propícias para tal. Não teve êxito. Entretanto. que seria a de outubro de 1917. é preciso tomarmos a expressão fascismo em sentido amplo e em sentido estrito. O último grande movimento revolucionário fora a Proclamação da Comuna de Paris. pouco antes da Primeira Grande Guerra. embora a época ainda não fosse a de uma democracia de massas. os movimentos políticos nacionalistas que se identificariam com o fascismo já estavam se firmando. em 1871. começava a encontrar um ponto de apoio em sua propaganda. 2) forte antissemitismo. todavia. 3) invocação às classes médias e ao proletariado para livrá-los do marxismo (socialismo e internacionalismo) e formar uma base popular para novos movimen­ tos.222 Teoria Geral do Estado Quanto às origens do fascismo. desde logo. Na Europa Ocidental o co­ lonialismo e sua manutenção impunham gastos aos Estados. Em sua exacerbação e em seus rompantes. seus líderes tornar-se-iam mais ativos do que nunca em sua doutrinação. a derrota do país na Guerra Franco-Prussiana (1870-1871) fez re­ crudescer o nacionalismo e. havia traços comuns a quase todos: 1) nacionalismo extremado. Apesar de tais condições. embora sem nenhuma possibilidade de alcançar o poder. A reação da clas­ se média não foi causa imediata do surgimento dos movimentos fascistas. parecia indispensável uma base popular para enfrentar o liberalismo. que denunciava os judeus como criadores dos males do marxismo e do capitalismo. pontificando neste sentimento o movimento boulangerista (denominação inspirada no general Boulanger). alguns autores denominam fascistas os movimentos reivindicatórios da classe media dc alguns países europeus. Por outro lado. o socialismo e o co­ munismo. mas garantiam mui­ tos empregos. a emancipa­ ção dc minorias raciais e religiosas (judeus. Outra tendência radical. A Europa anterior à Primeira Guerra Mundial desfrutou de um período de paz. eslavos) só fez aumentar os temores da classe média. que visava. Na França. graças a alguns escândalos financeiros internacionais que pas­ saram a ser atribuídos à “alta finança judaica”. prenunciada em 1905. com um levante popular motivado pela perda da guerra russo-japonesa. Em nenhum país da Europa Ocidental a lei e a ordem estavam seriamente ameaçadas. Havia prosperi­ dade econômica. Num sentido amplo. po­ rém. a concentração das empresas e as exigências cada vez maiores do operariado pressionavam a classe média. Como se situavam tais movimentos? Vejamos. receosa de perder sua posição social. Surge o periódico La libre parole. Embora divergindo em alguns aspectos de somenos. colo­ car este militar no poder. Durante a Guerra. pois. a Rússia já estava ameaçada por uma tremenda re­ volução. protestantes.

que já havia escrito um livro antissemita. Foi o que bastou para que toda a França se empolgasse com o caso. anti­ go símbolo de origem etrusca. Segundo Brumont. encerrado. Integravam os fascii jovens futuristas. b) a desastrosa derrota sofrida em 1890. Agravando tais tendências. valorosa. os fascii transformaram-se em grupos de squadristi. graças a um movimento levado a efeito por seus simpa­ tizantes. O caso não ficou. cuja expressão mais trágica seria mostrada na Alemanha nacional-socialista (19331945) e. Émile Zola escreveu Jíaccuse. desempregados e descontentes de todo o tipo. em 1881. Benito Mussollini (1883-1945). uma virulenta xenofobia. porém. acusado de fazer espionagem em favor da Alemanha. os únicos que obtiveram vantagens com a Revolução France­ sa foram os judeus. o coronel Henry. da ordem capitalista destruidora. grupos que pretendiam evitar que a Itália ingressasse na Primeira Guerra Mundial. foram. sob o comando de um antigo revolucionário socialista. sua inocência foi comprovada. Quanto às causas imediatas da ascensão do fascismo italiano. com o apoio dado por Mussolini à intervenção italiana em favor dos aliados. Georges Sorel. intitula­ do La France juive. idealistas. pois constituíam o símbolo do poder do ouro. Espancamen­ tos. con­ quistada e destruída pelos judeus”. aplicação de doses de óleo de rícino eram a tônica. destinados a combater o derrotismo e todos aqueles que fos­ sem considerados inimigos do povo. torturas. com destaque para o antissemitismo. a documentação que servira de base para a acusação era consi­ derada fraudulenta. em menor escala. nacionalistas extrema­ dos. A partir daí tais movimentos nacionalistas não deixariam dc adotar. A violência. Brumont afirmava que os judeus eram detesta­ dos pelos pequenos comerciantes e empresários e pelos artesãos. Os imigrantes hebreus. graças aos escritos de um sindicalista revolucionário. A organização do movimento pressupunha a formação dos “fascii” de combatimento. supostamente desonestos. fazendo a apologia de uma França “romântica. que estava na moda. as se­ guintes: a) um nacionalismo humilhado e exacerbado pelas decepções da anexação da Tunísia pela França. fascismo é o movimento político surgido na Itália.como Rothschild e outros. A origem do vocábulo fascismo reside no fasces (fascio). que clamavam pela revisão do processo. havia muitas pessoas implicadas na condena­ ção dc Dreyfus c o preconceito racial já não via freios à sua atividade. haviam se apo­ derado dos bens dos franceses e eram. especialmente a partir de 1938 ede 1943. Proprietários ru­ rais e comerciantes. diante . velada ou expressamente. cm defesa de Dreyfus. André Dreyfus foi um oficial fran­ cês. encampado pelos latinos e que representa a união. na própria Itália fascista. A partir de 1918. O oficial denunciante dc Dreyfus. a causa de todos os males da nação. eram as principais vítimas. basicamente. agora. Em sentido estrito. mais tarde. campeava. por vol­ ta de 1914. trabalhadores da classe média. O caso não teria maio­ res repercussões se ele não fosse judeu.8 Ideologias 223 fundado por Édouard Brumont. apoiando o ingresso da Itália na guerra. o caso Dreyfus. se suicidou. Dreyfus foi condenado à prisão perpétua.

proletários c antiprolctários. Seu pai. Giuseppc Prczzolini e outros. somos aristocratas c democratas. em Versalhes. A ação deve sobrepor-se à palavra. Giuseppc Botai. tão paradoxais. mas sim dc disciplina. c) posição intermediária entre o coletivismo e o individualismo: o Estado de­ ver ser a união de grupos e de corporações. no centro da Itália. revolucioná­ rios c reacionários. Mussolini di­ zia então: Nossa doutrina são os fatos. d) adoção do pensamento de Hegel. que. Embora tivesse o temperamento do pai. c) a desilusão sofrida pela partilha do botim de guerra. b) afirmação de um movimento reivindicatório contra o Tratado de Versalhes. ferreiro de profissão. formalizados. contudo. O fascismo não carece dc dogmas. Entre 1929 e 1930. alta de preços. A mãe de Benito. Hobbes e das teorias do poder absoluto. numa infeliz guerra de conquista. g) a intran­ qüilidade generalizada. em 1883. . temos a coragem dc repudiar todas as teorias políticas tradicionais. marcariam muito a formação do fu­ turo Duce da Itália. sendo seu pensamento quase todo calcado nos autores anarquistas e sindicalistas do século X IX .224 Teoria Geral do Estado dos nativos abissínios. a linha programática do movimento fascista. foi imensa a influência de Marx sobre sua formação doutrinária. e) o descrédito e o colapso do regime parlamentar. violento e irascível. contudo. ele sente a necessidade de consolidar o caleidos­ cópio de ideias que era o fascismo. Nós. todavia. Outros jurisfilósofos robusteccm. fascistas. Diga-se de passagem que. especulação e desemprego 110 pós-guerra. confiando ao filósofo Giovanni Gentile tal in­ cumbência.. f) o homem não tem mais direito do que aqueles que o Estado lhe concede. considerável foi a atenção que Mussolini dispensou a Maquiavel. Guido Bortolotto. d) inflação. destinado a restaurar o Estado contra a desin­ tegração socioeconômica do capitalismo e contra a infiltração comunista. que procurava adaptar-se a quaisquer novas circunstâncias sociais. ainda mais. adepto ferrenho de KarI Marx e agitador con­ tumaz. Era um movimento oportunista. mais remotamente. nasceu em Predappio. como Proudhon e Sorel. Hegel e Platão. As influências de ambos. f) a escalada dc grupos anarquistas e comunistas e as greves freqüentes. Quem era Benito Mussolini. como Sérgio Panunzio. e) o Estado cria o Direito e a Moral. principalmente junto à classe média. afinal? Filho de Alessandro Mussolini e de Rosa Maltoni. professora. temerosa da as­ censão bolchevista. o fascismo italiano não apresenta uma doutri­ na preestabelecida. logo apoiou o movimento fascista. era um socialista radical. Ao seu surgimento. Surgem então. Al­ fredo Rocco. era católica fervorosa e conservado­ ra. os pontos principais da ideologia fascista: a) afirmação do nacionalismo. pacifistas c antipacifistas. até se firmar definitivamente.

que acompanhariam seu pensamen­ to até a morte: nacionalismo extremado e antissemitismo. Filho de um funcionário público chamado Aleis Hitler. e um suposto plano dos judeus para domi­ nar o mundo. porque a primeira expressão designa também aqueles que produzem pelo intelecto). como vender cartões-postais de sua autoria. ficou órfão de pai aos 16 anos. Ninguém po­ deria exercer nenhuma atividade sem autorização da corporação correspondente.8 Ideologias 225 g) amparado em Hegel. subordinadas. foi influenciado por duas tendências. Em 1919 entrou em contato com um pequeno partido formado por operá­ rios. Quan­ do jovem.1889. o Partido Nacional-Socialista recolheu grande número de adeptos. logo depois. em Braunau.04. Com Hitler. e. i) subordinação das corporações ao Partido Nacional Fascista. norte da Áustria. como já foi visto. I) manutenção da iniciativa privada e da livre-concorrência. aproveitando-se da crise econô­ mica mundial. nada fora do Estado. Quanto ao nacional-socialismo. em 1921 Adolf Hitler foi nomeado seu presidente. Daí. m)o trabalho como dever social. . Adolf Schickelgruber Hitler nasceu em 20. Adolf Hitler passa a viver de pequenos expedientes. o partido tomou maior alento. de sua mãe. ao interesse do Estado. os indiví­ duos e os grupos são relativos. escreveu sua autobiogra­ fia intitulada Minha luta9na qual afirma a superioridade racial do ramo germânico da “raça ariana” sobre as demais raças. sendo substituída a antiga denominação por uma nova: Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães (NSDP). o Partido dos Trabalhadores Alemães. Agru­ pamento em corporações dos membros de cada ramo da produção (Mussolini usa a expressão produtores. Em 1923. n) abolição do direito de greve. sendo ferido e recebendo a Cruz de Ferro. h) sindicalismo e condenação do liberalismo e do socialismo marxista. mas aca­ bou sendo preso e condenado a cinco anos de cadeia. sem que mencionemos a tremenda figura de seu criador. Ao estourar a Primeira Guerra Mundial. a fórmula: Tudo dentro do Estado. expressão mais conhecida por sua forma abre­ viada nazismo. contrariando seu pai. j) resolução dos conflitos entre o capital e o trabalho por intermédio de con­ tratos coletivos e de uma organização corporativa das categorias profissionais. alistou-se como voluntário. o fascismo afirma que o Estado é absoluto. Adolf Hitler (1889-1945). Profundo admirador das artes plásticas. Hitler tentou o poder. Reprovado no vestibular e profundamente desgostoso. que o queria ver funcio­ nário público. não pode ser tratado. doutrinariamente. Tais corporações não distinguem entre patrões e operários. plano este resumido num livreto de origem duvidosa intitulado Os protocolos dos sábios de Sião. pretendia seguir a carreira de pintor. A partir de 1929. de orientação direitista. po­ rém. nada contra o Estado. em vez de operários. Nesta.

Hitler foi nomeado chanceler em 30. Volksgemeinscbaft. Enquanto a doutrina italiana do fascismo sofreu profun­ da influência dos juristas alemães. e ao povo “atomístico” da democracia burguesa do século X IX . vivo e real. reduzido. 6. existe uma situação jurídica de membro da comunidade. A doutrina nacionalsocialista repudia frontalmente as ficções da democracia liberal e pretende expor tão somente realidades. como Gerber. ao direito positivo.226 Teoria Geral do Estado pessoas desgostosas com a situação política e econômica intolerável e pequenos empresários temerosos da atividade desenvolvida pelos comunistas. O Estado encontra-se a serviço da comunidade. Enfim. 6. porém. que vem a ser um todo orgânico. da concepção liberal e indivi­ dualista. política. única realidade social. um condutor (Führer). O Estado nacional-socialista não é individualista porque o fim essencial do Estado não é o indivíduo. o nacional-socialismo afirma que a origem de todo o Direito e poder resi­ de na própria comunidade (Volksgemeinscbaft). moral e. . mas era guiado. O governo passava a ser considerado como uma emanação direta da própria comu­ nidade (Fiihrung). devendo satis­ fazer. bem como à ideia de que o Estado consti­ tui uma pessoa jurídica e. A origem de todo Direito acha-se no Volksgeist (espírito do povo). como vimos. por isso. histórica.1933.04.1945. não tem relações com a comunidade. conduzido por um guia. Laband.1. Após várias campanhas políticas de maior êxito.1. quando os russos tomaram Berlim. Jellinek. prin­ cipalmente. em vez dos chamados direitos pú­ blicos subjetivos. o Estado nacional-socialista não é liberal porque não reconhece ao indivíduo uma esfera de liberdade que deva ser respeitada absolutamente. a concepção do chamado Estado dc Direito na doutrina nacional-socialista difere. antes de mais nada. a própria comunidade. suicidan­ do-se nos porões da chancelaria. aparelho a serviço da nação. O povo não se autogovernava. atuando por meio de órgãos. que de­ fendiam o positivismo jurídico (o Direito seria criado pela vontade do Estado). seria titular da soberania. Gierke. portanto. como tal. No Estado nacional-socialista o indivíduo.8) 0 Estado na cion al-socialista e os direitos subjetivos Para o nacional-socialismo o Estado é meio e não fim.01. Ficou no poder ate o dia 30.7) A doutrina nacional-socialista O nacional-socialismo deu origem a uma doutrina completamente nova so­ bre o Estado e o Direito. Por outro lado. Por outro lado. pois seria impossível. em linhas gerais. ao proletariado e sua ditadura na Rússia. chamada. racial. a Volksgemeinscbaft corresponderia. os interesses desta. Constitui tão somente meio para o aprimoramento e a expansão da comunidade (Volksgemeinscbaft). profundamente.

o poder do líder é autoritário. 6. . o Estado nacional-socialista seria um Estado de Direito. Qualquer oposição. é autônomo porque o Führer não se submete a nenhuma autorida­ de. como vontade da pessoa-Estado. não será admitida. em excelente exposição sobre as instituições nacionais-socialistas. Finalmente. Por isso. sem cessar. o nacionalsocialismo afirma que o Direito se sobrepõe à lei. Se o exercício do poder se limita a uma condução. sendo originário. Na Führung encontramos o eco de várias passa­ gens de Hegel. e se a comunidade segue espontaneamente seu chefe. Em que consiste a Führung? Cons­ titui um princípio de liderança. em desconformidade com o ordenamento vital do povo. formando seu séquito ( Gefolgschaft). em razão de mudança das cir­ cunstâncias. protegidos os direitos in­ dividuais. afir­ mando-se que a matéria jurídica nâo seria obra própria c exclusiva do legislador. então. poder e decisões devem predominar em qualquer caso. assim. pela fé e a con­ fiança do povo alemão em m im ”. abstratas. chefe. Na doutrina nacional-socialista a juridicidade substitui a mera legalidade.9) 0 princípio da liderança (Führung) no Estado nacional-socialista O principal e mais interessante instituto do direito público nacional-socialis­ ta é a Führung. um Führerstaat. dirigida por um Führer. reforçada. o poder de Führung é necessariamente pessoal. nem mesmo à autoridade da lei.8 Ideologias 227 Enquanto o liberalismo identifica o Direito e a lei (positivismo). se no Estado liberal-democrático a lei domina todo o sistema político. Por outro lado. de fato ou de direito. é porque há fidelidade c confiança mútuas. esta é apenas uma parte do D i­ reito. pois referidas leis podem estar. as de­ cisões do líder não podem sofrer oposição. O Estado nacional-socialista é. seja pelas vias de direito ou pelos recur­ sos jurisdicionais. Isto deve ocorrer até mesmo nas decisões tomadas contrariamente às leis promulgadas pelo próprio Führer. expres­ sa cm forma dc regras genéricas. contendo-se apenas na lei o direito seria estabelecido independentemente do legis­ lador e da lei. de condução da comunidade (Volksgemeinschaft). e como é o Führer quem possui em mais alto grau consciência do referido ordena­ mento. em sua doutrina de uma razão universal dirigindo o Estado. Daí a expressão Führer. Como a Führung deve estar em consonância com o ordenamento vital do povo. sendo. Sofismando.1. Com efeito. poder-se-ia dizer que o Estado liberal seria um Estado legal. E originário porque não foi conferido pelo povo ou qualquer autoridade e porque quem o exerce o faz pelo simples fato de ser Führer. autônomo e autoritário. Esta é guiada. no Führerstaat a autoridade da vontade pessoal do Führer supera a lei. sua vontade. Como acentua Roger Bonnard. declarava Hitler:4 4 Eu não teria existido não fosse minha fé poderosa no povo alemão. O povo confia em seu líder porque este apresenta as qualidades necessárias para o seu cargo. mero corolário da sua autonomia. contra as decisões do líder.

ed. reformando-a. surgiu uma nova doutrina. que não oponha o Estado ao indivíduo ou vice-versa. Tal liberdade dc ação. que. mas condena. suplantadas pelos partidos políticos. não percebida no organismo físico. A doutrina do humanismo social busca integrar o homem ao Estado. como se ambos ti­ vessem a mesma natureza. tais grupos constituem meras associa­ ções voluntárias. Por outro lado. Saraiva. expressa apenas tendências. até mesmo na sua grafia. procu­ ra o meio-termo entre o mecanicismo e o organicismo. age livremente. o município. que brotam espontaneamente. Ora. A nature­ za das leis éticas. Esses grupos são como flores de variadíssima natureza. ine­ xoráveis e imutáveis.. Tal concepção. Curso de doctrina social católica.228 Teoria Geral do Estado 7) H U M A N ISM O SOCIAL Bibliografia: A. postulando um organicismo moderado. devem ser órgãos legítimos de intermediação entre o in­ divíduo e o Estado. entre o indivíduo e o poder político. o sindicato. bem assegura e salienta a impropriedade do organicismo radical. devem fruir da autonomia e da assistência do Estado. possibi­ lidades. o indivíduo jamais alcançará a ple­ nitude do seu desenvolvimento. no seio da sociedade. pode o indivíduo voltar-se contra as estruturas sociais. Madrid. 1982. portanto. enfim. existem grupos natu­ rais. conforme adverte Pedro Salvetti Netto. Na verdade. para o liberalismo. se bem que não soberanos. a parte contra o todo. cuja atuação. a suas aspirações. condena frontalmente o me­ canicismo. tem sido inexpressiva. também. 1967. sem a participação do Estado. ordenatórias da vida social. muito mais do que o próprio Estado. é preciso salien­ tar as diferenças entre o corpo social e o organismo biológico: neste constata-se unidade física ou substancial. não certezas. partin­ do da afirmação de que. escolhendo. sensatamente. fenômeno este . sirva de instrumento de realização pessoal e social. pelo menos no Brasil. mas que integre o indivíduo ao Estado. Católica. o organicismo radical. adaptando-a. como a família. Em meio ao cipoal dc ideologias políticas radicais c dc práticas políticas de­ finitivamente ultrapassadas. Tais grupos surgem natural­ mente. movido por seu arbítrio. os quais. Como faz ver José Pedro Galvão de Souza. Esta doutrina chama-se huma­ nismo social. naquele. o indivíduo. São Paulo. optando. tais grupos devem ser su­ focados pela prevalência absoluta deste Moloch chamado Estado. revelam uma tendência natural do ser humano dc sc realizar c de se proteger e. pois que este confunde o organismo social e o organismo biológico. fazendo com que este. La Editorial Pedro. pois. berna . unidade moral ou de ordem. em harmoniosa composição. alterando-a. en­ quanto os órgãos que compõem o corpo humano obedecem a leis biológicas. a sociabilidade ina­ ta do homem. 5. Curso de teoria do Estado. ct al. salvetti n e t t o . pois que revelam. Para o organicismo radical.

ambos estagnados num estágio feudal de desenvolvimento. graças à livre-concorrência absoluta. o próprio Lenin e. como alternativa entre o socialismo revolucionário e internacionalista e os princípios da liberal-democracia. o liberalismo agravou a desigualdade econômica. Todavia. Ao preconizar a máxima liberdade políti­ ca. Martin. Finlândia. mais precisamente durante a Segunda Internacional Socialista (1889). deve ser eminentemente corporativa. pois os grupos sociais autênticos devem ser dotados da mais ampla liberdade possível. Embora a ex­ pressão revisionismoy com sentido pejorativo. a socialdemocracia surgiu na segunda metade do século X IX . A conformação da sociedade. Noruega. mediante a abolição dos privilégios da burguesia. J. pareça ter sido criada pelos próprios marxistas ortodoxos. 1980. o Partido Social-Democrático Ope­ rário. Depalma. Considerada a vertente socialista dos Estados altamente industrializados do norte europeu. Introducción al derecbo constitucional com­ paradoi. e a adjetivação revisionista com que a orto­ doxia passou a acicatar os seguidores da chamada terceira via. Não o corporativismo fascista. Alemanha e Dinamarca. inicialmente na Alemanha.visou corri­ gir tal desvio. M c C le lla n d . São Paulo. G lo­ . estruturado pela facção ma­ joritária daquele partido. Introducción a la teoria dei Estado. como Karl Kautsky (1854-1939). Reagindo a isso. M ao Tsé-Tung deveriam ser considerados revisionistas por excelência. London-NewYork. Enciclopédia de la política. Routledge. 1995. já que ambos ousaram adaptar a ortodoxia da concepção marxista da revolução aos seus próprios países. k rie le . Desta síntese exsurge o caráter mais reformista que revolucionário da nova ideologia. fundado em 1898. Bulgária e Escandinávia. 1996. O colapso do neoliberalismo. Fondo de Cultura Econômica. bal. para o humanismo social. Desfrutando de cres­ cente prestígio. como uma ideologia revisio­ nista do marxismo elaborada por Edward Bernstein (1850-1932). b is c a re tti di r u f f ía . como Suécia. verdadeiro simulacro do autêntico corporativismo. sob o comando de Lenin. Paolo. A social-democracia se mostra um efeito recente da antinomia liberdade/igual­ dade deflagrada na Revolução Francesa. 1997.cm todas as suas vertentes . souza . 1996.8 Ideologias 229 já previsto por Thomas Hobbes em sua obra clássica Leviatà. México. o socialismo . daria origem ao bolchevismo. Daí o surgimento da social-democracia. ja­ mais simples veículos da vontade dos governantes. . Buenos Aires. A history of Western political thought. isso só se­ ria possível graças ao sacrifício da liberdade econômica plena. mais tar­ de. 8) SOCIAL-DEMOCRACIA Bibliografia: a r a ú j o de Nilson. Na Rússia. b o r ja Rodrigo. Fondo dc Cultura Econômica. México. a social-democracia logo conquistou Hungria. S.

Os Estados menos desenvolvidos pouco têm a defender e muito a conquistar. obtendo-as. individualis­ mo c liberdade econômica. Na verdade. retrógrada.a expressão é do pró­ prio Adam Smith . limitando-se o Estado a zelar pela preservação de ordem tipicamente burguesa. devendo o Estado abster-se dc interferir na atividade eco­ nômica. prosperida­ de econômica e assistência social. 9) NEOLIBERALISMO O liberalismo clássico surgiu com a desagregação do feudalismo e o conse­ qüente aparecimento do capitalismo. a social-democracia ainda não se adaptou inteiramente ao Terceiro Mundo. uma ideologia conservadora. sempre. onde as únicas soluções viáveis para o subdesenvolvimento. proporcionando ao indivíduo a máxima autonomia de vontade. na qual tem vez tanto os mecanismos de mercado quanto a planificação econômica estatal. mesmo que por vias alternativas.que tem muito do socialismo fabiano ou contemporizador . ipso facto. nos Estados mais adiantados. bem assim a propriedade pri­ vada restringida pelo interesse social. conseguindo. A omissão do Estado quanto à disciplina da atividade econômica ensejaria a concen­ . Em suma. flatus voeis de uma ordem econômica irrealizável.utiliza unicamente meios pacíficos na composição dos conflitos de classe. res­ tando para as classes menos favorecidas apenas uma liberdade e um bem-estar eco­ nômico meramente formais. enca­ minhando-os para um sistema econômico perfeito. altera. nos Estados menos desenvolvidos passou a ser considerada. então. o Gover­ no intervém para restabelecer o equilíbrio ameaçado. enlaçar sem traumas liberdade política. conforme necessá­ rio. a social-democracia defende a economia de mercado com a participação de todos.230 Teoria Geral do Estado Hoje. mas não admite que indivíduos ou gru­ pos pretendam monopolizar a atividade econômica. métodos e objetivos. A mão invisível da Natureza . mera somatória de interesses privados. sem perceber que a classe trabalhadora dos Estados nórdicos que a adotaram não carece de medidas revolucionárias violentas para suas conquistas. Afirmando dois valores básicos. criar a infraestrutura de uma nova social-democracia.se encarregaria de ordenar as relações entre os homens. A realiza­ ção do bem individual de cada cidadão representaria o próprio bem comum. a social-dcmocracia defende uma ordem econômica eclética. a orientação dc Adam Smith de que o homem age. Relativamente bem-sucedida nos Estados mais evoluídos política e econo­ micamente. Enquanto a so­ cial-democracia europeia . o liberalismo nascente elegeu. pela via refor­ mista. como verdade absoluta. parecem ser medidas radicais e violentas. Doutrina flexível. pois a liberdade burguesa só existe para a própria burguesia. a situação do Terceiro M undo perante a social-democracia é bem diferente: buscam-se mudanças políticas e sociais extremadas para. exclusivamente. e as crises pe­ riódicas que o afligem. na defesa de seus próprios interesses. quando isso ocorre. É sabido que não foi bem isso o que ocorreu. vale reconhecer.

descontentes dc toda espé­ cie. passando a economia. surgindo. O próprio poder de Esta­ dos subdesenvolvidos ou em desenvolvimento acha-se condicionado à planificação e operação das grandes empresas nacionais ou transnacionais. Rodrigo Borja que o neoliberalismo se funda em enorme falácia. foi uma tentativa desesperada de reavivar a atividade econômica estagnada pelo ma­ rasmo burocrático. cujos efeitos já se fazem sentir. enfim. é na verdade planificada. Ao observador atento e sereno. Observa. abrindo as fronteiras dos Estados menos desenvolvidos para uma indiscriminada exploração econômica estrangeira. de opinião. no mundo con­ temporâneo. qual seja. ter empresas. mas pela iniciativa privada. para a iniciativa privada. manipulam a economia na direção de seus próprios interesses. mas sim um mercado dirigido por corporações transnacionais. Disso resulta que a atividade econômica. que adotam notória estratégia de dominação dos mercados. involuindo para os bons tempos do laissez-faire. Huntington. 683). . p. se no Ocidente o neoliberalismo foi uma resposta. sob o pretexto de modernizar o Esta­ do e reduzir seu tamanho. não é menos verdade que este foi substituído por uma de­ sordenada privatização de bens públicos. assim. que simbolizou a própria queda de um socialismo viciado e o término da chamada Guerra Fria. passagem ao seu rival histórico. o neoliberalismo. pretensamente uma nova doutrina. após décadas de experimentação socialista. Surgiu. de imprensa ou qualquer das liberdades fundamentais do ser humano à liberdade de investir na economia. ao descontentamento com o liberalismo. Vale-se do prestígio da palavra liberdade para sustentar. uma preocupante maioria de despossuídos. Em outras palavras. liberando a propriedade privada de encargos sociais e colocando a di­ reção da economia nas mãos dc particulares. na União Soviética e nos Estados socialistas do Leste Europeu. dirigida e ad­ ministrada não pelo Estado. Com a derrubada do muro de Berlim. Articuladas entre si. em con­ trapartida. se o de­ sabamento dos regimes marxistas revelou a ineficácia de um sistema estratificador dos meios de produção. Ora. não uma teórica liberdade de mercado. seja no plano interno ou no internacional. equiparar a liberdade de vida. o capitalismo. Pois bem. que a liberdade de trabalhar. aparentemente livre. em potencial ameaça às instituições burguesas. o regime so­ cialista cederia. com inteira procedência. já em fins dos anos 1980 e no início da década dos 1990. embora pífia. Nisso há uma total falta de perspectiva. Referido autor não leva em conta que a liberdade entre desiguais conduz à injustiça. enriquecer. O que ele c outros neoliberais defendem é uma liberdade que termina por autodestruir-se (Enciclopédia de la política. na realidade voltada para a ressurreição das leis de mercado. como o faz Samuel P. investir e ter propriedades sem a intervenção do Estado pertence ao mesmo gênero das grandes liberdades do homem. o neoli­ beralismo. resta evidente que prevalece. então diretor do Instituto de Estudos Estratégicos da Universidade de Harvard.8 Ideologias 231 tração dos meios de produção nas mãos de alguns privilegiados.

para estabelecer uma coesão maior entre as gran­ des corporações transnacionais. Desse fato. cabe razão a Nilson Araújo dc Souza quando afirma: o chamado neoliberalismo não é uma teoria científica. da Europa e do Japão. (O colapso do neoliberalismo. como tantos outros semelhantes. e o elemento central da ideologia da oligarquia financeira que domina o mundo.10. p. Não chega também a ser uma doutrina. na cidade de Tóquio. 9) . formada por empresários. Nem muito menos uma cor­ rente de pensamento científico. reuniu-se uma Comissão denominada Trilateral.232 Teoria Geral do Estado Em 23. na atual etapa do capitalismo.1973.mais propriamente. É uma ideolo­ gia . políticos e economistas influentes dos Estados Unidos. a fim de fortalecer o sistema capitalista e resistir à pressão dos Estados socialistas da Europa e do Terceiro M undo.

e fundando um Estado universal. s h ip l e y . W. Larousse. foi um dos primeiros a levar a civilização helênica aos povos deno­ minados “ bárbaros”. Curso de direito internacional b r ie n d público.0 ESTADO ENTRE ESTADOS: AS ORGANIZAÇÕES INTERESTATAIS Bibliografia: a c c i o l y . não foi estranha a grandes vultos da História. t e i x e i r a Jair. Dictionnaire des civilisations de VOrient ancien. salvetti n e t t o .. 2006. O segredo dos hititas. 2008. Rio de Janeiro/São Paulo. chet. C. 2002. Alexandre III. mas. Catheri- ne. Impetus. Larissa. São Pau­ lo. 2008. Direito internacional convencionai Ijuí. Graham e outros. universalizar a civilização grega. casou-se com uma das filhas do rei Dario III. Tribuna da Justiça. Unijuí. O historiador Plutarco afirma que os povos da época em que Alexandre expandia seu império aceitavam dc bom grado fazer 233 . designativo daqueles que não falavam a língua grega. Al b u q u e r q u e m e l l o . 1) NATUREZA DAS ORGANIZAÇÕES INTERESTATAIS A ideia da universalização de uma dada cultura superior.d. 1977. 1957. Jacques e ou­ - tros. The Cambridge Dictionary of Classical Civilization. Civilisations antiques. buscando. m in a ceram . que venha a benefi­ ciar toda a humanidade. 1986. Itatiaia. v. 1994. s. levando-a da Europa até os confins da Ásia Me­ nor. bridge. Camd o s r e is . Renovar. Resumo de direito internacional e comunitário.l e s . Navarra. Hildebrando. v. Niterói. simplesmente. Pedro. Paris. Larousse. São Paulo. de. Belo Horizonte. Curso de ciência política (teoria do Estado). Editorial Verbo . s a i . Divino. Manual de direito internacional público.. 14. Celso D. 1. ed. com isso. Saraiva. e fez com que muitos de seus generais se casassem com mulheres persas. Tanto que o próprio Alexan­ dre. 2008. ed. . I. Tratados y juramentos en el antiguo Oriente Proximo. Cambridge University Press. o Grande. 2. voz que não tinha conteúdo pejorativo. Paris. ra ra Guy. após derrotar os persas.

expansionistas. impor suas tradições. pela perspicácia do vencedor em não pretender. seus costumes. instintivamente. órgãos decisórios que fazem às vezes de árbitros nas querelas de Estados em conflito. mas dc inúmeros vultos que foram se sucedendo e ampliando as fronteiras do império. A obra de integração engendrada pelo gênio de Roma. única forma de alcançar plenamente seus objetivos. antes respeitando-lhes as instituições culturais. independentemente dos grandes vultos da História.C. visando aumentar seus territórios. o relacionamen­ to social e econômico com seus semelhantes. diante das vantagens oferecidas pela civilização grega. mesmo. remanesceram na Baixa Idade Média. cm toda a história. Daí. a necessidade de instituir. cuja natureza é a de associações de Estados criadas mediante tratados e dotadas de personalidade . Esses órgãos são entidades interestatais. o fato é que. inseguros. a 180 d. sob a égide de uma lei universal. o Estado. como sc afirmou.234 Teoria Geral do Estado parte desse. pela mística de segurança que aqueles invencíveis exércitos podiam levar a grupos beligerantes. ensejando conflitos que cumpre ao Poder Judiciário compor. permaneceu ainda mesmo depois que as hostes germânicas derrotaram as legiões de Roma. de forma semelhante aos tribunais no âmbito interno desses. O mito dessa segurança. por conseqüência. este obra não de um homem apenas. sob a inspiração legendária do Im ­ pério c a influência. Após a tentativa de Alexandre. tenha a formação dc um império per­ durado por tantos séculos a impor sua autoridade.). Pedro Salvetti Netto sintetiza. dessa paz. sua religião aos povos vencidos. Pois bem. da própria Organização das Nações Unidas. de outro. da Igreja Cristã. o chamado Sacro Império Ro­ mano Germânico. em razão da contínua sucessão das lutas entre eles. compreende-se: de um lado. impondo a notória Pax roma­ na (30 a. De fato. sobre povos dc culturas tão diferenciadas. na esfera interestatal. Napoleão Bo­ napartc inspirou-se consideravelmente nas realizações de Alexandre. esse período da bela História Romana: É realmente singular. que é pessoa jurídica de direito internacional público. Sob a tutela do Império. por isso mesmo in­ satisfeitos e. já então notável. po­ rém. e muitos au­ tores veem nele um precursor da Liga das Nações e. que. pre­ cisa interagir com outros Estados para realizar seu objetivo maior que é o bem co­ mum.C. da mesma forma que a pessoa natural busca. anteviam o futuro e conduziam os povos no rumo do congraçamento político destes. ao formar-se. Roma prometeu a paz ao mundo com todas as suas con­ seqüências benéficas de prosperidade. de forma absoluta. também cada Estado pode acabar se envolvendo contra seus pa­ res em conflitos velados ou guerras declaradas para alcançar objetivos puramente econômicos 011. mais que isso. muito aci­ ma da visão estreita dos medíocres. merece especial referência o expansionismo romano. com maestria. E da mesma forma que a pessoa natural nem sempre mantém um relaciona­ mento amistoso com outras pessoas.

e que aca­ bou fracassando principalmente por não contar. política dos Es­ tados europeus é anseio que se desenvolveu na própria Antiguidade Clássica. É a sucessora da Liga das Nações. É o caso da Organização das Nações Unidas (ONU). dos quais cinco são permanentes (Estados Uni­ dos. Tribunal Internacional de Justiça e Secretariado. como o Fundo Monetário Interna­ cional (FMI). e) obrigação de colaborar com as medidas tomadas pela organização em conformidade com a Carta.9 0 Estado entre Estados: as organizações interestatais 235 e ordem jurídica próprias. ex­ ceto o Tribunal Internacional de Justiça. distintas das de seus filiados e com objetivos específicos. Outras também visam objetivos também amplos. d) absten­ ção do emprego de ameaça ou força material contra outros Estados.UE A ideia de uma unificação econômica e. A ON U conta com 192 Estados filiados. entre seus filiados. São princípios instituídos pela ONU: a) princípio da igualdade soberana dc todos os seus membros. f) pressionar Estados não filiados a não tomar medidas prejudiciais à paz e à segurança internacionais. como sc depreende dos versos de Quinto Horácio Flaco: . em alguns aspectos. com os Estados Unidos da América do Norte e a União Soviética. 2) A ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS . As deliberações do Conselho de Segurança obrigam os filiados à organização. na medida do pos­ sível. objetivando a solução pacífica dos questiona­ mentos mútuos que possam surgir entre seus filiados. Conselho Econômico e Social. cuja vinculação decorre de um tra­ tado (Carta da ONU) que discorre sobre os direitos e as obrigações daqueles. todos situados na própria sede da ONU (Nova York). Além dessas espé­ cies. Rússia. b) obrigação dc seus filiados dc cumprir os compromissos da Carta. Conselho de Tutela. Conselho de Se­ gurança. c) composição dc litígios internacionais por meios pacíficos.ONU A Organização das Nações Unidas (ONU) é uma instituição de caráter uni­ versal. o maior número de Estados. na Conferência de Versalhes dc 1919. e não prestar auxílio a Estado contra o qual a organização estiver impondo sanções. 3) DIREITO COMUNITÁRIO: ANTECEDENTES DA UNIÃO EUROPEIA . eleitos pela Assembleia Geral por dois anos. O Conselho de Seguran­ ça é formado por quinze membros. e os demais não permanentes. quando visam congregar. A or­ ganização compreende seis órgãos principais: Assembleia Geral. a Organização Internacional do Trabalho (OIT) e o Banco Inter­ nacional de Reconstrução e Desenvolvimento (Bird). embora regionais. sediado em Haia. criada logo após a Primeira Guerra Mundial. Tais organizações têm fins universais. como a Organização dos Estados Americanos (OEA). existem as organizações de fim específico. França e China). Grã-Bretanha. pois visa congregar todos os Estados do mundo e compor seus conflitos mú­ tuos na qualidade de guardiã da paz.

fez uma exortação à França e à Alemanha que se reconciliassem. II. Com o tempo. esses dois Estados.236 Teoria Geral do Estado Europa entregou ao Touro sedutor o seu flanco de neve [. Sua Majestade a Rainha da Dinamarca. Napoleão c Hitler tentaram a unificação pela força intimidatória das armas.1992 foi assinado o Tratado de Maastricht. a célebre expressão Cortina dc Ferro: “Uma cortina de ferro acaba de tombar sobre a Europa! ” Na oportunidade. 3° e 3°-A. criando. o Presidente da República Helênica. quase contemporaneamente.. sobre o qual empregou. 27) Séculos mais tarde. na oca­ sião e pela primeira vez. Em 25. Em 07. de comum acordo. em toda a Comunidade. (Carmine. mulher do invencível Júpiter! Deixa de soluçar e aprende a fruir uma grande fortuna: uma parte do globo receberá teu nome.. a coesão econômica e social e a solidariedade entre os Estados-membros.Tu és. sem o saber. Dante Alighieri retomou o assunto e. Em 1922. promover. em 1304 o jurista Pierre Dubois concebeu um projeto de Estados Uni­ dos da Europa. uma confederação apta a unir seus destinos. cuja exposição de motivos é sumamente elucidativa: Sua Majestade o Rei dos Belgas.02. porém fracassaram. o aumento do nível e da qualidade dc vida. em face do autoisolamento do Leste Europeu. va­ lendo lembrar que em 1867 Victor Hugo profetizara: “ No século X X haverá uma Nação extraordinária [. mas não se chamará França. publicando. na qual expunha suas ideias.] Empalideceu com a sua própria coragem chorando o ato vergonhoso [... Kalergi passou a ser considerado um verdadeiro apóstolo da unificação. o Presidente da República Francesa. 2o: A Comunidade tem como missão a criação de um mercado comum e de uma União Econômica e Monetária e da aplicação das políticas ou ações comuns a que se referem os arts. um discurso consa­ grado à unificação europeia. Churchill pronunciou.. um crescimento sustentável c não inflacionista que respeite o ambiente. um jovem aristocrata húngaro.1957 foi firmado o Tratado dc Roma. Em 1946. uma obra de grande repercussão. determinado seu art. o Pre­ sidente da República Federal da Alemanha. na Universidade de Zurique. e sim Europa”. que instituiu a União Europeia. o Conde Coudenhove-Kalergi. ressaltando a necessidade da organização do Ociden­ te. o desenvolvimento har­ monioso e equilibrado das atividades econômicas. o Presidente da Ir­ . intitulada Pan-Europa. restando evidente que apenas pela força do Direito a união seria possível.03.. Sua Majestade o Rei de Espanha. que instituiu a Comunidade Europeia. um alto grau de convergência dos comportamen­ tos das economias. no que foi seguido por Jean-Jacques Rousseau e Saint-Simon. no ano seguinte.] esta nação terá por capital Paris.] Mas Venus lhe disse: . um elevado nível dc emprego e dc proteção social. dirigiu à imprensa europeia uma mensagem reafirmando a necessidade de uma União Pan-Europeia.

