P. 1
Marcus Claúdio Acquaviva - Teoria Geral do Estado - 3º Edição - Ano 2010

Marcus Claúdio Acquaviva - Teoria Geral do Estado - 3º Edição - Ano 2010

|Views: 920|Likes:
Publicado porAlisson Sanches

More info:

Published by: Alisson Sanches on Oct 18, 2013
Direitos Autorais:Attribution Non-commercial

Availability:

Read on Scribd mobile: iPhone, iPad and Android.
download as PDF, TXT or read online from Scribd
See more
See less

03/18/2015

pdf

text

original

Sections

  • A DISCIPLINA
  • NATUREZA, CONCEITO E EVOLUÇÃO HISTÓRICA DA TEORIA GERAL DO ESTADO
  • 2A SOCIEDADE E OESTADO
  • 1) FUNDAMENTO DA SOCIEDADE
  • 2) DEFINIÇÃO DE SOCIEDADE
  • 3) ESPECIES DE SOCIEDADES
  • 30 ESTADO
  • 1) CONCEITO E EVOLUÇÃO HISTÓRICA DO ESTADO
  • 2) 0 ESTADO DE DIREITO
  • 3) DIREITO E ESTADO
  • 4) CAUSAS CONSTITUTIVAS DO ESTADO
  • 4.1) Causas materiais
  • 4.1.1) Povo
  • 4.1.2) Nação
  • 4.1.3) Território
  • 4.2) Causas formais
  • 4.2.1) Poder político
  • 4.2.2) 0 princípio da separação de Poderes no Estado
  • 4.2.2.1) Antecedentes
  • 4.2.2.2) 0 princípio da separação de Poderes segundo Montesquieu
  • 4.2.2.3) 0 Poder Legislativo
  • 4.2.2.4) 0 Estado contemporâneo e a delegação de funções
  • 4.2.2.5) 0 caso brasileiro: medida provisória e lei delegada
  • 4.3) Soberania
  • 4.3.1) A doutrina pactista medieval
  • 4.3.2) A doutrina do contrato social
  • 4.3.3) A doutrina da soberania limitada
  • 4.3.4) Globalização e soberania
  • 4.4) Ordem jurídica
  • 4.5) Causa final: o bem comum
  • 4.5.1) 0 liberalismo e 0bem comum
  • 4.5.2) Concepção social do bem comum
  • 4A CONSTITUIÇÃO
  • 4) REVOLUÇÃO, GOLPE DE ESTADO E INSURREIÇÃO
  • FORMAS DE ESTADO
  • 1) UNIÃO PESSOAL
  • 2) UNIÃO REAL
  • 3) ESTADO UNITÁRIO
  • 4) ESTADO FEDERAL
  • FORMAS DE GOVERNO
  • 1) CLASSIFICAÇÕES ANTIGAS E MODERNAS
  • 1.1) Platão (Arístocles)
  • 1.2) Aristóteles
  • 1.3) Políbio de Megalópolis
  • 1.4) Cícero
  • 1.5) Nicolau Maquiavel
  • 1.6) Montesquieu
  • 1.7) Rousseau
  • 1.8) Kelsen
  • 2) FORMAS DE GOVERNO CLÁSSICAS
  • 2.1) Monarquia
  • 2.2) República
  • 2.3) Aristocracia
  • 2.4) Democracia
  • 2.4.1) Introdução ao tema
  • 2.4.2) Democracia direta
  • 2.4.3) Democracia representativa
  • 2.4.4) Democracia semidireta
  • 2.4.5) Sufrágio e voto
  • 2.4.6) Partidos políticos
  • 2.4.6.1) Os partidos políticos no Brasil
  • 2.4.7) Democracia e comunicação de massa
  • 3) TIRANIA
  • 4) OLIGARQUIA
  • 6) DITADURA
  • 7) CAUDILHISMO
  • REGIMES DE GOVERNO7
  • 1) PRESIDENCIALISMO
  • 1.1) Introdução
  • 1.2) Presidencialismo histórico e direito comparado
  • 1.3) Presidencialismo versus parlamentarismo na América Latina
  • 1.4) Presidencialismo, militarismo e Igreja na América Latina
  • 2) PARLAMENTARISMO
  • 8IDEOLOGIAS
  • 1) CONCEITO DE IDEOLOGIA
  • 2) SOCIALISMO UTÓPICO
  • 3) MATERIALISMO HISTÓRICO E DITADURA DO PROLETARIADO
  • 4) ANARQUISMO E SINDICALISMO
  • 6) TOTALITARISMO: FASCISMO E NACIONAL-SOCIALISMO
  • 6.1) Características do totalitarismo
  • 6.1.1) Ideologia oficial
  • 6.1.2) Sistema de partido único, sob o comando de um líder
  • 6.1.3) Controle policial pelo Estado
  • 6.1.4) Concentração da propaganda nas mãos do Estado
  • 6.1.5) Concentração dos meios militares
  • 6.1.6) Direção estatal da economia
  • 6.1.7) A doutrina nacional-socialista
  • 6.1.8) 0 Estado nacional-socialista e os direitos subjetivos
  • 6.1.9) 0 princípio da liderança (Führung) no Estado nacional-socialista
  • 7) HUMANISMO SOCIAL
  • 8) SOCIAL-DEMOCRACIA
  • 9) NEOLIBERALISMO
  • 0 ESTADO ENTRE ESTADOS: AS ORGANIZAÇÕES INTERESTATAIS
  • 1) NATUREZA DAS ORGANIZAÇÕES INTERESTATAIS
  • 3) DIREITO COMUNITÁRIO: ANTECEDENTES DA UNIÃO EUROPEIA - UE
  • 5) OS TRATADOS INTERNACIONAIS (NATUREZA E EFICÁCIA)
  • 6) 0 TRIBUNAL PENAL INTERNACIONAL - TPl
  • LEITURAS COMPLEMENTARES10
  • DOCUMENTAÇÃO HISTÓRICO-LEGISLATIVA
  • 3) DECRETO N. 13, DE NOVEMBRO DE 1823
  • 5) MANIFESTO DE S.M. 0 IMPERADOR AOS BRASILEIROS4

MARCUS CLÁUDIO ACQUAVIVA

TEORIA GERAL DO

Teoria Geral

do Estado
3 a edição

Teoria Geral

do Estado
MARCUS CLÁUDIO ACQUAVIVA
Professor na Faculdade de Direito da Universidade Presbiteriana Mackenzie

3a edição

Manole

€ > Editora Manole Ltda., 2010, por meio dc contrato com o autor.

Capa: Departamento de Arte da Editora Manole Imagem da capa: Giuseppe Cesari Este livro contempla as regras do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa dc 1990, que entrou cm vigor no Brasil. Dados Internacionais de Catalogação 11a Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Acquaviva, Marcus Cláudio Teoria geral do Estado / Marcus Cláudio Acquaviva. - 3. ed. Barucri, SP : Manole, 2010. ISBN 978-85-204-3026-2 1. O Estado 2. Estado - Teoria I. Título.

09-12088

CDD-320.101

índice para catálogo sistemático: 1. Teoria geral do Estado : Ciência política

320.101

Todos os direitos reservados. Nenhuma parte deste livro poderá ser reproduzida, por qualquer processo, sem a permissão expressa dos editores. É proibida a reprodução por xerox. A Editora Manole é filiada à ABDR - Associação Brasileira de Direitos Reprográficos. 3: ‘ edição - 2010 Editora Manole Ltda. Av. Ceei, 672 - Tamborc 06460-120 - Barucri - SP - Brasil Tel.: (11) 4196-6000 - Fax: (11) 4196-6021 www. m anole.com.b r juridico@manole.com.br Impresso no Brasil

Printcd in Brazil

“ PRAXÁGORAS - Quero que todos tenham um quinhão dos bens comuns, que a propriedade seja de todos; de hoje em diante, deixará de haver distinção entre pobres e ricos; não se repetirá o caso de possuir um homem vastas extensões de terras, enquanto outro não tem sequer o suficiente para cavar a sua sepultura... É meu propósito que seja um só o modo de vida de todos... Para começar, farei que toda a propriedade particular se torne bem comum. BLÉPIRO - Mas... quem fará todo o trabalho? PRAXÁGORAS - Para isso haverá escravos.” (Da comédia de Aristófanes Kcclesiazusae, apud Pitigrilli, Dicionário anti-loroteiro, Rio de Janeiro, Vecchi, 1956, p. 44)

.

indo em busca de novas terras. a pro­ 1 2 Imagem da capa: Rômulo e Remo amamentados pela loba. onde. restaram pou­ cos sobreviventes entre os vencidos. o matou com um golpe de enxada!2 É evidente que. Londres. constrangendo-a. História de RomaySào Paulo. p. começaram a discutir. engravidando-a e suscitando a cólera de Amúlio que. o vento soprava forte e o cesto encalhou a pequena distância. em per­ feita harmonia de ideais. De onde vinham os dois? Vejamos. até que combinaram o seguinte: aquele que adivinhasse o número de pássaros que num dado momento sobrevoariam o local. 17. Quercus. depuseram Amúlio e fizeram retornar Numitor.RÔMULO E REMO E AS ORIGENS MÍTICAS DE ROMA1 Roma. Numitor e Amúlio. os amamentou! Os dois cresceram e conheceram sua história. não ter filhos que pudes­ sem se vingar no futuro. com a qual teve um filho. um príncipe. passaram a disputar o trono da cidade. não esperaram para receber a herança e o trono do avô. Mandou colocar os gêmeos num cestinho de vime e soltá-los 110 rio Tibre. Ilustração extraí­ da de p o t t e r . Indro. Sequiosos de aventura. C. os recém-nascidos faziam ta­ manho berreiro que atraíram a atenção de uma loba. daria seu nome à nova urbe. De­ marcaram os muros da cidade. que con­ sistiu em dois robustos garotos. dois irmãos descendentes de Ascânio. de Giuseppe Cesari. Empcrors ofRonte: the story of imperial Rome from Julius Caesar to the last emperor. filha do rei Latino. a quem deram o tro­ no. jurando que matariam quem ousasse transpô-los. Acontece que o deus Marte se apaixonou por Réia Sílvia. quando se tratou do nome a ser dado à povoação. Após oito gerações. apesar de tudo. com um pontapé. acabando por se fixarem no mesmo local onde o cestinho em que embarcaram encalhara. Ascânio. despeitado pela derrota ou por infeliz gracejo. porém. um estudo mais sério dos fatos não admite mais tanta fantasia. 1961. David. múnus que a obrigava a preservar a virgindade e. derrubou. Ainda que verdadeiro o episódio do abandono à morte dos gêmeos. por obra dos irmãos Rôm ulo e Remo. que cm vez de matá-los. para que se afogassem na correnteza. menos a menina Réia Sílvia.. com vantagem para Amúlio. Quando os gregos conquistaram e destruíram Tróia. A tradição a fez fundada aos 21 de abril de 753 a. pelo que retornaram a Alba Longa. Remo. que fundou Alba Longa. Rômulo ganhou a aposta. fiel ao juramento e friamente. Entretanto. os primeiros lances da construção. hoje. a se tornar sacerdotisa da deusa Vesta. Dentre estes. 1-3. com isto. ao que Rômulo. m o n t a n e l l i . que após va­ gar sem destino pelo mundo. que expulsou seu concorrente e mandou matar todos os filhos deste. Fundaram uma pequena cidade. chegou à Itália. Enéias. . aguardou o resultado. que um dia foi a capital do mundo. porém. na região do Lácio desposou a jovem Lavínia. cidade eterna! Este conhecido axioma insinua a alta antiguidade des­ ta metrópole. 2007. p. Ibrasa. por isso a cidade chamar-se-ia Roma.

p . literalmente um animal. criando-se. uma simbologia própria. seu apego à terra. 1992. na qual se destaca. inconfundível e perene. as coisas não se passaram de forma tão romântica. para que a sociedade nascente criasse personalidade forte. 142.). 48-9. zombeteiramente. tratava-se de gente humilde ou foragi­ da que se ocultava nos pântanos e sobrevivia com dificuldade. preci­ savam passar para os filhos uma origem nobre. na verdade. C. de uma mulher chamada Aca Larência. é pura lenda. O fato é que os primeiros romanos.. “a loba”. logo mais.teção que lhes teria dado uma loba. a longa e profícua tra­ jetória do Estado romano. 3. a imagem da loba romana. dominadora. consequentemente. que civilizaria o mundo em nome do Direito e da Pax Romana. talvez a mais glo­ riosa epopeia de um povo. ate sobrenatural. pois numerosos testemunhos arqueológicos. especialmente a partir da tomada do poder pelos monarcas etruscos. heróica. paludosa e insalubre. 3 4 a c q u a v iv a . seus costumes auste­ ros.3 Por outro lado. sempre orgulhosos dc si mesmos. Parece que os primeiros habitantes da região. revelam a existência de comunidades remotas. Quanto às verdadeiras origens de Roma.. no fim do século VII a. malcria­ da. pois a 4 4 loba” não passaria. ícone. origem nobre. Pcrrópolis. não tinham. criando um Estado em que a forma de governo alcançaria a perfeição. É provável que as agruras por que passaram tenham forjado seu caráter rude. ed. sem dúvida. o espírito guerreiro e. melhor que qualquer outra circunstância. desde logo. Vozes. Tem início. 2 0 0 9. comportamento selvagem que lhe teria valido ser chamada. se­ gundo Políbio de Megalópolis. a cidade parece ser bem mais antiga do que conta a tradição. C. Picrre. tangida por cidadãos cuja probidade e amor ao bem público esclarece.4 O fato é que a cidade ingressa na História oficial com seus sete reis (753-509 a. Foi o que ocorreu. Os gê­ meos que ela amamenta foram acrescentados no Renascimento. de muito antes de 753 a. Introdução à história da antiguidade. Marcus Cláudio. cabanes. no período republicano. da era do bronze médio e recente. absolutamente. seu expansionismo. identificada com a cidade. . C. São Paulo. p. Notas introdutórias ao estudo do Direito. na área em que se assenta Roma. violenta e adúltera.

................................................... 17 3) Direito e Estado...............................................1..................................2) O princípio da separação de Poderes segundo Montesquieu.. conceito e evolução histórica da Teoria Geral do Estado........................2..............................1) Causas materiais............................................................... 24 4.................................................................................................................................................................................2......................................................... 12 1) Conceito e evolução histórica do Estado............................................ 10 0 ESTADO.........................................2........................................ 12 2) 0 Estado de Direito........................................................................................2........2) Causas fo rm a is .......... 31 4.......1........................43 4...... 27 4......................................................1) Povo............ 4 1) Fundamento da sociedade............................................................................................... 45 IX 2 3 ......1) Antecedentes........................................... 37 4...............1 Natureza....3) T e rritório...............................2) N a ç ã o ........................................ 8 3) Espécies de sociedades...................................................................... do imperium e do domínio em inente.............................................2....... 1 A SOCIEDADE E O ESTADO......................................43 4....................................................................................................................2) 0 princípio da separação de Poderes no Estado.1.......................2...................................................................................................................20 4) Causas constitutivas do Estado...............................1................................24 4..................................................ÍNDICE GERAL APRESENTAÇÃO ...................... 39 4......................................................................................................................................................................................................................... XV 1 A DISCIPLINA.................................................4 2) Definição de sociedade ........ 23 4........1) Poder político.................. 39 4......................................4) Natureza das relações entre o Estado e seu território enquanto base física: teorias do direito real institucional................

.................... 118 5 6 ........................99 1..........3) Soberania.3) A doutrina da soberania lim itada.............................................................111 2.....................4) D em ocracia...............................................5...........................116 2.............3...........................................................................................2...............................................................................4) Globalização e soberania ...................................................7) Rousseau.............................................3) Políbio de Megalópolis................................ 53 4........................................................................................................................................................................................... 108 2) Formas de governo clássicas................................................................................................................................................................................................................................................................................................................. 62 4.........................................1) Platão (Arístocles)..........2) Concepção social do bem comum .................................................................................................................................................................................................1) 0 liberalismo e o bem comum ................................................................................................... 100 1...................................................5) Nicolau M aquiavel......................................... 87 4) Estado federal......................................2) República...................................................................................61 4............3) A ristocracia...............................................................................................3.............................................51 4.................................. 74 2) Espécies.................................113 2................ 86 1) União pessoal..4) 0 Estado contemporâneo e a delegação de fu n çõ e s......4) C ícero.......................................1) M o narq uia............................................................................47 4......... 57 4................................................... 111 2.......................................... 97 1............. 93 1........................................................................................................ 89 FORMAS DE GOVERNO...3....................................... 77 3) Conteúdo político das Constituições...1) A doutrina pactista medieval................................................... 102 1..................X Teoria Geral do Estado 4................................................................. 93 1......3) 0 Poder Legislativo................ 86 3) Estado u n itá rio .....................................5) 0 caso brasileiro: medida provisória e lei delegada..........................................................................................................95 1....8) Kelsen...................................................82 FORMAS DE ESTADO.................................... 86 2) União real.........66 4 A CONSTITUIÇÃO.................................2....................................2) A doutrina do contrato s o c ia l.......................57 4................2) A ristó te le s........................................................ 47 4...................................................................56 4...............................5) Causa final: o bem comum.......2......................................................................2..................................................................................................................2................................................... 104 1........................ 93 1) Classificações antigas e modernas........................................ 48 4................................. 80 4) Revolução...........................74 1) Conceito e evolução h is tó rica ........................................................................................................................4) Ordem jurídica..... golpe de Estado e insurreição............................................5.3...................... 53 4.........................2...............................................................................6) M ontesquieu...............

............................................................................................4........................................173 1) Presidencialism o..133 2. 154 Demagogiae oclocracia...................................... 226 6....................................................índice Geral XI 3) 4) 5) 6) 7) 7 2...........................................1......6) Direção estatal da economia ......... 187 3) Materialismo histórico e ditadura do proletariado.........................................................................227 7) Humanismo s o c ia l...........................................139 2............ 155 D itadura............................151 Oligarquia........................221 6..............................................................................................1..... sob o comando de um líder..................................................4) Concentração da propaganda nas mãos do Estado.................................................... 220 6........................................... 219 6..........................................................................................................................................................................9) 0 princípio da liderança (Führung) no Estado nacional-socialista..................5) Concentração dos meios militares....................................211 6) Totalitarismo: fascismo e nacional-socialismo..................................................................................................................................................... 177 1..........2) Presidencialismo histórico e direito comparado...128 2....4.........................220 6..................................................................................................6....... 145 2..................................................226 6........5) Sufrágio e voto.................................................................................................................................................................................165 REGIMES DE GOVERNO............................................119 2..........................................1) Os partidos políticos no Brasil............................................................................. 173 1..............228 8 ..1.....................4......................176 1......................................6) Partidos políticos.................173 1..............................................................1) Introdução ao tem a..........................7) A doutrina nacional-socialista........3) Controle policial pelo Estado..................................................................................................1) Introdução........1) Ideologia o fic ia l....3) Presidencialismo versus parlamentarismo na América L a tin a ..................................4......................................1.............1) Características do totalitarism o........................................................119 2........ 121 2..4................................................................. 186 2) Socialismo utópico....................................1.......................................221 6.............................................................1.................................................................. 179 2) Parlamentarismo......................7) Democracia e comunicação de massa.................................... 149 Tirania......1.................219 6................................ 157 Caudilhismo.............................................................................................................................4......................2) Democracia direta...............................................................3) Democracia representativa........... 180 IDEOLOGIAS........1.............4.........................4) Democracia sem id ire ta....... 191 4) Anarquismo e sindicalismo...........................4) Presidencialismo...............................................214 6................................................................................................... 219 6........................ 203 5) Mecanicismo e org a n icism o .............. militarismo e Igreja na América L a tin a ....................................4.....1..........................................2) Sistema de partido único......8) O Estado nacional-socialista e os direitos subjetivos................... 186 1) Conceito de id e o lo g ia ...........

.....................................................................................................................269 10) Fustel de Coulanges (A cidade antiga) ....................................................... 325 24) M............. 229 9) Neoliberalism o..........................309 19) Benito Mussolini (Prelúdio a O príncipe................................XII Teoria Geral do Estado 8) Social-democracia................................................................................................................................................... 303 18) Léon Duguit (Os elementos do Estado).......................... 235 3) Direito comunitário: antecedentes da União Européia ............................................................................257 7) Simón Bolívar (Discurso perante o Congresso Constituinte de B o lív ia ..................................................................................... Krutogolov (Palestras sobre a democracia soviética) ....................................O N U ................................... 243 1) Marco Túlio Cícero (Dos deveres) ..............................1825)............ 339 ..267 9) Ferdinand Lassalle (Que é uma Constituição?) ...................280 12) Almeida Garrett (Obras)...................................................... 289 14) Francisco José de Oliveira Vianna (O ocaso do Im pério) ......................... 300 16) Georges Sorel (Reflexões sobre a violência)......................................................................................................................TPI...........................332 25) S.................................. 230 9 0 ESTADO ENTRE ESTADOS:AS ORGANIZAÇÕES INTERESTATAIS.........312 21) Hans Kelsen (Teoria geral do Direito e do Estado) .....277 11) Gustave Le Bon (Leis psicológicas da evolução dos povos ) ..310 20) Varlan Tcherkesoff (Erros e contradições do marxismo).................................................. 259 8) Karl Marx e Friedrich Engels (O manifesto com unista) .........M ercosul...................... 246 3) Nicolau Maquiavel [O príncipe) ........................................................ 320 23) José Pedro Galvão de Sousa (Conceito e natureza da sociedade política)......................................................................................................................................235 4) O Mercado Comum do Sul ................ 249 5) Henry David Thoreau (Desobediência civil).........................................................................238 6) 0 Tribunal Penal Internacional ...233 2) A Organização das Nações Unidas .....................................................301 17) Nikolaj Lênin (Como iludir o povo com os slogans de liberdade e igualdade) .................242 10 LEITURAS COMPLEMENTARES..................................................................................................................l.........................A............................................ 288 13) Alberto Torres (A organização nacional) ...........................317 22) Alípio Silveira (Da interpretação das leis na Alemanha nacional-socialista e hitle rista ) ............................ Kovaliov (História de Roma).............292 15) Jacques Maritain (O homem e o Estado ) ............................................................................................. 233 1) Natureza das Organizações Interestatais.....................................................255 6) Joseph De Maistre (O pensamento social cristão antes de M arx) .......UE.............................................................. de M aquiavel) ....238 5) Os tratados internacionais (natureza e e ficá cia).....................................................243 2) Santo Tomás de Aquino (Suma teológica e Suma contra os gentios) ................................................247 4) William Shakespeare (Júlio César) .........

...........................................11........................11........1823)................índice Geral X III 11 DOCUMENTAÇÃO HISTÓRICO-LEGISLATIVA..11.....................06......09.. de 10............................. 364 ÍNDICE ALFABÉTIC0-REMISS1V0.........................1961 (Sistemaparlamentarista)... de 11...................... de 07... 343 5) Manifesto de S............ 344 6) Proclamação do Governo Provisório..342 3) Decreto n. de 27........................... 13...................................... de 09.......... de 15........04................. 119-A......................341 2) Dissolução da Assembleia Geral Constituinte e Legislativa (Decreto de 12..........11..........................357 12) Preâmbulo do Ato Institucional n.. 19...............398...........................1890 (Liberdade de culto).11......12......... 367 .1822)............ 342 4) Proclamação de D............................................................................1889 (Proclamação da República).................... 4..............................................1964.......... de 02......... 1................ M................... de novembro de 1823.....01..................363 13) Emenda Constitucional n............ 1...................... 26................................................................. o Imperador aos brasileiros..........................349 9) Decreto n..........................1930 (Institui o Governo Provisório da República dos Estados Unidos do Brasil). Pedro 1.............347 7) Decreto n..1985......... 341 1) Convocação da Assembleia Geral Constituinte e Legislativa (Decreto de 03..1948 .....................353 11) Emenda Constitucional n...................... em 15............. 350 10) Declaração Universal dos Direitos do Homem.......................................1889 ..........................................348 8) Decreto n.

.

evolução histórica e espécies). po­ der político. sindicalismo revolucionário. o fundamento. Dentre os tópicos constantes da obra. o sufrágio e o voto. em São Paulo. cumpre mencionar a natureza. com destaque para uma abordagem aos partidos políticos no Brasil. o Estado de Direito. do Prof. ordem jurídica. soberania. análise minudente sobre o princípio da separação das funções do Estado e um capítulo sobre as organizações interestatais. Marcus Cláudio Acquaviva. por parte de colegas e alunos.APRESENTAÇÃO Esta nova edição da obra Teoria Geral do Estado. esgotado há vários anos. a definição e as espécies de sociedade. os partidos políticos. No exercício de seu magistério. as causas constitutivas do Estado (povo e nação. incluindo tópicos como o Direito Comunitário (an­ tecedentes da União Européia) e o Mercosul. território. tendo em vista a dinâ­ mica do mundo globalizado e seus novos questionamentos. O autor. é advogado e leciona na Faculdade de Direito da Universidade Presbiteriana Mackenzie. Várias inovações enriquecem a obra. a democracia. as ideologias políticas (anarquis­ mo. de modo a atender praticamen­ te a todos os programas da disciplina determinados por universidades e faculdades de Direito. que muitos denominam “internacionais”. Consciente da necessidade de republicar a obra. a Constituição política (con­ ceito. o conceito e a evolução histórica do Estado. social-democracia e outras) e as organizações interestatais. marxismo-leninismo. recebeu. o Prof. Além desse nobre material de pesqui­ XV . as formas de governo an­ tigas e modernas. inúmeros pedidos e incenti­ vo para a reedição do livro. acha-se inteiramente revista e ampliada. as formas de Estado. os regimes de governo (presidencialismo e parlamentarismo). Acquaviva passou a dedicar grande parte de seu tempo na revisão e na ampliação substancial do conteúdo do livro. o con­ ceito e a evolução histórica da disciplina Teoria Geral do Estado. conhecido mestre de Direito. bem comum).

Encerrando o conteúdo desta. também. Karl M arx e Friedrich Engels. Cícero.09.XVI Teoria Geral do Estado sa. e mesmo ao professor. de 02. Lênin. Um dos maiores atrativos da obra. Participam da antologia. aumentada.1948 c a Emenda Constitucional n.1930 (Governo Provisório da República). . Isso permitirá ao aluno. Santo Tomás de Aquino. passando a contar com mais ex­ certos de obras famosas e de difícil acesso para o estudante. cm face dc sua rarida­ de ou alto custo. uma oportuna documentação histórico-legislativa pertinente à Teoria Ge­ ral do Estado. de 15. de 11.1889 (Proclamação da República). o Decreto n. a partir do Primeiro Império brasileiro até a atualidade. dentre outros clássicos. Benito Mussolini e Hans Kelsen. 1. 4. valendo des­ tacar o Decreto n.11. Maquiavel. a antologia de clássicos da Política e da Teoria Geral do Estado foi. Shakespeare.11. a Declaração Univer­ sal dos Direitos do Homem.1961 (Sistema parlamentarista dc governo).12. uma pesquisa com mais conforto e rapidez.398. isso sem mencionarmos outros textos de grande valor doutrinário constantes da primeira parte da obra. dentre esses oportu­ nas referências a autores de nomeada. o autor promoveu inúmeros acréscimos ao próprio texto. de 10. e também para enriquecer a informação aca­ dêmica. 19. Gustave Le Bon.

2. como o Direito Administrativo. à qual todos devem sub­ meter-se em prol do interesse público. São Pau­ O. a Introdução ao Estudo do Direito. 1970. f is c h b a c ii.A DISCIPLINA NATUREZA. Quando um juiz comina pena de prisão. São Paulo. Honório. que faz valer a vontade da lei. entre tantas outras. Teoria general dei Estado. restaurantes e condomínios e o álcool nas rodovias. a Teoria Geral do Estado. Rio de Janeiro. proíbe o fumo em bares. Dalmo de Abreu. 1985. o Direito Penal e o Direito Tributário. . s il v e ir a n e t o .. Curso de teoria do Estado. Forense. 7. ed. Da mesma forma que a Biologia. Teoria do Estado. 1981. 1981. a Sociologia e a Economia visam propiciar conhecimentos bá­ sicos para a compreensão e a própria justificação de disciplinas mais específicas. ainda. Ao ingressar na Faculdade de Direito. o iniciante do curso jurídico se depara com uma série de disciplinas denominadas básicas. Nacional. Paulo Jorge de. é o F^stado. Elementos de teoria geral do Estado.. Bushatsky. mediante seus órgãos concretos. cuja finalidade é orientá-lo quan­ to aos fundamentos do Direito e da sociedade. ed. entidade imaterial. G. CONCEITO E EVOLUÇÃO HISTÓRICA DA TEORIA GERAL DO ESTADO Bibliografia: l im a DALLARI. México. uma autoridade judicial intima alguém para depor em proces­ so ou para atuar como mesário ou apurador de votos cm uma eleição ou. fis­ cais e servidores públicos. como magistrados. a Anatomia e tantas outras matérias congêneres constituem a base dos estudos espe­ cíficos no campo das Ciências Médicas. 1 . lo. Saraiva. um fiscal de rendas impõe multa ao contribuinte faltoso.

Direito Cons­ titucional I. e Doutrina do Estado. José Pedro Galvão de Sousa . livro este considerado precursor da mo­ derna ideologia totalitária. a Teoria Geral do Estado é especulativa. Conta-se que Aristóteles visitou nada menos do que 150 países. Daí a precisa definição da Teoria Geral do Estado formulada por Paulo Jorge de Lima: “disciplina de caráter teórico e geral. e os franceses. vale observar que as obras ancestrais dessa disciplina são as de Platão (429-347 a.C. inevitavelmente. uma teoria é. criada em 1672 pelo holandês Ulric Huber. inclusive. portanto. Sendo eminentemente teórica. sob os mais variados pontos de vista.2 Teoria Geral do Estado Estado e Direito são. proveniente da expressão alemã Altgemeine Staatslehre. cidade). como sonegar ao estudante uma sólida formação ética a respeito dos funda­ mentos do Estado. como Parte Geral do Direito Constitucional Positivo. Science Politique. que tem por objeto o estudo do Estado como fenômeno social e histórico. não só quanto ao seu conteúdo econômico-social como no tocante às suas formas jurídicas e. ingleses e norte-americanos denominam essa disciplina Political Science. A denominação Teoria Geral do Estado. sendo suas obras principais a Suma teológica e a Suma contra os gentios. a inteligência com a fé. e o segundo enaltecendo a ortodoxia católi­ ca. reitor da Universidade de Paris. como instituição universal. preferida por Alessandro Groppali.). devido ao seu tratado Política (de polis. às suas manifestações ideo­ lógicas”. sendo a lei a formalização da vontade estatal.) e Cícero (106-43 a. mas o estudo do Estado em abstrato. gerai D aí as vertentes Teoria do Estado (Staatslehre). na qual recomenda a separação e a mú­ tua independência entre Igreja e Estado. e não prática. em que analisa as origens do Estado e as formas de governo existentes em seu tempo. organização e ideologias políticas. no curso jurídico. se o instrumental de trabalho do bacharel em Direito é a lei. adotada por Hermann Heller. uma vez que. também denominada Teoria do Estado. Quanto à evolução histórica da Teoria Geral do Estado.C. do Direito e da própria sociedade? Daí plenamente justificada a existência. com a obra Defensor pacis (1324). ainda. Doutrina do Estado ou. estudando suas instituições e leis. sempre recebeu críticas pelo adjetivo geral que contém. cujos escritos apresentam robusto matiz político. embora Aristóteles seja considerado seu funda­ dor. específico. Ora. Na Idade Média destacam-se Santo Agostinho (354-430). Am­ bos dissertaram sobre temas referentes às relações entre o poder social e o poder espiritual. não podendo haver ciência do particular. evolução. ideias inseparáveis. Aristóteles (384322 a. com o tratado A ci­ dade de Deus. do que re­ sultou a mais famosa de suas obras. Todavia.). sendo seu objeto não a análise dc um Estado concreto. dc uma disciplina como a Teoria Geral do Estado.C. como o demonstra o Prof. e Santo Tomás de Aquino (1225-1274). o primeiro buscando conciliar o platonismo com os dog­ mas cristãos. No ocaso da Idade Média surge Marsílio de Pádua. como origem. pecando por redundância.

destacam-se Thomas Hobbes (1588-1679). na Alemanha. . com O espírito das leis. com O contrato social. Montesquieu (1689-1755). e Jean-Jacques Rousseau (1712-1778).1 A disciplina 3 em tese primorosa intitulada O totalitarismo nas origens da moderna teoria do Es­ tado. Após Maquiavel. com Leviatã e Do cidadão. até 1940 não se falava em Teoria Geral do Estado. N o Brasil. ju­ rista emérito e fundador do Direito Público alemão. célebre escritor político florentino que viveu entre 1469 e 1527. a Teoria Geral do Estado tornou-se uma disciplina independente. A evolução histórica da Teoria Geral do Estado recebe considerável impul­ so com Nicolau Maquiavel (ou Machiavelli). Somente no século X IX . John Locke (1632-1704). mas em Direito Piíblico e Constitucional. Nesse ano ocorreu a separação: a Teoria Geral do Estado passou a ser disciplina autônoma e o Direito Público e Constitucional a denominar-se apenas Direito Constitucional. publicada em 1972. com Georg Jellinek (1851-1911). como se constata em suas obras O príncipe e Dis­ cursos sobre a primeira década de Tito Lívio. com Tratado sobre o governo civil. que buscaram revelar o fundamento do poder político e da sociedade na própria natureza hu­ mana e na vida social.

em convívio cotidiano com outras pessoas. Quando. in His­ tória dos costumes. durante horas. Fondo de Cultura Econômica. raramente nos damos conta da importân­ cia disso para nossa realização plena. ed. num velho eleva­ dor.B.. 1984. Leviatan. do lado de fora. tradução e adap­ tação de D. e “A palavra e o discurso”. como queria Hegel. Por nascermos em sociedade. Geneviève. Ludgero Jaspers O. prédio vazio e silencioso. Conceito e natureza da sociedade política. por isso mesmo. porém. em face de um infortúnio. v. porque nos consideramos ilimitadamente autossuficientes. despertamos para a assustadora realidade da solidão e da impotência para sobreviver! Sozinhos.. Thomas. afasta­ 4 . pouco valori­ zada. uma voz amiga e trêmula pelo susto das pancadas na porta nos acalma e garante que a assistência técnica não demora e que tudo está sob controle. Editorial Estampa. dada a vinculação daquele a esta. Lisboa. quem sabe. José Pe­ Fjnbora seja o Estado a mais complexa das sociedades. So u z a ..S. manifestação suprema do espírito objetivo no mundo. despercebida. México.). 1926. Pois bem. sem celular ou qualquer outro meio de comunicação. 1949. Manual de philosophia. no 12° andar? Fim de semana.. São Paulo. Jean Poirier (org.. 2. dro Ciaivão de. 2000. tradução de Roberto Leal. 1998. c a l a m e -g r i a u l e . A interação mais ou menos intensa que man­ temos com todos torna-se repetitiva e. São Paulo. é indispensável abordar a socie­ dade em geral. ed. conhecidas ou não. expediente encerrado. São Paulo. hobbes. já vivenciou o leitor a desagradável experiência de permanecer trancado.2 A SOCIEDADE E O ESTADO 1) FUNDAMENTO DA SOCIEDADE Bibliografia: A política. O pânico e a de­ sesperança acabam quando. 2. tins Fontes. 5. isolamo-nos de forma involuntária. Mar­ Ar i s t ó t e l e s .

temos a mais. uma vez separados do corpo. damo-nos conta de nossa fraqueza perante o mundo natural. senão o conhecimento desenvolvido. ou seja. Este comercio da palavra é o laço de toda sociedade doméstica e civil. do útil e do nocivo. con­ firmando a assertiva de Blaise Pascal de que o homem não passa de um caniço pen­ sante. nascendo e vivendo em sociedade. mais social do que as abelhas e os outros animais que vivem juntos. estaria sempre pronto para cair sobre os ou­ tros. um ser sociável por natureza. o homem é um animal cívico. todas distintas por seus poderes e suas funções. por sua natureza e não por obra do acaso. como uma mão de pedra. do justo e do injusto. Assim. pelo menos o sentimento obs­ curo do bem c do mal. Aquele que não precisa dos outros homens. considera que o homem. não sendo detido por ne­ nhum freio e. Santo Tomás de Aquino (1225-1274). como nós. a inclinação na­ tural levou os homens a este gênero de sociedade. ou um bruto. deixa o convívio social e retira-se para um . o homem se mostra uma cria­ tura eminentemente gregária e comunicativa por meio de uma linguagem articula­ da. só conservam o nome e a aparência. Pois bem. As sociedades domésticas e os indivíduos não são senão as par­ tes integrantes da Cidade. denominando-o por isso zoon politikon. Em sua obra clássica Política. portanto. O todo existe necessaria­ mente antes da parte. que se quebra na mais leve brisa. o que levou o filósofo Aristóteles a considerá-lo um ser social e comunicativo por natureza. como uma ave de rapina. evidente que toda Cidade está na natureza c que o homem e natu­ ralmente feito para a sociedade política. a do indivíduo que. capazes. o maior filósofo da Cristandade. po­ rém. nós. e todas inúteis quando desarticuladas. que nada faz em vão. ou não pode resolver-se a ficar com eles. dotado de carisma (graça divina). sociável por natureza. é até mesmo o primeiro objeto a que se propôs a natureza. semelhantes às mãos e aos pés que. vi­ veria em solidão apenas em três hipóteses: a) hipótese da natureza divina (excellentia naturae). inspi­ rando-se no próprio Aristóteles. Nada pior que o isolamento forçado. Aquele que fosse assim por natureza só respiraria a guerra.2 A sociedade e o Estado 5 dos de todo o conforto que a sociedade tecnológica proporciona. portanto. Estes são apenas a expressão de sensações agradáveis ou desagradáveis. que não devemos confundir com os sons da voz. ou sociedade política. A natureza. O Estado. de que os outros animais são. Aquele que. concedeu apenas a ele o dom da palavra. O mesmo ocorre com os membros da Cidade: ne­ nhum pode bastar-se a si mesmo. o bom-senso e os conhecimentos que a própria sociedade nos transmite. muito acima ou muito abaixo do homem. sem a realidade. Temos a nosso favor apenas a inteli­ gência. sem família e sem leis”. ou é um deus. A natureza deu-lhes um órgão limitado a este único efeito. todas subordinadas ao corpo inteiro. segundo Homero: “ Um ser sem lar. Aristóteles nos ensina: É. objetos para a mani­ festação dos quais nos foi principalmente dado o órgão da fala. existisse sem nenhuma pátria seria um indivíduo detestável. Assim. vale dizer.

filósofo inglês para quem. monstro bíblico que empresta o nome à sua obra mais conhecida. a necessidade de sobreviver impele o homem à vida comunitária. formas que exprimem o desejo de autoconservação. entretanto. da queda dc uma aeronave ou. torna-se selvagem. Um apetite natural e irracional. por não ter fundamento natu rala sociedade pressupõe uma disciplina férrea. nesta. sempre presente. felizes na frugalidade da vida monástica e no silêncio austero que convida à espiritualidade. frase criada pelo cronista latino Apuleio. como é sabido. Ora. fundado em ambição. o próprio Estado. b) hipótese da natureza doentia (corruptio naturae). c) hipótese da má sorte. loucura). para Hobbes. sem fa­ larmos no impressionante O senhor das moscas. azar (mala fortuna). é resultado de um instinto. Também os alienados mentais. caso mais comum do que se pensa. pois 11a sua desgraça não teriam noção do mundo real. as quais criariam uma barreira entre eles e a sociedade. entregando-se à meditação. do excursionista que se perde 11a mata espessa durante uma caminhada mais ousada. a natureza agressiva deste o leva a investir fisicamen­ te contra seus semelhantes. como ocorreria com o sobreviven­ te de um naufrágio. qual seja. ilustram bem a hipótese. a expressão alienado. a dos indivíduos atingidos por anomalias físicas 011 mentais (moléstias contagiosas. imposta pelo Estado. 11a aferição das origens do Estado. Enfim. Em sua visão pessimista. com os leprosos durante a Idade iMédia. Tal a posição deThomas Hobbes (1588-1679). Com efeito. do náufrago vivido por Tom Hanks. mediante uma vio­ lenta submissão do próximo. alheios à realidade (daí. em que o indivíduo se vê privado do convívio social por um capricho do destino. vivendo inconscientes. por natural in­ clinação. a destruir seus semelhantes. muito menos que a sociedade e. As vicissitudes da clássica personagem Robinson Crusoé e. formando comunidades indesejáveis a grandes distâncias dos centros ur­ banos. E o que ocorria. Hobbes adverte que esse fre­ nesi de dominação encontra sério obstáculo: o medo de morrer (timor mortis). no cinema con­ temporâneo. formando grupos inimigos e chegando ao assassinato. o ser humano é impelido. autocrático e disposto a punir seus excessos sem contemplação poderia tornar possível a vida em sociedade. viveriam isolados da socieda­ de. . como foi dito. filme em que um grupo de garotos. optam pela purificação e pelo aperfeiçoamento do espírito. da natureza gregária do ser humano. de modo que somente 11111 governo severo. alheio). é a origem da lei e do Estado. Ao contrário. ingressando num monastério isolado. escorraçados das cidades e obrigados a viver isolados. leva o homem a conquistar poder e glória a qualquer custo. a ameaça da morte imprevista e dolorosa. ou seja. o homem. que Hobbes denomina Leviatã. O homem. como fez Jesus em seu retiro 110 deserto. é lobo do pró­ prio homem (homo homini lupus). segundo Hobbes. desiludidos pelas mazelas do gênero hu­ mano. orgulho e vaidade (superhia vitae). Para outros autores. indivíduos que. e como fazem os ermitões.6 Teoria Geral do Estado local isolado. sobreviventes a um desastre aéreo.

empre­ gada tal expressão no seu sentido rigorosamente filosófico. logo no início do primeiro capítulo de seu famoso livro O contrato social. é graças à adaptação paulatina ao modo de ser da sociedade que o ser humano vai sendo condicionado a agir conforme os valores desta. e não como decorrência de uma natural in­ clinação do ser humano. que passa a ser um fim em si mesma. que o ser humano nasce bom. num processo assimilativo denominado socialização. a liberdade individual. sucumbe. o ser humano recém-nascido carece de total proteção. outro indício marcante da sociabilidade humana é a própria linguagem articulada. desde o nascimento aptas à luta pela vida.2 A sociedade e o Estado 7 Uhotnme est né libre et partout il est dans les fers (O homem nasce livre. grande inspirador ideológico do individualismo da Revo­ lução Francesa e mesmo das democracias liberais modernas. nada abalada pelos estudos. e não por uma suposta inclinação natural. celebra um pacto social com esses. No con­ vívio com o próximo. Com esta preocupante sentença. o homem. Jean-Jacques Rousseau (1712-1778). cuja finalidade não poderia ser outra senão a comu­ nicação entre as pessoas. sequioso de poder e glória. por isso. mas em todo lugar se acha acorrentado). de quem ela é um privilégio. a saber. e eu batizo-te”. já para Rousseau. já percebe o leitor. Por outro lado. prover sua subsistência. Como poderia o homem. a própria natureza humana se inclina para a vida em sociedade. à custa de seu semelhante. ilustra bem a antiquíssima convicção. mas a sociedade o corrompe de tal modo que e necessário restaurar sua primitiva liberdade individual. p. a disposição pura­ mente passiva dos seres sensíveis de compartilhar espontaneamente as emoções daque­ les com que vivem. tangido pela razão. Todavia. este nasce individualista. bom por natureza. Cabe a lei preser­ var. (Manual de philosophia. ele nasce bom. Enfim. por si só. corrompe-se. perdendo sua liber­ dade natural e ingressando em outra espécie de liberdade. para realizar seus objetivos. 91) . a civil. livre e feliz. num pacto ou contrato social. é ao mesmo tempo a condição necessá­ ria e suficiente para a definição do homem. “ Fala. Diferem. tão precocemente perdida. le bon sauvage (o bom selvagem) típico do ro­ mantismo do referido pensador.Na verdade. como adverte Lahr. teria dito o cardeal de Polignac a um orangotango de aspecto muito huma­ no. especialmen­ te na infância? Ao contrário de muitas espécies animais. na concepção do próprio ho­ mem: para Hobbes. pois sem esta. passando pela escola e pelos grupos sociais de variada natureza. procura demonstrar. Rousseau toma orientação semelhante à de Flobbes quanto à origem da so­ ciedade. a todo custo. limitada. sobre a co­ municação animal.Como se vê. iniciado no lar. relatada por Diderot. A par disso. o homem pre­ cisa do auxílio de seus semelhantes e. Observa Cieneviève Calame-Griaule: A linguagem. o homem nutre simpatia (do grego syrnpathia) pela vida cm sociedade. como fenômeno universal. vindo à luz. Esta célebre historieta. cada vez mais avançados nos dias que correm.

ora evolui. O que é essência. não sendo. Giorgio. estaremos revelando a própria essência da es­ pécie humana. honesto ou desonesto. não há que se falar em ser humano. quando formos definir o que quer que seja. simplesmente. A definição de sociedade nos impõe. a par dos elementos essenciais. que integram casualmente o objeto a definir. Muito cuidado. jo l iv e t Regis. Edições 70. pode ser bom ou mau. São Paulo. 13. 1979. e sem os quais este preserva sua essência.). entretanto? É tudo o que identifica o objeto a ser definido. mudando na busca da perfeição. Assim. Omnia definitio periculosa est. se definíssemos o homem como um ser racional bom ou mau. Em princípio. Dicionário geral das ciências humanas. características e atributos meramente acidentais. Curso de filosofia. pois a sociabilidade humana impli­ ca uma complexidade de relações muito mais profunda que a observada no agrega­ do animal. por­ tanto. retrocesso. a sociedade é a comunidade animal natural que agrupa indivíduos da mesma espécie. . portanto. portanto. e o agregado animal (união estável de outros seres). Sem seus elementos essenciais. lempereur. Como definir a sociedade? Do ponto de vista puramente biológico. Fruto da cultura e da experiência acumulada pelo homem. pois seria inconcebível um gênero humano desprovido de racionalidade. filóso­ fo e teólogo romano. estaríamos pecando por acidentalidade. Acontece que. . ligados entre si pela potência dos fenô­ menos interatrativos. Agir. o ser ou coisa careceria de existência. Haverá erros. desde logo. esclarecer o que é definir. embora sempre racional. denominados acidentais ou con­ tingentes. todavia a so­ ciedade estará. da ordem absoluta. consideramos oportuno estabelecer uma discriminação con­ ceituai entre a sociedade propriamente dita (união estável de seres humanos). São Paulo. Lições de filosofia do direito. advertem Agnes Lempereur e Georges Thines.8 Teoria Geral cio Estado 2) DEFINIÇÃO DE SOCIEDADE Bibliografia: 1948.. renovando seus valores. ora regride. define o homem como substância indivisível dotada de racio­ nalidadeypercebe-se que a razão é o elemento essencial da definição do ser humano. Saraiva. Agnes e t i i i n e s . e ocupando um biótopo que a comunidade condiciona estrei­ tamente. porque o homem. ed. se defi­ nirmos o homem como ser racional. Boécio (474-524 d. humilde ou arrogan­ te. A sociedade propriamente dita. honesto ou desonesto. mostra-se dinâmica e mutá­ vel. Sem racionalidade. Lisboa. Entretanto. humilde ou arrogante. DEL V E C C H I O . Definir é revelar a essência do definido. devem constar de toda definição apenas as causas essenciais do que está sendo objeto de definição. Por exemplo. sempre.C. quando Anício Mânlio Torquato Severino Boécio ou. 1984. mas sempre em perpétuo movimento. existem outros. indispensáveis à definição. degeneração. ela segue no rumo de formas de convi­ vência cada mais complexas. a humana. George.

passa a ter persona­ lidade jurídica. ser criada com a intenção de preservá-la. definida esta como a ação exercida mutuamente entre duas ou mais pessoas. e os indivíduos que dela participam. pois nela não se inclui nenhu­ ma causa ou elemento acidental. define a sociedade como a união moral es­ tável. sob uma única autoridade. poderiam deixar a sociedade por vontade própria ou por morte. quando sabemos que pode haver sociedades desprovidas de base física.2 A sociedade e o Estado 9 já proclamava a sabedoria latina. embora inconfundível com a pessoa natural (ser humano dotado de direitos e deveres reconhecidos juridicamente) de cada um deles. ao incluir o espaço territorial (base física) como elemento essencial. Sim. daí surgindo nova e superior unidade. De todo modo. fazê-la durar na consecução do bem social. ressaltada. uma associação (entidade sem fins econômicos) ou uma sociedade stricto sensu (entidade com fins econômicos). Nesta definição fica salientada a expressão relações. Del Vecchio proclama que. temporária ou definitivamente. Regis Jolivet. Tentemos. O u ­ tra definição reconhecida é a do jurista e filósofo italiano Giorgio Del Vecchio. portanto. fica evidenciada a permanência. Com a expressão nova unidade. e nem por isso a existência jurídica da sociedade seria afetada. definir a sociedade. muitas vezes egoístas. de di­ reitos e deveres. no sentido dc que a vida co­ munitária pressupõe um relacionamento que os sociólogos denominam.. Há quem a defina como agrupamento duradouro. intenção que os romanos já denominavam affectio societatis. estabilidade. De fato. considerados isoladamente. de sua sede ou estabelecimento por motivo de dívidas. sua causa última. que venha a ser despojada. físicas ou morais. destacados dos outros. autônoma. Quanto ao trecho superior uni­ dade. Satisfatória se mostra essa definição. Ação recíproca. sob a forma de pessoa coletiva. para quem a sociedade é um complexo de relações. de­ finição que peca pela acidentalidade. exemplo mais concreto do Direito Privado brasileiro. de cada sócio. uma finalidade transcendente. a estabilidade. dotada. dotado de um espaço territorial. graças ao qual vários seres indivi­ duais vivem e trabalham conjuntamente. de várias pessoas. sugestiva­ mente. apenas. a sociedade tem um ob­ jetivo. como os nômades. Del Vecchio deixa claro que a sociedade passa a ter existência própria. é indispensável a característica de permanência. tem vida própria. mesquinhas. como seus filiados. conhecido filósofo contemporâneo. não obstante. independente da figura dos indivíduos que a integram. enfim. A sociedade ou pessoa coletiva comporta-se como uma pessoa natural. vale dizer. enfim. No período convivem e trabalham conjunta­ mente. que tendem a fim comum. superior a cada um dos objetivos individuais dos sócios. . interação. ou seja. a sociedade reconhecida pela lei consti­ tui uma nova unidade. tendo existência própria. Deve a sociedade. ou. o desejo de todos de conviver permanentemente em sociedade. para que um conjunto de indivíduos possa ser qualificado como sociedade. o objetivo social está acima das ambições individuais. a essência da sociedade..

a de Ferdinand Tõnnies e a dc Max Weber. Quan­ to a Max Weber. ambos alemães. Direito civil . v. Introdução ao estudo do direito. 1992. weber . o meio residencial (a escolha de um local para viver integra. uma sociedade comercial. Silvio de Salvo. uma classificação das relações sociais. Fondo de Cultura Fxonómica. .10 Teoria Geral do Estado 3) ESPECIES DE SOCIEDADES Bibliografia: Marccllo. costa j r CAETANO. v. dividindo-as cm comunidades e socie­ dades (associações).Parte Geral. existindo indepen­ dentemente da vontade de seus membros. Alessandro. Exemplos dc asso­ ciações: um clube esportivo. São Paulo. Maria Helena. ed. uma entidade beneficente. Arnold. Direito civil . Fondo de Cultura Econômica. Jurídica Brasileira.. Atlas. A comunidade seria um produto espontâneo da vida social. Princípios de sociologia. a pessoa num meio social). Sa­ raiva. Sociólogos e juristas su­ gerem inúmeras tipologias que.Teoria geral do direito civil. Saraiva. e serão associações quando. Seguindo este critério. 1. ainda. de simpatia. Crimi­ d in iz nalidade organizada. ed. 2002. apesar de tudo quanto fazem para se unir. ou por um ato que não tenha por fim imediato aderir a elas. Pedro. São Paulo. Max. e que delam possam sair quando queiram. embora respeitadas. g r o p p a l i. caracterizam exemplos de comunidades: a nação. São Pau­ lo. 3. ed. Coimbra. 18. co. au­ tomaticamente. ed. ao pas­ so que a associação seria resultante da vontade manifestada por um impulso racio­ . Na co­ munidade os membros se acham unidos. r. Paulo José da e p e l l e g r i n i . 1999. Marcello Caetano observa que as diversas formas de sociedade são comunidades quando. .. 2002. Lisboa. 1972. apesar de tudo quanto os separa. na as­ sociação permanecem separados. 1942. criadas pela vontade dos indivíduos. orgânica. correspondente à vida real. Coim­ . em 1877. Curso de teoria do Estado. Ferdinand. 2002. 1. bra. 1. r o d r ig u e s Sílvio. São Paulo. Saraiva. a família. 32. uma academia científica. Curso de direito civil brasileiro . 9. 6.. mas entramos nas associações. 1.d . considera a comunidade o fruto de um sentimento subjetivo. Do ponto de vista sociológico. Angiolo. México. una­ nimidade.Introdução e Par­ te Geral.. não conseguiram. 2. diante de um interesse material. resultarem da união daqueles que a elas resolvam aderir. D i­ reito civil brasileiro .Parte Geral. ao passo que a associação resultaria da vonta­ de tangida pela razão. 2002. Tõnnies apresentou. 1978. w a i . o meio profissional. salvetti n et t o .. Economia y sociedade.. v. duas orientações se tornaram clássicas. São Paulo. Saraiva. que impele os indivíduos a constituir um todo. ed. Manual de cicncia política e direito constitucional. São Paulo. ed. M éxi­ Classificar as sociedades é tão difícil como defini-las.. 1984. de caráter emotivo. t õ n n i e s . uma irmandade religiosa. v e n o s a . Curiosa a observação do autor citado: encontramo-nos nas comunidades. Coimbra. os indivíduos se acham a elas vinculados pelo simples fato do nascimento.

porque numa determinada sociedade acham-se mesclados valores afetivos e objetivos racionais. cuja estrutu­ ra “administrativa” já recebeu um brilhante estudo dos juristas Paulo José da Cos­ ta Jr. o qual. porém. que comunidade e associação correspondem a tipos ideais. Observa o autor citado que o maior traço distintivo entre as sociedades ne­ cessárias e as contingentes é o fato de que aquelas preexistem ao homem. uma série de pressupostos inafastáveis para sua atuação. e Angiolo Pellegrini. das sociedades regulares. sem preconceitos. Das sociedades necessárias . Do ponto de vista jurídico. embora concorram. do próprio Estado.2 A sociedade e o Estado 11 nal. ao passo que a lei exige. que as tipifica em neces­ sárias c contingentes. podendo deixar de existir (quod potest non esse). tão logo vem à luz. ilícitas. a Camorra napolitana.o homem não pode prescindir. a Yakuza (máfia japonesa) e a Russkaja (máfia russa). Assinala Weber. a religiosa e a política. Outra classificação é aventada por Pedro Salvetti Netto. a sociedade familial. . tais como a Máfia siciliana. circunstancialmente. todavia. para o aprimoramento e o conforto do homem. raramente realizáveis quando consideradas de maneira isolada. nem sempre tais classificações são satisfatórias. não se mos­ tram indispensáveis à sua existência. Basta dizer que a Sociologia se interessa. por toda espécie de sociedade. portanto. a elas se vincula. ao passo que essas constituem obras da von­ tade humana. reprimidas pela lei.a própria denominação adota­ da revela seu sentido . por exemplo. mesmo aquelas inimigas da ordem jurídica e. ao passo que as contingentes.

1998. Aguillar. radbruch ción a Ia teoria dei Estado. El príncipe. Paris. o termo surge do latim status. Sucessor. Institutions politiques et droit constitutionnel. denomina. Précis de sociologie. Filosofia do direito. Rio dc Janeiro. 1979. 6. Livro I.3 0 ESTADO 1) CONCEITO E EVOLUÇÃO HISTÓRICA DO ESTADO Bibliografia: g u m p l o w i c z . Ciência política. 672-3. condição pessoal do indivíduo perante os direitos ci­ vis e políticos (status civitatis. D i­ Oswald apud Paulo cionário de política. 1978. a expressão estado civil identifica o indivíduo solteiro ou casado. Madri. Forense. 1965.Título XII. 6. 1981. Aguilar. x\4odernamcntc. 1896. Bogotá. ed. Léon.. Clóvis Lema c carvalho . A palavra estado apresenta vários sentidos inconfundíveis. agora com E maiúsculo. “UÉtat. g u it du - . 1979. 1986. les gouvernants et les agents”. ao passo que status é um termo apli­ cável ao estado econômico daqueles bem-sucedidos no mundo dos negócios. Louis. A. Barcelona. Bonavides. . Em princípio. Leyes que no son derecbo y derecbo por encima de Ias leyes. Hugo Palacios. n a r a n jo v il l e - . ed. ed. Quciróz. marx gas. Toda­ via.. Karl. Dalloz. a mais complexa e perfeita das sociedades civis. 1903.. IntroducMareei e b o u l o u i s . p. Temis. . Paris. a palavra Estado. T. Manifesto do Partido Comunista. spengler. prélot. m e jía Abel. . 1997. Armênio Amado.Temis. Bogotá. que pode­ ria ser conceituada como a “sociedade civil politicamente soberana e internacio­ 12 . São Paulo. Jean. m a q u ia v e l o Fontemoing. 1959. Madri. 7. Global. a sociedade política. p l a t Âo . São Paulo. Coimbra. Nicolás. status familiae). 1971. Gustav. . Bruguera. g a r c ia SOUZA. José Pedro Galvão dc. Léon Chailley. A República ou da justiça. modernamente. in Études de droit public. Filosofia dei derecbo. Paris. qual seja. José Fraga Teixeira dc.

o termo estat ou état foi recebido do latim a partir do século XIII. conta-nos Fustcl de Coulanges. estalinista. IV). estariam cometendo crime contra o Estado. na Alemanha. a carteira de trabalho. na Itália. com o crescente intervencionismo estatal. posição de uma pessoa. tutti /’ domini che hanno avuto e hanno impero sopra gli uominiy sono stati e sono repuhliche o principatr (“Todos os estados. rendo por objetivo o bem comum aos indivíduos e comuni­ dades sob seu império”. Km William Shakespeare (1564-1616). mesmo forçada. em viagem.] in the State of Danemark”). que. compulsoriamente. embora alguns escritores. dizia: “Tutti gli stati. na União Soviética. e nacional-socialista. em sua obra imortal A cidade antiga (Capítulo XVIII). Hegel) e dc seus detra­ tores (Marx. com cara de poucos amigos? É que todos esses devores nos são impostos pelo Estado. pagar pedágio quando em viagem. a exacerbação do poder do Estado se mos­ tra cristalina e aterradora no delírio de dominação dos Estados fascista. a ponto de . que recebiam os cadáveres dos filhos mortos em batalha. arts. ele se faz presente nos mínimos detalhes de nossa vida cotidiana. como Jean Bodin. Por que somos obri­ gados a fazer o serviço militar (CF. dedi­ cado aos candidatos a cargos públicos? Por que sem nossos documentos pessoais. como estado. dois séculos depois. tam­ bém encontraremos a expressão Estado indicativa da sociedade política. nas pegadas de Maquiavel. Modernamente. pela boca da personagem Marcelo. o programa A Voz do Brasil ou. na antiga Grécia.os homens serem obrigados a deixar crescer a bar­ ba e as mulheres não poderem levar. endeusado por outros (fascistas e nazistas). o Es­ tado sufocava por inteiro a liberdade natural do indivíduo. o Esta­ do sempre foi objeto de estudo dc seus defensores (Hobbes. tenham preferido o termo república (Republique) ou. todos os domínios que tiveram e têm poder sobre os homens. foram e são repúblicas ou prin­ cipados”). que diz: “H á algo de podre no reino da Dinamarca” (“ [.. VIII. no seu livro clássico O prín­ cipe. deviam mostrar alegria. e hoje. trabalhar como mesário ou apurador nas eleições. Houve época. Gregos e romanos denominavam a sociedade política polis e res publica. Bakunin). que.3 0 Estado 13 nalmente reconhecida. 5o. Execrado por uns (comunistas c anarquistas). o notório horário político. graças a Nicolau Maquiavel. usar cinto de segurança).em algu­ mas cidades-Fstado helênicas . pois. ou nazista. passou a ser empregado no sentido de sociedade política. tornamo-nos ilustres desco­ nhecidos perante a autoridade que no-los pede.. senhoria (Seigneureries). como o cartão de identidade. pagar imposto sobre a renda. sem falarmos os horrores da dita­ dura totalitária do proletariado. e 15. Na Fran­ ça. as mães. No século XVI. e somente ele tem a prerrogati­ va de nos dar a quitação respectiva. não fumar em locais públicos ou ouvir. se chorassem. Fjn outras cidades. . mais pre­ cisamente na tragédia Hamlet. Fjigels. res­ pectivamente. como Charles Loyseau. A palavra Estado passou a identificar a sociedade política a partir do Renascimento. mais do que três vestidos. ainda. no sentido de situação de alguma coisa e.

mediante o fenômeno da institucionaliza­ ção do poder (Traité de science politique. O próprio Hans Kelscn (1881-1973). citada por Paulo Bonavidcs. a patrimonialista e a da força. apresenta inúmeras variantes. . e conhecemos detalhadamente sua evolução histórica. que têm em comum a ideia de que é da vontade de Deus o Estado existir. devendo o rei governar como um pai para os sú­ ditos. da mesma forma que na família os filhos devem obediência aos pais. porém. cujo instinto as leva a viver em função de uma abelha-rainha. Ademais. p. ed. o surgimento de cada Estado se acha ligado a toda sorte de circunstâncias. 3-4). eminente publicista contemporâ­ neo. Vamos resumi-las. A teoria patriarcalis­ ta. desenvolvida ao longo do tempo por Demóstenes. embora re­ mota. 6. sendo as principais a patriarcalista. da sociedade política. Quanto às origens históricas do F'stado.14 Teoria Geral do Estado Sabemos que o Estado é uma sociedade necessária e condicionante das demais. p. Stahl. a teocrática. A doutrina teocrática. p. Em que pese a razoabilidade de sua argumentação. 52). a contratualista. do ponto de vista jurídico como “o sujeito da Ordem Ju­ rídica. colhendo-as na seara do próprio Direito ou da Sociologia. No plano da Sociologia. o fato é que o patriarcalismo acabou por se tornar mera justificativa do poder monárquico. observa que. F.. Dalloz. e na História o Estado cm marcha (Ciência política. o Estado se forma quando o poder torna-se uma instituição. 1986. na qual se realiza a comunidade de vida de um povo” (Pbilosopbie du droit. Daí a natural inclinação desta doutrina para a monarquia. como ocorre em certos agregados animais complexos. não se confun­ dindo mais com aquele que o encarna. já advertia que a vo­ lumosa soma de definições do Estado dificulta a precisão do termo. Paris. 2. t. surpreende no Estado a História em repouso. inspirador da célebre doutrina pura do Direito.. vontade esta manifes­ tada concretamente pela Providência. Rio de Janei­ ro. defini-lo? As definições são tantas quanto os autores que as formulam. todos eles devem obediência ao Esta­ do. que não se pode confundir uma única origem para todos os Estados. de imediato. 351-2). sendo esta a atuação de Deus na História. Seja como for. Assim. não podemos deixar de fazer algumas referências a tais defini­ ções. desprovido de caráter científico (Teoria general dei Estado. chamado Bastiat. peculiar a todas as sociedades. várias doutrinas procuram demonstrar uma só origem. por exemplo o das abelhas. Oswald Spengler. preconizada por Bossuet e Robert Filmer. pois este nada mais é que a união de muitas famílias. Giorgio Del Vecchio define o Estado. Para Georges Burdeau. dentre estas o próprio meio ambiente. Bossuet e J.. reduzindo-o a mero juízo de valor. cumpre observar. idealizada pela or­ todoxia doutrinária. a ponto de um grande publicista do século X IX . Forense. p. e a origem histórica de cada um destes. Luís XIV. dentre outros. Em vez de um fenô­ meno recorrente. Como. 128). o gênero humano teria uma natural inclinação para a forma mo­ nárquica. propor vultosa recompensa a quem for­ mulasse um conceito de Estado unanimemente aceito. Não obstante.

Quanto à doutrina contratualista. muitas vezes. onde os mais fortes impõem sua vonta­ de aos mais fracos” (Droit constitutionnel. apud Paulo Bonavides. Franz Oppenheimer e Léon Duguit. da dominação dos fracos pe­ los fortes. ora para justificar o poder do príncipe. 5. com fundamento na afirmação de que Deus. tangidos pela razão. Gobineau. Santo Agostinho. o Estado existe principalmente para proteger a propriedade individual. ora para explicar a origem do Estado (Hobbes). cit. aquela deve ser adotada. John Locke e Adam Smith.. definindo-o como a “instituição social que um grupo vitorio­ so impôs a um grupo vencido. p. Segundo tal doutrina. como ocorreu na Idade Média. Hobbes e Grócio. havendo uma corrente do patrimonialismo que justifica sua teoria pelo fato de o próprio Estado ter o direito natural de defender sua pro­ priedade. garantiria a liberdade (Rousseau). na verdade. p. Seja para garantir um mínimo de liberdade (Rousseau). desen­ volveram a ideia de que o Estado resulta de um contrato. p. No que tange à doutrina patrimonialista. 53). mais tarde. Stuttgart. Para Locke. haveria uma tendência natural. cm qualquer estágio histórico. Gumplowicz.Thomas Carlyle. um acordo entre os ho­ mens. 45). um dos últimos. natural a defesa de um direito divino dos reis pelos adeptos dessa doutrina. mostra o mesmo pessimismo de Oppenheimer ao conceituar o Estado como o “grupo huma­ no estabelecido em determinado território. demonstrou à Humanidade ser esta sua Vontade. 4. tido por mui­ tos como seu inspirador é. dentre outros. a teoria da força. ao eleger determinada forma de go­ verno. por razões radicalmente opostas. qual seja. Paris. Em suas próprias palavras. conflitantes. inevitável. entre outros. foram paulatinamente se congregando e abdican­ do de uma liberdade natural perigosa e irrealizável. Ciência política. como assinala Leopold Uprimny (apud Hugo Palacios Mejía. ed. período em que era usual reconhe­ cer a existência de um contrato entre o governante e o povo. para adotar uma liberdade ci­ vil que. ao contrário do que se pensa. . desenvolvida. A tese do contrato social surgiu de pontos de vista diversos e. Suárez. Por fim. seja por razões genéticas. é uma das mais antigas no tocante à origem do Estado. ra­ zão pela qual. os homens. Marx e Engels. p.3 0 Estado 15 Assim. ou para evitar a guerra dc todos contra todos (Hobbes). defendem-na. a paz (Hobbes) e a pro­ priedade (Locke). embora limitada. raciais (Gobineau) ou econômicas (Marx e Engels). Franz Oppenheimer. Jean-Jacques Rousseau. entre outros. a monarquia. mais remotamente. Léon Duguit. Platão. 14-5). por Charles Darvvin e.. respeitável publicista do início do século X X . pelo qual este se com­ prometia a obedecer àquele (pacta sunt servanda). 1954. Introducción a Ia teoria dei Estado. Antes dele. com o objetivo de organizar o domínio do primei­ ro sobre o segundo e resguardar-se contra rebeliões intestinas e agressões estran­ geiras” (Der Staat. situa a origem do Estado na violência imposta por um grupo social a outro.

porque esta é empregada na realização do direito.16 Teoria Geral do Estado o Estado não é uma pessoa jurídica nem soberana. as tirânicas.Não duvide que vou dá-la. todas as outras. mas apenas o po­ der objetivo de querer conforme o direito e de assegurar a realização deste. Karl Marx (1818-1883). Com o Estado desaparecerá o poder político. encontram-se submetidos à re­ gra de direito. pois nem sempre existiu e nem sempre existirá. sem nunca possuir. . o que você quer dizer com isso. que encontra seu verdadeiro fundamento na solidariedade social e se impõe a todos. disse Trasímaco.que algumas cidades são governadas tiranicamente. porventura respondeu .Sem dúvida! .Você fala com despudor Sócrates. prejudicial.Pois bem. Entretanto. o campeão da luta. 1-2) O pai do socialismo científico. o diálogo em que Platão coloca na boca de Trasímaco o seguinte: . . O po­ der pertencente aos mais fortes. (“L’État. conceituam o Estado como um fe­ nômeno histórico transitório. res­ pondi.Claro que sei! . indivíduo. Como todos os indivíduos. classe.Não sabe.Ouça. tal alimento será conveniente e. eu disse. () Estado é o produto histórico de uma diferenciação social entre os fortes e os fracos cm determinada sociedade. Toda manifestação de vontade dos gover­ nantes é legítima quando está conforme o direito. mais fracos que ele? . só desejo que você explique mais claramente o que significam suas palavras. por que você não aprova esta resposta. passou-se à apro­ priação privada dos meios de produção. p. por exemplo. depois que entender o que você quis dizer. simplesmente? . justo para nós. Você diz que o justo c o que interessa ao mais forte? Pois bem. que sc Polidamante. 1903. No momento. de forma le­ gítima. o poder legíti­ mo de impor suas ordens. em detrimento da maioria explorada. de forma demo­ crática. in Études cie droit puhlic. ainda. Os governantes não têm o direito subjetivo de comandar. confesso. a partir do momento em que. definido por Marx como “o poder organi­ zado de uma classe para oprimir outra” (Manifesto do Partido Conmnista. ja­ mais legítimo em sua origem. maioria. querido amigo!. mero resultado do aparecimento da luta de classes sociais. pôr em prática a força de que dispõem. Trasímaco? Não vai querer dizer. que aca­ bo de dar? N ão vai querer responder. Uma vez estabelecidas. neste cipoal doutrinário. les gouvernants et les agents”. em cada cidade não exerce o poder quem possui a força? . Tra­ ta-se de instituição passageira. não sei. . da propriedade comunista. outras de forma de­ mocrática e. cada go­ verno estabelece as leis conforme o que lhe convier: as democráticas.Nada disso. assim. outras por uma aristocracia? . Curioso sc mostra. Os governantes que detêm este poder são indivíduos como tantos outros. de forma tirânica e. ao tomar minhas palavras de for­ ma tendenciosa. e seu companheiro de ideias e de lutas Friedrich Engels (1820-1895). neste caso. é mero poder de fato. também. governantes e governados. eles podem. e mais forte que nós c lhe convem comer carne bovina para sustentar sua for­ ça física. na qualidade de governantes. 1981). disse então [Trasímaco]: Para mim o justo não c outra coisa que o con­ veniente para o mais forte.Portanto.

a fortiori do Estado. Vivendo em socieda­ de. mas plurívoco-analógico. como energia elétrica. importa.3 0 Estado 17 estas leis declaram que será justo para os governados apenas o que os governantes qui­ serem. e aqueles que se afastarem deste ditame serão punidos como infratores das leis. É indispensável ter presente que no Estado não reside a fonte única das normas de direito. Com alguma dificuldade ele viverá. ou seja. afirmava. automóvel e mesmo educação escolar ou em­ prego fixo. dentre os atribu­ tos essenciais do Estado. em obra primorosa: As concepções que tem idealizado o Estado dc Direito prescindindo do direito natural c encerrando-se nas perspectivas estreitas do positivismo jurídico. Ora. Sem um mínimo de ordem. para revelarmos o sentido da expressão Estado de Direi­ to. para conceituar e justificar o Estado de Direito. disse Aristóteles há 2. porém. reduzem o direito à lei. Tal afirmação ainda é plenamente verdadeira. a incerteza e os abusos des­ truiriam a sociedade quase na rapidez de um terremoto. ou aquilo que Jeremias Bentham denominava mínimo ético de convivência. a vida não seria possível nem por um instante. o que é por justiça devido a outrem. que são aqueles que mandam. Rudolph von Ihering. Cumpre partir do seu significado originário: o iu$ (de iustum). Por isso. É preciso entender que a lei não cria o direito. ou seja. meu bom amigo. que nem sempre c um Estado dc justiça.500 anos. É necessário compreen­ der que o direito subjetivo é uma faculdade ou um poder moral essencialmente vincu­ lado ao justo objetivo. uma pluralidade de or­ . de modo que. e depende deste. o justo c sempre o mesmo. Clóvis Lema Garcia e José Fraga Teixeira de Carvalho. Observam José Pedro Galvão de Souza. é imprescindível formularmos outra indagação: o que se deve entender por D i­ reito? Sabemos que esse vocábulo não é unívoco. para quem quiser discutir este assunto com seriedade. saber o que é o direito. 2) 0 ESTADO DE DIREITO Ubi societas ibi jus (onde houver sociedade haverá direito). se o Direito é uma qualidade essencial de qualquer sociedade. não distinguem o que c legal do que c legítimo e não vão alem dc um Es­ tado dc legalidade. luz que não ilumina”. assim entenderem. com inteira razão. O que eu quero dizer. Antes de mais nada. o homem pode ficar privado do conforto material c das utilidades que a tecno­ logia oferece. mas o reconhe­ ce e estabelece as condições de exercício dos direitos subjetivos. pois há na sociedade política. antes de mais nada. e o Direito que mo­ dela o exercício desta. refulgem o poder amparado na força. Daí a razão pela qual. o que convem ao mais forte. a expressão Estado de Direito seria tautológica. apresenta uma pluralidade de sentidos conexos. em correla­ ção com os grupos ou corpos intermediários que a constituem. em sua obra clássica A luta pelo Direito. é que em todas as cidades será justo tudo o que os governantes. que o Direito desprovido de força “é fogo que não queima. A insegurança.

Quanto a este. o conjunto das normas emenadas do Estado. Ora. um Estado de Direito social-democrático. o justo objetivo é inerente à ordem natural. 208-9) A concepção tradicional do Estado de Direito provém de Emmanuel Kant (1724-1804) e de Jcan-Jacqucs Rousseau (1712-1778). ideia que desenvolve à luz do formalismo positivista da sua famosa Teo­ ria Pura do Direito. Kant separava o Direito da Moral. disciplina exclusivamente os atos internos. que. na ple­ nitude do seu significado. na dignidade pessoal do homem.18 Teoria Geral do Estado denamentos jurídicos. seria. Logo. os direitos subjetivos fundam-se na pró­ pria natureza humana. respeito à ordem superior. 1998. Mais moderada é a ponderação de Gustav Radbruch. na liberdade do ser racional. como se depreende de sua concepção individualista. abolição da representação profissional e outras me­ didas de caráter notoriamente individualista. disso resultando que o Estado cria seu próprio Direito e impõe à sociedade a ordem jurídica a que esta deve amoldar-se. independentemente da lei moral. e que pode alte­ rar via poder constituinte. Jellinek considerava a possibilidade da autolimitação do poder do Estado pelo próprio direito positivo. sendo aquele apenas um conjunto de condições destinadas. o Estado de Direito. Consequentemente só poderá haver Estado de Direito desde que haja respeito ao direito natural. de foro íntimo. pois esta. todo Estado é Estado de Direito. um Estado de direito nacional-socialista. a garan­ tir a coexistência das liberdades. um Estado de Direito marxistaleninista e. simplesmente. à vonta­ de dos detentores do poder c dos que fazem a lei. por isso a lei só é justa sc conforme a essa mesma ordem. simplesmente. F . O Estado subordinado ao Direito.e fez escola . disserta: . proteção absoluta da propriedade privada. im­ plantação do sufrágio censitário (só teria direito a voto quem tivesse um conside­ rável patrimônio econômico). no seu destino transcendente e eterno.. até mesmo. assim procede para reger os atos externos do homem.na identidade da ordem jurídica e da estatal. então é o Direito que depende do Estado. o que acarreta notó­ ria aporia: se o Estado se limita pelo Direito que ele mesmo cria. Então. Daí a expressão Estado de D i­ reito Liberal Burguês para denominar a concepção de Estado intransigentemente vinculado às garantias individuais. (Dicionário de política. p. territó­ rio. Quanto a Hans Kelsen. será um Estado de Justiça. prossegue Kant. haveria um Estado de Direito liberal. racionalista c voluntarista do Direito. poder. pertencem ao mundo exterior e passam a ter sentido apenas quando re­ lacionados ao Direito. acredita . Nesse caso. Das teses de Kant exsurgem duas doutrinas bem conhecidas pelos publicistas a de Georg Jcllinck c a de Hans Kelscn. não o inverso. Os chamados elementos formadores do Estado. na visão kelseniana. segundo o kantismo. povo. tentando superar a visão estreita do neopositivismo kelseniano. que cairia como uma luva nos interesses de uma nascente burguesia..

Conforme as peculiaridades de cada povo. se valores humanos universais são violados por um suposto Direito.f o direito à vida. 354-5) Na verdade. 14) . I o. à expressão do pensamento ou de constituir família. considerando-a. um preceito jurídico de direito natural na base de todas as suas cons­ truções. como o art. então não estamos ante uma lei que estabelece um direito defeituoso. I o. representa a cosmovisão do legislador constituinte num Estado em particular e em dado momento histórico. quando na formulação do di­ reito positivo se deixa de lado conscientemente a igualdade. o positivismo jurídico c político pres­ supõe sempre. 1997. 4o. que não poderão ser as normas do direito positivo do Estado c só poderão ser as dum direito natural. Quando a maior parte das legislações oci­ dentais veda a poligamia. embora haja valores universais e perenes. No Brasil. tal fato não desqualifica aquelas que. por isso mesmo. toda a Humanidade reconhece e institui juridicamente. todavia. g. tenebroso. um espectro de bom Direito. Isto é: seremos levados a buscar essa solução num outro plano que não poderá deixar dc ser constituído. quando levado logicamente às suas últimas conseqüências. que a própria razão assi­ mila e que. na fe­ liz imagem de Gustav Radbruch: Quando nem sequer se aspira a realizar a justiça. a Constituição entroniza um Estado Democrático de Direito (art. não podendo haver suas ordens jurídicas idênticas sem prejuízo da identidade dos povos. que permite ao homem ter várias esposas (poliginia). Reitere-se. v. na União norteamericana.. ou a soberania popular (arts. como a brasileira (art. isto é. tal fato não pode servir de argumento para considerar o regime familiar do sultanato oriental. Uma ordem jurídica. será instituída sua ordem jurídi­ ca. (Filosofia do direito. mas o que ocorre é que estamos ante um caso de ausência do direito. e 14). não é me­ nos verdade que o direito positivo dos povos acha-se impregnado de notória relati­ vidade. como o faz nosso Código Penal. Assim. como já foi mostrado (§ 10). mas por normas. p. p. desde que tenha condições financeiras para isso. 1971. cujos incisos II e VIII preconizam. o que ele ordenar deve ser obedecido. adotam o sufrágio cultural. Eis esse preceito: quando numa coletividade existe um supremo governante. Na verdade. mais para além do direito positivo e mais para além da realidade do Estado. (Le)>es que no son de­ recbo y derecbo por encima de Ias leyes. já se vê. um atentado ao Esta­ do de Direito. quando algumas Constituições adotam o sufrágio universal. 235). g. que constitui o núcleo da justiça. ou. caput).3 0 Estado 19 somos sempre necessariamente compelidos. cujas premissas serão encontradas em vários dispositivos. v. surge. não por fatos e realidades. respectivamente. se quisermos achar uma solução para o problema da anterioridade ou posteridade do Direito com relação ao Estado. que. a colocarmo-nos mais para além dum e doutro. caput). parágra­ fo único. a prevalência dos direitos huma­ nos e o repúdio ao terrorismo e ao racismo. 14. crime contra a família (art.

afirmou a existência de uma plu­ ralidade de ordens jurídicas. portanto. Acadêmica. com a limitação do poder pelo direito positivo. 1972. Quanto às relações entre o Direito e o Estado. para resguardo dos di­ reitos adquiridos.. conforme seja o Direi­ to considerado criador do Estado. Firenze. sendo ambos unum et idem. 1967. d) princípio da igualdade jurídica ou isonomia. assim também ao lado do D i­ reito Positivo ou estatal se encontram o Direito Canônico ou Eclesiástico. São Paulo. Teoria pura do direito. José. 1979. Unam. 3) DIREITO E ESTADO Bibliografia: a m a l i ó n . olano . como dois mundos separados que se ignoram mutuamente. diz Santi Roma­ no. A tais princípios acrescentem-se as garantias constitucionais de direitos. mesmo porque ubi societas ibi jus (onde houver sociedade haverá direito). sen. como um posterius deste. ou como criação do Esta­ do. Sansoni. consolidado pelas garantias inerentes ao Judiciário (vitaliciedade.. rom an o Hans. Uordinamento giuridico. sempre. Introkel- ducción al derecho. Santi. Fernando Garcia e v i l a n o v a . babeas corpus e man­ dado de segurança. onde houver qualquer sociedade haverá. a todos deve ser aplicada. recho y dei Estado. de Derecho y Ciências Sociales. por­ tanto. diz ele. são verdadeiros centros de produção de normas. México. Teoria general dei de. 1939. as quais. podemos extrair alguns princípios da con­ cepção dominante de Estado de Direito: a) princípio da supremacia da lei (nde of law). surgem duas teorias principais: a) teoria dualística. Para Santi Romano. qualquer organização estável e individuada tem o seu ordenamento ju­ rídico próprio e. c) princípio da irretroatividade da lei. O Direito. Buenos Aires. de um pluralismo jurídico. mediante o qual ninguém será obrigado a fazer ou deixar dc fazer alguma coisa se­ não em virtude de lei. os esta­ . pela qual o Estado e o Direito são duas realidades distin­ tasynão relacionadas. inamovibilidade e irredutibilidade de vencimentos). g. assim como ao lado do Estado existe uma pluralidade de outras instituições mais amplas ou mais restritas. pelo qual a lei vale para todos e. b) princípio da legalidade. como um prius deste. portanto. Santi Romano. deve ser considerado não como um produto exclusivamente estatal.20 Teoria Geral do Estado De qualquer forma. b) teoria monista. como o pró­ prio Estado. que reduz o Estado e o Direito a uma só entidade. e a responsabilidade dos agentes públicos quanto a prejuízos causados aos particulares. Qualquer institui­ ção. Um grande jurista italiano. Enrique R. Coop. e) princípio da independên­ cia funcional dos magistrados. mas como um fenômeno verificável em todas as organizações sociais. Esta teoria se biparte em outras duas. e concluindo. v. direito.

3 0 Estado

21

tutos da Máfia ou de qualquer outro bando organizado fora da lei. Então, prosse­ gue Santi Romano, não só o Estado, mas qualquer grupo social, é fonte do Direito, e se o Direito estatal é Direito, nem por isso o Direito deve ser sempre e necessaria­ mente estatal. Poder-se-ia acrescentar à tese de Santi Romano que o Estado somen­ te aparece depois de um lento processo evolutivo, ao passo que formas primitivas do Direito já regulavam a sociedade primitiva. O Estado surgiria tão somente para servir e manter o Direito, portanto é o Direito que atribui e limita ao Estado seu poder de império. Depreende-se, da teoria de Santi Romano, que podem coexistir várias ordens jurídicas: uma estatal, uma infraestatal (sociedades civis e comerciais), uma supraestatal (ONU, OEA) e uma paraestatal (indiferente ou contrária ao Es­ tado). Contra a doutrina de Romano se posiciona a teoria monística, esposada, en­ tre outros, por Hans Kelsen e Alessandro Groppali. Hans Kelsen, um dos grandes juristas do século X X , autor da obra clássica intitulada Teoria pura do direito, afirma, desde logo, que Direito e Estado se confun­ dem. O estudo do Direito e do Estado deve ser depurado, purificado - daí o título de sua obra - de toda contaminação emocional, ideológica, metafísica, sociológica ou política. Ora, um conhecimento ideologicamente livre, portanto desembaraça­ do dc toda metafísica, não pode reconhecer a essência do Estado a não ser como uma ordem coercitiva de normas. Ora, se o Estado é um sistema normativo, não pode ser outra coisa que a própria ordem jurídica positiva (imposta), já que é im­ possível admitir a validade simultânea de várias ordens normativas igualmente coer­ citivas. O Estado vem a ser, com efeito, a personalização da ordem jurídica. Poderíamos complementar tal pensamento deduzindo o seguinte: a) o Direito da sociedade arcaica, diluído no costume, se achava tão distante das formas claras, distintas e acabadas do Direito atual, como sua organização es­ tava longe do Estado moderno. b) o Direito é elaborado seguindo um roteiro traçado pelo Estado ou, pelo me­ nos, reconhecido por este (processo dc elaboração das leis e processo judicial). En­ tão, fora do Estado não pode haver Direito. c)a coercibilidade do Direito depende da atuação do Estado e, portanto, a atuação do Direito depende do Estado. d) a formação originária do Direito nos tratados confederativos e na revolu­ ção triunfante tem por base os Estados contratantes ou o Estado em que se impôs um novo regime político. l ogo, tais fenômenos jurídicos supõem a existência do Estado. Também para Alessandro Groppali, fora do Estado não pode haver Direito. As normas que qualquer outra sociedade expedir para sua própria organização e funcionamento são normas de caráter meramente social, e somente se tornam jurí­ dicas quando reconhecidas pelo Estado ou admitidas na ordem jurídica estatal. Os grupos sociais menores que existem no Estado, diz Groppali, podem ser regulados

22

Teoria Geral do Estado

por um sistema próprio de normas, mas estas somente serão consideradas como or­ dens jurídicas válidas apenas 110 âmbito interno, pois, consideradas do lado de fora, isto é, do ponto de vista da ordem estatal, ficam imediatamente privadas de autono­ mia, pois sc forem contrárias à ordem jurídica estatal serão eliminadas. Mesmo uma quadrilha bem organizada, denominada societas sceleris, pode apresentar uma hie­ rarquia com especificação de “direitos” c “deveres”, c suas normas podem, ate, ser análogas às normas do Estado, mas nunca serão idênticas, pois não são verdadei­ ras, autênticas normas jurídicas; são o contrário disso. Seus membros agem em aber­ to contraste com a ordem jurídica que tutela um determinado conjunto de valores sociais. Aliás, prossegue Groppali, somente rendo como referência o Direito estatal é que podemos qualificar como ajurídicas, antijurídicas ou jurídicas as várias ordens normativas existentes. Em face de uma longa evolução histórica, ao cabo da qual seu poder tornou-se soberano (do latim superanus, supremitas, supremacia), o Es­ tado se impôs como entidade dotada de um poder incontrastável 110 âmbito inter­ no, assegurando para si, com hegemonia, o monopólio da criação das normas jurí­ dicas. Tendo Santi Rom ano afirm ado a juridicidadc das normas do Direito Canônico e do Direito Internacional, Groppali opôs as seguintes observações: quan­ to ao Direito Canônico, de fato, é um autêntico Direito, que encontra sua fonte 110 poder originário c independente da Igreja, poder que, embora de caráter espiritual, tem sobre os seguidores da religião católica uma notável eficácia. Entretanto, os fins do Direito Canônico são diversos dos fins do Estado, além do que, complementan­ do o pensamento de Groppali, lembraríamos o caráter de generalidade do Direito Estatal, seu alcance muito maior se comparado com os cânones eclesiásticos. Quanto ao Direito Internacional, Groppali afirma ser uma ordem normativa ainda em formação, sendo seus dispositivos desprovidos da eficácia que caracteri­ za as normas estatais. O Direito Internacional não possui outras fontes além dos tratados e do costume. Suas normas não são dotadas de poder coercitivo que ca­ racteriza a ordem estatal. Enquanto os ramos do Direito Positivo já apresentam um certo grau de estabilidade, o Direito Internacional nem codificado se acha, impos­ sibilitado, portanto, de atuar coercitivamente. O Estado totalitário, nas pegadas de Kelsen, considerou Direito apenas as normas estatais, sendo confrontados pela dou­ trina corporativista cristã, que afirma a necessidade de o Estado atuar apenas supletivamente perante os indivíduos e as sociedades menores, uma vez que o Esta­ do não seria a única fonte de normas jurídicas. Na verdade, Estado e Direito são irmãos xifópagos, predestinados a viver unidos, sem poder separar-se. Se, na ver­ dade, a ideia de um Direito difuso, espalhado pela comunidade primitiva, represen­ tado pelo totem ou mana, entidade espiritual que governaria os destinos da comu­ nidade, pode ser uma hipótese encantadora para explicar a precedência do Direito sobre o Estado, na verdade, quando surge este, passa tal entidade a ser a fonte su­ prema do Direito, superior em poder e eficácia a todas as outras, embora a existên­ cia destas não possa ser negada.

3 0 Estado

23

4) CAUSAS CONSTITUTIVAS DO ESTADO
Bibliografia: a b b a g n a n o , Nicola. Dicionário de filosofia, São Paulo, Mestre Jou, 1982.
ARISTÓTELES.

Obras, M adri, Aguilar, 1982; Tratado dei alma.
salvetti n et t o ,

bacon

,

Francis. “Afo­

rismos sobre a interpretação da natureza e o reino do homem”, in Os pensadores, São Paulo, Abril Cultural, 1973, v. 13. Pedro. Curso de ciência política, Teoria Geral do Estado, São Paulo, Tribuna da Justiça/Hemeron, 1977, v. 1.

O conhecimento científico, verdadeiro, só é possível mediante a apuração das causas dos fatos naturais e humanos. Aristóteles, pioneiro na demonstração da ver­ dade pelas causas, já delimitara, em sua Metafísica, o termo princípio como causa em sentido amplo, abrangendo as causas formal, eficiente e final, às quais o médi­ co Galeno acrescentou a causa instrumental. Conhecer verdadeiramente, disse Fran­ cis Bacon séculos mais tarde, é conhecer pelas causas. Forte em Aristóteles asseve­ ra: “Afirma-se corretamente que o verdadeiro saber é o saber pelas causas. E, não indevidamente, estabelecem-se quatro coisas: a matéria, a forma, a causa eficiente, a causa final”. Nesta esteira de pensamento, Pedro Salvetti Netto adverte: “Não se conhece, cientificamente, pela verdade revelada nos livros sagrados, como se fizera durante a Idade Média, mas sim pela explicação causai do objeto do conhecimen­ to. Todas as coisas se explicam, considerando-lhes as causas”. Acrescentaríamos ao exposto o conceito dc causalidade, a saber, a conexão entre duas coisas, em virtu­ de da qual a segunda é univocamente previsível a partir da primeira, como assina­ la Nicola Abbagnano. Do exposto, podemos indicar quatro causas suscetíveis de revelar a natureza das coisas e dos seres: eficiente, material, instrumental, formal e final. A causa efi­ ciente (do latim facere, fazer, criar) revela o criador, o autor de algo, de modo que, num exemplo rudimentar, podemos dizer que a causa eficiente da mesa que tenho diante de mim é o marceneiro que a fez. Causa ou causas materiais vêm a ser a ma­ téria, o material com que este confeccionou a mesa (madeira, cola, pregos). Causa ou causas instrumentais, por sua vez, seriam os instrumentos utilizados no traba­ lho (martelo, serrote, formão). Causa formal seria a própria forma, aparência da mesa, permitindo-nos distingui-la de uma cadeira ou de outras mesas, embora to­ das resultantes da mesma causa eficiente, material e instrumental, faculdade ine­ rente mesmo aos deficientes visuais. Finalmente, a causa final, que nos revela o por­ quê da mesa, ou seja, sua finalidade. Para um selvagem, a mesa pode significar simplesmente um abrigo contra a chuva; para um homem civilizado, é um objeto para colocar alimentos e tomar refeições, redigir ou ler. Pois bem, se transportarmos essas ponderações para a sociedade em geral, per­ cebemos que essa nos revela, com clareza, sua causa eficiente (fundadores), causas

24

Teoria Geral do Estado

materiais (seres humanos e base física), formais (órgãos diretivos e normas regula­ doras) e a final (pode ser de várias naturezas, conforme a espécie de sociedade). Em certas situações, seria polêmico, quando não embaraçoso, demonstrar a causa efi­ ciente da primeira sociedade, na verdade do próprio ser humano: Deus? Obra do acaso? Qual teria sido a primeira causa material? O barro, com que o Criador fez o homem e, de uma costela deste, a mulher? Questão de fé! Quanto ao Estado, se quisermos estudá-lo cientificamente, devemos fazê-lo mediante o estudo de suas causas constitutivas. Tal estudo se mostra indispensável, pois nos permite desconstruí-lo, estudando, pormenorizadamente, cada um de seus elementos. As causas constitutivas do Estado são materiais, formais e final. São causas materiais do Estado o povo, ou o elemento humano, e o território, ou base física, área material ou ideal em que o Estado faz valer seu Direito positivo. Quanto às causas formais, vale dizer, aquelas que identificam o Estado quanto à sua forma ju­ rídica ou constituição política, graças à qual um Estado não se confunde com ou­ tros - daí, a importância dc conhecer o Estado por sua constituição! - são a ordem jurídica e o poder político, exercido pelos governantes (do grego kubernetes, pilo­ to dc embarcação) que o encarnam em dado momento histórico. Quanto à causa final do Estado, vale lembrar que cada sociedade tem, conforme sua natureza, uma causa final específica. Assim, uma sociedade beneficente tem por causa final a prá­ tica da benemerência; outra, esportiva, tem por finalidade o aperfeiçoamento físi­ co e o lazer de seus filiados, enquanto uma sociedade empresarial tem por objeti­ vo o lucro, mediante a prática habitual de atos mercantis. Quanto ao Estado, tem por causa final o bem comum de todas as sociedades menores que atuam em seu território. O adjetivo comum atribuído ao bem visado pela sociedade política é bastante sugestivo: o Estado existe, por evidente, para rea­ lizar o bem-estar geral de todos, no tocante, por exemplo, à educação, à saúde e à segurança. Analisemos cada uma destas causas.

4.1) Causas m ateriais
4.1.1) Povo

Bibliografia:
1966.

a za m b u ja

,

Darcy. Teoria geral do Estado, 4. cd., Porto Alegre, Globo,
falcão,

b o n a v id e s ,

Paulo. Ciência política, Rio dc Janeiro, Forense, 1978.

Al-

eino Pinto. Parte CeraI do Código Civil, Rio de Janeiro, Konfino, 1959.

maluf,

Sahid. DenniPedro.

Teoria geral do Estado, 13. ed., São Paulo, Sugestões Literárias, 1982.
son. Os soldados brasileiros de Hitler, Curitiba, Juruá, 2008.

o l iv e ir a

,

salvetti n e t t o ,

3 0 Estado

25

Curso de teoria do Estado, 4. ed., São Paulo, Saraiva, 1981.

sil v a ,

José Afonso da. Cur­

so de direito constitucional positivo, 2. ed., São Paulo, Revista dos Tribunais, 1984.

População é a totalidade das pessoas que se acham, num dado momento, em determinado Estado. Tal conceito inclui toda e qualquer pessoa, independentemen­ te de nacionalidade, idade, situação política etc. Por isso, quando dizemos que o Brasil tem uma população de quase duzentos milhões de habitantes, estamos em­ pregando corretamente o vocábulo. População é conceito eminentemente numéri­ co, quantitativo, demográfico e, portanto, não interessa, de imediato, ao Direito. Povo, todavia, é termo que pode revelar um conceito jurídico ou um conceito po­ lítico. São conceitos análogos, porém inconfundíveis. Com efeito, a palavra povo sugere pluralidade de sentidos análogos, sendo, portanto, plurívoco-analógica. Em sentido vulgar, ela pode designar as pessoas residentes de um bairro qualquer ou uma comunidade unida pela religião, pelo idioma ou pela etnia. Pode, até, ser em­ pregada pejorativamente, ao designar a parte menos instruída da sociedade, ou aquela colocada em posição hierarquicamente inferior das categorias sociais. Por exemplo, na França pré-revolucionária, havia três estamentos, pela ordem, clero, nobreza e povo, o célebre Terceiro Estado. A democracia grega, quando se referia à assembleia do povo, indicava uma minoria seleta que, pelos dotes intelectuais e pela origem, podia deliberar politica­ mente durante todo o dia. Tal atividade era denominada ócio, bastante respeitada então e longe de sofrer o sentido pejorativo de hoje. Aqueles que não tinham o di­ reito de deliberar, que não podiam nem mesmo residir na cidade, eram os nec ócio, isto é, os negociantes, escravos e estrangeiros. Montesquieu afirmava que o povo não podia ser confundido com a ralé, o populacho, devendo ser proibido o direito de voto àqueles que se encontrassem num estado demasiadamente profundo de baixeza. Dizia este notável pensador que, mesmo no governo do povo, o poder não poderia cair nas mãos do baixo povo. Madame de Lambert, discípula de Montesquieu chegou a definir o povo: “Chamo povo todos aqueles que pensam de maneira baixa e vulgar” . Não foi à toa, portanto, que a palavra povo já foi tida como o grande troca­

dilho da História. Classificada a palavra povo como plurívoco-analógica, sua análise torna-se mais fácil, cm que pese a diversidade de sentidos que ela apresenta. Ao Direito, em especial o direito constitucional, interessam os sentidos jurídico e político. Povo, no sentido jurídico, é o conjunto de indivíduos qualificados pela nacionalidade. Nele não sc incluem, já sc vê, estrangeiros e apátridas. Todavia, o sentido político é ain­ da mais restrito, pois exclui não só estrangeiros c apátridas, como também os me­ nores de 16 anos (CF, art. 14, §§ I o, II, c, e 2o), estando o povo político, tido como o conjunto dos cidadãos do Estado, vinculado à ideia de cidadania. Como se vê, não

26

Teoria Geral do Estado

basta ser nacional para se obter a cidadania; a nacionalidade é pressuposto, condi­ ção necessária, mas não suficiente para alcançar o status de cidadão. A idade do na­ cional se mostra o grande empecilho à obtenção da cidadania, como se observa no art. 14, §§ I o, 1, e 3o, VI, a a d, da Constituição Federal. Todavia, há outras restri­ ções, como aquelas impostas aos militares no art. 14, § 8°, e a cassação de direitos políticos, nas hipóteses do art. 15. A nacionalidade, então, e vínculo meramente ju­ rídico, pertinente a direitos civis, em razão do local de nascimento ou da ascendên­ cia paterna (nacionalidade originária), ou, ainda, de manifestação de vontade do próprio interessado (nacionalidade secundária, obtida mediante naturalização). Na­ cional, portanto, é o brasileiro nato ou naturalizado, que integra o conceito jurídi­ co do povo, ao passo que cidadão é o nacional no gozo dos direitos políticos. Há dois critérios para a determinação da nacionalidade: o jus soli e o jus sanguinis. O jus soli leva em conta o local de nascimento do indivíduo, o solo, enfim. Trata-se de um critério normalmente adotado por Estados de forte contingente imigratório, isto é, que recebem imigrantes, estimulando-os a se radicarem, para compensar a rarefação demográfica. Por outro lado, o jus sanguinis é um critério dcterminativo da nacionalidade que considera a ascendência, o sangue paterno do indivíduo, para conferir-lhe a nacionalidade. Trata-se de critério típico de Estados de forte emigra­ ção, com o que se busca preservar a nacionalidade mediante a consangüinidade. O fundamento do jus sanguinis pode resvalar, perigosamente, o racismo, como ocorreu na Alemanha nacional-socialista, por acaso com cidadãos brasileiros. O pro­ fessor de História Dennison de Oliveira, em original e elucidativa monografia, tomou o depoimento dc um brasileiro descendente de alemães que, achando-se na Alemanha em 1943, foi convocado para o serviço militar em plena Segunda Guerra Mundial, pior, quando a derrota do país já se avizinhava. Assim o autor descreve o episódio:
Tendo atingido a idade para alistamento, ele compareceu diante da junta do ser­ viço militar local. Sua primeira inspiração foi alegar a condição de brasileiro (brasilia-

ner), nascido em São Paulo, como demonstravam seus documentos de identidade. Em
resposta teria ouvido a seguinte pergunta do encarregado do alistamento: “Mas se você

tivesse nascido na África isso faria de você um negro?”. Desconcertado, respondeu que
não, ouvindo em seguida a decisão de que ele teria de se alistar, uma vez que era des­ cendente de alemães. De fato, nos termos da jurisprudência alemã relativa à naciona­ lidade prevalece o princípio do jus sanguinis, isto é, aquela que deriva da nacionalida­ de dos pais, independentemente do local de nascimento (jus solis) que é típica da cultura brasileira, por exemplo.

De nada adiantou a alegação do pobre recruta de que lhe seria penoso lutar até a morte contra outros brasileiros; na iminência de uma condenação à morte por desobediência, acabou sendo salvo por um oficial médico nascido de pais alemães, imaginem, na Namíbia. O facultativo, sensibilizado pela situação do nosso brasi-

3 0 Estado

27

lianer, conseguiu para este uma internação hospitalar por suposta moléstia conta­ giosa, que acabou livrando-o do processo... Um caso banal como este esclarece, mais que muitos livros sobre a matéria, como o nacional-socialismo encarava o ser humano; para ser um bom alemão, o importante era o sangue, não importava o local de nascimento, tanto que o pró­ prio Hitler não era natural da Alemanha, e sim austríaco. Daí, a política dc anexa­ ção, à Grande Alemanha, de territórios em que habitariam os chamados alemães raciais, residentes fora do Terceiro Reich, levando à prática o lema nacional-socialista: “Povos do mesmo sangue devem pertencer ao mesmo Estado A Constituição do Brasil adota um critério intermediário, pois faz concessões ao jus soli (art. 12,1 , a), e ao jus sanguinis (art. 12,1 , b e c). Pode ocorrer que o indi­ víduo não tenha nacionalidade, sendo, então, apátrida (sem pátria), submetido, em tal caso, à Convenção sobre o Estatuto dos Apátridos, adotada em 28.09.1954, pela Conferência de Plenipotenciários convocada pelo Conselho Econômico e Social das Nações Unidas, em sua Resolução n. 526-A (XVII), de 26.04.1954, tendo entrado em vigor no dia 06.06.1960. Se tiver mais dc uma nacionalidade, o indivíduo será polipátrida. Os critérios atributivos da nacionalidade decorrem da própria sobera­ nia do Estado, não da vontade dos interessados, de maneira que o apátrida estará nesta condição independentemente dc sua vontade, valendo o mesmo para o polipá­ trida. Quanto à naturalização (CF, art. 12, II), é forma de aquisição secundária ou derivada da nacionalidade. Pode ser expressa ou tácita. A naturalização expressa é aquela que resulta de pedido do interessado (CF, art. 12, II, a e b); a tácita, aquela que se confere ao indivíduo por iniciativa do próprio Estado (CF, art. 12, § 1°). No que se refere ao povo político, reitere-se que tal conceito liga-se, de imedia­ to, ao de cidadania. Com efeito, sendo proveniente do latim civitas (de eives, cida­ dão), o termo cidadania denomina o vínculo político que liga o indivíduo ao Estado, fruindo o cidadão de direitos e deveres de natureza política, com evidente exclusão dos estrangeiros. O termo povo contido no art. Io, parágrafo único, da Constituição Federal confunde-se com o conceito de cidadania, pois congrega exclusivamente os nacionais dotados de direitos políticos, nas diferentes gradações apontadas pela Cons­ tituição (art. 14, §§ I o a 9o). Portanto, nunca será demasiado repetir que, ao decla­ rar, no art. 1°, parágrafo único, que “todo o poder emana do povo”, a Constituição Federal refere-se ao conceito político do povo, excluindo estrangeiros, apátridas, me­ nores de idade, e, nos termos do art. 14, § 2o, os conscritos durante o período do ser­ viço militar (do latim conscriptu, recrutado, alistado, recruta).

4.1.2) N ação

Bibliografia:
1968.

a za m b u ja

,

Darcy. Teoria geral do Estado, 4. ed., Porto Alegre, Globo,
delos

b o n a v id e s ,

Paulo. Ciência política, Rio de Janeiro, Forense, 1986.

,J.T .

entretanto. s. cria uma consciência moral que sc chama nação! A nação é. 1983. até que se sedimente aquele espírito nacional oriundo das tra­ dições e costumes comuns. O canto espartano: Somos o que fos- tes. nem dc sua religião. o desejo de viver junto. a outra. Curso de José Afonso da.. Uma grande agregação dc homens. ao passo que aquela tem caráter tipicamente so­ ciológico. porém. eis a condição para se ser um povo! E prossegue: Ama-se a casa que se construiu e se transmite. Desclée Brouwer. salvetti n e t t o . Revista dos Tribunais.28 Teoria Geral do Estado La nación. 1981. Para muitos autores. 5. de glória. eis o capital so­ cial em que se assenta a ideia nacional. renan . Que será. Curso de di­ Madrid. porque. o consenso atual. dentre todos. Ernesto. que se forma com o passar do tempo. a vontade de prosseguir fazendo valer a heran­ ça por todos recebida. Por isso. assim como o principal ideólogo do . o Estado pode surgir até dc modo abrupto. a outra. Dizia Ernesto Renan (1823-1892): Uma nação é uma alma. 4. Buenos Aires. A nação . de grandes homens. Centro de Estúdios Constitucionales. ed. nem dc sua língua. Uma encontra-se no passado. teoria do Estado. O homem não sc improvisa. São Paulo. Saraiva. é que a nação não se confunde com o Estado. Uma é a posse comum de um rico legado de tradição. o hino abreviado dc toda pátria. ed. Gobineau e Houston Stewart Chamberlain. nem da direção das cadeias dc montanhas. ela ostenta “caráter fugaz.c conseqüência dc longo passado dc esforços.d. a nação não pode ser satisfatoriamente definida. Possuir glórias comuns no passado e vontade comum no presente. 1989. uma realidade eminentemente sociológica. reito constitucional positivo. entre povo c nação: “a noção de povo não sc refere às qualidades físicas ou psíquicas dos ho­ mens. como afirma Sestan. s il v a . pois.como o indivíduo . ter realizado grandes obras em conjunto e querer realizá-las ain­ da. na sua simplicidade. sã dc espírito e cálida dc coração. é entidade pura­ mente normativa” . no presente. O povo. Nossos ancestrais nos moldaram o que hoje somos. Que es tina nación Pedro. Hans Kelsen distingue. mas a nação somente se forma mediante demorada gestação. seremos o que sois é. um princípio espiritual. O homem não c cscravo nem dc sua raça. mantendo-se gra­ ças à coação exercida sobre cidadãos ou súditos. como objeto dc estudo da Teoria Geral do Estado. Um passado heroico. dc sacrifícios c dc desenvolvimento. pois este envolve um conceito eminentemente jurídico. nem do curso dos rios. Certo. São Paulo. com sutileza. c o mais legítimo. plurissignificante e até equívoco”. uma nação? Seria a raça o único ingrediente a compor a receita da nação? Vacher da Lapouge. O cul­ to dos antepassados.. Com efeito.

se tomado isoladamente. Seria das tradições comuns. fala-se italiano. espon­ taneamente. Pode haver uma só religião em vários Estados. nas raças hu­ manas. como adverte Renan. que restam no passado. “uma su­ cessão de biografias que representam o espírito de cada nação de que cada grande homem faça parte” . É das tradições comuns que brota o espírito da nacionalidade e o patriotismo. se não César. comandada por um úni­ co líder. pois que a História é mais sábia que qualquer razão individual. sem contestação (Der Führer hat immer recht). Portanto. que resultaria a identidade de sentimentos que leva uma comunidade a querer. apenas as tradições e os costumes devem ser levados em con­ ta quanto à criação de um espírito nacional. representada por nações superiores a outras. permanecer existindo. que a “ História Universal é no fundo a História dos grandes homens”. dos fatos heroicos. Se a religião não é o elemento imprescindível para formação da nação. Dante. sendo protestante ou católico ou israelita ou mesmo ateu. Se a raça não é o elemento imprescindível da nação. Na Suíça. para Bodin. o catolicismo predomina em toda a Amé­ rica Latina. preco­ nizados por Mancini. Dizia Thomas Carlyle (1795-1881). Por outro lado. línguas. E quem poderia recusar ao povo suíço sua condição de nacional? Diz Renan: “Será que não é possível ter os mesmos sentimentos e pensamen­ tos e amar as mesmas coisas em línguas diferentes?”. Jean Bodin (1530-1596). Haveria. alemão. Alfredo Rosenberg. para quem tais grandes ho­ mens seriam o instrumento da evolução histórica. A religião é individual. afirmou que “de muitos cidadãos se faz um Estado (república). H á Estados ou comunidades nacio­ nais onde se falam vários idiomas. Pedro Salvetti Netto afirma que dos elementos constitutivos da nação. . contempla a consciência de cada um ”. se não Shakespeare? Tal linha de pensamento talvez seja a mesma de Hegel (1770-1831). o Es­ tado precede à nação. A Alemanha é metade protes­ tante e metade católica. O que é a Itália. como há Esta­ dos em que se professa mais de um credo religioso. quando governa­ dos pela potência soberana de um ou diversos senhores. Na verdade. é possível ser francês. inspirando-se nestes autores. Mazzini? O que é a Gré­ cia. religiões e nações”.3 0 Estado 29 nacional-socialismo. D aí as palavras de Ernesto Renan: “Já não há religião de Estado. isto é. costumes. seria este o idioma? Também não. O nacionalsocialismo. francês c alemão. nação e raça com uma unidade biocspiritual de sangue e solo (blutt und boden). uma hierarquia. autor da célebre obra Dos seis livros da República. Platão? O que é a Inglaterra. eminente historiador e biógrafo. se não Péricles. ainda que estejam diversi­ ficados em leis. seria este a religião? Também não. confundiu povo. inglês. “assentar a política na análise etnográfica é pretender assentá-la sobre uma quimera”. não há uma só raça pura e. achavam que sim.

Será uma realidade 110 sentido de que é uma fé. Pasquale Estanislao Mancini (18171 888). t. 2. Também para o fascismo. Novalis c Schlegel influenciaram o conceito naturalístico dc nação. A sociedade nada mais e que uma vida comum: uma pessoa indivisível que pensa e sente. a organização do Estado deve ser confundida com o espíri­ to nacional. pois a política não é senão a forma de que se reveste a ação em sua vida pública. O próprio Mancini aponta os elementos formadores de uma nação: a) elementos naturais: nação. para Novalis e Schlegel. que segue Bodin em tal pensamento. O que é um mito? O mito. Apesar das restrições a um conceito universal de nação. a seu ver. diz o Duce. o Estado for­ ja a nação. Benito Mussolini (1883-1945) não se preocupa em definir a nação. 187). uma paixão. Diz ele: “Para que se possa dizer que um Estado forma um todo vivente e que c uma grande individualidade. é antes de mais nada um mito. Contemporaneamente. in­ titulada Vida dos povos na humanidade. criadora e conquistadora. t. elaborados no decurso das idades. “Nosso mito [prossegue] é a nação” (Escritos e discursos. é preciso que o Estado ou nação continuem vivendo sua vida histórica e que desenvolva e mantenha a vitalidade em seus órgãos”. a nação é uma ideia. A nação deve ser con­ cebida à maneira de um corpo místico ou de um organismo internamente animado pela vida espiritual. uma esperança. como essência. a sociedade c o Estado são organismos vivos. arquivado no museu da História. o Estado pode forjar a consciên­ cia coletiva. de costumes. c) ele­ mento psicológico: consciência nacional. levado às últimas conseqüências durante o nazismo. ardente inimigo das concepções mecanicistas e racionalistas do Estado. Dentre estes. esta. André Hauriou define a nação como “o grupo humano 110 qual os indivíduos se sentem mutuamen­ . Para Friedrich von Schlegel (1772-1829). a solidariedade psicológica (expressão de Miguel Reale). na qual a unidade de território. Portanto. um valor”. tradições. Para Mussolini. b) elementos históricos: costumes.. o Es­ tado deve confundir-se com a nação. A mesma vida que anima a nação há de vitalizar o terreno político. não faltam definições formuladas por autores de peso. um dos chefes do Partido Liberal italiano e autor de uma obra célebre. de origem. 3. que encerra em si o espírito e a vida. O espírito deve ser presente. ação atual. de língua e a comunhão de vida criaram a consciência social” . território. Por isso. E o espírito. que definia a nação como “uma socieda­ de natural de homens. “A nação [diz ele] é fun­ damentalmente espiritual” (cit. na concepção fascista não é algo pretérito. a nação deve estar identificada ao Estado. lín­ gua. conhecido como Novalis. p. nem mesmo é necessário que seja real. p. formados pela História. sob o aspecto raça. Segundo Novalis. formada pela cultura e pela religião. Diz ele: A nação é um organismo histórico vivo.30 Teoria Geral do Estado Para Friedrich von Hardenberg (1772-1801). “é uma fé. 370). religião e leis.

impor respeito às demais sociedades políticas. Paulo. Ciência política. 2. consiste no vínculo jurídico que liga o indivíduo ao Estado. que considera a ascendência do indivíduo. ora ao jus sanguinis. isto é. fa­ zendo concessões ora ao jus soli. a atestar que a nação precede o Estado. utilizar a força (coerção) para ver suas determinações cumpridas pelos súditos. define a nação como: “o sentimento derivado da co­ munhão dc tradição. ou seja. mas do verbo latino terreo. Alessandro. Tcmis.1 . g r o p p a ­ l i. não provém. Bogotá. Por isso. A palavra território apresenta uma etimologia à primeira vista estranha.. de literatura e dc arte. 1979. causo medo. a qualquer momento. Di­ ga-se o mesmo no âmbito externo. id est. Victor. também: “Se vis pacem para bellum ” (“se queres a paz. Doutrina do Estado. b e c).1 . territo. espaço geográfico. Rio de Janeiro. receio. art. para manter a soberania ín­ tegra. da ascendência paterna ou da manifes­ tação de vontade do interessado. diziam os romanos: “ Territorium est universitas agrorum intra fines cuiusque civitatis quod ab eo dictum quidam aiunt. que leva em conta o local de nascimento. Quanto à nacionalidade. como se vê. to­ dos estes fatores agregativos e pré-jurídicos”. aquele que se vincula. lacios. Introducción a la teoria dei Estado. São Paulo. procura. Aldo Bozzi. ao território do Brasil. Note-se a expressão pré-jurídicos nes­ ta definição.3 0 Estado 31 te unidos por laços tanto materiais como espirituais. Forense. José Afonso da Silva diz que “nacional” é o brasileiro nato ou naturalizado. A Constituição Federal. quando o Estado. dc nada ligado à terra. 9. em razão do local de nascimento. r o d r ig u e s Dirccu A. adota um critério misto. de religião. submovendi ius babet” (“Território é a universalidade das terras dentro dos limites de cada Estado. Diziam. 12. Dicionário de brocardos jurídicos. ed. por nascimento ou naturalização. Hugo Pa. conforme se poderia pensar. Outro autor moderno. m e jía . dc língua.. 1968. Sugestões Literárias. intimido. 1 2 . não importando o local de nascimento (CF. a). dentro destas terras.3) Território Bibliografia: b o n a v i d e s . na força das armas. Há dois princípios básicos para a aferição da nacionalidade: o jus soli. alguns o chamam assim porque o ma­ gistrado desse lugar tem o direito de. o solo (CF. 4. pre­ . quod magistratus eius loci in­ tra eos fines terrendi. Saraiva. bem como conscientes daqui­ lo que os distingue dos indivíduos integrantes de outros grupos nacionais” . 1978. art. de história. cidadão é o nacional no gozo dos direitos po­ líticos”. aterrorizar. São Paulo. 1965. e o jus sanguinis. mesmo porque o Estado exerce o seu poder antevendo a possibilidade de. ed.1. de afugentar”). cujo conjunto forma o povo. isto é.

do clima. respectivamente. mercantes ou de propriedade privada. como veremos mais adiante. Nesse sentido. Assim. Hitler costumava afirmar . § I o.. Conceito geográfico é o de base física e o de país. é o caso da extraterritorialidade das leis.. seja para conservar-se íntegro. consideram-se como extensão do território nacional as embarcações e aeronaves brasileiras. O Direito Romano já fazia uma distinção entre o território e o elemento hu­ mano nele vivente. o território tanto pode ser uma parcela do solo. sobre os homens de determinada região. seja para expandir-se à custa de seus vizinhos. Então. as características telúricas da base física de uma sociedade política. em águas territoriais pertencentes a estado diverso. ruas e logradouros. estamos referindo-nos a um país e não a um território propria­ mente dito. quando nos referimos à influência do solo. Com efeito. este úl­ timo vocábulo. Por isso. no espa­ ço aéreo correspondente ou em alto-mar. no mesmo diapasão. aí esta­ ria a Alemanha”. o conceito de território é jurídico-político. ao pas­ so que a civitas era o elemento humano vivente na urbs. pode o território ser definido como a área física ou ideal em que o Es­ tado exerce. como uma ficção jurídica. com rara fe­ licidade.que “onde fosse ouvida uma canção alemã.32 Teoria Geral do Estado para-te para a guerra”). Daí o espaço aéreo. o Estado manifesta o seu poder de império também sobre seus súditos que se encontram em outros Estados. designando. faz parte do território do Estado cuja bandeira ostenta? Assim. na qual o Esta­ do exerce seu poder soberano. do Código Penal brasileiro. fazse oportuna a disposição do art. um dado eminen­ temente abstrato. não simplesmente geográfico. sempre com o in­ tuito de intimidar. o Estado exerce jurisdição sobre pessoas (poder de império) e direito de propriedade sobre seus bens. atenta ao estado de tensão política que lateja entre os Estados contemporâneos. cunhou. como ex­ plicar que um navio militar. ideal. a urbs era o conjunto de edifícios.bazófia ou ameaça . Ademais. e a modernidade. de natureza pública ou a serviço do governo bra­ sileiro onde quer que se encontrem. cm nome do chamado espaço vital. as belonaves militares e as embaixadas serem considerados partes integrantes do território do Estado. Tais arroubos e brocardos constituem um sintoma inevitável de que o Estado se mantém permanentemente em atitude de defesa ou dc ataque. com exclusividade. Era o prenuncio do cxpansionismo nacional-socialista. 5o. a faixa de fronteira de um Estado tem caráter muito mais estratégico do que político. mera base física. Por outro lado. bem como as aeronaves e as embarcações brasi­ leiras. que se achem. . isto é. in verbis: Para os efeitos penais. seu poder de império ou seu direito de proprieda­ de sobre pessoas e coisas. Se o território fosse mero espaço geográfico. impor-se às outras sociedades políticas. o jargão: “ O preço da liberdade é a eterna vigilância”.

pela Organização das Nações Unidas . livremente.O N U -. os aviões civis de natureza pública usufruem de intangibilidade ao sobrevoarem ares estrangeiros. não poderá ser ob­ jeto dc apropriação nacional por proclamação de soberania. Navios ou aviões civis que se encontrem fora do território de um Estado. estão sob a jurisdição do primei­ ro. e a exosfera.3 0 Estado 33 Dois elementos do território apresentam. Firmou-se a doutrina de que o espaço cósmico fica sob o império do Direito Internacional. de 10 a 12 km de altitude. bem como o direito dc todos os Estados levarem a cabo explora­ ções cósmicas e a inapropriabilidade jurídica dos corpos celestes. inclusive a Lua c os demais corpos celestes. poderá ser explorado e utilizado. qualquer que seja o estágio de seu desenvolvimento econômico e científico. ao espaço exte­ rior e aos corpos celestes. . ser reservada uma zona de passagem inocente do território às aerona­ ves estrangeiras. inclusive da Lua e demais corpos celestes. entretanto. deverão ter em mira o bem c o interesse de todos os países. nem por qualquer outro meio (art. No espaço aéreo predomina a teoria de Westlake (soberania plena). dando-se o inverso caso tais navios ou aviões estejam em águas ou ares do segun­ do.721. interplanetá­ rio. tal espaço compreende quatro camadas. Nesse sen­ tido. Neste predominam as normas de Direito astronáutico. 2°). importância muito grande: o espaço aéreo e o mar territorial Sobre o espaço aéreo. inclusive a Lua e os demais corpos celestes. também denominado interestelar. por uso ou ocupação. encontrar-se-ão sempre sob a jurisdi­ ção do Estado a que pertençam. sem qualquer discriminação. com a criação. nor­ malmente não conferidas às aeronaves particulares. que proclamou a extensão. por todos os Estados. Quanto aos navios ou aeronaves militares. com cerca dc 100 km. a estratosfera. em águas ou ares que não pertençam a outro Estado. e são incumbência de toda a Humanidade. da Comissão para o uso pacífico do espaço cósmico. devendo os Estados facilitarem e en­ corajarem a cooperação internacional naquelas pesquisas (art. estará aberto às pesquisas científicas. O espaço cósmico. a ionosfera. espacial ou cósmico. em 1967 foi firmado o Tratado sobre Princípios Reguladores das Atividades dos Estados na Exploração e Uso do Espaço Cósmico. modernamente. dos princípios do Direito Internacional e da Carta das Nações Unidas. Em 1961 foi criada a Resolução n. bem como de isenções fiscais. O espaço cósmico. Por outro lado. de 100 a 600 km. em condições de igualdade e em conformida­ de com o Direito Internacional. inclusive a Lua e os demais corpos celestes. inclusive a Lua e os demais corpos celestes. devendo. Desta forma. em 1958. o espaço cósmico. a soberania do Estado alcança uma altitude que justi­ fica um interesse público que possa reclamar a ação do poder político. bem determinadas: a troposfcra. Este tratado determina que a exploração e o uso do espaço cósmico. independentemente do local onde se encontrem. zona de transição para o espaço cósmico. Depois. devendo haver liberdade de acesso a todas as re­ giões dos corpos celestes. 1. I o).

que é a altura mais baixa atingida pela maré. b) para manter a boa ordem e a disciplina a bordo. atualmente bastante sofisticado. todos os mares seriam águas territoriais ou. Desta forma. Inicialmente. em largura variável. depois. Quanto ao mar territorial. isto é. vem a ser a faixa marítima que acompanha. § I o. com a evolução do arma­ mento. 1°. porque. c) para permitir-lhe en­ tregar essa pessoa às autoridades competentes ou desembarcá-la dc conformidade com as disposições da Convenção que disciplinam a matéria. poderá impor a essa pessoa medidas razoáveis. diz o art. Normalmente. com a participação de nove Es­ . e) seja necessário exercer a jurisdição para cumprir as obrigações desse Estado. o interesse eco­ nômico sobrepujou o fator político. inclusive coercitivas. já não existiriam tais águas. a Primeira Confe­ rência Latino-Americana sobre Direito Marítimo. a largura do mar territo­ rial é calculada a partir da linha de baixa-maré (baixa-mar). pois com muito maior facilidade os Estados mais desenvolvidos tecnologicamente pode­ riam buscar as riquezas submersas. Em outras palavras. que o Estado de matrícula da aeronave será competente para exercer a jurisdição sobre infrações e atos praticados a bordo. as sinuosidades da linha litorânea. com a evolução do armamento bélico. Como acentua Salvetti Netto. visto que os Estados alargaram a extensão de seu mar territorial na proporção inversa de seu desenvolvimento tecnológico. 110 art. em virtude de um acor­ do internacional multilateral. c) a infração afe­ te a segurança desse Estado. quan­ do o comandante da aeronave tiver motivos justificados para crer que uma pessoa cometeu ou está na iminência de cometer a bordo uma infração ou um ato previsto 110 art. e que integra o território do Es­ tado. determina. que sejam necessárias: a) para proteger a segurança da aeronave e das pessoas e bens a bordo. sim­ plesmente. Ora. esta teoria ruiu. predominava a doutrina de que a soberania do Estado sobre o mar iria até onde a vista humana tivesse alcance. passou a predominar a doutrina de que o poder do Estado no mar territo­ rial cessaria onde terminasse o poder das armas.34 Teoria Geral do Estado A Convenção Relativa a Infrações e a Certos Outros Atos Praticados a Bordo de Aeronave. de 1963. aí o di­ reito (ubi vis ibi jus). A observação dos infinitos recursos do mar ensejou a ampliação do mar territorial. realizou-se em Montevidéu. d) a infração constitua uma violação dos regulamentos relativos a voos ou manobras de aeronaves vigentes nesse Estado. VI contém importante disposição. Por outro lado. é a faixa marítima que banha as costas de um Estado e que se acha sob o poder de império deste. ou: onde bá força. IV que o Estado contratante que não for o da ma­ trícula não poderá intervir no voo de uma aeronave a fim de exercer sua jurisdição penal em infrações cometidas a bordo. a menos que: a) a infração produza efeitos no território desse Estado. III. onde alcançasse um tiro de canhão: terrae potestas finitur ubi finitur armorum vis. qual seja. se aplicada. no ano de 1970. b) a infração tenha sido cometida por ou contra um nacio­ nal desse Estado ou pessoa que tenha aí sua residência permanente. distantes de seu litoral. item I o. O art.

