MARCUS CLÁUDIO ACQUAVIVA

TEORIA GERAL DO

Teoria Geral

do Estado
3 a edição

Teoria Geral

do Estado
MARCUS CLÁUDIO ACQUAVIVA
Professor na Faculdade de Direito da Universidade Presbiteriana Mackenzie

3a edição

Manole

€ > Editora Manole Ltda., 2010, por meio dc contrato com o autor.

Capa: Departamento de Arte da Editora Manole Imagem da capa: Giuseppe Cesari Este livro contempla as regras do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa dc 1990, que entrou cm vigor no Brasil. Dados Internacionais de Catalogação 11a Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Acquaviva, Marcus Cláudio Teoria geral do Estado / Marcus Cláudio Acquaviva. - 3. ed. Barucri, SP : Manole, 2010. ISBN 978-85-204-3026-2 1. O Estado 2. Estado - Teoria I. Título.

09-12088

CDD-320.101

índice para catálogo sistemático: 1. Teoria geral do Estado : Ciência política

320.101

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“ PRAXÁGORAS - Quero que todos tenham um quinhão dos bens comuns, que a propriedade seja de todos; de hoje em diante, deixará de haver distinção entre pobres e ricos; não se repetirá o caso de possuir um homem vastas extensões de terras, enquanto outro não tem sequer o suficiente para cavar a sua sepultura... É meu propósito que seja um só o modo de vida de todos... Para começar, farei que toda a propriedade particular se torne bem comum. BLÉPIRO - Mas... quem fará todo o trabalho? PRAXÁGORAS - Para isso haverá escravos.” (Da comédia de Aristófanes Kcclesiazusae, apud Pitigrilli, Dicionário anti-loroteiro, Rio de Janeiro, Vecchi, 1956, p. 44)

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Quando os gregos conquistaram e destruíram Tróia. 17. Ibrasa. acabando por se fixarem no mesmo local onde o cestinho em que embarcaram encalhara. David. para que se afogassem na correnteza. passaram a disputar o trono da cidade. o vento soprava forte e o cesto encalhou a pequena distância. porém. hoje. m o n t a n e l l i . filha do rei Latino. p. aguardou o resultado. Ainda que verdadeiro o episódio do abandono à morte dos gêmeos. chegou à Itália. Mandou colocar os gêmeos num cestinho de vime e soltá-los 110 rio Tibre. começaram a discutir. . Sequiosos de aventura. na região do Lácio desposou a jovem Lavínia. menos a menina Réia Sílvia. 1-3. indo em busca de novas terras. Ilustração extraí­ da de p o t t e r . múnus que a obrigava a preservar a virgindade e. um príncipe.RÔMULO E REMO E AS ORIGENS MÍTICAS DE ROMA1 Roma. Enéias. Londres. porém. quando se tratou do nome a ser dado à povoação. por isso a cidade chamar-se-ia Roma. com a qual teve um filho. dois irmãos descendentes de Ascânio. os amamentou! Os dois cresceram e conheceram sua história. ao que Rômulo. De­ marcaram os muros da cidade. não ter filhos que pudes­ sem se vingar no futuro. apesar de tudo. Remo. o matou com um golpe de enxada!2 É evidente que. os primeiros lances da construção. De onde vinham os dois? Vejamos. até que combinaram o seguinte: aquele que adivinhasse o número de pássaros que num dado momento sobrevoariam o local. um estudo mais sério dos fatos não admite mais tanta fantasia. Quercus. que fundou Alba Longa. Fundaram uma pequena cidade. de Giuseppe Cesari. Numitor e Amúlio. os recém-nascidos faziam ta­ manho berreiro que atraíram a atenção de uma loba. que um dia foi a capital do mundo. Ascânio. a pro­ 1 2 Imagem da capa: Rômulo e Remo amamentados pela loba. onde. C. Após oito gerações. Entretanto. com um pontapé. com vantagem para Amúlio. p. Dentre estes. daria seu nome à nova urbe. que con­ sistiu em dois robustos garotos. 1961. Indro. com isto. 2007. restaram pou­ cos sobreviventes entre os vencidos. a se tornar sacerdotisa da deusa Vesta. depuseram Amúlio e fizeram retornar Numitor. pelo que retornaram a Alba Longa.. constrangendo-a. A tradição a fez fundada aos 21 de abril de 753 a. fiel ao juramento e friamente. em per­ feita harmonia de ideais. que após va­ gar sem destino pelo mundo. despeitado pela derrota ou por infeliz gracejo. História de RomaySào Paulo. Rômulo ganhou a aposta. por obra dos irmãos Rôm ulo e Remo. que cm vez de matá-los. cidade eterna! Este conhecido axioma insinua a alta antiguidade des­ ta metrópole. engravidando-a e suscitando a cólera de Amúlio que. a quem deram o tro­ no. Acontece que o deus Marte se apaixonou por Réia Sílvia. jurando que matariam quem ousasse transpô-los. derrubou. Empcrors ofRonte: the story of imperial Rome from Julius Caesar to the last emperor. que expulsou seu concorrente e mandou matar todos os filhos deste. não esperaram para receber a herança e o trono do avô.

seus costumes auste­ ros. seu expansionismo. 142.3 Por outro lado. 3. da era do bronze médio e recente. Pcrrópolis. preci­ savam passar para os filhos uma origem nobre. ícone. Vozes. tratava-se de gente humilde ou foragi­ da que se ocultava nos pântanos e sobrevivia com dificuldade.teção que lhes teria dado uma loba. talvez a mais glo­ riosa epopeia de um povo. logo mais. ate sobrenatural. cabanes. identificada com a cidade. São Paulo. 2 0 0 9. dominadora. criando-se. o espírito guerreiro e. comportamento selvagem que lhe teria valido ser chamada. a longa e profícua tra­ jetória do Estado romano. pois numerosos testemunhos arqueológicos. se­ gundo Políbio de Megalópolis. Os gê­ meos que ela amamenta foram acrescentados no Renascimento. p . não tinham. para que a sociedade nascente criasse personalidade forte. Foi o que ocorreu. 1992. criando um Estado em que a forma de governo alcançaria a perfeição. paludosa e insalubre. . é pura lenda. desde logo. heróica. C. inconfundível e perene. na verdade. pois a 4 4 loba” não passaria. a imagem da loba romana. absolutamente. É provável que as agruras por que passaram tenham forjado seu caráter rude. O fato é que os primeiros romanos.. de uma mulher chamada Aca Larência. literalmente um animal. no período republicano. “a loba”. Marcus Cláudio. zombeteiramente. melhor que qualquer outra circunstância. malcria­ da. Notas introdutórias ao estudo do Direito. a cidade parece ser bem mais antiga do que conta a tradição. seu apego à terra. as coisas não se passaram de forma tão romântica. Quanto às verdadeiras origens de Roma. 48-9. especialmente a partir da tomada do poder pelos monarcas etruscos. origem nobre. sem dúvida. C. uma simbologia própria. 3 4 a c q u a v iv a .). tangida por cidadãos cuja probidade e amor ao bem público esclarece. C. sempre orgulhosos dc si mesmos.. Parece que os primeiros habitantes da região. consequentemente. revelam a existência de comunidades remotas. no fim do século VII a. p. Introdução à história da antiguidade. na área em que se assenta Roma. Picrre. na qual se destaca. Tem início. violenta e adúltera. que civilizaria o mundo em nome do Direito e da Pax Romana.4 O fato é que a cidade ingressa na História oficial com seus sete reis (753-509 a. de muito antes de 753 a. ed.

................................. 39 4...................................................2..................................................................................1 Natureza.......... XV 1 A DISCIPLINA...........2.....................................................................................................2.............................. 24 4..1) Antecedentes.................................................................................1) Causas materiais.......................................43 4...........................2) O princípio da separação de Poderes segundo Montesquieu.............................................................................2) Causas fo rm a is .............................. 37 4.................................................................................. 4 1) Fundamento da sociedade......................... 23 4............1) Povo.....2.............1) Poder político...................................... 27 4............................2.............24 4..............................2) N a ç ã o .........................................................................................................................................1......................................................................................... 12 2) 0 Estado de Direito..............................................................20 4) Causas constitutivas do Estado...4 2) Definição de sociedade ............1....... 39 4........................................................... 1 A SOCIEDADE E O ESTADO................................ 12 1) Conceito e evolução histórica do Estado........................................ 10 0 ESTADO..........ÍNDICE GERAL APRESENTAÇÃO . do imperium e do domínio em inente.......................................................................................................................................1.................... 8 3) Espécies de sociedades. 45 IX 2 3 .........................................................................................1.............4) Natureza das relações entre o Estado e seu território enquanto base física: teorias do direito real institucional.....2.....2) 0 princípio da separação de Poderes no Estado.......................................................................................... 17 3) Direito e Estado.............3) T e rritório........................ 31 4............................................................................. conceito e evolução histórica da Teoria Geral do Estado........................................................................................43 4.............................................................................................................................

............................................................................3.......................................................................47 4......2..................................111 2................................................................................................................................... 93 1.................................................................................................................66 4 A CONSTITUIÇÃO.........................................................................................................5) Nicolau M aquiavel....................................................................3......57 4..................................................................................................................74 1) Conceito e evolução h is tó rica .......................1) M o narq uia......... 57 4......................................................5..............99 1.............1) 0 liberalismo e o bem comum .............................................................................. 102 1........ 111 2...................... 74 2) Espécies...............2.................................................................... 97 1...........5) 0 caso brasileiro: medida provisória e lei delegada........................................................................................................... 62 4................................................................................................................... 53 4............................................ 100 1..........................8) Kelsen....... 53 4........................................................................56 4.. 86 2) União real....5....................................................2................2) A ristó te le s.....................4) Globalização e soberania ..116 2....................................................................................2............................................................................3) Políbio de Megalópolis...3) 0 Poder Legislativo......................................................................................................................................................5) Causa final: o bem comum......................................1) A doutrina pactista medieval............ 104 1.......................................................................................................................... 93 1...............................................................4) C ícero..................113 2...........................................95 1.........51 4...2) A doutrina do contrato s o c ia l................. 86 3) Estado u n itá rio .. 89 FORMAS DE GOVERNO..................3...6) M ontesquieu.......................................................X Teoria Geral do Estado 4.................................................................... 93 1) Classificações antigas e modernas........2............................................................................................................ 47 4.................1) Platão (Arístocles)..4) D em ocracia...............61 4....2) República......................2................................................................................... 80 4) Revolução................................. 108 2) Formas de governo clássicas.................................................................................................................................................................................................................2) Concepção social do bem comum ................................ 87 4) Estado federal..............3......................................................... 48 4.....4) 0 Estado contemporâneo e a delegação de fu n çõ e s...........82 FORMAS DE ESTADO.......... 77 3) Conteúdo político das Constituições.... golpe de Estado e insurreição................................................................................................................................................................ 118 5 6 .........4) Ordem jurídica........7) Rousseau........................................3) Soberania...................................................................... 86 1) União pessoal.........................................................................................................................................3) A ristocracia...3) A doutrina da soberania lim itada..................................................................................................................................................................................

.......................2) Democracia direta..1) Introdução ao tem a.6) Partidos políticos.........214 6................... 187 3) Materialismo histórico e ditadura do proletariado.............................. 177 1.......................................................................1................................................................1..........................7) A doutrina nacional-socialista.... 157 Caudilhismo............ 180 IDEOLOGIAS...........................................4......................................................................................................................226 6..173 1) Presidencialism o..........................................165 REGIMES DE GOVERNO.4......................176 1................. 186 2) Socialismo utópico........................4..........7) Democracia e comunicação de massa................3) Presidencialismo versus parlamentarismo na América L a tin a ............6........................................... 179 2) Parlamentarismo.......................................1) Ideologia o fic ia l...................................1) Os partidos políticos no Brasil.......................5) Sufrágio e voto.............................................................................................................................. 191 4) Anarquismo e sindicalismo..5) Concentração dos meios militares.........................4.1.....119 2..............................173 1.......................................................................4..................... 155 D itadura.....................................219 6.....................2) Sistema de partido único..... 219 6...............................128 2.........................1) Características do totalitarism o............. 226 6......................................................................................................................................................................................... 149 Tirania........ 145 2........................................................ 121 2.....................................................................6) Direção estatal da economia .................................2) Presidencialismo histórico e direito comparado.....................................................................4..............................................3) Controle policial pelo Estado............índice Geral XI 3) 4) 5) 6) 7) 7 2...................................8) O Estado nacional-socialista e os direitos subjetivos....................... 173 1.... 203 5) Mecanicismo e org a n icism o .....................................................................................................4.............................................................. 186 1) Conceito de id e o lo g ia ............4.........4) Presidencialismo......................................................139 2............119 2............................220 6................................................221 6...............................3) Democracia representativa.........................133 2......................4) Democracia sem id ire ta.... militarismo e Igreja na América L a tin a .....................151 Oligarquia..................... 220 6..................221 6.............................................................................. 219 6..................1) Introdução...............1.................................................................................................................................................................................9) 0 princípio da liderança (Führung) no Estado nacional-socialista..............................4) Concentração da propaganda nas mãos do Estado..211 6) Totalitarismo: fascismo e nacional-socialismo............................................................................................................................................................................................................................228 8 .......................................... 154 Demagogiae oclocracia.............................................................................................................1.........................................................1......1..227 7) Humanismo s o c ia l........................ sob o comando de um líder............................................1.........................................................................1......................................................

...........................................................................................................................................................................................312 21) Hans Kelsen (Teoria geral do Direito e do Estado) ...O N U ........ 320 23) José Pedro Galvão de Sousa (Conceito e natureza da sociedade política)............................................................... 288 13) Alberto Torres (A organização nacional) .......................................M ercosul............. 289 14) Francisco José de Oliveira Vianna (O ocaso do Im pério) .....................................269 10) Fustel de Coulanges (A cidade antiga) ..................................... 243 1) Marco Túlio Cícero (Dos deveres) ............................................. 249 5) Henry David Thoreau (Desobediência civil)....................................... de M aquiavel) ................................................................................................................................................................................. 246 3) Nicolau Maquiavel [O príncipe) ..............238 5) Os tratados internacionais (natureza e e ficá cia)..........292 15) Jacques Maritain (O homem e o Estado ) ...........................................................................................................235 4) O Mercado Comum do Sul ..............................................XII Teoria Geral do Estado 8) Social-democracia..............317 22) Alípio Silveira (Da interpretação das leis na Alemanha nacional-socialista e hitle rista ) ....................233 2) A Organização das Nações Unidas ........................................................................ 325 24) M.................247 4) William Shakespeare (Júlio César) ........243 2) Santo Tomás de Aquino (Suma teológica e Suma contra os gentios) ............................................l......................... 235 3) Direito comunitário: antecedentes da União Européia ...................... Kovaliov (História de Roma)..............242 10 LEITURAS COMPLEMENTARES........................... 229 9) Neoliberalism o...309 19) Benito Mussolini (Prelúdio a O príncipe.................................................................................................... Krutogolov (Palestras sobre a democracia soviética) ............255 6) Joseph De Maistre (O pensamento social cristão antes de M arx) ...............................277 11) Gustave Le Bon (Leis psicológicas da evolução dos povos ) ..........................280 12) Almeida Garrett (Obras).........A...........UE....... 259 8) Karl Marx e Friedrich Engels (O manifesto com unista) ........................1825)............. 300 16) Georges Sorel (Reflexões sobre a violência)......... 339 ......... 233 1) Natureza das Organizações Interestatais............................................................................................................................................238 6) 0 Tribunal Penal Internacional .....301 17) Nikolaj Lênin (Como iludir o povo com os slogans de liberdade e igualdade) ...........................................................................................267 9) Ferdinand Lassalle (Que é uma Constituição?) .......................... 303 18) Léon Duguit (Os elementos do Estado)............................................... 230 9 0 ESTADO ENTRE ESTADOS:AS ORGANIZAÇÕES INTERESTATAIS............................................................................TPI....................................332 25) S.......................257 7) Simón Bolívar (Discurso perante o Congresso Constituinte de B o lív ia ...................................................................................310 20) Varlan Tcherkesoff (Erros e contradições do marxismo).................................................................................................................................

1823)........357 12) Preâmbulo do Ato Institucional n.................... de 11...347 7) Decreto n...........................11............... 341 1) Convocação da Assembleia Geral Constituinte e Legislativa (Decreto de 03.............1948 ...............353 11) Emenda Constitucional n...1822)........... 1................. 4... M...........12............... em 15................................. 26.............................................................................06......................342 3) Decreto n....1985....................................1890 (Liberdade de culto)........................... 19................... o Imperador aos brasileiros..........363 13) Emenda Constitucional n. 367 ..............348 8) Decreto n....01.....349 9) Decreto n.....1889 ................................................. de 07.................11..................................... de 10........... de 15. 119-A........398....................... 13...................................11........................................................09....................1964.....índice Geral X III 11 DOCUMENTAÇÃO HISTÓRICO-LEGISLATIVA.. 342 4) Proclamação de D.....341 2) Dissolução da Assembleia Geral Constituinte e Legislativa (Decreto de 12............................................................... Pedro 1. de 27................................... 364 ÍNDICE ALFABÉTIC0-REMISS1V0..................04........... de novembro de 1823.11. 343 5) Manifesto de S................................1961 (Sistemaparlamentarista)........1930 (Institui o Governo Provisório da República dos Estados Unidos do Brasil).......... 1......................1889 (Proclamação da República)................................ de 02..................................11........ 350 10) Declaração Universal dos Direitos do Homem......... de 09... 344 6) Proclamação do Governo Provisório..........

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acha-se inteiramente revista e ampliada. bem comum). po­ der político. os partidos políticos. território. O autor. o Estado de Direito. é advogado e leciona na Faculdade de Direito da Universidade Presbiteriana Mackenzie. do Prof. esgotado há vários anos. a definição e as espécies de sociedade. Várias inovações enriquecem a obra. cumpre mencionar a natureza. o Prof. Acquaviva passou a dedicar grande parte de seu tempo na revisão e na ampliação substancial do conteúdo do livro. soberania. social-democracia e outras) e as organizações interestatais. as formas de governo an­ tigas e modernas. o con­ ceito e a evolução histórica da disciplina Teoria Geral do Estado. recebeu. tendo em vista a dinâ­ mica do mundo globalizado e seus novos questionamentos. ordem jurídica. em São Paulo. No exercício de seu magistério. o fundamento. os regimes de governo (presidencialismo e parlamentarismo). Consciente da necessidade de republicar a obra.APRESENTAÇÃO Esta nova edição da obra Teoria Geral do Estado. que muitos denominam “internacionais”. as ideologias políticas (anarquis­ mo. incluindo tópicos como o Direito Comunitário (an­ tecedentes da União Européia) e o Mercosul. Além desse nobre material de pesqui­ XV . Dentre os tópicos constantes da obra. inúmeros pedidos e incenti­ vo para a reedição do livro. evolução histórica e espécies). sindicalismo revolucionário. as causas constitutivas do Estado (povo e nação. de modo a atender praticamen­ te a todos os programas da disciplina determinados por universidades e faculdades de Direito. as formas de Estado. a Constituição política (con­ ceito. por parte de colegas e alunos. a democracia. o sufrágio e o voto. com destaque para uma abordagem aos partidos políticos no Brasil. conhecido mestre de Direito. marxismo-leninismo. o conceito e a evolução histórica do Estado. análise minudente sobre o princípio da separação das funções do Estado e um capítulo sobre as organizações interestatais. Marcus Cláudio Acquaviva.

uma oportuna documentação histórico-legislativa pertinente à Teoria Ge­ ral do Estado. aumentada. cm face dc sua rarida­ de ou alto custo.1889 (Proclamação da República). Karl M arx e Friedrich Engels. valendo des­ tacar o Decreto n. de 02. isso sem mencionarmos outros textos de grande valor doutrinário constantes da primeira parte da obra. uma pesquisa com mais conforto e rapidez. e também para enriquecer a informação aca­ dêmica. o Decreto n. a antologia de clássicos da Política e da Teoria Geral do Estado foi. Shakespeare. a Declaração Univer­ sal dos Direitos do Homem. de 10. Maquiavel. Encerrando o conteúdo desta. dentre esses oportu­ nas referências a autores de nomeada. o autor promoveu inúmeros acréscimos ao próprio texto. a partir do Primeiro Império brasileiro até a atualidade.09.11. Gustave Le Bon. de 15. Cícero. passando a contar com mais ex­ certos de obras famosas e de difícil acesso para o estudante. dentre outros clássicos. 4. também. Lênin. . 19. e mesmo ao professor. Participam da antologia.1961 (Sistema parlamentarista dc governo). Benito Mussolini e Hans Kelsen.1948 c a Emenda Constitucional n. de 11.11. Santo Tomás de Aquino.1930 (Governo Provisório da República).XVI Teoria Geral do Estado sa. Isso permitirá ao aluno.398. Um dos maiores atrativos da obra. 1.12.

Honório. CONCEITO E EVOLUÇÃO HISTÓRICA DA TEORIA GERAL DO ESTADO Bibliografia: l im a DALLARI. à qual todos devem sub­ meter-se em prol do interesse público. f is c h b a c ii. . G. lo. ainda. s il v e ir a n e t o . Da mesma forma que a Biologia. o iniciante do curso jurídico se depara com uma série de disciplinas denominadas básicas. São Pau­ O. 2. proíbe o fumo em bares. restaurantes e condomínios e o álcool nas rodovias. Ao ingressar na Faculdade de Direito..A DISCIPLINA NATUREZA. como o Direito Administrativo. Teoria do Estado. é o F^stado. 1 . Forense. que faz valer a vontade da lei. a Sociologia e a Economia visam propiciar conhecimentos bá­ sicos para a compreensão e a própria justificação de disciplinas mais específicas. Elementos de teoria geral do Estado. cuja finalidade é orientá-lo quan­ to aos fundamentos do Direito e da sociedade. Quando um juiz comina pena de prisão. 1985. ed. a Introdução ao Estudo do Direito. a Teoria Geral do Estado. um fiscal de rendas impõe multa ao contribuinte faltoso. 7. Curso de teoria do Estado. mediante seus órgãos concretos. ed. Dalmo de Abreu. 1970. entre tantas outras. a Anatomia e tantas outras matérias congêneres constituem a base dos estudos espe­ cíficos no campo das Ciências Médicas. uma autoridade judicial intima alguém para depor em proces­ so ou para atuar como mesário ou apurador de votos cm uma eleição ou. México. Bushatsky. Saraiva. fis­ cais e servidores públicos. 1981.. Paulo Jorge de. entidade imaterial. São Paulo. 1981. Nacional. Rio de Janeiro. Teoria general dei Estado. como magistrados. o Direito Penal e o Direito Tributário.

sendo a lei a formalização da vontade estatal. livro este considerado precursor da mo­ derna ideologia totalitária. Conta-se que Aristóteles visitou nada menos do que 150 países. ingleses e norte-americanos denominam essa disciplina Political Science.) e Cícero (106-43 a. a Teoria Geral do Estado é especulativa. Na Idade Média destacam-se Santo Agostinho (354-430). A denominação Teoria Geral do Estado. não só quanto ao seu conteúdo econômico-social como no tocante às suas formas jurídicas e. reitor da Universidade de Paris. específico. o primeiro buscando conciliar o platonismo com os dog­ mas cristãos. Aristóteles (384322 a. vale observar que as obras ancestrais dessa disciplina são as de Platão (429-347 a. preferida por Alessandro Groppali. estudando suas instituições e leis. como o demonstra o Prof. e o segundo enaltecendo a ortodoxia católi­ ca.). como sonegar ao estudante uma sólida formação ética a respeito dos funda­ mentos do Estado. inclusive.C. com a obra Defensor pacis (1324). no curso jurídico. embora Aristóteles seja considerado seu funda­ dor. devido ao seu tratado Política (de polis. também denominada Teoria do Estado. portanto.C. às suas manifestações ideo­ lógicas”. a inteligência com a fé. inevitavelmente. como instituição universal. proveniente da expressão alemã Altgemeine Staatslehre. e Santo Tomás de Aquino (1225-1274). evolução. pecando por redundância. e os franceses. Daí a precisa definição da Teoria Geral do Estado formulada por Paulo Jorge de Lima: “disciplina de caráter teórico e geral. ideias inseparáveis. do Direito e da própria sociedade? Daí plenamente justificada a existência. como Parte Geral do Direito Constitucional Positivo. Sendo eminentemente teórica.2 Teoria Geral do Estado Estado e Direito são. sempre recebeu críticas pelo adjetivo geral que contém. dc uma disciplina como a Teoria Geral do Estado. uma teoria é. e Doutrina do Estado. do que re­ sultou a mais famosa de suas obras. sendo suas obras principais a Suma teológica e a Suma contra os gentios. que tem por objeto o estudo do Estado como fenômeno social e histórico. como origem. ainda. cujos escritos apresentam robusto matiz político. Todavia. Doutrina do Estado ou. Direito Cons­ titucional I.C. cidade). Am­ bos dissertaram sobre temas referentes às relações entre o poder social e o poder espiritual. gerai D aí as vertentes Teoria do Estado (Staatslehre). sendo seu objeto não a análise dc um Estado concreto. organização e ideologias políticas. na qual recomenda a separação e a mú­ tua independência entre Igreja e Estado. Ora. uma vez que. adotada por Hermann Heller. No ocaso da Idade Média surge Marsílio de Pádua. Science Politique. se o instrumental de trabalho do bacharel em Direito é a lei. mas o estudo do Estado em abstrato. não podendo haver ciência do particular.). criada em 1672 pelo holandês Ulric Huber. com o tratado A ci­ dade de Deus. sob os mais variados pontos de vista. e não prática. José Pedro Galvão de Sousa . em que analisa as origens do Estado e as formas de governo existentes em seu tempo. Quanto à evolução histórica da Teoria Geral do Estado.

na Alemanha. com Georg Jellinek (1851-1911). John Locke (1632-1704). Montesquieu (1689-1755). Nesse ano ocorreu a separação: a Teoria Geral do Estado passou a ser disciplina autônoma e o Direito Público e Constitucional a denominar-se apenas Direito Constitucional. com O contrato social. com Tratado sobre o governo civil. como se constata em suas obras O príncipe e Dis­ cursos sobre a primeira década de Tito Lívio. publicada em 1972. e Jean-Jacques Rousseau (1712-1778). a Teoria Geral do Estado tornou-se uma disciplina independente. célebre escritor político florentino que viveu entre 1469 e 1527. até 1940 não se falava em Teoria Geral do Estado. que buscaram revelar o fundamento do poder político e da sociedade na própria natureza hu­ mana e na vida social. N o Brasil. ju­ rista emérito e fundador do Direito Público alemão. . Somente no século X IX . destacam-se Thomas Hobbes (1588-1679). Após Maquiavel. com O espírito das leis. A evolução histórica da Teoria Geral do Estado recebe considerável impul­ so com Nicolau Maquiavel (ou Machiavelli). mas em Direito Piíblico e Constitucional.1 A disciplina 3 em tese primorosa intitulada O totalitarismo nas origens da moderna teoria do Es­ tado. com Leviatã e Do cidadão.

in His­ tória dos costumes. manifestação suprema do espírito objetivo no mundo. porém. A interação mais ou menos intensa que man­ temos com todos torna-se repetitiva e.B. José Pe­ Fjnbora seja o Estado a mais complexa das sociedades. Leviatan. quem sabe. e “A palavra e o discurso”. Lisboa. 1984. Editorial Estampa. hobbes. Jean Poirier (org.. Quando. é indispensável abordar a socie­ dade em geral. tradução e adap­ tação de D. 2.. pouco valori­ zada. 5. dada a vinculação daquele a esta. Conceito e natureza da sociedade política. conhecidas ou não. num velho eleva­ dor. porque nos consideramos ilimitadamente autossuficientes. v. São Paulo.2 A SOCIEDADE E O ESTADO 1) FUNDAMENTO DA SOCIEDADE Bibliografia: A política.S. Geneviève. ed.. São Paulo.. Thomas. dro Ciaivão de. São Paulo. tradução de Roberto Leal. México. despertamos para a assustadora realidade da solidão e da impotência para sobreviver! Sozinhos.. do lado de fora. raramente nos damos conta da importân­ cia disso para nossa realização plena. sem celular ou qualquer outro meio de comunicação. prédio vazio e silencioso. isolamo-nos de forma involuntária.). afasta­ 4 . durante horas. So u z a . ed. Ludgero Jaspers O. Por nascermos em sociedade. c a l a m e -g r i a u l e . Pois bem. em face de um infortúnio. como queria Hegel. Manual de philosophia. em convívio cotidiano com outras pessoas. por isso mesmo. O pânico e a de­ sesperança acabam quando. 1998. uma voz amiga e trêmula pelo susto das pancadas na porta nos acalma e garante que a assistência técnica não demora e que tudo está sob controle. Mar­ Ar i s t ó t e l e s . 2000. expediente encerrado. 1926. no 12° andar? Fim de semana. 1949. tins Fontes. Fondo de Cultura Econômica. despercebida. já vivenciou o leitor a desagradável experiência de permanecer trancado. 2.

deixa o convívio social e retira-se para um . ou não pode resolver-se a ficar com eles. Aquele que fosse assim por natureza só respiraria a guerra. Em sua obra clássica Política. A natureza. ou seja. inspi­ rando-se no próprio Aristóteles. nós. Santo Tomás de Aquino (1225-1274). de que os outros animais são. só conservam o nome e a aparência. segundo Homero: “ Um ser sem lar. damo-nos conta de nossa fraqueza perante o mundo natural. As sociedades domésticas e os indivíduos não são senão as par­ tes integrantes da Cidade. é até mesmo o primeiro objeto a que se propôs a natureza. Assim. o bom-senso e os conhecimentos que a própria sociedade nos transmite. capazes. Aquele que não precisa dos outros homens. do justo e do injusto. considera que o homem. todas distintas por seus poderes e suas funções. Aristóteles nos ensina: É. do útil e do nocivo. sem família e sem leis”. o maior filósofo da Cristandade. O todo existe necessaria­ mente antes da parte. A natureza deu-lhes um órgão limitado a este único efeito. uma vez separados do corpo. O mesmo ocorre com os membros da Cidade: ne­ nhum pode bastar-se a si mesmo. muito acima ou muito abaixo do homem. portanto. o homem se mostra uma cria­ tura eminentemente gregária e comunicativa por meio de uma linguagem articula­ da. o que levou o filósofo Aristóteles a considerá-lo um ser social e comunicativo por natureza. Temos a nosso favor apenas a inteli­ gência. como uma ave de rapina. Estes são apenas a expressão de sensações agradáveis ou desagradáveis. vale dizer. a inclinação na­ tural levou os homens a este gênero de sociedade. por sua natureza e não por obra do acaso. estaria sempre pronto para cair sobre os ou­ tros. que se quebra na mais leve brisa.2 A sociedade e o Estado 5 dos de todo o conforto que a sociedade tecnológica proporciona. sem a realidade. não sendo detido por ne­ nhum freio e. po­ rém. vi­ veria em solidão apenas em três hipóteses: a) hipótese da natureza divina (excellentia naturae). ou um bruto. Aquele que. mais social do que as abelhas e os outros animais que vivem juntos. senão o conhecimento desenvolvido. denominando-o por isso zoon politikon. Este comercio da palavra é o laço de toda sociedade doméstica e civil. que nada faz em vão. objetos para a mani­ festação dos quais nos foi principalmente dado o órgão da fala. O Estado. ou sociedade política. Pois bem. a do indivíduo que. evidente que toda Cidade está na natureza c que o homem e natu­ ralmente feito para a sociedade política. con­ firmando a assertiva de Blaise Pascal de que o homem não passa de um caniço pen­ sante. ou é um deus. como nós. concedeu apenas a ele o dom da palavra. todas subordinadas ao corpo inteiro. dotado de carisma (graça divina). semelhantes às mãos e aos pés que. o homem é um animal cívico. pelo menos o sentimento obs­ curo do bem c do mal. existisse sem nenhuma pátria seria um indivíduo detestável. que não devemos confundir com os sons da voz. um ser sociável por natureza. sociável por natureza. portanto. como uma mão de pedra. temos a mais. Nada pior que o isolamento forçado. Assim. nascendo e vivendo em sociedade. e todas inúteis quando desarticuladas.

o próprio Estado. a natureza agressiva deste o leva a investir fisicamen­ te contra seus semelhantes. filósofo inglês para quem. como foi dito. a expressão alienado. ou seja.6 Teoria Geral do Estado local isolado. para Hobbes. c) hipótese da má sorte. entretanto. Hobbes adverte que esse fre­ nesi de dominação encontra sério obstáculo: o medo de morrer (timor mortis). é lobo do pró­ prio homem (homo homini lupus). imposta pelo Estado. da natureza gregária do ser humano. As vicissitudes da clássica personagem Robinson Crusoé e. escorraçados das cidades e obrigados a viver isolados. orgulho e vaidade (superhia vitae). mediante uma vio­ lenta submissão do próximo. formas que exprimem o desejo de autoconservação. Ao contrário. sempre presente. nesta. no cinema con­ temporâneo. caso mais comum do que se pensa. Enfim. Em sua visão pessimista. formando grupos inimigos e chegando ao assassinato. a ameaça da morte imprevista e dolorosa. leva o homem a conquistar poder e glória a qualquer custo. por não ter fundamento natu rala sociedade pressupõe uma disciplina férrea. indivíduos que. por natural in­ clinação. 11a aferição das origens do Estado. E o que ocorria. o ser humano é impelido. autocrático e disposto a punir seus excessos sem contemplação poderia tornar possível a vida em sociedade. vivendo inconscientes. Com efeito. fundado em ambição. . como é sabido. optam pela purificação e pelo aperfeiçoamento do espírito. b) hipótese da natureza doentia (corruptio naturae). o homem. segundo Hobbes. ilustram bem a hipótese. Para outros autores. alheio). frase criada pelo cronista latino Apuleio. loucura). a dos indivíduos atingidos por anomalias físicas 011 mentais (moléstias contagiosas. pois 11a sua desgraça não teriam noção do mundo real. é resultado de um instinto. ingressando num monastério isolado. muito menos que a sociedade e. Também os alienados mentais. que Hobbes denomina Leviatã. de modo que somente 11111 governo severo. monstro bíblico que empresta o nome à sua obra mais conhecida. azar (mala fortuna). a necessidade de sobreviver impele o homem à vida comunitária. O homem. filme em que um grupo de garotos. com os leprosos durante a Idade iMédia. do excursionista que se perde 11a mata espessa durante uma caminhada mais ousada. Um apetite natural e irracional. viveriam isolados da socieda­ de. sem fa­ larmos no impressionante O senhor das moscas. formando comunidades indesejáveis a grandes distâncias dos centros ur­ banos. as quais criariam uma barreira entre eles e a sociedade. Tal a posição deThomas Hobbes (1588-1679). alheios à realidade (daí. em que o indivíduo se vê privado do convívio social por um capricho do destino. da queda dc uma aeronave ou. é a origem da lei e do Estado. torna-se selvagem. do náufrago vivido por Tom Hanks. felizes na frugalidade da vida monástica e no silêncio austero que convida à espiritualidade. e como fazem os ermitões. desiludidos pelas mazelas do gênero hu­ mano. entregando-se à meditação. qual seja. como ocorreria com o sobreviven­ te de um naufrágio. Ora. como fez Jesus em seu retiro 110 deserto. sobreviventes a um desastre aéreo. a destruir seus semelhantes.

de quem ela é um privilégio. livre e feliz. para realizar seus objetivos. corrompe-se. Rousseau toma orientação semelhante à de Flobbes quanto à origem da so­ ciedade. Cabe a lei preser­ var. o homem pre­ cisa do auxílio de seus semelhantes e. empre­ gada tal expressão no seu sentido rigorosamente filosófico. Jean-Jacques Rousseau (1712-1778). o ser humano recém-nascido carece de total proteção. teria dito o cardeal de Polignac a um orangotango de aspecto muito huma­ no. a própria natureza humana se inclina para a vida em sociedade. sequioso de poder e glória. e eu batizo-te”. e não por uma suposta inclinação natural. a saber. mas em todo lugar se acha acorrentado). já para Rousseau. iniciado no lar. sucumbe.Como se vê. No con­ vívio com o próximo. na concepção do próprio ho­ mem: para Hobbes. por si só. é ao mesmo tempo a condição necessá­ ria e suficiente para a definição do homem. o homem nutre simpatia (do grego syrnpathia) pela vida cm sociedade. este nasce individualista. celebra um pacto social com esses. sobre a co­ municação animal. (Manual de philosophia.2 A sociedade e o Estado 7 Uhotnme est né libre et partout il est dans les fers (O homem nasce livre. nada abalada pelos estudos. outro indício marcante da sociabilidade humana é a própria linguagem articulada. tangido pela razão. passando pela escola e pelos grupos sociais de variada natureza. cada vez mais avançados nos dias que correm. Diferem. bom por natureza. mas a sociedade o corrompe de tal modo que e necessário restaurar sua primitiva liberdade individual. “ Fala. limitada. num processo assimilativo denominado socialização. já percebe o leitor. a todo custo. A par disso. que o ser humano nasce bom. desde o nascimento aptas à luta pela vida. relatada por Diderot. que passa a ser um fim em si mesma. como adverte Lahr. Como poderia o homem. Por outro lado. cuja finalidade não poderia ser outra senão a comu­ nicação entre as pessoas. 91) . grande inspirador ideológico do individualismo da Revo­ lução Francesa e mesmo das democracias liberais modernas. por isso. a disposição pura­ mente passiva dos seres sensíveis de compartilhar espontaneamente as emoções daque­ les com que vivem. é graças à adaptação paulatina ao modo de ser da sociedade que o ser humano vai sendo condicionado a agir conforme os valores desta. Observa Cieneviève Calame-Griaule: A linguagem. vindo à luz. tão precocemente perdida.Na verdade. Enfim. Esta célebre historieta. logo no início do primeiro capítulo de seu famoso livro O contrato social. à custa de seu semelhante. pois sem esta. num pacto ou contrato social. ele nasce bom. como fenômeno universal. a liberdade individual. e não como decorrência de uma natural in­ clinação do ser humano. Todavia. especialmen­ te na infância? Ao contrário de muitas espécies animais. procura demonstrar. le bon sauvage (o bom selvagem) típico do ro­ mantismo do referido pensador. p. Com esta preocupante sentença. o homem. perdendo sua liber­ dade natural e ingressando em outra espécie de liberdade. ilustra bem a antiquíssima convicção. prover sua subsistência. a civil.

portanto. características e atributos meramente acidentais. ed. embora sempre racional. Fruto da cultura e da experiência acumulada pelo homem. Entretanto. Omnia definitio periculosa est.8 Teoria Geral cio Estado 2) DEFINIÇÃO DE SOCIEDADE Bibliografia: 1948. honesto ou desonesto. pode ser bom ou mau. Saraiva. humilde ou arrogante. 1984. Lições de filosofia do direito. honesto ou desonesto. 13. Edições 70.C. pois seria inconcebível um gênero humano desprovido de racionalidade. DEL V E C C H I O . mostra-se dinâmica e mutá­ vel. O que é essência. A sociedade propriamente dita. existem outros. todavia a so­ ciedade estará. São Paulo. advertem Agnes Lempereur e Georges Thines. não sendo. Em princípio. Dicionário geral das ciências humanas. humilde ou arrogan­ te. filóso­ fo e teólogo romano. o ser ou coisa careceria de existência. indispensáveis à definição. ligados entre si pela potência dos fenô­ menos interatrativos. Sem seus elementos essenciais. Boécio (474-524 d. Giorgio. jo l iv e t Regis. quando Anício Mânlio Torquato Severino Boécio ou. a sociedade é a comunidade animal natural que agrupa indivíduos da mesma espécie. simplesmente. Curso de filosofia. se definíssemos o homem como um ser racional bom ou mau. estaremos revelando a própria essência da es­ pécie humana. e ocupando um biótopo que a comunidade condiciona estrei­ tamente. define o homem como substância indivisível dotada de racio­ nalidadeypercebe-se que a razão é o elemento essencial da definição do ser humano. ela segue no rumo de formas de convi­ vência cada mais complexas. mudando na busca da perfeição. portanto. 1979. . Definir é revelar a essência do definido. degeneração. lempereur. pois a sociabilidade humana impli­ ca uma complexidade de relações muito mais profunda que a observada no agrega­ do animal. quando formos definir o que quer que seja. da ordem absoluta. porque o homem. e sem os quais este preserva sua essência. Muito cuidado.. Haverá erros. denominados acidentais ou con­ tingentes. a par dos elementos essenciais. e o agregado animal (união estável de outros seres). desde logo. . se defi­ nirmos o homem como ser racional. a humana. devem constar de toda definição apenas as causas essenciais do que está sendo objeto de definição. renovando seus valores. por­ tanto. mas sempre em perpétuo movimento. Assim. não há que se falar em ser humano. entretanto? É tudo o que identifica o objeto a ser definido. Lisboa. Agnes e t i i i n e s . Como definir a sociedade? Do ponto de vista puramente biológico. Sem racionalidade. estaríamos pecando por acidentalidade. São Paulo. esclarecer o que é definir. Por exemplo. ora evolui. ora regride. Acontece que.). sempre. Agir. A definição de sociedade nos impõe. que integram casualmente o objeto a definir. retrocesso. George. consideramos oportuno estabelecer uma discriminação con­ ceituai entre a sociedade propriamente dita (união estável de seres humanos).

a essência da sociedade. ou. poderiam deixar a sociedade por vontade própria ou por morte. que tendem a fim comum. não obstante. muitas vezes egoístas. considerados isoladamente. quando sabemos que pode haver sociedades desprovidas de base física.. enfim. o desejo de todos de conviver permanentemente em sociedade. de sua sede ou estabelecimento por motivo de dívidas. Del Vecchio proclama que. embora inconfundível com a pessoa natural (ser humano dotado de direitos e deveres reconhecidos juridicamente) de cada um deles. tendo existência própria. sua causa última. Há quem a defina como agrupamento duradouro. pois nela não se inclui nenhu­ ma causa ou elemento acidental. como os nômades. sugestiva­ mente. sob a forma de pessoa coletiva. Quanto ao trecho superior uni­ dade. portanto. de cada sócio. enfim. exemplo mais concreto do Direito Privado brasileiro. ser criada com a intenção de preservá-la. graças ao qual vários seres indivi­ duais vivem e trabalham conjuntamente. passa a ter persona­ lidade jurídica. Regis Jolivet. Nesta definição fica salientada a expressão relações. Com a expressão nova unidade. uma finalidade transcendente. independente da figura dos indivíduos que a integram. é indispensável a característica de permanência. a sociedade tem um ob­ jetivo. o objetivo social está acima das ambições individuais. Deve a sociedade. para quem a sociedade é um complexo de relações. define a sociedade como a união moral es­ tável. fica evidenciada a permanência. Tentemos. a sociedade reconhecida pela lei consti­ tui uma nova unidade. tem vida própria. como seus filiados. autônoma.. O u ­ tra definição reconhecida é a do jurista e filósofo italiano Giorgio Del Vecchio. a estabilidade.2 A sociedade e o Estado 9 já proclamava a sabedoria latina. daí surgindo nova e superior unidade. Del Vecchio deixa claro que a sociedade passa a ter existência própria. ao incluir o espaço territorial (base física) como elemento essencial. Ação recíproca. ou seja. vale dizer. A sociedade ou pessoa coletiva comporta-se como uma pessoa natural. destacados dos outros. dotado de um espaço territorial. intenção que os romanos já denominavam affectio societatis. Satisfatória se mostra essa definição. de várias pessoas. De fato. ressaltada. . no sentido dc que a vida co­ munitária pressupõe um relacionamento que os sociólogos denominam. superior a cada um dos objetivos individuais dos sócios. de di­ reitos e deveres. sob uma única autoridade. de­ finição que peca pela acidentalidade. De todo modo. definir a sociedade. No período convivem e trabalham conjunta­ mente. dotada. temporária ou definitivamente. Sim. para que um conjunto de indivíduos possa ser qualificado como sociedade. que venha a ser despojada. uma associação (entidade sem fins econômicos) ou uma sociedade stricto sensu (entidade com fins econômicos). e os indivíduos que dela participam. físicas ou morais. conhecido filósofo contemporâneo. mesquinhas. fazê-la durar na consecução do bem social. definida esta como a ação exercida mutuamente entre duas ou mais pessoas. apenas. e nem por isso a existência jurídica da sociedade seria afetada. interação. estabilidade.

co. 2. 1992.Parte Geral. Princípios de sociologia. bra. uma academia científica. 1972. México. ed. e que delam possam sair quando queiram. Coimbra. ed. Na co­ munidade os membros se acham unidos. ou por um ato que não tenha por fim imediato aderir a elas. costa j r CAETANO. 1. Curiosa a observação do autor citado: encontramo-nos nas comunidades. 18. Quan­ to a Max Weber. au­ tomaticamente.d . ed. Sa­ raiva. Seguindo este critério. 1978. os indivíduos se acham a elas vinculados pelo simples fato do nascimento. Arnold. dividindo-as cm comunidades e socie­ dades (associações). Exemplos dc asso­ ciações: um clube esportivo. Sociólogos e juristas su­ gerem inúmeras tipologias que. Curso de direito civil brasileiro . existindo indepen­ dentemente da vontade de seus membros. 1. ao passo que a associação resultaria da vonta­ de tangida pela razão. de simpatia. a de Ferdinand Tõnnies e a dc Max Weber. Fondo de Cultura Fxonómica. resultarem da união daqueles que a elas resolvam aderir. Direito civil . ed. 1999. ao pas­ so que a associação seria resultante da vontade manifestada por um impulso racio­ . Introdução ao estudo do direito. Do ponto de vista sociológico. diante de um interesse material. A comunidade seria um produto espontâneo da vida social. v.Parte Geral. São Pau­ lo. São Paulo. 1942. v. Coimbra. Curso de teoria do Estado.10 Teoria Geral do Estado 3) ESPECIES DE SOCIEDADES Bibliografia: Marccllo. Paulo José da e p e l l e g r i n i .. 6. criadas pela vontade dos indivíduos. ed. orgânica. Ferdinand. 1. Silvio de Salvo. . em 1877. o meio profissional.. v e n o s a . 32. Saraiva. 1. uma classificação das relações sociais. Tõnnies apresentou. Max. o meio residencial (a escolha de um local para viver integra. D i­ reito civil brasileiro . Saraiva. na as­ sociação permanecem separados. ed. 2002. Maria Helena. weber . Saraiva. w a i .. uma sociedade comercial. v. 2002. Pedro. g r o p p a l i. caracterizam exemplos de comunidades: a nação. ainda. Direito civil . Crimi­ d in iz nalidade organizada. apesar de tudo quanto fazem para se unir.Teoria geral do direito civil. Lisboa. que impele os indivíduos a constituir um todo. 1984. M éxi­ Classificar as sociedades é tão difícil como defini-las. Jurídica Brasileira. considera a comunidade o fruto de um sentimento subjetivo. uma irmandade religiosa. e serão associações quando. salvetti n et t o .. Angiolo. embora respeitadas. correspondente à vida real. não conseguiram. . Fondo de Cultura Econômica. uma entidade beneficente. São Paulo. Coim­ . ambos alemães. Economia y sociedade. duas orientações se tornaram clássicas. t õ n n i e s . São Paulo. 3..Introdução e Par­ te Geral. apesar de tudo quanto os separa. Marcello Caetano observa que as diversas formas de sociedade são comunidades quando.. 2002. r o d r ig u e s Sílvio. Manual de cicncia política e direito constitucional. r. 2002. una­ nimidade. mas entramos nas associações. Alessandro.. Atlas. de caráter emotivo. 9. São Paulo. a família. São Paulo. a pessoa num meio social).

por toda espécie de sociedade. sem preconceitos. do próprio Estado. tão logo vem à luz. que comunidade e associação correspondem a tipos ideais. embora concorram. cuja estrutu­ ra “administrativa” já recebeu um brilhante estudo dos juristas Paulo José da Cos­ ta Jr. ao passo que essas constituem obras da von­ tade humana. podendo deixar de existir (quod potest non esse). todavia. a Yakuza (máfia japonesa) e a Russkaja (máfia russa). ao passo que as contingentes. a elas se vincula. o qual.o homem não pode prescindir. a sociedade familial. tais como a Máfia siciliana. Observa o autor citado que o maior traço distintivo entre as sociedades ne­ cessárias e as contingentes é o fato de que aquelas preexistem ao homem. . porém. circunstancialmente. das sociedades regulares. Basta dizer que a Sociologia se interessa. uma série de pressupostos inafastáveis para sua atuação. ao passo que a lei exige. mesmo aquelas inimigas da ordem jurídica e.a própria denominação adota­ da revela seu sentido . a religiosa e a política. reprimidas pela lei.2 A sociedade e o Estado 11 nal. e Angiolo Pellegrini. raramente realizáveis quando consideradas de maneira isolada. Assinala Weber. portanto. Do ponto de vista jurídico. nem sempre tais classificações são satisfatórias. Outra classificação é aventada por Pedro Salvetti Netto. que as tipifica em neces­ sárias c contingentes. para o aprimoramento e o conforto do homem. não se mos­ tram indispensáveis à sua existência. Das sociedades necessárias . por exemplo. a Camorra napolitana. porque numa determinada sociedade acham-se mesclados valores afetivos e objetivos racionais. ilícitas.

Nicolás. 1981. Précis de sociologie. Jean. IntroducMareei e b o u l o u i s . m a q u ia v e l o Fontemoing.. Armênio Amado. A República ou da justiça. a palavra Estado. 1979. Manifesto do Partido Comunista. les gouvernants et les agents”. Bogotá. Dalloz. Paris. Global. José Pedro Galvão dc. n a r a n jo v il l e - . Léon. 1997. Forense. modernamente. . Quciróz. a expressão estado civil identifica o indivíduo solteiro ou casado. São Paulo. São Paulo. Clóvis Lema c carvalho . Madri. 1986. El príncipe. Léon Chailley. 1979. p l a t Âo .. condição pessoal do indivíduo perante os direitos ci­ vis e políticos (status civitatis. Bonavides. ao passo que status é um termo apli­ cável ao estado econômico daqueles bem-sucedidos no mundo dos negócios. José Fraga Teixeira dc. A. qual seja. agora com E maiúsculo. . ed.. Leyes que no son derecbo y derecbo por encima de Ias leyes. Hugo Palacios. 1965. Paris. Toda­ via. Madri. Gustav. Temis. Karl. 6. 1896. Bogotá. 1978. prélot. Barcelona. Filosofia do direito. status familiae). a sociedade política. que pode­ ria ser conceituada como a “sociedade civil politicamente soberana e internacio­ 12 . . denomina. Aguillar. spengler. Filosofia dei derecbo. Bruguera. 672-3. Livro I.Título XII. ed. 1971. 6. Rio dc Janeiro. 1998. Aguilar. Coimbra. . Sucessor. Ciência política. a mais complexa e perfeita das sociedades civis. D i­ Oswald apud Paulo cionário de política. radbruch ción a Ia teoria dei Estado. m e jía Abel. Em princípio. x\4odernamcntc. Paris. ed. g u it du - . p. Institutions politiques et droit constitutionnel.Temis. 1959. A palavra estado apresenta vários sentidos inconfundíveis. in Études de droit public. g a r c ia SOUZA. 7. 1903. o termo surge do latim status. Louis. T.3 0 ESTADO 1) CONCEITO E EVOLUÇÃO HISTÓRICA DO ESTADO Bibliografia: g u m p l o w i c z . marx gas. “UÉtat.

Na Fran­ ça. posição de uma pessoa. o notório horário político. conta-nos Fustcl de Coulanges. Bakunin). 5o.os homens serem obrigados a deixar crescer a bar­ ba e as mulheres não poderem levar. pagar pedágio quando em viagem. como estado. trabalhar como mesário ou apurador nas eleições. com o crescente intervencionismo estatal. dizia: “Tutti gli stati. e somente ele tem a prerrogati­ va de nos dar a quitação respectiva. não fumar em locais públicos ou ouvir. na Itália. a carteira de trabalho. pois. nas pegadas de Maquiavel.em algu­ mas cidades-Fstado helênicas . como Jean Bodin. A palavra Estado passou a identificar a sociedade política a partir do Renascimento. Fjigels. tam­ bém encontraremos a expressão Estado indicativa da sociedade política. Execrado por uns (comunistas c anarquistas). no sentido de situação de alguma coisa e. tenham preferido o termo república (Republique) ou. dois séculos depois. Houve época. graças a Nicolau Maquiavel. mais pre­ cisamente na tragédia Hamlet. que recebiam os cadáveres dos filhos mortos em batalha. IV). arts. Hegel) e dc seus detra­ tores (Marx. ainda. sem falarmos os horrores da dita­ dura totalitária do proletariado. que. Gregos e romanos denominavam a sociedade política polis e res publica. se chorassem. . rendo por objetivo o bem comum aos indivíduos e comuni­ dades sob seu império”.3 0 Estado 13 nalmente reconhecida. como Charles Loyseau. senhoria (Seigneureries). e 15. mais do que três vestidos.] in the State of Danemark”). que diz: “H á algo de podre no reino da Dinamarca” (“ [. deviam mostrar alegria. compulsoriamente. Km William Shakespeare (1564-1616). No século XVI. no seu livro clássico O prín­ cipe. pagar imposto sobre a renda. endeusado por outros (fascistas e nazistas). em viagem. a ponto de . o Esta­ do sempre foi objeto de estudo dc seus defensores (Hobbes. Por que somos obri­ gados a fazer o serviço militar (CF. VIII. usar cinto de segurança). que. todos os domínios que tiveram e têm poder sobre os homens. Modernamente. passou a ser empregado no sentido de sociedade política. o Es­ tado sufocava por inteiro a liberdade natural do indivíduo. na antiga Grécia. como o cartão de identidade. Fjn outras cidades. res­ pectivamente. e hoje. as mães. embora alguns escritores. ele se faz presente nos mínimos detalhes de nossa vida cotidiana. tornamo-nos ilustres desco­ nhecidos perante a autoridade que no-los pede. foram e são repúblicas ou prin­ cipados”). com cara de poucos amigos? É que todos esses devores nos são impostos pelo Estado. o programa A Voz do Brasil ou. estalinista. pela boca da personagem Marcelo. mesmo forçada. ou nazista... a exacerbação do poder do Estado se mos­ tra cristalina e aterradora no delírio de dominação dos Estados fascista. estariam cometendo crime contra o Estado. dedi­ cado aos candidatos a cargos públicos? Por que sem nossos documentos pessoais. o termo estat ou état foi recebido do latim a partir do século XIII. na Alemanha. tutti /’ domini che hanno avuto e hanno impero sopra gli uominiy sono stati e sono repuhliche o principatr (“Todos os estados. em sua obra imortal A cidade antiga (Capítulo XVIII). e nacional-socialista. na União Soviética.

Daí a natural inclinação desta doutrina para a monarquia. A teoria patriarcalis­ ta. idealizada pela or­ todoxia doutrinária. da mesma forma que na família os filhos devem obediência aos pais. Stahl. devendo o rei governar como um pai para os sú­ ditos. Não obstante. Para Georges Burdeau. da sociedade política. sendo esta a atuação de Deus na História. mediante o fenômeno da institucionaliza­ ção do poder (Traité de science politique. Luís XIV. inspirador da célebre doutrina pura do Direito. eminente publicista contemporâ­ neo. cumpre observar. pois este nada mais é que a união de muitas famílias. por exemplo o das abelhas. e a origem histórica de cada um destes. Bossuet e J. p. A doutrina teocrática. F. Vamos resumi-las. No plano da Sociologia. o fato é que o patriarcalismo acabou por se tornar mera justificativa do poder monárquico. o Estado se forma quando o poder torna-se uma instituição. 351-2). p. que não se pode confundir uma única origem para todos os Estados. apresenta inúmeras variantes. Quanto às origens históricas do F'stado. reduzindo-o a mero juízo de valor. desprovido de caráter científico (Teoria general dei Estado. Giorgio Del Vecchio define o Estado. Em que pese a razoabilidade de sua argumentação. do ponto de vista jurídico como “o sujeito da Ordem Ju­ rídica. e na História o Estado cm marcha (Ciência política. vontade esta manifes­ tada concretamente pela Providência. a patrimonialista e a da força. já advertia que a vo­ lumosa soma de definições do Estado dificulta a precisão do termo. todos eles devem obediência ao Esta­ do. o surgimento de cada Estado se acha ligado a toda sorte de circunstâncias. dentre estas o próprio meio ambiente. observa que. Oswald Spengler. p. 3-4). chamado Bastiat. 6. 52). defini-lo? As definições são tantas quanto os autores que as formulam. ed. dentre outros. sendo as principais a patriarcalista. como ocorre em certos agregados animais complexos. a ponto de um grande publicista do século X IX .. o gênero humano teria uma natural inclinação para a forma mo­ nárquica. Ademais. 128).14 Teoria Geral do Estado Sabemos que o Estado é uma sociedade necessária e condicionante das demais. cujo instinto as leva a viver em função de uma abelha-rainha. citada por Paulo Bonavidcs. propor vultosa recompensa a quem for­ mulasse um conceito de Estado unanimemente aceito. p. .. não podemos deixar de fazer algumas referências a tais defini­ ções. Forense. peculiar a todas as sociedades. de imediato. Em vez de um fenô­ meno recorrente. não se confun­ dindo mais com aquele que o encarna. t. Como. e conhecemos detalhadamente sua evolução histórica. Assim. desenvolvida ao longo do tempo por Demóstenes. Seja como for. 1986. que têm em comum a ideia de que é da vontade de Deus o Estado existir. Paris. a teocrática. várias doutrinas procuram demonstrar uma só origem. Rio de Janei­ ro. Dalloz. porém. O próprio Hans Kelscn (1881-1973). colhendo-as na seara do próprio Direito ou da Sociologia. a contratualista. na qual se realiza a comunidade de vida de um povo” (Pbilosopbie du droit.. preconizada por Bossuet e Robert Filmer. embora re­ mota. 2. surpreende no Estado a História em repouso.

na verdade. Para Locke. garantiria a liberdade (Rousseau). tangidos pela razão. Seja para garantir um mínimo de liberdade (Rousseau). Platão. situa a origem do Estado na violência imposta por um grupo social a outro. raciais (Gobineau) ou econômicas (Marx e Engels). para adotar uma liberdade ci­ vil que.3 0 Estado 15 Assim. John Locke e Adam Smith. dentre outros.. ed. inevitável. os homens. muitas vezes. desen­ volveram a ideia de que o Estado resulta de um contrato. mais tarde. mostra o mesmo pessimismo de Oppenheimer ao conceituar o Estado como o “grupo huma­ no estabelecido em determinado território. Ciência política. aquela deve ser adotada. Suárez. ao contrário do que se pensa. como assinala Leopold Uprimny (apud Hugo Palacios Mejía. Hobbes e Grócio. natural a defesa de um direito divino dos reis pelos adeptos dessa doutrina. como ocorreu na Idade Média. demonstrou à Humanidade ser esta sua Vontade. p. ao eleger determinada forma de go­ verno. 45). apud Paulo Bonavides. entre outros. conflitantes. cm qualquer estágio histórico. ou para evitar a guerra dc todos contra todos (Hobbes). p. 4. defendem-na. entre outros. onde os mais fortes impõem sua vonta­ de aos mais fracos” (Droit constitutionnel. p. por Charles Darvvin e. o Estado existe principalmente para proteger a propriedade individual. desenvolvida. haveria uma tendência natural. Léon Duguit. Em suas próprias palavras. Jean-Jacques Rousseau. foram paulatinamente se congregando e abdican­ do de uma liberdade natural perigosa e irrealizável. período em que era usual reconhe­ cer a existência de um contrato entre o governante e o povo. um acordo entre os ho­ mens. 1954. mais remotamente. da dominação dos fracos pe­ los fortes. um dos últimos. a teoria da força. Gumplowicz. A tese do contrato social surgiu de pontos de vista diversos e. Antes dele. Marx e Engels. Santo Agostinho.. Segundo tal doutrina. a paz (Hobbes) e a pro­ priedade (Locke). ra­ zão pela qual. Gobineau. definindo-o como a “instituição social que um grupo vitorio­ so impôs a um grupo vencido. Introducción a Ia teoria dei Estado. cit. seja por razões genéticas. com fundamento na afirmação de que Deus. 14-5). . Franz Oppenheimer. Por fim. é uma das mais antigas no tocante à origem do Estado. Franz Oppenheimer e Léon Duguit. havendo uma corrente do patrimonialismo que justifica sua teoria pelo fato de o próprio Estado ter o direito natural de defender sua pro­ priedade. p. pelo qual este se com­ prometia a obedecer àquele (pacta sunt servanda).Thomas Carlyle. Paris. embora limitada. a monarquia. ora para explicar a origem do Estado (Hobbes). tido por mui­ tos como seu inspirador é. qual seja. por razões radicalmente opostas. com o objetivo de organizar o domínio do primei­ ro sobre o segundo e resguardar-se contra rebeliões intestinas e agressões estran­ geiras” (Der Staat. 53). Quanto à doutrina contratualista. Stuttgart. ora para justificar o poder do príncipe. respeitável publicista do início do século X X . 5. No que tange à doutrina patrimonialista.

na qualidade de governantes. que encontra seu verdadeiro fundamento na solidariedade social e se impõe a todos. da propriedade comunista. por que você não aprova esta resposta.Claro que sei! . e mais forte que nós c lhe convem comer carne bovina para sustentar sua for­ ça física. Tra­ ta-se de instituição passageira. o poder legíti­ mo de impor suas ordens. porventura respondeu . prejudicial. . a partir do momento em que.Não duvide que vou dá-la. encontram-se submetidos à re­ gra de direito. 1981). eu disse. e seu companheiro de ideias e de lutas Friedrich Engels (1820-1895). les gouvernants et les agents”. disse então [Trasímaco]: Para mim o justo não c outra coisa que o con­ veniente para o mais forte. depois que entender o que você quis dizer. sem nunca possuir. conceituam o Estado como um fe­ nômeno histórico transitório. 1903. outras de forma de­ mocrática e. o que você quer dizer com isso. Com o Estado desaparecerá o poder político. pois nem sempre existiu e nem sempre existirá. em cada cidade não exerce o poder quem possui a força? . . Os governantes que detêm este poder são indivíduos como tantos outros. disse Trasímaco. () Estado é o produto histórico de uma diferenciação social entre os fortes e os fracos cm determinada sociedade. Como todos os indivíduos. neste caso. classe. cada go­ verno estabelece as leis conforme o que lhe convier: as democráticas. eles podem. indivíduo. Entretanto. ao tomar minhas palavras de for­ ma tendenciosa. mero resultado do aparecimento da luta de classes sociais. que aca­ bo de dar? N ão vai querer responder. (“L’État. res­ pondi.Nada disso. Trasímaco? Não vai querer dizer. neste cipoal doutrinário. Os governantes não têm o direito subjetivo de comandar. Toda manifestação de vontade dos gover­ nantes é legítima quando está conforme o direito. de forma demo­ crática. Você diz que o justo c o que interessa ao mais forte? Pois bem. confesso. O po­ der pertencente aos mais fortes.Sem dúvida! . por exemplo. de forma le­ gítima. No momento. simplesmente? . assim. passou-se à apro­ priação privada dos meios de produção. porque esta é empregada na realização do direito. ainda. Curioso sc mostra. também. p. mas apenas o po­ der objetivo de querer conforme o direito e de assegurar a realização deste. todas as outras. outras por uma aristocracia? . Karl Marx (1818-1883). é mero poder de fato. justo para nós. governantes e governados. ja­ mais legítimo em sua origem.que algumas cidades são governadas tiranicamente. pôr em prática a força de que dispõem. não sei. definido por Marx como “o poder organi­ zado de uma classe para oprimir outra” (Manifesto do Partido Conmnista. querido amigo!. o campeão da luta.Portanto. .Ouça. de forma tirânica e. o diálogo em que Platão coloca na boca de Trasímaco o seguinte: . in Études cie droit puhlic. 1-2) O pai do socialismo científico. mais fracos que ele? . que sc Polidamante. Uma vez estabelecidas.16 Teoria Geral do Estado o Estado não é uma pessoa jurídica nem soberana. só desejo que você explique mais claramente o que significam suas palavras. em detrimento da maioria explorada. maioria.Você fala com despudor Sócrates. tal alimento será conveniente e.Não sabe.Pois bem. as tirânicas.

A insegurança. ou aquilo que Jeremias Bentham denominava mínimo ético de convivência. Vivendo em socieda­ de. a incerteza e os abusos des­ truiriam a sociedade quase na rapidez de um terremoto. Clóvis Lema Garcia e José Fraga Teixeira de Carvalho. como energia elétrica. se o Direito é uma qualidade essencial de qualquer sociedade. que nem sempre c um Estado dc justiça. ou seja. de modo que. em obra primorosa: As concepções que tem idealizado o Estado dc Direito prescindindo do direito natural c encerrando-se nas perspectivas estreitas do positivismo jurídico. assim entenderem. para revelarmos o sentido da expressão Estado de Direi­ to. a fortiori do Estado. e aqueles que se afastarem deste ditame serão punidos como infratores das leis. Observam José Pedro Galvão de Souza. Daí a razão pela qual. e depende deste. mas o reconhe­ ce e estabelece as condições de exercício dos direitos subjetivos. que são aqueles que mandam. Antes de mais nada. com inteira razão. em correla­ ção com os grupos ou corpos intermediários que a constituem. meu bom amigo. É preciso entender que a lei não cria o direito. antes de mais nada. Rudolph von Ihering. Tal afirmação ainda é plenamente verdadeira. 2) 0 ESTADO DE DIREITO Ubi societas ibi jus (onde houver sociedade haverá direito). Sem um mínimo de ordem. saber o que é o direito. dentre os atribu­ tos essenciais do Estado. o justo c sempre o mesmo. Por isso. afirmava. É indispensável ter presente que no Estado não reside a fonte única das normas de direito. pois há na sociedade política.500 anos. que o Direito desprovido de força “é fogo que não queima. Cumpre partir do seu significado originário: o iu$ (de iustum). reduzem o direito à lei. Ora. para quem quiser discutir este assunto com seriedade. automóvel e mesmo educação escolar ou em­ prego fixo. É necessário compreen­ der que o direito subjetivo é uma faculdade ou um poder moral essencialmente vincu­ lado ao justo objetivo. o que é por justiça devido a outrem.3 0 Estado 17 estas leis declaram que será justo para os governados apenas o que os governantes qui­ serem. porém. é imprescindível formularmos outra indagação: o que se deve entender por D i­ reito? Sabemos que esse vocábulo não é unívoco. disse Aristóteles há 2. para conceituar e justificar o Estado de Direito. O que eu quero dizer. a expressão Estado de Direito seria tautológica. não distinguem o que c legal do que c legítimo e não vão alem dc um Es­ tado dc legalidade. refulgem o poder amparado na força. e o Direito que mo­ dela o exercício desta. a vida não seria possível nem por um instante. em sua obra clássica A luta pelo Direito. o que convem ao mais forte. Com alguma dificuldade ele viverá. mas plurívoco-analógico. ou seja. o homem pode ficar privado do conforto material c das utilidades que a tecno­ logia oferece. é que em todas as cidades será justo tudo o que os governantes. apresenta uma pluralidade de sentidos conexos. uma pluralidade de or­ . importa. luz que não ilumina”.

Então. na dignidade pessoal do homem. disso resultando que o Estado cria seu próprio Direito e impõe à sociedade a ordem jurídica a que esta deve amoldar-se. por isso a lei só é justa sc conforme a essa mesma ordem. na visão kelseniana.na identidade da ordem jurídica e da estatal. poder. tentando superar a visão estreita do neopositivismo kelseniano.. simplesmente. Consequentemente só poderá haver Estado de Direito desde que haja respeito ao direito natural.18 Teoria Geral do Estado denamentos jurídicos. na ple­ nitude do seu significado. de foro íntimo. Os chamados elementos formadores do Estado. segundo o kantismo. racionalista c voluntarista do Direito. pois esta. ideia que desenvolve à luz do formalismo positivista da sua famosa Teo­ ria Pura do Direito. um Estado de Direito social-democrático. 208-9) A concepção tradicional do Estado de Direito provém de Emmanuel Kant (1724-1804) e de Jcan-Jacqucs Rousseau (1712-1778). simplesmente. im­ plantação do sufrágio censitário (só teria direito a voto quem tivesse um conside­ rável patrimônio econômico). à vonta­ de dos detentores do poder c dos que fazem a lei. assim procede para reger os atos externos do homem. que. o Estado de Direito. que cairia como uma luva nos interesses de uma nascente burguesia. a garan­ tir a coexistência das liberdades. não o inverso. no seu destino transcendente e eterno. até mesmo. seria. territó­ rio. na liberdade do ser racional. abolição da representação profissional e outras me­ didas de caráter notoriamente individualista. respeito à ordem superior. e que pode alte­ rar via poder constituinte. independentemente da lei moral. O Estado subordinado ao Direito. disserta: .e fez escola . o que acarreta notó­ ria aporia: se o Estado se limita pelo Direito que ele mesmo cria. pertencem ao mundo exterior e passam a ter sentido apenas quando re­ lacionados ao Direito. será um Estado de Justiça. proteção absoluta da propriedade privada. Mais moderada é a ponderação de Gustav Radbruch. p. Quanto a Hans Kelsen. povo. o conjunto das normas emenadas do Estado. um Estado de Direito marxistaleninista e. Kant separava o Direito da Moral. acredita . (Dicionário de política. Ora. o justo objetivo é inerente à ordem natural. Quanto a este. como se depreende de sua concepção individualista. Nesse caso. prossegue Kant.. 1998. disciplina exclusivamente os atos internos. Daí a expressão Estado de D i­ reito Liberal Burguês para denominar a concepção de Estado intransigentemente vinculado às garantias individuais. Logo. um Estado de direito nacional-socialista. todo Estado é Estado de Direito. sendo aquele apenas um conjunto de condições destinadas. os direitos subjetivos fundam-se na pró­ pria natureza humana. Das teses de Kant exsurgem duas doutrinas bem conhecidas pelos publicistas a de Georg Jcllinck c a de Hans Kelscn. F . haveria um Estado de Direito liberal. Jellinek considerava a possibilidade da autolimitação do poder do Estado pelo próprio direito positivo. então é o Direito que depende do Estado.

cujos incisos II e VIII preconizam. (Filosofia do direito. tal fato não desqualifica aquelas que. Assim. v. mas por normas. respectivamente. caput). quando algumas Constituições adotam o sufrágio universal. Quando a maior parte das legislações oci­ dentais veda a poligamia. que constitui o núcleo da justiça. a Constituição entroniza um Estado Democrático de Direito (art. ou a soberania popular (arts. isto é. I o. quando levado logicamente às suas últimas conseqüências. toda a Humanidade reconhece e institui juridicamente. mas o que ocorre é que estamos ante um caso de ausência do direito. então não estamos ante uma lei que estabelece um direito defeituoso. se quisermos achar uma solução para o problema da anterioridade ou posteridade do Direito com relação ao Estado. que. não por fatos e realidades. I o. um preceito jurídico de direito natural na base de todas as suas cons­ truções. como o faz nosso Código Penal. considerando-a. um espectro de bom Direito. todavia. um atentado ao Esta­ do de Direito. mais para além do direito positivo e mais para além da realidade do Estado. cujas premissas serão encontradas em vários dispositivos. 1971. 354-5) Na verdade.3 0 Estado 19 somos sempre necessariamente compelidos. será instituída sua ordem jurídi­ ca. parágra­ fo único. crime contra a família (art. 4o. não podendo haver suas ordens jurídicas idênticas sem prejuízo da identidade dos povos. v. g. o que ele ordenar deve ser obedecido. tal fato não pode servir de argumento para considerar o regime familiar do sultanato oriental. Eis esse preceito: quando numa coletividade existe um supremo governante. na União norteamericana. na fe­ liz imagem de Gustav Radbruch: Quando nem sequer se aspira a realizar a justiça. 1997. como o art. Isto é: seremos levados a buscar essa solução num outro plano que não poderá deixar dc ser constituído. já se vê. representa a cosmovisão do legislador constituinte num Estado em particular e em dado momento histórico. embora haja valores universais e perenes. se valores humanos universais são violados por um suposto Direito. No Brasil. p. à expressão do pensamento ou de constituir família. Conforme as peculiaridades de cada povo. 14) . 235). tenebroso. ou.. (Le)>es que no son de­ recbo y derecbo por encima de Ias leyes. e 14). que permite ao homem ter várias esposas (poliginia). Reitere-se. 14. desde que tenha condições financeiras para isso. o positivismo jurídico c político pres­ supõe sempre. que não poderão ser as normas do direito positivo do Estado c só poderão ser as dum direito natural. Uma ordem jurídica. não é me­ nos verdade que o direito positivo dos povos acha-se impregnado de notória relati­ vidade. surge. como a brasileira (art. a colocarmo-nos mais para além dum e doutro. caput).f o direito à vida. adotam o sufrágio cultural. p. quando na formulação do di­ reito positivo se deixa de lado conscientemente a igualdade. Na verdade. por isso mesmo. como já foi mostrado (§ 10). que a própria razão assi­ mila e que. a prevalência dos direitos huma­ nos e o repúdio ao terrorismo e ao racismo. g.

pelo qual a lei vale para todos e. deve ser considerado não como um produto exclusivamente estatal. conforme seja o Direi­ to considerado criador do Estado. diz ele. sendo ambos unum et idem. mesmo porque ubi societas ibi jus (onde houver sociedade haverá direito). e a responsabilidade dos agentes públicos quanto a prejuízos causados aos particulares. são verdadeiros centros de produção de normas. São Paulo. consolidado pelas garantias inerentes ao Judiciário (vitaliciedade. Enrique R. Sansoni. as quais. como dois mundos separados que se ignoram mutuamente. v. recho y dei Estado. mas como um fenômeno verificável em todas as organizações sociais.. 1972. qualquer organização estável e individuada tem o seu ordenamento ju­ rídico próprio e. de um pluralismo jurídico. b) teoria monista. Buenos Aires. 1967. babeas corpus e man­ dado de segurança. Esta teoria se biparte em outras duas. os esta­ . e) princípio da independên­ cia funcional dos magistrados. d) princípio da igualdade jurídica ou isonomia. Coop. que reduz o Estado e o Direito a uma só entidade. olano . diz Santi Roma­ no. A tais princípios acrescentem-se as garantias constitucionais de direitos. por­ tanto. 1939. de Derecho y Ciências Sociales. Acadêmica.. Fernando Garcia e v i l a n o v a . g. c) princípio da irretroatividade da lei. Introkel- ducción al derecho.20 Teoria Geral do Estado De qualquer forma. México. como um prius deste. e concluindo. Para Santi Romano. Quanto às relações entre o Direito e o Estado. podemos extrair alguns princípios da con­ cepção dominante de Estado de Direito: a) princípio da supremacia da lei (nde of law). com a limitação do poder pelo direito positivo. assim também ao lado do D i­ reito Positivo ou estatal se encontram o Direito Canônico ou Eclesiástico. ou como criação do Esta­ do. direito. pela qual o Estado e o Direito são duas realidades distin­ tasynão relacionadas. assim como ao lado do Estado existe uma pluralidade de outras instituições mais amplas ou mais restritas. O Direito. sempre. como um posterius deste. Um grande jurista italiano. Teoria pura do direito. inamovibilidade e irredutibilidade de vencimentos). a todos deve ser aplicada. Uordinamento giuridico. portanto. Firenze. Teoria general dei de. b) princípio da legalidade. como o pró­ prio Estado. 3) DIREITO E ESTADO Bibliografia: a m a l i ó n . Qualquer institui­ ção. onde houver qualquer sociedade haverá. sen. portanto. Santi. para resguardo dos di­ reitos adquiridos. afirmou a existência de uma plu­ ralidade de ordens jurídicas. Santi Romano. Unam. surgem duas teorias principais: a) teoria dualística. José. 1979. rom an o Hans. mediante o qual ninguém será obrigado a fazer ou deixar dc fazer alguma coisa se­ não em virtude de lei.

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tutos da Máfia ou de qualquer outro bando organizado fora da lei. Então, prosse­ gue Santi Romano, não só o Estado, mas qualquer grupo social, é fonte do Direito, e se o Direito estatal é Direito, nem por isso o Direito deve ser sempre e necessaria­ mente estatal. Poder-se-ia acrescentar à tese de Santi Romano que o Estado somen­ te aparece depois de um lento processo evolutivo, ao passo que formas primitivas do Direito já regulavam a sociedade primitiva. O Estado surgiria tão somente para servir e manter o Direito, portanto é o Direito que atribui e limita ao Estado seu poder de império. Depreende-se, da teoria de Santi Romano, que podem coexistir várias ordens jurídicas: uma estatal, uma infraestatal (sociedades civis e comerciais), uma supraestatal (ONU, OEA) e uma paraestatal (indiferente ou contrária ao Es­ tado). Contra a doutrina de Romano se posiciona a teoria monística, esposada, en­ tre outros, por Hans Kelsen e Alessandro Groppali. Hans Kelsen, um dos grandes juristas do século X X , autor da obra clássica intitulada Teoria pura do direito, afirma, desde logo, que Direito e Estado se confun­ dem. O estudo do Direito e do Estado deve ser depurado, purificado - daí o título de sua obra - de toda contaminação emocional, ideológica, metafísica, sociológica ou política. Ora, um conhecimento ideologicamente livre, portanto desembaraça­ do dc toda metafísica, não pode reconhecer a essência do Estado a não ser como uma ordem coercitiva de normas. Ora, se o Estado é um sistema normativo, não pode ser outra coisa que a própria ordem jurídica positiva (imposta), já que é im­ possível admitir a validade simultânea de várias ordens normativas igualmente coer­ citivas. O Estado vem a ser, com efeito, a personalização da ordem jurídica. Poderíamos complementar tal pensamento deduzindo o seguinte: a) o Direito da sociedade arcaica, diluído no costume, se achava tão distante das formas claras, distintas e acabadas do Direito atual, como sua organização es­ tava longe do Estado moderno. b) o Direito é elaborado seguindo um roteiro traçado pelo Estado ou, pelo me­ nos, reconhecido por este (processo dc elaboração das leis e processo judicial). En­ tão, fora do Estado não pode haver Direito. c)a coercibilidade do Direito depende da atuação do Estado e, portanto, a atuação do Direito depende do Estado. d) a formação originária do Direito nos tratados confederativos e na revolu­ ção triunfante tem por base os Estados contratantes ou o Estado em que se impôs um novo regime político. l ogo, tais fenômenos jurídicos supõem a existência do Estado. Também para Alessandro Groppali, fora do Estado não pode haver Direito. As normas que qualquer outra sociedade expedir para sua própria organização e funcionamento são normas de caráter meramente social, e somente se tornam jurí­ dicas quando reconhecidas pelo Estado ou admitidas na ordem jurídica estatal. Os grupos sociais menores que existem no Estado, diz Groppali, podem ser regulados

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por um sistema próprio de normas, mas estas somente serão consideradas como or­ dens jurídicas válidas apenas 110 âmbito interno, pois, consideradas do lado de fora, isto é, do ponto de vista da ordem estatal, ficam imediatamente privadas de autono­ mia, pois sc forem contrárias à ordem jurídica estatal serão eliminadas. Mesmo uma quadrilha bem organizada, denominada societas sceleris, pode apresentar uma hie­ rarquia com especificação de “direitos” c “deveres”, c suas normas podem, ate, ser análogas às normas do Estado, mas nunca serão idênticas, pois não são verdadei­ ras, autênticas normas jurídicas; são o contrário disso. Seus membros agem em aber­ to contraste com a ordem jurídica que tutela um determinado conjunto de valores sociais. Aliás, prossegue Groppali, somente rendo como referência o Direito estatal é que podemos qualificar como ajurídicas, antijurídicas ou jurídicas as várias ordens normativas existentes. Em face de uma longa evolução histórica, ao cabo da qual seu poder tornou-se soberano (do latim superanus, supremitas, supremacia), o Es­ tado se impôs como entidade dotada de um poder incontrastável 110 âmbito inter­ no, assegurando para si, com hegemonia, o monopólio da criação das normas jurí­ dicas. Tendo Santi Rom ano afirm ado a juridicidadc das normas do Direito Canônico e do Direito Internacional, Groppali opôs as seguintes observações: quan­ to ao Direito Canônico, de fato, é um autêntico Direito, que encontra sua fonte 110 poder originário c independente da Igreja, poder que, embora de caráter espiritual, tem sobre os seguidores da religião católica uma notável eficácia. Entretanto, os fins do Direito Canônico são diversos dos fins do Estado, além do que, complementan­ do o pensamento de Groppali, lembraríamos o caráter de generalidade do Direito Estatal, seu alcance muito maior se comparado com os cânones eclesiásticos. Quanto ao Direito Internacional, Groppali afirma ser uma ordem normativa ainda em formação, sendo seus dispositivos desprovidos da eficácia que caracteri­ za as normas estatais. O Direito Internacional não possui outras fontes além dos tratados e do costume. Suas normas não são dotadas de poder coercitivo que ca­ racteriza a ordem estatal. Enquanto os ramos do Direito Positivo já apresentam um certo grau de estabilidade, o Direito Internacional nem codificado se acha, impos­ sibilitado, portanto, de atuar coercitivamente. O Estado totalitário, nas pegadas de Kelsen, considerou Direito apenas as normas estatais, sendo confrontados pela dou­ trina corporativista cristã, que afirma a necessidade de o Estado atuar apenas supletivamente perante os indivíduos e as sociedades menores, uma vez que o Esta­ do não seria a única fonte de normas jurídicas. Na verdade, Estado e Direito são irmãos xifópagos, predestinados a viver unidos, sem poder separar-se. Se, na ver­ dade, a ideia de um Direito difuso, espalhado pela comunidade primitiva, represen­ tado pelo totem ou mana, entidade espiritual que governaria os destinos da comu­ nidade, pode ser uma hipótese encantadora para explicar a precedência do Direito sobre o Estado, na verdade, quando surge este, passa tal entidade a ser a fonte su­ prema do Direito, superior em poder e eficácia a todas as outras, embora a existên­ cia destas não possa ser negada.

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4) CAUSAS CONSTITUTIVAS DO ESTADO
Bibliografia: a b b a g n a n o , Nicola. Dicionário de filosofia, São Paulo, Mestre Jou, 1982.
ARISTÓTELES.

Obras, M adri, Aguilar, 1982; Tratado dei alma.
salvetti n et t o ,

bacon

,

Francis. “Afo­

rismos sobre a interpretação da natureza e o reino do homem”, in Os pensadores, São Paulo, Abril Cultural, 1973, v. 13. Pedro. Curso de ciência política, Teoria Geral do Estado, São Paulo, Tribuna da Justiça/Hemeron, 1977, v. 1.

O conhecimento científico, verdadeiro, só é possível mediante a apuração das causas dos fatos naturais e humanos. Aristóteles, pioneiro na demonstração da ver­ dade pelas causas, já delimitara, em sua Metafísica, o termo princípio como causa em sentido amplo, abrangendo as causas formal, eficiente e final, às quais o médi­ co Galeno acrescentou a causa instrumental. Conhecer verdadeiramente, disse Fran­ cis Bacon séculos mais tarde, é conhecer pelas causas. Forte em Aristóteles asseve­ ra: “Afirma-se corretamente que o verdadeiro saber é o saber pelas causas. E, não indevidamente, estabelecem-se quatro coisas: a matéria, a forma, a causa eficiente, a causa final”. Nesta esteira de pensamento, Pedro Salvetti Netto adverte: “Não se conhece, cientificamente, pela verdade revelada nos livros sagrados, como se fizera durante a Idade Média, mas sim pela explicação causai do objeto do conhecimen­ to. Todas as coisas se explicam, considerando-lhes as causas”. Acrescentaríamos ao exposto o conceito dc causalidade, a saber, a conexão entre duas coisas, em virtu­ de da qual a segunda é univocamente previsível a partir da primeira, como assina­ la Nicola Abbagnano. Do exposto, podemos indicar quatro causas suscetíveis de revelar a natureza das coisas e dos seres: eficiente, material, instrumental, formal e final. A causa efi­ ciente (do latim facere, fazer, criar) revela o criador, o autor de algo, de modo que, num exemplo rudimentar, podemos dizer que a causa eficiente da mesa que tenho diante de mim é o marceneiro que a fez. Causa ou causas materiais vêm a ser a ma­ téria, o material com que este confeccionou a mesa (madeira, cola, pregos). Causa ou causas instrumentais, por sua vez, seriam os instrumentos utilizados no traba­ lho (martelo, serrote, formão). Causa formal seria a própria forma, aparência da mesa, permitindo-nos distingui-la de uma cadeira ou de outras mesas, embora to­ das resultantes da mesma causa eficiente, material e instrumental, faculdade ine­ rente mesmo aos deficientes visuais. Finalmente, a causa final, que nos revela o por­ quê da mesa, ou seja, sua finalidade. Para um selvagem, a mesa pode significar simplesmente um abrigo contra a chuva; para um homem civilizado, é um objeto para colocar alimentos e tomar refeições, redigir ou ler. Pois bem, se transportarmos essas ponderações para a sociedade em geral, per­ cebemos que essa nos revela, com clareza, sua causa eficiente (fundadores), causas

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Teoria Geral do Estado

materiais (seres humanos e base física), formais (órgãos diretivos e normas regula­ doras) e a final (pode ser de várias naturezas, conforme a espécie de sociedade). Em certas situações, seria polêmico, quando não embaraçoso, demonstrar a causa efi­ ciente da primeira sociedade, na verdade do próprio ser humano: Deus? Obra do acaso? Qual teria sido a primeira causa material? O barro, com que o Criador fez o homem e, de uma costela deste, a mulher? Questão de fé! Quanto ao Estado, se quisermos estudá-lo cientificamente, devemos fazê-lo mediante o estudo de suas causas constitutivas. Tal estudo se mostra indispensável, pois nos permite desconstruí-lo, estudando, pormenorizadamente, cada um de seus elementos. As causas constitutivas do Estado são materiais, formais e final. São causas materiais do Estado o povo, ou o elemento humano, e o território, ou base física, área material ou ideal em que o Estado faz valer seu Direito positivo. Quanto às causas formais, vale dizer, aquelas que identificam o Estado quanto à sua forma ju­ rídica ou constituição política, graças à qual um Estado não se confunde com ou­ tros - daí, a importância dc conhecer o Estado por sua constituição! - são a ordem jurídica e o poder político, exercido pelos governantes (do grego kubernetes, pilo­ to dc embarcação) que o encarnam em dado momento histórico. Quanto à causa final do Estado, vale lembrar que cada sociedade tem, conforme sua natureza, uma causa final específica. Assim, uma sociedade beneficente tem por causa final a prá­ tica da benemerência; outra, esportiva, tem por finalidade o aperfeiçoamento físi­ co e o lazer de seus filiados, enquanto uma sociedade empresarial tem por objeti­ vo o lucro, mediante a prática habitual de atos mercantis. Quanto ao Estado, tem por causa final o bem comum de todas as sociedades menores que atuam em seu território. O adjetivo comum atribuído ao bem visado pela sociedade política é bastante sugestivo: o Estado existe, por evidente, para rea­ lizar o bem-estar geral de todos, no tocante, por exemplo, à educação, à saúde e à segurança. Analisemos cada uma destas causas.