Determinados a promover o progresso econômico e social dos seus povos. Confirmando o seu apego aos princípios da liberdade. no momento próprio.9 0 Estado entre Estados: as organizações interestatais 237 landa.. num quadro institucional único. Resolvidos a conseguir o reforço e a convergência das suas economias e a instituir uma União Econômica e Monetária. de atos normativos diversos (decisões ge­ rais ou regulamentos. Com a criação das três Comunidades Européias (Comunidade Europeia do Carvão e do Aço. Estas últimas nor­ mas. a fim de lhes permitir me­ lhor desempenhar. Assinala João Mota de Cam­ pos que uma parte dessas normas consta dos próprios Tratados. Resolvidos a continuar o processo dc criação dc uma união cada vez mais estreita entre os povos da Europa. do respeito pelos direitos do Homem e liberdades fun­ damentais e do Estado de Direito. a segurança e o progresso na Europa e no mundo. os Tratados de Paris e de Roma instituíram uma ordem jurídica própria. as tarefas que lhes estão confiadas. fortalecendo. a pra­ zo. assim. de uma política de defesa comum que poderá conduzir. e que por isso deles derivam. respeitando a sua História. Sua Majestade a Rainha do Reino Unido da Grã-Bretanha e da Irlanda do Norte. a identidade europeia e a sua independência. constituem o direito comunitário derivado (Direito . Rea­ firmando o seu objetivo de facilitar a livre circulação de pessoas. outras resultam da adoção. Resolvidos a assinalar uma nova fase no processo de integração europeia ini­ ciado com a instituição das Comunidades Européias. em que as de­ cisões sejam tomadas no nível mais próximo possível dos cidadãos. de acordo com o princípio da subsidiariedade. em ordem a promover a paz. uma moeda única e estável. Na perspectiva das etapas ulteriores a transpor para fa­ zer progredir a integração europeia. sem deixar de garan­ tir a segurança dos seus povos mediante a inclusão. Resolvidos a instituir uma cidadania comum aos nacionais dos seus países. à qual sc submetem os Estados signatários. Sua Majestade a Rainha dos Países Baixos. recomendações ou diretivas c decisões). Comunidade Econômica Europeia e Comunidade Europeia da Energia Atômica). Desejando reforçar o caráter democrático e a eficácia do funcionamento das instituições. resultado de uma produção legislativa realizada na conformidade dos Trata­ dos. Recordando a importância his­ tórica do fim da divisão do Continente Europeu c a necessidade da criação dc bases sólidas para a construção da futura Europa. cultura e tradições. pela autoridade comunitária (duo Comissão-Conselho). constituindo o cha­ mado direito comunitário originário. e a aplicar políticas que garantam que os progres­ sos na integração econômica sejam acompanhados dc progressos paralelos noutras áreas. o Presidente da República Portu­ guesa. o Presidente da Republica Italiana. Re­ solvidos a executar uma política externa e dc segurança que inclua a definição. de disposi­ ções relativas à justiça e aos assuntos internos. Desejando aprofundar a solidariedade entre os seus povos. incluindo.. Sua Alteza Real o Grão-Duque do Luxem­ burgo. da democracia. Decidiram instituir uma União Europeia. no contexto da realização do mercado interno e do reforço da coesão e da proteção do ambiente. no presente Tratado. nos termos das disposições do presente Tra­ tado. a uma defesa comum.

Fundação Calouste Gulbenkian. cujo resul­ tado ainda hoje não ficou claro. Em 17. sem dúvida.C. Lisboa. mediante a supressão de direitos alfandegá­ rios. na antiga Mesopotâmia (atual Iraque).1994. de 1980. 19 e segs. b) a livre circulação de bens e serviços entre os Estados-membros. monetário. 1. Esta­ mos nos referindo ao célebre tratado de paz entre Ramsés II. muito maior. povo indo-europeu de grande poderio militar. que assinalava os confins do império dos hititas. aceitou o desafio e a guerra foi inevitável. com vistas à inte­ gração do chamado Cone Sul. dc serviços. indevidamente. p. Argentina.1991. eclodindo na localidade de Kadesh... dois príncipes das cidades sumérias de Lagash e Uruk. depois. p.C. editando nada me­ nos que 46 exemplares do texto.238 Teoria Geral do Estado comunitário. celebrou com Akkadc ou Agadé. que estruturou ór­ gãos e objetivos do Mercosul. Seriam estes os primeiros tratados internacionais registrados pela História. passou a se proclamar vencedor. outro tratado de paz. 4) 0 MERCADO COM UM DO S U L-M E R C O S U L Instituído pelo Tratado de Assunção. outro tratado seria. propiciando condições de concorrência entre os Estados-membros. no tocante ao comércio exterior. que emprestaria seu nome à celebre batalha. Ramsés II. Paraguai e Uruguai. o Mercado Comum do Sul (Mercosul) congrega Brasil.C.. c) a criação de uma tarifa externa e dc uma política comercial comuns. O rei hitita. fiscal. e v. d) a coordenação de políticas macroeconômicas e setoriais entre os Estados-membros. 13 e scgs. país situado no sudoeste do atual Irã. Muwatalis. industrial. após dramática batalha. soberano hitita. celebraram um tratado de paz e fraternidade. em 1296 a. embora seja admiti­ . 5) OS TRATADOS INTERNACIONAIS (NATUREZA E EFICÁCIA) Por volta do remoto período entre 2404 e 2375 a. de transportes e comunicações. em alguma data entre 2291 e 2255 antes da Era Cristã. cambial c de capitais.12. que teria sobrevivido milagrosamente no embate. cidade do sul da Mesopotâmia. agrícola. ampliada pelo Tratado de Assunção. provavelmente em 2400 a.. sendo estes os seguintes: a) a adaptação da legisla­ ção de cada Estado-membro à legislação dos demais.). como visto. Após o conflito. embora sua importância fosse. foi assinado o Protocolo de Ouro Preto. um rei do Elam. Seu histórico remonta ao Tratado de Montevidéu. entretanto. conside­ rado o mais antigo. formalizado numa tabuinha de argila encontrada por arqueólogos c enviada ao Museu do Louvre.03. Pouco mais tarde. 2. forma­ da apenas por Brasil e Argentina e. v. alfandegários. monarca egípcio e Muwatalis. que criou a Associação Latino-Americana de Integração (Aladi). Ramsés II contestara as fronteiras do Egito e da região que hoje é a Síria. mais tarde. de 26.

naqueles tempos. se não foi o pri­ meiro. tangidas pela razão. a história do mundo. a interde­ pendência cada vez maior imposta a cada Estado em relação aos demais. Hoje. conduzi­ das por seus governantes. É a primeira batalha da que somos capazes dc recons­ truir. O fato é que dessa animosidade surgiu um tratado de paz que. 177) Vejam. . sanções de ordem econômica. em forma escrita e regulado pelo Direito Internacional. de 1969. qualquer que seja a sua designação específica. A complexidade crescente das relações da comunidade internacional. o fato é que por seu intermédio se regem as matérias mais importantes. principalmente os de paz. seria praticamente impossível um Estado impor. assim como da balança do poder entre o Egito e Hatti. bem demonstra que os governantes já intuíam a importância dos tra­ tados. unilateralmente. confere a seguinte definição des­ te ato: Tratado significa um acordo internacional concluído entre Estados. consubstanciado em um único instru­ mento ou em dois ou mais instrumentos conexos. Como as pessoas naturais. sem falarmos no ubíquo terrorismo que solapa o mo­ ral de qualquer Estado que. entre o faraó Ramsés II e o rei hitita Muwatalis. Qual a natureza do tratado internacional? Qual sua eficácia? O tratado é a fonte primeira do direito internacional c. Em sua obra O segredo dos hititas. W. também as antigas sociedades políticas. imediatamente. foi o mais significativo da História antiga do Próximo Oriente. mediante contratos. A Convenção de Viena. travada no ano de 1296 antes de Cristo. a outro ou outros Estados qualquer conduta de seu ex­ clusivo interesse. morais se fariam sentir. embora haja acordos de outra natureza no plano interestatal. cm época tão remota. Ela decidiu o destino da Síria e da Palestina. tendo em vista a participação direta dos Estados interessados. a antiguidade do acordo celebrado entre egípcios c hititas. tem ense­ jado a multiplicação dos tratados. E na sua esteira veio o primeiro tratado dc paz detalhado de que temos conheci­ mento. sobre tratados. supostamente. além de ser manifestação de vontade objetiva democrá­ tica por excelência. E o que acontecia aos países entre o Nilo e o Tigre era. muitos dos tratados de paz que têm sido produzidos pelas nações do vigésimo século da Era Cristã. venha a sc impor a outro pela força. consideram prudente alternativa compor suas querelas e atender seus interesses suasoriamente. (p. já reconheciam as vantagens da composição amigável de suas dissidências. no mí­ nimo. em sabedoria política. C. verdadeiramente figura entre essas batalhas de primei­ ra importância para o mundo. Há outro aspecto fascinante nesta batalha junto ao rio Orontes. Ceram assinala: A batalha de Kadesh. um pacto que ultrapassa. política ou.9 0 Estado entre Estados: as organizações interestatais 239 do por muitos historiadores que os egípcios teriam sido fragorosamente derrota­ dos.

de 1998. enquanto a interna se ocupa somente de pes­ soas naturais e jurídicas.trata de matéria de competência comum da Igreja e do Esta­ do. embora a denominação dualista a ela atribuída seja de Alfred Verdross. a ordem jurídica interna disciplina as relações entre pessoas naturais (relações de direito privado) ou entre estas e o próprio Estado em que se situam (relações de direito público interno). no art. nota). A teoria dualista foi elaborada por Heinrich Triepel. qual delas deve prevalecer? Duas correntes doutrinárias se opõem no tocante à vigência dos tratados no plano inter­ no de cada Estado. f) Compromisso . Havendo conflito entre a norma internacional e a norma interna. c. 259. Com efeito. que brota da vontade de um Estado apenas. e) Concordata . ao passo que a ordem interna funda-se na Constituição.ato utilizado para acordos sobre litígios que vão ser submetidos à arbitragem. Curso de direito internacional público. Entretanto. Para o dualismo a ordem interna­ cional e a interna são realidades distintas.ato que estabelece as regras de criação e funcionamento de novos ór­ gãos. 84. esta pressupõe: a) capacidade dos contratan­ tes. VIII). é relativamente ao concurso entre o tratado internacional e as nor­ mas internas de cada Estado que surgem a maiores indagações.ato destinado a instituir princípios jurídicos ou reafirmar uma atitude política comum.240 Teoria Geral do Estado Embora a forma escrita seja exigida para a validade do tratado devido à im­ portância deste. Quanto à eficácia dos tratados. a norma internacional deve ser admitida oficialmente no âmbito des­ te. g) Convênio . 84. b) habilitação dos agentes signatários. é fato que alguns autores ainda consideram a forma oral de certos acordos internacionais.tratado em que são criadas normas jurí­ dicas. c) Protocolo . No Brasil. como no caso dc notas diplomáticas confirmando acordos verbais anteriores (cf. a saber.ato que versa matéria cultural ou transporte. art. d) no caso do Brasil. com fundamentos e des­ tinatários distintos. podendo estas ser nacionais ou estrangeiras. p. a) a ata de uma conferência. b) protocolo-acordo . inconfundíveis. a ordem internacional obtém sua validade em pro­ cedimentos típicos da comunidade internacional. a CF adverte. VIII. resultando da vontade de vários Estados contratantes. exclusivamente. Celso D. o referendo do Congresso Nacional (CF. geralmente tribunais internacionais (Estatuto de Roma do Tribunal Penal In­ ternacional. Nesse senti­ do. d) Acordo . que a eficácia dos tratados no territó­ . a ordem internacional rege rela­ ções entre Estados.o termo tem dois significados: c. obje­ to lícito e possível. c) consentimento mútuo c válido.trata-se dc um ato com objetivos econômico-financeiros ou cul­ turais. b) Estatuto . Ora. O tratado é apenas uma dentre as espécies da grande família dos atos inter­ nacionais de consenso. a dualista e a monista. para ter validade e eficácia no âmbito inter­ no do Estado. orientação adotada em 1928 na Convenção de Havana sobre tra­ tados. de Albuquerque Mello. conforme a teoria dualista. valendo uma referência aos seguintes: a) Declaração . Ademais.

[. diz Kelsen. norma que se conjuga com o art. que diz competir. as normas de direito interno. soberana. mostra-se antípoda do pensamento dualista. onde reina. Kelsen justifica o monismo invocando sua conhecida teoria da pirâmide nor­ mativa. Adolf Mcrkl. Assim. como observa Larissa Ramina [. ademais. não pode haver duas ordens jurídicas independentes. da Lei Magna. a partir do momento da transformação da norma internacional cm norma interna. 11. A superioridade hierárquica do direito internacional sobre o direito interno seria es­ sencial da própria existência deste. re­ tira sua validade daquela que lhe é imediatamente superior. os tratados serão adaptados às novas condições. sobre tratados. O monismo viria a se cindir cm duas correntes. pacta sunt servanda.1. dispositivos estes que dizem: Art. Os tratados continuarão a produzir os seus efeitos. definitivamente. por divisão de território ou por ou­ tros motivos análogos. acordos ou atos internacionais que acarretem encargos ou compromissos gravosos ao patrimônio nacional. 4 9 .] não haveria conflito de fontes nas relações entre Direito Internacional e Direito Interno. não es­ taria subordinado a qualquer espécie de ordem. pois. Assim.. a do monismo internacionalista e a do monismo nacionalista. daí a denominação de sua dou­ trina. a norma de direito internacional fundada no costume... mas apenas uma. a ordem jurídica internacional c as ordens jurídicas in­ ternas seriam apenas comunicantes. Estado so­ berano é aquele que se acha diretamente subordinado ao direito internacional. estas não poderiam se chocar: a recepção do Direito Internacional seria realizada mediante sua transforma­ ção cm Direito Interno. qual seja.9 0 Estado entre Estados: as organizações interestatais 241 rio brasileiro depende de referendo do Congresso Nacional. A primeira afirma a absoluta primazia do trata­ do sobre a ordem interna: havendo conflito entre eles. ao Congresso Nacional resolver. Uma norma. Se a organização do Estado mudar.. como lembra Larissa Ramina. 26. ainda quando se mo­ difique a constituição interna dos Estados contratantes. exclusivamente. a Gründnorm ou norma fundamental. e 26 e 27 da Convenção de Viena sobre o Direito dos Tratados entre Estados e organizações internacionais ou entre organizações internacionais. (Pacta sunt servanda) Todo tratado em vigor obriga as partes e deve ser cumprido por . validade decorrente daquele. segundo a qual. desvinculado daquele. de 1986. no caso. de maneira que a execução seja impossível. prevalece a norma de direi­ to internacional. 11 da Convenção de Havana sobre tratados. até chegarmos ao ápice da pirâmide.] Art. o qual. o que se coaduna com a moderna concepção da soberania. existindo duas ordens jurídicas independentes. Quanto à teoria monista. de 1928. como se observa nos arts. a não ser a moral. cujo expoente é Hans Kelsen. haja vista terem. Para o conhecido mestre vienense. Kelsen afirma o primado do direito internacional. que elaborou com outro jurista.

b) crimes contra a humanidade (art. O direito público brasileiro consagra essa corrente. 7°). caput. vinculada à União Europeia (UE). §§ 2o e 3o. 4°. impõe-se a to­ das as outras. a sa­ ber.2002.TPl O Tribunal Penal Internacional (TPI) é uma pessoa jurídica de direito públi­ co externo. 48. 27. 3o.5o. II. a saber: a) crimes de genocídio (art. . 4 9 . item 1°. A competência do Tribunal restringir-se-á aos crimes mais graves que afetam a comunidade internacional. Art. arts. havendo conflito entre uma norma interna e uma internacional. a partir de uma lista de Estados que lhe tenham manifestado a sua dis­ ponibilidade para receber pessoas condenadas.Países Baixos (art. I o) e sede em Flaia . do qual o Brasil é signa­ tário desde 07.388. 4. Qualquer Estado-parte poderá denunciar ao procurador uma situação em que haja indícios de ter ocorrido a prática de um ou vários crimes da competência do Tribunal e solicitar ao procurador que a investigue. solicitar sua transferência do Estado incumbido da execução. O Estado da execução não obstará a que o condenado apresente um tal pedido. VIII. III e V. 4o. e promulgado internamen­ te pelo Decreto n. a qualquer momento. 1). Um Estado-parte de um tratado não pode invocar as disposições de seu direito interno para justificar o inadimplemento de um tratado. E para que haja recepção dessa pela ordem ju­ rídica brasileira.2000.2002. decidir transferir um condenado para uma prisão de outro Estado. pois a Constituição Federal.1998. As penas privativas de liberdade serão cumpridas num Estado indicado pelo Tribunal. mediante o Decreto Legislativo n. Por ou­ tro lado.1 . c) crimes dc guerra (art. com recepção na ordem jurídica brasileira desde 06. a pessoa condenada pelo Tribunal poderá.06. 6) 0 TRIBUNAL PENAL INTERNACIONAL . d) crime de agressão. 112.242 Teoria Geral do Estado elas de boa-fé.02. incluída a internacional. 1. como norma fundante primeira. deve prevalecer aquela.09. de 06. e 109. de 17. Quanto à teoria monista nacionalista. a qualquer mo­ mento. 8o). devem ser obedecidos os dispositivos constitucionais respectivos. com vista a determinar se uma ou mais pessoas identificadas deverão ser acusadas da prática desses crimes. Tem personalidade jurídica internacional (art.06.2002. de 25. guerra e agressão.07. bem assim outros crimes contra a humanidade. caráter permanente (art. O Tribunal terá competência exclusiva para decisões sobre qualquer pedido de revisão ou recurso. esta afirma a primazia da Constituição do Estado sobre as normas internacionais. tendo por objetivo julgar os crimes de genocídio. Foi instituído pelo chamado Estatuto de Roma. 84. O Tribunal poderá. 1). 6o).

de modo a ativar o senso crítico do leitor iniciante. nas quais refulge a chamada humanitas ou sabedoria civil e moral tipicamente romana. ao mestre e ao aluno. mesmo.. H. 1) MARCO TÚLIO CÍCERO1 Dos deveres ("De o ffic iis ") (Tratado dos deveres. De officiis. Dos deveres e Da República. facilmente encontrados num sem-número de recentes antologias. de modo que o intento de facilitar. Nes­ te diapasão. Cultura Brasileira. dificilmente encontrada nas livra­ rias ou. nos sebos. trad.d. Bruto. e clássicos não envelhecem. como Do orador. Nestor Silveira Chaves. quase sempre. Vale lembrar que são textos pouco conhecidos da maioria do público. Saraiva. postu­ ra ambígua. não levamos em conta a vetustez ou modernida­ de dos autores. durante a qual manteve.LEITURAS COMPLEMENTARES 10 Na seleção dos textos a seguir. escritor e político ro­ mano. s. na medida de nossas possibilidades. 243 . Dos deveres.). Integram o rol seleto dos clássicos. cumpre ressaltar que evitamos a inclusão de excertos já conhecidos por todos. Rio de Janeiro. o acesso a obras hoje raras fica. diante de si. consistente em obras ainda hoje prestigiadas. do que à sua brilhante produção jurídica e filosófica.) 1 Marco Túlio Cícero (106-43 a. em respeito ao mais autêntico espírito democrá­ tico e à liberdade de opinião. Livr.C. A maior parte desta coletânea é. trad. embora de notória importância. deve sua fama menos à sua atividade política. concretizado. Vale acrescentar que tais escritos revelam ideologias dc toda ordem. o que torna os textos que o leitor tem. hoje. São Paulo. e notas de Maximiano Augusto Gonçalves. São Paulo. Antunes. Da velhice. e notas de João Mendes Neto. um excelente complemento para a pesquisa acadêmica. Ed. trad. príncipe dos advogados e célebre orador. como o leitor perceberá de imediato.

os Sabinos. entendo que nunca sc deve rejeitar proposições de paz. o nome se tornou duro. Os . não se tem o direito de combater”. Esse general deliberou licenciar uma legião. que dela fazia parte. Cuidado em se meter em qualquer comba­ te: desde que não se é soldado. Temos ainda a carta que o velho Catão escreveu a seu filho Marcos. Sobre isso. a honra.244 Teoria Geral do Estado Por mim. As condições que justificam uma guerra têm sido santamente consignadas no direito do povo romano. que designava. ficou no exército. se ele consentisse em ter seu filho sob sua bandeira. Lê-se na Lei das Doze Tábuas: Aut dies status cum hoste. inimigo. não podia legalmente combater o inimigo: tanto era ele rigoroso em observar as leis de guerra. os Cartagineses. com o outro se defende a vida. ao rei Pyrro. governador de uma província. se encontrava licenciado. pelo de hostis. e o filho de Catão. e só se diz de quem toma armas contra nós. só combatemos pelo império. contendo os motivos. quando estabelece como única guerra legítima aquela que é feita para reivindicar um território usurpado. receber generosamente os sitiados que depuseram ar­ mas e se colocaram à disposição do general. que fazia suas primeiras armas. de outro. teríamos uma república. uma magistratura. Pompílio. propriamente. a justiça foi tão bem observada por nossos maiores que aqueles que tinham recebido a submissão das cidades e nações tornavam-se seus protetores. diz ele. com este sc disputa uma dignidade. com o tempo. tinha no seu exército um filho de Ca­ tão. Fizemos a guerra aos Celtibcros c aos Cimbros como a inimigos. pois que. temperando assim a doçura da palavra com a dureza da coisa. talvez a melhor de todas. é preciso consolar os que foram vencidos pela força. sendo a glória a finalidade da guer­ ra. Catão escreveu a Pompílio que. Mesmo quando se luta pela supremacia. nossos maiores chamavam hostis os que chamamos agora perigrinus. uma guerra dessa natureza deve ser conduzida com maior animosidade. com os latinos. como gostava de guerra. ainda quando o cerco começa a pene­ trar na muralha. ou depois dc declaração formal. Há alguma coisa mais humana que dar nomes tão moderados a quem nos faz a guerra? Contudo. ao contrário. por uma questão de existência e não de supremacia. De outro lado. os Sânitas. não é menos indispensável a existência de uma razão legítima. XII Sobre isso quero observar: mudamos o nome de perduellis. De um lado. quando não há aparência de perfídia. era preciso engajá-lo de novo. Com efeito. e mais adiante Auctoritas aeterna adversus hostem. Nas guer­ ras civis se comportam diferentemente com um inimigo e com um competidor. que foste licenciado pelo Cônsul. mas. se quisessem me ouvir. e não a que existe. tendo sido o pri­ meiro dispensado. que servia na Macedônia na época da guerra contra Perseu: “Soube.

dignas do sangue de Eacides. Escutai minhas palavras! Àqueles que o destino da batalha poupar. nem resgate para mim! Não transformemos a guerra num tráfico infame! Que o ferro. Um trânsfuga do exército de Pyrro ofereceu-se ao Senado para envenenar o rei. foram degradados pelos censores e relegados toda a vida para a classe dos tributários. Observemos ainda que devemos praticar justiça mesmo com as pessoas de baixo nível. Quando chegou. crendo-se quite com a sua palavra por não ter estado nos termos do tratado. mesmo sob pressão dc circunstâncias. deve manter sua palavra. No tempo da segunda guerra púnica. a palavra empenhada deve sempre refletir o que se pensa e não o que sc diz. . Com efeito. Recusaram assim comprar com um crime a morte de um inimigo poderoso e que declarou guerra sem ser provoca­ do. para mim nem o ouro. c jurou voltar. apesar das súplicas de parentes e amigos. preso pelos Cartagineses. Pyrro os devolverá. depois de tê-los fei­ to jurar que retornariam se nada obtivessem. saindo do acampamento com permissão de Aníbal. que.10 Leituras Complementares 245 cartagineses foram pérfidos. Ninguém de mais humilde condição que os escravos. e preferiu submeter-se ao suplício a faltar com a palavra dada ao inimigo. voltou sob o pretexto de que havia esquecido qualquer coisa. XIII O cidadão. depois. Nossos antepassados deram um lindo exemplo de justiça para o inimigo. cruel. voltou. Na primeira guerra púnica. fez uma promessa ao inimigo. Aníbal en­ viou prisioneiros a Roma para negociarem o resgate de cativos. os que se tornaram perjuros. mas os outros não se mostravam mais justos. São palavras dignas de um rei. foi enviado a Roma para tratar da troca de prisioneiros. retornou em seguida. são aqueles que são tratados como mercenários aos quais se exige trabalho a troco do necessário para viverem. Fabricius entregaram o trânsfuga a Pyrro. Eu juro deixar a doce liberdade. Regulus. sem exclusão do que recorreu à astúcia para se desembaraçar de compromisso. Lembra-se a nobre resposta de Pyrro quando se tratou do resgate dos pri­ sioneiros: Romanos. Levareis vossos prisioneiros. decida a nossa sorte. Aníbal. aconse­ lhou o Senado a não devolver os cativos. Mas é o bastante sobre os deveres na guerra. Para saber quem possuirá o Império! Que o valor decida. o Se­ nado e C. Tomando por testemunha a majestade dos deuses. não o ouro. Ora. antes da batalha de Cannes.

os compostos são mais perfeitos do que os elementos. a mais abominável é a desses homens que. É o bastante so­ bre a justiça. a bondade da espécie excede a do indivíduo. quando enganam. Uma pertence à raposa. Nos seres naturais vemos que as espccies são gradativamente ordenadas. Logo. 19. procuram parecer homens de bem.) Tradução do autor. por conseguinte. outra ao leão. é finita a bondade de toda criatura. as plantas do que os mi­ nerais. nem da diversidade da matéria. . 45). pois teriam o que tem este e ainda mais. cit.. Pois não seria perfeito o univer­ so se nas coisas só se encontrasse um grau de bondade (Santo Tomás de Aquino. v. De todas as injustiças. in Britannica Great Books o f the Western World. mas a fraude é mais odiosa.] A diversidade e a desigualdade das criaturas não procede do acaso. I. mais acrescenta a bondade do universo a multiplicidade das es­ pécies do que a dos indivíduos de uma mesma espécie.31) (Suma contra os gentios.246 Teoria Geral do Estado Quanto à injustiça. é mais perfeito o universo ha­ vendo muitas criaturas do que se houvesse um único grau delas. 2) SANTO TOMAS DE AQUINO Suma teológica e Suma contra os gentios (Thomas Aquinas. mas haver diferentes espécies e. pois. nem da intervenção de al­ gumas causas ou méritos. a. a Divina Sabedoria a causa da distinção das coisas para a perfeição do universo. é cometida de duas maneiras: pela violência e pela frau­ de.. à perfeição do universo contribui não só haver muitos indivíduos. 47. Todas as duas são indignas do homem. mas procede da própria intenção de Deus. 2) [. diferentes graus de coisas (Santo Tomás de Aquino. Logo. logo. e era excelente7 ’ (1. [..J Muitos bens finitos são melhores do que um só. As­ sim.).. Livro II. Daí dizer-se no Gênesis: “Viu Deus tudo o que tinha feito. pois é deficitária da infinita bondade de Deus. Gap. Ora. Encyclopaedia Britannica. também será causa da sua desigualdade. q. Suma teológica. os animais do que as plantas e os homens do que os outros animais. era-Lhc conveniente fazer muitos graus de cria­ turas. Ao Sumo Bem compete fazer o que é melhor. Sen­ do. como o formal exce­ de o material. Suma con­ tra os gentios. Em cada uma dessas classes encontram-se espécies mais perfeitas do que as outras. que quis dar à criatura a perfeição que lhe era possível ter. Por isso. Ademais.

especialmente os Discursos sobre a primeira década de Tito Lívio c O príncipe. Tal diretriz acarretou-lhe a má fama dc escritor cínico e insensível. como foi M ilão com Francisco Sforza. Stabilimenti Grafici Bemporad Marzoco. tomar-se-ia um dos mais conhecidos doutrinadores do seu tempo e da atualidade. II príncipe. que os adquire. entretanto. sem que seus detratores se apercebessem de que O príncipe não fora escrito para todos os povos e todas as épocas. Os novos podem ser totalmente novos. Capítulo I De quantas espécies são os principados e de que form as são adquiridos Todos os Estados. bem como pela fortuna ou por virtude. a italiana. como é o reino de Nápoles em relação ao rei da Espanha. Edipem. Firenze. ou novos. se bem considerado for. porque cumprida sua missão. entretanto. Nesta. 1969. Capítulo XVII Da crueldade e da piedade: se é m elhor ser tem ido ou ser amado Reportando-me às outras qualidades já mencionadas. mostrará ter sido ele muito mais pie­ doso do que o povo florentino. o qual. pensador italiano natural de Florença. O que. 1980. essa sua crueldade tinha recuperado a Romanha. Conseguida a unifi­ cação. foram e são repúblicas ou principados. mas sim para um momento grave da história de uma nação. quan­ do o sangue senhorial é nobre já há muito tempo. todos os governos que tiveram e têm poder sobre os ho­ mens. para fugir à pecha de cruel. deve ter o cuida­ do de não usar mal essa piedade. sua obra mais conhecida. e Tutte le opere. Sendo esse objetivo nobre. procurou demonstrar como deveria agir o homem providencial que unificaria os italianos e emanciparia a Itália. Novara. dedicou-se à pesquisa histórica e à ela­ boração de obras que se tornariam célebres.10 Leituras Complementares 247 3) NICOLAU MAQUIAVEL2 O príncipe (Machiavelli. digo que cada príncipe deve desejar ser tido como piedoso e não como cruel. principalmente pelo prestígio de que ain­ da frui O príncipe. César Bórgia era considerado cruel. de várias missões diplomáticas junto à corte francesa. todos os meios para alcan­ çá-lo seriam válidos.) Tradução do autor. sendo adquiridos com tropas de ou­ trem ou com as próprias. foi incumbido. deixou que Pis- Nicolau Maquiavel (1469-1527). entre 1503 e 1512. Nomeado secretário da senhoria de Florença em 1498. Esses domínios assim obtidos estão acostumados ou a viver submetidos a um príncipe ou a ser livres. Os principados são hereditários. . logrando uni-la e pô-la em paz e em lealdade. ou membros acrescidos ao Estado hereditário do príncipe. que lhe inspiraram a feitura de inúmeros escritos. Exilado em 15 12. o príncipe seria perfeitamente descartável. Itália.

Mas quando o príncipe está à frente de seus exércitos e tem sob seu coman­ do uma multidão de soldados. pois. enquanto aquelas execuções que emanam do prín­ cipe atingem apenas um indivíduo. E o príncipe que confiou inteiramente em suas palavras. et late fines custode tuerr. geralmente. mas. e aquele que começa a viver de rapi­ nagem sempre encontra razões para apossar-se dos bens alheios. temer a fama de cruel. abster-se dos bens alheios. E. não se torna possível utilizá-las. visto serem os Estados novos cheios de pe­ rigos. volúveis. Deve o príncipe. cm tendo que faltar uma das duas é muito mais seguro ser temido do que amado. não obstante. sobretudo. quando esta se avizinha. Diz Virgílio. O príncipe. A resposta é que seria necessário ser uma coisa e outra. buscan­ do evitar que a excessiva confiança o torne incauto e a demasiada desconfiança o faça intolerável. como se disse acima. a necessidade esteja longe de ti. como é difícil reuni-las. ao passo que as ra­ zões para o derramamento de sangue são mais raras e esgotam-se mais depressa. faça-o quando existir conveniente justificativa e causa manifes­ ta. posto que os homens esquecem mais rapidamente a morte do pai do que a perda do patrimônio. se não conquistar o amor. dentre todos os príncipes. desde que. que. e não pela grandeza e nobreza de alma. mas com elas não se pode contar e. Isso porque dos homens pode-se dizer. contudo. Deve. no momento oportuno. pois que. então é de todo necessário não se importar com a . os bens. são todos teus. são compradas. e. por excessiva piedade. po­ rém. pela boca de Dido: “ Res dura. deixam acontecer as desordens das quais resultam assassínios ou rapinagens. ele será mais piedoso do que aqueles que. com prudência e humanidade. é ao novo que se torna impossível fugir à pecha de cruel. E os homens têm menos escrúpulo em ofender a alguém que se faça amar do que a quem se faça temer. em se lhe tomando necessário derramar o sangue de alguém. c. não se alarmar por si mesmo e proceder por forma equilibrada. revoltam-se. porque estes costumam prejudicar a comunidade inteira.248 Teoria Geral do Estado toia fosse destruída. fazer-se temer. Nasce daí uma questão: se é melhor ser amado que temido ou o contrário. et regni novitas me talia cogunt moliri. de forma que. a vida. fuja ao ódio. os filhos. Além disso. encon­ trando-se destituído de outros meios de defesa. Um príncipe não deve. mesmo porque podem muito bem coexistir o ser temido c o não ser odiado: isso conseguirá sempre que se abstenha de tomar os bens e as mu­ lheres de seus cidadãos e de seus súditos. posto que a amizade é mantida por um vínculo de obrigação. enquanto lhes fizeres bem. mas o temor é mantido pelo receio de castigo. oferecem-te o próprio sangue. si­ muladores. que são ingratos. que jamais se aban­ dona. deve ser lento no crer e no agir. está perdido: as amizades que se adquirem por dinheiro. ambiciosos dc ganho. tementes do perigo. nunca fal­ tam motivos para justificar as expropriações. com mui poucos exemplos. desde que por ela conserve seus súditos unidos e leais. por serem os homens maus. é quebrado em cada oportunidade que a eles convenha.

como lhe resultou em glória. percebe-se a volubilidade do ser humano. escritores nisto pouco ponderados. nunca surgiu qualquer dissensão entre eles ou contra o príncipe. tragédias. realmente. pois que havia concedido aos seus soldados mais liberdades do que convinha à disciplina militar. que­ rendo alguém desculpá-lo perante o Senado. a mutabilidade da chamada opinião pública. tanto assim que. tão logo se soube que este deixava bens ao povo. de um lado. pois. Em festejada obra. disse haver muitos homens que me­ lhor sabiam não errar do que corrigir os erros. deve apoiar-se naquilo que é seu e não no que é dos outros. constituído de homens de inúmeras raças.) Este belo e. Ora enaltecendo Brutus e ultrajando o cadáver de Cé­ sar. de outro. não foram por ele vingados. Dentre as admiráveis ações de Aníbal. o Prof. aliada às suas infinitas virtudes. p. nem a insolência daquele lega­ do foi reprimida.10 Leituras Complementares 249 fama de cruel. Essa sua natureza teria com o tempo sacrificado a fama e a glória de Cipião. Tal fato foi-lhe censurado no Senado por Fábio iMáximo. Júlio César. 1. paradoxalmente. o qual o chamou de corruptor da milícia romana. Nova Aguilar. todavia. que. Concluo. as outras suas virtudes não seriam bastantes. condenam a principal causa da mesma. demonstra. deve apenas empe­ nhar-se em fugir ao ódio. tremendo texto. admiram. mas vivendo sob o governo do Senado. 447 c scgs. Rio de Janeiro. Pedro Salvetti Netto adverte ser fundamental que a opinião pública autêntica só é possível . como foi dito. ora amaldiçoando Brutus e divinizando César. amando os homens como a eles agrada e sendo por eles temido como dese­ ja. tivesse ele perseverado no coman­ do. e. cujos exérci­ tos se revoltaram na Espanha em conseqüência de sua excessiva piedade. esta sua prejudicial qualidade não só desapareceu. sem ela. fruto do gênio de Shakespearc. bem. 4) W IL U A M SHAKESPEARE J ú lio César3 {Obras completas. que um príncipe sábio. já que. menciona-se esta: tendo um exército imenso. voltando à questão de ser temido e amado. conduzido a batalhar em terras alheias. o tornou sem­ pre venerado e terrível no conceito de seus soldados. sem aquela crueldade. essa sua atuação e. jamais se conservará exército unido e disposto a al­ guma empresa. as vir­ tudes não lhe teriam bastado para surtir tal efeito. Isso não pode resultar dc outra coisa senão da­ quela sua desumana crueldade. homem dos mais notáveis não somente nos seus tempos mas também na memória de todos os fatos conhecidos. v. Os locrences. pode-se considerar o caso de Cipião. 1988. resultando tudo isso de sua natureza fácil. em face de seus interesses imediatos. Para prova de que. tanto 11a má como na boa fortuna. Ed. tendo sido arruinados e abatidos por um legado de Cipião.

