MARCUS CLÁUDIO ACQUAVIVA

TEORIA GERAL DO

Teoria Geral

do Estado
3 a edição

Teoria Geral

do Estado
MARCUS CLÁUDIO ACQUAVIVA
Professor na Faculdade de Direito da Universidade Presbiteriana Mackenzie

3a edição

Manole

€ > Editora Manole Ltda., 2010, por meio dc contrato com o autor.

Capa: Departamento de Arte da Editora Manole Imagem da capa: Giuseppe Cesari Este livro contempla as regras do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa dc 1990, que entrou cm vigor no Brasil. Dados Internacionais de Catalogação 11a Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Acquaviva, Marcus Cláudio Teoria geral do Estado / Marcus Cláudio Acquaviva. - 3. ed. Barucri, SP : Manole, 2010. ISBN 978-85-204-3026-2 1. O Estado 2. Estado - Teoria I. Título.

09-12088

CDD-320.101

índice para catálogo sistemático: 1. Teoria geral do Estado : Ciência política

320.101

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“ PRAXÁGORAS - Quero que todos tenham um quinhão dos bens comuns, que a propriedade seja de todos; de hoje em diante, deixará de haver distinção entre pobres e ricos; não se repetirá o caso de possuir um homem vastas extensões de terras, enquanto outro não tem sequer o suficiente para cavar a sua sepultura... É meu propósito que seja um só o modo de vida de todos... Para começar, farei que toda a propriedade particular se torne bem comum. BLÉPIRO - Mas... quem fará todo o trabalho? PRAXÁGORAS - Para isso haverá escravos.” (Da comédia de Aristófanes Kcclesiazusae, apud Pitigrilli, Dicionário anti-loroteiro, Rio de Janeiro, Vecchi, 1956, p. 44)

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dois irmãos descendentes de Ascânio. começaram a discutir. Ilustração extraí­ da de p o t t e r . 17. aguardou o resultado. com vantagem para Amúlio. a se tornar sacerdotisa da deusa Vesta. múnus que a obrigava a preservar a virgindade e. De­ marcaram os muros da cidade. Indro. os primeiros lances da construção. Londres. De onde vinham os dois? Vejamos. os recém-nascidos faziam ta­ manho berreiro que atraíram a atenção de uma loba. um príncipe. Ascânio. Rômulo ganhou a aposta. constrangendo-a. Mandou colocar os gêmeos num cestinho de vime e soltá-los 110 rio Tibre. p. Acontece que o deus Marte se apaixonou por Réia Sílvia. que após va­ gar sem destino pelo mundo. daria seu nome à nova urbe. apesar de tudo. o matou com um golpe de enxada!2 É evidente que. m o n t a n e l l i . não esperaram para receber a herança e o trono do avô. para que se afogassem na correnteza. filha do rei Latino. com a qual teve um filho. jurando que matariam quem ousasse transpô-los. A tradição a fez fundada aos 21 de abril de 753 a. porém. Sequiosos de aventura. Entretanto. com isto. Fundaram uma pequena cidade. que con­ sistiu em dois robustos garotos. a pro­ 1 2 Imagem da capa: Rômulo e Remo amamentados pela loba. despeitado pela derrota ou por infeliz gracejo. que cm vez de matá-los. pelo que retornaram a Alba Longa. David. 1961. com um pontapé. fiel ao juramento e friamente. . a quem deram o tro­ no. Ainda que verdadeiro o episódio do abandono à morte dos gêmeos. hoje. restaram pou­ cos sobreviventes entre os vencidos. o vento soprava forte e o cesto encalhou a pequena distância. C. ao que Rômulo. até que combinaram o seguinte: aquele que adivinhasse o número de pássaros que num dado momento sobrevoariam o local. Ibrasa. derrubou. p. 2007. Enéias.RÔMULO E REMO E AS ORIGENS MÍTICAS DE ROMA1 Roma. Após oito gerações. que expulsou seu concorrente e mandou matar todos os filhos deste. acabando por se fixarem no mesmo local onde o cestinho em que embarcaram encalhara. depuseram Amúlio e fizeram retornar Numitor. 1-3. porém. engravidando-a e suscitando a cólera de Amúlio que. menos a menina Réia Sílvia. indo em busca de novas terras. passaram a disputar o trono da cidade. Quercus. cidade eterna! Este conhecido axioma insinua a alta antiguidade des­ ta metrópole. Remo. por isso a cidade chamar-se-ia Roma. um estudo mais sério dos fatos não admite mais tanta fantasia. de Giuseppe Cesari. Dentre estes. os amamentou! Os dois cresceram e conheceram sua história. Quando os gregos conquistaram e destruíram Tróia. que fundou Alba Longa. onde. História de RomaySào Paulo. chegou à Itália. por obra dos irmãos Rôm ulo e Remo. que um dia foi a capital do mundo. na região do Lácio desposou a jovem Lavínia. em per­ feita harmonia de ideais. quando se tratou do nome a ser dado à povoação.. Numitor e Amúlio. Empcrors ofRonte: the story of imperial Rome from Julius Caesar to the last emperor. não ter filhos que pudes­ sem se vingar no futuro.

zombeteiramente. literalmente um animal. heróica. p .3 Por outro lado. ate sobrenatural. a cidade parece ser bem mais antiga do que conta a tradição. 1992. sempre orgulhosos dc si mesmos. logo mais. talvez a mais glo­ riosa epopeia de um povo. no período republicano. especialmente a partir da tomada do poder pelos monarcas etruscos. criando um Estado em que a forma de governo alcançaria a perfeição.. Vozes. dominadora. seus costumes auste­ ros. tangida por cidadãos cuja probidade e amor ao bem público esclarece. seu expansionismo. Parece que os primeiros habitantes da região. Tem início. a imagem da loba romana. no fim do século VII a. 142. “a loba”. cabanes.). Notas introdutórias ao estudo do Direito. de uma mulher chamada Aca Larência. 48-9. paludosa e insalubre. pois numerosos testemunhos arqueológicos. da era do bronze médio e recente. as coisas não se passaram de forma tão romântica. que civilizaria o mundo em nome do Direito e da Pax Romana.teção que lhes teria dado uma loba. C. a longa e profícua tra­ jetória do Estado romano. violenta e adúltera. uma simbologia própria. Foi o que ocorreu. Quanto às verdadeiras origens de Roma. 2 0 0 9. consequentemente. na área em que se assenta Roma. origem nobre. malcria­ da.4 O fato é que a cidade ingressa na História oficial com seus sete reis (753-509 a. é pura lenda. 3 4 a c q u a v iv a . não tinham. absolutamente. 3. O fato é que os primeiros romanos. Picrre. o espírito guerreiro e. Marcus Cláudio. . ícone. comportamento selvagem que lhe teria valido ser chamada. Os gê­ meos que ela amamenta foram acrescentados no Renascimento. na verdade. p.. tratava-se de gente humilde ou foragi­ da que se ocultava nos pântanos e sobrevivia com dificuldade. se­ gundo Políbio de Megalópolis. criando-se. C. inconfundível e perene. seu apego à terra. C. ed. desde logo. de muito antes de 753 a. identificada com a cidade. para que a sociedade nascente criasse personalidade forte. É provável que as agruras por que passaram tenham forjado seu caráter rude. pois a 4 4 loba” não passaria. preci­ savam passar para os filhos uma origem nobre. sem dúvida. na qual se destaca. São Paulo. Pcrrópolis. melhor que qualquer outra circunstância. Introdução à história da antiguidade. revelam a existência de comunidades remotas.

..................................2) N a ç ã o ....................................3) T e rritório.................................. 45 IX 2 3 ........................................ÍNDICE GERAL APRESENTAÇÃO ........ 10 0 ESTADO................................4 2) Definição de sociedade ..43 4............................................. 12 2) 0 Estado de Direito...........................................................................................................24 4...............20 4) Causas constitutivas do Estado........... 39 4............................................................................................ 37 4.............................. conceito e evolução histórica da Teoria Geral do Estado.............1 Natureza......................................... 31 4........ 1 A SOCIEDADE E O ESTADO................................................2) 0 princípio da separação de Poderes no Estado............. 39 4........................ 8 3) Espécies de sociedades.......................1....................................................................................................................1) Antecedentes....................... 12 1) Conceito e evolução histórica do Estado...............................................................................4) Natureza das relações entre o Estado e seu território enquanto base física: teorias do direito real institucional............ 24 4.........................................................................................................1) Causas materiais................................................1) Povo..........................................2................... 4 1) Fundamento da sociedade............................................................2..1......... 23 4................ XV 1 A DISCIPLINA..............................................1) Poder político..................................2...........2........................................................................................................1............................................................................................... do imperium e do domínio em inente............................1..........2...................2....................2) O princípio da separação de Poderes segundo Montesquieu...............................................................................................................................................................................................................................................................2) Causas fo rm a is ..................................................43 4............. 27 4.......................................... 17 3) Direito e Estado...........................................

.........................................................47 4................................. 48 4....................................................................8) Kelsen........... 77 3) Conteúdo político das Constituições................................................................................................................................................................... 104 1.......................................................................................................................................................1) M o narq uia............................................................................................3) Soberania....51 4............. 93 1.........................................................2................................ 97 1.......6) M ontesquieu..............4) C ícero....................2) República...........5) Nicolau M aquiavel......95 1.............................................................................1) A doutrina pactista medieval............................................................................ 53 4....................................................................2............................3) A doutrina da soberania lim itada...............................................................2......2) A doutrina do contrato s o c ia l........ 93 1) Classificações antigas e modernas......................................... 57 4......................................................................................................2.......2) Concepção social do bem comum ....................................................... 102 1..............................................................2.............................................................................. 86 3) Estado u n itá rio ..........................111 2..................................4) 0 Estado contemporâneo e a delegação de fu n çõ e s........................................... 80 4) Revolução..5................................................................3.................................................. 111 2................ 87 4) Estado federal....113 2....................................................................................3............................................................................................................................................3) 0 Poder Legislativo........................................................................................................................................................5) Causa final: o bem comum.............. 93 1..................................................................................................................................................................................................................................................................4) Ordem jurídica.......3) Políbio de Megalópolis...............74 1) Conceito e evolução h is tó rica ...................................................................5...................... 47 4....3..................................116 2.......................................... 53 4.................. 118 5 6 ........................................... 86 2) União real..2) A ristó te le s.............................................7) Rousseau.............................................................................2......4) Globalização e soberania .........................66 4 A CONSTITUIÇÃO............................5) 0 caso brasileiro: medida provisória e lei delegada......................................................... 108 2) Formas de governo clássicas.........................................................99 1.................... 62 4..................................................1) Platão (Arístocles)......X Teoria Geral do Estado 4...................... golpe de Estado e insurreição................................... 86 1) União pessoal......4) D em ocracia...........................................................56 4.......................................................................... 89 FORMAS DE GOVERNO.................................. 74 2) Espécies..............................................................3................................................................1) 0 liberalismo e o bem comum .....................57 4....................................................................... 100 1....................................................61 4...................................82 FORMAS DE ESTADO....3) A ristocracia.....................................................................

......................................................4) Concentração da propaganda nas mãos do Estado....... 179 2) Parlamentarismo.................... 154 Demagogiae oclocracia.....................................................221 6................1) Os partidos políticos no Brasil.........................6) Direção estatal da economia ...........................4) Presidencialismo..5) Sufrágio e voto......... militarismo e Igreja na América L a tin a ..........................................................................1) Características do totalitarism o....................índice Geral XI 3) 4) 5) 6) 7) 7 2................................. 220 6..............7) A doutrina nacional-socialista....................................................6) Partidos políticos.........................................176 1......................................3) Controle policial pelo Estado..........................................................................................................4) Democracia sem id ire ta..................1..............................................4.......................................................................... 187 3) Materialismo histórico e ditadura do proletariado....................................119 2...............................133 2.............................................................................................................................165 REGIMES DE GOVERNO............211 6) Totalitarismo: fascismo e nacional-socialismo.....1) Ideologia o fic ia l.........1...........................................................................................2) Democracia direta........................................................................................................................3) Democracia representativa......................... 173 1...9) 0 princípio da liderança (Führung) no Estado nacional-socialista.....................................................151 Oligarquia........6..................4....................1...................................................................4. 186 2) Socialismo utópico................................................227 7) Humanismo s o c ia l.................................................. 219 6.................. 157 Caudilhismo......2) Presidencialismo histórico e direito comparado.............................................................................................................................................................228 8 ...........................................................1..........................3) Presidencialismo versus parlamentarismo na América L a tin a ........1..................................................................4..5) Concentração dos meios militares......... 191 4) Anarquismo e sindicalismo....226 6.........................1) Introdução ao tem a......... 219 6....................................................................4................................214 6.......................................2) Sistema de partido único..................1) Introdução........8) O Estado nacional-socialista e os direitos subjetivos...............................................................................139 2...1........................................... 203 5) Mecanicismo e org a n icism o .............. 121 2......................................................................... sob o comando de um líder...................................... 149 Tirania...................221 6.................................................................. 177 1.........................................................................128 2...............................................................1................219 6....1.........................................................................119 2........7) Democracia e comunicação de massa................................................................... 180 IDEOLOGIAS.................................... 155 D itadura............................................................................4..................................................................................................................................................173 1) Presidencialism o..................................................220 6..................... 145 2...................1...............................4........... 186 1) Conceito de id e o lo g ia .......................... 226 6...........173 1........4.

................................ 246 3) Nicolau Maquiavel [O príncipe) ..........................................................................................................332 25) S...................................................................................................................................................................... 320 23) José Pedro Galvão de Sousa (Conceito e natureza da sociedade política)...................M ercosul........................238 6) 0 Tribunal Penal Internacional ............................243 2) Santo Tomás de Aquino (Suma teológica e Suma contra os gentios) ......................................................309 19) Benito Mussolini (Prelúdio a O príncipe..................... 325 24) M..............................XII Teoria Geral do Estado 8) Social-democracia.... 289 14) Francisco José de Oliveira Vianna (O ocaso do Im pério) .A........................ 288 13) Alberto Torres (A organização nacional) .................... 259 8) Karl Marx e Friedrich Engels (O manifesto com unista) ....................l..................................301 17) Nikolaj Lênin (Como iludir o povo com os slogans de liberdade e igualdade) ....................... Krutogolov (Palestras sobre a democracia soviética) ..............O N U .......................................................................267 9) Ferdinand Lassalle (Que é uma Constituição?) ............................................... 230 9 0 ESTADO ENTRE ESTADOS:AS ORGANIZAÇÕES INTERESTATAIS.......280 12) Almeida Garrett (Obras)........................269 10) Fustel de Coulanges (A cidade antiga) .........................................255 6) Joseph De Maistre (O pensamento social cristão antes de M arx) ....................................................238 5) Os tratados internacionais (natureza e e ficá cia)................................................................................257 7) Simón Bolívar (Discurso perante o Congresso Constituinte de B o lív ia ......................233 2) A Organização das Nações Unidas ...............277 11) Gustave Le Bon (Leis psicológicas da evolução dos povos ) .............................247 4) William Shakespeare (Júlio César) ........................................................................................................................................ 243 1) Marco Túlio Cícero (Dos deveres) ............................. 303 18) Léon Duguit (Os elementos do Estado)........................ 300 16) Georges Sorel (Reflexões sobre a violência).......................................................TPI...UE...................................... 339 ...............................................................................................................................................310 20) Varlan Tcherkesoff (Erros e contradições do marxismo)... 235 3) Direito comunitário: antecedentes da União Européia .................................... Kovaliov (História de Roma).............................. 229 9) Neoliberalism o..........235 4) O Mercado Comum do Sul .............................. 233 1) Natureza das Organizações Interestatais........................................... 249 5) Henry David Thoreau (Desobediência civil).....312 21) Hans Kelsen (Teoria geral do Direito e do Estado) ..............317 22) Alípio Silveira (Da interpretação das leis na Alemanha nacional-socialista e hitle rista ) .....292 15) Jacques Maritain (O homem e o Estado ) .................................................................................................................................................................................................................. de M aquiavel) ....1825)............242 10 LEITURAS COMPLEMENTARES................................................................................................................................................................

.. 341 1) Convocação da Assembleia Geral Constituinte e Legislativa (Decreto de 03.. de 15............. 119-A............................................................1890 (Liberdade de culto)................................................índice Geral X III 11 DOCUMENTAÇÃO HISTÓRICO-LEGISLATIVA.......................01...... 350 10) Declaração Universal dos Direitos do Homem............... 343 5) Manifesto de S.1964....................................................347 7) Decreto n......11............... M....... 26....................1985.... de 11..353 11) Emenda Constitucional n.......................... o Imperador aos brasileiros......1948 ... 1........357 12) Preâmbulo do Ato Institucional n............341 2) Dissolução da Assembleia Geral Constituinte e Legislativa (Decreto de 12..... 19.................................. 4.....11........ 342 4) Proclamação de D......................... 367 ......1961 (Sistemaparlamentarista)....1889 (Proclamação da República).........1889 ...............12.............................1930 (Institui o Governo Provisório da República dos Estados Unidos do Brasil)......................342 3) Decreto n....11..... 364 ÍNDICE ALFABÉTIC0-REMISS1V0.....04............................................................. 344 6) Proclamação do Governo Provisório............................... Pedro 1.........................................1822)..... de 10..................................... de 02.............. em 15........................349 9) Decreto n.. de novembro de 1823..... 13...........................................................348 8) Decreto n..........363 13) Emenda Constitucional n..........................................................................................11...................1823)..........................11..09.06............... de 09................... 1...398......... de 27. de 07....

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do Prof. as ideologias políticas (anarquis­ mo. ordem jurídica. as formas de governo an­ tigas e modernas. que muitos denominam “internacionais”. de modo a atender praticamen­ te a todos os programas da disciplina determinados por universidades e faculdades de Direito. é advogado e leciona na Faculdade de Direito da Universidade Presbiteriana Mackenzie. por parte de colegas e alunos. Dentre os tópicos constantes da obra. o sufrágio e o voto. po­ der político. a definição e as espécies de sociedade. recebeu. o con­ ceito e a evolução histórica da disciplina Teoria Geral do Estado. Várias inovações enriquecem a obra. esgotado há vários anos. Acquaviva passou a dedicar grande parte de seu tempo na revisão e na ampliação substancial do conteúdo do livro. as causas constitutivas do Estado (povo e nação. Além desse nobre material de pesqui­ XV . O autor. análise minudente sobre o princípio da separação das funções do Estado e um capítulo sobre as organizações interestatais. soberania. cumpre mencionar a natureza. os regimes de governo (presidencialismo e parlamentarismo). Consciente da necessidade de republicar a obra. as formas de Estado. a Constituição política (con­ ceito. tendo em vista a dinâ­ mica do mundo globalizado e seus novos questionamentos. acha-se inteiramente revista e ampliada. os partidos políticos. conhecido mestre de Direito. marxismo-leninismo. evolução histórica e espécies). Marcus Cláudio Acquaviva. o Estado de Direito. bem comum). inúmeros pedidos e incenti­ vo para a reedição do livro. território. em São Paulo.APRESENTAÇÃO Esta nova edição da obra Teoria Geral do Estado. No exercício de seu magistério. o Prof. sindicalismo revolucionário. o conceito e a evolução histórica do Estado. social-democracia e outras) e as organizações interestatais. o fundamento. com destaque para uma abordagem aos partidos políticos no Brasil. incluindo tópicos como o Direito Comunitário (an­ tecedentes da União Européia) e o Mercosul. a democracia.

Cícero.11.1948 c a Emenda Constitucional n. 19. a Declaração Univer­ sal dos Direitos do Homem. . Um dos maiores atrativos da obra. 1. de 10. o autor promoveu inúmeros acréscimos ao próprio texto. Lênin.1930 (Governo Provisório da República). Santo Tomás de Aquino. Gustave Le Bon. e mesmo ao professor. Benito Mussolini e Hans Kelsen. passando a contar com mais ex­ certos de obras famosas e de difícil acesso para o estudante.09. Isso permitirá ao aluno. 4. o Decreto n. aumentada. Maquiavel.1889 (Proclamação da República). uma oportuna documentação histórico-legislativa pertinente à Teoria Ge­ ral do Estado. de 02. Participam da antologia. a antologia de clássicos da Política e da Teoria Geral do Estado foi. valendo des­ tacar o Decreto n. cm face dc sua rarida­ de ou alto custo. Encerrando o conteúdo desta. de 11.1961 (Sistema parlamentarista dc governo).12. isso sem mencionarmos outros textos de grande valor doutrinário constantes da primeira parte da obra. e também para enriquecer a informação aca­ dêmica. dentre esses oportu­ nas referências a autores de nomeada. Karl M arx e Friedrich Engels. uma pesquisa com mais conforto e rapidez. Shakespeare. dentre outros clássicos. de 15.398.11.XVI Teoria Geral do Estado sa. também. a partir do Primeiro Império brasileiro até a atualidade.

1970. é o F^stado. como magistrados. Forense. CONCEITO E EVOLUÇÃO HISTÓRICA DA TEORIA GERAL DO ESTADO Bibliografia: l im a DALLARI. cuja finalidade é orientá-lo quan­ to aos fundamentos do Direito e da sociedade. 1985. entre tantas outras. que faz valer a vontade da lei. fis­ cais e servidores públicos. entidade imaterial. 1981. Bushatsky. 7. a Sociologia e a Economia visam propiciar conhecimentos bá­ sicos para a compreensão e a própria justificação de disciplinas mais específicas. o Direito Penal e o Direito Tributário. Paulo Jorge de. a Teoria Geral do Estado. Dalmo de Abreu. Quando um juiz comina pena de prisão. uma autoridade judicial intima alguém para depor em proces­ so ou para atuar como mesário ou apurador de votos cm uma eleição ou. à qual todos devem sub­ meter-se em prol do interesse público. 1 . f is c h b a c ii. ainda. São Paulo. Teoria general dei Estado. a Anatomia e tantas outras matérias congêneres constituem a base dos estudos espe­ cíficos no campo das Ciências Médicas. 1981. 2. ed. Nacional. Ao ingressar na Faculdade de Direito. o iniciante do curso jurídico se depara com uma série de disciplinas denominadas básicas. restaurantes e condomínios e o álcool nas rodovias. ed. a Introdução ao Estudo do Direito. Saraiva. um fiscal de rendas impõe multa ao contribuinte faltoso. Teoria do Estado. G. Rio de Janeiro. Da mesma forma que a Biologia. lo. s il v e ir a n e t o .. como o Direito Administrativo.A DISCIPLINA NATUREZA. mediante seus órgãos concretos.. Honório. Curso de teoria do Estado. México. . proíbe o fumo em bares. São Pau­ O. Elementos de teoria geral do Estado.

o primeiro buscando conciliar o platonismo com os dog­ mas cristãos. não só quanto ao seu conteúdo econômico-social como no tocante às suas formas jurídicas e. No ocaso da Idade Média surge Marsílio de Pádua. e os franceses. também denominada Teoria do Estado. como Parte Geral do Direito Constitucional Positivo. se o instrumental de trabalho do bacharel em Direito é a lei. como o demonstra o Prof. Am­ bos dissertaram sobre temas referentes às relações entre o poder social e o poder espiritual. na qual recomenda a separação e a mú­ tua independência entre Igreja e Estado. e Doutrina do Estado. adotada por Hermann Heller. preferida por Alessandro Groppali. como instituição universal. dc uma disciplina como a Teoria Geral do Estado. específico. ideias inseparáveis. Doutrina do Estado ou. sempre recebeu críticas pelo adjetivo geral que contém. inclusive. como sonegar ao estudante uma sólida formação ética a respeito dos funda­ mentos do Estado. não podendo haver ciência do particular. uma vez que. com a obra Defensor pacis (1324). a Teoria Geral do Estado é especulativa. uma teoria é.C. sendo suas obras principais a Suma teológica e a Suma contra os gentios. às suas manifestações ideo­ lógicas”. Conta-se que Aristóteles visitou nada menos do que 150 países. a inteligência com a fé. cidade). Todavia. estudando suas instituições e leis. gerai D aí as vertentes Teoria do Estado (Staatslehre). sob os mais variados pontos de vista. com o tratado A ci­ dade de Deus. sendo a lei a formalização da vontade estatal. inevitavelmente. mas o estudo do Estado em abstrato.).2 Teoria Geral do Estado Estado e Direito são. ingleses e norte-americanos denominam essa disciplina Political Science. A denominação Teoria Geral do Estado.) e Cícero (106-43 a. portanto. proveniente da expressão alemã Altgemeine Staatslehre. embora Aristóteles seja considerado seu funda­ dor. Direito Cons­ titucional I. reitor da Universidade de Paris. criada em 1672 pelo holandês Ulric Huber. Na Idade Média destacam-se Santo Agostinho (354-430). que tem por objeto o estudo do Estado como fenômeno social e histórico. como origem. e não prática. do Direito e da própria sociedade? Daí plenamente justificada a existência. vale observar que as obras ancestrais dessa disciplina são as de Platão (429-347 a.C.C. Science Politique. organização e ideologias políticas. sendo seu objeto não a análise dc um Estado concreto. livro este considerado precursor da mo­ derna ideologia totalitária. Daí a precisa definição da Teoria Geral do Estado formulada por Paulo Jorge de Lima: “disciplina de caráter teórico e geral. pecando por redundância. cujos escritos apresentam robusto matiz político. Ora. e Santo Tomás de Aquino (1225-1274). evolução. Aristóteles (384322 a. devido ao seu tratado Política (de polis. e o segundo enaltecendo a ortodoxia católi­ ca. José Pedro Galvão de Sousa . no curso jurídico. Sendo eminentemente teórica. ainda. Quanto à evolução histórica da Teoria Geral do Estado. em que analisa as origens do Estado e as formas de governo existentes em seu tempo. do que re­ sultou a mais famosa de suas obras.).

a Teoria Geral do Estado tornou-se uma disciplina independente. N o Brasil. publicada em 1972. John Locke (1632-1704). Após Maquiavel. como se constata em suas obras O príncipe e Dis­ cursos sobre a primeira década de Tito Lívio.1 A disciplina 3 em tese primorosa intitulada O totalitarismo nas origens da moderna teoria do Es­ tado. com O contrato social. com Tratado sobre o governo civil. na Alemanha. destacam-se Thomas Hobbes (1588-1679). mas em Direito Piíblico e Constitucional. que buscaram revelar o fundamento do poder político e da sociedade na própria natureza hu­ mana e na vida social. ju­ rista emérito e fundador do Direito Público alemão. . até 1940 não se falava em Teoria Geral do Estado. Montesquieu (1689-1755). célebre escritor político florentino que viveu entre 1469 e 1527. Somente no século X IX . com Leviatã e Do cidadão. Nesse ano ocorreu a separação: a Teoria Geral do Estado passou a ser disciplina autônoma e o Direito Público e Constitucional a denominar-se apenas Direito Constitucional. com Georg Jellinek (1851-1911). A evolução histórica da Teoria Geral do Estado recebe considerável impul­ so com Nicolau Maquiavel (ou Machiavelli). e Jean-Jacques Rousseau (1712-1778). com O espírito das leis.

O pânico e a de­ sesperança acabam quando. durante horas. é indispensável abordar a socie­ dade em geral. 5. pouco valori­ zada. 1998. 2000. Leviatan. Pois bem. Lisboa. dro Ciaivão de. 2. Geneviève. já vivenciou o leitor a desagradável experiência de permanecer trancado.. José Pe­ Fjnbora seja o Estado a mais complexa das sociedades. e “A palavra e o discurso”. São Paulo. São Paulo. num velho eleva­ dor. Editorial Estampa..2 A SOCIEDADE E O ESTADO 1) FUNDAMENTO DA SOCIEDADE Bibliografia: A política. 1984.. 1949. no 12° andar? Fim de semana. afasta­ 4 . ed. despertamos para a assustadora realidade da solidão e da impotência para sobreviver! Sozinhos. A interação mais ou menos intensa que man­ temos com todos torna-se repetitiva e. 2. despercebida. v. Thomas. quem sabe. tradução e adap­ tação de D. prédio vazio e silencioso. c a l a m e -g r i a u l e . Por nascermos em sociedade.B. uma voz amiga e trêmula pelo susto das pancadas na porta nos acalma e garante que a assistência técnica não demora e que tudo está sob controle. manifestação suprema do espírito objetivo no mundo. dada a vinculação daquele a esta. porque nos consideramos ilimitadamente autossuficientes. São Paulo. hobbes. raramente nos damos conta da importân­ cia disso para nossa realização plena. como queria Hegel. Fondo de Cultura Econômica. porém. Mar­ Ar i s t ó t e l e s . México. Ludgero Jaspers O. Quando. em face de um infortúnio.S. in His­ tória dos costumes. por isso mesmo. Jean Poirier (org. expediente encerrado. do lado de fora.. 1926. Conceito e natureza da sociedade política. conhecidas ou não. So u z a .. ed. tins Fontes. tradução de Roberto Leal. isolamo-nos de forma involuntária. Manual de philosophia.). sem celular ou qualquer outro meio de comunicação. em convívio cotidiano com outras pessoas.

sem a realidade. mais social do que as abelhas e os outros animais que vivem juntos. po­ rém. O mesmo ocorre com os membros da Cidade: ne­ nhum pode bastar-se a si mesmo. Estes são apenas a expressão de sensações agradáveis ou desagradáveis. ou um bruto. Aquele que. uma vez separados do corpo. portanto. Em sua obra clássica Política. O Estado. a inclinação na­ tural levou os homens a este gênero de sociedade. objetos para a mani­ festação dos quais nos foi principalmente dado o órgão da fala. um ser sociável por natureza. todas distintas por seus poderes e suas funções. con­ firmando a assertiva de Blaise Pascal de que o homem não passa de um caniço pen­ sante. Santo Tomás de Aquino (1225-1274). dotado de carisma (graça divina). Assim. como uma ave de rapina. A natureza deu-lhes um órgão limitado a este único efeito. existisse sem nenhuma pátria seria um indivíduo detestável. capazes. o homem se mostra uma cria­ tura eminentemente gregária e comunicativa por meio de uma linguagem articula­ da. só conservam o nome e a aparência. temos a mais. e todas inúteis quando desarticuladas. vale dizer. sociável por natureza. evidente que toda Cidade está na natureza c que o homem e natu­ ralmente feito para a sociedade política. deixa o convívio social e retira-se para um . As sociedades domésticas e os indivíduos não são senão as par­ tes integrantes da Cidade. damo-nos conta de nossa fraqueza perante o mundo natural. inspi­ rando-se no próprio Aristóteles. ou não pode resolver-se a ficar com eles. semelhantes às mãos e aos pés que. sem família e sem leis”.2 A sociedade e o Estado 5 dos de todo o conforto que a sociedade tecnológica proporciona. nós. Aquele que fosse assim por natureza só respiraria a guerra. senão o conhecimento desenvolvido. portanto. de que os outros animais são. todas subordinadas ao corpo inteiro. por sua natureza e não por obra do acaso. que nada faz em vão. considera que o homem. ou seja. estaria sempre pronto para cair sobre os ou­ tros. a do indivíduo que. denominando-o por isso zoon politikon. O todo existe necessaria­ mente antes da parte. o que levou o filósofo Aristóteles a considerá-lo um ser social e comunicativo por natureza. muito acima ou muito abaixo do homem. o bom-senso e os conhecimentos que a própria sociedade nos transmite. ou sociedade política. o maior filósofo da Cristandade. ou é um deus. Assim. Temos a nosso favor apenas a inteli­ gência. que se quebra na mais leve brisa. Pois bem. que não devemos confundir com os sons da voz. é até mesmo o primeiro objeto a que se propôs a natureza. como uma mão de pedra. Aquele que não precisa dos outros homens. segundo Homero: “ Um ser sem lar. do útil e do nocivo. A natureza. vi­ veria em solidão apenas em três hipóteses: a) hipótese da natureza divina (excellentia naturae). como nós. nascendo e vivendo em sociedade. o homem é um animal cívico. Este comercio da palavra é o laço de toda sociedade doméstica e civil. concedeu apenas a ele o dom da palavra. Nada pior que o isolamento forçado. pelo menos o sentimento obs­ curo do bem c do mal. do justo e do injusto. Aristóteles nos ensina: É. não sendo detido por ne­ nhum freio e.

Em sua visão pessimista. Hobbes adverte que esse fre­ nesi de dominação encontra sério obstáculo: o medo de morrer (timor mortis). monstro bíblico que empresta o nome à sua obra mais conhecida. sempre presente. em que o indivíduo se vê privado do convívio social por um capricho do destino. é lobo do pró­ prio homem (homo homini lupus). com os leprosos durante a Idade iMédia. filme em que um grupo de garotos. alheio). indivíduos que. o próprio Estado. do náufrago vivido por Tom Hanks. torna-se selvagem. Enfim. mediante uma vio­ lenta submissão do próximo. fundado em ambição. como fez Jesus em seu retiro 110 deserto. formando grupos inimigos e chegando ao assassinato. as quais criariam uma barreira entre eles e a sociedade. como é sabido. azar (mala fortuna). filósofo inglês para quem. escorraçados das cidades e obrigados a viver isolados. que Hobbes denomina Leviatã. a dos indivíduos atingidos por anomalias físicas 011 mentais (moléstias contagiosas. Com efeito. caso mais comum do que se pensa. Tal a posição deThomas Hobbes (1588-1679). pois 11a sua desgraça não teriam noção do mundo real. ilustram bem a hipótese. E o que ocorria. a expressão alienado. sem fa­ larmos no impressionante O senhor das moscas. entretanto. o homem. imposta pelo Estado. ingressando num monastério isolado. a natureza agressiva deste o leva a investir fisicamen­ te contra seus semelhantes. loucura). o ser humano é impelido. felizes na frugalidade da vida monástica e no silêncio austero que convida à espiritualidade. é resultado de um instinto. por natural in­ clinação. muito menos que a sociedade e. entregando-se à meditação. viveriam isolados da socieda­ de. de modo que somente 11111 governo severo. do excursionista que se perde 11a mata espessa durante uma caminhada mais ousada. no cinema con­ temporâneo. Ao contrário. frase criada pelo cronista latino Apuleio. b) hipótese da natureza doentia (corruptio naturae). a necessidade de sobreviver impele o homem à vida comunitária. da queda dc uma aeronave ou. As vicissitudes da clássica personagem Robinson Crusoé e. . Para outros autores. c) hipótese da má sorte. segundo Hobbes. sobreviventes a um desastre aéreo. Também os alienados mentais. leva o homem a conquistar poder e glória a qualquer custo. formando comunidades indesejáveis a grandes distâncias dos centros ur­ banos. alheios à realidade (daí. a destruir seus semelhantes. e como fazem os ermitões. como ocorreria com o sobreviven­ te de um naufrágio. para Hobbes.6 Teoria Geral do Estado local isolado. qual seja. vivendo inconscientes. por não ter fundamento natu rala sociedade pressupõe uma disciplina férrea. desiludidos pelas mazelas do gênero hu­ mano. Ora. optam pela purificação e pelo aperfeiçoamento do espírito. nesta. da natureza gregária do ser humano. é a origem da lei e do Estado. como foi dito. formas que exprimem o desejo de autoconservação. autocrático e disposto a punir seus excessos sem contemplação poderia tornar possível a vida em sociedade. O homem. Um apetite natural e irracional. a ameaça da morte imprevista e dolorosa. orgulho e vaidade (superhia vitae). ou seja. 11a aferição das origens do Estado.

num processo assimilativo denominado socialização. cuja finalidade não poderia ser outra senão a comu­ nicação entre as pessoas. relatada por Diderot. o ser humano recém-nascido carece de total proteção. pois sem esta. num pacto ou contrato social. a própria natureza humana se inclina para a vida em sociedade. Por outro lado. a civil. Com esta preocupante sentença. para realizar seus objetivos. 91) . p. já para Rousseau. especialmen­ te na infância? Ao contrário de muitas espécies animais. mas a sociedade o corrompe de tal modo que e necessário restaurar sua primitiva liberdade individual. Rousseau toma orientação semelhante à de Flobbes quanto à origem da so­ ciedade. Jean-Jacques Rousseau (1712-1778). iniciado no lar. livre e feliz. e não por uma suposta inclinação natural. procura demonstrar. o homem nutre simpatia (do grego syrnpathia) pela vida cm sociedade. outro indício marcante da sociabilidade humana é a própria linguagem articulada. o homem. Observa Cieneviève Calame-Griaule: A linguagem. Esta célebre historieta. à custa de seu semelhante. vindo à luz. sucumbe. por si só. a liberdade individual. cada vez mais avançados nos dias que correm. bom por natureza. prover sua subsistência. já percebe o leitor. Como poderia o homem. na concepção do próprio ho­ mem: para Hobbes. tão precocemente perdida. Todavia. por isso. desde o nascimento aptas à luta pela vida. perdendo sua liber­ dade natural e ingressando em outra espécie de liberdade. grande inspirador ideológico do individualismo da Revo­ lução Francesa e mesmo das democracias liberais modernas.Como se vê. como adverte Lahr. A par disso. “ Fala. logo no início do primeiro capítulo de seu famoso livro O contrato social. le bon sauvage (o bom selvagem) típico do ro­ mantismo do referido pensador. que passa a ser um fim em si mesma. e não como decorrência de uma natural in­ clinação do ser humano. sequioso de poder e glória. teria dito o cardeal de Polignac a um orangotango de aspecto muito huma­ no. nada abalada pelos estudos. o homem pre­ cisa do auxílio de seus semelhantes e. e eu batizo-te”. a disposição pura­ mente passiva dos seres sensíveis de compartilhar espontaneamente as emoções daque­ les com que vivem. Enfim. ele nasce bom.Na verdade. é ao mesmo tempo a condição necessá­ ria e suficiente para a definição do homem. Cabe a lei preser­ var. (Manual de philosophia. mas em todo lugar se acha acorrentado). passando pela escola e pelos grupos sociais de variada natureza.2 A sociedade e o Estado 7 Uhotnme est né libre et partout il est dans les fers (O homem nasce livre. empre­ gada tal expressão no seu sentido rigorosamente filosófico. como fenômeno universal. sobre a co­ municação animal. este nasce individualista. a saber. celebra um pacto social com esses. de quem ela é um privilégio. Diferem. corrompe-se. é graças à adaptação paulatina ao modo de ser da sociedade que o ser humano vai sendo condicionado a agir conforme os valores desta. tangido pela razão. No con­ vívio com o próximo. limitada. que o ser humano nasce bom. ilustra bem a antiquíssima convicção. a todo custo.

porque o homem. Agnes e t i i i n e s . Sem racionalidade. Lisboa. DEL V E C C H I O . e ocupando um biótopo que a comunidade condiciona estrei­ tamente. honesto ou desonesto. Edições 70. estaremos revelando a própria essência da es­ pécie humana. ed. lempereur. existem outros. A definição de sociedade nos impõe.). Agir. e o agregado animal (união estável de outros seres). . Por exemplo. não há que se falar em ser humano. Assim. 1984. George. mostra-se dinâmica e mutá­ vel. Saraiva. denominados acidentais ou con­ tingentes. simplesmente. o ser ou coisa careceria de existência. Boécio (474-524 d. renovando seus valores. Lições de filosofia do direito. quando Anício Mânlio Torquato Severino Boécio ou. 13. humilde ou arrogante. São Paulo. sempre. Acontece que. por­ tanto. Omnia definitio periculosa est. pois seria inconcebível um gênero humano desprovido de racionalidade. quando formos definir o que quer que seja. Curso de filosofia. Fruto da cultura e da experiência acumulada pelo homem. devem constar de toda definição apenas as causas essenciais do que está sendo objeto de definição. se definíssemos o homem como um ser racional bom ou mau. e sem os quais este preserva sua essência. esclarecer o que é definir. desde logo. portanto. não sendo. O que é essência. ora regride. todavia a so­ ciedade estará. se defi­ nirmos o homem como ser racional. Entretanto. advertem Agnes Lempereur e Georges Thines. Haverá erros. mudando na busca da perfeição.8 Teoria Geral cio Estado 2) DEFINIÇÃO DE SOCIEDADE Bibliografia: 1948. pois a sociabilidade humana impli­ ca uma complexidade de relações muito mais profunda que a observada no agrega­ do animal.. Sem seus elementos essenciais. Giorgio. Dicionário geral das ciências humanas. define o homem como substância indivisível dotada de racio­ nalidadeypercebe-se que a razão é o elemento essencial da definição do ser humano. consideramos oportuno estabelecer uma discriminação con­ ceituai entre a sociedade propriamente dita (união estável de seres humanos). jo l iv e t Regis. retrocesso. honesto ou desonesto. estaríamos pecando por acidentalidade. ora evolui. .C. características e atributos meramente acidentais. São Paulo. indispensáveis à definição. A sociedade propriamente dita. Definir é revelar a essência do definido. a sociedade é a comunidade animal natural que agrupa indivíduos da mesma espécie. Em princípio. portanto. ela segue no rumo de formas de convi­ vência cada mais complexas. Muito cuidado. a par dos elementos essenciais. degeneração. ligados entre si pela potência dos fenô­ menos interatrativos. a humana. da ordem absoluta. entretanto? É tudo o que identifica o objeto a ser definido. embora sempre racional. humilde ou arrogan­ te. pode ser bom ou mau. mas sempre em perpétuo movimento. filóso­ fo e teólogo romano. 1979. que integram casualmente o objeto a definir. Como definir a sociedade? Do ponto de vista puramente biológico.

ressaltada. A sociedade ou pessoa coletiva comporta-se como uma pessoa natural. tem vida própria. De todo modo. fazê-la durar na consecução do bem social. embora inconfundível com a pessoa natural (ser humano dotado de direitos e deveres reconhecidos juridicamente) de cada um deles. a essência da sociedade. De fato. Del Vecchio deixa claro que a sociedade passa a ter existência própria. vale dizer. independente da figura dos indivíduos que a integram. Ação recíproca. Nesta definição fica salientada a expressão relações. Regis Jolivet. ser criada com a intenção de preservá-la. temporária ou definitivamente. a sociedade tem um ob­ jetivo.. poderiam deixar a sociedade por vontade própria ou por morte. que venha a ser despojada. autônoma. Há quem a defina como agrupamento duradouro. Satisfatória se mostra essa definição. como seus filiados. define a sociedade como a união moral es­ tável. quando sabemos que pode haver sociedades desprovidas de base física. sua causa última. Com a expressão nova unidade. . e nem por isso a existência jurídica da sociedade seria afetada. a sociedade reconhecida pela lei consti­ tui uma nova unidade. considerados isoladamente. sob a forma de pessoa coletiva. ou. o desejo de todos de conviver permanentemente em sociedade. a estabilidade. Quanto ao trecho superior uni­ dade. para que um conjunto de indivíduos possa ser qualificado como sociedade. graças ao qual vários seres indivi­ duais vivem e trabalham conjuntamente. Tentemos. No período convivem e trabalham conjunta­ mente. enfim. passa a ter persona­ lidade jurídica. dotado de um espaço territorial. de várias pessoas. pois nela não se inclui nenhu­ ma causa ou elemento acidental. intenção que os romanos já denominavam affectio societatis. daí surgindo nova e superior unidade. interação. no sentido dc que a vida co­ munitária pressupõe um relacionamento que os sociólogos denominam. fica evidenciada a permanência.. enfim. definir a sociedade. muitas vezes egoístas. definida esta como a ação exercida mutuamente entre duas ou mais pessoas. e os indivíduos que dela participam. Deve a sociedade. de cada sócio.2 A sociedade e o Estado 9 já proclamava a sabedoria latina. o objetivo social está acima das ambições individuais. sob uma única autoridade. O u ­ tra definição reconhecida é a do jurista e filósofo italiano Giorgio Del Vecchio. para quem a sociedade é um complexo de relações. conhecido filósofo contemporâneo. superior a cada um dos objetivos individuais dos sócios. destacados dos outros. uma associação (entidade sem fins econômicos) ou uma sociedade stricto sensu (entidade com fins econômicos). Sim. mesquinhas. que tendem a fim comum. físicas ou morais. de sua sede ou estabelecimento por motivo de dívidas. como os nômades. dotada. exemplo mais concreto do Direito Privado brasileiro. Del Vecchio proclama que. ou seja. uma finalidade transcendente. é indispensável a característica de permanência. de di­ reitos e deveres. apenas. sugestiva­ mente. de­ finição que peca pela acidentalidade. ao incluir o espaço territorial (base física) como elemento essencial. tendo existência própria. não obstante. estabilidade. portanto.

ed. criadas pela vontade dos indivíduos. existindo indepen­ dentemente da vontade de seus membros. Introdução ao estudo do direito. diante de um interesse material. Paulo José da e p e l l e g r i n i .Teoria geral do direito civil. mas entramos nas associações. Silvio de Salvo. Curiosa a observação do autor citado: encontramo-nos nas comunidades. México. r. Na co­ munidade os membros se acham unidos. ainda.Parte Geral.d . g r o p p a l i. apesar de tudo quanto fazem para se unir. São Paulo. Exemplos dc asso­ ciações: um clube esportivo. Coimbra. a família. 1984. Sociólogos e juristas su­ gerem inúmeras tipologias que.Parte Geral. São Pau­ lo. os indivíduos se acham a elas vinculados pelo simples fato do nascimento. 18.. Coimbra. correspondente à vida real. o meio profissional. considera a comunidade o fruto de um sentimento subjetivo. embora respeitadas.. orgânica. duas orientações se tornaram clássicas. Curso de direito civil brasileiro . Direito civil . São Paulo. uma academia científica. São Paulo. ao pas­ so que a associação seria resultante da vontade manifestada por um impulso racio­ . a pessoa num meio social). 32. Maria Helena. São Paulo. 9. Jurídica Brasileira.Introdução e Par­ te Geral. ed. Manual de cicncia política e direito constitucional. v.10 Teoria Geral do Estado 3) ESPECIES DE SOCIEDADES Bibliografia: Marccllo. na as­ sociação permanecem separados. ed. que impele os indivíduos a constituir um todo. 6. costa j r CAETANO. v e n o s a . o meio residencial (a escolha de um local para viver integra. M éxi­ Classificar as sociedades é tão difícil como defini-las. Sa­ raiva. 1. dividindo-as cm comunidades e socie­ dades (associações). Fondo de Cultura Fxonómica. de simpatia.. resultarem da união daqueles que a elas resolvam aderir. 1. em 1877. Tõnnies apresentou. e serão associações quando. ambos alemães. D i­ reito civil brasileiro . ou por um ato que não tenha por fim imediato aderir a elas. 1999. Direito civil . ed. Coim­ . Angiolo. bra. Saraiva. Atlas. 2002. de caráter emotivo. Do ponto de vista sociológico. ed. Crimi­ d in iz nalidade organizada. 1992. weber . uma irmandade religiosa. a de Ferdinand Tõnnies e a dc Max Weber.. Lisboa. v. Marcello Caetano observa que as diversas formas de sociedade são comunidades quando. . 1.. apesar de tudo quanto os separa. Alessandro. co. uma entidade beneficente. Economia y sociedade. . 1. Quan­ to a Max Weber. Pedro. v. 1942. 2002. 2002. uma sociedade comercial. salvetti n et t o . Max. t õ n n i e s . Arnold. Saraiva. 2002. 2. ao passo que a associação resultaria da vonta­ de tangida pela razão. Fondo de Cultura Econômica.. Saraiva. r o d r ig u e s Sílvio. A comunidade seria um produto espontâneo da vida social. Curso de teoria do Estado. Ferdinand. ed. caracterizam exemplos de comunidades: a nação. e que delam possam sair quando queiram. una­ nimidade. uma classificação das relações sociais. au­ tomaticamente. 3. não conseguiram.. Princípios de sociologia. São Paulo. Seguindo este critério. 1972. w a i . 1978.

2 A sociedade e o Estado 11 nal. nem sempre tais classificações são satisfatórias. Assinala Weber. tão logo vem à luz.o homem não pode prescindir. ao passo que essas constituem obras da von­ tade humana. a sociedade familial. podendo deixar de existir (quod potest non esse). Basta dizer que a Sociologia se interessa. ilícitas. Do ponto de vista jurídico. para o aprimoramento e o conforto do homem. Observa o autor citado que o maior traço distintivo entre as sociedades ne­ cessárias e as contingentes é o fato de que aquelas preexistem ao homem. e Angiolo Pellegrini. a Yakuza (máfia japonesa) e a Russkaja (máfia russa). todavia. a religiosa e a política. embora concorram. circunstancialmente. não se mos­ tram indispensáveis à sua existência. que as tipifica em neces­ sárias c contingentes. uma série de pressupostos inafastáveis para sua atuação. do próprio Estado. a elas se vincula. que comunidade e associação correspondem a tipos ideais. porém. ao passo que a lei exige. sem preconceitos. Das sociedades necessárias . ao passo que as contingentes. das sociedades regulares. Outra classificação é aventada por Pedro Salvetti Netto.a própria denominação adota­ da revela seu sentido . a Camorra napolitana. reprimidas pela lei. portanto. por toda espécie de sociedade. mesmo aquelas inimigas da ordem jurídica e. cuja estrutu­ ra “administrativa” já recebeu um brilhante estudo dos juristas Paulo José da Cos­ ta Jr. por exemplo. o qual. raramente realizáveis quando consideradas de maneira isolada. porque numa determinada sociedade acham-se mesclados valores afetivos e objetivos racionais. tais como a Máfia siciliana. .

g u it du - . 672-3. Paris. in Études de droit public. . Livro I. g a r c ia SOUZA. Madri. Coimbra.. Manifesto do Partido Comunista. 1986. Leyes que no son derecbo y derecbo por encima de Ias leyes. denomina. T. Dalloz. São Paulo. m a q u ia v e l o Fontemoing. 1896. Barcelona. ed. Louis. status familiae). ed. . m e jía Abel. “UÉtat. Bruguera. Léon. 6. Rio dc Janeiro. 1971. 1965. 1903. 7. Hugo Palacios.. .3 0 ESTADO 1) CONCEITO E EVOLUÇÃO HISTÓRICA DO ESTADO Bibliografia: g u m p l o w i c z . Paris. radbruch ción a Ia teoria dei Estado. agora com E maiúsculo. Léon Chailley. Bogotá. p. Karl. 1978. 1997. A. a sociedade política. 1959. Quciróz. spengler. 1979. Gustav. que pode­ ria ser conceituada como a “sociedade civil politicamente soberana e internacio­ 12 .Título XII. Aguillar. Clóvis Lema c carvalho . Bogotá. D i­ Oswald apud Paulo cionário de política. A palavra estado apresenta vários sentidos inconfundíveis. Em princípio. Sucessor. 1981. A República ou da justiça. Institutions politiques et droit constitutionnel. qual seja. Global. ao passo que status é um termo apli­ cável ao estado econômico daqueles bem-sucedidos no mundo dos negócios. a palavra Estado. modernamente. Aguilar. a expressão estado civil identifica o indivíduo solteiro ou casado. Paris. . José Fraga Teixeira dc. ed.Temis. p l a t Âo . IntroducMareei e b o u l o u i s . condição pessoal do indivíduo perante os direitos ci­ vis e políticos (status civitatis. Filosofia dei derecbo. Madri. José Pedro Galvão dc. Bonavides. São Paulo.. Nicolás. n a r a n jo v il l e - . 1998. Précis de sociologie. marx gas. Filosofia do direito. Toda­ via. Jean. prélot. El príncipe. x\4odernamcntc. o termo surge do latim status. Forense. Armênio Amado. Temis. Ciência política. les gouvernants et les agents”. 6. a mais complexa e perfeita das sociedades civis. 1979.

em sua obra imortal A cidade antiga (Capítulo XVIII). como Charles Loyseau. que. embora alguns escritores. endeusado por outros (fascistas e nazistas). Bakunin). ou nazista. não fumar em locais públicos ou ouvir.] in the State of Danemark”). tutti /’ domini che hanno avuto e hanno impero sopra gli uominiy sono stati e sono repuhliche o principatr (“Todos os estados. Gregos e romanos denominavam a sociedade política polis e res publica. em viagem. o Es­ tado sufocava por inteiro a liberdade natural do indivíduo. foram e são repúblicas ou prin­ cipados”). deviam mostrar alegria. graças a Nicolau Maquiavel. pela boca da personagem Marcelo. nas pegadas de Maquiavel. res­ pectivamente.os homens serem obrigados a deixar crescer a bar­ ba e as mulheres não poderem levar. Modernamente. pagar pedágio quando em viagem. Km William Shakespeare (1564-1616). . mais pre­ cisamente na tragédia Hamlet. senhoria (Seigneureries). como estado. mesmo forçada. pagar imposto sobre a renda. mais do que três vestidos. o programa A Voz do Brasil ou. com o crescente intervencionismo estatal. e somente ele tem a prerrogati­ va de nos dar a quitação respectiva. compulsoriamente. 5o. e hoje. na Alemanha. dedi­ cado aos candidatos a cargos públicos? Por que sem nossos documentos pessoais. Hegel) e dc seus detra­ tores (Marx. se chorassem.. ainda. sem falarmos os horrores da dita­ dura totalitária do proletariado. arts. posição de uma pessoa. ele se faz presente nos mínimos detalhes de nossa vida cotidiana. passou a ser empregado no sentido de sociedade política.3 0 Estado 13 nalmente reconhecida. A palavra Estado passou a identificar a sociedade política a partir do Renascimento. como Jean Bodin. e nacional-socialista. Na Fran­ ça. que recebiam os cadáveres dos filhos mortos em batalha. o notório horário político. trabalhar como mesário ou apurador nas eleições. dizia: “Tutti gli stati. como o cartão de identidade. pois.. No século XVI. tornamo-nos ilustres desco­ nhecidos perante a autoridade que no-los pede. que diz: “H á algo de podre no reino da Dinamarca” (“ [. na Itália. no seu livro clássico O prín­ cipe. a exacerbação do poder do Estado se mos­ tra cristalina e aterradora no delírio de dominação dos Estados fascista. o termo estat ou état foi recebido do latim a partir do século XIII. VIII. dois séculos depois. a carteira de trabalho. Fjigels. rendo por objetivo o bem comum aos indivíduos e comuni­ dades sob seu império”. estalinista. e 15. conta-nos Fustcl de Coulanges. usar cinto de segurança). Houve época. todos os domínios que tiveram e têm poder sobre os homens. com cara de poucos amigos? É que todos esses devores nos são impostos pelo Estado. estariam cometendo crime contra o Estado. Execrado por uns (comunistas c anarquistas). na União Soviética. o Esta­ do sempre foi objeto de estudo dc seus defensores (Hobbes. as mães. Por que somos obri­ gados a fazer o serviço militar (CF. Fjn outras cidades. tam­ bém encontraremos a expressão Estado indicativa da sociedade política. que. IV).em algu­ mas cidades-Fstado helênicas . na antiga Grécia. tenham preferido o termo república (Republique) ou. no sentido de situação de alguma coisa e. a ponto de .

ed. Dalloz. 2. da mesma forma que na família os filhos devem obediência aos pais. observa que. que não se pode confundir uma única origem para todos os Estados. Giorgio Del Vecchio define o Estado. todos eles devem obediência ao Esta­ do. devendo o rei governar como um pai para os sú­ ditos. O próprio Hans Kelscn (1881-1973). cumpre observar. dentre outros. Em vez de um fenô­ meno recorrente. desprovido de caráter científico (Teoria general dei Estado. Para Georges Burdeau. o gênero humano teria uma natural inclinação para a forma mo­ nárquica. como ocorre em certos agregados animais complexos. idealizada pela or­ todoxia doutrinária.14 Teoria Geral do Estado Sabemos que o Estado é uma sociedade necessária e condicionante das demais. defini-lo? As definições são tantas quanto os autores que as formulam. chamado Bastiat. de imediato. 1986. embora re­ mota. peculiar a todas as sociedades. o fato é que o patriarcalismo acabou por se tornar mera justificativa do poder monárquico. porém. dentre estas o próprio meio ambiente. Oswald Spengler. o Estado se forma quando o poder torna-se uma instituição.. colhendo-as na seara do próprio Direito ou da Sociologia. por exemplo o das abelhas. a teocrática. A doutrina teocrática. Em que pese a razoabilidade de sua argumentação. surpreende no Estado a História em repouso. reduzindo-o a mero juízo de valor. não podemos deixar de fazer algumas referências a tais defini­ ções. e a origem histórica de cada um destes. desenvolvida ao longo do tempo por Demóstenes. mediante o fenômeno da institucionaliza­ ção do poder (Traité de science politique. sendo as principais a patriarcalista. sendo esta a atuação de Deus na História.. 351-2). apresenta inúmeras variantes. do ponto de vista jurídico como “o sujeito da Ordem Ju­ rídica. que têm em comum a ideia de que é da vontade de Deus o Estado existir. e na História o Estado cm marcha (Ciência política. Seja como for. t. Luís XIV. p.. Daí a natural inclinação desta doutrina para a monarquia. 52). pois este nada mais é que a união de muitas famílias. preconizada por Bossuet e Robert Filmer. a contratualista. e conhecemos detalhadamente sua evolução histórica. várias doutrinas procuram demonstrar uma só origem. A teoria patriarcalis­ ta. Stahl. inspirador da célebre doutrina pura do Direito. Rio de Janei­ ro. p. 6. Quanto às origens históricas do F'stado. propor vultosa recompensa a quem for­ mulasse um conceito de Estado unanimemente aceito. p. 128). Como. a patrimonialista e a da força. a ponto de um grande publicista do século X IX . Ademais. Paris. na qual se realiza a comunidade de vida de um povo” (Pbilosopbie du droit. Assim. Bossuet e J. da sociedade política. Não obstante. vontade esta manifes­ tada concretamente pela Providência. No plano da Sociologia. o surgimento de cada Estado se acha ligado a toda sorte de circunstâncias. Forense. cujo instinto as leva a viver em função de uma abelha-rainha. p. . Vamos resumi-las. já advertia que a vo­ lumosa soma de definições do Estado dificulta a precisão do termo. não se confun­ dindo mais com aquele que o encarna. F. eminente publicista contemporâ­ neo. citada por Paulo Bonavidcs. 3-4).

foram paulatinamente se congregando e abdican­ do de uma liberdade natural perigosa e irrealizável. a teoria da força. Franz Oppenheimer. um acordo entre os ho­ mens. 4. qual seja. Stuttgart. Antes dele. Paris. inevitável. ed. Introducción a Ia teoria dei Estado.Thomas Carlyle. da dominação dos fracos pe­ los fortes. situa a origem do Estado na violência imposta por um grupo social a outro. tido por mui­ tos como seu inspirador é. raciais (Gobineau) ou econômicas (Marx e Engels). Quanto à doutrina contratualista. mais remotamente. muitas vezes. Platão. como assinala Leopold Uprimny (apud Hugo Palacios Mejía. com o objetivo de organizar o domínio do primei­ ro sobre o segundo e resguardar-se contra rebeliões intestinas e agressões estran­ geiras” (Der Staat. demonstrou à Humanidade ser esta sua Vontade. Para Locke. período em que era usual reconhe­ cer a existência de um contrato entre o governante e o povo. com fundamento na afirmação de que Deus. John Locke e Adam Smith. garantiria a liberdade (Rousseau). Franz Oppenheimer e Léon Duguit. mais tarde. 53). Suárez. p. a monarquia. respeitável publicista do início do século X X . Marx e Engels. A tese do contrato social surgiu de pontos de vista diversos e. embora limitada. ora para justificar o poder do príncipe. onde os mais fortes impõem sua vonta­ de aos mais fracos” (Droit constitutionnel. Seja para garantir um mínimo de liberdade (Rousseau). como ocorreu na Idade Média. Gobineau. tangidos pela razão. mostra o mesmo pessimismo de Oppenheimer ao conceituar o Estado como o “grupo huma­ no estabelecido em determinado território. o Estado existe principalmente para proteger a propriedade individual. a paz (Hobbes) e a pro­ priedade (Locke). Léon Duguit. os homens. Santo Agostinho. dentre outros. por Charles Darvvin e. havendo uma corrente do patrimonialismo que justifica sua teoria pelo fato de o próprio Estado ter o direito natural de defender sua pro­ priedade. Hobbes e Grócio. ora para explicar a origem do Estado (Hobbes). 45). Segundo tal doutrina. ao contrário do que se pensa. p. 14-5). um dos últimos. entre outros. na verdade. aquela deve ser adotada. 5. ou para evitar a guerra dc todos contra todos (Hobbes). cit... No que tange à doutrina patrimonialista. natural a defesa de um direito divino dos reis pelos adeptos dessa doutrina. ra­ zão pela qual. Jean-Jacques Rousseau. desen­ volveram a ideia de que o Estado resulta de um contrato. pelo qual este se com­ prometia a obedecer àquele (pacta sunt servanda). Gumplowicz. definindo-o como a “instituição social que um grupo vitorio­ so impôs a um grupo vencido. conflitantes. seja por razões genéticas. é uma das mais antigas no tocante à origem do Estado. ao eleger determinada forma de go­ verno. . por razões radicalmente opostas.3 0 Estado 15 Assim. p. Por fim. entre outros. desenvolvida. para adotar uma liberdade ci­ vil que. Ciência política. apud Paulo Bonavides. haveria uma tendência natural. p. 1954. defendem-na. cm qualquer estágio histórico. Em suas próprias palavras.

de forma demo­ crática.Nada disso. depois que entender o que você quis dizer. Você diz que o justo c o que interessa ao mais forte? Pois bem. . p. (“L’État. outras de forma de­ mocrática e. maioria. Entretanto. que sc Polidamante. porventura respondeu . mais fracos que ele? . confesso. tal alimento será conveniente e. o campeão da luta. mas apenas o po­ der objetivo de querer conforme o direito e de assegurar a realização deste. porque esta é empregada na realização do direito. o diálogo em que Platão coloca na boca de Trasímaco o seguinte: . em detrimento da maioria explorada. Os governantes que detêm este poder são indivíduos como tantos outros. também. as tirânicas. de forma tirânica e. . 1903. Karl Marx (1818-1883). simplesmente? . todas as outras. disse Trasímaco. a partir do momento em que. que encontra seu verdadeiro fundamento na solidariedade social e se impõe a todos.Você fala com despudor Sócrates. O po­ der pertencente aos mais fortes. não sei. de forma le­ gítima. o que você quer dizer com isso. 1981). passou-se à apro­ priação privada dos meios de produção. assim. sem nunca possuir.Não duvide que vou dá-la. que aca­ bo de dar? N ão vai querer responder. prejudicial. Como todos os indivíduos. .Claro que sei! . encontram-se submetidos à re­ gra de direito. Os governantes não têm o direito subjetivo de comandar. ao tomar minhas palavras de for­ ma tendenciosa.Sem dúvida! . No momento. eu disse. disse então [Trasímaco]: Para mim o justo não c outra coisa que o con­ veniente para o mais forte. Com o Estado desaparecerá o poder político. les gouvernants et les agents”. () Estado é o produto histórico de uma diferenciação social entre os fortes e os fracos cm determinada sociedade. da propriedade comunista. em cada cidade não exerce o poder quem possui a força? .que algumas cidades são governadas tiranicamente. Trasímaco? Não vai querer dizer. classe. mero resultado do aparecimento da luta de classes sociais. conceituam o Estado como um fe­ nômeno histórico transitório. na qualidade de governantes.16 Teoria Geral do Estado o Estado não é uma pessoa jurídica nem soberana. indivíduo. Tra­ ta-se de instituição passageira. por exemplo.Pois bem. Toda manifestação de vontade dos gover­ nantes é legítima quando está conforme o direito. cada go­ verno estabelece as leis conforme o que lhe convier: as democráticas. Uma vez estabelecidas. ainda. res­ pondi. 1-2) O pai do socialismo científico. é mero poder de fato. ja­ mais legítimo em sua origem. definido por Marx como “o poder organi­ zado de uma classe para oprimir outra” (Manifesto do Partido Conmnista.Ouça.Portanto. neste caso. outras por uma aristocracia? . justo para nós. neste cipoal doutrinário. Curioso sc mostra. in Études cie droit puhlic. querido amigo!. e seu companheiro de ideias e de lutas Friedrich Engels (1820-1895). eles podem.Não sabe. e mais forte que nós c lhe convem comer carne bovina para sustentar sua for­ ça física. o poder legíti­ mo de impor suas ordens. pôr em prática a força de que dispõem. por que você não aprova esta resposta. governantes e governados. pois nem sempre existiu e nem sempre existirá. só desejo que você explique mais claramente o que significam suas palavras.

em obra primorosa: As concepções que tem idealizado o Estado dc Direito prescindindo do direito natural c encerrando-se nas perspectivas estreitas do positivismo jurídico. luz que não ilumina”. que nem sempre c um Estado dc justiça. em correla­ ção com os grupos ou corpos intermediários que a constituem.500 anos. a incerteza e os abusos des­ truiriam a sociedade quase na rapidez de um terremoto. Clóvis Lema Garcia e José Fraga Teixeira de Carvalho. ou seja. dentre os atribu­ tos essenciais do Estado. com inteira razão. o homem pode ficar privado do conforto material c das utilidades que a tecno­ logia oferece. pois há na sociedade política. de modo que. e depende deste. Cumpre partir do seu significado originário: o iu$ (de iustum). ou seja. importa. disse Aristóteles há 2. é que em todas as cidades será justo tudo o que os governantes. a vida não seria possível nem por um instante. Antes de mais nada. porém. se o Direito é uma qualidade essencial de qualquer sociedade. Tal afirmação ainda é plenamente verdadeira. saber o que é o direito. É indispensável ter presente que no Estado não reside a fonte única das normas de direito. e o Direito que mo­ dela o exercício desta. para quem quiser discutir este assunto com seriedade. mas o reconhe­ ce e estabelece as condições de exercício dos direitos subjetivos. o que convem ao mais forte. Por isso. o justo c sempre o mesmo. É necessário compreen­ der que o direito subjetivo é uma faculdade ou um poder moral essencialmente vincu­ lado ao justo objetivo. A insegurança. refulgem o poder amparado na força. 2) 0 ESTADO DE DIREITO Ubi societas ibi jus (onde houver sociedade haverá direito).3 0 Estado 17 estas leis declaram que será justo para os governados apenas o que os governantes qui­ serem. o que é por justiça devido a outrem. reduzem o direito à lei. é imprescindível formularmos outra indagação: o que se deve entender por D i­ reito? Sabemos que esse vocábulo não é unívoco. Daí a razão pela qual. não distinguem o que c legal do que c legítimo e não vão alem dc um Es­ tado dc legalidade. Ora. para revelarmos o sentido da expressão Estado de Direi­ to. meu bom amigo. Com alguma dificuldade ele viverá. afirmava. Rudolph von Ihering. que o Direito desprovido de força “é fogo que não queima. para conceituar e justificar o Estado de Direito. mas plurívoco-analógico. automóvel e mesmo educação escolar ou em­ prego fixo. como energia elétrica. em sua obra clássica A luta pelo Direito. assim entenderem. e aqueles que se afastarem deste ditame serão punidos como infratores das leis. que são aqueles que mandam. uma pluralidade de or­ . a expressão Estado de Direito seria tautológica. O que eu quero dizer. É preciso entender que a lei não cria o direito. Sem um mínimo de ordem. Vivendo em socieda­ de. Observam José Pedro Galvão de Souza. a fortiori do Estado. antes de mais nada. ou aquilo que Jeremias Bentham denominava mínimo ético de convivência. apresenta uma pluralidade de sentidos conexos.

povo. Consequentemente só poderá haver Estado de Direito desde que haja respeito ao direito natural.18 Teoria Geral do Estado denamentos jurídicos.. prossegue Kant. 208-9) A concepção tradicional do Estado de Direito provém de Emmanuel Kant (1724-1804) e de Jcan-Jacqucs Rousseau (1712-1778). que cairia como uma luva nos interesses de uma nascente burguesia. Daí a expressão Estado de D i­ reito Liberal Burguês para denominar a concepção de Estado intransigentemente vinculado às garantias individuais. im­ plantação do sufrágio censitário (só teria direito a voto quem tivesse um conside­ rável patrimônio econômico). Nesse caso. racionalista c voluntarista do Direito. Quanto a este. segundo o kantismo. simplesmente. Quanto a Hans Kelsen. no seu destino transcendente e eterno.na identidade da ordem jurídica e da estatal. simplesmente. ideia que desenvolve à luz do formalismo positivista da sua famosa Teo­ ria Pura do Direito. Das teses de Kant exsurgem duas doutrinas bem conhecidas pelos publicistas a de Georg Jcllinck c a de Hans Kelscn. um Estado de direito nacional-socialista.e fez escola . Então. Jellinek considerava a possibilidade da autolimitação do poder do Estado pelo próprio direito positivo. na ple­ nitude do seu significado. pertencem ao mundo exterior e passam a ter sentido apenas quando re­ lacionados ao Direito. tentando superar a visão estreita do neopositivismo kelseniano. um Estado de Direito marxistaleninista e. (Dicionário de política. disciplina exclusivamente os atos internos. disso resultando que o Estado cria seu próprio Direito e impõe à sociedade a ordem jurídica a que esta deve amoldar-se. à vonta­ de dos detentores do poder c dos que fazem a lei.. o que acarreta notó­ ria aporia: se o Estado se limita pelo Direito que ele mesmo cria. independentemente da lei moral. pois esta. disserta: . o Estado de Direito. e que pode alte­ rar via poder constituinte. não o inverso. um Estado de Direito social-democrático. o conjunto das normas emenadas do Estado. será um Estado de Justiça. a garan­ tir a coexistência das liberdades. proteção absoluta da propriedade privada. que. O Estado subordinado ao Direito. 1998. abolição da representação profissional e outras me­ didas de caráter notoriamente individualista. na liberdade do ser racional. seria. de foro íntimo. haveria um Estado de Direito liberal. acredita . até mesmo. F . então é o Direito que depende do Estado. poder. Logo. na dignidade pessoal do homem. respeito à ordem superior. todo Estado é Estado de Direito. territó­ rio. na visão kelseniana. Os chamados elementos formadores do Estado. os direitos subjetivos fundam-se na pró­ pria natureza humana. Mais moderada é a ponderação de Gustav Radbruch. Kant separava o Direito da Moral. o justo objetivo é inerente à ordem natural. por isso a lei só é justa sc conforme a essa mesma ordem. Ora. assim procede para reger os atos externos do homem. sendo aquele apenas um conjunto de condições destinadas. p. como se depreende de sua concepção individualista.

Quando a maior parte das legislações oci­ dentais veda a poligamia. tenebroso. considerando-a. desde que tenha condições financeiras para isso. 1971. não podendo haver suas ordens jurídicas idênticas sem prejuízo da identidade dos povos. um atentado ao Esta­ do de Direito. ou.f o direito à vida. embora haja valores universais e perenes. tal fato não pode servir de argumento para considerar o regime familiar do sultanato oriental. 14) . caput). então não estamos ante uma lei que estabelece um direito defeituoso. quando levado logicamente às suas últimas conseqüências. Isto é: seremos levados a buscar essa solução num outro plano que não poderá deixar dc ser constituído. cujas premissas serão encontradas em vários dispositivos. que permite ao homem ter várias esposas (poliginia). a prevalência dos direitos huma­ nos e o repúdio ao terrorismo e ao racismo. será instituída sua ordem jurídi­ ca. à expressão do pensamento ou de constituir família. Eis esse preceito: quando numa coletividade existe um supremo governante. que não poderão ser as normas do direito positivo do Estado c só poderão ser as dum direito natural. I o. 14. e 14). quando na formulação do di­ reito positivo se deixa de lado conscientemente a igualdade. mais para além do direito positivo e mais para além da realidade do Estado. g. na União norteamericana. 4o. v. na fe­ liz imagem de Gustav Radbruch: Quando nem sequer se aspira a realizar a justiça. adotam o sufrágio cultural. respectivamente. se quisermos achar uma solução para o problema da anterioridade ou posteridade do Direito com relação ao Estado. (Filosofia do direito. representa a cosmovisão do legislador constituinte num Estado em particular e em dado momento histórico. quando algumas Constituições adotam o sufrágio universal. ou a soberania popular (arts. 235).3 0 Estado 19 somos sempre necessariamente compelidos. No Brasil. Reitere-se. toda a Humanidade reconhece e institui juridicamente. I o. crime contra a família (art. a Constituição entroniza um Estado Democrático de Direito (art. Na verdade. mas por normas. p. v. Conforme as peculiaridades de cada povo. parágra­ fo único. não por fatos e realidades. 354-5) Na verdade. caput). (Le)>es que no son de­ recbo y derecbo por encima de Ias leyes. não é me­ nos verdade que o direito positivo dos povos acha-se impregnado de notória relati­ vidade. já se vê. como já foi mostrado (§ 10). Uma ordem jurídica. 1997. um espectro de bom Direito. como o art. que a própria razão assi­ mila e que. como a brasileira (art. se valores humanos universais são violados por um suposto Direito.. isto é. a colocarmo-nos mais para além dum e doutro. como o faz nosso Código Penal. mas o que ocorre é que estamos ante um caso de ausência do direito. tal fato não desqualifica aquelas que. o positivismo jurídico c político pres­ supõe sempre. g. que. surge. Assim. o que ele ordenar deve ser obedecido. cujos incisos II e VIII preconizam. um preceito jurídico de direito natural na base de todas as suas cons­ truções. por isso mesmo. todavia. p. que constitui o núcleo da justiça.

São Paulo. são verdadeiros centros de produção de normas. Uordinamento giuridico. portanto. pelo qual a lei vale para todos e. Firenze. O Direito. v. México. Qualquer institui­ ção.20 Teoria Geral do Estado De qualquer forma. inamovibilidade e irredutibilidade de vencimentos). assim como ao lado do Estado existe uma pluralidade de outras instituições mais amplas ou mais restritas. Fernando Garcia e v i l a n o v a . como dois mundos separados que se ignoram mutuamente. podemos extrair alguns princípios da con­ cepção dominante de Estado de Direito: a) princípio da supremacia da lei (nde of law). rom an o Hans. babeas corpus e man­ dado de segurança. José. c) princípio da irretroatividade da lei. mediante o qual ninguém será obrigado a fazer ou deixar dc fazer alguma coisa se­ não em virtude de lei. g. mas como um fenômeno verificável em todas as organizações sociais. como o pró­ prio Estado. Introkel- ducción al derecho. sendo ambos unum et idem. por­ tanto. direito. olano . diz Santi Roma­ no. 3) DIREITO E ESTADO Bibliografia: a m a l i ó n . Quanto às relações entre o Direito e o Estado. como um posterius deste. Santi.. 1967. recho y dei Estado. Esta teoria se biparte em outras duas. diz ele. d) princípio da igualdade jurídica ou isonomia. ou como criação do Esta­ do. e a responsabilidade dos agentes públicos quanto a prejuízos causados aos particulares. as quais. portanto. de Derecho y Ciências Sociales. com a limitação do poder pelo direito positivo. consolidado pelas garantias inerentes ao Judiciário (vitaliciedade. assim também ao lado do D i­ reito Positivo ou estatal se encontram o Direito Canônico ou Eclesiástico. 1979. 1939. e concluindo. mesmo porque ubi societas ibi jus (onde houver sociedade haverá direito). Santi Romano. Enrique R. deve ser considerado não como um produto exclusivamente estatal. Buenos Aires. onde houver qualquer sociedade haverá. como um prius deste. os esta­ . surgem duas teorias principais: a) teoria dualística. b) teoria monista. de um pluralismo jurídico. Coop. Sansoni. Para Santi Romano. conforme seja o Direi­ to considerado criador do Estado. A tais princípios acrescentem-se as garantias constitucionais de direitos. Unam. b) princípio da legalidade. a todos deve ser aplicada. Teoria pura do direito. sen.. 1972. pela qual o Estado e o Direito são duas realidades distin­ tasynão relacionadas. Teoria general dei de. sempre. qualquer organização estável e individuada tem o seu ordenamento ju­ rídico próprio e. e) princípio da independên­ cia funcional dos magistrados. afirmou a existência de uma plu­ ralidade de ordens jurídicas. que reduz o Estado e o Direito a uma só entidade. para resguardo dos di­ reitos adquiridos. Acadêmica. Um grande jurista italiano.

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tutos da Máfia ou de qualquer outro bando organizado fora da lei. Então, prosse­ gue Santi Romano, não só o Estado, mas qualquer grupo social, é fonte do Direito, e se o Direito estatal é Direito, nem por isso o Direito deve ser sempre e necessaria­ mente estatal. Poder-se-ia acrescentar à tese de Santi Romano que o Estado somen­ te aparece depois de um lento processo evolutivo, ao passo que formas primitivas do Direito já regulavam a sociedade primitiva. O Estado surgiria tão somente para servir e manter o Direito, portanto é o Direito que atribui e limita ao Estado seu poder de império. Depreende-se, da teoria de Santi Romano, que podem coexistir várias ordens jurídicas: uma estatal, uma infraestatal (sociedades civis e comerciais), uma supraestatal (ONU, OEA) e uma paraestatal (indiferente ou contrária ao Es­ tado). Contra a doutrina de Romano se posiciona a teoria monística, esposada, en­ tre outros, por Hans Kelsen e Alessandro Groppali. Hans Kelsen, um dos grandes juristas do século X X , autor da obra clássica intitulada Teoria pura do direito, afirma, desde logo, que Direito e Estado se confun­ dem. O estudo do Direito e do Estado deve ser depurado, purificado - daí o título de sua obra - de toda contaminação emocional, ideológica, metafísica, sociológica ou política. Ora, um conhecimento ideologicamente livre, portanto desembaraça­ do dc toda metafísica, não pode reconhecer a essência do Estado a não ser como uma ordem coercitiva de normas. Ora, se o Estado é um sistema normativo, não pode ser outra coisa que a própria ordem jurídica positiva (imposta), já que é im­ possível admitir a validade simultânea de várias ordens normativas igualmente coer­ citivas. O Estado vem a ser, com efeito, a personalização da ordem jurídica. Poderíamos complementar tal pensamento deduzindo o seguinte: a) o Direito da sociedade arcaica, diluído no costume, se achava tão distante das formas claras, distintas e acabadas do Direito atual, como sua organização es­ tava longe do Estado moderno. b) o Direito é elaborado seguindo um roteiro traçado pelo Estado ou, pelo me­ nos, reconhecido por este (processo dc elaboração das leis e processo judicial). En­ tão, fora do Estado não pode haver Direito. c)a coercibilidade do Direito depende da atuação do Estado e, portanto, a atuação do Direito depende do Estado. d) a formação originária do Direito nos tratados confederativos e na revolu­ ção triunfante tem por base os Estados contratantes ou o Estado em que se impôs um novo regime político. l ogo, tais fenômenos jurídicos supõem a existência do Estado. Também para Alessandro Groppali, fora do Estado não pode haver Direito. As normas que qualquer outra sociedade expedir para sua própria organização e funcionamento são normas de caráter meramente social, e somente se tornam jurí­ dicas quando reconhecidas pelo Estado ou admitidas na ordem jurídica estatal. Os grupos sociais menores que existem no Estado, diz Groppali, podem ser regulados

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por um sistema próprio de normas, mas estas somente serão consideradas como or­ dens jurídicas válidas apenas 110 âmbito interno, pois, consideradas do lado de fora, isto é, do ponto de vista da ordem estatal, ficam imediatamente privadas de autono­ mia, pois sc forem contrárias à ordem jurídica estatal serão eliminadas. Mesmo uma quadrilha bem organizada, denominada societas sceleris, pode apresentar uma hie­ rarquia com especificação de “direitos” c “deveres”, c suas normas podem, ate, ser análogas às normas do Estado, mas nunca serão idênticas, pois não são verdadei­ ras, autênticas normas jurídicas; são o contrário disso. Seus membros agem em aber­ to contraste com a ordem jurídica que tutela um determinado conjunto de valores sociais. Aliás, prossegue Groppali, somente rendo como referência o Direito estatal é que podemos qualificar como ajurídicas, antijurídicas ou jurídicas as várias ordens normativas existentes. Em face de uma longa evolução histórica, ao cabo da qual seu poder tornou-se soberano (do latim superanus, supremitas, supremacia), o Es­ tado se impôs como entidade dotada de um poder incontrastável 110 âmbito inter­ no, assegurando para si, com hegemonia, o monopólio da criação das normas jurí­ dicas. Tendo Santi Rom ano afirm ado a juridicidadc das normas do Direito Canônico e do Direito Internacional, Groppali opôs as seguintes observações: quan­ to ao Direito Canônico, de fato, é um autêntico Direito, que encontra sua fonte 110 poder originário c independente da Igreja, poder que, embora de caráter espiritual, tem sobre os seguidores da religião católica uma notável eficácia. Entretanto, os fins do Direito Canônico são diversos dos fins do Estado, além do que, complementan­ do o pensamento de Groppali, lembraríamos o caráter de generalidade do Direito Estatal, seu alcance muito maior se comparado com os cânones eclesiásticos. Quanto ao Direito Internacional, Groppali afirma ser uma ordem normativa ainda em formação, sendo seus dispositivos desprovidos da eficácia que caracteri­ za as normas estatais. O Direito Internacional não possui outras fontes além dos tratados e do costume. Suas normas não são dotadas de poder coercitivo que ca­ racteriza a ordem estatal. Enquanto os ramos do Direito Positivo já apresentam um certo grau de estabilidade, o Direito Internacional nem codificado se acha, impos­ sibilitado, portanto, de atuar coercitivamente. O Estado totalitário, nas pegadas de Kelsen, considerou Direito apenas as normas estatais, sendo confrontados pela dou­ trina corporativista cristã, que afirma a necessidade de o Estado atuar apenas supletivamente perante os indivíduos e as sociedades menores, uma vez que o Esta­ do não seria a única fonte de normas jurídicas. Na verdade, Estado e Direito são irmãos xifópagos, predestinados a viver unidos, sem poder separar-se. Se, na ver­ dade, a ideia de um Direito difuso, espalhado pela comunidade primitiva, represen­ tado pelo totem ou mana, entidade espiritual que governaria os destinos da comu­ nidade, pode ser uma hipótese encantadora para explicar a precedência do Direito sobre o Estado, na verdade, quando surge este, passa tal entidade a ser a fonte su­ prema do Direito, superior em poder e eficácia a todas as outras, embora a existên­ cia destas não possa ser negada.

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4) CAUSAS CONSTITUTIVAS DO ESTADO
Bibliografia: a b b a g n a n o , Nicola. Dicionário de filosofia, São Paulo, Mestre Jou, 1982.
ARISTÓTELES.

Obras, M adri, Aguilar, 1982; Tratado dei alma.
salvetti n et t o ,

bacon

,

Francis. “Afo­

rismos sobre a interpretação da natureza e o reino do homem”, in Os pensadores, São Paulo, Abril Cultural, 1973, v. 13. Pedro. Curso de ciência política, Teoria Geral do Estado, São Paulo, Tribuna da Justiça/Hemeron, 1977, v. 1.

O conhecimento científico, verdadeiro, só é possível mediante a apuração das causas dos fatos naturais e humanos. Aristóteles, pioneiro na demonstração da ver­ dade pelas causas, já delimitara, em sua Metafísica, o termo princípio como causa em sentido amplo, abrangendo as causas formal, eficiente e final, às quais o médi­ co Galeno acrescentou a causa instrumental. Conhecer verdadeiramente, disse Fran­ cis Bacon séculos mais tarde, é conhecer pelas causas. Forte em Aristóteles asseve­ ra: “Afirma-se corretamente que o verdadeiro saber é o saber pelas causas. E, não indevidamente, estabelecem-se quatro coisas: a matéria, a forma, a causa eficiente, a causa final”. Nesta esteira de pensamento, Pedro Salvetti Netto adverte: “Não se conhece, cientificamente, pela verdade revelada nos livros sagrados, como se fizera durante a Idade Média, mas sim pela explicação causai do objeto do conhecimen­ to. Todas as coisas se explicam, considerando-lhes as causas”. Acrescentaríamos ao exposto o conceito dc causalidade, a saber, a conexão entre duas coisas, em virtu­ de da qual a segunda é univocamente previsível a partir da primeira, como assina­ la Nicola Abbagnano. Do exposto, podemos indicar quatro causas suscetíveis de revelar a natureza das coisas e dos seres: eficiente, material, instrumental, formal e final. A causa efi­ ciente (do latim facere, fazer, criar) revela o criador, o autor de algo, de modo que, num exemplo rudimentar, podemos dizer que a causa eficiente da mesa que tenho diante de mim é o marceneiro que a fez. Causa ou causas materiais vêm a ser a ma­ téria, o material com que este confeccionou a mesa (madeira, cola, pregos). Causa ou causas instrumentais, por sua vez, seriam os instrumentos utilizados no traba­ lho (martelo, serrote, formão). Causa formal seria a própria forma, aparência da mesa, permitindo-nos distingui-la de uma cadeira ou de outras mesas, embora to­ das resultantes da mesma causa eficiente, material e instrumental, faculdade ine­ rente mesmo aos deficientes visuais. Finalmente, a causa final, que nos revela o por­ quê da mesa, ou seja, sua finalidade. Para um selvagem, a mesa pode significar simplesmente um abrigo contra a chuva; para um homem civilizado, é um objeto para colocar alimentos e tomar refeições, redigir ou ler. Pois bem, se transportarmos essas ponderações para a sociedade em geral, per­ cebemos que essa nos revela, com clareza, sua causa eficiente (fundadores), causas

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Teoria Geral do Estado

materiais (seres humanos e base física), formais (órgãos diretivos e normas regula­ doras) e a final (pode ser de várias naturezas, conforme a espécie de sociedade). Em certas situações, seria polêmico, quando não embaraçoso, demonstrar a causa efi­ ciente da primeira sociedade, na verdade do próprio ser humano: Deus? Obra do acaso? Qual teria sido a primeira causa material? O barro, com que o Criador fez o homem e, de uma costela deste, a mulher? Questão de fé! Quanto ao Estado, se quisermos estudá-lo cientificamente, devemos fazê-lo mediante o estudo de suas causas constitutivas. Tal estudo se mostra indispensável, pois nos permite desconstruí-lo, estudando, pormenorizadamente, cada um de seus elementos. As causas constitutivas do Estado são materiais, formais e final. São causas materiais do Estado o povo, ou o elemento humano, e o território, ou base física, área material ou ideal em que o Estado faz valer seu Direito positivo. Quanto às causas formais, vale dizer, aquelas que identificam o Estado quanto à sua forma ju­ rídica ou constituição política, graças à qual um Estado não se confunde com ou­ tros - daí, a importância dc conhecer o Estado por sua constituição! - são a ordem jurídica e o poder político, exercido pelos governantes (do grego kubernetes, pilo­ to dc embarcação) que o encarnam em dado momento histórico. Quanto à causa final do Estado, vale lembrar que cada sociedade tem, conforme sua natureza, uma causa final específica. Assim, uma sociedade beneficente tem por causa final a prá­ tica da benemerência; outra, esportiva, tem por finalidade o aperfeiçoamento físi­ co e o lazer de seus filiados, enquanto uma sociedade empresarial tem por objeti­ vo o lucro, mediante a prática habitual de atos mercantis. Quanto ao Estado, tem por causa final o bem comum de todas as sociedades menores que atuam em seu território. O adjetivo comum atribuído ao bem visado pela sociedade política é bastante sugestivo: o Estado existe, por evidente, para rea­ lizar o bem-estar geral de todos, no tocante, por exemplo, à educação, à saúde e à segurança. Analisemos cada uma destas causas.

4.1) Causas m ateriais
4.1.1) Povo

Bibliografia:
1966.

a za m b u ja

,

Darcy. Teoria geral do Estado, 4. cd., Porto Alegre, Globo,
falcão,

b o n a v id e s ,

Paulo. Ciência política, Rio dc Janeiro, Forense, 1978.

Al-

eino Pinto. Parte CeraI do Código Civil, Rio de Janeiro, Konfino, 1959.

maluf,

Sahid. DenniPedro.

Teoria geral do Estado, 13. ed., São Paulo, Sugestões Literárias, 1982.
son. Os soldados brasileiros de Hitler, Curitiba, Juruá, 2008.

o l iv e ir a

,

salvetti n e t t o ,

3 0 Estado

25

Curso de teoria do Estado, 4. ed., São Paulo, Saraiva, 1981.

sil v a ,

José Afonso da. Cur­

so de direito constitucional positivo, 2. ed., São Paulo, Revista dos Tribunais, 1984.

População é a totalidade das pessoas que se acham, num dado momento, em determinado Estado. Tal conceito inclui toda e qualquer pessoa, independentemen­ te de nacionalidade, idade, situação política etc. Por isso, quando dizemos que o Brasil tem uma população de quase duzentos milhões de habitantes, estamos em­ pregando corretamente o vocábulo. População é conceito eminentemente numéri­ co, quantitativo, demográfico e, portanto, não interessa, de imediato, ao Direito. Povo, todavia, é termo que pode revelar um conceito jurídico ou um conceito po­ lítico. São conceitos análogos, porém inconfundíveis. Com efeito, a palavra povo sugere pluralidade de sentidos análogos, sendo, portanto, plurívoco-analógica. Em sentido vulgar, ela pode designar as pessoas residentes de um bairro qualquer ou uma comunidade unida pela religião, pelo idioma ou pela etnia. Pode, até, ser em­ pregada pejorativamente, ao designar a parte menos instruída da sociedade, ou aquela colocada em posição hierarquicamente inferior das categorias sociais. Por exemplo, na França pré-revolucionária, havia três estamentos, pela ordem, clero, nobreza e povo, o célebre Terceiro Estado. A democracia grega, quando se referia à assembleia do povo, indicava uma minoria seleta que, pelos dotes intelectuais e pela origem, podia deliberar politica­ mente durante todo o dia. Tal atividade era denominada ócio, bastante respeitada então e longe de sofrer o sentido pejorativo de hoje. Aqueles que não tinham o di­ reito de deliberar, que não podiam nem mesmo residir na cidade, eram os nec ócio, isto é, os negociantes, escravos e estrangeiros. Montesquieu afirmava que o povo não podia ser confundido com a ralé, o populacho, devendo ser proibido o direito de voto àqueles que se encontrassem num estado demasiadamente profundo de baixeza. Dizia este notável pensador que, mesmo no governo do povo, o poder não poderia cair nas mãos do baixo povo. Madame de Lambert, discípula de Montesquieu chegou a definir o povo: “Chamo povo todos aqueles que pensam de maneira baixa e vulgar” . Não foi à toa, portanto, que a palavra povo já foi tida como o grande troca­

dilho da História. Classificada a palavra povo como plurívoco-analógica, sua análise torna-se mais fácil, cm que pese a diversidade de sentidos que ela apresenta. Ao Direito, em especial o direito constitucional, interessam os sentidos jurídico e político. Povo, no sentido jurídico, é o conjunto de indivíduos qualificados pela nacionalidade. Nele não sc incluem, já sc vê, estrangeiros e apátridas. Todavia, o sentido político é ain­ da mais restrito, pois exclui não só estrangeiros c apátridas, como também os me­ nores de 16 anos (CF, art. 14, §§ I o, II, c, e 2o), estando o povo político, tido como o conjunto dos cidadãos do Estado, vinculado à ideia de cidadania. Como se vê, não

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Teoria Geral do Estado

basta ser nacional para se obter a cidadania; a nacionalidade é pressuposto, condi­ ção necessária, mas não suficiente para alcançar o status de cidadão. A idade do na­ cional se mostra o grande empecilho à obtenção da cidadania, como se observa no art. 14, §§ I o, 1, e 3o, VI, a a d, da Constituição Federal. Todavia, há outras restri­ ções, como aquelas impostas aos militares no art. 14, § 8°, e a cassação de direitos políticos, nas hipóteses do art. 15. A nacionalidade, então, e vínculo meramente ju­ rídico, pertinente a direitos civis, em razão do local de nascimento ou da ascendên­ cia paterna (nacionalidade originária), ou, ainda, de manifestação de vontade do próprio interessado (nacionalidade secundária, obtida mediante naturalização). Na­ cional, portanto, é o brasileiro nato ou naturalizado, que integra o conceito jurídi­ co do povo, ao passo que cidadão é o nacional no gozo dos direitos políticos. Há dois critérios para a determinação da nacionalidade: o jus soli e o jus sanguinis. O jus soli leva em conta o local de nascimento do indivíduo, o solo, enfim. Trata-se de um critério normalmente adotado por Estados de forte contingente imigratório, isto é, que recebem imigrantes, estimulando-os a se radicarem, para compensar a rarefação demográfica. Por outro lado, o jus sanguinis é um critério dcterminativo da nacionalidade que considera a ascendência, o sangue paterno do indivíduo, para conferir-lhe a nacionalidade. Trata-se de critério típico de Estados de forte emigra­ ção, com o que se busca preservar a nacionalidade mediante a consangüinidade. O fundamento do jus sanguinis pode resvalar, perigosamente, o racismo, como ocorreu na Alemanha nacional-socialista, por acaso com cidadãos brasileiros. O pro­ fessor de História Dennison de Oliveira, em original e elucidativa monografia, tomou o depoimento dc um brasileiro descendente de alemães que, achando-se na Alemanha em 1943, foi convocado para o serviço militar em plena Segunda Guerra Mundial, pior, quando a derrota do país já se avizinhava. Assim o autor descreve o episódio:
Tendo atingido a idade para alistamento, ele compareceu diante da junta do ser­ viço militar local. Sua primeira inspiração foi alegar a condição de brasileiro (brasilia-

ner), nascido em São Paulo, como demonstravam seus documentos de identidade. Em
resposta teria ouvido a seguinte pergunta do encarregado do alistamento: “Mas se você

tivesse nascido na África isso faria de você um negro?”. Desconcertado, respondeu que
não, ouvindo em seguida a decisão de que ele teria de se alistar, uma vez que era des­ cendente de alemães. De fato, nos termos da jurisprudência alemã relativa à naciona­ lidade prevalece o princípio do jus sanguinis, isto é, aquela que deriva da nacionalida­ de dos pais, independentemente do local de nascimento (jus solis) que é típica da cultura brasileira, por exemplo.

De nada adiantou a alegação do pobre recruta de que lhe seria penoso lutar até a morte contra outros brasileiros; na iminência de uma condenação à morte por desobediência, acabou sendo salvo por um oficial médico nascido de pais alemães, imaginem, na Namíbia. O facultativo, sensibilizado pela situação do nosso brasi-

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lianer, conseguiu para este uma internação hospitalar por suposta moléstia conta­ giosa, que acabou livrando-o do processo... Um caso banal como este esclarece, mais que muitos livros sobre a matéria, como o nacional-socialismo encarava o ser humano; para ser um bom alemão, o importante era o sangue, não importava o local de nascimento, tanto que o pró­ prio Hitler não era natural da Alemanha, e sim austríaco. Daí, a política dc anexa­ ção, à Grande Alemanha, de territórios em que habitariam os chamados alemães raciais, residentes fora do Terceiro Reich, levando à prática o lema nacional-socialista: “Povos do mesmo sangue devem pertencer ao mesmo Estado A Constituição do Brasil adota um critério intermediário, pois faz concessões ao jus soli (art. 12,1 , a), e ao jus sanguinis (art. 12,1 , b e c). Pode ocorrer que o indi­ víduo não tenha nacionalidade, sendo, então, apátrida (sem pátria), submetido, em tal caso, à Convenção sobre o Estatuto dos Apátridos, adotada em 28.09.1954, pela Conferência de Plenipotenciários convocada pelo Conselho Econômico e Social das Nações Unidas, em sua Resolução n. 526-A (XVII), de 26.04.1954, tendo entrado em vigor no dia 06.06.1960. Se tiver mais dc uma nacionalidade, o indivíduo será polipátrida. Os critérios atributivos da nacionalidade decorrem da própria sobera­ nia do Estado, não da vontade dos interessados, de maneira que o apátrida estará nesta condição independentemente dc sua vontade, valendo o mesmo para o polipá­ trida. Quanto à naturalização (CF, art. 12, II), é forma de aquisição secundária ou derivada da nacionalidade. Pode ser expressa ou tácita. A naturalização expressa é aquela que resulta de pedido do interessado (CF, art. 12, II, a e b); a tácita, aquela que se confere ao indivíduo por iniciativa do próprio Estado (CF, art. 12, § 1°). No que se refere ao povo político, reitere-se que tal conceito liga-se, de imedia­ to, ao de cidadania. Com efeito, sendo proveniente do latim civitas (de eives, cida­ dão), o termo cidadania denomina o vínculo político que liga o indivíduo ao Estado, fruindo o cidadão de direitos e deveres de natureza política, com evidente exclusão dos estrangeiros. O termo povo contido no art. Io, parágrafo único, da Constituição Federal confunde-se com o conceito de cidadania, pois congrega exclusivamente os nacionais dotados de direitos políticos, nas diferentes gradações apontadas pela Cons­ tituição (art. 14, §§ I o a 9o). Portanto, nunca será demasiado repetir que, ao decla­ rar, no art. 1°, parágrafo único, que “todo o poder emana do povo”, a Constituição Federal refere-se ao conceito político do povo, excluindo estrangeiros, apátridas, me­ nores de idade, e, nos termos do art. 14, § 2o, os conscritos durante o período do ser­ viço militar (do latim conscriptu, recrutado, alistado, recruta).

4.1.2) N ação

Bibliografia:
1968.

a za m b u ja

,

Darcy. Teoria geral do Estado, 4. ed., Porto Alegre, Globo,
delos

b o n a v id e s ,

Paulo. Ciência política, Rio de Janeiro, Forense, 1986.

,J.T .

nem dc sua religião. 1989.como o indivíduo . 1983. um princípio espiritual. c o mais legítimo. é entidade pura­ mente normativa” . Nossos ancestrais nos moldaram o que hoje somos. no presente. Saraiva. o consenso atual. ed. O homem não c cscravo nem dc sua raça. Gobineau e Houston Stewart Chamberlain. Buenos Aires. salvetti n e t t o . ela ostenta “caráter fugaz. eis o capital so­ cial em que se assenta a ideia nacional. 4. Que será. porém. com sutileza. de glória. dc sacrifícios c dc desenvolvimento. uma realidade eminentemente sociológica. A nação . São Paulo. nem da direção das cadeias dc montanhas. Para muitos autores. s. O homem não sc improvisa. Que es tina nación Pedro. São Paulo. Dizia Ernesto Renan (1823-1892): Uma nação é uma alma. de grandes homens. a nação não pode ser satisfatoriamente definida. como objeto dc estudo da Teoria Geral do Estado. uma nação? Seria a raça o único ingrediente a compor a receita da nação? Vacher da Lapouge. seremos o que sois é.. renan . ter realizado grandes obras em conjunto e querer realizá-las ain­ da. Por isso. mas a nação somente se forma mediante demorada gestação. o Estado pode surgir até dc modo abrupto. sã dc espírito e cálida dc coração. Curso de di­ Madrid. Curso de José Afonso da. Um passado heroico. reito constitucional positivo. Desclée Brouwer. Centro de Estúdios Constitucionales. 5. porque.. Certo. o desejo de viver junto. até que se sedimente aquele espírito nacional oriundo das tra­ dições e costumes comuns. teoria do Estado. O cul­ to dos antepassados. plurissignificante e até equívoco”. mantendo-se gra­ ças à coação exercida sobre cidadãos ou súditos. entretanto. Com efeito. como afirma Sestan. é que a nação não se confunde com o Estado. a outra. assim como o principal ideólogo do . na sua simplicidade. dentre todos. ed.d. Uma é a posse comum de um rico legado de tradição. cria uma consciência moral que sc chama nação! A nação é. Hans Kelsen distingue. Possuir glórias comuns no passado e vontade comum no presente. ao passo que aquela tem caráter tipicamente so­ ciológico. eis a condição para se ser um povo! E prossegue: Ama-se a casa que se construiu e se transmite. que se forma com o passar do tempo.28 Teoria Geral do Estado La nación. a vontade de prosseguir fazendo valer a heran­ ça por todos recebida.c conseqüência dc longo passado dc esforços. Uma encontra-se no passado. Revista dos Tribunais. pois. s il v a . O povo. O canto espartano: Somos o que fos- tes. pois este envolve um conceito eminentemente jurídico. Ernesto. 1981. Uma grande agregação dc homens. o hino abreviado dc toda pátria. nem dc sua língua. a outra. entre povo c nação: “a noção de povo não sc refere às qualidades físicas ou psíquicas dos ho­ mens. nem do curso dos rios.

que resultaria a identidade de sentimentos que leva uma comunidade a querer. inglês. É das tradições comuns que brota o espírito da nacionalidade e o patriotismo. se não Shakespeare? Tal linha de pensamento talvez seja a mesma de Hegel (1770-1831). uma hierarquia. quando governa­ dos pela potência soberana de um ou diversos senhores. representada por nações superiores a outras. H á Estados ou comunidades nacio­ nais onde se falam vários idiomas. para Bodin. dos fatos heroicos. sem contestação (Der Führer hat immer recht). Pode haver uma só religião em vários Estados. que restam no passado. Portanto. A Alemanha é metade protes­ tante e metade católica. se não César. apenas as tradições e os costumes devem ser levados em con­ ta quanto à criação de um espírito nacional. preco­ nizados por Mancini. Platão? O que é a Inglaterra. Haveria. nas raças hu­ manas. contempla a consciência de cada um ”. afirmou que “de muitos cidadãos se faz um Estado (república). como há Esta­ dos em que se professa mais de um credo religioso. permanecer existindo. confundiu povo. Se a religião não é o elemento imprescindível para formação da nação. Pedro Salvetti Netto afirma que dos elementos constitutivos da nação. achavam que sim. inspirando-se nestes autores. pois que a História é mais sábia que qualquer razão individual. línguas. se não Péricles. seria este a religião? Também não. o Es­ tado precede à nação. autor da célebre obra Dos seis livros da República. Na verdade. religiões e nações”. D aí as palavras de Ernesto Renan: “Já não há religião de Estado. Alfredo Rosenberg. nação e raça com uma unidade biocspiritual de sangue e solo (blutt und boden). eminente historiador e biógrafo. Por outro lado. O que é a Itália. “assentar a política na análise etnográfica é pretender assentá-la sobre uma quimera”. Na Suíça. A religião é individual. se tomado isoladamente. francês c alemão. sendo protestante ou católico ou israelita ou mesmo ateu. Jean Bodin (1530-1596). espon­ taneamente. “uma su­ cessão de biografias que representam o espírito de cada nação de que cada grande homem faça parte” . não há uma só raça pura e. Dante. é possível ser francês. comandada por um úni­ co líder. Seria das tradições comuns. para quem tais grandes ho­ mens seriam o instrumento da evolução histórica. Dizia Thomas Carlyle (1795-1881). O nacionalsocialismo. isto é. fala-se italiano. ainda que estejam diversi­ ficados em leis. seria este o idioma? Também não. Mazzini? O que é a Gré­ cia. que a “ História Universal é no fundo a História dos grandes homens”. Se a raça não é o elemento imprescindível da nação. como adverte Renan. costumes. . o catolicismo predomina em toda a Amé­ rica Latina. E quem poderia recusar ao povo suíço sua condição de nacional? Diz Renan: “Será que não é possível ter os mesmos sentimentos e pensamen­ tos e amar as mesmas coisas em línguas diferentes?”. alemão.3 0 Estado 29 nacional-socialismo.

de costumes. uma paixão. ação atual. Novalis c Schlegel influenciaram o conceito naturalístico dc nação. 370). A nação deve ser con­ cebida à maneira de um corpo místico ou de um organismo internamente animado pela vida espiritual. A mesma vida que anima a nação há de vitalizar o terreno político. criadora e conquistadora. a sociedade c o Estado são organismos vivos. é antes de mais nada um mito. Também para o fascismo. tradições. na concepção fascista não é algo pretérito. nem mesmo é necessário que seja real. O que é um mito? O mito. um valor”. que segue Bodin em tal pensamento. o Estado pode forjar a consciên­ cia coletiva. a nação deve estar identificada ao Estado. c) ele­ mento psicológico: consciência nacional. “Nosso mito [prossegue] é a nação” (Escritos e discursos. Será uma realidade 110 sentido de que é uma fé. t. arquivado no museu da História. A sociedade nada mais e que uma vida comum: uma pessoa indivisível que pensa e sente. Dentre estes. pois a política não é senão a forma de que se reveste a ação em sua vida pública. p. Para Mussolini. Contemporaneamente. que definia a nação como “uma socieda­ de natural de homens. Portanto. como essência. lín­ gua. uma esperança. a organização do Estado deve ser confundida com o espíri­ to nacional. um dos chefes do Partido Liberal italiano e autor de uma obra célebre. b) elementos históricos: costumes. “A nação [diz ele] é fun­ damentalmente espiritual” (cit. André Hauriou define a nação como “o grupo humano 110 qual os indivíduos se sentem mutuamen­ . Pasquale Estanislao Mancini (18171 888). E o espírito. diz o Duce. t. O próprio Mancini aponta os elementos formadores de uma nação: a) elementos naturais: nação. para Novalis e Schlegel. Por isso. elaborados no decurso das idades. que encerra em si o espírito e a vida. religião e leis. ardente inimigo das concepções mecanicistas e racionalistas do Estado. a seu ver. Apesar das restrições a um conceito universal de nação. Segundo Novalis. o Es­ tado deve confundir-se com a nação. o Estado for­ ja a nação. de origem. não faltam definições formuladas por autores de peso. esta. é preciso que o Estado ou nação continuem vivendo sua vida histórica e que desenvolva e mantenha a vitalidade em seus órgãos”. 2..30 Teoria Geral do Estado Para Friedrich von Hardenberg (1772-1801). “é uma fé. in­ titulada Vida dos povos na humanidade. Diz ele: “Para que se possa dizer que um Estado forma um todo vivente e que c uma grande individualidade. conhecido como Novalis. 187). na qual a unidade de território. p. 3. a solidariedade psicológica (expressão de Miguel Reale). levado às últimas conseqüências durante o nazismo. formada pela cultura e pela religião. a nação é uma ideia. formados pela História. sob o aspecto raça. Para Friedrich von Schlegel (1772-1829). Benito Mussolini (1883-1945) não se preocupa em definir a nação. território. de língua e a comunhão de vida criaram a consciência social” . O espírito deve ser presente. Diz ele: A nação é um organismo histórico vivo.

José Afonso da Silva diz que “nacional” é o brasileiro nato ou naturalizado. 2. que considera a ascendência do indivíduo. dentro destas terras.1. não importando o local de nascimento (CF. 4. a atestar que a nação precede o Estado. intimido. Há dois princípios básicos para a aferição da nacionalidade: o jus soli. b e c). a). isto é. define a nação como: “o sentimento derivado da co­ munhão dc tradição.. também: “Se vis pacem para bellum ” (“se queres a paz. aquele que se vincula. por nascimento ou naturalização. A palavra território apresenta uma etimologia à primeira vista estranha. ed. Sugestões Literárias. 1965. na força das armas. r o d r ig u e s Dirccu A. receio. 1979. Di­ ga-se o mesmo no âmbito externo. dc língua. que leva em conta o local de nascimento. Dicionário de brocardos jurídicos. Victor. aterrorizar. ora ao jus sanguinis. 1968. alguns o chamam assim porque o ma­ gistrado desse lugar tem o direito de. em razão do local de nascimento. consiste no vínculo jurídico que liga o indivíduo ao Estado. São Paulo. Saraiva. Introducción a la teoria dei Estado. Ciência política. e o jus sanguinis. adota um critério misto. Diziam. São Paulo. da ascendência paterna ou da manifes­ tação de vontade do interessado. m e jía . bem como conscientes daqui­ lo que os distingue dos indivíduos integrantes de outros grupos nacionais” . to­ dos estes fatores agregativos e pré-jurídicos”. Tcmis. submovendi ius babet” (“Território é a universalidade das terras dentro dos limites de cada Estado. de história. mas do verbo latino terreo.3 0 Estado 31 te unidos por laços tanto materiais como espirituais. não provém.. g r o p p a ­ l i. Forense. Bogotá. quod magistratus eius loci in­ tra eos fines terrendi. Alessandro.1 . territo. lacios. fa­ zendo concessões ora ao jus soli. pre­ .1 . conforme se poderia pensar. a qualquer momento. Quanto à nacionalidade. diziam os romanos: “ Territorium est universitas agrorum intra fines cuiusque civitatis quod ab eo dictum quidam aiunt. mesmo porque o Estado exerce o seu poder antevendo a possibilidade de. de literatura e dc arte. 1 2 . Aldo Bozzi. para manter a soberania ín­ tegra. como se vê. Doutrina do Estado. 9. impor respeito às demais sociedades políticas. 12. art. isto é. Note-se a expressão pré-jurídicos nes­ ta definição. Outro autor moderno.3) Território Bibliografia: b o n a v i d e s . procura. Por isso. Paulo. 1978. espaço geográfico. art. cidadão é o nacional no gozo dos direitos po­ líticos”. dc nada ligado à terra. de afugentar”). cujo conjunto forma o povo. id est. Rio de Janeiro. ao território do Brasil. ed. Hugo Pa. de religião. ou seja. causo medo. o solo (CF. A Constituição Federal. utilizar a força (coerção) para ver suas determinações cumpridas pelos súditos. quando o Estado.

do clima. de natureza pública ou a serviço do governo bra­ sileiro onde quer que se encontrem. Se o território fosse mero espaço geográfico. como veremos mais adiante. ideal. como ex­ plicar que um navio militar. e a modernidade. atenta ao estado de tensão política que lateja entre os Estados contemporâneos. Por isso. o Estado exerce jurisdição sobre pessoas (poder de império) e direito de propriedade sobre seus bens. com exclusividade. isto é. fazse oportuna a disposição do art. no espa­ ço aéreo correspondente ou em alto-mar. mera base física. a faixa de fronteira de um Estado tem caráter muito mais estratégico do que político. quando nos referimos à influência do solo. in verbis: Para os efeitos penais. O Direito Romano já fazia uma distinção entre o território e o elemento hu­ mano nele vivente. faz parte do território do Estado cuja bandeira ostenta? Assim. o conceito de território é jurídico-político. as características telúricas da base física de uma sociedade política. Ademais. com rara fe­ licidade. respectivamente. § I o. em águas territoriais pertencentes a estado diverso. estamos referindo-nos a um país e não a um território propria­ mente dito. este úl­ timo vocábulo. o jargão: “ O preço da liberdade é a eterna vigilância”. o Estado manifesta o seu poder de império também sobre seus súditos que se encontram em outros Estados. cm nome do chamado espaço vital. Conceito geográfico é o de base física e o de país. sobre os homens de determinada região. sempre com o in­ tuito de intimidar. seu poder de império ou seu direito de proprieda­ de sobre pessoas e coisas. pode o território ser definido como a área física ou ideal em que o Es­ tado exerce. não simplesmente geográfico. Daí o espaço aéreo. consideram-se como extensão do território nacional as embarcações e aeronaves brasileiras.. na qual o Esta­ do exerce seu poder soberano.que “onde fosse ouvida uma canção alemã. bem como as aeronaves e as embarcações brasi­ leiras. . impor-se às outras sociedades políticas.bazófia ou ameaça . Assim. a urbs era o conjunto de edifícios. designando. do Código Penal brasileiro. no mesmo diapasão. mercantes ou de propriedade privada. ruas e logradouros. um dado eminen­ temente abstrato. que se achem. 5o. Era o prenuncio do cxpansionismo nacional-socialista. o território tanto pode ser uma parcela do solo. seja para conservar-se íntegro. as belonaves militares e as embaixadas serem considerados partes integrantes do território do Estado.. Tais arroubos e brocardos constituem um sintoma inevitável de que o Estado se mantém permanentemente em atitude de defesa ou dc ataque. ao pas­ so que a civitas era o elemento humano vivente na urbs. Nesse sentido. aí esta­ ria a Alemanha”. Por outro lado.32 Teoria Geral do Estado para-te para a guerra”). como uma ficção jurídica. seja para expandir-se à custa de seus vizinhos. Então. Hitler costumava afirmar . é o caso da extraterritorialidade das leis. cunhou. Com efeito.

pela Organização das Nações Unidas .721.3 0 Estado 33 Dois elementos do território apresentam. inclusive a Lua e os demais corpos celestes. tal espaço compreende quatro camadas. 1. entretanto. Quanto aos navios ou aeronaves militares. Nesse sen­ tido. Em 1961 foi criada a Resolução n. espacial ou cósmico. estará aberto às pesquisas científicas. devendo. interplanetá­ rio. encontrar-se-ão sempre sob a jurisdi­ ção do Estado a que pertençam. inclusive da Lua e demais corpos celestes. de 100 a 600 km. Desta forma. poderá ser explorado e utilizado. a soberania do Estado alcança uma altitude que justi­ fica um interesse público que possa reclamar a ação do poder político. devendo os Estados facilitarem e en­ corajarem a cooperação internacional naquelas pesquisas (art. da Comissão para o uso pacífico do espaço cósmico. por todos os Estados. livremente. 2°). dando-se o inverso caso tais navios ou aviões estejam em águas ou ares do segun­ do. a ionosfera. . o espaço cósmico. ao espaço exte­ rior e aos corpos celestes. O espaço cósmico. zona de transição para o espaço cósmico. estão sob a jurisdição do primei­ ro. dos princípios do Direito Internacional e da Carta das Nações Unidas. Este tratado determina que a exploração e o uso do espaço cósmico. que proclamou a extensão. Firmou-se a doutrina de que o espaço cósmico fica sob o império do Direito Internacional. O espaço cósmico. Navios ou aviões civis que se encontrem fora do território de um Estado. em condições de igualdade e em conformida­ de com o Direito Internacional. inclusive a Lua e os demais corpos celestes. Por outro lado. sem qualquer discriminação.O N U -. I o). inclusive a Lua c os demais corpos celestes. bem como o direito dc todos os Estados levarem a cabo explora­ ções cósmicas e a inapropriabilidade jurídica dos corpos celestes. com a criação. inclusive a Lua e os demais corpos celestes. nem por qualquer outro meio (art. Neste predominam as normas de Direito astronáutico. não poderá ser ob­ jeto dc apropriação nacional por proclamação de soberania. ser reservada uma zona de passagem inocente do território às aerona­ ves estrangeiras. por uso ou ocupação. com cerca dc 100 km. também denominado interestelar. bem como de isenções fiscais. qualquer que seja o estágio de seu desenvolvimento econômico e científico. nor­ malmente não conferidas às aeronaves particulares. e a exosfera. bem determinadas: a troposfcra. de 10 a 12 km de altitude. em 1958. Depois. e são incumbência de toda a Humanidade. os aviões civis de natureza pública usufruem de intangibilidade ao sobrevoarem ares estrangeiros. a estratosfera. em águas ou ares que não pertençam a outro Estado. em 1967 foi firmado o Tratado sobre Princípios Reguladores das Atividades dos Estados na Exploração e Uso do Espaço Cósmico. independentemente do local onde se encontrem. importância muito grande: o espaço aéreo e o mar territorial Sobre o espaço aéreo. No espaço aéreo predomina a teoria de Westlake (soberania plena). modernamente. deverão ter em mira o bem c o interesse de todos os países. devendo haver liberdade de acesso a todas as re­ giões dos corpos celestes.

pois com muito maior facilidade os Estados mais desenvolvidos tecnologicamente pode­ riam buscar as riquezas submersas. a Primeira Confe­ rência Latino-Americana sobre Direito Marítimo. e que integra o território do Es­ tado. Inicialmente. a largura do mar territo­ rial é calculada a partir da linha de baixa-maré (baixa-mar). no ano de 1970. já não existiriam tais águas. que o Estado de matrícula da aeronave será competente para exercer a jurisdição sobre infrações e atos praticados a bordo. determina. com a evolução do arma­ mento. o interesse eco­ nômico sobrepujou o fator político. qual seja. 110 art. item I o. c) para permitir-lhe en­ tregar essa pessoa às autoridades competentes ou desembarcá-la dc conformidade com as disposições da Convenção que disciplinam a matéria. em largura variável. Como acentua Salvetti Netto. 1°. § I o. Normalmente. com a evolução do armamento bélico. as sinuosidades da linha litorânea. porque. aí o di­ reito (ubi vis ibi jus). passou a predominar a doutrina de que o poder do Estado no mar territo­ rial cessaria onde terminasse o poder das armas. ou: onde bá força. b) a infração tenha sido cometida por ou contra um nacio­ nal desse Estado ou pessoa que tenha aí sua residência permanente. todos os mares seriam águas territoriais ou. esta teoria ruiu. quan­ do o comandante da aeronave tiver motivos justificados para crer que uma pessoa cometeu ou está na iminência de cometer a bordo uma infração ou um ato previsto 110 art. b) para manter a boa ordem e a disciplina a bordo. Em outras palavras. onde alcançasse um tiro de canhão: terrae potestas finitur ubi finitur armorum vis. A observação dos infinitos recursos do mar ensejou a ampliação do mar territorial. III. O art. diz o art.34 Teoria Geral do Estado A Convenção Relativa a Infrações e a Certos Outros Atos Praticados a Bordo de Aeronave. e) seja necessário exercer a jurisdição para cumprir as obrigações desse Estado. inclusive coercitivas. é a faixa marítima que banha as costas de um Estado e que se acha sob o poder de império deste. poderá impor a essa pessoa medidas razoáveis. Desta forma. que sejam necessárias: a) para proteger a segurança da aeronave e das pessoas e bens a bordo. Quanto ao mar territorial. d) a infração constitua uma violação dos regulamentos relativos a voos ou manobras de aeronaves vigentes nesse Estado. Ora. vem a ser a faixa marítima que acompanha. atualmente bastante sofisticado. IV que o Estado contratante que não for o da ma­ trícula não poderá intervir no voo de uma aeronave a fim de exercer sua jurisdição penal em infrações cometidas a bordo. visto que os Estados alargaram a extensão de seu mar territorial na proporção inversa de seu desenvolvimento tecnológico. depois. predominava a doutrina de que a soberania do Estado sobre o mar iria até onde a vista humana tivesse alcance. com a participação de nove Es­ . VI contém importante disposição. em virtude de um acor­ do internacional multilateral. distantes de seu litoral. Por outro lado. a menos que: a) a infração produza efeitos no território desse Estado. de 1963. realizou-se em Montevidéu. se aplicada. isto é. que é a altura mais baixa atingida pela maré. c) a infração afe­ te a segurança desse Estado. sim­ plesmente.

de 1982. 1. O art. medidas a partir da linha dc baixa-mar do litoral continental c insular brasi­ leiro. já em fevereiro de 1970.01. El Salvador. os arts. Panamá. advertiam que. Importante ressaltar que já em 1958 e 1964. 3o. sem o exercício de quaisquer atividades estranhas à navegação e sem outras paradas que não as incidentes à mesma navegação. A conferência debateu a exploração das riquezas do mar.mediante o Decreto-lei n. medidas a partir de linhas de base determinadas de conformidade com a presente Conven­ ção”. do qual transcrevemos. a repressão ao contrabando. de 04.não esquecer que um dos principais produ­ tos de exportação daqueles dois Estados é o atum! . referente à largura do mar territorial. realizadas por iniciativa da O N U . 8.098.3 0 Estado 35 tados: Brasil. revogou este decreto. o Brasil acompanhava Peru c Equador na ampliação de seu mar territorial para 200 milhas . Uruguai. 3° É reconhecido aos navios dc todas as nacionalidades o direito de passa­ gem inocente no mar territorial brasileiro. § 1° Considera-se passagem inocente o simples trânsito pelo mar territorial. tal como indicada nas cartas náuticas dc grande escala. A ampliação unilateral do mar territorial provoca dificuldades nem sempre solucionadas. conhecida por Convenção de Montego Bay. enquanto este limite não fos­ se fixado. Nicarágua. os Estados Unidos. Equador. emitiram nota de apoio ao limite de 12 milhas apenas. o controle de navegação para evitar polui­ ção das águas e outros temas. Art. Esta norma acompanhou a Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar. Chi­ le e Peru. não reconheceriam águas territoriais mais amplas do que 3 milhas.03. cujo art. preconizavam a largura do mar territorial de 3 a 12 milhas. A Lei n.617.1970. limi­ te aceito sem objeção por todos os Estados. Argentina. Assim. agora. medidas a partir da linha da baixa-mar do litoral continental c insular brasileiro adotado como referencia nas cartas náuticas brasileiras.1993. Vale lembrar que os principais oposi­ . duas Conferências sobre o Di­ reito do Mar. 1° O mar territorial do Brasil abrange uma faixa dc 200 (duzentas) milhas marítimas dc largura. diz: “Todo Estado tem o direito de fixar a largura do seu mar territorial ate um limite que não ultrapasse 12 milhas marítimas. que. reconhecidas oficialmen­ te no Brasil. em que pesem os esforços desenvolvidos por organismos internacio­ nais. a segurança nacional. I o desta lei diz que o mar territorial brasileiro compreende uma faixa dc 12 (doze) milhas marítimas de largura. Já em 25. I o e 3° e o § 1° deste: Art.