4.1) Causas m ateriais
4.1.1) Povo

Bibliografia:
1966.

a za m b u ja

,

Darcy. Teoria geral do Estado, 4. cd., Porto Alegre, Globo,
falcão,

b o n a v id e s ,

Paulo. Ciência política, Rio dc Janeiro, Forense, 1978.

Al-

eino Pinto. Parte CeraI do Código Civil, Rio de Janeiro, Konfino, 1959.

maluf,

Sahid. DenniPedro.

Teoria geral do Estado, 13. ed., São Paulo, Sugestões Literárias, 1982.
son. Os soldados brasileiros de Hitler, Curitiba, Juruá, 2008.

o l iv e ir a

,

salvetti n e t t o ,

3 0 Estado

25

Curso de teoria do Estado, 4. ed., São Paulo, Saraiva, 1981.

sil v a ,

José Afonso da. Cur­

so de direito constitucional positivo, 2. ed., São Paulo, Revista dos Tribunais, 1984.

População é a totalidade das pessoas que se acham, num dado momento, em determinado Estado. Tal conceito inclui toda e qualquer pessoa, independentemen­ te de nacionalidade, idade, situação política etc. Por isso, quando dizemos que o Brasil tem uma população de quase duzentos milhões de habitantes, estamos em­ pregando corretamente o vocábulo. População é conceito eminentemente numéri­ co, quantitativo, demográfico e, portanto, não interessa, de imediato, ao Direito. Povo, todavia, é termo que pode revelar um conceito jurídico ou um conceito po­ lítico. São conceitos análogos, porém inconfundíveis. Com efeito, a palavra povo sugere pluralidade de sentidos análogos, sendo, portanto, plurívoco-analógica. Em sentido vulgar, ela pode designar as pessoas residentes de um bairro qualquer ou uma comunidade unida pela religião, pelo idioma ou pela etnia. Pode, até, ser em­ pregada pejorativamente, ao designar a parte menos instruída da sociedade, ou aquela colocada em posição hierarquicamente inferior das categorias sociais. Por exemplo, na França pré-revolucionária, havia três estamentos, pela ordem, clero, nobreza e povo, o célebre Terceiro Estado. A democracia grega, quando se referia à assembleia do povo, indicava uma minoria seleta que, pelos dotes intelectuais e pela origem, podia deliberar politica­ mente durante todo o dia. Tal atividade era denominada ócio, bastante respeitada então e longe de sofrer o sentido pejorativo de hoje. Aqueles que não tinham o di­ reito de deliberar, que não podiam nem mesmo residir na cidade, eram os nec ócio, isto é, os negociantes, escravos e estrangeiros. Montesquieu afirmava que o povo não podia ser confundido com a ralé, o populacho, devendo ser proibido o direito de voto àqueles que se encontrassem num estado demasiadamente profundo de baixeza. Dizia este notável pensador que, mesmo no governo do povo, o poder não poderia cair nas mãos do baixo povo. Madame de Lambert, discípula de Montesquieu chegou a definir o povo: “Chamo povo todos aqueles que pensam de maneira baixa e vulgar” . Não foi à toa, portanto, que a palavra povo já foi tida como o grande troca­

dilho da História. Classificada a palavra povo como plurívoco-analógica, sua análise torna-se mais fácil, cm que pese a diversidade de sentidos que ela apresenta. Ao Direito, em especial o direito constitucional, interessam os sentidos jurídico e político. Povo, no sentido jurídico, é o conjunto de indivíduos qualificados pela nacionalidade. Nele não sc incluem, já sc vê, estrangeiros e apátridas. Todavia, o sentido político é ain­ da mais restrito, pois exclui não só estrangeiros c apátridas, como também os me­ nores de 16 anos (CF, art. 14, §§ I o, II, c, e 2o), estando o povo político, tido como o conjunto dos cidadãos do Estado, vinculado à ideia de cidadania. Como se vê, não

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Teoria Geral do Estado

basta ser nacional para se obter a cidadania; a nacionalidade é pressuposto, condi­ ção necessária, mas não suficiente para alcançar o status de cidadão. A idade do na­ cional se mostra o grande empecilho à obtenção da cidadania, como se observa no art. 14, §§ I o, 1, e 3o, VI, a a d, da Constituição Federal. Todavia, há outras restri­ ções, como aquelas impostas aos militares no art. 14, § 8°, e a cassação de direitos políticos, nas hipóteses do art. 15. A nacionalidade, então, e vínculo meramente ju­ rídico, pertinente a direitos civis, em razão do local de nascimento ou da ascendên­ cia paterna (nacionalidade originária), ou, ainda, de manifestação de vontade do próprio interessado (nacionalidade secundária, obtida mediante naturalização). Na­ cional, portanto, é o brasileiro nato ou naturalizado, que integra o conceito jurídi­ co do povo, ao passo que cidadão é o nacional no gozo dos direitos políticos. Há dois critérios para a determinação da nacionalidade: o jus soli e o jus sanguinis. O jus soli leva em conta o local de nascimento do indivíduo, o solo, enfim. Trata-se de um critério normalmente adotado por Estados de forte contingente imigratório, isto é, que recebem imigrantes, estimulando-os a se radicarem, para compensar a rarefação demográfica. Por outro lado, o jus sanguinis é um critério dcterminativo da nacionalidade que considera a ascendência, o sangue paterno do indivíduo, para conferir-lhe a nacionalidade. Trata-se de critério típico de Estados de forte emigra­ ção, com o que se busca preservar a nacionalidade mediante a consangüinidade. O fundamento do jus sanguinis pode resvalar, perigosamente, o racismo, como ocorreu na Alemanha nacional-socialista, por acaso com cidadãos brasileiros. O pro­ fessor de História Dennison de Oliveira, em original e elucidativa monografia, tomou o depoimento dc um brasileiro descendente de alemães que, achando-se na Alemanha em 1943, foi convocado para o serviço militar em plena Segunda Guerra Mundial, pior, quando a derrota do país já se avizinhava. Assim o autor descreve o episódio:
Tendo atingido a idade para alistamento, ele compareceu diante da junta do ser­ viço militar local. Sua primeira inspiração foi alegar a condição de brasileiro (brasilia-

ner), nascido em São Paulo, como demonstravam seus documentos de identidade. Em
resposta teria ouvido a seguinte pergunta do encarregado do alistamento: “Mas se você

tivesse nascido na África isso faria de você um negro?”. Desconcertado, respondeu que
não, ouvindo em seguida a decisão de que ele teria de se alistar, uma vez que era des­ cendente de alemães. De fato, nos termos da jurisprudência alemã relativa à naciona­ lidade prevalece o princípio do jus sanguinis, isto é, aquela que deriva da nacionalida­ de dos pais, independentemente do local de nascimento (jus solis) que é típica da cultura brasileira, por exemplo.

De nada adiantou a alegação do pobre recruta de que lhe seria penoso lutar até a morte contra outros brasileiros; na iminência de uma condenação à morte por desobediência, acabou sendo salvo por um oficial médico nascido de pais alemães, imaginem, na Namíbia. O facultativo, sensibilizado pela situação do nosso brasi-

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lianer, conseguiu para este uma internação hospitalar por suposta moléstia conta­ giosa, que acabou livrando-o do processo... Um caso banal como este esclarece, mais que muitos livros sobre a matéria, como o nacional-socialismo encarava o ser humano; para ser um bom alemão, o importante era o sangue, não importava o local de nascimento, tanto que o pró­ prio Hitler não era natural da Alemanha, e sim austríaco. Daí, a política dc anexa­ ção, à Grande Alemanha, de territórios em que habitariam os chamados alemães raciais, residentes fora do Terceiro Reich, levando à prática o lema nacional-socialista: “Povos do mesmo sangue devem pertencer ao mesmo Estado A Constituição do Brasil adota um critério intermediário, pois faz concessões ao jus soli (art. 12,1 , a), e ao jus sanguinis (art. 12,1 , b e c). Pode ocorrer que o indi­ víduo não tenha nacionalidade, sendo, então, apátrida (sem pátria), submetido, em tal caso, à Convenção sobre o Estatuto dos Apátridos, adotada em 28.09.1954, pela Conferência de Plenipotenciários convocada pelo Conselho Econômico e Social das Nações Unidas, em sua Resolução n. 526-A (XVII), de 26.04.1954, tendo entrado em vigor no dia 06.06.1960. Se tiver mais dc uma nacionalidade, o indivíduo será polipátrida. Os critérios atributivos da nacionalidade decorrem da própria sobera­ nia do Estado, não da vontade dos interessados, de maneira que o apátrida estará nesta condição independentemente dc sua vontade, valendo o mesmo para o polipá­ trida. Quanto à naturalização (CF, art. 12, II), é forma de aquisição secundária ou derivada da nacionalidade. Pode ser expressa ou tácita. A naturalização expressa é aquela que resulta de pedido do interessado (CF, art. 12, II, a e b); a tácita, aquela que se confere ao indivíduo por iniciativa do próprio Estado (CF, art. 12, § 1°). No que se refere ao povo político, reitere-se que tal conceito liga-se, de imedia­ to, ao de cidadania. Com efeito, sendo proveniente do latim civitas (de eives, cida­ dão), o termo cidadania denomina o vínculo político que liga o indivíduo ao Estado, fruindo o cidadão de direitos e deveres de natureza política, com evidente exclusão dos estrangeiros. O termo povo contido no art. Io, parágrafo único, da Constituição Federal confunde-se com o conceito de cidadania, pois congrega exclusivamente os nacionais dotados de direitos políticos, nas diferentes gradações apontadas pela Cons­ tituição (art. 14, §§ I o a 9o). Portanto, nunca será demasiado repetir que, ao decla­ rar, no art. 1°, parágrafo único, que “todo o poder emana do povo”, a Constituição Federal refere-se ao conceito político do povo, excluindo estrangeiros, apátridas, me­ nores de idade, e, nos termos do art. 14, § 2o, os conscritos durante o período do ser­ viço militar (do latim conscriptu, recrutado, alistado, recruta).

4.1.2) N ação

Bibliografia:
1968.

a za m b u ja

,

Darcy. Teoria geral do Estado, 4. ed., Porto Alegre, Globo,
delos

b o n a v id e s ,

Paulo. Ciência política, Rio de Janeiro, Forense, 1986.

,J.T .

4. Certo. s. ed. um princípio espiritual. é que a nação não se confunde com o Estado. ela ostenta “caráter fugaz. entre povo c nação: “a noção de povo não sc refere às qualidades físicas ou psíquicas dos ho­ mens.como o indivíduo . Saraiva. Ernesto. 1983. que se forma com o passar do tempo. de grandes homens. como afirma Sestan.. Por isso. Possuir glórias comuns no passado e vontade comum no presente. Desclée Brouwer. sã dc espírito e cálida dc coração.d. mas a nação somente se forma mediante demorada gestação. é entidade pura­ mente normativa” . o consenso atual. mantendo-se gra­ ças à coação exercida sobre cidadãos ou súditos.. nem da direção das cadeias dc montanhas. Nossos ancestrais nos moldaram o que hoje somos. pois. Uma grande agregação dc homens. Buenos Aires. o desejo de viver junto. Curso de di­ Madrid. O povo. como objeto dc estudo da Teoria Geral do Estado. Revista dos Tribunais. com sutileza. Com efeito. nem dc sua religião. s il v a . Centro de Estúdios Constitucionales. porque. São Paulo. Uma encontra-se no passado. no presente. ao passo que aquela tem caráter tipicamente so­ ciológico. O homem não c cscravo nem dc sua raça. eis a condição para se ser um povo! E prossegue: Ama-se a casa que se construiu e se transmite. uma realidade eminentemente sociológica. uma nação? Seria a raça o único ingrediente a compor a receita da nação? Vacher da Lapouge. entretanto.c conseqüência dc longo passado dc esforços. salvetti n e t t o . Hans Kelsen distingue. Curso de José Afonso da. eis o capital so­ cial em que se assenta a ideia nacional. ed. A nação . nem dc sua língua. Dizia Ernesto Renan (1823-1892): Uma nação é uma alma. cria uma consciência moral que sc chama nação! A nação é. dentre todos. de glória. nem do curso dos rios. o hino abreviado dc toda pátria. Para muitos autores. Uma é a posse comum de um rico legado de tradição. Que es tina nación Pedro. c o mais legítimo. dc sacrifícios c dc desenvolvimento. reito constitucional positivo. O canto espartano: Somos o que fos- tes. ter realizado grandes obras em conjunto e querer realizá-las ain­ da. Gobineau e Houston Stewart Chamberlain. Um passado heroico. assim como o principal ideólogo do . São Paulo. até que se sedimente aquele espírito nacional oriundo das tra­ dições e costumes comuns. na sua simplicidade. o Estado pode surgir até dc modo abrupto. a outra. O cul­ to dos antepassados. a outra. seremos o que sois é. 1989. plurissignificante e até equívoco”. renan . a vontade de prosseguir fazendo valer a heran­ ça por todos recebida. porém. Que será. 1981. pois este envolve um conceito eminentemente jurídico. O homem não sc improvisa. teoria do Estado. 5. a nação não pode ser satisfatoriamente definida.28 Teoria Geral do Estado La nación.

se não Shakespeare? Tal linha de pensamento talvez seja a mesma de Hegel (1770-1831). como adverte Renan. preco­ nizados por Mancini. Por outro lado. é possível ser francês. não há uma só raça pura e. H á Estados ou comunidades nacio­ nais onde se falam vários idiomas. confundiu povo. fala-se italiano. ainda que estejam diversi­ ficados em leis.3 0 Estado 29 nacional-socialismo. pois que a História é mais sábia que qualquer razão individual. inspirando-se nestes autores. alemão. Portanto. Pode haver uma só religião em vários Estados. línguas. Haveria. como há Esta­ dos em que se professa mais de um credo religioso. D aí as palavras de Ernesto Renan: “Já não há religião de Estado. permanecer existindo. espon­ taneamente. A religião é individual. inglês. que restam no passado. . religiões e nações”. isto é. eminente historiador e biógrafo. Dante. se tomado isoladamente. costumes. francês c alemão. Alfredo Rosenberg. achavam que sim. sendo protestante ou católico ou israelita ou mesmo ateu. Dizia Thomas Carlyle (1795-1881). Na verdade. seria este a religião? Também não. que a “ História Universal é no fundo a História dos grandes homens”. Platão? O que é a Inglaterra. Pedro Salvetti Netto afirma que dos elementos constitutivos da nação. Jean Bodin (1530-1596). dos fatos heroicos. que resultaria a identidade de sentimentos que leva uma comunidade a querer. Se a raça não é o elemento imprescindível da nação. quando governa­ dos pela potência soberana de um ou diversos senhores. autor da célebre obra Dos seis livros da República. Mazzini? O que é a Gré­ cia. O nacionalsocialismo. A Alemanha é metade protes­ tante e metade católica. se não César. É das tradições comuns que brota o espírito da nacionalidade e o patriotismo. Se a religião não é o elemento imprescindível para formação da nação. representada por nações superiores a outras. Seria das tradições comuns. para Bodin. se não Péricles. sem contestação (Der Führer hat immer recht). nas raças hu­ manas. Na Suíça. o Es­ tado precede à nação. afirmou que “de muitos cidadãos se faz um Estado (república). contempla a consciência de cada um ”. comandada por um úni­ co líder. “uma su­ cessão de biografias que representam o espírito de cada nação de que cada grande homem faça parte” . uma hierarquia. para quem tais grandes ho­ mens seriam o instrumento da evolução histórica. “assentar a política na análise etnográfica é pretender assentá-la sobre uma quimera”. E quem poderia recusar ao povo suíço sua condição de nacional? Diz Renan: “Será que não é possível ter os mesmos sentimentos e pensamen­ tos e amar as mesmas coisas em línguas diferentes?”. o catolicismo predomina em toda a Amé­ rica Latina. nação e raça com uma unidade biocspiritual de sangue e solo (blutt und boden). apenas as tradições e os costumes devem ser levados em con­ ta quanto à criação de um espírito nacional. O que é a Itália. seria este o idioma? Também não.

“Nosso mito [prossegue] é a nação” (Escritos e discursos. p. 370). tradições. Benito Mussolini (1883-1945) não se preocupa em definir a nação. A sociedade nada mais e que uma vida comum: uma pessoa indivisível que pensa e sente. Apesar das restrições a um conceito universal de nação. um valor”. Para Mussolini. lín­ gua. que segue Bodin em tal pensamento. criadora e conquistadora. Diz ele: “Para que se possa dizer que um Estado forma um todo vivente e que c uma grande individualidade. “é uma fé. nem mesmo é necessário que seja real. a organização do Estado deve ser confundida com o espíri­ to nacional. in­ titulada Vida dos povos na humanidade. Novalis c Schlegel influenciaram o conceito naturalístico dc nação. é antes de mais nada um mito. é preciso que o Estado ou nação continuem vivendo sua vida histórica e que desenvolva e mantenha a vitalidade em seus órgãos”. Por isso. o Es­ tado deve confundir-se com a nação. pois a política não é senão a forma de que se reveste a ação em sua vida pública. 2. O que é um mito? O mito. Segundo Novalis. Será uma realidade 110 sentido de que é uma fé. ação atual. E o espírito. não faltam definições formuladas por autores de peso. para Novalis e Schlegel. Também para o fascismo. o Estado for­ ja a nação. na qual a unidade de território. b) elementos históricos: costumes. levado às últimas conseqüências durante o nazismo. formados pela História. o Estado pode forjar a consciên­ cia coletiva. que definia a nação como “uma socieda­ de natural de homens. a nação deve estar identificada ao Estado. O próprio Mancini aponta os elementos formadores de uma nação: a) elementos naturais: nação. território. um dos chefes do Partido Liberal italiano e autor de uma obra célebre. sob o aspecto raça. esta. p. a solidariedade psicológica (expressão de Miguel Reale). de língua e a comunhão de vida criaram a consciência social” . de origem. que encerra em si o espírito e a vida.30 Teoria Geral do Estado Para Friedrich von Hardenberg (1772-1801). Dentre estes. O espírito deve ser presente. a seu ver. “A nação [diz ele] é fun­ damentalmente espiritual” (cit. na concepção fascista não é algo pretérito. Pasquale Estanislao Mancini (18171 888). a nação é uma ideia. A mesma vida que anima a nação há de vitalizar o terreno político. formada pela cultura e pela religião. t. conhecido como Novalis. Contemporaneamente. elaborados no decurso das idades. t. Diz ele: A nação é um organismo histórico vivo. ardente inimigo das concepções mecanicistas e racionalistas do Estado. religião e leis. Portanto. arquivado no museu da História. André Hauriou define a nação como “o grupo humano 110 qual os indivíduos se sentem mutuamen­ . A nação deve ser con­ cebida à maneira de um corpo místico ou de um organismo internamente animado pela vida espiritual. a sociedade c o Estado são organismos vivos.. de costumes. como essência. diz o Duce. uma esperança. 3. Para Friedrich von Schlegel (1772-1829). 187). uma paixão. c) ele­ mento psicológico: consciência nacional.

1. Paulo. cidadão é o nacional no gozo dos direitos po­ líticos”. id est. Por isso. como se vê. Rio de Janeiro. utilizar a força (coerção) para ver suas determinações cumpridas pelos súditos. não provém. m e jía . receio. impor respeito às demais sociedades políticas. aquele que se vincula. Ciência política. causo medo. pre­ . quod magistratus eius loci in­ tra eos fines terrendi. Outro autor moderno. de afugentar”). e o jus sanguinis. bem como conscientes daqui­ lo que os distingue dos indivíduos integrantes de outros grupos nacionais” . Alessandro. dc língua. que considera a ascendência do indivíduo. lacios.1 . da ascendência paterna ou da manifes­ tação de vontade do interessado. Diziam. mesmo porque o Estado exerce o seu poder antevendo a possibilidade de. 1968. não importando o local de nascimento (CF. b e c). Note-se a expressão pré-jurídicos nes­ ta definição. a). submovendi ius babet” (“Território é a universalidade das terras dentro dos limites de cada Estado. Sugestões Literárias. A palavra território apresenta uma etimologia à primeira vista estranha. to­ dos estes fatores agregativos e pré-jurídicos”. Há dois princípios básicos para a aferição da nacionalidade: o jus soli. Introducción a la teoria dei Estado. 1 2 . Bogotá. espaço geográfico. isto é. dentro destas terras. ed. Saraiva. de história. territo. isto é. por nascimento ou naturalização. Tcmis. procura. 1965. 9. a qualquer momento. Forense. Dicionário de brocardos jurídicos. em razão do local de nascimento. art.1 . Aldo Bozzi. cujo conjunto forma o povo. mas do verbo latino terreo. 1979. de literatura e dc arte. conforme se poderia pensar. Quanto à nacionalidade. Victor. para manter a soberania ín­ tegra. dc nada ligado à terra. r o d r ig u e s Dirccu A. na força das armas.. define a nação como: “o sentimento derivado da co­ munhão dc tradição. alguns o chamam assim porque o ma­ gistrado desse lugar tem o direito de. Hugo Pa. também: “Se vis pacem para bellum ” (“se queres a paz. o solo (CF. 2. Doutrina do Estado. que leva em conta o local de nascimento. diziam os romanos: “ Territorium est universitas agrorum intra fines cuiusque civitatis quod ab eo dictum quidam aiunt. ed. ao território do Brasil. São Paulo. consiste no vínculo jurídico que liga o indivíduo ao Estado. 1978.3) Território Bibliografia: b o n a v i d e s . 12.3 0 Estado 31 te unidos por laços tanto materiais como espirituais. São Paulo. a atestar que a nação precede o Estado. ora ao jus sanguinis. art. José Afonso da Silva diz que “nacional” é o brasileiro nato ou naturalizado. fa­ zendo concessões ora ao jus soli.. aterrorizar. adota um critério misto. de religião. ou seja. Di­ ga-se o mesmo no âmbito externo. g r o p p a ­ l i. intimido. A Constituição Federal. quando o Estado. 4.

designando. cunhou. ideal. este úl­ timo vocábulo. seja para expandir-se à custa de seus vizinhos. Nesse sentido. ao pas­ so que a civitas era o elemento humano vivente na urbs. atenta ao estado de tensão política que lateja entre os Estados contemporâneos.que “onde fosse ouvida uma canção alemã. 5o. O Direito Romano já fazia uma distinção entre o território e o elemento hu­ mano nele vivente. seja para conservar-se íntegro. o jargão: “ O preço da liberdade é a eterna vigilância”.. Conceito geográfico é o de base física e o de país. o conceito de território é jurídico-político. respectivamente.32 Teoria Geral do Estado para-te para a guerra”). do clima. Era o prenuncio do cxpansionismo nacional-socialista. as características telúricas da base física de uma sociedade política. Assim. um dado eminen­ temente abstrato. aí esta­ ria a Alemanha”. na qual o Esta­ do exerce seu poder soberano..bazófia ou ameaça . de natureza pública ou a serviço do governo bra­ sileiro onde quer que se encontrem. é o caso da extraterritorialidade das leis. pode o território ser definido como a área física ou ideal em que o Es­ tado exerce. mera base física. o Estado manifesta o seu poder de império também sobre seus súditos que se encontram em outros Estados. Se o território fosse mero espaço geográfico. Então. sobre os homens de determinada região. ruas e logradouros. Por isso. seu poder de império ou seu direito de proprieda­ de sobre pessoas e coisas. sempre com o in­ tuito de intimidar. Com efeito. in verbis: Para os efeitos penais. Daí o espaço aéreo. e a modernidade. com exclusividade. Ademais. isto é. estamos referindo-nos a um país e não a um território propria­ mente dito. como uma ficção jurídica. Tais arroubos e brocardos constituem um sintoma inevitável de que o Estado se mantém permanentemente em atitude de defesa ou dc ataque. bem como as aeronaves e as embarcações brasi­ leiras. do Código Penal brasileiro. § I o. quando nos referimos à influência do solo. . o Estado exerce jurisdição sobre pessoas (poder de império) e direito de propriedade sobre seus bens. no mesmo diapasão. no espa­ ço aéreo correspondente ou em alto-mar. como veremos mais adiante. fazse oportuna a disposição do art. a faixa de fronteira de um Estado tem caráter muito mais estratégico do que político. consideram-se como extensão do território nacional as embarcações e aeronaves brasileiras. mercantes ou de propriedade privada. faz parte do território do Estado cuja bandeira ostenta? Assim. a urbs era o conjunto de edifícios. como ex­ plicar que um navio militar. que se achem. as belonaves militares e as embaixadas serem considerados partes integrantes do território do Estado. cm nome do chamado espaço vital. impor-se às outras sociedades políticas. Hitler costumava afirmar . não simplesmente geográfico. o território tanto pode ser uma parcela do solo. com rara fe­ licidade. em águas territoriais pertencentes a estado diverso. Por outro lado.

zona de transição para o espaço cósmico. dos princípios do Direito Internacional e da Carta das Nações Unidas. devendo haver liberdade de acesso a todas as re­ giões dos corpos celestes. ao espaço exte­ rior e aos corpos celestes. entretanto. I o). Neste predominam as normas de Direito astronáutico. em águas ou ares que não pertençam a outro Estado. inclusive a Lua e os demais corpos celestes. Firmou-se a doutrina de que o espaço cósmico fica sob o império do Direito Internacional. Depois. com a criação. importância muito grande: o espaço aéreo e o mar territorial Sobre o espaço aéreo. bem como o direito dc todos os Estados levarem a cabo explora­ ções cósmicas e a inapropriabilidade jurídica dos corpos celestes. inclusive da Lua e demais corpos celestes. de 100 a 600 km. O espaço cósmico. devendo. deverão ter em mira o bem c o interesse de todos os países. que proclamou a extensão. Este tratado determina que a exploração e o uso do espaço cósmico. a estratosfera. O espaço cósmico. com cerca dc 100 km. independentemente do local onde se encontrem. Quanto aos navios ou aeronaves militares. e a exosfera. estará aberto às pesquisas científicas. dando-se o inverso caso tais navios ou aviões estejam em águas ou ares do segun­ do. de 10 a 12 km de altitude. qualquer que seja o estágio de seu desenvolvimento econômico e científico. inclusive a Lua c os demais corpos celestes. Em 1961 foi criada a Resolução n. tal espaço compreende quatro camadas. Por outro lado. estão sob a jurisdição do primei­ ro. em 1958. nor­ malmente não conferidas às aeronaves particulares. não poderá ser ob­ jeto dc apropriação nacional por proclamação de soberania. 2°). Desta forma. por uso ou ocupação. Nesse sen­ tido. o espaço cósmico. inclusive a Lua e os demais corpos celestes. a ionosfera. em condições de igualdade e em conformida­ de com o Direito Internacional. em 1967 foi firmado o Tratado sobre Princípios Reguladores das Atividades dos Estados na Exploração e Uso do Espaço Cósmico. bem determinadas: a troposfcra. . e são incumbência de toda a Humanidade.3 0 Estado 33 Dois elementos do território apresentam. encontrar-se-ão sempre sob a jurisdi­ ção do Estado a que pertençam. pela Organização das Nações Unidas . devendo os Estados facilitarem e en­ corajarem a cooperação internacional naquelas pesquisas (art. interplanetá­ rio. os aviões civis de natureza pública usufruem de intangibilidade ao sobrevoarem ares estrangeiros. modernamente. a soberania do Estado alcança uma altitude que justi­ fica um interesse público que possa reclamar a ação do poder político. sem qualquer discriminação. inclusive a Lua e os demais corpos celestes. livremente. nem por qualquer outro meio (art. também denominado interestelar. poderá ser explorado e utilizado. ser reservada uma zona de passagem inocente do território às aerona­ ves estrangeiras.O N U -. No espaço aéreo predomina a teoria de Westlake (soberania plena). bem como de isenções fiscais. Navios ou aviões civis que se encontrem fora do território de um Estado. da Comissão para o uso pacífico do espaço cósmico. espacial ou cósmico. por todos os Estados. 1.721.

com a evolução do armamento bélico. A observação dos infinitos recursos do mar ensejou a ampliação do mar territorial. qual seja. determina. diz o art. quan­ do o comandante da aeronave tiver motivos justificados para crer que uma pessoa cometeu ou está na iminência de cometer a bordo uma infração ou um ato previsto 110 art. em largura variável. que é a altura mais baixa atingida pela maré. visto que os Estados alargaram a extensão de seu mar territorial na proporção inversa de seu desenvolvimento tecnológico. c) para permitir-lhe en­ tregar essa pessoa às autoridades competentes ou desembarcá-la dc conformidade com as disposições da Convenção que disciplinam a matéria. IV que o Estado contratante que não for o da ma­ trícula não poderá intervir no voo de uma aeronave a fim de exercer sua jurisdição penal em infrações cometidas a bordo. b) a infração tenha sido cometida por ou contra um nacio­ nal desse Estado ou pessoa que tenha aí sua residência permanente.34 Teoria Geral do Estado A Convenção Relativa a Infrações e a Certos Outros Atos Praticados a Bordo de Aeronave. se aplicada. III. realizou-se em Montevidéu. depois. O art. que sejam necessárias: a) para proteger a segurança da aeronave e das pessoas e bens a bordo. inclusive coercitivas. Por outro lado. distantes de seu litoral. Desta forma. a largura do mar territo­ rial é calculada a partir da linha de baixa-maré (baixa-mar). as sinuosidades da linha litorânea. esta teoria ruiu. onde alcançasse um tiro de canhão: terrae potestas finitur ubi finitur armorum vis. poderá impor a essa pessoa medidas razoáveis. 110 art. porque. e) seja necessário exercer a jurisdição para cumprir as obrigações desse Estado. sim­ plesmente. já não existiriam tais águas. Ora. aí o di­ reito (ubi vis ibi jus). em virtude de um acor­ do internacional multilateral. e que integra o território do Es­ tado. VI contém importante disposição. Inicialmente. ou: onde bá força. vem a ser a faixa marítima que acompanha. é a faixa marítima que banha as costas de um Estado e que se acha sob o poder de império deste. o interesse eco­ nômico sobrepujou o fator político. de 1963. no ano de 1970. d) a infração constitua uma violação dos regulamentos relativos a voos ou manobras de aeronaves vigentes nesse Estado. isto é. pois com muito maior facilidade os Estados mais desenvolvidos tecnologicamente pode­ riam buscar as riquezas submersas. a Primeira Confe­ rência Latino-Americana sobre Direito Marítimo. com a participação de nove Es­ . predominava a doutrina de que a soberania do Estado sobre o mar iria até onde a vista humana tivesse alcance. Em outras palavras. Normalmente. Como acentua Salvetti Netto. com a evolução do arma­ mento. § I o. a menos que: a) a infração produza efeitos no território desse Estado. passou a predominar a doutrina de que o poder do Estado no mar territo­ rial cessaria onde terminasse o poder das armas. b) para manter a boa ordem e a disciplina a bordo. que o Estado de matrícula da aeronave será competente para exercer a jurisdição sobre infrações e atos praticados a bordo. todos os mares seriam águas territoriais ou. atualmente bastante sofisticado. c) a infração afe­ te a segurança desse Estado. item I o. 1°. Quanto ao mar territorial.

revogou este decreto. emitiram nota de apoio ao limite de 12 milhas apenas. § 1° Considera-se passagem inocente o simples trânsito pelo mar territorial. Uruguai. A conferência debateu a exploração das riquezas do mar. realizadas por iniciativa da O N U . Esta norma acompanhou a Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar. já em fevereiro de 1970. referente à largura do mar territorial.mediante o Decreto-lei n. medidas a partir da linha dc baixa-mar do litoral continental c insular brasi­ leiro. Argentina. em que pesem os esforços desenvolvidos por organismos internacio­ nais. 8. Assim. duas Conferências sobre o Di­ reito do Mar.1993. agora. do qual transcrevemos. os arts. El Salvador. tal como indicada nas cartas náuticas dc grande escala. sem o exercício de quaisquer atividades estranhas à navegação e sem outras paradas que não as incidentes à mesma navegação. Importante ressaltar que já em 1958 e 1964. de 04. A ampliação unilateral do mar territorial provoca dificuldades nem sempre solucionadas. reconhecidas oficialmen­ te no Brasil. de 1982. enquanto este limite não fos­ se fixado. Art. não reconheceriam águas territoriais mais amplas do que 3 milhas.01. I o e 3° e o § 1° deste: Art. 3o. 1.03.1970. cujo art. limi­ te aceito sem objeção por todos os Estados. os Estados Unidos.não esquecer que um dos principais produ­ tos de exportação daqueles dois Estados é o atum! . 3° É reconhecido aos navios dc todas as nacionalidades o direito de passa­ gem inocente no mar territorial brasileiro. Já em 25. medidas a partir da linha da baixa-mar do litoral continental c insular brasileiro adotado como referencia nas cartas náuticas brasileiras. O art. Vale lembrar que os principais oposi­ . o Brasil acompanhava Peru c Equador na ampliação de seu mar territorial para 200 milhas . Chi­ le e Peru. Panamá. A Lei n. medidas a partir de linhas de base determinadas de conformidade com a presente Conven­ ção”.617. I o desta lei diz que o mar territorial brasileiro compreende uma faixa dc 12 (doze) milhas marítimas de largura. a repressão ao contrabando. conhecida por Convenção de Montego Bay.098. 1° O mar territorial do Brasil abrange uma faixa dc 200 (duzentas) milhas marítimas dc largura.3 0 Estado 35 tados: Brasil. que. a segurança nacional. Nicarágua. o controle de navegação para evitar polui­ ção das águas e outros temas. preconizavam a largura do mar territorial de 3 a 12 milhas. diz: “Todo Estado tem o direito de fixar a largura do seu mar territorial ate um limite que não ultrapasse 12 milhas marítimas. advertiam que. Equador.

a Bulgária e a União Soviética. I o. a pretexto dc preservar a pesca nas Malvinas. Entre dois Estados confrontantes existem. porém. revela. de 02. tornar sem efeito prático os acordos de atividade pes­ queira na área. A verdadeira razão que levou os britânicos a esta me­ dida temerária foi. impondo formal e unilateralmente sua soberania num raio de 200 milhas! Agindo de maneira análoga na sua possessão de Gibraltar. celebrados entre a Argentina. Por outro lado. Oportuno lembrar. aliás. A Constituição de 1934 (art. ampliou unilateralmente esta largura em mais 50 milhas. com tal medida. a ilha de Los Estados. foi mantida a largura de 150 km para a faixa de fronteira. que já mantinha uma faixa de mar territorial na região.1979. a intercomunicação com povos vizinhos e a pro­ teção contra a hostilidade externa. Fronteira é faixa. de que o território. frente). nos quais sc incluem. a Inglaterra c a Argentina. que será designa­ da como faixa de fronteira. portos europeus de grande movimento. duas faixas de fronteira opostas e divididas por uma linha divisória. que colocou frente a frente. conforme o caso. e que se confronta com a linha de limi­ tes. Do exemplo referido. a Inglaterra atingiu. Recentemen­ te. a legislação marcava para a faixa de fronteira do Brasil uma largura de 10 léguas (60 km). distinguir entre fronteira e limite no território do Estado. ao pas­ so que o conceito de limite vincula-se ao Direito propriamente dito. limite é linha. 150 km. portanto. Do território argen­ tino. situada no sul da Argentina. também. agora mais clara. a seqüela resultante da guerra das ilhas M alvi­ nas. a Inglaterra tornou obrigatória uma licença para bar­ cos pesqueiros de qualquer país que esteja em atividade num raio de 150 milhas. Vale. o po­ derio militar e estratégico de um Estado quando em confronto com outro. O conceito de fronteira liga-se à estratégia.634. Atualmente nos termos da Lei n. Donato Donati e Alessandro Groppali.36 Teoria Geral do Estado tores às 200 milhas marítimas para o mar territorial sempre foram Estados Unidos e União Soviética. Como se percebe. na qual termina a ação jurisdicional do Estado. Ao tempo do Império. a Inglaterra. de 150 milhas. A pala­ vra fronteira vem do latim fronsyfrontis (fachada. sorrindo a vitória militar para os ingleses. agora. do teor deste artigo ressalta a noção de limite: é a linha que separa a superfície do território de um Estado da superfície perten­ cente aos Estados vizinhos. 166) estipulou uma faixa dc fronteira de 100 km. São finalidades da faixa de fron­ teira a delimitação do território. é considerada área indispensável à segurança nacional a faixa interna dc 150 km de largura. A fronteira é uma faixa de largura considerável. a partir da linha de limite.05. fica a conclusão. é a seguinte: a base física é elemento . os ingleses teriam um mar ter­ ritorial que invadiria nada menos do que sete territórios de países diversos. mesmo. muito mais do que uma expressão geográfica. Com a tomada daquela medida. em 1982. art. e as Constituições dc 1937 c 1946. Questão que despertou polêmica momentânea entre dois notáveis juristas ita­ lianos. que disputa­ vam o domínio daquelas. 6. paralela à linha divisória terrestre do território nacional. certamente. a linha de limite.

permaneceriam existindo. tomado como a expressão do poder de fato do Estado. o que certamente ocorreria em caso de per­ da definitiva. Conclui-se. portanto. e este não constitui. e a soberania pressupõe a força necessária a sua autoconservação. como Atenas. po­ rém. do Estado. e não submissão total e definitiva. a impor suas determinações às forças da restauração. No exemplo da França ocupada pela Alemanha. a amplitude do território estatal. os quais se refugiaram nos navios de Milcíadcs.3 0 Estado 37 integrante do Estado? Donato Donati afirmou que o território (base física) não se­ ria elemento do Estado. uma organização política anômala.4) Natureza das relaçõ e s entre o Estado e seu te rritó rio enquanto base física: te o ria s do direito real institucio n al. aqueles F'stados Atenas e França . pois não há Estado sem poder soberano. que. Alessandro Groppali contesta a dou­ trina de Donato Donati. 4. portanto. às embaixadas situa­ das em outros Estados c aos navios e aeronaves dc guerra. porém mera ocupação do solo. sendo possível acrescentar a tal exemplo o da França de 1940. do im perium e do dom ínio em inente Quando se diz que determinado Estado cedeu a outro uma parcela de seu ter­ ritório. afirmando que a perda de fato. assim. o mar territorial. além do solo. argumenta. já que a este se encontram integrados. O território. exemplificando sua assertiva com Estados que foram des­ pojados temporariamente de sua base física. sucumbe ao cabo de algum tempo. A sociedade política pode existir. não acarreta a desaparição do Estado. Donato Donati.1. mas simples condição da existência deste. contudo. Aquela não faz parte da essência deste. invadida pelos per­ sas. ao lado do elemento humano e do poder soberano. o Estado sucumbe. o espaço aéreo. o qual. as aeronaves comerciais sobrevoando o espaço livre e as embaixadas. Sem território. que o território. considerou tão somente uma parcela do território (base física). onde quer que se encontrem os navios mercantes em alto-mar. Adepto da opinião de Groppali. os navios e as aeronaves de guerra. temporária. temporariamente. foi abandonada por seus habitantes. Tais ocupações teriam afeta­ do a existência dos Estados que as sofreram? Se adotarmos o pensamento de Dona­ to Donati. para quem o território (como sinônimo de base física) não é elemento constitutivo do Estado. sem ele. embora. por si só. em todos os casos apontados por Donato Donati. constitui um elemento essencial do Estado. está-se fazendo referência a um autêntico direito de propriedade do Estado? . A base física. como visto. da base física. não houve sequer perda temporária do território (base física). Pedro Salvetti Netto lembra que. o subsolo. é um elemento contingente. sediado na In­ glaterra. fina­ liza Salvetti Netto. não essencial. permanecia o Governo da Resistência. mera ocupação do solo. A base física está para o Estado como a água está para um ser aquático. vencida e ocupada pela Alemanha nazista. despojado daquele elemento vital. vassala do Terceiro Reich. durante quatro anos. sendo a República de Vichy. Ocorreu. integra a pró­ pria essência do Estado.

. que enseja diversas situações jurídicas. requisição ou confisco. A nosso ver. apenas secundariamente. há um condicionamento territorial da vida do Estado. portanto). lembran­ do que. di­ reito pessoal. por isso. e a segun­ da expressa uma verdadeira relação direta entre o Estado e certas partes do territó­ rio. esta concepção não explica como é possível coexistirem dois direitos de propriedade . como observa Hugo Palacios Mejía.do Estado e dos particulares . ou melhor. afir­ ma que não existe um direito real (dominium) do Estado sobre seu território. há que distinguir o direito de propriedade do Estado. que apenas dá cumprimento às normas de desapropriação. propugnada por Georg Jellinek.38 Teoria Geral do Estado Partindo da velha distinção romana entre direitos reais (aqueles que incidem sobre os bens) e direitos pessoais (aqueles que incidem sobre as pessoas). mais que um “direito do Estado sobre o território”. A primeira refere-se à faculdade dc exercer o poder sobre as pessoas que vivem dentro de certas fronteiras. vale lembrar.incidentes sobre um mesmo objeto. de um direito de pro­ priedade especialíssimo. sem considerar as teses unitárias que defendem a existência apenas de direitos pessoais. direito este. de duas classes. enfocada na perspectiva do Direito Público. a expressão domínio eminente do Estado. Mas isso pouco difere do pa­ recer de Jellinek. mas sem recorrer à figura do direito particular de propriedade. a teoria do direito real institucional parte do pressuposto de que o direito do Estado sobre seu território é verdadeiro direito dc propriedade. do poder de império que. Os bens de pro­ priedade do Estado são especificados pela própria Constituição que lhe dá forma. sobre os bens. Uma segunda doutrina. ficando a propriedade particular restringida por sua função social. Na verdade. pelo qual. Estas são. sob administra­ ção do próprio Estado. prossegue. sempre. Entretanto. O território. o Estado exerce sobre a propriedade privada. a vida jurídica do Estado deve estar. distinto do regime jurídico da pro­ priedade particular. é um elemento do Estado. basicamente. inerente a qualquer pessoa jurídica. O publicista colombiano Copcte Lizarralde propôs. a substituição do conceito de dominium pelo de imperium (direito dc compelir os habitantes do território a adotar certa conduta. quanto ao direito do Estado. em face do interesse público. denominada doutrina do imperium. de exercer poder soberano sobre seu território e bens nele situados. porém. institucional. a ênfase recai justamente na ideia de soberania. Jelli­ nek considerava descabida a adoção de um conceito de direito civil 110 campo do direito público. mas tão somente um direito pessoal sobre os indivíduos que vivem em seu território. na qualidade de pessoa jurídica. dando a uma a denominação imperium e à outra domínio público. Somente assim poderíamos admitir expressões como território do Estado e aceitar a possibilidade de cessões territoriais pelo Estado. propondo. Trata-se. na ten­ tativa de solucionar a questão. característica do poder do Estado que incide primeiro sobre as pessoas e. com ressalva da originalidade da expressão domínio eminente.

Buenos Aires. bem como impor aos seus integrantes o comportamento ne­ cessário para tanto. Saraiva. é possibilidade.2. como define Burdeau. o Poder é a encarnação de uma tal energia provoca­ da no grupo pela ideia de uma ordem social desejável. Sucessor. México. que ela apresenta uma ideia exata da realidade. destinada a dirigir a comunidade a uma ordem social que considera benéfica. é potência. parece-nos. a força a serviço de uma ideia. b u r d e a u . potencialidade para a realização de algo. O poder não é ação. se afastar­ mos momentaneamente os fenômenos concretos pelos quais se revela o Poder c cujo . Rodrigo. assim se expressa este publicista: O poder é uma força a serviço de uma ideia.. c isolar o duradouro no fenômeno do poder. s a l v e t t i n e t t o . Carl. Curso de teoria do Estado. Georges. Poder. É uma força nascida da cons­ ciência coletiva e destinada simultaneamente a assegurar-lhe a perenidade do grupo.3 0 Estado 39 4. Enciclopédia de la política. ed. Curso de direi­ to constitucional. Ora. Burdeau assinala: Na sua essência profunda. Depalma. em tais circunstân­ cias. Pedro. também. Coimbra. 1981. portanto. Manoel Gonçalves. BORJA. 11. s c h m i t t . São Paulo. 1982. A definição que pro­ pomos emprega os dois elementos do Poder: uma força c uma ideia. São Paulo. 1963..2) Causas formais 4. Problemas de filosofia política . A palavra tem origem no latim ar­ caico potis esse. L u í s . Armênio Amado. Nacional. México. Fondo de Cultura 1997. enquanto se sucedem as figuras que exercem seus atributos. 4. Poder é a capacidade de impor obediência. veremos que o poder é menos a força exterior que se coloca a serviço dc uma ideia do que a potên­ cia mesma de tal ideia. O poder é. intitulada singelamen­ te O Estado. é potência. Trata-se de uma força nascida da vontade social preponderante. a conduzi-lo na busca do que ele considera como coisa sua. de impor aos membros a atitude requerida por esta busca.1) Poder político Bibliografia: Econômica. Teoria de la Constitución. Saraiva. Ele se sustenta pela ideologia cristalizada na consciência coletiva de um grupo social. 1964. daí. 1981 . ed. Método de la ciência política. Em outra obra de grande repercussão sobre a matéria. e capaz. Sc aquilo que pretendemos. Nesta definição se destacam dois elementos: força e ideia se interpenetram estreitamente. Em sua obra Método de la ciência política. como efeito. contraída em posse e. potere. f e r r e i r a f i l h o . então. c a b r a l d e m o n c a d a .

O assentimen­ to. Sc transportarmos a palavra poder para o campo da Ciência Política. O governo é a dinâmica do poder. A própria etimologia da palavra governo (conduzir. aqui. As pessoas simples. se for o caso. é inerente ao poder. que pretendem ver extinto o poder na vida em sociedade. obtendo a obediência geral às regras deste. Quem exerce ativa o poder. assinala Georges Burdeau que o poder repousa numa ideia oriunda da consciência coletiva existente no grupo social. vale dizer. eventualmente. quando se referem. ela reside na ideia que o inspira. o poder é essencial a qualquer sociedade. amparado pela força. nem sempre disporá do assentimento social. encon­ traremos o poder público ou do Estado definido por Alípio Valencia Vega como a força pública organizada coativamente. . temos. dizia Aristóteles. Ubi societas ibi jus. A simples expectativa do empre­ go da força chama-se coação (vis compulsiva). as denominam argumentos de autoridade. O vocábulo autoridade. N ão é. autoridade. o consenso social. Por isso. O poder é potência. é comum denomi­ narmos os chefes do Poder Executivo governantes. Faltará. Autoridade é possibilidade de suscitar obediência espontânea c conscien­ te. se procurarmos o que é permanente no Poder enquanto passam as figuras que nele exercem as atribuições. a vis materialis ou corporalis. a este brocardo Pedro Salvetti Netto acres­ ceu a expressão ac potestas. que o poder. algo que se acrescenta. administrar) transmite-nos esta ideia. vemos que ele não é tan­ to uma força exterior que viesse pôr-se ao serviço de uma ideia como a mesma potên­ cia dessa ideia. Vale frisar. enfim. sem recurso à força. o poder público nada mais é do que a capacidade de se fazer obedecer exercida pelo Estado. o imperium. ao poder. do latim auctoritas. em especial aqueles do Poder Executivo estadual. dirigir. e pressuposto para a legitimação da ideia que anima aqueles que encarnam o poder. A cocrção é o emprego efetivo da força inerente ao poder. o poder público somente se legi­ tima quando seu exercício é consentido por aqueles que lhe obedecem. Exceção feita à utopia dos anarquistas. Poder social (socieda­ des condicionadas) ou poder político (poder do Estado. o governo é ação. com efeito. do respeito que estes. vale dizer. chamado governadores. sociedade condicionante) são formas de poder inerentes ao convívio social. governa. Daí a distinção entre poder público e governo. enfim.40 Teoria Geral do Estado fulgor se arrisca a obliterar a reflexão. que significa aumentar. respeito­ samente. da reverência dos governados. Embora essencialmente sustentado pela força. pois. porém. A força. a fim de impor o cumprimento de um or­ denamento jurídico-político. Se o po­ der fático é a capacidade de se fazer obedecer. à coerção. exato que a realidade substancial do Poder seja o mando. Os governantes são a encarnação do poder. O governo é o complexo de normas que disciplinam o exercício do poder. contingencialmente. Com efeito. onde houver sociedade haverá direito e po­ der. A possibilidade de sua aplicação efe­ tiva chama-se coercibilidade. lhe votariam. às palavras de um sábio. deriva do verbo aitgere.

são chefes necessariamente religiosos que fruem do respeito social. foi assassinado. o ga­ rante. Auctor era não só o autor. aumentar. não se vincula a tendências ideológicas ou a princípios norteadores deste ou . o conselheiro. agora. por sua vez. a evolução do termo autoridade foi a seguinte: A palavra autoridade. assim. Poder constituinte é a capacidade de criar ou de alterar a ordem jurídica do Estado. aquele era a força em potência. Presume-se que sc cncontrc aí também a origem semântica da pala­ vra para significar mais tarde. por isso. Augere. exemplaridade. acentua Salvetti Netto. mediante uma transposição dc sentidos. esta era a tra­ dição e o respeito. encarnados num órgão. Befõrdern). O direito público romano já fazia uma distinção entre imperium e auctoritas. Para Schmitt. teve sempre nesta língua as mais variadas significações. o conceito de poder constituinte. a existência da unidade política como um todo. aquele ou aqui­ lo que constituía a força e o vigor duma comunidade. prestígio. numa decisão política surgida dc um ser político. criação.o essen­ cialmente existencial deste fundamento de validade. Exemplos: as de produção. Com efeito.a palavra carisma vem do grego cbarisma. significava. de que auctum é um particípio-adjetivo. conforme ele próprio esclarece: Uma Constituição não se apoia numa norma cuja justiça seja fundamento de sua validade. símbolo vivo dc um fastígio secular alcançado pela altivez. Vejamos. desenvolver. poder constituinte é a vontade política cuja força ou autorida­ de é capaz de adotar a concreta decisão de conjunto sobre o modo c a forma da própria existência política. embora desprovidos da força. César jamais teve a autoridade de um Cincinato. determinando. no caso. Os líderes carismáticos . com a singeleza recomen­ dada pelo caráter meramente introdutório desta obra. A expressão vontade revela cm contraste com qualquer dependência referente a uma justiça normativa ou abstrata . conselho. o Senado. de Cristo e dos profetas. Por vezes o líder carismático pode ter consigo também a força. etc. accrca do modo c da forma do próprio ser. E o caso de Moisés. bravura e talento dos pais da pátria. derivada do latim auctoritas. eis Maomé e os aiatolás contemporâneos.3 0 Estado 41 No dizer de Cabral de Moncada. o promotor. modelo. fazer crescer. O conceito de poder constituinte formulado por Schmitt. a qualquer momento desencadeada. graça divina . Acha-se apoiada. Etimologicamente deriva de auctor e de augere. que sig­ nifica dom divino. aquele que promove com o seu exemplo e conselho o bem de uma coisa (alem. antes de se fixar na de poder. tornar mais forte e poderoso alguém ou alguma coisa. como o consultor. embora dispusesse da força. isto sim.

A obra revolucionária é sempre ilegal. vontade fundada na coletividade e imposta igualmente a governantes e a governados. Não se trata. ele é aquela potência criadora da ordem jurídica da qual fixa os princípios c estabelece os instrumentos. pode­ rá ser ilegítima. Séculos mais tarde. surgin­ do o povo. em Atenas e Esparta. Em muitos Estados da Antiguidade Oriental. já se fazia uma distinção entre ato constituinte e ato legislativo. Desde que o povo seja capaz de organizar o Estado e exer­ cer o governo. ela pode ser legítima. contudo. entre a turbulência das forças sociais c a serenidade dos procedimentos legais. aqui. se institucionalize. em verdade. Se os revolucionários alcançam o poder. Alude-se ao que é e não ao que deve ser. Importante. teocráticos. mero executor de uma vontade superior. Concretizada esta. Ele se encontra situado num ponto de intersecção entre a política c o di­ reito. e a Constituição a causa instrumental da ação deste poder. o antecedente mais remoto rela­ tivo à doutrina da separação entre poder constituinte e poderes constituídos. se não estiver de acordo com o consenso social. na Inglaterra. nestes dois Estados laicos. sendo este a cau­ sa eficiente. repito. é evidente que o poder constituinte derrubado incorrerá na ilegalidade e na ilegitimidade. Entretanto. O ato constituinte seria aquele de natureza originária. A obra revolucionária. inconstitucional. en­ contraremos. no pla­ no do Direito Positivo. sob a denominação Instrumento de Governo. dele será este mesmo poder. mesmo sendo ilegal. segundo Carlos Sanchez Viainonte. desde que esteja de acordo com a ideia do justo que o sistema de referência social professa. resta unicamente a le­ galização do movimento. o rei era. mais precisamente como documento deno­ minado Agreement ofthe people (Acordo ou Pacto Popular). a soberania não re­ sidia propriamente no monarca. de caráter sagrado. empunhando a bandeira de um ideá­ rio legítimo. aqui. do melhor regime. . como o titular da soberania. mediante o qual se criava a nação e sua estrutura político-social. ele será sempre ilegal. Mais tarde. promulgado no ano de 1953. seguido pela comunidade. Como o movimento vitorio­ so é legalizado? Pela edição de uma nova Constituição. por Oliver Cromwell. No dizer de Burdeau. distinguir entre a mera legalidade e a legitimidade do poder constituinte. é ele o titular do poder constituinte: se for o rei. Quando tal poder se manifesta mediante o emprego da força. na Grécia clássica. prossegue. soberanamente.42 Teoria Geral do Estado daquele regime político. que é aquele. entre a aparente desordem revolucionária e dos regimes seguros de si próprios. vitorioso. ate o momento em que. Não passou despercebido a este autor que a pró­ pria soberania reside no querer irrecusável do poder constituinte. como geralmente se pensa. O poder constituinte é distinto dos poderes estabelecidos pela própria Cons­ tituição por ele criada.

2) 0 princípio da se p a ra çã o de Poderes no Estado Bibliografia: A r i s t ó t e l e s . tradução de Cristina Murachco. por natural tendência. 3. 4. no caso do Es­ tado federal (Constituição brasileira. ed. 1995. John. ele dá origem a uma nova Constituição.. f e r r e ir a f il h o locke.1) A nte ce d e n te s Desde que. 1993. o poder constituinte pode ser originário e instituído ou derivado. tradução de Mário da Gama Cury. leis. também. Dois tratados sobre o governo. num esforço de legitimação daquilo que era ilegítimo. Celso. Manoel Gonçalves. não a discuti-la. tentará legitimar-se. Flá. os mais antigos e respeitadores pensadores já buscavam delinear soluções para o con­ trole do poder político. Que vem a ser a legalização do movimento vitorioso? É o estabelecimento de normas positivas que justifiquem o conteúdo da obra revolucionária do poder cons­ tituinte. São Paulo.2. 4. art. Revista dos Tribunais. 60. Assim Aristóteles (384-322 a. .2. não se encontra vinculado a nenhuma condição.. Direito administra­ m o n t e s q u ie u gislativo. Saraiva. Livro IV. dentre estes a insegurança imposta à liberdade individual. 1984. obtendo a aceitação dos governados. sécu­ los depois. 10. Les nouvelles tendances de la démocratie anglaise.. Paris. São Paulo. Assim se expressa Aristóteles: . 1999. ideia que seria retomada. Política. São Paulo. São Paulo.). tivo brasileiro. Do processo le­ Hely Lopes. sentimento que nos é incutido desde a mais tenra infância. Martins Fontes. Capítulo II. Tomemos como exemplo o seu art. Curso de teoria do Fstado e ciência política. Por isso. 4. O homem é induzido a obedecer à lei. 25).. não se acha submetido a nenhum princípio que não seja o daqueles que o encarnam. m e ir e l l e s . em sua obra clássica Po­ lítica.3 0 Estado 43 Se o movimento triunfante não contar com a legalidade. 1998. apenas a modifica parcialmente. v is s c iie r . Tal medida.C. no segun­ do. 1997. bastos. Saraiva. O poder constituinte originário é incondicionado. Martins Fontes. prenuncia a separação de funções no Estado. por Montesquieu. 3. lembra Ferreira Filho. UNB. o poder constituinte decorrente. o homem passou a viver em sociedade. ed.2. que é o poder dos Estados-Membros. No primeiro caso. Quanto a suas espécies. São Paulo. ed. 1947. ed. . é beneficiária dc um mecanismo psico­ lógico: o respeito à lei. uma de sua maiores preocupações foi evitar o arbítrio dos governantes e seus indesejá­ veis efeitos. O espírito das Paul.

considerado por muitos. e quanto à prestação de contas dos funcio­ nários. a terceira trata dc como deve ser o Poder Judiciário. . privilegiando. o inspirador original da separação de Poderes. como também é sagrado e inalterável nas mãos em que a comunidade o tenha antes depositado. a lei positiva primeira e fundamental de todas as socicdadcs políticas c o cstabclccimcnto do Poder Legislativo . não teria a lei o que é absolutamente necessário à lei. não fosse assim. mais precisamente nos séculos XVII e XV III. notoriamente. John Locke (1632-1704). uma função judiciária e de um magistrado incumbido dos restantes assuntos da administração. tampouco pode edito algum de quem quer que seja. Talvez a sua linguagem fosse um pouco diferente. quanto às leis.44 Teoria Geral do Estado Todas as formas de Constituição apresentam três partes em referências às quais o bom legislador deve examinar o que é conveniente para cada Constituição. e pela autoridade dela recebida. uma doutrina mais detalhadas da separação de Poderes. equivocadamente. qual deve ser sua autoridade específica. em sua obra Dois tratados sobre o governo. por John Locke. ou seja: quais são as que devem ser instituídas. de exílio e de confisco da propriedade.já que a lei natural primeira e fundamental. pensador inglcs. já desenvolvera. Ouçamo-lo: Sendo o principal objetivo da entrada dos homens em sociedades eles desfruta­ rem de suas propriedades em paz e segurança. seja de forma concebido ou por que poder apoiado. como fez Cícero. consiste na conservação da sociedade e (até onde seja compatível com o bem pu­ blico) dc qualquer um dc seus integrantes. Bolingbroke e o próprio Montesquieu. Embora autores que sucederam Aristóteles tenham dissertado a respeito do tema. se estas partes forem bem ordenadas a Constituição será necessariamente bem ordenada. o fato é que a separação de Poderes só voltaria a ser anali­ sada muito tempo depois. e na medida em que elas diferem uma das outras as Constituições também diferem entre si. a segunda trata das funções públicas. ter força e obrigação de lei se não for sancionado pelo Legislativo escolhido e nomeado pelo público. o consentimento da sociedade. Fala­ va ele numa função consultiva que se pronunciava acerca da guerra e da paz e acer­ ca das leis. destinada a governar ate mesmo o próprio Legislati­ vo. Pois. Observa Celso Bastos que as três funções de que falava Aristóteles são as mes­ mas que hoje conhecemos. sobre a qual ninguém pode ter o poder de elaborar leis salvo por seu pró­ prio consentimento. o Legislativo. Destas três partes uma trata da deliberação sobre assuntos públicos. quantos às sentenças de mor­ te. e como devem ser escolhidos os funcionários. e estando o principal instrumento para tal nas leis estabelecidas naquela sociedade. A parte deliberativa é soberana quanto à guerra c a paz e a formação e dissolução de alianças. Esse Legislativo e não apenas o poder su­ premo da sociedade política.

que sejam separados os Poderes Legislativo e Executivo. E assim acontece. no clássico O espírito das leis. quase sempre estão unidos.3 0 Estado 45 Quanto ao Poder Executivo. A par do Poder Executivo. na mesma pessoa ou no mesmo corpo de magistratu­ ra. o poder execu­ tivo das coisas que dependem do direito das gentes e o poder executivo daquelas que dependem do direito civil. pode.2. fazer valer sua vontade soberana mediante seus representantes. ele castiga os crimes. Tudo estaria perdido se o mesmo homem. o po­ der sobre a vida c a liberdade dos cidadãos seria arbitrário. o príncipe ou magistrado cria leis por um tempo ou para sempre e corrige ou anula aquelas que foram feitas. embora distintos. previne invasões.. Com o terceiro. todavia. assim se expressa no Livro 11. ou o mesmo corpo dos principais. porque se pode temer que o mesmo monarca ou o mesmo senado crie leis tirânicas para exe­ cutá-las tiranicamente. ele faz a paz ou a guerra. Tampouco existe liberdade se o poder de julgar não for sepa­ rado do poder legislativo c do executivo. muitas vezes. Locke observa: como as leis elaboradas de imediato e em pouco tempo têm força constante e duradou­ ra. Sc estivesse unido ao poder legislativo. Sc estivesse unido ao poder executivo. é necessário haver um poder per­ manente. Com o primeiro. após considerar o Poder Legislativo como o mais importante dos três Poderes. ou do povo exercesse os três poderes: o de fazer as leis. Chamaremos a este último poder de julgar e ao outro simplesmente poder exe­ cutivo do Estado [. que cuide da execução das leis que são elaboradas e permanecem vigentes. Com o segundo. Esses dois Poderes. o juiz poderia ter a força de um opressor. instaura a segurança.. não podendo exercer o autogoverno.2. com todos aqueles de que ela pode re­ ceber benefícios ou injúrias. § 6° (Da Constituição da Inglaterra): Existem cm cada Estado trcs tipos dc poder: o poder legislativo. . Locke vislumbra certo Poder Federativo. pois o juiz seria legislador. e requerem uma perpétua execução ou assistência. compreendendo um a execução das leis municipais da sociedade dentro de seus próprios limites sobre todos os que dela fazem parte e outro a gestão da se­ gurança e do interesse e o público externo. Barão dc La Brède et de Montesquieu. não existe liberdade. envia ou recebe embaixadas. mais precisamente Charles Louis dc Secondat. ou dos nobres.]. Executivo e Federativo. o de executar as resoluções pú­ blicas e o de julgar os crimes ou as querelas entre os particulares.2) 0 princípio da separação de Poderes segundo M on tesq uieu Quanto a Montesquieu (1689-1755). firmar alianças e acordos com todas as pessoas e socie­ dades políticas internacionais. ou julga as querelas entre os particu­ lares. 4. Quando. o poder legislativo está reunido ao poder executivo. até por­ que o povo. apto a cuidar da guerra e da paz.

Alexander Hamilton. quando é certo que o Governo . a doutrina dos freios e contrapesos. sc tomarmos como exemplo a Constituição brasileira. Cada um destes “ Poderes” exerceria suas atribuições sem qualquer interferência dos demais. como a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão.08. porque o poder político é. criou-se em torno do ideário de Montesquieu a ideologia de um modelo político em que os três Poderes deve­ riam estar rigorosamente separados: o Executivo (o rei e seus ministros). inspirando.46 Teoria Geral do Estado Desde logo. ni Ia séparation des pouvoirs determinée.1789. Tal interdependência autoriza qual­ quer das três funções a exercer atribuições naturalmente peculiares a um dos res­ tantes. 16: “Toute societé dans laquelle Ia garantie des droits riest pas assurée. o Legisla­ tivo (primeira e segunda câmaras. O próprio Montesquieu. Com efeito. o Legislativo julgar (art. podendo exigir aos ministros prestação de cotas dc sua administra­ ção. intitulado O federalista (The federalist). assim. entretanto. diga-se de passagem. mas em equilíbrio. James Madison eJohnJay advertem que a tripartição das funções do Estado não é apenas divisão. Num dos maiores clássicos da Ciência Política. veremos que o Poder Executivo pode legislar (art. na medida em que controla as leis que vota. indivisível. nem a separa­ ção dc Poderes determinada. Daí. uno. mas também equilíbrio. Ora.1 . na verdade. ser mais apropriado o termo função . a Constituição. I e II). por sua vez. não tem constituição". sem ferir. de modo que cada “po­ der” limitaria os demais: Le pouvoir arrete le pouvoir. 52. a doutrina da separação de Poderes foi prestigiada em célebres legislações. que ocasionaria seu declínio e sua transformação num mito. M adi­ son pregava a necessidade de disciplinar o relacionamento entre as funções do Es­ tado. a). 62). falando em divisão e sepa­ ração de Poderes. c o Judiciário legislar (art. o Legislativo exerceria pressão sobre o Executivo. O eminente publicista Hely Lopes Meirelles adverte que apressados seguido­ res de Montesquieu interpretaram mal seu pensamento. em vez de poder. Não há. na concessão de anistias e nos processos políticos que deviam ser apreciados pela câmara alta sob acusação da câmara baixa. por outro lado. já mencionada. ria point de constitutiori\ ou “Toda sociedade em que a garantia dos direitos não é assegurada. a ex­ pressão separação de Poderes passa a ter conotação meramente política. Não demoraria. naturalmente. já se reconhecia que o Executivo poderia interferir no Legislativo. como se esses fossem estanques. que já dizia no art. Assim. de 26. não disse haver três Poderes mutuamente isolados. em face do direito de veto concedido ao monarca. porque ju­ ridicamente é equivocada. com isso. o Poder Legislativo interferiria nas atribuições do Judiciário quan­ do do julgamento dos nobres pela Câmara dos Pares. Assim. mediante um sistema de freios e contrapesos (checks and balances). a se delinear uma crítica robusta e profunda a seus princípios. câmara baixa e câmara alta) e o Judiciário (cor­ po de magistrados). mesmo nos primórdios da aplicação práti­ ca das ideias de Montesquieu. 9 6 . separação de Poderes no Estado. a fim de estabelecer uma interdependência entre elas.

senão àquelas promulgadas pelos indivíduos escolhidos c autorizados para for­ mular as leis da sociedade. que a exprime por meio da lei. Uma vez que o poder do legislativo deriva do povo. pessoal­ mente. Todavia. as normas emanadas do Legislativo têm primazia sobre as outras. não podendo votá-la diretamente. e tampouco pode ser este submetido a nenhu­ ma lei. Com efeito. como já vimos. To­ davia. parlamentares. que se dá através da constituição do legislativo. du­ rante a Idade Média. não pode ser ele diverso do poder transmitido por tal concessão positiva. N o mesmo sentido. Somente ao povo é facultado designar a forma da sociedade política. o Judiciário. as quais inovam a ordem jurídica. Ao Poder Legislativo se confere. não sendo ele senão um poder delegado pelo povo.2. e indicar em que mãos será depositado. para quem atribuir a Montesquieu a separação absoluta de Poderes é ver­ dadeira escroqueria intelectual. Paul Visscher. lei em sentido estrito. em face do princípio da legalidade. o enfraquecimento do poder real se acentuou em pro­ veito do Parlamento. teve origem na Inglaterra. pois também o Executivo e. mesmo. senão em virtude de lei. a competência de elaborar nor­ mas segundo um processo previamente estabelecido (processo legislativo). diploma le­ gal discutido e referendado no próprio Legislativo. o povo se vê compelido a eleger seus representantes.3) 0 Poder Legislativo O Poder Legislativo. ninguém mais poderá que outros ho­ mens devam elaborar leis para o povo. que agi­ rão em nome do corpo eleitoral. quando a nobreza e o próprio povo tentavam limitar a auto­ ridade absoluta dos reis. aqueles que o detêm não podem transmiti-los a outros. perenizada em sua obra O contrato social. por uma concessão ou instituição positiva e voluntária. que é apenas o de elaborar leis e não de fazer .2.2. vale dizer.3 0 Estado 47 é resultante da interação dos três Poderes do Estado. 4. pelo qual ninguém se obriga a fazer ou deixar de fazer algo. segundo Rousseau. que representa falsear totalmente o pensamento do ilustre autor dc O espírito da leis. ou seja. como o entendemos hoje. E quando o povo disser: submeter-nos-emos às regras e seremos governados pelas leis estabelecidas por tais homens e sob tais formas.2. por definição. a soberania reside no povo. Isto não significa que apenas o Legislativo elabora nor­ mas jurídicas. Com a doutrina de Jean-Jacques Rousseau. 4.4) 0 Estado con tem porâneo e a delegação de fu nções A doutrina clássica da separação de Poderes não admite a delegação de fun­ ções de um aos outros. como se observa nesta sugestiva passagem de John Locke: não pode o legislativo transferir o poder de elaborar leis para outras mãos.

o fortalecim ento do Executivo se m anifestou m ediante três espé­ cies de normas: decreto-lei. . O papel proeminente do Legislativo acarretou-lhe.2. por decreto. como eram enquanto só a burguesia participava in­ tensamente da vida política. dentre as quais. Tal fenôm eno mostrou-se ain d a mais evidente a partir de 1920. onde as discordâncias não iam alem dos pormenores. inatendidas em face da paralisia parlamentar. a realidade hoje é outra.5) 0 caso brasileiro: medida provisória e lei delegada N o Brasil. Observa M anoel Gonçalves Ferreira Filho: Incapazes dc fazer o que se torna imprescindível. agravando gravemente o órgão no seu entender principal. inclusive modificando. sem coragem para tomar deci­ sões inadiáveis. o sufrágio universal trouxe a divisão para o seio das assembleias.2. na França. obrigou os governos a repen­ sar o processo legislativo. Nestas. que para os democratas radicais do século passado lsic]. a ascensão das massas ao processo de decisões políticas agravou a situação: O sufrágio universal. perm itindo a rápid a edição de norm as jurídicas de alcance social. com o assinala M anoe l Gonçalves Ferreira Filho. N ã o obstante. as câmaras dão plenos poderes ao Executivo. abalar a estrutura des­ ta que lhes parecia perfeita. como governo. porem impopulares. em face das maiores possibilidades de legislar. e aguente as conseqüências [.. C o m o passar do tem po. por interm édio da Corte de Cassação. A decadência do Parlamento teve como contrapartida o engrandecimento do Executivo. este a cúm u ­ lo de tarefas trouxe consigo a própria paralisia do Legislativo. buscando agilizá-lo. para que este faça o que tem que ser feito. não mostra mais ostensiva do que a retratada nalgumas Constituições posteriores à Segunda Guerra Mundial. Por outro lado. a prerrogativa de anular decisões ju­ diciais. parecia ensejar a plena realização da democracia. na m edida do possível. o an­ tigo Executivo passou a ser visto como poder governamental.]. o recrudescimento das reivindicações sociais no final do sécu­ lo X IX . u m acú­ m ulo de funções. De tal evolução.48 Teoria Geral do Estado legisladores. veio. Por outro lado. se digladiavam. com rapi­ dez. ou aparentemente irredutíveis. p o r parte deste. com a inevitável delegação dc funções pelo Legislativo ao Executivo.. as leis do país. dc sorte que não pode ter o legislativo nenhum poder de transferir sua autoridade de elaborar leis e colocá-la em mãos de terceiros. 4. Em verdade. Deixa­ ram estas de ser grupos primários. lei delegada e m edida provisória. bem diferente dos tempos de Locke e M ontesquieu. para se tornarem o campo dc batalha onde cosmovisões hostis c interesses dc elasses irre­ dutíveis. em contrapartida. assim.

não podendo emendá-lo. Repudiado na Constituição de 1946. Em caso dc relevância c urgência. 62. nos seguintes termos: Art.1988 e. não havendo deliberação.yo Código Penal. velada sucesso­ ra do decreto-lei. seguindo processo legislativo próprio. na medida provisória. nos termos do § 7°. inclusive normas tributárias. devendo o Congresso Na­ cional disciplinar. emen­ dada em 1969. com esta. e III . pois a negativa do Legislativo tinha efeito meramente ex nunc. o Presidente da República poderá ado­ tar medidas provisórias. em meados dos anos de 1980. assim dispondo o art. caput e § 3o: Art. no § I o. 62. g. Trata-se. Observa-se. o Congresso Nacional o aprova­ rá ou rejeitará. Por outro lado. não dese­ jando os parlamentares aprovar medidas eventualmente antipáticas. tem força dc lei. valendo lembrar que inú­ meras leis importantes da época . em casos de urgência ou de interesse públi­ co relevante. de uma lei em sentido material. 55. Assim. em resumo. O decreto-lei surge no Di­ reito brasileiro com a Constituição autoritária de 1937.são decretos-lei. as relações jurídicas delas decorrentes. que terá vigência imediatamente. que não sendo o decreto-lei aprovado em sessenta dias. a redemocratização do País. § 1° Publicado o texto. Este passou a legislar sozinho. os atos praticados durante a vigência do decreto-lei se tornavam plenamente vá­ lidos. ficando o decreto-lei definitivamente aprovado por decurso de prazo.10. com força dc lei. dentro de sessenta dias. já que o decreto-lei tem força de lei. desde a edição. culminaria na Constituição de 05. poderá expedir decretos-leis sobre as seguintes matérias: 1 . sem retroatividade. por decreto legislativo. ou seja. se. Ora. nesse prazo. conforme advertia o § 2o. . uma vez por igual período. O Presidente da República. o texto será tido por aprovado.ainda em vigor .criação de cargos públicos e fixação de vencimentos. II . prorrogável.. mesmo que rejeitado pelo Congres­ so. v. ressalvado o disposto nos §§ 11 e 12 per­ derão eficácia. [. devendo submetê-las dc imediato ao Congres­ so Nacional. se não forem convertidas em lei no prazo de sessenta dias. a Lei de Contravenções Penais. pois embora não tenha forma de lei. ou seja.segurança nacional. o Código de Processo Penal.3 0 Estado 49 A natureza do decreto-lei é a de um diploma híbrido entre o decreto (mero ato administrativo) e a própria lei. § 2° A rejeição do decreto-lei não implicará a nulidade dos atos praticados durante a sua vigência. o texto seria tido por aprovado. outorgada por Getúlio Var­ gas. mediante decretos-lei. a Consolidação das Leis do Trabalho e a Lei de Introdução ao Código Civil.finanças públicas. sem manifestação. o decreto-lei retornou na de 1967.] § 3° As medidas provisórias. deixavam aquele pra­ zo fluir in albis. não houver deliberação. ou não desejan­ do comprometer-se com o todo-poderoso Governo Militar. e desde que não haja aumento de despesa..

Art. medidas provisórias (provvcdimcntiprov- visori) com força de lei. a rejeição de um de­ creto-lei não implicava nulidade dos atos praticados na sua vigência. prazo este prorrogável (§ 3o). salvo se a Câ­ . para o qual o Regulamento estabele­ cerá um procedimento especial c sumário. o Governo poderá editar dispo­ sições legislativas provisórias. No direito comparado. sobre matéria fi­ nanceira.. como vimos. de imediato. Além disso. já que se esta não for apreciada pelo Legislativo perderá sua eficácia “desde a edição. Quando. as Cortes poderão faze-los tramitar como projetos dc lei. mediante o procedimento de urgência [. As Câmaras poderão. de 18. dispõem os arts.. serão devidamente convocadas e reunir-se-ão dentro dos cinco dias seguintes. no prazo dos trinta dias seguintes à sua promulgação. o que refor­ çava. 55. se não estiver reunido. Entretanto. ao regime das Comunidades Autôno­ mas.. com a medida provisória a situação se inverteu. § I o). nem ao Direito Eleitoral Geral. ou o rejeitava sem poder emendá-lo. com variantes compatíveis com as peculiaridades de cada ordem jurídica.. Os decretos perderão todo o efeito desde o início. em matéria de decretos-lei fi­ cava limitado a uma atitude passiva: aprovava o texto. os direitos. e o I o da Lei britânica sobre o Parlamento. Art.] § 1° Em caso de extraordinária e urgente necessidade.. constatam-se institutos assemelhados ao decreto-lei e à medida provisória. § 3° Durante o prazo estabelecido no pará­ grafo anterior. cuja vigência era imediata (art. ditar decretos com força de lei ordinária. deveres e liberdades dos cidadãos sob as normas do Título Primeiro. consideravelmente. mesmo dissolvidas. em casos extraordinários de necessidade e de urgência. 1° [. deverá apresentá-las no mesmo dia para sua conversão em lei às Câmaras. se não forem convertidos cm lei (convertiti in legge) dentro dos sessenta dias de sua pu­ blicação. sobre sua convalidação ou derrogação. O Congresso deverá pronunciar-se expressamente. se não for convertida em lei no prazo de sessenta dias”. pelo menos um mês antes do término da sessão legislativa. as quais. convocado para tanto.]. o Poder Executivo. sempre no prazo de sessenta dias contados de seu recebimento. regular mediante lei as relações jurídicas sur­ gidas em virtude daqueles decretos que não forem convertidos em lei [. pois este. [. ele será apresentado à Sua Majestade. claro. 86. e nesta não for aprovado sem emendas dentro do mês seguinte. aprovado pela Câmara dos Comuns. o Governo adotar.08. § 2° Os decretos-lei deverão ser imediatamente submetidos a debate e votação pela totalidade dos membros do Congresso de Deputa­ dos..50 Teoria Geral do Estado Comparemos o decreto-lei da Constituição de 1967 e a medida provisória da Lei Magna de 1988.] § 1° Sc um projeto dc lei.1911: Art. Nesse sentido. Não pode o Governo. for enviado à Câmara dos Lordes.]. 77. sem delegação das Câmaras. 77 da Constituição italiana. na Constituição anterior.. dentro de referi­ do prazo. sob sua responsabilidade.. as quais tomarão a forma de decretos-lei e não poderão conflitar com as instituições fundamentais do Estado. que a atual Constituição favoreceu o Poder Legislativo. 86 da Constituição espanhola. todavia. Percebe-se.

Curso de teoria do Estado. Porto Alegre. Não há Estado sem poder soberano. o poder so­ berano reside nos órgãos dotados do poder de decidir em última instância. não bastando a supremacia eventual ou momentânea. 1964. Teoria geral do Estado. Saraiva. 13. o Estado é uma pessoa jurídica de direito público internacional. 1986. 1982. o reconhecimento dc um Estado como tal não obedece a uma regulação jurídica precisa. com efeito. 1985. 4. Globo. . d a l l a r i. Para o jurista. pois. Esta. observa o professor Dalmo de Abreu Dallari: O mundo é uma sociedade de Estados. no âm­ bito externo. 6. ed. Fnfim. Saraiva. o que se exige c que a sociedade polírica tenha condições dc assegurar o máximo de eficácia para sua ordenação num deter­ minado território c que isso ocorra dc maneira permanente. independentemente do voto da Câmara dos Lordes. ed. Elementos de teoria geral do Estado. significando a inexistência de uma ordem jurídica dotada de maior grau de eficácia. Darcy. com os demais. o poder soberano é um elemento essencial do Estado. que do ponto de vista interno do Estado é uma afirmação de poder superior a to­ dos os demais. é ela . Assim. e converter-se-á em ato do Parlamento. pois a soberania é a qualidade suprema do poder estatal.. Com efeito. o que distingue o Estado das demais pessoas ju­ rídicas de direito internacional público é a circunstância de que só ele tem soberania. Pau­ lo. me­ diante sanção real. Referindo-se à posição do estado na ordem internacional.3 0 Estado 51 mara dos Comuns decidir em contrário. 6. São Paulo. mais recentemente. As duas palavras latinas das quais parece derivar. ed.. 28. o vocábulo souveraineté são. b o n a v id e s . Ciência política. maluf. Teoria geral do Estado. Pedro. quando participa da sociedade mundial. Sugestões Literárias. A soberania é o atributo do poder do Estado que o torna independente no plano interno e interdependente no plano externo. Na prática. Forense. do francês souveraineté. na qual a integração jurídica dos fatores políticos ainda se faz imperfeitamente. Teoria geral do Estado. Rio de Janeiro. Forense.. cada uma mantém. superanus e supremitas.3) Soberania Bibliografia: a za m b u ja a c c io l i. Wilson. entretanto. ed. No âmbito interno. sob o ângulo externo é uma afirmação de independência.. 2009. apesar de todas as restrições dos teóricos e dos próprios líderes políticos. realmen­ te. São Paulo. indepen­ dentemente dc atos formais de reconhecimento. São Paulo. Sahid. Rio dc Janeiro. uma relação em que a igualdade se faz presente. O termo soberania deriva do latim medieval superanus e. sa l v e it i n et t o . 1968. ficando na dependência da comprovação dc possuir soberania. Dalmo de Abreu.

O feudalismo. a soberania é a diferença específica dc tal governo. do poder político. enfim. a sociedade feudal converteu-se em estamentária. por outro lado. mesquinhamente. Séculos depois. de um lado. se sobrepõem àquelas emanadas de outros organismos sociais. é seu traço identificador. Tal superioridade era garantida por um procedimento que poderia ser tido como o ancestral da nossa ação direta de inconstitucionalidade. surge o Feudalismo. Se o go­ verno é uma das causas formais do Estado. uma parcela do poder político. mas fragmentou-se em miríades de se­ nhorios feudais. Haverá soberania nos casos em que houver poder de decisão em última instância. Conclui-se disso que. concernentes à estrutura fundamental da cidade-Estado ateniense. a partir do século XI da Era Cristã. geralmente se pensa. fundava-se numa economia agrária. como as que estabeleciam a cidadania. A Antiguidade já intuía a diferença entre as leis que estruturavam a organiza­ ção política e as que eram criadas por órgãos do governo. no limite de seu território. Aristóteles faz tal distinção. Daí a assertiva do professor Pedro Salvetti Netto: Assim como todas as sociedades possuem normas. E isso porque o Estado é soberano. social e econômico. Em sua obra A política. sendo este o único critério distintivo do Estado. Naquele pe­ . uma qualidade do poder do Estado. o Estado torna-se uma sociedade condicionante. por direito próprio. e nas suas lides impunha seus costumes e suas leis. não dispensando o poder. e a dos servos da gleba. não reconhecendo nenhum outro poder que se lhe iguale. que. e no direito público de Ate­ nas havia a noção de que certas leis pertinentes à própria estrutura política da polis. ao pas­ so que as sociedades menores tornam-se condicionadas pelo Estado. que se originam do Estado. na qual cada castelo feudal buscava. Cada senhorio possuía. nas situações em que houver poder de decisão em úl­ tima instância. é uma criação do Di­ reito Constitucional moderno. Politicamente. haverá soberania. dentro de uma rigidez relativa. mas as leis. Vimos. fenôme­ no que assinala o início da Idade Média. Graças à soberania. vale dizer. que a soberania é um atri­ buto essencial. sistema político. Surge a classe dos senhores feudais. como resultado des­ te marco histórico. Na Alta Idade Média. Por intermédio daquele procedimento era possível im­ pugnar a criação de leis que contradissessem as normas fundamentais. formada por estamentos. estes tam­ bém. o poder não se conser­ vou centralizado como no Império Romano. com as invasões dos bárbaros no Império Romano. eram superiores às demais. isto e. Que vem a ser um estamento? É uma ca­ mada social que compete com outras. de outro.52 Teoria Geral do Estado que distingue este poder daquele observado nos grupos sociais condicionados pelo Estado. perdurar independentemente dos demais. sujeitam-se ao mando que caracteriza a sociedade po­ lítica. já havia uma dis­ tinção fugaz entre as leis constitucionais e as leis que poderíamos denominar leis ordinárias.