/ \ideia de decadência na história ocidental. Quem é aqui tão vil que deseje ser escravo? Se alguém existe. uns nos outros. . ao agraciarem o conquistador com as pompas e as honras do triunfo. Pelo simples fato de fazer parte dc uma mul­ tidão.levou-o à cruz cinco dias depois. quando tivermos ouvido separadamente um e outro. . (Sai Cássio com al­ guns Cidadãos. 3. Se então esse amigo perguntar por que Bru­ to se levantou contra César. digo-lhe que o afeto de Bruto por César não era menor do que o dele. a César morresse e vivêsseis todos livres? César gostava de mim e eu choro por ele. Arthur Herman. Julgai-me com vossa sabedoria e avivai vossos sentidos para que possais ser melhores juizes. se responsável. Acreditai-me por minha honra e respeitai minha honra para que possais acreditar-me. ed. ide à outra rua e dividi a multidão. “a opinião das massas é so­ bremaneira influenciável e. transforma-se num bárbaro capaz das ações mais brutais e irracionais. mas. porque eu o ofendi! Quem é aqui tão estú- se conscientizada. C id a d ã o s . honra para seu valor. 1979.) Te r c e ir o C i d a d ã o . porém porque amava mais Rom a” . eu me alegro. Gustave Le Bon. São Paulo.São Paulo. como foi ambicioso. advertia Le Bon. . publicou uma pequena obra intitulada A psicologia das multidões. na visão intuitiva da própria psicologia das massas. Na percepção genial do agir humano. pode ser uma pessoa sóbria e refinada. poderão acompanhá-lo.Eu ouvirei Cássio e assim poderemos comparar-lhes as opiniões. meus amigos. exal­ tando Cristo em um domingo. levá-lo à rocha Tarpeia” (Curso de teoria do Estado.O nobre Bruto já está na tribuna. Há lágrimas para sua amizade. bem pode­ ria.Então. Cássio. fiquem aqui. para adverti-lo de que a mesma multidão. faziam-no acom­ panhar.. Fora disso. Rio de Janeiro . seguidamente. ele foi afortunado. c morte para sua ambição. 1999. . S e g u n d o C i d a d ã o . quan­ do as pessoas se juntam numa reunião política ou. . Bruto sobe à tribuna. Por si mesmo.250 Teoria Geral do Estado CENA 11:0 Fórum Entram Bruto e Cássio com uma turba de Cidadãos. acompanhai-me e escutai. Em 1895. na multidão. tão volúvel como a pluma ao vento da ópera de Verdi. Preferiríeis que César vivesse e morrêsseis to­ dos escravos. em tempo próximo. . júbilo para sua fortuna. se informada. os romanos. ora a tributar-lhe a glória. Os que deseja­ rem acompanhar Cássio. mesmo. a regressão em massa a um estado primitivo. p. um eminente sociólogo francês.Eu ouvirei Bruto falar.. lhe murmurava aos ouvidos: Lembra-te de que és homem. um escravo que. esta é minha resposta: “Não que amasse menos César. portanto. prossegue. . eu o matei. P r i m e i r o C i d a d ã o . foi valente.Sede pacientes até o fim! Romanos. numa via pública. p. que caracterizam uma rixa ou uma horda de linchadores (cf. Sa­ raiva. compatriotas e amigos! Escutai-me defender minha causa e guardai silêncio para que possais ouvir-me. na qual afirmava que. eu o venero. provocam. Serão expostas publicamente as razões da morte de César. Os que desejarem ouvir-me. o homem desce vários degraus na escada da civilização. Silêncio! Br u t o . 137-8). Se houver nesta assembleia algum amigo caro a César. na biga majestosa. médico de profissão.Queremos que nos seja dada uma explicação! Dai-nos explicação! B r u t o . Record Ed. que fale. como o Redemptor Hominis e o Messias . 89-90).

não há dúvida. To d o s . tenho uma obrigação para convosco. e.Caros compatriotas. nobre Antônio! A n t ô n i o . . em considera­ ção a mim.Viva Bruto! Viva! Viva! P r i m e i r o C i d a d ã o .C alem ! Silêncio! Fala B ruto.Fiquemos! Vamos ouvir Marco Antônio. To d o s . .) P r i m e i r o C i d a d ã o . estou pronto a usar meu punhal contra mim.Vamos nomeá-lo César! Q u a r t o C i d a d ã o . não ofendi ninguém. . tem uma obrigação para com todos nós. . S e g u n d o C i d a d ã o . Vamos! B r u t o .Vamos levá-lo para casa com vivas e aclamações! Br u t o . P r i m e i r o C i d a d ã o .Diz que. . que. Foi uma bênção para nós que Roma se tivesse libertado dele. com nosso beneplácito. sem tomar parte em sua morte. P r i m e i r o C i d a d ã o .Q u e disse de Bruto? T e r c e ir o C i d a d ã o .Então. . . por consideração a Bruto. Antônio pronunciará. que fale. .10 Leituras Complementares 251 pido que não queira ser romano? Se existir. que lhe valeram os méritos que possuía. . .Não há. . (Entram Antônio e outros com o corpo de César.Esse César foi u m tirano! Te r c e ir o C id a d ã o .. um lugar na República.Sim. (Sobe na tribuna.Vamos carregá-lo para casa em triunfo! Se g u n d o C i d a d ã o . porque eu o ofendi! Quem é aqui tão baixo que não ame sua pátria? Se existir. . . .) Q uarto C i d a d ã o . Q uarto C i d a d ã o . Bruto. Quem de vós não conseguirá outro tanto? Ainda uma palavra e partirei. dela auferirá benefícios.Que suba à tribuna pública: nós o escutaremos. Honrai o cadáver dc César e ouvi a apo­ logia de suas glórias que.Meus compatriotas!. exceto eu. . . . nem foram exage­ radas as ofensas que lhe valeram a morte.Vamos erigir-lhe uma estátua junto de seus antepas­ sados! T e r c e ir o C i d a d ã o .Em consideração a Bruto. .. pranteado por Marco Antônio. que fale. Nada mais fiz com César do que teríeis feito com Bruto! Os motivos da morte dele estão registrados no Capitólio. A gló­ ria. Subi.) Aqui chega o corpo dele. porque eu o ofendi. T e r c e ir o C i d a d ã o . . não há! B r u t o . não foi diminuída. Suplicovos! Ninguém deve afastar-se. deixai-me ir embora sozinho. Es­ pero uma resposta. permanecei aqui com Antônio. (Sai. Se matei meu melhor amigo pela felicidade de Roma. somente.Calem. se mi­ nha pátria quiser reclamar minha morte. até que Antônio haja acabado de falar. .Seria melhor que não falasse mal de Bruto aqui.As melhores qualidades dc César sejam coroadas em Bruto! P r i m e i r o C i d a d ã o . .

. não há dúvida de que não fosse ambicioso.Ainda ontem a palavra de César podia ser mais forte do que o universo! Agora. e preciso esperar até que ele para mim volte! P r i m e i r o C i d a d ã o . Trouxe muitos cativos para Roma. P r i m e i r o C i d a d ã o . Se g u n d o C i d a d ã o . A n t ô n i o . compatriotas. . A ambição deveria ter um coração mais duro! Entretanto. César. com eteram um grande erro c o m César. cujos resgates encheram os cofres do Estado.Silêncio! Vamos ouvi-lo. leal e justo comigo. . . cidadãos? Temo que um pior do que ele possa substituí-lo.Se considerares devidam ente o assunto. ali ele jaz e ninguém. . O mal que fazem os homens perdura de­ pois deles! Frequentemente. c. sem dúvida alguma. como todos vós sabeis. como todos os demais são homens honrados). . o bem que fizeram é sepultado com os próprios ossos! Que assim seja com César! O nobre Bruto vos disse que César era ambicioso. parecia ambicioso? Quando os pobres deixavam ouvir suas vozes lastimosas. Bruto disse que ele era ambicioso e Bruto é um homem hon­ rado.Notastes as palavras que pronunciou? Não quis aceitar a coroa. prestai-me atenção! Estou aqui para sepultar César. Isto era ambição? Entretanto. alguns terão que pagar caro. mas aqui estou para falar sobre aquilo que conheço! To­ dos vós já o amastes. . Todos vós o vistes nas Lupercais: três vezes eu lhe apresentei uma coroa real e três vezes ele a recusou. Se assim foi. mesmo que seja o mais miserável possível. A n t ô n i o .Vamos observá-lo agora. romanos. Era meu amigo. seria injusto com Bruto e com Cássio.. não sem motivo. não lhe presta uma só homenagem! Ó senhores. César derramava lágrimas. venho falar nos funerais de César.Pobre coitado! Está com os olhos vermelhos como fogo de tanto chorar. são homens honrados. se estivesse disposto a excitar vos­ sos corações e vossos espíritos para o motim e a cólera. .Não existe homem mais nobre em Roma do que An­ tônio. Desculpai-me! Meu coração está ali com César. . os quais. Q uarto C i d a d ã o . . Aqui. neste particular. Que razão.. T e r c e ir o C i d a d ã o . pois os homens perderam o juízo!.Não é.252 Teoria Geral do Estado S e g u n d o C i d a d ã o . T e r c e ir o C i d a d ã o .Acho que tem muita razão no que está dizendo.Nobres romanos!. .Amigos. com a permissão de Bruto e dos demais (pois Bruto é um homem honrado. Não quero ser . para pranteá-lo? Oh! inteligência.Sc for exato. Portanto. era uma grave falta e César a pagou gravemente. . S e g u n d o C id a d ã o . Bruto é um homem honrado. então. agora. Bruto disse que ele era am­ bicioso. Q u a r t o C i d a d ã o . A n t ô n i o . mas Bruto diz que era ambicioso. fugiste para os irracionais.Silêncio! Vamos ouvir o que Antônio tem para dizer.. Está recomeçando a falar. e Bruto é um homem honrado. não para glorificá-lo. . vos detém. Não falo para desa­ provar o que Bruto disse.. To d o s .

Queremos ouvir o testamento! Lede-o. . . . . para o nobilíssimo Antônio! A n t ô n i o . como precioso legado. ficareis enlouquecidos. . dentro da tenda. Olhai: por este lugar penetrou o punhal de Cássio! Vede que rasgão abriu o invejoso Casca! Por este. Era uma tarde de verão. . -Tereis paciência? Esperareis um pouco? Fui longe demais contan- do-vos isto.São covardes. aqui está um pergaminho com o selo de César. desculpai-me.Se tiverdes lágrimas. Todos vós conheceis este manto.São traidores: Homens honrados! To d o s . para sua descendência. .Recuai! Dai lugar! Retirai-vos! A n t ô n i o . assassinos! O testamento! Lede o testa­ mento! A n t ô n i o . ficareis inflamados.Lede o testam ento! Q uerem os ouvi-lo. Marco Antônio! To d o s . sendo homens.D am o s! (Antônio desce do púlpito. Posso descer? Vós me dareis vossa permissão? To d o s . preparai-vos agora para derramá-las. para transmi­ ti-lo.Descei! .10 Leituras Complementares 253 injusto com eles! Prefiro ser injusto com o morto. como se quisesse certificar-se de que S e g u n d o C i d a d ã o . . c irá beijar as feridas de César morto. P r i m e i r o C i d a d ã o . . a ser injus­ to com homens tão honrados! Mas. se vós o soubésseis.O testamento! O testamento! Queremos ouvir o testamento de César.Não vos aproximeis do ataúde! Não vos aproximeis do corpo! S e g u n d o C i d a d ã o . mas sois humanos e. . amáveis amigos! Não devo lê-lo! Não é conve­ niente que saibais quanto César vos amava! Não sois de madeira. A n tô n io ! É pre­ ciso que leiais o testam ento! O testam ento de César! A n t ô n i o .Não vos aperteis tanto assim contra mim! Permanecei bem longe! To d o s . cujos punhais feriram Cé­ sar! É o que temo! Q u a r t o C i d a d ã o . Q u a r t o C i d a d ã o .Sua última vontade! O testamento! S e g u n d o C i d a d ã o . . Temo ser injusto com os homens honrados. Eu o encontrei 110 gabinete dele: são as suas últimas vontades.Estais autorizado. Ouça somente o povo este testamento (embora. quando morrer. o mencionará nos testamentos.Quereis compelir-me então a ler o testamento? Pois. Q u a r t o C i d a d ã o . então. .) T e r c e ir o C i d a d ã o . observai como o san­ gue de César parece que se lançou atrás dele. ao retirar o maldito aço. . comigo e convosco. mergulhando os lenços em seu sangue sagrado! Mendigará um ca­ belo como relíquia e.Formai um círculo. A n t ô n i o . lembro-me da primeira vez que César o usou. Colocai-vos cm volta. não sois de pe­ dra.Lugar para Antônio. não pretenda lê-lo). ao ouvirdes o testamento de César. for­ mai um círculo em torno do cadáver de César e deixai-me mostrar-vos aquele que fez o testamento. no dia em que venceu os nérvios. Não é bom que saibais que sois o herdeiro dele. 0 I1 ! que poderia acontecer? Q uarto C i d a d ã o . o bem-amado Bruto o feriu! E. . .Sede pacientes. .

sem dúvida.. Vamos!. como sa­ beis. Não deixemos que nenhum traidor fique vivo! A n t ô n i o . .Vamos.Nós nos revoltaremos! P r i m e i r o C i d a d ã o . quando o nobre César viu que ele o feria. pois. como todos vós sabeis. . compatriotas! P r i m e i r o C i d a d ã o . c.254 Teoria Geral do Estado era ou não Bruto quem tão desumanamente abria a porta! Porque Bruto. mas... Não vim aqui. . como estais vendo. mais poderosa do que os braços dos traidores. por que chorais.Incendiemos a casa de Bruto! Te r c e ir o C id a d ã o . cobrindo o rosto com o manto. bandidos! P r i m e i r o C i d a d ã o . . nem eloqüência. nem ação. vós e todos caímos. quando só vistes ainda as feridas do manto de César? Olhai: aqui está o próprio César.Esperai.Seremos vingados! To d o s . desfigurado pelos traidores! P r i m e i r o C i d a d ã o . nem mérito. era o anjo de César! Julgai. então! Vinde! Vamos procurar os conspiradores! A n t ô n i o . com que ternura César o amava! Esse foi o mais cruel de todos os golpes.. Estou mos­ trando as feridas do bondoso César. compatriotas! Ouvi-me ainda falar! .. apresentarão a todos vós as razões que possuíam.. . estalou seu poderoso coração. um homem franco e simples que amava meu amigo e isso sabem perfeitamente bem os que me deram publicamente licença para falar a respeito dele.Oh! lamentável espetáculo! S e g u n d o C i d a d ã o . .. Matemos!. ó deuses. pobres.Vingança!. . Procuremos!. não me deixeis excitar-vos com esta repentina explosão de revolta! Aqueles que consumaram este ato são homens hon­ rados. capaz de comover e levantar em motim as pedras de Roma! Todos. meus amigos. amáveis amigos. Eles são sensatos e honrados e. . .. o grande César caiu aos pés da estátua dc Pompcu. para roubar vossos corações! Não sou orador como Bruto. Queimemos!.. Oh! que queda foi aquela. a ingratidão. onde o sangue não parava de jor­ rar!. .. nem palavras.Oh! traidores. nem o poder da palavra capazes de excitar o sangue dos ho­ mens! Falo muito claramente e só vos digo o que todos vós já conheceis. Degolemos!. Não tenho espírito. . eu. . meus compatriotas! Naquele momento. .. esse Antônio perturbaria a serenidade de vossos espíritos e colocaria uma língua em cada uma das feridas de César.Ouvi-me ainda. Quais eram as queixas secretas que tinham para fazê-lo? Ai! E O que igno­ ro. venceu-o completa­ mente! Então. pobres bocas mudas e peço-lhes que fa­ lem por mim! Se eu fosse Bruto. . e se Bruto fosse Antônio.. .Oh! dia calamitoso! Q u a r t o C i d a d ã o ..Bons amigos. enquanto triunfava sobre nós a traição sangrenta! Oh! Estais choran­ do agora e percebo que sentis a marca da piedade! São lágrimas generosas! Almas bondosas..Nós o escutaremos! Nós o seguiremos! Nós morrere­ mos com ele! A n t ô n i o .Oh! visão sangrenta! S e g u n d o C i d a d ã o .Oh! nobre César! T e r c e ir o C i d a d ã o .Silêncio! Escutai o nobre Antônio! S e g u n d o C i d a d ã o .

. ele vos deixa todos os seus passeios. Esquecestes o tes­ tamento de que vos falei.) 5) HENRY DAVID THOREAU4 Desobediência c iv il (Madrid.Nobilíssimo César! Vingaremos a morte dele! T e r c e i r o C i d a d ã o . Aqui estava um César! Quando aparecerá outro? P r i m e i r o C i d a d ã o . 4 Henry David Thoreau (1817-1862). a menos que absolutamente necessária. a cada h o m e m . . para que possais passear e divertir-vos. seus jardins pri­ vados. Lega-os perpetuamente para vós e para vossos herdeiros como parques públicos.Derrubai as arquibancadas. in d iv id u alm e n te .Além disso. ele lega setenta e cinco dracm as.. A cada c id a d ã o ro m a n o .10 Leituras Complementares 255 . .Oh! régio César! A n t ô n i o . dizer-vos. vós o ignorais! Devo. ensaísta e poeta norte-americano. A n t ô n i o .Silêncio! A n t ô n i o . Cultivou um individualismo radical. . .Nunca. . um Estado realmente livre e esclarecido. 1985. Desobediência civil. p. então. vamos embora! Queimemos o corpo dele em lugar sagrado c com as tochas incendiaremos as casas dos traidores! Levantai o corpo! S e g u n d o C i d a d ã o . da qual pinçamos um trecho. estranho ao individualismo egoísta burguês. seus pomares recém-plantados deste lado do Tibre.Silêncio! Ouçamos Antônio!. do qual derivam seu próprio po­ der e sua autoridade”.) Tradução do autor. po­ rém romântico. Grupo Cultural Zero.. Nobilíssimo Antônio! A n t ô n i o . nunca! Vinde. 47-8. até que o Estado reconheça o poder do indivíduo como um poder mais alto e independente.Ouvi-me com paciência! T o d o s .Ide procurar o fogo! T e r c e i r o C i d a d ã o . ten­ do sido aluno e grande amigo de Ralph Waldo Emerson. . .É verdade! O testamento! Fiquemos para escutar o testamento! To d o s . . não sabcis o que ides fazer! Que fez César para assim merecer vossos afetos? Ai. Em sua obra mais conhecida.Amigos. . . . seu individualismo resta patente quan­ do diz: “Não haverá. dadãos transportando o corpo de César. jamais. T o d o s .A q u i está ele c c o m o selo de César. as janelas e tudo! (Saem Ci­ Se g u n d o C id a d ã o .Derrubai os bancos! Q u a r t o C i d a d ã o . formou-se em Harvard. . Dele se disse que não desejava viver o que não c vida. nem praticar a resignação.

conforme se disse. o México perdeu o Texas. Foi graças ao próprio caráter que os americanos conseguiram o que pos­ suem. porque um só homem pode dobrá-lo à sua vontade. terminada com o Tratado de Guadalupe/Hidalgo. mas nem por isso é menos necessário. senão uma tradição. até a posteridade. corre o risco de ser violado e corrompido antes que o povo possa fazer valer sua vontade por seu intermédio. N ão mantém o país livre. esse governo jamais assumiu qualquer responsabilidade espontaneamente. com a maior convicção. Gostaria de vê-lo realizado de uma forma mais rápida e sistemática. para seu próprio proveito. e conseguiriam muito mais se o governo não se intrometesse. que é apenas a forma escolhida pelo povo para fazer va­ ler sua vontade. Observem que no atual conflito mexi­ cano um pequeno grupo utiliza o governo permanente em benefício próprio. Apesar disso. algumas vezes. O mesmo governo. o Novo México e a Califórnia. Quanto ao “atual conflito mexicano” referido na antologia. c to­ dos. embora recente. a cada momento. mesmo. e quando os homens estiverem preparados para ele. As objeções que foram feitas ao exército per­ manente. não passa de um artifício. o povo não deu seu consentimento a esse ponto. O gover­ no americano o que é. É excelente. mas que perde. o lema: “ O melhor governo é aquele que me­ nos governa”. Porque o go­ verno é um recurso mediante o qual os homens conseguiriam viver em paz uns com os outros c. útil. desacreditados os ideais pacifistas de Thomas Jefferson e iniciado o processo imperialista estadunidense nas Américas. Não educa. uma parte de sua integridade? Não tem a vitalidade ou a força de um mero ser huma­ no. todos devemos aceitá-lo. muitas respeitáveis e que devem prevalecer. o governo será tanto mais útil quanto mais deixe em paz os governados. por­ que. tal será a espécie de governo que terão.256 Teoria Geral do Estado Aceito. O exército permanente é apenas o braço do governo perma­ nente. antes de mais nada. trata-se da guer­ ra travada entre os Estados Unidos e o México. Nela. porque as pessoas querem ter uma maquinaria complicada e ouvir seu estrondo para satisfazer a ideia que têm do governo. Desta maneira os governos demonstram com que sucesso é possível enganar os homens e. O governo. incólume. normalmente. Não passa de uma escope­ ta de madeira. especialmente na Amé­ rica do Sul. oxalá também se façam ao governo permanente. nos anos 1846 a 1848. após o que chegaríamos àquele em que também creio: “O melhor governo é o que não governa nada cm absoluto”. . que se esforça por prolongar-se. enganar-se a si mesmos. na melhor das hipóteses. sem maiores preocupações. embora a maioria dos governos. sejam inúteis. N ão pacifica o oeste. a não ser abandonar o próprio rumo.

a imaginação fica estarrecida ante o número formidável de reis que morrem sem ter reinado. p. e como os eleitos po­ dem reeleger os já eleitos. Basta enunciar o slogan: o povo é soberano. estão com a razão e seria completamente inútil continuar a discutir. para não dizer um erro. Assim pois.J. de repente. sem imaginar um povo que consente cm obedecer. Fernando Bastos de Ávila S. O povo é um soberano que não pode exercer a soberania. Por exemplo: suponhamos que existam hoje na França 25 milhões de homens sem contar as mulheres. como sobre tantos outros. Evidentemente. para sentir que ele care­ ce de um comentário. Mas como neste período continua-se a morrer. durante certo tem­ po. é possível que as partes não se tenham feito bem entender.) A soberania do povo O povo é soberano! É o que sc diz. A ver as coisas de modo sumário e num nível mais terra-a-terra. Sobre este ponto. Tudo devia ser feito por intermédio dos homens. 20-5. porque o povo que manda não é o povo que obedece. cada francês se veria eleito soberano. 1972. A Deus não interes­ sava empregar meios sobrenaturais para fundar impérios. Mas então o povo é também vassalo. Se um povo.Livraria José Olympio Editora. terminaria a soberania. porque todos temos um pai e uma mãe. É impossível imaginar uma soberania. é o mesmo que dizer que Deus não é o cria­ dor do homem. aqui se esconde al­ gum equívoco. . eis a explicação. ao menos no sistema francês. Co­ mecemos pois por situar claramente a questão. A coisa come­ ça a se esclarecer. Tem-se discutido com veemência o problema da origem do poder: a sobera­ nia vem de Deus ou dos homens? Não sei se já se observou que as duas alternati­ vas podem ser verdadeiras. exerce a sua soberania através de seus representantes. porque Ele se serve dos homens para a constituir. Somen­ te cada indivíduo do sexo masculino tem sua vez de comandar. e 700 deputados com mandatos de dois anos. O povo. vez por outra. se os adversários da origem divina do poder não pretendem dizer mais que isto. é bem verda­ de que a soberania sc funda no conscntimento humano. . se decidisse cm bloco a não obedecer. Mas é mister examinar com mais seriedade a questão. Se esses 25 milhões de homens fossem imortais e se os deputados não fossem reelcgívcis. numa periodicidade mais ou menos de 3500 anos. Mas dizer que a soberania não vem de Deus.10 Leituras Complementares 257 6) JOSEPH DE MAISTRE O pensamento s o c ia l cristão antes de M arx (Textos e comentários pelo P. Tal comentário não se fará esperar. Mas soberano de quem? Pelo visto de si mesmo.

que Deus seja. sem as quais uma so­ ciedade não pode subsistir. sem as con­ fundir.. Assim. o autor desses mesmos governos. autor especialmente da sociedade. porque na rua será um atropelo. autor de tudo. o povo quer. para inaugurar o governo revolucionário. Foi Deus que assim quis a sociedade e. é apenas como instrumento meramente passivo.. Cartas despachadas dc Paris anunciarão às províncias que a França tem um rei. Talvez não mais do que qua­ tro ou cinco pessoas darão amanhã um rei à França. Sabem qual será sua reação? “ Possível? Que coisa curiosa! Por que porta o rei haverá de entrar? E melhor ir tra­ tando de alugar alguma sacada. ou seja que a forma de go­ verno é estabelecida e proclamada pelo consentimento humano. estas duas proposições: a soberania vem de Deus e a soberania vem dos homens. a soberania vem de Deus.”. também a soberania e as leis.. que não pode existir sem a soberania.. o povo está por fora e se nelas entra. Quanta balela! Nas revoluções. apesar de violar apenas disposições humanas.. Os partidários da origem divina do poder não podem negar que a vontade humana desempenha um certo papel na criação dos governos. por excelência e de modo eminente. Basta pois se entender sobre os termos. As leis vêm pois de Deus. Com estas precauções estamos certos de não nos extraviar e assim podere­ mos aceitar sem riscos o que disse aquele escritor: não venho aqui dizer-vos que a soberania vem de Deus ou que ela vem dos homens. . contentemo-nos em examinar juntos o que há de divino e o que há de humano na soberania.. como não foi o povo que a baniu.” Se voltar a mo­ narquia. porque foi Deus que criou o homem sociável. salvo uns 20. Da mesma forma. F ' as províncias gritarão: Viva o Rei! Em Paris mesmo todos os habitantes.. (Este povo soberano tem alguma interferência na escolha do regime pelo qual será governado? Que papel desempenha ele nas mudanças eventuais de regime?) É muito comum o erro de raciocínio que consiste em pensar que uma even­ tual contrarrevolução só poderia ocorrer como o resultado de uma deliberação po­ pular: “o povo teme. não se contradizem de for­ ma alguma. exce­ to do mal. Mas esta vem também dos homens. e os partidários do sistema oposto não podem negar. pôr as ideias no seu lugar.. haverão de tomar conhe­ cimento de manhã ao acordar que eles têm um rei. essas leis vêm também dos homens. não é do in­ teresse do povo.. neste sentido que Ele quer que existam leis c que se­ jam obedecidas. no entanto. por sua vez.258 Teoria Geral do Estado Todos os teístas haverão de convir que aquele que viola as leis se opõe à von­ tade divina e se torna culpado perante Deus. não será o povo que terá decretado a sua volta. de vez que são eles que as elaboram.. por conseguinte. como também não é contraditório afirmar que as leis vêm de Deus e que elas vêm dos homens. o povo não consentirá jamais.. em certo sentido.

pelos princípios adotados entre os povos livres. interrompidos por breves relâmpagos de ventura. como também fácil. se eu . pro­ víncia ou cantão.que poderei dizer-vos do soldado que. apenas pôde ver cativos com grilhetas e companheiros como armas para destrui-las? Legislador. Editorial Estampa.pelos males que deveis temer das leis que me haveis pedido. eu?.à sombra de tão tenebrosos exemplos? Legisladores! o vosso dever chama-vos a resistir ao choque de dois monstros inimigos que reciprocamente se combatem. nascido en­ tre escravos e sepultado nos desertos da sua pátria. sinto-me dominado pela confusão c pela timidez. As­ . Nenhum objeto pode ser mais importante para um cidadão do que a eleição dos seus legisladores. 151-67. pois estou convencido da minha incapaci­ dade para fazer leis.) Legisladores! Ao oferecer-vos o Projeto de Constituição da Bolívia. ainda que as lições e a experiência nos mostrem apenas vastos períodos de desas­ tres.pelo opróbrio a que me condenais com a vossa confian­ ça. Estas atribui­ ções aproximam-se bastante das que existem no sistema liberal. juizes e pastores. conceder aos representantes imediatos do povo os privilégios que mais podem desejar os cidadãos dc cada departamento. Tende em vista esse mar que ireis sulcar com frágil barca e cujo timoneiro é tão inexperiente. 1977. O vosso engano e o meu compromisso disputam entre si a preferência. digamos assim. e não sei quem so­ fre mais neste horrível conflito: se vós . Os colégios elei­ torais de cada província representam os seus interesses e necessidades e servem de veículo às queixas das infrações das leis e dos abusos cometidos pelos magistrados.. Atrever-me-ia a afirmar com alguma exatidão que esta representatividade partici­ pa dos direitos de que gozam os governos particulares dos estados federados. magistrados. p. O eleitoral recebeu faculdades que não lhe eram assinaladas nos outros governos que se julgam entre os mais liberais.10 Leituras Complementares 259 7) SIM ON BOLÍVAR Discurso perante o Congresso Constituinte de Bolívia (1825) (Lisboa. tendo-se portanto acrescentado mais um. Quando considero que a sabedoria de todos os scculos não é suficiente para criar uma lei fundamental que seja perfeita c que o mais esclareci­ do legislador pode ser a causa imediata da infelicidade humana e ludibrio. Pareceu-me não só conveniente e útil. para depois vos atacarem simultanea­ mente: a tirania e a anarquia constituem um oceano imenso de opressão. Que guia será o nosso . envolven­ do a pequena ilha da liberdade que se vê perpetuamente sujeita à violência das va­ gas e furacões em fúria e que procuram submergi-la. O Projeto de Constituição para a Bolívia está dividido em quatro poderes po­ líticos. Reuni todas as minhas forças para vos expor as opiniões que mantenho sobre o modo de dirigir homens livres.. do seu ministério divino . sem com isso complicar a divisão clássica de cada um dos outros.

Em todos os assuntos entre dois contrários sc nomeará um terceiro para decidir. Não lhe são postas outras exclusões que não sejam as do crime. que nos serviu de modelo. não existindo nobreza. deste modo nenhuma lei útil ficará sem efeito ou. go­ vernadores. adquirindo o governo mais garantias. imparcial. Terá de professar uma ciência ou arte que lhe assegure um alimento honesto. Os senadores criam os códigos e regulamentos eclesiásticos e velam sobre os tribunais e o culto. seria pois absurdo que nos interes­ ses mais árduos da sociedade se desprezasse tal providência ditada por uma neces­ sidade imperiosa. para poderem deliberar ausentes de paixões e com a calma da sabedoria. duas. e o mesmo acontece na América do Norte. O que é verda­ de é que dois corpos deliberantes acabam por combater-se mutuamente. três vezes. Não são exigidas nem capacidades. a discórdia entre duas será sempre resolvida pela terceira. dignidades e cônegos. antes de sofrer a negativa. Cabe ao Senado escolher os prefeitos. como acontece quando existem apenas duas Câmaras. onde a nobreza e o povo estão representados em duas Câmaras. os arcebispos. Dir-me-ão que os Congressos modernos se compõem apenas de duas seções. Tem a seu cargo a inspeção imediata dos ra­ mos que o Executivo administra com menos intervenção do Legislativo. Essa a ra­ zão por que Siéyès apenas defendia a existência de um. é o que o exercício do poder público exige. os juizes do distrito. da ociosidade e da ignorância absoluta. Os censores exercem um poder político e moral que tem certa semelhança com o do Areópago de Atenas e o dos censores de Roma. mas deve o cidadão saber escrever as suas votações. bis­ pos. pelo menos. e a questão examinada pelas duas partes contendentes terá uma. O Corpo Legislativo apresenta uma composição que o torna necessariamen­ te harmonioso entre as diversas partes: jamais se encontrará dividido por falta de um juiz árbitro. à Paz e à Guerra.260 Teoria Geral do Estado sim se colocou novo peso na balança contra o Executivo. nem é ne­ cessário possuir bens para representar a augusta função de soberano. É do pelouro do Senado tudo quanto pertence à religião e às leis. corregedores e todos os subalternos do departamento de Justiça. Pro­ põe à Câmara dos Censores os membros do Tribunal Supremo. será analisada uma. zelando para que a Constituição e os tratados públicos se­ . onde. assinar o seu nome e ler as leis. Saber e honradez. mais popularidade. Cada dez cidadãos nomearão um eleitor c assim se achará representada a na­ ção pelo décimo dos seus cidadãos. podemos to­ davia imaginar que se inspirou naquele país. Assim as Câmaras guardarão entre si as considerações que são indispensáveis para conservar a união do todo. Assim acontece com a Inglaterra. Serão eles os fiscalizadores junto do governo. não dinheiro. Como pas­ sarão a existir três. já que foi sua colônia. novos títulos e distinguindo-se entre os mais de­ mocráticos. Clássico absurdo! A primeira Câmara é a dos tribunos e goza da atribuição de dar início às leis relativas à Fazenda. que a jul­ ga.

Confiaram nele e os destinos de Haiti não vacilaram mais. O presidente da República acaba por ser. os homens e as coisas. A estes sacer­ dotes das leis confiei a conservação das nossas tábuas sagradas. Além disso. o presidente da Bolívia fica privado de todas as influências: não nomeia magistrados. E sob a sua égide se encontra também o Juízo Nacional. o reino. Os sacerdo­ . Com a designação de Petion para presidente vitalício. O presidente da Bolívia participa das faculdades do Executivo americano. ação. Eles condenarão ao opróbrio eterno os usurpadores da autoridade soberana e os crimi­ nosos importantes. nem juizes ou dignidades eclesiásticas.10 Leituras Complementares 261 jam observados com zelo. Esta suprema autoridade deve ser perpétua. a instrução e a im­ prensa. A sua duração é a mesma dos presidentes do Haiti. na nossa Constituição. ainda que se trate de faltas insignificantes. sem que isso implique. Se trans­ gredirem serão acusados. O presidente da Bolívia será menos perigoso que o do Haiti. Nele se estriba toda a nossa ordem. re­ presentaram o mais pequeno perigo para o Estado. pois são eles que devem levantar a voz contra os seus profanadores. Trouxe para a Bolívia o sistema executivo da república mais democrática do mundo. A ilha de Haiti (seja-me permitida esta digressão) encontra-se em permanen­ te insurreição: depois de haver experimentado o império. com direitos para nomear sucessor. como o Sol que. por mais pequenas que sejam. Esta diminuição de poderes ainda ne­ nhum governo bem constituído a sofreu nos nossos dias: ela virá trazer entraves sobre entraves à autoridade de um chefe que sempre se apresentará ao povo sob o domínio dos que exercem as funções mais importantes da sociedade. a república. que deve decidir da boa ou má administração do Executivo. O fiel da glória estará confiado às suas mãos. na tranqüilidade de um reino legítimo. tudo continuou sob o signo Boyer. as artes. nem a sucessão do novo presidente. as ciências. nem a morte desse grande homem. Dai-me um ponto fixo. dá vida ao Universo. firme 110 seu centro. São os censores quem protege a moral. Para a Bolívia esse ponto é o presidente vitalício. Prova triunfante de que um presiden­ te vitalício. e com ele moverei o mundo. e o modo de su­ cessão mais seguro para o bem do Estado. Concederão honras públicas aos serviços c às virtudes dos ci­ dadãos ilustres. dizia um antigo. mas com restrições favoráveis ao povo. mais que nos outros. viu-se forçada a recorrer ao ilustre Petion para que a salvasse. com faculdades de eleger su­ cessor. Cortou-se-lhe a cabeça para que ninguém receie as suas intenções e ataram-se-lhe as mãos para que não cause dano a ninguém. é a inspiração mais sublime na or­ dem republicana. por parte dele. to­ dos os governos conhecidos e alguns mais. A mais terrível e a mais augusta das missões pertence pois aos censores. se torna necessário um ponto fixo à volta do qual devem girar os magistrados e os cidadãos. por isso mesmo. os censores devem gozar de uma inocência intacta e de uma vida sem mancha. uma vez que nos sistemas sem hierarquias.

e os magistrados cm todos os atos públicos. não poderá o presidente esperar complicá-los com as suas ambiciosas pretensões. na América. São estas as suas funções. a honra e a vida. assim a sua influência é nula. Cristóbal. não são. Os aduaneiros e os soldados. Devendo estes ao povo as suas dignidades. os juizes sobre a propriedade. juizes c ci­ dadãos. únicos agentes deste ministério. na verdade. Do primeiro recebe as leis. logo são informados do que os espera. mais forte que os impé­ rios. legisladores: não temais os pretendentes a coroas: elas serão para as suas cabeças a espada suspensa sobre Dionísio (sic). As nossas riquezas eram praticamente nulas. glória e fortuna. alcançará fundar monarquias. parece-me que há razão para ficarmos seguros da usurpação do poder público ser mais longínqua nesta forma de governo do que em qualquer outra. Dessalines. As barreiras constitucionais integram uma consciência política e con­ ferem-lhe a firme esperança de encontrar o farol que a guie entre os escolhos que . E sc o grande Napolcão não conseguiu manter-se contra a ligação de republi­ canos c aristocratas quem. magistrados. jamais será destruída na América. responsável perante os censores e está sujeita à vigilância zelosa dc todos os legisladores. Não há poder mais difícil de manter do que o dc um novo príncipe. Iturbide. O vice-presidente é o magistrado mais manietado que serviu o mando: obe­ dece simultaneamente ao Legislativo e ao Executivo de um governo republicano. Os príncipes flamantes que se afadigam a construir tronos sobre os escombros da liberdade. e entre estas duas barreiras vê-se obrigado a avançar por um caminho angustiado e flanqueado de precipícios. erguerão túmulos para as suas cinzas. Bonapartc. a paz e guerra e a mandar no exército. A administração pcrtencc toda ao ministério. testemunhando no futuro dos séculos a sua fátua ambição pela li­ berdade e pela glória. Se acrescentarmos a esta consideração as que naturalmen­ te surgem das oposições gerais que enfrenta um governo democrático cm todos os momentos da sua administração. c se alguns ambiciosos se empenham em levantar im­ périos. devorador de entraves erguidas e criador de cadafalsos régios? Não. do segundo as ordens. Ape­ sar de tantos inconvenientes. é preferível governar assim a ter nas mãos um impé­ rio absoluto. os mais adequados para lhe captar a aura popular. não logrou triunfar de tal regra. apesar da influência que goza. Obser­ ve-se a natureza selvagem deste continente que só por si exclui a ordem monárqui­ ca. Não existem nobres importantes ou grandes eclesiásticos. Legisladores! A liberdade de hoje. está longe de as­ pirar ao domínio. A igreja. Sem estes dois apoios. vence­ dor de todos os exércitos. e satisfaz-se com a sua conservação. num solo incendiado pelas chamas brilhantes da liberdade. Os limites constitucionais do presidente da Bolívia são os mais estreitos que se conhecem: limita-se a nomear os funcionários da Fazenda.262 Teoria Geral do Estado tes mandam sobre as consciências. os ti­ ranos não são permanentes.