Fronteira é faixa. São finalidades da faixa de fron­ teira a delimitação do território. fica a conclusão. Do exemplo referido. agora. a Inglaterra atingiu. de 02. ao pas­ so que o conceito de limite vincula-se ao Direito propriamente dito. a ilha de Los Estados. porém.634. do teor deste artigo ressalta a noção de limite: é a linha que separa a superfície do território de um Estado da superfície perten­ cente aos Estados vizinhos. a Inglaterra. muito mais do que uma expressão geográfica. situada no sul da Argentina. A verdadeira razão que levou os britânicos a esta me­ dida temerária foi.1979. Do território argen­ tino. foi mantida a largura de 150 km para a faixa de fronteira. a seqüela resultante da guerra das ilhas M alvi­ nas. portanto. Como se percebe. impondo formal e unilateralmente sua soberania num raio de 200 milhas! Agindo de maneira análoga na sua possessão de Gibraltar. sorrindo a vitória militar para os ingleses. 166) estipulou uma faixa dc fronteira de 100 km. que será designa­ da como faixa de fronteira. a pretexto dc preservar a pesca nas Malvinas. que já mantinha uma faixa de mar territorial na região. Donato Donati e Alessandro Groppali. 6. distinguir entre fronteira e limite no território do Estado. nos quais sc incluem. na qual termina a ação jurisdicional do Estado. e as Constituições dc 1937 c 1946. Ao tempo do Império. a Inglaterra tornou obrigatória uma licença para bar­ cos pesqueiros de qualquer país que esteja em atividade num raio de 150 milhas. mesmo. agora mais clara. de 150 milhas. A pala­ vra fronteira vem do latim fronsyfrontis (fachada. revela. é a seguinte: a base física é elemento . também. é considerada área indispensável à segurança nacional a faixa interna dc 150 km de largura. que colocou frente a frente. de que o território. A Constituição de 1934 (art. duas faixas de fronteira opostas e divididas por uma linha divisória. Entre dois Estados confrontantes existem. portos europeus de grande movimento. tornar sem efeito prático os acordos de atividade pes­ queira na área. que disputa­ vam o domínio daquelas. a Bulgária e a União Soviética. Questão que despertou polêmica momentânea entre dois notáveis juristas ita­ lianos. a linha de limite. Recentemen­ te. limite é linha. certamente. ampliou unilateralmente esta largura em mais 50 milhas. os ingleses teriam um mar ter­ ritorial que invadiria nada menos do que sete territórios de países diversos. em 1982. a legislação marcava para a faixa de fronteira do Brasil uma largura de 10 léguas (60 km). Vale. a intercomunicação com povos vizinhos e a pro­ teção contra a hostilidade externa. art. celebrados entre a Argentina. o po­ derio militar e estratégico de um Estado quando em confronto com outro. a partir da linha de limite. I o. a Inglaterra c a Argentina. Com a tomada daquela medida.05. 150 km. aliás. A fronteira é uma faixa de largura considerável. O conceito de fronteira liga-se à estratégia. paralela à linha divisória terrestre do território nacional. Por outro lado. Oportuno lembrar. Atualmente nos termos da Lei n.36 Teoria Geral do Estado tores às 200 milhas marítimas para o mar territorial sempre foram Estados Unidos e União Soviética. com tal medida. frente). e que se confronta com a linha de limi­ tes. conforme o caso.

sendo possível acrescentar a tal exemplo o da França de 1940. em todos os casos apontados por Donato Donati. da base física. tomado como a expressão do poder de fato do Estado. despojado daquele elemento vital. a amplitude do território estatal. foi abandonada por seus habitantes. Conclui-se. o Estado sucumbe. portanto. Ocorreu. e não submissão total e definitiva. o subsolo. Adepto da opinião de Groppali.1. considerou tão somente uma parcela do território (base física). já que a este se encontram integrados. e este não constitui.4) Natureza das relaçõ e s entre o Estado e seu te rritó rio enquanto base física: te o ria s do direito real institucio n al. O território. às embaixadas situa­ das em outros Estados c aos navios e aeronaves dc guerra.3 0 Estado 37 integrante do Estado? Donato Donati afirmou que o território (base física) não se­ ria elemento do Estado. contudo. não essencial. constitui um elemento essencial do Estado. além do solo. do im perium e do dom ínio em inente Quando se diz que determinado Estado cedeu a outro uma parcela de seu ter­ ritório. durante quatro anos.permaneceriam existindo. 4. vencida e ocupada pela Alemanha nazista. como Atenas. permanecia o Governo da Resistência. temporária. vassala do Terceiro Reich. argumenta. invadida pelos per­ sas. a impor suas determinações às forças da restauração. sucumbe ao cabo de algum tempo. Sem território. afirmando que a perda de fato. mera ocupação do solo. A sociedade política pode existir. e a soberania pressupõe a força necessária a sua autoconservação. uma organização política anômala. Tais ocupações teriam afeta­ do a existência dos Estados que as sofreram? Se adotarmos o pensamento de Dona­ to Donati. onde quer que se encontrem os navios mercantes em alto-mar. Alessandro Groppali contesta a dou­ trina de Donato Donati. é um elemento contingente. portanto. Donato Donati. po­ rém. fina­ liza Salvetti Netto. que. mas simples condição da existência deste. ao lado do elemento humano e do poder soberano. No exemplo da França ocupada pela Alemanha. pois não há Estado sem poder soberano. está-se fazendo referência a um autêntico direito de propriedade do Estado? . os quais se refugiaram nos navios de Milcíadcs. por si só. não houve sequer perda temporária do território (base física). o que certamente ocorreria em caso de per­ da definitiva. não acarreta a desaparição do Estado. aqueles F'stados Atenas e França . para quem o território (como sinônimo de base física) não é elemento constitutivo do Estado. temporariamente. integra a pró­ pria essência do Estado. sem ele. A base física está para o Estado como a água está para um ser aquático. sediado na In­ glaterra. exemplificando sua assertiva com Estados que foram des­ pojados temporariamente de sua base física. as aeronaves comerciais sobrevoando o espaço livre e as embaixadas. sendo a República de Vichy. como visto. porém mera ocupação do solo. que o território. Aquela não faz parte da essência deste. embora. os navios e as aeronaves de guerra. o mar territorial. A base física. do Estado. o qual. Pedro Salvetti Netto lembra que. o espaço aéreo. assim.

há que distinguir o direito de propriedade do Estado. de um direito de pro­ priedade especialíssimo. que apenas dá cumprimento às normas de desapropriação. Entretanto. há um condicionamento territorial da vida do Estado. . institucional. Uma segunda doutrina. vale lembrar. em face do interesse público. ou melhor. que enseja diversas situações jurídicas. do poder de império que. portanto). com ressalva da originalidade da expressão domínio eminente. O território. característica do poder do Estado que incide primeiro sobre as pessoas e. Os bens de pro­ priedade do Estado são especificados pela própria Constituição que lhe dá forma. inerente a qualquer pessoa jurídica. ficando a propriedade particular restringida por sua função social. apenas secundariamente. propugnada por Georg Jellinek. O publicista colombiano Copcte Lizarralde propôs. basicamente.38 Teoria Geral do Estado Partindo da velha distinção romana entre direitos reais (aqueles que incidem sobre os bens) e direitos pessoais (aqueles que incidem sobre as pessoas). a teoria do direito real institucional parte do pressuposto de que o direito do Estado sobre seu território é verdadeiro direito dc propriedade. por isso. de exercer poder soberano sobre seu território e bens nele situados. sob administra­ ção do próprio Estado. porém. Somente assim poderíamos admitir expressões como território do Estado e aceitar a possibilidade de cessões territoriais pelo Estado. denominada doutrina do imperium. Na verdade.incidentes sobre um mesmo objeto. direito este. mais que um “direito do Estado sobre o território”. mas sem recorrer à figura do direito particular de propriedade. sem considerar as teses unitárias que defendem a existência apenas de direitos pessoais. sempre. requisição ou confisco. Jelli­ nek considerava descabida a adoção de um conceito de direito civil 110 campo do direito público. esta concepção não explica como é possível coexistirem dois direitos de propriedade . Mas isso pouco difere do pa­ recer de Jellinek. Trata-se.do Estado e dos particulares . A nosso ver. afir­ ma que não existe um direito real (dominium) do Estado sobre seu território. de duas classes. quanto ao direito do Estado. a ênfase recai justamente na ideia de soberania. na qualidade de pessoa jurídica. e a segun­ da expressa uma verdadeira relação direta entre o Estado e certas partes do territó­ rio. como observa Hugo Palacios Mejía. na ten­ tativa de solucionar a questão. o Estado exerce sobre a propriedade privada. di­ reito pessoal. propondo. enfocada na perspectiva do Direito Público. é um elemento do Estado. A primeira refere-se à faculdade dc exercer o poder sobre as pessoas que vivem dentro de certas fronteiras. lembran­ do que. mas tão somente um direito pessoal sobre os indivíduos que vivem em seu território. prossegue. distinto do regime jurídico da pro­ priedade particular. a substituição do conceito de dominium pelo de imperium (direito dc compelir os habitantes do território a adotar certa conduta. sobre os bens. pelo qual. a expressão domínio eminente do Estado. a vida jurídica do Estado deve estar. dando a uma a denominação imperium e à outra domínio público. Estas são.

Pedro. portanto. contraída em posse e. Fondo de Cultura 1997. Coimbra. Curso de teoria do Estado. Poder é a capacidade de impor obediência. O poder não é ação. A palavra tem origem no latim ar­ caico potis esse. s c h m i t t . a conduzi-lo na busca do que ele considera como coisa sua. como define Burdeau. daí. assim se expressa este publicista: O poder é uma força a serviço de uma ideia. Curso de direi­ to constitucional. intitulada singelamen­ te O Estado. c a b r a l d e m o n c a d a . 11. Teoria de la Constitución. Rodrigo. se afastar­ mos momentaneamente os fenômenos concretos pelos quais se revela o Poder c cujo . BORJA. potencialidade para a realização de algo. ed. Método de la ciência política. também. em tais circunstân­ cias. veremos que o poder é menos a força exterior que se coloca a serviço dc uma ideia do que a potên­ cia mesma de tal ideia. 1982. Manoel Gonçalves. É uma força nascida da cons­ ciência coletiva e destinada simultaneamente a assegurar-lhe a perenidade do grupo.2. f e r r e i r a f i l h o . b u r d e a u .3 0 Estado 39 4. Ora. A definição que pro­ pomos emprega os dois elementos do Poder: uma força c uma ideia. Em outra obra de grande repercussão sobre a matéria. a força a serviço de uma ideia. então. L u í s . México. e capaz. enquanto se sucedem as figuras que exercem seus atributos. 1981 . parece-nos. potere. ed. O poder é. Buenos Aires. São Paulo. que ela apresenta uma ideia exata da realidade. s a l v e t t i n e t t o . Enciclopédia de la política. bem como impor aos seus integrantes o comportamento ne­ cessário para tanto. Saraiva. 4. Nesta definição se destacam dois elementos: força e ideia se interpenetram estreitamente. Em sua obra Método de la ciência política. 1981. Armênio Amado. Poder.. Saraiva. 1963. 1964. é potência. México. Georges.2) Causas formais 4. Carl. Ele se sustenta pela ideologia cristalizada na consciência coletiva de um grupo social. Depalma. Problemas de filosofia política . de impor aos membros a atitude requerida por esta busca. Nacional. é potência. Sc aquilo que pretendemos. como efeito. destinada a dirigir a comunidade a uma ordem social que considera benéfica. o Poder é a encarnação de uma tal energia provoca­ da no grupo pela ideia de uma ordem social desejável. Burdeau assinala: Na sua essência profunda. Trata-se de uma força nascida da vontade social preponderante. Sucessor. c isolar o duradouro no fenômeno do poder.. é possibilidade. São Paulo.1) Poder político Bibliografia: Econômica.

. se for o caso. Por isso. o imperium. amparado pela força. pois. O governo é a dinâmica do poder. O vocábulo autoridade. ao poder. administrar) transmite-nos esta ideia. quando se referem. porém. A força. N ão é.40 Teoria Geral do Estado fulgor se arrisca a obliterar a reflexão. a este brocardo Pedro Salvetti Netto acres­ ceu a expressão ac potestas. as denominam argumentos de autoridade. às palavras de um sábio. vale dizer. exato que a realidade substancial do Poder seja o mando. dizia Aristóteles. o governo é ação. Autoridade é possibilidade de suscitar obediência espontânea c conscien­ te. Poder social (socieda­ des condicionadas) ou poder político (poder do Estado. enfim. Quem exerce ativa o poder. onde houver sociedade haverá direito e po­ der. A cocrção é o emprego efetivo da força inerente ao poder. e pressuposto para a legitimação da ideia que anima aqueles que encarnam o poder. enfim. é comum denomi­ narmos os chefes do Poder Executivo governantes. encon­ traremos o poder público ou do Estado definido por Alípio Valencia Vega como a força pública organizada coativamente. obtendo a obediência geral às regras deste. chamado governadores. vale dizer. Exceção feita à utopia dos anarquistas. o poder público somente se legi­ tima quando seu exercício é consentido por aqueles que lhe obedecem. nem sempre disporá do assentimento social. que pretendem ver extinto o poder na vida em sociedade. que significa aumentar. a vis materialis ou corporalis. da reverência dos governados. A própria etimologia da palavra governo (conduzir. Se o po­ der fático é a capacidade de se fazer obedecer. O assentimen­ to. a fim de impor o cumprimento de um or­ denamento jurídico-político. Embora essencialmente sustentado pela força. à coerção. Sc transportarmos a palavra poder para o campo da Ciência Política. eventualmente. sociedade condicionante) são formas de poder inerentes ao convívio social. do respeito que estes. governa. o consenso social. assinala Georges Burdeau que o poder repousa numa ideia oriunda da consciência coletiva existente no grupo social. A possibilidade de sua aplicação efe­ tiva chama-se coercibilidade. vemos que ele não é tan­ to uma força exterior que viesse pôr-se ao serviço de uma ideia como a mesma potên­ cia dessa ideia. Os governantes são a encarnação do poder. deriva do verbo aitgere. o poder é essencial a qualquer sociedade. Ubi societas ibi jus. é inerente ao poder. dirigir. que o poder. autoridade. Faltará. Com efeito. aqui. respeito­ samente. se procurarmos o que é permanente no Poder enquanto passam as figuras que nele exercem as atribuições. do latim auctoritas. o poder público nada mais é do que a capacidade de se fazer obedecer exercida pelo Estado. Vale frisar. A simples expectativa do empre­ go da força chama-se coação (vis compulsiva). Daí a distinção entre poder público e governo. sem recurso à força. em especial aqueles do Poder Executivo estadual. temos. contingencialmente. algo que se acrescenta. O governo é o complexo de normas que disciplinam o exercício do poder. As pessoas simples. com efeito. O poder é potência. lhe votariam. ela reside na ideia que o inspira.

O conceito de poder constituinte formulado por Schmitt. aquele que promove com o seu exemplo e conselho o bem de uma coisa (alem. o conceito de poder constituinte. conforme ele próprio esclarece: Uma Constituição não se apoia numa norma cuja justiça seja fundamento de sua validade. eis Maomé e os aiatolás contemporâneos. por isso. E o caso de Moisés. Por vezes o líder carismático pode ter consigo também a força. bravura e talento dos pais da pátria. teve sempre nesta língua as mais variadas significações. o conselheiro. Poder constituinte é a capacidade de criar ou de alterar a ordem jurídica do Estado. não se vincula a tendências ideológicas ou a princípios norteadores deste ou . acentua Salvetti Netto. prestígio. que sig­ nifica dom divino. por sua vez. exemplaridade. poder constituinte é a vontade política cuja força ou autorida­ de é capaz de adotar a concreta decisão de conjunto sobre o modo c a forma da própria existência política. como o consultor. o promotor. de Cristo e dos profetas. isto sim. conselho. embora desprovidos da força. Auctor era não só o autor. significava. numa decisão política surgida dc um ser político. aquele ou aqui­ lo que constituía a força e o vigor duma comunidade. Befõrdern). modelo.3 0 Estado 41 No dizer de Cabral de Moncada. a evolução do termo autoridade foi a seguinte: A palavra autoridade. Etimologicamente deriva de auctor e de augere. graça divina . Augere.a palavra carisma vem do grego cbarisma. encarnados num órgão. Vejamos. assim. a qualquer momento desencadeada. César jamais teve a autoridade de um Cincinato. Acha-se apoiada. fazer crescer. no caso. tornar mais forte e poderoso alguém ou alguma coisa.são chefes necessariamente religiosos que fruem do respeito social. derivada do latim auctoritas. Com efeito. esta era a tra­ dição e o respeito. desenvolver.o essen­ cialmente existencial deste fundamento de validade. aquele era a força em potência. etc. Os líderes carismáticos . o ga­ rante. determinando. O direito público romano já fazia uma distinção entre imperium e auctoritas. Presume-se que sc cncontrc aí também a origem semântica da pala­ vra para significar mais tarde. a existência da unidade política como um todo. mediante uma transposição dc sentidos. Exemplos: as de produção. embora dispusesse da força. foi assassinado. com a singeleza recomen­ dada pelo caráter meramente introdutório desta obra. agora. Para Schmitt. A expressão vontade revela cm contraste com qualquer dependência referente a uma justiça normativa ou abstrata . aumentar. de que auctum é um particípio-adjetivo. antes de se fixar na de poder. o Senado. símbolo vivo dc um fastígio secular alcançado pela altivez. accrca do modo c da forma do próprio ser. criação.

O poder constituinte é distinto dos poderes estabelecidos pela própria Cons­ tituição por ele criada. e a Constituição a causa instrumental da ação deste poder. que é aquele. já se fazia uma distinção entre ato constituinte e ato legislativo. como o titular da soberania. mero executor de uma vontade superior. vitorioso. é evidente que o poder constituinte derrubado incorrerá na ilegalidade e na ilegitimidade. Séculos mais tarde. prossegue. aqui. é ele o titular do poder constituinte: se for o rei. entre a turbulência das forças sociais c a serenidade dos procedimentos legais. Não se trata. seguido pela comunidade. segundo Carlos Sanchez Viainonte. Como o movimento vitorio­ so é legalizado? Pela edição de uma nova Constituição. Não passou despercebido a este autor que a pró­ pria soberania reside no querer irrecusável do poder constituinte. Se os revolucionários alcançam o poder. Em muitos Estados da Antiguidade Oriental. empunhando a bandeira de um ideá­ rio legítimo. por Oliver Cromwell. como geralmente se pensa. distinguir entre a mera legalidade e a legitimidade do poder constituinte. vontade fundada na coletividade e imposta igualmente a governantes e a governados. na Grécia clássica. em Atenas e Esparta. no pla­ no do Direito Positivo. Mais tarde. entre a aparente desordem revolucionária e dos regimes seguros de si próprios. pode­ rá ser ilegítima. promulgado no ano de 1953. Entretanto. A obra revolucionária. repito. se não estiver de acordo com o consenso social. soberanamente. en­ contraremos. ele é aquela potência criadora da ordem jurídica da qual fixa os princípios c estabelece os instrumentos. surgin­ do o povo. mesmo sendo ilegal. O ato constituinte seria aquele de natureza originária. mais precisamente como documento deno­ minado Agreement ofthe people (Acordo ou Pacto Popular). dele será este mesmo poder. A obra revolucionária é sempre ilegal. mediante o qual se criava a nação e sua estrutura político-social. aqui. Concretizada esta. a soberania não re­ sidia propriamente no monarca. teocráticos. o rei era. Importante. na Inglaterra. Alude-se ao que é e não ao que deve ser. contudo. de caráter sagrado. Desde que o povo seja capaz de organizar o Estado e exer­ cer o governo. sendo este a cau­ sa eficiente. sob a denominação Instrumento de Governo. Quando tal poder se manifesta mediante o emprego da força. desde que esteja de acordo com a ideia do justo que o sistema de referência social professa. No dizer de Burdeau. ela pode ser legítima. em verdade. o antecedente mais remoto rela­ tivo à doutrina da separação entre poder constituinte e poderes constituídos. do melhor regime. inconstitucional. resta unicamente a le­ galização do movimento. Ele se encontra situado num ponto de intersecção entre a política c o di­ reito. ele será sempre ilegal. . nestes dois Estados laicos. se institucionalize. ate o momento em que.42 Teoria Geral do Estado daquele regime político.

dentre estes a insegurança imposta à liberdade individual. m e ir e l l e s . 1993. Assim Aristóteles (384-322 a. UNB.. Curso de teoria do Fstado e ciência política. 1995. 4. em sua obra clássica Po­ lítica. Saraiva. Por isso. art.. ed. no caso do Es­ tado federal (Constituição brasileira. ele dá origem a uma nova Constituição. 3.1) A nte ce d e n te s Desde que. Flá. Martins Fontes. São Paulo. 1998.3 0 Estado 43 Se o movimento triunfante não contar com a legalidade. lembra Ferreira Filho. prenuncia a separação de funções no Estado. Livro IV. O poder constituinte originário é incondicionado.). v is s c iie r . Tomemos como exemplo o seu art. Dois tratados sobre o governo. ed. é beneficiária dc um mecanismo psico­ lógico: o respeito à lei. obtendo a aceitação dos governados.2. tentará legitimar-se. Saraiva. 3. 1997. os mais antigos e respeitadores pensadores já buscavam delinear soluções para o con­ trole do poder político. São Paulo. . Política. não se acha submetido a nenhum princípio que não seja o daqueles que o encarnam. uma de sua maiores preocupações foi evitar o arbítrio dos governantes e seus indesejá­ veis efeitos. 1984.2. o homem passou a viver em sociedade. Revista dos Tribunais. 4. 1947. Martins Fontes. no segun­ do. 1999. 25). São Paulo. Direito administra­ m o n t e s q u ie u gislativo. 60. ideia que seria retomada. São Paulo. num esforço de legitimação daquilo que era ilegítimo.2) 0 princípio da se p a ra çã o de Poderes no Estado Bibliografia: A r i s t ó t e l e s .C. o poder constituinte pode ser originário e instituído ou derivado. bastos. que é o poder dos Estados-Membros. Tal medida. O homem é induzido a obedecer à lei. No primeiro caso. Capítulo II. não a discuti-la. ed. sécu­ los depois. John. Paris. ed. Celso. por natural tendência.. Les nouvelles tendances de la démocratie anglaise. 10. tradução de Cristina Murachco. o poder constituinte decorrente. Manoel Gonçalves. f e r r e ir a f il h o locke. tradução de Mário da Gama Cury. tivo brasileiro. Assim se expressa Aristóteles: . por Montesquieu. não se encontra vinculado a nenhuma condição. 4. também. São Paulo.. O espírito das Paul. Do processo le­ Hely Lopes. . apenas a modifica parcialmente. Que vem a ser a legalização do movimento vitorioso? É o estabelecimento de normas positivas que justifiquem o conteúdo da obra revolucionária do poder cons­ tituinte. Quanto a suas espécies.2. leis. sentimento que nos é incutido desde a mais tenra infância.

e estando o principal instrumento para tal nas leis estabelecidas naquela sociedade. Fala­ va ele numa função consultiva que se pronunciava acerca da guerra e da paz e acer­ ca das leis. não fosse assim. a terceira trata dc como deve ser o Poder Judiciário. Destas três partes uma trata da deliberação sobre assuntos públicos. uma função judiciária e de um magistrado incumbido dos restantes assuntos da administração. Pois. Talvez a sua linguagem fosse um pouco diferente. o Legislativo. como fez Cícero. e como devem ser escolhidos os funcionários. notoriamente. Observa Celso Bastos que as três funções de que falava Aristóteles são as mes­ mas que hoje conhecemos. e na medida em que elas diferem uma das outras as Constituições também diferem entre si. como também é sagrado e inalterável nas mãos em que a comunidade o tenha antes depositado. quanto às leis.44 Teoria Geral do Estado Todas as formas de Constituição apresentam três partes em referências às quais o bom legislador deve examinar o que é conveniente para cada Constituição. o fato é que a separação de Poderes só voltaria a ser anali­ sada muito tempo depois. e pela autoridade dela recebida. Bolingbroke e o próprio Montesquieu. em sua obra Dois tratados sobre o governo. destinada a governar ate mesmo o próprio Legislati­ vo. Ouçamo-lo: Sendo o principal objetivo da entrada dos homens em sociedades eles desfruta­ rem de suas propriedades em paz e segurança. . por John Locke. a segunda trata das funções públicas. e quanto à prestação de contas dos funcio­ nários.já que a lei natural primeira e fundamental. qual deve ser sua autoridade específica. privilegiando. seja de forma concebido ou por que poder apoiado. A parte deliberativa é soberana quanto à guerra c a paz e a formação e dissolução de alianças. mais precisamente nos séculos XVII e XV III. pensador inglcs. Esse Legislativo e não apenas o poder su­ premo da sociedade política. equivocadamente. ter força e obrigação de lei se não for sancionado pelo Legislativo escolhido e nomeado pelo público. considerado por muitos. Embora autores que sucederam Aristóteles tenham dissertado a respeito do tema. consiste na conservação da sociedade e (até onde seja compatível com o bem pu­ blico) dc qualquer um dc seus integrantes. ou seja: quais são as que devem ser instituídas. sobre a qual ninguém pode ter o poder de elaborar leis salvo por seu pró­ prio consentimento. tampouco pode edito algum de quem quer que seja. a lei positiva primeira e fundamental de todas as socicdadcs políticas c o cstabclccimcnto do Poder Legislativo . não teria a lei o que é absolutamente necessário à lei. já desenvolvera. se estas partes forem bem ordenadas a Constituição será necessariamente bem ordenada. de exílio e de confisco da propriedade. o consentimento da sociedade. John Locke (1632-1704). uma doutrina mais detalhadas da separação de Poderes. quantos às sentenças de mor­ te. o inspirador original da separação de Poderes.

assim se expressa no Livro 11. . todavia. muitas vezes.2.2) 0 princípio da separação de Poderes segundo M on tesq uieu Quanto a Montesquieu (1689-1755). Quando. embora distintos. Sc estivesse unido ao poder legislativo. com todos aqueles de que ela pode re­ ceber benefícios ou injúrias. fazer valer sua vontade soberana mediante seus representantes. pode. Sc estivesse unido ao poder executivo. Com o primeiro. previne invasões. Tudo estaria perdido se o mesmo homem. o poder legislativo está reunido ao poder executivo.3 0 Estado 45 Quanto ao Poder Executivo. pois o juiz seria legislador.. apto a cuidar da guerra e da paz. 4. A par do Poder Executivo. ou o mesmo corpo dos principais. que sejam separados os Poderes Legislativo e Executivo. Executivo e Federativo. ou do povo exercesse os três poderes: o de fazer as leis. Locke observa: como as leis elaboradas de imediato e em pouco tempo têm força constante e duradou­ ra. ele castiga os crimes. § 6° (Da Constituição da Inglaterra): Existem cm cada Estado trcs tipos dc poder: o poder legislativo. ele faz a paz ou a guerra. o juiz poderia ter a força de um opressor. não podendo exercer o autogoverno. compreendendo um a execução das leis municipais da sociedade dentro de seus próprios limites sobre todos os que dela fazem parte e outro a gestão da se­ gurança e do interesse e o público externo. no clássico O espírito das leis.2.]. Esses dois Poderes. ou dos nobres. porque se pode temer que o mesmo monarca ou o mesmo senado crie leis tirânicas para exe­ cutá-las tiranicamente. ou julga as querelas entre os particu­ lares. mais precisamente Charles Louis dc Secondat. após considerar o Poder Legislativo como o mais importante dos três Poderes. o príncipe ou magistrado cria leis por um tempo ou para sempre e corrige ou anula aquelas que foram feitas. Chamaremos a este último poder de julgar e ao outro simplesmente poder exe­ cutivo do Estado [. é necessário haver um poder per­ manente. Tampouco existe liberdade se o poder de julgar não for sepa­ rado do poder legislativo c do executivo. firmar alianças e acordos com todas as pessoas e socie­ dades políticas internacionais. o de executar as resoluções pú­ blicas e o de julgar os crimes ou as querelas entre os particulares. quase sempre estão unidos. que cuide da execução das leis que são elaboradas e permanecem vigentes. não existe liberdade. até por­ que o povo. envia ou recebe embaixadas. Com o segundo. e requerem uma perpétua execução ou assistência. E assim acontece. o po­ der sobre a vida c a liberdade dos cidadãos seria arbitrário.. Com o terceiro. Locke vislumbra certo Poder Federativo. Barão dc La Brède et de Montesquieu. o poder execu­ tivo das coisas que dependem do direito das gentes e o poder executivo daquelas que dependem do direito civil. na mesma pessoa ou no mesmo corpo de magistratu­ ra. instaura a segurança.

a doutrina da separação de Poderes foi prestigiada em célebres legislações. nem a separa­ ção dc Poderes determinada. sem ferir. sc tomarmos como exemplo a Constituição brasileira. na concessão de anistias e nos processos políticos que deviam ser apreciados pela câmara alta sob acusação da câmara baixa. mas também equilíbrio. mediante um sistema de freios e contrapesos (checks and balances). falando em divisão e sepa­ ração de Poderes. Assim. porque ju­ ridicamente é equivocada. Tal interdependência autoriza qual­ quer das três funções a exercer atribuições naturalmente peculiares a um dos res­ tantes. 62). a ex­ pressão separação de Poderes passa a ter conotação meramente política. Daí. não disse haver três Poderes mutuamente isolados. porque o poder político é. Não há. mesmo nos primórdios da aplicação práti­ ca das ideias de Montesquieu. Ora. a doutrina dos freios e contrapesos. veremos que o Poder Executivo pode legislar (art. que ocasionaria seu declínio e sua transformação num mito. separação de Poderes no Estado. 16: “Toute societé dans laquelle Ia garantie des droits riest pas assurée. I e II).1789. não tem constituição". ser mais apropriado o termo função . o Poder Legislativo interferiria nas atribuições do Judiciário quan­ do do julgamento dos nobres pela Câmara dos Pares. como se esses fossem estanques. Com efeito. assim. podendo exigir aos ministros prestação de cotas dc sua administra­ ção. a). Não demoraria. Alexander Hamilton. Num dos maiores clássicos da Ciência Política. de 26. na verdade. a fim de estabelecer uma interdependência entre elas. entretanto. que já dizia no art. James Madison eJohnJay advertem que a tripartição das funções do Estado não é apenas divisão. o Legisla­ tivo (primeira e segunda câmaras.08. 52. intitulado O federalista (The federalist). indivisível. O eminente publicista Hely Lopes Meirelles adverte que apressados seguido­ res de Montesquieu interpretaram mal seu pensamento. na medida em que controla as leis que vota. O próprio Montesquieu. mas em equilíbrio. o Legislativo julgar (art. em vez de poder. quando é certo que o Governo . inspirando.1 . diga-se de passagem. a Constituição. câmara baixa e câmara alta) e o Judiciário (cor­ po de magistrados). a se delinear uma crítica robusta e profunda a seus princípios. M adi­ son pregava a necessidade de disciplinar o relacionamento entre as funções do Es­ tado. por outro lado. uno. naturalmente. em face do direito de veto concedido ao monarca. já mencionada. de modo que cada “po­ der” limitaria os demais: Le pouvoir arrete le pouvoir. c o Judiciário legislar (art. o Legislativo exerceria pressão sobre o Executivo.46 Teoria Geral do Estado Desde logo. 9 6 . já se reconhecia que o Executivo poderia interferir no Legislativo. como a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão. ria point de constitutiori\ ou “Toda sociedade em que a garantia dos direitos não é assegurada. ni Ia séparation des pouvoirs determinée. Assim. criou-se em torno do ideário de Montesquieu a ideologia de um modelo político em que os três Poderes deve­ riam estar rigorosamente separados: o Executivo (o rei e seus ministros). com isso. por sua vez. Cada um destes “ Poderes” exerceria suas atribuições sem qualquer interferência dos demais.

segundo Rousseau. pois também o Executivo e. não pode ser ele diverso do poder transmitido por tal concessão positiva. que se dá através da constituição do legislativo. teve origem na Inglaterra. o povo se vê compelido a eleger seus representantes. e tampouco pode ser este submetido a nenhu­ ma lei. vale dizer. Uma vez que o poder do legislativo deriva do povo. como já vimos. ou seja. lei em sentido estrito. as quais inovam a ordem jurídica. parlamentares. por definição.2. quando a nobreza e o próprio povo tentavam limitar a auto­ ridade absoluta dos reis. du­ rante a Idade Média. que representa falsear totalmente o pensamento do ilustre autor dc O espírito da leis. a competência de elaborar nor­ mas segundo um processo previamente estabelecido (processo legislativo). como se observa nesta sugestiva passagem de John Locke: não pode o legislativo transferir o poder de elaborar leis para outras mãos.3) 0 Poder Legislativo O Poder Legislativo. Paul Visscher.4) 0 Estado con tem porâneo e a delegação de fu nções A doutrina clássica da separação de Poderes não admite a delegação de fun­ ções de um aos outros. To­ davia. o enfraquecimento do poder real se acentuou em pro­ veito do Parlamento. como o entendemos hoje. por uma concessão ou instituição positiva e voluntária. que agi­ rão em nome do corpo eleitoral. senão em virtude de lei. N o mesmo sentido. ninguém mais poderá que outros ho­ mens devam elaborar leis para o povo. e indicar em que mãos será depositado. 4. não podendo votá-la diretamente. mesmo. a soberania reside no povo. aqueles que o detêm não podem transmiti-los a outros. diploma le­ gal discutido e referendado no próprio Legislativo.3 0 Estado 47 é resultante da interação dos três Poderes do Estado. senão àquelas promulgadas pelos indivíduos escolhidos c autorizados para for­ mular as leis da sociedade. pelo qual ninguém se obriga a fazer ou deixar de fazer algo. que é apenas o de elaborar leis e não de fazer . Ao Poder Legislativo se confere. não sendo ele senão um poder delegado pelo povo.2. Somente ao povo é facultado designar a forma da sociedade política. as normas emanadas do Legislativo têm primazia sobre as outras. o Judiciário. perenizada em sua obra O contrato social. Isto não significa que apenas o Legislativo elabora nor­ mas jurídicas. Com efeito. Todavia.2. pessoal­ mente. para quem atribuir a Montesquieu a separação absoluta de Poderes é ver­ dadeira escroqueria intelectual. E quando o povo disser: submeter-nos-emos às regras e seremos governados pelas leis estabelecidas por tais homens e sob tais formas.2. Com a doutrina de Jean-Jacques Rousseau. em face do princípio da legalidade. 4. que a exprime por meio da lei.

2.2. o an­ tigo Executivo passou a ser visto como poder governamental. 4. com o assinala M anoe l Gonçalves Ferreira Filho. as leis do país. com a inevitável delegação dc funções pelo Legislativo ao Executivo. De tal evolução. inclusive modificando. que para os democratas radicais do século passado lsic]. parecia ensejar a plena realização da democracia. para se tornarem o campo dc batalha onde cosmovisões hostis c interesses dc elasses irre­ dutíveis. com rapi­ dez. perm itindo a rápid a edição de norm as jurídicas de alcance social. a realidade hoje é outra. as câmaras dão plenos poderes ao Executivo. A decadência do Parlamento teve como contrapartida o engrandecimento do Executivo. dc sorte que não pode ter o legislativo nenhum poder de transferir sua autoridade de elaborar leis e colocá-la em mãos de terceiros. buscando agilizá-lo. Nestas. Deixa­ ram estas de ser grupos primários.]. lei delegada e m edida provisória.. agravando gravemente o órgão no seu entender principal. na m edida do possível. este a cúm u ­ lo de tarefas trouxe consigo a própria paralisia do Legislativo. C o m o passar do tem po. Tal fenôm eno mostrou-se ain d a mais evidente a partir de 1920. por interm édio da Corte de Cassação. a prerrogativa de anular decisões ju­ diciais. para que este faça o que tem que ser feito. em face das maiores possibilidades de legislar. obrigou os governos a repen­ sar o processo legislativo. Por outro lado. na França. p o r parte deste. bem diferente dos tempos de Locke e M ontesquieu. em contrapartida. Por outro lado. como governo. o recrudescimento das reivindicações sociais no final do sécu­ lo X IX . abalar a estrutura des­ ta que lhes parecia perfeita. e aguente as conseqüências [. o sufrágio universal trouxe a divisão para o seio das assembleias. ou aparentemente irredutíveis. Observa M anoel Gonçalves Ferreira Filho: Incapazes dc fazer o que se torna imprescindível.48 Teoria Geral do Estado legisladores. O papel proeminente do Legislativo acarretou-lhe. inatendidas em face da paralisia parlamentar. a ascensão das massas ao processo de decisões políticas agravou a situação: O sufrágio universal. veio.5) 0 caso brasileiro: medida provisória e lei delegada N o Brasil. assim. sem coragem para tomar deci­ sões inadiáveis. por decreto. Em verdade. se digladiavam. o fortalecim ento do Executivo se m anifestou m ediante três espé­ cies de normas: decreto-lei. não mostra mais ostensiva do que a retratada nalgumas Constituições posteriores à Segunda Guerra Mundial.. porem impopulares. como eram enquanto só a burguesia participava in­ tensamente da vida política. onde as discordâncias não iam alem dos pormenores. . u m acú­ m ulo de funções. N ã o obstante. dentre as quais.

dentro de sessenta dias. por decreto legislativo.. que não sendo o decreto-lei aprovado em sessenta dias. uma vez por igual período. o texto seria tido por aprovado. em casos de urgência ou de interesse públi­ co relevante. caput e § 3o: Art. nos seguintes termos: Art. Trata-se. mesmo que rejeitado pelo Congres­ so. o texto será tido por aprovado. v. em resumo. velada sucesso­ ra do decreto-lei.yo Código Penal. valendo lembrar que inú­ meras leis importantes da época . não dese­ jando os parlamentares aprovar medidas eventualmente antipáticas. o Congresso Nacional o aprova­ rá ou rejeitará. emen­ dada em 1969. de uma lei em sentido material.1988 e. devendo submetê-las dc imediato ao Congres­ so Nacional. tem força dc lei. ressalvado o disposto nos §§ 11 e 12 per­ derão eficácia. § 1° Publicado o texto. Por outro lado. Observa-se. Repudiado na Constituição de 1946. conforme advertia o § 2o. nos termos do § 7°. mediante decretos-lei. não houver deliberação. no § I o.criação de cargos públicos e fixação de vencimentos.3 0 Estado 49 A natureza do decreto-lei é a de um diploma híbrido entre o decreto (mero ato administrativo) e a própria lei.são decretos-lei. pois a negativa do Legislativo tinha efeito meramente ex nunc. O Presidente da República. o decreto-lei retornou na de 1967. ou seja. [. na medida provisória. ficando o decreto-lei definitivamente aprovado por decurso de prazo. O decreto-lei surge no Di­ reito brasileiro com a Constituição autoritária de 1937. as relações jurídicas delas decorrentes. a redemocratização do País. Este passou a legislar sozinho. com esta. e desde que não haja aumento de despesa.] § 3° As medidas provisórias. ou não desejan­ do comprometer-se com o todo-poderoso Governo Militar. g. se. inclusive normas tributárias. 62. culminaria na Constituição de 05. seguindo processo legislativo próprio. 55. 62.finanças públicas.segurança nacional. desde a edição. já que o decreto-lei tem força de lei. e III . prorrogável. ou seja. Ora. . o Presidente da República poderá ado­ tar medidas provisórias. a Consolidação das Leis do Trabalho e a Lei de Introdução ao Código Civil. não havendo deliberação. devendo o Congresso Na­ cional disciplinar. com força dc lei. sem retroatividade.. nesse prazo. em meados dos anos de 1980. assim dispondo o art. pois embora não tenha forma de lei. os atos praticados durante a vigência do decreto-lei se tornavam plenamente vá­ lidos. a Lei de Contravenções Penais. Em caso dc relevância c urgência.10. se não forem convertidas em lei no prazo de sessenta dias. II . Assim. § 2° A rejeição do decreto-lei não implicará a nulidade dos atos praticados durante a sua vigência. o Código de Processo Penal. deixavam aquele pra­ zo fluir in albis. outorgada por Getúlio Var­ gas. sem manifestação. não podendo emendá-lo.ainda em vigor . que terá vigência imediatamente. poderá expedir decretos-leis sobre as seguintes matérias: 1 .

.] § 1° Em caso de extraordinária e urgente necessidade. medidas provisórias (provvcdimcntiprov- visori) com força de lei. Percebe-se. dispõem os arts. claro. sempre no prazo de sessenta dias contados de seu recebimento. Além disso. sob sua responsabilidade. em matéria de decretos-lei fi­ cava limitado a uma atitude passiva: aprovava o texto. as Cortes poderão faze-los tramitar como projetos dc lei. sobre sua convalidação ou derrogação. o Governo poderá editar dispo­ sições legislativas provisórias. a rejeição de um de­ creto-lei não implicava nulidade dos atos praticados na sua vigência. ditar decretos com força de lei ordinária. aprovado pela Câmara dos Comuns. se não for convertida em lei no prazo de sessenta dias”. de imediato. salvo se a Câ­ . sobre matéria fi­ nanceira.1911: Art. convocado para tanto. 77. cuja vigência era imediata (art. se não estiver reunido.50 Teoria Geral do Estado Comparemos o decreto-lei da Constituição de 1967 e a medida provisória da Lei Magna de 1988. de 18. como vimos. nem ao Direito Eleitoral Geral. consideravelmente. 86. o que refor­ çava. para o qual o Regulamento estabele­ cerá um procedimento especial c sumário.]. O Congresso deverá pronunciar-se expressamente. deveres e liberdades dos cidadãos sob as normas do Título Primeiro.] § 1° Sc um projeto dc lei. Art. Quando. e nesta não for aprovado sem emendas dentro do mês seguinte. § I o). sem delegação das Câmaras. mediante o procedimento de urgência [.. 55. dentro de referi­ do prazo.. deverá apresentá-las no mesmo dia para sua conversão em lei às Câmaras. que a atual Constituição favoreceu o Poder Legislativo. regular mediante lei as relações jurídicas sur­ gidas em virtude daqueles decretos que não forem convertidos em lei [. pois este. as quais.08. Entretanto. o Poder Executivo. em casos extraordinários de necessidade e de urgência.. for enviado à Câmara dos Lordes. com a medida provisória a situação se inverteu. § 2° Os decretos-lei deverão ser imediatamente submetidos a debate e votação pela totalidade dos membros do Congresso de Deputa­ dos. com variantes compatíveis com as peculiaridades de cada ordem jurídica. todavia. mesmo dissolvidas..].. se não forem convertidos cm lei (convertiti in legge) dentro dos sessenta dias de sua pu­ blicação. [. Art. Não pode o Governo. Os decretos perderão todo o efeito desde o início. ele será apresentado à Sua Majestade. e o I o da Lei britânica sobre o Parlamento. o Governo adotar. constatam-se institutos assemelhados ao decreto-lei e à medida provisória. serão devidamente convocadas e reunir-se-ão dentro dos cinco dias seguintes. As Câmaras poderão. na Constituição anterior. 77 da Constituição italiana. prazo este prorrogável (§ 3o). 86 da Constituição espanhola. no prazo dos trinta dias seguintes à sua promulgação. § 3° Durante o prazo estabelecido no pará­ grafo anterior. 1° [.. No direito comparado. ao regime das Comunidades Autôno­ mas. já que se esta não for apreciada pelo Legislativo perderá sua eficácia “desde a edição. os direitos. as quais tomarão a forma de decretos-lei e não poderão conflitar com as instituições fundamentais do Estado. pelo menos um mês antes do término da sessão legislativa.. ou o rejeitava sem poder emendá-lo. Nesse sentido.

sob o ângulo externo é uma afirmação de independência. Ciência política. o poder soberano é um elemento essencial do Estado. Wilson. 1986. 13. Globo. Teoria geral do Estado. A soberania é o atributo do poder do Estado que o torna independente no plano interno e interdependente no plano externo. com os demais. do francês souveraineté.. As duas palavras latinas das quais parece derivar. Sahid. No âmbito interno. Saraiva. ed. 6. Pau­ lo. é ela . São Paulo. o que distingue o Estado das demais pessoas ju­ rídicas de direito internacional público é a circunstância de que só ele tem soberania. Teoria geral do Estado. apesar de todas as restrições dos teóricos e dos próprios líderes políticos.. Assim. quando participa da sociedade mundial. o Estado é uma pessoa jurídica de direito público internacional. Não há Estado sem poder soberano. . 4. O termo soberania deriva do latim medieval superanus e. Sugestões Literárias. ed. Elementos de teoria geral do Estado. cada uma mantém.. b o n a v id e s .3) Soberania Bibliografia: a za m b u ja a c c io l i. ed. Referindo-se à posição do estado na ordem internacional. Rio de Janeiro. Saraiva. Curso de teoria do Estado. Pedro. indepen­ dentemente dc atos formais de reconhecimento. Forense. independentemente do voto da Câmara dos Lordes.. 28. sa l v e it i n et t o .3 0 Estado 51 mara dos Comuns decidir em contrário. ficando na dependência da comprovação dc possuir soberania. entretanto. superanus e supremitas. observa o professor Dalmo de Abreu Dallari: O mundo é uma sociedade de Estados. Fnfim. Esta. realmen­ te. com efeito. não bastando a supremacia eventual ou momentânea. 1964. São Paulo. Rio dc Janeiro. 2009. São Paulo. 1968. o poder so­ berano reside nos órgãos dotados do poder de decidir em última instância. na qual a integração jurídica dos fatores políticos ainda se faz imperfeitamente. o vocábulo souveraineté são. Forense. 1982. me­ diante sanção real. Teoria geral do Estado. Darcy. Com efeito. Para o jurista. 1985. Na prática. uma relação em que a igualdade se faz presente. que do ponto de vista interno do Estado é uma afirmação de poder superior a to­ dos os demais. Dalmo de Abreu. mais recentemente. pois. o reconhecimento dc um Estado como tal não obedece a uma regulação jurídica precisa. e converter-se-á em ato do Parlamento. d a l l a r i. 6. no âm­ bito externo. Porto Alegre. significando a inexistência de uma ordem jurídica dotada de maior grau de eficácia. ed. pois a soberania é a qualidade suprema do poder estatal. o que se exige c que a sociedade polírica tenha condições dc assegurar o máximo de eficácia para sua ordenação num deter­ minado território c que isso ocorra dc maneira permanente. maluf.

do poder político. é seu traço identificador.52 Teoria Geral do Estado que distingue este poder daquele observado nos grupos sociais condicionados pelo Estado. e nas suas lides impunha seus costumes e suas leis. se sobrepõem àquelas emanadas de outros organismos sociais. social e econômico. fundava-se numa economia agrária. Que vem a ser um estamento? É uma ca­ mada social que compete com outras. E isso porque o Estado é soberano. o Estado torna-se uma sociedade condicionante. vale dizer. formada por estamentos. uma qualidade do poder do Estado. Surge a classe dos senhores feudais. Na Alta Idade Média. Por intermédio daquele procedimento era possível im­ pugnar a criação de leis que contradissessem as normas fundamentais. ao pas­ so que as sociedades menores tornam-se condicionadas pelo Estado. por direito próprio. é uma criação do Di­ reito Constitucional moderno. uma parcela do poder político. Daí a assertiva do professor Pedro Salvetti Netto: Assim como todas as sociedades possuem normas. mas fragmentou-se em miríades de se­ nhorios feudais. Se o go­ verno é uma das causas formais do Estado. Naquele pe­ . por outro lado. como resultado des­ te marco histórico. no limite de seu território. não dispensando o poder. não reconhecendo nenhum outro poder que se lhe iguale. sujeitam-se ao mando que caracteriza a sociedade po­ lítica. já havia uma dis­ tinção fugaz entre as leis constitucionais e as leis que poderíamos denominar leis ordinárias. que. a soberania é a diferença específica dc tal governo. que a soberania é um atri­ buto essencial. Séculos depois. Tal superioridade era garantida por um procedimento que poderia ser tido como o ancestral da nossa ação direta de inconstitucionalidade. Haverá soberania nos casos em que houver poder de decisão em última instância. dentro de uma rigidez relativa. de um lado. na qual cada castelo feudal buscava. que se originam do Estado. e a dos servos da gleba. estes tam­ bém. a partir do século XI da Era Cristã. com as invasões dos bárbaros no Império Romano. fenôme­ no que assinala o início da Idade Média. de outro. Graças à soberania. surge o Feudalismo. sendo este o único critério distintivo do Estado. haverá soberania. Cada senhorio possuía. mas as leis. Vimos. concernentes à estrutura fundamental da cidade-Estado ateniense. eram superiores às demais. isto e. e no direito público de Ate­ nas havia a noção de que certas leis pertinentes à própria estrutura política da polis. Politicamente. sistema político. enfim. mesquinhamente. geralmente se pensa. A Antiguidade já intuía a diferença entre as leis que estruturavam a organiza­ ção política e as que eram criadas por órgãos do governo. o poder não se conser­ vou centralizado como no Império Romano. nas situações em que houver poder de decisão em úl­ tima instância. O feudalismo. Aristóteles faz tal distinção. perdurar independentemente dos demais. Em sua obra A política. como as que estabeleciam a cidadania. a sociedade feudal converteu-se em estamentária. Conclui-se disso que.

era a sociabilidade inata do homem. que reinasse sobre os litigantes. Tal consentimento importaria num verdadeiro pacto. John Locke e Jean-Jacques Rousseau. “Todo poder vem de Deus. o clero e o povo formaram estamentos que lutavam para ascender politicamente e exercer o poder soberano. A doutrina do contrato social pode ser ana­ lisada na célebre Escola do Direito Natural e das Gentes. os homens abdicariam de sua liberdade em favor de um monarca. neste contrato. soberano. mas a doutrina do contrato social via em tal acordo de vontades a fonte da própria sociedade. O monarca não seria parte no contrato . Então. 4. na França. são inúmeras as doutrinas a respeito. como já vimos. tal perigo foi conjurado com o surgimento de uma sociedade intitulada “Os Políticos”. por intermédio do povo”. apenas. dc tal poder. que pregava a necessidade de um poder supremo.2) A doutrina do con trato social A doutrina pactista medieval não deve ser confundida com a do contrato so­ cial. encabeçada por Hugo Grócio. a nobreza.3.3 0 Estado 53 ríodo histórico o rei. os homens estariam em guer­ ra continuamente: o homem seria lobo do próprio homem (homo homini lupus).3. Nes­ sa sociedade pontificou Jean Bodin. sobre toda a nação. Para a doutrina pactista medieval a fonte da sociedade era a inclinação natu­ ral do homem. Para evitar tais males. para acentuar-se nos séculos XVII e XVIII. tornava-se o estamento que passasse a exercer seu poder soberano sobre os demais. mas os autores que difundiram a ideia do contrato social viam. cuja função seria manter a paz. as lutas religiosas causadas pela Reforma ameaçaram destruir a própria sociedade civil. enfim. seria a fonte do poder político. A doutrina pactista medieval ensinava que todo o poder vem de Deus: Omnis potestas a Deo. se não existisse a sociedade. Supremus. tinha um intermediário: o povo. que se desenvolve a partir do século XVI. precursora do Estado absolutista. Daí a expressão soberania. Omnis potestas a Deo sed per populum. O consentimento popular. e nos três mais significativos autores da doutrina contratualista: Thomas Hobbes. 4. isto é. mas. tacitamente manifestado. a própria fonte da sociedade.1) A doutrina pactista medieval Quanto à titularidade da soberania. o chamado pactum subjectionis. ou sovrain (na França). Mais tarde. Afirmava Hobbes que. Há uma diferença sutil entre a doutrina pactista medieval e a doutrina do con­ trato social: A doutrina pactista medieval via no acordo de vontades a fonte do go­ verno. como predicava Santo Tomás de Aquino. autor de uma obra intitulada Os seis livros da República.

ela é. parte final). são consagradas duas doutrinas de relevo sobre a soberania: a da soberania popular. todos os cidadãos devem participar da formação da von­ tade geral. tomar as decisões e aplicá-las: “Se hou­ vesse um povo de deuses. seria mero beneficiário de uma delegação. mesmo. Capítulo IV. tem uma importância prática muito maior. no Estado consti­ tuído legitimamente. numa sociedade historicamente considerada. seria o conjunto das pessoas con­ temporâneas que formaria o elemento humano do Estado num dado momento. aristocracia e demo­ cracia. mas em nome da nação. comunidade limita­ . Para que o Estado seja legitimado. segundo Jean-Jacques Rousseau. Conclui-se. presente. preconizada por Emmanuel Jo­ seph Siéyès (1748-1836). em tal concepção. Haveria um ato que. O que é a nação. indelegável. é a doutrina da soberania popular. Segundo Rousseau. com exceção da democracia. todo cidadão. sendo a soberania uma prerrogati­ va personalíssima. por um único homem. por alguns ou. simultaneamente. os quais não se confundem com os interesses permanentes das gerações que se sucedem no tempo. Livro III. legitimidade somente se houver iden­ tificação entre governantes e governados. pois o direito de votar não implica um dever de votar. porque somente um povo de deuses poderia. Rousseau afirma que o poder só é le­ gítimo quando se origina da vontade de todos os que serão governados. Se o Estado possuir 10 mil cidadãos. mas a aplicação das medidas decorrentes desta vontade pode ser feita por todos. na verdade. Esta doutrina de Rousseau. que a ideia rousseauniana de que o governo só é legítimo quando todos os cidadãos participam da tomada das decisões fundamentais deve ser apreciada em termos. é um soberano. historicamente considerada. Ela não se confunde com a doutrina da soberania nacional. existem inte­ resses momentâneos. Governo tão perfeito não convém aos homens” (O contrato social. Cada cidadão é deten­ tor de uma fração da soberania. com efeito. a qual. Por outro lado.54 Teoria Geral do Estado social. Considera Rousseau. o poder estatal deverá estar em mãos de todos os indiví­ duos que compõem o povo. cada um des­ tes será titular da fração correspondente da soberania. então. em face disso. Povo. vale dizer. que a participação política do cidadão não deve ser compulsória. de Emmanuel Joseph Siéyès. é parte da soberania. e a da sobe­ rania nacional. Siéyès começa por dizer que. seria uma comunida­ de concreta. entretanto? Para conceituar a nação. governar-se-ia democraticamente. as decisões fundamentais de­ vem partir da vontade geral. porém. Haverá. Ora. então. Com a Revolução Francesa. sendo esta a vontade dos cidadãos sobre problemas de interesse comum. denominaríamos estipulação em favor de terceiro. que as três formas básicas de governo. Não pretende Rousseau que todo o povo tome e execute as decisões. portanto. já se vê. Afirma Siéyès que o poder do Estado não é exercido em nome do povo. se o fundamento da soberania fosse a vontade do povo. por via de conseqüência. Vale notar. poderiam ser legitimadas. em direito civil. Por isso Rousseau não acreditava na representação política e refugava os chamados representantes do povo. Em sua obra clássica O contrato social. monarquia.

como se tornara difícil definir a nação. ainda assim sem parti­ cipação das mulheres. Modernamente. incumbido de repre­ sentar. havia o mandato imperativo. mas um dever. afirmando-se que o povo é o soberano (!). totalmente divorciada dos interesses populares. com total liberdade e sem a pressão do eleitorado. As gerações que se sucedem cons­ tituem a nação. em verdade. seria substituído. entretanto.3 0 Estado 55 da no tempo. por influência do próprio Siéyès. esta foi identificada com o povo. ou por uma parcela deste. todas as Constitui­ ções da França revolucionária adotaram o chamado sufrágio censitário. Em face disso. tão somente. como na doutrina da soberania popular. os interesses permanen­ tes da nação. mas o par­ lamento. neste país. Com o passar do tempo. a menos que infrinja a Constituição. porém. O supremo poder do Estado. não uma democracia com fundamento na nação. nos termos da Constituição. e levando-se em conta que os representantes da nação representam esta. do pensamento do Siéyès. Disso decorre que o voto não representa um direito. que a nação seja representada por aqueles que atuem em seu nome. os interesses permanentes das gerações em sucessão poderiam ser ir­ remediavelmente lesados. e não seus eleitores. fica rompido um possível vínculo jurídico entre eleitor e eleito. por ora. Com Siéyès. e não na vontade do eleito­ rado. com total independência . se é a nação quem vai selecionar o corpo eleitoral destinado a eleger seus represen­ tantes. Somen­ te em 1848 foi instituído. A nação. nem contas a prestar. vale dizer. en­ sejado por fatores que não vêm. o representante do povo passou a ser representante da nação. se não cumprisse sua obrigação. é uma entidade imaterial. Antes da Revolução Francesa. o sufrágio universal. entidade espiritual que é o fundamento da soberania. pas­ sando a representação política a ter natureza institucional e não consensual. en­ tretanto. as doutrinas da soberania popular e da soberania nacional acabaram por se fundir. à balha. então. A res­ cisão da investidura do representante da nação não parte mais da vontade do elei­ tor. sendo a representação fundada na Constituição. em face do progressivo declínio dos parlamentos. segundo os interes­ ses permanentes e definidos da sociedade. seria impossível. os represen­ tantes da nação? Tais representantes serão escolhidos por aqueles que a nação de­ signar como eleitores. mas apura-se. percebe-se que a doutrina da soberania nacional originou. não sendo de todo falso afirmar que soberana não é a nação. nos termos. Então os representantes da nação serão eleitos pelo povo todo. É preciso. Quem escolherá. entretanto. adverte Siéyès. Como fazer valer a sua vontade? Diretamente. um munus. deve estar dirigido aos interesses permanentes da sociedade. é evidente que ela pode restringir ou ampliar o número de participantes do sufrágio. conforme institucionalizado em lei. mesmo porque. pelo qual o representante de cada estamento comparecia às reuniões apenas para formalizar a vontade de seus representados perante o gover­ no e. O destaque dc maior importância no raciocínio de Siéyès é que. mas uma oligarquia parlamentar. Já se vê que o representante da nação não tem instruções de seus eleitores a cumprir. Além disso.

a doutrina de Brezhnev foi. de imediato. Na verdade. mas não divide a soberania. Se o adjetivo “soberano” significa “supremo”. características que lhe são es­ senciais. uma reação contra a chamada Doutrina Truman. caracteriza­ da por uma tensão permanente entre os dois grandes blocos ideológicos vencedo­ res. por ocasião da invasão militar da Checoslováquia pelas tropas soviéticas. portanto. cada qual atuando. em face da ausência da coercibilidade. para evi­ tar a desintegração do império soviético. 55 e 56 da Constituição brasileira. podendo estes scr afastados do cargo pelos próprios elei­ tores. ainda em vigor. Só há um Direito: o Direito Positivo. pelo próprio Truman. como a da extinta União Soviética e. são recentes. É o que se constata. durante a chama­ da “Guerra Fria” conseqüência imediata da Segunda Guerra Mundial. na esfera de sua competência. mesmo. divulgada em mar­ ço de 1947.3) A doutrina da soberania limitada Trata-se de uma doutrina formulada pela União Soviética. três Poderes. este é criado por aquele. Vale notar que a soberania é una e indivisível. inerente à norma de direito positivo. criado e imposto pelo Estado. estatal. o eleitorado aos seus representantes. juridicamente. 53. no rí­ gido controle político dos Estados socialistas “satélites” da hoje extinta União So­ viética. buscando vincular. numa mes­ ma sociedade política? A indivisibilidade da soberania é corolário de sua unidade. no Congresso norte-americano. em verdade. 4. Não existe. como na célebre tripartição de Poderes que nos vem de Aristóteles a Montesquieu. e que se consagra na Constituição brasileira. portanto. concomitantemente. a soberania é una porque não pode existir mais de um poder soberano num mesmo Estado. para alguns. Em princípio. e que preconi­ zava a intervenção dos Estados Unidos naqueles Estados que. N ão há. há quem afirme que a soberania pertence ao próprio Estado. por exemplo. O Estado precede o Direito. mas três órgãos. 2°. o comunista soviético e o capitalista ocidental.56 Teoria Geral do Estado para os seus representantes. A ideia de soberania “limitada” foi afirmada pelo líder soviético Leonid Brezhnev em 1968. Como reação aos princípios da soberania nacional. perante o eleitorado. da leitura conjunta dos arts. como admitir duas entidades “soberanas”. a soberania pode ter por fundamento o povo (Rosseau) ou a nação (Siéyès). em poderes do Es­ tado. um direito natural e. o poder soberano delega atribuições. Constituições modernas volta­ ram-se para o mandato imperativo. art. reparte compe­ tências. um Direito Internacional. consistindo. que.3. embora desaparecidas. Depreen­ de-se disso que não há limitação ao poder do Estado. apoiando a política . que fruiriam de uma liberdade ou soberania meramente relativa. de forma soberana. Não há que falar. Assim fizeram algumas Constituições modernas. Como adverte Sahid Maluf. como o fazem Georg Jellinek e Hans Kelsen. “su­ perior”. basicamente. Se. a de Cuba. simplesmente.

sem considerar as conveniências sociais (Enciclopédia de la políti­ ca. manter a paz social. Acadêmica.4) Globalização e soberania O fenômeno da globalização da economia mundial se expressa na abertura dos mercados. O direito quântico. México. formando-se o pânico nas suas bol­ sas. O homem é um ser social. les j r kelsen. é imediatamente sancionado com a desinversão. estivessem ameaçados por minorias ativistas paramiiitares prósoviéticas. 1985.. Curso de teoria do Estado. no fortalecimento das empresas multinacionais. na eliminação de barreiras fiscais em favor deste. passando por um processo de integração paulatina denominado socialização. São Paulo. sociedade condicionante das demais e dotada de poder so­ berano. diga-se de passagem. então. emigrando cm busca de maior lu­ cro. a partir da célula familiar e o municí­ pio. o poder po­ lítico tem por missão principal ordenar a vida em sociedade. sal- Pedro. Goffredo. o homem não apenas age..4) Ordem jurídica Bibliografia: vetti n e t t o . especialmen­ te o especulativo. ed. a perda do controle de sua economia e criar alterna­ tivas independentes da especulação internacional. estas garantidas pelo Estado.3 0 Estado 57 norte-americana. Quando um Estado deixa de oferecer condições vantajosas para este capital. São Paulo. Em sociedade. sendo seu fundamen­ to. São Paulo. Teoria pura do direito. sendo disciplinado em suas relações de amizade. 1984. Disciplinando as relações jurídicas .3. Hans. mas tam­ bém interage. cortesia e. Conforme suas conveniências. na internacionalização da tecnologia e. 1939. Assim. que dispõem da economia mundial em favor de seus interesses. mesmo. Impossível evitar. escolhendo os Estados que adotará como fonte de renda. em suas relações jurídicas. no notável incremento do turismo internacional. Assim. 1997). 6. o próprio Estado. no fluxo internacional de capitais. move-se com espantosa rapidez e total liberdade. formando. em ques­ tão de segundos salta as fronteiras dos Estados. entretanto. o capital. t e l - . Saraiva. 4. nesta nova ordem econômica interna­ cional o capital criou sua própria “soberania” . ele alcança seus objetivos individuais e satisfaz sua tendência gregária. no livre comércio. Ao viver comunitariamente. Como observa Rodrigo Borja. forçoso reconhecer que o poder político dos Estados vem a ser superado pela planificação econômica das grandes empresas multinacionais. Fondo de Cultura Econômica. principal­ mente. M ax Limonad. Com efeito. 4.

dispensar a ordem jurídica. isto é. que denomina a pressão meramente psicológica. é preciso que existam normas que definam o que pode e o que não pode ser feito ou deixado de fazer. esqua­ dro. Viven­ do em sociedade. o Estado ordena a vida humana. principalmente. não poderão. orientar. em caso contrário eles próprios naufragariam na desordem e na insegurança. daí a analogia. Curiosamente. Alguns filósofos do Direito não admitem a existência da desordem. posto. nortear. imposto. jurídicas. Assim. oriente. rumo a seguir. Para que haja or­ dem. significava régua.58 Teoria Geral do Estado entre as pessoas. direito imposto. o mesmo ra­ dical sânscrito or. deve haver uma ordem imposta na vida em sociedade. reto. Daí direito positivo. com atenção. os homens poderão dispensar uma série de bens úteis. Es­ tas. das mais variadas naturezas. ficaremos impressionados. Não foi sem razão que Aristóteles. a vida em sociedade? Mediante a imposição de normas jurídicas. a desordem. Então. coativamente. o vocábulo norma. a desordem seria. mas não essenciais. Não houvesse ordem jurídica e teríamos o caos. “onde houver sociedade haverá direito” (ubi societas ibi jus). possibilidade do emprego da violência física (vis materialis). Veja-se que o termo norma traz. E como o Estado ordenaria. por exemplo. de origem latina. são dotadas de coercibilidade. o jus positum era o direito criado pelo Estado e. jamais. O vocábulo ordem traz consigo um radical antiquíssimo. Coercibilidade deriva de coerção. conferindo-lhe uma direção con­ sagrada por determinada concepção dc ordem. Mesmo os regimes políticos mais despóticos e injustos não podem deixar de se amparar num mínimo de legalidade. No direito romano. de caráter religioso e. norma es­ tatal dotada de cocrcibilidadc. ideológico. a legítima defesa. . já se disse. tão somente. ele sempre está presente cm ter­ mos análogos. ao contrário de coação (coatividadc). forma. Por isso. a sim­ ples ameaça. E o que é uma norma? Norma é uma diretriz de conduta socialmente estabelecida. por exemplo. restando evidente que a coerção somente pode ser exercida quando au­ torizada pela norma jurídica. entretanto. formar. como não poderia deixar dc ser. incerto. algo que é direito. e não sinuoso. Normas de polidez. de origem sânscrita: oryque significa diretriz. podendo ser definida como a unidade na multiplicidade ou a conveniente disposição de elementos para a realização de um fim. ordem implica a ideia de forma. pelo Estado. por exemplo. quantas normas. é uma diretriz dc con­ duta socialmente estabelecida pelo direito positivo. afirmou que. con­ tornar. positivo. vale dizer. conexos. cumprimos durante nosso cotidiano. pois sen­ do o conceito de ordem eminentemente subjetivo. encontrado na palavra ordem. violência corporal. Quanto à norma jurídica. para que alguém faça ou deixe de fazer algo. Se observarmos. uma ordem inconveniente. portan­ to. o grande filósofo da Antiguidade Clássica. de afeto.

e seu instinto pernicioso somente pode ser controlado por um poder político severo. formal. complementado o conceito de ordem. ordenadamente. que o homem é lobo do próprio homem (horno homini lupus). a or­ dem jurídica não é idêntica às demais estruturas. dc estrutura. toma forma de normas jurídicas. Uma lei. o artista. As normas jurídicas não sc acham soltas. direta ou indiretamente. por si só. no topo da qual se acha a Constituição. fornecido pela razão. um contrato. Assim. teremos. uma melodia pois. Pois bem. dispostas hierarquicamente. embora formando o elemento multiplicidade. parágrafos. mas não idêntica. Sim. contudo. ordenado. à disposição ordenada dos capítulos de um livro. Já se percebe que a ordem jurídica é uma estrutura. no seu livro célebre intitulado Leviatã. a fim de iniciar a pintura da paisagem que contempla. de força. Qual o fundamento desta ideia? Se abrirmos uma coletânea de legislação e a analisarmos detidamente. am­ parado numa ordem jurídica férrea. A ordem jurídica é uma estrutura. um preâmbulo. isto sim. a ordem jurídica é uma es­ trutura análoga a uma estrutura musical ou plástica. Mas é preciso que haja outro elemento neste conceito. a unidade. enfatizava. vere­ mos que ela apresenta uma estrutura. As normas jurídicas de uma ordem jurídica não estão no mes­ mo plano de eficácia. o inglês Thomas Hobbes. iso­ ladas umas das outras. integra o conceito de ordem. mas sim de modo organizado. O que vem a ser. Essas tintas estão em desali­ nho. umas dependem de outras. com os demais. uma ordem que pareceu conveniente ao le­ gislador. Vejam a paleta na qual um pintor derrama suas tintas. Várias notas musicais emi­ tidas ao léu não formam. todas as normas jurídicas de uma ordem jurídica consistem no elemento multiplicidade. vale dizer. uma característica sui generis: a hierarquia entre as normas. Desta derivam todas as demais normas.3 0 Estado 59 Um dos maiores teóricos do absolutismo monárquico. contendo epígrafe. e não mera soma de partes simplesmente justapostas. Ora. uma estrutura? É uma dispo­ sição harmoniosa das partes para a realização do todo. Cada um dos dispositivos se relaciona. Ela possui. Esta ordem se formaliza. a ordem jurídica bem se assemelha às notas de uma melodia. O complexo de normas ju­ rídicas em vigor numa sociedade não sc acha disposto mecanicamente. convenientemente. formam uma multiplicidade que não satisfaz. qual seja. sem­ . portanto. a distingue das outras: a hierarquia entre suas partes (normas) integrantes. entretanto. pois possui uma característica que lhe é essencial e que. Foram Hans Kelsen e Adolf Merkel que interpretaram a ordem jurídica como uma pirâmide escalonada. sem dúvida. na tela em branco. estão. um conjunto harmônico. o ser humano é perverso por índole. tudo disposto harmoniosamente. como vimos. orgânico. em desconexão. sob o im­ pério da Constituição. que. necessariamente. uma sentença judicial somente são válidos se esti­ verem em conformidade com os demais diplomas legais. Inicialmente. incisos e alí­ neas. Uma norma só é válida se não conflitar com a ordem jurídica da qual faz parte. Mas quando elas forem dispostas. carecem de unidade até que o compositor lhes dê uma dis­ posição estética conveniente. umas complementam outras.

As normas jurídicas criadas pelo Estado são incontrastáveis. O conjunto de todas as normas jurídicas no Estado chama-se. isto é. como última fonte. p. uma ordem. de compreender que as diversas normas da moral já se acham compreendidas numa nor­ ma básica. os contra­ tos e os atos administrativos. de evidência imediata. por isso. enfim. Trata-se. Assim. a Constituição não pode ser ferida por uma lei ordi­ nária. o Código Civil. procedendo a uma dedução do geral para o parti­ cular. E as normas obtêm esta qualificação concreta pelo fato de estarem relacionadas com uma norma funda­ mental. a unida­ de da pluralidade de todas as normas que constituem uma ordem. As normas da primeira valem por si. 60-1) sintetiza seu pensamento a respeito: O Direito. São desta espécie as normas da moral. então. Essa norma fundamental constitui. “deves au­ xiliar o teu próximo em caso de necessidade” etc. Numa passagem de grande vigor intelectual e de cla­ reza. “deves cumprir tuas promessas” etc. a cujo conteúdo está submetido o conteúdo das normas constitutivas da or­ dem em questão. Essas normas jurídicas. Conforme a espécie de norma fundamental. quer dizer. é preciso fazer uma distinção: somente a Cons­ . a conduta por elas prescrita ao homem impõe-se pelo seu conteúdo. nem um decreto regulamentar pode dispor de modo contrário à lei que ele próprio está regulamentando. como o particular se subsume ao geral. posto. o qual possui uma determinada qualidade. somente limita­ das por outra norma estatal. qual é a norma fundamental de um determinado sistema de moral. aqui.a ordem jurídica . que lhes confere essa validade. cuja fonte é o Estado. da mesma maneira que o particular está contido no geral e que. da norma fundamental. são normas de direito objetivo a Constituição. podemos distinguir duas espécies de ordem (sistemas normativos). na verdade. um sistema. o direito impositivo. formam um todo denominado direito positivo. Suponha­ mos a seguinte norma fundamental: “deves amar o próximo”. con­ forme a natureza do princípio de validade. E a primeira pergunta a que é preciso responder. se a sua validade puder ser referida a uma norma única como último funda­ mento dessa validade. podemos referir-lhe uma enorme quantidade de normas derivadas: “não deves prejudicar os outros”. é porque a sua validade pode ser referida à nor­ ma fundamental dessa ordem. Não nos interessa saber. formula-a a Teoria Pura do Direito pela maneira seguinte: o que é que estabelece a unidade de uma pluralidade de nor­ mas jurídicas? Por que razão uma determinada norma jurídica pertence a um certo sis­ tema dc Direito? Uma pluralidade dc normas constitui uma unidade. “não deves enganar”. Porém. derivam da norma fundamental da veracidade. Direito objetivo é o conjunto de todas as normas jurídicas em vigor no Estado.é um sistema de normas jurídicas. imposto. Por exemplo. mediante uma opera­ ção lógica. direi­ to objetivo. isto é. Hans Kelsen (1939. todas as normas particulares da moral podem fazer-se derivar.60 Teoria Geral do Estado pre hierarquicamente. como ordem . E se uma norma pertence a uma determinada ordem. as normas “não deves mentir”.

É uma coisa valiosa.. A santidade tem va­ lor. O futuro do Estado. Os direitos sociais nas constituições. 1859. São Paulo. Saraiva. Neste sentido. m o n t e s q u i e u . Dalmo dc Abreu. um ideal mais alto do que os ou­ tros ideais. 1979. . 1981. São Paulo. Ci. São Paulo. - verger . Uma coisa não pode ser um va­ lor. mas somente para quem vê nela um ideal de vida. Moderna. Saraiva. a santidade é um bem de valor. São Paulo. A santidade (ou o santo). souza . São Paulo. O mani­ festo Comunista de Marx e Engels. salvetti n e t t o . Paris. vres completes. P. a não ser que se falsifique o senti­ do da palavra valor. M ax Limonad. Armênio Amado. Teoria pura do direito. Coimbra. não designa a essência e a existência de coisas. Pierre. Não se pode dar a uma coisa o nome de valor. Mauricc. A democracia possível. Ela e um bem. O. Igual­ mente. Nem mesmo seres ideais podem ser valores. Que é valor? É a importância que se atribui a um bem. São Paulo. Q uando dizemos os valores estão no cofre. ed. 1980. Zahar. José Pedro Galjr vão de.5) Causa final: o bem comum Bibliografia: m oncada b ig o . ed. Os regimes políticos. 1982. não e um valor. . o Código Penal e outras leis oriundas do Estado formam o direito positivo. c a b r a i. por exemplo. porque se impõem a todas as outras. Paulo kelsen. ed. Braga. o Código Civil. 1949. Sucessor.s do. Todas as normas jurídicas são de direito objetivo. Oeli­ Encíclica Quadragésimo Anno.. O direito quãntico.. Saraiva. São Paulo. 4. Curso de teoria do Estado. Manoel Gonçalves. . São Paulo. C. . Harold J. em seu sentido pró­ prio. Coimbra.f. São Paulo. 4. sendo necessário que se lhes atribua um valor. As coisas não constituem bens em si mesmas. 1985. du 1963. Sucessor. Luís. 11. Rio de Janeiro.3 0 Estado 61 tituição. Afirmar que a san­ tidade é um valor e o mesmo que afirmar que uma joia e um valor. Goffre- Bem é tudo o que seja objeto do desejo humano. É um bem a que se atribui valor. São Paulo. A doutrina social da Igreja. o que realmente queremos dizer é que os bens de valor estão no cofre. . 1978. Difusão Européia do Livro. Mas uma joia não é um valor. 1981. df. 1946. mas somente as normas jurídicas provenientes do Estado são normas de direito positivo. Hachette. t e l i . ed. 3. 6. São Paulo. a palavra valor quando empregada corretamente. ru it e n p io x i. Problemas de filosofia política. Hans. g a l v Ão f e r r e ir a f il h o e Curso de direito constitucional. . Mas não é um valor em si. 1969. 1966. d a l l a r i. Armênio Amado. Rerum Novarum e Quadragésimo Anno. 1981. Conceito e natureza da sociedade política. A doutrina social da igreja segundo as encíclicas Pedro. l a s k i.. elucida o professor GoffredoTclles Júnior: De fato. 1979.

a valoração dos bens varia no tempo e 110 espaço. a visão limitada do individualismo. adota uma tábua de valores c. doutrina que.1) 0 liberalism o e 0 bem com um Absoluta e unanimemente. Há uma liberdade de tempos de guerra que não é. a liberdade e a iniciativa individuais. houve época. então. Estávamos. a mera conservação da ordem social. caso contrário cairíamos no totalitarismo. sem ferir. em que o bem comum foi definido como a ordem jurídica. alterando-se conforme o ensejarem novas circunstâncias.5. como sinônimo de paz social. em diferentes épocas. contudo. nem sempre tal finalidade é alcançada. embora seja. puro instrumento de um todo. o preço a ser pago por essa superação é de tornar cada ser humano mera parcela do todo so­ cial. uma liberdade de tempos de paz. como o próprio nome revela. O Estado não é mais do que um meio de realização do bem comum. Os valores sociais têm uma existência histórica. e para tanto deve atuar inci­ sivamente. evi­ dentemente. todos os sistemas políticos se declaram adeptos da liberdade individual. ele varia com o tempo. que nem sempre a ordem jurídica é justa. tida como o conjunto dos valores sociais. desta formulação. consubstanciado 11a ideia de justo. Sim. . em pleno apogeu do Século das Luzes. pois. se a concepção totalitária de bem co­ mum supera. Enormes divergências entre os homens residem. há uma liberdade de época de fartura que não é. concebe e ado­ ta as normas jurídicas c morais. não são perpétuos nem imutáveis numa mesma socieda­ de. absolutamente. Infelizmente. então. perío­ do de esplendor do Iluminismo. justa ou injusta. bem comum era. e também do individualismo e do cidadão abstrato. Não é difícil depreender. necessariamente. pois. A norma jurídica.62 Teoria Geral do Estado Ora. confunde-se com a concepção do que é justo em determinada sociedade. mostrando-se o reto caminho das luzes da razão. o conceito de liberdade não é unívoco. nem por isso a norma jurídica. 4. quando o intelecto valora um fato. Cada sociedade. Causa final da sociedade política. Conclui-se dessa breve digressão introdutória que o conceito de bem comum varia no tempo e no espaço. mais precisamen­ te o século XVIII. Embora a ordem jurídica tenha por objetivo final o bem comum. 11a disparidade das interpretações da liberdade. legal. pre­ tendeu libertar o homem “das trevas da superstição medieval”. deixa de ser legal. A norma jurídica não se origina apenas do fato e da inteligência. mesmo porque. A moral social. que culminaria na Revolução Francesa. Tal concepção chama-se con­ senso social. na oportunidade. essencial­ mente legal. A ideia de justo ou de legitimidade de uma ordem jurídica fundamenta-se no consenso social. a mesma liberdade de tempos de escassez. inquestionavelmente. o faz com fundamento nos valores adotados pela comunidade. somente será legítima se estiver conforme o consenso social. com certeza. enquanto válida. Por outro lado. o bem comum deve ter como objetivo a plena realização espiritual e física do homem. Foi aquele o século do racionalismo.

a renúncia à liberdade c. prossegue. O equilíbrio entre ambos ainda não foi alcançado: ora predomina um. faz o que deseja. em qualquer sociedade dotada de leis. a fim de impedir que a liberdade dos fracos seja sufocada pela liberdade de uma minoria. Cada homem denomina liberdade ao governo que mais sc ajusta aos seus costumes e inclinações pessoais. ademais e a todos. é mais freqüente que a coloquem os povos na república. aparentemente. com isso. os motivos de seus males. o Estado lhe possa de­ terminar outras restrições senão aquelas necessárias à proteção da liberdade de to­ dos. se cada um dc nós pudesse fazer o que as leis proíbem. como nas democracias o povo tem mais facilidade para fazer quase tudo o que deseja. É preciso distinguir. sempre. a liberdade consiste em po­ der fazer o que se deve querer e em não ser obrigado a fazer o que não se deve que­ rer. Afirma. Em qualquer Estado. que a vida do gênero humano gira. Hans Kelsen. posição esta reformulada mais tarde. a liberdade será inatingível até que a paixão da igualdade seja satisfeita. acuradamente. a suprema liberdade. um nível de vida que ofereça um mí­ nimo de decência aos menos favorecidos. Tal postura revela bem a intervenção do poder político no domínio econômico-cultural. proporcionando. liberdade e igualdade. sua concep­ ção de liberdade. intelectual ou moral. e. porém. a essência da liberdade também está longe de ser revelada. redefinindo-a em forte matiz socialista. entre independência c liberdade. ainda. na prática. não significa fazer o que se quer. para alguns. ora outro.3 0 Estado 63 Aquilo que para uns é liberdade. que não há palavra que te­ nha mais acepções e que tenha tanto impressionado os espíritos como a palavra li­ berdade. No campo da doutrina. sem que. afirma que as duas ideias essenciais da democracia. colocou a liberdade nos governos democráticos e confundiu o poder do povo com a sua liberdade. o povo. defi­ nia a liberdade como o poder que pertence ao indivíduo de exercer e desenvolver sua atividade física. Silva Telles. Ainda assim. criador da célebre teoria pura do direito. porque naquela não têm. quando passou a ver na li­ berdade política uma autodeterminação conseguida pela participação do indivíduo na criação da ordem social. Outro eminente publicista francês. Duguit mudaria. Léon Duguit. são dois conceitos que. por sua vez. porque todos teriam o mesmo poder. Aliás. publicista pátrio. A liberdade é o direito de fazer o que as leis permitem. não haveria mais liberdade. mais tarde. porém.possibilita o desenvolvimento das . nas democracias. Georg Jellinek afirmou. definiu.prossegue . perpetuamente. se hos­ tilizam e se excluem. Observa. que é verdade que. o grande Montesquieu. A liberdade . assim como foram apresen­ tadas pelos pensadores da era do lluminismo e assim como se desenvolveram na teoria política das ideologias modernas. num primeiro momento de sua vida. declarando que cada vez mais o Estado faz penetrar em seu ordenamento jurídico o elemento socialista. A liberdade política. em torno de dois valo­ res: indivíduo e coletividade. não a percebendo nas monarquias. diante de seus olhos. a exemplo de Kelsen. para outros é exatamente o oposto desta. a liberdade como a ausência de quaisquer laços obrigatórios para o indivíduo. Já para Harold Laski. Afinal.

a imensa mi­ séria das massas operárias entre os anos de 30 a 50 desse século. o seu espírito de lucro insaciável. a liberdade opri­ me e a lei liberta”. O resultado de certa concepção dc liberdade. no dizer de Herculano. Não é à toa que o individualismo excessivo acarreta males gravíssimos para a vida em sociedade. e estes. e estes. Crítica bem posta. as depressões econômicas. então. as regulamentações artificiais do mercado pelos trusts c grandes monopólios. afinal a mais forte paixão da democracia. de Bossuct. liberdade de reunião etc. na realida­ de. Era preciso deslocar ago­ ra o acento tônico da ideia de liberdade para outro elemento.a outra irmã gêmea da liberdade e. costumava dizer: “A liberdade é um bem tão precio­ so que deve ser racionada”. Ou esta outra: “Entre o fraco e o forte. criarão condições em que alguns poucos do­ minarão os muitos. a democracia viu-se obrigada a procurar uma ideia nova que lhe servisse de base. pois as liberdades dos indivíduos não podem ser tomadas isoladamente e colocadas uma ao lado de outra. quanto mais procura impor a justiça igualitária. . como antes se fizera com a de liberdade. Claro que existem várias espécies no gênero liberdade: liberdade política. enfim. a baixa constante dos salários a um nível incom­ patível com toda a dignidade da vida humana. não de pura teoria. o Estado intervém para nivelar as condições de vida. Tudo conseqüência do individualismo econômico apoiado no seu poderoso aliado. deixarão de ter a liberdade apregoada. das máquinas da indústria algodoeira em Inglaterra. o trabalho desumano das mulheres c das crianças nas fábricas. o desemprego das multidões proletá­ rias. liberdade econômica. dotados de inclinações diversas e deixando-se plasmar por perspectivas diferentes. com a destruição. Para se defender destas conseqüências. a superprodução. era a da igualdade . li­ berdade pessoal. mas de verdade. a própria afirmação de que a liberdade de cada um termina onde começa a de outro é inaceitável. o grande revolucionário inspirador da re­ volução socialista da Rússia. E a ideia nova para a qual ficava agora aberto o caminho. o dia de trabalho das doze c mais horas sem limite. é a desigualdade econômica. como esta: “O Estado que quisemos fraco demais para não nos oprimir foi também fraco demais para nos defender”. dominados. propiciando tiradas muito bem postas. que era preciso também hipostasiar e sublimar. cm preciosa síntese: São conhecidos os excessos a que conduziu o liberalismo econômico e político. acham-se entrelaçadas e necessariamente inseridas no meio social. o liberalismo político da democracia reinante. Lenin. por vingança. liberdade religiosa. Mas ago­ ra uma igualdade. consciente e esclarecedora é a formulada pelo eminente jurisfilósofo Cabral de Moncada.64 Teoria Geral do Estado diferenças entre os homens. até suprimi-la de vez. Dian­ te da pressão social. de Lacordaire. uma vez que. justamente pelos meados do século X IX : o egoísmo desenfreado dos chefes de empre­ sa. mais reduz a liberdade. Para Dallari. ofende a liberdade dc alguns ou dc muitos c. interfe­ rindo.

com Royer-Collard. a liberdade apregoada pelo liberalismo era uma liberdade sem pers­ pectivas. que a liberdade política . ou até de um povo inteiro. a tratada neste ca­ pítulo . sem fundamento na própria natureza humana. de sua cooperação e participa­ ção direta ou indireta. ainda. contudo. Tal liberdade era. com esta. Já se disse até. condições propícias para o aparecimento dos totalitarismos e do socialismo exacerbado. ao dizer: a liberdade começa com a vi­ gência dc leis registradas do Estado em que se desenvolve. Com frequência um indivíduo muito rico ou um poderoso grupo econômico reduz seriamente a liberdade de muitos indivíduos. E à liberdade po­ lítica que o filósofo Karl Jaspers se refere. a vida em sociedade. por meio da dominação econômica. Já percebe o leitor a dificuldade existente na formulação de um conceito uni­ forme de liberdade. Por esse motivo entendia-se que bastava impedir a interferên­ cia do poder público para que os indivíduos fossem livres. impõe restrições aos possíveis excessos das liberdades civis e políticas. não se pode colocar . por intermédio de representantes periodicamente substituídos em eleições livres e sinceras. no século XVII a afirmação da necessidade de liberdade foi feita em favor dos que já eram dotados de poder econômico.que foi. Nas sociedades indus­ triais do fim deste século X X .é a mais ampla de todas e que. da autoridade). prossegue o autor citado. Reagindo contra o absolutismo monárquico (deturpação do exercício legíti­ mo do poder e. um fim em si própria.definiu a liberdade como o direito de fazer aquilo que as leis permitem. Referi­ do Estado é aquele em que as leis não podem ter vigência nem ser modificadas se­ não por via legal. portanto. Por outro lado. ela pres­ supõe sempre uma razão que a justifica. um interesse mais incisivo do leitor. ipso facto. transformado este em mero fiscal da manutenção da ordem pú­ blica. compreende muitas liberdades.3 0 Estado 65 É inegável. exaltando o indivíduo em detrimento do social. a Revolução Francesa destruiu o concei­ to tradicional dc poder político. despertando. ser a liberdade a coragem de resistir. enquanto os desajustes econômicos se agravavam. em razão disso. e não um meio para o aperfei­ çoamento do homem. Em razão disso. a formação de um capitalismo monstruoso e a proletarização dos produtores.. Não foi sem fundamento que Montesquieu . Esta via legal depende do povo. Como acentua com muita clareza Dalmo de Abreu Dallari. paradoxalmente. o principal inimigo da liberdade individual nem sempre é o Poder Público. pois colocava o indivíduo contra o Estado.. Na verdade. todas estas. porém.corifeu do liberalis­ mo . havendo mesmo inú­ meros casos em que o Poder Público se vê subjugado e inteiramente controlado por grupos econômicos. A concepção de liberdade do liberalismo acabou por se autodestruir. válido para todas as épocas e todos os lugares. ine­ rente à natureza do homem. Esta liberdade se chama liberdade política e o Estado em que ela existe se chama Estado dc Direito. O exces­ so de livre-concorrência gerou a exploração dos fracos pelos fortes e. A liberdade não é o valor supremo da vida humana. até agora.

e este pressupõe a sociedade. não existe juridicamente. A mera legalidade. é preciso que a convivência. ao sustentar que o melhor meio de realizar a felicidade do homem é do­ tá-lo da maior liberdade possível. cedeu espaço ao moderno Estado de justiça. Referidos direitos transcenderiam a própria lei escrita. Além disso. o liberalismo fez da liberdade ilimitada o valor supremo do ideal de­ mocrático. que a liberdade é um valor destinado a oferecer seus benefícios apenas de quando em vez. porém. o direito só frutifica no relacionamento humano. dando ênfase à igualdade e restringindo os ex­ cessos da liberdade. ao passo que as vantagens da igualdade brilham. as desigualdades so­ ciais. uma série de pro­ vidências por parte do Estado. à luz de três metas políticas. vale dizer. com muita proprie­ dade. antever a possibilidade . Por isso. Por outro lado. Alexis de Tocqueville já previra. seriam direitos abso­ lutos que o Estado deveria reconhecer e preservar.2) C oncepção social do bem com um Os erros do liberalismo acarretaram. Por outro lado. de que a finalidade do Direito Objetivo não seria mais do que realizar a coexistência dos Direitos Sub­ jetivos. é necessário corrigir o sentido egoísta da liberdade individual. o homem seria dotado dc direitos imprescritíveis. adverte. direitos estes ditados pela própria natureza. o ho­ mem isolado é mera abstração. por isso na­ turais. acen­ tuando as desigualdades naturais e. bus­ ca reequilibrar a vida em sociedade. a concepção eminentemente individualista da sociedade ensejaria a própria eliminação dos mais fracos pelos mais fortes. atuante e intervencionista. sendo o Estado mero coordenador desta liberda­ de.66 Teoria Geral do Estado o controle do Poder Público de um Estado como necessário e suficiente para garan­ tir a liberdade dc todos os indivíduos. embora tardiamente.5. se tornou um organismo dinâmico. de mero espectador do drama humano que sua passividade havia desencadeado. diuturnamente. apanágio da liberal-democracia. que. partindo da premissa de Emmanuel Kant. Muitas vezes é indispensável o fortalecimen­ to do Poder Público para impedir que os economicamente fortes reduzam a liber­ dade dos economicamente fracos e estabeleçam uma profunda desigualdade entre os indivíduos. Seria trágico. ou seja. Enfim. a experiência tem demonstrado que a simples declaração dc que todos são livres torna-se completamente inútil sc apenas alguns puderem viver com liberdade. a repartição dos bens e o acesso aos benefícios da vida social não permitam grandes desníveis. por via de conseqüência. restringindo-se a limitar a liberdade dc cada um ao mínimo exi­ gido pela sociedade. Com efeito. 4. que. porque despojado de di­ reitos e deveres. anteriores ao surgimen­ to da própria sociedade. o liberalismo consagrou a escola clássica do Direito Natural. Ademais. com esplendor incomparável. Os seguidores dessa escola não levaram em conta que o direito tem seu fundamento na própria sociedade. finaliza. Se todos os homens são livres e iguais e se os homens não vi­ vem isolados uns dos outros. jurídica e social.

A concepção secularmente arraigada do elemento político tor­ na-se menos importante que o elemento econômico. Quando o Welfare State substituiu o État gendarme. começa a substituir a figura do estadista convencional. sendo acolhida. O caráter essencialmente técnico de muitas decisões e a inconveniência do debate público. Mesmo nos Estados Unidos da América. o Estado iniciou a sua atividade interveniente na vida econômica dos indivíduos.3 0 Estado 67 de efetivação de uma sociedade estandardizada. hoje. que se batia tenazmen­ te pela unidade c unicidade do poder estatal. triunfante. esta última alternativa. baluarte na luta contra a concentração do poder num órgão apenas. O Executivo. dava aos chefes de indústria o poder real. bem como de Locke e. tornou-se mais atual do que nunca. a democracia passou a ser muito mais atraente quando adjetivada dc social. em busca do bem-estar social. mais do que os outros. A própria doutrina da tripartição dc Poderes. hoje freqüentíssima e inevitável. definitivamente sistematizada por Montesquieu. órgão capaz de decisões mais rápidas. O reforço do Poder Executivo é. então. Percebeu-se que o Estado deve. foram substancialmente ampliadas. podia dar-se ao luxo de cometer seus erros ao abrigo de suas riquezas. Por outro lado. conduziram os parlamentos ao dilema de paralisar sua atividade ou delegar pode­ res. sofreu um abalo mui­ to grande com o desenvolvimento da tecnologia. depois. passou a ter. como a criação e a gerência de serviços assistenciais. Todos os governos procuram adaptar-se às novas circunstâncias sociais. É inegável que o valor igualdade atrai. preeminência notável. de sua competência. numa comunidade em que o liberalismo econômico. isolado dos demais povos. é claro. êmulo do executivo das empresas privadas. na qual todos vivessem e pensas­ sem da mesma forma. hoje mais . Fruto disso é a delegação legislativa. dos quais não necessitava intensamente. Como acentua Silveira Neto. sentiram os reflexos dos novos tempos. O crítico mais mordaz do princípio da tripartição dc poderes. hoje. sob o acicate de um poder irrestrito. como acentua Duverger. na ânsia dc correção dos desajustes sociais. universal. Os Estados em desenvolvimento. foi colocada em questão no Estado contemporâneo. muito mais do que o valor liber­ dade. Tal doutrina. O adjetivo social tornou-se uma palavra mágica. outras. como bem frisa Ferreira Filho. Mareei dc La Bignc de Villcncuvc. pertinente a certos assuntos. o mundo nor­ te-americano. Novas tarefas ingressaram em sua esfera de ação. veio bruscamen­ te à luz: o sistema governamental norte-americano pareceu não estar mais à altu­ ra das novas tarefas político-econômicas. Durante anos o talento de Roosevelt ocultou um mal que. com sua morte. em razão de sua própria estrutura. o interven­ cionismo estatal foi ignorado durante um século e meio porque o Estado represen­ tava um papel secundário. A ideia do governante supergerente. adverte Manoel Gonçalves Ferreira Filho. oriunda dc Aristóteles e de Cícero. ás ocultas ou ãs escancaras. o uso dos computadores revolucionou a administração moderna. se o uso da pólvora liquidou o sistema das guerras medievais.

só atinge seus fins quando logra realizar o bem-estar da comunidade. 135 a 155. que dispunha sobre a ordem econômica nos arts. o fator econômico motivou a hipertrofia do Estado moderno. 136 dispunha o seguinte: Art. E regime muito mais de conteúdo que de forma. se­ guida pela Constituição de 10. com ou sem vontade.68 Teoria Geral do Estado do que nunca. as profundas alterações ocorridas nas estrutu­ ras sociais motivaram a revisão do conceito de democracia e de representação.09. com o título “Da Ordem Econômica e Social” (arts. além de definir e aplicar uma política exterior e manter um exército formidável. dc outro. O governo democrático. A Constituição Federal de 18. exercido nos limites do bem público. Logo após a Primeira Grande Guerra. 145 a 162. A intervenção do Estado no domínio econômico só se legitima para suprir as deficiências da iniciativa individual e coordenar os fatores da produção. nos tempos atuais. com seus problemas e sentimentos. e este. sur­ ge o homem concreto. de maneira a evitar ou resolver os seus conflitos e introduzir no jogo das competições in­ dividuais o pensamento dos interesses da Nação. sendo a seguinte a redação do art. na vida econômica e social. Em tal diapasâo. constitui um bem que é dever do Estado proteger. Na iniciativa individual. no poder de criação. à liberdade agregou-se a igualdade. dc organização e de in­ venção do indivíduo. surgem em nossa Lei Magna de 1934 dispositivos referen­ tes à matéria.1946 dispunha sobre o assunto nos arts. 136. A Constituição mexicana de 1917 e a Constituição de Weimar em 1919 pre­ viram direitos sociais. como meio de subsistência do in­ divíduo. técnico e manual tem direito a proteção e solicitude especiais do Estado. A todos é garantido o direito de subsistir mediante o seu trabalho honesto. livre por excelência. Por sua vez. numa autolimitação do poder do Estado que evocava para si deveres públicos subjetivos.1937. 135. intervir. assegurando-lhe condições favoráveis c meios dc defesa. 115 e 143). funda-se a riqueza c a pros­ peridade nacional. Como acentua Salvetti Netto. afirma Salvetti Netto. Em oposição ao cidadão abstrato. a liberdade continua a ser valor transcendente do ideal democrático. o homem do cotidiano. 135: Art. tutelados nas mais avançadas Constituições da época.11. assim: . representados pelo Estado. O trabalho é um dever social. De um lado. o art. O trabalho intelectual. surgem os direitos sociais. o operário. também sob o título “Da Ordem Econômica e Social”.

[grifo nosso] A Constituição brasileira de 24. 160 a 174. II .a dignidade da pessoa humana. conciliando a liberdade de iniciativa com a valorização do trabalho hu­ mano.e 170). promulgada em 05. estabelecia.1967. 3o. demonstra re­ dobrada preocupação com a questão social.10.3 0 Estado 69 Art. Assim: Art.1988. caracterizado pelo domínio dos mercados. [grifo nosso] A Constituição Federal vigente. justa c solidária.repressão ao abuso do poder econômico. com base nos seguintes princípios: I .01. IV . a eliminação da concorrência c o aumento arbitrário dos lucros. A ordem econômica deve ser organizada conforme os princípios da justiça social. 145. Parágrafo único. 3° Constituem objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil: I . I o. c VI .1969. em seus arts.expansão das oportunidades dc emprego produtivo.10.erradicar a pobreza e a marginalização e reduzir as desigualdades sociais e regionais. formada pela união indissolúvel dos Estados e Municípios e do Distrito Federal. III . constitui-se em Estado Democrático de Di­ reito e tem como fundamentos: III . IV . como se depreende de vários de seus dispositivos (arts. II . a respeito da ordem econômi­ ca e socialydispondo o art. sem preconceitos de origem. . O trabalho e obrigação social. V . 160. III e IV. 6o . 1. sexo. IV .construir uma sociedade livre. ida­ de e quaisquer outras formas de discriminação. raça.promover o bem de todos. I o A República Federativa do Brasil.função social da propriedade. A ordem econômica e social tem por fim realizar o desenvolvimento nacional e a justiça social. A todos ó assegurado trabalho que possibilite existência digna. Art. 160 o seguinte: Art. cor. III . com a Emenda Constitucional n.os valores sociais do trabalho e da livre iniciativa.harmonia e solidariedade entre as categorias sociais de produção.direitos sociais .garantir o desenvolvimento nacional. de 17.liberdade de iniciativa.valorização do trabalho como condição da dignidade humana.

cumpre fazer algumas observações sobre o conceito dc justiça. fundada na valorização do trabalho humano e na livre iniciativa.livre-concorrência. preocupada com questão social. Do latim justitia. meio e fim. A indevida repetição desse conceito terminou por desgastá-lo. III .busca do pleno emprego. dessa forma. como a Constitui­ ção de Weimar e a Carta do Trabalho da Itália fascista. jus). respectivamente. Vimos como as Constituições brasileiras de 1934 e 1937 trataram do proble­ ma. a justiça foi defi­ nida por Ulpiano assim: “Justitia est constans et perpetua voluntas jus suum cuique tribuendr. tem por fim assegurar a todos existência digna. a assistência aos desam­ parados. emendada em 1969. Art. Divul­ gada principalmente pela doutrina social da Igreja. ela é bastante di­ vergente. o desenvolvimento nacional e a justiça social devem ser considerados. 6° São direitos sociais a educação. IV .redução das desigualdades regionais e sociais. observados os seguintes princípios: I . sofrendo o influxo de vários diplomas legais estrangeiros. Vale assinalar que. Que vem a ser justiça social? Eis uma expressão de difícil delimitação.defesa do meio ambiente. VII . a saúde.tratamento favorecido para as empresas brasileiras de capital nacional de pequeno porte. a segurança. dc justus (de acordo com o direito. na forma desta Constituição. buscan­ do assegurar. o trabalho. houve uma tendência mais acentuada para acrescentar ao texto político fundamental os princípios destinados a reger o campo econômico-social. A ordem econômica. A Constituição de 1967. VI . exceção feita à Constituição mexicana de 1917. conforme os ditames da justiça social. por meio do plano econômico e social. Por outro lado. porém um meio de se alcançar a justiça social. mesmo nesta. 170 da Constituição em vigor. parece defender o princípio de que a democracia não pode de­ senvolver-se. Até a eclosão da Primeira Grande Guerra. embora situadas em pé de igualdade no caput do art. Somente com a Constituição de Weimar de 1919 e a Constituição espanhola de 1931. trans­ . a menos que a organização econômica lhe seja propícia. as Constituições dos diversos Es­ tados só se preocuparam com a organização política. o desenvolvimento nacional não deve ser um fim em si mesmo.70 Teoria Geral do Estado Art. V .soberania nacional. o desenvolvimen­ to e a segurança das próprias instituições políticas.propriedade privada. a previdência social.defesa do consumidor. a proteção à maternidade e à infância. IX .função social da propriedade. 170. II . VIII . o lazer.

Platão compara o Estado a um ser humano e. pois. afirma que os homens são naturalmente de­ siguais. como a liberdade o foi por ocasião da Revolução Francesa. exigindo paridade entre o dano e a reparação. recompen­ sas. respectivamente. pois deveria fornecer um critério para dizer qual “seu” devemos dar a cada um. a aplicação de recursos da coletividade etc. A concepção de justiça varia com as ideologias predomi­ nantes em cada momento histórico. o valor predominante é a igual­ dade. a representação abstrata do estado de pleno equilíbrio da vida social. cargos e funções. equiparadora. concebia a justiça como um princípio que impunha de­ terminada estrutura social. tendo como pressuposto um valor. enfim. cabendo aos filósofos o papel de cérebro da sociedade. divide a justiça em espécies: distributiva. A verdade é que. visto que a distribuição deve ter como referencial o mérito de seus destinatários. de governo. desde logo.3 0 Estado 71 formando-se na fórmula: “A justiça consiste em dar a cada um o que é seu”. A justiça distributiva preconiza a distribuição das benesses sociais entre os membros da comu­ nidade. a assistência social ao ho­ mem da cidade ou do campo. seria preciso sa­ ber. observada uma igualdade proporcional. a justiça é a ideia. inafastável. A justiça co­ municativa leva em conta as relações contratuais entre as pessoas. Em nosso entender. a segurança e o abastecimento do Estado. os órgãos sociais devem restringir-se a suas atribuições impostas pela natureza. o elegante princípio de Ulpiano não resolve o problema. Aos militares e operários. pelo qual a comunidade distribui. Ora. delineando as premissas do moderno organicismo. ora na igual­ dade. Aristóteles. Ora. Platão. A justiça equiparadora leva em conta o intercâmbio dos bens. por exemplo. Qual o “seu” de cada um. respectivamente. A justiça ju­ dicial é aquela dada pelo juiz. observada uma igualdade proporcional ou relativa. pulmões e estômago da sociedade. modernamente. discípulo dc Platão. será em Aristóteles que vamos encontrar o moderno sig­ nificado da justiça social. Não resta dúvida de que. Os ins­ . pre­ conizando a exata correspondência entre a coisa dada e a recebida. o que pertence a cada um. determinando a cada homem que se limitasse a fazer o que lhe fosse atribuído. sendo a justiça uma ideia de har­ monia e unidade. com cada um de seus membros. o cri­ me e a pena a este cominada. As­ sim. porém? Para se poder dar a cada um o seu. Princípio regulador das relações entre a comunidade e seus membros. comutativa e judicial. Flóscolo da Nóbrega. Como assevera J. se o ideal do justo nasceu com a própria humanidade. como o corpo humano. estabelecendo a equivalência entre o que se dá e o que se recebe como compensação. honras. embora possa voltar a sê-lo no futuro. ca­ beriam. os bens. a revelação da essência desse ideal ainda não ocorreu. a ideia dc justiça varia constantemente: o que era justo para os antigos talvez não o seja para nós. ora se assentando na liberdade. Essa divisão de classes e funções deve ser rígida. o princípio da justiça distributiva disciplina a fixação dos impostos. a prestação de serviços e as relações entre todos. o princípio de justiça é invocado exatamente para dirimir a disputa entre partes que invocam aquilo que é seu. quando afirma o princípio da justiça distributiva.

podia dar-se ao luxo de cometer todos os erros ao abrigo de suas riquezas e de seus oceanos. cm seu Curso de direito constitucional Tal delegação. Devem-se dar coisas iguais aos iguais. então. Por exemplo. Para ele. ou seja. o direito do trabalho e a previdência social. Além disso. bem como a inconveniência do debate públi­ co relativo a certas matérias. invoca a proporcionalidade na distribuição das benesses sociais. Quando o Welfare State substituiu o État gendarme. visto que estas devem ser distribuídas conforme o mérito dc seus destinatários. a seu encargo. e coisas desiguais aos desiguais. a América. órgão capaz. mas em requerer a prudência (Ética a Nicômaco. tendo em vista o papel cada vez mais dinâmico que o Estado vem desenvolvendo em face das novas c múltiplas reivindicações sociais. em busca do bemestar social. isolada de um mundo do qual não tinha necessidade. Por outro lado. no pensamento aristotélico.180/21). por sua própria estrutura. Quan­ .72 Teoria Geral do Estado trumentos de que se serve a justiça distributiva são o direito administrativo. como acentuou M a­ noel Gonçalves Ferreira Filho. Novas tarefas foram atribuídas ao Poder F^xecutivo. justo legal é aquilo que o bem co­ mum justifica e exige. o problema do reforço do Poder Executivo tornou-se uma realidade cristalina. I. porque o Estado representava um papel apenas secundário. Eis a doutrina da isonomia. a lei não consiste simplesmente 110 mandado por aqueles que têm. não se deve dar-lhes coisas iguais. colocou em xeque o caráter ideológico da chamada indelegabilidade de poderes. O Poder Executivo. a função governamental. A justiça distributiva. a criação e a gerência de serviços assistenciais. preconizados por Montesquieu. foi imediatamente escolhida esta segunda alter­ nativa. vale lembrar. Para Aristóteles. o intervencio­ nismo estatal foi ignorado durante cerca de 150 anos nos Estados Unidos. passou a ter. uma ascendência cada vez maior. de decisões mais prontas. a von­ tade deve estar inclinada à realização do bem moral. repudiada unanimemente pelos ideólogos da liberal-democracia. X. o Estado passou a ter uma missão de intervencionismo na vida econômica individual. essa orientação de Aristóteles é de grande atualidade. 5°. e aquelas que já eram de sua competência foram bastante ampliadas. conduziu os parlamentos ao dilema de paralisar a administração ou delegar poderes. e a prudência implica a retidão moral da intenção. Modernamente. Como o caráter eminentemente técnico de muitas decisões que deve­ riam ser tomadas em tempo recorde. a virtude moral que tem por objetivo o bem comum é o que Aristóteles chama de “justiça legal”. Conforme acentua Duverger em sua obra Os regimes políticos. aquilo que o positivismo denomina com tal fórmula. Aqui é importante notar que o “legalmente justo” não é. fixada no art. Para horror dos defensores intransigentes da tripartição e separação absolu­ ta dos poderes políticos. A delegação legislativa é hoje prática correntia e inevitável “às ocultas ou às escancaras”. se as pessoas são desiguais. o di­ reito fiscal. numa época em que o libera­ lismo econômico triunfante dava aos chefes de indústria o poder real. 1. da Constituição Federal.

continuar a ter guarida. ao manter sua segurança interna e externa. o século do individualismo. previdenciárias e edu­ cacionais da coletividade. ser restringida. seu direito. na vida socioeconômica dos indivíduos. John Locke e outros. seu ordenamento jurídico. o bem comum nada mais era do que a manutenção da ordem pública pelo Estado. Para o exercício de suas funções sociais. dei­ xando de ser o Estado gendarme. O aspecto político torna-se ate menos importante que o econômico. Do exposto. em três planos bem definidos: a) plano político. ao atender às necessidades assistenciais. por exemplo. a iniciativa privada pode. O Estado deve intervir. que é o Estado que transcende a mera legalidade. vão longe os tempos da mera tutela da ordem jurídica pelo Estado. apenas a Europa suportava as conseqüências. queiram ou não queiram os governantes. em nome de uma função social da propriedade. em muitos Estados. Em princípio. deve transcender a mera legalidade e buscar. em desenvolvimento. cuja função. . que deve renunciar ao seu caráter passivo. Não. a justiça social. essencialmente. tão eficiente quanto o executivo da empresa particular. de forma ativa. o Senado se recusava a ratificar o Tratado de Versalhes. amparado no consenso social ou não. a agir. quando ocorre a vacinação compulsória ou quando surgem restrições à frui­ ção irrestrita da propriedade. seria aquela de um gendarme (policial) na sarcástica imagem de Ferdinand Lassalle. ao manter a legalidade pura e simplesmente. todo Estado é Estado de Direito. pois toda so­ ciedade tem. as condições sofreram uma mudança. acha-se. O Estado. meramente passiva. preconizada pelo liberalismo clássico de Emmanuel Kant. Não basta a garan­ tia dos direitos subjetivos para que o bem comum esteja alcançado. isto é. às vezes. e que pas­ sa a atuar. nem todo Estado de direito será Estado dc justiça. Modernamente. quando uma fá­ brica que causa poluição é obrigada a minorar este mal ou encerrar suas ativida­ des. por exemplo. mero cão dc guarda da ordem pública. substituindo a do estadista tradicional. conclui-se que o conceito de bem comum foi bastante alterado com o surgimento de novas circunstâncias sociais. que poderá ser justo. se todo Estado é Es­ tado de direito. Na verdade. a moder­ na concepção de bem comum exige a ação do Estado. c) plano social. aliás. ao construir o Estado de justiça. Como fruto do século XVIII. Entretanto. no mundo moderno. portanto. A ideologia do gover­ nante supergerente. O Esta­ do que providencia o desenvolvimento não pode deixar dc ser preponderantemen­ te empreendedor. alcançando o campo da iniciativa privada. que não pode. b) plano jurídico.3 0 Estado 73 do. peculiar a uma fase da História da humanidade.

4

A CONSTITUIÇÃO

1) CONCEITO E EVOLUÇÃO HISTÓRICA
Bibliografia: f e r r e i r a
Manoel Gonçalves. Curso de direito constitucional, 11.
salvetti n e t t o ,

f il h o

,

ed., São Paulo, Saraiva, 1982. ed., São Paulo, Saraiva, 1981.

Pedro. Curso de teoria do Estado, 4.
,

SOUZA,

José Pedro Galvão de. História do direito polí­
v ia m o n t e

tico brasileiro, São Paulo, Saraiva, 1962.

Carlos Sanchez. El poder consti-

tuyente, Buenos Aires, Bibliográfica Argentina, s.d.

A palavra constituição vem do latim cum + stituto , constitutio , de constituere (constituir, construir, edificar, formar, organizar). Tem como sinônimo o vocábu­ lo com pleição , que também contém a ideia de um todo form ado , estruturado , orde­ nado , isto é, dc unidade na m ultiplicidade . O corpo humano tem uma constituição , uma com pleição; não é ele, porventura, um organism o ? Não nos referimos, às ve­ zes, ao vocábulo constituição como a ordenação que preside a organização dos cor­ pos físicos? Assim, a palavra constituição apresenta sentidos análogos; ela pode ser toma­ da em um sentido am plo; e em outro, estrito. Tomada num sentido am plo ypode-se dizer que todos os seres apresentam uma constituição que os identifica. Tomada cm sentido estrito , a palavra constituição vai revelar o m odo pelo qual um a sociedade
se estrutura basicamente .

Aristóteles conceituava a politeia (Constituição) como a ordem da vida em comum naturalmente existente entre os homens de uma cidade ou de um territó­ rio ou, simplesmente, a ordenação dos poderes do Estado .

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4 A Constituição

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Em termos jurídico-políticos, a Constituição é a lei fundamental do Estado, lei que um povo impõe aos que o governam, para garantir-se contra o despotismo destes, conforme doutrina Romagnosi. No dizer dc Manoel Gonçalves Ferreira Filho, a constituição em sentido jurídi­ co pode ser entendida como o “conjunto de regras concernentes à forma do Esta­ do, à forma do governo, ao modo de aquisição c exercício do poder, ao estabelecimen­ to de seus órgãos, aos limites da sua ação” . Ou seja, a base fixada juridicamente da organização política. Segundo Pedro Salvetti Netto, a Constituição política estrutura a organização do Estado, disciplina o exercício do poder político e discrimina a competência para tal exercício, definindo-a como o “conjunto de normas que, estruturando a orga­ nização do Estado, estabelece relações de natureza política entre governantes e go­ vernados” ou, levando-se em conta o advento dos direitos sociais no mundo mo­ derno, o “conjunto de normas que, estruturando a organização do Estado, limita politicamente o exercício do poder e declara os direitos individuais e sociais e suas respectivas garantias” . “ Ubi societas ibi jus”, já dizia Aristóteles, ou seja, onde houver sociedade have­ rá normas dc conduta, haverá Constituição. Da mesma forma que todos os seres têm uma Constituição própria (causa formal), a fortiori a sociedade terá, por sua essência, uma forma de organização. Ser eminentemente social, o homem agrega-se a seus semelhantes organicamente, formando grupos sociais estruturados, sendo in­ concebível, mera abstração, a concepção mecânica da sociedade. Pois bem, as or­ ganizações sociais surgem, inicialmente, no seio da família, do clã, da tribo, até que cheguemos ao Estado, a mais perfeita forma de convivência social. As normas cons­ titutivas das sociedades primárias repousam nos hábitos sociais consagrados pelo tempo. Com o aparecimento do Estado, sociedade necessária dotada de poder so­ berano e voltada para o bem comum, surge a Constituição política. Conforme aduz Pedro Salvetti Netto, não há que se falar em Constituição política antes que o Es­ tado se organize, antes que nele se integrem seus elementos constituintes. Somente quando se verificam tais exigências é que aparece a Constituição política, justamen­ te para, estruturando a organização do Estado, disciplinar o exercício do poder po­ lítico e discriminar a competência para tal exercício. A tendência das sociedades de se estruturarem sob a égide de uma lei funda­ mental surge muito cedo na História humana. Inicialmente, ela tem caráter religio­ so, místico, revelando a vontade divina (mana) sob a forma de tabu, como acentua Viamonte. Tal norma fundamental tem natureza consuetudinária, costumeira, não se apresenta sob a forma escrita. Com maior razão, os gregos já distinguiam as normas jurídicas pela hierar­ quia, classificando-as como leis constitucionais e leis comuns, a exemplo dos roma­ nos, que, ao se referirem à elaboração daquelas, usavam a expressão rem publicam constituere. As leis de Licurgo, em Esparta, de Drácon e de Sólon, em Atenas, são

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Teoria Geral do Estado

verdadeiras Constituições, imperando sobre as demais normas. Conforme adverte Carlos Sanchez Viamonte, essas leis fundamentais de Licurgo e de Sólon constituem a expressão unificada da vontade nacional em cada caso, e com elas é criada a na­ ção como unidade política e jurídica e atribui-se forma à sociedade e ao governo. Nisso consiste a essência do ato constituinte. No dizer de Pedro Salvetti Netto, as primeiras Constituições sistematicamen­ te codificadas apareceram no século XVII, por influência, segundo alguns autores, das tradições puritanas, cujas normas eram efetivamente escritas e codificadas - os covernants -, destinadas à estruturação da igreja e do culto. Em razão disso, a In­ glaterra foi estruturada, durante o governo do puritano Oliver Cromwell (15991658), por uma Constituição escrita, única em sua História, o Instrument of Go­ vernment, calcada numa doutrina absolutista do poder político, fundada, aliás, no exacerbado puritanismo de Cromwell. Na História constitucional inglesa encontraremos, ainda na Idade Media, pac­ tos, forais e cartas de franquia. Conforme aduz Manoel Gonçalves Ferreira Filho, tais documentos firmaram a ideia de texto escrito destinado ao resguardo de direi­ tos individuais, que a Constituição iria englobar a seu tempo. Tais direitos, contu­ do, prossegue o autor citado, sempre se afirmaram imemoriais, fundados no tem­ po passado, enquanto eram particulares a homens determinados e não apanágio do homem, ou seja, do ser humano enquanto tal. Ainda segundo Manoel Gonçalves Ferreira Filho, próximos dos pactos, de cujo caráter participavam pela sanção real, mas já bem próximos da ideia setecentista de Constituição, situam-se os contratos de colonização, peculiares à História das colônias da América do Norte. Chegados ao Novo Mundo, os peregrinos, mor­ mente puritanos, imbuídos de igualitarismo, não encontrando na nova terra poder estabelecido, fixaram, por mútuo consenso, as regras por que haveriam de se go­ vernar. Os chefes de família firmam, a bordo do Mayflower; o célebre Compact (1620); desse modo, são estabelecidas as Fundamental Orders of Connecticut (1639), mais tarde confirmadas pelo rei Carlos II, que as incorporou à carta outorgada cm 1662. Transparece aí - finaliza - a ideia de estabelecimento e organização do gover­ no pelos próprios governados, que é outro dos pilares da ideia de Constituição. Profunda influência, além da tradição puritana, sobre o advento das Consti­ tuições escritas, vai exercer a doutrina do contrato social, preconizada por Jean-Jacques Rousseau. A cláusula pacta sunt servanda ou pacta quantumcumque nuda servanda sunt, isto é, os contratos devem ser cumpridos pelas partes, peculiar às relações jurídicas de caráter privado, contida na forma escrita e solene exigida, é transportada para o Direito Público, assegurando melhor direitos e deveres de go­ vernantes e governados. Como acentua Pedro Salvetti Netto, a Constituição escri­ ta revela a preocupação de asseverar, em seus artigos, compromissos recíprocos de governantes e súditos.

4 A Constituição

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Com efeito, adverte Manoel Gonçalves Ferreira Filho que somente no século XV III - o Século das Luzes, daí a expressão Iluminismo - é que se concretizou, na Europa, a ideia de que o homem pode estabelecer a organização do Estado, segun­ do sua vontade, numa Constituição. Antes do Iluminismo, ninguém ousara afirmar que o homem poderia modelar uma organização política segundo um ideal racio­ nalmente estabelecido. Daí reafirmar-se a importância dc Rousseau para a filoso­ fia iluminista e para a Revolução Francesa e, como conseqüência, para a consoli­ dação das Constituições escritas.

2) ESPÉCIES
Bibliografia:
Marcus Cláudio. Constituição da República Federativa do
b is p o

a c q u a v iv a

,

Brasil anotada, São Paulo, Global, 1987. brasileiro, São Paulo, Saraiva, 1981. do, 6. ed., São Paulo, Saraiva, 1984.

,

Luís. Curso de direito constitucional Pedro. Curso de teoria do Esta­

salvetti n e t t o ,

Quanto às espécies dc Constituições, sintetizando as várias classificações exis­ tentes, podemos apresentar o seguinte esquema:

1. Quanto à forma:

escritas

orgameas inorgânicas rígidas

2. Quanto à estabilidade ou I possibilidade de reforma i

sem.rng.das flexíveis

3. Quanto à origem

í

f editadas, também denominadas votadas outorgadas

Vejamos cada uma dessas espécies e subespécies. Inicialmente, as Constitui­

ções escritas. Constituições escritas orgânicas: são aquelas que se acham formalizadas ex­ pressamente em um documento escrito ou em vários. No primeiro caso, teremos as Constituições escritas orgânicas (um só documento); no segundo, as Constituições escritas inorgânicas (várias leis escritas, de natureza constitucional). A origem das Constituições escritas orgânicas encontra-se nos séculos XVII e XVIII, inicialmente por influência dos covenants, documentos escritos que forma­ lizavam os preceitos da religião puritana, na Inglaterra.