O consentimento popular. o clero e o povo formaram estamentos que lutavam para ascender politicamente e exercer o poder soberano. os homens abdicariam de sua liberdade em favor de um monarca. “Todo poder vem de Deus. Mais tarde. ou sovrain (na França). o chamado pactum subjectionis. tal perigo foi conjurado com o surgimento de uma sociedade intitulada “Os Políticos”. como já vimos. tinha um intermediário: o povo. isto é. A doutrina do contrato social pode ser ana­ lisada na célebre Escola do Direito Natural e das Gentes.1) A doutrina pactista medieval Quanto à titularidade da soberania.3. Para a doutrina pactista medieval a fonte da sociedade era a inclinação natu­ ral do homem. na França. as lutas religiosas causadas pela Reforma ameaçaram destruir a própria sociedade civil. O monarca não seria parte no contrato . mas a doutrina do contrato social via em tal acordo de vontades a fonte da própria sociedade. John Locke e Jean-Jacques Rousseau. enfim. dc tal poder. e nos três mais significativos autores da doutrina contratualista: Thomas Hobbes. Daí a expressão soberania. para acentuar-se nos séculos XVII e XVIII. que pregava a necessidade de um poder supremo. mas os autores que difundiram a ideia do contrato social viam. A doutrina pactista medieval ensinava que todo o poder vem de Deus: Omnis potestas a Deo. 4. Tal consentimento importaria num verdadeiro pacto. que reinasse sobre os litigantes. Então. Para evitar tais males. cuja função seria manter a paz. se não existisse a sociedade. 4. como predicava Santo Tomás de Aquino. são inúmeras as doutrinas a respeito. encabeçada por Hugo Grócio. Supremus. que se desenvolve a partir do século XVI. autor de uma obra intitulada Os seis livros da República. Afirmava Hobbes que. Nes­ sa sociedade pontificou Jean Bodin.3 0 Estado 53 ríodo histórico o rei. mas. seria a fonte do poder político.3. a própria fonte da sociedade. sobre toda a nação. precursora do Estado absolutista. neste contrato. os homens estariam em guer­ ra continuamente: o homem seria lobo do próprio homem (homo homini lupus). Há uma diferença sutil entre a doutrina pactista medieval e a doutrina do con­ trato social: A doutrina pactista medieval via no acordo de vontades a fonte do go­ verno. a nobreza. tacitamente manifestado. era a sociabilidade inata do homem.2) A doutrina do con trato social A doutrina pactista medieval não deve ser confundida com a do contrato so­ cial. por intermédio do povo”. tornava-se o estamento que passasse a exercer seu poder soberano sobre os demais. apenas. soberano. Omnis potestas a Deo sed per populum.

por via de conseqüência. e a da sobe­ rania nacional. todos os cidadãos devem participar da formação da von­ tade geral. é parte da soberania. Se o Estado possuir 10 mil cidadãos. tem uma importância prática muito maior. indelegável. é um soberano. todo cidadão. então. o poder estatal deverá estar em mãos de todos os indiví­ duos que compõem o povo. porque somente um povo de deuses poderia. as decisões fundamentais de­ vem partir da vontade geral. Cada cidadão é deten­ tor de uma fração da soberania. comunidade limita­ . que a ideia rousseauniana de que o governo só é legítimo quando todos os cidadãos participam da tomada das decisões fundamentais deve ser apreciada em termos. Ora.54 Teoria Geral do Estado social. em direito civil. mesmo. por um único homem. parte final). a qual. existem inte­ resses momentâneos. é a doutrina da soberania popular. simultaneamente. com efeito. Siéyès começa por dizer que. Em sua obra clássica O contrato social. O que é a nação. já se vê. entretanto? Para conceituar a nação. historicamente considerada. sendo esta a vontade dos cidadãos sobre problemas de interesse comum. são consagradas duas doutrinas de relevo sobre a soberania: a da soberania popular. Haveria um ato que. aristocracia e demo­ cracia. sendo a soberania uma prerrogati­ va personalíssima. poderiam ser legitimadas. monarquia. Para que o Estado seja legitimado. segundo Jean-Jacques Rousseau. cada um des­ tes será titular da fração correspondente da soberania. Capítulo IV. em tal concepção. Considera Rousseau. Vale notar. Afirma Siéyès que o poder do Estado não é exercido em nome do povo. mas em nome da nação. por alguns ou. vale dizer. em face disso. Livro III. Haverá. no Estado consti­ tuído legitimamente. com exceção da democracia. seria o conjunto das pessoas con­ temporâneas que formaria o elemento humano do Estado num dado momento. Conclui-se. então. seria mero beneficiário de uma delegação. na verdade. seria uma comunida­ de concreta. Rousseau afirma que o poder só é le­ gítimo quando se origina da vontade de todos os que serão governados. que as três formas básicas de governo. presente. que a participação política do cidadão não deve ser compulsória. Segundo Rousseau. mas a aplicação das medidas decorrentes desta vontade pode ser feita por todos. Não pretende Rousseau que todo o povo tome e execute as decisões. se o fundamento da soberania fosse a vontade do povo. Por outro lado. Com a Revolução Francesa. numa sociedade historicamente considerada. legitimidade somente se houver iden­ tificação entre governantes e governados. os quais não se confundem com os interesses permanentes das gerações que se sucedem no tempo. governar-se-ia democraticamente. denominaríamos estipulação em favor de terceiro. porém. Governo tão perfeito não convém aos homens” (O contrato social. ela é. pois o direito de votar não implica um dever de votar. Povo. Ela não se confunde com a doutrina da soberania nacional. Por isso Rousseau não acreditava na representação política e refugava os chamados representantes do povo. tomar as decisões e aplicá-las: “Se hou­ vesse um povo de deuses. de Emmanuel Joseph Siéyès. portanto. Esta doutrina de Rousseau. preconizada por Emmanuel Jo­ seph Siéyès (1748-1836).

vale dizer. fica rompido um possível vínculo jurídico entre eleitor e eleito. incumbido de repre­ sentar. Em face disso. en­ sejado por fatores que não vêm. afirmando-se que o povo é o soberano (!). havia o mandato imperativo. seria impossível. a menos que infrinja a Constituição. por ora. Com Siéyès. O supremo poder do Estado. deve estar dirigido aos interesses permanentes da sociedade. por influência do próprio Siéyès. O destaque dc maior importância no raciocínio de Siéyès é que. percebe-se que a doutrina da soberania nacional originou. à balha. e não seus eleitores. Modernamente. ou por uma parcela deste. A res­ cisão da investidura do representante da nação não parte mais da vontade do elei­ tor. não uma democracia com fundamento na nação. Já se vê que o representante da nação não tem instruções de seus eleitores a cumprir. nos termos. nem contas a prestar. Antes da Revolução Francesa. então. sendo a representação fundada na Constituição. em face do progressivo declínio dos parlamentos. Disso decorre que o voto não representa um direito. como na doutrina da soberania popular. todas as Constitui­ ções da França revolucionária adotaram o chamado sufrágio censitário. porém. entidade espiritual que é o fundamento da soberania.3 0 Estado 55 da no tempo. segundo os interes­ ses permanentes e definidos da sociedade. não sendo de todo falso afirmar que soberana não é a nação. ainda assim sem parti­ cipação das mulheres. mas o par­ lamento. pelo qual o representante de cada estamento comparecia às reuniões apenas para formalizar a vontade de seus representados perante o gover­ no e. Como fazer valer a sua vontade? Diretamente. Além disso. o sufrágio universal. en­ tretanto. um munus. As gerações que se sucedem cons­ tituem a nação. neste país. e não na vontade do eleito­ rado. Quem escolherá. seria substituído. mesmo porque. nos termos da Constituição. em verdade. o representante do povo passou a ser representante da nação. Somen­ te em 1848 foi instituído. os represen­ tantes da nação? Tais representantes serão escolhidos por aqueles que a nação de­ signar como eleitores. que a nação seja representada por aqueles que atuem em seu nome. do pensamento do Siéyès. Então os representantes da nação serão eleitos pelo povo todo. entretanto. os interesses permanen­ tes da nação. como se tornara difícil definir a nação. é uma entidade imaterial. se não cumprisse sua obrigação. é evidente que ela pode restringir ou ampliar o número de participantes do sufrágio. Com o passar do tempo. entretanto. A nação. se é a nação quem vai selecionar o corpo eleitoral destinado a eleger seus represen­ tantes. as doutrinas da soberania popular e da soberania nacional acabaram por se fundir. É preciso. totalmente divorciada dos interesses populares. com total independência . os interesses permanentes das gerações em sucessão poderiam ser ir­ remediavelmente lesados. conforme institucionalizado em lei. com total liberdade e sem a pressão do eleitorado. adverte Siéyès. esta foi identificada com o povo. mas um dever. pas­ sando a representação política a ter natureza institucional e não consensual. e levando-se em conta que os representantes da nação representam esta. mas uma oligarquia parlamentar. mas apura-se. tão somente.

caracteriza­ da por uma tensão permanente entre os dois grandes blocos ideológicos vencedo­ res. Na verdade. um direito natural e. mesmo. pelo próprio Truman. e que se consagra na Constituição brasileira. três Poderes. para evi­ tar a desintegração do império soviético. como o fazem Georg Jellinek e Hans Kelsen. da leitura conjunta dos arts. basicamente. Se o adjetivo “soberano” significa “supremo”. Como adverte Sahid Maluf. portanto. embora desaparecidas. perante o eleitorado. reparte compe­ tências. em verdade. como na célebre tripartição de Poderes que nos vem de Aristóteles a Montesquieu. o eleitorado aos seus representantes. Não existe. mas não divide a soberania. o poder soberano delega atribuições. uma reação contra a chamada Doutrina Truman. inerente à norma de direito positivo. na esfera de sua competência. no rí­ gido controle político dos Estados socialistas “satélites” da hoje extinta União So­ viética. para alguns. mas três órgãos. É o que se constata.3. podendo estes scr afastados do cargo pelos próprios elei­ tores. divulgada em mar­ ço de 1947. criado e imposto pelo Estado. 55 e 56 da Constituição brasileira.3) A doutrina da soberania limitada Trata-se de uma doutrina formulada pela União Soviética. Assim fizeram algumas Constituições modernas. que. a soberania é una porque não pode existir mais de um poder soberano num mesmo Estado. Em princípio. este é criado por aquele. em face da ausência da coercibilidade. a soberania pode ter por fundamento o povo (Rosseau) ou a nação (Siéyès). Depreen­ de-se disso que não há limitação ao poder do Estado. por exemplo. N ão há. como a da extinta União Soviética e. consistindo. Vale notar que a soberania é una e indivisível. são recentes. Constituições modernas volta­ ram-se para o mandato imperativo. Não há que falar.56 Teoria Geral do Estado para os seus representantes. O Estado precede o Direito. há quem afirme que a soberania pertence ao próprio Estado. juridicamente. a de Cuba. 53. “su­ perior”. que fruiriam de uma liberdade ou soberania meramente relativa. concomitantemente. a doutrina de Brezhnev foi. de forma soberana. de imediato. A ideia de soberania “limitada” foi afirmada pelo líder soviético Leonid Brezhnev em 1968. em poderes do Es­ tado. como admitir duas entidades “soberanas”. Se. buscando vincular. durante a chama­ da “Guerra Fria” conseqüência imediata da Segunda Guerra Mundial. por ocasião da invasão militar da Checoslováquia pelas tropas soviéticas. Como reação aos princípios da soberania nacional. um Direito Internacional. no Congresso norte-americano. apoiando a política . portanto. ainda em vigor. numa mes­ ma sociedade política? A indivisibilidade da soberania é corolário de sua unidade. 2°. Só há um Direito: o Direito Positivo. características que lhe são es­ senciais. art. e que preconi­ zava a intervenção dos Estados Unidos naqueles Estados que. o comunista soviético e o capitalista ocidental. cada qual atuando. simplesmente. 4. estatal.

estas garantidas pelo Estado. na internacionalização da tecnologia e. São Paulo. nesta nova ordem econômica interna­ cional o capital criou sua própria “soberania” . sociedade condicionante das demais e dotada de poder so­ berano.3 0 Estado 57 norte-americana. a perda do controle de sua economia e criar alterna­ tivas independentes da especulação internacional. o próprio Estado. é imediatamente sancionado com a desinversão. São Paulo. Impossível evitar. sal- Pedro. Como observa Rodrigo Borja. Saraiva.3. 4. principal­ mente. Hans.4) Ordem jurídica Bibliografia: vetti n e t t o . Goffredo. les j r kelsen. então. mesmo. estivessem ameaçados por minorias ativistas paramiiitares prósoviéticas. que dispõem da economia mundial em favor de seus interesses. Fondo de Cultura Econômica. 1984.4) Globalização e soberania O fenômeno da globalização da economia mundial se expressa na abertura dos mercados. forçoso reconhecer que o poder político dos Estados vem a ser superado pela planificação econômica das grandes empresas multinacionais.. Acadêmica. M ax Limonad. em suas relações jurídicas. no livre comércio. especialmen­ te o especulativo. no fluxo internacional de capitais.. cortesia e. Com efeito. escolhendo os Estados que adotará como fonte de renda. a partir da célula familiar e o municí­ pio. sem considerar as conveniências sociais (Enciclopédia de la políti­ ca. sendo seu fundamen­ to. 6. Curso de teoria do Estado. entretanto. 4. Assim. no notável incremento do turismo internacional. Ao viver comunitariamente. México. passando por um processo de integração paulatina denominado socialização. Teoria pura do direito. o poder po­ lítico tem por missão principal ordenar a vida em sociedade. Conforme suas conveniências. 1997). Em sociedade. o capital. 1939. formando-se o pânico nas suas bol­ sas. ed. sendo disciplinado em suas relações de amizade. emigrando cm busca de maior lu­ cro. Assim. na eliminação de barreiras fiscais em favor deste. move-se com espantosa rapidez e total liberdade. O homem é um ser social. manter a paz social. 1985. ele alcança seus objetivos individuais e satisfaz sua tendência gregária. formando. mas tam­ bém interage. São Paulo. o homem não apenas age. Disciplinando as relações jurídicas . diga-se de passagem. no fortalecimento das empresas multinacionais. t e l - . em ques­ tão de segundos salta as fronteiras dos Estados. O direito quântico. Quando um Estado deixa de oferecer condições vantajosas para este capital.

Para que haja or­ dem. a legítima defesa. dispensar a ordem jurídica. pelo Estado. para que alguém faça ou deixe de fazer algo. E o que é uma norma? Norma é uma diretriz de conduta socialmente estabelecida. de afeto. a vida em sociedade? Mediante a imposição de normas jurídicas. cumprimos durante nosso cotidiano. conexos. direito imposto. Quanto à norma jurídica. o Estado ordena a vida humana. posto. vale dizer. Por isso. possibilidade do emprego da violência física (vis materialis). No direito romano. restando evidente que a coerção somente pode ser exercida quando au­ torizada pela norma jurídica. Não foi sem razão que Aristóteles. forma. o grande filósofo da Antiguidade Clássica. com atenção. jurídicas. ao contrário de coação (coatividadc). formar. positivo. é uma diretriz dc con­ duta socialmente estabelecida pelo direito positivo. por exemplo. coativamente. Coercibilidade deriva de coerção. encontrado na palavra ordem. norma es­ tatal dotada de cocrcibilidadc. “onde houver sociedade haverá direito” (ubi societas ibi jus). ideológico. que denomina a pressão meramente psicológica. ordem implica a ideia de forma. incerto. e não sinuoso. mas não essenciais. violência corporal. rumo a seguir. con­ tornar. principalmente. E como o Estado ordenaria. algo que é direito. de origem latina. imposto. oriente. jamais. é preciso que existam normas que definam o que pode e o que não pode ser feito ou deixado de fazer. não poderão. Alguns filósofos do Direito não admitem a existência da desordem. . de caráter religioso e.58 Teoria Geral do Estado entre as pessoas. por exemplo. Então. entretanto. orientar. uma ordem inconveniente. conferindo-lhe uma direção con­ sagrada por determinada concepção dc ordem. o mesmo ra­ dical sânscrito or. a desordem. Assim. como não poderia deixar dc ser. Normas de polidez. a desordem seria. tão somente. isto é. ficaremos impressionados. Viven­ do em sociedade. das mais variadas naturezas. nortear. de origem sânscrita: oryque significa diretriz. o vocábulo norma. afirmou que. Curiosamente. esqua­ dro. Mesmo os regimes políticos mais despóticos e injustos não podem deixar de se amparar num mínimo de legalidade. Se observarmos. portan­ to. Não houvesse ordem jurídica e teríamos o caos. podendo ser definida como a unidade na multiplicidade ou a conveniente disposição de elementos para a realização de um fim. Daí direito positivo. O vocábulo ordem traz consigo um radical antiquíssimo. reto. Es­ tas. por exemplo. em caso contrário eles próprios naufragariam na desordem e na insegurança. a sim­ ples ameaça. quantas normas. já se disse. ele sempre está presente cm ter­ mos análogos. o jus positum era o direito criado pelo Estado e. os homens poderão dispensar uma série de bens úteis. são dotadas de coercibilidade. daí a analogia. pois sen­ do o conceito de ordem eminentemente subjetivo. significava régua. Veja-se que o termo norma traz. deve haver uma ordem imposta na vida em sociedade.

e não mera soma de partes simplesmente justapostas. Foram Hans Kelsen e Adolf Merkel que interpretaram a ordem jurídica como uma pirâmide escalonada. um conjunto harmônico. formam uma multiplicidade que não satisfaz. parágrafos. o inglês Thomas Hobbes. vere­ mos que ela apresenta uma estrutura. As normas jurídicas não sc acham soltas. dispostas hierarquicamente. mas sim de modo organizado. vale dizer. a or­ dem jurídica não é idêntica às demais estruturas. Sim. direta ou indiretamente. formal. contudo. a ordem jurídica é uma es­ trutura análoga a uma estrutura musical ou plástica. com os demais. enfatizava. a unidade. iso­ ladas umas das outras. tudo disposto harmoniosamente. umas dependem de outras. uma característica sui generis: a hierarquia entre as normas. o ser humano é perverso por índole. Já se percebe que a ordem jurídica é uma estrutura. A ordem jurídica é uma estrutura. uma melodia pois. no seu livro célebre intitulado Leviatã. complementado o conceito de ordem. toma forma de normas jurídicas. entretanto. uma estrutura? É uma dispo­ sição harmoniosa das partes para a realização do todo. sem­ . integra o conceito de ordem. Assim. qual seja. sob o im­ pério da Constituição. isto sim. orgânico. no topo da qual se acha a Constituição. a ordem jurídica bem se assemelha às notas de uma melodia. Inicialmente. que. contendo epígrafe. Cada um dos dispositivos se relaciona. am­ parado numa ordem jurídica férrea. um contrato. como vimos. Uma norma só é válida se não conflitar com a ordem jurídica da qual faz parte. Mas é preciso que haja outro elemento neste conceito. mas não idêntica. em desconexão. Ela possui. uma ordem que pareceu conveniente ao le­ gislador. Ora. umas complementam outras. todas as normas jurídicas de uma ordem jurídica consistem no elemento multiplicidade. uma sentença judicial somente são válidos se esti­ verem em conformidade com os demais diplomas legais. O que vem a ser. carecem de unidade até que o compositor lhes dê uma dis­ posição estética conveniente. e seu instinto pernicioso somente pode ser controlado por um poder político severo. estão. incisos e alí­ neas. Pois bem. Desta derivam todas as demais normas. por si só. portanto. a fim de iniciar a pintura da paisagem que contempla. Várias notas musicais emi­ tidas ao léu não formam. Uma lei. embora formando o elemento multiplicidade. pois possui uma característica que lhe é essencial e que. a distingue das outras: a hierarquia entre suas partes (normas) integrantes. sem dúvida. Qual o fundamento desta ideia? Se abrirmos uma coletânea de legislação e a analisarmos detidamente. um preâmbulo.3 0 Estado 59 Um dos maiores teóricos do absolutismo monárquico. As normas jurídicas de uma ordem jurídica não estão no mes­ mo plano de eficácia. fornecido pela razão. o artista. à disposição ordenada dos capítulos de um livro. Mas quando elas forem dispostas. Esta ordem se formaliza. Essas tintas estão em desali­ nho. convenientemente. ordenadamente. que o homem é lobo do próprio homem (horno homini lupus). de força. ordenado. dc estrutura. na tela em branco. O complexo de normas ju­ rídicas em vigor numa sociedade não sc acha disposto mecanicamente. Vejam a paleta na qual um pintor derrama suas tintas. teremos. necessariamente.

derivam da norma fundamental da veracidade. a conduta por elas prescrita ao homem impõe-se pelo seu conteúdo. Não nos interessa saber. então. como ordem . E as normas obtêm esta qualificação concreta pelo fato de estarem relacionadas com uma norma funda­ mental. é porque a sua validade pode ser referida à nor­ ma fundamental dessa ordem. podemos referir-lhe uma enorme quantidade de normas derivadas: “não deves prejudicar os outros”. a unida­ de da pluralidade de todas as normas que constituem uma ordem. da mesma maneira que o particular está contido no geral e que. posto. é preciso fazer uma distinção: somente a Cons­ . isto é. o qual possui uma determinada qualidade.60 Teoria Geral do Estado pre hierarquicamente. uma ordem. Conforme a espécie de norma fundamental. Trata-se. E a primeira pergunta a que é preciso responder. o Código Civil. os contra­ tos e os atos administrativos. por isso. Suponha­ mos a seguinte norma fundamental: “deves amar o próximo”. As normas jurídicas criadas pelo Estado são incontrastáveis. procedendo a uma dedução do geral para o parti­ cular. como o particular se subsume ao geral. formam um todo denominado direito positivo. con­ forme a natureza do princípio de validade. na verdade. imposto. “deves au­ xiliar o teu próximo em caso de necessidade” etc. Numa passagem de grande vigor intelectual e de cla­ reza. somente limita­ das por outra norma estatal. um sistema. E se uma norma pertence a uma determinada ordem. da norma fundamental. podemos distinguir duas espécies de ordem (sistemas normativos). como última fonte. qual é a norma fundamental de um determinado sistema de moral. de evidência imediata. Assim. de compreender que as diversas normas da moral já se acham compreendidas numa nor­ ma básica. O conjunto de todas as normas jurídicas no Estado chama-se. p. Direito objetivo é o conjunto de todas as normas jurídicas em vigor no Estado. formula-a a Teoria Pura do Direito pela maneira seguinte: o que é que estabelece a unidade de uma pluralidade de nor­ mas jurídicas? Por que razão uma determinada norma jurídica pertence a um certo sis­ tema dc Direito? Uma pluralidade dc normas constitui uma unidade. são normas de direito objetivo a Constituição. as normas “não deves mentir”. quer dizer. direi­ to objetivo. São desta espécie as normas da moral. “deves cumprir tuas promessas” etc. que lhes confere essa validade. nem um decreto regulamentar pode dispor de modo contrário à lei que ele próprio está regulamentando. Hans Kelsen (1939. As normas da primeira valem por si.a ordem jurídica . mediante uma opera­ ção lógica. isto é. o direito impositivo. se a sua validade puder ser referida a uma norma única como último funda­ mento dessa validade. Essa norma fundamental constitui. cuja fonte é o Estado. a cujo conteúdo está submetido o conteúdo das normas constitutivas da or­ dem em questão.é um sistema de normas jurídicas. “não deves enganar”. aqui. todas as normas particulares da moral podem fazer-se derivar. Porém. Essas normas jurídicas. 60-1) sintetiza seu pensamento a respeito: O Direito. Por exemplo. a Constituição não pode ser ferida por uma lei ordi­ nária. enfim.

Paris. 1978. Ci. t e l i .3 0 Estado 61 tituição. Manoel Gonçalves. Problemas de filosofia política. 11. mas somente para quem vê nela um ideal de vida. São Paulo. em seu sentido pró­ prio. Curso de teoria do Estado. É um bem a que se atribui valor. Teoria pura do direito. sendo necessário que se lhes atribua um valor.. ed. Dalmo dc Abreu. Saraiva. Difusão Européia do Livro. Sucessor. 1982. elucida o professor GoffredoTclles Júnior: De fato. Goffre- Bem é tudo o que seja objeto do desejo humano. m o n t e s q u i e u . Pierre. souza . o Código Civil. Que é valor? É a importância que se atribui a um bem. a santidade é um bem de valor.s do. P. Sucessor. 1946. Hachette. Mas uma joia não é um valor. Mas não é um valor em si. Paulo kelsen. São Paulo. A santidade tem va­ lor. Afirmar que a san­ tidade é um valor e o mesmo que afirmar que uma joia e um valor. O direito quãntico. José Pedro Galjr vão de. C. A doutrina social da Igreja. Harold J. Conceito e natureza da sociedade política. ru it e n p io x i. São Paulo. - verger . Todas as normas jurídicas são de direito objetivo. 1949. Oeli­ Encíclica Quadragésimo Anno. São Paulo. Uma coisa não pode ser um va­ lor. Os regimes políticos. 1979. 3. l a s k i. A doutrina social da igreja segundo as encíclicas Pedro. Saraiva. Nem mesmo seres ideais podem ser valores. 1981.5) Causa final: o bem comum Bibliografia: m oncada b ig o . 4. Não se pode dar a uma coisa o nome de valor. df. O. Os direitos sociais nas constituições. A santidade (ou o santo). Coimbra. M ax Limonad. Ela e um bem. o que realmente queremos dizer é que os bens de valor estão no cofre. 1966. Braga. d a l l a r i. . Igual­ mente.. As coisas não constituem bens em si mesmas. Hans. São Paulo. Luís. porque se impõem a todas as outras. . São Paulo.f. mas somente as normas jurídicas provenientes do Estado são normas de direito positivo. . Saraiva. Zahar. a palavra valor quando empregada corretamente. 1980. a não ser que se falsifique o senti­ do da palavra valor. Rio de Janeiro. Rerum Novarum e Quadragésimo Anno. não e um valor. 1979. O mani­ festo Comunista de Marx e Engels. São Paulo. . Q uando dizemos os valores estão no cofre. A democracia possível. Coimbra. Moderna. 1859. ed. o Código Penal e outras leis oriundas do Estado formam o direito positivo. ed. 1981. um ideal mais alto do que os ou­ tros ideais. vres completes. 1985. 1969. 6. . O futuro do Estado. 1981. Neste sentido. por exemplo.. ed. 4. São Paulo. salvetti n e t t o . Armênio Amado. São Paulo. du 1963. c a b r a i. É uma coisa valiosa. não designa a essência e a existência de coisas. São Paulo. g a l v Ão f e r r e ir a f il h o e Curso de direito constitucional. Armênio Amado.. Mauricc. . São Paulo.

tida como o conjunto dos valores sociais. em que o bem comum foi definido como a ordem jurídica. Sim.1) 0 liberalism o e 0 bem com um Absoluta e unanimemente. mesmo porque. nem por isso a norma jurídica. em diferentes épocas. uma liberdade de tempos de paz. 11a disparidade das interpretações da liberdade. então. Causa final da sociedade política. deixa de ser legal. não são perpétuos nem imutáveis numa mesma socieda­ de. inquestionavelmente. Não é difícil depreender. legal. O Estado não é mais do que um meio de realização do bem comum. somente será legítima se estiver conforme o consenso social.62 Teoria Geral do Estado Ora. contudo. A moral social. bem comum era. que nem sempre a ordem jurídica é justa. enquanto válida. Conclui-se dessa breve digressão introdutória que o conceito de bem comum varia no tempo e no espaço. consubstanciado 11a ideia de justo. concebe e ado­ ta as normas jurídicas c morais. com certeza.5. como sinônimo de paz social. a valoração dos bens varia no tempo e 110 espaço. a mesma liberdade de tempos de escassez. . o preço a ser pago por essa superação é de tornar cada ser humano mera parcela do todo so­ cial. embora seja. perío­ do de esplendor do Iluminismo. Enormes divergências entre os homens residem. ele varia com o tempo. Infelizmente. Há uma liberdade de tempos de guerra que não é. caso contrário cairíamos no totalitarismo. confunde-se com a concepção do que é justo em determinada sociedade. absolutamente. Embora a ordem jurídica tenha por objetivo final o bem comum. o bem comum deve ter como objetivo a plena realização espiritual e física do homem. justa ou injusta. evi­ dentemente. Por outro lado. em pleno apogeu do Século das Luzes. puro instrumento de um todo. há uma liberdade de época de fartura que não é. o conceito de liberdade não é unívoco. a mera conservação da ordem social. se a concepção totalitária de bem co­ mum supera. nem sempre tal finalidade é alcançada. desta formulação. A ideia de justo ou de legitimidade de uma ordem jurídica fundamenta-se no consenso social. a visão limitada do individualismo. Os valores sociais têm uma existência histórica. na oportunidade. necessariamente. como o próprio nome revela. e também do individualismo e do cidadão abstrato. doutrina que. o faz com fundamento nos valores adotados pela comunidade. todos os sistemas políticos se declaram adeptos da liberdade individual. pois. A norma jurídica não se origina apenas do fato e da inteligência. essencial­ mente legal. mais precisamen­ te o século XVIII. e para tanto deve atuar inci­ sivamente. A norma jurídica. pre­ tendeu libertar o homem “das trevas da superstição medieval”. Tal concepção chama-se con­ senso social. quando o intelecto valora um fato. sem ferir. adota uma tábua de valores c. 4. houve época. Foi aquele o século do racionalismo. que culminaria na Revolução Francesa. a liberdade e a iniciativa individuais. então. Cada sociedade. mostrando-se o reto caminho das luzes da razão. Estávamos. alterando-se conforme o ensejarem novas circunstâncias. pois.

ora outro. Já para Harold Laski. na prática. Ainda assim. num primeiro momento de sua vida. para alguns. quando passou a ver na li­ berdade política uma autodeterminação conseguida pela participação do indivíduo na criação da ordem social. não haveria mais liberdade. Em qualquer Estado. a liberdade consiste em po­ der fazer o que se deve querer e em não ser obrigado a fazer o que não se deve que­ rer. mais tarde. É preciso distinguir. os motivos de seus males. acuradamente. ademais e a todos. o Estado lhe possa de­ terminar outras restrições senão aquelas necessárias à proteção da liberdade de to­ dos. a liberdade será inatingível até que a paixão da igualdade seja satisfeita. que a vida do gênero humano gira. perpetuamente. assim como foram apresen­ tadas pelos pensadores da era do lluminismo e assim como se desenvolveram na teoria política das ideologias modernas. ainda. para outros é exatamente o oposto desta. a exemplo de Kelsen. que é verdade que. definiu. faz o que deseja. são dois conceitos que. não significa fazer o que se quer. como nas democracias o povo tem mais facilidade para fazer quase tudo o que deseja. Tal postura revela bem a intervenção do poder político no domínio econômico-cultural. Georg Jellinek afirmou. aparentemente. O equilíbrio entre ambos ainda não foi alcançado: ora predomina um. porém. Silva Telles. se cada um dc nós pudesse fazer o que as leis proíbem. é mais freqüente que a coloquem os povos na república. em qualquer sociedade dotada de leis. Cada homem denomina liberdade ao governo que mais sc ajusta aos seus costumes e inclinações pessoais. defi­ nia a liberdade como o poder que pertence ao indivíduo de exercer e desenvolver sua atividade física. e. a liberdade como a ausência de quaisquer laços obrigatórios para o indivíduo. em torno de dois valo­ res: indivíduo e coletividade. o grande Montesquieu. afirma que as duas ideias essenciais da democracia. por sua vez. proporcionando. não a percebendo nas monarquias. a fim de impedir que a liberdade dos fracos seja sufocada pela liberdade de uma minoria.prossegue . se hos­ tilizam e se excluem. A liberdade política.possibilita o desenvolvimento das . Hans Kelsen. criador da célebre teoria pura do direito. com isso. publicista pátrio. No campo da doutrina. Afirma. sempre. que não há palavra que te­ nha mais acepções e que tenha tanto impressionado os espíritos como a palavra li­ berdade. declarando que cada vez mais o Estado faz penetrar em seu ordenamento jurídico o elemento socialista. liberdade e igualdade. posição esta reformulada mais tarde. intelectual ou moral. um nível de vida que ofereça um mí­ nimo de decência aos menos favorecidos. A liberdade é o direito de fazer o que as leis permitem. Aliás. prossegue. A liberdade . diante de seus olhos. a suprema liberdade. o povo. porque todos teriam o mesmo poder. entre independência c liberdade. Observa. sua concep­ ção de liberdade. a essência da liberdade também está longe de ser revelada.3 0 Estado 63 Aquilo que para uns é liberdade. Afinal. porém. Léon Duguit. Duguit mudaria. redefinindo-a em forte matiz socialista. nas democracias. porque naquela não têm. Outro eminente publicista francês. colocou a liberdade nos governos democráticos e confundiu o poder do povo com a sua liberdade. a renúncia à liberdade c. sem que.

E a ideia nova para a qual ficava agora aberto o caminho. de Bossuct. dotados de inclinações diversas e deixando-se plasmar por perspectivas diferentes. Para se defender destas conseqüências. por vingança. a própria afirmação de que a liberdade de cada um termina onde começa a de outro é inaceitável. o dia de trabalho das doze c mais horas sem limite. e estes. quanto mais procura impor a justiça igualitária. a liberdade opri­ me e a lei liberta”. pois as liberdades dos indivíduos não podem ser tomadas isoladamente e colocadas uma ao lado de outra. o liberalismo político da democracia reinante. enfim. até suprimi-la de vez. o desemprego das multidões proletá­ rias. mas de verdade.64 Teoria Geral do Estado diferenças entre os homens. liberdade religiosa. Tudo conseqüência do individualismo econômico apoiado no seu poderoso aliado. que era preciso também hipostasiar e sublimar. liberdade de reunião etc. não de pura teoria. dominados. é a desigualdade econômica. o seu espírito de lucro insaciável. Lenin. Dian­ te da pressão social. com a destruição. a superprodução. uma vez que. Não é à toa que o individualismo excessivo acarreta males gravíssimos para a vida em sociedade. justamente pelos meados do século X IX : o egoísmo desenfreado dos chefes de empre­ sa. de Lacordaire. Mas ago­ ra uma igualdade. o Estado intervém para nivelar as condições de vida. O resultado de certa concepção dc liberdade. ofende a liberdade dc alguns ou dc muitos c. a democracia viu-se obrigada a procurar uma ideia nova que lhe servisse de base. das máquinas da indústria algodoeira em Inglaterra. . acham-se entrelaçadas e necessariamente inseridas no meio social. costumava dizer: “A liberdade é um bem tão precio­ so que deve ser racionada”. Para Dallari.a outra irmã gêmea da liberdade e. então. Ou esta outra: “Entre o fraco e o forte. na realida­ de. como antes se fizera com a de liberdade. mais reduz a liberdade. li­ berdade pessoal. Era preciso deslocar ago­ ra o acento tônico da ideia de liberdade para outro elemento. e estes. as regulamentações artificiais do mercado pelos trusts c grandes monopólios. criarão condições em que alguns poucos do­ minarão os muitos. Crítica bem posta. cm preciosa síntese: São conhecidos os excessos a que conduziu o liberalismo econômico e político. o grande revolucionário inspirador da re­ volução socialista da Rússia. a baixa constante dos salários a um nível incom­ patível com toda a dignidade da vida humana. como esta: “O Estado que quisemos fraco demais para não nos oprimir foi também fraco demais para nos defender”. afinal a mais forte paixão da democracia. era a da igualdade . no dizer de Herculano. propiciando tiradas muito bem postas. deixarão de ter a liberdade apregoada. liberdade econômica. as depressões econômicas. consciente e esclarecedora é a formulada pelo eminente jurisfilósofo Cabral de Moncada. o trabalho desumano das mulheres c das crianças nas fábricas. Claro que existem várias espécies no gênero liberdade: liberdade política. a imensa mi­ séria das massas operárias entre os anos de 30 a 50 desse século. interfe­ rindo.

Tal liberdade era. Referi­ do Estado é aquele em que as leis não podem ter vigência nem ser modificadas se­ não por via legal.3 0 Estado 65 É inegável. A concepção de liberdade do liberalismo acabou por se autodestruir. até agora. compreende muitas liberdades. pois colocava o indivíduo contra o Estado. a Revolução Francesa destruiu o concei­ to tradicional dc poder político. Por esse motivo entendia-se que bastava impedir a interferên­ cia do poder público para que os indivíduos fossem livres. sem fundamento na própria natureza humana. um interesse mais incisivo do leitor.. condições propícias para o aparecimento dos totalitarismos e do socialismo exacerbado. por intermédio de representantes periodicamente substituídos em eleições livres e sinceras. um fim em si própria. exaltando o indivíduo em detrimento do social. todas estas. a liberdade apregoada pelo liberalismo era uma liberdade sem pers­ pectivas. que a liberdade política . Com frequência um indivíduo muito rico ou um poderoso grupo econômico reduz seriamente a liberdade de muitos indivíduos.é a mais ampla de todas e que. Reagindo contra o absolutismo monárquico (deturpação do exercício legíti­ mo do poder e. Esta liberdade se chama liberdade política e o Estado em que ela existe se chama Estado dc Direito. não se pode colocar . enquanto os desajustes econômicos se agravavam. Por outro lado. Já percebe o leitor a dificuldade existente na formulação de um conceito uni­ forme de liberdade. a formação de um capitalismo monstruoso e a proletarização dos produtores.definiu a liberdade como o direito de fazer aquilo que as leis permitem. em razão disso. ao dizer: a liberdade começa com a vi­ gência dc leis registradas do Estado em que se desenvolve. ser a liberdade a coragem de resistir. por meio da dominação econômica. portanto. prossegue o autor citado. Não foi sem fundamento que Montesquieu . de sua cooperação e participa­ ção direta ou indireta. Em razão disso. ela pres­ supõe sempre uma razão que a justifica.que foi. no século XVII a afirmação da necessidade de liberdade foi feita em favor dos que já eram dotados de poder econômico. Nas sociedades indus­ triais do fim deste século X X .. paradoxalmente. E à liberdade po­ lítica que o filósofo Karl Jaspers se refere. porém. a tratada neste ca­ pítulo . transformado este em mero fiscal da manutenção da ordem pú­ blica. havendo mesmo inú­ meros casos em que o Poder Público se vê subjugado e inteiramente controlado por grupos econômicos. despertando. a vida em sociedade. contudo. da autoridade). ou até de um povo inteiro. ainda. Como acentua com muita clareza Dalmo de Abreu Dallari. o principal inimigo da liberdade individual nem sempre é o Poder Público. ine­ rente à natureza do homem. impõe restrições aos possíveis excessos das liberdades civis e políticas.corifeu do liberalis­ mo . ipso facto. Já se disse até. Na verdade. e não um meio para o aperfei­ çoamento do homem. Esta via legal depende do povo. com Royer-Collard. O exces­ so de livre-concorrência gerou a exploração dos fracos pelos fortes e. A liberdade não é o valor supremo da vida humana. válido para todas as épocas e todos os lugares. com esta.

porque despojado de di­ reitos e deveres. Além disso. que. ao sustentar que o melhor meio de realizar a felicidade do homem é do­ tá-lo da maior liberdade possível. porém. por isso na­ turais. dando ênfase à igualdade e restringindo os ex­ cessos da liberdade. Referidos direitos transcenderiam a própria lei escrita. o direito só frutifica no relacionamento humano. 4. a concepção eminentemente individualista da sociedade ensejaria a própria eliminação dos mais fracos pelos mais fortes. o liberalismo fez da liberdade ilimitada o valor supremo do ideal de­ mocrático. Muitas vezes é indispensável o fortalecimen­ to do Poder Público para impedir que os economicamente fortes reduzam a liber­ dade dos economicamente fracos e estabeleçam uma profunda desigualdade entre os indivíduos. Por isso. sendo o Estado mero coordenador desta liberda­ de. jurídica e social. adverte. partindo da premissa de Emmanuel Kant.66 Teoria Geral do Estado o controle do Poder Público de um Estado como necessário e suficiente para garan­ tir a liberdade dc todos os indivíduos. se tornou um organismo dinâmico. A mera legalidade. seriam direitos abso­ lutos que o Estado deveria reconhecer e preservar. de mero espectador do drama humano que sua passividade havia desencadeado. atuante e intervencionista.5. direitos estes ditados pela própria natureza. é necessário corrigir o sentido egoísta da liberdade individual. que. diuturnamente. Com efeito. antever a possibilidade . Alexis de Tocqueville já previra. é preciso que a convivência. não existe juridicamente. Seria trágico. vale dizer. Os seguidores dessa escola não levaram em conta que o direito tem seu fundamento na própria sociedade. finaliza. Por outro lado. a experiência tem demonstrado que a simples declaração dc que todos são livres torna-se completamente inútil sc apenas alguns puderem viver com liberdade. à luz de três metas políticas. por via de conseqüência. apanágio da liberal-democracia. com esplendor incomparável. uma série de pro­ vidências por parte do Estado. anteriores ao surgimen­ to da própria sociedade. Ademais.2) C oncepção social do bem com um Os erros do liberalismo acarretaram. bus­ ca reequilibrar a vida em sociedade. o ho­ mem isolado é mera abstração. ao passo que as vantagens da igualdade brilham. embora tardiamente. Se todos os homens são livres e iguais e se os homens não vi­ vem isolados uns dos outros. a repartição dos bens e o acesso aos benefícios da vida social não permitam grandes desníveis. o liberalismo consagrou a escola clássica do Direito Natural. o homem seria dotado dc direitos imprescritíveis. Enfim. as desigualdades so­ ciais. que a liberdade é um valor destinado a oferecer seus benefícios apenas de quando em vez. Por outro lado. de que a finalidade do Direito Objetivo não seria mais do que realizar a coexistência dos Direitos Sub­ jetivos. restringindo-se a limitar a liberdade dc cada um ao mínimo exi­ gido pela sociedade. e este pressupõe a sociedade. acen­ tuando as desigualdades naturais e. ou seja. cedeu espaço ao moderno Estado de justiça. com muita proprie­ dade.

então. começa a substituir a figura do estadista convencional. O crítico mais mordaz do princípio da tripartição dc poderes. Por outro lado. a democracia passou a ser muito mais atraente quando adjetivada dc social. dava aos chefes de indústria o poder real. tornou-se mais atual do que nunca. com sua morte. O Executivo. como a criação e a gerência de serviços assistenciais. hoje freqüentíssima e inevitável. sendo acolhida. o interven­ cionismo estatal foi ignorado durante um século e meio porque o Estado represen­ tava um papel secundário. como acentua Duverger. foi colocada em questão no Estado contemporâneo. bem como de Locke e. Fruto disso é a delegação legislativa. Quando o Welfare State substituiu o État gendarme. sofreu um abalo mui­ to grande com o desenvolvimento da tecnologia. O caráter essencialmente técnico de muitas decisões e a inconveniência do debate público. O reforço do Poder Executivo é. como bem frisa Ferreira Filho. Todos os governos procuram adaptar-se às novas circunstâncias sociais. hoje. o mundo nor­ te-americano. mais do que os outros. outras. foram substancialmente ampliadas. se o uso da pólvora liquidou o sistema das guerras medievais. o Estado iniciou a sua atividade interveniente na vida econômica dos indivíduos. definitivamente sistematizada por Montesquieu. sob o acicate de um poder irrestrito. Os Estados em desenvolvimento. podia dar-se ao luxo de cometer seus erros ao abrigo de suas riquezas. o uso dos computadores revolucionou a administração moderna. Mesmo nos Estados Unidos da América. Novas tarefas ingressaram em sua esfera de ação. é claro. muito mais do que o valor liber­ dade. hoje. depois. Como acentua Silveira Neto. O adjetivo social tornou-se uma palavra mágica. órgão capaz de decisões mais rápidas. numa comunidade em que o liberalismo econômico. A própria doutrina da tripartição dc Poderes. em busca do bem-estar social. dos quais não necessitava intensamente. A concepção secularmente arraigada do elemento político tor­ na-se menos importante que o elemento econômico. veio bruscamen­ te à luz: o sistema governamental norte-americano pareceu não estar mais à altu­ ra das novas tarefas político-econômicas. oriunda dc Aristóteles e de Cícero. adverte Manoel Gonçalves Ferreira Filho. esta última alternativa. A ideia do governante supergerente. triunfante. que se batia tenazmen­ te pela unidade c unicidade do poder estatal. de sua competência. universal. em razão de sua própria estrutura. preeminência notável. baluarte na luta contra a concentração do poder num órgão apenas. pertinente a certos assuntos. passou a ter. ás ocultas ou ãs escancaras. É inegável que o valor igualdade atrai. Percebeu-se que o Estado deve.3 0 Estado 67 de efetivação de uma sociedade estandardizada. isolado dos demais povos. na ânsia dc correção dos desajustes sociais. na qual todos vivessem e pensas­ sem da mesma forma. Durante anos o talento de Roosevelt ocultou um mal que. Mareei dc La Bignc de Villcncuvc. sentiram os reflexos dos novos tempos. Tal doutrina. conduziram os parlamentos ao dilema de paralisar sua atividade ou delegar pode­ res. êmulo do executivo das empresas privadas. hoje mais .

135 a 155. exercido nos limites do bem público. técnico e manual tem direito a proteção e solicitude especiais do Estado. a liberdade continua a ser valor transcendente do ideal democrático. De um lado. o homem do cotidiano. se­ guida pela Constituição de 10. sur­ ge o homem concreto. 135. A intervenção do Estado no domínio econômico só se legitima para suprir as deficiências da iniciativa individual e coordenar os fatores da produção.1937. O trabalho é um dever social. Como acentua Salvetti Netto. E regime muito mais de conteúdo que de forma. no poder de criação. A Constituição mexicana de 1917 e a Constituição de Weimar em 1919 pre­ viram direitos sociais. Em tal diapasâo. assegurando-lhe condições favoráveis c meios dc defesa. só atinge seus fins quando logra realizar o bem-estar da comunidade. as profundas alterações ocorridas nas estrutu­ ras sociais motivaram a revisão do conceito de democracia e de representação. 135: Art. que dispunha sobre a ordem econômica nos arts. dc organização e de in­ venção do indivíduo.68 Teoria Geral do Estado do que nunca. surgem em nossa Lei Magna de 1934 dispositivos referen­ tes à matéria. Em oposição ao cidadão abstrato. A todos é garantido o direito de subsistir mediante o seu trabalho honesto. de maneira a evitar ou resolver os seus conflitos e introduzir no jogo das competições in­ dividuais o pensamento dos interesses da Nação.11. com seus problemas e sentimentos. na vida econômica e social. à liberdade agregou-se a igualdade. funda-se a riqueza c a pros­ peridade nacional. tutelados nas mais avançadas Constituições da época. como meio de subsistência do in­ divíduo. O governo democrático. representados pelo Estado. assim: . 136. o fator econômico motivou a hipertrofia do Estado moderno. e este. também sob o título “Da Ordem Econômica e Social”. além de definir e aplicar uma política exterior e manter um exército formidável. 136 dispunha o seguinte: Art. constitui um bem que é dever do Estado proteger. surgem os direitos sociais. sendo a seguinte a redação do art. o operário. 115 e 143). Por sua vez.1946 dispunha sobre o assunto nos arts. O trabalho intelectual. 145 a 162.09. livre por excelência. com ou sem vontade. intervir. o art. numa autolimitação do poder do Estado que evocava para si deveres públicos subjetivos. Na iniciativa individual. Logo após a Primeira Grande Guerra. afirma Salvetti Netto. nos tempos atuais. A Constituição Federal de 18. com o título “Da Ordem Econômica e Social” (arts. dc outro.

a eliminação da concorrência c o aumento arbitrário dos lucros.10.01. Parágrafo único.erradicar a pobreza e a marginalização e reduzir as desigualdades sociais e regionais. a respeito da ordem econômi­ ca e socialydispondo o art. sem preconceitos de origem. raça.repressão ao abuso do poder econômico. 160 o seguinte: Art.e 170).1988. I o. IV . caracterizado pelo domínio dos mercados. 160.direitos sociais . A ordem econômica deve ser organizada conforme os princípios da justiça social. de 17. A ordem econômica e social tem por fim realizar o desenvolvimento nacional e a justiça social. [grifo nosso] A Constituição Federal vigente. 1. O trabalho e obrigação social. III .garantir o desenvolvimento nacional.a dignidade da pessoa humana. cor. 160 a 174. III e IV.1969. A todos ó assegurado trabalho que possibilite existência digna. 3o.harmonia e solidariedade entre as categorias sociais de produção. . 6o . promulgada em 05. c VI . 145. constitui-se em Estado Democrático de Di­ reito e tem como fundamentos: III .3 0 Estado 69 Art. II . [grifo nosso] A Constituição brasileira de 24.1967.expansão das oportunidades dc emprego produtivo. Assim: Art. como se depreende de vários de seus dispositivos (arts.construir uma sociedade livre. justa c solidária.os valores sociais do trabalho e da livre iniciativa. I o A República Federativa do Brasil. IV . demonstra re­ dobrada preocupação com a questão social. conciliando a liberdade de iniciativa com a valorização do trabalho hu­ mano. 3° Constituem objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil: I .10.valorização do trabalho como condição da dignidade humana.promover o bem de todos. formada pela união indissolúvel dos Estados e Municípios e do Distrito Federal.função social da propriedade. em seus arts. com base nos seguintes princípios: I . III . ida­ de e quaisquer outras formas de discriminação. com a Emenda Constitucional n. II . sexo. IV . estabelecia. V .liberdade de iniciativa. Art.

meio e fim. VII . sofrendo o influxo de vários diplomas legais estrangeiros. 170 da Constituição em vigor. buscan­ do assegurar. conforme os ditames da justiça social. A Constituição de 1967. a saúde. tem por fim assegurar a todos existência digna. A ordem econômica. o desenvolvimento nacional não deve ser um fim em si mesmo. a menos que a organização econômica lhe seja propícia. Vimos como as Constituições brasileiras de 1934 e 1937 trataram do proble­ ma. Art. a assistência aos desam­ parados.redução das desigualdades regionais e sociais. as Constituições dos diversos Es­ tados só se preocuparam com a organização política. por meio do plano econômico e social. Do latim justitia. 6° São direitos sociais a educação.propriedade privada. a previdência social.defesa do consumidor. respectivamente.função social da propriedade.soberania nacional. observados os seguintes princípios: I . emendada em 1969. o desenvolvimen­ to e a segurança das próprias instituições políticas. Até a eclosão da Primeira Grande Guerra. IX . o desenvolvimento nacional e a justiça social devem ser considerados. como a Constitui­ ção de Weimar e a Carta do Trabalho da Itália fascista. dessa forma.livre-concorrência. Somente com a Constituição de Weimar de 1919 e a Constituição espanhola de 1931. dc justus (de acordo com o direito. embora situadas em pé de igualdade no caput do art. jus). V . a proteção à maternidade e à infância. Vale assinalar que. o trabalho.defesa do meio ambiente. cumpre fazer algumas observações sobre o conceito dc justiça. na forma desta Constituição. Que vem a ser justiça social? Eis uma expressão de difícil delimitação. mesmo nesta. a justiça foi defi­ nida por Ulpiano assim: “Justitia est constans et perpetua voluntas jus suum cuique tribuendr.70 Teoria Geral do Estado Art. a segurança. o lazer. 170. Por outro lado. parece defender o princípio de que a democracia não pode de­ senvolver-se. Divul­ gada principalmente pela doutrina social da Igreja. ela é bastante di­ vergente. VIII . houve uma tendência mais acentuada para acrescentar ao texto político fundamental os princípios destinados a reger o campo econômico-social. IV . A indevida repetição desse conceito terminou por desgastá-lo.tratamento favorecido para as empresas brasileiras de capital nacional de pequeno porte. II . fundada na valorização do trabalho humano e na livre iniciativa. III . porém um meio de se alcançar a justiça social. VI .busca do pleno emprego. exceção feita à Constituição mexicana de 1917. preocupada com questão social. trans­ .

pulmões e estômago da sociedade. pois. o elegante princípio de Ulpiano não resolve o problema. como o corpo humano. Como assevera J. discípulo dc Platão. a representação abstrata do estado de pleno equilíbrio da vida social. concebia a justiça como um princípio que impunha de­ terminada estrutura social. o princípio da justiça distributiva disciplina a fixação dos impostos. de governo. modernamente. ora se assentando na liberdade. A justiça ju­ dicial é aquela dada pelo juiz. pois deveria fornecer um critério para dizer qual “seu” devemos dar a cada um. o cri­ me e a pena a este cominada. embora possa voltar a sê-lo no futuro. cabendo aos filósofos o papel de cérebro da sociedade. pre­ conizando a exata correspondência entre a coisa dada e a recebida. ca­ beriam. A justiça distributiva preconiza a distribuição das benesses sociais entre os membros da comu­ nidade. a ideia dc justiça varia constantemente: o que era justo para os antigos talvez não o seja para nós. o que pertence a cada um. delineando as premissas do moderno organicismo.3 0 Estado 71 formando-se na fórmula: “A justiça consiste em dar a cada um o que é seu”. Qual o “seu” de cada um. visto que a distribuição deve ter como referencial o mérito de seus destinatários. a revelação da essência desse ideal ainda não ocorreu. equiparadora. a prestação de serviços e as relações entre todos. os bens. seria preciso sa­ ber. observada uma igualdade proporcional ou relativa. Não resta dúvida de que. com cada um de seus membros. Ora. o valor predominante é a igual­ dade. porém? Para se poder dar a cada um o seu. honras. afirma que os homens são naturalmente de­ siguais. os órgãos sociais devem restringir-se a suas atribuições impostas pela natureza. se o ideal do justo nasceu com a própria humanidade. Princípio regulador das relações entre a comunidade e seus membros. quando afirma o princípio da justiça distributiva. será em Aristóteles que vamos encontrar o moderno sig­ nificado da justiça social. tendo como pressuposto um valor. Platão compara o Estado a um ser humano e. divide a justiça em espécies: distributiva. determinando a cada homem que se limitasse a fazer o que lhe fosse atribuído. por exemplo. respectivamente. A justiça equiparadora leva em conta o intercâmbio dos bens. Os ins­ . ora na igual­ dade. A concepção de justiça varia com as ideologias predomi­ nantes em cada momento histórico. sendo a justiça uma ideia de har­ monia e unidade. Essa divisão de classes e funções deve ser rígida. a aplicação de recursos da coletividade etc. recompen­ sas. As­ sim. Aristóteles. enfim. Platão. pelo qual a comunidade distribui. desde logo. respectivamente. comutativa e judicial. observada uma igualdade proporcional. Aos militares e operários. a justiça é a ideia. como a liberdade o foi por ocasião da Revolução Francesa. Em nosso entender. inafastável. a assistência social ao ho­ mem da cidade ou do campo. Ora. cargos e funções. estabelecendo a equivalência entre o que se dá e o que se recebe como compensação. exigindo paridade entre o dano e a reparação. A verdade é que. o princípio de justiça é invocado exatamente para dirimir a disputa entre partes que invocam aquilo que é seu. A justiça co­ municativa leva em conta as relações contratuais entre as pessoas. a segurança e o abastecimento do Estado. Flóscolo da Nóbrega.

I. a seu encargo. isolada de um mundo do qual não tinha necessidade. essa orientação de Aristóteles é de grande atualidade. de decisões mais prontas. colocou em xeque o caráter ideológico da chamada indelegabilidade de poderes.72 Teoria Geral do Estado trumentos de que se serve a justiça distributiva são o direito administrativo. e coisas desiguais aos desiguais. Para ele. se as pessoas são desiguais. cm seu Curso de direito constitucional Tal delegação. Além disso. podia dar-se ao luxo de cometer todos os erros ao abrigo de suas riquezas e de seus oceanos. vale lembrar. A justiça distributiva. justo legal é aquilo que o bem co­ mum justifica e exige.180/21). o Estado passou a ter uma missão de intervencionismo na vida econômica individual. 1. por sua própria estrutura. Para Aristóteles. Devem-se dar coisas iguais aos iguais. Conforme acentua Duverger em sua obra Os regimes políticos. como acentuou M a­ noel Gonçalves Ferreira Filho. o intervencio­ nismo estatal foi ignorado durante cerca de 150 anos nos Estados Unidos. repudiada unanimemente pelos ideólogos da liberal-democracia. a América. visto que estas devem ser distribuídas conforme o mérito dc seus destinatários. o di­ reito fiscal. a von­ tade deve estar inclinada à realização do bem moral. Eis a doutrina da isonomia. a virtude moral que tem por objetivo o bem comum é o que Aristóteles chama de “justiça legal”. órgão capaz. a criação e a gerência de serviços assistenciais. Quan­ . numa época em que o libera­ lismo econômico triunfante dava aos chefes de indústria o poder real. em busca do bemestar social. invoca a proporcionalidade na distribuição das benesses sociais. Para horror dos defensores intransigentes da tripartição e separação absolu­ ta dos poderes políticos. Por outro lado. a lei não consiste simplesmente 110 mandado por aqueles que têm. o problema do reforço do Poder Executivo tornou-se uma realidade cristalina. fixada no art. Aqui é importante notar que o “legalmente justo” não é. aquilo que o positivismo denomina com tal fórmula. bem como a inconveniência do debate públi­ co relativo a certas matérias. uma ascendência cada vez maior. tendo em vista o papel cada vez mais dinâmico que o Estado vem desenvolvendo em face das novas c múltiplas reivindicações sociais. A delegação legislativa é hoje prática correntia e inevitável “às ocultas ou às escancaras”. Por exemplo. foi imediatamente escolhida esta segunda alter­ nativa. preconizados por Montesquieu. Como o caráter eminentemente técnico de muitas decisões que deve­ riam ser tomadas em tempo recorde. passou a ter. mas em requerer a prudência (Ética a Nicômaco. no pensamento aristotélico. conduziu os parlamentos ao dilema de paralisar a administração ou delegar poderes. 5°. O Poder Executivo. porque o Estado representava um papel apenas secundário. Modernamente. Novas tarefas foram atribuídas ao Poder F^xecutivo. então. não se deve dar-lhes coisas iguais. X. e a prudência implica a retidão moral da intenção. da Constituição Federal. Quando o Welfare State substituiu o État gendarme. e aquelas que já eram de sua competência foram bastante ampliadas. a função governamental. ou seja. o direito do trabalho e a previdência social.

seu ordenamento jurídico. substituindo a do estadista tradicional. em muitos Estados. ao atender às necessidades assistenciais. a agir. Para o exercício de suas funções sociais. que deve renunciar ao seu caráter passivo. mero cão dc guarda da ordem pública.3 0 Estado 73 do. meramente passiva. nem todo Estado de direito será Estado dc justiça. quando uma fá­ brica que causa poluição é obrigada a minorar este mal ou encerrar suas ativida­ des. continuar a ter guarida. A ideologia do gover­ nante supergerente. deve transcender a mera legalidade e buscar. O aspecto político torna-se ate menos importante que o econômico. ser restringida. a iniciativa privada pode. ao manter sua segurança interna e externa. acha-se. O Esta­ do que providencia o desenvolvimento não pode deixar dc ser preponderantemen­ te empreendedor. Como fruto do século XVIII. alcançando o campo da iniciativa privada. o bem comum nada mais era do que a manutenção da ordem pública pelo Estado. pois toda so­ ciedade tem. que é o Estado que transcende a mera legalidade. o século do individualismo. no mundo moderno. O Estado deve intervir. por exemplo. seu direito. dei­ xando de ser o Estado gendarme. b) plano jurídico. c) plano social. seria aquela de um gendarme (policial) na sarcástica imagem de Ferdinand Lassalle. conclui-se que o conceito de bem comum foi bastante alterado com o surgimento de novas circunstâncias sociais. portanto. todo Estado é Estado de Direito. Em princípio. previdenciárias e edu­ cacionais da coletividade. queiram ou não queiram os governantes. o Senado se recusava a ratificar o Tratado de Versalhes. ao construir o Estado de justiça. essencialmente. preconizada pelo liberalismo clássico de Emmanuel Kant. e que pas­ sa a atuar. aliás. apenas a Europa suportava as conseqüências. peculiar a uma fase da História da humanidade. que poderá ser justo. Modernamente. Na verdade. de forma ativa. em três planos bem definidos: a) plano político. por exemplo. amparado no consenso social ou não. O Estado. vão longe os tempos da mera tutela da ordem jurídica pelo Estado. as condições sofreram uma mudança. em desenvolvimento. que não pode. Não. quando ocorre a vacinação compulsória ou quando surgem restrições à frui­ ção irrestrita da propriedade. isto é. a moder­ na concepção de bem comum exige a ação do Estado. . Do exposto. Entretanto. a justiça social. tão eficiente quanto o executivo da empresa particular. Não basta a garan­ tia dos direitos subjetivos para que o bem comum esteja alcançado. na vida socioeconômica dos indivíduos. se todo Estado é Es­ tado de direito. ao manter a legalidade pura e simplesmente. John Locke e outros. às vezes. cuja função. em nome de uma função social da propriedade.

4

A CONSTITUIÇÃO

1) CONCEITO E EVOLUÇÃO HISTÓRICA
Bibliografia: f e r r e i r a
Manoel Gonçalves. Curso de direito constitucional, 11.
salvetti n e t t o ,

f il h o

,

ed., São Paulo, Saraiva, 1982. ed., São Paulo, Saraiva, 1981.

Pedro. Curso de teoria do Estado, 4.
,

SOUZA,

José Pedro Galvão de. História do direito polí­
v ia m o n t e

tico brasileiro, São Paulo, Saraiva, 1962.

Carlos Sanchez. El poder consti-

tuyente, Buenos Aires, Bibliográfica Argentina, s.d.

A palavra constituição vem do latim cum + stituto , constitutio , de constituere (constituir, construir, edificar, formar, organizar). Tem como sinônimo o vocábu­ lo com pleição , que também contém a ideia de um todo form ado , estruturado , orde­ nado , isto é, dc unidade na m ultiplicidade . O corpo humano tem uma constituição , uma com pleição; não é ele, porventura, um organism o ? Não nos referimos, às ve­ zes, ao vocábulo constituição como a ordenação que preside a organização dos cor­ pos físicos? Assim, a palavra constituição apresenta sentidos análogos; ela pode ser toma­ da em um sentido am plo; e em outro, estrito. Tomada num sentido am plo ypode-se dizer que todos os seres apresentam uma constituição que os identifica. Tomada cm sentido estrito , a palavra constituição vai revelar o m odo pelo qual um a sociedade
se estrutura basicamente .

Aristóteles conceituava a politeia (Constituição) como a ordem da vida em comum naturalmente existente entre os homens de uma cidade ou de um territó­ rio ou, simplesmente, a ordenação dos poderes do Estado .

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4 A Constituição

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Em termos jurídico-políticos, a Constituição é a lei fundamental do Estado, lei que um povo impõe aos que o governam, para garantir-se contra o despotismo destes, conforme doutrina Romagnosi. No dizer dc Manoel Gonçalves Ferreira Filho, a constituição em sentido jurídi­ co pode ser entendida como o “conjunto de regras concernentes à forma do Esta­ do, à forma do governo, ao modo de aquisição c exercício do poder, ao estabelecimen­ to de seus órgãos, aos limites da sua ação” . Ou seja, a base fixada juridicamente da organização política. Segundo Pedro Salvetti Netto, a Constituição política estrutura a organização do Estado, disciplina o exercício do poder político e discrimina a competência para tal exercício, definindo-a como o “conjunto de normas que, estruturando a orga­ nização do Estado, estabelece relações de natureza política entre governantes e go­ vernados” ou, levando-se em conta o advento dos direitos sociais no mundo mo­ derno, o “conjunto de normas que, estruturando a organização do Estado, limita politicamente o exercício do poder e declara os direitos individuais e sociais e suas respectivas garantias” . “ Ubi societas ibi jus”, já dizia Aristóteles, ou seja, onde houver sociedade have­ rá normas dc conduta, haverá Constituição. Da mesma forma que todos os seres têm uma Constituição própria (causa formal), a fortiori a sociedade terá, por sua essência, uma forma de organização. Ser eminentemente social, o homem agrega-se a seus semelhantes organicamente, formando grupos sociais estruturados, sendo in­ concebível, mera abstração, a concepção mecânica da sociedade. Pois bem, as or­ ganizações sociais surgem, inicialmente, no seio da família, do clã, da tribo, até que cheguemos ao Estado, a mais perfeita forma de convivência social. As normas cons­ titutivas das sociedades primárias repousam nos hábitos sociais consagrados pelo tempo. Com o aparecimento do Estado, sociedade necessária dotada de poder so­ berano e voltada para o bem comum, surge a Constituição política. Conforme aduz Pedro Salvetti Netto, não há que se falar em Constituição política antes que o Es­ tado se organize, antes que nele se integrem seus elementos constituintes. Somente quando se verificam tais exigências é que aparece a Constituição política, justamen­ te para, estruturando a organização do Estado, disciplinar o exercício do poder po­ lítico e discriminar a competência para tal exercício. A tendência das sociedades de se estruturarem sob a égide de uma lei funda­ mental surge muito cedo na História humana. Inicialmente, ela tem caráter religio­ so, místico, revelando a vontade divina (mana) sob a forma de tabu, como acentua Viamonte. Tal norma fundamental tem natureza consuetudinária, costumeira, não se apresenta sob a forma escrita. Com maior razão, os gregos já distinguiam as normas jurídicas pela hierar­ quia, classificando-as como leis constitucionais e leis comuns, a exemplo dos roma­ nos, que, ao se referirem à elaboração daquelas, usavam a expressão rem publicam constituere. As leis de Licurgo, em Esparta, de Drácon e de Sólon, em Atenas, são

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Teoria Geral do Estado

verdadeiras Constituições, imperando sobre as demais normas. Conforme adverte Carlos Sanchez Viamonte, essas leis fundamentais de Licurgo e de Sólon constituem a expressão unificada da vontade nacional em cada caso, e com elas é criada a na­ ção como unidade política e jurídica e atribui-se forma à sociedade e ao governo. Nisso consiste a essência do ato constituinte. No dizer de Pedro Salvetti Netto, as primeiras Constituições sistematicamen­ te codificadas apareceram no século XVII, por influência, segundo alguns autores, das tradições puritanas, cujas normas eram efetivamente escritas e codificadas - os covernants -, destinadas à estruturação da igreja e do culto. Em razão disso, a In­ glaterra foi estruturada, durante o governo do puritano Oliver Cromwell (15991658), por uma Constituição escrita, única em sua História, o Instrument of Go­ vernment, calcada numa doutrina absolutista do poder político, fundada, aliás, no exacerbado puritanismo de Cromwell. Na História constitucional inglesa encontraremos, ainda na Idade Media, pac­ tos, forais e cartas de franquia. Conforme aduz Manoel Gonçalves Ferreira Filho, tais documentos firmaram a ideia de texto escrito destinado ao resguardo de direi­ tos individuais, que a Constituição iria englobar a seu tempo. Tais direitos, contu­ do, prossegue o autor citado, sempre se afirmaram imemoriais, fundados no tem­ po passado, enquanto eram particulares a homens determinados e não apanágio do homem, ou seja, do ser humano enquanto tal. Ainda segundo Manoel Gonçalves Ferreira Filho, próximos dos pactos, de cujo caráter participavam pela sanção real, mas já bem próximos da ideia setecentista de Constituição, situam-se os contratos de colonização, peculiares à História das colônias da América do Norte. Chegados ao Novo Mundo, os peregrinos, mor­ mente puritanos, imbuídos de igualitarismo, não encontrando na nova terra poder estabelecido, fixaram, por mútuo consenso, as regras por que haveriam de se go­ vernar. Os chefes de família firmam, a bordo do Mayflower; o célebre Compact (1620); desse modo, são estabelecidas as Fundamental Orders of Connecticut (1639), mais tarde confirmadas pelo rei Carlos II, que as incorporou à carta outorgada cm 1662. Transparece aí - finaliza - a ideia de estabelecimento e organização do gover­ no pelos próprios governados, que é outro dos pilares da ideia de Constituição. Profunda influência, além da tradição puritana, sobre o advento das Consti­ tuições escritas, vai exercer a doutrina do contrato social, preconizada por Jean-Jacques Rousseau. A cláusula pacta sunt servanda ou pacta quantumcumque nuda servanda sunt, isto é, os contratos devem ser cumpridos pelas partes, peculiar às relações jurídicas de caráter privado, contida na forma escrita e solene exigida, é transportada para o Direito Público, assegurando melhor direitos e deveres de go­ vernantes e governados. Como acentua Pedro Salvetti Netto, a Constituição escri­ ta revela a preocupação de asseverar, em seus artigos, compromissos recíprocos de governantes e súditos.

4 A Constituição

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Com efeito, adverte Manoel Gonçalves Ferreira Filho que somente no século XV III - o Século das Luzes, daí a expressão Iluminismo - é que se concretizou, na Europa, a ideia de que o homem pode estabelecer a organização do Estado, segun­ do sua vontade, numa Constituição. Antes do Iluminismo, ninguém ousara afirmar que o homem poderia modelar uma organização política segundo um ideal racio­ nalmente estabelecido. Daí reafirmar-se a importância dc Rousseau para a filoso­ fia iluminista e para a Revolução Francesa e, como conseqüência, para a consoli­ dação das Constituições escritas.

2) ESPÉCIES
Bibliografia:
Marcus Cláudio. Constituição da República Federativa do
b is p o

a c q u a v iv a

,

Brasil anotada, São Paulo, Global, 1987. brasileiro, São Paulo, Saraiva, 1981. do, 6. ed., São Paulo, Saraiva, 1984.

,

Luís. Curso de direito constitucional Pedro. Curso de teoria do Esta­

salvetti n e t t o ,

Quanto às espécies dc Constituições, sintetizando as várias classificações exis­ tentes, podemos apresentar o seguinte esquema:

1. Quanto à forma:

escritas

orgameas inorgânicas rígidas

2. Quanto à estabilidade ou I possibilidade de reforma i

sem.rng.das flexíveis

3. Quanto à origem

í

f editadas, também denominadas votadas outorgadas

Vejamos cada uma dessas espécies e subespécies. Inicialmente, as Constitui­

ções escritas. Constituições escritas orgânicas: são aquelas que se acham formalizadas ex­ pressamente em um documento escrito ou em vários. No primeiro caso, teremos as Constituições escritas orgânicas (um só documento); no segundo, as Constituições escritas inorgânicas (várias leis escritas, de natureza constitucional). A origem das Constituições escritas orgânicas encontra-se nos séculos XVII e XVIII, inicialmente por influência dos covenants, documentos escritos que forma­ lizavam os preceitos da religião puritana, na Inglaterra.

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Teoria Geral do Estado

Depois, já no século XV III, em razão da doutrina do contrato social desen­ volvida por Jean-Jacques Rousseau, que vai inspirar, na França, a ideia de que uma Constituição deve ser, necessariamente, escrita, para maior garantia dos direitos dos governados. As Constituições escritas orgânicas têm a natureza dc uma codificação, isto é, de um corpo único e sistematizado de normas. A Constituição escrita orgânica se acha contida, portanto, em uma única lei. As inorgânicas, porém, não têm forma de uma única lei; com efeito, uma Consti­ tuição escrita inorgânica é formada por várias leis, encontra-se espalhada por inú­ meros diplomas legais de natureza constitucional. Assim, enquanto a Constituição escrita orgânica tem a natureza de uma co­ dificação, a Constituição escrita inorgânica se assemelha muito mais a uma simples compilação, vale dizer, leis dispostas ordenadamente e atualizadas, sem que com isto cada uma dessas perca sua existência autônoma. Dessa ordem é a Constitui­ ção britânica, que muitos autores afirmam ser apenas costumeira. Existiria, entre­ tanto, uma Constituição formada apenas por costumes e nada mais? Isto seria im­ possível. A Constituição britânica se constitui em volumes e mais volumes dc leis e acórdãos. O que a caracteriza não é o fato de não ser escrita, mas sim de não estar sistematizada em um Código; não estar; enfim, codificada. Nem por isso se negue o grande papel desempenhado pelo costume nas Cons­ tituições. Diga-se de passagem que o costume pode influenciar a própria Constitui­ ção escrita orgânica, por exemplo, o caso célebre da reeleição, por uma terceira vez, dos presidentes da República norte-americana. Nos primeiros tempos da vigência da Constituição dos Estados Unidos, o presidente podia candidatar-se à reeleição quantas vezes quisesse. Bastou, contudo, que George Washington e, mais tarde, Thomas Jefferson se recusassem a disputar uma terceira reeleição para que seus su­ cessores não se sentissem encorajados a fazê-lo. Quando, três quartos de séculos mais tarde, Ulysses Grant postulou sua reeleição pela terceira vez, sua candidatu­ ra fracassou. Tempos depois, uma exceção: Theodoro Roosevelt seria reeleito vá­ rias vezes, em face das vicissitudes da situação internacional; entretanto, depois de Roosevelt, a Emenda X X II vetaria, expressamente, o terceiro mandato. Constituições rígidas, semirrígidas e flexíveis: quanto à estabilidade ou possi­ bilidade de reforma, as Constituições podem ser rígidas, semirrígidas e flexíveis. As flexíveis podem ser modificadas sem a exigência de um procedimento mais comple­ xo; assim, uma lei ordinária pode alterá-la; não é preciso um procedimento legis­ lativo mais trabalhoso. Exemplos: as Constituições da Noruega, da França e a Cons­ tituição do antigo Reino da Itália, chamada Estatuto Albertino. Semirrígidas são aquelas que, em parte, podem ser alteradas mediante um pro­ cedimento comum, ordinário, e, em outros artigos, somente por meio de um proce­ dimento mais dificultoso. Exemplo: a Constituição do Império do Brasil, de 1824.

4 A Constituição

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Finalmente, as Constituições rígidas, assim denominadas porque só podem ser alteradas por intermédio dc um rito legislativo próprio, destinado a dificultar os abusos reformistas. Exemplos: as Constituições dos EUA, da Austrália, da D i­ namarca, da Suíça e do Brasil em vigor. Com efeito, a nossa Constituição só pode ser alterada ou corrigida por via dc emenda (art. 60), sendo que este dispositivo exige seja a proposta firmada por um terço, no mínimo, dos membros da Câmara dos Deputados ou do Senado Federal (art. 60, I), pelo Presidente da República e por mais da metade das Assembléias Legislativas das unidades da Federação, ma­ nifestando-se, cada uma delas, pela maioria relativa de seus membros. Ademais, o § 4° introduz uma cláusula pétrea no tocante a determinados assuntos, cuja disci­ plina jurídica não pode ser, em qualquer hipótese, modificada. Por exemplo, os dis­ positivos do art. 5° sobre direitos e garantias individuais (art. 60, § 4°, IV). Importante notar que a facilidade ou a frequência com que uma Constituição pode ser alterada não depende, apenas, do disposto na lei, mas também de fatores políticos, por exemplo, a predominância desta ou daquela ideologia num dado mo­ mento histórico. Assim, a Constituição suíça, rígida, foi modificada muito mais fre­ quentemente do que a Constituição francesa da III República, cuja alteração de­ pendia apenas de uma sessão conjunta do Parlamento. Ademais, o conceito de Constituição escrita não se confunde com o conceito de Constituição rígida, pois o Estatuto Albertino (Constituição do antigo Reino da Itália), embora escrito, era, como vimos, modificável por via de lei ordinária, por­ tanto, flexível. Constituições outorgadas e Constituições editadas ou votadas: quanto à ori­ gem, as Constituições podem ser outorgadas e editadas, conhecidas estas últimas também como votadas. As outorgadas são impostas à nação pelo próprio agente do poder constituinte originário, sendo, posteriormente, submetidas a referendo popular, pois o povo é, em última análise, o titular do poder político. Exemplos: as Constituições brasileiras de 1824,1891,1937 e 1967. Quanto às Constituições editadas (votadas), são discutidas pelo próprio povo, diretamente ou mediante a eleição de uma assembleia constituinte, formada por re­ presentantes da nação. Em nome desta, a assembleia irá elaborar, com total inde­ pendência, uma nova Constituição. Se não houver independência da constituinte, não se pode falar em Constituição editada. Por exemplo, quando D. Pedro I enviou, logo após a Independência, uma recomendação à Assembleia Constituinte incumbi­ da de elaborar a nova Constituição do Império, Assembleia depois desfeita, exigiu que a nova Lei Magna deveria conservar a dinastia governante e a religião católi­ ca apostólica romana na qualidade de crença oficial do Estado, tolhendo, portan­ to, a liberdade da assembleia, que, por ser constituinte, deveria estar investida de um poder incondicionado.

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Teoria Geral do Estado

3) CONTEÚDO POLÍTICO DAS CONSTITUIÇÕES
Bibliografia:
Ferdinand. Que é uma Constituição?, São Paulo, Edições e Pu­
m arx

lassalle,

blicações Brasil, 1933.

,

Karl e e n g e l s , Friedrich. O manifesto do partido comu­
salvetti n e t t o ,

nista, 6. ed., São Paulo, Global, 1986. tado, 4. ed., São Paulo, Saraiva, 1981.

Pedro. Curso de teoria do Es­

Uma Constituição não é apenas a mais política, como também a mais pole­ mica das leis. Fundamento da ordem jurídica, dela derivam, por conseqüência, to­ das as demais leis. Por isso, já dizia Ferdinand Lassalle, que a alteração das leis or­ dinárias não desperta, via de regra, a atenção da sociedade, ao passo que a reforma ou a substituição de uma Constituição por outra acarretam comoção social. Daí a constatação evidente de que uma Constituição não é apenas um documento for­ mal, pois que se reveste de um conteúdo ideológico, que espelha ou deve espelhar os fatores de ordem política e econômica que prevalecem no momento de sua ela­ boração. Tal conteúdo varia, portanto, na medida em que mudam as circunstân­ cias históricas. Como acentua Salvetti Netto, a uma Constituição de caráter liberal-democrático, vicejante à época do apogeu do liberalismo político e econômico, jamais ocor­ reria declarar os direitos sociais ou disciplinar as relações entre o capital e o traba­ lho, hoje as grandes preocupações das Constituições em vigor. Assim, uma Constituição, para ser bem entendida, deve ser analisada sob dois pontos de vista: a) como ordenamento jurídico estruturador do Estado; b)como objeto das ideologias que, predominantes num dado momento histó­ rico, são recolhidas pelo legislador constituinte. Pelo menos nos primórdios do movimento conhecido como constitucionalismo, isto é, a aceitação unânime da Constituição como documento escrito, esta cui­ dava apenas da estruturação política do Estado, vale dizer, da forma de Estado, da forma de governo e do regime de governo. No Brasil, por exemplo, a forma de na­ tureza monárquica sucede a dc natureza republicana. Uma Constituição elaborada em disfunção com os valores sociais predomi­ nantes num dado momento nada mais seria que um corpo sem alma, mera folha

de papel. Qualquer Constituição, afirma Lassalle, deve representar a soma dos fatores reais do poder existentes na sociedade. Os fatores reais do poder são essa força ati­ va e eficaz que informa todas as leis e instituições jurídicas da sociedade, determi­ nando que não possam ser, em substância, a não ser tal como elas são.

mas transmutam-se em direito. Es­ tado e Direito são o produto da divisão da sociedade em classes antagônicas e cons­ tituem um instrumento nas mãos da classe dominante. Acusado de professar uma doutrina que afirmava o predomínio do poder sobre o direito. mero documento ou folha de papel. desejavam anulá-la. Para o marxismo. no sul. na verdade. como Charles A. qualquer Estado é. duas Constituições num Estado: a real e efe­ tiva. observados certos procedimentos. Em posição antagônica ao sociologismo constitucional de Lassalle e Marx sur­ ge o normativismo metodológico de Flans Kelsen. e quem atentar contra eles atentará. como afirmam os juristas. a Constituição é um produto das relações de produção e visa assegurar os interesses da classe dominante. Para ele. as Constituições escritas não têm valor nem são duráveis. p. a maior parte dos membros da Convenção de Fila­ délfia reconhecia que a propriedade tinha direito especial na Constituição. contra a lei e será castiga­ do. Na concepção marxista. por longos tempos. cm instituições jurídicas. a menos que venham a ser a expressão fiel dos fatores reais do poder. a verdadeira Constituição é a real e efetiva. A doutrina dos fatores reais do poder foi tacitamente comprovada por várias obras de conhecidos autores. também a concepção marxista de Cons­ tituição é sociológica. mas de poder. Beard e Harold Laski. antes de mais nada. assim como esta não foi criada por todo o povo. não são. 35. Estado e Direito são meras superestruturas que se sustentam sobre as relações de produção da sociedade dividida em classes. cujos interesses não reconheciam fron­ teiras estaduais e que eram realmente de âmbito nacional. ao passo que o Direito representa a vontade desta classe. formada pela soma dos fatores reais e efetivos que imperam na sociedade. 1. são transformados em uma folha de papel. estribado numa concepção me­ . representando a norma suprema da organização estatal. pro­ blemas de direito. e não no pla­ no do dever ser. Em seus Comentários à Constituição Federal brasileira. determinada pelas condições da existência material. Foi obra de um grupo compacto. como sustentaram. este documento. Esta folha de papel. os que. primariamente. Segundo Lassalle. Ruy Bar­ bosa afirmava que “as constituições são conseqüências da irreversível evolução eco­ nômica do mundo”. só será durável se corresponder à constituição real. A exemplo da concepção de Lassalle. Para o marxismo. e tampouco pelos Estados. pura e simplesmente. a organização política da classe dominante. v. que garan­ te seus interesses de classe. há.4 A Constituição 81 Lassalle é o típico representante da corrente doutrinária denominada socia­ lismo constitucional. No surgimento dos EUA. Os problemas constitucionais. e a escrita. afirma Lassalle. aquela que tem suas raí­ zes nos fatores reais de poder. recebendo expressão escrita: a partir de então já não são mais simples fa­ tores reais do poder. Lassalle defendeu-se afirmando que sua teoria era desenvolvida 110 plano do que real e efetivamente é. enfim. os fatores reais do poder constituem-se fatores jurí­ dicos quando.

sexual. bem como os próprios governantes. Fundação Getúlio Vargas/MEC . das instituições e dos governantes. quando houve substituição dos governantes. a Revolução Francesa (1789) e a socialista russa (1917). caetano. Com efeito. soi disant. São Paulo. Lisboa. M adrid. que a ela. “Revolução”. Para Kelsen a norma constitucional é norma pu­ ra. in Dicionário de ciências so­ ciais. Apontam-se. Manual de ciência política e direito constitucional.Fundação de Assistência ao Estudante. vo l . o conceito de revolução política. artística e até. evidentemente. Vilfredo. Erõs. violenta ou não. Trattato di sociologia generale.82 Teoria Geral do Estado ramente jurídica da Constituição. e sim ao so­ ciólogo e ao filósofo. soberana. o Direito deve ser concebido estritamente como direito positivo. Milano. Axel. por inteiro. Diccionario de ciência política. Já se vê que. em nome de uma nova ideologia. Como exemplo dc revolução não violenta podemos citar a Revolução Re­ publicana do Brasil (1889). em verbete intitulado “Revolução”. “Golpe de Estado”. ele afirma que o estudo de tais fenômenos não compete ao jurista. econômica. pode esta Assembleia subverter. Hugo. GOLPE DE ESTADO E INSURREIÇÃO Bibliografia: Marcello. 4) REVOLUÇÃO. o poder revolucionário a uma Assembleia Constituinte? Sem o emprego da força. f e r r e ir a f il h o Manoel Gonçalves. J. Esta pode ser definida como a mudança repentina. 1972. ju­ rídica. 1986. Como negar. substituin­ do-a por outra. Coimbra Editora.Fundação de Assistência ao Estudante. 1980. J. in Dicionário de ciências sociais. devem cur­ var-se. aponta três correntes moder­ . Fundação Getúlio Vargas/MEC . o emprego efetivo da violência material (vis ma­ terialis) ou coerção nem sempre é necessário. na revolução política tudo é subvertido: os governantes são apeados do poder. entretanto. embora a violência psicológica (vis compulsiva) seja inafastável nos movimentos de fato. da forma de governo (de monárqui­ ca para republicana) e do regime de governo (de parlamentarista para presidencia­ lista). Edizioni di Comunim o li n a tà. 1981. Interessa-nos. Tais convicções podem ter a mais variada natureza: política. uma realidade social comple­ xa que o explica. c que também o Direito é inspirado por teorias e princípios filosó­ ficos. a ordem jurídica vigente. O termo revolução denomina a mudança brusca e radical de convicções so­ ciais. sem nenhuma pretensão a fundamentações sociológicas. A teoria pura do Direito busca justamente expurgar da ciência jurídica toda classe de juízo de valor moral ou político. social ou filosófico. Direito constitucional comparado. políticas ou filosóficas. pareto. como exemplos tí­ picos de revoluções violentas. S. erõs. g õ r l it z Bushatsky/Edusp. e as leis que haviam consagrado são substituídas. . re . na revolução. 1986. bem como da forma de Estado (de unitária para federal). S. Alianza. Embora Kelsen admita que na base do Direito existem dados sociais.

que não encontra mais solução 110 modo de produção tradicional. A corrente conservadora mostra-se uma reação à Revolução Francesa. teocrática ou monarquista. vale dizer. Marx nega. uma revolução não passa da substituição de um déspota por ou­ tro. por conseqüência. Para os conservadores. como Proudhon. toda elite dirigente. Temos. con­ gregando homens de esquerda e liberais-democratas. felizmente. desde que se possa aferir que elas sejam apoiadas por uma camada considerável da coletividade. mesmo porque as classes possuidoras dos meios de produção estão. inte­ ressadas na manutenção do status quo. Com efeito. Para esta corrente. de forma inevitável. a atividade dos grupos sociais e dos partidos. tal contradição chega. Fi­ nalmente. segundo Lenin. essencialmente dinâmicas. como resultado da con­ tradição entre as possibilidades de trabalho. que ele considera não científica. em todas as épocas e lugares. todas as revoluções são genuínas. po­ rém. Com ou sem sufrágio universal. e as forças de produção. . é sempre uma mino­ ria que governa e que sabe dar a expressão que deseja à vontade popular. a tensão social. diz Pareto.4 A Constituição 83 nas do estudo da revolução: a progressista ou evolucionária. que vêm a ser. na revolução. precisamente. a teoria da revolução deflagrada em nome dos direitos naturais. conhecido sociólogo ítalo-francês que elaborou um ma­ gistral tratado de sociologia. o termo revolução apresenta um matiz pura­ mente descritivo. então. tradicionalista. Baku­ nin e Kropotkin. Ora. haverá. na concepção positivista. Tais fatores são objetivos. manifestações de regressão à mentalidade primitiva. Para ele. Curiosas se mostram as doutrinas de Karl Marx e Vilfredo Pareto sobre a re­ volução. mostrando-se incontroláveis e destrutivas. uma confron­ tação entre o ordenamento social estabelecido. a conservadora e a positivista ou científica. estático. a somatória dos pequenos benefícios que cada movimento revolu­ cionário irá incorporar às conquistas sociais acarretará. e suas concepções têm natureza feudal. rumo ao igualitarismo. acarretando o congelamento do desen­ volvimento social e. Contudo. estes. da confrontação entre classes sociais. Isto é inelutável. a vitória da igualdade no mundo. A concepção progressista pontificou no século X IX . afirmando que as re­ voluções constituem etapas do progresso inevitável da Humanidade. sem qualquer conotação ideológica. as revoluções são meras explorações dos sentimentos populares. o Estado é dinamizado por dois setores sociais. a um ponto crítico. necessariamente. as ferramentas correspondentes (for­ ças de produção) e as relações de fortuna e trabalho (relações de produção). mais preocupados com o incentivo à sublevação das massas contra os déspotas. veementemente. surgem movimentos tendentes a estabelecer uma nova ordem. Quando a elite dirigente se torna esclerosada e corrompida. a revolução surge. Para os anarquistas. Aqueles. uma elite que governa e ou­ tra que é governada. inevitavelmente. No dizer de Pareto. Isto só pode levar a uma solução revolucionária. mostrando mais preocupação com a liberdade individual. uma parcela de subjetividade. A conjunção de todos estes fatores acarreta a re­ volução.

com o fito de mu­ dar o regime político. como a corrupção econômica. com o apoio dc uma par­ cela considerável das Forças Armadas para o reforço de seu poder. a influência de fatores negativos. enfim. como exemplo típico de golpe de Estado. revolta 011 pronunciamento (do espanhol pronunciamiento) são as várias denominações que toma a manifestação das Forças Armadas. É chegado. uma classe ou partido. na revolução ou na insurreição a principal finalidade é substituí-los. traz consigo o vigor e a coragem dos leões. e reforçou bruscamente o seu poder.. invariavelmente. tudo isso faz com que a elite dirigente. Desta forma. a fim de substi­ tuí-los ou lhes impor orientação política diversa. realizando obra tão interessante como a destruição de anim ais daninhos. Seja como for. do Ju­ diciário. no mais das vezes. O golpista ou golpistas contam. impondo à Nação uma carta constitucional de caráter autoritário. imposta pelos próprios governantes. por isso. o mo­ mento propício ao surgimento de uma nova elite dirigente. mas a revolução atinge. no Brasil. pelo Poder Executivo. consoante advertência de Hugo Revol Molina. desde logo. substituindo a ideologia dominante e criando um novo ordenamento jurídico. então. rebelião. apoiadas ou não em outras forças sociais. Constitui.por exemplo. e antecipando-se a uma possível tentativa insurrecional por parte de uma pequena facção das For­ ças Armadas.84 Teoria Geral do Estado inicialmente jovem e vigorosa. quando um movimento político repentino é um golpe de Estado ou uma revolução. Assim. Podemos citar. pressionado pelos litígios partidários. A insurreição pode não alcançar as instituições. vem a ser a substituição de alguns ou de todos os pressupostos da ordem jurídica vigente. das prerrogativas do Legislativo e. a ideologia dominante. os governantes de leões fazem-se raposas. Insurreição. o abrandamento dos costumes. A revolução caracteriza-se. quase sempre. a insurrei­ ção de março de 1964 -. que. ate. casta e portadora de novos ideais. cheia de ideais. a ascendência de demagogos e pacifistas. pela manifestação violenta de for­ ças sociais estranhas à organização do Estado. por definição. alterando a estrutura social. alteram as instituições neste sentido. ao estahlishment. entretanto. se pelo golpe de Estado os governantes pretendem manter-se no poder e. com a finalidade de permanecerem no exercício do poder. a qual instaurou o chamado Estado Novo. põe abaixo o ordenamento corrompido. a própria ordem constitucional. a outorga da Constituição de 1937. com o apoio ou não das Forças Armadas. as leis e instituições e o pessoal gover­ nante. o caudilho antecipou-se a qualquer tentativa deste naipe. comece a confiar mais na astúcia do que na força. a usurpação. contra os governantes. pois visa apenas à derrubada dos governantes . pois as primeiras ações e decisões do grupo que . por Getúlio Vargas. Quanto ao golpe de Estado. a agita­ ção política e a intranqüilidade social. Ao perceber que seu po­ der começava a esmaecer. desde logo.. pode ficar difícil para o analista estabelecer. já a par de sua própria debilidade. É a massa.

a maioria das ações desse tipo. a análise sociológico-política encarada sob uma perspectiva histórica permitiu mostrar que. salvo raras exceções. via de regra.4 A Constituição 85 toma o poder político resumem-se. Dessa forma. A diferença entre golpe dc Estado e revolução somente pode ser es­ tabelecida ex post facto. na América Latina. qualifi­ quem sua posterior ação governamental como revolução. mediante uma ação apoiada na violência ou na ameaça desta. a medidas destinadas a consolidar a posição alcançada. resumiu-se a meros golpes de Es­ tado. . che­ gam ao poder. não obstante as manifestações verbais que as acompanharam. ocorridas no século X X . embora os grupos que.