E ainda que um príncipe soberano seja um menino mimado. senhores legisladores. em toda a sua pureza. O Poder Judicial que proponho goza de uma independência absoluta: em ne­ nhuma outra parte tem tanta. são os que constituem a liberdade. fechado no seu palácio. na tremenda crise das repúblicas! O vice-presidente deve ser o homem mais puro: pois se o primeiro magistra­ do não elege um cidadão justo. concertadas com os interesses alheios. a anarquia que é o luxo da tirania e o perigo mais imediato e mais terrível dos governos populares. educado pela adulação e conduzido por todas as paixões. Apoderei-me desta ideia e estabeleci-a como lei. No governo dos Estados Unidos observou-se ultimamente a prática de nomear o primeiro-ministro para suceder ao presidente. com um poder firme e uma ação constante. a segurança. Se o Poder Judicial não tiver esta origem ser-lhe-á impossível conservar. se pusessem à frente da ad­ ministração? Haveria. que estas grandes vantagens se encontram reunidas no presidente vitalício e no vice-presidente hereditário. levando consigo a auréola da popularida­ de e uma prática consumada. em lugar de se ficarem inativos e ignorantes. Estes direitos. mas pelo mérito e. a igualdade. quanto mais útil não é o método que acabo de propor para a sucessão? Que aconteceria se os príncipes fossem eleitos.o mundo supremo. legisladores. este príncipe a que me atreveria a chamar a ironia do homem. Nada c tão conveniente. monarcas mais esclarecidos e dispostos a faze­ rem felizes os povos que governassem. não pela sorte. Reparei no que acon­ tece nos reinos legítimos. todas as garantias da ordem social. Este vice-presidente terá dc esforçar-se por merecer. o crédito que necessita para desempenhar as mais al­ tas funções e esperar a grande recompensa nacional . Sim. A verdadeira constituição liberal está nos códigos civis e penais. e a mais terrível tirania é exercida pelos tribunais . Sendo a herança aquilo que perpetua o regime monárquico e assim acontece na quase generalidade. Quando inicia o exercício das suas novas funções já vai formado. legisladores. pelos seus serviços. e da unidade que a torna forte. os direitos indi­ viduais. O povo apresenta os candidatos. e o Legislativo es­ colhe os indivíduos que hão de formar os tribunais. a monarquia que governa a terra obteve os seus títulos de aprovação da herança que a torna estável. numa re­ pública. O Cor­ po Legislativo e o povo exigirão capacidades c talentos da parte deste magistrado e pedir-lhe-ão uma cega obediência às leis da liberdade. como este método: reúne a vantagem de colocar à cabeça da administra­ ção um indivíduo experimentado no manejo do Estado. O presidente da república nomeia o vice-presidente para que este administre o Estado e lhe suceda no mando. sem dúvida. deverá temê-lo como inimigo encarniçado e suspei­ tar até das suas ambições mais secretas. Considerai. que produzem grandes reveses nas repúblicas. Com esta providência se evitam as eleições. manda no gênero humano. porque conserva a ordem das coisas e a subordinação entre os ci­ dadãos.10 Leituras Complementares 263 a rodeiam: servirão de apoio contra os impulsos das nossas paixões.

Sem responsabilidade. Atrevo-me a instar encarecidamente junto dos legisladores para que ditem leis for­ tes e determinantes sobre esta matéria. que as leis se cumpram religiosamente e se tenham por inexo­ ráveis como o destino.264 Teoria Geral do Estado através do instrumento das leis. legisla­ dores. Toda gente fala em liberdade. De acordo com as ideias em voga. sem repressão. contudo. e que encurtássemos a duração dos pleitos no intricado la­ birinto das apelações. A fiscalização militar é preferível em todos os aspectos aos guardas. Pouco importa. O território da república é governado por prefeitos. esquadra. Pensei que a Constituição da Bolívia devesse reformar-se por períodos. o Estado é um caos. por isso. corregedo­ res. legisladores: os ma­ gistrados. O destino do exército é o de guarnecer a frontei­ ra. A Bolívia não possui grandes costas e por isso é inútil a marinha: apesar disso esperamos obter um dia uma e outra coisa. e que do bem-estar destas resulta a felicidade do Estado. Não pude entrar no regime interno e nas faculdades destas jurisdições. é meu dever recomendar ao Congresso os regulamen­ tos respeitantes ao serviço dos departamentos e províncias. A força armada divide-a em quatro partes: exército dc linha. mas os tribunais são os árbitros das coisas próprias . Não existe responsabilidade. um serviço seme­ lhante é mais imoral que supérfluo. Este ponto é da predileção da ciência legislativa e. que as nações são formadas por cidades e aldeias. Deus nos preserve de ele voltar as armas contra os cidadãos! Basta a milícia na­ cional para conservar a ordem interna. juizes de paz e alcaides. Por isso recomendo uma lei que prescreva um método de responsabili­ dade anual para cada funcionário. Os trâmites da reforma foram assinalados nos termos que julguei mais apropriados ao caso. e entretanto as vítimas deste abuso são os cidadãos. muitas vezes. A responsabilidade dos funcionários fica assinalada na Constituição bolivia­ na da forma mais efetiva. não obstante. mas quase sempre não se passa de palavras. O Poder Judicial contém a medida do bem ou do mal dos ci­ dadãos. e da qual dima- . milí­ cia nacional e fiscalização militar. serão distribuídos através des­ se poder. Geralmente. Foram estabelecidas as garantias mais perfeitas: a liberdade civil é a verdadei­ ra liberdade. segun­ do as exigências do movimento do mundo moral. que é o fim da sociedade. e se houver liberdade e justiça na república. Nunca será demasiada a atenção que prestardes ao bom regime dos departamentos. o Executivo não é mais que um depo­ sitário da coisa pública. Garantiu-se a segurança pessoal. Tende presente. juizes e funcionários abusam das suas faculdades porque não se detêm com rigor os agentes da administração. seria de esperar que proibíssemos o uso da tortura e das confissões. interessa à república guarnecer as fron­ teiras com tropas de linha e tropas de fiscalização contra a guerra da fraude. as outras são nominais ou de pouca influência no respeitante aos ci­ dadãos. bastas vezes desdenhado.das coisas dos indivíduos. a organização política: o importante é que a civil seja perfeita. governadores.

Os preceitos e dogmas sa­ . porque impondo a necessidade tira mérito à fé. mas a religião não se integra em nenhum destes direitos. todos os direitos. Basear um princípio de posse sobre a mais fe­ roz delinqüência só poderá conceber-se com a alteração dos elementos do direito c a perversão mais absoluta das noções do dever. dentro de si pró­ prio: ela apenas tem o direito de examinar a sua consciência íntima. à de um cativo ao serviço de um infame tirano que. coberta de humilhação. parece-me o ultraje mais chocante. Legisladores! Farei agora menção de um artigo que. Aplicando estas considerações.10 Leituras Complementares 265 nam as outras. Ninguém pode violar o santo dog­ ma da igualdade. Por ela devemos fazer todos os sacrifícios. não por usurpadores. no gabinete. Toda lei sobre ela a anula. As leis. Voltará ainda a Inquisição com os seus archotes incen­ diários? A religião é a lei da consciência. velar pelo cumprimento das leis religiosas e atribuir prêmio ou castigo. têm em vista a superfície das coisas: governam fora da casa dos cidadãos. estou convencido que não existe um único boliviano tão depravado que pretenda legitimar a mais insigne vio­ lação da dignidade humana. E se não houvesse um Deus Protetor da inocência e da liberdade. A lei que a conservas­ se seria a mais sacrílega das leis. que é a base da religião. A seus pós colo­ quei. provocasse a ira do céu. para descanso dos vossos concidadãos. Legisladores. Numa Constituição política não deverá prescrever-se uma profis­ são religiosa. Quanto à propriedade. eternizar este crime eivado de suplícios. a infame escravatura. pois a África devastada pelo fratricídio só nos apresenta crimes. porque segundo as melhores doutrinas sobre as leis fundamentais es­ tas são as garantias dos direitos políticos c civis. poderá um Estado reger a consciência dos seus sú­ ditos. quan­ do os tribunais estão no céu e quando Deus é o juiz? Só a Inquisição seria capaz de substituí-los neste mundo. pelo contrário. é de natureza indefinível na ordem social c pertence à mo­ ral intelectual. Transplantadas para aqui estas relíquias das tribos africanas. que lei ou poder será capaz dc sancionar o domínio sobre tais vítimas? Transmitir. a infração dc todas as leis é a escravatura. essa depende do código civil que a vossa sabedoria deverá redigir em seguida. Que direitos poderão ser alegados para que se mantenha? Observe-se este crime sob todos os aspectos. A religião governa o homem em casa. devia omitir. prorrogar. preferiria a sorte de um leão generoso dominando nos desertos e bosques.a igualdade sem ela. desaparecem todas as garan­ tias. E poderá haver escravatura onde reina a igualdade? Uma tal con­ tradição seria mais o vitupério da nossa razão do que da nossa justiça: reputados por dementes. segundo a minha consciên­ cia. Mas não: Deus destinou o homem à liberdade e protege-o para que exerça a fun­ ção celeste do livre-arbítrio. Con­ servei intacta a lei das leis . cúmplice dos seus crimes. Um homem na posse de outro! Um homem proprie­ dade! Uma imagem de Deus subjugada como um animal! Dizei-me: onde estão os títulos dos usurpadores do homem? Foram-nos enviados pela Guiné.

nada mais viu que fosse igual ao seu valor. todos devemos professá-los. os direitos do homem para com a re­ ligião? Esses direitos estão no céu. quais são. as virtudes. ultrapassa todos os limites! Sim: só Deus teria poder para chamar a esta terra Bolívia. porque é au­ mentada a grande família dos povos. neste mundo. mas a minha. além de imortal tem o mérito de ser gratuita porque não merecida. Qual não será o dos seus fundadores . Os pastores espirituais estão obrigados a ensinar a ciência do céu: o exemplo dos verdadeiros discípulos de Jesus c o mestre mais eloqüente da sua divina moral. Sendo tudo isto de juris­ dição divina. O progresso moral do homem é a intenção primeira do legislador. os pais de família não podem descuidar o dever religio­ so para com os filhos. o Corpo Nacional que dirige o poder público para objetos pura­ mente temporais. Deus c os seus ministros são as au­ toridades da religião que atua por meios e órgãos exclusivamente espirituais. Bolívia que quer dizer? Um amor arrebatado pela liberdade e que o vosso impulso ao recebê-la. antecipou-sc todos os meus serviços e é infinitamente superior a quantos bens possam trazer-me os homens. Além disso.o meu! Falar da minha gratidão. mas este dever é moral. lá se encontra o tribunal que recompensa o mé­ rito e faz justiça segundo o código ditado pelo legislador. não é político. Onde está a repúbli­ ca.. mas. nem o que ordena é senhor.e o meu! . ao ver proclamada a nova nação boliviana quão generosas e su­ blimes considerações deverão elevar as vossas almas! A entrada de um novo Esta­ do na sociedade dos outros é motivo de júbilo para o gênero humano. acabais por ligar o meu nome a todas as vossas gerações.. de modo algum. luminosos e de evidência metafísica. Legisladores. quando ela jamais conseguirá alcançar a expres­ são do que eu sinto com a vossa bondade que. Legislar sobre a religião não cabe ao legislador que deve sim prescrever penas às infrações das leis para que estas não se­ jam meros conselhos.vendo-me em igualdade com o mais célebre dos antigos . deverão receber recompensas imortais. parece-me à primeira vista sacrílego e profano misturar as nossas prescrições como os mandamentos do Senhor. Por outro lado. onde a cidade que fundei? A vossa exuberância. Mas o meu desespero aumenta ao contemplar a imensidade do vosso prêmio. a lei deixa de ser lei. quando este progresso é conseguido. Não havendo castigos temporais nem juizes que os apliquem. dedicando-me uma nação. . que mais eficaz se torna quando adquirida por investi­ gações próprias. não me sinto digno de merecer o nome que lhe haveis querido dar-lhe .o Pai da Cidade Eterna! Esta glória pertence de direito aos criadores das nações que. o próprio gênio do maior dos heróis.266 Teoria Geral do Estado grados são úteis. mas a moral não se impõe. o homem apoia a sua moral nas verdades reveladas e professa de fato a religião. porque depois de haver esgotado os talentos. sendo os seus primeiros benfeitores. como a de Deus. nem a força deve ser empregada em dar conselhos. Inebriados por tal explosão de senti­ mentos.

Dentro de cada uma de todas estas classes.10 Leituras Complementares 267 Isto. companheiros. mestre de corporação e companheiro. Legisladores. trad. paulatina­ mente. a apenas dois campos hostis. Tal feito mostrará aos tempos que estão 110 pensamento do Eterno. ligadas a uma progressiva modifica­ ção nas condições de vida. Lima.a única autori­ dade legítima das nações. que é inaudito na história dos séculos. uma cla­ ra divisão da sociedade cm classes diferentes. duas grandes classes que se defrontam: a bur­ guesia e o proletariado! . opressores e oprimidos em confli­ to permanente entre si. 1978. nos­ sa sociedade burguesa se caracterizou pela simplificação dos antagonismos entre as classes. às claras ou dissi­ muladamente. Homem livre e escravo. e que deve perpetuar uma ditosa existência sob as leis ditadas pela vossa sabedoria. Zahar. e o gozo dc serem homens. mestres. a existên­ cia de diversas camadas sociais subordinadas. senhor e servo. se confunde com a his­ tória das lutas de classes. ainda. Desde os primórdios da História. a qual sempre se encerrou. 1981. não aboliu os antagonismos de classe. cavaleiros.. senhores. 1978. de forma tal que a sociedade como um todo vai se reduzindo. levado a efeito numa guerra incessante. Manifesto do Partido Comunista . plebeus e escravos. Laski. provará que sois crcdores dc obter a grande benção do Céu . Global. apenas substituiu as antigas formas de luta por outras. A sociedade burguesa atual. repito. e que decidis na posse dos vossos direitos. Na Roma antiga. vassalos.) I . na calma que se sucedeu à tempestade da guerra. em todos os lugares. é-o ainda mais na história dos desprendimentos sublimes. encontra-se. até hoje existentes. patrício e plebeu. São Paulo. a cada vez. constata-se. Turim. Entretanto. em suma.Burgueses e proletários A história de todas as sociedades. temos os patrícios. Este feito. Einaudi. Regina Lúcia E de Moraes. Rio de Janei­ ro. que é a posse de exercer as vir­ tudes políticas. felizes vós que presidis aos destinos de uma república que nasceu coroada com os louros de Ayacucho. 23 de maio de 1826 8) KARL MARX E FRIEDRICH ENGELS 0 manifesto comunista (Manifesto dei Partido Comunista. O manifes­ to comunista de Marx e Engels. ou pela reestruturação revo­ lucionária da sociedade como um todo ou pela destruição das classes em choque. Harokl J. 2. aprendizes e servos. Na Idade Média.c a Soberania do Povo . com novas classes sociais e novos meios de opressão. ed. que surgiu dos escombros da sociedade feudal.

destes. Cada fase na formação histórica da burguesia veio acompanhada de um processo político correlato: a classe oprimida pelo feudalismo despótico sc organi­ za cm associação armada e autônoma na Comuna. aumentando seu capital e colocan­ do em plano secundário toda classe oriunda da Idade Média. do comércio. em face da divisão do trabalho em cada oficina. o comércio. Conforme se desenvolviam a indústria. continuavam em expansão e a demanda aumentando sem parar. ali. o vapor e as má­ quinas revolucionaram a produção industrial. e como fundamento principal das grandes monarquias. no período manufatureiro. senhores dc verdadeiros exércitos industriais. já não poderia mais atender à crescente demanda dos novos mercados. conquistou afinal o domínio político exclusivo do Estado representativo moderno. Tal redundou numa expansão ainda maior da indústria. da navega­ ção e da indústria. entrementes. A descoberta do Novo Mundo permitiu que a indústria moderna criasse seu mercado mundial. que a burguesia atual é o produto de um longo proces­ so de desenvolvimento. Então. Os mestres das corporações foram substituídos pela pequena burguesia industrial. a burguesia desempenhou um papel revolucionário dos mais significativos. Conclui-se. trazendo com isto o apressamento do processo revolucionário 110 seio da enfraquecida sociedade feudal. os primeiros representantes da burguesia de hoje. Mais tarde. e a classe média industrial ultrapassada pelos capi­ tães dc indústria. com o estabelecimento da indústria moderna e do mercado mundial. Onde conquistou o poder. sendo que este promoveu um espantoso desenvolvimento do co­ mércio. Os mercados. a colonização do Novo Mundo. ela destruiu to­ das as relações feudais. patriarcais e idílicas. Os mercados da índia Oriental e da China. tributário da monarquia (como na França). da navegação e dos meios de comunicação. portanto. para que subsistisse . Dilacerou. de uma escalada de revoluções nos modos de produção e dc troca. o comércio com as colônias. constituindo a bur­ guesia moderna. A manufatura foi substituída pela gigantesca indústria moderna. terceiro estado. nunca antes verificado. cruelmente. A produção manufatureira tomou o seu lugar. O sistema feudal. com sua produção industrial monopolizada por grupos fe­ chados. a na­ vegação e as ferrovias. como contrapeso da no­ breza. os diversos la­ ços que uniam o homem feudal aos seus superiores naturais. república urbana indepen­ dente (como na Itália e na Alemanha). Não há dúvida de que. a burguesia. Neste. A própria manufatura não mais atendia a esta. historicamente. e a divisão do trabalho entre as di­ ferentes corporações foi extinta. a evolução notável dos mecanismos de troca c o aumento das mercadorias cm geral foram os fatores que ensejaram um desenvolvimento. aqui. A descoberta da América e a circunavegação da África abriram para a bur­ guesia emergente novas alternativas. o governo não passa de um órgão destinado a gerenciar os interesses comuns de toda a bur­ guesia. a burguesia se firmava.268 Teoria Geral do Estado Dos servos da Idade Média surgiram os burgueses privilegiados das antigas cidades e.

Walter Stõnncr. São Paulo. o insensível “pagamento a vista” nas relações hu­ manas. cm nome dc todas as liberdades conquis­ tadas. Com mão dc ferro. Ed. estabeleceu a implacável liberdade do comercio. e os países atrasados ou me­ nos evoluídos aos civilizados. 1987. São Paulo. transformar o mundo à sua imagem e semelhança! O sistema burguês submeteu o campo à cidade. se não o fizerem. o poeta. afastou a explo­ ração camuflada pelas ilusões religiosas e políticas. Estudos Político-Sociais. 9) FERDINAND LASSALLE Que é uma Constituição? (O que é uma Constituição política . Manoel Soares. Sua mercadoria barata constitui sua mais poderosa arma. submeteu. Global. também. em síntese. trad. com a ameaça de seu desaparecimento. respeitáveis e veneráveis. mesmo as mais atrasa­ das. e Publ. em trabalhadores assalariados. Fez da dignidade pessoal mero valor dc troca c. obriga todas as nações a adotarem um modo burguês dc produção. reduzindo-as a meras es­ peculações financeiras.10 Leituras Complementares 269 apenas o laço frio do interesse. cínica. o ju­ rista. transformando o médico. de maneira ir­ resistível. capaz dc derrubar até as muralhas da China e de subjugar os bárbaros mais desconfiados. liberando imensos contingentes do embrutecimento da vida rural. Graças ao incrível desenvolvimento dos meios de produção e às facilidades ensejadas pelos meios de comunicação. São Paulo. 1985. Kairós. Col. até então. Sufocou o êxtase sagrado do fervor religioso. trad. 1933. a burguesia consegue atrair. Brasil. do entusiasmo cavalheiresco. Arran­ cou o véu sentimental que envolvia as relações familiares. os povos agrícolas aos povos bur­ gueses. aumentando descontroladamente a população das cidades e esvaziando os campos. Em suma. para adotar a exploração aber­ ta. todas as nações para o seu modelo de civilização. A burguesia retirou a auréola de todas as atividades consideradas.) . Que é uma Constituição?. o padre. Assim como submeteu o campo à cidade. dando origem a gigantescos aglomerados urbanos. o Oriente ao Ocidente. direta e brutal. o homem de ciência. visando. força-as a optarem pelo que ela considera civilização. Que é uma Constituiçãof. do sentimentalismo pequeno-burguês nas águas geladas do cálculo egoísta.

à tarde. seja qual for o seu conteúdo. sem penetrarmos na sua essência. porém. formulo em termos precisos esta pergun­ ta: qual a verdadeira essência. Na imprensa. e porque. a da Prússia ou outra qualquer. ou por isso mesmo. Estas. está claro. entre essas milhares de pessoas que falam desta. Mas isso não seria. Não servem. de nada servirão as definições jurídicas que podem ser aplicadas a todos os papéis assinados por uma nação ou por esta e o seu rei. para responder-nos. . notas explicativas para conhecer juridicamente uma Constituição. nos cafés e nos restaurantes é este o assunto obrigatório de todas as conversas. mas não explicam o que é uma Constituição. E. O u ge­ neralizando. o verdadeiro conceito de uma Constituição? Estou certo de que. responder à minha pergunta. pois. a essência constitucional.270 Teoria Geral do Estado Capítulo 0 que é uma Constituição? Inicio. Primeiramente torna-se necessário sabermos qual é a verdadeira essência de uma Constituição. ou outras parecidas que se possam dar. isto é. e. distanciam-se muito de explicar cabalmente a pergunta que fiz. procurariam o volume que fala da legislação prussiana de 1850 até encontrarem os dispositivos da Constituição do reino da Prússia. depois.como demonstrarei logo . pois para isso se­ ria necessário que explicassem o seu conceito. boa ou má. certamente. porém. factível ou irrealizável. pois. estabelecendo os princípios alicerçadores da legislação e do governo dentro de um país”. Dão-nos critérios. seja ela qual for? Se fizesse esta indagação a um jurisconsulto. estamos ouvindo falar da Constituição e de seus pro­ blemas constitucionais. minha palestra com esta pergunta: o que é uma Constituição? Qual a verdadeira essência de uma Constituição? Em todos os lugares e a toda hora. proclamando-as Constituições. receberia mais ou menos esta res­ posta: “Constituição é um pacto juramentado entre o rei e o povo. Para isso. apesar disso. O conceito de Constituição . limitam-se a descrever exteriormente como se formam as Constituições e o que fazem. para orientar-nos sobre se uma determinada Constituição é.é a fonte primitiva da qual nascem a arte e a sabedoria cons­ titucionais. sejam quais forem. poderemos saber se a Carta Constitucional determinada e concreta que estamos examinando se acomoda ou não às exigências substanciais. pela manhã e à noite. Todas essas respostas jurídicas. existem muito pou­ cas que possam dar-nos uma resposta satisfatória. Não basta apre­ sentar a matéria concreta de uma determinada Constituição. pois existe também a Constituição nos países de governo republica­ no: “A Constituição é a lei fundamental proclamada pelo país. duradoura ou insustentável. porém não esclarecem onde está o conceito de toda Constituição. na qual se baseia a organização do Direito público dessa nação”. iVIuitos. para responder satisfatoriamente à pergunta por mim formulada: onde podemos encontrar o conceito de uma Constituição. nos clubes.

que faz com que a Constituição seja mais do que simples lei. porém. protestamos e gritamos: Deixai a Constitui­ ção! Qual é a origem dessa diferença? Esta diferença é tão inegável que existem. pelo contrário. a lei e a Constituição. não é uma lei como as outras. pergunto: Qual a diferença entre uma Constituição e uma lei? Ambas. Por isso. tem que ser também lei. minha pergunta: Que é uma Constituição? Onde encontrar a verdadeira essência. Uma Constituição. Lei e Constituição Aplicando esse método. pois. senão que. têm. uma Constituição deve ser qualquer coisa de mais sagrado. não protestamos quando as leis são modificadas. Todos esses fatos demonstraram que. quando mexem na Constituição.. no espírito unânime dos povos. Faço outra vez a pergunta anterior: qual a diferença entre uma Constituição e uma simples lei? . po­ deria demonstrá-lo com centenas de exemplos. uma simples lei. Constituições que dispõem taxativamente que a Constituição não poderá ser alterada de modo algum. seria absolutamente supérflua e não teria motivos para ser aprovada. uma essência genética co­ mum. Não pode. mas será necessário obter dois terços dos vo­ tos do Parlamento. criada expressa e exclusivamente para esse fim. Mas.10 Leituras Complementares 271 Repito. existem ainda algumas onde se declara que não é da compe­ tência dos Corpos Legislativos sua modificação. pois no­ tamos. aplicaremos um mé­ todo que é de utilidade pôr em prática sempre que quisermos esclarecer o concei­ to de uma coisa. pois é agora que vamos desvendá-lo. todos nós sabemos que se torna necessário que to­ dos os anos seja criado maior ou menor número de leis. esforçando-nos para pene­ trar clara e nitidamente nas diferenças que afastam uma da outra. por exemplo. para reger. o verdadeiro conceito de uma Constituição? Como o ignoramos. O país. evidentemente. ad hoc. se a nova lei não motivasse modificações no aparelhamento legal vigente. não protesta pelo fato de constantemente serem apro­ vadas novas leis. Este método é muito simples. consta que para reformá-la não é o bastante que uma simples maioria assim o deseje. decre­ tar-se uma única lei que seja nova sem alterar a situação legislativa vigente no momento da sua aprovação. isto é. nem mesmo unidos ao Poder Executivo. e estamos cientes disso. Entre os dois conceitos não existe somente afinidade. Esta. para reformá-la. para que se ma­ nifeste sobre a oportunidade ou conveniência de ser a Constituição modificada. Todavia. que é esta a missão normal e natural dos governos. Baseia-se em compararmos a coisa cujo conceito não sabemos com outra semelhante a ela. deverá ser nomeada uma nova Assembleia Legislativa. noutras. há também desse­ melhança. pois.. necessita a aprovação legislativa. é mais do que isso. de mais firme e de mais imó­ vel que uma lei comum. até.

embora de modo obscuro. isto c. A ideia de fundamento traz. uma exigência da necessidade. aprofundar um pouco mais no assunto. substituindo a outra. Intentemos. ou. se realmente pretende ser merecedora desse nome. podem ser como são ou mesmo de qualquer outra for­ ma.pois de outra forma não poderíamos chamá-la de funda­ mental . “lei fundamental”. de uma força eficaz que toma por lei da necessidade que o que sobre ela se baseia seja assim e não de outro m odo . por exemplo. como já vimos. se é o resultado como preten­ dem os cientistas da força da atração do Sol. quer dizer seria variável. a não ser tal como de fato é. pois. as que possuem um fundamento não. continuamos onde começamos. como poderíamos distinguir uma “lei fundamental” de outra lei qualquer para que a primeira possa justificar o nome que lhe foi assinalado. a verdade que estamos investigando. Sendo a Constituição a lei fundam ental de uma nação. que de nada nos servirá enquanto não soubermos explicar qual é. será . a diferença entre lei fundam ental e outra lei qualquer. é o bastante isto para que o movimen­ to dos planetas seja regido e governado de tal modo por esse fundamento que não possa ser de outro modo. um termo novo. sua trajetória seria casual e poderia variar a todo momento. movem-se de um modo determinado. É possível. repito. existem porque necessariamente devem existir. a noção de uma necessidade ativa . Somente as coisas que carecem de fundamento. 2) que constitua . para sê-lo. se dc fato responde a um fundamento. atuar e irradiar através das leis comuns do país. 3) mas as coisas que têm um fundamento não o são assim por um capricho. como indica seu próprio nome: “fundamental”. meus senhores. em outros termos.e agora já co­ meçamos a sair das trevas . assim formulada. a lei fundamental. esta interrogação: como distinguir uma lei da lei fundam ental? Como podeis ver. A lei fundamental. com que todas as outras leis e instituições jurídicas vigentes no país sejam o que real­ . O fundamento a que respondem não permite serem de outro modo. implicitamente. Para isso será necessário: 1) que a lei fundamental seja uma lei básica .o verdadeiro fundamento das outras leis. pois aqui rege a lei da necessidade. que nesta resposta se en­ contre. que são as casuais e as fortuitas. ou. mais do que as outras comuns.272 Teoria Geral do Estado A esta pergunta responderão: Constituição não é uma lei como as outras. não poder deixar-nos satisfeitos. Mas a mes­ ma. pois. Este movimento res­ ponde a causas. Mas. dc forma bastante confusa. deverá. ou melhor. a fundamentos exatos. indagando que ideias ou que noções são as que vão associadas a esse nome de4 4 lei fundamentar’. é uma lei fundam ental da nação. uma força ativa que faz. Imediatamente surge.qualquer coisa que logo poderemos definir e esclare­ cer. deverá informar e engendrar as ou­ tras leis comuns originárias da mesma. ou não? Se não existissem tais fundamen­ tos. Os planetas. Somente ganhamos um vocábulo novo.

de tal forma que. Esta Coleção imprime-se numa tipografia concessionária instalada em Berlim. desde os alicerces até o telhado.estamos no terreno das suposições . Naturalmente.. e em outros arquivos. em substância. e esta incógnita que estamos investigando apoia-se. nos fatores reais do poder que regem uma determinada sociedade. o que são e como são sem poder ser de outro modo f Capítulo II Os fatores reais do poder Sim. que o sinistro destruísse também a tipografia concessionária onde se imprimia a Cole­ ção legislativa e que ainda. não interessa sabermos se o fato pode ou não acontecer. Vamos supor.e fazendo esta per­ gunta os horizontes clareiam . que um grande incêndio irrompesse e que nele se queimassem todos os arquivos do Estado. Julgai que neste caso o legislador. poderia fazer leis a ca­ pricho de acordo com o seu modo de pensar? A m onarquia Suponhamos que os senhores respondam: visto que as leis desapareceram e que vamos redigir outras completamente novas. será que existe em algum país . Suponhamos ainda que o país. completamente livre. Suponhamos isto. como vou expô-lo. por uma triste coincidência . outras quaisquer: M uito bem. Os fatores reais do poder que regulam no seio de cada sociedade são essa força ativa e eficaz que informa todas as leis e instituições jurídicas da sociedade em apre­ ço. existem sem dúvida. que as obrigue a serem necessariamente. a não ser tal como elas são. Porém. embora quisessem. pergunto eu. não podem decretar.alguma força ativa que possa influir dc tal forma que todas as suas leis. até certo ponto. simplesmente.igual desastre se desse em todas as cidades do país. este exemplo. desaparecendo in­ clusive todas as bibliotecas particulares onde existissem coleções. determinando que não possam ser. naquele país. a partir desse instante. todas as bibliotecas públicas. não pode realmente acontecer. dc tal maneira que em toda a Prússia não fosse possível achar um único exemplar das leis do país. por um momento. mas sim o que o exemplo nos possa ensinar se este chegasse a ser realidade. . embora este exemplo possa dar-se dc outra forma. Vou esclarecer isto com um exemplo. por causa deste sinistro. bibliotecas e depósitos guardam-se as coleções le­ gislativas impressas.10 Leituras Complementares 273 mente são. Os originais das leis guardam-se nos arquivos do Estado. ficasse sem nenhuma das leis que o governavam e que por força das circunstâncias fosse necessário de­ cretar novas leis. Não ignoram os meus ouvintes que na Prússia somente tem força de lei os tex­ tos publicados na Coleção legislativa.

sem excluir a grande indústria. Entre outros motivos. as fábricas e a produção mecanizada. Como podeis ver. não respeitaremos prerrogativas nem atri­ buições de espécie alguma. e. efetivo. das baionetas e dos canhões.. cada vez menor. formando somente eles uma Câmara Alta que fiscaliza os acordos da Câmara dos Deputados. por . É sabido que o “grande” capital não poderia. há dc possuir tanta influencia nos destinos do país como os restantes milhões de habitantes reunidos. Vejam. O monarca responderia assim: podem estar destruídas as leis. a realida­ de é que o Exército subsiste e me obedece. eleita esta pelos votos de todos os cidadãos. quer dizer. pois. acatando minhas ordens. mais ainda. mas não ao pequeno proprietário. é uma parte da Constituição. entre os quais somente existe um punhado cada vez menor de grandes pro­ prietários de terras pertencentes à nobreza. Não sabemos por que esse punhado. Imaginemos que os meus ou­ vintes dissessem: destruídas as leis do passado. porém. não tolero que venham impor-me posições e prerrogativas em desacordo comigo. Reconheço que não seria fácil à nobreza atirar contra o povo que assim pen­ sasse seus exércitos de camponeses. isto é. como se este aparelhamento da força estivesse “ diretamente” ao seu dispor. da Câmara senhorial. não queremos a monarquia. recusando sistematicamente todos os acordos que julgarem prejudiciais aos seus interesses. dc grandes proprietários agrícolas. de forma alguma. a suposição de que o rei e a nobreza aliados entre si para restabelecer a organização medieval. porque neste regime se levantaria uma série de barreiras legais entre os diversos ramos de produção. A aristocracia Suponhamos agora que os senhores dissessem: somos tantos milhões de prus­ sianos.274 Teoria Geral do Estado nelas não reconheceremos à monarquia as prerrogativas que até agora gozou ao amparo das leis destruídas. apoiado neste poder real. a realidade é que os comandantes dos arsenais e quartéis põem na rua os canhões e as baionetas quan­ do eu o ordenar. um rei a quem obedecem o Exército e os canhões. Possivelmente teriam mais que fazer para li­ vrar-se deles. progredir e mesmo viver sob o sistema medieval. como uma nobreza influente e bem vista pelo rei e sua cortc é também uma parte da Constituição. aplicada a toda a organização social. “para nada”. somos todos “iguais” e não preci­ samos absolutamente. enfim. pretendessem impor o sistema que regeu na Idade Média. A grande burguesia Ocorre-me agora assentar o suposto ao inverso. Mas a gravidade do caso está em que os grandes fazendeiros da nobreza tive­ ram sempre muita influência na Corte e esta influência garante-lhe a saída do Exér­ cito e dos canhões para seus fins. impedindo-se seu desenvolvimento sob aquele regime..

animando-a com a sua influência. também. fechariam as suas fábricas despedindo os seus ope­ rários. abertamente lesivas aos interesses dos grandes banquei­ ros. exigindo pão e trabalho. Suponhamos isto e tam­ bém que ao Banco da Nação pretendesse dar a organização adequada para obter esse resultado. nestas condições e a despeito de tudo. estabelecer-se-ia por lei a quantidade estrita dc produção de cada industrial e cada indús­ tria somente poderia ocupar um determinado número de operários por igual. . A grande indústria exige. Que viria a acontecer se. Atrás dela. sobretudo . não poderia progredir com uma Constituição do tipo gremial. a gran­ de burguesia. Os banqueiros Suponhamos. Demonstrara-se. viria fatalmente à luta. Ademais.. os grandes industriais. que é a de baratear mais ainda o crédi­ to aos grandes banqueiros e aos capitalistas que possuem por razão natural todo o crédito e todo o dinheiro do país e que são os únicos que podem descontar as suas firmas. que obtêm numerário naquele estabelecimento bancário para to­ mar acessível o crédito à gente humilde e à classe média. entre as corporações dos fabricantes de pregos e os ferreiros existiriam constantes processos para deslindar as suas respectivas jurisdições. Poderia isto prevalecer? Não vou dizer que isto desencadeasse uma revolta. obstinadamen­ te implantassem hoje a Constituição gremial? Aconteceria que os senhores Borsig. mas o governo atual não poderia impor presentemente medida semelhante. quer dizer. sustentando-a e alentando-a com o seu dinheiro. a estamparia não poderia empregar em sua fábrica somente a um tintureiro etc. que o governo pretendesse implantar uma des­ sas medidas excepcionais. por exemplo. que o Banco da Nação não foi criado para a função que hoje cumpre. que esse mesmo governo entendesse. Isto basta para compreender que a grande produção. na qual o triunfo não seria certamente das armas. enfim. sob o sistema gremial daquele tempo. instigando-a com o seu prestígio. por exemplo. sem restrições. Egels.10 Leituras Complementares 275 muita afinidade que os mesmos tivessem. Neste caso. ne­ cessitando ao mesmo tempo da produção em “massa” e a livre concorrência. e nenhum industrial poderia reunir duas ou mais indústrias em suas mãos. ampla liberdade da fu­ são dos mais diferentes ramos do trabalho nas mãos de um mesmo capitalista. O comércio e a indústria ficariam paralisados. uma parte da Constituição. e até as companhias de estrada de ferro seriam obrigadas a agir da mesma forma. isto é. por um instante. que os Borsig. são todos. grande número de pequenos industriais seria obrigado a fechar suas oficinas e esta multidão de homens sem tra­ balho sairia à praça pública pedindo. a indústria mecanizada. a possibilidade de empregar quantos operários necessitar. Egels etc. assim. os fabricantes dc sedas etc.e necessita como o ar que respiramos -. os grandes industriais de teci­ dos.

sim. se pre­ tendesse transformar pessoalmente o trabalhador em escravo ou servo. A pequena burguesia e a classe operária Imaginemos agora que o governo. mas isto requer tem­ po. por esse motivo. ten­ tasse privar das suas liberdades políticas a pequena burguesia e a classe operária. ou. Para conseguir o dinheiro. como Mendclssohn. poderia. da cultura coletiva e da consciência social do país. resta a alterna­ tiva dc consumir dinheiro futuro. e não pequenas. Nesses casos. dentro de certos limites. É que. contrair empréstimos. e até os sisudos senadores teriam de discordar de tamanho absur­ do. mais dia menos dia. querendo proteger c satisfazer os privilégios da nobreza. De vez em quando o governo sente apertos financeiros devido à necessidade de investir grandes quantias de dinheiro que não tem coragem de tirar do povo por meio dc novos impostos ou aumento dos existentes. também a consciência coletiva e a cultura geral da Nação são partículas. indispor-se com eles. Poderia fazê-lo? Infelizmente. Todos os funcionários. Estes inter­ mediários são os grandes banqueiros c. É certo que. com toda a energia possível. isto é. Mas. dos banqueiros. que os grandes banqueiros. senão sua liberdade pessoal. ou em pequenos prazos. e se o governo pretendesse tirar à pequena burguesia e ao operariado não somente as suas liberdades políticas. pouco a pouco.276 Teoria Geral do Estado Demonstrarei por quê. do papel da dívida locupletando-se também com a alta da cotação que a esses títulos lhe dá a Bolsa artificialmente. de intermediários que lhe adiantem as quantias de que precisa. entregando. embora estivessem aliados ao rei a nobreza e toda a grande burguesia. mesmo que fosse transitoriamente. Para isto necessita dos banqueiros. Suponhamos que o governo intentasse promulgar uma lei penal semelhante à que prevaleceu durante algum tempo na China. mais uma vez. tornando-o à situação em que viveu durante os tempos da Idade Média? Subsistiria essa pre­ tensão? Não. são também partes da Constituição. burocratas e conselheiros do Estado ergueriam as mãos para o céu. a maior parte daqueles títulos da dívida vol­ ta às mãos da gente rica e dos pequenos capitalistas do país. Vemos. pois contra ela se levantaria o protesto. os fatos nos de­ monstram que poderia. . e o governo necessita do dinheiro logo e de urna vez. às vezes muito tempo. o papel da dívida pública. hoje em dia. correndo depois por sua conta a colocação. isto é. a Bolsa. da Constituição. dos grandes industriais c dos grandes capitalistas. o que é a mesma coisa. punindo na pessoa dos pais os rou­ bos cometidos pelos filhos. serve-se dos particulares. a nenhum governo con­ vém. Essa lei não poderia reger. cm troca do dinheiro que recebe adiantadamente. Schickler.