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Teoria Geral do Estado

Depois, já no século XV III, em razão da doutrina do contrato social desen­ volvida por Jean-Jacques Rousseau, que vai inspirar, na França, a ideia de que uma Constituição deve ser, necessariamente, escrita, para maior garantia dos direitos dos governados. As Constituições escritas orgânicas têm a natureza dc uma codificação, isto é, de um corpo único e sistematizado de normas. A Constituição escrita orgânica se acha contida, portanto, em uma única lei. As inorgânicas, porém, não têm forma de uma única lei; com efeito, uma Consti­ tuição escrita inorgânica é formada por várias leis, encontra-se espalhada por inú­ meros diplomas legais de natureza constitucional. Assim, enquanto a Constituição escrita orgânica tem a natureza de uma co­ dificação, a Constituição escrita inorgânica se assemelha muito mais a uma simples compilação, vale dizer, leis dispostas ordenadamente e atualizadas, sem que com isto cada uma dessas perca sua existência autônoma. Dessa ordem é a Constitui­ ção britânica, que muitos autores afirmam ser apenas costumeira. Existiria, entre­ tanto, uma Constituição formada apenas por costumes e nada mais? Isto seria im­ possível. A Constituição britânica se constitui em volumes e mais volumes dc leis e acórdãos. O que a caracteriza não é o fato de não ser escrita, mas sim de não estar sistematizada em um Código; não estar; enfim, codificada. Nem por isso se negue o grande papel desempenhado pelo costume nas Cons­ tituições. Diga-se de passagem que o costume pode influenciar a própria Constitui­ ção escrita orgânica, por exemplo, o caso célebre da reeleição, por uma terceira vez, dos presidentes da República norte-americana. Nos primeiros tempos da vigência da Constituição dos Estados Unidos, o presidente podia candidatar-se à reeleição quantas vezes quisesse. Bastou, contudo, que George Washington e, mais tarde, Thomas Jefferson se recusassem a disputar uma terceira reeleição para que seus su­ cessores não se sentissem encorajados a fazê-lo. Quando, três quartos de séculos mais tarde, Ulysses Grant postulou sua reeleição pela terceira vez, sua candidatu­ ra fracassou. Tempos depois, uma exceção: Theodoro Roosevelt seria reeleito vá­ rias vezes, em face das vicissitudes da situação internacional; entretanto, depois de Roosevelt, a Emenda X X II vetaria, expressamente, o terceiro mandato. Constituições rígidas, semirrígidas e flexíveis: quanto à estabilidade ou possi­ bilidade de reforma, as Constituições podem ser rígidas, semirrígidas e flexíveis. As flexíveis podem ser modificadas sem a exigência de um procedimento mais comple­ xo; assim, uma lei ordinária pode alterá-la; não é preciso um procedimento legis­ lativo mais trabalhoso. Exemplos: as Constituições da Noruega, da França e a Cons­ tituição do antigo Reino da Itália, chamada Estatuto Albertino. Semirrígidas são aquelas que, em parte, podem ser alteradas mediante um pro­ cedimento comum, ordinário, e, em outros artigos, somente por meio de um proce­ dimento mais dificultoso. Exemplo: a Constituição do Império do Brasil, de 1824.

4 A Constituição

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Finalmente, as Constituições rígidas, assim denominadas porque só podem ser alteradas por intermédio dc um rito legislativo próprio, destinado a dificultar os abusos reformistas. Exemplos: as Constituições dos EUA, da Austrália, da D i­ namarca, da Suíça e do Brasil em vigor. Com efeito, a nossa Constituição só pode ser alterada ou corrigida por via dc emenda (art. 60), sendo que este dispositivo exige seja a proposta firmada por um terço, no mínimo, dos membros da Câmara dos Deputados ou do Senado Federal (art. 60, I), pelo Presidente da República e por mais da metade das Assembléias Legislativas das unidades da Federação, ma­ nifestando-se, cada uma delas, pela maioria relativa de seus membros. Ademais, o § 4° introduz uma cláusula pétrea no tocante a determinados assuntos, cuja disci­ plina jurídica não pode ser, em qualquer hipótese, modificada. Por exemplo, os dis­ positivos do art. 5° sobre direitos e garantias individuais (art. 60, § 4°, IV). Importante notar que a facilidade ou a frequência com que uma Constituição pode ser alterada não depende, apenas, do disposto na lei, mas também de fatores políticos, por exemplo, a predominância desta ou daquela ideologia num dado mo­ mento histórico. Assim, a Constituição suíça, rígida, foi modificada muito mais fre­ quentemente do que a Constituição francesa da III República, cuja alteração de­ pendia apenas de uma sessão conjunta do Parlamento. Ademais, o conceito de Constituição escrita não se confunde com o conceito de Constituição rígida, pois o Estatuto Albertino (Constituição do antigo Reino da Itália), embora escrito, era, como vimos, modificável por via de lei ordinária, por­ tanto, flexível. Constituições outorgadas e Constituições editadas ou votadas: quanto à ori­ gem, as Constituições podem ser outorgadas e editadas, conhecidas estas últimas também como votadas. As outorgadas são impostas à nação pelo próprio agente do poder constituinte originário, sendo, posteriormente, submetidas a referendo popular, pois o povo é, em última análise, o titular do poder político. Exemplos: as Constituições brasileiras de 1824,1891,1937 e 1967. Quanto às Constituições editadas (votadas), são discutidas pelo próprio povo, diretamente ou mediante a eleição de uma assembleia constituinte, formada por re­ presentantes da nação. Em nome desta, a assembleia irá elaborar, com total inde­ pendência, uma nova Constituição. Se não houver independência da constituinte, não se pode falar em Constituição editada. Por exemplo, quando D. Pedro I enviou, logo após a Independência, uma recomendação à Assembleia Constituinte incumbi­ da de elaborar a nova Constituição do Império, Assembleia depois desfeita, exigiu que a nova Lei Magna deveria conservar a dinastia governante e a religião católi­ ca apostólica romana na qualidade de crença oficial do Estado, tolhendo, portan­ to, a liberdade da assembleia, que, por ser constituinte, deveria estar investida de um poder incondicionado.

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Teoria Geral do Estado

3) CONTEÚDO POLÍTICO DAS CONSTITUIÇÕES
Bibliografia:
Ferdinand. Que é uma Constituição?, São Paulo, Edições e Pu­
m arx

lassalle,

blicações Brasil, 1933.

,

Karl e e n g e l s , Friedrich. O manifesto do partido comu­
salvetti n e t t o ,

nista, 6. ed., São Paulo, Global, 1986. tado, 4. ed., São Paulo, Saraiva, 1981.

Pedro. Curso de teoria do Es­

Uma Constituição não é apenas a mais política, como também a mais pole­ mica das leis. Fundamento da ordem jurídica, dela derivam, por conseqüência, to­ das as demais leis. Por isso, já dizia Ferdinand Lassalle, que a alteração das leis or­ dinárias não desperta, via de regra, a atenção da sociedade, ao passo que a reforma ou a substituição de uma Constituição por outra acarretam comoção social. Daí a constatação evidente de que uma Constituição não é apenas um documento for­ mal, pois que se reveste de um conteúdo ideológico, que espelha ou deve espelhar os fatores de ordem política e econômica que prevalecem no momento de sua ela­ boração. Tal conteúdo varia, portanto, na medida em que mudam as circunstân­ cias históricas. Como acentua Salvetti Netto, a uma Constituição de caráter liberal-democrático, vicejante à época do apogeu do liberalismo político e econômico, jamais ocor­ reria declarar os direitos sociais ou disciplinar as relações entre o capital e o traba­ lho, hoje as grandes preocupações das Constituições em vigor. Assim, uma Constituição, para ser bem entendida, deve ser analisada sob dois pontos de vista: a) como ordenamento jurídico estruturador do Estado; b)como objeto das ideologias que, predominantes num dado momento histó­ rico, são recolhidas pelo legislador constituinte. Pelo menos nos primórdios do movimento conhecido como constitucionalismo, isto é, a aceitação unânime da Constituição como documento escrito, esta cui­ dava apenas da estruturação política do Estado, vale dizer, da forma de Estado, da forma de governo e do regime de governo. No Brasil, por exemplo, a forma de na­ tureza monárquica sucede a dc natureza republicana. Uma Constituição elaborada em disfunção com os valores sociais predomi­ nantes num dado momento nada mais seria que um corpo sem alma, mera folha

de papel. Qualquer Constituição, afirma Lassalle, deve representar a soma dos fatores reais do poder existentes na sociedade. Os fatores reais do poder são essa força ati­ va e eficaz que informa todas as leis e instituições jurídicas da sociedade, determi­ nando que não possam ser, em substância, a não ser tal como elas são.

Na concepção marxista. e quem atentar contra eles atentará. Acusado de professar uma doutrina que afirmava o predomínio do poder sobre o direito. há. determinada pelas condições da existência material. mas de poder. como sustentaram. 35. Lassalle defendeu-se afirmando que sua teoria era desenvolvida 110 plano do que real e efetivamente é. Para o marxismo. qualquer Estado é. Segundo Lassalle. a menos que venham a ser a expressão fiel dos fatores reais do poder. que garan­ te seus interesses de classe. No surgimento dos EUA. A doutrina dos fatores reais do poder foi tacitamente comprovada por várias obras de conhecidos autores. na verdade. representando a norma suprema da organização estatal. A exemplo da concepção de Lassalle. a Constituição é um produto das relações de produção e visa assegurar os interesses da classe dominante. mas transmutam-se em direito. aquela que tem suas raí­ zes nos fatores reais de poder. como Charles A. recebendo expressão escrita: a partir de então já não são mais simples fa­ tores reais do poder. Para o marxismo. p. são transformados em uma folha de papel. pura e simplesmente. Ruy Bar­ bosa afirmava que “as constituições são conseqüências da irreversível evolução eco­ nômica do mundo”. mero documento ou folha de papel. Os problemas constitucionais. Para ele. Beard e Harold Laski. v. 1. Esta folha de papel. Estado e Direito são meras superestruturas que se sustentam sobre as relações de produção da sociedade dividida em classes. enfim. a maior parte dos membros da Convenção de Fila­ délfia reconhecia que a propriedade tinha direito especial na Constituição. ao passo que o Direito representa a vontade desta classe. e a escrita. desejavam anulá-la. primariamente. a verdadeira Constituição é a real e efetiva. Em seus Comentários à Constituição Federal brasileira. só será durável se corresponder à constituição real. pro­ blemas de direito. observados certos procedimentos. a organização política da classe dominante. contra a lei e será castiga­ do. formada pela soma dos fatores reais e efetivos que imperam na sociedade. não são. como afirmam os juristas. por longos tempos. no sul. duas Constituições num Estado: a real e efe­ tiva. cujos interesses não reconheciam fron­ teiras estaduais e que eram realmente de âmbito nacional. antes de mais nada. este documento. e tampouco pelos Estados.4 A Constituição 81 Lassalle é o típico representante da corrente doutrinária denominada socia­ lismo constitucional. cm instituições jurídicas. estribado numa concepção me­ . as Constituições escritas não têm valor nem são duráveis. Foi obra de um grupo compacto. também a concepção marxista de Cons­ tituição é sociológica. assim como esta não foi criada por todo o povo. os que. e não no pla­ no do dever ser. Em posição antagônica ao sociologismo constitucional de Lassalle e Marx sur­ ge o normativismo metodológico de Flans Kelsen. Es­ tado e Direito são o produto da divisão da sociedade em classes antagônicas e cons­ tituem um instrumento nas mãos da classe dominante. afirma Lassalle. os fatores reais do poder constituem-se fatores jurí­ dicos quando.

a ordem jurídica vigente. quando houve substituição dos governantes.82 Teoria Geral do Estado ramente jurídica da Constituição. Interessa-nos. in Dicionário de ciências so­ ciais. Coimbra Editora. S. Trattato di sociologia generale. a Revolução Francesa (1789) e a socialista russa (1917). 1986. Milano. Esta pode ser definida como a mudança repentina. em verbete intitulado “Revolução”. sexual. Apontam-se. Vilfredo. Axel. 1981. uma realidade social comple­ xa que o explica. GOLPE DE ESTADO E INSURREIÇÃO Bibliografia: Marcello. políticas ou filosóficas. vo l . g õ r l it z Bushatsky/Edusp. em nome de uma nova ideologia. Para Kelsen a norma constitucional é norma pu­ ra. M adrid. violenta ou não. O termo revolução denomina a mudança brusca e radical de convicções so­ ciais. na revolução política tudo é subvertido: os governantes são apeados do poder. Já se vê que. o Direito deve ser concebido estritamente como direito positivo. Como exemplo dc revolução não violenta podemos citar a Revolução Re­ publicana do Brasil (1889). econômica. “Golpe de Estado”. Direito constitucional comparado.Fundação de Assistência ao Estudante. na revolução. soi disant. entretanto. . Hugo. o conceito de revolução política. Diccionario de ciência política. sem nenhuma pretensão a fundamentações sociológicas. ele afirma que o estudo de tais fenômenos não compete ao jurista. social ou filosófico. São Paulo.Fundação de Assistência ao Estudante. erõs. soberana. caetano. devem cur­ var-se. Manual de ciência política e direito constitucional. Erõs. por inteiro. pareto. Fundação Getúlio Vargas/MEC . ju­ rídica. 1980. “Revolução”. das instituições e dos governantes. artística e até. e sim ao so­ ciólogo e ao filósofo. Alianza. bem como da forma de Estado (de unitária para federal). A teoria pura do Direito busca justamente expurgar da ciência jurídica toda classe de juízo de valor moral ou político. o emprego efetivo da violência material (vis ma­ terialis) ou coerção nem sempre é necessário. J. 1986. como exemplos tí­ picos de revoluções violentas. Embora Kelsen admita que na base do Direito existem dados sociais. evidentemente. f e r r e ir a f il h o Manoel Gonçalves. 4) REVOLUÇÃO. Edizioni di Comunim o li n a tà. Fundação Getúlio Vargas/MEC . aponta três correntes moder­ . in Dicionário de ciências sociais. bem como os próprios governantes. Como negar. 1972. substituin­ do-a por outra. pode esta Assembleia subverter. re . Lisboa. e as leis que haviam consagrado são substituídas. J. da forma de governo (de monárqui­ ca para republicana) e do regime de governo (de parlamentarista para presidencia­ lista). S. Tais convicções podem ter a mais variada natureza: política. Com efeito. embora a violência psicológica (vis compulsiva) seja inafastável nos movimentos de fato. c que também o Direito é inspirado por teorias e princípios filosó­ ficos. que a ela. o poder revolucionário a uma Assembleia Constituinte? Sem o emprego da força.

necessariamente. a tensão social. Temos. Tais fatores são objetivos. diz Pareto. estático. conhecido sociólogo ítalo-francês que elaborou um ma­ gistral tratado de sociologia. o Estado é dinamizado por dois setores sociais. desde que se possa aferir que elas sejam apoiadas por uma camada considerável da coletividade. e suas concepções têm natureza feudal. que não encontra mais solução 110 modo de produção tradicional. então. Baku­ nin e Kropotkin. Isto só pode levar a uma solução revolucionária. Para os conservadores. Para esta corrente. que ele considera não científica. em todas as épocas e lugares. Aqueles. Ora. rumo ao igualitarismo. a atividade dos grupos sociais e dos partidos. mesmo porque as classes possuidoras dos meios de produção estão. mostrando mais preocupação com a liberdade individual. que vêm a ser. estes. a somatória dos pequenos benefícios que cada movimento revolu­ cionário irá incorporar às conquistas sociais acarretará. A concepção progressista pontificou no século X IX . toda elite dirigente. manifestações de regressão à mentalidade primitiva.4 A Constituição 83 nas do estudo da revolução: a progressista ou evolucionária. tal contradição chega. po­ rém. surgem movimentos tendentes a estabelecer uma nova ordem. acarretando o congelamento do desen­ volvimento social e. Para os anarquistas. essencialmente dinâmicas. Com efeito. uma confron­ tação entre o ordenamento social estabelecido. Isto é inelutável. na revolução. segundo Lenin. a teoria da revolução deflagrada em nome dos direitos naturais. inte­ ressadas na manutenção do status quo. Contudo. Com ou sem sufrágio universal. haverá. inevitavelmente. A corrente conservadora mostra-se uma reação à Revolução Francesa. mais preocupados com o incentivo à sublevação das massas contra os déspotas. Marx nega. como Proudhon. felizmente. afirmando que as re­ voluções constituem etapas do progresso inevitável da Humanidade. a conservadora e a positivista ou científica. e as forças de produção. uma elite que governa e ou­ tra que é governada. uma parcela de subjetividade. sem qualquer conotação ideológica. tradicionalista. Quando a elite dirigente se torna esclerosada e corrompida. teocrática ou monarquista. Fi­ nalmente. a revolução surge. é sempre uma mino­ ria que governa e que sabe dar a expressão que deseja à vontade popular. todas as revoluções são genuínas. as ferramentas correspondentes (for­ ças de produção) e as relações de fortuna e trabalho (relações de produção). na concepção positivista. a vitória da igualdade no mundo. de forma inevitável. o termo revolução apresenta um matiz pura­ mente descritivo. da confrontação entre classes sociais. por conseqüência. Curiosas se mostram as doutrinas de Karl Marx e Vilfredo Pareto sobre a re­ volução. precisamente. mostrando-se incontroláveis e destrutivas. como resultado da con­ tradição entre as possibilidades de trabalho. veementemente. . uma revolução não passa da substituição de um déspota por ou­ tro. No dizer de Pareto. A conjunção de todos estes fatores acarreta a re­ volução. a um ponto crítico. as revoluções são meras explorações dos sentimentos populares. Para ele. vale dizer. con­ gregando homens de esquerda e liberais-democratas.

casta e portadora de novos ideais. se pelo golpe de Estado os governantes pretendem manter-se no poder e. ao estahlishment. o caudilho antecipou-se a qualquer tentativa deste naipe. Assim. na revolução ou na insurreição a principal finalidade é substituí-los. Constitui. pelo Poder Executivo. quase sempre. Seja como for. põe abaixo o ordenamento corrompido.. o mo­ mento propício ao surgimento de uma nova elite dirigente. a insurrei­ ção de março de 1964 -. comece a confiar mais na astúcia do que na força. como a corrupção econômica. É a massa. com o fito de mu­ dar o regime político. O golpista ou golpistas contam. por Getúlio Vargas. por isso. que. do Ju­ diciário. desde logo. e reforçou bruscamente o seu poder. Insurreição. mas a revolução atinge. pois visa apenas à derrubada dos governantes . entretanto. traz consigo o vigor e a coragem dos leões. então. Desta forma. quando um movimento político repentino é um golpe de Estado ou uma revolução. Podemos citar. alteram as instituições neste sentido. pois as primeiras ações e decisões do grupo que . alterando a estrutura social. pode ficar difícil para o analista estabelecer.84 Teoria Geral do Estado inicialmente jovem e vigorosa. no mais das vezes. Quanto ao golpe de Estado. a ascendência de demagogos e pacifistas. uma classe ou partido. revolta 011 pronunciamento (do espanhol pronunciamiento) são as várias denominações que toma a manifestação das Forças Armadas. Ao perceber que seu po­ der começava a esmaecer. e antecipando-se a uma possível tentativa insurrecional por parte de uma pequena facção das For­ ças Armadas.. enfim. consoante advertência de Hugo Revol Molina. É chegado. no Brasil. realizando obra tão interessante como a destruição de anim ais daninhos. cheia de ideais. a ideologia dominante. ate. vem a ser a substituição de alguns ou de todos os pressupostos da ordem jurídica vigente. das prerrogativas do Legislativo e. desde logo. pressionado pelos litígios partidários. já a par de sua própria debilidade. tudo isso faz com que a elite dirigente. a fim de substi­ tuí-los ou lhes impor orientação política diversa. substituindo a ideologia dominante e criando um novo ordenamento jurídico. por definição. a agita­ ção política e a intranqüilidade social. a qual instaurou o chamado Estado Novo. A insurreição pode não alcançar as instituições. apoiadas ou não em outras forças sociais. A revolução caracteriza-se. impondo à Nação uma carta constitucional de caráter autoritário. com a finalidade de permanecerem no exercício do poder. as leis e instituições e o pessoal gover­ nante. a própria ordem constitucional. a outorga da Constituição de 1937. invariavelmente. com o apoio dc uma par­ cela considerável das Forças Armadas para o reforço de seu poder. com o apoio ou não das Forças Armadas. rebelião. imposta pelos próprios governantes. contra os governantes. os governantes de leões fazem-se raposas. o abrandamento dos costumes. a influência de fatores negativos. pela manifestação violenta de for­ ças sociais estranhas à organização do Estado.por exemplo. como exemplo típico de golpe de Estado. a usurpação.

na América Latina. A diferença entre golpe dc Estado e revolução somente pode ser es­ tabelecida ex post facto. . a análise sociológico-política encarada sob uma perspectiva histórica permitiu mostrar que. salvo raras exceções.4 A Constituição 85 toma o poder político resumem-se. via de regra. a medidas destinadas a consolidar a posição alcançada. não obstante as manifestações verbais que as acompanharam. che­ gam ao poder. resumiu-se a meros golpes de Es­ tado. mediante uma ação apoiada na violência ou na ameaça desta. Dessa forma. embora os grupos que. a maioria das ações desse tipo. ocorridas no século X X . qualifi­ quem sua posterior ação governamental como revolução.

aci­ dental e involuntariamente. hoje. Forense. 86 . Paulo. ed. sendo a União des­ tituída de personalidade jurídica internacional. Constituem exemplos históricos de uniões pessoais: Espanha e Portugal (1580-1640). A união pessoal de Estados vem a ser uma espécie de federação. Rio de Janeiro. Saraiva.. decorrendo de mera coincidência na or­ dem sucessória dinástica. Ciência política. 1986. Pedro. salvetti n e t t o . constitui. 2) UNIÃO REAL Bibliografia: b o n a v i d e s . 6. Curso de teoria do Estado. fortuita. Inglaterra e Hanovcr (1714-1837). A união pessoal: a) é casual. 1986. 1986. em face do declínio da forma monárquica de governo. Curso de teoria do Estado. b) é transitória.. as leis de sucessão monárquica ensejam a coincidência de um só príncipe ocupar dois tronos.FORMAS DE ESTADO 1) UNIÃO PESSOAL Bibliografia: Paulo. Pedro. 1986. Alemanha e Espanha (1519-1556). Rio de Janeiro. São Paulo. Ciência política. pois cessa o vínculo com a extinção da dinastia imperante. assim como a união real. tornando-se o titular comum do poder em F^stados que preservam sua soberania. 6. SALVETTI n e t t o . Saraiva. A união pessoal. c) inexiste fundamento jurídico unitário entre os Estados par­ ticipantes da união. b o n a v id e s . São Paulo. ed. os quais mantêm incólume sua soberania. em que. mera figura histó­ rica. Forense.

Carac­ teriza-se o Estado unitário. Curso de teoria do Estado. 1986. g) o governante e seus ministros não atuam como representantes de cada Es­ tado participante. 13. cd. A união real: a) não cria um novo Estado. 2. b o n a v id e s . d) exclui administração uniforme e nacionalidade pró­ pria. x if r a saliie - V E T O NETTO. Constituem exemplos de uniões reais: Suécia c Noruega (1815-1905). mas a uma coisa (res)yum objetivo concreto. As formas de Estado podem ser resumidas a duas: simples e compostas. Madrid. Essa forma de Estado mostra-se politicamente cen­ tralizada. Preleciona Sahid M aluf que o Estado unitário é aquele que apresenta uma or­ ganização política singular. v. Teoria geral do Estado. e) sua duração pode ser permanente ou transitória. São Paulo. 2. - Sahid.. a confederação de Estados e o Estado federal. na quali­ dade dc Imperador da Áustria. ras. h) as relações entre dois Estados da união real são relações in­ ternacionais. pela unicidade do poder. a união real.. como rei da Hungria. f) criam-se exército e marinha comuns. Dinamarca e Islândia (de 1815 até a deflagração da Segunda Grande Guerra). 3) ESTADO UNITÁRIO Bibliografia: daranas. sem divisões internas que não sejam simplesmente de ordem administrativa. um Estado chama-se unitário quando suas instituições de . Las constituciones europeas. Este monarca chamava-se Carlos I. Forense. do qual trataremos a se­ guir. cd. embora dotada de descentralização meramente administrativa. No di­ zer de Jorge Xifra Heras. b) abrange. sem limitações de natureza política. limitando-se a formar uma união de Estados. Nacional. Sugestões Literárias. Im­ pério Austro-Hungaro (1867-1918).5 Formas de Estado 87 A união real de Estados é uma espécie de federação consistente na celebração. A for­ ma simples de Estado é representada pelo Estado unitário. Bosch. 1986. Ciência política. monarca. admitindo administração comum e economia societária. Paulo. podendo dissolver-se por acordo entre os Estados participantes. da união de Estados em torno de um objetivo comum (res). 1982. Saraiva. Vejamos o Estado unitário. Curso de derecbo constitucional Barcelona. Cumpre ressaltar que o adjetivo real atribuído à união não se refere. pela caducidade dos tratados ou pelo desaparecimento da dinastia governante. m a Mariano. São Paulo. Rio de Janeiro. necessaria­ mente. 1962. a rei. v. consciente e voluntária. portanto. 1979. c) a soberania de cada Estado permanece intacta. Pedro. Estados contíguos. 6. e adota-se a mesma política ex­ terna. quando a Áustria e a Hungria se agregaram sob a autoridade de Francisco José. O poder central irradia-se por todo o território. luf. Jorge. e Carlos IV. por via de regra. as formas compostas de Estado correspondem às federações. com um governo único de plena jurisdição nacional. que são: a união pessoal.

na Itália. por vezes. . já se observa certo grau de competência atribuído aos agen­ tes periféricos do poder. estruturada sob uma or­ dem e um objetivo social. portanto. até 1834. e que empolga. mediante a Lei de 12 de agosto. não autônomo . confere às regiões a mais ampla autonomia político-administrativa (arts. porém. a região é uma entidade orgânica dc caráter histórico. tende à unidade. neste. temos a dependência dos órgãos descentraliza­ dos quanto ao Estado unitário. 115 e 1 17). Não se confundem. 5°. Com efeito. permanentemente. Assim. promoveu-se alguma descentralização política. de modo que não passam de simples cumpridores dessas determinações. que marcou as atribuições dos presiden­ tes das províncias. que enseja. que go­ zam de relativa autonomia quanto aos serviços dc seu interesse. os agentes das entidades administrativas são meros núncios das decisões do poder central. ser a Itália uma república una e indivisível. Quanto ao Brasil. por outro lado. embora a Constituição ita­ liana proclame. chamada Ato Adicional. a independência desses mesmos órgãos. quando. dotada de leis próprias.88 Teoria Geral do Estado governo constituem um único centro de impulsão política. de centralização concentrada. porquanto. ao mesmo regime constitu­ cional e a uma ordem jurídica comum. ain­ da aqui. a verdade é que a moderna doutrina já distingue. A forma política unitária corresponde a uma exigência natural. no Estado unitário. entre Estado unitário descentralizado e Estado federal aponta­ da por Paulo Bonavides: naquele. observa-se que o Estado unitário desconcentrado divide-se em departamentos e comunas. não é tarefa das mais fá­ ceis caracterizar este Estado como unitário. to­ dos os cidadãos estão sujeitos a uma autoridade única. é delegado. como sociedade necessária. entre centrali­ zação concentrada e centralização desconcentrada. não como poder originário ou de auto-organização (self-government). como mera delegação do poder central. desde a promulgação da Constituição de 1824. tanto no que fazer quanto no como fazer. No Estado unitário. somente durante o Império tivemos como forma de Estado a unitária. Por via de regra. no art. porém. a doutrina. sempre válida. Na centralização desconcentrada. unidade lingüística e até racial. Se a centralização política c a des­ centralização administrativa são as características marcantes do Estado unitário. a própria confusão entre Estado unitário e Estado federal. a referida centralização desconcentrada e a descentralização propriamente dita.. porque naquela os agentes atuam em nome do próprio Estado. é o regionalismo. no caso do Estado federal. O problema surge quando se trata de estabelecer o grau ou intensidade desta unidade. O poder. complementada pela Lei de 3 de outubro do mesmo ano. que permitiu a cada província eleger suas próprias assembleias legislativas. ao passo que nesta os órgãos descentralizados atuam em nome da entidade secundária da qual se originam. embora persista a dependência hierárquica. Fenômeno intimamente ligado ao Estado unitário. sem qualquer autonomia. O Estado. tudo. Análoga é a distin­ ção. a ponto de algumas regiões dc Estados unitários demonstrarem maior unidade do que certos Estados federais. Na centralização concentrada.

. v. 1986. 2. de um ór­ gão inútil” . Curso de direito constitucional 16. que consolidaram a doutrina do federalismo. Forense. 1987. e o Congresso. Paulo. Rio dc Janeiro. inicialmente unidas em confederação. 2. Refulgem. Iniciação à teoria do Estado.”. Teoria geral do Estado.. Não assim no caso brasileiro. reuniram-se os representantes dos Estados confederados para rever os Artigos de Confederação. . na célebre Convenção da Filadélfia. Tal doutrina calou fundo na opinião pública.5 Formas de Estado 89 4) ESTADO FEDERAL Bibliografia: daranas. São Paulo. pois. mediante a Constituição de 1787. Manoel Gonçalves. o autor citado: o nome do Estado aplicado a uma entidade não soberana explica-se.” acabaram por empregar o verbo no sin­ gular. Bosch. 13. Saraiva. e logo a Constituição terminou por ser ratificada pelos Estados. que resultou no aparecimento dos Estados Unidos da América do Norte.ed. de 1777. proibia-se à Con­ federação impor tributos aos Estados confederados. v. Las constituciones europeas. Curso de teoria do Estado. Não mais os treze Estados de logo após a Independência. São Paulo. construção permitida na língua inglesa graças ao artigo invariável: “ The Uni­ ted States /s. Jorge. que esclarece a natureza e as vantagens do Estado federal. em virtude das circunstâncias históricas. Como lembra. de modo que se exauriam os cofres daquela. 1982. Sahid. 1986. As treze colônias vitoriosas sobre o domínio inglês. José Pedro Galvão de. no caso norte-americano. Como assinala José Pedro Galvão de Souza. 1976. 1979. São Paulo. empenhada cm gravames financeiros para sustentar a frágil união. que exigiram fosse man­ tida a denominação Estado para cada uma das colônias integrantes do pacto fede­ rativo. Nacional. Surgiu com a Revolução norte-americana do século XVIII. maluf. x i f r a celona.. Por outro lado. fer­ Mariano. São Paulo. ed.. cd. souza . 1962. 6. a partir de então o Estado era um só.. Para solucionar o impasse. oportunamente. então. os memoráveis escritos de três jornalistas: Hamilton. Saraiva. ed. posteriormente. Esta forma de Estado constitui uma espécie do gênero federação. salvetti n e t t o . Os doutrinadores norte-americanos que inicialmente cos­ tumavam dizer: “ The United States are. levando George Washington a dizer: “A Confederação não passa de uma sombra sem substância. Ciência política. Daí a tradicional epígrafe Estados Unidos da América. Era um Estado constituído por Estados que se haviam federalizado. Madrid. 2. Curso de dereebo constitucional Bar­ Revista dos Tribunais. mostravam-se frágeis neste tipo de união. no clássico O federalista. Madison e Jay. A situação mostrava-se insustentável.. . como assinala Pedro Salvetti Netto. Sugestões Li­ Pedro. conforme estabelecido no documento chamado Artigos de Confederação. r e ir a f il iio b o n a v id e s .. reunida. heras.. terárias.

deflagrada nos Estados Uni­ dos da América do Norte entre 1861 e 1865. salvo a malograda e efêmera experiên­ cia das capitanias. 21 c 22). art. o Brasil. art. é a pessoa jurídica de direito público que representa o Esta­ do federal. Vale lembrar. o direito de se separarem da União. aliás. § 1°). Quanto à União. embora dotadas de capacidade de auto-organização e de autoadministração. 34. Os Estados-Mcmbros passam a dispor de mera autonomia. não são dotadas de soberania. Com efeito. vale dizer. submetendo-se a uma Constituição Federal. seguida nesta atitude por outros Estados-Mcmbros. apesar de Estado federal. representado pela União. o Estado federal não se confunde com a confederação.90 Teoria Geral do Estado quando se começou a chamar de Estados as antigas províncias do Império. adota a denominação pro­ víncias para as unidades federadas. ainda aqui. tal foi o furor imitativo dos primeiros homens da República. como se observa do art. cm 1788. chegou-se ao Estado federal partindo da unidade para a multiplicidade. porque esta é formada por Estados propriamente ditos. art. vale dizer. A Argentina. é a unidade básica do Estado federal. cada qual dentro de seu campo de ação. e destes nos municípios (CF. 21. 23. p. Tal po­ der chama-se autonomia (do grego. ao passo que no caso dos Estados Unidos partiu-se da unidade para chegar à unidade. caput. sempre. da Constituição . 35). o Estado federal é uma espécie de federação. que a intervenção federal é uma exceção à re­ gra da não intervenção. Tem suas próprias competências (CF. arts. isto é. arts. arts. submeten­ do-se a uma Constituição que lhes proíbe o direito de secessão. o poder de se separar da União. as entidades interventoras não atuam em nome próprio. com ressalva da competência comum (CF. V. a par da competên­ cia dos Estados-Membros (CF. e sim com vistas à integridade do próprio Estado federal como um todo. e 34). para usar a terminologia da própria Constituição. ao passo que no Estado federal os Estados-Membros renunciam ou são despojados de sua soberania. Pois bem. quando a Carolina do Sul separou-se da União. sem poder interferir na competência das demais entidades federadas. O Estado-Membro ou Estado federado. 1°. e dos municípios (CF. autos = por si só + nomos = norma) e se sub­ mete ao poder soberano do Estado federal. em proveito do próprio Esta­ do federal. desde os primórdios da colonização. através dc uma confederação em seguida à qual surgiu o Estado federal. mas. A doutrina clássica é taxativa: os Estados federados não têm o direito de secessão. Um Estado só havia sido. sendo dotado do poder de auto-organizar-se e dc autoadministrar-se limitado pela Constituição Federal. 62) Fato curioso é que o Estado dc Nova Iorque somente ratificou a Constituição norte-americana após um ano da vigência desta. É célebre a Guerra da Secessão. entidades políticas dotadas de poder soberano. como se percebe do texto do art. Tanto no caso do Brasil como no da Argentina. 25. composta por unida­ des que. 30). incondicionado.145 e 155) e da intervenção federal da União nos Estados-Membros (CF. (Iniciação à teoria do Estado.

I o estabelece: “ Fica proclamada proviso­ riamente e decretada como a forma de governo da nação brasileira . de 24. $ I o). art. Tal orientação será definitiva­ mente confirmada com a primeira Constituição republicana. 1°. A doutrina clássica é taxativa: os Estados federados não têm o direito de se­ cessão. dotado de poder de auto-organização (art. o Estado federado é entidade integrante do Es­ tado federal (CF. na expressão união indissolúvel nele constante. 1°. 156). 2 1 . A Constituição Federal assegura a autonomia política e financeira dos Esta­ dos federados ao longo de vários artigos. caput. art.11. 72. o poder de se separar da União (art. admitia. como já foi visto.1. art. a intervenção é exceção. Qualquer tentativa de se­ paração ensejará a intervenção federal. Tal po­ der de auto-organização chama-se autonomia. O Estado federado pode. não regra. jamais regra. 25. e 84. V) nos ca­ sos do art. a intervenção é exceção. à Constituição Federal. I o e 2o. caput. de 15. pois de nada valeria a autonomia políti­ ca (art. tam­ bém. 3 4 . como se deduz. Exceção ao princípio da indissolubilidade do Estado federal nos dava a extin­ ta Constituição soviética de 1977. VII. livremente. no art. 2o. a dos Estados federados e a dos municípios. caput). arts. limitado pela Constituição Federal (arts. ca­ put). ficam constituindo os Estados Unidos do Brasil”. Nenhuma dessas entidades federadas poderá invadir a competência das demais. . em vez de duas.1891. e o art. e 34). 34. intervir nos seus municípios (art. 46). o Estado federal brasileiro conta com a participação dos Estados fe­ derados na formação da vontade nacional. qualquer tentati­ va separatista será tolhida pela intervenção federal (art. este pode intervir no município (art. X X e XXII). 23). porém. Concluindo: no Estado federal brasileiro. 25. expressamente. No caso específico do Brasil. como vimos. 155). X IX . da URSS”. reunidas pelo laço da federação.a República Federativa”. que. A forma federativa de Estado surge no Brasil com o advento da República (Decreto n. VIII. estando submetido. 17° Aditamen­ to ao texto). 1°. cujo art. mediante o Senado Federal (CF.5 Formas de Estado 91 Federal. art. A exemplo da federação norte-americana (Constituição dos EUA. da competência comum a todos (CF. com ressalva. 1. 25) sem a necessária autonomia financeira (art. 155) e aos municípios (art.02.1). pes­ soa jurídica de direito público (arts. como vimos. por sua vez. 35). Em qualquer caso. sob pena de inconstitucionalidade. 2°: “As províncias do Brasil. no qual cada Estado federado e o Distrito Federal contam com três senadores (art. Seção 3a. 21. mas em qualquer caso. ao Distrito Federal (art. concedida esta. promovida pela União (art. Se a União pode intervir no Estado federa­ do. 46.1889). sendo o próprio Estado Federal representado pela União. 35). ao estruturar o Estado federal socialista. parte final. I o. que “cada república da União conserva o direi­ to de se separar. há três ordens de competências: a da União. vale dizer. caput).

ou formarem novos Estados ou Territórios Federais. IV . 26. nas ilhas oceânicas c costeiras. as decorrentes dc obras da União. a federação brasileira prevê a participação dos Estados federados na formação da vontade nacional. Quanto à criação de novos Estados federados.as águas superficiais ou subterrâneas. como bens dos Estados federados: I . que estiverem no seu domínio. aos Estados federados. art. por intermédio do Senado Fe­ deral (art. neste caso.as ilhas fluviais c lacustres não perten­ centes à União. A exemplo dos Es­ tados Unidos da América (Constituição dos Estados Unidos da América. fluentes. e do Congres­ so Nacional. II . mediante aprovação da população diretamente interessada. A Constituição Federal aponta. Municípios ou terceiros. § 3°. emergentes e em depósito. 34 e 35.92 Teoria Geral do Estado claramente. autonomia financeira (art. . no art. 18. excluídas aquelas sob do­ mínio da União. a Constituição confere. da Constituição: Os Estados podem incorporar-se entre si. na forma da lei. ressalva­ das.as áreas. do teor dos arts. A par da autonomia política. 46). III . subdividir-se ou desmembrar-se para se anexarem a outros. Se­ ção 3a e 17° Aditamento ao texto). através de plebiscito. 155).as terras devolutas não compreendidas entre as da União. assim dispõe o art. por lei complementar. I o.

v. Ora.1) Platão (Arístocles) Bibliografia: Segundo V. e Las leyes. trad. A expressão form a de Estado indica a maior ou menor irradiação do po­ der político. teremos como forma de governo a República. ocorre-nos a sugestiva tirada do poeta inglês Percy B. Plus Ultra. Tal relaciona­ mento é chamado regime de governo. É imperioso distinguir entre form a de Estado. Madrid. Já a expressão form a de governo revela se o poder é exercido temporária ou vitaliciamente. Se este é centralizado ou centrípeto. 1981. a M onarquia. La República. Lisboa. Em face disso. les. se é descentralizado ou centrífu­ go. Adolfo Casais Monteiro. Centro de Estúdios Constitucionales.FORMAS DE GOVERNO 1) CLASSIFICAÇÕES ANTIGAS E MODERNAS 1. Na série de classificações de formas de governo que ora iniciamos. teremos o Estado federal. Shelley (1792-1822): “Somos todos gre­ gos”. as expressões Estado unitário e Estado federal indicam formas de Esta­ do . Platão. em cada form a de governo democrática desenvolve-se um relacionamento peculiar entre as funções executiva c legislativa. v. No primeiro caso. p l a t Ão l in a r e s q u in t a n a . Buenos Aires. form a de governo e regime de governo . Inquérito. . Sistemas cie partidos y sistemas políticos. I. . caracte­ rizado pela centralização político-adm inistrativa. Quis este famoso literato enfatizar a importância da herança cultural helêni93 . Madrid. no segundo. 1976. I. dc modo que esta expressão afere qual ór­ gão exerce a função governamental. Centro de Estúdios Constitucionar o b in Léon. temos o Estado unitário. de nítida descentralização político-administrativa.

Dedica-se à filosofia.e pela Mag­ na Grécia. Da aristocracia (de aristoi.). poucos. mesclando-se uma sã filosofia dc vida com a sede crescente de honras e bens materiais. Platão idealiza um processo dinâmico de rodízio das formas de governo. tentou persuadir o tirano Denis. ex­ pressão que passou a designar as sociedades científicas. descrê da organização política tradicional de sua pátria. gover­ no).94 Teoria Geral do Estado ca. Denis o ex­ pulsou da cidade. e kratos . poder). aos 82 anos dc idade.C. por sua vez. . a única chave para as portas da ascensão social e política. também ocorrem graves disfunções sociais. Em homenagem a Academus. sendo o dinheiro. colocação à qual aderimos sem hesitar. partem. Incomodado. povo. entretanto. e kratos. de modo que logo a desordem campeia irrefreada. secunda­ do pela corrupção. melhores. Platão fundou sua própria escola. Todavia. que revela seu pensamento definitivo. pertencia a uma famí­ lia aristocrática. favorecendo a ascensão política de Platão.C. a aristocracia chega ao poder. pois a liberdade tornada licenciosa só pode levar à escravidão. no que são impedidos pelos militares. viajando pelo Egito . Por isso. Na timo­ cracia surge agudo conflito entre o bem e o mal.. então.C. parente do grande legislador Sólon. desiludido com a condena­ ção de Sócrates. poder) e tirania . Tal situação insustentável vem abai­ xo quando se instala a democracia. numa bela propriedade arborizada e regada por nascentes. quando. Surge a timocracia quando indivíduos de condição social inferior enriquecem e tentam chegar ao poder pela astúcia. forma que considera a melhor de todas. fundado num determinismo inafastável. em meio à qual se eleva­ va um ginásio. cujo verdadeiro nome era Arístocles (o apelido derivou do fato de este filósofo ter as espáduas largas. sendo. às suas expensas. considerados perigosos para a nova ordem. com a tomada de Atenas por Lisandro.C. numa seqüência inevitável.C. outras formas. o Antigo. forma em que os ricos são expulsos do poder. uma mino­ ria abastada impõe sua arrogância a toda a sociedade. a aceitar as ideias que expôs no Livro Quinto de sua obra D a república. honra. discípulo de Sócrates (470-399 a. nos arredores dc Ate­ nas. a escola platônica foi denominada Academia. as Constituições políticas abundam e as boas leis são desprezadas.C. e kratos. Platão.. A corrupção cam­ peia. com a conseqüente ascensão da massa. enaltecendo o valor dos filó­ sofos e criticando a frivolidade e a devassidão da corte.). Em Siracusa. e arche. quando concluía sua obra As leis. Em 404 a. oligarquia (de oligoi.do qual tornou-se grande conhecedor . democracia (dc demos. Em 387 a. Assim: timocracia (de tim os. conhecida como o parque do herói Academus. literárias ou esportivas. implantando-se a mais grosseira mediocridade. poder) ou autocracia militar. Platão morreu em 347 a.. evocando o termo om oplata ). pelo sangue materno.) e mestre de Aristóteles (384-322 a. degenera em oligarquia. A timocracia. pois além dos ricos são banidos os sábios. Tudo isso leva à tirania. começaremos este tópico com um panorama das ideias de Platão (429-347 a. que passam a exercer o poder oprimindo aqueles a quem deveriam proteção. No livro D a república.

Quanto ao número de pessoas a exercer o poder (critério numérico). Aristóteles (384-322 a. barker. Dover Publications. 1976. Platão mostra-se mais realista. ste. de. que num dia em que faltou à aula. Cada uma dessas duas formas de governo só subsiste se faz concessões à outra: a monarquia à liberdade.C. e a democracia à obe­ diência. Aristóteles teve oportunidade de visitar e estudar cerca de 150 Constituições de po­ vos diversos. Las luchas de clases en el mundo grie- go antiguo. s. Centro de Estúdios Constitucionales. chamado monarquia (de monos. porém igualmente le­ gítimos: a autoridade e a liberdade. intitulada Política. Barcelona. nem liberdade excessivos. Nicômaco. para tanto. Assim. um equilíbrio de forças políticas antagônicas. fi­ lho de um médico abastado. 1. New York. Platão se antecipa a muitas classificações posteriores. E. Buenos . sendo cognominado o Grande ou Alexandre Mag­ no. . E. adotando. senhor de vasto império. e o critério moral. Aires. . conta-se. Política. teria dito: “Hoje a inteligência faltou!”. c r o ix G. con­ terrâneo de Filipe e do filho deste. 1988. fundadas em princípios opostos. já não pretende descrever um Estado ideal. e arche. Depois de estudar durante vinte anos com Platão. M. l in a r e s q u in t a n a Segundo V. não se configuram nem poder. ao observar os alunos presen­ tes e constatar a ausência de Aristóteles.2) Aristóteles Bibliografia: A r i s t ó t e l e s . duas formas de governo: a monarquia c a democracia. foi encarregado por Filipe da Macedônia de educar Alexandre. Acompanhando seu discípulo nas expedições que caracterizaram a vida deste. Reunindo este valioso material em obra notável. Aristóteles correspondeu por inteiro à expectativa do pai. ao preconizar uma forma mis­ ta de governo. graças às suas conquistas mi­ litares. era natural da Macedônia. fundamentalmente. seu mestre Platão.6 Formas de governo 95 Na obra As leis. formulou sua célebre classificação das formas de governo. Editorial Crítica. Zanichelli. levando em conta o intuito de o governante ou gover­ nantes administrarem visando ao interesse geral ou ao benefício pessoal. e La política (passi scelti e commentati da Giuseppe Saitta). Sistemas de partidos y sistemas políticos.). Alexandre Magno. Bologna. 1947. Plus Ultra. mas aquele que mais se coadune com a praxe política. porque mais maduro. Em As leis. pelo qual classificou tais formas em puras e impuras. numa combinação harmoniosa de princípios opos­ tos. até. 1983. que soube dar ao filho refinada formação intelectual. discípulo de Platão. temos o governo de um apenas. governo).d. Então afirma existirem. um. em que haveria. com o qual classificou tais formas consoante o número de indivíduos que governam. Era um típico aristocrata. dois critérios: o critério numérico. The political thought of Plato and Aristotle. que se tornaria. Madrid.

graças a uma empolgante e astuta oratória. quando a minoria dominante se sustenta na força do dinheiro ou na hereditariedade. e kratos.96 Teoria Geral do Estado quando o poder é exercido no interesse geral. em que os pobres governam no próprio interesse. poucos. forma impura. quando o poder é exercido por muitos no interesse de todos. termo que. cujas formas corrompidas são a democracia (de demos. ou a demagogia (de demos. cor­ rupção da aristocracia. podemos esquematizar as formas de governo aristotélicas assim: Critério numérico (Leva-se em conta o número dc pessoas que governam) Monarquia: governo de um Aristocracia: governo de poucos Politeia: governo de muitos Tirania: governo de um Oligarquia: governo de poucos Democracia: governo de muitos Demagogia: governo de todos Critério moral (Leva-se cm conta a intenção dos que governam) • Formas puras Monarquia: governo de um no interesse geral Aristocracia: governo de poucos no interesse geral Politeia: governo de muitos no interesse geral • Formas impuras Tirania: governo de um no interesse pessoal Oligarquia: governo de poucos no próprio interesse Democracia: governo de muitos no próprio interesse Demagogia: governo de todos. Finalmente. e kratos. sendo as massas. Em face do exposto. ou tirania. forma pura . melhores. as multidões desorganizadas. poder). tem sentido original bem diferente do atual. levadas à deriva por aven­ tureiros inescrupulosos. quando é exercido no próprio interesse do governante. sur­ ge a politeia . portanto. como se vê. em que predominam as paixões e a desordem . surge a oligarquia (de oligoi. povo. e arche. temos a aristo­ cracia (de aristoi. visando tão somente seu próprio be­ nefício. situação gravíssima em que todos se julgam aptos a governar. porem. Sendo o poder exercido por uma minoria no interesse geral. e agost orador). poder). povo. governo).

Barcelona. Muntaner. Historia universal duran­ Mareei. conquistou o mundo conhecido na época. Políbio (205-125 a. 1973. na teoria. ao comandar a cavalaria da liga aqueia. líticas. La Incha de clases en el mundo griego antiguo. Um povo jamais se volta contra si próprio. em menos de duas gerações. 1. de. enquanto a do tirano é o prazer. Editorial Crítica. embora afetado em alguns pontos por naturais deficiências. . identificando na sadia concepção e organização da ordem jurídico-política a razão maior de seu sucesso. a monarquia é mais suscetí­ vel de corrupção. Livro VIII. Em sua obra (da qual. restaram os primeiros cinco li­ vros e anotações dos Livros I e XIII) tentou explicar como Roma.3) Políbio de M egalópolis Bibliografia: Segundo V. a própria democracia é mais estável que a oligarquia. na democracia. num total de quarenta. por um lado. As doutrinas po­ te Ia república romana. seu talento logo foi percebido nos altos círculos dc Roma e. a forma ideal de governo. cit. forma cm que predomina a classe média e que tem mais afinidades com a democracia do que com a oligarquia. Seu trabalho. na prática. c r o ix prélot. Livro III. Iberia. v. obtendo a proteção dos Cipiões. a subversão atua apenas contra a minoria oligárquica. até porque a melhor forma de governo é aquela que tem os melhores governantes (Política . e a politeia. 1. diretamente.C. porque nos regimes oligárquicos a revolução pode operar contra os próprios governantes ou contra o povo. para esta ou aquela forma pura de go­ verno. Todavia. lançou-se à empre­ sa de escrever a história deste período da civilização romana. a monarquia é. pois a aspiração maior do rei é a virtude. ao passo que. Sc. Sistemas de partidos y sistemas políticos. Barcelona. 1988. Buenos Aires. viajou e escreveu livremente. Impressionado com a organização da República romana.) foi um historiador grego que recebeu profunda influência das instituições romanas de seu tempo. ste. Natural da Arcádia. G. acha-se estribado em séria e copiosa documentação.. de m e g a l ó p o l is l in a r e s q u in t a n a . Plus Ultra. 1976. Por outro lado.6 Formas de governo 97 Aristóteles não propende. porque a virtude e o poder raramente andam juntos. mais precisamente de Megalópolis. sendo-lhe conferida a administração da Acaia.C.). Ele afirma que cada Estado deve adotar a forma de governo que mais se coa­ dune com suas peculiaridades. Lisboa. E. é também a mais estável de todas estas formas de governo ( Política . p o l íb io . Presença. foi conduzido à condição de escravo após o conflito. Capítulo I). . Embora bem-nascido e exercesse importante papel durante a guerra entre Roma e a Macedônia (171 a 168 a. M . Capítulo V).

Por outro lado. e esta. multidão.a m elhor form a de governo é aquela que sintetiza as virtudes das demais. Ora. reverencia os idosos e obedece às leis. se tais formas são as únicas ou as melhores. adverte Políbio. Políbio reconhece três espécies boas de governo: a realeza. observa Políbio. Na sua H istória u n i­ versal durante a República rom ana . e kratos. traz consigo a feição aristocrática da República romana e.. sen­ do aquela obtida pela força. Livro VI. sendo que o governo pode ser exercido por uma. de cujas ruínas surge a aristocracia. cit. por natureza governo de pou­ cos. nem toda oligarquia merece o cpíteto de aristocracia.. Outro grande mérito da forma mista de governo c o de resistir à natural deteriora­ . respeita os pais. embora monarcas e tiranos procurem. aristocracia e democracia. Em qualquer caso há equívoco. busca reparar os desvios dos go­ vernantes. Livro VI. no que tange aos comícios populares e tribunos da plebe. perfeitamente equilibrado. distinguindo entre m onarquia e realeza. que se busca passar por aristocracia. adverte Políbio. Capítulo II). bem assim por democracia (H istória . cit. e foi durante sua vigência que Roma conquistou Cartago e estendeu seu império pelo Mediterrâneo. o Senado. mas apenas aquela em que governam os mais justos e sá­ bios. ou a oclocracia (de o cios. pois. implantando a irracionalidade e a inseguran­ ça ( H istória . por várias ou por muitas pessoas. e que é exercida pela razão. o elemento democrático. Desta. por sua vez. poder). Livro VI. que há seis formas de governo: três que todo mundo conhece e outras três que com elas se relacionam.. Não são as únicas nem as melhores. mas apenas aquela que conta com súditos voluntários. vemos certas monarquias ou tiranias distancia­ rem-se muitíssimo da realeza.98 Teoria Geral do Estado Assim como Aristóteles. Observa Políbio que nem toda monarquia é realeza. fazer-se passar por reis. a aristocracia c a democracia. as três formas puras de governo não são as únicas. como se disse. Políbio indica a de Licurgo. em dupla. em que o povo se torna insolente e menospreza as leis. por mero impulso da natureza. quando o povo. exerciam a administração pública em substituição ao rei). tal sistema misto. porque . jamais por medo ou violência. cit. A Constituição da República romana. Em relação aos cônsules (magistrados eleitos anualmente que. só pode trazer bons resultados. Capítulo II). mas apenas aquela em que o povo venera os deuses. Por outro lado. o regime se assemelha ao monárquico. Haverá democracia onde tais senti­ mentos prevalecerem (H istória . irritado. reúne as três formas puras de governo: monarquia. na Lacedemônia. dele deriva a realeza. pois. A realeza pode contrair vícios que a transformam em tirania. Fique assentado. surge a democracia. O governo de um ou monarquia estabele­ ceu-se sem arte. Políbio adverte que os conhecedores da Políti­ ca veem três formas boas de governo: a realeza. pela equidade e a razão. continua Políbio. não é a democracia a forma de governo em que o populacho faz o que bem entende. Seria dc sc perguntar. Da mesma forma. que se im ­ planta com arte e correção. Finalmente.e nisto reside a originalidade de Políbio . Capítulo II). há muitos Estados governados por uma minoria. Como exemplo de Constituição política deste tipo. a aristocracia c a democracia. na medida do possível.

Título II. obras importantíssimas para o Direito Público.6 Formas de governo 99 ção pelo tempo. As doutrinas políticas. fundado 11a filosofia de Heráclito. no Estado popular.d. rone giureconsulto. eei. Título II). 1976. Rio dc Janeiro. Da república é um tra­ tado formado por seis livros. advogado e político. um sistema misto. a verdade é que prevalece a iniqüidade. embora se pense que tudo é justo e moderado. nada é estático. cit. Ciceprélot. de Da república. Zanichelli. v. o príncipe dos jurisconsultos romanos. Quanto ao Das leis. c íc e r o . por outro lado. 1927. inconcluso. escrito em exaltação às leis romanas. visto que não há uma natural desigualdade fundada no merecimento (Da república. tende à degeneração e ao perecimento. um antiquíssimo palimpsesto com o texto integral da obra. Livro I. 1973. por excelente que seja. Quanto às formas de governo. Curioso observar que no Livro II. Athcna. 1. Políbio observa que tudo está em movimento perpétuo. costa. Cícero não se mostra muito original. ficou. Marco Túlio Cícero (106-43 a. Livro I. por Angelo Mai. cit.). e o governo do povo a pior. Buenos Aires. Cícero se antecipa à moderna teoria de separa­ ção de Poderes do Estado ao advertir que: . conforme as circunstâncias existentes em cada Estado. é irrealizável. Lisboa.. que nenhuma forma de governo será a ideal se considerada isoladamente. além de notável orador. cit. qualquer destas espécies de governo se mostra a ideal. ao que parece.. 1. pois. exceto o monarca. Embora considerando a monarquia a forma ideal de governo (Da república. Plus Ultra. Livro I. enquanto no governo aris­ tocrático apenas o povo é livre. com apenas três dos seis livros para os quais a obra foi planejada. como Políbio. legou à posteridade escritos de gran­ de valor para a literatura e a ciência política. s. com recí­ proca moderação (Da república. Sis­ M ar­ temas de partidos y sistemas políticos. a que todas as outras estão sujeitas. Neste campo. afirmando. Presença. estacionário. escreveu Da república e Das leis.C. Todavia. Bologna. catalisador das três formas apontadas.. Para Políbio. 2 v. cada uma destas formas tem seus próprios de­ feitos: na monarquia. Toda Constituição políti­ ca. ao seguir a classificação tradicional de realeza. porque não precisa intervir nas assembléias. aristocracia e governo popular. propugna. Segundo V. Finalmente. Emilio. Título II). l in a r e s q u in t a n a .4) Cícero Bibliografia: Da república. todos. Para Cícero. nem detém qualquer poder. Título II). porque contém em si o germe de sua própria morte. são privados quase completamen­ te dc direitos e da participação nos negócios públicos. o Estado imóvel. do qual apenas em 1814 foi localizado.

Desde que o Príncipe al­ cance o resultado desejado. vendo na Política uma técnica de alcançar o poder e permanecer nele. de tal forma que os magistrados tenham poder excessivo. visto que tudo isso não deve ser julgado segundo a bitola comum que rege a vida privada. todos os meios são considerados honestos. em sua obra O príncipe. dc 1532.10 0 Teoria Geral do Estado sc em determinada sociedade não são divididos equitativamente os direitos. deboche. quaisquer meios. Nicolau Maquiavel. 1973. Na verdade. Cupidez. Segundo V. A grandeza: o Príncipe está acima do comum. Presença. os poderosos ex­ cessiva autoridade e o povo exagerada liberdade. equivocadamente. desde que o objetivo fosse legítimo. Nos Discursos. p. 1973. velhacaria. Situa-se para além do bem e do mal. 2. empregando. Maquiavel formula suas espécies. mas é também o que engana a sorte. m a c iiia v e l l i.5) Nicolau M aquiavel Bibliografia: pem. (/\ s doutrinas políticas. que importam. grande amador da astúcia e grande adorador da força. Nesse sentido. e não é este o momento adequado para demonstrá-lo. publicada cm 1531. e O príncipe. para tanto. 1976. Novara. Plus Ultra. cargos e obrigações. observe-se a clareza com que Marcel Prélot sin­ tetiza o pensamento de Maquiavel: A simulação e a dissimulação: o Príncipe é conhecedor das circunstâncias. com realismo e frieza. rou­ bo. Edi- l in a r e s q u in t a n a . caracterizando o indivíduo “ maquiavélico” . Sistemas de partidos y sistemas políticos. e a dinâmi­ ca respectiva. mas segun­ do o ideal dc um Estado que sc tem dc constituir c dc manter. tutti i domini cbe banno avuto e banno impero sopra li uo- . M a­ quiavel pôs a nu a dinâmica política. Marcel. v. que deu origem ao substantivo “ maquiavelismo”. traição. libertinagem. O que o autoriza a escapar à moral é o fato de estar colocado acima da mediocridade ambiente. M aquia­ vel expõe seus conceitos referentes à forma republicana. é o famoso pensador italiano. de Florença. em vernáculo. é cola­ borador avisado da Providência. v. Daí a frase que lhe é atribuída: “O fim justifica os meios”. 1. ao passo que cm O prín­ cipe o faz relativamente à forma monárquica. fraude. prélot. capacidade. perfídia. Niccolò Machiavelli (1469-1527) ou. não se pode esperar que a ordem es­ tabelecida dure muito tempo. para denominar. cm duas obras fundamentais: os Discursos sobre a primeira década de Tito Lívio. uma suposta doutrina em que a má-fé e a traição prevalecem. Logo na abertura desta última obra adverte: “ Tutti gli stati. Buenos Aires. 40) Quanto às formas de governo. As doutrinas políticas. Lisboa. // príncipe e altri scritti. dolo. 2.

na prática. classi­ ficavam as formas de governo em seis. uma vez que não percebe que ela. mais do que duas formas de governo: república e tirania. aris­ tocracia e democracia. todos os do­ mínios que tiveram e tem poder sobre os homens. e as demais pela malignidade que lhes é intrínseca. Nos Discursos Maquiavel lembra que pensadores antigos reconheciam três espécies de formas de governo: a monárquica. a qual será mais firme e estável. dividido por lutas internas. porque. Aliás.. assume postura diversa da adotada . Seu país. acham-se tão expostas à corrupção que chegam a ser perniciosas também. fatalmente. era um campo fértil para as ambições de tiranos e demagogos. Ao contrário da maior parte dos autores clássicos. de­ vendo os legisladores de cada Estado optar por uma delas. mas apenas duas. porém estas. Capítu­ lo 11). Outros. numa Cons­ tituição em que coexistam a monarquia. mesmo sendo boas. quando o legislador orga­ niza o Estado sob a égide de uma das três boas formas de governo. Na obra Discurso sobre a reforma da Constituição de Florença. a aristocrática e a democrática. se corrompe. em seu tempo. Todas as for­ mas de governo. cada uma destas formas vigia e reprime o abuso das demais (Discursos. Maquiavel não reconhece a existência de três ou seis formas de governo.monarquia. sono stati e sono o republiche o principati” (“Todos os Estados.6 Formas de governo 101 I Nicolau Maquiavel (1469-1527) m ini. foram e são repúblicas ou prin­ cipados”). Assim. Maquiavel não conhe­ ceu. três péssimas e três boas . por sua curta duração. são nocivas: as três consideradas boas. a aristocracia e a democracia. todavia. onde as cidades formavam verdadeiros Estados em luta. o faz por pou­ co tempo. Livro I. estabelecendo um a form a mista de que to­ das as formas boas participem . O legis­ lador prudente não as levará em conta. isoladamente consideradas. cit. como o faz em O príncipe: a m onarquia e a república .

q u in ta n a . é evidente: tais governos concorrem para a destruição tanto da república como da monarquia. por não desejar ficar adstrito aos textos legais. Capítulo Primeiro). Difu­ são Européia do Livro. 1976. Livro Segundo. também. preferiu retirar-se para um castelo de sua cidade natal e trabalhar cm novas obras. mais conhecido como princípio da separação de Poderes. 3. após nada menos do que vinte anos de esforços. comunicações sobre certas doenças. também. 1962. Em 1716 pu­ blicou sua Dissertação sobre a política dos romanos na religiãoycriou um prêmio para trabalhos sobre anatomia. m o n te s q u ie u . v. Marcel. perto dc Bordéus. nasceu em Bròdc. Em 1734 publica a mo­ nografia Considerações sobre as causas da grandeza e da decadência dos romanos e. vindo a falecer em Paris. ao questionar a forma mista de governo. das quais poderia ter tirado grande proveito. Historia de la filosofia dei derecho. dois anos após. prossegue. pana Moderna. sença. Lisboa. Buenos Aires. Em O espírito das leis (Primeira Parte. em 1748. STAHL. com base na experiência adquirida cm suas viagens. sua maior obra O es­ pírito das leis} seguida. Sistemas de partidos y sistemas políticos.d. As doutrinas políticas. enveredando. Pre­ Federico Julio. sendo tido por muitos como o precursor da Sociologia. sendo defeituosos todos os sistemas interme­ diários. 1. espírito das leis.102 Teoria Geral do Estado nos Discursos.6) Montesquieu Bibliografia: LINARES Segundo V. Barão dc la Brcde c dc Montesquieu (1689-1755). em 1755. Plus Ultra. Alquebrado pelo trabalho. de um suplemento intitulado Em defesa do espírito das leis. publicando. Talentoso. Montesquieu afirma: . Fez excelentes relações de amizade. Conheceu toda a Europa. s. D o p ré lo t. Madrid. demonstrou pendor não só pela História e pelas letras. apaná­ gio dos Estados democráticos contemporâneos. afirmando que não se pode garantir a Constituição dc um Estado senão estabelecendo uma verdadeira repú­ blica ou uma verdadeira monarquia. Pertencente à antiga nobreza. em especial a Inglaterra. escreveu sobre as glândulas renais e chegou a iniciar uma H istória física da terra antiga e moderna. toda­ via. já com mais de sessenta anos de idade. mas sim buscar o verdadeiro “espírito das leis’'. v. estudou Direito sem ter ficado muito satisfeito. Montesquieu foi o grande sistematizador do princípio da separação das fun­ ções do Estado. 1. A razão. vê sua saúde arruinada. conforme a forma mista deriva para uma ou outra destas formas. La Es- Charles-Louis dc Secondat. São Paulo. pelas ciências puras e pela própria anatomia.

adverte iMontesquieu. que princípio informa o direito público geral (As doutrinas polí­ ticas. o súdito. atualmente. que possui suficiente capaci­ dade para julgar da gestão dos outros. di­ reito constitucional. Em cada forma de governo. trata-se de uma Aristocracia. há que se identificar uma natureza e um princípio. a monarquia é aquele em que um só governa. p.6 Formas de governo 103 Existem três espécies de governo: o republicano. ou seja. sem obedecer a leis e regras. Tal como a maioria dos cidadãos que possuem suficiente capacidade para eleger mas não a possuem para ser eleitos. Sc está impressiona­ do com a magnificência ou com as riquezas de um cidadão. O povo é admirável para escolher aqueles a quem deve confiar parte de sua au­ toridade. as ocasiões. Estas visam a conservação dc certo meio e a escolha dc certas orientações. capaz de eleger um general. Todas essas coisas sao fatos que o povo aprende melhor na praça pública do que um monarca em seu palácio. é suficiente a ideia que deles têm os homens menos ins­ truídos. o monárquico e o despótico. como um todo. isso é suficiente para que possa escolher um edil. vale dizer. Por outras palavras. não saberá. Diría­ mos. igualmente o povo. não está apto para governar por si próprio. o monarca. enquanto no governo despótico. que o governo republicano é aquele em que o povo. adverte Marcel Prélot. saberá o povo dirigir um negócio. tra­ ta-se de uma Democracia. 58-9). Quando o poder soberano está nas mãos de uma parte do povo. aquelas que têm como objetivo a organização governamental. hoje. 3. sob alguns aspectos. conhecer os lugares. Para descobrir-lhes a natureza. realiza tudo por sua vontade c seus caprichos. o povo como um todo possui o poder soberano. Sabe muito bem que determinado homem esteve muitas ve­ zes em guerra e que obteve tais e tais êxitos. possui o poder soberano. ou somente uma parcela do povo. Suponho três definições ou. sob outros. que nao sc pode corrompc-lo: isso é suficiente para que eleja um pretor. antes. os momentos e aproveitá-los? Não. da natureza do governo procede aquilo a que chamamos. uma só pessoa. sua estrutura e seu mecanismo. Entretanto. Só pode decidir-se por coisas que não pode ignorar e por fatos que estão ao alcance de seus sentidos. v. numa republica. Quanto ao princípio. a mode­ lar o espírito geral. mas dc acordo com leis fixas c estabelecidas. três fatos: um. a motivação das ações do cidadão. Quando. é. Da natureza do governo em Montesquieu. derivam as “ leis políticas”. A natureza de um governo é o que faz com que ele seja o que é. Sabe que um juiz é assíduo. então. Do princípio do governo provêm as leis civis e as leis sociais. vem a ser aquilo que faz o governo agir. . que muita gente sai dc seu tribunal satisfeita com ele. O povo. na democracia. é.

tendo a Natureza estabelecido o poder paterno. Hmbora o rei seja a fonte de todo o poder. e lembra. indiretamente. Eis o governo despótico”. o governo de um só estaria mais de acordo com a Natureza. que restringem a vontade momentânea e caprichosa de um só homem. cortam uma árvore pela raiz e apanham-nas. Livro Primeiro. na república aristocrática chama-se moderação por parte dos governantes. Alguns pensaram que. à melhor forma de governo. o poder dos irmãos ou. mostra sua natureza no fato de o poder político estar nas mãos de um só homem. sua natureza reside no fato de o rei governar sem le­ var em conta as leis. Porém. O princípio da monarquia vincula-sc à honra. porque também é próprio da natureza da monarquia haver órgãos in­ termediários subordinados e dependentes. muitos. porém submetido ao império de leis previamente esta­ belecidas. cit. . Primeira Parte.. Por outro lado. Sistemas de partidos y sistemas políticos.7) Rousseau Bibliografia: l i n a r e s Segundo V. depois da morte do pai. referindo-se. Quanto à monarquia. se o poder do pai está relacionado com o governo de um só. o mais natu­ ral. Na república democrática. a virtude chama-se civismo. as­ sim doutrina íMontesquieu: A força geral pode ser colocada nas mãos de apenas um ou nas mãos de muitos. a república e uma forma de governo adequada a Estados de peque­ nas dimensões. porque isto nos liberaria de ser­ vi-lo. termo que na obra de Montesquieu denomina a primazia dada ao interesse publico. Rousseau y la fundamentación de Ia . q u in t a n a . O poder intermediário mais conveniente é o do clero. depois da morte dos irmãos. É melhor dizer que o governo mais de acordo com a Natureza é aquele cuja disposição particular melhor sc relaciona com as disposições do povo para o qual foi estabclccido. O prin­ cípio desta forma de governo é o medo. sendo um terceiro organismo um corpo de magistrados que zela pela preservação das leis e que lembra ao monarca o dever de cumpri-las. Capítulo Segundo) 1. e assegurar a continuidade e o cumprimento das leis fundamentais.104 Teoria Geral do Estado Ora. ironicamente: “Quando os indí­ genas da Luisiana querem colher frutas. o da nobreza. a qual nos diz que um rei ja­ mais deve ordenar uma ação que nos envergonhe. moreau Joseph. guiando-se apenas por sua vontade e seus caprichos. O po­ der político implica. a união de muitas famílias. necessariamente. não concentra em si toda a autoridade. o princípio das republicas é a virtude. Em qualquer caso. Buenos Aires. pois. 1976. Quanto ao despotismo. Plus Ultra. o exemplo do poder paterno nada prova. (O espírito das leis. a fim de que o povo tenha alguma participação política.

Ou pode então restringir o governo às mãos dc um pequeno número. Lis­ . Sua mãe faleceu poucos dias após o parto. ou então restringir-se até a metade. diz Rousseau. de início. Madrid. rousseau prélot. O contrato social. foi tido por muitos como uma obra cheia de contradições. passa por uma vida atribulada. são sus­ cetíveis de maior ou menor e mesmo de grande latitude. Rousseau expõe sua famosa teoria do “bom sel­ vagem”. Cultrix. até oito imperadores si­ multaneamente. Mareei. que influenciaria pensadores de todo o mundo. filho de um casal de protestantes. Presença. pode restringir-se da metade do povo até indeterminadamente ao menor número. v. pode o soberano concentrar todo o gover­ no cm mãos dc um magistrado único. mesmo. O contrato social resume o ideal rousseauniano de um governo que limite ao mínimo sua intro­ missão na liberdade dos indivíduos. e chama-se monarquia. em 1762. O único período realmen­ te feliz da Humanidade. Seja como for. 1977. toda­ via. Devo assinalar que todas essas formas. As doutrinas políticas. de acordo com sua Cons­ tituição. de modo a haver maior número de cidadãos magistrados que simples cidadãos particulares. Esparta. São Jean-Jacques Rousseau (1712-1778). porque a democracia pode abarcar todo o povo. dei­ xando-o com sua tia. porque nele ainda não existia a desigualdade social e econômica que viria depois. c esta forma dc governo rcccbc o nome de aristocracia. Em 1753. Isaac Rousseau e Suzanne Bernard. Finalmente. sem que por isso se pudesse dizer que o Império estava dividido. dc sorte a haver maior número dc cidadãos particulares que dc magistrados. e seu pai. confiar o depósito do governo ao povo em conjun­ to ou à maioria do povo. nasceu em Genebra. por sua vez. As­ . a obra continua a ser um clássico da literatura política e sociológica. boa. foi o estágio tribal. ou ao menos as duas primeiras. A própria monarquia é suscetível de alguma partilha. O contrato social e outros escritos. Dá-se a essa forma de governo o nome de democracia. resolveu emigrar. A aristocracia. Paulo. cujas únicas motiva­ ções seriam igualar-se a Montesquieu e adquirir prestígio fácil. todavia. no Império Romano. Jcan-Jacques. que orientou Jean-Jacques em suas primeiras leituras. Rous­ seau publica o ensaio Origem da desigualdade entre os homens. cheia de vicissitudes. Esta terceira forma é a mais comum de todas.6 Formas de governo 105 democracia. emigrando. N o seu trabalho sobre a origem e o fundamen­ to da igualdade entre os homens. Isaac. conferindo a estes. do qual todos os demais recebem o poder. sua obra mais conhecida: O contrato social. 3. e houve. sempre teve dois reis. por falta de convicção do autor em determinadas passagens. ou governo real. pecando. Espasa-Calpe. a mais ampla par­ ticipação política. Em O contrato social Rousseau formula uma classificação das formas de go­ verno nos moldes tradicionais: O soberano pode. premido por dificuldades financeiras.

Um povo que jamais abusaria do governo também jamais abusaria da independência. uma administrada dc certa maneira. As primeiras sociedades governaram-se aristocraticamente. outra dc maneira diversa. anciãos. Há mais: podendo um mesmo governo subdividir-se. Os selvagens da América setentrional ainda assim se governam em nossos dias. sem considerar que cada uma delas é a melhor em determinados casos e a pior em outros. concedendo-lhe poucas virtudes: Até aqui consideramos o príncipe como uma pessoa moral e coletiva. unida pela força das leis. pode re­ sultar dessas trcs formas combinadas uma infinidade dc formas mistas. Mas. Quanto à monarquia. Rigorosamente falando. Se. e viram-se então senado­ res dc apenas vinte anos. ele se governaria democraticamente. em geral. à medida que a desigualdade de instituição sobrepujou a desigualdade natural. o governo democrático é o que mais convém aos pequenos Es­ tados. nos diferentes Estados. sem mudar a forma da administração. e vê-se que apenas sob três formas dc domínio já se mostra o governo capaz de adqui­ rir tantos aspectos diversos quantos cidadãos possui o Estado. cada uma das quais suscetível dc ser multiplicávcl por todas as formas simples. um povo que sempre governasse bem. gerontes. Rousseau demonstra sua ojeriza por tal forma dc go­ verno. por diversos motivos. em várias partes. c a aristocracia pas­ sa a ser eletiva. senado.10 6 Teoria Geral do Estado sim sendo. nunca existiu verdadeira democracia nem jamais exis­ tirá. e depositária no Estado do Poder Executivo. Os jovens cediam sem dificuldade pe­ rante a autoridade da experiência. Contraria a ordem natural o grande número governar e ser o pequeno governa­ do. a terceira é o pior de todos os governos. não teria necessidade de ser governado. e são muito bem governados. Daí os nomes de padres. o número de su­ premos magistrados deve estar constituído em razão inversa do número dos cidadãos. cnobrcccndo as famílias. existe um ponto em que cada forma de governo se confunde com a seguinte. o aristocrático aos Estados médios. É impossível admitir esteja o povo incessantemente reunido para cuidar dos negó­ cios públicos. Se houvesse um povo de deuses. transmitido juntamente com os bens dos pais aos filhos. Temos agora a considerar . trcs cspccics dc aristocracia: natural. eletiva c he­ reditária. e a monarquia aos grandes. Há. a segunda é a melhor: é a aristocracia propriamente dita. pois. c c fácil dc ver que não poderia ele estabelecer comissões para isso. Tão per­ feito governo não convém aos homens. A primeira não convém senão a povos simples. o poder. Finalmente. a riqueza ou o poder foi preferido à idade. segue-se que. Discutiu-se cm todos os tempos a melhor forma de governo. torna o governo hereditário. Os chefes de família deliberavam entre si sobre os negócios públicos.

também outro não há em que a vontade particular seja mais respeitada e mais facilmente domine as outras.6 Formas de governo 107 este poder reunido em mãos de uma pessoa natural. Seu interesse pessoal está. é o que Maquiavel demonstrou com evidência. Esta máxima é muito bela c ver­ dadeira cm certo sentido. e grandes. a fim dc que. temível. com tantos esforços. mas precário e condicional. e as duas suposições sc mos­ tram incompatíveis. único investido do direito de dele dispor segundo as leis. sendo dele tal poder. em que o povo seja débil. e a vontade do príncipe. Fingindo dar lições aos reis. em que um ser coletivo representa um indivíduo. os que se elevam são. deu-as ele. é natural que os príncipes deem sempre preferência à sentença mais imediatamente útil para eles. as mais das vezes. imaginando os vassalos sempre inteira­ mente submissos. com vigor. miserá­ vel. sem cessarem de ser os senhores. tudo enfim responde ao mesmo móbil. eles sabem perfeitamente que tal coisa não é verdade. é verdade. e a força pública do Estado. pequenos intrigantes. ao passo que. de um homem real. tal interesse é secundário c subordinado. e a força particular do governo. os príncipes ja­ mais se contentarão com ele. Por mais que se esforce um orador político em adverti-los de que a força do povo é a sua própria e de que seu maior interesse deve consistir em que o povo seja florescente. sempre rirão disso nas cortes. O poder oriundo do amor dos povos é sem dúvida o maior. Mas se governo não há mais rigoroso que este. . mas esse objetivo não é o da felicidade pú­ blica. Os melhores reis desejam ser malvados. pe­ quenos rixentos. Infelizmente. o tornasse temido dc seus vizinhos. que sempre porá o governo monárquico abai­ xo do republicano. antes de mais nada. cujos pequenos engenhos. sc achcm natural­ mente reunidas. todas as molas da máquina estão na mesma mão. nesta aqui é um indivíduo que representa um ser coletivo. O príncipe de Maquiavel é o livro dos republicanos. a unidade moral que constitui o príncipe é simultaneamente uma unidade física. porém. quando lhes ape­ tece. tudo caminha para o mesmo objetivo: não há mo­ vimentos adversos que se destruam mutuamente. tudo ca­ minha para o mesmo objetivo. neste último. como. Ao contrário das outras administrações. c dc longe lhes bradamos que a melhor maneira dc o scrcm consiste cm se fazerem amar por seus povos. pequenos velhacos. E o que se chama um monarca ou um rei. na qual todas as faculdades que a lei reuniu na outra. a vontade do povo. e não se pode imaginar nenhuma es­ pécie de constituição em que um esforço menor produza uma ação mais considerável. Confesso que. Assim. desse modo. a voz pública quase nunca eleva aos primeiros postos homens que não sejam esclarecidos e capazes e não os ocupem com dignidade. e a própria força da administração gira sem cessar em prejuízo do Estado. nas monarquias. apontava aos hebreus. numeroso. e jamais lhes possa resistir. Um defeito essencial e inevitável. me parece que o interesse dos príncipes residiria na existência de um povo poderoso. é o que Samuel. Os reis desejam ser absolutos. está em que. aos povos.

1976. que a democracia eleita por Rousseau é a democracia di­ reta. na Califórnia. de Viena. 1979. As eleições abrem intervalos perigosos. l i n a r e s q u i n t a n a . . à custa dos fracos. de modo que o ideal democrático é viável apenas nos pequenos Estados da Antiguidade: “Quan­ to maior o Estado. Teoria general dei derecho y dei Estado. não o venda por seu turno. 1. Hans Kelsen ( Vida y obra).108 Teoria Geral do Estado que permitem. Cedo ou tarde tudo se torna venal sob semelhante admi­ nistração. menor a liberdade”. e a menos que os cidadãos se­ jam de um desinteresse. o povo se engana bem menos que o príncipe. o criador da famosa Teoria pura do direito. são tempestuosas. Segundo V. entretanto. adverte Rousseau (O contrato social. Não era austríaco.10. cit. só lhes servem para demons­ trar ao público o quanto são ineptos.04. de sorte que é quase tão raro encontrar um homem de real mérito no ministério quanto um tolo à testa de um go­ verno republicano.1973. a quem o Estado foi vendido. Livro III. cit. nas cortes. de uma integridade acima dos méritos desse governo. Mcxico. 1976. que forma nos dois outros uma ligação ininterrupta. Um inconveniente mais sensível do governo de uma única pessoa consiste na fal­ ta dessa sucessão contínua. Hans Kelsen. que ele aprendeu a admirar observando a antiga Roma republicana e os cantões suíços.1881 c morreu cm Berkeley. nasceu em 11. No tocante a essa escolha. Buenos Aires. alcançar os grandes postos.. Hans. cm 11. para Rousseau. métall.. Univcrsidad Nacional Autônoma dc Mcxico. Na verdade. É difícil que aquele. Nacional Autônoma dc Mcxico. c a paz de que se desfruta sob o governo dos reis passa a ser então pior que a desordem dos interregnos. de Praga. Sistemas de partidos y sistemas políticos. pois o governo representativo é uma forma de escravidão (O contrato social. as dis­ putas e a corrupção se misturam. Mcxico. Plus Ultra.8) Kelsen Bibliografia: a i . como geralmente se pensa. somente quando participa diretamente da elaboração das leis o cidadão reafirma sua condição e é verdadeiramente livre. Capítulo XV). Quanto menos numerosos forem os cidadãos mais a opinião de cada um terá peso. mas tchecoslovaco. Livro III. Capítulo I). De ascendência israelita.a d á r Rudolf. a forma ideal de governo é a democracia. do dinheiro que os poderosos lhe extorquiram. tão logo aí consigam chegar. Univcrsidad kelsen. Vale lembrar. e não se indenize.

foram organizadas pelo Grupo de Professores de Educação Superior da Liga Nacional-Sociaiista dos defensores do Direito. sob a presidência de Karl Schmitt. e a moderna doutrina ainda não superou essa tricotomia. O boato de uma pretensa mudança de nome de Kohn para Kelsen foi repetido quase 30 anos depois. 1979. (Hans Kelsen . Afirma Kelsen (Teoria general dei dereebo y dei Estado. 9) Tido por muitos como o grande jurista do século X X . aristocracia e democracia. por um professor austríaco. seus pais ou mais re­ motos ancestrais não sc chamassem Kelsen. Universidad Nacio­ nal Autônoma de México. real­ mente. Embora sua obra mais conhecida seja A teoria pura do direito. Rudolf Aladár Métall: F . Certamente sessões como esta. não havendo nenhum exage­ ro em afirmar que ele representa para a ciência jurídica o que Karl Marx represen­ ta para a ciência econômica. ao criar uma originalíssima Teoria do Direito. realizadas em 3 e 4 de outubro de 1936. é sobre a Teoria geral do direito e do Estado que nos debruçaremos para observar como Kelsen aborda as formas de governo. A organização do poder é tida como o critério em que a referida classificação se fundamenta. em especial durante o período nacional-socialista. A teoria política da Antiguidade distinguiu três formas de Estado (s/c): monarquia. verdade que durante uma sessão sobre o tema Os judeus na ciência do Direi­ to. como sc fosse vergonhoso alguém sc chamar Kohn ou Cohn. Conta-nos. Quando o poder soberano de uma comunida- Hans Kelsen (1881-1973) . o professor Erich Jung referiu-se a Kelsen como Kelsen Kohn. ou como sc a importân­ cia dc Hans Kelsen como cientista fosse ofuscada se ele próprio. Kelsen inovou.Vida y obra. p. 335) que o problema da teoria política é a clas­ sificação dos governos. p. a respeito.6 Formas de governo 109 sua vida foi pautada por perseguições raciais.

com funda­ mento na ideia de liberdade política. mesmo quando seu poder nesta parcela do Executivo se ache rigorosamente restringido e. Todavia. A vontade do Estado não pode ser uma vontade psicológi­ ca. e autocrático se nele predomina o dogma autocrático (Teoria general. uma classificação das Constituições. Cada Estado representa uma mescla de elementos de ambos. prossegue Kelsen. . Politicamente livre é o indivíduo que se encon­ tra submetido a uma ordem jurídica de cuja criação tenha participado. mas sim tipos ideais. com exclusividade. 336).110 Teoria Geral do Estado de pertence a um indivíduo. o legisla­ dor. os sú­ ditos se acham excluídos da criação da ordem jurídica. e a vontade estatal nada mais é do que a ima­ gem do sistema normativo unitário da ordem estatal. praticamente inexista (Teoria general. Assim definidas. ou­ tras do segundo. Da mesma forma o Estado sc classifica como monarquia quando o monarca é.. cit. p. cit. confor­ me a Constituição. 337). se o critério de classificação consiste na forma em que. Assim. 337). A democracia significa que a vontade representada na or­ dem legal do Estado é idêntica às vontades dos cidadãos. a ordem jurídica é criada. o número dc indivíduos em quem reside o poder e um critério muito superficial (Teo­ ria general. Para Kelsen. A classificação das formas de governo é. 336). alheia. Conforme a termino­ logia usual. a Constituição se diz repu­ blicana. de acordo com a ordem social. à organização da legislação. Entre estes extremos há uma infinidade de etapas intermediárias. mas jurídica. de tal forma que algumas sociedades se aproximam mais do primeiro destes modelos. o querer do Estado é o dever ser de sua ordem jurídica. Na realidade po­ lítica não há nenhum Estado que se ligue. usado este termo no seu sentido ma­ terial. aristocracia e democracia se refere. a maioria das quais não possui uma terminologia específica. apenas dois tipos de Constituição: a democracia e a autocracia. Nesta forma de governo... Um Estado é considerado democracia ou aristocra­ cia sc a sua legislação é dc natureza democrática ou aristocrática. no campo do Poder Judiciário. reside no modo de criação da ordem jurídica. O critério pelo qual a forma monárquica se distingue da republicana. basicamen­ te. e a aristocrática da democracia. juridicamente. cit. mesmo que a administração e o Poder Judiciário possam ter caráter diverso. cit. Quando o poder pertence a vários indivíduos. à Teoria do Estado. a um ou outro des­ tes tipos ideais. então é melhor distinguir. a democracia e a autocracia não são realmente descrições de Constituições historicamente consideradas. na verdade. p. p. pois a produção de um ato psíquico de vontade é uma questão psi­ cológica. por natureza. afirma-se que o governo ou a Constituição são monár­ quicos. deve fazer coincide com aquilo que deseja fazer. p. em vez de três.. A república será uma aristocracia ou uma democracia conforme o poder pertença a uma minoria ou a uma maioria do povo. um Estado é democrático se nele prevalece o princípio democrático. Um indiví­ duo é livre se aquilo que. A forma oposta à demo­ cracia reside na servidão imposta pela autocracia. razão pela qual não há garantia dc que esta se harmoniza com a vontade popular (Teoria general. A distinção entre monarquia.

Ignacio. que governa desvinculado de qualquer limitação jurídica (solutus legibus). 2. f ig g is . traindo a República. Por outro lado. errandonea gouvea bordes Jacqueline. mas. o rei exerce plenamente a função governamental. Curso de teoria do Estado. Politeia. El derecho divino de los reyes. 1824. 1942. Fondo de salvetti n e t t o . 1982. todavia. 1981. Saraiva. se o monarca faz tábua rasa da lei. tentou perpetuar-se no poder.C. Lisboa. Barcelona. sendo assassinado no ano de 44 a. Les Belles Lettres. a seu turno. e arche. governo) é a forma de governo vi­ talícia em que apenas uma pessoa exerce o poder político. a forma de governo cha­ ma-se tirania ou caudilhismo. Pedro Salvetti Netto classifica as monarquias em absolutas ou constitucionais. deve ser chamada realeza. Quando o governante. o princípio da separação e independência . Os caracteres da monarquia. a democracia moderna sustenta-se nos partidos políticos. São Paulo. São Paulo. . Diccionario dei mundo clásico. 4. porque foi Júlio César que. sem legitimidade. Por isso considera natural a tendência a institucionalizar expressamente os par­ tidos no texto constitucional. deve ser denominada realeza absoluta. cuja significação cresce com o fortalecimento progressivo do princípio democráti­ co. porém. denomina-se despotia ou des­ potismo. exercida em fraude à lei. Quando a monarquia é exercida visando ao bem comum. A monarquia absoluta caracteriza-se pela concentração do poder e pelo arbítrio do rei. um. a monarquia chama-se realeza cons­ titucional. México.. no intuito velado do monarca de se manter. Antonio Joaquim de. tornando-se arbitrário. Régia. instrumentalizando-os juridicamente para o que são há muito tempo: órgãos para a formação da vontade estatal. Labor. Na primeira. quando serve ape­ nas de instrumento para os interesses do governante. 1954. porém visando ao bem comum. v. Cultura Econômica. v. 2. Novíssimo dicionário jurídico. Paris. . PINTO. A monarquia constitucional. ed. Exercida sob a égide da legalidade. na condição de chefe de Estado e chefe de governo. sem justo título de monarca. a monarquia constitucional mostra-se limitada pela lei: rex sub legem quia lex faciat regem. Brasiliense. Pedro. Por outro lado. consagrado. temos o cesarismo. Monarquia (do grego monos. a c q u a v iv a .1) Monarquia Bibliografia: Marcus Cláudio. empolga o poder pela in­ timidação ou pelo favorecimento de um estamento social. Impressão John Neville. 1991. divide-se em mo­ narquia constitucional pura e monarquia constitucional parlamentar. no comando do Estado. 2) FORMAS DE GOVERNO CLÁSSICAS 2.6 Formas de governo 111 Segundo Kelsen.

nem por necessidade ou aca­ so. efetuada por um colégio cardinalício. na Espanha. que implantou a centralização do poder.C. o dos hunos. ostrogodos e longobardos. o de Nerva. assírios. não há que falar em monarquia patriarcal. se­ . todos. e em Fanuel. 6). eleição e cooptação. 15). consolidando-se com Davi c seu filho Salomão (1082-975 a. o dos hérulos. ao passo que o patriarcado era exercido em comunidades pouco desenvolvidas. até o rei Túlio Hostílio. Quanto à forma de sucessão. Quanto à cooptação. o dos anglos ou saxões. Exemplo contemporâ­ neo de monarquia eletiva temos na eleição do Papa. A força de Moisés. pois a chefia de go­ verno é exercida pelo gabinete ou conselho de ministros. rece­ bendo referências nas obras de Homero (século IX a. Egito. o dos godos. durante o pe­ ríodo monárquico (753-509 a. Monarquia eletiva encontramos na história de Roma. e os Estados que resultaram do esfacelamento do Império Romano foram. a monarquia é tida por mui­ tos como instintiva. a monarquia já era praticada na civilização micênica. na segunda. o dos vândalos. a monarquia começou a sc firmar no período dos juizes. na Bulgária. na Hungria.). na Áfri­ ca. sendo peculiar aos agregados de animais complexos. Na Grécia antiga. per­ sas. Entre os hebreus. sem concelho popular nem con­ firmação por senadores. o próprio sucessor. Os títulos de pais de família. o dos sarracenos. para alguns autores. Isto significa que rei­ nam os reis não por convenção humana ou capricho. o dos búlgaros. Roma inicia e termina sua história sob a égide da monarquia. na Síria. na monarquia há três: hereditariedade. como afirmavam os profetas. na Inglaterra. medas. a ele pres­ tando obediência Seth e sua família. na Itália. o teocrático e o civil. trata-se de uma forma de investidura em que o sucedido escolhe. Monarcas governaram egípcios. A História Sagrada nos ensina que Adão foi o primeiro monarca. por outro lado. Os filhos de Heth (hititas) chama­ ram a Abraão “senhor” e “príncipe de Deus” (Gênesis. como o das abelhas. monárquicos: o dos francos. Como exemplo. 23. investido na Justiça de Deus para castigar a abominação e a idolatria do povo. como a tribo.). na Borgonha.C. Todavia. mas por Deus.). na França. babilônios. a saber: o familiar ou patriarcal. demonstram que Deus lhes confiara sua autoridade: “ Per me Reges regnant. O monoteísmo hebraico proibia a divinização do monarca. o monarca é apenas chefe de Estado. afirmando. Mesopotâmia c Arábia. A monarquia teria passado por quatro estágios históricos. o guerreiro. livremente. em que uma tendência inata impele estes insetos a viver em função de uma abelha-rainha. pois a monarquia exige um Estado perfeita­ mente integrado em seus elementos formadores. o dos borgonheses. e os príncipes decretam leis justas” (Provérbios. o poder absoluto de Josué em Socota. gregos e macedônios. de príncipes e de legisladores pertenceram aos patriarcas bíblicos. 8.C. Sem dúvida a mais antiga das formas de governo. que todo o poder vem de Deus.112 Teoria Geral do Estado dos poderes. et Legum Conditores justa decernunt” ou “Por mim reinam os reis.

tudo o que é ine­ rente à sociedade... s a m p a io dó- Direito constitucional 5. Forense. Observa o Prof. a essência da república não reside. pois seus cargos políticos são preenchidos. ocasionaram sangrenta guerra civil. mutuamente enciumados. 1950. Scientia Verlag. em que ela manifesta. Histoire des princim at- pes. ed. romano (História e fontes). Garzanti. 1977. ed. em que a comunidade escolhe seus representantes políti­ cos. Alberto. São Paulo. Cours de droit constitutionnei Paris. Dalloz. que deveriam governar um império fragmentado em duas metades. no fato de ser eletiva . todavia. Guillaumin. 2. 1992. Marco Túlio. v. José. Buenos Aires. ria . Historia de las doctrinas políticas. c íc e ro . Jean. E. 3. atributos pri­ . neves. Saraiva. 1.d. Aguilar. v. espírito das b o u lo u is . “ República”. Les six livres de la republique. ou votações. conforme a vontade do povo.d. um de seus generais. Libr. Paris. 1946. leisySão Paulo. Também na história dos Incas. Jean. 1968. Difusão Européia do Livro. por exemplo -. 1962. v. Libr. p r é l o t . F. Max Limonad. 1975.. São Paulo. t. por não ser vitalícia como a monarquia. república significa uma forma de go­ verno caracterizada. mas no fato de seus cargos políticos não serem vitalícios. para o povo. Historia romana. Institutions politiques et droit constitutionnei 7. de Norberto Bobbio e Silvio A. reis peruanos que criaram vasto im­ pério na América do Sul pré-colombiana. Pelo povo. Nova terminologia jurídica. Aalen. Do latim res publica (aquilo que pertence ao povo). Hachette. sempre. N o governo republicano. c r e t e l l a j r. temos exemplo de cooptação na escolha aleatória.porque há monarquias eletivas. 2. ou seja. des institutions 6c des lois pendant la Révolution Française. periodicamente. o próprio interesse público.u . M . in Diccionario de política. 1. 2. 1. Sampaio Dória: República é governo do povo. Mareei e Pcllcgrino. e. quando representativo. essencialmente. 2. 1978. Curso de direito m o n te s q u if. qualidades há essenciais. ed. São Paulo. v. Paris.6 Formas de governo 113 nador romano. que ensejaria a fácil conquista do Peru pelos espanhóis comandados por Francisco Pizarro. entre elas. 1866. que escolheu como sucessor Trajano. Então.. o termo república indica. México. Curso de la fe rriè re . 1851-1852. Cotillon. Delia repubblica. sua vontade a respeito de ou­ tros assuntos de seu interesse.. D o Nicola Matteucci. direito romano. do ponto de vista semântico. 1985. m e ira . manifestada por eleições.2) República Bibliografia: a n a n i a s Rideel. como o Papado. s.. por maioria. Nicola. fundador da dinastia. ro s s i. Sigla X X I. b o d in . Madri. Márcia Cristina. ed. te u c c i. B. De modo usual. dc seus filhos Huáscar e Ataualpa. b e n e y to perez. pelo rei Huayna Capac. Os herdeiros. propria­ mente. Juan. m a le t. Rio de Janeiro. s.

direto. Onde houver governo com chefe eleito pelo povo. aquilo que é inerente à sociedade. senão quando c o chefe eleito pelos governados. o patriciado. 155) Sendo popular. sobre os negócios dc Estado. Não há república. aí se terá república. (Direito constitucional. como já foi dito. sed coetus multitudinis iuris consensu et utilitatis communione sociatus”. no final do século VI a. a república apresenta analogia com a democracia da antiga Atenas.. por tempo determinado. Não há republica representativa sem eletividade dos que fazem a lei. populis autem non omnia hominum coetus quoquo modo congregatus. sua qualidade específica. que não prefira o governo. e Tarquínio Colatino. Cícero opôs à república todas as formas dc governo injustas. 1. onde uma parcela da população deliberava. pois que também pode existir na monarquia. o consenso sobre uma lei comum. Entretanto.sempre patrícios .C. termo que ressalta a raiz arquia (do grego arche. Ao destacar como elementos essenciais da república o interesse comum e. fato este visto como mais um reflexo da de­ cadência das monarquias então existentes na Itália. evidentemente. com precisão. foi deposto. o consulado apresentava duas características essenciais: cole- .C. quando o rei Tarquínio. dos quais os primeiros foram Lúcio Júnio Bruto. com que se esperava inibir dc vez qualquer tentativa de restaura­ ção da monarquia. o sentido mais autên­ tico de res publica. 1. No plano histórico. a par do rei atuavam os cônsules e o Senado. p. por volta de 510 ou 506 a. Na época monárquica.114 Teoria Geral do Estado vativos. a república surgiu como uma inovação revolucionária. mas uma convivên­ cia consciente de pessoas que se torna sociedade pelo reconhecimento de um direi­ to e de um objetivo comuns” (Da república. O que realmente caracteriza a república como elemento privativo é a eletividade e a temporariedade do chefe do exe­ cutivo. A investidura dos cônsules lhes dava o imperium (poder de man­ do) e a auctoritas patrum. Os cônsules . princi­ palmente. v. e povo não é mero ajuntamento de pessoas postas lado a lado. ao demonstrar que “ res publica res populi. república (latim) e politeia (grego) são expressões que denotam o próprio interes­ se público . Foi Marco Túlio Cícero quem delimitou. diretamente. este for­ mado exclusivamente por patrícios. muito mais do que uma forma de gover­ no como a monarquia. a investidura consular durava apenas um ano. Esta. ou “a república é coisa do povo. Livro I. reconhecimento oficial e inapelável de sua investidura pelo Senado. Então. que comandou a deposição de Tarquínio. O rei foi substituído por dois cônsules ou praetores. mediante a qual uma comunidade afir­ ma sua ideia dc justiça. e não apenas denominações de for­ mas de organização do poder. não lhe é exclusiva. § XXV). c por tempo certo. embora essencial à república. o Soberbo. governo).eram eleitos por uma assembleia em que pre­ dominava. t. Mas esta qualidade. re­ sultante da queda da monarquia etrusca. Na verdade. de modo que a derrubada da monarquia foi vista com indiferença pela plebe.

. distinguindo-as. não só no fato do repúdio à monarquia. numa república as leis vêm a ser a expressão da vontade do povo. aristocracia. adotamos com a independência e a primeira Constituição. embora tolhido em eventuais arbitrarieda­ des pelas Constituições. na monarquia a desigualdade em favor da nobreza c verdadeiro pressuposto.6 Formas de governo 115 gialidade (eram dois os cônsules. Ademais.di­ vidida em aristocrática e democrática . Já na Idade Moderna. no despotismo. os magistrados serem eleitos. que torna­ va a república inconfundível com a monarquia. na qual haveria separação de poderes fun­ dada num sistema de fiscalização mútua entre estes. em 1889. integrando a natureza mesma desta forma de governo. de 1824. atuando em conjunto). porque se o povo não é apto a legislar. popular. e o despotismo outra ainda maior. e a anualidade. cuja distinção reside no fato de. a tradicional classificação das formas de governo (monarquia. sabe escolher seus representantes legisladores. Por outro lado. mas também na implantação de uma demo­ cracia representativa. sc na república há uma relativa igualdade. a forma monárquica pela repu­ blicana. nas repúblicas. trazendo uma nova forma de Estado. Com Nicolau Maquiavel. sem falar no afastamen­ to compulsório de Pedro II. fundada. mas é no melhor de seus livros. e o regime parlamentarista pelo presidencialista. democracia e governo misto) é substituída por outra. e uma robusta concepção de república. indistintamente. Na monarquia. prossegue. a monarquia. que estuda a república. enquanto. quem faz a lei é o monarca. ao passo que a monarquia exige uma área física considerável. a aristocracia e a democracia. Quanto ao Brasil. a desigualdade se torna escravidão. Maquiavel tratou do principado ou monarquia na sua obra mais conhecida. A república floresce em Es­ tados de pequena extensão territorial. qual seja. Discursos sobre a primeira década de Tito Lívio. representou verdadei­ ra revolução política. as formas de governo são a monarquia. Para Montesquieu. das formas políticas fun­ dadas na violência ou na desordem. a república . doutrinariamente. Entretanto. denominado sistema de freios e contrapesos ou checks and balances. O príncipe. Com a independência das colônias norte-americanas em 1776. a fe­ derativa.e o despotismo. entretanto. mais singela: repúblicas e principados. a forma unitária de Estado e a monarquia constitucional como forma de governo. a Proclamação da República. pois todas as instituições foram subvertidas. desde que dota­ das de um droit gouvernement. portanto. Jean Bodin emprega o termo república para denomi­ nar. portanto. surgiram os Estados Unidos da América do Norte. ao passo que o déspota governa e julga mediante leis arbi­ trárias e ocasionais. substituindo-se a forma unitária de Estado pela forma federativa.

cm Estados Unidos do Brasil. p o n s a t i. dc 15. de 24. Siglo X X I. vem a ser a norma constitucional que impede. a República Federativa. Paris. São Paulo. graças ao art. Edipcm.1946. embora permitindo. qual seja. sob o regime representati­ vo. sobre a forma dc governo.1889. b o b b io . v. 178.11 6 Teoria Geral do Estado A partir da Proclamação da República. como definida por Márcia Cristina Ananias Neves. em seu art. § 5o. da atual Constituição.a República Federativa” . trou­ xe significativa inovação. o Governo Provisório emitia o Decreto n. I o declarava: “Fica proclamada provisoriamente e decretada como a forma de gover­ no da nação brasileira . que proibia a abolição da forma republicana federativa. e constitui-se. 72 do Decreto n. da Constituição de 1946. 1992. 2° do Ato das Disposições Transitórias. Norberto e m a t t e u c c i .10. Cláusula pétrea. glotz . 1.1937. cm plebiscito. c Dizionario enciclopedico dei diritto. sendo que a vigente.02. que constava dos arts. e 47. Difusão Editorial. mesmo por via de emenda. das Dis­ posições Transitórias. dc 24. Gusta- ve. 1967 e 1988) adota­ ram a república como forma de governo. da mesma forma.. 1. com isto. 1985. da Constituição de 1934. 217. direta­ mente. a atuação dos monarquistas em prol da restauração da realeza. Com isto. Tal decisão seria confirmada com a primeira Constituição republicana. 1°. 1. da primeira Constituição republicana. 70) 2. em 1889.1988.3) Aristocracia Bibliografia: v. Méxi­ E. proclamada a 15 de novembro de 1889.1891. GARNIER-PAGES. Assim o art. 15 dc novembro. § 4o. Novara. § 6o. que impede qualquer emenda que vise a abolir direitos e garantias individuais. a volta da monarquia. co. caput. As demais Constituições brasileiras (1934.1891. da Constituição de 1967. § 4°. o art. Lecciones de . por união perpétua e indissolúvel das suas antigas províncias. a possibilidade de o povo se manifestar.02. 90. 90. 2°. A cidade grega. conforme previsto no art.11. p. a revogação ou modificação dc determinados artigos. § I o. Arturo D. ed. Diccionario de política. Dictionnaire politique. Nicola. Rideel. 1848. 2. 1. 1988. § 4°. da Constituição de 1891. 1979. ficou abolida a cláusula pétrea ou de imutabilidade da forma dc governo. 60. (Nova terminologia jurídica. Pagncrre. de 05. assim: A Nação Brasileira adota como forma de governo. vedando. dc forma absoluta. já no dia mesmo da procla­ mação. cujo art.

s c h o e m a n n . Paris. dc muitos). Astrea. em oposição aos kakói ou mal-nascidos. li­ teralmente.C. V). dos sábios. daqueles que apresentam su­ perioridade não só intelectual. como assinala Arturo D. F. afirmou que a aristocracia é o governo con­ fiado aos melhores pelos cidadãos.C. enfim. 5. sem distinções de nascimento ou riqueza (Polí­ tica. o equilíbrio da Constituição romana já não era o mesmo no século II a. já Heródoto (480-425 a. enfim. governo dos melhores. enfim. designando o estamento que limitava o poder do rei (basileus). 1. Durante o sé­ culo VII a. cognominado o pai da História. ao contrário do que proclamaram Políbio e Cícero. As minorias dirigentes. a denominação aristocracia. A par da monarquia e da isonomia (em substituição à demo­ cracia). a plebe. mas na ri­ queza pecuniária. que sucessivamente exerceram o poder social e po­ lítico em Roma. as origens da aristocracia remontam aos tempos homéricos. IV. II. Em Platão. Segundo Platão e Aristóteles. e kratos. mas também moral. Aristóteles. de má índole. aos melhores. 1976. mas na virtude e na sabedoria. p. os aristoi.). encontraram no Senado o reduto dc seus privilégios. dirigir o Estado no rumo do verdadeiro bem (A república. A intermitência dos comícios populares. Em Roma. estribada não mais na propriedade fundiária ou no sangue. 10). Antiquités grecques. 1884. Caberia aos sábios. por outro lado. a periodici­ dade e a colegialidade da magistratura transformaram o Senado no órgão estável por excelência da República. fizeram. Astrea. de poucos. por serem moral e intelectualmente superio­ res. t. Heródoto faz menção à oligarquia. ocorreram sensíveis modificações socioeconômicas. em oligarquias socialmen­ te disfuncionais que haviam perdido o fundamento moral de seu poder. que individualizou com maestria essa forma de governo. embora mantendo em seu tempo. o verdadeiro centro da estrutura política do Estado romano. o bastião largamente inexpugnável de sua injustificável dominação (Lecciones de historia de las instituciones. (J. Na antiga Grécia. não podem deixar de ser aqueles que pertencem às classes mais elevadas da so­ ciedade.). e que seria denominada oligarquia. Picard.C. quase não tratando da aristocracia. do Senado o instrumento e símbolo de sua as­ cendência. melhores. poder. prudentemente. Aristocracia (do grego aristoi. orientação destinada a enorme ressonância. e ao transformar-se em minorias dominantes. o termo aristocracia não se funda nas virtudes militares (inerentes à primitiva nobreza grega). portanto. 313). Ponsatti. domínio) significa. 1976.6 Formas de governo 117 historia de las instituciones. . Buenos Aires.C. surgindo uma nova elite. Por outro lado. a aristocracia teve seu maior destaque durante a república senato­ rial (509-27 a. Buenos Aires. men­ cionava trcs formas de governo (de um. se definições clássicas de aristocracia as encontramos em Pla­ tão e Aristóteles.

. José Pedro Galvão de. 1981. terminologicamente. Sucessor.. Curso de teoria do . Nacional. Buenos Aires. Milano. 1986. R. ris. Paulo. . uma forma dc governo para indicar um estamento diverso da burguesia e do cle­ ro. Politique d'Aristote. 14. Jean-Marie. Problemas de filosofia política. . r u f f ia prélot. Pa­ Pedro. 1970.. Paolo Biscaretti di e c r e s p i . Forense. Elemen­ Marcel. e que se sobressaía pelos altos postos militares e por privilégios transmitidos hereditariamente. Martins Fontes. Vásquez dc. Revista dos Tribunais. Forense.l a r i . f e r r e ir a f il h o Manoel Gonçalves.. 1972. de la Flor. A democracia possível. pla- o c t a v io . Fernando. 1950. 1927. ham m er . 1981. São Paulo. 1931.. Paulo D. m a is c h Numa Denis. Obras completas. Introdução ao estudo do Estado e do direito. tado. f u s t e l d e c o u i . Curso de teoria do Estado e ciência política.4) Democracia Bibliografia: 1978. d a i .118 Teoria Geral do Estado A partir da Idade Média. Ciência política . Goffredo. 1963. 1957. Conceito c natureza da sociedade . São Paulo. Armênio Dalmo de Abreu. Briguict. História Fred S. Madri. com o aparecimento do Estado moderno. v. Giuffrè. . Barcelona. s e ig n o b o s Charles. 2. 1949. Buenos Aires. 1984. Todavia. w . Paulo. e p o h l - F. Roberto A. ed. Com a Revolução Francesa. São Paulo. Emmanuel Joseph. 1989. 1984. 1986. desapareceu. telles j r souza . A propaganda polí­ . Forense. re. São Paulo. da Europa. as mutações eco­ nômicas diminuíram substancialmente a importância da aristocracia. Rio de Janeiro. Rio dc Janeiro. Celso Ribeiro. Teoria geral do Estado/Introdução ao direito constitucional. Saraiva. Ama­ h i- ral. Saraiva. . Estado. s ie b e r t . Robcrt. Ed. Saraiva. São Paulo. no seu sentido original. v. a aristocracia deixou de ser. Casa Subirana. Aguilar. Quest-ce que le Tiers État?. Tres teorias sobre la prensa. 1974. soviética dei 1977. PUE. Coimbra. La constituzione salvetti n e t t o . e 4. Saraiva. Freitas Bastos. Saraiva. por com­ pleto. Amorrortu. Reghizzi Gabriele. cabral de m o n c a d a . Difusão Européia do Livro. 1979. Instituciones griegas. . ed. A cidade antiga. 1979. Los partidos políticos.a n g e s . taker d a c u n iia . e p e t e r s o n . Rio de Janeiro. política. 1990. 1931.. vani b e n f ic a Francisco. Rodrigo c v i a n n a . Luís. A democracia e o Brasii São Paulo. Rio dc Janeiro.l l a . ed. . tica. Theodos ié y è s . que veio a perder para a burguesia a condição dc sustentáculo das monarquias absolutas. a aristocracia. 1963. 1979. tos de direito público e constitucional brasileiro. ed. Elementos de teoria geral do Es­ dom enach Amado. Labor. 6. 1965. Polí­ tica e teoria do Estado. I. Rio dc Janeiro. TÃo. 2. Barcelona. Droz. sincera da França. São Paulo. São Paulo. Cíenève. São b o n a v id e s bastos. m ic h e l s m f . 2. Obras completas. São Paulo. 1938. Curso de teoria do Estado/Di­ v ie ir a reito constitucional /. e Direito constitucional comparado% São Paulo. Bushatsky/Universidade de São Paulo.

Cada cidade que se prezasse da prática do sistema democrático manteria com orgulho um Agora.6 Formas de governo 119 2. além de lhe assegurar a participação efetiva na vida pública.1) Introdução ao tem a Dividiremos este capítulo. Paris.4. dotados de inabalável consciência social e de zelo pela tradição.justiça. Jorge Zahar. O Ago­ ra. executiva e judicial. . isto sim. Na Grécia. Isto era possível na prática porque a cidade era de reduzidas dimensões e a população diminuta. D i­ cionário da civilização grega.2) D em ocracia direta Bibliografia: b o n a v id e s . era a chamada demo­ cracia clássicayna qual os membros de uma comunidade deliberam diretamente. que fazia de sua assembleia um poder concentrado no exercício da plena soberania legislativa. contudo. 1933. era. sementes que foram conservadas pelos filósofos da Idade Média e que frutificaram na modernidade. 2. fazia pois o papel do Parlamento nos tempos modernos.surgiram na antiga Grécia. Alcan. em duas partes: evolução da doutrina democrática e espécies de democracia. separados um dos outros por baías e cadeias de montanhas. via na participação da vida pública o supremo bem a ser almejado por um homem. Vargas. Rio de Janeiro. um exame mais atento. o Estado não era uma abstração somen­ te compreensível com o auxílio de um mapa. Neste país surgiram inúmeras pequenas comunidades. um povo. a Grécia parece formar uma unidade geográfica. liberdade. Assinala Paulo Bonavides: A democracia antiga era a democracia de uma cidade. lhe garantia os direitos subjetivos. Francesco. na cidade grega. a democracia foi praticada na forma direta. que se voltava por inteiro à coisa pública. e sim uma realidade palpável. La démocratie. À primeira vista. com finalidade didática. governo cons­ titucional . todas elas ani­ madas dc fervoroso patriotismo. 1974. uma pra­ ça. Paulo. Fundação Getúlio mossh.4. sem intermediação de representantes. Rio dc Janeiro. mostra-nos que a natureza dividiu aquele conjunto num gran­ de número de vales e planícies. onde os cidadãos sc congregassem todos para o cxcrcício do poder político. Ciência política . A cidadania era grande objetivo do ateniense. 2004. um conjunto de cidadãos. O ateniense. A cida­ de não era um produto da razão. Para elas. que deliberava com ar­ dor sobre as questões do Estado. N irri. pois. Já se dis­ se que a maioria dos ideais políticos modernos . Iniciemo-lo com a concepção de democracia entre os antigos gregos. de um povo que desco­ nhecia a vida civil. Claude. Foram os gregos os primeiros a lançar as sementes da ideia democrática. em especial.

embora fossem livres e sua exclusão da política não significasse discriminação so­ cial. considerava o ócio a mais pura atividade espiritual. o ateniense sc voltava para a atividade política. Os gregos. Por outro lado.120 Teoria Geral do Estado Para se ter presente o apego do antigo grego à sua cidade. O terceiro e último estamento era formado pelos escravos. puramente materiais. O cida­ dão. sem liberdade de opinião e de sufrágio. sua defesa dependia dos próprios cidadãos. dotados do direito de par­ ticipação na vida política. Aristóteles costumava dizer que todo c qualquer trabalho manual deveria ser executado por escravos. que não era opulento. a pólis via seu elemento humano formado por três estamentos: inicialmente.. as expressões negó­ cio e negociante) para designar atividades lucrativas. a ágora tem seu prestígio au­ mentado e as reuniões passam a ser mais freqüentes. tido este como falta de vontade e entusiasmo para o trabalho. a par­ tir de meados do século VIII a. Empregava-se então a expressão nec ócio (daí. costume já mencionado por Homero. onde deliberavam os prítanes. voltada à contemplação e ao estudo dos te­ mas filosóficos. que significa gover­ no do demos. um lugar privilegiado se reserva à ágora. vivendo com simplicidade e modéstia. As assembléias eram realizadas numa praça denominada agora (do grego agos. quando não vadiagem pura e simples. A civilização contemporânea. Em Atenas. basta lembrar que a pólis não era dotada do exército permanente. por ele consideradas desprezíveis. quase sempre. com o triunfo da democracia direta. pragmática e materialista. que eram os únicos a possuir armas. perverteu o sentido original destes vocábulos de tal forma que seu valor foi inver­ tido. lembra Francesco Nitti. magistrados que presidiam as sessões do conselho e da assembleia. na qual se cruzam as principais artérias da cidade. Como os cidadãos eram frequentemente chamados a participar das assembleias. o grande número de escravos existente em Atenas permitia que o tempo do cidadão dedicado à política fosse quase integral. aqueles que residiam fora da cidade não eram considerados cidadãos. de forma que os cidadãos pudessem dispor de seu tempo para as atividades políticas. Assim.C. participavam da política. os cidadãos (enpátridas). o negócio desfruta. sendo tal direito transmitido de pai para filho. orador. aquele que tem o direito de falar). no bouleuterion e na tholos. mesmo porque na própria atualidade o estrangeiro não possui certos privilé­ gios atribuídos ao cidadão nato. apenas aqueles que integravam um demos (município). poden­ . O segundo estamen­ to compreendia os metecos ou estrangeiros que não participavam da vida pública. O grego era considerado cidadão da pólis a que pertenciam seus pais. Por outro lado. Estes realizavam serviços manuais e eram benignamente tratados. hoje. de um prestígio muito maior do que o ócio. Com efeito. consideravam um povo sem ágo­ ra um povo escravo. Tão logo se desobrigava de suas ocu­ pações habituais. dirigido por um de­ marca. Tais assembléias ti­ nham caráter informal e não desfrutavam de poder relevante. Daí a expressão democracia.

iniciada na Inglaterra por volta de 1680 e fundamentada cm rígido racionalismo oriundo. contudo. estes últimos o estamento mais numeroso. periecos e ilotas. a par de inegáveis conquistas 110 campo da liberdade e da propriedade individuais. originalmen­ te. Percebe-se. a palavra aterradora totalitarismo. a re­ pública aristocrática governada por um conselho de trinta membros. consagrava. em parte. auxiliado por dois reis. a organização política. até mesmo no modo de trajar do ho­ mem ou da mulher. fertilíssima região da Grécia. as tiradas organicistas de Platão e dc Aristóteles nas respectivas obras. na própria natureza. no capítulo XV III de sua obra A cidade antiga. condenando o absolutismo. No seu modo de ver. Locke é. cm especial. respectivamente. criada.3) D em ocracia representativa Justificada. tendo por missão proteger os interesses dos esparciatas (cidadãos) nas relações com outros Es­ tados. fundamentou aberrações doutrinárias de malévolos efeitos. c) a vida do homem em liberdade absoluta. que exerciam funções publi­ cas menos significativas. numa sociedade anárquica.6 Formas de governo 121 do alcançar sua liberação em face de bons serviços prestados aos seus proprietá­ rios. Frise-se que o próprio Estado podia ter escravos. isto é. pela leitura do texto. de forma que não é difícil chegar-se à desagradável conclusão de que o ideal totalitário se amalgamava com a própria democracia grega. então. 11a verdade. em Esparta. b) inexiste o pecado original: o homem é levado à corrupção pelo próprio poder político. de Thomas Hobbes.4. não sen­ do raras. Locke procura fundamentar a forma de governo parlamentar introduzida 11a Inglaterra pela Revolução de 1688. mi­ lênios depois. Em sua obra Segundo tratado do governo civil. já se fazia presente. 2. os homens viviam. Não havia. torna-se insuportável. Em Esparta. Seus preceitos básicos po­ deriam ser resumidos em três: a) o guia infalível da sabedoria é a razão. cidade situada no alto do vale do Eurotas. diga-se de passagem. O eforato era um órgão importantíssimo na política espartana. pelo fascismo. imperando a lei da natureza. Jean-Jacques Rous­ seau e Emmanuel Joseph Siéyès. A mentalidade totalitária ou organicista. pelos excessos do absolutismo em França. 11111 dos criadores da ideolo­ gia iluminista. O Estado intervinha em tudo. Ao eupátrida ateniense correspondia o esparciata ou lacedemônio. entretanto. A metecos e escravos em Atenas correspondiam. fundada na monarquia. a liberal-democracia. com suas ultrapassadas concepções criadas para manter o po­ der do clero e da monarquia absoluta. contra periecos e ilotas. São figu­ ras de realce no pensamento liberal individualista John Locke. Para melhor alcançar seus objetivos in­ . despro­ vida de poder. que. é preferível à vida em civilização. Quem nos dá uma visão realista da democracia grega é Fustel de Coulanges. em liberdade e igualdade absolutas. que a participação do cidadão 110 processo político era muito mais um dever do que um direito.