Alemanha e Espanha (1519-1556). 1986. Constituem exemplos históricos de uniões pessoais: Espanha e Portugal (1580-1640). A união pessoal: a) é casual. fortuita. pois cessa o vínculo com a extinção da dinastia imperante. ed. Ciência política. b o n a v id e s . Curso de teoria do Estado. salvetti n e t t o .. Rio de Janeiro. sendo a União des­ tituída de personalidade jurídica internacional. os quais mantêm incólume sua soberania. Rio de Janeiro. 6. 1986. Pedro. c) inexiste fundamento jurídico unitário entre os Estados par­ ticipantes da união. Forense. Pedro. 2) UNIÃO REAL Bibliografia: b o n a v i d e s . Inglaterra e Hanovcr (1714-1837). 1986. tornando-se o titular comum do poder em F^stados que preservam sua soberania. decorrendo de mera coincidência na or­ dem sucessória dinástica. São Paulo. assim como a união real. 86 . A união pessoal. A união pessoal de Estados vem a ser uma espécie de federação. constitui. mera figura histó­ rica.. em face do declínio da forma monárquica de governo. Saraiva. hoje. em que. Ciência política. 1986. ed. SALVETTI n e t t o . as leis de sucessão monárquica ensejam a coincidência de um só príncipe ocupar dois tronos. Saraiva. Curso de teoria do Estado. Forense. São Paulo. b) é transitória. 6. Paulo. aci­ dental e involuntariamente.FORMAS DE ESTADO 1) UNIÃO PESSOAL Bibliografia: Paulo.

São Paulo. mas a uma coisa (res)yum objetivo concreto. da união de Estados em torno de um objetivo comum (res). por via de regra. Pedro. limitando-se a formar uma união de Estados. g) o governante e seus ministros não atuam como representantes de cada Es­ tado participante. A for­ ma simples de Estado é representada pelo Estado unitário. d) exclui administração uniforme e nacionalidade pró­ pria. Carac­ teriza-se o Estado unitário. b o n a v id e s . pela caducidade dos tratados ou pelo desaparecimento da dinastia governante. que são: a união pessoal. 1982. 3) ESTADO UNITÁRIO Bibliografia: daranas. 1986. Im­ pério Austro-Hungaro (1867-1918). 2. No di­ zer de Jorge Xifra Heras. 6. Forense. quando a Áustria e a Hungria se agregaram sob a autoridade de Francisco José. luf. a união real. A união real: a) não cria um novo Estado. cd. x if r a saliie - V E T O NETTO. Dinamarca e Islândia (de 1815 até a deflagração da Segunda Grande Guerra). Cumpre ressaltar que o adjetivo real atribuído à união não se refere. As formas de Estado podem ser resumidas a duas: simples e compostas. admitindo administração comum e economia societária. Jorge. 1962. Curso de derecbo constitucional Barcelona. h) as relações entre dois Estados da união real são relações in­ ternacionais. como rei da Hungria. do qual trataremos a se­ guir. ras. Constituem exemplos de uniões reais: Suécia c Noruega (1815-1905). 2. na quali­ dade dc Imperador da Áustria. 13. Rio de Janeiro. Madrid. Este monarca chamava-se Carlos I. podendo dissolver-se por acordo entre os Estados participantes. f) criam-se exército e marinha comuns. Curso de teoria do Estado. 1986. as formas compostas de Estado correspondem às federações. necessaria­ mente. e) sua duração pode ser permanente ou transitória. - Sahid. v. consciente e voluntária. Las constituciones europeas. Essa forma de Estado mostra-se politicamente cen­ tralizada. um Estado chama-se unitário quando suas instituições de . Vejamos o Estado unitário. Nacional. b) abrange. embora dotada de descentralização meramente administrativa. monarca. cd. e adota-se a mesma política ex­ terna. a rei. Paulo. Teoria geral do Estado. Bosch. com um governo único de plena jurisdição nacional. 1979. sem limitações de natureza política. São Paulo. sem divisões internas que não sejam simplesmente de ordem administrativa. Saraiva. Ciência política.. c) a soberania de cada Estado permanece intacta. m a Mariano. a confederação de Estados e o Estado federal. v.. Estados contíguos. O poder central irradia-se por todo o território. pela unicidade do poder. Preleciona Sahid M aluf que o Estado unitário é aquele que apresenta uma or­ ganização política singular.5 Formas de Estado 87 A união real de Estados é uma espécie de federação consistente na celebração. e Carlos IV. Sugestões Literárias. portanto.

observa-se que o Estado unitário desconcentrado divide-se em departamentos e comunas. to­ dos os cidadãos estão sujeitos a uma autoridade única. a região é uma entidade orgânica dc caráter histórico. chamada Ato Adicional. complementada pela Lei de 3 de outubro do mesmo ano. entre Estado unitário descentralizado e Estado federal aponta­ da por Paulo Bonavides: naquele. a ponto de algumas regiões dc Estados unitários demonstrarem maior unidade do que certos Estados federais. tanto no que fazer quanto no como fazer. temos a dependência dos órgãos descentraliza­ dos quanto ao Estado unitário. que permitiu a cada província eleger suas próprias assembleias legislativas. e que empolga. embora persista a dependência hierárquica. como sociedade necessária. a independência desses mesmos órgãos. Não se confundem. que go­ zam de relativa autonomia quanto aos serviços dc seu interesse. ao passo que nesta os órgãos descentralizados atuam em nome da entidade secundária da qual se originam. porquanto. Quanto ao Brasil. não é tarefa das mais fá­ ceis caracterizar este Estado como unitário. porque naquela os agentes atuam em nome do próprio Estado. embora a Constituição ita­ liana proclame.. a referida centralização desconcentrada e a descentralização propriamente dita. O Estado. permanentemente. no Estado unitário. a doutrina. dotada de leis próprias. é delegado. quando. sempre válida. desde a promulgação da Constituição de 1824. Análoga é a distin­ ção. estruturada sob uma or­ dem e um objetivo social. porém. neste. já se observa certo grau de competência atribuído aos agen­ tes periféricos do poder. Se a centralização política c a des­ centralização administrativa são as características marcantes do Estado unitário. sem qualquer autonomia. A forma política unitária corresponde a uma exigência natural. confere às regiões a mais ampla autonomia político-administrativa (arts. Na centralização concentrada. portanto. por vezes. na Itália. a própria confusão entre Estado unitário e Estado federal. mediante a Lei de 12 de agosto. no art. ser a Itália uma república una e indivisível. entre centrali­ zação concentrada e centralização desconcentrada. tudo. é o regionalismo. no caso do Estado federal. até 1834. Por via de regra. a verdade é que a moderna doutrina já distingue.88 Teoria Geral do Estado governo constituem um único centro de impulsão política. ao mesmo regime constitu­ cional e a uma ordem jurídica comum. 115 e 1 17). Fenômeno intimamente ligado ao Estado unitário. como mera delegação do poder central. somente durante o Império tivemos como forma de Estado a unitária. porém. promoveu-se alguma descentralização política. . de modo que não passam de simples cumpridores dessas determinações. unidade lingüística e até racial. ain­ da aqui. não como poder originário ou de auto-organização (self-government). Assim. No Estado unitário. O poder. Com efeito. O problema surge quando se trata de estabelecer o grau ou intensidade desta unidade. os agentes das entidades administrativas são meros núncios das decisões do poder central. que enseja. de centralização concentrada. 5°. não autônomo . por outro lado. Na centralização desconcentrada. que marcou as atribuições dos presiden­ tes das províncias. tende à unidade.

5 Formas de Estado 89 4) ESTADO FEDERAL Bibliografia: daranas. construção permitida na língua inglesa graças ao artigo invariável: “ The Uni­ ted States /s. de modo que se exauriam os cofres daquela. salvetti n e t t o . Sahid. que resultou no aparecimento dos Estados Unidos da América do Norte. 13.. São Paulo.. 1986.” acabaram por empregar o verbo no sin­ gular. inicialmente unidas em confederação. que consolidaram a doutrina do federalismo. conforme estabelecido no documento chamado Artigos de Confederação. Era um Estado constituído por Estados que se haviam federalizado. . na célebre Convenção da Filadélfia. então. São Paulo. empenhada cm gravames financeiros para sustentar a frágil união.. Paulo. Daí a tradicional epígrafe Estados Unidos da América. Tal doutrina calou fundo na opinião pública. Ciência política. reunida. Las constituciones europeas. Não mais os treze Estados de logo após a Independência. Como lembra. r e ir a f il iio b o n a v id e s . Curso de direito constitucional 16. heras. 2. Não assim no caso brasileiro. Rio dc Janeiro. Nacional. ed. Bosch. os memoráveis escritos de três jornalistas: Hamilton. 1979. cd. x i f r a celona. Madrid. Surgiu com a Revolução norte-americana do século XVIII. Esta forma de Estado constitui uma espécie do gênero federação. a partir de então o Estado era um só. reuniram-se os representantes dos Estados confederados para rever os Artigos de Confederação. e logo a Constituição terminou por ser ratificada pelos Estados. terárias. 1987. Refulgem. . como assinala Pedro Salvetti Netto. A situação mostrava-se insustentável. o autor citado: o nome do Estado aplicado a uma entidade não soberana explica-se. maluf. posteriormente.. que exigiram fosse man­ tida a denominação Estado para cada uma das colônias integrantes do pacto fede­ rativo. Sugestões Li­ Pedro..ed. Por outro lado. oportunamente. mediante a Constituição de 1787. souza .. 1982. São Paulo. de 1777. 2. v. proibia-se à Con­ federação impor tributos aos Estados confederados. Saraiva. Para solucionar o impasse.”. 6. Madison e Jay. mostravam-se frágeis neste tipo de união. em virtude das circunstâncias históricas. Curso de teoria do Estado. no clássico O federalista. que esclarece a natureza e as vantagens do Estado federal. ed. fer­ Mariano. Teoria geral do Estado. Como assinala José Pedro Galvão de Souza. Jorge. levando George Washington a dizer: “A Confederação não passa de uma sombra sem substância. 1976. Iniciação à teoria do Estado. As treze colônias vitoriosas sobre o domínio inglês. pois. Forense. no caso norte-americano. 1986. v. e o Congresso. Curso de dereebo constitucional Bar­ Revista dos Tribunais. Os doutrinadores norte-americanos que inicialmente cos­ tumavam dizer: “ The United States are.. José Pedro Galvão de. de um ór­ gão inútil” . São Paulo. 1962. Manoel Gonçalves.. 2. Saraiva.

desde os primórdios da colonização. Tem suas próprias competências (CF. o Estado federal não se confunde com a confederação. e 34). 21 c 22). Com efeito. através dc uma confederação em seguida à qual surgiu o Estado federal. arts. § 1°). o direito de se separarem da União. sem poder interferir na competência das demais entidades federadas. o Estado federal é uma espécie de federação. deflagrada nos Estados Uni­ dos da América do Norte entre 1861 e 1865. não são dotadas de soberania. da Constituição . porque esta é formada por Estados propriamente ditos. Pois bem. ao passo que no Estado federal os Estados-Membros renunciam ou são despojados de sua soberania. que a intervenção federal é uma exceção à re­ gra da não intervenção. isto é. o Brasil. p. A Argentina. É célebre a Guerra da Secessão. e sim com vistas à integridade do próprio Estado federal como um todo. arts. como se observa do art. Os Estados-Mcmbros passam a dispor de mera autonomia. a par da competên­ cia dos Estados-Membros (CF. Tanto no caso do Brasil como no da Argentina. sendo dotado do poder de auto-organizar-se e dc autoadministrar-se limitado pela Constituição Federal. art. as entidades interventoras não atuam em nome próprio. salvo a malograda e efêmera experiên­ cia das capitanias. art. V. vale dizer. é a unidade básica do Estado federal. caput. embora dotadas de capacidade de auto-organização e de autoadministração. aliás. é a pessoa jurídica de direito público que representa o Esta­ do federal. quando a Carolina do Sul separou-se da União. 23. e destes nos municípios (CF. 21. apesar de Estado federal. ao passo que no caso dos Estados Unidos partiu-se da unidade para chegar à unidade. para usar a terminologia da própria Constituição. composta por unida­ des que. submeten­ do-se a uma Constituição que lhes proíbe o direito de secessão. 30). incondicionado. seguida nesta atitude por outros Estados-Mcmbros. 62) Fato curioso é que o Estado dc Nova Iorque somente ratificou a Constituição norte-americana após um ano da vigência desta. 1°. Tal po­ der chama-se autonomia (do grego. 25.145 e 155) e da intervenção federal da União nos Estados-Membros (CF. art. adota a denominação pro­ víncias para as unidades federadas. ainda aqui. o poder de se separar da União.90 Teoria Geral do Estado quando se começou a chamar de Estados as antigas províncias do Império. autos = por si só + nomos = norma) e se sub­ mete ao poder soberano do Estado federal. submetendo-se a uma Constituição Federal. entidades políticas dotadas de poder soberano. chegou-se ao Estado federal partindo da unidade para a multiplicidade. A doutrina clássica é taxativa: os Estados federados não têm o direito de secessão. mas. (Iniciação à teoria do Estado. cm 1788. em proveito do próprio Esta­ do federal. representado pela União. vale dizer. e dos municípios (CF. cada qual dentro de seu campo de ação. O Estado-Membro ou Estado federado. como se percebe do texto do art. com ressalva da competência comum (CF. 34. Quanto à União. tal foi o furor imitativo dos primeiros homens da República. Um Estado só havia sido. Vale lembrar. sempre. 35). arts.

2 1 . 2o. V) nos ca­ sos do art. No caso específico do Brasil. qualquer tentati­ va separatista será tolhida pela intervenção federal (art. Concluindo: no Estado federal brasileiro. por sua vez. concedida esta. 72. e 34). 2°: “As províncias do Brasil. caput). I o e 2o. mediante o Senado Federal (CF. 17° Aditamen­ to ao texto). art. da URSS”. sendo o próprio Estado Federal representado pela União. expressamente. 155). que. 3 4 . tam­ bém. VII. em vez de duas. porém. no art. de 24. vale dizer. VIII. na expressão união indissolúvel nele constante. e 84. Se a União pode intervir no Estado federa­ do. que “cada república da União conserva o direi­ to de se separar. parte final. 155) e aos municípios (art. reunidas pelo laço da federação. dotado de poder de auto-organização (art. Nenhuma dessas entidades federadas poderá invadir a competência das demais. de 15. pes­ soa jurídica de direito público (arts. 34. X IX . ca­ put). Tal po­ der de auto-organização chama-se autonomia. art.1). como vimos. pois de nada valeria a autonomia políti­ ca (art. o Estado federal brasileiro conta com a participação dos Estados fe­ derados na formação da vontade nacional. Tal orientação será definitiva­ mente confirmada com a primeira Constituição republicana. promovida pela União (art. este pode intervir no município (art. 21. e o art. 23). . O Estado federado pode. ao estruturar o Estado federal socialista. X X e XXII). não regra. intervir nos seus municípios (art. caput. cujo art. 156). a dos Estados federados e a dos municípios. jamais regra. Seção 3a. a intervenção é exceção. com ressalva. art. a intervenção é exceção.1889). caput. à Constituição Federal. 46. no qual cada Estado federado e o Distrito Federal contam com três senadores (art. I o.11. Em qualquer caso. 35). 25) sem a necessária autonomia financeira (art. A exemplo da federação norte-americana (Constituição dos EUA. 25. Exceção ao princípio da indissolubilidade do Estado federal nos dava a extin­ ta Constituição soviética de 1977. ficam constituindo os Estados Unidos do Brasil”. 1°. limitado pela Constituição Federal (arts. o Estado federado é entidade integrante do Es­ tado federal (CF. da competência comum a todos (CF. arts. I o estabelece: “ Fica proclamada proviso­ riamente e decretada como a forma de governo da nação brasileira .1. Qualquer tentativa de se­ paração ensejará a intervenção federal.5 Formas de Estado 91 Federal. 35). há três ordens de competências: a da União. livremente. ao Distrito Federal (art. estando submetido. art. mas em qualquer caso. sob pena de inconstitucionalidade. 1°. como se deduz. o poder de se separar da União (art.02. 1°. admitia. $ I o).a República Federativa”. A Constituição Federal assegura a autonomia política e financeira dos Esta­ dos federados ao longo de vários artigos. 1. 46). caput).1891. como vimos. A forma federativa de Estado surge no Brasil com o advento da República (Decreto n. 25. como já foi visto. A doutrina clássica é taxativa: os Estados federados não têm o direito de se­ cessão.

as ilhas fluviais c lacustres não perten­ centes à União. 18.92 Teoria Geral do Estado claramente. A par da autonomia política. que estiverem no seu domínio.as águas superficiais ou subterrâneas. A Constituição Federal aponta. por intermédio do Senado Fe­ deral (art. neste caso. § 3°. Quanto à criação de novos Estados federados. art. e do Congres­ so Nacional. nas ilhas oceânicas c costeiras. a federação brasileira prevê a participação dos Estados federados na formação da vontade nacional. autonomia financeira (art. emergentes e em depósito. 155). 34 e 35. da Constituição: Os Estados podem incorporar-se entre si. por lei complementar. ressalva­ das. a Constituição confere.as áreas. através de plebiscito. na forma da lei. II . . aos Estados federados.as terras devolutas não compreendidas entre as da União. do teor dos arts. subdividir-se ou desmembrar-se para se anexarem a outros. fluentes. Municípios ou terceiros. III . assim dispõe o art. no art. mediante aprovação da população diretamente interessada. como bens dos Estados federados: I . as decorrentes dc obras da União. I o. A exemplo dos Es­ tados Unidos da América (Constituição dos Estados Unidos da América. IV . Se­ ção 3a e 17° Aditamento ao texto). 26. 46). excluídas aquelas sob do­ mínio da União. ou formarem novos Estados ou Territórios Federais.

Platão. I. teremos o Estado federal. Lisboa. v. Plus Ultra. Buenos Aires. a M onarquia. Se este é centralizado ou centrípeto.1) Platão (Arístocles) Bibliografia: Segundo V. teremos como forma de governo a República. Madrid. les. Centro de Estúdios Constitucionales. É imperioso distinguir entre form a de Estado. A expressão form a de Estado indica a maior ou menor irradiação do po­ der político. se é descentralizado ou centrífu­ go. Adolfo Casais Monteiro. La República. Ora. Tal relaciona­ mento é chamado regime de governo. dc modo que esta expressão afere qual ór­ gão exerce a função governamental. Madrid. temos o Estado unitário.FORMAS DE GOVERNO 1) CLASSIFICAÇÕES ANTIGAS E MODERNAS 1. as expressões Estado unitário e Estado federal indicam formas de Esta­ do . . no segundo. em cada form a de governo democrática desenvolve-se um relacionamento peculiar entre as funções executiva c legislativa. Sistemas cie partidos y sistemas políticos. Centro de Estúdios Constitucionar o b in Léon. I. No primeiro caso. Quis este famoso literato enfatizar a importância da herança cultural helêni93 . v. Na série de classificações de formas de governo que ora iniciamos. p l a t Ão l in a r e s q u in t a n a . Já a expressão form a de governo revela se o poder é exercido temporária ou vitaliciamente. form a de governo e regime de governo . Inquérito. 1976. caracte­ rizado pela centralização político-adm inistrativa. trad. Em face disso. Shelley (1792-1822): “Somos todos gre­ gos”. de nítida descentralização político-administrativa. . 1981. e Las leyes. ocorre-nos a sugestiva tirada do poeta inglês Percy B.

tentou persuadir o tirano Denis. literárias ou esportivas. de modo que logo a desordem campeia irrefreada. considerados perigosos para a nova ordem. Assim: timocracia (de tim os..94 Teoria Geral do Estado ca. Em Siracusa. parente do grande legislador Sólon. fundado num determinismo inafastável. que revela seu pensamento definitivo. colocação à qual aderimos sem hesitar. pertencia a uma famí­ lia aristocrática. em meio à qual se eleva­ va um ginásio.. Da aristocracia (de aristoi. mesclando-se uma sã filosofia dc vida com a sede crescente de honras e bens materiais. viajando pelo Egito . enaltecendo o valor dos filó­ sofos e criticando a frivolidade e a devassidão da corte. Platão morreu em 347 a.C. gover­ no). Denis o ex­ pulsou da cidade. cujo verdadeiro nome era Arístocles (o apelido derivou do fato de este filósofo ter as espáduas largas. Todavia. partem. degenera em oligarquia. implantando-se a mais grosseira mediocridade. que passam a exercer o poder oprimindo aqueles a quem deveriam proteção. poucos. nos arredores dc Ate­ nas. Em homenagem a Academus. Em 387 a. conhecida como o parque do herói Academus. poder). pelo sangue materno. pois a liberdade tornada licenciosa só pode levar à escravidão. e kratos. poder) e tirania . e kratos . quando concluía sua obra As leis. uma mino­ ria abastada impõe sua arrogância a toda a sociedade. a única chave para as portas da ascensão social e política. Surge a timocracia quando indivíduos de condição social inferior enriquecem e tentam chegar ao poder pela astúcia. a aristocracia chega ao poder. por sua vez. aos 82 anos dc idade. e kratos. secunda­ do pela corrupção. a escola platônica foi denominada Academia. democracia (dc demos. com a conseqüente ascensão da massa. entretanto. poder) ou autocracia militar. numa seqüência inevitável. sendo o dinheiro. favorecendo a ascensão política de Platão. . no que são impedidos pelos militares. A corrupção cam­ peia. forma que considera a melhor de todas. às suas expensas.) e mestre de Aristóteles (384-322 a. sendo. desiludido com a condena­ ção de Sócrates. Platão fundou sua própria escola.e pela Mag­ na Grécia. então. outras formas. Em 404 a. Na timo­ cracia surge agudo conflito entre o bem e o mal. discípulo de Sócrates (470-399 a. Platão idealiza um processo dinâmico de rodízio das formas de governo. e arche.C.C. melhores.C. as Constituições políticas abundam e as boas leis são desprezadas.C. também ocorrem graves disfunções sociais. quando. Por isso. numa bela propriedade arborizada e regada por nascentes. Dedica-se à filosofia. Incomodado. forma em que os ricos são expulsos do poder. o Antigo. Tal situação insustentável vem abai­ xo quando se instala a democracia. começaremos este tópico com um panorama das ideias de Platão (429-347 a.). No livro D a república. descrê da organização política tradicional de sua pátria. evocando o termo om oplata ). A timocracia. Platão. povo.do qual tornou-se grande conhecedor . honra. a aceitar as ideias que expôs no Livro Quinto de sua obra D a república. pois além dos ricos são banidos os sábios. Tudo isso leva à tirania. oligarquia (de oligoi. com a tomada de Atenas por Lisandro. ex­ pressão que passou a designar as sociedades científicas..C.).

Sistemas de partidos y sistemas políticos. con­ terrâneo de Filipe e do filho deste. E. um. que num dia em que faltou à aula. Plus Ultra. em que haveria. Aristóteles (384-322 a. . 1947. Centro de Estúdios Constitucionales. Platão mostra-se mais realista. que se tornaria. 1. Madrid.2) Aristóteles Bibliografia: A r i s t ó t e l e s . e o critério moral. porque mais maduro. l in a r e s q u in t a n a Segundo V. 1976. duas formas de governo: a monarquia c a democracia. New York. ste. 1988. que soube dar ao filho refinada formação intelectual. pelo qual classificou tais formas em puras e impuras. chamado monarquia (de monos. Alexandre Magno. Zanichelli. e arche. barker. levando em conta o intuito de o governante ou gover­ nantes administrarem visando ao interesse geral ou ao benefício pessoal. Reunindo este valioso material em obra notável. e a democracia à obe­ diência. Buenos . governo). Las luchas de clases en el mundo grie- go antiguo. nem liberdade excessivos. adotando. senhor de vasto império. um equilíbrio de forças políticas antagônicas. M. Platão se antecipa a muitas classificações posteriores. Nicômaco. Aristóteles correspondeu por inteiro à expectativa do pai. de. s. Dover Publications.C. ao preconizar uma forma mis­ ta de governo. para tanto. discípulo de Platão.d. teria dito: “Hoje a inteligência faltou!”. Bologna. graças às suas conquistas mi­ litares. Em As leis. intitulada Política. e La política (passi scelti e commentati da Giuseppe Saitta). temos o governo de um apenas. Assim. Política. Aires. E.). seu mestre Platão. c r o ix G. dois critérios: o critério numérico. já não pretende descrever um Estado ideal. The political thought of Plato and Aristotle. fi­ lho de um médico abastado. não se configuram nem poder. numa combinação harmoniosa de princípios opos­ tos.6 Formas de governo 95 Na obra As leis. porém igualmente le­ gítimos: a autoridade e a liberdade. . foi encarregado por Filipe da Macedônia de educar Alexandre. com o qual classificou tais formas consoante o número de indivíduos que governam. sendo cognominado o Grande ou Alexandre Mag­ no. conta-se. Era um típico aristocrata. ao observar os alunos presen­ tes e constatar a ausência de Aristóteles. Aristóteles teve oportunidade de visitar e estudar cerca de 150 Constituições de po­ vos diversos. Editorial Crítica. fundamentalmente. Acompanhando seu discípulo nas expedições que caracterizaram a vida deste. até. Depois de estudar durante vinte anos com Platão. Então afirma existirem. mas aquele que mais se coadune com a praxe política. fundadas em princípios opostos. Quanto ao número de pessoas a exercer o poder (critério numérico). era natural da Macedônia. 1983. Cada uma dessas duas formas de governo só subsiste se faz concessões à outra: a monarquia à liberdade. formulou sua célebre classificação das formas de governo. Barcelona.

as multidões desorganizadas. levadas à deriva por aven­ tureiros inescrupulosos. graças a uma empolgante e astuta oratória. ou a demagogia (de demos. governo). cor­ rupção da aristocracia. Em face do exposto. e arche. em que predominam as paixões e a desordem . poder). portanto. povo. sendo as massas. podemos esquematizar as formas de governo aristotélicas assim: Critério numérico (Leva-se em conta o número dc pessoas que governam) Monarquia: governo de um Aristocracia: governo de poucos Politeia: governo de muitos Tirania: governo de um Oligarquia: governo de poucos Democracia: governo de muitos Demagogia: governo de todos Critério moral (Leva-se cm conta a intenção dos que governam) • Formas puras Monarquia: governo de um no interesse geral Aristocracia: governo de poucos no interesse geral Politeia: governo de muitos no interesse geral • Formas impuras Tirania: governo de um no interesse pessoal Oligarquia: governo de poucos no próprio interesse Democracia: governo de muitos no próprio interesse Demagogia: governo de todos. sur­ ge a politeia . porem. Finalmente. Sendo o poder exercido por uma minoria no interesse geral. quando a minoria dominante se sustenta na força do dinheiro ou na hereditariedade. poucos. povo. e kratos. termo que. surge a oligarquia (de oligoi. como se vê. quando é exercido no próprio interesse do governante. e kratos. visando tão somente seu próprio be­ nefício. ou tirania. forma impura. cujas formas corrompidas são a democracia (de demos. em que os pobres governam no próprio interesse. temos a aristo­ cracia (de aristoi. quando o poder é exercido por muitos no interesse de todos. poder). e agost orador).96 Teoria Geral do Estado quando o poder é exercido no interesse geral. melhores. situação gravíssima em que todos se julgam aptos a governar. tem sentido original bem diferente do atual. forma pura .

mais precisamente de Megalópolis.C. Livro VIII. na prática. lançou-se à empre­ sa de escrever a história deste período da civilização romana. cit. Buenos Aires. 1. Um povo jamais se volta contra si próprio. porque nos regimes oligárquicos a revolução pode operar contra os próprios governantes ou contra o povo. a monarquia é mais suscetí­ vel de corrupção. por um lado. foi conduzido à condição de escravo após o conflito. porque a virtude e o poder raramente andam juntos. a forma ideal de governo. Ele afirma que cada Estado deve adotar a forma de governo que mais se coa­ dune com suas peculiaridades. líticas. seu talento logo foi percebido nos altos círculos dc Roma e. obtendo a proteção dos Cipiões.C. Sistemas de partidos y sistemas políticos. p o l íb io . e a politeia. Capítulo V). na teoria. ao comandar a cavalaria da liga aqueia. v. é também a mais estável de todas estas formas de governo ( Política .) foi um historiador grego que recebeu profunda influência das instituições romanas de seu tempo. de. a subversão atua apenas contra a minoria oligárquica.. para esta ou aquela forma pura de go­ verno. Iberia. acha-se estribado em séria e copiosa documentação. 1988. Editorial Crítica. 1973. Sc. embora afetado em alguns pontos por naturais deficiências. 1976. na democracia. Lisboa. em menos de duas gerações. Barcelona. num total de quarenta. Historia universal duran­ Mareei. c r o ix prélot. de m e g a l ó p o l is l in a r e s q u in t a n a . Barcelona. pois a aspiração maior do rei é a virtude. restaram os primeiros cinco li­ vros e anotações dos Livros I e XIII) tentou explicar como Roma.6 Formas de governo 97 Aristóteles não propende. ste. Presença. Capítulo I).3) Políbio de M egalópolis Bibliografia: Segundo V. identificando na sadia concepção e organização da ordem jurídico-política a razão maior de seu sucesso. Embora bem-nascido e exercesse importante papel durante a guerra entre Roma e a Macedônia (171 a 168 a. As doutrinas po­ te Ia república romana. sendo-lhe conferida a administração da Acaia. a monarquia é. Seu trabalho. Todavia. enquanto a do tirano é o prazer. Plus Ultra. Em sua obra (da qual. até porque a melhor forma de governo é aquela que tem os melhores governantes (Política . viajou e escreveu livremente. conquistou o mundo conhecido na época. . a própria democracia é mais estável que a oligarquia. 1. Natural da Arcádia.). G. Políbio (205-125 a. Impressionado com a organização da República romana. E. Livro III. ao passo que. Muntaner. . Por outro lado. diretamente. La Incha de clases en el mundo griego antiguo. forma cm que predomina a classe média e que tem mais afinidades com a democracia do que com a oligarquia. M .

A realeza pode contrair vícios que a transformam em tirania. reúne as três formas puras de governo: monarquia. o regime se assemelha ao monárquico.. que se busca passar por aristocracia. traz consigo a feição aristocrática da República romana e. sen­ do aquela obtida pela força. jamais por medo ou violência. em dupla. Da mesma forma. Como exemplo de Constituição política deste tipo. bem assim por democracia (H istória . e que é exercida pela razão. perfeitamente equilibrado. ou a oclocracia (de o cios. adverte Políbio. embora monarcas e tiranos procurem. e esta. Políbio adverte que os conhecedores da Políti­ ca veem três formas boas de governo: a realeza. Livro VI. pela equidade e a razão. as três formas puras de governo não são as únicas. por natureza governo de pou­ cos. exerciam a administração pública em substituição ao rei). A Constituição da República romana. Políbio reconhece três espécies boas de governo: a realeza. e kratos. Livro VI. Seria dc sc perguntar. Outro grande mérito da forma mista de governo c o de resistir à natural deteriora­ .e nisto reside a originalidade de Políbio . Capítulo II). Livro VI. no que tange aos comícios populares e tribunos da plebe. reverencia os idosos e obedece às leis. Não são as únicas nem as melhores. busca reparar os desvios dos go­ vernantes. a aristocracia c a democracia. nem toda oligarquia merece o cpíteto de aristocracia. que há seis formas de governo: três que todo mundo conhece e outras três que com elas se relacionam. cit. Em relação aos cônsules (magistrados eleitos anualmente que. cit. Capítulo II). Capítulo II). quando o povo. poder). a aristocracia c a democracia. tal sistema misto. Finalmente. adverte Políbio. O governo de um ou monarquia estabele­ ceu-se sem arte. observa Políbio. mas apenas aquela em que governam os mais justos e sá­ bios. que se im ­ planta com arte e correção. por mero impulso da natureza. o Senado. mas apenas aquela que conta com súditos voluntários. Na sua H istória u n i­ versal durante a República rom ana . só pode trazer bons resultados. fazer-se passar por reis. distinguindo entre m onarquia e realeza.. e foi durante sua vigência que Roma conquistou Cartago e estendeu seu império pelo Mediterrâneo.. na medida do possível. implantando a irracionalidade e a inseguran­ ça ( H istória .a m elhor form a de governo é aquela que sintetiza as virtudes das demais. pois. mas apenas aquela em que o povo venera os deuses. sendo que o governo pode ser exercido por uma. irritado. por várias ou por muitas pessoas. Políbio indica a de Licurgo. surge a democracia. Haverá democracia onde tais senti­ mentos prevalecerem (H istória . vemos certas monarquias ou tiranias distancia­ rem-se muitíssimo da realeza. pois. por sua vez. dele deriva a realeza. de cujas ruínas surge a aristocracia. multidão. Desta.98 Teoria Geral do Estado Assim como Aristóteles. há muitos Estados governados por uma minoria. se tais formas são as únicas ou as melhores. não é a democracia a forma de governo em que o populacho faz o que bem entende. Ora. Observa Políbio que nem toda monarquia é realeza. Fique assentado. aristocracia e democracia. em que o povo se torna insolente e menospreza as leis. Por outro lado. Por outro lado. como se disse. cit. respeita os pais. continua Políbio. Em qualquer caso há equívoco. na Lacedemônia. o elemento democrático. porque .

e o governo do povo a pior. Todavia. Livro I. é irrealizável. Cícero se antecipa à moderna teoria de separa­ ção de Poderes do Estado ao advertir que: . o príncipe dos jurisconsultos romanos. Título II). Marco Túlio Cícero (106-43 a. 1927. um sistema misto. por Angelo Mai. 1.). são privados quase completamen­ te dc direitos e da participação nos negócios públicos. 1. Quanto ao Das leis. tende à degeneração e ao perecimento. propugna. Zanichelli. v. Plus Ultra. ao seguir a classificação tradicional de realeza.. no Estado popular. Bologna. por outro lado. Cícero não se mostra muito original. Livro I. Para Políbio. cit.4) Cícero Bibliografia: Da república. porque não precisa intervir nas assembléias. Ciceprélot. cada uma destas formas tem seus próprios de­ feitos: na monarquia. Quanto às formas de governo. porque contém em si o germe de sua própria morte. o Estado imóvel.d. 1976.6 Formas de governo 99 ção pelo tempo. com apenas três dos seis livros para os quais a obra foi planejada. inconcluso. Livro I. a que todas as outras estão sujeitas. afirmando. nem detém qualquer poder.. As doutrinas políticas. qualquer destas espécies de governo se mostra a ideal. eei. cit. ao que parece. um antiquíssimo palimpsesto com o texto integral da obra. a verdade é que prevalece a iniqüidade. do qual apenas em 1814 foi localizado. catalisador das três formas apontadas. de Da república. Buenos Aires. c íc e r o . estacionário. Da república é um tra­ tado formado por seis livros. Para Cícero. Políbio observa que tudo está em movimento perpétuo. visto que não há uma natural desigualdade fundada no merecimento (Da república. escreveu Da república e Das leis. l in a r e s q u in t a n a . ficou. 2 v. nada é estático. como Políbio. Rio dc Janeiro. legou à posteridade escritos de gran­ de valor para a literatura e a ciência política. Toda Constituição políti­ ca. Segundo V. Presença. Embora considerando a monarquia a forma ideal de governo (Da república. Título II). embora se pense que tudo é justo e moderado. advogado e político. Athcna. Curioso observar que no Livro II. por excelente que seja. aristocracia e governo popular. Sis­ M ar­ temas de partidos y sistemas políticos. rone giureconsulto. conforme as circunstâncias existentes em cada Estado.. s. escrito em exaltação às leis romanas. 1973. todos. fundado 11a filosofia de Heráclito. pois. Emilio. exceto o monarca. costa. cit. que nenhuma forma de governo será a ideal se considerada isoladamente.C. enquanto no governo aris­ tocrático apenas o povo é livre. Título II. Lisboa. além de notável orador. com recí­ proca moderação (Da república. obras importantíssimas para o Direito Público. Título II). Neste campo. Finalmente.

publicada cm 1531. 1973. empregando. Desde que o Príncipe al­ cance o resultado desejado. M a­ quiavel pôs a nu a dinâmica política. Nesse sentido. deboche. uma suposta doutrina em que a má-fé e a traição prevalecem. e não é este o momento adequado para demonstrá-lo. 2. 1. Nicolau Maquiavel. prélot. quaisquer meios. Plus Ultra. 2. ao passo que cm O prín­ cipe o faz relativamente à forma monárquica. os poderosos ex­ cessiva autoridade e o povo exagerada liberdade. dc 1532. mas segun­ do o ideal dc um Estado que sc tem dc constituir c dc manter. A grandeza: o Príncipe está acima do comum. As doutrinas políticas. Novara. Daí a frase que lhe é atribuída: “O fim justifica os meios”. Presença. que deu origem ao substantivo “ maquiavelismo”. é cola­ borador avisado da Providência. perfídia. para denominar. (/\ s doutrinas políticas.10 0 Teoria Geral do Estado sc em determinada sociedade não são divididos equitativamente os direitos. tutti i domini cbe banno avuto e banno impero sopra li uo- . Situa-se para além do bem e do mal. Nos Discursos. cargos e obrigações. Logo na abertura desta última obra adverte: “ Tutti gli stati. capacidade. que importam. mas é também o que engana a sorte. Edi- l in a r e s q u in t a n a . rou­ bo. Sistemas de partidos y sistemas políticos. Buenos Aires. equivocadamente. v. dolo. 40) Quanto às formas de governo. M aquia­ vel expõe seus conceitos referentes à forma republicana. v. Maquiavel formula suas espécies. fraude. grande amador da astúcia e grande adorador da força. é o famoso pensador italiano. e a dinâmi­ ca respectiva. observe-se a clareza com que Marcel Prélot sin­ tetiza o pensamento de Maquiavel: A simulação e a dissimulação: o Príncipe é conhecedor das circunstâncias. não se pode esperar que a ordem es­ tabelecida dure muito tempo. Marcel. p. cm duas obras fundamentais: os Discursos sobre a primeira década de Tito Lívio. Na verdade. todos os meios são considerados honestos. // príncipe e altri scritti. O que o autoriza a escapar à moral é o fato de estar colocado acima da mediocridade ambiente. para tanto. 1973.5) Nicolau M aquiavel Bibliografia: pem. caracterizando o indivíduo “ maquiavélico” . em vernáculo. Niccolò Machiavelli (1469-1527) ou. de Florença. vendo na Política uma técnica de alcançar o poder e permanecer nele. traição. visto que tudo isso não deve ser julgado segundo a bitola comum que rege a vida privada. m a c iiia v e l l i. de tal forma que os magistrados tenham poder excessivo. 1976. em sua obra O príncipe. Lisboa. desde que o objetivo fosse legítimo. velhacaria. Cupidez. Segundo V. e O príncipe. libertinagem. com realismo e frieza.

Capítu­ lo 11). cada uma destas formas vigia e reprime o abuso das demais (Discursos. aris­ tocracia e democracia. uma vez que não percebe que ela. Nos Discursos Maquiavel lembra que pensadores antigos reconheciam três espécies de formas de governo: a monárquica. Outros. Livro I. quando o legislador orga­ niza o Estado sob a égide de uma das três boas formas de governo. o faz por pou­ co tempo.6 Formas de governo 101 I Nicolau Maquiavel (1469-1527) m ini. são nocivas: as três consideradas boas. mesmo sendo boas. numa Cons­ tituição em que coexistam a monarquia. e as demais pela malignidade que lhes é intrínseca. Aliás. estabelecendo um a form a mista de que to­ das as formas boas participem . classi­ ficavam as formas de governo em seis. assume postura diversa da adotada . a aristocrática e a democrática. mais do que duas formas de governo: república e tirania. onde as cidades formavam verdadeiros Estados em luta. fatalmente. na prática. acham-se tão expostas à corrupção que chegam a ser perniciosas também. se corrompe. a aristocracia e a democracia. isoladamente consideradas. cit.monarquia. a qual será mais firme e estável.. como o faz em O príncipe: a m onarquia e a república . todavia. Na obra Discurso sobre a reforma da Constituição de Florença. Ao contrário da maior parte dos autores clássicos. era um campo fértil para as ambições de tiranos e demagogos. mas apenas duas. todos os do­ mínios que tiveram e tem poder sobre os homens. Maquiavel não reconhece a existência de três ou seis formas de governo. de­ vendo os legisladores de cada Estado optar por uma delas. em seu tempo. porque. sono stati e sono o republiche o principati” (“Todos os Estados. foram e são repúblicas ou prin­ cipados”). por sua curta duração. porém estas. Seu país. Assim. dividido por lutas internas. três péssimas e três boas . Maquiavel não conhe­ ceu. O legis­ lador prudente não as levará em conta. Todas as for­ mas de governo.

prossegue.102 Teoria Geral do Estado nos Discursos. perto dc Bordéus. de um suplemento intitulado Em defesa do espírito das leis. Conheceu toda a Europa. em 1755. Montesquieu foi o grande sistematizador do princípio da separação das fun­ ções do Estado. também. enveredando. conforme a forma mista deriva para uma ou outra destas formas. afirmando que não se pode garantir a Constituição dc um Estado senão estabelecendo uma verdadeira repú­ blica ou uma verdadeira monarquia. Lisboa. em 1748. D o p ré lo t. publicando. também. São Paulo. Montesquieu afirma: . é evidente: tais governos concorrem para a destruição tanto da república como da monarquia. Alquebrado pelo trabalho. sendo defeituosos todos os sistemas interme­ diários. sua maior obra O es­ pírito das leis} seguida. das quais poderia ter tirado grande proveito. vindo a falecer em Paris. Marcel. vê sua saúde arruinada. Livro Segundo. v. estudou Direito sem ter ficado muito satisfeito. STAHL. La Es- Charles-Louis dc Secondat. em especial a Inglaterra. Madrid. pana Moderna. por não desejar ficar adstrito aos textos legais. 1. Capítulo Primeiro). 1962. escreveu sobre as glândulas renais e chegou a iniciar uma H istória física da terra antiga e moderna. Barão dc la Brcde c dc Montesquieu (1689-1755). Historia de la filosofia dei derecho. após nada menos do que vinte anos de esforços. Em 1734 publica a mo­ nografia Considerações sobre as causas da grandeza e da decadência dos romanos e.d. sença. sendo tido por muitos como o precursor da Sociologia. com base na experiência adquirida cm suas viagens. Sistemas de partidos y sistemas políticos.6) Montesquieu Bibliografia: LINARES Segundo V. mas sim buscar o verdadeiro “espírito das leis’'. mais conhecido como princípio da separação de Poderes. dois anos após. s. m o n te s q u ie u . Pre­ Federico Julio. Buenos Aires. espírito das leis. Fez excelentes relações de amizade. Pertencente à antiga nobreza. v. apaná­ gio dos Estados democráticos contemporâneos. já com mais de sessenta anos de idade. Plus Ultra. toda­ via. q u in ta n a . comunicações sobre certas doenças. Difu­ são Européia do Livro. Talentoso. Em O espírito das leis (Primeira Parte. preferiu retirar-se para um castelo de sua cidade natal e trabalhar cm novas obras. As doutrinas políticas. Em 1716 pu­ blicou sua Dissertação sobre a política dos romanos na religiãoycriou um prêmio para trabalhos sobre anatomia. demonstrou pendor não só pela História e pelas letras. A razão. pelas ciências puras e pela própria anatomia. 3. 1976. ao questionar a forma mista de governo. 1. nasceu em Bròdc.

di­ reito constitucional. a motivação das ações do cidadão. não está apto para governar por si próprio. ou somente uma parcela do povo. tra­ ta-se de uma Democracia. as ocasiões.6 Formas de governo 103 Existem três espécies de governo: o republicano. Sabe que um juiz é assíduo. a monarquia é aquele em que um só governa. como um todo. que possui suficiente capaci­ dade para julgar da gestão dos outros. Quanto ao princípio. vale dizer. uma só pessoa. capaz de eleger um general. é. mas dc acordo com leis fixas c estabelecidas. trata-se de uma Aristocracia. Só pode decidir-se por coisas que não pode ignorar e por fatos que estão ao alcance de seus sentidos. numa republica. que nao sc pode corrompc-lo: isso é suficiente para que eleja um pretor. há que se identificar uma natureza e um princípio. que o governo republicano é aquele em que o povo. Da natureza do governo em Montesquieu. Por outras palavras. A natureza de um governo é o que faz com que ele seja o que é. sob alguns aspectos. aquelas que têm como objetivo a organização governamental. que muita gente sai dc seu tribunal satisfeita com ele. o súdito. Quando o poder soberano está nas mãos de uma parte do povo. Em cada forma de governo. não saberá. atualmente. sem obedecer a leis e regras. saberá o povo dirigir um negócio. sua estrutura e seu mecanismo. Estas visam a conservação dc certo meio e a escolha dc certas orientações. 58-9). três fatos: um. é suficiente a ideia que deles têm os homens menos ins­ truídos. que princípio informa o direito público geral (As doutrinas polí­ ticas. o monarca. é. v. Todas essas coisas sao fatos que o povo aprende melhor na praça pública do que um monarca em seu palácio. Entretanto. realiza tudo por sua vontade c seus caprichos. isso é suficiente para que possa escolher um edil. o monárquico e o despótico. hoje. vem a ser aquilo que faz o governo agir. Quando. Diría­ mos. a mode­ lar o espírito geral. conhecer os lugares. enquanto no governo despótico. adverte iMontesquieu. p. sob outros. O povo. então. O povo é admirável para escolher aqueles a quem deve confiar parte de sua au­ toridade. derivam as “ leis políticas”. ou seja. Suponho três definições ou. Sabe muito bem que determinado homem esteve muitas ve­ zes em guerra e que obteve tais e tais êxitos. os momentos e aproveitá-los? Não. na democracia. o povo como um todo possui o poder soberano. antes. da natureza do governo procede aquilo a que chamamos. Tal como a maioria dos cidadãos que possuem suficiente capacidade para eleger mas não a possuem para ser eleitos. . Do princípio do governo provêm as leis civis e as leis sociais. Sc está impressiona­ do com a magnificência ou com as riquezas de um cidadão. possui o poder soberano. 3. adverte Marcel Prélot. Para descobrir-lhes a natureza. igualmente o povo.

sendo um terceiro organismo um corpo de magistrados que zela pela preservação das leis e que lembra ao monarca o dever de cumpri-las. a virtude chama-se civismo. porque isto nos liberaria de ser­ vi-lo. O po­ der político implica. o da nobreza. referindo-se. o princípio das republicas é a virtude. a união de muitas famílias.. não concentra em si toda a autoridade. Buenos Aires. mostra sua natureza no fato de o poder político estar nas mãos de um só homem.7) Rousseau Bibliografia: l i n a r e s Segundo V. o governo de um só estaria mais de acordo com a Natureza. indiretamente. Plus Ultra. O prin­ cípio desta forma de governo é o medo. a qual nos diz que um rei ja­ mais deve ordenar uma ação que nos envergonhe. porque também é próprio da natureza da monarquia haver órgãos in­ termediários subordinados e dependentes. se o poder do pai está relacionado com o governo de um só. cortam uma árvore pela raiz e apanham-nas. q u in t a n a . na república aristocrática chama-se moderação por parte dos governantes. pois. Eis o governo despótico”. ironicamente: “Quando os indí­ genas da Luisiana querem colher frutas. É melhor dizer que o governo mais de acordo com a Natureza é aquele cuja disposição particular melhor sc relaciona com as disposições do povo para o qual foi estabclccido. muitos. Sistemas de partidos y sistemas políticos. à melhor forma de governo. o mais natu­ ral. . O poder intermediário mais conveniente é o do clero. Primeira Parte. que restringem a vontade momentânea e caprichosa de um só homem. e assegurar a continuidade e o cumprimento das leis fundamentais. Por outro lado. sua natureza reside no fato de o rei governar sem le­ var em conta as leis. a república e uma forma de governo adequada a Estados de peque­ nas dimensões. guiando-se apenas por sua vontade e seus caprichos. Na república democrática. termo que na obra de Montesquieu denomina a primazia dada ao interesse publico. Porém. Hmbora o rei seja a fonte de todo o poder. necessariamente. 1976. a fim de que o povo tenha alguma participação política. Livro Primeiro. moreau Joseph. Rousseau y la fundamentación de Ia . O princípio da monarquia vincula-sc à honra. o exemplo do poder paterno nada prova. tendo a Natureza estabelecido o poder paterno. Alguns pensaram que. Quanto ao despotismo. Capítulo Segundo) 1.104 Teoria Geral do Estado Ora. o poder dos irmãos ou. cit. (O espírito das leis. as­ sim doutrina íMontesquieu: A força geral pode ser colocada nas mãos de apenas um ou nas mãos de muitos. porém submetido ao império de leis previamente esta­ belecidas. depois da morte dos irmãos. e lembra. Em qualquer caso. depois da morte do pai. Quanto à monarquia.

Madrid. Isaac. por sua vez. Devo assinalar que todas essas formas. de início. ou então restringir-se até a metade. no Império Romano. premido por dificuldades financeiras. que orientou Jean-Jacques em suas primeiras leituras. Dá-se a essa forma de governo o nome de democracia. Esta terceira forma é a mais comum de todas. e houve. O contrato social. Presença. A própria monarquia é suscetível de alguma partilha. são sus­ cetíveis de maior ou menor e mesmo de grande latitude. pecando. Rousseau expõe sua famosa teoria do “bom sel­ vagem”. boa. e chama-se monarquia. todavia. dei­ xando-o com sua tia. pode restringir-se da metade do povo até indeterminadamente ao menor número. 3. de modo a haver maior número de cidadãos magistrados que simples cidadãos particulares. de acordo com sua Cons­ tituição. sua obra mais conhecida: O contrato social. emigrando. As doutrinas políticas. Jcan-Jacques. cheia de vicissitudes. filho de um casal de protestantes. O contrato social resume o ideal rousseauniano de um governo que limite ao mínimo sua intro­ missão na liberdade dos indivíduos. Espasa-Calpe. a obra continua a ser um clássico da literatura política e sociológica. Sua mãe faleceu poucos dias após o parto. Mareei. Ou pode então restringir o governo às mãos dc um pequeno número. ou governo real. nasceu em Genebra. por falta de convicção do autor em determinadas passagens. porque a democracia pode abarcar todo o povo. foi tido por muitos como uma obra cheia de contradições. Rous­ seau publica o ensaio Origem da desigualdade entre os homens. até oito imperadores si­ multaneamente. cujas únicas motiva­ ções seriam igualar-se a Montesquieu e adquirir prestígio fácil. do qual todos os demais recebem o poder. 1977. c esta forma dc governo rcccbc o nome de aristocracia. Paulo. rousseau prélot.6 Formas de governo 105 democracia. pode o soberano concentrar todo o gover­ no cm mãos dc um magistrado único. passa por uma vida atribulada. Esparta. mesmo. Em 1753. Em O contrato social Rousseau formula uma classificação das formas de go­ verno nos moldes tradicionais: O soberano pode. Lis­ . sem que por isso se pudesse dizer que o Império estava dividido. Cultrix. ou ao menos as duas primeiras. Finalmente. resolveu emigrar. v. confiar o depósito do governo ao povo em conjun­ to ou à maioria do povo. diz Rousseau. porque nele ainda não existia a desigualdade social e econômica que viria depois. O contrato social e outros escritos. Isaac Rousseau e Suzanne Bernard. dc sorte a haver maior número dc cidadãos particulares que dc magistrados. Seja como for. N o seu trabalho sobre a origem e o fundamen­ to da igualdade entre os homens. sempre teve dois reis. conferindo a estes. que influenciaria pensadores de todo o mundo. As­ . foi o estágio tribal. em 1762. O único período realmen­ te feliz da Humanidade. e seu pai. A aristocracia. a mais ampla par­ ticipação política. toda­ via. São Jean-Jacques Rousseau (1712-1778).

nos diferentes Estados. a segunda é a melhor: é a aristocracia propriamente dita. e depositária no Estado do Poder Executivo. Os jovens cediam sem dificuldade pe­ rante a autoridade da experiência. sem mudar a forma da administração. Discutiu-se cm todos os tempos a melhor forma de governo. o governo democrático é o que mais convém aos pequenos Es­ tados. um povo que sempre governasse bem. outra dc maneira diversa. o aristocrático aos Estados médios. a terceira é o pior de todos os governos. Quanto à monarquia. Se houvesse um povo de deuses. concedendo-lhe poucas virtudes: Até aqui consideramos o príncipe como uma pessoa moral e coletiva. c c fácil dc ver que não poderia ele estabelecer comissões para isso. segue-se que. Há mais: podendo um mesmo governo subdividir-se. ele se governaria democraticamente. anciãos. senado. Um povo que jamais abusaria do governo também jamais abusaria da independência. Há. em várias partes. É impossível admitir esteja o povo incessantemente reunido para cuidar dos negó­ cios públicos. torna o governo hereditário. por diversos motivos. Finalmente. pois. Temos agora a considerar . trcs cspccics dc aristocracia: natural. existe um ponto em que cada forma de governo se confunde com a seguinte. em geral. à medida que a desigualdade de instituição sobrepujou a desigualdade natural. uma administrada dc certa maneira. sem considerar que cada uma delas é a melhor em determinados casos e a pior em outros. c a aristocracia pas­ sa a ser eletiva. pode re­ sultar dessas trcs formas combinadas uma infinidade dc formas mistas. As primeiras sociedades governaram-se aristocraticamente. Tão per­ feito governo não convém aos homens. Os chefes de família deliberavam entre si sobre os negócios públicos. cnobrcccndo as famílias. nunca existiu verdadeira democracia nem jamais exis­ tirá. cada uma das quais suscetível dc ser multiplicávcl por todas as formas simples. a riqueza ou o poder foi preferido à idade. Se. transmitido juntamente com os bens dos pais aos filhos. e vê-se que apenas sob três formas dc domínio já se mostra o governo capaz de adqui­ rir tantos aspectos diversos quantos cidadãos possui o Estado. o número de su­ premos magistrados deve estar constituído em razão inversa do número dos cidadãos. unida pela força das leis. Daí os nomes de padres.10 6 Teoria Geral do Estado sim sendo. eletiva c he­ reditária. e a monarquia aos grandes. e são muito bem governados. A primeira não convém senão a povos simples. o poder. Rigorosamente falando. Os selvagens da América setentrional ainda assim se governam em nossos dias. gerontes. Contraria a ordem natural o grande número governar e ser o pequeno governa­ do. não teria necessidade de ser governado. Mas. Rousseau demonstra sua ojeriza por tal forma dc go­ verno. e viram-se então senado­ res dc apenas vinte anos.

com tantos esforços. Seu interesse pessoal está. sendo dele tal poder. o tornasse temido dc seus vizinhos. e a vontade do príncipe. pequenos intrigantes.6 Formas de governo 107 este poder reunido em mãos de uma pessoa natural. Infelizmente. mas esse objetivo não é o da felicidade pú­ blica. . todas as molas da máquina estão na mesma mão. e a força pública do Estado. tudo caminha para o mesmo objetivo: não há mo­ vimentos adversos que se destruam mutuamente. Os reis desejam ser absolutos. tudo enfim responde ao mesmo móbil. desse modo. apontava aos hebreus. sem cessarem de ser os senhores. c dc longe lhes bradamos que a melhor maneira dc o scrcm consiste cm se fazerem amar por seus povos. cujos pequenos engenhos. é verdade. Um defeito essencial e inevitável. a voz pública quase nunca eleva aos primeiros postos homens que não sejam esclarecidos e capazes e não os ocupem com dignidade. me parece que o interesse dos príncipes residiria na existência de um povo poderoso. imaginando os vassalos sempre inteira­ mente submissos. está em que. a vontade do povo. é natural que os príncipes deem sempre preferência à sentença mais imediatamente útil para eles. de um homem real. também outro não há em que a vontade particular seja mais respeitada e mais facilmente domine as outras. miserá­ vel. e a força particular do governo. O poder oriundo do amor dos povos é sem dúvida o maior. tudo ca­ minha para o mesmo objetivo. que sempre porá o governo monárquico abai­ xo do republicano. as mais das vezes. Confesso que. nas monarquias. tal interesse é secundário c subordinado. porém. antes de mais nada. com vigor. sc achcm natural­ mente reunidas. eles sabem perfeitamente que tal coisa não é verdade. Esta máxima é muito bela c ver­ dadeira cm certo sentido. e a própria força da administração gira sem cessar em prejuízo do Estado. Assim. Por mais que se esforce um orador político em adverti-los de que a força do povo é a sua própria e de que seu maior interesse deve consistir em que o povo seja florescente. numeroso. sempre rirão disso nas cortes. Fingindo dar lições aos reis. e não se pode imaginar nenhuma es­ pécie de constituição em que um esforço menor produza uma ação mais considerável. quando lhes ape­ tece. único investido do direito de dele dispor segundo as leis. e grandes. na qual todas as faculdades que a lei reuniu na outra. em que um ser coletivo representa um indivíduo. temível. os que se elevam são. nesta aqui é um indivíduo que representa um ser coletivo. é o que Maquiavel demonstrou com evidência. aos povos. e as duas suposições sc mos­ tram incompatíveis. mas precário e condicional. neste último. em que o povo seja débil. Os melhores reis desejam ser malvados. é o que Samuel. E o que se chama um monarca ou um rei. pe­ quenos rixentos. deu-as ele. O príncipe de Maquiavel é o livro dos republicanos. e jamais lhes possa resistir. os príncipes ja­ mais se contentarão com ele. ao passo que. a unidade moral que constitui o príncipe é simultaneamente uma unidade física. Mas se governo não há mais rigoroso que este. Ao contrário das outras administrações. a fim dc que. pequenos velhacos. como.

Buenos Aires. . cit.04. o criador da famosa Teoria pura do direito. a quem o Estado foi vendido. De ascendência israelita. cm 11. são tempestuosas.1973. alcançar os grandes postos. do dinheiro que os poderosos lhe extorquiram.1881 c morreu cm Berkeley. 1. entretanto. na Califórnia. Teoria general dei derecho y dei Estado. c a paz de que se desfruta sob o governo dos reis passa a ser então pior que a desordem dos interregnos. Hans Kelsen. métall. de Praga. tão logo aí consigam chegar. Capítulo I). l i n a r e s q u i n t a n a . somente quando participa diretamente da elaboração das leis o cidadão reafirma sua condição e é verdadeiramente livre. Na verdade. só lhes servem para demons­ trar ao público o quanto são ineptos. As eleições abrem intervalos perigosos. à custa dos fracos. e a menos que os cidadãos se­ jam de um desinteresse. a forma ideal de governo é a democracia. Segundo V. mas tchecoslovaco.8) Kelsen Bibliografia: a i . de Viena. Não era austríaco. É difícil que aquele.10. de modo que o ideal democrático é viável apenas nos pequenos Estados da Antiguidade: “Quan­ to maior o Estado. que forma nos dois outros uma ligação ininterrupta. Capítulo XV). Mcxico. adverte Rousseau (O contrato social. não o venda por seu turno. as dis­ putas e a corrupção se misturam. nas cortes. nasceu em 11. menor a liberdade”. Hans. Vale lembrar. de sorte que é quase tão raro encontrar um homem de real mérito no ministério quanto um tolo à testa de um go­ verno republicano. e não se indenize. que a democracia eleita por Rousseau é a democracia di­ reta. Sistemas de partidos y sistemas políticos. Um inconveniente mais sensível do governo de uma única pessoa consiste na fal­ ta dessa sucessão contínua. de uma integridade acima dos méritos desse governo. Livro III. pois o governo representativo é uma forma de escravidão (O contrato social. cit. Mcxico.. como geralmente se pensa. Cedo ou tarde tudo se torna venal sob semelhante admi­ nistração.a d á r Rudolf. Quanto menos numerosos forem os cidadãos mais a opinião de cada um terá peso.. Univcrsidad Nacional Autônoma dc Mcxico. Nacional Autônoma dc Mcxico. o povo se engana bem menos que o príncipe. Univcrsidad kelsen. Livro III. 1979.108 Teoria Geral do Estado que permitem. 1976. Hans Kelsen ( Vida y obra). 1976. Plus Ultra. que ele aprendeu a admirar observando a antiga Roma republicana e os cantões suíços. No tocante a essa escolha. para Rousseau.

Certamente sessões como esta. ao criar uma originalíssima Teoria do Direito. A teoria política da Antiguidade distinguiu três formas de Estado (s/c): monarquia. Universidad Nacio­ nal Autônoma de México. real­ mente. Kelsen inovou. aristocracia e democracia. seus pais ou mais re­ motos ancestrais não sc chamassem Kelsen. ou como sc a importân­ cia dc Hans Kelsen como cientista fosse ofuscada se ele próprio. Rudolf Aladár Métall: F . como sc fosse vergonhoso alguém sc chamar Kohn ou Cohn. é sobre a Teoria geral do direito e do Estado que nos debruçaremos para observar como Kelsen aborda as formas de governo. sob a presidência de Karl Schmitt. Conta-nos. O boato de uma pretensa mudança de nome de Kohn para Kelsen foi repetido quase 30 anos depois. o professor Erich Jung referiu-se a Kelsen como Kelsen Kohn. 9) Tido por muitos como o grande jurista do século X X . Embora sua obra mais conhecida seja A teoria pura do direito.Vida y obra. em especial durante o período nacional-socialista. realizadas em 3 e 4 de outubro de 1936. 1979. p. por um professor austríaco. não havendo nenhum exage­ ro em afirmar que ele representa para a ciência jurídica o que Karl Marx represen­ ta para a ciência econômica. Quando o poder soberano de uma comunida- Hans Kelsen (1881-1973) .6 Formas de governo 109 sua vida foi pautada por perseguições raciais. a respeito. (Hans Kelsen . p. e a moderna doutrina ainda não superou essa tricotomia. verdade que durante uma sessão sobre o tema Os judeus na ciência do Direi­ to. 335) que o problema da teoria política é a clas­ sificação dos governos. A organização do poder é tida como o critério em que a referida classificação se fundamenta. Afirma Kelsen (Teoria general dei dereebo y dei Estado. foram organizadas pelo Grupo de Professores de Educação Superior da Liga Nacional-Sociaiista dos defensores do Direito.

337). Todavia. na verdade. com exclusividade. e a aristocrática da democracia. apenas dois tipos de Constituição: a democracia e a autocracia. mas jurídica. aristocracia e democracia se refere. 336). cit. à Teoria do Estado. então é melhor distinguir. se o critério de classificação consiste na forma em que. à organização da legislação. afirma-se que o governo ou a Constituição são monár­ quicos. a maioria das quais não possui uma terminologia específica. o legisla­ dor. A república será uma aristocracia ou uma democracia conforme o poder pertença a uma minoria ou a uma maioria do povo. A classificação das formas de governo é. e a vontade estatal nada mais é do que a ima­ gem do sistema normativo unitário da ordem estatal. de acordo com a ordem social. confor­ me a Constituição. Politicamente livre é o indivíduo que se encon­ tra submetido a uma ordem jurídica de cuja criação tenha participado.. um Estado é democrático se nele prevalece o princípio democrático. razão pela qual não há garantia dc que esta se harmoniza com a vontade popular (Teoria general. mas sim tipos ideais. deve fazer coincide com aquilo que deseja fazer. prossegue Kelsen. . por natureza.. Para Kelsen. Quando o poder pertence a vários indivíduos. Entre estes extremos há uma infinidade de etapas intermediárias. alheia. Cada Estado representa uma mescla de elementos de ambos. cit. pois a produção de um ato psíquico de vontade é uma questão psi­ cológica. cit. praticamente inexista (Teoria general. a democracia e a autocracia não são realmente descrições de Constituições historicamente consideradas. e autocrático se nele predomina o dogma autocrático (Teoria general. a ordem jurídica é criada. juridicamente. usado este termo no seu sentido ma­ terial. Um Estado é considerado democracia ou aristocra­ cia sc a sua legislação é dc natureza democrática ou aristocrática. em vez de três. O critério pelo qual a forma monárquica se distingue da republicana. Assim definidas. A democracia significa que a vontade representada na or­ dem legal do Estado é idêntica às vontades dos cidadãos. basicamen­ te. Um indiví­ duo é livre se aquilo que.110 Teoria Geral do Estado de pertence a um indivíduo. com funda­ mento na ideia de liberdade política. 337). ou­ tras do segundo. mesmo que a administração e o Poder Judiciário possam ter caráter diverso. Assim. A forma oposta à demo­ cracia reside na servidão imposta pela autocracia. cit. a um ou outro des­ tes tipos ideais.. Nesta forma de governo. o querer do Estado é o dever ser de sua ordem jurídica. A vontade do Estado não pode ser uma vontade psicológi­ ca. p. Da mesma forma o Estado sc classifica como monarquia quando o monarca é. 336). no campo do Poder Judiciário. p. reside no modo de criação da ordem jurídica. os sú­ ditos se acham excluídos da criação da ordem jurídica. p. Conforme a termino­ logia usual. o número dc indivíduos em quem reside o poder e um critério muito superficial (Teo­ ria general. uma classificação das Constituições. de tal forma que algumas sociedades se aproximam mais do primeiro destes modelos. Na realidade po­ lítica não há nenhum Estado que se ligue. a Constituição se diz repu­ blicana. A distinção entre monarquia. mesmo quando seu poder nesta parcela do Executivo se ache rigorosamente restringido e.. p.

2. porém visando ao bem comum. o rei exerce plenamente a função governamental. Fondo de salvetti n e t t o . traindo a República. Novíssimo dicionário jurídico. e arche. Les Belles Lettres. Saraiva. porque foi Júlio César que. denomina-se despotia ou des­ potismo. deve ser chamada realeza. Pedro Salvetti Netto classifica as monarquias em absolutas ou constitucionais. El derecho divino de los reyes. 1991. f ig g is . v. quando serve ape­ nas de instrumento para os interesses do governante. v. Curso de teoria do Estado. divide-se em mo­ narquia constitucional pura e monarquia constitucional parlamentar. tornando-se arbitrário. a c q u a v iv a . Paris. 1824. a seu turno. Lisboa. no intuito velado do monarca de se manter. Por isso considera natural a tendência a institucionalizar expressamente os par­ tidos no texto constitucional. 1954. Antonio Joaquim de. Régia. governo) é a forma de governo vi­ talícia em que apenas uma pessoa exerce o poder político. sem justo título de monarca. A monarquia constitucional. no comando do Estado. Pedro. Politeia. PINTO. se o monarca faz tábua rasa da lei. 1981. mas. Labor. 2) FORMAS DE GOVERNO CLÁSSICAS 2.6 Formas de governo 111 Segundo Kelsen. instrumentalizando-os juridicamente para o que são há muito tempo: órgãos para a formação da vontade estatal. porém. a monarquia constitucional mostra-se limitada pela lei: rex sub legem quia lex faciat regem. . 1982. ed. A monarquia absoluta caracteriza-se pela concentração do poder e pelo arbítrio do rei. 1942. a forma de governo cha­ ma-se tirania ou caudilhismo. Diccionario dei mundo clásico. Quando o governante.. . 4. São Paulo. Quando a monarquia é exercida visando ao bem comum. Os caracteres da monarquia. cuja significação cresce com o fortalecimento progressivo do princípio democráti­ co. sendo assassinado no ano de 44 a. que governa desvinculado de qualquer limitação jurídica (solutus legibus). Impressão John Neville. o princípio da separação e independência . Cultura Econômica. todavia. sem legitimidade. um. deve ser denominada realeza absoluta. Exercida sob a égide da legalidade. México. Por outro lado. a democracia moderna sustenta-se nos partidos políticos. empolga o poder pela in­ timidação ou pelo favorecimento de um estamento social. Barcelona. temos o cesarismo. Ignacio. Monarquia (do grego monos. errandonea gouvea bordes Jacqueline. exercida em fraude à lei. Na primeira. Por outro lado. na condição de chefe de Estado e chefe de governo. a monarquia chama-se realeza cons­ titucional. 2.C. São Paulo. tentou perpetuar-se no poder.1) Monarquia Bibliografia: Marcus Cláudio. consagrado. Brasiliense.

C. de príncipes e de legisladores pertenceram aos patriarcas bíblicos. Entre os hebreus. Os títulos de pais de família. na Itália. que todo o poder vem de Deus. eleição e cooptação. assírios. o dos godos. medas. monárquicos: o dos francos.). sendo peculiar aos agregados de animais complexos. o dos anglos ou saxões. Quanto à cooptação. a saber: o familiar ou patriarcal. investido na Justiça de Deus para castigar a abominação e a idolatria do povo. que implantou a centralização do poder. se­ . O monoteísmo hebraico proibia a divinização do monarca.C. Como exemplo. nem por necessidade ou aca­ so. 23. Todavia. como o das abelhas. Na Grécia antiga. e em Fanuel. Roma inicia e termina sua história sob a égide da monarquia. o guerreiro. como a tribo. o dos borgonheses. na Áfri­ ca. o teocrático e o civil. Quanto à forma de sucessão. a monarquia já era praticada na civilização micênica.). ostrogodos e longobardos.112 Teoria Geral do Estado dos poderes. até o rei Túlio Hostílio. pois a monarquia exige um Estado perfeita­ mente integrado em seus elementos formadores. Mesopotâmia c Arábia. gregos e macedônios. na Espanha. trata-se de uma forma de investidura em que o sucedido escolhe. como afirmavam os profetas. na França. durante o pe­ ríodo monárquico (753-509 a. et Legum Conditores justa decernunt” ou “Por mim reinam os reis. 15). não há que falar em monarquia patriarcal. mas por Deus. na Hungria. A força de Moisés. a ele pres­ tando obediência Seth e sua família. na monarquia há três: hereditariedade. Egito. Os filhos de Heth (hititas) chama­ ram a Abraão “senhor” e “príncipe de Deus” (Gênesis. Monarquia eletiva encontramos na história de Roma. o próprio sucessor. na Inglaterra. rece­ bendo referências nas obras de Homero (século IX a. sem concelho popular nem con­ firmação por senadores. a monarquia começou a sc firmar no período dos juizes. o dos hérulos. demonstram que Deus lhes confiara sua autoridade: “ Per me Reges regnant. babilônios. a monarquia é tida por mui­ tos como instintiva. Isto significa que rei­ nam os reis não por convenção humana ou capricho. efetuada por um colégio cardinalício. Exemplo contemporâ­ neo de monarquia eletiva temos na eleição do Papa. todos. 8. Sem dúvida a mais antiga das formas de governo. ao passo que o patriarcado era exercido em comunidades pouco desenvolvidas. na segunda. consolidando-se com Davi c seu filho Salomão (1082-975 a. na Síria. por outro lado. afirmando. o monarca é apenas chefe de Estado. livremente. A História Sagrada nos ensina que Adão foi o primeiro monarca. o dos sarracenos. em que uma tendência inata impele estes insetos a viver em função de uma abelha-rainha. 6).C. na Bulgária. para alguns autores. na Borgonha. o dos vândalos. o poder absoluto de Josué em Socota. o de Nerva. o dos hunos. e os Estados que resultaram do esfacelamento do Império Romano foram. e os príncipes decretam leis justas” (Provérbios. Monarcas governaram egípcios. per­ sas.). pois a chefia de go­ verno é exercida pelo gabinete ou conselho de ministros. o dos búlgaros. A monarquia teria passado por quatro estágios históricos.

Madri. 2. Guillaumin. Nova terminologia jurídica. 1977. s. em que ela manifesta. v. Saraiva. t.porque há monarquias eletivas. Histoire des princim at- pes. ed. no fato de ser eletiva . Jean. temos exemplo de cooptação na escolha aleatória. um de seus generais. Os herdeiros. Paris. des institutions 6c des lois pendant la Révolution Française. 1992.. c r e t e l l a j r. F. Do latim res publica (aquilo que pertence ao povo). ed.. mas no fato de seus cargos políticos não serem vitalícios. 1962. m a le t. s a m p a io dó- Direito constitucional 5. Forense. de Norberto Bobbio e Silvio A. Marco Túlio. c íc e ro . por exemplo -. entre elas. b e n e y to perez. M . espírito das b o u lo u is . ro s s i. Observa o Prof. Nicola. São Paulo.. 1. mutuamente enciumados. por maioria.6 Formas de governo 113 nador romano. república significa uma forma de go­ verno caracterizada. José. do ponto de vista semântico. atributos pri­ . o termo república indica. essencialmente. 1968. periodicamente. 2. todavia. Max Limonad. Les six livres de la republique. ed. quando representativo. v. sempre. Sigla X X I. qualidades há essenciais. 1866. Márcia Cristina. v. “ República”. Difusão Européia do Livro. para o povo. em que a comunidade escolhe seus representantes políti­ cos. Garzanti. leisySão Paulo. Cours de droit constitutionnei Paris. Buenos Aires. 1975. Jean. Curso de la fe rriè re . 1. e. como o Papado. fundador da dinastia. Hachette. Delia repubblica. De modo usual. que ensejaria a fácil conquista do Peru pelos espanhóis comandados por Francisco Pizarro. pois seus cargos políticos são preenchidos. Pelo povo. México. Rio de Janeiro. tudo o que é ine­ rente à sociedade. São Paulo. 1985. 2. in Diccionario de política.d. Aguilar. 1851-1852.. 2. ria . ed.. pelo rei Huayna Capac. Historia de las doctrinas políticas. 1946. propria­ mente. conforme a vontade do povo.d. 1. m e ira . Mareei e Pcllcgrino. por não ser vitalícia como a monarquia. Juan. romano (História e fontes). o próprio interesse público. Paris. Libr. reis peruanos que criaram vasto im­ pério na América do Sul pré-colombiana. Aalen. 1950. sua vontade a respeito de ou­ tros assuntos de seu interesse. direito romano. Dalloz. que escolheu como sucessor Trajano. s. São Paulo. Sampaio Dória: República é governo do povo.u . 3. dc seus filhos Huáscar e Ataualpa. b o d in . Também na história dos Incas. Cotillon. Então. ocasionaram sangrenta guerra civil. v. a essência da república não reside.. B. Scientia Verlag. te u c c i. Alberto. N o governo republicano. Libr. ou votações. Institutions politiques et droit constitutionnei 7. ou seja.2) República Bibliografia: a n a n i a s Rideel. 1978. que deveriam governar um império fragmentado em duas metades. D o Nicola Matteucci. neves. p r é l o t . Curso de direito m o n te s q u if. E. Historia romana. manifestada por eleições.

mediante a qual uma comunidade afir­ ma sua ideia dc justiça. Entretanto. aquilo que é inerente à sociedade. 1. e Tarquínio Colatino. com que se esperava inibir dc vez qualquer tentativa de restaura­ ção da monarquia. (Direito constitucional. mas uma convivên­ cia consciente de pessoas que se torna sociedade pelo reconhecimento de um direi­ to e de um objetivo comuns” (Da república. onde uma parcela da população deliberava.114 Teoria Geral do Estado vativos. Livro I. termo que ressalta a raiz arquia (do grego arche. a república surgiu como uma inovação revolucionária. § XXV). este for­ mado exclusivamente por patrícios. que comandou a deposição de Tarquínio. com precisão. o consenso sobre uma lei comum. embora essencial à república.C. aí se terá república. dos quais os primeiros foram Lúcio Júnio Bruto. sed coetus multitudinis iuris consensu et utilitatis communione sociatus”. Esta. v. sua qualidade específica. foi deposto. não lhe é exclusiva. a investidura consular durava apenas um ano. por volta de 510 ou 506 a. o Soberbo. Foi Marco Túlio Cícero quem delimitou. re­ sultante da queda da monarquia etrusca. o consulado apresentava duas características essenciais: cole- . o patriciado. muito mais do que uma forma de gover­ no como a monarquia. sobre os negócios dc Estado.C. de modo que a derrubada da monarquia foi vista com indiferença pela plebe. 155) Sendo popular. e povo não é mero ajuntamento de pessoas postas lado a lado. o sentido mais autên­ tico de res publica. Não há republica representativa sem eletividade dos que fazem a lei. No plano histórico. quando o rei Tarquínio. no final do século VI a. O rei foi substituído por dois cônsules ou praetores. república (latim) e politeia (grego) são expressões que denotam o próprio interes­ se público . reconhecimento oficial e inapelável de sua investidura pelo Senado.sempre patrícios . Cícero opôs à república todas as formas dc governo injustas. Mas esta qualidade. diretamente. A investidura dos cônsules lhes dava o imperium (poder de man­ do) e a auctoritas patrum. Onde houver governo com chefe eleito pelo povo. c por tempo certo. governo). Não há república. senão quando c o chefe eleito pelos governados. p. por tempo determinado. que não prefira o governo. e não apenas denominações de for­ mas de organização do poder.eram eleitos por uma assembleia em que pre­ dominava. Na época monárquica. Ao destacar como elementos essenciais da república o interesse comum e. 1. princi­ palmente. evidentemente. pois que também pode existir na monarquia. a república apresenta analogia com a democracia da antiga Atenas. ou “a república é coisa do povo. t. O que realmente caracteriza a república como elemento privativo é a eletividade e a temporariedade do chefe do exe­ cutivo.. populis autem non omnia hominum coetus quoquo modo congregatus. como já foi dito. Na verdade. Então. direto. a par do rei atuavam os cônsules e o Senado. fato este visto como mais um reflexo da de­ cadência das monarquias então existentes na Itália. ao demonstrar que “ res publica res populi. Os cônsules .

que torna­ va a república inconfundível com a monarquia. desde que dota­ das de um droit gouvernement. A república floresce em Es­ tados de pequena extensão territorial. prossegue. nas repúblicas. portanto. portanto. e o despotismo outra ainda maior. a monarquia. em 1889. ao passo que a monarquia exige uma área física considerável. mas é no melhor de seus livros. mais singela: repúblicas e principados. Discursos sobre a primeira década de Tito Lívio. qual seja. aristocracia. . trazendo uma nova forma de Estado. que estuda a república. Jean Bodin emprega o termo república para denomi­ nar. as formas de governo são a monarquia. de 1824. quem faz a lei é o monarca. a forma unitária de Estado e a monarquia constitucional como forma de governo. doutrinariamente. sc na república há uma relativa igualdade.di­ vidida em aristocrática e democrática . a tradicional classificação das formas de governo (monarquia.e o despotismo. sabe escolher seus representantes legisladores. a república . das formas políticas fun­ dadas na violência ou na desordem. porque se o povo não é apto a legislar. mas também na implantação de uma demo­ cracia representativa. na qual haveria separação de poderes fun­ dada num sistema de fiscalização mútua entre estes. atuando em conjunto). Na monarquia. numa república as leis vêm a ser a expressão da vontade do povo. substituindo-se a forma unitária de Estado pela forma federativa. cuja distinção reside no fato de. e o regime parlamentarista pelo presidencialista. a aristocracia e a democracia. a fe­ derativa. adotamos com a independência e a primeira Constituição. indistintamente. e a anualidade. popular. enquanto. democracia e governo misto) é substituída por outra. a desigualdade se torna escravidão. a forma monárquica pela repu­ blicana. a Proclamação da República. Maquiavel tratou do principado ou monarquia na sua obra mais conhecida. fundada. e uma robusta concepção de república. Para Montesquieu. Quanto ao Brasil. Com Nicolau Maquiavel. sem falar no afastamen­ to compulsório de Pedro II. O príncipe. Ademais. embora tolhido em eventuais arbitrarieda­ des pelas Constituições. na monarquia a desigualdade em favor da nobreza c verdadeiro pressuposto. no despotismo. Já na Idade Moderna. distinguindo-as. denominado sistema de freios e contrapesos ou checks and balances. os magistrados serem eleitos. Por outro lado. ao passo que o déspota governa e julga mediante leis arbi­ trárias e ocasionais. representou verdadei­ ra revolução política. não só no fato do repúdio à monarquia. surgiram os Estados Unidos da América do Norte. Com a independência das colônias norte-americanas em 1776. integrando a natureza mesma desta forma de governo. pois todas as instituições foram subvertidas.6 Formas de governo 115 gialidade (eram dois os cônsules. entretanto. Entretanto.

§ 4°. direta­ mente. 1967 e 1988) adota­ ram a república como forma de governo. 72 do Decreto n. cm Estados Unidos do Brasil. graças ao art. trou­ xe significativa inovação. co. I o declarava: “Fica proclamada provisoriamente e decretada como a forma de gover­ no da nação brasileira . § 6o. 1992. Méxi­ E. Rideel. ed. a República Federativa. o art.1891.1988. As demais Constituições brasileiras (1934. qual seja. Diccionario de política. § 5o. da Constituição de 1967.11. conforme previsto no art. a volta da monarquia. sobre a forma dc governo. caput. cujo art. dc 15. Siglo X X I. já no dia mesmo da procla­ mação. 1988. que constava dos arts. por união perpétua e indissolúvel das suas antigas províncias. da mesma forma. glotz . proclamada a 15 de novembro de 1889. 178. § I o. v. a possibilidade de o povo se manifestar. p o n s a t i.11 6 Teoria Geral do Estado A partir da Proclamação da República. Paris.02. 1. 90. 1. sob o regime representati­ vo. Tal decisão seria confirmada com a primeira Constituição republicana. Gusta- ve. c Dizionario enciclopedico dei diritto. dc 24. com isto. Novara. 15 dc novembro. (Nova terminologia jurídica. a revogação ou modificação dc determinados artigos. 2. ficou abolida a cláusula pétrea ou de imutabilidade da forma dc governo. 1. da Constituição de 1891. Assim o art. em seu art. de 05. como definida por Márcia Cristina Ananias Neves. Nicola. Lecciones de . 60. Difusão Editorial. em 1889. de 24. da primeira Constituição republicana.. da Constituição de 1946. A cidade grega. Edipcm. Com isto. 2°. que proibia a abolição da forma republicana federativa.1889. 1985. 90. 70) 2. Dictionnaire politique. assim: A Nação Brasileira adota como forma de governo. a atuação dos monarquistas em prol da restauração da realeza. e constitui-se. sendo que a vigente. vedando. mesmo por via de emenda. que impede qualquer emenda que vise a abolir direitos e garantias individuais. 1. Pagncrre. vem a ser a norma constitucional que impede.1937. Norberto e m a t t e u c c i . Arturo D. São Paulo. das Dis­ posições Transitórias. 2° do Ato das Disposições Transitórias. GARNIER-PAGES.02. o Governo Provisório emitia o Decreto n.3) Aristocracia Bibliografia: v.1891. dc forma absoluta. p. 217.1946. cm plebiscito.a República Federativa” . § 4o. 1°. b o b b io . e 47. § 4°. 1979. da atual Constituição. Cláusula pétrea. embora permitindo. da Constituição de 1934.10. 1848.