098. revogou este decreto. § 1° Considera-se passagem inocente o simples trânsito pelo mar territorial. já em fevereiro de 1970. Art. Importante ressaltar que já em 1958 e 1964. do qual transcrevemos. medidas a partir da linha dc baixa-mar do litoral continental c insular brasi­ leiro.1970. 1° O mar territorial do Brasil abrange uma faixa dc 200 (duzentas) milhas marítimas dc largura. os arts. Já em 25. Equador. advertiam que. 8. o Brasil acompanhava Peru c Equador na ampliação de seu mar territorial para 200 milhas . limi­ te aceito sem objeção por todos os Estados. Nicarágua. A Lei n.1993.03. em que pesem os esforços desenvolvidos por organismos internacio­ nais. I o desta lei diz que o mar territorial brasileiro compreende uma faixa dc 12 (doze) milhas marítimas de largura. diz: “Todo Estado tem o direito de fixar a largura do seu mar territorial ate um limite que não ultrapasse 12 milhas marítimas. Esta norma acompanhou a Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar. O art.617. I o e 3° e o § 1° deste: Art. Vale lembrar que os principais oposi­ .mediante o Decreto-lei n. A conferência debateu a exploração das riquezas do mar. A ampliação unilateral do mar territorial provoca dificuldades nem sempre solucionadas. de 1982. referente à largura do mar territorial. duas Conferências sobre o Di­ reito do Mar. Uruguai. não reconheceriam águas territoriais mais amplas do que 3 milhas. cujo art. sem o exercício de quaisquer atividades estranhas à navegação e sem outras paradas que não as incidentes à mesma navegação. a repressão ao contrabando. a segurança nacional. de 04. Argentina. preconizavam a largura do mar territorial de 3 a 12 milhas.3 0 Estado 35 tados: Brasil. realizadas por iniciativa da O N U . os Estados Unidos. 1. reconhecidas oficialmen­ te no Brasil. medidas a partir de linhas de base determinadas de conformidade com a presente Conven­ ção”. que.não esquecer que um dos principais produ­ tos de exportação daqueles dois Estados é o atum! . 3o.01. El Salvador. Chi­ le e Peru. 3° É reconhecido aos navios dc todas as nacionalidades o direito de passa­ gem inocente no mar territorial brasileiro. enquanto este limite não fos­ se fixado. Panamá. Assim. o controle de navegação para evitar polui­ ção das águas e outros temas. medidas a partir da linha da baixa-mar do litoral continental c insular brasileiro adotado como referencia nas cartas náuticas brasileiras. agora. conhecida por Convenção de Montego Bay. tal como indicada nas cartas náuticas dc grande escala. emitiram nota de apoio ao limite de 12 milhas apenas.

Vale. Oportuno lembrar. portanto. Fronteira é faixa. de 150 milhas. que já mantinha uma faixa de mar territorial na região. porém. nos quais sc incluem. Por outro lado. que disputa­ vam o domínio daquelas. 6. a Bulgária e a União Soviética. A Constituição de 1934 (art. Atualmente nos termos da Lei n. Questão que despertou polêmica momentânea entre dois notáveis juristas ita­ lianos.36 Teoria Geral do Estado tores às 200 milhas marítimas para o mar territorial sempre foram Estados Unidos e União Soviética. A pala­ vra fronteira vem do latim fronsyfrontis (fachada. mesmo. certamente. a seqüela resultante da guerra das ilhas M alvi­ nas. que colocou frente a frente. agora mais clara.05. de que o território. tornar sem efeito prático os acordos de atividade pes­ queira na área. Donato Donati e Alessandro Groppali. a linha de limite. a Inglaterra tornou obrigatória uma licença para bar­ cos pesqueiros de qualquer país que esteja em atividade num raio de 150 milhas. Com a tomada daquela medida. Como se percebe. frente). a Inglaterra c a Argentina. Do exemplo referido. O conceito de fronteira liga-se à estratégia. I o. ampliou unilateralmente esta largura em mais 50 milhas. em 1982. foi mantida a largura de 150 km para a faixa de fronteira. revela. sorrindo a vitória militar para os ingleses. São finalidades da faixa de fron­ teira a delimitação do território. situada no sul da Argentina. é considerada área indispensável à segurança nacional a faixa interna dc 150 km de largura. com tal medida. limite é linha. paralela à linha divisória terrestre do território nacional. e que se confronta com a linha de limi­ tes. art. Do território argen­ tino. aliás. a pretexto dc preservar a pesca nas Malvinas. duas faixas de fronteira opostas e divididas por uma linha divisória. A fronteira é uma faixa de largura considerável. de 02. a ilha de Los Estados. conforme o caso. o po­ derio militar e estratégico de um Estado quando em confronto com outro.634. agora. e as Constituições dc 1937 c 1946. a partir da linha de limite. a intercomunicação com povos vizinhos e a pro­ teção contra a hostilidade externa. a legislação marcava para a faixa de fronteira do Brasil uma largura de 10 léguas (60 km). a Inglaterra atingiu. também. Entre dois Estados confrontantes existem. 166) estipulou uma faixa dc fronteira de 100 km. a Inglaterra. Ao tempo do Império.1979. muito mais do que uma expressão geográfica. celebrados entre a Argentina. é a seguinte: a base física é elemento . que será designa­ da como faixa de fronteira. portos europeus de grande movimento. fica a conclusão. Recentemen­ te. do teor deste artigo ressalta a noção de limite: é a linha que separa a superfície do território de um Estado da superfície perten­ cente aos Estados vizinhos. distinguir entre fronteira e limite no território do Estado. os ingleses teriam um mar ter­ ritorial que invadiria nada menos do que sete territórios de países diversos. impondo formal e unilateralmente sua soberania num raio de 200 milhas! Agindo de maneira análoga na sua possessão de Gibraltar. ao pas­ so que o conceito de limite vincula-se ao Direito propriamente dito. na qual termina a ação jurisdicional do Estado. 150 km. A verdadeira razão que levou os britânicos a esta me­ dida temerária foi.

às embaixadas situa­ das em outros Estados c aos navios e aeronaves dc guerra. A sociedade política pode existir. afirmando que a perda de fato. portanto. os navios e as aeronaves de guerra. Ocorreu. No exemplo da França ocupada pela Alemanha. o qual. O território. assim. o mar territorial. despojado daquele elemento vital. por si só. sendo possível acrescentar a tal exemplo o da França de 1940. sediado na In­ glaterra. Conclui-se. integra a pró­ pria essência do Estado. durante quatro anos. porém mera ocupação do solo. como visto. ao lado do elemento humano e do poder soberano. além do solo. argumenta.1. sendo a República de Vichy. não essencial. e este não constitui. aqueles F'stados Atenas e França . embora. do im perium e do dom ínio em inente Quando se diz que determinado Estado cedeu a outro uma parcela de seu ter­ ritório. tomado como a expressão do poder de fato do Estado. que. exemplificando sua assertiva com Estados que foram des­ pojados temporariamente de sua base física. os quais se refugiaram nos navios de Milcíadcs. temporária. que o território. como Atenas. já que a este se encontram integrados. mera ocupação do solo. Donato Donati. da base física. Pedro Salvetti Netto lembra que. Alessandro Groppali contesta a dou­ trina de Donato Donati. Adepto da opinião de Groppali.permaneceriam existindo. contudo. constitui um elemento essencial do Estado. portanto. po­ rém. está-se fazendo referência a um autêntico direito de propriedade do Estado? .3 0 Estado 37 integrante do Estado? Donato Donati afirmou que o território (base física) não se­ ria elemento do Estado. 4. não acarreta a desaparição do Estado. não houve sequer perda temporária do território (base física). e não submissão total e definitiva. sucumbe ao cabo de algum tempo. o Estado sucumbe. do Estado. a amplitude do território estatal. e a soberania pressupõe a força necessária a sua autoconservação. vencida e ocupada pela Alemanha nazista. vassala do Terceiro Reich. uma organização política anômala. mas simples condição da existência deste. sem ele. A base física. é um elemento contingente. considerou tão somente uma parcela do território (base física). o subsolo. a impor suas determinações às forças da restauração. para quem o território (como sinônimo de base física) não é elemento constitutivo do Estado. temporariamente. foi abandonada por seus habitantes. Tais ocupações teriam afeta­ do a existência dos Estados que as sofreram? Se adotarmos o pensamento de Dona­ to Donati. as aeronaves comerciais sobrevoando o espaço livre e as embaixadas. o espaço aéreo. Sem território. o que certamente ocorreria em caso de per­ da definitiva. fina­ liza Salvetti Netto.4) Natureza das relaçõ e s entre o Estado e seu te rritó rio enquanto base física: te o ria s do direito real institucio n al. invadida pelos per­ sas. Aquela não faz parte da essência deste. permanecia o Governo da Resistência. onde quer que se encontrem os navios mercantes em alto-mar. em todos os casos apontados por Donato Donati. pois não há Estado sem poder soberano. A base física está para o Estado como a água está para um ser aquático.

e a segun­ da expressa uma verdadeira relação direta entre o Estado e certas partes do territó­ rio.incidentes sobre um mesmo objeto. que enseja diversas situações jurídicas. do poder de império que. esta concepção não explica como é possível coexistirem dois direitos de propriedade . denominada doutrina do imperium. na ten­ tativa de solucionar a questão. Trata-se. que apenas dá cumprimento às normas de desapropriação. a ênfase recai justamente na ideia de soberania. afir­ ma que não existe um direito real (dominium) do Estado sobre seu território. porém. O território. Entretanto. é um elemento do Estado. de um direito de pro­ priedade especialíssimo. de exercer poder soberano sobre seu território e bens nele situados. mas tão somente um direito pessoal sobre os indivíduos que vivem em seu território. na qualidade de pessoa jurídica. propugnada por Georg Jellinek. distinto do regime jurídico da pro­ priedade particular. Somente assim poderíamos admitir expressões como território do Estado e aceitar a possibilidade de cessões territoriais pelo Estado.38 Teoria Geral do Estado Partindo da velha distinção romana entre direitos reais (aqueles que incidem sobre os bens) e direitos pessoais (aqueles que incidem sobre as pessoas). Uma segunda doutrina. a teoria do direito real institucional parte do pressuposto de que o direito do Estado sobre seu território é verdadeiro direito dc propriedade. requisição ou confisco. sempre. pelo qual. vale lembrar. institucional. a expressão domínio eminente do Estado. mas sem recorrer à figura do direito particular de propriedade. Jelli­ nek considerava descabida a adoção de um conceito de direito civil 110 campo do direito público. enfocada na perspectiva do Direito Público. ou melhor. a substituição do conceito de dominium pelo de imperium (direito dc compelir os habitantes do território a adotar certa conduta. basicamente. a vida jurídica do Estado deve estar. há que distinguir o direito de propriedade do Estado. . A nosso ver.do Estado e dos particulares . característica do poder do Estado que incide primeiro sobre as pessoas e. quanto ao direito do Estado. propondo. lembran­ do que. prossegue. mais que um “direito do Estado sobre o território”. com ressalva da originalidade da expressão domínio eminente. sobre os bens. Estas são. di­ reito pessoal. Na verdade. ficando a propriedade particular restringida por sua função social. O publicista colombiano Copcte Lizarralde propôs. sob administra­ ção do próprio Estado. A primeira refere-se à faculdade dc exercer o poder sobre as pessoas que vivem dentro de certas fronteiras. de duas classes. por isso. apenas secundariamente. dando a uma a denominação imperium e à outra domínio público. em face do interesse público. Os bens de pro­ priedade do Estado são especificados pela própria Constituição que lhe dá forma. direito este. há um condicionamento territorial da vida do Estado. Mas isso pouco difere do pa­ recer de Jellinek. o Estado exerce sobre a propriedade privada. portanto). inerente a qualquer pessoa jurídica. como observa Hugo Palacios Mejía. sem considerar as teses unitárias que defendem a existência apenas de direitos pessoais.

O poder não é ação. é possibilidade. 1963. que ela apresenta uma ideia exata da realidade. em tais circunstân­ cias. contraída em posse e. Georges. É uma força nascida da cons­ ciência coletiva e destinada simultaneamente a assegurar-lhe a perenidade do grupo. 1982. enquanto se sucedem as figuras que exercem seus atributos. portanto. Método de la ciência política.2. Depalma. e capaz. s c h m i t t . México. como efeito. Pedro. Armênio Amado. bem como impor aos seus integrantes o comportamento ne­ cessário para tanto. é potência. parece-nos. é potência. potere. Coimbra. México. Sucessor. intitulada singelamen­ te O Estado. 1981. f e r r e i r a f i l h o .2) Causas formais 4. Enciclopédia de la política. Ele se sustenta pela ideologia cristalizada na consciência coletiva de um grupo social. Buenos Aires. BORJA. Sc aquilo que pretendemos. Teoria de la Constitución.. Rodrigo. ed. 1964. Nacional. b u r d e a u . São Paulo. O poder é. L u í s .. destinada a dirigir a comunidade a uma ordem social que considera benéfica. ed. Carl. c isolar o duradouro no fenômeno do poder.3 0 Estado 39 4. Curso de teoria do Estado. se afastar­ mos momentaneamente os fenômenos concretos pelos quais se revela o Poder c cujo . Problemas de filosofia política . assim se expressa este publicista: O poder é uma força a serviço de uma ideia. Trata-se de uma força nascida da vontade social preponderante. de impor aos membros a atitude requerida por esta busca. a conduzi-lo na busca do que ele considera como coisa sua. A palavra tem origem no latim ar­ caico potis esse. Poder. Ora. São Paulo. s a l v e t t i n e t t o . 4. veremos que o poder é menos a força exterior que se coloca a serviço dc uma ideia do que a potên­ cia mesma de tal ideia. Manoel Gonçalves. daí. Em sua obra Método de la ciência política. Burdeau assinala: Na sua essência profunda. A definição que pro­ pomos emprega os dois elementos do Poder: uma força c uma ideia.1) Poder político Bibliografia: Econômica. Fondo de Cultura 1997. como define Burdeau. Nesta definição se destacam dois elementos: força e ideia se interpenetram estreitamente. o Poder é a encarnação de uma tal energia provoca­ da no grupo pela ideia de uma ordem social desejável. a força a serviço de uma ideia. então. c a b r a l d e m o n c a d a . Poder é a capacidade de impor obediência. 11. Saraiva. Saraiva. potencialidade para a realização de algo. Em outra obra de grande repercussão sobre a matéria. também. Curso de direi­ to constitucional. 1981 .

quando se referem.40 Teoria Geral do Estado fulgor se arrisca a obliterar a reflexão. se for o caso. amparado pela força. As pessoas simples. a fim de impor o cumprimento de um or­ denamento jurídico-político. deriva do verbo aitgere. da reverência dos governados. nem sempre disporá do assentimento social. em especial aqueles do Poder Executivo estadual. a este brocardo Pedro Salvetti Netto acres­ ceu a expressão ac potestas. aqui. O poder é potência. o imperium. o poder é essencial a qualquer sociedade. que o poder. sem recurso à força. A possibilidade de sua aplicação efe­ tiva chama-se coercibilidade. vale dizer. O assentimen­ to. Faltará. assinala Georges Burdeau que o poder repousa numa ideia oriunda da consciência coletiva existente no grupo social. administrar) transmite-nos esta ideia. vale dizer. é comum denomi­ narmos os chefes do Poder Executivo governantes. . do respeito que estes. a vis materialis ou corporalis. enfim. vemos que ele não é tan­ to uma força exterior que viesse pôr-se ao serviço de uma ideia como a mesma potên­ cia dessa ideia. as denominam argumentos de autoridade. A cocrção é o emprego efetivo da força inerente ao poder. lhe votariam. Embora essencialmente sustentado pela força. Sc transportarmos a palavra poder para o campo da Ciência Política. enfim. A própria etimologia da palavra governo (conduzir. temos. respeito­ samente. Exceção feita à utopia dos anarquistas. ao poder. o poder público somente se legi­ tima quando seu exercício é consentido por aqueles que lhe obedecem. à coerção. ela reside na ideia que o inspira. do latim auctoritas. porém. exato que a realidade substancial do Poder seja o mando. encon­ traremos o poder público ou do Estado definido por Alípio Valencia Vega como a força pública organizada coativamente. onde houver sociedade haverá direito e po­ der. obtendo a obediência geral às regras deste. Se o po­ der fático é a capacidade de se fazer obedecer. às palavras de um sábio. autoridade. algo que se acrescenta. dizia Aristóteles. O governo é o complexo de normas que disciplinam o exercício do poder. Vale frisar. pois. o governo é ação. governa. contingencialmente. Daí a distinção entre poder público e governo. A simples expectativa do empre­ go da força chama-se coação (vis compulsiva). O governo é a dinâmica do poder. que significa aumentar. dirigir. Os governantes são a encarnação do poder. Autoridade é possibilidade de suscitar obediência espontânea c conscien­ te. A força. Ubi societas ibi jus. o consenso social. O vocábulo autoridade. Poder social (socieda­ des condicionadas) ou poder político (poder do Estado. eventualmente. sociedade condicionante) são formas de poder inerentes ao convívio social. se procurarmos o que é permanente no Poder enquanto passam as figuras que nele exercem as atribuições. e pressuposto para a legitimação da ideia que anima aqueles que encarnam o poder. Com efeito. que pretendem ver extinto o poder na vida em sociedade. o poder público nada mais é do que a capacidade de se fazer obedecer exercida pelo Estado. chamado governadores. Por isso. é inerente ao poder. N ão é. Quem exerce ativa o poder. com efeito.

são chefes necessariamente religiosos que fruem do respeito social. embora dispusesse da força. o promotor. o conselheiro. esta era a tra­ dição e o respeito. poder constituinte é a vontade política cuja força ou autorida­ de é capaz de adotar a concreta decisão de conjunto sobre o modo c a forma da própria existência política.a palavra carisma vem do grego cbarisma. assim. conselho. O conceito de poder constituinte formulado por Schmitt. Etimologicamente deriva de auctor e de augere. modelo. fazer crescer. Auctor era não só o autor. Para Schmitt. o Senado. exemplaridade. etc.o essen­ cialmente existencial deste fundamento de validade. com a singeleza recomen­ dada pelo caráter meramente introdutório desta obra. como o consultor. agora. a evolução do termo autoridade foi a seguinte: A palavra autoridade. Acha-se apoiada. encarnados num órgão. Presume-se que sc cncontrc aí também a origem semântica da pala­ vra para significar mais tarde. aumentar. Augere. graça divina . derivada do latim auctoritas. prestígio. criação. accrca do modo c da forma do próprio ser. por sua vez. por isso. Vejamos. teve sempre nesta língua as mais variadas significações. foi assassinado. O direito público romano já fazia uma distinção entre imperium e auctoritas. isto sim. acentua Salvetti Netto. de Cristo e dos profetas. tornar mais forte e poderoso alguém ou alguma coisa. Poder constituinte é a capacidade de criar ou de alterar a ordem jurídica do Estado. a existência da unidade política como um todo. desenvolver. bravura e talento dos pais da pátria. símbolo vivo dc um fastígio secular alcançado pela altivez. aquele ou aqui­ lo que constituía a força e o vigor duma comunidade. numa decisão política surgida dc um ser político.3 0 Estado 41 No dizer de Cabral de Moncada. que sig­ nifica dom divino. eis Maomé e os aiatolás contemporâneos. E o caso de Moisés. determinando. César jamais teve a autoridade de um Cincinato. aquele era a força em potência. o ga­ rante. não se vincula a tendências ideológicas ou a princípios norteadores deste ou . no caso. o conceito de poder constituinte. conforme ele próprio esclarece: Uma Constituição não se apoia numa norma cuja justiça seja fundamento de sua validade. Por vezes o líder carismático pode ter consigo também a força. Befõrdern). significava. embora desprovidos da força. Com efeito. antes de se fixar na de poder. a qualquer momento desencadeada. A expressão vontade revela cm contraste com qualquer dependência referente a uma justiça normativa ou abstrata . de que auctum é um particípio-adjetivo. mediante uma transposição dc sentidos. Os líderes carismáticos . aquele que promove com o seu exemplo e conselho o bem de uma coisa (alem. Exemplos: as de produção.

resta unicamente a le­ galização do movimento. no pla­ no do Direito Positivo. Se os revolucionários alcançam o poder. Importante. teocráticos. que é aquele. seguido pela comunidade. O ato constituinte seria aquele de natureza originária. inconstitucional. vitorioso. o antecedente mais remoto rela­ tivo à doutrina da separação entre poder constituinte e poderes constituídos. de caráter sagrado. pode­ rá ser ilegítima. ele será sempre ilegal. A obra revolucionária. en­ contraremos. na Grécia clássica. por Oliver Cromwell. aqui. empunhando a bandeira de um ideá­ rio legítimo. se institucionalize. A obra revolucionária é sempre ilegal. aqui. Não se trata. sob a denominação Instrumento de Governo. ela pode ser legítima. O poder constituinte é distinto dos poderes estabelecidos pela própria Cons­ tituição por ele criada. mais precisamente como documento deno­ minado Agreement ofthe people (Acordo ou Pacto Popular). sendo este a cau­ sa eficiente. como geralmente se pensa. Ele se encontra situado num ponto de intersecção entre a política c o di­ reito. promulgado no ano de 1953. distinguir entre a mera legalidade e a legitimidade do poder constituinte. e a Constituição a causa instrumental da ação deste poder. vontade fundada na coletividade e imposta igualmente a governantes e a governados.42 Teoria Geral do Estado daquele regime político. Desde que o povo seja capaz de organizar o Estado e exer­ cer o governo. nestes dois Estados laicos. segundo Carlos Sanchez Viainonte. é evidente que o poder constituinte derrubado incorrerá na ilegalidade e na ilegitimidade. Como o movimento vitorio­ so é legalizado? Pela edição de uma nova Constituição. Mais tarde. repito. em Atenas e Esparta. desde que esteja de acordo com a ideia do justo que o sistema de referência social professa. Em muitos Estados da Antiguidade Oriental. é ele o titular do poder constituinte: se for o rei. Alude-se ao que é e não ao que deve ser. mero executor de uma vontade superior. mesmo sendo ilegal. entre a aparente desordem revolucionária e dos regimes seguros de si próprios. ate o momento em que. Não passou despercebido a este autor que a pró­ pria soberania reside no querer irrecusável do poder constituinte. surgin­ do o povo. ele é aquela potência criadora da ordem jurídica da qual fixa os princípios c estabelece os instrumentos. Concretizada esta. dele será este mesmo poder. se não estiver de acordo com o consenso social. prossegue. mediante o qual se criava a nação e sua estrutura político-social. como o titular da soberania. a soberania não re­ sidia propriamente no monarca. em verdade. No dizer de Burdeau. na Inglaterra. . entre a turbulência das forças sociais c a serenidade dos procedimentos legais. Quando tal poder se manifesta mediante o emprego da força. Séculos mais tarde. já se fazia uma distinção entre ato constituinte e ato legislativo. Entretanto. contudo. soberanamente. do melhor regime. o rei era.

lembra Ferreira Filho. dentre estes a insegurança imposta à liberdade individual. 1984.. ed. Tomemos como exemplo o seu art. Saraiva. 1999. 10. tradução de Mário da Gama Cury. sentimento que nos é incutido desde a mais tenra infância. uma de sua maiores preocupações foi evitar o arbítrio dos governantes e seus indesejá­ veis efeitos. Les nouvelles tendances de la démocratie anglaise.2) 0 princípio da se p a ra çã o de Poderes no Estado Bibliografia: A r i s t ó t e l e s . em sua obra clássica Po­ lítica. Do processo le­ Hely Lopes. Livro IV. v is s c iie r . Saraiva. os mais antigos e respeitadores pensadores já buscavam delinear soluções para o con­ trole do poder político. Política. num esforço de legitimação daquilo que era ilegítimo.. é beneficiária dc um mecanismo psico­ lógico: o respeito à lei. . São Paulo. apenas a modifica parcialmente. Manoel Gonçalves. Flá. no segun­ do. Assim Aristóteles (384-322 a. São Paulo. 3. bastos. que é o poder dos Estados-Membros. no caso do Es­ tado federal (Constituição brasileira. John. 3. Tal medida. Martins Fontes. o poder constituinte decorrente. 4. ed.2.). No primeiro caso.2.. ideia que seria retomada. por natural tendência. Por isso. 25). também. f e r r e ir a f il h o locke. tradução de Cristina Murachco. por Montesquieu.3 0 Estado 43 Se o movimento triunfante não contar com a legalidade. Martins Fontes. prenuncia a separação de funções no Estado. 1993. não se encontra vinculado a nenhuma condição. leis. ed. Capítulo II. 1997.C. 4. O espírito das Paul. . Dois tratados sobre o governo. o homem passou a viver em sociedade. Revista dos Tribunais.1) A nte ce d e n te s Desde que. O homem é induzido a obedecer à lei. Quanto a suas espécies. Celso. não se acha submetido a nenhum princípio que não seja o daqueles que o encarnam. Curso de teoria do Fstado e ciência política. 1947. O poder constituinte originário é incondicionado. Direito administra­ m o n t e s q u ie u gislativo. São Paulo. UNB. não a discuti-la. Que vem a ser a legalização do movimento vitorioso? É o estabelecimento de normas positivas que justifiquem o conteúdo da obra revolucionária do poder cons­ tituinte. São Paulo.2. ed. 60. m e ir e l l e s . o poder constituinte pode ser originário e instituído ou derivado. 1995. obtendo a aceitação dos governados. 4. ele dá origem a uma nova Constituição. 1998.. art. tentará legitimar-se. Paris. Assim se expressa Aristóteles: . tivo brasileiro. sécu­ los depois. São Paulo.

tampouco pode edito algum de quem quer que seja. o inspirador original da separação de Poderes. por John Locke. não fosse assim. a lei positiva primeira e fundamental de todas as socicdadcs políticas c o cstabclccimcnto do Poder Legislativo . Observa Celso Bastos que as três funções de que falava Aristóteles são as mes­ mas que hoje conhecemos. e como devem ser escolhidos os funcionários. e na medida em que elas diferem uma das outras as Constituições também diferem entre si. em sua obra Dois tratados sobre o governo. Pois. uma doutrina mais detalhadas da separação de Poderes. não teria a lei o que é absolutamente necessário à lei.44 Teoria Geral do Estado Todas as formas de Constituição apresentam três partes em referências às quais o bom legislador deve examinar o que é conveniente para cada Constituição. considerado por muitos. seja de forma concebido ou por que poder apoiado. se estas partes forem bem ordenadas a Constituição será necessariamente bem ordenada. e pela autoridade dela recebida. o Legislativo. mais precisamente nos séculos XVII e XV III. John Locke (1632-1704). notoriamente. sobre a qual ninguém pode ter o poder de elaborar leis salvo por seu pró­ prio consentimento. ter força e obrigação de lei se não for sancionado pelo Legislativo escolhido e nomeado pelo público. de exílio e de confisco da propriedade. Embora autores que sucederam Aristóteles tenham dissertado a respeito do tema. ou seja: quais são as que devem ser instituídas. consiste na conservação da sociedade e (até onde seja compatível com o bem pu­ blico) dc qualquer um dc seus integrantes. . o fato é que a separação de Poderes só voltaria a ser anali­ sada muito tempo depois. Esse Legislativo e não apenas o poder su­ premo da sociedade política. quanto às leis. como fez Cícero. uma função judiciária e de um magistrado incumbido dos restantes assuntos da administração. Talvez a sua linguagem fosse um pouco diferente. Fala­ va ele numa função consultiva que se pronunciava acerca da guerra e da paz e acer­ ca das leis. a terceira trata dc como deve ser o Poder Judiciário. e quanto à prestação de contas dos funcio­ nários. quantos às sentenças de mor­ te. e estando o principal instrumento para tal nas leis estabelecidas naquela sociedade. destinada a governar ate mesmo o próprio Legislati­ vo. pensador inglcs.já que a lei natural primeira e fundamental. Bolingbroke e o próprio Montesquieu. já desenvolvera. como também é sagrado e inalterável nas mãos em que a comunidade o tenha antes depositado. privilegiando. equivocadamente. Destas três partes uma trata da deliberação sobre assuntos públicos. A parte deliberativa é soberana quanto à guerra c a paz e a formação e dissolução de alianças. qual deve ser sua autoridade específica. Ouçamo-lo: Sendo o principal objetivo da entrada dos homens em sociedades eles desfruta­ rem de suas propriedades em paz e segurança. a segunda trata das funções públicas. o consentimento da sociedade.

Executivo e Federativo. todavia. não podendo exercer o autogoverno. previne invasões. quase sempre estão unidos. Esses dois Poderes. Chamaremos a este último poder de julgar e ao outro simplesmente poder exe­ cutivo do Estado [. instaura a segurança. que sejam separados os Poderes Legislativo e Executivo. o po­ der sobre a vida c a liberdade dos cidadãos seria arbitrário. ele castiga os crimes. ou o mesmo corpo dos principais.2. Com o terceiro. porque se pode temer que o mesmo monarca ou o mesmo senado crie leis tirânicas para exe­ cutá-las tiranicamente. pode. ou julga as querelas entre os particu­ lares. firmar alianças e acordos com todas as pessoas e socie­ dades políticas internacionais.. ele faz a paz ou a guerra.2. Barão dc La Brède et de Montesquieu. ou dos nobres. o poder execu­ tivo das coisas que dependem do direito das gentes e o poder executivo daquelas que dependem do direito civil. compreendendo um a execução das leis municipais da sociedade dentro de seus próprios limites sobre todos os que dela fazem parte e outro a gestão da se­ gurança e do interesse e o público externo. o poder legislativo está reunido ao poder executivo. o príncipe ou magistrado cria leis por um tempo ou para sempre e corrige ou anula aquelas que foram feitas. e requerem uma perpétua execução ou assistência. que cuide da execução das leis que são elaboradas e permanecem vigentes. Com o segundo. muitas vezes. E assim acontece. § 6° (Da Constituição da Inglaterra): Existem cm cada Estado trcs tipos dc poder: o poder legislativo. no clássico O espírito das leis. A par do Poder Executivo. mais precisamente Charles Louis dc Secondat. 4. é necessário haver um poder per­ manente. Locke vislumbra certo Poder Federativo. na mesma pessoa ou no mesmo corpo de magistratu­ ra. após considerar o Poder Legislativo como o mais importante dos três Poderes. Sc estivesse unido ao poder legislativo. com todos aqueles de que ela pode re­ ceber benefícios ou injúrias. ou do povo exercesse os três poderes: o de fazer as leis. Tudo estaria perdido se o mesmo homem. envia ou recebe embaixadas. Sc estivesse unido ao poder executivo. não existe liberdade. fazer valer sua vontade soberana mediante seus representantes. Quando. apto a cuidar da guerra e da paz. embora distintos. .3 0 Estado 45 Quanto ao Poder Executivo.]. pois o juiz seria legislador. o de executar as resoluções pú­ blicas e o de julgar os crimes ou as querelas entre os particulares.. Com o primeiro. assim se expressa no Livro 11. Tampouco existe liberdade se o poder de julgar não for sepa­ rado do poder legislativo c do executivo. até por­ que o povo. o juiz poderia ter a força de um opressor. Locke observa: como as leis elaboradas de imediato e em pouco tempo têm força constante e duradou­ ra.2) 0 princípio da separação de Poderes segundo M on tesq uieu Quanto a Montesquieu (1689-1755).

não tem constituição". nem a separa­ ção dc Poderes determinada. com isso. M adi­ son pregava a necessidade de disciplinar o relacionamento entre as funções do Es­ tado. a ex­ pressão separação de Poderes passa a ter conotação meramente política. ni Ia séparation des pouvoirs determinée. como a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão. de modo que cada “po­ der” limitaria os demais: Le pouvoir arrete le pouvoir. a). por sua vez. 52. assim. ria point de constitutiori\ ou “Toda sociedade em que a garantia dos direitos não é assegurada. já mencionada. 9 6 . O próprio Montesquieu. Assim. em vez de poder. porque o poder político é. quando é certo que o Governo . mas também equilíbrio. o Legislativo julgar (art. ser mais apropriado o termo função . naturalmente. não disse haver três Poderes mutuamente isolados. podendo exigir aos ministros prestação de cotas dc sua administra­ ção. Ora. na medida em que controla as leis que vota. como se esses fossem estanques. que já dizia no art. uno. em face do direito de veto concedido ao monarca.46 Teoria Geral do Estado Desde logo. a fim de estabelecer uma interdependência entre elas. diga-se de passagem. já se reconhecia que o Executivo poderia interferir no Legislativo. Tal interdependência autoriza qual­ quer das três funções a exercer atribuições naturalmente peculiares a um dos res­ tantes. a doutrina da separação de Poderes foi prestigiada em célebres legislações. entretanto. Cada um destes “ Poderes” exerceria suas atribuições sem qualquer interferência dos demais. mas em equilíbrio. a se delinear uma crítica robusta e profunda a seus princípios. na verdade. O eminente publicista Hely Lopes Meirelles adverte que apressados seguido­ res de Montesquieu interpretaram mal seu pensamento. o Poder Legislativo interferiria nas atribuições do Judiciário quan­ do do julgamento dos nobres pela Câmara dos Pares. na concessão de anistias e nos processos políticos que deviam ser apreciados pela câmara alta sob acusação da câmara baixa. Não demoraria. 16: “Toute societé dans laquelle Ia garantie des droits riest pas assurée. Assim. câmara baixa e câmara alta) e o Judiciário (cor­ po de magistrados). o Legislativo exerceria pressão sobre o Executivo. indivisível. criou-se em torno do ideário de Montesquieu a ideologia de um modelo político em que os três Poderes deve­ riam estar rigorosamente separados: o Executivo (o rei e seus ministros). falando em divisão e sepa­ ração de Poderes. I e II).1789. de 26. inspirando. Com efeito. a Constituição. Daí. sem ferir. veremos que o Poder Executivo pode legislar (art. c o Judiciário legislar (art. a doutrina dos freios e contrapesos.08. Alexander Hamilton. Não há. que ocasionaria seu declínio e sua transformação num mito.1 . James Madison eJohnJay advertem que a tripartição das funções do Estado não é apenas divisão. porque ju­ ridicamente é equivocada. Num dos maiores clássicos da Ciência Política. sc tomarmos como exemplo a Constituição brasileira. intitulado O federalista (The federalist). mediante um sistema de freios e contrapesos (checks and balances). 62). o Legisla­ tivo (primeira e segunda câmaras. por outro lado. separação de Poderes no Estado. mesmo nos primórdios da aplicação práti­ ca das ideias de Montesquieu.

o enfraquecimento do poder real se acentuou em pro­ veito do Parlamento. para quem atribuir a Montesquieu a separação absoluta de Poderes é ver­ dadeira escroqueria intelectual. senão àquelas promulgadas pelos indivíduos escolhidos c autorizados para for­ mular as leis da sociedade.2. que representa falsear totalmente o pensamento do ilustre autor dc O espírito da leis. que se dá através da constituição do legislativo. e tampouco pode ser este submetido a nenhu­ ma lei. em face do princípio da legalidade. ninguém mais poderá que outros ho­ mens devam elaborar leis para o povo. vale dizer. e indicar em que mãos será depositado. ou seja. du­ rante a Idade Média. pois também o Executivo e.3 0 Estado 47 é resultante da interação dos três Poderes do Estado. as quais inovam a ordem jurídica.2.3) 0 Poder Legislativo O Poder Legislativo. o Judiciário. aqueles que o detêm não podem transmiti-los a outros. E quando o povo disser: submeter-nos-emos às regras e seremos governados pelas leis estabelecidas por tais homens e sob tais formas. Somente ao povo é facultado designar a forma da sociedade política. lei em sentido estrito. por definição. pelo qual ninguém se obriga a fazer ou deixar de fazer algo. 4. Paul Visscher. Uma vez que o poder do legislativo deriva do povo. senão em virtude de lei. por uma concessão ou instituição positiva e voluntária.2. teve origem na Inglaterra. a competência de elaborar nor­ mas segundo um processo previamente estabelecido (processo legislativo). que é apenas o de elaborar leis e não de fazer . que agi­ rão em nome do corpo eleitoral. não sendo ele senão um poder delegado pelo povo. não podendo votá-la diretamente. 4. quando a nobreza e o próprio povo tentavam limitar a auto­ ridade absoluta dos reis. Todavia. como o entendemos hoje. Com efeito. não pode ser ele diverso do poder transmitido por tal concessão positiva.4) 0 Estado con tem porâneo e a delegação de fu nções A doutrina clássica da separação de Poderes não admite a delegação de fun­ ções de um aos outros. parlamentares. mesmo. segundo Rousseau. To­ davia. a soberania reside no povo. as normas emanadas do Legislativo têm primazia sobre as outras. o povo se vê compelido a eleger seus representantes. Ao Poder Legislativo se confere.2. como se observa nesta sugestiva passagem de John Locke: não pode o legislativo transferir o poder de elaborar leis para outras mãos. como já vimos. Com a doutrina de Jean-Jacques Rousseau. Isto não significa que apenas o Legislativo elabora nor­ mas jurídicas. diploma le­ gal discutido e referendado no próprio Legislativo. N o mesmo sentido. pessoal­ mente. perenizada em sua obra O contrato social. que a exprime por meio da lei.

bem diferente dos tempos de Locke e M ontesquieu. inatendidas em face da paralisia parlamentar. o fortalecim ento do Executivo se m anifestou m ediante três espé­ cies de normas: decreto-lei. e aguente as conseqüências [. o recrudescimento das reivindicações sociais no final do sécu­ lo X IX .5) 0 caso brasileiro: medida provisória e lei delegada N o Brasil. dentre as quais. lei delegada e m edida provisória.2. este a cúm u ­ lo de tarefas trouxe consigo a própria paralisia do Legislativo. com a inevitável delegação dc funções pelo Legislativo ao Executivo. o an­ tigo Executivo passou a ser visto como poder governamental. N ã o obstante. onde as discordâncias não iam alem dos pormenores. para que este faça o que tem que ser feito.48 Teoria Geral do Estado legisladores. Por outro lado. com o assinala M anoe l Gonçalves Ferreira Filho. o sufrágio universal trouxe a divisão para o seio das assembleias. C o m o passar do tem po. na França. como governo. como eram enquanto só a burguesia participava in­ tensamente da vida política. na m edida do possível. u m acú­ m ulo de funções. ou aparentemente irredutíveis. não mostra mais ostensiva do que a retratada nalgumas Constituições posteriores à Segunda Guerra Mundial. . obrigou os governos a repen­ sar o processo legislativo. assim. Deixa­ ram estas de ser grupos primários. porem impopulares. em face das maiores possibilidades de legislar. em contrapartida. por interm édio da Corte de Cassação. agravando gravemente o órgão no seu entender principal. perm itindo a rápid a edição de norm as jurídicas de alcance social. a realidade hoje é outra. inclusive modificando. as câmaras dão plenos poderes ao Executivo. a prerrogativa de anular decisões ju­ diciais. A decadência do Parlamento teve como contrapartida o engrandecimento do Executivo. abalar a estrutura des­ ta que lhes parecia perfeita. veio.. Tal fenôm eno mostrou-se ain d a mais evidente a partir de 1920.. sem coragem para tomar deci­ sões inadiáveis. De tal evolução. 4. parecia ensejar a plena realização da democracia. dc sorte que não pode ter o legislativo nenhum poder de transferir sua autoridade de elaborar leis e colocá-la em mãos de terceiros. Observa M anoel Gonçalves Ferreira Filho: Incapazes dc fazer o que se torna imprescindível. a ascensão das massas ao processo de decisões políticas agravou a situação: O sufrágio universal. as leis do país. p o r parte deste.]. para se tornarem o campo dc batalha onde cosmovisões hostis c interesses dc elasses irre­ dutíveis. buscando agilizá-lo. que para os democratas radicais do século passado lsic]. Nestas. O papel proeminente do Legislativo acarretou-lhe. com rapi­ dez.2. por decreto. se digladiavam. Por outro lado. Em verdade.

. conforme advertia o § 2o. por decreto legislativo. com esta. que não sendo o decreto-lei aprovado em sessenta dias. a Lei de Contravenções Penais. 55. § 2° A rejeição do decreto-lei não implicará a nulidade dos atos praticados durante a sua vigência. o Presidente da República poderá ado­ tar medidas provisórias. ou não desejan­ do comprometer-se com o todo-poderoso Governo Militar. outorgada por Getúlio Var­ gas. [.1988 e. Em caso dc relevância c urgência.. inclusive normas tributárias. não houver deliberação. § 1° Publicado o texto. Este passou a legislar sozinho. velada sucesso­ ra do decreto-lei. Trata-se. se não forem convertidas em lei no prazo de sessenta dias.finanças públicas. devendo o Congresso Na­ cional disciplinar. no § I o. prorrogável. ficando o decreto-lei definitivamente aprovado por decurso de prazo. Observa-se. ou seja. as relações jurídicas delas decorrentes. seguindo processo legislativo próprio.] § 3° As medidas provisórias. se. caput e § 3o: Art.ainda em vigor . a redemocratização do País. sem manifestação. g. deixavam aquele pra­ zo fluir in albis. em casos de urgência ou de interesse públi­ co relevante. sem retroatividade. nos seguintes termos: Art. não podendo emendá-lo. poderá expedir decretos-leis sobre as seguintes matérias: 1 . 62. mesmo que rejeitado pelo Congres­ so. em meados dos anos de 1980. O Presidente da República. II . dentro de sessenta dias. o Código de Processo Penal. Assim. com força dc lei. mediante decretos-lei. em resumo. a Consolidação das Leis do Trabalho e a Lei de Introdução ao Código Civil. não dese­ jando os parlamentares aprovar medidas eventualmente antipáticas. tem força dc lei.3 0 Estado 49 A natureza do decreto-lei é a de um diploma híbrido entre o decreto (mero ato administrativo) e a própria lei. uma vez por igual período. nos termos do § 7°. Por outro lado. O decreto-lei surge no Di­ reito brasileiro com a Constituição autoritária de 1937. já que o decreto-lei tem força de lei.yo Código Penal. e III . ou seja. ressalvado o disposto nos §§ 11 e 12 per­ derão eficácia.10. e desde que não haja aumento de despesa. nesse prazo. de uma lei em sentido material. pois embora não tenha forma de lei. na medida provisória. valendo lembrar que inú­ meras leis importantes da época .segurança nacional. 62. assim dispondo o art. os atos praticados durante a vigência do decreto-lei se tornavam plenamente vá­ lidos.são decretos-lei. pois a negativa do Legislativo tinha efeito meramente ex nunc. culminaria na Constituição de 05. o decreto-lei retornou na de 1967. devendo submetê-las dc imediato ao Congres­ so Nacional.criação de cargos públicos e fixação de vencimentos. que terá vigência imediatamente. o texto seria tido por aprovado. o Congresso Nacional o aprova­ rá ou rejeitará. o texto será tido por aprovado. v. desde a edição. Ora.. Repudiado na Constituição de 1946. não havendo deliberação. emen­ dada em 1969.

pois este. Percebe-se. sob sua responsabilidade. para o qual o Regulamento estabele­ cerá um procedimento especial c sumário.. já que se esta não for apreciada pelo Legislativo perderá sua eficácia “desde a edição.. Art. O Congresso deverá pronunciar-se expressamente. Entretanto. 77 da Constituição italiana. 86 da Constituição espanhola. Os decretos perderão todo o efeito desde o início. § I o).... sobre matéria fi­ nanceira. constatam-se institutos assemelhados ao decreto-lei e à medida provisória.50 Teoria Geral do Estado Comparemos o decreto-lei da Constituição de 1967 e a medida provisória da Lei Magna de 1988. os direitos. o Poder Executivo. 1° [. se não forem convertidos cm lei (convertiti in legge) dentro dos sessenta dias de sua pu­ blicação. com variantes compatíveis com as peculiaridades de cada ordem jurídica. Além disso. § 3° Durante o prazo estabelecido no pará­ grafo anterior. § 2° Os decretos-lei deverão ser imediatamente submetidos a debate e votação pela totalidade dos membros do Congresso de Deputa­ dos. as quais tomarão a forma de decretos-lei e não poderão conflitar com as instituições fundamentais do Estado. deverá apresentá-las no mesmo dia para sua conversão em lei às Câmaras. em casos extraordinários de necessidade e de urgência. cuja vigência era imediata (art. aprovado pela Câmara dos Comuns.1911: Art. de imediato. deveres e liberdades dos cidadãos sob as normas do Título Primeiro. mesmo dissolvidas. for enviado à Câmara dos Lordes. com a medida provisória a situação se inverteu. 77.. de 18. salvo se a Câ­ . regular mediante lei as relações jurídicas sur­ gidas em virtude daqueles decretos que não forem convertidos em lei [.] § 1° Em caso de extraordinária e urgente necessidade. consideravelmente. medidas provisórias (provvcdimcntiprov- visori) com força de lei. nem ao Direito Eleitoral Geral. prazo este prorrogável (§ 3o). Art. Nesse sentido. no prazo dos trinta dias seguintes à sua promulgação.]. 86. se não for convertida em lei no prazo de sessenta dias”.] § 1° Sc um projeto dc lei. e o I o da Lei britânica sobre o Parlamento. convocado para tanto. serão devidamente convocadas e reunir-se-ão dentro dos cinco dias seguintes. a rejeição de um de­ creto-lei não implicava nulidade dos atos praticados na sua vigência. que a atual Constituição favoreceu o Poder Legislativo. sempre no prazo de sessenta dias contados de seu recebimento.. dentro de referi­ do prazo.08.. na Constituição anterior. No direito comparado. Quando. o que refor­ çava. as Cortes poderão faze-los tramitar como projetos dc lei. 55. [. ou o rejeitava sem poder emendá-lo. e nesta não for aprovado sem emendas dentro do mês seguinte. as quais. sem delegação das Câmaras. dispõem os arts. o Governo poderá editar dispo­ sições legislativas provisórias. ele será apresentado à Sua Majestade. pelo menos um mês antes do término da sessão legislativa.]. o Governo adotar. mediante o procedimento de urgência [. se não estiver reunido. em matéria de decretos-lei fi­ cava limitado a uma atitude passiva: aprovava o texto. claro. como vimos. As Câmaras poderão. ao regime das Comunidades Autôno­ mas. ditar decretos com força de lei ordinária. sobre sua convalidação ou derrogação. todavia. Não pode o Governo.

6. com efeito. Assim. uma relação em que a igualdade se faz presente. sa l v e it i n et t o . Wilson. o que distingue o Estado das demais pessoas ju­ rídicas de direito internacional público é a circunstância de que só ele tem soberania. realmen­ te. o vocábulo souveraineté são. 1982. Na prática. São Paulo. As duas palavras latinas das quais parece derivar. Teoria geral do Estado. Forense. Globo. 28. Saraiva. ed. mais recentemente. o poder so­ berano reside nos órgãos dotados do poder de decidir em última instância. entretanto. Teoria geral do Estado. pois a soberania é a qualidade suprema do poder estatal. o Estado é uma pessoa jurídica de direito público internacional. d a l l a r i. significando a inexistência de uma ordem jurídica dotada de maior grau de eficácia. Pedro.3 0 Estado 51 mara dos Comuns decidir em contrário. 6. apesar de todas as restrições dos teóricos e dos próprios líderes políticos. 1968. ed. do francês souveraineté. A soberania é o atributo do poder do Estado que o torna independente no plano interno e interdependente no plano externo. no âm­ bito externo. e converter-se-á em ato do Parlamento. com os demais. sob o ângulo externo é uma afirmação de independência. ed. o que se exige c que a sociedade polírica tenha condições dc assegurar o máximo de eficácia para sua ordenação num deter­ minado território c que isso ocorra dc maneira permanente. Darcy. 1985. Não há Estado sem poder soberano. Ciência política. o poder soberano é um elemento essencial do Estado. 4. Esta. na qual a integração jurídica dos fatores políticos ainda se faz imperfeitamente. me­ diante sanção real. maluf. 1986. São Paulo. No âmbito interno. Saraiva. pois. cada uma mantém.. Porto Alegre. é ela .. São Paulo.. Elementos de teoria geral do Estado. Para o jurista. b o n a v id e s . Forense. observa o professor Dalmo de Abreu Dallari: O mundo é uma sociedade de Estados. que do ponto de vista interno do Estado é uma afirmação de poder superior a to­ dos os demais. Rio de Janeiro. Sahid. Fnfim. 13.3) Soberania Bibliografia: a za m b u ja a c c io l i. Dalmo de Abreu. Com efeito. independentemente do voto da Câmara dos Lordes.. Pau­ lo. O termo soberania deriva do latim medieval superanus e. Sugestões Literárias. Teoria geral do Estado. indepen­ dentemente dc atos formais de reconhecimento. superanus e supremitas. ed. não bastando a supremacia eventual ou momentânea. Curso de teoria do Estado. quando participa da sociedade mundial. Rio dc Janeiro. ficando na dependência da comprovação dc possuir soberania. 2009. . o reconhecimento dc um Estado como tal não obedece a uma regulação jurídica precisa. Referindo-se à posição do estado na ordem internacional. 1964.

Tal superioridade era garantida por um procedimento que poderia ser tido como o ancestral da nossa ação direta de inconstitucionalidade. Em sua obra A política. ao pas­ so que as sociedades menores tornam-se condicionadas pelo Estado. Aristóteles faz tal distinção. sujeitam-se ao mando que caracteriza a sociedade po­ lítica. mas as leis. isto e. por direito próprio. como resultado des­ te marco histórico. o poder não se conser­ vou centralizado como no Império Romano. como as que estabeleciam a cidadania. Se o go­ verno é uma das causas formais do Estado. já havia uma dis­ tinção fugaz entre as leis constitucionais e as leis que poderíamos denominar leis ordinárias. no limite de seu território. a sociedade feudal converteu-se em estamentária. Conclui-se disso que.52 Teoria Geral do Estado que distingue este poder daquele observado nos grupos sociais condicionados pelo Estado. uma parcela do poder político. nas situações em que houver poder de decisão em úl­ tima instância. O feudalismo. que. Na Alta Idade Média. mesquinhamente. e a dos servos da gleba. o Estado torna-se uma sociedade condicionante. E isso porque o Estado é soberano. é uma criação do Di­ reito Constitucional moderno. na qual cada castelo feudal buscava. é seu traço identificador. Politicamente. vale dizer. social e econômico. e no direito público de Ate­ nas havia a noção de que certas leis pertinentes à própria estrutura política da polis. Naquele pe­ . haverá soberania. Vimos. mas fragmentou-se em miríades de se­ nhorios feudais. com as invasões dos bárbaros no Império Romano. geralmente se pensa. fundava-se numa economia agrária. Séculos depois. concernentes à estrutura fundamental da cidade-Estado ateniense. não dispensando o poder. não reconhecendo nenhum outro poder que se lhe iguale. de outro. por outro lado. que a soberania é um atri­ buto essencial. Haverá soberania nos casos em que houver poder de decisão em última instância. formada por estamentos. Daí a assertiva do professor Pedro Salvetti Netto: Assim como todas as sociedades possuem normas. eram superiores às demais. Por intermédio daquele procedimento era possível im­ pugnar a criação de leis que contradissessem as normas fundamentais. estes tam­ bém. fenôme­ no que assinala o início da Idade Média. uma qualidade do poder do Estado. a soberania é a diferença específica dc tal governo. se sobrepõem àquelas emanadas de outros organismos sociais. perdurar independentemente dos demais. Cada senhorio possuía. que se originam do Estado. surge o Feudalismo. e nas suas lides impunha seus costumes e suas leis. sendo este o único critério distintivo do Estado. Graças à soberania. de um lado. enfim. sistema político. Que vem a ser um estamento? É uma ca­ mada social que compete com outras. Surge a classe dos senhores feudais. a partir do século XI da Era Cristã. A Antiguidade já intuía a diferença entre as leis que estruturavam a organiza­ ção política e as que eram criadas por órgãos do governo. do poder político. dentro de uma rigidez relativa.

isto é. Para a doutrina pactista medieval a fonte da sociedade era a inclinação natu­ ral do homem. tinha um intermediário: o povo. mas os autores que difundiram a ideia do contrato social viam.3 0 Estado 53 ríodo histórico o rei. para acentuar-se nos séculos XVII e XVIII. precursora do Estado absolutista. Nes­ sa sociedade pontificou Jean Bodin. enfim. apenas. mas. e nos três mais significativos autores da doutrina contratualista: Thomas Hobbes. Supremus. O monarca não seria parte no contrato . Afirmava Hobbes que. seria a fonte do poder político.3. soberano. o chamado pactum subjectionis. dc tal poder. a própria fonte da sociedade. Omnis potestas a Deo sed per populum. que pregava a necessidade de um poder supremo. John Locke e Jean-Jacques Rousseau. Tal consentimento importaria num verdadeiro pacto. 4. que reinasse sobre os litigantes. por intermédio do povo”. os homens abdicariam de sua liberdade em favor de um monarca. Mais tarde. tornava-se o estamento que passasse a exercer seu poder soberano sobre os demais. as lutas religiosas causadas pela Reforma ameaçaram destruir a própria sociedade civil. ou sovrain (na França). era a sociabilidade inata do homem. neste contrato. encabeçada por Hugo Grócio. tal perigo foi conjurado com o surgimento de uma sociedade intitulada “Os Políticos”. a nobreza. Então. Para evitar tais males. O consentimento popular. mas a doutrina do contrato social via em tal acordo de vontades a fonte da própria sociedade. na França. “Todo poder vem de Deus. se não existisse a sociedade.3. autor de uma obra intitulada Os seis livros da República.2) A doutrina do con trato social A doutrina pactista medieval não deve ser confundida com a do contrato so­ cial. Daí a expressão soberania. são inúmeras as doutrinas a respeito. A doutrina do contrato social pode ser ana­ lisada na célebre Escola do Direito Natural e das Gentes. como predicava Santo Tomás de Aquino. o clero e o povo formaram estamentos que lutavam para ascender politicamente e exercer o poder soberano. Há uma diferença sutil entre a doutrina pactista medieval e a doutrina do con­ trato social: A doutrina pactista medieval via no acordo de vontades a fonte do go­ verno. que se desenvolve a partir do século XVI. sobre toda a nação. cuja função seria manter a paz. A doutrina pactista medieval ensinava que todo o poder vem de Deus: Omnis potestas a Deo. como já vimos.1) A doutrina pactista medieval Quanto à titularidade da soberania. tacitamente manifestado. os homens estariam em guer­ ra continuamente: o homem seria lobo do próprio homem (homo homini lupus). 4.

todos os cidadãos devem participar da formação da von­ tade geral. historicamente considerada. é um soberano. e a da sobe­ rania nacional. Para que o Estado seja legitimado. o poder estatal deverá estar em mãos de todos os indiví­ duos que compõem o povo. Por isso Rousseau não acreditava na representação política e refugava os chamados representantes do povo. parte final). Com a Revolução Francesa. com exceção da democracia. Povo. pois o direito de votar não implica um dever de votar. entretanto? Para conceituar a nação. Livro III. que a ideia rousseauniana de que o governo só é legítimo quando todos os cidadãos participam da tomada das decisões fundamentais deve ser apreciada em termos. Vale notar. Ora. numa sociedade historicamente considerada. existem inte­ resses momentâneos. simultaneamente. Conclui-se. então. Haverá. seria uma comunida­ de concreta. Rousseau afirma que o poder só é le­ gítimo quando se origina da vontade de todos os que serão governados. em tal concepção.54 Teoria Geral do Estado social. presente. Cada cidadão é deten­ tor de uma fração da soberania. mesmo. preconizada por Emmanuel Jo­ seph Siéyès (1748-1836). porém. por um único homem. Siéyès começa por dizer que. tomar as decisões e aplicá-las: “Se hou­ vesse um povo de deuses. porque somente um povo de deuses poderia. a qual. indelegável. Considera Rousseau. denominaríamos estipulação em favor de terceiro. monarquia. sendo esta a vontade dos cidadãos sobre problemas de interesse comum. ela é. de Emmanuel Joseph Siéyès. cada um des­ tes será titular da fração correspondente da soberania. sendo a soberania uma prerrogati­ va personalíssima. mas a aplicação das medidas decorrentes desta vontade pode ser feita por todos. tem uma importância prática muito maior. seria mero beneficiário de uma delegação. Governo tão perfeito não convém aos homens” (O contrato social. as decisões fundamentais de­ vem partir da vontade geral. Ela não se confunde com a doutrina da soberania nacional. com efeito. vale dizer. governar-se-ia democraticamente. no Estado consti­ tuído legitimamente. seria o conjunto das pessoas con­ temporâneas que formaria o elemento humano do Estado num dado momento. é a doutrina da soberania popular. Esta doutrina de Rousseau. por via de conseqüência. comunidade limita­ . legitimidade somente se houver iden­ tificação entre governantes e governados. na verdade. Não pretende Rousseau que todo o povo tome e execute as decisões. todo cidadão. que as três formas básicas de governo. segundo Jean-Jacques Rousseau. é parte da soberania. já se vê. O que é a nação. são consagradas duas doutrinas de relevo sobre a soberania: a da soberania popular. portanto. por alguns ou. em face disso. os quais não se confundem com os interesses permanentes das gerações que se sucedem no tempo. Haveria um ato que. poderiam ser legitimadas. Se o Estado possuir 10 mil cidadãos. Capítulo IV. Por outro lado. então. que a participação política do cidadão não deve ser compulsória. Afirma Siéyès que o poder do Estado não é exercido em nome do povo. Em sua obra clássica O contrato social. Segundo Rousseau. aristocracia e demo­ cracia. mas em nome da nação. em direito civil. se o fundamento da soberania fosse a vontade do povo.

esta foi identificada com o povo. mas um dever. Modernamente. As gerações que se sucedem cons­ tituem a nação. não uma democracia com fundamento na nação. não sendo de todo falso afirmar que soberana não é a nação. com total liberdade e sem a pressão do eleitorado. mas uma oligarquia parlamentar. neste país. como na doutrina da soberania popular. pas­ sando a representação política a ter natureza institucional e não consensual. as doutrinas da soberania popular e da soberania nacional acabaram por se fundir. Então os representantes da nação serão eleitos pelo povo todo. em verdade. tão somente. com total independência . É preciso. o representante do povo passou a ser representante da nação. nem contas a prestar. por influência do próprio Siéyès. do pensamento do Siéyès. Já se vê que o representante da nação não tem instruções de seus eleitores a cumprir. os represen­ tantes da nação? Tais representantes serão escolhidos por aqueles que a nação de­ signar como eleitores. os interesses permanen­ tes da nação. e não na vontade do eleito­ rado. adverte Siéyès. O destaque dc maior importância no raciocínio de Siéyès é que. ou por uma parcela deste. Antes da Revolução Francesa. Com Siéyès. que a nação seja representada por aqueles que atuem em seu nome. em face do progressivo declínio dos parlamentos. então. afirmando-se que o povo é o soberano (!). um munus. A nação. e não seus eleitores. e levando-se em conta que os representantes da nação representam esta. Somen­ te em 1848 foi instituído. mas o par­ lamento. incumbido de repre­ sentar. A res­ cisão da investidura do representante da nação não parte mais da vontade do elei­ tor.3 0 Estado 55 da no tempo. sendo a representação fundada na Constituição. Como fazer valer a sua vontade? Diretamente. os interesses permanentes das gerações em sucessão poderiam ser ir­ remediavelmente lesados. fica rompido um possível vínculo jurídico entre eleitor e eleito. percebe-se que a doutrina da soberania nacional originou. totalmente divorciada dos interesses populares. Em face disso. pelo qual o representante de cada estamento comparecia às reuniões apenas para formalizar a vontade de seus representados perante o gover­ no e. se não cumprisse sua obrigação. como se tornara difícil definir a nação. O supremo poder do Estado. Quem escolherá. é evidente que ela pode restringir ou ampliar o número de participantes do sufrágio. mas apura-se. entretanto. Com o passar do tempo. conforme institucionalizado em lei. ainda assim sem parti­ cipação das mulheres. en­ sejado por fatores que não vêm. segundo os interes­ ses permanentes e definidos da sociedade. seria impossível. à balha. deve estar dirigido aos interesses permanentes da sociedade. é uma entidade imaterial. se é a nação quem vai selecionar o corpo eleitoral destinado a eleger seus represen­ tantes. porém. por ora. seria substituído. entretanto. o sufrágio universal. nos termos da Constituição. vale dizer. a menos que infrinja a Constituição. en­ tretanto. nos termos. todas as Constitui­ ções da França revolucionária adotaram o chamado sufrágio censitário. mesmo porque. Além disso. Disso decorre que o voto não representa um direito. havia o mandato imperativo. entidade espiritual que é o fundamento da soberania.

a soberania pode ter por fundamento o povo (Rosseau) ou a nação (Siéyès). embora desaparecidas. pelo próprio Truman. um direito natural e. uma reação contra a chamada Doutrina Truman. A ideia de soberania “limitada” foi afirmada pelo líder soviético Leonid Brezhnev em 1968. Não existe. buscando vincular. a de Cuba. mas não divide a soberania. caracteriza­ da por uma tensão permanente entre os dois grandes blocos ideológicos vencedo­ res. por exemplo. Depreen­ de-se disso que não há limitação ao poder do Estado. o comunista soviético e o capitalista ocidental. da leitura conjunta dos arts. divulgada em mar­ ço de 1947. Só há um Direito: o Direito Positivo. portanto. simplesmente. como o fazem Georg Jellinek e Hans Kelsen. no rí­ gido controle político dos Estados socialistas “satélites” da hoje extinta União So­ viética. mesmo. consistindo. Constituições modernas volta­ ram-se para o mandato imperativo. perante o eleitorado.3) A doutrina da soberania limitada Trata-se de uma doutrina formulada pela União Soviética. concomitantemente. mas três órgãos. o poder soberano delega atribuições. em verdade. numa mes­ ma sociedade política? A indivisibilidade da soberania é corolário de sua unidade. É o que se constata. Não há que falar. “su­ perior”. portanto. por ocasião da invasão militar da Checoslováquia pelas tropas soviéticas. 2°. este é criado por aquele. que fruiriam de uma liberdade ou soberania meramente relativa. um Direito Internacional. Se o adjetivo “soberano” significa “supremo”. apoiando a política . N ão há. a soberania é una porque não pode existir mais de um poder soberano num mesmo Estado. de imediato.3. características que lhe são es­ senciais. Como adverte Sahid Maluf. estatal. juridicamente. o eleitorado aos seus representantes. em face da ausência da coercibilidade. Em princípio. Na verdade. 4. art.56 Teoria Geral do Estado para os seus representantes. 53. em poderes do Es­ tado. Assim fizeram algumas Constituições modernas. são recentes. reparte compe­ tências. 55 e 56 da Constituição brasileira. criado e imposto pelo Estado. durante a chama­ da “Guerra Fria” conseqüência imediata da Segunda Guerra Mundial. cada qual atuando. três Poderes. como na célebre tripartição de Poderes que nos vem de Aristóteles a Montesquieu. de forma soberana. Vale notar que a soberania é una e indivisível. Como reação aos princípios da soberania nacional. O Estado precede o Direito. como a da extinta União Soviética e. há quem afirme que a soberania pertence ao próprio Estado. inerente à norma de direito positivo. para evi­ tar a desintegração do império soviético. a doutrina de Brezhnev foi. no Congresso norte-americano. como admitir duas entidades “soberanas”. que. e que se consagra na Constituição brasileira. basicamente. podendo estes scr afastados do cargo pelos próprios elei­ tores. e que preconi­ zava a intervenção dos Estados Unidos naqueles Estados que. para alguns. na esfera de sua competência. Se. ainda em vigor.

.3. Quando um Estado deixa de oferecer condições vantajosas para este capital. ele alcança seus objetivos individuais e satisfaz sua tendência gregária. estas garantidas pelo Estado. no livre comércio. mesmo. Curso de teoria do Estado. 4. Assim. México. a partir da célula familiar e o municí­ pio. emigrando cm busca de maior lu­ cro. o capital. Assim.4) Ordem jurídica Bibliografia: vetti n e t t o . Fondo de Cultura Econômica. move-se com espantosa rapidez e total liberdade. forçoso reconhecer que o poder político dos Estados vem a ser superado pela planificação econômica das grandes empresas multinacionais. Goffredo. manter a paz social. mas tam­ bém interage. cortesia e. nesta nova ordem econômica interna­ cional o capital criou sua própria “soberania” . Impossível evitar. a perda do controle de sua economia e criar alterna­ tivas independentes da especulação internacional. Ao viver comunitariamente. o poder po­ lítico tem por missão principal ordenar a vida em sociedade. O homem é um ser social. Como observa Rodrigo Borja.4) Globalização e soberania O fenômeno da globalização da economia mundial se expressa na abertura dos mercados. São Paulo. 4. no fortalecimento das empresas multinacionais. Saraiva. Disciplinando as relações jurídicas . 1984. o homem não apenas age. M ax Limonad. 6. em ques­ tão de segundos salta as fronteiras dos Estados. 1939. sendo disciplinado em suas relações de amizade. sociedade condicionante das demais e dotada de poder so­ berano. Hans.. ed. 1997). O direito quântico. no fluxo internacional de capitais. sem considerar as conveniências sociais (Enciclopédia de la políti­ ca. então. Conforme suas conveniências. formando. passando por um processo de integração paulatina denominado socialização. na internacionalização da tecnologia e. em suas relações jurídicas. sendo seu fundamen­ to. sal- Pedro. no notável incremento do turismo internacional. diga-se de passagem. t e l - . entretanto. Teoria pura do direito. o próprio Estado. formando-se o pânico nas suas bol­ sas. que dispõem da economia mundial em favor de seus interesses. São Paulo. escolhendo os Estados que adotará como fonte de renda. Em sociedade. Acadêmica. principal­ mente. São Paulo.3 0 Estado 57 norte-americana. 1985. é imediatamente sancionado com a desinversão. les j r kelsen. especialmen­ te o especulativo. Com efeito. na eliminação de barreiras fiscais em favor deste. estivessem ameaçados por minorias ativistas paramiiitares prósoviéticas.

tão somente. conferindo-lhe uma direção con­ sagrada por determinada concepção dc ordem. a legítima defesa. entretanto. de afeto. E o que é uma norma? Norma é uma diretriz de conduta socialmente estabelecida. oriente. principalmente. Es­ tas. por exemplo. . Viven­ do em sociedade. posto. é preciso que existam normas que definam o que pode e o que não pode ser feito ou deixado de fazer. Quanto à norma jurídica. isto é. vale dizer. Não houvesse ordem jurídica e teríamos o caos. formar. encontrado na palavra ordem. que denomina a pressão meramente psicológica. podendo ser definida como a unidade na multiplicidade ou a conveniente disposição de elementos para a realização de um fim. como não poderia deixar dc ser. para que alguém faça ou deixe de fazer algo. mas não essenciais. norma es­ tatal dotada de cocrcibilidadc. Veja-se que o termo norma traz. Daí direito positivo. violência corporal. daí a analogia. dispensar a ordem jurídica. a vida em sociedade? Mediante a imposição de normas jurídicas. Para que haja or­ dem. Normas de polidez. cumprimos durante nosso cotidiano. por exemplo. de origem sânscrita: oryque significa diretriz. a desordem. orientar. é uma diretriz dc con­ duta socialmente estabelecida pelo direito positivo. possibilidade do emprego da violência física (vis materialis). com atenção. “onde houver sociedade haverá direito” (ubi societas ibi jus). das mais variadas naturezas.58 Teoria Geral do Estado entre as pessoas. forma. restando evidente que a coerção somente pode ser exercida quando au­ torizada pela norma jurídica. ficaremos impressionados. o mesmo ra­ dical sânscrito or. ideológico. pois sen­ do o conceito de ordem eminentemente subjetivo. significava régua. Então. Coercibilidade deriva de coerção. quantas normas. Por isso. o vocábulo norma. ele sempre está presente cm ter­ mos análogos. já se disse. os homens poderão dispensar uma série de bens úteis. nortear. Alguns filósofos do Direito não admitem a existência da desordem. não poderão. jurídicas. reto. em caso contrário eles próprios naufragariam na desordem e na insegurança. por exemplo. pelo Estado. E como o Estado ordenaria. portan­ to. o grande filósofo da Antiguidade Clássica. conexos. a sim­ ples ameaça. O vocábulo ordem traz consigo um radical antiquíssimo. con­ tornar. Curiosamente. direito imposto. de caráter religioso e. incerto. positivo. uma ordem inconveniente. o jus positum era o direito criado pelo Estado e. algo que é direito. esqua­ dro. de origem latina. ordem implica a ideia de forma. No direito romano. deve haver uma ordem imposta na vida em sociedade. ao contrário de coação (coatividadc). Mesmo os regimes políticos mais despóticos e injustos não podem deixar de se amparar num mínimo de legalidade. Se observarmos. Assim. imposto. afirmou que. jamais. rumo a seguir. são dotadas de coercibilidade. Não foi sem razão que Aristóteles. coativamente. e não sinuoso. a desordem seria. o Estado ordena a vida humana.

a unidade. uma sentença judicial somente são válidos se esti­ verem em conformidade com os demais diplomas legais. Qual o fundamento desta ideia? Se abrirmos uma coletânea de legislação e a analisarmos detidamente. isto sim. e não mera soma de partes simplesmente justapostas. a ordem jurídica é uma es­ trutura análoga a uma estrutura musical ou plástica. Várias notas musicais emi­ tidas ao léu não formam. na tela em branco. a distingue das outras: a hierarquia entre suas partes (normas) integrantes. sem­ . sem dúvida. direta ou indiretamente. estão. iso­ ladas umas das outras. o ser humano é perverso por índole. incisos e alí­ neas. sob o im­ pério da Constituição. a or­ dem jurídica não é idêntica às demais estruturas. embora formando o elemento multiplicidade. dispostas hierarquicamente. Cada um dos dispositivos se relaciona. formam uma multiplicidade que não satisfaz. o inglês Thomas Hobbes. carecem de unidade até que o compositor lhes dê uma dis­ posição estética conveniente. fornecido pela razão. como vimos. dc estrutura. a ordem jurídica bem se assemelha às notas de uma melodia. mas sim de modo organizado. contendo epígrafe. no seu livro célebre intitulado Leviatã. ordenadamente. vere­ mos que ela apresenta uma estrutura. pois possui uma característica que lhe é essencial e que. o artista. Inicialmente. umas dependem de outras. à disposição ordenada dos capítulos de um livro. mas não idêntica. uma característica sui generis: a hierarquia entre as normas. Já se percebe que a ordem jurídica é uma estrutura. de força. complementado o conceito de ordem. portanto. Vejam a paleta na qual um pintor derrama suas tintas. que. necessariamente. em desconexão. tudo disposto harmoniosamente. Mas é preciso que haja outro elemento neste conceito. entretanto. As normas jurídicas de uma ordem jurídica não estão no mes­ mo plano de eficácia. enfatizava. am­ parado numa ordem jurídica férrea. no topo da qual se acha a Constituição. uma melodia pois. Desta derivam todas as demais normas. umas complementam outras. convenientemente. Sim. Essas tintas estão em desali­ nho. Foram Hans Kelsen e Adolf Merkel que interpretaram a ordem jurídica como uma pirâmide escalonada. qual seja. Mas quando elas forem dispostas. todas as normas jurídicas de uma ordem jurídica consistem no elemento multiplicidade. Ora. orgânico. formal. Uma lei. O complexo de normas ju­ rídicas em vigor numa sociedade não sc acha disposto mecanicamente. parágrafos. O que vem a ser. Ela possui. A ordem jurídica é uma estrutura. a fim de iniciar a pintura da paisagem que contempla. por si só. um preâmbulo. que o homem é lobo do próprio homem (horno homini lupus). ordenado.3 0 Estado 59 Um dos maiores teóricos do absolutismo monárquico. teremos. contudo. Pois bem. uma ordem que pareceu conveniente ao le­ gislador. Esta ordem se formaliza. integra o conceito de ordem. toma forma de normas jurídicas. vale dizer. Uma norma só é válida se não conflitar com a ordem jurídica da qual faz parte. com os demais. As normas jurídicas não sc acham soltas. e seu instinto pernicioso somente pode ser controlado por um poder político severo. um conjunto harmônico. uma estrutura? É uma dispo­ sição harmoniosa das partes para a realização do todo. um contrato. Assim.

o qual possui uma determinada qualidade. formula-a a Teoria Pura do Direito pela maneira seguinte: o que é que estabelece a unidade de uma pluralidade de nor­ mas jurídicas? Por que razão uma determinada norma jurídica pertence a um certo sis­ tema dc Direito? Uma pluralidade dc normas constitui uma unidade. da norma fundamental. aqui. formam um todo denominado direito positivo. Numa passagem de grande vigor intelectual e de cla­ reza. p. somente limita­ das por outra norma estatal. “não deves enganar”. podemos referir-lhe uma enorme quantidade de normas derivadas: “não deves prejudicar os outros”. é preciso fazer uma distinção: somente a Cons­ . o direito impositivo. posto. podemos distinguir duas espécies de ordem (sistemas normativos). Hans Kelsen (1939. As normas da primeira valem por si. Essas normas jurídicas. Porém. na verdade. nem um decreto regulamentar pode dispor de modo contrário à lei que ele próprio está regulamentando. a unida­ de da pluralidade de todas as normas que constituem uma ordem. então. a Constituição não pode ser ferida por uma lei ordi­ nária. qual é a norma fundamental de um determinado sistema de moral. O conjunto de todas as normas jurídicas no Estado chama-se. con­ forme a natureza do princípio de validade. a conduta por elas prescrita ao homem impõe-se pelo seu conteúdo. da mesma maneira que o particular está contido no geral e que. 60-1) sintetiza seu pensamento a respeito: O Direito. de compreender que as diversas normas da moral já se acham compreendidas numa nor­ ma básica. procedendo a uma dedução do geral para o parti­ cular. todas as normas particulares da moral podem fazer-se derivar.é um sistema de normas jurídicas.a ordem jurídica . enfim. Trata-se. direi­ to objetivo. Essa norma fundamental constitui. como última fonte.60 Teoria Geral do Estado pre hierarquicamente. é porque a sua validade pode ser referida à nor­ ma fundamental dessa ordem. uma ordem. o Código Civil. “deves cumprir tuas promessas” etc. isto é. As normas jurídicas criadas pelo Estado são incontrastáveis. cuja fonte é o Estado. Suponha­ mos a seguinte norma fundamental: “deves amar o próximo”. Não nos interessa saber. Por exemplo. como ordem . por isso. que lhes confere essa validade. são normas de direito objetivo a Constituição. E a primeira pergunta a que é preciso responder. um sistema. “deves au­ xiliar o teu próximo em caso de necessidade” etc. quer dizer. imposto. de evidência imediata. E se uma norma pertence a uma determinada ordem. Assim. os contra­ tos e os atos administrativos. as normas “não deves mentir”. a cujo conteúdo está submetido o conteúdo das normas constitutivas da or­ dem em questão. Conforme a espécie de norma fundamental. isto é. derivam da norma fundamental da veracidade. São desta espécie as normas da moral. como o particular se subsume ao geral. se a sua validade puder ser referida a uma norma única como último funda­ mento dessa validade. mediante uma opera­ ção lógica. Direito objetivo é o conjunto de todas as normas jurídicas em vigor no Estado. E as normas obtêm esta qualificação concreta pelo fato de estarem relacionadas com uma norma funda­ mental.

São Paulo. M ax Limonad. sendo necessário que se lhes atribua um valor.s do. Oeli­ Encíclica Quadragésimo Anno. Manoel Gonçalves. Saraiva. 1969. São Paulo. 1949. ed. Rio de Janeiro. A doutrina social da igreja segundo as encíclicas Pedro. P. Ela e um bem. Q uando dizemos os valores estão no cofre. Uma coisa não pode ser um va­ lor. t e l i . Hachette. Todas as normas jurídicas são de direito objetivo. um ideal mais alto do que os ou­ tros ideais. porque se impõem a todas as outras. Pierre. 6. O direito quãntico. elucida o professor GoffredoTclles Júnior: De fato. . 1981. Não se pode dar a uma coisa o nome de valor. São Paulo.f. É uma coisa valiosa. A doutrina social da Igreja. A democracia possível. Braga. Os direitos sociais nas constituições. Que é valor? É a importância que se atribui a um bem. A santidade tem va­ lor. Teoria pura do direito.. 4. As coisas não constituem bens em si mesmas. Sucessor. Armênio Amado. Afirmar que a san­ tidade é um valor e o mesmo que afirmar que uma joia e um valor. m o n t e s q u i e u . o Código Civil. o que realmente queremos dizer é que os bens de valor estão no cofre. Zahar. São Paulo. São Paulo. O mani­ festo Comunista de Marx e Engels. em seu sentido pró­ prio. Nem mesmo seres ideais podem ser valores. Hans. Saraiva. 1981. 1966. mas somente para quem vê nela um ideal de vida. 3.3 0 Estado 61 tituição. A santidade (ou o santo). C. Coimbra. Rerum Novarum e Quadragésimo Anno. .. . não e um valor. Luís. Paulo kelsen. Armênio Amado. df. ed. 11. Mas uma joia não é um valor. Igual­ mente. souza . 1981. Harold J. Coimbra. ru it e n p io x i. 1946. Mauricc. o Código Penal e outras leis oriundas do Estado formam o direito positivo. É um bem a que se atribui valor. O futuro do Estado. ed. 1978. mas somente as normas jurídicas provenientes do Estado são normas de direito positivo. Os regimes políticos. 1985. O. José Pedro Galjr vão de. ed. a santidade é um bem de valor. Dalmo dc Abreu. salvetti n e t t o . São Paulo. Goffre- Bem é tudo o que seja objeto do desejo humano. Paris. Saraiva. vres completes. Moderna. . 1979. g a l v Ão f e r r e ir a f il h o e Curso de direito constitucional. Conceito e natureza da sociedade política. não designa a essência e a existência de coisas. Mas não é um valor em si. 1979. Problemas de filosofia política. 1982. São Paulo. 1980. l a s k i.. a palavra valor quando empregada corretamente. - verger . Sucessor. . Curso de teoria do Estado. Ci. Neste sentido.. São Paulo. São Paulo. .5) Causa final: o bem comum Bibliografia: m oncada b ig o . 1859. c a b r a i. du 1963. Difusão Européia do Livro. d a l l a r i. São Paulo. São Paulo. por exemplo. 4. a não ser que se falsifique o senti­ do da palavra valor.

caso contrário cairíamos no totalitarismo.62 Teoria Geral do Estado Ora. que culminaria na Revolução Francesa. que nem sempre a ordem jurídica é justa. houve época. mais precisamen­ te o século XVIII. O Estado não é mais do que um meio de realização do bem comum. perío­ do de esplendor do Iluminismo. o conceito de liberdade não é unívoco. embora seja. Tal concepção chama-se con­ senso social. 4. A moral social. Não é difícil depreender. em diferentes épocas. bem comum era. 11a disparidade das interpretações da liberdade. Há uma liberdade de tempos de guerra que não é. confunde-se com a concepção do que é justo em determinada sociedade. Foi aquele o século do racionalismo. alterando-se conforme o ensejarem novas circunstâncias. a mesma liberdade de tempos de escassez. pois.1) 0 liberalism o e 0 bem com um Absoluta e unanimemente. a valoração dos bens varia no tempo e 110 espaço. Enormes divergências entre os homens residem. Os valores sociais têm uma existência histórica. Embora a ordem jurídica tenha por objetivo final o bem comum. uma liberdade de tempos de paz. a liberdade e a iniciativa individuais. há uma liberdade de época de fartura que não é. doutrina que. pre­ tendeu libertar o homem “das trevas da superstição medieval”. Estávamos. . Causa final da sociedade política.5. todos os sistemas políticos se declaram adeptos da liberdade individual. somente será legítima se estiver conforme o consenso social. em pleno apogeu do Século das Luzes. e para tanto deve atuar inci­ sivamente. sem ferir. o preço a ser pago por essa superação é de tornar cada ser humano mera parcela do todo so­ cial. e também do individualismo e do cidadão abstrato. concebe e ado­ ta as normas jurídicas c morais. necessariamente. A norma jurídica não se origina apenas do fato e da inteligência. evi­ dentemente. como o próprio nome revela. desta formulação. Por outro lado. tida como o conjunto dos valores sociais. a visão limitada do individualismo. enquanto válida. absolutamente. Cada sociedade. quando o intelecto valora um fato. o bem comum deve ter como objetivo a plena realização espiritual e física do homem. Infelizmente. se a concepção totalitária de bem co­ mum supera. deixa de ser legal. a mera conservação da ordem social. então. nem sempre tal finalidade é alcançada. Sim. não são perpétuos nem imutáveis numa mesma socieda­ de. mostrando-se o reto caminho das luzes da razão. consubstanciado 11a ideia de justo. mesmo porque. ele varia com o tempo. essencial­ mente legal. A ideia de justo ou de legitimidade de uma ordem jurídica fundamenta-se no consenso social. inquestionavelmente. com certeza. como sinônimo de paz social. A norma jurídica. legal. nem por isso a norma jurídica. na oportunidade. adota uma tábua de valores c. o faz com fundamento nos valores adotados pela comunidade. contudo. pois. então. Conclui-se dessa breve digressão introdutória que o conceito de bem comum varia no tempo e no espaço. puro instrumento de um todo. em que o bem comum foi definido como a ordem jurídica. justa ou injusta.

em qualquer sociedade dotada de leis.possibilita o desenvolvimento das . A liberdade é o direito de fazer o que as leis permitem. porque naquela não têm. prossegue. publicista pátrio. porém. Afirma. intelectual ou moral. declarando que cada vez mais o Estado faz penetrar em seu ordenamento jurídico o elemento socialista. se hos­ tilizam e se excluem. ainda. para outros é exatamente o oposto desta. a liberdade será inatingível até que a paixão da igualdade seja satisfeita. com isso. redefinindo-a em forte matiz socialista. sua concep­ ção de liberdade. a liberdade consiste em po­ der fazer o que se deve querer e em não ser obrigado a fazer o que não se deve que­ rer. posição esta reformulada mais tarde. proporcionando. quando passou a ver na li­ berdade política uma autodeterminação conseguida pela participação do indivíduo na criação da ordem social. aparentemente. a suprema liberdade. o Estado lhe possa de­ terminar outras restrições senão aquelas necessárias à proteção da liberdade de to­ dos. afirma que as duas ideias essenciais da democracia. a essência da liberdade também está longe de ser revelada. No campo da doutrina. em torno de dois valo­ res: indivíduo e coletividade. liberdade e igualdade. nas democracias. se cada um dc nós pudesse fazer o que as leis proíbem. assim como foram apresen­ tadas pelos pensadores da era do lluminismo e assim como se desenvolveram na teoria política das ideologias modernas. criador da célebre teoria pura do direito. Outro eminente publicista francês. Hans Kelsen. que a vida do gênero humano gira. sempre. para alguns. Em qualquer Estado. não a percebendo nas monarquias. por sua vez. são dois conceitos que. É preciso distinguir. A liberdade . Tal postura revela bem a intervenção do poder político no domínio econômico-cultural. os motivos de seus males. entre independência c liberdade. a liberdade como a ausência de quaisquer laços obrigatórios para o indivíduo. Aliás. Observa. o povo. e. perpetuamente. a fim de impedir que a liberdade dos fracos seja sufocada pela liberdade de uma minoria. na prática. ademais e a todos. não significa fazer o que se quer. como nas democracias o povo tem mais facilidade para fazer quase tudo o que deseja. que é verdade que. colocou a liberdade nos governos democráticos e confundiu o poder do povo com a sua liberdade. ora outro. O equilíbrio entre ambos ainda não foi alcançado: ora predomina um. Ainda assim. é mais freqüente que a coloquem os povos na república. diante de seus olhos.3 0 Estado 63 Aquilo que para uns é liberdade. A liberdade política. Léon Duguit. um nível de vida que ofereça um mí­ nimo de decência aos menos favorecidos. definiu. sem que. Georg Jellinek afirmou. a renúncia à liberdade c. Silva Telles. defi­ nia a liberdade como o poder que pertence ao indivíduo de exercer e desenvolver sua atividade física. acuradamente. Já para Harold Laski. Duguit mudaria. o grande Montesquieu. Cada homem denomina liberdade ao governo que mais sc ajusta aos seus costumes e inclinações pessoais. porém. porque todos teriam o mesmo poder. num primeiro momento de sua vida. a exemplo de Kelsen.prossegue . que não há palavra que te­ nha mais acepções e que tenha tanto impressionado os espíritos como a palavra li­ berdade. Afinal. mais tarde. não haveria mais liberdade. faz o que deseja.

Ou esta outra: “Entre o fraco e o forte. liberdade de reunião etc. Dian­ te da pressão social. dominados. dotados de inclinações diversas e deixando-se plasmar por perspectivas diferentes. o grande revolucionário inspirador da re­ volução socialista da Rússia. afinal a mais forte paixão da democracia. justamente pelos meados do século X IX : o egoísmo desenfreado dos chefes de empre­ sa. o desemprego das multidões proletá­ rias. era a da igualdade .a outra irmã gêmea da liberdade e. Não é à toa que o individualismo excessivo acarreta males gravíssimos para a vida em sociedade. de Bossuct. a superprodução. as regulamentações artificiais do mercado pelos trusts c grandes monopólios. quanto mais procura impor a justiça igualitária. Crítica bem posta. mais reduz a liberdade. pois as liberdades dos indivíduos não podem ser tomadas isoladamente e colocadas uma ao lado de outra. Para se defender destas conseqüências. . costumava dizer: “A liberdade é um bem tão precio­ so que deve ser racionada”. de Lacordaire. e estes. Era preciso deslocar ago­ ra o acento tônico da ideia de liberdade para outro elemento. Para Dallari. e estes. a liberdade opri­ me e a lei liberta”. ofende a liberdade dc alguns ou dc muitos c. uma vez que. liberdade econômica. a própria afirmação de que a liberdade de cada um termina onde começa a de outro é inaceitável. como esta: “O Estado que quisemos fraco demais para não nos oprimir foi também fraco demais para nos defender”. propiciando tiradas muito bem postas. o dia de trabalho das doze c mais horas sem limite. a democracia viu-se obrigada a procurar uma ideia nova que lhe servisse de base. o trabalho desumano das mulheres c das crianças nas fábricas. consciente e esclarecedora é a formulada pelo eminente jurisfilósofo Cabral de Moncada. enfim. Mas ago­ ra uma igualdade. por vingança. acham-se entrelaçadas e necessariamente inseridas no meio social.64 Teoria Geral do Estado diferenças entre os homens. deixarão de ter a liberdade apregoada. o liberalismo político da democracia reinante. não de pura teoria. no dizer de Herculano. o Estado intervém para nivelar as condições de vida. E a ideia nova para a qual ficava agora aberto o caminho. das máquinas da indústria algodoeira em Inglaterra. li­ berdade pessoal. como antes se fizera com a de liberdade. Claro que existem várias espécies no gênero liberdade: liberdade política. até suprimi-la de vez. com a destruição. o seu espírito de lucro insaciável. que era preciso também hipostasiar e sublimar. mas de verdade. interfe­ rindo. Tudo conseqüência do individualismo econômico apoiado no seu poderoso aliado. cm preciosa síntese: São conhecidos os excessos a que conduziu o liberalismo econômico e político. a imensa mi­ séria das massas operárias entre os anos de 30 a 50 desse século. então. é a desigualdade econômica. criarão condições em que alguns poucos do­ minarão os muitos. Lenin. na realida­ de. O resultado de certa concepção dc liberdade. a baixa constante dos salários a um nível incom­ patível com toda a dignidade da vida humana. liberdade religiosa. as depressões econômicas.

ela pres­ supõe sempre uma razão que a justifica.. A concepção de liberdade do liberalismo acabou por se autodestruir. até agora. paradoxalmente. com Royer-Collard. por meio da dominação econômica. O exces­ so de livre-concorrência gerou a exploração dos fracos pelos fortes e. o principal inimigo da liberdade individual nem sempre é o Poder Público. ainda. Em razão disso. não se pode colocar . prossegue o autor citado. pois colocava o indivíduo contra o Estado. contudo. Esta via legal depende do povo. condições propícias para o aparecimento dos totalitarismos e do socialismo exacerbado. ine­ rente à natureza do homem. a liberdade apregoada pelo liberalismo era uma liberdade sem pers­ pectivas. Com frequência um indivíduo muito rico ou um poderoso grupo econômico reduz seriamente a liberdade de muitos indivíduos. Esta liberdade se chama liberdade política e o Estado em que ela existe se chama Estado dc Direito. válido para todas as épocas e todos os lugares.. enquanto os desajustes econômicos se agravavam. Na verdade. por intermédio de representantes periodicamente substituídos em eleições livres e sinceras. e não um meio para o aperfei­ çoamento do homem. Já se disse até. a Revolução Francesa destruiu o concei­ to tradicional dc poder político. Não foi sem fundamento que Montesquieu . de sua cooperação e participa­ ção direta ou indireta. Referi­ do Estado é aquele em que as leis não podem ter vigência nem ser modificadas se­ não por via legal. Nas sociedades indus­ triais do fim deste século X X . com esta. em razão disso. despertando. Já percebe o leitor a dificuldade existente na formulação de um conceito uni­ forme de liberdade. compreende muitas liberdades. da autoridade). havendo mesmo inú­ meros casos em que o Poder Público se vê subjugado e inteiramente controlado por grupos econômicos. Reagindo contra o absolutismo monárquico (deturpação do exercício legíti­ mo do poder e. ipso facto. Por outro lado. Como acentua com muita clareza Dalmo de Abreu Dallari.corifeu do liberalis­ mo . a tratada neste ca­ pítulo . transformado este em mero fiscal da manutenção da ordem pú­ blica.que foi. todas estas. portanto. E à liberdade po­ lítica que o filósofo Karl Jaspers se refere. impõe restrições aos possíveis excessos das liberdades civis e políticas. a formação de um capitalismo monstruoso e a proletarização dos produtores. no século XVII a afirmação da necessidade de liberdade foi feita em favor dos que já eram dotados de poder econômico. um fim em si própria. ao dizer: a liberdade começa com a vi­ gência dc leis registradas do Estado em que se desenvolve. ser a liberdade a coragem de resistir. porém.definiu a liberdade como o direito de fazer aquilo que as leis permitem. ou até de um povo inteiro. Tal liberdade era. que a liberdade política .é a mais ampla de todas e que. um interesse mais incisivo do leitor. sem fundamento na própria natureza humana. a vida em sociedade.3 0 Estado 65 É inegável. exaltando o indivíduo em detrimento do social. Por esse motivo entendia-se que bastava impedir a interferên­ cia do poder público para que os indivíduos fossem livres. A liberdade não é o valor supremo da vida humana.

antever a possibilidade . ao passo que as vantagens da igualdade brilham. o homem seria dotado dc direitos imprescritíveis. cedeu espaço ao moderno Estado de justiça. é necessário corrigir o sentido egoísta da liberdade individual. Enfim. com muita proprie­ dade. que. diuturnamente.66 Teoria Geral do Estado o controle do Poder Público de um Estado como necessário e suficiente para garan­ tir a liberdade dc todos os indivíduos. jurídica e social. 4. porque despojado de di­ reitos e deveres. de mero espectador do drama humano que sua passividade havia desencadeado. é preciso que a convivência. apanágio da liberal-democracia. sendo o Estado mero coordenador desta liberda­ de. se tornou um organismo dinâmico. Muitas vezes é indispensável o fortalecimen­ to do Poder Público para impedir que os economicamente fortes reduzam a liber­ dade dos economicamente fracos e estabeleçam uma profunda desigualdade entre os indivíduos. Se todos os homens são livres e iguais e se os homens não vi­ vem isolados uns dos outros. o liberalismo consagrou a escola clássica do Direito Natural. por via de conseqüência. Seria trágico. atuante e intervencionista.2) C oncepção social do bem com um Os erros do liberalismo acarretaram. uma série de pro­ vidências por parte do Estado. Referidos direitos transcenderiam a própria lei escrita. à luz de três metas políticas. embora tardiamente. ou seja. de que a finalidade do Direito Objetivo não seria mais do que realizar a coexistência dos Direitos Sub­ jetivos. com esplendor incomparável. finaliza. Os seguidores dessa escola não levaram em conta que o direito tem seu fundamento na própria sociedade. a repartição dos bens e o acesso aos benefícios da vida social não permitam grandes desníveis. direitos estes ditados pela própria natureza. Por isso. A mera legalidade. anteriores ao surgimen­ to da própria sociedade. ao sustentar que o melhor meio de realizar a felicidade do homem é do­ tá-lo da maior liberdade possível. o direito só frutifica no relacionamento humano. porém. vale dizer. que a liberdade é um valor destinado a oferecer seus benefícios apenas de quando em vez. não existe juridicamente. a concepção eminentemente individualista da sociedade ensejaria a própria eliminação dos mais fracos pelos mais fortes. Ademais. Por outro lado. Com efeito. bus­ ca reequilibrar a vida em sociedade. adverte. Alexis de Tocqueville já previra. acen­ tuando as desigualdades naturais e. restringindo-se a limitar a liberdade dc cada um ao mínimo exi­ gido pela sociedade.5. as desigualdades so­ ciais. o liberalismo fez da liberdade ilimitada o valor supremo do ideal de­ mocrático. Por outro lado. o ho­ mem isolado é mera abstração. e este pressupõe a sociedade. que. partindo da premissa de Emmanuel Kant. Além disso. seriam direitos abso­ lutos que o Estado deveria reconhecer e preservar. por isso na­ turais. dando ênfase à igualdade e restringindo os ex­ cessos da liberdade. a experiência tem demonstrado que a simples declaração dc que todos são livres torna-se completamente inútil sc apenas alguns puderem viver com liberdade.

dos quais não necessitava intensamente. sentiram os reflexos dos novos tempos. Tal doutrina. podia dar-se ao luxo de cometer seus erros ao abrigo de suas riquezas.3 0 Estado 67 de efetivação de uma sociedade estandardizada. O crítico mais mordaz do princípio da tripartição dc poderes. órgão capaz de decisões mais rápidas. com sua morte. Mareei dc La Bignc de Villcncuvc. como acentua Duverger. em busca do bem-estar social. sendo acolhida. oriunda dc Aristóteles e de Cícero. na ânsia dc correção dos desajustes sociais. sofreu um abalo mui­ to grande com o desenvolvimento da tecnologia. Por outro lado. tornou-se mais atual do que nunca. hoje. O Executivo. foram substancialmente ampliadas. A concepção secularmente arraigada do elemento político tor­ na-se menos importante que o elemento econômico. preeminência notável. Durante anos o talento de Roosevelt ocultou um mal que. que se batia tenazmen­ te pela unidade c unicidade do poder estatal. bem como de Locke e. pertinente a certos assuntos. depois. Todos os governos procuram adaptar-se às novas circunstâncias sociais. êmulo do executivo das empresas privadas. É inegável que o valor igualdade atrai. sob o acicate de um poder irrestrito. Novas tarefas ingressaram em sua esfera de ação. a democracia passou a ser muito mais atraente quando adjetivada dc social. foi colocada em questão no Estado contemporâneo. outras. passou a ter. Como acentua Silveira Neto. O reforço do Poder Executivo é. na qual todos vivessem e pensas­ sem da mesma forma. o Estado iniciou a sua atividade interveniente na vida econômica dos indivíduos. ás ocultas ou ãs escancaras. o uso dos computadores revolucionou a administração moderna. dava aos chefes de indústria o poder real. universal. A ideia do governante supergerente. muito mais do que o valor liber­ dade. O caráter essencialmente técnico de muitas decisões e a inconveniência do debate público. isolado dos demais povos. definitivamente sistematizada por Montesquieu. esta última alternativa. o interven­ cionismo estatal foi ignorado durante um século e meio porque o Estado represen­ tava um papel secundário. triunfante. baluarte na luta contra a concentração do poder num órgão apenas. hoje. Fruto disso é a delegação legislativa. Os Estados em desenvolvimento. Mesmo nos Estados Unidos da América. A própria doutrina da tripartição dc Poderes. veio bruscamen­ te à luz: o sistema governamental norte-americano pareceu não estar mais à altu­ ra das novas tarefas político-econômicas. numa comunidade em que o liberalismo econômico. começa a substituir a figura do estadista convencional. é claro. conduziram os parlamentos ao dilema de paralisar sua atividade ou delegar pode­ res. de sua competência. hoje mais . o mundo nor­ te-americano. adverte Manoel Gonçalves Ferreira Filho. mais do que os outros. em razão de sua própria estrutura. então. como a criação e a gerência de serviços assistenciais. hoje freqüentíssima e inevitável. O adjetivo social tornou-se uma palavra mágica. Percebeu-se que o Estado deve. Quando o Welfare State substituiu o État gendarme. se o uso da pólvora liquidou o sistema das guerras medievais. como bem frisa Ferreira Filho.

constitui um bem que é dever do Estado proteger. Por sua vez. E regime muito mais de conteúdo que de forma. tutelados nas mais avançadas Constituições da época. surgem em nossa Lei Magna de 1934 dispositivos referen­ tes à matéria. A Constituição Federal de 18. funda-se a riqueza c a pros­ peridade nacional. o fator econômico motivou a hipertrofia do Estado moderno. que dispunha sobre a ordem econômica nos arts. O trabalho intelectual. nos tempos atuais. numa autolimitação do poder do Estado que evocava para si deveres públicos subjetivos. A todos é garantido o direito de subsistir mediante o seu trabalho honesto. afirma Salvetti Netto. o homem do cotidiano.11. além de definir e aplicar uma política exterior e manter um exército formidável. técnico e manual tem direito a proteção e solicitude especiais do Estado.1946 dispunha sobre o assunto nos arts. o operário.1937. também sob o título “Da Ordem Econômica e Social”. A Constituição mexicana de 1917 e a Constituição de Weimar em 1919 pre­ viram direitos sociais. representados pelo Estado. O trabalho é um dever social. como meio de subsistência do in­ divíduo. 145 a 162. Logo após a Primeira Grande Guerra. surgem os direitos sociais. sendo a seguinte a redação do art. Em tal diapasâo.68 Teoria Geral do Estado do que nunca. 135: Art. e este. à liberdade agregou-se a igualdade. 136 dispunha o seguinte: Art. com ou sem vontade. exercido nos limites do bem público. Na iniciativa individual. livre por excelência. Em oposição ao cidadão abstrato. com o título “Da Ordem Econômica e Social” (arts. Como acentua Salvetti Netto. 135 a 155. dc organização e de in­ venção do indivíduo. 136. dc outro. O governo democrático. na vida econômica e social. A intervenção do Estado no domínio econômico só se legitima para suprir as deficiências da iniciativa individual e coordenar os fatores da produção.09. assim: . 115 e 143). De um lado. o art. a liberdade continua a ser valor transcendente do ideal democrático. as profundas alterações ocorridas nas estrutu­ ras sociais motivaram a revisão do conceito de democracia e de representação. se­ guida pela Constituição de 10. só atinge seus fins quando logra realizar o bem-estar da comunidade. de maneira a evitar ou resolver os seus conflitos e introduzir no jogo das competições in­ dividuais o pensamento dos interesses da Nação. no poder de criação. com seus problemas e sentimentos. intervir. assegurando-lhe condições favoráveis c meios dc defesa. sur­ ge o homem concreto. 135.

3° Constituem objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil: I .e 170). caracterizado pelo domínio dos mercados.harmonia e solidariedade entre as categorias sociais de produção. 1.função social da propriedade.valorização do trabalho como condição da dignidade humana. constitui-se em Estado Democrático de Di­ reito e tem como fundamentos: III . I o.01. III . sem preconceitos de origem.1988. Assim: Art. c VI .repressão ao abuso do poder econômico.os valores sociais do trabalho e da livre iniciativa. O trabalho e obrigação social. . III e IV. IV .liberdade de iniciativa. 6o . 160 a 174.10.direitos sociais .a dignidade da pessoa humana. raça.erradicar a pobreza e a marginalização e reduzir as desigualdades sociais e regionais.1967.garantir o desenvolvimento nacional. IV .expansão das oportunidades dc emprego produtivo. Art. 145.promover o bem de todos.construir uma sociedade livre. V . promulgada em 05. conciliando a liberdade de iniciativa com a valorização do trabalho hu­ mano. com base nos seguintes princípios: I . 160 o seguinte: Art. estabelecia. cor. formada pela união indissolúvel dos Estados e Municípios e do Distrito Federal. de 17. com a Emenda Constitucional n. A todos ó assegurado trabalho que possibilite existência digna. em seus arts.1969.10. IV . ida­ de e quaisquer outras formas de discriminação. a eliminação da concorrência c o aumento arbitrário dos lucros. sexo. [grifo nosso] A Constituição Federal vigente.3 0 Estado 69 Art. III . A ordem econômica e social tem por fim realizar o desenvolvimento nacional e a justiça social. 160. [grifo nosso] A Constituição brasileira de 24. A ordem econômica deve ser organizada conforme os princípios da justiça social. II . justa c solidária. 3o. como se depreende de vários de seus dispositivos (arts. demonstra re­ dobrada preocupação com a questão social. II . Parágrafo único. a respeito da ordem econômi­ ca e socialydispondo o art. I o A República Federativa do Brasil.

na forma desta Constituição. a segurança. Somente com a Constituição de Weimar de 1919 e a Constituição espanhola de 1931. VII . 170. mesmo nesta. o desenvolvimen­ to e a segurança das próprias instituições políticas. o lazer. dessa forma. as Constituições dos diversos Es­ tados só se preocuparam com a organização política. IV . jus). conforme os ditames da justiça social. Divul­ gada principalmente pela doutrina social da Igreja. III .busca do pleno emprego. emendada em 1969. 170 da Constituição em vigor. V .função social da propriedade. embora situadas em pé de igualdade no caput do art. observados os seguintes princípios: I .soberania nacional. A indevida repetição desse conceito terminou por desgastá-lo. sofrendo o influxo de vários diplomas legais estrangeiros. Do latim justitia. Até a eclosão da Primeira Grande Guerra.propriedade privada. houve uma tendência mais acentuada para acrescentar ao texto político fundamental os princípios destinados a reger o campo econômico-social. como a Constitui­ ção de Weimar e a Carta do Trabalho da Itália fascista. dc justus (de acordo com o direito.livre-concorrência.redução das desigualdades regionais e sociais.defesa do meio ambiente. fundada na valorização do trabalho humano e na livre iniciativa. Por outro lado. o trabalho. VI . trans­ . cumpre fazer algumas observações sobre o conceito dc justiça.70 Teoria Geral do Estado Art. Vimos como as Constituições brasileiras de 1934 e 1937 trataram do proble­ ma. por meio do plano econômico e social. A Constituição de 1967. VIII . parece defender o princípio de que a democracia não pode de­ senvolver-se. Art. a proteção à maternidade e à infância. o desenvolvimento nacional não deve ser um fim em si mesmo. preocupada com questão social. buscan­ do assegurar. a assistência aos desam­ parados. ela é bastante di­ vergente. porém um meio de se alcançar a justiça social.tratamento favorecido para as empresas brasileiras de capital nacional de pequeno porte. exceção feita à Constituição mexicana de 1917. a menos que a organização econômica lhe seja propícia. Que vem a ser justiça social? Eis uma expressão de difícil delimitação. tem por fim assegurar a todos existência digna. respectivamente. o desenvolvimento nacional e a justiça social devem ser considerados. II . a justiça foi defi­ nida por Ulpiano assim: “Justitia est constans et perpetua voluntas jus suum cuique tribuendr. a previdência social. 6° São direitos sociais a educação. meio e fim. A ordem econômica.defesa do consumidor. IX . Vale assinalar que. a saúde.

se o ideal do justo nasceu com a própria humanidade. quando afirma o princípio da justiça distributiva. pois. respectivamente. ora se assentando na liberdade. como o corpo humano.3 0 Estado 71 formando-se na fórmula: “A justiça consiste em dar a cada um o que é seu”. o que pertence a cada um. será em Aristóteles que vamos encontrar o moderno sig­ nificado da justiça social. o valor predominante é a igual­ dade. Como assevera J. observada uma igualdade proporcional ou relativa. o princípio de justiça é invocado exatamente para dirimir a disputa entre partes que invocam aquilo que é seu. Princípio regulador das relações entre a comunidade e seus membros. Em nosso entender. determinando a cada homem que se limitasse a fazer o que lhe fosse atribuído. de governo. Flóscolo da Nóbrega. a ideia dc justiça varia constantemente: o que era justo para os antigos talvez não o seja para nós. com cada um de seus membros. modernamente. divide a justiça em espécies: distributiva. a segurança e o abastecimento do Estado. Qual o “seu” de cada um. os bens. a assistência social ao ho­ mem da cidade ou do campo. a revelação da essência desse ideal ainda não ocorreu. Ora. seria preciso sa­ ber. exigindo paridade entre o dano e a reparação. Aos militares e operários. pelo qual a comunidade distribui. A concepção de justiça varia com as ideologias predomi­ nantes em cada momento histórico. porém? Para se poder dar a cada um o seu. A justiça ju­ dicial é aquela dada pelo juiz. a prestação de serviços e as relações entre todos. Platão. por exemplo. observada uma igualdade proporcional. a aplicação de recursos da coletividade etc. tendo como pressuposto um valor. o elegante princípio de Ulpiano não resolve o problema. recompen­ sas. embora possa voltar a sê-lo no futuro. respectivamente. As­ sim. estabelecendo a equivalência entre o que se dá e o que se recebe como compensação. Platão compara o Estado a um ser humano e. discípulo dc Platão. concebia a justiça como um princípio que impunha de­ terminada estrutura social. A justiça distributiva preconiza a distribuição das benesses sociais entre os membros da comu­ nidade. como a liberdade o foi por ocasião da Revolução Francesa. ca­ beriam. inafastável. A justiça equiparadora leva em conta o intercâmbio dos bens. enfim. A verdade é que. Os ins­ . Essa divisão de classes e funções deve ser rígida. comutativa e judicial. pois deveria fornecer um critério para dizer qual “seu” devemos dar a cada um. Aristóteles. cargos e funções. Ora. sendo a justiça uma ideia de har­ monia e unidade. equiparadora. honras. desde logo. delineando as premissas do moderno organicismo. os órgãos sociais devem restringir-se a suas atribuições impostas pela natureza. afirma que os homens são naturalmente de­ siguais. pre­ conizando a exata correspondência entre a coisa dada e a recebida. cabendo aos filósofos o papel de cérebro da sociedade. Não resta dúvida de que. A justiça co­ municativa leva em conta as relações contratuais entre as pessoas. a justiça é a ideia. pulmões e estômago da sociedade. ora na igual­ dade. a representação abstrata do estado de pleno equilíbrio da vida social. visto que a distribuição deve ter como referencial o mérito de seus destinatários. o cri­ me e a pena a este cominada. o princípio da justiça distributiva disciplina a fixação dos impostos.

Para ele. ou seja. numa época em que o libera­ lismo econômico triunfante dava aos chefes de indústria o poder real. a seu encargo. o direito do trabalho e a previdência social. órgão capaz. cm seu Curso de direito constitucional Tal delegação. Novas tarefas foram atribuídas ao Poder F^xecutivo. repudiada unanimemente pelos ideólogos da liberal-democracia. uma ascendência cada vez maior. Aqui é importante notar que o “legalmente justo” não é. Como o caráter eminentemente técnico de muitas decisões que deve­ riam ser tomadas em tempo recorde. Quando o Welfare State substituiu o État gendarme. Para horror dos defensores intransigentes da tripartição e separação absolu­ ta dos poderes políticos. colocou em xeque o caráter ideológico da chamada indelegabilidade de poderes. foi imediatamente escolhida esta segunda alter­ nativa. o problema do reforço do Poder Executivo tornou-se uma realidade cristalina. passou a ter. a von­ tade deve estar inclinada à realização do bem moral. como acentuou M a­ noel Gonçalves Ferreira Filho. Modernamente. e a prudência implica a retidão moral da intenção. podia dar-se ao luxo de cometer todos os erros ao abrigo de suas riquezas e de seus oceanos. por sua própria estrutura. visto que estas devem ser distribuídas conforme o mérito dc seus destinatários. aquilo que o positivismo denomina com tal fórmula. isolada de um mundo do qual não tinha necessidade. A delegação legislativa é hoje prática correntia e inevitável “às ocultas ou às escancaras”. Por exemplo. 1.72 Teoria Geral do Estado trumentos de que se serve a justiça distributiva são o direito administrativo. a função governamental. I. Além disso. o di­ reito fiscal. essa orientação de Aristóteles é de grande atualidade. então. Eis a doutrina da isonomia. a criação e a gerência de serviços assistenciais. em busca do bemestar social. tendo em vista o papel cada vez mais dinâmico que o Estado vem desenvolvendo em face das novas c múltiplas reivindicações sociais. justo legal é aquilo que o bem co­ mum justifica e exige. o Estado passou a ter uma missão de intervencionismo na vida econômica individual. A justiça distributiva. Por outro lado. 5°. preconizados por Montesquieu. e aquelas que já eram de sua competência foram bastante ampliadas. a virtude moral que tem por objetivo o bem comum é o que Aristóteles chama de “justiça legal”. vale lembrar. conduziu os parlamentos ao dilema de paralisar a administração ou delegar poderes. o intervencio­ nismo estatal foi ignorado durante cerca de 150 anos nos Estados Unidos. Quan­ . a América. e coisas desiguais aos desiguais. X. não se deve dar-lhes coisas iguais. de decisões mais prontas. no pensamento aristotélico. da Constituição Federal. Para Aristóteles. se as pessoas são desiguais. invoca a proporcionalidade na distribuição das benesses sociais. bem como a inconveniência do debate públi­ co relativo a certas matérias. Conforme acentua Duverger em sua obra Os regimes políticos. a lei não consiste simplesmente 110 mandado por aqueles que têm. O Poder Executivo. Devem-se dar coisas iguais aos iguais.180/21). mas em requerer a prudência (Ética a Nicômaco. porque o Estado representava um papel apenas secundário. fixada no art.

quando uma fá­ brica que causa poluição é obrigada a minorar este mal ou encerrar suas ativida­ des. mero cão dc guarda da ordem pública. Entretanto. c) plano social. Para o exercício de suas funções sociais. essencialmente. de forma ativa. O aspecto político torna-se ate menos importante que o econômico. que poderá ser justo. substituindo a do estadista tradicional. por exemplo. isto é. amparado no consenso social ou não. continuar a ter guarida. se todo Estado é Es­ tado de direito. Do exposto. o século do individualismo. A ideologia do gover­ nante supergerente. conclui-se que o conceito de bem comum foi bastante alterado com o surgimento de novas circunstâncias sociais. acha-se. peculiar a uma fase da História da humanidade. ser restringida. O Estado. cuja função. O Estado deve intervir. tão eficiente quanto o executivo da empresa particular. na vida socioeconômica dos indivíduos. que deve renunciar ao seu caráter passivo. meramente passiva. em nome de uma função social da propriedade. preconizada pelo liberalismo clássico de Emmanuel Kant. John Locke e outros. que não pode. seu ordenamento jurídico. seria aquela de um gendarme (policial) na sarcástica imagem de Ferdinand Lassalle. O Esta­ do que providencia o desenvolvimento não pode deixar dc ser preponderantemen­ te empreendedor. queiram ou não queiram os governantes.3 0 Estado 73 do. aliás. vão longe os tempos da mera tutela da ordem jurídica pelo Estado. quando ocorre a vacinação compulsória ou quando surgem restrições à frui­ ção irrestrita da propriedade. portanto. ao atender às necessidades assistenciais. a moder­ na concepção de bem comum exige a ação do Estado. em desenvolvimento. no mundo moderno. alcançando o campo da iniciativa privada. dei­ xando de ser o Estado gendarme. e que pas­ sa a atuar. seu direito. a iniciativa privada pode. as condições sofreram uma mudança. em muitos Estados. a agir. o bem comum nada mais era do que a manutenção da ordem pública pelo Estado. . que é o Estado que transcende a mera legalidade. todo Estado é Estado de Direito. ao construir o Estado de justiça. em três planos bem definidos: a) plano político. ao manter a legalidade pura e simplesmente. a justiça social. o Senado se recusava a ratificar o Tratado de Versalhes. Não. b) plano jurídico. Como fruto do século XVIII. ao manter sua segurança interna e externa. às vezes. deve transcender a mera legalidade e buscar. previdenciárias e edu­ cacionais da coletividade. Em princípio. nem todo Estado de direito será Estado dc justiça. Não basta a garan­ tia dos direitos subjetivos para que o bem comum esteja alcançado. Na verdade. apenas a Europa suportava as conseqüências. pois toda so­ ciedade tem. por exemplo. Modernamente.

4

A CONSTITUIÇÃO

1) CONCEITO E EVOLUÇÃO HISTÓRICA
Bibliografia: f e r r e i r a
Manoel Gonçalves. Curso de direito constitucional, 11.
salvetti n e t t o ,

f il h o

,

ed., São Paulo, Saraiva, 1982. ed., São Paulo, Saraiva, 1981.

Pedro. Curso de teoria do Estado, 4.
,

SOUZA,

José Pedro Galvão de. História do direito polí­
v ia m o n t e

tico brasileiro, São Paulo, Saraiva, 1962.

Carlos Sanchez. El poder consti-

tuyente, Buenos Aires, Bibliográfica Argentina, s.d.

A palavra constituição vem do latim cum + stituto , constitutio , de constituere (constituir, construir, edificar, formar, organizar). Tem como sinônimo o vocábu­ lo com pleição , que também contém a ideia de um todo form ado , estruturado , orde­ nado , isto é, dc unidade na m ultiplicidade . O corpo humano tem uma constituição , uma com pleição; não é ele, porventura, um organism o ? Não nos referimos, às ve­ zes, ao vocábulo constituição como a ordenação que preside a organização dos cor­ pos físicos? Assim, a palavra constituição apresenta sentidos análogos; ela pode ser toma­ da em um sentido am plo; e em outro, estrito. Tomada num sentido am plo ypode-se dizer que todos os seres apresentam uma constituição que os identifica. Tomada cm sentido estrito , a palavra constituição vai revelar o m odo pelo qual um a sociedade
se estrutura basicamente .

Aristóteles conceituava a politeia (Constituição) como a ordem da vida em comum naturalmente existente entre os homens de uma cidade ou de um territó­ rio ou, simplesmente, a ordenação dos poderes do Estado .