Emmanuel Joseph Siéyès (1748-1836) . Já se disse que. fruto da vontade e não de uma inclinação natural. é aque­ la que reduz ao mínimo os vínculos sociais c a pressão exercida pela sociedade sobre o homem. no qual também a felicidade seria abso­ luta. o chamado estado de natureza . por conseguinte. instituir a sociedade política. man­ ter a ordem. como tal. Perdida a liberdade natural. mas a sociedade o corrom­ pe. se Locke tivesse de optar entre a desordem e o despotismo. daí o divórcio.. outorgando a esta um poder de mando destinado a executar a referida lei natural. Quando surge a vida em sociedade. era. resolveram. A comunidade teria. A própria família somen­ te se mantém em razão de laços contratuais. a ser um fim em si mesma. portanto. Como Locke. contudo. sem dúvida. e a própria sociedade nada mais é que o objeto de um con­ trato. Discurso sobre a origem da desigualdade entre os homens e N ova Eloísa. preservando a liberdade individual. direito de. a sociedade polí­ tica conveniente é aquela que garante a mais ampla autonomia individual. então. a qualquer momento. reduz o casa­ mento a um contrato e. relegada a um segundo plano toda a ideia dc progresso e de bem-estar social. A única função do Estado seria. a restauração do caráter do homem se faz com a liberdade civil. que podem dissolvê-lo livremente. mediante um pacto voluntário . escolheria. Essas ideias de Rousseau acham-se situadas especialmente em O contrato so­ cial1 . é a liberdade dos bons tempos que o faz bom: portanto. O individualismo. Rousseau.122 Teoria Geral do Estado dividuais. sua natureza é sã. é um bom selvagem . ideal maior do Estado. aliás. dizia em sua obra O contrato social: “O homem nasce livre e em toda parte se acha aprisiona­ do'’. diz ele. O homem. o homem perde tal liberdade e se corrom­ pe. rebelar-se contra os possíveis excessos dos governantes. a primeira hipótese. dependente de um acordo de vontades. por sua vez. A liberdade passa. um dos corifeus da Revolução Francesa. Ora. Rousseau afirma que o homem surge num estado de liberdade absoluta.

afin que IcTicrsEtat d evien n e. não pode participar da vida em sociedade a não ser conservando sua soberania pessoal. Q u a-t-il & c jufqti a prcfcnt dans 1'ordrc p olitiquci RiEM. C ° . os cidadãos fazem tudo com a força dc seus braços. N um Estado verdadeiramente livre. N oui avons trois queftions i nous faire. o Estado se encon­ tra à beira do colapso. Inércia e dinheiro ensejam soldados para dominar a pátria e deputados para a venderem. não pagam para se desobrigar dc suas obrigações. A i. Todos estão certos de que ja­ . C c q u o n auroit Jú fairc. nada com o ouro. C c que les Miniftrcs ont ttn ti. É preciso ir ao parlamento? Nomeiam deputados e continuam a ficar em casa. Rousseau era adversário ferrenho da chamada democracia representativa. & c e q u e Privilegies cux-m cm cs propofaic cn fa faveur. tanto para Locke como para Rousseau. Num dos mais valiosos capítulos de seu O contrato social (Livro Terceiro.i voirfi les reponfes font juftes. O n v. Q u c ft-cc que le Tiers-Ecat » T o u t . Por isso. a liberdade é o bem supremo do ideal democrático. 1®. Q tiç dcmandc-c-il f A dcvcnir QUELQUE G H O SE. 3°. Nous c x imincrons cnluitc les rooyensquc 1on a eflayés / íc c c u x q n c l on doic prendre. por ser contrária à lei natural a proposição de que a maioria governa a minoria. Num Estado bem dirigido. mas para as cumprirem. cc q u i rtjle i fairc au Ticrs pour prendre U p h cc qvú lui cft dúc. naturalmente independente. mas com um mau governo ninguém se interessa pelo que nelas se delibere. Só pode haver democracia. É preciso combater? Pagam a mercenários e ficam em casa. que se preocupam mais com o dinheiro do que com sua própria pessoa. quclqu* chofe. dizia Rousseau. Rousseau vai ao ponto de afirmar que o ho­ mem. 5 °. Ainft nous d iro n s: * 4 ° . onde houver deliberações tomadas diretamente pela comunidade. í®. Enfin . sem intermediá­ rios. Rousseau é bastante claro e incisivo a esse respeito: Logo que a função pública deixa de ser a principal atividade dos cidadãos. Frontispício da obra clássica de Siéyès Que é o Terceiro Estado? Já estamos vendo que.6 Formas cie governo 123 Q U E S T -C E Q U E LE TIERS-ÉTAT? X j E plan d c cct E c m c ít aflèz fimplc. todos freqüentam as assembleias. Capítulo XV). en c ffc t.

per­ manência. denotando a rigidez das sociedades estruturadas em estamentos. como contrária à natureza. e Que é o Terceiro Estado?. afirma que a soberania do Estado reside na nação. as palavras casta. aparentemente. Siéyès será o grande inspirador desta. são. Emmanuel Joseph Siéyès foi um abade que teve uma vida política destacada. estratificados. voltou para a França em 1830. propondo a unidade da na­ ção e do chamado Terceiro Estado (o povo). Siéyès escreveu dois explosivos panfletos. Apoiou Bonaparte no golpe do 18 Brumário. Não havia. Ela se expres­ sa pela vontade geral. sendo os três estados estanques. foi adversário de Robespierre. o Terceiro Estado. quando muito. é nula. O povo inglês pensa que é livre. em pessoa. classes sociais na França. e isto não ocorria então. não aprove. só é livre durante a eleição dos membros do parla­ mento. elemento mais numeroso e mais sig­ nificativo economicamente. com efeito. que vivem e que viverão. A nação não é o conjunto de homens reais. Toda lei que o povo. elementos de uma comissão e não podem concluir nada em definitivo. a própria ideia de privilégio. estamento. Os deputados não são c nem podem ser representantes do povo. Nos poucos momentos em que usufrui de liberdade. Quem inte­ grava um estamento inferior não podia galgar um estamento privilegiado. Nesta segunda obra. jamais será uma lei. não há meiotermo. com todo o Terceiro Estado. A ideia de nação em Siéyès confunde-se. na França pré-revolucionária? Era o ter­ ceiro estamento social. antecedido pela nobreza e pelo clero. Aliás. para a Re­ volução soviética. efetivamente existentes em dado momento histórico. mas não conseguiu que seu projeto de Constituição fosse adotado. no sentido moderno que atribuímos à expressão clas­ se social. afinal. mas sim o conjunto daqueles que viveram. Se Rousseau é inimigo figadal da democracia chamada representativa. más leis acarretam outras piores. Boas leis criam outras melhores. logo que estes são eleitos. Esses dois panfletos se intitulam Ensaio sobre os privilégios. pois uma sociedade estruturada em classes admite a mobilidade social. c esta não admite representantes. utiliza tão mal esta. mesmo porque as ocupações particulares ocupam todo o tempo. Deputado do povo. passa a ser escravo e nada é. Que era. que bem merece perdê-la. estado. que significa. presidente da Constituinte francesa re­ volucionária. no qual Siéyès incrimina. com efei­ to. imutabilidade. obra da qual se serve para combater a pluralidade de es­ tamentos do ordenamento constitucional monárquico. porém está enganado. E quando alguém diz: Que me importa o E s ta d o este está perdido. A soberania não pode ser representada. concretos. Exilado. . considerados tão importantes para a Revolução Francesa como o Manifesto comunista. de origem indo-europeia. estratificação trazem consigo um semantema (ra­ dical) st. pois não admite alienação. de Marx e Engels. ou é ela ou não e.124 Teoria Geral do Estado mais a vontade geral prevalecerá. exatamente.

A nação. Por isso. A responsabilidade dos representantes apura-se nos termos da Constituição. I o e 2o). mas das próprias normas da Constituição. que fixará a competência e os deveres dos representantes da na­ ção. Mais adiante. ao passo que. da mesma forma que no direito civil temos um contrato denominado mandato (do latim manus dare). mas com os interesses permanentes do Estado. a representação da nação será atri­ buída a quem ela determinar. O Terceiro Estado. Que deseja ele? Chegar a ser algo”. pois as mãos simbolizam a fidelidade (per dexteram era per fidem). sendo a nação uma entidade abstrata. contratualística. Em razão disso é que Siéyès abre seu famoso apúsculo com as incisivas palavras: “ Que é o Terceiro Estado? Tudo. diz ele. “da qual emanam todos os direitos” (Constituição de 1791. c nenhum mandato lhes poderá ser atribuído”. A sobe­ rania. no pen­ samento de Siéyès. para Siéyès. mas de toda a nação. a Constituição francesa de 1791 estabeleceu em seu art. arts. e sim mera representação política. 7°: “Os representantes elei­ tos nos parlamentos não serão representantes de um departamento particular. e a perda do exercício do cargo não decorre da vontade dos governados. Em razão da doutrina de Siéyès. deve ser direta. contudo. e seria bem melhor se os outros Estados não existissem. no capítulo II: É preciso entender por Terceiro Estado o conjunto dos cidadãos que se acham submetidos a um ordenamento comum. Nisto. for­ malizando-se o pacto por um aperto de mãos. os interesses da nação suplantam os interesses momentâneos do povo. vinculação jurídica entre representantes e representados. Assim. a posição de Rousseau é oposta à de Siéyès. Nação e Terceiro Estado confundem-se. porque segundo ele é imprescindível a participação direta da comunidade nas deliberações políticas. preâmbulo do título terceiro. Enquanto o mandato imperativo tem natureza consensual. Ora. segundo Rous­ seau. isto é. que representa os interesses perma­ nentes do elemento humano do Estado. consistindo num vínculo contratual entre representante e representado. para que haja vontade gerai Entretanto. sendo que a participação do povo. Não há. reitere-se. Já o disse­ mos: uma lei comum c uma representação comum e o que constitui uma nação. não se confunde com as gerações que passam. passa a pertencer à nação. a nação é uma entidade abstrata. vinculação jurídica entre man­ . Que tem sido até agora no ordenamento político? Nada. Todo aquele que é privilegiado pela lei sai do ordenamento comum e. consequentemente. que pertencia ao rei. Nada pode progredir sem ele. não po­ derá haver mandato imperativo.6 Formas de governo 125 Clero e nobreza eram dotados de privilégios com os quais não era contempla­ do o povo ou Terceiro Estado. é uma nação completa. a representação política é obra do poder constituinte. não integra o Terceiro Estado. ambos concor­ dam num ponto: todo e qualquer organismo intermediário entre os indivíduos e o poder político deve ser eliminado.

Surgem grupos das mais diversas espécies e fina­ lidades. têm direito a brilhar nas alturas. que. a ele vedada uma participação efeti­ va nas decisões dos governantes. é necessário que essas forças estejam representadas nas Cortes. e não se dará esse caso vergonhoso . Assim. pela in­ dústria e a agricultura. ainda saindo das camadas inferiores. artísticos. Foi olvidada a ideia de que o Estado não tem no elemento humano a mera soma dos indivíduos. procurando rebater os excessos do absolutismo monárquico. como frisa Galvão dc Souza. O Estado poderá ató desconhecer tais grupos. sejam estes dc natureza econômica. ao passo que o mandato imperativo tem natureza consensual. Quan­ do o parlamento representar todas essas forças. antecedem no próprio Fi­ tado. o interesse material. tal concepção de democracia. o homem. da virtu­ de. em perfeita integração com os organismos vivos da nação. bem como pelos operários.dc que. grupos que. o Partido Con­ . intelectual. o processo denominado in­ tegração ensejou a diferenciação paulatina de tais grupos. e sim a formação de grupos sociais que surgem espontaneamente. religiosa ou in­ telectual. quando surge uma crise agrícola ou industrial. A representação por meio de partidos. apresentou bons resul­ tados na Inglaterra. a pri­ meira medida dos partidos que formam o parlamento é procurar uma informação pú­ blica. surgindo a solidariedade orgânica e a divisão do trabalho. A representação nacional tem natureza institucionalvem de cima para baixo. Vásquez de Mella adverte: O que se deve representar é o homem de classe e de grupo. e como as classes são categorias sociais permanentes. colocando o indivíduo numa po­ sição dc desamparo perante o poder político. da linhagem. animal social por natureza (zoon politikon ). contu­ do. representado pelo Exército. muitas vezes. por exemplo. o interesse da defesa. incorreu no extremo oposto. não podendo ser negadas sem que sc negue uma na­ ção. porque lá eles sempre estiveram identificados a classes sociais. o interesse docente. De fato. não poderá jamais. somente se agrega aos seus semelhantes que tenham os mesmos interesses. representado pelo comércio. e o interesse das superioridades.126 Teoria Geral do Estado dante e mandatário. representado pelas corporações científicas. Ora. de acordo de vontades. a família e o município. para sc inteirar do que sc passa lá fora. Se as primitivas sociedades eram ho­ mogêneas e a solidariedade social puramente mecânica. daquelas autoridades sociais que for­ mam a aristocracia de todos: os méritos científicos. revelando a inclinação do homem para uma agregação orgânica e não puramente mecânica. É preciso que aí estejam os interesses dc que vos falei: o interesse religioso c moral representado pelo clero. política. pelas universidades e academias.prova de que não são representativos os parlamentos modernos . faze-los desaparecer. então o espelho da sociedade será ele mesmo. e surgem espontaneamente. pelo menos até o momento inexpressi­ va e fictícia em nosso País e em quase toda a América Latina.

onde. o da Inglaterra. ocorreu nos Estados Unidos da América do Norte. no tocante à representação partidária. não devemos nos esquecer de que os partidos ingleses se acham intimamente ligados a determinadas classes ou a grupos . vazias embalagens. não em doutrina. Não são produtos das exigências comuns da vida humana.6 Formas de governo 127 servador sempre esteve ligado aos grandes proprietários. muito mais importante do que um partido. a ponto de não haver uma diferença bem definida nos dois grandes partidos aí existentes. observados não em tese. identificado com a classe operária e as agre­ miações sindicais (trade unions). Por que não substituir a representação par­ tidária pela representação corporativa? A representação feita através dos partidos é inexpressiva e fictícia. da aristocracia. Dissolvidos os órgãos naturais de representação da sociedade. finalmente. partido representante. mas em concreto. isto é. incapazes. Um sindicato ou um clube de fu­ tebol é. de orientar a opinião de quem quer que seja sobre os problemas sociais. Entretanto. sem nenhum conteúdo doutrinário e programático. em especial na França. em seu real funcionamento. como órgãos de expressão da opinião pública. o Trabalhista. Em preciosa monografia intitulada A democracia e o Brasil. Pois aí está o dc que muitos se esquecem. representando a classe média burguesa. Goffredo Telles Jr. isto é. os agrupamen­ tos intermediários da família ao Estado. Além disso. veículos que a representam. por­ tanto. Os quadros partidários não correspondem à organização natu­ ral da sociedade que visam representar. portanto. Na democracia liberal e individualista surgem. Partidos políticos do tipo dos nossos não são órgãos naturais da sociedade. são meras siglas. e também instrumentos para orientála. não em todos. Galvão de Souza também se mostra incisivo e claro a esse respeito: Os partidos podem ser indispensáveis num determinado tipo de democracia. Servem apenas de instrumento para o registro de candidatos no tribunal com­ petente. na América Latina tornaram-se quase sempre órgãos deformados. Se na liberal-democracia os partidos apareceram para preencher o vazio dei­ xado pelos corpos intermediários extintos em 1791. não em abstrato. Há casos que poderiam ser apontados como exceções. então aparecem os partidos para substituí-los. Nada dizem à alma popular. já escrevia antes mesmo da insurreição de 1964: Os partidos políticos brasileiros. por exemplo. sofreu menos o impacto das novas ideias revolucionárias. dc certa forma isolada do drama políti­ co que se desenrolava no continente europeu. Fenômeno semelhante. meros instrumen­ tos dc grupos ou de chefes políticos arrivistas. Em nada se prendem ao drama quotidiano do cidadão. a Inglaterra. o Liberal. sim­ ples rótulos. por influência de Siéyès. no sentimento do povo. o pragmatismo suplantou as abstrações ideoló­ gicas. e. bem apontado por Maurice Duverger.

4. O parlamentar.). Como se poderia compreender o desenvolvimento do Partido Trabalhista sem a base sindical do “trade-unionismo” ? E o Partido Conservador não tira a sua força do elemento aristocrático? As aberrações e os abusos cometidos cm nome da chamada democracia re­ presentativa ensejaram uma série de providências saneadoras do Estado Moderno. Embora adotando. Isto marca. que concedeu aos plebeus o direito de participar do processo político na antiga Roma republicana. referendo. formulando um programa de governo e designando candidatos que se vinculam. portanto. Deputados e senadores serão man­ datários de seus partidos. Após a Segunda Guerra M undial. a função do partido político é preparar a de­ cisão popular. 6. o instituto adotado por Napoleão Ikmaparte para obter o aval popular das mudanças constitucionais dc seu governo. obrigatoriamente.1963. aliás. recall e mandato im­ perativo. de certa forma. à volta do regime presidencialista. assim nominada porque. Na democracia partidária. os seguintes ins­ titutos: plebiscito. . a tal programa.4. Modernamente. o constitucionalismo brasileiro ensejou a participação popular direta em 1963. ao lado da natureza representativa de seu sistema político. pois o deputado pode ser desligado de seu partido caso sc des­ ligue da linha de conduta que lhe for traçada. Ele se sujeita ao programa partidário. no que foi imitado por Napoleão III. a vinculação do parlamentar ao seu partido. sendo. destacando-se aquele que ensejou a anexação (Anscbliiss) da Áustria à Alemanha. nela se admite a utilização esporádica da intervenção direta dos governados em certas delibera­ ções dos governantes.C.01.4) D em ocracia sem idireta A terceira espécie de democracia é a democracia semidireta. que havia sido adotado em 02. Hitler realizou vários plebiscitos. a fim de que esta sc manifeste a respeito de sua conveniência ou não.128 Teoria Geral do Estado sociais. Plebiscito: a expressão denomina uma consulta prévia que sc faz à coletivi­ dade.09. tradicionalmente. por conseqüência. por intermédio de plebiscitos. quando garantiu o apoio da maioria para suas medidas. os governantes france­ ses usaram largamente do plebiscito.1961. iniciativa popular. Inicialmente. de 23. veto popular. 2. a de­ mocracia representativa. mediante um plebiscito no qual o eleitorado refugou o regime parlamentarista de governo. manifestando-se favoravelmente. o povo francês manifestou-se durante a Grande Re­ volução. um retorno ao mandato imperativo. não decide mais por si próprio. Os governantes consideram oportuna a medida. plebe. em nome da fidelidade partidária. mas antes dc efetivá-la consideram necessário que o povo se manifeste. Esta intervenção compreende. o que ocorreria com a Emenda n. por intermédio da Emenda Constitucional n. ten­ do origem na Lex Hortensia (século IV a. basicamente. O termo plebiscito deriva de plebs.

a moção. da Constituição italiana de 1947 determina que cinqüenta mil eleitores podem obrigar o parlamento a discutir um projeto de lei oriundo de iniciativa popular. 71. a que mais aten­ de às exigências populares de uma participação efetiva no processo político é a ini­ ciativa das leis pelo próprio povo. Ressurgiu. pelo qual pressiona o parlamento a reparar um projeto de lei sobre determinado assunto. os cida­ dãos não legislam. um projeto de lei determinado será exposto à Assembleia. na Constituição de Weimar. in fine. no Estado de Dakota do Sul (1898) e no Oregon (1904). O art. juntamente com o plebiscito e o recall (que permi­ te aos eleitores revogarem o mandato de um representante eleito e que é legal em doze . O aumento desses projetos. A diferença entre os projetos de lei originados da comunidade c os plebiscitos é que os primeiros aparecem na votação através de ação direta do cidadão. 14. Nisto difere do plebiscito. também. Também o referendo é previsto pela Constituição brasileira no art. bem como a discuti-lo e a votá-lo. na Ve­ nezuela e na Itália. no art. de todas as instituições da democracia semidireta. porque. p. Lisboa. 1 4 .1 ) c como instrumento da vontade popular na manutenção ou modificação da forma de governo e do regime de governo (art.. Estes instrumentos criam acesso direto à decisão política. No caso. Referendo: o referendo e o mecanismo da democracia semidireta pelo qual os cidadãos são convocados para se manifestar a respeito da conveniência ou não de medida já tomada pelos governantes. A iniciati­ va popular foi empregada pela primeira vez nos EUA. O primeiro projeto dc lei estadual originado da comunidade nos Estados Unidos ocorreu no Oregon em 1904. mas fazem com que se legisle. Lembra Salvetti Netto que o Le­ gislativo não está obrigado a acatar a iniciativa popular. 86. então. g. a realização de plebiscitos como forma de exercício da soberania popular (art. que de­ verá examiná-lo c emitir um parecer (/l democracia. Na iniciativa popular o povo exercc apenas um direito dc petição “reforçado”. Como acentua John Naisbitt cm sugestiva monografia: Os projetos de lei originados das comunidades e os plebiscitos são as ferramen­ tas da nova democracia. enfim. da Constituição de Cuba. a iniciativa popular obriga o parlamento a legislar.. Realmente. II. A iniciativa popular é encontrada. Dá-se o nome de referendo também à manifestação popular sobre a entrada em vigor de leis já elaboradas pelo parlamento. E uma das razões para o seu fortalecimento recente é que as pessoas estão exigindo maior prestação de contas. Publicações Europa/ América. se um determinado número dc ci­ dadãos o exige. de ratificação popular de algo que já está feito. 133). expressamente. como desejam cidadãos informados e educados.6 Formas de governo 129 A Constituição brasileira prevê. Iniciativa popular: eis o mais significativo instituto da democracia semidire­ ta. Trata-se. Como assinala Georges Burdeau. c os plebiscitos são uma maneira dc os cidadãos aprovarem ou não a ação do legislativo. 1962. que autoriza o seu exercício por um mínimo de dez mil cidadãos. 2o das Disposições Transitórias). depois.

Não se aplica. Pode ocorrer no plebiscito ou no referendo. mas a única arma que o povo americano encontrou para combater um perigo muito maior . caracteriza magistralmente o recall dos cargos eletivos assim: Comumente vinculado à democracia semidireta está o recall.1988. permitem às pessoas passar por cima dos processos representativos tra­ dicionais e moldar o sistema político com suas próprias mãos. e c esta. con­ trárias ao interesse coletivo. É o recall das decisões judiciárias. se. William Bennett Munro. promulgada em 05. impedir).prossegue Azambu­ ja . instrumentos-chave na nova democracia participativa. Rio de Janeiro. sendo o instituto adotado. adotado em doze Estados da Federação norte-americana. Veto popular: do latim vetare (proibir.130 Teoria Geral do Estado estados). § 4o. por julgá-la inconstitucional. inovou na or­ dem jurídica ao adotar a iniciativa popular nos arts.a magistratura eletiva de vários Estados tem entravado. oportunamente. caput e § 2°. às decisões da Suprema Corte. 162-3) A vigente Constituição brasileira. Nem o Poder Judiciário escapa ao raio de ação do recall. de democracia semidireta lhe permite anular a ação dos juizes. citado por Wilson Accioli (Teoria ge­ ral do Estado. quando estes. representa uma exigência inequívoca de parte dos eleitores de prestação de contas do governo. Darcy Azambuja. negam-se a executar certas leis oriundas da iniciativa popu­ lar. sua finalidade: permitir que o eleitorado possa destituir. em nenhuma hipótese. nos Es­ tados do Oregon e da Califórnia. Li­ vros Abril/Círculo do Livro. p. e com a iniciativa popular pode obrigar o Legislativo a fazer leis socialmente úteis. uma forma audaciosa e perigosa. (Megatendências. pelo povo. o veto popular significa a re­ jeição. 26. a maioria dos eleitores pode anular a decisão. modernamente. p.a elegibilidade dos juizes. Ele pode ser defi­ nido como o direito de um determinado número de eleitores solicitar a destituição ime­ diata de um governador ou de qualquer outro detentor de cargo eletivo. 1982. Recall: o termo recall significa revogar. e obter que seu pedido seja submetido aos eleitores para que estes possam decidir. decla­ rar inconstitucional a lei e obrigar a sua aplicação. de uma medida governamental. Uma petição .10.finaliza -. um órgão público que tenha afrontado a confiança do povo e a dignidade do cargo. e 61. 1985. alegando o vício de inconstitucionalidade. Theodore Roosevelt foi. o pioneiro na inovação do recall quanto às decisões judiciárias. por imposi­ ção do capitalismo que a elege. anular. sem dúvida . III. reparar. 14.principalmente em relação à legislação social que . Estes novos dispositivos. verdadeira­ mente. arrojada e singular. em manifestação direta. com o referendum. Isso se dá . Como assinala. a partir de 1912. Quando um juiz se nega a aplicar uma lei. o povo americano pode inutilizar certas leis. E. Forense. 321).segundo muitos autores americanos . uma outra forma.

Torna a responsabilidade funcional permanente e di­ reta. e não apenas ao corpo eleitoral. até 1601. em razão disso. podem rescindir\ dissolver esta ligação. assinala Darcy Azambuja. de modo fácil. 1959. caução. evidentemente. Sc a maioria dos eleitores sc pronuncia cm favor do re­ call. 11111 instrumento que pode. Mas ele tem sido. de modo que estes. 672) Entretanto. New York. (The govemment o f United States. Por outro lado. Permite ao povo destituir qualquer detentor de cargo público que dei­ xou de atender à sua confiança. con­ sensual. quando suficientes assinaturas (usualmen­ te um número igual a cinco por cento do eleitorado registrado) forem obtidas. Ao contrário do impeachment. de fato. MacM illan. em apenas um governador e uma meia dúzia de outros importantes funcionários estatais foram destituídos. juntando à cédula do voto sua defesa. em caso de o candidato eleito não estar correspondendo aos anseios do eleitorado. sob o impacto da doutrina de Siéyès. portanto obriga­ tória. o termo man­ dato não casa bem com democracia representativa. cuja denominação . para o que.6 Formas de governo 131 deste tipo. ultimamente. quando desa­ pareceu na voragem do absolutismo nascente. ele continua no cargo. O recalled pode apresentar-se à reeleição. e não institucional. Se reeleito. é redigida e posta em circulação para receber as assinaturas. Com o surgimento da chamada de­ mocracia representativa. na Es­ panha. e. Um percentual de 20 a 25% do total de eleitores de cada Estado requer que o órgão seja submetido ao recall. o recall é um ins­ trumento político indicado para assegurar a mais rigorosa responsabilidade funcional ao eleitorado. o que pareceria indicar que é geralmente visto como uma arma a ser mantida de reserva. mais para uma emergência do que para o uso mais in­ tenso. espécie de pacto que. 11a forma da lei. desfez-se. ser usado er­ radamente. aliás. do contrário. Surgido por volta do século IX. porque o “mandato” polí­ tico se referiria a toda a nação. o recall é 1908. o mandato imperativo teve seu apogeu 11a França. natureza contratual. Tem. como ocorre no mandato político. o recall tem obtido. Desde sua introdução. que é um procedimento semijudicial normalmente usado para livrar o governo de um funcionário culpado de atos criminosos. a peti­ ção é submetida às próprias autoridades que. o funcionário é destituído imediatamente. a responsabilidade dos parlamentares apurar-se-ia tão somente nos casos rigidamen­ te instituídos pela Constituição. sendo seus alvos os órgãos dos três Poderes da União. o vínculo jurídico existente entre representantes e representados. os peticionários do recall devem reembolsar o acusado das despesas feitas com a eleição. muito pouco usado. entre mandante e mandatário. como já vimos no estudo da democracia representativa. p. Mandato imperativo: o mandato imperativo é o vínculo jurídico que liga o re­ presentante do povo aos seus próprios eleitores. ordenam uma eleição para decidir sobre a matéria. em face disto. estabelecendo as razões indicadoras da ação pretendida. prestar. é reforçado pela vinculação jurídica. lar­ ga aplicação em alguns Estados norte-americanos. Vejamos: a expressão manda­ to vem do latim mandatum. Embora empregado a partir de então. previamente.

quando o que está realmente em crise é uma simples forma histórica da democracia. Descar­ tada a primeira hipótese. retornando à prática política. é correntio ouvir falar em crise da democracia. investidura. di­ zem seus porta-vozes. tão bem sintetizaram com esta elegante expressão: popularii potentia. a qualificação de um Estado como democrático não se acha vinculada a nenhuma ideologia. governo do povo. qual seja. realizar o ideal democrático. em oposição a arche (governo)? Assegurar os meios da permanente penetração dos governados nas decisões dos governantes. que os romanos. a representa­ tiva e a semidireta. eis o grande desafio. propriamente. por irrealizável no mun­ do moderno. a liberal-democracia. menos por suas virtudes intrínsecas do que pela inegável desmoralização da repre­ sentação política cunhada pela liberal-democracia. Eis. ainda. a liberal-democracia. Não foi à toa que Jacques Maritain afirmou. pelo menos. Curiosa esta última posição: será a democracia o governo do povo ou. mas poder do povo. exigindo dos governantes a melhor orientação. Ora. mas o sociólogo norte-americano Robert Dahl catalogou nada menos do que quinhentas conceituações! Em pitoresca ima­ gem. Frederico II não fazia por menos e costuma­ va resumir seu pensamento a esse respeito em poucas palavras: tudo para o povo. transformou-se. sob pena de aberrante deformação da realidade. em tabu. a da democracia direta. com franqueza e pessimismo. Come­ te-se o erro que. Abolido violentamente pelo furor revolucionário na França. para mui­ tos. embora nunca de medida e padrão únicos. então. com seu espírito pragmático. restaria indagar qual a verdadeira essência do ideal democrático. Cada uma delas buscou alcançar o ideal democrático. Atualmen­ te. Cabral de Moncada nos diz que a democracia é um tecido com o qual se pode tecer todo tipo de roupa. da mes­ ma forma que todos os políticos se proclamam honestos. Uma coisa é certa: não pode haver democra­ cia onde não houver uma participação permanente c consciente dos cidadãos or­ ganizados em povo político. . que a tragédia das democracias contemporâneas con­ siste em que elas não conseguiram. o mandato imperativo vai. Um recente estudo levado a efeito pela Unesco revelou a existência de. portanto. Guizot. Crise da liberal-democracia é crise do próprio ideal democrático. resta claro que o termo não significa. em lógica. três espécies de democracia: a direta ou clássica. Infelizmente. o controle do poder político pelo povo. como querem alguns.132 Teoria Geral do Estado correta seria. que nada mais é do que uma espécie entre as inúmeras que buscam alcançar o ideal democrático. 250 definições de democracia. aos poucos. costumava dizer que a confusão está a se esconder numa palavra: democracia. Com efei­ to. nada pelo povo. Pela própria etimologia da palavra democracia (demos = povo e kratos = poder). primeiro-ministro de Luís Felipe. consiste em tomar a parte pelo todo. todos os Estados Modernos se proclamam ardentemente democráticos.

nada mais é do que o instrumento para exercer o direito de deliberação ou de escolher candidatos a cargos políticos. o sufrágio1 Do latim suffragari. paulatina. previamente selecionado por determinado tipo de su­ frágio. o sufrágio apresenta duas espécies: o sufrágio-direito e o sufrágio-função. é ele titular de parte ou fração da própria soberania. mediante o sufrágio. quando.5) Sufrágio e voto Tanto a democracia representativa como a democracia semidireta apresentam um pressuposto que se destaca de imediato. No mundo moderno. O sufrágio-direito parte de Jean-Jacques Rous­ seau. o que vem a ser democracia? Democracia é o processo político que autoriza a permanente par­ ticipação. implan­ tação do divórcio.6 Formas de governo 133 Num mundo em que as realidades palpáveis se fazem cada vez mais candentcs. por exemplo. pode haver votação sem eleição . pois não admite alienação. àqueles que têm o direito dc votar. então. Pelo sufrágio. e sen­ do a soberania indelegável. ao eleitorado. o da existência de um corpo eleitoral periodicamente renovado. Quanto ao voto. Ela se expressa pela vontade geral. sendo cada cidadão uma parcela da coletividade política. constituem o sufrágio. Pelo sufrágio. enfim. Por isso. embora na demo­ cracia representativa e na semidireta não possa haver eleição sem prévia votação.4. direta ou indireta. Quanto ao fundamento da soberania. Quando o eleitorado. inevitavelmente. Rousseau é muito claro a respeito: “a soberania não pode ser representada. nas deliberações dos governantes. escolhendo seus candidatos. para se sa­ ber quem terá o direito de votar c preciso. o homem abstrato vão deixando o seu lugar para um ser totalmente novo. descreve em seu precioso opúsculo sobre a democracia. o cidadão. adoção de determinado regime dc gover­ no. O sufrágio é. Por isso. afirmam alguns doutrinadores. diz-se que há votação. estabelecer os requisitos para a obtenção dc tal direito. Então. Entretanto. Atendidos os requisitos constitucionais. o homem situado. fica esclareci­ do quem terá o direito ao voto. livre e consciente. para quem. qual seja. da com unidade. decide diretamente a respeito dc determinado assunto. o célebre genebrino costumava dizer: “o voto é um direito que . Belas ficções. mas o voto é um ato de escolha. estabelecidos na própria Constitui­ ção. transformadas em dogmas da política. começam a perder o en­ canto original. um processo de escolha de eleitores. perdendo ter­ reno. ao conjunto daqueles que são dota­ dos de cidadania. que Georgcs Burdeau. refere-se. quem se refere à democra­ cia. ao votar. simplesmente. Tais requisitos. é costume dizer que há eleição. portanto. mas inexoravelmente. as abstrações do passado vão. 2. Entretanto. com muita graça. o eleitorado está elegendo. e esta não admite repre­ sentantes” . O sufrágio é um processo de escolha. O súdito. o nacional passa a ser cidadão. preliminarmente. legalização do aborto. é um pro­ cesso de seleção daqueles que terão o direito de votar. mediante elei­ ções. o nacional torna-se cidadão e começa a exercer o direito de votar. Que é.

é mais do que isso. amealhando considerável patrimônio e. com sua concepção de nação. obtiveram o direito de dirigir a coisa pública. portanto. os representantes de uma entidade ideal. compulsória: a de votar. que. O povo elegerá. é uma entidade espiritual. enfim. os interesses per­ manentes da comunidade. consequentemente. aqueles que irão fazê-lo em seu nome.134 Teoria Geral do Estado ninguém pode subtrair aos cidadãos”. uma vontade coletiva? N ão há outra alternativa: por intermédio de uma comunidade concreta. abstrata. O eleitor não exerce ape­ nas uma faculdade. segundo Siéyès. Por outro lado. seus interesses permanentes. portanto. A nação. repita-se. e que nem sempre coincidem com os interesses passageiros de uma única ge­ ração. perceptível aos sentidos. mas permanente: a nação. Cada cidadão é titular da fração da soberania que lhe cabe. diz. Bem diferente se mostra a teoria do sufrágio-fun­ ção. Cada época histórica consagrou um tipo determinado de sufrágio. um órgão por intermédio do qual a nação expressa a sua vonta­ de. da mesma forma que uns poucos demonstraram capacidade de trabalho e de realização pes­ soal. O eleitor é mero instrumento de manifestação da vontade nacional. portanto. fundado no volume de bens de que cada cidadão pode dispor. ser obrigatório. como pode um ente abstrato manifestar sua vontade. mas o fundamento desta continua a residir na nação. para fruir de um maior bem-estar material. na participação política. entre indivíduo e Estado. do exposto. Percebe-se. então. destacando-se dos demais. A nação. ela é a própria permanência da comunidade no tempo. poderá sacrificar. não se confunde com o povo. o povo. tem-se como certo. seria o conjunto das pessoas coetâneas (mesma idade) e contemporâneas (mesma época). Ora. devem ar­ car com tal ônus. que se mostram nas gerações que se suce­ dem. Ora. mais rapida­ mente a sociedade consolidará o governo dos melhores. inarredavelmente. e não apenas dele. Aquela é uma simples comunidade organizada e considerada num dado momento histórico. participar do processo eleitoral é mais uma faculdade do que um direito público subjetivo. Esta espécie de sufrágio teve seu apogeu com a liberal-democracia burguesa. o direito ao voto. um vínculo dc compulsoriedade. Assim. e para usar uma terminologia de Ortega y Gasset. excluídas as gerações passadas e futuras. Assim. no eleitorado que levará ao poder os representantes da nação. o sufrágio censitário. Daí a sugestiva denominação dada ao sufrágio que expressa a soberania nacional: sufrágio-função. sob . em determinado momento da vida da nação. porém. por intermédio do povo. Povo. Em outras palavras. pois. Tais representantes serão os titulares do exercí­ cio da soberania. irremediavelmente. com isto. restringindo-se o direito ao voto. que estará. uma ideia. no sé­ culo XIX. Segundo a doutrina do sufrágio-direito. Seu fundamento ideológico reside na argumentação de que o Estado deve preparar uma elite governante. mas cumpre uma função inafastável. O povo transforma-se. Ela parte de Emmanuel Joseph Siéyès. não podendo a nação manifestar-se diretamente. O voto deve. por ser uma en­ tidade abstrata. e. e a exerce como lhe apraz. A nação. no caso. não cons­ titui uma obrigação à qual corresponda. povo. o povo.

mer­ gulhados nas sombras de uma vida mesquinha e medíocre. o direito de as mulheres participarem do processo político aparece. seria cons­ tituído pela camada mais informada. A expressão ccnsitário deriva de censo. Por exemplo. na antiga Roma republicana. Uma terceira espécie de sufrágio restrito é o sufrágio masculino.. Na Suíça. por intermédio do Código Eleitoral brasileiro. de 25. desinteressados de tudo. Nesta espécie de sufrágio. permitindo a consolidação de uma elite intelectual. o parlamento. com a divisão dos contribuintes cm três estamentos. 7° da Constituição Federal. o voto feminino aparecc.. 92 e 94. de forma dissimulada. embora do­ tado de ínfima representação. estudante de Direito. Já se percebe que o fundamento desta espé­ cie de sufrágio é afastar do processo político os inaptos. os ignorantes e os analfabetos. no Rio Grande do Norte. em sua plenitude. no mais das vezes. esta. No Bra­ sil. entretanto. Os votos foram anulados. Outra espécie de sufrágio. sem discriminação expressa da mulher. Fm 1928. nos arts. é o sufrágio cultural ou capacitário. em face do qual somente votam aqueles que demonstrarem um nível míni­ mo de erudição e informação política. realmente interessada no aperfeiçoamento das instituições e na realização dos objetivos sociais. alienados. aos censores. que definia os eleitores como os cidadãos maio­ res de 21 anos. nos Estados Unidos da América do Norte. atribuição conferida. fica patente a distinção entre povo e massa: aquele.1824. apenas a partir de 1971. não apenas o direito de votar. que dominavam. Ainda hoje. nos Estados Uni­ dos. pois as mulheres votaram para a escolha de senadores. adotado. pela primeira vez. cuja denomi­ nação já revela que. com fundamento no art. por completo. somente incorporado à Constituição Federal em 1920. mas a con­ solidação do direito de a mulher participar do processo político. A Constituição do Império do Brasil. seria formada pe­ los ignorantes. e que consistia na exata aferição do nume­ ro de pessoas. principalmente da política. adotada ainda hoje. e dos bens de cada cidadão. pleiteou e obteve. em 1927. aqueles que não apresentassem uma renda mínima anual. As mulheres são excluídas do direito ao voto sob a alegação de sua “inabilidade congênita” e “insensibilidade para as questões políticas”. com a Emenda X IX . Em 1929 foi eleita a primeira prefeita do Brasil. em 1869. O terceiro e úl­ timo estamento compunha nada menos do que 83% dos contribuintes. di­ zem seus defensores. mas também de ser vo­ tada. Mietta Santiago. c o seu direito não devia ultrapassar o âmbito estadual. somente o homem pode votar.6 Formas de governo 135 excelente gestão. dos quais o primeiro era composto pelos cida­ dãos mais afastados. nos seus termos. o sufrá­ gio racial. algumas entidades federadas exigem que o direito ao voto esteja vinculado à capacidade de entender o disposto na Constituição. excluindo do direito de voto. semoventes. O sufrágio ccnsitário existiu a partir de 1850. No Ocidente. Alzira Floriano. inicialmente.03. no Wyoming. quan­ . na Prússia. também consagrava o sufrágio censitário. Paulo Bonavides refere-se a uma odiosa espécie de sufrágio restrito. veio somente em 1932. com Getúlio Vargas.

religião.136 Teoria Geral do Estado do a legislação do Estado do Mississipi. no sufrágio restrito. Quanto ao sufrágio universal. 25. ou em face de seu esforço próprio. a um critério menos capacitário do que racial. como a ob­ tenção de níveis mais altos de escolaridade. isto é. con­ tribui para com o aprimoramento da vida em sociedade. estando. portanto. § 2o). a generalidade das pessoas. 14.não são inexpugnáveis. pois cada qual. a concessão do direito de votar ao analfabeto não se justifica. os estrangeiros e os conscritos (art.05. 14. Tal invectiva não colhe. 14. obriga a ler. Da mesma forma que cem tolos não formam um sábio. em vigor. em razão da idade e do con­ seqüente amadurecimento pessoal. a). ele passou a ter o direito dc voto facultativo (art. obedecendo-se. nos Estados Unidos da América do Norte. portanto. portanto. constituem exceções ao sufrágio universal os menores de dezes­ seis anos (CF. A diferença é puramente quantitativa: os impedimentos do direito de voto. II. que mesmo o sufrágio universal comporta restrições ao direito de voto. É bom notar que as restrições ao direito de voto numa ordem jurídica que consagra o sufrágio universal estão previstas somente na própria Constituição. Até a Emenda Consti­ tucional n. § I o. raça. não será aumentando o número de participantes do sufrágio que este ficará. Evidente. sen­ do inelegíveis os inalistáveis e os analfabetos (art. porque não se argumenta com exceções. o analfabeto não tinha o direito de votar. e nem poderia ser de outra forma. nível de conhecimentos. o que se pretendia era excluir os negros do processo político. seja qual for o ponto dc vista que se adote para o problema. No Brasil. de 15.. II. Não há sufrágio plenamente universalizado e não há. A regra. distinção essencial en­ tre sufrágio restrito c sufrágio universal. compreender e interpretar “convenientemente” a Constituição. um instrumento nas mãos dos demagogos sequiosos de votos. pois a cada momento da vida o nacional vai abatendo-as. c). Esta. atualmente. é aquele que busca conferir o direito de voto ao maior número possível dc nacionais. aliás os grandes beneficiários desta infortunada ampliação do sufrágio. Na verdade. Poder-se-ia argumentar com o fato de que alguns analfabetos se interessam muito mais pelos problemas políticos e sociais do que muitos cidadãos alfabetiza­ dos.1985. excluído do sufrágio uni­ versal. § I o. A rigor todo sufrágio é restrito. § 4o). A própria expressão universal já revela que deve ter o direito de voto a universalidade. Oportuna a observação de Paulo Bonavides: . a Constituição de 1988. Com tal Emenda e. posteriormente. são mais numerosos do que no sufrágio universal. necessariamente. contudo. veladamente. é que o analfabeto torna-se.. infelizmente. que alterou a Constituição Federal de 1967.é bom notar . não po­ derá restringir o eleitoral além dos limites preestabelecidos na Constituição. São restrições que . 14. mais aperfeiçoado. independentemente de sexo. qua­ se absoluta. art. tais restrições não podem ser ampliadas mediante lei ordinária.

é absolutamente certo que o germe da igno­ rância não só pode ser combatido. falto dos predicados essenciais ao seu exercício e néscio sobre os prin­ cípios políticos institucionais que a informam. à outorga do título de eleitor. a respeito. A exigência de um conhe­ cimento mínimo relativo ao mecanismo de governo. Daí . Daí pesar mais em favor do bom mecanismo institucional do governo demo­ crático. De conseguinte deve ele submeter-se a singela prova escrita . na forma. à que se faz mister para a concessão da carteira dc habilitação para dirigir . eficazmente debelado. pois ninguém pode dizer-se infenso ao poder pessoal. A singeleza da prova eliminaria a formação de um colégio eleitoral elitista. onde cidadãos conscientes e politi­ camente responsáveis participem do processo eleitoral. impor-sc na proporção direta da dcsqualificação política do eleitorado. sem o que se tornaria evidente perigo à integridade física e ao patrimônio de todos. um senador ou um deputado. sobre rudimentos da organiza­ ção político-constitucional. sem impedir-se o defe­ rimento da cidadania àqueles que demonstrassem possuir as condições elementares para seu exercício racional. Esta. com efeito. se não se tem co­ nhecimento de suas atribuições e nem sequer se sabe o que é o Senado ou a Câmara dos Deputados? Daí a razão por que julgamos absolutamente imprescindível para a constituição de uma democracia qualitativa e real. Um colégio eleitoral qualificado pelo conhecimento necessário e básico da organização constitu­ cional e do funcionamento do governo o eliminaria do processo político-elcitoral. Incisiva. com fa­ cilidade. que deve revelar um conhecimento tcórico relativo aos sinais. carismático e místico do demagogo. tais providências valeriam para diminuir os perigos da demagogia. Por outro lado. Ainda que se mostre mais difícil o afastamento da segunda. o princípio qualita­ tivo do que o princípio quantitativo. não resta dúvida que o princípio democrático envolve da parte do colégio eleitoral uma compreensão política mais apurada. pela qual o candidato à cidadania demonstre conhecimentos mínimos. como ocorrido na Alemanha intelectualizada de Hitler. torna-se natural ameaça ao regime de­ mocrático. Tal como o candidato àquela outorga. como governo dc livre manifestação da vontade popular. mas necessários. o postulan­ te à cidadania.semelhante. como.versando. Com isto. difícil de formar-se no seio da multidão espessa e ignara. também. encontra dois caminhos para alastrar-se: a ignorância e a crença. por exemplo. uma comprovação de habili­ tação política. forma impura do governo democrático c capaz dc. seria subsídio valioso para a constituição de um eleitorado consciente e responsável. siglas c regras básicas dc trânsito.6 Formas de governo 137 Quanto ao argumento que gira ao redor da dialética qualidade-quantidade. não se atribuindo a prerrogativa do sufrágio tão só a uma minoria qualificada por tí­ tulos formais de sabedoria ou a uma aristocracia de classe. porém. qualificar-se-ia o regime democrático. a observação dc Pedro Salvetti Netto. assimilável por todos os que sai­ bam ler e escrever. Não seria absurdo dizer-se constituir a ignorância do cidadão terreno fértil à expansão de­ magógica. in verbis: Como escolher-se.

o eleitor. caput). como já vimos. Com efeito. o voto para a eleição do Presidente da República era indireto. por inteiro. assim. O voto pode ser também. b) o voto indireto não raro é empregado como meio de resistir ao sufrágio universal. enfreando as paixões políti­ cas. que. o voto é dito indireto quan­ do o eleitorado elege. Até o advento da Emenda Constitucional n. O voto é direto quando o eleitor. intermediários. de 15. não seria este o argumento hábil capaz dc refutar a proposição por nós sustentada. pois este não se sente estimulado a participar de uma eleição que não é decisiva. em secreto ou aberto. d) o voto indireto ocasiona volumosa abstenção por parte do eleitorado de primeiro grau. Os ad­ versários do voto secreto retrucam: ele é mais uma prova da desilusão das demo­ cracias modernas. b) atua o voto indireto como força moderadora. proporção máxima. abrindo espaço à reflexão. É a espécie adotada pela Constituição brasileira (art. como qualquer raciocínio lógico rejeita a exceção para a pesquisa da verdade metodológica. c) o colégio eleitoral de segundo grau. a escolha definitiva dos governantes. Como acentuam Rodrigo Octavio e Paulo D. é mais suscetível a pressões e à cor­ rupção.eles mesmos já uma elite . sendo Tancredo Neves o último candidato eleito por um colégio eleitoral restrito. Então.ficam em condições de sufragar ou selecionar os mais capazes e competen­ tes. Vianna. tal só pode consti­ tuir situação excepcional e. que melhor assegura a independência do eleitor a que se tem procurado cercar de todos os elementos materiais para garantir o sigilo. O fundamento do voto secreto é evitar pressões sobre o eleitorado. secreto ou aberto. por via dc regra. 14. embora possa haver entre aqueles ignorantes no ler e escrever alguns naturalmente sensíveis às coisas públicas e com elas preocupados. não deve ter o direito de votar. pois o eleitor que não tem coragem e senso de responsabilidade para votar abertamente. por sua vez. portanto o poder de decisão da massa sufragante se transfere. de viseira erguida. para o corpo eleitoral intermediário. classifica-se. em direto ou indi­ reto e.13 8 Teoria Geral do Estado porque não nos sensibiliza a pregação. dos votos do analfabe­ to. Na ver­ . em segundo grau. escolhe seus próprios re­ presentantes. em face do pequeno número de seus integrantes.1985. entretanto. ensejando a prudência das designações. Os argumen­ tos em desfavor do voto indireto também são ponderáveis: a) caráter manifestamente menos democrático que o sufrágio direto. para nós demagógica. fa­ rão. de modo que os eleitores secundários . em qualquer destas espécies. a tendência moderna é francamente favorável ao voto secre­ to.05. na sua forma de expressão. delegados. porquanto. inicialmente. subdividindo-se este úl­ timo em escrito e verbal. está submetido à burocracia estatal e ao poder econômico. sem intermediação. Quanto ao voto. razão pela qual o voto secreto acalmará as preocupações legítimas e reanimará os poltrões. cuja influên­ cia toma. 25. Paulo Bonavides apon­ ta os seguintes argumentos a favor ou contra este tipo de voto: a) os graus interpostos operam como filtros.

finalmente. portanto. É sabi­ do que o homem. Obrigar o eleitorado a votar secretamente parece-nos mais uma exacer­ bação do formalismo. sua vontade. não deve ser impedido dc faze-lo. mas deve ser facultado ao eleitor manifestar secreta ou abertamente sua escolha. esportivas. forte na sua ideologia. ao passo que. Assim. aquele que. Por esta espécie dc voto o cidadão elege representantes dc seu próprio distrito eleitoral (daí a adjetivação distrital). no caso. professam as mesmas ideias. formando grupos. cada candidato concorre com outros candidatos de partidos diferentes. Aplica-se ao artigo em epí­ grafe. em busca de objetivos mais eleva­ dos. com grave risco para sua liberdade de manifestação de pensamento. Buscando sua realização pessoal.4. As sociedades podem apresentar as mais diversas fina­ lidades: culturais. o voto distrital torna os partidos políticos mais homogêneos. a interpretação finalística ou teleológica. expressamente. Análoga é a situação do voto aberto. desejar expressar aber­ tamente sua vontade. O voto distrital funda-se no princípio de que a escolha dc parlamentares pelo eleitorado deve ocorrer em âmbito o mais reduzido possível. pois a finalidade do dis­ positivo é garantir o sigilo do voto apenas para aqueles que acharem inconveniente revelá-lo. afirmam. no mais das vezes. com apa­ . Vota secretamente quem se achar coagido ou temeroso de manifestar de modo aberto sua opinião. um partido político revelam. nem por isso desdenha sua plena realização como ser social. propiciando um controle mais efetivo dos candidatos eleitos. candida­ tos de um mesmo partido se digladiam na mesma região eleitoral. este também conhecido como ostensivo.6 Formas de governo 139 dade. de modo a minimizar a influência do poder econômico e dos meios de co­ municação nas eleições. caso em que se obriga o eleitor ou o delegado a revelar. políticas. comerciais. tende a se agregar aos seus semelhantes de forma orgânica. O voto é obrigatório. 2. pelo sistema distrital. tão caro ao legislador pátrio. enfraquecendo o próprio partido. O voto aberto pode ser escrito ou verbal. Na verdade. ser social. 14 da Constituição brasileira não deve ser interpretado literalmente. ensejando um maior contato entre o candidato e even­ tuais eleitores. que congregam indivíduos que. Por outro lado. pertinente ao âmbito espacial de atuação do candi­ dato eleito. um movimento político e. econômicas e. a solução satisfatória deveria estar no meio-termo. a ânsia de participação efetiva do homem nos problemas da comunidade em que vive. todos aqueles que. tendo inclinações co­ muns.6) Partidos políticos A formação de associações que visam alcançar um objetivo político determi­ nado vai longe na História. isto pelo seguinte: no sistema proporcional. uma facção política. O art. dc modo a compati­ bilizar população e território. sim. Espécie de voto que vem amealhando número cada vez maior dc simpatizan­ tes é o chamado voto distrital. entretanto. Afirmam os defensores do voto distrital que este atrai os candidatos para mais perto do eleitor.

portanto. corroborando. as facções políticas surgem quase sempre vinculadas aos seus estamentos. longe estavam dc possuir a estrutura. no Esta­ do absolutista. com Edmund Burke. a antiga Grécia e Roma. é a caricatura do partido. mediante o emprego de um processo es­ pecífico. Esta. um partido não se confunde com a mera facção política porque ou é reconhecido ou. a expressão partido. com o qual todos os seus membros sc acham de acordo. a assertiva de Marx de que o partido político é sempre um órgão de classe. den­ tro do próprio partido. a noção de partido político começa a ser delineada: grupo de pessoas que se unem para promover. que procura congre­ gar o povo numa ideologia política exclusivista e intransigente. contu­ do. originando o apa­ recimento de inúmeras facções políticas. Até mesmo simples caprichos de família provocariam dissensões formadoras de grupos políticos inimigos. duas partes (daí. pelo menos. o interesse nacional. sem­ pre sob a liderança dc um homem virtuoso ou dc um mecenas disposto a financiar uma ideia. a fim de impor sua própria cosmovisão a todos. à Antiguidade Clássica. Daí a sugestiva definição de partido político que nos oferece Povina: “agrupamento permanente e . Georges Burdeau definiu o partido como a associação de caráter político organiza­ da para dar forma e eficácia a um poder de fato. procurando minar as diretrizes aprovadas pela maioria. depois. Somente a partir de 1770. Da mesma maneira que o partido político não se confunde com a mera facção política. tolerado pela lei. Da mesma forma. no caso. hoje. como foi o caso de guelfos e gibelinos na Alemanha e. questões políticas gravíssimas ensejaram lutas entre suseranos e vassalos. no interesse destas c dos nobres. na Itália. também. num pro­ cesso de cooperação. O surgimento de facções políticas remonta. Ela surge de maneira autônoma. Tais facções. Ora. a facção utiliza-se de todos os meios para atingir e man­ ter o poder. a expressão partido político. como uma entidade rebelde que se posiciona. O partido político visa à conquista do poder nos termos da lei. a burocracia c o reconhecimento legal de que hoje desfrutam os partidos políticos. não se confunde. mas mediante facções da burguesia. que são o desgoverno das massas despolitizadas. do latim pars. porque a própria ideia de partido pressupõe a existência de. pelo menos. ademais. Por isso. as facções estruturam-se à luz das dinastias reinantes. Com o aparecimento do Estado liberal-democrático. muitas vezes. ainda nos séculos XVII e XVIII não se fazia distinção entre par­ tido e facção política. Seja como for.140 Teoria Geral do Estado tia e indiferença. Ainda na sociedade estamentária medieval. e não se confunde. na Idade Média. Modernamente. alegam desinteresse pela atividade política direta ou indireta não cumprem um dever cívico inafastável c contribuem para o surgimento das dema­ gogias. com o movimento político excludente dos partidos. com o movimento político. com a eliminação de todo e qualquer ideário diverso. que designa uma fração do todo). cada uma dela dirigida por um líder. dizia Bluntschli. a diver­ sidade de opiniões políticas não se manifestou mediante partidos como entende­ mos.

tories (bandidos) etc. são os partidos ideológicos. os partidos buscam revelar. que vem a ser a conquista do poder. em razão dc seu dogmatismo espiritual e seu im­ perialismo político. John Adams. a se tornar intolerante para com os outros. determinado programa político-social”. então. irremediavelmente refratários à sua integração nos mecanismos tradicionais da democracia. Como accntua Burdcau. janista. os brancos. comunista e assim por diante. cm sua nominação. como é o caso dos movimentos de índo­ le totalitária. por excelência. o partido digno desse nome é um grupo or­ ganizado que disputa o poder para realizar uma política. inteiramente válida se mostra a observação de Mac Iver de . Em sua obra De eive. em sua denominação. outros tomaram a denominação dos meses do ano. Seja como for. c a finalidade política. conservador. reconheceu. outubristas e dezembristas. representado por uma ideologia comum ou dc interesses comuns. republicano. os partidos lembra­ ram. A História registra casos curiosíssimos de denominações de partidos. Aqueles que se inspiraram nas ideias de representações políticas de Jean-Jacques Rousseau repudiaram o partido político. A denominação atribuída ao partido é muito importante para sua imediata identificação. que a divisão da sociedade em partidos geraria a revolta e a guerra civil. portanto. para o predomínio de um partido sobre os demais. causas de supressão da própria ideia de democracia. facilmente. na direção do Estado. natural­ mente. socialista. tendendo a impor à coletividade uma unificação espi­ ritual pelo reconhecimento de sua infalibilidade. o veículo utilizado por uma grande corrente dc opinião pública para conquistar o poder. entretanto. os negros e os verme­ lhos. que rejeitava todo e qualquer corpo social entre o poder e o cidadão. Tal observação não deixa de ter fundamento na epoca dc partidos dc massas cm que vivemos. a ideologia abraçada: monárquico. Hobbes afirmou. liberal. Por isso. mais dinâmicos c objetivos. mais tarde. ademarista etc. considerando-se o verdadeiro porta-voz da comunidade. opinião ainda lembrada por autores de renome. que demonstrava certo receio pela divisão da repúbli­ ca norte-americana em dois grandes partidos. muitos se associaram às cores. Denominações ainda mais pitorescas jamais fal­ taram para tais agremiações: wbigs (escória). Todo partido pressupõe dois elementos: o vínculo sociológico. pois este pensador era adepto ferre­ nho da democracia individualista. bonapartistas. fascista. os nomes de seus inspiradores: orleanistas. saaverista. Modernamen­ te. que a verda­ deira solução para a existência destes residiria em controlar rigidamente sua ativi­ dade. O moderno partido político . Tornaram-se. pelo que surgiram os polí­ ticos setembristas. se pro­ põe a realizar. e tivemos. para os quais o regime de pluralidade partidária descambaria. E o instrumento median­ te o qual uma ideia de direito busca sua realização. Em outros casos. Cada partido. tenderia.6 Formas de governo 141 organizado de cidadãos que.assinala Ferreira Filho e. mediante a conquista legal do poder público. Na verdade. peremptoriamente.

no mais das vezes. des­ vinculados da realidade. A multiplicação desordenada dc partidos. só nos resta analisá-los. em suas linhas básicas. b) pluripartidário (dois ou mais partidos). A verdade é que haverá pluralidade partidária onde houver dois ou mais par­ tidos. desde que os dois partidos sejam efetivamente homogê­ neos e disciplinados. sucintamente. como lembra Bonavides. enquanto ope­ rários ou industriais. Das mais oportunas é a advertência de Ferreira Filho: Raramente o deputado escolhido para representar a ideologia predominante num eleitorado é o mesmo homem que seria escolhido por seus eleitores. pois. Aliás. criam programas de ação absolutamente quiméricos. ou frações pon­ deráveis destes. não raro sociais. dois sistemas partidá­ rios: a) monopartidário (partido único). uma longa digressão a respei­ to da conveniência ou não dos partidos políticos. b) pluripartidário. . literalmen­ te. condições de chegar ao poder. a existência tão somente de dois partidos. E Manoel Gonçalves Ferreira Filho considera o bipartidarismo o sistema partidário ideal. na verdade o condena. A própria palavra plural refere-se a mais de um. Ensejando a contraditoriedade dos princípios ideológicos cada vez mais díspares. Pouco sentido prático teria. c) monopartidário. c a expressão pluralidade re­ vela qualidade atribuída a mais de um ser ou coisa. inexequíveis. junto aos órgãos de planejamento econômico e semelhantes. permanentemente. portanto. aparentemente consolidadora do ideal da representação política.142 Teoria Geral do Estado que. a insurreição ou a revolução. Eles aí estão c. seria imperdoável equívoco supor que o sistema bipartidário significa. na verdade. profundamente afetados pelo Estado-providência. nesta obra. para representá-los enquanto horticultores ou artesãos. O Estado contemporâneo apresenta. a maioria dos autores afirma a existência de uma classifica­ ção supostamente mais precisa: a) bipartidário. As­ sim o ideologicamente representado não se sente representado quanto a seus interesses econômicos. embora não haja no Estado dualismo partidário. ha­ verá. que jamais poderão ser cobrados pelo eleitorado. mas geralmente o sistema se encontra de tal for­ ma estruturado que apenas dois partidos reúnem. aumentam as divergências e a desorientação popular. as únicas formas de alcançar o poder seriam o gol­ pe de Estado. Obrigados a incluir sob seu manto protetor categorias sociais que envolvem os mais díspares interesses. é possível que vá­ rios partidos concorram às urnas. fundamentalmente. dualidade de tendências. porém. Por outro lado. Acentua Duverger que. sem os partidos políticos.

Estes. Os tradicionais partidos de opinião. Os métodos empregados pelos grupos de pressão variam conforme as circuns­ tâncias: apoio eleitoral a um partido que com eles se ache comprometido. exigindo que os grupos empenhados em defender interesses particulares junto ao Congresso estejam devidamente registrados e dotados da competente conta­ bilidade. Daí a impor­ . a existência de um partido deve ser permanente. não podendo eliminar os grupos de pressão. dos homens situados e não mais dc cidadãos abstratos. no mais das vezes. São partidos de massa porque as individualidades renunciam à sua autonomia em proveito do partido. nova e superior unidade. pelo menos mediatamente. pressão direta sobre os membros do poder executivo ou do legislativo. se destaca em razão de sua disciplina e do seu dogmatismo doutrinário. a de­ mocracia governante. passa a ter um objetivo mais palpável. enquanto o do partido é político. Além disso. os representantes da coletividade têm enfraquecida sua individualidade a favor da vinculação integral às diretrizes dos partidos. mas a utilização deste em proveito próprio. que. pela qual o povo esco­ lheria muito mais um programa de ação do que representantes. como diria Giorgio dei Vecchio. O partido. como assinala Bonavides. o que não ocorre. o objetivo do grupo dc pressão é quase sempre econômico. Não se confundem com os partidos porque seu objetivo não é a to­ mada do poder. no transcorrer do século X X . que transcende os meros interesses in­ dividuais de seus filiados. que reúnem seus filiados com base na situação econômica de cada um. Mais: o partido político é reconheci­ do ou tacitamente admitido pela lei. por outro lado. em verda­ deiro mandato imperativo de índole partidária. a toda a coletividade. surgem como o fruto de novas condições socioeconômicas criadas pelo capitalismo e pela falta de representatividade dos par­ tidos políticos. A moderna concepção dc democracia não se compadece da democracia indi­ vidualista. adotando uma estrutura interna bastante maleá­ vel para atrair o maior número de simpatizantes. A fideli­ dade partidária consagra a chamada democracia partidária. tais interesses pertinem. passam a ser substituídos pelos partidos de massa. sem considerar as condições eco­ nômicas de cada um. a partir do momento cm que os partidos de opinião vão cedendo terre­ no aos partidos de massa. A legislação norteamericana. Embora organizado em torno dos interesses de uma parcela do povo. que buscavam evitar dogmatismos compromete­ dores dc suas transações políticas. Acentua Burdeau que à democracia política sucede a democracia social. ao passo que o interesse do grupo de pressão é transitório. à margem do ordenamento jurídico. houve por bem reconhecêlos. Um partido político deve estar estruturado numa ideia e num programa exe­ qüíveis.6 Formas de governo 143 Os partidos políticos encontram fortes concorrentes nos grupos de pressão. quase sempre. com o grupo de pressão. que se acha. referindo-se às sociedades em geral. por outro lado.

d) motivações simbólicas (slogans). indiretamente. cada partido apresenta. O partido único. Não pode haver. o próprio Partido Comunista. vem a ser muito mais um m ovim ento de reação antipartidária do que um partido propriamente dito. As motivações simbólicas (slogans) vêm a ser. a palavra-chavc ou o sinal distintivo do partido. Quanto ao progra­ ma ideológico. contudo. Um partido político não deve ser o túmulo do pensamento. todo partido deve sustentar-se num conjunto de princípios ideoló­ gicos sólidos e coerentes acerca dos problemas do Estado.144 Teoria Geral do Estado tância da interação partido-sociedade-interesses na propagação e cumprimento de um sistema ideológico plausível. devidamente transmitida aos eleitores. daí a existência de vários partidos numa sociedade formada por classes antagônicas. portanto. mas um organis­ mo em permanente elucubração e modernização doutrinárias. mas que. nas quais impere a franqueza e a sinceridade. mediante a adoção de uma cosmovisão (W eltanschauung) que represente uma interpretação clara e consciente do universo. que o Partido Comunista sempre afirmará o seu di­ reito de lutar ao lado de . por via de conseqüência. Os filiados são aqueles regularmente inscritos ao partido e do­ tados de direitos e deveres partidários. Este afirma que a pluralidade partidária espelha a própria luta de classes. cujos interesses seriam comuns. um cxcclcntc veículo para a transmissão simplificada das ideias. na URSS). Poderão scr o grito dc guerra. em seu funcionamento. expresso sob quatro aspectos: a) visão do mundo ou cosmovisão. No to­ cante às plataformas eleitorais. c) plataformas eleitorais. Tais plataformas exigem. numa sociedade de mas­ sas. estabelecendo soluções exeqüíveis. via de regra.outros partidos nas sociedades não marxis­ . Tais órgãos poderão ser diretivos e burocráticos. b) programa ideológico. qual seja. movimento este que tanto pode congregar uma nação (Itália fascista c Alemanha nacional-socialista). os integrantes do partido deverão adequar o pro­ grama geral do partido às tendências e necessidades de cada circunscrição eleito­ ral.ou contra . existiria apenas uma classe. Por outro lado. pois cada partido representaria uma classe social. filia­ dos e simpatizantes. Um partido político seria parte de uma classe social determinada. mais do que um partido. não podem filiar-se ao partido. a Alemanha nazista encontraram inspiração para seu m ovim ento no próprio marxismo. com muita graça e sagacidade. No tocante à m ilitância partidária. para uma só classe. Os simpatizantes são aqueles que. por vá­ rias razões. a adaptação do programa geral às novas situações. como uma clas­ se (proletariado. também. No Estado socialista. Diga-se de passagem que a Itália fascista e. a dos operários e camponeses. o partido deve apresentar uma orga­ nização administrativa e uma estrutura material destinadas a garantir a sua nor­ mal atividade. o auxiliam. não a demagogia. Disso os adeptos deste partido concluem. cujo apogeu foi alcançado no período compreendido entre as duas Grandes Guerras.

Marx afirma. um situacionista . formado por liberais.. afirmava ser o partido a vanguarda organizada e disciplinada do proletariado re­ volucionário. durante o Primeiro Reinado (1822-1831). na sua origem e continuidade. Nem por isso os marxistas deixam de continuar afirmando que o proletariado deve estruturar-se num movimento políti­ co destinado a sustentar sua missão de exercer uma ditadura que permitirá a abo­ lição das classes e do Estado. que nclcs existe somente uma classe ou. hostis e inconciliáveis. Joscph Stalin. o outro. atuantes de forma franca e aguerrida. propugnando uma descentralização mais sim­ pática às províncias. os moderados continuam a . mas cm facções que. ainda não se pode falar em partidos políticos. nesta última proclamada a maioridade de Pedro II. afirmava que o partido é parte da classe.1) Os partidos políticos no Brasil No Brasil. levando a efeito uma política conciliatória.4. respectivamente apoiando ou se opondo ao Imperador. Durante a Regência Trina Provisória prevalecem os oposicionistas. em nome da pluralidade de classes nelas existentes. nos Estados de ins­ piração marxista. ao contrário dos exaltados. com a abdicação dc Pedro I. tenham desaparecido as classes sociais.. o que vem a dar no mes­ mo. divididos em duas facções. por to­ dos os teóricos do marxismo. Por outro lado. Franz Oppcnheimer. por exemplo. de forma unânime. quais sejam Regência Trina Pro­ visória (1831-1832). Numa de suas escassas referencias aos partidos políticos. o Brasil passou por vá­ rios períodos de governo denominados Regências. em vigorosa expressão que seria encampada pelas Constituições soviéticas.6 Formas de governo 145 tas. ao passo que Lenin. num partido político.6. os absolutistas e os liberais. que se apoderam dos principais cargos gover­ namentais. Regência Una do Padre Feijó (1835-1837) e Regência Una de Pedro de Araújo Lima (1837-1840). Na Regência Trina Permanente. a dos moderados. sua parte mais progressista. no célebre M anifesto comunista. mas reivindicará sua exclu­ sividade 110 advento do Estado socialista. Na verdade. ipso facto. de apoio ao Impera­ dor Pedro I e. tam­ bém marxista. Regência Trina Permanente (1832-1835). sendo que o pluripartidarismo so­ mente pode existir numa sociedade onde haja antagonismos de classes. ser dever do pro­ letariado organizar-sc numa classe. cujos inte­ resses se mostram. aglutinaram-se em dois grupos antagônicos. a tese marxista torna-se vulnerável quando se consta que não foi demonstrado. com a Assembleia Geral ou Parlamento. na Assembleia Constituinte de 1823. o partido único foi enaltecido. e em face da menoridade de seu filho. declarava que o partido é. oposicionista. Formam-se espontaneamente dois grupos. principalmente desde 1826. Durante o período regencial as posições políticas vão ficando mais bem definidas. Eis por que a vigente Constituição soviética se refere ao Estado socialista como o Estado de todo o povo . ainda. Doutrinariamente. 2. apenas a representação organizada de uma classe. mutuamente.

Só exprimia realmente o pensamen­ . A par dessas fac­ ções surge uma terceira. Enquanto os conservadores eram escravocratas e tradicionalistas. tinham como plataforma a volta de Pedro I ao poder. que era a que se formava nos centros universitários. tinha sempre um caráter artificial. sob a pitoresca denominação de chimangos. Esta opinião. nem hoje.como ainda há hoje . ardente. pudesse funcionar aqui com a mesma perfeição com que funcionava entre os ingleses. era o de uma irritação viva. que se seguiu ao gol­ pe do Imperador contra os liberais em 68. considerado pelos liberais como uma deturpação do Po­ der Moderador. denominados caramurus. em obra clássica intitulada O ocaso do império. que a Constituição confiava à Coroa. é essencialmente um governo de opinião. cujos seguidores. Vale lembrar que já cm 1870 fora criado o Partido Republicano. ao passo que os liberais. inorgânica. que serviria dc base para a fundação do Par­ tido Liberal. continuamente. aliás. O governo parlamentar. con­ tou desde logo com a colaboração dc grandes figuras como Quintino Bocaiúva. o qual. com a proclamação da República e a queda do Gabinete do Visconde dc Ouro Preto. foi eleito Re­ gente o Padre Diogo Antonio Fcijó. ain­ da atual como perceberá o leitor neste parêntese dos mais oportunos. isto é. embora sem grande prestígio de início. E a verdade é que esta irritação era inevitável. os liberais desejavam a abolição e maiores liberdades para as províncias. chimango (moderado) que dedicou-se com fir­ meza à criação do Partido Progessista. alhures. Que dizer dos partidos políticos do Império? Aquele que. Ora. como já vimos. de orientação liberal. nun­ ca existiu aqui. os Partidos Conservador e Liberal foram os mais importantes para não dizer os únicos .146 Teoria Geral do Estado controlar o poder. difusa.partidos do Império. na locali­ dade de Santa Luzia. quando. Porque só os que ignorassem os nossos costumes políticos e a mentali­ dade dos nossos partidos poderiam supor possível que o Poder Moderador. um governo cuja instituição num dado povo pressupõe a existência de uma opi­ nião pública organizada. Na verdade. já o dissemos por que. Esta alternância no poder durou até 1889. concentraram suas forças em torno do Partido Conservador. Os filiados a este partido passaram a ser conheci­ dos por saquaremas. evocando o município fluminense de Saquarema. com a institucionalização da ideia de Regência Una. nem outrora. explo­ siva contra o Poder pessoal. por sua vez. esta opinião pública organizada. Faltavam à nossa sociedade todas as condições para isto. Os adversários do Regente. nas sociedade maçônicas e principalmen­ te na Imprensa. Benjamin Constante Lopes Trovão. no poder. alcunhados luzias porque ligados à Revolução Liberal de 1842. Havia . Em 1835. supremo regulador do sistema parlamentar. Ouçamo-lo: O traço característico desse grande movimento da opinião. capaz dc governo. com meridiana clare­ za os retratou Oliveira Vianna. onde se acha­ va a fazenda do líder conservador Visconde de Itaboraí. foram vencidos por Caxias. era quase sem­ pre um reflexo americano das agitações europeias. nos clubes políticos. revezando-se.uma opinião informe.

simples rótulos. justamente. Depois dessa grande fase histórica. nunca aparecia pura e extreme. um dos grandes motivos de perplexidade. não tinham propriamente uma opinião. com brio. liberais. calo­ rosamente pregados quando nas agruras da oposição. eram simples agregados de clans organizados para a exploração em co­ mum das vantagens do Poder. quando no governo. sempre se mostrava.e passavam a ser [. cessavam de súbito o trom­ betear formidável . Desde o momento. ao aceno da Coroa. na opinião dos partidos. o partido liberal quer mantê-las. de sonoridades marciais. evidentemente. extintos os partidos do Império e preser­ vado. dizendo: A Constituição brasileira contém instituições santas.envol­ ve uma confusão de ideias manifesta: O conservador no Brasil é necessariamente libe­ ral.] como os conservadores. muito impregnada das animosidadcs do partidarismo. de Paraná. quando. formou-se. Já em 53. Certo. em que. do 1° Reinado e da Regência. logo. ela devia ter constituído para o Imperador. de cânticos de guerra. a tendência à . no Senado: “O argumento do nobre senador . que os liberais só sc lembravam dc clarinar com fogo. é liberal. liberais. a chamada política da conciliação. O programa liberal era uma es­ pécie dc trombeta sonora. no caso da Federação. do incerto contido nos programas dos dois grandes partidos do Império. buscava-a. ou tentava buscá-la. O próprio liberalismo da Constituição tornara. O argumento poderia ser invertido pelos liberais. no intuito de conhecer a opinião do País. como cm 68. em regra. pode-se afirmar com fundamento que os partidos políticos não representavam realmente correntes de opinião. o Partido Republicano. chamando a postos as consciên­ cias altivas para a defesa da Pátria. retornavam ao poder. sem outra significação que a de ró­ tulos. aliás.. com ímpeto. imponentes embora pela sua massa.. porque a Constituição do Brasil contém instituições santas. Esta opinião. Tanto que os liberais.6 Formas de governo 147 to de uma pequena parcela das classes cultas do País. todas as vezes que era obrigado a organizar novo Gabinete. o Imperador os atirava momentaneamente no ostracismo. Porque os partidos políticos do Império. Então. é uma prova do vago. Zacharias exprimiu muito bem este fato no seu discurso dc 18 dc junho dc 1870. agiam sempre de maneira idêntica aos conservadores: o inebriamento do poder como que os fazia olvidarem os seus mais caros ideais. só o liberal é conservador”. O fato é que ne­ nhum desses dois programas representava convicções definitivas e sinceras. desde logo. E. de origem habitualmente exótica. aliás. para que sc pu­ desse considerá-la sempre como um índice sadio da opinião nacional. difícil esta discriminação muito nítida das opiniões. da Democracia e a Liberdade. logo. muito comprometida com o espírito de facção. Esta perplexi­ dade do Imperador não devia ser menor quando ele. o conserva­ dor quer manter estas instituições. do indefinido. houve aqui uma fase em que os partidos tiveram verdadeiramente uma opinião: foi o período da Independência.dizia ele . todo o País acordava sob um estridor imenso de toques de alar­ ma. porém. no caso da Abolição. O Imperador não desdenhava de atendê-la . os programas que ostentavam eram.e assim o fez no caso da eleição direta. por isso. Com a proclamação da República. ao contrário. na verdade.

10. substancialmente emendadas em 1969. após permanecer durante quinze anos no poder. o Partido Trabalhista Brasileiro (P I B) e o Partido dos Tra­ balhadores (PT). permitira a criação de duas agre­ miações partidárias. formaram-se inúmeros partidos. e a Aliança Nacional Libertado­ ra. A partir daí. a Aliança Renovadora Nacional (Arena) e o Movimento De­ mocrático Brasileiro (MDB). fechado o Congresso Nacional e controla­ da a imprensa.1965. outros nem tanto. exigir a expressão partido na sigla identificadora dos novos partidos. em 27. destacando-se o Código Eleitoral. sucessor do M DB. de 25. revogada pela atual. Este. então. contudo. foram criadas a Ação Integralista Brasileira (1932). . Além destas duas agremiações partidárias foram criadas outras. transformadas em partidos desde 1967. 6. Na iminência do movimento militar de 1964. o Tribunal Superior Eleitoral aprovou o re­ gistro provisório de um Partido Humanista (?) Nacional e de um Partido Nacional dos aposentados (!).676. dc tendência comunista. em oposição a Getúlio Vargas. ao extinguir a Arena e o M DB. prenunciava seu declínio. § I o.10. Daí. Lei n.1965. Tem início. alguns notório significado. o Partido Popular (PP). que lançou como candidato à Presidência da República Armando Salles de O li­ veira. logo posto na clandestinidade.08. a pulverizar a opinião pública. 4. dissolvidos. no art. propiciando o surgimento de nada menos que trinta (!) novos partidos. permitiu a criação de no­ vos partidos. uma febricitante elaboração legislativa. Em 1922 foi fundado o Partido Comunista brasileiro. já havia treze partidos na ativa. a legislação eleitoral foi se tornando mais e mais per­ missiva. em 15. Ti­ nham real prestígio. a par­ tir daí. O Ato Complementar n. a Lei Orgânica dos Partidos Políticos e a Lei das Inelegibilidades. Entre 1930 e 1937.1988.12. Dissolvidos os partidos exis­ tentes e exilados seus principais líderes. de modo que. 2.148 Teoria Geral do Estado criação de partidos locais. a Lei n. em 1937. o Estado autoritário alcançava seu máximo prestígio. bastando lembrar que. sendo a nova denominação derivada do fato dc a Lei n. o Partido Social Demo­ crático (PSD) e o Partido Trabalhista Brasileiro (PTB).1979. a União Democrática Nacional. deflagrou um golpe de Estado para fortalecer seu poder e depurar as hostes inimigas.096/95) determinar. afrontando a dignidade da Política e o bom senso da cidadania. 5°. porém. herdeiro da Are­ na.682/71 (antigas Lei Or­ gânica dos Partidos Políticos. A partir daí. 5. 9. Todavia.11. de modo que cada Estado contaria com seu próprio par­ tido republicano. favorecendo governadores que apoiavam o governo central. conduzida por Luís Carlos Prestes. dentre os quais o Partido Democrático Social (PDS). o recrudescimento da perigosa patologia política do muitipartidarismo. o Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB). nos mol­ des dos movimentos fascista e nacional-socialista. de 20. Getúlio foi deposto em 29. como a União Democrática Nacio­ nal.1945. pelo Ato Institucional n. A derrota do nazi-fascismo. sem falarmos nas inovações introduzidas pela Constituição de 1967.

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2.4.7) D em ocracia e co m u n ica ç ã o de massa
A comunidade nacional é soberana. Todo o poder emana do povo. Antes do advento do liberalismo político, dizia-se que o poder vinha de Deus. Hoje, pratica­ mente, todas as Constituições consagram a soberania popular ou nacional. Como a democracia direta não é mais praticável atualmente, o povo ou a nação escolhem seus representantes por meio de eleições. Eis a democracia representativa. O povo ou a nação são soberanos e a soberania é indelegável, inalienável. A democracia re­ presentativa deve, portanto, apoiar-se na opinião pública. Mesmo nos Estados totalitários, como o Estado nacional-socialista alemão, havia a realização do plebiscito, a fim de que o Führer auscultasse a chamada opi­ nião pública. Auscultar a opinião pública que seja a lídima, a verdadeira opinião pública, eis o ponto-chave da democracia. Como acentua Salvetti Netto:
o mecanismo democrático, que se sustem na representação popular, será tanto mais eficaz para atender aos fins da própria democracia, quanto mais propiciar as condi­ ções necessárias a uma estreita conformidade entre as deliberações dos órgãos gover­ namentais e os interesses da coletividade. Não pode haver representação onde inexis-

tirem cidadãos politizados, onde não houver fontes informativas da opinião pública, livres, desobrigadas e autônomas...

Em face disso ocorrem na America Latina e nos Estados política e economi­ camente subdesenvolvidos crises políticas incessantes. Na maioria desses Estados existe uma democracia meramente formal, em opo­ sição a uma democracia concreta, substancial. Em razão do exposto percebemos a importância e a responsabilidade dos meios de comunicação de massa na atualidade. Tais meios se confundem com aqui­ lo que costumamos denominar imprensa. Nesta incluem-se todos os meios de co­ municação de massa, embora seja instintivo nos referirmos aos meios de impressão com maior frequência do que ao rádio ou ao cinema, mesmo porque aqueles são mais antigos e acumularam ao seu redor a maioria das concepções teóricas da co­ municação de massa. Em seu livro Tres teorias sobre la prensa, Siebcrt e Peterson apresentam trcs teorias referentes à liberdade dc imprensa e as relações desta com o Estado: A teoria autoritária: esta teoria surgiu no clima autoritário do Renascimento, pouco depois da invenção da imprensa. Acreditava-se, então, que a verdade era apa­ nágio de alguns homens em posição de dirigir seus governados. A imprensa atuava de cima para baixo. Somente mediante permissão especial era permitida a proprie­ dade privada de órgãos da imprensa, e esta permissão podia ser cassada a qualquer momento. As publicações abrigavam, então, uma espécie de contrato entre os go­

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Teoria Geral do Estado

vernantes e os editores, pelo qual aqueles concediam um monopólio e estes, em con­ trapartida, deviam prestar “apoio'’ incondicional aos detentores do poder. Ora, tal concepção da imprensa eliminava de pronto o que, 11a época, chegou a ser uma dc suas funções mais comuns: controlar o governo. Esta teoria da im ­ prensa como mera servidora dos governantes foi accita universalmente no século XV I e parte do século XVII. A teoria libertária da imprensa: a liberal-democracia, a liberdade religiosa, a expansão da liberdade de comércio, a aceitação da economia do laissez-faire e o cli­ ma da ideologia iluminista minaram paulatinamente o autoritarismo, reclamando um novo conceito de liberdade de imprensa. Esta nova teoria tem seu início no sé­ culo XVII, alcançando seu apogeu no século X IX . A teoria libertária não concebe o homem como um ser que deve ser dirigido, mas como ser racional capaz de discernir entre o certo e o errado. A verdade deixa, então, de ser privilégio do poder. O direi­ to de procurar a verdade torna-se um dos mais prestigiosos direitos naturais do ho­ mem. A imprensa passa a ser considerada uma companheira em busca da verdade. Na teoria libertária, a imprensa não é um instrumento dc governo, mas um recurso para apresentar provas e argumentos sobre a atuação dos governantes c controlá-los. Portanto, para esta teoria é indispensável que a imprensa esteja a salvo do controle c influência governamentais. Para que possa surgir a verdade, é preciso aferir todas as opiniões; deverá haver um “mercado livre” de ideias e informações. A teoria de responsabilidade social da imprensa: a teoria da responsabilida­ de social da imprensa resultou de um problema surgido há cerca de trinta anos, com a revolução das comunicações. Quando as estações de rádio começaram a se multiplicar, a exemplo dos jornais e livros, sua organização foi tornando-se cada vez mais complexa, exigindo capitais de vulto. A imprensa - como nos tempos do autoritarismo da imprensa - passou a cair nas mãos de uns poucos poderosos. Se estes homens, muitas vezes apolíticos, buscavam de todas as formas uma indepen­ dência de informação relativamente ao governo, não é menos verdade que a opi­ nião pública passou a correr novo perigo, qual seja, o poder incontrastável da im­ prensa cm mãos dc particulares. A proteção da imprensa contra a influencia do governo deixou dc ser suficiente para garantir a oportunidade de alguém expressar suas ideias, pois os donos e gerentes da imprensa determinariam as pessoas, os fa­ tos, as versões destes que seriam dadas ao público. Foi este problema que consti­ tuiu a base do desenvolvimento da teoria da responsabilidade social, 011 seja, a po­ sição de poder e quase monopólio dos meios de comunicação. Deve haver então, segundo esta teoria, a institucionalização da responsabilidade social das empresas para que todas as opiniões se apresentem imparcialmente, para que o público pos­ sa imparcialmente decidir. Na verdade, o problema da liberdade de imprensa tem de ser cuidadosamen­ te estudado, pois sua existência ou não sempre impele a nau do Estado pelos mais inesperados caminhos. Seignobos, 11a sua magistral H istória sincera da França , e

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Domenach, em A propaganda política, demonstraram à saciedade o papel da im­ prensa, especialmente a clandestina, na disseminação das ideologias na França iluminista e na Rússia de 1917. Nos dias em que vivemos, o problema agravou-se com o embate ideológico, verdadeiro caleidoscópio político, pois os meios de comunicação, cada vez mais perfeitos c objetivos, são dc fácil apreensão pela massa. Abordando o tema, Ferreira Filho (A democracia possível) adverte que quem controla os meios de comunicação de massa tem a possibilidade, mais que isso, a tentação, de manipular o seu auditório, infundindo-lhe as próprias concepções.

3) TIRANIA
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A tirania é uma forma autocrática de exercício do poder político que tem ori­ gem asiática, passando para a Grécia a partir do século VI a.C. O vocábulo tirania tanto pode ser originário da Lídia, sendo o rei Giges o primeiro a ser chamado ti­ rano, como de Canaã, de serens, nome bíblico atribuído aos filisteus de origem no­ bre. Pode, até, ser originário dos etruscos, da expressão turan, que significa poder ou senhoria, ou de nomes próprios da Etrúria (o rei Turuns ou a deusa Juturna). Aliás, já sc disse que os etruscos, que desenvolveram a mais adiantada cultura da antiga Itália, antes dos romanos, eram descendentes dos lídios, sendo sua origem asiática, portanto. Consequentemente, a palavra tirania não é grega; designa, antes de mais nada, a forma de governo da moda existente na Ásia Menor, em dado momento históri­ co, não tendo absolutamente, como sugere o vocábulo, sentido pejorativo, malévo­ lo. Com efeito, a exemplo da ditadura romana, a tirania asiática não se apresenta como uma forma de exercício do poder necessariamente perniciosa. Diga-se o mes­ mo da sua versão grega que representou, no mais das vezes, os interesses coletivos, como veremos adiante. Em detrimento da verdade histórica, a tirania passou, com o tempo, a significar uma forma política essencialmente indesejável, preconceito

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Teoria Geral do Estado

este arraigado até mesmo entre estudiosos da história política e que cumpre-se ex­ tirpar de vez. Vejamos, entretanto, a evolução da tirania grega. É durante o século VI a.C. que desaparecem, em grande número dc cidades gregas, as velhas Constituições aris­ tocráticas, como fruto do descontentamento dc comerciantes e industriais que, en­ riquecidos em sua atividade, passam a almejar os cargos públicos. A aristocracia, sem se renovar, é dividida por lutas internas e enfraquecida cada vez mais. Sua de­ cadência vai ensejar o aparecimento de uma nova forma política, oriunda da Asia, a tirania. Esta forma de governo vai permitir o restabelecimento da ordem e uma política de expansão territorial e, consequentemente, de desenvolvimento econômi­ co, como corolário do espírito empreendedor dos gregos do século VII a.C. A tira­ nia, diga-se mais uma vez, não indicava uma ideia de dominação necessariamente opressiva, mas a forma de poder exercido por um homem cujo direito de governar era fundado não mais na religião ou na hereditariedade, como a antiga monarquia, porém no prestígio pessoal, 110 apoio dos estamentos inferiores, comerciantes e gen­ te humilde. Acrescentc-sc a isto um forte aparato militar. Claro, houve abusos por parte dc inúmeros tiranos; muitos, contudo, criaram constituições democráticas, de­ fendendo os interesses dos menos favorecidos, exercendo uma forma política em muito semelhante à denominada ditadura proletária a que sc refere Burdeau. Com efeito, as massas, em sua fraqueza, não encontraram outro meio de com­ bater os excessos da aristocracia senão o de lhe opor uma nova espécie de monar­ quia, seja na Grécia ou em Roma. Quando, em toda parte, os reis foram vencidos e a aristocracia se firmou 110 poder, o povo não se limitou a lastimar a queda da monarquia, mas procurou restaurá-la sob nova roupagem. Em seus primórdios, a tirania vem a ser uma forma política responsável pelo esplendor e pelo desenvolvimento econômico das cidades. Destacam-se tiranos no­ táveis: Trasíbulo, em Mileto; Pitágoras, em Éfeso; Polícrates, 11a ilha de Samos. Este cria uma potência marítima comparável à do Egito e da Pérsia, dedicando-se, ade­ mais, a proteger sábios, cientistas c poetas e a edificar majestosas obras públicas. Outro notável tirano, Pisístrato, governa Atenas com sabedoria e moderação, res­ peitando a legislação de Sólon, impedindo a formação dc latifúndios, realizando ampla reforma fiscal e embelezando a cidade. O tirano não altera, geralmente, a Constituição. As magistraturas são manti­ das, devidamente encarnadas em homens de sua inteira confiança. O conselho e a assembleia determinam a nova política, embora severamente fiscalizadas pelo tira­ no, que se faz acompanhar, prudentemente, de robusta guarda pessoal. A aristocra­ cia é perseguida. O tirano Trasíbulo pediu, certa vez, conselho a Periandro, tirano de Corinto, que era, por sinal, 11111 dos sete sábios da Grécia, a respeito da arte de governar. Periandro não respondeu: como ambos se achavam num trigal, limitou-se a cortar algumas espigas que se sobressaíam em altura das demais, insinuando, com

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isso, que a tirania não pode tolerar que os mais capazes adquiram demasiado pres­ tígio. Em Corinto, Cípselo confisca as terras aos nobres e as distribui entre as mas­ sas desfavorecidas; em Mégara, Teágenes pura e simplesmente massacra os rebanhos dos ricos, captando a simpatia popular. Os miseráveis vecm sua revolta c desdita mi­ noradas, pois os grandes empreendimentos públicos oferecem trabalho c as terras confiscadas lhes propiciam a fixação à terra. Tais situações atendem plenamente aos interesses do tirano, preocupado permanentemente com a hostilidade potencial dos aristocratas e com a sublevação das massas. Além disso, o tirano utiliza-se, frequen­ temente, dos cultos religiosos, os quais, excelente veículo de propaganda, contribuem para a estratificação do poder pessoal. Na verdade, à época das tiranias, comba­ tia-se ou pela liberdade ou pela tirania. Liberdade, para o proletariado, quer dizer governo dos ricos; tirania significava o governo de um líder antiaristocrático e, in­ diretamente, popular. Segundo o próprio Aristóteles, o tirano não tinha por missão mais do que proteger o povo contra os ricos, sendo da essência da tirania a guerra à aristocracia. A tirania é oriunda, em última análise, dos anseios dc uma burguesia florescente e, paradoxalmente, da miséria das massas e, claro, da audácia dc indiví­ duos sequiosos dc poder e decididos a tudo para triunfar. A tirania perduraria desde o século VI a.C. até meados do século seguinte, es­ tendendo-se, por todo o mundo grego, mas em cada caso particular jamais durou muito tempo. Em Esparta, aliás, a tirania jamais foi bem vista, talvez pela natural desconfiança do espartano em relação ao indivíduo enquanto tal. Na expressão do historiador ateniense Tucídides, Esparta não suportava os tiranos; tal aversão, de­ nominada atyranneutos, revela-se plenamente quando a política exterior esparta­ na intervém contra Polícrates e contra os Pisistrátidas, quando apeia do poder Ligdamis de Naxos e quando repudia a aliança a Corinto e Sicione, enquanto estas cidades são governadas por tiranos. A tirania decadente tornar-se-ia hereditária; então, as qualidades de energia, audácia e talento político, peculiares ao bom tirano, já se faziam escassas. A tira­ nia arcaica continha em si mesma os germes de seu desaparecimento, ou seja, a composição das crises sociais que a originaram. Com o desaparecimento destas, mediante as próprias reformas tirânicas, os cidadãos desejariam o retorno a uma forma de governo regular, em que o exercício do poder não se limitasse a um só homem. A tirania foi, na verdade, uma etapa necessária no caminho da democra­ cia, como acentua François Chamoux, pois à tirania se sucede uma aristocracia mo­ derada. O mundo moderno conheceu uma forma de exercício do poder político céle­ bre, aquela exercida por Oliver Cromwell (1599-1658), que, fazendo condenar à morte o rei Carlos I, em 1649, fez-se nomear Lorde Protetor da República da In­ glaterra (Commonwealth). O poder de Cromwell lembra, estranhamente, as tira­ nias gregas. Homem de caráter enigmático, ora iluminado, ora calculista, genero­

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Teoria Geral do Estado

so e cruel, dotado do mais refinado bom senso ou da mais escandalosa extravagância, era, fanaticamente, puritano, dissolveu o parlamento 110 dia 30.04.1653, tratando os parlamentares de ladrões e covardes, fechou as portas da casa legislativa e guar­ dou as chaves no bolso... Proclamada a República em 16.12.1653, instalou-se no palácio de Whitewall c iniciou um governo rude, que promoveu a dissolução de quatro parlamentos sucessivos, mas que tornou a Inglaterra respeitada c temida, adquirindo Dunquerque e apossando-se da Jamaica. Reprimiu revoltas na Irlanda e na Escócia, e sua violência foi tamanha que os irlandeses se tornaram inimigos latentes dos anglo-saxões. Cromwell, que sonhava, certamente, em se tornar rei, não conseguiu seu desideraro, deixando seu posto para seu filho Ricardo, que, lon­ ge de possuir as qualidades do pai, logo abdicou. Cláudio de Cicco, em síntese so­ bre a História Universal, ressalta bem a influência da religião puritana sobre Cromwell, que, aliás, vituperava o rei Carlos I, sob os epítetos de anticristo e dragão do apo­ calipse. Os seguidores de Cromwell entremeavam seus combates com cânticos e salmodias, sendo o respeito para com o chefe absoluto. Ainda Cláudio de Cicco aponta, com muita agudeza, que o Navigation Actypromulgado por Cromwell, para proteger a burguesia de armadores e proprietários de companhias mercantis, mos­ tra bem o nexo entre o mercantilismo capitalista c o luteranismo dc Cromwell.

4) OLIGARQUIA
Bibliografia: A r i s t ó t e l e s . Política, Madrid, Centro dc Estúdios Constitucionales, 1983.
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Norbcrto c
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Ro-

bert. Los partidos políticos, Buenos Aires, Amorrortu, s.d., 2 v. Madrid, Centro de Estúdios Constitucionales, 1981, t. 3.

La república,

Do grego ol igoi, poucos, e arche, governo, oligarquia significa, literalmente, governo de poucos. Entretanto, como aristocracia significa, também, governo de poucos - porém, os melhores -, tem-se por oligarquia o governo de poucos em be­ nefício próprio, com amparo na riqueza pecuniária. Em outras palavras, o termo apresenta um conteúdo eticamente negativo ao denominar o governo dos ricos, em­ bora possa indicar, também, o governo de poucos mantido pela intimidação, como no caso da oligarquia militar. Modernamente, são usados mais dois termos para denominar o governo pernicioso de uma minoria, quais sejam, plutocracia e nepo­ tismo. Plutocracia é termo de origem grega (de ploútos, riqueza, e kratos, poder), daí ploutokratía, plutocracia, ou governo fundado 110 dinheiro, na corrupção. Quan­ to a nepotismo, a expressão é de origem latina, de nepote, neto 011 segundo sobri­

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nho; nepote, por sua vez, deriva de ncpos, termo latino que denomina simplesmen­ te o escorpião, aracnídeo cuja fêmea é devorada pela própria ninhada, como a parentela se aproveita dos ascendentes bem situados, assumindo os melhores car­ gos públicos, cm detrimento dos mais capacitados. Em suma, favorecimento de ami­ gos e parentes da minoria governante. Diz Platão: “A que tipo de Constituição - disse - chamas oligarquia? Ao go­ verno baseado no censo - disse eu - no qual mandam os ricos, sem que o pobre te­ nha acesso ao governo” (> 4 república, 550, c). Aristóteles, por sua vez, doutrina: “ Há democracia quando os livres governam, com maior razão que há uma oligar­ quia quando os ricos governam, e, geralmente, os livres são muitos e os ricos pou­ cos (Política, 1290, b). Na distinção aristotélica entre formas de governo puras e impuras, a oligarquia, como governo dos ricos, é a forma impura da aristocracia, que é o governo dos melhores (Política, 1279, b). O sentido negativo da oligarquia c uma constante no pensamento grego clássico, bem assim no pensamento moder­ no e contemporâneo. Veja-se, por exemplo, Jean Bodin numa das mais festejadas obras da teoria política: “Da mesma forma que a monarquia pode ser real, despó­ tica, tirânica, assim a aristocracia pode ser despótica, legítima, facciosa; este tipo dc governo, na Antiguidade, era chamado oligarquia, vale dizer, domínio cxcrcido por uma minoria [...]. Por isso os antigos usavam este termo com significado nega­ tivo, e aristocracia com sentido positivo (Les six livres de Ia république, Livro II, Capítulo IV). Muitos autores contemporâneos, como Robert Michels e Caetano Mosca, sus­ tentam que em todas as organizações de massa brotam, naturalmente, facções oligárquicas destinadas a se tornar verdadeiras elites. Robert Michels chama este fe­ nômeno de “lei de ferro da oligarquia”. Quanto ao marxismo, considera a democracia liberal uma oligarquia disfarçada, mesmo sendo assegurado o sufrágio universal. Paradoxalmente, o marxismo-leninismo exige, no período de transição entre o ca­ pitalismo e o comunismo, denominado ditadura do proletariado, o governo de uma minoria seleta, investida dc plenos poderes, que evoca, sem dúvida, as elites diri­ gentes da República de Platão.

5) DEMAGOGIA E 0CL0CRACIA
Bibliografia: AMARAL
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l in a r e s q u in t a n a

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Segundo V. Sistemas de partidos y

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eliminar as particularidades. orador que conduz. 2. os cidadãos mais capazes são relegados ao esquecimento e os aduladores cobram rápida ascensão. sendo demagogia a arte de conduzir o povo.C. Tal estado de coisas é resultante do rápido desenvol­ vimento industrial e tecnológico. não é. A oclocracia é definida na famosa enciclopédia. Então. fazendo valer seus mais insensatos caprichos. O termo oclocracia indica o jugo imposto pelo populacho inorgânico ao poder legítimo e à lei. Ainda é Aristóteles que adverte ser a demagogia a corrupção da politeia [Política. conduzir pela palavra. povo. e do papel cada vez mais ativo das massas. sendo o demagogo aquele que. eliminar as diferen­ ças pessoais. diz ele. impor que todos pensem da mesma for­ ma sobre todas as coisas. garan­ tida pelos guerreiros e acima de todo e qualquer egoísmo pela comunhão de bens. o termo de­ magogia não teve. E preciso. multidão.15 6 Teoria Geral do Estado Demagogia vem do grego demos. Quanto à oclocracia (do grego oklos. que acabam por implantar um governo autoritário. Modernamente. leva ao isolamento das pessoas e à sua angústia permanente. que não sentia grande atração pelas democracias (Apologia de Sócra­ tes. uma forma de governo. Foi com o grande historiador ateniense Tucídides (460-395 a. 1]. A de­ . Na demagogia. esclarecia o povo com sabedoria e justiça.) que a de­ magogia principiou a ter sentido negativo. A atro­ fia da individualidade criadora. seu com­ portamento torna-se uma conduta massificada. forma corrupta da de­ mocracia e que leva à implantação de um governo despótico das classes sociais mais baixas. mas uma situação crítica que vivem as institui­ ções. deformação dos fatos e adulações grosseiras. provoca a reação de comuni­ dades organizadas. É neste sentido que Políbio emprega o termo. bem como à desordem e à corrupção. causada pelo aparecimento da máquina. Ressalte-se que na antiga Grécia. durante muito tempo. elaborada pelos enciclopedis­ tas franceses. poder). e agein. Daí agog-os. a demagogia é tida como a política por meio da qual os go­ vernantes buscam impressionar as massas com falsas promessas. impor a ordem no Estado e nas almas. 35 a-b). e kratos. Isto só será possível quando a casta dos filósofos. Aristóteles advertia para o fato de que a demagogia. via na liberdade individual uma distorção da verdadeira convivência social. ao sabor da irracionalidade das multidões. como sendo o “abuso que se instala no governo democrático quan­ do o populacho vil se torna o senhor dos negócios públicos”. demagogo é aquele que conduz o povo. cortejando o populacho com leis inexequíveis e uma sórdida campanha de calúnias e difamações contra os verdadeiros magistrados. Progressivamente. a conotação pejorativa de hoje. VI (IV). rigo­ rosamente. das mulheres e das crianças dominar a multidão ignara dos trabalhadores. Platão. denominando a atitude daqueles que “conduzem o povo lisonjeando seus sentimentos”. condicionada a atitudes políticas e sociais não racionais. impondo-se ao tirano.

é o oposto deste ideal. Pichon. Tal definição pode parecer estranha a quem estiver habituado ao uso indiscri­ minado do vocábulo. . Torino. na primeira. reside no fato de que. inevitavelmente. Paris. Pedro. O estado de sítio. Diritto pubblico romano. Théodore. Curso de teoria do Estado. quando suas instituições encontram-se ameaçadas por . cria a desordem e a imoralidade. 1977. Teoria geral do Estado. sendo. unipessoal ou colegiado. 1885. e o domínio monstruoso que é a multidão (thrémma méga kai iskhurón) não passa de um despertar da natureza tirânica (palaià gigantikê phúsis) (apud Gustave Glotz. há uma ordem viciosa imposta pelos demagogos. prossegue. Madrid. Georges. falso falar de uma só Constituição. Pielte. Droit constitutionnel et institutions politiques. A igualdade de que ela se vangloria. salvetti n e t t o . Nicolò. Paris. ao passo que a oclocra­ cia implica a própria ausência de qualquer ordem. que. denomina as medidas de emergência que toma o Estado contemporâneo. Ao reconhecer a todos os desejos a mesma legitimidade. s c h m i t t . Feltrinelli. Manoel Gonçalves. La dietadura. São Paulo. A. . v. Utet. f e r r e ir a f i­ m a c h ia v e l l i.apresenta vários sentidos correlatos. fazendo a moderação passar por fraqueza e o escrúpulo por ingenuidade. 1969. M ilano. A democracia culmina. presta-se a uma série de preconceitos e mal-entendidos. Ditadura é o exercício temporário do poder político. ao defender um individualismo em que cada um age como bem entende. Samuel. Le sénat de la république romaine. Re­ vista de Occidente. Saraiva. 1979. 1968. Scientia Verlag. F. lho burdeau . 6) DITADURA Bibliografia: LGDJ. p in t o f e r r e ir a Luiz. ao sa­ bor dos interesses mesquinhos. Dictionnaire des antiquités romaines. Zahar. Quanto à diferença entre demagogia e oclocracia. ao colocar na mesma casta homens desiguais. Paris. p. A cidade grega.6 Formas de governo 157 mocracia. Saraiva. II príncipe e discorsi sopra la prima deca di Tito Livio. 1980. por ter natureza analógica . 1766. 1964. 1975. burdhse. São Paulo. Com efeito. na oclocracia. mes­ mo. é uma gritante desigualdade. Carl. w i l l e m s . De Vétat de siège. embora não idênticos. . São Paulo. 1. 1981. Em sentido amplo. Estado democrático e Estado autoritárioy Rio dc Janeiro. . a palavra ditadura pode ser tomada num sentido amplo ou num sentido estrito. Quando o Estado sc encontra em tal situação. 123). Saraiva. a sua Constituição é instável e deformada. pois esta é alterada incessantemente. caracterizado pela concentração de atribuições prefixadas e destinado a sanar mal público iminente ou real. 1968. neum ann Franz. r e in a c h p it is c u s . análogos.

Ele se achava. é bem verdade. Situemos. em cuja aplicação dispunha da mais ampla liberdade. A expulsão dos reis beneficiou a aristocracia. ex. como faz ver o historiador Tito Lívio: “ [.. curvando-se. Reza a tradição que a História da Cidade Eterna co­ meça aos 21 de abril do ano 753 a. o monarca postava-se acima da comunidade. que exercem o poder em colegiado e pelo período de um ano. que buscou. Ora. Em sentido estrito. sendo plena­ mente irresponsável. e sim ma­ gister populi. concentrava nas mãos todo o poder. nem intervir em demandas legais ou impor novos tributos. to­ mando-se a expressão no sentido enérgico dc comandar. a ditadura romana 110 tempo e nas instituições republicanas da antiga Roma. enfim. ao veto do colega. O imperium . Já se percebe que a ditadura romana vinha a ser uma magistratura extra­ ordinária\ prevista na Constituição. Não podia. anteriormente. alterar a Constituição ou declarar a guerra. Nos tempos da realeza. dotada de objetivos específicos e destinada a salvar a República e as liberdades dos cidadãos. Fora destas restrições. basicamente.. entretanto. desde que não houvesse dado a esta. então. rees­ truturar o poder. é bom lembrar. Substituindo o rei. nesta incluído o poder de vida e de morte sobre seus conci­ dadãos. de forma a impedir que fosse restaurado o poder pessoal dos mo­ narcas.. adotou-se a forma monárquica de governo. vale acrescentar. sob o lema salus rei publicae su­ prema lex est. Vale frisar.]” . que a denominação dictator não era a mais indicada para designar aquele que encarnava tal magistratura. perdurando até 27 a. aprimorando-se. prevista na Constituição da antiga Roma republicana.. dictator. apa­ recem dois cônsules. aos princípios da anualidade c da colegialidade. O período dc transição entre a monarquia e a república não ensejou. pois sabe-se que muitas ideias de ori­ gem republicana já vinham sendo experimentadas durante o reinado de Sérvio Tú­ lio.C. sendo responsáveis perante a lei e submetidos à intercessio.C. a adoção do estado de sítio ou da lei marcial).C... um dos cônsules podia anular qualquer medida tomada isoladamente pelo outro. ao contrário do que sc pensa.158 Teoria Geral do Estado um perigo interno ou externo (p. em sanar graves crises sociais com medidas drásticas. aumentativo dc dicere. nestas incluído o próprio consulado. Daí. a luta armada e a sucessão violenta de instituições. a república sc impõe.] duo cônsules inde comitiis centuriatis a praefecto urbis ex cornentariis Servii Tulli creat sunt [. de imediato. seu consentimento. sendo irresponsável no exercício do cargo. a partir de então. Mediante a intercessio. várias magistraturas. contudo. significava a plenitude dos poderes judiciários e militares. O próprio termo dita­ dura origina-se do Direito Público romano. desde então. refere-se a uma espécie de magistratura de caráter extraordiná­ rio.. investido do imperium maximum ou majuSy e durante sua atuação todas as magistraturas eram suspensas. vale dizer. a própria . quando tem início o período denominado principado. o ditador não estava subme­ tido à intercessio nem à provocatio. conforme ensina Théodore Reinach. cm sua investidura. mas agora o magistrado republicano achava-se subordinado à lei. dc dictare. e até o ano dc 509 a. A missão do magister populi ou dictator consistia.

quando a salvação da . ligado à religião (auctoritas) e um poder jurí­ dico c militar. compreende: o direito de tomar os auspícios dentro da ci­ dade. como vocábulo cor­ respondente a imperium. Magistrados ordinários eram aqueles que exerciam funções inerentes à norma­ lidade da vida administrativa. portan­ to. o direito de exercer coerção (coercitio). As magistraturas republicanas eram. que eram dotados. ao cabo de um ano. o direito de convocar o povo fora de Roma. a palavra ti­ rania? Havia ademais uma distinção entre imperium e potestas. pois todo e qualquer cidadão tinha . com nuanças religiosas. aos questores. aquele que ia à frente do exército). Havia um conceito primitivo de soberania. originariamente. Além dos cônsules. da monarquia etrusca. porém. mas limitada em razão das circuns­ tâncias. entre os magistrados. para lhe dirigir a palavra e para fazê-lo vo­ tar. repartida. ad tempus incertumysendo invocada. A ditadura. Magis­ trados extraordinários . era magistratura de caráter extraordinário e. sendo suas funções delimitadas no tempo. o direito de organizar e comandar o exército. direito de convocar o povo dentro da cidade. quem sabe. O imperium inclui todas as atribuições da potestas e mais: o direito de tomar os auspícios fora de Roma.6 Formas de governo 159 soberania encarnada pelos reis de Roma e transmitida aos magistrados republica­ nos. O império era atribuído. depois judices. portanto. truna. eqüi­ valeria a atribuir ao cidadão uma situação privilegiada que ofenderia o princípio da isonomia. apenas da potestas. publicar os editos (jus edicendi). deriva. apenas aos magistrados stricto sensu: cônsules. a jurisdição (poder de dizer o Direito). A ideia de imperium . aos edis e aos tribunos. ad tempus certum e ad tempus incertum. também de origem etrusca. no mais das vezes. direito de convocar e de presidir o Senado (senatum vocare). mais recente (imperium ).a própria denominação faz ver . Os etruscos adotavam.eram aqueles cujas atribuições não tinham duração limitada pela lei. impor multas (jus multae dictionis). nos comícios centuriados. daí.pelo menos teoricamente . sendo seu símbolo o fasces. ditadores e pretores. segundo Pallotino.a possibilidade de in vicem parere atque imperitare. inicialmente. Cônsules e outros magistrados voltavam a ser. Admitir que uma magistratura fosse ocupada sem limite de tempo. iMais tarde. que significava poder. inicialmente denominados praetores (de praetor. determinar que este aprecie um caso determinado (referre ad senatum) e que delibere e vote (cum patribus agere). por sua vez. cidadãos comuns. isto é. havia outros magistrados que se enquadravam em magistraturas de caráter ordinário ou de caráter extraordiná­ rio. A potestas. paulatinamente. a atribuição estendeu-se aos censores. consistente em deter o cidadão e obrigá-lo a comparecer perante a autoridade.

isto é. ao qual. da infantaria romana. chefe dos patrícios. propiciar. um ditador ou tirando a sorte para determinar qual deles faria a seleção. Em razão disso surge a ditadura. esse órgão autorizava os cônsules a escolher. Por exemplo. ser um mal necessário. como visto. tínhamos a ditadura imminuto jure. levado a efeito com a máxima discrição. simbolicamente. É um erro . dirigia a guerra (rei gerendae causa). cm tais casos. ainda nos primórdios do período republicano. silentio). embora não se pudesse fugir. e esta era. incumbido da cavalaria. O ditador era investido 110 poder militar (gerundae causa e seditionis sedandae causa) e. vivia situa­ ções que exigiam decisões rápidas. assessorado pelo magister equitum. estranha cerimônia cujo significado escapa à moderna pesqui­ sa histórica. Quem nomeava o ditador romano. a ele caberia a escolha. quase sempre em estado de guerra. literalmente. A expressão magis­ ter populi significa. fixar um prego numa parede do Capitólio. embora resolvessem o problema da administração inter­ na. com suas tendências expansionistas. Frisemos. ao menos. pois Roma. Com efeito. Este curioso ritual demonstra bem o es­ pírito do antigo romano: a elevação de um homem acima das leis. ordinária e colegiada. Encontraremos uma das mais profundas raízes da ditadura 110 gênio pragmá­ tico dos romanos. Tusculum e Lanuvium. Acentua Pierrc Grimal que a dita­ dura se apresentava muito aparentada à monarquia no tocante a certas funções ex­ clusivas do rei (rex sacrorum) ligadas à religião. dominava a sedição (seditionis sedandae causa) e podia permane­ cer 110 exercício de suas funções até quando as necessidades o exigissem. em conjunto. evidentemente. A própria nomeação do ditador seguia certos preceitos religiosos: o cônsul procedia à escolha do ditador somente após tomar os auspícios. neste caso. feita à noite e em segredo. Se fosse o caso. dotado apenas da potestas consularis. a lei suprema é a salvação da coisa pública). encarnada pelo magis­ ter populi ou praetor maximus. O ditador romano dispunha do direito de vida e morte. que a colegialidade do consulado não poderia. este desprovi­ do do imperium majus. tínhamos as ditaduras oprimo jure.160 Teoria Geral do Estado república exigisse a suspensão das prerrogativas pessoais (salus rei publicae supre­ ma lex est. eram os cônsules. já sc percebia que os cônsules. mas podia haver nomeação de um ditador para funções administrativas ou religiosas específicas e. era. a função do ditador: comandar a infantaria. encontravam inúmeras dificuldades para atuar no âmbito externo. Nos momentos de crises político-sociais. Alba Longa. por exemplo. ficando o magister equitum. que a ditadura não era uma criação inteiramente do Direito Público romano. eles deviam consul­ tar o Senado a respeito das medidas a tomar. a ditadura latina dessemelhava-se da romana por ser anual (ad tempus certum). Se apenas um dos cônsules se encontrasse na cidade. deliberando. em segredo (nocteyoriens. mediante au­ torização do Senado. como a própria denominação insinua. pois várias culturas vizinhas à Cidade Eterna conheciam uma instituição semelhante. Entretanto. durante a noite. revelava. basicamente. por outro lado.

hoje. em 1873. cujo amor à pátria. cumu­ lar poder e glória.C. que havia. no ano de 458 a. para a felicidade e o progresso de um Estado. o ditador não podia renunciar à sua missão antes dc complctá-la. causado a morte do filho de um senador. Polí­ tico hábil. Roma apresenta-nos exemplos de ditadores notáveis. vários casos dc permanência dilatada do ditador cm seu posto. com Cincinato. Investido na função de dictator. e retornou à lavoura. cumprindo sua missão ao cabo dc vinte c um dias.6 Formas de governo 161 pensar. Da mesma forma que a célebre Cornélia. passando a viver do culti­ vo da terra. a socieda­ de foi declarada incompatível com a República e desfeita. ficou reduzido à pobreza. ao tomarem Cincinato como mo­ delo de conduta. Eis. desprendimento e consciência social deveriam inspirar a modernidade. sempre renunciou às honrarias após cumprida sua missão. o Censor. Reduzido à miséria por despender os poucos recursos que possuía. impondo severa derrota ao inimigo. Lúcio Quíncio Cincinato vem a ser. nomea­ do ditador por mais de uma vez. mãe dos Gracos. personifica a probidade administrativa no combate à corrupção. sempre. Entretanto. admitindo a hereditariedade na sucessão de seus membros. no século V a. Aos 80 anos de idade. Esquecido por todos. Padrão dc honra. culposamente. para tentar levantar o cerco que os équos impu­ nham a Roma. ele que havia sido reduzido à humilhação c à pobreza por ten­ tar libertar o filho. sustentáculo da família e do lar. que a ditadura não podia ultrapassar seis meses de duração. perpetuada na pátria da Democracia ocidental. Em qualquer caso. à sua vida austera c dc hábitos morigerados. Cincinato poderia. sociedade patriótica fundada nos Estados Unidos da América do Norte. Seus membros. sempre levou vida modesta. à qual. traziam uma medalha representando o ditador em sua charrua. era formada por todos aqueles que se haviam desta­ cado na Guerra da Independência. para libertar seu filho Ceson. foi em inteira justiça. em sen­ tido inverso. um exemplo da grandeza moral do antigo romano. mes­ mo porque a história romana é pródiga em exemplos de ditadores que encerraram sua missão muito antes de se escoar o prazo de seis meses. portanto. simboliza a virtude da mulher romana. com altivez. co­ ragem. constatando-se. tentando cobrir a fiança exigida por influência dc seus inimi­ gos políticos. que amanhava numa tosca charrua. e não seria equivocado concluir que. A Ordem de Cincinato. foi novamente investido na ditadura. até amealhar o dinheiro necessário para afiançar a liberdade do filho. em grande parte por desconhecimento da História. se o desejasse. voltando. as insígnias de dictator. o arquétipo do herói romano. os Estados Unidos da Amé­ rica do Norte. não .. mas nem por isso pensou em locupletar-se ou em vingar-se. lembrado por seus compatriotas. a memória do ditador Cincinato é. repugna a palavra ditadu­ ra. e que Marco Pórcio Catão. contudo. impediu a deflagração da guerra civil entre patrícios e plebeus..C. na pequenina propriedade agríco­ la que lhe restara. dignidade c perseverança. De­ volveu. levantou o sítio em apenas dezoito dias. Patrício dc origem. na cidade de Cincinatti.

no entanto. na República romana. Sila permane­ ceu no poder durante três anos. um ime­ recido elogio. A partir do ano 133 a. de 286 a. imediata­ mente. respectivamente em 49. fora da lei e inimigo. Então. aos quais se deve a Lei das Doze Tá­ buas. declarava a tumultus (rebelião).C. a luta secular entre patrícios e plebeus. Além disso. todo aquele que conspirasse contra o Estado. exemplo universal dc patriota. se zanga. 46 e 44 a.C.C.. 48. que os ho­ mens que as encarnem sejam dignos destas. ao cabo dos quais renunciou ao posto. Em 46 a.. motivadora da nomeação dc vários ditadores. O senatus consultus ultimum era acompanhado da patética expressão “videant cônsules ne quid res publica detrimenti capiat!' \ com a qual se alertava a comuni­ dade sobre a gravidade da situação. logo. graças à sua aliança com os tribunos da plebe e à assimilação paulatina das atribuições anteriormente priva­ tivas dos cônsules. Não havia. As denominadas ditaduras de Lúcio Cornélio Sila e de Caio Júlio César apre­ sentam caráter completamente diverso da ditadura original.. em 249 e 216 a. com ela. e XV. que a palavra ditadura possui uma carga histórica que deve ser respeitada. praticamente desaparece c. bem como o justitium (suspensão da atividade dos tribunais). Modernamente. como percebe com clare­ za Maquiavel cm sua obra Discursos sobre a primeira década de Tito Ltvio. a importância do ditador já estava bastante reduzida pelo fato da ad­ missão da intercessio dos tribunos da plebe contra o poder incondicionado do dita­ dor. a figura do dictator seditionis sedandae causa. isto é. a anulação de determinadas leis e a suspen­ são do poder de certos magistrados. a ditadura foi suspensa por dois anos. por ocasião da nomeação dc dois colégios decenviros legibus scribundis. a dita­ . Quanto a Júlio César. exerceu por quatro vezes a ditadura política.162 Teoria Geral do Estado bastam instituições políticas formalmente perfeitas. que estava exigindo soluções drásticas. na verdade. Não teria sido por acaso que Dante Alighieri colocou Cincinato e Cornélia no Paraíso. é preciso. tendo por missão constituere rem publicam. foi criada uma institui­ ção que substituiria a tradicional ditadura: o senatus consultus ultimum. o ditador de empalmar o po­ der absoluto. com efeito. jamais aviltada.. o Senado já se encontrava reforçado a ponto de enfraquecer enormemente o poder dos cônsules. Percebe-se. A deturpação do sentido de um vocábulo emprega­ do sem discriminação séculos afora acarreta enganos insanáveis.C.C. também. qualquer aventureiro político que vem a ser qualificado como ditador. em sua bela e tremenda Divina comédia (VI. 45. Quanto ao ditador rei gerundae cau­ sa. ao enal­ tecer a figura do ditador romano. pois se destinavam a reestruturar o Estado e a elaborar um novo ordenamento jurídico. Em 451 a. líder agrário.C. a ditadura prosperou e foi útil. 129). e que os norte-americanos honra­ ram a memória do grande romano na cidade de Cincinatti. ficando estes reduzidos à condição dc meros agentes executores. e aquilo que pensa constituir um vitupério é. haveria duas nomeações. efetivamente. por oca­ sião das agitações de Tibério Semprônio Graco. um mecanismo que impedisse.. Após a Lex Hortensia. atribuído ao Senado e destinado a declarar hostil.

o que o torna irregular é a «ânsia da perpetuidade cm fraude à lei.. mediante um decreto. quiçá. Quando o cesarismo enseja o favorecimento de poucos.01. evitou. criava-se na França revolucionária. O co­ missário recebia do príncipe. na França revolucionária. Em 44 a.). restabelecer quaisquer resquícios da ditadura. no ano de 1793. de imediato. pois este já se tornara seu fi­ lho adotivo. Na verdade. incumbida de redigir uma nova Constituição e transmitir o poder. na Idade Média.C. proposta. o moderno estado de sítio (état . evidentemente. administrar a extirpação dc focos de epide­ mias comuns à época. fruto da reação do Senado. Assim. dc César.teórica. Tais aberrações levaram ao seu assassínio. o Senado eliminou a nova magistratura. em detrimento da coletividade. O fato é que as formas corruptas da ditadura romana devem ter denomina­ ção diversa. Exemplo de poder ditatorial colegiado poderemos encontrar.1791. parente).C. ainda em 44 a. Tomando a expressão ditadura em sentido amplo. instruções a respeito do que fazer.6 Formas de governo 163 dura cesariana fez-se permanente e ordinária.seria anual e reservada ao povo. também denominada tirania. quando a Convenção Nacional. denominado Junta da Salvação Pú­ blica ( Comitê de Salut Public). Procurando dissimular a transformação da República em regnum. depois.C. por exemplo. finalmente. evidentemente . sucessor de César. César subs­ tituiria os antigos magistrados por um apenas. temos o nepotismo (de nepote.. em­ bora o como fazer ficasse a cargo deste mandatário. funcionário nomeado para exercer atribuições extraordinárias e específicas. a governantes legal­ mente constituídos. César obteve a garantia de que sua ditadura seria perpétua. a partir de então. uma instituição análoga à ditadura romana. no qual pontificou Robespierre. foi obrigada. ele próprio. teremos. encarnada no denominado comissá­ rio. a figura do princeps e abstendo-se de alterar o quadro das anti­ gas magistraturas. o cesarismo é a forma dc exercício do poder político na qual o governante busca perpetuar-se no poder sem infringir a lei. por delegação. tudo leva a crer que Júlio César desejava instituir sua nova concepção de ditadura na figura de Otávio. colocada acima do consulado. O governo cesarista nem sempre é mau. a delegar am­ plos poderes a um colégio de nove membros. cuja eleição . responsável. mas burlando-a. contudo. a exemplo da aesymnetia grega. Após a morte de César. por intermédio da Lex Antonia de dictatura in perpetuum tollenda. Já em 10. em razão da falta de higiene existente nas cidades etc. Otaviano Augusto. que instituiu o tribunal revolucionário e se mostrou fanático defensor da República. Além do mais. sufocar revoltas populares. medidas excepcionais que lembram. em razão da desordem imperante. por Marco Antônio. A pa­ lavra cesarismo vem. por um estado de terror. com prudência. a duração do exercício do cargo comissarial era rigorosamente transitória. criando. primeiramente chamado de Otávio (63-14 a.