somos uma parte integrante da Constituição. Daí a sua força. O cidadão estava submetido em todas as coisas e sem reserva alguma à cidade. em essência. isto se define de outra maneira mais limpa. Sousa Costa. Está claro que não aparece neles a declaração de que o senhor Borsig. o povo são um fragmento da Constituição. e quem atentar contra cies atenta contra a lei. Não desconheceis também o processo que se segue para transformar esses escri­ tos em fatores reais do poder. a Constituição de um país: a soma dos fato­ res reais do poder que regem um país. Juntam-se esses fatores reais do poder. Clássica de A. incorporados a um papel. gritando: antes morrer do que ser escravo! A multidão sairia à rua e não haveria a necessidade de que seus patrões fechassem as fábricas. mas sim verdadeiro direito. 10) FUSTELDECOULANGES A cidade antiga (Trad. em síntese. dá-sc-lhcs expressão escrita e. 2. Numa sociedade estabelecida sobre tais princípios. pois nos casos extremos c desesperados também o povo. nas instituições jurí­ dicas. não são simples fatores reais do poder. a partir desse momento.10 Leituras Complementares 277 Seria tempo perdido. 1. mais diplomática. v. O povo protestaria. ou que o banquei­ ro X é também outro pedaço. os antigos não co n h e ce ra m a liberdade individual A cidade foi fundada sobre uma religião e constituída como uma igreja. a nobreza. a liberdade individual não podia existir. ed. dali também a sua onipotência e o império absoluto que exercia sobre os seus membros. pertencia-lhe inteiramente. Mas que relação existe entre o que vulgarmente denominamos Constituição e a Constituição jurídica? Não é difícil compreender a relação que os dois concei­ tos guardam entre si. transformando-os desta maneira em fatores jurídicos. a pequena burguesia juntar-se-ia solidariamente ao povo e a resistência desse blo­ co seria invencível. A religião que criara o Estado e o Estado que sustentava a religião reciprocamente se auxiliavam e formavam um . nós to­ dos. Teixeira. e por conseguinte é punido. o in­ dustrial.. escrevemo-los em uma folha de papel. Lisboa.) Capítulo XVIII Da onipotência do Estado. M . não. Capítulo III Os fatores do poder e as instituições jurídicas Essa é.

não tinha o direito de viver isolado. Era vulgar que a forma de vestir fosse determinada pelas leis dc cada ci­ dade. Aquela que sabia que nunca mais veria o seu. que sabia que o filho escapara do desastre c ia tornar a vê-lo. o pai não tinha direito algum sobre a educação . A mãe. exigia que se rapasse o bigode. Há na história de Esparta um fato muito admirado por Pintarcho e Rousseau. a perda do direito de cidade. a quem nascesse assim um filho. Esparta punia não só aquele que não casava. O Estado tinha o direito de não tolerar que os seus cidadãos fossem disfor­ mes ou contrafeitos. Em Rodes. Em Esparta. Os seus haveres es­ tavam sempre à disposição do Estado. aquele que quisesse estar afastado das fac­ ções infligia a lei uma pena severa. Num tempo em que as dis­ córdias eram freqüentes. O Estado não admitia que um homem fosse indiferente aos seus interesses. em Marselha. Muitas cidades gregas proibiam ao homem o ficar celibatário. em Locres. Tinha o dever de votar na assembleia e de ser. em Esparta. em Atenas. em Atenas e em Esparta toda a vida. Não sabemos se também existia em Atenas. a lei proibia aos homens beber vinho puro. Esparta acabava de ser derrotada em Lentra e muitos dos seus cidadãos tinham mor­ rido. em Roma. O Estado. Era 110 que o Estado ti­ nha mais predomínio.278 Teoria Geral do Estado só corpo. mostra­ va alegria e percorria os templos agradecendo aos deuses. pelo contrário. ordenava ao pai. mostrava-se aflita c chorava. mas o que casava tarde. O seu corpo pertencia ao Es­ tado c estava voltado à sua defesa. magistrado. aos donos das oliveiras que lhe cedessem gratuitamente o azeite fabri­ cado. aos credores o abandono das dívidas. a legislação de Esparta regulava o penteado das mulheres e a dc Atenas proi­ bia-lhes levar cm viagem mais dc três vestidos. os parentes dos mortos foram obrigados a aparecer em público dc cara alegre. A vida privada não escapava a esta onipotência do Estado. a lei ateniense não permitia ao cidadão a neutralidade. A esta notícia. No homem nada havia que fosse independente. o filósofo. em Esparta. a ociosidade. em Bizâncio. Tal era o poder do Esta­ do que ordenava a transposição dos sentimentos naturais e se fazia obedecer. punia com uma multa quem possuísse uma navalha de barba. que o matasse. Por conseqüência. de­ via combater com um ou outro partido. a lei proibia o fazer a barba. sabemos só que Aristóteles e Platão a inscreveram nas suas legislações ideais. A educação entre os gregos estava longe de ser livre. Exercia a sua tirania até nas mais pequenas coisas. estes dois poderes associados e confundidos formavam um poder quase sobre-humano. por seu turno. Encontra-se esta lei nos antigos códigos de Esparta e de Roma. em Mileto. o homem de estudo. podia ordenar às mulheres que lhe entregassem as joias. ao qual a alma c o corpo estavam igualmente subordinados. em Roma o serviço militar era obrigatório ate aos quarenta c seis anos. proibia-o às mulheres. se a cidade tinha necessidade de dinheiro. podia prescrever o trabalho.

e uma outra que proibia especialmente en­ sinar filosofia. nem a da educação. o que o Estado puniria severamen­ te. Podia odiar-se ou desprezar-se os deuses da cidade vizinha. mas a cidade tinha o direito de expulsá-lo do seu território pelo único motivo de Aristides ter adquirido. em Megara. encontrava-se em Argos. Os antigos não conheciam. Ensinava-lhe ginástica. numa eloqüente passagem. Aristides certamente não cometera crime algum e nem mesmo se tor­ nara suspeito disso. O Estado não tinha só. Nisso haveria uma grande impiedade que atingiria a religião e o Estado ao mesmo tempo. que. Reconhecia-se ao Estado o direito de impedir que houvesse um ensino livre ao lado do seu. mostra-nos as crianças de Atenas a caminho da es­ cola. se ele quisesse. porque os filhos são menos de seus pais do que da cidade” . podia tornar perigosa. portanto. e Aristóteles dava a entender que existia em todas as cidades gregas que ti­ . A pessoa humana tinha pequeníssimo valor perante essa autoridade santa e quase divina. queria formar esse corpo e essa alma de modo a tirar dele o melhor par­ tido. Cibele ou Juno. os hinos e as danças sagradas. O Estado considerava como pertença sua o corpo e a alma do cidadão. Parece que em Arenas a lei foi menos rigorosa. Sócrates foi condenado à morte por esse crime. quanto às divindades de um caráter geral e universal. tinha-se liberdade de crer nelas ou não. A legislação ateniense punia com forte pena aqueles que se abstivessem de ce­ lebrar religiosamente uma festa nacional. distribuídas por bairros. ou do Erechtea ou de Cecropa. Aristófanes. figurar em todas as procissões. Chamava-se a isso ostracismo. à neve ou ao sol forte. Atenas promulgou um dia uma lei que proibia instruir os moços. por suas virtudes. caminham em filas cerradas. Podia punir sem que houvesse culpa e só porque o seu interesse es­ tava em jogo. porque o corpo do homem era uma arma para a cida­ de. como Júpiter Celeste. essas crianças mostram compreender que cumprem um dever cívico. por ordem. um direito de justiça relativamente aos cidadãos. à chuva. tomar parte nos repastos sagrados. que se chamava pátria ou Estado. influência demasiada. Esta ins­ tituição não era particular a Atenas. embora a cidade obrigas­ se a que a educação fosse comum e dada por mestres escolhidos por ela. como nas sociedades modernas. sem uma autorização dos magistrados. Deviam conformar-se com todas as regras do culto. em Siracusa. por isso. O Estado queria ser só a dirigir a educação c Platão diz o motivo desta exi­ gência: “Os pais não devem ter liberdade de enviar ou não os seus filhos para os mestres que a cidade escolheu. Mas cuidado em não duvidar da Athene Poliada. Ensinava-lhe também os cantos religiosos. Devia crer na religião da cidade e sub­ meter-se a ela. A liberdade de pensar sobre religião era absolutamente desconhecida entre os antigos. porque se precisava deste conhecimento para a boa execução dos sacrifícios e das festas da cidade. O homem não tinha escolha dc crenças. nem a religiosa. e esta arma devia ser tão forte e tão manejável quanto possível.10 Leituras Complementares 279 do filho. nem a liberdade da vida privada.

o ostracismo não era um castigo. provém dessa constituição assim como os órgãos respiratórios dos peixes se adaptam com a sua vida aquática.280 Teoria Geral do Estado nham um governo democrático. Veremos. pelo contrário. Francisco Luiz Gonçalves. a mesma e a sua onipotência não diminuiu. portanto. . nenhuma garantia havia para a vida do homem. poder scr arcontc. quando. Em todas as manifestações de vida de uma nação. pela qual cra permitido matar qualquer homem que tivesse a intenção de se tornar rei. O governo denominou-se alternativamente monarquia. 109-27. Sem o prévio conhecimento da constituição mental de um povo. 1910. dentro em pouco. a sua vida apresenta-se-nos como a conseqüência regular e fatal dos seus caracte­ res psicológicos. Não julgava que pudesse existir direito em frente da cidade e dos seus deuses. aristocracia. encontramos sempre a alma imutável da raça elaborando o seu próprio destino. a história deste transforma-se num caos de acontecimentos. isto devido. um erro singular. democracia. pouco mais ou menos. sem dúvida. eis o que eu chamava liberdade. pode considerar-se como a simples expo­ sição dos resultados produzidos pela constituição psicológica das raças. a alma de um povo nos é conhecida. isto c. a liberdade individual. mas a natureza do Estado ficou. Agostinho Fortes. Ter direitos políticos. nomear magistrados. mas nenhuma dessas revoluções deu aos homens a verdadeira liberda­ de. exageravam sempre a importân­ cia e os direitos da sociedade. p. votar. Os antigos. c sobretudo os gregos. A máxima funesta de que a salva­ ção do Estado é a lei suprema foi formulada pela antiguidade. mas o homem estava subordinadíssimo ao Estado. acreditar que nas cidades antigas o homem gozava liberdade. era uma precaução tomada pela cidade contra um cidadão que ela suspeitava que podia um dia incomodá-la. tudo devia ceder perante o interesse da pátria. Pensava-se que o di­ reito. Ora. nas suas grandes linhas. por falta de afeto para com o Estado. Lisboa. entre todos os erros humanos. que o governo muitas vezes mudou de forma. Como as instituições derivam da alma dos povos A história. a moral. 11) GUSTAVELEBON Leis psicológicas da evolução dos povos Trad. ao caráter sagrado e religio­ so que a sociedade originariamente revestiu. Roma promulgou uma lei. É. Em Atenas podia acusar-se e condenar-se um homem por incivismo. Não tinha sequer a mais ligeira ideia dela. a justiça. que parecem provir meramente do acaso. Desde que se tratasse do interesse da cidade.

tanto ela e. dispensando estes de manifesta­ rem qualquer movimento de reflexão c de iniciativa. a continuação do ideal monárquico e a expressão de gênio da raça. radicais. Quer o poder posto à frente do Estado se chame rei. se apenas nos ativermos as aparências. confessariam que um ministro por eles encarregado de exe­ cutar os seus planos não teria conseguido realizar melhor os seus desígnios e diriam que o menos revolucionário dos governos franceses foi precisamente o da revolução. o que facilmente provaremos com alguns exemplos. Intransigentes. apresentariam algumas críticas e fariam. verificariam. Se. a regular e absorver tudo. na realidade. cm que os partidos parecem mais divergentes. a grande voz dos mortos que é quem nos guia. observar que . a ideia de que um governo novo fará a nossa sorte mais feliz. tentou alterar semelhante obra. presidente. procuram com etiquetas diversas atingir um fim perfeitamente idêntico. um dos países que mais sujeitos tem estado às mais profundas alterações. quer imperador. esse poder. portanto. Sem dúvida. porventura. a revolução não fez mais do que continuar a tradição real. na realidade. estas opiniões aparente­ mente tão divergentes. mais radical­ mente as instituições políticas parecem ter mudado. estes partidos incessantemente em luta. ou qualquer outra coisa. nada é mais diferente do antigo regime do que o que foi criado pela nossa grande revolução. Luís XIII e Luís XIV. estes ilustres fantasmas. país em que. Consideremos primeiro a França. nas instituições políticas que mais visivelmente se manifes­ ta o poder soberano da alma da raça. O poder inconsciente da alma da nossa raça é tamanho. na realidade. em poucos anos. monárquicos. Nem esta consentiria outro. acabando a obra da centralização. o Estado a dirigir tudo. principalmente. Se encararmos. mas considerá-la-iam rigorosamente em harmonia com as suas tradições e com os seus programas. condena-nos a só mudar­ mos palavras e aparências. Na verdade. em uma palavra todos os defensores das mais diversas doutrinas. devido à sua gran­ de experiência. o fruto de urna evolução regular. o nosso extremo nervosismo. que. socialis­ tas. ou seja. é fora de dúvida que censurariam algumas das violências que acompanharam a sua reali­ zação. se se erguessem de seus túmulos para julgarem a obra da revolução. nos levam a mudarmos incessantemente as nossas ins­ tituições. seja qual for. a absorção do indi­ víduo pelo Estado. a nossa extraordinária facilidade em estarmos descontentes com o que nos cerca. precisamente re­ presentante do ideal da nossa raça. há séculos já iniciada pela monarquia.10 Leituras Complementares 281 É. nenhum dos diversos re­ gimes que se têm sucedido na França. de há um século a esta parte. po­ rém. além disso. regulamentando os mais insignificantes pormenores da vida dos cidadãos. que é a expressão dos sentimentos da alma da raça. pelo critério psicológico. e sem dar por isso. forçosamente há dc ter o mesmo ideal. verificaremos que. têm todos um fundo comum perfeitamente idêntico. que nem sequer percebemos as ilusões de que somos vítimas. O que todos com o mesmo ardor querem é o velho regime centralizador e cesarista.

Pode porventura. e as leis permanentes que temos procurado determinar. os mil laços que hoje cercam o mais insignificante ato da vida. precisamente como a areia revolta pela tem­ pestade. a redução ao mínimo da ação do Estado e o desenvolvimento máximo da ação dos particulares. as leis fundamentais. por acaso. caminhos dc ferro. que parece escapar momentaneamente às leis da atração. É 110 povo e não em circunstâncias exteriores que deve­ . cuja constituição psicológica é muito diferente da nossa. e provável é também que fizessem notar que. despojando o cidadão de toda e qualquer iniciativa. ou ti­ rá-las a um que as possua. Não insistiram muito. Ao exemplo precedente podemos opor o de uma outra raça. preocupando-se muito pouco com a liberdade e muito com a igualdade. que mencionamos no começo desta obra. por isso que só ele. Portos. quando o Es­ tado haja absorvido e regulamentado tudo. o que é pre­ cisamente o contrário do ideal latino. nas instituições dum povo. é possível também que achassem bastante excessivos e assás tirânicos os inumeráveis regulamentos. de que a re­ volução do século XVIII foi apenas uma fase aceleradora. a elas se subtrai. motivo este pelo qual as suas instituições se afastarão também radicalmente das nossas. possui tradições. Quer os ingleses tenham à sua frente um monarca. nos encontraremos espontaneamente. canais. a in­ glesa. Tem-se dito muitas vezes que os povos têm os governos que merecem. considerando que os povos latinos. provêm do caráter dos povos. conceber-se que tivessem outros? Daqui a pouco mostraremos com diversos exemplos que um povo se não sub­ trai às conseqüências da sua constituição mental. 011 que. em pleno socialismo. É pura quimera pensar-se que os governos e as constituições têm alguma ação nos destinos de um povo. criam o des­ tino das nações. se criara 110 Estado um poder impessoal mais temível que o da antiga nobreza. estabele­ cimentos de instrução. nem constituições. facilmente suportam todos os despotismos. o seu governo apre­ sentará sempre as mesmas características fundamentais. isto é. escapando às mudanças políticas. des­ de que estes sejam impessoais. espírito de corpo­ ração. uma série de condições que necessariamente o levarão a ser senhor único. As circunstâncias acidentais criam os nomes.. encontramos ao mesmo tempo as circuns­ tâncias acidentais. entre os ingleses. como na Inglaterra. é apenas por instantes rápidos. nesta objeção. e sem o auxílio de qualquer outra revolução. Assim. Mas então as luzes divinas que iluminam os reis. quer um presidente como nos Estados Unidos da América do Norte. ausência de responsabilidade e perpetuidade. permitir-lhes-iam conceber que o socialismo não é mais do que a expressão última da ideia monárquica. etc. as aparências. serão sempre construídos e conserva­ dos pela iniciativa dos particulares e nunca pela do Estado. à falta delas as luzes matemáticas que ensinam que os efeitos aumentam em progres­ são geométrica quando as mesmas causas subsistam. nem déspotas que possam dar a um povo que as não possua. não há revoluções. as qualidades de caráter de que as suas instituições de­ rivam. se. acreditamo-lo. e estas.282 Teoria Geral do Estado tendo sido substituída a casta aristocrática governamental pela casta administrativa.

com o pretexto de que a respiração aérea cabe a todos os animais superiores. Não há governos nem instituições que possamos chamar absolutamente bons ou maus. deixando-os viver com as leis que lhes eram próprias. Ora. Esta é formada por dois continentes distintos. o eslavo e o húngaro. em que vivem. estrangeiros. Escrever-se-iam muitos livros. Vamos agora mostrar com exemplos muito precisos a que ponto a alma de um povo rege os destinos deste e o insignificante papel que as instituições desempenham nesses destinos. O governo do rei dc Daomé cra provavelmente um governo excelente para o povo que administrava. divergindo apenas no caráter. tomá-los-emos em uma região. rivais. ao lado uma da outra. reunidos por um istmo. lhe é todavia impossível mudar-lhes o fundo. portanto. as superfícies de cada um . por outro lado porque o dos senhores. se quiséssemos indicar todas as conseqüências da constituição psicológica dos povos. quando têm tido alguma duração. se os povos pudessem evitar os fatalismos de raça. tem sido. refazer-se-ia até toda história sob um critério novo. povo esse para que seria má a mais sábia constituição europeia. porque as raças em presen­ ça eram por tal forma numerosas c diferentes c. que po­ vos diferentes não poderiam por muito tempo subsistir sob um regime idêntico. E devido apenas ao fato da diversidade da sua constituição mental. se a esse povo é fácil mudar as formas das ins­ tituições. tiveram instinto político bastante hábil que os levou a respeitarem os costumes dos povos conquistados. É isto o que desgraçadamente ig­ noram os estadistas que imaginam ser um governo objeto de exportação e que. se a voz da razão não fos­ se sempre abafada pela voz imperiosa dos mortos. Capítulo II A p lica ç ã o dos princípios pre cedentes ao estudo com parado da evolução dos Estados Unidos da A m érica do Norte e das Repúblicas H ispano-A m ericanas As breves considerações precedentes mostram que as instituições de um povo são a expressão da sua alma e que. pelo fato da existência. Estes exemplos. duas raças europeias igualmente civilizadas e inteligentes. a América. em condições de meio pouco diferentes. por­ tanto. pode­ mos avançar mesmo que semelhante estudo evitaria muitos erros e muitas altera­ ções. as colônias podem governar-se com as instituições das suas metrópoles. só com as maiores di­ ficuldades e à custa de incessantes revoluções é que se têm mantido sob as mesmas leis. O mais que podemos exigir de um go­ verno é que seja a expressão dos sentimentos c das ideias do povo que dirige e de que. Os grandes impérios que abrangem povos diversos têm sido sempre condena­ dos à efêmera existência.10 Leituras Complementares 283 mos procurar o destino desse mesmo povo. que nem sequer podiam pensar em sc unirem. é a imagem. isto eqüivale a querer persuadir os peixes a que vivam no ar. por um lado. O seu estudo cuidado devia ser a base da política e da educação. como o dos mongóis e depois o dos ingleses na índia. O francês e o inglês. o árabe e o francês.

no que diz respeito ao caráter: uma força de vontade que muito poucos povos.284 Teoria Geral do Estado destes continentes são quase iguais. Vejamos. No ponto de vista intelectual. uma energia indomável. porém resumamos em algumas palavras os caracteres da raça anglo-saxônica. Este sentimento de desdém pelo estrangeiro é. A estas características gerais deve acrescentar-se o otimismo completo do ho­ mem cujo caminho está bem traçado na vida e que pressupõe até que não pode escolher outro melhor. exceto talvez os romanos. como muito justamente nota o general inglês Wolseley. o solo de um e de outro muito semelhante. um tal ou qual acanhamento de espírito. Talvez nenhuma outra haja no mundo que. pois. atividade poderosa. não podem dar-se características especiais. o outro pela raça espanhola. não obstante a diversidade de origem. na época dc sua gran­ deza. As características preponderantes desta constituição mental são. . sentimento de independência levado até excessiva insociabilidade. mas. certamente. de resto muito judiciosa. atos que provocariam a mais profunda e a mais unânime indignação se fossem praticados contra compa­ triotas. um sentimento de ordem inferior. o que tais diferenças produziram. Com razão se disse. Só há a notar um juízo seguro que permite aprender o lado prá­ tico e positivo das coisas sem se perderem em investigações quiméricas. em suas linhas gerais. de mais fácil definição. N ão há nenhum estadista inglês que não julgue perfeitamente legítimo. pondo. se tenha feito mais homogênea e cuja cons­ tituição mental seja. o que outrora os romanos. que nada se encontrem nas outras nações civilizadas. que impede de ver os lados fracos das coisas religiosas. Es­ tas duas raças vivem com constituições republicanas semelhantes. é um dos sentimentos que contribuem para a força da Inglaterra. encarado filoso­ ficamente. Este otimismo vai ao ponto de fazer considerar como extremamente des­ prezível tudo que é estrangeiro. e. não podem indicar-se elementos particulares. sentimentos religiosos muito vivos. sentiam pelos bárbaros. império absoluto sobre si. Um deles foi conquistado e povoado pela raça inglesa. estas crenças ao abrigo da discussão. pois que as re­ publicas da America do Sul tomaram como modelo a dos Estados Unidos. portanto. e muito nítida ideia do dever. que os ingleses empregavam tantos esforços como os chineses para im­ pedirem a entrada de qualquer ação estranha. se atendermos à prosperidade de um povo. na Inglaterra. é extremamente útil. O desprezo pelo estrangeiro e pelos usos deste so­ brepuja. possuíram. a propósito da sua. por conseqüência. sem dúvida. que sabe sempre o que lhe exigem a pátria. que facilitaria imenso as relações com o continente. recusa em consentirem 110 es­ tabelecimento de um túnel na Mancha. moralidade muito fixa. Não há. na linha de conduta para com os outros povos. gosto mui­ to acentuado pelos fatos e medíocre pelas ideias gerais. é tão grande que para com os estrangeiros toda regra moral desaparece. a família e os deuses. Antes. extraordinária iniciativa. em presença mais do que as diferenças de raças para sc explicarem os destinos diversos destes povos. que povoou os Estados Unidos. isto é.

10 Leituras Complementares

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Todos os caracteres que acabamos de enumerar se encontram nas diversas ca­ madas sociais; nenhum elemento da civilização inglesa se encontra que não tenha fortemente gravados esses caracteres; o estrangeiro que visitar a Inglaterra, embo­ ra com pouca demora, conhecerá claramente esse fato, verificará a necessidade da vida independente na casa do mais modesto empregado, que habita, sem dúvida, uma moradia estreita mas ao abrigo de qualquer constrangimento e isolada de quaisquer vizinhos; nas gares mais freqüentadas, onde o público circula a toda hora, sem estar encurralado como um rebanho de carneiros dóceis por trás de um corri­ mão guardado por um policial, como se fosse necessário assegurar pela força a se­ gurança de pessoas incapazes de encontrarem em si a atenção necessária para não serem esmagadas. Encontrará a energia da raça tanto no trabalho duro do operá­ rio como no de estudante que, entregue a si, desde a mais tenra idade, aprende a conduzir-se sozinho nos seus atos e fica desde logo sabendo que pela vida fora só ele e mais ninguém se preocupará com o seu destino; nos professores, que pouca importância ligam à instrução por a concederem principalmente ao caráter, por eles considerado uma das maiores forças motoras do mundo. Se entrar na vida públi­ ca do cidadão, verá que não é para o Estado, mas para a iniciativa individual que sempre se apela, quer se trate de reparar a fonte de uma aldeia, de construir um porto dc mar ou criar um caminho de ferro; continuando o seu inquérito, reconhe­ cerá, bem depressa que esse povo, não obstante os defeitos que fazem dele o mais insuportável dos povos para o estrangeiro, é o único verdadeiramente livre, porque é o único que, tendo aprendido a governar-se por si, deixou ao governo o mínimo de ação. Se percorrermos a sua história, veremos que foi o povo inglês o primeiro que soube libertar-se de qualquer domínio, quer da Igreja: quer do rei. Já no sécu­ lo XV, o legista Fortscue opunha a lei rom ana, herança dos povos latinos , à lei in­
glesa; um a obra de príncipes absolutos e destinada exclusivamente a sacrificar o in­ divíduo, a outra obra da vontade com um e sempre pronta a proteger a pessoa.

Seja qual for o lugar do globo para que um povo semelhante a este emigre, esse povo será imediatamente preponderante e fundará impérios poderosos. Sc a raça invadida, como os pelcs-vermelhas da América, por exemplo, for bastante fra­ ca e pouco utilizável, será metodicamente exterminada; se, como a das populações da índia, for muito numerosa para que possa ser destruída e, além disso, dê traba­ lho produtivo, ficará simplesmente reduzida a dura vassalagem e será obrigada a trabalhar quase exclusivamente para os seus senhores. E, porém, num país novo, como a América, que devemos principalmente acom­ panhar os progressos espantosos devido à constituição mental da raça inglesa. Trans­ portada para regiões incultas, só habitadas por alguns selvagens, contando só con­ sigo, sabemos bem o que contudo fez; bastou-lhe um século para se colocar na primeira linha das grandes potências do mundo e ninguém hoje há que possa lutar contra ela. Às pessoas desejosas de conhecer a enorme soma de iniciativa e energia individuais empregadas pelos cidadãos da grande república norte-americana, reco­

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mendamos a leitura dos livros de Rousier e Paulo Bourgel. A aptidão dos homens em se governarem por si, cm se associarem para fundar grandes empresas, fundar cidades, escolas, portos, caminhos de ferro, etc. é levada a tal máximo e a ação do Estado reduzida a tal mínimo que quase pode dizer-se que não existem lá poderes públicos, pois que, se tirarmos a polícia c a representação diplomática, não e pos­ sível descortinar-sc para que esses poderes possam servir. Nos Estados Unidos só é possível prosperar quem possua as qualidades de ca­ ráter que acabamos de indicar, e a isto se deve o não poderem as imigrações estrangei­ ras modificar o espírito geral da raça. As condições de existência são tais que todos aqueles que não possuam as qualidades indicadas estão condenados a desapareci­ mento rápido; nesta atmosfera, saturada de independência e de energia, só pode vi­ ver o anglo-saxão; o italiano morre aí de fome, o irlandês e o negro apenas conse­ guem vegetar em condições perfeitamente subalternas. A grande república, a que nos vimos referindo, é seguramente a terra da liber­ dade, mas não é com certeza a terra da igualdade e da fraternidade, as duas quime­ ras latinas que às leis do progresso não c dado conhecerem; em nenhuma região do globo, a seleção natural tem feito sentir mais rudemente o seu férreo braço. É descaroávcl, não há dúvida; mas é precisamente por não ter compaixão que a raça, para cuja formação a seleção contribuiu, conserva o seu poder e a sua energia. No solo dos Estados Unidos não há lugar para fracos, para os medíocres, nem para os incapazes de qualquer coisa. Indivíduos isolados ou raças inteiras estão destinados a desaparecer só pelo fato de serem inferiores; os peles-vermelhas, havendo-se tor­ nado inúteis, foram exterminados a tiro ou condenados a morrer de fome. Os ope­ rários chineses, cujo trabalho constitui incômoda concorrência, acabarão por so­ frer sorte análoga. À lei que ordenou a expulsão total dos chineses não pôde ser aplicada, devido às despesas enormes que da sua execução proviriam. Sem dúvida, será prontamente substituída por uma instrução metódica iniciada já em alguns distritos mineiros. Recentemente foram votadas outras leis proibitivas da entrada no território americano a imigrantes pobres. Com respeito aos negros, que servi­ ram de pretexto à guerra da secessão, entre os que tinham escravos c os que, não podendo tê-los, não podiam sofrer que os outros tivessem, são apenas, por assim dizer, tolerados, por isso que ficam adstritos a funções subalternas que nenhum ci­ dadão americano quereria para si. Teoricamente, os negros têm todos os direitos; praticamente, são tratados como animais semiúteis dos quais se desembaraçam logo que se tornem perigosos. Os processos sumários da lei de Lynch são reconhecidos geralmente como bastante para eles; ao primeiro delito que pratiquem, fuzilados ou enforcados. Estas são, sem dúvida, as manchas do quadro, que é, contudo, suficientemen­ te brilhante para que diminua de valor. Se forçoso fosse definir-se por uma palavra a diferença entre a Europa continental e os Estados Unidos, poderíamos dizer que a primeira representa o máximo do que pode dar a regulamentação oficial substi­

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tuindo a iniciativa individual, os segundos o máximo que pode dar a iniciativa in­ dividual absolutamente desembaraçada de qualquer regulamentação oficial. Estas diferenças fundamentais são exclusivamente conseqüências do caráter. Não é no solo da rede república norte-americana que o socialismo europeu tem probabilida­ des dc vir um dia a implantar-sc. Última expressão da tirania do Estado, o socialis­ mo só poderá prosperar nas raças envelhecidas, sujeitas há séculos a um regime que lhes tirou toda e qualquer capacidade de governo próprio e pessoal. Acabamos de ver o que numa parte da América produziu uma raça possuido­ ra de certa constituição mental em que predominam a perseverança, a energia e a vontade; falta que mostremos no que se transformou um país, quase semelhante, nas mãos de uma outra raça, muito inteligente, na verdade, mas sem possuir ne­ nhuma das qualidades de caráter cujos efeitos passamos em revista. A América do Sul é, atendendo-se às suas produções naturais, uma das mais ricas regiões do globo. Duas vezes maior que a Europa e dez vezes menos povoa­ da, a terra não faz falta e está, por assim dizer, à disposição de todos. A população preponderante, de origem espanhola e portuguesa, está dividida em numerosas re­ públicas, Argentina, Brasil, Chile, Peru etc. Todas elas adotaram a constituição po­ lítica dos Estados Unidos do Norte e, por conseqüência, vivem sob a ação de leis idênticas. Pois, simplesmente pelo fato da raça ser diferente e lhe faltarem as qua­ lidades fundamentais que possui a raça que povoa os Estados Unidos, todas estas repúblicas, sem exceção, são presa perpétua da mais sangrenta anarquia e, não obs­ tante as extraordinárias riquezas do seu solo, sossobram, umas após outras, em de­ la pidações de toda espécie, falências e despotismos. Lendo-se a notável e imparcial obra de Th. Child acerca das repúblicas lati­ no-americanas, apreciar-se-á com exatidão a profundeza da sua decadência. As cau­ sas encontram-se todas na constituição mental de uma raça sem energia, nem von­ tade, nem moralidade. A ausência de moralidade, principalmente, excede tudo o que de pior conhecemos da Europa. Referindo-se a uma das cidades mais impor­ tantes, Buenos Aires, o autor declara-a inabitável para quem quer que seja que te­ nha delicadeza dc consciência e alguma moralidade, c a propósito dc uma das me­ nos degradadas dessas repúblicas, a Argentina, o mesmo escritor diz que, se a examinarmos sob o ponto de vista comercial, ficaremos abismados com a imorali­ dade que aí se manifesta. Nenhum exemplo há que melhor mostre quanto as instituições são filhas da raça e portanto, a impossibilidade de se transferirem de um povo para outro. Seria interessantíssimo saber-se o que aconteceria às instituições tão liberais dos Estados Unidos da América do Norte, se fossem transportadas para uma raça inferior. Es­ tes países, diz-nos Child, falando das diversas repúblicas latino-americanas, estão sob a férula de presidentes que exercem uma autocracia não menos absoluta que a do czar de todas as Rússias; mais absoluta até, por isso que estão ao abrigo de to­ das as importunações e da ação da censura europeia, o pessoal administrativo é ex­

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clusivamente constituído por criaturas dos presidentes...; os cidadãos votam como melhor lhes parece, mas ninguém dá importância aos seus sufrágios. A República Argentina é apenas república no nome, porque, na realidade, é uma oligarquia de indivíduos que fazem da política verdadeiro negócio. Só um país, o Brasil, escapara um pouco a tão profunda decadência, mercê de um regime monárquico, que colocava o poder a coberto das lutas de competido­ res. Demasiadamente liberal para raças sem energia e sem vontade, a monarquia brasileira sucumbiu, caindo desde logo o país em plena anarquia. Dentro de pou­ cos anos, a gente do poder delapidou por tal forma o tesouro que os impostos au­ mentaram em mais de sessenta por cento. Não é só na política, muito naturalmente, que se manifesta a decadência da raça latina que povoou a América, mas sim em todos os elementos da civilização. Reduzidas aos seus próprios recursos, estas desgraçadas repúblicas regressariam ao barbarismo puro; toda a indústria e todo o comércio estão em mãos de estrangei­ ros: ingleses, americanos e alemães. Valparaíso é uma cidade inglesa, e nada ficaria no Chile se lhe tirassem os estrangeiros; mercê destes é que estas regiões conservam ainda um verniz de civilização que ilude a Europa. A República Argentina tem qua­ tro milhões dc brancos de origem espanhola; não sabemos se poderemos citar um branco que seja, além dos estrangeiros, que se encontre à frente dc uma indústria verdadeiramente importante. Esta terrível decadência da raça latina, abandonada a si mesma, posta em con­ fronto com a prosperidade da raça inglesa numa região vizinha, é uma das mais sombrias, mais tristes e, ao mesmo tempo, das mais instrutivas experiências que po­ demos citar para apoio das leis psicológicas que expusemos.

12) ALMEIDA GARRETT

Obras
(Porto, Lello 6c Irmão, Editores, 1963, v. 1, p. 734-5.)

Justiça (Lúcio Júnio Bruto, juiz de seus filhos)
Lúcio Júnio Bruto era cônsul ou primeiro magistrado de Roma; e, na ocasião em que a cidade era sitiada por um poderoso exército inimigo, foi descoberta uma conspiração de traidores que tentavam entregar-la. Entrava nesta conspiração gran­ de número dos principais do Estado e com eles os filhos do cônsul. Foram todos presos e processados por tão horrível crime; que o não há maior nem mais atroz. Chegou a hora tremenda em que os réus deviam ser afinal julgados. Apareceu o cônsul Lúcio Júnio Bruto em seu tribunal no foro ou praça pública de Roma, ro­

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deado do senado, que era o conselho dos anciãos e homens bons do Estado, e dian­ te de todo o povo - porque em Roma foram sempre públicos os processos, para que nem as paixões dos julgadores nem as peitas dos culpados os pudessem torcer, mas se fizesse sempre justiça direita e lisa. Compareceram os acusados diante do cônsul; dentre estes, seus próprios filhos. Todo o povo tinha os olhos neles e no pai, c parecia duvidar que o sangue c a natu­ reza não movessem da justiça o ânimo do magistrado. íMas o cônsul interrogou seus filhos com a mesma tranqüilidade e firmeza com que fez aos outros. O crime foi pro­ vado; eles confessaram: e não restava senão pronunciar o juiz a sentença. Hoje dá-se aos condenados tempo suficiente para se prepararem a aparecer na presença de seu Deus, tribunal mais terrível porque são eternas suas decisões, porém mais indulgente porque lhe cabe perdoar crimes provados e confessados quando deles há verdadeiro arrependimento. Mas nesses tempos a religião cristã, que é toda humanidade e brandura, não tinha ainda adoçado os costumes daque­ les honrados mas ferozes republicanos. Os réus convencidos e julgados iam ser para logo executados. Lúcio Júnio Bruto, rodeado de lictorcs - oficiais públicos a quem incumbia pôr cm continente por obra os mandatos do cônsul-, pronuncia a fatal sentença: 4 4 O crime está provado; os acusados são réus dc alta traição: lictorcs feri, executai a sentença da república”. A natureza não podia com mais: o cônsul cobriu o rosto com a toga... e as ca­ beças dos filhos rolaram a seus pés. Mas Roma foi salva, a rebelião afogou-se; e Júnio Bruto, órfão de seus filhos, não o foi da pátria. Tal é um dos maiores exemplos de justiça que já se deram no mundo.

13) ALBERTO TORRES

A Organização N acional
Cia. Editora Nacional, São Paulo, 1978, 3. ed.