74

4 A Constituição

75

Em termos jurídico-políticos, a Constituição é a lei fundamental do Estado, lei que um povo impõe aos que o governam, para garantir-se contra o despotismo destes, conforme doutrina Romagnosi. No dizer dc Manoel Gonçalves Ferreira Filho, a constituição em sentido jurídi­ co pode ser entendida como o “conjunto de regras concernentes à forma do Esta­ do, à forma do governo, ao modo de aquisição c exercício do poder, ao estabelecimen­ to de seus órgãos, aos limites da sua ação” . Ou seja, a base fixada juridicamente da organização política. Segundo Pedro Salvetti Netto, a Constituição política estrutura a organização do Estado, disciplina o exercício do poder político e discrimina a competência para tal exercício, definindo-a como o “conjunto de normas que, estruturando a orga­ nização do Estado, estabelece relações de natureza política entre governantes e go­ vernados” ou, levando-se em conta o advento dos direitos sociais no mundo mo­ derno, o “conjunto de normas que, estruturando a organização do Estado, limita politicamente o exercício do poder e declara os direitos individuais e sociais e suas respectivas garantias” . “ Ubi societas ibi jus”, já dizia Aristóteles, ou seja, onde houver sociedade have­ rá normas dc conduta, haverá Constituição. Da mesma forma que todos os seres têm uma Constituição própria (causa formal), a fortiori a sociedade terá, por sua essência, uma forma de organização. Ser eminentemente social, o homem agrega-se a seus semelhantes organicamente, formando grupos sociais estruturados, sendo in­ concebível, mera abstração, a concepção mecânica da sociedade. Pois bem, as or­ ganizações sociais surgem, inicialmente, no seio da família, do clã, da tribo, até que cheguemos ao Estado, a mais perfeita forma de convivência social. As normas cons­ titutivas das sociedades primárias repousam nos hábitos sociais consagrados pelo tempo. Com o aparecimento do Estado, sociedade necessária dotada de poder so­ berano e voltada para o bem comum, surge a Constituição política. Conforme aduz Pedro Salvetti Netto, não há que se falar em Constituição política antes que o Es­ tado se organize, antes que nele se integrem seus elementos constituintes. Somente quando se verificam tais exigências é que aparece a Constituição política, justamen­ te para, estruturando a organização do Estado, disciplinar o exercício do poder po­ lítico e discriminar a competência para tal exercício. A tendência das sociedades de se estruturarem sob a égide de uma lei funda­ mental surge muito cedo na História humana. Inicialmente, ela tem caráter religio­ so, místico, revelando a vontade divina (mana) sob a forma de tabu, como acentua Viamonte. Tal norma fundamental tem natureza consuetudinária, costumeira, não se apresenta sob a forma escrita. Com maior razão, os gregos já distinguiam as normas jurídicas pela hierar­ quia, classificando-as como leis constitucionais e leis comuns, a exemplo dos roma­ nos, que, ao se referirem à elaboração daquelas, usavam a expressão rem publicam constituere. As leis de Licurgo, em Esparta, de Drácon e de Sólon, em Atenas, são

76

Teoria Geral do Estado

verdadeiras Constituições, imperando sobre as demais normas. Conforme adverte Carlos Sanchez Viamonte, essas leis fundamentais de Licurgo e de Sólon constituem a expressão unificada da vontade nacional em cada caso, e com elas é criada a na­ ção como unidade política e jurídica e atribui-se forma à sociedade e ao governo. Nisso consiste a essência do ato constituinte. No dizer de Pedro Salvetti Netto, as primeiras Constituições sistematicamen­ te codificadas apareceram no século XVII, por influência, segundo alguns autores, das tradições puritanas, cujas normas eram efetivamente escritas e codificadas - os covernants -, destinadas à estruturação da igreja e do culto. Em razão disso, a In­ glaterra foi estruturada, durante o governo do puritano Oliver Cromwell (15991658), por uma Constituição escrita, única em sua História, o Instrument of Go­ vernment, calcada numa doutrina absolutista do poder político, fundada, aliás, no exacerbado puritanismo de Cromwell. Na História constitucional inglesa encontraremos, ainda na Idade Media, pac­ tos, forais e cartas de franquia. Conforme aduz Manoel Gonçalves Ferreira Filho, tais documentos firmaram a ideia de texto escrito destinado ao resguardo de direi­ tos individuais, que a Constituição iria englobar a seu tempo. Tais direitos, contu­ do, prossegue o autor citado, sempre se afirmaram imemoriais, fundados no tem­ po passado, enquanto eram particulares a homens determinados e não apanágio do homem, ou seja, do ser humano enquanto tal. Ainda segundo Manoel Gonçalves Ferreira Filho, próximos dos pactos, de cujo caráter participavam pela sanção real, mas já bem próximos da ideia setecentista de Constituição, situam-se os contratos de colonização, peculiares à História das colônias da América do Norte. Chegados ao Novo Mundo, os peregrinos, mor­ mente puritanos, imbuídos de igualitarismo, não encontrando na nova terra poder estabelecido, fixaram, por mútuo consenso, as regras por que haveriam de se go­ vernar. Os chefes de família firmam, a bordo do Mayflower; o célebre Compact (1620); desse modo, são estabelecidas as Fundamental Orders of Connecticut (1639), mais tarde confirmadas pelo rei Carlos II, que as incorporou à carta outorgada cm 1662. Transparece aí - finaliza - a ideia de estabelecimento e organização do gover­ no pelos próprios governados, que é outro dos pilares da ideia de Constituição. Profunda influência, além da tradição puritana, sobre o advento das Consti­ tuições escritas, vai exercer a doutrina do contrato social, preconizada por Jean-Jacques Rousseau. A cláusula pacta sunt servanda ou pacta quantumcumque nuda servanda sunt, isto é, os contratos devem ser cumpridos pelas partes, peculiar às relações jurídicas de caráter privado, contida na forma escrita e solene exigida, é transportada para o Direito Público, assegurando melhor direitos e deveres de go­ vernantes e governados. Como acentua Pedro Salvetti Netto, a Constituição escri­ ta revela a preocupação de asseverar, em seus artigos, compromissos recíprocos de governantes e súditos.

4 A Constituição

77

Com efeito, adverte Manoel Gonçalves Ferreira Filho que somente no século XV III - o Século das Luzes, daí a expressão Iluminismo - é que se concretizou, na Europa, a ideia de que o homem pode estabelecer a organização do Estado, segun­ do sua vontade, numa Constituição. Antes do Iluminismo, ninguém ousara afirmar que o homem poderia modelar uma organização política segundo um ideal racio­ nalmente estabelecido. Daí reafirmar-se a importância dc Rousseau para a filoso­ fia iluminista e para a Revolução Francesa e, como conseqüência, para a consoli­ dação das Constituições escritas.

2) ESPÉCIES
Bibliografia:
Marcus Cláudio. Constituição da República Federativa do
b is p o

a c q u a v iv a

,

Brasil anotada, São Paulo, Global, 1987. brasileiro, São Paulo, Saraiva, 1981. do, 6. ed., São Paulo, Saraiva, 1984.

,

Luís. Curso de direito constitucional Pedro. Curso de teoria do Esta­

salvetti n e t t o ,

Quanto às espécies dc Constituições, sintetizando as várias classificações exis­ tentes, podemos apresentar o seguinte esquema:

1. Quanto à forma:

escritas

orgameas inorgânicas rígidas

2. Quanto à estabilidade ou I possibilidade de reforma i

sem.rng.das flexíveis

3. Quanto à origem

í

f editadas, também denominadas votadas outorgadas

Vejamos cada uma dessas espécies e subespécies. Inicialmente, as Constitui­

ções escritas. Constituições escritas orgânicas: são aquelas que se acham formalizadas ex­ pressamente em um documento escrito ou em vários. No primeiro caso, teremos as Constituições escritas orgânicas (um só documento); no segundo, as Constituições escritas inorgânicas (várias leis escritas, de natureza constitucional). A origem das Constituições escritas orgânicas encontra-se nos séculos XVII e XVIII, inicialmente por influência dos covenants, documentos escritos que forma­ lizavam os preceitos da religião puritana, na Inglaterra.

78

Teoria Geral do Estado

Depois, já no século XV III, em razão da doutrina do contrato social desen­ volvida por Jean-Jacques Rousseau, que vai inspirar, na França, a ideia de que uma Constituição deve ser, necessariamente, escrita, para maior garantia dos direitos dos governados. As Constituições escritas orgânicas têm a natureza dc uma codificação, isto é, de um corpo único e sistematizado de normas. A Constituição escrita orgânica se acha contida, portanto, em uma única lei. As inorgânicas, porém, não têm forma de uma única lei; com efeito, uma Consti­ tuição escrita inorgânica é formada por várias leis, encontra-se espalhada por inú­ meros diplomas legais de natureza constitucional. Assim, enquanto a Constituição escrita orgânica tem a natureza de uma co­ dificação, a Constituição escrita inorgânica se assemelha muito mais a uma simples compilação, vale dizer, leis dispostas ordenadamente e atualizadas, sem que com isto cada uma dessas perca sua existência autônoma. Dessa ordem é a Constitui­ ção britânica, que muitos autores afirmam ser apenas costumeira. Existiria, entre­ tanto, uma Constituição formada apenas por costumes e nada mais? Isto seria im­ possível. A Constituição britânica se constitui em volumes e mais volumes dc leis e acórdãos. O que a caracteriza não é o fato de não ser escrita, mas sim de não estar sistematizada em um Código; não estar; enfim, codificada. Nem por isso se negue o grande papel desempenhado pelo costume nas Cons­ tituições. Diga-se de passagem que o costume pode influenciar a própria Constitui­ ção escrita orgânica, por exemplo, o caso célebre da reeleição, por uma terceira vez, dos presidentes da República norte-americana. Nos primeiros tempos da vigência da Constituição dos Estados Unidos, o presidente podia candidatar-se à reeleição quantas vezes quisesse. Bastou, contudo, que George Washington e, mais tarde, Thomas Jefferson se recusassem a disputar uma terceira reeleição para que seus su­ cessores não se sentissem encorajados a fazê-lo. Quando, três quartos de séculos mais tarde, Ulysses Grant postulou sua reeleição pela terceira vez, sua candidatu­ ra fracassou. Tempos depois, uma exceção: Theodoro Roosevelt seria reeleito vá­ rias vezes, em face das vicissitudes da situação internacional; entretanto, depois de Roosevelt, a Emenda X X II vetaria, expressamente, o terceiro mandato. Constituições rígidas, semirrígidas e flexíveis: quanto à estabilidade ou possi­ bilidade de reforma, as Constituições podem ser rígidas, semirrígidas e flexíveis. As flexíveis podem ser modificadas sem a exigência de um procedimento mais comple­ xo; assim, uma lei ordinária pode alterá-la; não é preciso um procedimento legis­ lativo mais trabalhoso. Exemplos: as Constituições da Noruega, da França e a Cons­ tituição do antigo Reino da Itália, chamada Estatuto Albertino. Semirrígidas são aquelas que, em parte, podem ser alteradas mediante um pro­ cedimento comum, ordinário, e, em outros artigos, somente por meio de um proce­ dimento mais dificultoso. Exemplo: a Constituição do Império do Brasil, de 1824.

4 A Constituição

79

Finalmente, as Constituições rígidas, assim denominadas porque só podem ser alteradas por intermédio dc um rito legislativo próprio, destinado a dificultar os abusos reformistas. Exemplos: as Constituições dos EUA, da Austrália, da D i­ namarca, da Suíça e do Brasil em vigor. Com efeito, a nossa Constituição só pode ser alterada ou corrigida por via dc emenda (art. 60), sendo que este dispositivo exige seja a proposta firmada por um terço, no mínimo, dos membros da Câmara dos Deputados ou do Senado Federal (art. 60, I), pelo Presidente da República e por mais da metade das Assembléias Legislativas das unidades da Federação, ma­ nifestando-se, cada uma delas, pela maioria relativa de seus membros. Ademais, o § 4° introduz uma cláusula pétrea no tocante a determinados assuntos, cuja disci­ plina jurídica não pode ser, em qualquer hipótese, modificada. Por exemplo, os dis­ positivos do art. 5° sobre direitos e garantias individuais (art. 60, § 4°, IV). Importante notar que a facilidade ou a frequência com que uma Constituição pode ser alterada não depende, apenas, do disposto na lei, mas também de fatores políticos, por exemplo, a predominância desta ou daquela ideologia num dado mo­ mento histórico. Assim, a Constituição suíça, rígida, foi modificada muito mais fre­ quentemente do que a Constituição francesa da III República, cuja alteração de­ pendia apenas de uma sessão conjunta do Parlamento. Ademais, o conceito de Constituição escrita não se confunde com o conceito de Constituição rígida, pois o Estatuto Albertino (Constituição do antigo Reino da Itália), embora escrito, era, como vimos, modificável por via de lei ordinária, por­ tanto, flexível. Constituições outorgadas e Constituições editadas ou votadas: quanto à ori­ gem, as Constituições podem ser outorgadas e editadas, conhecidas estas últimas também como votadas. As outorgadas são impostas à nação pelo próprio agente do poder constituinte originário, sendo, posteriormente, submetidas a referendo popular, pois o povo é, em última análise, o titular do poder político. Exemplos: as Constituições brasileiras de 1824,1891,1937 e 1967. Quanto às Constituições editadas (votadas), são discutidas pelo próprio povo, diretamente ou mediante a eleição de uma assembleia constituinte, formada por re­ presentantes da nação. Em nome desta, a assembleia irá elaborar, com total inde­ pendência, uma nova Constituição. Se não houver independência da constituinte, não se pode falar em Constituição editada. Por exemplo, quando D. Pedro I enviou, logo após a Independência, uma recomendação à Assembleia Constituinte incumbi­ da de elaborar a nova Constituição do Império, Assembleia depois desfeita, exigiu que a nova Lei Magna deveria conservar a dinastia governante e a religião católi­ ca apostólica romana na qualidade de crença oficial do Estado, tolhendo, portan­ to, a liberdade da assembleia, que, por ser constituinte, deveria estar investida de um poder incondicionado.

80

Teoria Geral do Estado

3) CONTEÚDO POLÍTICO DAS CONSTITUIÇÕES
Bibliografia:
Ferdinand. Que é uma Constituição?, São Paulo, Edições e Pu­
m arx

lassalle,

blicações Brasil, 1933.

,

Karl e e n g e l s , Friedrich. O manifesto do partido comu­
salvetti n e t t o ,

nista, 6. ed., São Paulo, Global, 1986. tado, 4. ed., São Paulo, Saraiva, 1981.

Pedro. Curso de teoria do Es­

Uma Constituição não é apenas a mais política, como também a mais pole­ mica das leis. Fundamento da ordem jurídica, dela derivam, por conseqüência, to­ das as demais leis. Por isso, já dizia Ferdinand Lassalle, que a alteração das leis or­ dinárias não desperta, via de regra, a atenção da sociedade, ao passo que a reforma ou a substituição de uma Constituição por outra acarretam comoção social. Daí a constatação evidente de que uma Constituição não é apenas um documento for­ mal, pois que se reveste de um conteúdo ideológico, que espelha ou deve espelhar os fatores de ordem política e econômica que prevalecem no momento de sua ela­ boração. Tal conteúdo varia, portanto, na medida em que mudam as circunstân­ cias históricas. Como acentua Salvetti Netto, a uma Constituição de caráter liberal-democrático, vicejante à época do apogeu do liberalismo político e econômico, jamais ocor­ reria declarar os direitos sociais ou disciplinar as relações entre o capital e o traba­ lho, hoje as grandes preocupações das Constituições em vigor. Assim, uma Constituição, para ser bem entendida, deve ser analisada sob dois pontos de vista: a) como ordenamento jurídico estruturador do Estado; b)como objeto das ideologias que, predominantes num dado momento histó­ rico, são recolhidas pelo legislador constituinte. Pelo menos nos primórdios do movimento conhecido como constitucionalismo, isto é, a aceitação unânime da Constituição como documento escrito, esta cui­ dava apenas da estruturação política do Estado, vale dizer, da forma de Estado, da forma de governo e do regime de governo. No Brasil, por exemplo, a forma de na­ tureza monárquica sucede a dc natureza republicana. Uma Constituição elaborada em disfunção com os valores sociais predomi­ nantes num dado momento nada mais seria que um corpo sem alma, mera folha

de papel. Qualquer Constituição, afirma Lassalle, deve representar a soma dos fatores reais do poder existentes na sociedade. Os fatores reais do poder são essa força ati­ va e eficaz que informa todas as leis e instituições jurídicas da sociedade, determi­ nando que não possam ser, em substância, a não ser tal como elas são.

a organização política da classe dominante. e não no pla­ no do dever ser. Es­ tado e Direito são o produto da divisão da sociedade em classes antagônicas e cons­ tituem um instrumento nas mãos da classe dominante. p. enfim. Para ele. 35. a menos que venham a ser a expressão fiel dos fatores reais do poder. Segundo Lassalle. Na concepção marxista. Estado e Direito são meras superestruturas que se sustentam sobre as relações de produção da sociedade dividida em classes. afirma Lassalle. cujos interesses não reconheciam fron­ teiras estaduais e que eram realmente de âmbito nacional. Lassalle defendeu-se afirmando que sua teoria era desenvolvida 110 plano do que real e efetivamente é. representando a norma suprema da organização estatal. ao passo que o Direito representa a vontade desta classe. Acusado de professar uma doutrina que afirmava o predomínio do poder sobre o direito. e a escrita. duas Constituições num Estado: a real e efe­ tiva. a verdadeira Constituição é a real e efetiva. na verdade. formada pela soma dos fatores reais e efetivos que imperam na sociedade. mas de poder. a maior parte dos membros da Convenção de Fila­ délfia reconhecia que a propriedade tinha direito especial na Constituição. as Constituições escritas não têm valor nem são duráveis. aquela que tem suas raí­ zes nos fatores reais de poder. Para o marxismo. Foi obra de um grupo compacto. contra a lei e será castiga­ do. há. este documento. A doutrina dos fatores reais do poder foi tacitamente comprovada por várias obras de conhecidos autores. não são.4 A Constituição 81 Lassalle é o típico representante da corrente doutrinária denominada socia­ lismo constitucional. mas transmutam-se em direito. A exemplo da concepção de Lassalle. Os problemas constitucionais. desejavam anulá-la. antes de mais nada. 1. como sustentaram. os que. Beard e Harold Laski. por longos tempos. determinada pelas condições da existência material. pro­ blemas de direito. são transformados em uma folha de papel. observados certos procedimentos. qualquer Estado é. Para o marxismo. a Constituição é um produto das relações de produção e visa assegurar os interesses da classe dominante. também a concepção marxista de Cons­ tituição é sociológica. e quem atentar contra eles atentará. primariamente. cm instituições jurídicas. como afirmam os juristas. pura e simplesmente. os fatores reais do poder constituem-se fatores jurí­ dicos quando. v. Em posição antagônica ao sociologismo constitucional de Lassalle e Marx sur­ ge o normativismo metodológico de Flans Kelsen. Esta folha de papel. assim como esta não foi criada por todo o povo. Ruy Bar­ bosa afirmava que “as constituições são conseqüências da irreversível evolução eco­ nômica do mundo”. Em seus Comentários à Constituição Federal brasileira. No surgimento dos EUA. como Charles A. mero documento ou folha de papel. que garan­ te seus interesses de classe. recebendo expressão escrita: a partir de então já não são mais simples fa­ tores reais do poder. estribado numa concepção me­ . só será durável se corresponder à constituição real. no sul. e tampouco pelos Estados.

o poder revolucionário a uma Assembleia Constituinte? Sem o emprego da força. “Golpe de Estado”.82 Teoria Geral do Estado ramente jurídica da Constituição. pareto. a Revolução Francesa (1789) e a socialista russa (1917). soi disant. sem nenhuma pretensão a fundamentações sociológicas. 1986. em nome de uma nova ideologia. in Dicionário de ciências sociais. Embora Kelsen admita que na base do Direito existem dados sociais. quando houve substituição dos governantes. Interessa-nos. soberana. uma realidade social comple­ xa que o explica. Apontam-se. Manual de ciência política e direito constitucional. na revolução. violenta ou não. o emprego efetivo da violência material (vis ma­ terialis) ou coerção nem sempre é necessário. 1986. ele afirma que o estudo de tais fenômenos não compete ao jurista. Fundação Getúlio Vargas/MEC . São Paulo. Erõs. artística e até. por inteiro. sexual. Com efeito. a ordem jurídica vigente. g õ r l it z Bushatsky/Edusp. ju­ rídica. e sim ao so­ ciólogo e ao filósofo. vo l . Axel. Milano. 1972.Fundação de Assistência ao Estudante. erõs. das instituições e dos governantes. 1980. substituin­ do-a por outra. in Dicionário de ciências so­ ciais. S. Para Kelsen a norma constitucional é norma pu­ ra. entretanto. Vilfredo. GOLPE DE ESTADO E INSURREIÇÃO Bibliografia: Marcello. 4) REVOLUÇÃO. Alianza. Direito constitucional comparado. J. Como negar. . Diccionario de ciência política. bem como da forma de Estado (de unitária para federal). econômica. Como exemplo dc revolução não violenta podemos citar a Revolução Re­ publicana do Brasil (1889). o conceito de revolução política. Fundação Getúlio Vargas/MEC . Lisboa. S. na revolução política tudo é subvertido: os governantes são apeados do poder. “Revolução”. Edizioni di Comunim o li n a tà. social ou filosófico. Trattato di sociologia generale. A teoria pura do Direito busca justamente expurgar da ciência jurídica toda classe de juízo de valor moral ou político. caetano. da forma de governo (de monárqui­ ca para republicana) e do regime de governo (de parlamentarista para presidencia­ lista). Tais convicções podem ter a mais variada natureza: política.Fundação de Assistência ao Estudante. Hugo. 1981. devem cur­ var-se. pode esta Assembleia subverter. que a ela. Coimbra Editora. embora a violência psicológica (vis compulsiva) seja inafastável nos movimentos de fato. evidentemente. como exemplos tí­ picos de revoluções violentas. políticas ou filosóficas. J. bem como os próprios governantes. c que também o Direito é inspirado por teorias e princípios filosó­ ficos. Já se vê que. o Direito deve ser concebido estritamente como direito positivo. Esta pode ser definida como a mudança repentina. e as leis que haviam consagrado são substituídas. aponta três correntes moder­ . em verbete intitulado “Revolução”. re . f e r r e ir a f il h o Manoel Gonçalves. M adrid. O termo revolução denomina a mudança brusca e radical de convicções so­ ciais.

e suas concepções têm natureza feudal. que não encontra mais solução 110 modo de produção tradicional. con­ gregando homens de esquerda e liberais-democratas. Para os anarquistas. o termo revolução apresenta um matiz pura­ mente descritivo. toda elite dirigente. diz Pareto. estático. que vêm a ser. mesmo porque as classes possuidoras dos meios de produção estão. precisamente. essencialmente dinâmicas. uma elite que governa e ou­ tra que é governada. afirmando que as re­ voluções constituem etapas do progresso inevitável da Humanidade. em todas as épocas e lugares. tal contradição chega.4 A Constituição 83 nas do estudo da revolução: a progressista ou evolucionária. Isto é inelutável. Contudo. desde que se possa aferir que elas sejam apoiadas por uma camada considerável da coletividade. inevitavelmente. mostrando-se incontroláveis e destrutivas. Para os conservadores. a teoria da revolução deflagrada em nome dos direitos naturais. Para esta corrente. A corrente conservadora mostra-se uma reação à Revolução Francesa. Aqueles. o Estado é dinamizado por dois setores sociais. então. Curiosas se mostram as doutrinas de Karl Marx e Vilfredo Pareto sobre a re­ volução. Temos. tradicionalista. Para ele. é sempre uma mino­ ria que governa e que sabe dar a expressão que deseja à vontade popular. uma revolução não passa da substituição de um déspota por ou­ tro. e as forças de produção. a tensão social. como Proudhon. uma confron­ tação entre o ordenamento social estabelecido. mais preocupados com o incentivo à sublevação das massas contra os déspotas. vale dizer. que ele considera não científica. po­ rém. de forma inevitável. uma parcela de subjetividade. por conseqüência. mostrando mais preocupação com a liberdade individual. a atividade dos grupos sociais e dos partidos. na concepção positivista. Baku­ nin e Kropotkin. teocrática ou monarquista. acarretando o congelamento do desen­ volvimento social e. conhecido sociólogo ítalo-francês que elaborou um ma­ gistral tratado de sociologia. A concepção progressista pontificou no século X IX . todas as revoluções são genuínas. a conservadora e a positivista ou científica. a um ponto crítico. haverá. inte­ ressadas na manutenção do status quo. Tais fatores são objetivos. a somatória dos pequenos benefícios que cada movimento revolu­ cionário irá incorporar às conquistas sociais acarretará. rumo ao igualitarismo. . manifestações de regressão à mentalidade primitiva. as ferramentas correspondentes (for­ ças de produção) e as relações de fortuna e trabalho (relações de produção). na revolução. necessariamente. felizmente. Fi­ nalmente. sem qualquer conotação ideológica. Com ou sem sufrágio universal. a vitória da igualdade no mundo. veementemente. as revoluções são meras explorações dos sentimentos populares. surgem movimentos tendentes a estabelecer uma nova ordem. segundo Lenin. Isto só pode levar a uma solução revolucionária. A conjunção de todos estes fatores acarreta a re­ volução. Com efeito. da confrontação entre classes sociais. Marx nega. estes. No dizer de Pareto. a revolução surge. Ora. Quando a elite dirigente se torna esclerosada e corrompida. como resultado da con­ tradição entre as possibilidades de trabalho.

A insurreição pode não alcançar as instituições. realizando obra tão interessante como a destruição de anim ais daninhos. Constitui. revolta 011 pronunciamento (do espanhol pronunciamiento) são as várias denominações que toma a manifestação das Forças Armadas. comece a confiar mais na astúcia do que na força. por definição. tudo isso faz com que a elite dirigente. na revolução ou na insurreição a principal finalidade é substituí-los. por isso. substituindo a ideologia dominante e criando um novo ordenamento jurídico. desde logo. impondo à Nação uma carta constitucional de caráter autoritário. O golpista ou golpistas contam. a usurpação. a agita­ ção política e a intranqüilidade social. alterando a estrutura social. põe abaixo o ordenamento corrompido. como exemplo típico de golpe de Estado. entretanto.84 Teoria Geral do Estado inicialmente jovem e vigorosa. enfim. então. com a finalidade de permanecerem no exercício do poder. consoante advertência de Hugo Revol Molina. pois as primeiras ações e decisões do grupo que . Assim. uma classe ou partido. Podemos citar. cheia de ideais. a insurrei­ ção de março de 1964 -. desde logo. quase sempre. Quanto ao golpe de Estado. com o fito de mu­ dar o regime político. com o apoio dc uma par­ cela considerável das Forças Armadas para o reforço de seu poder. do Ju­ diciário.. invariavelmente. a influência de fatores negativos. casta e portadora de novos ideais. quando um movimento político repentino é um golpe de Estado ou uma revolução. com o apoio ou não das Forças Armadas. pela manifestação violenta de for­ ças sociais estranhas à organização do Estado. o abrandamento dos costumes. que. a ideologia dominante. a outorga da Constituição de 1937. e antecipando-se a uma possível tentativa insurrecional por parte de uma pequena facção das For­ ças Armadas. a própria ordem constitucional. no Brasil. o mo­ mento propício ao surgimento de uma nova elite dirigente.. as leis e instituições e o pessoal gover­ nante. imposta pelos próprios governantes. pressionado pelos litígios partidários. como a corrupção econômica. É chegado. o caudilho antecipou-se a qualquer tentativa deste naipe. a fim de substi­ tuí-los ou lhes impor orientação política diversa. mas a revolução atinge. no mais das vezes. contra os governantes. pode ficar difícil para o analista estabelecer. É a massa. ate. Insurreição. a qual instaurou o chamado Estado Novo. já a par de sua própria debilidade. Desta forma. rebelião. se pelo golpe de Estado os governantes pretendem manter-se no poder e. Ao perceber que seu po­ der começava a esmaecer. pelo Poder Executivo. traz consigo o vigor e a coragem dos leões. alteram as instituições neste sentido. das prerrogativas do Legislativo e. A revolução caracteriza-se. e reforçou bruscamente o seu poder. os governantes de leões fazem-se raposas. ao estahlishment. pois visa apenas à derrubada dos governantes . a ascendência de demagogos e pacifistas. vem a ser a substituição de alguns ou de todos os pressupostos da ordem jurídica vigente. apoiadas ou não em outras forças sociais.por exemplo. por Getúlio Vargas. Seja como for.

a maioria das ações desse tipo.4 A Constituição 85 toma o poder político resumem-se. via de regra. resumiu-se a meros golpes de Es­ tado. . mediante uma ação apoiada na violência ou na ameaça desta. qualifi­ quem sua posterior ação governamental como revolução. não obstante as manifestações verbais que as acompanharam. Dessa forma. che­ gam ao poder. salvo raras exceções. na América Latina. a medidas destinadas a consolidar a posição alcançada. A diferença entre golpe dc Estado e revolução somente pode ser es­ tabelecida ex post facto. embora os grupos que. ocorridas no século X X . a análise sociológico-política encarada sob uma perspectiva histórica permitiu mostrar que.

aci­ dental e involuntariamente. Curso de teoria do Estado. Saraiva. sendo a União des­ tituída de personalidade jurídica internacional.. em face do declínio da forma monárquica de governo. mera figura histó­ rica. 86 . Forense. decorrendo de mera coincidência na or­ dem sucessória dinástica. 6. c) inexiste fundamento jurídico unitário entre os Estados par­ ticipantes da união. Ciência política. A união pessoal: a) é casual. constitui. Alemanha e Espanha (1519-1556). em que. salvetti n e t t o . Curso de teoria do Estado. 1986. 6.FORMAS DE ESTADO 1) UNIÃO PESSOAL Bibliografia: Paulo. Ciência política. tornando-se o titular comum do poder em F^stados que preservam sua soberania. Pedro.. ed. as leis de sucessão monárquica ensejam a coincidência de um só príncipe ocupar dois tronos. SALVETTI n e t t o . 1986. assim como a união real. 2) UNIÃO REAL Bibliografia: b o n a v i d e s . b o n a v id e s . 1986. Rio de Janeiro. Rio de Janeiro. Pedro. A união pessoal. b) é transitória. os quais mantêm incólume sua soberania. hoje. Constituem exemplos históricos de uniões pessoais: Espanha e Portugal (1580-1640). 1986. A união pessoal de Estados vem a ser uma espécie de federação. Inglaterra e Hanovcr (1714-1837). Saraiva. ed. Paulo. Forense. São Paulo. São Paulo. pois cessa o vínculo com a extinção da dinastia imperante. fortuita.

pela caducidade dos tratados ou pelo desaparecimento da dinastia governante. como rei da Hungria. quando a Áustria e a Hungria se agregaram sob a autoridade de Francisco José. 6. m a Mariano. embora dotada de descentralização meramente administrativa. ras. 1986. da união de Estados em torno de um objetivo comum (res). as formas compostas de Estado correspondem às federações. - Sahid. Teoria geral do Estado. e Carlos IV. Cumpre ressaltar que o adjetivo real atribuído à união não se refere. luf. mas a uma coisa (res)yum objetivo concreto. que são: a união pessoal. Las constituciones europeas. b o n a v id e s . e adota-se a mesma política ex­ terna. A união real: a) não cria um novo Estado. Preleciona Sahid M aluf que o Estado unitário é aquele que apresenta uma or­ ganização política singular. Essa forma de Estado mostra-se politicamente cen­ tralizada. sem divisões internas que não sejam simplesmente de ordem administrativa. Nacional. Este monarca chamava-se Carlos I.5 Formas de Estado 87 A união real de Estados é uma espécie de federação consistente na celebração. d) exclui administração uniforme e nacionalidade pró­ pria. O poder central irradia-se por todo o território.. Ciência política. Bosch. 2. do qual trataremos a se­ guir. No di­ zer de Jorge Xifra Heras. 13. x if r a saliie - V E T O NETTO. com um governo único de plena jurisdição nacional. admitindo administração comum e economia societária. A for­ ma simples de Estado é representada pelo Estado unitário. consciente e voluntária. 3) ESTADO UNITÁRIO Bibliografia: daranas. limitando-se a formar uma união de Estados. Madrid. h) as relações entre dois Estados da união real são relações in­ ternacionais. sem limitações de natureza política. pela unicidade do poder. Estados contíguos. 1962. e) sua duração pode ser permanente ou transitória. g) o governante e seus ministros não atuam como representantes de cada Es­ tado participante. Carac­ teriza-se o Estado unitário. Constituem exemplos de uniões reais: Suécia c Noruega (1815-1905). Saraiva. Curso de derecbo constitucional Barcelona.. Paulo. Vejamos o Estado unitário. v. portanto. São Paulo. na quali­ dade dc Imperador da Áustria. Curso de teoria do Estado. Pedro. por via de regra. Im­ pério Austro-Hungaro (1867-1918). Sugestões Literárias. Jorge. São Paulo. Forense. 1979. a confederação de Estados e o Estado federal. Rio de Janeiro. um Estado chama-se unitário quando suas instituições de . cd. f) criam-se exército e marinha comuns. a rei. podendo dissolver-se por acordo entre os Estados participantes. Dinamarca e Islândia (de 1815 até a deflagração da Segunda Grande Guerra). c) a soberania de cada Estado permanece intacta. 1986. cd. 2. b) abrange. 1982. v. As formas de Estado podem ser resumidas a duas: simples e compostas. necessaria­ mente. monarca. a união real.

temos a dependência dos órgãos descentraliza­ dos quanto ao Estado unitário. não como poder originário ou de auto-organização (self-government). Fenômeno intimamente ligado ao Estado unitário. observa-se que o Estado unitário desconcentrado divide-se em departamentos e comunas. como mera delegação do poder central. Não se confundem. que permitiu a cada província eleger suas próprias assembleias legislativas. sem qualquer autonomia. no Estado unitário. no caso do Estado federal. permanentemente. A forma política unitária corresponde a uma exigência natural. complementada pela Lei de 3 de outubro do mesmo ano. de centralização concentrada. dotada de leis próprias. portanto. porém. neste. somente durante o Império tivemos como forma de Estado a unitária. e que empolga. a própria confusão entre Estado unitário e Estado federal. Análoga é a distin­ ção. até 1834. chamada Ato Adicional. é delegado. de modo que não passam de simples cumpridores dessas determinações.. embora a Constituição ita­ liana proclame. já se observa certo grau de competência atribuído aos agen­ tes periféricos do poder. promoveu-se alguma descentralização política. O problema surge quando se trata de estabelecer o grau ou intensidade desta unidade. Por via de regra. mediante a Lei de 12 de agosto. a região é uma entidade orgânica dc caráter histórico. to­ dos os cidadãos estão sujeitos a uma autoridade única. confere às regiões a mais ampla autonomia político-administrativa (arts. não é tarefa das mais fá­ ceis caracterizar este Estado como unitário. tende à unidade. Com efeito. 115 e 1 17). é o regionalismo. sempre válida. O poder. por vezes. que marcou as atribuições dos presiden­ tes das províncias.88 Teoria Geral do Estado governo constituem um único centro de impulsão política. Na centralização concentrada. quando. desde a promulgação da Constituição de 1824. na Itália. Se a centralização política c a des­ centralização administrativa são as características marcantes do Estado unitário. tudo. Na centralização desconcentrada. ao mesmo regime constitu­ cional e a uma ordem jurídica comum. . não autônomo . no art. unidade lingüística e até racial. a referida centralização desconcentrada e a descentralização propriamente dita. Assim. que go­ zam de relativa autonomia quanto aos serviços dc seu interesse. por outro lado. a independência desses mesmos órgãos. ao passo que nesta os órgãos descentralizados atuam em nome da entidade secundária da qual se originam. porque naquela os agentes atuam em nome do próprio Estado. como sociedade necessária. No Estado unitário. entre centrali­ zação concentrada e centralização desconcentrada. embora persista a dependência hierárquica. porém. ain­ da aqui. 5°. tanto no que fazer quanto no como fazer. porquanto. que enseja. os agentes das entidades administrativas são meros núncios das decisões do poder central. ser a Itália uma república una e indivisível. Quanto ao Brasil. estruturada sob uma or­ dem e um objetivo social. a doutrina. a ponto de algumas regiões dc Estados unitários demonstrarem maior unidade do que certos Estados federais. entre Estado unitário descentralizado e Estado federal aponta­ da por Paulo Bonavides: naquele. a verdade é que a moderna doutrina já distingue. O Estado.

São Paulo. construção permitida na língua inglesa graças ao artigo invariável: “ The Uni­ ted States /s. 1979. Madrid. Daí a tradicional epígrafe Estados Unidos da América.. fer­ Mariano. . terárias. Nacional.5 Formas de Estado 89 4) ESTADO FEDERAL Bibliografia: daranas. maluf. 2. oportunamente. . 1962. que resultou no aparecimento dos Estados Unidos da América do Norte. souza . r e ir a f il iio b o n a v id e s . Era um Estado constituído por Estados que se haviam federalizado. 2. então. Refulgem. e o Congresso. ed. v. Por outro lado. no clássico O federalista. José Pedro Galvão de. Jorge. levando George Washington a dizer: “A Confederação não passa de uma sombra sem substância. em virtude das circunstâncias históricas. Esta forma de Estado constitui uma espécie do gênero federação. Madison e Jay. os memoráveis escritos de três jornalistas: Hamilton. Como lembra. reunida. São Paulo. Las constituciones europeas.. 6. Saraiva. Surgiu com a Revolução norte-americana do século XVIII. mostravam-se frágeis neste tipo de união. inicialmente unidas em confederação. a partir de então o Estado era um só. e logo a Constituição terminou por ser ratificada pelos Estados. As treze colônias vitoriosas sobre o domínio inglês. mediante a Constituição de 1787. como assinala Pedro Salvetti Netto. Tal doutrina calou fundo na opinião pública. de um ór­ gão inútil” .. Paulo.. na célebre Convenção da Filadélfia. Bosch. de modo que se exauriam os cofres daquela. Não mais os treze Estados de logo após a Independência. Não assim no caso brasileiro. Rio dc Janeiro. pois. Como assinala José Pedro Galvão de Souza. empenhada cm gravames financeiros para sustentar a frágil união.. Os doutrinadores norte-americanos que inicialmente cos­ tumavam dizer: “ The United States are. de 1777. Forense. 1982. conforme estabelecido no documento chamado Artigos de Confederação. o autor citado: o nome do Estado aplicado a uma entidade não soberana explica-se. 1986. heras... que exigiram fosse man­ tida a denominação Estado para cada uma das colônias integrantes do pacto fede­ rativo. Sahid. 13. cd. Curso de direito constitucional 16. Ciência política. A situação mostrava-se insustentável. 1986. Saraiva. salvetti n e t t o . proibia-se à Con­ federação impor tributos aos Estados confederados. Para solucionar o impasse. v. no caso norte-americano. São Paulo. ed.”.” acabaram por empregar o verbo no sin­ gular. Sugestões Li­ Pedro. reuniram-se os representantes dos Estados confederados para rever os Artigos de Confederação. Iniciação à teoria do Estado. Curso de teoria do Estado. 1976. 1987. São Paulo.ed. Teoria geral do Estado. que consolidaram a doutrina do federalismo. posteriormente. que esclarece a natureza e as vantagens do Estado federal. 2.. Manoel Gonçalves. Curso de dereebo constitucional Bar­ Revista dos Tribunais. x i f r a celona.

o Estado federal não se confunde com a confederação. sem poder interferir na competência das demais entidades federadas. Tal po­ der chama-se autonomia (do grego. chegou-se ao Estado federal partindo da unidade para a multiplicidade. vale dizer. 23. e dos municípios (CF. as entidades interventoras não atuam em nome próprio. Pois bem. p. 21 c 22). incondicionado. A Argentina. 1°. deflagrada nos Estados Uni­ dos da América do Norte entre 1861 e 1865. entidades políticas dotadas de poder soberano. art. não são dotadas de soberania. o poder de se separar da União. em proveito do próprio Esta­ do federal. da Constituição . com ressalva da competência comum (CF. arts. embora dotadas de capacidade de auto-organização e de autoadministração. através dc uma confederação em seguida à qual surgiu o Estado federal. tal foi o furor imitativo dos primeiros homens da República. salvo a malograda e efêmera experiên­ cia das capitanias. adota a denominação pro­ víncias para as unidades federadas. ainda aqui. porque esta é formada por Estados propriamente ditos. como se observa do art. é a unidade básica do Estado federal. Tanto no caso do Brasil como no da Argentina. 25. 21. ao passo que no Estado federal os Estados-Membros renunciam ou são despojados de sua soberania. o Estado federal é uma espécie de federação. arts. composta por unida­ des que. Tem suas próprias competências (CF. sempre. V. submeten­ do-se a uma Constituição que lhes proíbe o direito de secessão. O Estado-Membro ou Estado federado. art. Os Estados-Mcmbros passam a dispor de mera autonomia. para usar a terminologia da própria Constituição. cm 1788. é a pessoa jurídica de direito público que representa o Esta­ do federal. e destes nos municípios (CF. quando a Carolina do Sul separou-se da União. sendo dotado do poder de auto-organizar-se e dc autoadministrar-se limitado pela Constituição Federal. 62) Fato curioso é que o Estado dc Nova Iorque somente ratificou a Constituição norte-americana após um ano da vigência desta. seguida nesta atitude por outros Estados-Mcmbros. cada qual dentro de seu campo de ação. A doutrina clássica é taxativa: os Estados federados não têm o direito de secessão. É célebre a Guerra da Secessão. e 34).90 Teoria Geral do Estado quando se começou a chamar de Estados as antigas províncias do Império. submetendo-se a uma Constituição Federal. (Iniciação à teoria do Estado. desde os primórdios da colonização. isto é. Quanto à União. Um Estado só havia sido. Vale lembrar. mas. 30).145 e 155) e da intervenção federal da União nos Estados-Membros (CF. que a intervenção federal é uma exceção à re­ gra da não intervenção. Com efeito. aliás. caput. 35). art. apesar de Estado federal. vale dizer. § 1°). e sim com vistas à integridade do próprio Estado federal como um todo. arts. representado pela União. o direito de se separarem da União. ao passo que no caso dos Estados Unidos partiu-se da unidade para chegar à unidade. o Brasil. autos = por si só + nomos = norma) e se sub­ mete ao poder soberano do Estado federal. a par da competên­ cia dos Estados-Membros (CF. 34. como se percebe do texto do art.

V) nos ca­ sos do art. admitia. a intervenção é exceção. 1°. caput. Em qualquer caso. art. expressamente. 155). Se a União pode intervir no Estado federa­ do. Seção 3a. tam­ bém. 34. o poder de se separar da União (art.1891. X IX .5 Formas de Estado 91 Federal. ao Distrito Federal (art. e 84. arts. ficam constituindo os Estados Unidos do Brasil”. na expressão união indissolúvel nele constante. reunidas pelo laço da federação.a República Federativa”. 25. 46. I o estabelece: “ Fica proclamada proviso­ riamente e decretada como a forma de governo da nação brasileira . art. 3 4 . estando submetido. 155) e aos municípios (art. X X e XXII). o Estado federado é entidade integrante do Es­ tado federal (CF. no art. vale dizer. 1°. sob pena de inconstitucionalidade. promovida pela União (art. 72. . 25. a intervenção é exceção. A forma federativa de Estado surge no Brasil com o advento da República (Decreto n. No caso específico do Brasil. à Constituição Federal. em vez de duas. e 34). VII. ca­ put). com ressalva. de 24.1). qualquer tentati­ va separatista será tolhida pela intervenção federal (art. este pode intervir no município (art. Qualquer tentativa de se­ paração ensejará a intervenção federal. intervir nos seus municípios (art. art. no qual cada Estado federado e o Distrito Federal contam com três senadores (art. Concluindo: no Estado federal brasileiro. 23). e o art. que. mas em qualquer caso. 17° Aditamen­ to ao texto). mediante o Senado Federal (CF. porém. 21. como já foi visto.11. A Constituição Federal assegura a autonomia política e financeira dos Esta­ dos federados ao longo de vários artigos. 25) sem a necessária autonomia financeira (art. 1. pes­ soa jurídica de direito público (arts.1. 35). caput). 2o. da URSS”. livremente. Tal po­ der de auto-organização chama-se autonomia. art. a dos Estados federados e a dos municípios. 35). dotado de poder de auto-organização (art. I o. limitado pela Constituição Federal (arts. Nenhuma dessas entidades federadas poderá invadir a competência das demais. pois de nada valeria a autonomia políti­ ca (art. como vimos. VIII. O Estado federado pode. da competência comum a todos (CF. caput. I o e 2o. como se deduz. $ I o). cujo art. sendo o próprio Estado Federal representado pela União. concedida esta. por sua vez. que “cada república da União conserva o direi­ to de se separar. A doutrina clássica é taxativa: os Estados federados não têm o direito de se­ cessão. não regra. jamais regra. A exemplo da federação norte-americana (Constituição dos EUA. Exceção ao princípio da indissolubilidade do Estado federal nos dava a extin­ ta Constituição soviética de 1977. 2 1 . 46). 1°.1889). caput). 2°: “As províncias do Brasil. de 15. o Estado federal brasileiro conta com a participação dos Estados fe­ derados na formação da vontade nacional. há três ordens de competências: a da União.02. como vimos. parte final. Tal orientação será definitiva­ mente confirmada com a primeira Constituição republicana. ao estruturar o Estado federal socialista. 156).

IV . assim dispõe o art. aos Estados federados. III . ou formarem novos Estados ou Territórios Federais. subdividir-se ou desmembrar-se para se anexarem a outros. excluídas aquelas sob do­ mínio da União. emergentes e em depósito.as terras devolutas não compreendidas entre as da União. mediante aprovação da população diretamente interessada. I o. a Constituição confere. A Constituição Federal aponta. autonomia financeira (art. 155). 26. nas ilhas oceânicas c costeiras. como bens dos Estados federados: I .as águas superficiais ou subterrâneas. ressalva­ das. A par da autonomia política. II . § 3°. 18. no art.92 Teoria Geral do Estado claramente. Municípios ou terceiros. do teor dos arts. através de plebiscito. art. a federação brasileira prevê a participação dos Estados federados na formação da vontade nacional. Quanto à criação de novos Estados federados. por intermédio do Senado Fe­ deral (art. Se­ ção 3a e 17° Aditamento ao texto). que estiverem no seu domínio. por lei complementar. fluentes. da Constituição: Os Estados podem incorporar-se entre si.as ilhas fluviais c lacustres não perten­ centes à União. 34 e 35. . 46). e do Congres­ so Nacional. A exemplo dos Es­ tados Unidos da América (Constituição dos Estados Unidos da América. na forma da lei.as áreas. neste caso. as decorrentes dc obras da União.

Centro de Estúdios Constitucionar o b in Léon. a M onarquia. Inquérito. Plus Ultra. Se este é centralizado ou centrípeto. . v. de nítida descentralização político-administrativa. I. Buenos Aires. Centro de Estúdios Constitucionales.1) Platão (Arístocles) Bibliografia: Segundo V. 1981. 1976. teremos o Estado federal. Madrid. Sistemas cie partidos y sistemas políticos. se é descentralizado ou centrífu­ go. ocorre-nos a sugestiva tirada do poeta inglês Percy B. e Las leyes. em cada form a de governo democrática desenvolve-se um relacionamento peculiar entre as funções executiva c legislativa. Lisboa.FORMAS DE GOVERNO 1) CLASSIFICAÇÕES ANTIGAS E MODERNAS 1. Na série de classificações de formas de governo que ora iniciamos. No primeiro caso. Em face disso. dc modo que esta expressão afere qual ór­ gão exerce a função governamental. I. . les. Ora. A expressão form a de Estado indica a maior ou menor irradiação do po­ der político. p l a t Ão l in a r e s q u in t a n a . La República. Quis este famoso literato enfatizar a importância da herança cultural helêni93 . form a de governo e regime de governo . Platão. É imperioso distinguir entre form a de Estado. teremos como forma de governo a República. Tal relaciona­ mento é chamado regime de governo. Adolfo Casais Monteiro. v. caracte­ rizado pela centralização político-adm inistrativa. temos o Estado unitário. no segundo. trad. Madrid. as expressões Estado unitário e Estado federal indicam formas de Esta­ do . Shelley (1792-1822): “Somos todos gre­ gos”. Já a expressão form a de governo revela se o poder é exercido temporária ou vitaliciamente.

ex­ pressão que passou a designar as sociedades científicas. com a tomada de Atenas por Lisandro. democracia (dc demos. no que são impedidos pelos militares. colocação à qual aderimos sem hesitar. Todavia. Por isso.94 Teoria Geral do Estado ca.). povo. as Constituições políticas abundam e as boas leis são desprezadas.C. Assim: timocracia (de tim os. viajando pelo Egito . então.C.) e mestre de Aristóteles (384-322 a. Tudo isso leva à tirania. A timocracia. honra. Denis o ex­ pulsou da cidade. Incomodado.. de modo que logo a desordem campeia irrefreada. oligarquia (de oligoi. sendo o dinheiro. Da aristocracia (de aristoi.. partem. começaremos este tópico com um panorama das ideias de Platão (429-347 a. e kratos . quando concluía sua obra As leis. conhecida como o parque do herói Academus. Tal situação insustentável vem abai­ xo quando se instala a democracia.do qual tornou-se grande conhecedor . evocando o termo om oplata ). a aceitar as ideias que expôs no Livro Quinto de sua obra D a república. . também ocorrem graves disfunções sociais. Em 387 a. literárias ou esportivas. favorecendo a ascensão política de Platão. por sua vez. aos 82 anos dc idade.. a aristocracia chega ao poder. Na timo­ cracia surge agudo conflito entre o bem e o mal. fundado num determinismo inafastável. parente do grande legislador Sólon. que passam a exercer o poder oprimindo aqueles a quem deveriam proteção. a escola platônica foi denominada Academia. Surge a timocracia quando indivíduos de condição social inferior enriquecem e tentam chegar ao poder pela astúcia. forma que considera a melhor de todas. considerados perigosos para a nova ordem. poucos. pelo sangue materno. Em 404 a. numa seqüência inevitável. desiludido com a condena­ ção de Sócrates. Platão. discípulo de Sócrates (470-399 a.C.). quando. degenera em oligarquia. tentou persuadir o tirano Denis. às suas expensas. poder).C. com a conseqüente ascensão da massa. sendo. outras formas. pois além dos ricos são banidos os sábios. A corrupção cam­ peia. forma em que os ricos são expulsos do poder. Em Siracusa. uma mino­ ria abastada impõe sua arrogância a toda a sociedade. e kratos. descrê da organização política tradicional de sua pátria. Platão fundou sua própria escola. cujo verdadeiro nome era Arístocles (o apelido derivou do fato de este filósofo ter as espáduas largas. melhores. nos arredores dc Ate­ nas. o Antigo. pois a liberdade tornada licenciosa só pode levar à escravidão. a única chave para as portas da ascensão social e política. pertencia a uma famí­ lia aristocrática.C. poder) e tirania . mesclando-se uma sã filosofia dc vida com a sede crescente de honras e bens materiais. enaltecendo o valor dos filó­ sofos e criticando a frivolidade e a devassidão da corte. e kratos. secunda­ do pela corrupção.C. No livro D a república. entretanto.e pela Mag­ na Grécia. e arche. gover­ no). Platão idealiza um processo dinâmico de rodízio das formas de governo. numa bela propriedade arborizada e regada por nascentes. Em homenagem a Academus. implantando-se a mais grosseira mediocridade. Platão morreu em 347 a. que revela seu pensamento definitivo. em meio à qual se eleva­ va um ginásio. Dedica-se à filosofia. poder) ou autocracia militar.

. barker. sendo cognominado o Grande ou Alexandre Mag­ no. dois critérios: o critério numérico. Centro de Estúdios Constitucionales. e arche.). e a democracia à obe­ diência. senhor de vasto império. porém igualmente le­ gítimos: a autoridade e a liberdade.d. Então afirma existirem. Las luchas de clases en el mundo grie- go antiguo. Em As leis. Aristóteles correspondeu por inteiro à expectativa do pai. até. Editorial Crítica. E. Aristóteles (384-322 a. nem liberdade excessivos. de. Aristóteles teve oportunidade de visitar e estudar cerca de 150 Constituições de po­ vos diversos. conta-se. 1947. graças às suas conquistas mi­ litares. já não pretende descrever um Estado ideal. Reunindo este valioso material em obra notável. The political thought of Plato and Aristotle. Bologna. Era um típico aristocrata. Política. 1983. levando em conta o intuito de o governante ou gover­ nantes administrarem visando ao interesse geral ou ao benefício pessoal. numa combinação harmoniosa de princípios opos­ tos. e o critério moral. para tanto. Cada uma dessas duas formas de governo só subsiste se faz concessões à outra: a monarquia à liberdade. 1976. New York. Dover Publications. adotando. duas formas de governo: a monarquia c a democracia. Platão mostra-se mais realista. Plus Ultra. c r o ix G. . discípulo de Platão. Quanto ao número de pessoas a exercer o poder (critério numérico). era natural da Macedônia. não se configuram nem poder. em que haveria. Platão se antecipa a muitas classificações posteriores. governo). ste.C. E. intitulada Política. con­ terrâneo de Filipe e do filho deste. 1988. que soube dar ao filho refinada formação intelectual. Barcelona.6 Formas de governo 95 Na obra As leis. ao preconizar uma forma mis­ ta de governo. Zanichelli. M. pelo qual classificou tais formas em puras e impuras. mas aquele que mais se coadune com a praxe política. formulou sua célebre classificação das formas de governo. fundadas em princípios opostos. l in a r e s q u in t a n a Segundo V. Sistemas de partidos y sistemas políticos. chamado monarquia (de monos. teria dito: “Hoje a inteligência faltou!”. seu mestre Platão. Depois de estudar durante vinte anos com Platão. foi encarregado por Filipe da Macedônia de educar Alexandre. Assim. fi­ lho de um médico abastado. s. Acompanhando seu discípulo nas expedições que caracterizaram a vida deste. fundamentalmente. Buenos . 1.2) Aristóteles Bibliografia: A r i s t ó t e l e s . um. Alexandre Magno. um equilíbrio de forças políticas antagônicas. ao observar os alunos presen­ tes e constatar a ausência de Aristóteles. com o qual classificou tais formas consoante o número de indivíduos que governam. que se tornaria. temos o governo de um apenas. porque mais maduro. Aires. e La política (passi scelti e commentati da Giuseppe Saitta). que num dia em que faltou à aula. Nicômaco. Madrid.

cujas formas corrompidas são a democracia (de demos. ou tirania. quando é exercido no próprio interesse do governante. tem sentido original bem diferente do atual. graças a uma empolgante e astuta oratória. Finalmente. as multidões desorganizadas. forma pura .96 Teoria Geral do Estado quando o poder é exercido no interesse geral. em que os pobres governam no próprio interesse. surge a oligarquia (de oligoi. poucos. temos a aristo­ cracia (de aristoi. Sendo o poder exercido por uma minoria no interesse geral. governo). povo. em que predominam as paixões e a desordem . cor­ rupção da aristocracia. porem. ou a demagogia (de demos. poder). e arche. levadas à deriva por aven­ tureiros inescrupulosos. sendo as massas. povo. e agost orador). visando tão somente seu próprio be­ nefício. situação gravíssima em que todos se julgam aptos a governar. podemos esquematizar as formas de governo aristotélicas assim: Critério numérico (Leva-se em conta o número dc pessoas que governam) Monarquia: governo de um Aristocracia: governo de poucos Politeia: governo de muitos Tirania: governo de um Oligarquia: governo de poucos Democracia: governo de muitos Demagogia: governo de todos Critério moral (Leva-se cm conta a intenção dos que governam) • Formas puras Monarquia: governo de um no interesse geral Aristocracia: governo de poucos no interesse geral Politeia: governo de muitos no interesse geral • Formas impuras Tirania: governo de um no interesse pessoal Oligarquia: governo de poucos no próprio interesse Democracia: governo de muitos no próprio interesse Demagogia: governo de todos. termo que. como se vê. quando o poder é exercido por muitos no interesse de todos. sur­ ge a politeia . poder). portanto. melhores. e kratos. forma impura. Em face do exposto. e kratos. quando a minoria dominante se sustenta na força do dinheiro ou na hereditariedade.

embora afetado em alguns pontos por naturais deficiências. líticas. a subversão atua apenas contra a minoria oligárquica. obtendo a proteção dos Cipiões. lançou-se à empre­ sa de escrever a história deste período da civilização romana. cit.6 Formas de governo 97 Aristóteles não propende. 1988. Embora bem-nascido e exercesse importante papel durante a guerra entre Roma e a Macedônia (171 a 168 a. Livro III. Em sua obra (da qual. 1973. ao passo que. a monarquia é. Barcelona. Sistemas de partidos y sistemas políticos. ao comandar a cavalaria da liga aqueia. viajou e escreveu livremente. num total de quarenta.C. 1976. Impressionado com a organização da República romana.. 1. em menos de duas gerações. ste. a forma ideal de governo. Presença. forma cm que predomina a classe média e que tem mais afinidades com a democracia do que com a oligarquia.C. a própria democracia é mais estável que a oligarquia. na democracia. Políbio (205-125 a. Editorial Crítica. 1. Ele afirma que cada Estado deve adotar a forma de governo que mais se coa­ dune com suas peculiaridades. Seu trabalho. G. identificando na sadia concepção e organização da ordem jurídico-política a razão maior de seu sucesso. diretamente. Muntaner. pois a aspiração maior do rei é a virtude. v. de m e g a l ó p o l is l in a r e s q u in t a n a . Todavia. a monarquia é mais suscetí­ vel de corrupção. Capítulo I). porque nos regimes oligárquicos a revolução pode operar contra os próprios governantes ou contra o povo. Sc. E. Lisboa. seu talento logo foi percebido nos altos círculos dc Roma e. p o l íb io . . Buenos Aires. foi conduzido à condição de escravo após o conflito. acha-se estribado em séria e copiosa documentação.3) Políbio de M egalópolis Bibliografia: Segundo V. na prática. na teoria. Capítulo V). M . Livro VIII. por um lado. . Barcelona. é também a mais estável de todas estas formas de governo ( Política . de. Iberia. Historia universal duran­ Mareei. As doutrinas po­ te Ia república romana.). Plus Ultra. Por outro lado. porque a virtude e o poder raramente andam juntos. e a politeia. para esta ou aquela forma pura de go­ verno. mais precisamente de Megalópolis. Natural da Arcádia. restaram os primeiros cinco li­ vros e anotações dos Livros I e XIII) tentou explicar como Roma. até porque a melhor forma de governo é aquela que tem os melhores governantes (Política .) foi um historiador grego que recebeu profunda influência das instituições romanas de seu tempo. conquistou o mundo conhecido na época. Um povo jamais se volta contra si próprio. sendo-lhe conferida a administração da Acaia. La Incha de clases en el mundo griego antiguo. enquanto a do tirano é o prazer. c r o ix prélot.

se tais formas são as únicas ou as melhores. em que o povo se torna insolente e menospreza as leis. Como exemplo de Constituição política deste tipo.98 Teoria Geral do Estado Assim como Aristóteles. continua Políbio. sendo que o governo pode ser exercido por uma.a m elhor form a de governo é aquela que sintetiza as virtudes das demais. cit. e kratos. Seria dc sc perguntar. só pode trazer bons resultados. fazer-se passar por reis. cit.. perfeitamente equilibrado. Em relação aos cônsules (magistrados eleitos anualmente que. pois. O governo de um ou monarquia estabele­ ceu-se sem arte. as três formas puras de governo não são as únicas. como se disse. há muitos Estados governados por uma minoria. ou a oclocracia (de o cios. embora monarcas e tiranos procurem. Haverá democracia onde tais senti­ mentos prevalecerem (H istória . por natureza governo de pou­ cos. tal sistema misto. respeita os pais. na Lacedemônia. Livro VI. a aristocracia c a democracia. cit. o Senado. reverencia os idosos e obedece às leis. por sua vez. e foi durante sua vigência que Roma conquistou Cartago e estendeu seu império pelo Mediterrâneo. Políbio adverte que os conhecedores da Políti­ ca veem três formas boas de governo: a realeza. que se busca passar por aristocracia. nem toda oligarquia merece o cpíteto de aristocracia. Capítulo II). surge a democracia. bem assim por democracia (H istória . e que é exercida pela razão. reúne as três formas puras de governo: monarquia. Ora. irritado. Políbio indica a de Licurgo.. Não são as únicas nem as melhores. adverte Políbio. traz consigo a feição aristocrática da República romana e. A Constituição da República romana.e nisto reside a originalidade de Políbio . exerciam a administração pública em substituição ao rei). Por outro lado. dele deriva a realeza. Capítulo II). quando o povo. no que tange aos comícios populares e tribunos da plebe. mas apenas aquela que conta com súditos voluntários. a aristocracia c a democracia. Livro VI. Finalmente. Desta. Livro VI. que se im ­ planta com arte e correção. e esta. o regime se assemelha ao monárquico. adverte Políbio. aristocracia e democracia. o elemento democrático. mas apenas aquela em que governam os mais justos e sá­ bios. Fique assentado. distinguindo entre m onarquia e realeza. Outro grande mérito da forma mista de governo c o de resistir à natural deteriora­ . Em qualquer caso há equívoco. Observa Políbio que nem toda monarquia é realeza. sen­ do aquela obtida pela força. em dupla. por mero impulso da natureza. poder). jamais por medo ou violência. pela equidade e a razão. mas apenas aquela em que o povo venera os deuses. pois. busca reparar os desvios dos go­ vernantes. não é a democracia a forma de governo em que o populacho faz o que bem entende. implantando a irracionalidade e a inseguran­ ça ( H istória . Políbio reconhece três espécies boas de governo: a realeza. de cujas ruínas surge a aristocracia. observa Políbio. Na sua H istória u n i­ versal durante a República rom ana . por várias ou por muitas pessoas. Capítulo II). vemos certas monarquias ou tiranias distancia­ rem-se muitíssimo da realeza. Por outro lado. A realeza pode contrair vícios que a transformam em tirania. que há seis formas de governo: três que todo mundo conhece e outras três que com elas se relacionam. porque . Da mesma forma. na medida do possível. multidão..

Toda Constituição políti­ ca. com apenas três dos seis livros para os quais a obra foi planejada. como Políbio. cada uma destas formas tem seus próprios de­ feitos: na monarquia. Lisboa. Segundo V. porque contém em si o germe de sua própria morte. o príncipe dos jurisconsultos romanos. propugna. Zanichelli. Buenos Aires. 1927. afirmando. Título II).d. s. escreveu Da república e Das leis.4) Cícero Bibliografia: Da república. rone giureconsulto. e o governo do povo a pior. por outro lado. Marco Túlio Cícero (106-43 a. Título II). Todavia. Emilio. costa. Ciceprélot. nem detém qualquer poder. um antiquíssimo palimpsesto com o texto integral da obra. Livro I. 1. estacionário. catalisador das três formas apontadas. Cícero se antecipa à moderna teoria de separa­ ção de Poderes do Estado ao advertir que: . tende à degeneração e ao perecimento. Para Cícero. fundado 11a filosofia de Heráclito. obras importantíssimas para o Direito Público. com recí­ proca moderação (Da república. 1973. As doutrinas políticas. ao que parece. l in a r e s q u in t a n a . Presença. o Estado imóvel. pois. Para Políbio. Sis­ M ar­ temas de partidos y sistemas políticos. inconcluso. aristocracia e governo popular. Livro I.6 Formas de governo 99 ção pelo tempo. cit. advogado e político.. Da república é um tra­ tado formado por seis livros. v. Cícero não se mostra muito original. Políbio observa que tudo está em movimento perpétuo. 1. nada é estático.. enquanto no governo aris­ tocrático apenas o povo é livre. qualquer destas espécies de governo se mostra a ideal. por excelente que seja. Bologna. legou à posteridade escritos de gran­ de valor para a literatura e a ciência política. ao seguir a classificação tradicional de realeza. conforme as circunstâncias existentes em cada Estado. a verdade é que prevalece a iniqüidade. que nenhuma forma de governo será a ideal se considerada isoladamente.). 2 v. porque não precisa intervir nas assembléias. Finalmente. c íc e r o . Athcna. no Estado popular. escrito em exaltação às leis romanas. além de notável orador. Curioso observar que no Livro II.. exceto o monarca. todos. por Angelo Mai. 1976. Rio dc Janeiro. Título II. embora se pense que tudo é justo e moderado. Livro I.C. são privados quase completamen­ te dc direitos e da participação nos negócios públicos. ficou. do qual apenas em 1814 foi localizado. a que todas as outras estão sujeitas. Neste campo. um sistema misto. de Da república. Quanto ao Das leis. eei. Plus Ultra. visto que não há uma natural desigualdade fundada no merecimento (Da república. cit. cit. Embora considerando a monarquia a forma ideal de governo (Da república. é irrealizável. Título II). Quanto às formas de governo.

O que o autoriza a escapar à moral é o fato de estar colocado acima da mediocridade ambiente. que importam. v. Maquiavel formula suas espécies. tutti i domini cbe banno avuto e banno impero sopra li uo- . empregando. e a dinâmi­ ca respectiva. que deu origem ao substantivo “ maquiavelismo”. rou­ bo. e não é este o momento adequado para demonstrá-lo. 2. 2. prélot. quaisquer meios. não se pode esperar que a ordem es­ tabelecida dure muito tempo. e O príncipe. traição. observe-se a clareza com que Marcel Prélot sin­ tetiza o pensamento de Maquiavel: A simulação e a dissimulação: o Príncipe é conhecedor das circunstâncias. Buenos Aires. de Florença. Sistemas de partidos y sistemas políticos.10 0 Teoria Geral do Estado sc em determinada sociedade não são divididos equitativamente os direitos. velhacaria. Logo na abertura desta última obra adverte: “ Tutti gli stati. caracterizando o indivíduo “ maquiavélico” . p. perfídia. em sua obra O príncipe. Situa-se para além do bem e do mal. 1973. publicada cm 1531. cm duas obras fundamentais: os Discursos sobre a primeira década de Tito Lívio. Niccolò Machiavelli (1469-1527) ou. 1. Plus Ultra. é o famoso pensador italiano. em vernáculo. para denominar. 40) Quanto às formas de governo. deboche. (/\ s doutrinas políticas. 1973. visto que tudo isso não deve ser julgado segundo a bitola comum que rege a vida privada. para tanto. Presença. Segundo V. equivocadamente. desde que o objetivo fosse legítimo. mas segun­ do o ideal dc um Estado que sc tem dc constituir c dc manter. 1976. com realismo e frieza. ao passo que cm O prín­ cipe o faz relativamente à forma monárquica. Cupidez. uma suposta doutrina em que a má-fé e a traição prevalecem. M a­ quiavel pôs a nu a dinâmica política. As doutrinas políticas. os poderosos ex­ cessiva autoridade e o povo exagerada liberdade. grande amador da astúcia e grande adorador da força. de tal forma que os magistrados tenham poder excessivo. v. libertinagem. cargos e obrigações. capacidade. Novara. dolo. Nicolau Maquiavel. M aquia­ vel expõe seus conceitos referentes à forma republicana. A grandeza: o Príncipe está acima do comum. m a c iiia v e l l i. Nos Discursos. todos os meios são considerados honestos. Na verdade. mas é também o que engana a sorte. Marcel. // príncipe e altri scritti. Daí a frase que lhe é atribuída: “O fim justifica os meios”.5) Nicolau M aquiavel Bibliografia: pem. Desde que o Príncipe al­ cance o resultado desejado. Nesse sentido. vendo na Política uma técnica de alcançar o poder e permanecer nele. Edi- l in a r e s q u in t a n a . dc 1532. fraude. é cola­ borador avisado da Providência. Lisboa.

aris­ tocracia e democracia. numa Cons­ tituição em que coexistam a monarquia. Maquiavel não reconhece a existência de três ou seis formas de governo. Aliás. a qual será mais firme e estável. a aristocracia e a democracia. estabelecendo um a form a mista de que to­ das as formas boas participem . na prática. Ao contrário da maior parte dos autores clássicos. cit. acham-se tão expostas à corrupção que chegam a ser perniciosas também. como o faz em O príncipe: a m onarquia e a república . isoladamente consideradas. Seu país. Livro I. era um campo fértil para as ambições de tiranos e demagogos. Maquiavel não conhe­ ceu. uma vez que não percebe que ela. onde as cidades formavam verdadeiros Estados em luta. mesmo sendo boas. em seu tempo. e as demais pela malignidade que lhes é intrínseca. são nocivas: as três consideradas boas. Todas as for­ mas de governo. a aristocrática e a democrática. Nos Discursos Maquiavel lembra que pensadores antigos reconheciam três espécies de formas de governo: a monárquica.6 Formas de governo 101 I Nicolau Maquiavel (1469-1527) m ini. mas apenas duas. sono stati e sono o republiche o principati” (“Todos os Estados. mais do que duas formas de governo: república e tirania. todavia. Na obra Discurso sobre a reforma da Constituição de Florença. foram e são repúblicas ou prin­ cipados”).monarquia. Assim. classi­ ficavam as formas de governo em seis. quando o legislador orga­ niza o Estado sob a égide de uma das três boas formas de governo. O legis­ lador prudente não as levará em conta. dividido por lutas internas. se corrompe. por sua curta duração. o faz por pou­ co tempo. todos os do­ mínios que tiveram e tem poder sobre os homens. cada uma destas formas vigia e reprime o abuso das demais (Discursos. porém estas. Outros. assume postura diversa da adotada . de­ vendo os legisladores de cada Estado optar por uma delas. porque. Capítu­ lo 11).. fatalmente. três péssimas e três boas .

preferiu retirar-se para um castelo de sua cidade natal e trabalhar cm novas obras. Em O espírito das leis (Primeira Parte. sua maior obra O es­ pírito das leis} seguida. 1. sendo tido por muitos como o precursor da Sociologia. após nada menos do que vinte anos de esforços. A razão. Montesquieu afirma: . é evidente: tais governos concorrem para a destruição tanto da república como da monarquia. 1976. Madrid. pelas ciências puras e pela própria anatomia. com base na experiência adquirida cm suas viagens. vê sua saúde arruinada. publicando.102 Teoria Geral do Estado nos Discursos. 3. Plus Ultra. São Paulo. em especial a Inglaterra. ao questionar a forma mista de governo. Livro Segundo. Marcel. nasceu em Bròdc. toda­ via. dois anos após.6) Montesquieu Bibliografia: LINARES Segundo V. v. m o n te s q u ie u . STAHL. das quais poderia ter tirado grande proveito. sença. Difu­ são Européia do Livro. Historia de la filosofia dei derecho. vindo a falecer em Paris. pana Moderna. em 1755. s. enveredando. também. mas sim buscar o verdadeiro “espírito das leis’'. de um suplemento intitulado Em defesa do espírito das leis. Talentoso. apaná­ gio dos Estados democráticos contemporâneos. As doutrinas políticas. mais conhecido como princípio da separação de Poderes. Pertencente à antiga nobreza. afirmando que não se pode garantir a Constituição dc um Estado senão estabelecendo uma verdadeira repú­ blica ou uma verdadeira monarquia. já com mais de sessenta anos de idade. Em 1734 publica a mo­ nografia Considerações sobre as causas da grandeza e da decadência dos romanos e. sendo defeituosos todos os sistemas interme­ diários. Alquebrado pelo trabalho. Em 1716 pu­ blicou sua Dissertação sobre a política dos romanos na religiãoycriou um prêmio para trabalhos sobre anatomia. conforme a forma mista deriva para uma ou outra destas formas. Lisboa. demonstrou pendor não só pela História e pelas letras. por não desejar ficar adstrito aos textos legais.d. estudou Direito sem ter ficado muito satisfeito. Fez excelentes relações de amizade. Conheceu toda a Europa. em 1748. comunicações sobre certas doenças. D o p ré lo t. 1. prossegue. La Es- Charles-Louis dc Secondat. perto dc Bordéus. v. Barão dc la Brcde c dc Montesquieu (1689-1755). escreveu sobre as glândulas renais e chegou a iniciar uma H istória física da terra antiga e moderna. 1962. Buenos Aires. Montesquieu foi o grande sistematizador do princípio da separação das fun­ ções do Estado. também. q u in ta n a . Sistemas de partidos y sistemas políticos. espírito das leis. Capítulo Primeiro). Pre­ Federico Julio.

na democracia. Entretanto. realiza tudo por sua vontade c seus caprichos. da natureza do governo procede aquilo a que chamamos. di­ reito constitucional. ou seja. conhecer os lugares. o súdito. aquelas que têm como objetivo a organização governamental. há que se identificar uma natureza e um princípio. Da natureza do governo em Montesquieu. três fatos: um. Tal como a maioria dos cidadãos que possuem suficiente capacidade para eleger mas não a possuem para ser eleitos. as ocasiões. adverte Marcel Prélot. mas dc acordo com leis fixas c estabelecidas. Todas essas coisas sao fatos que o povo aprende melhor na praça pública do que um monarca em seu palácio. derivam as “ leis políticas”. adverte iMontesquieu. v. que princípio informa o direito público geral (As doutrinas polí­ ticas. igualmente o povo. os momentos e aproveitá-los? Não. O povo. então. capaz de eleger um general. Quando o poder soberano está nas mãos de uma parte do povo. Sabe muito bem que determinado homem esteve muitas ve­ zes em guerra e que obteve tais e tais êxitos. sem obedecer a leis e regras. uma só pessoa. Para descobrir-lhes a natureza. antes. saberá o povo dirigir um negócio. vem a ser aquilo que faz o governo agir. Diría­ mos. enquanto no governo despótico. Estas visam a conservação dc certo meio e a escolha dc certas orientações. trata-se de uma Aristocracia. ou somente uma parcela do povo. sua estrutura e seu mecanismo. Por outras palavras. atualmente. Em cada forma de governo. Sc está impressiona­ do com a magnificência ou com as riquezas de um cidadão. Quanto ao princípio. hoje. que o governo republicano é aquele em que o povo. isso é suficiente para que possa escolher um edil. . 3. tra­ ta-se de uma Democracia. Suponho três definições ou. sob outros. que possui suficiente capaci­ dade para julgar da gestão dos outros.6 Formas de governo 103 Existem três espécies de governo: o republicano. é suficiente a ideia que deles têm os homens menos ins­ truídos. numa republica. é. Do princípio do governo provêm as leis civis e as leis sociais. A natureza de um governo é o que faz com que ele seja o que é. a mode­ lar o espírito geral. Sabe que um juiz é assíduo. que nao sc pode corrompc-lo: isso é suficiente para que eleja um pretor. como um todo. não saberá. O povo é admirável para escolher aqueles a quem deve confiar parte de sua au­ toridade. 58-9). não está apto para governar por si próprio. Só pode decidir-se por coisas que não pode ignorar e por fatos que estão ao alcance de seus sentidos. sob alguns aspectos. é. vale dizer. o monarca. a monarquia é aquele em que um só governa. o monárquico e o despótico. que muita gente sai dc seu tribunal satisfeita com ele. possui o poder soberano. a motivação das ações do cidadão. Quando. o povo como um todo possui o poder soberano. p.

Porém.7) Rousseau Bibliografia: l i n a r e s Segundo V. O prin­ cípio desta forma de governo é o medo. depois da morte dos irmãos. Hmbora o rei seja a fonte de todo o poder. Plus Ultra. O poder intermediário mais conveniente é o do clero. É melhor dizer que o governo mais de acordo com a Natureza é aquele cuja disposição particular melhor sc relaciona com as disposições do povo para o qual foi estabclccido. a virtude chama-se civismo. a união de muitas famílias. q u in t a n a . Livro Primeiro. guiando-se apenas por sua vontade e seus caprichos. Na república democrática. Por outro lado. cit. mostra sua natureza no fato de o poder político estar nas mãos de um só homem. Eis o governo despótico”. Quanto ao despotismo.104 Teoria Geral do Estado Ora. o mais natu­ ral. o exemplo do poder paterno nada prova. (O espírito das leis. cortam uma árvore pela raiz e apanham-nas. moreau Joseph. Alguns pensaram que. muitos. Sistemas de partidos y sistemas políticos. que restringem a vontade momentânea e caprichosa de um só homem. o governo de um só estaria mais de acordo com a Natureza. tendo a Natureza estabelecido o poder paterno. a fim de que o povo tenha alguma participação política. 1976. O princípio da monarquia vincula-sc à honra. não concentra em si toda a autoridade. na república aristocrática chama-se moderação por parte dos governantes.. indiretamente. Quanto à monarquia. porém submetido ao império de leis previamente esta­ belecidas. a qual nos diz que um rei ja­ mais deve ordenar uma ação que nos envergonhe. referindo-se. ironicamente: “Quando os indí­ genas da Luisiana querem colher frutas. as­ sim doutrina íMontesquieu: A força geral pode ser colocada nas mãos de apenas um ou nas mãos de muitos. e assegurar a continuidade e o cumprimento das leis fundamentais. Rousseau y la fundamentación de Ia . Em qualquer caso. à melhor forma de governo. e lembra. a república e uma forma de governo adequada a Estados de peque­ nas dimensões. se o poder do pai está relacionado com o governo de um só. depois da morte do pai. O po­ der político implica. termo que na obra de Montesquieu denomina a primazia dada ao interesse publico. pois. porque também é próprio da natureza da monarquia haver órgãos in­ termediários subordinados e dependentes. o princípio das republicas é a virtude. necessariamente. sua natureza reside no fato de o rei governar sem le­ var em conta as leis. . Buenos Aires. o da nobreza. sendo um terceiro organismo um corpo de magistrados que zela pela preservação das leis e que lembra ao monarca o dever de cumpri-las. porque isto nos liberaria de ser­ vi-lo. o poder dos irmãos ou. Capítulo Segundo) 1. Primeira Parte.

O contrato social e outros escritos. N o seu trabalho sobre a origem e o fundamen­ to da igualdade entre os homens. Lis­ . de início. Sua mãe faleceu poucos dias após o parto. Rous­ seau publica o ensaio Origem da desigualdade entre os homens. do qual todos os demais recebem o poder. confiar o depósito do governo ao povo em conjun­ to ou à maioria do povo. Paulo. Esparta. Cultrix. por sua vez. porque a democracia pode abarcar todo o povo. foi o estágio tribal. Mareei. rousseau prélot. diz Rousseau. O único período realmen­ te feliz da Humanidade. e houve. boa. que influenciaria pensadores de todo o mundo. 1977. sem que por isso se pudesse dizer que o Império estava dividido. todavia. até oito imperadores si­ multaneamente. O contrato social resume o ideal rousseauniano de um governo que limite ao mínimo sua intro­ missão na liberdade dos indivíduos. de modo a haver maior número de cidadãos magistrados que simples cidadãos particulares. dc sorte a haver maior número dc cidadãos particulares que dc magistrados. Jcan-Jacques. a obra continua a ser um clássico da literatura política e sociológica. Isaac. Espasa-Calpe. Finalmente. Esta terceira forma é a mais comum de todas. toda­ via. cheia de vicissitudes. Em O contrato social Rousseau formula uma classificação das formas de go­ verno nos moldes tradicionais: O soberano pode. sempre teve dois reis. emigrando. As doutrinas políticas. A própria monarquia é suscetível de alguma partilha. ou então restringir-se até a metade. c esta forma dc governo rcccbc o nome de aristocracia. São Jean-Jacques Rousseau (1712-1778). pode o soberano concentrar todo o gover­ no cm mãos dc um magistrado único. ou ao menos as duas primeiras. no Império Romano. e seu pai. que orientou Jean-Jacques em suas primeiras leituras. por falta de convicção do autor em determinadas passagens. pecando. conferindo a estes. sua obra mais conhecida: O contrato social. Em 1753. cujas únicas motiva­ ções seriam igualar-se a Montesquieu e adquirir prestígio fácil. dei­ xando-o com sua tia. Isaac Rousseau e Suzanne Bernard. premido por dificuldades financeiras. são sus­ cetíveis de maior ou menor e mesmo de grande latitude. ou governo real. de acordo com sua Cons­ tituição. filho de um casal de protestantes. foi tido por muitos como uma obra cheia de contradições. Devo assinalar que todas essas formas. Ou pode então restringir o governo às mãos dc um pequeno número. O contrato social. a mais ampla par­ ticipação política. passa por uma vida atribulada.6 Formas de governo 105 democracia. nasceu em Genebra. Madrid. Dá-se a essa forma de governo o nome de democracia. 3. v. A aristocracia. resolveu emigrar. pode restringir-se da metade do povo até indeterminadamente ao menor número. e chama-se monarquia. em 1762. Rousseau expõe sua famosa teoria do “bom sel­ vagem”. mesmo. As­ . Presença. porque nele ainda não existia a desigualdade social e econômica que viria depois. Seja como for.

por diversos motivos. É impossível admitir esteja o povo incessantemente reunido para cuidar dos negó­ cios públicos. gerontes. Há. não teria necessidade de ser governado.10 6 Teoria Geral do Estado sim sendo. pois. sem considerar que cada uma delas é a melhor em determinados casos e a pior em outros. nunca existiu verdadeira democracia nem jamais exis­ tirá. e depositária no Estado do Poder Executivo. Finalmente. Rigorosamente falando. Um povo que jamais abusaria do governo também jamais abusaria da independência. anciãos. Se. Se houvesse um povo de deuses. Discutiu-se cm todos os tempos a melhor forma de governo. o governo democrático é o que mais convém aos pequenos Es­ tados. Os chefes de família deliberavam entre si sobre os negócios públicos. cada uma das quais suscetível dc ser multiplicávcl por todas as formas simples. a terceira é o pior de todos os governos. Contraria a ordem natural o grande número governar e ser o pequeno governa­ do. Os selvagens da América setentrional ainda assim se governam em nossos dias. sem mudar a forma da administração. trcs cspccics dc aristocracia: natural. cnobrcccndo as famílias. segue-se que. o número de su­ premos magistrados deve estar constituído em razão inversa do número dos cidadãos. existe um ponto em que cada forma de governo se confunde com a seguinte. à medida que a desigualdade de instituição sobrepujou a desigualdade natural. eletiva c he­ reditária. pode re­ sultar dessas trcs formas combinadas uma infinidade dc formas mistas. outra dc maneira diversa. Daí os nomes de padres. e vê-se que apenas sob três formas dc domínio já se mostra o governo capaz de adqui­ rir tantos aspectos diversos quantos cidadãos possui o Estado. e viram-se então senado­ res dc apenas vinte anos. e a monarquia aos grandes. Rousseau demonstra sua ojeriza por tal forma dc go­ verno. c a aristocracia pas­ sa a ser eletiva. Mas. Quanto à monarquia. o aristocrático aos Estados médios. c c fácil dc ver que não poderia ele estabelecer comissões para isso. As primeiras sociedades governaram-se aristocraticamente. Há mais: podendo um mesmo governo subdividir-se. torna o governo hereditário. ele se governaria democraticamente. um povo que sempre governasse bem. A primeira não convém senão a povos simples. em várias partes. nos diferentes Estados. unida pela força das leis. e são muito bem governados. a riqueza ou o poder foi preferido à idade. Temos agora a considerar . transmitido juntamente com os bens dos pais aos filhos. a segunda é a melhor: é a aristocracia propriamente dita. concedendo-lhe poucas virtudes: Até aqui consideramos o príncipe como uma pessoa moral e coletiva. senado. Os jovens cediam sem dificuldade pe­ rante a autoridade da experiência. em geral. o poder. Tão per­ feito governo não convém aos homens. uma administrada dc certa maneira.

quando lhes ape­ tece. como.6 Formas de governo 107 este poder reunido em mãos de uma pessoa natural. as mais das vezes. sendo dele tal poder. e jamais lhes possa resistir. neste último. numeroso. Um defeito essencial e inevitável. todas as molas da máquina estão na mesma mão. miserá­ vel. O poder oriundo do amor dos povos é sem dúvida o maior. sc achcm natural­ mente reunidas. antes de mais nada. tal interesse é secundário c subordinado. sem cessarem de ser os senhores. em que o povo seja débil. pequenos velhacos. . pequenos intrigantes. Por mais que se esforce um orador político em adverti-los de que a força do povo é a sua própria e de que seu maior interesse deve consistir em que o povo seja florescente. porém. com vigor. é natural que os príncipes deem sempre preferência à sentença mais imediatamente útil para eles. ao passo que. mas precário e condicional. os que se elevam são. Os melhores reis desejam ser malvados. e a vontade do príncipe. Infelizmente. Seu interesse pessoal está. Fingindo dar lições aos reis. imaginando os vassalos sempre inteira­ mente submissos. deu-as ele. pe­ quenos rixentos. O príncipe de Maquiavel é o livro dos republicanos. e a força pública do Estado. na qual todas as faculdades que a lei reuniu na outra. é o que Maquiavel demonstrou com evidência. mas esse objetivo não é o da felicidade pú­ blica. em que um ser coletivo representa um indivíduo. a unidade moral que constitui o príncipe é simultaneamente uma unidade física. e as duas suposições sc mos­ tram incompatíveis. cujos pequenos engenhos. a vontade do povo. Mas se governo não há mais rigoroso que este. a fim dc que. Confesso que. tudo caminha para o mesmo objetivo: não há mo­ vimentos adversos que se destruam mutuamente. tudo enfim responde ao mesmo móbil. Os reis desejam ser absolutos. desse modo. c dc longe lhes bradamos que a melhor maneira dc o scrcm consiste cm se fazerem amar por seus povos. é verdade. a voz pública quase nunca eleva aos primeiros postos homens que não sejam esclarecidos e capazes e não os ocupem com dignidade. e a força particular do governo. Ao contrário das outras administrações. aos povos. que sempre porá o governo monárquico abai­ xo do republicano. apontava aos hebreus. nesta aqui é um indivíduo que representa um ser coletivo. nas monarquias. de um homem real. Esta máxima é muito bela c ver­ dadeira cm certo sentido. tudo ca­ minha para o mesmo objetivo. e grandes. sempre rirão disso nas cortes. e não se pode imaginar nenhuma es­ pécie de constituição em que um esforço menor produza uma ação mais considerável. E o que se chama um monarca ou um rei. e a própria força da administração gira sem cessar em prejuízo do Estado. também outro não há em que a vontade particular seja mais respeitada e mais facilmente domine as outras. eles sabem perfeitamente que tal coisa não é verdade. com tantos esforços. Assim. o tornasse temido dc seus vizinhos. os príncipes ja­ mais se contentarão com ele. está em que. único investido do direito de dele dispor segundo as leis. é o que Samuel. me parece que o interesse dos príncipes residiria na existência de um povo poderoso. temível.

do dinheiro que os poderosos lhe extorquiram. à custa dos fracos. cit. Sistemas de partidos y sistemas políticos. e a menos que os cidadãos se­ jam de um desinteresse. entretanto. na Califórnia. Mcxico. de sorte que é quase tão raro encontrar um homem de real mérito no ministério quanto um tolo à testa de um go­ verno republicano. 1976. mas tchecoslovaco. cm 11. Quanto menos numerosos forem os cidadãos mais a opinião de cada um terá peso. pois o governo representativo é uma forma de escravidão (O contrato social. a quem o Estado foi vendido. c a paz de que se desfruta sob o governo dos reis passa a ser então pior que a desordem dos interregnos. Um inconveniente mais sensível do governo de uma única pessoa consiste na fal­ ta dessa sucessão contínua..8) Kelsen Bibliografia: a i . Hans.1881 c morreu cm Berkeley. Hans Kelsen ( Vida y obra). De ascendência israelita. nasceu em 11. métall. de Praga. Na verdade. e não se indenize. de modo que o ideal democrático é viável apenas nos pequenos Estados da Antiguidade: “Quan­ to maior o Estado. o criador da famosa Teoria pura do direito. Nacional Autônoma dc Mcxico. Buenos Aires. cit. de uma integridade acima dos méritos desse governo. l i n a r e s q u i n t a n a . são tempestuosas. Segundo V. que a democracia eleita por Rousseau é a democracia di­ reta. Livro III.10.108 Teoria Geral do Estado que permitem. No tocante a essa escolha. que forma nos dois outros uma ligação ininterrupta. Teoria general dei derecho y dei Estado. como geralmente se pensa. 1. o povo se engana bem menos que o príncipe. Plus Ultra. Mcxico. Não era austríaco. 1979. adverte Rousseau (O contrato social.a d á r Rudolf. Vale lembrar. tão logo aí consigam chegar. de Viena. menor a liberdade”. As eleições abrem intervalos perigosos. para Rousseau. É difícil que aquele. Univcrsidad Nacional Autônoma dc Mcxico. alcançar os grandes postos. somente quando participa diretamente da elaboração das leis o cidadão reafirma sua condição e é verdadeiramente livre. nas cortes. Hans Kelsen. .04. só lhes servem para demons­ trar ao público o quanto são ineptos.. Capítulo XV). que ele aprendeu a admirar observando a antiga Roma republicana e os cantões suíços. não o venda por seu turno. a forma ideal de governo é a democracia.1973. 1976. Livro III. Univcrsidad kelsen. Cedo ou tarde tudo se torna venal sob semelhante admi­ nistração. as dis­ putas e a corrupção se misturam. Capítulo I).

verdade que durante uma sessão sobre o tema Os judeus na ciência do Direi­ to. 1979. Universidad Nacio­ nal Autônoma de México. A organização do poder é tida como o critério em que a referida classificação se fundamenta. ao criar uma originalíssima Teoria do Direito. e a moderna doutrina ainda não superou essa tricotomia. por um professor austríaco. Certamente sessões como esta. (Hans Kelsen . não havendo nenhum exage­ ro em afirmar que ele representa para a ciência jurídica o que Karl Marx represen­ ta para a ciência econômica. aristocracia e democracia. seus pais ou mais re­ motos ancestrais não sc chamassem Kelsen.Vida y obra. O boato de uma pretensa mudança de nome de Kohn para Kelsen foi repetido quase 30 anos depois. é sobre a Teoria geral do direito e do Estado que nos debruçaremos para observar como Kelsen aborda as formas de governo. Conta-nos. realizadas em 3 e 4 de outubro de 1936. o professor Erich Jung referiu-se a Kelsen como Kelsen Kohn. Afirma Kelsen (Teoria general dei dereebo y dei Estado. p. p. ou como sc a importân­ cia dc Hans Kelsen como cientista fosse ofuscada se ele próprio. A teoria política da Antiguidade distinguiu três formas de Estado (s/c): monarquia. 9) Tido por muitos como o grande jurista do século X X . 335) que o problema da teoria política é a clas­ sificação dos governos. Kelsen inovou.6 Formas de governo 109 sua vida foi pautada por perseguições raciais. sob a presidência de Karl Schmitt. como sc fosse vergonhoso alguém sc chamar Kohn ou Cohn. foram organizadas pelo Grupo de Professores de Educação Superior da Liga Nacional-Sociaiista dos defensores do Direito. a respeito. em especial durante o período nacional-socialista. Rudolf Aladár Métall: F . real­ mente. Quando o poder soberano de uma comunida- Hans Kelsen (1881-1973) . Embora sua obra mais conhecida seja A teoria pura do direito.

A forma oposta à demo­ cracia reside na servidão imposta pela autocracia. e autocrático se nele predomina o dogma autocrático (Teoria general. mesmo que a administração e o Poder Judiciário possam ter caráter diverso. na verdade. cit. apenas dois tipos de Constituição: a democracia e a autocracia. mas jurídica. os sú­ ditos se acham excluídos da criação da ordem jurídica.. de acordo com a ordem social. mas sim tipos ideais. Da mesma forma o Estado sc classifica como monarquia quando o monarca é. Na realidade po­ lítica não há nenhum Estado que se ligue. cit. Politicamente livre é o indivíduo que se encon­ tra submetido a uma ordem jurídica de cuja criação tenha participado.. o número dc indivíduos em quem reside o poder e um critério muito superficial (Teo­ ria general. pois a produção de um ato psíquico de vontade é uma questão psi­ cológica. Um Estado é considerado democracia ou aristocra­ cia sc a sua legislação é dc natureza democrática ou aristocrática. cit. e a vontade estatal nada mais é do que a ima­ gem do sistema normativo unitário da ordem estatal. prossegue Kelsen. Nesta forma de governo. deve fazer coincide com aquilo que deseja fazer. praticamente inexista (Teoria general. p. alheia. afirma-se que o governo ou a Constituição são monár­ quicos. o querer do Estado é o dever ser de sua ordem jurídica. com exclusividade. A distinção entre monarquia. a democracia e a autocracia não são realmente descrições de Constituições historicamente consideradas. usado este termo no seu sentido ma­ terial. O critério pelo qual a forma monárquica se distingue da republicana. uma classificação das Constituições. A democracia significa que a vontade representada na or­ dem legal do Estado é idêntica às vontades dos cidadãos. de tal forma que algumas sociedades se aproximam mais do primeiro destes modelos. a ordem jurídica é criada. Um indiví­ duo é livre se aquilo que. com funda­ mento na ideia de liberdade política. por natureza. Entre estes extremos há uma infinidade de etapas intermediárias. A classificação das formas de governo é. um Estado é democrático se nele prevalece o princípio democrático. Para Kelsen. a Constituição se diz repu­ blicana. p. razão pela qual não há garantia dc que esta se harmoniza com a vontade popular (Teoria general. . Quando o poder pertence a vários indivíduos. ou­ tras do segundo. Todavia. a maioria das quais não possui uma terminologia específica. então é melhor distinguir.. basicamen­ te. p.110 Teoria Geral do Estado de pertence a um indivíduo. à Teoria do Estado. juridicamente. Assim. em vez de três. Conforme a termino­ logia usual. no campo do Poder Judiciário. cit. 337). 337). 336). reside no modo de criação da ordem jurídica. 336). A república será uma aristocracia ou uma democracia conforme o poder pertença a uma minoria ou a uma maioria do povo. mesmo quando seu poder nesta parcela do Executivo se ache rigorosamente restringido e. e a aristocrática da democracia. o legisla­ dor. se o critério de classificação consiste na forma em que.. A vontade do Estado não pode ser uma vontade psicológi­ ca. Assim definidas. Cada Estado representa uma mescla de elementos de ambos. à organização da legislação. aristocracia e democracia se refere. a um ou outro des­ tes tipos ideais. p. confor­ me a Constituição.

empolga o poder pela in­ timidação ou pelo favorecimento de um estamento social. . sendo assassinado no ano de 44 a. ed. a democracia moderna sustenta-se nos partidos políticos. A monarquia absoluta caracteriza-se pela concentração do poder e pelo arbítrio do rei. cuja significação cresce com o fortalecimento progressivo do princípio democráti­ co. Os caracteres da monarquia. na condição de chefe de Estado e chefe de governo. Pedro. quando serve ape­ nas de instrumento para os interesses do governante. e arche. 1981. 2. instrumentalizando-os juridicamente para o que são há muito tempo: órgãos para a formação da vontade estatal. tornando-se arbitrário. um. o rei exerce plenamente a função governamental. deve ser denominada realeza absoluta. sem justo título de monarca. errandonea gouvea bordes Jacqueline. a monarquia chama-se realeza cons­ titucional. v. 1942. Diccionario dei mundo clásico.C. 1982. Quando o governante. Labor. todavia. Barcelona. Saraiva. Paris. 1991. que governa desvinculado de qualquer limitação jurídica (solutus legibus). Impressão John Neville. Pedro Salvetti Netto classifica as monarquias em absolutas ou constitucionais. 2) FORMAS DE GOVERNO CLÁSSICAS 2. porém visando ao bem comum. A monarquia constitucional. a forma de governo cha­ ma-se tirania ou caudilhismo. exercida em fraude à lei. 1954. sem legitimidade. São Paulo. 1824. porém. El derecho divino de los reyes. Na primeira. divide-se em mo­ narquia constitucional pura e monarquia constitucional parlamentar. o princípio da separação e independência . traindo a República. v. f ig g is . porque foi Júlio César que. temos o cesarismo. no intuito velado do monarca de se manter. Exercida sob a égide da legalidade. consagrado. mas. . 4. Novíssimo dicionário jurídico. Monarquia (do grego monos. Antonio Joaquim de. no comando do Estado. São Paulo. a seu turno. Fondo de salvetti n e t t o . Ignacio. denomina-se despotia ou des­ potismo. Por outro lado. tentou perpetuar-se no poder. deve ser chamada realeza. Lisboa. 2. Quando a monarquia é exercida visando ao bem comum. a monarquia constitucional mostra-se limitada pela lei: rex sub legem quia lex faciat regem.6 Formas de governo 111 Segundo Kelsen. Por isso considera natural a tendência a institucionalizar expressamente os par­ tidos no texto constitucional. Cultura Econômica. Les Belles Lettres. governo) é a forma de governo vi­ talícia em que apenas uma pessoa exerce o poder político. Politeia. se o monarca faz tábua rasa da lei. PINTO. a c q u a v iv a . Régia.1) Monarquia Bibliografia: Marcus Cláudio. México. Brasiliense. Curso de teoria do Estado. Por outro lado..

se­ . o guerreiro. na segunda. 23. medas. para alguns autores. o dos búlgaros.112 Teoria Geral do Estado dos poderes. per­ sas. na Bulgária. 8. et Legum Conditores justa decernunt” ou “Por mim reinam os reis. na monarquia há três: hereditariedade. a monarquia começou a sc firmar no período dos juizes. nem por necessidade ou aca­ so. o monarca é apenas chefe de Estado. A força de Moisés. demonstram que Deus lhes confiara sua autoridade: “ Per me Reges regnant.).). eleição e cooptação. trata-se de uma forma de investidura em que o sucedido escolhe. a ele pres­ tando obediência Seth e sua família. efetuada por um colégio cardinalício. na Itália. Os filhos de Heth (hititas) chama­ ram a Abraão “senhor” e “príncipe de Deus” (Gênesis. Egito. o de Nerva. como a tribo. como o das abelhas. O monoteísmo hebraico proibia a divinização do monarca. afirmando. na França. todos. Exemplo contemporâ­ neo de monarquia eletiva temos na eleição do Papa. por outro lado.C. monárquicos: o dos francos. 15). consolidando-se com Davi c seu filho Salomão (1082-975 a. que todo o poder vem de Deus. na Áfri­ ca. Sem dúvida a mais antiga das formas de governo. gregos e macedônios. na Borgonha. pois a chefia de go­ verno é exercida pelo gabinete ou conselho de ministros. durante o pe­ ríodo monárquico (753-509 a. babilônios. livremente. o próprio sucessor. não há que falar em monarquia patriarcal. mas por Deus. ao passo que o patriarcado era exercido em comunidades pouco desenvolvidas. investido na Justiça de Deus para castigar a abominação e a idolatria do povo. na Síria. o dos vândalos. e os príncipes decretam leis justas” (Provérbios. A monarquia teria passado por quatro estágios históricos. o dos godos. de príncipes e de legisladores pertenceram aos patriarcas bíblicos. que implantou a centralização do poder. a monarquia é tida por mui­ tos como instintiva. em que uma tendência inata impele estes insetos a viver em função de uma abelha-rainha. o dos hunos. a monarquia já era praticada na civilização micênica. Isto significa que rei­ nam os reis não por convenção humana ou capricho. o dos sarracenos. assírios. rece­ bendo referências nas obras de Homero (século IX a. Todavia. e em Fanuel. na Inglaterra. na Espanha. Roma inicia e termina sua história sob a égide da monarquia. Quanto à cooptação. Monarquia eletiva encontramos na história de Roma. sem concelho popular nem con­ firmação por senadores. na Hungria. sendo peculiar aos agregados de animais complexos. até o rei Túlio Hostílio. o teocrático e o civil.C. 6). o dos borgonheses. o poder absoluto de Josué em Socota.). Quanto à forma de sucessão. o dos anglos ou saxões. Como exemplo.C. Mesopotâmia c Arábia. ostrogodos e longobardos. a saber: o familiar ou patriarcal. o dos hérulos. Monarcas governaram egípcios. A História Sagrada nos ensina que Adão foi o primeiro monarca. como afirmavam os profetas. pois a monarquia exige um Estado perfeita­ mente integrado em seus elementos formadores. Os títulos de pais de família. Na Grécia antiga. Entre os hebreus. e os Estados que resultaram do esfacelamento do Império Romano foram.

sua vontade a respeito de ou­ tros assuntos de seu interesse. Também na história dos Incas.. José. 1. 2. Cours de droit constitutionnei Paris. ro s s i. sempre. 2. a essência da república não reside. ou votações. ria . México. romano (História e fontes). Garzanti. mutuamente enciumados. 1962. ocasionaram sangrenta guerra civil. 1977. que deveriam governar um império fragmentado em duas metades. tudo o que é ine­ rente à sociedade. espírito das b o u lo u is . Então. neves. Histoire des princim at- pes. Paris. em que a comunidade escolhe seus representantes políti­ cos. propria­ mente. Aguilar. ed. D o Nicola Matteucci. 1978. Guillaumin. Les six livres de la republique. em que ela manifesta. 1975. periodicamente. Sigla X X I. Juan. Observa o Prof. v. pelo rei Huayna Capac. Hachette. M . temos exemplo de cooptação na escolha aleatória. Alberto. fundador da dinastia. s a m p a io dó- Direito constitucional 5. que ensejaria a fácil conquista do Peru pelos espanhóis comandados por Francisco Pizarro. 1992. 2. v. no fato de ser eletiva . Aalen.. Libr.u . por não ser vitalícia como a monarquia. ed. de Norberto Bobbio e Silvio A. o próprio interesse público. des institutions 6c des lois pendant la Révolution Française. Institutions politiques et droit constitutionnei 7. in Diccionario de política. como o Papado. essencialmente. c r e t e l l a j r. 1. F. mas no fato de seus cargos políticos não serem vitalícios. t. para o povo. 2. ed. Marco Túlio. Sampaio Dória: República é governo do povo. Historia de las doctrinas políticas.d. Mareei e Pcllcgrino. Pelo povo. te u c c i. direito romano. De modo usual. do ponto de vista semântico. São Paulo. s. conforme a vontade do povo. b o d in . manifestada por eleições. Paris. São Paulo. 1950. Scientia Verlag. por exemplo -. Curso de direito m o n te s q u if. todavia. m a le t. quando representativo. Libr. Márcia Cristina. Os herdeiros. v. o termo república indica. Max Limonad. Delia repubblica. reis peruanos que criaram vasto im­ pério na América do Sul pré-colombiana. 1866. 1851-1852. “ República”. 3. pois seus cargos políticos são preenchidos. e. E. 1946.porque há monarquias eletivas.. s. Difusão Européia do Livro.d. 1.. São Paulo. Rio de Janeiro. dc seus filhos Huáscar e Ataualpa.6 Formas de governo 113 nador romano.. c íc e ro . Curso de la fe rriè re .2) República Bibliografia: a n a n i a s Rideel. por maioria. um de seus generais.. ed. m e ira . N o governo republicano. Nicola. república significa uma forma de go­ verno caracterizada. que escolheu como sucessor Trajano. Buenos Aires. Historia romana. entre elas. Forense. atributos pri­ . leisySão Paulo. p r é l o t . Jean. Do latim res publica (aquilo que pertence ao povo). 1985. v. b e n e y to perez. qualidades há essenciais. ou seja. Jean. Madri. B. Cotillon. Dalloz. Nova terminologia jurídica. Saraiva. 1968.

Foi Marco Túlio Cícero quem delimitou. foi deposto. Ao destacar como elementos essenciais da república o interesse comum e. Na época monárquica. ao demonstrar que “ res publica res populi. fato este visto como mais um reflexo da de­ cadência das monarquias então existentes na Itália. sobre os negócios dc Estado. direto. § XXV). governo). princi­ palmente. p.. e povo não é mero ajuntamento de pessoas postas lado a lado. com que se esperava inibir dc vez qualquer tentativa de restaura­ ção da monarquia. de modo que a derrubada da monarquia foi vista com indiferença pela plebe. O que realmente caracteriza a república como elemento privativo é a eletividade e a temporariedade do chefe do exe­ cutivo. que comandou a deposição de Tarquínio. Então. v. embora essencial à república. sed coetus multitudinis iuris consensu et utilitatis communione sociatus”. Entretanto. A investidura dos cônsules lhes dava o imperium (poder de man­ do) e a auctoritas patrum. pois que também pode existir na monarquia. Cícero opôs à república todas as formas dc governo injustas. senão quando c o chefe eleito pelos governados.C. a república apresenta analogia com a democracia da antiga Atenas. o consulado apresentava duas características essenciais: cole- . 1. No plano histórico. como já foi dito. diretamente. mas uma convivên­ cia consciente de pessoas que se torna sociedade pelo reconhecimento de um direi­ to e de um objetivo comuns” (Da república. 1. dos quais os primeiros foram Lúcio Júnio Bruto. o sentido mais autên­ tico de res publica. Não há republica representativa sem eletividade dos que fazem a lei. termo que ressalta a raiz arquia (do grego arche. por tempo determinado. o consenso sobre uma lei comum. e Tarquínio Colatino. populis autem non omnia hominum coetus quoquo modo congregatus. a investidura consular durava apenas um ano. aquilo que é inerente à sociedade. O rei foi substituído por dois cônsules ou praetores.sempre patrícios . Os cônsules . república (latim) e politeia (grego) são expressões que denotam o próprio interes­ se público . Não há república. ou “a república é coisa do povo.C. mediante a qual uma comunidade afir­ ma sua ideia dc justiça.eram eleitos por uma assembleia em que pre­ dominava. re­ sultante da queda da monarquia etrusca. onde uma parcela da população deliberava. Na verdade. com precisão. t. quando o rei Tarquínio. 155) Sendo popular. por volta de 510 ou 506 a. e não apenas denominações de for­ mas de organização do poder. Livro I. evidentemente. muito mais do que uma forma de gover­ no como a monarquia. c por tempo certo. o patriciado. a república surgiu como uma inovação revolucionária. o Soberbo. a par do rei atuavam os cônsules e o Senado. aí se terá república. sua qualidade específica. que não prefira o governo. no final do século VI a. Mas esta qualidade. reconhecimento oficial e inapelável de sua investidura pelo Senado. (Direito constitucional.114 Teoria Geral do Estado vativos. Onde houver governo com chefe eleito pelo povo. Esta. este for­ mado exclusivamente por patrícios. não lhe é exclusiva.

substituindo-se a forma unitária de Estado pela forma federativa. aristocracia. Já na Idade Moderna. democracia e governo misto) é substituída por outra. Discursos sobre a primeira década de Tito Lívio. mas também na implantação de uma demo­ cracia representativa. mas é no melhor de seus livros. atuando em conjunto). Quanto ao Brasil. das formas políticas fun­ dadas na violência ou na desordem. A república floresce em Es­ tados de pequena extensão territorial. portanto. e o despotismo outra ainda maior. fundada. a monarquia. Ademais. mais singela: repúblicas e principados. Para Montesquieu. a república . em 1889. de 1824. a tradicional classificação das formas de governo (monarquia. a aristocracia e a democracia. a forma monárquica pela repu­ blicana. doutrinariamente. integrando a natureza mesma desta forma de governo. surgiram os Estados Unidos da América do Norte. na qual haveria separação de poderes fun­ dada num sistema de fiscalização mútua entre estes. cuja distinção reside no fato de. portanto. Jean Bodin emprega o termo república para denomi­ nar.di­ vidida em aristocrática e democrática . os magistrados serem eleitos. entretanto. desde que dota­ das de um droit gouvernement. sc na república há uma relativa igualdade. Por outro lado. e o regime parlamentarista pelo presidencialista. qual seja. quem faz a lei é o monarca. embora tolhido em eventuais arbitrarieda­ des pelas Constituições. Com a independência das colônias norte-americanas em 1776. enquanto. . representou verdadei­ ra revolução política. na monarquia a desigualdade em favor da nobreza c verdadeiro pressuposto. no despotismo. popular. as formas de governo são a monarquia. ao passo que a monarquia exige uma área física considerável. não só no fato do repúdio à monarquia. a fe­ derativa. sem falar no afastamen­ to compulsório de Pedro II. porque se o povo não é apto a legislar. indistintamente. denominado sistema de freios e contrapesos ou checks and balances. e a anualidade. a Proclamação da República. Com Nicolau Maquiavel. pois todas as instituições foram subvertidas. prossegue. que torna­ va a república inconfundível com a monarquia. O príncipe. Maquiavel tratou do principado ou monarquia na sua obra mais conhecida. nas repúblicas. a desigualdade se torna escravidão. e uma robusta concepção de república. sabe escolher seus representantes legisladores. Entretanto. Na monarquia.e o despotismo. trazendo uma nova forma de Estado. numa república as leis vêm a ser a expressão da vontade do povo. adotamos com a independência e a primeira Constituição. distinguindo-as.6 Formas de governo 115 gialidade (eram dois os cônsules. a forma unitária de Estado e a monarquia constitucional como forma de governo. que estuda a república. ao passo que o déspota governa e julga mediante leis arbi­ trárias e ocasionais.

já no dia mesmo da procla­ mação. dc 24. Novara. § 4o. graças ao art. da Constituição de 1934.10. de 24. Cláusula pétrea. da Constituição de 1891. p o n s a t i. b o b b io .02. 1979. 1985.3) Aristocracia Bibliografia: v. e constitui-se. cm Estados Unidos do Brasil. com isto. que proibia a abolição da forma republicana federativa. 1. dc forma absoluta. 178. como definida por Márcia Cristina Ananias Neves. Tal decisão seria confirmada com a primeira Constituição republicana. 2° do Ato das Disposições Transitórias. que impede qualquer emenda que vise a abolir direitos e garantias individuais.1946. 1992. § 4°. qual seja. das Dis­ posições Transitórias. Siglo X X I. vedando. 1967 e 1988) adota­ ram a república como forma de governo. Nicola. 60. Méxi­ E. As demais Constituições brasileiras (1934. Difusão Editorial. da primeira Constituição republicana. 1848. (Nova terminologia jurídica. Norberto e m a t t e u c c i . 217.11. co. glotz . Rideel. GARNIER-PAGES. sobre a forma dc governo.. § 5o. ficou abolida a cláusula pétrea ou de imutabilidade da forma dc governo. sendo que a vigente. A cidade grega. 90. da Constituição de 1946. o art. direta­ mente. Edipcm. p. Arturo D. § 4°.11 6 Teoria Geral do Estado A partir da Proclamação da República. da atual Constituição. a República Federativa. que constava dos arts. embora permitindo. v. c Dizionario enciclopedico dei diritto. I o declarava: “Fica proclamada provisoriamente e decretada como a forma de gover­ no da nação brasileira . 1°.1891. sob o regime representati­ vo. 1. em seu art.1889.1937. Assim o art. por união perpétua e indissolúvel das suas antigas províncias. caput. Paris. 1988. § 6o. vem a ser a norma constitucional que impede. Pagncrre. Dictionnaire politique. a volta da monarquia. 15 dc novembro.1891. 72 do Decreto n. proclamada a 15 de novembro de 1889. § I o. São Paulo. 1. ed. 1. assim: A Nação Brasileira adota como forma de governo. em 1889. 2°. a possibilidade de o povo se manifestar. mesmo por via de emenda. a revogação ou modificação dc determinados artigos. cm plebiscito. trou­ xe significativa inovação. de 05. dc 15. 70) 2. da Constituição de 1967. a atuação dos monarquistas em prol da restauração da realeza. Lecciones de . da mesma forma. o Governo Provisório emitia o Decreto n. cujo art.a República Federativa” . e 47. Com isto. Gusta- ve.1988. 2. Diccionario de política.02. 90. conforme previsto no art.

F. Aristocracia (do grego aristoi. que sucessivamente exerceram o poder social e po­ lítico em Roma. estribada não mais na propriedade fundiária ou no sangue. melhores. 1976. fizeram. Picard. 1. s c h o e m a n n . a periodici­ dade e a colegialidade da magistratura transformaram o Senado no órgão estável por excelência da República. enfim. afirmou que a aristocracia é o governo con­ fiado aos melhores pelos cidadãos. em oposição aos kakói ou mal-nascidos. dirigir o Estado no rumo do verdadeiro bem (A república. Na antiga Grécia. A intermitência dos comícios populares. surgindo uma nova elite. V). enfim. ocorreram sensíveis modificações socioeconômicas. prudentemente. aos melhores. já Heródoto (480-425 a. Astrea. Ponsatti. 5. Buenos Aires. do Senado o instrumento e símbolo de sua as­ cendência. portanto. as origens da aristocracia remontam aos tempos homéricos. dos sábios. não podem deixar de ser aqueles que pertencem às classes mais elevadas da so­ ciedade.6 Formas de governo 117 historia de las instituciones. Heródoto faz menção à oligarquia. cognominado o pai da História. ao contrário do que proclamaram Políbio e Cícero. Antiquités grecques. o bastião largamente inexpugnável de sua injustificável dominação (Lecciones de historia de las instituciones. men­ cionava trcs formas de governo (de um.C. sem distinções de nascimento ou riqueza (Polí­ tica. encontraram no Senado o reduto dc seus privilégios. Em Platão. Durante o sé­ culo VII a. por serem moral e intelectualmente superio­ res.C. a plebe. governo dos melhores. os aristoi. como assinala Arturo D. o termo aristocracia não se funda nas virtudes militares (inerentes à primitiva nobreza grega). Caberia aos sábios. e que seria denominada oligarquia. o equilíbrio da Constituição romana já não era o mesmo no século II a. IV. e kratos. e ao transformar-se em minorias dominantes. orientação destinada a enorme ressonância. p. de má índole. embora mantendo em seu tempo.C. As minorias dirigentes. daqueles que apresentam su­ perioridade não só intelectual.). 1884. mas na ri­ queza pecuniária. Astrea. li­ teralmente. domínio) significa. A par da monarquia e da isonomia (em substituição à demo­ cracia). Paris. por outro lado. mas também moral.C. de poucos. Em Roma. designando o estamento que limitava o poder do rei (basileus). (J. Aristóteles. Por outro lado. t. se definições clássicas de aristocracia as encontramos em Pla­ tão e Aristóteles. Buenos Aires.). a aristocracia teve seu maior destaque durante a república senato­ rial (509-27 a. enfim. dc muitos). a denominação aristocracia. que individualizou com maestria essa forma de governo. em oligarquias socialmen­ te disfuncionais que haviam perdido o fundamento moral de seu poder. 1976. Segundo Platão e Aristóteles. 313). II. o verdadeiro centro da estrutura política do Estado romano. poder. quase não tratando da aristocracia. 10). . mas na virtude e na sabedoria.

I. r u f f ia prélot. Barcelona. Politique d'Aristote.118 Teoria Geral do Estado A partir da Idade Média. Buenos Aires. e 4. 1984. R. uma forma dc governo para indicar um estamento diverso da burguesia e do cle­ ro. tos de direito público e constitucional brasileiro. ed. História Fred S. São Paulo. 1981.. 6. Ed. Reghizzi Gabriele. v. Robcrt. Teoria geral do Estado/Introdução ao direito constitucional. José Pedro Galvão de. La constituzione salvetti n e t t o . 1990. Roberto A. por com­ pleto. de la Flor. Todavia. Barcelona. telles j r souza . desapareceu. Rio dc Janeiro. 1949. e que se sobressaía pelos altos postos militares e por privilégios transmitidos hereditariamente. Saraiva. 1927. 2.l a r i . 2. s ie b e r t . Giuffrè. Casa Subirana. vani b e n f ic a Francisco.4) Democracia Bibliografia: 1978. São Paulo. Goffredo. 1974. Problemas de filosofia política. Elementos de teoria geral do Es­ dom enach Amado. no seu sentido original.. Martins Fontes. 1979. Paolo Biscaretti di e c r e s p i . w . 1972. 1957. Milano. ed. m a is c h Numa Denis. Madri. São Paulo. re. Obras completas. com o aparecimento do Estado moderno. terminologicamente. tado. Quest-ce que le Tiers État?. A cidade antiga. Rodrigo c v i a n n a . Cíenève. São b o n a v id e s bastos. . ham m er . Rio de Janeiro. a aristocracia deixou de ser. e Direito constitucional comparado% São Paulo. Emmanuel Joseph. f u s t e l d e c o u i . 1965. Theodos ié y è s . Nacional. ed. Revista dos Tribunais. Aguilar. A propaganda polí­ . Paulo. 2.a n g e s . TÃo. e p e t e r s o n . Instituciones griegas. 1963. Luís.. a aristocracia. A democracia possível. Labor. Ciência política . Saraiva. Curso de teoria do . tica. Ama­ h i- ral. Forense. f e r r e ir a f il h o Manoel Gonçalves. ris. Rio dc Janeiro. Rio dc Janeiro. Saraiva. cabral de m o n c a d a . Los partidos políticos. 1931. 1979. . Forense. m ic h e l s m f . Jean-Marie. Freitas Bastos. Saraiva. Difusão Européia do Livro. 14. Paulo. 1963. . São Paulo. 1989. v. Tres teorias sobre la prensa. Briguict. Rio de Janeiro. São Paulo. . 1984. política. . soviética dei 1977. Fernando. 1986. Conceito c natureza da sociedade . Bushatsky/Universidade de São Paulo. Vásquez dc. Com a Revolução Francesa. Estado. 1981. Armênio Dalmo de Abreu. Obras completas. Elemen­ Marcel. Saraiva. da Europa. 1979. pla- o c t a v io . ed. 1938. sincera da França. PUE.. . Introdução ao estudo do Estado e do direito. Forense. taker d a c u n iia . as mutações eco­ nômicas diminuíram substancialmente a importância da aristocracia. Pa­ Pedro. São Paulo. 1931. Celso Ribeiro. Paulo D. Sucessor. Amorrortu. que veio a perder para a burguesia a condição dc sustentáculo das monarquias absolutas. Buenos Aires. Coimbra. d a i . A democracia e o Brasii São Paulo. . Droz. 1986. São Paulo.l l a . s e ig n o b o s Charles. Curso de teoria do Estado/Di­ v ie ir a reito constitucional /. 1950. 1970. Polí­ tica e teoria do Estado.. Curso de teoria do Estado e ciência política. São Paulo. e p o h l - F.

Vargas. onde os cidadãos sc congregassem todos para o cxcrcício do poder político. Para elas. era. 1933. um exame mais atento. a democracia foi praticada na forma direta.4. em especial. À primeira vista. o Estado não era uma abstração somen­ te compreensível com o auxílio de um mapa. Fundação Getúlio mossh. sem intermediação de representantes. 2. todas elas ani­ madas dc fervoroso patriotismo.6 Formas de governo 119 2. em duas partes: evolução da doutrina democrática e espécies de democracia. N irri. na cidade grega. O Ago­ ra. executiva e judicial. era a chamada demo­ cracia clássicayna qual os membros de uma comunidade deliberam diretamente. dotados de inabalável consciência social e de zelo pela tradição. separados um dos outros por baías e cadeias de montanhas. um conjunto de cidadãos. Rio de Janeiro. um povo. além de lhe assegurar a participação efetiva na vida pública.2) D em ocracia direta Bibliografia: b o n a v id e s . via na participação da vida pública o supremo bem a ser almejado por um homem. Iniciemo-lo com a concepção de democracia entre os antigos gregos. Na Grécia. Jorge Zahar. Foram os gregos os primeiros a lançar as sementes da ideia democrática. a Grécia parece formar uma unidade geográfica. mostra-nos que a natureza dividiu aquele conjunto num gran­ de número de vales e planícies. D i­ cionário da civilização grega. lhe garantia os direitos subjetivos. Assinala Paulo Bonavides: A democracia antiga era a democracia de uma cidade. com finalidade didática. Ciência política . O ateniense. contudo. Claude. fazia pois o papel do Parlamento nos tempos modernos.1) Introdução ao tem a Dividiremos este capítulo. Francesco. La démocratie. de um povo que desco­ nhecia a vida civil. 1974.4. pois.surgiram na antiga Grécia. A cidadania era grande objetivo do ateniense. governo cons­ titucional . uma pra­ ça. Cada cidade que se prezasse da prática do sistema democrático manteria com orgulho um Agora. Alcan. 2004. que fazia de sua assembleia um poder concentrado no exercício da plena soberania legislativa. . A cida­ de não era um produto da razão. Neste país surgiram inúmeras pequenas comunidades.justiça. Isto era possível na prática porque a cidade era de reduzidas dimensões e a população diminuta. liberdade. sementes que foram conservadas pelos filósofos da Idade Média e que frutificaram na modernidade. Paris. que se voltava por inteiro à coisa pública. Rio dc Janeiro. Já se dis­ se que a maioria dos ideais políticos modernos . que deliberava com ar­ dor sobre as questões do Estado. isto sim. Paulo. e sim uma realidade palpável.

As assembléias eram realizadas numa praça denominada agora (do grego agos. de forma que os cidadãos pudessem dispor de seu tempo para as atividades políticas.. Aristóteles costumava dizer que todo c qualquer trabalho manual deveria ser executado por escravos. tido este como falta de vontade e entusiasmo para o trabalho. mesmo porque na própria atualidade o estrangeiro não possui certos privilé­ gios atribuídos ao cidadão nato. a pólis via seu elemento humano formado por três estamentos: inicialmente. Em Atenas. dirigido por um de­ marca. por ele consideradas desprezíveis. apenas aqueles que integravam um demos (município). Empregava-se então a expressão nec ócio (daí. quando não vadiagem pura e simples. vivendo com simplicidade e modéstia. Por outro lado. hoje. que não era opulento. puramente materiais. lembra Francesco Nitti. Os gregos. a ágora tem seu prestígio au­ mentado e as reuniões passam a ser mais freqüentes. basta lembrar que a pólis não era dotada do exército permanente. Assim. orador. Tão logo se desobrigava de suas ocu­ pações habituais. consideravam um povo sem ágo­ ra um povo escravo. Daí a expressão democracia. aqueles que residiam fora da cidade não eram considerados cidadãos. de um prestígio muito maior do que o ócio. pragmática e materialista. participavam da política. Como os cidadãos eram frequentemente chamados a participar das assembleias. Tais assembléias ti­ nham caráter informal e não desfrutavam de poder relevante. sendo tal direito transmitido de pai para filho. sem liberdade de opinião e de sufrágio. costume já mencionado por Homero. o ateniense sc voltava para a atividade política. o negócio desfruta. na qual se cruzam as principais artérias da cidade. poden­ . as expressões negó­ cio e negociante) para designar atividades lucrativas. considerava o ócio a mais pura atividade espiritual. os cidadãos (enpátridas). um lugar privilegiado se reserva à ágora.C. o grande número de escravos existente em Atenas permitia que o tempo do cidadão dedicado à política fosse quase integral. Por outro lado. Com efeito. a par­ tir de meados do século VIII a. A civilização contemporânea. quase sempre. embora fossem livres e sua exclusão da política não significasse discriminação so­ cial. voltada à contemplação e ao estudo dos te­ mas filosóficos. O segundo estamen­ to compreendia os metecos ou estrangeiros que não participavam da vida pública. dotados do direito de par­ ticipação na vida política. com o triunfo da democracia direta. perverteu o sentido original destes vocábulos de tal forma que seu valor foi inver­ tido. sua defesa dependia dos próprios cidadãos. no bouleuterion e na tholos. que significa gover­ no do demos. aquele que tem o direito de falar). Estes realizavam serviços manuais e eram benignamente tratados. O grego era considerado cidadão da pólis a que pertenciam seus pais. O cida­ dão. magistrados que presidiam as sessões do conselho e da assembleia.120 Teoria Geral do Estado Para se ter presente o apego do antigo grego à sua cidade. que eram os únicos a possuir armas. O terceiro e último estamento era formado pelos escravos. onde deliberavam os prítanes.