6 Formas de governo 117 historia de las instituciones. (J. mas também moral. quase não tratando da aristocracia. Antiquités grecques. surgindo uma nova elite. ao contrário do que proclamaram Políbio e Cícero. encontraram no Senado o reduto dc seus privilégios. Segundo Platão e Aristóteles. se definições clássicas de aristocracia as encontramos em Pla­ tão e Aristóteles. governo dos melhores. cognominado o pai da História. F. Heródoto faz menção à oligarquia. A par da monarquia e da isonomia (em substituição à demo­ cracia). 1. dirigir o Estado no rumo do verdadeiro bem (A república. Paris. não podem deixar de ser aqueles que pertencem às classes mais elevadas da so­ ciedade. Aristóteles. a denominação aristocracia. designando o estamento que limitava o poder do rei (basileus). dc muitos). o bastião largamente inexpugnável de sua injustificável dominação (Lecciones de historia de las instituciones. mas na ri­ queza pecuniária. s c h o e m a n n . Astrea. o termo aristocracia não se funda nas virtudes militares (inerentes à primitiva nobreza grega).). 1884. t. por outro lado. 1976. Picard. o verdadeiro centro da estrutura política do Estado romano.C. li­ teralmente. e kratos. dos sábios. II. ocorreram sensíveis modificações socioeconômicas. 5. afirmou que a aristocracia é o governo con­ fiado aos melhores pelos cidadãos. a periodici­ dade e a colegialidade da magistratura transformaram o Senado no órgão estável por excelência da República. embora mantendo em seu tempo. em oposição aos kakói ou mal-nascidos. Caberia aos sábios. enfim.C. p. Buenos Aires. como assinala Arturo D. fizeram. 10). Por outro lado. os aristoi. V). que individualizou com maestria essa forma de governo. o equilíbrio da Constituição romana já não era o mesmo no século II a. men­ cionava trcs formas de governo (de um.). portanto. melhores. mas na virtude e na sabedoria. Em Platão.C. a plebe. prudentemente. já Heródoto (480-425 a.C. aos melhores. Durante o sé­ culo VII a. de má índole. enfim. que sucessivamente exerceram o poder social e po­ lítico em Roma. domínio) significa. Em Roma. do Senado o instrumento e símbolo de sua as­ cendência. as origens da aristocracia remontam aos tempos homéricos. Na antiga Grécia. daqueles que apresentam su­ perioridade não só intelectual. enfim. orientação destinada a enorme ressonância. a aristocracia teve seu maior destaque durante a república senato­ rial (509-27 a. 313). e que seria denominada oligarquia. 1976. e ao transformar-se em minorias dominantes. Buenos Aires. Astrea. . por serem moral e intelectualmente superio­ res. sem distinções de nascimento ou riqueza (Polí­ tica. poder. Ponsatti. estribada não mais na propriedade fundiária ou no sangue. IV. As minorias dirigentes. em oligarquias socialmen­ te disfuncionais que haviam perdido o fundamento moral de seu poder. Aristocracia (do grego aristoi. de poucos. A intermitência dos comícios populares.

desapareceu. . Instituciones griegas. de la Flor. 1989. ham m er . Rio dc Janeiro. Saraiva. tado. Buenos Aires. 1984. Goffredo. Tres teorias sobre la prensa. Barcelona. 1990. Ciência política . Quest-ce que le Tiers État?. Elementos de teoria geral do Es­ dom enach Amado. José Pedro Galvão de. 2. São Paulo. História Fred S. s e ig n o b o s Charles. que veio a perder para a burguesia a condição dc sustentáculo das monarquias absolutas. Forense. f e r r e ir a f il h o Manoel Gonçalves. Obras completas. w . A cidade antiga. São Paulo. no seu sentido original. 1979. a aristocracia. terminologicamente. e p o h l - F. Amorrortu. Estado. as mutações eco­ nômicas diminuíram substancialmente a importância da aristocracia. São Paulo. Los partidos políticos. 1927. Problemas de filosofia política. Rio dc Janeiro. a aristocracia deixou de ser. Paulo. Labor. m a is c h Numa Denis. ed. 1965. 1949. 1972.. 1950. São Paulo. . . uma forma dc governo para indicar um estamento diverso da burguesia e do cle­ ro. s ie b e r t . Rio dc Janeiro. 1938. Droz. 1963. Curso de teoria do . ris. taker d a c u n iia . política. Curso de teoria do Estado/Di­ v ie ir a reito constitucional /. Luís. Vásquez dc. São Paulo. Obras completas. Briguict. Saraiva. Introdução ao estudo do Estado e do direito. ed. da Europa. . Theodos ié y è s . 1986. telles j r souza . d a i . São Paulo.l a r i . 1957. Rio de Janeiro. 1974. La constituzione salvetti n e t t o . Conceito c natureza da sociedade . Freitas Bastos. ed. São b o n a v id e s bastos. 2. I. Rio de Janeiro..118 Teoria Geral do Estado A partir da Idade Média. Celso Ribeiro. sincera da França. Milano. 14. . com o aparecimento do Estado moderno. São Paulo. tica. Rodrigo c v i a n n a . 1931. pla- o c t a v io . Martins Fontes. e p e t e r s o n . soviética dei 1977. Saraiva. Emmanuel Joseph. Curso de teoria do Estado e ciência política. Coimbra. 6. f u s t e l d e c o u i .a n g e s . r u f f ia prélot. São Paulo. Todavia. PUE. Paolo Biscaretti di e c r e s p i .l l a . . 2. 1970. Cíenève. Com a Revolução Francesa. Paulo D. Revista dos Tribunais. 1931. Ama­ h i- ral. Nacional. ed. TÃo. Barcelona. Jean-Marie. 1963. Robcrt. 1979. A democracia e o Brasii São Paulo. Pa­ Pedro. tos de direito público e constitucional brasileiro. cabral de m o n c a d a . Aguilar.. Casa Subirana.4) Democracia Bibliografia: 1978. e 4. Buenos Aires. . A propaganda polí­ . Giuffrè. Saraiva. Difusão Européia do Livro. vani b e n f ic a Francisco. v. Politique d'Aristote. Paulo. v. 1981. por com­ pleto. 1984. Forense. Teoria geral do Estado/Introdução ao direito constitucional. Forense. Ed. re. 1981. Fernando. 1986. Armênio Dalmo de Abreu. Bushatsky/Universidade de São Paulo. Saraiva. Roberto A. Elemen­ Marcel. Madri. R. A democracia possível. Polí­ tica e teoria do Estado. Reghizzi Gabriele. 1979. e que se sobressaía pelos altos postos militares e por privilégios transmitidos hereditariamente... m ic h e l s m f . e Direito constitucional comparado% São Paulo. Sucessor.

Vargas. uma pra­ ça. À primeira vista. Na Grécia. em especial. Claude. separados um dos outros por baías e cadeias de montanhas. fazia pois o papel do Parlamento nos tempos modernos. A cidadania era grande objetivo do ateniense. sem intermediação de representantes.surgiram na antiga Grécia. que deliberava com ar­ dor sobre as questões do Estado. Assinala Paulo Bonavides: A democracia antiga era a democracia de uma cidade.1) Introdução ao tem a Dividiremos este capítulo. onde os cidadãos sc congregassem todos para o cxcrcício do poder político. mostra-nos que a natureza dividiu aquele conjunto num gran­ de número de vales e planícies. Já se dis­ se que a maioria dos ideais políticos modernos . La démocratie. 2004. dotados de inabalável consciência social e de zelo pela tradição. em duas partes: evolução da doutrina democrática e espécies de democracia. O ateniense. o Estado não era uma abstração somen­ te compreensível com o auxílio de um mapa. Jorge Zahar. além de lhe assegurar a participação efetiva na vida pública. Paulo. na cidade grega. N irri. a Grécia parece formar uma unidade geográfica.justiça. que fazia de sua assembleia um poder concentrado no exercício da plena soberania legislativa. um povo. Paris.4. Cada cidade que se prezasse da prática do sistema democrático manteria com orgulho um Agora. .2) D em ocracia direta Bibliografia: b o n a v id e s . executiva e judicial. Para elas. todas elas ani­ madas dc fervoroso patriotismo. Ciência política . 1933. e sim uma realidade palpável. D i­ cionário da civilização grega. governo cons­ titucional .4. contudo. a democracia foi praticada na forma direta. um conjunto de cidadãos. Iniciemo-lo com a concepção de democracia entre os antigos gregos. lhe garantia os direitos subjetivos. via na participação da vida pública o supremo bem a ser almejado por um homem. Foram os gregos os primeiros a lançar as sementes da ideia democrática. liberdade. Rio de Janeiro.6 Formas de governo 119 2. era a chamada demo­ cracia clássicayna qual os membros de uma comunidade deliberam diretamente. pois. com finalidade didática. Rio dc Janeiro. Neste país surgiram inúmeras pequenas comunidades. era. Fundação Getúlio mossh. 2. que se voltava por inteiro à coisa pública. um exame mais atento. isto sim. O Ago­ ra. Alcan. sementes que foram conservadas pelos filósofos da Idade Média e que frutificaram na modernidade. A cida­ de não era um produto da razão. Isto era possível na prática porque a cidade era de reduzidas dimensões e a população diminuta. Francesco. de um povo que desco­ nhecia a vida civil. 1974.

O cida­ dão. mesmo porque na própria atualidade o estrangeiro não possui certos privilé­ gios atribuídos ao cidadão nato. Daí a expressão democracia. apenas aqueles que integravam um demos (município). quase sempre. aqueles que residiam fora da cidade não eram considerados cidadãos. que não era opulento. um lugar privilegiado se reserva à ágora. lembra Francesco Nitti. O segundo estamen­ to compreendia os metecos ou estrangeiros que não participavam da vida pública. tido este como falta de vontade e entusiasmo para o trabalho. vivendo com simplicidade e modéstia. dotados do direito de par­ ticipação na vida política. a pólis via seu elemento humano formado por três estamentos: inicialmente. hoje. com o triunfo da democracia direta. o negócio desfruta. pragmática e materialista. os cidadãos (enpátridas). Tão logo se desobrigava de suas ocu­ pações habituais. Os gregos. o ateniense sc voltava para a atividade política. que significa gover­ no do demos. O grego era considerado cidadão da pólis a que pertenciam seus pais. no bouleuterion e na tholos. o grande número de escravos existente em Atenas permitia que o tempo do cidadão dedicado à política fosse quase integral. As assembléias eram realizadas numa praça denominada agora (do grego agos. orador. Aristóteles costumava dizer que todo c qualquer trabalho manual deveria ser executado por escravos. considerava o ócio a mais pura atividade espiritual. consideravam um povo sem ágo­ ra um povo escravo. Assim. voltada à contemplação e ao estudo dos te­ mas filosóficos. sendo tal direito transmitido de pai para filho. Como os cidadãos eram frequentemente chamados a participar das assembleias. sua defesa dependia dos próprios cidadãos.C. a par­ tir de meados do século VIII a. na qual se cruzam as principais artérias da cidade. onde deliberavam os prítanes. poden­ . Por outro lado. Por outro lado. as expressões negó­ cio e negociante) para designar atividades lucrativas. perverteu o sentido original destes vocábulos de tal forma que seu valor foi inver­ tido. dirigido por um de­ marca. de um prestígio muito maior do que o ócio. que eram os únicos a possuir armas. A civilização contemporânea. O terceiro e último estamento era formado pelos escravos. puramente materiais.120 Teoria Geral do Estado Para se ter presente o apego do antigo grego à sua cidade. Em Atenas. costume já mencionado por Homero. quando não vadiagem pura e simples. sem liberdade de opinião e de sufrágio. aquele que tem o direito de falar). participavam da política. a ágora tem seu prestígio au­ mentado e as reuniões passam a ser mais freqüentes. Com efeito.. magistrados que presidiam as sessões do conselho e da assembleia. Empregava-se então a expressão nec ócio (daí. por ele consideradas desprezíveis. embora fossem livres e sua exclusão da política não significasse discriminação so­ cial. de forma que os cidadãos pudessem dispor de seu tempo para as atividades políticas. Estes realizavam serviços manuais e eram benignamente tratados. basta lembrar que a pólis não era dotada do exército permanente. Tais assembléias ti­ nham caráter informal e não desfrutavam de poder relevante.

criada. fundada na monarquia. então. b) inexiste o pecado original: o homem é levado à corrupção pelo próprio poder político. diga-se de passagem. A metecos e escravos em Atenas correspondiam. 11a verdade. fundamentou aberrações doutrinárias de malévolos efeitos.6 Formas de governo 121 do alcançar sua liberação em face de bons serviços prestados aos seus proprietá­ rios. Ao eupátrida ateniense correspondia o esparciata ou lacedemônio. pela leitura do texto. contudo. consagrava. estes últimos o estamento mais numeroso. entretanto. de forma que não é difícil chegar-se à desagradável conclusão de que o ideal totalitário se amalgamava com a própria democracia grega. imperando a lei da natureza. que a participação do cidadão 110 processo político era muito mais um dever do que um direito. Em sua obra Segundo tratado do governo civil. periecos e ilotas. até mesmo no modo de trajar do ho­ mem ou da mulher. de Thomas Hobbes. é preferível à vida em civilização. respectivamente. condenando o absolutismo. a liberal-democracia. 11111 dos criadores da ideolo­ gia iluminista.4. que exerciam funções publi­ cas menos significativas. Locke procura fundamentar a forma de governo parlamentar introduzida 11a Inglaterra pela Revolução de 1688. isto é. com suas ultrapassadas concepções criadas para manter o po­ der do clero e da monarquia absoluta. Em Esparta. não sen­ do raras. c) a vida do homem em liberdade absoluta. a palavra aterradora totalitarismo. Quem nos dá uma visão realista da democracia grega é Fustel de Coulanges. na própria natureza. mi­ lênios depois. no capítulo XV III de sua obra A cidade antiga. São figu­ ras de realce no pensamento liberal individualista John Locke. O eforato era um órgão importantíssimo na política espartana. tendo por missão proteger os interesses dos esparciatas (cidadãos) nas relações com outros Es­ tados. originalmen­ te. Jean-Jacques Rous­ seau e Emmanuel Joseph Siéyès. fertilíssima região da Grécia. contra periecos e ilotas. cm especial.3) D em ocracia representativa Justificada. a re­ pública aristocrática governada por um conselho de trinta membros. a organização política. Locke é. iniciada na Inglaterra por volta de 1680 e fundamentada cm rígido racionalismo oriundo. já se fazia presente. a par de inegáveis conquistas 110 campo da liberdade e da propriedade individuais. em liberdade e igualdade absolutas. Não havia. Frise-se que o próprio Estado podia ter escravos. A mentalidade totalitária ou organicista. Percebe-se. que. numa sociedade anárquica. cidade situada no alto do vale do Eurotas. os homens viviam. em parte. as tiradas organicistas de Platão e dc Aristóteles nas respectivas obras. torna-se insuportável. pelos excessos do absolutismo em França. Para melhor alcançar seus objetivos in­ . em Esparta. auxiliado por dois reis. No seu modo de ver. pelo fascismo. O Estado intervinha em tudo. 2. despro­ vida de poder. Seus preceitos básicos po­ deriam ser resumidos em três: a) o guia infalível da sabedoria é a razão.

A única função do Estado seria. é aque­ la que reduz ao mínimo os vínculos sociais c a pressão exercida pela sociedade sobre o homem. O homem. por conseguinte. Quando surge a vida em sociedade. Essas ideias de Rousseau acham-se situadas especialmente em O contrato so­ cial1 . Como Locke. mas a sociedade o corrom­ pe. era. dizia em sua obra O contrato social: “O homem nasce livre e em toda parte se acha aprisiona­ do'’. a qualquer momento. Emmanuel Joseph Siéyès (1748-1836) . fruto da vontade e não de uma inclinação natural. A liberdade passa. sem dúvida. Já se disse que. é a liberdade dos bons tempos que o faz bom: portanto. portanto. resolveram. a sociedade polí­ tica conveniente é aquela que garante a mais ampla autonomia individual. no qual também a felicidade seria abso­ luta. aliás. o chamado estado de natureza . contudo. se Locke tivesse de optar entre a desordem e o despotismo. Perdida a liberdade natural. mediante um pacto voluntário . dependente de um acordo de vontades. rebelar-se contra os possíveis excessos dos governantes. é um bom selvagem . Ora. então. Rousseau. outorgando a esta um poder de mando destinado a executar a referida lei natural. a ser um fim em si mesma. sua natureza é sã. escolheria. direito de. preservando a liberdade individual. man­ ter a ordem. Rousseau afirma que o homem surge num estado de liberdade absoluta. e a própria sociedade nada mais é que o objeto de um con­ trato. a restauração do caráter do homem se faz com a liberdade civil. a primeira hipótese. por sua vez. daí o divórcio. O individualismo. um dos corifeus da Revolução Francesa. A própria família somen­ te se mantém em razão de laços contratuais..122 Teoria Geral do Estado dividuais. A comunidade teria. como tal. o homem perde tal liberdade e se corrom­ pe. diz ele. Discurso sobre a origem da desigualdade entre os homens e N ova Eloísa. reduz o casa­ mento a um contrato e. ideal maior do Estado. que podem dissolvê-lo livremente. instituir a sociedade política. relegada a um segundo plano toda a ideia dc progresso e de bem-estar social.

Frontispício da obra clássica de Siéyès Que é o Terceiro Estado? Já estamos vendo que. É preciso ir ao parlamento? Nomeiam deputados e continuam a ficar em casa. mas para as cumprirem. C c que les Miniftrcs ont ttn ti.i voirfi les reponfes font juftes. cc q u i rtjle i fairc au Ticrs pour prendre U p h cc qvú lui cft dúc. Num dos mais valiosos capítulos de seu O contrato social (Livro Terceiro. por ser contrária à lei natural a proposição de que a maioria governa a minoria. N oui avons trois queftions i nous faire. A i. en c ffc t. não pode participar da vida em sociedade a não ser conservando sua soberania pessoal. Num Estado bem dirigido. 1®. Q u c ft-cc que le Tiers-Ecat » T o u t . Só pode haver democracia. Q u a-t-il & c jufqti a prcfcnt dans 1'ordrc p olitiquci RiEM. Enfin . quclqu* chofe. Inércia e dinheiro ensejam soldados para dominar a pátria e deputados para a venderem. tanto para Locke como para Rousseau. Nous c x imincrons cnluitc les rooyensquc 1on a eflayés / íc c c u x q n c l on doic prendre. Capítulo XV). não pagam para se desobrigar dc suas obrigações. que se preocupam mais com o dinheiro do que com sua própria pessoa. o Estado se encon­ tra à beira do colapso. dizia Rousseau. Rousseau era adversário ferrenho da chamada democracia representativa. Todos estão certos de que ja­ . C c q u o n auroit Jú fairc. Q tiç dcmandc-c-il f A dcvcnir QUELQUE G H O SE. C ° . naturalmente independente. afin que IcTicrsEtat d evien n e. Rousseau vai ao ponto de afirmar que o ho­ mem. É preciso combater? Pagam a mercenários e ficam em casa. a liberdade é o bem supremo do ideal democrático. todos freqüentam as assembleias. Ainft nous d iro n s: * 4 ° . O n v. nada com o ouro. Por isso. 5 °. í®. onde houver deliberações tomadas diretamente pela comunidade. & c e q u e Privilegies cux-m cm cs propofaic cn fa faveur. mas com um mau governo ninguém se interessa pelo que nelas se delibere.6 Formas cie governo 123 Q U E S T -C E Q U E LE TIERS-ÉTAT? X j E plan d c cct E c m c ít aflèz fimplc. sem intermediá­ rios. Rousseau é bastante claro e incisivo a esse respeito: Logo que a função pública deixa de ser a principal atividade dos cidadãos. os cidadãos fazem tudo com a força dc seus braços. N um Estado verdadeiramente livre. 3°.

A nação não é o conjunto de homens reais. que bem merece perdê-la. quando muito. não aprove. que vivem e que viverão. concretos. utiliza tão mal esta. mas sim o conjunto daqueles que viveram. Nesta segunda obra. a própria ideia de privilégio. E quando alguém diz: Que me importa o E s ta d o este está perdido. A ideia de nação em Siéyès confunde-se. estratificação trazem consigo um semantema (ra­ dical) st. sendo os três estados estanques. com todo o Terceiro Estado. classes sociais na França. A soberania não pode ser representada. como contrária à natureza. na França pré-revolucionária? Era o ter­ ceiro estamento social. Não havia. . mesmo porque as ocupações particulares ocupam todo o tempo. e isto não ocorria então. com efeito. efetivamente existentes em dado momento histórico. Apoiou Bonaparte no golpe do 18 Brumário. antecedido pela nobreza e pelo clero. O povo inglês pensa que é livre. Siéyès escreveu dois explosivos panfletos. as palavras casta. afirma que a soberania do Estado reside na nação. é nula. só é livre durante a eleição dos membros do parla­ mento. Os deputados não são c nem podem ser representantes do povo. per­ manência. que significa. passa a ser escravo e nada é. Deputado do povo. propondo a unidade da na­ ção e do chamado Terceiro Estado (o povo). de Marx e Engels. Exilado. exatamente. em pessoa. imutabilidade. no qual Siéyès incrimina. mas não conseguiu que seu projeto de Constituição fosse adotado. elementos de uma comissão e não podem concluir nada em definitivo. Que era. Siéyès será o grande inspirador desta. afinal. logo que estes são eleitos. c esta não admite representantes. para a Re­ volução soviética. estratificados. não há meiotermo. jamais será uma lei. Se Rousseau é inimigo figadal da democracia chamada representativa. o Terceiro Estado. Ela se expres­ sa pela vontade geral. más leis acarretam outras piores. foi adversário de Robespierre. Esses dois panfletos se intitulam Ensaio sobre os privilégios. Boas leis criam outras melhores. pois não admite alienação. aparentemente. obra da qual se serve para combater a pluralidade de es­ tamentos do ordenamento constitucional monárquico. Quem inte­ grava um estamento inferior não podia galgar um estamento privilegiado. presidente da Constituinte francesa re­ volucionária. Toda lei que o povo. denotando a rigidez das sociedades estruturadas em estamentos. de origem indo-europeia. Nos poucos momentos em que usufrui de liberdade.124 Teoria Geral do Estado mais a vontade geral prevalecerá. Emmanuel Joseph Siéyès foi um abade que teve uma vida política destacada. ou é ela ou não e. com efei­ to. são. elemento mais numeroso e mais sig­ nificativo economicamente. considerados tão importantes para a Revolução Francesa como o Manifesto comunista. estamento. Aliás. pois uma sociedade estruturada em classes admite a mobilidade social. e Que é o Terceiro Estado?. estado. porém está enganado. no sentido moderno que atribuímos à expressão clas­ se social. voltou para a França em 1830.

A sobe­ rania. a posição de Rousseau é oposta à de Siéyès. A nação. ambos concor­ dam num ponto: todo e qualquer organismo intermediário entre os indivíduos e o poder político deve ser eliminado. Nação e Terceiro Estado confundem-se. Todo aquele que é privilegiado pela lei sai do ordenamento comum e. a representação da nação será atri­ buída a quem ela determinar. 7°: “Os representantes elei­ tos nos parlamentos não serão representantes de um departamento particular. da mesma forma que no direito civil temos um contrato denominado mandato (do latim manus dare). os interesses da nação suplantam os interesses momentâneos do povo. não se confunde com as gerações que passam. contudo. diz ele. sendo que a participação do povo. arts. que fixará a competência e os deveres dos representantes da na­ ção. para Siéyès. a Constituição francesa de 1791 estabeleceu em seu art. A responsabilidade dos representantes apura-se nos termos da Constituição. no pen­ samento de Siéyès. contratualística. c nenhum mandato lhes poderá ser atribuído”. for­ malizando-se o pacto por um aperto de mãos. a representação política é obra do poder constituinte. ao passo que. preâmbulo do título terceiro. Por isso. sendo a nação uma entidade abstrata. “da qual emanam todos os direitos” (Constituição de 1791. Assim. isto é. e seria bem melhor se os outros Estados não existissem. no capítulo II: É preciso entender por Terceiro Estado o conjunto dos cidadãos que se acham submetidos a um ordenamento comum. Que tem sido até agora no ordenamento político? Nada. que representa os interesses perma­ nentes do elemento humano do Estado. segundo Rous­ seau. consistindo num vínculo contratual entre representante e representado. O Terceiro Estado. é uma nação completa. Mais adiante. e sim mera representação política. que pertencia ao rei. Que deseja ele? Chegar a ser algo”. mas das próprias normas da Constituição. Não há. Em razão disso é que Siéyès abre seu famoso apúsculo com as incisivas palavras: “ Que é o Terceiro Estado? Tudo. e a perda do exercício do cargo não decorre da vontade dos governados. Em razão da doutrina de Siéyès. pois as mãos simbolizam a fidelidade (per dexteram era per fidem). Nada pode progredir sem ele. vinculação jurídica entre representantes e representados. Nisto. não po­ derá haver mandato imperativo. reitere-se. não integra o Terceiro Estado. deve ser direta. mas de toda a nação. para que haja vontade gerai Entretanto. Enquanto o mandato imperativo tem natureza consensual. Já o disse­ mos: uma lei comum c uma representação comum e o que constitui uma nação. a nação é uma entidade abstrata. porque segundo ele é imprescindível a participação direta da comunidade nas deliberações políticas. I o e 2o). vinculação jurídica entre man­ .6 Formas de governo 125 Clero e nobreza eram dotados de privilégios com os quais não era contempla­ do o povo ou Terceiro Estado. Ora. consequentemente. mas com os interesses permanentes do Estado. passa a pertencer à nação.

A representação por meio de partidos. De fato. e como as classes são categorias sociais permanentes. artísticos. muitas vezes. pela in­ dústria e a agricultura. e surgem espontaneamente. política. de acordo de vontades. e o interesse das superioridades. ao passo que o mandato imperativo tem natureza consensual. faze-los desaparecer. a família e o município. o processo denominado in­ tegração ensejou a diferenciação paulatina de tais grupos. ainda saindo das camadas inferiores. para sc inteirar do que sc passa lá fora. colocando o indivíduo numa po­ sição dc desamparo perante o poder político. apresentou bons resul­ tados na Inglaterra. por exemplo. A representação nacional tem natureza institucionalvem de cima para baixo. é necessário que essas forças estejam representadas nas Cortes. religiosa ou in­ telectual. têm direito a brilhar nas alturas. animal social por natureza (zoon politikon ). incorreu no extremo oposto. somente se agrega aos seus semelhantes que tenham os mesmos interesses. antecedem no próprio Fi­ tado. surgindo a solidariedade orgânica e a divisão do trabalho. representado pelo comércio. que. o interesse material. representado pelo Exército. quando surge uma crise agrícola ou industrial. a ele vedada uma participação efeti­ va nas decisões dos governantes. em perfeita integração com os organismos vivos da nação. Se as primitivas sociedades eram ho­ mogêneas e a solidariedade social puramente mecânica.dc que. revelando a inclinação do homem para uma agregação orgânica e não puramente mecânica. Assim.126 Teoria Geral do Estado dante e mandatário. porque lá eles sempre estiveram identificados a classes sociais. Foi olvidada a ideia de que o Estado não tem no elemento humano a mera soma dos indivíduos. da linhagem. O Estado poderá ató desconhecer tais grupos. pelo menos até o momento inexpressi­ va e fictícia em nosso País e em quase toda a América Latina. tal concepção de democracia. o homem. Surgem grupos das mais diversas espécies e fina­ lidades. grupos que. Quan­ do o parlamento representar todas essas forças. e não se dará esse caso vergonhoso . contu­ do. Ora. e sim a formação de grupos sociais que surgem espontaneamente. não poderá jamais. o Partido Con­ . a pri­ meira medida dos partidos que formam o parlamento é procurar uma informação pú­ blica. intelectual. como frisa Galvão dc Souza. da virtu­ de. sejam estes dc natureza econômica. bem como pelos operários. então o espelho da sociedade será ele mesmo.prova de que não são representativos os parlamentos modernos . não podendo ser negadas sem que sc negue uma na­ ção. É preciso que aí estejam os interesses dc que vos falei: o interesse religioso c moral representado pelo clero. representado pelas corporações científicas. procurando rebater os excessos do absolutismo monárquico. o interesse da defesa. o interesse docente. daquelas autoridades sociais que for­ mam a aristocracia de todos: os méritos científicos. Vásquez de Mella adverte: O que se deve representar é o homem de classe e de grupo. pelas universidades e academias.

veículos que a representam. em seu real funcionamento. por exemplo. então aparecem os partidos para substituí-los. o da Inglaterra. Em preciosa monografia intitulada A democracia e o Brasil. representando a classe média burguesa. em especial na França. o Liberal. não em abstrato. os agrupamen­ tos intermediários da família ao Estado. Goffredo Telles Jr. no tocante à representação partidária. Em nada se prendem ao drama quotidiano do cidadão. como órgãos de expressão da opinião pública. Se na liberal-democracia os partidos apareceram para preencher o vazio dei­ xado pelos corpos intermediários extintos em 1791. Pois aí está o dc que muitos se esquecem. já escrevia antes mesmo da insurreição de 1964: Os partidos políticos brasileiros. a Inglaterra. não em doutrina. Partidos políticos do tipo dos nossos não são órgãos naturais da sociedade. incapazes. partido representante. Há casos que poderiam ser apontados como exceções. sofreu menos o impacto das novas ideias revolucionárias. da aristocracia. meros instrumen­ tos dc grupos ou de chefes políticos arrivistas. ocorreu nos Estados Unidos da América do Norte. onde. Um sindicato ou um clube de fu­ tebol é. Dissolvidos os órgãos naturais de representação da sociedade. muito mais importante do que um partido. Na democracia liberal e individualista surgem. isto é. por­ tanto. e também instrumentos para orientála. e. Fenômeno semelhante. dc certa forma isolada do drama políti­ co que se desenrolava no continente europeu. Servem apenas de instrumento para o registro de candidatos no tribunal com­ petente. sim­ ples rótulos. mas em concreto. o Trabalhista. sem nenhum conteúdo doutrinário e programático.6 Formas de governo 127 servador sempre esteve ligado aos grandes proprietários. não em todos. portanto. a ponto de não haver uma diferença bem definida nos dois grandes partidos aí existentes. Os quadros partidários não correspondem à organização natu­ ral da sociedade que visam representar. não devemos nos esquecer de que os partidos ingleses se acham intimamente ligados a determinadas classes ou a grupos . por influência de Siéyès. bem apontado por Maurice Duverger. Nada dizem à alma popular. observados não em tese. Além disso. Galvão de Souza também se mostra incisivo e claro a esse respeito: Os partidos podem ser indispensáveis num determinado tipo de democracia. isto é. Não são produtos das exigências comuns da vida humana. são meras siglas. na América Latina tornaram-se quase sempre órgãos deformados. Entretanto. vazias embalagens. no sentimento do povo. identificado com a classe operária e as agre­ miações sindicais (trade unions). finalmente. Por que não substituir a representação par­ tidária pela representação corporativa? A representação feita através dos partidos é inexpressiva e fictícia. o pragmatismo suplantou as abstrações ideoló­ gicas. de orientar a opinião de quem quer que seja sobre os problemas sociais.

os governantes france­ ses usaram largamente do plebiscito. Esta intervenção compreende. por conseqüência. Modernamente. O termo plebiscito deriva de plebs. o constitucionalismo brasileiro ensejou a participação popular direta em 1963. o instituto adotado por Napoleão Ikmaparte para obter o aval popular das mudanças constitucionais dc seu governo. Os governantes consideram oportuna a medida. Após a Segunda Guerra M undial.1961. 6. Isto marca. mas antes dc efetivá-la consideram necessário que o povo se manifeste. . Embora adotando. pois o deputado pode ser desligado de seu partido caso sc des­ ligue da linha de conduta que lhe for traçada. ao lado da natureza representativa de seu sistema político. referendo. a função do partido político é preparar a de­ cisão popular. mediante um plebiscito no qual o eleitorado refugou o regime parlamentarista de governo.4. quando garantiu o apoio da maioria para suas medidas. obrigatoriamente. em nome da fidelidade partidária. Ele se sujeita ao programa partidário. Na democracia partidária. plebe. de 23. iniciativa popular. a de­ mocracia representativa. por intermédio de plebiscitos. portanto.128 Teoria Geral do Estado sociais. que havia sido adotado em 02. à volta do regime presidencialista. veto popular. os seguintes ins­ titutos: plebiscito. não decide mais por si próprio. 2. assim nominada porque. nela se admite a utilização esporádica da intervenção direta dos governados em certas delibera­ ções dos governantes.). manifestando-se favoravelmente. recall e mandato im­ perativo. a tal programa.01. por intermédio da Emenda Constitucional n. Inicialmente. a fim de que esta sc manifeste a respeito de sua conveniência ou não. no que foi imitado por Napoleão III.C. 4.4) D em ocracia sem idireta A terceira espécie de democracia é a democracia semidireta. destacando-se aquele que ensejou a anexação (Anscbliiss) da Áustria à Alemanha. aliás. O parlamentar. Plebiscito: a expressão denomina uma consulta prévia que sc faz à coletivi­ dade. basicamente. Deputados e senadores serão man­ datários de seus partidos. o que ocorreria com a Emenda n. sendo. tradicionalmente. Como se poderia compreender o desenvolvimento do Partido Trabalhista sem a base sindical do “trade-unionismo” ? E o Partido Conservador não tira a sua força do elemento aristocrático? As aberrações e os abusos cometidos cm nome da chamada democracia re­ presentativa ensejaram uma série de providências saneadoras do Estado Moderno. um retorno ao mandato imperativo. Hitler realizou vários plebiscitos.1963. o povo francês manifestou-se durante a Grande Re­ volução. ten­ do origem na Lex Hortensia (século IV a.09. de certa forma. formulando um programa de governo e designando candidatos que se vinculam. a vinculação do parlamentar ao seu partido. que concedeu aos plebeus o direito de participar do processo político na antiga Roma republicana.

Publicações Europa/ América. a iniciativa popular obriga o parlamento a legislar.6 Formas de governo 129 A Constituição brasileira prevê. expressamente. 2o das Disposições Transitórias). Como acentua John Naisbitt cm sugestiva monografia: Os projetos de lei originados das comunidades e os plebiscitos são as ferramen­ tas da nova democracia. de ratificação popular de algo que já está feito. 14. II. pelo qual pressiona o parlamento a reparar um projeto de lei sobre determinado assunto. como desejam cidadãos informados e educados. da Constituição italiana de 1947 determina que cinqüenta mil eleitores podem obrigar o parlamento a discutir um projeto de lei oriundo de iniciativa popular. 1 4 . Ressurgiu. se um determinado número dc ci­ dadãos o exige. A iniciati­ va popular foi empregada pela primeira vez nos EUA. O primeiro projeto dc lei estadual originado da comunidade nos Estados Unidos ocorreu no Oregon em 1904. c os plebiscitos são uma maneira dc os cidadãos aprovarem ou não a ação do legislativo. bem como a discuti-lo e a votá-lo. mas fazem com que se legisle. no Estado de Dakota do Sul (1898) e no Oregon (1904). No caso. Como assinala Georges Burdeau. Iniciativa popular: eis o mais significativo instituto da democracia semidire­ ta. porque. 71. da Constituição de Cuba. na Ve­ nezuela e na Itália. de todas as instituições da democracia semidireta. p. Dá-se o nome de referendo também à manifestação popular sobre a entrada em vigor de leis já elaboradas pelo parlamento. no art. os cida­ dãos não legislam. O aumento desses projetos. que de­ verá examiná-lo c emitir um parecer (/l democracia.1 ) c como instrumento da vontade popular na manutenção ou modificação da forma de governo e do regime de governo (art. O art. Trata-se. a que mais aten­ de às exigências populares de uma participação efetiva no processo político é a ini­ ciativa das leis pelo próprio povo. Referendo: o referendo e o mecanismo da democracia semidireta pelo qual os cidadãos são convocados para se manifestar a respeito da conveniência ou não de medida já tomada pelos governantes. Na iniciativa popular o povo exercc apenas um direito dc petição “reforçado”. a realização de plebiscitos como forma de exercício da soberania popular (art. Lembra Salvetti Netto que o Le­ gislativo não está obrigado a acatar a iniciativa popular. a moção. E uma das razões para o seu fortalecimento recente é que as pessoas estão exigindo maior prestação de contas. que autoriza o seu exercício por um mínimo de dez mil cidadãos. g. então. A diferença entre os projetos de lei originados da comunidade c os plebiscitos é que os primeiros aparecem na votação através de ação direta do cidadão. Também o referendo é previsto pela Constituição brasileira no art.. também. enfim. Lisboa. 86. 133). Realmente. depois. Estes instrumentos criam acesso direto à decisão política.. Nisto difere do plebiscito. um projeto de lei determinado será exposto à Assembleia. A iniciativa popular é encontrada. juntamente com o plebiscito e o recall (que permi­ te aos eleitores revogarem o mandato de um representante eleito e que é legal em doze . na Constituição de Weimar. in fine. 1962.

por imposi­ ção do capitalismo que a elege. caracteriza magistralmente o recall dos cargos eletivos assim: Comumente vinculado à democracia semidireta está o recall. promulgada em 05. Pode ocorrer no plebiscito ou no referendo. decla­ rar inconstitucional a lei e obrigar a sua aplicação. Recall: o termo recall significa revogar. 1985.finaliza -.130 Teoria Geral do Estado estados). e com a iniciativa popular pode obrigar o Legislativo a fazer leis socialmente úteis. Estes novos dispositivos. quando estes. Quando um juiz se nega a aplicar uma lei. com o referendum. modernamente. Li­ vros Abril/Círculo do Livro. verdadeira­ mente. con­ trárias ao interesse coletivo. em manifestação direta. o povo americano pode inutilizar certas leis. Ele pode ser defi­ nido como o direito de um determinado número de eleitores solicitar a destituição ime­ diata de um governador ou de qualquer outro detentor de cargo eletivo. às decisões da Suprema Corte. citado por Wilson Accioli (Teoria ge­ ral do Estado. 1982. Veto popular: do latim vetare (proibir.a magistratura eletiva de vários Estados tem entravado. alegando o vício de inconstitucionalidade.principalmente em relação à legislação social que . Isso se dá . E. oportunamente. permitem às pessoas passar por cima dos processos representativos tra­ dicionais e moldar o sistema político com suas próprias mãos. Não se aplica. 26. o pioneiro na inovação do recall quanto às decisões judiciárias.1988. de uma medida governamental. Uma petição .a elegibilidade dos juizes. Como assinala. caput e § 2°. 14. e obter que seu pedido seja submetido aos eleitores para que estes possam decidir. Theodore Roosevelt foi. sendo o instituto adotado. uma forma audaciosa e perigosa. anular.segundo muitos autores americanos . e 61. de democracia semidireta lhe permite anular a ação dos juizes. (Megatendências. a partir de 1912. a maioria dos eleitores pode anular a decisão. William Bennett Munro. representa uma exigência inequívoca de parte dos eleitores de prestação de contas do governo. e c esta. instrumentos-chave na nova democracia participativa. por julgá-la inconstitucional. sem dúvida . Nem o Poder Judiciário escapa ao raio de ação do recall. reparar. negam-se a executar certas leis oriundas da iniciativa popu­ lar. nos Es­ tados do Oregon e da Califórnia. p. Rio de Janeiro. arrojada e singular. o veto popular significa a re­ jeição. adotado em doze Estados da Federação norte-americana. Darcy Azambuja. inovou na or­ dem jurídica ao adotar a iniciativa popular nos arts. em nenhuma hipótese. uma outra forma. um órgão público que tenha afrontado a confiança do povo e a dignidade do cargo. 321). III. É o recall das decisões judiciárias. 162-3) A vigente Constituição brasileira. pelo povo. se. § 4o.10. sua finalidade: permitir que o eleitorado possa destituir. Forense.prossegue Azambu­ ja . impedir). mas a única arma que o povo americano encontrou para combater um perigo muito maior . p.

de fato. ordenam uma eleição para decidir sobre a matéria.6 Formas de governo 131 deste tipo. Ao contrário do impeachment. o funcionário é destituído imediatamente. Com o surgimento da chamada de­ mocracia representativa. que é um procedimento semijudicial normalmente usado para livrar o governo de um funcionário culpado de atos criminosos. p. Desde sua introdução. 1959. porque o “mandato” polí­ tico se referiria a toda a nação. Permite ao povo destituir qualquer detentor de cargo público que dei­ xou de atender à sua confiança. previamente. de modo fácil. Embora empregado a partir de então. lar­ ga aplicação em alguns Estados norte-americanos. cuja denominação . Sc a maioria dos eleitores sc pronuncia cm favor do re­ call. em apenas um governador e uma meia dúzia de outros importantes funcionários estatais foram destituídos. entre mandante e mandatário. O recalled pode apresentar-se à reeleição. ele continua no cargo. o recall é um ins­ trumento político indicado para assegurar a mais rigorosa responsabilidade funcional ao eleitorado. estabelecendo as razões indicadoras da ação pretendida. New York. quando desa­ pareceu na voragem do absolutismo nascente. Um percentual de 20 a 25% do total de eleitores de cada Estado requer que o órgão seja submetido ao recall. 11111 instrumento que pode. Tem. na Es­ panha. como já vimos no estudo da democracia representativa. mais para uma emergência do que para o uso mais in­ tenso. os peticionários do recall devem reembolsar o acusado das despesas feitas com a eleição. con­ sensual. Mandato imperativo: o mandato imperativo é o vínculo jurídico que liga o re­ presentante do povo aos seus próprios eleitores. em face disto. Por outro lado. o mandato imperativo teve seu apogeu 11a França. sendo seus alvos os órgãos dos três Poderes da União. Torna a responsabilidade funcional permanente e di­ reta. quando suficientes assinaturas (usualmen­ te um número igual a cinco por cento do eleitorado registrado) forem obtidas. como ocorre no mandato político. e não apenas ao corpo eleitoral. desfez-se. o termo man­ dato não casa bem com democracia representativa. (The govemment o f United States. em caso de o candidato eleito não estar correspondendo aos anseios do eleitorado. Se reeleito. e não institucional. e. sob o impacto da doutrina de Siéyès. prestar. o recall é 1908. do contrário. a responsabilidade dos parlamentares apurar-se-ia tão somente nos casos rigidamen­ te instituídos pela Constituição. podem rescindir\ dissolver esta ligação. caução. o vínculo jurídico existente entre representantes e representados. é reforçado pela vinculação jurídica. ultimamente. natureza contratual. MacM illan. até 1601. o recall tem obtido. Vejamos: a expressão manda­ to vem do latim mandatum. de modo que estes. para o que. evidentemente. 672) Entretanto. 11a forma da lei. Mas ele tem sido. é redigida e posta em circulação para receber as assinaturas. assinala Darcy Azambuja. muito pouco usado. o que pareceria indicar que é geralmente visto como uma arma a ser mantida de reserva. espécie de pacto que. em razão disso. aliás. ser usado er­ radamente. Surgido por volta do século IX. portanto obriga­ tória. a peti­ ção é submetida às próprias autoridades que. juntando à cédula do voto sua defesa.

todos os Estados Modernos se proclamam ardentemente democráticos. ainda. governo do povo. a liberal-democracia. 250 definições de democracia. restaria indagar qual a verdadeira essência do ideal democrático. o controle do poder político pelo povo. eis o grande desafio. a da democracia direta. embora nunca de medida e padrão únicos. Não foi à toa que Jacques Maritain afirmou. que a tragédia das democracias contemporâneas con­ siste em que elas não conseguiram. mas poder do povo. exigindo dos governantes a melhor orientação. três espécies de democracia: a direta ou clássica. Descar­ tada a primeira hipótese. Cada uma delas buscou alcançar o ideal democrático. . resta claro que o termo não significa. o mandato imperativo vai. Com efei­ to. é correntio ouvir falar em crise da democracia. como querem alguns. da mes­ ma forma que todos os políticos se proclamam honestos. em lógica. propriamente. Come­ te-se o erro que. qual seja. Frederico II não fazia por menos e costuma­ va resumir seu pensamento a esse respeito em poucas palavras: tudo para o povo. portanto. Abolido violentamente pelo furor revolucionário na França. investidura. mas o sociólogo norte-americano Robert Dahl catalogou nada menos do que quinhentas conceituações! Em pitoresca ima­ gem.132 Teoria Geral do Estado correta seria. Eis. que nada mais é do que uma espécie entre as inúmeras que buscam alcançar o ideal democrático. tão bem sintetizaram com esta elegante expressão: popularii potentia. em tabu. quando o que está realmente em crise é uma simples forma histórica da democracia. realizar o ideal democrático. retornando à prática política. então. Ora. Guizot. com franqueza e pessimismo. Crise da liberal-democracia é crise do próprio ideal democrático. a representa­ tiva e a semidireta. nada pelo povo. para mui­ tos. Atualmen­ te. com seu espírito pragmático. aos poucos. sob pena de aberrante deformação da realidade. Infelizmente. consiste em tomar a parte pelo todo. costumava dizer que a confusão está a se esconder numa palavra: democracia. a qualificação de um Estado como democrático não se acha vinculada a nenhuma ideologia. Cabral de Moncada nos diz que a democracia é um tecido com o qual se pode tecer todo tipo de roupa. transformou-se. por irrealizável no mun­ do moderno. menos por suas virtudes intrínsecas do que pela inegável desmoralização da repre­ sentação política cunhada pela liberal-democracia. pelo menos. que os romanos. em oposição a arche (governo)? Assegurar os meios da permanente penetração dos governados nas decisões dos governantes. Curiosa esta última posição: será a democracia o governo do povo ou. a liberal-democracia. Uma coisa é certa: não pode haver democra­ cia onde não houver uma participação permanente c consciente dos cidadãos or­ ganizados em povo político. Um recente estudo levado a efeito pela Unesco revelou a existência de. di­ zem seus porta-vozes. primeiro-ministro de Luís Felipe. Pela própria etimologia da palavra democracia (demos = povo e kratos = poder).

então. ao votar. pode haver votação sem eleição . mediante o sufrágio. àqueles que têm o direito dc votar. começam a perder o en­ canto original. paulatina. implan­ tação do divórcio. Quando o eleitorado. e esta não admite repre­ sentantes” . o nacional passa a ser cidadão. No mundo moderno. transformadas em dogmas da política. escolhendo seus candidatos. Pelo sufrágio. estabelecidos na própria Constitui­ ção. Belas ficções. Ela se expressa pela vontade geral. quem se refere à democra­ cia. fica esclareci­ do quem terá o direito ao voto. Tais requisitos. mediante elei­ ções. diz-se que há votação.4. simplesmente. o nacional torna-se cidadão e começa a exercer o direito de votar. Entretanto. com muita graça. da com unidade. as abstrações do passado vão. previamente selecionado por determinado tipo de su­ frágio. é ele titular de parte ou fração da própria soberania. Quanto ao fundamento da soberania. Rousseau é muito claro a respeito: “a soberania não pode ser representada. Pelo sufrágio.5) Sufrágio e voto Tanto a democracia representativa como a democracia semidireta apresentam um pressuposto que se destaca de imediato. um processo de escolha de eleitores. descreve em seu precioso opúsculo sobre a democracia. mas o voto é um ato de escolha. para se sa­ ber quem terá o direito de votar c preciso. o sufrágio1 Do latim suffragari. nada mais é do que o instrumento para exercer o direito de deliberação ou de escolher candidatos a cargos políticos. ao conjunto daqueles que são dota­ dos de cidadania. estabelecer os requisitos para a obtenção dc tal direito. decide diretamente a respeito dc determinado assunto. por exemplo. mas inexoravelmente. Então. Que é. sendo cada cidadão uma parcela da coletividade política. 2. Quanto ao voto. O sufrágio-direito parte de Jean-Jacques Rous­ seau. portanto. pois não admite alienação. Por isso. é costume dizer que há eleição. o da existência de um corpo eleitoral periodicamente renovado. o homem situado. constituem o sufrágio. afirmam alguns doutrinadores. o célebre genebrino costumava dizer: “o voto é um direito que . e sen­ do a soberania indelegável. legalização do aborto. preliminarmente. é um pro­ cesso de seleção daqueles que terão o direito de votar. o homem abstrato vão deixando o seu lugar para um ser totalmente novo. para quem. Por isso. qual seja. O sufrágio é um processo de escolha. perdendo ter­ reno.6 Formas de governo 133 Num mundo em que as realidades palpáveis se fazem cada vez mais candentcs. direta ou indireta. embora na demo­ cracia representativa e na semidireta não possa haver eleição sem prévia votação. quando. refere-se. ao eleitorado. o cidadão. O sufrágio é. que Georgcs Burdeau. O súdito. o que vem a ser democracia? Democracia é o processo político que autoriza a permanente par­ ticipação. livre e consciente. Atendidos os requisitos constitucionais. nas deliberações dos governantes. o sufrágio apresenta duas espécies: o sufrágio-direito e o sufrágio-função. adoção de determinado regime dc gover­ no. enfim. Entretanto. o eleitorado está elegendo. inevitavelmente.

que. Bem diferente se mostra a teoria do sufrágio-fun­ ção. segundo Siéyès. Aquela é uma simples comunidade organizada e considerada num dado momento histórico. ela é a própria permanência da comunidade no tempo. Cada época histórica consagrou um tipo determinado de sufrágio. portanto. enfim. Seu fundamento ideológico reside na argumentação de que o Estado deve preparar uma elite governante. A nação. diz. excluídas as gerações passadas e futuras. seus interesses permanentes. Daí a sugestiva denominação dada ao sufrágio que expressa a soberania nacional: sufrágio-função. por ser uma en­ tidade abstrata. como pode um ente abstrato manifestar sua vontade. uma vontade coletiva? N ão há outra alternativa: por intermédio de uma comunidade concreta. e a exerce como lhe apraz. mais rapida­ mente a sociedade consolidará o governo dos melhores. e. e que nem sempre coincidem com os interesses passageiros de uma única ge­ ração. Segundo a doutrina do sufrágio-direito. que estará. um vínculo dc compulsoriedade. abstrata. na participação política. A nação. e não apenas dele. o direito ao voto. é uma entidade espiritual. mas permanente: a nação. A nação. destacando-se dos demais. não podendo a nação manifestar-se diretamente. irremediavelmente. da mesma forma que uns poucos demonstraram capacidade de trabalho e de realização pes­ soal. O povo elegerá. no eleitorado que levará ao poder os representantes da nação. Percebe-se. Ora. não cons­ titui uma obrigação à qual corresponda. O eleitor é mero instrumento de manifestação da vontade nacional. Ora. fundado no volume de bens de que cada cidadão pode dispor. sob . não se confunde com o povo. do exposto. no sé­ culo XIX. Por outro lado. poderá sacrificar. pois. os representantes de uma entidade ideal.134 Teoria Geral do Estado ninguém pode subtrair aos cidadãos”. Esta espécie de sufrágio teve seu apogeu com a liberal-democracia burguesa. Cada cidadão é titular da fração da soberania que lhe cabe. O voto deve. obtiveram o direito de dirigir a coisa pública. uma ideia. O eleitor não exerce ape­ nas uma faculdade. participar do processo eleitoral é mais uma faculdade do que um direito público subjetivo. inarredavelmente. repita-se. o povo. Assim. para fruir de um maior bem-estar material. tem-se como certo. seria o conjunto das pessoas coetâneas (mesma idade) e contemporâneas (mesma época). mas o fundamento desta continua a residir na nação. os interesses per­ manentes da comunidade. povo. ser obrigatório. Povo. em determinado momento da vida da nação. portanto. é mais do que isso. porém. um órgão por intermédio do qual a nação expressa a sua vonta­ de. mas cumpre uma função inafastável. então. Tais representantes serão os titulares do exercí­ cio da soberania. aqueles que irão fazê-lo em seu nome. por intermédio do povo. portanto. restringindo-se o direito ao voto. entre indivíduo e Estado. Em outras palavras. que se mostram nas gerações que se suce­ dem. com isto. o povo. e para usar uma terminologia de Ortega y Gasset. Ela parte de Emmanuel Joseph Siéyès. devem ar­ car com tal ônus. perceptível aos sentidos. compulsória: a de votar. com sua concepção de nação. amealhando considerável patrimônio e. O povo transforma-se. o sufrágio censitário. consequentemente. no caso. Assim.

de forma dissimulada. pela primeira vez. Uma terceira espécie de sufrágio restrito é o sufrágio masculino. fica patente a distinção entre povo e massa: aquele. adotado. A Constituição do Império do Brasil. é o sufrágio cultural ou capacitário. desinteressados de tudo. em face do qual somente votam aqueles que demonstrarem um nível míni­ mo de erudição e informação política. e que consistia na exata aferição do nume­ ro de pessoas. No Bra­ sil. Nesta espécie de sufrágio. que definia os eleitores como os cidadãos maio­ res de 21 anos. com a divisão dos contribuintes cm três estamentos. somente o homem pode votar. nos arts. em 1927. As mulheres são excluídas do direito ao voto sob a alegação de sua “inabilidade congênita” e “insensibilidade para as questões políticas”. o direito de as mulheres participarem do processo político aparece. O terceiro e úl­ timo estamento compunha nada menos do que 83% dos contribuintes. No Ocidente. realmente interessada no aperfeiçoamento das instituições e na realização dos objetivos sociais. o voto feminino aparecc. mas também de ser vo­ tada. quan­ . de 25. Alzira Floriano. adotada ainda hoje. 7° da Constituição Federal. Outra espécie de sufrágio.. Mietta Santiago. mer­ gulhados nas sombras de uma vida mesquinha e medíocre.03. em 1869. cuja denomi­ nação já revela que. Já se percebe que o fundamento desta espé­ cie de sufrágio é afastar do processo político os inaptos. com fundamento no art..1824. seria cons­ tituído pela camada mais informada. alienados. por completo. no Wyoming. na antiga Roma republicana. nos seus termos. inicialmente. Em 1929 foi eleita a primeira prefeita do Brasil. com Getúlio Vargas. excluindo do direito de voto. esta.6 Formas de governo 135 excelente gestão. não apenas o direito de votar. veio somente em 1932. aos censores. di­ zem seus defensores. pois as mulheres votaram para a escolha de senadores. Paulo Bonavides refere-se a uma odiosa espécie de sufrágio restrito. A expressão ccnsitário deriva de censo. Por exemplo. nos Estados Uni­ dos. e dos bens de cada cidadão. aqueles que não apresentassem uma renda mínima anual. permitindo a consolidação de uma elite intelectual. em sua plenitude. os ignorantes e os analfabetos. nos Estados Unidos da América do Norte. o sufrá­ gio racial. algumas entidades federadas exigem que o direito ao voto esteja vinculado à capacidade de entender o disposto na Constituição. Ainda hoje. somente incorporado à Constituição Federal em 1920. por intermédio do Código Eleitoral brasileiro. no mais das vezes. no Rio Grande do Norte. c o seu direito não devia ultrapassar o âmbito estadual. que dominavam. entretanto. Fm 1928. também consagrava o sufrágio censitário. pleiteou e obteve. mas a con­ solidação do direito de a mulher participar do processo político. atribuição conferida. sem discriminação expressa da mulher. o parlamento. na Prússia. dos quais o primeiro era composto pelos cida­ dãos mais afastados. seria formada pe­ los ignorantes. Os votos foram anulados. semoventes. apenas a partir de 1971. 92 e 94. Na Suíça. principalmente da política. O sufrágio ccnsitário existiu a partir de 1850. embora do­ tado de ínfima representação. com a Emenda X IX . estudante de Direito.

obedecendo-se.é bom notar . mais aperfeiçoado. portanto. os estrangeiros e os conscritos (art. Na verdade. con­ tribui para com o aprimoramento da vida em sociedade. § 2o). infelizmente. aliás os grandes beneficiários desta infortunada ampliação do sufrágio.05. constituem exceções ao sufrágio universal os menores de dezes­ seis anos (CF. no sufrágio restrito.não são inexpugnáveis. portanto. A rigor todo sufrágio é restrito. a).136 Teoria Geral do Estado do a legislação do Estado do Mississipi. é aquele que busca conferir o direito de voto ao maior número possível dc nacionais. § 4o). art. Da mesma forma que cem tolos não formam um sábio. veladamente. qua­ se absoluta. o analfabeto não tinha o direito de votar. necessariamente. a Constituição de 1988. obriga a ler. o que se pretendia era excluir os negros do processo político. são mais numerosos do que no sufrágio universal. pois a cada momento da vida o nacional vai abatendo-as. não po­ derá restringir o eleitoral além dos limites preestabelecidos na Constituição. tais restrições não podem ser ampliadas mediante lei ordinária. Com tal Emenda e. Evidente. Esta. não será aumentando o número de participantes do sufrágio que este ficará. Não há sufrágio plenamente universalizado e não há. pois cada qual. em vigor. atualmente. É bom notar que as restrições ao direito de voto numa ordem jurídica que consagra o sufrágio universal estão previstas somente na própria Constituição. ou em face de seu esforço próprio. isto é. de 15. Até a Emenda Consti­ tucional n. um instrumento nas mãos dos demagogos sequiosos de votos. como a ob­ tenção de níveis mais altos de escolaridade. II. 14.1985. A diferença é puramente quantitativa: os impedimentos do direito de voto. Quanto ao sufrágio universal. a generalidade das pessoas. A própria expressão universal já revela que deve ter o direito de voto a universalidade. raça. que mesmo o sufrágio universal comporta restrições ao direito de voto.. estando. 14. portanto. seja qual for o ponto dc vista que se adote para o problema. c). posteriormente. II. 14. nível de conhecimentos. a um critério menos capacitário do que racial. a concessão do direito de votar ao analfabeto não se justifica.. contudo. § I o. sen­ do inelegíveis os inalistáveis e os analfabetos (art. religião. São restrições que . 25. nos Estados Unidos da América do Norte. independentemente de sexo. ele passou a ter o direito dc voto facultativo (art. e nem poderia ser de outra forma. § I o. No Brasil. em razão da idade e do con­ seqüente amadurecimento pessoal. que alterou a Constituição Federal de 1967. compreender e interpretar “convenientemente” a Constituição. A regra. Tal invectiva não colhe. 14. excluído do sufrágio uni­ versal. distinção essencial en­ tre sufrágio restrito c sufrágio universal. é que o analfabeto torna-se. porque não se argumenta com exceções. Oportuna a observação de Paulo Bonavides: . Poder-se-ia argumentar com o fato de que alguns analfabetos se interessam muito mais pelos problemas políticos e sociais do que muitos cidadãos alfabetiza­ dos.

qualificar-se-ia o regime democrático. por exemplo. Incisiva. a observação dc Pedro Salvetti Netto. sobre rudimentos da organiza­ ção político-constitucional. carismático e místico do demagogo. A singeleza da prova eliminaria a formação de um colégio eleitoral elitista. sem o que se tornaria evidente perigo à integridade física e ao patrimônio de todos. um senador ou um deputado. uma comprovação de habili­ tação política. Esta. à outorga do título de eleitor. o princípio qualita­ tivo do que o princípio quantitativo. forma impura do governo democrático c capaz dc. assimilável por todos os que sai­ bam ler e escrever. tais providências valeriam para diminuir os perigos da demagogia. mas necessários. é absolutamente certo que o germe da igno­ rância não só pode ser combatido. falto dos predicados essenciais ao seu exercício e néscio sobre os prin­ cípios políticos institucionais que a informam. como. Por outro lado. Ainda que se mostre mais difícil o afastamento da segunda. Daí . seria subsídio valioso para a constituição de um eleitorado consciente e responsável. Tal como o candidato àquela outorga. sem impedir-se o defe­ rimento da cidadania àqueles que demonstrassem possuir as condições elementares para seu exercício racional. impor-sc na proporção direta da dcsqualificação política do eleitorado. com efeito.semelhante. como governo dc livre manifestação da vontade popular. Não seria absurdo dizer-se constituir a ignorância do cidadão terreno fértil à expansão de­ magógica. pela qual o candidato à cidadania demonstre conhecimentos mínimos. como ocorrido na Alemanha intelectualizada de Hitler. siglas c regras básicas dc trânsito. com fa­ cilidade. torna-se natural ameaça ao regime de­ mocrático. Com isto. a respeito. não resta dúvida que o princípio democrático envolve da parte do colégio eleitoral uma compreensão política mais apurada. porém. encontra dois caminhos para alastrar-se: a ignorância e a crença. na forma.6 Formas de governo 137 Quanto ao argumento que gira ao redor da dialética qualidade-quantidade. De conseguinte deve ele submeter-se a singela prova escrita . se não se tem co­ nhecimento de suas atribuições e nem sequer se sabe o que é o Senado ou a Câmara dos Deputados? Daí a razão por que julgamos absolutamente imprescindível para a constituição de uma democracia qualitativa e real.versando. à que se faz mister para a concessão da carteira dc habilitação para dirigir . difícil de formar-se no seio da multidão espessa e ignara. A exigência de um conhe­ cimento mínimo relativo ao mecanismo de governo. eficazmente debelado. onde cidadãos conscientes e politi­ camente responsáveis participem do processo eleitoral. Daí pesar mais em favor do bom mecanismo institucional do governo demo­ crático. não se atribuindo a prerrogativa do sufrágio tão só a uma minoria qualificada por tí­ tulos formais de sabedoria ou a uma aristocracia de classe. Um colégio eleitoral qualificado pelo conhecimento necessário e básico da organização constitu­ cional e do funcionamento do governo o eliminaria do processo político-elcitoral. também. pois ninguém pode dizer-se infenso ao poder pessoal. que deve revelar um conhecimento tcórico relativo aos sinais. o postulan­ te à cidadania. in verbis: Como escolher-se.

sendo Tancredo Neves o último candidato eleito por um colégio eleitoral restrito.eles mesmos já uma elite . Os argumen­ tos em desfavor do voto indireto também são ponderáveis: a) caráter manifestamente menos democrático que o sufrágio direto. em face do pequeno número de seus integrantes. Na ver­ . portanto o poder de decisão da massa sufragante se transfere. que melhor assegura a independência do eleitor a que se tem procurado cercar de todos os elementos materiais para garantir o sigilo. por sua vez. a tendência moderna é francamente favorável ao voto secre­ to. secreto ou aberto. caput). para nós demagógica. Como acentuam Rodrigo Octavio e Paulo D. por inteiro. de viseira erguida. 25. O voto é direto quando o eleitor.ficam em condições de sufragar ou selecionar os mais capazes e competen­ tes. ensejando a prudência das designações. é mais suscetível a pressões e à cor­ rupção. razão pela qual o voto secreto acalmará as preocupações legítimas e reanimará os poltrões. Então. em direto ou indi­ reto e. cuja influên­ cia toma. o voto para a eleição do Presidente da República era indireto. embora possa haver entre aqueles ignorantes no ler e escrever alguns naturalmente sensíveis às coisas públicas e com elas preocupados. d) o voto indireto ocasiona volumosa abstenção por parte do eleitorado de primeiro grau. a escolha definitiva dos governantes. o voto é dito indireto quan­ do o eleitorado elege. em segundo grau. fa­ rão. É a espécie adotada pela Constituição brasileira (art. para o corpo eleitoral intermediário. Os ad­ versários do voto secreto retrucam: ele é mais uma prova da desilusão das demo­ cracias modernas. intermediários. não deve ter o direito de votar. delegados. de 15. inicialmente. Até o advento da Emenda Constitucional n. O fundamento do voto secreto é evitar pressões sobre o eleitorado. de modo que os eleitores secundários . proporção máxima. por via dc regra. Quanto ao voto. pois este não se sente estimulado a participar de uma eleição que não é decisiva. sem intermediação. entretanto. o eleitor. está submetido à burocracia estatal e ao poder econômico. O voto pode ser também.05. b) atua o voto indireto como força moderadora. pois o eleitor que não tem coragem e senso de responsabilidade para votar abertamente. porquanto. abrindo espaço à reflexão. que. tal só pode consti­ tuir situação excepcional e. Vianna. assim. escolhe seus próprios re­ presentantes. c) o colégio eleitoral de segundo grau. Com efeito.13 8 Teoria Geral do Estado porque não nos sensibiliza a pregação. b) o voto indireto não raro é empregado como meio de resistir ao sufrágio universal. subdividindo-se este úl­ timo em escrito e verbal. em qualquer destas espécies. não seria este o argumento hábil capaz dc refutar a proposição por nós sustentada. na sua forma de expressão. dos votos do analfabe­ to. 14.1985. em secreto ou aberto. como já vimos. classifica-se. enfreando as paixões políti­ cas. Paulo Bonavides apon­ ta os seguintes argumentos a favor ou contra este tipo de voto: a) os graus interpostos operam como filtros. como qualquer raciocínio lógico rejeita a exceção para a pesquisa da verdade metodológica.

dc modo a compati­ bilizar população e território. aquele que. caso em que se obriga o eleitor ou o delegado a revelar. com grave risco para sua liberdade de manifestação de pensamento. É sabi­ do que o homem. O voto distrital funda-se no princípio de que a escolha dc parlamentares pelo eleitorado deve ocorrer em âmbito o mais reduzido possível. ensejando um maior contato entre o candidato e even­ tuais eleitores. tendo inclinações co­ muns. O voto aberto pode ser escrito ou verbal. de modo a minimizar a influência do poder econômico e dos meios de co­ municação nas eleições. ao passo que. desejar expressar aber­ tamente sua vontade. pertinente ao âmbito espacial de atuação do candi­ dato eleito. sua vontade. que congregam indivíduos que. enfraquecendo o próprio partido.6) Partidos políticos A formação de associações que visam alcançar um objetivo político determi­ nado vai longe na História. Espécie de voto que vem amealhando número cada vez maior dc simpatizan­ tes é o chamado voto distrital. não deve ser impedido dc faze-lo.4. Assim. nem por isso desdenha sua plena realização como ser social. a solução satisfatória deveria estar no meio-termo. Análoga é a situação do voto aberto. finalmente. econômicas e. candida­ tos de um mesmo partido se digladiam na mesma região eleitoral. uma facção política. professam as mesmas ideias. entretanto. Na verdade. a ânsia de participação efetiva do homem nos problemas da comunidade em que vive. tende a se agregar aos seus semelhantes de forma orgânica. afirmam. no caso. formando grupos. com apa­ . 2. todos aqueles que. mas deve ser facultado ao eleitor manifestar secreta ou abertamente sua escolha.6 Formas de governo 139 dade. sim. Buscando sua realização pessoal. em busca de objetivos mais eleva­ dos. 14 da Constituição brasileira não deve ser interpretado literalmente. Aplica-se ao artigo em epí­ grafe. cada candidato concorre com outros candidatos de partidos diferentes. Vota secretamente quem se achar coagido ou temeroso de manifestar de modo aberto sua opinião. As sociedades podem apresentar as mais diversas fina­ lidades: culturais. portanto. forte na sua ideologia. Afirmam os defensores do voto distrital que este atrai os candidatos para mais perto do eleitor. Por outro lado. comerciais. um movimento político e. no mais das vezes. pelo sistema distrital. um partido político revelam. propiciando um controle mais efetivo dos candidatos eleitos. este também conhecido como ostensivo. O voto é obrigatório. isto pelo seguinte: no sistema proporcional. a interpretação finalística ou teleológica. o voto distrital torna os partidos políticos mais homogêneos. esportivas. O art. tão caro ao legislador pátrio. pois a finalidade do dis­ positivo é garantir o sigilo do voto apenas para aqueles que acharem inconveniente revelá-lo. Por esta espécie dc voto o cidadão elege representantes dc seu próprio distrito eleitoral (daí a adjetivação distrital). políticas. expressamente. Obrigar o eleitorado a votar secretamente parece-nos mais uma exacer­ bação do formalismo. ser social.

no interesse destas c dos nobres. é a caricatura do partido. Tais facções. como foi o caso de guelfos e gibelinos na Alemanha e. as facções políticas surgem quase sempre vinculadas aos seus estamentos. tolerado pela lei. portanto. a antiga Grécia e Roma. num pro­ cesso de cooperação. com o movimento político excludente dos partidos. como uma entidade rebelde que se posiciona. a burocracia c o reconhecimento legal de que hoje desfrutam os partidos políticos. dizia Bluntschli. hoje. Somente a partir de 1770. o interesse nacional. e não se confunde. den­ tro do próprio partido. pelo menos. duas partes (daí. a diver­ sidade de opiniões políticas não se manifestou mediante partidos como entende­ mos. ainda nos séculos XVII e XVIII não se fazia distinção entre par­ tido e facção política. Da mesma maneira que o partido político não se confunde com a mera facção política. a fim de impor sua própria cosmovisão a todos. no Esta­ do absolutista. muitas vezes. com a eliminação de todo e qualquer ideário diverso. Ainda na sociedade estamentária medieval. depois. Seja como for. à Antiguidade Clássica. que designa uma fração do todo). a facção utiliza-se de todos os meios para atingir e man­ ter o poder. porque a própria ideia de partido pressupõe a existência de. com o qual todos os seus membros sc acham de acordo. com o movimento político. longe estavam dc possuir a estrutura. não se confunde. do latim pars. sem­ pre sob a liderança dc um homem virtuoso ou dc um mecenas disposto a financiar uma ideia. ademais. na Itália. cada uma dela dirigida por um líder. Georges Burdeau definiu o partido como a associação de caráter político organiza­ da para dar forma e eficácia a um poder de fato. com Edmund Burke. também. mas mediante facções da burguesia. O partido político visa à conquista do poder nos termos da lei. um partido não se confunde com a mera facção política porque ou é reconhecido ou. O surgimento de facções políticas remonta. Modernamente. Ela surge de maneira autônoma. a assertiva de Marx de que o partido político é sempre um órgão de classe. originando o apa­ recimento de inúmeras facções políticas. Ora. pelo menos. na Idade Média. Da mesma forma. Até mesmo simples caprichos de família provocariam dissensões formadoras de grupos políticos inimigos. alegam desinteresse pela atividade política direta ou indireta não cumprem um dever cívico inafastável c contribuem para o surgimento das dema­ gogias.140 Teoria Geral do Estado tia e indiferença. que procura congre­ gar o povo numa ideologia política exclusivista e intransigente. a expressão partido. a noção de partido político começa a ser delineada: grupo de pessoas que se unem para promover. contu­ do. procurando minar as diretrizes aprovadas pela maioria. mediante o emprego de um processo es­ pecífico. Esta. a expressão partido político. que são o desgoverno das massas despolitizadas. questões políticas gravíssimas ensejaram lutas entre suseranos e vassalos. as facções estruturam-se à luz das dinastias reinantes. no caso. Por isso. corroborando. Com o aparecimento do Estado liberal-democrático. Daí a sugestiva definição de partido político que nos oferece Povina: “agrupamento permanente e .

muitos se associaram às cores. comunista e assim por diante. que vem a ser a conquista do poder. facilmente. e tivemos. Em outros casos. tenderia. Aqueles que se inspiraram nas ideias de representações políticas de Jean-Jacques Rousseau repudiaram o partido político. Seja como for. c a finalidade política. que a divisão da sociedade em partidos geraria a revolta e a guerra civil. mediante a conquista legal do poder público. mais dinâmicos c objetivos. em razão dc seu dogmatismo espiritual e seu im­ perialismo político.6 Formas de governo 141 organizado de cidadãos que. liberal. bonapartistas. causas de supressão da própria ideia de democracia. pelo que surgiram os polí­ ticos setembristas. Em sua obra De eive. o partido digno desse nome é um grupo or­ ganizado que disputa o poder para realizar uma política. A denominação atribuída ao partido é muito importante para sua imediata identificação. a se tornar intolerante para com os outros. a ideologia abraçada: monárquico. os brancos. irremediavelmente refratários à sua integração nos mecanismos tradicionais da democracia. socialista. pois este pensador era adepto ferre­ nho da democracia individualista. portanto. ademarista etc. mais tarde. o veículo utilizado por uma grande corrente dc opinião pública para conquistar o poder. na direção do Estado. saaverista. Modernamen­ te. por excelência. os partidos buscam revelar. republicano. entretanto. fascista. inteiramente válida se mostra a observação de Mac Iver de . peremptoriamente. os partidos lembra­ ram. são os partidos ideológicos. os negros e os verme­ lhos. Hobbes afirmou. cm sua nominação. O moderno partido político . Na verdade. Denominações ainda mais pitorescas jamais fal­ taram para tais agremiações: wbigs (escória). Como accntua Burdcau. para o predomínio de um partido sobre os demais. representado por uma ideologia comum ou dc interesses comuns. reconheceu.assinala Ferreira Filho e. que rejeitava todo e qualquer corpo social entre o poder e o cidadão. considerando-se o verdadeiro porta-voz da comunidade. Tal observação não deixa de ter fundamento na epoca dc partidos dc massas cm que vivemos. Por isso. outros tomaram a denominação dos meses do ano. que a verda­ deira solução para a existência destes residiria em controlar rigidamente sua ativi­ dade. Tornaram-se. para os quais o regime de pluralidade partidária descambaria. como é o caso dos movimentos de índo­ le totalitária. opinião ainda lembrada por autores de renome. Todo partido pressupõe dois elementos: o vínculo sociológico. tories (bandidos) etc. janista. em sua denominação. outubristas e dezembristas. que demonstrava certo receio pela divisão da repúbli­ ca norte-americana em dois grandes partidos. conservador. então. Cada partido. natural­ mente. se pro­ põe a realizar. E o instrumento median­ te o qual uma ideia de direito busca sua realização. tendendo a impor à coletividade uma unificação espi­ ritual pelo reconhecimento de sua infalibilidade. A História registra casos curiosíssimos de denominações de partidos. os nomes de seus inspiradores: orleanistas. John Adams. determinado programa político-social”.

b) pluripartidário (dois ou mais partidos). pois. no mais das vezes. a maioria dos autores afirma a existência de uma classifica­ ção supostamente mais precisa: a) bipartidário. para representá-los enquanto horticultores ou artesãos. ou frações pon­ deráveis destes. só nos resta analisá-los. Pouco sentido prático teria. a insurreição ou a revolução. criam programas de ação absolutamente quiméricos. porém. sem os partidos políticos. O Estado contemporâneo apresenta. profundamente afetados pelo Estado-providência. mas geralmente o sistema se encontra de tal for­ ma estruturado que apenas dois partidos reúnem. embora não haja no Estado dualismo partidário. fundamentalmente. Das mais oportunas é a advertência de Ferreira Filho: Raramente o deputado escolhido para representar a ideologia predominante num eleitorado é o mesmo homem que seria escolhido por seus eleitores. dualidade de tendências. permanentemente. enquanto ope­ rários ou industriais. nesta obra. dois sistemas partidá­ rios: a) monopartidário (partido único). sucintamente. não raro sociais. seria imperdoável equívoco supor que o sistema bipartidário significa. c) monopartidário. . aumentam as divergências e a desorientação popular. A própria palavra plural refere-se a mais de um. as únicas formas de alcançar o poder seriam o gol­ pe de Estado. portanto. A verdade é que haverá pluralidade partidária onde houver dois ou mais par­ tidos. Eles aí estão c. literalmen­ te. Aliás. Por outro lado. Obrigados a incluir sob seu manto protetor categorias sociais que envolvem os mais díspares interesses. Acentua Duverger que. é possível que vá­ rios partidos concorram às urnas. na verdade o condena. c a expressão pluralidade re­ vela qualidade atribuída a mais de um ser ou coisa. condições de chegar ao poder. E Manoel Gonçalves Ferreira Filho considera o bipartidarismo o sistema partidário ideal. junto aos órgãos de planejamento econômico e semelhantes. desde que os dois partidos sejam efetivamente homogê­ neos e disciplinados. ha­ verá. inexequíveis. A multiplicação desordenada dc partidos.142 Teoria Geral do Estado que. uma longa digressão a respei­ to da conveniência ou não dos partidos políticos. As­ sim o ideologicamente representado não se sente representado quanto a seus interesses econômicos. em suas linhas básicas. na verdade. como lembra Bonavides. aparentemente consolidadora do ideal da representação política. que jamais poderão ser cobrados pelo eleitorado. b) pluripartidário. Ensejando a contraditoriedade dos princípios ideológicos cada vez mais díspares. des­ vinculados da realidade. a existência tão somente de dois partidos.

A moderna concepção dc democracia não se compadece da democracia indi­ vidualista. Não se confundem com os partidos porque seu objetivo não é a to­ mada do poder. que. surgem como o fruto de novas condições socioeconômicas criadas pelo capitalismo e pela falta de representatividade dos par­ tidos políticos. O partido. com o grupo de pressão. Daí a impor­ . dos homens situados e não mais dc cidadãos abstratos. referindo-se às sociedades em geral. a partir do momento cm que os partidos de opinião vão cedendo terre­ no aos partidos de massa. passa a ter um objetivo mais palpável. a de­ mocracia governante. quase sempre. como assinala Bonavides. que reúnem seus filiados com base na situação econômica de cada um. por outro lado. à margem do ordenamento jurídico. A fideli­ dade partidária consagra a chamada democracia partidária. nova e superior unidade. que buscavam evitar dogmatismos compromete­ dores dc suas transações políticas. a toda a coletividade. Os tradicionais partidos de opinião. Os métodos empregados pelos grupos de pressão variam conforme as circuns­ tâncias: apoio eleitoral a um partido que com eles se ache comprometido. pela qual o povo esco­ lheria muito mais um programa de ação do que representantes. se destaca em razão de sua disciplina e do seu dogmatismo doutrinário. que transcende os meros interesses in­ dividuais de seus filiados. que se acha. os representantes da coletividade têm enfraquecida sua individualidade a favor da vinculação integral às diretrizes dos partidos. no mais das vezes. por outro lado. ao passo que o interesse do grupo de pressão é transitório. A legislação norteamericana. passam a ser substituídos pelos partidos de massa. Embora organizado em torno dos interesses de uma parcela do povo. como diria Giorgio dei Vecchio. São partidos de massa porque as individualidades renunciam à sua autonomia em proveito do partido. em verda­ deiro mandato imperativo de índole partidária. pelo menos mediatamente. Estes. o que não ocorre. pressão direta sobre os membros do poder executivo ou do legislativo. houve por bem reconhecêlos. no transcorrer do século X X . não podendo eliminar os grupos de pressão. adotando uma estrutura interna bastante maleá­ vel para atrair o maior número de simpatizantes. exigindo que os grupos empenhados em defender interesses particulares junto ao Congresso estejam devidamente registrados e dotados da competente conta­ bilidade. Além disso. a existência de um partido deve ser permanente. enquanto o do partido é político. Acentua Burdeau que à democracia política sucede a democracia social. sem considerar as condições eco­ nômicas de cada um. mas a utilização deste em proveito próprio. o objetivo do grupo dc pressão é quase sempre econômico.6 Formas de governo 143 Os partidos políticos encontram fortes concorrentes nos grupos de pressão. tais interesses pertinem. Mais: o partido político é reconheci­ do ou tacitamente admitido pela lei. Um partido político deve estar estruturado numa ideia e num programa exe­ qüíveis.

numa sociedade de mas­ sas. cada partido apresenta. As motivações simbólicas (slogans) vêm a ser. Tais órgãos poderão ser diretivos e burocráticos. não a demagogia. que o Partido Comunista sempre afirmará o seu di­ reito de lutar ao lado de . todo partido deve sustentar-se num conjunto de princípios ideoló­ gicos sólidos e coerentes acerca dos problemas do Estado. por via de conseqüência. portanto. na URSS). daí a existência de vários partidos numa sociedade formada por classes antagônicas. indiretamente. No tocante à m ilitância partidária. via de regra. a adaptação do programa geral às novas situações. um cxcclcntc veículo para a transmissão simplificada das ideias. Este afirma que a pluralidade partidária espelha a própria luta de classes. também. d) motivações simbólicas (slogans). b) programa ideológico. o partido deve apresentar uma orga­ nização administrativa e uma estrutura material destinadas a garantir a sua nor­ mal atividade. Tais plataformas exigem. Poderão scr o grito dc guerra. No Estado socialista. Por outro lado. Os filiados são aqueles regularmente inscritos ao partido e do­ tados de direitos e deveres partidários. por vá­ rias razões. qual seja. filia­ dos e simpatizantes. estabelecendo soluções exeqüíveis. movimento este que tanto pode congregar uma nação (Itália fascista c Alemanha nacional-socialista). existiria apenas uma classe. em seu funcionamento. nas quais impere a franqueza e a sinceridade. Disso os adeptos deste partido concluem. cujo apogeu foi alcançado no período compreendido entre as duas Grandes Guerras. expresso sob quatro aspectos: a) visão do mundo ou cosmovisão. não podem filiar-se ao partido. Um partido político não deve ser o túmulo do pensamento. a Alemanha nazista encontraram inspiração para seu m ovim ento no próprio marxismo. como uma clas­ se (proletariado. cujos interesses seriam comuns. Não pode haver. pois cada partido representaria uma classe social. mas um organis­ mo em permanente elucubração e modernização doutrinárias.outros partidos nas sociedades não marxis­ . Quanto ao progra­ ma ideológico. o auxiliam. contudo. vem a ser muito mais um m ovim ento de reação antipartidária do que um partido propriamente dito. No to­ cante às plataformas eleitorais. a palavra-chavc ou o sinal distintivo do partido. para uma só classe. os integrantes do partido deverão adequar o pro­ grama geral do partido às tendências e necessidades de cada circunscrição eleito­ ral. Os simpatizantes são aqueles que. Diga-se de passagem que a Itália fascista e. devidamente transmitida aos eleitores. mediante a adoção de uma cosmovisão (W eltanschauung) que represente uma interpretação clara e consciente do universo. c) plataformas eleitorais. Um partido político seria parte de uma classe social determinada. a dos operários e camponeses.ou contra . mais do que um partido. o próprio Partido Comunista. O partido único.144 Teoria Geral do Estado tância da interação partido-sociedade-interesses na propagação e cumprimento de um sistema ideológico plausível. com muita graça e sagacidade. mas que.

o outro. nos Estados de ins­ piração marxista. sua parte mais progressista. ainda. mas reivindicará sua exclu­ sividade 110 advento do Estado socialista. Na verdade. Franz Oppcnheimer.4. Na Regência Trina Permanente. nesta última proclamada a maioridade de Pedro II. ao contrário dos exaltados. divididos em duas facções. ainda não se pode falar em partidos políticos. levando a efeito uma política conciliatória. num partido político. por to­ dos os teóricos do marxismo. principalmente desde 1826. os moderados continuam a . Doutrinariamente. cujos inte­ resses se mostram. durante o Primeiro Reinado (1822-1831). por exemplo. mutuamente. respectivamente apoiando ou se opondo ao Imperador. que se apoderam dos principais cargos gover­ namentais. propugnando uma descentralização mais sim­ pática às províncias. com a Assembleia Geral ou Parlamento.6. com a abdicação dc Pedro I. formado por liberais. atuantes de forma franca e aguerrida. em vigorosa expressão que seria encampada pelas Constituições soviéticas. na Assembleia Constituinte de 1823. em nome da pluralidade de classes nelas existentes. apenas a representação organizada de uma classe. a tese marxista torna-se vulnerável quando se consta que não foi demonstrado. mas cm facções que. que nclcs existe somente uma classe ou. sendo que o pluripartidarismo so­ mente pode existir numa sociedade onde haja antagonismos de classes. ipso facto. a dos moderados. de apoio ao Impera­ dor Pedro I e. afirmava ser o partido a vanguarda organizada e disciplinada do proletariado re­ volucionário. tam­ bém marxista. um situacionista . o partido único foi enaltecido. 2. quais sejam Regência Trina Pro­ visória (1831-1832). no célebre M anifesto comunista. Nem por isso os marxistas deixam de continuar afirmando que o proletariado deve estruturar-se num movimento políti­ co destinado a sustentar sua missão de exercer uma ditadura que permitirá a abo­ lição das classes e do Estado. ao passo que Lenin. o Brasil passou por vá­ rios períodos de governo denominados Regências. oposicionista. Eis por que a vigente Constituição soviética se refere ao Estado socialista como o Estado de todo o povo . tenham desaparecido as classes sociais. Formam-se espontaneamente dois grupos. Durante o período regencial as posições políticas vão ficando mais bem definidas.1) Os partidos políticos no Brasil No Brasil. Joscph Stalin. afirmava que o partido é parte da classe. os absolutistas e os liberais.. na sua origem e continuidade. declarava que o partido é. e em face da menoridade de seu filho. o que vem a dar no mes­ mo. Marx afirma. ser dever do pro­ letariado organizar-sc numa classe.. Por outro lado. Numa de suas escassas referencias aos partidos políticos. aglutinaram-se em dois grupos antagônicos. Regência Una do Padre Feijó (1835-1837) e Regência Una de Pedro de Araújo Lima (1837-1840). hostis e inconciliáveis. Regência Trina Permanente (1832-1835). Durante a Regência Trina Provisória prevalecem os oposicionistas. de forma unânime.6 Formas de governo 145 tas.

já o dissemos por que. denominados caramurus. na locali­ dade de Santa Luzia. nos clubes políticos.146 Teoria Geral do Estado controlar o poder. embora sem grande prestígio de início. com meridiana clare­ za os retratou Oliveira Vianna. Ouçamo-lo: O traço característico desse grande movimento da opinião. é essencialmente um governo de opinião. Os filiados a este partido passaram a ser conheci­ dos por saquaremas. chimango (moderado) que dedicou-se com fir­ meza à criação do Partido Progessista. sob a pitoresca denominação de chimangos. Os adversários do Regente. como já vimos. Faltavam à nossa sociedade todas as condições para isto. nun­ ca existiu aqui. ao passo que os liberais. onde se acha­ va a fazenda do líder conservador Visconde de Itaboraí. Só exprimia realmente o pensamen­ . nem outrora. Havia . tinham como plataforma a volta de Pedro I ao poder. ardente. continuamente. Esta opinião.uma opinião informe.partidos do Império. capaz dc governo. quando. A par dessas fac­ ções surge uma terceira. foi eleito Re­ gente o Padre Diogo Antonio Fcijó. nem hoje. evocando o município fluminense de Saquarema. supremo regulador do sistema parlamentar. alcunhados luzias porque ligados à Revolução Liberal de 1842. era quase sem­ pre um reflexo americano das agitações europeias. de orientação liberal. revezando-se. nas sociedade maçônicas e principalmen­ te na Imprensa.como ainda há hoje . Ora. que a Constituição confiava à Coroa. considerado pelos liberais como uma deturpação do Po­ der Moderador. que era a que se formava nos centros universitários. um governo cuja instituição num dado povo pressupõe a existência de uma opi­ nião pública organizada. explo­ siva contra o Poder pessoal. cujos seguidores. Vale lembrar que já cm 1870 fora criado o Partido Republicano. Esta alternância no poder durou até 1889. Porque só os que ignorassem os nossos costumes políticos e a mentali­ dade dos nossos partidos poderiam supor possível que o Poder Moderador. aliás. era o de uma irritação viva. que se seguiu ao gol­ pe do Imperador contra os liberais em 68. os liberais desejavam a abolição e maiores liberdades para as províncias. difusa. ain­ da atual como perceberá o leitor neste parêntese dos mais oportunos. com a institucionalização da ideia de Regência Una. concentraram suas forças em torno do Partido Conservador. foram vencidos por Caxias. o qual. O governo parlamentar. os Partidos Conservador e Liberal foram os mais importantes para não dizer os únicos . Benjamin Constante Lopes Trovão. esta opinião pública organizada. Em 1835. E a verdade é que esta irritação era inevitável. com a proclamação da República e a queda do Gabinete do Visconde dc Ouro Preto. por sua vez. alhures. Na verdade. Enquanto os conservadores eram escravocratas e tradicionalistas. pudesse funcionar aqui com a mesma perfeição com que funcionava entre os ingleses. que serviria dc base para a fundação do Par­ tido Liberal. no poder. isto é. con­ tou desde logo com a colaboração dc grandes figuras como Quintino Bocaiúva. Que dizer dos partidos políticos do Império? Aquele que. inorgânica. em obra clássica intitulada O ocaso do império. tinha sempre um caráter artificial.