0 espírito e as te n d ê n cia s da política
Em outros tempos, no período de romantismo político que sucedeu à Revo­ lução Francesa, quando a questão das formas de governo era a tese predileta dos publicistas, a unidade e a continuidade da política pareciam aos olhos dos partidá­ rios do regime monárquico a grande causa de sua superioridade. A pretensão era falaz, como todas as ideias a priori da política. A unidade e a continuidade da política resultam da existência de um caráter nacional. Onde há uma nação, homogênea em seus elementos, ou fortemente subordinada a um espíri­

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to, um móvel, uma aspiração, ou uma classe preponderante, define-se uma políti­ ca: os órgãos dessa política surgem da reação dos acontecimentos, e, seja dinástica ou republicana a forma do governo, o poder vem a cair nas mãos dos combaten­ tes mais fortes, dos representativos. Em Washington, como cm Bismarck, encontra-se o mesmo traço das perso­ nalidades dominantes, os eleitos desse sufrágio tácito, que faz brotar os proto-homens do tempo, em sua terra - como a flor brota da planta, na estação própria, sobre a haste do valor pessoal. Homens dessa têmpera comandam as gerações a que pertencem, nas grandes épocas de crise nacional, e impulsionam o movimen­ to que se perpetua pelas gerações adiante. Há casos notabilíssimos de proeminência de um homem, ou de uma aristocra­ cia mental, sobre os destinos de um povo, nenhum, porém, mais expressivo que o dos Estados Unidos, onde um grupo de precursores eminentes assentou, nos primei­ ros dias da constituição do país, os princípios que o haviam de dirigir até hoje. Quem lê o Federalista, as cartas e os manifestos de Washington, os trabalhos de Jefferson, dc Hamilton, dc Madison c de Franklin, encontra estudados, nessas soberbas profis­ sões dc fé, os caracteres práticos e morais da nacionalidade, expostos os seus pro­ blemas, indicadas as suas soluções, previstos os seus destinos, com precisão e clare­ za tão fortes que projetam luz sobre o futuro da grande pátria, até nossos dias. Esses homens deram aos olhos de sua pátria a consciência do nosce te ipsum; mostram-lhe as suas necessidades, os seus problemas, as suas soluções, os seus des­ tinos. A nação despertou formada, cônscia de sua posição e de seu papel no mun­ do, pronta para caminhar com os olhos fitos num objeto conhecido. Sua história foi o desenvolvimento natural de um atleta. Esta preparação inicial era mais difícil, entre nós, por causas geográficas e por causas históricas. Território heterogêneo, de conformação longitudinal, com rios e vias de comunicação menos favoráveis, eriçado de cadeias de montanhas que o di­ videm e separam, era mais penoso ligar e abranger, num todo, as diversas zonas, para lhes estudar o caráter comum c prefixar as condições de unidade e dc solida­ riedade. Não era fácil assimilá-lo, com seus produtos exóticos, às condições nor­ mais do comércio internacional, entremeando os seus interesses nas correntes or­ dinárias dos negócios. O comércio brasileiro ficou, como todos os que versam sobre especiarias, sujeito às oscilações, aos entraves, às espoliações, que acompanham, em toda parte, os negócios sobre gêneros que não são de uso necessário. Os homens públicos estavam, por outro lado, longe de possuir o preparo dos fundadores da república americana. Cientistas, literatos e juristas da escola de Coim­ bra trouxeram, para o nosso meio, brilhantes ideias, conceitos teóricos, fórmulas jurídicas, instituições administrativas, estudados nos centros europeus. Com tal es­ pólio de doutrinas e de imitações, arquitetou-se um edifício governamental, feito de materiais alheios, artificial, burocrático. Os problemas da terra, da sociedade, da produção, da povoação, da viação e da unidade econômica e social, ficaram en­

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tregues ao acaso; o Estado só os olhava com os olhos do fisco; e os homens públi­ cos - doutos parlamentares e criteriosos administradores - não eram políticos, nem estadistas; bordavam, sobre a realidade da nossa vida, uma teia de discussões abs­ tratas, ou retóricas; digladiavam-sc em torno dc fórmulas constitucionais, france­ sas ou inglesas; tratavam das eleições, discutiam teses jurídicas, cuidavam do exer­ cito, da armada, da instrução, das repartições, das secretarias, das finanças, das relações exteriores, imitando ou transplantando instituições e princípios europeus. Sob a impetuosidade do primeiro monarca e o academicismo do segundo, o meca­ nismo governamental trabalhou sempre, desorientado e sem guia, estranho às ne­ cessidades íntimas, essenciais, do nosso meio físico e social. A República desenvolveu consideravelmente a curiosidade intelectual, nas le­ tras, nas ciências, na política. Conservando a maioria na representação nacional, viram-se os juristas cercados de outras aptidões e capacidades. Moços, ardentes, ambiciosos, os políticos do novo regime lançaram-se à pesquisa de novos assuntos, novos problemas, novas conquistas a explorar, nos anais do Congresso, na impren­ sa, cm periódicos c livros, multiplicaram-se estudos c investigações, de incontestá­ vel mérito e marcada originalidade - mas esses trabalhos mostravam, em regra, a tara da nossa tendência e a lacuna do nosso preparo: eram teóricos, analíticos, li­ mitados a uma especialidade, a um ramo dc conhecimentos, alheios aos problemas concretos e oportunos. O regime não trouxe consigo os estadistas que o haviam de construir. Os estudos ganharam em variedade, mas perderam, em dispersão e inde­ finido, alguma precisão que os antigos tinham. É certo que os manifestos e mensagens presidenciais sumariam, com mais ou menos amplitude, notas sobre os departamentos dos serviços públicos, faces diver­ sas dos problemas nacionais, e que sugerem alvitres e soluções sobre variados as­ suntos; por amplos que sejam, têm, contudo, todos eles, um caráter, minucioso e pormenorizado, de catálogos de sugestões e propostas, para aplicações parciais, sem espírito de conjunto, sem vista geral e coordenada de nossa fisionomia social, política e econômica, de seus problemas, de suas soluções. São programas de ges­ tão transitória, para os quatro anos de período; faltam-lhes a envergadura e a luz, com que costumam verdadeiros estadistas concentrar, em traços fortes e nítidos, o sistema da política prática, o estudo positivo da fisiologia de um país, para lhes in­ dicar o movimento e a direção. Esses programas quadrienais, esboçados no curto período de cada governo, são esquecidos, para se dar começo a novos ensaios e tentativas, na seguinte presidência. A história da política republicana, em seu conjunto e em seus vários interesses, é uma jornada de marchas e contramarchas, de experiências e retrocessos... Somos um país sem direção política e sem orientação social e econômica. Este é o espírito que cumpre criar. O patriotismo sem bússola, a ciência sem síntese, as letras sem ideal, a economia sem solidariedade, as finanças sem continuidade; a educação sem sistema, o trabalho e a produção sem harmonia e sem apoio, atuam

só começará a formar-sc quando mais estreita c solidariedade entre os habitantes das várias zonas lhe der a consciência dc uma unidade moral. a marcha de um país fica. Tal foi a obra dos estadistas. para conhecer os elementos e aptidões de sua exploração e cultura. dc episódios militares e governamen­ tais: sua história étnica. que tal nome não merece a série cronológica dos fastos das colônias dispersas. naturalmente. que acidentes.) . sobre a ruína da vida comum. 1933. que a unidade política está lon­ ge de realizar. O Brasil não tem história. a prolife­ ração das populações. eis o que deverá ser o lema do patriotismo e do zelo pela sor­ te de nossa terra. aliás.292 Teoria Geral do Estado como elementos contrários e desconexos. econômica e social. as aspirações e os desejos dos homens de todas as regiões! Só o esgotamento do solo. ame­ ricanos da fase constitucional. erros de apreciação. a sua fauna. ou cálidos. E em sua geografia e no quadro da sociedade contemporânea que está a base do conhecimento de sua sorte. p. aos desvios. mas em sua na­ tureza dinâmica e funcional. sempre que aí encontre terras férteis c climas propícios à vida. uma gravíssima dificul­ dade: a tendência separatista das antigas colônias. A zona intcrtropical é o berço do animal humano. destroem-se reciprocamente. Melhoramentos. foi em climas médios. os seus vasos hidrográficos. e os egoísmos e interesses ilegítimos florescem. um dos países que apresentam mais sólidos elementos dc prosperidade c mostram condições para um mais nobre e brilhante destino. c a sucessão. 29-42. para aí convergem. como a vida dos homens sem ob­ jetivo e sem método. O Brasil é. entretanto.. meramente política. vão produzindo. 14) FRANCISCO JOSÉ DE OLIVEIRA VIA N N A 0 ocaso do Império (2. vínculo íntimo e profundo. as incursões bárbaras e as guerras conseguiram arremessar grandes massas de população para zonas frias. sujeita às oscilações. É natural que o homem tente vol­ tar para seu berço. interesses ocasionais ou parciais. O destino de um país e função de sua história e de sua geografia. Sem esse estudo. aí floresceram as primei­ ras e mais luxuriantes civilizações. que sc fixou o tipo mais perfeito do reino animal. Estudar o Brasil. a sua flora. eis o pon­ to dc partida dc toda política sensata e prática. ed. São Paulo. que tiveram dc vencer. aos azares. e ao mesmo tempo as condições necessárias ao espírito de unidade social e econômica e à solidariedade entre os interesses e tendências divergentes. procurando apreender o caráter das diversas zonas geológicas e mineralógicas. Estudar a geografia de um país não em seu aspecto descritivo. a sua estrutura orográfica.

onde estão os nossos partidos?” perguntava. não. quando concedia a dis­ solução da Câmara. VI Havia. nunca teve espírito político. de volume pequeníssimo em relação à massa da população. que porventura animassem a consciência do país. O grosso do povo. na verdade. em 53. Sr. quando chamou Sinimbu.e o resultado é que a Coroa tem cm má conta um e outro'’. “Mas. como observava Luís Couty. e com maior conheci­ mento de causa. não existe povo no sentido político da expressão. levado às urnas apenas pela pressão dos caudilhos territoriais. Foi o que fez em 68. o liberal não respeita o conservador. entretanto. conservá-lo a todo transe: nada mais. Em tese. sente-se que ele dava uma importância pequena. Dis­ se ele. Entre nós. Ninguém exprimiu melhor. O imperador apelou para ele várias vezes. . Falta-nos li­ berdade civil.10 Leituras Complementares 293 Os dois velhos partidos do Império. No Brasil. não dava importância alguma à opinião dos partidos. Falta-nos espírito público. Num e noutro caso. o recurso das eleições. quando chamou Itaboraí. o liberal flagela o conservador . espírito público nunca existiu no Brasil. dissolvia a Câmara e procurava informar-se da opinião do país através da coloração partidária do futuro Parlamento. conquistado este. era este o mais legítimo processo de sondagem da opinião pública. tendo modificado a colora­ ção política do Gabinete. num país como o nosso. Falta-nos organização de classes. a vida política foi sempre preocupação e obra de uma minoria diminuta. o conservador flagela o liberal. E um espírito irreverente expri­ miu uma vez este mesmo pensamento. como se vê. nem consciência al­ guma do papel que estava representando. na sessão de 18 de junho de 1870: “O conservador não respeita o liberal. ou mesmo. Foi o que fez em 78. do que o próprio Zacarias este estado de alma do imperador. O processo eleitoral. Honório. dizendo que aqui “povo é uma reunião dc homens. como porcada é uma reunião de porcos”. uma bela prova disto. não tinham opinião. como não tinham programas. O golpe parlamentar de 68 é. com efeito. certo. dentro dos princípios de pura teoria do regime representativo. Só nos países de opinião organizada é que o processo eleito­ ral pode ser um meio eficaz de sondagem da opinião do povo. Realmente. também não lhe dava nenhum índice seguro da opinião nacional. No fundo. Hra este o principal programa dos liberais como o era dos conservadores. a Paraná. O objetivo era a conquista do poder e. Essa atitude dos dois grupos partidários fazia com que o imperador acabasse convencido de que não podia encontrar na opinião dos partidos nenhum índice se­ guro das correntes interiores.

estava realmente conde­ nado a ser.as condições necessá­ rias para eleições livres. pela ausência de antagonismo de classe. o velho. segundo Sarmiento . perdia sempre . a estrutura social era quase tão rudimentar como nos campos. a dissolução da Câmara para a consulta à Nação se havia transfor­ mado numa farsa ridícula. devido à extrema simplificação trazida à nossa estrutura social pelos grandes domínios independentes. Demais. uma estrutura social muito simplificada. a fraude não a deixaria revelar-se . e o partido que estivesse “debaixo”. Uma dessas condições é precisamente que cada um dos ci­ . por sua vez. Esta preponderância tão absorvente da grande aristocra­ cia da terra fazia com que nem a classe média rural. sob o segundo Império. estava ainda em condição muito rudimentar. VII Demais. O processo de sondagem por meio das eleições não podia trazer. capaz de dar ao processo eleitoral uma significação realmente democrática.294 Teoria Geral do Estado Organização de classes também não existia. nem a plebe dos campos tives­ se. não tinham ainda razão de ser. como ainda não existe. pela feição acentuadamente patriarcal da nossa socieda­ de.e isto porque o partido que estivesse no poder ganhava sempre. Em síntese: pela grande simplicidade da nossa estrutura social.como na Argentina da época caudilheira. os interesses das classes po­ pulares rurais não estavam propriamente em oposição aos da aristocracia territo­ rial. não se dispartia por várias classes ou grupos profissionais: concentrava-se quase toda numa classe única. que era a gran­ de aristocracia territorial. chegou mesmo a formular esta lei no seu famoso sorites: “O Poder Moderador pode chamar quem quiser para organizar Ministérios. no seio da população dos campos. não se podiam formar. antes. De modo que. próprios às sociedades de alta or­ ganização industrial. esta pessoa faz a eleição. à maneira britâ­ nica ou norte-americana. correntes de opinião desencontradas. de maneira que a vida política não se distribuía por vários centros da atividade. os conflitos dc classes.e ainda nos faltam agora . como sempre foi. próprio aos governos parlamentares. acordavam-se. pois. como nunca se formaram. ao imperador nenhum elemento seguro de orientação. porque há de fazê-la. a “opinião do povo”.ne­ nhum antagonismo entre as populações dos campos e as populações das cidades. ainda mais do que hoje. Mesmo que o nosso povo tivesse opinião. Igualmente não se havia cons­ tituído aqui . Nabuco. Durante o período imperial tínhamos. verdadeira burla . Nos grupos urbanos. capazes de revelar-se no processo eleitoral.dada a corrupção do próprio proces­ so eleitoral.tal como hoje. opinião. na oposição. uma pura ficção constitucional. o processo de “consulta à nação”. Então. Num povo sem educação eleitoral e de opinião embrionária. esta eleição faz a maioria É que nos faltavam então . ou pudesse ter.

dissolvida. reformas várias do mecanismo eleitoral procuravam pôr um óbi­ ce a estes desmandos da fraude . entretanto. todos esses aparelhos protetores das liberdades individuais sempre funcionaram mal. na prá­ tica. em 82. não passavam. Era debalde que as oposições tentavam lutar con­ tra a força irresistível dessa compressão organizada. Ora. o Gabinete Sinimbu: e a Câmara. nunca existiram grandes tradições de legalidade. dc garantias no papel. Aqui.e a lei Saraiva. si je ne pars hientôt. à maneira da Inglaterra.e nenhum deles. os velhos costumes permaneceram . esse prestígio. com efeito. il me faut vendre tout et quitter le pays.com a certeza certa de uma previsão astronômica .10 Leituras Complementares 295 dadãos. dei­ xando o homem do povo na iminência ou na atualidade dos golpes de vindita dos poderosos. Estas garantias. cada um dos eleitores. o Grande. mobilizava à sua vontade esse formi­ dável exército de tiranetes locais. C'est fait de moi. continuaram a scr precárias. Cada homem do sertão ou da mata entre nós bem podia dizer como aque­ le camponês de Paul Louis Courier: Je suis malheureux: )'ai fáché monsieur le maire. soberbamente conservadora. o expediente da “consulta à Nação”. essa autoridade. dissolveu: a Câmara nova. desmentiu esta regra . Era esta. dos chefes de Gabinete. veio unanimemente conservadora! Em 1878 deu-se o contrário. em que ninguém mais acreditava. através da poderosa máquina centralizadora. na verdade. Itaboraí.que a nova Câmara vinha inteiramente à feição do novo Gabinete. pelo mecanismo da centralização. em 1840. Este. se havia transformado numa verdadeira burla. Esta Câmara. tem o direito de intervir no processo eleitoral” . conservadora. ou mais exatamente. tanto liberais como conservadores.e era isto o que não acontecia aqui. Esta doutrina absurda pode-se dizer que era a expressão do pensamento íntimo de todos os políticos no poder. afinal.e estes asseguravam o mais completo absolutismo aos mandões locais. Só Saraiva.dizia. Em julho de 68 caía o gabinete Zacarias com uma Câmara unanimemente liberal. É certo que a Reforma Judiciária de 71 assegurou um pouco mais os particulares contra o arbítrio das autoridades. que punha uma tão confiada arrogância no coração do moleiro de Frederico. Nem a Magis­ tratura aqui teve jamais essa força. voltou soberbamente liberal! Certamente. “ O Governo. deixou de aplicá-la integralmente. tanto li­ berais como conservadores . já se sabia de antemão . eleita no mesmo ano. Em nosso país. na execução da lei da eleição direta. onde os preceitos da common law tem qualquer coisa dc sagrado aos olhos das autoridades c aos olhos das multidões. por exemplo. todos esses mandões locais estavam na dependência dos Gabinetes. a condição das nossas massas populares sob a lei de 3 de dezembro de 41.o que lhe valeu uma ascendência imensa sobre todos os políticos do seu tempo. Antônio Carlos. O recurso da dissolução da Câmara. Dis­ solvida a Câmara. tenha perfeitamente assegurada a sua liberdade ci­ vil . expressão de um partido. foi o Gabine­ te conservador que caiu. substituiu-o um Gabinete liberal. que substituiu o velho sistema da .

Por mais cautelosas c casuísticas que fossem todas es­ tas leis. Esta tendência atingia o seu máxi­ mo dc intensidade. nem as leis anteriores pu­ deram contravir às artimanhas dos nossos bosses eleitorais. O que aconteceu com o sistema da eleição direta é típico. que estabelecera o princípio da repre­ sentação das minorias. que era. em que se consubstanciara a gran­ de aspiração nacional. Este sistema havia aparecido nos nossos meios partidários como uma criação miraculosa do engenho político. Coube a Saraiva a execução da lei de 81.c os espíritos mais impacientes volta­ ram-se. invencíveis no prodigioso diabolismo das suas habilidades de prcstímanos. Porque o nosso movimento pela eleição direta não foi original. como confessava Sinimbu. com a sua alta autoridade. cheios de esperanças. Mas a verdade c que nem esta lei.296 Teoria Geral do Estado eleição de dois graus pela eleição direta. tinham falhado. mas apenas uma prolação do movimento europeu neste sentido. Com o sufrágio direto. aliás. Falhara a reforma de 75. insinuou Sinimbu a agitar o problema e promover a sua solução parlamentar. Estávamos na convicção dc que o novo sistema eleitoral armaria o povo com uma arma invencível contra o arbítrio do po­ der. não tinha o temperamen­ . com o estímulo do imperador. Falhara a reforma de 60. Todos os outros sistemas eleitorais. o sufrágio revelava ali uma tendência a generalizar-se. o sistema dos dois graus falhara: mostrara-se extremamente dócil à vontade do poder. à primeira vista. Saraiva. até então praticados. saídos dos conluios dos gabinetes ministeriais. mas uma legítima expres­ são da vontade nacional. Estes sempre se mos­ traram inapreensíveis. não mais uma ques­ tão de partido. ter conseguido este grande objetivo. Então. mas uma questão nacional: todo o país a reclamava! O imperador foi um dos primeiros a perceber isto e foi ele quem.e nossa esperança qua­ se messiânica na eleição direta não era senão a esperança contemporânea de todos os povos civilizados no sufrágio universal. Falhara a “lei dos círculos”. o movimento pela eleição direta. a apro­ ximar-se cada vez mais das maiorias populares. justamente na época em que iniciávamos aqui. intangíveis. eram nada diante dos truques sugeridos pela inventiva maravilhosa desses Fregolis da cabala. tamanha a fé nas suas virtudes. Todas elas deixavam brechas por onde o governo pudera insinuar-se. ao contrário de Zacarias. O mal devia estar então neste sistema . Sente-se que ele se deixara tomar também do idealismo ambiente. Em suma. Esta contemporaneidade dos dois movimentos mostra o caráter meramente reflexo do nosso . Houve um momen­ to mesmo cm que foi tamanho o entusiasmo pela eleição direta. para o sistema da eleição direta. não mais uma massa passiva de de­ pendentes. Refletíamos os clamores dos partidos europeus e as aspirações que agitavam o ve­ lho mundo. impor a sua vontade c o seu arbítrio. pareceu. o idealismo do mundo. que ela passara a ser. de 55. o Parlamento seria. com os seus distritos de três deputados.

Por isso. Nas eleições seguintes restauravam-se as velhas praxes opressivas.10 Leituras Complementares 297 to de um homem de partido: era uma natureza álgida. esta fase climática de exaltação. mesmo. a consciência do país. senão dc es­ panto. aliás. O governo. sobrecarrega­ do das mil preocupações do seu cargo. Zacarias. Passada. cioso da sua dignidade de rei. com o seu vivo sentimento partidário não a executaria . a este estado dc exaltação gene­ rosa e idealista. que acompanha sempre a estreia das grandes reformas e sob a qual todos os pequenos egoísmos. junto a Dantas. como todas as outras leis. Nenhum mais se resignou a sofrer a provação da sua derrota.como não a executariam Paulino ou Sinimbu. a dos círculos. ele não teria nenhuma repugnância em acatar a opinião do povo. por oca­ sião da primeira experiência da lei de 80. Nenhum dos homens do poder teve mais a abnegação de Saraiva. a do terço etc. também. e mesmo depois. D. em que a qualidade principal do executor seria o des­ prendimento.diz um historiador. mandando às Câmaras uma representação que fosse a expressão legítima da sua vontade. por exagerada. todas as pequenas impurezas da nossa pobre huma­ nidade como que se fundem ou se volatizam. cuja compressão eleitoral dc 78 enchera de surpresa. No fundo. “O Imperador se tornou o fiscal-mor da oposição junto ao ministério. cm parte. ao pon­ to de Dantas considerar que aquela preocupação. A oposição. o sentimento da verdade pura. Pedro sentia que o resultado bom ou mau da lei Saraiva ia dar a prova crucial da excelência do velho regime. Soberano visceralmente democráti­ co. passou a ganhar sempre. Nada mais comprobativo da alta compreensão que o velho dinasta tinha da sua grande missão constitucional do que a sua insistente diligência junto a Saraiva.. Quem ler hoje a correspondência dele com Dantas por essa época. à ação conjugada do impe­ rador e do chefe do Gabinete. não poderá deixar de sentir uma emoção comovida diante deste ancião. porém. como ou- . a lei Saraiva também falhou. isto mesmo nas suas notas ao livro de Tito Franco. nas elei­ ções de 84. ao seu pequeno horizonte intelectual e voltam a viver dentro do seu egoísmo anterior. O êxito inicial da lei Saraiva foi devido. Ninguém mais capaz de executar uma lei. em que certamen­ te não acreditava. os homens retornam logo ao seu pequeno horizonte emotivo e. necessárias a assegurar uma execução perfeita àquela grande lei. quase redunda­ va em preferência pelos adversários” . a fria imparcialidade. O nosso povo teve por um momento a impressão que havia encontrado nela a chave da sua liberdade políti­ ca: pela primeira vez o governo fora derrotado! Para este magnífico êxito não contribuiu apenas a retidão e a imparcialidade de Saraiva: há que contar também com a intervenção direta do imperador. desde que ela se lhe revelasse de uma maneira clara e insofismável. mas atento aos menores detalhes e às me­ nores providências. Ele confessou. em parte. insusceptível ao fanatismo das grandes convicções e inapto às grandes vibrações do entusiasmo. Os resultados da nova lei foram surpreendentes. como outrora. mas não do seu direito divino.

Ele bem compreendia que o papel do rei constitucional. ora chamava outro ao poder.298 Teoria Geral do Estado trora.sem conceder a dissolução da Câmara seria logicamente impossibilitar àquele os meios de governo. Pedro era um espírito liberal e equânime. Se. em vez de formar um Gabinete de coloração contrária. por exemplo. adotara uma atitude de paternal e displicente imparcialidade para com os dois partidos.e é isto justamente que transparece das suas notas ao livro de Tito Franco. con­ tra que investia a cólera dos políticos caídos em desgraça. sem gosto nenhum pela política e as suas agitações. com as situações locais c provinciais. essas belas unanimidades parlamentares. todo o país se revestia de uma coloração conservadora. Voltaram as Câmaras unânimes . dependente de um simples aceno do im­ perador . Ora chamava um. exercido à maneira in­ glesa.ele bem o sentia . de Nabuco ou de Uruguai. mas na opinião dos Gabinetes. e julgando-se indesmontáveis. quando no poder. o destino dos partidos estava. desta burla. à vontade: bastava para isto pôr nas mãos de Z a­ carias ou de Itaboraí. durante o império. de Saraiva ou de Cotegipe. ao sopro violento das “der­ rubadas” . O destino dos partidos estava. Em suma. não na opinião do povo. se acontecia ser liberal o Gabinete . Sc cra conservador o Ga­ binete. mas.e a política rotativa do imperador sempre permitia que isto acontecesse . que os próprios partidos. haviam organizado.o matiz político que cobria o país passava a ser desde então impressionadoramente liberal! IX Ninguém mais convencido de tudo isto. o desespero dos condenados às geenas do ostracismo. pois. Pedro . desta artifi­ cialidade do regime representativo no Brasil do que D. por mais sólida que fosse. isto importaria na vitória segura do novo Gabinete: e a situação anterior. Ele fazia cair os par­ tidos e fazia subir os partidos. seria isto . a de­ licadeza da sua situação no exercício da grande faculdade constitucional. quando se operava uma crise ministerial. concedida a dis­ solução. ele adotasse sistematicamente a fórmula britânica e formasse sempre Gabinetes da mesma coloração da Câmara.ao ostracismo permanente e irremissível. os admiráveis mecanismos de compressão política. mas. sem dar nenhuma consideração apreciável à opinião da Câmara. cujas origens espúrias bem conhecia. Seria o que Saraiva chamava “a condenação dos adversários ao inferno de Dante” . sc ele chamasse um Gabinete conservador . . puro homem de bem. Estes c que davam aos partidos no poder. D. Compreende-se. seria reduzida a destroços. pois. passou a perder sempre. todas as vezes que se abria uma crise de Gabinete. desta ficção. como costumava de quando em quando fazer.fixar 110 poder ad aetermitatem o partido do Gabinete. Por isso mesmo.e com elas o pro­ testo. seria aqui absolutamente irrepresentável por qualquer soberano que aspiras­ se ao título de justo. Numa Câmara liberal.chamando este ou aquele prócer partidário ao Paço. o clamor.

O partido que subia derrubava tudo . quando não mal compreendida.10 Leituras Complementares 299 Nestas alternativas das situações partidárias. nas províncias. depois de seis anos de domínio do par­ tido liberal.porque fatalmen­ te mal compreendida e. um meio dc vida: vive-se do Estado. em- . do co­ mércio c da indústria . aquele dito espiri­ tuoso de Martinho de Campos. em que os indivíduos vão ao poder no intuito altruístico de realizar um grande ideal coletivo. pelo menos mal aceita pe­ los detentores eventuais dos instrumentos do governo. todos os ocupan­ tes adversários. com a sua incapacidade de­ mocrática. Desde que nada podia explicar esta queda senão a vontade do monarca. Daí a áspera violência das famosas “derrubadas” . ou podiam repetir realmente. no centro repetiam. com a sua equanimidade. aliás. provinciais e gerais. o imperador parecia não ter ou­ tro critcrio senão o do tempo: ele fazia o revezamento dos partidos conforme o tempo da estada deles no poder. mas este graccjo encerra a síntese dc toda a filosofia política no Brasil. quando o imperador os fazia apearem-se do poder. nada mais lógico do que a irritação dos políticos contra esse personagem. fazia subir ao poder. No fundo. ou antes. Em boa verdade não a podiam compreender. quando teve que deixar a pasta de ministro: Perdi o emprego! Era um graccjo. Sabe-se. Entre nós a política é. todos os que formavam o estado-maior deste partido nos municípios. Era uma vassourada geral. a frase motejadora de Martinho: também eles perdiam o emprego! Está claro que. que essa posse também dá. não compreendiam (ou fingiam não compreender) esta imparcialidade do imperador. num país em que a vida política se modela por esse padrão e se restringe a esses objetivos personalíssimos. quando caía um Gabinete. X Os políticos.quer dizer: sa­ cudia para fora dos cargos públicos. depois dc dez anos dc governo conservador. com surpresa geral. ingrata . não a podiam admitir. que. a conquista do poder é um fato inquestionavelmente mais sério e mais dramático do que em outro país. o poder é disputado pelos proventos que concede aos políticos e aos seus clãs. mas há tam­ bém os proventos materiais. entretanto. os partidos não disputam o poder para realizar ideias. se não há engano na filosofia de Quincas Borba. Eqüivale dizer que cabiam a estes as batatas. o exercício do Poder Moderador num sistema parlamentar é uma tarefa delicada. que deixava o campo inteiramente lim­ po e aberto ao assalto dos vencedores. locais. Estes se julgavam sempre esbulhados. não sabia realizar. Realiza­ va assim. Há os proventos morais. fazia subir os liberais.c todos acham infinitamente mais docc viver do Estado do que de outra coisa. o partido conservador. Num país assim. aquilo que o povo. com efeito. Em nosso país. como sc vive da lavoura. an­ tes dc tudo. Em 1878. que sempre dá a posse da autoridade. espinhosa. Em 1868.

O Estado não é a suprema encarnação da ideia. con­ vertendo-se ao catolicismo em 1906. Kste explodia. Escreveu inúmeras obras. constitui. com destaque para Filosofia moral (1960). é um conjunto de institui­ ções combinadas em uma máquina altamente aperfeiçoada. O Estado é apenas uma insti­ tuição autorizada a usar do poder e da coação.. filósofo e diplomata francês. sem outra razão senão as razões do seu capricho. O Estado é uma parte que se especializa no interes­ se do todo. todavia. como o acreditava Hegel. Tal obra de arte foi construída pelo homem e serve-se dos cérebros e das energias humanas e nada é sem o homem. Chicago e Princeton (1948-1960). estudou em Paris e Heidelberg. tornou-se adversário do Concilio Vaticano e do movimento neomodernista. Colúmbia. é mais abstrata. Arte e escolástica. uma superestrutura impessoal e duradoura. mais impiedosa também do que em nossas vidas individuais. um instrumento ao 5 Jacques Maritain (1882-1973). Agir. 1959. em suma. cujo funcionamento pode ser considerado como ra­ cional em segundo grau. obra que escolhemos para transcrever o trecho supra. feridos no seu pundonor pessoal c guardavam do imperador uma sorte de ressentimento íntimo. Homens de clã para quem o inimigo político era quase sempre inimigo doméstico e a luta política uma luta pessoal. e constituída por técnicos e espe­ cialistas em questões de ordem e bem-estar público. mais separada das contingências. às vezes mesmo.300 Teoria Geral do Estado buçado dentro de uma prerrogativa constitucional. 22-3. Professor do Instituto Católico de Paris {1914-1940). universidades de Toronto. ar­ ticulada pela lei e por um sistema de normas universais. da experiência c da individualidade. No campo da filosofia política legou-nos O homem e o Estado. na medida em que a atividade racional nele envolvida. de rancor. 3. p. O Estado não é uma espécie de super-homem coletivo. em frases de recriminação violen­ ta ou cólera impulsiva. às vezes.) 0 Estado O Estado é unicamente a parte do corpo político que se refere especialmente à manutenção da lei. Embaixador da França no Vaticano (1945-1948). ao fomento do bem comum e da ordem pública e à adminis­ tração dos negócios públicos. eles não se sentiam apenas esbulhados com o ato da Coroa que cha­ mava ao poder os adversários: sentiam-se também humilhados. Alceii Amoroso Lima. Rio de Janeiro. . ed. os destituía das suas situações de mando. lecio­ nou também na América do Norte e no Canadá. uma encarnação superior da razão. Não é um homem ou um grupo de homens. 15) JACQUES M ARITAIN5 0 homem e o Estado (Trad.

destinado a desaparecer das greves. simultaneamente. Collcction Rcssourccs. Ensaios dc crítica do marxismo e. suprimirá um regi­ me condenado. Dedicou-se à questão social desde 1892. espera e preparação da greve geral. Quando. Reflexões so­ bre a violência (1906). Trata-se.) Tradução do autor. sobre a violência proletária. A pessoa humana como indivíduo existe para o corpo político. construindo. Colocar o homem a serviço desse instrumento é uma perversão política. com a eli­ Georges Sorel (1847-1922). Paris-Genève. seu famoso sindicalismo revolucionário. existe para o Estado. por inclinação natural. não se dei­ xando condicionar por metáforas. semelhantemente a uma batalha napolcônica. entre elas A ruína do mundo antigo. . acre­ ditava na formação de elites no seio do proletariado. é uma grande mentira dizer que a violência não passa de um fenômeno acidental. um clássico da Política. Tenho certeza de que o socialismo não sobreviverá sem a apologia da violência. Vergastando a burguesia e a democracia parlamentar. que. porque os trabalhadores levam tais expressões ao pé da letra. o mais importante de seus trabalhos. é durante as greves que o proletariado reafirma sua existência. isto sim.10 Leituras Complementares 301 serviço do homem. mas o cor­ po político existe para a pessoa humana como pessoa. 1981. Para eles o socialismo se reduz à ideia. tornou-se. O Estado e que existe para o homem. engenheiro de profissão. resolvi escrever. A revolução social é o prolongamento desta guerra. inspirando-se principalmente em Karl Marx. A greve é uma guerra! Consequentemente. estava consciente da grande res­ ponsabilidade que assumia ao tentar demonstrar a importância histórica de ccrtas ações que nossos socialistas “parlamentários” tentam ocultar com suas artimanhas. Pierre Joseph-Proudhon e Henri Bergson. dois ilustres discípulos: Lenin e Mussolini. com bruscas alterações de rumo. Deixou várias obras de considerável significado. o mais significativo dos mitos proletários. Aqueles que dirigem ao povo palavras revolucionárias têm a obrigação de ser sinceros. as quais levariam o trabalhador à sua eman­ cipação mediante o estímulo a uma greve geral e universal. Tal concepção não implica nenhuma das sutis interpretações em que se esmera Jaurès. de uma transformação radical. de forma re­ lativamente profunda. Com efeito. 16) GEORGES SOREL6 Reflexões sobre a violência (Réflcxions sur la violence. Sua importância para as ideias políticas pode ser resumida no fato de que inspirou. um notá­ vel ideólogo. Mas o homem. da qual cada grande greve constitui mero episó­ dio. em 1905. de maneira alguma. eis por que os sindicalistas se referem a tal revolução empregando o linguajar típico das greves. Não me conformo com a visão limitada de alguns em considerar as greves como algo seme­ lhante a uma desavença comercial entre um feirante e seu fornecedor.

Somente a guer­ ra social. filosofia esta profundamente vinculada à apologia da violência. a mesma indulgência com que ele os en­ carou. que esperam obter da democracia os melhores cargos. e tornam-se dignos de ensinar ao mundo novos caminhos.salvo D ’Estournelles de Constant . comprovo que. aliás. traz consigo o ideal de uma grande transformação. Seria caso de se comparar os socialistas “parlamentários” aos servidores com que Napoleão formara uma nobreza. sc tornarão inúteis. sem hipocrisia. cujos soldados levam a efeito . serão relegados à sua literatura. é sobre seu enorme alcance que a democracia fundamenta sobretudo sua força. as ideias que constituem o mais belo monumento da moderna civilização. aos exércitos napoleônicos. Não adiantaria tentar convencer os pobres de que estão equivocados ao nu­ trirem inveja e rancor contra seus patrões. exclui todas as abominações que desonraram a revolu­ ção burguesa do século XVIII. ao levar a efeito obra tão séria. e que trabalhavam para o fortalecimento do Estado legado pelo Antigo Regime. Jamais nutri por certo “ódio criador” a admiração que lhe concedeu Jaurcs. nem experimento.302 Teoria Geral do Estado minação dos patrões e do Estado pelos produtores organizados. Fecunda dc conseqüências c a comparação que estabelecemos entre as greves violentas e a guerra. Há. Todavia. Ninguém duvida . que parecerá ainda mais impressionante quanto maior for o convencimento alcançado pela violência no ânimo dos proletários. pode dar origem aos fundamentos de uma nova civilização. chamo a aten­ ção de meus jovens discípulos para os problemas que o socialismo apresenta. que vêem na organização criada pela burguesia os meios que lhes permitem dominar uma parccla do poder. para a qual o proletariado não cessa de se preparar nos sindicatos. desenvolvida pela prática de greves violentas. visando a destruir um inimigo irreconciliável. às repúblicas antigas. típica de um povo de produtores. Incansavelmente. Nossos intelec­ tuais. vai-se fir­ mando uma filosofia até pouco tempo despercebida. algo tremendo. pode suprimir tais sentimentos vis. ao apelar para o sentimento de honra que se desenvolve naturalmente em todo exército organizado. A ideia de greve geral. Por isso. pelos guilhotinadores. com precisão. a apologia da violência me é particular­ mente simpática. em tudo isto. A guerra travada de peito aberto. hoje. os socialistas situam-se em nível superior ao da nossa leviana sociedade. enquanto o sindicalismo revolucionário corres­ ponderia. temível e sublime como esta. e os socialistas “parlamentários”. já que tais sentimentos são demasiado fortes para que exortações inconseqüentes possam reprimi-los.que a guerra proporcionou. c cnchc-mc dc horror qualquer medida que atinge o mais fraco sob um dis­ farce judicial. Ainda que não houvesse outra razão para atribuir ao sindicalismo revolucionário um elevado papel civilizador. esta mc pareceria decisi­ va cm favor dos apologistas da violência. do ponto de vista de uma civilização de produtores. contra os quais a mo­ ral continuaria impotente. A guerra social.