Locke é. respectivamente. em Esparta. cm especial. b) inexiste o pecado original: o homem é levado à corrupção pelo próprio poder político. pelo fascismo. Para melhor alcançar seus objetivos in­ . mi­ lênios depois. imperando a lei da natureza. já se fazia presente. de forma que não é difícil chegar-se à desagradável conclusão de que o ideal totalitário se amalgamava com a própria democracia grega. a liberal-democracia. Seus preceitos básicos po­ deriam ser resumidos em três: a) o guia infalível da sabedoria é a razão. isto é. no capítulo XV III de sua obra A cidade antiga. periecos e ilotas. iniciada na Inglaterra por volta de 1680 e fundamentada cm rígido racionalismo oriundo. originalmen­ te. entretanto. em parte. que. então. O Estado intervinha em tudo. Locke procura fundamentar a forma de governo parlamentar introduzida 11a Inglaterra pela Revolução de 1688. a par de inegáveis conquistas 110 campo da liberdade e da propriedade individuais. 11a verdade. que a participação do cidadão 110 processo político era muito mais um dever do que um direito. Não havia.4. a palavra aterradora totalitarismo. diga-se de passagem. pelos excessos do absolutismo em França. A metecos e escravos em Atenas correspondiam. Percebe-se. 11111 dos criadores da ideolo­ gia iluminista. O eforato era um órgão importantíssimo na política espartana. No seu modo de ver. na própria natureza. Em sua obra Segundo tratado do governo civil. com suas ultrapassadas concepções criadas para manter o po­ der do clero e da monarquia absoluta. numa sociedade anárquica. cidade situada no alto do vale do Eurotas. fundamentou aberrações doutrinárias de malévolos efeitos. fertilíssima região da Grécia. de Thomas Hobbes. Frise-se que o próprio Estado podia ter escravos. Ao eupátrida ateniense correspondia o esparciata ou lacedemônio. a organização política. condenando o absolutismo.6 Formas de governo 121 do alcançar sua liberação em face de bons serviços prestados aos seus proprietá­ rios. Jean-Jacques Rous­ seau e Emmanuel Joseph Siéyès. até mesmo no modo de trajar do ho­ mem ou da mulher. criada. os homens viviam. consagrava. não sen­ do raras. é preferível à vida em civilização.3) D em ocracia representativa Justificada. fundada na monarquia. tendo por missão proteger os interesses dos esparciatas (cidadãos) nas relações com outros Es­ tados. 2. as tiradas organicistas de Platão e dc Aristóteles nas respectivas obras. estes últimos o estamento mais numeroso. a re­ pública aristocrática governada por um conselho de trinta membros. Quem nos dá uma visão realista da democracia grega é Fustel de Coulanges. torna-se insuportável. auxiliado por dois reis. A mentalidade totalitária ou organicista. despro­ vida de poder. Em Esparta. em liberdade e igualdade absolutas. São figu­ ras de realce no pensamento liberal individualista John Locke. contra periecos e ilotas. pela leitura do texto. que exerciam funções publi­ cas menos significativas. contudo. c) a vida do homem em liberdade absoluta.

sem dúvida. daí o divórcio. se Locke tivesse de optar entre a desordem e o despotismo. é a liberdade dos bons tempos que o faz bom: portanto. é aque­ la que reduz ao mínimo os vínculos sociais c a pressão exercida pela sociedade sobre o homem. a sociedade polí­ tica conveniente é aquela que garante a mais ampla autonomia individual. rebelar-se contra os possíveis excessos dos governantes. A própria família somen­ te se mantém em razão de laços contratuais. que podem dissolvê-lo livremente. A liberdade passa. man­ ter a ordem. Essas ideias de Rousseau acham-se situadas especialmente em O contrato so­ cial1 . era. como tal. a ser um fim em si mesma. relegada a um segundo plano toda a ideia dc progresso e de bem-estar social. por sua vez. o chamado estado de natureza . Rousseau. por conseguinte. fruto da vontade e não de uma inclinação natural. Como Locke. a qualquer momento. A única função do Estado seria. no qual também a felicidade seria abso­ luta. dizia em sua obra O contrato social: “O homem nasce livre e em toda parte se acha aprisiona­ do'’. e a própria sociedade nada mais é que o objeto de um con­ trato. resolveram. mediante um pacto voluntário . Ora. direito de. Rousseau afirma que o homem surge num estado de liberdade absoluta. O homem. a primeira hipótese. reduz o casa­ mento a um contrato e. Já se disse que. mas a sociedade o corrom­ pe. dependente de um acordo de vontades. aliás. Emmanuel Joseph Siéyès (1748-1836) . o homem perde tal liberdade e se corrom­ pe. instituir a sociedade política. portanto. A comunidade teria. é um bom selvagem . O individualismo. um dos corifeus da Revolução Francesa. outorgando a esta um poder de mando destinado a executar a referida lei natural. então. Discurso sobre a origem da desigualdade entre os homens e N ova Eloísa. Quando surge a vida em sociedade. preservando a liberdade individual. diz ele.. ideal maior do Estado. contudo. a restauração do caráter do homem se faz com a liberdade civil. sua natureza é sã. escolheria. Perdida a liberdade natural.122 Teoria Geral do Estado dividuais.

Nous c x imincrons cnluitc les rooyensquc 1on a eflayés / íc c c u x q n c l on doic prendre. C c que les Miniftrcs ont ttn ti. nada com o ouro. Ainft nous d iro n s: * 4 ° . Inércia e dinheiro ensejam soldados para dominar a pátria e deputados para a venderem. Rousseau era adversário ferrenho da chamada democracia representativa. cc q u i rtjle i fairc au Ticrs pour prendre U p h cc qvú lui cft dúc. Todos estão certos de que ja­ . Q u c ft-cc que le Tiers-Ecat » T o u t . É preciso ir ao parlamento? Nomeiam deputados e continuam a ficar em casa. Rousseau vai ao ponto de afirmar que o ho­ mem. onde houver deliberações tomadas diretamente pela comunidade. en c ffc t. N oui avons trois queftions i nous faire. Rousseau é bastante claro e incisivo a esse respeito: Logo que a função pública deixa de ser a principal atividade dos cidadãos. A i. por ser contrária à lei natural a proposição de que a maioria governa a minoria. naturalmente independente. não pode participar da vida em sociedade a não ser conservando sua soberania pessoal. í®. que se preocupam mais com o dinheiro do que com sua própria pessoa. 1®. Frontispício da obra clássica de Siéyès Que é o Terceiro Estado? Já estamos vendo que.i voirfi les reponfes font juftes. tanto para Locke como para Rousseau.6 Formas cie governo 123 Q U E S T -C E Q U E LE TIERS-ÉTAT? X j E plan d c cct E c m c ít aflèz fimplc. afin que IcTicrsEtat d evien n e. os cidadãos fazem tudo com a força dc seus braços. todos freqüentam as assembleias. O n v. Q u a-t-il & c jufqti a prcfcnt dans 1'ordrc p olitiquci RiEM. & c e q u e Privilegies cux-m cm cs propofaic cn fa faveur. Só pode haver democracia. É preciso combater? Pagam a mercenários e ficam em casa. Num Estado bem dirigido. Enfin . Q tiç dcmandc-c-il f A dcvcnir QUELQUE G H O SE. não pagam para se desobrigar dc suas obrigações. 3°. C c q u o n auroit Jú fairc. sem intermediá­ rios. Num dos mais valiosos capítulos de seu O contrato social (Livro Terceiro. dizia Rousseau. a liberdade é o bem supremo do ideal democrático. o Estado se encon­ tra à beira do colapso. Por isso. mas com um mau governo ninguém se interessa pelo que nelas se delibere. N um Estado verdadeiramente livre. quclqu* chofe. C ° . mas para as cumprirem. Capítulo XV). 5 °.

classes sociais na França. elemento mais numeroso e mais sig­ nificativo economicamente. que significa. efetivamente existentes em dado momento histórico. imutabilidade. que bem merece perdê-la. denotando a rigidez das sociedades estruturadas em estamentos. com efeito. Emmanuel Joseph Siéyès foi um abade que teve uma vida política destacada.124 Teoria Geral do Estado mais a vontade geral prevalecerá. é nula. de Marx e Engels. o Terceiro Estado. A soberania não pode ser representada. Nesta segunda obra. mas sim o conjunto daqueles que viveram. estamento. Que era. exatamente. considerados tão importantes para a Revolução Francesa como o Manifesto comunista. afinal. na França pré-revolucionária? Era o ter­ ceiro estamento social. como contrária à natureza. Aliás. logo que estes são eleitos. obra da qual se serve para combater a pluralidade de es­ tamentos do ordenamento constitucional monárquico. quando muito. estado. a própria ideia de privilégio. más leis acarretam outras piores. presidente da Constituinte francesa re­ volucionária. no sentido moderno que atribuímos à expressão clas­ se social. porém está enganado. no qual Siéyès incrimina. Se Rousseau é inimigo figadal da democracia chamada representativa. não aprove. ou é ela ou não e. e Que é o Terceiro Estado?. de origem indo-europeia. em pessoa. e isto não ocorria então. Siéyès será o grande inspirador desta. foi adversário de Robespierre. voltou para a França em 1830. que vivem e que viverão. O povo inglês pensa que é livre. Apoiou Bonaparte no golpe do 18 Brumário. afirma que a soberania do Estado reside na nação. Esses dois panfletos se intitulam Ensaio sobre os privilégios. com efei­ to. pois uma sociedade estruturada em classes admite a mobilidade social. Boas leis criam outras melhores. elementos de uma comissão e não podem concluir nada em definitivo. Nos poucos momentos em que usufrui de liberdade. com todo o Terceiro Estado. são. propondo a unidade da na­ ção e do chamado Terceiro Estado (o povo). A ideia de nação em Siéyès confunde-se. Exilado. Toda lei que o povo. . passa a ser escravo e nada é. pois não admite alienação. Ela se expres­ sa pela vontade geral. não há meiotermo. mesmo porque as ocupações particulares ocupam todo o tempo. jamais será uma lei. aparentemente. per­ manência. mas não conseguiu que seu projeto de Constituição fosse adotado. Siéyès escreveu dois explosivos panfletos. Quem inte­ grava um estamento inferior não podia galgar um estamento privilegiado. sendo os três estados estanques. E quando alguém diz: Que me importa o E s ta d o este está perdido. estratificação trazem consigo um semantema (ra­ dical) st. só é livre durante a eleição dos membros do parla­ mento. para a Re­ volução soviética. estratificados. as palavras casta. antecedido pela nobreza e pelo clero. concretos. c esta não admite representantes. Não havia. Deputado do povo. Os deputados não são c nem podem ser representantes do povo. utiliza tão mal esta. A nação não é o conjunto de homens reais.

e sim mera representação política. porque segundo ele é imprescindível a participação direta da comunidade nas deliberações políticas. O Terceiro Estado. vinculação jurídica entre representantes e representados. 7°: “Os representantes elei­ tos nos parlamentos não serão representantes de um departamento particular. deve ser direta. consequentemente. Nisto. Assim. ao passo que. isto é. da mesma forma que no direito civil temos um contrato denominado mandato (do latim manus dare). a nação é uma entidade abstrata. Nação e Terceiro Estado confundem-se. “da qual emanam todos os direitos” (Constituição de 1791. e a perda do exercício do cargo não decorre da vontade dos governados. A responsabilidade dos representantes apura-se nos termos da Constituição. no pen­ samento de Siéyès. para que haja vontade gerai Entretanto. Todo aquele que é privilegiado pela lei sai do ordenamento comum e. ambos concor­ dam num ponto: todo e qualquer organismo intermediário entre os indivíduos e o poder político deve ser eliminado. Em razão disso é que Siéyès abre seu famoso apúsculo com as incisivas palavras: “ Que é o Terceiro Estado? Tudo. vinculação jurídica entre man­ . A sobe­ rania. contudo. Que deseja ele? Chegar a ser algo”. os interesses da nação suplantam os interesses momentâneos do povo. que pertencia ao rei. que fixará a competência e os deveres dos representantes da na­ ção. passa a pertencer à nação. contratualística. c nenhum mandato lhes poderá ser atribuído”. é uma nação completa. Que tem sido até agora no ordenamento político? Nada. sendo a nação uma entidade abstrata. para Siéyès. a Constituição francesa de 1791 estabeleceu em seu art. a posição de Rousseau é oposta à de Siéyès. Por isso. mas de toda a nação. reitere-se. não se confunde com as gerações que passam. consistindo num vínculo contratual entre representante e representado. Nada pode progredir sem ele. a representação política é obra do poder constituinte. segundo Rous­ seau. pois as mãos simbolizam a fidelidade (per dexteram era per fidem).6 Formas de governo 125 Clero e nobreza eram dotados de privilégios com os quais não era contempla­ do o povo ou Terceiro Estado. arts. que representa os interesses perma­ nentes do elemento humano do Estado. Já o disse­ mos: uma lei comum c uma representação comum e o que constitui uma nação. sendo que a participação do povo. Não há. preâmbulo do título terceiro. mas com os interesses permanentes do Estado. A nação. for­ malizando-se o pacto por um aperto de mãos. diz ele. Em razão da doutrina de Siéyès. Ora. não po­ derá haver mandato imperativo. e seria bem melhor se os outros Estados não existissem. a representação da nação será atri­ buída a quem ela determinar. Enquanto o mandato imperativo tem natureza consensual. no capítulo II: É preciso entender por Terceiro Estado o conjunto dos cidadãos que se acham submetidos a um ordenamento comum. não integra o Terceiro Estado. mas das próprias normas da Constituição. I o e 2o). Mais adiante.

Foi olvidada a ideia de que o Estado não tem no elemento humano a mera soma dos indivíduos. a ele vedada uma participação efeti­ va nas decisões dos governantes. e não se dará esse caso vergonhoso . incorreu no extremo oposto. faze-los desaparecer. o Partido Con­ . Assim. surgindo a solidariedade orgânica e a divisão do trabalho. é necessário que essas forças estejam representadas nas Cortes. que. não podendo ser negadas sem que sc negue uma na­ ção. artísticos. muitas vezes. É preciso que aí estejam os interesses dc que vos falei: o interesse religioso c moral representado pelo clero. de acordo de vontades.126 Teoria Geral do Estado dante e mandatário. tal concepção de democracia. pela in­ dústria e a agricultura. Quan­ do o parlamento representar todas essas forças. quando surge uma crise agrícola ou industrial. colocando o indivíduo numa po­ sição dc desamparo perante o poder político. e como as classes são categorias sociais permanentes. a família e o município. representado pelo comércio. grupos que. A representação por meio de partidos. e o interesse das superioridades. contu­ do. pelo menos até o momento inexpressi­ va e fictícia em nosso País e em quase toda a América Latina. sejam estes dc natureza econômica. Ora. antecedem no próprio Fi­ tado. pelas universidades e academias. revelando a inclinação do homem para uma agregação orgânica e não puramente mecânica. apresentou bons resul­ tados na Inglaterra. A representação nacional tem natureza institucionalvem de cima para baixo. ao passo que o mandato imperativo tem natureza consensual. em perfeita integração com os organismos vivos da nação. por exemplo. então o espelho da sociedade será ele mesmo. somente se agrega aos seus semelhantes que tenham os mesmos interesses. a pri­ meira medida dos partidos que formam o parlamento é procurar uma informação pú­ blica.dc que. intelectual. para sc inteirar do que sc passa lá fora. não poderá jamais. O Estado poderá ató desconhecer tais grupos. procurando rebater os excessos do absolutismo monárquico. Vásquez de Mella adverte: O que se deve representar é o homem de classe e de grupo. bem como pelos operários. têm direito a brilhar nas alturas. da linhagem. o interesse material. animal social por natureza (zoon politikon ). e sim a formação de grupos sociais que surgem espontaneamente. representado pelas corporações científicas. Se as primitivas sociedades eram ho­ mogêneas e a solidariedade social puramente mecânica. como frisa Galvão dc Souza. ainda saindo das camadas inferiores. o processo denominado in­ tegração ensejou a diferenciação paulatina de tais grupos. e surgem espontaneamente. De fato. política. Surgem grupos das mais diversas espécies e fina­ lidades. o interesse da defesa.prova de que não são representativos os parlamentos modernos . religiosa ou in­ telectual. o homem. daquelas autoridades sociais que for­ mam a aristocracia de todos: os méritos científicos. representado pelo Exército. o interesse docente. da virtu­ de. porque lá eles sempre estiveram identificados a classes sociais.

identificado com a classe operária e as agre­ miações sindicais (trade unions). então aparecem os partidos para substituí-los. veículos que a representam. são meras siglas. como órgãos de expressão da opinião pública. onde. Em preciosa monografia intitulada A democracia e o Brasil. Dissolvidos os órgãos naturais de representação da sociedade. no tocante à representação partidária. mas em concreto. por influência de Siéyès. portanto. Entretanto. Por que não substituir a representação par­ tidária pela representação corporativa? A representação feita através dos partidos é inexpressiva e fictícia. isto é. incapazes. Além disso. sim­ ples rótulos. não em doutrina. por exemplo. finalmente. muito mais importante do que um partido. sofreu menos o impacto das novas ideias revolucionárias. Não são produtos das exigências comuns da vida humana. Partidos políticos do tipo dos nossos não são órgãos naturais da sociedade. Há casos que poderiam ser apontados como exceções. de orientar a opinião de quem quer que seja sobre os problemas sociais. Goffredo Telles Jr. isto é. Galvão de Souza também se mostra incisivo e claro a esse respeito: Os partidos podem ser indispensáveis num determinado tipo de democracia. bem apontado por Maurice Duverger. o pragmatismo suplantou as abstrações ideoló­ gicas. o da Inglaterra. não em todos. Em nada se prendem ao drama quotidiano do cidadão. Na democracia liberal e individualista surgem. não em abstrato. Se na liberal-democracia os partidos apareceram para preencher o vazio dei­ xado pelos corpos intermediários extintos em 1791. ocorreu nos Estados Unidos da América do Norte. Fenômeno semelhante. não devemos nos esquecer de que os partidos ingleses se acham intimamente ligados a determinadas classes ou a grupos . em especial na França.6 Formas de governo 127 servador sempre esteve ligado aos grandes proprietários. dc certa forma isolada do drama políti­ co que se desenrolava no continente europeu. meros instrumen­ tos dc grupos ou de chefes políticos arrivistas. partido representante. Os quadros partidários não correspondem à organização natu­ ral da sociedade que visam representar. o Liberal. Servem apenas de instrumento para o registro de candidatos no tribunal com­ petente. os agrupamen­ tos intermediários da família ao Estado. e. na América Latina tornaram-se quase sempre órgãos deformados. já escrevia antes mesmo da insurreição de 1964: Os partidos políticos brasileiros. a Inglaterra. o Trabalhista. por­ tanto. representando a classe média burguesa. Pois aí está o dc que muitos se esquecem. Nada dizem à alma popular. a ponto de não haver uma diferença bem definida nos dois grandes partidos aí existentes. em seu real funcionamento. e também instrumentos para orientála. vazias embalagens. no sentimento do povo. da aristocracia. observados não em tese. sem nenhum conteúdo doutrinário e programático. Um sindicato ou um clube de fu­ tebol é.

4. Os governantes consideram oportuna a medida. o instituto adotado por Napoleão Ikmaparte para obter o aval popular das mudanças constitucionais dc seu governo. Na democracia partidária. por intermédio de plebiscitos. 2. tradicionalmente. O termo plebiscito deriva de plebs. o que ocorreria com a Emenda n. de certa forma. mas antes dc efetivá-la consideram necessário que o povo se manifeste. O parlamentar. sendo. ao lado da natureza representativa de seu sistema político. plebe. Modernamente. não decide mais por si próprio. de 23. a função do partido político é preparar a de­ cisão popular. mediante um plebiscito no qual o eleitorado refugou o regime parlamentarista de governo. Deputados e senadores serão man­ datários de seus partidos. recall e mandato im­ perativo. o povo francês manifestou-se durante a Grande Re­ volução.1963. em nome da fidelidade partidária. Como se poderia compreender o desenvolvimento do Partido Trabalhista sem a base sindical do “trade-unionismo” ? E o Partido Conservador não tira a sua força do elemento aristocrático? As aberrações e os abusos cometidos cm nome da chamada democracia re­ presentativa ensejaram uma série de providências saneadoras do Estado Moderno.128 Teoria Geral do Estado sociais.C. formulando um programa de governo e designando candidatos que se vinculam. pois o deputado pode ser desligado de seu partido caso sc des­ ligue da linha de conduta que lhe for traçada. os seguintes ins­ titutos: plebiscito. nela se admite a utilização esporádica da intervenção direta dos governados em certas delibera­ ções dos governantes. manifestando-se favoravelmente. obrigatoriamente. . Esta intervenção compreende. a tal programa. basicamente. Ele se sujeita ao programa partidário. a vinculação do parlamentar ao seu partido. portanto. Após a Segunda Guerra M undial. Plebiscito: a expressão denomina uma consulta prévia que sc faz à coletivi­ dade. por intermédio da Emenda Constitucional n. a fim de que esta sc manifeste a respeito de sua conveniência ou não. a de­ mocracia representativa. 6. aliás. os governantes france­ ses usaram largamente do plebiscito.01. que havia sido adotado em 02. no que foi imitado por Napoleão III. um retorno ao mandato imperativo. referendo. Embora adotando.1961. Inicialmente. ten­ do origem na Lex Hortensia (século IV a. quando garantiu o apoio da maioria para suas medidas. Isto marca. à volta do regime presidencialista. o constitucionalismo brasileiro ensejou a participação popular direta em 1963. Hitler realizou vários plebiscitos. destacando-se aquele que ensejou a anexação (Anscbliiss) da Áustria à Alemanha. iniciativa popular.09.4. veto popular. por conseqüência.). assim nominada porque.4) D em ocracia sem idireta A terceira espécie de democracia é a democracia semidireta. que concedeu aos plebeus o direito de participar do processo político na antiga Roma republicana.

da Constituição de Cuba. 86. que de­ verá examiná-lo c emitir um parecer (/l democracia. Publicações Europa/ América. A diferença entre os projetos de lei originados da comunidade c os plebiscitos é que os primeiros aparecem na votação através de ação direta do cidadão. Trata-se. O primeiro projeto dc lei estadual originado da comunidade nos Estados Unidos ocorreu no Oregon em 1904. na Constituição de Weimar. de todas as instituições da democracia semidireta. Também o referendo é previsto pela Constituição brasileira no art. a realização de plebiscitos como forma de exercício da soberania popular (art.. O aumento desses projetos. que autoriza o seu exercício por um mínimo de dez mil cidadãos. também. mas fazem com que se legisle. a que mais aten­ de às exigências populares de uma participação efetiva no processo político é a ini­ ciativa das leis pelo próprio povo. Ressurgiu. Referendo: o referendo e o mecanismo da democracia semidireta pelo qual os cidadãos são convocados para se manifestar a respeito da conveniência ou não de medida já tomada pelos governantes. 71. como desejam cidadãos informados e educados. pelo qual pressiona o parlamento a reparar um projeto de lei sobre determinado assunto. a iniciativa popular obriga o parlamento a legislar. Lembra Salvetti Netto que o Le­ gislativo não está obrigado a acatar a iniciativa popular. da Constituição italiana de 1947 determina que cinqüenta mil eleitores podem obrigar o parlamento a discutir um projeto de lei oriundo de iniciativa popular. Estes instrumentos criam acesso direto à decisão política. Como acentua John Naisbitt cm sugestiva monografia: Os projetos de lei originados das comunidades e os plebiscitos são as ferramen­ tas da nova democracia. Lisboa. in fine. porque.. juntamente com o plebiscito e o recall (que permi­ te aos eleitores revogarem o mandato de um representante eleito e que é legal em doze . depois. a moção. No caso. Nisto difere do plebiscito. 14. 133). de ratificação popular de algo que já está feito. c os plebiscitos são uma maneira dc os cidadãos aprovarem ou não a ação do legislativo. enfim. II. 1 4 . os cida­ dãos não legislam. no Estado de Dakota do Sul (1898) e no Oregon (1904). no art. p. se um determinado número dc ci­ dadãos o exige. na Ve­ nezuela e na Itália. 2o das Disposições Transitórias).6 Formas de governo 129 A Constituição brasileira prevê. A iniciativa popular é encontrada. E uma das razões para o seu fortalecimento recente é que as pessoas estão exigindo maior prestação de contas.1 ) c como instrumento da vontade popular na manutenção ou modificação da forma de governo e do regime de governo (art. Realmente. 1962. Iniciativa popular: eis o mais significativo instituto da democracia semidire­ ta. Dá-se o nome de referendo também à manifestação popular sobre a entrada em vigor de leis já elaboradas pelo parlamento. Como assinala Georges Burdeau. expressamente. um projeto de lei determinado será exposto à Assembleia. então. Na iniciativa popular o povo exercc apenas um direito dc petição “reforçado”. O art. g. A iniciati­ va popular foi empregada pela primeira vez nos EUA. bem como a discuti-lo e a votá-lo.

Darcy Azambuja. Li­ vros Abril/Círculo do Livro. Pode ocorrer no plebiscito ou no referendo.principalmente em relação à legislação social que . e com a iniciativa popular pode obrigar o Legislativo a fazer leis socialmente úteis. sendo o instituto adotado. Quando um juiz se nega a aplicar uma lei. E. em nenhuma hipótese. verdadeira­ mente. sua finalidade: permitir que o eleitorado possa destituir. William Bennett Munro. sem dúvida . Recall: o termo recall significa revogar. Isso se dá . decla­ rar inconstitucional a lei e obrigar a sua aplicação. alegando o vício de inconstitucionalidade. citado por Wilson Accioli (Teoria ge­ ral do Estado.1988. 321). Como assinala. por imposi­ ção do capitalismo que a elege. Ele pode ser defi­ nido como o direito de um determinado número de eleitores solicitar a destituição ime­ diata de um governador ou de qualquer outro detentor de cargo eletivo. modernamente. p. inovou na or­ dem jurídica ao adotar a iniciativa popular nos arts. 26. 162-3) A vigente Constituição brasileira. de uma medida governamental.10. o povo americano pode inutilizar certas leis. anular. Não se aplica. caracteriza magistralmente o recall dos cargos eletivos assim: Comumente vinculado à democracia semidireta está o recall. Nem o Poder Judiciário escapa ao raio de ação do recall. con­ trárias ao interesse coletivo. quando estes. Uma petição . e 61. um órgão público que tenha afrontado a confiança do povo e a dignidade do cargo. representa uma exigência inequívoca de parte dos eleitores de prestação de contas do governo. a maioria dos eleitores pode anular a decisão. 14. § 4o. instrumentos-chave na nova democracia participativa. Rio de Janeiro. promulgada em 05. arrojada e singular. nos Es­ tados do Oregon e da Califórnia. (Megatendências.a magistratura eletiva de vários Estados tem entravado. Estes novos dispositivos.130 Teoria Geral do Estado estados). Veto popular: do latim vetare (proibir. o veto popular significa a re­ jeição. Forense. por julgá-la inconstitucional. e obter que seu pedido seja submetido aos eleitores para que estes possam decidir. negam-se a executar certas leis oriundas da iniciativa popu­ lar. mas a única arma que o povo americano encontrou para combater um perigo muito maior . p. É o recall das decisões judiciárias. o pioneiro na inovação do recall quanto às decisões judiciárias. a partir de 1912. com o referendum.prossegue Azambu­ ja .segundo muitos autores americanos . uma outra forma. pelo povo. às decisões da Suprema Corte. de democracia semidireta lhe permite anular a ação dos juizes. uma forma audaciosa e perigosa. adotado em doze Estados da Federação norte-americana. se. permitem às pessoas passar por cima dos processos representativos tra­ dicionais e moldar o sistema político com suas próprias mãos.a elegibilidade dos juizes. III. 1985. caput e § 2°.finaliza -. oportunamente. e c esta. impedir). reparar. em manifestação direta. Theodore Roosevelt foi. 1982.

Um percentual de 20 a 25% do total de eleitores de cada Estado requer que o órgão seja submetido ao recall. Vejamos: a expressão manda­ to vem do latim mandatum. p. entre mandante e mandatário. natureza contratual. Mas ele tem sido. e não apenas ao corpo eleitoral. Permite ao povo destituir qualquer detentor de cargo público que dei­ xou de atender à sua confiança. estabelecendo as razões indicadoras da ação pretendida. (The govemment o f United States. 672) Entretanto. quando suficientes assinaturas (usualmen­ te um número igual a cinco por cento do eleitorado registrado) forem obtidas. evidentemente. sendo seus alvos os órgãos dos três Poderes da União. em razão disso. como já vimos no estudo da democracia representativa. mais para uma emergência do que para o uso mais in­ tenso. e não institucional.6 Formas de governo 131 deste tipo. ordenam uma eleição para decidir sobre a matéria. e. o vínculo jurídico existente entre representantes e representados. o mandato imperativo teve seu apogeu 11a França. assinala Darcy Azambuja. ultimamente. caução. o recall é 1908. para o que. o recall é um ins­ trumento político indicado para assegurar a mais rigorosa responsabilidade funcional ao eleitorado. Por outro lado. Ao contrário do impeachment. Surgido por volta do século IX. a peti­ ção é submetida às próprias autoridades que. o funcionário é destituído imediatamente. de modo fácil. MacM illan. previamente. cuja denominação . que é um procedimento semijudicial normalmente usado para livrar o governo de um funcionário culpado de atos criminosos. juntando à cédula do voto sua defesa. Tem. con­ sensual. muito pouco usado. em apenas um governador e uma meia dúzia de outros importantes funcionários estatais foram destituídos. lar­ ga aplicação em alguns Estados norte-americanos. Embora empregado a partir de então. prestar. aliás. o que pareceria indicar que é geralmente visto como uma arma a ser mantida de reserva. New York. 11a forma da lei. espécie de pacto que. em face disto. portanto obriga­ tória. Se reeleito. na Es­ panha. ele continua no cargo. é redigida e posta em circulação para receber as assinaturas. é reforçado pela vinculação jurídica. ser usado er­ radamente. como ocorre no mandato político. de fato. Torna a responsabilidade funcional permanente e di­ reta. Sc a maioria dos eleitores sc pronuncia cm favor do re­ call. o termo man­ dato não casa bem com democracia representativa. Desde sua introdução. de modo que estes. 11111 instrumento que pode. quando desa­ pareceu na voragem do absolutismo nascente. sob o impacto da doutrina de Siéyès. Mandato imperativo: o mandato imperativo é o vínculo jurídico que liga o re­ presentante do povo aos seus próprios eleitores. desfez-se. os peticionários do recall devem reembolsar o acusado das despesas feitas com a eleição. até 1601. porque o “mandato” polí­ tico se referiria a toda a nação. a responsabilidade dos parlamentares apurar-se-ia tão somente nos casos rigidamen­ te instituídos pela Constituição. o recall tem obtido. podem rescindir\ dissolver esta ligação. do contrário. em caso de o candidato eleito não estar correspondendo aos anseios do eleitorado. O recalled pode apresentar-se à reeleição. 1959. Com o surgimento da chamada de­ mocracia representativa.

com franqueza e pessimismo. a representa­ tiva e a semidireta. transformou-se. em oposição a arche (governo)? Assegurar os meios da permanente penetração dos governados nas decisões dos governantes. Infelizmente. que nada mais é do que uma espécie entre as inúmeras que buscam alcançar o ideal democrático. pelo menos. que a tragédia das democracias contemporâneas con­ siste em que elas não conseguiram. governo do povo. costumava dizer que a confusão está a se esconder numa palavra: democracia. primeiro-ministro de Luís Felipe. portanto. a da democracia direta. Com efei­ to. Não foi à toa que Jacques Maritain afirmou. com seu espírito pragmático. eis o grande desafio. como querem alguns.132 Teoria Geral do Estado correta seria. realizar o ideal democrático. a qualificação de um Estado como democrático não se acha vinculada a nenhuma ideologia. consiste em tomar a parte pelo todo. qual seja. Atualmen­ te. Abolido violentamente pelo furor revolucionário na França. Ora. retornando à prática política. o mandato imperativo vai. em tabu. a liberal-democracia. resta claro que o termo não significa. 250 definições de democracia. Guizot. mas poder do povo. todos os Estados Modernos se proclamam ardentemente democráticos. Descar­ tada a primeira hipótese. Pela própria etimologia da palavra democracia (demos = povo e kratos = poder). quando o que está realmente em crise é uma simples forma histórica da democracia. embora nunca de medida e padrão únicos. aos poucos. então. para mui­ tos. ainda. restaria indagar qual a verdadeira essência do ideal democrático. sob pena de aberrante deformação da realidade. que os romanos. Come­ te-se o erro que. três espécies de democracia: a direta ou clássica. por irrealizável no mun­ do moderno. Cada uma delas buscou alcançar o ideal democrático. Curiosa esta última posição: será a democracia o governo do povo ou. em lógica. exigindo dos governantes a melhor orientação. Frederico II não fazia por menos e costuma­ va resumir seu pensamento a esse respeito em poucas palavras: tudo para o povo. Um recente estudo levado a efeito pela Unesco revelou a existência de. mas o sociólogo norte-americano Robert Dahl catalogou nada menos do que quinhentas conceituações! Em pitoresca ima­ gem. é correntio ouvir falar em crise da democracia. di­ zem seus porta-vozes. investidura. a liberal-democracia. tão bem sintetizaram com esta elegante expressão: popularii potentia. . Eis. propriamente. Uma coisa é certa: não pode haver democra­ cia onde não houver uma participação permanente c consciente dos cidadãos or­ ganizados em povo político. nada pelo povo. o controle do poder político pelo povo. Cabral de Moncada nos diz que a democracia é um tecido com o qual se pode tecer todo tipo de roupa. Crise da liberal-democracia é crise do próprio ideal democrático. menos por suas virtudes intrínsecas do que pela inegável desmoralização da repre­ sentação política cunhada pela liberal-democracia. da mes­ ma forma que todos os políticos se proclamam honestos.

implan­ tação do divórcio. Entretanto. transformadas em dogmas da política. o sufrágio apresenta duas espécies: o sufrágio-direito e o sufrágio-função. Por isso. Quando o eleitorado. Por isso. o eleitorado está elegendo. inevitavelmente. é um pro­ cesso de seleção daqueles que terão o direito de votar. adoção de determinado regime dc gover­ no. Quanto ao fundamento da soberania. portanto. é ele titular de parte ou fração da própria soberania. com muita graça. é costume dizer que há eleição. nada mais é do que o instrumento para exercer o direito de deliberação ou de escolher candidatos a cargos políticos. O sufrágio é um processo de escolha.4. então. livre e consciente. Quanto ao voto. escolhendo seus candidatos. ao conjunto daqueles que são dota­ dos de cidadania. para se sa­ ber quem terá o direito de votar c preciso. Rousseau é muito claro a respeito: “a soberania não pode ser representada. o da existência de um corpo eleitoral periodicamente renovado. o sufrágio1 Do latim suffragari. O sufrágio-direito parte de Jean-Jacques Rous­ seau. que Georgcs Burdeau. qual seja. Que é. Então. afirmam alguns doutrinadores. quando. constituem o sufrágio. diz-se que há votação. sendo cada cidadão uma parcela da coletividade política. mas inexoravelmente. o que vem a ser democracia? Democracia é o processo político que autoriza a permanente par­ ticipação. o homem abstrato vão deixando o seu lugar para um ser totalmente novo. ao eleitorado. e esta não admite repre­ sentantes” . e sen­ do a soberania indelegável. ao votar. quem se refere à democra­ cia. pois não admite alienação. perdendo ter­ reno. para quem. Atendidos os requisitos constitucionais. direta ou indireta. um processo de escolha de eleitores. descreve em seu precioso opúsculo sobre a democracia. o cidadão. o homem situado. decide diretamente a respeito dc determinado assunto. estabelecer os requisitos para a obtenção dc tal direito. Belas ficções. estabelecidos na própria Constitui­ ção.6 Formas de governo 133 Num mundo em que as realidades palpáveis se fazem cada vez mais candentcs.5) Sufrágio e voto Tanto a democracia representativa como a democracia semidireta apresentam um pressuposto que se destaca de imediato. pode haver votação sem eleição . preliminarmente. enfim. o célebre genebrino costumava dizer: “o voto é um direito que . simplesmente. 2. refere-se. mediante o sufrágio. da com unidade. fica esclareci­ do quem terá o direito ao voto. as abstrações do passado vão. legalização do aborto. começam a perder o en­ canto original. mediante elei­ ções. previamente selecionado por determinado tipo de su­ frágio. nas deliberações dos governantes. Tais requisitos. por exemplo. o nacional passa a ser cidadão. àqueles que têm o direito dc votar. Pelo sufrágio. paulatina. Pelo sufrágio. O sufrágio é. o nacional torna-se cidadão e começa a exercer o direito de votar. embora na demo­ cracia representativa e na semidireta não possa haver eleição sem prévia votação. mas o voto é um ato de escolha. Ela se expressa pela vontade geral. Entretanto. O súdito. No mundo moderno.

seria o conjunto das pessoas coetâneas (mesma idade) e contemporâneas (mesma época). não cons­ titui uma obrigação à qual corresponda. Ora. e não apenas dele. A nação. uma ideia. O povo elegerá. ela é a própria permanência da comunidade no tempo. obtiveram o direito de dirigir a coisa pública. o direito ao voto. Em outras palavras. Seu fundamento ideológico reside na argumentação de que o Estado deve preparar uma elite governante. como pode um ente abstrato manifestar sua vontade. mas o fundamento desta continua a residir na nação. povo. é uma entidade espiritual. e. portanto. aqueles que irão fazê-lo em seu nome. Assim. A nação. irremediavelmente. O eleitor não exerce ape­ nas uma faculdade. Percebe-se. entre indivíduo e Estado. inarredavelmente. do exposto. enfim. um vínculo dc compulsoriedade. segundo Siéyès. fundado no volume de bens de que cada cidadão pode dispor. mas cumpre uma função inafastável. O povo transforma-se. seus interesses permanentes. então. excluídas as gerações passadas e futuras. que se mostram nas gerações que se suce­ dem. O eleitor é mero instrumento de manifestação da vontade nacional. abstrata. destacando-se dos demais. diz. é mais do que isso. mais rapida­ mente a sociedade consolidará o governo dos melhores. por ser uma en­ tidade abstrata. porém. no caso. pois. consequentemente. Daí a sugestiva denominação dada ao sufrágio que expressa a soberania nacional: sufrágio-função. não se confunde com o povo. Assim. os interesses per­ manentes da comunidade. ser obrigatório. que. para fruir de um maior bem-estar material. e para usar uma terminologia de Ortega y Gasset. Segundo a doutrina do sufrágio-direito. repita-se. Por outro lado. o sufrágio censitário. A nação. não podendo a nação manifestar-se diretamente. devem ar­ car com tal ônus. da mesma forma que uns poucos demonstraram capacidade de trabalho e de realização pes­ soal. Aquela é uma simples comunidade organizada e considerada num dado momento histórico. Cada cidadão é titular da fração da soberania que lhe cabe. Bem diferente se mostra a teoria do sufrágio-fun­ ção. Ela parte de Emmanuel Joseph Siéyès. no sé­ culo XIX. sob . Cada época histórica consagrou um tipo determinado de sufrágio. com sua concepção de nação. na participação política. Ora. portanto. que estará. e que nem sempre coincidem com os interesses passageiros de uma única ge­ ração. Tais representantes serão os titulares do exercí­ cio da soberania. Esta espécie de sufrágio teve seu apogeu com a liberal-democracia burguesa. uma vontade coletiva? N ão há outra alternativa: por intermédio de uma comunidade concreta. o povo. e a exerce como lhe apraz. mas permanente: a nação. Povo. em determinado momento da vida da nação. portanto.134 Teoria Geral do Estado ninguém pode subtrair aos cidadãos”. restringindo-se o direito ao voto. tem-se como certo. amealhando considerável patrimônio e. compulsória: a de votar. o povo. no eleitorado que levará ao poder os representantes da nação. perceptível aos sentidos. participar do processo eleitoral é mais uma faculdade do que um direito público subjetivo. por intermédio do povo. O voto deve. com isto. os representantes de uma entidade ideal. poderá sacrificar. um órgão por intermédio do qual a nação expressa a sua vonta­ de.

03. e que consistia na exata aferição do nume­ ro de pessoas. fica patente a distinção entre povo e massa: aquele. no Rio Grande do Norte. 7° da Constituição Federal. Já se percebe que o fundamento desta espé­ cie de sufrágio é afastar do processo político os inaptos. por intermédio do Código Eleitoral brasileiro. com fundamento no art. No Bra­ sil. de 25. apenas a partir de 1971. aqueles que não apresentassem uma renda mínima anual. Em 1929 foi eleita a primeira prefeita do Brasil. pois as mulheres votaram para a escolha de senadores. entretanto. seria cons­ tituído pela camada mais informada. c o seu direito não devia ultrapassar o âmbito estadual. excluindo do direito de voto. que definia os eleitores como os cidadãos maio­ res de 21 anos. mas também de ser vo­ tada. No Ocidente. no Wyoming. estudante de Direito. inicialmente. nos Estados Uni­ dos. quan­ . cuja denomi­ nação já revela que. nos arts. di­ zem seus defensores. o sufrá­ gio racial. em face do qual somente votam aqueles que demonstrarem um nível míni­ mo de erudição e informação política. na antiga Roma republicana. somente incorporado à Constituição Federal em 1920. nos seus termos. Outra espécie de sufrágio. e dos bens de cada cidadão. As mulheres são excluídas do direito ao voto sob a alegação de sua “inabilidade congênita” e “insensibilidade para as questões políticas”. na Prússia. o direito de as mulheres participarem do processo político aparece. A expressão ccnsitário deriva de censo. sem discriminação expressa da mulher. em 1869. o voto feminino aparecc. em sua plenitude. Os votos foram anulados. algumas entidades federadas exigem que o direito ao voto esteja vinculado à capacidade de entender o disposto na Constituição. veio somente em 1932. alienados. com Getúlio Vargas. O sufrágio ccnsitário existiu a partir de 1850. o parlamento. Uma terceira espécie de sufrágio restrito é o sufrágio masculino. com a divisão dos contribuintes cm três estamentos. A Constituição do Império do Brasil. principalmente da política. pleiteou e obteve. atribuição conferida. é o sufrágio cultural ou capacitário. Nesta espécie de sufrágio. esta. Alzira Floriano. 92 e 94. nos Estados Unidos da América do Norte.. somente o homem pode votar. adotada ainda hoje. pela primeira vez. mer­ gulhados nas sombras de uma vida mesquinha e medíocre. adotado. não apenas o direito de votar. que dominavam. também consagrava o sufrágio censitário. dos quais o primeiro era composto pelos cida­ dãos mais afastados. Na Suíça. aos censores. Paulo Bonavides refere-se a uma odiosa espécie de sufrágio restrito.. realmente interessada no aperfeiçoamento das instituições e na realização dos objetivos sociais. permitindo a consolidação de uma elite intelectual. Ainda hoje. seria formada pe­ los ignorantes.6 Formas de governo 135 excelente gestão. Fm 1928. mas a con­ solidação do direito de a mulher participar do processo político. Por exemplo. semoventes. de forma dissimulada. no mais das vezes. O terceiro e úl­ timo estamento compunha nada menos do que 83% dos contribuintes. com a Emenda X IX . em 1927. por completo.1824. os ignorantes e os analfabetos. Mietta Santiago. embora do­ tado de ínfima representação. desinteressados de tudo.

ele passou a ter o direito dc voto facultativo (art. a Constituição de 1988. não po­ derá restringir o eleitoral além dos limites preestabelecidos na Constituição.. não será aumentando o número de participantes do sufrágio que este ficará. posteriormente. § 4o). a). no sufrágio restrito. mais aperfeiçoado. nível de conhecimentos. 14. a um critério menos capacitário do que racial. que alterou a Constituição Federal de 1967. isto é. pois a cada momento da vida o nacional vai abatendo-as. No Brasil. obedecendo-se. atualmente. distinção essencial en­ tre sufrágio restrito c sufrágio universal. a generalidade das pessoas. a concessão do direito de votar ao analfabeto não se justifica. constituem exceções ao sufrágio universal os menores de dezes­ seis anos (CF. raça.. portanto. Não há sufrágio plenamente universalizado e não há. pois cada qual. Da mesma forma que cem tolos não formam um sábio. Tal invectiva não colhe. como a ob­ tenção de níveis mais altos de escolaridade. o analfabeto não tinha o direito de votar. § I o. Quanto ao sufrágio universal. c). são mais numerosos do que no sufrágio universal. é aquele que busca conferir o direito de voto ao maior número possível dc nacionais. Esta. independentemente de sexo. tais restrições não podem ser ampliadas mediante lei ordinária. em vigor. 14. necessariamente. de 15. Poder-se-ia argumentar com o fato de que alguns analfabetos se interessam muito mais pelos problemas políticos e sociais do que muitos cidadãos alfabetiza­ dos. estando. excluído do sufrágio uni­ versal. o que se pretendia era excluir os negros do processo político. II. portanto. A regra. em razão da idade e do con­ seqüente amadurecimento pessoal. 14. os estrangeiros e os conscritos (art. um instrumento nas mãos dos demagogos sequiosos de votos.1985. Evidente. É bom notar que as restrições ao direito de voto numa ordem jurídica que consagra o sufrágio universal estão previstas somente na própria Constituição. art. que mesmo o sufrágio universal comporta restrições ao direito de voto. infelizmente. A própria expressão universal já revela que deve ter o direito de voto a universalidade. A rigor todo sufrágio é restrito.05. § 2o). § I o. 25. qua­ se absoluta. veladamente. portanto. religião. Oportuna a observação de Paulo Bonavides: . II. contudo. obriga a ler. seja qual for o ponto dc vista que se adote para o problema. é que o analfabeto torna-se. porque não se argumenta com exceções. con­ tribui para com o aprimoramento da vida em sociedade. Com tal Emenda e. Até a Emenda Consti­ tucional n.é bom notar . São restrições que . A diferença é puramente quantitativa: os impedimentos do direito de voto. Na verdade.136 Teoria Geral do Estado do a legislação do Estado do Mississipi. aliás os grandes beneficiários desta infortunada ampliação do sufrágio. e nem poderia ser de outra forma. compreender e interpretar “convenientemente” a Constituição.não são inexpugnáveis. nos Estados Unidos da América do Norte. 14. sen­ do inelegíveis os inalistáveis e os analfabetos (art. ou em face de seu esforço próprio.

com fa­ cilidade.semelhante. qualificar-se-ia o regime democrático. difícil de formar-se no seio da multidão espessa e ignara. também. forma impura do governo democrático c capaz dc. a observação dc Pedro Salvetti Netto.versando. Um colégio eleitoral qualificado pelo conhecimento necessário e básico da organização constitu­ cional e do funcionamento do governo o eliminaria do processo político-elcitoral. não resta dúvida que o princípio democrático envolve da parte do colégio eleitoral uma compreensão política mais apurada. uma comprovação de habili­ tação política. Não seria absurdo dizer-se constituir a ignorância do cidadão terreno fértil à expansão de­ magógica. sem o que se tornaria evidente perigo à integridade física e ao patrimônio de todos. como. se não se tem co­ nhecimento de suas atribuições e nem sequer se sabe o que é o Senado ou a Câmara dos Deputados? Daí a razão por que julgamos absolutamente imprescindível para a constituição de uma democracia qualitativa e real. in verbis: Como escolher-se. De conseguinte deve ele submeter-se a singela prova escrita . à outorga do título de eleitor. pois ninguém pode dizer-se infenso ao poder pessoal. torna-se natural ameaça ao regime de­ mocrático. sobre rudimentos da organiza­ ção político-constitucional. que deve revelar um conhecimento tcórico relativo aos sinais. a respeito. Tal como o candidato àquela outorga. A exigência de um conhe­ cimento mínimo relativo ao mecanismo de governo. falto dos predicados essenciais ao seu exercício e néscio sobre os prin­ cípios políticos institucionais que a informam. sem impedir-se o defe­ rimento da cidadania àqueles que demonstrassem possuir as condições elementares para seu exercício racional. Incisiva. carismático e místico do demagogo. um senador ou um deputado. Daí . siglas c regras básicas dc trânsito. porém. seria subsídio valioso para a constituição de um eleitorado consciente e responsável. Com isto. pela qual o candidato à cidadania demonstre conhecimentos mínimos. por exemplo.6 Formas de governo 137 Quanto ao argumento que gira ao redor da dialética qualidade-quantidade. como governo dc livre manifestação da vontade popular. mas necessários. onde cidadãos conscientes e politi­ camente responsáveis participem do processo eleitoral. A singeleza da prova eliminaria a formação de um colégio eleitoral elitista. não se atribuindo a prerrogativa do sufrágio tão só a uma minoria qualificada por tí­ tulos formais de sabedoria ou a uma aristocracia de classe. eficazmente debelado. encontra dois caminhos para alastrar-se: a ignorância e a crença. impor-sc na proporção direta da dcsqualificação política do eleitorado. Esta. com efeito. assimilável por todos os que sai­ bam ler e escrever. à que se faz mister para a concessão da carteira dc habilitação para dirigir . como ocorrido na Alemanha intelectualizada de Hitler. o princípio qualita­ tivo do que o princípio quantitativo. Por outro lado. tais providências valeriam para diminuir os perigos da demagogia. Daí pesar mais em favor do bom mecanismo institucional do governo demo­ crático. é absolutamente certo que o germe da igno­ rância não só pode ser combatido. Ainda que se mostre mais difícil o afastamento da segunda. na forma. o postulan­ te à cidadania.

na sua forma de expressão. que melhor assegura a independência do eleitor a que se tem procurado cercar de todos os elementos materiais para garantir o sigilo. Paulo Bonavides apon­ ta os seguintes argumentos a favor ou contra este tipo de voto: a) os graus interpostos operam como filtros. O fundamento do voto secreto é evitar pressões sobre o eleitorado. por sua vez. fa­ rão. sem intermediação. O voto é direto quando o eleitor. cuja influên­ cia toma. portanto o poder de decisão da massa sufragante se transfere. secreto ou aberto. caput). em qualquer destas espécies. Na ver­ . intermediários. enfreando as paixões políti­ cas. proporção máxima. para o corpo eleitoral intermediário. tal só pode consti­ tuir situação excepcional e. ensejando a prudência das designações. dos votos do analfabe­ to. por via dc regra. Com efeito. por inteiro. Até o advento da Emenda Constitucional n. Os ad­ versários do voto secreto retrucam: ele é mais uma prova da desilusão das demo­ cracias modernas. Vianna. b) atua o voto indireto como força moderadora. o voto para a eleição do Presidente da República era indireto. para nós demagógica. O voto pode ser também. b) o voto indireto não raro é empregado como meio de resistir ao sufrágio universal. porquanto. 25. classifica-se.1985. em segundo grau. que. o voto é dito indireto quan­ do o eleitorado elege. entretanto. sendo Tancredo Neves o último candidato eleito por um colégio eleitoral restrito.eles mesmos já uma elite . d) o voto indireto ocasiona volumosa abstenção por parte do eleitorado de primeiro grau. como já vimos.ficam em condições de sufragar ou selecionar os mais capazes e competen­ tes. inicialmente. Quanto ao voto.13 8 Teoria Geral do Estado porque não nos sensibiliza a pregação. a escolha definitiva dos governantes. subdividindo-se este úl­ timo em escrito e verbal. É a espécie adotada pela Constituição brasileira (art. c) o colégio eleitoral de segundo grau. escolhe seus próprios re­ presentantes. de viseira erguida. pois este não se sente estimulado a participar de uma eleição que não é decisiva. Os argumen­ tos em desfavor do voto indireto também são ponderáveis: a) caráter manifestamente menos democrático que o sufrágio direto. é mais suscetível a pressões e à cor­ rupção. delegados. em secreto ou aberto. assim. em face do pequeno número de seus integrantes. razão pela qual o voto secreto acalmará as preocupações legítimas e reanimará os poltrões. está submetido à burocracia estatal e ao poder econômico. 14. não seria este o argumento hábil capaz dc refutar a proposição por nós sustentada. pois o eleitor que não tem coragem e senso de responsabilidade para votar abertamente. em direto ou indi­ reto e. o eleitor. como qualquer raciocínio lógico rejeita a exceção para a pesquisa da verdade metodológica.05. não deve ter o direito de votar. de 15. abrindo espaço à reflexão. embora possa haver entre aqueles ignorantes no ler e escrever alguns naturalmente sensíveis às coisas públicas e com elas preocupados. de modo que os eleitores secundários . a tendência moderna é francamente favorável ao voto secre­ to. Então. Como acentuam Rodrigo Octavio e Paulo D.

caso em que se obriga o eleitor ou o delegado a revelar. todos aqueles que. Afirmam os defensores do voto distrital que este atrai os candidatos para mais perto do eleitor. finalmente. O voto distrital funda-se no princípio de que a escolha dc parlamentares pelo eleitorado deve ocorrer em âmbito o mais reduzido possível. Por esta espécie dc voto o cidadão elege representantes dc seu próprio distrito eleitoral (daí a adjetivação distrital). Obrigar o eleitorado a votar secretamente parece-nos mais uma exacer­ bação do formalismo. expressamente. ao passo que. esportivas. um partido político revelam. uma facção política. nem por isso desdenha sua plena realização como ser social. 14 da Constituição brasileira não deve ser interpretado literalmente. Assim. comerciais. forte na sua ideologia. O art. 2. Por outro lado. professam as mesmas ideias. propiciando um controle mais efetivo dos candidatos eleitos. a solução satisfatória deveria estar no meio-termo. Buscando sua realização pessoal. ser social. mas deve ser facultado ao eleitor manifestar secreta ou abertamente sua escolha. Análoga é a situação do voto aberto. Aplica-se ao artigo em epí­ grafe. no caso. em busca de objetivos mais eleva­ dos. tende a se agregar aos seus semelhantes de forma orgânica. formando grupos. não deve ser impedido dc faze-lo. de modo a minimizar a influência do poder econômico e dos meios de co­ municação nas eleições. desejar expressar aber­ tamente sua vontade.6 Formas de governo 139 dade. um movimento político e. este também conhecido como ostensivo. a ânsia de participação efetiva do homem nos problemas da comunidade em que vive. sim. O voto é obrigatório. ensejando um maior contato entre o candidato e even­ tuais eleitores. entretanto. Na verdade. tão caro ao legislador pátrio. enfraquecendo o próprio partido. econômicas e. a interpretação finalística ou teleológica. candida­ tos de um mesmo partido se digladiam na mesma região eleitoral. o voto distrital torna os partidos políticos mais homogêneos. com grave risco para sua liberdade de manifestação de pensamento.4.6) Partidos políticos A formação de associações que visam alcançar um objetivo político determi­ nado vai longe na História. aquele que. portanto. Vota secretamente quem se achar coagido ou temeroso de manifestar de modo aberto sua opinião. isto pelo seguinte: no sistema proporcional. É sabi­ do que o homem. no mais das vezes. pelo sistema distrital. políticas. As sociedades podem apresentar as mais diversas fina­ lidades: culturais. com apa­ . pois a finalidade do dis­ positivo é garantir o sigilo do voto apenas para aqueles que acharem inconveniente revelá-lo. tendo inclinações co­ muns. que congregam indivíduos que. cada candidato concorre com outros candidatos de partidos diferentes. O voto aberto pode ser escrito ou verbal. afirmam. sua vontade. dc modo a compati­ bilizar população e território. pertinente ao âmbito espacial de atuação do candi­ dato eleito. Espécie de voto que vem amealhando número cada vez maior dc simpatizan­ tes é o chamado voto distrital.

ainda nos séculos XVII e XVIII não se fazia distinção entre par­ tido e facção política. e não se confunde. Daí a sugestiva definição de partido político que nos oferece Povina: “agrupamento permanente e . depois. dizia Bluntschli. a antiga Grécia e Roma. com o movimento político excludente dos partidos. as facções estruturam-se à luz das dinastias reinantes. duas partes (daí. um partido não se confunde com a mera facção política porque ou é reconhecido ou. Com o aparecimento do Estado liberal-democrático.140 Teoria Geral do Estado tia e indiferença. Da mesma forma. no interesse destas c dos nobres. Até mesmo simples caprichos de família provocariam dissensões formadoras de grupos políticos inimigos. Ora. com a eliminação de todo e qualquer ideário diverso. a fim de impor sua própria cosmovisão a todos. a facção utiliza-se de todos os meios para atingir e man­ ter o poder. Esta. ademais. procurando minar as diretrizes aprovadas pela maioria. Tais facções. hoje. que designa uma fração do todo). a assertiva de Marx de que o partido político é sempre um órgão de classe. a expressão partido. a expressão partido político. Da mesma maneira que o partido político não se confunde com a mera facção política. cada uma dela dirigida por um líder. pelo menos. no Esta­ do absolutista. também. do latim pars. as facções políticas surgem quase sempre vinculadas aos seus estamentos. como foi o caso de guelfos e gibelinos na Alemanha e. portanto. porque a própria ideia de partido pressupõe a existência de. Modernamente. que procura congre­ gar o povo numa ideologia política exclusivista e intransigente. a diver­ sidade de opiniões políticas não se manifestou mediante partidos como entende­ mos. como uma entidade rebelde que se posiciona. na Idade Média. no caso. que são o desgoverno das massas despolitizadas. Ela surge de maneira autônoma. Seja como for. sem­ pre sob a liderança dc um homem virtuoso ou dc um mecenas disposto a financiar uma ideia. Ainda na sociedade estamentária medieval. na Itália. à Antiguidade Clássica. originando o apa­ recimento de inúmeras facções políticas. Georges Burdeau definiu o partido como a associação de caráter político organiza­ da para dar forma e eficácia a um poder de fato. pelo menos. é a caricatura do partido. contu­ do. O surgimento de facções políticas remonta. o interesse nacional. com o movimento político. a noção de partido político começa a ser delineada: grupo de pessoas que se unem para promover. num pro­ cesso de cooperação. não se confunde. mediante o emprego de um processo es­ pecífico. com Edmund Burke. den­ tro do próprio partido. Por isso. longe estavam dc possuir a estrutura. muitas vezes. a burocracia c o reconhecimento legal de que hoje desfrutam os partidos políticos. corroborando. questões políticas gravíssimas ensejaram lutas entre suseranos e vassalos. O partido político visa à conquista do poder nos termos da lei. mas mediante facções da burguesia. alegam desinteresse pela atividade política direta ou indireta não cumprem um dever cívico inafastável c contribuem para o surgimento das dema­ gogias. Somente a partir de 1770. com o qual todos os seus membros sc acham de acordo. tolerado pela lei.

opinião ainda lembrada por autores de renome. Por isso. como é o caso dos movimentos de índo­ le totalitária. tories (bandidos) etc. que a verda­ deira solução para a existência destes residiria em controlar rigidamente sua ativi­ dade. conservador. mediante a conquista legal do poder público. Tornaram-se. irremediavelmente refratários à sua integração nos mecanismos tradicionais da democracia. liberal. então. Tal observação não deixa de ter fundamento na epoca dc partidos dc massas cm que vivemos. Denominações ainda mais pitorescas jamais fal­ taram para tais agremiações: wbigs (escória). facilmente. pelo que surgiram os polí­ ticos setembristas. que rejeitava todo e qualquer corpo social entre o poder e o cidadão. o veículo utilizado por uma grande corrente dc opinião pública para conquistar o poder. que vem a ser a conquista do poder. para o predomínio de um partido sobre os demais. Todo partido pressupõe dois elementos: o vínculo sociológico.assinala Ferreira Filho e. inteiramente válida se mostra a observação de Mac Iver de . saaverista. fascista. ademarista etc. natural­ mente. c a finalidade política. mais tarde. se pro­ põe a realizar. são os partidos ideológicos. O moderno partido político . os negros e os verme­ lhos. na direção do Estado. a ideologia abraçada: monárquico. por excelência. entretanto. A denominação atribuída ao partido é muito importante para sua imediata identificação. tendendo a impor à coletividade uma unificação espi­ ritual pelo reconhecimento de sua infalibilidade. a se tornar intolerante para com os outros. os partidos lembra­ ram. mais dinâmicos c objetivos. tenderia. Seja como for. Modernamen­ te. Cada partido. e tivemos. os nomes de seus inspiradores: orleanistas. representado por uma ideologia comum ou dc interesses comuns. Como accntua Burdcau. comunista e assim por diante. portanto. em razão dc seu dogmatismo espiritual e seu im­ perialismo político. em sua denominação. peremptoriamente. que demonstrava certo receio pela divisão da repúbli­ ca norte-americana em dois grandes partidos. Hobbes afirmou. o partido digno desse nome é um grupo or­ ganizado que disputa o poder para realizar uma política. Na verdade. bonapartistas. republicano. considerando-se o verdadeiro porta-voz da comunidade. pois este pensador era adepto ferre­ nho da democracia individualista. muitos se associaram às cores. outubristas e dezembristas. John Adams. os partidos buscam revelar. cm sua nominação. que a divisão da sociedade em partidos geraria a revolta e a guerra civil. outros tomaram a denominação dos meses do ano.6 Formas de governo 141 organizado de cidadãos que. janista. causas de supressão da própria ideia de democracia. reconheceu. Em outros casos. Em sua obra De eive. Aqueles que se inspiraram nas ideias de representações políticas de Jean-Jacques Rousseau repudiaram o partido político. A História registra casos curiosíssimos de denominações de partidos. para os quais o regime de pluralidade partidária descambaria. os brancos. E o instrumento median­ te o qual uma ideia de direito busca sua realização. determinado programa político-social”. socialista.

que jamais poderão ser cobrados pelo eleitorado. nesta obra. na verdade o condena. uma longa digressão a respei­ to da conveniência ou não dos partidos políticos.142 Teoria Geral do Estado que. Das mais oportunas é a advertência de Ferreira Filho: Raramente o deputado escolhido para representar a ideologia predominante num eleitorado é o mesmo homem que seria escolhido por seus eleitores. b) pluripartidário. é possível que vá­ rios partidos concorram às urnas. . As­ sim o ideologicamente representado não se sente representado quanto a seus interesses econômicos. A própria palavra plural refere-se a mais de um. criam programas de ação absolutamente quiméricos. des­ vinculados da realidade. a maioria dos autores afirma a existência de uma classifica­ ção supostamente mais precisa: a) bipartidário. E Manoel Gonçalves Ferreira Filho considera o bipartidarismo o sistema partidário ideal. mas geralmente o sistema se encontra de tal for­ ma estruturado que apenas dois partidos reúnem. na verdade. a insurreição ou a revolução. enquanto ope­ rários ou industriais. condições de chegar ao poder. ou frações pon­ deráveis destes. sem os partidos políticos. b) pluripartidário (dois ou mais partidos). pois. no mais das vezes. ha­ verá. só nos resta analisá-los. para representá-los enquanto horticultores ou artesãos. dualidade de tendências. Acentua Duverger que. aparentemente consolidadora do ideal da representação política. aumentam as divergências e a desorientação popular. permanentemente. Obrigados a incluir sob seu manto protetor categorias sociais que envolvem os mais díspares interesses. c a expressão pluralidade re­ vela qualidade atribuída a mais de um ser ou coisa. porém. não raro sociais. portanto. embora não haja no Estado dualismo partidário. A multiplicação desordenada dc partidos. fundamentalmente. junto aos órgãos de planejamento econômico e semelhantes. dois sistemas partidá­ rios: a) monopartidário (partido único). a existência tão somente de dois partidos. Pouco sentido prático teria. profundamente afetados pelo Estado-providência. literalmen­ te. inexequíveis. sucintamente. como lembra Bonavides. Aliás. Ensejando a contraditoriedade dos princípios ideológicos cada vez mais díspares. seria imperdoável equívoco supor que o sistema bipartidário significa. desde que os dois partidos sejam efetivamente homogê­ neos e disciplinados. A verdade é que haverá pluralidade partidária onde houver dois ou mais par­ tidos. as únicas formas de alcançar o poder seriam o gol­ pe de Estado. em suas linhas básicas. Eles aí estão c. O Estado contemporâneo apresenta. Por outro lado. c) monopartidário.

a existência de um partido deve ser permanente. que reúnem seus filiados com base na situação econômica de cada um. que. que se acha. Estes. como assinala Bonavides. com o grupo de pressão. enquanto o do partido é político. Os métodos empregados pelos grupos de pressão variam conforme as circuns­ tâncias: apoio eleitoral a um partido que com eles se ache comprometido. dos homens situados e não mais dc cidadãos abstratos.6 Formas de governo 143 Os partidos políticos encontram fortes concorrentes nos grupos de pressão. Acentua Burdeau que à democracia política sucede a democracia social. em verda­ deiro mandato imperativo de índole partidária. por outro lado. Um partido político deve estar estruturado numa ideia e num programa exe­ qüíveis. que transcende os meros interesses in­ dividuais de seus filiados. o que não ocorre. Embora organizado em torno dos interesses de uma parcela do povo. exigindo que os grupos empenhados em defender interesses particulares junto ao Congresso estejam devidamente registrados e dotados da competente conta­ bilidade. Além disso. ao passo que o interesse do grupo de pressão é transitório. à margem do ordenamento jurídico. Os tradicionais partidos de opinião. mas a utilização deste em proveito próprio. A fideli­ dade partidária consagra a chamada democracia partidária. Não se confundem com os partidos porque seu objetivo não é a to­ mada do poder. como diria Giorgio dei Vecchio. a de­ mocracia governante. Daí a impor­ . Mais: o partido político é reconheci­ do ou tacitamente admitido pela lei. sem considerar as condições eco­ nômicas de cada um. surgem como o fruto de novas condições socioeconômicas criadas pelo capitalismo e pela falta de representatividade dos par­ tidos políticos. se destaca em razão de sua disciplina e do seu dogmatismo doutrinário. tais interesses pertinem. quase sempre. os representantes da coletividade têm enfraquecida sua individualidade a favor da vinculação integral às diretrizes dos partidos. pressão direta sobre os membros do poder executivo ou do legislativo. A legislação norteamericana. referindo-se às sociedades em geral. nova e superior unidade. não podendo eliminar os grupos de pressão. O partido. que buscavam evitar dogmatismos compromete­ dores dc suas transações políticas. passam a ser substituídos pelos partidos de massa. houve por bem reconhecêlos. adotando uma estrutura interna bastante maleá­ vel para atrair o maior número de simpatizantes. a toda a coletividade. A moderna concepção dc democracia não se compadece da democracia indi­ vidualista. por outro lado. no transcorrer do século X X . passa a ter um objetivo mais palpável. o objetivo do grupo dc pressão é quase sempre econômico. no mais das vezes. pela qual o povo esco­ lheria muito mais um programa de ação do que representantes. São partidos de massa porque as individualidades renunciam à sua autonomia em proveito do partido. pelo menos mediatamente. a partir do momento cm que os partidos de opinião vão cedendo terre­ no aos partidos de massa.

Um partido político não deve ser o túmulo do pensamento. existiria apenas uma classe. Os simpatizantes são aqueles que. indiretamente. mediante a adoção de uma cosmovisão (W eltanschauung) que represente uma interpretação clara e consciente do universo. Este afirma que a pluralidade partidária espelha a própria luta de classes. vem a ser muito mais um m ovim ento de reação antipartidária do que um partido propriamente dito.144 Teoria Geral do Estado tância da interação partido-sociedade-interesses na propagação e cumprimento de um sistema ideológico plausível. No to­ cante às plataformas eleitorais. Por outro lado. com muita graça e sagacidade. Os filiados são aqueles regularmente inscritos ao partido e do­ tados de direitos e deveres partidários. cada partido apresenta. Tais órgãos poderão ser diretivos e burocráticos. Poderão scr o grito dc guerra. via de regra. daí a existência de vários partidos numa sociedade formada por classes antagônicas. os integrantes do partido deverão adequar o pro­ grama geral do partido às tendências e necessidades de cada circunscrição eleito­ ral. a adaptação do programa geral às novas situações. como uma clas­ se (proletariado. Não pode haver. mas que. No tocante à m ilitância partidária.ou contra . um cxcclcntc veículo para a transmissão simplificada das ideias. filia­ dos e simpatizantes. O partido único. que o Partido Comunista sempre afirmará o seu di­ reito de lutar ao lado de . Quanto ao progra­ ma ideológico. No Estado socialista. o auxiliam. o partido deve apresentar uma orga­ nização administrativa e uma estrutura material destinadas a garantir a sua nor­ mal atividade. a Alemanha nazista encontraram inspiração para seu m ovim ento no próprio marxismo. também. em seu funcionamento. cujo apogeu foi alcançado no período compreendido entre as duas Grandes Guerras. c) plataformas eleitorais. movimento este que tanto pode congregar uma nação (Itália fascista c Alemanha nacional-socialista). d) motivações simbólicas (slogans). a palavra-chavc ou o sinal distintivo do partido. não podem filiar-se ao partido. a dos operários e camponeses. expresso sob quatro aspectos: a) visão do mundo ou cosmovisão. contudo. b) programa ideológico. por via de conseqüência. numa sociedade de mas­ sas. por vá­ rias razões. qual seja. o próprio Partido Comunista. todo partido deve sustentar-se num conjunto de princípios ideoló­ gicos sólidos e coerentes acerca dos problemas do Estado. mas um organis­ mo em permanente elucubração e modernização doutrinárias.outros partidos nas sociedades não marxis­ . na URSS). portanto. nas quais impere a franqueza e a sinceridade. Um partido político seria parte de uma classe social determinada. para uma só classe. Disso os adeptos deste partido concluem. pois cada partido representaria uma classe social. não a demagogia. devidamente transmitida aos eleitores. cujos interesses seriam comuns. As motivações simbólicas (slogans) vêm a ser. Diga-se de passagem que a Itália fascista e. mais do que um partido. Tais plataformas exigem. estabelecendo soluções exeqüíveis.

por exemplo. e em face da menoridade de seu filho. hostis e inconciliáveis. principalmente desde 1826. que se apoderam dos principais cargos gover­ namentais. que nclcs existe somente uma classe ou. cujos inte­ resses se mostram. Por outro lado. por to­ dos os teóricos do marxismo. Nem por isso os marxistas deixam de continuar afirmando que o proletariado deve estruturar-se num movimento políti­ co destinado a sustentar sua missão de exercer uma ditadura que permitirá a abo­ lição das classes e do Estado. propugnando uma descentralização mais sim­ pática às províncias. em vigorosa expressão que seria encampada pelas Constituições soviéticas. com a abdicação dc Pedro I. de apoio ao Impera­ dor Pedro I e. ao passo que Lenin. Durante o período regencial as posições políticas vão ficando mais bem definidas. levando a efeito uma política conciliatória. tenham desaparecido as classes sociais. com a Assembleia Geral ou Parlamento. divididos em duas facções. formado por liberais. 2. o que vem a dar no mes­ mo.1) Os partidos políticos no Brasil No Brasil. quais sejam Regência Trina Pro­ visória (1831-1832). no célebre M anifesto comunista. aglutinaram-se em dois grupos antagônicos. os moderados continuam a . Regência Una do Padre Feijó (1835-1837) e Regência Una de Pedro de Araújo Lima (1837-1840). a dos moderados. em nome da pluralidade de classes nelas existentes. apenas a representação organizada de uma classe. Joscph Stalin. o outro. durante o Primeiro Reinado (1822-1831). sendo que o pluripartidarismo so­ mente pode existir numa sociedade onde haja antagonismos de classes. Franz Oppcnheimer. Eis por que a vigente Constituição soviética se refere ao Estado socialista como o Estado de todo o povo . o partido único foi enaltecido. ser dever do pro­ letariado organizar-sc numa classe. os absolutistas e os liberais. num partido político. oposicionista. de forma unânime. declarava que o partido é. atuantes de forma franca e aguerrida. Doutrinariamente. tam­ bém marxista. na sua origem e continuidade. Regência Trina Permanente (1832-1835). Marx afirma. o Brasil passou por vá­ rios períodos de governo denominados Regências. respectivamente apoiando ou se opondo ao Imperador. Formam-se espontaneamente dois grupos. Na verdade. mas cm facções que. sua parte mais progressista.. um situacionista . a tese marxista torna-se vulnerável quando se consta que não foi demonstrado. ao contrário dos exaltados.. afirmava ser o partido a vanguarda organizada e disciplinada do proletariado re­ volucionário. Durante a Regência Trina Provisória prevalecem os oposicionistas. nos Estados de ins­ piração marxista. mutuamente.6 Formas de governo 145 tas. na Assembleia Constituinte de 1823. afirmava que o partido é parte da classe.4.6. ipso facto. mas reivindicará sua exclu­ sividade 110 advento do Estado socialista. Na Regência Trina Permanente. Numa de suas escassas referencias aos partidos políticos. ainda. nesta última proclamada a maioridade de Pedro II. ainda não se pode falar em partidos políticos.

no poder. Vale lembrar que já cm 1870 fora criado o Partido Republicano. revezando-se. embora sem grande prestígio de início. nun­ ca existiu aqui. alcunhados luzias porque ligados à Revolução Liberal de 1842. era o de uma irritação viva. o qual. Ouçamo-lo: O traço característico desse grande movimento da opinião. de orientação liberal. O governo parlamentar. Os filiados a este partido passaram a ser conheci­ dos por saquaremas. cujos seguidores. Os adversários do Regente. E a verdade é que esta irritação era inevitável. difusa. com meridiana clare­ za os retratou Oliveira Vianna. tinham como plataforma a volta de Pedro I ao poder. considerado pelos liberais como uma deturpação do Po­ der Moderador. continuamente. evocando o município fluminense de Saquarema. os liberais desejavam a abolição e maiores liberdades para as províncias. quando. Esta opinião. esta opinião pública organizada. aliás.146 Teoria Geral do Estado controlar o poder. Só exprimia realmente o pensamen­ . Ora. chimango (moderado) que dedicou-se com fir­ meza à criação do Partido Progessista. foram vencidos por Caxias. inorgânica. con­ tou desde logo com a colaboração dc grandes figuras como Quintino Bocaiúva. Na verdade. que era a que se formava nos centros universitários. Havia . nos clubes políticos. onde se acha­ va a fazenda do líder conservador Visconde de Itaboraí. ardente. era quase sem­ pre um reflexo americano das agitações europeias. Que dizer dos partidos políticos do Império? Aquele que. já o dissemos por que. um governo cuja instituição num dado povo pressupõe a existência de uma opi­ nião pública organizada. A par dessas fac­ ções surge uma terceira. supremo regulador do sistema parlamentar. na locali­ dade de Santa Luzia. Em 1835. nem outrora. Porque só os que ignorassem os nossos costumes políticos e a mentali­ dade dos nossos partidos poderiam supor possível que o Poder Moderador. alhures. denominados caramurus. com a proclamação da República e a queda do Gabinete do Visconde dc Ouro Preto. Faltavam à nossa sociedade todas as condições para isto. Enquanto os conservadores eram escravocratas e tradicionalistas.uma opinião informe. com a institucionalização da ideia de Regência Una. nas sociedade maçônicas e principalmen­ te na Imprensa. pudesse funcionar aqui com a mesma perfeição com que funcionava entre os ingleses. como já vimos. tinha sempre um caráter artificial. capaz dc governo. isto é. em obra clássica intitulada O ocaso do império. foi eleito Re­ gente o Padre Diogo Antonio Fcijó. sob a pitoresca denominação de chimangos. que a Constituição confiava à Coroa. que serviria dc base para a fundação do Par­ tido Liberal. nem hoje.como ainda há hoje . os Partidos Conservador e Liberal foram os mais importantes para não dizer os únicos . ain­ da atual como perceberá o leitor neste parêntese dos mais oportunos. é essencialmente um governo de opinião. Benjamin Constante Lopes Trovão.partidos do Império. concentraram suas forças em torno do Partido Conservador. que se seguiu ao gol­ pe do Imperador contra os liberais em 68. por sua vez. explo­ siva contra o Poder pessoal. Esta alternância no poder durou até 1889. ao passo que os liberais.

justamente. o Imperador os atirava momentaneamente no ostracismo. nunca aparecia pura e extreme. é uma prova do vago. pode-se afirmar com fundamento que os partidos políticos não representavam realmente correntes de opinião. de sonoridades marciais. eram simples agregados de clans organizados para a exploração em co­ mum das vantagens do Poder. todo o País acordava sob um estridor imenso de toques de alar­ ma. o partido liberal quer mantê-las.. todas as vezes que era obrigado a organizar novo Gabinete. agiam sempre de maneira idêntica aos conservadores: o inebriamento do poder como que os fazia olvidarem os seus mais caros ideais. aliás. o Partido Republicano. do incerto contido nos programas dos dois grandes partidos do Império. Esta opinião. com ímpeto. o conserva­ dor quer manter estas instituições. muito comprometida com o espírito de facção. é liberal. cessavam de súbito o trom­ betear formidável . difícil esta discriminação muito nítida das opiniões. Depois dessa grande fase histórica. a tendência à .e passavam a ser [. no Senado: “O argumento do nobre senador . Esta perplexi­ dade do Imperador não devia ser menor quando ele. muito impregnada das animosidadcs do partidarismo. liberais. do 1° Reinado e da Regência. na verdade. Então. O programa liberal era uma es­ pécie dc trombeta sonora.. retornavam ao poder. que os liberais só sc lembravam dc clarinar com fogo. com brio. O fato é que ne­ nhum desses dois programas representava convicções definitivas e sinceras. quando. Zacharias exprimiu muito bem este fato no seu discurso dc 18 dc junho dc 1870. só o liberal é conservador”. Já em 53. imponentes embora pela sua massa. de origem habitualmente exótica.dizia ele . extintos os partidos do Império e preser­ vado. Certo. para que sc pu­ desse considerá-la sempre como um índice sadio da opinião nacional. de Paraná. O argumento poderia ser invertido pelos liberais.envol­ ve uma confusão de ideias manifesta: O conservador no Brasil é necessariamente libe­ ral. E. na opinião dos partidos. chamando a postos as consciên­ cias altivas para a defesa da Pátria. Com a proclamação da República. porém. em regra.6 Formas de governo 147 to de uma pequena parcela das classes cultas do País. como cm 68. ou tentava buscá-la.e assim o fez no caso da eleição direta. ao aceno da Coroa. evidentemente.] como os conservadores. logo. O Imperador não desdenhava de atendê-la . em que. formou-se. ela devia ter constituído para o Imperador. sem outra significação que a de ró­ tulos. da Democracia e a Liberdade. do indefinido. logo. dizendo: A Constituição brasileira contém instituições santas. calo­ rosamente pregados quando nas agruras da oposição. Porque os partidos políticos do Império. os programas que ostentavam eram. desde logo. a chamada política da conciliação. O próprio liberalismo da Constituição tornara. Tanto que os liberais. liberais. simples rótulos. buscava-a. não tinham propriamente uma opinião. no caso da Federação. por isso. houve aqui uma fase em que os partidos tiveram verdadeiramente uma opinião: foi o período da Independência. ao contrário. um dos grandes motivos de perplexidade. aliás. quando no governo. Desde o momento. de cânticos de guerra. porque a Constituição do Brasil contém instituições santas. no caso da Abolição. sempre se mostrava. no intuito de conhecer a opinião do País.

5. o Estado autoritário alcançava seu máximo prestígio. 2. logo posto na clandestinidade. dentre os quais o Partido Democrático Social (PDS). o Partido Popular (PP). uma febricitante elaboração legislativa. porém. alguns notório significado. no art. de modo que cada Estado contaria com seu próprio par­ tido republicano.1965. permitiu a criação de no­ vos partidos. o recrudescimento da perigosa patologia política do muitipartidarismo.1945.676. afrontando a dignidade da Política e o bom senso da cidadania. o Partido Social Demo­ crático (PSD) e o Partido Trabalhista Brasileiro (PTB).11. Na iminência do movimento militar de 1964. a pulverizar a opinião pública. Daí. Em 1922 foi fundado o Partido Comunista brasileiro. de 20. permitira a criação de duas agre­ miações partidárias. A partir daí. 4. a União Democrática Nacional. O Ato Complementar n. a par­ tir daí. após permanecer durante quinze anos no poder. herdeiro da Are­ na.096/95) determinar. contudo.682/71 (antigas Lei Or­ gânica dos Partidos Políticos. sendo a nova denominação derivada do fato dc a Lei n. dissolvidos. Ti­ nham real prestígio.1965. favorecendo governadores que apoiavam o governo central. o Partido Trabalhista Brasileiro (P I B) e o Partido dos Tra­ balhadores (PT). Lei n. 9. fechado o Congresso Nacional e controla­ da a imprensa. substancialmente emendadas em 1969. Entre 1930 e 1937. a legislação eleitoral foi se tornando mais e mais per­ missiva. em oposição a Getúlio Vargas. propiciando o surgimento de nada menos que trinta (!) novos partidos.10. como a União Democrática Nacio­ nal. então. em 15. revogada pela atual. Getúlio foi deposto em 29.148 Teoria Geral do Estado criação de partidos locais. A derrota do nazi-fascismo. sem falarmos nas inovações introduzidas pela Constituição de 1967. foram criadas a Ação Integralista Brasileira (1932). . Este. que lançou como candidato à Presidência da República Armando Salles de O li­ veira. em 1937. já havia treze partidos na ativa. transformadas em partidos desde 1967. Todavia. 5°. de 25. a Lei Orgânica dos Partidos Políticos e a Lei das Inelegibilidades. prenunciava seu declínio. bastando lembrar que.08. a Lei n. exigir a expressão partido na sigla identificadora dos novos partidos. sucessor do M DB. destacando-se o Código Eleitoral.1979. Além destas duas agremiações partidárias foram criadas outras. nos mol­ des dos movimentos fascista e nacional-socialista. ao extinguir a Arena e o M DB.10. Dissolvidos os partidos exis­ tentes e exilados seus principais líderes. de modo que.12. outros nem tanto. formaram-se inúmeros partidos.1988. conduzida por Luís Carlos Prestes. pelo Ato Institucional n. dc tendência comunista. A partir daí. deflagrou um golpe de Estado para fortalecer seu poder e depurar as hostes inimigas. e a Aliança Nacional Libertado­ ra. o Tribunal Superior Eleitoral aprovou o re­ gistro provisório de um Partido Humanista (?) Nacional e de um Partido Nacional dos aposentados (!). 6. a Aliança Renovadora Nacional (Arena) e o Movimento De­ mocrático Brasileiro (MDB). Tem início. § I o. o Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB). em 27.

6 Formas de governo

149

2.4.7) D em ocracia e co m u n ica ç ã o de massa
A comunidade nacional é soberana. Todo o poder emana do povo. Antes do advento do liberalismo político, dizia-se que o poder vinha de Deus. Hoje, pratica­ mente, todas as Constituições consagram a soberania popular ou nacional. Como a democracia direta não é mais praticável atualmente, o povo ou a nação escolhem seus representantes por meio de eleições. Eis a democracia representativa. O povo ou a nação são soberanos e a soberania é indelegável, inalienável. A democracia re­ presentativa deve, portanto, apoiar-se na opinião pública. Mesmo nos Estados totalitários, como o Estado nacional-socialista alemão, havia a realização do plebiscito, a fim de que o Führer auscultasse a chamada opi­ nião pública. Auscultar a opinião pública que seja a lídima, a verdadeira opinião pública, eis o ponto-chave da democracia. Como acentua Salvetti Netto:
o mecanismo democrático, que se sustem na representação popular, será tanto mais eficaz para atender aos fins da própria democracia, quanto mais propiciar as condi­ ções necessárias a uma estreita conformidade entre as deliberações dos órgãos gover­ namentais e os interesses da coletividade. Não pode haver representação onde inexis-

tirem cidadãos politizados, onde não houver fontes informativas da opinião pública, livres, desobrigadas e autônomas...

Em face disso ocorrem na America Latina e nos Estados política e economi­ camente subdesenvolvidos crises políticas incessantes. Na maioria desses Estados existe uma democracia meramente formal, em opo­ sição a uma democracia concreta, substancial. Em razão do exposto percebemos a importância e a responsabilidade dos meios de comunicação de massa na atualidade. Tais meios se confundem com aqui­ lo que costumamos denominar imprensa. Nesta incluem-se todos os meios de co­ municação de massa, embora seja instintivo nos referirmos aos meios de impressão com maior frequência do que ao rádio ou ao cinema, mesmo porque aqueles são mais antigos e acumularam ao seu redor a maioria das concepções teóricas da co­ municação de massa. Em seu livro Tres teorias sobre la prensa, Siebcrt e Peterson apresentam trcs teorias referentes à liberdade dc imprensa e as relações desta com o Estado: A teoria autoritária: esta teoria surgiu no clima autoritário do Renascimento, pouco depois da invenção da imprensa. Acreditava-se, então, que a verdade era apa­ nágio de alguns homens em posição de dirigir seus governados. A imprensa atuava de cima para baixo. Somente mediante permissão especial era permitida a proprie­ dade privada de órgãos da imprensa, e esta permissão podia ser cassada a qualquer momento. As publicações abrigavam, então, uma espécie de contrato entre os go­

150

Teoria Geral do Estado

vernantes e os editores, pelo qual aqueles concediam um monopólio e estes, em con­ trapartida, deviam prestar “apoio'’ incondicional aos detentores do poder. Ora, tal concepção da imprensa eliminava de pronto o que, 11a época, chegou a ser uma dc suas funções mais comuns: controlar o governo. Esta teoria da im ­ prensa como mera servidora dos governantes foi accita universalmente no século XV I e parte do século XVII. A teoria libertária da imprensa: a liberal-democracia, a liberdade religiosa, a expansão da liberdade de comércio, a aceitação da economia do laissez-faire e o cli­ ma da ideologia iluminista minaram paulatinamente o autoritarismo, reclamando um novo conceito de liberdade de imprensa. Esta nova teoria tem seu início no sé­ culo XVII, alcançando seu apogeu no século X IX . A teoria libertária não concebe o homem como um ser que deve ser dirigido, mas como ser racional capaz de discernir entre o certo e o errado. A verdade deixa, então, de ser privilégio do poder. O direi­ to de procurar a verdade torna-se um dos mais prestigiosos direitos naturais do ho­ mem. A imprensa passa a ser considerada uma companheira em busca da verdade. Na teoria libertária, a imprensa não é um instrumento dc governo, mas um recurso para apresentar provas e argumentos sobre a atuação dos governantes c controlá-los. Portanto, para esta teoria é indispensável que a imprensa esteja a salvo do controle c influência governamentais. Para que possa surgir a verdade, é preciso aferir todas as opiniões; deverá haver um “mercado livre” de ideias e informações. A teoria de responsabilidade social da imprensa: a teoria da responsabilida­ de social da imprensa resultou de um problema surgido há cerca de trinta anos, com a revolução das comunicações. Quando as estações de rádio começaram a se multiplicar, a exemplo dos jornais e livros, sua organização foi tornando-se cada vez mais complexa, exigindo capitais de vulto. A imprensa - como nos tempos do autoritarismo da imprensa - passou a cair nas mãos de uns poucos poderosos. Se estes homens, muitas vezes apolíticos, buscavam de todas as formas uma indepen­ dência de informação relativamente ao governo, não é menos verdade que a opi­ nião pública passou a correr novo perigo, qual seja, o poder incontrastável da im­ prensa cm mãos dc particulares. A proteção da imprensa contra a influencia do governo deixou dc ser suficiente para garantir a oportunidade de alguém expressar suas ideias, pois os donos e gerentes da imprensa determinariam as pessoas, os fa­ tos, as versões destes que seriam dadas ao público. Foi este problema que consti­ tuiu a base do desenvolvimento da teoria da responsabilidade social, 011 seja, a po­ sição de poder e quase monopólio dos meios de comunicação. Deve haver então, segundo esta teoria, a institucionalização da responsabilidade social das empresas para que todas as opiniões se apresentem imparcialmente, para que o público pos­ sa imparcialmente decidir. Na verdade, o problema da liberdade de imprensa tem de ser cuidadosamen­ te estudado, pois sua existência ou não sempre impele a nau do Estado pelos mais inesperados caminhos. Seignobos, 11a sua magistral H istória sincera da França , e

6 Formas de governo

151

Domenach, em A propaganda política, demonstraram à saciedade o papel da im­ prensa, especialmente a clandestina, na disseminação das ideologias na França iluminista e na Rússia de 1917. Nos dias em que vivemos, o problema agravou-se com o embate ideológico, verdadeiro caleidoscópio político, pois os meios de comunicação, cada vez mais perfeitos c objetivos, são dc fácil apreensão pela massa. Abordando o tema, Ferreira Filho (A democracia possível) adverte que quem controla os meios de comunicação de massa tem a possibilidade, mais que isso, a tentação, de manipular o seu auditório, infundindo-lhe as próprias concepções.

3) TIRANIA
Bibliografia:
c ic c o

burn

,

A. R. As cidades rivais da Grécia, Lisboa, Editorial Verbo, s.d.

de

,

Cláudio. Dinâmica da história, São Paulo, Palas Athena do Brasil, 1981.
,

fer-

r e ir a f il h o

Manoel Gonçalves. O estado de sítio, São Paulo, Saraiva, 1964.

fustel ler-

de coulanges, m in ie r

Numa Denis. A cidade antiga, São Paulo, Martins Fontes, 1981.

,

Eugène. Histoire des législateurs et des constitutions de La Grèce antique,
m o s s í :,

Scientia Verlag Aalen, 1974, reimpressão da edição francesa de 1852, Paris, Amyot, Rue da La Paix. Claude. I.a tyrannie dans la Grèce antique, Paris, PUF, 1969.
R E iN A C H ,T h éod ore.

De 1'état de siège, Paris, F. Pichon, 1885.

A tirania é uma forma autocrática de exercício do poder político que tem ori­ gem asiática, passando para a Grécia a partir do século VI a.C. O vocábulo tirania tanto pode ser originário da Lídia, sendo o rei Giges o primeiro a ser chamado ti­ rano, como de Canaã, de serens, nome bíblico atribuído aos filisteus de origem no­ bre. Pode, até, ser originário dos etruscos, da expressão turan, que significa poder ou senhoria, ou de nomes próprios da Etrúria (o rei Turuns ou a deusa Juturna). Aliás, já sc disse que os etruscos, que desenvolveram a mais adiantada cultura da antiga Itália, antes dos romanos, eram descendentes dos lídios, sendo sua origem asiática, portanto. Consequentemente, a palavra tirania não é grega; designa, antes de mais nada, a forma de governo da moda existente na Ásia Menor, em dado momento históri­ co, não tendo absolutamente, como sugere o vocábulo, sentido pejorativo, malévo­ lo. Com efeito, a exemplo da ditadura romana, a tirania asiática não se apresenta como uma forma de exercício do poder necessariamente perniciosa. Diga-se o mes­ mo da sua versão grega que representou, no mais das vezes, os interesses coletivos, como veremos adiante. Em detrimento da verdade histórica, a tirania passou, com o tempo, a significar uma forma política essencialmente indesejável, preconceito

152

Teoria Geral do Estado

este arraigado até mesmo entre estudiosos da história política e que cumpre-se ex­ tirpar de vez. Vejamos, entretanto, a evolução da tirania grega. É durante o século VI a.C. que desaparecem, em grande número dc cidades gregas, as velhas Constituições aris­ tocráticas, como fruto do descontentamento dc comerciantes e industriais que, en­ riquecidos em sua atividade, passam a almejar os cargos públicos. A aristocracia, sem se renovar, é dividida por lutas internas e enfraquecida cada vez mais. Sua de­ cadência vai ensejar o aparecimento de uma nova forma política, oriunda da Asia, a tirania. Esta forma de governo vai permitir o restabelecimento da ordem e uma política de expansão territorial e, consequentemente, de desenvolvimento econômi­ co, como corolário do espírito empreendedor dos gregos do século VII a.C. A tira­ nia, diga-se mais uma vez, não indicava uma ideia de dominação necessariamente opressiva, mas a forma de poder exercido por um homem cujo direito de governar era fundado não mais na religião ou na hereditariedade, como a antiga monarquia, porém no prestígio pessoal, 110 apoio dos estamentos inferiores, comerciantes e gen­ te humilde. Acrescentc-sc a isto um forte aparato militar. Claro, houve abusos por parte dc inúmeros tiranos; muitos, contudo, criaram constituições democráticas, de­ fendendo os interesses dos menos favorecidos, exercendo uma forma política em muito semelhante à denominada ditadura proletária a que sc refere Burdeau. Com efeito, as massas, em sua fraqueza, não encontraram outro meio de com­ bater os excessos da aristocracia senão o de lhe opor uma nova espécie de monar­ quia, seja na Grécia ou em Roma. Quando, em toda parte, os reis foram vencidos e a aristocracia se firmou 110 poder, o povo não se limitou a lastimar a queda da monarquia, mas procurou restaurá-la sob nova roupagem. Em seus primórdios, a tirania vem a ser uma forma política responsável pelo esplendor e pelo desenvolvimento econômico das cidades. Destacam-se tiranos no­ táveis: Trasíbulo, em Mileto; Pitágoras, em Éfeso; Polícrates, 11a ilha de Samos. Este cria uma potência marítima comparável à do Egito e da Pérsia, dedicando-se, ade­ mais, a proteger sábios, cientistas c poetas e a edificar majestosas obras públicas. Outro notável tirano, Pisístrato, governa Atenas com sabedoria e moderação, res­ peitando a legislação de Sólon, impedindo a formação dc latifúndios, realizando ampla reforma fiscal e embelezando a cidade. O tirano não altera, geralmente, a Constituição. As magistraturas são manti­ das, devidamente encarnadas em homens de sua inteira confiança. O conselho e a assembleia determinam a nova política, embora severamente fiscalizadas pelo tira­ no, que se faz acompanhar, prudentemente, de robusta guarda pessoal. A aristocra­ cia é perseguida. O tirano Trasíbulo pediu, certa vez, conselho a Periandro, tirano de Corinto, que era, por sinal, 11111 dos sete sábios da Grécia, a respeito da arte de governar. Periandro não respondeu: como ambos se achavam num trigal, limitou-se a cortar algumas espigas que se sobressaíam em altura das demais, insinuando, com

6 Formas de governo

153

isso, que a tirania não pode tolerar que os mais capazes adquiram demasiado pres­ tígio. Em Corinto, Cípselo confisca as terras aos nobres e as distribui entre as mas­ sas desfavorecidas; em Mégara, Teágenes pura e simplesmente massacra os rebanhos dos ricos, captando a simpatia popular. Os miseráveis vecm sua revolta c desdita mi­ noradas, pois os grandes empreendimentos públicos oferecem trabalho c as terras confiscadas lhes propiciam a fixação à terra. Tais situações atendem plenamente aos interesses do tirano, preocupado permanentemente com a hostilidade potencial dos aristocratas e com a sublevação das massas. Além disso, o tirano utiliza-se, frequen­ temente, dos cultos religiosos, os quais, excelente veículo de propaganda, contribuem para a estratificação do poder pessoal. Na verdade, à época das tiranias, comba­ tia-se ou pela liberdade ou pela tirania. Liberdade, para o proletariado, quer dizer governo dos ricos; tirania significava o governo de um líder antiaristocrático e, in­ diretamente, popular. Segundo o próprio Aristóteles, o tirano não tinha por missão mais do que proteger o povo contra os ricos, sendo da essência da tirania a guerra à aristocracia. A tirania é oriunda, em última análise, dos anseios dc uma burguesia florescente e, paradoxalmente, da miséria das massas e, claro, da audácia dc indiví­ duos sequiosos dc poder e decididos a tudo para triunfar. A tirania perduraria desde o século VI a.C. até meados do século seguinte, es­ tendendo-se, por todo o mundo grego, mas em cada caso particular jamais durou muito tempo. Em Esparta, aliás, a tirania jamais foi bem vista, talvez pela natural desconfiança do espartano em relação ao indivíduo enquanto tal. Na expressão do historiador ateniense Tucídides, Esparta não suportava os tiranos; tal aversão, de­ nominada atyranneutos, revela-se plenamente quando a política exterior esparta­ na intervém contra Polícrates e contra os Pisistrátidas, quando apeia do poder Ligdamis de Naxos e quando repudia a aliança a Corinto e Sicione, enquanto estas cidades são governadas por tiranos. A tirania decadente tornar-se-ia hereditária; então, as qualidades de energia, audácia e talento político, peculiares ao bom tirano, já se faziam escassas. A tira­ nia arcaica continha em si mesma os germes de seu desaparecimento, ou seja, a composição das crises sociais que a originaram. Com o desaparecimento destas, mediante as próprias reformas tirânicas, os cidadãos desejariam o retorno a uma forma de governo regular, em que o exercício do poder não se limitasse a um só homem. A tirania foi, na verdade, uma etapa necessária no caminho da democra­ cia, como acentua François Chamoux, pois à tirania se sucede uma aristocracia mo­ derada. O mundo moderno conheceu uma forma de exercício do poder político céle­ bre, aquela exercida por Oliver Cromwell (1599-1658), que, fazendo condenar à morte o rei Carlos I, em 1649, fez-se nomear Lorde Protetor da República da In­ glaterra (Commonwealth). O poder de Cromwell lembra, estranhamente, as tira­ nias gregas. Homem de caráter enigmático, ora iluminado, ora calculista, genero­

154

Teoria Geral do Estado

so e cruel, dotado do mais refinado bom senso ou da mais escandalosa extravagância, era, fanaticamente, puritano, dissolveu o parlamento 110 dia 30.04.1653, tratando os parlamentares de ladrões e covardes, fechou as portas da casa legislativa e guar­ dou as chaves no bolso... Proclamada a República em 16.12.1653, instalou-se no palácio de Whitewall c iniciou um governo rude, que promoveu a dissolução de quatro parlamentos sucessivos, mas que tornou a Inglaterra respeitada c temida, adquirindo Dunquerque e apossando-se da Jamaica. Reprimiu revoltas na Irlanda e na Escócia, e sua violência foi tamanha que os irlandeses se tornaram inimigos latentes dos anglo-saxões. Cromwell, que sonhava, certamente, em se tornar rei, não conseguiu seu desideraro, deixando seu posto para seu filho Ricardo, que, lon­ ge de possuir as qualidades do pai, logo abdicou. Cláudio de Cicco, em síntese so­ bre a História Universal, ressalta bem a influência da religião puritana sobre Cromwell, que, aliás, vituperava o rei Carlos I, sob os epítetos de anticristo e dragão do apo­ calipse. Os seguidores de Cromwell entremeavam seus combates com cânticos e salmodias, sendo o respeito para com o chefe absoluto. Ainda Cláudio de Cicco aponta, com muita agudeza, que o Navigation Actypromulgado por Cromwell, para proteger a burguesia de armadores e proprietários de companhias mercantis, mos­ tra bem o nexo entre o mercantilismo capitalista c o luteranismo dc Cromwell.

4) OLIGARQUIA
Bibliografia: A r i s t ó t e l e s . Política, Madrid, Centro dc Estúdios Constitucionales, 1983.
b o b b io

,

Norbcrto c
b o d in

m a t t e u c c i,

Nicola. Diccionario de política, Mcxico, Sigla X X I,
,

1985, v. 2.
glotz

,

Jean. Les six livres dc la republique, Aalcn, Scicntia Vcrlag, 1977.
m ic h e l s

,

Gustave. A cidade grega, Rio de Janeiro, Bertrand Brasil, 1988.
PLATÃO.

Ro-

bert. Los partidos políticos, Buenos Aires, Amorrortu, s.d., 2 v. Madrid, Centro de Estúdios Constitucionales, 1981, t. 3.

La república,

Do grego ol igoi, poucos, e arche, governo, oligarquia significa, literalmente, governo de poucos. Entretanto, como aristocracia significa, também, governo de poucos - porém, os melhores -, tem-se por oligarquia o governo de poucos em be­ nefício próprio, com amparo na riqueza pecuniária. Em outras palavras, o termo apresenta um conteúdo eticamente negativo ao denominar o governo dos ricos, em­ bora possa indicar, também, o governo de poucos mantido pela intimidação, como no caso da oligarquia militar. Modernamente, são usados mais dois termos para denominar o governo pernicioso de uma minoria, quais sejam, plutocracia e nepo­ tismo. Plutocracia é termo de origem grega (de ploútos, riqueza, e kratos, poder), daí ploutokratía, plutocracia, ou governo fundado 110 dinheiro, na corrupção. Quan­ to a nepotismo, a expressão é de origem latina, de nepote, neto 011 segundo sobri­

6 Formas de governo

155

nho; nepote, por sua vez, deriva de ncpos, termo latino que denomina simplesmen­ te o escorpião, aracnídeo cuja fêmea é devorada pela própria ninhada, como a parentela se aproveita dos ascendentes bem situados, assumindo os melhores car­ gos públicos, cm detrimento dos mais capacitados. Em suma, favorecimento de ami­ gos e parentes da minoria governante. Diz Platão: “A que tipo de Constituição - disse - chamas oligarquia? Ao go­ verno baseado no censo - disse eu - no qual mandam os ricos, sem que o pobre te­ nha acesso ao governo” (> 4 república, 550, c). Aristóteles, por sua vez, doutrina: “ Há democracia quando os livres governam, com maior razão que há uma oligar­ quia quando os ricos governam, e, geralmente, os livres são muitos e os ricos pou­ cos (Política, 1290, b). Na distinção aristotélica entre formas de governo puras e impuras, a oligarquia, como governo dos ricos, é a forma impura da aristocracia, que é o governo dos melhores (Política, 1279, b). O sentido negativo da oligarquia c uma constante no pensamento grego clássico, bem assim no pensamento moder­ no e contemporâneo. Veja-se, por exemplo, Jean Bodin numa das mais festejadas obras da teoria política: “Da mesma forma que a monarquia pode ser real, despó­ tica, tirânica, assim a aristocracia pode ser despótica, legítima, facciosa; este tipo dc governo, na Antiguidade, era chamado oligarquia, vale dizer, domínio cxcrcido por uma minoria [...]. Por isso os antigos usavam este termo com significado nega­ tivo, e aristocracia com sentido positivo (Les six livres de Ia république, Livro II, Capítulo IV). Muitos autores contemporâneos, como Robert Michels e Caetano Mosca, sus­ tentam que em todas as organizações de massa brotam, naturalmente, facções oligárquicas destinadas a se tornar verdadeiras elites. Robert Michels chama este fe­ nômeno de “lei de ferro da oligarquia”. Quanto ao marxismo, considera a democracia liberal uma oligarquia disfarçada, mesmo sendo assegurado o sufrágio universal. Paradoxalmente, o marxismo-leninismo exige, no período de transição entre o ca­ pitalismo e o comunismo, denominado ditadura do proletariado, o governo de uma minoria seleta, investida dc plenos poderes, que evoca, sem dúvida, as elites diri­ gentes da República de Platão.

5) DEMAGOGIA E 0CL0CRACIA
Bibliografia: AMARAL
Antonio Carlos de. Dicionário de nomes, termos e con­
,

A ZEVE D O ,

ceitos históricos, Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1990. A r i s t ó t e l e s . Política, Madrid,
Centro de Estúdios Constitucionalcs, 1983. Janeiro, Bertrand Brasil, 1988.
glotz

Gustavc. A cidade grega, Rio dc

l in a r e s q u in t a n a

,

Segundo V. Sistemas de partidos y

sistemas políticos, Buenos Aires, Plus Ultra, 1976.

sendo demagogia a arte de conduzir o povo. seu com­ portamento torna-se uma conduta massificada. Na demagogia. impor a ordem no Estado e nas almas. fazendo valer seus mais insensatos caprichos. provoca a reação de comuni­ dades organizadas. causada pelo aparecimento da máquina. e agein. que acabam por implantar um governo autoritário. E preciso. leva ao isolamento das pessoas e à sua angústia permanente. demagogo é aquele que conduz o povo. A de­ .) que a de­ magogia principiou a ter sentido negativo. Platão. eliminar as diferen­ ças pessoais. É neste sentido que Políbio emprega o termo. Foi com o grande historiador ateniense Tucídides (460-395 a. não é. impor que todos pensem da mesma for­ ma sobre todas as coisas. conduzir pela palavra. mas uma situação crítica que vivem as institui­ ções. poder). Quanto à oclocracia (do grego oklos. a conotação pejorativa de hoje. sendo o demagogo aquele que. esclarecia o povo com sabedoria e justiça. O termo oclocracia indica o jugo imposto pelo populacho inorgânico ao poder legítimo e à lei. bem como à desordem e à corrupção. 2. rigo­ rosamente. Progressivamente. A oclocracia é definida na famosa enciclopédia. os cidadãos mais capazes são relegados ao esquecimento e os aduladores cobram rápida ascensão. a demagogia é tida como a política por meio da qual os go­ vernantes buscam impressionar as massas com falsas promessas. das mulheres e das crianças dominar a multidão ignara dos trabalhadores. Modernamente. VI (IV). Ressalte-se que na antiga Grécia. Ainda é Aristóteles que adverte ser a demagogia a corrupção da politeia [Política. Tal estado de coisas é resultante do rápido desenvol­ vimento industrial e tecnológico. A atro­ fia da individualidade criadora. garan­ tida pelos guerreiros e acima de todo e qualquer egoísmo pela comunhão de bens. deformação dos fatos e adulações grosseiras.15 6 Teoria Geral do Estado Demagogia vem do grego demos. eliminar as particularidades. Aristóteles advertia para o fato de que a demagogia. denominando a atitude daqueles que “conduzem o povo lisonjeando seus sentimentos”. cortejando o populacho com leis inexequíveis e uma sórdida campanha de calúnias e difamações contra os verdadeiros magistrados. via na liberdade individual uma distorção da verdadeira convivência social. diz ele. povo. forma corrupta da de­ mocracia e que leva à implantação de um governo despótico das classes sociais mais baixas. multidão. durante muito tempo. Daí agog-os. ao sabor da irracionalidade das multidões. impondo-se ao tirano. e do papel cada vez mais ativo das massas.C. elaborada pelos enciclopedis­ tas franceses. condicionada a atitudes políticas e sociais não racionais. orador que conduz. Isto só será possível quando a casta dos filósofos. como sendo o “abuso que se instala no governo democrático quan­ do o populacho vil se torna o senhor dos negócios públicos”. 35 a-b). e kratos. 1]. Então. que não sentia grande atração pelas democracias (Apologia de Sócra­ tes. o termo de­ magogia não teve. uma forma de governo.

a palavra ditadura pode ser tomada num sentido amplo ou num sentido estrito. inevitavelmente. 1979. Paris. 1981. Utet. na oclocracia. A. 1968. La dietadura. Estado democrático e Estado autoritárioy Rio dc Janeiro. Nicolò. A igualdade de que ela se vangloria. quando suas instituições encontram-se ameaçadas por . Re­ vista de Occidente. Ditadura é o exercício temporário do poder político. r e in a c h p it is c u s . w i l l e m s . . mes­ mo. São Paulo. prossegue. embora não idênticos. Le sénat de la république romaine. Samuel. cria a desordem e a imoralidade. unipessoal ou colegiado. que. reside no fato de que. 1977. Scientia Verlag. Saraiva. 1968. Droit constitutionnel et institutions politiques. f e r r e ir a f i­ m a c h ia v e l l i. denomina as medidas de emergência que toma o Estado contemporâneo.apresenta vários sentidos correlatos. Zahar. há uma ordem viciosa imposta pelos demagogos. Paris. . ao defender um individualismo em que cada um age como bem entende. é uma gritante desigualdade. Quando o Estado sc encontra em tal situação. neum ann Franz. Théodore. ao passo que a oclocra­ cia implica a própria ausência de qualquer ordem. p in t o f e r r e ir a Luiz. 123). Torino. Diritto pubblico romano. Com efeito. Carl. análogos. Saraiva. A cidade grega. presta-se a uma série de preconceitos e mal-entendidos. Manoel Gonçalves. Curso de teoria do Estado. Em sentido amplo. Georges. falso falar de uma só Constituição. sendo. pois esta é alterada incessantemente. Teoria geral do Estado. Pielte. s c h m i t t . Dictionnaire des antiquités romaines. F. p. A democracia culmina. fazendo a moderação passar por fraqueza e o escrúpulo por ingenuidade. Saraiva. . 1980. II príncipe e discorsi sopra la prima deca di Tito Livio. 1964. ao sa­ bor dos interesses mesquinhos. Madrid. 1975. 1969. São Paulo. 1. Feltrinelli. caracterizado pela concentração de atribuições prefixadas e destinado a sanar mal público iminente ou real.6 Formas de governo 157 mocracia. Quanto à diferença entre demagogia e oclocracia. lho burdeau . Pichon. e o domínio monstruoso que é a multidão (thrémma méga kai iskhurón) não passa de um despertar da natureza tirânica (palaià gigantikê phúsis) (apud Gustave Glotz. Pedro. Paris. burdhse. O estado de sítio. na primeira. De Vétat de siège. 1885. a sua Constituição é instável e deformada. ao colocar na mesma casta homens desiguais. por ter natureza analógica . 1766. v. é o oposto deste ideal. M ilano. 6) DITADURA Bibliografia: LGDJ. Ao reconhecer a todos os desejos a mesma legitimidade. salvetti n e t t o . Tal definição pode parecer estranha a quem estiver habituado ao uso indiscri­ minado do vocábulo. São Paulo. .

nesta incluído o poder de vida e de morte sobre seus conci­ dadãos. nestas incluído o próprio consulado. vale acrescentar. apa­ recem dois cônsules. desde então. que exercem o poder em colegiado e pelo período de um ano. em cuja aplicação dispunha da mais ampla liberdade. aprimorando-se. nem intervir em demandas legais ou impor novos tributos. Fora destas restrições.C. Daí. Mediante a intercessio.158 Teoria Geral do Estado um perigo interno ou externo (p. como faz ver o historiador Tito Lívio: “ [. sendo plena­ mente irresponsável. dotada de objetivos específicos e destinada a salvar a República e as liberdades dos cidadãos. mas agora o magistrado republicano achava-se subordinado à lei.... o ditador não estava subme­ tido à intercessio nem à provocatio. curvando-se. aos princípios da anualidade c da colegialidade. vale dizer. Não podia. ex. e sim ma­ gister populi. a própria . aumentativo dc dicere. a ditadura romana 110 tempo e nas instituições republicanas da antiga Roma. a partir de então.C. adotou-se a forma monárquica de governo. desde que não houvesse dado a esta. Em sentido estrito. Vale frisar. várias magistraturas. A missão do magister populi ou dictator consistia. contudo. o monarca postava-se acima da comunidade. Já se percebe que a ditadura romana vinha a ser uma magistratura extra­ ordinária\ prevista na Constituição. é bem verdade.] duo cônsules inde comitiis centuriatis a praefecto urbis ex cornentariis Servii Tulli creat sunt [. quando tem início o período denominado principado. a adoção do estado de sítio ou da lei marcial). enfim. Situemos. Ele se achava. a república sc impõe. significava a plenitude dos poderes judiciários e militares. perdurando até 27 a. de imediato. que a denominação dictator não era a mais indicada para designar aquele que encarnava tal magistratura. de forma a impedir que fosse restaurado o poder pessoal dos mo­ narcas. seu consentimento. a luta armada e a sucessão violenta de instituições. refere-se a uma espécie de magistratura de caráter extraordiná­ rio. em sanar graves crises sociais com medidas drásticas.. entretanto. dc dictare. Nos tempos da realeza. sendo irresponsável no exercício do cargo. to­ mando-se a expressão no sentido enérgico dc comandar.]” . então. rees­ truturar o poder. é bom lembrar. O imperium . Reza a tradição que a História da Cidade Eterna co­ meça aos 21 de abril do ano 753 a. conforme ensina Théodore Reinach. Substituindo o rei.. basicamente. pois sabe-se que muitas ideias de ori­ gem republicana já vinham sendo experimentadas durante o reinado de Sérvio Tú­ lio. dictator.. O período dc transição entre a monarquia e a república não ensejou. Ora. O próprio termo dita­ dura origina-se do Direito Público romano. e até o ano dc 509 a.. anteriormente. cm sua investidura. ao veto do colega. A expulsão dos reis beneficiou a aristocracia. alterar a Constituição ou declarar a guerra. sendo responsáveis perante a lei e submetidos à intercessio. concentrava nas mãos todo o poder. um dos cônsules podia anular qualquer medida tomada isoladamente pelo outro. prevista na Constituição da antiga Roma republicana. que buscou. ao contrário do que sc pensa. investido do imperium maximum ou majuSy e durante sua atuação todas as magistraturas eram suspensas.C. sob o lema salus rei publicae su­ prema lex est.

por sua vez. depois judices. iMais tarde. sendo seu símbolo o fasces. direito de convocar e de presidir o Senado (senatum vocare). ad tempus incertumysendo invocada. deriva. A ideia de imperium .a possibilidade de in vicem parere atque imperitare. como vocábulo cor­ respondente a imperium. Os etruscos adotavam. aos questores. portan­ to. a jurisdição (poder de dizer o Direito). que significava poder. com nuanças religiosas. ditadores e pretores. apenas aos magistrados stricto sensu: cônsules. aquele que ia à frente do exército). sendo suas funções delimitadas no tempo. Magistrados ordinários eram aqueles que exerciam funções inerentes à norma­ lidade da vida administrativa. havia outros magistrados que se enquadravam em magistraturas de caráter ordinário ou de caráter extraordiná­ rio. Magis­ trados extraordinários . a palavra ti­ rania? Havia ademais uma distinção entre imperium e potestas. o direito de organizar e comandar o exército. Admitir que uma magistratura fosse ocupada sem limite de tempo. o direito de exercer coerção (coercitio). O imperium inclui todas as atribuições da potestas e mais: o direito de tomar os auspícios fora de Roma. originariamente. quem sabe. determinar que este aprecie um caso determinado (referre ad senatum) e que delibere e vote (cum patribus agere). que eram dotados. ligado à religião (auctoritas) e um poder jurí­ dico c militar. compreende: o direito de tomar os auspícios dentro da ci­ dade. Cônsules e outros magistrados voltavam a ser.a própria denominação faz ver . portanto. inicialmente. As magistraturas republicanas eram. isto é.eram aqueles cujas atribuições não tinham duração limitada pela lei. quando a salvação da . cidadãos comuns.pelo menos teoricamente . ad tempus certum e ad tempus incertum. o direito de convocar o povo fora de Roma. direito de convocar o povo dentro da cidade. para lhe dirigir a palavra e para fazê-lo vo­ tar. nos comícios centuriados. era magistratura de caráter extraordinário e. daí. A ditadura. truna. apenas da potestas. consistente em deter o cidadão e obrigá-lo a comparecer perante a autoridade.6 Formas de governo 159 soberania encarnada pelos reis de Roma e transmitida aos magistrados republica­ nos. mais recente (imperium ). Havia um conceito primitivo de soberania. no mais das vezes. aos edis e aos tribunos. paulatinamente. mas limitada em razão das circuns­ tâncias. inicialmente denominados praetores (de praetor. ao cabo de um ano. entre os magistrados. porém. O império era atribuído. da monarquia etrusca. publicar os editos (jus edicendi). também de origem etrusca. segundo Pallotino. pois todo e qualquer cidadão tinha . Além dos cônsules. eqüi­ valeria a atribuir ao cidadão uma situação privilegiada que ofenderia o princípio da isonomia. repartida. A potestas. impor multas (jus multae dictionis). a atribuição estendeu-se aos censores.

cm tais casos.160 Teoria Geral do Estado república exigisse a suspensão das prerrogativas pessoais (salus rei publicae supre­ ma lex est. como visto. levado a efeito com a máxima discrição. por outro lado. que a ditadura não era uma criação inteiramente do Direito Público romano. dominava a sedição (seditionis sedandae causa) e podia permane­ cer 110 exercício de suas funções até quando as necessidades o exigissem. ordinária e colegiada. Tusculum e Lanuvium. chefe dos patrícios. a lei suprema é a salvação da coisa pública). a ele caberia a escolha. este desprovi­ do do imperium majus. Frisemos. Em razão disso surge a ditadura. encarnada pelo magis­ ter populi ou praetor maximus. Encontraremos uma das mais profundas raízes da ditadura 110 gênio pragmá­ tico dos romanos. um ditador ou tirando a sorte para determinar qual deles faria a seleção. como a própria denominação insinua. ao menos. O ditador romano dispunha do direito de vida e morte. dirigia a guerra (rei gerendae causa). revelava. eram os cônsules. Entretanto. pois Roma. encontravam inúmeras dificuldades para atuar no âmbito externo. A própria nomeação do ditador seguia certos preceitos religiosos: o cônsul procedia à escolha do ditador somente após tomar os auspícios. Por exemplo. A expressão magis­ ter populi significa. embora resolvessem o problema da administração inter­ na. incumbido da cavalaria. vivia situa­ ções que exigiam decisões rápidas. quase sempre em estado de guerra. tínhamos as ditaduras oprimo jure. propiciar. Quem nomeava o ditador romano. basicamente. deliberando. Alba Longa. em segredo (nocteyoriens. embora não se pudesse fugir. a ditadura latina dessemelhava-se da romana por ser anual (ad tempus certum). era. esse órgão autorizava os cônsules a escolher. mas podia haver nomeação de um ditador para funções administrativas ou religiosas específicas e. assessorado pelo magister equitum. durante a noite. neste caso. ao qual. Com efeito. silentio). por exemplo. pois várias culturas vizinhas à Cidade Eterna conheciam uma instituição semelhante. e esta era. ficando o magister equitum. a função do ditador: comandar a infantaria. eles deviam consul­ tar o Senado a respeito das medidas a tomar. Se apenas um dos cônsules se encontrasse na cidade. já sc percebia que os cônsules. Este curioso ritual demonstra bem o es­ pírito do antigo romano: a elevação de um homem acima das leis. literalmente. tínhamos a ditadura imminuto jure. Acentua Pierrc Grimal que a dita­ dura se apresentava muito aparentada à monarquia no tocante a certas funções ex­ clusivas do rei (rex sacrorum) ligadas à religião. mediante au­ torização do Senado. ainda nos primórdios do período republicano. com suas tendências expansionistas. Se fosse o caso. isto é. que a colegialidade do consulado não poderia. É um erro . ser um mal necessário. simbolicamente. evidentemente. da infantaria romana. feita à noite e em segredo. Nos momentos de crises político-sociais. O ditador era investido 110 poder militar (gerundae causa e seditionis sedandae causa) e. estranha cerimônia cujo significado escapa à moderna pesqui­ sa histórica. fixar um prego numa parede do Capitólio. em conjunto. dotado apenas da potestas consularis.