Referindo-se aos regimes autoritários modernos. em 1813. mas desde logo Francis se desfez do colega. o Direito Públi­ co russo referia-se a uma expressão célebre. Bur­ deau aponta formas de cesarismo e ditaduras. Exemplo curiosíssimo de forma política que recorda o consulado e a ditadu­ ra romanas . pela Assembleia. mas isto já seria impossível no caso de todos exerce­ rem uma ditadura. que antevia. Carl J. exercia um poder ditatorial sobre esta. logo após. Os cônsules seriam ele próprio e Yegros. sob a presidência do General Yegros. inicialmen­ te. indispensável ao advento do comunismo. como “Terror”. o cesarismo empírico. para fazer frente às crises político-sociais. . inaugurando o período conhecido.quando muito . pois uma ditadura sem ditadores. Como se vê. foi promulgada uma Constitui­ ção inspirada pelo próprio Francis. a ditadura do proletariado. diz Burdeau. De início.guardadas as devidas proporções! . o estado de sítio ou de urgência são exemplos de tais métodos. Se ele for um gênio. exatamente como na antiga Roma. mesmo antes do transcurso deste prazo.oferece-nos o Paraguai. poderemos. Pois bem. não renegava uma concepção toda própria de ditadura. já não seria di­ tadura. Que vem a ser a ditadura do proletariado? Segundo a doutrina marxista. e. necessária. o próprio Marx. segundo a qual a república seria dirigida por dois cônsules eleitos anualmente. elasse exploradora. para um futuro promissor. muito adequadamente. no mínimo. o homem liberto dos grilhões do poder político do Estado. individualista por excelência. de classe é. estágio final da evolução humana. surgiam as prisões em massa e as execuções. era o período em que o proletariado. ditador por três anos e. será um efêmero presidente de alguma república andina. se não for. eis um Napoleão. A lei marcial. convenhamos. uma Junta de cinco membros. classe social destinada a dirigir a tarefa dc libertação das mas­ sas trabalhadoras exploradas pela burguesia. Friedrich denomina ditaduras constitucionais as medidas de caráter ex­ traordinário.em algumas pessoas. uma ditadura coletiva. conseguiu tomar-se ditador supremo e perpétuo! Até o aparecimento da vigente Constituição soviética (1977). visto que a principal característica da ditadura é justamente a concentração do po­ der em uma ou . vítima inevitável de alguma rebe­ lião ou pronunciamento. cujo secretário era Gaspar Rodríguez Francis. Na verdade. adotadas pela maior parte dos Estados contemporâneos. a ditadura do proletaria­ do. forma política que dispensa qualquer ideolo­ gia: um chefe é incondicionalmente obedecido. sendo no­ meado. simplesmente porque sabe fazer-se obedecer. jamais o seu desmembra­ mento numa coletividade. um contrassenso. esta república sul-americana teve a governá-la. falar cm ditadura. Indepen­ dente a partir de 1811. confor­ me o caso. Seja o poder ditatorial enfeixado nas mãos de um órgão apenas (sentido estrito) ou em vários órgãos (sentido amplo).16 4 Teoria Geral do Estado de siège). até que o Estado desaparecesse e surgisse a sociedade comunis­ ta.

Nesse caso. este país irá cair infalivelmente nas mãos de uma multidão desenfreada para passar depois a tiranetes quase imperceptíveis de to­ . ele não po­ deria tomar tal iniciativa a não ser renunciando à própria existência. com o advento da sociedade comunista. A ditadura proletária é outra espécie de ditadura moderna apontada por Bur­ deau. Finalmente. El totalitarismo. 1977. dizia o seguinte: Meu caro General. Editorial Estampa. O chefe restringe-se a explorar. com o fato de seu poder ser mantido apenas pela força. Difel. Burdeau aponta a ditadura ideológica. Simón. Simón Bolívar enviou uma carta a um de seus colabora­ dores. nem de longe possui o embasamento doutrinário desta. Maurice. muito mais refinada e subs­ tanciosa 110 que se refere à doutrina. na qual o proletariado intervirá despoticamente. 7) CAUDILHISMO Bibliografia: verger b o l ív a r . a ditadura do proletariado. Lisboa. Afonso Arinos de. enfaticamente e com dureza. absolu­ tamente. du - . México. ela marcará o definhamento e a desaparição do Estado. supor que o Estado tende a eliminar as relações de subordinação. segundo.6 Formas de governo 165 A seguir. Seria pueril. o ditador não se satisfaz. Buenos Aires. Nela. 1966.1830. Escritos políticos. isto sim. o general Juan José Flores. Embora aparentada à ditadura do proletariado imaginada por Marx. Exa. de modo rudimentar. Tal ditadura será transitória. Sabe V. quarto. Marx insiste no caráter inelutável desta ditadura.1 1. instrumento de opressão de uma classe sobre outra. que viria a ser o primeiro presidente do Equador. a exemplo dos demagogos das antigas tipologias das for­ mas de governo. uma ideologia político-social destinada a legitimar. . Os regimes políticos. terceiro. a América é ingovernável por nós. Unam. as quais ele dirige a seu talante. pois. para usar uma expressão do próprio Marx. que governei durante vinte anos c que desse tem­ po poucos foram os resultados certos que obtive: primeiro. à qual já nos referimos. a única coisa que se pode fazer na América é emigrar. No dia 09. El cons- titucionalismo brasileno en la primera mitad dei siglo X IX . Paidós. 1957. A libertação do homem só será possível com a desaparição do poder político e com a submis­ são da classe dirigente (a burguesia) a uma ditadura (a do proletariado. diz Marx. na qual. 1965. m elo franco William. fazer uma revolução é lavrar no mar. ele desenvolve. as mais baixas paixões do populacho. classe do­ minada). Por seu inter­ médio. Marx antevê a liberação do indivíduo mediante uma fase necessária de vio­ lência. o chefe busca apoiar-se nas camadas sociais menos favorecidas. No seu livro Carta a respeito do programa de Gotha. e b e n s t e in . São Paulo.

na América espanhola. a instrução pública e a previdência social. tornou-se ponta avan­ çada do movimento libertário e órgão de transição entre a autoridade do Vicc-Rcinado e a América independente. nos locais onde se desenvolveram as sociedades indígenas. Pois bem. Era dotado dos títulos de capitão-geral. pelo moderno Estado peruano. depois. o exacerbado individualismo c a quase ausência dc senso dc responsabilidade social trariam as disfunções políticas que todos conhe­ cemos. Exa. da qual derivou o paternalismo ainda hoje encontrado na política americana. Como acentua Salvador Valencia Carmo­ na. a saúde pública. Era. dificilmente conseguiríamos compreender alguns traços das instituições políti­ cas latino-americanas sem examinar as influências do passado indígena e colonial. tal afirmação é válida ape­ nas do ponto de vista político. o vice-rei espanhol tornou-se a encarnação suprema do Estado espanhol nas índias. no México atual.166 Teoria Geral do Estado das as cores c raças. devorados por todos os crimes e consumidos pela feroci­ dade. como veremos. os serviços postais. A súbita reação da ideologia exagerada vai pre­ sentear-nos com quantos males nos faltavam e exagerar os que já possuíamos. os centros atuais do poder político. algumas dc suas atribuições . quinto. os europeus não se dignarão conquistar-nos. depois. Assim. Por ou­ tro lado. se a unanimidade dos historiadores situa o nascimento oficial dos Estados latino-americanos em princípios do século X IX . Ora. pois sob o ângulo histórico esta orientação trunca uma parte importante de sua evolução. pois tanto o monar­ ca indígena como o vice-rei foram executivos centralizados. Por outro lado. des­ graçados dos governos! Ninguém melhor do que o Libertador conhecia o temperamento e as inclina­ ções do latino-americano! Inicialmente. mais tarde. as obras públicas. este seria o ultimo período da América. precisamente uma instituição colonial. desde os antigos impérios pré-colombianos até os modernos presidentes latino-america­ nos. deitam suas raízes nas velhas capitais indígenas ou nas divisões estabelecidas durante o perío­ do colonial. Destes períodos nos vem profunda tradição de poder pessoal. verá que rodos se entregarão à torrente da demagogia c desgraçados dos povos. A primeira revolução francesa provocou a decapitação das Antilhas. o desenvolvimento econômico. que do pon­ to de vista administrativo tinha a seu cargo os serviços gerais. note-se bem. estabeleceu-se uma profunda relação afetiva entre o governante e o povo. o incontornável atavismo do poder pes­ soal. assim o império inca. governador do Reino c presidente da audiência. o superintendente da Fazenda Real. foram ins­ talados também os primeiros estabelecimentos espanhóis. o cabildo. V. convertida em Vice-Reinado e. e a confe­ deração asteca. se fosse possível a uma par­ te do mundo voltar ao caos primitivo. a dis­ tribuição de provisões. autoritários. o ccnso. O poder se achava centralizado no vice-rei. a segunda causará o mesmo efeiro neste vasto continente. Em verdade. su­ cedido pelo Vice-Reinado e. sexto.

Curioso e sintomático. a administração foi confiada a grandes senhores.. Para as novas Constituições. quatro os modelos a ele referentes. da qual pode­ riam dizer “obedecemos sem cumprir. embora sujeitos à revisão pelo Conselho das índias. Assim: . mas em suas casas levam uma existência miserável. dão-se ares de fidalgos e preferem ser soldados ou (antes do tempo de Fer­ nando) salteadores de estrada a fazerem-se mercadores ou exercer qualquer função se­ melhante. A princípio. a administração espanhola ampliou sua influência sobre a administração das colônias lusas e. vão ocorrer. Por outro lado. mui­ to mais de forma do que de substância. sob Filipe II. sendo dcscortescs para com eles. c ágeis. a consolidação do poder personalizado. costuma-se denominar aqueles quinze anos o período de ensaio e de formação do Executivo. talvez. com isto. plenos poderes. Os espanhóis são amigos da ostentação. a função executiva passa a cobrar um interesse axial. desenvolvem-se as guerras de independência dos Estados latino-americanos. No Brasil. Por isso. o temperamento do espanhol à época da conquista e da colonização. apontado com muita ojeriza por Francesco Guicciardini: São orgulhosos por natureza c não gostam dc estrangeiros. tinham vigência imediata. faziam com que o vicerei tivesse. difícil de acreditar. os donatá­ rios. divididos em doze capitanias hereditárias e dotados de grande poder. do que qualquer outra nação cristã. sistema que obteve pouco sucesso ao retardar a exploração econômica e a implantação de uma administração realmente eficaz no Brasil. a preocupação de Portugal continuou vol­ tada para as índias Orientais. mas não o são realmente. bem como a dificuldade dos meios de comunicação. desde o descobrimento. rápidos e peritos no manejo das armas. que. fazem ponto de honra em preferir a morte a submeter-se à vergonha. expedia atos administrativos de­ nominados instrucciones. Durante a união pessoal imposta a Portugal e seus domínios pela Espanha (1580-1640). com pouca submissão à Coroa. basicamente. de fato. e logo se tratou de levar à prá­ tica exóticas experimentações. vestem belas roupas e montam vis­ tosos cavalos. sendo. São mais belicosos. foram desen­ cadeadas apaixonantes controvérsias doutrinárias.”.6 Formas de governo 167 transcendiam a função executiva e alcançavam o plano legislativo e o judicial: além dc participar da audiência da qual era presidente. 'Iodos os espanhóis desdenham o comércio. Num breve período de quinze anos (1810-1825). até que outras potências europeias começaram a co­ biçá-las. Em torno dela. como os decretos-leis contemporâneos. e profundas transformações. No plano judi­ ciário podia atuar de ofício ou mediante invocação da parte contra os ouvidores. Aparentam ser muito religiosos. por outro lado. os alcaidcs e os fiscais.. conceder indultos de penas impostas pelos tribunais. a grande distância que separava o novo continente da metró­ pole. que consideram degradante.

com o fito de consolidar sua posição pessoal perante os demais poderes políticos. O requisito de uma ditadura . desenvolvida por Clermont Tonnerre e haurida. a sociedade seria dirigida por sábios.168 Teoria Geral do Estado a) o monárquico. não fosse a emigração da Corte para o Brasil. empíricos e experimentais. autóctone. coetâneos. Isto somente seria conseguido mediante uma república ditatorial. Dentro des­ sa filosofia. cm função do expansionismo napoleônico. Com efeito. assim se referiu ao cargo dc Presidente da República: . que pôde manifestar-se na Constituição de 1824. em grande parte. gra­ ças à doutrina do Poder Moderador. 8°). dc certo modo. num discurso perante o Congresso Constituinte da Bolí­ via. tornando a monarquia rejuvenescida ideologicamente. assim é que Bolívar. terminaram breve e tragicamen­ te. do equilíbrio e da harmonia dos poderes (art. menos pelas virtudes ínsitas à ideologia do que pelas circunstâncias históricas. Aliás. seu filho. embora irreversivelmente condenadas pela roda da História. além das funções exe­ cutivas. restariam. de inspiração francesa e. no qual foi apresentado o Projeto de Constituição para aquele país. c)o vitalício. Com o Poder Moderador. das ciências físicas. ainda. o imperador ficava dotado. os fatos de ter sido Pe­ dro I o procurador da independência e Pedro II.exercia forte atração sobre os latino-americanos. adver­ te Afonso Arinos de Melo Franco que Pedro I teria sido o grande inspirador da in­ serção do Poder Moderador na Constituição Imperial. a) Executivo monárquico: nos primórdios da independência as ideias monár­ quicas ainda gozavam de grande prestígio. respectivamente. remanescendo o Brasil sob o velho regime algum tempo. b) o colegiado. derivado do sistema político norte-americano. da “chave de toda a organização política”. por Benjamin Constant Botelho de Magalhães. b) Executivo vitalício: inspirado na Ideologia de Augusto Comte (1798-1857) c de Simón Bolívar (1783-1830). vinculado às velhas tradições. d) o presidencialista. fato que trouxe para o Brasil um desenvolvimento inimaginável até então.a expressão é do próprio Comte . no Brasil. Comte rejeitava as abstrações sociais de ordem metafísica e propunha-se a aplicar à sociedade os mé­ todos positivos. ainda dominadas. de acordo com as verdades posi­ tivas da ciência. Repudiava com uma concepção romântica o velho liberalismo e pretendia substituí-lo pelo planejamento social. a fim de cuidar da conservação da independência. por costumes e tradições antiquados. isto é. Dava ênfase especial ao progresso técnico mediante a utilização social das capacidades humanas e preconizava a aplicação dos métodos científicos à organização e controle das relações sociais. um homem dotado de grande descortino político. como se percebe. oriundo do pensamento de Bolívar. por Cristophe e Iturbide. em 1825. As tentativas de instauração da monarquia no Haiti e no México.

ao rei Fernando VII. desde que este viesse para Santa Fé de Bo­ gotá para exercê-lo. . 9o. em 1814. deveria haver. até que. Aliás. Também a Constituição do Equador de 1812. para remediar a eventualidade dc o rei espanhol ocupar o cargo. Nele se estriba toda a nossa ordem. inicialmente. Esta suprema autoridade deve ser perpé­ tua. nas primei­ ras Constituições latino-americanas. no art. Algumas Constituições estabeleceram o colegiado sob forma velada. que é encomen­ dado. sendo. então. em sua ausência.dá vida ao Universo. três assistentes e dois secretários com voto informativo que nomeará o congresso” . de ditadura vitalícia. qualificada de curiosa mescla de princípios republicanos e monárquicos. aparentemente monárquica. por parte dele. Desde logo. para fruir dos benefícios dos institutos do liberalismo. na nossa Constituição. a de mais curta vigência. dizia um antigo. Suas fontes são as Constituições francesas de 1793 e 1795. um pe­ ríodo de transição. diz o art. Os novos ideais. sem que isso implique. caso contrário. ainda. Cortou-se-lhe a cabeça para que ninguém receie as suas intenções e ataram-sc-lhc as mãos para que não cause dano a n in ­ guém. censores e se­ nadores. Para Bolívar. tais instituições se sobrepusessem às vigentes. Para a Bolívia esse ponto é o presidente vitalício. um executivo assim concebido permitiria a transição do velho ordena­ mento colonial para um Estado liberal dc feição moderna. contudo. o projeto de Constituição bolivariano previa muitas magistraturas à romana. ironicamente. como o Sol que. ação. dc 1811 a 1814. ao qual re­ conhece como monarca. restringe-se a isto na adoção da monarquia. uma vez que nos sistemas sem hierarquias. escolhido um diretor supremo das provín­ cias unidas. no mesmo ano. se torna necessá­ rio um ponto fixo à volta do qual devem girar os magistrados e os cidadãos: os ho­ mens c as coisas. A Argentina adotou o Executivo colegiado. formado por três pessoas. mais que nos outros.6 Formas de governo 169 O Presidente da República acaba por ser. c) Executivo colegiado: o Executivo colegiado surge. A Constituição de Cundinamarca de 181 1. o executivo vitalício seria intermediário entre a monarquia c a república. considerada a “Arca da Aliança” dos povos latino-americanos e a “transição entre Europa e América”. reflete a mesma ambigüidade no Poder Executivo. pois em todo o restante de seus artigos fala dc um Estado independente. ao dedicar. Dai-me um ponto fixo e com ele moverei o mundo. e do México. como tribunos. Despreparados. enraizadas na consciência popu­ lar. tornando-se. A Constituição de Bolívar. firme em seu centro. “será exercido por um presidente. da Venezuela. cujo Exccutivo. desde logo. o Poder Executivo seria exer­ cido pelo presidente da representação nacional e por dois conselheiros. a ideia de Executivo colegiado se mostrou inefi­ . “amor e fidelidade constante” ao rei Fernando VII. em 1811. 5°. foi revogada logo em 1831. ao cabo deste período. tiveram curta duração. Diga-se o mesmo do Chile.

tendo a seu cargo a chefia de Estado (arts. fundamentando-se na ideologia de que esta forma de organização política impede o poder excessivo de um só homem. Assim. O inegável progresso econômico dos Estados Unidos. a Cons­ tituição de 1918 criou o Poder Executivo dualista. 82. que somente seria abolido de vez cm 1964. conta-se. Com a Grande Depressão de 1929. no México de 1823. e Gabriel Terra promoveu profundas reformas políticas no Uruguai. Foram dois períodos. A obra propugnava uma junta governamental dc nove membros. o Uruguai experimentou um notável surto de progresso. o excessivo aumento dos integrantes do colegiado. Batle y Ordónez publicou seus Apuntes sobre el colegiado. talvez porque tenha funcionado razoavelmente num país que havia deixado de ser colônia ao mesmo tempo que os países latinos. uma reforma constitucional trouxe de volta o colegiado. que conhecia de perto. que tornou o país conhecido como a “Suíça sul-americana” . de inclinação parlamentarista. que exigem decisões rápidas. 85. Em 1952. se impôs aos latino-americanos. no segun­ do. em péssima tradução e impressão ainda pior. dividido cm dois órgãos sepa­ rados e independentes: a Presidência da República e o Conselho Nacional de Ad­ ministração (art. dc 1919 a 1933 c dc 1952 a 1967. logo após sua primeira gestão na presidência (1903-1905). afinal. Cinco anos mais tarde. as duas tendências celebraram uma síntese que mesclava presidencialismo c colegiado. 71 e 79). feitas em Puebla de Los Angeles. incluída a oposição. tornando o sistema inaceitável. ensejando o aparecimento das Constituições de 1934 e de 1942. um colegiado de nove membros. Coincidência ou não. onde colheu subsídios para a implan­ tação do colegiado em seu país. d) O presidencialismo: o modelo presidencial dos Estados Unidos foi aquele que. Em 1913. seguras e inquestionáveis. segundo. eleitos pelo povo para um mandato de seis anos. o efeito retórico de sua Consti­ tuição apaixonaram os latinos a tal ponto que. aos quais caberia a administração (arts. destina­ da a substituir o executivo presidencial. os constituintes traziam nas mãos um exemplar da Constituição norte-americana. político de grande prestígio e admirador das insti­ tuições helvéticas. A ideia do colegiado foi introduzida no Uru­ guai por José Batle y Ordónez. o impressio­ nante porte político de seus primeiros presidentes. sua inadequação a tempos de agitação social. além de per­ mitir a participação política de todas as facções. durante os períodos de colegiado. irresistível nessa parte do mundo.170 Teoria Geral do Estado caz por dois motivos: primeiro. 97 e 105). visitou a Suíça. A atração por esse regime de governo foi. o fato é que. Com efeito. O presidente seria eleito por um período de quatro anos. com a ado­ ção. Bem mais significativa foi a experiência uruguaia do colegiado. do presidencialismo. 70). governou um Executivo dualista. os quais suscitaram viva polêmica entre colegialistas c anticolcgialistas. . No primeiro. desta feita. ao passo que o Conselho seria formado por nove ministros. com efeito. o colegiado sofreu um forte abalo.

apresentou causas mui­ to bem lançadas por William Ebenstein. restringe sua liberdade e o campo para expressar-se individualmente. mas exige. com seu despotismo esclarecido. A razão pela qual. com mordacidade.. Ao receber sua indepen­ dência.hoje como ontem .são ou democráticas ou totalitárias. legada pela metrópole europeia: Grã-Bretanha. desde logo. Alemanha e URSS . Tal fato é fácil de compreen­ der se observarmos a grande quantidade de países subdesenvolvidos que se tornaram independentes a partir do fim da Segunda Guerra Mundial. de forma condicionada. contudo. qual seja. a democracia: “Tudo para o povo. o caudilhismo. portanto. em verdade. fenômeno já notado por Ferreira Filho.. Após a Independência. por um breve período. as raízes psicológicas do autoritarismo la­ tino-americano. que. pois não foi por acaso que Kbenstein apontou. o que levou Duverger a afirmar que na América Latina “seguem-se homens e não ideias. O autoritarismo nega a liberdade e a responsabilidade da opção e ação políticas. somente age mediante provocação e. um alto grau de responsabilidade de que muito poucos são capazes de aceitar. então. a América Latina passou por um período crítico. Foi Frederico.EUA. o apego ao poder pessoal. contudo. que definiu. no curso da História. embora permita. França ou Bélgica. em razão disso. Isto. aguçadamente. O totalitarismo é o extremo oposto: livra os homens da carga da responsabilidade e. acar­ retado pelo desaparecimento da autoridade dos vice-reis. O latino-americano é. o Grande. Este é o efeito de outro fenômeno tipicamente latino-americano. embora sua sociabilidade ou comunicabilidade seja percebida de imediato. pouco voltado para a vida política. a nova nação se estrutura. mais uma semente para o futuro totalitarismo nacional-socialista. o caudilhismo. acentuando a rivalidade entre democracia e totalitarismo como o referencial político do século.por sistemas autoritários. Ao cabo de poucos anos. A principal razão dc que cm nosso século sc tenha prestado tão pouca atenção ao autoritarismo reside. moldado no militarismo prussiano e no nacionalismo exacerbado.6 Formas de governo 171 Infelizmente o presidencialismo à norte-americana logo se corromperia numa autocracia muito latina. um percentual de liberdade de expressão em questões não políticas. como veremos a seguir. houve um . provavelmente. tem predominado o autoritarismo é provavelmente psicológica: a demo­ cracia oferece aos homens o máximo dc liberdade. ao mesmo tempo. por uma constituição demo­ crática. c surgindo. em certa medida.”. nada pelo povo”. o individualismo típico dos latinoamericanos torna-se infenso à solidariedade. no fato de que as potências modernas . entre outras. desaparecendo esta democra­ cia artificial. a Ebenstein. Razão não falta. Grã-Bretanha. não deveria dissimular o fato de que a grande maioria das nações estão go­ vernadas . se produz um retorno à natureza. via de regra. um governo autoritário. criando. Kste princípio do impressionante prus­ siano bem poderia aplicar-se à América recém-emancipada.

de imediato. se não era expressamente previsto na Constituição. quando a decadência da aris­ tocracia marcaria o início da gestação do nazismo. .172 Teoria Geral do Estado vazio do poder. em parceria com uma aristocracia liberal c ilustrada. pôde desenvolver. tanto antes como después de su independencia. Ora. reitere-se. mediante os caudilhos castrenses dos primórdios da independência. a D. Em nosso país as elites políticas resolveram as criscs dc maneira pacífica. Pedro II situava Pasteur e Victor Hugo acima de todos os homens. No Brasil. el Brasil siempre evolucionó politicamente mediante formas que garantizaron su continuidad institucional. diferentemente dos demais Estados latino-americanos. A história dos primeiros tempos da América emancipada é. Grande parte da nossa evolução. que conviene recordar en todo momento. isto nos leva. supriu-se o vazio de poder deixado pela monarquia espanhola. encontrava apoio no costume. fenômeno que. fre­ qüentes guerras civis. homens de armas. feneceu paulatinamen­ te à institucionalização das ideias moderadas e ao declínio da instabilidade política. A etapa dos caudilhos não terminou de maneira brusca. contudo. tudo inspirava o aparecimento de ho­ mens fortes. ocorreu na América Latina. não ocorreram as vicissitudcs do caudilhismo. juntando-se a isto a inexistência dc uma aristocracia já sedimentada. e que ocorreria também na Alemanha. que costumava afirmar que à aristocracia ou governo dos melhores (aristoi: melhor + kratos: poder) sempre se sucederia um período de tirania. No bubo lapsus ni anarquias prolongadas y menos aún situaciones de división estatal frente a la comunidad internacional. Pedro II. amigo das artes e das letras. os caudilhos eram. logo preenchido por homens fortes durante todo o século X IX . pacífica. a estes. Corroborando a intranqüilidade destes primeiros tempos. ausência dc uma classe dirigente preparada para o mando. O poder pessoal coloca-sc acima das ideias e das insti­ tuições. os presidentes. eminentemente biográfica. é devida. um regime parlamentarista. intranqüilidade social. ao longo do século X IX . contudo. Aos caudilhos castrenses sucederam os caudilhos civis e. que. dc tal forma que Jorge Reinaldo Vanossi afirmou ser a institucionalidadc uma cons­ tante na História do Brasil: Una nota característica. a Aristóteles. Enquanto os caudilhos hispânicos ad­ miravam Napoleão em suas aventuras bélicas. e traduzia Shakespeare. N a­ ções por edificar. via de regra. no exercício da função executi­ va c da moderadora. governante hábil que. assim. es que. como acentuam Salvador Valencia Carmona e Jacqucs Lambert.

1966.atina: uma perspectiva histórica. Maurice. . Buenos Aires. Simón. Saraiva. Jorge. Universidad Nacional Autônoma dc México. Cooperadora de Derecho y Ciências Sociales. America Latina. Jacques.apresentam entre si. Curso de direito constitucional. ses. 1965. Edi­ f e r r e ir a f i­ . v a Jorge Rcinaldo. América I. Escritos políticos. Nacional. El constitucionalismo hrasileho en Ia primera mitad m ir a n d a deI siglo X /X . 1980. 12. duverger . Unam. Porto Alegre. n o s s i.1) Introdução Para revelarmos a natureza do presidencialismo é preciso esclarecer as expres­ sões forma de Estado. Globo.REGIMES DE GOVERNO 7 1) PRESIDENCIALISMO Bibliografia: a g e s t a . A forma de Estado se acha ligada ao modo pelo qual o Estado se mostra estruturado em sua totalidade. 1977. Manoel Gonçalves. 1979. zer melo franco marquand c o Donald. William. 1964. ed. México. particularmente quanto aos 173 . Forma de Estado refere-se às relações que os elementos do Estado . Lisboa.povo. v a l e n c ia c a r m o n a Salvador. território. governo e normas jurídicas . .. . Paidós. El Poder Ejecu- tivo latinoamericano. 1979. . São Paulo. lambert. maluf. São Paulo. ­ Teoria geral do Estado. 1966. Buenos Aires. Difel. 1983. Presidencialismo y parlamentarismo en cl Brasil. El totalitarismo. Mab o l ív a r L uís drid. São Paulo. ed. Lisboa. Sahid. 1957. São Paulo. Curso de derecbo constitucional comparado. forma de governo e regime de governo. 1. Sugestões Literárias. torial Estampa. Universidad de Madrid. Os regimes políticos. Sánchez. Imprensa Nacional. lho e b e n s t e in . Constituições de diversos paí­ . 1979. Afonso Ari nos de. 11. México. 1980..

por atos do presidente. compete a um só órgão (mono . art. às novas circunstâncias. pois a forma monárquica de governo é sempre vitalícia. portanto.174 Teoria Geral do Estado seus elementos constitutivos. O Poder Executivo no presidencialismo é monocrático. A origem do presidencialismo se encontra na própria formação dos Estados Unidos. o presidente da República. pura e simplesmente. e Constituição do Brasil. Como visto. Isso não ocorre no parlamentarismo.presidencialismo . em tese. Os mi­ nistros de Estado são meros auxiliares no âmbito puramente administrativo. Os norte-americanos perceberam que seria difícil transplantar. art. a monarquia foi. art. Já a expressão regime de governo diz respeito ao modo pelo qual os Poderes Executivo-Legislativo se relacio­ nam. mas o de 1787. a monarquia inglesa para o Novo Mundo. A prática. Independentes as colônias. com separação integral de poderes. A vitaliciedade e a hereditariedade peculiares à monarquia foram substituídas pela temporariedade dos mandatos e pela eletividade para os cargos públicos. Incumbi­ do das funções de administração e de representação. . A própria denominação do re­ gime . com as instituições da Inglaterra. O presidente da República evocaria o monarca inglês. deu bons frutos. quem exerce o poder. sua pátria-mãe. é ab­ surdo. O constitucionalista James Bryce faz sugestiva comparação entre o presiden­ cialismo norte-americano e a república romana. o que não ocorre no regime parlamentarista. então. com vantagens. isto é. mas seu poder seria limitado no tempo e pela lei. cujo possível arbítrio era severamente reduzido pela temporariedade e pela colegialida­ de do cargo. formadas a federação. II. Cria­ ram. preservada na figura dos cônsules. pois a temporariedade do mandato do presidente.1. por assim dizer. os norte-americanos não romperam. 76 e 84.um ). refere-se ao modo pelo qual o Estado se estrutura para o exercício do poder político. o presidente é auxiliado por ministros de Estado (Constituição do Brasil. bem diferente: o regime parlamentar ainda não se achava definitivamente estabelecido. apanágio da forma republicana de governo desde Maquiavel. vale dizer. e nem por isso deixaram de adaptá-la. encarnado apenas pelo presidente. no caso o presidente da República (Constituição dos EUA. 2o. entretan­ to. Não respondem. impediu o arbítrio sempre laten­ te na monarquia. governa. VII e VIII). de certa forma. arts. as figuras de che­ fe de Estado e de chefe de governo confundem-se no presidencialismo (Constitui­ ção do Brasil. o que. Como adverte Duverger. II). 87 e parágrafo único). a uma simples monarquia limitada por um parlamento. É bom lem­ brar que o Poder Executivo é uno.já revela a preeminência do presidente neste regime. Por isso e que se diz que o presidencialismo é o regime de governo em que a chefia de Estado (representação do Estado) c a chefia de governo (administração) são encarnadas num só órgão. o sistema inglês assimilado pela Convenção de Fila­ délfia não é o de hoje. abruptamente. 84. Seção 1. e as instituições britânicas muito se as­ semelhavam. Quando os reis de Roma foram expulsos. uma espécie de monarquia temporária. no qual as figuras de chefe de Estado e de chefe de governo são distintas. O gover­ no é a dinâmica do poder. Quanto à expressão forma de governo.

foi substituído pelo poderio espanhol e seus vice-reis. 12.7 Regimes de governo 175 regime no qual os ministros integram o próprio Poder Executivo. plasmando. Ao cacique sucederiam conquistadores aventu­ reiros. Neste livro. art. Com efeito. . embora a prática demonstrasse a inevitabilidade da predominância. mas também equilíbrio.1). Antes dc referido aditamento. via de regra.. até Roosevelt. ora de outro Poder. o presidente poderia ser indefinida­ mente reelegível. 5) como no Brasil (Constitui­ ção. Seção I.1). A separação e a independência dos Poderes (Constituição do Brasil. O vasto império dos incas. como Nova York. 2o. Unidades fe­ deradas mais populosas. Seção 1. cm cada Estado-Membro. aquilo que repelia o presidencialismo na Euro­ pa seria o motivo de sua imediata adoção na América Latina: o poder personaliza­ do nos caudilhos. A tripartição de Poderes é apanágio do regime presidencialista. 2o) excluem a possibilidade de dissolução do Legislativo pelo Executivo e vice-versa. embora desde George Washington . Tal princípio. Tanto nos EUA (Constituição. ora de um. votar no candidato da preferência de seus eleitores. Illinois e Ohio. Lembra oportunamente Duvcrgcr que a relativa frieza demonstrada pelos Es­ tados europeus quanto ao regime presidencialista é decorrente sem dúvida. facilmente deformado pelo caudilhismo. Ora.. art.fosse criada uma tradição respeitada por todos os presidentes. um colégio eleitoral que vai. têm direito a um maior número de votos do que entidades menos populosas. embora a delegação de atribuições de um Poder a outro seja uma realidade. contudo. elaborado por Heródoto. Por isso se diz que na América Latina seguem-se homens e não ideias. e tal mandato não poderá ser renovado por mais de uma vez (Emenda à Constituição dos EUA n. à ideo­ logia liberal da Revolução Francesa. a inclinação do latino-americano para regimes de caráter autocráti­ co. bem como os líderes da emancipação. em man­ dato imperativo. do monarca. Daí o interesse dos candida­ tos em captar votos nos Estados-chave. 14. 22. a tradição liga-se à psicologia para tender ao poder pessoal. art. sedimentado ao longo de séculos sob o poder férreo de monarcas absolutos. de Hamilton. art. Madison e Jay. a). vice-reis e corregedores. realizada justamente para derrubar o poder pessoal. I). sendo que a Lei Magna brasileira estabelece que o presiden­ te deverá ser brasileiro nato (art. no Brasil. § 3o. Cícero. VI. é exigida a idade mínima de 35 anos para o exercício das funções presidenciais. § 3o. Por outro lado. no caso. Daí o fascínio do presidencialismo. O presidente norte-americano é eleito para um mandato de qua­ tro anos de duração (Constituição dos EUA. Nos EUA a eleição presidencial é feita em dois turnos: no primeiro os eleitores escolhem. na América Latina. a escolha dos ministros não depende do referendo do Legislativo. 2o. em definitivo. é contradiço na obra capital do presidencialismo e do fede­ ralismo norte-americanos: O federalista. como ocorre nos EUA.que se recusou a disputar um terceiro mandato e a aceitar o próprio título de rei que alguns admiradores lhe que­ riam outorgar . Locke e definitivamente sistematiza­ do por Montesquieu. Aristóteles. a tripartição de Poderes não é apenas divisão.

da Constituição. cm sessão pública e mediante votação nominal.1985. Entretanto. 102).09. Do século XVIII para cá.1961 a 23. quando foi revogada pela Emenda 11. 77. De 1822 até hoje o Poder Executivo no Brasil foi exercido.. o presidente. ser brasileiro nato (CF art.1963. bem como registrado em partido político (CF. de 15. o bem-estar social. O candidato vencedor que não obtiver maio­ ria absoluta de votos. o mundo passou por grandes trans­ formações. Depois da insurreição de 1964. Difunde-se e consagra-se o entendimento de que o Estado não deve apenas assegurar a liberdade. 1a VI. corporifica o Estado-providência: [. na concepção de Ferreira Filho. direito majoritário. 12. a). pressionando os governos a deixarem a postura de inércia do État gendarme e a promoverem. Deve. prccatados dos excessos do absolutismo na França. 14. as correntes socialis­ ta e antiburguesa. A Constituição de 1824 conferia a chefia do Executivo ao imperador (art. não educando c não sen­ do ético. com suas . de forma monocrática. que vi­ gorou de 02. §§ 2° e 3°. concorrendo com o segundo candidato mais vota­ do. conforme determina o art. Realmente. 25. Dc janeiro de 1963 em diante o poder monocrático do presidente da República con­ solidou-se ainda mais. com estas. o presidente sempre foi eleito pelo sufrá­ gio popular. 1. § 3°. deverá subme­ ter-se a uma segunda votação. O art. 1). dando-se a eleição. a partir daí. deixando a cada um. 4.01. Tradicionalmente.05. para os ideólogos do liberalis­ mo clássico. praticamente sem interrupção. entretanto. com o advento da Emenda Cons­ titucional n.] muda a concepção da missão do Estado. num só turno. em decorrência da difusão das ideias so­ cialistas e do próprio catolicismo social. conhecido como “Nova República”.2) Presidencialism o histórico e direito comparado Referindo-se ao Estado liberal. não computados os em branco e os nulos. § 3o. 74 da Constituição Federal de 1969 dispu­ nha que o presidente seria eleito pelo sufrágio de um colégio eleitoral. com breve interregno parlamentarista (Emenda 11. ativamente. a eleição indireta foi a preferida. por maioria simples. ensejada pelos anseios populares e pela atuação in­ cisiva de personalidades de escol do pensamento liberal. De 1891 a 1961 é evidente que nosso Poder Executivo foi monista. o Estado deveria ter como única missão preservar a inviolabilidade da pessoa c a iniciativa privada no setor econômico. surgiram novas necessidades sociais e. art. mediante uma in­ tervenção mais incisiva na esfera individual. costumava o grande pensador católico Bossuet afirmar que “o Estado que pretendemos fraco demais para não nos oprimir tornou-se fraco demais para nos defender”. bem como a propriedade individual. 6). o poder pessoal tem uma longa tradição histórica. que. que dariam vida ao perío­ do que vivemos. o presidente passaria a ser eleito mediante voto direto e secreto. Surge.. então. a democracia providencialista.176 Teoria Geral do Estado Finalizando: 110 Brasil. estar 110 gozo dos direitos políticos.

tam­ bém a América Latina sofreu a influência ideológica e institucional do Estado in­ tervencionista. pois se lhe outorga um amplíssimo poder para dirigir o gover­ no. vale dizer. Os poderes atribuídos ao presidente vão muito além da função mera­ mente representativa. desde logo. aqui. Os novos tempos. para ser legítima. final). O processo desenvolvimentista. que as novas medidas que tomariam despertariam a aver­ são da Suprema Corte. Ora. especialmente por termos. uma vez que aquela mal se adapta a reger a política econômica. atualmente. Trata-se da supe­ ração da nomocracia (g. uma vida huma­ na e digna. segundo alguns. porque não estavam previstas. Estados em desenvolvimento. para reproduzir o velho conceito tomista acerca da essência do bem co­ mum. a predominância da finalidade da lei. pro­ venientes em grande parte da aristocracia sulista. manteve-se como tendência dominante nas Constituições americanas. como queria o pensamento de Bolívar. de caráter fortemente intervencionista. mas também o bem-estar de todos. passando a ser denominadas. sob o pesado fardo das questões econômicas. timbrou. tudo isto é aparência: o presidente dos Estados latino-americanos se mostra. Este percebeu. O fenômeno descrito surge. uma Constituição não deve visar apenas a liberdade. embora num atavismo tipicamente rousscauniano as Constituições ame­ ricanas timbrem em colocar o Legislativo antes dos demais poderes. A Suprema Corte nor­ te-americana. contudo. chegaram. Magistrados conservadores. ou seja. com efeito. de forma cristalina. a anular 377 leis! Mesmo assim.7 Regimes de governo 177 próprias forças. em não reconhecer validade às leis do Congresso. fundamental no Estado moderno. adotado desde logo nos primórdios do constitucionalismo latino-americano. renova-se a concepção medie­ val de que o estado tem por missão garantir para todos o bem-estar. 1.3) Presidencialism o versus parlamentarismo na Am érica Latina O regime presidencialista. ironicamente. no período de cinco anos. pela telocracia (g. Para intervir de maneira determinada o Estado carece de dois pressupostos: ra­ pidez nas decisões e conhecimento técnico das questões. é intuitivo que a fun­ ção executiva se torna a mais qualificada para esta nova missão. Os juizes da Suprema Corte seriam a personificação da nomocracia. as decisões eram tomadas pela maioria pre­ cária de cinco contra quatro votos. advertia Rooscvclt que. traz consigo a inevitável aporia . por aqueles “que nunca se aposentam e raramente morrem”. um sol ao redor do qual giram as forças sociais. da norma em si. five to four e profligadas num panfleto intitulado Government by Judieiary. expressamente. parcialmente em descompasso com os novos tempos. Por isso. Assim. já que somente nesta concepção o homem estará plenamente realizado. confrontada pela telocracia do Executivo. nomos: norma). penoso e inquietante. Ao contrário. de Budin. téleios. a conquista do bem-estar. com o advento da política do New Deal do Presidente Rooscvclt. não se circunscreveram aos Estados Unidos. na Consti­ tuição. formada.

agrários e previdenciários. No Brasil tivemos experiências parlamentaristas entre 1838 e 1889 e de 1961 a 1963. sendo que. inaugurou. de 1838-1889. O Executivo latino-americano distingue-se por seu acentuado caráter unipessoal. os latino-americanos jamais demonstra­ ram uma inclinação maior. 1859 e de 1867 do Haiti. se propugna o retorno ao parlamentarismo como regime de governo em nosso país. os quais. foi. a in­ serção dc uma ordem econômica e social no ordenamento jurídico. Na verdade. a Constituição me­ xicana de 31. havia condições favoráveis ao parlamentarismo. em várias Constituições encontraremos diversas nuanças parlamentaris­ tas. Sob o impulso das correntes socialistas que floresceram na Europa do século X IX .178 Teoria Geral do Estado “democracia liberal. g. Não obstante isso. foram substituídos por caudilhos militares e. firma-se a tendência de conside­ rar o presidente da República o principal órgão propulsor do desenvolvimento na­ cional.. autoritários. de 1934. o parlamentarismo deixou. os chamados mecanismos anticaudilhistas. desenvolvimento nacional e justiça social”. Até o momento. Relativamente ao parlamentarismo. como vimos. como vimos. na América Latina. uma herança significativa para o direito constitucional. que intro­ duziu o voto de censura que subsiste em textos posteriores. as Constituições latino-americanas. por isso. no Novo Mundo. edu­ cacionais. conferem atribuições importantes ao presidente para intervir nos problemas econômicos. então. o resultado de uma longa evolução consuetudinária. Aqui. tal característica. assim. de 1931/37. um valioso ensaio de José Miranda considera o enfraqueci­ mento e a constrição do Executivo como uma das tendências mais recentes do constitucionalismo latino-americano. v. com a in­ dependência. em maior ou menor grau. em seus arts.1874 e 1891. o parlamentarismo parece muito complexo para nações que ainda não alcançaram um amadurecimento político indispensável.1917. e. atualmente. Enquanto o presidencialismo enseja uma centralização considerável do poder e proporciona instrumentos de controle ao governante. e a do Uruguai. a do Peru. 1845. Em tal sentido. marcando o ad­ vento do Estado do bem-estar social neste continente. o princípio da irrelegibilidade constitui a conquista mais signifi­ cativa do constitucionalismo. procede de uma arraigada tradição: nas épo­ cas indígena e colonial tivemos executivos fortes. a da Bolívia. sequer o mencionava. cláusula antirreeleicionista. 123 e segs. depois. reação contra o excessivo poder presidencial: redução da duração do mandato pre­ sidencial. estavam obriga­ dos a se demitir. Outras Constituições que adotaram institutos do parlamentarismo: as de 1806. Diga-se o mesmo da Constituição equatoriana de 1878. de 1933. as da Venezuela de 1864. embora velado: . na verda­ de. pelos caudilhos civis. de 1825/30. Em contrapartida. pois a Constituição não previa o regime parlamentarista..01. enunciação expressa das atribuições presidenciais. O primeiro período parlamentarista brasileiro. que estabeleciam que os ministros poderiam ser censurados pela Câmara dos Deputados e. incorporação ao presidencialismo de alguns institutos parlamentaristas etc. a de Honduras.

Nos Estados latino-americanos. elementos mais radicais ou exaltados. daí a im­ portância de se mencionar o fenômeno. Constituem as Forças Armadas o fator real de poder de maior peso na Amé­ rica Latina. c quando dizemos “Poder Executivo” estamos nos referindo.7 Regimes de governo 179 A geração de homens públicos que criou a constituição do império era. Desacreditado. indiretamente. com o conseqüente surgimento de governos civis. cm maior ou menor escala. solução. então. e por seus representantes mais significativos. os militares transformaram-se em ver­ dadeiros árbitros ou tutores do poder político velada ou ostensivamente. São estas forças. bem como pela introdução da tec­ nologia em seus quadros. Dizia-se. que não seria de se preocupar com os problemas políticos. Dessa forma. 99 se resolvem por si só e uma não tem. já se per­ cebe. pelo desenvolvimento econômico c pela estabilização po­ lítica. em última análise. situamo-nos na época da emancipação. que preconizavam uma democracia avançada e sonhavam com a república. então. se confunde com o órgão.4) Presidencialismo. o regime parlamentarista foi definitivamente extinto em 1925. em 1973. o Poder Executivo latino-americano. real­ mente. no Chile foi agitada a política parlamentarista: os partidos políticos aumentaram em número. . formando coalizões fugazes e desmoralizadoras para o regime: entre 1891 e 1920. contudo. sc as condições políticas do jogo parlamcntário não permi­ tem a continuidade dc uma política ministerial. submetidas à vontade do caudilho. as Forças Armadas e a Igreja. surge a época do profissionalismo. fatores reais do poder para empregarmos uma expressão típica de Lassalle . ao próprio presidente da Rcpública. sem dúvida. embora rara­ mente o proclamassem. incipien­ tes. Havia. Numa primeira fase do militarismo latino-americano. acumulando-se e ensejando as criscs. As Forças Armadas eram. pois. 1. Tais elementos. denominada pretoriana. por iniciativa do Presidente Alessandri. que. partidária do regime monárquico parlamentário e moderado. Particularmente. ironicamente. Despreparadas e desprovidas de espírito profissional.que pressionam. eram considerados um tanto extra­ vagantes e pouca influencia exerciam nos acontecimentos. improvisadas. c claro que os problemas sociais te­ nham a sua solução retardada. motivada especialmentc pela decadência do militarismo caudilhista. houve nada menos do que oitenta mudanças mi­ nisteriais. Por volta dc 1880. estavam sempre prontas para motins e quarteladas. militarism o e Igreja na Am érica Latina Não podemos deixar dc registrar duas forças sociais. dc cem questões que afligem o Estado. tendo a Constituição por este criada per­ durado até a queda de Allende. na maio­ ria.

89. X III. os quais modernizaram o aparato bélico e a administração militar. As Constituições. as Forças Armadas adquirem esprit de corps. na América Latina. entretanto. agora. XV. definitivamente. determinando que aquele será seu co­ mandante-em-chefe. art. §§ 14 a 17. o art. desfru­ ta. §§ 15 a 17. o art. ensejando normas que orientam e limi­ tam a atuação do Executivo. de relativo prestígio junto ao Poder Executivo. mencionam-se as que declaram religião oficial a católica. c o art. da equatoriana. o art. 84. Em 1929. estabelecem uma teia indissolúvel de articula­ ções entre o presidente e as Forças Armadas. o sistema capitalista entra em crise. da dominicana. Maurice. §§ 8o. a profissão de fé católica para o exercício da função de senador. criam medidas para refrear os arroubos do militarismo. além de nomear seus principais oficiais. Los hititas. as que obrigam o Estado a celebrar concordatas. preceito este seguido pelas Constituições da Argentina (art. 180.180 Teoria Geral do Estado Com a profissionalização. no art. 190 c os Capítulos III e IV da venezuelana. 2° e 94. 9° e 14. os europeus neste mister. e dispondo delas para a segurança interna e externa do país. §§ 15 a 17. Em outras Constitui­ ções. Belo Horizonte. O segredo dos hititas. Uteha. 184. A partir de então desejam gover­ nar. . Quanto à Igreja. da panamenha. Os regimes . En­ tre tais normas. da Constituição boliviana. as que concedem franquias tributárias à Igreja. haja vista a Constituição do Império exigir. por sua vez. inicialmente. Itatiaia. 53 da Constituição colombiana e 6° da Cons­ tituição do Paraguai. o art. apoderando-se do poder e não mais se conformando em simples­ mente restaurar o regime para entregá-lo aos civis. 95. 2° e 86. e os militares surgem. Seus instrutores foram. duverger de - Louis. considerável poder de controle sobre as Forças Armadas. 55. embora não referentes a este de maneira expressa. 189 e 193 da nicaraguense. da paraguaia. militares e técnicos alemães c franceses. pois estão convencidos de que sua participação política é. da Constituição brasileira. Outras Constituições. a defesa do Estado contra a agressão externa. o art. sobrevêm a Grande Depressão. prestígio este que já foi imenso. atuarão as forças policiais necessárias”. logo depois os norte-americanos substituiriam. 86. 2) PARLAMENTARISMO Bibliografia: LAPORTE. 1957. § I o. 12: “ Fica proscrito o Exér­ cito como instituição permanente. ceram . sendo instruídas para o desempenho de sua principal missão. os arts. a Igreja ainda joga importante papel. Para a vigilância e conservação da ordem públi­ ca. haja vista os arts. o art. III. é o caso da Constituição da Costa Rica. 172). como um fator de poder que rapi­ damente se politiza. da argentina. W. 1957. então. § 11. haja vista o art. exercendo. México. embora não incisivamente como as Forças Armadas. da mexicana. sem dúvida. IV a VII. 164. necessária. da Constituição argentina. 76) e do Paraguai (art. então. C.

há parlamento no Brasil. 1982. Mário Curtis Giordani apon­ ta alguns trechos dos Livros Santos que mencionam os hititas (Gênesis 23. O que é parlamentarismo? São Paulo. l in d o s o . São Paulo. Vozes. 1968. a nosso ver. nos Estados Uni­ dos e na Suíça. a sua consagração definitiva. incidentalmente mencionado na Bíblia. O protótipo do regime parlamentarista é o parlamentarismo britânico. Curso de teoria do Estado. São Paulo. José. Kenneth. 9 e 49. necessariamente. ed. salvetti n e t t o . Necessário notar. e importante notar. 34-35) e Salomão (3 Reis 11. Curso de direito constitucional 11. Vejamos. por todas as formas. Penguin Books. Betsabé. ao passo que a chefia de Estado (representação do Estado pe­ rante outros Estados) é confiada ao presidente da República ou. Saraiva. Entretanto. os hititas. pois há regimes. 25. História da antiguidade oriental Petrópolis.1) desposara mulheres hititas. como faz Maurice Duverger. os hititas nada mais eram do que um povo obscuro. ed. na Inglaterra. 3-20. United Kingdom. um regime parlamentarista. Pedro. f e r r e ir a f il h o . 8). Embora. foi ardentemente desejada pelo rei David.. r o d r ig u e s alves f i­ F. Até pouco tempo. 5. No Êxodo (3. que tinham. Pouco mais do que isso era ditado a respeito dos habitantes do “país de Hatti”. Manoel Gon­ g io r d a n i. eliminar seu marido. mas não há parlamentarismo. çalves. 1966. como o presidencialista. 1963. mes- . Esaú (Gênesis 26. as instituições parlamentaristas encontrem. Parlamentarismo é o regime de governo em que a chefia de governo (adminis­ tração) é confiada ao próprio parlamento . que buscou. Saraiva. 1986. Fixados naquela região desde o segundo milênio antes de Cristo.7 Regimes de governo 181 políticos. que um regime parlamentar não é. Assim. em que há um parlamento (Congresso). Habitaram a Ásia Menor.daí a expressão parlamentarismo sen­ do exercida por um primeiro-ministro que comanda um gabinete formado por ministros auxiliares. as origens históricas das práticas parlamentaristas são. 29-32) sobre o episódio da compra de um terreno sepulcral por Abraão. uma vez que a chefia de governo e atribuída ao presi­ dente da República. como os frígios e os celtas. 1961. Saraiva. como visto. os hititas são mencionados como um povo felizardo que ha­ bitava uma terra na qual brotavam o leite e o mel. Estado. The English parliament.n z i e . Difusão Européia do Livro. lho m a c k f . muito mais antigas do que sc pensa. e por exemplo. Elas poderiam ser identificadas como um povo da Antiguidade oriental. ao rei. Mário Curtis. constituinte e Constituição. Exemplificando. se a forma do go­ verno for a monárquica. São Paulo. mulher do hitita Urias. a partir do século passado várias expedições arqueológicas começaram a comprovar que os hititas desempenharam papel dos mais importantes na histó­ ria política da Antiguidade oriental. origem indo-europeia. . mas não há parlamentarismo.. que apresenta uma longa evolução histórica. 1982. São Paulo. mas eram de origem indo-europeia.

A palavra comer. por incluir línguas da índia. Mesmo sua atitude para com os povos vencidos denota um elogiável humanitarismo c um sábio tato diplomático: ao invés de massacres odiosos. até a consolidação do despotismo monárquico no século XVI. que comprovou ser o hitita também um idioma eu­ ropeu. depois. indo-europeia. como visto. selar a união com seus vizinhos. procediam da Europa. afirmam inúmeros pesquisadores. Desde os estudos dc Franz Bopp . no antigo alto germânico ezzan. ademais. que provou existir um grupo dc idiomas que.linguista alemão (1791-1867). da Ásia Central e Ocidental. milhares de anos mais tarde. A princípio eletiva. ao país. o monarca hitita não era dotado de poder abso­ luto. ressurgiriam com as modifica­ ções peculiares a cada época. que daria origem. reuniam-se assembleias para escolha do sucessor. mediante matrimô­ nios reais. provavelmente. indo-europeus. que no inglês é eat. vetando a criação de novos impostos. também as instituições parla­ . em todos os Estados orientais. de resto. as Cortes podiam. já no século IX. Ora. evitando. sendo rigidamente controlado pela assembleia. que implicava o direito de o rei escolher seu sucessor junto a qualquer membro da no­ breza. estas verdadeiramente des­ póticas. as Cor­ tes de Aragão escolhiam para chefe Inigo Arista. que integra­ va os domínios hispânicos. Mesmo que deixemos de lado o fator lingüístico. veremos que também as ins­ tituições hititas apresentam forte conotação ocidental. como ocorria em Astúrias e Leão. no latim edo.. muitos aspectos obscuros do idioma hitita foram esclarecidos. a partir do século X I. mesmo. a realeza seguiu. o clamor de um hitita perdido no deserto. a ponto de se afirmar que um alemão contemporâneo compreenderia. formando o então denominado Condado Portucalense. Ademais. deliberar so­ bre matéria fiscal. o sistema de cooptação. Na Espanha. bem como da maior par­ te da Europa. após a morte do rei. perfeitamente. Em terras hispânicas. apresenta. os hititas buscavam. O caráter dc indo-europeu atribuído aos hititas parece ter mais conotação lin­ güística do que racial. semelhança com o hitita ezzatteni. conforme adverte M ário Curtis Giordani). Os hititas. como aqueles que levaram a efeito os terríveis assírios. poderia ser qualificado dc indo-europeu .até as conclusões levadas a efeito por Friedrich Hrozny. embora a escolha devesse ser referendada pela assembleia denominada “pankus” ou “p a n k u s h Assim. evidentemente. As instituições políticas hititas nada têm em comum com as dos povos semi­ tas. tal concepção política é inteiramente estranha às outras monarquias orientais. O regime político era o monárquico. de origem asiânica (esta palavra designa os povos da Ásia Ocidental que não são semitas nem. Em Portugal. implorando por água: alemão/vasser = hitita!vâder. Nem por isso alguns autores deixam de ver as origens do parlamentarismo moderno na Espanha e Portugal medievais.182 Teoria Geral do Estado ciaram-se com populações autóctones. e deste continente trouxe­ ram instituições que. despertar o ódio dos vencidos em virtude de atos atrabiliários. com o estabelecimento do Foral de Sobrarbe. como.

Daí a sugestiva expres­ são de Bertrand Russell: “O Primeiro-Ministro tem mais poder do que glória. como resultado disso. ocorreu o inverso. O rei. passando este órgão a governar. o surgimento da figura do primeiro-ministro. a França necessitava de um exército permanente. ao monar­ ca resta apenas a função representativa ou chefia de Estado. den­ tre seus membros mais ativos. por outro lado.7 Regimes de governo 183 mentares desfrutaram de grande prestígio. e o rei mais glória do que poder”. longe do continente. desinteressou-se dc participar das reuniões do gabinete. passando dc monarquia limitada para mo­ narquia parlamentar. recebe des­ te moção de confiança. A situação geográfica da Inglater­ ra e da França. Retirada esta. Na França. O surgimento do gabinete antecederia. de tal sorte que ele passou a formar um conselho (gabinete) junto aos membros mais eminen­ tes do partido majoritário. que. e por isso o rei via-se obrigado a convocar o parlamento sempre que precisava de dinheiro. Surge. no dealbar do século XVIII. pois do próprio parlamento dependeria a administração das Forças Armadas e a cobrança de impostos. entre­ . Ora. Com efeito. o fator de sua fraqueza. Sendo o gabinete formado por membros do próprio parlamento. Este curioso fenômeno prosseguiu com Jorge II. limitada. alemão de origem. pressionada por vizi­ nhos continentais. continuan­ do o gabinete a assumir a responsabilidade pela atividade governamental. não o falava. Pode. a monarquia feudal cederia lugar à monarquia absoluta. por isso. as instituições políticas me­ dievais européias evoluíram de maneira diversa no continente e na Inglaterra. opera-se a queda do gabinete. o poder do rei inglês foi. em definitivo. não haveria outra alternativa para o rei a não ser buscar apoio do grupo majoritário para criar tributos e controlar o Exército. o rei in­ glês tornou-se fraco e o da França. o rei não poderia mais governar sem o apoio parlamentar. que dependia de um imposto também permanente. com o qual os Estados Gerais foram forçados a concordar. com Jorge I. com a promulgação da Declaração de Direitos (Bill of Rights). se ao gabinete compete a função governamental. muito forte. entretanto desejando conhecer as deliberações do gabinete. mas Jaime II foi deposto e. A Inglaterra. Entretanto. se entendia o inglês. com a monarquia ab­ soluta enfraquecendo paulatinamente. por exemplo. acelerada por circunstâncias histó­ ricas. além disso. sobrepondo-se ao parlamento. paradoxalmente. en­ quanto na Inglaterra. No século XVI a monarquia inglesa tentou restaurar seu poder. Com o Ato do Estabelecimento. a monarquia tornou-se. criou-se um impasse: o novo rei não falava o inglês c. cobrando o parlamento autono­ mia sempre maior. daí a periodicidade do parlamento britânico. já se nota que. pois o povo e a burguesia uniram-se aos barões para minar as prerrogativas reais. imediatamente. a fi­ gura do primeiro-ministro. Como assinala Maurice Duvcrger. contribuía para tal evolução. e ligado à Dinastia de Hannover. havendo duas facções bem deter­ minadas no parlamento. passou a escolher. então. A partir do Bill of Rights. ao contrário. ao passo que o povo francês ajudava seu monarca a superar a tutela feudal. não se viu às voltas com tais necessidades. um que atuasse como intérprete. de tal forma que.

pode o speaker (presidente) trancar a discussão e aprovar a emenda que con­ siderar a melhor. o gabinete dissolver o parlamento e convocar o povo para eleições gerais. Em tese. No Brasil. havendo rejeição. com este. durante o Segundo Império. expressamente. por influência do sistema político inglês. A primeira. Nota-se. em­ bora seja o rei que designa os membros do gabinete. líder do gabi­ nete. conclui-se que o parla­ mentarismo inglês apresenta quatro características marcantes: a) responsabilidade política do gabinete. pelo qual. sendo o pri­ meiro-ministro líder da maioria. formam o gabinete são. o regi­ me parlamentarista. o gabinete e o parla­ mento. Já naquela épo­ ca. a segunda. c) primeiro-ministro. como observa Pe­ dro Salvetti Netto. a verdade ê que. dois anos de duração. todos. em face da ingerência deste na Adminis­ . Im­ portante notar que os ministros que assessoram o primeiro-ministro e que. pois esta não tem outra missão a não ser rejeitar os projetos votados pelos Comuns que não tenham caráter finan­ ceiro. representada pelo sistema da guilho­ tina. fatalmente será ele quem escolherá seus ministros. Durante meio século de Segundo Império. de direito. Ora. o fato é que. tor­ nando impossível o planejamento de um programa administrativo. que ao povo se atribui a decisão definitiva e irrecorrível. e 22 simplesmente retiraram-se do poder por desentendi­ mento com o imperador ou por mágoa. Importantíssimo ressaltar a severidade na exigência da tramitação mais rápida dos projetos de lei. atribui condecorações. confere o direito de participação da Câmara dos Lordes (pariato). São ór­ gãos essenciais ao parlamentarismo inglês. Com efeito. tivemos duas experiências parlamentaristas. de 1824. no mundo moderno rara é a lei importante que não tem caráter finan­ ceiro e. solidariamente responsáveis pelas deliberações tomadas. pois os gabinetes não ultrapassavam. se os debates ameaçam ultrapassar o prazo fixado para as discus­ sões. se ocorrer dissídio político entre os dois órgãos. constatavam-se práticas parlamentaristas no País. Na prática. b) gabinete formado com os membros do partido majoritário no parlamento. A Câmara dos Co­ muns possui maior ascendência que a dos Lordes. O parlamento é formado por duas câmaras: a Câmara dos Comuns (eleita por su­ frágio universal) e a Câmara dos Lordes (nomeada pelo rei). militares e eclesiásticos. chefe do partido majoritário. a Câmara dos Comuns pode recolocar o pro­ jeto vetado em nova votação. a Coroa apresenta inúmeras prerrogativas: nomeia funcionários civis. aos quais se junta o Poder Judiciário. Eis por­ que a opinião pública constitui o fundamento do regime parlamentarista inglês. Do exposto. portanto. se a primeira Constituição brasileira. caíram cinco ministérios devido a moções de descon­ fiança da Câmara dos Deputados. não previa. o incipiente parlamentarismo brasileiro caracterizava-se pela instabilidade mi­ nisterial. como faz ver Pedro Salvetti Netto. treze por hostilidade da Câmara ou por falta de apoio parlamentar. entre 1961 e 1963. de fato. mas sem­ pre referendando as decisões previamente tomadas pelo gabinete. em média. d) gabinete exercente das atribuições inerentes à chefia de governo. portanto: a Coroa. já por volta de 1827.184 Teoria Geral do Estado tanto. além disso.

que instituiu o parlamentarismo. es­ timulou e obteve a realização de um referendo popular. 4. Ape­ nas quinze meses após. Enfim. João Goulart. a estabilidade ministerial é muito maior. insatisfeito com a situação. Entretanto. O resto é história.09. que ficaria a cargo do gabinete. o regime parlamentarista é propício apenas aos sistemas bipartidários. nos quais não ocorre a fragmentação indesejável da opinião parlamentar e. votado o Ato Adicional (EC n. então. o Presidente João Goulart. panaccia que permitiria a posse de João Goulart. portan­ to. muitos autores apontam o sucesso do parlamentarismo inglês como o resultado de dois fatores peculiares aos anglo-saxões: uma profunda consciência nacional demonstrada no respeito às tra­ dições políticas c às instituições c. Foi. que consagrou o retorno ao regime presidencialista. motivada por um casuísmo desmoralizador do regime. as Forças Armadas. de 02. a renúncia de Jânio Quadros ensejaria a imediata ascensão à presidência do vice.implantação do parlamentarismo entre nós ocorreu cm 1961.e também frustrada . Por isso. e seus seguidores pressionaram as lideranças par­ tidárias para que fosse adotado o regime parlamentarista. com a revogação do Ato Adicional. A segunda . depois.1961). Com efeito. .7 Regimes de governo 185 tração. a existência dc apenas dois partidos que efetivamente decidem as eleições. preocupadas com as tendências esquerdistas do novo presidente. mas ao mesmo tempo sua total imobilidade quanto a uma efetiva função governamental.

justificando-a. fala-se em ideologia burguesa. O termo ideologia foi criado por Destut de Tracy. Editorial Tecnos. pela ação direta. Toda ideologia tem as vistas voltadas para a ação. Barcelona. o pen- 186 . Jordi.] a ideologia não é apenas um sistema de ideias sobre a ordem social.. portanto. tolerando. Ideologia. Em outras palavras... Como assinala com clareza Jordi Xifra [. Ideologias políticas. modificando-a ou. irracional. Trata-se de um princípio ativo destinado a atuar sobre a realidade social.. Unesp/Boitempo. em 1801. ed.. e c c l e s iia l l . totalitária.8 IDEOLOGIAS 1) CONCEITO DE IDEOLOGIA Bibliografia: a b b a g n a n o . A ideologia se caracteriza. expressando o clima social e o esta­ do de ânimo próprio de uma sociedade concreta. li­ beral. Terry. rudimentar. nesse sentido. Bosch. age como um motor que gera a força motriz da História. Dicionário de filosofia>2. volta-se muito mais para os que “atendem” que para os que “entendem”. Trata-se de uma concepção pecu­ liar do mundo c da Humanidade e. 2004. Nicola. São Paulo. em face do exposto. criando-a. c a ponte que une a teoria à prática. mesmo. Mestre Jou. Las ideologias dei poder en la Antigiiedad. mas princi­ palmente sobre as ações a serem levadas a efeito sobre esta. expressa-se de forma simplificada. Dirige-se às massas. 1982. 1983. eagleton . Casa Editorial. 1997. São Paulo. muitas vezes violenta. M adrid. x if r a Robert e outros. simples­ mente. . Uma ideologia política vem a ser um sistema de crenças aceitas como verdades inelutáveis. certo falseamento da reali­ dade. denominando a “análise das sensações e das ideias”. marxista e tantas mais.

a respeito da qual trataremos mais adian­ te. negação. justamente. Júcar. sempre a serviço do status quo. Max. O luxo c a de­ sigualdade social deveriam scr severamente combatidos. em maior ou menor escala. James. 1975. ­ Gaetano e g a s t o n . Histórias das doutrinas políticas. 2) SOCIALISMO UTÓPICO Bibliografia: ca. Rio de Janeiro. ed. nettlau. do modo de produção econômico. e Louis Althusser que considerava incompatíveis ideologia e ciência. 500 a. D aí Marx jactar-se de opor. Friedrich. jo u .. O socialismo utópico. engels. pensador da Renascença que imortali­ zou o vocábulo cm obra famosa Utopia. Los anarquistas. que viu nas ideologias concepções não só conservadoras. Madrid. Atua como uma filosofia militante que norteia o desenvolvimento de um sistema sociocultural. enfim.. Barcelona. La anarquia a través de los tiempos. o grande erro dos socialistas utópicos vem a ser. Que é uma utopia ? Esta palavra é forma­ da por dois semantemas gregos: w. O primeiro pensador a empregar a palavra como modelo político teria sido Thomas Morus. lugar. subver­ tendo. Ezequiel atribui a Jeo­ . designando. O certo é que o ideal socialista sempre despertou a atenção de filósofos e po­ líticos. c topos. tem a ideologia como um complexo dc concepções falsas. Por outro lado. Segundo a doutrina marxista. um lugar inexistente. 1977. Zahar. que a ausên­ cia dc amor recíproco entre os homens era a fonte dc toda a miséria. a um socialismo utópico. mas es­ tes socialistas não souberam explicar o modo de produção do capitalismo. Do socialismo utópico ao socialismo científico. mas também equivocadas. na mesma linha Karl Mannheim. Bouthoul. Grijalbo. a ordem estabelecida. interpretar cientificamente os fatos sociais. 1978. a im­ portância da vida material. m os São Paulo.8 Ideologias 187 sarnento à ação. Global. ignorando. foi verberado severamente pelos marxistas. afirmava. 1985. por completo. na pretensão de cientificidade de seu socialismo autonominado “científico”. enfim. seu socialismo científico. Vejamos algumas ideologias que fizeram escola e agitaram as massas.. a luta de classes. irracionais. vários trechos da Bíblia estão impregnados de ideias socialis­ tas: Jeremias clama contra “os gordos a luzirem gordura”. a idealização de vastos planos de reconstrução social sem levar em con­ ta a vida real da sociedade. desprezado por Marx justamente por ser utópico. portanto. 7. assim é que já Mit-sé (Micius). não sou­ beram. O marxismo. imaginário. na China. simplificadas. Reconhecem os marxistas que alguns socialistas pré-marxistas teriam percebido as contradições inerentes ao capitalismo e que a propriedade privada deveria desaparecer.C.

desde a mais tenra idade. a propriedade privada. indiretamente. Isto somente seria possível pela educação.188 Teoria Geral do Estado vá estas palavras: “para cima com os humildes. instituições humanas que seriam. critica a situação econômica da Inglaterra de sua época. Aos quatro anos de idade seria iniciada a educação da criança. Na mesma época de Mit-sé (século V a. com reservas. apenas. pois Platão vi­ sava à participação da mulher. foi condenado à morte e executa­ do. inalienável e transmissível hereditariamente apenas. a ruínas!”. 110 qual as crianças aprenderiam música. Em sua obra A república. fez com que houves­ . na Pérsia. nos problemas políticos. o aban­ dono da cultura agrícola com a transformação dos campos em pastagens de ove­ lhas. um curso de filosofia política. após exame de seleção. permanecendo nas filei­ ras do exército aqueles que revelassem menor aptidão intelectual. Após um curso geral. então. Morus era admirador de Platão e da obra deste. por morte do amo. Acusado de alta traição.C. bem como da família. Fariam. admitindo. Enquanto as guerras contínuas enchiam o país de inválidos. Aos agricultores. cuidando do problema maior do Estado . Escreveu uma obra intitulada Utopia. Thomas Morus: humanista inglês. matemática e história. Previa o banimento da propriedade privada e da liberdade eco­ nômica. Os demais pros­ seguiriam seus estudos. que lhes permitiria ascender à casta mais elevada e nobre. Por outro lado. pois Pla­ tão estava convencido de que os males que afligem o Estado não teriam fim enquan­ to os filósofos não chegassem ao poder ou os governantes não fossem filósofos. sendo que cada homem possuiria uma gleba dc terra indivisível. roubar ou morrer de fome. a dos filósofos. afirmando a igualdade natural de todos os homens e sugerindo a supressão da propriedade. com vistas à florescente exportação de lã para o exterior. sustentar os filóso­ fos. Isaías sonha com um reino de paz e dc justiça. segundo ele. para o socialismo. de forma que o pai não viesse a conhecer o filho e vice-versa. que. os jovens prestariam o serviço militar (homens e mulheres). Os filósofos nada poderiam possuir dc seu. a ruínas.o da educação -. um pregador de nome Mazdak. visando preencher cargos públicos. e estas seriam comuns a todos.) surge. abaixo com os orgulhosos. artífices e comerciantes caberia. mediante o repúdio da rai­ nha Catarina de Aragão. considerado santo por ter recusado a acei­ tar o casamento do rei Henrique VIII com Ana Bolena. O Estado ficaria encarregado de educar o cidadão. Mais tarde Platão escreveu outra obra As leis. contrárias ao desejo da divindade. na qual se mostra mais realista. cuja missão seria legislar e velar pela execu­ ção das leis. Platão critica as desigualdades sociais no tempo da Atenas de Péricles. na qual. receberiam o sustento da classe trabalhadora e deveriam residir em habitações coletivas com as mulheres que lhes fossem destinadas pelo Estado. sem separação de sexos. Eu o re­ duzirei a ruínas. passavam ao abandono e ao dilema de furtar. os nobres ocio­ sos tinham em torno de si inúmeros criados. ao lado do homem. 110 qual “o lobo repousará junto ao cordeiro e a pantera ao lado do cabrito”. auxiliados pelos escravos.

o ouro e a prata não possuem utilidade real e constituem um perigo para a vida so­ cial e intelectual. e a religião. depois. O divórcio existe para os casos de adultério. à fabricação de grilhões para os escra­ vos. Até os 25 anos. quando se casam. elegem os superfilarcas. o príncipe. o filarca. Thomas Morus volta-se indiretamente contra este esta­ do de coisas ao escrever Utopia. Em Utopia o trabalho diário é redu­ zido a seis horas: três pela manhã e três à tarde. apenas as belezas morais. Para Morelly. O próprio Morus. Tommasso Campanella (1568-1639): foi um pensador italiano. . As casas são redistribuídas de dez em dez anos. Não havendo comércio em Utopia. por sua vez. até para os filósofos. A família deve ser conservada. Morelly: em 1753 escreveu uma obra intitulada Brasilíada. mediante sorteio. Somente 110 reinado de Henrique VIII foram enforcados 72 mil ladrões. todos devem dedicar uma parte de seu tempo à agricultura. Campanella acatava as ideias de Platão. reuni­ dos. sendo a esta reduzidos os criminosos. assaltos.8 Ideologias 189 se um encarecimento brutal dos gêneros de primeira necessidade. dividida em cinqüenta e quatro distritos. Cada grupo de trinta famílias escolhe seu chefe. Não há desocupados a consumir o produto do trabalho alheio. Existe na ilha a escravidão. passar um ano na cidade e dois 110 campo. Religioso dominicano. fundamentada na Utopia de Morus. dispensada estava a moeda. o atrativo físico é importante”. os noivos devem apresentar-se despidos. Entretanto. podendo. rival dos je­ suítas que seguiam Aristóteles. com todas as suas seqüelas: miséria. As viagens ao exterior são proibidas. o grande mal da Humanidade é a propriedade pri­ vada. porque “ne­ nhum homem será tão filósofo de ver. Utopia é uma ilha inexpugnável. Destina-se. A terra e os instrumentos de produção devem pertencer ao Estado. Ca­ da distrito tem na sua parte central uma cidade espaçosa. quando muito. e não possuem chaves. os adúlteros e os prisioneiros de guerra. na mulher. admite que sua Uto­ pia (o título completo da obra é Libelus yere aureus nec minus salutaris quam festivus de optimo rei publicae statu deque nova insula Utopia). em de­ trimento dc outras. da indústria e do ensino. da Calábria. mas a mulher deve ser ouvida antes de sua decretação. meramente tole­ rada. Em matéria religiosa os utopistas são tolerantes. mas cada um aprende um ofí­ cio extra. para que nelas possa entrar quem quiser. a ativi­ dades menos penosas. Todos são agricultores. e estes. A monogamia é pa­ drão em Utopia. que escreveu uma obra intitulada Città dei sole. A mudança de residência depende dc autorização. porém. embora eficaz em ter­ mos objetivos. Para evitar a concentração excessiva de pessoas em certas áreas. compromete toda a beleza e o ornamento do Estado. alguns membros de famílias numerosas são transferidos para as menos numerosas. vadiagem. que contém os edifícios da administração. Thomas Morus não admite a comunhão sexual de homens e mulheres preco­ nizada por Platão. Em sua obra preconizava um sistema comunista ideal. Os filarcas. Por outro lado. que dirige o Estado e que só pode ser deposto se tentar o cesarismo. assim.

mas a igualdade material ou eco­ nômica. isto é. Filantropo. Não tinha grandes ilusões. porém. Robert Owen (1771-1858): foi o criador das primeiras cooperativas de pro­ dução e consumo. de acordo com as necessidades de cada uma. Considerava ser imprescindível abolir o regime de su­ cessão hereditária. Dühring está longe de ser a figura ridícula em que Engels pretende transformá-lo na virulenta obra intitulada. Posto em liberdade. mudou radicalmente de posição cm 1757. por isso mesmo. havia renunciado à carreira religiosa de pastor para dedicar-se ao cargo de secretário no Ministério dos Negócios Estrangeiros. jogou ao mar enorme quantidade de arroz. Anti-Dühring. pensamento que seria depois assimilado por Pierre-Joseph Proudhon. em caso de não ha­ ver descendência direta. escreveu uma verdadeira apologia do furto e do roubo. Inicialmente defensor do Velho Regime. até que o Poder Público assumisse o controle de toda a propriedade privada. Inteligên­ cia. mas den­ tro das possibilidades reais. um sistema como este não seria adotado em sua pureza original. e deveria ser ado­ tado pela sociedade contemporânea. para elevar os preços. afirmando que a falta de or­ ganização do trabalho produz um enorme desperdício de forças. a produção e a distribuição das terras eram regulados pelos prin­ cípios comunistas clássicos. muito sugestivamente. Infelizmente. com abolição da propriedade privada. que tem como conseqüência tornar a produção inferior àquela que seria concretizada se o traba­ lho fosse cientificamente organizado. as obras de Dühring não têm a divulgação merecida e. Passou a afirmar. fundou no Canadá diversas cidades-modelos. Eugen Karl Dühring (1833-1921): filósofo. perspicácia e uma sólida formação intelectual enciclopédica. que a verdadeira igualdade não é a igualdade meramente formal ou jurídica. nas quais a divisão do trabalho seria feita por intermédio da chamada atração passional ou vocações. O regime comunista seria peculiar à sociedade primitiva. com sua frase célebre: “A propriedade é um roubo”. Impressionado. Toda a produção da terra deveria ser armazenada em silos públicos e distribuída entre as famílias. Brissot dc Warville afirma que a propriedade é um direito natural que deve ser limitado às reais necessidades de cada um. da monarquia.190 Teoria Geral do Estado Gabriel Bonnot de Mably (1709-1785): filósofo e historiador francês. Brissot de Warville: impressionado pelo rigor da legislação dos crimes contra o patrimônio (furto e latrocínio). Afirmava que a sociedade deveria ser organi­ zada cm comunidades denominadas falanstérios. nas quais o trabalho. A partir daí a propriedade passa a ser um roubo. abraçando uma ideo­ logia dc forte matiz socialista. ele começa a estudar a questão social. O período era de fome e o pa­ trão de Fourier. jurista e economista alemão. então. não podemos deixar de fazer um reparo a esse respeito e de dizer algo de seu trabalho. eis o resumo des­ . Charles Fourier (1722-1837): preso durante a Revolução Francesa por per­ tencer ao partido dos girondinos. devendo o Estado ser tido como herdeiro. passa a trabalhar como em­ pregado de um comerciante de cereais em Marselha.

cujo pensamento já está a mere­ cer um pouco mais de atenção que não seja aquela que Engels lhe atribuiu. estudou Direito. Em 1878. Fundamentos do marxismo-leninismo. Juvenal. em economia. Global. iniciando bri­ lhante carreira de advogado. Global. Em 1863 doutorou-se cm filosofia c. porém excessivamente agressiva à própria pessoa de Dühring. . v. Caracas. 2. Lisboa. e foi considerado antissemita por se opor aos elementos judaicos do Cristianismo. São Paulo.. Alarmados. 1965. Os concei­ marx tos elementares do materialismo histórico. Krássine. c a r r il l o barbuy. Dedicou-se. e tal refutação sobrevêm sob a forma de uma obra robusta. Publicações Europa/América. Marxismo e religião.. ao magistério e à investiga­ ção científica. z\gir. El capitai México. consis­ tente na conciliação das classes sociais.. No exercício do magistério tornou-se um líder da ju­ ventude radical. São p o l it z e r Paulo.. ed. que logo foi interrompida em virtude de uma doença dos olhos que o deixou quase cego. Fondo dc Cultura Econômica. Monte Avila. ed. . 1981. 6. afirma uma realidade dinâmico-orgânica da vida. então. Rio de Janeiro. 2. dialética. graças ao auxílio dc amigos. engels. Moscou. os dirigentes do partido incumbem Engels de refutar as heréticas colocações de Dühring. raldo. Dühring rompe definitivamente com o socialismo marxista. Dühring foi um teórico e um militante de real significado. Entre 1870 c 1878. Karl. logo depois. 2. 1979. Paul. O marxismo. Rio de Janeiro. 1974. 3) MATERIALISMO HISTÓRICO E DITADURA DO PROLETARIADO Bibliografia: a r d u i n i . Marta. Progresso. E. 1959. São Paulo. apenas o fizemos para efeitos didáticos. O manifesto do partido comunista. 1983. Lisboa. ed. Rio de Janeiro. Paz e Terra. . Paz f o u l q u ié e Terra.8 Ideologias 191 te pensador. Prelo. Rebatendo a dou­ trina da luta de classes. Friedrich. A . passando a defender o ideal da não eliminação do capitalismo. chakhnazárov G. José Barata-Moura c Eduardo Chitas. Dominus. 1984. Era ateu. 1983. 2. m arx . mediante uma incisiva intervenção do movimento operário. ed. A dialética da natureza. sc colocamos Dühring entre os so­ cialistas utópicos. Combatendo o materialismo mecanicista. e Anti-Dühring. mas a de seus abu­ sos. História crítica da economia política e do socialismo c Lógica e teoria da ciência. Friedrich. Princípios elementares de filosofia. nesta cidade. Karl e e n g e l s . ideias que representam sérias objeções ao pensamento de Marx. porque assim Marx o consideraria. 1976. 1963. preconiza uma etapa final da evolução da sociedade. Nasceu perto de Berlim e. Historia crítica dei concepto de la democracia. suas ideias começam a ganhar terreno na doutrina social-democrata. harnecker . Lisboa. 1. . c O 18 brumário de Louis Bonaparte. trad. He- batalla. v. Tomás. Georges. 1986. embora injustificadamente. e iú. que muito o respeitava. Na verdade. Avante!. Dentre suas obras destacam-se: O moderno espírito dos povos. 1979. como já frisamos.

a dialética com­ preende o raciocínio que busca a verdade por intermédio da oposição c da conciliação de contradições. e a gramática só se realiza com o contraste entre vogais e consoantes. com justiça. Vamos desmembrar esta expressão apresentando. não obstante isso. Os contrários põem-se de acordo. esta síntese.C. da contradição. as coi­ sas e os fenômenos estão em perpétuo movimento. A uma tese opõe-se uma antítese.. por isso. que traz consigo os germes de seu próprio contrário. e é com eles. enquanto Marx afirmava a precedência da ma­ . portanto. Uma coisa é ela mes­ ma e o seu próprio contrário. ao mesmo tempo. de iní­ cio. O scmantcma dia exprime uma ideia dc reciprocidade. a ideia precede a matéria. originará uma antítese e assim por dian­ te. encontra-se em constante mutação. mas também pela obs­ curidade com que as expunha. A natureza une o macho à fêmea. o criador do marxismo costumava ironizar o pensamento hegeliano pelo fato deste afirmar a precedência do espírito à matéria. como já afirmava Herá­ clito. entretanto. desenvolveu a ideia dc uma dia­ lética da natureza. pelo que nos restringiremos a apresentar. de troca de palavras. o conceito dc dialética. idealis­ ta. Tudo é engendrado pela luta. dizia ele. Georg Wilhelm Friedrich Hegel. Karl Marx (1818-1883) foi muito influenciado pelo pensamento de Hegel. Heráclito é. a música só se torna possível com a contraditoriedade dos sons graves e agudos. a dialética bus­ ca não apenas convencer. pelos con­ trários. Heráclito insiste na luta dos contrários no mundo da natureza. As coisas sc encontram cm perpétuo movimento. autor da notável Filosofia da história.192 Teoria Geral do Estado Materialismo dialético. filósofo do século V a. diz ele. isto é. Enquanto a retórica pretende impressionar e captar. dos sons diversos resulta a mais bela harmonia. jamais com os semelhantes. A dialética é a arte da discussão. Hegel define a dialética como a conciliação dos contrários nas coisas e no es­ pírito. consta de três momentos: tese. Diz ele: Nós somos e. O burguês é o burguês. Realmente. Assim. num manual didático como este. vai engendrar uma nova tese. luta essencial para o surgimento da harmonia. A natureza aprecia os contrários. não somos. Dessa forma. é o proletário. que ela produz a harmonia. foi com­ parado a Heráclito não apenas pela semelhança das ideias. mas ao mesmo tempo a sua condição de burguês é a afirmação da realidade cuja negação. cujo contrário. sendo. O processo dialético. Ela não se confun­ de com a retórica. o conflito destas vai originar uma síntese. por sua vez. A natureza. o pensador hegeliano é tão profundo quanto cerrado. que. en­ fim. diálogo. indefinidamente. consi­ derado o filósofo da mudança e da instabilidade. a pintura resulta das cores claras e escuras. O método dialético afirma a identidade dos contrários. mas também levar à compreensão. Heráclito de Efeso. antítese e sínte­ se. enfim. as linhas essenciais de seu conceito de dialética.

Assim. Para mim. isto é. sob o nome de ideia. ad­ vertia Marx. o pensamento de Hegel achava-se estruturado em magnífica pirâmide. cujo vértice. É preciso invertê-la se queremos. entretanto. Para que o pensamento hegeliano se tornasse perfeito. da ideia absoluta. o processo dialético da reali­ dade que denominamos objetiva não é mais do que uma manifestação da ideia. Mas nele a dialética está ao contrário. Para Hegel. cujo desígnio é eter­ no. seria preciso colocá-lo na posição correta. o mundo das ideias é apenas o mun­ do material. de maneira completa e consciente. Para Hegel. processo autônomo. a que se referia Hegel em sua Filosofia da his­ tória. O idealismo interpreta o mundo como uma encarnação da consciência do espírito universal. assim ele critica o sistema hegeliano: Meu método dialético não difere somente quanto ao fundamento do processo hegeliano. desvendar o núcleo racional. o que eqüivale ao materialismo. Para Marx. numa concepção essencialmente otimista. do espírito. a natureza.8 Ideologias 193 téria sobre a ideia. despojado do idealis­ mo. Segundo Marx. não é mais do que o seu fenômeno exterior. na qual a História da Humanidade surge como um processo desenvolvido por uma razão universal. Segundo a filosofia idealista. A mistificação que a dialéti­ ca atingiu em Hegel em nada impede este filósofo de ter sido o primeiro a expor. o processo do pensamento. do invólucro místico. O mundo material. o materialismo dialético marxista difere fundamentalmente da dialé­ tica hegeliana. transposto e traduzido no espírito humano. é precisamente seu contrário. enfim. o mundo material existe independentemente da ideia. contudo. apenas a nossa consciência teria existência real. criador da realidade. esta­ ria voltado para baixo. as formas gerais do movimento. fundada sob o idealismo. Karl M arx (1818-1883) . de que ele faz mesmo. nada mais seriam do que o produto da consciência humana. Em O capital.

. quando. o im­ portante é transformá-lo!”. dois campos inconciliáveis em filosofia.. em verdade. e a consciência. Marta Harnecker. a filosofia marxista é muito mais ideologia do que filosofia. a linha dc Dcmócrito e a de Platão. Pela extraordinária importância que tem. o espaço e o tempo são formas objeti­ vas da existência da matéria. desde logo.194 Teoria Geral do Estado Conclui-se. o que ele pretende. reconhece-se implicitamente que o movimento. pois se volta para a ação. c a matéria. Marx emite uma frase curiosa: “Os filósofos não têm feito nada além de interpretar o mundo. que idealismo e materialismo são ideias que hurient de se trouver ensemble. Se se aceita o primado da matéria e a sua independência em relação à consciência. Será que aqui Marx defende a necessidade da ação di­ reta apregoada pelos anarquistas ou sindicalistas revolucionários? Não . o problema da relação entre a matéria e a cons­ ciência foi qualificado como a questão fundamental da filosofia. o secundário. O ser determina a consciência. ou como o fruto da atividade da consciência humana. Todas as filosofias que contemplam o mundo para justificá-lo são meras alienações. Assim: C) materialismo e o idealismo. Consideremos a questão das leis científicas: a solução mate­ rialista da questão fundamental da filosofia leva diretamente a reconhecer a objetivi­ dade dessas leis. do espírito. dizem os materialistas. sendo impotentes para a ação sobre as condições do mundo real. [grifo nosso] No dizer de Marx. Assim. inversa­ mente. exegeta contemporânea do . A solução idealista obriga a vê-las como uma manifestação da razão universal. todas as filosofias anteriores ao marxismo são alienações puras. como e por que o homem está alienado. na verdade. são duas cor­ rentes contrárias. cada um à sua maneira. tendo deixado uma infinidade de obras de real significado para a interpretação da História. baseando-se na experiência social e nas ciências naturais. Assim é que Marx decreta a morte da filosofia contemplativa. Em sua 1 Ia Tese sobre Feuerbach. A linha divisória entre os dois é o seu diferente modo de resolver o problema da relação entre a matéria e a cons­ ciência. Marx foi notável teórico. então há que ver o movimento. É a afirmação que G. que deriva da consciência. Ao contrário do que se pode pensar. o espaço e o tempo como formas da consciência. o princípio essencial do idealismo c a afirmação dc que o fator primário é a consciência. O princípio essencial do materialismo é o reconhecimento de que o fator pri­ mário é a matéria. é alertar para a necessidade de um conhecimento prévio da realidade que se pretende transformar. Se se considera que a matéria é o secundário. Chakhnazárov e Iú Krássine emi­ tem com muita clareza. tentando explicar como as coisas realmente são. o secundário. Da resposta que se lhe dê depende também a solução das outras questões relativas à concepção do mun­ do. para determinar as posições filosóficas. Não há problema fi­ losófico cuja solução não dependa da maneira como sc resolva a questão fundamen­ tal da filosofia. o ser. E.

uma ruptu­ ra com todas as teorias filosóficas sobre o homem e a História. Enquanto para os seguidores de Aristóteles a matéria é causa material. mas uma rup­ tura com as teorias a respeito do homem. para os marxistas e os materialistas em geral a . chama a atenção para a inconveniência de uma interpreta­ ção frívola do referido texto. a teoria científica da História ou materialismo histórico. O que não existia era um conhecimento científico da sociedade e sua história. e anuncia a chegada de uma teoria científica nova. eram: teorias filosóficas acerca da História ou filosofias da História. ou em várias ao mesmo tempo. que funda um campo científico novo: a ciência da História. Engels assim se referiu ao tema matéria/movimento: Nunca. Friedrich Engcls. e que somente se transforma sob a ação de forças que sobre ela atuam. portanto. O movimento é o modo de existência da matéria. da sociedade e sua história. funda um novo campo científico. aquilo de que as coisas são feitas. de­ fine a dialética materialista como a ciência “das leis mais gerais que regem a dinâ­ mica e o desenvolvimento da natureza. O que até esse momento existia. de corrente elétrica ou magnética. Em Anti-Dühring. vibrações moleculares sob a forma de calor. ou então narrações históricas c análises sociológicas que sc limitavam a descrever os fatos que ocorriam nas diferentes sociedades. em relação à sociedade e sua história. vida orgânica. isto é. Não há matéria sem movimento e muito menos movimento sem matéria. que se encontra cada átomo da matéria no mundo em cada momento dado. A matéria sem movimento é tão inconce­ bível como o movimento sem matéria. existiu. é numa ou em outra dessas for­ mas de movimento. Os adep­ tos do materialismo dialético afirmam que a matéria não é uma realidade passiva e inerte. não. Imaginar um estado da matéria sem movimen­ to é. escrito para refutar as ideias do alemão Karl Eugen Dühring. em parte alguma. matéria sem movimento. consequentemente. da sociedade e do pensamento”. ela é essencialmente dinamismo e movimento. que não fazem mais do que interpretar o mundo. análise e síntese química. sendo incapazes de transformá-lo porque não conheciam o mecanismo de funciona­ mento das sociedades.8 Ideologias 195 pensamento de iMarx. buscando o significado mais profundo deste: A 11a Tese sobre Feuerbach não anuncia a morte de toda teoria. movimento mecânico das massas mais pequenas sobre cada um dos corpos celestes. materialista alemão c parceiro intelectual de Karl Marx. que se limitavam a contemplar e interpretar o mundo. A 1T‘ Tese sobre Feuerbach indica. M o ­ vimento no espaço. como afirmam os metafísicos. uma das ideias mais vazias e insípidas que há. a maneira de ser a matéria. nem pode existir. a ciência física. da mesma maneira que a teoria científica de Cíalileu. um puro sonho febril. que até esse mo­ mento eram teorias filosóficas.

em Aristóteles e nos escolásticos. Matéria deri­ va de mater. O materialismo marxista vem a ser. fundamentalmen­ te. como o fazem muitos autores modernos. nenhuma palavra que signifique matéria no senti­ do materialista contemporâneo. pois. então. que significa floresta. com as graves ques­ tões sociais da época em que viveu. em face de seu egoísmo. o princípio que faz as coisas. também está em constante evolução. do empirismo e do sensualismo. Mas o marxismo apresenta uma carac­ terística que lhe é essencial: preocupado. também o homem. afirmar que os homens jamais pode­ riam viver numa sociedade comunista. O materialismo sem­ pre reduz o homem à sua atividade sensorial. Pois bem. em grande parte. uma concepção explicativa da História que afirma. ao passo que. Das mais interessantes é a tese sobre o materialismo no pensamento antigo formulada por Heraldo Barbuy. religião. antes de mais nada. isto sim. Não há. Já é hora. todos os seres relativos são com­ postos de matéria e dc forma. só assume existência efetiva quando recebe uma forma. filosofia e artes são o puro resultado dos sentidos. no grego. na magistral definição de Boécio. que constitui a estrutura essencial das re­ lações sociais. e assim da própria matéria.196 Teoria Geral do Estado matéria é causa eficiente. ao passo que as ideologias consistem em meras superestruturas con­ dicionadas pela infraestrutura econômica. Segundo Marx. Marx não se preocupa com questões de ordem meramente filosófica. consiste em assu­ mir uma indesejável postura metafísica de identidade e imobilismo. em verdade. que não são as ideias que governam o mundo. concluem. Personalidade. Diz ele que o sentido original da palavra matéria é bem diferente do sentido atual. Depreende-se disso que o marxismo derivou. pois o homem. em sua obra Marxismo e religião. E se a sociedade muda. de dizermos algo a respeito do materialismo histórico. isto é. mas não se fala em matéria no sentido que os materialistas atribuem à palavra. metafísica. Vimos que Karl Marx é materialista. que rejeita a precedência da matéria ao espírito. conclui Barbuy. em matéria-prima ou matéria secunda. a economia. a fonte exclusiva do conhecimento são os sentidos corporais. a expressão hileia amazônica). não há maior absurdo do que falar em materialismo grego. ex. sua doutrina se opõe ao idealismo. dizem os marxistas. porém. nos filósofos clássicos a expressão matéria é sempre tomada no sen­ tido de princípio passivo e de matriz. indicando o princípio materno. para o sen­ sualismo.. eliminada qualquer atividade autônoma do espírito. a economia engloba o conjunto dos esforços do homem para se apropriar da ma­ téria e explorá-la. . como substân­ cia indivisa dotada da razão. O empirismo é a teoria do conhecimento segundo a qual a única fonte do conhecimento é a experiência sensível. Vale lembrar que madeira é tradução portuguesa de matéria. madeira e fecundidade (p. suas ideias e sentimentos são produ­ tos de seus sentidos. especulativa. c sim as ideias é que dependem das condições econômicas da sociedade. Dessa forma. Matéria foi a palavra utilizada pelos latinos para traduzir o termo grego hyle. Portanto. enfim. Fala-se. sendo ela.

11a Idade Média. de alterações nos méto­ dos de produção e de troca. mestres de corporações contra jornaleiros. ser comparado ao exemplo de uma pessoa que adquire um par de sapatos amarelos. a postura do metafísico. enquanto a cias­ . fixos. Doutrina Engels: [. capitalistas contra proletários. Ela dirá: “vou calçar meus sapatos amarelos”. religiosas c filosóficas. patrícios contra plebeus. das duas uma: sim. Para ele. para considerar apenas a identidade. A explicação do fenômeno histó­ rico é orientada para a praxis. opostas entre si como as fases do processo dialético. Já para Politzer. imóveis. Paralelamente vão desenvolvendo-se fundamentos de um sistema oposto. sejam quais forem suas características aparentes. que estas classes sociais que se digladiam são. a religião. não é mais do que a própria histó­ ria da luta de classes. lutavam amos contra escravos. que são sempre a infraestrutura da sociedade que explica a superestrutura das instituições políticas. será esta. Ao fim de cer­ to tempo. para Marx. ironicamente. dizem os marxistas. o produto das relações de produção e troca. resultam.. Cada sistema econômico cresce até um ponto determi­ nado. manchados e descoloridos. Assim. Embora a política. o enfoque metafísico poderia. como algo determinado e eterno. para o metafísico os objetos e suas imagens no pensamento. A postura metafísica é severamente criticada pelos marxistas. Na Antiguidade. ainda. Tal pessoa não considerou as mudanças operadas em seu calçado. Assim. novos. são objetos de investigação isolados. No dizer de En­ gels. 11a Ida­ de Contemporânea. a ação. Amos. embora estes já estejam deformados. Assim é. não. não. que não admite o advento de um novo homem.. patrícios. o resto sobra. os conceitos. como se eles estivessem. mestres de cor­ porações e capitalistas detiveram e detêm os meios de produção. a cada momento. a pessoa continuará a se refe­ rir a seus sapatos amarelos. estará pronto para a convivência despojada do fator propriedade. a determinante final da evolução his­ tórica.] percebe-se que a História. Pensa apenas em antíteses desconexas. a História é uma seqüência de lutas de classes. até que o antigo seja engolfado por este. segundo o marxismo. perfeitamente integrado numa so­ ciedade comunista... a filosofia e a arte possam até agir sobre a pró­ pria economia.8 Ideologias 197 evoluído psicologicamente.. a partir do qual surgem em seu seio contradições e fraquezas que acarretam sua decadência. a ciência não é mera compreensão ou contemplação. após uso prolongado e muitos consertos. mas um conhecimento eficaz traduzido numa técnica. Todas as transformações históricas fundamentais. em sua totalidade. sim. enfocados uns após outros. diz Politzer.. em última análise. das relações econômicas.

como acentua Duruy. da essência da sociedade comunista o pagamento conforme as necessida­ des de cada um. A diferença entre o valor daquilo que o trabalhador produz e o que ele rece­ be é a plus valia (mais-valia). na antiga Roma. Quando o capitalismo e seu escudo protetor . em que consiste essa ditadura do proletariado. Proletários e oerarius tinham as mesmas incapacidades políticas.o Estado . no qual o Estado será perfeitamente dispensável. recebe um salário suficiente apenas para prover sua subsistência e sua reprodução. sim. anotando o Programa do Partido Operário Alemão: . no qual os bens de produção pertencerão ao Estado. Será o império do socialismo de Estado. é o resultado de antagonismos sociais incontroláveis. entretanto. era formada por pessoas completamente desprovidas de bens e cuja única finalidade era constituir prole. não se confundia com o oerarius. Para o marxismo. segundo o marxismo. cujos haveres. Ora. terá desaparecido e passado a pertencer ao museu de antiguidades da História. ao contrário. não impediam que seus proprietários. dar filhos à pátria e à guerra. O Estado seria o aparato utiliza­ do pelas classes dominantes para defender. sendo. será precedido de um fenômeno marcante. O sistema de salários será extinto. categoria social que. ninguém viverá da propriedade.198 Teoria Geral do Estado se dominada sempre dependeu de um salário. daí a expressão proletariado. fos­ sem privados dc certos direitos. Ora. se o Estado encontra seu fundamento e sua sustentação na luta de classes. Ocorre que o trabalhador não recebe o valor total da­ quilo que o seu trabalho cria. em razão da origem. ocorrerá uma fase de transição denominada ditadura do proletariado. a ditadura do proletariado. mas os tribunos falavam apenas a favor dos proletários. O Estado. um pouco mais de­ talhadamente. ao lado do machado de bronze e da roca de fiar. Segun­ do o próprio Marx. o desaparecimento do Estado coincidirá com a desaparição da propriedade privada. não haverá classes sociais. vendendo a força de seus braços para sobreviver. Enquanto esta visão paradisíaca não se configura. o Estado nada mais é do que o reflexo dc uma sociedade dividida cm classes antagô­ nicas. meta final da evolução histó­ rica. todos viverão do seu trabalho. cada pessoa trabalhará de acordo com sua capacidade e receberá uma quantia proporcional às suas necessidades. o Estado. num dado momento histórico. Então. É o lucro. O desaparecimento do Estado capitalista. por vezes consideráveis. Depois. portanto. isto é. O proletário ou capite census não tinha o censo necessário para entrar nas classes e. podendo os indivíduos possuir apenas bens de consumo. Segundo Engels. que se digladiam velada ou ostensivamente. torna-se claro que o desaparecimento das classes determinará o surgimen­ to de um novo estágio histórico. Como as classes sociais têm origem na propriedade privada dos meios de produção. sua proprie­ dade e seus interesses. retorno às primeiras comunidades humanas. virá o verdadeiro comunismo. que vai para as mãos do capitalista. o valor das utilidades é determinado pela quantidade de trabalho necessária para produzi-las. qual seja. vejamos. então. assim. igualmente comunistas.receberem o golpe dc morte das mãos do proletariado.

malfei- . Sendo o proletariado a classe mais baixa das sociedades atuais (está quase ao nível do subterrâneo social chamado Lumpenproletariat)> quando cie se levantar. ele não é nada.. em todos os tempos passados. não tem modo de existência parti­ cular. segundo o marxismo. Mas o capitalismo tem tais leis internas dc acumulação c con­ centração do capital (longamente estudadas por Marx no fim do L. 1° d 'O Capital). denomina a “massa informe de indivíduos arrui­ nados e aventureiros saídos da burguesia. cujo caráter internacional tem como denominador comum ser a massa dos oprimidos. do coletivismo ab­ soluto. miserável. como as antigas classes dominantes. a par do proletariado propriamente dito. proletariado. patifaria). Sendo a negação de tudo. e proletariat. dc todos os mo­ delos dc vida. dc todas as garantias dc existência individual. já vernaculizada como lumpemproletariado. querer impor um estilo de vida. esfarrapado. malvado. uma camada so­ cial difusa. o advento fatal do proletariado. os senhores mantiveram os escravos. a natureza do proletariado na concepção comunista: [. dos miseráveis. dentro de certo prazo. segundo a dialética marxis­ ta. pelo menos ao nível dc subsistência. que não possui. que farão com que o proletariado desça cada vez mais na escala social. Barbuy anota.8 Ideologias 199 Entre a sociedade capitalista e a sociedade comunista renasce o período da trans­ formação revolucionária da primeira na segunda. Marx reconhece. É o estabelecimento. nem são nada. não poderá deixar de abater tudo quanto está acima de si. soldados desmobilizados. vadios. trapo. o proletariado não pode. não depende da vontade de ninguém impedir essa revolução total: porque a con­ tradição burguesia versus proletariado há dc chegar a um ponto em que o capitalismo não poderá sequer manter o proletariado como classe oprimida. cujo Estado não pode ser outro senão a ditadura re­ volucionária do proletariado. E. se acha desprovida de maiores ambições. a revolução sc dará por si mesma.] o proletariado tem de original. não tem nada. o lumpenproletariaty que qualifica dc “lixo de todas as classes” (do ale­ mão himpen. dc todas as formas dc apropriação da riqueza. É o anonimato absoluto. dos que não têm. não ser uma classe como as demais. que no passado lutaram pelo poder: não pode nem mesmo ser chamado pro­ priamente de classe. A este período corresponde também um período político de transição. c lumperei. velhacaria. significará a destruição dc tudo quanto existiu anteriormente. é a negação de tudo quanto já foi categoria histórica. Tal ditadura será exercida por uma classe que jamais possuiu coisa alguma e que. Por isso. farrapo.. Tal expressão. portanto. nesse dia. daí lumpig. com muita perspicácia. a pauperização gradual tornará completamente impossível a subsistência do proletariado no regime capitalista dc produção c. previsto por Marx (fatal porque dialeticamente ine­ vitável). de tudo quanto já foi clas­ se no sentido próprio do termo. ensinam Marx e Engels. segundo o M a­ nifesto.

reclusos postos em liberdade. organi­ zou-se o lumpemproletariado de Paris em seções secretas. concebe a vida histórica dos povos e as ações principais destes como uma comédia. tornam-se uma excelente massa de manobra que os fascismos utilizam na conquis­ ta do poder. carteiristas. charlatães. deste elemento. em que o abutre suíço amestrado representou a águia napoleônica. enfia uns quantos lacaios de Lordes cm uniformes franceses. em que os grandes trajos. rufiões. Na sua Sociedade do 10 de dezembro reúne 10.000 miseráveis do lumpen. cada uma das quais dirigi­ da por agentes bonapartistas e um general bonapartista à cabeça de todas. Aconteceu assim no seu cortejo a Estrasburgo. nas condições extremas de crise e desintegração sociais de uma sociedade capitalista. que perderam o sentido de sua classe social. que reconhece nestas fezes. numa palavra. as prostitutas. de modo que. Velho roué manhoso. 79-80) [grifo nosso] Os últimos despojos da superpopulação relativa são. carregadores. que só neste encontra de forma maciça os interesses que ele pes­ soalmente persegue. burlões. mendigos. que festejar como cortejos triunfais. maquereaus (cáftens). palavras e poses servem de máscara à ca­ nalhice mais baixa. como uma mascarada. que teriam dc representar o povo. Os autores marxistas consideram o lumpemproletariado um elemento de­ cisivo na ascensão violenta dos fascismos. os déclassés ou massas empobrecidas da classe média baixa. o Bonapartc sans phrase. for­ mou Bonapartc a cepa da Sociedade do 10 dc dezembro. assim: Nestes cortejos que o grande Moniteur oficial c os pequenos moniteurs privados dc Bonapartc tinham. Juntamen­ te com roués (devassos) arruinados. Sociedade de Beneficência na medida cm que todos os membros sentiam. Marx faz referência ao lumpemproletariado em duas passagens bas­ tante claras. tal como Bonapartc. finalmente.200 Teoria Geral do Estado rores recém-saídos da prisão. a ncccssidadc dc be­ neficiar à custa da nação trabalhadora. galerianos desertores. Para a sua incursão em Boulogne. vigaristas. flu­ tuante a que os franceses chamam Ia bohcme. 0 18 brumário de Louis Bonapartc. jogadores. naturalmente. Esta sociedade data do ano de 1849. soldados desmobilizados. o leão. desagregada. donos de bordéis. (Karl Marx. lazzaroni. tocadores de realejo. vaga­ bundos. é o autêntico Bonapartc. mendigos e tantos mais” . batedores de carteiras. amoladores. no sentido mais ordinário da palavra. toda essa massa indefinida. o proletariado esfarrapado (lumpenproletariat) em sentido . com meios de subsistência equívocos e equívoca proveniência. detritos e escória de todas as classes a única classe em que pode apoiar-se incondicionalmente. que sc constitui cm chefe do lumpemproletariado. trapeiros. como Klaus Zcttcl. Este Bonapartc. os que se refu­ giam na órbita do pauperismo: Deixando de lado os vagabundos. Eles representam o exér­ cito. era constan­ temente acompanhado por filiados da Sociedade do 10 de dezembro. p. numa palavra. escribas. Sob o pretexto de criar uma sociedade de beneficência. caldeireiros. com ele aparentado. os criminosos. juntamente com rebentos degenerados e aventureiros da burguesia.

não implicará. as indústrias químicas etc. cm verdade. Sua existência segue implícita na existência da superpopulação relativa. Tal ditadura é inelutável. nada pode evitá-la. vai criar uma forma original de poder. 545-6) [grifo nosso] O proletariado dirigirá a tarefa de libertação das massas trabalhadoras explo­ radas. rumo à verdadeira metamorfose do Estado. muito menos. e com ela constitui uma das condições de vida da produção capitalista e do desenvolvimento da riqueza. de forma mais concreta. despojos. como cm 1860. a delinear. o desaparecimento definitivo do Estado será lento e gradual. dos operários que sobrevivem à idade normal de sua clas­ se e. ditatorialmente. p. incidirá no reforço deste. A expressão ditadura do proletariado. destinada a fundamentar o novo Estado socialista. Assim. segunda. esta camada social se acha formada por três categorias: primeira. em razão da imobilidade que lhes im­ põe a divisão do trabalho. tomou realmente a importância de uma Constitui­ ção. a ditadura do proletariado não é uma forma política dc caráter demo­ crático e. a partir do momento em que a revolução sentiu a necessidade de novas formas jurídico-políticas. apoderando-se do aparelho estatal e utilizando-o para dominar. definitiva­ mente. () pauperismo é o asilo de inválidos do exército de operários em atividade e o peso morto do exército de reserva da indústria.a expressão é do próprio Marx . Seja como for. os doentes. por exemplo. A revolução proletária. (Karl Marx. Seja como for. O proletariado inter­ vém despoticamente . Basta consultar superficialmente a estatística do pauperismo inglês para se convencer de que o número destas pessoas aumenta com todas as crises e diminui quando os negócios sc recuperam. o poder proletário é original. sua necessidade em sua necessidade. pelo contrário. incapazes para o trabalho. criada pelo próprio Marx.. quando são arrolados prontamente c cm massa dos quadros dc trabalhadores da ativa. pois. marca o período intermediário entre uma fase capitalista e ou­ tra comunista. El capital. terceira: degradados. Como assinala com clareza Farberov.no direito de propriedade e nas relações de produção. alterando a própria natureza do poder político. Não. cujo número aumenta com as máquinas pe­ rigosas. órfãos e filhos de pobres. a imediata desaparição do Estado. São seres condenados a desaparecer. dos mutilados. parteira da História. a oposição capitalista-burguesa. na concepção marxista. segundo pitores­ ca observação do próprio Marx. comunista. a burguesia. finalmente. eliminando. Por isso. as viúvas etc. a doutrina mar­ xista pressupõe que a ditadura do proletariado não é mera substituição daqueles que exerciam o poder político. contudo. c sempre cm grande ati­ vidade. referido por Camillo Batalla: . pessoas ca­ pacitadas para o trabalho.8 Ideologias 201 estrito. Estes seres são candidatos ao exercito dc reserva da indústria. um modelo acabado de instituições político-jurídicas referente à organização do proletariado como agente de uma di­ tadura. A teoria marxista do Estado não chegou. das vítimas da indústria. as minas.

consequentemente. para a catástrofe. chega-se a um capitalismo de Estado. mesmo assim tentou-se adaptar um momento de crise político-econômica a um princípio que sempre se afirmou científico! Foram seten­ ta anos de autoritarismo que desembocaram. houver presença da ameaça representada pelos Estados ca­ pitalistas. porém. A Perestroika e a Glasnost dc Mikhail Gorbachev puseram a nu a constran­ gedora situação. enquanto a economia rumava. a su­ pressão do Estado para um desenvolvimento original da sociedade. Pelo contrário. cedendo lugar a uma administração de bens espontânea. e que usufruía de todas as benesses de um verdadeiro regime capita­ lista.a odiosa Nomenklatura verdadeira gerontocracia ou governo “daqueles que nunca se aposentam e raramen­ te morrem”. mas o marxismo puro. celeremente. ponto inicial da construção paulatina do socialismo. a um ní­ vel tão alto dc conscientização e organização sociais que a obediência natural às re­ gras dc convivência será uma necessidade permanente para todos. jamais. adiantado grau de industrialização do Estado capitalista e insustentável concentração do capi­ tal nas mãos da classe dominante. na dolorosa crise do so­ cialismo soviético. o qual. En­ tretanto. ainda era um Estado feudal. se mostraram contrários ao marxismo puro. deverá reforçar o seu poder. tirar ilações apressadas c. a partir do momento em que desconsideraram a afir­ mação marxista de que a revolução proletária seria viável apenas quando cumpri­ das as condições objetivas da deflagração do movimento. A verdade é que. em prazo tão curto que os mais ferrenhos c otimistas inimigos do regime não poderiam. quais sejam. Os objetivos do leninismo não se concretizaram e. conduziria ao desaparecimento das diferenças entre as classes sociais. a Rússia dc 1917. Marx preten­ deu que o Estado poderia ser utilizado mediante uma ditadura proletária.202 Teoria Geral do Estado Marx e Lenin. como ideologia preconizadora de uma sociedade sem . a sociedade socialista ainda não alcançou essa fase dc desenvolvimento. de­ sapareceria o Estado. mas uma ditadura sobre o proletariado. a experiência russa demonstrou muito bem que. o Estado socialista não desaparecerá. finalmente. se Bakunin buscava. e à abundância de bens ma­ teriais e culturais a serem distribuídos conforme as necessidades de cada um. equivo­ cadas do ocorrido na ex-União Soviética. ao estabelecercm a lei da extinção do Estado. Enquanto. além disso. porém. que isto envolveria um processo histórico demorado. e a reação popular ensejada pela abertura política foi tamanha que a própria União Soviética soçobrou. mas não ao comunismo. Ora. todavia. ressaltaram. imaginar! Não se pode. longe do estágio de um capitalismo avançado. A celebérrima ditadura do proletariado não se tornou uma ditadura do proletariado. cm guerra com o Império Austro-Húngaro ou Alemanha. por intermédio da dita­ dura do proletariado marxista. mediante uma revolução violenta. até a consolidação mundial do comunismo. Entretanto. sem­ pre. o Estado leninista acabou para sem­ pre. submetido a uma casta parasitária . Sim. Desaparecidas as classes sociais.

Turim. entretanto. São Paulo. Max. Neste sentido. Madrid. Utet. “Sindicalismo”. sob a égide do regime comunista. é fácil depreender que por anarquis­ mo entende-se toda doutrina que afirme ser o poder político. permanece íntegro. n o m a d gaard . prossegue. 1985. b o b b io . não um objetivo cumprido e elaborado em definitivo. FGV/ rama M EC. embora ainda utópico. 4) ANARQUISMO E SINDICALISMO Bibliografia: d a l l a r i. b a k u n in . é impossível dar uma definição precisa do anarquismo. nômica. Norberto e m a t t e u c c i . Rio de Janeiro. Los sistemas sociales contemporâneos. “Anarquismo latino-americano”. v. México. Siglo X X I. sempre foi associada a ideia de uma sociedade livre de toda sujeição política autoritária. “Anarquismo”. pelo menos só com a ruína do Estado soviético. 1930. Mulford Q. 1. im­ postas por uma classe dominante. touchard Georges. Rio de Janeiro. Rio dc Janeiro. Como assinala Gian M a­ rio Bravo. dominação do homem sobre seus semelhantes. 1968. Nicola. Lisboa. num contexto sociopolítico no qual to­ dos seriam. Dalmo dc Abreu. Ao vocábulo anarquis­ mo. de Norberto Bobbio e Nicola Matteucci. 1976. na qual o homem afirmar-se-ia. FGV/MEC. Edmundo.. Marins. in Dicionário de ciên­ k e g in i. em razão de sua própria atividade. em verbete no Dicionário de política. mesmo porque Marx destacava sua doutrina das demais doutrinas antiestatais por considerá-la a . in Dic­ cionario de política. . Historia de Ia teoria política. Publicações Europa/América. 1971. Carlos M . . entretanto. 1907. História das idéias políticas. 1986. Mikhail. o vocábulo anarquismo deriva do grego a = negação + arche = governo. inexistência. Estatismo y anarquia. Seja como for.8 Ideologias 203 classes. desenvolvida livremente. isto é. o marxismo como uma espécie de anarquismo. Jean. Germinal. Fratelli Bocca. Elementos de teoria geral do Estado. 1976. . Rio de Janeiro. dirigido por Norberto Bobbio. Cieorge H. Não se deve ca­ talogar. v. porque o ideal a que se refe­ re o termo jamais sc consolida. Madrid. . 7. z o c c o l i. oster- M adrid. distor­ cidos pelo leninismo. in Dicionário de ciências sociais. Jasón. Ettore. 1981. I 'anarquia. 1986. 1963. o próprio marxis­ mo antevê uma sociedade futura desprovida de normas coercitivas de conduta. in Dicionário de ciências sociais. ainda não foram totalmente desmentidos. Fundo de Cultura. Júcar. . “Sindicalismo”. 1986. Daniel. s a b in e . 7. G. representando. 2. desnecessidade ou repúdio a qualquer forma de governo. cias sociais. Scritti politici. e sim uma aspiração permanente. a organização social e a autoridade religiosa perfeitamente dispensáveis. sorel. N. sempre. Heréticos da política. Etimologicamente. Rio de Janeiro. Fondo de Cultura Eco­ s ib l e y . 1985. Turim. Siglo X X I. 1976. ed. g o n z a l e s -b l a n c o g u é r in Saraiva. igualmente. Diccionario dc política. FGV/MEC. v. livres. Anarquismo. porque seus postulados. Madrid.

a liberta­ ção de todo poder superior. não sendo difícil perceber. corrente de pensamento que teve em Diógenes um de seus expoentes. na Enciclo­ pédia Anarquista: “o anarquismo se resume a uma só palavra: LIBERDADE”. Por outro lado. “teoria que se opõe a qualquer tipo de governo forçado” (Bertrand Russel). por volta de 1920. porém. o anarquismo pode ser definido como descrença da necessidade da sociedade constituída” (E. notoriamente. Mulford Q. aspirando a uma fraterni­ dade universal e à condenação da luta pelo poder. b) repulsa ao Estado. que.204 Teoria Geral do Estado única verdadeiramente científica. Sua primeira manifestação pode ser encontrada na an­ tiga Grécia.C. ideológica. o anarquismo vem a ser um ideal que propugna. com a aspiração a um Estado mundial governado pela Igre­ ja Católica. uma dicotomia inicial quanto às espécies de anarquismo: a) anarquismo ro­ mântico. não deixou de apresentar simpatia pela afirmação de uma igualdade essencial entre os homens. que sustenta dever a pro­ priedade ser administrada por grupos voluntários. como veremos. “doutrina segundo a qual todos os negócios dos homens devem ser conduzidos pe­ los indivíduos ou por associações voluntárias. Afirmavam os cínicos que o homem deve viver de acordo com a natureza. não a aceita. não sobre os outros homens”. então. não existe um anarquismo apenas. Também os estoicos (vida espontânea. com repúdio à coopera­ ção forçada. em sua feição original. conforme a natureza) e os epicuristas (exaltação do prazer individual e consequentemente recusa das imposições sociais) foram correntes antecessoras do moderno anarquismo. havendo um anarquismo individualista. não a agride. Tucker). Talvez por isto Sébastien Faure anotou. mais os assemelharia aos cães. Diz ele: “Deus concedeu aos homens o domínio sobre os irracionais. no qual o homem seria realmente livre. O anarquismo romântico é aquele que se vol­ ta para a vida contemplativa. O cristianismo. Referido autor compilou suges­ tivas conceituações do anarquismo. R. mostrando-se indiferente à organização social. defensor intransigente da propriedade privada das coisas materiais. V. no século V a. b) anarquismo pragmático. Santo Agostinho em sua obra A cidade de Deus afirma a ilegitimidade de todo poder de um homem sobre o outro. assim: “etiologicamente. e um anarquismo comunista. política. Zenker). Enfim. em grego. sem a preocupação de obter bens terrenos. estes cínicos. com os cínicos. os hip­ pies da época. coercitiva. respeitar con­ venções ou submeter-se às leis e convenções sociais. não aceitando os cínicos em seu estranho modo de vida. social ou econômica. porque convertido ao cristia­ . desde logo. e o Estado deve ser abolido” (B. socialismo científico. mas vários. As origens históricas do anarquismo (ou anarquismos) exigem. em sua des­ crição. pois a sociedade. Seriam. significa cão.. a raiz da palavra cínico: ela deriva de cinos. c) divergencia quanto à aceitação da propriedade indivi­ dual. Sibley destaca algumas características comuns aos anarquismos: a) cooperação voluntária e ajuda mútua na vida do homem. Na esteira do pensamento de Santo Agostinho vêm Isidoro de Sevilha e Dante Alighieri. seja qual for sua natureza. principal obstáculo à realização indi­ vidual plena do homem. nominando-a.

também francês. dela restou uma frase célebre: “A propriedade é um roubo!”. na Primeira Internacional. não se restringindo a refrear sua antipatia ao campo verbal. Por defender os direitos de uma classe média. consubstanciado nas sentenças: “Dar a Cé­ sar o que e de César e a Deus o que é de Deus” e “Todo o poder vem de Deus”. inevitáveis na carreira de um homem de ação. Advogava. um tanto esquecida. Após muitas vicissitudes. Iniciado na car­ reira militar. no segundo. Proudhon foi o primeiro teó­ rico a autodenominar-se anarquista . o cristianismo anárquico original vai perdendo sua pureza doutrinária já com a afirmação de São Paulo. Proudhon preconiza­ va a organização de estabelecimentos de crédito populares. que não era sua. na França. não tardaria. incensando. Quanto a Mikahil Bakunin. desorganização . a afirmação libertária e a negação do Estado e. condena as tendências anarquistas do cristianismo primitivo e afirma o dever cris­ tão de obediência à autoridade terrena. mediante a divisão da França em doze regiões independentes. preconizava um federalismo singular. desor­ dem. Ferrenho adversário do Estado. dedicando-se ao estudo da filosofia na Alemanha. o que não significaria. Brissot de Warville. e Piotr Kropotkin (1842-1921). em 1868. pro­ vinha da aristocracia russa. colocando um hífen entre os semantemas an e arquista . que concederia crédi­ tos gratuitos a todos aqueles que desejassem tornar-se produtores. a tutela dos interesses dos pequenos produtores. Muitos séculos mais tarde encontraremos. forma­ da por trabalhadores independentes. a dissentir da orien­ tação dada por Marx ao movimento revolucionário. com efeito. hoje. aplicado aos seus seguido­ res. logo a abandonou. contudo. Logo simpatizou com a doutrina dc Proudhon e a dc Marx. ingressou. na Bélgica c na Suíça. Embora a obra de Proudhon esteja. Dotado de temperamento violento.1-7). que. que desejassem plena autonom ia cm sua atividade. com seus partidários. tudo isto matizado ainda mais pelo nacionalismo eslavo. as concepções vigorosas dos anarquistas Pierre-Joseph Proudhon (1809-1865). an-arquista. a concepção materialista da História e a ditadura do proletariado. Mikhail Bakunin (1814-1876). mediante sociedades dc crédito mútuo. mas de um girondino. halbúrdia. Adversário do capitalismo. em 1872. controlada por Marx. é nesta época que surge o adjetivo anarquista. no primeiro. de ancestrais czaristas e latifundiários. que ele rebatizou com o nome de ditadura invisível. embora um dos expoentes do anarquismo.8 Ideologias 205 nismo. e pressionada tanto pela alta finança como pelos operários revolucionários de nível mais baixo. à parte as velhas utopias dc Thomas Morus e Tommaso Campanella. pendor que demonstrou no auge da cisão anarquis­ . foi considerado como invo­ luntário precursor do fascismo. Cunhado pelo próprio Bakunin. procurando firmar bem que o ideal a que ele aspirava seria o de uma vida comunitária sem governo. na Epístola aos Romanos (13. Entretanto. da qual foi expulso. em busca de independência econômica. cm princípio. como visto. Daí o apoio às suas ideias proporcionado por profissionais de nível superior e al­ tamente qualificados.