São suas obras principais Materialismo e empiriocriticismo (1909). a sua causa é injusta” . da Primeira Guerra Mundial. líder revolucionário soviético. é a referência à Democracia. doença infantil do comunismo (1920). passando três anos deportado na Si­ béria. 1980. os bolcheviqucs escolheram o mé­ todo da ditadura e. Entre outros temas. de seu país. Assumindo o poder.10 Leituras Complementares 303 tantas proezas. p. e Extremismo. “A Democracia é liberdade. por outro rejeitou as correntes radicais dc extrema esquerda. se. Em 1919 organizou a Terceira Internacional. por um lado. Global.. apareceu na literatura eu­ ropeia como o mais decisivo representante deste ponto de vista: “Os bolcheviqucs escolheram um método que viola a Democracia. encerrou a guerra civil. Kautsky. voltou novamente à Rússia. Toda a intelligentsia o repete constantemente e. portanto. Esta conclusão apareceu milhares de vezes em todo o lado e aparece constantemen­ te em toda a imprensa e nos jornais já mencionados por mim. em que todas as facções socialistas que o apoiavam o elegeram como o grande líder do movimento operá­ rio internacional. a igualdade. Como sabem. semiconscientemente. Estado e revolução (1917). preparando a segunda fase do processo revo­ lucionário. Eclodindo a Revolução dc 1917. travada contra o Império Austro-Húngaro. F. é igualdade. anali­ sou a chamada fase imperialista do capitalismo e elaborou o conceito de ditadura do proletariado. São Paulo.) Passarei agora à questão seguinte . o chefe ideológico da Segunda Interna­ cional e. 24-34. até agora. por vezes.A atitude em relação à Democracia em ge­ ral. a de­ Nikolaj Lenin era o pseudônimo de Vladimir Ulianov (1870-1924). os filisteus repetem-no. bem como a distribuição das terras aos camponeses e a atribuição de todo o poder aos sovietes. membro da Internacional dc Berna. K assim que ele argumenta. que pode haver de mais importante do que a liberdade. exigindo a imediata retirada. e o que perdurará no movimen­ to socialista atual será a epopeia das greves. impediu a intervenção mili­ tar estrangeira em seu país e deu início à sua reconstrução econômica. desenvolveu inten­ sa atividade intelectual e de ativista político. Já tive várias vezes que fazer notar que a justificação. voltando à Rússia para se tornar o chefe da Revolução Socialista deflagrada em 1905. . lançando as bases de um novo Estado socialista de inspiração marxista. Tornou-se militante ainda jovem. é claro. nos seus argumentos.ntre 1900 e 1917 viveu no exterior. A ditadura do proletariado e o renegado Kautsky (1919). endereçada aos revolucionários dc seu país. Refugiando-se no exterior dois anos mais tarde. a defesa mais proveito­ sa destas posições políticas que os democratas lançam contra nós. Imperialismo. ed. 17) NIKOLAJ LÊNIN7 Como ilu d ir o povo com os slogans de liberdade e igualdade (3. Tcórico brilhante da doutrina marxista. é a decisão da maioria. mesmo sabendo que continuariam pobres. Que restou do Império? Nada mais do que a cpopeia da Grande Armada. contestou o revisionismo desta. última fase do capitalismo (1919). tendo sido preso em 1895.

pois desejamos clareza acima de tudo. ao lado de Kolchak? Comecemos por esclarccer a noção de “liberdade” . c inútil acentuá-lo. No momento em que se atingir a destruição do poder do Capital em todo o mundo. a liberdade do Capital. dissemos. está a serviço dos exploradores e nada mais.sabe que ele devotou a maior parte da sua vida. se afastaram disto. preferindo direta ou indiretamente esta à ditadura do proletariado. Esclareça-se. atue contra a ditadura do proletariado. . das suas obras. então não se surpreendam e não se queixem se vos chamarem dc usurpadores e violadores!” De modo algum nos surpreendemos. adep­ tos da Democracia consistente. e dizemo-lo sempre. “igualdade” e “a vontade da maioria”. porque a liberdade. utilize as palavras “Liberdade em geral”. ou mesmo num país. consideramo-los como aliados de Kolchak. mas é fundamental do ponto de vista da nossa propaganda e educação. que não lançamos. é sua aliada. Talvez isto seja supérfluo do ponto de vista da formulação externa do programa. nesse momento histórico. e só contamos com o setor avançado dos trabalhadores que tem uma real e verda­ deira consciência da sua posição. pela com­ pleta destruição da produção mercantil. muito importante em qualquer revolução. sabemos perfeitamente que o Capital mundial. ou são censuráveis por surgirem ao lado da classe capitalista. que. para oprimir as massas trabalha­ doras. e a decisão da maioria. é uma fraude.quem quer que tenha lido mesmo uma divulgação po­ pular de Marx . que criou a liber­ dade burguesa. Mas o nosso programa declara: “A Liberdade 6 uma frau­ de se se opõe à emancipação do Trabalho da opressão do Capital”. e ainda tiveram a ou­ sadia de declarar abertamente que são mais importantes que a liberdade. E qualquer pes­ soa que tiver lido Marx . como “liberdade”. quando não subordinada aos interesses da emanci­ pação do Trabalho do jugo do Capital. Serão os democratas puros real­ mente censuráveis por ensinarem a pura Democracia. em nome desta liberdade. qualquer pessoa que. por defenderem-na contra os usurpadores. do ponto de vista dos fundamentos da luta proletária e do poder proletário. como declaramos claramen­ te no nosso programa do partido. em tal momento po­ lítico. c um slogan muito. para provar que por detrás destas frases se encontram os interesses da liberdade do proprietário. quando a principal tarefa for a luta das classes trabalhadoras pelo total aniquilamento do Capital. Sabemos perfeitamente que temos que lutar contra o Capital mun­ dial. fraudulentamente. igualdade. teve à sua fren­ te a tarefa de criar a liberdade. pois é necessário esclarecê-lo. e a maior parte das suas investigações científicas exatamente à ridicularização da li­ berdade. socialista ou democrática. no programa do partido.304 Teoria Geral do Estado cisão da maioria! Se vocês. adeptos da pura Democracia. no nosso pro­ grama. 110 seu tempo. sabemos perfeitamente que isto foi um progresso histórico mundial. que destruiu a escravatura feudal. Sim. bolcheviques. “Liberdade”. e que con­ sideramos esses que se intitulam democratas. tais slogans altissonantes. vontade da maioria e a todas as espécies de Benthams que o descrevem. a igual­ dade.

a França está a manter mais que nunca o seu “alto ideal dc Liberdade”. contra o Capitalismo Republi­ cano. O fato dc reconhecerem a liberdade de reunião é. Mas a vossa liberdade é de uma tal espécie que é uma liberdade no papel e não na prática. Reparem em todos os países da Europa Ocidental. Qualquer espé­ cie de Liberdade é uma fraude. E vocês. “ Isto”. América . como este onde agora nos encontramos. a vossa liberdade.recebemos agora raramente os jornais franceses porque estamos cercados por um anel. indo contra os bolcheviques c apoiando os seus adversários. mas isso é propriedade privada. Em todos os livros. mas a informação chega-nos pelo telégrafo. dado que por enquanto ainda é impossível cercar o ar. Mas talvez isto seja impossível? Talvez seja impossível que a liberdade seja contrária à emancipação do Trabalho do jugo do Capital. cavalheiros ingleses. o seu sistema é descrito como o sistema mais livre. bolche­ viques. a propriedade . É esta a essência do problema. “é o verdadeiro significado e a principal manifestação de liberdade. “A Sala dos Nobres”. Consideramos essencial dar-lhe esta resposta no nosso programa. esquece­ ram que a vossa liberdade está escrita numa Constituição que legaliza a proprieda­ de privada. Todos os socialistas o reconheceram ao utilizar esta liberdade da sociedade burguesa para ensinar ao proletariado o modo de acabar com a opres­ são do Capitalismo. contra o Capitalismo Democrático. isto é usual cm todas as suas polêmicas contra nós. violaram a liberdade de reunião”.França. franceses. Inglaterra. dizem eles. tendes que respeitar a propriedade . desculpem-me.erguem esse es­ tandarte. Encontramos coisas deste gênero a cada passo. ingleses e ame­ ricanos chamam liberdade mesmo à liberdade de reunião. ou sobre os quais te­ nham lido. por exemplo. Sim. e ouvimos as emissões de rádio estrangei­ ras . Podeis reunir-vos livremente com cidadãos da República Democrática Russa. e agora esses “países civilizados” . sabemos que ele erguerá a bandeira da liberdade contra nós. marcham contra os bolcheviques “em nome da liberdade” . onde quer que tenham estado. pertencem aos capitalistas e aos proprietários e chamam-se. Na Constituição deve es­ tar escrito: “ Liberdade de reunião para todos os cidadãos”. Ainda há pou­ cos dias atrás . um imenso progresso em comparação com a ordem feudal. Esqueceram um pormenor.consegui ler nos boletins emitidos pelo governo francês dc rapina que. se está em contradição com a emancipação do Trabalho da opressão do Capital. respondemos nós. ame­ ricanos. cla­ ro. Juntamente com a liberdade. contra o livre Capitalismo e. sc é contrária aos interesses da emancipação do Tra­ balho da opressão do Capital. com a lei de servi­ dão medieval. claro está. civilizados cavalheiros.é assim na realidade que está es­ crito na vossa Constituição. Isto significa que os grandes auditórios que existem nas grandes ci­ dades. E a que chamam eles liberdade? Estes “civilizados” franceses. E nós respondemos.10 Leituras Complementares 305 E declaramos que somos contra o Capital em geral. é uma fraude.

Vocês acusam-nos de violarmos a liberdade. a “Sala dos Nobres”. pois sabemos como tratar de emanci­ par os trabalhadores do jugo do Capital. fantasista. é necessário retirar a liberdade de reunião aos capitalistas. Afirmamos que a liberdade de reunião para os capitalistas é o maior crime contra os trabalhadores.isto não acontecerá tão cedo. Isto ajuda a emancipação do Trabalho da opressão do Capital. meias-tintas. mecânico e intelectual. Primeiro apoderemo-nos dos melhores edi­ fícios e.é este o significado da ditadura do proletariado. nem pelo palavreado de muitas das revoluções dc 1848. na Inglaterra de 1649.306 Teoria Geral do Estado privada senão passais a ser Bolcheviques. Estamos numa batalha . e porque foi uma revolução a serio que não só derrubou os monárquicos. Quando isto acontecer. dos contrarrevolucionários. assim como dos cavalheiros intelectuais burgueses -. é necessário retirar ou cortar-lhes a sua “liberdade” . então. e havemos de abolir esta liberdade. então seremos pela liberdade de reunião para todos. Primeiro trans­ formamos este edifício. Pas­ saram os dias do Socialismo ingênuo. pessoas in­ solentes. e a cul­ pa é dos cavalheiros burgueses. os melho­ res edifícios são propriedade privada. sob a qual não existirão grandes edifícios onde apenas uma família vive e que pertence a um único indivíduo . ladrões. Q uando só houver no mundo trabalhadores e as pessoas se esquecerem dc pensar cm como era possível ser um membro da sociedade e não um trabalhador . dizemos: Vocês mentem quando nos atiram à cara a acusação de es­ tarmos destruindo a liberdade! Quando os vossos grandes revolucionários burgue­ ses. A li­ berdade de reunião. Mas nós dizemos: Estamos virando isto “de pernas pro ar”. depois falaremos sobre liberdade. Aos cavalheiros intelectuais burgueses. Lu­ tamos contra eles. que não é mais que a liberdade de reunião dos contrarrevolucionários. isto constrói essa verdadeira li­ berdade. de um ca­ pitalista ou de uma sociedade anônima. que reconhece como inevitável a . protegidos do tempo. quando queremos nos reunir. aos cavalheiros que apoiam a Democracia. incluída nas Constituições de todas as repúblicas burguesas. como também os suprimiu. mas hoje a liberdade de reu­ nião significa liberdade de reunião dos capitalistas. é uma fraude porque. num edifício das organizações dos trabalhadores e só então falaremos dc liberdade dc reunião. quando se pensava que bastava convencer a maioria das pessoas e pintar um belo quadro da sociedade socialista para que a maioria adotasse o ponto de vista do So­ cialismo.trata-se aqui de um proprietário. porque não se caracterizou por molezas. utópico. nós afirmamos que qualquer liberdade não subordinada aos interesses da emancipação do Trabalho da opressão do Capital ê uma fraude. gatunos. criminosos. A Revolução Francesa e chamada a Grande. Passou o tempo em que era possível iludirmo-nos a nós mesmos e aos ou­ tros com estas histórias de fadas. então o povo se es­ quecerá de que é possível existirem edifícios públicos propriedade de um particu­ lar. Nessa altura seremos pela total “liberdade”. não permitiram a liberdade de reunião aos monárquicos. O Marxismo. Também sabe­ mos como tratar os cavalheiros capitalistas. na França de 1792-1793. desencadearam uma revolução.

Que é liberdade de reunião quando os trabalhadores são esmagados pela es­ cravatura do Capital e pelo trabalho para o Capital? É uma fraude. tão “monstruoso”. como estão a armar lite­ ralmente todos os burgueses. mas agora viram que as coisas eram sérias. é uma fraude porque sabemos perfeitamente que a burguesia fará tudo para derrubar este poder. e. precisamente por não estar ainda totalmente derrubada. e na véspera da Revolução de Outubro gracejava ainda muito feliz e despreocupada. e tais palavras não devem ser atiradas levianamente. dado que a bur­ guesia foi derrubada. portanto. Se os socialistas lançaram um tal slogan é porque sabem que a elasse dos exploradores só cederá em resultado duma luta desesperada c sem piedade c tentará disfarçar o seu domínio por meio das mais variadas palavras agradáveis. a luta de classes assume as suas mais profundas formas e esses democratas e socialistas não servem para nada e enganam-se a si próprios e depois os outros ao afirmarem que. Hoje a luta estendeu-se a todo o mundo. como está sendo criada uma Guarda Branca porque sabem que as coisas chegaram a um ponto em que se põe a questão de consegui­ rem manter os seus privilégios. c que. pois não compreende que a liberdade e a Democra­ cia. concreta e claramente. afirma: A humanidade só pode atingir o Socialismo através da D i­ tadura do Proletariado. é necessário. para se con­ seguir a liberdade dos trabalhadores. que refle­ tiram. “ Liberdade”. no início. que lhes permitem conservar milhões de pessoas em escravatura salarial. os cavalheiros burgueses ingleses. Se pudessem ver o que está se passando na “livre” Suíça. até hoje. Gracejavam porque não tomavam as coisas seriamente. está ao lado da classe capitalista. sobre as relações dos trabalhadores em revolta con­ tra a burguesia. ilude o povo. foram a liberdade e a Democracia dos proprietários e meras migalhas para os sem-propriedades. sangrenta e terrível.haverá outra palavra que soe melhor? Será possível imaginar o desenvolvimento da consciência de classe dos trabalhadores sem liber­ dade de reunião? íYlas nós afirmamos que a liberdade de reunião nas Constituições da Inglaterra e dos Estados Unidos da América do Norte é uma fraude porque ata as mãos das massas trabalhadoras durante o período de transição para o Socialis­ mo. Liberdade de reunião . Não pode ser de outro modo aos olhos daqueles que refletiram sobre a luta de classes. Ditadura é uma palavra crua. que é tão insólito. Exatamente depois da destruição da burguesia.10 Leituras Complementares 307 luta de classes. a tarefa chegou ao fim. que consideravam a sua “repúbli­ ca democrática” como uma armadura que os defendia. se lança à luta com o maior ódio. quem hoje nos ataca com palavras como “Democracia”. que foi derrubada num único país. por­ que a burguesia ainda não acredita que foi derrubada. viram e reconheceram tam­ bém que as coisas tinham tomado um aspecto sério e agora estão todos a armar-se. antes de tudo. e. séria. portanto. Milyukov gracejava as­ sim como Chernov e os seguidores do jornal Novaya Zbizn. H apenas o começo e não o fim. franceses e suíços. c ainda não cm todos. vencer a resistên­ .

Aqui o problema é ainda mais com­ plexo. e é totalmente verdade. Diz que a “igualdade” .o que é muito mais difícil e importante . mas se eu tenho de me haver com a resistência de toda uma classe. mas. e afirmava-se que a igualdade era a condição sob a qual o milionário c o trabalhador deviam possuir iguais direitos. É possível apossarmo-nos imediatamente da propriedade e dos edifícios suntuosos.. e vocês sabem que toda a luta contra a ordem medieval. Primeiro destruiu a monarquia e entendeu por liberdade simplesmente a existência do poder eleitoral. de uma república. quem tiver dinheiro. quanto à propriedade em dinheiro. em virtude da propriedade privada dos meios de produção. se fez sob o slogan de “igualdade”.! O dinheiro é a “nata” da riqueza social. de fato.era assim que os revolucionários do período que ficou na história como o período da Grande Revolução Francesa sinccramentc falavam. Antes da Re­ volução Socialista.não o dissemos especialmente no nos­ so programa. sejam quais forem os seus bens. A revolução fez-se contra os pro­ prietários sob o slogan de igualdade. contra o feudalismo. IV Passo agora da liberdade para a igualdade. dado ser tão claro como o que dissemos sobre a liberdade . do dinheiro e do Capital. Ainda não conseguimos abolir totalmente o di­ nheiro. isso.308 Teoria Geral do Estado cia dos exploradores. uma fraude. Afir­ mamo-lo. Neste caso estamos diante de uma questão ainda mais séria. e podemos confirmá-lo. Para abolir o dinheiro são necessárias grandes conquistas técnicas e . o direito de explorar. Afirmamos que uma república democrática com igualdade é uma mentira. é a pro­ va do tributo dc todos os trabalhadores. a “nata” do trabalho social. nem igualdade ou mesmo decisão majoritária a essa classe.organizacionais. que provoca de­ sacordos ainda maiores e mais violentos. e conservar condições tais que. e isto durante um largo espaço de tempo. Eis o que é o dinheiro. é necessário manter uma igualdade em palavras na Constituição. todos são iguais. pensavam c consideravam. é possível apossarmo-nos relativamente depressa do Ca­ pital e dos instrumentos de produção. no seu curso. destrói uma após outra as classes exploradoras. afirmamos que o dinheiro se manterá. porque na realidade a igualdade não existe nem pode existir. os socialistas afirmaram que era impossível abolir imediatamen­ te o dinheiro. por experiência. então c óbvio que não posso prometer nem liberdade. e. A revolução. pos­ sui. A revolu­ ção avançou mais. Poderá ser destruído de uma hora para outra? Não. Todos são iguais.diz que a igualdade é uma fraude quan­ do em contradição com a emancipação do Trabalho da opressão do Capital. inclusive o milionário c o vagabundo . é a relíquia da antiga exploração. mas é impossível continuar a repeti-lo sem fim.. até as conseguirmos. Em seguida destruiu os proprietários. durante o período transitório do velho sistema capitalista ao novo sistema .

tinham afirmado: a Igual­ dade é uma frase oca a não ser que por igualdade se entenda a abolição de classes. Mas. Quando Ihering escrevia .“a falta de poder material (Macht) é pecado mor­ tal do Estado. Uma coisa é certa: enquanto houver diferenças de classe entre trabalhadores e camponeses. 41-2. 311) . Lisboa. é uma for­ ça que se impõe pelo constrangimento material. mas isto é um mero jogo de palavras.. d. ainda poderia chamar-se socialista. na sua ignorância.) O elemento essencial do Estado é a força. que. mesmo se se intitula escritor e por vezes mesmo como um ho­ mem culto.e quando Treitschke formulava o adágio que se tornou célebre . e especialmente os funda­ dores do moderno Socialismo Científico.Der Staat ist Macht . mas a sua doutrina implicava um erro irremissível e era por virtude disso abominável. Só existe verdadeiramente Estado num certo país quando um homem ou certo grupo de homens dispõe nesse país duma força material preponderante. não é senão uma frase sem sentido e uma invenção estúpi­ da do intelectual. Se interpretarmos a palavra socialismo num certo sentido. 18) LÉON DUGUIT Os elementos do Estado (Trad. Alguns profes­ sores burgueses tentaram convencer-nos dum conceito de igualdade pelo qual to­ dos seriam iguais. Assim e também necessário destruir a diferença de classe entre trabalhadores e camponeses.. Eduardo Salgueiro. não podemos falar de igualdade sem correr o risco de fazer o jogo da burguesia. Inquérito. Ed. A igualdade é uma fraude se está em oposição aos interesses da emanci­ pação do Trabalho da opressão do Capital. deturpa as palavras. Só destruindo as classes haverá igualdade. tinham razão. Aque­ .. mas não vale a pena discutir pala­ vras..10 Leituras Complementares 309 socialista. s. antes de tudo. O Socialismo é a primeira fase do Comunismo. Engels tem toda a razão quando afirma que o conceito de igualdade é um pre­ conceito estúpido c absurdo. um Estado sem poder material de constrangimento é uma contra­ dição em si” (“Der Zveck im Recht”. A igualdade é o nosso objetivo. O Estado. Marx e Engels.. É este precisamente o nosso objetivo. E é isto que afirmamos.. ou qualquer outra coisa. pretender que queremos fazer com que todos sejam iguais. não sabiam que os socialistas. mas sob a forma de abolição de classes. 2. separadamente da abolição de classes. nem socialista. ed. p. pág. Uma sociedade cm que se mantém a diferença dc classe entre trabalhadores e camponeses não é nem comunista. Mas. por vezes conscientemente. mas não tem qualquer significado. Tentaram atribuir aos socialistas este absurdo por eles inventado.

p. que ele conhecia tão bem. seu egoísmo e seus interesses cm face de objetivos gerais que trans­ cendem. “O direito é a política da força” dizia Ihering. ou no sentido amplo e intemporal do gênero humano? Creio que. 473-9. é universal e. que levou a Alemanha a cometer os crimes mais monstruosos da história. edu­ car suas paixões. Se o direito sem a força se arrisca a ser impotente. 19) BENITO MUSSOLINI Prelúdio a 0 príncipe. A indagação se impõe: após quatro séculos. a força sem o direito é simplesmen­ te barbaria. imperioso estabelecer o conceito de Maquiavel sobre a humanida­ de em geral e sobre os italianos em particular. doutrina contra a qual se levantou todo o universo civilizado.310 Teoria Geral do Estado la força de constrangimento era para eles ilimitada ou pelo menos só era limitada pela regra de direito na medida em que os governantes se lhe submetessem. o pessimismo de Maquiavel sobre a natureza huma­ . utilizar. mas força subordinada a uma regra de direito superior a ele. Se houve inúmeras modificações sociais. o que resta de válido na obra O Príncipe? Os conselhos de Maquiavel ainda poderiam ser úteis para os modernos governantes? O valor do sistema político de O Príncipe fica circunscrito à época em que tal livro foi escrito. é por mera política. “A for­ ça cria o direito” dizia Treitschke. Que representam os homens no sistema político de Maquiavel? Que pen­ sa Maquiavel a respeito dos homens? Ele é otimista ou pessimista? Dizendo ho­ mens devemos restringir tal vocábulo aos italianos de seu tempo. dc orientar. Sim. quase sempre.) Tradução do autor. inevitavelmente limitado e. a vida individual. Libreria dei Littorio. atual? Minha tese responde a tais perguntas. se isto é a política. principalmente. ou seja. Ele é o seu ponto de partida. não se verificaram alterações consideráveis na mentalidade dos indivíduos e dos povos. o Estado é a força. Afirmo que a doutrina de Maquiavel está. Resulta evidente. antes de proceder a uma análise do sistema político maquiavélico. se os governantes aceitam que a sua força seja regulada pelo direito. força que só le­ gitimamente se impõe quando atua em conformidade com essa regra de direito. Sc a política é a arte de conduzir os homens. para conseguirem ser mais obedecidos. então o pressuposto dessa arte é o próprio homem. portanto. mais viva que há qua­ tro séculos. na forma condensada de O Príncipe. Roma. caduco ou. hoje. Doutrina ignóbil. mesmo numa lei­ tura superficial de O Príncipe. porque projetadas no futuro. em parte. pelo contrário. querendo exprimir que. 1930. de M aquiavel (in II príncipe.

evidentemente. será facilmente rompido. julgando como julgava os homens. e o governante crédulo cai. logo imperam a incerteza e a desordem”. não atenuaria. a opinião de Maquiavel. porque sc a própria morte pode scr esque­ cida. mas característica do pensamento maquiavélico. Enquanto lhes fazem benefícios. Esse ponto inicial c essencial precisa scr considcrado para entendermos bem o desenvolvimento das ideias dc Maquiavel. desiludido. na doutrina de Maquiavel o príncipe é o próprio Estado. para o atomismo social. porém.] Os homens nunca fazem o bem. No Capítulo XVII dc O Príncipe. Porque o amor cria um vínculo de deveres que. não fazia referência apenas àqueles de seu tempo: florentinos. o seguinte: “Os ho­ mens sc revoltam mais contra a perda de uma insignificante prerrogativa. novamente. As tristezas aqui reportadas são suficientes para demonstrar que a opinião negativa sobre os homens não é casual. É. mas poderá fazer valer. prontos a agir com maldade logo que surja a ocasião para isto [. avessos ao perigo e ávidos dc lucro. Tudo o que foi denominado utilitarismo. que con­ tra o assassinato dc seus pais ou irmãos.10 Leituras Complementares 311 na. Por outro lado. sempre. Quanto ao egoísmo humano. Merecida c desanimadora convicção. os filhos. os bens materiais não. mesmo. e que esta­ rão. confundindo-se com a licenciosidade. pelo próprio ca­ ráter dos homens. Maquiavel não se deixa iludir e não ilude o príncipe. também. Segundo Maquiavel. Enquanto os indi­ víduos se inclinam. Maquiavel c bastante claro: “Dos homens é pos­ sível dizer que. em desgraça. geralmente. Meu tempo ainda não passou. são ingratos.. oferecendo a própria vida e. imperioso a quem dirige uma república e legisla para tanto pressupor que seus governados são maus. toscanos. o direito perdido”. os homens são mórbidos. e não titubea­ va em apresentá-los nos seus aspectos mais negativos. Ao contrário. pragmatismo ou cinismo maquiavélicos se baseia. Acha-se pre­ sente em toda a sua obra. volúveis. A exemplo de muitos que pesquisaram e conviveram com os mais diversos tipos humanos. nessa posição inicial. não assim aque­ le que se faz temer.. demonstram uma falsa fidelidade. italianos que. Maquiavel tinha bem pouca consideração pelos homens. eu a consideraria suave. E no Capí­ tulo Terceiro dos Discursos: “Como demonstram aqueles que meditam sobre a so­ ciedade civil. sempre. estando. simuladores ou dissimuladores. encontro na correspondência (Cartas Variadas) de Maquiavel. levados pelo egoísmo. se rebelam. a não ser por interesse. Qualquer um sabe que uma revolução não trará de volta os mortos. Outras citações poderiam ser feitas. As antíteses príncipe/povo e Estado/indivíduo são cruciais no conceito de Maquiavel. mas se me fos­ se permitido julgar meus contemporâneos. quando exigidos. em nada. e como é cheia de exemplos a História. e onde a liberdade é excessiva. mais apegados aos bens mate­ riais que aos próprios pais. ao passo que a intimidação impõe um receio dc ser castigado que não os abandona jamais”. intemporal. N ão va­ cilam em ofender e magoar um príncipe que se limite a ser amado. evidente que Maquiavel. mas também ao próprio gênero humano. o Estado repre­ . dispostos a mudar seus sentimentos. entre os séculos XV e XVI ainda andavam a cavalo. mas isto não é necessário.

s. sobrevêm situações graves. Regimes políticos exclusivamente consensuais nunca existiram.sacrificam a própria vida no altar do Estado. As revoluções dos séculos XVII c XVIII ten­ taram resolver essa antinomia.que pecavam. que a soberania generosamente atribuída ao povo. sendo fácil incutir-lhes uma ideia. a esquivar-se de participar da guerra. jamais existirão. M undo Livre. mas não exerce soberania algu­ ma.d. portanto. du­ rante as quais nada se pergunta ao povo. e só. Maquiavel já escrevia em O Príncipe (Ca­ pítulo VI): “Disto se conclui que todos os profetas armados vencem.. 20) VARLAN TCHERKESOFF Erros e contradições do marxismo (Trad. até nos regimes polí­ ticos idealizados pelos enciclopedistas . Resta inevitável. O povo. Ciro.) . porque é sabido que a resposta seria fa­ tal: arrancar coroas c cabeças imperiais. não existem e. portanto. Trata-se de mais uma ficção ilusória dentre tantas. se não empregassem a intimidação” . Os demais estão em permanente revolta contra o Estado. provavelmente. o povo jamais foi definido. de Roberto das Neves. Antes de mais nada. Moisés. delega. o referendum é excelente quando se trata de escolher o melhor local para instalar a fonte luminosa de um pequeno município. mesmo os governos ultrademocráticos se abstêm de expô-los à apreciação popular.he­ róis ou santos . sem maiores explicações. continuamente. Se­ ria possível imaginar uma guerra declarada mediante referendum popular? Com efeito. Mesmo nos países onde tais mecanismos são tradicionais.. quando muito. se ordena ao povo. sendo necessário organizar-se de tal modo que. considerando o poder uma emanação da vontade livre do povo. Tem permissão para utilizá-la somente cm questões de administração ordinária. Os sistemas representativos pertencem mais à mecânica que à moral. aplicado ao povo. lhe é subtraída justamente nos momentos em que mais necessária se mostra. quando não acreditarem mais pela persuasão. segundo Rousseau.o conflito entre força organizada do Estado e tendência ao atomismo de indivíduos e grupos. que aceita a revolução ou marche para o desconhecido de uma guerra. é uma trágica farsa. Porque [. de seus deveres. O indivíduo tende a se es­ quivar. Quando interesses supre­ mos de um povo estão em jogo. É uma entidade abstrata como entidade política. E nada mais lhe resta que um monossílabo para aceitar e obedecer. c os desarma­ dos são vencidos. Teseu e Rômulo jamais teriam conseguido fazer seus povos cumpri­ rem as leis. a não pagar impostos. e introd. Pouquíssimos são aqueles que . Ninguém sabe onde começa ou termina. boas somente em tempo de paz! Por isso. mas difícil mantê-los persuadidos desta. creiam pela força. por ex­ cesso de otimismo . O adjetivo soberano. Vejam. Tende a descumprir a lei. M uito antes de meu conhecido artigo Força e Consenso. Rio de Janeiro.] a natureza dos povos é variada.312 Teoria Geral do Estado senta uma organização e uma limitação a tal tendência.

S.o dos que querem viver do seu trabalho e o dos que querem viver do trabalho dos outros. ou melhor. um elemen­ to entre muitos outros que servem às generalidades evolucionistas. Mas Niebuhr. conhecidas pelo nome de doutrinas materialistas. Este modesto filó­ sofo jamais pretendeu o materialismo. A parte não pode conter o todo. da qual Momm­ sen é um dos mais brilhantes representantes. e a (segunda explica as causas). nem aprofundá-las separadamente [. Niebuhr.J A primeira fornece os fatos. ao fazer a classificação das escolas históricas. Mill. nos princípios do século. Patrícios e plebeus. e consultarmos Vico (1668-1744) e o seu tradutor francês.l Mais ainda. temos Guizot. com a sua habitual . mas até deístas con­ victos e fervorosos cristãos. entretanto. o qual exprimiu. Conhecemos muitos autores que admitiam a influên­ cia das condições e das relações econômicas sobre o desenvolvimento da Humanida­ de. li­ berais c servis. que por sua vez insistia sobre o estado econômico da nação. escravos e libertos. e que era tão beato como um trapista. Blanqui. Outro economista. J. pois é necessário estudar a história segundo as condições econômicas e sociais do povo ro­ mano. outro homem de gênio. na sua análise do primeiro volume da História da França.. Se remontarmos ao primeiro historiador que tenha cogitado da influência das condições cósmicas e econômicas sobre o progresso e o desenvolvi­ mento da Humanidade. Delas saíram as minuciosas investigações de Mommsen. o pa­ pel que representam os elementos econômicos na história: “Não tardei em advertir que existiam entre estas duas ciências (a histórica e a econômico-política) relações de tal modo íntimas que não se pode estudar uma sem a outra. Agustin Thierry c outros. “A economia política explica as causas dos fatos econômicos”. de Solon e dos Gracos. Michelet.. cavaleiros e peões. formulou. vermelhos e brancos. b) o aumento das riquezas depende das condiçõcs econômicas c sociais do trabalho e da relação entre o número de produtores e de não produtores. no século XVII. Na Inglaterra. em 1825. Temos Niebuhr. Nun­ ca houve mais de dois partidos que se enfrentassem . Segui passo a passo os grandes acontecimentos. Entre outros. guelfos e gibelinos. O mesmo disseram os seus contemporâneos Mignet. do modo seguinte. decla­ rou que a lenda dc Tito Lívio sobre a fundação de Roma dcvc ser desprezada. fundador da economia política. menos profun­ do e menos original que Adam Smith. e que eram. O modo de produção é somente “um” fator. frisa. em 1776. O mesmo se verifica com Adam Smith. as duas fórmulas fundamentais: a) o trabalho é a única origem da riqueza social.10 Leituras Complementares 313 O conjunto dos fatores econômicos. que tratava a história de “antagonismo das classes” na Inglaterra. disse Blanqui. não são senão uma variedade da mesma espécie”. de Michelet. que chamamos “economismo”. não somente idealistas e metafísicos. Delas foram extraídos os estudos clássicos sobre a legislação agrária de Licinius.. o economismo não constitui a doutrina materialista. não é ainda o “materialismo”. Mommsen e toda a escola alemã estavam longe do materialismo f.. o grande fundador da escola histórica alemã. veremos que não fazem menção ao materialismo.

e que decoram dois pequenos folhetos de Engels e uma vulgarização de Marx. Selva­ gens impotentes diante da natureza. Rogers. disse que “a acumulação da ri­ queza é um dos principais fatores. perguntamos. se ocupa das leis sociais e cósmicas que regem o desenvolvimento da Humanidade (“Dissertation ct discussion”). mas que os des­ conhecia por completo. desgraçadamente para ele. por conseguinte. um dos mais impor­ tantes” (p. 50 c 53).48. sem nenhuma ideia da sua própria força e das . que a história. investigadores da verdade. é obrigatório para a classe trabalhadora destruir. T. do menor trabalho intelectual. IT. chamou “materialismo” ao que os sábios chamaram “cconomismo” ? Por que. antes deles. publicou o seu volume “Interpretação econômica da história”. que pos­ suía uma boa instrução e que havia lido muito. por que. não. c. O nosso interlocutor lera-nos. que. e que com tal bagagem se dão ares de homens de ciência. havia alguns anos que estava embebido na leitura dos folhetos e publicações do partido. como se fosse uma coisa nova e completamente “materialista”.] Como se nunca tivessem existido Louis Blanc. em vez de fa­ zer uma exposição científica. a organização do Es­ tado e das classes exploradoras e opressoras”.314 Teoria Geral do Estado lucidez. no qual analisa toda a história da Inglaterra sob o ponto de vista econômico.. incapazes. ho­ mens sem escrúpulos. Que decepção para as pessoas honradas. abrirem os olhos e compreenderem a mistificação de que foram vítimas! Lembramo-nos de uma discussão com um jovem social-democrata. a humanidade apareceu na história em estado semi-selvagem. declaram que jamais.T. 38. a ciência de­ monstra que o bem-estar c o progresso do gênero humano são criados pelo vosso trabalho. Foram sábios. e não puderam dar aos resultados dos seus traba­ lhos outro nome a não ser o de “interpretação econômica da história”. publicações “censuradas” por Engels e Auer. o autor da grande obra Seis séculos de trabalho e de salário. o mais depressa possível. Buckle. Como aconteceu. Aplicaram o método das investigações científicas ao estudo da história. como ciência moderna. das condições sociais c ate da manutenção da história. na bela tentativa que fez para retraçar a influência das leis cósmicas. mas que. cscrcvendo especialmente para os traba­ lhadores esmagados pelo trabalho incessante e que não têm tempo nem meios para verificar as suas afirmações. com ares triunfais. um dia. que o futuro da humanidade depende da nossa felicidade c dc condições favoráveis à vossa atividade produtiva (Smith). Proudhon c outros. quando. Uma vez enviados ao par­ lamento pelos trabalhadores enganados em sua boa-fé. Pode-se cha­ mar “materialistas” a estes sábios de nacionalidades diferentes? Certamente. pois. Um contemporâneo de Marx e Engels. sobre muitos aspectos. uma passagem da polêmica de Engels com o professor Diihring: “Saída de uma ori­ gem animal. em vez de dizer aos trabalhadores: “Amigos. o socialismo teve representação no parlamento [.. que Engels. por sua ignorância. contou tantas lorotas aos bravos e honrados traba­ lhadores que confiavam na sua palavra? Que resultado se obtém com tão estranho método? O dos politiqueiros.

errou no meio dos bosques. foi porque a obra de Darwin apa­ receu em 1859. indivíduo pretensioso. de Lamarck. O golpe mortal nessa estupidez teológica e sobrenatural foi vibrado por Ba­ con e Locke. Parecido com os restantes animais. A ciên­ cia não tem culpa se Engels fez uma mistura extravagante de várias coisas. e assim se vestiu. qualquer um diria que Engels copiara Volney. não a natureza. mas uma doutrina corrente e aceita pelos espíritos esclarecidos. pretendemos provar que a explicação econômica não era. Em resposta.10 Leituras Complementares 315 suas capacidades. mas os fatos e os fenômenos sobrenaturais do espí­ rito. e que. Espírito claro. desde o princípio do século XV III. pla­ giado por Engels: “Na sua origem. Por mais in­ verossímil que pareça. a descendência do homem por ele provada. o homem. não. se amalgamou a metafísica com o economismo. nu dc corpo c de espírito. e que. A glória da descoberta não pertence a Vico. o único que a ciência afirma. que tiveram a desgra­ ça de ler os folhetos de Engels. “saído da animalidade”. se bem que oposto ao materialismo dos naturalistas. e se. que pregou o absurdo de que a natureza e tudo o que nos rodeia é apenas um reflexo das nossas ideias inatas. enganou-se lastimavelmente. ou aos filósofos ingleses. admitiu. Pela atra­ ção de um forte poder. e os operários alemães. ano 12 da República). por . para conhecer o mundo físico. cncontrou-se sobre a Terra confusa c selvagem. como veremos diante. Mas foi acaso Volney o iniciador da doutrina da evolução? Absolutamente. sem experiência do passado c sem entrever o futuro. o fato deu-se. os homens eram pobres e miseráveis como os animais e produ­ ziam pouco mais do que estes”. para ser lido. As intempéries levaram-no a cobrir o corpo. uma concepção conhecida somente pelos homens de gênio excepcional. aos enciclopedistas. dc evolução c de monismo. e ele pôde ler este trecho. Se em Volney faltam as três palavras. com talento literário incomum. A ciência designava sob o nome de metafísica uma parvoíce escolástica. é neces­ sário estudar. por Voltaire e os enciclopedistas e por toda a filosofia inglesa. Se Engels acreditou que. Paris. e Engels. procurou os alimentos. abrimos-lhe as Ruínas de Volney. se converteria num benfeitor da humanidade. a Niebuhr ou à brilhante escola histórica alemã. enquan­ to a ciência indutiva de Bacon. acercou-se de um ser que lhe era parecido e perpetuou a es­ pécie” (Les ruines. Esses gloriosos precursores da ciência dos nossos dias estabeleceram que o nosso saber e as nossas ideias são o resultado da observação e do estudo da natureza. Acicatado pela fome. a Adam Smith. Era de ver a decepção que o nosso interlocutor experimentou. dc Locke. guia­ do e governado tão somente pela sua natureza. de Darwin c dc Hemholtz é pura metafísica. do que derivou a palavra “metafísica” (por cima da física e da natureza). Afora isto. Citando Volney e Blanqui. propagou as ideias do seu tem­ po. assimilando as ideias expandidas desde mui­ to tempo. estão convencidos de que a metafísica de Hegel é a ciência com os seus sistemas de transformismo. se pronunciou contra o materialismo dos naturalistas.

conseqüentes nos seus efeitos. neste caso. Sim. este método (concepção indutiva da natureza) produziu o acanhamento intelectual bem característico dos tempos antigos (?) e criou o método do raciocínio metafísico. Foi Marx em pessoa quem a desmentiu solenemente: “Denunciada e derro­ tada pelo materialismo francês. Sabeis o que ensinou Engels aos trabalhadores? “Transportado à filosofia por Bacon e Locke. deri­ vam da filosofia de Hegel são erros palmares. a bela natureza viva e vivificantc. do qual é parte. acreditou até 1842 que o mundo. que a natureza. Sobre o materialismo francês no século 18). não foi em proveito do socialismo. dc Volney. Dir-me-ão que Engels sabia tudo isso. e que a isso se deve atribuir a sua estranha mania de reivindicar a paternidade das ideias e dos sistemas elaborados pela ciência muito tempo antes do seu nascimen­ to. lemos: “Do mesmo modo que o mun­ do. foram renovados e dirigidos em geral contra toda a filosofia especulati­ va. Desde que Hegel fun­ dou o seu império metafísico universal. contrários a toda terminologia cien­ tífica. deu-lhe o seu espírito. 30).316 Teoria Geral do Estado conseguinte. A ciência não tem culpa sc Engels. contra toda a metafísica” (K. revestiu-o dos seus atributos. as suas expressões muito pouco “científicas” . Acaso devemos supor que Engels não suspei­ tava sequer da existência de toda essa literatura histórica? Neste caso é de lastimar tão estranho “chefe” da ciência de um partido “cien­ tífico”. afundado nos absurdos metafísicos. numa das suas obras. regulares em seu curso. por que empre­ gou tanta má-fé e se esforçou em criar uma confusão mais que deplorável na cons­ ciência do proletariado? Com que objetivo desviou a opinião dos seus leitores? Se­ guramente.era coisa corrente entre os filósofos e publicistas franceses desde mais de meio século antes da publicação da obra dc Feuerbach. isto é. Foi devido a tal crença metafísica que tudo que lia ou via achava que devia ser um reflexo das suas próprias ideias. Seja. “ Não foi Deus que fez o homem à sua imagem. mas sim o homem quem fez Deus à sua. a ciência dos naturalistas. Ele ignora completamen­ te que a ideia principal da doutrina ateísta de Feuerbach . Nas Ruínas. era uma expressão das suas ideias barrocas. a metafísica do século 17 tirou a sua desforra e a sua restauração na filosofia especulativa alemã do século 19.a de ter o homem divinizado a sua própria natureza na pessoa dos deuses . . De outra maneira não poderíamos explicar as suas ridículas pretensões. emprestou-lhe os seus sentimentos” (p. análogos aos do sé­ culo 18. imutáveis na sua essência” (p. os ataques à teologia. 85).” Esta afirmação dc Engels. Um exemplo nos mostrará a sua maneira de agir. segundo o método indutivo. o homem é regido por leis naturais. Mas. é necessário estudar a natureza e seus fenômenos em suas manifesta­ ções e em sua origem. Marx. dc que as doutrinas evolucionistas e transformistas.