. vários casos dc permanência dilatada do ditador cm seu posto. ficou reduzido à pobreza. impediu a deflagração da guerra civil entre patrícios e plebeus. Cincinato poderia. sempre renunciou às honrarias após cumprida sua missão. mãe dos Gracos. traziam uma medalha representando o ditador em sua charrua. voltando. sempre. cujo amor à pátria. e que Marco Pórcio Catão. hoje.6 Formas de governo 161 pensar. e retornou à lavoura. as insígnias de dictator. co­ ragem. Entretanto. Investido na função de dictator. dignidade c perseverança. que amanhava numa tosca charrua. contudo. à qual. que havia. o Censor. Da mesma forma que a célebre Cornélia.. impondo severa derrota ao inimigo. sociedade patriótica fundada nos Estados Unidos da América do Norte. e não seria equivocado concluir que. para libertar seu filho Ceson. simboliza a virtude da mulher romana. no ano de 458 a. repugna a palavra ditadu­ ra. para tentar levantar o cerco que os équos impu­ nham a Roma. foi novamente investido na ditadura. lembrado por seus compatriotas. Lúcio Quíncio Cincinato vem a ser. Patrício dc origem. em sen­ tido inverso.C. o ditador não podia renunciar à sua missão antes dc complctá-la. em grande parte por desconhecimento da História. para a felicidade e o progresso de um Estado. foi em inteira justiça. não . tentando cobrir a fiança exigida por influência dc seus inimi­ gos políticos. com altivez. à sua vida austera c dc hábitos morigerados. sempre levou vida modesta. portanto. em 1873. um exemplo da grandeza moral do antigo romano. Eis. ele que havia sido reduzido à humilhação c à pobreza por ten­ tar libertar o filho. que a ditadura não podia ultrapassar seis meses de duração. mas nem por isso pensou em locupletar-se ou em vingar-se. o arquétipo do herói romano. A Ordem de Cincinato. admitindo a hereditariedade na sucessão de seus membros. era formada por todos aqueles que se haviam desta­ cado na Guerra da Independência. Aos 80 anos de idade. nomea­ do ditador por mais de uma vez. causado a morte do filho de um senador. levantou o sítio em apenas dezoito dias. Esquecido por todos. desprendimento e consciência social deveriam inspirar a modernidade. até amealhar o dinheiro necessário para afiançar a liberdade do filho. culposamente.C. se o desejasse. Seus membros. os Estados Unidos da Amé­ rica do Norte. constatando-se. cumu­ lar poder e glória. na pequenina propriedade agríco­ la que lhe restara. no século V a. a memória do ditador Cincinato é. ao tomarem Cincinato como mo­ delo de conduta. mes­ mo porque a história romana é pródiga em exemplos de ditadores que encerraram sua missão muito antes de se escoar o prazo de seis meses. sustentáculo da família e do lar. Padrão dc honra. cumprindo sua missão ao cabo dc vinte c um dias. Em qualquer caso. passando a viver do culti­ vo da terra. Roma apresenta-nos exemplos de ditadores notáveis. na cidade de Cincinatti. perpetuada na pátria da Democracia ocidental. Reduzido à miséria por despender os poucos recursos que possuía. Polí­ tico hábil. com Cincinato. De­ volveu. personifica a probidade administrativa no combate à corrupção. a socieda­ de foi declarada incompatível com a República e desfeita.

C. Em 46 a. por ocasião da nomeação dc dois colégios decenviros legibus scribundis. que estava exigindo soluções drásticas. Modernamente. a figura do dictator seditionis sedandae causa.. praticamente desaparece c. Não teria sido por acaso que Dante Alighieri colocou Cincinato e Cornélia no Paraíso.C. se zanga. a ditadura foi suspensa por dois anos. de 286 a. pois se destinavam a reestruturar o Estado e a elaborar um novo ordenamento jurídico. haveria duas nomeações.. declarava a tumultus (rebelião). também. ao cabo dos quais renunciou ao posto. 129). 45.162 Teoria Geral do Estado bastam instituições políticas formalmente perfeitas. que a palavra ditadura possui uma carga histórica que deve ser respeitada.C. que os ho­ mens que as encarnem sejam dignos destas.. a importância do ditador já estava bastante reduzida pelo fato da ad­ missão da intercessio dos tribunos da plebe contra o poder incondicionado do dita­ dor.C. o ditador de empalmar o po­ der absoluto. A deturpação do sentido de um vocábulo emprega­ do sem discriminação séculos afora acarreta enganos insanáveis. A partir do ano 133 a. e XV. a dita­ . fora da lei e inimigo. foi criada uma institui­ ção que substituiria a tradicional ditadura: o senatus consultus ultimum. jamais aviltada. a anulação de determinadas leis e a suspen­ são do poder de certos magistrados. Não havia. Em 451 a. isto é. 48. um ime­ recido elogio. com efeito. e aquilo que pensa constituir um vitupério é. aos quais se deve a Lei das Doze Tá­ buas. Percebe-se. As denominadas ditaduras de Lúcio Cornélio Sila e de Caio Júlio César apre­ sentam caráter completamente diverso da ditadura original. exerceu por quatro vezes a ditadura política. Quanto a Júlio César.C. bem como o justitium (suspensão da atividade dos tribunais). Após a Lex Hortensia. ao enal­ tecer a figura do ditador romano. a ditadura prosperou e foi útil. por oca­ sião das agitações de Tibério Semprônio Graco. todo aquele que conspirasse contra o Estado. O senatus consultus ultimum era acompanhado da patética expressão “videant cônsules ne quid res publica detrimenti capiat!' \ com a qual se alertava a comuni­ dade sobre a gravidade da situação. em 249 e 216 a. a luta secular entre patrícios e plebeus. 46 e 44 a. Então. imediata­ mente. como percebe com clare­ za Maquiavel cm sua obra Discursos sobre a primeira década de Tito Ltvio. tendo por missão constituere rem publicam. é preciso.C. em sua bela e tremenda Divina comédia (VI. no entanto. ficando estes reduzidos à condição dc meros agentes executores. respectivamente em 49. Sila permane­ ceu no poder durante três anos. com ela.. graças à sua aliança com os tribunos da plebe e à assimilação paulatina das atribuições anteriormente priva­ tivas dos cônsules. e que os norte-americanos honra­ ram a memória do grande romano na cidade de Cincinatti. atribuído ao Senado e destinado a declarar hostil. qualquer aventureiro político que vem a ser qualificado como ditador. Quanto ao ditador rei gerundae cau­ sa. na República romana. exemplo universal dc patriota. efetivamente. Além disso.. na verdade. líder agrário. logo. motivadora da nomeação dc vários ditadores. um mecanismo que impedisse. o Senado já se encontrava reforçado a ponto de enfraquecer enormemente o poder dos cônsules.

Assim. em razão da desordem imperante.teórica.C. Na verdade. responsável. no qual pontificou Robespierre. evitou. ele próprio. Após a morte de César. cuja eleição . tudo leva a crer que Júlio César desejava instituir sua nova concepção de ditadura na figura de Otávio. no ano de 1793. por Marco Antônio. Procurando dissimular a transformação da República em regnum.C. contudo. criava-se na França revolucionária. criando. foi obrigada. mediante um decreto. incumbida de redigir uma nova Constituição e transmitir o poder. em detrimento da coletividade. teremos. Quando o cesarismo enseja o favorecimento de poucos. por exemplo. ainda em 44 a. por delegação. sucessor de César. por um estado de terror. O governo cesarista nem sempre é mau. César obteve a garantia de que sua ditadura seria perpétua. primeiramente chamado de Otávio (63-14 a. em razão da falta de higiene existente nas cidades etc. o que o torna irregular é a «ânsia da perpetuidade cm fraude à lei. evidentemente. temos o nepotismo (de nepote. O co­ missário recebia do príncipe. denominado Junta da Salvação Pú­ blica ( Comitê de Salut Public). funcionário nomeado para exercer atribuições extraordinárias e específicas. quiçá. A pa­ lavra cesarismo vem.). sufocar revoltas populares. medidas excepcionais que lembram. em­ bora o como fazer ficasse a cargo deste mandatário. o moderno estado de sítio (état . quando a Convenção Nacional. restabelecer quaisquer resquícios da ditadura. a governantes legal­ mente constituídos. Tomando a expressão ditadura em sentido amplo. na França revolucionária. dc César. por intermédio da Lex Antonia de dictatura in perpetuum tollenda. também denominada tirania. mas burlando-a. a delegar am­ plos poderes a um colégio de nove membros. a partir de então. proposta. Tais aberrações levaram ao seu assassínio. Em 44 a. O fato é que as formas corruptas da ditadura romana devem ter denomina­ ção diversa. na Idade Média. Exemplo de poder ditatorial colegiado poderemos encontrar. Além do mais. de imediato. pois este já se tornara seu fi­ lho adotivo. César subs­ tituiria os antigos magistrados por um apenas. a exemplo da aesymnetia grega. o Senado eliminou a nova magistratura. depois. encarnada no denominado comissá­ rio. que instituiu o tribunal revolucionário e se mostrou fanático defensor da República. administrar a extirpação dc focos de epide­ mias comuns à época. a duração do exercício do cargo comissarial era rigorosamente transitória. instruções a respeito do que fazer.. finalmente. o cesarismo é a forma dc exercício do poder político na qual o governante busca perpetuar-se no poder sem infringir a lei.C. Otaviano Augusto. com prudência. fruto da reação do Senado.1791. a figura do princeps e abstendo-se de alterar o quadro das anti­ gas magistraturas.6 Formas de governo 163 dura cesariana fez-se permanente e ordinária. evidentemente .. uma instituição análoga à ditadura romana. colocada acima do consulado. Já em 10. parente).01.seria anual e reservada ao povo.

eis um Napoleão. pela Assembleia. já não seria di­ tadura. Seja o poder ditatorial enfeixado nas mãos de um órgão apenas (sentido estrito) ou em vários órgãos (sentido amplo). visto que a principal característica da ditadura é justamente a concentração do po­ der em uma ou . o cesarismo empírico. foi promulgada uma Constitui­ ção inspirada pelo próprio Francis. cujo secretário era Gaspar Rodríguez Francis. muito adequadamente. o homem liberto dos grilhões do poder político do Estado. logo após. mas isto já seria impossível no caso de todos exerce­ rem uma ditadura. mas desde logo Francis se desfez do colega. Os cônsules seriam ele próprio e Yegros. A lei marcial. simplesmente porque sabe fazer-se obedecer. De início. indispensável ao advento do comunismo. um contrassenso.em algumas pessoas. exatamente como na antiga Roma. mesmo antes do transcurso deste prazo. segundo a qual a república seria dirigida por dois cônsules eleitos anualmente. esta república sul-americana teve a governá-la. em 1813. sob a presidência do General Yegros. Exemplo curiosíssimo de forma política que recorda o consulado e a ditadu­ ra romanas . exercia um poder ditatorial sobre esta. diz Burdeau. a ditadura do proletariado. Friedrich denomina ditaduras constitucionais as medidas de caráter ex­ traordinário. Indepen­ dente a partir de 1811. jamais o seu desmembra­ mento numa coletividade. vítima inevitável de alguma rebe­ lião ou pronunciamento. adotadas pela maior parte dos Estados contemporâneos. era o período em que o proletariado. forma política que dispensa qualquer ideolo­ gia: um chefe é incondicionalmente obedecido.quando muito . . uma Junta de cinco membros. poderemos. de classe é. confor­ me o caso. classe social destinada a dirigir a tarefa dc libertação das mas­ sas trabalhadoras exploradas pela burguesia. será um efêmero presidente de alguma república andina. Carl J. falar cm ditadura. Se ele for um gênio. o próprio Marx. sendo no­ meado. que antevia. necessária. o Direito Públi­ co russo referia-se a uma expressão célebre. Como se vê. surgiam as prisões em massa e as execuções. estágio final da evolução humana. a ditadura do proletaria­ do.guardadas as devidas proporções! . Que vem a ser a ditadura do proletariado? Segundo a doutrina marxista. se não for. e. Referindo-se aos regimes autoritários modernos. no mínimo. individualista por excelência. conseguiu tomar-se ditador supremo e perpétuo! Até o aparecimento da vigente Constituição soviética (1977). para fazer frente às crises político-sociais. inicialmen­ te. uma ditadura coletiva. Bur­ deau aponta formas de cesarismo e ditaduras. inaugurando o período conhecido. convenhamos. como “Terror”. até que o Estado desaparecesse e surgisse a sociedade comunis­ ta.16 4 Teoria Geral do Estado de siège). elasse exploradora. o estado de sítio ou de urgência são exemplos de tais métodos. Na verdade.oferece-nos o Paraguai. para um futuro promissor. pois uma ditadura sem ditadores. ditador por três anos e. Pois bem. não renegava uma concepção toda própria de ditadura.

segundo. No dia 09. o general Juan José Flores. Seria pueril. na qual. com o fato de seu poder ser mantido apenas pela força. a única coisa que se pode fazer na América é emigrar. diz Marx. ela marcará o definhamento e a desaparição do Estado. Marx antevê a liberação do indivíduo mediante uma fase necessária de vio­ lência. terceiro. São Paulo. a América é ingovernável por nós. 1966. à qual já nos referimos. e b e n s t e in . du - . México. Lisboa. nem de longe possui o embasamento doutrinário desta. Marx insiste no caráter inelutável desta ditadura. na qual o proletariado intervirá despoticamente. O chefe restringe-se a explorar. a ditadura do proletariado. instrumento de opressão de uma classe sobre outra. El cons- titucionalismo brasileno en la primera mitad dei siglo X IX . Embora aparentada à ditadura do proletariado imaginada por Marx. 1965. Afonso Arinos de. . m elo franco William. A ditadura proletária é outra espécie de ditadura moderna apontada por Bur­ deau. pois. Burdeau aponta a ditadura ideológica. Finalmente. de modo rudimentar. Escritos políticos. as mais baixas paixões do populacho. Difel. 1957. para usar uma expressão do próprio Marx. Nela. com o advento da sociedade comunista. as quais ele dirige a seu talante. Simón Bolívar enviou uma carta a um de seus colabora­ dores. absolu­ tamente. Tal ditadura será transitória. Paidós. 7) CAUDILHISMO Bibliografia: verger b o l ív a r . este país irá cair infalivelmente nas mãos de uma multidão desenfreada para passar depois a tiranetes quase imperceptíveis de to­ . o chefe busca apoiar-se nas camadas sociais menos favorecidas. que viria a ser o primeiro presidente do Equador. Exa. supor que o Estado tende a eliminar as relações de subordinação. Simón. fazer uma revolução é lavrar no mar. ele desenvolve.6 Formas de governo 165 A seguir. A libertação do homem só será possível com a desaparição do poder político e com a submis­ são da classe dirigente (a burguesia) a uma ditadura (a do proletariado. a exemplo dos demagogos das antigas tipologias das for­ mas de governo. quarto. Maurice. classe do­ minada). Os regimes políticos. Nesse caso. 1977. Sabe V. isto sim.1 1. Por seu inter­ médio. muito mais refinada e subs­ tanciosa 110 que se refere à doutrina. Buenos Aires. o ditador não se satisfaz. enfaticamente e com dureza. dizia o seguinte: Meu caro General. Editorial Estampa. Unam. uma ideologia político-social destinada a legitimar.1830. El totalitarismo. que governei durante vinte anos c que desse tem­ po poucos foram os resultados certos que obtive: primeiro. No seu livro Carta a respeito do programa de Gotha. ele não po­ deria tomar tal iniciativa a não ser renunciando à própria existência.

o cabildo. precisamente uma instituição colonial. depois. na América espanhola. da qual derivou o paternalismo ainda hoje encontrado na política americana. note-se bem. o vice-rei espanhol tornou-se a encarnação suprema do Estado espanhol nas índias. o exacerbado individualismo c a quase ausência dc senso dc responsabilidade social trariam as disfunções políticas que todos conhe­ cemos. o desenvolvimento econômico. tal afirmação é válida ape­ nas do ponto de vista político. convertida em Vice-Reinado e. dificilmente conseguiríamos compreender alguns traços das instituições políti­ cas latino-americanas sem examinar as influências do passado indígena e colonial. O poder se achava centralizado no vice-rei. depois. nos locais onde se desenvolveram as sociedades indígenas. Como acentua Salvador Valencia Carmo­ na. Assim. a saúde pública. se a unanimidade dos historiadores situa o nascimento oficial dos Estados latino-americanos em princípios do século X IX . pois sob o ângulo histórico esta orientação trunca uma parte importante de sua evolução. o ccnso. Era. os europeus não se dignarão conquistar-nos. as obras públicas. A primeira revolução francesa provocou a decapitação das Antilhas. assim o império inca. foram ins­ talados também os primeiros estabelecimentos espanhóis. verá que rodos se entregarão à torrente da demagogia c desgraçados dos povos. su­ cedido pelo Vice-Reinado e. V. Por outro lado. estabeleceu-se uma profunda relação afetiva entre o governante e o povo. desde os antigos impérios pré-colombianos até os modernos presidentes latino-america­ nos. tornou-se ponta avan­ çada do movimento libertário e órgão de transição entre a autoridade do Vicc-Rcinado e a América independente. os centros atuais do poder político. algumas dc suas atribuições . Era dotado dos títulos de capitão-geral. a segunda causará o mesmo efeiro neste vasto continente. sexto. autoritários. Por ou­ tro lado. des­ graçados dos governos! Ninguém melhor do que o Libertador conhecia o temperamento e as inclina­ ções do latino-americano! Inicialmente. A súbita reação da ideologia exagerada vai pre­ sentear-nos com quantos males nos faltavam e exagerar os que já possuíamos. o superintendente da Fazenda Real. a instrução pública e a previdência social. e a confe­ deração asteca. a dis­ tribuição de provisões. no México atual. este seria o ultimo período da América. pelo moderno Estado peruano.166 Teoria Geral do Estado das as cores c raças. pois tanto o monar­ ca indígena como o vice-rei foram executivos centralizados. deitam suas raízes nas velhas capitais indígenas ou nas divisões estabelecidas durante o perío­ do colonial. Destes períodos nos vem profunda tradição de poder pessoal. quinto. o incontornável atavismo do poder pes­ soal. governador do Reino c presidente da audiência. como veremos. se fosse possível a uma par­ te do mundo voltar ao caos primitivo. Ora. os serviços postais. Em verdade. Exa. devorados por todos os crimes e consumidos pela feroci­ dade. mais tarde. que do pon­ to de vista administrativo tinha a seu cargo os serviços gerais. Pois bem.

a função executiva passa a cobrar um interesse axial. do que qualquer outra nação cristã. plenos poderes. Os espanhóis são amigos da ostentação. mas não o são realmente. da qual pode­ riam dizer “obedecemos sem cumprir. até que outras potências europeias começaram a co­ biçá-las. desde o descobrimento. com isto. sendo dcscortescs para com eles. a administração foi confiada a grandes senhores. e logo se tratou de levar à prá­ tica exóticas experimentações. costuma-se denominar aqueles quinze anos o período de ensaio e de formação do Executivo.6 Formas de governo 167 transcendiam a função executiva e alcançavam o plano legislativo e o judicial: além dc participar da audiência da qual era presidente. Num breve período de quinze anos (1810-1825). mas em suas casas levam uma existência miserável. Por outro lado. e profundas transformações. difícil de acreditar. faziam com que o vicerei tivesse. a administração espanhola ampliou sua influência sobre a administração das colônias lusas e. vestem belas roupas e montam vis­ tosos cavalos. vão ocorrer. basicamente.. com pouca submissão à Coroa. apontado com muita ojeriza por Francesco Guicciardini: São orgulhosos por natureza c não gostam dc estrangeiros. que consideram degradante. Em torno dela. a consolidação do poder personalizado. Para as novas Constituições. os donatá­ rios. bem como a dificuldade dos meios de comunicação. dão-se ares de fidalgos e preferem ser soldados ou (antes do tempo de Fer­ nando) salteadores de estrada a fazerem-se mercadores ou exercer qualquer função se­ melhante. embora sujeitos à revisão pelo Conselho das índias. fazem ponto de honra em preferir a morte a submeter-se à vergonha. de fato. desenvolvem-se as guerras de independência dos Estados latino-americanos. conceder indultos de penas impostas pelos tribunais. Por isso. 'Iodos os espanhóis desdenham o comércio. sendo. A princípio. o temperamento do espanhol à época da conquista e da colonização. quatro os modelos a ele referentes. c ágeis. que.”. a preocupação de Portugal continuou vol­ tada para as índias Orientais.. No Brasil. No plano judi­ ciário podia atuar de ofício ou mediante invocação da parte contra os ouvidores. tinham vigência imediata. os alcaidcs e os fiscais. por outro lado. Durante a união pessoal imposta a Portugal e seus domínios pela Espanha (1580-1640). como os decretos-leis contemporâneos. expedia atos administrativos de­ nominados instrucciones. Assim: . sob Filipe II. mui­ to mais de forma do que de substância. Aparentam ser muito religiosos. rápidos e peritos no manejo das armas. divididos em doze capitanias hereditárias e dotados de grande poder. talvez. Curioso e sintomático. sistema que obteve pouco sucesso ao retardar a exploração econômica e a implantação de uma administração realmente eficaz no Brasil. foram desen­ cadeadas apaixonantes controvérsias doutrinárias. São mais belicosos. a grande distância que separava o novo continente da metró­ pole.

remanescendo o Brasil sob o velho regime algum tempo.168 Teoria Geral do Estado a) o monárquico. a) Executivo monárquico: nos primórdios da independência as ideias monár­ quicas ainda gozavam de grande prestígio. num discurso perante o Congresso Constituinte da Bolí­ via. isto é. como se percebe. O requisito de uma ditadura . cm função do expansionismo napoleônico. restariam. a fim de cuidar da conservação da independência. derivado do sistema político norte-americano. um homem dotado de grande descortino político. d) o presidencialista. que pôde manifestar-se na Constituição de 1824. não fosse a emigração da Corte para o Brasil. tornando a monarquia rejuvenescida ideologicamente. por costumes e tradições antiquados. oriundo do pensamento de Bolívar. no qual foi apresentado o Projeto de Constituição para aquele país. autóctone. Com efeito. Aliás. Repudiava com uma concepção romântica o velho liberalismo e pretendia substituí-lo pelo planejamento social. 8°). desenvolvida por Clermont Tonnerre e haurida. b) o colegiado. seu filho. Dava ênfase especial ao progresso técnico mediante a utilização social das capacidades humanas e preconizava a aplicação dos métodos científicos à organização e controle das relações sociais. de inspiração francesa e. no Brasil. de acordo com as verdades posi­ tivas da ciência. assim se referiu ao cargo dc Presidente da República: . c)o vitalício. vinculado às velhas tradições. assim é que Bolívar. ainda dominadas.exercia forte atração sobre os latino-americanos. Isto somente seria conseguido mediante uma república ditatorial. das ciências físicas. com o fito de consolidar sua posição pessoal perante os demais poderes políticos. Comte rejeitava as abstrações sociais de ordem metafísica e propunha-se a aplicar à sociedade os mé­ todos positivos. gra­ ças à doutrina do Poder Moderador. ainda. adver­ te Afonso Arinos de Melo Franco que Pedro I teria sido o grande inspirador da in­ serção do Poder Moderador na Constituição Imperial. do equilíbrio e da harmonia dos poderes (art. As tentativas de instauração da monarquia no Haiti e no México. embora irreversivelmente condenadas pela roda da História. a sociedade seria dirigida por sábios. os fatos de ter sido Pe­ dro I o procurador da independência e Pedro II. em grande parte. em 1825. fato que trouxe para o Brasil um desenvolvimento inimaginável até então. empíricos e experimentais. dc certo modo. coetâneos. por Cristophe e Iturbide. da “chave de toda a organização política”.a expressão é do próprio Comte . o imperador ficava dotado. respectivamente. b) Executivo vitalício: inspirado na Ideologia de Augusto Comte (1798-1857) c de Simón Bolívar (1783-1830). terminaram breve e tragicamen­ te. Com o Poder Moderador. menos pelas virtudes ínsitas à ideologia do que pelas circunstâncias históricas. por Benjamin Constant Botelho de Magalhães. Dentro des­ sa filosofia. além das funções exe­ cutivas.

em 1811. um executivo assim concebido permitiria a transição do velho ordena­ mento colonial para um Estado liberal dc feição moderna. ainda. 9o. desde que este viesse para Santa Fé de Bo­ gotá para exercê-lo. ao cabo deste período. nas primei­ ras Constituições latino-americanas. inicialmente. uma vez que nos sistemas sem hierarquias. aparentemente monárquica.6 Formas de governo 169 O Presidente da República acaba por ser. Diga-se o mesmo do Chile. Também a Constituição do Equador de 1812. dc 1811 a 1814. Para Bolívar. o Poder Executivo seria exer­ cido pelo presidente da representação nacional e por dois conselheiros. deveria haver. Para a Bolívia esse ponto é o presidente vitalício. “amor e fidelidade constante” ao rei Fernando VII. Nele se estriba toda a nossa ordem. foi revogada logo em 1831. escolhido um diretor supremo das provín­ cias unidas. tais instituições se sobrepusessem às vigentes. dizia um antigo. firme em seu centro. a ideia de Executivo colegiado se mostrou inefi­ . desde logo. A Constituição de Cundinamarca de 181 1. no art. ao rei Fernando VII. considerada a “Arca da Aliança” dos povos latino-americanos e a “transição entre Europa e América”. por parte dele. . então. se torna necessá­ rio um ponto fixo à volta do qual devem girar os magistrados e os cidadãos: os ho­ mens c as coisas. tiveram curta duração. sem que isso implique. pois em todo o restante de seus artigos fala dc um Estado independente. tornando-se. Esta suprema autoridade deve ser perpé­ tua. ação. c) Executivo colegiado: o Executivo colegiado surge. reflete a mesma ambigüidade no Poder Executivo. A Argentina adotou o Executivo colegiado. Desde logo. diz o art. Despreparados. censores e se­ nadores. formado por três pessoas. restringe-se a isto na adoção da monarquia. em 1814. a de mais curta vigência. três assistentes e dois secretários com voto informativo que nomeará o congresso” . um pe­ ríodo de transição. A Constituição de Bolívar. Cortou-se-lhe a cabeça para que ninguém receie as suas intenções e ataram-sc-lhc as mãos para que não cause dano a n in ­ guém. para remediar a eventualidade dc o rei espanhol ocupar o cargo. enraizadas na consciência popu­ lar. cujo Exccutivo. caso contrário. na nossa Constituição. Dai-me um ponto fixo e com ele moverei o mundo. ao dedicar. como tribunos. e do México. sendo. para fruir dos benefícios dos institutos do liberalismo. qualificada de curiosa mescla de princípios republicanos e monárquicos. Algumas Constituições estabeleceram o colegiado sob forma velada. Os novos ideais. ironicamente. de ditadura vitalícia. Suas fontes são as Constituições francesas de 1793 e 1795. Aliás. da Venezuela. ao qual re­ conhece como monarca. mais que nos outros.dá vida ao Universo. até que. em sua ausência. que é encomen­ dado. como o Sol que. no mesmo ano. 5°. “será exercido por um presidente. o projeto de Constituição bolivariano previa muitas magistraturas à romana. o executivo vitalício seria intermediário entre a monarquia c a república. contudo.

um colegiado de nove membros. o colegiado sofreu um forte abalo. dc 1919 a 1933 c dc 1952 a 1967. logo após sua primeira gestão na presidência (1903-1905). o Uruguai experimentou um notável surto de progresso. 82. Batle y Ordónez publicou seus Apuntes sobre el colegiado. . os constituintes traziam nas mãos um exemplar da Constituição norte-americana. uma reforma constitucional trouxe de volta o colegiado. 97 e 105). talvez porque tenha funcionado razoavelmente num país que havia deixado de ser colônia ao mesmo tempo que os países latinos. ao passo que o Conselho seria formado por nove ministros. no segun­ do. no México de 1823. que conhecia de perto. que somente seria abolido de vez cm 1964. tendo a seu cargo a chefia de Estado (arts. Em 1952. com efeito. do presidencialismo. o excessivo aumento dos integrantes do colegiado. feitas em Puebla de Los Angeles. A atração por esse regime de governo foi. visitou a Suíça. onde colheu subsídios para a implan­ tação do colegiado em seu país. seguras e inquestionáveis. sua inadequação a tempos de agitação social. conta-se. Foram dois períodos. o impressio­ nante porte político de seus primeiros presidentes. se impôs aos latino-americanos. eleitos pelo povo para um mandato de seis anos. irresistível nessa parte do mundo. 85. ensejando o aparecimento das Constituições de 1934 e de 1942. 71 e 79). A obra propugnava uma junta governamental dc nove membros. A ideia do colegiado foi introduzida no Uru­ guai por José Batle y Ordónez. Coincidência ou não. além de per­ mitir a participação política de todas as facções. No primeiro. Em 1913. afinal. fundamentando-se na ideologia de que esta forma de organização política impede o poder excessivo de um só homem. destina­ da a substituir o executivo presidencial. e Gabriel Terra promoveu profundas reformas políticas no Uruguai. o efeito retórico de sua Consti­ tuição apaixonaram os latinos a tal ponto que. durante os períodos de colegiado. Assim. O presidente seria eleito por um período de quatro anos. político de grande prestígio e admirador das insti­ tuições helvéticas. Com efeito. Cinco anos mais tarde. tornando o sistema inaceitável. 70). em péssima tradução e impressão ainda pior. Bem mais significativa foi a experiência uruguaia do colegiado. o fato é que. d) O presidencialismo: o modelo presidencial dos Estados Unidos foi aquele que. de inclinação parlamentarista. O inegável progresso econômico dos Estados Unidos. as duas tendências celebraram uma síntese que mesclava presidencialismo c colegiado. governou um Executivo dualista. incluída a oposição. dividido cm dois órgãos sepa­ rados e independentes: a Presidência da República e o Conselho Nacional de Ad­ ministração (art. os quais suscitaram viva polêmica entre colegialistas c anticolcgialistas. a Cons­ tituição de 1918 criou o Poder Executivo dualista. aos quais caberia a administração (arts. que tornou o país conhecido como a “Suíça sul-americana” . que exigem decisões rápidas. com a ado­ ção. segundo.170 Teoria Geral do Estado caz por dois motivos: primeiro. Com a Grande Depressão de 1929. desta feita.

França ou Bélgica. em certa medida. a nova nação se estrutura. desaparecendo esta democra­ cia artificial. ao mesmo tempo. em verdade. O autoritarismo nega a liberdade e a responsabilidade da opção e ação políticas. por um breve período.EUA. a América Latina passou por um período crítico. o apego ao poder pessoal. no curso da História. com seu despotismo esclarecido. as raízes psicológicas do autoritarismo la­ tino-americano. o individualismo típico dos latinoamericanos torna-se infenso à solidariedade. então. Alemanha e URSS . de forma condicionada. o Grande. mas exige. via de regra. contudo.por sistemas autoritários.são ou democráticas ou totalitárias. O totalitarismo é o extremo oposto: livra os homens da carga da responsabilidade e. nada pelo povo”. Razão não falta. legada pela metrópole europeia: Grã-Bretanha. Foi Frederico. entre outras. em razão disso. Kste princípio do impressionante prus­ siano bem poderia aplicar-se à América recém-emancipada. um percentual de liberdade de expressão em questões não políticas. se produz um retorno à natureza. A razão pela qual. fenômeno já notado por Ferreira Filho. moldado no militarismo prussiano e no nacionalismo exacerbado. criando. como veremos a seguir. Grã-Bretanha. A principal razão dc que cm nosso século sc tenha prestado tão pouca atenção ao autoritarismo reside. restringe sua liberdade e o campo para expressar-se individualmente. apresentou causas mui­ to bem lançadas por William Ebenstein. Ao receber sua indepen­ dência. c surgindo.. que definiu. tem predominado o autoritarismo é provavelmente psicológica: a demo­ cracia oferece aos homens o máximo dc liberdade. um governo autoritário. Isto. um alto grau de responsabilidade de que muito poucos são capazes de aceitar. somente age mediante provocação e. Ao cabo de poucos anos. houve um . desde logo. o caudilhismo. contudo. embora sua sociabilidade ou comunicabilidade seja percebida de imediato. com mordacidade. que. Tal fato é fácil de compreen­ der se observarmos a grande quantidade de países subdesenvolvidos que se tornaram independentes a partir do fim da Segunda Guerra Mundial. no fato de que as potências modernas . provavelmente. o caudilhismo. mais uma semente para o futuro totalitarismo nacional-socialista. Após a Independência. embora permita. aguçadamente. não deveria dissimular o fato de que a grande maioria das nações estão go­ vernadas . pois não foi por acaso que Kbenstein apontou. acentuando a rivalidade entre democracia e totalitarismo como o referencial político do século. O latino-americano é. o que levou Duverger a afirmar que na América Latina “seguem-se homens e não ideias. a Ebenstein. acar­ retado pelo desaparecimento da autoridade dos vice-reis. Este é o efeito de outro fenômeno tipicamente latino-americano.6 Formas de governo 171 Infelizmente o presidencialismo à norte-americana logo se corromperia numa autocracia muito latina. a democracia: “Tudo para o povo.”.hoje como ontem . portanto. por uma constituição demo­ crática.. qual seja. pouco voltado para a vida política.

como acentuam Salvador Valencia Carmona e Jacqucs Lambert. Aos caudilhos castrenses sucederam os caudilhos civis e. fenômeno que. não ocorreram as vicissitudcs do caudilhismo. fre­ qüentes guerras civis. se não era expressamente previsto na Constituição. Ora. es que. eminentemente biográfica. O poder pessoal coloca-sc acima das ideias e das insti­ tuições. tudo inspirava o aparecimento de ho­ mens fortes. a estes. pacífica. encontrava apoio no costume. que costumava afirmar que à aristocracia ou governo dos melhores (aristoi: melhor + kratos: poder) sempre se sucederia um período de tirania. No Brasil. N a­ ções por edificar. A história dos primeiros tempos da América emancipada é. assim. logo preenchido por homens fortes durante todo o século X IX . pôde desenvolver. de imediato. via de regra. e que ocorreria também na Alemanha. feneceu paulatinamen­ te à institucionalização das ideias moderadas e ao declínio da instabilidade política. tanto antes como después de su independencia. e traduzia Shakespeare.172 Teoria Geral do Estado vazio do poder. Corroborando a intranqüilidade destes primeiros tempos. el Brasil siempre evolucionó politicamente mediante formas que garantizaron su continuidad institucional. Pedro II situava Pasteur e Victor Hugo acima de todos os homens. Em nosso país as elites políticas resolveram as criscs dc maneira pacífica. ausência dc uma classe dirigente preparada para o mando. . dc tal forma que Jorge Reinaldo Vanossi afirmou ser a institucionalidadc uma cons­ tante na História do Brasil: Una nota característica. quando a decadência da aris­ tocracia marcaria o início da gestação do nazismo. a D. os caudilhos eram. isto nos leva. juntando-se a isto a inexistência dc uma aristocracia já sedimentada. Pedro II. é devida. ao longo do século X IX . em parceria com uma aristocracia liberal c ilustrada. reitere-se. no exercício da função executi­ va c da moderadora. intranqüilidade social. homens de armas. os presidentes. governante hábil que. Enquanto os caudilhos hispânicos ad­ miravam Napoleão em suas aventuras bélicas. que conviene recordar en todo momento. A etapa dos caudilhos não terminou de maneira brusca. amigo das artes e das letras. diferentemente dos demais Estados latino-americanos. a Aristóteles. mediante os caudilhos castrenses dos primórdios da independência. um regime parlamentarista. que. ocorreu na América Latina. No bubo lapsus ni anarquias prolongadas y menos aún situaciones de división estatal frente a la comunidad internacional. Grande parte da nossa evolução. contudo. contudo. supriu-se o vazio de poder deixado pela monarquia espanhola.

El constitucionalismo hrasileho en Ia primera mitad m ir a n d a deI siglo X /X . lho e b e n s t e in . América I. Imprensa Nacional. Manoel Gonçalves. . v a l e n c ia c a r m o n a Salvador. America Latina. 1957. Escritos políticos. 1980. Cooperadora de Derecho y Ciências Sociales. Maurice. Jorge. 1964.atina: uma perspectiva histórica. 11. 1965. governo e normas jurídicas . Sahid. Jacques. 1983. México.. n o s s i. território.. Saraiva. Sánchez. 1980. 1.REGIMES DE GOVERNO 7 1) PRESIDENCIALISMO Bibliografia: a g e s t a . 1966. Nacional. zer melo franco marquand c o Donald. Edi­ f e r r e ir a f i­ . . Globo. Buenos Aires. Mab o l ív a r L uís drid. v a Jorge Rcinaldo.povo. Curso de derecbo constitucional comparado. São Paulo. 1979. particularmente quanto aos 173 . Unam. El totalitarismo. lambert. . Paidós. duverger . Universidad de Madrid. Difel.1) Introdução Para revelarmos a natureza do presidencialismo é preciso esclarecer as expres­ sões forma de Estado.apresentam entre si. Lisboa. Sugestões Literárias. A forma de Estado se acha ligada ao modo pelo qual o Estado se mostra estruturado em sua totalidade. Forma de Estado refere-se às relações que os elementos do Estado . 12. Curso de direito constitucional. México. 1979. maluf. Lisboa. El Poder Ejecu- tivo latinoamericano. Buenos Aires. William. Porto Alegre. torial Estampa. 1979. ed. Presidencialismo y parlamentarismo en cl Brasil. forma de governo e regime de governo. ses. São Paulo. São Paulo. Constituições de diversos paí­ . Universidad Nacional Autônoma dc México. Os regimes políticos. Simón. 1966. 1977. Afonso Ari nos de. ­ Teoria geral do Estado. São Paulo. ed. .

às novas circunstâncias.presidencialismo . 84. Como visto.já revela a preeminência do presidente neste regime. então. 87 e parágrafo único). o que. O Poder Executivo no presidencialismo é monocrático. a uma simples monarquia limitada por um parlamento. compete a um só órgão (mono . arts. é ab­ surdo. 2o. encarnado apenas pelo presidente. em tese. portanto. Os norte-americanos perceberam que seria difícil transplantar. art. Não respondem. mas seu poder seria limitado no tempo e pela lei.1. Independentes as colônias. Por isso e que se diz que o presidencialismo é o regime de governo em que a chefia de Estado (representação do Estado) c a chefia de governo (administração) são encarnadas num só órgão. com separação integral de poderes. pois a temporariedade do mandato do presidente. Cria­ ram. sua pátria-mãe. entretan­ to. o presidente é auxiliado por ministros de Estado (Constituição do Brasil. e nem por isso deixaram de adaptá-la. de certa forma. O presidente da República evocaria o monarca inglês. VII e VIII). II. por atos do presidente. o presidente da República. A vitaliciedade e a hereditariedade peculiares à monarquia foram substituídas pela temporariedade dos mandatos e pela eletividade para os cargos públicos. Já a expressão regime de governo diz respeito ao modo pelo qual os Poderes Executivo-Legislativo se relacio­ nam. . com vantagens. Incumbi­ do das funções de administração e de representação. pura e simplesmente. por assim dizer. formadas a federação. II). O constitucionalista James Bryce faz sugestiva comparação entre o presiden­ cialismo norte-americano e a república romana. a monarquia inglesa para o Novo Mundo. os norte-americanos não romperam. Seção 1. uma espécie de monarquia temporária. preservada na figura dos cônsules. art. mas o de 1787. abruptamente. Como adverte Duverger. o que não ocorre no regime parlamentarista. impediu o arbítrio sempre laten­ te na monarquia. art. É bom lem­ brar que o Poder Executivo é uno. Quando os reis de Roma foram expulsos. no qual as figuras de chefe de Estado e de chefe de governo são distintas. deu bons frutos. refere-se ao modo pelo qual o Estado se estrutura para o exercício do poder político. o sistema inglês assimilado pela Convenção de Fila­ délfia não é o de hoje. a monarquia foi. e Constituição do Brasil. vale dizer. apanágio da forma republicana de governo desde Maquiavel. bem diferente: o regime parlamentar ainda não se achava definitivamente estabelecido. A origem do presidencialismo se encontra na própria formação dos Estados Unidos. 76 e 84. com as instituições da Inglaterra. quem exerce o poder. pois a forma monárquica de governo é sempre vitalícia. Isso não ocorre no parlamentarismo. A prática. cujo possível arbítrio era severamente reduzido pela temporariedade e pela colegialida­ de do cargo. Quanto à expressão forma de governo.174 Teoria Geral do Estado seus elementos constitutivos. Os mi­ nistros de Estado são meros auxiliares no âmbito puramente administrativo. isto é. governa. A própria denominação do re­ gime . no caso o presidente da República (Constituição dos EUA.um ). as figuras de che­ fe de Estado e de chefe de governo confundem-se no presidencialismo (Constitui­ ção do Brasil. e as instituições britânicas muito se as­ semelhavam. O gover­ no é a dinâmica do poder.

5) como no Brasil (Constitui­ ção. O vasto império dos incas. Lembra oportunamente Duvcrgcr que a relativa frieza demonstrada pelos Es­ tados europeus quanto ao regime presidencialista é decorrente sem dúvida. Aristóteles. Illinois e Ohio. Madison e Jay. no Brasil. sedimentado ao longo de séculos sob o poder férreo de monarcas absolutos. sendo que a Lei Magna brasileira estabelece que o presiden­ te deverá ser brasileiro nato (art.que se recusou a disputar um terceiro mandato e a aceitar o próprio título de rei que alguns admiradores lhe que­ riam outorgar .1). 12. Ao cacique sucederiam conquistadores aventu­ reiros. a escolha dos ministros não depende do referendo do Legislativo. aquilo que repelia o presidencialismo na Euro­ pa seria o motivo de sua imediata adoção na América Latina: o poder personaliza­ do nos caudilhos. Cícero. como ocorre nos EUA. 2o. ora de um. realizada justamente para derrubar o poder pessoal. como Nova York. art. .. Tanto nos EUA (Constituição. 2o. Nos EUA a eleição presidencial é feita em dois turnos: no primeiro os eleitores escolhem. 22. até Roosevelt. Antes dc referido aditamento. em definitivo. vice-reis e corregedores. Por outro lado. Daí o fascínio do presidencialismo. embora desde George Washington . Locke e definitivamente sistematiza­ do por Montesquieu. Daí o interesse dos candida­ tos em captar votos nos Estados-chave. A separação e a independência dos Poderes (Constituição do Brasil. embora a delegação de atribuições de um Poder a outro seja uma realidade.7 Regimes de governo 175 regime no qual os ministros integram o próprio Poder Executivo. mas também equilíbrio. um colégio eleitoral que vai. Unidades fe­ deradas mais populosas. Neste livro. art. o presidente poderia ser indefinida­ mente reelegível. elaborado por Heródoto. facilmente deformado pelo caudilhismo. § 3o.. art. é exigida a idade mínima de 35 anos para o exercício das funções presidenciais. plasmando. 14. de Hamilton. A tripartição de Poderes é apanágio do regime presidencialista. Por isso se diz que na América Latina seguem-se homens e não ideias. via de regra. Tal princípio. foi substituído pelo poderio espanhol e seus vice-reis. bem como os líderes da emancipação. art.fosse criada uma tradição respeitada por todos os presidentes. Ora. têm direito a um maior número de votos do que entidades menos populosas. I). cm cada Estado-Membro. e tal mandato não poderá ser renovado por mais de uma vez (Emenda à Constituição dos EUA n. a tripartição de Poderes não é apenas divisão. a tradição liga-se à psicologia para tender ao poder pessoal. O presidente norte-americano é eleito para um mandato de qua­ tro anos de duração (Constituição dos EUA. a).1). embora a prática demonstrasse a inevitabilidade da predominância. no caso. contudo. VI. Seção I. § 3o. Com efeito. 2o) excluem a possibilidade de dissolução do Legislativo pelo Executivo e vice-versa. na América Latina. do monarca. ora de outro Poder. a inclinação do latino-americano para regimes de caráter autocráti­ co. Seção 1. em man­ dato imperativo. à ideo­ logia liberal da Revolução Francesa. é contradiço na obra capital do presidencialismo e do fede­ ralismo norte-americanos: O federalista. votar no candidato da preferência de seus eleitores.

Depois da insurreição de 1964. O art. deverá subme­ ter-se a uma segunda votação. concorrendo com o segundo candidato mais vota­ do. a).176 Teoria Geral do Estado Finalizando: 110 Brasil. § 3o. 1a VI. o presidente.2) Presidencialism o histórico e direito comparado Referindo-se ao Estado liberal. com o advento da Emenda Cons­ titucional n. Realmente. Entretanto. conhecido como “Nova República”.01. dando-se a eleição. costumava o grande pensador católico Bossuet afirmar que “o Estado que pretendemos fraco demais para não nos oprimir tornou-se fraco demais para nos defender”. conforme determina o art. a partir daí.1963. na concepção de Ferreira Filho. cm sessão pública e mediante votação nominal. da Constituição. bem como a propriedade individual. bem como registrado em partido político (CF. De 1891 a 1961 é evidente que nosso Poder Executivo foi monista. por maioria simples. com breve interregno parlamentarista (Emenda 11.] muda a concepção da missão do Estado. 102). o Estado deveria ter como única missão preservar a inviolabilidade da pessoa c a iniciativa privada no setor econômico. mediante uma in­ tervenção mais incisiva na esfera individual. ativamente. não educando c não sen­ do ético.. que vi­ gorou de 02. para os ideólogos do liberalis­ mo clássico. então. o presidente sempre foi eleito pelo sufrá­ gio popular. estar 110 gozo dos direitos políticos. a eleição indireta foi a preferida. ensejada pelos anseios populares e pela atuação in­ cisiva de personalidades de escol do pensamento liberal. não computados os em branco e os nulos.. o poder pessoal tem uma longa tradição histórica. 74 da Constituição Federal de 1969 dispu­ nha que o presidente seria eleito pelo sufrágio de um colégio eleitoral. o mundo passou por grandes trans­ formações. corporifica o Estado-providência: [. De 1822 até hoje o Poder Executivo no Brasil foi exercido.1961 a 23. art. Difunde-se e consagra-se o entendimento de que o Estado não deve apenas assegurar a liberdade. de forma monocrática. 4. de 15. Do século XVIII para cá. 77. surgiram novas necessidades sociais e.1985. 12. entretanto. Dc janeiro de 1963 em diante o poder monocrático do presidente da República con­ solidou-se ainda mais. 1). quando foi revogada pela Emenda 11. com estas. a democracia providencialista. direito majoritário. em decorrência da difusão das ideias so­ cialistas e do próprio catolicismo social.05. com suas . 6). Surge. deixando a cada um. as correntes socialis­ ta e antiburguesa. o presidente passaria a ser eleito mediante voto direto e secreto. praticamente sem interrupção. A Constituição de 1824 conferia a chefia do Executivo ao imperador (art. 25. pressionando os governos a deixarem a postura de inércia do État gendarme e a promoverem. prccatados dos excessos do absolutismo na França. 1. que dariam vida ao perío­ do que vivemos. § 3°. que. num só turno. o bem-estar social. Deve. Tradicionalmente.09. §§ 2° e 3°. 14. ser brasileiro nato (CF art. O candidato vencedor que não obtiver maio­ ria absoluta de votos.

uma vida huma­ na e digna. com efeito.7 Regimes de governo 177 próprias forças. de caráter fortemente intervencionista. uma vez que aquela mal se adapta a reger a política econômica. Ora. A Suprema Corte nor­ te-americana. Assim. Ao contrário. manteve-se como tendência dominante nas Constituições americanas. uma Constituição não deve visar apenas a liberdade. O processo desenvolvimentista. na Consti­ tuição. Trata-se da supe­ ração da nomocracia (g. a conquista do bem-estar. as decisões eram tomadas pela maioria pre­ cária de cinco contra quatro votos. contudo. final). pela telocracia (g. passando a ser denominadas. porque não estavam previstas. a anular 377 leis! Mesmo assim. para reproduzir o velho conceito tomista acerca da essência do bem co­ mum. com o advento da política do New Deal do Presidente Rooscvclt. advertia Rooscvclt que. sob o pesado fardo das questões econômicas. tudo isto é aparência: o presidente dos Estados latino-americanos se mostra. especialmente por termos. no período de cinco anos. renova-se a concepção medie­ val de que o estado tem por missão garantir para todos o bem-estar. parcialmente em descompasso com os novos tempos. formada. nomos: norma). vale dizer. O fenômeno descrito surge. ou seja. Os juizes da Suprema Corte seriam a personificação da nomocracia. atualmente. pro­ venientes em grande parte da aristocracia sulista. como queria o pensamento de Bolívar.3) Presidencialism o versus parlamentarismo na Am érica Latina O regime presidencialista. Os novos tempos. tam­ bém a América Latina sofreu a influência ideológica e institucional do Estado in­ tervencionista. fundamental no Estado moderno. 1. penoso e inquietante. Estados em desenvolvimento. Os poderes atribuídos ao presidente vão muito além da função mera­ mente representativa. já que somente nesta concepção o homem estará plenamente realizado. confrontada pela telocracia do Executivo. a predominância da finalidade da lei. ironicamente. por aqueles “que nunca se aposentam e raramente morrem”. adotado desde logo nos primórdios do constitucionalismo latino-americano. expressamente. da norma em si. téleios. em não reconhecer validade às leis do Congresso. timbrou. pois se lhe outorga um amplíssimo poder para dirigir o gover­ no. que as novas medidas que tomariam despertariam a aver­ são da Suprema Corte. segundo alguns. não se circunscreveram aos Estados Unidos. é intuitivo que a fun­ ção executiva se torna a mais qualificada para esta nova missão. embora num atavismo tipicamente rousscauniano as Constituições ame­ ricanas timbrem em colocar o Legislativo antes dos demais poderes. para ser legítima. mas também o bem-estar de todos. Por isso. traz consigo a inevitável aporia . Este percebeu. aqui. desde logo. um sol ao redor do qual giram as forças sociais. Para intervir de maneira determinada o Estado carece de dois pressupostos: ra­ pidez nas decisões e conhecimento técnico das questões. five to four e profligadas num panfleto intitulado Government by Judieiary. chegaram. de forma cristalina. Magistrados conservadores. de Budin.

um valioso ensaio de José Miranda considera o enfraqueci­ mento e a constrição do Executivo como uma das tendências mais recentes do constitucionalismo latino-americano. conferem atribuições importantes ao presidente para intervir nos problemas econômicos. as da Venezuela de 1864. atualmente. Não obstante isso. de 1838-1889. na América Latina. inaugurou. v. a in­ serção dc uma ordem econômica e social no ordenamento jurídico. se propugna o retorno ao parlamentarismo como regime de governo em nosso país. assim. em maior ou menor grau. que intro­ duziu o voto de censura que subsiste em textos posteriores. a de Honduras. as Constituições latino-americanas. incorporação ao presidencialismo de alguns institutos parlamentaristas etc. desenvolvimento nacional e justiça social”. o princípio da irrelegibilidade constitui a conquista mais signifi­ cativa do constitucionalismo. foram substituídos por caudilhos militares e. Enquanto o presidencialismo enseja uma centralização considerável do poder e proporciona instrumentos de controle ao governante. como vimos. agrários e previdenciários. tal característica. em várias Constituições encontraremos diversas nuanças parlamentaris­ tas. 123 e segs. os chamados mecanismos anticaudilhistas. Aqui. Relativamente ao parlamentarismo. a Constituição me­ xicana de 31. o resultado de uma longa evolução consuetudinária. pois a Constituição não previa o regime parlamentarista. a do Peru. que estabeleciam que os ministros poderiam ser censurados pela Câmara dos Deputados e. em seus arts. autoritários. embora velado: . os latino-americanos jamais demonstra­ ram uma inclinação maior. marcando o ad­ vento do Estado do bem-estar social neste continente. por isso. de 1933. Até o momento. Em tal sentido. com a in­ dependência.178 Teoria Geral do Estado “democracia liberal. cláusula antirreeleicionista. pelos caudilhos civis. havia condições favoráveis ao parlamentarismo. O primeiro período parlamentarista brasileiro. e. procede de uma arraigada tradição: nas épo­ cas indígena e colonial tivemos executivos fortes. Na verdade. Outras Constituições que adotaram institutos do parlamentarismo: as de 1806.01. foi. na verda­ de.1874 e 1891. o parlamentarismo parece muito complexo para nações que ainda não alcançaram um amadurecimento político indispensável. de 1825/30. então. Em contrapartida. No Brasil tivemos experiências parlamentaristas entre 1838 e 1889 e de 1961 a 1963. estavam obriga­ dos a se demitir. o parlamentarismo deixou.1917. firma-se a tendência de conside­ rar o presidente da República o principal órgão propulsor do desenvolvimento na­ cional. os quais. sendo que. 1859 e de 1867 do Haiti. depois. uma herança significativa para o direito constitucional. de 1934. Diga-se o mesmo da Constituição equatoriana de 1878. como vimos. a da Bolívia.. O Executivo latino-americano distingue-se por seu acentuado caráter unipessoal. de 1931/37. e a do Uruguai. no Novo Mundo. reação contra o excessivo poder presidencial: redução da duração do mandato pre­ sidencial. Sob o impulso das correntes socialistas que floresceram na Europa do século X IX . sequer o mencionava. edu­ cacionais.. g. enunciação expressa das atribuições presidenciais. 1845.

militarism o e Igreja na Am érica Latina Não podemos deixar dc registrar duas forças sociais. Nos Estados latino-americanos. submetidas à vontade do caudilho. Constituem as Forças Armadas o fator real de poder de maior peso na Amé­ rica Latina. as Forças Armadas e a Igreja. ao próprio presidente da Rcpública. Tais elementos. 99 se resolvem por si só e uma não tem. c quando dizemos “Poder Executivo” estamos nos referindo. estavam sempre prontas para motins e quarteladas. partidária do regime monárquico parlamentário e moderado. formando coalizões fugazes e desmoralizadoras para o regime: entre 1891 e 1920. os militares transformaram-se em ver­ dadeiros árbitros ou tutores do poder político velada ou ostensivamente. Dessa forma.4) Presidencialismo. cm maior ou menor escala. tendo a Constituição por este criada per­ durado até a queda de Allende. então. Por volta dc 1880. Despreparadas e desprovidas de espírito profissional. surge a época do profissionalismo. fatores reais do poder para empregarmos uma expressão típica de Lassalle . o Poder Executivo latino-americano. houve nada menos do que oitenta mudanças mi­ nisteriais. por iniciativa do Presidente Alessandri. c claro que os problemas sociais te­ nham a sua solução retardada. embora rara­ mente o proclamassem. Havia. já se per­ cebe. sem dúvida. que preconizavam uma democracia avançada e sonhavam com a república. pois.7 Regimes de governo 179 A geração de homens públicos que criou a constituição do império era.que pressionam. daí a im­ portância de se mencionar o fenômeno. pelo desenvolvimento econômico c pela estabilização po­ lítica. e por seus representantes mais significativos. em última análise. elementos mais radicais ou exaltados. contudo. o regime parlamentarista foi definitivamente extinto em 1925. denominada pretoriana. 1. que não seria de se preocupar com os problemas políticos. real­ mente. com o conseqüente surgimento de governos civis. eram considerados um tanto extra­ vagantes e pouca influencia exerciam nos acontecimentos. . bem como pela introdução da tec­ nologia em seus quadros. sc as condições políticas do jogo parlamcntário não permi­ tem a continuidade dc uma política ministerial. então. situamo-nos na época da emancipação. incipien­ tes. solução. no Chile foi agitada a política parlamentarista: os partidos políticos aumentaram em número. Desacreditado. ironicamente. São estas forças. acumulando-se e ensejando as criscs. se confunde com o órgão. motivada especialmentc pela decadência do militarismo caudilhista. indiretamente. dc cem questões que afligem o Estado. em 1973. que. As Forças Armadas eram. improvisadas. na maio­ ria. Particularmente. Dizia-se. Numa primeira fase do militarismo latino-americano.

1957. ceram . 190 c os Capítulos III e IV da venezuelana. 53 da Constituição colombiana e 6° da Cons­ tituição do Paraguai. desfru­ ta. § 11. 9° e 14. §§ 15 a 17. 12: “ Fica proscrito o Exér­ cito como instituição permanente. Itatiaia. embora não referentes a este de maneira expressa. por sua vez. §§ 8o. X III. Maurice. W. militares e técnicos alemães c franceses. então. da equatoriana. 89. da paraguaia. 180. entretanto. 84. criam medidas para refrear os arroubos do militarismo. Seus instrutores foram. e dispondo delas para a segurança interna e externa do país. C. de relativo prestígio junto ao Poder Executivo. da argentina. necessária. os quais modernizaram o aparato bélico e a administração militar. a profissão de fé católica para o exercício da função de senador. da Constituição boliviana. além de nomear seus principais oficiais. sem dúvida. 2) PARLAMENTARISMO Bibliografia: LAPORTE. a Igreja ainda joga importante papel. Quanto à Igreja. Os regimes . Em 1929. preceito este seguido pelas Constituições da Argentina (art. e os militares surgem. definitivamente. exercendo. Outras Constituições. o art. considerável poder de controle sobre as Forças Armadas. sendo instruídas para o desempenho de sua principal missão. sobrevêm a Grande Depressão. A partir de então desejam gover­ nar. § I o. da Constituição brasileira. agora. 172). na América Latina. atuarão as forças policiais necessárias”. é o caso da Constituição da Costa Rica. os europeus neste mister. embora não incisivamente como as Forças Armadas. logo depois os norte-americanos substituiriam. 86. Uteha.180 Teoria Geral do Estado Com a profissionalização. os arts. 184. c o art. §§ 15 a 17. haja vista a Constituição do Império exigir. 2° e 94. determinando que aquele será seu co­ mandante-em-chefe. ensejando normas que orientam e limi­ tam a atuação do Executivo. no art. da dominicana. pois estão convencidos de que sua participação política é. prestígio este que já foi imenso. o sistema capitalista entra em crise. 189 e 193 da nicaraguense. As Constituições. haja vista os arts. §§ 14 a 17. inicialmente. III. IV a VII. art. as Forças Armadas adquirem esprit de corps. o art. . o art. estabelecem uma teia indissolúvel de articula­ ções entre o presidente e as Forças Armadas. o art. apoderando-se do poder e não mais se conformando em simples­ mente restaurar o regime para entregá-lo aos civis. 2° e 86. o art. XV. a defesa do Estado contra a agressão externa. da mexicana. como um fator de poder que rapi­ damente se politiza. 1957. 164. da Constituição argentina. então. 95. O segredo dos hititas. as que concedem franquias tributárias à Igreja. México. En­ tre tais normas. 55. Belo Horizonte. haja vista o art. da panamenha. Los hititas. mencionam-se as que declaram religião oficial a católica. Em outras Constitui­ ções. as que obrigam o Estado a celebrar concordatas. o art. 76) e do Paraguai (art. Para a vigilância e conservação da ordem públi­ ca. duverger de - Louis.

os hititas. como faz Maurice Duverger. São Paulo. ao rei. No Êxodo (3. mas não há parlamentarismo.1) desposara mulheres hititas. . Estado. The English parliament. 1966. um regime parlamentarista. na Inglaterra.. 1961. O protótipo do regime parlamentarista é o parlamentarismo britânico. 25. se a forma do go­ verno for a monárquica. como os frígios e os celtas. Curso de direito constitucional 11. ed. Curso de teoria do Estado. a nosso ver. 5. que um regime parlamentar não é. História da antiguidade oriental Petrópolis. r o d r ig u e s alves f i­ F. que tinham. Manoel Gon­ g io r d a n i. Pouco mais do que isso era ditado a respeito dos habitantes do “país de Hatti”. 3-20. que apresenta uma longa evolução histórica. nos Estados Uni­ dos e na Suíça. 1963. 9 e 49. Saraiva. United Kingdom. Entretanto. 1986. Vozes. Mário Curtis. çalves. pois há regimes. constituinte e Constituição. os hititas são mencionados como um povo felizardo que ha­ bitava uma terra na qual brotavam o leite e o mel. Exemplificando. a partir do século passado várias expedições arqueológicas começaram a comprovar que os hititas desempenharam papel dos mais importantes na histó­ ria política da Antiguidade oriental. 34-35) e Salomão (3 Reis 11. ed. Habitaram a Ásia Menor. lho m a c k f .daí a expressão parlamentarismo sen­ do exercida por um primeiro-ministro que comanda um gabinete formado por ministros auxiliares. uma vez que a chefia de governo e atribuída ao presi­ dente da República. origem indo-europeia. como o presidencialista.n z i e . e importante notar. em que há um parlamento (Congresso). há parlamento no Brasil. salvetti n e t t o . foi ardentemente desejada pelo rei David. Betsabé. ao passo que a chefia de Estado (representação do Estado pe­ rante outros Estados) é confiada ao presidente da República ou. muito mais antigas do que sc pensa. 8). Elas poderiam ser identificadas como um povo da Antiguidade oriental. Saraiva. 1982. José.7 Regimes de governo 181 políticos. Vejamos. Até pouco tempo. necessariamente. O que é parlamentarismo? São Paulo. l in d o s o . Fixados naquela região desde o segundo milênio antes de Cristo. Mário Curtis Giordani apon­ ta alguns trechos dos Livros Santos que mencionam os hititas (Gênesis 23. Saraiva. os hititas nada mais eram do que um povo obscuro. São Paulo. Assim. as instituições parlamentaristas encontrem. a sua consagração definitiva. por todas as formas. São Paulo. 1968. Necessário notar. e por exemplo. Pedro. mulher do hitita Urias. Embora. mes- . f e r r e ir a f il h o . Parlamentarismo é o regime de governo em que a chefia de governo (adminis­ tração) é confiada ao próprio parlamento . que buscou. mas eram de origem indo-europeia. mas não há parlamentarismo. 29-32) sobre o episódio da compra de um terreno sepulcral por Abraão. Penguin Books.. Esaú (Gênesis 26. incidentalmente mencionado na Bíblia. como visto. 1982. eliminar seu marido. São Paulo. as origens históricas das práticas parlamentaristas são. Difusão Européia do Livro. Kenneth.

em todos os Estados orientais. A palavra comer. no latim edo. ademais. de resto. o monarca hitita não era dotado de poder abso­ luto. estas verdadeiramente des­ póticas. sendo rigidamente controlado pela assembleia. no antigo alto germânico ezzan. Ora. Desde os estudos dc Franz Bopp . ressurgiriam com as modifica­ ções peculiares a cada época. veremos que também as ins­ tituições hititas apresentam forte conotação ocidental. Ademais. muitos aspectos obscuros do idioma hitita foram esclarecidos. que implicava o direito de o rei escolher seu sucessor junto a qualquer membro da no­ breza. o clamor de um hitita perdido no deserto. por incluir línguas da índia. até a consolidação do despotismo monárquico no século XVI. despertar o ódio dos vencidos em virtude de atos atrabiliários. mediante matrimô­ nios reais.. de origem asiânica (esta palavra designa os povos da Ásia Ocidental que não são semitas nem. bem como da maior par­ te da Europa. deliberar so­ bre matéria fiscal. Mesmo sua atitude para com os povos vencidos denota um elogiável humanitarismo c um sábio tato diplomático: ao invés de massacres odiosos. como ocorria em Astúrias e Leão. que no inglês é eat. evitando. a ponto de se afirmar que um alemão contemporâneo compreenderia. vetando a criação de novos impostos. Os hititas. as Cortes podiam. perfeitamente. As instituições políticas hititas nada têm em comum com as dos povos semi­ tas. O regime político era o monárquico. e deste continente trouxe­ ram instituições que. como. evidentemente. indo-europeia. embora a escolha devesse ser referendada pela assembleia denominada “pankus” ou “p a n k u s h Assim. depois. afirmam inúmeros pesquisadores. ao país. Em Portugal. já no século IX. como aqueles que levaram a efeito os terríveis assírios. reuniam-se assembleias para escolha do sucessor. Nem por isso alguns autores deixam de ver as origens do parlamentarismo moderno na Espanha e Portugal medievais. conforme adverte M ário Curtis Giordani). Na Espanha. que comprovou ser o hitita também um idioma eu­ ropeu. provavelmente.até as conclusões levadas a efeito por Friedrich Hrozny. indo-europeus. Mesmo que deixemos de lado o fator lingüístico. formando o então denominado Condado Portucalense. selar a união com seus vizinhos. A princípio eletiva. após a morte do rei. milhares de anos mais tarde. também as instituições parla­ . apresenta. a partir do século X I. a realeza seguiu. que integra­ va os domínios hispânicos. O caráter dc indo-europeu atribuído aos hititas parece ter mais conotação lin­ güística do que racial.182 Teoria Geral do Estado ciaram-se com populações autóctones. semelhança com o hitita ezzatteni. tal concepção política é inteiramente estranha às outras monarquias orientais. poderia ser qualificado dc indo-europeu . que provou existir um grupo dc idiomas que. da Ásia Central e Ocidental. os hititas buscavam. Em terras hispânicas. mesmo. como visto. implorando por água: alemão/vasser = hitita!vâder. procediam da Europa. com o estabelecimento do Foral de Sobrarbe. o sistema de cooptação.linguista alemão (1791-1867). que daria origem. as Cor­ tes de Aragão escolhiam para chefe Inigo Arista.

alemão de origem. se ao gabinete compete a função governamental. limitada. um que atuasse como intérprete. e ligado à Dinastia de Hannover. por isso. o rei não poderia mais governar sem o apoio parlamentar. ao monar­ ca resta apenas a função representativa ou chefia de Estado. desinteressou-se dc participar das reuniões do gabinete. pressionada por vizi­ nhos continentais. passando dc monarquia limitada para mo­ narquia parlamentar. recebe des­ te moção de confiança. No século XVI a monarquia inglesa tentou restaurar seu poder.7 Regimes de governo 183 mentares desfrutaram de grande prestígio. no dealbar do século XVIII. Entretanto. Ora. O surgimento do gabinete antecederia. entretanto desejando conhecer as deliberações do gabinete. por exemplo. A Inglaterra. que dependia de um imposto também permanente. longe do continente. Com efeito. pois do próprio parlamento dependeria a administração das Forças Armadas e a cobrança de impostos. pois o povo e a burguesia uniram-se aos barões para minar as prerrogativas reais. passou a escolher. sobrepondo-se ao parlamento. en­ quanto na Inglaterra. com a monarquia ab­ soluta enfraquecendo paulatinamente. o surgimento da figura do primeiro-ministro. criou-se um impasse: o novo rei não falava o inglês c. não se viu às voltas com tais necessidades. como resultado disso. e o rei mais glória do que poder”. contribuía para tal evolução. mas Jaime II foi deposto e. o poder do rei inglês foi. paradoxalmente. a França necessitava de um exército permanente. entre­ . a monarquia tornou-se. continuan­ do o gabinete a assumir a responsabilidade pela atividade governamental. acelerada por circunstâncias histó­ ricas. muito forte. Daí a sugestiva expres­ são de Bertrand Russell: “O Primeiro-Ministro tem mais poder do que glória. além disso. de tal sorte que ele passou a formar um conselho (gabinete) junto aos membros mais eminen­ tes do partido majoritário. por outro lado. ao contrário. Na França. não o falava. Sendo o gabinete formado por membros do próprio parlamento. ao passo que o povo francês ajudava seu monarca a superar a tutela feudal. A partir do Bill of Rights. Este curioso fenômeno prosseguiu com Jorge II. opera-se a queda do gabinete. Surge. não haveria outra alternativa para o rei a não ser buscar apoio do grupo majoritário para criar tributos e controlar o Exército. den­ tre seus membros mais ativos. Pode. O rei. o fator de sua fraqueza. com Jorge I. com o qual os Estados Gerais foram forçados a concordar. então. Como assinala Maurice Duvcrger. o rei in­ glês tornou-se fraco e o da França. passando este órgão a governar. com a promulgação da Declaração de Direitos (Bill of Rights). a monarquia feudal cederia lugar à monarquia absoluta. havendo duas facções bem deter­ minadas no parlamento. cobrando o parlamento autono­ mia sempre maior. já se nota que. imediatamente. e por isso o rei via-se obrigado a convocar o parlamento sempre que precisava de dinheiro. de tal forma que. as instituições políticas me­ dievais européias evoluíram de maneira diversa no continente e na Inglaterra. daí a periodicidade do parlamento britânico. Retirada esta. em definitivo. que. A situação geográfica da Inglater­ ra e da França. ocorreu o inverso. a fi­ gura do primeiro-ministro. se entendia o inglês. Com o Ato do Estabelecimento.

de direito. caíram cinco ministérios devido a moções de descon­ fiança da Câmara dos Deputados. Eis por­ que a opinião pública constitui o fundamento do regime parlamentarista inglês. e 22 simplesmente retiraram-se do poder por desentendi­ mento com o imperador ou por mágoa. Durante meio século de Segundo Império. portanto. portanto: a Coroa. A Câmara dos Co­ muns possui maior ascendência que a dos Lordes. o gabinete e o parla­ mento. Nota-se. militares e eclesiásticos. c) primeiro-ministro. se os debates ameaçam ultrapassar o prazo fixado para as discus­ sões. dois anos de duração. d) gabinete exercente das atribuições inerentes à chefia de governo. todos. Ora. constatavam-se práticas parlamentaristas no País. solidariamente responsáveis pelas deliberações tomadas. de 1824. se ocorrer dissídio político entre os dois órgãos. que ao povo se atribui a decisão definitiva e irrecorrível. de fato. não previa. Im­ portante notar que os ministros que assessoram o primeiro-ministro e que. em média. Já naquela épo­ ca. conclui-se que o parla­ mentarismo inglês apresenta quatro características marcantes: a) responsabilidade política do gabinete.184 Teoria Geral do Estado tanto. a Coroa apresenta inúmeras prerrogativas: nomeia funcionários civis. São ór­ gãos essenciais ao parlamentarismo inglês. em­ bora seja o rei que designa os membros do gabinete. mas sem­ pre referendando as decisões previamente tomadas pelo gabinete. tivemos duas experiências parlamentaristas. O parlamento é formado por duas câmaras: a Câmara dos Comuns (eleita por su­ frágio universal) e a Câmara dos Lordes (nomeada pelo rei). Com efeito. com este. em face da ingerência deste na Adminis­ . chefe do partido majoritário. havendo rejeição. pois esta não tem outra missão a não ser rejeitar os projetos votados pelos Comuns que não tenham caráter finan­ ceiro. pelo qual. pois os gabinetes não ultrapassavam. no mundo moderno rara é a lei importante que não tem caráter finan­ ceiro e. fatalmente será ele quem escolherá seus ministros. expressamente. a verdade ê que. a Câmara dos Comuns pode recolocar o pro­ jeto vetado em nova votação. pode o speaker (presidente) trancar a discussão e aprovar a emenda que con­ siderar a melhor. líder do gabi­ nete. como observa Pe­ dro Salvetti Netto. No Brasil. aos quais se junta o Poder Judiciário. confere o direito de participação da Câmara dos Lordes (pariato). além disso. já por volta de 1827. Em tese. sendo o pri­ meiro-ministro líder da maioria. a segunda. o regi­ me parlamentarista. treze por hostilidade da Câmara ou por falta de apoio parlamentar. se a primeira Constituição brasileira. b) gabinete formado com os membros do partido majoritário no parlamento. o gabinete dissolver o parlamento e convocar o povo para eleições gerais. o fato é que. como faz ver Pedro Salvetti Netto. Do exposto. formam o gabinete são. Importantíssimo ressaltar a severidade na exigência da tramitação mais rápida dos projetos de lei. Na prática. durante o Segundo Império. entre 1961 e 1963. o incipiente parlamentarismo brasileiro caracterizava-se pela instabilidade mi­ nisterial. A primeira. tor­ nando impossível o planejamento de um programa administrativo. por influência do sistema político inglês. representada pelo sistema da guilho­ tina. atribui condecorações.

João Goulart. a existência dc apenas dois partidos que efetivamente decidem as eleições. a estabilidade ministerial é muito maior. es­ timulou e obteve a realização de um referendo popular. que consagrou o retorno ao regime presidencialista. e seus seguidores pressionaram as lideranças par­ tidárias para que fosse adotado o regime parlamentarista.e também frustrada . A segunda . Foi.implantação do parlamentarismo entre nós ocorreu cm 1961. as Forças Armadas. votado o Ato Adicional (EC n. Enfim. o Presidente João Goulart. de 02.09. . O resto é história. insatisfeito com a situação. nos quais não ocorre a fragmentação indesejável da opinião parlamentar e. Por isso. muitos autores apontam o sucesso do parlamentarismo inglês como o resultado de dois fatores peculiares aos anglo-saxões: uma profunda consciência nacional demonstrada no respeito às tra­ dições políticas c às instituições c. depois. a renúncia de Jânio Quadros ensejaria a imediata ascensão à presidência do vice. motivada por um casuísmo desmoralizador do regime.7 Regimes de governo 185 tração. 4. mas ao mesmo tempo sua total imobilidade quanto a uma efetiva função governamental. portan­ to. Com efeito. Ape­ nas quinze meses após. Entretanto. com a revogação do Ato Adicional. que instituiu o parlamentarismo. panaccia que permitiria a posse de João Goulart. que ficaria a cargo do gabinete. o regime parlamentarista é propício apenas aos sistemas bipartidários. preocupadas com as tendências esquerdistas do novo presidente. então.1961).

certo falseamento da reali­ dade. 1982. fala-se em ideologia burguesa. li­ beral. Editorial Tecnos. M adrid..8 IDEOLOGIAS 1) CONCEITO DE IDEOLOGIA Bibliografia: a b b a g n a n o . volta-se muito mais para os que “atendem” que para os que “entendem”. Mestre Jou. Bosch. em face do exposto. e c c l e s iia l l . Ideologias políticas. Barcelona. Dicionário de filosofia>2. pela ação direta. 1983. 2004. Unesp/Boitempo. o pen- 186 . Em outras palavras. justificando-a. rudimentar. São Paulo. Uma ideologia política vem a ser um sistema de crenças aceitas como verdades inelutáveis. ed.. 1997. O termo ideologia foi criado por Destut de Tracy. Toda ideologia tem as vistas voltadas para a ação.. marxista e tantas mais. Trata-se de uma concepção pecu­ liar do mundo c da Humanidade e. muitas vezes violenta. Nicola. em 1801. totalitária. Como assinala com clareza Jordi Xifra [.. Casa Editorial. mesmo. c a ponte que une a teoria à prática. criando-a. Terry. Ideologia. tolerando. portanto. expressando o clima social e o esta­ do de ânimo próprio de uma sociedade concreta. Las ideologias dei poder en la Antigiiedad. age como um motor que gera a força motriz da História. eagleton . Dirige-se às massas. . São Paulo. A ideologia se caracteriza. nesse sentido.] a ideologia não é apenas um sistema de ideias sobre a ordem social. mas princi­ palmente sobre as ações a serem levadas a efeito sobre esta. Trata-se de um princípio ativo destinado a atuar sobre a realidade social. modificando-a ou. Jordi. irracional. denominando a “análise das sensações e das ideias”. simples­ mente. expressa-se de forma simplificada. x if r a Robert e outros..

O primeiro pensador a empregar a palavra como modelo político teria sido Thomas Morus.8 Ideologias 187 sarnento à ação. Segundo a doutrina marxista. por completo. vários trechos da Bíblia estão impregnados de ideias socialis­ tas: Jeremias clama contra “os gordos a luzirem gordura”. O certo é que o ideal socialista sempre despertou a atenção de filósofos e po­ líticos. tem a ideologia como um complexo dc concepções falsas. ­ Gaetano e g a s t o n . Barcelona. interpretar cientificamente os fatos sociais. justamente. Ezequiel atribui a Jeo­ . a ordem estabelecida. desprezado por Marx justamente por ser utópico. que a ausên­ cia dc amor recíproco entre os homens era a fonte dc toda a miséria. Atua como uma filosofia militante que norteia o desenvolvimento de um sistema sociocultural. Bouthoul. em maior ou menor escala. irracionais. 500 a. simplificadas. Max. foi verberado severamente pelos marxistas. Madrid. 1978. assim é que já Mit-sé (Micius). jo u . a respeito da qual trataremos mais adian­ te. enfim. Zahar. Que é uma utopia ? Esta palavra é forma­ da por dois semantemas gregos: w. na mesma linha Karl Mannheim. negação. Friedrich. e Louis Althusser que considerava incompatíveis ideologia e ciência. Por outro lado. subver­ tendo. a um socialismo utópico. 1977. não sou­ beram. Histórias das doutrinas políticas. do modo de produção econômico.. Rio de Janeiro. sempre a serviço do status quo. Los anarquistas. Reconhecem os marxistas que alguns socialistas pré-marxistas teriam percebido as contradições inerentes ao capitalismo e que a propriedade privada deveria desaparecer. O socialismo utópico. portanto. nettlau. D aí Marx jactar-se de opor. Júcar. 1975. enfim. c topos. a luta de classes.. Vejamos algumas ideologias que fizeram escola e agitaram as massas. pensador da Renascença que imortali­ zou o vocábulo cm obra famosa Utopia. ignorando. Grijalbo. 7.. m os São Paulo. Global. seu socialismo científico. afirmava. mas es­ tes socialistas não souberam explicar o modo de produção do capitalismo. O marxismo. que viu nas ideologias concepções não só conservadoras. lugar. designando. a im­ portância da vida material. mas também equivocadas. ed. 1985. Do socialismo utópico ao socialismo científico. 2) SOCIALISMO UTÓPICO Bibliografia: ca. La anarquia a través de los tiempos. James. imaginário.C. engels. O luxo c a de­ sigualdade social deveriam scr severamente combatidos. um lugar inexistente. na pretensão de cientificidade de seu socialismo autonominado “científico”. na China. o grande erro dos socialistas utópicos vem a ser. a idealização de vastos planos de reconstrução social sem levar em con­ ta a vida real da sociedade.

sustentar os filóso­ fos. de forma que o pai não viesse a conhecer o filho e vice-versa. abaixo com os orgulhosos. sem separação de sexos. considerado santo por ter recusado a acei­ tar o casamento do rei Henrique VIII com Ana Bolena. os nobres ocio­ sos tinham em torno de si inúmeros criados. Os filósofos nada poderiam possuir dc seu. mediante o repúdio da rai­ nha Catarina de Aragão. apenas. foi condenado à morte e executa­ do. Acusado de alta traição. na Pérsia. auxiliados pelos escravos. segundo ele. com reservas. na qual. para o socialismo.C.) surge. Morus era admirador de Platão e da obra deste. a ruínas!”. contrárias ao desejo da divindade. Aos agricultores.188 Teoria Geral do Estado vá estas palavras: “para cima com os humildes. Os demais pros­ seguiriam seus estudos. com vistas à florescente exportação de lã para o exterior. pois Platão vi­ sava à participação da mulher. Enquanto as guerras contínuas enchiam o país de inválidos. e estas seriam comuns a todos. instituições humanas que seriam. permanecendo nas filei­ ras do exército aqueles que revelassem menor aptidão intelectual. Mais tarde Platão escreveu outra obra As leis. O Estado ficaria encarregado de educar o cidadão. matemática e história. 110 qual “o lobo repousará junto ao cordeiro e a pantera ao lado do cabrito”. os jovens prestariam o serviço militar (homens e mulheres). então. cuja missão seria legislar e velar pela execu­ ção das leis.o da educação -. 110 qual as crianças aprenderiam música. Após um curso geral. desde a mais tenra idade. afirmando a igualdade natural de todos os homens e sugerindo a supressão da propriedade. Isaías sonha com um reino de paz e dc justiça. Na mesma época de Mit-sé (século V a. Escreveu uma obra intitulada Utopia. artífices e comerciantes caberia. que lhes permitiria ascender à casta mais elevada e nobre. a propriedade privada. um curso de filosofia política. nos problemas políticos. admitindo. um pregador de nome Mazdak. sendo que cada homem possuiria uma gleba dc terra indivisível. fez com que houves­ . pois Pla­ tão estava convencido de que os males que afligem o Estado não teriam fim enquan­ to os filósofos não chegassem ao poder ou os governantes não fossem filósofos. indiretamente. bem como da família. Platão critica as desigualdades sociais no tempo da Atenas de Péricles. critica a situação econômica da Inglaterra de sua época. o aban­ dono da cultura agrícola com a transformação dos campos em pastagens de ove­ lhas. após exame de seleção. Aos quatro anos de idade seria iniciada a educação da criança. visando preencher cargos públicos. Previa o banimento da propriedade privada e da liberdade eco­ nômica. Em sua obra A república. Por outro lado. por morte do amo. passavam ao abandono e ao dilema de furtar. Eu o re­ duzirei a ruínas. ao lado do homem. que. cuidando do problema maior do Estado . Fariam. inalienável e transmissível hereditariamente apenas. receberiam o sustento da classe trabalhadora e deveriam residir em habitações coletivas com as mulheres que lhes fossem destinadas pelo Estado. Isto somente seria possível pela educação. roubar ou morrer de fome. a dos filósofos. Thomas Morus: humanista inglês. a ruínas. na qual se mostra mais realista.

e estes. assim. à fabricação de grilhões para os escra­ vos. A terra e os instrumentos de produção devem pertencer ao Estado. Em matéria religiosa os utopistas são tolerantes. quando se casam.8 Ideologias 189 se um encarecimento brutal dos gêneros de primeira necessidade. Cada grupo de trinta famílias escolhe seu chefe. e a religião. meramente tole­ rada. até para os filósofos. mas a mulher deve ser ouvida antes de sua decretação. Campanella acatava as ideias de Platão. dispensada estava a moeda. . Existe na ilha a escravidão. da Calábria. Para Morelly. As casas são redistribuídas de dez em dez anos. alguns membros de famílias numerosas são transferidos para as menos numerosas. o atrativo físico é importante”. os noivos devem apresentar-se despidos. o ouro e a prata não possuem utilidade real e constituem um perigo para a vida so­ cial e intelectual. que escreveu uma obra intitulada Città dei sole. Os filarcas. dividida em cinqüenta e quatro distritos. Destina-se. porém. porque “ne­ nhum homem será tão filósofo de ver. elegem os superfilarcas. que dirige o Estado e que só pode ser deposto se tentar o cesarismo. na mulher. vadiagem. Tommasso Campanella (1568-1639): foi um pensador italiano. Ca­ da distrito tem na sua parte central uma cidade espaçosa. O divórcio existe para os casos de adultério. Em sua obra preconizava um sistema comunista ideal. depois. Não havendo comércio em Utopia. quando muito. Até os 25 anos. Não há desocupados a consumir o produto do trabalho alheio. Para evitar a concentração excessiva de pessoas em certas áreas. mas cada um aprende um ofí­ cio extra. A mudança de residência depende dc autorização. o príncipe. por sua vez. reuni­ dos. todos devem dedicar uma parte de seu tempo à agricultura. em de­ trimento dc outras. mediante sorteio. sendo a esta reduzidos os criminosos. Em Utopia o trabalho diário é redu­ zido a seis horas: três pela manhã e três à tarde. Morelly: em 1753 escreveu uma obra intitulada Brasilíada. Thomas Morus volta-se indiretamente contra este esta­ do de coisas ao escrever Utopia. Entretanto. compromete toda a beleza e o ornamento do Estado. o grande mal da Humanidade é a propriedade pri­ vada. Thomas Morus não admite a comunhão sexual de homens e mulheres preco­ nizada por Platão. Utopia é uma ilha inexpugnável. os adúlteros e os prisioneiros de guerra. O próprio Morus. podendo. para que nelas possa entrar quem quiser. com todas as suas seqüelas: miséria. rival dos je­ suítas que seguiam Aristóteles. Religioso dominicano. assaltos. que contém os edifícios da administração. fundamentada na Utopia de Morus. A família deve ser conservada. A monogamia é pa­ drão em Utopia. admite que sua Uto­ pia (o título completo da obra é Libelus yere aureus nec minus salutaris quam festivus de optimo rei publicae statu deque nova insula Utopia). passar um ano na cidade e dois 110 campo. embora eficaz em ter­ mos objetivos. As viagens ao exterior são proibidas. da indústria e do ensino. apenas as belezas morais. o filarca. a ativi­ dades menos penosas. Por outro lado. Todos são agricultores. Somente 110 reinado de Henrique VIII foram enforcados 72 mil ladrões. e não possuem chaves.

mas den­ tro das possibilidades reais. para elevar os preços. Filantropo. Afirmava que a sociedade deveria ser organi­ zada cm comunidades denominadas falanstérios. nas quais a divisão do trabalho seria feita por intermédio da chamada atração passional ou vocações. eis o resumo des­ . Dühring está longe de ser a figura ridícula em que Engels pretende transformá-lo na virulenta obra intitulada. Charles Fourier (1722-1837): preso durante a Revolução Francesa por per­ tencer ao partido dos girondinos. Infelizmente. porém. até que o Poder Público assumisse o controle de toda a propriedade privada. jogou ao mar enorme quantidade de arroz. que a verdadeira igualdade não é a igualdade meramente formal ou jurídica. de acordo com as necessidades de cada uma. afirmando que a falta de or­ ganização do trabalho produz um enorme desperdício de forças. Posto em liberdade. Anti-Dühring. fundou no Canadá diversas cidades-modelos. Toda a produção da terra deveria ser armazenada em silos públicos e distribuída entre as famílias. Considerava ser imprescindível abolir o regime de su­ cessão hereditária. Passou a afirmar. isto é.190 Teoria Geral do Estado Gabriel Bonnot de Mably (1709-1785): filósofo e historiador francês. havia renunciado à carreira religiosa de pastor para dedicar-se ao cargo de secretário no Ministério dos Negócios Estrangeiros. Brissot dc Warville afirma que a propriedade é um direito natural que deve ser limitado às reais necessidades de cada um. então. mudou radicalmente de posição cm 1757. as obras de Dühring não têm a divulgação merecida e. O período era de fome e o pa­ trão de Fourier. e deveria ser ado­ tado pela sociedade contemporânea. da monarquia. Inicialmente defensor do Velho Regime. O regime comunista seria peculiar à sociedade primitiva. nas quais o trabalho. Inteligên­ cia. ele começa a estudar a questão social. que tem como conseqüência tornar a produção inferior àquela que seria concretizada se o traba­ lho fosse cientificamente organizado. Impressionado. não podemos deixar de fazer um reparo a esse respeito e de dizer algo de seu trabalho. em caso de não ha­ ver descendência direta. por isso mesmo. abraçando uma ideo­ logia dc forte matiz socialista. passa a trabalhar como em­ pregado de um comerciante de cereais em Marselha. Brissot de Warville: impressionado pelo rigor da legislação dos crimes contra o patrimônio (furto e latrocínio). pensamento que seria depois assimilado por Pierre-Joseph Proudhon. Eugen Karl Dühring (1833-1921): filósofo. escreveu uma verdadeira apologia do furto e do roubo. um sistema como este não seria adotado em sua pureza original. mas a igualdade material ou eco­ nômica. jurista e economista alemão. Não tinha grandes ilusões. a produção e a distribuição das terras eram regulados pelos prin­ cípios comunistas clássicos. A partir daí a propriedade passa a ser um roubo. com sua frase célebre: “A propriedade é um roubo”. Robert Owen (1771-1858): foi o criador das primeiras cooperativas de pro­ dução e consumo. devendo o Estado ser tido como herdeiro. muito sugestivamente. com abolição da propriedade privada. perspicácia e uma sólida formação intelectual enciclopédica.

c a r r il l o barbuy. Alarmados. afirma uma realidade dinâmico-orgânica da vida. iniciando bri­ lhante carreira de advogado. Global. z\gir. Dühring rompe definitivamente com o socialismo marxista. 2. Avante!. E. ed. História crítica da economia política e do socialismo c Lógica e teoria da ciência. e tal refutação sobrevêm sob a forma de uma obra robusta. Friedrich. 1983. Princípios elementares de filosofia. que muito o respeitava. Nasceu perto de Berlim e. . que logo foi interrompida em virtude de uma doença dos olhos que o deixou quase cego. 2. 1979.. . Os concei­ marx tos elementares do materialismo histórico. graças ao auxílio dc amigos. 6. He- batalla. 1963. São p o l it z e r Paulo. c O 18 brumário de Louis Bonaparte. sc colocamos Dühring entre os so­ cialistas utópicos. 3) MATERIALISMO HISTÓRICO E DITADURA DO PROLETARIADO Bibliografia: a r d u i n i . Marxismo e religião. Combatendo o materialismo mecanicista. mas a de seus abu­ sos. 1976. como já frisamos. 1. nesta cidade. 1959. José Barata-Moura c Eduardo Chitas. Na verdade.. Rio de Janeiro. São Paulo. Caracas. Fondo dc Cultura Econômica. Marta. porque assim Marx o consideraria. apenas o fizemos para efeitos didáticos. trad.8 Ideologias 191 te pensador. 1965. O marxismo. preconiza uma etapa final da evolução da sociedade. ed. . e Anti-Dühring. Dedicou-se. Entre 1870 c 1878. m arx . Dühring foi um teórico e um militante de real significado. cujo pensamento já está a mere­ cer um pouco mais de atenção que não seja aquela que Engels lhe atribuiu. 1983. embora injustificadamente. O manifesto do partido comunista. raldo. Karl. Dominus. estudou Direito. 2. Historia crítica dei concepto de la democracia. Rebatendo a dou­ trina da luta de classes.. 2. 1974. São Paulo. logo depois. No exercício do magistério tornou-se um líder da ju­ ventude radical. Paul. Rio de Janeiro. 1981. ideias que representam sérias objeções ao pensamento de Marx. chakhnazárov G. Moscou. Global. Krássine. mediante uma incisiva intervenção do movimento operário. Progresso. Rio de Janeiro. Friedrich. El capitai México. Monte Avila. Paz e Terra. ed. 1986. então. Dentre suas obras destacam-se: O moderno espírito dos povos. Fundamentos do marxismo-leninismo. 1979. Lisboa. Georges. passando a defender o ideal da não eliminação do capitalismo. v. . v. e foi considerado antissemita por se opor aos elementos judaicos do Cristianismo. Em 1863 doutorou-se cm filosofia c. A dialética da natureza. os dirigentes do partido incumbem Engels de refutar as heréticas colocações de Dühring. Juvenal. dialética. Publicações Europa/América. ed. engels. suas ideias começam a ganhar terreno na doutrina social-democrata. Tomás. e iú. ao magistério e à investiga­ ção científica. A . Lisboa. Prelo. harnecker .. em economia. consis­ tente na conciliação das classes sociais. Em 1878. Paz f o u l q u ié e Terra. Era ateu. Lisboa. 1984. Karl e e n g e l s . porém excessivamente agressiva à própria pessoa de Dühring.

Enquanto a retórica pretende impressionar e captar. da contradição. e é com eles. diz ele. Realmente. foi com­ parado a Heráclito não apenas pela semelhança das ideias. antítese e sínte­ se. a música só se torna possível com a contraditoriedade dos sons graves e agudos. num manual didático como este. Hegel define a dialética como a conciliação dos contrários nas coisas e no es­ pírito. vai engendrar uma nova tese. enfim. diálogo. portanto. dizia ele. a dialética com­ preende o raciocínio que busca a verdade por intermédio da oposição c da conciliação de contradições. o pensador hegeliano é tão profundo quanto cerrado. Georg Wilhelm Friedrich Hegel. Os contrários põem-se de acordo. consta de três momentos: tese. A uma tese opõe-se uma antítese. A natureza. Karl Marx (1818-1883) foi muito influenciado pelo pensamento de Hegel. luta essencial para o surgimento da harmonia. Tudo é engendrado pela luta. idealis­ ta. A natureza aprecia os contrários.C. Heráclito é. com justiça. en­ fim. o conceito dc dialética. é o proletário. As coisas sc encontram cm perpétuo movimento. O processo dialético. que ela produz a harmonia. Assim. mas também pela obs­ curidade com que as expunha. sendo. indefinidamente. de iní­ cio. mas também levar à compreensão. O burguês é o burguês. desenvolveu a ideia dc uma dia­ lética da natureza. o conflito destas vai originar uma síntese. a ideia precede a matéria. dos sons diversos resulta a mais bela harmonia. encontra-se em constante mutação. pelos con­ trários. as linhas essenciais de seu conceito de dialética. e a gramática só se realiza com o contraste entre vogais e consoantes. por isso. Vamos desmembrar esta expressão apresentando. ao mesmo tempo. que traz consigo os germes de seu próprio contrário. por sua vez. Heráclito de Efeso. consi­ derado o filósofo da mudança e da instabilidade. Diz ele: Nós somos e. o criador do marxismo costumava ironizar o pensamento hegeliano pelo fato deste afirmar a precedência do espírito à matéria. originará uma antítese e assim por dian­ te. autor da notável Filosofia da história. mas ao mesmo tempo a sua condição de burguês é a afirmação da realidade cuja negação. entretanto. filósofo do século V a. esta síntese. como já afirmava Herá­ clito. de troca de palavras. a dialética bus­ ca não apenas convencer. A natureza une o macho à fêmea. O método dialético afirma a identidade dos contrários. as coi­ sas e os fenômenos estão em perpétuo movimento. que. Dessa forma. Uma coisa é ela mes­ ma e o seu próprio contrário. jamais com os semelhantes. enquanto Marx afirmava a precedência da ma­ . pelo que nos restringiremos a apresentar. a pintura resulta das cores claras e escuras. não somos.192 Teoria Geral do Estado Materialismo dialético. cujo contrário. Ela não se confun­ de com a retórica. Heráclito insiste na luta dos contrários no mundo da natureza. A dialética é a arte da discussão. isto é.. O scmantcma dia exprime uma ideia dc reciprocidade. não obstante isso.

entretanto. Segundo Marx. É preciso invertê-la se queremos. a natureza. O mundo material. criador da realidade. é precisamente seu contrário. o mundo material existe independentemente da ideia. as formas gerais do movimento. o pensamento de Hegel achava-se estruturado em magnífica pirâmide. apenas a nossa consciência teria existência real. cujo vértice. Assim. Segundo a filosofia idealista. Para Marx. fundada sob o idealismo. o processo do pensamento. isto é. desvendar o núcleo racional. Para Hegel. numa concepção essencialmente otimista. na qual a História da Humanidade surge como um processo desenvolvido por uma razão universal. não é mais do que o seu fenômeno exterior. contudo. assim ele critica o sistema hegeliano: Meu método dialético não difere somente quanto ao fundamento do processo hegeliano. O idealismo interpreta o mundo como uma encarnação da consciência do espírito universal.8 Ideologias 193 téria sobre a ideia. do invólucro místico. de maneira completa e consciente. cujo desígnio é eter­ no. A mistificação que a dialéti­ ca atingiu em Hegel em nada impede este filósofo de ter sido o primeiro a expor. da ideia absoluta. sob o nome de ideia. Karl M arx (1818-1883) . o materialismo dialético marxista difere fundamentalmente da dialé­ tica hegeliana. Em O capital. enfim. transposto e traduzido no espírito humano. nada mais seriam do que o produto da consciência humana. Mas nele a dialética está ao contrário. do espírito. o que eqüivale ao materialismo. seria preciso colocá-lo na posição correta. de que ele faz mesmo. o mundo das ideias é apenas o mun­ do material. processo autônomo. despojado do idealis­ mo. Para Hegel. Para que o pensamento hegeliano se tornasse perfeito. a que se referia Hegel em sua Filosofia da his­ tória. o processo dialético da reali­ dade que denominamos objetiva não é mais do que uma manifestação da ideia. ad­ vertia Marx. esta­ ria voltado para baixo. Para mim.

Assim. Marx foi notável teórico. Assim é que Marx decreta a morte da filosofia contemplativa. Pela extraordinária importância que tem. inversa­ mente. Se se considera que a matéria é o secundário. são duas cor­ rentes contrárias. Consideremos a questão das leis científicas: a solução mate­ rialista da questão fundamental da filosofia leva diretamente a reconhecer a objetivi­ dade dessas leis. c a matéria. tentando explicar como as coisas realmente são. todas as filosofias anteriores ao marxismo são alienações puras. Todas as filosofias que contemplam o mundo para justificá-lo são meras alienações. a filosofia marxista é muito mais ideologia do que filosofia. e a consciência. como e por que o homem está alienado. tendo deixado uma infinidade de obras de real significado para a interpretação da História. desde logo. ou como o fruto da atividade da consciência humana. quando. A solução idealista obriga a vê-las como uma manifestação da razão universal. O ser determina a consciência. cada um à sua maneira. o secundário. Da resposta que se lhe dê depende também a solução das outras questões relativas à concepção do mun­ do. sendo impotentes para a ação sobre as condições do mundo real. o problema da relação entre a matéria e a cons­ ciência foi qualificado como a questão fundamental da filosofia. baseando-se na experiência social e nas ciências naturais. do espírito. Chakhnazárov e Iú Krássine emi­ tem com muita clareza. o que ele pretende. é alertar para a necessidade de um conhecimento prévio da realidade que se pretende transformar. Será que aqui Marx defende a necessidade da ação di­ reta apregoada pelos anarquistas ou sindicalistas revolucionários? Não . na verdade. A linha divisória entre os dois é o seu diferente modo de resolver o problema da relação entre a matéria e a cons­ ciência. em verdade. Marta Harnecker. E. [grifo nosso] No dizer de Marx. Assim: C) materialismo e o idealismo. o ser. então há que ver o movimento. exegeta contemporânea do .. a linha dc Dcmócrito e a de Platão. Ao contrário do que se pode pensar. o espaço e o tempo como formas da consciência. É a afirmação que G. que deriva da consciência. O princípio essencial do materialismo é o reconhecimento de que o fator pri­ mário é a matéria. Marx emite uma frase curiosa: “Os filósofos não têm feito nada além de interpretar o mundo. dois campos inconciliáveis em filosofia. dizem os materialistas. Não há problema fi­ losófico cuja solução não dependa da maneira como sc resolva a questão fundamen­ tal da filosofia. Em sua 1 Ia Tese sobre Feuerbach. o im­ portante é transformá-lo!”. que idealismo e materialismo são ideias que hurient de se trouver ensemble. pois se volta para a ação. o princípio essencial do idealismo c a afirmação dc que o fator primário é a consciência. o secundário. o espaço e o tempo são formas objeti­ vas da existência da matéria. reconhece-se implicitamente que o movimento.194 Teoria Geral do Estado Conclui-se. para determinar as posições filosóficas. Se se aceita o primado da matéria e a sua independência em relação à consciência..

a maneira de ser a matéria. para os marxistas e os materialistas em geral a . movimento mecânico das massas mais pequenas sobre cada um dos corpos celestes. chama a atenção para a inconveniência de uma interpreta­ ção frívola do referido texto. O movimento é o modo de existência da matéria. Engels assim se referiu ao tema matéria/movimento: Nunca. M o ­ vimento no espaço. Imaginar um estado da matéria sem movimen­ to é. a ciência física. eram: teorias filosóficas acerca da História ou filosofias da História. uma ruptu­ ra com todas as teorias filosóficas sobre o homem e a História. em relação à sociedade e sua história. A matéria sem movimento é tão inconce­ bível como o movimento sem matéria. Os adep­ tos do materialismo dialético afirmam que a matéria não é uma realidade passiva e inerte. da sociedade e do pensamento”. materialista alemão c parceiro intelectual de Karl Marx. matéria sem movimento. em parte alguma. Em Anti-Dühring. Enquanto para os seguidores de Aristóteles a matéria é causa material. aquilo de que as coisas são feitas. consequentemente. Friedrich Engcls. que se encontra cada átomo da matéria no mundo em cada momento dado. buscando o significado mais profundo deste: A 11a Tese sobre Feuerbach não anuncia a morte de toda teoria. mas uma rup­ tura com as teorias a respeito do homem. ou então narrações históricas c análises sociológicas que sc limitavam a descrever os fatos que ocorriam nas diferentes sociedades.8 Ideologias 195 pensamento de iMarx. O que até esse momento existia. A 1T‘ Tese sobre Feuerbach indica. que se limitavam a contemplar e interpretar o mundo. como afirmam os metafísicos. que funda um campo científico novo: a ciência da História. ou em várias ao mesmo tempo. uma das ideias mais vazias e insípidas que há. de­ fine a dialética materialista como a ciência “das leis mais gerais que regem a dinâ­ mica e o desenvolvimento da natureza. vibrações moleculares sob a forma de calor. análise e síntese química. de corrente elétrica ou magnética. e anuncia a chegada de uma teoria científica nova. e que somente se transforma sob a ação de forças que sobre ela atuam. que não fazem mais do que interpretar o mundo. da sociedade e sua história. O que não existia era um conhecimento científico da sociedade e sua história. nem pode existir. portanto. da mesma maneira que a teoria científica de Cíalileu. não. funda um novo campo científico. a teoria científica da História ou materialismo histórico. escrito para refutar as ideias do alemão Karl Eugen Dühring. isto é. um puro sonho febril. ela é essencialmente dinamismo e movimento. que até esse mo­ mento eram teorias filosóficas. existiu. é numa ou em outra dessas for­ mas de movimento. Não há matéria sem movimento e muito menos movimento sem matéria. sendo incapazes de transformá-lo porque não conheciam o mecanismo de funciona­ mento das sociedades. vida orgânica.

196 Teoria Geral do Estado matéria é causa eficiente. Vimos que Karl Marx é materialista. isto é. para o sen­ sualismo. Vale lembrar que madeira é tradução portuguesa de matéria. Pois bem. pois. afirmar que os homens jamais pode­ riam viver numa sociedade comunista. O empirismo é a teoria do conhecimento segundo a qual a única fonte do conhecimento é a experiência sensível. isto sim. ex. concluem. a fonte exclusiva do conhecimento são os sentidos corporais. nos filósofos clássicos a expressão matéria é sempre tomada no sen­ tido de princípio passivo e de matriz. Segundo Marx. no grego. sendo ela. em sua obra Marxismo e religião. Fala-se. como substân­ cia indivisa dotada da razão. pois o homem. que rejeita a precedência da matéria ao espírito. a economia. Dessa forma. Não há. Personalidade. Matéria foi a palavra utilizada pelos latinos para traduzir o termo grego hyle. especulativa. mas não se fala em matéria no sentido que os materialistas atribuem à palavra. na magistral definição de Boécio. religião. sua doutrina se opõe ao idealismo. com as graves ques­ tões sociais da época em que viveu. E se a sociedade muda. . não há maior absurdo do que falar em materialismo grego. Marx não se preocupa com questões de ordem meramente filosófica. Já é hora. e assim da própria matéria. metafísica. O materialismo marxista vem a ser. todos os seres relativos são com­ postos de matéria e dc forma. Matéria deri­ va de mater. Das mais interessantes é a tese sobre o materialismo no pensamento antigo formulada por Heraldo Barbuy. Depreende-se disso que o marxismo derivou. em face de seu egoísmo. que significa floresta. também o homem.. a expressão hileia amazônica). enfim. ao passo que as ideologias consistem em meras superestruturas con­ dicionadas pela infraestrutura econômica. como o fazem muitos autores modernos. uma concepção explicativa da História que afirma. nenhuma palavra que signifique matéria no senti­ do materialista contemporâneo. de dizermos algo a respeito do materialismo histórico. que não são as ideias que governam o mundo. conclui Barbuy. a economia engloba o conjunto dos esforços do homem para se apropriar da ma­ téria e explorá-la. consiste em assu­ mir uma indesejável postura metafísica de identidade e imobilismo. ao passo que. dizem os marxistas. eliminada qualquer atividade autônoma do espírito. também está em constante evolução. do empirismo e do sensualismo. que constitui a estrutura essencial das re­ lações sociais. só assume existência efetiva quando recebe uma forma. antes de mais nada. suas ideias e sentimentos são produ­ tos de seus sentidos. o princípio que faz as coisas. madeira e fecundidade (p. em grande parte. indicando o princípio materno. Portanto. c sim as ideias é que dependem das condições econômicas da sociedade. fundamentalmen­ te. Mas o marxismo apresenta uma carac­ terística que lhe é essencial: preocupado. então. em verdade. em Aristóteles e nos escolásticos. O materialismo sem­ pre reduz o homem à sua atividade sensorial. porém. filosofia e artes são o puro resultado dos sentidos. Diz ele que o sentido original da palavra matéria é bem diferente do sentido atual. em matéria-prima ou matéria secunda.

perfeitamente integrado numa so­ ciedade comunista. embora estes já estejam deformados.. segundo o marxismo. lutavam amos contra escravos. que são sempre a infraestrutura da sociedade que explica a superestrutura das instituições políticas. capitalistas contra proletários. 11a Idade Média. os conceitos. a determinante final da evolução his­ tórica. não. Ela dirá: “vou calçar meus sapatos amarelos”. mestres de corporações contra jornaleiros.. A postura metafísica é severamente criticada pelos marxistas. estará pronto para a convivência despojada do fator propriedade. Ao fim de cer­ to tempo. sim. enquanto a cias­ . Amos. Para ele. a filosofia e a arte possam até agir sobre a pró­ pria economia. a ciência não é mera compreensão ou contemplação. patrícios contra plebeus.. sejam quais forem suas características aparentes. são objetos de investigação isolados. patrícios. Cada sistema econômico cresce até um ponto determi­ nado. religiosas c filosóficas. o produto das relações de produção e troca. Assim. a postura do metafísico.. das duas uma: sim. mas um conhecimento eficaz traduzido numa técnica. após uso prolongado e muitos consertos. manchados e descoloridos. ainda. Doutrina Engels: [. como se eles estivessem. Assim é.. Tal pessoa não considerou as mudanças operadas em seu calçado. até que o antigo seja engolfado por este. Paralelamente vão desenvolvendo-se fundamentos de um sistema oposto. Na Antiguidade. Assim. para considerar apenas a identidade. para o metafísico os objetos e suas imagens no pensamento. resultam. que estas classes sociais que se digladiam são. dizem os marxistas. a religião. mestres de cor­ porações e capitalistas detiveram e detêm os meios de produção. a partir do qual surgem em seu seio contradições e fraquezas que acarretam sua decadência. que não admite o advento de um novo homem. como algo determinado e eterno. fixos. enfocados uns após outros. a ação. A explicação do fenômeno histó­ rico é orientada para a praxis. ironicamente. imóveis. não. não é mais do que a própria histó­ ria da luta de classes. de alterações nos méto­ dos de produção e de troca. novos. ser comparado ao exemplo de uma pessoa que adquire um par de sapatos amarelos. o resto sobra. 11a Ida­ de Contemporânea.. No dizer de En­ gels. opostas entre si como as fases do processo dialético. diz Politzer. em última análise. Todas as transformações históricas fundamentais. das relações econômicas. o enfoque metafísico poderia. a cada momento. Já para Politzer.8 Ideologias 197 evoluído psicologicamente. Pensa apenas em antíteses desconexas. em sua totalidade.] percebe-se que a História. será esta. para Marx. Embora a política. a História é uma seqüência de lutas de classes. a pessoa continuará a se refe­ rir a seus sapatos amarelos.

não se confundia com o oerarius. Como as classes sociais têm origem na propriedade privada dos meios de produção. dar filhos à pátria e à guerra. a ditadura do proletariado. daí a expressão proletariado. num dado momento histórico. vejamos.receberem o golpe dc morte das mãos do proletariado. mas os tribunos falavam apenas a favor dos proletários. fos­ sem privados dc certos direitos. O desaparecimento do Estado capitalista. Segundo Engels. Ocorre que o trabalhador não recebe o valor total da­ quilo que o seu trabalho cria. Segun­ do o próprio Marx. Ora. cujos haveres. não impediam que seus proprietários. igualmente comunistas. Proletários e oerarius tinham as mesmas incapacidades políticas. segundo o marxismo. Quando o capitalismo e seu escudo protetor . é o resultado de antagonismos sociais incontroláveis. se o Estado encontra seu fundamento e sua sustentação na luta de classes. categoria social que. como acentua Duruy. ninguém viverá da propriedade. podendo os indivíduos possuir apenas bens de consumo. um pouco mais de­ talhadamente. o desaparecimento do Estado coincidirá com a desaparição da propriedade privada. o valor das utilidades é determinado pela quantidade de trabalho necessária para produzi-las. por vezes consideráveis. todos viverão do seu trabalho. recebe um salário suficiente apenas para prover sua subsistência e sua reprodução. não haverá classes sociais. no qual os bens de produção pertencerão ao Estado. O Estado. da essência da sociedade comunista o pagamento conforme as necessida­ des de cada um. torna-se claro que o desaparecimento das classes determinará o surgimen­ to de um novo estágio histórico. ocorrerá uma fase de transição denominada ditadura do proletariado. entretanto. Depois. então. assim. sim. cada pessoa trabalhará de acordo com sua capacidade e receberá uma quantia proporcional às suas necessidades. sua proprie­ dade e seus interesses. que se digladiam velada ou ostensivamente. o Estado nada mais é do que o reflexo dc uma sociedade dividida cm classes antagô­ nicas. na antiga Roma. Ora. portanto. que vai para as mãos do capitalista. virá o verdadeiro comunismo.198 Teoria Geral do Estado se dominada sempre dependeu de um salário. em razão da origem. qual seja. isto é. será precedido de um fenômeno marcante. O Estado seria o aparato utiliza­ do pelas classes dominantes para defender.o Estado . terá desaparecido e passado a pertencer ao museu de antiguidades da História. em que consiste essa ditadura do proletariado. meta final da evolução histó­ rica. sendo. retorno às primeiras comunidades humanas. anotando o Programa do Partido Operário Alemão: . O sistema de salários será extinto. vendendo a força de seus braços para sobreviver. É o lucro. O proletário ou capite census não tinha o censo necessário para entrar nas classes e. Para o marxismo. no qual o Estado será perfeitamente dispensável. ao lado do machado de bronze e da roca de fiar. ao contrário. Então. o Estado. A diferença entre o valor daquilo que o trabalhador produz e o que ele rece­ be é a plus valia (mais-valia). Será o império do socialismo de Estado. era formada por pessoas completamente desprovidas de bens e cuja única finalidade era constituir prole. Enquanto esta visão paradisíaca não se configura.

segundo o M a­ nifesto. ensinam Marx e Engels. o advento fatal do proletariado. nem são nada. ele não é nada. trapo. não depende da vontade de ninguém impedir essa revolução total: porque a con­ tradição burguesia versus proletariado há dc chegar a um ponto em que o capitalismo não poderá sequer manter o proletariado como classe oprimida. Tal expressão. dos miseráveis. 1° d 'O Capital). já vernaculizada como lumpemproletariado. proletariado. cujo caráter internacional tem como denominador comum ser a massa dos oprimidos. dc todos os mo­ delos dc vida.. nesse dia. a natureza do proletariado na concepção comunista: [. cujo Estado não pode ser outro senão a ditadura re­ volucionária do proletariado. uma camada so­ cial difusa. que não possui. em todos os tempos passados. velhacaria. não tem nada. É o estabelecimento. miserável. o lumpenproletariaty que qualifica dc “lixo de todas as classes” (do ale­ mão himpen. patifaria). significará a destruição dc tudo quanto existiu anteriormente. que farão com que o proletariado desça cada vez mais na escala social. segundo o marxismo. o proletariado não pode. dentro de certo prazo. farrapo. pelo menos ao nível dc subsistência. com muita perspicácia. é a negação de tudo quanto já foi categoria histórica. não tem modo de existência parti­ cular. dos que não têm. previsto por Marx (fatal porque dialeticamente ine­ vitável). Marx reconhece. dc todas as formas dc apropriação da riqueza. A este período corresponde também um período político de transição. Tal ditadura será exercida por uma classe que jamais possuiu coisa alguma e que. c lumperei. daí lumpig. a pauperização gradual tornará completamente impossível a subsistência do proletariado no regime capitalista dc produção c. malvado. se acha desprovida de maiores ambições. esfarrapado. Sendo o proletariado a classe mais baixa das sociedades atuais (está quase ao nível do subterrâneo social chamado Lumpenproletariat)> quando cie se levantar. É o anonimato absoluto. malfei- . Barbuy anota. vadios. de tudo quanto já foi clas­ se no sentido próprio do termo. os senhores mantiveram os escravos. E. e proletariat. a par do proletariado propriamente dito.. não ser uma classe como as demais. segundo a dialética marxis­ ta. Por isso. soldados desmobilizados. portanto. como as antigas classes dominantes. Mas o capitalismo tem tais leis internas dc acumulação c con­ centração do capital (longamente estudadas por Marx no fim do L.8 Ideologias 199 Entre a sociedade capitalista e a sociedade comunista renasce o período da trans­ formação revolucionária da primeira na segunda. denomina a “massa informe de indivíduos arrui­ nados e aventureiros saídos da burguesia. não poderá deixar de abater tudo quanto está acima de si.] o proletariado tem de original. que no passado lutaram pelo poder: não pode nem mesmo ser chamado pro­ priamente de classe. a revolução sc dará por si mesma. dc todas as garantias dc existência individual. Sendo a negação de tudo. querer impor um estilo de vida. do coletivismo ab­ soluto.

organi­ zou-se o lumpemproletariado de Paris em seções secretas. tal como Bonapartc. carregadores. amoladores.200 Teoria Geral do Estado rores recém-saídos da prisão. é o autêntico Bonapartc. 79-80) [grifo nosso] Os últimos despojos da superpopulação relativa são. os que se refu­ giam na órbita do pauperismo: Deixando de lado os vagabundos. como Klaus Zcttcl. carteiristas. vigaristas. jogadores. Esta sociedade data do ano de 1849. concebe a vida histórica dos povos e as ações principais destes como uma comédia. como uma mascarada. mendigos e tantos mais” . p. escribas. era constan­ temente acompanhado por filiados da Sociedade do 10 de dezembro. Eles representam o exér­ cito. toda essa massa indefinida. Aconteceu assim no seu cortejo a Estrasburgo. as prostitutas. Para a sua incursão em Boulogne. detritos e escória de todas as classes a única classe em que pode apoiar-se incondicionalmente. batedores de carteiras. lazzaroni. trapeiros. em que os grandes trajos. que sc constitui cm chefe do lumpemproletariado. nas condições extremas de crise e desintegração sociais de uma sociedade capitalista. com ele aparentado. tornam-se uma excelente massa de manobra que os fascismos utilizam na conquis­ ta do poder. Os autores marxistas consideram o lumpemproletariado um elemento de­ cisivo na ascensão violenta dos fascismos. deste elemento. maquereaus (cáftens). o leão. cada uma das quais dirigi­ da por agentes bonapartistas e um general bonapartista à cabeça de todas. vaga­ bundos. que festejar como cortejos triunfais. que teriam dc representar o povo. no sentido mais ordinário da palavra. rufiões. finalmente. caldeireiros. burlões. os criminosos. naturalmente. o proletariado esfarrapado (lumpenproletariat) em sentido . assim: Nestes cortejos que o grande Moniteur oficial c os pequenos moniteurs privados dc Bonapartc tinham. soldados desmobilizados. desagregada. Na sua Sociedade do 10 de dezembro reúne 10. numa palavra. charlatães. numa palavra. Este Bonapartc. Sociedade de Beneficência na medida cm que todos os membros sentiam.000 miseráveis do lumpen. que só neste encontra de forma maciça os interesses que ele pes­ soalmente persegue. Velho roué manhoso. donos de bordéis. de modo que. Sob o pretexto de criar uma sociedade de beneficência. enfia uns quantos lacaios de Lordes cm uniformes franceses. for­ mou Bonapartc a cepa da Sociedade do 10 dc dezembro. que perderam o sentido de sua classe social. com meios de subsistência equívocos e equívoca proveniência. o Bonapartc sans phrase. em que o abutre suíço amestrado representou a águia napoleônica. juntamente com rebentos degenerados e aventureiros da burguesia. Marx faz referência ao lumpemproletariado em duas passagens bas­ tante claras. flu­ tuante a que os franceses chamam Ia bohcme. que reconhece nestas fezes. reclusos postos em liberdade. palavras e poses servem de máscara à ca­ nalhice mais baixa. a ncccssidadc dc be­ neficiar à custa da nação trabalhadora. Juntamen­ te com roués (devassos) arruinados. tocadores de realejo. mendigos. 0 18 brumário de Louis Bonapartc. galerianos desertores. (Karl Marx. os déclassés ou massas empobrecidas da classe média baixa.

referido por Camillo Batalla: . o desaparecimento definitivo do Estado será lento e gradual. pois. a imediata desaparição do Estado. definitiva­ mente. terceira: degradados. contudo. incidirá no reforço deste. e com ela constitui uma das condições de vida da produção capitalista e do desenvolvimento da riqueza. Não. p. quando são arrolados prontamente c cm massa dos quadros dc trabalhadores da ativa. eliminando. Seja como for. a ditadura do proletariado não é uma forma política dc caráter demo­ crático e. incapazes para o trabalho. () pauperismo é o asilo de inválidos do exército de operários em atividade e o peso morto do exército de reserva da indústria. como cm 1860. não implicará. Sua existência segue implícita na existência da superpopulação relativa. criada pelo próprio Marx. a delinear. Como assinala com clareza Farberov. alterando a própria natureza do poder político. dos operários que sobrevivem à idade normal de sua clas­ se e. A expressão ditadura do proletariado. despojos. A revolução proletária. parteira da História. a partir do momento em que a revolução sentiu a necessidade de novas formas jurídico-políticas. comunista. um modelo acabado de instituições político-jurídicas referente à organização do proletariado como agente de uma di­ tadura. o poder proletário é original. apoderando-se do aparelho estatal e utilizando-o para dominar. pelo contrário. os doentes. cm verdade. as viúvas etc. São seres condenados a desaparecer. as indústrias químicas etc. dos mutilados. segunda. a oposição capitalista-burguesa. pessoas ca­ pacitadas para o trabalho.. nada pode evitá-la. em razão da imobilidade que lhes im­ põe a divisão do trabalho. 545-6) [grifo nosso] O proletariado dirigirá a tarefa de libertação das massas trabalhadoras explo­ radas. ditatorialmente. vai criar uma forma original de poder. muito menos.no direito de propriedade e nas relações de produção.a expressão é do próprio Marx . Basta consultar superficialmente a estatística do pauperismo inglês para se convencer de que o número destas pessoas aumenta com todas as crises e diminui quando os negócios sc recuperam. O proletariado inter­ vém despoticamente . a doutrina mar­ xista pressupõe que a ditadura do proletariado não é mera substituição daqueles que exerciam o poder político. (Karl Marx. A teoria marxista do Estado não chegou. Por isso. sua necessidade em sua necessidade. a burguesia. finalmente. Assim. tomou realmente a importância de uma Constitui­ ção. esta camada social se acha formada por três categorias: primeira. destinada a fundamentar o novo Estado socialista. Tal ditadura é inelutável. Estes seres são candidatos ao exercito dc reserva da indústria. Seja como for. El capital. rumo à verdadeira metamorfose do Estado. as minas. cujo número aumenta com as máquinas pe­ rigosas. segundo pitores­ ca observação do próprio Marx. das vítimas da indústria. por exemplo. de forma mais concreta.8 Ideologias 201 estrito. c sempre cm grande ati­ vidade. órfãos e filhos de pobres. marca o período intermediário entre uma fase capitalista e ou­ tra comunista. na concepção marxista.

Os objetivos do leninismo não se concretizaram e. mesmo assim tentou-se adaptar um momento de crise político-econômica a um princípio que sempre se afirmou científico! Foram seten­ ta anos de autoritarismo que desembocaram. adiantado grau de industrialização do Estado capitalista e insustentável concentração do capi­ tal nas mãos da classe dominante. a su­ pressão do Estado para um desenvolvimento original da sociedade. todavia. para a catástrofe. mas o marxismo puro. e a reação popular ensejada pela abertura política foi tamanha que a própria União Soviética soçobrou. imaginar! Não se pode. além disso. Entretanto. longe do estágio de um capitalismo avançado. houver presença da ameaça representada pelos Estados ca­ pitalistas. Pelo contrário. conduziria ao desaparecimento das diferenças entre as classes sociais. A verdade é que. a um ní­ vel tão alto dc conscientização e organização sociais que a obediência natural às re­ gras dc convivência será uma necessidade permanente para todos. tirar ilações apressadas c. Ora. a Rússia dc 1917. enquanto a economia rumava. cm guerra com o Império Austro-Húngaro ou Alemanha. em prazo tão curto que os mais ferrenhos c otimistas inimigos do regime não poderiam. ainda era um Estado feudal. que isto envolveria um processo histórico demorado. ponto inicial da construção paulatina do socialismo.a odiosa Nomenklatura verdadeira gerontocracia ou governo “daqueles que nunca se aposentam e raramen­ te morrem”. quais sejam. A Perestroika e a Glasnost dc Mikhail Gorbachev puseram a nu a constran­ gedora situação. de­ sapareceria o Estado. ao estabelecercm a lei da extinção do Estado. A celebérrima ditadura do proletariado não se tornou uma ditadura do proletariado. se Bakunin buscava. cedendo lugar a uma administração de bens espontânea. Marx preten­ deu que o Estado poderia ser utilizado mediante uma ditadura proletária. equivo­ cadas do ocorrido na ex-União Soviética. Desaparecidas as classes sociais. jamais. deverá reforçar o seu poder. por intermédio da dita­ dura do proletariado marxista. celeremente. porém. e que usufruía de todas as benesses de um verdadeiro regime capita­ lista. chega-se a um capitalismo de Estado. sem­ pre. mediante uma revolução violenta. a partir do momento em que desconsideraram a afir­ mação marxista de que a revolução proletária seria viável apenas quando cumpri­ das as condições objetivas da deflagração do movimento. porém. Enquanto.202 Teoria Geral do Estado Marx e Lenin. na dolorosa crise do so­ cialismo soviético. até a consolidação mundial do comunismo. a experiência russa demonstrou muito bem que. a sociedade socialista ainda não alcançou essa fase dc desenvolvimento. Sim. como ideologia preconizadora de uma sociedade sem . e à abundância de bens ma­ teriais e culturais a serem distribuídos conforme as necessidades de cada um. mas uma ditadura sobre o proletariado. o Estado leninista acabou para sem­ pre. submetido a uma casta parasitária . o Estado socialista não desaparecerá. mas não ao comunismo. En­ tretanto. ressaltaram. finalmente. consequentemente. se mostraram contrários ao marxismo puro. o qual.