Ao longo de suas obras. por conseqüência. cada qual não recusaria. e contra o Estado e o capitalis­ mo. e desde que educado nos princípios sadios do anarquismo. Estudante na Universidade de São Petersburgo. até que seja efetuada a completa unificação internacional. em sua profunda erudição. especialmente A conquista do pão e Me­ mórias de um revolucionário. ficará. ao agredir com bengaladas. em prol do bem de todos. mas uma denúncia permanente contra as injustiças sociais. que cultivava a geografia e a zoologia. sem fama. dinheiro. então: A destruição do Estado permitirá o surgimento de relações sociais livres. naturalmente honesto. Kro­ potkin era um verdadeiro intelectual. Seu anarquismo não visa. a mera encampação dos meios de produção pelo Estado e a organização de uma ditadura do proletariado. Afirmava que qualquer meio é válido para a defesa de uma boa causa.206 Teoria Geral do Estado tas/marxistas. defendendo. não ficou impressionado ou estarrecido com as concepções de um Proudhon. Ao contrário de Bakunin. por outro lado. na obra Ajuda mútua. por isso devemos acres­ . o auxílio mútuo entre as pessoas seria um fator natural da evolução. a abolição imediata do Estado e. mesmo nos tempos pré-históricos. em âmbito cada vez mais amplo. na sociedade humana. Quem. mais do que a luta pela vida. Piotr ou Pedro Kropotkin também era des­ cendente da nobreza russa. e que. muito menos. desenhada por Marx. durante seis anos. 110 mínimo. Kropotkin não foi um revolucionário 110 sen­ tido estrito do termo. com a subsequente im­ plantação dc um coletivismo representado pela tomada violenta dos meios de pro­ dução pelos trabalhadores. ele idealiza um permanente estado de alerta da so­ ciedade contra a exploração do homem pelo homem. funda­ das na solidariedade inata do homem e na celebração de contratos espontâneos e as­ sociações voluntárias. alarma­ do com as ideias de Sergei Netchaiev (1847-1882). dedicar-se. Blanqui e Bakunin. já se vê. Desesperados. fun­ dada pelo príncipe Rurik. Porque para ele o ho­ mem é bom. que o havia acusado de pertencer à polícia secreta da Rússia czarista. livre de explorações e de injustiças. embora curtindo a desdita do cárcere comum aos agitadores. Afirmava Bakunin. de um Bakunin ou de um Kropotkin. ao contrário daquilo que fora previsto por Marx. Com tal concepção. não foi difícil para Bakunin ar­ regimentar toda sorte de intelectuais e profissionais frustrados da classe média. segundo se afirmou. A nova sociedade ensejará o aparecimento de associações natu­ rais. de cor­ po e alma. ao trabalho comunitário. ou seja. Bakunin advogava a imediata supressão do Estado. logo tornou-se adepto de Babeuf. mais precisamente da primeira dinastia da Rússia. Admirador sincero de Bakunin. eles viam na abolição imediata e radical do Estado uma solução muito mais promissora do que aquela da desaparição gradual do Estado. a tese de que. o próprio Marx. oriundo da Escandinávia. não deixava de ser um sonhador. do poder. sem trabalho e. até agora.

É preciso entrar na posse de todos os seus segredos. de modo que não lhes sobre nenhum caminho para fu­ gir c usá-los como instrumentos dc perturbação da ordem do país. É impiedoso cm relação ao Esta­ do c a todo o sistema das classes privilegiadas. tudo seria válido para este enfant terrible do anarquismo. Eles devem ser continuamen­ te impelidos para diante.. entre inúme­ ras façanhas. comprometê-los ao máximo. tudo o que o impede é contrário à ética e criminoso. 5. será somente com o propósito de destruí-lo com mais certeza. pessoalmente. Despreza e odeia a moral dos dias de hoje com todas as suas motivações e manifestações. não deve esperar compai­ xão. e deve treinar para suportar torturas. pois com eles pode-se conspirar nos termos dos seus próprios programas. A quarta categoria consiste nas autoridades ambiciosas e liberais de vários matizes. e do qual extraímos estes excertos.. não apenas em palavras mas em atos. por sua vez. nem sequer um nome. Ele não tem interesses pessoais. propriedade. assassinou. é o famoso Catecismo do revolucionário. o revolucio­ nário não tem qualquer ligação com a ordem social e com o mundo civilizado. como a de escapar da inexpugnável fortaleza dc São Pedro e São Pau­ lo. com as leis. Tudo nele é absor­ vido por um exclusivo interesse. De­ ve-se convencê-los de que são obedecidos cegamente. Se tiver que continuar a viver nele. A quinta categoria . ne­ gócios.teóricos (refere-se aos adversários dc Bakunin dentro do campo revolucionário). O revolucionário é um homem condenado. Em nome dos princípios anarquistas revolucio­ nários. Para ele o que quer que ajude o triunfo da revolução 6 ético. 20.que pode ser travada secretamente ou abertamente. Ele despreza a opinião pública. originalmente transcritos por Max Nomad em sua obra Heréticos da política: 1. que expõem suas ideias pe­ rante grupos ou pelos jornais. 19. Deve estar pronto para morrer a qualquer momento. No mais íntimo do seu ser. que. 4. 2. De sua autoria. Entre ele. um só pensamento. instados a fazer declarações práticas subversivas. conspiradores. cujo resul­ . O revolucionário é um homem condenado. onde cstivera preso. sentimentos. aparências e convenções ou moralismos geralmente aceitos neste mundo que para ele é um inimigo impiedoso. o Estado e as classes dominantes há uma guerra contínua c irreconciliável . uma só paixão .8 Ideologias 207 centar à sua lista de mestres o notório Nicolau Maquiavel. que já dissera. dedicações. Todo o ignóbil sistema social deve ser dividido em várias categorias. mas ao mesmo tempo não se deve permitir que escapem mais. revolucionários. 15. certamente. séculos antes: “O fim justifica os meios” . uma camarada que se recusara a obedecê-lo incondicionalmente. mas que são pouco ativos. que alguns atribuem indevidamente ao próprio Bakunin.a revolução.

da jurisdicidade. É no estudo do anarquismo clássico que perceberemos a imprescindibilidade das normas sociais de conduta. de a. grupos de imigrantes italianos e espanhóis formaram grupos anarquistas que realizaram uma vasta greve operária no ano de 1917. vale dizer. império da de­ sordem. ou “um estado da sociedade em que a indústria será controlada pelos que nela trabalham. direta ou indiretamente. O que o anarquismo . devemos antes de tudo ligar-nos àqueles elementos das massas que. como o sindicalismo revolucionário e o sindicalismo reformista. Em Chicago. na ver­ dade. onde houver sociedade haverá direito. a vida em sociedade por normas espontaneamente cumpridas. oriunda da Revolução Industrial. segundo o qual os sindicatos operários devem ser a base da administração social e industrial numa sociedade socialista. das quais poderiam ser apontadas duas: “ação coletiva para proteger c me­ lhorar o próprio nível de vida por parte dos indivíduos que vendem sua força de trabalho” (Allen). inexistência degoverno. então. b) ação mi­ litante por parte dos sindicatos operários. na base de sociedades livres. Ubi societas ibi jus. enfim. trata-se de uma corrente ideológico-pragmática. Ostergaard. 25. não de normas sociais. da coercibilidade. jamais cessaram dc protestar não só com palavras. isto é. o clero.sugere é. respectivamente). afirmava Aristóteles. desde a fundação do poder estatal dc Moscou.208 Teoria Geral do Estado tado seria a completa destruição da maioria e o verdadeiro treinamento revolucionário de apenas alguns. Anarquismo não significa confusão. É justamente nisto que reside o ponto original do anarquismo: a inexistên­ cia de poder coercitivo. sem necessidade de um órgão que as faça cumprir pela força. esses devem cooperar da . Portanto. para nos aproximarmos cada vez mais do povo. N. Estendamos as mãos à raça audaciosa dos bandidos . embora as normas sociais continuem existindo. mas também com fa­ tos contra tudo o que. segundo os anar­ quistas. embora possa não haver o poder. realizaram inúmeras greves e. a burocracia. o anarquismo foi perdendo adeptos. mediante um consenso social. nos EUA. despoja­ das. e arkos. No que tange ao sindicalismo. negação. Desmembremos o vocábulo anarquia. as guildas (significando os comerciantes e capitalistas em geral) e contra o parasitismo dos kulaks. governo. ainda no final do século X IX . este. no Brasil. moderado. da Itália.os únicos genuínos revolucionários da Rússia. mas. bem como do rei Humberto I. em São Paulo e Rio de Janeiro. o termo sindicalismo pode ser empregado em dois sentidos: a) doutrina ou movimento social. após a qual começou o declínio do movimento também em todo o País. Confor­ me G. seu canto de cisne foi a prática de tremendos atentados terroristas: aos seguidores de Bakunin se atribuem os assassínios dos pre­ sidentes McKinley e Carnot (dos EUA e da França. Existem inúmeras definições dc sindica­ lismo. ele c grego.embora no mundo das utopias . Apelando sempre mais para a violência. estivesse ligado ao Estado: contra a no­ breza. e que apresenta inúmeras variantes.

originando uma variante nova do movimento operário. porém.diz ele . organização de imagens que levam ao combate e à batalha. somente podendo ser admitidos a seus quadros operários ou pequenos artesãos. pa­ rece encontrar sua paternidade em Ferdinand Pelloutier (1867-1901). profunda hostilidade contra o intelectualismo. porém. na concepção soreliana? Mito . O mundo res­ sente-se da falta de mitos. Uma socie­ dade na qual os parlamentos e governos terão desaparecido. a partir dc 1892. Não se pretende. uma elite.é o conjunto ligado por imagens motoras. fundada nos mitos revolucionários e na violência passiva da greve geral. Engenheiro dc profissão. embora atribuída por muitos a Georges Sorel (1846-1922). agora detentora dc todos os meios de produção. fundado no princípio dc que o próprio sindicato seria o instrumento dc luta re­ volucionária. sua variante mais original. desejando ressaltar seu caráter antiestatal c descentralizador. Após a Primeira Grande Guer­ ra. fazer neste manual introdutório um estudo mais alentado do sindicalismo in genere. aos problemas so­ ciais. Curiosamente. o inspirador do fascismo. Interessa-nos. Henri Bcrgson e Karl Marx. esta organização evidenciaria. Existe. de imedia­ to. Embora seja autor dc inúmeras obras c tenha dirigido várias publi­ cações de caráter político. tendo realizado seu propósito para com o sistema capitalista'’ (Mann). Desejoso dc consolidar uma nova ideologia que estabelecesse uma pon­ te entre a revolução e o meio operário. Pelloutier enveredou pelo anarquismo.8 Ideologias 209 maneira mais eficiente na produção de todas as necessidades da vida. sem dúvida. o sindicalismo revolucionário. um mito. comandada por uma fe­ deração universal de sindicatos operários. o próprio Sorel admite que tal movimento não terá condições de se impor. hipótese de resto confirmada pelo próprio Sorel. mas servirá para arrancar as massas trabalhadoras de seu marasmo! Tal movimen­ to é. enfim. al­ guma originalidade no pensamento soreliano. Marxista de início. entretanto. alguns sindicalistas bandearam para as fileiras do anarquismo. de índole meramente cooperativa. e organizadora de uma comunidade sem a carapaça estatal. O que vem a ser mito. o mito da greve gerai No dizer de Sorel. Tal doutrina. criou o próprio sindicalismo revolucioná­ rio. batizaram-no com o nome de anarcossindicalismo. que. Sorel dedicou-se. recebendo influências doutrinárias dc Pierre-Joseph Proudhon. Curiosa­ mente. caracterizando esta luta a ação direta e a greve geral. seu criador granjeou grande parte de sua fama por ter sido cultuado e invocado na praxis política de um notó­ rio adepto da violência: Benito Mussolini. teria início a reconstrução social. neste capítulo. continua. Tais ideias seriam robustecidas pela doutrina de Georges Sorel. Vitorioso o movimento sindicalista. igualdade . do qual se desiludiu em face dos métodos terroristas atribuídos a esta doutrina. assim. Sorel tornou-se conhecido principalmente pela obra Re­ flexões sobre a violência. a greve geral seria o mito do futuro. Os mitos do liberalismo (liberdade. na qual prega a revolução proletária mediante a atuação violenta de uma facção operária mais hábil e inteligente.

Já se percebe que várias premissas podem ser pinçadas no cerrado pensamen­ to de Sorel: a ação direta em oposição aos meios parlamentares da luta pelo poder. um elemento fundamental. Fundamentalmente. comparando. e trouxesse ao conjunto das ideologias revolucio­ nárias uma precisão e um rigor não contidos em outras formas de pensar. Ao lado de Sorel. encontraremos influência de Flegel. tal panorama poderia constituir. a influência de Sorel na Itália foi ainda maior. mesmo que os revolucionários se equivocassem totalmente ao criar um panorama fantástico da greve geral. Sorel viria a ser o profeta do sindicalismo revolucionário. pois. e vão atuar dentro das únicas organizações adaptadas à sua sensibi­ lidade: os sindicatos. o sindicalismo soreliano exige a abolição do capitalismo e do Estado e a nova estruturação da sociedade em associação produtora. portanto. o determinismo dialético marxista. Se a influência do sindicalismo foi considerável na França. Ele recusa. As massas agem por intuição. efetivamente. dentro de sua experiên­ cia histórica. como o predomínio das elites. é o mito em conjunto: suas partes so­ mente oferecem interesse pelo relevo que dão à ideia contida nessa construção. todas as aspirações do socialismo. a necessidade da violência e a organização corporativa do Estado. qual­ quer discussão a respeito de como aplicá-los materialmente no transcurso da História carece de sentido. sociólogos ou pessoas propensas à ciência prática. ser o marxismo uma “ciência exata”. Paradoxalmente. Em Reflexões sobre a violên­ cia. deixar de lado to­ das as formas de discussão comuns entre políticos. Só a inter­ venção “violenta” de uma fração esclarecida da classe operária . Distingue. de Marx. em nome de uma intervenção meramente voluntária das massas. Para apreen­ der o verdadeiro alcance da ideia de greve geral é preciso. ademais. sendo certo que o fascismo adotou várias posições sorelianas. bem como sobre os conflitos decisivos que venham a dar a vitória ao proletariado.os sindicalistas . de Bergson e de Proudhon. exemplificando com o socialismo utópi­ co e o socialismo científico. a revolução operária somente será realizada mediante a violência. portanto. a democracia parlamentar à bolsa de valores. a influência dc Sorel sobre Lenin não foi menor. como foi dito. mito e utopia. inadaptável à sensibilidade das massas e aos instintos destas. em face das cisões ocorridas nos movimentos socialistas deste país.210 Teoria Geral do Estado e progresso) devem ser substituídos pelos mitos revolucionários. O que importa. durante a prepa­ ração da revolução. É inú­ til. raciocinar a respeito de incidentes que se possam produzir no curso da guerra social. que critica­ va. em Marx. sempre que admitisse. este apoiado em mitos. Sorel esclarece: É necessário considerar os mitos como meios de atuar sobre o presente. a organização sindical da sociedade e a rejeição do determinismo de Marx. integralmente. com desprezo. merece destaque o marxista Antonio Labriola (1843-1904). onde o que conta é o di­ nheiro. Em Sorel. bem como dos anarquistas pragmáticos.

ressaltando. também. Espasa-Calpe. Aguilar. Ar i s t ó t e l e s . o terrorismo: tudo é lícito para prejudicar o empregador capitalista. para este fim. pecando pelo radicalismo. vendo nesta não um ser autônomo.. O sindicalismo revolucionário exige a abolição do capitalismo do Estado. platão. Traitc dc morale. Ismael S. Presses Universitaires de Bruxelles. inegável. mas apenas a soma . deve. Gregorio R. Os sindicatos subs­ tituiriam o Estado. mediante a greve geral. que o homem faz parte da sociedade visando a satis­ fação de seu interesse em aprimorar-se. 1967. à gui­ sa dc correção dos desajustes trazidos pelo excessivo individualismo. 2. Por outro lado. os sindicalis­ tas buscam atribuir tais funções aos sindicatos de produtores. Madrid. Aristóte­ les (Vicia. O objetivo social. a finalidade para a qual foi criada a sociedade. cada qual dirigindo seus sindicalizados enquanto produtores. ed. 1982. La república. 1962. reorganizando a sociedade em associações de produtores. e o interesse particular? Muitos. 5) MECANIC1SM0 E 0RGANIC1SM0 Bibliografia: La política. Embora jamais tenha sido muito clara a doutrina sindicalista no tocante à na­ tureza da estrutura social que substituirá o Estado. a greve geral abolirá o Estado.poderá. os sindicalistas não fazem alusões quanto à capacidade das massas para o autogoverno. y u r r e . porem aperfeiçoá-las. dupréel. 3. Substituindo o Estado na condição de proprietário e de administrador dos meios de produção. a sabotagem. Aguilar. Enquanto a greve parcial não passa dc um meio de agitação e de organização local. negam a própria socieda­ de. e a sociedade passará a ser gerida pelos sindi­ catos dc produtores. foi imenso o fascínio exercido por seus exponentes em todo o mundo. O grande pu­ blicista León Duguit demonstrou certa simpatia por algumas premissas do sindica­ lismo. tirar as massas de seu eterno tor­ por.8 Ideologias 211 revolucionários . q u il e s . Há semelhança entre o sindicalismo revolucionário e o anarquismo no tocan­ te à adoção da ação direta para a destruição do Estado: ambos admitem a greve. o papel dos sindicatos e de outros grupos sociais. Madrid. 1963. estar acima dos objetivos particulares dos indivíduos que a integram. representado pela sociedade. Totalitarismo y egolatría. I. v. 1979 (Obras completas). escritos y doctrina). dotado de fins próprios. Como encon­ trar o ponto de equilíbrio entre o interesse coletivo. material ou espiritualmente. de. Bruxelles. eviden­ temente. que busca não destruir as estruturas sociais. Por outro lado. mais moderado. Eugè- ne. Madrid. Madrid. Espasa-Calpe. Ao lado do sindicalismo revolucionário fala-se num sindicalismo reformista.

que o organicismo e a supervalorização do Estado chegaram ao seu grau máximo. Veem as árvores. representado pela filosofia iluminista do século XVIII. suas instituições e seus costu­ mes são inconfundíveis com as demais. Tal pensamento não ficou circunscrito à Ale­ manha. A sociedade ou Estado . Com efeito. Foi na Alemanha. como ocorre nas associações mercantis. muitos intelectuais ligados ao romantismo foram. criadoras de uma nova visão do mundo. para um futuro dirigido pelo determinismo dialético. Sua obra. pelo anarquismo. O ro­ mantismo. sinceros admiradores dos princípios individualistas que embasaram a Revolução Francesa. Como lembra Gregorio R.não é um simples agregado de seres humanos voltado para a satisfação de fins estritamente materiais. o im­ pulso vital da sociedade. como reação ao absolutismo monárquico ain­ da imperante na França. denota de imediato uma tendência organicista. denominado Século das Luzes. enaltecedora da sociedade. A norma fundamental deste individualismo seria a opinião individual. Diga-se o mesmo do individualismo proveniente do liberalis­ mo da Revolução Francesa. visto que esta não passaria de mera soma dos indivíduos. É o caso do individualismo extremado. Veio representada pelo romantismo organicista. sugestivamente. os ex­ cessos que este movimento tremendo produziu acabaram por minar a admiração pelo iluminismo. O romântico afirma que toda nação é um organismo que possui um modo próprio de vida. É muito mais do que isso: é uma comunidade mística. representado. temporal. o iluminismo proclamou a supre­ macia da razão individual sobre todo e qualquer princípio ou instituição fundados em fatores superiores ao indivíduo. de Yurre.212 Teoria Geral do Estado dos indivíduos que a integram. pois mesmo 11a liberal Inglaterra. ao enaltecer a razão triun­ fante sobre as trevas da Idade Média. a nação como um todo. que nega o próprio poder político. também. que se expressa prin­ cipalmente nas célebres Reflexões sobre a Revolução Francesa. A reação não tardaria. Destacam-se figuras do porte de Novalis (1772-1801). que foi. O móvel da ação individual do homem rebelde entronizado por esta ideologia seria. logo tornaram-se uma avalancha de objeções. a emancipação do indivíduo perante suas alienações políticas e religiosas. Schlegel muda bruscamen­ te seu pensamento a partir de 1804. regida pelos critérios utilitaristas do máximo prazer. Schlegel (1772-1829).ele não distingue . que encon­ trou seu epicentro na Alemanha derrotada por Napoleão. em oposição ao racionalismo e o universalismo da Revolução. refratária a uma França liberal. As primeiras críticas. Edmund Burke (1729-1797) mostrou-se um crítico implacável do pensamento revolucionário. revolucionária e. portanto. Embora partidário da Revolução em sua juventude. suspeita. O próprio marxismo enquadra-se cm tal concepção mecanicista do convívio humano ao preconizar. de início. reconhe­ ce o todo nacional. Passa a considerar a sociedade e o Estado or­ . Adam Müller (1779-1829). porém. messianicamente. particularmente. tímidas. devendo cada homem ter a mais ampla esfera de au­ tonomia de conduta. por intermédio da qual os indivíduos recebem a vida espiritual e o bem-estar. Porém. Johan Gottlieb Fichte (1762-1814) e Georg Wilhelm Friedrich Hegel (1770-1831). mas negam a floresta.

que se torna indefinível. por si mesmo. pelo contrário. como manifestação da vida espiritual. classes e corporações. A economia planificada deve fechar as portas do Estado ao comércio exterior. para os organismos sociais. especialmente 110 que toca à apologia do . O Es­ tado é um organismo do qual depende a vida humana em sua totalidade. com seus costumes e tradições. Para ele. pois que esta é uma concessão do Estado. desfavoravelmen­ te. resultantes da evolução histórica. a origem da guerra reside na desigualdade econômica entre os Estados. Para Fichte. até que se obtenha o equi­ líbrio entre a produção e o consumo. Daí sua aversão pelas tendências mecanicistas e individualistas da Revolução. Quanto a Fichte. O Es­ tado é um organismo vivo. e os seres humanos são apenas células que participam dessa vida. e na tendên­ cia de cada qual buscar sua hegemonia entre os demais. por sua vez. A estabilização da moeda é também um pon­ to programático de relevo. A preservação desta estru­ tura é pressuposto inafastável de qualquer Constituição. mostrando-se uma reação às tendências liberais do seu tempo e à divisão da Alemanha em Estados independentes. plasma-se a es­ trutura orgânica da nação. Para que a importância de sua contribuição para as ideias políticas seja aferida de pronto. ao publicar sua obra O Estado comer­ cial fechado. Evidente­ mente. pois a oscilação da moeda repercute. No decurso dos séculos. O comércio exterior ense­ ja a concorrência. o que a alma e a natureza exterior significam para os organismos biológicos. ficando as viagens ao exterior circunscritas às necessidades de es­ tudo e ciência. Não há direito anterior ou superior ao do direito imposto pelo Estado. Sua influência sobre o fascismo italiano foi admirável. é inimaginável a existência do homem apar­ tado do Estado ou anteriormente a este. é o Estado que cria o indivíduo. O Estado controlará severamente a saída de seus súditos para o exterior. O indivíduo não cria o Estado. na economia nacional. basta lembrar que seu pensamento constituiu a base de correntes opostas como o fascismo e o marxismo. Hegel. unicamente. significa. personali­ dade. Finalmente. até que seja alcançado o estado de autarquia. Os ideais de Hegel eram pro­ fundamente anti-individualistas. a vida econômica deve estar rigidamente controlada pelo Estado. Se o indivíduo não tem.8 Ideologias 213 ganismos vivos. pois toda definição implica limitar o definido. a guerra. com suas famílias. é lógico que ele não pode arguir direitos contra o Estado. impedindo que eles deixem o país. até mes­ mo a ciência é parte do Estado. e esta. que arrasou as estruturas orgânicas do Estado e reduziu a nação a um agregado inorgânico de átomos. O livro é eminentemen­ te anti-individualista. nega que o indivíduo seja anterior ao Estado. Adam Müller. a iniciativa e a liberdade individual não constituem o funda­ mento da vida social. como afirmava o pensamento liberal. da mesma ma­ neira que as células se desenvolvem no organismo vivo. O Estado autárquico será rigidamente planificado. A História. com o fim de lazer ou curiosidade. o Estado é fonte de todo o direito. lança as bases do futuro nacional-socialismo. O Estado é algo tão grandioso e abran­ gente.

até chegarmos aos dois maiores totalitarismos do século X X : o fascismo.f. o organicismo radical (totalitarismo) vê a floresta. tou . glorificador da sociedade em detrimento do indivíduo. esta exótica tendência. 1940. Barcelona. antecipando muitas premissas do totalitarismo contemporâneo. não as árvores. o todo prevalecendo. e o nacional-socialismo reduz o Estado à ca­ tegoria de meio e instrumento em mãos do Führer e de seu partido. Na linha do pensamento organicista. Adolf. tem apenas deveres para com o Pastado. 11a Alemanha.. Jean.]” (Livro Primei­ ro. que formam a pedra angular da estrutura política. naquela concepção. Filósofos do porte de Platão e Aristóteles deixa­ ram-se empolgar pela suposta natureza totalitária do Estado.com agudeza. Lisboa. Aristóteles. Lisboa. 7. r ta. . as diferenças essenciais entre o pensamento hegeliano e o nacional-socialista: a) o elemento básico da filosofia hcgcliana c a ideia (idealismo): o mundo é uma revelação da ideia. aqui.. Astcr. - Rubén Salazar. Curiosamente. de maneira absoluta. anterior à família e a cada um dc nós conside­ rados individualmente. El Estado corporativo fascista. sur­ gem prematuramente na História. 1977. incensando a prevalência absoluta do Estado sobre o indivíduo. b) Hegel constrói sua teoria sobre a supremacia do Estado. Mcxico. 2. e o nacional-socialismo. dc Yurrc aponta. intitulada Política: “ [. por natureza.. desenvolver-se-ia um inadmissível organicismo radical. Roger. Globo. El derecho y el estado en la d octrina nacional-socialish i t i . ed. 1976. . não deixou de assimilar. Mussolini. Publicações Europa/América. o espírito de seu tempo. Gregorio R. 1963. É necessário que o todo anteceda a parte [. O elemento bási­ co da Weltanschauung nacional-socialista é a raça (racismo). tido como a criação mais perfeita do homem. Ao contrário do mecanicismo anarquista. Porto Alegre. . 1950. por exemplo.214 Teoria Geral do Estado Estado. História das idéias políticas. portanto. Minha luta .. que. Permitir-nos-emos fazer referência. na Itália.. Os perigos do organicismo radical. sobre as partes. mesmo porque esta ideo­ logia totalitária não via 110 Estado o fundamento da sociedade. Capítulo II). a influência de Hegel sobre o nacional-socialismo não foi das maiores. deixando fluir. Gcorge. Bosch.] a cidade (Estado) e. roux . Facultad dc Ciências y Políticas chard Sociales. mas sim na nação (Volk). 6) TOTALITARISMO: FASCISMO E NACIONAL-SOCIALISMO Bibliografia: mallén bonnard . a algumas passagens da obra capital de Aristóteles. v. de certa forma. em al­ gumas passagens de sua obra.

Não foi por acaso. se o número de nascimen­ tos se mostrar excessivo. tendo sido criado pelo próprio Mussolini. certamente. os germes do totalitarismo moderno. “Como a finalidade do Estado é uma só. A palavra totalitarismo refere-se a uma concepção política que sc mostra cm franca oposição à doutrina do cidadão abstrato. “No que toca à exposição e criação dos infantes. é necessário atentar para a disciplina das uniões conjugais. é necessário promulgar uma lei que proíba a sobrevivência dos seres disformes. É fácil para o legislador assegurar isto. Tais indícios revelam. será praticado o aborto. Capítulo I).. levar-se-á cm conta a ausência ou presença de sensação e vida” (Livro Sétimo... em discurso célebre proferido no dia 22 de junho de 1925. já que cada um é parte deste” (Livro Oitavo. desde logo. Por outro lado. Em outras passagens da Política. no qual honrarão as divindades protetoras do bom parto” (Livro Sétimo.. Capítulo XVI). à saciedade. o termo totalitarismo é relativamente recente.8 Ideologias 215 “As questões de interesse público devem estar sujeitas a uma supervisão pública. “ [. dc que forma as crianças terão uma constituição física perfeita. pois todos per­ tencem ao Estado.] as mulheres grávidas devem cuidar de seu corpo. Entretanto. e que ela esteja a cargo do Estado e não dos particulares (Livro Sétimo. antes que apareçam a vida c a sensibilidade do embrião. precedeu o verbo.) ” (Li­ vro Sétimo. já se vê. criada pelo liberalismo. “ [. c para que tal prática possa ser considerada respeitável ou desprezível. Aristóteles revela xenofobia. ao mesmo tempo. do homem soberano. Enquanto este se fundamentava na plena autonomia individual. e se a tradição proibir a exposição do recém-nascido.. ci­ tando Eurípedes. bárbaro e escravo são a mesma coi­ sa [. ao colocar. ordenan­ do-lhes que programem um passeio diário. por natureza. que iMussolini tinha como um de seus livros prediletos A república. Capítulo I). sem evitar exercícios nem to­ mar uma dieta excessivamente frugal.. estabelecendo quando e em que condições um casal pode procriar (. Capítulo II).]” (Livro Primeiro. Capítulo XVI). se a concepção organicista ou totalitária da sociedade é tão antiga. Sc um casal fecundar fora deste li­ mite. A ideia totalitária.] visto que é dever do legislador considerar. deve ser estabelecido um limite numérico à procriação. no Quarto Con­ gresso do Partido Nacional Fascista.. o bárbaro no mesmo nível do escravo: “é normal que os gregos governem os bárbaros. eis que. de Platão. fica evidente que a própria educação de to­ dos há de ser necessariamente una e idêntica. Capítulo XVI). temos que admitir que os cidadãos não se pertencem. colo­ ..

diz Rocco não são mais que o reflexo dos direitos do Estado. Esta opção é pela única liberdade que pode ser considerada seriamente. a liberdade do Estado e do indivíduo no Estado. integrante da famosa Enciclopédia italiana. E se a liberdade deve ser o atributo do homem concreto e não do fantoche abstrato criado pelo liberalismo indi­ vidualista. no verbete intitulado “A doutrina do fascismo”. e o Es­ tado fascista. a liberdade é uma concessão do Estado. É contrário ao liberalismo clássico. Numa obra intitulada A doutrina do fascismo e o seu lugar na história do pensamento político. Por isso. Mais adiante. sendo o indivíduo o fim e a sociedade o meio. eminente jurista italiano. as duas doutrinas totalitárias do século X X . o principal problema é o do direito do Esta­ do e do dever do indivíduo e das classes. nada tem valor fora do Estado. Como se percebe desde logo. ao passo que para o fascismo. fascismo e nacional-socialismo. cm 1925. associações. era totalmente estranha ao pensamento italiano. já afir­ mava. exatamente como todos os di­ reitos individuais.216 Teoria Geral do Estado cando a liberdade individual no ápice da escala de valores a ser respeitada pelo Es­ tado e atribuindo ao poder político apenas e tão somente a manutenção da ordem pública. Os direitos do indivíduo . nascido da ncccssidadc dc reagir contra o absolutismo. sindicatos. portanto. O fascismo opõe-se. para o fascismo tudo está no Estado e nada humano nem espiritual existe e. à medida que este sc harmoniza com o Estado. que se tornaria uma das principais características do fascismo: Nem indivíduos nem grupos . porque. vão mostrar poderosas reações a tal concepção. consciência c vontade universal do ho­ mem cm sua existência histórica. Alfredo Rocco (1875-1935). que a concepção atomística e mecânica da sociedade c do Estado. síntese e unidade dc todo valor. movimenta e domina toda a vida do povo. o fascismo eleva o Estado à condição da verdadeira realidade do indivíduo. a concepção fascista é para o Estado e para o indivíduo. para estas doutrinas. que paralisa o movi­ mento histórico na luta de classes e ignora a unidade do Estado. Rocco abre comba­ te contra a liberal-democracia e o socialismo. então o fascismo opta pela liberdade. que funde as classes . Absoluto é o interesse social.partidos políticos. Neste sentido o fascismo c totalitário. a socie­ dade não tem vida distinta dos indivíduos. c na von­ tade do povo. que cnccrrou sua missão histórica. a fortiori. a concepção fascista da sociedade é totalitária: a totalidade dos indivíduos submetidos ao poder político e a totalidade da manifestação pessoal de cada um acham-se sob a égide do Estado. que militou politicamente nas fileiras do fascismo. ao socialismo. classes . O liberalismo negava o Estado em favor do indivíduo. resultante da Reforma protestante e do jusnaturalismo dos séculos XVII e XVIII. Com efeito.fora do Estado. o próprio Mussolini esclarece: Anti-individualista. relativo é o interes­ se individual. Mussolini refere-se ao sistema corporativista. interpreta.

Os indiví­ duos formam as classes conforme seus interesses. integralmente. uma vontade e. em virtude da natureza ou da história. meios de ação supe­ riores em poder e duração àqueles das pessoas. . dc uma multiplicidade unificada por uma ideia. e também ao sindicalismo de classe. como um ideal que tende a se realizar na consciência e na vontade de todos. publicada na Gazzeta Ufficiale. que dá ao povo.. por conseguinte. O Estado. era esta a redação do art. opõe-se à democracia que absorve o povo na maioria dos indivíduos e o rebaixa a tal nível. N ão se trata de raça ou de uma região geográfica determinada. Ao contrário. numa situação de fato mais ou menos inconsciente e inerte. consciente de sua própria unidade moral. É uma unidade moral. o Estado. as exigências reais que deram origem ao movimento socialista e ao sindicalista sejam reconhecidas. que se realiza. Sem embargo disso. a representação profissional. como uma única consciência e uma única vontade. e as considera no siste­ ma corporativo. e significar a ideia mais po­ derosa por ser a mais moral.. Com efeito. seguem a mesma linha de desenvolvimento e de formação espiritual. formam etnicamente uma nação. De todos aqueles que. O fascismo. As tendências organicistas e totalitárias do fascismo italiano ressaltam-se. que servia de base aos estudos dos publicistas dos Estados nacionais do século X IX . porém. vida. sob a inspiração italiana. Porém. que se encarna 110 povo como consciência e vontade de um pequeno número ou de um apenas. são. Tal personalidade superior é nação enquanto Estado. política e econômica. personali­ dade. como vontade ética universal. cria o direito. uma existência real. que instituiu. em uma espécie de Estado já in fieri. e sim numa consciência ativa. a nação é criada pelo Estado.A nação italiana é um organismo dotado de fins. como deve ser. o fascismo pretende que.8 Ideologias 217 numa única realidade econômica e moral. 30. documento que inspirou inúmeras Constituições da época. I o da referida Carta: I . menos ainda. Não é a nação que cria o Estado.1927. em espe­ cial a brasileira de 1934. que a formam. na órbita do Estado. atividades econômicas e cointeressadas. mais coerente e mais verdadeira. antes dc tudo c sobretudo. isto é. Este não é nem o número nem a soma dos indivíduos que for­ mam a maioria de um povo. no Estado fascista. em seu aspecto qualitativo e não meramente quantitativo. mas de um agrupamento que sc perpetua historicamente.04. O direito de uma nação à independência não se acha fundado na consciência literária ou ideal de sua própria existência e. isoladas ou agrupadas. numa vontade política que atua e que está disposta a demonstrar o seu direito. como dizia a velha concepção naturalista. com maior clareza ainda. pelo menos se o povo for concebido. portanto. que é uma vontade de existência e dc poder: é consciência dc si. no qual tais interesses se conciliam na unidade do Estado. encontram-se sindicalizados confor­ me as diversas. o fascis­ mo é a forma pura de democracia. na famosa Carta dei lavoro.

218 Teoria Geral do Estado Já para o nacional-socialismo não vigorava um princípio positivista na concep­ ção do Estado. embora organicista e totalitário como o fascismo. e implica o enfraquecimento de qualquer direito do indivíduo. Em suma. tudo o que diz respeito à defesa da raça. que. Fundamentado no sangue e na raça. o desenvolvimento es­ piritual. permitindo. embora anti-individualista como o fascismo. é o verdadeiro intérprete da alma popular (Volksgeist). . Os Estados que não atendem a tal objetivo são seres artificiais. deve decidir inspirado no que­ rer supremo do Führer. na doutrina fascista. formadores de cultura. em última análise. É a base sobre que deve repousar uma mais elevada cultura humana. Essa conserva­ ção abarca. comunidade abstrata. sem o qual não se pode falar em nacional-socialismo. ao versar o Estado em sua autobiografia intitulada Mein Kampf (Minha luta). a nação (Volksgemeinschaft). mas como um meio. sendo substituído por uma espé­ cie de doutrina do direito livre. a expansão dc todas as forças a cia imanentes. segundo seus doutrinadores. Como adverte Guido Fassó. cxcrcsccncias da vida social. mais do que criar o direito com base em sua própria valoração do interesse social. a única fonte do direito. tal doutrina não contrapunha ao indivíduo o Estado. de capaci­ dade civilizadora. por outro lado. o espírito (Volksgeist) da nação deve ser quase misticamente intuído pelo juiz. certamente. Ouçamo-lo: O grande princípio que nunca deveremos perder de vista é que o Estado é um meio e não um fim. Tal cultura depende da existência dc uma raça superior. mas uma nova entidade. mas não c a causa desta. pelos excessos do individualismo liberal. que possui direitos apenas en­ quanto membro da comunidade e de acordo com os fins desta. pela qual o juiz. mesmo porque jamais negaram tal postu­ ra justificada. desaparecesse a civilização ao nível em que é encontrada atualmente nas nações mais adiantadas. assim. considerado. Com a. antes de mais nada. promover-se-á a defesa da vida física e. Adolf Hitler. O Estado fascista e o nacional-socialismo foram. é muito claro neste sen­ tido. comunidade vi­ vente. a ser repudiado. sob a liderança (Führung) de um chefe (Führer). os dois Estados essencialmente totalitários na modernidade. desta forma. Sua finalidade consiste na conservação e no progresso de uma coletividade sob o ponto de vista físico e espiritual. O positivismo vem. com o desaparecimento dos arianos. fonte primária do di­ reito. Mais adiante: () Estado é um meio para um fim. o conceito de Volksgemeinschaft. utilização dc tais forças. Poderia haver centenas dc Estados-modclo no mundo c isso não im­ pediria que. o nacional-socialismo não vê o Estado como um fim cm si mesmo. exclui o conceito da Rechtsgemeinschaft.

2) Sistema de partido único. f) direção estatal da economia. na irônica obser­ vação dc Engels. preconizada por Marx. aliás. conceber um poder autoritário num Estado que não seja totalitário. Por exemplo. Quando a sociedade comunista chegar. envolve um poder político que não c. não é totalitário. e) concentração dos meios militares. mas apenas à medida que cons­ titui uma etapa necessária na marcha para o comunismo.1) Ideologia oficial No Estado totalitário há um corpo oficializado de doutrina. apre­ senta os seguintes dados identificadores: a) ideologia oficial. A autocracia. contudo. sendo. Pode-se. que nos períodos de ditadura conhecia um poder transitório. 6. A autocracia é uma forma de governo. sob o com ando de um líder O sistema de partido único. definida por Hans Kelsen como a forma de governo que. dirigido por um líder.8 Ideologias 219 O Estado socialista soviético é totalitário. b) sistema de partido único. c) controle policial da manifestação política exercido pelo Estado. originário da União Soviética. cada uma destas características. na verdade. a Roma republicana. 6. com brevidade. reside no fato de o poder político ser exercido independentemente de limitação constitucional e dc participação do povo na esco­ lha c nas deliberações dos governantes.1. característica do fascismo e do nacional-socialismo. d) concentração dos meios de propaganda no Estado. uma das diferenças en­ tre a autocracia e o totalitarism o . fenômeno da tecnologia moderna e da democracia de massas. Nisto reside. Apenas aparentemente o liberalismo é antípoda do socialismo. sim. inevitavelmente. O marxismo. anarquismo e socialismo são filiações de uma mesma concepção da sociedade. ne­ cessariamente. o Estado já estará extinto e fazendo parte do museu da História. enquanto doutrina dc libertação do indivíduo . liberalismo. ao lado da pedra lascada e da roca dc fiar. totalitário. é. exaltando apenas a totalidade dos indivíduos . por outro lado. a única diferença entre ambos reside no método adotado por um e ou­ tro na persecução da mesma finalidade : a liberação do indivíduo dos excessos do poder absolutista ou do poder econômico dc uma classe dominante. um dos pilares do . Analisemos. Ao contrário. num Estado totalitário. que não vicejava. O desenvolvimento do liberalismo acarreta. o socialismo. em especial. o totalitarismo é uma concepção global do Estado que não adm ite a supremacia do individual so­ bre o social. em essência. autocrático. 6.1) Características do totalitarism o Quais as características do totalitarismo? Carl Joachin Friedrich afirma que o totalitarismo.1. que abrange to­ dos os aspectos da vida humana.

e contrária à comunidade. obtido. 6. ao realizar a unidade popular. com precisão. No século XV III as con­ . adepto ferrenho de Marx. de uma po­ lícia de caráter político.1. um partido na acepção do termo. de que penetra a massa por mil caminhos. Quanto ao Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães (Nationalsoziãlistiche deutsebe Arbeitpartei). sendo sua finalidade prevenir (polícia ad­ ministrativa) e reprimir (polícia judiciária) as condutas antijurídicas. denotando bem o múl­ tiplo alcance do órgão. por ser contrária ao Estado. mas para o povo em sua totalidade. será convertido em verdadeira en­ carnação c representação visível da unidade do povo.3) Controle policial pelo Estado Segundo a concepção totalitária do Estado. o Esta­ do fascista não é um Estado democrático no sentido clássico da palavra democracia. em plena era tec­ nológica. Daí é fácil depreender a necessidade. Mussolini. na Itália fas­ cista tivemos a OVRA (sigla proveniente dc piovra. figurativamente. O partido deve ser a coluna dorsal do Estado c. As polícias administrativa e a judiciária (polí­ cia comum) existem em todos os Estados. que administra e fiscaliza. no cimo de sua hierar­ quia. com seus tentáculos). nenhuma socie­ dade particular. pode ficar fora da órbita do Estado. nunca foi considerado. sente-lhe as necessidades. Conforme doutrina Alfredo Rocco. vive-lhe a vida.1. Partido e povo tendem. nenhuma atitude. Mussolini foi. com a abolição global do isolamento humano. a influência do mestre socialista vai tornar-se patente no papel transcendental que o Partido Fascista terá no Estado mussoliniano. Ele pretende ser o representante visível da referida unidade: o seu fim não é orde­ nar ou exercer coerção.4) C oncentração da propaganda nas mãos do Estado A propaganda reveste-se de enorme importância atualmente. guia-se espiritualmente. a identificar-se. mas por­ que o movimento. e sim um movimento (Bewegung) que pretende representar não uma opinião pú­ blica particular para certo grupo de interesses.220 Teoria Geral do Estado marxismo-leninismo. a nação deve estar articulada em torno de um partido hicrarquizado. no Estado totalitário. Na Alemanha nacional-socialista tivemos a célebre Gestapo (Geheime Staatspolizei). coordena-lhe a atividade” . encontraremas o próprio Duce. mas estimular os indivíduos a ade­ rirem à ideia nacional-socialista de união da nação alemã. a vida de cada cidadão. mas é um Estado democrático no sentido “de que adere estreitamente ao povo. que. polvo. socialista exaltado. para impor-se à maioria. 6. pois. Salvetti Netto aponta. Ora. não pelo fato de que todos sejam filiados ao partido. a diferença entre a polícia política e a polícia administrativa e a judiciária. de que está em constante contato com ele. pelos próprios adeptos do nazismo. in­ cessantemente. em certo período de sua vida. Segundo Mussolini. a fim de reprimir qualquer manifestação contrária ao Es­ tado.

o excelente trabalho levado a efeito por Joscph Goebbels. pelo autossacrifício e pelo culto do heroísmo e da força. A guerra exalta e enobrece o cidadão e regenera os povos ociosos e decadentes. Alfred Sauvy. a iniciativa privada.1. o intelecto precisa ser complementado pela fé mís­ tica. Um grande sociólogo de nossa época. a anexação da Áustria à Alemanha hitleriana foi o fruto de notável propaganda. Quando a Alemanha titubeou na guerra psicológica que era travada pa­ ralelamente ao conflito armado. afirmou que.1.6) D ireção estatal da econom ia Haba define o totalitarismo como “o tipo de organização jurídico-social ca­ racterizada basicamente por um Estado que tende a expandir ao máximo sua esfe­ ra de intervenção. 6. Por outro lado. ministro da Propaganda do Terceiro Reich.8 Ideologias 221 cepções políticas da Revolução Francesa são divulgadas em livros. Cheysens e Launay demonstram que a Ale­ manha foi derrotada na Segunda Guerra Mundial por dois motivos: a) falta de uma definição precisa dos objetivos da guerra. As na­ ções que não se expandem acabam por desaparecer. b) Hitler não teria dado muita importância à guer­ ra revolucionária. Na Alemanha. com restrições. jamais intelecto”. Lenin afirmava ser indispensável a agitação social e a propaganda política entre as camadas do povo. resultando dis­ so restrita ao máximo a liberdade individual”. graças à força da propagan­ da. A razão jamais poderá ser um instrumento adequado para a solução dos grandes problemas nacionais . Em 1938. abarcando a generalidade das relações humanas. 6.5) C oncentração dos meios militares Sendo o militarismo um dos mais expressivos meios do Estado totalitário para alcançar seus fins imediatos (segurança interna) e mediatos (expansionismo ou im­ perialismo) depreende-se a sua importância para doutrinas como o fascismo e o nazismo. panfletos e vá­ rias publicações “subversivas” . nenhum Estado totalitário de orientação fascista foi destruído sem intervenções externas. os aliados não teriam podido contar com os Estados ocupados pe­ los alemães. para a própria sobrevivência da ideologia revolucionária. Num livro intitulado Os arquivos da segunda guerra mundial. se as forças de resistência ao nazismo não tivessem definido. ensejou a consolida­ ção do poder de Hitler e dos objetivos do Partido Nazista. . o que fez com que vários Estados hesi­ tassem em se aliar aos alemães. desde logo. seus objetivos. “O espírito fascista é vontade. Dizia a doutrina fascista que a luta é a origem de todas as coisas.prosse­ guem os doutrinadores fascistas. foi derrotada. Enquanto no socialismo soviético a propriedade dos meios de produção fica abolida. deixando dc mobilizar as forças militares e morais do povo. Chevallaz. o Estado fascista e o nacional-so­ cialista admitem.

havia traços comuns a quase todos: 1) nacionalismo extremado. os movimentos políticos nacionalistas que se identificariam com o fascismo já estavam se firmando. Na Europa Ocidental o co­ lonialismo e sua manutenção impunham gastos aos Estados. a emancipa­ ção dc minorias raciais e religiosas (judeus. a derrota do país na Guerra Franco-Prussiana (1870-1871) fez re­ crudescer o nacionalismo e. com um levante popular motivado pela perda da guerra russo-japonesa. protestantes. po­ rém. seus líderes tornar-se-iam mais ativos do que nunca em sua doutrinação.222 Teoria Geral do Estado Quanto às origens do fascismo. Num sentido amplo. eslavos) só fez aumentar os temores da classe média. embora a época ainda não fosse a de uma democracia de massas. pouco antes da Primeira Grande Guerra. em 1871. desde logo. que seria a de outubro de 1917. começava a encontrar um ponto de apoio em sua propaganda. 3) invocação às classes médias e ao proletariado para livrá-los do marxismo (socialismo e internacionalismo) e formar uma base popular para novos movimen­ tos. A Europa anterior à Primeira Guerra Mundial desfrutou de um período de paz. pois. Embora divergindo em alguns aspectos de somenos. embora sem nenhuma possibilidade de alcançar o poder. o socialismo e o co­ munismo. que visava. prenunciada em 1905. A reação da clas­ se média não foi causa imediata do surgimento dos movimentos fascistas. todavia. O último grande movimento revolucionário fora a Proclamação da Comuna de Paris. Embora embrionários pouco antes e durante a Primeira Grande Guerra. pontificando neste sentimento o movimento boulangerista (denominação inspirada no general Boulanger). é preciso tomarmos a expressão fascismo em sentido amplo e em sentido estrito. Apesar de tais condições. mas garantiam mui­ tos empregos. mas criou condições propícias para tal. receosa de perder sua posição social. a concentração das empresas e as exigências cada vez maiores do operariado pressionavam a classe média. Outra tendência radical. que denunciava os judeus como criadores dos males do marxismo e do capitalismo. Entretanto. Em sua exacerbação e em seus rompantes. o boulangerismo prometia recuperar as possessões perdidas durante a guerra. Não teve êxito. . 2) forte antissemitismo. colo­ car este militar no poder. alguns autores denominam fascistas os movimentos reivindicatórios da classe media dc alguns países europeus. parecia indispensável uma base popular para enfrentar o liberalismo. Como se situavam tais movimentos? Vejamos. graças a alguns escândalos financeiros internacionais que pas­ saram a ser atribuídos à “alta finança judaica”. Durante a Guerra. Na França. Havia prosperi­ dade econômica. Por outro lado. Em nenhum país da Europa Ocidental a lei e a ordem estavam seriamente ameaçadas. a Rússia já estava ameaçada por uma tremenda re­ volução. Surge o periódico La libre parole.

foram. Integravam os fascii jovens futuristas. A partir daí tais movimentos nacionalistas não deixariam dc adotar. A partir de 1918. basicamente. com o apoio dado por Mussolini à intervenção italiana em favor dos aliados. A origem do vocábulo fascismo reside no fasces (fascio). Georges Sorel. se suicidou. os únicos que obtiveram vantagens com a Revolução France­ sa foram os judeus. a causa de todos os males da nação. sob o comando de um antigo revolucionário socialista. Quanto às causas imediatas da ascensão do fascismo italiano. intitula­ do La France juive. Espancamen­ tos. por vol­ ta de 1914. mais tarde. graças a um movimento levado a efeito por seus simpa­ tizantes. haviam se apo­ derado dos bens dos franceses e eram. b) a desastrosa derrota sofrida em 1890. os fascii transformaram-se em grupos de squadristi. nacionalistas extrema­ dos. torturas. anti­ go símbolo de origem etrusca.8 Ideologias 223 fundado por Édouard Brumont. Os imigrantes hebreus. em 1881. pois constituíam o símbolo do poder do ouro. fascismo é o movimento político surgido na Itália. desempregados e descontentes de todo o tipo. na própria Itália fascista. as se­ guintes: a) um nacionalismo humilhado e exacerbado pelas decepções da anexação da Tunísia pela França. encampado pelos latinos e que representa a união. idealistas. acusado de fazer espionagem em favor da Alemanha. Brumont afirmava que os judeus eram detesta­ dos pelos pequenos comerciantes e empresários e pelos artesãos. con­ quistada e destruída pelos judeus”. agora. A organização do movimento pressupunha a formação dos “fascii” de combatimento. campeava. supostamente desonestos. aplicação de doses de óleo de rícino eram a tônica. Émile Zola escreveu Jíaccuse. valorosa. André Dreyfus foi um oficial fran­ cês. Foi o que bastou para que toda a França se empolgasse com o caso.como Rothschild e outros. destinados a combater o derrotismo e todos aqueles que fos­ sem considerados inimigos do povo. que clamavam pela revisão do processo. o caso Dreyfus. porém. Dreyfus foi condenado à prisão perpétua. Benito Mussollini (1883-1945). Proprietários ru­ rais e comerciantes. Agravando tais tendências. O caso não teria maio­ res repercussões se ele não fosse judeu. O oficial denunciante dc Dreyfus. fazendo a apologia de uma França “romântica. A violência. Em sentido estrito. cuja expressão mais trágica seria mostrada na Alemanha nacional-socialista (19331945) e. diante . que já havia escrito um livro antissemita. graças aos escritos de um sindicalista revolucionário. com destaque para o antissemitismo. Segundo Brumont. encerrado. apoiando o ingresso da Itália na guerra. a documentação que servira de base para a acusação era consi­ derada fraudulenta. uma virulenta xenofobia. da ordem capitalista destruidora. em menor escala. O caso não ficou. cm defesa de Dreyfus. havia muitas pessoas implicadas na condena­ ção dc Dreyfus c o preconceito racial já não via freios à sua atividade. o coronel Henry. que estava na moda. trabalhadores da classe média. eram as principais vítimas. velada ou expressamente. grupos que pretendiam evitar que a Itália ingressasse na Primeira Guerra Mundial. sua inocência foi comprovada. especialmente a partir de 1938 ede 1943.

Era um movimento oportunista. f) a escalada dc grupos anarquistas e comunistas e as greves freqüentes. alta de preços. O fascismo não carece dc dogmas. Seu pai. que procurava adaptar-se a quaisquer novas circunstâncias sociais. Hegel e Platão. Guido Bortolotto. marcariam muito a formação do fu­ turo Duce da Itália. g) a intran­ qüilidade generalizada.. revolucioná­ rios c reacionários. fascistas. formalizados. ele sente a necessidade de consolidar o caleidos­ cópio de ideias que era o fascismo. Mussolini di­ zia então: Nossa doutrina são os fatos. professora. temerosa da as­ censão bolchevista. temos a coragem dc repudiar todas as teorias políticas tradicionais. todavia. Surgem então. . especulação e desemprego 110 pós-guerra. Hobbes e das teorias do poder absoluto. ferreiro de profissão. até se firmar definitivamente. em Versalhes. d) inflação. Ao seu surgimento. destinado a restaurar o Estado contra a desin­ tegração socioeconômica do capitalismo e contra a infiltração comunista. As influências de ambos. nasceu em Predappio. em 1883. numa infeliz guerra de conquista. f) o homem não tem mais direito do que aqueles que o Estado lhe concede. como Sérgio Panunzio. proletários c antiprolctários. a linha programática do movimento fascista. considerável foi a atenção que Mussolini dispensou a Maquiavel. Nós. adepto ferrenho de KarI Marx e agitador con­ tumaz. mas sim dc disciplina. Entre 1929 e 1930. A mãe de Benito. logo apoiou o movimento fascista. A ação deve sobrepor-se à palavra. mais remotamente. os pontos principais da ideologia fascista: a) afirmação do nacionalismo. principalmente junto à classe média. ainda mais. violento e irascível. afinal? Filho de Alessandro Mussolini e de Rosa Maltoni. pacifistas c antipacifistas. Al­ fredo Rocco. no centro da Itália. b) afirmação de um movimento reivindicatório contra o Tratado de Versalhes. Outros jurisfilósofos robusteccm. contudo. Giuseppc Prczzolini e outros. Quem era Benito Mussolini. como Proudhon e Sorel. confiando ao filósofo Giovanni Gentile tal in­ cumbência. c) a desilusão sofrida pela partilha do botim de guerra. Giuseppc Botai. c) posição intermediária entre o coletivismo e o individualismo: o Estado de­ ver ser a união de grupos e de corporações. e) o descrédito e o colapso do regime parlamentar. foi imensa a influência de Marx sobre sua formação doutrinária. d) adoção do pensamento de Hegel.224 Teoria Geral do Estado dos nativos abissínios. era um socialista radical. Embora tivesse o temperamento do pai. contudo. Diga-se de passagem que. era católica fervorosa e conservado­ ra. somos aristocratas c democratas. sendo seu pensamento quase todo calcado nos autores anarquistas e sindicalistas do século X IX . tão paradoxais. o fascismo italiano não apresenta uma doutri­ na preestabelecida. que. e) o Estado cria o Direito e a Moral.

plano este resumido num livreto de origem duvidosa intitulado Os protocolos dos sábios de Sião. i) subordinação das corporações ao Partido Nacional Fascista. doutrinariamente. ao interesse do Estado.04. A partir de 1929. logo depois. o partido tomou maior alento. h) sindicalismo e condenação do liberalismo e do socialismo marxista. o Partido dos Trabalhadores Alemães. po­ rém. e um suposto plano dos judeus para domi­ nar o mundo. de orientação direitista. Com Hitler. que acompanhariam seu pensamen­ to até a morte: nacionalismo extremado e antissemitismo. pretendia seguir a carreira de pintor. alistou-se como voluntário. Agru­ pamento em corporações dos membros de cada ramo da produção (Mussolini usa a expressão produtores.1889. Em 1923. Ninguém po­ deria exercer nenhuma atividade sem autorização da corporação correspondente. e. . Hitler tentou o poder. Quan­ do jovem. Adolf Schickelgruber Hitler nasceu em 20. sendo substituída a antiga denominação por uma nova: Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães (NSDP). subordinadas. sendo ferido e recebendo a Cruz de Ferro. a fórmula: Tudo dentro do Estado. Em 1919 entrou em contato com um pequeno partido formado por operá­ rios. contrariando seu pai. I) manutenção da iniciativa privada e da livre-concorrência. em vez de operários. como vender cartões-postais de sua autoria. não pode ser tratado. aproveitando-se da crise econô­ mica mundial. nada fora do Estado. foi influenciado por duas tendências. j) resolução dos conflitos entre o capital e o trabalho por intermédio de con­ tratos coletivos e de uma organização corporativa das categorias profissionais. Ao estourar a Primeira Guerra Mundial.8 Ideologias 225 g) amparado em Hegel. ficou órfão de pai aos 16 anos. escreveu sua autobiogra­ fia intitulada Minha luta9na qual afirma a superioridade racial do ramo germânico da “raça ariana” sobre as demais raças. em 1921 Adolf Hitler foi nomeado seu presidente. o fascismo afirma que o Estado é absoluto. o Partido Nacional-Socialista recolheu grande número de adeptos. Filho de um funcionário público chamado Aleis Hitler. m)o trabalho como dever social. nada contra o Estado. Quanto ao nacional-socialismo. em Braunau. Daí. Reprovado no vestibular e profundamente desgostoso. Adolf Hitler passa a viver de pequenos expedientes. expressão mais conhecida por sua forma abre­ viada nazismo. de sua mãe. porque a primeira expressão designa também aqueles que produzem pelo intelecto). como já foi visto. n) abolição do direito de greve. Adolf Hitler (1889-1945). Profundo admirador das artes plásticas. mas aca­ bou sendo preso e condenado a cinco anos de cadeia. que o queria ver funcio­ nário público. os indiví­ duos e os grupos são relativos. Tais corporações não distinguem entre patrões e operários. Nesta. norte da Áustria. sem que mencionemos a tremenda figura de seu criador.

chamada. um condutor (Führer). Por outro lado. como Gerber. O Estado encontra-se a serviço da comunidade. pois seria impossível. que de­ fendiam o positivismo jurídico (o Direito seria criado pela vontade do Estado). os interesses desta. ao direito positivo. como tal. como vimos. Enfim. quando os russos tomaram Berlim.1933. No Estado nacional-socialista o indivíduo. mas era guiado. porém. O governo passava a ser considerado como uma emanação direta da própria comu­ nidade (Fiihrung).01. profundamente. conduzido por um guia. a concepção do chamado Estado dc Direito na doutrina nacional-socialista difere.1945. Volksgemeinscbaft. Laband. Gierke. reduzido. em linhas gerais. vivo e real. a própria comunidade. o nacional-socialismo afirma que a origem de todo o Direito e poder resi­ de na própria comunidade (Volksgemeinscbaft). moral e. 6. por isso. A origem de todo Direito acha-se no Volksgeist (espírito do povo).04. histórica. aparelho a serviço da nação. portanto. única realidade social. Ficou no poder ate o dia 30. O Estado nacional-socialista não é individualista porque o fim essencial do Estado não é o indivíduo. em vez dos chamados direitos pú­ blicos subjetivos. racial. atuando por meio de órgãos. prin­ cipalmente. da concepção liberal e indivi­ dualista. Após várias campanhas políticas de maior êxito. ao proletariado e sua ditadura na Rússia. bem como à ideia de que o Estado consti­ tui uma pessoa jurídica e.8) 0 Estado na cion al-socialista e os direitos subjetivos Para o nacional-socialismo o Estado é meio e não fim. O povo não se autogovernava. Enquanto a doutrina italiana do fascismo sofreu profun­ da influência dos juristas alemães.1. o Estado nacional-socialista não é liberal porque não reconhece ao indivíduo uma esfera de liberdade que deva ser respeitada absolutamente. e ao povo “atomístico” da democracia burguesa do século X IX . a Volksgemeinscbaft corresponderia. . Jellinek. Constitui tão somente meio para o aprimoramento e a expansão da comunidade (Volksgemeinscbaft). A doutrina nacionalsocialista repudia frontalmente as ficções da democracia liberal e pretende expor tão somente realidades. política.226 Teoria Geral do Estado pessoas desgostosas com a situação política e econômica intolerável e pequenos empresários temerosos da atividade desenvolvida pelos comunistas. Hitler foi nomeado chanceler em 30. Por outro lado.7) A doutrina nacional-socialista O nacional-socialismo deu origem a uma doutrina completamente nova so­ bre o Estado e o Direito.1. seria titular da soberania. antes de mais nada. suicidan­ do-se nos porões da chancelaria. existe uma situação jurídica de membro da comunidade. 6. não tem relações com a comunidade. devendo satis­ fazer. que vem a ser um todo orgânico.

Em que consiste a Führung? Cons­ titui um princípio de liderança. Como acentua Roger Bonnard. então. Como a Führung deve estar em consonância com o ordenamento vital do povo. em sua doutrina de uma razão universal dirigindo o Estado. poder-se-ia dizer que o Estado liberal seria um Estado legal. nem mesmo à autoridade da lei. seja pelas vias de direito ou pelos recur­ sos jurisdicionais. sua vontade. Esta é guiada. de condução da comunidade (Volksgemeinschaft). Qualquer oposição. O povo confia em seu líder porque este apresenta as qualidades necessárias para o seu cargo. declarava Hitler:4 4 Eu não teria existido não fosse minha fé poderosa no povo alemão. no Führerstaat a autoridade da vontade pessoal do Führer supera a lei. pois referidas leis podem estar. . o Estado nacional-socialista seria um Estado de Direito. em razão de mudança das cir­ cunstâncias. Na doutrina nacional-socialista a juridicidade substitui a mera legalidade. Finalmente.9) 0 princípio da liderança (Führung) no Estado nacional-socialista O principal e mais interessante instituto do direito público nacional-socialis­ ta é a Führung. afir­ mando-se que a matéria jurídica nâo seria obra própria c exclusiva do legislador. Por outro lado. como vontade da pessoa-Estado. Isto deve ocorrer até mesmo nas decisões tomadas contrariamente às leis promulgadas pelo próprio Führer. Sofismando. E originário porque não foi conferido pelo povo ou qualquer autoridade e porque quem o exerce o faz pelo simples fato de ser Führer. Na Führung encontramos o eco de várias passa­ gens de Hegel. autônomo e autoritário. um Führerstaat. poder e decisões devem predominar em qualquer caso. e como é o Führer quem possui em mais alto grau consciência do referido ordena­ mento. é autônomo porque o Führer não se submete a nenhuma autorida­ de. Se o exercício do poder se limita a uma condução. se no Estado liberal-democrático a lei domina todo o sistema político. o nacionalsocialismo afirma que o Direito se sobrepõe à lei. assim. de fato ou de direito. expres­ sa cm forma dc regras genéricas. esta é apenas uma parte do D i­ reito. contendo-se apenas na lei o direito seria estabelecido independentemente do legis­ lador e da lei. Com efeito. as de­ cisões do líder não podem sofrer oposição. não será admitida. protegidos os direitos in­ dividuais. é porque há fidelidade c confiança mútuas. o poder do líder é autoritário. em desconformidade com o ordenamento vital do povo. 6. Daí a expressão Führer. abstratas. em excelente exposição sobre as instituições nacionais-socialistas. sendo.8 Ideologias 227 Enquanto o liberalismo identifica o Direito e a lei (positivismo). O Estado nacional-socialista é.1. o poder de Führung é necessariamente pessoal. sendo originário. reforçada. contra as decisões do líder. Por isso. chefe. e se a comunidade segue espontaneamente seu chefe. mero corolário da sua autonomia. sem cessar. pela fé e a con­ fiança do povo alemão em m im ”. formando seu séquito ( Gefolgschaft). dirigida por um Führer.

o município. mas que integre o indivíduo ao Estado. que não oponha o Estado ao indivíduo ou vice-versa. Tal liberdade dc ação. que. muito mais do que o próprio Estado. se bem que não soberanos.. sem a participação do Estado. condena frontalmente o me­ canicismo. en­ quanto os órgãos que compõem o corpo humano obedecem a leis biológicas. alterando-a. Tais grupos surgem natural­ mente. conforme adverte Pedro Salvetti Netto. Tal concepção. procu­ ra o meio-termo entre o mecanicismo e o organicismo. no seio da sociedade. portanto. escolhendo. até mesmo na sua grafia. a sociabilidade ina­ ta do homem. Católica. enfim. em harmoniosa composição. Esta doutrina chama-se huma­ nismo social. não percebida no organismo físico.228 Teoria Geral do Estado 7) H U M A N ISM O SOCIAL Bibliografia: A. como se ambos ti­ vessem a mesma natureza. berna . sensatamente. salvetti n e t t o . para o liberalismo. devem ser órgãos legítimos de intermediação entre o in­ divíduo e o Estado. os quais. ed. fazendo com que este. adaptando-a. unidade moral ou de ordem. Curso de doctrina social católica. 1967. existem grupos natu­ rais. 5. fenômeno este . pelo menos no Brasil. Esses grupos são como flores de variadíssima natureza. São Paulo. ct al. Como faz ver José Pedro Galvão de Souza. naquele. possibi­ lidades. La Editorial Pedro. A nature­ za das leis éticas. pois. Por outro lado. age livremente. o organicismo radical. também. o indivíduo jamais alcançará a ple­ nitude do seu desenvolvimento. Na verdade. não certezas. Madrid. tais grupos constituem meras associa­ ções voluntárias. entre o indivíduo e o poder político. o sindicato. devem fruir da autonomia e da assistência do Estado. tem sido inexpressiva. postulando um organicismo moderado. partin­ do da afirmação de que. revelam uma tendência natural do ser humano dc sc realizar c de se proteger e. o indivíduo. ine­ xoráveis e imutáveis. optando. pois que revelam. A doutrina do humanismo social busca integrar o homem ao Estado. Em meio ao cipoal dc ideologias políticas radicais c dc práticas políticas de­ finitivamente ultrapassadas. movido por seu arbítrio. é preciso salien­ tar as diferenças entre o corpo social e o organismo biológico: neste constata-se unidade física ou substancial. ordenatórias da vida social. pode o indivíduo voltar-se contra as estruturas sociais. surgiu uma nova doutrina. tais grupos devem ser su­ focados pela prevalência absoluta deste Moloch chamado Estado. Para o organicismo radical. a suas aspirações. como a família. cuja atuação. que brotam espontaneamente. Saraiva. pois que este confunde o organismo social e o organismo biológico. suplantadas pelos partidos políticos. reformando-a. Ora. sirva de instrumento de realização pessoal e social. bem assegura e salienta a impropriedade do organicismo radical. expressa apenas tendências. Curso de teoria do Estado. 1982. a parte contra o todo. mas condena.

ja­ mais simples veículos da vontade dos governantes. . London-NewYork. o Partido Social-Democrático Ope­ rário. Considerada a vertente socialista dos Estados altamente industrializados do norte europeu. 1997. Daí o surgimento da social-democracia. bal. pareça ter sido criada pelos próprios marxistas ortodoxos. S. a social-democracia logo conquistou Hungria. M c C le lla n d . isso só se­ ria possível graças ao sacrifício da liberdade econômica plena. Introducción a la teoria dei Estado. já que ambos ousaram adaptar a ortodoxia da concepção marxista da revolução aos seus próprios países. A social-democracia se mostra um efeito recente da antinomia liberdade/igual­ dade deflagrada na Revolução Francesa. Introducción al derecbo constitucional com­ paradoi. J.cm todas as suas vertentes . sob o comando de Lenin. fundado em 1898. mediante a abolição dos privilégios da burguesia. ambos estagnados num estágio feudal de desenvolvimento. Routledge. Noruega. Reagindo a isso. k rie le . Martin. Na Rússia. b o r ja Rodrigo. verdadeiro simulacro do autêntico corporativismo. graças à livre-concorrência absoluta. souza .visou corri­ gir tal desvio. inicialmente na Alemanha. e a adjetivação revisionista com que a orto­ doxia passou a acicatar os seguidores da chamada terceira via. São Paulo. como Karl Kautsky (1854-1939). como alternativa entre o socialismo revolucionário e internacionalista e os princípios da liberal-democracia. Fondo de Cultura Econômica. Buenos Aires. Alemanha e Dinamarca. O colapso do neoliberalismo. A conformação da sociedade. o liberalismo agravou a desigualdade econômica. 1996. mais tar­ de. México. mais precisamente durante a Segunda Internacional Socialista (1889). 1996. Ao preconizar a máxima liberdade políti­ ca. Depalma. A history of Western political thought. 1995. M ao Tsé-Tung deveriam ser considerados revisionistas por excelência. Embora a ex­ pressão revisionismoy com sentido pejorativo. Enciclopédia de la política. Bulgária e Escandinávia. Não o corporativismo fascista. como uma ideologia revisio­ nista do marxismo elaborada por Edward Bernstein (1850-1932). daria origem ao bolchevismo. o próprio Lenin e. México. Todavia. b is c a re tti di r u f f ía . Fondo dc Cultura Econômica. deve ser eminentemente corporativa. a socialdemocracia surgiu na segunda metade do século X IX . Desta síntese exsurge o caráter mais reformista que revolucionário da nova ideologia. o socialismo . para o humanismo social. 1980. pois os grupos sociais autênticos devem ser dotados da mais ampla liberdade possível. Finlândia. Desfrutando de cres­ cente prestígio. como Suécia.8 Ideologias 229 já previsto por Thomas Hobbes em sua obra clássica Leviatà. Paolo. 8) SOCIAL-DEMOCRACIA Bibliografia: a r a ú j o de Nilson. G lo­ . estruturado pela facção ma­ joritária daquele partido.

A mão invisível da Natureza . sempre. A omissão do Estado quanto à disciplina da atividade econômica ensejaria a concen­ . o Gover­ no intervém para restabelecer o equilíbrio ameaçado. na qual tem vez tanto os mecanismos de mercado quanto a planificação econômica estatal. e as crises pe­ riódicas que o afligem. pois a liberdade burguesa só existe para a própria burguesia. então. uma ideologia conservadora. a social-democracia ainda não se adaptou inteiramente ao Terceiro Mundo. onde as únicas soluções viáveis para o subdesenvolvimento.utiliza unicamente meios pacíficos na composição dos conflitos de classe. bem assim a propriedade pri­ vada restringida pelo interesse social. quando isso ocorre.que tem muito do socialismo fabiano ou contemporizador . pela via refor­ mista. limitando-se o Estado a zelar pela preservação de ordem tipicamente burguesa. vale reconhecer. Doutrina flexível. a orientação dc Adam Smith de que o homem age. enlaçar sem traumas liberdade política. exclusivamente. parecem ser medidas radicais e violentas. Na verdade. Os Estados menos desenvolvidos pouco têm a defender e muito a conquistar.se encarregaria de ordenar as relações entre os homens. a situação do Terceiro M undo perante a social-democracia é bem diferente: buscam-se mudanças políticas e sociais extremadas para. 9) NEOLIBERALISMO O liberalismo clássico surgiu com a desagregação do feudalismo e o conse­ qüente aparecimento do capitalismo. devendo o Estado abster-se dc interferir na atividade eco­ nômica. a social-dcmocracia defende uma ordem econômica eclética. proporcionando ao indivíduo a máxima autonomia de vontade. Relativamente bem-sucedida nos Estados mais evoluídos política e econo­ micamente. Afirmando dois valores básicos. flatus voeis de uma ordem econômica irrealizável. conforme necessá­ rio. retrógrada. altera. o liberalismo nascente elegeu. sem perceber que a classe trabalhadora dos Estados nórdicos que a adotaram não carece de medidas revolucionárias violentas para suas conquistas. a social-democracia defende a economia de mercado com a participação de todos.230 Teoria Geral do Estado Hoje. Em suma. individualis­ mo c liberdade econômica. Enquanto a so­ cial-democracia europeia .a expressão é do pró­ prio Adam Smith . criar a infraestrutura de uma nova social-democracia. como verdade absoluta. ipso facto. É sabido que não foi bem isso o que ocorreu. mas não admite que indivíduos ou gru­ pos pretendam monopolizar a atividade econômica. mera somatória de interesses privados. na defesa de seus próprios interesses. prosperida­ de econômica e assistência social. conseguindo. obtendo-as. enca­ minhando-os para um sistema econômico perfeito. mesmo que por vias alternativas. A realiza­ ção do bem individual de cada cidadão representaria o próprio bem comum. métodos e objetivos. nos Estados mais adiantados. nos Estados menos desenvolvidos passou a ser considerada. res­ tando para as classes menos favorecidas apenas uma liberdade e um bem-estar eco­ nômico meramente formais.

cujos efeitos já se fazem sentir. que a liberdade de trabalhar. descontentes dc toda espé­ cie. Referido autor não leva em conta que a liberdade entre desiguais conduz à injustiça. Huntington. investir e ter propriedades sem a intervenção do Estado pertence ao mesmo gênero das grandes liberdades do homem. se o de­ sabamento dos regimes marxistas revelou a ineficácia de um sistema estratificador dos meios de produção. na realidade voltada para a ressurreição das leis de mercado. liberando a propriedade privada de encargos sociais e colocando a di­ reção da economia nas mãos dc particulares. involuindo para os bons tempos do laissez-faire. Rodrigo Borja que o neoliberalismo se funda em enorme falácia. Disso resulta que a atividade econômica. de opinião. ter empresas. Articuladas entre si. é na verdade planificada. o neoli­ beralismo. se no Ocidente o neoliberalismo foi uma resposta. após décadas de experimentação socialista.8 Ideologias 231 tração dos meios de produção nas mãos de alguns privilegiados. o neoliberalismo. Observa. como o faz Samuel P. seja no plano interno ou no internacional. o capitalismo. o regime so­ cialista cederia. embora pífia. não é menos verdade que este foi substituído por uma de­ sordenada privatização de bens públicos. Vale-se do prestígio da palavra liberdade para sustentar. para a iniciativa privada. que adotam notória estratégia de dominação dos mercados. no mundo con­ temporâneo. Ao observador atento e sereno. enfim. passagem ao seu rival histórico. aparentemente livre. uma preocupante maioria de despossuídos. . enriquecer. já em fins dos anos 1980 e no início da década dos 1990. foi uma tentativa desesperada de reavivar a atividade econômica estagnada pelo ma­ rasmo burocrático. Ora. O que ele c outros neoliberais defendem é uma liberdade que termina por autodestruir-se (Enciclopédia de la política. então diretor do Instituto de Estudos Estratégicos da Universidade de Harvard. com inteira procedência. manipulam a economia na direção de seus próprios interesses. Com a derrubada do muro de Berlim. equiparar a liberdade de vida. sob o pretexto de modernizar o Esta­ do e reduzir seu tamanho. qual seja. 683). mas sim um mercado dirigido por corporações transnacionais. pretensamente uma nova doutrina. não uma teórica liberdade de mercado. mas pela iniciativa privada. dirigida e ad­ ministrada não pelo Estado. Nisso há uma total falta de perspectiva. passando a economia. p. resta evidente que prevalece. em potencial ameaça às instituições burguesas. O próprio poder de Esta­ dos subdesenvolvidos ou em desenvolvimento acha-se condicionado à planificação e operação das grandes empresas nacionais ou transnacionais. que simbolizou a própria queda de um socialismo viciado e o término da chamada Guerra Fria. Surgiu. em con­ trapartida. de imprensa ou qualquer das liberdades fundamentais do ser humano à liberdade de investir na economia. Em outras palavras. abrindo as fronteiras dos Estados menos desenvolvidos para uma indiscriminada exploração econômica estrangeira. Pois bem. ao descontentamento com o liberalismo. surgindo. na União Soviética e nos Estados socialistas do Leste Europeu. assim.

(O colapso do neoliberalismo. p.10. para estabelecer uma coesão maior entre as gran­ des corporações transnacionais. na cidade de Tóquio. Não chega também a ser uma doutrina. 9) . políticos e economistas influentes dos Estados Unidos. como tantos outros semelhantes. Nem muito menos uma cor­ rente de pensamento científico. cabe razão a Nilson Araújo dc Souza quando afirma: o chamado neoliberalismo não é uma teoria científica. formada por empresários.232 Teoria Geral do Estado Em 23. reuniu-se uma Comissão denominada Trilateral. É uma ideolo­ gia . a fim de fortalecer o sistema capitalista e resistir à pressão dos Estados socialistas da Europa e do Terceiro M undo. Desse fato.mais propriamente. na atual etapa do capitalismo. da Europa e do Japão. e o elemento central da ideologia da oligarquia financeira que domina o mundo.1973.

1986. de. O segredo dos hititas. ra ra Guy.l e s . Tanto que o próprio Alexan­ dre. buscando. The Cambridge Dictionary of Classical Civilization. v. O historiador Plutarco afirma que os povos da época em que Alexandre expandia seu império aceitavam dc bom grado fazer 233 . Cambridge University Press. Alexandre III.. simplesmente. Camd o s r e is . salvetti n e t t o . Catheri- ne. W. Jacques e ou­ - tros. Manual de direito internacional público. foi um dos primeiros a levar a civilização helênica aos povos deno­ minados “ bárbaros”. 2008. 2008. com isso. Civilisations antiques. 2008. v. após derrotar os persas. o Grande. Curso de direito internacional b r ie n d público. Curso de ciência política (teoria do Estado).. Graham e outros. Navarra. São Paulo. ed. C. mas. t e i x e i r a Jair. Unijuí. Tratados y juramentos en el antiguo Oriente Proximo. casou-se com uma das filhas do rei Dario III.0 ESTADO ENTRE ESTADOS: AS ORGANIZAÇÕES INTERESTATAIS Bibliografia: a c c i o l y . Impetus. s. designativo daqueles que não falavam a língua grega. Resumo de direito internacional e comunitário. 2. Hildebrando. Tribuna da Justiça. Itatiaia. que venha a benefi­ ciar toda a humanidade. 1957. Pedro. 2002. São Pau­ lo. levando-a da Europa até os confins da Ásia Me­ nor. 1977. Celso D. . Rio de Janeiro/São Paulo. 1. bridge. 1994. não foi estranha a grandes vultos da História. I. Direito internacional convencionai Ijuí. 2006. Niterói. ed. Paris. Al b u q u e r q u e m e l l o . Saraiva. s a i . e fez com que muitos de seus generais se casassem com mulheres persas. Paris. Larousse. Larissa. Belo Horizonte. chet. s h ip l e y .d. 1) NATUREZA DAS ORGANIZAÇÕES INTERESTATAIS A ideia da universalização de uma dada cultura superior. Larousse. universalizar a civilização grega. e fundando um Estado universal. 14. voz que não tinha conteúdo pejorativo. m in a ceram . Renovar. Editorial Verbo . Dictionnaire des civilisations de VOrient ancien. Divino.

independentemente dos grandes vultos da História. permaneceu ainda mesmo depois que as hostes germânicas derrotaram as legiões de Roma.234 Teoria Geral do Estado parte desse. pela perspicácia do vencedor em não pretender. a necessidade de instituir.C. cuja natureza é a de associações de Estados criadas mediante tratados e dotadas de personalidade . pre­ cisa interagir com outros Estados para realizar seu objetivo maior que é o bem co­ mum.). da Igreja Cristã. ao formar-se. esse período da bela História Romana: É realmente singular. inseguros. o chamado Sacro Império Ro­ mano Germânico. já então notável. o relacionamen­ to social e econômico com seus semelhantes. mesmo. compreende-se: de um lado. com maestria. Esses órgãos são entidades interestatais. única forma de alcançar plenamente seus objetivos. pela mística de segurança que aqueles invencíveis exércitos podiam levar a grupos beligerantes. e muitos au­ tores veem nele um precursor da Liga das Nações e. expansionistas. ensejando conflitos que cumpre ao Poder Judiciário compor. impondo a notória Pax roma­ na (30 a. de outro. o fato é que. da própria Organização das Nações Unidas. impor suas tradições. sob a égide de uma lei universal. este obra não de um homem apenas. Pois bem. anteviam o futuro e conduziam os povos no rumo do congraçamento político destes. em razão da contínua sucessão das lutas entre eles. dessa paz. por conseqüência. a 180 d. sua religião aos povos vencidos. por isso mesmo in­ satisfeitos e. seus costumes. Após a tentativa de Alexandre. A obra de integração engendrada pelo gênio de Roma. antes respeitando-lhes as instituições culturais. E da mesma forma que a pessoa natural nem sempre mantém um relaciona­ mento amistoso com outras pessoas. como sc afirmou. de forma semelhante aos tribunais no âmbito interno desses. mas dc inúmeros vultos que foram se sucedendo e ampliando as fronteiras do império. O mito dessa segurança. de forma absoluta. o Estado. Roma prometeu a paz ao mundo com todas as suas con­ seqüências benéficas de prosperidade. visando aumentar seus territórios.C. também cada Estado pode acabar se envolvendo contra seus pa­ res em conflitos velados ou guerras declaradas para alcançar objetivos puramente econômicos 011. sob a inspiração legendária do Im ­ pério c a influência. instintivamente. na esfera interestatal. cm toda a história. sobre povos dc culturas tão diferenciadas. que. Daí. merece especial referência o expansionismo romano. Pedro Salvetti Netto sintetiza. muito aci­ ma da visão estreita dos medíocres. remanesceram na Baixa Idade Média. De fato. Napoleão Bo­ napartc inspirou-se consideravelmente nas realizações de Alexandre. mais que isso. que é pessoa jurídica de direito internacional público. Sob a tutela do Império. diante das vantagens oferecidas pela civilização grega. órgãos decisórios que fazem às vezes de árbitros nas querelas de Estados em conflito. da mesma forma que a pessoa natural busca. tenha a formação dc um império per­ durado por tantos séculos a impor sua autoridade. po­ rém.

todos situados na própria sede da ONU (Nova York). São princípios instituídos pela ONU: a) princípio da igualdade soberana dc todos os seus membros. com os Estados Unidos da América do Norte e a União Soviética. Grã-Bretanha. entre seus filiados. como a Organização dos Estados Americanos (OEA). a Organização Internacional do Trabalho (OIT) e o Banco Inter­ nacional de Reconstrução e Desenvolvimento (Bird). c) composição dc litígios internacionais por meios pacíficos. ex­ ceto o Tribunal Internacional de Justiça. f) pressionar Estados não filiados a não tomar medidas prejudiciais à paz e à segurança internacionais. França e China). A or­ ganização compreende seis órgãos principais: Assembleia Geral. política dos Es­ tados europeus é anseio que se desenvolveu na própria Antiguidade Clássica. embora regionais. o maior número de Estados.9 0 Estado entre Estados: as organizações interestatais 235 e ordem jurídica próprias. Outras também visam objetivos também amplos. e não prestar auxílio a Estado contra o qual a organização estiver impondo sanções. 2) A ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS . Rússia. As deliberações do Conselho de Segurança obrigam os filiados à organização. e) obrigação de colaborar com as medidas tomadas pela organização em conformidade com a Carta.UE A ideia de uma unificação econômica e. Tais organizações têm fins universais. na medida do pos­ sível. sediado em Haia. É a sucessora da Liga das Nações. como sc depreende dos versos de Quinto Horácio Flaco: . Conselho de Se­ gurança. em alguns aspectos. Além dessas espé­ cies. criada logo após a Primeira Guerra Mundial. existem as organizações de fim específico. dos quais cinco são permanentes (Estados Uni­ dos. e que aca­ bou fracassando principalmente por não contar. Conselho de Tutela. 3) DIREITO COMUNITÁRIO: ANTECEDENTES DA UNIÃO EUROPEIA . distintas das de seus filiados e com objetivos específicos. Tribunal Internacional de Justiça e Secretariado. como o Fundo Monetário Interna­ cional (FMI). quando visam congregar. Conselho Econômico e Social. b) obrigação dc seus filiados dc cumprir os compromissos da Carta. É o caso da Organização das Nações Unidas (ONU). objetivando a solução pacífica dos questiona­ mentos mútuos que possam surgir entre seus filiados. A ON U conta com 192 Estados filiados. cuja vinculação decorre de um tra­ tado (Carta da ONU) que discorre sobre os direitos e as obrigações daqueles. d) absten­ ção do emprego de ameaça ou força material contra outros Estados. na Conferência de Versalhes dc 1919. eleitos pela Assembleia Geral por dois anos. pois visa congregar todos os Estados do mundo e compor seus conflitos mú­ tuos na qualidade de guardiã da paz. e os demais não permanentes. O Conselho de Seguran­ ça é formado por quinze membros.ONU A Organização das Nações Unidas (ONU) é uma instituição de caráter uni­ versal.

. uma confederação apta a unir seus destinos. cuja exposição de motivos é sumamente elucidativa: Sua Majestade o Rei dos Belgas. o desenvolvimento har­ monioso e equilibrado das atividades econômicas. em toda a Comunidade. intitulada Pan-Europa. uma obra de grande repercussão.] esta nação terá por capital Paris. de comum acordo. Sua Majestade a Rainha da Dinamarca. o aumento do nível e da qualidade dc vida. que instituiu a Comunidade Europeia. determinado seu art. Em 25. na oca­ sião e pela primeira vez.236 Teoria Geral do Estado Europa entregou ao Touro sedutor o seu flanco de neve [. um discurso consa­ grado à unificação europeia. o Presidente da Ir­ . na qual expunha suas ideias. um crescimento sustentável c não inflacionista que respeite o ambiente. promover. ressaltando a necessidade da organização do Ociden­ te. Napoleão c Hitler tentaram a unificação pela força intimidatória das armas. criando. (Carmine. o Presidente da República Francesa. Sua Majestade o Rei de Espanha. Churchill pronunciou. 3° e 3°-A. publicando. esses dois Estados. Em 07. a coesão econômica e social e a solidariedade entre os Estados-membros.. um jovem aristocrata húngaro. na Universidade de Zurique. Com o tempo. um alto grau de convergência dos comportamen­ tos das economias. fez uma exortação à França e à Alemanha que se reconciliassem. em 1304 o jurista Pierre Dubois concebeu um projeto de Estados Uni­ dos da Europa. mas não se chamará França.] Empalideceu com a sua própria coragem chorando o ato vergonhoso [. mulher do invencível Júpiter! Deixa de soluçar e aprende a fruir uma grande fortuna: uma parte do globo receberá teu nome. 2o: A Comunidade tem como missão a criação de um mercado comum e de uma União Econômica e Monetária e da aplicação das políticas ou ações comuns a que se referem os arts. va­ lendo lembrar que em 1867 Victor Hugo profetizara: “ No século X X haverá uma Nação extraordinária [. que instituiu a União Europeia.. e sim Europa”.02. Dante Alighieri retomou o assunto e. Em 1922. o Pre­ sidente da República Federal da Alemanha.. dirigiu à imprensa europeia uma mensagem reafirmando a necessidade de uma União Pan-Europeia. restando evidente que apenas pela força do Direito a união seria possível. Kalergi passou a ser considerado um verdadeiro apóstolo da unificação. sobre o qual empregou. em face do autoisolamento do Leste Europeu. um elevado nível dc emprego e dc proteção social.] Mas Venus lhe disse: .03. 27) Séculos mais tarde.Tu és. no que foi seguido por Jean-Jacques Rousseau e Saint-Simon. porém fracassaram.. no ano seguinte.1992 foi assinado o Tratado de Maastricht. II. quase contemporaneamente. o Presidente da República Helênica.1957 foi firmado o Tratado dc Roma. Em 1946. sem o saber. o Conde Coudenhove-Kalergi. a célebre expressão Cortina dc Ferro: “Uma cortina de ferro acaba de tombar sobre a Europa! ” Na oportunidade..

nos termos das disposições do presente Tra­ tado. a fim de lhes permitir me­ lhor desempenhar. Resolvidos a instituir uma cidadania comum aos nacionais dos seus países. incluindo. cultura e tradições. Rea­ firmando o seu objetivo de facilitar a livre circulação de pessoas.. Resolvidos a assinalar uma nova fase no processo de integração europeia ini­ ciado com a instituição das Comunidades Européias. Confirmando o seu apego aos princípios da liberdade. Sua Majestade a Rainha dos Países Baixos. de acordo com o princípio da subsidiariedade. pela autoridade comunitária (duo Comissão-Conselho). constituindo o cha­ mado direito comunitário originário. Assinala João Mota de Cam­ pos que uma parte dessas normas consta dos próprios Tratados. Na perspectiva das etapas ulteriores a transpor para fa­ zer progredir a integração europeia. de disposi­ ções relativas à justiça e aos assuntos internos. Re­ solvidos a executar uma política externa e dc segurança que inclua a definição. num quadro institucional único. as tarefas que lhes estão confiadas. Resolvidos a continuar o processo dc criação dc uma união cada vez mais estreita entre os povos da Europa. Decidiram instituir uma União Europeia. no presente Tratado. em que as de­ cisões sejam tomadas no nível mais próximo possível dos cidadãos. Determinados a promover o progresso econômico e social dos seus povos. assim. resultado de uma produção legislativa realizada na conformidade dos Trata­ dos. respeitando a sua História. a segurança e o progresso na Europa e no mundo. sem deixar de garan­ tir a segurança dos seus povos mediante a inclusão. do respeito pelos direitos do Homem e liberdades fun­ damentais e do Estado de Direito.. Sua Alteza Real o Grão-Duque do Luxem­ burgo. Desejando aprofundar a solidariedade entre os seus povos. Com a criação das três Comunidades Européias (Comunidade Europeia do Carvão e do Aço. Estas últimas nor­ mas. de atos normativos diversos (decisões ge­ rais ou regulamentos. de uma política de defesa comum que poderá conduzir. o Presidente da Republica Italiana. Sua Majestade a Rainha do Reino Unido da Grã-Bretanha e da Irlanda do Norte. os Tratados de Paris e de Roma instituíram uma ordem jurídica própria. fortalecendo. no momento próprio. a uma defesa comum. o Presidente da República Portu­ guesa. Resolvidos a conseguir o reforço e a convergência das suas economias e a instituir uma União Econômica e Monetária. Comunidade Econômica Europeia e Comunidade Europeia da Energia Atômica). no contexto da realização do mercado interno e do reforço da coesão e da proteção do ambiente. e a aplicar políticas que garantam que os progres­ sos na integração econômica sejam acompanhados dc progressos paralelos noutras áreas. a identidade europeia e a sua independência. recomendações ou diretivas c decisões). e que por isso deles derivam. Desejando reforçar o caráter democrático e a eficácia do funcionamento das instituições. outras resultam da adoção.9 0 Estado entre Estados: as organizações interestatais 237 landa. Recordando a importância his­ tórica do fim da divisão do Continente Europeu c a necessidade da criação dc bases sólidas para a construção da futura Europa. a pra­ zo. uma moeda única e estável. constituem o direito comunitário derivado (Direito . da democracia. à qual sc submetem os Estados signatários. em ordem a promover a paz.

alfandegários. cujo resul­ tado ainda hoje não ficou claro. formalizado numa tabuinha de argila encontrada por arqueólogos c enviada ao Museu do Louvre. outro tratado de paz. 2. cidade do sul da Mesopotâmia. em 1296 a. de 26. povo indo-europeu de grande poderio militar. no tocante ao comércio exterior. Muwatalis. aceitou o desafio e a guerra foi inevitável. o Mercado Comum do Sul (Mercosul) congrega Brasil. 5) OS TRATADOS INTERNACIONAIS (NATUREZA E EFICÁCIA) Por volta do remoto período entre 2404 e 2375 a. embora sua importância fosse.C. eclodindo na localidade de Kadesh. após dramática batalha. na antiga Mesopotâmia (atual Iraque).12. mais tarde.. Esta­ mos nos referindo ao célebre tratado de paz entre Ramsés II.03. país situado no sudoeste do atual Irã. passou a se proclamar vencedor. celebrou com Akkadc ou Agadé.). que estruturou ór­ gãos e objetivos do Mercosul. provavelmente em 2400 a. p. de 1980. Seriam estes os primeiros tratados internacionais registrados pela História. cambial c de capitais. que assinalava os confins do império dos hititas. c) a criação de uma tarifa externa e dc uma política comercial comuns. 1. depois. como visto. Paraguai e Uruguai. Seu histórico remonta ao Tratado de Montevidéu. 13 e scgs. Após o conflito. Ramsés II. Ramsés II contestara as fronteiras do Egito e da região que hoje é a Síria. embora seja admiti­ . fiscal. mediante a supressão de direitos alfandegá­ rios. 19 e segs.. entretanto. dois príncipes das cidades sumérias de Lagash e Uruk. muito maior. um rei do Elam. O rei hitita.238 Teoria Geral do Estado comunitário. propiciando condições de concorrência entre os Estados-membros..C. que teria sobrevivido milagrosamente no embate. b) a livre circulação de bens e serviços entre os Estados-membros. dc serviços. foi assinado o Protocolo de Ouro Preto. outro tratado seria.. celebraram um tratado de paz e fraternidade. ampliada pelo Tratado de Assunção. agrícola.1994. sem dúvida. de transportes e comunicações. e v. v. em alguma data entre 2291 e 2255 antes da Era Cristã. indevidamente. que criou a Associação Latino-Americana de Integração (Aladi). p. monarca egípcio e Muwatalis. Em 17. sendo estes os seguintes: a) a adaptação da legisla­ ção de cada Estado-membro à legislação dos demais. Lisboa. soberano hitita. conside­ rado o mais antigo. Fundação Calouste Gulbenkian. editando nada me­ nos que 46 exemplares do texto. forma­ da apenas por Brasil e Argentina e. monetário. que emprestaria seu nome à celebre batalha. Argentina. Pouco mais tarde. 4) 0 MERCADO COM UM DO S U L-M E R C O S U L Instituído pelo Tratado de Assunção.1991.C. com vistas à inte­ gração do chamado Cone Sul. industrial. d) a coordenação de políticas macroeconômicas e setoriais entre os Estados-membros.

Como as pessoas naturais. Há outro aspecto fascinante nesta batalha junto ao rio Orontes. no mí­ nimo. tangidas pela razão. Ceram assinala: A batalha de Kadesh. bem demonstra que os governantes já intuíam a importância dos tra­ tados. se não foi o pri­ meiro. W. tem ense­ jado a multiplicação dos tratados. C. verdadeiramente figura entre essas batalhas de primei­ ra importância para o mundo. muitos dos tratados de paz que têm sido produzidos pelas nações do vigésimo século da Era Cristã. O fato é que dessa animosidade surgiu um tratado de paz que. entre o faraó Ramsés II e o rei hitita Muwatalis. sanções de ordem econômica. Qual a natureza do tratado internacional? Qual sua eficácia? O tratado é a fonte primeira do direito internacional c. a outro ou outros Estados qualquer conduta de seu ex­ clusivo interesse. a interde­ pendência cada vez maior imposta a cada Estado em relação aos demais. um pacto que ultrapassa. qualquer que seja a sua designação específica. já reconheciam as vantagens da composição amigável de suas dissidências. principalmente os de paz. Ela decidiu o destino da Síria e da Palestina. a antiguidade do acordo celebrado entre egípcios c hititas. tendo em vista a participação direta dos Estados interessados. sobre tratados. 177) Vejam. além de ser manifestação de vontade objetiva democrá­ tica por excelência. morais se fariam sentir. A Convenção de Viena. A complexidade crescente das relações da comunidade internacional. em forma escrita e regulado pelo Direito Internacional. . unilateralmente. foi o mais significativo da História antiga do Próximo Oriente. Hoje. política ou. também as antigas sociedades políticas. assim como da balança do poder entre o Egito e Hatti. (p. cm época tão remota. de 1969. seria praticamente impossível um Estado impor. confere a seguinte definição des­ te ato: Tratado significa um acordo internacional concluído entre Estados.9 0 Estado entre Estados: as organizações interestatais 239 do por muitos historiadores que os egípcios teriam sido fragorosamente derrota­ dos. Em sua obra O segredo dos hititas. em sabedoria política. E o que acontecia aos países entre o Nilo e o Tigre era. venha a sc impor a outro pela força. É a primeira batalha da que somos capazes dc recons­ truir. mediante contratos. consideram prudente alternativa compor suas querelas e atender seus interesses suasoriamente. a história do mundo. supostamente. embora haja acordos de outra natureza no plano interestatal. imediatamente. consubstanciado em um único instru­ mento ou em dois ou mais instrumentos conexos. travada no ano de 1296 antes de Cristo. E na sua esteira veio o primeiro tratado dc paz detalhado de que temos conheci­ mento. sem falarmos no ubíquo terrorismo que solapa o mo­ ral de qualquer Estado que. o fato é que por seu intermédio se regem as matérias mais importantes. conduzi­ das por seus governantes. naqueles tempos.

Havendo conflito entre a norma internacional e a norma interna. Ora. Nesse senti­ do. Entretanto. No Brasil. ao passo que a ordem interna funda-se na Constituição. é relativamente ao concurso entre o tratado internacional e as nor­ mas internas de cada Estado que surgem a maiores indagações. b) Estatuto . Com efeito. Ademais. de 1998. resultando da vontade de vários Estados contratantes. a ordem jurídica interna disciplina as relações entre pessoas naturais (relações de direito privado) ou entre estas e o próprio Estado em que se situam (relações de direito público interno). valendo uma referência aos seguintes: a) Declaração .ato que estabelece as regras de criação e funcionamento de novos ór­ gãos. 84. b) habilitação dos agentes signatários. VIII). VIII.o termo tem dois significados: c. c) consentimento mútuo c válido. de Albuquerque Mello. c) Protocolo . com fundamentos e des­ tinatários distintos. a ordem internacional obtém sua validade em pro­ cedimentos típicos da comunidade internacional. 84. que brota da vontade de um Estado apenas. d) no caso do Brasil.trata-se dc um ato com objetivos econômico-financeiros ou cul­ turais. d) Acordo . a ordem internacional rege rela­ ções entre Estados. O tratado é apenas uma dentre as espécies da grande família dos atos inter­ nacionais de consenso.ato destinado a instituir princípios jurídicos ou reafirmar uma atitude política comum. o referendo do Congresso Nacional (CF. a saber. A teoria dualista foi elaborada por Heinrich Triepel. Quanto à eficácia dos tratados. art. conforme a teoria dualista. a dualista e a monista. c. Celso D. a CF adverte. 259. que a eficácia dos tratados no territó­ . Para o dualismo a ordem interna­ cional e a interna são realidades distintas.trata de matéria de competência comum da Igreja e do Esta­ do. Curso de direito internacional público. g) Convênio . nota). podendo estas ser nacionais ou estrangeiras. geralmente tribunais internacionais (Estatuto de Roma do Tribunal Penal In­ ternacional.tratado em que são criadas normas jurí­ dicas. exclusivamente. esta pressupõe: a) capacidade dos contratan­ tes. para ter validade e eficácia no âmbito inter­ no do Estado. f) Compromisso . orientação adotada em 1928 na Convenção de Havana sobre tra­ tados. obje­ to lícito e possível. embora a denominação dualista a ela atribuída seja de Alfred Verdross. e) Concordata .ato que versa matéria cultural ou transporte. inconfundíveis. é fato que alguns autores ainda consideram a forma oral de certos acordos internacionais. b) protocolo-acordo .ato utilizado para acordos sobre litígios que vão ser submetidos à arbitragem.240 Teoria Geral do Estado Embora a forma escrita seja exigida para a validade do tratado devido à im­ portância deste. no art. enquanto a interna se ocupa somente de pes­ soas naturais e jurídicas. a norma internacional deve ser admitida oficialmente no âmbito des­ te. como no caso dc notas diplomáticas confirmando acordos verbais anteriores (cf. p. qual delas deve prevalecer? Duas correntes doutrinárias se opõem no tocante à vigência dos tratados no plano inter­ no de cada Estado. a) a ata de uma conferência.

Assim. acordos ou atos internacionais que acarretem encargos ou compromissos gravosos ao patrimônio nacional. desvinculado daquele. sobre tratados. ao Congresso Nacional resolver. ainda quando se mo­ difique a constituição interna dos Estados contratantes. Se a organização do Estado mudar. até chegarmos ao ápice da pirâmide. haja vista terem. norma que se conjuga com o art. Kelsen justifica o monismo invocando sua conhecida teoria da pirâmide nor­ mativa. que diz competir.] Art. qual seja. Kelsen afirma o primado do direito internacional. Adolf Mcrkl. [. a Gründnorm ou norma fundamental. ademais. Os tratados continuarão a produzir os seus efeitos. da Lei Magna. 4 9 . como observa Larissa Ramina [. a partir do momento da transformação da norma internacional cm norma interna.1. como lembra Larissa Ramina. por divisão de território ou por ou­ tros motivos análogos. mas apenas uma. soberana. definitivamente. as normas de direito interno. diz Kelsen. daí a denominação de sua dou­ trina. A primeira afirma a absoluta primazia do trata­ do sobre a ordem interna: havendo conflito entre eles... Para o conhecido mestre vienense. prevalece a norma de direi­ to internacional. 11 da Convenção de Havana sobre tratados. Uma norma. de 1986. de maneira que a execução seja impossível.. a do monismo internacionalista e a do monismo nacionalista. O monismo viria a se cindir cm duas correntes. segundo a qual. existindo duas ordens jurídicas independentes. exclusivamente. a não ser a moral. como se observa nos arts.. o que se coaduna com a moderna concepção da soberania. e 26 e 27 da Convenção de Viena sobre o Direito dos Tratados entre Estados e organizações internacionais ou entre organizações internacionais. Quanto à teoria monista. pois. validade decorrente daquele. re­ tira sua validade daquela que lhe é imediatamente superior. onde reina. 11. que elaborou com outro jurista. cujo expoente é Hans Kelsen. A superioridade hierárquica do direito internacional sobre o direito interno seria es­ sencial da própria existência deste. estas não poderiam se chocar: a recepção do Direito Internacional seria realizada mediante sua transforma­ ção cm Direito Interno. pacta sunt servanda. Estado so­ berano é aquele que se acha diretamente subordinado ao direito internacional. no caso. não es­ taria subordinado a qualquer espécie de ordem. os tratados serão adaptados às novas condições. a ordem jurídica internacional c as ordens jurídicas in­ ternas seriam apenas comunicantes. Assim. o qual. não pode haver duas ordens jurídicas independentes. de 1928.] não haveria conflito de fontes nas relações entre Direito Internacional e Direito Interno. dispositivos estes que dizem: Art. (Pacta sunt servanda) Todo tratado em vigor obriga as partes e deve ser cumprido por . 26. a norma de direito internacional fundada no costume. mostra-se antípoda do pensamento dualista.9 0 Estado entre Estados: as organizações interestatais 241 rio brasileiro depende de referendo do Congresso Nacional.

3o.06.06.2002. caráter permanente (art. 1. 8o). a qualquer momento.2000. O Tribunal terá competência exclusiva para decisões sobre qualquer pedido de revisão ou recurso. como norma fundante primeira.1 . E para que haja recepção dessa pela ordem ju­ rídica brasileira. 7°).Países Baixos (art. a qualquer mo­ mento. do qual o Brasil é signa­ tário desde 07.TPl O Tribunal Penal Internacional (TPI) é uma pessoa jurídica de direito públi­ co externo. devem ser obedecidos os dispositivos constitucionais respectivos. de 17. 4°. com vista a determinar se uma ou mais pessoas identificadas deverão ser acusadas da prática desses crimes. e 109. 27. de 25. c) crimes dc guerra (art. pois a Constituição Federal. 4 9 . VIII. de 06. Quanto à teoria monista nacionalista. solicitar sua transferência do Estado incumbido da execução.2002. a sa­ ber. Foi instituído pelo chamado Estatuto de Roma. com recepção na ordem jurídica brasileira desde 06. a saber: a) crimes de genocídio (art. b) crimes contra a humanidade (art. esta afirma a primazia da Constituição do Estado sobre as normas internacionais. Tem personalidade jurídica internacional (art. .2002. 4o.242 Teoria Geral do Estado elas de boa-fé.5o. 48. Um Estado-parte de um tratado não pode invocar as disposições de seu direito interno para justificar o inadimplemento de um tratado. deve prevalecer aquela. caput. I o) e sede em Flaia . a pessoa condenada pelo Tribunal poderá. 6) 0 TRIBUNAL PENAL INTERNACIONAL .09. II. incluída a internacional. d) crime de agressão. O Estado da execução não obstará a que o condenado apresente um tal pedido.07. O direito público brasileiro consagra essa corrente. Art. e promulgado internamen­ te pelo Decreto n. 84. Qualquer Estado-parte poderá denunciar ao procurador uma situação em que haja indícios de ter ocorrido a prática de um ou vários crimes da competência do Tribunal e solicitar ao procurador que a investigue. decidir transferir um condenado para uma prisão de outro Estado. 112. guerra e agressão. Por ou­ tro lado. III e V. a partir de uma lista de Estados que lhe tenham manifestado a sua dis­ ponibilidade para receber pessoas condenadas.388.02. 1). O Tribunal poderá. A competência do Tribunal restringir-se-á aos crimes mais graves que afetam a comunidade internacional. §§ 2o e 3o. bem assim outros crimes contra a humanidade.1998. mediante o Decreto Legislativo n. 4. arts. 6o). havendo conflito entre uma norma interna e uma internacional. As penas privativas de liberdade serão cumpridas num Estado indicado pelo Tribunal. 1). vinculada à União Europeia (UE). impõe-se a to­ das as outras. item 1°. tendo por objetivo julgar os crimes de genocídio.

Vale lembrar que são textos pouco conhecidos da maioria do público. H. cumpre ressaltar que evitamos a inclusão de excertos já conhecidos por todos. de modo a ativar o senso crítico do leitor iniciante. Nestor Silveira Chaves. hoje. príncipe dos advogados e célebre orador. como o leitor perceberá de imediato. Da velhice. Dos deveres e Da República. e notas de Maximiano Augusto Gonçalves. Saraiva. Nes­ te diapasão. Antunes. na medida de nossas possibilidades. o acesso a obras hoje raras fica. Vale acrescentar que tais escritos revelam ideologias dc toda ordem. um excelente complemento para a pesquisa acadêmica. embora de notória importância. 243 . de modo que o intento de facilitar. durante a qual manteve. Livr.d.. São Paulo. De officiis.). não levamos em conta a vetustez ou modernida­ de dos autores. trad. Integram o rol seleto dos clássicos. nas quais refulge a chamada humanitas ou sabedoria civil e moral tipicamente romana.C. do que à sua brilhante produção jurídica e filosófica. diante de si. consistente em obras ainda hoje prestigiadas. o que torna os textos que o leitor tem. como Do orador. s. São Paulo. Ed. nos sebos. trad. Rio de Janeiro. deve sua fama menos à sua atividade política. Bruto. ao mestre e ao aluno.) 1 Marco Túlio Cícero (106-43 a. Cultura Brasileira. A maior parte desta coletânea é. mesmo. dificilmente encontrada nas livra­ rias ou. e notas de João Mendes Neto.LEITURAS COMPLEMENTARES 10 Na seleção dos textos a seguir. facilmente encontrados num sem-número de recentes antologias. trad. concretizado. postu­ ra ambígua. escritor e político ro­ mano. quase sempre. em respeito ao mais autêntico espírito democrá­ tico e à liberdade de opinião. 1) MARCO TÚLIO CÍCERO1 Dos deveres ("De o ffic iis ") (Tratado dos deveres. Dos deveres. e clássicos não envelhecem.

não se tem o direito de combater”. os Sânitas. de outro. não é menos indispensável a existência de uma razão legítima. inimigo. a justiça foi tão bem observada por nossos maiores que aqueles que tinham recebido a submissão das cidades e nações tornavam-se seus protetores. ou depois dc declaração formal. como gostava de guerra. Temos ainda a carta que o velho Catão escreveu a seu filho Marcos. contendo os motivos. uma guerra dessa natureza deve ser conduzida com maior animosidade. Cuidado em se meter em qualquer comba­ te: desde que não se é soldado. De outro lado. De um lado. com o tempo. e só se diz de quem toma armas contra nós. quando não há aparência de perfídia. ficou no exército. ao rei Pyrro. receber generosamente os sitiados que depuseram ar­ mas e se colocaram à disposição do general. ainda quando o cerco começa a pene­ trar na muralha. uma magistratura. temperando assim a doçura da palavra com a dureza da coisa. XII Sobre isso quero observar: mudamos o nome de perduellis. teríamos uma república. com o outro se defende a vida. sendo a glória a finalidade da guer­ ra. nossos maiores chamavam hostis os que chamamos agora perigrinus. ao contrário. Nas guer­ ras civis se comportam diferentemente com um inimigo e com um competidor. As condições que justificam uma guerra têm sido santamente consignadas no direito do povo romano. com os latinos. talvez a melhor de todas. pelo de hostis. Sobre isso. quando estabelece como única guerra legítima aquela que é feita para reivindicar um território usurpado. Lê-se na Lei das Doze Tábuas: Aut dies status cum hoste. Há alguma coisa mais humana que dar nomes tão moderados a quem nos faz a guerra? Contudo. Esse general deliberou licenciar uma legião. que servia na Macedônia na época da guerra contra Perseu: “Soube. Fizemos a guerra aos Celtibcros c aos Cimbros como a inimigos. com este sc disputa uma dignidade. que dela fazia parte. tendo sido o pri­ meiro dispensado. que fazia suas primeiras armas. e não a que existe. entendo que nunca sc deve rejeitar proposições de paz. Catão escreveu a Pompílio que. os Sabinos. diz ele. os Cartagineses. é preciso consolar os que foram vencidos pela força. Mesmo quando se luta pela supremacia. se encontrava licenciado. que foste licenciado pelo Cônsul. que designava. tinha no seu exército um filho de Ca­ tão. era preciso engajá-lo de novo. por uma questão de existência e não de supremacia. pois que. e mais adiante Auctoritas aeterna adversus hostem. governador de uma província. e o filho de Catão. a honra. só combatemos pelo império. se ele consentisse em ter seu filho sob sua bandeira. propriamente. Os . o nome se tornou duro. mas.244 Teoria Geral do Estado Por mim. Pompílio. não podia legalmente combater o inimigo: tanto era ele rigoroso em observar as leis de guerra. se quisessem me ouvir. Com efeito.

Tomando por testemunha a majestade dos deuses. Recusaram assim comprar com um crime a morte de um inimigo poderoso e que declarou guerra sem ser provoca­ do. Lembra-se a nobre resposta de Pyrro quando se tratou do resgate dos pri­ sioneiros: Romanos. Aníbal en­ viou prisioneiros a Roma para negociarem o resgate de cativos. os que se tornaram perjuros. nem resgate para mim! Não transformemos a guerra num tráfico infame! Que o ferro. dignas do sangue de Eacides. Um trânsfuga do exército de Pyrro ofereceu-se ao Senado para envenenar o rei. c jurou voltar. não o ouro. Na primeira guerra púnica. o Se­ nado e C. a palavra empenhada deve sempre refletir o que se pensa e não o que sc diz. apesar das súplicas de parentes e amigos. aconse­ lhou o Senado a não devolver os cativos. cruel. Ora. são aqueles que são tratados como mercenários aos quais se exige trabalho a troco do necessário para viverem. voltou. antes da batalha de Cannes. Nossos antepassados deram um lindo exemplo de justiça para o inimigo. Com efeito. Levareis vossos prisioneiros. sem exclusão do que recorreu à astúcia para se desembaraçar de compromisso. e preferiu submeter-se ao suplício a faltar com a palavra dada ao inimigo. . Para saber quem possuirá o Império! Que o valor decida. para mim nem o ouro. Observemos ainda que devemos praticar justiça mesmo com as pessoas de baixo nível. depois. que.10 Leituras Complementares 245 cartagineses foram pérfidos. saindo do acampamento com permissão de Aníbal. Quando chegou. Eu juro deixar a doce liberdade. Fabricius entregaram o trânsfuga a Pyrro. mas os outros não se mostravam mais justos. São palavras dignas de um rei. mesmo sob pressão dc circunstâncias. voltou sob o pretexto de que havia esquecido qualquer coisa. Regulus. crendo-se quite com a sua palavra por não ter estado nos termos do tratado. Escutai minhas palavras! Àqueles que o destino da batalha poupar. Pyrro os devolverá. depois de tê-los fei­ to jurar que retornariam se nada obtivessem. deve manter sua palavra. retornou em seguida. foi enviado a Roma para tratar da troca de prisioneiros. Mas é o bastante sobre os deveres na guerra. fez uma promessa ao inimigo. preso pelos Cartagineses. No tempo da segunda guerra púnica. foram degradados pelos censores e relegados toda a vida para a classe dos tributários. XIII O cidadão. decida a nossa sorte. Aníbal. Ninguém de mais humilde condição que os escravos.

que quis dar à criatura a perfeição que lhe era possível ter. . também será causa da sua desigualdade. como o formal exce­ de o material. in Britannica Great Books o f the Western World. Sen­ do. É o bastante so­ bre a justiça. Todas as duas são indignas do homem. Pois não seria perfeito o univer­ so se nas coisas só se encontrasse um grau de bondade (Santo Tomás de Aquino. a mais abominável é a desses homens que. mais acrescenta a bondade do universo a multiplicidade das es­ pécies do que a dos indivíduos de uma mesma espécie. mas procede da própria intenção de Deus. cit. logo.31) (Suma contra os gentios. a bondade da espécie excede a do indivíduo. Logo. v. os animais do que as plantas e os homens do que os outros animais. 47. Por isso. I. era-Lhc conveniente fazer muitos graus de cria­ turas. pois é deficitária da infinita bondade de Deus. Ora.] A diversidade e a desigualdade das criaturas não procede do acaso. 2) SANTO TOMAS DE AQUINO Suma teológica e Suma contra os gentios (Thomas Aquinas. procuram parecer homens de bem. quando enganam. os compostos são mais perfeitos do que os elementos. pois teriam o que tem este e ainda mais. [.J Muitos bens finitos são melhores do que um só. nem da intervenção de al­ gumas causas ou méritos. as plantas do que os mi­ nerais. Ao Sumo Bem compete fazer o que é melhor. à perfeição do universo contribui não só haver muitos indivíduos.). outra ao leão. 45). pois. a. Nos seres naturais vemos que as espccies são gradativamente ordenadas. é finita a bondade de toda criatura. Em cada uma dessas classes encontram-se espécies mais perfeitas do que as outras. Suma con­ tra os gentios. diferentes graus de coisas (Santo Tomás de Aquino..... Livro II. a Divina Sabedoria a causa da distinção das coisas para a perfeição do universo. As­ sim. Gap. é cometida de duas maneiras: pela violência e pela frau­ de. q. Suma teológica.) Tradução do autor. 2) [.246 Teoria Geral do Estado Quanto à injustiça. mas a fraude é mais odiosa. por conseguinte. Ademais. é mais perfeito o universo ha­ vendo muitas criaturas do que se houvesse um único grau delas. De todas as injustiças. Logo. Encyclopaedia Britannica. nem da diversidade da matéria. mas haver diferentes espécies e. e era excelente7 ’ (1. 19. Uma pertence à raposa. Daí dizer-se no Gênesis: “Viu Deus tudo o que tinha feito.