317). O que foi dito implica um considerável enfraquecimento do princípio da au­ todeterminação política. esp. responsáveis perante o corpo elei­ toral. “não é verdadeiramente representativo um go­ verno em que os funcionários. É necessário que o represen­ . c cm quase todas as chamadas democracias “representativas” os membros eleitos do parlamento e outros funcionários de eleição popular. p. Universidad Autônoma de México. e as funções administrativa c judicial por funcionários que são. Para estabelecer uma verdadeira relação de representação. Trad. a vontade do eleitorado e são responsáveis pe­ rante este. 343-7. A função do go­ verno é transferida dos cidadãos organizados em assembleia popular para órgãos específicos. Conforme tal definição. México. 1979. realmente. representativa. os ór­ gãos administrativos c judiciários são selecionados mediante critérios diversos da eleição popular. sejam do Legislativo. ou que. A fic ç ã o da representação A diferenciação das condições sociais conduz à divisão do trabalho não ape­ nas na produção econômica.10 Leituras Complementares 317 21) HANS KELSEN Teoria g e ra l do D ireito e do Estado (Teoria general dei derecbo y dei Estado. nomeados por eleição. não são. especial­ mente o Chefe de Estado. Garner. de fato não re­ presentam a vontade da maioria dos eleitores. Political Science and governmenty 1928. um governo é representativo quando e na medida em que seus funcio­ nários refletem. Dc acordo com a definição tradicional.) Tradução do autor. submetida a tal critério. O órgão autorizado a criar ou executar as normas jurídicas é eleito pelos súditos. embora eleitos por um corpo democrático constituído. juridicamente. também. Eduardo Garcia Máynez. nenhuma das democracias de­ nominadas “representativas” é. não basta que o re­ presentante seja nomeado ou eleito pelo representado. Esta é uma característica chamada democracia indireta ou representativa. Não há dúvida dc que. W. O princípio democrático da autodeterminação é limitado ao procedi­ mento pelo qual tais órgãos são designados. são nomeados ou selecionados mediante procedimentos distintos da eleição popu­ lar. enquanto no poder. ou não têm uma responsabilidade que o corpo eleitoral seja capaz de tornar efetiva” (J. Trata-se dc uma democracia em que a função legislativa é cxcrcida por um parlamento dc eleição popular. como também na criação do direito. A forma democrática de indicação é eletiva. p. do Executivo ou do Judiciário. cuja conduta se acha regulada por essas normas. Na maioria delas.

mediante solicitação do Parlamento. a qualquer tempo. as Constituições das democracias modernas apenas excepcionalmente concedem ao eleitorado o po­ der de revogar o mandato dos funcionários eleitos. como dizem alguns autores. verda­ deiros agentes da classe ou grupo profissional. A Constituição francesa de 1791 foi a que proclamou solenemente o princípio de que não deveriam ser dadas instruções aos deputados. ser removido de seu cargo. A recusa cm removê-lo dc seu cargo. juridicamente responsáveis perante o eleitorado. eqüivale a uma reelei­ ção e tem como conseqüência a dissolução do parlamento”. É precisamente nesta independência à frente do corpo eleitoral que o parlamento mo­ derno se distingue dos corpos legislativos de eleição do período anterior à Revolu­ ção Francesa. a Constituição da Califórnia. Adotada tal resolução. via de regra.. mediante decisão dos tribunais. X X III. estabelece: “Todo funcionário público do Estado da Califórnia pode. e apenas em caso de violação da Constituição ou de outras leis. que. mas de todo o povo. que no art. por voto popular. mediante o procedimento e na forma aqui estabele­ cida. A garantia. Seção Primei­ ra. de todo o Es­ . o presidente do Reicb fica impedido de continuar no exercício do cargo. A de­ cisão do parlamento deve ser adotada por uma maioria dc dois terços. que os elegiam. Tal independência do parlamento pe­ rante o corpo eleitoral é um dado característico do parlamentarismo moderno. já que se achavam submetidos a certas instruções e a qualquer momento podiam ser removidos pelos representados. e que o cumprimento desta obrigação esteja garantido juridicamente. Como exceções. o Chefe eleito do Estado e outros órgãos de eleição somente po­ dem ser removidos de seu cargo. A fórmula segundo a qual o membro do parlamento não é representante de seus eleitores. Os membros eleitos de um parlamento moderno não se acham juridica­ mente ligados por quaisquer instruções do corpo eleitoral. Normalmente. os membros do parlamento não são. a indepen­ dência dos deputados perante seus eleitores. no caso. por exemplo. Muitas Constituições democráticas estipulam. Seu mandato legislativo não tem o caráter de um mandat impératif’ como os franceses denominam a função do deputado eleito que se acha juridicamente obrigado a executar a vontade dos eleitores. nem podem ser removidos por este. ou.318 Teoria Geral do Estado tante se ache juridicamente obrigado a cumprir a vontade do representado. Prin­ cipalmente nas democracias modernas.]”. Não obstante. procedimento ao qual se dá o nome de remoção [. no caso de as atividades deste último não se ajustarem aos desejos do primeiro. Os membros destes corpos eram verdadeiros representantes.. estabelece: “O Presidente do Reicb pode. ser removido de seu posto pelos eleitores. Outra exceção nos oferece a Constituição alemã de Weimar. é o poder representado de destituir o representante. mas de toda a nação. expressamente. podemos citar as Constituições de alguns Estados-Membros dos Estados Unidos da América do Norte. expressa no voto popular. 43. antes do término do mandato. porque estes não devem ser representantes de nenhum distrito em especial. antes do término do seu mandato. no art. que têm a prerrogativa de votar por um sucessor do removido.

de modo a ser necessário conferir a função de legislar a um parlamento eleito pelo povo. A independência jurídica dos eleitos perante os eleitores é incompatível com a representação legal. apesar de que. uma espécie de responsabilidade política. que a atividade de cada membro do parla­ mento reflita a vontade dos eleitores. Todavia. então será demo­ crático garantir. na realidade. O fato de que um órgão de eleição não tenha a probabilidade de ser reelei­ to ou a circunstância de que tal probabilidade se acha diminuída se sua atividade não é considerada por seus eleitores como satisfatória. Se é democrático que a legislação seja elaborada pelo povo c se. do corpo eleitoral .ou. na medida do possível. é impossível estabelecer uma democracia direta. por razões técnicas. é uma ficção política. A afirmação de que o povo se acha representado pelo parlamento significa que. e estes são juridica­ mente independentes dos eleitores. e alguns tratadistas chegam a declarar que o mandat impératifé contrário ao princípio do governo representativo. Sc os escritores políticos insistem cm caracterizar o parlamento da democra­ cia moderna como órgão “representativo”. substituído . razão por que não se liga às instruções dos seus eleitores. mais precisamen­ te. scr responsável perante estes depende da opinião sobre em que medi­ da seja desejável realizar a ideia da Democracia. A independência jurídica do parlamento à frente do povo significa que o princípio da democracia é. se o eleitorado se acha democraticamen­ te organizado. A independência jurídica do parlamento diante do corpo eleitoral somente pode ser justificada pela opinião de que o Poder Legislativo se encontra mais bem organizado quando o princípio democrático de que o legislador deve ser o povo não é levado ao extremo. a função do povo . muito menos a afirmação de que um órgão de eleição só pode formar parte do povo se é o representante jurídico de todo o Es­ tado. O chamado mandat impératif e a destituição dos eleitos são instituições democráticas. nem pode ser remo­ vido por estes. constitui. ao agirem assim não es­ tão propondo uma teoria científica. porém. Semelhante órgão “representa” o Estado de uma forma que não difere daque­ la em que é representante do Estado um monarca hereditário ou um funcionário nomeado por este. A resposta à pergunta sobre se de lege ferenda o membro eleito do corpo le­ gislativo se encontra juridicamente obrigado a executar a vontade de seus eleitores c.10 Leituras Complementares 319 tado. mas preconizando uma ideologia política. em certa medida. tal responsabilidade é inteiramen­ te distinta da jurídica e não justifica a afirmação de que o órgão de eleição é um re­ presentante jurídico de quem o elegeu. apesar de sua independência jurídica à frente do corpo eleitoral. como o povo não pode exercer de forma direta c imediata o poder de legislar.se acha limitada à criação do órgão legislativo. tal poder c cxcrcido por mandato. A função desta ideologia é ocultar a situação real e manter a ilusão de que o legisla­ dor é o povo. não há qualquer relação de representação ou de mandato. sc não há nenhuma garantia jurídica de que a vontade do eleitorado seja cumprida pelos eleitores. portanto. verdadeiramente.

usa-se a ficção de que o parlamento “representa” o povo. senão renunciando à neutralidade” (V. 74) ensinam a respeito da interpretação na Alemanha nacional-socialista: “Embora continuem vigentes as grandes codificações alemãs. que na Alemanha nazista. a este: as decisões judiciais são dadas “em nome do rei” .320 Teoria Geral do Estado pelo da divisão do trabalho. não obstante. p. devem os juizes interpretar essas leis segundo a mentalidade nacional-socialista. 133-8.nulla poena sine proevia lege . afirmou este julgamento que .que domina o direito penal clássico e tem sido sempre considerada como essencial (EDUARDO THEILER. constitucionalmente “represen­ ta ”. “Crise no Direito Moderno” ). A ideologia da monar­ quia constitucional traz consigo a doutrina dc que o juiz. em seu magnífico “Tratado de Direito Civil Brasileiro” (vol. contrariamente à regra res­ tritiva . op.“é absolutamente indiferente buscar a épo­ ca na qual o Estado julgou necessário sancionar por uma interdição legal seus prin­ cípios racistas Assim. a independência c a imparcialidade dos magistrados são supridas. EDU ARDO THEILER. cit. Os eminentes jurisconsultos EDUARDO ESPÍNOLA e EDUARDO ESPÍNOLA FILHO. pág. o princípio da não retroatividade das leis. mesmo as penais. No direito inglês chega-se ao extremo de supor que o rei está presente. 1939.).. O Secretário de Estado da Justiça fixou publicamente a atitude dos juizes nestes termos: “o juiz não pode ter em face do direito e da lei uma atitude conforme ao dever do Estado Nacional-Socialista. é considerado como ideia antiquada. . apesar dc que em sua fun­ ção não restam vestígios da influência do monarca. I. Ficção semelhante é a empregada para ocultar a perda de poder sofrida pelo monarca ao scr consumada a independência dos tribunais. s. no momento em que a decisão do tribunal é pronunciada. e a pena pode ser apli­ cada a delitos cometidos antes de ela ter sido editada. deixa de existir qualquer prazo de prescrição. Um julgamento de 1936 declarou que o acusado não podia invocar que em Junho de 1935 os casamentos entre judeus e arianos não eram ainda legalmente in­ terditos. em espírito.) Observemos preliminarmente. 29) ALÍPIO SILVEIRA Da interpretação das leis na Alemanha nacional-socialista e hitlerista (In Da interpretação das leis em face dos vários regimes políticos. Ainda na Alemanha atual. Para ocultar tal desvio de um princípio a outro. Periodicamente são publicadas “ins­ truções” impondo aos juizes as interpretações oficiais. d.

levando à esfera de sua decisão a au­ toridade do IIIo Reich. O povo alemão foi poderoso enquanto foi conduzido). dizia H. antes das leis de Nuremberg (COT. ao proferir uma decisão. I o da lei de 16 de Outubro de 1934 (Steueranpassungsgesetz). “A Constituição de W EIM A R não está mais em vigor.La conception bitlérienne du droit. não obedeceria a um imperativo nacional-socialista. 1939)” . que manda interpretar as leis fiscais de acordo com a Weltanscbauung nacional socialista. do qual. " O indivíduo é absorvido no Volksgeist. inamovível e irresponsável. págs. assim também os seus atos independentemente da forma. sob o fundamento de que o programa do partido exige o ‘fim da escravidão dos ju­ ros’. FRANK. considerando como deve o juiz completar a lei: ‘cumpre que o juiz. que re­ cusasse reconhecer o caráter obrigatório do pagamento dos juros de um mútuo. e a jurisdição é fazer do juiz um adversário do Führer’ (A.como decidiria o Führer em meu lugar? Esta deci­ são estará de acordo com a consciência nacional-socialista do povo alemão? Então terá ele uma base de consciência bem firme. é expressão suprema o Führer. fora de todo o texto legal e sem qualquer forma (MARCEL COT . haurida na unidade do todo popular nacional-socialista e do reconhecimento da vontade do Führer Adolf Hitler’ (Apud M.10 Leituras Complementares 321 “Tem-se entendido que o art. Mas o juiz. em 1936. um dos grandes erros do liberalismo consiste em crer que o povo deseja governar-se a si mesmo. “ Citam-se as palavras do constitucionalista CARL SCHMITT: ‘o verdadeiro chefe deve ser ao mesmo tempo juiz. estabelece uma regra geral aplicável a todos os domínios do di­ reito.JACQUES FOURNIER . Não! o povo quer ser conduzido e governado. e op. separar ou opor a soberania. COT . . 1938. porque se tornou incompatível com o programa e os princípios do nacional-socialismo. também . “Não somente as leis do Führer devem ser obedecidas incondicionalmente. cit. 1938. “Se o nacional-socialismo seguiu a orientação do programa com que se apre­ sentou o partido operário alemão em Munich (1921). que cita ECKHARDT). porque é ao Führer que compete fixar o grau de realização da Weltanscbauung (concepção filosófica). por efeito de sua vitória. “Assim e que um juiz se recusou a inscrever no Grundbuch o título de pro­ priedade de um judeu. pág.La conception nacionale-socialiste du droit des gens. ainda que não expres­ samente revogada. como se disse. 207-208. cumpre verificar em que si­ tuação político jurídica ficou a Alemanha. “Num discurso proferido numa reunião de juristas. Em outra parte de seu Tratado. os ESPÍNOLA observam: “HITLER é o soberano legislador e a mais alta encarnação da justiça. pergunte a si mesmo: . 54). c que foi recusado o casamento dum judeu com uma aria­ na. Observa COT que segundo G Ò R IN G e H Õ H N .La con­ ception hitlcrienne du droit. V. poden­ do pronunciar sentenças imediatamente executórias.

e se funda em copiosa bibliografia. Nesta luta para a abolição do direito subjetivo. Existe. professor EDUARDO J. que não mais é considerado. 202-203). cujo horizonte político cra entretanto mui­ to diferente. e incorporou-as habilmente à sua mística nacional” (“Introduction à la Théorie Générale et à la Philosophie du Droit”. como uma pessoa jurídica de di­ . (“Tratado” citado. até hoje não foi decretada. págs. Vejamos sua douta exposição. “A própria Constituição de Weimar não foi expressamente abolida. permaneceram as grandes leis e códigos. “Aliás ‘a lei não é senão um dos aspectos do direito na técnica da vida públi­ ca moderna. Arch. Rechts u. com a condição que seja de raça pura e que se inspire. Recht und Wolksmoral im Führerstaat. 1934. social e jurídica”. “Zeitschrift fiir das gesamtc Handelsrecht”. Existe também ‘um direito não escrito que se des­ prende da alma do povo alemão e que é conforme às necessidades da vida nacio­ nal. KISCH. págs. A doutrina nacional-socialista apropriou-se assim de algumas das ideias pre­ conizadas pelos adeptos do Freiesrecht. direito reconhecido. COUTURE. com as modifica­ ções introduzidas pelo imperativo do novo regime. 44 c 82). não num individualismo obsoleto.1934-35. vice-presidente da referida academia. f. sentido e energicamente realizado pelo juiz alemão’ (Número inaugural de 1 ’Akademie für deutsches Recht.322 Teoria Geral do Estado “De modo geral. mas na concepção universalista do direito e do Estado (BINDER. sucumbe o próprio Estado. As construções lógicas dos romanistas foram repudiadas. pág. 262). intitu­ lado Der deutsebe Ricbter. Phil. as gerações novas confiam no senso inato do direito que o juiz descobre em si. no brilhante estudo “Trayectoria y destino dei Derecho Procesal Civil Hispano-Ame­ ricano” (Cordoba. ao tratar dos métodos novos de inter­ pretação na Alemanha atual assim se exprime: “O advento do Nacional-socialismo em 1933 acarretou uma completa reno­ vação das ideias reinantes na Alemanha sobre o direito e sobre a missão do juiz. uma constituição nova. 1940) versa este aspecto da doutrina nacional-socialista. tomo 28. junho de 1934. mas não é o único’. na doutrina recente. na Alemanha nacional-socialista. 201-202).a luta contra o direito subjetivo. que lhe trace definidamente os fundamentos da vida polí­ tica. O professor CLAUDE DU PASQUIER. muito embora se proclame que a sua interpretação e a sua aplicação se subordinam aos princípios dominantes na organização político-social do terceiro Reich. Soz. artigo do professor W. 6. O eminente jurisconsulte uruguaio. para o povo alemão. 1937.) Alguns autores legitimam a interpretação contra legem ‘quando o bem do Estado manifestamente o exige’ (SAUER. um vasto movimento geral de dou­ trina que seus autores chamam Kampf wieder das subjektive Recht . ou melhor. muito em­ bora em todos os pontos substanciais sc tenha tornado incompatível com as leis fundamentais da Alemanha atual. págs. pág..

504 e segs. p. 637). Se o cidadão se queixa ao Führer que a sentença é injusta. Derivou-se toda a ordem jurídica processual civil do princípio do Rechtsfinder. e ver no di­ reito a ordenação da vida desta comunidade”. e como o povo não tem fisicamente um órgão único de expressão. com isso. a admitir outro direito além do que vive na consciência popular. são: “ Deve-se partir do conceito do povo como comunidade vivente no qual o cidadão reveste a condição dc membro. sustenta. Não está acima das partes como órgão neutro. não é o Estado. As palavras textuais dc SEYDEL.). No processo judiciário o direito é declarado através da única expressão possí­ vel. o Führer exami­ na essa sentença e dissuade ao cidadão se este estiver equivocado. a supressão do direito como norma. tomando como ponto de partida o acima menciona­ do. Uma delas. O Führer é o investigador ou pesquisador do direito. que em 1938 (“Nazional socialistichc Recht und Rechtsdenken”. 1937. . ROTHENBERGER. a doutrina procurou novos fundamentos para assentar o princípio: De um lado.10 Leituras Complementares 323 reito subjetivo. não pôde suportar algumas objeções fundamentais. pp. Não se chega. a base. Este princípio do povo como comunidade vivente. Mas esta doutrina. que o direito é o reflexo da consciência popular. mas ape­ nas se afirma que o Führer é o intérprete autêntico e único deste estado de consciên­ cia. opúsculo) sustentou. um estado de consciência popular. que é a do Führer. diferentemente da doutrina fascista. evidente­ mente. que o direito pronunciado 011 declarado pelo juiz da sentença. Pelo contrário. Isto supõe. segundo a qual o juiz é o Führer dentro do processo. tal como é interpretada pelo Führer. 1935. o pró­ prio receptáculo do direito. que c quem levou mais longe este desenvolvimento. que parecia destinada a triunfar. mas o povo. embora emane do órgão definitivo da justiça. segundo seus próprios definidores. para decidir seus conflitos particulares. em compensação. admite sempre uma espécie de recurso hie­ rárquico. ou assinala ao tri­ bunal os inconvenientes que sua decisão acarreta para o ideal nacional-socialista. que nccessita de interprete. e a existência de um direito ocasional para cada caso concreto. Pois que o direito (nessa doutrina) reside no povo e é mister interpretá-lo. como novo aspecto da doutrina. Mas. conduziu ao que se chamou “doutrina do Führerprinzip”. um dos mais importantes executores da vontade do Führer. o Reichsgericht. e. por exemplo. “O juiz não seria mais um meio que o Estado põe à disposição das partes. mas um representante soberano da lei. mas como membro ativo da comunidade. admite-se que o interprete da vontade popular c o Führer. Outra fundamentação ou justificação mais profunda do referido princípio provém dc FREISLER. in “Zeitchrift der Akademie für Deutsches Recht”. consequen­ temente. inspiran­ do-se nos sentimentos dessa comunidade à qual serve e pertence” (“Gedankcn zur Neugestaltung des Zivilprozesses”. O direito nacional-socia­ lista é. a dc que não podem existir na Alemanha tantos Führer fieis intérpretes do direito. em um ensaio aparecido em 1937 (“ Richterliche Unabhãngigkeit und Dienstaufschit”. e trata de ex­ traí-lo na forma mais pura possível da consciência popular. in “Deutsches Recht”.

sob o novo absolutismo. and discretion” (“Libre Recherche in America”. mas os fatos. apenas uma espécie de absolutismo invertido. não fez caminho. standards. 461). “free judicial power” movement. By th is Une of reasoning the judge is made free. Ao passo que sob o velho absolutismo a re­ gra legal era tudo. é nada” (“The Problem of the unprovided case”. rules. O professor americano ALBERT KOKOUREK assim descreve as tendências extremistas que surgiram nos Estados Unidos: “Some writers have gone to the length. 583). “free judge” movement.). Neste dia o Führer dis­ se. Esta é a doutrina alemã até I o de Setembro de 1939. A doutrina dc BAUMBACH. a supressão do direito como norma. Some of th em would rest legal judgements entirely on the intuition of the judge. em sua qualidade de chefe de governo. na doutrina de FREISLER. Esta escola ou método (direito livre. tome II . que não era mais o direito. Vemos como ele friza. p. pg. cit. Vemos aí a cha­ mada individualização do direito. acrescenta a respeito: “ Acceptance o f it leads to the logical consequence that rules o f law have no official or hinding character and are in their nature oflittle importance. cit.Les sources générales des systèmes juridiques actuels”. as regras legais deixam dc ter razão de existência numa orga­ nização jurídica perfeita. in “Récuéil d’études sur les Sources du Droit en Phonneur de François Gény. em sua feição extremada de niilismo legislativo. e a existência de um direito ocasional para cada caso concreto.. principies. as an officer o f the State. uma observação à exposição do professor COUTURE. Adiante. No que toca ao aspecto político das ideias extremadas do direito livre. Ora. de acordo com esta tendência extrema. o pro­ fessor americano JO H N D ICK IN SON afirma que tais ideias são “de fato. não obstante. suprimir a justiça para transformá-la cm um poder administrativo dc fundamento discrecionário. que ficaria absorvida pelo que hoje chamamos “jurisdição voluntária”. if not as a rational human heing E KOKOUREK conclui com acerto: “In its extreme forms the \ fre ejudge’ movement in America is nihilistic in tendency”. 1938. pelo menos quando considerada em seus repre­ sentantes mais extremados.324 Teoria Geral do Estado A culminância desta doutrina foi efetuada por BAUMBACH (“Zivilprozess und frciwillige Gerichtsbarkeit”. Freies Recht). it would seem. Agora. in “Zeitschrift der Akademie”. Law would not any longer he a compound of unformulated postulates. que começavam a funcionar. segundo o qual devia ser suprimida a jurisdição. . in “Récueil”. é de tendência niilista. a individualização extremada do direito é uma ideia preconizada pelos adeptos do Freiesrecht. of aholishing or wishing to abolish ali conceptual thinking in law. Com efeito.

paradoxal e ilusória porque o intérprete tem de ater-se à vontade real ou presumida do Führer. Esta atitude da Escola Histórica . que é uma expressão das tendências extremadas do Freies Recht. mas também paradoxal e ilusória. Deve também observar-se que a “consciência nacional-socialista” e a “vontade do Führer” se confundem praticamente. pg. 237). com efeito. cit).10 Leituras Complementares 325 O professor M O R R IS R. na extensão em que ele não é ligado pela lei. 27.1.que o eminente T H E O D O R STERNBERG apodou de fetichismo espiritual . tirania ou despotismo. il rihésitera guère à préférer a sou imparfaite traduction la révélation directe de cette source commune et plus profonde” (“Méthode dMntérpretation et Sources en Droit Privé Positif”. 1949. afim de afastá-las pela simples ação do juiz. Em conclusão. O Estado Nacional-Socialista habilmente apossou-se das ideias básicas da Es­ cola Histórica de SAVIGNY. Ela é. Se a doutrina nacional-socialista parece aderir a este niilismo legislativo. répugne. A atitude da Escola Histórica em face da autoridade da lei é assim sintetizada por GÉNY: “5/ la pensée du législateur. telle qu’elle se dégage du sens naturel et normal du texte. 258). lamen­ tavelmente enxertado no tradicional corpo dc leis que o nacional-socialismo já en­ contrara. a ce qu il considere comme rexpression de la conscience collective du peuple. e incorporou-as cm seu misticismo jurídico. pois assevera: “Ser governado por um juiz é. 1932. “ Columbia Law Review”. cumpre observar que seu horizonte político é muito diferente.) . suivant le sentiment personnel de /’interprete. subs­ tituindo a “consciência coletiva” pela “consciência nacional-socialista”. 23) JOSÉ PEDRO GALVÃO DE SOUSA Conceito e natureza da sociedade p o lítica (São Paulo. uma nova e original.foi adotada pelo Estado Nacional-Socialista. mas não deixa de ser tirania” (“Positivism and the Limits of Idealism in the Law”. KOKOUREK também é do mesmo sentir: “To rest the task o f legal justice entirely on the judgey s discretion would be nothing less tban a surrender to tyranny” (op. Ela pode muitas vezes ser inteligente e benevolente. 1927. C O H E N é exatamente da mesma opinião de DICKINSON. con­ cepção do direito livre foi forjada pelo hitlerismo. au moment ou il doit appliquer la loi. O resultado final é um critério perfeitamente autocrático de aplicação.

o filósofo que. em tor­ . pro­ curava a consolação da filosofia para balsamizar seus sofrimentos. além de voluntária. tem a mesma significação: a cidade. quer dizer. Em primeiro lugar. como as abelhas ou os castores. de seres racionais. Sociedade c a união moral e permanente dc várias pessoas cm vista dc um fim comum. “Pessoa”. b) pessoas ou indivíduos racionais. Tornou-se clássica a definição dc pessoa formulada por Boccio. tal colaboração deve ser permanente. Os animais gregários. por exemplo. c) união moral e permanente. Resta saber quais as notas específicas deste último. o que hoje chamamos de Estado. designando não a urbs. são a aldeia e a tribo. Chegamos assim ao terceiro elemento de toda sociedade: a união moral. num teatro. a razão de ser de qual­ quer sociedade: o bem comum. a tribo fun­ da-se em vínculos de parentesco. Não se deve confundir sociedade com multidão. Todas essas notas do conceito genérico de sociedade devem naturalmente exis­ tir no conceito dc socicdadc civil ou política. “civil". A palavra originária. escre­ via Boccio. no cárcere. com o ajuntamento de pessoas numa praça. mas a comunidade or­ ganizada politicamente. Caracteriza-se pela localização territorial. Analisando-sc os diversos tipos dc sociedade política encontrados através da história. dc civitas. não consti­ tuem verdadeira sociedade. torna-se fácil perceber cm todos eles alguns característicos fundamentais comuns. lembremos antes dc mais nada o conceito dc sociedade cm geral.326 Teoria Geral do Estado 1a Parte A sociedade política. Quanto à aldeia. Sociedade de pequenas dimensões. Sem colaboração voluntária dos sócios não pode haver sociedade. pela sua maior simplicidade e também pela ordem cronológica. de polis. é muitas vezes um tipo interme­ diário entre a família e a tribo. o que não se dá. Nessa breve definição encontramos os seguintes elementos: a) fim ou bem comum. Os primeiros desses tipos. “c uma substância individual dc natureza racional” . quer dizer. E. resultante da prática de actos racionais e livres. seus elem entos com pon entes e principais ca ra cte rística s As expressões “sociedade política” e “sociedade civil” equivalem-se na etimo­ logia: “política”. Reaparece frequentemente 11a linguagem dos escritores de hoje uma ex­ pressão muito antiga das mais sugestivas para indicar o fim. o fim. pois como nos ensina a filosofia o fim é a primeira das causas. Só entre pessoas há sociedade. num estádio. pois lhes falta o conhecimento do fim social e a cola­ boração voluntária para alcançá-lo. Para determinar exatamente o conceito c a natureza da sociedade política. isto é. grega ou latina. Sociedade é uma reunião de pessoas.

Pertence sempre a um grupo familiar que se integra no todo social. Uma transformação em tudo semelhante ao processo evolutivo do cosmos. aplicando-se aqui os elementos acima discriminados como partes lógicas do conceito de sociedade. a tradição oral dos povos mais antigos e dos selvagens de hoje. . pois. a cidadc. Outras vezes. Sociólogos evolucionistas falam-nos da horda. Partindo. aos poucos. à formação dos mundos oriundos da nebulosa primitiva e à diferenciação das espécies segundo o quadro traçado em esquemas simplifica dores e arbitrários. dá origem às sociedades patriar­ cais. podemos considerar os diversos tipos dc sociedade política na ordem cm que sc sucederam historicamente c veremos então formarem-se a confederação dc tribos. O indivíduo nunca está abandonado a si mesmo ou aos poderes absolutos da comunidade total. apresenta-nos um vasto organismo administrativo e a centraliza­ ção política com o predomínio de um povo sobre outros. Com efeito. O Império.10 Leituras Complementares 327 no do mercado ou da cidadela. é formada por famílias de procedência diversa associadas num mesmo local. as sociedades heterogêneas cm que os grupos familiares sc foram constituindo até chegar aos clãs matronímicos ou patronímicos e depois às pequenas famílias agrupadas em aldeias. gerada pelo naturalismo so­ ciológico do nosso tempo. sociedade rudimentar e indifercnciada. Fato importantíssimo este para assinalarmos com precisão a natureza da so­ ciedade política. É um pressuposto ideológico que tem contra si o relato bíblico da criação do homem e da constituição da primeira socie­ dade por Deus. surgindo quase sempre no centro de uma área de terra cultivada. Repelem-no a história e a etnologia. seja esse povo dominan­ te de estrutura tribal e patriarcal (Impérios do oriente). Dcssc caos originário te­ riam saído. O postulado da horda é uma hipótese absurda. A cidade pode ser constituída por uma confederação de tribos que se torna se­ dentária. A tribo. de organização citadina (Império Romano: predomínio de uma “cidade” sobre outras e sobre outros po­ vos) ou de formação nacional (Império Britânico). no sentido em que aqui o tomamos. devemos fazê-lo levando em conta as peculiari­ dades distintivas do tipo de sociedade cuja fisionomia nos interessa agora traçar. cujos membros estariam dc tal modo absorvidos pelo todo coletivo que nem sequer teriam consciência dc sua existência pessoal. de­ senvolvendo-se em torno de um mesmo tronco. Em todas essas formas dc sociedade política um fato resulta desde logo pa­ tente. da aldeia c da tribo. podendo neste caso também haver associação ou confederação de Estados. A organização política da N a­ ção é o que propriamente sc entende hoje por Estado. e além disso faz parte de outros agrupamentos sobrepostos ou de qualquer modo relacionados entre si. o Império c a Nação. Daí a polis e a civitas dos antigos.

su­ bordinados a uma autoridade suprema. especialmente a família. Mas a constituição de qualquer coisa depende do fim para que é feita. Como ficou dito. Se isto se dá com as coisas da natureza física. Toda sociedade requer necessariamente uma autoridade. cuja determinação nos faz conhecer a origem da sociedade. ter presente a finalidade pessoal do homem. que pela sua ação forma todas as sociedades de que participa. é o termo a que se dirigem as so­ ciedades mais simples. A forma de um instrumento se modela con­ forme o fim a que se destina. antes de mais nada. O Estado é pre­ . é prcciso. Toda sociedade política é uma sociedade composta de outros agrupa­ mentos reunidos entre si e subordinados ao poder que se constitui acima destes cír­ culos sociais menores. princípio de uni­ dade social.328 Teoria Geral do Estado Os elementos já mencionados indicam-nos a causa final da sociedade (bem co­ mum). isto e. causas intrínsecas. pela sua cooperação voluntária em vista do escopo comum. e sua matéria não consiste 11a massa amorfa dos cidadãos. Causa final é o bem comum das pessoas reunidas política 011 civilmcntc. A causa material da sociedade política está nas famílias e nas outras associa­ ções. Muitos erros se têm cometido por não se levar em conta devidamente qual a matéria societatis nas comunidades politicamente organizadas. nem a causa formal teria realização concreta. não me­ nos importante é a consideração do fim em se tratando do ser social. Fica faltando a causa eficiente. Tanto a causa final como a causa eficiente são causas extrínsccas. É através desses agrupamentos. temos que considerar a autoridade. A sociedade política resulta da ten­ dência natural do homem para a vida em comum. E a sua matéria. que a compõem. nunca se vê o indivíduo isolado sem vínculos sociais em face da civitas. a sociedade política não resulta de uma simples soma de indi­ víduos. como de toda sociedade. do seu constitutivo essencial. Esta causalidade eficiente pode dar-se pela vontade livre do homem (sociedades puramente voluntárias) ou então por uma inclinação natural. sem cuja ação unificadora e coordenadora nem a causa final seria alcançada. Apliquemos. nos é dada pela pró­ pria união dos seus membros. unificando-os na prossecução do bem comum. por essa conjugação de esforços que a autoridade torna efetiva e assegura permanentemente sob uma determinada ordenação jurídica. Causa eficiente é o próprio homem. fator da efetiva coordenação das vontades individuais em vista do bem comum. a causa material (pessoas) e a causa formal (união moral). Para saber cm que consiste o bem comum. Por outras palavras. naturais ou voluntárias. dc que se constitui? Aqui está um ponto nevrálgico na concepção da sociedade civil. A causa formal e a causa material. A forma da sociedade política. que o indivíduo se integra 11a vida social. pois. que não exclui a liberdade. é que nos dão propriamente o conhecimento da natu­ reza de um ser. Além desses elementos. cuja natureza nos escapará por completo se não tivermos presente a razão de ser sociedade. estes elementos à sociedade política.

Nações independentes constituem-se em Estado. O núcleo familiar exis­ te sempre. 4) Unidade interior dos vínculos sociais c coordenação exterior. Supõe agrupamentos de longa formação histórica. Dentre estas merece particular aten­ ção a família. assim definir a sociedade política: conjunto de famílias e de outros grupos. Passemos a um breve exame dc tais propriedades. assim também a família. Podem mesmo deixar de existir.10 Leituras Complementares 329 cedido de uma estrutura social organizada que nele se aperfeiçoa e cujo fundamen­ to natural e histórico não está na ação dos indivíduos solitários. formam a socie­ dade civil ou política. Podemos. Em toda sociedade política e particularmente no Estado encontramos os se­ guintes característicos: 1) Pluralidade de grupos. Estes agrupamentos. cujo remate é quase sempre uma nacionalidade plena­ mente constituída. tampouco na organização da coletividade pelo poder central. na ordem social. além da pluralidade de pessoas. sc bem que imperfeito. Como a célula é a última parcela de vida. para subsistir. que geralmente compreende também outros agrupamentos. de época para época. A família é unidade social. em que se decompõe o complexo orgânico. 3) Organização dos bens particulares. O Estado é a sociedade política mais desenvolvida. pois necessita. variam de sociedade para sociedade. pois. das energias que circulam por todo o organismo. sem cair no exagero dos que a identificam em tudo aos corpos vivos. Reunidas as famílias. Constitui um centro relativamente autônomo de vida. mas no dinamismo dos grupos so­ ciais autônomos convergindo para uma commnnitas communitatum. a não ser em sociedades decadentes e profundamente alteradas 110 ínti­ . c o Estado pode ser defini­ do como a organização política da Nação. porém. pode-se verificar que a família aí exerce uma função análoga à da célula num todo orgânico. estas energias. É uma sociedade composta de outras menores. § 1o Pluralidade de grupos E óbvio que sem pluralidade de pessoas não pode haver sociedade. organizados juridicamente. 2) Formação histórico-natural. A célula é unidade vital. Comparando-se a sociedade a um grande organismo. Surge 110 termo dessa formação. para dar à Nação existência ju­ rídica. simples reuniões de famílias. a aldeia. como se dá com as sociedades políticas mais elementares: a tribo. pluralidade de grupos. Mas a so­ ciedade política supõe. À família se tem chamado a “célula social”. cons­ titui o núcleo fundamental da comunidade. resultam do trabalho das células assimilando os elementos indispensáveis à subsistência de todo o corpo. sob a direção dc uma autoridade cen­ tral suprema. por sua vez. Entretanto.

definindo-lhe a situação social. bens que a sociedade civil deve ajudar a conseguir na ordem física. O município já é uma . dá-lhes uma certa mentalidade comum. A autonomia da família como centro de atividade social é. A fam