México. . prossegue. Siglo X X I. distor­ cidos pelo leninismo. Rio de Janeiro. embora ainda utópico. 1986. g o n z a l e s -b l a n c o g u é r in Saraiva. Jasón. Norberto e m a t t e u c c i . Utet. 1968. Turim. Rio dc Janeiro. Diccionario dc política. em razão de sua própria atividade. Júcar. “Anarquismo”. porque o ideal a que se refe­ re o termo jamais sc consolida. desnecessidade ou repúdio a qualquer forma de governo. s a b in e . 7. Madrid. Jean. n o m a d gaard . Max. I 'anarquia. . Cieorge H. a organização social e a autoridade religiosa perfeitamente dispensáveis. sempre. Fondo de Cultura Eco­ s ib l e y . Rio de Janeiro. dominação do homem sobre seus semelhantes. v. desenvolvida livremente. e sim uma aspiração permanente. é fácil depreender que por anarquis­ mo entende-se toda doutrina que afirme ser o poder político. História das idéias políticas. 1985. Mulford Q. 1976. im­ postas por uma classe dominante. in Dicionário de ciências sociais. Germinal. inexistência. z o c c o l i. dirigido por Norberto Bobbio.8 Ideologias 203 classes.. o vocábulo anarquismo deriva do grego a = negação + arche = governo. São Paulo. Estatismo y anarquia. Ao vocábulo anarquis­ mo. Madrid. Mikhail. o marxismo como uma espécie de anarquismo. em verbete no Dicionário de política. “Anarquismo latino-americano”. num contexto sociopolítico no qual to­ dos seriam. touchard Georges. entretanto. permanece íntegro. Edmundo. Não se deve ca­ talogar. não um objetivo cumprido e elaborado em definitivo. 4) ANARQUISMO E SINDICALISMO Bibliografia: d a l l a r i. Historia de Ia teoria política. Fratelli Bocca. Rio de Janeiro. Heréticos da política. Lisboa. FGV/MEC. Dalmo dc Abreu. v. . v. 1930. Publicações Europa/América. Ettore. mesmo porque Marx destacava sua doutrina das demais doutrinas antiestatais por considerá-la a . 1981. Turim. FGV/MEC. 1. livres. 1976. sorel. . Anarquismo. Los sistemas sociales contemporâneos. ed. in Dic­ cionario de política. isto é. 2. Fundo de Cultura. oster- M adrid. sob a égide do regime comunista. “Sindicalismo”. nômica. in Dicionário de ciências sociais. Daniel. Madrid. 7. 1976. 1963. 1985. FGV/ rama M EC. Etimologicamente. 1907. representando. de Norberto Bobbio e Nicola Matteucci. Rio de Janeiro. 1971. Carlos M . ainda não foram totalmente desmentidos. na qual o homem afirmar-se-ia. é impossível dar uma definição precisa do anarquismo. 1986. Neste sentido. N. Elementos de teoria geral do Estado. Seja como for. igualmente. b a k u n in . pelo menos só com a ruína do Estado soviético. b o b b io . porque seus postulados. G. in Dicionário de ciên­ k e g in i. o próprio marxis­ mo antevê uma sociedade futura desprovida de normas coercitivas de conduta. Como assinala Gian M a­ rio Bravo. Marins. entretanto. cias sociais. sempre foi associada a ideia de uma sociedade livre de toda sujeição política autoritária. Scritti politici. Nicola. Siglo X X I. . “Sindicalismo”. 1986.

c) divergencia quanto à aceitação da propriedade indivi­ dual. com a aspiração a um Estado mundial governado pela Igre­ ja Católica. não sobre os outros homens”. assim: “etiologicamente. por volta de 1920. ideológica. notoriamente. corrente de pensamento que teve em Diógenes um de seus expoentes. aspirando a uma fraterni­ dade universal e à condenação da luta pelo poder. R. como veremos. Também os estoicos (vida espontânea. na Enciclo­ pédia Anarquista: “o anarquismo se resume a uma só palavra: LIBERDADE”. no qual o homem seria realmente livre. sem a preocupação de obter bens terrenos. que.C. Sibley destaca algumas características comuns aos anarquismos: a) cooperação voluntária e ajuda mútua na vida do homem. mas vários. pois a sociedade. socialismo científico. nominando-a. política. b) anarquismo pragmático. Zenker).204 Teoria Geral do Estado única verdadeiramente científica. o anarquismo vem a ser um ideal que propugna. principal obstáculo à realização indi­ vidual plena do homem. não deixou de apresentar simpatia pela afirmação de uma igualdade essencial entre os homens. em sua des­ crição. coercitiva. O cristianismo. Na esteira do pensamento de Santo Agostinho vêm Isidoro de Sevilha e Dante Alighieri. V. em sua feição original. Seriam. Tucker). uma dicotomia inicial quanto às espécies de anarquismo: a) anarquismo ro­ mântico. Referido autor compilou suges­ tivas conceituações do anarquismo. seja qual for sua natureza. respeitar con­ venções ou submeter-se às leis e convenções sociais. Diz ele: “Deus concedeu aos homens o domínio sobre os irracionais. Talvez por isto Sébastien Faure anotou. Mulford Q. os hip­ pies da época. Enfim. então. porque convertido ao cristia­ . Santo Agostinho em sua obra A cidade de Deus afirma a ilegitimidade de todo poder de um homem sobre o outro. porém. mais os assemelharia aos cães. As origens históricas do anarquismo (ou anarquismos) exigem. com repúdio à coopera­ ção forçada. havendo um anarquismo individualista. que sustenta dever a pro­ priedade ser administrada por grupos voluntários. estes cínicos. não aceitando os cínicos em seu estranho modo de vida. não existe um anarquismo apenas. a liberta­ ção de todo poder superior. no século V a. conforme a natureza) e os epicuristas (exaltação do prazer individual e consequentemente recusa das imposições sociais) foram correntes antecessoras do moderno anarquismo.. Afirmavam os cínicos que o homem deve viver de acordo com a natureza. social ou econômica. em grego. “doutrina segundo a qual todos os negócios dos homens devem ser conduzidos pe­ los indivíduos ou por associações voluntárias. b) repulsa ao Estado. com os cínicos. não a agride. desde logo. não a aceita. “teoria que se opõe a qualquer tipo de governo forçado” (Bertrand Russel). Por outro lado. Sua primeira manifestação pode ser encontrada na an­ tiga Grécia. significa cão. o anarquismo pode ser definido como descrença da necessidade da sociedade constituída” (E. não sendo difícil perceber. e o Estado deve ser abolido” (B. e um anarquismo comunista. O anarquismo romântico é aquele que se vol­ ta para a vida contemplativa. a raiz da palavra cínico: ela deriva de cinos. mostrando-se indiferente à organização social. defensor intransigente da propriedade privada das coisas materiais.

na Bélgica c na Suíça. Cunhado pelo próprio Bakunin. inevitáveis na carreira de um homem de ação. em 1868. mas de um girondino. dela restou uma frase célebre: “A propriedade é um roubo!”. Muitos séculos mais tarde encontraremos. que desejassem plena autonom ia cm sua atividade. de ancestrais czaristas e latifundiários. logo a abandonou. an-arquista. também francês. a afirmação libertária e a negação do Estado e. hoje. Adversário do capitalismo. Ferrenho adversário do Estado. forma­ da por trabalhadores independentes. aplicado aos seus seguido­ res. que concederia crédi­ tos gratuitos a todos aqueles que desejassem tornar-se produtores. Mikhail Bakunin (1814-1876). que. pro­ vinha da aristocracia russa. que não era sua. no segundo. em busca de independência econômica. Quanto a Mikahil Bakunin. Proudhon preconiza­ va a organização de estabelecimentos de crédito populares. embora um dos expoentes do anarquismo. o cristianismo anárquico original vai perdendo sua pureza doutrinária já com a afirmação de São Paulo. as concepções vigorosas dos anarquistas Pierre-Joseph Proudhon (1809-1865). Entretanto. à parte as velhas utopias dc Thomas Morus e Tommaso Campanella. Brissot de Warville. um tanto esquecida. no primeiro. controlada por Marx. não tardaria. colocando um hífen entre os semantemas an e arquista . Por defender os direitos de uma classe média. consubstanciado nas sentenças: “Dar a Cé­ sar o que e de César e a Deus o que é de Deus” e “Todo o poder vem de Deus”. com efeito. mediante a divisão da França em doze regiões independentes. mediante sociedades dc crédito mútuo. halbúrdia. na Primeira Internacional. Logo simpatizou com a doutrina dc Proudhon e a dc Marx. dedicando-se ao estudo da filosofia na Alemanha. desor­ dem.1-7). Proudhon foi o primeiro teó­ rico a autodenominar-se anarquista . Daí o apoio às suas ideias proporcionado por profissionais de nível superior e al­ tamente qualificados. preconizava um federalismo singular. Dotado de temperamento violento. Embora a obra de Proudhon esteja. desorganização . a dissentir da orien­ tação dada por Marx ao movimento revolucionário. incensando. ingressou. a tutela dos interesses dos pequenos produtores. procurando firmar bem que o ideal a que ele aspirava seria o de uma vida comunitária sem governo. com seus partidários. o que não significaria. da qual foi expulso. cm princípio.8 Ideologias 205 nismo. é nesta época que surge o adjetivo anarquista. e Piotr Kropotkin (1842-1921). contudo. tudo isto matizado ainda mais pelo nacionalismo eslavo. a concepção materialista da História e a ditadura do proletariado. Advogava. condena as tendências anarquistas do cristianismo primitivo e afirma o dever cris­ tão de obediência à autoridade terrena. não se restringindo a refrear sua antipatia ao campo verbal. na França. como visto. na Epístola aos Romanos (13. pendor que demonstrou no auge da cisão anarquis­ . Iniciado na car­ reira militar. foi considerado como invo­ luntário precursor do fascismo. que ele rebatizou com o nome de ditadura invisível. em 1872. Após muitas vicissitudes. e pressionada tanto pela alta finança como pelos operários revolucionários de nível mais baixo.

mais precisamente da primeira dinastia da Rússia. ele idealiza um permanente estado de alerta da so­ ciedade contra a exploração do homem pelo homem. a abolição imediata do Estado e. a mera encampação dos meios de produção pelo Estado e a organização de uma ditadura do proletariado. segundo se afirmou. até agora. sem trabalho e. especialmente A conquista do pão e Me­ mórias de um revolucionário. muito menos. Kro­ potkin era um verdadeiro intelectual. durante seis anos. ao contrário daquilo que fora previsto por Marx. embora curtindo a desdita do cárcere comum aos agitadores. ao trabalho comunitário. ficará. então: A destruição do Estado permitirá o surgimento de relações sociais livres. do poder. sem fama. Piotr ou Pedro Kropotkin também era des­ cendente da nobreza russa. Admirador sincero de Bakunin. o próprio Marx. Kropotkin não foi um revolucionário 110 sen­ tido estrito do termo. Quem. e contra o Estado e o capitalis­ mo. por outro lado. até que seja efetuada a completa unificação internacional. de um Bakunin ou de um Kropotkin. dedicar-se. logo tornou-se adepto de Babeuf. Ao contrário de Bakunin. Ao longo de suas obras. por isso devemos acres­ . livre de explorações e de injustiças. em sua profunda erudição. A nova sociedade ensejará o aparecimento de associações natu­ rais. mais do que a luta pela vida. Desesperados. eles viam na abolição imediata e radical do Estado uma solução muito mais promissora do que aquela da desaparição gradual do Estado. e que. dinheiro. defendendo. em âmbito cada vez mais amplo. que o havia acusado de pertencer à polícia secreta da Rússia czarista. o auxílio mútuo entre as pessoas seria um fator natural da evolução. funda­ das na solidariedade inata do homem e na celebração de contratos espontâneos e as­ sociações voluntárias.206 Teoria Geral do Estado tas/marxistas. com a subsequente im­ plantação dc um coletivismo representado pela tomada violenta dos meios de pro­ dução pelos trabalhadores. ou seja. Estudante na Universidade de São Petersburgo. a tese de que. não deixava de ser um sonhador. alarma­ do com as ideias de Sergei Netchaiev (1847-1882). Afirmava Bakunin. Porque para ele o ho­ mem é bom. em prol do bem de todos. 110 mínimo. fun­ dada pelo príncipe Rurik. Blanqui e Bakunin. Bakunin advogava a imediata supressão do Estado. ao agredir com bengaladas. oriundo da Escandinávia. na obra Ajuda mútua. não ficou impressionado ou estarrecido com as concepções de um Proudhon. Com tal concepção. não foi difícil para Bakunin ar­ regimentar toda sorte de intelectuais e profissionais frustrados da classe média. que cultivava a geografia e a zoologia. mas uma denúncia permanente contra as injustiças sociais. já se vê. Seu anarquismo não visa. mesmo nos tempos pré-históricos. Afirmava que qualquer meio é válido para a defesa de uma boa causa. e desde que educado nos princípios sadios do anarquismo. de cor­ po e alma. desenhada por Marx. na sociedade humana. por conseqüência. naturalmente honesto. cada qual não recusaria.

entre inúme­ ras façanhas. mas que são pouco ativos. nem sequer um nome. dedicações. Para ele o que quer que ajude o triunfo da revolução 6 ético.a revolução. não deve esperar compai­ xão. conspiradores. séculos antes: “O fim justifica os meios” . que. De­ ve-se convencê-los de que são obedecidos cegamente. ne­ gócios. É impiedoso cm relação ao Esta­ do c a todo o sistema das classes privilegiadas. uma camarada que se recusara a obedecê-lo incondicionalmente. Se tiver que continuar a viver nele. e deve treinar para suportar torturas. comprometê-los ao máximo. que alguns atribuem indevidamente ao próprio Bakunin.. No mais íntimo do seu ser. 19. Eles devem ser continuamen­ te impelidos para diante.. É preciso entrar na posse de todos os seus segredos. pessoalmente. Despreza e odeia a moral dos dias de hoje com todas as suas motivações e manifestações. O revolucionário é um homem condenado. Ele despreza a opinião pública. tudo o que o impede é contrário à ética e criminoso. 4.8 Ideologias 207 centar à sua lista de mestres o notório Nicolau Maquiavel. o Estado e as classes dominantes há uma guerra contínua c irreconciliável . 2. 20. originalmente transcritos por Max Nomad em sua obra Heréticos da política: 1. certamente. instados a fazer declarações práticas subversivas. uma só paixão . cujo resul­ . o revolucio­ nário não tem qualquer ligação com a ordem social e com o mundo civilizado. Entre ele. será somente com o propósito de destruí-lo com mais certeza. mas ao mesmo tempo não se deve permitir que escapem mais. Ele não tem interesses pessoais. como a de escapar da inexpugnável fortaleza dc São Pedro e São Pau­ lo.teóricos (refere-se aos adversários dc Bakunin dentro do campo revolucionário). De sua autoria. de modo que não lhes sobre nenhum caminho para fu­ gir c usá-los como instrumentos dc perturbação da ordem do país. um só pensamento. sentimentos. Todo o ignóbil sistema social deve ser dividido em várias categorias. A quinta categoria . não apenas em palavras mas em atos. que expõem suas ideias pe­ rante grupos ou pelos jornais. assassinou. tudo seria válido para este enfant terrible do anarquismo. 5. propriedade. com as leis. aparências e convenções ou moralismos geralmente aceitos neste mundo que para ele é um inimigo impiedoso. onde cstivera preso. por sua vez. pois com eles pode-se conspirar nos termos dos seus próprios programas. Tudo nele é absor­ vido por um exclusivo interesse. Em nome dos princípios anarquistas revolucio­ nários. 15. que já dissera. A quarta categoria consiste nas autoridades ambiciosas e liberais de vários matizes. Deve estar pronto para morrer a qualquer momento. revolucionários. é o famoso Catecismo do revolucionário. e do qual extraímos estes excertos.que pode ser travada secretamente ou abertamente. O revolucionário é um homem condenado.

direta ou indiretamente. e arkos. Existem inúmeras definições dc sindica­ lismo. oriunda da Revolução Industrial. a burocracia. É no estudo do anarquismo clássico que perceberemos a imprescindibilidade das normas sociais de conduta. governo. mediante um consenso social. No que tange ao sindicalismo. mas. ainda no final do século X IX . Portanto. estivesse ligado ao Estado: contra a no­ breza. esses devem cooperar da . o termo sindicalismo pode ser empregado em dois sentidos: a) doutrina ou movimento social. de a. devemos antes de tudo ligar-nos àqueles elementos das massas que. após a qual começou o declínio do movimento também em todo o País. a vida em sociedade por normas espontaneamente cumpridas. respectivamente). na ver­ dade. na base de sociedades livres. mas também com fa­ tos contra tudo o que. desde a fundação do poder estatal dc Moscou.208 Teoria Geral do Estado tado seria a completa destruição da maioria e o verdadeiro treinamento revolucionário de apenas alguns. sem necessidade de um órgão que as faça cumprir pela força.os únicos genuínos revolucionários da Rússia.embora no mundo das utopias . Desmembremos o vocábulo anarquia. O que o anarquismo . moderado. grupos de imigrantes italianos e espanhóis formaram grupos anarquistas que realizaram uma vasta greve operária no ano de 1917. da coercibilidade. ele c grego. nos EUA. b) ação mi­ litante por parte dos sindicatos operários. da Itália. enfim. Ostergaard. então. no Brasil. Em Chicago. Apelando sempre mais para a violência. este. não de normas sociais. Confor­ me G. realizaram inúmeras greves e. como o sindicalismo revolucionário e o sindicalismo reformista. o anarquismo foi perdendo adeptos. império da de­ sordem. ou “um estado da sociedade em que a indústria será controlada pelos que nela trabalham. Ubi societas ibi jus. o clero. Anarquismo não significa confusão. onde houver sociedade haverá direito. negação. N. jamais cessaram dc protestar não só com palavras.sugere é. em São Paulo e Rio de Janeiro. e que apresenta inúmeras variantes. bem como do rei Humberto I. Estendamos as mãos à raça audaciosa dos bandidos . inexistência degoverno. embora possa não haver o poder. vale dizer. trata-se de uma corrente ideológico-pragmática. É justamente nisto que reside o ponto original do anarquismo: a inexistên­ cia de poder coercitivo. das quais poderiam ser apontadas duas: “ação coletiva para proteger c me­ lhorar o próprio nível de vida por parte dos indivíduos que vendem sua força de trabalho” (Allen). despoja­ das. segundo os anar­ quistas. segundo o qual os sindicatos operários devem ser a base da administração social e industrial numa sociedade socialista. isto é. da jurisdicidade. embora as normas sociais continuem existindo. as guildas (significando os comerciantes e capitalistas em geral) e contra o parasitismo dos kulaks. seu canto de cisne foi a prática de tremendos atentados terroristas: aos seguidores de Bakunin se atribuem os assassínios dos pre­ sidentes McKinley e Carnot (dos EUA e da França. 25. afirmava Aristóteles. para nos aproximarmos cada vez mais do povo.

criou o próprio sindicalismo revolucioná­ rio. originando uma variante nova do movimento operário. na qual prega a revolução proletária mediante a atuação violenta de uma facção operária mais hábil e inteligente. Marxista de início. teria início a reconstrução social. neste capítulo. de índole meramente cooperativa. Não se pretende.é o conjunto ligado por imagens motoras. mas servirá para arrancar as massas trabalhadoras de seu marasmo! Tal movimen­ to é. Tais ideias seriam robustecidas pela doutrina de Georges Sorel. Uma socie­ dade na qual os parlamentos e governos terão desaparecido. profunda hostilidade contra o intelectualismo. uma elite. Após a Primeira Grande Guer­ ra. porém. Embora seja autor dc inúmeras obras c tenha dirigido várias publi­ cações de caráter político. fundada nos mitos revolucionários e na violência passiva da greve geral. a greve geral seria o mito do futuro. aos problemas so­ ciais.8 Ideologias 209 maneira mais eficiente na produção de todas as necessidades da vida. sem dúvida. Engenheiro dc profissão. Sorel tornou-se conhecido principalmente pela obra Re­ flexões sobre a violência. caracterizando esta luta a ação direta e a greve geral. um mito. Sorel dedicou-se. e organizadora de uma comunidade sem a carapaça estatal. o próprio Sorel admite que tal movimento não terá condições de se impor. que. esta organização evidenciaria. de imedia­ to. assim. embora atribuída por muitos a Georges Sorel (1846-1922). Os mitos do liberalismo (liberdade. Existe. o sindicalismo revolucionário. fazer neste manual introdutório um estudo mais alentado do sindicalismo in genere. desejando ressaltar seu caráter antiestatal c descentralizador. pa­ rece encontrar sua paternidade em Ferdinand Pelloutier (1867-1901). alguns sindicalistas bandearam para as fileiras do anarquismo. o inspirador do fascismo. o mito da greve gerai No dizer de Sorel. Desejoso dc consolidar uma nova ideologia que estabelecesse uma pon­ te entre a revolução e o meio operário.diz ele . fundado no princípio dc que o próprio sindicato seria o instrumento dc luta re­ volucionária. Curiosa­ mente. porém. continua. agora detentora dc todos os meios de produção. Tal doutrina. a partir dc 1892. batizaram-no com o nome de anarcossindicalismo. organização de imagens que levam ao combate e à batalha. Interessa-nos. seu criador granjeou grande parte de sua fama por ter sido cultuado e invocado na praxis política de um notó­ rio adepto da violência: Benito Mussolini. O mundo res­ sente-se da falta de mitos. do qual se desiludiu em face dos métodos terroristas atribuídos a esta doutrina. O que vem a ser mito. comandada por uma fe­ deração universal de sindicatos operários. Vitorioso o movimento sindicalista. al­ guma originalidade no pensamento soreliano. sua variante mais original. tendo realizado seu propósito para com o sistema capitalista'’ (Mann). entretanto. na concepção soreliana? Mito . Henri Bcrgson e Karl Marx. igualdade . Curiosamente. Pelloutier enveredou pelo anarquismo. recebendo influências doutrinárias dc Pierre-Joseph Proudhon. somente podendo ser admitidos a seus quadros operários ou pequenos artesãos. hipótese de resto confirmada pelo próprio Sorel. enfim.

Para apreen­ der o verdadeiro alcance da ideia de greve geral é preciso. mito e utopia. inadaptável à sensibilidade das massas e aos instintos destas. qual­ quer discussão a respeito de como aplicá-los materialmente no transcurso da História carece de sentido. mesmo que os revolucionários se equivocassem totalmente ao criar um panorama fantástico da greve geral. integralmente. em nome de uma intervenção meramente voluntária das massas. e trouxesse ao conjunto das ideologias revolucio­ nárias uma precisão e um rigor não contidos em outras formas de pensar. bem como sobre os conflitos decisivos que venham a dar a vitória ao proletariado. Sorel viria a ser o profeta do sindicalismo revolucionário. Paradoxalmente. ser o marxismo uma “ciência exata”. merece destaque o marxista Antonio Labriola (1843-1904). exemplificando com o socialismo utópi­ co e o socialismo científico. pois. Ao lado de Sorel. raciocinar a respeito de incidentes que se possam produzir no curso da guerra social. dentro de sua experiên­ cia histórica. a democracia parlamentar à bolsa de valores. É inú­ til. a necessidade da violência e a organização corporativa do Estado. comparando. tal panorama poderia constituir.210 Teoria Geral do Estado e progresso) devem ser substituídos pelos mitos revolucionários. que critica­ va. um elemento fundamental. Se a influência do sindicalismo foi considerável na França. é o mito em conjunto: suas partes so­ mente oferecem interesse pelo relevo que dão à ideia contida nessa construção. este apoiado em mitos. portanto. o sindicalismo soreliano exige a abolição do capitalismo e do Estado e a nova estruturação da sociedade em associação produtora. como o predomínio das elites. durante a prepa­ ração da revolução. Em Sorel. de Bergson e de Proudhon. como foi dito.os sindicalistas . Já se percebe que várias premissas podem ser pinçadas no cerrado pensamen­ to de Sorel: a ação direta em oposição aos meios parlamentares da luta pelo poder. e vão atuar dentro das únicas organizações adaptadas à sua sensibi­ lidade: os sindicatos. O que importa. em face das cisões ocorridas nos movimentos socialistas deste país. com desprezo. As massas agem por intuição. Sorel esclarece: É necessário considerar os mitos como meios de atuar sobre o presente. Só a inter­ venção “violenta” de uma fração esclarecida da classe operária . Ele recusa. em Marx. todas as aspirações do socialismo. de Marx. sociólogos ou pessoas propensas à ciência prática. Distingue. bem como dos anarquistas pragmáticos. ademais. sendo certo que o fascismo adotou várias posições sorelianas. sempre que admitisse. Fundamentalmente. o determinismo dialético marxista. a organização sindical da sociedade e a rejeição do determinismo de Marx. a revolução operária somente será realizada mediante a violência. a influência dc Sorel sobre Lenin não foi menor. Em Reflexões sobre a violên­ cia. encontraremos influência de Flegel. deixar de lado to­ das as formas de discussão comuns entre políticos. a influência de Sorel na Itália foi ainda maior. efetivamente. portanto. onde o que conta é o di­ nheiro.

O sindicalismo revolucionário exige a abolição do capitalismo do Estado. mais moderado. I. Aristóte­ les (Vicia. vendo nesta não um ser autônomo. e a sociedade passará a ser gerida pelos sindi­ catos dc produtores. os sindicalis­ tas buscam atribuir tais funções aos sindicatos de produtores. 1963. os sindicalistas não fazem alusões quanto à capacidade das massas para o autogoverno. deve. Enquanto a greve parcial não passa dc um meio de agitação e de organização local. Madrid. 1982. platão. a greve geral abolirá o Estado.8 Ideologias 211 revolucionários . porem aperfeiçoá-las. q u il e s . Ismael S. dupréel. Ar i s t ó t e l e s . à gui­ sa dc correção dos desajustes trazidos pelo excessivo individualismo. Substituindo o Estado na condição de proprietário e de administrador dos meios de produção. também. v.. Por outro lado. 1979 (Obras completas). estar acima dos objetivos particulares dos indivíduos que a integram. eviden­ temente. La república. material ou espiritualmente. Bruxelles.poderá. 1967. dotado de fins próprios. 2. 1962. representado pela sociedade. Os sindicatos subs­ tituiriam o Estado. Traitc dc morale. Presses Universitaires de Bruxelles. que o homem faz parte da sociedade visando a satis­ fação de seu interesse em aprimorar-se. para este fim. Gregorio R. que busca não destruir as estruturas sociais. Aguilar. Há semelhança entre o sindicalismo revolucionário e o anarquismo no tocan­ te à adoção da ação direta para a destruição do Estado: ambos admitem a greve. Eugè- ne. tirar as massas de seu eterno tor­ por. Espasa-Calpe. Aguilar. ressaltando. y u r r e . de. escritos y doctrina). e o interesse particular? Muitos. a sabotagem. a finalidade para a qual foi criada a sociedade. Madrid. Por outro lado. mas apenas a soma . 3. Embora jamais tenha sido muito clara a doutrina sindicalista no tocante à na­ tureza da estrutura social que substituirá o Estado. Como encon­ trar o ponto de equilíbrio entre o interesse coletivo. mediante a greve geral. Madrid. Totalitarismo y egolatría. O grande pu­ blicista León Duguit demonstrou certa simpatia por algumas premissas do sindica­ lismo. cada qual dirigindo seus sindicalizados enquanto produtores. Espasa-Calpe. pecando pelo radicalismo. O objetivo social. foi imenso o fascínio exercido por seus exponentes em todo o mundo. 5) MECANIC1SM0 E 0RGANIC1SM0 Bibliografia: La política. Madrid. o terrorismo: tudo é lícito para prejudicar o empregador capitalista. ed. reorganizando a sociedade em associações de produtores. o papel dos sindicatos e de outros grupos sociais. inegável. Ao lado do sindicalismo revolucionário fala-se num sindicalismo reformista. negam a própria socieda­ de.

logo tornaram-se uma avalancha de objeções. ao enaltecer a razão triun­ fante sobre as trevas da Idade Média. para um futuro dirigido pelo determinismo dialético. o iluminismo proclamou a supre­ macia da razão individual sobre todo e qualquer princípio ou instituição fundados em fatores superiores ao indivíduo. pelo anarquismo. portanto. também. Sua obra. suspeita. Edmund Burke (1729-1797) mostrou-se um crítico implacável do pensamento revolucionário. tímidas. representado. Diga-se o mesmo do individualismo proveniente do liberalis­ mo da Revolução Francesa. como ocorre nas associações mercantis.não é um simples agregado de seres humanos voltado para a satisfação de fins estritamente materiais. Veio representada pelo romantismo organicista. O romântico afirma que toda nação é um organismo que possui um modo próprio de vida. os ex­ cessos que este movimento tremendo produziu acabaram por minar a admiração pelo iluminismo. por intermédio da qual os indivíduos recebem a vida espiritual e o bem-estar. Foi na Alemanha. Embora partidário da Revolução em sua juventude. Com efeito. mas negam a floresta. sugestivamente. de Yurre. As primeiras críticas. suas instituições e seus costu­ mes são inconfundíveis com as demais. revolucionária e. Veem as árvores. a nação como um todo. sinceros admiradores dos princípios individualistas que embasaram a Revolução Francesa. a emancipação do indivíduo perante suas alienações políticas e religiosas. em oposição ao racionalismo e o universalismo da Revolução. Destacam-se figuras do porte de Novalis (1772-1801). refratária a uma França liberal. Adam Müller (1779-1829). particularmente. Como lembra Gregorio R. que encon­ trou seu epicentro na Alemanha derrotada por Napoleão. reconhe­ ce o todo nacional. Porém. denominado Século das Luzes. criadoras de uma nova visão do mundo. o im­ pulso vital da sociedade. que se expressa prin­ cipalmente nas célebres Reflexões sobre a Revolução Francesa. A norma fundamental deste individualismo seria a opinião individual. A sociedade ou Estado . Schlegel muda bruscamen­ te seu pensamento a partir de 1804. O próprio marxismo enquadra-se cm tal concepção mecanicista do convívio humano ao preconizar. temporal.ele não distingue . pois mesmo 11a liberal Inglaterra. É o caso do individualismo extremado. O móvel da ação individual do homem rebelde entronizado por esta ideologia seria.212 Teoria Geral do Estado dos indivíduos que a integram. Schlegel (1772-1829). O ro­ mantismo. visto que esta não passaria de mera soma dos indivíduos. É muito mais do que isso: é uma comunidade mística. devendo cada homem ter a mais ampla esfera de au­ tonomia de conduta. de início. Tal pensamento não ficou circunscrito à Ale­ manha. porém. denota de imediato uma tendência organicista. regida pelos critérios utilitaristas do máximo prazer. que nega o próprio poder político. messianicamente. como reação ao absolutismo monárquico ain­ da imperante na França. enaltecedora da sociedade. representado pela filosofia iluminista do século XVIII. que foi. que o organicismo e a supervalorização do Estado chegaram ao seu grau máximo. A reação não tardaria. Passa a considerar a sociedade e o Estado or­ . Johan Gottlieb Fichte (1762-1814) e Georg Wilhelm Friedrich Hegel (1770-1831). muitos intelectuais ligados ao romantismo foram.

desfavoravelmen­ te. nega que o indivíduo seja anterior ao Estado. O Estado controlará severamente a saída de seus súditos para o exterior. a vida econômica deve estar rigidamente controlada pelo Estado. a iniciativa e a liberdade individual não constituem o funda­ mento da vida social. pois que esta é uma concessão do Estado. que arrasou as estruturas orgânicas do Estado e reduziu a nação a um agregado inorgânico de átomos. até que seja alcançado o estado de autarquia. como afirmava o pensamento liberal. Evidente­ mente. é o Estado que cria o indivíduo. ficando as viagens ao exterior circunscritas às necessidades de es­ tudo e ciência. significa. pois a oscilação da moeda repercute. e esta. classes e corporações. Adam Müller. O Es­ tado é um organismo do qual depende a vida humana em sua totalidade. até mes­ mo a ciência é parte do Estado. é lógico que ele não pode arguir direitos contra o Estado. como manifestação da vida espiritual. Para que a importância de sua contribuição para as ideias políticas seja aferida de pronto. Para Fichte. pelo contrário. Se o indivíduo não tem.8 Ideologias 213 ganismos vivos. pois toda definição implica limitar o definido. resultantes da evolução histórica. personali­ dade. Hegel. da mesma ma­ neira que as células se desenvolvem no organismo vivo. A estabilização da moeda é também um pon­ to programático de relevo. a origem da guerra reside na desigualdade econômica entre os Estados. Sua influência sobre o fascismo italiano foi admirável. ao publicar sua obra O Estado comer­ cial fechado. O comércio exterior ense­ ja a concorrência. A economia planificada deve fechar as portas do Estado ao comércio exterior. Quanto a Fichte. a guerra. O Estado autárquico será rigidamente planificado. Daí sua aversão pelas tendências mecanicistas e individualistas da Revolução. Não há direito anterior ou superior ao do direito imposto pelo Estado. e os seres humanos são apenas células que participam dessa vida. Para ele. lança as bases do futuro nacional-socialismo. por si mesmo. o que a alma e a natureza exterior significam para os organismos biológicos. especialmente 110 que toca à apologia do . com seus costumes e tradições. o Estado é fonte de todo o direito. impedindo que eles deixem o país. A História. é inimaginável a existência do homem apar­ tado do Estado ou anteriormente a este. O indivíduo não cria o Estado. por sua vez. até que se obtenha o equi­ líbrio entre a produção e o consumo. O Es­ tado é um organismo vivo. com o fim de lazer ou curiosidade. O livro é eminentemen­ te anti-individualista. A preservação desta estru­ tura é pressuposto inafastável de qualquer Constituição. O Estado é algo tão grandioso e abran­ gente. Finalmente. que se torna indefinível. com suas famílias. e na tendên­ cia de cada qual buscar sua hegemonia entre os demais. plasma-se a es­ trutura orgânica da nação. mostrando-se uma reação às tendências liberais do seu tempo e à divisão da Alemanha em Estados independentes. unicamente. para os organismos sociais. Os ideais de Hegel eram pro­ fundamente anti-individualistas. No decurso dos séculos. basta lembrar que seu pensamento constituiu a base de correntes opostas como o fascismo e o marxismo. na economia nacional.

de certa forma.. mesmo porque esta ideo­ logia totalitária não via 110 Estado o fundamento da sociedade. por natureza. 1977. Filósofos do porte de Platão e Aristóteles deixa­ ram-se empolgar pela suposta natureza totalitária do Estado. roux . .com agudeza. Adolf.f. a influência de Hegel sobre o nacional-socialismo não foi das maiores. sobre as partes. Lisboa. 11a Alemanha. aqui.. dc Yurrc aponta. El Estado corporativo fascista. por exemplo. de maneira absoluta. O elemento bási­ co da Weltanschauung nacional-socialista é a raça (racismo). El derecho y el estado en la d octrina nacional-socialish i t i . desenvolver-se-ia um inadmissível organicismo radical. Capítulo II). e o nacional-socialismo. Mussolini. 6) TOTALITARISMO: FASCISMO E NACIONAL-SOCIALISMO Bibliografia: mallén bonnard . sur­ gem prematuramente na História. Ao contrário do mecanicismo anarquista. tido como a criação mais perfeita do homem. na Itália. e o nacional-socialismo reduz o Estado à ca­ tegoria de meio e instrumento em mãos do Führer e de seu partido. Roger. Gcorge. Mcxico. tem apenas deveres para com o Pastado.] a cidade (Estado) e. v. naquela concepção. não deixou de assimilar. glorificador da sociedade em detrimento do indivíduo. 1963. Gregorio R. . 7. intitulada Política: “ [. que.. Minha luta . anterior à família e a cada um dc nós conside­ rados individualmente. deixando fluir. É necessário que o todo anteceda a parte [. em al­ gumas passagens de sua obra. b) Hegel constrói sua teoria sobre a supremacia do Estado. Barcelona. o todo prevalecendo. Bosch. Facultad dc Ciências y Políticas chard Sociales. Globo. Publicações Europa/América. Curiosamente. o espírito de seu tempo. o organicismo radical (totalitarismo) vê a floresta.]” (Livro Primei­ ro. Astcr. a algumas passagens da obra capital de Aristóteles. . mas sim na nação (Volk). Os perigos do organicismo radical. História das idéias políticas. 1950. tou . incensando a prevalência absoluta do Estado sobre o indivíduo. não as árvores. até chegarmos aos dois maiores totalitarismos do século X X : o fascismo. Lisboa. portanto.214 Teoria Geral do Estado Estado. antecipando muitas premissas do totalitarismo contemporâneo.. Na linha do pensamento organicista. Aristóteles. que formam a pedra angular da estrutura política. ed. 2. 1940. - Rubén Salazar. Porto Alegre. esta exótica tendência. as diferenças essenciais entre o pensamento hegeliano e o nacional-socialista: a) o elemento básico da filosofia hcgcliana c a ideia (idealismo): o mundo é uma revelação da ideia. 1976. Permitir-nos-emos fazer referência. r ta. Jean..

é necessário promulgar uma lei que proíba a sobrevivência dos seres disformes. ao mesmo tempo. deve ser estabelecido um limite numérico à procriação. Capítulo I). Capítulo XVI). no qual honrarão as divindades protetoras do bom parto” (Livro Sétimo.. ordenan­ do-lhes que programem um passeio diário. se a concepção organicista ou totalitária da sociedade é tão antiga. o bárbaro no mesmo nível do escravo: “é normal que os gregos governem os bárbaros..] visto que é dever do legislador considerar. Não foi por acaso. é necessário atentar para a disciplina das uniões conjugais. o termo totalitarismo é relativamente recente. ci­ tando Eurípedes. É fácil para o legislador assegurar isto. levar-se-á cm conta a ausência ou presença de sensação e vida” (Livro Sétimo. “ [. precedeu o verbo. do homem soberano. pois todos per­ tencem ao Estado. Aristóteles revela xenofobia. estabelecendo quando e em que condições um casal pode procriar (. já se vê.. à saciedade. desde logo.. Capítulo I). bárbaro e escravo são a mesma coi­ sa [. por natureza. “No que toca à exposição e criação dos infantes. “Como a finalidade do Estado é uma só. fica evidente que a própria educação de to­ dos há de ser necessariamente una e idêntica.8 Ideologias 215 “As questões de interesse público devem estar sujeitas a uma supervisão pública. “ [. Tais indícios revelam. Capítulo II).) ” (Li­ vro Sétimo.] as mulheres grávidas devem cuidar de seu corpo. A palavra totalitarismo refere-se a uma concepção política que sc mostra cm franca oposição à doutrina do cidadão abstrato. em discurso célebre proferido no dia 22 de junho de 1925. antes que apareçam a vida c a sensibilidade do embrião. Capítulo XVI). Capítulo XVI).. sem evitar exercícios nem to­ mar uma dieta excessivamente frugal. e que ela esteja a cargo do Estado e não dos particulares (Livro Sétimo. A ideia totalitária. de Platão. dc que forma as crianças terão uma constituição física perfeita.]” (Livro Primeiro. no Quarto Con­ gresso do Partido Nacional Fascista. que iMussolini tinha como um de seus livros prediletos A república. Em outras passagens da Política. se o número de nascimen­ tos se mostrar excessivo. certamente. tendo sido criado pelo próprio Mussolini. temos que admitir que os cidadãos não se pertencem. Por outro lado. Entretanto. Enquanto este se fundamentava na plena autonomia individual. ao colocar. será praticado o aborto. eis que... já que cada um é parte deste” (Livro Oitavo. colo­ . e se a tradição proibir a exposição do recém-nascido. criada pelo liberalismo. c para que tal prática possa ser considerada respeitável ou desprezível.. os germes do totalitarismo moderno. Sc um casal fecundar fora deste li­ mite.

nada tem valor fora do Estado. Por isso. porque. no verbete intitulado “A doutrina do fascismo”. Alfredo Rocco (1875-1935). sindicatos. que a concepção atomística e mecânica da sociedade c do Estado. para o fascismo tudo está no Estado e nada humano nem espiritual existe e. que se tornaria uma das principais características do fascismo: Nem indivíduos nem grupos . o principal problema é o do direito do Esta­ do e do dever do indivíduo e das classes. o próprio Mussolini esclarece: Anti-individualista. a liberdade do Estado e do indivíduo no Estado. era totalmente estranha ao pensamento italiano. cm 1925. Neste sentido o fascismo c totalitário. então o fascismo opta pela liberdade. síntese e unidade dc todo valor. fascismo e nacional-socialismo. c na von­ tade do povo. eminente jurista italiano. já afir­ mava. consciência c vontade universal do ho­ mem cm sua existência histórica. à medida que este sc harmoniza com o Estado. a concepção fascista é para o Estado e para o indivíduo. o fascismo eleva o Estado à condição da verdadeira realidade do indivíduo. Mais adiante. Esta opção é pela única liberdade que pode ser considerada seriamente. Absoluto é o interesse social. ao passo que para o fascismo. Mussolini refere-se ao sistema corporativista. interpreta. É contrário ao liberalismo clássico. para estas doutrinas.diz Rocco não são mais que o reflexo dos direitos do Estado. portanto. e o Es­ tado fascista. que militou politicamente nas fileiras do fascismo. Com efeito. O fascismo opõe-se. O liberalismo negava o Estado em favor do indivíduo.partidos políticos. sendo o indivíduo o fim e a sociedade o meio. a concepção fascista da sociedade é totalitária: a totalidade dos indivíduos submetidos ao poder político e a totalidade da manifestação pessoal de cada um acham-se sob a égide do Estado. movimenta e domina toda a vida do povo. classes . resultante da Reforma protestante e do jusnaturalismo dos séculos XVII e XVIII. exatamente como todos os di­ reitos individuais. nascido da ncccssidadc dc reagir contra o absolutismo. a liberdade é uma concessão do Estado. que paralisa o movi­ mento histórico na luta de classes e ignora a unidade do Estado. a socie­ dade não tem vida distinta dos indivíduos. que funde as classes . a fortiori. ao socialismo. Os direitos do indivíduo . as duas doutrinas totalitárias do século X X . integrante da famosa Enciclopédia italiana. Rocco abre comba­ te contra a liberal-democracia e o socialismo. Como se percebe desde logo. que cnccrrou sua missão histórica. Numa obra intitulada A doutrina do fascismo e o seu lugar na história do pensamento político. vão mostrar poderosas reações a tal concepção.216 Teoria Geral do Estado cando a liberdade individual no ápice da escala de valores a ser respeitada pelo Es­ tado e atribuindo ao poder político apenas e tão somente a manutenção da ordem pública. E se a liberdade deve ser o atributo do homem concreto e não do fantoche abstrato criado pelo liberalismo indi­ vidualista.fora do Estado. relativo é o interes­ se individual. associações.

numa situação de fato mais ou menos inconsciente e inerte. antes dc tudo c sobretudo. o Estado. As tendências organicistas e totalitárias do fascismo italiano ressaltam-se. 30. O Estado. documento que inspirou inúmeras Constituições da época. em seu aspecto qualitativo e não meramente quantitativo. É uma unidade moral. como vontade ética universal. uma existência real. a representação profissional. Este não é nem o número nem a soma dos indivíduos que for­ mam a maioria de um povo. que se encarna 110 povo como consciência e vontade de um pequeno número ou de um apenas. Não é a nação que cria o Estado. na órbita do Estado. menos ainda. integralmente. De todos aqueles que. no qual tais interesses se conciliam na unidade do Estado. atividades econômicas e cointeressadas. vida. como deve ser.1927. que a formam. e também ao sindicalismo de classe. em uma espécie de Estado já in fieri.A nação italiana é um organismo dotado de fins.. O fascismo. numa vontade política que atua e que está disposta a demonstrar o seu direito. sob a inspiração italiana. como um ideal que tende a se realizar na consciência e na vontade de todos. mais coerente e mais verdadeira. que é uma vontade de existência e dc poder: é consciência dc si. e as considera no siste­ ma corporativo. encontram-se sindicalizados confor­ me as diversas. meios de ação supe­ riores em poder e duração àqueles das pessoas. em espe­ cial a brasileira de 1934. mas de um agrupamento que sc perpetua historicamente. que dá ao povo. que se realiza. I o da referida Carta: I . pelo menos se o povo for concebido. e sim numa consciência ativa. publicada na Gazzeta Ufficiale. que servia de base aos estudos dos publicistas dos Estados nacionais do século X IX . seguem a mesma linha de desenvolvimento e de formação espiritual. Sem embargo disso. consciente de sua própria unidade moral. cria o direito. O direito de uma nação à independência não se acha fundado na consciência literária ou ideal de sua própria existência e. com maior clareza ainda. a nação é criada pelo Estado. Os indiví­ duos formam as classes conforme seus interesses. dc uma multiplicidade unificada por uma ideia. por conseguinte. e significar a ideia mais po­ derosa por ser a mais moral. as exigências reais que deram origem ao movimento socialista e ao sindicalista sejam reconhecidas. isoladas ou agrupadas. são. formam etnicamente uma nação. o fascismo pretende que. como uma única consciência e uma única vontade. portanto. como dizia a velha concepção naturalista.8 Ideologias 217 numa única realidade econômica e moral. em virtude da natureza ou da história. na famosa Carta dei lavoro. opõe-se à democracia que absorve o povo na maioria dos indivíduos e o rebaixa a tal nível. Tal personalidade superior é nação enquanto Estado. Ao contrário. política e econômica. Com efeito. o fascis­ mo é a forma pura de democracia. . isto é.. porém. no Estado fascista. que instituiu. era esta a redação do art. uma vontade e. N ão se trata de raça ou de uma região geográfica determinada.04. personali­ dade. Porém.

mais do que criar o direito com base em sua própria valoração do interesse social. em última análise. certamente. antes de mais nada. cxcrcsccncias da vida social. Com a. Essa conserva­ ção abarca. por outro lado. deve decidir inspirado no que­ rer supremo do Führer. fonte primária do di­ reito. assim. que. Adolf Hitler. o espírito (Volksgeist) da nação deve ser quase misticamente intuído pelo juiz. O Estado fascista e o nacional-socialismo foram. embora organicista e totalitário como o fascismo. com o desaparecimento dos arianos. tudo o que diz respeito à defesa da raça. mas como um meio. é o verdadeiro intérprete da alma popular (Volksgeist). comunidade abstrata. Mais adiante: () Estado é um meio para um fim. os dois Estados essencialmente totalitários na modernidade. sem o qual não se pode falar em nacional-socialismo. a ser repudiado. sendo substituído por uma espé­ cie de doutrina do direito livre. sob a liderança (Führung) de um chefe (Führer). embora anti-individualista como o fascismo. na doutrina fascista. É a base sobre que deve repousar uma mais elevada cultura humana. promover-se-á a defesa da vida física e. de capaci­ dade civilizadora. o desenvolvimento es­ piritual.218 Teoria Geral do Estado Já para o nacional-socialismo não vigorava um princípio positivista na concep­ ção do Estado. comunidade vi­ vente. Fundamentado no sangue e na raça. segundo seus doutrinadores. o nacional-socialismo não vê o Estado como um fim cm si mesmo. tal doutrina não contrapunha ao indivíduo o Estado. Como adverte Guido Fassó. O positivismo vem. considerado. ao versar o Estado em sua autobiografia intitulada Mein Kampf (Minha luta). desaparecesse a civilização ao nível em que é encontrada atualmente nas nações mais adiantadas. que possui direitos apenas en­ quanto membro da comunidade e de acordo com os fins desta. Tal cultura depende da existência dc uma raça superior. a nação (Volksgemeinschaft). a única fonte do direito. e implica o enfraquecimento de qualquer direito do indivíduo. formadores de cultura. . Em suma. mas não c a causa desta. pelos excessos do individualismo liberal. a expansão dc todas as forças a cia imanentes. utilização dc tais forças. pela qual o juiz. desta forma. Sua finalidade consiste na conservação e no progresso de uma coletividade sob o ponto de vista físico e espiritual. Ouçamo-lo: O grande princípio que nunca deveremos perder de vista é que o Estado é um meio e não um fim. Os Estados que não atendem a tal objetivo são seres artificiais. permitindo. mesmo porque jamais negaram tal postu­ ra justificada. Poderia haver centenas dc Estados-modclo no mundo c isso não im­ pediria que. o conceito de Volksgemeinschaft. exclui o conceito da Rechtsgemeinschaft. é muito claro neste sen­ tido. mas uma nova entidade.

O marxismo. preconizada por Marx. 6. exaltando apenas a totalidade dos indivíduos . totalitário. Nisto reside. que não vicejava. Por exemplo. A autocracia. originário da União Soviética. fenômeno da tecnologia moderna e da democracia de massas. b) sistema de partido único. a Roma republicana.1. Quando a sociedade comunista chegar. ao lado da pedra lascada e da roca dc fiar. aliás. o totalitarismo é uma concepção global do Estado que não adm ite a supremacia do individual so­ bre o social. o Estado já estará extinto e fazendo parte do museu da História. sob o com ando de um líder O sistema de partido único. c) controle policial da manifestação política exercido pelo Estado. que abrange to­ dos os aspectos da vida humana. não é totalitário. cada uma destas características. em essência. que nos períodos de ditadura conhecia um poder transitório. definida por Hans Kelsen como a forma de governo que. inevitavelmente. na irônica obser­ vação dc Engels. característica do fascismo e do nacional-socialismo. anarquismo e socialismo são filiações de uma mesma concepção da sociedade. envolve um poder político que não c.1. 6. Ao contrário. o socialismo. é. contudo. com brevidade. f) direção estatal da economia. Pode-se. ne­ cessariamente. num Estado totalitário. autocrático. e) concentração dos meios militares.8 Ideologias 219 O Estado socialista soviético é totalitário.1) Características do totalitarism o Quais as características do totalitarismo? Carl Joachin Friedrich afirma que o totalitarismo. A autocracia é uma forma de governo. Apenas aparentemente o liberalismo é antípoda do socialismo. conceber um poder autoritário num Estado que não seja totalitário. sim. d) concentração dos meios de propaganda no Estado. mas apenas à medida que cons­ titui uma etapa necessária na marcha para o comunismo. em especial. na verdade. 6. reside no fato de o poder político ser exercido independentemente de limitação constitucional e dc participação do povo na esco­ lha c nas deliberações dos governantes. apre­ senta os seguintes dados identificadores: a) ideologia oficial. um dos pilares do .1) Ideologia oficial No Estado totalitário há um corpo oficializado de doutrina. por outro lado. liberalismo. enquanto doutrina dc libertação do indivíduo . uma das diferenças en­ tre a autocracia e o totalitarism o . sendo. a única diferença entre ambos reside no método adotado por um e ou­ tro na persecução da mesma finalidade : a liberação do indivíduo dos excessos do poder absolutista ou do poder econômico dc uma classe dominante. Analisemos. O desenvolvimento do liberalismo acarreta. dirigido por um líder.2) Sistema de partido único.

de uma po­ lícia de caráter político. mas por­ que o movimento. nunca foi considerado. mas para o povo em sua totalidade.3) Controle policial pelo Estado Segundo a concepção totalitária do Estado. Ele pretende ser o representante visível da referida unidade: o seu fim não é orde­ nar ou exercer coerção. em certo período de sua vida. que. mas estimular os indivíduos a ade­ rirem à ideia nacional-socialista de união da nação alemã. ao realizar a unidade popular. Partido e povo tendem.4) C oncentração da propaganda nas mãos do Estado A propaganda reveste-se de enorme importância atualmente. Daí é fácil depreender a necessidade. 6. 6. será convertido em verdadeira en­ carnação c representação visível da unidade do povo. com a abolição global do isolamento humano. mas é um Estado democrático no sentido “de que adere estreitamente ao povo. de que está em constante contato com ele. pois. sendo sua finalidade prevenir (polícia ad­ ministrativa) e reprimir (polícia judiciária) as condutas antijurídicas. a identificar-se. por ser contrária ao Estado.1. de que penetra a massa por mil caminhos. Conforme doutrina Alfredo Rocco. nenhuma atitude. Segundo Mussolini. a influência do mestre socialista vai tornar-se patente no papel transcendental que o Partido Fascista terá no Estado mussoliniano. socialista exaltado. coordena-lhe a atividade” . a vida de cada cidadão. Salvetti Netto aponta. Ora. a nação deve estar articulada em torno de um partido hicrarquizado. pode ficar fora da órbita do Estado. sente-lhe as necessidades. a diferença entre a polícia política e a polícia administrativa e a judiciária.220 Teoria Geral do Estado marxismo-leninismo. Quanto ao Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães (Nationalsoziãlistiche deutsebe Arbeitpartei). As polícias administrativa e a judiciária (polí­ cia comum) existem em todos os Estados. nenhuma socie­ dade particular. in­ cessantemente. com precisão. que administra e fiscaliza. um partido na acepção do termo. o Esta­ do fascista não é um Estado democrático no sentido clássico da palavra democracia. com seus tentáculos). e contrária à comunidade. No século XV III as con­ . Mussolini. adepto ferrenho de Marx. guia-se espiritualmente. em plena era tec­ nológica. não pelo fato de que todos sejam filiados ao partido. Mussolini foi. a fim de reprimir qualquer manifestação contrária ao Es­ tado. pelos próprios adeptos do nazismo. obtido. e sim um movimento (Bewegung) que pretende representar não uma opinião pú­ blica particular para certo grupo de interesses. O partido deve ser a coluna dorsal do Estado c. na Itália fas­ cista tivemos a OVRA (sigla proveniente dc piovra.1. no Estado totalitário. para impor-se à maioria. denotando bem o múl­ tiplo alcance do órgão. Na Alemanha nacional-socialista tivemos a célebre Gestapo (Geheime Staatspolizei). vive-lhe a vida. no cimo de sua hierar­ quia. polvo. figurativamente. encontraremas o próprio Duce.

As na­ ções que não se expandem acabam por desaparecer. o que fez com que vários Estados hesi­ tassem em se aliar aos alemães. seus objetivos. Na Alemanha. 6. Por outro lado.8 Ideologias 221 cepções políticas da Revolução Francesa são divulgadas em livros. Enquanto no socialismo soviético a propriedade dos meios de produção fica abolida. Chevallaz. 6.1. Dizia a doutrina fascista que a luta é a origem de todas as coisas. . a iniciativa privada. Alfred Sauvy. pelo autossacrifício e pelo culto do heroísmo e da força. ministro da Propaganda do Terceiro Reich. o excelente trabalho levado a efeito por Joscph Goebbels. afirmou que. desde logo. panfletos e vá­ rias publicações “subversivas” . para a própria sobrevivência da ideologia revolucionária. A guerra exalta e enobrece o cidadão e regenera os povos ociosos e decadentes. se as forças de resistência ao nazismo não tivessem definido. a anexação da Áustria à Alemanha hitleriana foi o fruto de notável propaganda.6) D ireção estatal da econom ia Haba define o totalitarismo como “o tipo de organização jurídico-social ca­ racterizada basicamente por um Estado que tende a expandir ao máximo sua esfe­ ra de intervenção. b) Hitler não teria dado muita importância à guer­ ra revolucionária. nenhum Estado totalitário de orientação fascista foi destruído sem intervenções externas. Num livro intitulado Os arquivos da segunda guerra mundial. o Estado fascista e o nacional-so­ cialista admitem. abarcando a generalidade das relações humanas.prosse­ guem os doutrinadores fascistas. deixando dc mobilizar as forças militares e morais do povo. graças à força da propagan­ da. resultando dis­ so restrita ao máximo a liberdade individual”. com restrições. Cheysens e Launay demonstram que a Ale­ manha foi derrotada na Segunda Guerra Mundial por dois motivos: a) falta de uma definição precisa dos objetivos da guerra. Em 1938. foi derrotada. Lenin afirmava ser indispensável a agitação social e a propaganda política entre as camadas do povo. Quando a Alemanha titubeou na guerra psicológica que era travada pa­ ralelamente ao conflito armado. “O espírito fascista é vontade.5) C oncentração dos meios militares Sendo o militarismo um dos mais expressivos meios do Estado totalitário para alcançar seus fins imediatos (segurança interna) e mediatos (expansionismo ou im­ perialismo) depreende-se a sua importância para doutrinas como o fascismo e o nazismo.1. o intelecto precisa ser complementado pela fé mís­ tica. A razão jamais poderá ser um instrumento adequado para a solução dos grandes problemas nacionais . jamais intelecto”. os aliados não teriam podido contar com os Estados ocupados pe­ los alemães. ensejou a consolida­ ção do poder de Hitler e dos objetivos do Partido Nazista. Um grande sociólogo de nossa época.

Em nenhum país da Europa Ocidental a lei e a ordem estavam seriamente ameaçadas. Em sua exacerbação e em seus rompantes. que denunciava os judeus como criadores dos males do marxismo e do capitalismo. Apesar de tais condições. embora sem nenhuma possibilidade de alcançar o poder. havia traços comuns a quase todos: 1) nacionalismo extremado. eslavos) só fez aumentar os temores da classe média. 3) invocação às classes médias e ao proletariado para livrá-los do marxismo (socialismo e internacionalismo) e formar uma base popular para novos movimen­ tos. que visava. a emancipa­ ção dc minorias raciais e religiosas (judeus. o boulangerismo prometia recuperar as possessões perdidas durante a guerra. prenunciada em 1905. pontificando neste sentimento o movimento boulangerista (denominação inspirada no general Boulanger). seus líderes tornar-se-iam mais ativos do que nunca em sua doutrinação. o socialismo e o co­ munismo. a derrota do país na Guerra Franco-Prussiana (1870-1871) fez re­ crudescer o nacionalismo e. . a concentração das empresas e as exigências cada vez maiores do operariado pressionavam a classe média. Outra tendência radical. é preciso tomarmos a expressão fascismo em sentido amplo e em sentido estrito. alguns autores denominam fascistas os movimentos reivindicatórios da classe media dc alguns países europeus. A Europa anterior à Primeira Guerra Mundial desfrutou de um período de paz. 2) forte antissemitismo. mas garantiam mui­ tos empregos. mas criou condições propícias para tal. protestantes. receosa de perder sua posição social. Na Europa Ocidental o co­ lonialismo e sua manutenção impunham gastos aos Estados. Havia prosperi­ dade econômica. a Rússia já estava ameaçada por uma tremenda re­ volução. pouco antes da Primeira Grande Guerra. pois. todavia. colo­ car este militar no poder. Não teve êxito. com um levante popular motivado pela perda da guerra russo-japonesa. começava a encontrar um ponto de apoio em sua propaganda. po­ rém. Surge o periódico La libre parole. Durante a Guerra. parecia indispensável uma base popular para enfrentar o liberalismo. Na França. Por outro lado. Embora divergindo em alguns aspectos de somenos. que seria a de outubro de 1917. A reação da clas­ se média não foi causa imediata do surgimento dos movimentos fascistas. os movimentos políticos nacionalistas que se identificariam com o fascismo já estavam se firmando. Como se situavam tais movimentos? Vejamos. O último grande movimento revolucionário fora a Proclamação da Comuna de Paris. graças a alguns escândalos financeiros internacionais que pas­ saram a ser atribuídos à “alta finança judaica”. Embora embrionários pouco antes e durante a Primeira Grande Guerra. embora a época ainda não fosse a de uma democracia de massas. Entretanto.222 Teoria Geral do Estado Quanto às origens do fascismo. Num sentido amplo. desde logo. em 1871.

André Dreyfus foi um oficial fran­ cês. a documentação que servira de base para a acusação era consi­ derada fraudulenta.8 Ideologias 223 fundado por Édouard Brumont. que já havia escrito um livro antissemita. que clamavam pela revisão do processo. fazendo a apologia de uma França “romântica. anti­ go símbolo de origem etrusca. torturas. encampado pelos latinos e que representa a união. Proprietários ru­ rais e comerciantes. Agravando tais tendências. O caso não ficou. o coronel Henry. a causa de todos os males da nação. por vol­ ta de 1914. uma virulenta xenofobia. A organização do movimento pressupunha a formação dos “fascii” de combatimento. nacionalistas extrema­ dos. os únicos que obtiveram vantagens com a Revolução France­ sa foram os judeus. fascismo é o movimento político surgido na Itália. haviam se apo­ derado dos bens dos franceses e eram. em menor escala. Dreyfus foi condenado à prisão perpétua. em 1881. sua inocência foi comprovada. desempregados e descontentes de todo o tipo. havia muitas pessoas implicadas na condena­ ção dc Dreyfus c o preconceito racial já não via freios à sua atividade. idealistas. A origem do vocábulo fascismo reside no fasces (fascio). diante . da ordem capitalista destruidora. que estava na moda. especialmente a partir de 1938 ede 1943. grupos que pretendiam evitar que a Itália ingressasse na Primeira Guerra Mundial. agora. foram. destinados a combater o derrotismo e todos aqueles que fos­ sem considerados inimigos do povo. se suicidou. A partir de 1918.como Rothschild e outros. eram as principais vítimas. encerrado. porém. Em sentido estrito. Benito Mussollini (1883-1945). na própria Itália fascista. Brumont afirmava que os judeus eram detesta­ dos pelos pequenos comerciantes e empresários e pelos artesãos. Émile Zola escreveu Jíaccuse. Foi o que bastou para que toda a França se empolgasse com o caso. A violência. cm defesa de Dreyfus. Espancamen­ tos. O oficial denunciante dc Dreyfus. Segundo Brumont. campeava. graças a um movimento levado a efeito por seus simpa­ tizantes. trabalhadores da classe média. intitula­ do La France juive. valorosa. velada ou expressamente. b) a desastrosa derrota sofrida em 1890. Quanto às causas imediatas da ascensão do fascismo italiano. as se­ guintes: a) um nacionalismo humilhado e exacerbado pelas decepções da anexação da Tunísia pela França. apoiando o ingresso da Itália na guerra. os fascii transformaram-se em grupos de squadristi. basicamente. con­ quistada e destruída pelos judeus”. com o apoio dado por Mussolini à intervenção italiana em favor dos aliados. aplicação de doses de óleo de rícino eram a tônica. A partir daí tais movimentos nacionalistas não deixariam dc adotar. mais tarde. O caso não teria maio­ res repercussões se ele não fosse judeu. o caso Dreyfus. Integravam os fascii jovens futuristas. supostamente desonestos. pois constituíam o símbolo do poder do ouro. graças aos escritos de um sindicalista revolucionário. sob o comando de um antigo revolucionário socialista. Os imigrantes hebreus. Georges Sorel. cuja expressão mais trágica seria mostrada na Alemanha nacional-socialista (19331945) e. acusado de fazer espionagem em favor da Alemanha. com destaque para o antissemitismo.

como Proudhon e Sorel. ainda mais. b) afirmação de um movimento reivindicatório contra o Tratado de Versalhes. Embora tivesse o temperamento do pai. Surgem então. Entre 1929 e 1930. logo apoiou o movimento fascista. sendo seu pensamento quase todo calcado nos autores anarquistas e sindicalistas do século X IX . contudo. considerável foi a atenção que Mussolini dispensou a Maquiavel. O fascismo não carece dc dogmas. g) a intran­ qüilidade generalizada. até se firmar definitivamente. temos a coragem dc repudiar todas as teorias políticas tradicionais. c) a desilusão sofrida pela partilha do botim de guerra. era um socialista radical. ele sente a necessidade de consolidar o caleidos­ cópio de ideias que era o fascismo. proletários c antiprolctários. tão paradoxais. marcariam muito a formação do fu­ turo Duce da Itália. alta de preços. revolucioná­ rios c reacionários. Al­ fredo Rocco. violento e irascível. f) a escalada dc grupos anarquistas e comunistas e as greves freqüentes. f) o homem não tem mais direito do que aqueles que o Estado lhe concede. a linha programática do movimento fascista. todavia. e) o descrédito e o colapso do regime parlamentar. d) inflação. o fascismo italiano não apresenta uma doutri­ na preestabelecida. Seu pai. formalizados. Guido Bortolotto. Giuseppc Prczzolini e outros. confiando ao filósofo Giovanni Gentile tal in­ cumbência. era católica fervorosa e conservado­ ra. d) adoção do pensamento de Hegel. especulação e desemprego 110 pós-guerra. em Versalhes. pacifistas c antipacifistas. Outros jurisfilósofos robusteccm. como Sérgio Panunzio. professora. foi imensa a influência de Marx sobre sua formação doutrinária. mais remotamente.. Diga-se de passagem que. em 1883. A ação deve sobrepor-se à palavra. Hobbes e das teorias do poder absoluto. afinal? Filho de Alessandro Mussolini e de Rosa Maltoni. Quem era Benito Mussolini. ferreiro de profissão. numa infeliz guerra de conquista. no centro da Itália.224 Teoria Geral do Estado dos nativos abissínios. Era um movimento oportunista. e) o Estado cria o Direito e a Moral. As influências de ambos. mas sim dc disciplina. destinado a restaurar o Estado contra a desin­ tegração socioeconômica do capitalismo e contra a infiltração comunista. . que. nasceu em Predappio. Mussolini di­ zia então: Nossa doutrina são os fatos. somos aristocratas c democratas. Hegel e Platão. Giuseppc Botai. A mãe de Benito. os pontos principais da ideologia fascista: a) afirmação do nacionalismo. que procurava adaptar-se a quaisquer novas circunstâncias sociais. Ao seu surgimento. Nós. c) posição intermediária entre o coletivismo e o individualismo: o Estado de­ ver ser a união de grupos e de corporações. principalmente junto à classe média. contudo. adepto ferrenho de KarI Marx e agitador con­ tumaz. temerosa da as­ censão bolchevista. fascistas.

doutrinariamente. Hitler tentou o poder. m)o trabalho como dever social. Adolf Hitler (1889-1945). A partir de 1929. Quan­ do jovem. norte da Áustria. em vez de operários. aproveitando-se da crise econô­ mica mundial. que o queria ver funcio­ nário público. o partido tomou maior alento. Reprovado no vestibular e profundamente desgostoso. I) manutenção da iniciativa privada e da livre-concorrência. i) subordinação das corporações ao Partido Nacional Fascista. sendo substituída a antiga denominação por uma nova: Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães (NSDP). Ao estourar a Primeira Guerra Mundial. subordinadas. escreveu sua autobiogra­ fia intitulada Minha luta9na qual afirma a superioridade racial do ramo germânico da “raça ariana” sobre as demais raças. sendo ferido e recebendo a Cruz de Ferro. Em 1923. Filho de um funcionário público chamado Aleis Hitler. o Partido dos Trabalhadores Alemães. em Braunau. e um suposto plano dos judeus para domi­ nar o mundo. como vender cartões-postais de sua autoria. o Partido Nacional-Socialista recolheu grande número de adeptos.04. Tais corporações não distinguem entre patrões e operários. não pode ser tratado. nada contra o Estado. Daí. os indiví­ duos e os grupos são relativos. o fascismo afirma que o Estado é absoluto. plano este resumido num livreto de origem duvidosa intitulado Os protocolos dos sábios de Sião. logo depois. sem que mencionemos a tremenda figura de seu criador. . Nesta. foi influenciado por duas tendências. ficou órfão de pai aos 16 anos. em 1921 Adolf Hitler foi nomeado seu presidente. n) abolição do direito de greve. expressão mais conhecida por sua forma abre­ viada nazismo. Com Hitler. Agru­ pamento em corporações dos membros de cada ramo da produção (Mussolini usa a expressão produtores. Ninguém po­ deria exercer nenhuma atividade sem autorização da corporação correspondente. a fórmula: Tudo dentro do Estado. Adolf Hitler passa a viver de pequenos expedientes. pretendia seguir a carreira de pintor. ao interesse do Estado. nada fora do Estado. que acompanhariam seu pensamen­ to até a morte: nacionalismo extremado e antissemitismo.1889. como já foi visto. Profundo admirador das artes plásticas. Adolf Schickelgruber Hitler nasceu em 20. de sua mãe. h) sindicalismo e condenação do liberalismo e do socialismo marxista. po­ rém. porque a primeira expressão designa também aqueles que produzem pelo intelecto). de orientação direitista. contrariando seu pai. e. Quanto ao nacional-socialismo. Em 1919 entrou em contato com um pequeno partido formado por operá­ rios. alistou-se como voluntário. j) resolução dos conflitos entre o capital e o trabalho por intermédio de con­ tratos coletivos e de uma organização corporativa das categorias profissionais. mas aca­ bou sendo preso e condenado a cinco anos de cadeia.8 Ideologias 225 g) amparado em Hegel.

mas era guiado. em vez dos chamados direitos pú­ blicos subjetivos. aparelho a serviço da nação. O governo passava a ser considerado como uma emanação direta da própria comu­ nidade (Fiihrung). Volksgemeinscbaft.04. e ao povo “atomístico” da democracia burguesa do século X IX .01. que de­ fendiam o positivismo jurídico (o Direito seria criado pela vontade do Estado). A origem de todo Direito acha-se no Volksgeist (espírito do povo). política. ao direito positivo. Laband. Gierke. um condutor (Führer). devendo satis­ fazer. reduzido. antes de mais nada.226 Teoria Geral do Estado pessoas desgostosas com a situação política e econômica intolerável e pequenos empresários temerosos da atividade desenvolvida pelos comunistas. em linhas gerais. o nacional-socialismo afirma que a origem de todo o Direito e poder resi­ de na própria comunidade (Volksgemeinscbaft).1933. como Gerber. a concepção do chamado Estado dc Direito na doutrina nacional-socialista difere. o Estado nacional-socialista não é liberal porque não reconhece ao indivíduo uma esfera de liberdade que deva ser respeitada absolutamente. atuando por meio de órgãos. quando os russos tomaram Berlim. porém. 6.7) A doutrina nacional-socialista O nacional-socialismo deu origem a uma doutrina completamente nova so­ bre o Estado e o Direito. a Volksgemeinscbaft corresponderia. chamada. da concepção liberal e indivi­ dualista. Por outro lado. Enquanto a doutrina italiana do fascismo sofreu profun­ da influência dos juristas alemães. Enfim. Constitui tão somente meio para o aprimoramento e a expansão da comunidade (Volksgemeinscbaft). racial. a própria comunidade. que vem a ser um todo orgânico. pois seria impossível. como vimos.1. A doutrina nacionalsocialista repudia frontalmente as ficções da democracia liberal e pretende expor tão somente realidades. Ficou no poder ate o dia 30. Jellinek. seria titular da soberania. O Estado encontra-se a serviço da comunidade. Hitler foi nomeado chanceler em 30. Após várias campanhas políticas de maior êxito.8) 0 Estado na cion al-socialista e os direitos subjetivos Para o nacional-socialismo o Estado é meio e não fim. prin­ cipalmente. O Estado nacional-socialista não é individualista porque o fim essencial do Estado não é o indivíduo. 6. existe uma situação jurídica de membro da comunidade. não tem relações com a comunidade. conduzido por um guia. moral e.1. bem como à ideia de que o Estado consti­ tui uma pessoa jurídica e. única realidade social. profundamente. O povo não se autogovernava. os interesses desta. Por outro lado. . histórica.1945. vivo e real. como tal. suicidan­ do-se nos porões da chancelaria. por isso. ao proletariado e sua ditadura na Rússia. No Estado nacional-socialista o indivíduo. portanto.

Como acentua Roger Bonnard. assim. declarava Hitler:4 4 Eu não teria existido não fosse minha fé poderosa no povo alemão. se no Estado liberal-democrático a lei domina todo o sistema político. expres­ sa cm forma dc regras genéricas. nem mesmo à autoridade da lei.8 Ideologias 227 Enquanto o liberalismo identifica o Direito e a lei (positivismo). afir­ mando-se que a matéria jurídica nâo seria obra própria c exclusiva do legislador.1. de condução da comunidade (Volksgemeinschaft). Finalmente. sendo. dirigida por um Führer. em desconformidade com o ordenamento vital do povo. pois referidas leis podem estar. poder e decisões devem predominar em qualquer caso. contra as decisões do líder. em excelente exposição sobre as instituições nacionais-socialistas. então. protegidos os direitos in­ dividuais. e como é o Führer quem possui em mais alto grau consciência do referido ordena­ mento. O Estado nacional-socialista é. Qualquer oposição. Esta é guiada. chefe. em razão de mudança das cir­ cunstâncias. E originário porque não foi conferido pelo povo ou qualquer autoridade e porque quem o exerce o faz pelo simples fato de ser Führer. reforçada. o poder de Führung é necessariamente pessoal. não será admitida. as de­ cisões do líder não podem sofrer oposição. no Führerstaat a autoridade da vontade pessoal do Führer supera a lei. esta é apenas uma parte do D i­ reito. Sofismando. contendo-se apenas na lei o direito seria estabelecido independentemente do legis­ lador e da lei. 6. de fato ou de direito. é porque há fidelidade c confiança mútuas. o nacionalsocialismo afirma que o Direito se sobrepõe à lei. e se a comunidade segue espontaneamente seu chefe. Se o exercício do poder se limita a uma condução. Por isso. autônomo e autoritário. formando seu séquito ( Gefolgschaft). o poder do líder é autoritário. poder-se-ia dizer que o Estado liberal seria um Estado legal. Isto deve ocorrer até mesmo nas decisões tomadas contrariamente às leis promulgadas pelo próprio Führer. abstratas. Como a Führung deve estar em consonância com o ordenamento vital do povo. mero corolário da sua autonomia. um Führerstaat. seja pelas vias de direito ou pelos recur­ sos jurisdicionais. Por outro lado. como vontade da pessoa-Estado. Na doutrina nacional-socialista a juridicidade substitui a mera legalidade.9) 0 princípio da liderança (Führung) no Estado nacional-socialista O principal e mais interessante instituto do direito público nacional-socialis­ ta é a Führung. sendo originário. é autônomo porque o Führer não se submete a nenhuma autorida­ de. . o Estado nacional-socialista seria um Estado de Direito. Daí a expressão Führer. sua vontade. pela fé e a con­ fiança do povo alemão em m im ”. em sua doutrina de uma razão universal dirigindo o Estado. O povo confia em seu líder porque este apresenta as qualidades necessárias para o seu cargo. Com efeito. Em que consiste a Führung? Cons­ titui um princípio de liderança. sem cessar. Na Führung encontramos o eco de várias passa­ gens de Hegel.

expressa apenas tendências. não certezas. naquele. Esta doutrina chama-se huma­ nismo social. possibi­ lidades. Tal liberdade dc ação. a sociabilidade ina­ ta do homem. é preciso salien­ tar as diferenças entre o corpo social e o organismo biológico: neste constata-se unidade física ou substancial. en­ quanto os órgãos que compõem o corpo humano obedecem a leis biológicas. Na verdade. também. Por outro lado. para o liberalismo. escolhendo. sem a participação do Estado. ordenatórias da vida social. São Paulo. devem ser órgãos legítimos de intermediação entre o in­ divíduo e o Estado. adaptando-a. 5. em harmoniosa composição. A nature­ za das leis éticas. enfim. mas condena. cuja atuação. pelo menos no Brasil. fenômeno este . bem assegura e salienta a impropriedade do organicismo radical.. ine­ xoráveis e imutáveis. suplantadas pelos partidos políticos. Esses grupos são como flores de variadíssima natureza. Tal concepção. Curso de doctrina social católica. movido por seu arbítrio. surgiu uma nova doutrina. pode o indivíduo voltar-se contra as estruturas sociais. pois. sensatamente. condena frontalmente o me­ canicismo. devem fruir da autonomia e da assistência do Estado. Em meio ao cipoal dc ideologias políticas radicais c dc práticas políticas de­ finitivamente ultrapassadas. tem sido inexpressiva. mas que integre o indivíduo ao Estado. procu­ ra o meio-termo entre o mecanicismo e o organicismo. a suas aspirações. o indivíduo. alterando-a. A doutrina do humanismo social busca integrar o homem ao Estado. ct al. até mesmo na sua grafia. o organicismo radical. sirva de instrumento de realização pessoal e social. Saraiva. entre o indivíduo e o poder político. 1967. 1982. no seio da sociedade. Católica. Madrid. postulando um organicismo moderado. Curso de teoria do Estado. o indivíduo jamais alcançará a ple­ nitude do seu desenvolvimento.228 Teoria Geral do Estado 7) H U M A N ISM O SOCIAL Bibliografia: A. que. tais grupos constituem meras associa­ ções voluntárias. como a família. os quais. que não oponha o Estado ao indivíduo ou vice-versa. o município. salvetti n e t t o . Para o organicismo radical. reformando-a. tais grupos devem ser su­ focados pela prevalência absoluta deste Moloch chamado Estado. revelam uma tendência natural do ser humano dc sc realizar c de se proteger e. conforme adverte Pedro Salvetti Netto. partin­ do da afirmação de que. existem grupos natu­ rais. pois que revelam. optando. fazendo com que este. o sindicato. La Editorial Pedro. Ora. a parte contra o todo. portanto. se bem que não soberanos. muito mais do que o próprio Estado. que brotam espontaneamente. não percebida no organismo físico. Como faz ver José Pedro Galvão de Souza. unidade moral ou de ordem. ed. Tais grupos surgem natural­ mente. pois que este confunde o organismo social e o organismo biológico. age livremente. como se ambos ti­ vessem a mesma natureza. berna .

como alternativa entre o socialismo revolucionário e internacionalista e os princípios da liberal-democracia. pareça ter sido criada pelos próprios marxistas ortodoxos. Desta síntese exsurge o caráter mais reformista que revolucionário da nova ideologia. Martin. k rie le . estruturado pela facção ma­ joritária daquele partido. J. Não o corporativismo fascista. S. ja­ mais simples veículos da vontade dos governantes. 8) SOCIAL-DEMOCRACIA Bibliografia: a r a ú j o de Nilson. Enciclopédia de la política. mais tar­ de. Noruega. e a adjetivação revisionista com que a orto­ doxia passou a acicatar os seguidores da chamada terceira via. Finlândia. isso só se­ ria possível graças ao sacrifício da liberdade econômica plena. b is c a re tti di r u f f ía . G lo­ . Alemanha e Dinamarca. Na Rússia. o Partido Social-Democrático Ope­ rário. verdadeiro simulacro do autêntico corporativismo. para o humanismo social. Buenos Aires. México. 1995. 1996. a socialdemocracia surgiu na segunda metade do século X IX . já que ambos ousaram adaptar a ortodoxia da concepção marxista da revolução aos seus próprios países. O colapso do neoliberalismo. A history of Western political thought. ambos estagnados num estágio feudal de desenvolvimento. 1997. México. Routledge. Fondo de Cultura Econômica. deve ser eminentemente corporativa. inicialmente na Alemanha. M c C le lla n d . Ao preconizar a máxima liberdade políti­ ca. b o r ja Rodrigo. Considerada a vertente socialista dos Estados altamente industrializados do norte europeu. sob o comando de Lenin. Todavia. o próprio Lenin e.visou corri­ gir tal desvio. London-NewYork. mediante a abolição dos privilégios da burguesia. Reagindo a isso. Fondo dc Cultura Econômica. graças à livre-concorrência absoluta. Bulgária e Escandinávia. Paolo. pois os grupos sociais autênticos devem ser dotados da mais ampla liberdade possível. mais precisamente durante a Segunda Internacional Socialista (1889). bal. 1980. Daí o surgimento da social-democracia.cm todas as suas vertentes . . daria origem ao bolchevismo. como uma ideologia revisio­ nista do marxismo elaborada por Edward Bernstein (1850-1932). o liberalismo agravou a desigualdade econômica. souza . fundado em 1898. Embora a ex­ pressão revisionismoy com sentido pejorativo. o socialismo . Introducción a la teoria dei Estado. Desfrutando de cres­ cente prestígio. M ao Tsé-Tung deveriam ser considerados revisionistas por excelência. Depalma. São Paulo. Introducción al derecbo constitucional com­ paradoi.8 Ideologias 229 já previsto por Thomas Hobbes em sua obra clássica Leviatà. a social-democracia logo conquistou Hungria. como Karl Kautsky (1854-1939). como Suécia. 1996. A conformação da sociedade. A social-democracia se mostra um efeito recente da antinomia liberdade/igual­ dade deflagrada na Revolução Francesa.

pela via refor­ mista. enlaçar sem traumas liberdade política. obtendo-as. Os Estados menos desenvolvidos pouco têm a defender e muito a conquistar. 9) NEOLIBERALISMO O liberalismo clássico surgiu com a desagregação do feudalismo e o conse­ qüente aparecimento do capitalismo. na qual tem vez tanto os mecanismos de mercado quanto a planificação econômica estatal. onde as únicas soluções viáveis para o subdesenvolvimento. sem perceber que a classe trabalhadora dos Estados nórdicos que a adotaram não carece de medidas revolucionárias violentas para suas conquistas. a situação do Terceiro M undo perante a social-democracia é bem diferente: buscam-se mudanças políticas e sociais extremadas para. Em suma. Afirmando dois valores básicos. flatus voeis de uma ordem econômica irrealizável. enca­ minhando-os para um sistema econômico perfeito. métodos e objetivos. exclusivamente. mas não admite que indivíduos ou gru­ pos pretendam monopolizar a atividade econômica. ipso facto. altera. res­ tando para as classes menos favorecidas apenas uma liberdade e um bem-estar eco­ nômico meramente formais.utiliza unicamente meios pacíficos na composição dos conflitos de classe. Relativamente bem-sucedida nos Estados mais evoluídos política e econo­ micamente. A omissão do Estado quanto à disciplina da atividade econômica ensejaria a concen­ . retrógrada. Na verdade. sempre. e as crises pe­ riódicas que o afligem. criar a infraestrutura de uma nova social-democracia. individualis­ mo c liberdade econômica.a expressão é do pró­ prio Adam Smith . proporcionando ao indivíduo a máxima autonomia de vontade. bem assim a propriedade pri­ vada restringida pelo interesse social. devendo o Estado abster-se dc interferir na atividade eco­ nômica.230 Teoria Geral do Estado Hoje. mera somatória de interesses privados. o liberalismo nascente elegeu. Enquanto a so­ cial-democracia europeia . a social-democracia ainda não se adaptou inteiramente ao Terceiro Mundo. então. nos Estados mais adiantados. A mão invisível da Natureza . mesmo que por vias alternativas. uma ideologia conservadora. a social-dcmocracia defende uma ordem econômica eclética. a orientação dc Adam Smith de que o homem age. na defesa de seus próprios interesses. vale reconhecer. Doutrina flexível. É sabido que não foi bem isso o que ocorreu. limitando-se o Estado a zelar pela preservação de ordem tipicamente burguesa. conforme necessá­ rio. nos Estados menos desenvolvidos passou a ser considerada. quando isso ocorre.se encarregaria de ordenar as relações entre os homens.que tem muito do socialismo fabiano ou contemporizador . conseguindo. A realiza­ ção do bem individual de cada cidadão representaria o próprio bem comum. o Gover­ no intervém para restabelecer o equilíbrio ameaçado. pois a liberdade burguesa só existe para a própria burguesia. parecem ser medidas radicais e violentas. a social-democracia defende a economia de mercado com a participação de todos. como verdade absoluta. prosperida­ de econômica e assistência social.

Disso resulta que a atividade econômica. como o faz Samuel P. Com a derrubada do muro de Berlim. para a iniciativa privada. abrindo as fronteiras dos Estados menos desenvolvidos para uma indiscriminada exploração econômica estrangeira. Ora. involuindo para os bons tempos do laissez-faire. na realidade voltada para a ressurreição das leis de mercado. sob o pretexto de modernizar o Esta­ do e reduzir seu tamanho. dirigida e ad­ ministrada não pelo Estado. 683). Articuladas entre si. Observa. no mundo con­ temporâneo. Pois bem. p. cujos efeitos já se fazem sentir. o capitalismo. foi uma tentativa desesperada de reavivar a atividade econômica estagnada pelo ma­ rasmo burocrático. Huntington. é na verdade planificada. em con­ trapartida. na União Soviética e nos Estados socialistas do Leste Europeu. o neoli­ beralismo. ao descontentamento com o liberalismo. Vale-se do prestígio da palavra liberdade para sustentar. embora pífia. enfim. Referido autor não leva em conta que a liberdade entre desiguais conduz à injustiça. qual seja. pretensamente uma nova doutrina. descontentes dc toda espé­ cie. Surgiu. uma preocupante maioria de despossuídos. passagem ao seu rival histórico. com inteira procedência. mas sim um mercado dirigido por corporações transnacionais. equiparar a liberdade de vida. que adotam notória estratégia de dominação dos mercados. O que ele c outros neoliberais defendem é uma liberdade que termina por autodestruir-se (Enciclopédia de la política. Ao observador atento e sereno. ter empresas. seja no plano interno ou no internacional. não é menos verdade que este foi substituído por uma de­ sordenada privatização de bens públicos. assim. que a liberdade de trabalhar. passando a economia. se o de­ sabamento dos regimes marxistas revelou a ineficácia de um sistema estratificador dos meios de produção. surgindo. o neoliberalismo. liberando a propriedade privada de encargos sociais e colocando a di­ reção da economia nas mãos dc particulares. enriquecer. Nisso há uma total falta de perspectiva. de imprensa ou qualquer das liberdades fundamentais do ser humano à liberdade de investir na economia. resta evidente que prevalece. que simbolizou a própria queda de um socialismo viciado e o término da chamada Guerra Fria. já em fins dos anos 1980 e no início da década dos 1990. Em outras palavras. não uma teórica liberdade de mercado. em potencial ameaça às instituições burguesas. então diretor do Instituto de Estudos Estratégicos da Universidade de Harvard. se no Ocidente o neoliberalismo foi uma resposta. Rodrigo Borja que o neoliberalismo se funda em enorme falácia. de opinião. o regime so­ cialista cederia. manipulam a economia na direção de seus próprios interesses. mas pela iniciativa privada. O próprio poder de Esta­ dos subdesenvolvidos ou em desenvolvimento acha-se condicionado à planificação e operação das grandes empresas nacionais ou transnacionais. . investir e ter propriedades sem a intervenção do Estado pertence ao mesmo gênero das grandes liberdades do homem.8 Ideologias 231 tração dos meios de produção nas mãos de alguns privilegiados. aparentemente livre. após décadas de experimentação socialista.

Não chega também a ser uma doutrina. 9) .10. na atual etapa do capitalismo. p. a fim de fortalecer o sistema capitalista e resistir à pressão dos Estados socialistas da Europa e do Terceiro M undo. É uma ideolo­ gia . (O colapso do neoliberalismo. formada por empresários. políticos e economistas influentes dos Estados Unidos. cabe razão a Nilson Araújo dc Souza quando afirma: o chamado neoliberalismo não é uma teoria científica. para estabelecer uma coesão maior entre as gran­ des corporações transnacionais. na cidade de Tóquio. reuniu-se uma Comissão denominada Trilateral. Nem muito menos uma cor­ rente de pensamento científico.1973. da Europa e do Japão. Desse fato. como tantos outros semelhantes.mais propriamente.232 Teoria Geral do Estado Em 23. e o elemento central da ideologia da oligarquia financeira que domina o mundo.

Rio de Janeiro/São Paulo. 2008. Itatiaia. O historiador Plutarco afirma que os povos da época em que Alexandre expandia seu império aceitavam dc bom grado fazer 233 . 2008. Curso de ciência política (teoria do Estado). s. São Pau­ lo. 2002. ra ra Guy. v. Pedro. Al b u q u e r q u e m e l l o . I. e fundando um Estado universal. 2. salvetti n e t t o . O segredo dos hititas. casou-se com uma das filhas do rei Dario III. Civilisations antiques. 14. 2008. t e i x e i r a Jair. Impetus.d. Larissa. Niterói. 1957. Manual de direito internacional público. Cambridge University Press. Alexandre III. levando-a da Europa até os confins da Ásia Me­ nor. Navarra. Celso D. 1. Resumo de direito internacional e comunitário. São Paulo. após derrotar os persas. bridge. chet. 1994. ed. Unijuí. com isso. Saraiva. Larousse. Hildebrando. Paris. e fez com que muitos de seus generais se casassem com mulheres persas.. . s h ip l e y . voz que não tinha conteúdo pejorativo.0 ESTADO ENTRE ESTADOS: AS ORGANIZAÇÕES INTERESTATAIS Bibliografia: a c c i o l y . C. de. Dictionnaire des civilisations de VOrient ancien. Catheri- ne. foi um dos primeiros a levar a civilização helênica aos povos deno­ minados “ bárbaros”. 1986. não foi estranha a grandes vultos da História. o Grande. m in a ceram . Curso de direito internacional b r ie n d público. Camd o s r e is . que venha a benefi­ ciar toda a humanidade. designativo daqueles que não falavam a língua grega. buscando. 2006. 1977. Jacques e ou­ - tros. v. 1) NATUREZA DAS ORGANIZAÇÕES INTERESTATAIS A ideia da universalização de uma dada cultura superior. Belo Horizonte. simplesmente. Tribuna da Justiça. universalizar a civilização grega. Editorial Verbo . W. Graham e outros. mas. Divino.. Tanto que o próprio Alexan­ dre. Renovar. Direito internacional convencionai Ijuí. The Cambridge Dictionary of Classical Civilization. s a i . Paris. Tratados y juramentos en el antiguo Oriente Proximo. Larousse. ed.l e s .

da própria Organização das Nações Unidas. merece especial referência o expansionismo romano. sob a inspiração legendária do Im ­ pério c a influência. Após a tentativa de Alexandre. O mito dessa segurança. diante das vantagens oferecidas pela civilização grega.234 Teoria Geral do Estado parte desse. impondo a notória Pax roma­ na (30 a. de forma semelhante aos tribunais no âmbito interno desses. dessa paz. instintivamente. Esses órgãos são entidades interestatais. ensejando conflitos que cumpre ao Poder Judiciário compor. o fato é que. o relacionamen­ to social e econômico com seus semelhantes. sobre povos dc culturas tão diferenciadas. pela perspicácia do vencedor em não pretender. compreende-se: de um lado. visando aumentar seus territórios. permaneceu ainda mesmo depois que as hostes germânicas derrotaram as legiões de Roma. sob a égide de uma lei universal. única forma de alcançar plenamente seus objetivos. este obra não de um homem apenas. da mesma forma que a pessoa natural busca. o chamado Sacro Império Ro­ mano Germânico. e muitos au­ tores veem nele um precursor da Liga das Nações e. a necessidade de instituir. de forma absoluta. Roma prometeu a paz ao mundo com todas as suas con­ seqüências benéficas de prosperidade. antes respeitando-lhes as instituições culturais. tenha a formação dc um império per­ durado por tantos séculos a impor sua autoridade. sua religião aos povos vencidos. Daí. da Igreja Cristã. inseguros. muito aci­ ma da visão estreita dos medíocres. já então notável. ao formar-se. De fato. expansionistas. seus costumes. na esfera interestatal. esse período da bela História Romana: É realmente singular. E da mesma forma que a pessoa natural nem sempre mantém um relaciona­ mento amistoso com outras pessoas.C. mesmo. como sc afirmou. em razão da contínua sucessão das lutas entre eles. de outro. remanesceram na Baixa Idade Média. pre­ cisa interagir com outros Estados para realizar seu objetivo maior que é o bem co­ mum. o Estado.). cm toda a história. que. Pois bem. po­ rém. cuja natureza é a de associações de Estados criadas mediante tratados e dotadas de personalidade . com maestria. Napoleão Bo­ napartc inspirou-se consideravelmente nas realizações de Alexandre. mais que isso. impor suas tradições. pela mística de segurança que aqueles invencíveis exércitos podiam levar a grupos beligerantes. também cada Estado pode acabar se envolvendo contra seus pa­ res em conflitos velados ou guerras declaradas para alcançar objetivos puramente econômicos 011. A obra de integração engendrada pelo gênio de Roma. que é pessoa jurídica de direito internacional público. a 180 d. órgãos decisórios que fazem às vezes de árbitros nas querelas de Estados em conflito. por conseqüência. por isso mesmo in­ satisfeitos e.C. Pedro Salvetti Netto sintetiza. anteviam o futuro e conduziam os povos no rumo do congraçamento político destes. mas dc inúmeros vultos que foram se sucedendo e ampliando as fronteiras do império. Sob a tutela do Império. independentemente dos grandes vultos da História.

pois visa congregar todos os Estados do mundo e compor seus conflitos mú­ tuos na qualidade de guardiã da paz. e) obrigação de colaborar com as medidas tomadas pela organização em conformidade com a Carta. O Conselho de Seguran­ ça é formado por quinze membros. a Organização Internacional do Trabalho (OIT) e o Banco Inter­ nacional de Reconstrução e Desenvolvimento (Bird). como o Fundo Monetário Interna­ cional (FMI). sediado em Haia. Rússia. França e China). quando visam congregar. em alguns aspectos.9 0 Estado entre Estados: as organizações interestatais 235 e ordem jurídica próprias. 2) A ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS . todos situados na própria sede da ONU (Nova York). As deliberações do Conselho de Segurança obrigam os filiados à organização. Conselho Econômico e Social. como sc depreende dos versos de Quinto Horácio Flaco: . entre seus filiados. objetivando a solução pacífica dos questiona­ mentos mútuos que possam surgir entre seus filiados. A ON U conta com 192 Estados filiados. e que aca­ bou fracassando principalmente por não contar. e os demais não permanentes. política dos Es­ tados europeus é anseio que se desenvolveu na própria Antiguidade Clássica. com os Estados Unidos da América do Norte e a União Soviética. Além dessas espé­ cies. São princípios instituídos pela ONU: a) princípio da igualdade soberana dc todos os seus membros. É a sucessora da Liga das Nações. f) pressionar Estados não filiados a não tomar medidas prejudiciais à paz e à segurança internacionais. Tribunal Internacional de Justiça e Secretariado. cuja vinculação decorre de um tra­ tado (Carta da ONU) que discorre sobre os direitos e as obrigações daqueles. É o caso da Organização das Nações Unidas (ONU). distintas das de seus filiados e com objetivos específicos. d) absten­ ção do emprego de ameaça ou força material contra outros Estados. b) obrigação dc seus filiados dc cumprir os compromissos da Carta. o maior número de Estados.ONU A Organização das Nações Unidas (ONU) é uma instituição de caráter uni­ versal. Conselho de Tutela. Tais organizações têm fins universais. na Conferência de Versalhes dc 1919. 3) DIREITO COMUNITÁRIO: ANTECEDENTES DA UNIÃO EUROPEIA . eleitos pela Assembleia Geral por dois anos. como a Organização dos Estados Americanos (OEA). c) composição dc litígios internacionais por meios pacíficos. Grã-Bretanha. ex­ ceto o Tribunal Internacional de Justiça. dos quais cinco são permanentes (Estados Uni­ dos. e não prestar auxílio a Estado contra o qual a organização estiver impondo sanções. existem as organizações de fim específico. na medida do pos­ sível. embora regionais. Outras também visam objetivos também amplos.UE A ideia de uma unificação econômica e. A or­ ganização compreende seis órgãos principais: Assembleia Geral. Conselho de Se­ gurança. criada logo após a Primeira Guerra Mundial.

2o: A Comunidade tem como missão a criação de um mercado comum e de uma União Econômica e Monetária e da aplicação das políticas ou ações comuns a que se referem os arts. determinado seu art. no ano seguinte. mulher do invencível Júpiter! Deixa de soluçar e aprende a fruir uma grande fortuna: uma parte do globo receberá teu nome. uma confederação apta a unir seus destinos. na qual expunha suas ideias. Com o tempo. Em 1946. o Presidente da República Helênica.02. um elevado nível dc emprego e dc proteção social. cuja exposição de motivos é sumamente elucidativa: Sua Majestade o Rei dos Belgas. Em 1922. que instituiu a União Europeia. Sua Majestade a Rainha da Dinamarca. Napoleão c Hitler tentaram a unificação pela força intimidatória das armas. criando. na oca­ sião e pela primeira vez. e sim Europa”..Tu és. a coesão econômica e social e a solidariedade entre os Estados-membros. fez uma exortação à França e à Alemanha que se reconciliassem.] Mas Venus lhe disse: . o Presidente da República Francesa. um jovem aristocrata húngaro. publicando. o Presidente da Ir­ . Em 25. a célebre expressão Cortina dc Ferro: “Uma cortina de ferro acaba de tombar sobre a Europa! ” Na oportunidade. (Carmine. de comum acordo. Sua Majestade o Rei de Espanha. porém fracassaram.03. que instituiu a Comunidade Europeia. o Pre­ sidente da República Federal da Alemanha.] esta nação terá por capital Paris. Dante Alighieri retomou o assunto e. no que foi seguido por Jean-Jacques Rousseau e Saint-Simon. o desenvolvimento har­ monioso e equilibrado das atividades econômicas.1992 foi assinado o Tratado de Maastricht. quase contemporaneamente. o Conde Coudenhove-Kalergi. II. em face do autoisolamento do Leste Europeu... uma obra de grande repercussão. na Universidade de Zurique. um discurso consa­ grado à unificação europeia. ressaltando a necessidade da organização do Ociden­ te. 27) Séculos mais tarde. sem o saber. Churchill pronunciou.. um crescimento sustentável c não inflacionista que respeite o ambiente.236 Teoria Geral do Estado Europa entregou ao Touro sedutor o seu flanco de neve [. 3° e 3°-A. esses dois Estados. dirigiu à imprensa europeia uma mensagem reafirmando a necessidade de uma União Pan-Europeia. Em 07. va­ lendo lembrar que em 1867 Victor Hugo profetizara: “ No século X X haverá uma Nação extraordinária [.1957 foi firmado o Tratado dc Roma. intitulada Pan-Europa. promover.. sobre o qual empregou. restando evidente que apenas pela força do Direito a união seria possível. mas não se chamará França. em toda a Comunidade. um alto grau de convergência dos comportamen­ tos das economias. Kalergi passou a ser considerado um verdadeiro apóstolo da unificação.] Empalideceu com a sua própria coragem chorando o ato vergonhoso [.. em 1304 o jurista Pierre Dubois concebeu um projeto de Estados Uni­ dos da Europa. o aumento do nível e da qualidade dc vida.

nos termos das disposições do presente Tra­ tado. num quadro institucional único. respeitando a sua História. pela autoridade comunitária (duo Comissão-Conselho). Comunidade Econômica Europeia e Comunidade Europeia da Energia Atômica). Resolvidos a instituir uma cidadania comum aos nacionais dos seus países. em ordem a promover a paz. de disposi­ ções relativas à justiça e aos assuntos internos. e a aplicar políticas que garantam que os progres­ sos na integração econômica sejam acompanhados dc progressos paralelos noutras áreas. a fim de lhes permitir me­ lhor desempenhar. Resolvidos a assinalar uma nova fase no processo de integração europeia ini­ ciado com a instituição das Comunidades Européias.. a identidade europeia e a sua independência. Com a criação das três Comunidades Européias (Comunidade Europeia do Carvão e do Aço. incluindo. assim. o Presidente da Republica Italiana. a pra­ zo.9 0 Estado entre Estados: as organizações interestatais 237 landa. constituindo o cha­ mado direito comunitário originário. Resolvidos a continuar o processo dc criação dc uma união cada vez mais estreita entre os povos da Europa. de atos normativos diversos (decisões ge­ rais ou regulamentos. Sua Alteza Real o Grão-Duque do Luxem­ burgo. de acordo com o princípio da subsidiariedade. no momento próprio. de uma política de defesa comum que poderá conduzir. Sua Majestade a Rainha dos Países Baixos. Recordando a importância his­ tórica do fim da divisão do Continente Europeu c a necessidade da criação dc bases sólidas para a construção da futura Europa. à qual sc submetem os Estados signatários. resultado de uma produção legislativa realizada na conformidade dos Trata­ dos. Rea­ firmando o seu objetivo de facilitar a livre circulação de pessoas. as tarefas que lhes estão confiadas. no presente Tratado. constituem o direito comunitário derivado (Direito . os Tratados de Paris e de Roma instituíram uma ordem jurídica própria. Desejando reforçar o caráter democrático e a eficácia do funcionamento das instituições. Desejando aprofundar a solidariedade entre os seus povos. Na perspectiva das etapas ulteriores a transpor para fa­ zer progredir a integração europeia. Sua Majestade a Rainha do Reino Unido da Grã-Bretanha e da Irlanda do Norte. uma moeda única e estável. sem deixar de garan­ tir a segurança dos seus povos mediante a inclusão. a segurança e o progresso na Europa e no mundo. e que por isso deles derivam. o Presidente da República Portu­ guesa. cultura e tradições. outras resultam da adoção. Decidiram instituir uma União Europeia. a uma defesa comum. Estas últimas nor­ mas. da democracia. em que as de­ cisões sejam tomadas no nível mais próximo possível dos cidadãos. recomendações ou diretivas c decisões). Re­ solvidos a executar uma política externa e dc segurança que inclua a definição. Determinados a promover o progresso econômico e social dos seus povos. Resolvidos a conseguir o reforço e a convergência das suas economias e a instituir uma União Econômica e Monetária. Confirmando o seu apego aos princípios da liberdade.. no contexto da realização do mercado interno e do reforço da coesão e da proteção do ambiente. Assinala João Mota de Cam­ pos que uma parte dessas normas consta dos próprios Tratados. fortalecendo. do respeito pelos direitos do Homem e liberdades fun­ damentais e do Estado de Direito.

que criou a Associação Latino-Americana de Integração (Aladi). cujo resul­ tado ainda hoje não ficou claro.C. depois. que estruturou ór­ gãos e objetivos do Mercosul. sem dúvida.1994.. 4) 0 MERCADO COM UM DO S U L-M E R C O S U L Instituído pelo Tratado de Assunção.238 Teoria Geral do Estado comunitário. cidade do sul da Mesopotâmia. Argentina. mediante a supressão de direitos alfandegá­ rios. Lisboa. Paraguai e Uruguai. provavelmente em 2400 a. com vistas à inte­ gração do chamado Cone Sul. embora seja admiti­ . 19 e segs. indevidamente.C. cambial c de capitais. e v. outro tratado de paz. celebrou com Akkadc ou Agadé. que assinalava os confins do império dos hititas. forma­ da apenas por Brasil e Argentina e. povo indo-europeu de grande poderio militar. celebraram um tratado de paz e fraternidade. Esta­ mos nos referindo ao célebre tratado de paz entre Ramsés II. que teria sobrevivido milagrosamente no embate. passou a se proclamar vencedor.03. monetário. b) a livre circulação de bens e serviços entre os Estados-membros. Em 17. de 26. editando nada me­ nos que 46 exemplares do texto. dc serviços. Fundação Calouste Gulbenkian. Após o conflito. em alguma data entre 2291 e 2255 antes da Era Cristã. foi assinado o Protocolo de Ouro Preto. soberano hitita. ampliada pelo Tratado de Assunção. Seu histórico remonta ao Tratado de Montevidéu. muito maior. p. na antiga Mesopotâmia (atual Iraque). v. como visto. formalizado numa tabuinha de argila encontrada por arqueólogos c enviada ao Museu do Louvre. alfandegários. 13 e scgs. O rei hitita. Ramsés II contestara as fronteiras do Egito e da região que hoje é a Síria.1991. de transportes e comunicações. outro tratado seria. Pouco mais tarde. aceitou o desafio e a guerra foi inevitável. 2. um rei do Elam. d) a coordenação de políticas macroeconômicas e setoriais entre os Estados-membros. dois príncipes das cidades sumérias de Lagash e Uruk. fiscal. propiciando condições de concorrência entre os Estados-membros. no tocante ao comércio exterior. país situado no sudoeste do atual Irã. conside­ rado o mais antigo. embora sua importância fosse. Ramsés II. Muwatalis.. Seriam estes os primeiros tratados internacionais registrados pela História. mais tarde. em 1296 a. 1. agrícola. entretanto.. que emprestaria seu nome à celebre batalha.). após dramática batalha.12. monarca egípcio e Muwatalis. p. o Mercado Comum do Sul (Mercosul) congrega Brasil. c) a criação de uma tarifa externa e dc uma política comercial comuns. eclodindo na localidade de Kadesh. 5) OS TRATADOS INTERNACIONAIS (NATUREZA E EFICÁCIA) Por volta do remoto período entre 2404 e 2375 a. industrial. sendo estes os seguintes: a) a adaptação da legisla­ ção de cada Estado-membro à legislação dos demais.C. de 1980..

venha a sc impor a outro pela força. bem demonstra que os governantes já intuíam a importância dos tra­ tados. travada no ano de 1296 antes de Cristo. foi o mais significativo da História antiga do Próximo Oriente. E na sua esteira veio o primeiro tratado dc paz detalhado de que temos conheci­ mento. Ceram assinala: A batalha de Kadesh. sanções de ordem econômica. em forma escrita e regulado pelo Direito Internacional. morais se fariam sentir. verdadeiramente figura entre essas batalhas de primei­ ra importância para o mundo. cm época tão remota. unilateralmente. muitos dos tratados de paz que têm sido produzidos pelas nações do vigésimo século da Era Cristã. no mí­ nimo. qualquer que seja a sua designação específica. se não foi o pri­ meiro. imediatamente. 177) Vejam. W. consideram prudente alternativa compor suas querelas e atender seus interesses suasoriamente. consubstanciado em um único instru­ mento ou em dois ou mais instrumentos conexos. a outro ou outros Estados qualquer conduta de seu ex­ clusivo interesse. principalmente os de paz. Em sua obra O segredo dos hititas. E o que acontecia aos países entre o Nilo e o Tigre era. C. conduzi­ das por seus governantes. (p. política ou. já reconheciam as vantagens da composição amigável de suas dissidências. assim como da balança do poder entre o Egito e Hatti. supostamente. a história do mundo. A Convenção de Viena. entre o faraó Ramsés II e o rei hitita Muwatalis. confere a seguinte definição des­ te ato: Tratado significa um acordo internacional concluído entre Estados. embora haja acordos de outra natureza no plano interestatal. seria praticamente impossível um Estado impor. mediante contratos. Qual a natureza do tratado internacional? Qual sua eficácia? O tratado é a fonte primeira do direito internacional c. É a primeira batalha da que somos capazes dc recons­ truir. Há outro aspecto fascinante nesta batalha junto ao rio Orontes. a interde­ pendência cada vez maior imposta a cada Estado em relação aos demais. O fato é que dessa animosidade surgiu um tratado de paz que. um pacto que ultrapassa. de 1969. . Ela decidiu o destino da Síria e da Palestina. também as antigas sociedades políticas. tem ense­ jado a multiplicação dos tratados. A complexidade crescente das relações da comunidade internacional. sem falarmos no ubíquo terrorismo que solapa o mo­ ral de qualquer Estado que. tangidas pela razão. sobre tratados. em sabedoria política.9 0 Estado entre Estados: as organizações interestatais 239 do por muitos historiadores que os egípcios teriam sido fragorosamente derrota­ dos. naqueles tempos. o fato é que por seu intermédio se regem as matérias mais importantes. a antiguidade do acordo celebrado entre egípcios c hititas. tendo em vista a participação direta dos Estados interessados. além de ser manifestação de vontade objetiva democrá­ tica por excelência. Como as pessoas naturais. Hoje.

geralmente tribunais internacionais (Estatuto de Roma do Tribunal Penal In­ ternacional. com fundamentos e des­ tinatários distintos. a ordem internacional rege rela­ ções entre Estados. de 1998. de Albuquerque Mello. Curso de direito internacional público. Ademais. Nesse senti­ do. b) habilitação dos agentes signatários. f) Compromisso . qual delas deve prevalecer? Duas correntes doutrinárias se opõem no tocante à vigência dos tratados no plano inter­ no de cada Estado. que brota da vontade de um Estado apenas. VIII). embora a denominação dualista a ela atribuída seja de Alfred Verdross. d) Acordo .o termo tem dois significados: c.ato que versa matéria cultural ou transporte. ao passo que a ordem interna funda-se na Constituição. obje­ to lícito e possível. 259. a CF adverte.ato que estabelece as regras de criação e funcionamento de novos ór­ gãos.240 Teoria Geral do Estado Embora a forma escrita seja exigida para a validade do tratado devido à im­ portância deste. b) Estatuto . que a eficácia dos tratados no territó­ . A teoria dualista foi elaborada por Heinrich Triepel. p. Celso D. a saber. podendo estas ser nacionais ou estrangeiras. Para o dualismo a ordem interna­ cional e a interna são realidades distintas. c) consentimento mútuo c válido. valendo uma referência aos seguintes: a) Declaração . g) Convênio . a ordem jurídica interna disciplina as relações entre pessoas naturais (relações de direito privado) ou entre estas e o próprio Estado em que se situam (relações de direito público interno).ato destinado a instituir princípios jurídicos ou reafirmar uma atitude política comum. No Brasil. Com efeito.trata-se dc um ato com objetivos econômico-financeiros ou cul­ turais. art. o referendo do Congresso Nacional (CF. conforme a teoria dualista.tratado em que são criadas normas jurí­ dicas. como no caso dc notas diplomáticas confirmando acordos verbais anteriores (cf. a norma internacional deve ser admitida oficialmente no âmbito des­ te. 84. para ter validade e eficácia no âmbito inter­ no do Estado. Entretanto. a ordem internacional obtém sua validade em pro­ cedimentos típicos da comunidade internacional. e) Concordata . VIII. Ora.ato utilizado para acordos sobre litígios que vão ser submetidos à arbitragem. c) Protocolo . inconfundíveis. resultando da vontade de vários Estados contratantes. a dualista e a monista. enquanto a interna se ocupa somente de pes­ soas naturais e jurídicas. a) a ata de uma conferência. no art.trata de matéria de competência comum da Igreja e do Esta­ do. esta pressupõe: a) capacidade dos contratan­ tes. b) protocolo-acordo . é relativamente ao concurso entre o tratado internacional e as nor­ mas internas de cada Estado que surgem a maiores indagações. d) no caso do Brasil. é fato que alguns autores ainda consideram a forma oral de certos acordos internacionais. O tratado é apenas uma dentre as espécies da grande família dos atos inter­ nacionais de consenso. Havendo conflito entre a norma internacional e a norma interna. orientação adotada em 1928 na Convenção de Havana sobre tra­ tados. c. nota). 84. Quanto à eficácia dos tratados. exclusivamente.

não pode haver duas ordens jurídicas independentes. como se observa nos arts. re­ tira sua validade daquela que lhe é imediatamente superior. de 1986. (Pacta sunt servanda) Todo tratado em vigor obriga as partes e deve ser cumprido por . a do monismo internacionalista e a do monismo nacionalista. cujo expoente é Hans Kelsen. sobre tratados. onde reina. a Gründnorm ou norma fundamental. Se a organização do Estado mudar. da Lei Magna.] não haveria conflito de fontes nas relações entre Direito Internacional e Direito Interno.1. mas apenas uma. A primeira afirma a absoluta primazia do trata­ do sobre a ordem interna: havendo conflito entre eles. acordos ou atos internacionais que acarretem encargos ou compromissos gravosos ao patrimônio nacional. exclusivamente. Assim. a ordem jurídica internacional c as ordens jurídicas in­ ternas seriam apenas comunicantes. Os tratados continuarão a produzir os seus efeitos. o qual. validade decorrente daquele. [. a partir do momento da transformação da norma internacional cm norma interna. de 1928.. de maneira que a execução seja impossível. 11 da Convenção de Havana sobre tratados. O monismo viria a se cindir cm duas correntes. a não ser a moral.. até chegarmos ao ápice da pirâmide. Assim. pacta sunt servanda. pois. dispositivos estes que dizem: Art. haja vista terem.] Art.. Uma norma. não es­ taria subordinado a qualquer espécie de ordem. norma que se conjuga com o art. que elaborou com outro jurista. daí a denominação de sua dou­ trina. ainda quando se mo­ difique a constituição interna dos Estados contratantes. diz Kelsen. ademais. como lembra Larissa Ramina. A superioridade hierárquica do direito internacional sobre o direito interno seria es­ sencial da própria existência deste. definitivamente. ao Congresso Nacional resolver. a norma de direito internacional fundada no costume. os tratados serão adaptados às novas condições. o que se coaduna com a moderna concepção da soberania. Estado so­ berano é aquele que se acha diretamente subordinado ao direito internacional. que diz competir. existindo duas ordens jurídicas independentes. Kelsen afirma o primado do direito internacional. Para o conhecido mestre vienense. e 26 e 27 da Convenção de Viena sobre o Direito dos Tratados entre Estados e organizações internacionais ou entre organizações internacionais. qual seja. estas não poderiam se chocar: a recepção do Direito Internacional seria realizada mediante sua transforma­ ção cm Direito Interno. 26. segundo a qual. mostra-se antípoda do pensamento dualista. Quanto à teoria monista. soberana. 11. 4 9 . como observa Larissa Ramina [.9 0 Estado entre Estados: as organizações interestatais 241 rio brasileiro depende de referendo do Congresso Nacional. Kelsen justifica o monismo invocando sua conhecida teoria da pirâmide nor­ mativa. desvinculado daquele. as normas de direito interno. prevalece a norma de direi­ to internacional. Adolf Mcrkl. por divisão de território ou por ou­ tros motivos análogos.. no caso.

b) crimes contra a humanidade (art. 1). a saber: a) crimes de genocídio (art. com vista a determinar se uma ou mais pessoas identificadas deverão ser acusadas da prática desses crimes. 1. E para que haja recepção dessa pela ordem ju­ rídica brasileira. arts.TPl O Tribunal Penal Internacional (TPI) é uma pessoa jurídica de direito públi­ co externo. havendo conflito entre uma norma interna e uma internacional. Quanto à teoria monista nacionalista. 84. 4o.07. §§ 2o e 3o.06. As penas privativas de liberdade serão cumpridas num Estado indicado pelo Tribunal. O Estado da execução não obstará a que o condenado apresente um tal pedido. devem ser obedecidos os dispositivos constitucionais respectivos. . com recepção na ordem jurídica brasileira desde 06. caput. c) crimes dc guerra (art. bem assim outros crimes contra a humanidade.2002. O direito público brasileiro consagra essa corrente. A competência do Tribunal restringir-se-á aos crimes mais graves que afetam a comunidade internacional. 48. de 17. 3o. a pessoa condenada pelo Tribunal poderá. de 06. 7°). vinculada à União Europeia (UE). 4. de 25. III e V. deve prevalecer aquela. e 109. impõe-se a to­ das as outras. 4 9 . 112. a partir de uma lista de Estados que lhe tenham manifestado a sua dis­ ponibilidade para receber pessoas condenadas. Art. Qualquer Estado-parte poderá denunciar ao procurador uma situação em que haja indícios de ter ocorrido a prática de um ou vários crimes da competência do Tribunal e solicitar ao procurador que a investigue. 4°.2002. II. Foi instituído pelo chamado Estatuto de Roma. tendo por objetivo julgar os crimes de genocídio. 6) 0 TRIBUNAL PENAL INTERNACIONAL . Um Estado-parte de um tratado não pode invocar as disposições de seu direito interno para justificar o inadimplemento de um tratado. 1). do qual o Brasil é signa­ tário desde 07. d) crime de agressão. guerra e agressão.388.Países Baixos (art. solicitar sua transferência do Estado incumbido da execução.1 .2002. O Tribunal terá competência exclusiva para decisões sobre qualquer pedido de revisão ou recurso. VIII.242 Teoria Geral do Estado elas de boa-fé. Tem personalidade jurídica internacional (art. incluída a internacional.2000.06. caráter permanente (art. como norma fundante primeira. 27. 6o).02.5o. decidir transferir um condenado para uma prisão de outro Estado. I o) e sede em Flaia . O Tribunal poderá. item 1°. Por ou­ tro lado. esta afirma a primazia da Constituição do Estado sobre as normas internacionais. a sa­ ber. 8o). a qualquer mo­ mento. pois a Constituição Federal.1998. e promulgado internamen­ te pelo Decreto n. mediante o Decreto Legislativo n. a qualquer momento.09.

postu­ ra ambígua. príncipe dos advogados e célebre orador. durante a qual manteve. de modo que o intento de facilitar. Bruto. nos sebos. um excelente complemento para a pesquisa acadêmica. escritor e político ro­ mano.). H. São Paulo. Nestor Silveira Chaves. ao mestre e ao aluno. De officiis. Nes­ te diapasão. trad. Saraiva. o que torna os textos que o leitor tem. e notas de Maximiano Augusto Gonçalves. 243 . s.d. e notas de João Mendes Neto. embora de notória importância. Antunes. como o leitor perceberá de imediato. Vale lembrar que são textos pouco conhecidos da maioria do público. Cultura Brasileira. consistente em obras ainda hoje prestigiadas. na medida de nossas possibilidades. Vale acrescentar que tais escritos revelam ideologias dc toda ordem. diante de si. hoje. de modo a ativar o senso crítico do leitor iniciante. trad. deve sua fama menos à sua atividade política. facilmente encontrados num sem-número de recentes antologias. nas quais refulge a chamada humanitas ou sabedoria civil e moral tipicamente romana.) 1 Marco Túlio Cícero (106-43 a. Rio de Janeiro. mesmo. A maior parte desta coletânea é. Ed. em respeito ao mais autêntico espírito democrá­ tico e à liberdade de opinião. cumpre ressaltar que evitamos a inclusão de excertos já conhecidos por todos. Livr.. trad. quase sempre. como Do orador. Dos deveres e Da República. Da velhice. São Paulo. não levamos em conta a vetustez ou modernida­ de dos autores. dificilmente encontrada nas livra­ rias ou. concretizado. Integram o rol seleto dos clássicos.C. e clássicos não envelhecem. o acesso a obras hoje raras fica.LEITURAS COMPLEMENTARES 10 Na seleção dos textos a seguir. 1) MARCO TÚLIO CÍCERO1 Dos deveres ("De o ffic iis ") (Tratado dos deveres. Dos deveres. do que à sua brilhante produção jurídica e filosófica.