Os novos podem ser totalmente novos. mas sim para um momento grave da história de uma nação. O que. entretanto. pensador italiano natural de Florença. Nomeado secretário da senhoria de Florença em 1498. sendo adquiridos com tropas de ou­ trem ou com as próprias. sem que seus detratores se apercebessem de que O príncipe não fora escrito para todos os povos e todas as épocas. Esses domínios assim obtidos estão acostumados ou a viver submetidos a um príncipe ou a ser livres. todos os governos que tiveram e têm poder sobre os ho­ mens. entretanto. e Tutte le opere. II príncipe. todos os meios para alcan­ çá-lo seriam válidos. de várias missões diplomáticas junto à corte francesa. que os adquire. quan­ do o sangue senhorial é nobre já há muito tempo. bem como pela fortuna ou por virtude. 1980. Firenze. deve ter o cuida­ do de não usar mal essa piedade. para fugir à pecha de cruel. foi incumbido. foram e são repúblicas ou principados. como foi M ilão com Francisco Sforza. principalmente pelo prestígio de que ain­ da frui O príncipe. ou novos. que lhe inspiraram a feitura de inúmeros escritos. Novara. entre 1503 e 1512. o príncipe seria perfeitamente descartável. Stabilimenti Grafici Bemporad Marzoco. Os principados são hereditários. mostrará ter sido ele muito mais pie­ doso do que o povo florentino. Itália. ou membros acrescidos ao Estado hereditário do príncipe. César Bórgia era considerado cruel. porque cumprida sua missão. logrando uni-la e pô-la em paz e em lealdade. procurou demonstrar como deveria agir o homem providencial que unificaria os italianos e emanciparia a Itália. especialmente os Discursos sobre a primeira década de Tito Lívio c O príncipe.10 Leituras Complementares 247 3) NICOLAU MAQUIAVEL2 O príncipe (Machiavelli. deixou que Pis- Nicolau Maquiavel (1469-1527). 1969. Capítulo I De quantas espécies são os principados e de que form as são adquiridos Todos os Estados. o qual. se bem considerado for. a italiana. Conseguida a unifi­ cação. Capítulo XVII Da crueldade e da piedade: se é m elhor ser tem ido ou ser amado Reportando-me às outras qualidades já mencionadas. digo que cada príncipe deve desejar ser tido como piedoso e não como cruel. Sendo esse objetivo nobre. tomar-se-ia um dos mais conhecidos doutrinadores do seu tempo e da atualidade. . essa sua crueldade tinha recuperado a Romanha. Tal diretriz acarretou-lhe a má fama dc escritor cínico e insensível.) Tradução do autor. dedicou-se à pesquisa histórica e à ela­ boração de obras que se tornariam célebres. Nesta. Edipem. como é o reino de Nápoles em relação ao rei da Espanha. Exilado em 15 12. sua obra mais conhecida.

não se torna possível utilizá-las. buscan­ do evitar que a excessiva confiança o torne incauto e a demasiada desconfiança o faça intolerável. enquanto lhes fizeres bem. ao passo que as ra­ zões para o derramamento de sangue são mais raras e esgotam-se mais depressa. volúveis. e. E os homens têm menos escrúpulo em ofender a alguém que se faça amar do que a quem se faça temer. a necessidade esteja longe de ti. et late fines custode tuerr. contudo. pois que. por serem os homens maus. et regni novitas me talia cogunt moliri. e não pela grandeza e nobreza de alma. temer a fama de cruel. geralmente.248 Teoria Geral do Estado toia fosse destruída. quando esta se avizinha. dentre todos os príncipes. não obstante. A resposta é que seria necessário ser uma coisa e outra. com prudência e humanidade. nunca fal­ tam motivos para justificar as expropriações. ambiciosos dc ganho. ele será mais piedoso do que aqueles que. no momento oportuno. E o príncipe que confiou inteiramente em suas palavras. e aquele que começa a viver de rapi­ nagem sempre encontra razões para apossar-se dos bens alheios. pela boca de Dido: “ Res dura. desde que. é ao novo que se torna impossível fugir à pecha de cruel. oferecem-te o próprio sangue. O príncipe. Deve o príncipe. de forma que. tementes do perigo. po­ rém. E. abster-se dos bens alheios. posto que a amizade é mantida por um vínculo de obrigação. Nasce daí uma questão: se é melhor ser amado que temido ou o contrário. pois. sobretudo. com mui poucos exemplos. que são ingratos. deixam acontecer as desordens das quais resultam assassínios ou rapinagens. como se disse acima. cm tendo que faltar uma das duas é muito mais seguro ser temido do que amado. está perdido: as amizades que se adquirem por dinheiro. mesmo porque podem muito bem coexistir o ser temido c o não ser odiado: isso conseguirá sempre que se abstenha de tomar os bens e as mu­ lheres de seus cidadãos e de seus súditos. Isso porque dos homens pode-se dizer. então é de todo necessário não se importar com a . por excessiva piedade. os bens. que. fuja ao ódio. Deve. como é difícil reuni-las. se não conquistar o amor. são compradas. a vida. Diz Virgílio. não se alarmar por si mesmo e proceder por forma equilibrada. posto que os homens esquecem mais rapidamente a morte do pai do que a perda do patrimônio. mas. os filhos. revoltam-se. são todos teus. visto serem os Estados novos cheios de pe­ rigos. faça-o quando existir conveniente justificativa e causa manifes­ ta. enquanto aquelas execuções que emanam do prín­ cipe atingem apenas um indivíduo. porque estes costumam prejudicar a comunidade inteira. desde que por ela conserve seus súditos unidos e leais. fazer-se temer. mas o temor é mantido pelo receio de castigo. que jamais se aban­ dona. é quebrado em cada oportunidade que a eles convenha. encon­ trando-se destituído de outros meios de defesa. deve ser lento no crer e no agir. Um príncipe não deve. Mas quando o príncipe está à frente de seus exércitos e tem sob seu coman­ do uma multidão de soldados. si­ muladores. mas com elas não se pode contar e. c. em se lhe tomando necessário derramar o sangue de alguém. Além disso.

) Este belo e. admiram. aliada às suas infinitas virtudes. Em festejada obra. cujos exérci­ tos se revoltaram na Espanha em conseqüência de sua excessiva piedade. já que. 447 c scgs. nunca surgiu qualquer dissensão entre eles ou contra o príncipe. Isso não pode resultar dc outra coisa senão da­ quela sua desumana crueldade. voltando à questão de ser temido e amado. Tal fato foi-lhe censurado no Senado por Fábio iMáximo. todavia. de um lado. p. resultando tudo isso de sua natureza fácil. Essa sua natureza teria com o tempo sacrificado a fama e a glória de Cipião. mas vivendo sob o governo do Senado. homem dos mais notáveis não somente nos seus tempos mas também na memória de todos os fatos conhecidos. a mutabilidade da chamada opinião pública. condenam a principal causa da mesma. tremendo texto. Ora enaltecendo Brutus e ultrajando o cadáver de Cé­ sar. 4) W IL U A M SHAKESPEARE J ú lio César3 {Obras completas. tanto assim que. ora amaldiçoando Brutus e divinizando César. de outro. as vir­ tudes não lhe teriam bastado para surtir tal efeito. e. como lhe resultou em glória. tão logo se soube que este deixava bens ao povo. tivesse ele perseverado no coman­ do. pois que havia concedido aos seus soldados mais liberdades do que convinha à disciplina militar. Ed. Os locrences. percebe-se a volubilidade do ser humano. pode-se considerar o caso de Cipião. tragédias. fruto do gênio de Shakespearc. Concluo. que um príncipe sábio. paradoxalmente. amando os homens como a eles agrada e sendo por eles temido como dese­ ja. tendo sido arruinados e abatidos por um legado de Cipião. 1. Júlio César. deve apoiar-se naquilo que é seu e não no que é dos outros. que­ rendo alguém desculpá-lo perante o Senado. esta sua prejudicial qualidade não só desapareceu. Dentre as admiráveis ações de Aníbal. conduzido a batalhar em terras alheias. pois. o Prof. o tornou sem­ pre venerado e terrível no conceito de seus soldados. sem aquela crueldade. jamais se conservará exército unido e disposto a al­ guma empresa. sem ela. essa sua atuação e. realmente.10 Leituras Complementares 249 fama de cruel. nem a insolência daquele lega­ do foi reprimida. demonstra. em face de seus interesses imediatos. as outras suas virtudes não seriam bastantes. Pedro Salvetti Netto adverte ser fundamental que a opinião pública autêntica só é possível . não foram por ele vingados. disse haver muitos homens que me­ lhor sabiam não errar do que corrigir os erros. menciona-se esta: tendo um exército imenso. deve apenas empe­ nhar-se em fugir ao ódio. que. v. bem. constituído de homens de inúmeras raças. tanto 11a má como na boa fortuna. escritores nisto pouco ponderados. Para prova de que. Rio de Janeiro. como foi dito. o qual o chamou de corruptor da milícia romana. Nova Aguilar. 1988.

C id a d ã o s . que caracterizam uma rixa ou uma horda de linchadores (cf. Os que desejarem ouvir-me. os romanos. 137-8). numa via pública. esta é minha resposta: “Não que amasse menos César. . como o Redemptor Hominis e o Messias . 3.250 Teoria Geral do Estado CENA 11:0 Fórum Entram Bruto e Cássio com uma turba de Cidadãos. ide à outra rua e dividi a multidão. . como foi ambicioso. prossegue. um escravo que.. Silêncio! Br u t o .Queremos que nos seja dada uma explicação! Dai-nos explicação! B r u t o .O nobre Bruto já está na tribuna. seguidamente. Gustave Le Bon. exal­ tando Cristo em um domingo. ele foi afortunado. na multidão. pode ser uma pessoa sóbria e refinada. meus amigos.São Paulo. Sa­ raiva. em tempo próximo. se informada. bem pode­ ria. um eminente sociólogo francês. para adverti-lo de que a mesma multidão. lhe murmurava aos ouvidos: Lembra-te de que és homem. Arthur Herman. tão volúvel como a pluma ao vento da ópera de Verdi. quando tivermos ouvido separadamente um e outro. mesmo. Pelo simples fato de fazer parte dc uma mul­ tidão. Na percepção genial do agir humano. ora a tributar-lhe a glória. compatriotas e amigos! Escutai-me defender minha causa e guardai silêncio para que possais ouvir-me. porém porque amava mais Rom a” . publicou uma pequena obra intitulada A psicologia das multidões. Record Ed. Se então esse amigo perguntar por que Bru­ to se levantou contra César. Os que deseja­ rem acompanhar Cássio. . advertia Le Bon. eu o matei. que fale. honra para seu valor.Eu ouvirei Bruto falar. Acreditai-me por minha honra e respeitai minha honra para que possais acreditar-me. na visão intuitiva da própria psicologia das massas. . p. na qual afirmava que. ao agraciarem o conquistador com as pompas e as honras do triunfo. médico de profissão. Cássio. eu me alegro.Eu ouvirei Cássio e assim poderemos comparar-lhes as opiniões. se responsável. c morte para sua ambição. júbilo para sua fortuna. levá-lo à rocha Tarpeia” (Curso de teoria do Estado.Então. . a regressão em massa a um estado primitivo. transforma-se num bárbaro capaz das ações mais brutais e irracionais. porque eu o ofendi! Quem é aqui tão estú- se conscientizada. o homem desce vários degraus na escada da civilização. uns nos outros. São Paulo. (Sai Cássio com al­ guns Cidadãos. Bruto sobe à tribuna. portanto. “a opinião das massas é so­ bremaneira influenciável e. S e g u n d o C i d a d ã o . provocam. digo-lhe que o afeto de Bruto por César não era menor do que o dele. p. Julgai-me com vossa sabedoria e avivai vossos sentidos para que possais ser melhores juizes. Quem é aqui tão vil que deseje ser escravo? Se alguém existe. / \ideia de decadência na história ocidental.Sede pacientes até o fim! Romanos.) Te r c e ir o C i d a d ã o . na biga majestosa. Fora disso. 1979. acompanhai-me e escutai. Por si mesmo. quan­ do as pessoas se juntam numa reunião política ou. 1999. foi valente. fiquem aqui. poderão acompanhá-lo. Há lágrimas para sua amizade. Em 1895. mas. P r i m e i r o C i d a d ã o .levou-o à cruz cinco dias depois. ed.. Rio de Janeiro . . 89-90). Se houver nesta assembleia algum amigo caro a César. Preferiríeis que César vivesse e morrêsseis to­ dos escravos. . Serão expostas publicamente as razões da morte de César. faziam-no acom­ panhar. eu o venero. a César morresse e vivêsseis todos livres? César gostava de mim e eu choro por ele.

em considera­ ção a mim.Então. . P r i m e i r o C i d a d ã o . não há! B r u t o . (Sobe na tribuna. To d o s .Viva Bruto! Viva! Viva! P r i m e i r o C i d a d ã o . . . . somente. que fale.Seria melhor que não falasse mal de Bruto aqui. permanecei aqui com Antônio. . tenho uma obrigação para convosco.Vamos erigir-lhe uma estátua junto de seus antepas­ sados! T e r c e ir o C i d a d ã o . pranteado por Marco Antônio. Suplicovos! Ninguém deve afastar-se. que lhe valeram os méritos que possuía. . (Entram Antônio e outros com o corpo de César.Q u e disse de Bruto? T e r c e ir o C i d a d ã o .Em consideração a Bruto. Foi uma bênção para nós que Roma se tivesse libertado dele. não ofendi ninguém. Se matei meu melhor amigo pela felicidade de Roma. . e.10 Leituras Complementares 251 pido que não queira ser romano? Se existir. T e r c e ir o C i d a d ã o . Es­ pero uma resposta.Diz que. .Calem. Vamos! B r u t o .. . (Sai. tem uma obrigação para com todos nós. Quem de vós não conseguirá outro tanto? Ainda uma palavra e partirei. nem foram exage­ radas as ofensas que lhe valeram a morte. sem tomar parte em sua morte. Bruto.Vamos carregá-lo para casa em triunfo! Se g u n d o C i d a d ã o . porque eu o ofendi. Subi.Que suba à tribuna pública: nós o escutaremos. até que Antônio haja acabado de falar. To d o s .Não há. .Vamos levá-lo para casa com vivas e aclamações! Br u t o . . .Esse César foi u m tirano! Te r c e ir o C id a d ã o .As melhores qualidades dc César sejam coroadas em Bruto! P r i m e i r o C i d a d ã o . . nobre Antônio! A n t ô n i o .Fiquemos! Vamos ouvir Marco Antônio.) Aqui chega o corpo dele.Caros compatriotas. que fale. ..C alem ! Silêncio! Fala B ruto. estou pronto a usar meu punhal contra mim. com nosso beneplácito. . não há dúvida. A gló­ ria. .) P r i m e i r o C i d a d ã o . . . . por consideração a Bruto. deixai-me ir embora sozinho. não foi diminuída.) Q uarto C i d a d ã o . S e g u n d o C i d a d ã o . exceto eu. Q uarto C i d a d ã o . . se mi­ nha pátria quiser reclamar minha morte. que. Honrai o cadáver dc César e ouvi a apo­ logia de suas glórias que. dela auferirá benefícios. porque eu o ofendi! Quem é aqui tão baixo que não ame sua pátria? Se existir. .Meus compatriotas!. Nada mais fiz com César do que teríeis feito com Bruto! Os motivos da morte dele estão registrados no Capitólio.Sim. um lugar na República. Antônio pronunciará.Vamos nomeá-lo César! Q u a r t o C i d a d ã o . P r i m e i r o C i d a d ã o .

Notastes as palavras que pronunciou? Não quis aceitar a coroa. neste particular..Ainda ontem a palavra de César podia ser mais forte do que o universo! Agora. o bem que fizeram é sepultado com os próprios ossos! Que assim seja com César! O nobre Bruto vos disse que César era ambicioso. A ambição deveria ter um coração mais duro! Entretanto. romanos. c. César. e Bruto é um homem honrado. Não falo para desa­ provar o que Bruto disse. Q uarto C i d a d ã o . ali ele jaz e ninguém. para pranteá-lo? Oh! inteligência. Todos vós o vistes nas Lupercais: três vezes eu lhe apresentei uma coroa real e três vezes ele a recusou. seria injusto com Bruto e com Cássio. . . Se g u n d o C i d a d ã o .Se considerares devidam ente o assunto. não sem motivo.Silêncio! Vamos ouvi-lo.Sc for exato. como todos os demais são homens honrados).Nobres romanos!. mesmo que seja o mais miserável possível. venho falar nos funerais de César. não para glorificá-lo.. parecia ambicioso? Quando os pobres deixavam ouvir suas vozes lastimosas. não lhe presta uma só homenagem! Ó senhores. .Vamos observá-lo agora. Q u a r t o C i d a d ã o . Bruto disse que ele era am­ bicioso.252 Teoria Geral do Estado S e g u n d o C i d a d ã o .Amigos.Não é. com a permissão de Bruto e dos demais (pois Bruto é um homem honrado. agora. cidadãos? Temo que um pior do que ele possa substituí-lo. não há dúvida de que não fosse ambicioso. como todos vós sabeis. P r i m e i r o C i d a d ã o . T e r c e ir o C i d a d ã o .Silêncio! Vamos ouvir o que Antônio tem para dizer. . S e g u n d o C id a d ã o .Pobre coitado! Está com os olhos vermelhos como fogo de tanto chorar. Não quero ser . T e r c e ir o C i d a d ã o . Isto era ambição? Entretanto. .Não existe homem mais nobre em Roma do que An­ tônio. cujos resgates encheram os cofres do Estado. fugiste para os irracionais. . César derramava lágrimas. compatriotas. Portanto. A n t ô n i o . alguns terão que pagar caro. . . prestai-me atenção! Estou aqui para sepultar César. com eteram um grande erro c o m César. . pois os homens perderam o juízo!.. A n t ô n i o . Se assim foi. A n t ô n i o . Trouxe muitos cativos para Roma. os quais. Era meu amigo.Acho que tem muita razão no que está dizendo. . Que razão. mas aqui estou para falar sobre aquilo que conheço! To­ dos vós já o amastes. Desculpai-me! Meu coração está ali com César. sem dúvida alguma. To d o s . era uma grave falta e César a pagou gravemente. Bruto é um homem honrado. Aqui. Bruto disse que ele era ambicioso e Bruto é um homem hon­ rado. . . e preciso esperar até que ele para mim volte! P r i m e i r o C i d a d ã o . mas Bruto diz que era ambicioso. vos detém. leal e justo comigo. Está recomeçando a falar. .. O mal que fazem os homens perdura de­ pois deles! Frequentemente. então. se estivesse disposto a excitar vos­ sos corações e vossos espíritos para o motim e a cólera. são homens honrados.

como precioso legado. como se quisesse certificar-se de que S e g u n d o C i d a d ã o . . mergulhando os lenços em seu sangue sagrado! Mendigará um ca­ belo como relíquia e. ao retirar o maldito aço. . comigo e convosco. assassinos! O testamento! Lede o testa­ mento! A n t ô n i o . . dentro da tenda. Marco Antônio! To d o s . . Ouça somente o povo este testamento (embora. .Não vos aperteis tanto assim contra mim! Permanecei bem longe! To d o s . para sua descendência. . cujos punhais feriram Cé­ sar! É o que temo! Q u a r t o C i d a d ã o .D am o s! (Antônio desce do púlpito. .Formai um círculo.Recuai! Dai lugar! Retirai-vos! A n t ô n i o . . desculpai-me. A n t ô n i o . preparai-vos agora para derramá-las. mas sois humanos e. .Sua última vontade! O testamento! S e g u n d o C i d a d ã o . no dia em que venceu os nérvios. para o nobilíssimo Antônio! A n t ô n i o . Era uma tarde de verão.São traidores: Homens honrados! To d o s .Estais autorizado. Não é bom que saibais que sois o herdeiro dele. Colocai-vos cm volta. . não pretenda lê-lo). observai como o san­ gue de César parece que se lançou atrás dele. ao ouvirdes o testamento de César. for­ mai um círculo em torno do cadáver de César e deixai-me mostrar-vos aquele que fez o testamento. então.O testamento! O testamento! Queremos ouvir o testamento de César. o mencionará nos testamentos. Posso descer? Vós me dareis vossa permissão? To d o s . .Não vos aproximeis do ataúde! Não vos aproximeis do corpo! S e g u n d o C i d a d ã o . ficareis enlouquecidos. aqui está um pergaminho com o selo de César. Todos vós conheceis este manto. para transmi­ ti-lo. Eu o encontrei 110 gabinete dele: são as suas últimas vontades. ficareis inflamados. . . P r i m e i r o C i d a d ã o . . sendo homens.Se tiverdes lágrimas. -Tereis paciência? Esperareis um pouco? Fui longe demais contan- do-vos isto. a ser injus­ to com homens tão honrados! Mas. Olhai: por este lugar penetrou o punhal de Cássio! Vede que rasgão abriu o invejoso Casca! Por este.) T e r c e ir o C i d a d ã o . lembro-me da primeira vez que César o usou.São covardes.10 Leituras Complementares 253 injusto com eles! Prefiro ser injusto com o morto. Q u a r t o C i d a d ã o . A n tô n io ! É pre­ ciso que leiais o testam ento! O testam ento de César! A n t ô n i o . o bem-amado Bruto o feriu! E. não sois de pe­ dra. se vós o soubésseis.Queremos ouvir o testamento! Lede-o. Temo ser injusto com os homens honrados.Quereis compelir-me então a ler o testamento? Pois. . amáveis amigos! Não devo lê-lo! Não é conve­ niente que saibais quanto César vos amava! Não sois de madeira.Lugar para Antônio.Sede pacientes. c irá beijar as feridas de César morto.Lede o testam ento! Q uerem os ouvi-lo. 0 I1 ! que poderia acontecer? Q uarto C i d a d ã o . Q u a r t o C i d a d ã o .Descei! . . quando morrer.

meus amigos.Oh! lamentável espetáculo! S e g u n d o C i d a d ã o . esse Antônio perturbaria a serenidade de vossos espíritos e colocaria uma língua em cada uma das feridas de César. nem palavras. c. Queimemos!. não me deixeis excitar-vos com esta repentina explosão de revolta! Aqueles que consumaram este ato são homens hon­ rados. Não tenho espírito. meus compatriotas! Naquele momento. um homem franco e simples que amava meu amigo e isso sabem perfeitamente bem os que me deram publicamente licença para falar a respeito dele.. desfigurado pelos traidores! P r i m e i r o C i d a d ã o .. nem mérito. Degolemos!. compatriotas! Ouvi-me ainda falar! . era o anjo de César! Julgai. por que chorais.. Quais eram as queixas secretas que tinham para fazê-lo? Ai! E O que igno­ ro. para roubar vossos corações! Não sou orador como Bruto.Vamos. . pois. pobres bocas mudas e peço-lhes que fa­ lem por mim! Se eu fosse Bruto. e se Bruto fosse Antônio. apresentarão a todos vós as razões que possuíam. Oh! que queda foi aquela.. estalou seu poderoso coração. . sem dúvida. . capaz de comover e levantar em motim as pedras de Roma! Todos. Procuremos!.Esperai.Nós nos revoltaremos! P r i m e i r o C i d a d ã o . como sa­ beis.Oh! traidores.Oh! dia calamitoso! Q u a r t o C i d a d ã o . com que ternura César o amava! Esse foi o mais cruel de todos os golpes. Não deixemos que nenhum traidor fique vivo! A n t ô n i o . . . eu. .. cobrindo o rosto com o manto. o grande César caiu aos pés da estátua dc Pompcu. . . . venceu-o completa­ mente! Então. a ingratidão. compatriotas! P r i m e i r o C i d a d ã o . nem eloqüência.. então! Vinde! Vamos procurar os conspiradores! A n t ô n i o . enquanto triunfava sobre nós a traição sangrenta! Oh! Estais choran­ do agora e percebo que sentis a marca da piedade! São lágrimas generosas! Almas bondosas. Estou mos­ trando as feridas do bondoso César. Eles são sensatos e honrados e. Vamos!.Ouvi-me ainda...Vingança!. amáveis amigos. . Matemos!. . . .Seremos vingados! To d o s . ..Silêncio! Escutai o nobre Antônio! S e g u n d o C i d a d ã o . mas.Bons amigos. vós e todos caímos.. como estais vendo.Incendiemos a casa de Bruto! Te r c e ir o C id a d ã o .254 Teoria Geral do Estado era ou não Bruto quem tão desumanamente abria a porta! Porque Bruto.. bandidos! P r i m e i r o C i d a d ã o . ó deuses. mais poderosa do que os braços dos traidores. onde o sangue não parava de jor­ rar!. quando o nobre César viu que ele o feria..Oh! visão sangrenta! S e g u n d o C i d a d ã o . quando só vistes ainda as feridas do manto de César? Olhai: aqui está o próprio César. . nem ação. pobres..Oh! nobre César! T e r c e ir o C i d a d ã o .Nós o escutaremos! Nós o seguiremos! Nós morrere­ mos com ele! A n t ô n i o . como todos vós sabeis.. nem o poder da palavra capazes de excitar o sangue dos ho­ mens! Falo muito claramente e só vos digo o que todos vós já conheceis. Não vim aqui.

p. nem praticar a resignação. a cada h o m e m .) Tradução do autor. vós o ignorais! Devo. então. ten­ do sido aluno e grande amigo de Ralph Waldo Emerson. para que possais passear e divertir-vos. Cultivou um individualismo radical.. até que o Estado reconheça o poder do indivíduo como um poder mais alto e independente. . dizer-vos. 4 Henry David Thoreau (1817-1862). .Derrubai os bancos! Q u a r t o C i d a d ã o . dadãos transportando o corpo de César. seus pomares recém-plantados deste lado do Tibre.A q u i está ele c c o m o selo de César.Ouvi-me com paciência! T o d o s . ele vos deixa todos os seus passeios. Desobediência civil. . Em sua obra mais conhecida. Esquecestes o tes­ tamento de que vos falei. ele lega setenta e cinco dracm as. um Estado realmente livre e esclarecido. seus jardins pri­ vados. Dele se disse que não desejava viver o que não c vida. . . estranho ao individualismo egoísta burguês. não sabcis o que ides fazer! Que fez César para assim merecer vossos afetos? Ai. . A cada c id a d ã o ro m a n o .Ide procurar o fogo! T e r c e i r o C i d a d ã o .Silêncio! Ouçamos Antônio!. da qual pinçamos um trecho. a menos que absolutamente necessária. nunca! Vinde.) 5) HENRY DAVID THOREAU4 Desobediência c iv il (Madrid. seu individualismo resta patente quan­ do diz: “Não haverá. po­ rém romântico. . .Oh! régio César! A n t ô n i o . . T o d o s .Além disso.É verdade! O testamento! Fiquemos para escutar o testamento! To d o s .Derrubai as arquibancadas. Grupo Cultural Zero. . . .Nobilíssimo César! Vingaremos a morte dele! T e r c e i r o C i d a d ã o . ensaísta e poeta norte-americano.10 Leituras Complementares 255 . as janelas e tudo! (Saem Ci­ Se g u n d o C id a d ã o . formou-se em Harvard.Nunca.Silêncio! A n t ô n i o .. do qual derivam seu próprio po­ der e sua autoridade”.Amigos. A n t ô n i o . 47-8. Aqui estava um César! Quando aparecerá outro? P r i m e i r o C i d a d ã o . jamais. 1985. in d iv id u alm e n te . . Lega-os perpetuamente para vós e para vossos herdeiros como parques públicos. vamos embora! Queimemos o corpo dele em lugar sagrado c com as tochas incendiaremos as casas dos traidores! Levantai o corpo! S e g u n d o C i d a d ã o . Nobilíssimo Antônio! A n t ô n i o .

Apesar disso. todos devemos aceitá-lo. As objeções que foram feitas ao exército per­ manente. o Novo México e a Califórnia. porque um só homem pode dobrá-lo à sua vontade. e quando os homens estiverem preparados para ele. até a posteridade. que é apenas a forma escolhida pelo povo para fazer va­ ler sua vontade. É excelente. O gover­ no americano o que é. especialmente na Amé­ rica do Sul. tal será a espécie de governo que terão.256 Teoria Geral do Estado Aceito. mesmo. Desta maneira os governos demonstram com que sucesso é possível enganar os homens e. para seu próprio proveito. Porque o go­ verno é um recurso mediante o qual os homens conseguiriam viver em paz uns com os outros c. O governo. N ão mantém o país livre. Nela. enganar-se a si mesmos. o lema: “ O melhor governo é aquele que me­ nos governa”. Quanto ao “atual conflito mexicano” referido na antologia. Não passa de uma escope­ ta de madeira. N ão pacifica o oeste. c to­ dos. o governo será tanto mais útil quanto mais deixe em paz os governados. com a maior convicção. sem maiores preocupações. a cada momento. o povo não deu seu consentimento a esse ponto. senão uma tradição. após o que chegaríamos àquele em que também creio: “O melhor governo é o que não governa nada cm absoluto”. útil. embora recente. uma parte de sua integridade? Não tem a vitalidade ou a força de um mero ser huma­ no. Foi graças ao próprio caráter que os americanos conseguiram o que pos­ suem. oxalá também se façam ao governo permanente. desacreditados os ideais pacifistas de Thomas Jefferson e iniciado o processo imperialista estadunidense nas Américas. embora a maioria dos governos. e conseguiriam muito mais se o governo não se intrometesse. a não ser abandonar o próprio rumo. normalmente. Gostaria de vê-lo realizado de uma forma mais rápida e sistemática. . que se esforça por prolongar-se. O mesmo governo. não passa de um artifício. algumas vezes. conforme se disse. Não educa. muitas respeitáveis e que devem prevalecer. corre o risco de ser violado e corrompido antes que o povo possa fazer valer sua vontade por seu intermédio. antes de mais nada. Observem que no atual conflito mexi­ cano um pequeno grupo utiliza o governo permanente em benefício próprio. O exército permanente é apenas o braço do governo perma­ nente. trata-se da guer­ ra travada entre os Estados Unidos e o México. sejam inúteis. terminada com o Tratado de Guadalupe/Hidalgo. por­ que. na melhor das hipóteses. o México perdeu o Texas. porque as pessoas querem ter uma maquinaria complicada e ouvir seu estrondo para satisfazer a ideia que têm do governo. mas que perde. esse governo jamais assumiu qualquer responsabilidade espontaneamente. incólume. mas nem por isso é menos necessário. nos anos 1846 a 1848.

de repente. Mas então o povo é também vassalo. vez por outra.) A soberania do povo O povo é soberano! É o que sc diz. ao menos no sistema francês. numa periodicidade mais ou menos de 3500 anos. É impossível imaginar uma soberania. aqui se esconde al­ gum equívoco. se os adversários da origem divina do poder não pretendem dizer mais que isto. é possível que as partes não se tenham feito bem entender. 1972. Evidentemente. e como os eleitos po­ dem reeleger os já eleitos. O povo é um soberano que não pode exercer a soberania. Tal comentário não se fará esperar. . Mas soberano de quem? Pelo visto de si mesmo. e 700 deputados com mandatos de dois anos. Fernando Bastos de Ávila S.10 Leituras Complementares 257 6) JOSEPH DE MAISTRE O pensamento s o c ia l cristão antes de M arx (Textos e comentários pelo P. é bem verda­ de que a soberania sc funda no conscntimento humano. A ver as coisas de modo sumário e num nível mais terra-a-terra. A Deus não interes­ sava empregar meios sobrenaturais para fundar impérios. p. a imaginação fica estarrecida ante o número formidável de reis que morrem sem ter reinado. . estão com a razão e seria completamente inútil continuar a discutir. Sobre este ponto. Mas é mister examinar com mais seriedade a questão. porque Ele se serve dos homens para a constituir. como sobre tantos outros. exerce a sua soberania através de seus representantes. cada francês se veria eleito soberano. para sentir que ele care­ ce de um comentário. terminaria a soberania. porque todos temos um pai e uma mãe. Assim pois. porque o povo que manda não é o povo que obedece.Livraria José Olympio Editora. 20-5. eis a explicação. Mas dizer que a soberania não vem de Deus. é o mesmo que dizer que Deus não é o cria­ dor do homem. O povo. Mas como neste período continua-se a morrer. Somen­ te cada indivíduo do sexo masculino tem sua vez de comandar.J. sem imaginar um povo que consente cm obedecer. Tudo devia ser feito por intermédio dos homens. durante certo tem­ po. Co­ mecemos pois por situar claramente a questão. Se um povo. Tem-se discutido com veemência o problema da origem do poder: a sobera­ nia vem de Deus ou dos homens? Não sei se já se observou que as duas alternati­ vas podem ser verdadeiras. Basta enunciar o slogan: o povo é soberano. Por exemplo: suponhamos que existam hoje na França 25 milhões de homens sem contar as mulheres. para não dizer um erro. Se esses 25 milhões de homens fossem imortais e se os deputados não fossem reelcgívcis. se decidisse cm bloco a não obedecer. A coisa come­ ça a se esclarecer.

não se contradizem de for­ ma alguma. Cartas despachadas dc Paris anunciarão às províncias que a França tem um rei. de vez que são eles que as elaboram. Com estas precauções estamos certos de não nos extraviar e assim podere­ mos aceitar sem riscos o que disse aquele escritor: não venho aqui dizer-vos que a soberania vem de Deus ou que ela vem dos homens. não será o povo que terá decretado a sua volta... no entanto.. Da mesma forma. haverão de tomar conhe­ cimento de manhã ao acordar que eles têm um rei. Talvez não mais do que qua­ tro ou cinco pessoas darão amanhã um rei à França. Basta pois se entender sobre os termos. Os partidários da origem divina do poder não podem negar que a vontade humana desempenha um certo papel na criação dos governos. o povo está por fora e se nelas entra.. F ' as províncias gritarão: Viva o Rei! Em Paris mesmo todos os habitantes. ou seja que a forma de go­ verno é estabelecida e proclamada pelo consentimento humano. Foi Deus que assim quis a sociedade e.. em certo sentido.. Sabem qual será sua reação? “ Possível? Que coisa curiosa! Por que porta o rei haverá de entrar? E melhor ir tra­ tando de alugar alguma sacada. como não foi o povo que a baniu... salvo uns 20. sem as quais uma so­ ciedade não pode subsistir. exce­ to do mal. sem as con­ fundir. o autor desses mesmos governos. por conseguinte. apesar de violar apenas disposições humanas. que Deus seja. também a soberania e as leis. neste sentido que Ele quer que existam leis c que se­ jam obedecidas. Assim.. o povo quer. autor de tudo. como também não é contraditório afirmar que as leis vêm de Deus e que elas vêm dos homens. porque na rua será um atropelo.. estas duas proposições: a soberania vem de Deus e a soberania vem dos homens. porque foi Deus que criou o homem sociável. e os partidários do sistema oposto não podem negar. autor especialmente da sociedade. (Este povo soberano tem alguma interferência na escolha do regime pelo qual será governado? Que papel desempenha ele nas mudanças eventuais de regime?) É muito comum o erro de raciocínio que consiste em pensar que uma even­ tual contrarrevolução só poderia ocorrer como o resultado de uma deliberação po­ pular: “o povo teme.258 Teoria Geral do Estado Todos os teístas haverão de convir que aquele que viola as leis se opõe à von­ tade divina e se torna culpado perante Deus. essas leis vêm também dos homens.”. pôr as ideias no seu lugar. As leis vêm pois de Deus. não é do in­ teresse do povo. que não pode existir sem a soberania.. Quanta balela! Nas revoluções. por excelência e de modo eminente. para inaugurar o governo revolucionário. contentemo-nos em examinar juntos o que há de divino e o que há de humano na soberania. é apenas como instrumento meramente passivo.” Se voltar a mo­ narquia. a soberania vem de Deus. . por sua vez. o povo não consentirá jamais. Mas esta vem também dos homens.

Editorial Estampa. Que guia será o nosso .à sombra de tão tenebrosos exemplos? Legisladores! o vosso dever chama-vos a resistir ao choque de dois monstros inimigos que reciprocamente se combatem. p. eu?..pelos males que deveis temer das leis que me haveis pedido. 151-67. O vosso engano e o meu compromisso disputam entre si a preferência. Atrever-me-ia a afirmar com alguma exatidão que esta representatividade partici­ pa dos direitos de que gozam os governos particulares dos estados federados. O eleitoral recebeu faculdades que não lhe eram assinaladas nos outros governos que se julgam entre os mais liberais. pelos princípios adotados entre os povos livres. envolven­ do a pequena ilha da liberdade que se vê perpetuamente sujeita à violência das va­ gas e furacões em fúria e que procuram submergi-la. Os colégios elei­ torais de cada província representam os seus interesses e necessidades e servem de veículo às queixas das infrações das leis e dos abusos cometidos pelos magistrados. tendo-se portanto acrescentado mais um. Reuni todas as minhas forças para vos expor as opiniões que mantenho sobre o modo de dirigir homens livres. sinto-me dominado pela confusão c pela timidez. nascido en­ tre escravos e sepultado nos desertos da sua pátria.) Legisladores! Ao oferecer-vos o Projeto de Constituição da Bolívia. 1977. e não sei quem so­ fre mais neste horrível conflito: se vós . apenas pôde ver cativos com grilhetas e companheiros como armas para destrui-las? Legislador.pelo opróbrio a que me condenais com a vossa confian­ ça. Estas atribui­ ções aproximam-se bastante das que existem no sistema liberal. O Projeto de Constituição para a Bolívia está dividido em quatro poderes po­ líticos. digamos assim. magistrados. do seu ministério divino . Pareceu-me não só conveniente e útil. para depois vos atacarem simultanea­ mente: a tirania e a anarquia constituem um oceano imenso de opressão. conceder aos representantes imediatos do povo os privilégios que mais podem desejar os cidadãos dc cada departamento..10 Leituras Complementares 259 7) SIM ON BOLÍVAR Discurso perante o Congresso Constituinte de Bolívia (1825) (Lisboa. Quando considero que a sabedoria de todos os scculos não é suficiente para criar uma lei fundamental que seja perfeita c que o mais esclareci­ do legislador pode ser a causa imediata da infelicidade humana e ludibrio. como também fácil. interrompidos por breves relâmpagos de ventura. ainda que as lições e a experiência nos mostrem apenas vastos períodos de desas­ tres. As­ . pro­ víncia ou cantão. Tende em vista esse mar que ireis sulcar com frágil barca e cujo timoneiro é tão inexperiente. juizes e pastores.que poderei dizer-vos do soldado que. pois estou convencido da minha incapaci­ dade para fazer leis. se eu . sem com isso complicar a divisão clássica de cada um dos outros. Nenhum objeto pode ser mais importante para um cidadão do que a eleição dos seus legisladores.

Os senadores criam os códigos e regulamentos eclesiásticos e velam sobre os tribunais e o culto. Serão eles os fiscalizadores junto do governo. dignidades e cônegos. será analisada uma. É do pelouro do Senado tudo quanto pertence à religião e às leis. Terá de professar uma ciência ou arte que lhe assegure um alimento honesto. à Paz e à Guerra. Assim as Câmaras guardarão entre si as considerações que são indispensáveis para conservar a união do todo. que a jul­ ga. Como pas­ sarão a existir três. não dinheiro. é o que o exercício do poder público exige. Dir-me-ão que os Congressos modernos se compõem apenas de duas seções. Tem a seu cargo a inspeção imediata dos ra­ mos que o Executivo administra com menos intervenção do Legislativo. Não são exigidas nem capacidades. Essa a ra­ zão por que Siéyès apenas defendia a existência de um. onde a nobreza e o povo estão representados em duas Câmaras. já que foi sua colônia.260 Teoria Geral do Estado sim se colocou novo peso na balança contra o Executivo. Os censores exercem um poder político e moral que tem certa semelhança com o do Areópago de Atenas e o dos censores de Roma. Clássico absurdo! A primeira Câmara é a dos tribunos e goza da atribuição de dar início às leis relativas à Fazenda. corregedores e todos os subalternos do departamento de Justiça. a discórdia entre duas será sempre resolvida pela terceira. os juizes do distrito. imparcial. para poderem deliberar ausentes de paixões e com a calma da sabedoria. pelo menos. Saber e honradez. assinar o seu nome e ler as leis. seria pois absurdo que nos interes­ ses mais árduos da sociedade se desprezasse tal providência ditada por uma neces­ sidade imperiosa. Pro­ põe à Câmara dos Censores os membros do Tribunal Supremo. adquirindo o governo mais garantias. deste modo nenhuma lei útil ficará sem efeito ou. go­ vernadores. Não lhe são postas outras exclusões que não sejam as do crime. mais popularidade. os arcebispos. O que é verda­ de é que dois corpos deliberantes acabam por combater-se mutuamente. três vezes. Cabe ao Senado escolher os prefeitos. e a questão examinada pelas duas partes contendentes terá uma. podemos to­ davia imaginar que se inspirou naquele país. não existindo nobreza. Em todos os assuntos entre dois contrários sc nomeará um terceiro para decidir. que nos serviu de modelo. e o mesmo acontece na América do Norte. da ociosidade e da ignorância absoluta. Assim acontece com a Inglaterra. O Corpo Legislativo apresenta uma composição que o torna necessariamen­ te harmonioso entre as diversas partes: jamais se encontrará dividido por falta de um juiz árbitro. onde. novos títulos e distinguindo-se entre os mais de­ mocráticos. como acontece quando existem apenas duas Câmaras. nem é ne­ cessário possuir bens para representar a augusta função de soberano. duas. Cada dez cidadãos nomearão um eleitor c assim se achará representada a na­ ção pelo décimo dos seus cidadãos. zelando para que a Constituição e os tratados públicos se­ . mas deve o cidadão saber escrever as suas votações. antes de sofrer a negativa. bis­ pos.

o presidente da Bolívia fica privado de todas as influências: não nomeia magistrados. to­ dos os governos conhecidos e alguns mais. as ciências. Com a designação de Petion para presidente vitalício. Além disso. e com ele moverei o mundo. Para a Bolívia esse ponto é o presidente vitalício. Dai-me um ponto fixo. mais que nos outros. A sua duração é a mesma dos presidentes do Haiti. na tranqüilidade de um reino legítimo. Eles condenarão ao opróbrio eterno os usurpadores da autoridade soberana e os crimi­ nosos importantes. o reino. Confiaram nele e os destinos de Haiti não vacilaram mais. Concederão honras públicas aos serviços c às virtudes dos ci­ dadãos ilustres. sem que isso implique. Prova triunfante de que um presiden­ te vitalício. como o Sol que.10 Leituras Complementares 261 jam observados com zelo. pois são eles que devem levantar a voz contra os seus profanadores. São os censores quem protege a moral. nem juizes ou dignidades eclesiásticas. a república. que deve decidir da boa ou má administração do Executivo. O presidente da Bolívia participa das faculdades do Executivo americano. Esta diminuição de poderes ainda ne­ nhum governo bem constituído a sofreu nos nossos dias: ela virá trazer entraves sobre entraves à autoridade de um chefe que sempre se apresentará ao povo sob o domínio dos que exercem as funções mais importantes da sociedade. Cortou-se-lhe a cabeça para que ninguém receie as suas intenções e ataram-se-lhe as mãos para que não cause dano a ninguém. Os sacerdo­ . re­ presentaram o mais pequeno perigo para o Estado. A estes sacer­ dotes das leis confiei a conservação das nossas tábuas sagradas. mas com restrições favoráveis ao povo. nem a morte desse grande homem. Trouxe para a Bolívia o sistema executivo da república mais democrática do mundo. ainda que se trate de faltas insignificantes. dizia um antigo. Esta suprema autoridade deve ser perpétua. a instrução e a im­ prensa. viu-se forçada a recorrer ao ilustre Petion para que a salvasse. firme 110 seu centro. dá vida ao Universo. por parte dele. Nele se estriba toda a nossa ordem. por isso mesmo. Se trans­ gredirem serão acusados. O fiel da glória estará confiado às suas mãos. A ilha de Haiti (seja-me permitida esta digressão) encontra-se em permanen­ te insurreição: depois de haver experimentado o império. é a inspiração mais sublime na or­ dem republicana. e o modo de su­ cessão mais seguro para o bem do Estado. com faculdades de eleger su­ cessor. as artes. ação. O presidente da Bolívia será menos perigoso que o do Haiti. nem a sucessão do novo presidente. A mais terrível e a mais augusta das missões pertence pois aos censores. se torna necessário um ponto fixo à volta do qual devem girar os magistrados e os cidadãos. na nossa Constituição. tudo continuou sob o signo Boyer. O presidente da República acaba por ser. uma vez que nos sistemas sem hierarquias. com direitos para nomear sucessor. os homens e as coisas. os censores devem gozar de uma inocência intacta e de uma vida sem mancha. por mais pequenas que sejam. E sob a sua égide se encontra também o Juízo Nacional.

na América. devorador de entraves erguidas e criador de cadafalsos régios? Não. E sc o grande Napolcão não conseguiu manter-se contra a ligação de republi­ canos c aristocratas quem. Sem estes dois apoios. O vice-presidente é o magistrado mais manietado que serviu o mando: obe­ dece simultaneamente ao Legislativo e ao Executivo de um governo republicano. não logrou triunfar de tal regra. os ti­ ranos não são permanentes. os mais adequados para lhe captar a aura popular. glória e fortuna. magistrados. Bonapartc. responsável perante os censores e está sujeita à vigilância zelosa dc todos os legisladores. Ape­ sar de tantos inconvenientes. Os príncipes flamantes que se afadigam a construir tronos sobre os escombros da liberdade. não são. únicos agentes deste ministério. Devendo estes ao povo as suas dignidades.262 Teoria Geral do Estado tes mandam sobre as consciências. As barreiras constitucionais integram uma consciência política e con­ ferem-lhe a firme esperança de encontrar o farol que a guie entre os escolhos que . Os limites constitucionais do presidente da Bolívia são os mais estreitos que se conhecem: limita-se a nomear os funcionários da Fazenda. vence­ dor de todos os exércitos. testemunhando no futuro dos séculos a sua fátua ambição pela li­ berdade e pela glória. Dessalines. os juizes sobre a propriedade. e entre estas duas barreiras vê-se obrigado a avançar por um caminho angustiado e flanqueado de precipícios. do segundo as ordens. Não há poder mais difícil de manter do que o dc um novo príncipe. e os magistrados cm todos os atos públicos. alcançará fundar monarquias. jamais será destruída na América. juizes c ci­ dadãos. Se acrescentarmos a esta consideração as que naturalmen­ te surgem das oposições gerais que enfrenta um governo democrático cm todos os momentos da sua administração. parece-me que há razão para ficarmos seguros da usurpação do poder público ser mais longínqua nesta forma de governo do que em qualquer outra. está longe de as­ pirar ao domínio. A igreja. assim a sua influência é nula. Os aduaneiros e os soldados. As nossas riquezas eram praticamente nulas. a honra e a vida. A administração pcrtencc toda ao ministério. a paz e guerra e a mandar no exército. logo são informados do que os espera. Não existem nobres importantes ou grandes eclesiásticos. Obser­ ve-se a natureza selvagem deste continente que só por si exclui a ordem monárqui­ ca. na verdade. apesar da influência que goza. São estas as suas funções. legisladores: não temais os pretendentes a coroas: elas serão para as suas cabeças a espada suspensa sobre Dionísio (sic). erguerão túmulos para as suas cinzas. num solo incendiado pelas chamas brilhantes da liberdade. e satisfaz-se com a sua conservação. Iturbide. Legisladores! A liberdade de hoje. não poderá o presidente esperar complicá-los com as suas ambiciosas pretensões. é preferível governar assim a ter nas mãos um impé­ rio absoluto. mais forte que os impé­ rios. c se alguns ambiciosos se empenham em levantar im­ périos. Do primeiro recebe as leis. Cristóbal.

10 Leituras Complementares 263 a rodeiam: servirão de apoio contra os impulsos das nossas paixões. senhores legisladores. numa re­ pública. este príncipe a que me atreveria a chamar a ironia do homem. Quando inicia o exercício das suas novas funções já vai formado. Sendo a herança aquilo que perpetua o regime monárquico e assim acontece na quase generalidade. como este método: reúne a vantagem de colocar à cabeça da administra­ ção um indivíduo experimentado no manejo do Estado. na tremenda crise das repúblicas! O vice-presidente deve ser o homem mais puro: pois se o primeiro magistra­ do não elege um cidadão justo. em lugar de se ficarem inativos e ignorantes. a segurança. os direitos indi­ viduais. monarcas mais esclarecidos e dispostos a faze­ rem felizes os povos que governassem. Com esta providência se evitam as eleições. a monarquia que governa a terra obteve os seus títulos de aprovação da herança que a torna estável. e a mais terrível tirania é exercida pelos tribunais .o mundo supremo. que produzem grandes reveses nas repúblicas. Sim. quanto mais útil não é o método que acabo de propor para a sucessão? Que aconteceria se os príncipes fossem eleitos. Se o Poder Judicial não tiver esta origem ser-lhe-á impossível conservar. com um poder firme e uma ação constante. O Cor­ po Legislativo e o povo exigirão capacidades c talentos da parte deste magistrado e pedir-lhe-ão uma cega obediência às leis da liberdade. mas pelo mérito e. educado pela adulação e conduzido por todas as paixões. todas as garantias da ordem social. não pela sorte. O Poder Judicial que proponho goza de uma independência absoluta: em ne­ nhuma outra parte tem tanta. O povo apresenta os candidatos. Estes direitos. sem dúvida. No governo dos Estados Unidos observou-se ultimamente a prática de nomear o primeiro-ministro para suceder ao presidente. Apoderei-me desta ideia e estabeleci-a como lei. a igualdade. O presidente da república nomeia o vice-presidente para que este administre o Estado e lhe suceda no mando. se pusessem à frente da ad­ ministração? Haveria. concertadas com os interesses alheios. e o Legislativo es­ colhe os indivíduos que hão de formar os tribunais. E ainda que um príncipe soberano seja um menino mimado. Reparei no que acon­ tece nos reinos legítimos. pelos seus serviços. fechado no seu palácio. deverá temê-lo como inimigo encarniçado e suspei­ tar até das suas ambições mais secretas. o crédito que necessita para desempenhar as mais al­ tas funções e esperar a grande recompensa nacional . Nada c tão conveniente. Considerai. manda no gênero humano. e da unidade que a torna forte. que estas grandes vantagens se encontram reunidas no presidente vitalício e no vice-presidente hereditário. legisladores. a anarquia que é o luxo da tirania e o perigo mais imediato e mais terrível dos governos populares. em toda a sua pureza. legisladores. A verdadeira constituição liberal está nos códigos civis e penais. Este vice-presidente terá dc esforçar-se por merecer. porque conserva a ordem das coisas e a subordinação entre os ci­ dadãos. são os que constituem a liberdade. levando consigo a auréola da popularida­ de e uma prática consumada.

segun­ do as exigências do movimento do mundo moral. interessa à república guarnecer as fron­ teiras com tropas de linha e tropas de fiscalização contra a guerra da fraude. Não pude entrar no regime interno e nas faculdades destas jurisdições.264 Teoria Geral do Estado através do instrumento das leis. muitas vezes. Pensei que a Constituição da Bolívia devesse reformar-se por períodos. A força armada divide-a em quatro partes: exército dc linha. que as nações são formadas por cidades e aldeias. Geralmente. legisladores: os ma­ gistrados. é meu dever recomendar ao Congresso os regulamen­ tos respeitantes ao serviço dos departamentos e províncias. Pouco importa. sem repressão. esquadra. as outras são nominais ou de pouca influência no respeitante aos ci­ dadãos. Sem responsabilidade. e que do bem-estar destas resulta a felicidade do Estado. De acordo com as ideias em voga. Deus nos preserve de ele voltar as armas contra os cidadãos! Basta a milícia na­ cional para conservar a ordem interna. por isso. juizes e funcionários abusam das suas faculdades porque não se detêm com rigor os agentes da administração. serão distribuídos através des­ se poder. A responsabilidade dos funcionários fica assinalada na Constituição bolivia­ na da forma mais efetiva. mas os tribunais são os árbitros das coisas próprias . O Poder Judicial contém a medida do bem ou do mal dos ci­ dadãos. o Estado é um caos. que é o fim da sociedade. e da qual dima- . Não existe responsabilidade. mas quase sempre não se passa de palavras. Por isso recomendo uma lei que prescreva um método de responsabili­ dade anual para cada funcionário. e se houver liberdade e justiça na república. Os trâmites da reforma foram assinalados nos termos que julguei mais apropriados ao caso. o Executivo não é mais que um depo­ sitário da coisa pública. Toda gente fala em liberdade. Garantiu-se a segurança pessoal. um serviço seme­ lhante é mais imoral que supérfluo. e que encurtássemos a duração dos pleitos no intricado la­ birinto das apelações. O território da república é governado por prefeitos. seria de esperar que proibíssemos o uso da tortura e das confissões. corregedo­ res. governadores. contudo. Atrevo-me a instar encarecidamente junto dos legisladores para que ditem leis for­ tes e determinantes sobre esta matéria. que as leis se cumpram religiosamente e se tenham por inexo­ ráveis como o destino. juizes de paz e alcaides. não obstante. milí­ cia nacional e fiscalização militar. A fiscalização militar é preferível em todos os aspectos aos guardas. Tende presente. O destino do exército é o de guarnecer a frontei­ ra. e entretanto as vítimas deste abuso são os cidadãos. a organização política: o importante é que a civil seja perfeita. bastas vezes desdenhado. Este ponto é da predileção da ciência legislativa e. Nunca será demasiada a atenção que prestardes ao bom regime dos departamentos. Foram estabelecidas as garantias mais perfeitas: a liberdade civil é a verdadei­ ra liberdade. legisla­ dores.das coisas dos indivíduos. A Bolívia não possui grandes costas e por isso é inútil a marinha: apesar disso esperamos obter um dia uma e outra coisa.

Toda lei sobre ela a anula. Os preceitos e dogmas sa­ . dentro de si pró­ prio: ela apenas tem o direito de examinar a sua consciência íntima. a infame escravatura. têm em vista a superfície das coisas: governam fora da casa dos cidadãos. Um homem na posse de outro! Um homem proprie­ dade! Uma imagem de Deus subjugada como um animal! Dizei-me: onde estão os títulos dos usurpadores do homem? Foram-nos enviados pela Guiné. quan­ do os tribunais estão no céu e quando Deus é o juiz? Só a Inquisição seria capaz de substituí-los neste mundo. Numa Constituição política não deverá prescrever-se uma profis­ são religiosa. provocasse a ira do céu.10 Leituras Complementares 265 nam as outras. à de um cativo ao serviço de um infame tirano que. E se não houvesse um Deus Protetor da inocência e da liberdade. segundo a minha consciên­ cia. estou convencido que não existe um único boliviano tão depravado que pretenda legitimar a mais insigne vio­ lação da dignidade humana. Transplantadas para aqui estas relíquias das tribos africanas. Ninguém pode violar o santo dog­ ma da igualdade. Mas não: Deus destinou o homem à liberdade e protege-o para que exerça a fun­ ção celeste do livre-arbítrio. As leis. devia omitir. todos os direitos.a igualdade sem ela. velar pelo cumprimento das leis religiosas e atribuir prêmio ou castigo. Basear um princípio de posse sobre a mais fe­ roz delinqüência só poderá conceber-se com a alteração dos elementos do direito c a perversão mais absoluta das noções do dever. eternizar este crime eivado de suplícios. coberta de humilhação. para descanso dos vossos concidadãos. porque impondo a necessidade tira mérito à fé. Aplicando estas considerações. A lei que a conservas­ se seria a mais sacrílega das leis. parece-me o ultraje mais chocante. prorrogar. é de natureza indefinível na ordem social c pertence à mo­ ral intelectual. A religião governa o homem em casa. pois a África devastada pelo fratricídio só nos apresenta crimes. poderá um Estado reger a consciência dos seus sú­ ditos. Quanto à propriedade. desaparecem todas as garan­ tias. Legisladores. essa depende do código civil que a vossa sabedoria deverá redigir em seguida. porque segundo as melhores doutrinas sobre as leis fundamentais es­ tas são as garantias dos direitos políticos c civis. não por usurpadores. Con­ servei intacta a lei das leis . Que direitos poderão ser alegados para que se mantenha? Observe-se este crime sob todos os aspectos. Por ela devemos fazer todos os sacrifícios. preferiria a sorte de um leão generoso dominando nos desertos e bosques. que lei ou poder será capaz dc sancionar o domínio sobre tais vítimas? Transmitir. que é a base da religião. A seus pós colo­ quei. E poderá haver escravatura onde reina a igualdade? Uma tal con­ tradição seria mais o vitupério da nossa razão do que da nossa justiça: reputados por dementes. a infração dc todas as leis é a escravatura. Legisladores! Farei agora menção de um artigo que. cúmplice dos seus crimes. pelo contrário. mas a religião não se integra em nenhum destes direitos. no gabinete. Voltará ainda a Inquisição com os seus archotes incen­ diários? A religião é a lei da consciência.

e o meu! . quando este progresso é conseguido. quando ela jamais conseguirá alcançar a expres­ são do que eu sinto com a vossa bondade que. neste mundo. Inebriados por tal explosão de senti­ mentos. antecipou-sc todos os meus serviços e é infinitamente superior a quantos bens possam trazer-me os homens. Legislar sobre a religião não cabe ao legislador que deve sim prescrever penas às infrações das leis para que estas não se­ jam meros conselhos. mas este dever é moral.. como a de Deus. ultrapassa todos os limites! Sim: só Deus teria poder para chamar a esta terra Bolívia.266 Teoria Geral do Estado grados são úteis. parece-me à primeira vista sacrílego e profano misturar as nossas prescrições como os mandamentos do Senhor. não é político. o próprio gênio do maior dos heróis. Mas o meu desespero aumenta ao contemplar a imensidade do vosso prêmio. onde a cidade que fundei? A vossa exuberância. deverão receber recompensas imortais. Bolívia que quer dizer? Um amor arrebatado pela liberdade e que o vosso impulso ao recebê-la. acabais por ligar o meu nome a todas as vossas gerações. Qual não será o dos seus fundadores . Além disso. O progresso moral do homem é a intenção primeira do legislador. lá se encontra o tribunal que recompensa o mé­ rito e faz justiça segundo o código ditado pelo legislador. Onde está a repúbli­ ca. não me sinto digno de merecer o nome que lhe haveis querido dar-lhe . nada mais viu que fosse igual ao seu valor. Deus c os seus ministros são as au­ toridades da religião que atua por meios e órgãos exclusivamente espirituais. todos devemos professá-los.. nem a força deve ser empregada em dar conselhos. o homem apoia a sua moral nas verdades reveladas e professa de fato a religião. Sendo tudo isto de juris­ dição divina. dedicando-me uma nação.vendo-me em igualdade com o mais célebre dos antigos . sendo os seus primeiros benfeitores. Legisladores. porque depois de haver esgotado os talentos. quais são. Por outro lado. . os pais de família não podem descuidar o dever religio­ so para com os filhos. os direitos do homem para com a re­ ligião? Esses direitos estão no céu. de modo algum. que mais eficaz se torna quando adquirida por investi­ gações próprias. mas. a lei deixa de ser lei. ao ver proclamada a nova nação boliviana quão generosas e su­ blimes considerações deverão elevar as vossas almas! A entrada de um novo Esta­ do na sociedade dos outros é motivo de júbilo para o gênero humano. mas a moral não se impõe.o meu! Falar da minha gratidão. as virtudes. luminosos e de evidência metafísica. Não havendo castigos temporais nem juizes que os apliquem. nem o que ordena é senhor. além de imortal tem o mérito de ser gratuita porque não merecida. porque é au­ mentada a grande família dos povos. o Corpo Nacional que dirige o poder público para objetos pura­ mente temporais.o Pai da Cidade Eterna! Esta glória pertence de direito aos criadores das nações que. mas a minha. Os pastores espirituais estão obrigados a ensinar a ciência do céu: o exemplo dos verdadeiros discípulos de Jesus c o mestre mais eloqüente da sua divina moral.

1978. vassalos. a existên­ cia de diversas camadas sociais subordinadas. temos os patrícios. Harokl J. Manifesto do Partido Comunista . provará que sois crcdores dc obter a grande benção do Céu . que surgiu dos escombros da sociedade feudal. São Paulo. se confunde com a his­ tória das lutas de classes. senhor e servo. companheiros. uma cla­ ra divisão da sociedade cm classes diferentes.c a Soberania do Povo . nos­ sa sociedade burguesa se caracterizou pela simplificação dos antagonismos entre as classes. em todos os lugares. Global. mestres. Desde os primórdios da História. Zahar. 1981. até hoje existentes. que é a posse de exercer as vir­ tudes políticas. opressores e oprimidos em confli­ to permanente entre si. ainda. Lima. paulatina­ mente. 23 de maio de 1826 8) KARL MARX E FRIEDRICH ENGELS 0 manifesto comunista (Manifesto dei Partido Comunista. a apenas dois campos hostis. e que decidis na posse dos vossos direitos. Legisladores. ligadas a uma progressiva modifica­ ção nas condições de vida. Homem livre e escravo. ed.a única autori­ dade legítima das nações. na calma que se sucedeu à tempestade da guerra. Rio de Janei­ ro. duas grandes classes que se defrontam: a bur­ guesia e o proletariado! . Turim.Burgueses e proletários A história de todas as sociedades. que é inaudito na história dos séculos. Este feito. constata-se. 1978. Dentro de cada uma de todas estas classes. aprendizes e servos. Na Idade Média. patrício e plebeu. plebeus e escravos. O manifes­ to comunista de Marx e Engels. e que deve perpetuar uma ditosa existência sob as leis ditadas pela vossa sabedoria. mestre de corporação e companheiro. Entretanto. repito. Na Roma antiga.) I . senhores. 2. trad. com novas classes sociais e novos meios de opressão. Tal feito mostrará aos tempos que estão 110 pensamento do Eterno. de forma tal que a sociedade como um todo vai se reduzindo. Einaudi. em suma. A sociedade burguesa atual. Laski. felizes vós que presidis aos destinos de uma república que nasceu coroada com os louros de Ayacucho. apenas substituiu as antigas formas de luta por outras. não aboliu os antagonismos de classe. e o gozo dc serem homens. ou pela reestruturação revo­ lucionária da sociedade como um todo ou pela destruição das classes em choque..10 Leituras Complementares 267 Isto. é-o ainda mais na história dos desprendimentos sublimes. encontra-se. a cada vez. levado a efeito numa guerra incessante. Regina Lúcia E de Moraes. a qual sempre se encerrou. cavaleiros. às claras ou dissi­ muladamente.

aqui. república urbana indepen­ dente (como na Itália e na Alemanha). Então. O sistema feudal. Tal redundou numa expansão ainda maior da indústria. da navegação e dos meios de comunicação. Conclui-se. para que subsistisse . Cada fase na formação histórica da burguesia veio acompanhada de um processo político correlato: a classe oprimida pelo feudalismo despótico sc organi­ za cm associação armada e autônoma na Comuna. conquistou afinal o domínio político exclusivo do Estado representativo moderno. a burguesia desempenhou um papel revolucionário dos mais significativos. e como fundamento principal das grandes monarquias. constituindo a bur­ guesia moderna. A produção manufatureira tomou o seu lugar. A própria manufatura não mais atendia a esta. aumentando seu capital e colocan­ do em plano secundário toda classe oriunda da Idade Média. continuavam em expansão e a demanda aumentando sem parar. Os mercados. o comércio. do comércio. de uma escalada de revoluções nos modos de produção e dc troca. que a burguesia atual é o produto de um longo proces­ so de desenvolvimento. A descoberta do Novo Mundo permitiu que a indústria moderna criasse seu mercado mundial. A manufatura foi substituída pela gigantesca indústria moderna. tributário da monarquia (como na França). ali. Onde conquistou o poder. a evolução notável dos mecanismos de troca c o aumento das mercadorias cm geral foram os fatores que ensejaram um desenvolvimento. com o estabelecimento da indústria moderna e do mercado mundial. no período manufatureiro. já não poderia mais atender à crescente demanda dos novos mercados. historicamente. e a classe média industrial ultrapassada pelos capi­ tães dc indústria. Neste. Dilacerou. e a divisão do trabalho entre as di­ ferentes corporações foi extinta. patriarcais e idílicas. trazendo com isto o apressamento do processo revolucionário 110 seio da enfraquecida sociedade feudal. a na­ vegação e as ferrovias. com sua produção industrial monopolizada por grupos fe­ chados. destes. a burguesia. nunca antes verificado. o comércio com as colônias. ela destruiu to­ das as relações feudais. portanto. entrementes. cruelmente. os primeiros representantes da burguesia de hoje. como contrapeso da no­ breza. em face da divisão do trabalho em cada oficina. Os mestres das corporações foram substituídos pela pequena burguesia industrial. A descoberta da América e a circunavegação da África abriram para a bur­ guesia emergente novas alternativas. o governo não passa de um órgão destinado a gerenciar os interesses comuns de toda a bur­ guesia. a burguesia se firmava. Conforme se desenvolviam a indústria. terceiro estado. senhores dc verdadeiros exércitos industriais. a colonização do Novo Mundo. da navega­ ção e da indústria. o vapor e as má­ quinas revolucionaram a produção industrial. sendo que este promoveu um espantoso desenvolvimento do co­ mércio. Os mercados da índia Oriental e da China. Não há dúvida de que.268 Teoria Geral do Estado Dos servos da Idade Média surgiram os burgueses privilegiados das antigas cidades e. Mais tarde. os diversos la­ ços que uniam o homem feudal aos seus superiores naturais.

e os países atrasados ou me­ nos evoluídos aos civilizados. Em suma. Global. reduzindo-as a meras es­ peculações financeiras. o Oriente ao Ocidente. transformando o médico. do sentimentalismo pequeno-burguês nas águas geladas do cálculo egoísta. Brasil. Arran­ cou o véu sentimental que envolvia as relações familiares. o poeta. Sufocou o êxtase sagrado do fervor religioso. força-as a optarem pelo que ela considera civilização. até então. se não o fizerem. trad. Com mão dc ferro. estabeleceu a implacável liberdade do comercio. do entusiasmo cavalheiresco. com a ameaça de seu desaparecimento. liberando imensos contingentes do embrutecimento da vida rural. também. todas as nações para o seu modelo de civilização. 1985. Kairós. Fez da dignidade pessoal mero valor dc troca c. para adotar a exploração aber­ ta. Ed. aumentando descontroladamente a população das cidades e esvaziando os campos. o padre. respeitáveis e veneráveis. Que é uma Constituição?. São Paulo. dando origem a gigantescos aglomerados urbanos. os povos agrícolas aos povos bur­ gueses. trad. Col. Graças ao incrível desenvolvimento dos meios de produção e às facilidades ensejadas pelos meios de comunicação. Manoel Soares. submeteu. 1933. 1987. Sua mercadoria barata constitui sua mais poderosa arma. capaz dc derrubar até as muralhas da China e de subjugar os bárbaros mais desconfiados. visando. obriga todas as nações a adotarem um modo burguês dc produção. direta e brutal. cm nome dc todas as liberdades conquis­ tadas. Estudos Político-Sociais. a burguesia consegue atrair. mesmo as mais atrasa­ das. 9) FERDINAND LASSALLE Que é uma Constituição? (O que é uma Constituição política . Walter Stõnncr. A burguesia retirou a auréola de todas as atividades consideradas. em trabalhadores assalariados.) . transformar o mundo à sua imagem e semelhança! O sistema burguês submeteu o campo à cidade. o insensível “pagamento a vista” nas relações hu­ manas. o ju­ rista. e Publ. cínica.10 Leituras Complementares 269 apenas o laço frio do interesse. de maneira ir­ resistível. o homem de ciência. Assim como submeteu o campo à cidade. São Paulo. São Paulo. em síntese. Que é uma Constituiçãof. afastou a explo­ ração camuflada pelas ilusões religiosas e políticas.

estabelecendo os princípios alicerçadores da legislação e do governo dentro de um país”. duradoura ou insustentável. entre essas milhares de pessoas que falam desta.como demonstrarei logo . ou outras parecidas que se possam dar. limitam-se a descrever exteriormente como se formam as Constituições e o que fazem. factível ou irrealizável. para responder satisfatoriamente à pergunta por mim formulada: onde podemos encontrar o conceito de uma Constituição. O u ge­ neralizando. formulo em termos precisos esta pergun­ ta: qual a verdadeira essência. pois existe também a Constituição nos países de governo republica­ no: “A Constituição é a lei fundamental proclamada pelo país. porém. Dão-nos critérios. nos clubes. e. isto é.é a fonte primitiva da qual nascem a arte e a sabedoria cons­ titucionais. nos cafés e nos restaurantes é este o assunto obrigatório de todas as conversas. seja qual for o seu conteúdo. Estas. está claro. Mas isso não seria. à tarde. de nada servirão as definições jurídicas que podem ser aplicadas a todos os papéis assinados por uma nação ou por esta e o seu rei. estamos ouvindo falar da Constituição e de seus pro­ blemas constitucionais. Não servem. minha palestra com esta pergunta: o que é uma Constituição? Qual a verdadeira essência de uma Constituição? Em todos os lugares e a toda hora. para orientar-nos sobre se uma determinada Constituição é. existem muito pou­ cas que possam dar-nos uma resposta satisfatória. Para isso. sejam quais forem. na qual se baseia a organização do Direito público dessa nação”. sem penetrarmos na sua essência. receberia mais ou menos esta res­ posta: “Constituição é um pacto juramentado entre o rei e o povo. depois. pela manhã e à noite. porém. apesar disso. procurariam o volume que fala da legislação prussiana de 1850 até encontrarem os dispositivos da Constituição do reino da Prússia. pois. certamente. notas explicativas para conhecer juridicamente uma Constituição. a da Prússia ou outra qualquer. Todas essas respostas jurídicas. e porque. responder à minha pergunta. pois para isso se­ ria necessário que explicassem o seu conceito. iVIuitos. distanciam-se muito de explicar cabalmente a pergunta que fiz. E. o verdadeiro conceito de uma Constituição? Estou certo de que. pois. proclamando-as Constituições. a essência constitucional.270 Teoria Geral do Estado Capítulo 0 que é uma Constituição? Inicio. poderemos saber se a Carta Constitucional determinada e concreta que estamos examinando se acomoda ou não às exigências substanciais. porém não esclarecem onde está o conceito de toda Constituição. mas não explicam o que é uma Constituição. ou por isso mesmo. Na imprensa. Primeiramente torna-se necessário sabermos qual é a verdadeira essência de uma Constituição. . O conceito de Constituição . para responder-nos. seja ela qual for? Se fizesse esta indagação a um jurisconsulto. Não basta apre­ sentar a matéria concreta de uma determinada Constituição. boa ou má.

Lei e Constituição Aplicando esse método. pois. que é esta a missão normal e natural dos governos. não é uma lei como as outras. uma simples lei. pois no­ tamos. para que se ma­ nifeste sobre a oportunidade ou conveniência de ser a Constituição modificada. para reger. seria absolutamente supérflua e não teria motivos para ser aprovada. se a nova lei não motivasse modificações no aparelhamento legal vigente. minha pergunta: Que é uma Constituição? Onde encontrar a verdadeira essência. Este método é muito simples. deverá ser nomeada uma nova Assembleia Legislativa. Uma Constituição. evidentemente. mas será necessário obter dois terços dos vo­ tos do Parlamento. Entre os dois conceitos não existe somente afinidade. que faz com que a Constituição seja mais do que simples lei. noutras. necessita a aprovação legislativa. decre­ tar-se uma única lei que seja nova sem alterar a situação legislativa vigente no momento da sua aprovação. O país. a lei e a Constituição. até. existem ainda algumas onde se declara que não é da compe­ tência dos Corpos Legislativos sua modificação. há também desse­ melhança. consta que para reformá-la não é o bastante que uma simples maioria assim o deseje. por exemplo. quando mexem na Constituição. aplicaremos um mé­ todo que é de utilidade pôr em prática sempre que quisermos esclarecer o concei­ to de uma coisa. Por isso. no espírito unânime dos povos. de mais firme e de mais imó­ vel que uma lei comum. para reformá-la. Baseia-se em compararmos a coisa cujo conceito não sabemos com outra semelhante a ela. não protesta pelo fato de constantemente serem apro­ vadas novas leis. pelo contrário. e estamos cientes disso. ad hoc. pois. isto é. Mas. pergunto: Qual a diferença entre uma Constituição e uma lei? Ambas. Não pode. Todos esses fatos demonstraram que. po­ deria demonstrá-lo com centenas de exemplos. senão que. esforçando-nos para pene­ trar clara e nitidamente nas diferenças que afastam uma da outra. Constituições que dispõem taxativamente que a Constituição não poderá ser alterada de modo algum. é mais do que isso. Esta.. pois é agora que vamos desvendá-lo. protestamos e gritamos: Deixai a Constitui­ ção! Qual é a origem dessa diferença? Esta diferença é tão inegável que existem. criada expressa e exclusivamente para esse fim. todos nós sabemos que se torna necessário que to­ dos os anos seja criado maior ou menor número de leis. Todavia. uma Constituição deve ser qualquer coisa de mais sagrado. não protestamos quando as leis são modificadas. nem mesmo unidos ao Poder Executivo. tem que ser também lei.. têm. Faço outra vez a pergunta anterior: qual a diferença entre uma Constituição e uma simples lei? . o verdadeiro conceito de uma Constituição? Como o ignoramos. porém.10 Leituras Complementares 271 Repito. uma essência genética co­ mum.

um termo novo. Sendo a Constituição a lei fundam ental de uma nação. se é o resultado como preten­ dem os cientistas da força da atração do Sol. atuar e irradiar através das leis comuns do país. ou melhor. Para isso será necessário: 1) que a lei fundamental seja uma lei básica . a noção de uma necessidade ativa . O fundamento a que respondem não permite serem de outro modo. ou. que nesta resposta se en­ contre. Intentemos. sua trajetória seria casual e poderia variar a todo momento. 3) mas as coisas que têm um fundamento não o são assim por um capricho. uma exigência da necessidade. Mas a mes­ ma. aprofundar um pouco mais no assunto. isto c. Mas. Imediatamente surge. Este movimento res­ ponde a causas. como já vimos. mais do que as outras comuns. deverá. ou não? Se não existissem tais fundamen­ tos. as que possuem um fundamento não. É possível. pois. a verdade que estamos investigando. deverá informar e engendrar as ou­ tras leis comuns originárias da mesma. ou. como indica seu próprio nome: “fundamental”. a fundamentos exatos.272 Teoria Geral do Estado A esta pergunta responderão: Constituição não é uma lei como as outras. que são as casuais e as fortuitas.qualquer coisa que logo poderemos definir e esclare­ cer. movem-se de um modo determinado. por exemplo. repito. com que todas as outras leis e instituições jurídicas vigentes no país sejam o que real­ . dc forma bastante confusa. será . pois. meus senhores. A ideia de fundamento traz. existem porque necessariamente devem existir. “lei fundamental”. em outros termos. se dc fato responde a um fundamento. para sê-lo. substituindo a outra. Somente as coisas que carecem de fundamento. como poderíamos distinguir uma “lei fundamental” de outra lei qualquer para que a primeira possa justificar o nome que lhe foi assinalado. 2) que constitua . quer dizer seria variável. assim formulada. é uma lei fundam ental da nação.e agora já co­ meçamos a sair das trevas . que de nada nos servirá enquanto não soubermos explicar qual é. não poder deixar-nos satisfeitos. podem ser como são ou mesmo de qualquer outra for­ ma. pois aqui rege a lei da necessidade. Somente ganhamos um vocábulo novo.o verdadeiro fundamento das outras leis. continuamos onde começamos. se realmente pretende ser merecedora desse nome. Os planetas. indagando que ideias ou que noções são as que vão associadas a esse nome de4 4 lei fundamentar’.pois de outra forma não poderíamos chamá-la de funda­ mental . a lei fundamental. implicitamente. embora de modo obscuro. a não ser tal como de fato é. a diferença entre lei fundam ental e outra lei qualquer. de uma força eficaz que toma por lei da necessidade que o que sobre ela se baseia seja assim e não de outro m odo . é o bastante isto para que o movimen­ to dos planetas seja regido e governado de tal modo por esse fundamento que não possa ser de outro modo. esta interrogação: como distinguir uma lei da lei fundam ental? Como podeis ver. uma força ativa que faz. A lei fundamental.

como vou expô-lo. todas as bibliotecas públicas. Suponhamos ainda que o país. em substância. naquele país. desde os alicerces até o telhado. desaparecendo in­ clusive todas as bibliotecas particulares onde existissem coleções. até certo ponto. poderia fazer leis a ca­ pricho de acordo com o seu modo de pensar? A m onarquia Suponhamos que os senhores respondam: visto que as leis desapareceram e que vamos redigir outras completamente novas. de tal forma que.alguma força ativa que possa influir dc tal forma que todas as suas leis. Esta Coleção imprime-se numa tipografia concessionária instalada em Berlim.e fazendo esta per­ gunta os horizontes clareiam . por um momento. Vou esclarecer isto com um exemplo. não interessa sabermos se o fato pode ou não acontecer. por uma triste coincidência . por causa deste sinistro. dc tal maneira que em toda a Prússia não fosse possível achar um único exemplar das leis do país. ficasse sem nenhuma das leis que o governavam e que por força das circunstâncias fosse necessário de­ cretar novas leis. Porém.10 Leituras Complementares 273 mente são. a partir desse instante. e em outros arquivos. não podem decretar. simplesmente.igual desastre se desse em todas as cidades do país. embora quisessem. que um grande incêndio irrompesse e que nele se queimassem todos os arquivos do Estado. e esta incógnita que estamos investigando apoia-se. embora este exemplo possa dar-se dc outra forma.estamos no terreno das suposições . Naturalmente. determinando que não possam ser. Vamos supor. não pode realmente acontecer. a não ser tal como elas são. completamente livre. Não ignoram os meus ouvintes que na Prússia somente tem força de lei os tex­ tos publicados na Coleção legislativa. outras quaisquer: M uito bem. mas sim o que o exemplo nos possa ensinar se este chegasse a ser realidade. o que são e como são sem poder ser de outro modo f Capítulo II Os fatores reais do poder Sim. Julgai que neste caso o legislador. Os fatores reais do poder que regulam no seio de cada sociedade são essa força ativa e eficaz que informa todas as leis e instituições jurídicas da sociedade em apre­ ço. que as obrigue a serem necessariamente. bibliotecas e depósitos guardam-se as coleções le­ gislativas impressas. nos fatores reais do poder que regem uma determinada sociedade. . Os originais das leis guardam-se nos arquivos do Estado. existem sem dúvida. este exemplo. Suponhamos isto. pergunto eu. será que existe em algum país . que o sinistro destruísse também a tipografia concessionária onde se imprimia a Cole­ ção legislativa e que ainda..

quer dizer. como uma nobreza influente e bem vista pelo rei e sua cortc é também uma parte da Constituição. a realidade é que os comandantes dos arsenais e quartéis põem na rua os canhões e as baionetas quan­ do eu o ordenar. progredir e mesmo viver sob o sistema medieval. é uma parte da Constituição. formando somente eles uma Câmara Alta que fiscaliza os acordos da Câmara dos Deputados. Não sabemos por que esse punhado. mais ainda. as fábricas e a produção mecanizada. entre os quais somente existe um punhado cada vez menor de grandes pro­ prietários de terras pertencentes à nobreza. dc grandes proprietários agrícolas. cada vez menor. há dc possuir tanta influencia nos destinos do país como os restantes milhões de habitantes reunidos. como se este aparelhamento da força estivesse “ diretamente” ao seu dispor.. Entre outros motivos. um rei a quem obedecem o Exército e os canhões. pretendessem impor o sistema que regeu na Idade Média. Como podeis ver. eleita esta pelos votos de todos os cidadãos. É sabido que o “grande” capital não poderia. da Câmara senhorial. enfim. aplicada a toda a organização social. acatando minhas ordens. “para nada”. não tolero que venham impor-me posições e prerrogativas em desacordo comigo. porém. das baionetas e dos canhões. a realida­ de é que o Exército subsiste e me obedece. A grande burguesia Ocorre-me agora assentar o suposto ao inverso. mas não ao pequeno proprietário. de forma alguma. O monarca responderia assim: podem estar destruídas as leis. Reconheço que não seria fácil à nobreza atirar contra o povo que assim pen­ sasse seus exércitos de camponeses.. Imaginemos que os meus ou­ vintes dissessem: destruídas as leis do passado. a suposição de que o rei e a nobreza aliados entre si para restabelecer a organização medieval. recusando sistematicamente todos os acordos que julgarem prejudiciais aos seus interesses. efetivo. porque neste regime se levantaria uma série de barreiras legais entre os diversos ramos de produção. não respeitaremos prerrogativas nem atri­ buições de espécie alguma. e. impedindo-se seu desenvolvimento sob aquele regime. isto é. A aristocracia Suponhamos agora que os senhores dissessem: somos tantos milhões de prus­ sianos. pois.274 Teoria Geral do Estado nelas não reconheceremos à monarquia as prerrogativas que até agora gozou ao amparo das leis destruídas. por . sem excluir a grande indústria. não queremos a monarquia. apoiado neste poder real. Possivelmente teriam mais que fazer para li­ vrar-se deles. Mas a gravidade do caso está em que os grandes fazendeiros da nobreza tive­ ram sempre muita influência na Corte e esta influência garante-lhe a saída do Exér­ cito e dos canhões para seus fins. somos todos “iguais” e não preci­ samos absolutamente. Vejam.

Egels etc. viria fatalmente à luta. a possibilidade de empregar quantos operários necessitar.. que obtêm numerário naquele estabelecimento bancário para to­ mar acessível o crédito à gente humilde e à classe média. não poderia progredir com uma Constituição do tipo gremial. sobretudo . O comércio e a indústria ficariam paralisados. exigindo pão e trabalho. e nenhum industrial poderia reunir duas ou mais indústrias em suas mãos. a estamparia não poderia empregar em sua fábrica somente a um tintureiro etc. Demonstrara-se. Neste caso. assim. entre as corporações dos fabricantes de pregos e os ferreiros existiriam constantes processos para deslindar as suas respectivas jurisdições. Egels. obstinadamen­ te implantassem hoje a Constituição gremial? Aconteceria que os senhores Borsig. os grandes industriais. a gran­ de burguesia. Suponhamos isto e tam­ bém que ao Banco da Nação pretendesse dar a organização adequada para obter esse resultado. por exemplo. abertamente lesivas aos interesses dos grandes banquei­ ros. que esse mesmo governo entendesse. Poderia isto prevalecer? Não vou dizer que isto desencadeasse uma revolta. ne­ cessitando ao mesmo tempo da produção em “massa” e a livre concorrência.e necessita como o ar que respiramos -. na qual o triunfo não seria certamente das armas. . uma parte da Constituição. sustentando-a e alentando-a com o seu dinheiro. que é a de baratear mais ainda o crédi­ to aos grandes banqueiros e aos capitalistas que possuem por razão natural todo o crédito e todo o dinheiro do país e que são os únicos que podem descontar as suas firmas. por exemplo. que os Borsig.10 Leituras Complementares 275 muita afinidade que os mesmos tivessem. Isto basta para compreender que a grande produção. animando-a com a sua influência. Atrás dela. fechariam as suas fábricas despedindo os seus ope­ rários. quer dizer. grande número de pequenos industriais seria obrigado a fechar suas oficinas e esta multidão de homens sem tra­ balho sairia à praça pública pedindo. sem restrições. que o governo pretendesse implantar uma des­ sas medidas excepcionais. enfim. são todos. ampla liberdade da fu­ são dos mais diferentes ramos do trabalho nas mãos de um mesmo capitalista. e até as companhias de estrada de ferro seriam obrigadas a agir da mesma forma. os fabricantes dc sedas etc. isto é. também. mas o governo atual não poderia impor presentemente medida semelhante. Que viria a acontecer se. sob o sistema gremial daquele tempo. A grande indústria exige. instigando-a com o seu prestígio. os grandes industriais de teci­ dos. Os banqueiros Suponhamos. que o Banco da Nação não foi criado para a função que hoje cumpre. a indústria mecanizada. nestas condições e a despeito de tudo. por um instante. Ademais. estabelecer-se-ia por lei a quantidade estrita dc produção de cada industrial e cada indús­ tria somente poderia ocupar um determinado número de operários por igual.

sim. Para conseguir o dinheiro. De vez em quando o governo sente apertos financeiros devido à necessidade de investir grandes quantias de dinheiro que não tem coragem de tirar do povo por meio dc novos impostos ou aumento dos existentes. como Mendclssohn. correndo depois por sua conta a colocação. por esse motivo. dos grandes industriais c dos grandes capitalistas. mais uma vez. pouco a pouco. do papel da dívida locupletando-se também com a alta da cotação que a esses títulos lhe dá a Bolsa artificialmente. punindo na pessoa dos pais os rou­ bos cometidos pelos filhos. se pre­ tendesse transformar pessoalmente o trabalhador em escravo ou servo. cm troca do dinheiro que recebe adiantadamente. É certo que. o que é a mesma coisa. Para isto necessita dos banqueiros. e não pequenas. isto é. da cultura coletiva e da consciência social do país. a Bolsa. que os grandes banqueiros. Mas. querendo proteger c satisfazer os privilégios da nobreza. isto é. ou em pequenos prazos. e o governo necessita do dinheiro logo e de urna vez. Vemos. pois contra ela se levantaria o protesto. os fatos nos de­ monstram que poderia. mais dia menos dia. Estes inter­ mediários são os grandes banqueiros c. Essa lei não poderia reger. serve-se dos particulares. com toda a energia possível. Suponhamos que o governo intentasse promulgar uma lei penal semelhante à que prevaleceu durante algum tempo na China. Poderia fazê-lo? Infelizmente. burocratas e conselheiros do Estado ergueriam as mãos para o céu. Schickler. A pequena burguesia e a classe operária Imaginemos agora que o governo. dentro de certos limites. da Constituição. mas isto requer tem­ po. de intermediários que lhe adiantem as quantias de que precisa. às vezes muito tempo. dos banqueiros. a maior parte daqueles títulos da dívida vol­ ta às mãos da gente rica e dos pequenos capitalistas do país. e até os sisudos senadores teriam de discordar de tamanho absur­ do. são também partes da Constituição. É que. senão sua liberdade pessoal.276 Teoria Geral do Estado Demonstrarei por quê. mesmo que fosse transitoriamente. embora estivessem aliados ao rei a nobreza e toda a grande burguesia. tornando-o à situação em que viveu durante os tempos da Idade Média? Subsistiria essa pre­ tensão? Não. Todos os funcionários. ou. poderia. ten­ tasse privar das suas liberdades políticas a pequena burguesia e a classe operária. e se o governo pretendesse tirar à pequena burguesia e ao operariado não somente as suas liberdades políticas. o papel da dívida pública. hoje em dia. indispor-se com eles. . também a consciência coletiva e a cultura geral da Nação são partículas. Nesses casos. a nenhum governo con­ vém. contrair empréstimos. resta a alterna­ tiva dc consumir dinheiro futuro. entregando.

10) FUSTELDECOULANGES A cidade antiga (Trad. e quem atentar contra cies atenta contra a lei. pertencia-lhe inteiramente. A religião que criara o Estado e o Estado que sustentava a religião reciprocamente se auxiliavam e formavam um . O cidadão estava submetido em todas as coisas e sem reserva alguma à cidade. v. Está claro que não aparece neles a declaração de que o senhor Borsig. o povo são um fragmento da Constituição. ou que o banquei­ ro X é também outro pedaço. Não desconheceis também o processo que se segue para transformar esses escri­ tos em fatores reais do poder. a partir desse momento. Capítulo III Os fatores do poder e as instituições jurídicas Essa é. O povo protestaria. Daí a sua força. Mas que relação existe entre o que vulgarmente denominamos Constituição e a Constituição jurídica? Não é difícil compreender a relação que os dois concei­ tos guardam entre si. pois nos casos extremos c desesperados também o povo. gritando: antes morrer do que ser escravo! A multidão sairia à rua e não haveria a necessidade de que seus patrões fechassem as fábricas. incorporados a um papel. somos uma parte integrante da Constituição. dá-sc-lhcs expressão escrita e. 1. a Constituição de um país: a soma dos fato­ res reais do poder que regem um país. dali também a sua onipotência e o império absoluto que exercia sobre os seus membros. não são simples fatores reais do poder. mas sim verdadeiro direito. nas instituições jurí­ dicas. a nobreza. transformando-os desta maneira em fatores jurídicos. Teixeira. em essência.) Capítulo XVIII Da onipotência do Estado. em síntese. Lisboa. Numa sociedade estabelecida sobre tais princípios. 2. ed. não. e por conseguinte é punido. Sousa Costa. M . escrevemo-los em uma folha de papel. os antigos não co n h e ce ra m a liberdade individual A cidade foi fundada sobre uma religião e constituída como uma igreja. isto se define de outra maneira mais limpa.. nós to­ dos. Juntam-se esses fatores reais do poder. a liberdade individual não podia existir. Clássica de A. mais diplomática. o in­ dustrial. a pequena burguesia juntar-se-ia solidariamente ao povo e a resistência desse blo­ co seria invencível.10 Leituras Complementares 277 Seria tempo perdido.

pelo contrário. O Estado não admitia que um homem fosse indiferente aos seus interesses. em Esparta. os parentes dos mortos foram obrigados a aparecer em público dc cara alegre. ordenava ao pai. por seu turno. exigia que se rapasse o bigode. em Locres. O Estado. proibia-o às mulheres. em Roma. O seu corpo pertencia ao Es­ tado c estava voltado à sua defesa. estes dois poderes associados e confundidos formavam um poder quase sobre-humano. em Atenas e em Esparta toda a vida. a lei ateniense não permitia ao cidadão a neutralidade. aos credores o abandono das dívidas.278 Teoria Geral do Estado só corpo. Em Rodes. que o matasse. o pai não tinha direito algum sobre a educação . se a cidade tinha necessidade de dinheiro. sabemos só que Aristóteles e Platão a inscreveram nas suas legislações ideais. o filósofo. que sabia que o filho escapara do desastre c ia tornar a vê-lo. o homem de estudo. Não sabemos se também existia em Atenas. podia prescrever o trabalho. Encontra-se esta lei nos antigos códigos de Esparta e de Roma. a lei proibia o fazer a barba. Tal era o poder do Esta­ do que ordenava a transposição dos sentimentos naturais e se fazia obedecer. Os seus haveres es­ tavam sempre à disposição do Estado. Esparta acabava de ser derrotada em Lentra e muitos dos seus cidadãos tinham mor­ rido. Há na história de Esparta um fato muito admirado por Pintarcho e Rousseau. mostra­ va alegria e percorria os templos agradecendo aos deuses. O Estado tinha o direito de não tolerar que os seus cidadãos fossem disfor­ mes ou contrafeitos. podia ordenar às mulheres que lhe entregassem as joias. Muitas cidades gregas proibiam ao homem o ficar celibatário. em Marselha. em Atenas. Tinha o dever de votar na assembleia e de ser. a ociosidade. Esparta punia não só aquele que não casava. em Bizâncio. não tinha o direito de viver isolado. Num tempo em que as dis­ córdias eram freqüentes. Era vulgar que a forma de vestir fosse determinada pelas leis dc cada ci­ dade. No homem nada havia que fosse independente. mostrava-se aflita c chorava. de­ via combater com um ou outro partido. a lei proibia aos homens beber vinho puro. magistrado. ao qual a alma c o corpo estavam igualmente subordinados. em Roma o serviço militar era obrigatório ate aos quarenta c seis anos. Em Esparta. Por conseqüência. punia com uma multa quem possuísse uma navalha de barba. Exercia a sua tirania até nas mais pequenas coisas. a legislação de Esparta regulava o penteado das mulheres e a dc Atenas proi­ bia-lhes levar cm viagem mais dc três vestidos. A vida privada não escapava a esta onipotência do Estado. aquele que quisesse estar afastado das fac­ ções infligia a lei uma pena severa. aos donos das oliveiras que lhe cedessem gratuitamente o azeite fabri­ cado. A esta notícia. a perda do direito de cidade. A educação entre os gregos estava longe de ser livre. em Mileto. mas o que casava tarde. a quem nascesse assim um filho. A mãe. em Esparta. Aquela que sabia que nunca mais veria o seu. Era 110 que o Estado ti­ nha mais predomínio.

numa eloqüente passagem. como Júpiter Celeste. Chamava-se a isso ostracismo. quanto às divindades de um caráter geral e universal. Sócrates foi condenado à morte por esse crime. influência demasiada. Aristófanes. tomar parte nos repastos sagrados. porque os filhos são menos de seus pais do que da cidade” . sem uma autorização dos magistrados. Nisso haveria uma grande impiedade que atingiria a religião e o Estado ao mesmo tempo. que. nem a liberdade da vida privada. O Estado considerava como pertença sua o corpo e a alma do cidadão. embora a cidade obrigas­ se a que a educação fosse comum e dada por mestres escolhidos por ela. A pessoa humana tinha pequeníssimo valor perante essa autoridade santa e quase divina. que se chamava pátria ou Estado. Podia odiar-se ou desprezar-se os deuses da cidade vizinha. O Estado queria ser só a dirigir a educação c Platão diz o motivo desta exi­ gência: “Os pais não devem ter liberdade de enviar ou não os seus filhos para os mestres que a cidade escolheu. Ensinava-lhe ginástica. um direito de justiça relativamente aos cidadãos. porque o corpo do homem era uma arma para a cida­ de. e Aristóteles dava a entender que existia em todas as cidades gregas que ti­ . Reconhecia-se ao Estado o direito de impedir que houvesse um ensino livre ao lado do seu. O homem não tinha escolha dc crenças. A legislação ateniense punia com forte pena aqueles que se abstivessem de ce­ lebrar religiosamente uma festa nacional. os hinos e as danças sagradas. se ele quisesse. Deviam conformar-se com todas as regras do culto. e esta arma devia ser tão forte e tão manejável quanto possível. Os antigos não conheciam. distribuídas por bairros. porque se precisava deste conhecimento para a boa execução dos sacrifícios e das festas da cidade. caminham em filas cerradas. Atenas promulgou um dia uma lei que proibia instruir os moços. em Megara.10 Leituras Complementares 279 do filho. Parece que em Arenas a lei foi menos rigorosa. A liberdade de pensar sobre religião era absolutamente desconhecida entre os antigos. Cibele ou Juno. podia tornar perigosa. encontrava-se em Argos. como nas sociedades modernas. tinha-se liberdade de crer nelas ou não. em Siracusa. nem a da educação. figurar em todas as procissões. mostra-nos as crianças de Atenas a caminho da es­ cola. Aristides certamente não cometera crime algum e nem mesmo se tor­ nara suspeito disso. queria formar esse corpo e essa alma de modo a tirar dele o melhor par­ tido. essas crianças mostram compreender que cumprem um dever cívico. à chuva. nem a religiosa. por ordem. O Estado não tinha só. mas a cidade tinha o direito de expulsá-lo do seu território pelo único motivo de Aristides ter adquirido. o que o Estado puniria severamen­ te. Mas cuidado em não duvidar da Athene Poliada. à neve ou ao sol forte. Esta ins­ tituição não era particular a Atenas. portanto. Ensinava-lhe também os cantos religiosos. ou do Erechtea ou de Cecropa. e uma outra que proibia especialmente en­ sinar filosofia. por suas virtudes. por isso. Devia crer na religião da cidade e sub­ meter-se a ela. Podia punir sem que houvesse culpa e só porque o seu interesse es­ tava em jogo.

11) GUSTAVELEBON Leis psicológicas da evolução dos povos Trad. Veremos. nomear magistrados. Sem o prévio conhecimento da constituição mental de um povo. Ora. Agostinho Fortes. Os antigos. A máxima funesta de que a salva­ ção do Estado é a lei suprema foi formulada pela antiguidade. a alma de um povo nos é conhecida. encontramos sempre a alma imutável da raça elaborando o seu próprio destino. isto c. um erro singular. a história deste transforma-se num caos de acontecimentos. O governo denominou-se alternativamente monarquia. Em todas as manifestações de vida de uma nação. pela qual cra permitido matar qualquer homem que tivesse a intenção de se tornar rei. ao caráter sagrado e religio­ so que a sociedade originariamente revestiu. Como as instituições derivam da alma dos povos A história. mas o homem estava subordinadíssimo ao Estado. tudo devia ceder perante o interesse da pátria. que o governo muitas vezes mudou de forma. 1910. a sua vida apresenta-se-nos como a conseqüência regular e fatal dos seus caracte­ res psicológicos. entre todos os erros humanos. pouco mais ou menos. nas suas grandes linhas. eis o que eu chamava liberdade. provém dessa constituição assim como os órgãos respiratórios dos peixes se adaptam com a sua vida aquática. Não tinha sequer a mais ligeira ideia dela. dentro em pouco. mas a natureza do Estado ficou. acreditar que nas cidades antigas o homem gozava liberdade. a moral. era uma precaução tomada pela cidade contra um cidadão que ela suspeitava que podia um dia incomodá-la. por falta de afeto para com o Estado.280 Teoria Geral do Estado nham um governo democrático. pelo contrário. a mesma e a sua onipotência não diminuiu. aristocracia. Em Atenas podia acusar-se e condenar-se um homem por incivismo. Ter direitos políticos. Francisco Luiz Gonçalves. quando. nenhuma garantia havia para a vida do homem. p. Roma promulgou uma lei. isto devido. a justiça. 109-27. poder scr arcontc. votar. exageravam sempre a importân­ cia e os direitos da sociedade. . É. portanto. sem dúvida. democracia. Lisboa. Pensava-se que o di­ reito. mas nenhuma dessas revoluções deu aos homens a verdadeira liberda­ de. a liberdade individual. Não julgava que pudesse existir direito em frente da cidade e dos seus deuses. o ostracismo não era um castigo. c sobretudo os gregos. Desde que se tratasse do interesse da cidade. que parecem provir meramente do acaso. pode considerar-se como a simples expo­ sição dos resultados produzidos pela constituição psicológica das raças.

o Estado a dirigir tudo. tanto ela e. o fruto de urna evolução regular. portanto. o nosso extremo nervosismo. que é a expressão dos sentimentos da alma da raça. a ideia de que um governo novo fará a nossa sorte mais feliz. pelo critério psicológico. radicais. Nem esta consentiria outro. apresentariam algumas críticas e fariam. há séculos já iniciada pela monarquia. o que facilmente provaremos com alguns exemplos. porventura. se apenas nos ativermos as aparências. procuram com etiquetas diversas atingir um fim perfeitamente idêntico. verificaremos que. a continuação do ideal monárquico e a expressão de gênio da raça. e sem dar por isso. presidente. confessariam que um ministro por eles encarregado de exe­ cutar os seus planos não teria conseguido realizar melhor os seus desígnios e diriam que o menos revolucionário dos governos franceses foi precisamente o da revolução. nenhum dos diversos re­ gimes que se têm sucedido na França.10 Leituras Complementares 281 É. estas opiniões aparente­ mente tão divergentes. O poder inconsciente da alma da nossa raça é tamanho. nos levam a mudarmos incessantemente as nossas ins­ tituições. estes partidos incessantemente em luta. forçosamente há dc ter o mesmo ideal. nas instituições políticas que mais visivelmente se manifes­ ta o poder soberano da alma da raça. mas considerá-la-iam rigorosamente em harmonia com as suas tradições e com os seus programas. na realidade. Se. seja qual for. na realidade. Consideremos primeiro a França. po­ rém. Intransigentes. um dos países que mais sujeitos tem estado às mais profundas alterações. Quer o poder posto à frente do Estado se chame rei. ou qualquer outra coisa. Na verdade. mais radical­ mente as instituições políticas parecem ter mudado. têm todos um fundo comum perfeitamente idêntico. O que todos com o mesmo ardor querem é o velho regime centralizador e cesarista. se se erguessem de seus túmulos para julgarem a obra da revolução. que nem sequer percebemos as ilusões de que somos vítimas. nada é mais diferente do antigo regime do que o que foi criado pela nossa grande revolução. que. cm que os partidos parecem mais divergentes. de há um século a esta parte. principalmente. quer imperador. precisamente re­ presentante do ideal da nossa raça. acabando a obra da centralização. observar que . condena-nos a só mudar­ mos palavras e aparências. além disso. país em que. é fora de dúvida que censurariam algumas das violências que acompanharam a sua reali­ zação. a regular e absorver tudo. socialis­ tas. Luís XIII e Luís XIV. Se encararmos. dispensando estes de manifesta­ rem qualquer movimento de reflexão c de iniciativa. a grande voz dos mortos que é quem nos guia. ou seja. a revolução não fez mais do que continuar a tradição real. verificariam. estes ilustres fantasmas. esse poder. em poucos anos. tentou alterar semelhante obra. na realidade. monárquicos. em uma palavra todos os defensores das mais diversas doutrinas. regulamentando os mais insignificantes pormenores da vida dos cidadãos. Sem dúvida. a nossa extraordinária facilidade em estarmos descontentes com o que nos cerca. a absorção do indi­ víduo pelo Estado. devido à sua gran­ de experiência.

etc. de que a re­ volução do século XVIII foi apenas uma fase aceleradora. escapando às mudanças políticas. o seu governo apre­ sentará sempre as mesmas características fundamentais. nas instituições dum povo. a elas se subtrai. motivo este pelo qual as suas instituições se afastarão também radicalmente das nossas. Ao exemplo precedente podemos opor o de uma outra raça. permitir-lhes-iam conceber que o socialismo não é mais do que a expressão última da ideia monárquica. a redução ao mínimo da ação do Estado e o desenvolvimento máximo da ação dos particulares. se. considerando que os povos latinos.. Pode porventura. os mil laços que hoje cercam o mais insignificante ato da vida. Mas então as luzes divinas que iluminam os reis. conceber-se que tivessem outros? Daqui a pouco mostraremos com diversos exemplos que um povo se não sub­ trai às conseqüências da sua constituição mental. como na Inglaterra. espírito de corpo­ ração. as aparências. é possível também que achassem bastante excessivos e assás tirânicos os inumeráveis regulamentos. e provável é também que fizessem notar que. acreditamo-lo. nem déspotas que possam dar a um povo que as não possua. Tem-se dito muitas vezes que os povos têm os governos que merecem. estabele­ cimentos de instrução. despojando o cidadão de toda e qualquer iniciativa. se criara 110 Estado um poder impessoal mais temível que o da antiga nobreza. É 110 povo e não em circunstâncias exteriores que deve­ . à falta delas as luzes matemáticas que ensinam que os efeitos aumentam em progres­ são geométrica quando as mesmas causas subsistam. e sem o auxílio de qualquer outra revolução. Assim. 011 que. nesta objeção. as qualidades de caráter de que as suas instituições de­ rivam. des­ de que estes sejam impessoais. e estas. o que é pre­ cisamente o contrário do ideal latino. preocupando-se muito pouco com a liberdade e muito com a igualdade. criam o des­ tino das nações. encontramos ao mesmo tempo as circuns­ tâncias acidentais. não há revoluções. cuja constituição psicológica é muito diferente da nossa. serão sempre construídos e conserva­ dos pela iniciativa dos particulares e nunca pela do Estado. em pleno socialismo. É pura quimera pensar-se que os governos e as constituições têm alguma ação nos destinos de um povo. provêm do caráter dos povos. quando o Es­ tado haja absorvido e regulamentado tudo.282 Teoria Geral do Estado tendo sido substituída a casta aristocrática governamental pela casta administrativa. e as leis permanentes que temos procurado determinar. é apenas por instantes rápidos. por acaso. Quer os ingleses tenham à sua frente um monarca. precisamente como a areia revolta pela tem­ pestade. facilmente suportam todos os despotismos. a in­ glesa. Não insistiram muito. uma série de condições que necessariamente o levarão a ser senhor único. por isso que só ele. As circunstâncias acidentais criam os nomes. caminhos dc ferro. que parece escapar momentaneamente às leis da atração. as leis fundamentais. Portos. ou ti­ rá-las a um que as possua. possui tradições. entre os ingleses. isto é. que mencionamos no começo desta obra. nem constituições. nos encontraremos espontaneamente. ausência de responsabilidade e perpetuidade. canais. quer um presidente como nos Estados Unidos da América do Norte.

o eslavo e o húngaro. É isto o que desgraçadamente ig­ noram os estadistas que imaginam ser um governo objeto de exportação e que. O governo do rei dc Daomé cra provavelmente um governo excelente para o povo que administrava. se a esse povo é fácil mudar as formas das ins­ tituições. Vamos agora mostrar com exemplos muito precisos a que ponto a alma de um povo rege os destinos deste e o insignificante papel que as instituições desempenham nesses destinos. porque as raças em presen­ ça eram por tal forma numerosas c diferentes c. com o pretexto de que a respiração aérea cabe a todos os animais superiores. a América. se quiséssemos indicar todas as conseqüências da constituição psicológica dos povos.10 Leituras Complementares 283 mos procurar o destino desse mesmo povo. em condições de meio pouco diferentes. pelo fato da existência. só com as maiores di­ ficuldades e à custa de incessantes revoluções é que se têm mantido sob as mesmas leis. O mais que podemos exigir de um go­ verno é que seja a expressão dos sentimentos c das ideias do povo que dirige e de que. deixando-os viver com as leis que lhes eram próprias. duas raças europeias igualmente civilizadas e inteligentes. Os grandes impérios que abrangem povos diversos têm sido sempre condena­ dos à efêmera existência. em que vivem. rivais. o árabe e o francês. Ora. Estes exemplos. refazer-se-ia até toda história sob um critério novo. tomá-los-emos em uma região. como o dos mongóis e depois o dos ingleses na índia. quando têm tido alguma duração. O francês e o inglês. pode­ mos avançar mesmo que semelhante estudo evitaria muitos erros e muitas altera­ ções. é a imagem. E devido apenas ao fato da diversidade da sua constituição mental. lhe é todavia impossível mudar-lhes o fundo. se os povos pudessem evitar os fatalismos de raça. Escrever-se-iam muitos livros. tem sido. por outro lado porque o dos senhores. Não há governos nem instituições que possamos chamar absolutamente bons ou maus. estrangeiros. isto eqüivale a querer persuadir os peixes a que vivam no ar. as superfícies de cada um . povo esse para que seria má a mais sábia constituição europeia. divergindo apenas no caráter. O seu estudo cuidado devia ser a base da política e da educação. as colônias podem governar-se com as instituições das suas metrópoles. tiveram instinto político bastante hábil que os levou a respeitarem os costumes dos povos conquistados. por­ tanto. reunidos por um istmo. que po­ vos diferentes não poderiam por muito tempo subsistir sob um regime idêntico. ao lado uma da outra. se a voz da razão não fos­ se sempre abafada pela voz imperiosa dos mortos. por um lado. Esta é formada por dois continentes distintos. que nem sequer podiam pensar em sc unirem. portanto. Capítulo II A p lica ç ã o dos princípios pre cedentes ao estudo com parado da evolução dos Estados Unidos da A m érica do Norte e das Repúblicas H ispano-A m ericanas As breves considerações precedentes mostram que as instituições de um povo são a expressão da sua alma e que.

pois que as re­ publicas da America do Sul tomaram como modelo a dos Estados Unidos. A estas características gerais deve acrescentar-se o otimismo completo do ho­ mem cujo caminho está bem traçado na vida e que pressupõe até que não pode escolher outro melhor. uma energia indomável. sentimento de independência levado até excessiva insociabilidade. império absoluto sobre si. . pois. atos que provocariam a mais profunda e a mais unânime indignação se fossem praticados contra compa­ triotas. Este otimismo vai ao ponto de fazer considerar como extremamente des­ prezível tudo que é estrangeiro. o que tais diferenças produziram. o outro pela raça espanhola. em suas linhas gerais. Com razão se disse. em presença mais do que as diferenças de raças para sc explicarem os destinos diversos destes povos. N ão há nenhum estadista inglês que não julgue perfeitamente legítimo. Só há a notar um juízo seguro que permite aprender o lado prá­ tico e positivo das coisas sem se perderem em investigações quiméricas. é extremamente útil. portanto. estas crenças ao abrigo da discussão. na linha de conduta para com os outros povos. que sabe sempre o que lhe exigem a pátria. Talvez nenhuma outra haja no mundo que. gosto mui­ to acentuado pelos fatos e medíocre pelas ideias gerais. extraordinária iniciativa. O desprezo pelo estrangeiro e pelos usos deste so­ brepuja. exceto talvez os romanos. o que outrora os romanos. sem dúvida. e. que povoou os Estados Unidos. não podem dar-se características especiais. se atendermos à prosperidade de um povo. Vejamos. a família e os deuses. que impede de ver os lados fracos das coisas religiosas. possuíram. Não há. pondo. na Inglaterra. encarado filoso­ ficamente. isto é. de mais fácil definição. que os ingleses empregavam tantos esforços como os chineses para im­ pedirem a entrada de qualquer ação estranha. se tenha feito mais homogênea e cuja cons­ tituição mental seja. por conseqüência. não podem indicar-se elementos particulares. que nada se encontrem nas outras nações civilizadas. As características preponderantes desta constituição mental são. um sentimento de ordem inferior. Antes. que facilitaria imenso as relações com o continente. e muito nítida ideia do dever. na época dc sua gran­ deza. como muito justamente nota o general inglês Wolseley. porém resumamos em algumas palavras os caracteres da raça anglo-saxônica. o solo de um e de outro muito semelhante. sentimentos religiosos muito vivos. atividade poderosa.284 Teoria Geral do Estado destes continentes são quase iguais. Um deles foi conquistado e povoado pela raça inglesa. não obstante a diversidade de origem. Este sentimento de desdém pelo estrangeiro é. de resto muito judiciosa. mas. moralidade muito fixa. certamente. no que diz respeito ao caráter: uma força de vontade que muito poucos povos. No ponto de vista intelectual. é um dos sentimentos que contribuem para a força da Inglaterra. um tal ou qual acanhamento de espírito. é tão grande que para com os estrangeiros toda regra moral desaparece. sentiam pelos bárbaros. a propósito da sua. recusa em consentirem 110 es­ tabelecimento de um túnel na Mancha. Es­ tas duas raças vivem com constituições republicanas semelhantes.

10 Leituras Complementares

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Todos os caracteres que acabamos de enumerar se encontram nas diversas ca­ madas sociais; nenhum elemento da civilização inglesa se encontra que não tenha fortemente gravados esses caracteres; o estrangeiro que visitar a Inglaterra, embo­ ra com pouca demora, conhecerá claramente esse fato, verificará a necessidade da vida independente na casa do mais modesto empregado, que habita, sem dúvida, uma moradia estreita mas ao abrigo de qualquer constrangimento e isolada de quaisquer vizinhos; nas gares mais freqüentadas, onde o público circula a toda hora, sem estar encurralado como um rebanho de carneiros dóceis por trás de um corri­ mão guardado por um policial, como se fosse necessário assegurar pela força a se­ gurança de pessoas incapazes de encontrarem em si a atenção necessária para não serem esmagadas. Encontrará a energia da raça tanto no trabalho duro do operá­ rio como no de estudante que, entregue a si, desde a mais tenra idade, aprende a conduzir-se sozinho nos seus atos e fica desde logo sabendo que pela vida fora só ele e mais ninguém se preocupará com o seu destino; nos professores, que pouca importância ligam à instrução por a concederem principalmente ao caráter, por eles considerado uma das maiores forças motoras do mundo. Se entrar na vida públi­ ca do cidadão, verá que não é para o Estado, mas para a iniciativa individual que sempre se apela, quer se trate de reparar a fonte de uma aldeia, de construir um porto dc mar ou criar um caminho de ferro; continuando o seu inquérito, reconhe­ cerá, bem depressa que esse povo, não obstante os defeitos que fazem dele o mais insuportável dos povos para o estrangeiro, é o único verdadeiramente livre, porque é o único que, tendo aprendido a governar-se por si, deixou ao governo o mínimo de ação. Se percorrermos a sua história, veremos que foi o povo inglês o primeiro que soube libertar-se de qualquer domínio, quer da Igreja: quer do rei. Já no sécu­ lo XV, o legista Fortscue opunha a lei rom ana, herança dos povos latinos , à lei in­
glesa; um a obra de príncipes absolutos e destinada exclusivamente a sacrificar o in­ divíduo, a outra obra da vontade com um e sempre pronta a proteger a pessoa.

Seja qual for o lugar do globo para que um povo semelhante a este emigre, esse povo será imediatamente preponderante e fundará impérios poderosos. Sc a raça invadida, como os pelcs-vermelhas da América, por exemplo, for bastante fra­ ca e pouco utilizável, será metodicamente exterminada; se, como a das populações da índia, for muito numerosa para que possa ser destruída e, além disso, dê traba­ lho produtivo, ficará simplesmente reduzida a dura vassalagem e será obrigada a trabalhar quase exclusivamente para os seus senhores. E, porém, num país novo, como a América, que devemos principalmente acom­ panhar os progressos espantosos devido à constituição mental da raça inglesa. Trans­ portada para regiões incultas, só habitadas por alguns selvagens, contando só con­ sigo, sabemos bem o que contudo fez; bastou-lhe um século para se colocar na primeira linha das grandes potências do mundo e ninguém hoje há que possa lutar contra ela. Às pessoas desejosas de conhecer a enorme soma de iniciativa e energia individuais empregadas pelos cidadãos da grande república norte-americana, reco­

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mendamos a leitura dos livros de Rousier e Paulo Bourgel. A aptidão dos homens em se governarem por si, cm se associarem para fundar grandes empresas, fundar cidades, escolas, portos, caminhos de ferro, etc. é levada a tal máximo e a ação do Estado reduzida a tal mínimo que quase pode dizer-se que não existem lá poderes públicos, pois que, se tirarmos a polícia c a representação diplomática, não e pos­ sível descortinar-sc para que esses poderes possam servir. Nos Estados Unidos só é possível prosperar quem possua as qualidades de ca­ ráter que acabamos de indicar, e a isto se deve o não poderem as imigrações estrangei­ ras modificar o espírito geral da raça. As condições de existência são tais que todos aqueles que não possuam as qualidades indicadas estão condenados a desapareci­ mento rápido; nesta atmosfera, saturada de independência e de energia, só pode vi­ ver o anglo-saxão; o italiano morre aí de fome, o irlandês e o negro apenas conse­ guem vegetar em condições perfeitamente subalternas. A grande república, a que nos vimos referindo, é seguramente a terra da liber­ dade, mas não é com certeza a terra da igualdade e da fraternidade, as duas quime­ ras latinas que às leis do progresso não c dado conhecerem; em nenhuma região do globo, a seleção natural tem feito sentir mais rudemente o seu férreo braço. É descaroávcl, não há dúvida; mas é precisamente por não ter compaixão que a raça, para cuja formação a seleção contribuiu, conserva o seu poder e a sua energia. No solo dos Estados Unidos não há lugar para fracos, para os medíocres, nem para os incapazes de qualquer coisa. Indivíduos isolados ou raças inteiras estão destinados a desaparecer só pelo fato de serem inferiores; os peles-vermelhas, havendo-se tor­ nado inúteis, foram exterminados a tiro ou condenados a morrer de fome. Os ope­ rários chineses, cujo trabalho constitui incômoda concorrência, acabarão por so­ frer sorte análoga. À lei que ordenou a expulsão total dos chineses não pôde ser aplicada, devido às despesas enormes que da sua execução proviriam. Sem dúvida, será prontamente substituída por uma instrução metódica iniciada já em alguns distritos mineiros. Recentemente foram votadas outras leis proibitivas da entrada no território americano a imigrantes pobres. Com respeito aos negros, que servi­ ram de pretexto à guerra da secessão, entre os que tinham escravos c os que, não podendo tê-los, não podiam sofrer que os outros tivessem, são apenas, por assim dizer, tolerados, por isso que ficam adstritos a funções subalternas que nenhum ci­ dadão americano quereria para si. Teoricamente, os negros têm todos os direitos; praticamente, são tratados como animais semiúteis dos quais se desembaraçam logo que se tornem perigosos. Os processos sumários da lei de Lynch são reconhecidos geralmente como bastante para eles; ao primeiro delito que pratiquem, fuzilados ou enforcados. Estas são, sem dúvida, as manchas do quadro, que é, contudo, suficientemen­ te brilhante para que diminua de valor. Se forçoso fosse definir-se por uma palavra a diferença entre a Europa continental e os Estados Unidos, poderíamos dizer que a primeira representa o máximo do que pode dar a regulamentação oficial substi­

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tuindo a iniciativa individual, os segundos o máximo que pode dar a iniciativa in­ dividual absolutamente desembaraçada de qualquer regulamentação oficial. Estas diferenças fundamentais são exclusivamente conseqüências do caráter. Não é no solo da rede república norte-americana que o socialismo europeu tem probabilida­ des dc vir um dia a implantar-sc. Última expressão da tirania do Estado, o socialis­ mo só poderá prosperar nas raças envelhecidas, sujeitas há séculos a um regime que lhes tirou toda e qualquer capacidade de governo próprio e pessoal. Acabamos de ver o que numa parte da América produziu uma raça possuido­ ra de certa constituição mental em que predominam a perseverança, a energia e a vontade; falta que mostremos no que se transformou um país, quase semelhante, nas mãos de uma outra raça, muito inteligente, na verdade, mas sem possuir ne­ nhuma das qualidades de caráter cujos efeitos passamos em revista. A América do Sul é, atendendo-se às suas produções naturais, uma das mais ricas regiões do globo. Duas vezes maior que a Europa e dez vezes menos povoa­ da, a terra não faz falta e está, por assim dizer, à disposição de todos. A população preponderante, de origem espanhola e portuguesa, está dividida em numerosas re­ públicas, Argentina, Brasil, Chile, Peru etc. Todas elas adotaram a constituição po­ lítica dos Estados Unidos do Norte e, por conseqüência, vivem sob a ação de leis idênticas. Pois, simplesmente pelo fato da raça ser diferente e lhe faltarem as qua­ lidades fundamentais que possui a raça que povoa os Estados Unidos, todas estas repúblicas, sem exceção, são presa perpétua da mais sangrenta anarquia e, não obs­ tante as extraordinárias riquezas do seu solo, sossobram, umas após outras, em de­ la pidações de toda espécie, falências e despotismos. Lendo-se a notável e imparcial obra de Th. Child acerca das repúblicas lati­ no-americanas, apreciar-se-á com exatidão a profundeza da sua decadência. As cau­ sas encontram-se todas na constituição mental de uma raça sem energia, nem von­ tade, nem moralidade. A ausência de moralidade, principalmente, excede tudo o que de pior conhecemos da Europa. Referindo-se a uma das cidades mais impor­ tantes, Buenos Aires, o autor declara-a inabitável para quem quer que seja que te­ nha delicadeza dc consciência e alguma moralidade, c a propósito dc uma das me­ nos degradadas dessas repúblicas, a Argentina, o mesmo escritor diz que, se a examinarmos sob o ponto de vista comercial, ficaremos abismados com a imorali­ dade que aí se manifesta. Nenhum exemplo há que melhor mostre quanto as instituições são filhas da raça e portanto, a impossibilidade de se transferirem de um povo para outro. Seria interessantíssimo saber-se o que aconteceria às instituições tão liberais dos Estados Unidos da América do Norte, se fossem transportadas para uma raça inferior. Es­ tes países, diz-nos Child, falando das diversas repúblicas latino-americanas, estão sob a férula de presidentes que exercem uma autocracia não menos absoluta que a do czar de todas as Rússias; mais absoluta até, por isso que estão ao abrigo de to­ das as importunações e da ação da censura europeia, o pessoal administrativo é ex­

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clusivamente constituído por criaturas dos presidentes...; os cidadãos votam como melhor lhes parece, mas ninguém dá importância aos seus sufrágios. A República Argentina é apenas república no nome, porque, na realidade, é uma oligarquia de indivíduos que fazem da política verdadeiro negócio. Só um país, o Brasil, escapara um pouco a tão profunda decadência, mercê de um regime monárquico, que colocava o poder a coberto das lutas de competido­ res. Demasiadamente liberal para raças sem energia e sem vontade, a monarquia brasileira sucumbiu, caindo desde logo o país em plena anarquia. Dentro de pou­ cos anos, a gente do poder delapidou por tal forma o tesouro que os impostos au­ mentaram em mais de sessenta por cento. Não é só na política, muito naturalmente, que se manifesta a decadência da raça latina que povoou a América, mas sim em todos os elementos da civilização. Reduzidas aos seus próprios recursos, estas desgraçadas repúblicas regressariam ao barbarismo puro; toda a indústria e todo o comércio estão em mãos de estrangei­ ros: ingleses, americanos e alemães. Valparaíso é uma cidade inglesa, e nada ficaria no Chile se lhe tirassem os estrangeiros; mercê destes é que estas regiões conservam ainda um verniz de civilização que ilude a Europa. A República Argentina tem qua­ tro milhões dc brancos de origem espanhola; não sabemos se poderemos citar um branco que seja, além dos estrangeiros, que se encontre à frente dc uma indústria verdadeiramente importante. Esta terrível decadência da raça latina, abandonada a si mesma, posta em con­ fronto com a prosperidade da raça inglesa numa região vizinha, é uma das mais sombrias, mais tristes e, ao mesmo tempo, das mais instrutivas experiências que po­ demos citar para apoio das leis psicológicas que expusemos.

12) ALMEIDA GARRETT

Obras
(Porto, Lello 6c Irmão, Editores, 1963, v. 1, p. 734-5.)