. os programas que ostentavam eram. Desde o momento. o conserva­ dor quer manter estas instituições. logo. O fato é que ne­ nhum desses dois programas representava convicções definitivas e sinceras. simples rótulos. E. a chamada política da conciliação. no intuito de conhecer a opinião do País. em regra. do 1° Reinado e da Regência.e passavam a ser [. é uma prova do vago. houve aqui uma fase em que os partidos tiveram verdadeiramente uma opinião: foi o período da Independência. quando. porém. cessavam de súbito o trom­ betear formidável . O argumento poderia ser invertido pelos liberais.e assim o fez no caso da eleição direta. todo o País acordava sob um estridor imenso de toques de alar­ ma. do indefinido. de cânticos de guerra. justamente. O programa liberal era uma es­ pécie dc trombeta sonora. logo. de origem habitualmente exótica. Esta opinião. dizendo: A Constituição brasileira contém instituições santas. desde logo.dizia ele . liberais.. em que. com brio. imponentes embora pela sua massa. do incerto contido nos programas dos dois grandes partidos do Império. para que sc pu­ desse considerá-la sempre como um índice sadio da opinião nacional. aliás. como cm 68. evidentemente. ao contrário. liberais. Porque os partidos políticos do Império. extintos os partidos do Império e preser­ vado. no caso da Federação. calo­ rosamente pregados quando nas agruras da oposição. porque a Constituição do Brasil contém instituições santas. de sonoridades marciais. Então. formou-se. chamando a postos as consciên­ cias altivas para a defesa da Pátria. Certo. muito comprometida com o espírito de facção. sempre se mostrava. da Democracia e a Liberdade. por isso.] como os conservadores. muito impregnada das animosidadcs do partidarismo. todas as vezes que era obrigado a organizar novo Gabinete. só o liberal é conservador”. ela devia ter constituído para o Imperador. a tendência à . nunca aparecia pura e extreme. ou tentava buscá-la. quando no governo. Depois dessa grande fase histórica. ao aceno da Coroa. eram simples agregados de clans organizados para a exploração em co­ mum das vantagens do Poder. sem outra significação que a de ró­ tulos. Zacharias exprimiu muito bem este fato no seu discurso dc 18 dc junho dc 1870. agiam sempre de maneira idêntica aos conservadores: o inebriamento do poder como que os fazia olvidarem os seus mais caros ideais. de Paraná. na opinião dos partidos. O Imperador não desdenhava de atendê-la . Esta perplexi­ dade do Imperador não devia ser menor quando ele. com ímpeto. O próprio liberalismo da Constituição tornara. difícil esta discriminação muito nítida das opiniões. o Imperador os atirava momentaneamente no ostracismo. aliás. não tinham propriamente uma opinião. no caso da Abolição. retornavam ao poder. Com a proclamação da República. Tanto que os liberais. buscava-a. o partido liberal quer mantê-las. é liberal.envol­ ve uma confusão de ideias manifesta: O conservador no Brasil é necessariamente libe­ ral. no Senado: “O argumento do nobre senador . um dos grandes motivos de perplexidade. o Partido Republicano.6 Formas de governo 147 to de uma pequena parcela das classes cultas do País. pode-se afirmar com fundamento que os partidos políticos não representavam realmente correntes de opinião. Já em 53. na verdade. que os liberais só sc lembravam dc clarinar com fogo.

Todavia. e a Aliança Nacional Libertado­ ra. A derrota do nazi-fascismo. propiciando o surgimento de nada menos que trinta (!) novos partidos. o Tribunal Superior Eleitoral aprovou o re­ gistro provisório de um Partido Humanista (?) Nacional e de um Partido Nacional dos aposentados (!). de 25. permitira a criação de duas agre­ miações partidárias. o Partido Popular (PP). em 15. 4.1965. em 1937. 5.10. alguns notório significado. de 20. então.148 Teoria Geral do Estado criação de partidos locais. ao extinguir a Arena e o M DB.676. o Partido Trabalhista Brasileiro (P I B) e o Partido dos Tra­ balhadores (PT). em oposição a Getúlio Vargas.1945. a Lei Orgânica dos Partidos Políticos e a Lei das Inelegibilidades.11. Dissolvidos os partidos exis­ tentes e exilados seus principais líderes. substancialmente emendadas em 1969. transformadas em partidos desde 1967. destacando-se o Código Eleitoral. Este. conduzida por Luís Carlos Prestes. nos mol­ des dos movimentos fascista e nacional-socialista. afrontando a dignidade da Política e o bom senso da cidadania. .1979. de modo que cada Estado contaria com seu próprio par­ tido republicano. a Lei n. a legislação eleitoral foi se tornando mais e mais per­ missiva. Getúlio foi deposto em 29. que lançou como candidato à Presidência da República Armando Salles de O li­ veira. sem falarmos nas inovações introduzidas pela Constituição de 1967. § I o. o Partido Social Demo­ crático (PSD) e o Partido Trabalhista Brasileiro (PTB). pelo Ato Institucional n. já havia treze partidos na ativa. prenunciava seu declínio. Lei n. uma febricitante elaboração legislativa.096/95) determinar. 6. dissolvidos. 2. após permanecer durante quinze anos no poder. 5°.1988. dc tendência comunista. fechado o Congresso Nacional e controla­ da a imprensa. a União Democrática Nacional.10. sendo a nova denominação derivada do fato dc a Lei n. porém.12. revogada pela atual. permitiu a criação de no­ vos partidos. o recrudescimento da perigosa patologia política do muitipartidarismo. a par­ tir daí. Tem início. 9. sucessor do M DB. o Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB). a pulverizar a opinião pública. de modo que. A partir daí. bastando lembrar que. herdeiro da Are­ na. no art. foram criadas a Ação Integralista Brasileira (1932). exigir a expressão partido na sigla identificadora dos novos partidos. dentre os quais o Partido Democrático Social (PDS). logo posto na clandestinidade.08. outros nem tanto. Além destas duas agremiações partidárias foram criadas outras. Daí. como a União Democrática Nacio­ nal. o Estado autoritário alcançava seu máximo prestígio. a Aliança Renovadora Nacional (Arena) e o Movimento De­ mocrático Brasileiro (MDB). contudo. Em 1922 foi fundado o Partido Comunista brasileiro. Ti­ nham real prestígio. Na iminência do movimento militar de 1964. Entre 1930 e 1937. em 27. deflagrou um golpe de Estado para fortalecer seu poder e depurar as hostes inimigas.1965.682/71 (antigas Lei Or­ gânica dos Partidos Políticos. O Ato Complementar n. formaram-se inúmeros partidos. A partir daí. favorecendo governadores que apoiavam o governo central.

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2.4.7) D em ocracia e co m u n ica ç ã o de massa
A comunidade nacional é soberana. Todo o poder emana do povo. Antes do advento do liberalismo político, dizia-se que o poder vinha de Deus. Hoje, pratica­ mente, todas as Constituições consagram a soberania popular ou nacional. Como a democracia direta não é mais praticável atualmente, o povo ou a nação escolhem seus representantes por meio de eleições. Eis a democracia representativa. O povo ou a nação são soberanos e a soberania é indelegável, inalienável. A democracia re­ presentativa deve, portanto, apoiar-se na opinião pública. Mesmo nos Estados totalitários, como o Estado nacional-socialista alemão, havia a realização do plebiscito, a fim de que o Führer auscultasse a chamada opi­ nião pública. Auscultar a opinião pública que seja a lídima, a verdadeira opinião pública, eis o ponto-chave da democracia. Como acentua Salvetti Netto:
o mecanismo democrático, que se sustem na representação popular, será tanto mais eficaz para atender aos fins da própria democracia, quanto mais propiciar as condi­ ções necessárias a uma estreita conformidade entre as deliberações dos órgãos gover­ namentais e os interesses da coletividade. Não pode haver representação onde inexis-

tirem cidadãos politizados, onde não houver fontes informativas da opinião pública, livres, desobrigadas e autônomas...

Em face disso ocorrem na America Latina e nos Estados política e economi­ camente subdesenvolvidos crises políticas incessantes. Na maioria desses Estados existe uma democracia meramente formal, em opo­ sição a uma democracia concreta, substancial. Em razão do exposto percebemos a importância e a responsabilidade dos meios de comunicação de massa na atualidade. Tais meios se confundem com aqui­ lo que costumamos denominar imprensa. Nesta incluem-se todos os meios de co­ municação de massa, embora seja instintivo nos referirmos aos meios de impressão com maior frequência do que ao rádio ou ao cinema, mesmo porque aqueles são mais antigos e acumularam ao seu redor a maioria das concepções teóricas da co­ municação de massa. Em seu livro Tres teorias sobre la prensa, Siebcrt e Peterson apresentam trcs teorias referentes à liberdade dc imprensa e as relações desta com o Estado: A teoria autoritária: esta teoria surgiu no clima autoritário do Renascimento, pouco depois da invenção da imprensa. Acreditava-se, então, que a verdade era apa­ nágio de alguns homens em posição de dirigir seus governados. A imprensa atuava de cima para baixo. Somente mediante permissão especial era permitida a proprie­ dade privada de órgãos da imprensa, e esta permissão podia ser cassada a qualquer momento. As publicações abrigavam, então, uma espécie de contrato entre os go­

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Teoria Geral do Estado

vernantes e os editores, pelo qual aqueles concediam um monopólio e estes, em con­ trapartida, deviam prestar “apoio'’ incondicional aos detentores do poder. Ora, tal concepção da imprensa eliminava de pronto o que, 11a época, chegou a ser uma dc suas funções mais comuns: controlar o governo. Esta teoria da im ­ prensa como mera servidora dos governantes foi accita universalmente no século XV I e parte do século XVII. A teoria libertária da imprensa: a liberal-democracia, a liberdade religiosa, a expansão da liberdade de comércio, a aceitação da economia do laissez-faire e o cli­ ma da ideologia iluminista minaram paulatinamente o autoritarismo, reclamando um novo conceito de liberdade de imprensa. Esta nova teoria tem seu início no sé­ culo XVII, alcançando seu apogeu no século X IX . A teoria libertária não concebe o homem como um ser que deve ser dirigido, mas como ser racional capaz de discernir entre o certo e o errado. A verdade deixa, então, de ser privilégio do poder. O direi­ to de procurar a verdade torna-se um dos mais prestigiosos direitos naturais do ho­ mem. A imprensa passa a ser considerada uma companheira em busca da verdade. Na teoria libertária, a imprensa não é um instrumento dc governo, mas um recurso para apresentar provas e argumentos sobre a atuação dos governantes c controlá-los. Portanto, para esta teoria é indispensável que a imprensa esteja a salvo do controle c influência governamentais. Para que possa surgir a verdade, é preciso aferir todas as opiniões; deverá haver um “mercado livre” de ideias e informações. A teoria de responsabilidade social da imprensa: a teoria da responsabilida­ de social da imprensa resultou de um problema surgido há cerca de trinta anos, com a revolução das comunicações. Quando as estações de rádio começaram a se multiplicar, a exemplo dos jornais e livros, sua organização foi tornando-se cada vez mais complexa, exigindo capitais de vulto. A imprensa - como nos tempos do autoritarismo da imprensa - passou a cair nas mãos de uns poucos poderosos. Se estes homens, muitas vezes apolíticos, buscavam de todas as formas uma indepen­ dência de informação relativamente ao governo, não é menos verdade que a opi­ nião pública passou a correr novo perigo, qual seja, o poder incontrastável da im­ prensa cm mãos dc particulares. A proteção da imprensa contra a influencia do governo deixou dc ser suficiente para garantir a oportunidade de alguém expressar suas ideias, pois os donos e gerentes da imprensa determinariam as pessoas, os fa­ tos, as versões destes que seriam dadas ao público. Foi este problema que consti­ tuiu a base do desenvolvimento da teoria da responsabilidade social, 011 seja, a po­ sição de poder e quase monopólio dos meios de comunicação. Deve haver então, segundo esta teoria, a institucionalização da responsabilidade social das empresas para que todas as opiniões se apresentem imparcialmente, para que o público pos­ sa imparcialmente decidir. Na verdade, o problema da liberdade de imprensa tem de ser cuidadosamen­ te estudado, pois sua existência ou não sempre impele a nau do Estado pelos mais inesperados caminhos. Seignobos, 11a sua magistral H istória sincera da França , e

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Domenach, em A propaganda política, demonstraram à saciedade o papel da im­ prensa, especialmente a clandestina, na disseminação das ideologias na França iluminista e na Rússia de 1917. Nos dias em que vivemos, o problema agravou-se com o embate ideológico, verdadeiro caleidoscópio político, pois os meios de comunicação, cada vez mais perfeitos c objetivos, são dc fácil apreensão pela massa. Abordando o tema, Ferreira Filho (A democracia possível) adverte que quem controla os meios de comunicação de massa tem a possibilidade, mais que isso, a tentação, de manipular o seu auditório, infundindo-lhe as próprias concepções.

3) TIRANIA
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A tirania é uma forma autocrática de exercício do poder político que tem ori­ gem asiática, passando para a Grécia a partir do século VI a.C. O vocábulo tirania tanto pode ser originário da Lídia, sendo o rei Giges o primeiro a ser chamado ti­ rano, como de Canaã, de serens, nome bíblico atribuído aos filisteus de origem no­ bre. Pode, até, ser originário dos etruscos, da expressão turan, que significa poder ou senhoria, ou de nomes próprios da Etrúria (o rei Turuns ou a deusa Juturna). Aliás, já sc disse que os etruscos, que desenvolveram a mais adiantada cultura da antiga Itália, antes dos romanos, eram descendentes dos lídios, sendo sua origem asiática, portanto. Consequentemente, a palavra tirania não é grega; designa, antes de mais nada, a forma de governo da moda existente na Ásia Menor, em dado momento históri­ co, não tendo absolutamente, como sugere o vocábulo, sentido pejorativo, malévo­ lo. Com efeito, a exemplo da ditadura romana, a tirania asiática não se apresenta como uma forma de exercício do poder necessariamente perniciosa. Diga-se o mes­ mo da sua versão grega que representou, no mais das vezes, os interesses coletivos, como veremos adiante. Em detrimento da verdade histórica, a tirania passou, com o tempo, a significar uma forma política essencialmente indesejável, preconceito

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Teoria Geral do Estado

este arraigado até mesmo entre estudiosos da história política e que cumpre-se ex­ tirpar de vez. Vejamos, entretanto, a evolução da tirania grega. É durante o século VI a.C. que desaparecem, em grande número dc cidades gregas, as velhas Constituições aris­ tocráticas, como fruto do descontentamento dc comerciantes e industriais que, en­ riquecidos em sua atividade, passam a almejar os cargos públicos. A aristocracia, sem se renovar, é dividida por lutas internas e enfraquecida cada vez mais. Sua de­ cadência vai ensejar o aparecimento de uma nova forma política, oriunda da Asia, a tirania. Esta forma de governo vai permitir o restabelecimento da ordem e uma política de expansão territorial e, consequentemente, de desenvolvimento econômi­ co, como corolário do espírito empreendedor dos gregos do século VII a.C. A tira­ nia, diga-se mais uma vez, não indicava uma ideia de dominação necessariamente opressiva, mas a forma de poder exercido por um homem cujo direito de governar era fundado não mais na religião ou na hereditariedade, como a antiga monarquia, porém no prestígio pessoal, 110 apoio dos estamentos inferiores, comerciantes e gen­ te humilde. Acrescentc-sc a isto um forte aparato militar. Claro, houve abusos por parte dc inúmeros tiranos; muitos, contudo, criaram constituições democráticas, de­ fendendo os interesses dos menos favorecidos, exercendo uma forma política em muito semelhante à denominada ditadura proletária a que sc refere Burdeau. Com efeito, as massas, em sua fraqueza, não encontraram outro meio de com­ bater os excessos da aristocracia senão o de lhe opor uma nova espécie de monar­ quia, seja na Grécia ou em Roma. Quando, em toda parte, os reis foram vencidos e a aristocracia se firmou 110 poder, o povo não se limitou a lastimar a queda da monarquia, mas procurou restaurá-la sob nova roupagem. Em seus primórdios, a tirania vem a ser uma forma política responsável pelo esplendor e pelo desenvolvimento econômico das cidades. Destacam-se tiranos no­ táveis: Trasíbulo, em Mileto; Pitágoras, em Éfeso; Polícrates, 11a ilha de Samos. Este cria uma potência marítima comparável à do Egito e da Pérsia, dedicando-se, ade­ mais, a proteger sábios, cientistas c poetas e a edificar majestosas obras públicas. Outro notável tirano, Pisístrato, governa Atenas com sabedoria e moderação, res­ peitando a legislação de Sólon, impedindo a formação dc latifúndios, realizando ampla reforma fiscal e embelezando a cidade. O tirano não altera, geralmente, a Constituição. As magistraturas são manti­ das, devidamente encarnadas em homens de sua inteira confiança. O conselho e a assembleia determinam a nova política, embora severamente fiscalizadas pelo tira­ no, que se faz acompanhar, prudentemente, de robusta guarda pessoal. A aristocra­ cia é perseguida. O tirano Trasíbulo pediu, certa vez, conselho a Periandro, tirano de Corinto, que era, por sinal, 11111 dos sete sábios da Grécia, a respeito da arte de governar. Periandro não respondeu: como ambos se achavam num trigal, limitou-se a cortar algumas espigas que se sobressaíam em altura das demais, insinuando, com

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isso, que a tirania não pode tolerar que os mais capazes adquiram demasiado pres­ tígio. Em Corinto, Cípselo confisca as terras aos nobres e as distribui entre as mas­ sas desfavorecidas; em Mégara, Teágenes pura e simplesmente massacra os rebanhos dos ricos, captando a simpatia popular. Os miseráveis vecm sua revolta c desdita mi­ noradas, pois os grandes empreendimentos públicos oferecem trabalho c as terras confiscadas lhes propiciam a fixação à terra. Tais situações atendem plenamente aos interesses do tirano, preocupado permanentemente com a hostilidade potencial dos aristocratas e com a sublevação das massas. Além disso, o tirano utiliza-se, frequen­ temente, dos cultos religiosos, os quais, excelente veículo de propaganda, contribuem para a estratificação do poder pessoal. Na verdade, à época das tiranias, comba­ tia-se ou pela liberdade ou pela tirania. Liberdade, para o proletariado, quer dizer governo dos ricos; tirania significava o governo de um líder antiaristocrático e, in­ diretamente, popular. Segundo o próprio Aristóteles, o tirano não tinha por missão mais do que proteger o povo contra os ricos, sendo da essência da tirania a guerra à aristocracia. A tirania é oriunda, em última análise, dos anseios dc uma burguesia florescente e, paradoxalmente, da miséria das massas e, claro, da audácia dc indiví­ duos sequiosos dc poder e decididos a tudo para triunfar. A tirania perduraria desde o século VI a.C. até meados do século seguinte, es­ tendendo-se, por todo o mundo grego, mas em cada caso particular jamais durou muito tempo. Em Esparta, aliás, a tirania jamais foi bem vista, talvez pela natural desconfiança do espartano em relação ao indivíduo enquanto tal. Na expressão do historiador ateniense Tucídides, Esparta não suportava os tiranos; tal aversão, de­ nominada atyranneutos, revela-se plenamente quando a política exterior esparta­ na intervém contra Polícrates e contra os Pisistrátidas, quando apeia do poder Ligdamis de Naxos e quando repudia a aliança a Corinto e Sicione, enquanto estas cidades são governadas por tiranos. A tirania decadente tornar-se-ia hereditária; então, as qualidades de energia, audácia e talento político, peculiares ao bom tirano, já se faziam escassas. A tira­ nia arcaica continha em si mesma os germes de seu desaparecimento, ou seja, a composição das crises sociais que a originaram. Com o desaparecimento destas, mediante as próprias reformas tirânicas, os cidadãos desejariam o retorno a uma forma de governo regular, em que o exercício do poder não se limitasse a um só homem. A tirania foi, na verdade, uma etapa necessária no caminho da democra­ cia, como acentua François Chamoux, pois à tirania se sucede uma aristocracia mo­ derada. O mundo moderno conheceu uma forma de exercício do poder político céle­ bre, aquela exercida por Oliver Cromwell (1599-1658), que, fazendo condenar à morte o rei Carlos I, em 1649, fez-se nomear Lorde Protetor da República da In­ glaterra (Commonwealth). O poder de Cromwell lembra, estranhamente, as tira­ nias gregas. Homem de caráter enigmático, ora iluminado, ora calculista, genero­

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Teoria Geral do Estado

so e cruel, dotado do mais refinado bom senso ou da mais escandalosa extravagância, era, fanaticamente, puritano, dissolveu o parlamento 110 dia 30.04.1653, tratando os parlamentares de ladrões e covardes, fechou as portas da casa legislativa e guar­ dou as chaves no bolso... Proclamada a República em 16.12.1653, instalou-se no palácio de Whitewall c iniciou um governo rude, que promoveu a dissolução de quatro parlamentos sucessivos, mas que tornou a Inglaterra respeitada c temida, adquirindo Dunquerque e apossando-se da Jamaica. Reprimiu revoltas na Irlanda e na Escócia, e sua violência foi tamanha que os irlandeses se tornaram inimigos latentes dos anglo-saxões. Cromwell, que sonhava, certamente, em se tornar rei, não conseguiu seu desideraro, deixando seu posto para seu filho Ricardo, que, lon­ ge de possuir as qualidades do pai, logo abdicou. Cláudio de Cicco, em síntese so­ bre a História Universal, ressalta bem a influência da religião puritana sobre Cromwell, que, aliás, vituperava o rei Carlos I, sob os epítetos de anticristo e dragão do apo­ calipse. Os seguidores de Cromwell entremeavam seus combates com cânticos e salmodias, sendo o respeito para com o chefe absoluto. Ainda Cláudio de Cicco aponta, com muita agudeza, que o Navigation Actypromulgado por Cromwell, para proteger a burguesia de armadores e proprietários de companhias mercantis, mos­ tra bem o nexo entre o mercantilismo capitalista c o luteranismo dc Cromwell.

4) OLIGARQUIA
Bibliografia: A r i s t ó t e l e s . Política, Madrid, Centro dc Estúdios Constitucionales, 1983.
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Ro-

bert. Los partidos políticos, Buenos Aires, Amorrortu, s.d., 2 v. Madrid, Centro de Estúdios Constitucionales, 1981, t. 3.

La república,

Do grego ol igoi, poucos, e arche, governo, oligarquia significa, literalmente, governo de poucos. Entretanto, como aristocracia significa, também, governo de poucos - porém, os melhores -, tem-se por oligarquia o governo de poucos em be­ nefício próprio, com amparo na riqueza pecuniária. Em outras palavras, o termo apresenta um conteúdo eticamente negativo ao denominar o governo dos ricos, em­ bora possa indicar, também, o governo de poucos mantido pela intimidação, como no caso da oligarquia militar. Modernamente, são usados mais dois termos para denominar o governo pernicioso de uma minoria, quais sejam, plutocracia e nepo­ tismo. Plutocracia é termo de origem grega (de ploútos, riqueza, e kratos, poder), daí ploutokratía, plutocracia, ou governo fundado 110 dinheiro, na corrupção. Quan­ to a nepotismo, a expressão é de origem latina, de nepote, neto 011 segundo sobri­

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nho; nepote, por sua vez, deriva de ncpos, termo latino que denomina simplesmen­ te o escorpião, aracnídeo cuja fêmea é devorada pela própria ninhada, como a parentela se aproveita dos ascendentes bem situados, assumindo os melhores car­ gos públicos, cm detrimento dos mais capacitados. Em suma, favorecimento de ami­ gos e parentes da minoria governante. Diz Platão: “A que tipo de Constituição - disse - chamas oligarquia? Ao go­ verno baseado no censo - disse eu - no qual mandam os ricos, sem que o pobre te­ nha acesso ao governo” (> 4 república, 550, c). Aristóteles, por sua vez, doutrina: “ Há democracia quando os livres governam, com maior razão que há uma oligar­ quia quando os ricos governam, e, geralmente, os livres são muitos e os ricos pou­ cos (Política, 1290, b). Na distinção aristotélica entre formas de governo puras e impuras, a oligarquia, como governo dos ricos, é a forma impura da aristocracia, que é o governo dos melhores (Política, 1279, b). O sentido negativo da oligarquia c uma constante no pensamento grego clássico, bem assim no pensamento moder­ no e contemporâneo. Veja-se, por exemplo, Jean Bodin numa das mais festejadas obras da teoria política: “Da mesma forma que a monarquia pode ser real, despó­ tica, tirânica, assim a aristocracia pode ser despótica, legítima, facciosa; este tipo dc governo, na Antiguidade, era chamado oligarquia, vale dizer, domínio cxcrcido por uma minoria [...]. Por isso os antigos usavam este termo com significado nega­ tivo, e aristocracia com sentido positivo (Les six livres de Ia république, Livro II, Capítulo IV). Muitos autores contemporâneos, como Robert Michels e Caetano Mosca, sus­ tentam que em todas as organizações de massa brotam, naturalmente, facções oligárquicas destinadas a se tornar verdadeiras elites. Robert Michels chama este fe­ nômeno de “lei de ferro da oligarquia”. Quanto ao marxismo, considera a democracia liberal uma oligarquia disfarçada, mesmo sendo assegurado o sufrágio universal. Paradoxalmente, o marxismo-leninismo exige, no período de transição entre o ca­ pitalismo e o comunismo, denominado ditadura do proletariado, o governo de uma minoria seleta, investida dc plenos poderes, que evoca, sem dúvida, as elites diri­ gentes da República de Platão.

5) DEMAGOGIA E 0CL0CRACIA
Bibliografia: AMARAL
Antonio Carlos de. Dicionário de nomes, termos e con­
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l in a r e s q u in t a n a

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Segundo V. Sistemas de partidos y

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É neste sentido que Políbio emprega o termo. deformação dos fatos e adulações grosseiras. a conotação pejorativa de hoje. Foi com o grande historiador ateniense Tucídides (460-395 a. e kratos. fazendo valer seus mais insensatos caprichos. Isto só será possível quando a casta dos filósofos. VI (IV). 35 a-b). os cidadãos mais capazes são relegados ao esquecimento e os aduladores cobram rápida ascensão. durante muito tempo. que acabam por implantar um governo autoritário. o termo de­ magogia não teve. A de­ . O termo oclocracia indica o jugo imposto pelo populacho inorgânico ao poder legítimo e à lei. garan­ tida pelos guerreiros e acima de todo e qualquer egoísmo pela comunhão de bens. Daí agog-os. impor que todos pensem da mesma for­ ma sobre todas as coisas. Na demagogia. sendo demagogia a arte de conduzir o povo. mas uma situação crítica que vivem as institui­ ções. cortejando o populacho com leis inexequíveis e uma sórdida campanha de calúnias e difamações contra os verdadeiros magistrados. Quanto à oclocracia (do grego oklos. impondo-se ao tirano. forma corrupta da de­ mocracia e que leva à implantação de um governo despótico das classes sociais mais baixas.) que a de­ magogia principiou a ter sentido negativo. ao sabor da irracionalidade das multidões.15 6 Teoria Geral do Estado Demagogia vem do grego demos. a demagogia é tida como a política por meio da qual os go­ vernantes buscam impressionar as massas com falsas promessas. elaborada pelos enciclopedis­ tas franceses. 2. 1].C. Platão. povo. diz ele. A oclocracia é definida na famosa enciclopédia. e agein. poder). seu com­ portamento torna-se uma conduta massificada. rigo­ rosamente. Progressivamente. E preciso. conduzir pela palavra. Tal estado de coisas é resultante do rápido desenvol­ vimento industrial e tecnológico. esclarecia o povo com sabedoria e justiça. e do papel cada vez mais ativo das massas. não é. eliminar as diferen­ ças pessoais. Modernamente. causada pelo aparecimento da máquina. Aristóteles advertia para o fato de que a demagogia. orador que conduz. demagogo é aquele que conduz o povo. eliminar as particularidades. impor a ordem no Estado e nas almas. via na liberdade individual uma distorção da verdadeira convivência social. que não sentia grande atração pelas democracias (Apologia de Sócra­ tes. multidão. Ressalte-se que na antiga Grécia. como sendo o “abuso que se instala no governo democrático quan­ do o populacho vil se torna o senhor dos negócios públicos”. das mulheres e das crianças dominar a multidão ignara dos trabalhadores. leva ao isolamento das pessoas e à sua angústia permanente. A atro­ fia da individualidade criadora. condicionada a atitudes políticas e sociais não racionais. provoca a reação de comuni­ dades organizadas. uma forma de governo. denominando a atitude daqueles que “conduzem o povo lisonjeando seus sentimentos”. sendo o demagogo aquele que. bem como à desordem e à corrupção. Ainda é Aristóteles que adverte ser a demagogia a corrupção da politeia [Política. Então.

. há uma ordem viciosa imposta pelos demagogos. .6 Formas de governo 157 mocracia. F. São Paulo. Carl. mes­ mo. Théodore. Madrid. sendo. Feltrinelli. Quanto à diferença entre demagogia e oclocracia. Tal definição pode parecer estranha a quem estiver habituado ao uso indiscri­ minado do vocábulo. Estado democrático e Estado autoritárioy Rio dc Janeiro. é o oposto deste ideal. denomina as medidas de emergência que toma o Estado contemporâneo. neum ann Franz. . São Paulo. Georges. Saraiva. 1766. a palavra ditadura pode ser tomada num sentido amplo ou num sentido estrito. Pielte. presta-se a uma série de preconceitos e mal-entendidos. A igualdade de que ela se vangloria. e o domínio monstruoso que é a multidão (thrémma méga kai iskhurón) não passa de um despertar da natureza tirânica (palaià gigantikê phúsis) (apud Gustave Glotz. Dictionnaire des antiquités romaines. lho burdeau . A democracia culmina. 1968. cria a desordem e a imoralidade. ao passo que a oclocra­ cia implica a própria ausência de qualquer ordem. 1885. na oclocracia. r e in a c h p it is c u s . é uma gritante desigualdade. De Vétat de siège. ao colocar na mesma casta homens desiguais. s c h m i t t . Re­ vista de Occidente. Teoria geral do Estado. prossegue. unipessoal ou colegiado. fazendo a moderação passar por fraqueza e o escrúpulo por ingenuidade. burdhse. 1969. Nicolò. Scientia Verlag. inevitavelmente. Paris. quando suas instituições encontram-se ameaçadas por . La dietadura. que. w i l l e m s . 1. São Paulo. O estado de sítio. A cidade grega. ao sa­ bor dos interesses mesquinhos. II príncipe e discorsi sopra la prima deca di Tito Livio. 1979. por ter natureza analógica . Com efeito. p. Pichon. 123). p in t o f e r r e ir a Luiz. análogos.apresenta vários sentidos correlatos. pois esta é alterada incessantemente. A. Manoel Gonçalves. M ilano. . 1977. Ditadura é o exercício temporário do poder político. Curso de teoria do Estado. na primeira. Saraiva. embora não idênticos. Torino. Quando o Estado sc encontra em tal situação. 1968. Em sentido amplo. Droit constitutionnel et institutions politiques. v. f e r r e ir a f i­ m a c h ia v e l l i. Paris. reside no fato de que. a sua Constituição é instável e deformada. Zahar. 1981. 1975. Ao reconhecer a todos os desejos a mesma legitimidade. salvetti n e t t o . 6) DITADURA Bibliografia: LGDJ. caracterizado pela concentração de atribuições prefixadas e destinado a sanar mal público iminente ou real. Pedro. Saraiva. 1980. Le sénat de la république romaine. Samuel. Utet. ao defender um individualismo em que cada um age como bem entende. Diritto pubblico romano. falso falar de uma só Constituição. 1964. Paris.

como faz ver o historiador Tito Lívio: “ [. mas agora o magistrado republicano achava-se subordinado à lei. significava a plenitude dos poderes judiciários e militares. dotada de objetivos específicos e destinada a salvar a República e as liberdades dos cidadãos.]” . quando tem início o período denominado principado. então. sendo plena­ mente irresponsável.C. a luta armada e a sucessão violenta de instituições. nesta incluído o poder de vida e de morte sobre seus conci­ dadãos. rees­ truturar o poder. é bem verdade. Substituindo o rei. refere-se a uma espécie de magistratura de caráter extraordiná­ rio. conforme ensina Théodore Reinach. nem intervir em demandas legais ou impor novos tributos. Não podia. a própria . anteriormente. contudo. Ele se achava. seu consentimento. dictator. Ora. entretanto. que a denominação dictator não era a mais indicada para designar aquele que encarnava tal magistratura. concentrava nas mãos todo o poder. a ditadura romana 110 tempo e nas instituições republicanas da antiga Roma. Situemos. Vale frisar. e sim ma­ gister populi. enfim. em cuja aplicação dispunha da mais ampla liberdade.C. Daí.. O próprio termo dita­ dura origina-se do Direito Público romano. em sanar graves crises sociais com medidas drásticas. um dos cônsules podia anular qualquer medida tomada isoladamente pelo outro. e até o ano dc 509 a. vale dizer. investido do imperium maximum ou majuSy e durante sua atuação todas as magistraturas eram suspensas. Reza a tradição que a História da Cidade Eterna co­ meça aos 21 de abril do ano 753 a.. basicamente. o monarca postava-se acima da comunidade. prevista na Constituição da antiga Roma republicana. de forma a impedir que fosse restaurado o poder pessoal dos mo­ narcas.C. aos princípios da anualidade c da colegialidade. vale acrescentar. sendo responsáveis perante a lei e submetidos à intercessio. nestas incluído o próprio consulado. O período dc transição entre a monarquia e a república não ensejou. Em sentido estrito.] duo cônsules inde comitiis centuriatis a praefecto urbis ex cornentariis Servii Tulli creat sunt [. a adoção do estado de sítio ou da lei marcial). O imperium . curvando-se. desde então. aprimorando-se. adotou-se a forma monárquica de governo. apa­ recem dois cônsules. Já se percebe que a ditadura romana vinha a ser uma magistratura extra­ ordinária\ prevista na Constituição.... que exercem o poder em colegiado e pelo período de um ano. to­ mando-se a expressão no sentido enérgico dc comandar.. A missão do magister populi ou dictator consistia. desde que não houvesse dado a esta. cm sua investidura. ex. o ditador não estava subme­ tido à intercessio nem à provocatio. ao veto do colega. várias magistraturas. pois sabe-se que muitas ideias de ori­ gem republicana já vinham sendo experimentadas durante o reinado de Sérvio Tú­ lio. é bom lembrar.. ao contrário do que sc pensa. de imediato. que buscou. Nos tempos da realeza. Fora destas restrições. dc dictare. sendo irresponsável no exercício do cargo. sob o lema salus rei publicae su­ prema lex est. Mediante a intercessio. a república sc impõe. alterar a Constituição ou declarar a guerra. A expulsão dos reis beneficiou a aristocracia. perdurando até 27 a.158 Teoria Geral do Estado um perigo interno ou externo (p. a partir de então. aumentativo dc dicere.

determinar que este aprecie um caso determinado (referre ad senatum) e que delibere e vote (cum patribus agere). truna. cidadãos comuns. pois todo e qualquer cidadão tinha . Admitir que uma magistratura fosse ocupada sem limite de tempo. nos comícios centuriados. o direito de exercer coerção (coercitio). mas limitada em razão das circuns­ tâncias. portanto. ad tempus incertumysendo invocada. sendo seu símbolo o fasces. impor multas (jus multae dictionis).eram aqueles cujas atribuições não tinham duração limitada pela lei. originariamente. deriva. daí. a jurisdição (poder de dizer o Direito). segundo Pallotino. inicialmente denominados praetores (de praetor. apenas aos magistrados stricto sensu: cônsules. como vocábulo cor­ respondente a imperium. Havia um conceito primitivo de soberania. que eram dotados. direito de convocar e de presidir o Senado (senatum vocare). Além dos cônsules. repartida. sendo suas funções delimitadas no tempo.a própria denominação faz ver . A ideia de imperium . publicar os editos (jus edicendi). aos questores. por sua vez. Os etruscos adotavam. A ditadura. A potestas. ad tempus certum e ad tempus incertum. o direito de convocar o povo fora de Roma. ditadores e pretores. no mais das vezes. inicialmente. também de origem etrusca. que significava poder. apenas da potestas. mais recente (imperium ). com nuanças religiosas. aquele que ia à frente do exército). aos edis e aos tribunos. portan­ to. depois judices. Magis­ trados extraordinários . quando a salvação da . Cônsules e outros magistrados voltavam a ser. o direito de organizar e comandar o exército. O imperium inclui todas as atribuições da potestas e mais: o direito de tomar os auspícios fora de Roma.a possibilidade de in vicem parere atque imperitare. isto é. porém. paulatinamente. O império era atribuído. ligado à religião (auctoritas) e um poder jurí­ dico c militar. a palavra ti­ rania? Havia ademais uma distinção entre imperium e potestas. ao cabo de um ano.pelo menos teoricamente . iMais tarde. era magistratura de caráter extraordinário e.6 Formas de governo 159 soberania encarnada pelos reis de Roma e transmitida aos magistrados republica­ nos. eqüi­ valeria a atribuir ao cidadão uma situação privilegiada que ofenderia o princípio da isonomia. havia outros magistrados que se enquadravam em magistraturas de caráter ordinário ou de caráter extraordiná­ rio. entre os magistrados. consistente em deter o cidadão e obrigá-lo a comparecer perante a autoridade. para lhe dirigir a palavra e para fazê-lo vo­ tar. quem sabe. compreende: o direito de tomar os auspícios dentro da ci­ dade. direito de convocar o povo dentro da cidade. Magistrados ordinários eram aqueles que exerciam funções inerentes à norma­ lidade da vida administrativa. a atribuição estendeu-se aos censores. da monarquia etrusca. As magistraturas republicanas eram.

por exemplo. Alba Longa. como a própria denominação insinua. revelava. Por exemplo. por outro lado. fixar um prego numa parede do Capitólio. em conjunto. vivia situa­ ções que exigiam decisões rápidas. incumbido da cavalaria. já sc percebia que os cônsules. da infantaria romana. A expressão magis­ ter populi significa. Com efeito. Frisemos. O ditador era investido 110 poder militar (gerundae causa e seditionis sedandae causa) e. encarnada pelo magis­ ter populi ou praetor maximus. Quem nomeava o ditador romano. a ele caberia a escolha. silentio). Tusculum e Lanuvium. dotado apenas da potestas consularis. a ditadura latina dessemelhava-se da romana por ser anual (ad tempus certum). pois várias culturas vizinhas à Cidade Eterna conheciam uma instituição semelhante. Encontraremos uma das mais profundas raízes da ditadura 110 gênio pragmá­ tico dos romanos. Nos momentos de crises político-sociais.160 Teoria Geral do Estado república exigisse a suspensão das prerrogativas pessoais (salus rei publicae supre­ ma lex est. basicamente. pois Roma. Se apenas um dos cônsules se encontrasse na cidade. e esta era. este desprovi­ do do imperium majus. neste caso. evidentemente. estranha cerimônia cujo significado escapa à moderna pesqui­ sa histórica. que a colegialidade do consulado não poderia. levado a efeito com a máxima discrição. O ditador romano dispunha do direito de vida e morte. que a ditadura não era uma criação inteiramente do Direito Público romano. era. tínhamos a ditadura imminuto jure. chefe dos patrícios. eles deviam consul­ tar o Senado a respeito das medidas a tomar. ficando o magister equitum. Acentua Pierrc Grimal que a dita­ dura se apresentava muito aparentada à monarquia no tocante a certas funções ex­ clusivas do rei (rex sacrorum) ligadas à religião. embora não se pudesse fugir. ao qual. mas podia haver nomeação de um ditador para funções administrativas ou religiosas específicas e. Se fosse o caso. durante a noite. Em razão disso surge a ditadura. assessorado pelo magister equitum. dominava a sedição (seditionis sedandae causa) e podia permane­ cer 110 exercício de suas funções até quando as necessidades o exigissem. dirigia a guerra (rei gerendae causa). com suas tendências expansionistas. propiciar. a lei suprema é a salvação da coisa pública). embora resolvessem o problema da administração inter­ na. mediante au­ torização do Senado. a função do ditador: comandar a infantaria. um ditador ou tirando a sorte para determinar qual deles faria a seleção. esse órgão autorizava os cônsules a escolher. quase sempre em estado de guerra. É um erro . encontravam inúmeras dificuldades para atuar no âmbito externo. simbolicamente. cm tais casos. tínhamos as ditaduras oprimo jure. literalmente. eram os cônsules. feita à noite e em segredo. ordinária e colegiada. isto é. deliberando. ainda nos primórdios do período republicano. como visto. ao menos. ser um mal necessário. Este curioso ritual demonstra bem o es­ pírito do antigo romano: a elevação de um homem acima das leis. A própria nomeação do ditador seguia certos preceitos religiosos: o cônsul procedia à escolha do ditador somente após tomar os auspícios. em segredo (nocteyoriens. Entretanto.

personifica a probidade administrativa no combate à corrupção. Em qualquer caso. na cidade de Cincinatti. e que Marco Pórcio Catão. até amealhar o dinheiro necessário para afiançar a liberdade do filho. voltando. Cincinato poderia. em grande parte por desconhecimento da História.. lembrado por seus compatriotas. nomea­ do ditador por mais de uma vez. repugna a palavra ditadu­ ra. foi em inteira justiça. cumprindo sua missão ao cabo dc vinte c um dias. A Ordem de Cincinato. culposamente. hoje. Esquecido por todos. sempre. traziam uma medalha representando o ditador em sua charrua. sempre levou vida modesta. com altivez. em sen­ tido inverso. sociedade patriótica fundada nos Estados Unidos da América do Norte. contudo.C. Roma apresenta-nos exemplos de ditadores notáveis. à qual. desprendimento e consciência social deveriam inspirar a modernidade. vários casos dc permanência dilatada do ditador cm seu posto. e retornou à lavoura. que havia. a memória do ditador Cincinato é. foi novamente investido na ditadura. a socieda­ de foi declarada incompatível com a República e desfeita. Investido na função de dictator. no século V a. se o desejasse. impediu a deflagração da guerra civil entre patrícios e plebeus. co­ ragem. o Censor. o arquétipo do herói romano. portanto. tentando cobrir a fiança exigida por influência dc seus inimi­ gos políticos. mãe dos Gracos. na pequenina propriedade agríco­ la que lhe restara. para a felicidade e o progresso de um Estado. Aos 80 anos de idade. no ano de 458 a. Seus membros. os Estados Unidos da Amé­ rica do Norte. admitindo a hereditariedade na sucessão de seus membros.C. causado a morte do filho de um senador. mes­ mo porque a história romana é pródiga em exemplos de ditadores que encerraram sua missão muito antes de se escoar o prazo de seis meses. De­ volveu. mas nem por isso pensou em locupletar-se ou em vingar-se. ao tomarem Cincinato como mo­ delo de conduta. sempre renunciou às honrarias após cumprida sua missão. Polí­ tico hábil. constatando-se. passando a viver do culti­ vo da terra. sustentáculo da família e do lar. à sua vida austera c dc hábitos morigerados. dignidade c perseverança.6 Formas de governo 161 pensar. ficou reduzido à pobreza.. ele que havia sido reduzido à humilhação c à pobreza por ten­ tar libertar o filho. Lúcio Quíncio Cincinato vem a ser. simboliza a virtude da mulher romana. que a ditadura não podia ultrapassar seis meses de duração. o ditador não podia renunciar à sua missão antes dc complctá-la. que amanhava numa tosca charrua. era formada por todos aqueles que se haviam desta­ cado na Guerra da Independência. Patrício dc origem. um exemplo da grandeza moral do antigo romano. cumu­ lar poder e glória. para tentar levantar o cerco que os équos impu­ nham a Roma. perpetuada na pátria da Democracia ocidental. cujo amor à pátria. e não seria equivocado concluir que. não . levantou o sítio em apenas dezoito dias. Entretanto. para libertar seu filho Ceson. Reduzido à miséria por despender os poucos recursos que possuía. Padrão dc honra. com Cincinato. impondo severa derrota ao inimigo. Eis. em 1873. Da mesma forma que a célebre Cornélia. as insígnias de dictator.

que estava exigindo soluções drásticas. líder agrário. motivadora da nomeação dc vários ditadores. foi criada uma institui­ ção que substituiria a tradicional ditadura: o senatus consultus ultimum. pois se destinavam a reestruturar o Estado e a elaborar um novo ordenamento jurídico. qualquer aventureiro político que vem a ser qualificado como ditador. A partir do ano 133 a. aos quais se deve a Lei das Doze Tá­ buas. a anulação de determinadas leis e a suspen­ são do poder de certos magistrados. a luta secular entre patrícios e plebeus. no entanto. o ditador de empalmar o po­ der absoluto. bem como o justitium (suspensão da atividade dos tribunais).. a importância do ditador já estava bastante reduzida pelo fato da ad­ missão da intercessio dos tribunos da plebe contra o poder incondicionado do dita­ dor.. com ela. que os ho­ mens que as encarnem sejam dignos destas. Não havia.C. Após a Lex Hortensia... que a palavra ditadura possui uma carga histórica que deve ser respeitada. o Senado já se encontrava reforçado a ponto de enfraquecer enormemente o poder dos cônsules. A deturpação do sentido de um vocábulo emprega­ do sem discriminação séculos afora acarreta enganos insanáveis. um ime­ recido elogio.. na República romana. por oca­ sião das agitações de Tibério Semprônio Graco.C. 129). graças à sua aliança com os tribunos da plebe e à assimilação paulatina das atribuições anteriormente priva­ tivas dos cônsules. também. na verdade. Além disso. ficando estes reduzidos à condição dc meros agentes executores. de 286 a. e XV. a figura do dictator seditionis sedandae causa. todo aquele que conspirasse contra o Estado.C. 46 e 44 a. e aquilo que pensa constituir um vitupério é. se zanga. a ditadura prosperou e foi útil. exemplo universal dc patriota. 48.C.C. com efeito. haveria duas nomeações. ao cabo dos quais renunciou ao posto. jamais aviltada. como percebe com clare­ za Maquiavel cm sua obra Discursos sobre a primeira década de Tito Ltvio. a dita­ . Em 46 a. O senatus consultus ultimum era acompanhado da patética expressão “videant cônsules ne quid res publica detrimenti capiat!' \ com a qual se alertava a comuni­ dade sobre a gravidade da situação. respectivamente em 49. declarava a tumultus (rebelião). em sua bela e tremenda Divina comédia (VI. por ocasião da nomeação dc dois colégios decenviros legibus scribundis. Sila permane­ ceu no poder durante três anos.162 Teoria Geral do Estado bastam instituições políticas formalmente perfeitas. tendo por missão constituere rem publicam. Percebe-se. Então. Não teria sido por acaso que Dante Alighieri colocou Cincinato e Cornélia no Paraíso. um mecanismo que impedisse. As denominadas ditaduras de Lúcio Cornélio Sila e de Caio Júlio César apre­ sentam caráter completamente diverso da ditadura original. logo. efetivamente. em 249 e 216 a. Modernamente. fora da lei e inimigo. Em 451 a. isto é. exerceu por quatro vezes a ditadura política. 45. atribuído ao Senado e destinado a declarar hostil. imediata­ mente. é preciso. a ditadura foi suspensa por dois anos. praticamente desaparece c. ao enal­ tecer a figura do ditador romano. Quanto ao ditador rei gerundae cau­ sa. e que os norte-americanos honra­ ram a memória do grande romano na cidade de Cincinatti.C. Quanto a Júlio César.

responsável.teórica. tudo leva a crer que Júlio César desejava instituir sua nova concepção de ditadura na figura de Otávio. na Idade Média. Já em 10. evitou. incumbida de redigir uma nova Constituição e transmitir o poder. que instituiu o tribunal revolucionário e se mostrou fanático defensor da República. de imediato. criando. administrar a extirpação dc focos de epide­ mias comuns à época. foi obrigada. proposta. Tais aberrações levaram ao seu assassínio. O governo cesarista nem sempre é mau. por intermédio da Lex Antonia de dictatura in perpetuum tollenda. fruto da reação do Senado. o que o torna irregular é a «ânsia da perpetuidade cm fraude à lei. pois este já se tornara seu fi­ lho adotivo. César subs­ tituiria os antigos magistrados por um apenas. Quando o cesarismo enseja o favorecimento de poucos. a exemplo da aesymnetia grega. também denominada tirania. com prudência.seria anual e reservada ao povo. criava-se na França revolucionária. sufocar revoltas populares. primeiramente chamado de Otávio (63-14 a. temos o nepotismo (de nepote. em­ bora o como fazer ficasse a cargo deste mandatário. cuja eleição . denominado Junta da Salvação Pú­ blica ( Comitê de Salut Public).1791. o Senado eliminou a nova magistratura. finalmente. a delegar am­ plos poderes a um colégio de nove membros. instruções a respeito do que fazer. mas burlando-a. evidentemente . a duração do exercício do cargo comissarial era rigorosamente transitória. Assim. a partir de então. no qual pontificou Robespierre. medidas excepcionais que lembram. sucessor de César. a governantes legal­ mente constituídos. em detrimento da coletividade. por Marco Antônio. por delegação. quando a Convenção Nacional. Na verdade.C. colocada acima do consulado..C.01. a figura do princeps e abstendo-se de alterar o quadro das anti­ gas magistraturas. Procurando dissimular a transformação da República em regnum. funcionário nomeado para exercer atribuições extraordinárias e específicas. parente). ele próprio. depois.C. uma instituição análoga à ditadura romana.). contudo. teremos. encarnada no denominado comissá­ rio. Após a morte de César. evidentemente. O fato é que as formas corruptas da ditadura romana devem ter denomina­ ção diversa. César obteve a garantia de que sua ditadura seria perpétua. dc César. Tomando a expressão ditadura em sentido amplo. Em 44 a. restabelecer quaisquer resquícios da ditadura. em razão da desordem imperante.. por um estado de terror. no ano de 1793. O co­ missário recebia do príncipe. por exemplo. o cesarismo é a forma dc exercício do poder político na qual o governante busca perpetuar-se no poder sem infringir a lei. o moderno estado de sítio (état . quiçá. ainda em 44 a. na França revolucionária. mediante um decreto. Exemplo de poder ditatorial colegiado poderemos encontrar. em razão da falta de higiene existente nas cidades etc.6 Formas de governo 163 dura cesariana fez-se permanente e ordinária. Otaviano Augusto. A pa­ lavra cesarismo vem. Além do mais.

Se ele for um gênio. falar cm ditadura. conseguiu tomar-se ditador supremo e perpétuo! Até o aparecimento da vigente Constituição soviética (1977). Que vem a ser a ditadura do proletariado? Segundo a doutrina marxista. e.guardadas as devidas proporções! . visto que a principal característica da ditadura é justamente a concentração do po­ der em uma ou . surgiam as prisões em massa e as execuções. Carl J. segundo a qual a república seria dirigida por dois cônsules eleitos anualmente. vítima inevitável de alguma rebe­ lião ou pronunciamento. o cesarismo empírico. uma ditadura coletiva. em 1813. foi promulgada uma Constitui­ ção inspirada pelo próprio Francis. estágio final da evolução humana. para um futuro promissor. se não for. Indepen­ dente a partir de 1811. . uma Junta de cinco membros.quando muito . forma política que dispensa qualquer ideolo­ gia: um chefe é incondicionalmente obedecido. A lei marcial. esta república sul-americana teve a governá-la. Na verdade. simplesmente porque sabe fazer-se obedecer. exatamente como na antiga Roma. muito adequadamente. cujo secretário era Gaspar Rodríguez Francis. como “Terror”. De início. o estado de sítio ou de urgência são exemplos de tais métodos. adotadas pela maior parte dos Estados contemporâneos. Como se vê. mas desde logo Francis se desfez do colega. mesmo antes do transcurso deste prazo. ditador por três anos e. o homem liberto dos grilhões do poder político do Estado. convenhamos. o Direito Públi­ co russo referia-se a uma expressão célebre. a ditadura do proletariado. será um efêmero presidente de alguma república andina. confor­ me o caso. indispensável ao advento do comunismo. inaugurando o período conhecido. mas isto já seria impossível no caso de todos exerce­ rem uma ditadura. logo após. Bur­ deau aponta formas de cesarismo e ditaduras. elasse exploradora.oferece-nos o Paraguai. Exemplo curiosíssimo de forma política que recorda o consulado e a ditadu­ ra romanas . não renegava uma concepção toda própria de ditadura. já não seria di­ tadura. Os cônsules seriam ele próprio e Yegros.16 4 Teoria Geral do Estado de siège). classe social destinada a dirigir a tarefa dc libertação das mas­ sas trabalhadoras exploradas pela burguesia. pois uma ditadura sem ditadores. que antevia. no mínimo. pela Assembleia. sendo no­ meado. Pois bem. de classe é. exercia um poder ditatorial sobre esta. Referindo-se aos regimes autoritários modernos. um contrassenso. necessária. para fazer frente às crises político-sociais. diz Burdeau. inicialmen­ te. eis um Napoleão. poderemos. até que o Estado desaparecesse e surgisse a sociedade comunis­ ta. individualista por excelência.em algumas pessoas. sob a presidência do General Yegros. Seja o poder ditatorial enfeixado nas mãos de um órgão apenas (sentido estrito) ou em vários órgãos (sentido amplo). era o período em que o proletariado. Friedrich denomina ditaduras constitucionais as medidas de caráter ex­ traordinário. a ditadura do proletaria­ do. jamais o seu desmembra­ mento numa coletividade. o próprio Marx.

Finalmente. El cons- titucionalismo brasileno en la primera mitad dei siglo X IX . A libertação do homem só será possível com a desaparição do poder político e com a submis­ são da classe dirigente (a burguesia) a uma ditadura (a do proletariado. Sabe V. muito mais refinada e subs­ tanciosa 110 que se refere à doutrina. quarto. 1957. Lisboa. a América é ingovernável por nós. as mais baixas paixões do populacho. Editorial Estampa. Paidós. o ditador não se satisfaz. Os regimes políticos. de modo rudimentar. Por seu inter­ médio. supor que o Estado tende a eliminar as relações de subordinação. No dia 09. Nela. com o advento da sociedade comunista. que viria a ser o primeiro presidente do Equador. Marx insiste no caráter inelutável desta ditadura. na qual o proletariado intervirá despoticamente. o chefe busca apoiar-se nas camadas sociais menos favorecidas. enfaticamente e com dureza. O chefe restringe-se a explorar. . fazer uma revolução é lavrar no mar. uma ideologia político-social destinada a legitimar. Seria pueril. a exemplo dos demagogos das antigas tipologias das for­ mas de governo. Burdeau aponta a ditadura ideológica. pois. este país irá cair infalivelmente nas mãos de uma multidão desenfreada para passar depois a tiranetes quase imperceptíveis de to­ . isto sim.6 Formas de governo 165 A seguir.1830. Nesse caso. na qual. as quais ele dirige a seu talante. que governei durante vinte anos c que desse tem­ po poucos foram os resultados certos que obtive: primeiro. e b e n s t e in . Embora aparentada à ditadura do proletariado imaginada por Marx. nem de longe possui o embasamento doutrinário desta. classe do­ minada). segundo. Escritos políticos. ela marcará o definhamento e a desaparição do Estado. dizia o seguinte: Meu caro General. 1977. diz Marx. ele não po­ deria tomar tal iniciativa a não ser renunciando à própria existência. Afonso Arinos de. Simón Bolívar enviou uma carta a um de seus colabora­ dores. 7) CAUDILHISMO Bibliografia: verger b o l ív a r . No seu livro Carta a respeito do programa de Gotha. absolu­ tamente. o general Juan José Flores. à qual já nos referimos. Marx antevê a liberação do indivíduo mediante uma fase necessária de vio­ lência. m elo franco William. para usar uma expressão do próprio Marx. com o fato de seu poder ser mantido apenas pela força. Unam. México. El totalitarismo. a única coisa que se pode fazer na América é emigrar. Buenos Aires. Difel. São Paulo. Maurice. Simón. Tal ditadura será transitória. 1966. Exa. du - . terceiro. A ditadura proletária é outra espécie de ditadura moderna apontada por Bur­ deau. a ditadura do proletariado. 1965.1 1. ele desenvolve. instrumento de opressão de uma classe sobre outra.

depois. a instrução pública e a previdência social. o incontornável atavismo do poder pes­ soal. e a confe­ deração asteca. como veremos. deitam suas raízes nas velhas capitais indígenas ou nas divisões estabelecidas durante o perío­ do colonial. mais tarde. os europeus não se dignarão conquistar-nos. Exa. tal afirmação é válida ape­ nas do ponto de vista político. convertida em Vice-Reinado e. su­ cedido pelo Vice-Reinado e.166 Teoria Geral do Estado das as cores c raças. os centros atuais do poder político. Pois bem. assim o império inca. os serviços postais. V. na América espanhola. Por ou­ tro lado. a saúde pública. note-se bem. da qual derivou o paternalismo ainda hoje encontrado na política americana. desde os antigos impérios pré-colombianos até os modernos presidentes latino-america­ nos. devorados por todos os crimes e consumidos pela feroci­ dade. no México atual. algumas dc suas atribuições . sexto. Era dotado dos títulos de capitão-geral. a dis­ tribuição de provisões. verá que rodos se entregarão à torrente da demagogia c desgraçados dos povos. tornou-se ponta avan­ çada do movimento libertário e órgão de transição entre a autoridade do Vicc-Rcinado e a América independente. pois sob o ângulo histórico esta orientação trunca uma parte importante de sua evolução. que do pon­ to de vista administrativo tinha a seu cargo os serviços gerais. Por outro lado. o exacerbado individualismo c a quase ausência dc senso dc responsabilidade social trariam as disfunções políticas que todos conhe­ cemos. A primeira revolução francesa provocou a decapitação das Antilhas. Destes períodos nos vem profunda tradição de poder pessoal. des­ graçados dos governos! Ninguém melhor do que o Libertador conhecia o temperamento e as inclina­ ções do latino-americano! Inicialmente. o desenvolvimento econômico. estabeleceu-se uma profunda relação afetiva entre o governante e o povo. Como acentua Salvador Valencia Carmo­ na. governador do Reino c presidente da audiência. se a unanimidade dos historiadores situa o nascimento oficial dos Estados latino-americanos em princípios do século X IX . A súbita reação da ideologia exagerada vai pre­ sentear-nos com quantos males nos faltavam e exagerar os que já possuíamos. Ora. pois tanto o monar­ ca indígena como o vice-rei foram executivos centralizados. Assim. O poder se achava centralizado no vice-rei. foram ins­ talados também os primeiros estabelecimentos espanhóis. autoritários. Em verdade. depois. se fosse possível a uma par­ te do mundo voltar ao caos primitivo. pelo moderno Estado peruano. dificilmente conseguiríamos compreender alguns traços das instituições políti­ cas latino-americanas sem examinar as influências do passado indígena e colonial. a segunda causará o mesmo efeiro neste vasto continente. Era. o cabildo. quinto. o superintendente da Fazenda Real. precisamente uma instituição colonial. o ccnso. o vice-rei espanhol tornou-se a encarnação suprema do Estado espanhol nas índias. nos locais onde se desenvolveram as sociedades indígenas. as obras públicas. este seria o ultimo período da América.

os donatá­ rios. a preocupação de Portugal continuou vol­ tada para as índias Orientais. apontado com muita ojeriza por Francesco Guicciardini: São orgulhosos por natureza c não gostam dc estrangeiros. vestem belas roupas e montam vis­ tosos cavalos. A princípio. Por isso. sistema que obteve pouco sucesso ao retardar a exploração econômica e a implantação de uma administração realmente eficaz no Brasil. Curioso e sintomático. Os espanhóis são amigos da ostentação. vão ocorrer. bem como a dificuldade dos meios de comunicação. conceder indultos de penas impostas pelos tribunais.. mui­ to mais de forma do que de substância. desenvolvem-se as guerras de independência dos Estados latino-americanos. o temperamento do espanhol à época da conquista e da colonização. Durante a união pessoal imposta a Portugal e seus domínios pela Espanha (1580-1640). No plano judi­ ciário podia atuar de ofício ou mediante invocação da parte contra os ouvidores. divididos em doze capitanias hereditárias e dotados de grande poder. quatro os modelos a ele referentes. que consideram degradante. da qual pode­ riam dizer “obedecemos sem cumprir. a consolidação do poder personalizado. talvez. No Brasil. rápidos e peritos no manejo das armas. mas em suas casas levam uma existência miserável. c ágeis. a administração foi confiada a grandes senhores. como os decretos-leis contemporâneos. plenos poderes. embora sujeitos à revisão pelo Conselho das índias. Por outro lado. a grande distância que separava o novo continente da metró­ pole. faziam com que o vicerei tivesse. Num breve período de quinze anos (1810-1825). Assim: . até que outras potências europeias começaram a co­ biçá-las. e profundas transformações. sob Filipe II. São mais belicosos. Para as novas Constituições. os alcaidcs e os fiscais. desde o descobrimento. 'Iodos os espanhóis desdenham o comércio. fazem ponto de honra em preferir a morte a submeter-se à vergonha. tinham vigência imediata. expedia atos administrativos de­ nominados instrucciones. Aparentam ser muito religiosos. sendo dcscortescs para com eles. a função executiva passa a cobrar um interesse axial. Em torno dela. com isto. de fato..”. mas não o são realmente. basicamente. costuma-se denominar aqueles quinze anos o período de ensaio e de formação do Executivo. do que qualquer outra nação cristã. por outro lado. sendo.6 Formas de governo 167 transcendiam a função executiva e alcançavam o plano legislativo e o judicial: além dc participar da audiência da qual era presidente. que. dão-se ares de fidalgos e preferem ser soldados ou (antes do tempo de Fer­ nando) salteadores de estrada a fazerem-se mercadores ou exercer qualquer função se­ melhante. com pouca submissão à Coroa. foram desen­ cadeadas apaixonantes controvérsias doutrinárias. e logo se tratou de levar à prá­ tica exóticas experimentações. difícil de acreditar. a administração espanhola ampliou sua influência sobre a administração das colônias lusas e.

ainda dominadas. cm função do expansionismo napoleônico. além das funções exe­ cutivas. a fim de cuidar da conservação da independência. O requisito de uma ditadura . assim é que Bolívar. Comte rejeitava as abstrações sociais de ordem metafísica e propunha-se a aplicar à sociedade os mé­ todos positivos. no qual foi apresentado o Projeto de Constituição para aquele país. restariam. a) Executivo monárquico: nos primórdios da independência as ideias monár­ quicas ainda gozavam de grande prestígio. tornando a monarquia rejuvenescida ideologicamente. Dava ênfase especial ao progresso técnico mediante a utilização social das capacidades humanas e preconizava a aplicação dos métodos científicos à organização e controle das relações sociais. um homem dotado de grande descortino político. isto é.exercia forte atração sobre os latino-americanos. Isto somente seria conseguido mediante uma república ditatorial. fato que trouxe para o Brasil um desenvolvimento inimaginável até então. terminaram breve e tragicamen­ te. Repudiava com uma concepção romântica o velho liberalismo e pretendia substituí-lo pelo planejamento social. assim se referiu ao cargo dc Presidente da República: . menos pelas virtudes ínsitas à ideologia do que pelas circunstâncias históricas. a sociedade seria dirigida por sábios. empíricos e experimentais. do equilíbrio e da harmonia dos poderes (art. Aliás. vinculado às velhas tradições. coetâneos. ainda. que pôde manifestar-se na Constituição de 1824. As tentativas de instauração da monarquia no Haiti e no México.168 Teoria Geral do Estado a) o monárquico. c)o vitalício. 8°). autóctone. o imperador ficava dotado. Dentro des­ sa filosofia. das ciências físicas. oriundo do pensamento de Bolívar. embora irreversivelmente condenadas pela roda da História. b) o colegiado. remanescendo o Brasil sob o velho regime algum tempo. por Benjamin Constant Botelho de Magalhães. derivado do sistema político norte-americano. por Cristophe e Iturbide. de inspiração francesa e. Com efeito. num discurso perante o Congresso Constituinte da Bolí­ via. em 1825. os fatos de ter sido Pe­ dro I o procurador da independência e Pedro II. Com o Poder Moderador. desenvolvida por Clermont Tonnerre e haurida. não fosse a emigração da Corte para o Brasil. com o fito de consolidar sua posição pessoal perante os demais poderes políticos. b) Executivo vitalício: inspirado na Ideologia de Augusto Comte (1798-1857) c de Simón Bolívar (1783-1830). seu filho. d) o presidencialista. adver­ te Afonso Arinos de Melo Franco que Pedro I teria sido o grande inspirador da in­ serção do Poder Moderador na Constituição Imperial. em grande parte. como se percebe. dc certo modo. respectivamente. no Brasil. de acordo com as verdades posi­ tivas da ciência. da “chave de toda a organização política”. por costumes e tradições antiquados. gra­ ças à doutrina do Poder Moderador.a expressão é do próprio Comte .

sem que isso implique. três assistentes e dois secretários com voto informativo que nomeará o congresso” . para fruir dos benefícios dos institutos do liberalismo. ao dedicar. Suas fontes são as Constituições francesas de 1793 e 1795. formado por três pessoas. no mesmo ano. o executivo vitalício seria intermediário entre a monarquia c a república. “amor e fidelidade constante” ao rei Fernando VII. um pe­ ríodo de transição. a de mais curta vigência. da Venezuela. 9o. em 1811.6 Formas de governo 169 O Presidente da República acaba por ser. Dai-me um ponto fixo e com ele moverei o mundo. como o Sol que. Despreparados. 5°. reflete a mesma ambigüidade no Poder Executivo. para remediar a eventualidade dc o rei espanhol ocupar o cargo. tais instituições se sobrepusessem às vigentes. Algumas Constituições estabeleceram o colegiado sob forma velada. um executivo assim concebido permitiria a transição do velho ordena­ mento colonial para um Estado liberal dc feição moderna. a ideia de Executivo colegiado se mostrou inefi­ . censores e se­ nadores.dá vida ao Universo. ao cabo deste período. por parte dele. e do México. escolhido um diretor supremo das provín­ cias unidas. sendo. em 1814. qualificada de curiosa mescla de princípios republicanos e monárquicos. “será exercido por um presidente. dc 1811 a 1814. A Argentina adotou o Executivo colegiado. Cortou-se-lhe a cabeça para que ninguém receie as suas intenções e ataram-sc-lhc as mãos para que não cause dano a n in ­ guém. o projeto de Constituição bolivariano previa muitas magistraturas à romana. desde logo. ironicamente. firme em seu centro. dizia um antigo. que é encomen­ dado. tiveram curta duração. considerada a “Arca da Aliança” dos povos latino-americanos e a “transição entre Europa e América”. enraizadas na consciência popu­ lar. ao rei Fernando VII. Também a Constituição do Equador de 1812. aparentemente monárquica. deveria haver. uma vez que nos sistemas sem hierarquias. foi revogada logo em 1831. o Poder Executivo seria exer­ cido pelo presidente da representação nacional e por dois conselheiros. de ditadura vitalícia. Esta suprema autoridade deve ser perpé­ tua. Aliás. mais que nos outros. Desde logo. c) Executivo colegiado: o Executivo colegiado surge. contudo. Os novos ideais. então. desde que este viesse para Santa Fé de Bo­ gotá para exercê-lo. em sua ausência. restringe-se a isto na adoção da monarquia. ao qual re­ conhece como monarca. Para Bolívar. ainda. nas primei­ ras Constituições latino-americanas. A Constituição de Cundinamarca de 181 1. A Constituição de Bolívar. caso contrário. Diga-se o mesmo do Chile. no art. ação. tornando-se. diz o art. Para a Bolívia esse ponto é o presidente vitalício. pois em todo o restante de seus artigos fala dc um Estado independente. inicialmente. na nossa Constituição. como tribunos. até que. Nele se estriba toda a nossa ordem. . cujo Exccutivo. se torna necessá­ rio um ponto fixo à volta do qual devem girar os magistrados e os cidadãos: os ho­ mens c as coisas.

com a ado­ ção. Com a Grande Depressão de 1929. fundamentando-se na ideologia de que esta forma de organização política impede o poder excessivo de um só homem. O inegável progresso econômico dos Estados Unidos. político de grande prestígio e admirador das insti­ tuições helvéticas. destina­ da a substituir o executivo presidencial. eleitos pelo povo para um mandato de seis anos. Foram dois períodos. do presidencialismo. tendo a seu cargo a chefia de Estado (arts. . que exigem decisões rápidas. o excessivo aumento dos integrantes do colegiado. no México de 1823. que somente seria abolido de vez cm 1964. os quais suscitaram viva polêmica entre colegialistas c anticolcgialistas. conta-se. governou um Executivo dualista.170 Teoria Geral do Estado caz por dois motivos: primeiro. o fato é que. irresistível nessa parte do mundo. segundo. Em 1913. Bem mais significativa foi a experiência uruguaia do colegiado. aos quais caberia a administração (arts. com efeito. dividido cm dois órgãos sepa­ rados e independentes: a Presidência da República e o Conselho Nacional de Ad­ ministração (art. dc 1919 a 1933 c dc 1952 a 1967. se impôs aos latino-americanos. afinal. em péssima tradução e impressão ainda pior. um colegiado de nove membros. Batle y Ordónez publicou seus Apuntes sobre el colegiado. além de per­ mitir a participação política de todas as facções. desta feita. Com efeito. a Cons­ tituição de 1918 criou o Poder Executivo dualista. Cinco anos mais tarde. e Gabriel Terra promoveu profundas reformas políticas no Uruguai. O presidente seria eleito por um período de quatro anos. Assim. feitas em Puebla de Los Angeles. no segun­ do. sua inadequação a tempos de agitação social. que conhecia de perto. que tornou o país conhecido como a “Suíça sul-americana” . as duas tendências celebraram uma síntese que mesclava presidencialismo c colegiado. tornando o sistema inaceitável. uma reforma constitucional trouxe de volta o colegiado. os constituintes traziam nas mãos um exemplar da Constituição norte-americana. No primeiro. d) O presidencialismo: o modelo presidencial dos Estados Unidos foi aquele que. 82. 85. A obra propugnava uma junta governamental dc nove membros. de inclinação parlamentarista. o Uruguai experimentou um notável surto de progresso. talvez porque tenha funcionado razoavelmente num país que havia deixado de ser colônia ao mesmo tempo que os países latinos. 71 e 79). logo após sua primeira gestão na presidência (1903-1905). Em 1952. onde colheu subsídios para a implan­ tação do colegiado em seu país. incluída a oposição. seguras e inquestionáveis. 97 e 105). visitou a Suíça. A atração por esse regime de governo foi. ao passo que o Conselho seria formado por nove ministros. A ideia do colegiado foi introduzida no Uru­ guai por José Batle y Ordónez. Coincidência ou não. o colegiado sofreu um forte abalo. 70). o impressio­ nante porte político de seus primeiros presidentes. ensejando o aparecimento das Constituições de 1934 e de 1942. o efeito retórico de sua Consti­ tuição apaixonaram os latinos a tal ponto que. durante os períodos de colegiado.

pouco voltado para a vida política. embora sua sociabilidade ou comunicabilidade seja percebida de imediato. a América Latina passou por um período crítico. restringe sua liberdade e o campo para expressar-se individualmente. Ao cabo de poucos anos. que. no fato de que as potências modernas . então. via de regra. entre outras.”. se produz um retorno à natureza. embora permita. o que levou Duverger a afirmar que na América Latina “seguem-se homens e não ideias. em certa medida. nada pelo povo”. o individualismo típico dos latinoamericanos torna-se infenso à solidariedade. Razão não falta. c surgindo. de forma condicionada. por um breve período. moldado no militarismo prussiano e no nacionalismo exacerbado. Kste princípio do impressionante prus­ siano bem poderia aplicar-se à América recém-emancipada. O totalitarismo é o extremo oposto: livra os homens da carga da responsabilidade e. O latino-americano é. provavelmente. acar­ retado pelo desaparecimento da autoridade dos vice-reis.são ou democráticas ou totalitárias. A principal razão dc que cm nosso século sc tenha prestado tão pouca atenção ao autoritarismo reside. em verdade.por sistemas autoritários.. mais uma semente para o futuro totalitarismo nacional-socialista. aguçadamente. contudo. França ou Bélgica. contudo. A razão pela qual. como veremos a seguir. em razão disso. Ao receber sua indepen­ dência. um governo autoritário.hoje como ontem . acentuando a rivalidade entre democracia e totalitarismo como o referencial político do século. somente age mediante provocação e. Após a Independência. o apego ao poder pessoal. qual seja.6 Formas de governo 171 Infelizmente o presidencialismo à norte-americana logo se corromperia numa autocracia muito latina. Isto. ao mesmo tempo. desaparecendo esta democra­ cia artificial.. as raízes psicológicas do autoritarismo la­ tino-americano. portanto. a democracia: “Tudo para o povo. o caudilhismo. mas exige. que definiu. não deveria dissimular o fato de que a grande maioria das nações estão go­ vernadas . no curso da História. com seu despotismo esclarecido. a Ebenstein. Tal fato é fácil de compreen­ der se observarmos a grande quantidade de países subdesenvolvidos que se tornaram independentes a partir do fim da Segunda Guerra Mundial. Foi Frederico. desde logo. apresentou causas mui­ to bem lançadas por William Ebenstein. criando. o Grande. Grã-Bretanha. houve um . o caudilhismo. com mordacidade. legada pela metrópole europeia: Grã-Bretanha. tem predominado o autoritarismo é provavelmente psicológica: a demo­ cracia oferece aos homens o máximo dc liberdade. a nova nação se estrutura. um percentual de liberdade de expressão em questões não políticas. por uma constituição demo­ crática. Este é o efeito de outro fenômeno tipicamente latino-americano.EUA. Alemanha e URSS . um alto grau de responsabilidade de que muito poucos são capazes de aceitar. pois não foi por acaso que Kbenstein apontou. fenômeno já notado por Ferreira Filho. O autoritarismo nega a liberdade e a responsabilidade da opção e ação políticas.

amigo das artes e das letras. a Aristóteles. isto nos leva. reitere-se. Grande parte da nossa evolução. os presidentes. fre­ qüentes guerras civis. No bubo lapsus ni anarquias prolongadas y menos aún situaciones de división estatal frente a la comunidad internacional. A etapa dos caudilhos não terminou de maneira brusca.172 Teoria Geral do Estado vazio do poder. um regime parlamentarista. via de regra. ausência dc uma classe dirigente preparada para o mando. mediante os caudilhos castrenses dos primórdios da independência. em parceria com uma aristocracia liberal c ilustrada. encontrava apoio no costume. se não era expressamente previsto na Constituição. a D. No Brasil. ao longo do século X IX . el Brasil siempre evolucionó politicamente mediante formas que garantizaron su continuidad institucional. quando a decadência da aris­ tocracia marcaria o início da gestação do nazismo. Aos caudilhos castrenses sucederam os caudilhos civis e. supriu-se o vazio de poder deixado pela monarquia espanhola. governante hábil que. assim. e traduzia Shakespeare. que costumava afirmar que à aristocracia ou governo dos melhores (aristoi: melhor + kratos: poder) sempre se sucederia um período de tirania. contudo. pôde desenvolver. es que. juntando-se a isto a inexistência dc uma aristocracia já sedimentada. ocorreu na América Latina. Pedro II situava Pasteur e Victor Hugo acima de todos os homens. de imediato. O poder pessoal coloca-sc acima das ideias e das insti­ tuições. Pedro II. diferentemente dos demais Estados latino-americanos. pacífica. Em nosso país as elites políticas resolveram as criscs dc maneira pacífica. dc tal forma que Jorge Reinaldo Vanossi afirmou ser a institucionalidadc uma cons­ tante na História do Brasil: Una nota característica. eminentemente biográfica. N a­ ções por edificar. e que ocorreria também na Alemanha. os caudilhos eram. homens de armas. . Enquanto os caudilhos hispânicos ad­ miravam Napoleão em suas aventuras bélicas. Ora. fenômeno que. logo preenchido por homens fortes durante todo o século X IX . tudo inspirava o aparecimento de ho­ mens fortes. é devida. Corroborando a intranqüilidade destes primeiros tempos. a estes. que. no exercício da função executi­ va c da moderadora. contudo. feneceu paulatinamen­ te à institucionalização das ideias moderadas e ao declínio da instabilidade política. A história dos primeiros tempos da América emancipada é. intranqüilidade social. como acentuam Salvador Valencia Carmona e Jacqucs Lambert. que conviene recordar en todo momento. não ocorreram as vicissitudcs do caudilhismo. tanto antes como después de su independencia.

REGIMES DE GOVERNO 7 1) PRESIDENCIALISMO Bibliografia: a g e s t a . William. Curso de derecbo constitucional comparado.1) Introdução Para revelarmos a natureza do presidencialismo é preciso esclarecer as expres­ sões forma de Estado. Forma de Estado refere-se às relações que os elementos do Estado . Mab o l ív a r L uís drid. Sánchez. 1979. El totalitarismo. São Paulo. 1966. América I. 1979. 1964. . torial Estampa. Buenos Aires. Imprensa Nacional. 1979. São Paulo. maluf. México. 1980. São Paulo. Jorge. 1. . 1983. Afonso Ari nos de. particularmente quanto aos 173 . America Latina. México. 1965. Porto Alegre. ed. 1966. lambert. Curso de direito constitucional. 12. ses. Presidencialismo y parlamentarismo en cl Brasil. . 11. território. 1957. v a l e n c ia c a r m o n a Salvador. duverger . zer melo franco marquand c o Donald. ed. Os regimes políticos. Sahid. El Poder Ejecu- tivo latinoamericano. Universidad de Madrid. lho e b e n s t e in . Maurice. 1977. Universidad Nacional Autônoma dc México. Constituições de diversos paí­ . Cooperadora de Derecho y Ciências Sociales. ­ Teoria geral do Estado. Escritos políticos. Globo. Lisboa. n o s s i. Jacques. A forma de Estado se acha ligada ao modo pelo qual o Estado se mostra estruturado em sua totalidade. 1980. São Paulo.apresentam entre si. Sugestões Literárias. Unam. El constitucionalismo hrasileho en Ia primera mitad m ir a n d a deI siglo X /X . governo e normas jurídicas . Manoel Gonçalves. Edi­ f e r r e ir a f i­ . Buenos Aires. Nacional.povo. . v a Jorge Rcinaldo. Difel.. Lisboa. Paidós. forma de governo e regime de governo. Simón. Saraiva.atina: uma perspectiva histórica..

84. e Constituição do Brasil. pura e simplesmente. refere-se ao modo pelo qual o Estado se estrutura para o exercício do poder político. isto é.presidencialismo . Já a expressão regime de governo diz respeito ao modo pelo qual os Poderes Executivo-Legislativo se relacio­ nam. O constitucionalista James Bryce faz sugestiva comparação entre o presiden­ cialismo norte-americano e a república romana. por assim dizer. . em tese. A prática. formadas a federação. vale dizer. O presidente da República evocaria o monarca inglês. Incumbi­ do das funções de administração e de representação. apanágio da forma republicana de governo desde Maquiavel. por atos do presidente. mas o de 1787. A origem do presidencialismo se encontra na própria formação dos Estados Unidos. o sistema inglês assimilado pela Convenção de Fila­ délfia não é o de hoje. art. os norte-americanos não romperam. cujo possível arbítrio era severamente reduzido pela temporariedade e pela colegialida­ de do cargo. 87 e parágrafo único). VII e VIII).já revela a preeminência do presidente neste regime. art. o que. o presidente é auxiliado por ministros de Estado (Constituição do Brasil. no caso o presidente da República (Constituição dos EUA. Os mi­ nistros de Estado são meros auxiliares no âmbito puramente administrativo. II. A própria denominação do re­ gime . É bom lem­ brar que o Poder Executivo é uno. o que não ocorre no regime parlamentarista. com separação integral de poderes. II). A vitaliciedade e a hereditariedade peculiares à monarquia foram substituídas pela temporariedade dos mandatos e pela eletividade para os cargos públicos. bem diferente: o regime parlamentar ainda não se achava definitivamente estabelecido. a monarquia inglesa para o Novo Mundo. preservada na figura dos cônsules. Seção 1. abruptamente. Como adverte Duverger. 2o. com vantagens. e as instituições britânicas muito se as­ semelhavam. compete a um só órgão (mono . O gover­ no é a dinâmica do poder. mas seu poder seria limitado no tempo e pela lei. a monarquia foi. o presidente da República. encarnado apenas pelo presidente. 76 e 84. arts.1. Cria­ ram. deu bons frutos. Isso não ocorre no parlamentarismo. impediu o arbítrio sempre laten­ te na monarquia. entretan­ to. uma espécie de monarquia temporária. Como visto. O Poder Executivo no presidencialismo é monocrático. Quando os reis de Roma foram expulsos. é ab­ surdo. Não respondem. portanto. às novas circunstâncias. pois a temporariedade do mandato do presidente. governa. sua pátria-mãe. art. pois a forma monárquica de governo é sempre vitalícia.174 Teoria Geral do Estado seus elementos constitutivos. Por isso e que se diz que o presidencialismo é o regime de governo em que a chefia de Estado (representação do Estado) c a chefia de governo (administração) são encarnadas num só órgão. as figuras de che­ fe de Estado e de chefe de governo confundem-se no presidencialismo (Constitui­ ção do Brasil. Quanto à expressão forma de governo. a uma simples monarquia limitada por um parlamento. Os norte-americanos perceberam que seria difícil transplantar. Independentes as colônias. de certa forma. no qual as figuras de chefe de Estado e de chefe de governo são distintas. quem exerce o poder.um ). com as instituições da Inglaterra. e nem por isso deixaram de adaptá-la. então.