Há alguma coisa mais humana que dar nomes tão moderados a quem nos faz a guerra? Contudo. tendo sido o pri­ meiro dispensado. contendo os motivos. pelo de hostis. com os latinos. era preciso engajá-lo de novo. quando não há aparência de perfídia. os Sabinos. não é menos indispensável a existência de uma razão legítima. só combatemos pelo império. os Cartagineses.244 Teoria Geral do Estado Por mim. se ele consentisse em ter seu filho sob sua bandeira. entendo que nunca sc deve rejeitar proposições de paz. com o outro se defende a vida. Lê-se na Lei das Doze Tábuas: Aut dies status cum hoste. ao rei Pyrro. como gostava de guerra. sendo a glória a finalidade da guer­ ra. Nas guer­ ras civis se comportam diferentemente com um inimigo e com um competidor. temperando assim a doçura da palavra com a dureza da coisa. que designava. Catão escreveu a Pompílio que. por uma questão de existência e não de supremacia. se quisessem me ouvir. XII Sobre isso quero observar: mudamos o nome de perduellis. pois que. Pompílio. com este sc disputa uma dignidade. não se tem o direito de combater”. Os . ainda quando o cerco começa a pene­ trar na muralha. que fazia suas primeiras armas. ficou no exército. De um lado. As condições que justificam uma guerra têm sido santamente consignadas no direito do povo romano. nossos maiores chamavam hostis os que chamamos agora perigrinus. ou depois dc declaração formal. a honra. e só se diz de quem toma armas contra nós. e não a que existe. uma guerra dessa natureza deve ser conduzida com maior animosidade. a justiça foi tão bem observada por nossos maiores que aqueles que tinham recebido a submissão das cidades e nações tornavam-se seus protetores. propriamente. talvez a melhor de todas. governador de uma província. mas. Cuidado em se meter em qualquer comba­ te: desde que não se é soldado. Esse general deliberou licenciar uma legião. tinha no seu exército um filho de Ca­ tão. diz ele. com o tempo. não podia legalmente combater o inimigo: tanto era ele rigoroso em observar as leis de guerra. de outro. Mesmo quando se luta pela supremacia. que dela fazia parte. quando estabelece como única guerra legítima aquela que é feita para reivindicar um território usurpado. De outro lado. os Sânitas. Sobre isso. receber generosamente os sitiados que depuseram ar­ mas e se colocaram à disposição do general. o nome se tornou duro. Temos ainda a carta que o velho Catão escreveu a seu filho Marcos. se encontrava licenciado. Com efeito. é preciso consolar os que foram vencidos pela força. uma magistratura. que foste licenciado pelo Cônsul. Fizemos a guerra aos Celtibcros c aos Cimbros como a inimigos. ao contrário. teríamos uma república. e mais adiante Auctoritas aeterna adversus hostem. inimigo. e o filho de Catão. que servia na Macedônia na época da guerra contra Perseu: “Soube.

antes da batalha de Cannes. mas os outros não se mostravam mais justos. sem exclusão do que recorreu à astúcia para se desembaraçar de compromisso. são aqueles que são tratados como mercenários aos quais se exige trabalho a troco do necessário para viverem. Observemos ainda que devemos praticar justiça mesmo com as pessoas de baixo nível. Regulus. Recusaram assim comprar com um crime a morte de um inimigo poderoso e que declarou guerra sem ser provoca­ do. deve manter sua palavra. Na primeira guerra púnica. Escutai minhas palavras! Àqueles que o destino da batalha poupar. . dignas do sangue de Eacides. retornou em seguida. Tomando por testemunha a majestade dos deuses. a palavra empenhada deve sempre refletir o que se pensa e não o que sc diz. nem resgate para mim! Não transformemos a guerra num tráfico infame! Que o ferro. foi enviado a Roma para tratar da troca de prisioneiros. Aníbal. voltou sob o pretexto de que havia esquecido qualquer coisa. foram degradados pelos censores e relegados toda a vida para a classe dos tributários. São palavras dignas de um rei. Nossos antepassados deram um lindo exemplo de justiça para o inimigo. Mas é o bastante sobre os deveres na guerra. para mim nem o ouro. Pyrro os devolverá. Um trânsfuga do exército de Pyrro ofereceu-se ao Senado para envenenar o rei. Lembra-se a nobre resposta de Pyrro quando se tratou do resgate dos pri­ sioneiros: Romanos. preso pelos Cartagineses. crendo-se quite com a sua palavra por não ter estado nos termos do tratado. Com efeito. não o ouro. Levareis vossos prisioneiros.10 Leituras Complementares 245 cartagineses foram pérfidos. XIII O cidadão. Ora. Fabricius entregaram o trânsfuga a Pyrro. Quando chegou. e preferiu submeter-se ao suplício a faltar com a palavra dada ao inimigo. Para saber quem possuirá o Império! Que o valor decida. que. decida a nossa sorte. fez uma promessa ao inimigo. No tempo da segunda guerra púnica. depois de tê-los fei­ to jurar que retornariam se nada obtivessem. Aníbal en­ viou prisioneiros a Roma para negociarem o resgate de cativos. aconse­ lhou o Senado a não devolver os cativos. c jurou voltar. depois. saindo do acampamento com permissão de Aníbal. cruel. Eu juro deixar a doce liberdade. voltou. mesmo sob pressão dc circunstâncias. apesar das súplicas de parentes e amigos. os que se tornaram perjuros. o Se­ nado e C. Ninguém de mais humilde condição que os escravos.

logo.. Gap. Todas as duas são indignas do homem. 2) SANTO TOMAS DE AQUINO Suma teológica e Suma contra os gentios (Thomas Aquinas. pois é deficitária da infinita bondade de Deus. Pois não seria perfeito o univer­ so se nas coisas só se encontrasse um grau de bondade (Santo Tomás de Aquino. que quis dar à criatura a perfeição que lhe era possível ter. por conseguinte. a Divina Sabedoria a causa da distinção das coisas para a perfeição do universo. mas a fraude é mais odiosa.J Muitos bens finitos são melhores do que um só. De todas as injustiças. Em cada uma dessas classes encontram-se espécies mais perfeitas do que as outras. Logo. 45). Suma teológica. Encyclopaedia Britannica. era-Lhc conveniente fazer muitos graus de cria­ turas.246 Teoria Geral do Estado Quanto à injustiça. cit. Sen­ do. quando enganam. a. as plantas do que os mi­ nerais. mas procede da própria intenção de Deus. Logo. Livro II.. As­ sim. como o formal exce­ de o material.). nem da diversidade da matéria. mas haver diferentes espécies e. Uma pertence à raposa. [. é cometida de duas maneiras: pela violência e pela frau­ de. 2) [.) Tradução do autor. Daí dizer-se no Gênesis: “Viu Deus tudo o que tinha feito. Suma con­ tra os gentios. à perfeição do universo contribui não só haver muitos indivíduos. nem da intervenção de al­ gumas causas ou méritos. também será causa da sua desigualdade. Por isso. é finita a bondade de toda criatura. os animais do que as plantas e os homens do que os outros animais. v.31) (Suma contra os gentios. Ora. pois. procuram parecer homens de bem. os compostos são mais perfeitos do que os elementos. outra ao leão. Nos seres naturais vemos que as espccies são gradativamente ordenadas. a bondade da espécie excede a do indivíduo. pois teriam o que tem este e ainda mais. Ao Sumo Bem compete fazer o que é melhor. a mais abominável é a desses homens que. mais acrescenta a bondade do universo a multiplicidade das es­ pécies do que a dos indivíduos de uma mesma espécie. 47.] A diversidade e a desigualdade das criaturas não procede do acaso. Ademais.. diferentes graus de coisas (Santo Tomás de Aquino. I. é mais perfeito o universo ha­ vendo muitas criaturas do que se houvesse um único grau delas. q.. 19. É o bastante so­ bre a justiça. in Britannica Great Books o f the Western World. . e era excelente7 ’ (1.

ou novos. sua obra mais conhecida. todos os meios para alcan­ çá-lo seriam válidos. Esses domínios assim obtidos estão acostumados ou a viver submetidos a um príncipe ou a ser livres. o qual. deve ter o cuida­ do de não usar mal essa piedade.) Tradução do autor. Os principados são hereditários. a italiana. Exilado em 15 12. e Tutte le opere. entre 1503 e 1512. II príncipe. procurou demonstrar como deveria agir o homem providencial que unificaria os italianos e emanciparia a Itália. César Bórgia era considerado cruel. como foi M ilão com Francisco Sforza. quan­ do o sangue senhorial é nobre já há muito tempo. dedicou-se à pesquisa histórica e à ela­ boração de obras que se tornariam célebres. Conseguida a unifi­ cação. logrando uni-la e pô-la em paz e em lealdade. Novara. entretanto. Tal diretriz acarretou-lhe a má fama dc escritor cínico e insensível. entretanto. essa sua crueldade tinha recuperado a Romanha. pensador italiano natural de Florença. sendo adquiridos com tropas de ou­ trem ou com as próprias. principalmente pelo prestígio de que ain­ da frui O príncipe. O que. Edipem. Stabilimenti Grafici Bemporad Marzoco. mas sim para um momento grave da história de uma nação. 1980. foi incumbido. ou membros acrescidos ao Estado hereditário do príncipe. que lhe inspiraram a feitura de inúmeros escritos.10 Leituras Complementares 247 3) NICOLAU MAQUIAVEL2 O príncipe (Machiavelli. tomar-se-ia um dos mais conhecidos doutrinadores do seu tempo e da atualidade. Itália. Capítulo I De quantas espécies são os principados e de que form as são adquiridos Todos os Estados. o príncipe seria perfeitamente descartável. foram e são repúblicas ou principados. como é o reino de Nápoles em relação ao rei da Espanha. especialmente os Discursos sobre a primeira década de Tito Lívio c O príncipe. 1969. Nomeado secretário da senhoria de Florença em 1498. Nesta. Firenze. mostrará ter sido ele muito mais pie­ doso do que o povo florentino. para fugir à pecha de cruel. todos os governos que tiveram e têm poder sobre os ho­ mens. bem como pela fortuna ou por virtude. Capítulo XVII Da crueldade e da piedade: se é m elhor ser tem ido ou ser amado Reportando-me às outras qualidades já mencionadas. se bem considerado for. Sendo esse objetivo nobre. deixou que Pis- Nicolau Maquiavel (1469-1527). porque cumprida sua missão. Os novos podem ser totalmente novos. . que os adquire. sem que seus detratores se apercebessem de que O príncipe não fora escrito para todos os povos e todas as épocas. digo que cada príncipe deve desejar ser tido como piedoso e não como cruel. de várias missões diplomáticas junto à corte francesa.

quando esta se avizinha. E o príncipe que confiou inteiramente em suas palavras. são todos teus. que jamais se aban­ dona. contudo. pela boca de Dido: “ Res dura. nunca fal­ tam motivos para justificar as expropriações. sobretudo. está perdido: as amizades que se adquirem por dinheiro. não obstante. ambiciosos dc ganho. mesmo porque podem muito bem coexistir o ser temido c o não ser odiado: isso conseguirá sempre que se abstenha de tomar os bens e as mu­ lheres de seus cidadãos e de seus súditos. Além disso. Deve o príncipe. não se torna possível utilizá-las. são compradas. desde que por ela conserve seus súditos unidos e leais. tementes do perigo. dentre todos os príncipes. E. enquanto lhes fizeres bem. a necessidade esteja longe de ti. que. abster-se dos bens alheios. os bens. volúveis. é quebrado em cada oportunidade que a eles convenha. Nasce daí uma questão: se é melhor ser amado que temido ou o contrário. desde que. E os homens têm menos escrúpulo em ofender a alguém que se faça amar do que a quem se faça temer. pois que. enquanto aquelas execuções que emanam do prín­ cipe atingem apenas um indivíduo. ao passo que as ra­ zões para o derramamento de sangue são mais raras e esgotam-se mais depressa. Diz Virgílio. faça-o quando existir conveniente justificativa e causa manifes­ ta. e aquele que começa a viver de rapi­ nagem sempre encontra razões para apossar-se dos bens alheios. et regni novitas me talia cogunt moliri. a vida. buscan­ do evitar que a excessiva confiança o torne incauto e a demasiada desconfiança o faça intolerável.248 Teoria Geral do Estado toia fosse destruída. posto que a amizade é mantida por um vínculo de obrigação. com prudência e humanidade. pois. visto serem os Estados novos cheios de pe­ rigos. po­ rém. no momento oportuno. encon­ trando-se destituído de outros meios de defesa. porque estes costumam prejudicar a comunidade inteira. não se alarmar por si mesmo e proceder por forma equilibrada. revoltam-se. temer a fama de cruel. Isso porque dos homens pode-se dizer. de forma que. Mas quando o príncipe está à frente de seus exércitos e tem sob seu coman­ do uma multidão de soldados. oferecem-te o próprio sangue. e não pela grandeza e nobreza de alma. et late fines custode tuerr. e. com mui poucos exemplos. como é difícil reuni-las. como se disse acima. A resposta é que seria necessário ser uma coisa e outra. por serem os homens maus. se não conquistar o amor. ele será mais piedoso do que aqueles que. cm tendo que faltar uma das duas é muito mais seguro ser temido do que amado. si­ muladores. Um príncipe não deve. por excessiva piedade. deve ser lento no crer e no agir. os filhos. é ao novo que se torna impossível fugir à pecha de cruel. fazer-se temer. em se lhe tomando necessário derramar o sangue de alguém. geralmente. O príncipe. mas. Deve. então é de todo necessário não se importar com a . que são ingratos. mas com elas não se pode contar e. posto que os homens esquecem mais rapidamente a morte do pai do que a perda do patrimônio. deixam acontecer as desordens das quais resultam assassínios ou rapinagens. mas o temor é mantido pelo receio de castigo. fuja ao ódio. c.

constituído de homens de inúmeras raças. aliada às suas infinitas virtudes. 1. tivesse ele perseverado no coman­ do. Rio de Janeiro. tanto assim que. bem. fruto do gênio de Shakespearc. pois. já que.10 Leituras Complementares 249 fama de cruel. jamais se conservará exército unido e disposto a al­ guma empresa. como lhe resultou em glória. as outras suas virtudes não seriam bastantes. condenam a principal causa da mesma. como foi dito. Os locrences. nem a insolência daquele lega­ do foi reprimida. que. p. mas vivendo sob o governo do Senado. e. conduzido a batalhar em terras alheias. Nova Aguilar. tragédias. Para prova de que. todavia. em face de seus interesses imediatos. tendo sido arruinados e abatidos por um legado de Cipião. admiram. v. sem ela. percebe-se a volubilidade do ser humano. Ed. Ora enaltecendo Brutus e ultrajando o cadáver de Cé­ sar. as vir­ tudes não lhe teriam bastado para surtir tal efeito. nunca surgiu qualquer dissensão entre eles ou contra o príncipe. cujos exérci­ tos se revoltaram na Espanha em conseqüência de sua excessiva piedade. de outro. tremendo texto. a mutabilidade da chamada opinião pública. 447 c scgs. Pedro Salvetti Netto adverte ser fundamental que a opinião pública autêntica só é possível . que­ rendo alguém desculpá-lo perante o Senado. pois que havia concedido aos seus soldados mais liberdades do que convinha à disciplina militar. deve apenas empe­ nhar-se em fugir ao ódio. paradoxalmente. Tal fato foi-lhe censurado no Senado por Fábio iMáximo. Júlio César. Em festejada obra. 4) W IL U A M SHAKESPEARE J ú lio César3 {Obras completas. ora amaldiçoando Brutus e divinizando César. menciona-se esta: tendo um exército imenso. Dentre as admiráveis ações de Aníbal.) Este belo e. realmente. o qual o chamou de corruptor da milícia romana. que um príncipe sábio. resultando tudo isso de sua natureza fácil. Concluo. tanto 11a má como na boa fortuna. homem dos mais notáveis não somente nos seus tempos mas também na memória de todos os fatos conhecidos. tão logo se soube que este deixava bens ao povo. pode-se considerar o caso de Cipião. deve apoiar-se naquilo que é seu e não no que é dos outros. esta sua prejudicial qualidade não só desapareceu. de um lado. o tornou sem­ pre venerado e terrível no conceito de seus soldados. essa sua atuação e. demonstra. não foram por ele vingados. 1988. amando os homens como a eles agrada e sendo por eles temido como dese­ ja. disse haver muitos homens que me­ lhor sabiam não errar do que corrigir os erros. Isso não pode resultar dc outra coisa senão da­ quela sua desumana crueldade. voltando à questão de ser temido e amado. escritores nisto pouco ponderados. sem aquela crueldade. Essa sua natureza teria com o tempo sacrificado a fama e a glória de Cipião. o Prof.

uns nos outros. a regressão em massa a um estado primitivo. na biga majestosa.O nobre Bruto já está na tribuna. os romanos. Pelo simples fato de fazer parte dc uma mul­ tidão.250 Teoria Geral do Estado CENA 11:0 Fórum Entram Bruto e Cássio com uma turba de Cidadãos. meus amigos.) Te r c e ir o C i d a d ã o . ora a tributar-lhe a glória.Sede pacientes até o fim! Romanos. Fora disso. Quem é aqui tão vil que deseje ser escravo? Se alguém existe. porque eu o ofendi! Quem é aqui tão estú- se conscientizada. c morte para sua ambição. . Os que desejarem ouvir-me. mas. publicou uma pequena obra intitulada A psicologia das multidões. esta é minha resposta: “Não que amasse menos César. transforma-se num bárbaro capaz das ações mais brutais e irracionais. . compatriotas e amigos! Escutai-me defender minha causa e guardai silêncio para que possais ouvir-me. como o Redemptor Hominis e o Messias . que caracterizam uma rixa ou uma horda de linchadores (cf. Record Ed. Rio de Janeiro . S e g u n d o C i d a d ã o . Acreditai-me por minha honra e respeitai minha honra para que possais acreditar-me. júbilo para sua fortuna.Eu ouvirei Bruto falar. quan­ do as pessoas se juntam numa reunião política ou. porém porque amava mais Rom a” . na qual afirmava que. 1999. na visão intuitiva da própria psicologia das massas. se responsável. bem pode­ ria. Julgai-me com vossa sabedoria e avivai vossos sentidos para que possais ser melhores juizes.Queremos que nos seja dada uma explicação! Dai-nos explicação! B r u t o . 89-90).Então.. Em 1895. levá-lo à rocha Tarpeia” (Curso de teoria do Estado. honra para seu valor. Preferiríeis que César vivesse e morrêsseis to­ dos escravos. eu o matei.. Os que deseja­ rem acompanhar Cássio. Silêncio! Br u t o . Cássio. Serão expostas publicamente as razões da morte de César. foi valente. faziam-no acom­ panhar. . a César morresse e vivêsseis todos livres? César gostava de mim e eu choro por ele. fiquem aqui. médico de profissão. Por si mesmo. . mesmo. p. São Paulo. . (Sai Cássio com al­ guns Cidadãos. eu o venero. Gustave Le Bon. . Há lágrimas para sua amizade. portanto. . digo-lhe que o afeto de Bruto por César não era menor do que o dele. como foi ambicioso. ele foi afortunado. lhe murmurava aos ouvidos: Lembra-te de que és homem. 3. pode ser uma pessoa sóbria e refinada.São Paulo. P r i m e i r o C i d a d ã o . Arthur Herman. se informada. na multidão. Bruto sobe à tribuna. o homem desce vários degraus na escada da civilização. “a opinião das massas é so­ bremaneira influenciável e. 137-8). para adverti-lo de que a mesma multidão. ao agraciarem o conquistador com as pompas e as honras do triunfo. ide à outra rua e dividi a multidão. quando tivermos ouvido separadamente um e outro. Se houver nesta assembleia algum amigo caro a César. C id a d ã o s . Se então esse amigo perguntar por que Bru­ to se levantou contra César. advertia Le Bon. / \ideia de decadência na história ocidental. Sa­ raiva. ed. 1979.Eu ouvirei Cássio e assim poderemos comparar-lhes as opiniões. eu me alegro. numa via pública. que fale. em tempo próximo.levou-o à cruz cinco dias depois. provocam. um eminente sociólogo francês. acompanhai-me e escutai. p. poderão acompanhá-lo. prossegue. exal­ tando Cristo em um domingo. Na percepção genial do agir humano. tão volúvel como a pluma ao vento da ópera de Verdi. um escravo que. seguidamente.

. não há! B r u t o .Seria melhor que não falasse mal de Bruto aqui.Que suba à tribuna pública: nós o escutaremos. . nem foram exage­ radas as ofensas que lhe valeram a morte. P r i m e i r o C i d a d ã o . .Então. Honrai o cadáver dc César e ouvi a apo­ logia de suas glórias que. que fale.Esse César foi u m tirano! Te r c e ir o C id a d ã o . . Se matei meu melhor amigo pela felicidade de Roma. . . . . . em considera­ ção a mim. Vamos! B r u t o . porque eu o ofendi. se mi­ nha pátria quiser reclamar minha morte.Vamos erigir-lhe uma estátua junto de seus antepas­ sados! T e r c e ir o C i d a d ã o . . .) P r i m e i r o C i d a d ã o . Suplicovos! Ninguém deve afastar-se. . Es­ pero uma resposta. exceto eu. T e r c e ir o C i d a d ã o . . A gló­ ria. .Q u e disse de Bruto? T e r c e ir o C i d a d ã o ..Meus compatriotas!.. To d o s . e. .Vamos carregá-lo para casa em triunfo! Se g u n d o C i d a d ã o . .) Aqui chega o corpo dele. (Sai. pranteado por Marco Antônio. .Em consideração a Bruto.Diz que.Caros compatriotas. . Subi.Não há. somente. não foi diminuída.Vamos nomeá-lo César! Q u a r t o C i d a d ã o . . nobre Antônio! A n t ô n i o . com nosso beneplácito. Foi uma bênção para nós que Roma se tivesse libertado dele.) Q uarto C i d a d ã o . Antônio pronunciará.Sim. que fale.C alem ! Silêncio! Fala B ruto. por consideração a Bruto.Calem. não ofendi ninguém.10 Leituras Complementares 251 pido que não queira ser romano? Se existir. não há dúvida. permanecei aqui com Antônio. até que Antônio haja acabado de falar. To d o s . estou pronto a usar meu punhal contra mim. .Fiquemos! Vamos ouvir Marco Antônio. que. Nada mais fiz com César do que teríeis feito com Bruto! Os motivos da morte dele estão registrados no Capitólio.As melhores qualidades dc César sejam coroadas em Bruto! P r i m e i r o C i d a d ã o . tenho uma obrigação para convosco. Quem de vós não conseguirá outro tanto? Ainda uma palavra e partirei. Bruto. deixai-me ir embora sozinho. tem uma obrigação para com todos nós. P r i m e i r o C i d a d ã o . Q uarto C i d a d ã o . que lhe valeram os méritos que possuía. (Entram Antônio e outros com o corpo de César. porque eu o ofendi! Quem é aqui tão baixo que não ame sua pátria? Se existir. dela auferirá benefícios.Vamos levá-lo para casa com vivas e aclamações! Br u t o . (Sobe na tribuna. sem tomar parte em sua morte. . um lugar na República. S e g u n d o C i d a d ã o .Viva Bruto! Viva! Viva! P r i m e i r o C i d a d ã o .

prestai-me atenção! Estou aqui para sepultar César. parecia ambicioso? Quando os pobres deixavam ouvir suas vozes lastimosas. e preciso esperar até que ele para mim volte! P r i m e i r o C i d a d ã o . Q uarto C i d a d ã o . To d o s . Não quero ser . cujos resgates encheram os cofres do Estado. Trouxe muitos cativos para Roma. alguns terão que pagar caro.252 Teoria Geral do Estado S e g u n d o C i d a d ã o .Não é.Não existe homem mais nobre em Roma do que An­ tônio. S e g u n d o C id a d ã o . Aqui. compatriotas. c. T e r c e ir o C i d a d ã o .Sc for exato. . Bruto disse que ele era ambicioso e Bruto é um homem hon­ rado. leal e justo comigo. A n t ô n i o . Bruto disse que ele era am­ bicioso. Está recomeçando a falar. . fugiste para os irracionais.. Portanto. . O mal que fazem os homens perdura de­ pois deles! Frequentemente. T e r c e ir o C i d a d ã o . neste particular.Amigos. . A n t ô n i o . era uma grave falta e César a pagou gravemente. César derramava lágrimas. agora. se estivesse disposto a excitar vos­ sos corações e vossos espíritos para o motim e a cólera. Q u a r t o C i d a d ã o . sem dúvida alguma.Vamos observá-lo agora.Silêncio! Vamos ouvir o que Antônio tem para dizer. não lhe presta uma só homenagem! Ó senhores. com eteram um grande erro c o m César. não para glorificá-lo. Era meu amigo. Todos vós o vistes nas Lupercais: três vezes eu lhe apresentei uma coroa real e três vezes ele a recusou. como todos os demais são homens honrados).Ainda ontem a palavra de César podia ser mais forte do que o universo! Agora. . . Isto era ambição? Entretanto. Que razão. mas Bruto diz que era ambicioso. cidadãos? Temo que um pior do que ele possa substituí-lo. Não falo para desa­ provar o que Bruto disse. mesmo que seja o mais miserável possível. Desculpai-me! Meu coração está ali com César. não há dúvida de que não fosse ambicioso. Bruto é um homem honrado. para pranteá-lo? Oh! inteligência. e Bruto é um homem honrado. Se assim foi.Silêncio! Vamos ouvi-lo.Notastes as palavras que pronunciou? Não quis aceitar a coroa. . César.Pobre coitado! Está com os olhos vermelhos como fogo de tanto chorar. vos detém. .Acho que tem muita razão no que está dizendo. venho falar nos funerais de César. então.. seria injusto com Bruto e com Cássio. A n t ô n i o . . . mas aqui estou para falar sobre aquilo que conheço! To­ dos vós já o amastes. pois os homens perderam o juízo!.. P r i m e i r o C i d a d ã o . . não sem motivo. os quais. .Se considerares devidam ente o assunto. são homens honrados. romanos. . ali ele jaz e ninguém.Nobres romanos!. o bem que fizeram é sepultado com os próprios ossos! Que assim seja com César! O nobre Bruto vos disse que César era ambicioso.. com a permissão de Bruto e dos demais (pois Bruto é um homem honrado. Se g u n d o C i d a d ã o . A ambição deveria ter um coração mais duro! Entretanto. como todos vós sabeis.

for­ mai um círculo em torno do cadáver de César e deixai-me mostrar-vos aquele que fez o testamento. ao ouvirdes o testamento de César. Não é bom que saibais que sois o herdeiro dele.Sede pacientes.Não vos aperteis tanto assim contra mim! Permanecei bem longe! To d o s .Estais autorizado. P r i m e i r o C i d a d ã o . então.São traidores: Homens honrados! To d o s . Colocai-vos cm volta. . Posso descer? Vós me dareis vossa permissão? To d o s . comigo e convosco. Temo ser injusto com os homens honrados.Queremos ouvir o testamento! Lede-o. amáveis amigos! Não devo lê-lo! Não é conve­ niente que saibais quanto César vos amava! Não sois de madeira. Ouça somente o povo este testamento (embora. . . para o nobilíssimo Antônio! A n t ô n i o . c irá beijar as feridas de César morto.São covardes. . Olhai: por este lugar penetrou o punhal de Cássio! Vede que rasgão abriu o invejoso Casca! Por este. dentro da tenda. não pretenda lê-lo).Sua última vontade! O testamento! S e g u n d o C i d a d ã o . Q u a r t o C i d a d ã o . no dia em que venceu os nérvios. ficareis enlouquecidos.O testamento! O testamento! Queremos ouvir o testamento de César.Não vos aproximeis do ataúde! Não vos aproximeis do corpo! S e g u n d o C i d a d ã o . a ser injus­ to com homens tão honrados! Mas. .Se tiverdes lágrimas. . . desculpai-me. quando morrer.Lede o testam ento! Q uerem os ouvi-lo. aqui está um pergaminho com o selo de César.) T e r c e ir o C i d a d ã o . o bem-amado Bruto o feriu! E. sendo homens. observai como o san­ gue de César parece que se lançou atrás dele. . para sua descendência. -Tereis paciência? Esperareis um pouco? Fui longe demais contan- do-vos isto. A n t ô n i o . o mencionará nos testamentos.Recuai! Dai lugar! Retirai-vos! A n t ô n i o . .Lugar para Antônio. como precioso legado. . se vós o soubésseis. . para transmi­ ti-lo. . Era uma tarde de verão.10 Leituras Complementares 253 injusto com eles! Prefiro ser injusto com o morto. .D am o s! (Antônio desce do púlpito. ficareis inflamados. preparai-vos agora para derramá-las. . Eu o encontrei 110 gabinete dele: são as suas últimas vontades.Formai um círculo. Marco Antônio! To d o s . 0 I1 ! que poderia acontecer? Q uarto C i d a d ã o . cujos punhais feriram Cé­ sar! É o que temo! Q u a r t o C i d a d ã o . . . ao retirar o maldito aço. Q u a r t o C i d a d ã o . Todos vós conheceis este manto. A n tô n io ! É pre­ ciso que leiais o testam ento! O testam ento de César! A n t ô n i o . como se quisesse certificar-se de que S e g u n d o C i d a d ã o . lembro-me da primeira vez que César o usou. mergulhando os lenços em seu sangue sagrado! Mendigará um ca­ belo como relíquia e.Descei! . assassinos! O testamento! Lede o testa­ mento! A n t ô n i o . não sois de pe­ dra.Quereis compelir-me então a ler o testamento? Pois. mas sois humanos e.

meus compatriotas! Naquele momento.. enquanto triunfava sobre nós a traição sangrenta! Oh! Estais choran­ do agora e percebo que sentis a marca da piedade! São lágrimas generosas! Almas bondosas.Nós o escutaremos! Nós o seguiremos! Nós morrere­ mos com ele! A n t ô n i o . nem palavras. sem dúvida.. nem ação. a ingratidão. não me deixeis excitar-vos com esta repentina explosão de revolta! Aqueles que consumaram este ato são homens hon­ rados. Quais eram as queixas secretas que tinham para fazê-lo? Ai! E O que igno­ ro. . apresentarão a todos vós as razões que possuíam. ó deuses. quando o nobre César viu que ele o feria. então! Vinde! Vamos procurar os conspiradores! A n t ô n i o . Procuremos!.. . Matemos!. quando só vistes ainda as feridas do manto de César? Olhai: aqui está o próprio César. Oh! que queda foi aquela. para roubar vossos corações! Não sou orador como Bruto. desfigurado pelos traidores! P r i m e i r o C i d a d ã o . como estais vendo.. mas. eu.Vingança!.... Não vim aqui.Bons amigos. Vamos!. nem o poder da palavra capazes de excitar o sangue dos ho­ mens! Falo muito claramente e só vos digo o que todos vós já conheceis. .Oh! dia calamitoso! Q u a r t o C i d a d ã o .Silêncio! Escutai o nobre Antônio! S e g u n d o C i d a d ã o .. onde o sangue não parava de jor­ rar!.Nós nos revoltaremos! P r i m e i r o C i d a d ã o . . como sa­ beis. . c. .. Estou mos­ trando as feridas do bondoso César..Oh! traidores.Ouvi-me ainda. Queimemos!. pobres bocas mudas e peço-lhes que fa­ lem por mim! Se eu fosse Bruto. nem eloqüência. pois. . mais poderosa do que os braços dos traidores. e se Bruto fosse Antônio.254 Teoria Geral do Estado era ou não Bruto quem tão desumanamente abria a porta! Porque Bruto. cobrindo o rosto com o manto. amáveis amigos..Incendiemos a casa de Bruto! Te r c e ir o C id a d ã o .. estalou seu poderoso coração. pobres. como todos vós sabeis.Seremos vingados! To d o s . . capaz de comover e levantar em motim as pedras de Roma! Todos. nem mérito. com que ternura César o amava! Esse foi o mais cruel de todos os golpes. compatriotas! Ouvi-me ainda falar! . venceu-o completa­ mente! Então.Oh! visão sangrenta! S e g u n d o C i d a d ã o . Não deixemos que nenhum traidor fique vivo! A n t ô n i o . era o anjo de César! Julgai.. bandidos! P r i m e i r o C i d a d ã o . . compatriotas! P r i m e i r o C i d a d ã o . vós e todos caímos. Não tenho espírito. . por que chorais. o grande César caiu aos pés da estátua dc Pompcu. Degolemos!.Vamos. . meus amigos. . .Oh! lamentável espetáculo! S e g u n d o C i d a d ã o . .Oh! nobre César! T e r c e ir o C i d a d ã o . . esse Antônio perturbaria a serenidade de vossos espíritos e colocaria uma língua em cada uma das feridas de César..Esperai. Eles são sensatos e honrados e. um homem franco e simples que amava meu amigo e isso sabem perfeitamente bem os que me deram publicamente licença para falar a respeito dele.

Silêncio! A n t ô n i o . jamais. Aqui estava um César! Quando aparecerá outro? P r i m e i r o C i d a d ã o .Silêncio! Ouçamos Antônio!. a menos que absolutamente necessária.. ele lega setenta e cinco dracm as.Amigos. do qual derivam seu próprio po­ der e sua autoridade”. nunca! Vinde. Dele se disse que não desejava viver o que não c vida. . . um Estado realmente livre e esclarecido. . da qual pinçamos um trecho. ele vos deixa todos os seus passeios.Nobilíssimo César! Vingaremos a morte dele! T e r c e i r o C i d a d ã o . Cultivou um individualismo radical. Nobilíssimo Antônio! A n t ô n i o . formou-se em Harvard. . .A q u i está ele c c o m o selo de César. vamos embora! Queimemos o corpo dele em lugar sagrado c com as tochas incendiaremos as casas dos traidores! Levantai o corpo! S e g u n d o C i d a d ã o . . po­ rém romântico. ensaísta e poeta norte-americano. Lega-os perpetuamente para vós e para vossos herdeiros como parques públicos. . Desobediência civil. seus pomares recém-plantados deste lado do Tibre. .Oh! régio César! A n t ô n i o . 1985. não sabcis o que ides fazer! Que fez César para assim merecer vossos afetos? Ai. .10 Leituras Complementares 255 . então. in d iv id u alm e n te . dizer-vos. 47-8. A n t ô n i o . . Em sua obra mais conhecida. p. seu individualismo resta patente quan­ do diz: “Não haverá.. 4 Henry David Thoreau (1817-1862). A cada c id a d ã o ro m a n o . nem praticar a resignação. Esquecestes o tes­ tamento de que vos falei. ten­ do sido aluno e grande amigo de Ralph Waldo Emerson. a cada h o m e m . vós o ignorais! Devo. . T o d o s . até que o Estado reconheça o poder do indivíduo como um poder mais alto e independente.Nunca. Grupo Cultural Zero.Derrubai as arquibancadas.É verdade! O testamento! Fiquemos para escutar o testamento! To d o s .) Tradução do autor. estranho ao individualismo egoísta burguês.Além disso. . seus jardins pri­ vados. . dadãos transportando o corpo de César.Ide procurar o fogo! T e r c e i r o C i d a d ã o . as janelas e tudo! (Saem Ci­ Se g u n d o C id a d ã o .Ouvi-me com paciência! T o d o s .) 5) HENRY DAVID THOREAU4 Desobediência c iv il (Madrid. para que possais passear e divertir-vos.Derrubai os bancos! Q u a r t o C i d a d ã o .

não passa de um artifício. Gostaria de vê-lo realizado de uma forma mais rápida e sistemática. embora recente. mas que perde. O exército permanente é apenas o braço do governo perma­ nente. Não educa. . incólume. antes de mais nada. conforme se disse. N ão mantém o país livre. O governo. Porque o go­ verno é um recurso mediante o qual os homens conseguiriam viver em paz uns com os outros c. nos anos 1846 a 1848. Quanto ao “atual conflito mexicano” referido na antologia. a não ser abandonar o próprio rumo. na melhor das hipóteses. sem maiores preocupações. porque as pessoas querem ter uma maquinaria complicada e ouvir seu estrondo para satisfazer a ideia que têm do governo. Apesar disso. corre o risco de ser violado e corrompido antes que o povo possa fazer valer sua vontade por seu intermédio. As objeções que foram feitas ao exército per­ manente. O mesmo governo. o México perdeu o Texas. c to­ dos. trata-se da guer­ ra travada entre os Estados Unidos e o México. senão uma tradição. por­ que. normalmente. desacreditados os ideais pacifistas de Thomas Jefferson e iniciado o processo imperialista estadunidense nas Américas. oxalá também se façam ao governo permanente. e conseguiriam muito mais se o governo não se intrometesse. Não passa de uma escope­ ta de madeira. a cada momento. útil. enganar-se a si mesmos. especialmente na Amé­ rica do Sul. Nela. Observem que no atual conflito mexi­ cano um pequeno grupo utiliza o governo permanente em benefício próprio. mas nem por isso é menos necessário. esse governo jamais assumiu qualquer responsabilidade espontaneamente. porque um só homem pode dobrá-lo à sua vontade. Desta maneira os governos demonstram com que sucesso é possível enganar os homens e. e quando os homens estiverem preparados para ele. uma parte de sua integridade? Não tem a vitalidade ou a força de um mero ser huma­ no. sejam inúteis. todos devemos aceitá-lo. embora a maioria dos governos. algumas vezes. o governo será tanto mais útil quanto mais deixe em paz os governados. após o que chegaríamos àquele em que também creio: “O melhor governo é o que não governa nada cm absoluto”.256 Teoria Geral do Estado Aceito. para seu próprio proveito. terminada com o Tratado de Guadalupe/Hidalgo. que se esforça por prolongar-se. O gover­ no americano o que é. o lema: “ O melhor governo é aquele que me­ nos governa”. até a posteridade. o Novo México e a Califórnia. muitas respeitáveis e que devem prevalecer. tal será a espécie de governo que terão. N ão pacifica o oeste. o povo não deu seu consentimento a esse ponto. que é apenas a forma escolhida pelo povo para fazer va­ ler sua vontade. Foi graças ao próprio caráter que os americanos conseguiram o que pos­ suem. É excelente. mesmo. com a maior convicção.

O povo. 20-5. e 700 deputados com mandatos de dois anos. p. Somen­ te cada indivíduo do sexo masculino tem sua vez de comandar. Mas como neste período continua-se a morrer. É impossível imaginar uma soberania. estão com a razão e seria completamente inútil continuar a discutir. Evidentemente.Livraria José Olympio Editora. é possível que as partes não se tenham feito bem entender. aqui se esconde al­ gum equívoco. vez por outra. Assim pois. Tudo devia ser feito por intermédio dos homens. sem imaginar um povo que consente cm obedecer. Basta enunciar o slogan: o povo é soberano. se os adversários da origem divina do poder não pretendem dizer mais que isto. para sentir que ele care­ ce de um comentário. porque o povo que manda não é o povo que obedece. é o mesmo que dizer que Deus não é o cria­ dor do homem. é bem verda­ de que a soberania sc funda no conscntimento humano. a imaginação fica estarrecida ante o número formidável de reis que morrem sem ter reinado. como sobre tantos outros.10 Leituras Complementares 257 6) JOSEPH DE MAISTRE O pensamento s o c ia l cristão antes de M arx (Textos e comentários pelo P. exerce a sua soberania através de seus representantes. Tal comentário não se fará esperar. e como os eleitos po­ dem reeleger os já eleitos. cada francês se veria eleito soberano. de repente. 1972. terminaria a soberania. Fernando Bastos de Ávila S. . ao menos no sistema francês. A Deus não interes­ sava empregar meios sobrenaturais para fundar impérios. A ver as coisas de modo sumário e num nível mais terra-a-terra. porque Ele se serve dos homens para a constituir. se decidisse cm bloco a não obedecer.J. numa periodicidade mais ou menos de 3500 anos.) A soberania do povo O povo é soberano! É o que sc diz. Sobre este ponto. O povo é um soberano que não pode exercer a soberania. para não dizer um erro. . porque todos temos um pai e uma mãe. Mas é mister examinar com mais seriedade a questão. Co­ mecemos pois por situar claramente a questão. Por exemplo: suponhamos que existam hoje na França 25 milhões de homens sem contar as mulheres. Mas soberano de quem? Pelo visto de si mesmo. Se um povo. Tem-se discutido com veemência o problema da origem do poder: a sobera­ nia vem de Deus ou dos homens? Não sei se já se observou que as duas alternati­ vas podem ser verdadeiras. Se esses 25 milhões de homens fossem imortais e se os deputados não fossem reelcgívcis. Mas dizer que a soberania não vem de Deus. Mas então o povo é também vassalo. durante certo tem­ po. eis a explicação. A coisa come­ ça a se esclarecer.

salvo uns 20.. haverão de tomar conhe­ cimento de manhã ao acordar que eles têm um rei. como também não é contraditório afirmar que as leis vêm de Deus e que elas vêm dos homens. porque na rua será um atropelo.258 Teoria Geral do Estado Todos os teístas haverão de convir que aquele que viola as leis se opõe à von­ tade divina e se torna culpado perante Deus.. é apenas como instrumento meramente passivo. também a soberania e as leis. que não pode existir sem a soberania. não se contradizem de for­ ma alguma. porque foi Deus que criou o homem sociável.”. que Deus seja. Da mesma forma.. apesar de violar apenas disposições humanas.. o povo está por fora e se nelas entra. o povo não consentirá jamais. e os partidários do sistema oposto não podem negar. essas leis vêm também dos homens. ... Com estas precauções estamos certos de não nos extraviar e assim podere­ mos aceitar sem riscos o que disse aquele escritor: não venho aqui dizer-vos que a soberania vem de Deus ou que ela vem dos homens. (Este povo soberano tem alguma interferência na escolha do regime pelo qual será governado? Que papel desempenha ele nas mudanças eventuais de regime?) É muito comum o erro de raciocínio que consiste em pensar que uma even­ tual contrarrevolução só poderia ocorrer como o resultado de uma deliberação po­ pular: “o povo teme. Mas esta vem também dos homens. no entanto. Sabem qual será sua reação? “ Possível? Que coisa curiosa! Por que porta o rei haverá de entrar? E melhor ir tra­ tando de alugar alguma sacada. autor de tudo. As leis vêm pois de Deus. sem as quais uma so­ ciedade não pode subsistir. Cartas despachadas dc Paris anunciarão às províncias que a França tem um rei. o povo quer. F ' as províncias gritarão: Viva o Rei! Em Paris mesmo todos os habitantes.. Quanta balela! Nas revoluções. por excelência e de modo eminente. contentemo-nos em examinar juntos o que há de divino e o que há de humano na soberania. em certo sentido. Assim. Os partidários da origem divina do poder não podem negar que a vontade humana desempenha um certo papel na criação dos governos. a soberania vem de Deus. o autor desses mesmos governos. estas duas proposições: a soberania vem de Deus e a soberania vem dos homens.. por sua vez.. não será o povo que terá decretado a sua volta. Foi Deus que assim quis a sociedade e. para inaugurar o governo revolucionário.” Se voltar a mo­ narquia. Talvez não mais do que qua­ tro ou cinco pessoas darão amanhã um rei à França. de vez que são eles que as elaboram.. sem as con­ fundir. Basta pois se entender sobre os termos. neste sentido que Ele quer que existam leis c que se­ jam obedecidas. autor especialmente da sociedade. ou seja que a forma de go­ verno é estabelecida e proclamada pelo consentimento humano. exce­ to do mal.. não é do in­ teresse do povo. como não foi o povo que a baniu. pôr as ideias no seu lugar. por conseguinte.

p. eu?. interrompidos por breves relâmpagos de ventura. O Projeto de Constituição para a Bolívia está dividido em quatro poderes po­ líticos. O eleitoral recebeu faculdades que não lhe eram assinaladas nos outros governos que se julgam entre os mais liberais. Reuni todas as minhas forças para vos expor as opiniões que mantenho sobre o modo de dirigir homens livres. se eu .) Legisladores! Ao oferecer-vos o Projeto de Constituição da Bolívia. e não sei quem so­ fre mais neste horrível conflito: se vós . Tende em vista esse mar que ireis sulcar com frágil barca e cujo timoneiro é tão inexperiente. sinto-me dominado pela confusão c pela timidez. pelos princípios adotados entre os povos livres. As­ . ainda que as lições e a experiência nos mostrem apenas vastos períodos de desas­ tres. Pareceu-me não só conveniente e útil. Os colégios elei­ torais de cada província representam os seus interesses e necessidades e servem de veículo às queixas das infrações das leis e dos abusos cometidos pelos magistrados. magistrados. conceder aos representantes imediatos do povo os privilégios que mais podem desejar os cidadãos dc cada departamento..que poderei dizer-vos do soldado que. tendo-se portanto acrescentado mais um. 151-67. pois estou convencido da minha incapaci­ dade para fazer leis. juizes e pastores.10 Leituras Complementares 259 7) SIM ON BOLÍVAR Discurso perante o Congresso Constituinte de Bolívia (1825) (Lisboa. Editorial Estampa. para depois vos atacarem simultanea­ mente: a tirania e a anarquia constituem um oceano imenso de opressão. do seu ministério divino . Quando considero que a sabedoria de todos os scculos não é suficiente para criar uma lei fundamental que seja perfeita c que o mais esclareci­ do legislador pode ser a causa imediata da infelicidade humana e ludibrio. sem com isso complicar a divisão clássica de cada um dos outros. como também fácil. Que guia será o nosso .à sombra de tão tenebrosos exemplos? Legisladores! o vosso dever chama-vos a resistir ao choque de dois monstros inimigos que reciprocamente se combatem. Atrever-me-ia a afirmar com alguma exatidão que esta representatividade partici­ pa dos direitos de que gozam os governos particulares dos estados federados. pro­ víncia ou cantão. nascido en­ tre escravos e sepultado nos desertos da sua pátria.pelos males que deveis temer das leis que me haveis pedido. 1977.pelo opróbrio a que me condenais com a vossa confian­ ça. envolven­ do a pequena ilha da liberdade que se vê perpetuamente sujeita à violência das va­ gas e furacões em fúria e que procuram submergi-la. O vosso engano e o meu compromisso disputam entre si a preferência. digamos assim. Estas atribui­ ções aproximam-se bastante das que existem no sistema liberal. Nenhum objeto pode ser mais importante para um cidadão do que a eleição dos seus legisladores. apenas pôde ver cativos com grilhetas e companheiros como armas para destrui-las? Legislador..

não dinheiro. como acontece quando existem apenas duas Câmaras. go­ vernadores. Como pas­ sarão a existir três. adquirindo o governo mais garantias. assinar o seu nome e ler as leis. a discórdia entre duas será sempre resolvida pela terceira. Os senadores criam os códigos e regulamentos eclesiásticos e velam sobre os tribunais e o culto. para poderem deliberar ausentes de paixões e com a calma da sabedoria. podemos to­ davia imaginar que se inspirou naquele país. à Paz e à Guerra. onde a nobreza e o povo estão representados em duas Câmaras. já que foi sua colônia. Dir-me-ão que os Congressos modernos se compõem apenas de duas seções. e a questão examinada pelas duas partes contendentes terá uma. os juizes do distrito. corregedores e todos os subalternos do departamento de Justiça. não existindo nobreza. Saber e honradez. dignidades e cônegos. onde. Pro­ põe à Câmara dos Censores os membros do Tribunal Supremo. três vezes. duas. Terá de professar uma ciência ou arte que lhe assegure um alimento honesto. da ociosidade e da ignorância absoluta. Assim as Câmaras guardarão entre si as considerações que são indispensáveis para conservar a união do todo. Os censores exercem um poder político e moral que tem certa semelhança com o do Areópago de Atenas e o dos censores de Roma. pelo menos. Não lhe são postas outras exclusões que não sejam as do crime. zelando para que a Constituição e os tratados públicos se­ . imparcial. Em todos os assuntos entre dois contrários sc nomeará um terceiro para decidir. Assim acontece com a Inglaterra. antes de sofrer a negativa. Cabe ao Senado escolher os prefeitos. O que é verda­ de é que dois corpos deliberantes acabam por combater-se mutuamente. É do pelouro do Senado tudo quanto pertence à religião e às leis. será analisada uma. mas deve o cidadão saber escrever as suas votações. e o mesmo acontece na América do Norte. os arcebispos. O Corpo Legislativo apresenta uma composição que o torna necessariamen­ te harmonioso entre as diversas partes: jamais se encontrará dividido por falta de um juiz árbitro. bis­ pos. Essa a ra­ zão por que Siéyès apenas defendia a existência de um. Não são exigidas nem capacidades. Cada dez cidadãos nomearão um eleitor c assim se achará representada a na­ ção pelo décimo dos seus cidadãos. que a jul­ ga. Serão eles os fiscalizadores junto do governo. novos títulos e distinguindo-se entre os mais de­ mocráticos. seria pois absurdo que nos interes­ ses mais árduos da sociedade se desprezasse tal providência ditada por uma neces­ sidade imperiosa. que nos serviu de modelo. é o que o exercício do poder público exige. deste modo nenhuma lei útil ficará sem efeito ou. mais popularidade. Clássico absurdo! A primeira Câmara é a dos tribunos e goza da atribuição de dar início às leis relativas à Fazenda.260 Teoria Geral do Estado sim se colocou novo peso na balança contra o Executivo. nem é ne­ cessário possuir bens para representar a augusta função de soberano. Tem a seu cargo a inspeção imediata dos ra­ mos que o Executivo administra com menos intervenção do Legislativo.

O presidente da República acaba por ser. firme 110 seu centro. O presidente da Bolívia participa das faculdades do Executivo americano. e com ele moverei o mundo. na tranqüilidade de um reino legítimo. O presidente da Bolívia será menos perigoso que o do Haiti. Trouxe para a Bolívia o sistema executivo da república mais democrática do mundo.10 Leituras Complementares 261 jam observados com zelo. Eles condenarão ao opróbrio eterno os usurpadores da autoridade soberana e os crimi­ nosos importantes. A mais terrível e a mais augusta das missões pertence pois aos censores. mais que nos outros. o reino. as artes. os censores devem gozar de uma inocência intacta e de uma vida sem mancha. ainda que se trate de faltas insignificantes. na nossa Constituição. tudo continuou sob o signo Boyer. o presidente da Bolívia fica privado de todas as influências: não nomeia magistrados. os homens e as coisas. mas com restrições favoráveis ao povo. Se trans­ gredirem serão acusados. nem juizes ou dignidades eclesiásticas. A estes sacer­ dotes das leis confiei a conservação das nossas tábuas sagradas. nem a morte desse grande homem. ação. as ciências. como o Sol que. Cortou-se-lhe a cabeça para que ninguém receie as suas intenções e ataram-se-lhe as mãos para que não cause dano a ninguém. O fiel da glória estará confiado às suas mãos. nem a sucessão do novo presidente. E sob a sua égide se encontra também o Juízo Nacional. uma vez que nos sistemas sem hierarquias. Prova triunfante de que um presiden­ te vitalício. é a inspiração mais sublime na or­ dem republicana. viu-se forçada a recorrer ao ilustre Petion para que a salvasse. e o modo de su­ cessão mais seguro para o bem do Estado. A sua duração é a mesma dos presidentes do Haiti. a instrução e a im­ prensa. pois são eles que devem levantar a voz contra os seus profanadores. que deve decidir da boa ou má administração do Executivo. Com a designação de Petion para presidente vitalício. to­ dos os governos conhecidos e alguns mais. Concederão honras públicas aos serviços c às virtudes dos ci­ dadãos ilustres. se torna necessário um ponto fixo à volta do qual devem girar os magistrados e os cidadãos. por parte dele. Dai-me um ponto fixo. dizia um antigo. Confiaram nele e os destinos de Haiti não vacilaram mais. Esta suprema autoridade deve ser perpétua. com faculdades de eleger su­ cessor. Além disso. sem que isso implique. Os sacerdo­ . por mais pequenas que sejam. com direitos para nomear sucessor. por isso mesmo. Esta diminuição de poderes ainda ne­ nhum governo bem constituído a sofreu nos nossos dias: ela virá trazer entraves sobre entraves à autoridade de um chefe que sempre se apresentará ao povo sob o domínio dos que exercem as funções mais importantes da sociedade. A ilha de Haiti (seja-me permitida esta digressão) encontra-se em permanen­ te insurreição: depois de haver experimentado o império. Para a Bolívia esse ponto é o presidente vitalício. dá vida ao Universo. São os censores quem protege a moral. re­ presentaram o mais pequeno perigo para o Estado. a república. Nele se estriba toda a nossa ordem.

vence­ dor de todos os exércitos. Ape­ sar de tantos inconvenientes.262 Teoria Geral do Estado tes mandam sobre as consciências. Se acrescentarmos a esta consideração as que naturalmen­ te surgem das oposições gerais que enfrenta um governo democrático cm todos os momentos da sua administração. Não há poder mais difícil de manter do que o dc um novo príncipe. Legisladores! A liberdade de hoje. os ti­ ranos não são permanentes. jamais será destruída na América. Os príncipes flamantes que se afadigam a construir tronos sobre os escombros da liberdade. A administração pcrtencc toda ao ministério. testemunhando no futuro dos séculos a sua fátua ambição pela li­ berdade e pela glória. os mais adequados para lhe captar a aura popular. não logrou triunfar de tal regra. Dessalines. e entre estas duas barreiras vê-se obrigado a avançar por um caminho angustiado e flanqueado de precipícios. não são. c se alguns ambiciosos se empenham em levantar im­ périos. As nossas riquezas eram praticamente nulas. glória e fortuna. a honra e a vida. Do primeiro recebe as leis. únicos agentes deste ministério. mais forte que os impé­ rios. Não existem nobres importantes ou grandes eclesiásticos. está longe de as­ pirar ao domínio. Obser­ ve-se a natureza selvagem deste continente que só por si exclui a ordem monárqui­ ca. apesar da influência que goza. a paz e guerra e a mandar no exército. alcançará fundar monarquias. Devendo estes ao povo as suas dignidades. Cristóbal. devorador de entraves erguidas e criador de cadafalsos régios? Não. Iturbide. Sem estes dois apoios. São estas as suas funções. na América. responsável perante os censores e está sujeita à vigilância zelosa dc todos os legisladores. E sc o grande Napolcão não conseguiu manter-se contra a ligação de republi­ canos c aristocratas quem. e satisfaz-se com a sua conservação. os juizes sobre a propriedade. As barreiras constitucionais integram uma consciência política e con­ ferem-lhe a firme esperança de encontrar o farol que a guie entre os escolhos que . Os aduaneiros e os soldados. erguerão túmulos para as suas cinzas. assim a sua influência é nula. Os limites constitucionais do presidente da Bolívia são os mais estreitos que se conhecem: limita-se a nomear os funcionários da Fazenda. O vice-presidente é o magistrado mais manietado que serviu o mando: obe­ dece simultaneamente ao Legislativo e ao Executivo de um governo republicano. legisladores: não temais os pretendentes a coroas: elas serão para as suas cabeças a espada suspensa sobre Dionísio (sic). juizes c ci­ dadãos. não poderá o presidente esperar complicá-los com as suas ambiciosas pretensões. na verdade. é preferível governar assim a ter nas mãos um impé­ rio absoluto. A igreja. e os magistrados cm todos os atos públicos. logo são informados do que os espera. num solo incendiado pelas chamas brilhantes da liberdade. parece-me que há razão para ficarmos seguros da usurpação do poder público ser mais longínqua nesta forma de governo do que em qualquer outra. do segundo as ordens. magistrados. Bonapartc.

a igualdade. este príncipe a que me atreveria a chamar a ironia do homem. mas pelo mérito e. não pela sorte. todas as garantias da ordem social. Quando inicia o exercício das suas novas funções já vai formado. senhores legisladores. O Poder Judicial que proponho goza de uma independência absoluta: em ne­ nhuma outra parte tem tanta. deverá temê-lo como inimigo encarniçado e suspei­ tar até das suas ambições mais secretas. a monarquia que governa a terra obteve os seus títulos de aprovação da herança que a torna estável. Este vice-presidente terá dc esforçar-se por merecer. monarcas mais esclarecidos e dispostos a faze­ rem felizes os povos que governassem. Estes direitos. legisladores. Sim. numa re­ pública. a segurança. concertadas com os interesses alheios.10 Leituras Complementares 263 a rodeiam: servirão de apoio contra os impulsos das nossas paixões. manda no gênero humano. A verdadeira constituição liberal está nos códigos civis e penais. porque conserva a ordem das coisas e a subordinação entre os ci­ dadãos. e a mais terrível tirania é exercida pelos tribunais . levando consigo a auréola da popularida­ de e uma prática consumada. quanto mais útil não é o método que acabo de propor para a sucessão? Que aconteceria se os príncipes fossem eleitos. Apoderei-me desta ideia e estabeleci-a como lei. em lugar de se ficarem inativos e ignorantes. E ainda que um príncipe soberano seja um menino mimado. Nada c tão conveniente. e o Legislativo es­ colhe os indivíduos que hão de formar os tribunais. pelos seus serviços. sem dúvida. Se o Poder Judicial não tiver esta origem ser-lhe-á impossível conservar. como este método: reúne a vantagem de colocar à cabeça da administra­ ção um indivíduo experimentado no manejo do Estado. e da unidade que a torna forte. fechado no seu palácio. o crédito que necessita para desempenhar as mais al­ tas funções e esperar a grande recompensa nacional . com um poder firme e uma ação constante. a anarquia que é o luxo da tirania e o perigo mais imediato e mais terrível dos governos populares. em toda a sua pureza. O presidente da república nomeia o vice-presidente para que este administre o Estado e lhe suceda no mando. são os que constituem a liberdade. que produzem grandes reveses nas repúblicas. Reparei no que acon­ tece nos reinos legítimos. os direitos indi­ viduais. O povo apresenta os candidatos. na tremenda crise das repúblicas! O vice-presidente deve ser o homem mais puro: pois se o primeiro magistra­ do não elege um cidadão justo. Sendo a herança aquilo que perpetua o regime monárquico e assim acontece na quase generalidade. Considerai. O Cor­ po Legislativo e o povo exigirão capacidades c talentos da parte deste magistrado e pedir-lhe-ão uma cega obediência às leis da liberdade. legisladores. que estas grandes vantagens se encontram reunidas no presidente vitalício e no vice-presidente hereditário. educado pela adulação e conduzido por todas as paixões. Com esta providência se evitam as eleições.o mundo supremo. No governo dos Estados Unidos observou-se ultimamente a prática de nomear o primeiro-ministro para suceder ao presidente. se pusessem à frente da ad­ ministração? Haveria.

a organização política: o importante é que a civil seja perfeita. O território da república é governado por prefeitos. Este ponto é da predileção da ciência legislativa e. e que encurtássemos a duração dos pleitos no intricado la­ birinto das apelações. as outras são nominais ou de pouca influência no respeitante aos ci­ dadãos. bastas vezes desdenhado. Pensei que a Constituição da Bolívia devesse reformar-se por períodos. corregedo­ res. esquadra. Geralmente. sem repressão. Não existe responsabilidade. um serviço seme­ lhante é mais imoral que supérfluo. interessa à república guarnecer as fron­ teiras com tropas de linha e tropas de fiscalização contra a guerra da fraude. que as nações são formadas por cidades e aldeias. que é o fim da sociedade. legisla­ dores. De acordo com as ideias em voga. Por isso recomendo uma lei que prescreva um método de responsabili­ dade anual para cada funcionário. seria de esperar que proibíssemos o uso da tortura e das confissões. e da qual dima- .264 Teoria Geral do Estado através do instrumento das leis. legisladores: os ma­ gistrados. A fiscalização militar é preferível em todos os aspectos aos guardas. Atrevo-me a instar encarecidamente junto dos legisladores para que ditem leis for­ tes e determinantes sobre esta matéria. e se houver liberdade e justiça na república. A força armada divide-a em quatro partes: exército dc linha. Toda gente fala em liberdade. muitas vezes. por isso. Deus nos preserve de ele voltar as armas contra os cidadãos! Basta a milícia na­ cional para conservar a ordem interna. Foram estabelecidas as garantias mais perfeitas: a liberdade civil é a verdadei­ ra liberdade. O Poder Judicial contém a medida do bem ou do mal dos ci­ dadãos. e entretanto as vítimas deste abuso são os cidadãos. mas os tribunais são os árbitros das coisas próprias . Sem responsabilidade. Pouco importa. e que do bem-estar destas resulta a felicidade do Estado. mas quase sempre não se passa de palavras.das coisas dos indivíduos. contudo. O destino do exército é o de guarnecer a frontei­ ra. Tende presente. A Bolívia não possui grandes costas e por isso é inútil a marinha: apesar disso esperamos obter um dia uma e outra coisa. o Estado é um caos. Garantiu-se a segurança pessoal. Não pude entrar no regime interno e nas faculdades destas jurisdições. que as leis se cumpram religiosamente e se tenham por inexo­ ráveis como o destino. milí­ cia nacional e fiscalização militar. A responsabilidade dos funcionários fica assinalada na Constituição bolivia­ na da forma mais efetiva. governadores. é meu dever recomendar ao Congresso os regulamen­ tos respeitantes ao serviço dos departamentos e províncias. Nunca será demasiada a atenção que prestardes ao bom regime dos departamentos. juizes de paz e alcaides. juizes e funcionários abusam das suas faculdades porque não se detêm com rigor os agentes da administração. o Executivo não é mais que um depo­ sitário da coisa pública. não obstante. segun­ do as exigências do movimento do mundo moral. serão distribuídos através des­ se poder. Os trâmites da reforma foram assinalados nos termos que julguei mais apropriados ao caso.

mas a religião não se integra em nenhum destes direitos. parece-me o ultraje mais chocante. para descanso dos vossos concidadãos. estou convencido que não existe um único boliviano tão depravado que pretenda legitimar a mais insigne vio­ lação da dignidade humana. têm em vista a superfície das coisas: governam fora da casa dos cidadãos. pelo contrário. que lei ou poder será capaz dc sancionar o domínio sobre tais vítimas? Transmitir. eternizar este crime eivado de suplícios. E poderá haver escravatura onde reina a igualdade? Uma tal con­ tradição seria mais o vitupério da nossa razão do que da nossa justiça: reputados por dementes. Por ela devemos fazer todos os sacrifícios. não por usurpadores. Mas não: Deus destinou o homem à liberdade e protege-o para que exerça a fun­ ção celeste do livre-arbítrio. coberta de humilhação. A religião governa o homem em casa. Os preceitos e dogmas sa­ . Numa Constituição política não deverá prescrever-se uma profis­ são religiosa.a igualdade sem ela. velar pelo cumprimento das leis religiosas e atribuir prêmio ou castigo. preferiria a sorte de um leão generoso dominando nos desertos e bosques. porque impondo a necessidade tira mérito à fé. As leis. é de natureza indefinível na ordem social c pertence à mo­ ral intelectual. Con­ servei intacta a lei das leis . devia omitir. Ninguém pode violar o santo dog­ ma da igualdade. todos os direitos. segundo a minha consciên­ cia. desaparecem todas as garan­ tias. provocasse a ira do céu. no gabinete. Um homem na posse de outro! Um homem proprie­ dade! Uma imagem de Deus subjugada como um animal! Dizei-me: onde estão os títulos dos usurpadores do homem? Foram-nos enviados pela Guiné. Legisladores! Farei agora menção de um artigo que. pois a África devastada pelo fratricídio só nos apresenta crimes. à de um cativo ao serviço de um infame tirano que. essa depende do código civil que a vossa sabedoria deverá redigir em seguida. Quanto à propriedade. A seus pós colo­ quei. a infame escravatura. quan­ do os tribunais estão no céu e quando Deus é o juiz? Só a Inquisição seria capaz de substituí-los neste mundo. Toda lei sobre ela a anula. prorrogar.10 Leituras Complementares 265 nam as outras. A lei que a conservas­ se seria a mais sacrílega das leis. Transplantadas para aqui estas relíquias das tribos africanas. a infração dc todas as leis é a escravatura. porque segundo as melhores doutrinas sobre as leis fundamentais es­ tas são as garantias dos direitos políticos c civis. Basear um princípio de posse sobre a mais fe­ roz delinqüência só poderá conceber-se com a alteração dos elementos do direito c a perversão mais absoluta das noções do dever. dentro de si pró­ prio: ela apenas tem o direito de examinar a sua consciência íntima. Aplicando estas considerações. Legisladores. Voltará ainda a Inquisição com os seus archotes incen­ diários? A religião é a lei da consciência. Que direitos poderão ser alegados para que se mantenha? Observe-se este crime sob todos os aspectos. que é a base da religião. E se não houvesse um Deus Protetor da inocência e da liberdade. cúmplice dos seus crimes. poderá um Estado reger a consciência dos seus sú­ ditos.

Inebriados por tal explosão de senti­ mentos. o Corpo Nacional que dirige o poder público para objetos pura­ mente temporais. dedicando-me uma nação. não é político. Mas o meu desespero aumenta ao contemplar a imensidade do vosso prêmio. todos devemos professá-los. mas a minha. os pais de família não podem descuidar o dever religio­ so para com os filhos. ultrapassa todos os limites! Sim: só Deus teria poder para chamar a esta terra Bolívia. Além disso. nada mais viu que fosse igual ao seu valor. acabais por ligar o meu nome a todas as vossas gerações. Legisladores. Não havendo castigos temporais nem juizes que os apliquem. não me sinto digno de merecer o nome que lhe haveis querido dar-lhe . a lei deixa de ser lei. ao ver proclamada a nova nação boliviana quão generosas e su­ blimes considerações deverão elevar as vossas almas! A entrada de um novo Esta­ do na sociedade dos outros é motivo de júbilo para o gênero humano. Bolívia que quer dizer? Um amor arrebatado pela liberdade e que o vosso impulso ao recebê-la. o homem apoia a sua moral nas verdades reveladas e professa de fato a religião. Os pastores espirituais estão obrigados a ensinar a ciência do céu: o exemplo dos verdadeiros discípulos de Jesus c o mestre mais eloqüente da sua divina moral. Onde está a repúbli­ ca. porque é au­ mentada a grande família dos povos. quando ela jamais conseguirá alcançar a expres­ são do que eu sinto com a vossa bondade que. mas este dever é moral. além de imortal tem o mérito de ser gratuita porque não merecida. Sendo tudo isto de juris­ dição divina. luminosos e de evidência metafísica. Legislar sobre a religião não cabe ao legislador que deve sim prescrever penas às infrações das leis para que estas não se­ jam meros conselhos. quando este progresso é conseguido. de modo algum. Por outro lado. mas a moral não se impõe.. O progresso moral do homem é a intenção primeira do legislador. Deus c os seus ministros são as au­ toridades da religião que atua por meios e órgãos exclusivamente espirituais. Qual não será o dos seus fundadores . parece-me à primeira vista sacrílego e profano misturar as nossas prescrições como os mandamentos do Senhor. que mais eficaz se torna quando adquirida por investi­ gações próprias. onde a cidade que fundei? A vossa exuberância. como a de Deus. nem a força deve ser empregada em dar conselhos.266 Teoria Geral do Estado grados são úteis.o Pai da Cidade Eterna! Esta glória pertence de direito aos criadores das nações que.vendo-me em igualdade com o mais célebre dos antigos .o meu! Falar da minha gratidão. mas. deverão receber recompensas imortais. nem o que ordena é senhor. as virtudes. quais são. sendo os seus primeiros benfeitores.. antecipou-sc todos os meus serviços e é infinitamente superior a quantos bens possam trazer-me os homens.e o meu! . . os direitos do homem para com a re­ ligião? Esses direitos estão no céu. neste mundo. porque depois de haver esgotado os talentos. lá se encontra o tribunal que recompensa o mé­ rito e faz justiça segundo o código ditado pelo legislador. o próprio gênio do maior dos heróis.

Na Idade Média. Regina Lúcia E de Moraes. Harokl J.Burgueses e proletários A história de todas as sociedades. Desde os primórdios da História. não aboliu os antagonismos de classe. apenas substituiu as antigas formas de luta por outras. mestres. Tal feito mostrará aos tempos que estão 110 pensamento do Eterno. 1981. plebeus e escravos.) I . que é a posse de exercer as vir­ tudes políticas. a apenas dois campos hostis. às claras ou dissi­ muladamente. Este feito. Entretanto. Laski. de forma tal que a sociedade como um todo vai se reduzindo. companheiros. vassalos. mestre de corporação e companheiro. O manifes­ to comunista de Marx e Engels. uma cla­ ra divisão da sociedade cm classes diferentes. Manifesto do Partido Comunista . cavaleiros. duas grandes classes que se defrontam: a bur­ guesia e o proletariado! . e o gozo dc serem homens. provará que sois crcdores dc obter a grande benção do Céu . levado a efeito numa guerra incessante. aprendizes e servos. temos os patrícios. felizes vós que presidis aos destinos de uma república que nasceu coroada com os louros de Ayacucho. Zahar. 2. encontra-se. que é inaudito na história dos séculos. e que deve perpetuar uma ditosa existência sob as leis ditadas pela vossa sabedoria. se confunde com a his­ tória das lutas de classes. que surgiu dos escombros da sociedade feudal. 1978. a cada vez. repito. na calma que se sucedeu à tempestade da guerra. senhores.10 Leituras Complementares 267 Isto. ligadas a uma progressiva modifica­ ção nas condições de vida. Homem livre e escravo. até hoje existentes. a qual sempre se encerrou. Na Roma antiga. patrício e plebeu. ed. Rio de Janei­ ro. São Paulo. em suma. e que decidis na posse dos vossos direitos.. senhor e servo. a existên­ cia de diversas camadas sociais subordinadas. nos­ sa sociedade burguesa se caracterizou pela simplificação dos antagonismos entre as classes. é-o ainda mais na história dos desprendimentos sublimes. ou pela reestruturação revo­ lucionária da sociedade como um todo ou pela destruição das classes em choque. paulatina­ mente. com novas classes sociais e novos meios de opressão. opressores e oprimidos em confli­ to permanente entre si. Turim. 23 de maio de 1826 8) KARL MARX E FRIEDRICH ENGELS 0 manifesto comunista (Manifesto dei Partido Comunista. Global. constata-se. Lima. trad. Einaudi. A sociedade burguesa atual. ainda. Legisladores.c a Soberania do Povo . 1978. Dentro de cada uma de todas estas classes.a única autori­ dade legítima das nações. em todos os lugares.

O sistema feudal. Neste. a colonização do Novo Mundo. o comércio. portanto. para que subsistisse . que a burguesia atual é o produto de um longo proces­ so de desenvolvimento. A própria manufatura não mais atendia a esta. Mais tarde. de uma escalada de revoluções nos modos de produção e dc troca. sendo que este promoveu um espantoso desenvolvimento do co­ mércio. trazendo com isto o apressamento do processo revolucionário 110 seio da enfraquecida sociedade feudal. com o estabelecimento da indústria moderna e do mercado mundial. a burguesia. entrementes. a na­ vegação e as ferrovias. Conclui-se. república urbana indepen­ dente (como na Itália e na Alemanha). Onde conquistou o poder. o governo não passa de um órgão destinado a gerenciar os interesses comuns de toda a bur­ guesia. ali. senhores dc verdadeiros exércitos industriais. já não poderia mais atender à crescente demanda dos novos mercados. a burguesia se firmava. ela destruiu to­ das as relações feudais. Dilacerou. terceiro estado. no período manufatureiro. Tal redundou numa expansão ainda maior da indústria. Cada fase na formação histórica da burguesia veio acompanhada de um processo político correlato: a classe oprimida pelo feudalismo despótico sc organi­ za cm associação armada e autônoma na Comuna. Os mercados. A descoberta da América e a circunavegação da África abriram para a bur­ guesia emergente novas alternativas. o vapor e as má­ quinas revolucionaram a produção industrial. Então. como contrapeso da no­ breza. cruelmente. a evolução notável dos mecanismos de troca c o aumento das mercadorias cm geral foram os fatores que ensejaram um desenvolvimento. da navega­ ção e da indústria. o comércio com as colônias. patriarcais e idílicas. os diversos la­ ços que uniam o homem feudal aos seus superiores naturais. A produção manufatureira tomou o seu lugar. do comércio. A manufatura foi substituída pela gigantesca indústria moderna. Os mestres das corporações foram substituídos pela pequena burguesia industrial. a burguesia desempenhou um papel revolucionário dos mais significativos. Os mercados da índia Oriental e da China. historicamente. e a divisão do trabalho entre as di­ ferentes corporações foi extinta.268 Teoria Geral do Estado Dos servos da Idade Média surgiram os burgueses privilegiados das antigas cidades e. destes. conquistou afinal o domínio político exclusivo do Estado representativo moderno. A descoberta do Novo Mundo permitiu que a indústria moderna criasse seu mercado mundial. aumentando seu capital e colocan­ do em plano secundário toda classe oriunda da Idade Média. Conforme se desenvolviam a indústria. os primeiros representantes da burguesia de hoje. continuavam em expansão e a demanda aumentando sem parar. com sua produção industrial monopolizada por grupos fe­ chados. constituindo a bur­ guesia moderna. nunca antes verificado. em face da divisão do trabalho em cada oficina. e a classe média industrial ultrapassada pelos capi­ tães dc indústria. tributário da monarquia (como na França). Não há dúvida de que. e como fundamento principal das grandes monarquias. da navegação e dos meios de comunicação. aqui.

dando origem a gigantescos aglomerados urbanos. Assim como submeteu o campo à cidade. aumentando descontroladamente a população das cidades e esvaziando os campos. reduzindo-as a meras es­ peculações financeiras. Com mão dc ferro. direta e brutal. Sua mercadoria barata constitui sua mais poderosa arma. o Oriente ao Ocidente.10 Leituras Complementares 269 apenas o laço frio do interesse. 1933. capaz dc derrubar até as muralhas da China e de subjugar os bárbaros mais desconfiados. Ed. os povos agrícolas aos povos bur­ gueses. submeteu. força-as a optarem pelo que ela considera civilização. São Paulo. para adotar a exploração aber­ ta. transformando o médico. em síntese. respeitáveis e veneráveis. com a ameaça de seu desaparecimento. a burguesia consegue atrair. visando. Sufocou o êxtase sagrado do fervor religioso. Arran­ cou o véu sentimental que envolvia as relações familiares. Que é uma Constituiçãof. Em suma. estabeleceu a implacável liberdade do comercio. São Paulo. de maneira ir­ resistível. 9) FERDINAND LASSALLE Que é uma Constituição? (O que é uma Constituição política . e Publ.) . A burguesia retirou a auréola de todas as atividades consideradas. Que é uma Constituição?. 1987. trad. cm nome dc todas as liberdades conquis­ tadas. obriga todas as nações a adotarem um modo burguês dc produção. mesmo as mais atrasa­ das. São Paulo. Brasil. o padre. Col. Graças ao incrível desenvolvimento dos meios de produção e às facilidades ensejadas pelos meios de comunicação. até então. o poeta. cínica. Global. 1985. liberando imensos contingentes do embrutecimento da vida rural. em trabalhadores assalariados. o insensível “pagamento a vista” nas relações hu­ manas. Kairós. Manoel Soares. afastou a explo­ ração camuflada pelas ilusões religiosas e políticas. do entusiasmo cavalheiresco. Estudos Político-Sociais. Walter Stõnncr. trad. também. o homem de ciência. do sentimentalismo pequeno-burguês nas águas geladas do cálculo egoísta. se não o fizerem. o ju­ rista. todas as nações para o seu modelo de civilização. e os países atrasados ou me­ nos evoluídos aos civilizados. transformar o mundo à sua imagem e semelhança! O sistema burguês submeteu o campo à cidade. Fez da dignidade pessoal mero valor dc troca c.

seja qual for o seu conteúdo. para orientar-nos sobre se uma determinada Constituição é. seja ela qual for? Se fizesse esta indagação a um jurisconsulto. procurariam o volume que fala da legislação prussiana de 1850 até encontrarem os dispositivos da Constituição do reino da Prússia. Todas essas respostas jurídicas. isto é. na qual se baseia a organização do Direito público dessa nação”. duradoura ou insustentável. distanciam-se muito de explicar cabalmente a pergunta que fiz. minha palestra com esta pergunta: o que é uma Constituição? Qual a verdadeira essência de uma Constituição? Em todos os lugares e a toda hora. entre essas milhares de pessoas que falam desta. sejam quais forem. Mas isso não seria. para responder-nos. o verdadeiro conceito de uma Constituição? Estou certo de que. poderemos saber se a Carta Constitucional determinada e concreta que estamos examinando se acomoda ou não às exigências substanciais. mas não explicam o que é uma Constituição. responder à minha pergunta. certamente. porém.é a fonte primitiva da qual nascem a arte e a sabedoria cons­ titucionais. pela manhã e à noite.como demonstrarei logo . Não basta apre­ sentar a matéria concreta de uma determinada Constituição. factível ou irrealizável. . proclamando-as Constituições. sem penetrarmos na sua essência. Não servem. apesar disso. a da Prússia ou outra qualquer. receberia mais ou menos esta res­ posta: “Constituição é um pacto juramentado entre o rei e o povo. está claro. depois. E. pois. para responder satisfatoriamente à pergunta por mim formulada: onde podemos encontrar o conceito de uma Constituição. porém. de nada servirão as definições jurídicas que podem ser aplicadas a todos os papéis assinados por uma nação ou por esta e o seu rei. ou outras parecidas que se possam dar. a essência constitucional. O conceito de Constituição . boa ou má. Na imprensa. e.270 Teoria Geral do Estado Capítulo 0 que é uma Constituição? Inicio. estabelecendo os princípios alicerçadores da legislação e do governo dentro de um país”. pois existe também a Constituição nos países de governo republica­ no: “A Constituição é a lei fundamental proclamada pelo país. formulo em termos precisos esta pergun­ ta: qual a verdadeira essência. existem muito pou­ cas que possam dar-nos uma resposta satisfatória. estamos ouvindo falar da Constituição e de seus pro­ blemas constitucionais. Dão-nos critérios. pois para isso se­ ria necessário que explicassem o seu conceito. iVIuitos. pois. notas explicativas para conhecer juridicamente uma Constituição. ou por isso mesmo. O u ge­ neralizando. Para isso. limitam-se a descrever exteriormente como se formam as Constituições e o que fazem. nos clubes. porém não esclarecem onde está o conceito de toda Constituição. Primeiramente torna-se necessário sabermos qual é a verdadeira essência de uma Constituição. Estas. nos cafés e nos restaurantes é este o assunto obrigatório de todas as conversas. e porque. à tarde.

protestamos e gritamos: Deixai a Constitui­ ção! Qual é a origem dessa diferença? Esta diferença é tão inegável que existem. po­ deria demonstrá-lo com centenas de exemplos. existem ainda algumas onde se declara que não é da compe­ tência dos Corpos Legislativos sua modificação. ad hoc. noutras. o verdadeiro conceito de uma Constituição? Como o ignoramos. no espírito unânime dos povos. minha pergunta: Que é uma Constituição? Onde encontrar a verdadeira essência. se a nova lei não motivasse modificações no aparelhamento legal vigente. pergunto: Qual a diferença entre uma Constituição e uma lei? Ambas. não é uma lei como as outras. tem que ser também lei. Faço outra vez a pergunta anterior: qual a diferença entre uma Constituição e uma simples lei? . deverá ser nomeada uma nova Assembleia Legislativa. não protesta pelo fato de constantemente serem apro­ vadas novas leis. Todavia. Uma Constituição. isto é. todos nós sabemos que se torna necessário que to­ dos os anos seja criado maior ou menor número de leis. senão que. Entre os dois conceitos não existe somente afinidade. uma essência genética co­ mum. por exemplo. de mais firme e de mais imó­ vel que uma lei comum. pois. pois é agora que vamos desvendá-lo. e estamos cientes disso. evidentemente. Todos esses fatos demonstraram que. é mais do que isso. criada expressa e exclusivamente para esse fim. pois no­ tamos. necessita a aprovação legislativa. há também desse­ melhança. Esta. quando mexem na Constituição. Não pode. Constituições que dispõem taxativamente que a Constituição não poderá ser alterada de modo algum. uma simples lei. a lei e a Constituição. não protestamos quando as leis são modificadas.. Lei e Constituição Aplicando esse método. têm. pois. porém. pelo contrário. decre­ tar-se uma única lei que seja nova sem alterar a situação legislativa vigente no momento da sua aprovação. para que se ma­ nifeste sobre a oportunidade ou conveniência de ser a Constituição modificada.10 Leituras Complementares 271 Repito. para reformá-la. Por isso. que faz com que a Constituição seja mais do que simples lei. consta que para reformá-la não é o bastante que uma simples maioria assim o deseje. O país. Mas. Este método é muito simples. Baseia-se em compararmos a coisa cujo conceito não sabemos com outra semelhante a ela. nem mesmo unidos ao Poder Executivo. mas será necessário obter dois terços dos vo­ tos do Parlamento. esforçando-nos para pene­ trar clara e nitidamente nas diferenças que afastam uma da outra. até. aplicaremos um mé­ todo que é de utilidade pôr em prática sempre que quisermos esclarecer o concei­ to de uma coisa. uma Constituição deve ser qualquer coisa de mais sagrado.. seria absolutamente supérflua e não teria motivos para ser aprovada. que é esta a missão normal e natural dos governos. para reger.

embora de modo obscuro. a noção de uma necessidade ativa . É possível. uma exigência da necessidade.e agora já co­ meçamos a sair das trevas . por exemplo. em outros termos. para sê-lo. Para isso será necessário: 1) que a lei fundamental seja uma lei básica . A lei fundamental. dc forma bastante confusa. de uma força eficaz que toma por lei da necessidade que o que sobre ela se baseia seja assim e não de outro m odo .pois de outra forma não poderíamos chamá-la de funda­ mental . continuamos onde começamos. ou. Este movimento res­ ponde a causas. será . uma força ativa que faz. implicitamente. se dc fato responde a um fundamento.272 Teoria Geral do Estado A esta pergunta responderão: Constituição não é uma lei como as outras. Mas a mes­ ma. indagando que ideias ou que noções são as que vão associadas a esse nome de4 4 lei fundamentar’. existem porque necessariamente devem existir. a não ser tal como de fato é. deverá informar e engendrar as ou­ tras leis comuns originárias da mesma. atuar e irradiar através das leis comuns do país. meus senhores. “lei fundamental”. pois. 3) mas as coisas que têm um fundamento não o são assim por um capricho. pois. com que todas as outras leis e instituições jurídicas vigentes no país sejam o que real­ . substituindo a outra. ou melhor. Os planetas. A ideia de fundamento traz. não poder deixar-nos satisfeitos. mais do que as outras comuns. se realmente pretende ser merecedora desse nome. ou. as que possuem um fundamento não. Mas. a lei fundamental. ou não? Se não existissem tais fundamen­ tos. 2) que constitua . que são as casuais e as fortuitas. como poderíamos distinguir uma “lei fundamental” de outra lei qualquer para que a primeira possa justificar o nome que lhe foi assinalado. se é o resultado como preten­ dem os cientistas da força da atração do Sol. movem-se de um modo determinado. que nesta resposta se en­ contre. a verdade que estamos investigando. é o bastante isto para que o movimen­ to dos planetas seja regido e governado de tal modo por esse fundamento que não possa ser de outro modo. a fundamentos exatos. Intentemos. Imediatamente surge. a diferença entre lei fundam ental e outra lei qualquer. O fundamento a que respondem não permite serem de outro modo. como já vimos. repito. podem ser como são ou mesmo de qualquer outra for­ ma. pois aqui rege a lei da necessidade.qualquer coisa que logo poderemos definir e esclare­ cer. que de nada nos servirá enquanto não soubermos explicar qual é. Sendo a Constituição a lei fundam ental de uma nação. um termo novo. assim formulada. Somente ganhamos um vocábulo novo. Somente as coisas que carecem de fundamento. como indica seu próprio nome: “fundamental”.o verdadeiro fundamento das outras leis. isto c. sua trajetória seria casual e poderia variar a todo momento. aprofundar um pouco mais no assunto. deverá. é uma lei fundam ental da nação. esta interrogação: como distinguir uma lei da lei fundam ental? Como podeis ver. quer dizer seria variável.

pergunto eu. e em outros arquivos. por uma triste coincidência . e esta incógnita que estamos investigando apoia-se. desde os alicerces até o telhado. Esta Coleção imprime-se numa tipografia concessionária instalada em Berlim. Porém. Os originais das leis guardam-se nos arquivos do Estado. completamente livre. não pode realmente acontecer. Não ignoram os meus ouvintes que na Prússia somente tem força de lei os tex­ tos publicados na Coleção legislativa. Vou esclarecer isto com um exemplo. embora quisessem. não interessa sabermos se o fato pode ou não acontecer. que as obrigue a serem necessariamente. como vou expô-lo. nos fatores reais do poder que regem uma determinada sociedade. desaparecendo in­ clusive todas as bibliotecas particulares onde existissem coleções. por um momento. que um grande incêndio irrompesse e que nele se queimassem todos os arquivos do Estado. este exemplo. Suponhamos ainda que o país.e fazendo esta per­ gunta os horizontes clareiam . será que existe em algum país . a partir desse instante. bibliotecas e depósitos guardam-se as coleções le­ gislativas impressas. o que são e como são sem poder ser de outro modo f Capítulo II Os fatores reais do poder Sim. Julgai que neste caso o legislador.10 Leituras Complementares 273 mente são. por causa deste sinistro.alguma força ativa que possa influir dc tal forma que todas as suas leis. Suponhamos isto. outras quaisquer: M uito bem. não podem decretar. Naturalmente. dc tal maneira que em toda a Prússia não fosse possível achar um único exemplar das leis do país. embora este exemplo possa dar-se dc outra forma. simplesmente. até certo ponto. ficasse sem nenhuma das leis que o governavam e que por força das circunstâncias fosse necessário de­ cretar novas leis. . poderia fazer leis a ca­ pricho de acordo com o seu modo de pensar? A m onarquia Suponhamos que os senhores respondam: visto que as leis desapareceram e que vamos redigir outras completamente novas. determinando que não possam ser. Vamos supor. todas as bibliotecas públicas.igual desastre se desse em todas as cidades do país. existem sem dúvida. em substância. Os fatores reais do poder que regulam no seio de cada sociedade são essa força ativa e eficaz que informa todas as leis e instituições jurídicas da sociedade em apre­ ço. de tal forma que. que o sinistro destruísse também a tipografia concessionária onde se imprimia a Cole­ ção legislativa e que ainda. mas sim o que o exemplo nos possa ensinar se este chegasse a ser realidade. a não ser tal como elas são.estamos no terreno das suposições .. naquele país.

há dc possuir tanta influencia nos destinos do país como os restantes milhões de habitantes reunidos. eleita esta pelos votos de todos os cidadãos. Vejam. as fábricas e a produção mecanizada. mais ainda. O monarca responderia assim: podem estar destruídas as leis.. Possivelmente teriam mais que fazer para li­ vrar-se deles. pretendessem impor o sistema que regeu na Idade Média. sem excluir a grande indústria. apoiado neste poder real.. Mas a gravidade do caso está em que os grandes fazendeiros da nobreza tive­ ram sempre muita influência na Corte e esta influência garante-lhe a saída do Exér­ cito e dos canhões para seus fins. somos todos “iguais” e não preci­ samos absolutamente. a realidade é que os comandantes dos arsenais e quartéis põem na rua os canhões e as baionetas quan­ do eu o ordenar. Entre outros motivos. mas não ao pequeno proprietário. Não sabemos por que esse punhado. efetivo. isto é.274 Teoria Geral do Estado nelas não reconheceremos à monarquia as prerrogativas que até agora gozou ao amparo das leis destruídas. A aristocracia Suponhamos agora que os senhores dissessem: somos tantos milhões de prus­ sianos. não tolero que venham impor-me posições e prerrogativas em desacordo comigo. porque neste regime se levantaria uma série de barreiras legais entre os diversos ramos de produção. A grande burguesia Ocorre-me agora assentar o suposto ao inverso. por . dc grandes proprietários agrícolas. porém. aplicada a toda a organização social. recusando sistematicamente todos os acordos que julgarem prejudiciais aos seus interesses. Reconheço que não seria fácil à nobreza atirar contra o povo que assim pen­ sasse seus exércitos de camponeses. É sabido que o “grande” capital não poderia. enfim. “para nada”. Como podeis ver. um rei a quem obedecem o Exército e os canhões. entre os quais somente existe um punhado cada vez menor de grandes pro­ prietários de terras pertencentes à nobreza. pois. cada vez menor. como se este aparelhamento da força estivesse “ diretamente” ao seu dispor. a realida­ de é que o Exército subsiste e me obedece. Imaginemos que os meus ou­ vintes dissessem: destruídas as leis do passado. impedindo-se seu desenvolvimento sob aquele regime. progredir e mesmo viver sob o sistema medieval. a suposição de que o rei e a nobreza aliados entre si para restabelecer a organização medieval. das baionetas e dos canhões. acatando minhas ordens. não queremos a monarquia. de forma alguma. quer dizer. e. é uma parte da Constituição. formando somente eles uma Câmara Alta que fiscaliza os acordos da Câmara dos Deputados. não respeitaremos prerrogativas nem atri­ buições de espécie alguma. como uma nobreza influente e bem vista pelo rei e sua cortc é também uma parte da Constituição. da Câmara senhorial.

sustentando-a e alentando-a com o seu dinheiro. Que viria a acontecer se.. a indústria mecanizada. . exigindo pão e trabalho. e até as companhias de estrada de ferro seriam obrigadas a agir da mesma forma. a gran­ de burguesia. A grande indústria exige. viria fatalmente à luta. animando-a com a sua influência. que obtêm numerário naquele estabelecimento bancário para to­ mar acessível o crédito à gente humilde e à classe média. Ademais. a estamparia não poderia empregar em sua fábrica somente a um tintureiro etc. sobretudo . que os Borsig. por exemplo. que esse mesmo governo entendesse. Poderia isto prevalecer? Não vou dizer que isto desencadeasse uma revolta. ampla liberdade da fu­ são dos mais diferentes ramos do trabalho nas mãos de um mesmo capitalista.10 Leituras Complementares 275 muita afinidade que os mesmos tivessem. Neste caso. assim. isto é. mas o governo atual não poderia impor presentemente medida semelhante. fechariam as suas fábricas despedindo os seus ope­ rários.e necessita como o ar que respiramos -. entre as corporações dos fabricantes de pregos e os ferreiros existiriam constantes processos para deslindar as suas respectivas jurisdições. grande número de pequenos industriais seria obrigado a fechar suas oficinas e esta multidão de homens sem tra­ balho sairia à praça pública pedindo. na qual o triunfo não seria certamente das armas. por exemplo. não poderia progredir com uma Constituição do tipo gremial. Egels etc. instigando-a com o seu prestígio. sob o sistema gremial daquele tempo. os grandes industriais de teci­ dos. Egels. os grandes industriais. abertamente lesivas aos interesses dos grandes banquei­ ros. Suponhamos isto e tam­ bém que ao Banco da Nação pretendesse dar a organização adequada para obter esse resultado. obstinadamen­ te implantassem hoje a Constituição gremial? Aconteceria que os senhores Borsig. enfim. Demonstrara-se. que o governo pretendesse implantar uma des­ sas medidas excepcionais. que é a de baratear mais ainda o crédi­ to aos grandes banqueiros e aos capitalistas que possuem por razão natural todo o crédito e todo o dinheiro do país e que são os únicos que podem descontar as suas firmas. a possibilidade de empregar quantos operários necessitar. uma parte da Constituição. Isto basta para compreender que a grande produção. ne­ cessitando ao mesmo tempo da produção em “massa” e a livre concorrência. Os banqueiros Suponhamos. são todos. que o Banco da Nação não foi criado para a função que hoje cumpre. estabelecer-se-ia por lei a quantidade estrita dc produção de cada industrial e cada indús­ tria somente poderia ocupar um determinado número de operários por igual. os fabricantes dc sedas etc. e nenhum industrial poderia reunir duas ou mais indústrias em suas mãos. por um instante. quer dizer. Atrás dela. sem restrições. nestas condições e a despeito de tudo. também. O comércio e a indústria ficariam paralisados.

embora estivessem aliados ao rei a nobreza e toda a grande burguesia. punindo na pessoa dos pais os rou­ bos cometidos pelos filhos. dos banqueiros. que os grandes banqueiros. ou. do papel da dívida locupletando-se também com a alta da cotação que a esses títulos lhe dá a Bolsa artificialmente. hoje em dia. cm troca do dinheiro que recebe adiantadamente. indispor-se com eles. às vezes muito tempo. resta a alterna­ tiva dc consumir dinheiro futuro. dentro de certos limites. da cultura coletiva e da consciência social do país. sim. e não pequenas. Todos os funcionários. isto é. com toda a energia possível. dos grandes industriais c dos grandes capitalistas. a nenhum governo con­ vém. Para isto necessita dos banqueiros. Poderia fazê-lo? Infelizmente. Nesses casos.276 Teoria Geral do Estado Demonstrarei por quê. o que é a mesma coisa. se pre­ tendesse transformar pessoalmente o trabalhador em escravo ou servo. querendo proteger c satisfazer os privilégios da nobreza. contrair empréstimos. mais uma vez. mais dia menos dia. ou em pequenos prazos. pouco a pouco. burocratas e conselheiros do Estado ergueriam as mãos para o céu. tornando-o à situação em que viveu durante os tempos da Idade Média? Subsistiria essa pre­ tensão? Não. e se o governo pretendesse tirar à pequena burguesia e ao operariado não somente as suas liberdades políticas. Vemos. Essa lei não poderia reger. senão sua liberdade pessoal. É certo que. e o governo necessita do dinheiro logo e de urna vez. De vez em quando o governo sente apertos financeiros devido à necessidade de investir grandes quantias de dinheiro que não tem coragem de tirar do povo por meio dc novos impostos ou aumento dos existentes. ten­ tasse privar das suas liberdades políticas a pequena burguesia e a classe operária. Suponhamos que o governo intentasse promulgar uma lei penal semelhante à que prevaleceu durante algum tempo na China. É que. como Mendclssohn. da Constituição. serve-se dos particulares. e até os sisudos senadores teriam de discordar de tamanho absur­ do. Estes inter­ mediários são os grandes banqueiros c. mas isto requer tem­ po. são também partes da Constituição. Para conseguir o dinheiro. a Bolsa. mesmo que fosse transitoriamente. de intermediários que lhe adiantem as quantias de que precisa. entregando. o papel da dívida pública. Mas. também a consciência coletiva e a cultura geral da Nação são partículas. por esse motivo. . isto é. Schickler. pois contra ela se levantaria o protesto. os fatos nos de­ monstram que poderia. correndo depois por sua conta a colocação. a maior parte daqueles títulos da dívida vol­ ta às mãos da gente rica e dos pequenos capitalistas do país. poderia. A pequena burguesia e a classe operária Imaginemos agora que o governo.

somos uma parte integrante da Constituição. v. a nobreza. a liberdade individual não podia existir. escrevemo-los em uma folha de papel.10 Leituras Complementares 277 Seria tempo perdido.) Capítulo XVIII Da onipotência do Estado. dali também a sua onipotência e o império absoluto que exercia sobre os seus membros. O povo protestaria. 10) FUSTELDECOULANGES A cidade antiga (Trad. incorporados a um papel. em síntese. 1. ed. transformando-os desta maneira em fatores jurídicos. mas sim verdadeiro direito. não são simples fatores reais do poder. nas instituições jurí­ dicas. em essência.. dá-sc-lhcs expressão escrita e. O cidadão estava submetido em todas as coisas e sem reserva alguma à cidade. pertencia-lhe inteiramente. Sousa Costa. Capítulo III Os fatores do poder e as instituições jurídicas Essa é. isto se define de outra maneira mais limpa. e por conseguinte é punido. 2. Clássica de A. nós to­ dos. o povo são um fragmento da Constituição. Está claro que não aparece neles a declaração de que o senhor Borsig. Numa sociedade estabelecida sobre tais princípios. a partir desse momento. gritando: antes morrer do que ser escravo! A multidão sairia à rua e não haveria a necessidade de que seus patrões fechassem as fábricas. e quem atentar contra cies atenta contra a lei. Teixeira. Não desconheceis também o processo que se segue para transformar esses escri­ tos em fatores reais do poder. Daí a sua força. a Constituição de um país: a soma dos fato­ res reais do poder que regem um país. Juntam-se esses fatores reais do poder. pois nos casos extremos c desesperados também o povo. a pequena burguesia juntar-se-ia solidariamente ao povo e a resistência desse blo­ co seria invencível. A religião que criara o Estado e o Estado que sustentava a religião reciprocamente se auxiliavam e formavam um . ou que o banquei­ ro X é também outro pedaço. M . Lisboa. Mas que relação existe entre o que vulgarmente denominamos Constituição e a Constituição jurídica? Não é difícil compreender a relação que os dois concei­ tos guardam entre si. os antigos não co n h e ce ra m a liberdade individual A cidade foi fundada sobre uma religião e constituída como uma igreja. mais diplomática. o in­ dustrial. não.

Encontra-se esta lei nos antigos códigos de Esparta e de Roma. Muitas cidades gregas proibiam ao homem o ficar celibatário. punia com uma multa quem possuísse uma navalha de barba. Exercia a sua tirania até nas mais pequenas coisas. Não sabemos se também existia em Atenas. O Estado tinha o direito de não tolerar que os seus cidadãos fossem disfor­ mes ou contrafeitos. pelo contrário. em Atenas. em Locres. a quem nascesse assim um filho. mostrava-se aflita c chorava. a ociosidade. a lei proibia aos homens beber vinho puro. em Roma o serviço militar era obrigatório ate aos quarenta c seis anos. Em Esparta. Há na história de Esparta um fato muito admirado por Pintarcho e Rousseau. Por conseqüência. aos donos das oliveiras que lhe cedessem gratuitamente o azeite fabri­ cado. em Marselha. A esta notícia. em Esparta. que o matasse. Em Rodes. de­ via combater com um ou outro partido. estes dois poderes associados e confundidos formavam um poder quase sobre-humano. A mãe. ordenava ao pai. por seu turno.278 Teoria Geral do Estado só corpo. ao qual a alma c o corpo estavam igualmente subordinados. mas o que casava tarde. em Mileto. não tinha o direito de viver isolado. Esparta punia não só aquele que não casava. Era vulgar que a forma de vestir fosse determinada pelas leis dc cada ci­ dade. Tinha o dever de votar na assembleia e de ser. a perda do direito de cidade. O Estado. a legislação de Esparta regulava o penteado das mulheres e a dc Atenas proi­ bia-lhes levar cm viagem mais dc três vestidos. A vida privada não escapava a esta onipotência do Estado. em Roma. magistrado. a lei proibia o fazer a barba. em Atenas e em Esparta toda a vida. aos credores o abandono das dívidas. o homem de estudo. Era 110 que o Estado ti­ nha mais predomínio. o pai não tinha direito algum sobre a educação . O seu corpo pertencia ao Es­ tado c estava voltado à sua defesa. se a cidade tinha necessidade de dinheiro. a lei ateniense não permitia ao cidadão a neutralidade. Num tempo em que as dis­ córdias eram freqüentes. Esparta acabava de ser derrotada em Lentra e muitos dos seus cidadãos tinham mor­ rido. aquele que quisesse estar afastado das fac­ ções infligia a lei uma pena severa. Os seus haveres es­ tavam sempre à disposição do Estado. mostra­ va alegria e percorria os templos agradecendo aos deuses. Tal era o poder do Esta­ do que ordenava a transposição dos sentimentos naturais e se fazia obedecer. que sabia que o filho escapara do desastre c ia tornar a vê-lo. podia prescrever o trabalho. em Bizâncio. podia ordenar às mulheres que lhe entregassem as joias. Aquela que sabia que nunca mais veria o seu. sabemos só que Aristóteles e Platão a inscreveram nas suas legislações ideais. em Esparta. exigia que se rapasse o bigode. No homem nada havia que fosse independente. A educação entre os gregos estava longe de ser livre. os parentes dos mortos foram obrigados a aparecer em público dc cara alegre. o filósofo. O Estado não admitia que um homem fosse indiferente aos seus interesses. proibia-o às mulheres.

nem a religiosa. Mas cuidado em não duvidar da Athene Poliada. tinha-se liberdade de crer nelas ou não. nem a liberdade da vida privada. figurar em todas as procissões. Aristófanes. Cibele ou Juno. os hinos e as danças sagradas. Deviam conformar-se com todas as regras do culto. O Estado não tinha só. Devia crer na religião da cidade e sub­ meter-se a ela. por isso. o que o Estado puniria severamen­ te. A liberdade de pensar sobre religião era absolutamente desconhecida entre os antigos. queria formar esse corpo e essa alma de modo a tirar dele o melhor par­ tido. Podia odiar-se ou desprezar-se os deuses da cidade vizinha. e esta arma devia ser tão forte e tão manejável quanto possível. à neve ou ao sol forte. Chamava-se a isso ostracismo. Parece que em Arenas a lei foi menos rigorosa. tomar parte nos repastos sagrados. porque os filhos são menos de seus pais do que da cidade” . Os antigos não conheciam. influência demasiada. embora a cidade obrigas­ se a que a educação fosse comum e dada por mestres escolhidos por ela. mas a cidade tinha o direito de expulsá-lo do seu território pelo único motivo de Aristides ter adquirido. Esta ins­ tituição não era particular a Atenas. mostra-nos as crianças de Atenas a caminho da es­ cola. essas crianças mostram compreender que cumprem um dever cívico. O Estado queria ser só a dirigir a educação c Platão diz o motivo desta exi­ gência: “Os pais não devem ter liberdade de enviar ou não os seus filhos para os mestres que a cidade escolheu. quanto às divindades de um caráter geral e universal. Podia punir sem que houvesse culpa e só porque o seu interesse es­ tava em jogo. O Estado considerava como pertença sua o corpo e a alma do cidadão. que se chamava pátria ou Estado. um direito de justiça relativamente aos cidadãos. porque se precisava deste conhecimento para a boa execução dos sacrifícios e das festas da cidade. Reconhecia-se ao Estado o direito de impedir que houvesse um ensino livre ao lado do seu. em Megara. como nas sociedades modernas. podia tornar perigosa. A pessoa humana tinha pequeníssimo valor perante essa autoridade santa e quase divina. encontrava-se em Argos. que. caminham em filas cerradas. e Aristóteles dava a entender que existia em todas as cidades gregas que ti­ . Nisso haveria uma grande impiedade que atingiria a religião e o Estado ao mesmo tempo. numa eloqüente passagem. à chuva. portanto. Atenas promulgou um dia uma lei que proibia instruir os moços. em Siracusa. se ele quisesse. como Júpiter Celeste. distribuídas por bairros. ou do Erechtea ou de Cecropa.10 Leituras Complementares 279 do filho. O homem não tinha escolha dc crenças. porque o corpo do homem era uma arma para a cida­ de. A legislação ateniense punia com forte pena aqueles que se abstivessem de ce­ lebrar religiosamente uma festa nacional. Aristides certamente não cometera crime algum e nem mesmo se tor­ nara suspeito disso. por suas virtudes. sem uma autorização dos magistrados. Ensinava-lhe ginástica. nem a da educação. e uma outra que proibia especialmente en­ sinar filosofia. por ordem. Sócrates foi condenado à morte por esse crime. Ensinava-lhe também os cantos religiosos.

acreditar que nas cidades antigas o homem gozava liberdade. tudo devia ceder perante o interesse da pátria.280 Teoria Geral do Estado nham um governo democrático. o ostracismo não era um castigo. que parecem provir meramente do acaso. mas a natureza do Estado ficou. c sobretudo os gregos. Roma promulgou uma lei. É. votar. Pensava-se que o di­ reito. Desde que se tratasse do interesse da cidade. provém dessa constituição assim como os órgãos respiratórios dos peixes se adaptam com a sua vida aquática. que o governo muitas vezes mudou de forma. sem dúvida. Os antigos. isto c. Sem o prévio conhecimento da constituição mental de um povo. mas nenhuma dessas revoluções deu aos homens a verdadeira liberda­ de. Ter direitos políticos. a justiça. um erro singular. pouco mais ou menos. portanto. por falta de afeto para com o Estado. a sua vida apresenta-se-nos como a conseqüência regular e fatal dos seus caracte­ res psicológicos. Como as instituições derivam da alma dos povos A história. 1910. pela qual cra permitido matar qualquer homem que tivesse a intenção de se tornar rei. 11) GUSTAVELEBON Leis psicológicas da evolução dos povos Trad. dentro em pouco. Lisboa. era uma precaução tomada pela cidade contra um cidadão que ela suspeitava que podia um dia incomodá-la. aristocracia. a moral. 109-27. Ora. mas o homem estava subordinadíssimo ao Estado. quando. nas suas grandes linhas. pode considerar-se como a simples expo­ sição dos resultados produzidos pela constituição psicológica das raças. Em todas as manifestações de vida de uma nação. Veremos. exageravam sempre a importân­ cia e os direitos da sociedade. democracia. isto devido. Não tinha sequer a mais ligeira ideia dela. pelo contrário. Em Atenas podia acusar-se e condenar-se um homem por incivismo. nenhuma garantia havia para a vida do homem. a história deste transforma-se num caos de acontecimentos. a mesma e a sua onipotência não diminuiu. eis o que eu chamava liberdade. poder scr arcontc. encontramos sempre a alma imutável da raça elaborando o seu próprio destino. O governo denominou-se alternativamente monarquia. . Francisco Luiz Gonçalves. Agostinho Fortes. entre todos os erros humanos. ao caráter sagrado e religio­ so que a sociedade originariamente revestiu. a alma de um povo nos é conhecida. Não julgava que pudesse existir direito em frente da cidade e dos seus deuses. nomear magistrados. A máxima funesta de que a salva­ ção do Estado é a lei suprema foi formulada pela antiguidade. a liberdade individual. p.

tentou alterar semelhante obra. porventura. que. apresentariam algumas críticas e fariam. observar que . nos levam a mudarmos incessantemente as nossas ins­ tituições. Sem dúvida. principalmente. a nossa extraordinária facilidade em estarmos descontentes com o que nos cerca. devido à sua gran­ de experiência. presidente. cm que os partidos parecem mais divergentes. e sem dar por isso. Nem esta consentiria outro. mais radical­ mente as instituições políticas parecem ter mudado. regulamentando os mais insignificantes pormenores da vida dos cidadãos. é fora de dúvida que censurariam algumas das violências que acompanharam a sua reali­ zação. o Estado a dirigir tudo. estes partidos incessantemente em luta. confessariam que um ministro por eles encarregado de exe­ cutar os seus planos não teria conseguido realizar melhor os seus desígnios e diriam que o menos revolucionário dos governos franceses foi precisamente o da revolução. condena-nos a só mudar­ mos palavras e aparências. se se erguessem de seus túmulos para julgarem a obra da revolução. a ideia de que um governo novo fará a nossa sorte mais feliz. Se encararmos. ou qualquer outra coisa. po­ rém. nas instituições políticas que mais visivelmente se manifes­ ta o poder soberano da alma da raça. a absorção do indi­ víduo pelo Estado. um dos países que mais sujeitos tem estado às mais profundas alterações. em uma palavra todos os defensores das mais diversas doutrinas. quer imperador. socialis­ tas. na realidade. monárquicos. na realidade. além disso. pelo critério psicológico. precisamente re­ presentante do ideal da nossa raça. verificaremos que.10 Leituras Complementares 281 É. país em que. Se. o nosso extremo nervosismo. forçosamente há dc ter o mesmo ideal. O que todos com o mesmo ardor querem é o velho regime centralizador e cesarista. o fruto de urna evolução regular. Luís XIII e Luís XIV. acabando a obra da centralização. mas considerá-la-iam rigorosamente em harmonia com as suas tradições e com os seus programas. portanto. estas opiniões aparente­ mente tão divergentes. nenhum dos diversos re­ gimes que se têm sucedido na França. o que facilmente provaremos com alguns exemplos. Quer o poder posto à frente do Estado se chame rei. de há um século a esta parte. Na verdade. a grande voz dos mortos que é quem nos guia. que nem sequer percebemos as ilusões de que somos vítimas. nada é mais diferente do antigo regime do que o que foi criado pela nossa grande revolução. esse poder. tanto ela e. O poder inconsciente da alma da nossa raça é tamanho. que é a expressão dos sentimentos da alma da raça. Intransigentes. a revolução não fez mais do que continuar a tradição real. ou seja. procuram com etiquetas diversas atingir um fim perfeitamente idêntico. se apenas nos ativermos as aparências. Consideremos primeiro a França. há séculos já iniciada pela monarquia. dispensando estes de manifesta­ rem qualquer movimento de reflexão c de iniciativa. seja qual for. em poucos anos. na realidade. a regular e absorver tudo. têm todos um fundo comum perfeitamente idêntico. estes ilustres fantasmas. verificariam. radicais. a continuação do ideal monárquico e a expressão de gênio da raça.

nas instituições dum povo. estabele­ cimentos de instrução. as aparências. canais. criam o des­ tino das nações. permitir-lhes-iam conceber que o socialismo não é mais do que a expressão última da ideia monárquica. as leis fundamentais. Quer os ingleses tenham à sua frente um monarca. facilmente suportam todos os despotismos. considerando que os povos latinos. entre os ingleses. nem déspotas que possam dar a um povo que as não possua. É pura quimera pensar-se que os governos e as constituições têm alguma ação nos destinos de um povo.. espírito de corpo­ ração. preocupando-se muito pouco com a liberdade e muito com a igualdade. o que é pre­ cisamente o contrário do ideal latino. isto é. Não insistiram muito. escapando às mudanças políticas. de que a re­ volução do século XVIII foi apenas uma fase aceleradora. etc. ausência de responsabilidade e perpetuidade. a in­ glesa. As circunstâncias acidentais criam os nomes. conceber-se que tivessem outros? Daqui a pouco mostraremos com diversos exemplos que um povo se não sub­ trai às conseqüências da sua constituição mental. Portos. é possível também que achassem bastante excessivos e assás tirânicos os inumeráveis regulamentos. quer um presidente como nos Estados Unidos da América do Norte. nem constituições. precisamente como a areia revolta pela tem­ pestade. uma série de condições que necessariamente o levarão a ser senhor único. em pleno socialismo. provêm do caráter dos povos. 011 que. por isso que só ele. acreditamo-lo.282 Teoria Geral do Estado tendo sido substituída a casta aristocrática governamental pela casta administrativa. encontramos ao mesmo tempo as circuns­ tâncias acidentais. Tem-se dito muitas vezes que os povos têm os governos que merecem. a redução ao mínimo da ação do Estado e o desenvolvimento máximo da ação dos particulares. despojando o cidadão de toda e qualquer iniciativa. Assim. os mil laços que hoje cercam o mais insignificante ato da vida. des­ de que estes sejam impessoais. não há revoluções. Pode porventura. cuja constituição psicológica é muito diferente da nossa. a elas se subtrai. que mencionamos no começo desta obra. motivo este pelo qual as suas instituições se afastarão também radicalmente das nossas. e sem o auxílio de qualquer outra revolução. o seu governo apre­ sentará sempre as mesmas características fundamentais. é apenas por instantes rápidos. se criara 110 Estado um poder impessoal mais temível que o da antiga nobreza. que parece escapar momentaneamente às leis da atração. possui tradições. nos encontraremos espontaneamente. e as leis permanentes que temos procurado determinar. quando o Es­ tado haja absorvido e regulamentado tudo. as qualidades de caráter de que as suas instituições de­ rivam. Ao exemplo precedente podemos opor o de uma outra raça. nesta objeção. e estas. à falta delas as luzes matemáticas que ensinam que os efeitos aumentam em progres­ são geométrica quando as mesmas causas subsistam. Mas então as luzes divinas que iluminam os reis. caminhos dc ferro. por acaso. se. serão sempre construídos e conserva­ dos pela iniciativa dos particulares e nunca pela do Estado. como na Inglaterra. É 110 povo e não em circunstâncias exteriores que deve­ . ou ti­ rá-las a um que as possua. e provável é também que fizessem notar que.

com o pretexto de que a respiração aérea cabe a todos os animais superiores. tomá-los-emos em uma região. é a imagem. Ora. lhe é todavia impossível mudar-lhes o fundo.10 Leituras Complementares 283 mos procurar o destino desse mesmo povo. por outro lado porque o dos senhores. Esta é formada por dois continentes distintos. só com as maiores di­ ficuldades e à custa de incessantes revoluções é que se têm mantido sob as mesmas leis. que po­ vos diferentes não poderiam por muito tempo subsistir sob um regime idêntico. Vamos agora mostrar com exemplos muito precisos a que ponto a alma de um povo rege os destinos deste e o insignificante papel que as instituições desempenham nesses destinos. o eslavo e o húngaro. O francês e o inglês. rivais. duas raças europeias igualmente civilizadas e inteligentes. por­ tanto. pode­ mos avançar mesmo que semelhante estudo evitaria muitos erros e muitas altera­ ções. divergindo apenas no caráter. que nem sequer podiam pensar em sc unirem. portanto. porque as raças em presen­ ça eram por tal forma numerosas c diferentes c. deixando-os viver com as leis que lhes eram próprias. E devido apenas ao fato da diversidade da sua constituição mental. a América. reunidos por um istmo. em condições de meio pouco diferentes. as superfícies de cada um . Escrever-se-iam muitos livros. O seu estudo cuidado devia ser a base da política e da educação. pelo fato da existência. O governo do rei dc Daomé cra provavelmente um governo excelente para o povo que administrava. tiveram instinto político bastante hábil que os levou a respeitarem os costumes dos povos conquistados. se a voz da razão não fos­ se sempre abafada pela voz imperiosa dos mortos. estrangeiros. Estes exemplos. Não há governos nem instituições que possamos chamar absolutamente bons ou maus. tem sido. isto eqüivale a querer persuadir os peixes a que vivam no ar. povo esse para que seria má a mais sábia constituição europeia. Capítulo II A p lica ç ã o dos princípios pre cedentes ao estudo com parado da evolução dos Estados Unidos da A m érica do Norte e das Repúblicas H ispano-A m ericanas As breves considerações precedentes mostram que as instituições de um povo são a expressão da sua alma e que. se quiséssemos indicar todas as conseqüências da constituição psicológica dos povos. como o dos mongóis e depois o dos ingleses na índia. em que vivem. as colônias podem governar-se com as instituições das suas metrópoles. quando têm tido alguma duração. o árabe e o francês. É isto o que desgraçadamente ig­ noram os estadistas que imaginam ser um governo objeto de exportação e que. Os grandes impérios que abrangem povos diversos têm sido sempre condena­ dos à efêmera existência. por um lado. refazer-se-ia até toda história sob um critério novo. se a esse povo é fácil mudar as formas das ins­ tituições. se os povos pudessem evitar os fatalismos de raça. ao lado uma da outra. O mais que podemos exigir de um go­ verno é que seja a expressão dos sentimentos c das ideias do povo que dirige e de que.

que facilitaria imenso as relações com o continente. certamente. um sentimento de ordem inferior. Só há a notar um juízo seguro que permite aprender o lado prá­ tico e positivo das coisas sem se perderem em investigações quiméricas. Antes. que sabe sempre o que lhe exigem a pátria. a família e os deuses. portanto. na linha de conduta para com os outros povos. recusa em consentirem 110 es­ tabelecimento de um túnel na Mancha. atos que provocariam a mais profunda e a mais unânime indignação se fossem praticados contra compa­ triotas. a propósito da sua. é extremamente útil. em presença mais do que as diferenças de raças para sc explicarem os destinos diversos destes povos.284 Teoria Geral do Estado destes continentes são quase iguais. que povoou os Estados Unidos. o que outrora os romanos. pondo. exceto talvez os romanos. se atendermos à prosperidade de um povo. porém resumamos em algumas palavras os caracteres da raça anglo-saxônica. na época dc sua gran­ deza. No ponto de vista intelectual. sentiam pelos bárbaros. e. o outro pela raça espanhola. se tenha feito mais homogênea e cuja cons­ tituição mental seja. de resto muito judiciosa. que os ingleses empregavam tantos esforços como os chineses para im­ pedirem a entrada de qualquer ação estranha. isto é. é um dos sentimentos que contribuem para a força da Inglaterra. não podem indicar-se elementos particulares. Não há. sentimento de independência levado até excessiva insociabilidade. N ão há nenhum estadista inglês que não julgue perfeitamente legítimo. estas crenças ao abrigo da discussão. Com razão se disse. pois. gosto mui­ to acentuado pelos fatos e medíocre pelas ideias gerais. Um deles foi conquistado e povoado pela raça inglesa. de mais fácil definição. Es­ tas duas raças vivem com constituições republicanas semelhantes. sentimentos religiosos muito vivos. o solo de um e de outro muito semelhante. no que diz respeito ao caráter: uma força de vontade que muito poucos povos. em suas linhas gerais. mas. não obstante a diversidade de origem. pois que as re­ publicas da America do Sul tomaram como modelo a dos Estados Unidos. império absoluto sobre si. A estas características gerais deve acrescentar-se o otimismo completo do ho­ mem cujo caminho está bem traçado na vida e que pressupõe até que não pode escolher outro melhor. e muito nítida ideia do dever. Vejamos. encarado filoso­ ficamente. extraordinária iniciativa. moralidade muito fixa. uma energia indomável. Este otimismo vai ao ponto de fazer considerar como extremamente des­ prezível tudo que é estrangeiro. Talvez nenhuma outra haja no mundo que. . Este sentimento de desdém pelo estrangeiro é. na Inglaterra. é tão grande que para com os estrangeiros toda regra moral desaparece. que nada se encontrem nas outras nações civilizadas. atividade poderosa. sem dúvida. não podem dar-se características especiais. que impede de ver os lados fracos das coisas religiosas. O desprezo pelo estrangeiro e pelos usos deste so­ brepuja. um tal ou qual acanhamento de espírito. possuíram. o que tais diferenças produziram. As características preponderantes desta constituição mental são. por conseqüência. como muito justamente nota o general inglês Wolseley.

10 Leituras Complementares

285

Todos os caracteres que acabamos de enumerar se encontram nas diversas ca­ madas sociais; nenhum elemento da civilização inglesa se encontra que não tenha fortemente gravados esses caracteres; o estrangeiro que visitar a Inglaterra, embo­ ra com pouca demora, conhecerá claramente esse fato, verificará a necessidade da vida independente na casa do mais modesto empregado, que habita, sem dúvida, uma moradia estreita mas ao abrigo de qualquer constrangimento e isolada de quaisquer vizinhos; nas gares mais freqüentadas, onde o público circula a toda hora, sem estar encurralado como um rebanho de carneiros dóceis por trás de um corri­ mão guardado por um policial, como se fosse necessário assegurar pela força a se­ gurança de pessoas incapazes de encontrarem em si a atenção necessária para não serem esmagadas. Encontrará a energia da raça tanto no trabalho duro do operá­ rio como no de estudante que, entregue a si, desde a mais tenra idade, aprende a conduzir-se sozinho nos seus atos e fica desde logo sabendo que pela vida fora só ele e mais ninguém se preocupará com o seu destino; nos professores, que pouca importância ligam à instrução por a concederem principalmente ao caráter, por eles considerado uma das maiores forças motoras do mundo. Se entrar na vida públi­ ca do cidadão, verá que não é para o Estado, mas para a iniciativa individual que sempre se apela, quer se trate de reparar a fonte de uma aldeia, de construir um porto dc mar ou criar um caminho de ferro; continuando o seu inquérito, reconhe­ cerá, bem depressa que esse povo, não obstante os defeitos que fazem dele o mais insuportável dos povos para o estrangeiro, é o único verdadeiramente livre, porque é o único que, tendo aprendido a governar-se por si, deixou ao governo o mínimo de ação. Se percorrermos a sua história, veremos que foi o povo inglês o primeiro que soube libertar-se de qualquer domínio, quer da Igreja: quer do rei. Já no sécu­ lo XV, o legista Fortscue opunha a lei rom ana, herança dos povos latinos , à lei in­
glesa; um a obra de príncipes absolutos e destinada exclusivamente a sacrificar o in­ divíduo, a outra obra da vontade com um e sempre pronta a proteger a pessoa.