Justiça (Lúcio Júnio Bruto, juiz de seus filhos)
Lúcio Júnio Bruto era cônsul ou primeiro magistrado de Roma; e, na ocasião em que a cidade era sitiada por um poderoso exército inimigo, foi descoberta uma conspiração de traidores que tentavam entregar-la. Entrava nesta conspiração gran­ de número dos principais do Estado e com eles os filhos do cônsul. Foram todos presos e processados por tão horrível crime; que o não há maior nem mais atroz. Chegou a hora tremenda em que os réus deviam ser afinal julgados. Apareceu o cônsul Lúcio Júnio Bruto em seu tribunal no foro ou praça pública de Roma, ro­

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deado do senado, que era o conselho dos anciãos e homens bons do Estado, e dian­ te de todo o povo - porque em Roma foram sempre públicos os processos, para que nem as paixões dos julgadores nem as peitas dos culpados os pudessem torcer, mas se fizesse sempre justiça direita e lisa. Compareceram os acusados diante do cônsul; dentre estes, seus próprios filhos. Todo o povo tinha os olhos neles e no pai, c parecia duvidar que o sangue c a natu­ reza não movessem da justiça o ânimo do magistrado. íMas o cônsul interrogou seus filhos com a mesma tranqüilidade e firmeza com que fez aos outros. O crime foi pro­ vado; eles confessaram: e não restava senão pronunciar o juiz a sentença. Hoje dá-se aos condenados tempo suficiente para se prepararem a aparecer na presença de seu Deus, tribunal mais terrível porque são eternas suas decisões, porém mais indulgente porque lhe cabe perdoar crimes provados e confessados quando deles há verdadeiro arrependimento. Mas nesses tempos a religião cristã, que é toda humanidade e brandura, não tinha ainda adoçado os costumes daque­ les honrados mas ferozes republicanos. Os réus convencidos e julgados iam ser para logo executados. Lúcio Júnio Bruto, rodeado de lictorcs - oficiais públicos a quem incumbia pôr cm continente por obra os mandatos do cônsul-, pronuncia a fatal sentença: 4 4 O crime está provado; os acusados são réus dc alta traição: lictorcs feri, executai a sentença da república”. A natureza não podia com mais: o cônsul cobriu o rosto com a toga... e as ca­ beças dos filhos rolaram a seus pés. Mas Roma foi salva, a rebelião afogou-se; e Júnio Bruto, órfão de seus filhos, não o foi da pátria. Tal é um dos maiores exemplos de justiça que já se deram no mundo.

13) ALBERTO TORRES

A Organização N acional
Cia. Editora Nacional, São Paulo, 1978, 3. ed.

0 espírito e as te n d ê n cia s da política
Em outros tempos, no período de romantismo político que sucedeu à Revo­ lução Francesa, quando a questão das formas de governo era a tese predileta dos publicistas, a unidade e a continuidade da política pareciam aos olhos dos partidá­ rios do regime monárquico a grande causa de sua superioridade. A pretensão era falaz, como todas as ideias a priori da política. A unidade e a continuidade da política resultam da existência de um caráter nacional. Onde há uma nação, homogênea em seus elementos, ou fortemente subordinada a um espíri­

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to, um móvel, uma aspiração, ou uma classe preponderante, define-se uma políti­ ca: os órgãos dessa política surgem da reação dos acontecimentos, e, seja dinástica ou republicana a forma do governo, o poder vem a cair nas mãos dos combaten­ tes mais fortes, dos representativos. Em Washington, como cm Bismarck, encontra-se o mesmo traço das perso­ nalidades dominantes, os eleitos desse sufrágio tácito, que faz brotar os proto-homens do tempo, em sua terra - como a flor brota da planta, na estação própria, sobre a haste do valor pessoal. Homens dessa têmpera comandam as gerações a que pertencem, nas grandes épocas de crise nacional, e impulsionam o movimen­ to que se perpetua pelas gerações adiante. Há casos notabilíssimos de proeminência de um homem, ou de uma aristocra­ cia mental, sobre os destinos de um povo, nenhum, porém, mais expressivo que o dos Estados Unidos, onde um grupo de precursores eminentes assentou, nos primei­ ros dias da constituição do país, os princípios que o haviam de dirigir até hoje. Quem lê o Federalista, as cartas e os manifestos de Washington, os trabalhos de Jefferson, dc Hamilton, dc Madison c de Franklin, encontra estudados, nessas soberbas profis­ sões dc fé, os caracteres práticos e morais da nacionalidade, expostos os seus pro­ blemas, indicadas as suas soluções, previstos os seus destinos, com precisão e clare­ za tão fortes que projetam luz sobre o futuro da grande pátria, até nossos dias. Esses homens deram aos olhos de sua pátria a consciência do nosce te ipsum; mostram-lhe as suas necessidades, os seus problemas, as suas soluções, os seus des­ tinos. A nação despertou formada, cônscia de sua posição e de seu papel no mun­ do, pronta para caminhar com os olhos fitos num objeto conhecido. Sua história foi o desenvolvimento natural de um atleta. Esta preparação inicial era mais difícil, entre nós, por causas geográficas e por causas históricas. Território heterogêneo, de conformação longitudinal, com rios e vias de comunicação menos favoráveis, eriçado de cadeias de montanhas que o di­ videm e separam, era mais penoso ligar e abranger, num todo, as diversas zonas, para lhes estudar o caráter comum c prefixar as condições de unidade e dc solida­ riedade. Não era fácil assimilá-lo, com seus produtos exóticos, às condições nor­ mais do comércio internacional, entremeando os seus interesses nas correntes or­ dinárias dos negócios. O comércio brasileiro ficou, como todos os que versam sobre especiarias, sujeito às oscilações, aos entraves, às espoliações, que acompanham, em toda parte, os negócios sobre gêneros que não são de uso necessário. Os homens públicos estavam, por outro lado, longe de possuir o preparo dos fundadores da república americana. Cientistas, literatos e juristas da escola de Coim­ bra trouxeram, para o nosso meio, brilhantes ideias, conceitos teóricos, fórmulas jurídicas, instituições administrativas, estudados nos centros europeus. Com tal es­ pólio de doutrinas e de imitações, arquitetou-se um edifício governamental, feito de materiais alheios, artificial, burocrático. Os problemas da terra, da sociedade, da produção, da povoação, da viação e da unidade econômica e social, ficaram en­

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tregues ao acaso; o Estado só os olhava com os olhos do fisco; e os homens públi­ cos - doutos parlamentares e criteriosos administradores - não eram políticos, nem estadistas; bordavam, sobre a realidade da nossa vida, uma teia de discussões abs­ tratas, ou retóricas; digladiavam-sc em torno dc fórmulas constitucionais, france­ sas ou inglesas; tratavam das eleições, discutiam teses jurídicas, cuidavam do exer­ cito, da armada, da instrução, das repartições, das secretarias, das finanças, das relações exteriores, imitando ou transplantando instituições e princípios europeus. Sob a impetuosidade do primeiro monarca e o academicismo do segundo, o meca­ nismo governamental trabalhou sempre, desorientado e sem guia, estranho às ne­ cessidades íntimas, essenciais, do nosso meio físico e social. A República desenvolveu consideravelmente a curiosidade intelectual, nas le­ tras, nas ciências, na política. Conservando a maioria na representação nacional, viram-se os juristas cercados de outras aptidões e capacidades. Moços, ardentes, ambiciosos, os políticos do novo regime lançaram-se à pesquisa de novos assuntos, novos problemas, novas conquistas a explorar, nos anais do Congresso, na impren­ sa, cm periódicos c livros, multiplicaram-se estudos c investigações, de incontestá­ vel mérito e marcada originalidade - mas esses trabalhos mostravam, em regra, a tara da nossa tendência e a lacuna do nosso preparo: eram teóricos, analíticos, li­ mitados a uma especialidade, a um ramo dc conhecimentos, alheios aos problemas concretos e oportunos. O regime não trouxe consigo os estadistas que o haviam de construir. Os estudos ganharam em variedade, mas perderam, em dispersão e inde­ finido, alguma precisão que os antigos tinham. É certo que os manifestos e mensagens presidenciais sumariam, com mais ou menos amplitude, notas sobre os departamentos dos serviços públicos, faces diver­ sas dos problemas nacionais, e que sugerem alvitres e soluções sobre variados as­ suntos; por amplos que sejam, têm, contudo, todos eles, um caráter, minucioso e pormenorizado, de catálogos de sugestões e propostas, para aplicações parciais, sem espírito de conjunto, sem vista geral e coordenada de nossa fisionomia social, política e econômica, de seus problemas, de suas soluções. São programas de ges­ tão transitória, para os quatro anos de período; faltam-lhes a envergadura e a luz, com que costumam verdadeiros estadistas concentrar, em traços fortes e nítidos, o sistema da política prática, o estudo positivo da fisiologia de um país, para lhes in­ dicar o movimento e a direção. Esses programas quadrienais, esboçados no curto período de cada governo, são esquecidos, para se dar começo a novos ensaios e tentativas, na seguinte presidência. A história da política republicana, em seu conjunto e em seus vários interesses, é uma jornada de marchas e contramarchas, de experiências e retrocessos... Somos um país sem direção política e sem orientação social e econômica. Este é o espírito que cumpre criar. O patriotismo sem bússola, a ciência sem síntese, as letras sem ideal, a economia sem solidariedade, as finanças sem continuidade; a educação sem sistema, o trabalho e a produção sem harmonia e sem apoio, atuam

erros de apreciação. as incursões bárbaras e as guerras conseguiram arremessar grandes massas de população para zonas frias. aí floresceram as primei­ ras e mais luxuriantes civilizações. para aí convergem. ame­ ricanos da fase constitucional. Melhoramentos. ed. dc episódios militares e governamen­ tais: sua história étnica. só começará a formar-sc quando mais estreita c solidariedade entre os habitantes das várias zonas lhe der a consciência dc uma unidade moral. ou cálidos. c a sucessão. que acidentes. O destino de um país e função de sua história e de sua geografia. a sua flora. os seus vasos hidrográficos. E em sua geografia e no quadro da sociedade contemporânea que está a base do conhecimento de sua sorte. aos desvios. São Paulo. A zona intcrtropical é o berço do animal humano. e ao mesmo tempo as condições necessárias ao espírito de unidade social e econômica e à solidariedade entre os interesses e tendências divergentes. que tal nome não merece a série cronológica dos fastos das colônias dispersas. meramente política. que tiveram dc vencer. sujeita às oscilações. sobre a ruína da vida comum. O Brasil não tem história. Estudar o Brasil. que sc fixou o tipo mais perfeito do reino animal. Sem esse estudo. as aspirações e os desejos dos homens de todas as regiões! Só o esgotamento do solo. a prolife­ ração das populações. a sua estrutura orográfica. 1933. e os egoísmos e interesses ilegítimos florescem. naturalmente.) . para conhecer os elementos e aptidões de sua exploração e cultura. que a unidade política está lon­ ge de realizar. como a vida dos homens sem ob­ jetivo e sem método.292 Teoria Geral do Estado como elementos contrários e desconexos. mas em sua na­ tureza dinâmica e funcional. eis o pon­ to dc partida dc toda política sensata e prática. a marcha de um país fica. um dos países que apresentam mais sólidos elementos dc prosperidade c mostram condições para um mais nobre e brilhante destino. sempre que aí encontre terras férteis c climas propícios à vida. 29-42. aos azares. Tal foi a obra dos estadistas. interesses ocasionais ou parciais. aliás. 14) FRANCISCO JOSÉ DE OLIVEIRA VIA N N A 0 ocaso do Império (2. destroem-se reciprocamente. uma gravíssima dificul­ dade: a tendência separatista das antigas colônias. foi em climas médios. econômica e social. eis o que deverá ser o lema do patriotismo e do zelo pela sor­ te de nossa terra. O Brasil é. vínculo íntimo e profundo.. a sua fauna. vão produzindo. entretanto. p. Estudar a geografia de um país não em seu aspecto descritivo. procurando apreender o caráter das diversas zonas geológicas e mineralógicas. É natural que o homem tente vol­ tar para seu berço.

como observava Luís Couty.e o resultado é que a Coroa tem cm má conta um e outro'’. de volume pequeníssimo em relação à massa da população. nem consciência al­ guma do papel que estava representando. quando chamou Sinimbu.10 Leituras Complementares 293 Os dois velhos partidos do Império. dizendo que aqui “povo é uma reunião dc homens. quando concedia a dis­ solução da Câmara. No fundo. Falta-nos espírito público. O grosso do povo. O golpe parlamentar de 68 é. Falta-nos organização de classes. uma bela prova disto. O processo eleitoral. em 53. conquistado este. o liberal flagela o conservador . Hra este o principal programa dos liberais como o era dos conservadores. Entre nós. certo. o liberal não respeita o conservador. Num e noutro caso. dissolvia a Câmara e procurava informar-se da opinião do país através da coloração partidária do futuro Parlamento. era este o mais legítimo processo de sondagem da opinião pública. a vida política foi sempre preocupação e obra de uma minoria diminuta. o conservador flagela o liberal. O imperador apelou para ele várias vezes. como porcada é uma reunião de porcos”. também não lhe dava nenhum índice seguro da opinião nacional. Foi o que fez em 68. onde estão os nossos partidos?” perguntava. Em tese. ou mesmo. como se vê. Ninguém exprimiu melhor. Só nos países de opinião organizada é que o processo eleito­ ral pode ser um meio eficaz de sondagem da opinião do povo. não dava importância alguma à opinião dos partidos. Realmente. quando chamou Itaboraí. No Brasil. conservá-lo a todo transe: nada mais. sente-se que ele dava uma importância pequena. com efeito. Falta-nos li­ berdade civil. tendo modificado a colora­ ção política do Gabinete. na verdade. E um espírito irreverente expri­ miu uma vez este mesmo pensamento. num país como o nosso. e com maior conheci­ mento de causa. como não tinham programas. Dis­ se ele. nunca teve espírito político. entretanto. Sr. levado às urnas apenas pela pressão dos caudilhos territoriais. a Paraná. não. não existe povo no sentido político da expressão. o recurso das eleições. dentro dos princípios de pura teoria do regime representativo. . Foi o que fez em 78. “Mas. Essa atitude dos dois grupos partidários fazia com que o imperador acabasse convencido de que não podia encontrar na opinião dos partidos nenhum índice se­ guro das correntes interiores. não tinham opinião. O objetivo era a conquista do poder e. que porventura animassem a consciência do país. na sessão de 18 de junho de 1870: “O conservador não respeita o liberal. VI Havia. Honório. espírito público nunca existiu no Brasil. do que o próprio Zacarias este estado de alma do imperador.

Então. o velho. uma pura ficção constitucional. pela ausência de antagonismo de classe. pela feição acentuadamente patriarcal da nossa socieda­ de. estava ainda em condição muito rudimentar. à maneira britâ­ nica ou norte-americana. na oposição. de maneira que a vida política não se distribuía por vários centros da atividade. a estrutura social era quase tão rudimentar como nos campos. chegou mesmo a formular esta lei no seu famoso sorites: “O Poder Moderador pode chamar quem quiser para organizar Ministérios. os interesses das classes po­ pulares rurais não estavam propriamente em oposição aos da aristocracia territo­ rial.ne­ nhum antagonismo entre as populações dos campos e as populações das cidades. não se dispartia por várias classes ou grupos profissionais: concentrava-se quase toda numa classe única. VII Demais. Num povo sem educação eleitoral e de opinião embrionária.e ainda nos faltam agora .tal como hoje. uma estrutura social muito simplificada. a fraude não a deixaria revelar-se . como ainda não existe. perdia sempre . Igualmente não se havia cons­ tituído aqui . Mesmo que o nosso povo tivesse opinião. verdadeira burla . a dissolução da Câmara para a consulta à Nação se havia transfor­ mado numa farsa ridícula. que era a gran­ de aristocracia territorial. os conflitos dc classes. próprios às sociedades de alta or­ ganização industrial. não tinham ainda razão de ser. Durante o período imperial tínhamos. ainda mais do que hoje. ao imperador nenhum elemento seguro de orientação. sob o segundo Império. capaz de dar ao processo eleitoral uma significação realmente democrática. esta eleição faz a maioria É que nos faltavam então . devido à extrema simplificação trazida à nossa estrutura social pelos grandes domínios independentes.e isto porque o partido que estivesse no poder ganhava sempre. correntes de opinião desencontradas. no seio da população dos campos. porque há de fazê-la. opinião. pois. Nos grupos urbanos. capazes de revelar-se no processo eleitoral. esta pessoa faz a eleição. próprio aos governos parlamentares.as condições necessá­ rias para eleições livres. não se podiam formar.dada a corrupção do próprio proces­ so eleitoral. Uma dessas condições é precisamente que cada um dos ci­ . Nabuco. por sua vez. acordavam-se. Esta preponderância tão absorvente da grande aristocra­ cia da terra fazia com que nem a classe média rural. a “opinião do povo”. o processo de “consulta à nação”.como na Argentina da época caudilheira. como nunca se formaram. Em síntese: pela grande simplicidade da nossa estrutura social. antes.294 Teoria Geral do Estado Organização de classes também não existia. segundo Sarmiento . De modo que. nem a plebe dos campos tives­ se. e o partido que estivesse “debaixo”. Demais. como sempre foi. estava realmente conde­ nado a ser. O processo de sondagem por meio das eleições não podia trazer. ou pudesse ter.

Itaboraí. reformas várias do mecanismo eleitoral procuravam pôr um óbi­ ce a estes desmandos da fraude . cada um dos eleitores. C'est fait de moi. É certo que a Reforma Judiciária de 71 assegurou um pouco mais os particulares contra o arbítrio das autoridades. Só Saraiva. tanto liberais como conservadores. “ O Governo. nunca existiram grandes tradições de legalidade.com a certeza certa de uma previsão astronômica . Era esta. tenha perfeitamente assegurada a sua liberdade ci­ vil . conservadora. todos esses aparelhos protetores das liberdades individuais sempre funcionaram mal.que a nova Câmara vinha inteiramente à feição do novo Gabinete. il me faut vendre tout et quitter le pays. não passavam. à maneira da Inglaterra. si je ne pars hientôt.o que lhe valeu uma ascendência imensa sobre todos os políticos do seu tempo. tem o direito de intervir no processo eleitoral” . Estas garantias. Em julho de 68 caía o gabinete Zacarias com uma Câmara unanimemente liberal. afinal. dc garantias no papel. com efeito. veio unanimemente conservadora! Em 1878 deu-se o contrário. em 1840. se havia transformado numa verdadeira burla. tanto li­ berais como conservadores . O recurso da dissolução da Câmara.dizia. essa autoridade.e estes asseguravam o mais completo absolutismo aos mandões locais. onde os preceitos da common law tem qualquer coisa dc sagrado aos olhos das autoridades c aos olhos das multidões. Esta doutrina absurda pode-se dizer que era a expressão do pensamento íntimo de todos os políticos no poder. a condição das nossas massas populares sob a lei de 3 de dezembro de 41. já se sabia de antemão . Dis­ solvida a Câmara. Ora. Antônio Carlos. ou mais exatamente. Em nosso país. na verdade. pelo mecanismo da centralização. que substituiu o velho sistema da . Cada homem do sertão ou da mata entre nós bem podia dizer como aque­ le camponês de Paul Louis Courier: Je suis malheureux: )'ai fáché monsieur le maire. expressão de um partido. os velhos costumes permaneceram . o Grande. o expediente da “consulta à Nação”. substituiu-o um Gabinete liberal. deixou de aplicá-la integralmente. desmentiu esta regra . através da poderosa máquina centralizadora. Aqui. entretanto.e era isto o que não acontecia aqui. na execução da lei da eleição direta. dos chefes de Gabinete.e nenhum deles. dissolvida. que punha uma tão confiada arrogância no coração do moleiro de Frederico. eleita no mesmo ano. Este. continuaram a scr precárias.10 Leituras Complementares 295 dadãos. em que ninguém mais acreditava.e a lei Saraiva. por exemplo. esse prestígio. voltou soberbamente liberal! Certamente. em 82. Esta Câmara. o Gabinete Sinimbu: e a Câmara. na prá­ tica. Nem a Magis­ tratura aqui teve jamais essa força. todos esses mandões locais estavam na dependência dos Gabinetes. foi o Gabine­ te conservador que caiu. dei­ xando o homem do povo na iminência ou na atualidade dos golpes de vindita dos poderosos. mobilizava à sua vontade esse formi­ dável exército de tiranetes locais. Era debalde que as oposições tentavam lutar con­ tra a força irresistível dessa compressão organizada. dissolveu: a Câmara nova. soberbamente conservadora.

Estávamos na convicção dc que o novo sistema eleitoral armaria o povo com uma arma invencível contra o arbítrio do po­ der. aliás. Falhara a “lei dos círculos”. cheios de esperanças. intangíveis. ao contrário de Zacarias. Falhara a reforma de 75. com os seus distritos de três deputados. nem as leis anteriores pu­ deram contravir às artimanhas dos nossos bosses eleitorais. o Parlamento seria. pareceu. Coube a Saraiva a execução da lei de 81. Saraiva. para o sistema da eleição direta. não mais uma ques­ tão de partido. ter conseguido este grande objetivo. tamanha a fé nas suas virtudes. eram nada diante dos truques sugeridos pela inventiva maravilhosa desses Fregolis da cabala. Então. Estes sempre se mos­ traram inapreensíveis. o idealismo do mundo. insinuou Sinimbu a agitar o problema e promover a sua solução parlamentar. o sufrágio revelava ali uma tendência a generalizar-se. invencíveis no prodigioso diabolismo das suas habilidades de prcstímanos. que era. mas uma legítima expres­ são da vontade nacional. com a sua alta autoridade. em que se consubstanciara a gran­ de aspiração nacional. o sistema dos dois graus falhara: mostrara-se extremamente dócil à vontade do poder. tinham falhado. à primeira vista. não tinha o temperamen­ . Todos os outros sistemas eleitorais.296 Teoria Geral do Estado eleição de dois graus pela eleição direta. Porque o nosso movimento pela eleição direta não foi original. Em suma. Refletíamos os clamores dos partidos europeus e as aspirações que agitavam o ve­ lho mundo. com o estímulo do imperador. Esta contemporaneidade dos dois movimentos mostra o caráter meramente reflexo do nosso . Mas a verdade c que nem esta lei. não mais uma massa passiva de de­ pendentes. mas apenas uma prolação do movimento europeu neste sentido.c os espíritos mais impacientes volta­ ram-se.e nossa esperança qua­ se messiânica na eleição direta não era senão a esperança contemporânea de todos os povos civilizados no sufrágio universal. Por mais cautelosas c casuísticas que fossem todas es­ tas leis. mas uma questão nacional: todo o país a reclamava! O imperador foi um dos primeiros a perceber isto e foi ele quem. Sente-se que ele se deixara tomar também do idealismo ambiente. o movimento pela eleição direta. O mal devia estar então neste sistema . até então praticados. Com o sufrágio direto. Houve um momen­ to mesmo cm que foi tamanho o entusiasmo pela eleição direta. a apro­ ximar-se cada vez mais das maiorias populares. O que aconteceu com o sistema da eleição direta é típico. que estabelecera o princípio da repre­ sentação das minorias. Este sistema havia aparecido nos nossos meios partidários como uma criação miraculosa do engenho político. justamente na época em que iniciávamos aqui. que ela passara a ser. como confessava Sinimbu. de 55. Todas elas deixavam brechas por onde o governo pudera insinuar-se. saídos dos conluios dos gabinetes ministeriais. Esta tendência atingia o seu máxi­ mo dc intensidade. Falhara a reforma de 60. impor a sua vontade c o seu arbítrio.

em que a qualidade principal do executor seria o des­ prendimento. ao seu pequeno horizonte intelectual e voltam a viver dentro do seu egoísmo anterior.como não a executariam Paulino ou Sinimbu. senão dc es­ panto. como todas as outras leis. que acompanha sempre a estreia das grandes reformas e sob a qual todos os pequenos egoísmos. ele não teria nenhuma repugnância em acatar a opinião do povo. cioso da sua dignidade de rei.10 Leituras Complementares 297 to de um homem de partido: era uma natureza álgida. também. Passada. Pedro sentia que o resultado bom ou mau da lei Saraiva ia dar a prova crucial da excelência do velho regime. a fria imparcialidade. O nosso povo teve por um momento a impressão que havia encontrado nela a chave da sua liberdade políti­ ca: pela primeira vez o governo fora derrotado! Para este magnífico êxito não contribuiu apenas a retidão e a imparcialidade de Saraiva: há que contar também com a intervenção direta do imperador. Soberano visceralmente democráti­ co. mesmo. por oca­ sião da primeira experiência da lei de 80. como outrora. necessárias a assegurar uma execução perfeita àquela grande lei. insusceptível ao fanatismo das grandes convicções e inapto às grandes vibrações do entusiasmo. à ação conjugada do impe­ rador e do chefe do Gabinete. isto mesmo nas suas notas ao livro de Tito Franco. em parte. com o seu vivo sentimento partidário não a executaria . a do terço etc. Nenhum dos homens do poder teve mais a abnegação de Saraiva. sobrecarrega­ do das mil preocupações do seu cargo. ao pon­ to de Dantas considerar que aquela preocupação. nas elei­ ções de 84. os homens retornam logo ao seu pequeno horizonte emotivo e. não poderá deixar de sentir uma emoção comovida diante deste ancião. D. em que certamen­ te não acreditava. “O Imperador se tornou o fiscal-mor da oposição junto ao ministério. cuja compressão eleitoral dc 78 enchera de surpresa. porém. a dos círculos. Nenhum mais se resignou a sofrer a provação da sua derrota. como ou- . junto a Dantas. Ele confessou. mas não do seu direito divino. Quem ler hoje a correspondência dele com Dantas por essa época. Os resultados da nova lei foram surpreendentes. o sentimento da verdade pura. a este estado dc exaltação gene­ rosa e idealista. aliás. desde que ela se lhe revelasse de uma maneira clara e insofismável. esta fase climática de exaltação. quase redunda­ va em preferência pelos adversários” . O governo. por exagerada. todas as pequenas impurezas da nossa pobre huma­ nidade como que se fundem ou se volatizam. passou a ganhar sempre. e mesmo depois. Ninguém mais capaz de executar uma lei. a lei Saraiva também falhou.diz um historiador. cm parte. Zacarias. mas atento aos menores detalhes e às me­ nores providências. A oposição. a consciência do país. mandando às Câmaras uma representação que fosse a expressão legítima da sua vontade.. No fundo. Nada mais comprobativo da alta compreensão que o velho dinasta tinha da sua grande missão constitucional do que a sua insistente diligência junto a Saraiva. O êxito inicial da lei Saraiva foi devido. Nas eleições seguintes restauravam-se as velhas praxes opressivas. Por isso.

por mais sólida que fosse. mas na opinião dos Gabinetes. não na opinião do povo. com as situações locais c provinciais. pois. Pedro era um espírito liberal e equânime.e a política rotativa do imperador sempre permitia que isto acontecesse . passou a perder sempre. dependente de um simples aceno do im­ perador .ao ostracismo permanente e irremissível. mas. Compreende-se. desta ficção. o destino dos partidos estava. concedida a dis­ solução.298 Teoria Geral do Estado trora. todas as vezes que se abria uma crise de Gabinete. desta burla. Por isso mesmo. Voltaram as Câmaras unânimes . puro homem de bem. Pedro . Ele fazia cair os par­ tidos e fazia subir os partidos. essas belas unanimidades parlamentares. a de­ licadeza da sua situação no exercício da grande faculdade constitucional. cujas origens espúrias bem conhecia. por exemplo. o clamor. sem gosto nenhum pela política e as suas agitações. isto importaria na vitória segura do novo Gabinete: e a situação anterior. adotara uma atitude de paternal e displicente imparcialidade para com os dois partidos. quando se operava uma crise ministerial. Seria o que Saraiva chamava “a condenação dos adversários ao inferno de Dante” . exercido à maneira in­ glesa. e julgando-se indesmontáveis. ao sopro violento das “der­ rubadas” .sem conceder a dissolução da Câmara seria logicamente impossibilitar àquele os meios de governo. desta artifi­ cialidade do regime representativo no Brasil do que D. seria isto . con­ tra que investia a cólera dos políticos caídos em desgraça. de Nabuco ou de Uruguai. D. quando no poder.fixar 110 poder ad aetermitatem o partido do Gabinete. seria reduzida a destroços. pois. O destino dos partidos estava.chamando este ou aquele prócer partidário ao Paço.e com elas o pro­ testo. Ele bem compreendia que o papel do rei constitucional. de Saraiva ou de Cotegipe. haviam organizado. todo o país se revestia de uma coloração conservadora. ora chamava outro ao poder.e é isto justamente que transparece das suas notas ao livro de Tito Franco. durante o império. ele adotasse sistematicamente a fórmula britânica e formasse sempre Gabinetes da mesma coloração da Câmara. Ora chamava um.o matiz político que cobria o país passava a ser desde então impressionadoramente liberal! IX Ninguém mais convencido de tudo isto.ele bem o sentia . mas. os admiráveis mecanismos de compressão política. Sc cra conservador o Ga­ binete. Em suma. se acontecia ser liberal o Gabinete . sem dar nenhuma consideração apreciável à opinião da Câmara. seria aqui absolutamente irrepresentável por qualquer soberano que aspiras­ se ao título de justo. em vez de formar um Gabinete de coloração contrária. . como costumava de quando em quando fazer. sc ele chamasse um Gabinete conservador . que os próprios partidos. o desespero dos condenados às geenas do ostracismo. Numa Câmara liberal. à vontade: bastava para isto pôr nas mãos de Z a­ carias ou de Itaboraí. Se. Estes c que davam aos partidos no poder.

num país em que a vida política se modela por esse padrão e se restringe a esses objetivos personalíssimos. fazia subir os liberais. se não há engano na filosofia de Quincas Borba. depois dc dez anos dc governo conservador. os partidos não disputam o poder para realizar ideias. com surpresa geral. o imperador parecia não ter ou­ tro critcrio senão o do tempo: ele fazia o revezamento dos partidos conforme o tempo da estada deles no poder. aquilo que o povo. Desde que nada podia explicar esta queda senão a vontade do monarca. quando o imperador os fazia apearem-se do poder. mas há tam­ bém os proventos materiais. Há os proventos morais. a frase motejadora de Martinho: também eles perdiam o emprego! Está claro que. Era uma vassourada geral. quando não mal compreendida. an­ tes dc tudo. que deixava o campo inteiramente lim­ po e aberto ao assalto dos vencedores. em que os indivíduos vão ao poder no intuito altruístico de realizar um grande ideal coletivo. o poder é disputado pelos proventos que concede aos políticos e aos seus clãs.c todos acham infinitamente mais docc viver do Estado do que de outra coisa. do co­ mércio c da indústria . Eqüivale dizer que cabiam a estes as batatas. Sabe-se. quando caía um Gabinete. Realiza­ va assim. que. ingrata . que essa posse também dá. Estes se julgavam sempre esbulhados. aquele dito espiri­ tuoso de Martinho de Campos. Daí a áspera violência das famosas “derrubadas” . provinciais e gerais. Em boa verdade não a podiam compreender. aliás. Num país assim. ou antes. quando teve que deixar a pasta de ministro: Perdi o emprego! Era um graccjo. ou podiam repetir realmente. mas este graccjo encerra a síntese dc toda a filosofia política no Brasil. pelo menos mal aceita pe­ los detentores eventuais dos instrumentos do governo. não sabia realizar. Em nosso país. não a podiam admitir.porque fatalmen­ te mal compreendida e. nas províncias. O partido que subia derrubava tudo . Em 1878. o exercício do Poder Moderador num sistema parlamentar é uma tarefa delicada. todos os que formavam o estado-maior deste partido nos municípios. não compreendiam (ou fingiam não compreender) esta imparcialidade do imperador. com efeito. com a sua equanimidade. X Os políticos. depois de seis anos de domínio do par­ tido liberal. locais. no centro repetiam. Em 1868. um meio dc vida: vive-se do Estado. em- . todos os ocupan­ tes adversários. que sempre dá a posse da autoridade. nada mais lógico do que a irritação dos políticos contra esse personagem. o partido conservador. a conquista do poder é um fato inquestionavelmente mais sério e mais dramático do que em outro país. como sc vive da lavoura. No fundo. Entre nós a política é. entretanto. fazia subir ao poder. espinhosa. com a sua incapacidade de­ mocrática.10 Leituras Complementares 299 Nestas alternativas das situações partidárias.quer dizer: sa­ cudia para fora dos cargos públicos.

da experiência c da individualidade. No campo da filosofia política legou-nos O homem e o Estado. Colúmbia.300 Teoria Geral do Estado buçado dentro de uma prerrogativa constitucional. é mais abstrata. às vezes. 3. O Estado não é uma espécie de super-homem coletivo. em suma.. ed. Escreveu inúmeras obras. às vezes mesmo. universidades de Toronto. mais separada das contingências. Homens de clã para quem o inimigo político era quase sempre inimigo doméstico e a luta política uma luta pessoal. O Estado é apenas uma insti­ tuição autorizada a usar do poder e da coação. p. Arte e escolástica. Rio de Janeiro. O Estado é uma parte que se especializa no interes­ se do todo. con­ vertendo-se ao catolicismo em 1906. com destaque para Filosofia moral (1960). filósofo e diplomata francês. um instrumento ao 5 Jacques Maritain (1882-1973). e constituída por técnicos e espe­ cialistas em questões de ordem e bem-estar público. Tal obra de arte foi construída pelo homem e serve-se dos cérebros e das energias humanas e nada é sem o homem. Chicago e Princeton (1948-1960). sem outra razão senão as razões do seu capricho. . 15) JACQUES M ARITAIN5 0 homem e o Estado (Trad. ar­ ticulada pela lei e por um sistema de normas universais. 1959. ao fomento do bem comum e da ordem pública e à adminis­ tração dos negócios públicos. O Estado não é a suprema encarnação da ideia. estudou em Paris e Heidelberg. eles não se sentiam apenas esbulhados com o ato da Coroa que cha­ mava ao poder os adversários: sentiam-se também humilhados. uma superestrutura impessoal e duradoura. como o acreditava Hegel. Embaixador da França no Vaticano (1945-1948). Alceii Amoroso Lima. Agir. Professor do Instituto Católico de Paris {1914-1940). uma encarnação superior da razão. tornou-se adversário do Concilio Vaticano e do movimento neomodernista. é um conjunto de institui­ ções combinadas em uma máquina altamente aperfeiçoada. constitui. obra que escolhemos para transcrever o trecho supra. cujo funcionamento pode ser considerado como ra­ cional em segundo grau. Não é um homem ou um grupo de homens. 22-3. mais impiedosa também do que em nossas vidas individuais. feridos no seu pundonor pessoal c guardavam do imperador uma sorte de ressentimento íntimo. todavia. Kste explodia. na medida em que a atividade racional nele envolvida. de rancor.) 0 Estado O Estado é unicamente a parte do corpo político que se refere especialmente à manutenção da lei. lecio­ nou também na América do Norte e no Canadá. os destituía das suas situações de mando. em frases de recriminação violen­ ta ou cólera impulsiva.

é uma grande mentira dizer que a violência não passa de um fenômeno acidental. existe para o Estado. Não me conformo com a visão limitada de alguns em considerar as greves como algo seme­ lhante a uma desavença comercial entre um feirante e seu fornecedor. Trata-se. O Estado e que existe para o homem. que. Sua importância para as ideias políticas pode ser resumida no fato de que inspirou. o mais importante de seus trabalhos. um clássico da Política. com bruscas alterações de rumo. não se dei­ xando condicionar por metáforas. sobre a violência proletária. Vergastando a burguesia e a democracia parlamentar. A revolução social é o prolongamento desta guerra. Aqueles que dirigem ao povo palavras revolucionárias têm a obrigação de ser sinceros. Com efeito. de maneira alguma. Dedicou-se à questão social desde 1892. Collcction Rcssourccs. por inclinação natural. . tornou-se. porque os trabalhadores levam tais expressões ao pé da letra. um notá­ vel ideólogo. Mas o homem. A greve é uma guerra! Consequentemente. construindo. inspirando-se principalmente em Karl Marx. é durante as greves que o proletariado reafirma sua existência. A pessoa humana como indivíduo existe para o corpo político. simultaneamente.) Tradução do autor. mas o cor­ po político existe para a pessoa humana como pessoa. Quando. suprimirá um regi­ me condenado. Pierre Joseph-Proudhon e Henri Bergson. de forma re­ lativamente profunda. Para eles o socialismo se reduz à ideia. de uma transformação radical. engenheiro de profissão. espera e preparação da greve geral. Tal concepção não implica nenhuma das sutis interpretações em que se esmera Jaurès. seu famoso sindicalismo revolucionário. Reflexões so­ bre a violência (1906). Ensaios dc crítica do marxismo e. o mais significativo dos mitos proletários. Deixou várias obras de considerável significado. dois ilustres discípulos: Lenin e Mussolini. entre elas A ruína do mundo antigo. estava consciente da grande res­ ponsabilidade que assumia ao tentar demonstrar a importância histórica de ccrtas ações que nossos socialistas “parlamentários” tentam ocultar com suas artimanhas. acre­ ditava na formação de elites no seio do proletariado. Tenho certeza de que o socialismo não sobreviverá sem a apologia da violência. da qual cada grande greve constitui mero episó­ dio. 1981. Colocar o homem a serviço desse instrumento é uma perversão política. eis por que os sindicalistas se referem a tal revolução empregando o linguajar típico das greves.10 Leituras Complementares 301 serviço do homem. isto sim. Paris-Genève. com a eli­ Georges Sorel (1847-1922). as quais levariam o trabalhador à sua eman­ cipação mediante o estímulo a uma greve geral e universal. resolvi escrever. semelhantemente a uma batalha napolcônica. 16) GEORGES SOREL6 Reflexões sobre a violência (Réflcxions sur la violence. em 1905. destinado a desaparecer das greves.

pode dar origem aos fundamentos de uma nova civilização. algo tremendo. típica de um povo de produtores. que vêem na organização criada pela burguesia os meios que lhes permitem dominar uma parccla do poder. os socialistas situam-se em nível superior ao da nossa leviana sociedade. a mesma indulgência com que ele os en­ carou. aliás. aos exércitos napoleônicos. comprovo que. contra os quais a mo­ ral continuaria impotente. Todavia. A guerra travada de peito aberto. nem experimento. pode suprimir tais sentimentos vis. Não adiantaria tentar convencer os pobres de que estão equivocados ao nu­ trirem inveja e rancor contra seus patrões.que a guerra proporcionou. desenvolvida pela prática de greves violentas. Jamais nutri por certo “ódio criador” a admiração que lhe concedeu Jaurcs. ao levar a efeito obra tão séria. filosofia esta profundamente vinculada à apologia da violência. sem hipocrisia. visando a destruir um inimigo irreconciliável. Nossos intelec­ tuais. do ponto de vista de uma civilização de produtores.salvo D ’Estournelles de Constant . c cnchc-mc dc horror qualquer medida que atinge o mais fraco sob um dis­ farce judicial. para a qual o proletariado não cessa de se preparar nos sindicatos. já que tais sentimentos são demasiado fortes para que exortações inconseqüentes possam reprimi-los. sc tornarão inúteis. chamo a aten­ ção de meus jovens discípulos para os problemas que o socialismo apresenta. Ninguém duvida . Somente a guer­ ra social. às repúblicas antigas. cujos soldados levam a efeito . serão relegados à sua literatura. em tudo isto. e tornam-se dignos de ensinar ao mundo novos caminhos. Ainda que não houvesse outra razão para atribuir ao sindicalismo revolucionário um elevado papel civilizador. Há. Fecunda dc conseqüências c a comparação que estabelecemos entre as greves violentas e a guerra. Por isso. Incansavelmente. Seria caso de se comparar os socialistas “parlamentários” aos servidores com que Napoleão formara uma nobreza. temível e sublime como esta. esta mc pareceria decisi­ va cm favor dos apologistas da violência. hoje. A ideia de greve geral. traz consigo o ideal de uma grande transformação. e os socialistas “parlamentários”. vai-se fir­ mando uma filosofia até pouco tempo despercebida. ao apelar para o sentimento de honra que se desenvolve naturalmente em todo exército organizado. que parecerá ainda mais impressionante quanto maior for o convencimento alcançado pela violência no ânimo dos proletários. a apologia da violência me é particular­ mente simpática. e que trabalhavam para o fortalecimento do Estado legado pelo Antigo Regime. que esperam obter da democracia os melhores cargos. as ideias que constituem o mais belo monumento da moderna civilização. exclui todas as abominações que desonraram a revolu­ ção burguesa do século XVIII. com precisão.302 Teoria Geral do Estado minação dos patrões e do Estado pelos produtores organizados. enquanto o sindicalismo revolucionário corres­ ponderia. pelos guilhotinadores. é sobre seu enorme alcance que a democracia fundamenta sobretudo sua força. A guerra social.

endereçada aos revolucionários dc seu país. a defesa mais proveito­ sa destas posições políticas que os democratas lançam contra nós. e Extremismo. lançando as bases de um novo Estado socialista de inspiração marxista. São suas obras principais Materialismo e empiriocriticismo (1909). 1980. preparando a segunda fase do processo revo­ lucionário. por outro rejeitou as correntes radicais dc extrema esquerda. Estado e revolução (1917). tendo sido preso em 1895. bem como a distribuição das terras aos camponeses e a atribuição de todo o poder aos sovietes. 24-34. o chefe ideológico da Segunda Interna­ cional e. última fase do capitalismo (1919). doença infantil do comunismo (1920). Esta conclusão apareceu milhares de vezes em todo o lado e aparece constantemen­ te em toda a imprensa e nos jornais já mencionados por mim. Em 1919 organizou a Terceira Internacional. é claro. Kautsky. que pode haver de mais importante do que a liberdade. e o que perdurará no movimen­ to socialista atual será a epopeia das greves. Entre outros temas. membro da Internacional dc Berna. Tcórico brilhante da doutrina marxista.A atitude em relação à Democracia em ge­ ral. “A Democracia é liberdade. Refugiando-se no exterior dois anos mais tarde. até agora.10 Leituras Complementares 303 tantas proezas. K assim que ele argumenta. passando três anos deportado na Si­ béria. A ditadura do proletariado e o renegado Kautsky (1919). exigindo a imediata retirada. por vezes. a de­ Nikolaj Lenin era o pseudônimo de Vladimir Ulianov (1870-1924). de seu país. ed. Imperialismo.ntre 1900 e 1917 viveu no exterior. voltando à Rússia para se tornar o chefe da Revolução Socialista deflagrada em 1905. da Primeira Guerra Mundial. é igualdade. a igualdade. se. F. é a decisão da maioria. . os bolcheviqucs escolheram o mé­ todo da ditadura e. semiconscientemente. Assumindo o poder. a sua causa é injusta” . travada contra o Império Austro-Húngaro. Global. os filisteus repetem-no. líder revolucionário soviético. mesmo sabendo que continuariam pobres. encerrou a guerra civil. p. Eclodindo a Revolução dc 1917. apareceu na literatura eu­ ropeia como o mais decisivo representante deste ponto de vista: “Os bolcheviqucs escolheram um método que viola a Democracia. portanto. São Paulo. desenvolveu inten­ sa atividade intelectual e de ativista político. Toda a intelligentsia o repete constantemente e. nos seus argumentos. impediu a intervenção mili­ tar estrangeira em seu país e deu início à sua reconstrução econômica. anali­ sou a chamada fase imperialista do capitalismo e elaborou o conceito de ditadura do proletariado. voltou novamente à Rússia. em que todas as facções socialistas que o apoiavam o elegeram como o grande líder do movimento operá­ rio internacional. Já tive várias vezes que fazer notar que a justificação. por um lado. Como sabem. Que restou do Império? Nada mais do que a cpopeia da Grande Armada. é a referência à Democracia.) Passarei agora à questão seguinte . contestou o revisionismo desta. 17) NIKOLAJ LÊNIN7 Como ilu d ir o povo com os slogans de liberdade e igualdade (3.. Tornou-se militante ainda jovem.

quem quer que tenha lido mesmo uma divulgação po­ pular de Marx . 110 seu tempo. e dizemo-lo sempre. adep­ tos da Democracia consistente. é uma fraude. c inútil acentuá-lo. quando a principal tarefa for a luta das classes trabalhadoras pelo total aniquilamento do Capital. em tal momento po­ lítico. igualdade. preferindo direta ou indiretamente esta à ditadura do proletariado. e ainda tiveram a ou­ sadia de declarar abertamente que são mais importantes que a liberdade. é sua aliada. no nosso pro­ grama. utilize as palavras “Liberdade em geral”. nesse momento histórico. que destruiu a escravatura feudal. atue contra a ditadura do proletariado. sabemos perfeitamente que isto foi um progresso histórico mundial. consideramo-los como aliados de Kolchak. Serão os democratas puros real­ mente censuráveis por ensinarem a pura Democracia. e a decisão da maioria. mas é fundamental do ponto de vista da nossa propaganda e educação. dissemos. pois é necessário esclarecê-lo. teve à sua fren­ te a tarefa de criar a liberdade. e só contamos com o setor avançado dos trabalhadores que tem uma real e verda­ deira consciência da sua posição. . para provar que por detrás destas frases se encontram os interesses da liberdade do proprietário. por defenderem-na contra os usurpadores. e que con­ sideramos esses que se intitulam democratas. ou são censuráveis por surgirem ao lado da classe capitalista. adeptos da pura Democracia. que não lançamos. para oprimir as massas trabalha­ doras. então não se surpreendam e não se queixem se vos chamarem dc usurpadores e violadores!” De modo algum nos surpreendemos. Sim. Esclareça-se. muito importante em qualquer revolução. pois desejamos clareza acima de tudo. qualquer pessoa que. sabemos perfeitamente que o Capital mundial. E qualquer pes­ soa que tiver lido Marx . ao lado de Kolchak? Comecemos por esclarccer a noção de “liberdade” . Mas o nosso programa declara: “A Liberdade 6 uma frau­ de se se opõe à emancipação do Trabalho da opressão do Capital”. socialista ou democrática. bolcheviques. está a serviço dos exploradores e nada mais. como “liberdade”. a liberdade do Capital. no programa do partido. como declaramos claramen­ te no nosso programa do partido. Talvez isto seja supérfluo do ponto de vista da formulação externa do programa. vontade da maioria e a todas as espécies de Benthams que o descrevem. “igualdade” e “a vontade da maioria”. “Liberdade”.sabe que ele devotou a maior parte da sua vida. a igual­ dade. fraudulentamente. tais slogans altissonantes. No momento em que se atingir a destruição do poder do Capital em todo o mundo. pela com­ pleta destruição da produção mercantil. do ponto de vista dos fundamentos da luta proletária e do poder proletário. que criou a liber­ dade burguesa. quando não subordinada aos interesses da emanci­ pação do Trabalho do jugo do Capital. que. se afastaram disto. ou mesmo num país. porque a liberdade. das suas obras. em nome desta liberdade. Sabemos perfeitamente que temos que lutar contra o Capital mun­ dial. c um slogan muito. e a maior parte das suas investigações científicas exatamente à ridicularização da li­ berdade.304 Teoria Geral do Estado cisão da maioria! Se vocês.

onde quer que tenham estado. pertencem aos capitalistas e aos proprietários e chamam-se. ou sobre os quais te­ nham lido.é assim na realidade que está es­ crito na vossa Constituição. e ouvimos as emissões de rádio estrangei­ ras . América . “é o verdadeiro significado e a principal manifestação de liberdade. contra o livre Capitalismo e. franceses. a vossa liberdade. se está em contradição com a emancipação do Trabalho da opressão do Capital. a propriedade . Na Constituição deve es­ tar escrito: “ Liberdade de reunião para todos os cidadãos”. É esta a essência do problema.recebemos agora raramente os jornais franceses porque estamos cercados por um anel. como este onde agora nos encontramos. sabemos que ele erguerá a bandeira da liberdade contra nós. por exemplo. Todos os socialistas o reconheceram ao utilizar esta liberdade da sociedade burguesa para ensinar ao proletariado o modo de acabar com a opres­ são do Capitalismo. Esqueceram um pormenor. tendes que respeitar a propriedade . Sim. contra o Capitalismo Republi­ cano. E nós respondemos. E a que chamam eles liberdade? Estes “civilizados” franceses. E vocês. dizem eles. Encontramos coisas deste gênero a cada passo. Consideramos essencial dar-lhe esta resposta no nosso programa. esquece­ ram que a vossa liberdade está escrita numa Constituição que legaliza a proprieda­ de privada. Ainda há pou­ cos dias atrás . um imenso progresso em comparação com a ordem feudal. Podeis reunir-vos livremente com cidadãos da República Democrática Russa. Qualquer espé­ cie de Liberdade é uma fraude. violaram a liberdade de reunião”. e agora esses “países civilizados” . com a lei de servi­ dão medieval. desculpem-me. respondemos nós. indo contra os bolcheviques c apoiando os seus adversários. Mas talvez isto seja impossível? Talvez seja impossível que a liberdade seja contrária à emancipação do Trabalho do jugo do Capital. “A Sala dos Nobres”. cavalheiros ingleses. sc é contrária aos interesses da emancipação do Tra­ balho da opressão do Capital. cla­ ro. claro está. é uma fraude. o seu sistema é descrito como o sistema mais livre.consegui ler nos boletins emitidos pelo governo francês dc rapina que. mas a informação chega-nos pelo telégrafo. a França está a manter mais que nunca o seu “alto ideal dc Liberdade”. Reparem em todos os países da Europa Ocidental. marcham contra os bolcheviques “em nome da liberdade” . “ Isto”. O fato dc reconhecerem a liberdade de reunião é. isto é usual cm todas as suas polêmicas contra nós. Inglaterra. civilizados cavalheiros. dado que por enquanto ainda é impossível cercar o ar. bolche­ viques. ame­ ricanos. ingleses e ame­ ricanos chamam liberdade mesmo à liberdade de reunião. Mas a vossa liberdade é de uma tal espécie que é uma liberdade no papel e não na prática.erguem esse es­ tandarte. mas isso é propriedade privada. Juntamente com a liberdade. Em todos os livros. Isto significa que os grandes auditórios que existem nas grandes ci­ dades.França.10 Leituras Complementares 305 E declaramos que somos contra o Capital em geral. contra o Capitalismo Democrático.

Primeiro trans­ formamos este edifício. na França de 1792-1793. ladrões. os melho­ res edifícios são propriedade privada. isto constrói essa verdadeira li­ berdade. protegidos do tempo. é necessário retirar a liberdade de reunião aos capitalistas. e havemos de abolir esta liberdade. utópico. A li­ berdade de reunião. que reconhece como inevitável a . quando queremos nos reunir. dos contrarrevolucionários. O Marxismo. fantasista. Vocês acusam-nos de violarmos a liberdade. nem pelo palavreado de muitas das revoluções dc 1848. meias-tintas. mas hoje a liberdade de reu­ nião significa liberdade de reunião dos capitalistas. criminosos. como também os suprimiu.é este o significado da ditadura do proletariado. mecânico e intelectual.isto não acontecerá tão cedo. e a cul­ pa é dos cavalheiros burgueses. Isto ajuda a emancipação do Trabalho da opressão do Capital. Também sabe­ mos como tratar os cavalheiros capitalistas. de um ca­ pitalista ou de uma sociedade anônima. gatunos. pessoas in­ solentes. Lu­ tamos contra eles. então seremos pela liberdade de reunião para todos. Mas nós dizemos: Estamos virando isto “de pernas pro ar”. Quando isto acontecer. porque não se caracterizou por molezas. nós afirmamos que qualquer liberdade não subordinada aos interesses da emancipação do Trabalho da opressão do Capital ê uma fraude. é uma fraude porque. assim como dos cavalheiros intelectuais burgueses -. num edifício das organizações dos trabalhadores e só então falaremos dc liberdade dc reunião. Aos cavalheiros intelectuais burgueses. que não é mais que a liberdade de reunião dos contrarrevolucionários. então o povo se es­ quecerá de que é possível existirem edifícios públicos propriedade de um particu­ lar. Estamos numa batalha . Afirmamos que a liberdade de reunião para os capitalistas é o maior crime contra os trabalhadores. não permitiram a liberdade de reunião aos monárquicos. a “Sala dos Nobres”. incluída nas Constituições de todas as repúblicas burguesas. Nessa altura seremos pela total “liberdade”. na Inglaterra de 1649. pois sabemos como tratar de emanci­ par os trabalhadores do jugo do Capital. sob a qual não existirão grandes edifícios onde apenas uma família vive e que pertence a um único indivíduo . depois falaremos sobre liberdade. aos cavalheiros que apoiam a Democracia.306 Teoria Geral do Estado privada senão passais a ser Bolcheviques. quando se pensava que bastava convencer a maioria das pessoas e pintar um belo quadro da sociedade socialista para que a maioria adotasse o ponto de vista do So­ cialismo. e porque foi uma revolução a serio que não só derrubou os monárquicos. desencadearam uma revolução.trata-se aqui de um proprietário. dizemos: Vocês mentem quando nos atiram à cara a acusação de es­ tarmos destruindo a liberdade! Quando os vossos grandes revolucionários burgue­ ses. Passou o tempo em que era possível iludirmo-nos a nós mesmos e aos ou­ tros com estas histórias de fadas. Q uando só houver no mundo trabalhadores e as pessoas se esquecerem dc pensar cm como era possível ser um membro da sociedade e não um trabalhador . então. é necessário retirar ou cortar-lhes a sua “liberdade” . Primeiro apoderemo-nos dos melhores edi­ fícios e. Pas­ saram os dias do Socialismo ingênuo. A Revolução Francesa e chamada a Grande.

portanto. tão “monstruoso”. que refle­ tiram. vencer a resistên­ . no início. concreta e claramente. antes de tudo. para se con­ seguir a liberdade dos trabalhadores. sangrenta e terrível. “ Liberdade”. ilude o povo. é uma fraude porque sabemos perfeitamente que a burguesia fará tudo para derrubar este poder. se lança à luta com o maior ódio. e. que consideravam a sua “repúbli­ ca democrática” como uma armadura que os defendia. os cavalheiros burgueses ingleses. é necessário. viram e reconheceram tam­ bém que as coisas tinham tomado um aspecto sério e agora estão todos a armar-se. que lhes permitem conservar milhões de pessoas em escravatura salarial. foram a liberdade e a Democracia dos proprietários e meras migalhas para os sem-propriedades.haverá outra palavra que soe melhor? Será possível imaginar o desenvolvimento da consciência de classe dos trabalhadores sem liber­ dade de reunião? íYlas nós afirmamos que a liberdade de reunião nas Constituições da Inglaterra e dos Estados Unidos da América do Norte é uma fraude porque ata as mãos das massas trabalhadoras durante o período de transição para o Socialis­ mo. portanto. Hoje a luta estendeu-se a todo o mundo. que é tão insólito. Milyukov gracejava as­ sim como Chernov e os seguidores do jornal Novaya Zbizn. Não pode ser de outro modo aos olhos daqueles que refletiram sobre a luta de classes. franceses e suíços. quem hoje nos ataca com palavras como “Democracia”. Gracejavam porque não tomavam as coisas seriamente. precisamente por não estar ainda totalmente derrubada. que foi derrubada num único país. séria. a luta de classes assume as suas mais profundas formas e esses democratas e socialistas não servem para nada e enganam-se a si próprios e depois os outros ao afirmarem que. c que. e. Liberdade de reunião . Exatamente depois da destruição da burguesia. Que é liberdade de reunião quando os trabalhadores são esmagados pela es­ cravatura do Capital e pelo trabalho para o Capital? É uma fraude. está ao lado da classe capitalista. Se os socialistas lançaram um tal slogan é porque sabem que a elasse dos exploradores só cederá em resultado duma luta desesperada c sem piedade c tentará disfarçar o seu domínio por meio das mais variadas palavras agradáveis. afirma: A humanidade só pode atingir o Socialismo através da D i­ tadura do Proletariado. pois não compreende que a liberdade e a Democra­ cia. Ditadura é uma palavra crua. sobre as relações dos trabalhadores em revolta con­ tra a burguesia. e na véspera da Revolução de Outubro gracejava ainda muito feliz e despreocupada. como está sendo criada uma Guarda Branca porque sabem que as coisas chegaram a um ponto em que se põe a questão de consegui­ rem manter os seus privilégios. por­ que a burguesia ainda não acredita que foi derrubada. c ainda não cm todos. dado que a bur­ guesia foi derrubada. e tais palavras não devem ser atiradas levianamente. Se pudessem ver o que está se passando na “livre” Suíça. como estão a armar lite­ ralmente todos os burgueses. a tarefa chegou ao fim. até hoje. mas agora viram que as coisas eram sérias. H apenas o começo e não o fim.10 Leituras Complementares 307 luta de classes.

então c óbvio que não posso prometer nem liberdade.não o dissemos especialmente no nos­ so programa. pos­ sui. a “nata” do trabalho social. é possível apossarmo-nos relativamente depressa do Ca­ pital e dos instrumentos de produção. destrói uma após outra as classes exploradoras.diz que a igualdade é uma fraude quan­ do em contradição com a emancipação do Trabalho da opressão do Capital. A revolução fez-se contra os pro­ prietários sob o slogan de igualdade. e conservar condições tais que. que provoca de­ sacordos ainda maiores e mais violentos. afirmamos que o dinheiro se manterá. mas. Antes da Re­ volução Socialista. A revolução. Eis o que é o dinheiro.organizacionais. A revolu­ ção avançou mais.era assim que os revolucionários do período que ficou na história como o período da Grande Revolução Francesa sinccramentc falavam. uma fraude. durante o período transitório do velho sistema capitalista ao novo sistema . e afirmava-se que a igualdade era a condição sob a qual o milionário c o trabalhador deviam possuir iguais direitos. e isto durante um largo espaço de tempo. o direito de explorar. Poderá ser destruído de uma hora para outra? Não. Ainda não conseguimos abolir totalmente o di­ nheiro. quem tiver dinheiro. quanto à propriedade em dinheiro. é necessário manter uma igualdade em palavras na Constituição. Neste caso estamos diante de uma questão ainda mais séria.! O dinheiro é a “nata” da riqueza social. de fato. mas é impossível continuar a repeti-lo sem fim. porque na realidade a igualdade não existe nem pode existir. Para abolir o dinheiro são necessárias grandes conquistas técnicas e . até as conseguirmos. e é totalmente verdade. do dinheiro e do Capital. se fez sob o slogan de “igualdade”. Afirmamos que uma república democrática com igualdade é uma mentira. Em seguida destruiu os proprietários. no seu curso.o que é muito mais difícil e importante . é a relíquia da antiga exploração. os socialistas afirmaram que era impossível abolir imediatamen­ te o dinheiro. Todos são iguais. em virtude da propriedade privada dos meios de produção.. inclusive o milionário c o vagabundo . e. IV Passo agora da liberdade para a igualdade. por experiência. pensavam c consideravam. nem igualdade ou mesmo decisão majoritária a essa classe. mas se eu tenho de me haver com a resistência de toda uma classe. Diz que a “igualdade” . de uma república. É possível apossarmo-nos imediatamente da propriedade e dos edifícios suntuosos. isso. é a pro­ va do tributo dc todos os trabalhadores. Afir­ mamo-lo.308 Teoria Geral do Estado cia dos exploradores. dado ser tão claro como o que dissemos sobre a liberdade . e vocês sabem que toda a luta contra a ordem medieval. sejam quais forem os seus bens. todos são iguais. contra o feudalismo. Primeiro destruiu a monarquia e entendeu por liberdade simplesmente a existência do poder eleitoral. Aqui o problema é ainda mais com­ plexo.. e podemos confirmá-lo.

. por vezes conscientemente. O Socialismo é a primeira fase do Comunismo. Só existe verdadeiramente Estado num certo país quando um homem ou certo grupo de homens dispõe nesse país duma força material preponderante. mas a sua doutrina implicava um erro irremissível e era por virtude disso abominável. ou qualquer outra coisa. Se interpretarmos a palavra socialismo num certo sentido. tinham afirmado: a Igual­ dade é uma frase oca a não ser que por igualdade se entenda a abolição de classes. Assim e também necessário destruir a diferença de classe entre trabalhadores e camponeses. não podemos falar de igualdade sem correr o risco de fazer o jogo da burguesia.. A igualdade é uma fraude se está em oposição aos interesses da emanci­ pação do Trabalho da opressão do Capital. mas não tem qualquer significado. nem socialista.. Engels tem toda a razão quando afirma que o conceito de igualdade é um pre­ conceito estúpido c absurdo. mas sob a forma de abolição de classes.10 Leituras Complementares 309 socialista. pretender que queremos fazer com que todos sejam iguais. p. antes de tudo. na sua ignorância. não é senão uma frase sem sentido e uma invenção estúpi­ da do intelectual. Marx e Engels. 41-2. Tentaram atribuir aos socialistas este absurdo por eles inventado. mas não vale a pena discutir pala­ vras. deturpa as palavras. E é isto que afirmamos. ed..“a falta de poder material (Macht) é pecado mor­ tal do Estado. Mas. tinham razão. é uma for­ ça que se impõe pelo constrangimento material. um Estado sem poder material de constrangimento é uma contra­ dição em si” (“Der Zveck im Recht”. Lisboa. Ed. não sabiam que os socialistas. e especialmente os funda­ dores do moderno Socialismo Científico. Mas. Aque­ . s. mas isto é um mero jogo de palavras. separadamente da abolição de classes.e quando Treitschke formulava o adágio que se tornou célebre .) O elemento essencial do Estado é a força. Só destruindo as classes haverá igualdade. A igualdade é o nosso objetivo.. Uma coisa é certa: enquanto houver diferenças de classe entre trabalhadores e camponeses. É este precisamente o nosso objetivo. 311) . mesmo se se intitula escritor e por vezes mesmo como um ho­ mem culto. O Estado. pág. 18) LÉON DUGUIT Os elementos do Estado (Trad. Eduardo Salgueiro. Inquérito. ainda poderia chamar-se socialista. 2. d. Quando Ihering escrevia .Der Staat ist Macht . Alguns profes­ sores burgueses tentaram convencer-nos dum conceito de igualdade pelo qual to­ dos seriam iguais. Uma sociedade cm que se mantém a diferença dc classe entre trabalhadores e camponeses não é nem comunista. que..

querendo exprimir que. o pessimismo de Maquiavel sobre a natureza huma­ . Sim. é universal e. quase sempre. ou seja. principalmente. não se verificaram alterações consideráveis na mentalidade dos indivíduos e dos povos. o Estado é a força. que levou a Alemanha a cometer os crimes mais monstruosos da história.) Tradução do autor. hoje. se os governantes aceitam que a sua força seja regulada pelo direito. se isto é a política. ou no sentido amplo e intemporal do gênero humano? Creio que. Roma. dc orientar. para conseguirem ser mais obedecidos. Ele é o seu ponto de partida. o que resta de válido na obra O Príncipe? Os conselhos de Maquiavel ainda poderiam ser úteis para os modernos governantes? O valor do sistema político de O Príncipe fica circunscrito à época em que tal livro foi escrito. utilizar. “A for­ ça cria o direito” dizia Treitschke. Sc a política é a arte de conduzir os homens.310 Teoria Geral do Estado la força de constrangimento era para eles ilimitada ou pelo menos só era limitada pela regra de direito na medida em que os governantes se lhe submetessem. A indagação se impõe: após quatro séculos. 19) BENITO MUSSOLINI Prelúdio a 0 príncipe. mas força subordinada a uma regra de direito superior a ele. de M aquiavel (in II príncipe. é por mera política. 473-9. mesmo numa lei­ tura superficial de O Príncipe. portanto. Doutrina ignóbil. Se houve inúmeras modificações sociais. p. imperioso estabelecer o conceito de Maquiavel sobre a humanida­ de em geral e sobre os italianos em particular. pelo contrário. então o pressuposto dessa arte é o próprio homem. Libreria dei Littorio. que ele conhecia tão bem. porque projetadas no futuro. na forma condensada de O Príncipe. mais viva que há qua­ tro séculos. atual? Minha tese responde a tais perguntas. em parte. força que só le­ gitimamente se impõe quando atua em conformidade com essa regra de direito. edu­ car suas paixões. “O direito é a política da força” dizia Ihering. Resulta evidente. 1930. caduco ou. a vida individual. antes de proceder a uma análise do sistema político maquiavélico. a força sem o direito é simplesmen­ te barbaria. doutrina contra a qual se levantou todo o universo civilizado. Se o direito sem a força se arrisca a ser impotente. seu egoísmo e seus interesses cm face de objetivos gerais que trans­ cendem. Que representam os homens no sistema político de Maquiavel? Que pen­ sa Maquiavel a respeito dos homens? Ele é otimista ou pessimista? Dizendo ho­ mens devemos restringir tal vocábulo aos italianos de seu tempo. inevitavelmente limitado e. Afirmo que a doutrina de Maquiavel está.

em nada. mas isto não é necessário. italianos que. encontro na correspondência (Cartas Variadas) de Maquiavel. a opinião de Maquiavel. toscanos. Maquiavel c bastante claro: “Dos homens é pos­ sível dizer que. julgando como julgava os homens. Porque o amor cria um vínculo de deveres que. Ao contrário. porque sc a própria morte pode scr esque­ cida.10 Leituras Complementares 311 na. o direito perdido”. Enquanto lhes fazem benefícios. N ão va­ cilam em ofender e magoar um príncipe que se limite a ser amado. volúveis. porém. geralmente. na doutrina de Maquiavel o príncipe é o próprio Estado. Segundo Maquiavel. os bens materiais não. não assim aque­ le que se faz temer.. estando. sempre. Enquanto os indi­ víduos se inclinam. mas também ao próprio gênero humano. nessa posição inicial. Acha-se pre­ sente em toda a sua obra. novamente. a não ser por interesse. avessos ao perigo e ávidos dc lucro. No Capítulo XVII dc O Príncipe. desiludido. As antíteses príncipe/povo e Estado/indivíduo são cruciais no conceito de Maquiavel. Qualquer um sabe que uma revolução não trará de volta os mortos. oferecendo a própria vida e. entre os séculos XV e XVI ainda andavam a cavalo. e não titubea­ va em apresentá-los nos seus aspectos mais negativos. sempre. levados pelo egoísmo. É. e que esta­ rão. são ingratos. que con­ tra o assassinato dc seus pais ou irmãos. os filhos. para o atomismo social. E no Capí­ tulo Terceiro dos Discursos: “Como demonstram aqueles que meditam sobre a so­ ciedade civil. eu a consideraria suave. Quanto ao egoísmo humano. Por outro lado. simuladores ou dissimuladores. imperioso a quem dirige uma república e legisla para tanto pressupor que seus governados são maus. mais apegados aos bens mate­ riais que aos próprios pais. o Estado repre­ . prontos a agir com maldade logo que surja a ocasião para isto [. se rebelam. também. confundindo-se com a licenciosidade. evidentemente. e como é cheia de exemplos a História. pragmatismo ou cinismo maquiavélicos se baseia. As tristezas aqui reportadas são suficientes para demonstrar que a opinião negativa sobre os homens não é casual. Meu tempo ainda não passou. mas se me fos­ se permitido julgar meus contemporâneos. Tudo o que foi denominado utilitarismo. A exemplo de muitos que pesquisaram e conviveram com os mais diversos tipos humanos. não atenuaria. quando exigidos. demonstram uma falsa fidelidade. Outras citações poderiam ser feitas. Merecida c desanimadora convicção. logo imperam a incerteza e a desordem”. mesmo. ao passo que a intimidação impõe um receio dc ser castigado que não os abandona jamais”. Esse ponto inicial c essencial precisa scr considcrado para entendermos bem o desenvolvimento das ideias dc Maquiavel.] Os homens nunca fazem o bem. será facilmente rompido. e o governante crédulo cai.. os homens são mórbidos. em desgraça. evidente que Maquiavel. mas poderá fazer valer. mas característica do pensamento maquiavélico. Maquiavel tinha bem pouca consideração pelos homens. o seguinte: “Os ho­ mens sc revoltam mais contra a perda de uma insignificante prerrogativa. intemporal. não fazia referência apenas àqueles de seu tempo: florentinos. Maquiavel não se deixa iludir e não ilude o príncipe. e onde a liberdade é excessiva. pelo próprio ca­ ráter dos homens. dispostos a mudar seus sentimentos.

Regimes políticos exclusivamente consensuais nunca existiram. e introd. sobrevêm situações graves. E nada mais lhe resta que um monossílabo para aceitar e obedecer. por ex­ cesso de otimismo . Rio de Janeiro. Ninguém sabe onde começa ou termina. a não pagar impostos. Porque [. considerando o poder uma emanação da vontade livre do povo. As revoluções dos séculos XVII c XVIII ten­ taram resolver essa antinomia. O indivíduo tende a se es­ quivar. Os sistemas representativos pertencem mais à mecânica que à moral. mesmo os governos ultrademocráticos se abstêm de expô-los à apreciação popular. Vejam. lhe é subtraída justamente nos momentos em que mais necessária se mostra. M uito antes de meu conhecido artigo Força e Consenso. quando não acreditarem mais pela persuasão. se ordena ao povo. quando muito.. boas somente em tempo de paz! Por isso. O adjetivo soberano. creiam pela força.que pecavam. 20) VARLAN TCHERKESOFF Erros e contradições do marxismo (Trad.) . Trata-se de mais uma ficção ilusória dentre tantas. portanto. Maquiavel já escrevia em O Príncipe (Ca­ pítulo VI): “Disto se conclui que todos os profetas armados vencem.. mas não exerce soberania algu­ ma. du­ rante as quais nada se pergunta ao povo. Teseu e Rômulo jamais teriam conseguido fazer seus povos cumpri­ rem as leis. a esquivar-se de participar da guerra. sendo necessário organizar-se de tal modo que. que aceita a revolução ou marche para o desconhecido de uma guerra. mas difícil mantê-los persuadidos desta. O povo. de seus deveres. até nos regimes polí­ ticos idealizados pelos enciclopedistas . Tende a descumprir a lei. Se­ ria possível imaginar uma guerra declarada mediante referendum popular? Com efeito. Antes de mais nada.sacrificam a própria vida no altar do Estado. se não empregassem a intimidação” . continuamente. Quando interesses supre­ mos de um povo estão em jogo. jamais existirão. Mesmo nos países onde tais mecanismos são tradicionais. Moisés.d.312 Teoria Geral do Estado senta uma organização e uma limitação a tal tendência. e só. aplicado ao povo. o povo jamais foi definido. é uma trágica farsa. o referendum é excelente quando se trata de escolher o melhor local para instalar a fonte luminosa de um pequeno município. que a soberania generosamente atribuída ao povo. portanto. porque é sabido que a resposta seria fa­ tal: arrancar coroas c cabeças imperiais. segundo Rousseau. Os demais estão em permanente revolta contra o Estado.o conflito entre força organizada do Estado e tendência ao atomismo de indivíduos e grupos. Pouquíssimos são aqueles que . c os desarma­ dos são vencidos. de Roberto das Neves. delega. sendo fácil incutir-lhes uma ideia. s. Tem permissão para utilizá-la somente cm questões de administração ordinária. Ciro. Resta inevitável. provavelmente. M undo Livre. não existem e. sem maiores explicações.] a natureza dos povos é variada. É uma entidade abstrata como entidade política.he­ róis ou santos .

outro homem de gênio. li­ berais c servis. Niebuhr.10 Leituras Complementares 313 O conjunto dos fatores econômicos. nem aprofundá-las separadamente [. O modo de produção é somente “um” fator. formulou. Delas foram extraídos os estudos clássicos sobre a legislação agrária de Licinius. O mesmo disseram os seus contemporâneos Mignet. pois é necessário estudar a história segundo as condições econômicas e sociais do povo ro­ mano. de Solon e dos Gracos. temos Guizot. Michelet. decla­ rou que a lenda dc Tito Lívio sobre a fundação de Roma dcvc ser desprezada. A parte não pode conter o todo. Na Inglaterra. veremos que não fazem menção ao materialismo. que por sua vez insistia sobre o estado econômico da nação. mas até deístas con­ victos e fervorosos cristãos. vermelhos e brancos. guelfos e gibelinos. S. no século XVII. da qual Momm­ sen é um dos mais brilhantes representantes. o grande fundador da escola histórica alemã. não somente idealistas e metafísicos. disse Blanqui.J A primeira fornece os fatos. e que eram. O mesmo se verifica com Adam Smith.l Mais ainda. Blanqui. com a sua habitual . Conhecemos muitos autores que admitiam a influên­ cia das condições e das relações econômicas sobre o desenvolvimento da Humanida­ de. na sua análise do primeiro volume da História da França. Outro economista. Se remontarmos ao primeiro historiador que tenha cogitado da influência das condições cósmicas e econômicas sobre o progresso e o desenvolvi­ mento da Humanidade. e consultarmos Vico (1668-1744) e o seu tradutor francês. que chamamos “economismo”. menos profun­ do e menos original que Adam Smith. Este modesto filó­ sofo jamais pretendeu o materialismo. em 1776. Agustin Thierry c outros. Nun­ ca houve mais de dois partidos que se enfrentassem . b) o aumento das riquezas depende das condiçõcs econômicas c sociais do trabalho e da relação entre o número de produtores e de não produtores. entretanto. Patrícios e plebeus. de Michelet. frisa. ou melhor. em 1825. Delas saíram as minuciosas investigações de Mommsen.. um elemen­ to entre muitos outros que servem às generalidades evolucionistas. Mas Niebuhr. nos princípios do século. escravos e libertos. cavaleiros e peões.. o economismo não constitui a doutrina materialista. do modo seguinte. Mommsen e toda a escola alemã estavam longe do materialismo f. as duas fórmulas fundamentais: a) o trabalho é a única origem da riqueza social. Entre outros.. J. o pa­ pel que representam os elementos econômicos na história: “Não tardei em advertir que existiam entre estas duas ciências (a histórica e a econômico-política) relações de tal modo íntimas que não se pode estudar uma sem a outra. e a (segunda explica as causas). o qual exprimiu. ao fazer a classificação das escolas históricas.. Temos Niebuhr. Mill. não são senão uma variedade da mesma espécie”. não é ainda o “materialismo”. conhecidas pelo nome de doutrinas materialistas. que tratava a história de “antagonismo das classes” na Inglaterra. e que era tão beato como um trapista. fundador da economia política. “A economia política explica as causas dos fatos econômicos”.o dos que querem viver do seu trabalho e o dos que querem viver do trabalho dos outros. Segui passo a passo os grandes acontecimentos.

se ocupa das leis sociais e cósmicas que regem o desenvolvimento da Humanidade (“Dissertation ct discussion”). como se fosse uma coisa nova e completamente “materialista”. sem nenhuma ideia da sua própria força e das . que o futuro da humanidade depende da nossa felicidade c dc condições favoráveis à vossa atividade produtiva (Smith). mas que os des­ conhecia por completo. Aplicaram o método das investigações científicas ao estudo da história. sobre muitos aspectos. que. Um contemporâneo de Marx e Engels. como ciência moderna. Que decepção para as pessoas honradas. e que decoram dois pequenos folhetos de Engels e uma vulgarização de Marx. publicou o seu volume “Interpretação econômica da história”. cscrcvendo especialmente para os traba­ lhadores esmagados pelo trabalho incessante e que não têm tempo nem meios para verificar as suas afirmações. e não puderam dar aos resultados dos seus traba­ lhos outro nome a não ser o de “interpretação econômica da história”. abrirem os olhos e compreenderem a mistificação de que foram vítimas! Lembramo-nos de uma discussão com um jovem social-democrata. em vez de fa­ zer uma exposição científica. 38. Selva­ gens impotentes diante da natureza. Foram sábios. quando. do menor trabalho intelectual. Rogers. que a história. havia alguns anos que estava embebido na leitura dos folhetos e publicações do partido. que pos­ suía uma boa instrução e que havia lido muito.48. pois. c. a ciência de­ monstra que o bem-estar c o progresso do gênero humano são criados pelo vosso trabalho. a humanidade apareceu na história em estado semi-selvagem. chamou “materialismo” ao que os sábios chamaram “cconomismo” ? Por que. incapazes. Uma vez enviados ao par­ lamento pelos trabalhadores enganados em sua boa-fé. 50 c 53). perguntamos. em vez de dizer aos trabalhadores: “Amigos. declaram que jamais. na bela tentativa que fez para retraçar a influência das leis cósmicas. e que com tal bagagem se dão ares de homens de ciência.T. mas que. o socialismo teve representação no parlamento [. a organização do Es­ tado e das classes exploradoras e opressoras”. uma passagem da polêmica de Engels com o professor Diihring: “Saída de uma ori­ gem animal. disse que “a acumulação da ri­ queza é um dos principais fatores. no qual analisa toda a história da Inglaterra sob o ponto de vista econômico. não. O nosso interlocutor lera-nos. T. por sua ignorância. o mais depressa possível. desgraçadamente para ele. com ares triunfais. Buckle. Como aconteceu. antes deles. por que.. um dia. contou tantas lorotas aos bravos e honrados traba­ lhadores que confiavam na sua palavra? Que resultado se obtém com tão estranho método? O dos politiqueiros.. publicações “censuradas” por Engels e Auer. um dos mais impor­ tantes” (p. Pode-se cha­ mar “materialistas” a estes sábios de nacionalidades diferentes? Certamente. por conseguinte. das condições sociais c ate da manutenção da história. o autor da grande obra Seis séculos de trabalho e de salário. é obrigatório para a classe trabalhadora destruir. IT. que Engels.314 Teoria Geral do Estado lucidez. investigadores da verdade. Proudhon c outros.] Como se nunca tivessem existido Louis Blanc. ho­ mens sem escrúpulos.

ano 12 da República). e que. cncontrou-se sobre a Terra confusa c selvagem. o fato deu-se. e assim se vestiu. para ser lido. por . estão convencidos de que a metafísica de Hegel é a ciência com os seus sistemas de transformismo. se bem que oposto ao materialismo dos naturalistas. Se em Volney faltam as três palavras. Afora isto. mas os fatos e os fenômenos sobrenaturais do espí­ rito. Esses gloriosos precursores da ciência dos nossos dias estabeleceram que o nosso saber e as nossas ideias são o resultado da observação e do estudo da natureza. As intempéries levaram-no a cobrir o corpo. aos enciclopedistas. não. se converteria num benfeitor da humanidade. ou aos filósofos ingleses. guia­ do e governado tão somente pela sua natureza. para conhecer o mundo físico. assimilando as ideias expandidas desde mui­ to tempo. abrimos-lhe as Ruínas de Volney. e que. enquan­ to a ciência indutiva de Bacon. uma concepção conhecida somente pelos homens de gênio excepcional. que tiveram a desgra­ ça de ler os folhetos de Engels. e Engels. de Lamarck. errou no meio dos bosques. Era de ver a decepção que o nosso interlocutor experimentou. procurou os alimentos. acercou-se de um ser que lhe era parecido e perpetuou a es­ pécie” (Les ruines. A ciência designava sob o nome de metafísica uma parvoíce escolástica. que pregou o absurdo de que a natureza e tudo o que nos rodeia é apenas um reflexo das nossas ideias inatas. Citando Volney e Blanqui. a Adam Smith. A glória da descoberta não pertence a Vico.10 Leituras Complementares 315 suas capacidades. propagou as ideias do seu tem­ po. com talento literário incomum. e ele pôde ler este trecho. é neces­ sário estudar. se amalgamou a metafísica com o economismo. Em resposta. como veremos diante. e os operários alemães. desde o princípio do século XV III. de Darwin c dc Hemholtz é pura metafísica. qualquer um diria que Engels copiara Volney. o único que a ciência afirma. Espírito claro. enganou-se lastimavelmente. mas uma doutrina corrente e aceita pelos espíritos esclarecidos. a descendência do homem por ele provada. e se. foi porque a obra de Darwin apa­ receu em 1859. o homem. os homens eram pobres e miseráveis como os animais e produ­ ziam pouco mais do que estes”. a Niebuhr ou à brilhante escola histórica alemã. Acicatado pela fome. “saído da animalidade”. não a natureza. admitiu. indivíduo pretensioso. O golpe mortal nessa estupidez teológica e sobrenatural foi vibrado por Ba­ con e Locke. pretendemos provar que a explicação econômica não era. pla­ giado por Engels: “Na sua origem. nu dc corpo c de espírito. sem experiência do passado c sem entrever o futuro. Se Engels acreditou que. Por mais in­ verossímil que pareça. se pronunciou contra o materialismo dos naturalistas. por Voltaire e os enciclopedistas e por toda a filosofia inglesa. dc evolução c de monismo. do que derivou a palavra “metafísica” (por cima da física e da natureza). Mas foi acaso Volney o iniciador da doutrina da evolução? Absolutamente. Paris. Parecido com os restantes animais. dc Locke. Pela atra­ ção de um forte poder. A ciên­ cia não tem culpa se Engels fez uma mistura extravagante de várias coisas.

Um exemplo nos mostrará a sua maneira de agir. e que a isso se deve atribuir a sua estranha mania de reivindicar a paternidade das ideias e dos sistemas elaborados pela ciência muito tempo antes do seu nascimen­ to. A ciência não tem culpa sc Engels.” Esta afirmação dc Engels. lemos: “Do mesmo modo que o mun­ do. De outra maneira não poderíamos explicar as suas ridículas pretensões. foram renovados e dirigidos em geral contra toda a filosofia especulati­ va. o homem é regido por leis naturais. que a natureza. regulares em seu curso. numa das suas obras. contra toda a metafísica” (K. não foi em proveito do socialismo. Sabeis o que ensinou Engels aos trabalhadores? “Transportado à filosofia por Bacon e Locke. “ Não foi Deus que fez o homem à sua imagem. emprestou-lhe os seus sentimentos” (p. segundo o método indutivo. mas sim o homem quem fez Deus à sua. deu-lhe o seu espírito. Mas. Sobre o materialismo francês no século 18).era coisa corrente entre os filósofos e publicistas franceses desde mais de meio século antes da publicação da obra dc Feuerbach. deri­ vam da filosofia de Hegel são erros palmares. a ciência dos naturalistas. Marx. revestiu-o dos seus atributos. Dir-me-ão que Engels sabia tudo isso. Ele ignora completamen­ te que a ideia principal da doutrina ateísta de Feuerbach . 30). as suas expressões muito pouco “científicas” . Foi Marx em pessoa quem a desmentiu solenemente: “Denunciada e derro­ tada pelo materialismo francês. era uma expressão das suas ideias barrocas. Seja. por que empre­ gou tanta má-fé e se esforçou em criar uma confusão mais que deplorável na cons­ ciência do proletariado? Com que objetivo desviou a opinião dos seus leitores? Se­ guramente. .316 Teoria Geral do Estado conseguinte. 85). Sim. dc que as doutrinas evolucionistas e transformistas. conseqüentes nos seus efeitos. análogos aos do sé­ culo 18. Nas Ruínas. é necessário estudar a natureza e seus fenômenos em suas manifesta­ ções e em sua origem. Foi devido a tal crença metafísica que tudo que lia ou via achava que devia ser um reflexo das suas próprias ideias. imutáveis na sua essência” (p. isto é. a bela natureza viva e vivificantc. a metafísica do século 17 tirou a sua desforra e a sua restauração na filosofia especulativa alemã do século 19. contrários a toda terminologia cien­ tífica. dc Volney. Acaso devemos supor que Engels não suspei­ tava sequer da existência de toda essa literatura histórica? Neste caso é de lastimar tão estranho “chefe” da ciência de um partido “cien­ tífico”. do qual é parte. os ataques à teologia. afundado nos absurdos metafísicos. Desde que Hegel fun­ dou o seu império metafísico universal. neste caso.a de ter o homem divinizado a sua própria natureza na pessoa dos deuses . acreditou até 1842 que o mundo. este método (concepção indutiva da natureza) produziu o acanhamento intelectual bem característico dos tempos antigos (?) e criou o método do raciocínio metafísico.

) Tradução do autor. Conforme tal definição. do Executivo ou do Judiciário. 317). Trata-se dc uma democracia em que a função legislativa é cxcrcida por um parlamento dc eleição popular. cuja conduta se acha regulada por essas normas. “não é verdadeiramente representativo um go­ verno em que os funcionários. Dc acordo com a definição tradicional. A forma democrática de indicação é eletiva. Universidad Autônoma de México. esp. c cm quase todas as chamadas democracias “representativas” os membros eleitos do parlamento e outros funcionários de eleição popular. ou não têm uma responsabilidade que o corpo eleitoral seja capaz de tornar efetiva” (J. 343-7. A função do go­ verno é transferida dos cidadãos organizados em assembleia popular para órgãos específicos. ou que. O órgão autorizado a criar ou executar as normas jurídicas é eleito pelos súditos. enquanto no poder. Para estabelecer uma verdadeira relação de representação. 1979. p. p. embora eleitos por um corpo democrático constituído. nenhuma das democracias de­ nominadas “representativas” é. especial­ mente o Chefe de Estado. como também na criação do direito. sejam do Legislativo. de fato não re­ presentam a vontade da maioria dos eleitores. não basta que o re­ presentante seja nomeado ou eleito pelo representado. É necessário que o represen­ . realmente. representativa. também. O que foi dito implica um considerável enfraquecimento do princípio da au­ todeterminação política. a vontade do eleitorado e são responsáveis pe­ rante este. Eduardo Garcia Máynez. O princípio democrático da autodeterminação é limitado ao procedi­ mento pelo qual tais órgãos são designados. Não há dúvida dc que. Trad. um governo é representativo quando e na medida em que seus funcio­ nários refletem. W. juridicamente. os ór­ gãos administrativos c judiciários são selecionados mediante critérios diversos da eleição popular. Esta é uma característica chamada democracia indireta ou representativa. submetida a tal critério. A fic ç ã o da representação A diferenciação das condições sociais conduz à divisão do trabalho não ape­ nas na produção econômica. Political Science and governmenty 1928. nomeados por eleição. são nomeados ou selecionados mediante procedimentos distintos da eleição popu­ lar. e as funções administrativa c judicial por funcionários que são.10 Leituras Complementares 317 21) HANS KELSEN Teoria g e ra l do D ireito e do Estado (Teoria general dei derecbo y dei Estado. não são. Garner. responsáveis perante o corpo elei­ toral. México. Na maioria delas.

Seu mandato legislativo não tem o caráter de um mandat impératif’ como os franceses denominam a função do deputado eleito que se acha juridicamente obrigado a executar a vontade dos eleitores. mediante o procedimento e na forma aqui estabele­ cida. as Constituições das democracias modernas apenas excepcionalmente concedem ao eleitorado o po­ der de revogar o mandato dos funcionários eleitos.318 Teoria Geral do Estado tante se ache juridicamente obrigado a cumprir a vontade do representado. A fórmula segundo a qual o membro do parlamento não é representante de seus eleitores. via de regra. como dizem alguns autores. expressa no voto popular. já que se achavam submetidos a certas instruções e a qualquer momento podiam ser removidos pelos representados. que os elegiam. que. por exemplo. juridicamente responsáveis perante o eleitorado. mas de toda a nação.]”. 43. no caso de as atividades deste último não se ajustarem aos desejos do primeiro. porque estes não devem ser representantes de nenhum distrito em especial.. no art. Como exceções. Normalmente. A garantia. expressamente. que têm a prerrogativa de votar por um sucessor do removido. Seção Primei­ ra. Outra exceção nos oferece a Constituição alemã de Weimar. antes do término do mandato. verda­ deiros agentes da classe ou grupo profissional. É precisamente nesta independência à frente do corpo eleitoral que o parlamento mo­ derno se distingue dos corpos legislativos de eleição do período anterior à Revolu­ ção Francesa. de todo o Es­ . mas de todo o povo. Tal independência do parlamento pe­ rante o corpo eleitoral é um dado característico do parlamentarismo moderno. ser removido de seu posto pelos eleitores. a Constituição da Califórnia. a qualquer tempo. estabelece: “O Presidente do Reicb pode. e que o cumprimento desta obrigação esteja garantido juridicamente. os membros do parlamento não são. Prin­ cipalmente nas democracias modernas. ou. Adotada tal resolução. Os membros eleitos de um parlamento moderno não se acham juridica­ mente ligados por quaisquer instruções do corpo eleitoral. estabelece: “Todo funcionário público do Estado da Califórnia pode. o Chefe eleito do Estado e outros órgãos de eleição somente po­ dem ser removidos de seu cargo.. procedimento ao qual se dá o nome de remoção [. a indepen­ dência dos deputados perante seus eleitores. Muitas Constituições democráticas estipulam. X X III. eqüivale a uma reelei­ ção e tem como conseqüência a dissolução do parlamento”. e apenas em caso de violação da Constituição ou de outras leis. Não obstante. A recusa cm removê-lo dc seu cargo. nem podem ser removidos por este. é o poder representado de destituir o representante. por voto popular. Os membros destes corpos eram verdadeiros representantes. podemos citar as Constituições de alguns Estados-Membros dos Estados Unidos da América do Norte. no caso. A Constituição francesa de 1791 foi a que proclamou solenemente o princípio de que não deveriam ser dadas instruções aos deputados. mediante solicitação do Parlamento. A de­ cisão do parlamento deve ser adotada por uma maioria dc dois terços. mediante decisão dos tribunais. que no art. ser removido de seu cargo. o presidente do Reicb fica impedido de continuar no exercício do cargo. antes do término do seu mandato.

não há qualquer relação de representação ou de mandato. constitui. tal responsabilidade é inteiramen­ te distinta da jurídica e não justifica a afirmação de que o órgão de eleição é um re­ presentante jurídico de quem o elegeu. se o eleitorado se acha democraticamen­ te organizado. Sc os escritores políticos insistem cm caracterizar o parlamento da democra­ cia moderna como órgão “representativo”. muito menos a afirmação de que um órgão de eleição só pode formar parte do povo se é o representante jurídico de todo o Es­ tado. como o povo não pode exercer de forma direta c imediata o poder de legislar. tal poder c cxcrcido por mandato. na realidade. é impossível estabelecer uma democracia direta. nem pode ser remo­ vido por estes. O chamado mandat impératif e a destituição dos eleitos são instituições democráticas. razão por que não se liga às instruções dos seus eleitores. portanto. Se é democrático que a legislação seja elaborada pelo povo c se. porém. A função desta ideologia é ocultar a situação real e manter a ilusão de que o legisla­ dor é o povo.se acha limitada à criação do órgão legislativo. é uma ficção política. apesar de sua independência jurídica à frente do corpo eleitoral. a função do povo . que a atividade de cada membro do parla­ mento reflita a vontade dos eleitores.10 Leituras Complementares 319 tado. ao agirem assim não es­ tão propondo uma teoria científica. na medida do possível. de modo a ser necessário conferir a função de legislar a um parlamento eleito pelo povo. uma espécie de responsabilidade política. Semelhante órgão “representa” o Estado de uma forma que não difere daque­ la em que é representante do Estado um monarca hereditário ou um funcionário nomeado por este. A independência jurídica dos eleitos perante os eleitores é incompatível com a representação legal. verdadeiramente. O fato de que um órgão de eleição não tenha a probabilidade de ser reelei­ to ou a circunstância de que tal probabilidade se acha diminuída se sua atividade não é considerada por seus eleitores como satisfatória. A independência jurídica do parlamento diante do corpo eleitoral somente pode ser justificada pela opinião de que o Poder Legislativo se encontra mais bem organizado quando o princípio democrático de que o legislador deve ser o povo não é levado ao extremo. scr responsável perante estes depende da opinião sobre em que medi­ da seja desejável realizar a ideia da Democracia. mas preconizando uma ideologia política. apesar de que. por razões técnicas. então será demo­ crático garantir. A independência jurídica do parlamento à frente do povo significa que o princípio da democracia é. A afirmação de que o povo se acha representado pelo parlamento significa que.ou. do corpo eleitoral . e alguns tratadistas chegam a declarar que o mandat impératifé contrário ao princípio do governo representativo. substituído . e estes são juridica­ mente independentes dos eleitores. Todavia. A resposta à pergunta sobre se de lege ferenda o membro eleito do corpo le­ gislativo se encontra juridicamente obrigado a executar a vontade de seus eleitores c. em certa medida. mais precisamen­ te. sc não há nenhuma garantia jurídica de que a vontade do eleitorado seja cumprida pelos eleitores.

a este: as decisões judiciais são dadas “em nome do rei” . Os eminentes jurisconsultos EDUARDO ESPÍNOLA e EDUARDO ESPÍNOLA FILHO. 1939. deixa de existir qualquer prazo de prescrição. No direito inglês chega-se ao extremo de supor que o rei está presente. o princípio da não retroatividade das leis.“é absolutamente indiferente buscar a épo­ ca na qual o Estado julgou necessário sancionar por uma interdição legal seus prin­ cípios racistas Assim.. senão renunciando à neutralidade” (V. é considerado como ideia antiquada. apesar dc que em sua fun­ ção não restam vestígios da influência do monarca. que na Alemanha nazista. e a pena pode ser apli­ cada a delitos cometidos antes de ela ter sido editada. constitucionalmente “represen­ ta ”. Periodicamente são publicadas “ins­ truções” impondo aos juizes as interpretações oficiais. mesmo as penais. contrariamente à regra res­ tritiva . a independência c a imparcialidade dos magistrados são supridas. p. 29) ALÍPIO SILVEIRA Da interpretação das leis na Alemanha nacional-socialista e hitlerista (In Da interpretação das leis em face dos vários regimes políticos. pág. Um julgamento de 1936 declarou que o acusado não podia invocar que em Junho de 1935 os casamentos entre judeus e arianos não eram ainda legalmente in­ terditos. s. . Para ocultar tal desvio de um princípio a outro. Ainda na Alemanha atual. afirmou este julgamento que . EDU ARDO THEILER. 74) ensinam a respeito da interpretação na Alemanha nacional-socialista: “Embora continuem vigentes as grandes codificações alemãs. em seu magnífico “Tratado de Direito Civil Brasileiro” (vol. I. no momento em que a decisão do tribunal é pronunciada. devem os juizes interpretar essas leis segundo a mentalidade nacional-socialista. A ideologia da monar­ quia constitucional traz consigo a doutrina dc que o juiz.que domina o direito penal clássico e tem sido sempre considerada como essencial (EDUARDO THEILER. 133-8. não obstante. op.). em espírito.nulla poena sine proevia lege . usa-se a ficção de que o parlamento “representa” o povo. Ficção semelhante é a empregada para ocultar a perda de poder sofrida pelo monarca ao scr consumada a independência dos tribunais.) Observemos preliminarmente. “Crise no Direito Moderno” ). d.320 Teoria Geral do Estado pelo da divisão do trabalho. O Secretário de Estado da Justiça fixou publicamente a atitude dos juizes nestes termos: “o juiz não pode ter em face do direito e da lei uma atitude conforme ao dever do Estado Nacional-Socialista. cit.

em 1936. Mas o juiz. os ESPÍNOLA observam: “HITLER é o soberano legislador e a mais alta encarnação da justiça. “A Constituição de W EIM A R não está mais em vigor. assim também os seus atos independentemente da forma. O povo alemão foi poderoso enquanto foi conduzido). “Se o nacional-socialismo seguiu a orientação do programa com que se apre­ sentou o partido operário alemão em Munich (1921). haurida na unidade do todo popular nacional-socialista e do reconhecimento da vontade do Führer Adolf Hitler’ (Apud M. que manda interpretar as leis fiscais de acordo com a Weltanscbauung nacional socialista. págs. 1938. como se disse. e a jurisdição é fazer do juiz um adversário do Führer’ (A.La conception bitlérienne du droit. fora de todo o texto legal e sem qualquer forma (MARCEL COT . c que foi recusado o casamento dum judeu com uma aria­ na. ainda que não expres­ samente revogada. cumpre verificar em que si­ tuação político jurídica ficou a Alemanha. que cita ECKHARDT). inamovível e irresponsável. sob o fundamento de que o programa do partido exige o ‘fim da escravidão dos ju­ ros’. um dos grandes erros do liberalismo consiste em crer que o povo deseja governar-se a si mesmo. porque se tornou incompatível com o programa e os princípios do nacional-socialismo. por efeito de sua vitória. poden­ do pronunciar sentenças imediatamente executórias. também . Não! o povo quer ser conduzido e governado. “ Citam-se as palavras do constitucionalista CARL SCHMITT: ‘o verdadeiro chefe deve ser ao mesmo tempo juiz. que re­ cusasse reconhecer o caráter obrigatório do pagamento dos juros de um mútuo. 207-208. 1938.La conception nacionale-socialiste du droit des gens. e op. não obedeceria a um imperativo nacional-socialista. I o da lei de 16 de Outubro de 1934 (Steueranpassungsgesetz). estabelece uma regra geral aplicável a todos os domínios do di­ reito. é expressão suprema o Führer. .La con­ ception hitlcrienne du droit. “Assim e que um juiz se recusou a inscrever no Grundbuch o título de pro­ priedade de um judeu. FRANK. “Num discurso proferido numa reunião de juristas. considerando como deve o juiz completar a lei: ‘cumpre que o juiz. 1939)” . " O indivíduo é absorvido no Volksgeist. V. porque é ao Führer que compete fixar o grau de realização da Weltanscbauung (concepção filosófica). Em outra parte de seu Tratado. “Não somente as leis do Führer devem ser obedecidas incondicionalmente.JACQUES FOURNIER . levando à esfera de sua decisão a au­ toridade do IIIo Reich. ao proferir uma decisão. Observa COT que segundo G Ò R IN G e H Õ H N . pág. separar ou opor a soberania. antes das leis de Nuremberg (COT.10 Leituras Complementares 321 “Tem-se entendido que o art. 54). dizia H. do qual. cit. pergunte a si mesmo: .como decidiria o Führer em meu lugar? Esta deci­ são estará de acordo com a consciência nacional-socialista do povo alemão? Então terá ele uma base de consciência bem firme. COT .

KISCH. Phil. 44 c 82). O eminente jurisconsulte uruguaio. muito em­ bora em todos os pontos substanciais sc tenha tornado incompatível com as leis fundamentais da Alemanha atual. pág. Vejamos sua douta exposição. 201-202). ou melhor. págs. O professor CLAUDE DU PASQUIER. junho de 1934. Arch. Existe também ‘um direito não escrito que se des­ prende da alma do povo alemão e que é conforme às necessidades da vida nacio­ nal. págs. “A própria Constituição de Weimar não foi expressamente abolida. 6. as gerações novas confiam no senso inato do direito que o juiz descobre em si. permaneceram as grandes leis e códigos. Rechts u. págs. tomo 28. Soz. artigo do professor W. direito reconhecido. sucumbe o próprio Estado.a luta contra o direito subjetivo. que lhe trace definidamente os fundamentos da vida polí­ tica. na doutrina recente.1934-35. 202-203).. “Zeitschrift fiir das gesamtc Handelsrecht”.322 Teoria Geral do Estado “De modo geral. ao tratar dos métodos novos de inter­ pretação na Alemanha atual assim se exprime: “O advento do Nacional-socialismo em 1933 acarretou uma completa reno­ vação das ideias reinantes na Alemanha sobre o direito e sobre a missão do juiz. 1934. no brilhante estudo “Trayectoria y destino dei Derecho Procesal Civil Hispano-Ame­ ricano” (Cordoba. mas não é o único’. vice-presidente da referida academia. Recht und Wolksmoral im Führerstaat. COUTURE. mas na concepção universalista do direito e do Estado (BINDER. f. 1937. uma constituição nova. e se funda em copiosa bibliografia. intitu­ lado Der deutsebe Ricbter. 262). social e jurídica”. sentido e energicamente realizado pelo juiz alemão’ (Número inaugural de 1 ’Akademie für deutsches Recht. que não mais é considerado. até hoje não foi decretada. não num individualismo obsoleto. “Aliás ‘a lei não é senão um dos aspectos do direito na técnica da vida públi­ ca moderna. com a condição que seja de raça pura e que se inspire. na Alemanha nacional-socialista. Existe. 1940) versa este aspecto da doutrina nacional-socialista. para o povo alemão. professor EDUARDO J. muito embora se proclame que a sua interpretação e a sua aplicação se subordinam aos princípios dominantes na organização político-social do terceiro Reich. como uma pessoa jurídica de di­ . A doutrina nacional-socialista apropriou-se assim de algumas das ideias pre­ conizadas pelos adeptos do Freiesrecht. As construções lógicas dos romanistas foram repudiadas. pág. e incorporou-as habilmente à sua mística nacional” (“Introduction à la Théorie Générale et à la Philosophie du Droit”. um vasto movimento geral de dou­ trina que seus autores chamam Kampf wieder das subjektive Recht . com as modifica­ ções introduzidas pelo imperativo do novo regime.) Alguns autores legitimam a interpretação contra legem ‘quando o bem do Estado manifestamente o exige’ (SAUER. (“Tratado” citado. Nesta luta para a abolição do direito subjetivo. cujo horizonte político cra entretanto mui­ to diferente.

são: “ Deve-se partir do conceito do povo como comunidade vivente no qual o cidadão reveste a condição dc membro. e.10 Leituras Complementares 323 reito subjetivo. que em 1938 (“Nazional socialistichc Recht und Rechtsdenken”. Se o cidadão se queixa ao Führer que a sentença é injusta. que é a do Führer. a supressão do direito como norma. não é o Estado. evidente­ mente. pp. Mas. p. Pois que o direito (nessa doutrina) reside no povo e é mister interpretá-lo. um estado de consciência popular. As palavras textuais dc SEYDEL. Mas esta doutrina. o Reichsgericht. que c quem levou mais longe este desenvolvimento. segundo seus próprios definidores. para decidir seus conflitos particulares. que parecia destinada a triunfar. mas um representante soberano da lei. 637). Não se chega. mas o povo. “O juiz não seria mais um meio que o Estado põe à disposição das partes. . 504 e segs. O Führer é o investigador ou pesquisador do direito. inspiran­ do-se nos sentimentos dessa comunidade à qual serve e pertence” (“Gedankcn zur Neugestaltung des Zivilprozesses”. embora emane do órgão definitivo da justiça. por exemplo. ou assinala ao tri­ bunal os inconvenientes que sua decisão acarreta para o ideal nacional-socialista. diferentemente da doutrina fascista. conduziu ao que se chamou “doutrina do Führerprinzip”. não pôde suportar algumas objeções fundamentais. admite sempre uma espécie de recurso hie­ rárquico. O direito nacional-socia­ lista é. opúsculo) sustentou. Outra fundamentação ou justificação mais profunda do referido princípio provém dc FREISLER. 1937. Uma delas. sustenta. que o direito pronunciado 011 declarado pelo juiz da sentença. com isso. mas como membro ativo da comunidade. Derivou-se toda a ordem jurídica processual civil do princípio do Rechtsfinder. e como o povo não tem fisicamente um órgão único de expressão. o pró­ prio receptáculo do direito. Isto supõe. mas ape­ nas se afirma que o Führer é o intérprete autêntico e único deste estado de consciên­ cia. tomando como ponto de partida o acima menciona­ do. Não está acima das partes como órgão neutro. a admitir outro direito além do que vive na consciência popular.). in “Zeitchrift der Akademie für Deutsches Recht”. e a existência de um direito ocasional para cada caso concreto. Pelo contrário. Este princípio do povo como comunidade vivente. e ver no di­ reito a ordenação da vida desta comunidade”. admite-se que o interprete da vontade popular c o Führer. um dos mais importantes executores da vontade do Führer. como novo aspecto da doutrina. e trata de ex­ traí-lo na forma mais pura possível da consciência popular. a dc que não podem existir na Alemanha tantos Führer fieis intérpretes do direito. em um ensaio aparecido em 1937 (“ Richterliche Unabhãngigkeit und Dienstaufschit”. a doutrina procurou novos fundamentos para assentar o princípio: De um lado. o Führer exami­ na essa sentença e dissuade ao cidadão se este estiver equivocado. que o direito é o reflexo da consciência popular. ROTHENBERGER. segundo a qual o juiz é o Führer dentro do processo. No processo judiciário o direito é declarado através da única expressão possí­ vel. que nccessita de interprete. em compensação. consequen­ temente. a base. tal como é interpretada pelo Führer. 1935. in “Deutsches Recht”.

461). of aholishing or wishing to abolish ali conceptual thinking in law. No que toca ao aspecto político das ideias extremadas do direito livre. que ficaria absorvida pelo que hoje chamamos “jurisdição voluntária”. o pro­ fessor americano JO H N D ICK IN SON afirma que tais ideias são “de fato. rules. segundo o qual devia ser suprimida a jurisdição. em sua qualidade de chefe de governo. standards. tome II . in “Récuéil d’études sur les Sources du Droit en Phonneur de François Gény. in “Récueil”. Com efeito. de acordo com esta tendência extrema. A doutrina dc BAUMBACH. acrescenta a respeito: “ Acceptance o f it leads to the logical consequence that rules o f law have no official or hinding character and are in their nature oflittle importance.Les sources générales des systèmes juridiques actuels”. pelo menos quando considerada em seus repre­ sentantes mais extremados. Esta escola ou método (direito livre. Ao passo que sob o velho absolutismo a re­ gra legal era tudo. p. “free judicial power” movement. uma observação à exposição do professor COUTURE. em sua feição extremada de niilismo legislativo. é nada” (“The Problem of the unprovided case”. it would seem. if not as a rational human heing E KOKOUREK conclui com acerto: “In its extreme forms the \ fre ejudge’ movement in America is nihilistic in tendency”. as regras legais deixam dc ter razão de existência numa orga­ nização jurídica perfeita. na doutrina de FREISLER. Vemos aí a cha­ mada individualização do direito. a individualização extremada do direito é uma ideia preconizada pelos adeptos do Freiesrecht. e a existência de um direito ocasional para cada caso concreto. a supressão do direito como norma. cit. Ora. 583). Adiante. suprimir a justiça para transformá-la cm um poder administrativo dc fundamento discrecionário. é de tendência niilista. 1938. in “Zeitschrift der Akademie”. and discretion” (“Libre Recherche in America”.). Freies Recht). sob o novo absolutismo. “free judge” movement.324 Teoria Geral do Estado A culminância desta doutrina foi efetuada por BAUMBACH (“Zivilprozess und frciwillige Gerichtsbarkeit”. Some of th em would rest legal judgements entirely on the intuition of the judge. que não era mais o direito. Vemos como ele friza. não fez caminho. Neste dia o Führer dis­ se. Law would not any longer he a compound of unformulated postulates. . mas os fatos. By th is Une of reasoning the judge is made free. que começavam a funcionar. não obstante. Agora. principies. pg. as an officer o f the State. cit. Esta é a doutrina alemã até I o de Setembro de 1939. O professor americano ALBERT KOKOUREK assim descreve as tendências extremistas que surgiram nos Estados Unidos: “Some writers have gone to the length.. apenas uma espécie de absolutismo invertido.

com efeito.) . que é uma expressão das tendências extremadas do Freies Recht. tirania ou despotismo. O resultado final é um critério perfeitamente autocrático de aplicação. a ce qu il considere comme rexpression de la conscience collective du peuple. na extensão em que ele não é ligado pela lei. “ Columbia Law Review”. mas não deixa de ser tirania” (“Positivism and the Limits of Idealism in the Law”. A atitude da Escola Histórica em face da autoridade da lei é assim sintetizada por GÉNY: “5/ la pensée du législateur. uma nova e original. Esta atitude da Escola Histórica .10 Leituras Complementares 325 O professor M O R R IS R. pois assevera: “Ser governado por um juiz é. afim de afastá-las pela simples ação do juiz. pg. KOKOUREK também é do mesmo sentir: “To rest the task o f legal justice entirely on the judgey s discretion would be nothing less tban a surrender to tyranny” (op. Ela é. Ela pode muitas vezes ser inteligente e benevolente.1. cit). mas também paradoxal e ilusória. subs­ tituindo a “consciência coletiva” pela “consciência nacional-socialista”. paradoxal e ilusória porque o intérprete tem de ater-se à vontade real ou presumida do Führer. 1949. 23) JOSÉ PEDRO GALVÃO DE SOUSA Conceito e natureza da sociedade p o lítica (São Paulo. 1932. Deve também observar-se que a “consciência nacional-socialista” e a “vontade do Führer” se confundem praticamente. e incorporou-as cm seu misticismo jurídico. Se a doutrina nacional-socialista parece aderir a este niilismo legislativo. répugne.foi adotada pelo Estado Nacional-Socialista. Em conclusão. 1927. au moment ou il doit appliquer la loi. 258). 27. C O H E N é exatamente da mesma opinião de DICKINSON. 237). cumpre observar que seu horizonte político é muito diferente. O Estado Nacional-Socialista habilmente apossou-se das ideias básicas da Es­ cola Histórica de SAVIGNY. suivant le sentiment personnel de /’interprete. lamen­ tavelmente enxertado no tradicional corpo dc leis que o nacional-socialismo já en­ contrara. con­ cepção do direito livre foi forjada pelo hitlerismo.que o eminente T H E O D O R STERNBERG apodou de fetichismo espiritual . il rihésitera guère à préférer a sou imparfaite traduction la révélation directe de cette source commune et plus profonde” (“Méthode dMntérpretation et Sources en Droit Privé Positif”. telle qu’elle se dégage du sens naturel et normal du texte.

Os animais gregários. pois lhes falta o conhecimento do fim social e a cola­ boração voluntária para alcançá-lo. escre­ via Boccio. num estádio. pela sua maior simplicidade e também pela ordem cronológica. pois como nos ensina a filosofia o fim é a primeira das causas. quer dizer. o filósofo que. Analisando-sc os diversos tipos dc sociedade política encontrados através da história. Chegamos assim ao terceiro elemento de toda sociedade: a união moral. tem a mesma significação: a cidade. Só entre pessoas há sociedade. além de voluntária. são a aldeia e a tribo. Os primeiros desses tipos. seus elem entos com pon entes e principais ca ra cte rística s As expressões “sociedade política” e “sociedade civil” equivalem-se na etimo­ logia: “política”. Reaparece frequentemente 11a linguagem dos escritores de hoje uma ex­ pressão muito antiga das mais sugestivas para indicar o fim. o fim. Sociedade de pequenas dimensões. a tribo fun­ da-se em vínculos de parentesco. resultante da prática de actos racionais e livres. torna-se fácil perceber cm todos eles alguns característicos fundamentais comuns. isto é. Todas essas notas do conceito genérico de sociedade devem naturalmente exis­ tir no conceito dc socicdadc civil ou política. Quanto à aldeia. o que não se dá. E. Sem colaboração voluntária dos sócios não pode haver sociedade. não consti­ tuem verdadeira sociedade. em tor­ . como as abelhas ou os castores. pro­ curava a consolação da filosofia para balsamizar seus sofrimentos. Tornou-se clássica a definição dc pessoa formulada por Boccio. com o ajuntamento de pessoas numa praça. mas a comunidade or­ ganizada politicamente. Nessa breve definição encontramos os seguintes elementos: a) fim ou bem comum. c) união moral e permanente. Sociedade é uma reunião de pessoas. “civil". Em primeiro lugar.326 Teoria Geral do Estado 1a Parte A sociedade política. b) pessoas ou indivíduos racionais. de polis. dc civitas. “c uma substância individual dc natureza racional” . Não se deve confundir sociedade com multidão. o que hoje chamamos de Estado. de seres racionais. Caracteriza-se pela localização territorial. Para determinar exatamente o conceito c a natureza da sociedade política. é muitas vezes um tipo interme­ diário entre a família e a tribo. A palavra originária. no cárcere. grega ou latina. por exemplo. num teatro. a razão de ser de qual­ quer sociedade: o bem comum. designando não a urbs. Sociedade c a união moral e permanente dc várias pessoas cm vista dc um fim comum. tal colaboração deve ser permanente. “Pessoa”. lembremos antes dc mais nada o conceito dc sociedade cm geral. Resta saber quais as notas específicas deste último. quer dizer.

podendo neste caso também haver associação ou confederação de Estados. Dcssc caos originário te­ riam saído. A organização política da N a­ ção é o que propriamente sc entende hoje por Estado. Partindo. Em todas essas formas dc sociedade política um fato resulta desde logo pa­ tente. e além disso faz parte de outros agrupamentos sobrepostos ou de qualquer modo relacionados entre si. O indivíduo nunca está abandonado a si mesmo ou aos poderes absolutos da comunidade total. Sociólogos evolucionistas falam-nos da horda. pois. devemos fazê-lo levando em conta as peculiari­ dades distintivas do tipo de sociedade cuja fisionomia nos interessa agora traçar. cujos membros estariam dc tal modo absorvidos pelo todo coletivo que nem sequer teriam consciência dc sua existência pessoal. aos poucos. Outras vezes. a tradição oral dos povos mais antigos e dos selvagens de hoje. à formação dos mundos oriundos da nebulosa primitiva e à diferenciação das espécies segundo o quadro traçado em esquemas simplifica dores e arbitrários. gerada pelo naturalismo so­ ciológico do nosso tempo. O Império. apresenta-nos um vasto organismo administrativo e a centraliza­ ção política com o predomínio de um povo sobre outros. de­ senvolvendo-se em torno de um mesmo tronco. Repelem-no a história e a etnologia. O postulado da horda é uma hipótese absurda. Fato importantíssimo este para assinalarmos com precisão a natureza da so­ ciedade política. o Império c a Nação. A tribo. aplicando-se aqui os elementos acima discriminados como partes lógicas do conceito de sociedade. . A cidade pode ser constituída por uma confederação de tribos que se torna se­ dentária. no sentido em que aqui o tomamos. é formada por famílias de procedência diversa associadas num mesmo local. de organização citadina (Império Romano: predomínio de uma “cidade” sobre outras e sobre outros po­ vos) ou de formação nacional (Império Britânico).10 Leituras Complementares 327 no do mercado ou da cidadela. É um pressuposto ideológico que tem contra si o relato bíblico da criação do homem e da constituição da primeira socie­ dade por Deus. dá origem às sociedades patriar­ cais. Com efeito. Uma transformação em tudo semelhante ao processo evolutivo do cosmos. podemos considerar os diversos tipos dc sociedade política na ordem cm que sc sucederam historicamente c veremos então formarem-se a confederação dc tribos. sociedade rudimentar e indifercnciada. da aldeia c da tribo. Pertence sempre a um grupo familiar que se integra no todo social. as sociedades heterogêneas cm que os grupos familiares sc foram constituindo até chegar aos clãs matronímicos ou patronímicos e depois às pequenas famílias agrupadas em aldeias. Daí a polis e a civitas dos antigos. surgindo quase sempre no centro de uma área de terra cultivada. a cidadc. seja esse povo dominan­ te de estrutura tribal e patriarcal (Impérios do oriente).

a sociedade política não resulta de uma simples soma de indi­ víduos. Tanto a causa final como a causa eficiente são causas extrínsccas. A forma de um instrumento se modela con­ forme o fim a que se destina. A causa material da sociedade política está nas famílias e nas outras associa­ ções. pois. Como ficou dito. é o termo a que se dirigem as so­ ciedades mais simples. fator da efetiva coordenação das vontades individuais em vista do bem comum. A causa formal e a causa material. nos é dada pela pró­ pria união dos seus membros. O Estado é pre­ . é que nos dão propriamente o conhecimento da natu­ reza de um ser.328 Teoria Geral do Estado Os elementos já mencionados indicam-nos a causa final da sociedade (bem co­ mum). sem cuja ação unificadora e coordenadora nem a causa final seria alcançada. Apliquemos. Além desses elementos. que não exclui a liberdade. do seu constitutivo essencial. princípio de uni­ dade social. que a compõem. Muitos erros se têm cometido por não se levar em conta devidamente qual a matéria societatis nas comunidades politicamente organizadas. Se isto se dá com as coisas da natureza física. Mas a constituição de qualquer coisa depende do fim para que é feita. Por outras palavras. isto e. Toda sociedade política é uma sociedade composta de outros agrupa­ mentos reunidos entre si e subordinados ao poder que se constitui acima destes cír­ culos sociais menores. não me­ nos importante é a consideração do fim em se tratando do ser social. Causa eficiente é o próprio homem. su­ bordinados a uma autoridade suprema. causas intrínsecas. ter presente a finalidade pessoal do homem. e sua matéria não consiste 11a massa amorfa dos cidadãos. especialmente a família. unificando-os na prossecução do bem comum. antes de mais nada. Para saber cm que consiste o bem comum. A forma da sociedade política. naturais ou voluntárias. pela sua cooperação voluntária em vista do escopo comum. nunca se vê o indivíduo isolado sem vínculos sociais em face da civitas. Fica faltando a causa eficiente. E a sua matéria. nem a causa formal teria realização concreta. a causa material (pessoas) e a causa formal (união moral). estes elementos à sociedade política. Causa final é o bem comum das pessoas reunidas política 011 civilmcntc. temos que considerar a autoridade. dc que se constitui? Aqui está um ponto nevrálgico na concepção da sociedade civil. que pela sua ação forma todas as sociedades de que participa. Esta causalidade eficiente pode dar-se pela vontade livre do homem (sociedades puramente voluntárias) ou então por uma inclinação natural. que o indivíduo se integra 11a vida social. como de toda sociedade. cuja natureza nos escapará por completo se não tivermos presente a razão de ser sociedade. Toda sociedade requer necessariamente uma autoridade. é prcciso. por essa conjugação de esforços que a autoridade torna efetiva e assegura permanentemente sob uma determinada ordenação jurídica. É através desses agrupamentos. cuja determinação nos faz conhecer a origem da sociedade. A sociedade política resulta da ten­ dência natural do homem para a vida em comum.

sob a direção dc uma autoridade cen­ tral suprema. Constitui um centro relativamente autônomo de vida. Reunidas as famílias. que geralmente compreende também outros agrupamentos. a não ser em sociedades decadentes e profundamente alteradas 110 ínti­ . na ordem social. Estes agrupamentos. A célula é unidade vital. 3) Organização dos bens particulares. sc bem que imperfeito. À família se tem chamado a “célula social”. Supõe agrupamentos de longa formação histórica. O Estado é a sociedade política mais desenvolvida. das energias que circulam por todo o organismo. além da pluralidade de pessoas. Comparando-se a sociedade a um grande organismo. 4) Unidade interior dos vínculos sociais c coordenação exterior. Podem mesmo deixar de existir. como se dá com as sociedades políticas mais elementares: a tribo. em que se decompõe o complexo orgânico. Surge 110 termo dessa formação. cons­ titui o núcleo fundamental da comunidade. porém. Nações independentes constituem-se em Estado. assim definir a sociedade política: conjunto de famílias e de outros grupos. tampouco na organização da coletividade pelo poder central. pois necessita. pode-se verificar que a família aí exerce uma função análoga à da célula num todo orgânico. § 1o Pluralidade de grupos E óbvio que sem pluralidade de pessoas não pode haver sociedade. estas energias. para subsistir. Como a célula é a última parcela de vida. Dentre estas merece particular aten­ ção a família. Entretanto.10 Leituras Complementares 329 cedido de uma estrutura social organizada que nele se aperfeiçoa e cujo fundamen­ to natural e histórico não está na ação dos indivíduos solitários. a aldeia. pois. formam a socie­ dade civil ou política. por sua vez. Passemos a um breve exame dc tais propriedades. pluralidade de grupos. cujo remate é quase sempre uma nacionalidade plena­ mente constituída. resultam do trabalho das células assimilando os elementos indispensáveis à subsistência de todo o corpo. assim também a família. É uma sociedade composta de outras menores. 2) Formação histórico-natural. simples reuniões de famílias. O núcleo familiar exis­ te sempre. sem cair no exagero dos que a identificam em tudo aos corpos vivos. variam de sociedade para sociedade. de época para época. organizados juridicamente. para dar à Nação existência ju­ rídica. Em toda sociedade política e particularmente no Estado encontramos os se­ guintes característicos: 1) Pluralidade de grupos. c o Estado pode ser defini­ do como a organização política da Nação. Mas a so­ ciedade política supõe. A família é unidade social. mas no dinamismo dos grupos so­ ciais autônomos convergindo para uma commnnitas communitatum. Podemos.

entre a sociedade e o organismo vivo. não admira que haja uma tendência nos trabalhadores de determinada profissão para se associarem ten­ do em vista o aperfeiçoamento do ofício. é pela família que os indivíduos se integram na vida social. dá-lhes uma certa mentalidade comum. nas sociedades mais desenvolvidas surgem estes agrupamentos profissionais e ainda outras associações cujo caráter voluntá­ rio é mais acentuado. O trabalho c dever primordial do homem e manifesta a pr