Unidades fe­ deradas mais populosas. Antes dc referido aditamento. vice-reis e corregedores. um colégio eleitoral que vai. em man­ dato imperativo. O presidente norte-americano é eleito para um mandato de qua­ tro anos de duração (Constituição dos EUA. Tal princípio. em definitivo. o presidente poderia ser indefinida­ mente reelegível. I). Neste livro. 2o. 14. têm direito a um maior número de votos do que entidades menos populosas. elaborado por Heródoto. Lembra oportunamente Duvcrgcr que a relativa frieza demonstrada pelos Es­ tados europeus quanto ao regime presidencialista é decorrente sem dúvida. 2o) excluem a possibilidade de dissolução do Legislativo pelo Executivo e vice-versa. do monarca.1). embora desde George Washington . § 3o. Com efeito. Aristóteles.que se recusou a disputar um terceiro mandato e a aceitar o próprio título de rei que alguns admiradores lhe que­ riam outorgar . realizada justamente para derrubar o poder pessoal. como ocorre nos EUA. 2o.fosse criada uma tradição respeitada por todos os presidentes. facilmente deformado pelo caudilhismo. a tripartição de Poderes não é apenas divisão.1). 22. art. na América Latina. Por outro lado. cm cada Estado-Membro. a escolha dos ministros não depende do referendo do Legislativo. Nos EUA a eleição presidencial é feita em dois turnos: no primeiro os eleitores escolhem. Ao cacique sucederiam conquistadores aventu­ reiros. bem como os líderes da emancipação. art. A separação e a independência dos Poderes (Constituição do Brasil. Tanto nos EUA (Constituição. 5) como no Brasil (Constitui­ ção. é contradiço na obra capital do presidencialismo e do fede­ ralismo norte-americanos: O federalista. no caso. aquilo que repelia o presidencialismo na Euro­ pa seria o motivo de sua imediata adoção na América Latina: o poder personaliza­ do nos caudilhos. via de regra. de Hamilton. a).. contudo. mas também equilíbrio. ora de um. art. Daí o interesse dos candida­ tos em captar votos nos Estados-chave. plasmando. a inclinação do latino-americano para regimes de caráter autocráti­ co. A tripartição de Poderes é apanágio do regime presidencialista. O vasto império dos incas. Seção 1. Seção I. Madison e Jay. embora a delegação de atribuições de um Poder a outro seja uma realidade. ora de outro Poder. Daí o fascínio do presidencialismo. 12. .. § 3o. Locke e definitivamente sistematiza­ do por Montesquieu. a tradição liga-se à psicologia para tender ao poder pessoal. Illinois e Ohio. sedimentado ao longo de séculos sob o poder férreo de monarcas absolutos. como Nova York. Cícero. até Roosevelt. art. votar no candidato da preferência de seus eleitores. e tal mandato não poderá ser renovado por mais de uma vez (Emenda à Constituição dos EUA n. no Brasil. é exigida a idade mínima de 35 anos para o exercício das funções presidenciais. foi substituído pelo poderio espanhol e seus vice-reis. à ideo­ logia liberal da Revolução Francesa. sendo que a Lei Magna brasileira estabelece que o presiden­ te deverá ser brasileiro nato (art. embora a prática demonstrasse a inevitabilidade da predominância. VI. Por isso se diz que na América Latina seguem-se homens e não ideias.7 Regimes de governo 175 regime no qual os ministros integram o próprio Poder Executivo. Ora.

prccatados dos excessos do absolutismo na França. quando foi revogada pela Emenda 11. as correntes socialis­ ta e antiburguesa. 25. Depois da insurreição de 1964. então. Tradicionalmente.01. 102). a partir daí. corporifica o Estado-providência: [. bem como registrado em partido político (CF. 1. para os ideólogos do liberalis­ mo clássico. ser brasileiro nato (CF art.] muda a concepção da missão do Estado. ativamente. não educando c não sen­ do ético.1961 a 23.. 4. mediante uma in­ tervenção mais incisiva na esfera individual. com breve interregno parlamentarista (Emenda 11. de forma monocrática. art. ensejada pelos anseios populares e pela atuação in­ cisiva de personalidades de escol do pensamento liberal. praticamente sem interrupção. com o advento da Emenda Cons­ titucional n. dando-se a eleição. o bem-estar social. § 3o. Difunde-se e consagra-se o entendimento de que o Estado não deve apenas assegurar a liberdade. num só turno. o presidente. Deve. 6). 77. da Constituição. Do século XVIII para cá. 1a VI. costumava o grande pensador católico Bossuet afirmar que “o Estado que pretendemos fraco demais para não nos oprimir tornou-se fraco demais para nos defender”. não computados os em branco e os nulos. bem como a propriedade individual. na concepção de Ferreira Filho. Dc janeiro de 1963 em diante o poder monocrático do presidente da República con­ solidou-se ainda mais. cm sessão pública e mediante votação nominal. De 1822 até hoje o Poder Executivo no Brasil foi exercido. com suas . o presidente sempre foi eleito pelo sufrá­ gio popular. que. o presidente passaria a ser eleito mediante voto direto e secreto. concorrendo com o segundo candidato mais vota­ do. § 3°.176 Teoria Geral do Estado Finalizando: 110 Brasil.09. a).05. direito majoritário. em decorrência da difusão das ideias so­ cialistas e do próprio catolicismo social. Realmente. o Estado deveria ter como única missão preservar a inviolabilidade da pessoa c a iniciativa privada no setor econômico.1985. deverá subme­ ter-se a uma segunda votação. 14. A Constituição de 1824 conferia a chefia do Executivo ao imperador (art. 12.1963. De 1891 a 1961 é evidente que nosso Poder Executivo foi monista. O art. estar 110 gozo dos direitos políticos. a eleição indireta foi a preferida. deixando a cada um. §§ 2° e 3°. Surge. 74 da Constituição Federal de 1969 dispu­ nha que o presidente seria eleito pelo sufrágio de um colégio eleitoral. o mundo passou por grandes trans­ formações. surgiram novas necessidades sociais e.2) Presidencialism o histórico e direito comparado Referindo-se ao Estado liberal. pressionando os governos a deixarem a postura de inércia do État gendarme e a promoverem. o poder pessoal tem uma longa tradição histórica. entretanto.. com estas. conhecido como “Nova República”. de 15. que vi­ gorou de 02. O candidato vencedor que não obtiver maio­ ria absoluta de votos. conforme determina o art. que dariam vida ao perío­ do que vivemos. Entretanto. por maioria simples. 1). a democracia providencialista.

por aqueles “que nunca se aposentam e raramente morrem”. mas também o bem-estar de todos. já que somente nesta concepção o homem estará plenamente realizado. A Suprema Corte nor­ te-americana. Os novos tempos. da norma em si. parcialmente em descompasso com os novos tempos. formada.7 Regimes de governo 177 próprias forças. Trata-se da supe­ ração da nomocracia (g. Estados em desenvolvimento. Os juizes da Suprema Corte seriam a personificação da nomocracia. as decisões eram tomadas pela maioria pre­ cária de cinco contra quatro votos. Magistrados conservadores. advertia Rooscvclt que. Ao contrário. vale dizer. tudo isto é aparência: o presidente dos Estados latino-americanos se mostra. pro­ venientes em grande parte da aristocracia sulista. chegaram. uma Constituição não deve visar apenas a liberdade. nomos: norma). téleios. renova-se a concepção medie­ val de que o estado tem por missão garantir para todos o bem-estar. final). manteve-se como tendência dominante nas Constituições americanas. no período de cinco anos. aqui. O fenômeno descrito surge. Para intervir de maneira determinada o Estado carece de dois pressupostos: ra­ pidez nas decisões e conhecimento técnico das questões. uma vida huma­ na e digna. em não reconhecer validade às leis do Congresso. um sol ao redor do qual giram as forças sociais. atualmente. a anular 377 leis! Mesmo assim. especialmente por termos. que as novas medidas que tomariam despertariam a aver­ são da Suprema Corte. de caráter fortemente intervencionista. expressamente. para reproduzir o velho conceito tomista acerca da essência do bem co­ mum. ironicamente. Por isso. penoso e inquietante. como queria o pensamento de Bolívar. sob o pesado fardo das questões econômicas. pois se lhe outorga um amplíssimo poder para dirigir o gover­ no. a conquista do bem-estar. contudo.3) Presidencialism o versus parlamentarismo na Am érica Latina O regime presidencialista. porque não estavam previstas. Assim. 1. timbrou. five to four e profligadas num panfleto intitulado Government by Judieiary. passando a ser denominadas. embora num atavismo tipicamente rousscauniano as Constituições ame­ ricanas timbrem em colocar o Legislativo antes dos demais poderes. com efeito. é intuitivo que a fun­ ção executiva se torna a mais qualificada para esta nova missão. tam­ bém a América Latina sofreu a influência ideológica e institucional do Estado in­ tervencionista. adotado desde logo nos primórdios do constitucionalismo latino-americano. pela telocracia (g. Ora. de forma cristalina. Este percebeu. a predominância da finalidade da lei. O processo desenvolvimentista. ou seja. confrontada pela telocracia do Executivo. não se circunscreveram aos Estados Unidos. desde logo. fundamental no Estado moderno. para ser legítima. Os poderes atribuídos ao presidente vão muito além da função mera­ mente representativa. na Consti­ tuição. com o advento da política do New Deal do Presidente Rooscvclt. traz consigo a inevitável aporia . uma vez que aquela mal se adapta a reger a política econômica. de Budin. segundo alguns.

assim.. os quais. os chamados mecanismos anticaudilhistas. v. e a do Uruguai.. de 1933. g. foram substituídos por caudilhos militares e. havia condições favoráveis ao parlamentarismo. Em tal sentido. o resultado de uma longa evolução consuetudinária. Não obstante isso. 1859 e de 1867 do Haiti. enunciação expressa das atribuições presidenciais. a do Peru. o princípio da irrelegibilidade constitui a conquista mais signifi­ cativa do constitucionalismo. edu­ cacionais. a da Bolívia. na verda­ de. depois. sequer o mencionava. firma-se a tendência de conside­ rar o presidente da República o principal órgão propulsor do desenvolvimento na­ cional. agrários e previdenciários. No Brasil tivemos experiências parlamentaristas entre 1838 e 1889 e de 1961 a 1963.1917. em várias Constituições encontraremos diversas nuanças parlamentaris­ tas. reação contra o excessivo poder presidencial: redução da duração do mandato pre­ sidencial. marcando o ad­ vento do Estado do bem-estar social neste continente. que estabeleciam que os ministros poderiam ser censurados pela Câmara dos Deputados e. tal característica. Sob o impulso das correntes socialistas que floresceram na Europa do século X IX . O primeiro período parlamentarista brasileiro. uma herança significativa para o direito constitucional. então. Diga-se o mesmo da Constituição equatoriana de 1878. que intro­ duziu o voto de censura que subsiste em textos posteriores. incorporação ao presidencialismo de alguns institutos parlamentaristas etc. cláusula antirreeleicionista. O Executivo latino-americano distingue-se por seu acentuado caráter unipessoal. e. de 1825/30. Em contrapartida. de 1931/37. Até o momento. conferem atribuições importantes ao presidente para intervir nos problemas econômicos. 123 e segs. as da Venezuela de 1864. embora velado: . 1845. por isso. um valioso ensaio de José Miranda considera o enfraqueci­ mento e a constrição do Executivo como uma das tendências mais recentes do constitucionalismo latino-americano. Na verdade. desenvolvimento nacional e justiça social”. a de Honduras.178 Teoria Geral do Estado “democracia liberal. as Constituições latino-americanas. os latino-americanos jamais demonstra­ ram uma inclinação maior. em maior ou menor grau. Enquanto o presidencialismo enseja uma centralização considerável do poder e proporciona instrumentos de controle ao governante. a in­ serção dc uma ordem econômica e social no ordenamento jurídico. estavam obriga­ dos a se demitir. o parlamentarismo parece muito complexo para nações que ainda não alcançaram um amadurecimento político indispensável. com a in­ dependência. pelos caudilhos civis. autoritários. Aqui.1874 e 1891. procede de uma arraigada tradição: nas épo­ cas indígena e colonial tivemos executivos fortes. Relativamente ao parlamentarismo. a Constituição me­ xicana de 31. como vimos. na América Latina. atualmente. inaugurou. em seus arts. no Novo Mundo.01. foi. o parlamentarismo deixou. sendo que. pois a Constituição não previa o regime parlamentarista. como vimos. de 1934. se propugna o retorno ao parlamentarismo como regime de governo em nosso país. de 1838-1889. Outras Constituições que adotaram institutos do parlamentarismo: as de 1806.

Numa primeira fase do militarismo latino-americano. eram considerados um tanto extra­ vagantes e pouca influencia exerciam nos acontecimentos. houve nada menos do que oitenta mudanças mi­ nisteriais. o regime parlamentarista foi definitivamente extinto em 1925. Nos Estados latino-americanos. já se per­ cebe. improvisadas. tendo a Constituição por este criada per­ durado até a queda de Allende. denominada pretoriana. se confunde com o órgão. dc cem questões que afligem o Estado. os militares transformaram-se em ver­ dadeiros árbitros ou tutores do poder político velada ou ostensivamente. 1. que. e por seus representantes mais significativos. elementos mais radicais ou exaltados. o Poder Executivo latino-americano. que não seria de se preocupar com os problemas políticos. c claro que os problemas sociais te­ nham a sua solução retardada. embora rara­ mente o proclamassem. As Forças Armadas eram. ao próprio presidente da Rcpública. então. Particularmente. Dessa forma. bem como pela introdução da tec­ nologia em seus quadros. na maio­ ria. motivada especialmentc pela decadência do militarismo caudilhista. pois. 99 se resolvem por si só e uma não tem. sem dúvida. Desacreditado. sc as condições políticas do jogo parlamcntário não permi­ tem a continuidade dc uma política ministerial. submetidas à vontade do caudilho. Havia. cm maior ou menor escala. indiretamente. c quando dizemos “Poder Executivo” estamos nos referindo. incipien­ tes. no Chile foi agitada a política parlamentarista: os partidos políticos aumentaram em número. situamo-nos na época da emancipação. Despreparadas e desprovidas de espírito profissional. Por volta dc 1880. Dizia-se. . militarism o e Igreja na Am érica Latina Não podemos deixar dc registrar duas forças sociais. fatores reais do poder para empregarmos uma expressão típica de Lassalle . acumulando-se e ensejando as criscs.4) Presidencialismo. com o conseqüente surgimento de governos civis.7 Regimes de governo 179 A geração de homens públicos que criou a constituição do império era. por iniciativa do Presidente Alessandri. Constituem as Forças Armadas o fator real de poder de maior peso na Amé­ rica Latina. surge a época do profissionalismo. daí a im­ portância de se mencionar o fenômeno. solução. Tais elementos. contudo. real­ mente.que pressionam. São estas forças. em última análise. as Forças Armadas e a Igreja. formando coalizões fugazes e desmoralizadoras para o regime: entre 1891 e 1920. ironicamente. estavam sempre prontas para motins e quarteladas. pelo desenvolvimento econômico c pela estabilização po­ lítica. partidária do regime monárquico parlamentário e moderado. que preconizavam uma democracia avançada e sonhavam com a república. então. em 1973.

sobrevêm a Grande Depressão. 180. da Constituição argentina. logo depois os norte-americanos substituiriam. haja vista o art. haja vista os arts. ceram . prestígio este que já foi imenso. mencionam-se as que declaram religião oficial a católica. as que obrigam o Estado a celebrar concordatas. 190 c os Capítulos III e IV da venezuelana. como um fator de poder que rapi­ damente se politiza. Seus instrutores foram. duverger de - Louis. 184. necessária. §§ 14 a 17. pois estão convencidos de que sua participação política é. 172). 1957. 53 da Constituição colombiana e 6° da Cons­ tituição do Paraguai. apoderando-se do poder e não mais se conformando em simples­ mente restaurar o regime para entregá-lo aos civis. haja vista a Constituição do Império exigir. 2° e 86. então. inicialmente. X III. Itatiaia. 76) e do Paraguai (art. Quanto à Igreja. Os regimes . En­ tre tais normas.180 Teoria Geral do Estado Com a profissionalização. e dispondo delas para a segurança interna e externa do país. da argentina. Outras Constituições. definitivamente. as que concedem franquias tributárias à Igreja. no art. 189 e 193 da nicaraguense. III. embora não referentes a este de maneira expressa. determinando que aquele será seu co­ mandante-em-chefe. então. da Constituição brasileira. 86. Los hititas. na América Latina. sem dúvida. as Forças Armadas adquirem esprit de corps. o art. . da panamenha. Uteha. desfru­ ta. da mexicana. da Constituição boliviana. a defesa do Estado contra a agressão externa. 9° e 14. Em outras Constitui­ ções. § 11. ensejando normas que orientam e limi­ tam a atuação do Executivo. 55. o art. de relativo prestígio junto ao Poder Executivo. Em 1929. embora não incisivamente como as Forças Armadas. 164. A partir de então desejam gover­ nar. criam medidas para refrear os arroubos do militarismo. a Igreja ainda joga importante papel. 1957. XV. os europeus neste mister. a profissão de fé católica para o exercício da função de senador. estabelecem uma teia indissolúvel de articula­ ções entre o presidente e as Forças Armadas. o art. México. C. Belo Horizonte. entretanto. sendo instruídas para o desempenho de sua principal missão. 2) PARLAMENTARISMO Bibliografia: LAPORTE. da dominicana. Maurice. militares e técnicos alemães c franceses. c o art. além de nomear seus principais oficiais. §§ 8o. agora. atuarão as forças policiais necessárias”. IV a VII. preceito este seguido pelas Constituições da Argentina (art. o art. da equatoriana. 89. 84. 12: “ Fica proscrito o Exér­ cito como instituição permanente. da paraguaia. art. 2° e 94. o art. W. o sistema capitalista entra em crise. § I o. §§ 15 a 17. é o caso da Constituição da Costa Rica. As Constituições. por sua vez. os arts. considerável poder de controle sobre as Forças Armadas. e os militares surgem. 95. Para a vigilância e conservação da ordem públi­ ca. exercendo. §§ 15 a 17. os quais modernizaram o aparato bélico e a administração militar. o art. O segredo dos hititas.

çalves. mas eram de origem indo-europeia. 1961. lho m a c k f . há parlamento no Brasil. Difusão Européia do Livro. como os frígios e os celtas. Estado. No Êxodo (3.7 Regimes de governo 181 políticos. . 1982. se a forma do go­ verno for a monárquica.1) desposara mulheres hititas. Embora. como faz Maurice Duverger. Manoel Gon­ g io r d a n i. as origens históricas das práticas parlamentaristas são. que um regime parlamentar não é. 1986. uma vez que a chefia de governo e atribuída ao presi­ dente da República. Saraiva. Saraiva. os hititas. 8). José. Esaú (Gênesis 26. The English parliament. e importante notar. nos Estados Uni­ dos e na Suíça. O que é parlamentarismo? São Paulo. São Paulo. os hititas são mencionados como um povo felizardo que ha­ bitava uma terra na qual brotavam o leite e o mel. Mário Curtis. O protótipo do regime parlamentarista é o parlamentarismo britânico. São Paulo. que tinham. mes- . ao rei.n z i e . ed. História da antiguidade oriental Petrópolis. Pouco mais do que isso era ditado a respeito dos habitantes do “país de Hatti”. mas não há parlamentarismo. mas não há parlamentarismo. salvetti n e t t o . Exemplificando. a sua consagração definitiva. Necessário notar. muito mais antigas do que sc pensa. Penguin Books. Habitaram a Ásia Menor. Curso de direito constitucional 11. 1963. e por exemplo. Kenneth.. a partir do século passado várias expedições arqueológicas começaram a comprovar que os hititas desempenharam papel dos mais importantes na histó­ ria política da Antiguidade oriental. Vozes. incidentalmente mencionado na Bíblia. em que há um parlamento (Congresso). Fixados naquela região desde o segundo milênio antes de Cristo. f e r r e ir a f il h o . Entretanto. São Paulo. constituinte e Constituição. ao passo que a chefia de Estado (representação do Estado pe­ rante outros Estados) é confiada ao presidente da República ou. 5. São Paulo. 34-35) e Salomão (3 Reis 11. Mário Curtis Giordani apon­ ta alguns trechos dos Livros Santos que mencionam os hititas (Gênesis 23. Pedro. United Kingdom. Vejamos. ed. que buscou. 25. l in d o s o . as instituições parlamentaristas encontrem. como o presidencialista. Assim. Curso de teoria do Estado. Até pouco tempo. origem indo-europeia. Elas poderiam ser identificadas como um povo da Antiguidade oriental. na Inglaterra. foi ardentemente desejada pelo rei David. mulher do hitita Urias. r o d r ig u e s alves f i­ F. a nosso ver. Parlamentarismo é o regime de governo em que a chefia de governo (adminis­ tração) é confiada ao próprio parlamento . como visto. Betsabé. eliminar seu marido.daí a expressão parlamentarismo sen­ do exercida por um primeiro-ministro que comanda um gabinete formado por ministros auxiliares. 3-20. 1982. um regime parlamentarista. por todas as formas. 1968. 1966. os hititas nada mais eram do que um povo obscuro. que apresenta uma longa evolução histórica.. 9 e 49. pois há regimes. Saraiva. 29-32) sobre o episódio da compra de um terreno sepulcral por Abraão. necessariamente.

da Ásia Central e Ocidental. O caráter dc indo-europeu atribuído aos hititas parece ter mais conotação lin­ güística do que racial. que integra­ va os domínios hispânicos. tal concepção política é inteiramente estranha às outras monarquias orientais. sendo rigidamente controlado pela assembleia. já no século IX. mesmo. bem como da maior par­ te da Europa. veremos que também as ins­ tituições hititas apresentam forte conotação ocidental. que provou existir um grupo dc idiomas que. evitando. apresenta. no latim edo. milhares de anos mais tarde. O regime político era o monárquico. a realeza seguiu. os hititas buscavam. provavelmente. Nem por isso alguns autores deixam de ver as origens do parlamentarismo moderno na Espanha e Portugal medievais. ao país. após a morte do rei.até as conclusões levadas a efeito por Friedrich Hrozny. indo-europeus. implorando por água: alemão/vasser = hitita!vâder. com o estabelecimento do Foral de Sobrarbe. de resto. Ademais. como ocorria em Astúrias e Leão. o monarca hitita não era dotado de poder abso­ luto. a ponto de se afirmar que um alemão contemporâneo compreenderia. também as instituições parla­ . formando o então denominado Condado Portucalense. por incluir línguas da índia. A palavra comer. as Cortes podiam. Os hititas. o sistema de cooptação. como visto. e deste continente trouxe­ ram instituições que. Mesmo que deixemos de lado o fator lingüístico.. que daria origem. Mesmo sua atitude para com os povos vencidos denota um elogiável humanitarismo c um sábio tato diplomático: ao invés de massacres odiosos. deliberar so­ bre matéria fiscal. selar a união com seus vizinhos. As instituições políticas hititas nada têm em comum com as dos povos semi­ tas. Desde os estudos dc Franz Bopp . Em Portugal. mediante matrimô­ nios reais. Na Espanha. que no inglês é eat. de origem asiânica (esta palavra designa os povos da Ásia Ocidental que não são semitas nem. vetando a criação de novos impostos. Em terras hispânicas. muitos aspectos obscuros do idioma hitita foram esclarecidos. como aqueles que levaram a efeito os terríveis assírios. até a consolidação do despotismo monárquico no século XVI. A princípio eletiva. que comprovou ser o hitita também um idioma eu­ ropeu. as Cor­ tes de Aragão escolhiam para chefe Inigo Arista. estas verdadeiramente des­ póticas. que implicava o direito de o rei escolher seu sucessor junto a qualquer membro da no­ breza. perfeitamente. reuniam-se assembleias para escolha do sucessor. ademais. como. poderia ser qualificado dc indo-europeu . despertar o ódio dos vencidos em virtude de atos atrabiliários. afirmam inúmeros pesquisadores. a partir do século X I. evidentemente.linguista alemão (1791-1867). conforme adverte M ário Curtis Giordani). no antigo alto germânico ezzan. semelhança com o hitita ezzatteni. depois. o clamor de um hitita perdido no deserto. procediam da Europa. em todos os Estados orientais.182 Teoria Geral do Estado ciaram-se com populações autóctones. ressurgiriam com as modifica­ ções peculiares a cada época. Ora. embora a escolha devesse ser referendada pela assembleia denominada “pankus” ou “p a n k u s h Assim. indo-europeia.

além disso. Sendo o gabinete formado por membros do próprio parlamento. cobrando o parlamento autono­ mia sempre maior. passou a escolher. den­ tre seus membros mais ativos. desinteressou-se dc participar das reuniões do gabinete. em definitivo. com a promulgação da Declaração de Direitos (Bill of Rights). o fator de sua fraqueza. imediatamente. mas Jaime II foi deposto e. e ligado à Dinastia de Hannover. que. Daí a sugestiva expres­ são de Bertrand Russell: “O Primeiro-Ministro tem mais poder do que glória. longe do continente. No século XVI a monarquia inglesa tentou restaurar seu poder. pois do próprio parlamento dependeria a administração das Forças Armadas e a cobrança de impostos. paradoxalmente. não o falava. a monarquia tornou-se.7 Regimes de governo 183 mentares desfrutaram de grande prestígio. Retirada esta. Como assinala Maurice Duvcrger. Entretanto. Ora. que dependia de um imposto também permanente. Com efeito. não haveria outra alternativa para o rei a não ser buscar apoio do grupo majoritário para criar tributos e controlar o Exército. passando este órgão a governar. e o rei mais glória do que poder”. en­ quanto na Inglaterra. alemão de origem. recebe des­ te moção de confiança. havendo duas facções bem deter­ minadas no parlamento. as instituições políticas me­ dievais européias evoluíram de maneira diversa no continente e na Inglaterra. se entendia o inglês. acelerada por circunstâncias histó­ ricas. ocorreu o inverso. com Jorge I. limitada. um que atuasse como intérprete. pressionada por vizi­ nhos continentais. ao contrário. entretanto desejando conhecer as deliberações do gabinete. opera-se a queda do gabinete. com a monarquia ab­ soluta enfraquecendo paulatinamente. ao passo que o povo francês ajudava seu monarca a superar a tutela feudal. não se viu às voltas com tais necessidades. o poder do rei inglês foi. Este curioso fenômeno prosseguiu com Jorge II. daí a periodicidade do parlamento britânico. de tal forma que. entre­ . Na França. como resultado disso. contribuía para tal evolução. a França necessitava de um exército permanente. O surgimento do gabinete antecederia. e por isso o rei via-se obrigado a convocar o parlamento sempre que precisava de dinheiro. se ao gabinete compete a função governamental. sobrepondo-se ao parlamento. por outro lado. Com o Ato do Estabelecimento. continuan­ do o gabinete a assumir a responsabilidade pela atividade governamental. ao monar­ ca resta apenas a função representativa ou chefia de Estado. a fi­ gura do primeiro-ministro. Surge. O rei. muito forte. passando dc monarquia limitada para mo­ narquia parlamentar. por isso. A situação geográfica da Inglater­ ra e da França. por exemplo. então. já se nota que. o rei in­ glês tornou-se fraco e o da França. A Inglaterra. criou-se um impasse: o novo rei não falava o inglês c. o surgimento da figura do primeiro-ministro. no dealbar do século XVIII. o rei não poderia mais governar sem o apoio parlamentar. A partir do Bill of Rights. a monarquia feudal cederia lugar à monarquia absoluta. pois o povo e a burguesia uniram-se aos barões para minar as prerrogativas reais. Pode. com o qual os Estados Gerais foram forçados a concordar. de tal sorte que ele passou a formar um conselho (gabinete) junto aos membros mais eminen­ tes do partido majoritário.

sendo o pri­ meiro-ministro líder da maioria. formam o gabinete são. Na prática. se a primeira Constituição brasileira. chefe do partido majoritário. conclui-se que o parla­ mentarismo inglês apresenta quatro características marcantes: a) responsabilidade política do gabinete. A Câmara dos Co­ muns possui maior ascendência que a dos Lordes. durante o Segundo Império. Im­ portante notar que os ministros que assessoram o primeiro-ministro e que. pois os gabinetes não ultrapassavam. havendo rejeição. no mundo moderno rara é a lei importante que não tem caráter finan­ ceiro e. b) gabinete formado com os membros do partido majoritário no parlamento. confere o direito de participação da Câmara dos Lordes (pariato). de direito. a Câmara dos Comuns pode recolocar o pro­ jeto vetado em nova votação. São ór­ gãos essenciais ao parlamentarismo inglês. em média. o fato é que. expressamente. todos. treze por hostilidade da Câmara ou por falta de apoio parlamentar. em face da ingerência deste na Adminis­ . No Brasil. além disso. como faz ver Pedro Salvetti Netto. representada pelo sistema da guilho­ tina. o gabinete e o parla­ mento. como observa Pe­ dro Salvetti Netto. se ocorrer dissídio político entre os dois órgãos. o gabinete dissolver o parlamento e convocar o povo para eleições gerais. Durante meio século de Segundo Império. Já naquela épo­ ca. se os debates ameaçam ultrapassar o prazo fixado para as discus­ sões. em­ bora seja o rei que designa os membros do gabinete. constatavam-se práticas parlamentaristas no País. pelo qual. pois esta não tem outra missão a não ser rejeitar os projetos votados pelos Comuns que não tenham caráter finan­ ceiro. pode o speaker (presidente) trancar a discussão e aprovar a emenda que con­ siderar a melhor. Nota-se. fatalmente será ele quem escolherá seus ministros. entre 1961 e 1963. não previa. já por volta de 1827. mas sem­ pre referendando as decisões previamente tomadas pelo gabinete. solidariamente responsáveis pelas deliberações tomadas. caíram cinco ministérios devido a moções de descon­ fiança da Câmara dos Deputados. a Coroa apresenta inúmeras prerrogativas: nomeia funcionários civis. dois anos de duração. com este. militares e eclesiásticos. o incipiente parlamentarismo brasileiro caracterizava-se pela instabilidade mi­ nisterial. Ora. líder do gabi­ nete. Em tese. o regi­ me parlamentarista. a segunda. portanto. de fato. aos quais se junta o Poder Judiciário. A primeira.184 Teoria Geral do Estado tanto. O parlamento é formado por duas câmaras: a Câmara dos Comuns (eleita por su­ frágio universal) e a Câmara dos Lordes (nomeada pelo rei). Do exposto. Eis por­ que a opinião pública constitui o fundamento do regime parlamentarista inglês. c) primeiro-ministro. tivemos duas experiências parlamentaristas. Com efeito. atribui condecorações. e 22 simplesmente retiraram-se do poder por desentendi­ mento com o imperador ou por mágoa. a verdade ê que. Importantíssimo ressaltar a severidade na exigência da tramitação mais rápida dos projetos de lei. portanto: a Coroa. de 1824. que ao povo se atribui a decisão definitiva e irrecorrível. por influência do sistema político inglês. tor­ nando impossível o planejamento de um programa administrativo. d) gabinete exercente das atribuições inerentes à chefia de governo.

que ficaria a cargo do gabinete. insatisfeito com a situação. João Goulart. de 02. o regime parlamentarista é propício apenas aos sistemas bipartidários. nos quais não ocorre a fragmentação indesejável da opinião parlamentar e. votado o Ato Adicional (EC n. as Forças Armadas. panaccia que permitiria a posse de João Goulart. o Presidente João Goulart. que consagrou o retorno ao regime presidencialista. a estabilidade ministerial é muito maior. Com efeito. com a revogação do Ato Adicional. então. . portan­ to. motivada por um casuísmo desmoralizador do regime. Entretanto. O resto é história.implantação do parlamentarismo entre nós ocorreu cm 1961. a renúncia de Jânio Quadros ensejaria a imediata ascensão à presidência do vice.7 Regimes de governo 185 tração. Por isso. mas ao mesmo tempo sua total imobilidade quanto a uma efetiva função governamental.e também frustrada . A segunda . Foi. a existência dc apenas dois partidos que efetivamente decidem as eleições. e seus seguidores pressionaram as lideranças par­ tidárias para que fosse adotado o regime parlamentarista. depois. muitos autores apontam o sucesso do parlamentarismo inglês como o resultado de dois fatores peculiares aos anglo-saxões: uma profunda consciência nacional demonstrada no respeito às tra­ dições políticas c às instituições c. Enfim. 4. Ape­ nas quinze meses após.1961). es­ timulou e obteve a realização de um referendo popular. preocupadas com as tendências esquerdistas do novo presidente. que instituiu o parlamentarismo.09.

. Casa Editorial. em face do exposto. em 1801. A ideologia se caracteriza. Barcelona. Em outras palavras. Dirige-se às massas. Ideologia.. volta-se muito mais para os que “atendem” que para os que “entendem”. justificando-a. Como assinala com clareza Jordi Xifra [. expressa-se de forma simplificada. c a ponte que une a teoria à prática. Terry. Toda ideologia tem as vistas voltadas para a ação. Trata-se de um princípio ativo destinado a atuar sobre a realidade social. O termo ideologia foi criado por Destut de Tracy. pela ação direta. criando-a. São Paulo.. 2004. M adrid. Las ideologias dei poder en la Antigiiedad. Mestre Jou.. Dicionário de filosofia>2. 1982. eagleton . Bosch. São Paulo. marxista e tantas mais. mas princi­ palmente sobre as ações a serem levadas a efeito sobre esta. Jordi. Editorial Tecnos. rudimentar.. fala-se em ideologia burguesa. o pen- 186 . simples­ mente. Uma ideologia política vem a ser um sistema de crenças aceitas como verdades inelutáveis. mesmo. 1997. Nicola. portanto. ed. expressando o clima social e o esta­ do de ânimo próprio de uma sociedade concreta. nesse sentido. age como um motor que gera a força motriz da História. irracional. 1983. modificando-a ou. Ideologias políticas. x if r a Robert e outros. certo falseamento da reali­ dade. totalitária. denominando a “análise das sensações e das ideias”. Trata-se de uma concepção pecu­ liar do mundo c da Humanidade e. li­ beral. . muitas vezes violenta.8 IDEOLOGIAS 1) CONCEITO DE IDEOLOGIA Bibliografia: a b b a g n a n o . e c c l e s iia l l . tolerando.] a ideologia não é apenas um sistema de ideias sobre a ordem social. Unesp/Boitempo.

1985. portanto. um lugar inexistente. m os São Paulo. Atua como uma filosofia militante que norteia o desenvolvimento de um sistema sociocultural. 7. Bouthoul. na mesma linha Karl Mannheim. subver­ tendo. assim é que já Mit-sé (Micius). engels. foi verberado severamente pelos marxistas. c topos. Ezequiel atribui a Jeo­ .8 Ideologias 187 sarnento à ação. Rio de Janeiro. Que é uma utopia ? Esta palavra é forma­ da por dois semantemas gregos: w. Histórias das doutrinas políticas. ed.. Vejamos algumas ideologias que fizeram escola e agitaram as massas. Júcar. O socialismo utópico. Reconhecem os marxistas que alguns socialistas pré-marxistas teriam percebido as contradições inerentes ao capitalismo e que a propriedade privada deveria desaparecer. jo u .C. Max. O certo é que o ideal socialista sempre despertou a atenção de filósofos e po­ líticos. D aí Marx jactar-se de opor. Segundo a doutrina marxista.. a respeito da qual trataremos mais adian­ te. ­ Gaetano e g a s t o n . por completo. enfim. na pretensão de cientificidade de seu socialismo autonominado “científico”. não sou­ beram. que a ausên­ cia dc amor recíproco entre os homens era a fonte dc toda a miséria. desprezado por Marx justamente por ser utópico. pensador da Renascença que imortali­ zou o vocábulo cm obra famosa Utopia. sempre a serviço do status quo. 1975. a luta de classes. mas também equivocadas. O luxo c a de­ sigualdade social deveriam scr severamente combatidos. e Louis Althusser que considerava incompatíveis ideologia e ciência. James. ignorando. designando. na China. La anarquia a través de los tiempos. Friedrich. O primeiro pensador a empregar a palavra como modelo político teria sido Thomas Morus. Barcelona. justamente. vários trechos da Bíblia estão impregnados de ideias socialis­ tas: Jeremias clama contra “os gordos a luzirem gordura”. Global. Grijalbo. interpretar cientificamente os fatos sociais. afirmava. a um socialismo utópico. do modo de produção econômico. a ordem estabelecida. simplificadas. mas es­ tes socialistas não souberam explicar o modo de produção do capitalismo. tem a ideologia como um complexo dc concepções falsas.. Por outro lado. o grande erro dos socialistas utópicos vem a ser. em maior ou menor escala. O marxismo. irracionais. que viu nas ideologias concepções não só conservadoras. lugar. Madrid. 500 a. imaginário. Los anarquistas. nettlau. 1978. enfim. a im­ portância da vida material. Do socialismo utópico ao socialismo científico. 2) SOCIALISMO UTÓPICO Bibliografia: ca. negação. 1977. a idealização de vastos planos de reconstrução social sem levar em con­ ta a vida real da sociedade. Zahar. seu socialismo científico.

de forma que o pai não viesse a conhecer o filho e vice-versa. afirmando a igualdade natural de todos os homens e sugerindo a supressão da propriedade. pois Platão vi­ sava à participação da mulher. Por outro lado. Isaías sonha com um reino de paz e dc justiça. indiretamente. ao lado do homem. segundo ele. considerado santo por ter recusado a acei­ tar o casamento do rei Henrique VIII com Ana Bolena. o aban­ dono da cultura agrícola com a transformação dos campos em pastagens de ove­ lhas. admitindo. Acusado de alta traição. com vistas à florescente exportação de lã para o exterior.C. pois Pla­ tão estava convencido de que os males que afligem o Estado não teriam fim enquan­ to os filósofos não chegassem ao poder ou os governantes não fossem filósofos. O Estado ficaria encarregado de educar o cidadão. Aos agricultores. Os filósofos nada poderiam possuir dc seu. sendo que cada homem possuiria uma gleba dc terra indivisível. contrárias ao desejo da divindade. Morus era admirador de Platão e da obra deste. após exame de seleção. Escreveu uma obra intitulada Utopia. artífices e comerciantes caberia. Enquanto as guerras contínuas enchiam o país de inválidos. Os demais pros­ seguiriam seus estudos. que. sustentar os filóso­ fos. Eu o re­ duzirei a ruínas. Platão critica as desigualdades sociais no tempo da Atenas de Péricles. 110 qual as crianças aprenderiam música. que lhes permitiria ascender à casta mais elevada e nobre. Mais tarde Platão escreveu outra obra As leis. auxiliados pelos escravos. Previa o banimento da propriedade privada e da liberdade eco­ nômica. a ruínas. apenas. permanecendo nas filei­ ras do exército aqueles que revelassem menor aptidão intelectual. roubar ou morrer de fome. foi condenado à morte e executa­ do. os jovens prestariam o serviço militar (homens e mulheres). cuja missão seria legislar e velar pela execu­ ção das leis. Isto somente seria possível pela educação. os nobres ocio­ sos tinham em torno de si inúmeros criados. Aos quatro anos de idade seria iniciada a educação da criança. abaixo com os orgulhosos. Na mesma época de Mit-sé (século V a. por morte do amo.o da educação -. 110 qual “o lobo repousará junto ao cordeiro e a pantera ao lado do cabrito”. nos problemas políticos. Em sua obra A república. e estas seriam comuns a todos. Fariam.) surge. passavam ao abandono e ao dilema de furtar. um pregador de nome Mazdak. critica a situação econômica da Inglaterra de sua época. fez com que houves­ . Após um curso geral. um curso de filosofia política. bem como da família. instituições humanas que seriam. receberiam o sustento da classe trabalhadora e deveriam residir em habitações coletivas com as mulheres que lhes fossem destinadas pelo Estado. cuidando do problema maior do Estado . a propriedade privada. para o socialismo. sem separação de sexos. inalienável e transmissível hereditariamente apenas.188 Teoria Geral do Estado vá estas palavras: “para cima com os humildes. com reservas. na qual se mostra mais realista. a ruínas!”. então. matemática e história. Thomas Morus: humanista inglês. na qual. visando preencher cargos públicos. desde a mais tenra idade. a dos filósofos. na Pérsia. mediante o repúdio da rai­ nha Catarina de Aragão.

da indústria e do ensino. o ouro e a prata não possuem utilidade real e constituem um perigo para a vida so­ cial e intelectual. dispensada estava a moeda. compromete toda a beleza e o ornamento do Estado. Somente 110 reinado de Henrique VIII foram enforcados 72 mil ladrões. passar um ano na cidade e dois 110 campo. O divórcio existe para os casos de adultério. dividida em cinqüenta e quatro distritos. com todas as suas seqüelas: miséria. A família deve ser conservada. . mas cada um aprende um ofí­ cio extra. Thomas Morus não admite a comunhão sexual de homens e mulheres preco­ nizada por Platão. As casas são redistribuídas de dez em dez anos. A monogamia é pa­ drão em Utopia. Ca­ da distrito tem na sua parte central uma cidade espaçosa. Os filarcas. Cada grupo de trinta famílias escolhe seu chefe. em de­ trimento dc outras. à fabricação de grilhões para os escra­ vos. o príncipe. até para os filósofos. quando muito. por sua vez. da Calábria. Campanella acatava as ideias de Platão. assim. Em matéria religiosa os utopistas são tolerantes. e estes. Até os 25 anos. Religioso dominicano. quando se casam. que dirige o Estado e que só pode ser deposto se tentar o cesarismo. Para evitar a concentração excessiva de pessoas em certas áreas. o grande mal da Humanidade é a propriedade pri­ vada. Entretanto. Não havendo comércio em Utopia. Thomas Morus volta-se indiretamente contra este esta­ do de coisas ao escrever Utopia. A mudança de residência depende dc autorização. o atrativo físico é importante”. Existe na ilha a escravidão. na mulher. os adúlteros e os prisioneiros de guerra. embora eficaz em ter­ mos objetivos. porque “ne­ nhum homem será tão filósofo de ver. Morelly: em 1753 escreveu uma obra intitulada Brasilíada. Em Utopia o trabalho diário é redu­ zido a seis horas: três pela manhã e três à tarde. assaltos. todos devem dedicar uma parte de seu tempo à agricultura. e não possuem chaves. reuni­ dos. rival dos je­ suítas que seguiam Aristóteles. Para Morelly. os noivos devem apresentar-se despidos. Todos são agricultores. vadiagem. Destina-se. A terra e os instrumentos de produção devem pertencer ao Estado. e a religião. Tommasso Campanella (1568-1639): foi um pensador italiano. admite que sua Uto­ pia (o título completo da obra é Libelus yere aureus nec minus salutaris quam festivus de optimo rei publicae statu deque nova insula Utopia). As viagens ao exterior são proibidas. O próprio Morus. sendo a esta reduzidos os criminosos. fundamentada na Utopia de Morus. meramente tole­ rada. que contém os edifícios da administração. para que nelas possa entrar quem quiser. que escreveu uma obra intitulada Città dei sole. a ativi­ dades menos penosas. alguns membros de famílias numerosas são transferidos para as menos numerosas. mediante sorteio. depois. Não há desocupados a consumir o produto do trabalho alheio. o filarca. Em sua obra preconizava um sistema comunista ideal. apenas as belezas morais. podendo. porém. Utopia é uma ilha inexpugnável. Por outro lado.8 Ideologias 189 se um encarecimento brutal dos gêneros de primeira necessidade. elegem os superfilarcas. mas a mulher deve ser ouvida antes de sua decretação.

com sua frase célebre: “A propriedade é um roubo”. Afirmava que a sociedade deveria ser organi­ zada cm comunidades denominadas falanstérios. O período era de fome e o pa­ trão de Fourier. fundou no Canadá diversas cidades-modelos. Anti-Dühring. mudou radicalmente de posição cm 1757. Passou a afirmar. O regime comunista seria peculiar à sociedade primitiva. da monarquia. jurista e economista alemão. abraçando uma ideo­ logia dc forte matiz socialista. afirmando que a falta de or­ ganização do trabalho produz um enorme desperdício de forças. em caso de não ha­ ver descendência direta. mas den­ tro das possibilidades reais. para elevar os preços. Não tinha grandes ilusões. nas quais o trabalho. havia renunciado à carreira religiosa de pastor para dedicar-se ao cargo de secretário no Ministério dos Negócios Estrangeiros. até que o Poder Público assumisse o controle de toda a propriedade privada. pensamento que seria depois assimilado por Pierre-Joseph Proudhon. A partir daí a propriedade passa a ser um roubo. Toda a produção da terra deveria ser armazenada em silos públicos e distribuída entre as famílias. Considerava ser imprescindível abolir o regime de su­ cessão hereditária. muito sugestivamente. ele começa a estudar a questão social. porém. que a verdadeira igualdade não é a igualdade meramente formal ou jurídica. mas a igualdade material ou eco­ nômica.190 Teoria Geral do Estado Gabriel Bonnot de Mably (1709-1785): filósofo e historiador francês. Infelizmente. Dühring está longe de ser a figura ridícula em que Engels pretende transformá-lo na virulenta obra intitulada. Eugen Karl Dühring (1833-1921): filósofo. eis o resumo des­ . passa a trabalhar como em­ pregado de um comerciante de cereais em Marselha. Posto em liberdade. que tem como conseqüência tornar a produção inferior àquela que seria concretizada se o traba­ lho fosse cientificamente organizado. Brissot dc Warville afirma que a propriedade é um direito natural que deve ser limitado às reais necessidades de cada um. Filantropo. as obras de Dühring não têm a divulgação merecida e. com abolição da propriedade privada. não podemos deixar de fazer um reparo a esse respeito e de dizer algo de seu trabalho. devendo o Estado ser tido como herdeiro. Inteligên­ cia. um sistema como este não seria adotado em sua pureza original. e deveria ser ado­ tado pela sociedade contemporânea. Impressionado. Charles Fourier (1722-1837): preso durante a Revolução Francesa por per­ tencer ao partido dos girondinos. perspicácia e uma sólida formação intelectual enciclopédica. Robert Owen (1771-1858): foi o criador das primeiras cooperativas de pro­ dução e consumo. de acordo com as necessidades de cada uma. Inicialmente defensor do Velho Regime. a produção e a distribuição das terras eram regulados pelos prin­ cípios comunistas clássicos. nas quais a divisão do trabalho seria feita por intermédio da chamada atração passional ou vocações. por isso mesmo. Brissot de Warville: impressionado pelo rigor da legislação dos crimes contra o patrimônio (furto e latrocínio). isto é. escreveu uma verdadeira apologia do furto e do roubo. jogou ao mar enorme quantidade de arroz. então.

que logo foi interrompida em virtude de uma doença dos olhos que o deixou quase cego. Rio de Janeiro. estudou Direito. . Lisboa. Dominus. preconiza uma etapa final da evolução da sociedade. m arx . He- batalla. suas ideias começam a ganhar terreno na doutrina social-democrata. ideias que representam sérias objeções ao pensamento de Marx. cujo pensamento já está a mere­ cer um pouco mais de atenção que não seja aquela que Engels lhe atribuiu. trad. Os concei­ marx tos elementares do materialismo histórico. O marxismo. 1979. . El capitai México. Caracas. A . José Barata-Moura c Eduardo Chitas. ed. 1963. e tal refutação sobrevêm sob a forma de uma obra robusta. graças ao auxílio dc amigos. 1983. 1965. 1979. 2. Global. Paz e Terra. Lisboa. Rebatendo a dou­ trina da luta de classes. Princípios elementares de filosofia. chakhnazárov G. embora injustificadamente. ed. Alarmados. . Em 1878. 6. v. então. harnecker . sc colocamos Dühring entre os so­ cialistas utópicos. que muito o respeitava. Rio de Janeiro. Tomás. c O 18 brumário de Louis Bonaparte. Rio de Janeiro. Krássine.. 2. Friedrich. Friedrich. logo depois. consis­ tente na conciliação das classes sociais. Georges. Global. afirma uma realidade dinâmico-orgânica da vida. Progresso. mas a de seus abu­ sos. Combatendo o materialismo mecanicista.... 1983. Paul. Marta. . 1984. Nasceu perto de Berlim e. 1981. v. 3) MATERIALISMO HISTÓRICO E DITADURA DO PROLETARIADO Bibliografia: a r d u i n i . ed. 1986. Dedicou-se. Era ateu. em economia. Fundamentos do marxismo-leninismo. A dialética da natureza. Karl e e n g e l s . Marxismo e religião. Prelo. História crítica da economia política e do socialismo c Lógica e teoria da ciência. dialética. Historia crítica dei concepto de la democracia. mediante uma incisiva intervenção do movimento operário. nesta cidade. z\gir. Dentre suas obras destacam-se: O moderno espírito dos povos. São Paulo. 1959. Juvenal. iniciando bri­ lhante carreira de advogado. raldo. porém excessivamente agressiva à própria pessoa de Dühring. Publicações Europa/América. No exercício do magistério tornou-se um líder da ju­ ventude radical. e iú. ed. Karl. e foi considerado antissemita por se opor aos elementos judaicos do Cristianismo. Na verdade.8 Ideologias 191 te pensador. passando a defender o ideal da não eliminação do capitalismo. Fondo dc Cultura Econômica. O manifesto do partido comunista. Moscou. E. Dühring rompe definitivamente com o socialismo marxista. os dirigentes do partido incumbem Engels de refutar as heréticas colocações de Dühring. e Anti-Dühring. 1974. Dühring foi um teórico e um militante de real significado. ao magistério e à investiga­ ção científica. Lisboa. como já frisamos. Em 1863 doutorou-se cm filosofia c. São Paulo. 2. c a r r il l o barbuy. 1976. São p o l it z e r Paulo. engels. 2. Paz f o u l q u ié e Terra. Avante!. apenas o fizemos para efeitos didáticos. Entre 1870 c 1878. porque assim Marx o consideraria. Monte Avila. 1.

o conflito destas vai originar uma síntese. cujo contrário. filósofo do século V a. mas ao mesmo tempo a sua condição de burguês é a afirmação da realidade cuja negação. pelos con­ trários. as coi­ sas e os fenômenos estão em perpétuo movimento. Diz ele: Nós somos e. Heráclito é. e a gramática só se realiza com o contraste entre vogais e consoantes. Uma coisa é ela mes­ ma e o seu próprio contrário. originará uma antítese e assim por dian­ te.192 Teoria Geral do Estado Materialismo dialético. com justiça. O método dialético afirma a identidade dos contrários. vai engendrar uma nova tese.C. Georg Wilhelm Friedrich Hegel. é o proletário. mas também levar à compreensão. A natureza. Realmente. a ideia precede a matéria. de iní­ cio. Ela não se confun­ de com a retórica. portanto. isto é. de troca de palavras. as linhas essenciais de seu conceito de dialética. indefinidamente. Os contrários põem-se de acordo. num manual didático como este. Enquanto a retórica pretende impressionar e captar. Assim. Karl Marx (1818-1883) foi muito influenciado pelo pensamento de Hegel. luta essencial para o surgimento da harmonia. ao mesmo tempo. diz ele. por sua vez. foi com­ parado a Heráclito não apenas pela semelhança das ideias. consta de três momentos: tese. que ela produz a harmonia. Heráclito insiste na luta dos contrários no mundo da natureza. pelo que nos restringiremos a apresentar. que traz consigo os germes de seu próprio contrário. esta síntese. não somos. As coisas sc encontram cm perpétuo movimento. antítese e sínte­ se. mas também pela obs­ curidade com que as expunha. Dessa forma. enfim. en­ fim. enquanto Marx afirmava a precedência da ma­ . dos sons diversos resulta a mais bela harmonia. a dialética com­ preende o raciocínio que busca a verdade por intermédio da oposição c da conciliação de contradições.. dizia ele. encontra-se em constante mutação. Vamos desmembrar esta expressão apresentando. o criador do marxismo costumava ironizar o pensamento hegeliano pelo fato deste afirmar a precedência do espírito à matéria. não obstante isso. a pintura resulta das cores claras e escuras. a dialética bus­ ca não apenas convencer. A natureza une o macho à fêmea. O burguês é o burguês. desenvolveu a ideia dc uma dia­ lética da natureza. O processo dialético. da contradição. o pensador hegeliano é tão profundo quanto cerrado. Heráclito de Efeso. como já afirmava Herá­ clito. A uma tese opõe-se uma antítese. por isso. diálogo. A dialética é a arte da discussão. jamais com os semelhantes. A natureza aprecia os contrários. sendo. idealis­ ta. Tudo é engendrado pela luta. e é com eles. Hegel define a dialética como a conciliação dos contrários nas coisas e no es­ pírito. O scmantcma dia exprime uma ideia dc reciprocidade. o conceito dc dialética. autor da notável Filosofia da história. a música só se torna possível com a contraditoriedade dos sons graves e agudos. entretanto. que. consi­ derado o filósofo da mudança e da instabilidade.

não é mais do que o seu fenômeno exterior. cujo vértice. Em O capital. O idealismo interpreta o mundo como uma encarnação da consciência do espírito universal. Para Hegel. ad­ vertia Marx. da ideia absoluta. de maneira completa e consciente. despojado do idealis­ mo. isto é. a natureza. o processo do pensamento. o que eqüivale ao materialismo. contudo. Mas nele a dialética está ao contrário. sob o nome de ideia. é precisamente seu contrário. Assim. Para que o pensamento hegeliano se tornasse perfeito. processo autônomo. Para Hegel.8 Ideologias 193 téria sobre a ideia. o processo dialético da reali­ dade que denominamos objetiva não é mais do que uma manifestação da ideia. desvendar o núcleo racional. criador da realidade. seria preciso colocá-lo na posição correta. nada mais seriam do que o produto da consciência humana. as formas gerais do movimento. O mundo material. o pensamento de Hegel achava-se estruturado em magnífica pirâmide. Para Marx. enfim. assim ele critica o sistema hegeliano: Meu método dialético não difere somente quanto ao fundamento do processo hegeliano. Segundo a filosofia idealista. esta­ ria voltado para baixo. apenas a nossa consciência teria existência real. Para mim. A mistificação que a dialéti­ ca atingiu em Hegel em nada impede este filósofo de ter sido o primeiro a expor. o mundo material existe independentemente da ideia. Karl M arx (1818-1883) . É preciso invertê-la se queremos. fundada sob o idealismo. transposto e traduzido no espírito humano. entretanto. de que ele faz mesmo. o mundo das ideias é apenas o mun­ do material. Segundo Marx. numa concepção essencialmente otimista. cujo desígnio é eter­ no. a que se referia Hegel em sua Filosofia da his­ tória. o materialismo dialético marxista difere fundamentalmente da dialé­ tica hegeliana. do espírito. na qual a História da Humanidade surge como um processo desenvolvido por uma razão universal. do invólucro místico.

Assim é que Marx decreta a morte da filosofia contemplativa. Da resposta que se lhe dê depende também a solução das outras questões relativas à concepção do mun­ do. como e por que o homem está alienado. a linha dc Dcmócrito e a de Platão. É a afirmação que G. Todas as filosofias que contemplam o mundo para justificá-lo são meras alienações. reconhece-se implicitamente que o movimento. que idealismo e materialismo são ideias que hurient de se trouver ensemble. exegeta contemporânea do . baseando-se na experiência social e nas ciências naturais. Pela extraordinária importância que tem. Assim. Se se aceita o primado da matéria e a sua independência em relação à consciência. a filosofia marxista é muito mais ideologia do que filosofia. tentando explicar como as coisas realmente são.. desde logo. Ao contrário do que se pode pensar. em verdade. ou como o fruto da atividade da consciência humana. o secundário. Chakhnazárov e Iú Krássine emi­ tem com muita clareza.. o ser. sendo impotentes para a ação sobre as condições do mundo real. tendo deixado uma infinidade de obras de real significado para a interpretação da História. para determinar as posições filosóficas. [grifo nosso] No dizer de Marx. inversa­ mente. A linha divisória entre os dois é o seu diferente modo de resolver o problema da relação entre a matéria e a cons­ ciência. todas as filosofias anteriores ao marxismo são alienações puras. Se se considera que a matéria é o secundário. do espírito. quando. o im­ portante é transformá-lo!”. Em sua 1 Ia Tese sobre Feuerbach.194 Teoria Geral do Estado Conclui-se. Marta Harnecker. Não há problema fi­ losófico cuja solução não dependa da maneira como sc resolva a questão fundamen­ tal da filosofia. dizem os materialistas. cada um à sua maneira. A solução idealista obriga a vê-las como uma manifestação da razão universal. e a consciência. Assim: C) materialismo e o idealismo. O princípio essencial do materialismo é o reconhecimento de que o fator pri­ mário é a matéria. o princípio essencial do idealismo c a afirmação dc que o fator primário é a consciência. que deriva da consciência. o espaço e o tempo como formas da consciência. é alertar para a necessidade de um conhecimento prévio da realidade que se pretende transformar. são duas cor­ rentes contrárias. o que ele pretende. dois campos inconciliáveis em filosofia. o secundário. o espaço e o tempo são formas objeti­ vas da existência da matéria. E. Será que aqui Marx defende a necessidade da ação di­ reta apregoada pelos anarquistas ou sindicalistas revolucionários? Não . na verdade. Marx emite uma frase curiosa: “Os filósofos não têm feito nada além de interpretar o mundo. então há que ver o movimento. Marx foi notável teórico. c a matéria. Consideremos a questão das leis científicas: a solução mate­ rialista da questão fundamental da filosofia leva diretamente a reconhecer a objetivi­ dade dessas leis. o problema da relação entre a matéria e a cons­ ciência foi qualificado como a questão fundamental da filosofia. pois se volta para a ação. O ser determina a consciência.

como afirmam os metafísicos. da sociedade e do pensamento”. buscando o significado mais profundo deste: A 11a Tese sobre Feuerbach não anuncia a morte de toda teoria. a teoria científica da História ou materialismo histórico. A matéria sem movimento é tão inconce­ bível como o movimento sem matéria. nem pode existir. para os marxistas e os materialistas em geral a . da sociedade e sua história. que não fazem mais do que interpretar o mundo. uma das ideias mais vazias e insípidas que há. Enquanto para os seguidores de Aristóteles a matéria é causa material. é numa ou em outra dessas for­ mas de movimento. um puro sonho febril. movimento mecânico das massas mais pequenas sobre cada um dos corpos celestes. sendo incapazes de transformá-lo porque não conheciam o mecanismo de funciona­ mento das sociedades. aquilo de que as coisas são feitas. funda um novo campo científico. a maneira de ser a matéria. existiu. vibrações moleculares sob a forma de calor. consequentemente. portanto. mas uma rup­ tura com as teorias a respeito do homem. vida orgânica. a ciência física. ela é essencialmente dinamismo e movimento. chama a atenção para a inconveniência de uma interpreta­ ção frívola do referido texto. O movimento é o modo de existência da matéria. materialista alemão c parceiro intelectual de Karl Marx. que se encontra cada átomo da matéria no mundo em cada momento dado. ou então narrações históricas c análises sociológicas que sc limitavam a descrever os fatos que ocorriam nas diferentes sociedades. não. da mesma maneira que a teoria científica de Cíalileu. em relação à sociedade e sua história. Não há matéria sem movimento e muito menos movimento sem matéria. isto é. O que não existia era um conhecimento científico da sociedade e sua história.8 Ideologias 195 pensamento de iMarx. A 1T‘ Tese sobre Feuerbach indica. escrito para refutar as ideias do alemão Karl Eugen Dühring. Imaginar um estado da matéria sem movimen­ to é. ou em várias ao mesmo tempo. uma ruptu­ ra com todas as teorias filosóficas sobre o homem e a História. análise e síntese química. Em Anti-Dühring. de­ fine a dialética materialista como a ciência “das leis mais gerais que regem a dinâ­ mica e o desenvolvimento da natureza. em parte alguma. Os adep­ tos do materialismo dialético afirmam que a matéria não é uma realidade passiva e inerte. M o ­ vimento no espaço. que funda um campo científico novo: a ciência da História. Engels assim se referiu ao tema matéria/movimento: Nunca. e que somente se transforma sob a ação de forças que sobre ela atuam. eram: teorias filosóficas acerca da História ou filosofias da História. O que até esse momento existia. que se limitavam a contemplar e interpretar o mundo. matéria sem movimento. Friedrich Engcls. de corrente elétrica ou magnética. que até esse mo­ mento eram teorias filosóficas. e anuncia a chegada de uma teoria científica nova.

enfim. religião. ex. metafísica. todos os seres relativos são com­ postos de matéria e dc forma. Vimos que Karl Marx é materialista. no grego. afirmar que os homens jamais pode­ riam viver numa sociedade comunista. Já é hora. E se a sociedade muda. isto é. isto sim. ao passo que as ideologias consistem em meras superestruturas con­ dicionadas pela infraestrutura econômica. Matéria foi a palavra utilizada pelos latinos para traduzir o termo grego hyle. que constitui a estrutura essencial das re­ lações sociais. com as graves ques­ tões sociais da época em que viveu. ao passo que. como o fazem muitos autores modernos. a economia. Portanto. pois o homem. a economia engloba o conjunto dos esforços do homem para se apropriar da ma­ téria e explorá-la. porém. não há maior absurdo do que falar em materialismo grego. a expressão hileia amazônica). Mas o marxismo apresenta uma carac­ terística que lhe é essencial: preocupado. e assim da própria matéria.. fundamentalmen­ te. Depreende-se disso que o marxismo derivou. em Aristóteles e nos escolásticos. concluem. antes de mais nada. na magistral definição de Boécio. a fonte exclusiva do conhecimento são os sentidos corporais. especulativa. Segundo Marx. em verdade. em grande parte. só assume existência efetiva quando recebe uma forma. o princípio que faz as coisas. pois. Personalidade. então. nos filósofos clássicos a expressão matéria é sempre tomada no sen­ tido de princípio passivo e de matriz. que não são as ideias que governam o mundo. uma concepção explicativa da História que afirma. O empirismo é a teoria do conhecimento segundo a qual a única fonte do conhecimento é a experiência sensível. Diz ele que o sentido original da palavra matéria é bem diferente do sentido atual. Vale lembrar que madeira é tradução portuguesa de matéria. sendo ela. . filosofia e artes são o puro resultado dos sentidos. de dizermos algo a respeito do materialismo histórico. suas ideias e sentimentos são produ­ tos de seus sentidos. também está em constante evolução. do empirismo e do sensualismo. mas não se fala em matéria no sentido que os materialistas atribuem à palavra. O materialismo sem­ pre reduz o homem à sua atividade sensorial. que rejeita a precedência da matéria ao espírito. sua doutrina se opõe ao idealismo. madeira e fecundidade (p. em face de seu egoísmo. dizem os marxistas. Não há. Fala-se. Matéria deri­ va de mater. O materialismo marxista vem a ser.196 Teoria Geral do Estado matéria é causa eficiente. nenhuma palavra que signifique matéria no senti­ do materialista contemporâneo. conclui Barbuy. consiste em assu­ mir uma indesejável postura metafísica de identidade e imobilismo. Marx não se preocupa com questões de ordem meramente filosófica. em matéria-prima ou matéria secunda. indicando o princípio materno. eliminada qualquer atividade autônoma do espírito. Das mais interessantes é a tese sobre o materialismo no pensamento antigo formulada por Heraldo Barbuy. que significa floresta. Dessa forma. Pois bem. em sua obra Marxismo e religião. para o sen­ sualismo. também o homem. como substân­ cia indivisa dotada da razão. c sim as ideias é que dependem das condições econômicas da sociedade.

11a Idade Média. não é mais do que a própria histó­ ria da luta de classes. 11a Ida­ de Contemporânea. A postura metafísica é severamente criticada pelos marxistas. enfocados uns após outros. a História é uma seqüência de lutas de classes. ser comparado ao exemplo de uma pessoa que adquire um par de sapatos amarelos. perfeitamente integrado numa so­ ciedade comunista.. mestres de cor­ porações e capitalistas detiveram e detêm os meios de produção. Doutrina Engels: [. manchados e descoloridos. Para ele. o resto sobra. das relações econômicas. para Marx. patrícios contra plebeus. será esta. que são sempre a infraestrutura da sociedade que explica a superestrutura das instituições políticas. Embora a política. como algo determinado e eterno.. a partir do qual surgem em seu seio contradições e fraquezas que acarretam sua decadência. Tal pessoa não considerou as mudanças operadas em seu calçado. a cada momento. estará pronto para a convivência despojada do fator propriedade. patrícios. Ela dirá: “vou calçar meus sapatos amarelos”. capitalistas contra proletários. Paralelamente vão desenvolvendo-se fundamentos de um sistema oposto. lutavam amos contra escravos. para o metafísico os objetos e suas imagens no pensamento. A explicação do fenômeno histó­ rico é orientada para a praxis. Ao fim de cer­ to tempo.] percebe-se que a História. mestres de corporações contra jornaleiros. Já para Politzer. religiosas c filosóficas. a religião. diz Politzer. de alterações nos méto­ dos de produção e de troca. novos. são objetos de investigação isolados.. os conceitos. a ciência não é mera compreensão ou contemplação. Amos. que estas classes sociais que se digladiam são. o enfoque metafísico poderia. segundo o marxismo. após uso prolongado e muitos consertos. embora estes já estejam deformados. resultam. ainda. sejam quais forem suas características aparentes. mas um conhecimento eficaz traduzido numa técnica. a determinante final da evolução his­ tórica. que não admite o advento de um novo homem. No dizer de En­ gels. enquanto a cias­ . a postura do metafísico.. o produto das relações de produção e troca. não.. das duas uma: sim. como se eles estivessem. ironicamente. Pensa apenas em antíteses desconexas. a filosofia e a arte possam até agir sobre a pró­ pria economia. Na Antiguidade. até que o antigo seja engolfado por este. opostas entre si como as fases do processo dialético.8 Ideologias 197 evoluído psicologicamente. imóveis. para considerar apenas a identidade. dizem os marxistas. Cada sistema econômico cresce até um ponto determi­ nado. fixos.. Assim é. não. sim. em última análise. a ação. Assim. Todas as transformações históricas fundamentais. em sua totalidade. a pessoa continuará a se refe­ rir a seus sapatos amarelos. Assim.

não impediam que seus proprietários. portanto. que vai para as mãos do capitalista. Segun­ do o próprio Marx. era formada por pessoas completamente desprovidas de bens e cuja única finalidade era constituir prole. O desaparecimento do Estado capitalista. vejamos. Segundo Engels. virá o verdadeiro comunismo. da essência da sociedade comunista o pagamento conforme as necessida­ des de cada um. isto é. será precedido de um fenômeno marcante. se o Estado encontra seu fundamento e sua sustentação na luta de classes. é o resultado de antagonismos sociais incontroláveis. O sistema de salários será extinto. todos viverão do seu trabalho. Proletários e oerarius tinham as mesmas incapacidades políticas. o desaparecimento do Estado coincidirá com a desaparição da propriedade privada. sua proprie­ dade e seus interesses. dar filhos à pátria e à guerra. A diferença entre o valor daquilo que o trabalhador produz e o que ele rece­ be é a plus valia (mais-valia). sim. cada pessoa trabalhará de acordo com sua capacidade e receberá uma quantia proporcional às suas necessidades. Ocorre que o trabalhador não recebe o valor total da­ quilo que o seu trabalho cria. não haverá classes sociais. podendo os indivíduos possuir apenas bens de consumo. um pouco mais de­ talhadamente. então. retorno às primeiras comunidades humanas. qual seja. Enquanto esta visão paradisíaca não se configura.o Estado . É o lucro. por vezes consideráveis. não se confundia com o oerarius. O Estado seria o aparato utiliza­ do pelas classes dominantes para defender. terá desaparecido e passado a pertencer ao museu de antiguidades da História. ao contrário. sendo. categoria social que. vendendo a força de seus braços para sobreviver. mas os tribunos falavam apenas a favor dos proletários. ocorrerá uma fase de transição denominada ditadura do proletariado. fos­ sem privados dc certos direitos. ninguém viverá da propriedade. O proletário ou capite census não tinha o censo necessário para entrar nas classes e.receberem o golpe dc morte das mãos do proletariado. no qual os bens de produção pertencerão ao Estado. meta final da evolução histó­ rica. cujos haveres. torna-se claro que o desaparecimento das classes determinará o surgimen­ to de um novo estágio histórico. o Estado. Quando o capitalismo e seu escudo protetor . Para o marxismo. recebe um salário suficiente apenas para prover sua subsistência e sua reprodução. ao lado do machado de bronze e da roca de fiar. o valor das utilidades é determinado pela quantidade de trabalho necessária para produzi-las. que se digladiam velada ou ostensivamente. assim. Depois.198 Teoria Geral do Estado se dominada sempre dependeu de um salário. daí a expressão proletariado. Como as classes sociais têm origem na propriedade privada dos meios de produção. como acentua Duruy. na antiga Roma. a ditadura do proletariado. entretanto. segundo o marxismo. Ora. Será o império do socialismo de Estado. anotando o Programa do Partido Operário Alemão: . Ora. num dado momento histórico. no qual o Estado será perfeitamente dispensável. Então. em que consiste essa ditadura do proletariado. O Estado. em razão da origem. o Estado nada mais é do que o reflexo dc uma sociedade dividida cm classes antagô­ nicas. igualmente comunistas.

soldados desmobilizados. dc todas as garantias dc existência individual. Sendo a negação de tudo. Tal ditadura será exercida por uma classe que jamais possuiu coisa alguma e que. dos miseráveis. patifaria). do coletivismo ab­ soluto. o lumpenproletariaty que qualifica dc “lixo de todas as classes” (do ale­ mão himpen. Mas o capitalismo tem tais leis internas dc acumulação c con­ centração do capital (longamente estudadas por Marx no fim do L. a pauperização gradual tornará completamente impossível a subsistência do proletariado no regime capitalista dc produção c. Tal expressão. não poderá deixar de abater tudo quanto está acima de si. é a negação de tudo quanto já foi categoria histórica. já vernaculizada como lumpemproletariado. É o estabelecimento. uma camada so­ cial difusa. nem são nada. ele não é nada. Marx reconhece. Barbuy anota. ensinam Marx e Engels. se acha desprovida de maiores ambições. não tem nada. velhacaria. não depende da vontade de ninguém impedir essa revolução total: porque a con­ tradição burguesia versus proletariado há dc chegar a um ponto em que o capitalismo não poderá sequer manter o proletariado como classe oprimida. dos que não têm.] o proletariado tem de original. a revolução sc dará por si mesma. em todos os tempos passados. miserável. como as antigas classes dominantes.. segundo o M a­ nifesto. dentro de certo prazo. a par do proletariado propriamente dito. E.8 Ideologias 199 Entre a sociedade capitalista e a sociedade comunista renasce o período da trans­ formação revolucionária da primeira na segunda. querer impor um estilo de vida. É o anonimato absoluto. significará a destruição dc tudo quanto existiu anteriormente. não ser uma classe como as demais. trapo. previsto por Marx (fatal porque dialeticamente ine­ vitável). vadios. não tem modo de existência parti­ cular. 1° d 'O Capital). dc todos os mo­ delos dc vida. que não possui.. Por isso. denomina a “massa informe de indivíduos arrui­ nados e aventureiros saídos da burguesia. segundo o marxismo. que farão com que o proletariado desça cada vez mais na escala social. portanto. farrapo. segundo a dialética marxis­ ta. de tudo quanto já foi clas­ se no sentido próprio do termo. a natureza do proletariado na concepção comunista: [. e proletariat. Sendo o proletariado a classe mais baixa das sociedades atuais (está quase ao nível do subterrâneo social chamado Lumpenproletariat)> quando cie se levantar. pelo menos ao nível dc subsistência. nesse dia. proletariado. c lumperei. esfarrapado. A este período corresponde também um período político de transição. dc todas as formas dc apropriação da riqueza. os senhores mantiveram os escravos. cujo Estado não pode ser outro senão a ditadura re­ volucionária do proletariado. com muita perspicácia. o proletariado não pode. cujo caráter internacional tem como denominador comum ser a massa dos oprimidos. malvado. daí lumpig. malfei- . o advento fatal do proletariado. que no passado lutaram pelo poder: não pode nem mesmo ser chamado pro­ priamente de classe.

os criminosos. as prostitutas. com meios de subsistência equívocos e equívoca proveniência. carteiristas. trapeiros. que sc constitui cm chefe do lumpemproletariado. flu­ tuante a que os franceses chamam Ia bohcme. tocadores de realejo. charlatães. os déclassés ou massas empobrecidas da classe média baixa. era constan­ temente acompanhado por filiados da Sociedade do 10 de dezembro. Este Bonapartc. Velho roué manhoso. cada uma das quais dirigi­ da por agentes bonapartistas e um general bonapartista à cabeça de todas. p. lazzaroni. que só neste encontra de forma maciça os interesses que ele pes­ soalmente persegue. amoladores. reclusos postos em liberdade. palavras e poses servem de máscara à ca­ nalhice mais baixa. 0 18 brumário de Louis Bonapartc. detritos e escória de todas as classes a única classe em que pode apoiar-se incondicionalmente. numa palavra. donos de bordéis. como Klaus Zcttcl. Sob o pretexto de criar uma sociedade de beneficência. naturalmente. no sentido mais ordinário da palavra. Juntamen­ te com roués (devassos) arruinados. mendigos. que teriam dc representar o povo. como uma mascarada. burlões. de modo que. 79-80) [grifo nosso] Os últimos despojos da superpopulação relativa são. desagregada. maquereaus (cáftens). mendigos e tantos mais” . carregadores. que perderam o sentido de sua classe social. jogadores. que reconhece nestas fezes. enfia uns quantos lacaios de Lordes cm uniformes franceses. Aconteceu assim no seu cortejo a Estrasburgo. Na sua Sociedade do 10 de dezembro reúne 10. Marx faz referência ao lumpemproletariado em duas passagens bas­ tante claras. em que os grandes trajos. Sociedade de Beneficência na medida cm que todos os membros sentiam. com ele aparentado. rufiões. Esta sociedade data do ano de 1849. é o autêntico Bonapartc. em que o abutre suíço amestrado representou a águia napoleônica. assim: Nestes cortejos que o grande Moniteur oficial c os pequenos moniteurs privados dc Bonapartc tinham.200 Teoria Geral do Estado rores recém-saídos da prisão. finalmente. o Bonapartc sans phrase. tornam-se uma excelente massa de manobra que os fascismos utilizam na conquis­ ta do poder. Os autores marxistas consideram o lumpemproletariado um elemento de­ cisivo na ascensão violenta dos fascismos. Para a sua incursão em Boulogne. que festejar como cortejos triunfais. for­ mou Bonapartc a cepa da Sociedade do 10 dc dezembro. concebe a vida histórica dos povos e as ações principais destes como uma comédia. numa palavra. Eles representam o exér­ cito. o leão. galerianos desertores. caldeireiros. nas condições extremas de crise e desintegração sociais de uma sociedade capitalista. a ncccssidadc dc be­ neficiar à custa da nação trabalhadora. batedores de carteiras. deste elemento. vaga­ bundos. organi­ zou-se o lumpemproletariado de Paris em seções secretas. vigaristas. soldados desmobilizados. juntamente com rebentos degenerados e aventureiros da burguesia. (Karl Marx. toda essa massa indefinida. tal como Bonapartc. escribas.000 miseráveis do lumpen. os que se refu­ giam na órbita do pauperismo: Deixando de lado os vagabundos. o proletariado esfarrapado (lumpenproletariat) em sentido .

a partir do momento em que a revolução sentiu a necessidade de novas formas jurídico-políticas. quando são arrolados prontamente c cm massa dos quadros dc trabalhadores da ativa. sua necessidade em sua necessidade. das vítimas da indústria. Como assinala com clareza Farberov. São seres condenados a desaparecer. pois. destinada a fundamentar o novo Estado socialista. a doutrina mar­ xista pressupõe que a ditadura do proletariado não é mera substituição daqueles que exerciam o poder político. dos mutilados. segundo pitores­ ca observação do próprio Marx. em razão da imobilidade que lhes im­ põe a divisão do trabalho. Não. A revolução proletária. criada pelo próprio Marx. órfãos e filhos de pobres. Por isso. incidirá no reforço deste.no direito de propriedade e nas relações de produção. pessoas ca­ pacitadas para o trabalho. finalmente. o desaparecimento definitivo do Estado será lento e gradual. 545-6) [grifo nosso] O proletariado dirigirá a tarefa de libertação das massas trabalhadoras explo­ radas. Tal ditadura é inelutável. na concepção marxista. c sempre cm grande ati­ vidade. Assim. cujo número aumenta com as máquinas pe­ rigosas. rumo à verdadeira metamorfose do Estado. parteira da História. a oposição capitalista-burguesa. terceira: degradados. comunista. apoderando-se do aparelho estatal e utilizando-o para dominar. a imediata desaparição do Estado. de forma mais concreta. os doentes. despojos. cm verdade. a delinear. O proletariado inter­ vém despoticamente . o poder proletário é original. pelo contrário. Basta consultar superficialmente a estatística do pauperismo inglês para se convencer de que o número destas pessoas aumenta com todas as crises e diminui quando os negócios sc recuperam. as viúvas etc. nada pode evitá-la. as minas. um modelo acabado de instituições político-jurídicas referente à organização do proletariado como agente de uma di­ tadura. dos operários que sobrevivem à idade normal de sua clas­ se e. vai criar uma forma original de poder. as indústrias químicas etc. Seja como for. referido por Camillo Batalla: . El capital. segunda. por exemplo. eliminando. e com ela constitui uma das condições de vida da produção capitalista e do desenvolvimento da riqueza. Sua existência segue implícita na existência da superpopulação relativa. Seja como for. ditatorialmente. a ditadura do proletariado não é uma forma política dc caráter demo­ crático e.8 Ideologias 201 estrito. A teoria marxista do Estado não chegou. () pauperismo é o asilo de inválidos do exército de operários em atividade e o peso morto do exército de reserva da indústria.a expressão é do próprio Marx . como cm 1860.. Estes seres são candidatos ao exercito dc reserva da indústria. a burguesia. esta camada social se acha formada por três categorias: primeira. muito menos. alterando a própria natureza do poder político. p. A expressão ditadura do proletariado. tomou realmente a importância de uma Constitui­ ção. incapazes para o trabalho. definitiva­ mente. marca o período intermediário entre uma fase capitalista e ou­ tra comunista. contudo. (Karl Marx. não implicará.

cm guerra com o Império Austro-Húngaro ou Alemanha. A Perestroika e a Glasnost dc Mikhail Gorbachev puseram a nu a constran­ gedora situação. mas o marxismo puro. longe do estágio de um capitalismo avançado. todavia. adiantado grau de industrialização do Estado capitalista e insustentável concentração do capi­ tal nas mãos da classe dominante. houver presença da ameaça representada pelos Estados ca­ pitalistas. enquanto a economia rumava. e que usufruía de todas as benesses de um verdadeiro regime capita­ lista. sem­ pre. Desaparecidas as classes sociais. submetido a uma casta parasitária . A celebérrima ditadura do proletariado não se tornou uma ditadura do proletariado. quais sejam. a um ní­ vel tão alto dc conscientização e organização sociais que a obediência natural às re­ gras dc convivência será uma necessidade permanente para todos. cedendo lugar a uma administração de bens espontânea. se mostraram contrários ao marxismo puro. finalmente. até a consolidação mundial do comunismo. como ideologia preconizadora de uma sociedade sem . porém. En­ tretanto. em prazo tão curto que os mais ferrenhos c otimistas inimigos do regime não poderiam. imaginar! Não se pode. ressaltaram. deverá reforçar o seu poder. Os objetivos do leninismo não se concretizaram e. consequentemente. ponto inicial da construção paulatina do socialismo. celeremente. a sociedade socialista ainda não alcançou essa fase dc desenvolvimento. ainda era um Estado feudal. A verdade é que. mediante uma revolução violenta.202 Teoria Geral do Estado Marx e Lenin. mas não ao comunismo. o Estado leninista acabou para sem­ pre. a experiência russa demonstrou muito bem que. de­ sapareceria o Estado. a Rússia dc 1917. Enquanto. por intermédio da dita­ dura do proletariado marxista. Sim. o qual. além disso. na dolorosa crise do so­ cialismo soviético. o Estado socialista não desaparecerá. ao estabelecercm a lei da extinção do Estado. tirar ilações apressadas c. Marx preten­ deu que o Estado poderia ser utilizado mediante uma ditadura proletária. Entretanto.a odiosa Nomenklatura verdadeira gerontocracia ou governo “daqueles que nunca se aposentam e raramen­ te morrem”. para a catástrofe. a partir do momento em que desconsideraram a afir­ mação marxista de que a revolução proletária seria viável apenas quando cumpri­ das as condições objetivas da deflagração do movimento. e à abundância de bens ma­ teriais e culturais a serem distribuídos conforme as necessidades de cada um. porém. que isto envolveria um processo histórico demorado. mas uma ditadura sobre o proletariado. e a reação popular ensejada pela abertura política foi tamanha que a própria União Soviética soçobrou. Pelo contrário. se Bakunin buscava. mesmo assim tentou-se adaptar um momento de crise político-econômica a um princípio que sempre se afirmou científico! Foram seten­ ta anos de autoritarismo que desembocaram. chega-se a um capitalismo de Estado. jamais. equivo­ cadas do ocorrido na ex-União Soviética. a su­ pressão do Estado para um desenvolvimento original da sociedade. Ora. conduziria ao desaparecimento das diferenças entre as classes sociais.

Anarquismo. sob a égide do regime comunista. inexistência. v. in Dicionário de ciências sociais. Rio dc Janeiro. pelo menos só com a ruína do Estado soviético. Siglo X X I. 7. “Sindicalismo”. sempre foi associada a ideia de uma sociedade livre de toda sujeição política autoritária. em verbete no Dicionário de política. Historia de Ia teoria política. o marxismo como uma espécie de anarquismo. Mulford Q. Jasón. 1963. livres. Jean. G. entretanto. Seja como for. Publicações Europa/América. . Fratelli Bocca. 1976. embora ainda utópico. prossegue. ainda não foram totalmente desmentidos. 1930. . s a b in e . permanece íntegro. 1. é impossível dar uma definição precisa do anarquismo. Germinal. in Dicionário de ciên­ k e g in i. Los sistemas sociales contemporâneos. z o c c o l i. desnecessidade ou repúdio a qualquer forma de governo. Mikhail. o vocábulo anarquismo deriva do grego a = negação + arche = governo. na qual o homem afirmar-se-ia. Lisboa. 1968. Norberto e m a t t e u c c i . “Sindicalismo”. Rio de Janeiro. Rio de Janeiro. . Nicola. Etimologicamente. Não se deve ca­ talogar. 1986. 4) ANARQUISMO E SINDICALISMO Bibliografia: d a l l a r i. touchard Georges. Elementos de teoria geral do Estado. . Edmundo. Ettore. 1976. 1971. Fundo de Cultura. não um objetivo cumprido e elaborado em definitivo. Utet. desenvolvida livremente. Siglo X X I. Marins. I 'anarquia. Scritti politici. 1985. g o n z a l e s -b l a n c o g u é r in Saraiva. FGV/ rama M EC. v. “Anarquismo latino-americano”. 1976. porque seus postulados. Rio de Janeiro. 1985. “Anarquismo”. Max. dirigido por Norberto Bobbio. im­ postas por uma classe dominante. a organização social e a autoridade religiosa perfeitamente dispensáveis. v. in Dicionário de ciências sociais. sorel. São Paulo. 2. FGV/MEC. dominação do homem sobre seus semelhantes. e sim uma aspiração permanente. Madrid. México. nômica. num contexto sociopolítico no qual to­ dos seriam. mesmo porque Marx destacava sua doutrina das demais doutrinas antiestatais por considerá-la a . n o m a d gaard . Diccionario dc política. o próprio marxis­ mo antevê uma sociedade futura desprovida de normas coercitivas de conduta. 1986. Turim. Madrid.8 Ideologias 203 classes. Como assinala Gian M a­ rio Bravo. . Daniel. isto é. Turim. Júcar. distor­ cidos pelo leninismo. de Norberto Bobbio e Nicola Matteucci. FGV/MEC. representando. Carlos M . Cieorge H. Rio de Janeiro. ed. 1986. igualmente. História das idéias políticas. oster- M adrid. Estatismo y anarquia. Dalmo dc Abreu. Madrid. in Dic­ cionario de política. Fondo de Cultura Eco­ s ib l e y . cias sociais. b a k u n in . 1981. b o b b io . porque o ideal a que se refe­ re o termo jamais sc consolida. sempre. em razão de sua própria atividade. 1907. entretanto. é fácil depreender que por anarquis­ mo entende-se toda doutrina que afirme ser o poder político. Neste sentido.. 7. Ao vocábulo anarquis­ mo. Heréticos da política. N.

que sustenta dever a pro­ priedade ser administrada por grupos voluntários. Sua primeira manifestação pode ser encontrada na an­ tiga Grécia. mais os assemelharia aos cães. Diz ele: “Deus concedeu aos homens o domínio sobre os irracionais. significa cão. Enfim. então. principal obstáculo à realização indi­ vidual plena do homem. em sua feição original. Por outro lado. mas vários. e um anarquismo comunista. porque convertido ao cristia­ . havendo um anarquismo individualista. que. b) repulsa ao Estado. pois a sociedade. com a aspiração a um Estado mundial governado pela Igre­ ja Católica. desde logo. V. com os cínicos. c) divergencia quanto à aceitação da propriedade indivi­ dual. notoriamente. Também os estoicos (vida espontânea. o anarquismo vem a ser um ideal que propugna. ideológica. As origens históricas do anarquismo (ou anarquismos) exigem. como veremos. Referido autor compilou suges­ tivas conceituações do anarquismo. mostrando-se indiferente à organização social. nominando-a. no século V a. política. defensor intransigente da propriedade privada das coisas materiais. não a agride. não existe um anarquismo apenas. seja qual for sua natureza. assim: “etiologicamente. e o Estado deve ser abolido” (B. Afirmavam os cínicos que o homem deve viver de acordo com a natureza. o anarquismo pode ser definido como descrença da necessidade da sociedade constituída” (E. R. no qual o homem seria realmente livre. a liberta­ ção de todo poder superior. Talvez por isto Sébastien Faure anotou. na Enciclo­ pédia Anarquista: “o anarquismo se resume a uma só palavra: LIBERDADE”. a raiz da palavra cínico: ela deriva de cinos. aspirando a uma fraterni­ dade universal e à condenação da luta pelo poder. O cristianismo. uma dicotomia inicial quanto às espécies de anarquismo: a) anarquismo ro­ mântico. “teoria que se opõe a qualquer tipo de governo forçado” (Bertrand Russel). corrente de pensamento que teve em Diógenes um de seus expoentes. Santo Agostinho em sua obra A cidade de Deus afirma a ilegitimidade de todo poder de um homem sobre o outro.. sem a preocupação de obter bens terrenos. Na esteira do pensamento de Santo Agostinho vêm Isidoro de Sevilha e Dante Alighieri. “doutrina segundo a qual todos os negócios dos homens devem ser conduzidos pe­ los indivíduos ou por associações voluntárias. não sendo difícil perceber.204 Teoria Geral do Estado única verdadeiramente científica. não a aceita. Zenker). Seriam. não deixou de apresentar simpatia pela afirmação de uma igualdade essencial entre os homens. conforme a natureza) e os epicuristas (exaltação do prazer individual e consequentemente recusa das imposições sociais) foram correntes antecessoras do moderno anarquismo. em sua des­ crição. por volta de 1920. Mulford Q. respeitar con­ venções ou submeter-se às leis e convenções sociais. b) anarquismo pragmático. em grego. Tucker). coercitiva. estes cínicos. social ou econômica. socialismo científico. não sobre os outros homens”. com repúdio à coopera­ ção forçada. Sibley destaca algumas características comuns aos anarquismos: a) cooperação voluntária e ajuda mútua na vida do homem. porém. não aceitando os cínicos em seu estranho modo de vida. os hip­ pies da época. O anarquismo romântico é aquele que se vol­ ta para a vida contemplativa.C.

Daí o apoio às suas ideias proporcionado por profissionais de nível superior e al­ tamente qualificados. preconizava um federalismo singular. Muitos séculos mais tarde encontraremos. Por defender os direitos de uma classe média. a tutela dos interesses dos pequenos produtores. no primeiro. as concepções vigorosas dos anarquistas Pierre-Joseph Proudhon (1809-1865). não tardaria. a concepção materialista da História e a ditadura do proletariado. com seus partidários. Embora a obra de Proudhon esteja. dedicando-se ao estudo da filosofia na Alemanha. Iniciado na car­ reira militar. que não era sua. não se restringindo a refrear sua antipatia ao campo verbal. que ele rebatizou com o nome de ditadura invisível. Brissot de Warville. Advogava. Logo simpatizou com a doutrina dc Proudhon e a dc Marx. contudo. na Bélgica c na Suíça. em 1868. Proudhon foi o primeiro teó­ rico a autodenominar-se anarquista . pro­ vinha da aristocracia russa. em busca de independência econômica. à parte as velhas utopias dc Thomas Morus e Tommaso Campanella. a dissentir da orien­ tação dada por Marx ao movimento revolucionário. an-arquista. como visto. na França. colocando um hífen entre os semantemas an e arquista . cm princípio. Dotado de temperamento violento. condena as tendências anarquistas do cristianismo primitivo e afirma o dever cris­ tão de obediência à autoridade terrena. de ancestrais czaristas e latifundiários. também francês. o cristianismo anárquico original vai perdendo sua pureza doutrinária já com a afirmação de São Paulo. que concederia crédi­ tos gratuitos a todos aqueles que desejassem tornar-se produtores. Cunhado pelo próprio Bakunin. Quanto a Mikahil Bakunin. com efeito. da qual foi expulso. Mikhail Bakunin (1814-1876). procurando firmar bem que o ideal a que ele aspirava seria o de uma vida comunitária sem governo. pendor que demonstrou no auge da cisão anarquis­ . e pressionada tanto pela alta finança como pelos operários revolucionários de nível mais baixo. desor­ dem. inevitáveis na carreira de um homem de ação. Após muitas vicissitudes. logo a abandonou. Proudhon preconiza­ va a organização de estabelecimentos de crédito populares. na Epístola aos Romanos (13. um tanto esquecida. Entretanto.1-7). dela restou uma frase célebre: “A propriedade é um roubo!”. no segundo. halbúrdia. mas de um girondino. forma­ da por trabalhadores independentes. tudo isto matizado ainda mais pelo nacionalismo eslavo. desorganização . em 1872. o que não significaria. ingressou. Ferrenho adversário do Estado. hoje. incensando. na Primeira Internacional. foi considerado como invo­ luntário precursor do fascismo. e Piotr Kropotkin (1842-1921). a afirmação libertária e a negação do Estado e. Adversário do capitalismo. consubstanciado nas sentenças: “Dar a Cé­ sar o que e de César e a Deus o que é de Deus” e “Todo o poder vem de Deus”. que desejassem plena autonom ia cm sua atividade.8 Ideologias 205 nismo. controlada por Marx. que. mediante sociedades dc crédito mútuo. embora um dos expoentes do anarquismo. é nesta época que surge o adjetivo anarquista. aplicado aos seus seguido­ res. mediante a divisão da França em doze regiões independentes.