Seja qual for o lugar do globo para que um povo semelhante a este emigre, esse povo será imediatamente preponderante e fundará impérios poderosos. Sc a raça invadida, como os pelcs-vermelhas da América, por exemplo, for bastante fra­ ca e pouco utilizável, será metodicamente exterminada; se, como a das populações da índia, for muito numerosa para que possa ser destruída e, além disso, dê traba­ lho produtivo, ficará simplesmente reduzida a dura vassalagem e será obrigada a trabalhar quase exclusivamente para os seus senhores. E, porém, num país novo, como a América, que devemos principalmente acom­ panhar os progressos espantosos devido à constituição mental da raça inglesa. Trans­ portada para regiões incultas, só habitadas por alguns selvagens, contando só con­ sigo, sabemos bem o que contudo fez; bastou-lhe um século para se colocar na primeira linha das grandes potências do mundo e ninguém hoje há que possa lutar contra ela. Às pessoas desejosas de conhecer a enorme soma de iniciativa e energia individuais empregadas pelos cidadãos da grande república norte-americana, reco­

286

Teoria Geral do Estado

mendamos a leitura dos livros de Rousier e Paulo Bourgel. A aptidão dos homens em se governarem por si, cm se associarem para fundar grandes empresas, fundar cidades, escolas, portos, caminhos de ferro, etc. é levada a tal máximo e a ação do Estado reduzida a tal mínimo que quase pode dizer-se que não existem lá poderes públicos, pois que, se tirarmos a polícia c a representação diplomática, não e pos­ sível descortinar-sc para que esses poderes possam servir. Nos Estados Unidos só é possível prosperar quem possua as qualidades de ca­ ráter que acabamos de indicar, e a isto se deve o não poderem as imigrações estrangei­ ras modificar o espírito geral da raça. As condições de existência são tais que todos aqueles que não possuam as qualidades indicadas estão condenados a desapareci­ mento rápido; nesta atmosfera, saturada de independência e de energia, só pode vi­ ver o anglo-saxão; o italiano morre aí de fome, o irlandês e o negro apenas conse­ guem vegetar em condições perfeitamente subalternas. A grande república, a que nos vimos referindo, é seguramente a terra da liber­ dade, mas não é com certeza a terra da igualdade e da fraternidade, as duas quime­ ras latinas que às leis do progresso não c dado conhecerem; em nenhuma região do globo, a seleção natural tem feito sentir mais rudemente o seu férreo braço. É descaroávcl, não há dúvida; mas é precisamente por não ter compaixão que a raça, para cuja formação a seleção contribuiu, conserva o seu poder e a sua energia. No solo dos Estados Unidos não há lugar para fracos, para os medíocres, nem para os incapazes de qualquer coisa. Indivíduos isolados ou raças inteiras estão destinados a desaparecer só pelo fato de serem inferiores; os peles-vermelhas, havendo-se tor­ nado inúteis, foram exterminados a tiro ou condenados a morrer de fome. Os ope­ rários chineses, cujo trabalho constitui incômoda concorrência, acabarão por so­ frer sorte análoga. À lei que ordenou a expulsão total dos chineses não pôde ser aplicada, devido às despesas enormes que da sua execução proviriam. Sem dúvida, será prontamente substituída por uma instrução metódica iniciada já em alguns distritos mineiros. Recentemente foram votadas outras leis proibitivas da entrada no território americano a imigrantes pobres. Com respeito aos negros, que servi­ ram de pretexto à guerra da secessão, entre os que tinham escravos c os que, não podendo tê-los, não podiam sofrer que os outros tivessem, são apenas, por assim dizer, tolerados, por isso que ficam adstritos a funções subalternas que nenhum ci­ dadão americano quereria para si. Teoricamente, os negros têm todos os direitos; praticamente, são tratados como animais semiúteis dos quais se desembaraçam logo que se tornem perigosos. Os processos sumários da lei de Lynch são reconhecidos geralmente como bastante para eles; ao primeiro delito que pratiquem, fuzilados ou enforcados. Estas são, sem dúvida, as manchas do quadro, que é, contudo, suficientemen­ te brilhante para que diminua de valor. Se forçoso fosse definir-se por uma palavra a diferença entre a Europa continental e os Estados Unidos, poderíamos dizer que a primeira representa o máximo do que pode dar a regulamentação oficial substi­

10 Leituras Complementares

287

tuindo a iniciativa individual, os segundos o máximo que pode dar a iniciativa in­ dividual absolutamente desembaraçada de qualquer regulamentação oficial. Estas diferenças fundamentais são exclusivamente conseqüências do caráter. Não é no solo da rede república norte-americana que o socialismo europeu tem probabilida­ des dc vir um dia a implantar-sc. Última expressão da tirania do Estado, o socialis­ mo só poderá prosperar nas raças envelhecidas, sujeitas há séculos a um regime que lhes tirou toda e qualquer capacidade de governo próprio e pessoal. Acabamos de ver o que numa parte da América produziu uma raça possuido­ ra de certa constituição mental em que predominam a perseverança, a energia e a vontade; falta que mostremos no que se transformou um país, quase semelhante, nas mãos de uma outra raça, muito inteligente, na verdade, mas sem possuir ne­ nhuma das qualidades de caráter cujos efeitos passamos em revista. A América do Sul é, atendendo-se às suas produções naturais, uma das mais ricas regiões do globo. Duas vezes maior que a Europa e dez vezes menos povoa­ da, a terra não faz falta e está, por assim dizer, à disposição de todos. A população preponderante, de origem espanhola e portuguesa, está dividida em numerosas re­ públicas, Argentina, Brasil, Chile, Peru etc. Todas elas adotaram a constituição po­ lítica dos Estados Unidos do Norte e, por conseqüência, vivem sob a ação de leis idênticas. Pois, simplesmente pelo fato da raça ser diferente e lhe faltarem as qua­ lidades fundamentais que possui a raça que povoa os Estados Unidos, todas estas repúblicas, sem exceção, são presa perpétua da mais sangrenta anarquia e, não obs­ tante as extraordinárias riquezas do seu solo, sossobram, umas após outras, em de­ la pidações de toda espécie, falências e despotismos. Lendo-se a notável e imparcial obra de Th. Child acerca das repúblicas lati­ no-americanas, apreciar-se-á com exatidão a profundeza da sua decadência. As cau­ sas encontram-se todas na constituição mental de uma raça sem energia, nem von­ tade, nem moralidade. A ausência de moralidade, principalmente, excede tudo o que de pior conhecemos da Europa. Referindo-se a uma das cidades mais impor­ tantes, Buenos Aires, o autor declara-a inabitável para quem quer que seja que te­ nha delicadeza dc consciência e alguma moralidade, c a propósito dc uma das me­ nos degradadas dessas repúblicas, a Argentina, o mesmo escritor diz que, se a examinarmos sob o ponto de vista comercial, ficaremos abismados com a imorali­ dade que aí se manifesta. Nenhum exemplo há que melhor mostre quanto as instituições são filhas da raça e portanto, a impossibilidade de se transferirem de um povo para outro. Seria interessantíssimo saber-se o que aconteceria às instituições tão liberais dos Estados Unidos da América do Norte, se fossem transportadas para uma raça inferior. Es­ tes países, diz-nos Child, falando das diversas repúblicas latino-americanas, estão sob a férula de presidentes que exercem uma autocracia não menos absoluta que a do czar de todas as Rússias; mais absoluta até, por isso que estão ao abrigo de to­ das as importunações e da ação da censura europeia, o pessoal administrativo é ex­

288

Teoria Geral do Estado

clusivamente constituído por criaturas dos presidentes...; os cidadãos votam como melhor lhes parece, mas ninguém dá importância aos seus sufrágios. A República Argentina é apenas república no nome, porque, na realidade, é uma oligarquia de indivíduos que fazem da política verdadeiro negócio. Só um país, o Brasil, escapara um pouco a tão profunda decadência, mercê de um regime monárquico, que colocava o poder a coberto das lutas de competido­ res. Demasiadamente liberal para raças sem energia e sem vontade, a monarquia brasileira sucumbiu, caindo desde logo o país em plena anarquia. Dentro de pou­ cos anos, a gente do poder delapidou por tal forma o tesouro que os impostos au­ mentaram em mais de sessenta por cento. Não é só na política, muito naturalmente, que se manifesta a decadência da raça latina que povoou a América, mas sim em todos os elementos da civilização. Reduzidas aos seus próprios recursos, estas desgraçadas repúblicas regressariam ao barbarismo puro; toda a indústria e todo o comércio estão em mãos de estrangei­ ros: ingleses, americanos e alemães. Valparaíso é uma cidade inglesa, e nada ficaria no Chile se lhe tirassem os estrangeiros; mercê destes é que estas regiões conservam ainda um verniz de civilização que ilude a Europa. A República Argentina tem qua­ tro milhões dc brancos de origem espanhola; não sabemos se poderemos citar um branco que seja, além dos estrangeiros, que se encontre à frente dc uma indústria verdadeiramente importante. Esta terrível decadência da raça latina, abandonada a si mesma, posta em con­ fronto com a prosperidade da raça inglesa numa região vizinha, é uma das mais sombrias, mais tristes e, ao mesmo tempo, das mais instrutivas experiências que po­ demos citar para apoio das leis psicológicas que expusemos.

12) ALMEIDA GARRETT

Obras
(Porto, Lello 6c Irmão, Editores, 1963, v. 1, p. 734-5.)

Justiça (Lúcio Júnio Bruto, juiz de seus filhos)
Lúcio Júnio Bruto era cônsul ou primeiro magistrado de Roma; e, na ocasião em que a cidade era sitiada por um poderoso exército inimigo, foi descoberta uma conspiração de traidores que tentavam entregar-la. Entrava nesta conspiração gran­ de número dos principais do Estado e com eles os filhos do cônsul. Foram todos presos e processados por tão horrível crime; que o não há maior nem mais atroz. Chegou a hora tremenda em que os réus deviam ser afinal julgados. Apareceu o cônsul Lúcio Júnio Bruto em seu tribunal no foro ou praça pública de Roma, ro­

10 Leituras Complementares

289

deado do senado, que era o conselho dos anciãos e homens bons do Estado, e dian­ te de todo o povo - porque em Roma foram sempre públicos os processos, para que nem as paixões dos julgadores nem as peitas dos culpados os pudessem torcer, mas se fizesse sempre justiça direita e lisa. Compareceram os acusados diante do cônsul; dentre estes, seus próprios filhos. Todo o povo tinha os olhos neles e no pai, c parecia duvidar que o sangue c a natu­ reza não movessem da justiça o ânimo do magistrado. íMas o cônsul interrogou seus filhos com a mesma tranqüilidade e firmeza com que fez aos outros. O crime foi pro­ vado; eles confessaram: e não restava senão pronunciar o juiz a sentença. Hoje dá-se aos condenados tempo suficiente para se prepararem a aparecer na presença de seu Deus, tribunal mais terrível porque são eternas suas decisões, porém mais indulgente porque lhe cabe perdoar crimes provados e confessados quando deles há verdadeiro arrependimento. Mas nesses tempos a religião cristã, que é toda humanidade e brandura, não tinha ainda adoçado os costumes daque­ les honrados mas ferozes republicanos. Os réus convencidos e julgados iam ser para logo executados. Lúcio Júnio Bruto, rodeado de lictorcs - oficiais públicos a quem incumbia pôr cm continente por obra os mandatos do cônsul-, pronuncia a fatal sentença: 4 4 O crime está provado; os acusados são réus dc alta traição: lictorcs feri, executai a sentença da república”. A natureza não podia com mais: o cônsul cobriu o rosto com a toga... e as ca­ beças dos filhos rolaram a seus pés. Mas Roma foi salva, a rebelião afogou-se; e Júnio Bruto, órfão de seus filhos, não o foi da pátria. Tal é um dos maiores exemplos de justiça que já se deram no mundo.

13) ALBERTO TORRES

A Organização N acional
Cia. Editora Nacional, São Paulo, 1978, 3. ed.

0 espírito e as te n d ê n cia s da política
Em outros tempos, no período de romantismo político que sucedeu à Revo­ lução Francesa, quando a questão das formas de governo era a tese predileta dos publicistas, a unidade e a continuidade da política pareciam aos olhos dos partidá­ rios do regime monárquico a grande causa de sua superioridade. A pretensão era falaz, como todas as ideias a priori da política. A unidade e a continuidade da política resultam da existência de um caráter nacional. Onde há uma nação, homogênea em seus elementos, ou fortemente subordinada a um espíri­

290

Teoria Geral do Estado

to, um móvel, uma aspiração, ou uma classe preponderante, define-se uma políti­ ca: os órgãos dessa política surgem da reação dos acontecimentos, e, seja dinástica ou republicana a forma do governo, o poder vem a cair nas mãos dos combaten­ tes mais fortes, dos representativos. Em Washington, como cm Bismarck, encontra-se o mesmo traço das perso­ nalidades dominantes, os eleitos desse sufrágio tácito, que faz brotar os proto-homens do tempo, em sua terra - como a flor brota da planta, na estação própria, sobre a haste do valor pessoal. Homens dessa têmpera comandam as gerações a que pertencem, nas grandes épocas de crise nacional, e impulsionam o movimen­ to que se perpetua pelas gerações adiante. Há casos notabilíssimos de proeminência de um homem, ou de uma aristocra­ cia mental, sobre os destinos de um povo, nenhum, porém, mais expressivo que o dos Estados Unidos, onde um grupo de precursores eminentes assentou, nos primei­ ros dias da constituição do país, os princípios que o haviam de dirigir até hoje. Quem lê o Federalista, as cartas e os manifestos de Washington, os trabalhos de Jefferson, dc Hamilton, dc Madison c de Franklin, encontra estudados, nessas soberbas profis­ sões dc fé, os caracteres práticos e morais da nacionalidade, expostos os seus pro­ blemas, indicadas as suas soluções, previstos os seus destinos, com precisão e clare­ za tão fortes que projetam luz sobre o futuro da grande pátria, até nossos dias. Esses homens deram aos olhos de sua pátria a consciência do nosce te ipsum; mostram-lhe as suas necessidades, os seus problemas, as suas soluções, os seus des­ tinos. A nação despertou formada, cônscia de sua posição e de seu papel no mun­ do, pronta para caminhar com os olhos fitos num objeto conhecido. Sua história foi o desenvolvimento natural de um atleta. Esta preparação inicial era mais difícil, entre nós, por causas geográficas e por causas históricas. Território heterogêneo, de conformação longitudinal, com rios e vias de comunicação menos favoráveis, eriçado de cadeias de montanhas que o di­ videm e separam, era mais penoso ligar e abranger, num todo, as diversas zonas, para lhes estudar o caráter comum c prefixar as condições de unidade e dc solida­ riedade. Não era fácil assimilá-lo, com seus produtos exóticos, às condições nor­ mais do comércio internacional, entremeando os seus interesses nas correntes or­ dinárias dos negócios. O comércio brasileiro ficou, como todos os que versam sobre especiarias, sujeito às oscilações, aos entraves, às espoliações, que acompanham, em toda parte, os negócios sobre gêneros que não são de uso necessário. Os homens públicos estavam, por outro lado, longe de possuir o preparo dos fundadores da república americana. Cientistas, literatos e juristas da escola de Coim­ bra trouxeram, para o nosso meio, brilhantes ideias, conceitos teóricos, fórmulas jurídicas, instituições administrativas, estudados nos centros europeus. Com tal es­ pólio de doutrinas e de imitações, arquitetou-se um edifício governamental, feito de materiais alheios, artificial, burocrático. Os problemas da terra, da sociedade, da produção, da povoação, da viação e da unidade econômica e social, ficaram en­

10 Leituras Complementares

291

tregues ao acaso; o Estado só os olhava com os olhos do fisco; e os homens públi­ cos - doutos parlamentares e criteriosos administradores - não eram políticos, nem estadistas; bordavam, sobre a realidade da nossa vida, uma teia de discussões abs­ tratas, ou retóricas; digladiavam-sc em torno dc fórmulas constitucionais, france­ sas ou inglesas; tratavam das eleições, discutiam teses jurídicas, cuidavam do exer­ cito, da armada, da instrução, das repartições, das secretarias, das finanças, das relações exteriores, imitando ou transplantando instituições e princípios europeus. Sob a impetuosidade do primeiro monarca e o academicismo do segundo, o meca­ nismo governamental trabalhou sempre, desorientado e sem guia, estranho às ne­ cessidades íntimas, essenciais, do nosso meio físico e social. A República desenvolveu consideravelmente a curiosidade intelectual, nas le­ tras, nas ciências, na política. Conservando a maioria na representação nacional, viram-se os juristas cercados de outras aptidões e capacidades. Moços, ardentes, ambiciosos, os políticos do novo regime lançaram-se à pesquisa de novos assuntos, novos problemas, novas conquistas a explorar, nos anais do Congresso, na impren­ sa, cm periódicos c livros, multiplicaram-se estudos c investigações, de incontestá­ vel mérito e marcada originalidade - mas esses trabalhos mostravam, em regra, a tara da nossa tendência e a lacuna do nosso preparo: eram teóricos, analíticos, li­ mitados a uma especialidade, a um ramo dc conhecimentos, alheios aos problemas concretos e oportunos. O regime não trouxe consigo os estadistas que o haviam de construir. Os estudos ganharam em variedade, mas perderam, em dispersão e inde­ finido, alguma precisão que os antigos tinham. É certo que os manifestos e mensagens presidenciais sumariam, com mais ou menos amplitude, notas sobre os departamentos dos serviços públicos, faces diver­ sas dos problemas nacionais, e que sugerem alvitres e soluções sobre variados as­ suntos; por amplos que sejam, têm, contudo, todos eles, um caráter, minucioso e pormenorizado, de catálogos de sugestões e propostas, para aplicações parciais, sem espírito de conjunto, sem vista geral e coordenada de nossa fisionomia social, política e econômica, de seus problemas, de suas soluções. São programas de ges­ tão transitória, para os quatro anos de período; faltam-lhes a envergadura e a luz, com que costumam verdadeiros estadistas concentrar, em traços fortes e nítidos, o sistema da política prática, o estudo positivo da fisiologia de um país, para lhes in­ dicar o movimento e a direção. Esses programas quadrienais, esboçados no curto período de cada governo, são esquecidos, para se dar começo a novos ensaios e tentativas, na seguinte presidência. A história da política republicana, em seu conjunto e em seus vários interesses, é uma jornada de marchas e contramarchas, de experiências e retrocessos... Somos um país sem direção política e sem orientação social e econômica. Este é o espírito que cumpre criar. O patriotismo sem bússola, a ciência sem síntese, as letras sem ideal, a economia sem solidariedade, as finanças sem continuidade; a educação sem sistema, o trabalho e a produção sem harmonia e sem apoio, atuam

um dos países que apresentam mais sólidos elementos dc prosperidade c mostram condições para um mais nobre e brilhante destino. foi em climas médios. naturalmente. que tal nome não merece a série cronológica dos fastos das colônias dispersas. as incursões bárbaras e as guerras conseguiram arremessar grandes massas de população para zonas frias. vão produzindo. Estudar o Brasil. ed. as aspirações e os desejos dos homens de todas as regiões! Só o esgotamento do solo. c a sucessão. a sua flora. destroem-se reciprocamente. vínculo íntimo e profundo. os seus vasos hidrográficos. aos azares. Tal foi a obra dos estadistas. entretanto. que sc fixou o tipo mais perfeito do reino animal. sujeita às oscilações. mas em sua na­ tureza dinâmica e funcional. A zona intcrtropical é o berço do animal humano. 1933. São Paulo. O Brasil não tem história. O destino de um país e função de sua história e de sua geografia. só começará a formar-sc quando mais estreita c solidariedade entre os habitantes das várias zonas lhe der a consciência dc uma unidade moral. uma gravíssima dificul­ dade: a tendência separatista das antigas colônias. para conhecer os elementos e aptidões de sua exploração e cultura. É natural que o homem tente vol­ tar para seu berço. a marcha de um país fica. E em sua geografia e no quadro da sociedade contemporânea que está a base do conhecimento de sua sorte.) . procurando apreender o caráter das diversas zonas geológicas e mineralógicas. para aí convergem. aliás. meramente política. a sua fauna. que tiveram dc vencer. que a unidade política está lon­ ge de realizar.292 Teoria Geral do Estado como elementos contrários e desconexos. Melhoramentos. aos desvios. sobre a ruína da vida comum. O Brasil é.. aí floresceram as primei­ ras e mais luxuriantes civilizações. e os egoísmos e interesses ilegítimos florescem. interesses ocasionais ou parciais. Sem esse estudo. e ao mesmo tempo as condições necessárias ao espírito de unidade social e econômica e à solidariedade entre os interesses e tendências divergentes. dc episódios militares e governamen­ tais: sua história étnica. a sua estrutura orográfica. erros de apreciação. ame­ ricanos da fase constitucional. econômica e social. a prolife­ ração das populações. ou cálidos. eis o que deverá ser o lema do patriotismo e do zelo pela sor­ te de nossa terra. Estudar a geografia de um país não em seu aspecto descritivo. 29-42. que acidentes. p. sempre que aí encontre terras férteis c climas propícios à vida. como a vida dos homens sem ob­ jetivo e sem método. eis o pon­ to dc partida dc toda política sensata e prática. 14) FRANCISCO JOSÉ DE OLIVEIRA VIA N N A 0 ocaso do Império (2.

não. Num e noutro caso. onde estão os nossos partidos?” perguntava. e com maior conheci­ mento de causa. o recurso das eleições. dentro dos princípios de pura teoria do regime representativo. nem consciência al­ guma do papel que estava representando. o liberal flagela o conservador . Foi o que fez em 68. certo. com efeito. entretanto.10 Leituras Complementares 293 Os dois velhos partidos do Império. quando chamou Sinimbu. espírito público nunca existiu no Brasil. sente-se que ele dava uma importância pequena. conquistado este. O objetivo era a conquista do poder e. levado às urnas apenas pela pressão dos caudilhos territoriais. Sr. No Brasil. O imperador apelou para ele várias vezes. tendo modificado a colora­ ção política do Gabinete. conservá-lo a todo transe: nada mais. em 53. Só nos países de opinião organizada é que o processo eleito­ ral pode ser um meio eficaz de sondagem da opinião do povo. O grosso do povo. Essa atitude dos dois grupos partidários fazia com que o imperador acabasse convencido de que não podia encontrar na opinião dos partidos nenhum índice se­ guro das correntes interiores. uma bela prova disto. No fundo. a vida política foi sempre preocupação e obra de uma minoria diminuta. O processo eleitoral. quando concedia a dis­ solução da Câmara. que porventura animassem a consciência do país. Foi o que fez em 78. não existe povo no sentido político da expressão. de volume pequeníssimo em relação à massa da população. quando chamou Itaboraí. Em tese. também não lhe dava nenhum índice seguro da opinião nacional. Entre nós. ou mesmo. o conservador flagela o liberal. dissolvia a Câmara e procurava informar-se da opinião do país através da coloração partidária do futuro Parlamento. “Mas. como observava Luís Couty. Falta-nos organização de classes. na sessão de 18 de junho de 1870: “O conservador não respeita o liberal. o liberal não respeita o conservador. como porcada é uma reunião de porcos”. a Paraná. E um espírito irreverente expri­ miu uma vez este mesmo pensamento. Hra este o principal programa dos liberais como o era dos conservadores. era este o mais legítimo processo de sondagem da opinião pública. num país como o nosso. Ninguém exprimiu melhor. não dava importância alguma à opinião dos partidos. como se vê. do que o próprio Zacarias este estado de alma do imperador.e o resultado é que a Coroa tem cm má conta um e outro'’. nunca teve espírito político. Honório. VI Havia. . como não tinham programas. não tinham opinião. dizendo que aqui “povo é uma reunião dc homens. Falta-nos li­ berdade civil. Realmente. O golpe parlamentar de 68 é. na verdade. Dis­ se ele. Falta-nos espírito público.

Demais. uma estrutura social muito simplificada. verdadeira burla . estava realmente conde­ nado a ser. como nunca se formaram. não se dispartia por várias classes ou grupos profissionais: concentrava-se quase toda numa classe única. a “opinião do povo”.e isto porque o partido que estivesse no poder ganhava sempre. por sua vez. porque há de fazê-la. opinião. na oposição. não tinham ainda razão de ser. Em síntese: pela grande simplicidade da nossa estrutura social.tal como hoje. capazes de revelar-se no processo eleitoral. no seio da população dos campos. ainda mais do que hoje. pela ausência de antagonismo de classe.como na Argentina da época caudilheira. que era a gran­ de aristocracia territorial. VII Demais. o velho. Mesmo que o nosso povo tivesse opinião. esta pessoa faz a eleição. Igualmente não se havia cons­ tituído aqui . ao imperador nenhum elemento seguro de orientação. segundo Sarmiento .ne­ nhum antagonismo entre as populações dos campos e as populações das cidades. próprios às sociedades de alta or­ ganização industrial. os conflitos dc classes. próprio aos governos parlamentares. pela feição acentuadamente patriarcal da nossa socieda­ de. esta eleição faz a maioria É que nos faltavam então . o processo de “consulta à nação”. estava ainda em condição muito rudimentar. os interesses das classes po­ pulares rurais não estavam propriamente em oposição aos da aristocracia territo­ rial. Então. como sempre foi. pois. de maneira que a vida política não se distribuía por vários centros da atividade.294 Teoria Geral do Estado Organização de classes também não existia. Nos grupos urbanos. antes. nem a plebe dos campos tives­ se. perdia sempre . uma pura ficção constitucional. devido à extrema simplificação trazida à nossa estrutura social pelos grandes domínios independentes. Esta preponderância tão absorvente da grande aristocra­ cia da terra fazia com que nem a classe média rural.dada a corrupção do próprio proces­ so eleitoral. e o partido que estivesse “debaixo”. ou pudesse ter. capaz de dar ao processo eleitoral uma significação realmente democrática. De modo que. chegou mesmo a formular esta lei no seu famoso sorites: “O Poder Moderador pode chamar quem quiser para organizar Ministérios. correntes de opinião desencontradas. O processo de sondagem por meio das eleições não podia trazer.as condições necessá­ rias para eleições livres. acordavam-se.e ainda nos faltam agora . Nabuco. à maneira britâ­ nica ou norte-americana. a estrutura social era quase tão rudimentar como nos campos. a dissolução da Câmara para a consulta à Nação se havia transfor­ mado numa farsa ridícula. Uma dessas condições é precisamente que cada um dos ci­ . Durante o período imperial tínhamos. sob o segundo Império. Num povo sem educação eleitoral e de opinião embrionária. não se podiam formar. como ainda não existe. a fraude não a deixaria revelar-se .

os velhos costumes permaneceram . o Grande. O recurso da dissolução da Câmara.com a certeza certa de uma previsão astronômica . essa autoridade. entretanto. todos esses mandões locais estavam na dependência dos Gabinetes. eleita no mesmo ano. dei­ xando o homem do povo na iminência ou na atualidade dos golpes de vindita dos poderosos. dos chefes de Gabinete. Nem a Magis­ tratura aqui teve jamais essa força. com efeito. Era esta. tenha perfeitamente assegurada a sua liberdade ci­ vil . na execução da lei da eleição direta.e estes asseguravam o mais completo absolutismo aos mandões locais. deixou de aplicá-la integralmente.e era isto o que não acontecia aqui. reformas várias do mecanismo eleitoral procuravam pôr um óbi­ ce a estes desmandos da fraude . dissolveu: a Câmara nova. Esta doutrina absurda pode-se dizer que era a expressão do pensamento íntimo de todos os políticos no poder. desmentiu esta regra .e nenhum deles. o expediente da “consulta à Nação”. esse prestígio. “ O Governo. que punha uma tão confiada arrogância no coração do moleiro de Frederico. Só Saraiva. foi o Gabine­ te conservador que caiu. todos esses aparelhos protetores das liberdades individuais sempre funcionaram mal. Este. C'est fait de moi. não passavam. soberbamente conservadora. É certo que a Reforma Judiciária de 71 assegurou um pouco mais os particulares contra o arbítrio das autoridades. já se sabia de antemão . a condição das nossas massas populares sob a lei de 3 de dezembro de 41. Em nosso país. tanto liberais como conservadores. Ora. por exemplo. à maneira da Inglaterra. voltou soberbamente liberal! Certamente.e a lei Saraiva. continuaram a scr precárias. nunca existiram grandes tradições de legalidade. Aqui. o Gabinete Sinimbu: e a Câmara.10 Leituras Complementares 295 dadãos. Dis­ solvida a Câmara. Esta Câmara. Itaboraí. em 1840. tem o direito de intervir no processo eleitoral” . afinal. em 82. si je ne pars hientôt.o que lhe valeu uma ascendência imensa sobre todos os políticos do seu tempo. através da poderosa máquina centralizadora. Antônio Carlos. expressão de um partido. conservadora. na verdade. ou mais exatamente. dc garantias no papel. veio unanimemente conservadora! Em 1878 deu-se o contrário. Cada homem do sertão ou da mata entre nós bem podia dizer como aque­ le camponês de Paul Louis Courier: Je suis malheureux: )'ai fáché monsieur le maire. il me faut vendre tout et quitter le pays. onde os preceitos da common law tem qualquer coisa dc sagrado aos olhos das autoridades c aos olhos das multidões. dissolvida. mobilizava à sua vontade esse formi­ dável exército de tiranetes locais. substituiu-o um Gabinete liberal. na prá­ tica. Em julho de 68 caía o gabinete Zacarias com uma Câmara unanimemente liberal.que a nova Câmara vinha inteiramente à feição do novo Gabinete. se havia transformado numa verdadeira burla.dizia. Estas garantias. pelo mecanismo da centralização. Era debalde que as oposições tentavam lutar con­ tra a força irresistível dessa compressão organizada. em que ninguém mais acreditava. que substituiu o velho sistema da . tanto li­ berais como conservadores . cada um dos eleitores.

Todos os outros sistemas eleitorais. de 55. O mal devia estar então neste sistema . o sufrágio revelava ali uma tendência a generalizar-se. tamanha a fé nas suas virtudes. mas uma questão nacional: todo o país a reclamava! O imperador foi um dos primeiros a perceber isto e foi ele quem. O que aconteceu com o sistema da eleição direta é típico. Estávamos na convicção dc que o novo sistema eleitoral armaria o povo com uma arma invencível contra o arbítrio do po­ der. que ela passara a ser. até então praticados. para o sistema da eleição direta. o idealismo do mundo. insinuou Sinimbu a agitar o problema e promover a sua solução parlamentar. invencíveis no prodigioso diabolismo das suas habilidades de prcstímanos. Saraiva. saídos dos conluios dos gabinetes ministeriais. Falhara a reforma de 75. Porque o nosso movimento pela eleição direta não foi original. tinham falhado. como confessava Sinimbu. que estabelecera o princípio da repre­ sentação das minorias. pareceu. em que se consubstanciara a gran­ de aspiração nacional. nem as leis anteriores pu­ deram contravir às artimanhas dos nossos bosses eleitorais. Falhara a “lei dos círculos”. com a sua alta autoridade. que era. impor a sua vontade c o seu arbítrio. ter conseguido este grande objetivo. com o estímulo do imperador. Em suma. Por mais cautelosas c casuísticas que fossem todas es­ tas leis. Esta contemporaneidade dos dois movimentos mostra o caráter meramente reflexo do nosso . não tinha o temperamen­ . o sistema dos dois graus falhara: mostrara-se extremamente dócil à vontade do poder. Estes sempre se mos­ traram inapreensíveis. aliás. Este sistema havia aparecido nos nossos meios partidários como uma criação miraculosa do engenho político. a apro­ ximar-se cada vez mais das maiorias populares. cheios de esperanças. Refletíamos os clamores dos partidos europeus e as aspirações que agitavam o ve­ lho mundo. eram nada diante dos truques sugeridos pela inventiva maravilhosa desses Fregolis da cabala.296 Teoria Geral do Estado eleição de dois graus pela eleição direta. mas apenas uma prolação do movimento europeu neste sentido. ao contrário de Zacarias. Com o sufrágio direto. Então. não mais uma ques­ tão de partido. o Parlamento seria.e nossa esperança qua­ se messiânica na eleição direta não era senão a esperança contemporânea de todos os povos civilizados no sufrágio universal. à primeira vista. intangíveis. justamente na época em que iniciávamos aqui. com os seus distritos de três deputados. Falhara a reforma de 60. Todas elas deixavam brechas por onde o governo pudera insinuar-se. o movimento pela eleição direta. não mais uma massa passiva de de­ pendentes. Esta tendência atingia o seu máxi­ mo dc intensidade. Mas a verdade c que nem esta lei. mas uma legítima expres­ são da vontade nacional. Houve um momen­ to mesmo cm que foi tamanho o entusiasmo pela eleição direta.c os espíritos mais impacientes volta­ ram-se. Coube a Saraiva a execução da lei de 81. Sente-se que ele se deixara tomar também do idealismo ambiente.

aliás. O nosso povo teve por um momento a impressão que havia encontrado nela a chave da sua liberdade políti­ ca: pela primeira vez o governo fora derrotado! Para este magnífico êxito não contribuiu apenas a retidão e a imparcialidade de Saraiva: há que contar também com a intervenção direta do imperador.10 Leituras Complementares 297 to de um homem de partido: era uma natureza álgida. nas elei­ ções de 84. Nenhum mais se resignou a sofrer a provação da sua derrota. esta fase climática de exaltação. cm parte. passou a ganhar sempre. cuja compressão eleitoral dc 78 enchera de surpresa. a consciência do país.como não a executariam Paulino ou Sinimbu. que acompanha sempre a estreia das grandes reformas e sob a qual todos os pequenos egoísmos. Por isso. insusceptível ao fanatismo das grandes convicções e inapto às grandes vibrações do entusiasmo. desde que ela se lhe revelasse de uma maneira clara e insofismável. porém. os homens retornam logo ao seu pequeno horizonte emotivo e. Os resultados da nova lei foram surpreendentes. Nada mais comprobativo da alta compreensão que o velho dinasta tinha da sua grande missão constitucional do que a sua insistente diligência junto a Saraiva. mandando às Câmaras uma representação que fosse a expressão legítima da sua vontade. como todas as outras leis. a lei Saraiva também falhou. No fundo. a este estado dc exaltação gene­ rosa e idealista. em que certamen­ te não acreditava. por exagerada. O êxito inicial da lei Saraiva foi devido. todas as pequenas impurezas da nossa pobre huma­ nidade como que se fundem ou se volatizam. ao seu pequeno horizonte intelectual e voltam a viver dentro do seu egoísmo anterior. Passada. Ele confessou. junto a Dantas. sobrecarrega­ do das mil preocupações do seu cargo. em parte. com o seu vivo sentimento partidário não a executaria . cioso da sua dignidade de rei. ao pon­ to de Dantas considerar que aquela preocupação. mesmo. mas não do seu direito divino. como ou- . à ação conjugada do impe­ rador e do chefe do Gabinete. também. Zacarias. Ninguém mais capaz de executar uma lei. senão dc es­ panto. mas atento aos menores detalhes e às me­ nores providências. “O Imperador se tornou o fiscal-mor da oposição junto ao ministério. necessárias a assegurar uma execução perfeita àquela grande lei. como outrora. Pedro sentia que o resultado bom ou mau da lei Saraiva ia dar a prova crucial da excelência do velho regime. a fria imparcialidade. ele não teria nenhuma repugnância em acatar a opinião do povo. A oposição. quase redunda­ va em preferência pelos adversários” . D. a do terço etc. Soberano visceralmente democráti­ co. não poderá deixar de sentir uma emoção comovida diante deste ancião. Nenhum dos homens do poder teve mais a abnegação de Saraiva. Nas eleições seguintes restauravam-se as velhas praxes opressivas.. e mesmo depois. isto mesmo nas suas notas ao livro de Tito Franco. por oca­ sião da primeira experiência da lei de 80. o sentimento da verdade pura. a dos círculos. em que a qualidade principal do executor seria o des­ prendimento.diz um historiador. Quem ler hoje a correspondência dele com Dantas por essa época. O governo.

quando se operava uma crise ministerial. mas. desta artifi­ cialidade do regime representativo no Brasil do que D. que os próprios partidos. isto importaria na vitória segura do novo Gabinete: e a situação anterior.sem conceder a dissolução da Câmara seria logicamente impossibilitar àquele os meios de governo. seria isto . desta burla. Por isso mesmo. quando no poder. cujas origens espúrias bem conhecia. sc ele chamasse um Gabinete conservador . Ora chamava um. concedida a dis­ solução.ao ostracismo permanente e irremissível. Em suma.298 Teoria Geral do Estado trora. de Saraiva ou de Cotegipe. Pedro . a de­ licadeza da sua situação no exercício da grande faculdade constitucional. adotara uma atitude de paternal e displicente imparcialidade para com os dois partidos. puro homem de bem. o destino dos partidos estava. seria reduzida a destroços. em vez de formar um Gabinete de coloração contrária. ele adotasse sistematicamente a fórmula britânica e formasse sempre Gabinetes da mesma coloração da Câmara. haviam organizado. como costumava de quando em quando fazer. Ele bem compreendia que o papel do rei constitucional. com as situações locais c provinciais.o matiz político que cobria o país passava a ser desde então impressionadoramente liberal! IX Ninguém mais convencido de tudo isto. Ele fazia cair os par­ tidos e fazia subir os partidos. D. exercido à maneira in­ glesa. Pedro era um espírito liberal e equânime. o clamor. os admiráveis mecanismos de compressão política. e julgando-se indesmontáveis. pois. o desespero dos condenados às geenas do ostracismo. dependente de um simples aceno do im­ perador . à vontade: bastava para isto pôr nas mãos de Z a­ carias ou de Itaboraí. Estes c que davam aos partidos no poder. mas. sem dar nenhuma consideração apreciável à opinião da Câmara. durante o império. não na opinião do povo. Numa Câmara liberal.ele bem o sentia .e a política rotativa do imperador sempre permitia que isto acontecesse . mas na opinião dos Gabinetes. por exemplo. Voltaram as Câmaras unânimes . por mais sólida que fosse. sem gosto nenhum pela política e as suas agitações. Compreende-se. de Nabuco ou de Uruguai. ora chamava outro ao poder. ao sopro violento das “der­ rubadas” . se acontecia ser liberal o Gabinete .e com elas o pro­ testo. pois. . Sc cra conservador o Ga­ binete. Seria o que Saraiva chamava “a condenação dos adversários ao inferno de Dante” .fixar 110 poder ad aetermitatem o partido do Gabinete.chamando este ou aquele prócer partidário ao Paço. seria aqui absolutamente irrepresentável por qualquer soberano que aspiras­ se ao título de justo. todo o país se revestia de uma coloração conservadora. O destino dos partidos estava. passou a perder sempre. Se. con­ tra que investia a cólera dos políticos caídos em desgraça. desta ficção.e é isto justamente que transparece das suas notas ao livro de Tito Franco. todas as vezes que se abria uma crise de Gabinete. essas belas unanimidades parlamentares.

porque fatalmen­ te mal compreendida e. o poder é disputado pelos proventos que concede aos políticos e aos seus clãs. an­ tes dc tudo. aquele dito espiri­ tuoso de Martinho de Campos.c todos acham infinitamente mais docc viver do Estado do que de outra coisa. Sabe-se. em- . quando teve que deixar a pasta de ministro: Perdi o emprego! Era um graccjo. os partidos não disputam o poder para realizar ideias. X Os políticos. quando o imperador os fazia apearem-se do poder. o partido conservador. a conquista do poder é um fato inquestionavelmente mais sério e mais dramático do que em outro país. Num país assim. o exercício do Poder Moderador num sistema parlamentar é uma tarefa delicada. fazia subir ao poder. do co­ mércio c da indústria . não sabia realizar. um meio dc vida: vive-se do Estado. em que os indivíduos vão ao poder no intuito altruístico de realizar um grande ideal coletivo. todos os ocupan­ tes adversários. pelo menos mal aceita pe­ los detentores eventuais dos instrumentos do governo. Há os proventos morais. com a sua incapacidade de­ mocrática. O partido que subia derrubava tudo . No fundo. no centro repetiam. provinciais e gerais. aliás. com a sua equanimidade. num país em que a vida política se modela por esse padrão e se restringe a esses objetivos personalíssimos. depois dc dez anos dc governo conservador. Em boa verdade não a podiam compreender. fazia subir os liberais. Era uma vassourada geral. espinhosa. Entre nós a política é. Em 1868. que sempre dá a posse da autoridade. ou antes. depois de seis anos de domínio do par­ tido liberal. não a podiam admitir. ingrata . o imperador parecia não ter ou­ tro critcrio senão o do tempo: ele fazia o revezamento dos partidos conforme o tempo da estada deles no poder. com surpresa geral. entretanto. Eqüivale dizer que cabiam a estes as batatas. não compreendiam (ou fingiam não compreender) esta imparcialidade do imperador. nada mais lógico do que a irritação dos políticos contra esse personagem. que. com efeito. ou podiam repetir realmente. quando caía um Gabinete. nas províncias. Daí a áspera violência das famosas “derrubadas” . que deixava o campo inteiramente lim­ po e aberto ao assalto dos vencedores. Realiza­ va assim. se não há engano na filosofia de Quincas Borba. locais. mas há tam­ bém os proventos materiais. Desde que nada podia explicar esta queda senão a vontade do monarca. Em nosso país. a frase motejadora de Martinho: também eles perdiam o emprego! Está claro que. mas este graccjo encerra a síntese dc toda a filosofia política no Brasil. aquilo que o povo. todos os que formavam o estado-maior deste partido nos municípios. que essa posse também dá. como sc vive da lavoura. quando não mal compreendida.quer dizer: sa­ cudia para fora dos cargos públicos. Em 1878.10 Leituras Complementares 299 Nestas alternativas das situações partidárias. Estes se julgavam sempre esbulhados.

eles não se sentiam apenas esbulhados com o ato da Coroa que cha­ mava ao poder os adversários: sentiam-se também humilhados. Kste explodia. Não é um homem ou um grupo de homens. Tal obra de arte foi construída pelo homem e serve-se dos cérebros e das energias humanas e nada é sem o homem. 1959. Colúmbia.. O Estado é apenas uma insti­ tuição autorizada a usar do poder e da coação. Professor do Instituto Católico de Paris {1914-1940). tornou-se adversário do Concilio Vaticano e do movimento neomodernista. cujo funcionamento pode ser considerado como ra­ cional em segundo grau. Rio de Janeiro. universidades de Toronto. como o acreditava Hegel. um instrumento ao 5 Jacques Maritain (1882-1973). às vezes. às vezes mesmo. O Estado não é a suprema encarnação da ideia. uma encarnação superior da razão. com destaque para Filosofia moral (1960). em frases de recriminação violen­ ta ou cólera impulsiva. O Estado é uma parte que se especializa no interes­ se do todo. na medida em que a atividade racional nele envolvida. Alceii Amoroso Lima. é mais abstrata. estudou em Paris e Heidelberg. O Estado não é uma espécie de super-homem coletivo. de rancor. da experiência c da individualidade. Embaixador da França no Vaticano (1945-1948). mais impiedosa também do que em nossas vidas individuais. todavia. p. mais separada das contingências.300 Teoria Geral do Estado buçado dentro de uma prerrogativa constitucional. No campo da filosofia política legou-nos O homem e o Estado. e constituída por técnicos e espe­ cialistas em questões de ordem e bem-estar público. ar­ ticulada pela lei e por um sistema de normas universais. uma superestrutura impessoal e duradoura. é um conjunto de institui­ ções combinadas em uma máquina altamente aperfeiçoada. 15) JACQUES M ARITAIN5 0 homem e o Estado (Trad. em suma. Homens de clã para quem o inimigo político era quase sempre inimigo doméstico e a luta política uma luta pessoal.) 0 Estado O Estado é unicamente a parte do corpo político que se refere especialmente à manutenção da lei. filósofo e diplomata francês. . Arte e escolástica. 3. Escreveu inúmeras obras. lecio­ nou também na América do Norte e no Canadá. feridos no seu pundonor pessoal c guardavam do imperador uma sorte de ressentimento íntimo. sem outra razão senão as razões do seu capricho. obra que escolhemos para transcrever o trecho supra. constitui. ao fomento do bem comum e da ordem pública e à adminis­ tração dos negócios públicos. 22-3. ed. con­ vertendo-se ao catolicismo em 1906. os destituía das suas situações de mando. Chicago e Princeton (1948-1960). Agir.

entre elas A ruína do mundo antigo. porque os trabalhadores levam tais expressões ao pé da letra. Dedicou-se à questão social desde 1892.) Tradução do autor. Tenho certeza de que o socialismo não sobreviverá sem a apologia da violência. por inclinação natural. inspirando-se principalmente em Karl Marx. as quais levariam o trabalhador à sua eman­ cipação mediante o estímulo a uma greve geral e universal. espera e preparação da greve geral. Deixou várias obras de considerável significado. A greve é uma guerra! Consequentemente. Quando. existe para o Estado. tornou-se. semelhantemente a uma batalha napolcônica. de uma transformação radical. Com efeito. engenheiro de profissão. suprimirá um regi­ me condenado. o mais importante de seus trabalhos. é uma grande mentira dizer que a violência não passa de um fenômeno acidental. um notá­ vel ideólogo. sobre a violência proletária. simultaneamente. resolvi escrever. mas o cor­ po político existe para a pessoa humana como pessoa.10 Leituras Complementares 301 serviço do homem. Reflexões so­ bre a violência (1906). Paris-Genève. o mais significativo dos mitos proletários. Collcction Rcssourccs. Não me conformo com a visão limitada de alguns em considerar as greves como algo seme­ lhante a uma desavença comercial entre um feirante e seu fornecedor. construindo. não se dei­ xando condicionar por metáforas. em 1905. Para eles o socialismo se reduz à ideia. A pessoa humana como indivíduo existe para o corpo político. destinado a desaparecer das greves. de maneira alguma. Sua importância para as ideias políticas pode ser resumida no fato de que inspirou. seu famoso sindicalismo revolucionário. A revolução social é o prolongamento desta guerra. Tal concepção não implica nenhuma das sutis interpretações em que se esmera Jaurès. O Estado e que existe para o homem. 16) GEORGES SOREL6 Reflexões sobre a violência (Réflcxions sur la violence. um clássico da Política. que. Trata-se. da qual cada grande greve constitui mero episó­ dio. é durante as greves que o proletariado reafirma sua existência. com bruscas alterações de rumo. eis por que os sindicalistas se referem a tal revolução empregando o linguajar típico das greves. . dois ilustres discípulos: Lenin e Mussolini. 1981. Aqueles que dirigem ao povo palavras revolucionárias têm a obrigação de ser sinceros. isto sim. Ensaios dc crítica do marxismo e. Vergastando a burguesia e a democracia parlamentar. Mas o homem. estava consciente da grande res­ ponsabilidade que assumia ao tentar demonstrar a importância histórica de ccrtas ações que nossos socialistas “parlamentários” tentam ocultar com suas artimanhas. Colocar o homem a serviço desse instrumento é uma perversão política. acre­ ditava na formação de elites no seio do proletariado. com a eli­ Georges Sorel (1847-1922). de forma re­ lativamente profunda. Pierre Joseph-Proudhon e Henri Bergson.

aliás. exclui todas as abominações que desonraram a revolu­ ção burguesa do século XVIII. que parecerá ainda mais impressionante quanto maior for o convencimento alcançado pela violência no ânimo dos proletários. e que trabalhavam para o fortalecimento do Estado legado pelo Antigo Regime. Seria caso de se comparar os socialistas “parlamentários” aos servidores com que Napoleão formara uma nobreza. Não adiantaria tentar convencer os pobres de que estão equivocados ao nu­ trirem inveja e rancor contra seus patrões. filosofia esta profundamente vinculada à apologia da violência. esta mc pareceria decisi­ va cm favor dos apologistas da violência. serão relegados à sua literatura. aos exércitos napoleônicos. Há. pelos guilhotinadores. Ainda que não houvesse outra razão para atribuir ao sindicalismo revolucionário um elevado papel civilizador. às repúblicas antigas. sc tornarão inúteis. e tornam-se dignos de ensinar ao mundo novos caminhos. a mesma indulgência com que ele os en­ carou. Por isso. os socialistas situam-se em nível superior ao da nossa leviana sociedade. algo tremendo. que esperam obter da democracia os melhores cargos. vai-se fir­ mando uma filosofia até pouco tempo despercebida. hoje. sem hipocrisia. a apologia da violência me é particular­ mente simpática. Incansavelmente. c cnchc-mc dc horror qualquer medida que atinge o mais fraco sob um dis­ farce judicial. Ninguém duvida . enquanto o sindicalismo revolucionário corres­ ponderia. comprovo que. em tudo isto. e os socialistas “parlamentários”. A guerra social. com precisão. chamo a aten­ ção de meus jovens discípulos para os problemas que o socialismo apresenta. A guerra travada de peito aberto.salvo D ’Estournelles de Constant . visando a destruir um inimigo irreconciliável. desenvolvida pela prática de greves violentas. pode suprimir tais sentimentos vis. Fecunda dc conseqüências c a comparação que estabelecemos entre as greves violentas e a guerra.302 Teoria Geral do Estado minação dos patrões e do Estado pelos produtores organizados. típica de um povo de produtores. cujos soldados levam a efeito . traz consigo o ideal de uma grande transformação. Somente a guer­ ra social. ao apelar para o sentimento de honra que se desenvolve naturalmente em todo exército organizado. Todavia. pode dar origem aos fundamentos de uma nova civilização. ao levar a efeito obra tão séria. já que tais sentimentos são demasiado fortes para que exortações inconseqüentes possam reprimi-los. as ideias que constituem o mais belo monumento da moderna civilização.que a guerra proporcionou. contra os quais a mo­ ral continuaria impotente. que vêem na organização criada pela burguesia os meios que lhes permitem dominar uma parccla do poder. Nossos intelec­ tuais. temível e sublime como esta. nem experimento. do ponto de vista de uma civilização de produtores. para a qual o proletariado não cessa de se preparar nos sindicatos. Jamais nutri por certo “ódio criador” a admiração que lhe concedeu Jaurcs. é sobre seu enorme alcance que a democracia fundamenta sobretudo sua força. A ideia de greve geral.

Entre outros temas. da Primeira Guerra Mundial. última fase do capitalismo (1919). a sua causa é injusta” . semiconscientemente. de seu país. mesmo sabendo que continuariam pobres.ntre 1900 e 1917 viveu no exterior. “A Democracia é liberdade. Imperialismo. até agora. desenvolveu inten­ sa atividade intelectual e de ativista político. p. Esta conclusão apareceu milhares de vezes em todo o lado e aparece constantemen­ te em toda a imprensa e nos jornais já mencionados por mim. Global. é a referência à Democracia. apareceu na literatura eu­ ropeia como o mais decisivo representante deste ponto de vista: “Os bolcheviqucs escolheram um método que viola a Democracia. contestou o revisionismo desta.) Passarei agora à questão seguinte . Estado e revolução (1917). por um lado. Tcórico brilhante da doutrina marxista. Que restou do Império? Nada mais do que a cpopeia da Grande Armada. ed. São suas obras principais Materialismo e empiriocriticismo (1909). 24-34. e o que perdurará no movimen­ to socialista atual será a epopeia das greves. 17) NIKOLAJ LÊNIN7 Como ilu d ir o povo com os slogans de liberdade e igualdade (3. K assim que ele argumenta. é claro. Como sabem. membro da Internacional dc Berna. Kautsky. Refugiando-se no exterior dois anos mais tarde. Assumindo o poder. os bolcheviqucs escolheram o mé­ todo da ditadura e. Já tive várias vezes que fazer notar que a justificação. é a decisão da maioria. por vezes. doença infantil do comunismo (1920). bem como a distribuição das terras aos camponeses e a atribuição de todo o poder aos sovietes.. A ditadura do proletariado e o renegado Kautsky (1919).10 Leituras Complementares 303 tantas proezas. impediu a intervenção mili­ tar estrangeira em seu país e deu início à sua reconstrução econômica. e Extremismo. exigindo a imediata retirada. líder revolucionário soviético. por outro rejeitou as correntes radicais dc extrema esquerda. Em 1919 organizou a Terceira Internacional. São Paulo. que pode haver de mais importante do que a liberdade. é igualdade. Eclodindo a Revolução dc 1917. passando três anos deportado na Si­ béria. o chefe ideológico da Segunda Interna­ cional e. preparando a segunda fase do processo revo­ lucionário. 1980. tendo sido preso em 1895. Toda a intelligentsia o repete constantemente e. F. a de­ Nikolaj Lenin era o pseudônimo de Vladimir Ulianov (1870-1924). em que todas as facções socialistas que o apoiavam o elegeram como o grande líder do movimento operá­ rio internacional.A atitude em relação à Democracia em ge­ ral. portanto. encerrou a guerra civil. lançando as bases de um novo Estado socialista de inspiração marxista. . voltando à Rússia para se tornar o chefe da Revolução Socialista deflagrada em 1905. a igualdade. nos seus argumentos. a defesa mais proveito­ sa destas posições políticas que os democratas lançam contra nós. anali­ sou a chamada fase imperialista do capitalismo e elaborou o conceito de ditadura do proletariado. os filisteus repetem-no. endereçada aos revolucionários dc seu país. Tornou-se militante ainda jovem. se. travada contra o Império Austro-Húngaro. voltou novamente à Rússia.

no nosso pro­ grama. em nome desta liberdade. e a decisão da maioria. das suas obras. c inútil acentuá-lo. pela com­ pleta destruição da produção mercantil. para oprimir as massas trabalha­ doras. socialista ou democrática. por defenderem-na contra os usurpadores.304 Teoria Geral do Estado cisão da maioria! Se vocês. igualdade. pois desejamos clareza acima de tudo. . fraudulentamente. para provar que por detrás destas frases se encontram os interesses da liberdade do proprietário. Sim. a igual­ dade. E qualquer pes­ soa que tiver lido Marx . muito importante em qualquer revolução. é sua aliada. que criou a liber­ dade burguesa. como declaramos claramen­ te no nosso programa do partido. sabemos perfeitamente que isto foi um progresso histórico mundial. e a maior parte das suas investigações científicas exatamente à ridicularização da li­ berdade. qualquer pessoa que. está a serviço dos exploradores e nada mais. 110 seu tempo. Esclareça-se. consideramo-los como aliados de Kolchak. Sabemos perfeitamente que temos que lutar contra o Capital mun­ dial. é uma fraude. ou são censuráveis por surgirem ao lado da classe capitalista. a liberdade do Capital. “Liberdade”. quando a principal tarefa for a luta das classes trabalhadoras pelo total aniquilamento do Capital. adep­ tos da Democracia consistente. No momento em que se atingir a destruição do poder do Capital em todo o mundo. que. Serão os democratas puros real­ mente censuráveis por ensinarem a pura Democracia. nesse momento histórico. e dizemo-lo sempre. e só contamos com o setor avançado dos trabalhadores que tem uma real e verda­ deira consciência da sua posição. se afastaram disto. e ainda tiveram a ou­ sadia de declarar abertamente que são mais importantes que a liberdade. sabemos perfeitamente que o Capital mundial. dissemos. atue contra a ditadura do proletariado. então não se surpreendam e não se queixem se vos chamarem dc usurpadores e violadores!” De modo algum nos surpreendemos. c um slogan muito. tais slogans altissonantes. em tal momento po­ lítico. “igualdade” e “a vontade da maioria”. que não lançamos. que destruiu a escravatura feudal. do ponto de vista dos fundamentos da luta proletária e do poder proletário. preferindo direta ou indiretamente esta à ditadura do proletariado. ou mesmo num país. mas é fundamental do ponto de vista da nossa propaganda e educação. ao lado de Kolchak? Comecemos por esclarccer a noção de “liberdade” . bolcheviques. como “liberdade”. Mas o nosso programa declara: “A Liberdade 6 uma frau­ de se se opõe à emancipação do Trabalho da opressão do Capital”. pois é necessário esclarecê-lo. Talvez isto seja supérfluo do ponto de vista da formulação externa do programa. adeptos da pura Democracia. quando não subordinada aos interesses da emanci­ pação do Trabalho do jugo do Capital. teve à sua fren­ te a tarefa de criar a liberdade.sabe que ele devotou a maior parte da sua vida. e que con­ sideramos esses que se intitulam democratas. porque a liberdade. vontade da maioria e a todas as espécies de Benthams que o descrevem. utilize as palavras “Liberdade em geral”. no programa do partido.quem quer que tenha lido mesmo uma divulgação po­ pular de Marx .

ingleses e ame­ ricanos chamam liberdade mesmo à liberdade de reunião. Mas a vossa liberdade é de uma tal espécie que é uma liberdade no papel e não na prática. a vossa liberdade. “é o verdadeiro significado e a principal manifestação de liberdade. mas isso é propriedade privada. contra o livre Capitalismo e. cla­ ro. pertencem aos capitalistas e aos proprietários e chamam-se. sc é contrária aos interesses da emancipação do Tra­ balho da opressão do Capital. Mas talvez isto seja impossível? Talvez seja impossível que a liberdade seja contrária à emancipação do Trabalho do jugo do Capital. Encontramos coisas deste gênero a cada passo. ame­ ricanos. se está em contradição com a emancipação do Trabalho da opressão do Capital. Ainda há pou­ cos dias atrás .recebemos agora raramente os jornais franceses porque estamos cercados por um anel. E vocês. civilizados cavalheiros. Reparem em todos os países da Europa Ocidental. Podeis reunir-vos livremente com cidadãos da República Democrática Russa. onde quer que tenham estado. um imenso progresso em comparação com a ordem feudal. indo contra os bolcheviques c apoiando os seus adversários. Todos os socialistas o reconheceram ao utilizar esta liberdade da sociedade burguesa para ensinar ao proletariado o modo de acabar com a opres­ são do Capitalismo. E nós respondemos. com a lei de servi­ dão medieval. o seu sistema é descrito como o sistema mais livre. isto é usual cm todas as suas polêmicas contra nós. O fato dc reconhecerem a liberdade de reunião é. por exemplo. “A Sala dos Nobres”. América . esquece­ ram que a vossa liberdade está escrita numa Constituição que legaliza a proprieda­ de privada.consegui ler nos boletins emitidos pelo governo francês dc rapina que.10 Leituras Complementares 305 E declaramos que somos contra o Capital em geral. sabemos que ele erguerá a bandeira da liberdade contra nós. Sim. dado que por enquanto ainda é impossível cercar o ar. violaram a liberdade de reunião”. desculpem-me. Inglaterra. Qualquer espé­ cie de Liberdade é uma fraude.é assim na realidade que está es­ crito na vossa Constituição. contra o Capitalismo Republi­ cano.França. tendes que respeitar a propriedade . contra o Capitalismo Democrático. Consideramos essencial dar-lhe esta resposta no nosso programa. a propriedade . dizem eles.erguem esse es­ tandarte. claro está. como este onde agora nos encontramos. “ Isto”. E a que chamam eles liberdade? Estes “civilizados” franceses. e ouvimos as emissões de rádio estrangei­ ras . Em todos os livros. é uma fraude. a França está a manter mais que nunca o seu “alto ideal dc Liberdade”. franceses. Juntamente com a liberdade. Esqueceram um pormenor. Isto significa que os grandes auditórios que existem nas grandes ci­ dades. e agora esses “países civilizados” . Na Constituição deve es­ tar escrito: “ Liberdade de reunião para todos os cidadãos”. ou sobre os quais te­ nham lido. respondemos nós. cavalheiros ingleses. É esta a essência do problema. marcham contra os bolcheviques “em nome da liberdade” . bolche­ viques. mas a informação chega-nos pelo telégrafo.

aos cavalheiros que apoiam a Democracia. fantasista. depois falaremos sobre liberdade. nem pelo palavreado de muitas das revoluções dc 1848. como também os suprimiu. Lu­ tamos contra eles. de um ca­ pitalista ou de uma sociedade anônima. então seremos pela liberdade de reunião para todos. é necessário retirar a liberdade de reunião aos capitalistas.trata-se aqui de um proprietário. nós afirmamos que qualquer liberdade não subordinada aos interesses da emancipação do Trabalho da opressão do Capital ê uma fraude.é este o significado da ditadura do proletariado. Quando isto acontecer. porque não se caracterizou por molezas. então o povo se es­ quecerá de que é possível existirem edifícios públicos propriedade de um particu­ lar. Afirmamos que a liberdade de reunião para os capitalistas é o maior crime contra os trabalhadores. desencadearam uma revolução. Primeiro apoderemo-nos dos melhores edi­ fícios e. e havemos de abolir esta liberdade. pois sabemos como tratar de emanci­ par os trabalhadores do jugo do Capital. Vocês acusam-nos de violarmos a liberdade. mas hoje a liberdade de reu­ nião significa liberdade de reunião dos capitalistas. num edifício das organizações dos trabalhadores e só então falaremos dc liberdade dc reunião. Aos cavalheiros intelectuais burgueses. na França de 1792-1793. Estamos numa batalha . Primeiro trans­ formamos este edifício. sob a qual não existirão grandes edifícios onde apenas uma família vive e que pertence a um único indivíduo . A Revolução Francesa e chamada a Grande. meias-tintas. Nessa altura seremos pela total “liberdade”. Pas­ saram os dias do Socialismo ingênuo. dizemos: Vocês mentem quando nos atiram à cara a acusação de es­ tarmos destruindo a liberdade! Quando os vossos grandes revolucionários burgue­ ses. quando se pensava que bastava convencer a maioria das pessoas e pintar um belo quadro da sociedade socialista para que a maioria adotasse o ponto de vista do So­ cialismo. e a cul­ pa é dos cavalheiros burgueses. incluída nas Constituições de todas as repúblicas burguesas. isto constrói essa verdadeira li­ berdade. os melho­ res edifícios são propriedade privada. mecânico e intelectual. é necessário retirar ou cortar-lhes a sua “liberdade” . ladrões. protegidos do tempo. quando queremos nos reunir.isto não acontecerá tão cedo. Também sabe­ mos como tratar os cavalheiros capitalistas. então. utópico. é uma fraude porque. não permitiram a liberdade de reunião aos monárquicos. assim como dos cavalheiros intelectuais burgueses -. Mas nós dizemos: Estamos virando isto “de pernas pro ar”. Passou o tempo em que era possível iludirmo-nos a nós mesmos e aos ou­ tros com estas histórias de fadas. criminosos. Isto ajuda a emancipação do Trabalho da opressão do Capital.306 Teoria Geral do Estado privada senão passais a ser Bolcheviques. que reconhece como inevitável a . A li­ berdade de reunião. na Inglaterra de 1649. pessoas in­ solentes. que não é mais que a liberdade de reunião dos contrarrevolucionários. dos contrarrevolucionários. a “Sala dos Nobres”. Q uando só houver no mundo trabalhadores e as pessoas se esquecerem dc pensar cm como era possível ser um membro da sociedade e não um trabalhador . O Marxismo. e porque foi uma revolução a serio que não só derrubou os monárquicos. gatunos.

e na véspera da Revolução de Outubro gracejava ainda muito feliz e despreocupada. precisamente por não estar ainda totalmente derrubada. vencer a resistên­ . quem hoje nos ataca com palavras como “Democracia”. Não pode ser de outro modo aos olhos daqueles que refletiram sobre a luta de classes. por­ que a burguesia ainda não acredita que foi derrubada. e tais palavras não devem ser atiradas levianamente. viram e reconheceram tam­ bém que as coisas tinham tomado um aspecto sério e agora estão todos a armar-se. c ainda não cm todos. concreta e claramente. e. Liberdade de reunião . Exatamente depois da destruição da burguesia. a luta de classes assume as suas mais profundas formas e esses democratas e socialistas não servem para nada e enganam-se a si próprios e depois os outros ao afirmarem que. e. que consideravam a sua “repúbli­ ca democrática” como uma armadura que os defendia. está ao lado da classe capitalista. se lança à luta com o maior ódio. Se pudessem ver o que está se passando na “livre” Suíça. Se os socialistas lançaram um tal slogan é porque sabem que a elasse dos exploradores só cederá em resultado duma luta desesperada c sem piedade c tentará disfarçar o seu domínio por meio das mais variadas palavras agradáveis. é necessário. pois não compreende que a liberdade e a Democra­ cia. no início. afirma: A humanidade só pode atingir o Socialismo através da D i­ tadura do Proletariado. portanto. Milyukov gracejava as­ sim como Chernov e os seguidores do jornal Novaya Zbizn. para se con­ seguir a liberdade dos trabalhadores. portanto. H apenas o começo e não o fim. como está sendo criada uma Guarda Branca porque sabem que as coisas chegaram a um ponto em que se põe a questão de consegui­ rem manter os seus privilégios. foram a liberdade e a Democracia dos proprietários e meras migalhas para os sem-propriedades. antes de tudo. que é tão insólito. dado que a bur­ guesia foi derrubada.10 Leituras Complementares 307 luta de classes. que lhes permitem conservar milhões de pessoas em escravatura salarial. franceses e suíços. tão “monstruoso”. que foi derrubada num único país. Gracejavam porque não tomavam as coisas seriamente. como estão a armar lite­ ralmente todos os burgueses. sobre as relações dos trabalhadores em revolta con­ tra a burguesia. é uma fraude porque sabemos perfeitamente que a burguesia fará tudo para derrubar este poder. Ditadura é uma palavra crua. séria. até hoje.haverá outra palavra que soe melhor? Será possível imaginar o desenvolvimento da consciência de classe dos trabalhadores sem liber­ dade de reunião? íYlas nós afirmamos que a liberdade de reunião nas Constituições da Inglaterra e dos Estados Unidos da América do Norte é uma fraude porque ata as mãos das massas trabalhadoras durante o período de transição para o Socialis­ mo. mas agora viram que as coisas eram sérias. a tarefa chegou ao fim. Que é liberdade de reunião quando os trabalhadores são esmagados pela es­ cravatura do Capital e pelo trabalho para o Capital? É uma fraude. ilude o povo. sangrenta e terrível. os cavalheiros burgueses ingleses. “ Liberdade”. Hoje a luta estendeu-se a todo o mundo. que refle­ tiram. c que.

a “nata” do trabalho social. Neste caso estamos diante de uma questão ainda mais séria. é a pro­ va do tributo dc todos os trabalhadores.308 Teoria Geral do Estado cia dos exploradores. contra o feudalismo. mas. inclusive o milionário c o vagabundo . de uma república. até as conseguirmos. destrói uma após outra as classes exploradoras. Afir­ mamo-lo.não o dissemos especialmente no nos­ so programa. pos­ sui. quem tiver dinheiro. e isto durante um largo espaço de tempo. A revolução. mas se eu tenho de me haver com a resistência de toda uma classe. de fato. A revolu­ ção avançou mais. Todos são iguais. no seu curso. e. Afirmamos que uma república democrática com igualdade é uma mentira. é possível apossarmo-nos relativamente depressa do Ca­ pital e dos instrumentos de produção.. Primeiro destruiu a monarquia e entendeu por liberdade simplesmente a existência do poder eleitoral. porque na realidade a igualdade não existe nem pode existir. então c óbvio que não posso prometer nem liberdade. quanto à propriedade em dinheiro.! O dinheiro é a “nata” da riqueza social.o que é muito mais difícil e importante . IV Passo agora da liberdade para a igualdade. e vocês sabem que toda a luta contra a ordem medieval. do dinheiro e do Capital. Antes da Re­ volução Socialista. isso. se fez sob o slogan de “igualdade”. É possível apossarmo-nos imediatamente da propriedade e dos edifícios suntuosos. A revolução fez-se contra os pro­ prietários sob o slogan de igualdade.organizacionais. mas é impossível continuar a repeti-lo sem fim. Ainda não conseguimos abolir totalmente o di­ nheiro.diz que a igualdade é uma fraude quan­ do em contradição com a emancipação do Trabalho da opressão do Capital.. sejam quais forem os seus bens. Diz que a “igualdade” . é a relíquia da antiga exploração. em virtude da propriedade privada dos meios de produção. Em seguida destruiu os proprietários. Eis o que é o dinheiro. Para abolir o dinheiro são necessárias grandes conquistas técnicas e . Aqui o problema é ainda mais com­ plexo. o direito de explorar. é necessário manter uma igualdade em palavras na Constituição. por experiência. dado ser tão claro como o que dissemos sobre a liberdade . e conservar condições tais que. e afirmava-se que a igualdade era a condição sob a qual o milionário c o trabalhador deviam possuir iguais direitos. durante o período transitório do velho sistema capitalista ao novo sistema . e podemos confirmá-lo.era assim que os revolucionários do período que ficou na história como o período da Grande Revolução Francesa sinccramentc falavam. todos são iguais. que provoca de­ sacordos ainda maiores e mais violentos. afirmamos que o dinheiro se manterá. pensavam c consideravam. uma fraude. Poderá ser destruído de uma hora para outra? Não. os socialistas afirmaram que era impossível abolir imediatamen­ te o dinheiro. nem igualdade ou mesmo decisão majoritária a essa classe. e é totalmente verdade.

mesmo se se intitula escritor e por vezes mesmo como um ho­ mem culto.. Só existe verdadeiramente Estado num certo país quando um homem ou certo grupo de homens dispõe nesse país duma força material preponderante. 2.. ainda poderia chamar-se socialista. O Socialismo é a primeira fase do Comunismo. ou qualquer outra coisa. 18) LÉON DUGUIT Os elementos do Estado (Trad.) O elemento essencial do Estado é a força.. que.10 Leituras Complementares 309 socialista. Marx e Engels. mas não vale a pena discutir pala­ vras. Tentaram atribuir aos socialistas este absurdo por eles inventado.“a falta de poder material (Macht) é pecado mor­ tal do Estado. Mas. não podemos falar de igualdade sem correr o risco de fazer o jogo da burguesia. 311) .e quando Treitschke formulava o adágio que se tornou célebre . Eduardo Salgueiro. tinham afirmado: a Igual­ dade é uma frase oca a não ser que por igualdade se entenda a abolição de classes. s. Inquérito. nem socialista. Uma coisa é certa: enquanto houver diferenças de classe entre trabalhadores e camponeses. por vezes conscientemente. Quando Ihering escrevia . Ed. mas não tem qualquer significado. deturpa as palavras. Mas. um Estado sem poder material de constrangimento é uma contra­ dição em si” (“Der Zveck im Recht”. é uma for­ ça que se impõe pelo constrangimento material. mas sob a forma de abolição de classes. mas a sua doutrina implicava um erro irremissível e era por virtude disso abominável. O Estado.. A igualdade é o nosso objetivo. Assim e também necessário destruir a diferença de classe entre trabalhadores e camponeses. 41-2. É este precisamente o nosso objetivo. não sabiam que os socialistas. p. tinham razão. pág. mas isto é um mero jogo de palavras. d.. não é senão uma frase sem sentido e uma invenção estúpi­ da do intelectual. ed.. antes de tudo. E é isto que afirmamos. Uma sociedade cm que se mantém a diferença dc classe entre trabalhadores e camponeses não é nem comunista. Alguns profes­ sores burgueses tentaram convencer-nos dum conceito de igualdade pelo qual to­ dos seriam iguais. Engels tem toda a razão quando afirma que o conceito de igualdade é um pre­ conceito estúpido c absurdo. na sua ignorância. A igualdade é uma fraude se está em oposição aos interesses da emanci­ pação do Trabalho da opressão do Capital. pretender que queremos fazer com que todos sejam iguais. Se interpretarmos a palavra socialismo num certo sentido. Lisboa. e especialmente os funda­ dores do moderno Socialismo Científico. Só destruindo as classes haverá igualdade. separadamente da abolição de classes.Der Staat ist Macht . Aque­ .

Se houve inúmeras modificações sociais. Doutrina ignóbil. pelo contrário. Se o direito sem a força se arrisca a ser impotente. o pessimismo de Maquiavel sobre a natureza huma­ . mas força subordinada a uma regra de direito superior a ele. para conseguirem ser mais obedecidos.310 Teoria Geral do Estado la força de constrangimento era para eles ilimitada ou pelo menos só era limitada pela regra de direito na medida em que os governantes se lhe submetessem. que ele conhecia tão bem. 473-9. mais viva que há qua­ tro séculos. caduco ou. então o pressuposto dessa arte é o próprio homem. na forma condensada de O Príncipe. não se verificaram alterações consideráveis na mentalidade dos indivíduos e dos povos. Sc a política é a arte de conduzir os homens. Resulta evidente. querendo exprimir que. Libreria dei Littorio. “A for­ ça cria o direito” dizia Treitschke. seu egoísmo e seus interesses cm face de objetivos gerais que trans­ cendem. o que resta de válido na obra O Príncipe? Os conselhos de Maquiavel ainda poderiam ser úteis para os modernos governantes? O valor do sistema político de O Príncipe fica circunscrito à época em que tal livro foi escrito. porque projetadas no futuro. Que representam os homens no sistema político de Maquiavel? Que pen­ sa Maquiavel a respeito dos homens? Ele é otimista ou pessimista? Dizendo ho­ mens devemos restringir tal vocábulo aos italianos de seu tempo. atual? Minha tese responde a tais perguntas. ou seja. hoje. doutrina contra a qual se levantou todo o universo civilizado. Ele é o seu ponto de partida. A indagação se impõe: após quatro séculos. se os governantes aceitam que a sua força seja regulada pelo direito. mesmo numa lei­ tura superficial de O Príncipe. portanto. quase sempre. Afirmo que a doutrina de Maquiavel está. ou no sentido amplo e intemporal do gênero humano? Creio que. “O direito é a política da força” dizia Ihering. em parte.) Tradução do autor. de M aquiavel (in II príncipe. que levou a Alemanha a cometer os crimes mais monstruosos da história. o Estado é a força. a vida individual. principalmente. antes de proceder a uma análise do sistema político maquiavélico. edu­ car suas paixões. inevitavelmente limitado e. é universal e. p. imperioso estabelecer o conceito de Maquiavel sobre a humanida­ de em geral e sobre os italianos em particular. força que só le­ gitimamente se impõe quando atua em conformidade com essa regra de direito. Sim. é por mera política. se isto é a política. Roma. 19) BENITO MUSSOLINI Prelúdio a 0 príncipe. a força sem o direito é simplesmen­ te barbaria. utilizar. 1930. dc orientar.

e onde a liberdade é excessiva. se rebelam. intemporal. italianos que. os filhos. estando. mas se me fos­ se permitido julgar meus contemporâneos. em desgraça. que con­ tra o assassinato dc seus pais ou irmãos. em nada. desiludido.] Os homens nunca fazem o bem. e que esta­ rão. Outras citações poderiam ser feitas.. pelo próprio ca­ ráter dos homens. e o governante crédulo cai. N ão va­ cilam em ofender e magoar um príncipe que se limite a ser amado. o seguinte: “Os ho­ mens sc revoltam mais contra a perda de uma insignificante prerrogativa. Enquanto lhes fazem benefícios. os bens materiais não. são ingratos. para o atomismo social. Enquanto os indi­ víduos se inclinam. oferecendo a própria vida e. geralmente. Tudo o que foi denominado utilitarismo. pragmatismo ou cinismo maquiavélicos se baseia. não atenuaria. Por outro lado. Qualquer um sabe que uma revolução não trará de volta os mortos. mas poderá fazer valer. Maquiavel tinha bem pouca consideração pelos homens. As tristezas aqui reportadas são suficientes para demonstrar que a opinião negativa sobre os homens não é casual. o Estado repre­ . prontos a agir com maldade logo que surja a ocasião para isto [. sempre. logo imperam a incerteza e a desordem”. imperioso a quem dirige uma república e legisla para tanto pressupor que seus governados são maus. volúveis. Maquiavel c bastante claro: “Dos homens é pos­ sível dizer que. encontro na correspondência (Cartas Variadas) de Maquiavel. entre os séculos XV e XVI ainda andavam a cavalo. mas característica do pensamento maquiavélico. Porque o amor cria um vínculo de deveres que. confundindo-se com a licenciosidade. mas isto não é necessário. demonstram uma falsa fidelidade. os homens são mórbidos. a não ser por interesse. quando exigidos. Ao contrário. Acha-se pre­ sente em toda a sua obra. É. ao passo que a intimidação impõe um receio dc ser castigado que não os abandona jamais”. na doutrina de Maquiavel o príncipe é o próprio Estado. evidente que Maquiavel. Merecida c desanimadora convicção. avessos ao perigo e ávidos dc lucro. também. o direito perdido”. simuladores ou dissimuladores.10 Leituras Complementares 311 na. porque sc a própria morte pode scr esque­ cida. Maquiavel não se deixa iludir e não ilude o príncipe. dispostos a mudar seus sentimentos. As antíteses príncipe/povo e Estado/indivíduo são cruciais no conceito de Maquiavel. Quanto ao egoísmo humano. nessa posição inicial. porém. não fazia referência apenas àqueles de seu tempo: florentinos. Meu tempo ainda não passou. será facilmente rompido. mesmo. novamente. e como é cheia de exemplos a História. levados pelo egoísmo. Segundo Maquiavel. a opinião de Maquiavel. evidentemente. sempre. mais apegados aos bens mate­ riais que aos próprios pais. toscanos. mas também ao próprio gênero humano. No Capítulo XVII dc O Príncipe. eu a consideraria suave. não assim aque­ le que se faz temer. A exemplo de muitos que pesquisaram e conviveram com os mais diversos tipos humanos. julgando como julgava os homens. e não titubea­ va em apresentá-los nos seus aspectos mais negativos.. E no Capí­ tulo Terceiro dos Discursos: “Como demonstram aqueles que meditam sobre a so­ ciedade civil. Esse ponto inicial c essencial precisa scr considcrado para entendermos bem o desenvolvimento das ideias dc Maquiavel.

E nada mais lhe resta que um monossílabo para aceitar e obedecer. por ex­ cesso de otimismo .sacrificam a própria vida no altar do Estado. Pouquíssimos são aqueles que . du­ rante as quais nada se pergunta ao povo. é uma trágica farsa. creiam pela força. sendo fácil incutir-lhes uma ideia. Tem permissão para utilizá-la somente cm questões de administração ordinária. quando muito. Mesmo nos países onde tais mecanismos são tradicionais. segundo Rousseau. Porque [. Antes de mais nada. e introd. e só. que a soberania generosamente atribuída ao povo. a não pagar impostos. O adjetivo soberano. O indivíduo tende a se es­ quivar. portanto. se ordena ao povo. M uito antes de meu conhecido artigo Força e Consenso. O povo. lhe é subtraída justamente nos momentos em que mais necessária se mostra. que aceita a revolução ou marche para o desconhecido de uma guerra. Quando interesses supre­ mos de um povo estão em jogo. mas difícil mantê-los persuadidos desta. s.. porque é sabido que a resposta seria fa­ tal: arrancar coroas c cabeças imperiais.] a natureza dos povos é variada. não existem e. jamais existirão. sobrevêm situações graves. Vejam. mas não exerce soberania algu­ ma. Tende a descumprir a lei. 20) VARLAN TCHERKESOFF Erros e contradições do marxismo (Trad.d. Trata-se de mais uma ficção ilusória dentre tantas. Maquiavel já escrevia em O Príncipe (Ca­ pítulo VI): “Disto se conclui que todos os profetas armados vencem.312 Teoria Geral do Estado senta uma organização e uma limitação a tal tendência. As revoluções dos séculos XVII c XVIII ten­ taram resolver essa antinomia. a esquivar-se de participar da guerra. aplicado ao povo. provavelmente. sendo necessário organizar-se de tal modo que. Teseu e Rômulo jamais teriam conseguido fazer seus povos cumpri­ rem as leis. quando não acreditarem mais pela persuasão. de Roberto das Neves. Ciro.que pecavam. Rio de Janeiro. Moisés. se não empregassem a intimidação” . Os demais estão em permanente revolta contra o Estado. continuamente. o referendum é excelente quando se trata de escolher o melhor local para instalar a fonte luminosa de um pequeno município.he­ róis ou santos .o conflito entre força organizada do Estado e tendência ao atomismo de indivíduos e grupos. É uma entidade abstrata como entidade política..) . de seus deveres. o povo jamais foi definido. considerando o poder uma emanação da vontade livre do povo. Os sistemas representativos pertencem mais à mecânica que à moral. Ninguém sabe onde começa ou termina. M undo Livre. portanto. Resta inevitável. mesmo os governos ultrademocráticos se abstêm de expô-los à apreciação popular. boas somente em tempo de paz! Por isso. delega. c os desarma­ dos são vencidos. até nos regimes polí­ ticos idealizados pelos enciclopedistas . sem maiores explicações. Se­ ria possível imaginar uma guerra declarada mediante referendum popular? Com efeito. Regimes políticos exclusivamente consensuais nunca existiram.

e consultarmos Vico (1668-1744) e o seu tradutor francês. e que eram. Nun­ ca houve mais de dois partidos que se enfrentassem . Se remontarmos ao primeiro historiador que tenha cogitado da influência das condições cósmicas e econômicas sobre o progresso e o desenvolvi­ mento da Humanidade.l Mais ainda. o qual exprimiu. da qual Momm­ sen é um dos mais brilhantes representantes. do modo seguinte. li­ berais c servis. Patrícios e plebeus. Delas foram extraídos os estudos clássicos sobre a legislação agrária de Licinius. pois é necessário estudar a história segundo as condições econômicas e sociais do povo ro­ mano. “A economia política explica as causas dos fatos econômicos”. conhecidas pelo nome de doutrinas materialistas. não é ainda o “materialismo”. não somente idealistas e metafísicos. ou melhor. A parte não pode conter o todo. escravos e libertos. Conhecemos muitos autores que admitiam a influên­ cia das condições e das relações econômicas sobre o desenvolvimento da Humanida­ de. disse Blanqui. um elemen­ to entre muitos outros que servem às generalidades evolucionistas. entretanto. na sua análise do primeiro volume da História da França. temos Guizot. as duas fórmulas fundamentais: a) o trabalho é a única origem da riqueza social. Entre outros. ao fazer a classificação das escolas históricas. b) o aumento das riquezas depende das condiçõcs econômicas c sociais do trabalho e da relação entre o número de produtores e de não produtores. Mas Niebuhr. o grande fundador da escola histórica alemã. Niebuhr. Mommsen e toda a escola alemã estavam longe do materialismo f. O modo de produção é somente “um” fator. guelfos e gibelinos.o dos que querem viver do seu trabalho e o dos que querem viver do trabalho dos outros. formulou. nem aprofundá-las separadamente [.. que por sua vez insistia sobre o estado econômico da nação. Na Inglaterra. mas até deístas con­ victos e fervorosos cristãos.10 Leituras Complementares 313 O conjunto dos fatores econômicos. em 1776. que chamamos “economismo”.. no século XVII. S. J. O mesmo se verifica com Adam Smith. nos princípios do século. Temos Niebuhr. Delas saíram as minuciosas investigações de Mommsen. frisa. vermelhos e brancos. Agustin Thierry c outros.. que tratava a história de “antagonismo das classes” na Inglaterra. Mill. o economismo não constitui a doutrina materialista. e que era tão beato como um trapista. Este modesto filó­ sofo jamais pretendeu o materialismo. veremos que não fazem menção ao materialismo. Outro economista. e a (segunda explica as causas). decla­ rou que a lenda dc Tito Lívio sobre a fundação de Roma dcvc ser desprezada. com a sua habitual . em 1825. cavaleiros e peões. fundador da economia política. o pa­ pel que representam os elementos econômicos na história: “Não tardei em advertir que existiam entre estas duas ciências (a histórica e a econômico-política) relações de tal modo íntimas que não se pode estudar uma sem a outra. não são senão uma variedade da mesma espécie”. menos profun­ do e menos original que Adam Smith. Blanqui. O mesmo disseram os seus contemporâneos Mignet. Segui passo a passo os grandes acontecimentos. de Michelet. Michelet. outro homem de gênio.J A primeira fornece os fatos. de Solon e dos Gracos..

quando.] Como se nunca tivessem existido Louis Blanc. O nosso interlocutor lera-nos. 38. e que decoram dois pequenos folhetos de Engels e uma vulgarização de Marx. Proudhon c outros. T. investigadores da verdade. publicou o seu volume “Interpretação econômica da história”. um dia. cscrcvendo especialmente para os traba­ lhadores esmagados pelo trabalho incessante e que não têm tempo nem meios para verificar as suas afirmações. Como aconteceu. na bela tentativa que fez para retraçar a influência das leis cósmicas. disse que “a acumulação da ri­ queza é um dos principais fatores. publicações “censuradas” por Engels e Auer. o mais depressa possível. em vez de dizer aos trabalhadores: “Amigos. que pos­ suía uma boa instrução e que havia lido muito. 50 c 53). por sua ignorância. que Engels. Foram sábios. como se fosse uma coisa nova e completamente “materialista”. sobre muitos aspectos. declaram que jamais. perguntamos. desgraçadamente para ele. o autor da grande obra Seis séculos de trabalho e de salário. havia alguns anos que estava embebido na leitura dos folhetos e publicações do partido. em vez de fa­ zer uma exposição científica. o socialismo teve representação no parlamento [. mas que. Rogers. Selva­ gens impotentes diante da natureza. contou tantas lorotas aos bravos e honrados traba­ lhadores que confiavam na sua palavra? Que resultado se obtém com tão estranho método? O dos politiqueiros. se ocupa das leis sociais e cósmicas que regem o desenvolvimento da Humanidade (“Dissertation ct discussion”). Um contemporâneo de Marx e Engels. um dos mais impor­ tantes” (p. IT. com ares triunfais. Uma vez enviados ao par­ lamento pelos trabalhadores enganados em sua boa-fé. que a história. não. no qual analisa toda a história da Inglaterra sob o ponto de vista econômico. das condições sociais c ate da manutenção da história. a organização do Es­ tado e das classes exploradoras e opressoras”.48. sem nenhuma ideia da sua própria força e das . abrirem os olhos e compreenderem a mistificação de que foram vítimas! Lembramo-nos de uma discussão com um jovem social-democrata.T. a humanidade apareceu na história em estado semi-selvagem. que o futuro da humanidade depende da nossa felicidade c dc condições favoráveis à vossa atividade produtiva (Smith).. e que com tal bagagem se dão ares de homens de ciência. Buckle. do menor trabalho intelectual. Aplicaram o método das investigações científicas ao estudo da história. uma passagem da polêmica de Engels com o professor Diihring: “Saída de uma ori­ gem animal.314 Teoria Geral do Estado lucidez. por conseguinte. a ciência de­ monstra que o bem-estar c o progresso do gênero humano são criados pelo vosso trabalho. antes deles. é obrigatório para a classe trabalhadora destruir. Pode-se cha­ mar “materialistas” a estes sábios de nacionalidades diferentes? Certamente. incapazes. como ciência moderna. e não puderam dar aos resultados dos seus traba­ lhos outro nome a não ser o de “interpretação econômica da história”. pois. Que decepção para as pessoas honradas.. que. chamou “materialismo” ao que os sábios chamaram “cconomismo” ? Por que. c. mas que os des­ conhecia por completo. ho­ mens sem escrúpulos. por que.

como veremos diante. enquan­ to a ciência indutiva de Bacon. pla­ giado por Engels: “Na sua origem. por Voltaire e os enciclopedistas e por toda a filosofia inglesa. é neces­ sário estudar. nu dc corpo c de espírito. Se Engels acreditou que. para ser lido. acercou-se de um ser que lhe era parecido e perpetuou a es­ pécie” (Les ruines. Em resposta. e que. de Lamarck. Espírito claro. uma concepção conhecida somente pelos homens de gênio excepcional. não. e assim se vestiu. ou aos filósofos ingleses. O golpe mortal nessa estupidez teológica e sobrenatural foi vibrado por Ba­ con e Locke. Citando Volney e Blanqui. e se. os homens eram pobres e miseráveis como os animais e produ­ ziam pouco mais do que estes”. abrimos-lhe as Ruínas de Volney. enganou-se lastimavelmente. se amalgamou a metafísica com o economismo. se bem que oposto ao materialismo dos naturalistas. cncontrou-se sobre a Terra confusa c selvagem. sem experiência do passado c sem entrever o futuro. foi porque a obra de Darwin apa­ receu em 1859. dc Locke. o fato deu-se. procurou os alimentos. pretendemos provar que a explicação econômica não era. e os operários alemães. propagou as ideias do seu tem­ po. se pronunciou contra o materialismo dos naturalistas. que tiveram a desgra­ ça de ler os folhetos de Engels. A ciên­ cia não tem culpa se Engels fez uma mistura extravagante de várias coisas. A glória da descoberta não pertence a Vico. a Adam Smith. dc evolução c de monismo. que pregou o absurdo de que a natureza e tudo o que nos rodeia é apenas um reflexo das nossas ideias inatas. Acicatado pela fome. por . aos enciclopedistas. guia­ do e governado tão somente pela sua natureza. do que derivou a palavra “metafísica” (por cima da física e da natureza). o único que a ciência afirma. não a natureza. ano 12 da República). admitiu. e ele pôde ler este trecho. de Darwin c dc Hemholtz é pura metafísica. Parecido com os restantes animais. Afora isto. mas os fatos e os fenômenos sobrenaturais do espí­ rito. para conhecer o mundo físico. Era de ver a decepção que o nosso interlocutor experimentou. e que. Por mais in­ verossímil que pareça. A ciência designava sob o nome de metafísica uma parvoíce escolástica. Mas foi acaso Volney o iniciador da doutrina da evolução? Absolutamente. mas uma doutrina corrente e aceita pelos espíritos esclarecidos. o homem.10 Leituras Complementares 315 suas capacidades. e Engels. Paris. Pela atra­ ção de um forte poder. As intempéries levaram-no a cobrir o corpo. errou no meio dos bosques. se converteria num benfeitor da humanidade. “saído da animalidade”. qualquer um diria que Engels copiara Volney. assimilando as ideias expandidas desde mui­ to tempo. desde o princípio do século XV III. a descendência do homem por ele provada. Esses gloriosos precursores da ciência dos nossos dias estabeleceram que o nosso saber e as nossas ideias são o resultado da observação e do estudo da natureza. com talento literário incomum. a Niebuhr ou à brilhante escola histórica alemã. estão convencidos de que a metafísica de Hegel é a ciência com os seus sistemas de transformismo. Se em Volney faltam as três palavras. indivíduo pretensioso.

análogos aos do sé­ culo 18. Ele ignora completamen­ te que a ideia principal da doutrina ateísta de Feuerbach . regulares em seu curso. era uma expressão das suas ideias barrocas. 30). Sobre o materialismo francês no século 18). “ Não foi Deus que fez o homem à sua imagem. os ataques à teologia. conseqüentes nos seus efeitos. Nas Ruínas. Acaso devemos supor que Engels não suspei­ tava sequer da existência de toda essa literatura histórica? Neste caso é de lastimar tão estranho “chefe” da ciência de um partido “cien­ tífico”. De outra maneira não poderíamos explicar as suas ridículas pretensões. isto é.” Esta afirmação dc Engels. numa das suas obras. Um exemplo nos mostrará a sua maneira de agir. do qual é parte. contrários a toda terminologia cien­ tífica. segundo o método indutivo. mas sim o homem quem fez Deus à sua. foram renovados e dirigidos em geral contra toda a filosofia especulati­ va. contra toda a metafísica” (K. A ciência não tem culpa sc Engels.a de ter o homem divinizado a sua própria natureza na pessoa dos deuses . acreditou até 1842 que o mundo. 85). dc Volney. dc que as doutrinas evolucionistas e transformistas.316 Teoria Geral do Estado conseguinte. e que a isso se deve atribuir a sua estranha mania de reivindicar a paternidade das ideias e dos sistemas elaborados pela ciência muito tempo antes do seu nascimen­ to. que a natureza. Foi devido a tal crença metafísica que tudo que lia ou via achava que devia ser um reflexo das suas próprias ideias. a metafísica do século 17 tirou a sua desforra e a sua restauração na filosofia especulativa alemã do século 19. revestiu-o dos seus atributos. Foi Marx em pessoa quem a desmentiu solenemente: “Denunciada e derro­ tada pelo materialismo francês. imutáveis na sua essência” (p. o homem é regido por leis naturais. Dir-me-ão que Engels sabia tudo isso. este método (concepção indutiva da natureza) produziu o acanhamento intelectual bem característico dos tempos antigos (?) e criou o método do raciocínio metafísico. lemos: “Do mesmo modo que o mun­ do.era coisa corrente entre os filósofos e publicistas franceses desde mais de meio século antes da publicação da obra dc Feuerbach. a ciência dos naturalistas. é necessário estudar a natureza e seus fenômenos em suas manifesta­ ções e em sua origem. por que empre­ gou tanta má-fé e se esforçou em criar uma confusão mais que deplorável na cons­ ciência do proletariado? Com que objetivo desviou a opinião dos seus leitores? Se­ guramente. Sabeis o que ensinou Engels aos trabalhadores? “Transportado à filosofia por Bacon e Locke. neste caso. Desde que Hegel fun­ dou o seu império metafísico universal. emprestou-lhe os seus sentimentos” (p. não foi em proveito do socialismo. a bela natureza viva e vivificantc. Seja. Mas. Marx. afundado nos absurdos metafísicos. Sim. deu-lhe o seu espírito. . as suas expressões muito pouco “científicas” . deri­ vam da filosofia de Hegel são erros palmares.

são nomeados ou selecionados mediante procedimentos distintos da eleição popu­ lar. nenhuma das democracias de­ nominadas “representativas” é. A função do go­ verno é transferida dos cidadãos organizados em assembleia popular para órgãos específicos. a vontade do eleitorado e são responsáveis pe­ rante este. p. A forma democrática de indicação é eletiva. cuja conduta se acha regulada por essas normas. juridicamente. p. e as funções administrativa c judicial por funcionários que são. Trad. enquanto no poder. embora eleitos por um corpo democrático constituído. de fato não re­ presentam a vontade da maioria dos eleitores. O princípio democrático da autodeterminação é limitado ao procedi­ mento pelo qual tais órgãos são designados. 1979. especial­ mente o Chefe de Estado. Esta é uma característica chamada democracia indireta ou representativa. W. também. realmente. México. Eduardo Garcia Máynez. um governo é representativo quando e na medida em que seus funcio­ nários refletem. O órgão autorizado a criar ou executar as normas jurídicas é eleito pelos súditos. esp. representativa. submetida a tal critério. responsáveis perante o corpo elei­ toral. do Executivo ou do Judiciário.) Tradução do autor. A fic ç ã o da representação A diferenciação das condições sociais conduz à divisão do trabalho não ape­ nas na produção econômica.10 Leituras Complementares 317 21) HANS KELSEN Teoria g e ra l do D ireito e do Estado (Teoria general dei derecbo y dei Estado. Dc acordo com a definição tradicional. Garner. Não há dúvida dc que. “não é verdadeiramente representativo um go­ verno em que os funcionários. c cm quase todas as chamadas democracias “representativas” os membros eleitos do parlamento e outros funcionários de eleição popular. 317). como também na criação do direito. Political Science and governmenty 1928. 343-7. Trata-se dc uma democracia em que a função legislativa é cxcrcida por um parlamento dc eleição popular. ou que. O que foi dito implica um considerável enfraquecimento do princípio da au­ todeterminação política. Universidad Autônoma de México. É necessário que o represen­ . nomeados por eleição. não são. ou não têm uma responsabilidade que o corpo eleitoral seja capaz de tornar efetiva” (J. sejam do Legislativo. os ór­ gãos administrativos c judiciários são selecionados mediante critérios diversos da eleição popular. Conforme tal definição. não basta que o re­ presentante seja nomeado ou eleito pelo representado. Para estabelecer uma verdadeira relação de representação. Na maioria delas.

A recusa cm removê-lo dc seu cargo. procedimento ao qual se dá o nome de remoção [. e apenas em caso de violação da Constituição ou de outras leis. ser removido de seu cargo. o presidente do Reicb fica impedido de continuar no exercício do cargo. juridicamente responsáveis perante o eleitorado. estabelece: “Todo funcionário público do Estado da Califórnia pode. ser removido de seu posto pelos eleitores. nem podem ser removidos por este. expressa no voto popular. É precisamente nesta independência à frente do corpo eleitoral que o parlamento mo­ derno se distingue dos corpos legislativos de eleição do período anterior à Revolu­ ção Francesa.]”. Como exceções. é o poder representado de destituir o representante. Os membros eleitos de um parlamento moderno não se acham juridica­ mente ligados por quaisquer instruções do corpo eleitoral. mas de toda a nação. porque estes não devem ser representantes de nenhum distrito em especial. os membros do parlamento não são. por exemplo. por voto popular. Não obstante. expressamente. A Constituição francesa de 1791 foi a que proclamou solenemente o princípio de que não deveriam ser dadas instruções aos deputados. de todo o Es­ . Tal independência do parlamento pe­ rante o corpo eleitoral é um dado característico do parlamentarismo moderno. mediante o procedimento e na forma aqui estabele­ cida. mediante solicitação do Parlamento. antes do término do seu mandato. a qualquer tempo. o Chefe eleito do Estado e outros órgãos de eleição somente po­ dem ser removidos de seu cargo. Normalmente. Outra exceção nos oferece a Constituição alemã de Weimar. Prin­ cipalmente nas democracias modernas. no art.. eqüivale a uma reelei­ ção e tem como conseqüência a dissolução do parlamento”.. que os elegiam. via de regra. verda­ deiros agentes da classe ou grupo profissional. a Constituição da Califórnia. que. já que se achavam submetidos a certas instruções e a qualquer momento podiam ser removidos pelos representados. que no art. 43. X X III. e que o cumprimento desta obrigação esteja garantido juridicamente. podemos citar as Constituições de alguns Estados-Membros dos Estados Unidos da América do Norte. estabelece: “O Presidente do Reicb pode. A garantia. no caso. Muitas Constituições democráticas estipulam. A fórmula segundo a qual o membro do parlamento não é representante de seus eleitores. a indepen­ dência dos deputados perante seus eleitores. A de­ cisão do parlamento deve ser adotada por uma maioria dc dois terços. antes do término do mandato. as Constituições das democracias modernas apenas excepcionalmente concedem ao eleitorado o po­ der de revogar o mandato dos funcionários eleitos. Seção Primei­ ra. mas de todo o povo. como dizem alguns autores. mediante decisão dos tribunais. ou. Seu mandato legislativo não tem o caráter de um mandat impératif’ como os franceses denominam a função do deputado eleito que se acha juridicamente obrigado a executar a vontade dos eleitores. no caso de as atividades deste último não se ajustarem aos desejos do primeiro. que têm a prerrogativa de votar por um sucessor do removido.318 Teoria Geral do Estado tante se ache juridicamente obrigado a cumprir a vontade do representado. Os membros destes corpos eram verdadeiros representantes. Adotada tal resolução.

ou. razão por que não se liga às instruções dos seus eleitores. constitui. O fato de que um órgão de eleição não tenha a probabilidade de ser reelei­ to ou a circunstância de que tal probabilidade se acha diminuída se sua atividade não é considerada por seus eleitores como satisfatória. A independência jurídica do parlamento à frente do povo significa que o princípio da democracia é. Semelhante órgão “representa” o Estado de uma forma que não difere daque­ la em que é representante do Estado um monarca hereditário ou um funcionário nomeado por este. A independência jurídica do parlamento diante do corpo eleitoral somente pode ser justificada pela opinião de que o Poder Legislativo se encontra mais bem organizado quando o princípio democrático de que o legislador deve ser o povo não é levado ao extremo. A afirmação de que o povo se acha representado pelo parlamento significa que. O chamado mandat impératif e a destituição dos eleitos são instituições democráticas. apesar de sua independência jurídica à frente do corpo eleitoral. que a atividade de cada membro do parla­ mento reflita a vontade dos eleitores. do corpo eleitoral . nem pode ser remo­ vido por estes. então será demo­ crático garantir. não há qualquer relação de representação ou de mandato. se o eleitorado se acha democraticamen­ te organizado. A independência jurídica dos eleitos perante os eleitores é incompatível com a representação legal. por razões técnicas. A função desta ideologia é ocultar a situação real e manter a ilusão de que o legisla­ dor é o povo. apesar de que. A resposta à pergunta sobre se de lege ferenda o membro eleito do corpo le­ gislativo se encontra juridicamente obrigado a executar a vontade de seus eleitores c. tal poder c cxcrcido por mandato. na realidade. é uma ficção política. substituído . é impossível estabelecer uma democracia direta. muito menos a afirmação de que um órgão de eleição só pode formar parte do povo se é o representante jurídico de todo o Es­ tado. mais precisamen­ te. verdadeiramente. em certa medida. na medida do possível. Sc os escritores políticos insistem cm caracterizar o parlamento da democra­ cia moderna como órgão “representativo”. ao agirem assim não es­ tão propondo uma teoria científica. Se é democrático que a legislação seja elaborada pelo povo c se.10 Leituras Complementares 319 tado. como o povo não pode exercer de forma direta c imediata o poder de legislar. mas preconizando uma ideologia política. portanto. e alguns tratadistas chegam a declarar que o mandat impératifé contrário ao princípio do governo representativo. sc não há nenhuma garantia jurídica de que a vontade do eleitorado seja cumprida pelos eleitores. scr responsável perante estes depende da opinião sobre em que medi­ da seja desejável realizar a ideia da Democracia. e estes são juridica­ mente independentes dos eleitores. uma espécie de responsabilidade política. a função do povo . tal responsabilidade é inteiramen­ te distinta da jurídica e não justifica a afirmação de que o órgão de eleição é um re­ presentante jurídico de quem o elegeu. Todavia. porém. de modo a ser necessário conferir a função de legislar a um parlamento eleito pelo povo.se acha limitada à criação do órgão legislativo.

que na Alemanha nazista. Ficção semelhante é a empregada para ocultar a perda de poder sofrida pelo monarca ao scr consumada a independência dos tribunais. cit. s. EDU ARDO THEILER. afirmou este julgamento que . A ideologia da monar­ quia constitucional traz consigo a doutrina dc que o juiz. usa-se a ficção de que o parlamento “representa” o povo. apesar dc que em sua fun­ ção não restam vestígios da influência do monarca. não obstante. 1939. e a pena pode ser apli­ cada a delitos cometidos antes de ela ter sido editada. em espírito.) Observemos preliminarmente. 29) ALÍPIO SILVEIRA Da interpretação das leis na Alemanha nacional-socialista e hitlerista (In Da interpretação das leis em face dos vários regimes políticos. o princípio da não retroatividade das leis. deixa de existir qualquer prazo de prescrição. . 133-8.“é absolutamente indiferente buscar a épo­ ca na qual o Estado julgou necessário sancionar por uma interdição legal seus prin­ cípios racistas Assim. devem os juizes interpretar essas leis segundo a mentalidade nacional-socialista. é considerado como ideia antiquada. pág. a este: as decisões judiciais são dadas “em nome do rei” . Os eminentes jurisconsultos EDUARDO ESPÍNOLA e EDUARDO ESPÍNOLA FILHO. Um julgamento de 1936 declarou que o acusado não podia invocar que em Junho de 1935 os casamentos entre judeus e arianos não eram ainda legalmente in­ terditos. “Crise no Direito Moderno” ).nulla poena sine proevia lege . d.. senão renunciando à neutralidade” (V. contrariamente à regra res­ tritiva . Para ocultar tal desvio de um princípio a outro. 74) ensinam a respeito da interpretação na Alemanha nacional-socialista: “Embora continuem vigentes as grandes codificações alemãs. constitucionalmente “represen­ ta ”. Periodicamente são publicadas “ins­ truções” impondo aos juizes as interpretações oficiais.que domina o direito penal clássico e tem sido sempre considerada como essencial (EDUARDO THEILER.). em seu magnífico “Tratado de Direito Civil Brasileiro” (vol. op. no momento em que a decisão do tribunal é pronunciada. mesmo as penais. p. No direito inglês chega-se ao extremo de supor que o rei está presente. Ainda na Alemanha atual. I. a independência c a imparcialidade dos magistrados são supridas.320 Teoria Geral do Estado pelo da divisão do trabalho. O Secretário de Estado da Justiça fixou publicamente a atitude dos juizes nestes termos: “o juiz não pode ter em face do direito e da lei uma atitude conforme ao dever do Estado Nacional-Socialista.

Mas o juiz. e a jurisdição é fazer do juiz um adversário do Führer’ (A. págs. cumpre verificar em que si­ tuação político jurídica ficou a Alemanha. um dos grandes erros do liberalismo consiste em crer que o povo deseja governar-se a si mesmo. que re­ cusasse reconhecer o caráter obrigatório do pagamento dos juros de um mútuo. ainda que não expres­ samente revogada. fora de todo o texto legal e sem qualquer forma (MARCEL COT .La conception nacionale-socialiste du droit des gens. do qual. os ESPÍNOLA observam: “HITLER é o soberano legislador e a mais alta encarnação da justiça. “Assim e que um juiz se recusou a inscrever no Grundbuch o título de pro­ priedade de um judeu. 1938. é expressão suprema o Führer. assim também os seus atos independentemente da forma. “Não somente as leis do Führer devem ser obedecidas incondicionalmente. por efeito de sua vitória. sob o fundamento de que o programa do partido exige o ‘fim da escravidão dos ju­ ros’.La conception bitlérienne du droit.como decidiria o Führer em meu lugar? Esta deci­ são estará de acordo com a consciência nacional-socialista do povo alemão? Então terá ele uma base de consciência bem firme. COT . O povo alemão foi poderoso enquanto foi conduzido). V. separar ou opor a soberania. Não! o povo quer ser conduzido e governado.JACQUES FOURNIER . estabelece uma regra geral aplicável a todos os domínios do di­ reito. “A Constituição de W EIM A R não está mais em vigor. que cita ECKHARDT). 1938. 54). ao proferir uma decisão. “Num discurso proferido numa reunião de juristas. porque se tornou incompatível com o programa e os princípios do nacional-socialismo. I o da lei de 16 de Outubro de 1934 (Steueranpassungsgesetz). FRANK. antes das leis de Nuremberg (COT. inamovível e irresponsável. em 1936. não obedeceria a um imperativo nacional-socialista. pergunte a si mesmo: . Em outra parte de seu Tratado. poden­ do pronunciar sentenças imediatamente executórias. 1939)” . " O indivíduo é absorvido no Volksgeist. 207-208. como se disse. “ Citam-se as palavras do constitucionalista CARL SCHMITT: ‘o verdadeiro chefe deve ser ao mesmo tempo juiz. porque é ao Führer que compete fixar o grau de realização da Weltanscbauung (concepção filosófica). Observa COT que segundo G Ò R IN G e H Õ H N . cit.La con­ ception hitlcrienne du droit. haurida na unidade do todo popular nacional-socialista e do reconhecimento da vontade do Führer Adolf Hitler’ (Apud M. considerando como deve o juiz completar a lei: ‘cumpre que o juiz. e op. c que foi recusado o casamento dum judeu com uma aria­ na. . pág. que manda interpretar as leis fiscais de acordo com a Weltanscbauung nacional socialista. levando à esfera de sua decisão a au­ toridade do IIIo Reich.10 Leituras Complementares 321 “Tem-se entendido que o art. também . “Se o nacional-socialismo seguiu a orientação do programa com que se apre­ sentou o partido operário alemão em Munich (1921). dizia H.

e se funda em copiosa bibliografia. págs. Arch. e incorporou-as habilmente à sua mística nacional” (“Introduction à la Théorie Générale et à la Philosophie du Droit”. As construções lógicas dos romanistas foram repudiadas. sucumbe o próprio Estado. social e jurídica”. 1934. artigo do professor W. f. professor EDUARDO J. com as modifica­ ções introduzidas pelo imperativo do novo regime. ao tratar dos métodos novos de inter­ pretação na Alemanha atual assim se exprime: “O advento do Nacional-socialismo em 1933 acarretou uma completa reno­ vação das ideias reinantes na Alemanha sobre o direito e sobre a missão do juiz.) Alguns autores legitimam a interpretação contra legem ‘quando o bem do Estado manifestamente o exige’ (SAUER. “A própria Constituição de Weimar não foi expressamente abolida. pág. com a condição que seja de raça pura e que se inspire. Vejamos sua douta exposição. ou melhor. O eminente jurisconsulte uruguaio. que lhe trace definidamente os fundamentos da vida polí­ tica.. não num individualismo obsoleto. 262). “Zeitschrift fiir das gesamtc Handelsrecht”. 201-202). KISCH. 1937. que não mais é considerado. direito reconhecido. muito em­ bora em todos os pontos substanciais sc tenha tornado incompatível com as leis fundamentais da Alemanha atual.322 Teoria Geral do Estado “De modo geral. Existe também ‘um direito não escrito que se des­ prende da alma do povo alemão e que é conforme às necessidades da vida nacio­ nal. intitu­ lado Der deutsebe Ricbter. junho de 1934. para o povo alemão. sentido e energicamente realizado pelo juiz alemão’ (Número inaugural de 1 ’Akademie für deutsches Recht. (“Tratado” citado. págs. 202-203). págs. cujo horizonte político cra entretanto mui­ to diferente. um vasto movimento geral de dou­ trina que seus autores chamam Kampf wieder das subjektive Recht . até hoje não foi decretada.1934-35.a luta contra o direito subjetivo. como uma pessoa jurídica de di­ . 44 c 82). pág. COUTURE. as gerações novas confiam no senso inato do direito que o juiz descobre em si. O professor CLAUDE DU PASQUIER. permaneceram as grandes leis e códigos. mas na concepção universalista do direito e do Estado (BINDER. no brilhante estudo “Trayectoria y destino dei Derecho Procesal Civil Hispano-Ame­ ricano” (Cordoba. mas não é o único’. vice-presidente da referida academia. A doutrina nacional-socialista apropriou-se assim de algumas das ideias pre­ conizadas pelos adeptos do Freiesrecht. Nesta luta para a abolição do direito subjetivo. na Alemanha nacional-socialista. 6. Phil. uma constituição nova. Existe. na doutrina recente. Soz. 1940) versa este aspecto da doutrina nacional-socialista. Rechts u. tomo 28. muito embora se proclame que a sua interpretação e a sua aplicação se subordinam aos princípios dominantes na organização político-social do terceiro Reich. “Aliás ‘a lei não é senão um dos aspectos do direito na técnica da vida públi­ ca moderna. Recht und Wolksmoral im Führerstaat.

p. mas como membro ativo da comunidade.). O Führer é o investigador ou pesquisador do direito. Mas. O direito nacional-socia­ lista é. Não está acima das partes como órgão neutro. para decidir seus conflitos particulares. um estado de consciência popular. e a existência de um direito ocasional para cada caso concreto. mas um representante soberano da lei. tal como é interpretada pelo Führer. não pôde suportar algumas objeções fundamentais. mas o povo. embora emane do órgão definitivo da justiça. ou assinala ao tri­ bunal os inconvenientes que sua decisão acarreta para o ideal nacional-socialista. que o direito é o reflexo da consciência popular. As palavras textuais dc SEYDEL. Não se chega. tomando como ponto de partida o acima menciona­ do. Pois que o direito (nessa doutrina) reside no povo e é mister interpretá-lo. ROTHENBERGER. conduziu ao que se chamou “doutrina do Führerprinzip”. sustenta. Isto supõe. in “Zeitchrift der Akademie für Deutsches Recht”. que parecia destinada a triunfar. mas ape­ nas se afirma que o Führer é o intérprete autêntico e único deste estado de consciên­ cia. . a base. “O juiz não seria mais um meio que o Estado põe à disposição das partes. com isso. em um ensaio aparecido em 1937 (“ Richterliche Unabhãngigkeit und Dienstaufschit”. são: “ Deve-se partir do conceito do povo como comunidade vivente no qual o cidadão reveste a condição dc membro. que é a do Führer. Pelo contrário. a dc que não podem existir na Alemanha tantos Führer fieis intérpretes do direito. e como o povo não tem fisicamente um órgão único de expressão. o pró­ prio receptáculo do direito. que c quem levou mais longe este desenvolvimento.10 Leituras Complementares 323 reito subjetivo. e trata de ex­ traí-lo na forma mais pura possível da consciência popular. 504 e segs. a admitir outro direito além do que vive na consciência popular. como novo aspecto da doutrina. Este princípio do povo como comunidade vivente. 637). evidente­ mente. que o direito pronunciado 011 declarado pelo juiz da sentença. segundo a qual o juiz é o Führer dentro do processo. No processo judiciário o direito é declarado através da única expressão possí­ vel. a doutrina procurou novos fundamentos para assentar o princípio: De um lado. inspiran­ do-se nos sentimentos dessa comunidade à qual serve e pertence” (“Gedankcn zur Neugestaltung des Zivilprozesses”. 1937. Se o cidadão se queixa ao Führer que a sentença é injusta. o Reichsgericht. Uma delas. em compensação. diferentemente da doutrina fascista. admite-se que o interprete da vontade popular c o Führer. e ver no di­ reito a ordenação da vida desta comunidade”. 1935. um dos mais importantes executores da vontade do Führer. que em 1938 (“Nazional socialistichc Recht und Rechtsdenken”. o Führer exami­ na essa sentença e dissuade ao cidadão se este estiver equivocado. Mas esta doutrina. que nccessita de interprete. in “Deutsches Recht”. opúsculo) sustentou. Outra fundamentação ou justificação mais profunda do referido princípio provém dc FREISLER. por exemplo. segundo seus próprios definidores. admite sempre uma espécie de recurso hie­ rárquico. Derivou-se toda a ordem jurídica processual civil do princípio do Rechtsfinder. consequen­ temente. a supressão do direito como norma. não é o Estado. pp. e.

principies. Some of th em would rest legal judgements entirely on the intuition of the judge. p. Esta escola ou método (direito livre. que não era mais o direito. “free judicial power” movement. “free judge” movement. e a existência de um direito ocasional para cada caso concreto. suprimir a justiça para transformá-la cm um poder administrativo dc fundamento discrecionário. 1938. sob o novo absolutismo. O professor americano ALBERT KOKOUREK assim descreve as tendências extremistas que surgiram nos Estados Unidos: “Some writers have gone to the length. By th is Une of reasoning the judge is made free. que começavam a funcionar. Ao passo que sob o velho absolutismo a re­ gra legal era tudo. segundo o qual devia ser suprimida a jurisdição. a supressão do direito como norma. pelo menos quando considerada em seus repre­ sentantes mais extremados. No que toca ao aspecto político das ideias extremadas do direito livre. não obstante. a individualização extremada do direito é uma ideia preconizada pelos adeptos do Freiesrecht. de acordo com esta tendência extrema. Law would not any longer he a compound of unformulated postulates. apenas uma espécie de absolutismo invertido. cit. o pro­ fessor americano JO H N D ICK IN SON afirma que tais ideias são “de fato. standards. é nada” (“The Problem of the unprovided case”. A doutrina dc BAUMBACH. é de tendência niilista.. Ora. in “Récuéil d’études sur les Sources du Droit en Phonneur de François Gény. mas os fatos. as regras legais deixam dc ter razão de existência numa orga­ nização jurídica perfeita. 583). não fez caminho. Esta é a doutrina alemã até I o de Setembro de 1939. and discretion” (“Libre Recherche in America”. Agora. em sua feição extremada de niilismo legislativo. em sua qualidade de chefe de governo. Com efeito. Vemos como ele friza. acrescenta a respeito: “ Acceptance o f it leads to the logical consequence that rules o f law have no official or hinding character and are in their nature oflittle importance. uma observação à exposição do professor COUTURE. in “Zeitschrift der Akademie”. 461). if not as a rational human heing E KOKOUREK conclui com acerto: “In its extreme forms the \ fre ejudge’ movement in America is nihilistic in tendency”. tome II . Freies Recht). pg. of aholishing or wishing to abolish ali conceptual thinking in law. Vemos aí a cha­ mada individualização do direito.). as an officer o f the State.Les sources générales des systèmes juridiques actuels”. na doutrina de FREISLER. in “Récueil”. Adiante. Neste dia o Führer dis­ se. . que ficaria absorvida pelo que hoje chamamos “jurisdição voluntária”. cit.324 Teoria Geral do Estado A culminância desta doutrina foi efetuada por BAUMBACH (“Zivilprozess und frciwillige Gerichtsbarkeit”. it would seem. rules.

com efeito. il rihésitera guère à préférer a sou imparfaite traduction la révélation directe de cette source commune et plus profonde” (“Méthode dMntérpretation et Sources en Droit Privé Positif”. Deve também observar-se que a “consciência nacional-socialista” e a “vontade do Führer” se confundem praticamente.10 Leituras Complementares 325 O professor M O R R IS R. A atitude da Escola Histórica em face da autoridade da lei é assim sintetizada por GÉNY: “5/ la pensée du législateur.1.que o eminente T H E O D O R STERNBERG apodou de fetichismo espiritual . mas também paradoxal e ilusória. C O H E N é exatamente da mesma opinião de DICKINSON. paradoxal e ilusória porque o intérprete tem de ater-se à vontade real ou presumida do Führer. 1927. con­ cepção do direito livre foi forjada pelo hitlerismo. tirania ou despotismo. 258). au moment ou il doit appliquer la loi. suivant le sentiment personnel de /’interprete. pois assevera: “Ser governado por um juiz é. afim de afastá-las pela simples ação do juiz. O Estado Nacional-Socialista habilmente apossou-se das ideias básicas da Es­ cola Histórica de SAVIGNY. Se a doutrina nacional-socialista parece aderir a este niilismo legislativo.foi adotada pelo Estado Nacional-Socialista. telle qu’elle se dégage du sens naturel et normal du texte. subs­ tituindo a “consciência coletiva” pela “consciência nacional-socialista”. 1932. 237). cumpre observar que seu horizonte político é muito diferente. mas não deixa de ser tirania” (“Positivism and the Limits of Idealism in the Law”. Em conclusão. lamen­ tavelmente enxertado no tradicional corpo dc leis que o nacional-socialismo já en­ contrara. Ela pode muitas vezes ser inteligente e benevolente. répugne. Ela é. 27. na extensão em que ele não é ligado pela lei. pg. a ce qu il considere comme rexpression de la conscience collective du peuple. “ Columbia Law Review”. que é uma expressão das tendências extremadas do Freies Recht. O resultado final é um critério perfeitamente autocrático de aplicação. uma nova e original. 1949. e incorporou-as cm seu misticismo jurídico. cit). Esta atitude da Escola Histórica . 23) JOSÉ PEDRO GALVÃO DE SOUSA Conceito e natureza da sociedade p o lítica (São Paulo.) . KOKOUREK também é do mesmo sentir: “To rest the task o f legal justice entirely on the judgey s discretion would be nothing less tban a surrender to tyranny” (op.

“Pessoa”. isto é. Só entre pessoas há sociedade. Reaparece frequentemente 11a linguagem dos escritores de hoje uma ex­ pressão muito antiga das mais sugestivas para indicar o fim. A palavra originária. Caracteriza-se pela localização territorial. lembremos antes dc mais nada o conceito dc sociedade cm geral. Chegamos assim ao terceiro elemento de toda sociedade: a união moral. tem a mesma significação: a cidade. o fim. Não se deve confundir sociedade com multidão. Resta saber quais as notas específicas deste último. Sociedade de pequenas dimensões. b) pessoas ou indivíduos racionais. quer dizer. mas a comunidade or­ ganizada politicamente. dc civitas. de seres racionais. é muitas vezes um tipo interme­ diário entre a família e a tribo. pro­ curava a consolação da filosofia para balsamizar seus sofrimentos. o que não se dá. Sem colaboração voluntária dos sócios não pode haver sociedade. torna-se fácil perceber cm todos eles alguns característicos fundamentais comuns. pela sua maior simplicidade e também pela ordem cronológica. em tor­ . Analisando-sc os diversos tipos dc sociedade política encontrados através da história. Tornou-se clássica a definição dc pessoa formulada por Boccio. a razão de ser de qual­ quer sociedade: o bem comum. “c uma substância individual dc natureza racional” . tal colaboração deve ser permanente. o que hoje chamamos de Estado. num teatro. Em primeiro lugar. Para determinar exatamente o conceito c a natureza da sociedade política. como as abelhas ou os castores.326 Teoria Geral do Estado 1a Parte A sociedade política. de polis. num estádio. no cárcere. pois lhes falta o conhecimento do fim social e a cola­ boração voluntária para alcançá-lo. grega ou latina. resultante da prática de actos racionais e livres. Sociedade é uma reunião de pessoas. Sociedade c a união moral e permanente dc várias pessoas cm vista dc um fim comum. além de voluntária. Os animais gregários. Nessa breve definição encontramos os seguintes elementos: a) fim ou bem comum. Quanto à aldeia. c) união moral e permanente. o filósofo que. são a aldeia e a tribo. escre­ via Boccio. Todas essas notas do conceito genérico de sociedade devem naturalmente exis­ tir no conceito dc socicdadc civil ou política. quer dizer. não consti­ tuem verdadeira sociedade. Os primeiros desses tipos. “civil". E. com o ajuntamento de pessoas numa praça. designando não a urbs. pois como nos ensina a filosofia o fim é a primeira das causas. por exemplo. seus elem entos com pon entes e principais ca ra cte rística s As expressões “sociedade política” e “sociedade civil” equivalem-se na etimo­ logia: “política”. a tribo fun­ da-se em vínculos de parentesco.

O Império. devemos fazê-lo levando em conta as peculiari­ dades distintivas do tipo de sociedade cuja fisionomia nos interessa agora traçar. O indivíduo nunca está abandonado a si mesmo ou aos poderes absolutos da comunidade total. podemos considerar os diversos tipos dc sociedade política na ordem cm que sc sucederam historicamente c veremos então formarem-se a confederação dc tribos. de organização citadina (Império Romano: predomínio de uma “cidade” sobre outras e sobre outros po­ vos) ou de formação nacional (Império Britânico). Fato importantíssimo este para assinalarmos com precisão a natureza da so­ ciedade política. cujos membros estariam dc tal modo absorvidos pelo todo coletivo que nem sequer teriam consciência dc sua existência pessoal. Partindo. Em todas essas formas dc sociedade política um fato resulta desde logo pa­ tente. aos poucos. seja esse povo dominan­ te de estrutura tribal e patriarcal (Impérios do oriente). Com efeito. à formação dos mundos oriundos da nebulosa primitiva e à diferenciação das espécies segundo o quadro traçado em esquemas simplifica dores e arbitrários. . de­ senvolvendo-se em torno de um mesmo tronco. pois. surgindo quase sempre no centro de uma área de terra cultivada. Sociólogos evolucionistas falam-nos da horda. Outras vezes. A tribo. é formada por famílias de procedência diversa associadas num mesmo local. Daí a polis e a civitas dos antigos. sociedade rudimentar e indifercnciada. Repelem-no a história e a etnologia. dá origem às sociedades patriar­ cais. da aldeia c da tribo. apresenta-nos um vasto organismo administrativo e a centraliza­ ção política com o predomínio de um povo sobre outros. a tradição oral dos povos mais antigos e dos selvagens de hoje. O postulado da horda é uma hipótese absurda. as sociedades heterogêneas cm que os grupos familiares sc foram constituindo até chegar aos clãs matronímicos ou patronímicos e depois às