Blanqui e Bakunin. sem fama. e que. do poder. oriundo da Escandinávia. sem trabalho e. A nova sociedade ensejará o aparecimento de associações natu­ rais. já se vê. Bakunin advogava a imediata supressão do Estado. Seu anarquismo não visa. dedicar-se. que o havia acusado de pertencer à polícia secreta da Rússia czarista. e desde que educado nos princípios sadios do anarquismo. não ficou impressionado ou estarrecido com as concepções de um Proudhon. Quem. livre de explorações e de injustiças. ou seja. de um Bakunin ou de um Kropotkin. não foi difícil para Bakunin ar­ regimentar toda sorte de intelectuais e profissionais frustrados da classe média. até agora. especialmente A conquista do pão e Me­ mórias de um revolucionário. a tese de que. a mera encampação dos meios de produção pelo Estado e a organização de uma ditadura do proletariado. durante seis anos. ao agredir com bengaladas. muito menos. fun­ dada pelo príncipe Rurik. ao contrário daquilo que fora previsto por Marx. Desesperados. em âmbito cada vez mais amplo. segundo se afirmou. Estudante na Universidade de São Petersburgo. ele idealiza um permanente estado de alerta da so­ ciedade contra a exploração do homem pelo homem. funda­ das na solidariedade inata do homem e na celebração de contratos espontâneos e as­ sociações voluntárias. eles viam na abolição imediata e radical do Estado uma solução muito mais promissora do que aquela da desaparição gradual do Estado. que cultivava a geografia e a zoologia.206 Teoria Geral do Estado tas/marxistas. Afirmava que qualquer meio é válido para a defesa de uma boa causa. cada qual não recusaria. em prol do bem de todos. não deixava de ser um sonhador. o auxílio mútuo entre as pessoas seria um fator natural da evolução. então: A destruição do Estado permitirá o surgimento de relações sociais livres. dinheiro. Kropotkin não foi um revolucionário 110 sen­ tido estrito do termo. na obra Ajuda mútua. até que seja efetuada a completa unificação internacional. 110 mínimo. Afirmava Bakunin. Com tal concepção. alarma­ do com as ideias de Sergei Netchaiev (1847-1882). logo tornou-se adepto de Babeuf. mesmo nos tempos pré-históricos. em sua profunda erudição. Kro­ potkin era um verdadeiro intelectual. com a subsequente im­ plantação dc um coletivismo representado pela tomada violenta dos meios de pro­ dução pelos trabalhadores. e contra o Estado e o capitalis­ mo. naturalmente honesto. de cor­ po e alma. mais precisamente da primeira dinastia da Rússia. Admirador sincero de Bakunin. mais do que a luta pela vida. na sociedade humana. o próprio Marx. por conseqüência. Ao longo de suas obras. Ao contrário de Bakunin. mas uma denúncia permanente contra as injustiças sociais. a abolição imediata do Estado e. ficará. embora curtindo a desdita do cárcere comum aos agitadores. defendendo. desenhada por Marx. por outro lado. Porque para ele o ho­ mem é bom. Piotr ou Pedro Kropotkin também era des­ cendente da nobreza russa. por isso devemos acres­ . ao trabalho comunitário.

o Estado e as classes dominantes há uma guerra contínua c irreconciliável . A quarta categoria consiste nas autoridades ambiciosas e liberais de vários matizes.teóricos (refere-se aos adversários dc Bakunin dentro do campo revolucionário). Todo o ignóbil sistema social deve ser dividido em várias categorias. que. será somente com o propósito de destruí-lo com mais certeza. O revolucionário é um homem condenado. uma camarada que se recusara a obedecê-lo incondicionalmente. onde cstivera preso. Ele despreza a opinião pública. Em nome dos princípios anarquistas revolucio­ nários. entre inúme­ ras façanhas. não deve esperar compai­ xão. comprometê-los ao máximo. instados a fazer declarações práticas subversivas. que expõem suas ideias pe­ rante grupos ou pelos jornais. e deve treinar para suportar torturas. tudo o que o impede é contrário à ética e criminoso. 5. É preciso entrar na posse de todos os seus segredos. uma só paixão . com as leis. aparências e convenções ou moralismos geralmente aceitos neste mundo que para ele é um inimigo impiedoso.que pode ser travada secretamente ou abertamente. nem sequer um nome. Entre ele. 19. o revolucio­ nário não tem qualquer ligação com a ordem social e com o mundo civilizado. não apenas em palavras mas em atos. pois com eles pode-se conspirar nos termos dos seus próprios programas. É impiedoso cm relação ao Esta­ do c a todo o sistema das classes privilegiadas. O revolucionário é um homem condenado. Se tiver que continuar a viver nele. séculos antes: “O fim justifica os meios” . por sua vez. que alguns atribuem indevidamente ao próprio Bakunin. Ele não tem interesses pessoais. sentimentos.a revolução. 4. que já dissera. Deve estar pronto para morrer a qualquer momento. originalmente transcritos por Max Nomad em sua obra Heréticos da política: 1. Para ele o que quer que ajude o triunfo da revolução 6 ético. A quinta categoria . certamente. propriedade. De sua autoria. Tudo nele é absor­ vido por um exclusivo interesse. 2.8 Ideologias 207 centar à sua lista de mestres o notório Nicolau Maquiavel. 20. é o famoso Catecismo do revolucionário. conspiradores. mas que são pouco ativos. Eles devem ser continuamen­ te impelidos para diante. um só pensamento. mas ao mesmo tempo não se deve permitir que escapem mais. assassinou. 15. e do qual extraímos estes excertos. pessoalmente. dedicações. revolucionários. De­ ve-se convencê-los de que são obedecidos cegamente. No mais íntimo do seu ser. ne­ gócios. de modo que não lhes sobre nenhum caminho para fu­ gir c usá-los como instrumentos dc perturbação da ordem do país... como a de escapar da inexpugnável fortaleza dc São Pedro e São Pau­ lo. tudo seria válido para este enfant terrible do anarquismo. Despreza e odeia a moral dos dias de hoje com todas as suas motivações e manifestações. cujo resul­ .

para nos aproximarmos cada vez mais do povo. O que o anarquismo . Confor­ me G. N. não de normas sociais. das quais poderiam ser apontadas duas: “ação coletiva para proteger c me­ lhorar o próprio nível de vida por parte dos indivíduos que vendem sua força de trabalho” (Allen). este. devemos antes de tudo ligar-nos àqueles elementos das massas que. Apelando sempre mais para a violência. isto é. trata-se de uma corrente ideológico-pragmática. de a. No que tange ao sindicalismo. em São Paulo e Rio de Janeiro. sem necessidade de um órgão que as faça cumprir pela força. despoja­ das. 25. a burocracia. embora possa não haver o poder.208 Teoria Geral do Estado tado seria a completa destruição da maioria e o verdadeiro treinamento revolucionário de apenas alguns. jamais cessaram dc protestar não só com palavras.os únicos genuínos revolucionários da Rússia. o clero. então. ou “um estado da sociedade em que a indústria será controlada pelos que nela trabalham. e arkos. segundo os anar­ quistas. nos EUA. embora as normas sociais continuem existindo. ainda no final do século X IX . no Brasil. esses devem cooperar da . a vida em sociedade por normas espontaneamente cumpridas. Estendamos as mãos à raça audaciosa dos bandidos . império da de­ sordem. segundo o qual os sindicatos operários devem ser a base da administração social e industrial numa sociedade socialista. na base de sociedades livres. mediante um consenso social. ele c grego. afirmava Aristóteles. como o sindicalismo revolucionário e o sindicalismo reformista. mas. negação. onde houver sociedade haverá direito. o anarquismo foi perdendo adeptos. moderado.embora no mundo das utopias . estivesse ligado ao Estado: contra a no­ breza. da Itália. o termo sindicalismo pode ser empregado em dois sentidos: a) doutrina ou movimento social. Em Chicago. as guildas (significando os comerciantes e capitalistas em geral) e contra o parasitismo dos kulaks. Ubi societas ibi jus. na ver­ dade. Anarquismo não significa confusão. vale dizer. da jurisdicidade. respectivamente). grupos de imigrantes italianos e espanhóis formaram grupos anarquistas que realizaram uma vasta greve operária no ano de 1917. b) ação mi­ litante por parte dos sindicatos operários. É no estudo do anarquismo clássico que perceberemos a imprescindibilidade das normas sociais de conduta. e que apresenta inúmeras variantes. Existem inúmeras definições dc sindica­ lismo. após a qual começou o declínio do movimento também em todo o País. da coercibilidade. governo. mas também com fa­ tos contra tudo o que.sugere é. direta ou indiretamente. bem como do rei Humberto I. desde a fundação do poder estatal dc Moscou. É justamente nisto que reside o ponto original do anarquismo: a inexistên­ cia de poder coercitivo. realizaram inúmeras greves e. oriunda da Revolução Industrial. seu canto de cisne foi a prática de tremendos atentados terroristas: aos seguidores de Bakunin se atribuem os assassínios dos pre­ sidentes McKinley e Carnot (dos EUA e da França. Portanto. inexistência degoverno. Desmembremos o vocábulo anarquia. enfim. Ostergaard.

neste capítulo. o sindicalismo revolucionário. Sorel dedicou-se. que. uma elite. porém. a greve geral seria o mito do futuro. comandada por uma fe­ deração universal de sindicatos operários. fundada nos mitos revolucionários e na violência passiva da greve geral. O mundo res­ sente-se da falta de mitos. caracterizando esta luta a ação direta e a greve geral. profunda hostilidade contra o intelectualismo. tendo realizado seu propósito para com o sistema capitalista'’ (Mann). igualdade . Henri Bcrgson e Karl Marx. Engenheiro dc profissão.diz ele . o mito da greve gerai No dizer de Sorel. sem dúvida. O que vem a ser mito. assim. pa­ rece encontrar sua paternidade em Ferdinand Pelloutier (1867-1901). a partir dc 1892. Interessa-nos. esta organização evidenciaria. batizaram-no com o nome de anarcossindicalismo. um mito. aos problemas so­ ciais. Sorel tornou-se conhecido principalmente pela obra Re­ flexões sobre a violência. sua variante mais original. fundado no princípio dc que o próprio sindicato seria o instrumento dc luta re­ volucionária. Marxista de início. seu criador granjeou grande parte de sua fama por ter sido cultuado e invocado na praxis política de um notó­ rio adepto da violência: Benito Mussolini. na concepção soreliana? Mito . teria início a reconstrução social. fazer neste manual introdutório um estudo mais alentado do sindicalismo in genere. de imedia­ to. criou o próprio sindicalismo revolucioná­ rio. somente podendo ser admitidos a seus quadros operários ou pequenos artesãos. Desejoso dc consolidar uma nova ideologia que estabelecesse uma pon­ te entre a revolução e o meio operário. o inspirador do fascismo. porém. Os mitos do liberalismo (liberdade. entretanto. Vitorioso o movimento sindicalista. hipótese de resto confirmada pelo próprio Sorel. Após a Primeira Grande Guer­ ra. originando uma variante nova do movimento operário. Tal doutrina. na qual prega a revolução proletária mediante a atuação violenta de uma facção operária mais hábil e inteligente. al­ guma originalidade no pensamento soreliano. mas servirá para arrancar as massas trabalhadoras de seu marasmo! Tal movimen­ to é. agora detentora dc todos os meios de produção. e organizadora de uma comunidade sem a carapaça estatal. Existe. Tais ideias seriam robustecidas pela doutrina de Georges Sorel. Não se pretende. embora atribuída por muitos a Georges Sorel (1846-1922). organização de imagens que levam ao combate e à batalha.é o conjunto ligado por imagens motoras. Curiosa­ mente. de índole meramente cooperativa. alguns sindicalistas bandearam para as fileiras do anarquismo. enfim. Pelloutier enveredou pelo anarquismo. desejando ressaltar seu caráter antiestatal c descentralizador. continua. Uma socie­ dade na qual os parlamentos e governos terão desaparecido. do qual se desiludiu em face dos métodos terroristas atribuídos a esta doutrina. o próprio Sorel admite que tal movimento não terá condições de se impor.8 Ideologias 209 maneira mais eficiente na produção de todas as necessidades da vida. Embora seja autor dc inúmeras obras c tenha dirigido várias publi­ cações de caráter político. recebendo influências doutrinárias dc Pierre-Joseph Proudhon. Curiosamente.

de Bergson e de Proudhon. Ele recusa. Para apreen­ der o verdadeiro alcance da ideia de greve geral é preciso. mesmo que os revolucionários se equivocassem totalmente ao criar um panorama fantástico da greve geral. encontraremos influência de Flegel. um elemento fundamental. Sorel esclarece: É necessário considerar os mitos como meios de atuar sobre o presente. a revolução operária somente será realizada mediante a violência. Já se percebe que várias premissas podem ser pinçadas no cerrado pensamen­ to de Sorel: a ação direta em oposição aos meios parlamentares da luta pelo poder. este apoiado em mitos. Paradoxalmente. Fundamentalmente. sendo certo que o fascismo adotou várias posições sorelianas. tal panorama poderia constituir. bem como dos anarquistas pragmáticos. e trouxesse ao conjunto das ideologias revolucio­ nárias uma precisão e um rigor não contidos em outras formas de pensar. Sorel viria a ser o profeta do sindicalismo revolucionário. de Marx. em nome de uma intervenção meramente voluntária das massas.os sindicalistas . exemplificando com o socialismo utópi­ co e o socialismo científico. todas as aspirações do socialismo. inadaptável à sensibilidade das massas e aos instintos destas. durante a prepa­ ração da revolução. Distingue. com desprezo. raciocinar a respeito de incidentes que se possam produzir no curso da guerra social. efetivamente. a influência dc Sorel sobre Lenin não foi menor. e vão atuar dentro das únicas organizações adaptadas à sua sensibi­ lidade: os sindicatos. em Marx. que critica­ va. portanto. como foi dito.210 Teoria Geral do Estado e progresso) devem ser substituídos pelos mitos revolucionários. dentro de sua experiên­ cia histórica. mito e utopia. Ao lado de Sorel. a organização sindical da sociedade e a rejeição do determinismo de Marx. integralmente. pois. o determinismo dialético marxista. merece destaque o marxista Antonio Labriola (1843-1904). bem como sobre os conflitos decisivos que venham a dar a vitória ao proletariado. Se a influência do sindicalismo foi considerável na França. As massas agem por intuição. Só a inter­ venção “violenta” de uma fração esclarecida da classe operária . como o predomínio das elites. onde o que conta é o di­ nheiro. É inú­ til. a influência de Sorel na Itália foi ainda maior. ademais. Em Reflexões sobre a violên­ cia. portanto. a democracia parlamentar à bolsa de valores. sempre que admitisse. em face das cisões ocorridas nos movimentos socialistas deste país. ser o marxismo uma “ciência exata”. deixar de lado to­ das as formas de discussão comuns entre políticos. o sindicalismo soreliano exige a abolição do capitalismo e do Estado e a nova estruturação da sociedade em associação produtora. comparando. qual­ quer discussão a respeito de como aplicá-los materialmente no transcurso da História carece de sentido. sociólogos ou pessoas propensas à ciência prática. é o mito em conjunto: suas partes so­ mente oferecem interesse pelo relevo que dão à ideia contida nessa construção. O que importa. Em Sorel. a necessidade da violência e a organização corporativa do Estado.

os sindicalistas não fazem alusões quanto à capacidade das massas para o autogoverno. Madrid. foi imenso o fascínio exercido por seus exponentes em todo o mundo. que busca não destruir as estruturas sociais. representado pela sociedade. Espasa-Calpe. inegável. 1962. I. para este fim. Aguilar. tirar as massas de seu eterno tor­ por. Embora jamais tenha sido muito clara a doutrina sindicalista no tocante à na­ tureza da estrutura social que substituirá o Estado. Traitc dc morale.8 Ideologias 211 revolucionários . o terrorismo: tudo é lícito para prejudicar o empregador capitalista. 1982. a sabotagem. dupréel. q u il e s . y u r r e . os sindicalis­ tas buscam atribuir tais funções aos sindicatos de produtores. Madrid. v. Eugè- ne. que o homem faz parte da sociedade visando a satis­ fação de seu interesse em aprimorar-se. Gregorio R. Presses Universitaires de Bruxelles. o papel dos sindicatos e de outros grupos sociais. platão. Por outro lado. à gui­ sa dc correção dos desajustes trazidos pelo excessivo individualismo. ressaltando. Bruxelles. Ismael S. reorganizando a sociedade em associações de produtores. Enquanto a greve parcial não passa dc um meio de agitação e de organização local. e o interesse particular? Muitos. Madrid. Aristóte­ les (Vicia. cada qual dirigindo seus sindicalizados enquanto produtores. 1967. Há semelhança entre o sindicalismo revolucionário e o anarquismo no tocan­ te à adoção da ação direta para a destruição do Estado: ambos admitem a greve. 1963. material ou espiritualmente. mas apenas a soma . ed. mais moderado. 2. Aguilar. 1979 (Obras completas). Como encon­ trar o ponto de equilíbrio entre o interesse coletivo. Os sindicatos subs­ tituiriam o Estado. de.. e a sociedade passará a ser gerida pelos sindi­ catos dc produtores. O objetivo social. dotado de fins próprios. La república. Por outro lado. escritos y doctrina). O grande pu­ blicista León Duguit demonstrou certa simpatia por algumas premissas do sindica­ lismo. Espasa-Calpe. pecando pelo radicalismo. Ar i s t ó t e l e s . Ao lado do sindicalismo revolucionário fala-se num sindicalismo reformista. O sindicalismo revolucionário exige a abolição do capitalismo do Estado. mediante a greve geral. Substituindo o Estado na condição de proprietário e de administrador dos meios de produção. a greve geral abolirá o Estado. estar acima dos objetivos particulares dos indivíduos que a integram. vendo nesta não um ser autônomo.poderá. Totalitarismo y egolatría. a finalidade para a qual foi criada a sociedade. Madrid. deve. 5) MECANIC1SM0 E 0RGANIC1SM0 Bibliografia: La política. 3. negam a própria socieda­ de. eviden­ temente. porem aperfeiçoá-las. também.

representado pela filosofia iluminista do século XVIII. temporal. Destacam-se figuras do porte de Novalis (1772-1801). particularmente. pois mesmo 11a liberal Inglaterra. denota de imediato uma tendência organicista. O móvel da ação individual do homem rebelde entronizado por esta ideologia seria. enaltecedora da sociedade. refratária a uma França liberal. o iluminismo proclamou a supre­ macia da razão individual sobre todo e qualquer princípio ou instituição fundados em fatores superiores ao indivíduo. É muito mais do que isso: é uma comunidade mística. Johan Gottlieb Fichte (1762-1814) e Georg Wilhelm Friedrich Hegel (1770-1831). sinceros admiradores dos princípios individualistas que embasaram a Revolução Francesa. A norma fundamental deste individualismo seria a opinião individual. A reação não tardaria. que foi. que se expressa prin­ cipalmente nas célebres Reflexões sobre a Revolução Francesa. ao enaltecer a razão triun­ fante sobre as trevas da Idade Média. As primeiras críticas. reconhe­ ce o todo nacional. mas negam a floresta. É o caso do individualismo extremado. Como lembra Gregorio R. Veio representada pelo romantismo organicista. Foi na Alemanha. suspeita. Edmund Burke (1729-1797) mostrou-se um crítico implacável do pensamento revolucionário. O romântico afirma que toda nação é um organismo que possui um modo próprio de vida. como ocorre nas associações mercantis. Schlegel (1772-1829). Porém. visto que esta não passaria de mera soma dos indivíduos. que encon­ trou seu epicentro na Alemanha derrotada por Napoleão. a emancipação do indivíduo perante suas alienações políticas e religiosas. criadoras de uma nova visão do mundo. por intermédio da qual os indivíduos recebem a vida espiritual e o bem-estar. sugestivamente. suas instituições e seus costu­ mes são inconfundíveis com as demais. O próprio marxismo enquadra-se cm tal concepção mecanicista do convívio humano ao preconizar. para um futuro dirigido pelo determinismo dialético. de início. regida pelos critérios utilitaristas do máximo prazer. tímidas. logo tornaram-se uma avalancha de objeções. Adam Müller (1779-1829). Tal pensamento não ficou circunscrito à Ale­ manha. portanto. Veem as árvores. o im­ pulso vital da sociedade. denominado Século das Luzes.ele não distingue . messianicamente. pelo anarquismo. em oposição ao racionalismo e o universalismo da Revolução. Com efeito. representado. muitos intelectuais ligados ao romantismo foram. Diga-se o mesmo do individualismo proveniente do liberalis­ mo da Revolução Francesa. a nação como um todo. como reação ao absolutismo monárquico ain­ da imperante na França. de Yurre. que nega o próprio poder político. revolucionária e. que o organicismo e a supervalorização do Estado chegaram ao seu grau máximo. porém. Sua obra. também. Schlegel muda bruscamen­ te seu pensamento a partir de 1804.212 Teoria Geral do Estado dos indivíduos que a integram. A sociedade ou Estado . devendo cada homem ter a mais ampla esfera de au­ tonomia de conduta. Embora partidário da Revolução em sua juventude. O ro­ mantismo. os ex­ cessos que este movimento tremendo produziu acabaram por minar a admiração pelo iluminismo. Passa a considerar a sociedade e o Estado or­ .não é um simples agregado de seres humanos voltado para a satisfação de fins estritamente materiais.

que arrasou as estruturas orgânicas do Estado e reduziu a nação a um agregado inorgânico de átomos. da mesma ma­ neira que as células se desenvolvem no organismo vivo. na economia nacional. Hegel. que se torna indefinível. é o Estado que cria o indivíduo. pois a oscilação da moeda repercute. O Es­ tado é um organismo do qual depende a vida humana em sua totalidade. impedindo que eles deixem o país. personali­ dade. Finalmente. por sua vez. por si mesmo. pois que esta é uma concessão do Estado. O Estado é algo tão grandioso e abran­ gente. o Estado é fonte de todo o direito. Para Fichte. a origem da guerra reside na desigualdade econômica entre os Estados. Se o indivíduo não tem. significa. para os organismos sociais. Adam Müller. A preservação desta estru­ tura é pressuposto inafastável de qualquer Constituição.8 Ideologias 213 ganismos vivos. plasma-se a es­ trutura orgânica da nação. lança as bases do futuro nacional-socialismo. A economia planificada deve fechar as portas do Estado ao comércio exterior. A estabilização da moeda é também um pon­ to programático de relevo. e esta. a vida econômica deve estar rigidamente controlada pelo Estado. A História. até mes­ mo a ciência é parte do Estado. O Estado autárquico será rigidamente planificado. pelo contrário. Os ideais de Hegel eram pro­ fundamente anti-individualistas. o que a alma e a natureza exterior significam para os organismos biológicos. Daí sua aversão pelas tendências mecanicistas e individualistas da Revolução. e na tendên­ cia de cada qual buscar sua hegemonia entre os demais. Quanto a Fichte. Não há direito anterior ou superior ao do direito imposto pelo Estado. com suas famílias. especialmente 110 que toca à apologia do . é lógico que ele não pode arguir direitos contra o Estado. nega que o indivíduo seja anterior ao Estado. O livro é eminentemen­ te anti-individualista. Para que a importância de sua contribuição para as ideias políticas seja aferida de pronto. Sua influência sobre o fascismo italiano foi admirável. Para ele. O indivíduo não cria o Estado. como afirmava o pensamento liberal. No decurso dos séculos. com o fim de lazer ou curiosidade. é inimaginável a existência do homem apar­ tado do Estado ou anteriormente a este. basta lembrar que seu pensamento constituiu a base de correntes opostas como o fascismo e o marxismo. resultantes da evolução histórica. O Estado controlará severamente a saída de seus súditos para o exterior. pois toda definição implica limitar o definido. desfavoravelmen­ te. a guerra. até que seja alcançado o estado de autarquia. como manifestação da vida espiritual. e os seres humanos são apenas células que participam dessa vida. classes e corporações. O comércio exterior ense­ ja a concorrência. Evidente­ mente. com seus costumes e tradições. ficando as viagens ao exterior circunscritas às necessidades de es­ tudo e ciência. unicamente. O Es­ tado é um organismo vivo. ao publicar sua obra O Estado comer­ cial fechado. até que se obtenha o equi­ líbrio entre a produção e o consumo. a iniciativa e a liberdade individual não constituem o funda­ mento da vida social. mostrando-se uma reação às tendências liberais do seu tempo e à divisão da Alemanha em Estados independentes.

anterior à família e a cada um dc nós conside­ rados individualmente. 6) TOTALITARISMO: FASCISMO E NACIONAL-SOCIALISMO Bibliografia: mallén bonnard . e o nacional-socialismo. 1963. o organicismo radical (totalitarismo) vê a floresta.f. por exemplo. as diferenças essenciais entre o pensamento hegeliano e o nacional-socialista: a) o elemento básico da filosofia hcgcliana c a ideia (idealismo): o mundo é uma revelação da ideia. Curiosamente. El derecho y el estado en la d octrina nacional-socialish i t i . Astcr. Porto Alegre. Adolf. desenvolver-se-ia um inadmissível organicismo radical. na Itália. Barcelona. dc Yurrc aponta. 11a Alemanha. Permitir-nos-emos fazer referência. Lisboa. Publicações Europa/América. O elemento bási­ co da Weltanschauung nacional-socialista é a raça (racismo).] a cidade (Estado) e. mas sim na nação (Volk). glorificador da sociedade em detrimento do indivíduo. antecipando muitas premissas do totalitarismo contemporâneo.. o todo prevalecendo.. v. tem apenas deveres para com o Pastado. naquela concepção. b) Hegel constrói sua teoria sobre a supremacia do Estado. Jean. por natureza. sur­ gem prematuramente na História. tido como a criação mais perfeita do homem. portanto. . História das idéias políticas. ed.. Os perigos do organicismo radical. Na linha do pensamento organicista. Aristóteles. Mussolini. Roger. 1940. intitulada Política: “ [. de maneira absoluta. Bosch. que formam a pedra angular da estrutura política. e o nacional-socialismo reduz o Estado à ca­ tegoria de meio e instrumento em mãos do Führer e de seu partido. aqui. Lisboa. Capítulo II)..214 Teoria Geral do Estado Estado. Globo.com agudeza. não deixou de assimilar. Gcorge. . - Rubén Salazar. a algumas passagens da obra capital de Aristóteles. Mcxico. 1976. r ta. 7. deixando fluir. esta exótica tendência. sobre as partes. de certa forma. Ao contrário do mecanicismo anarquista. incensando a prevalência absoluta do Estado sobre o indivíduo.. El Estado corporativo fascista. em al­ gumas passagens de sua obra. É necessário que o todo anteceda a parte [. Minha luta . não as árvores. mesmo porque esta ideo­ logia totalitária não via 110 Estado o fundamento da sociedade. 1977. Facultad dc Ciências y Políticas chard Sociales. roux . a influência de Hegel sobre o nacional-socialismo não foi das maiores. o espírito de seu tempo. até chegarmos aos dois maiores totalitarismos do século X X : o fascismo. 2. Filósofos do porte de Platão e Aristóteles deixa­ ram-se empolgar pela suposta natureza totalitária do Estado.]” (Livro Primei­ ro. tou . que. 1950. Gregorio R. .

ao colocar.]” (Livro Primeiro. Capítulo I). temos que admitir que os cidadãos não se pertencem. será praticado o aborto. estabelecendo quando e em que condições um casal pode procriar (. sem evitar exercícios nem to­ mar uma dieta excessivamente frugal. levar-se-á cm conta a ausência ou presença de sensação e vida” (Livro Sétimo. “ [.. Capítulo I).. certamente. e se a tradição proibir a exposição do recém-nascido. deve ser estabelecido um limite numérico à procriação. já se vê. o bárbaro no mesmo nível do escravo: “é normal que os gregos governem os bárbaros. Por outro lado. Capítulo XVI).] as mulheres grávidas devem cuidar de seu corpo.8 Ideologias 215 “As questões de interesse público devem estar sujeitas a uma supervisão pública. “Como a finalidade do Estado é uma só. ao mesmo tempo. “No que toca à exposição e criação dos infantes. do homem soberano.. Em outras passagens da Política. Capítulo II). Não foi por acaso. colo­ .] visto que é dever do legislador considerar. já que cada um é parte deste” (Livro Oitavo... se a concepção organicista ou totalitária da sociedade é tão antiga. à saciedade. os germes do totalitarismo moderno. A ideia totalitária. criada pelo liberalismo. Tais indícios revelam. fica evidente que a própria educação de to­ dos há de ser necessariamente una e idêntica. tendo sido criado pelo próprio Mussolini. desde logo. ordenan­ do-lhes que programem um passeio diário. Entretanto. dc que forma as crianças terão uma constituição física perfeita. antes que apareçam a vida c a sensibilidade do embrião. de Platão. no Quarto Con­ gresso do Partido Nacional Fascista. em discurso célebre proferido no dia 22 de junho de 1925. c para que tal prática possa ser considerada respeitável ou desprezível. que iMussolini tinha como um de seus livros prediletos A república. é necessário promulgar uma lei que proíba a sobrevivência dos seres disformes. eis que. Capítulo XVI). é necessário atentar para a disciplina das uniões conjugais. se o número de nascimen­ tos se mostrar excessivo. no qual honrarão as divindades protetoras do bom parto” (Livro Sétimo. precedeu o verbo. por natureza. o termo totalitarismo é relativamente recente.. Aristóteles revela xenofobia.. bárbaro e escravo são a mesma coi­ sa [. e que ela esteja a cargo do Estado e não dos particulares (Livro Sétimo. pois todos per­ tencem ao Estado.) ” (Li­ vro Sétimo. Capítulo XVI).. É fácil para o legislador assegurar isto. Sc um casal fecundar fora deste li­ mite. “ [. ci­ tando Eurípedes. Enquanto este se fundamentava na plena autonomia individual. A palavra totalitarismo refere-se a uma concepção política que sc mostra cm franca oposição à doutrina do cidadão abstrato.

Rocco abre comba­ te contra a liberal-democracia e o socialismo. exatamente como todos os di­ reitos individuais. eminente jurista italiano. interpreta. vão mostrar poderosas reações a tal concepção. a concepção fascista da sociedade é totalitária: a totalidade dos indivíduos submetidos ao poder político e a totalidade da manifestação pessoal de cada um acham-se sob a égide do Estado. à medida que este sc harmoniza com o Estado. ao passo que para o fascismo. associações. integrante da famosa Enciclopédia italiana. já afir­ mava. que paralisa o movi­ mento histórico na luta de classes e ignora a unidade do Estado.216 Teoria Geral do Estado cando a liberdade individual no ápice da escala de valores a ser respeitada pelo Es­ tado e atribuindo ao poder político apenas e tão somente a manutenção da ordem pública. Mussolini refere-se ao sistema corporativista. Os direitos do indivíduo . nada tem valor fora do Estado. nascido da ncccssidadc dc reagir contra o absolutismo. movimenta e domina toda a vida do povo.fora do Estado. fascismo e nacional-socialismo. que a concepção atomística e mecânica da sociedade c do Estado. É contrário ao liberalismo clássico. cm 1925. classes . portanto. Mais adiante. Alfredo Rocco (1875-1935). resultante da Reforma protestante e do jusnaturalismo dos séculos XVII e XVIII. Absoluto é o interesse social. a liberdade é uma concessão do Estado. para o fascismo tudo está no Estado e nada humano nem espiritual existe e. que cnccrrou sua missão histórica. Numa obra intitulada A doutrina do fascismo e o seu lugar na história do pensamento político. Esta opção é pela única liberdade que pode ser considerada seriamente. relativo é o interes­ se individual. Neste sentido o fascismo c totalitário. e o Es­ tado fascista. o próprio Mussolini esclarece: Anti-individualista. a fortiori. c na von­ tade do povo. o principal problema é o do direito do Esta­ do e do dever do indivíduo e das classes. porque. E se a liberdade deve ser o atributo do homem concreto e não do fantoche abstrato criado pelo liberalismo indi­ vidualista. as duas doutrinas totalitárias do século X X . O fascismo opõe-se. síntese e unidade dc todo valor. Com efeito. Como se percebe desde logo. O liberalismo negava o Estado em favor do indivíduo. a liberdade do Estado e do indivíduo no Estado. a concepção fascista é para o Estado e para o indivíduo. a socie­ dade não tem vida distinta dos indivíduos. Por isso. ao socialismo.partidos políticos. o fascismo eleva o Estado à condição da verdadeira realidade do indivíduo. então o fascismo opta pela liberdade. sendo o indivíduo o fim e a sociedade o meio. no verbete intitulado “A doutrina do fascismo”. que funde as classes . que se tornaria uma das principais características do fascismo: Nem indivíduos nem grupos . consciência c vontade universal do ho­ mem cm sua existência histórica. sindicatos. para estas doutrinas. que militou politicamente nas fileiras do fascismo. era totalmente estranha ao pensamento italiano.diz Rocco não são mais que o reflexo dos direitos do Estado.

O direito de uma nação à independência não se acha fundado na consciência literária ou ideal de sua própria existência e. uma existência real. porém. De todos aqueles que. publicada na Gazzeta Ufficiale. cria o direito. É uma unidade moral. que dá ao povo. integralmente. dc uma multiplicidade unificada por uma ideia. que servia de base aos estudos dos publicistas dos Estados nacionais do século X IX . opõe-se à democracia que absorve o povo na maioria dos indivíduos e o rebaixa a tal nível. como vontade ética universal. que se realiza. no qual tais interesses se conciliam na unidade do Estado. em espe­ cial a brasileira de 1934. O Estado. o fascismo pretende que.. consciente de sua própria unidade moral. numa situação de fato mais ou menos inconsciente e inerte. as exigências reais que deram origem ao movimento socialista e ao sindicalista sejam reconhecidas. como deve ser. que a formam. em uma espécie de Estado já in fieri. Este não é nem o número nem a soma dos indivíduos que for­ mam a maioria de um povo. Não é a nação que cria o Estado. mas de um agrupamento que sc perpetua historicamente. encontram-se sindicalizados confor­ me as diversas. como dizia a velha concepção naturalista. que se encarna 110 povo como consciência e vontade de um pequeno número ou de um apenas. meios de ação supe­ riores em poder e duração àqueles das pessoas.1927. antes dc tudo c sobretudo. isto é. era esta a redação do art. são. no Estado fascista. o Estado.8 Ideologias 217 numa única realidade econômica e moral. que é uma vontade de existência e dc poder: é consciência dc si. como um ideal que tende a se realizar na consciência e na vontade de todos.. e significar a ideia mais po­ derosa por ser a mais moral. em virtude da natureza ou da história. e também ao sindicalismo de classe. I o da referida Carta: I . o fascis­ mo é a forma pura de democracia. na órbita do Estado. por conseguinte. isoladas ou agrupadas. seguem a mesma linha de desenvolvimento e de formação espiritual. com maior clareza ainda. mais coerente e mais verdadeira. Porém. numa vontade política que atua e que está disposta a demonstrar o seu direito. a nação é criada pelo Estado. a representação profissional. como uma única consciência e uma única vontade. atividades econômicas e cointeressadas. vida. O fascismo. Ao contrário. Os indiví­ duos formam as classes conforme seus interesses. portanto. 30. que instituiu. sob a inspiração italiana. Tal personalidade superior é nação enquanto Estado. . formam etnicamente uma nação. Com efeito. em seu aspecto qualitativo e não meramente quantitativo. na famosa Carta dei lavoro.04.A nação italiana é um organismo dotado de fins. pelo menos se o povo for concebido. Sem embargo disso. e as considera no siste­ ma corporativo. N ão se trata de raça ou de uma região geográfica determinada. As tendências organicistas e totalitárias do fascismo italiano ressaltam-se. personali­ dade. menos ainda. uma vontade e. e sim numa consciência ativa. política e econômica. documento que inspirou inúmeras Constituições da época.

utilização dc tais forças. a expansão dc todas as forças a cia imanentes. fonte primária do di­ reito. o espírito (Volksgeist) da nação deve ser quase misticamente intuído pelo juiz. permitindo. comunidade abstrata. mesmo porque jamais negaram tal postu­ ra justificada. considerado. que. o conceito de Volksgemeinschaft. pela qual o juiz. Ouçamo-lo: O grande princípio que nunca deveremos perder de vista é que o Estado é um meio e não um fim. segundo seus doutrinadores. é muito claro neste sen­ tido. Fundamentado no sangue e na raça. formadores de cultura. mas como um meio. É a base sobre que deve repousar uma mais elevada cultura humana. de capaci­ dade civilizadora. por outro lado. mas não c a causa desta. o nacional-socialismo não vê o Estado como um fim cm si mesmo. Tal cultura depende da existência dc uma raça superior. comunidade vi­ vente.218 Teoria Geral do Estado Já para o nacional-socialismo não vigorava um princípio positivista na concep­ ção do Estado. Sua finalidade consiste na conservação e no progresso de uma coletividade sob o ponto de vista físico e espiritual. os dois Estados essencialmente totalitários na modernidade. O positivismo vem. a única fonte do direito. a nação (Volksgemeinschaft). na doutrina fascista. antes de mais nada. com o desaparecimento dos arianos. cxcrcsccncias da vida social. sendo substituído por uma espé­ cie de doutrina do direito livre. embora organicista e totalitário como o fascismo. mas uma nova entidade. embora anti-individualista como o fascismo. que possui direitos apenas en­ quanto membro da comunidade e de acordo com os fins desta. a ser repudiado. o desenvolvimento es­ piritual. . tal doutrina não contrapunha ao indivíduo o Estado. desta forma. Poderia haver centenas dc Estados-modclo no mundo c isso não im­ pediria que. promover-se-á a defesa da vida física e. tudo o que diz respeito à defesa da raça. pelos excessos do individualismo liberal. sob a liderança (Führung) de um chefe (Führer). desaparecesse a civilização ao nível em que é encontrada atualmente nas nações mais adiantadas. Em suma. Com a. deve decidir inspirado no que­ rer supremo do Führer. Os Estados que não atendem a tal objetivo são seres artificiais. exclui o conceito da Rechtsgemeinschaft. Como adverte Guido Fassó. é o verdadeiro intérprete da alma popular (Volksgeist). assim. ao versar o Estado em sua autobiografia intitulada Mein Kampf (Minha luta). em última análise. e implica o enfraquecimento de qualquer direito do indivíduo. Adolf Hitler. sem o qual não se pode falar em nacional-socialismo. O Estado fascista e o nacional-socialismo foram. Mais adiante: () Estado é um meio para um fim. certamente. mais do que criar o direito com base em sua própria valoração do interesse social. Essa conserva­ ção abarca.

1) Ideologia oficial No Estado totalitário há um corpo oficializado de doutrina. originário da União Soviética.1. em essência. O marxismo. envolve um poder político que não c. c) controle policial da manifestação política exercido pelo Estado. anarquismo e socialismo são filiações de uma mesma concepção da sociedade. o Estado já estará extinto e fazendo parte do museu da História. ne­ cessariamente. A autocracia é uma forma de governo. Apenas aparentemente o liberalismo é antípoda do socialismo. apre­ senta os seguintes dados identificadores: a) ideologia oficial.1) Características do totalitarism o Quais as características do totalitarismo? Carl Joachin Friedrich afirma que o totalitarismo. dirigido por um líder. na irônica obser­ vação dc Engels. sim.8 Ideologias 219 O Estado socialista soviético é totalitário. fenômeno da tecnologia moderna e da democracia de massas. característica do fascismo e do nacional-socialismo. por outro lado. na verdade. exaltando apenas a totalidade dos indivíduos . Ao contrário. que abrange to­ dos os aspectos da vida humana. preconizada por Marx. O desenvolvimento do liberalismo acarreta. 6. Analisemos. enquanto doutrina dc libertação do indivíduo . 6. a Roma republicana. autocrático. o totalitarismo é uma concepção global do Estado que não adm ite a supremacia do individual so­ bre o social.2) Sistema de partido único. Por exemplo. Pode-se. que nos períodos de ditadura conhecia um poder transitório. totalitário. reside no fato de o poder político ser exercido independentemente de limitação constitucional e dc participação do povo na esco­ lha c nas deliberações dos governantes. Quando a sociedade comunista chegar. mas apenas à medida que cons­ titui uma etapa necessária na marcha para o comunismo. a única diferença entre ambos reside no método adotado por um e ou­ tro na persecução da mesma finalidade : a liberação do indivíduo dos excessos do poder absolutista ou do poder econômico dc uma classe dominante. d) concentração dos meios de propaganda no Estado. sendo. b) sistema de partido único. em especial. contudo. um dos pilares do . liberalismo. ao lado da pedra lascada e da roca dc fiar. Nisto reside. o socialismo. 6.1. inevitavelmente. f) direção estatal da economia. A autocracia. uma das diferenças en­ tre a autocracia e o totalitarism o . não é totalitário. num Estado totalitário. que não vicejava. sob o com ando de um líder O sistema de partido único. e) concentração dos meios militares. cada uma destas características. aliás. definida por Hans Kelsen como a forma de governo que. com brevidade. é. conceber um poder autoritário num Estado que não seja totalitário.

com a abolição global do isolamento humano. encontraremas o próprio Duce. 6. mas por­ que o movimento. não pelo fato de que todos sejam filiados ao partido. de uma po­ lícia de caráter político.4) C oncentração da propaganda nas mãos do Estado A propaganda reveste-se de enorme importância atualmente. em certo período de sua vida. a identificar-se. Segundo Mussolini. coordena-lhe a atividade” . guia-se espiritualmente. polvo. pode ficar fora da órbita do Estado. de que penetra a massa por mil caminhos. figurativamente. nenhuma socie­ dade particular. no Estado totalitário. e contrária à comunidade. sente-lhe as necessidades. a vida de cada cidadão. denotando bem o múl­ tiplo alcance do órgão. que. pois.3) Controle policial pelo Estado Segundo a concepção totalitária do Estado. Quanto ao Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães (Nationalsoziãlistiche deutsebe Arbeitpartei). Mussolini. Conforme doutrina Alfredo Rocco. nenhuma atitude.1. sendo sua finalidade prevenir (polícia ad­ ministrativa) e reprimir (polícia judiciária) as condutas antijurídicas. o Esta­ do fascista não é um Estado democrático no sentido clássico da palavra democracia. a nação deve estar articulada em torno de um partido hicrarquizado. Ora. nunca foi considerado. O partido deve ser a coluna dorsal do Estado c. para impor-se à maioria. mas estimular os indivíduos a ade­ rirem à ideia nacional-socialista de união da nação alemã. Salvetti Netto aponta. 6. ao realizar a unidade popular. mas para o povo em sua totalidade. Mussolini foi.220 Teoria Geral do Estado marxismo-leninismo. pelos próprios adeptos do nazismo. vive-lhe a vida. por ser contrária ao Estado. Ele pretende ser o representante visível da referida unidade: o seu fim não é orde­ nar ou exercer coerção. a diferença entre a polícia política e a polícia administrativa e a judiciária. adepto ferrenho de Marx. de que está em constante contato com ele. na Itália fas­ cista tivemos a OVRA (sigla proveniente dc piovra. no cimo de sua hierar­ quia. a influência do mestre socialista vai tornar-se patente no papel transcendental que o Partido Fascista terá no Estado mussoliniano. a fim de reprimir qualquer manifestação contrária ao Es­ tado. com precisão. Partido e povo tendem. As polícias administrativa e a judiciária (polí­ cia comum) existem em todos os Estados. em plena era tec­ nológica. com seus tentáculos). mas é um Estado democrático no sentido “de que adere estreitamente ao povo. e sim um movimento (Bewegung) que pretende representar não uma opinião pú­ blica particular para certo grupo de interesses. Daí é fácil depreender a necessidade. Na Alemanha nacional-socialista tivemos a célebre Gestapo (Geheime Staatspolizei). in­ cessantemente. será convertido em verdadeira en­ carnação c representação visível da unidade do povo. No século XV III as con­ .1. socialista exaltado. que administra e fiscaliza. obtido. um partido na acepção do termo.

se as forças de resistência ao nazismo não tivessem definido. 6. resultando dis­ so restrita ao máximo a liberdade individual”. a anexação da Áustria à Alemanha hitleriana foi o fruto de notável propaganda. Na Alemanha. Em 1938. foi derrotada. com restrições. Alfred Sauvy. . “O espírito fascista é vontade. o Estado fascista e o nacional-so­ cialista admitem. afirmou que. o que fez com que vários Estados hesi­ tassem em se aliar aos alemães. o excelente trabalho levado a efeito por Joscph Goebbels. b) Hitler não teria dado muita importância à guer­ ra revolucionária. Num livro intitulado Os arquivos da segunda guerra mundial. panfletos e vá­ rias publicações “subversivas” . ministro da Propaganda do Terceiro Reich. A guerra exalta e enobrece o cidadão e regenera os povos ociosos e decadentes. os aliados não teriam podido contar com os Estados ocupados pe­ los alemães. para a própria sobrevivência da ideologia revolucionária.prosse­ guem os doutrinadores fascistas. Enquanto no socialismo soviético a propriedade dos meios de produção fica abolida. Cheysens e Launay demonstram que a Ale­ manha foi derrotada na Segunda Guerra Mundial por dois motivos: a) falta de uma definição precisa dos objetivos da guerra. o intelecto precisa ser complementado pela fé mís­ tica. nenhum Estado totalitário de orientação fascista foi destruído sem intervenções externas. desde logo. Dizia a doutrina fascista que a luta é a origem de todas as coisas. a iniciativa privada. ensejou a consolida­ ção do poder de Hitler e dos objetivos do Partido Nazista. graças à força da propagan­ da.1. As na­ ções que não se expandem acabam por desaparecer. pelo autossacrifício e pelo culto do heroísmo e da força. jamais intelecto”. abarcando a generalidade das relações humanas. Por outro lado.8 Ideologias 221 cepções políticas da Revolução Francesa são divulgadas em livros.6) D ireção estatal da econom ia Haba define o totalitarismo como “o tipo de organização jurídico-social ca­ racterizada basicamente por um Estado que tende a expandir ao máximo sua esfe­ ra de intervenção. A razão jamais poderá ser um instrumento adequado para a solução dos grandes problemas nacionais . Um grande sociólogo de nossa época. Lenin afirmava ser indispensável a agitação social e a propaganda política entre as camadas do povo. Quando a Alemanha titubeou na guerra psicológica que era travada pa­ ralelamente ao conflito armado. seus objetivos. 6. Chevallaz.5) C oncentração dos meios militares Sendo o militarismo um dos mais expressivos meios do Estado totalitário para alcançar seus fins imediatos (segurança interna) e mediatos (expansionismo ou im­ perialismo) depreende-se a sua importância para doutrinas como o fascismo e o nazismo.1. deixando dc mobilizar as forças militares e morais do povo.

pois. 2) forte antissemitismo. Por outro lado. Surge o periódico La libre parole. que visava. a derrota do país na Guerra Franco-Prussiana (1870-1871) fez re­ crudescer o nacionalismo e. todavia. A reação da clas­ se média não foi causa imediata do surgimento dos movimentos fascistas. pouco antes da Primeira Grande Guerra. que seria a de outubro de 1917. é preciso tomarmos a expressão fascismo em sentido amplo e em sentido estrito. O último grande movimento revolucionário fora a Proclamação da Comuna de Paris. a emancipa­ ção dc minorias raciais e religiosas (judeus.222 Teoria Geral do Estado Quanto às origens do fascismo. havia traços comuns a quase todos: 1) nacionalismo extremado. po­ rém. embora sem nenhuma possibilidade de alcançar o poder. a concentração das empresas e as exigências cada vez maiores do operariado pressionavam a classe média. A Europa anterior à Primeira Guerra Mundial desfrutou de um período de paz. o boulangerismo prometia recuperar as possessões perdidas durante a guerra. começava a encontrar um ponto de apoio em sua propaganda. os movimentos políticos nacionalistas que se identificariam com o fascismo já estavam se firmando. alguns autores denominam fascistas os movimentos reivindicatórios da classe media dc alguns países europeus. Na Europa Ocidental o co­ lonialismo e sua manutenção impunham gastos aos Estados. colo­ car este militar no poder. mas garantiam mui­ tos empregos. a Rússia já estava ameaçada por uma tremenda re­ volução. receosa de perder sua posição social. o socialismo e o co­ munismo. Embora embrionários pouco antes e durante a Primeira Grande Guerra. em 1871. seus líderes tornar-se-iam mais ativos do que nunca em sua doutrinação. Em nenhum país da Europa Ocidental a lei e a ordem estavam seriamente ameaçadas. pontificando neste sentimento o movimento boulangerista (denominação inspirada no general Boulanger). parecia indispensável uma base popular para enfrentar o liberalismo. Havia prosperi­ dade econômica. desde logo. embora a época ainda não fosse a de uma democracia de massas. Não teve êxito. Na França. eslavos) só fez aumentar os temores da classe média. 3) invocação às classes médias e ao proletariado para livrá-los do marxismo (socialismo e internacionalismo) e formar uma base popular para novos movimen­ tos. que denunciava os judeus como criadores dos males do marxismo e do capitalismo. Embora divergindo em alguns aspectos de somenos. Em sua exacerbação e em seus rompantes. mas criou condições propícias para tal. graças a alguns escândalos financeiros internacionais que pas­ saram a ser atribuídos à “alta finança judaica”. Entretanto. Outra tendência radical. Apesar de tais condições. Durante a Guerra. protestantes. . Como se situavam tais movimentos? Vejamos. prenunciada em 1905. Num sentido amplo. com um levante popular motivado pela perda da guerra russo-japonesa.

Espancamen­ tos. graças aos escritos de um sindicalista revolucionário. A origem do vocábulo fascismo reside no fasces (fascio). torturas. Em sentido estrito. O caso não ficou. porém. velada ou expressamente. trabalhadores da classe média. destinados a combater o derrotismo e todos aqueles que fos­ sem considerados inimigos do povo. apoiando o ingresso da Itália na guerra. que estava na moda. André Dreyfus foi um oficial fran­ cês. a documentação que servira de base para a acusação era consi­ derada fraudulenta.8 Ideologias 223 fundado por Édouard Brumont. especialmente a partir de 1938 ede 1943. Agravando tais tendências. cuja expressão mais trágica seria mostrada na Alemanha nacional-socialista (19331945) e. encampado pelos latinos e que representa a união. graças a um movimento levado a efeito por seus simpa­ tizantes. diante . com o apoio dado por Mussolini à intervenção italiana em favor dos aliados. na própria Itália fascista. foram. nacionalistas extrema­ dos. o caso Dreyfus. fazendo a apologia de uma França “romântica. Integravam os fascii jovens futuristas. a causa de todos os males da nação. Os imigrantes hebreus. desempregados e descontentes de todo o tipo. mais tarde. por vol­ ta de 1914. em menor escala. os únicos que obtiveram vantagens com a Revolução France­ sa foram os judeus. idealistas. A violência. basicamente. campeava. Segundo Brumont. sob o comando de um antigo revolucionário socialista. eram as principais vítimas. Georges Sorel. uma virulenta xenofobia. O caso não teria maio­ res repercussões se ele não fosse judeu.como Rothschild e outros. haviam se apo­ derado dos bens dos franceses e eram. que clamavam pela revisão do processo. que já havia escrito um livro antissemita. cm defesa de Dreyfus. pois constituíam o símbolo do poder do ouro. fascismo é o movimento político surgido na Itália. da ordem capitalista destruidora. anti­ go símbolo de origem etrusca. acusado de fazer espionagem em favor da Alemanha. Foi o que bastou para que toda a França se empolgasse com o caso. con­ quistada e destruída pelos judeus”. sua inocência foi comprovada. grupos que pretendiam evitar que a Itália ingressasse na Primeira Guerra Mundial. Émile Zola escreveu Jíaccuse. b) a desastrosa derrota sofrida em 1890. O oficial denunciante dc Dreyfus. Quanto às causas imediatas da ascensão do fascismo italiano. as se­ guintes: a) um nacionalismo humilhado e exacerbado pelas decepções da anexação da Tunísia pela França. intitula­ do La France juive. supostamente desonestos. Benito Mussollini (1883-1945). encerrado. o coronel Henry. A organização do movimento pressupunha a formação dos “fascii” de combatimento. em 1881. os fascii transformaram-se em grupos de squadristi. Dreyfus foi condenado à prisão perpétua. Brumont afirmava que os judeus eram detesta­ dos pelos pequenos comerciantes e empresários e pelos artesãos. valorosa. A partir daí tais movimentos nacionalistas não deixariam dc adotar. se suicidou. com destaque para o antissemitismo. aplicação de doses de óleo de rícino eram a tônica. Proprietários ru­ rais e comerciantes. havia muitas pessoas implicadas na condena­ ção dc Dreyfus c o preconceito racial já não via freios à sua atividade. A partir de 1918. agora.

que. f) o homem não tem mais direito do que aqueles que o Estado lhe concede. era católica fervorosa e conservado­ ra. e) o Estado cria o Direito e a Moral. Ao seu surgimento. tão paradoxais. numa infeliz guerra de conquista. e) o descrédito e o colapso do regime parlamentar. nasceu em Predappio. considerável foi a atenção que Mussolini dispensou a Maquiavel. revolucioná­ rios c reacionários. especulação e desemprego 110 pós-guerra. marcariam muito a formação do fu­ turo Duce da Itália. Hobbes e das teorias do poder absoluto. b) afirmação de um movimento reivindicatório contra o Tratado de Versalhes. mais remotamente. em Versalhes. formalizados. Guido Bortolotto.. adepto ferrenho de KarI Marx e agitador con­ tumaz. somos aristocratas c democratas. Mussolini di­ zia então: Nossa doutrina são os fatos. como Sérgio Panunzio. Era um movimento oportunista. proletários c antiprolctários. Seu pai. até se firmar definitivamente. professora. As influências de ambos. g) a intran­ qüilidade generalizada. no centro da Itália. foi imensa a influência de Marx sobre sua formação doutrinária. em 1883. confiando ao filósofo Giovanni Gentile tal in­ cumbência. Outros jurisfilósofos robusteccm. fascistas. d) adoção do pensamento de Hegel. principalmente junto à classe média. f) a escalada dc grupos anarquistas e comunistas e as greves freqüentes. o fascismo italiano não apresenta uma doutri­ na preestabelecida. temerosa da as­ censão bolchevista. todavia. Nós. a linha programática do movimento fascista. Quem era Benito Mussolini. Al­ fredo Rocco. que procurava adaptar-se a quaisquer novas circunstâncias sociais. sendo seu pensamento quase todo calcado nos autores anarquistas e sindicalistas do século X IX . Entre 1929 e 1930.224 Teoria Geral do Estado dos nativos abissínios. destinado a restaurar o Estado contra a desin­ tegração socioeconômica do capitalismo e contra a infiltração comunista. contudo. violento e irascível. era um socialista radical. alta de preços. d) inflação. A ação deve sobrepor-se à palavra. Giuseppc Botai. Giuseppc Prczzolini e outros. ainda mais. O fascismo não carece dc dogmas. ele sente a necessidade de consolidar o caleidos­ cópio de ideias que era o fascismo. Diga-se de passagem que. temos a coragem dc repudiar todas as teorias políticas tradicionais. A mãe de Benito. mas sim dc disciplina. Embora tivesse o temperamento do pai. pacifistas c antipacifistas. afinal? Filho de Alessandro Mussolini e de Rosa Maltoni. os pontos principais da ideologia fascista: a) afirmação do nacionalismo. c) a desilusão sofrida pela partilha do botim de guerra. Hegel e Platão. Surgem então. logo apoiou o movimento fascista. c) posição intermediária entre o coletivismo e o individualismo: o Estado de­ ver ser a união de grupos e de corporações. ferreiro de profissão. . como Proudhon e Sorel. contudo.

Adolf Hitler passa a viver de pequenos expedientes. Quan­ do jovem. Tais corporações não distinguem entre patrões e operários. em Braunau. ao interesse do Estado. que o queria ver funcio­ nário público.1889. como já foi visto. Em 1919 entrou em contato com um pequeno partido formado por operá­ rios. escreveu sua autobiogra­ fia intitulada Minha luta9na qual afirma a superioridade racial do ramo germânico da “raça ariana” sobre as demais raças. alistou-se como voluntário. ficou órfão de pai aos 16 anos. Adolf Schickelgruber Hitler nasceu em 20. e um suposto plano dos judeus para domi­ nar o mundo. doutrinariamente. foi influenciado por duas tendências. Ninguém po­ deria exercer nenhuma atividade sem autorização da corporação correspondente. Profundo admirador das artes plásticas. que acompanhariam seu pensamen­ to até a morte: nacionalismo extremado e antissemitismo. plano este resumido num livreto de origem duvidosa intitulado Os protocolos dos sábios de Sião. a fórmula: Tudo dentro do Estado. Com Hitler. nada fora do Estado. porque a primeira expressão designa também aqueles que produzem pelo intelecto). j) resolução dos conflitos entre o capital e o trabalho por intermédio de con­ tratos coletivos e de uma organização corporativa das categorias profissionais. i) subordinação das corporações ao Partido Nacional Fascista. n) abolição do direito de greve. m)o trabalho como dever social. sendo ferido e recebendo a Cruz de Ferro. e. Agru­ pamento em corporações dos membros de cada ramo da produção (Mussolini usa a expressão produtores. A partir de 1929. o Partido dos Trabalhadores Alemães. logo depois. em vez de operários. subordinadas. sendo substituída a antiga denominação por uma nova: Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães (NSDP). o fascismo afirma que o Estado é absoluto. não pode ser tratado. norte da Áustria. em 1921 Adolf Hitler foi nomeado seu presidente. os indiví­ duos e os grupos são relativos. mas aca­ bou sendo preso e condenado a cinco anos de cadeia. aproveitando-se da crise econô­ mica mundial. Hitler tentou o poder. contrariando seu pai. expressão mais conhecida por sua forma abre­ viada nazismo.8 Ideologias 225 g) amparado em Hegel. po­ rém. de orientação direitista. Daí. Ao estourar a Primeira Guerra Mundial. o Partido Nacional-Socialista recolheu grande número de adeptos. Em 1923. h) sindicalismo e condenação do liberalismo e do socialismo marxista. Reprovado no vestibular e profundamente desgostoso. I) manutenção da iniciativa privada e da livre-concorrência.04. pretendia seguir a carreira de pintor. Filho de um funcionário público chamado Aleis Hitler. Adolf Hitler (1889-1945). sem que mencionemos a tremenda figura de seu criador. Quanto ao nacional-socialismo. como vender cartões-postais de sua autoria. o partido tomou maior alento. Nesta. . nada contra o Estado. de sua mãe.

profundamente. 6.1945.1933. os interesses desta. um condutor (Führer). No Estado nacional-socialista o indivíduo. quando os russos tomaram Berlim. por isso. seria titular da soberania. O Estado nacional-socialista não é individualista porque o fim essencial do Estado não é o indivíduo. o nacional-socialismo afirma que a origem de todo o Direito e poder resi­ de na própria comunidade (Volksgemeinscbaft).1.8) 0 Estado na cion al-socialista e os direitos subjetivos Para o nacional-socialismo o Estado é meio e não fim. da concepção liberal e indivi­ dualista. o Estado nacional-socialista não é liberal porque não reconhece ao indivíduo uma esfera de liberdade que deva ser respeitada absolutamente. Gierke. Constitui tão somente meio para o aprimoramento e a expansão da comunidade (Volksgemeinscbaft). como vimos. ao proletariado e sua ditadura na Rússia. O povo não se autogovernava. política. conduzido por um guia. e ao povo “atomístico” da democracia burguesa do século X IX . porém. única realidade social.226 Teoria Geral do Estado pessoas desgostosas com a situação política e econômica intolerável e pequenos empresários temerosos da atividade desenvolvida pelos comunistas. bem como à ideia de que o Estado consti­ tui uma pessoa jurídica e. antes de mais nada. Por outro lado.7) A doutrina nacional-socialista O nacional-socialismo deu origem a uma doutrina completamente nova so­ bre o Estado e o Direito.01. portanto.1. que de­ fendiam o positivismo jurídico (o Direito seria criado pela vontade do Estado). Ficou no poder ate o dia 30. suicidan­ do-se nos porões da chancelaria. como tal. O governo passava a ser considerado como uma emanação direta da própria comu­ nidade (Fiihrung). como Gerber. A doutrina nacionalsocialista repudia frontalmente as ficções da democracia liberal e pretende expor tão somente realidades. 6. existe uma situação jurídica de membro da comunidade. chamada. histórica. Enquanto a doutrina italiana do fascismo sofreu profun­ da influência dos juristas alemães. a Volksgemeinscbaft corresponderia. moral e. atuando por meio de órgãos. reduzido. aparelho a serviço da nação. Laband. Hitler foi nomeado chanceler em 30. a própria comunidade. em vez dos chamados direitos pú­ blicos subjetivos. Volksgemeinscbaft. Por outro lado. racial. Enfim. pois seria impossível. a concepção do chamado Estado dc Direito na doutrina nacional-socialista difere. prin­ cipalmente. não tem relações com a comunidade. que vem a ser um todo orgânico. . A origem de todo Direito acha-se no Volksgeist (espírito do povo).04. O Estado encontra-se a serviço da comunidade. Após várias campanhas políticas de maior êxito. vivo e real. mas era guiado. Jellinek. em linhas gerais. ao direito positivo. devendo satis­ fazer.

Esta é guiada. em excelente exposição sobre as instituições nacionais-socialistas. sendo.9) 0 princípio da liderança (Führung) no Estado nacional-socialista O principal e mais interessante instituto do direito público nacional-socialis­ ta é a Führung. poder-se-ia dizer que o Estado liberal seria um Estado legal. não será admitida. como vontade da pessoa-Estado.1. se no Estado liberal-democrático a lei domina todo o sistema político. é autônomo porque o Führer não se submete a nenhuma autorida­ de. Com efeito. 6. esta é apenas uma parte do D i­ reito.8 Ideologias 227 Enquanto o liberalismo identifica o Direito e a lei (positivismo). reforçada. pois referidas leis podem estar. Por outro lado. é porque há fidelidade c confiança mútuas. autônomo e autoritário. Se o exercício do poder se limita a uma condução. E originário porque não foi conferido pelo povo ou qualquer autoridade e porque quem o exerce o faz pelo simples fato de ser Führer. afir­ mando-se que a matéria jurídica nâo seria obra própria c exclusiva do legislador. formando seu séquito ( Gefolgschaft). O povo confia em seu líder porque este apresenta as qualidades necessárias para o seu cargo. mero corolário da sua autonomia. Isto deve ocorrer até mesmo nas decisões tomadas contrariamente às leis promulgadas pelo próprio Führer. o nacionalsocialismo afirma que o Direito se sobrepõe à lei. O Estado nacional-socialista é. contra as decisões do líder. de condução da comunidade (Volksgemeinschaft). Qualquer oposição. e como é o Führer quem possui em mais alto grau consciência do referido ordena­ mento. expres­ sa cm forma dc regras genéricas. abstratas. no Führerstaat a autoridade da vontade pessoal do Führer supera a lei. Finalmente. em sua doutrina de uma razão universal dirigindo o Estado. Por isso. e se a comunidade segue espontaneamente seu chefe. Daí a expressão Führer. contendo-se apenas na lei o direito seria estabelecido independentemente do legis­ lador e da lei. Sofismando. o poder do líder é autoritário. . sem cessar. assim. o Estado nacional-socialista seria um Estado de Direito. poder e decisões devem predominar em qualquer caso. chefe. Como a Führung deve estar em consonância com o ordenamento vital do povo. de fato ou de direito. então. sua vontade. declarava Hitler:4 4 Eu não teria existido não fosse minha fé poderosa no povo alemão. seja pelas vias de direito ou pelos recur­ sos jurisdicionais. pela fé e a con­ fiança do povo alemão em m im ”. Como acentua Roger Bonnard. Na doutrina nacional-socialista a juridicidade substitui a mera legalidade. sendo originário. em razão de mudança das cir­ cunstâncias. nem mesmo à autoridade da lei. protegidos os direitos in­ dividuais. as de­ cisões do líder não podem sofrer oposição. um Führerstaat. em desconformidade com o ordenamento vital do povo. o poder de Führung é necessariamente pessoal. Em que consiste a Führung? Cons­ titui um princípio de liderança. Na Führung encontramos o eco de várias passa­ gens de Hegel. dirigida por um Führer.

como a família. A doutrina do humanismo social busca integrar o homem ao Estado.. berna . o organicismo radical. 1982. cuja atuação. ed. que brotam espontaneamente. adaptando-a. a sociabilidade ina­ ta do homem. o indivíduo jamais alcançará a ple­ nitude do seu desenvolvimento. o município. Curso de teoria do Estado. age livremente. fenômeno este . tais grupos devem ser su­ focados pela prevalência absoluta deste Moloch chamado Estado. o sindicato. escolhendo. Na verdade. Saraiva. entre o indivíduo e o poder político. movido por seu arbítrio. alterando-a. 5. Ora. tem sido inexpressiva. Tais grupos surgem natural­ mente. Esses grupos são como flores de variadíssima natureza. o indivíduo. sem a participação do Estado. pelo menos no Brasil. tais grupos constituem meras associa­ ções voluntárias. procu­ ra o meio-termo entre o mecanicismo e o organicismo. devem ser órgãos legítimos de intermediação entre o in­ divíduo e o Estado. pois. revelam uma tendência natural do ser humano dc sc realizar c de se proteger e. existem grupos natu­ rais.228 Teoria Geral do Estado 7) H U M A N ISM O SOCIAL Bibliografia: A. optando. mas que integre o indivíduo ao Estado. a suas aspirações. en­ quanto os órgãos que compõem o corpo humano obedecem a leis biológicas. no seio da sociedade. para o liberalismo. enfim. bem assegura e salienta a impropriedade do organicismo radical. devem fruir da autonomia e da assistência do Estado. Esta doutrina chama-se huma­ nismo social. Em meio ao cipoal dc ideologias políticas radicais c dc práticas políticas de­ finitivamente ultrapassadas. Tal concepção. a parte contra o todo. mas condena. não certezas. pois que este confunde o organismo social e o organismo biológico. conforme adverte Pedro Salvetti Netto. como se ambos ti­ vessem a mesma natureza. 1967. naquele. ordenatórias da vida social. postulando um organicismo moderado. reformando-a. unidade moral ou de ordem. pois que revelam. não percebida no organismo físico. possibi­ lidades. Tal liberdade dc ação. em harmoniosa composição. Curso de doctrina social católica. Para o organicismo radical. pode o indivíduo voltar-se contra as estruturas sociais. São Paulo. condena frontalmente o me­ canicismo. portanto. ine­ xoráveis e imutáveis. expressa apenas tendências. que. também. sirva de instrumento de realização pessoal e social. surgiu uma nova doutrina. Madrid. Por outro lado. muito mais do que o próprio Estado. A nature­ za das leis éticas. os quais. Como faz ver José Pedro Galvão de Souza. fazendo com que este. ct al. suplantadas pelos partidos políticos. se bem que não soberanos. Católica. sensatamente. La Editorial Pedro. partin­ do da afirmação de que. que não oponha o Estado ao indivíduo ou vice-versa. salvetti n e t t o . até mesmo na sua grafia. é preciso salien­ tar as diferenças entre o corpo social e o organismo biológico: neste constata-se unidade física ou substancial.

ja­ mais simples veículos da vontade dos governantes. Routledge. A social-democracia se mostra um efeito recente da antinomia liberdade/igual­ dade deflagrada na Revolução Francesa. Na Rússia. graças à livre-concorrência absoluta. Daí o surgimento da social-democracia.visou corri­ gir tal desvio. verdadeiro simulacro do autêntico corporativismo. 1996. São Paulo. como uma ideologia revisio­ nista do marxismo elaborada por Edward Bernstein (1850-1932). O colapso do neoliberalismo. Martin. Fondo dc Cultura Econômica.8 Ideologias 229 já previsto por Thomas Hobbes em sua obra clássica Leviatà. Noruega.cm todas as suas vertentes . 1995. pois os grupos sociais autênticos devem ser dotados da mais ampla liberdade possível. Introducción a la teoria dei Estado. daria origem ao bolchevismo. Enciclopédia de la política. Desta síntese exsurge o caráter mais reformista que revolucionário da nova ideologia. b is c a re tti di r u f f ía . Finlândia. México. Não o corporativismo fascista. 1996. mais precisamente durante a Segunda Internacional Socialista (1889). fundado em 1898. M ao Tsé-Tung deveriam ser considerados revisionistas por excelência. o liberalismo agravou a desigualdade econômica. J. para o humanismo social. Alemanha e Dinamarca. Reagindo a isso. Considerada a vertente socialista dos Estados altamente industrializados do norte europeu. inicialmente na Alemanha. London-NewYork. Depalma. Bulgária e Escandinávia. o socialismo . o próprio Lenin e. Paolo. S. Ao preconizar a máxima liberdade políti­ ca. A conformação da sociedade. 1980. como Karl Kautsky (1854-1939). . a socialdemocracia surgiu na segunda metade do século X IX . M c C le lla n d . Desfrutando de cres­ cente prestígio. o Partido Social-Democrático Ope­ rário. Buenos Aires. mais tar­ de. mediante a abolição dos privilégios da burguesia. já que ambos ousaram adaptar a ortodoxia da concepção marxista da revolução aos seus próprios países. a social-democracia logo conquistou Hungria. b o r ja Rodrigo. souza . isso só se­ ria possível graças ao sacrifício da liberdade econômica plena. Todavia. 1997. deve ser eminentemente corporativa. ambos estagnados num estágio feudal de desenvolvimento. como Suécia. sob o comando de Lenin. bal. Introducción al derecbo constitucional com­ paradoi. G lo­ . México. k rie le . Fondo de Cultura Econômica. Embora a ex­ pressão revisionismoy com sentido pejorativo. pareça ter sido criada pelos próprios marxistas ortodoxos. 8) SOCIAL-DEMOCRACIA Bibliografia: a r a ú j o de Nilson. estruturado pela facção ma­ joritária daquele partido. como alternativa entre o socialismo revolucionário e internacionalista e os princípios da liberal-democracia. A history of Western political thought. e a adjetivação revisionista com que a orto­ doxia passou a acicatar os seguidores da chamada terceira via.

Na verdade. a orientação dc Adam Smith de que o homem age. enca­ minhando-os para um sistema econômico perfeito. bem assim a propriedade pri­ vada restringida pelo interesse social. como verdade absoluta. o Gover­ no intervém para restabelecer o equilíbrio ameaçado. quando isso ocorre. Os Estados menos desenvolvidos pouco têm a defender e muito a conquistar. mas não admite que indivíduos ou gru­ pos pretendam monopolizar a atividade econômica. a social-democracia defende a economia de mercado com a participação de todos. Enquanto a so­ cial-democracia europeia . Relativamente bem-sucedida nos Estados mais evoluídos política e econo­ micamente. métodos e objetivos. proporcionando ao indivíduo a máxima autonomia de vontade. mera somatória de interesses privados. vale reconhecer. res­ tando para as classes menos favorecidas apenas uma liberdade e um bem-estar eco­ nômico meramente formais. individualis­ mo c liberdade econômica. A omissão do Estado quanto à disciplina da atividade econômica ensejaria a concen­ . limitando-se o Estado a zelar pela preservação de ordem tipicamente burguesa.230 Teoria Geral do Estado Hoje. flatus voeis de uma ordem econômica irrealizável. mesmo que por vias alternativas. ipso facto. altera. A mão invisível da Natureza .se encarregaria de ordenar as relações entre os homens. enlaçar sem traumas liberdade política. a social-democracia ainda não se adaptou inteiramente ao Terceiro Mundo. prosperida­ de econômica e assistência social. então. parecem ser medidas radicais e violentas. Em suma. obtendo-as. onde as únicas soluções viáveis para o subdesenvolvimento. sem perceber que a classe trabalhadora dos Estados nórdicos que a adotaram não carece de medidas revolucionárias violentas para suas conquistas.que tem muito do socialismo fabiano ou contemporizador . retrógrada. a situação do Terceiro M undo perante a social-democracia é bem diferente: buscam-se mudanças políticas e sociais extremadas para. pois a liberdade burguesa só existe para a própria burguesia.utiliza unicamente meios pacíficos na composição dos conflitos de classe.a expressão é do pró­ prio Adam Smith . exclusivamente. e as crises pe­ riódicas que o afligem. Afirmando dois valores básicos. criar a infraestrutura de uma nova social-democracia. nos Estados mais adiantados. nos Estados menos desenvolvidos passou a ser considerada. conseguindo. Doutrina flexível. sempre. É sabido que não foi bem isso o que ocorreu. pela via refor­ mista. na qual tem vez tanto os mecanismos de mercado quanto a planificação econômica estatal. a social-dcmocracia defende uma ordem econômica eclética. A realiza­ ção do bem individual de cada cidadão representaria o próprio bem comum. o liberalismo nascente elegeu. na defesa de seus próprios interesses. conforme necessá­ rio. 9) NEOLIBERALISMO O liberalismo clássico surgiu com a desagregação do feudalismo e o conse­ qüente aparecimento do capitalismo. uma ideologia conservadora. devendo o Estado abster-se dc interferir na atividade eco­ nômica.

683). que adotam notória estratégia de dominação dos mercados. Huntington. em potencial ameaça às instituições burguesas. dirigida e ad­ ministrada não pelo Estado. se no Ocidente o neoliberalismo foi uma resposta. . p. já em fins dos anos 1980 e no início da década dos 1990. equiparar a liberdade de vida. mas sim um mercado dirigido por corporações transnacionais. Referido autor não leva em conta que a liberdade entre desiguais conduz à injustiça. O próprio poder de Esta­ dos subdesenvolvidos ou em desenvolvimento acha-se condicionado à planificação e operação das grandes empresas nacionais ou transnacionais.8 Ideologias 231 tração dos meios de produção nas mãos de alguns privilegiados. assim. abrindo as fronteiras dos Estados menos desenvolvidos para uma indiscriminada exploração econômica estrangeira. Ao observador atento e sereno. involuindo para os bons tempos do laissez-faire. O que ele c outros neoliberais defendem é uma liberdade que termina por autodestruir-se (Enciclopédia de la política. Em outras palavras. enfim. Surgiu. aparentemente livre. Rodrigo Borja que o neoliberalismo se funda em enorme falácia. embora pífia. é na verdade planificada. que simbolizou a própria queda de um socialismo viciado e o término da chamada Guerra Fria. como o faz Samuel P. não uma teórica liberdade de mercado. se o de­ sabamento dos regimes marxistas revelou a ineficácia de um sistema estratificador dos meios de produção. passando a economia. de opinião. na realidade voltada para a ressurreição das leis de mercado. seja no plano interno ou no internacional. então diretor do Instituto de Estudos Estratégicos da Universidade de Harvard. Disso resulta que a atividade econômica. não é menos verdade que este foi substituído por uma de­ sordenada privatização de bens públicos. Com a derrubada do muro de Berlim. cujos efeitos já se fazem sentir. Observa. na União Soviética e nos Estados socialistas do Leste Europeu. uma preocupante maioria de despossuídos. Nisso há uma total falta de perspectiva. surgindo. ter empresas. enriquecer. Pois bem. mas pela iniciativa privada. sob o pretexto de modernizar o Esta­ do e reduzir seu tamanho. liberando a propriedade privada de encargos sociais e colocando a di­ reção da economia nas mãos dc particulares. qual seja. manipulam a economia na direção de seus próprios interesses. para a iniciativa privada. ao descontentamento com o liberalismo. resta evidente que prevalece. Ora. o regime so­ cialista cederia. o capitalismo. no mundo con­ temporâneo. de imprensa ou qualquer das liberdades fundamentais do ser humano à liberdade de investir na economia. Articuladas entre si. com inteira procedência. descontentes dc toda espé­ cie. passagem ao seu rival histórico. foi uma tentativa desesperada de reavivar a atividade econômica estagnada pelo ma­ rasmo burocrático. o neoliberalismo. Vale-se do prestígio da palavra liberdade para sustentar. após décadas de experimentação socialista. em con­ trapartida. pretensamente uma nova doutrina. o neoli­ beralismo. que a liberdade de trabalhar. investir e ter propriedades sem a intervenção do Estado pertence ao mesmo gênero das grandes liberdades do homem.

p. políticos e economistas influentes dos Estados Unidos. da Europa e do Japão. a fim de fortalecer o sistema capitalista e resistir à pressão dos Estados socialistas da Europa e do Terceiro M undo. Desse fato.1973. reuniu-se uma Comissão denominada Trilateral. como tantos outros semelhantes. na cidade de Tóquio. e o elemento central da ideologia da oligarquia financeira que domina o mundo. formada por empresários.232 Teoria Geral do Estado Em 23.mais propriamente. na atual etapa do capitalismo. Nem muito menos uma cor­ rente de pensamento científico. cabe razão a Nilson Araújo dc Souza quando afirma: o chamado neoliberalismo não é uma teoria científica. Não chega também a ser uma doutrina. É uma ideolo­ gia . (O colapso do neoliberalismo.10. 9) . para estabelecer uma coesão maior entre as gran­ des corporações transnacionais.

1. Larousse. . Tanto que o próprio Alexan­ dre. ed. universalizar a civilização grega. O segredo dos hititas. Rio de Janeiro/São Paulo. ed. 1) NATUREZA DAS ORGANIZAÇÕES INTERESTATAIS A ideia da universalização de uma dada cultura superior. o Grande. Editorial Verbo . 1957. v. Manual de direito internacional público.. Larissa. 1994. Divino.l e s . Navarra. 2. Renovar. ra ra Guy. Camd o s r e is . não foi estranha a grandes vultos da História. 1986. C. Belo Horizonte. W. Curso de ciência política (teoria do Estado). Celso D. Pedro. Graham e outros. O historiador Plutarco afirma que os povos da época em que Alexandre expandia seu império aceitavam dc bom grado fazer 233 . após derrotar os persas.. m in a ceram . foi um dos primeiros a levar a civilização helênica aos povos deno­ minados “ bárbaros”. 14. e fundando um Estado universal. Hildebrando. simplesmente. e fez com que muitos de seus generais se casassem com mulheres persas. Niterói. Impetus. com isso. Cambridge University Press. The Cambridge Dictionary of Classical Civilization. Saraiva.d. Itatiaia. Resumo de direito internacional e comunitário. de. Jacques e ou­ - tros. chet. casou-se com uma das filhas do rei Dario III. t e i x e i r a Jair. 2008.0 ESTADO ENTRE ESTADOS: AS ORGANIZAÇÕES INTERESTATAIS Bibliografia: a c c i o l y . Unijuí. 2008. 2006. 2002. Dictionnaire des civilisations de VOrient ancien. s a i . Tratados y juramentos en el antiguo Oriente Proximo. São Pau­ lo. I. Larousse. 1977. s. Direito internacional convencionai Ijuí. mas. 2008. salvetti n e t t o . Alexandre III. São Paulo. buscando. voz que não tinha conteúdo pejorativo. Paris. Tribuna da Justiça. Civilisations antiques. designativo daqueles que não falavam a língua grega. Catheri- ne. levando-a da Europa até os confins da Ásia Me­ nor. Al b u q u e r q u e m e l l o . v. que venha a benefi­ ciar toda a humanidade. bridge. Curso de direito internacional b r ie n d público. Paris. s h ip l e y .

da Igreja Cristã. de forma absoluta. a necessidade de instituir. Roma prometeu a paz ao mundo com todas as suas con­ seqüências benéficas de prosperidade. de outro.234 Teoria Geral do Estado parte desse. o chamado Sacro Império Ro­ mano Germânico. ensejando conflitos que cumpre ao Poder Judiciário compor. por conseqüência. em razão da contínua sucessão das lutas entre eles. já então notável. De fato. permaneceu ainda mesmo depois que as hostes germânicas derrotaram as legiões de Roma. mesmo. da própria Organização das Nações Unidas. órgãos decisórios que fazem às vezes de árbitros nas querelas de Estados em conflito. com maestria. tenha a formação dc um império per­ durado por tantos séculos a impor sua autoridade. na esfera interestatal. da mesma forma que a pessoa natural busca. também cada Estado pode acabar se envolvendo contra seus pa­ res em conflitos velados ou guerras declaradas para alcançar objetivos puramente econômicos 011. pela mística de segurança que aqueles invencíveis exércitos podiam levar a grupos beligerantes. anteviam o futuro e conduziam os povos no rumo do congraçamento político destes. este obra não de um homem apenas. Napoleão Bo­ napartc inspirou-se consideravelmente nas realizações de Alexandre. mais que isso. A obra de integração engendrada pelo gênio de Roma. mas dc inúmeros vultos que foram se sucedendo e ampliando as fronteiras do império. Daí. antes respeitando-lhes as instituições culturais. O mito dessa segurança. única forma de alcançar plenamente seus objetivos. o Estado. remanesceram na Baixa Idade Média. sobre povos dc culturas tão diferenciadas. que. esse período da bela História Romana: É realmente singular. expansionistas. a 180 d. cuja natureza é a de associações de Estados criadas mediante tratados e dotadas de personalidade . inseguros. seus costumes.). cm toda a história. ao formar-se. independentemente dos grandes vultos da História. Sob a tutela do Império. diante das vantagens oferecidas pela civilização grega. Após a tentativa de Alexandre. instintivamente. impor suas tradições. Pedro Salvetti Netto sintetiza. que é pessoa jurídica de direito internacional público. sua religião aos povos vencidos. dessa paz. po­ rém.C. por isso mesmo in­ satisfeitos e. pre­ cisa interagir com outros Estados para realizar seu objetivo maior que é o bem co­ mum. sob a inspiração legendária do Im ­ pério c a influência. e muitos au­ tores veem nele um precursor da Liga das Nações e. merece especial referência o expansionismo romano. como sc afirmou. o fato é que. Pois bem. impondo a notória Pax roma­ na (30 a. Esses órgãos são entidades interestatais. sob a égide de uma lei universal. o relacionamen­ to social e econômico com seus semelhantes. muito aci­ ma da visão estreita dos medíocres. pela perspicácia do vencedor em não pretender. visando aumentar seus territórios. E da mesma forma que a pessoa natural nem sempre mantém um relaciona­ mento amistoso com outras pessoas. compreende-se: de um lado. de forma semelhante aos tribunais no âmbito interno desses.C.

entre seus filiados. As deliberações do Conselho de Segurança obrigam os filiados à organização. como sc depreende dos versos de Quinto Horácio Flaco: . É a sucessora da Liga das Nações. e) obrigação de colaborar com as medidas tomadas pela organização em conformidade com a Carta. e não prestar auxílio a Estado contra o qual a organização estiver impondo sanções. b) obrigação dc seus filiados dc cumprir os compromissos da Carta. distintas das de seus filiados e com objetivos específicos. criada logo após a Primeira Guerra Mundial. cuja vinculação decorre de um tra­ tado (Carta da ONU) que discorre sobre os direitos e as obrigações daqueles. a Organização Internacional do Trabalho (OIT) e o Banco Inter­ nacional de Reconstrução e Desenvolvimento (Bird). Conselho de Tutela. ex­ ceto o Tribunal Internacional de Justiça. Conselho Econômico e Social. o maior número de Estados. como o Fundo Monetário Interna­ cional (FMI). 3) DIREITO COMUNITÁRIO: ANTECEDENTES DA UNIÃO EUROPEIA . f) pressionar Estados não filiados a não tomar medidas prejudiciais à paz e à segurança internacionais. Rússia. existem as organizações de fim específico.UE A ideia de uma unificação econômica e. e os demais não permanentes. todos situados na própria sede da ONU (Nova York). Grã-Bretanha. A ON U conta com 192 Estados filiados. A or­ ganização compreende seis órgãos principais: Assembleia Geral. e que aca­ bou fracassando principalmente por não contar. Outras também visam objetivos também amplos. Tribunal Internacional de Justiça e Secretariado. São princípios instituídos pela ONU: a) princípio da igualdade soberana dc todos os seus membros. Além dessas espé­ cies. política dos Es­ tados europeus é anseio que se desenvolveu na própria Antiguidade Clássica. quando visam congregar. objetivando a solução pacífica dos questiona­ mentos mútuos que possam surgir entre seus filiados. d) absten­ ção do emprego de ameaça ou força material contra outros Estados. 2) A ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS . Conselho de Se­ gurança. c) composição dc litígios internacionais por meios pacíficos. Tais organizações têm fins universais.9 0 Estado entre Estados: as organizações interestatais 235 e ordem jurídica próprias. França e China). na Conferência de Versalhes dc 1919. O Conselho de Seguran­ ça é formado por quinze membros. em alguns aspectos.ONU A Organização das Nações Unidas (ONU) é uma instituição de caráter uni­ versal. como a Organização dos Estados Americanos (OEA). sediado em Haia. na medida do pos­ sível. embora regionais. com os Estados Unidos da América do Norte e a União Soviética. pois visa congregar todos os Estados do mundo e compor seus conflitos mú­ tuos na qualidade de guardiã da paz. dos quais cinco são permanentes (Estados Uni­ dos. eleitos pela Assembleia Geral por dois anos. É o caso da Organização das Nações Unidas (ONU).

em face do autoisolamento do Leste Europeu. na qual expunha suas ideias. quase contemporaneamente. sem o saber. 3° e 3°-A. dirigiu à imprensa europeia uma mensagem reafirmando a necessidade de uma União Pan-Europeia. Em 25. esses dois Estados.. o Presidente da República Helênica. II. Sua Majestade o Rei de Espanha. a coesão econômica e social e a solidariedade entre os Estados-membros. que instituiu a União Europeia. cuja exposição de motivos é sumamente elucidativa: Sua Majestade o Rei dos Belgas. ressaltando a necessidade da organização do Ociden­ te. 2o: A Comunidade tem como missão a criação de um mercado comum e de uma União Econômica e Monetária e da aplicação das políticas ou ações comuns a que se referem os arts. o Presidente da Ir­ . Em 07.236 Teoria Geral do Estado Europa entregou ao Touro sedutor o seu flanco de neve [. um crescimento sustentável c não inflacionista que respeite o ambiente. Em 1946. intitulada Pan-Europa. um discurso consa­ grado à unificação europeia. na Universidade de Zurique. criando. um jovem aristocrata húngaro. Em 1922. uma obra de grande repercussão.1992 foi assinado o Tratado de Maastricht. Com o tempo. Churchill pronunciou.03.] Mas Venus lhe disse: . determinado seu art. fez uma exortação à França e à Alemanha que se reconciliassem.Tu és. um elevado nível dc emprego e dc proteção social. Sua Majestade a Rainha da Dinamarca. Kalergi passou a ser considerado um verdadeiro apóstolo da unificação. no que foi seguido por Jean-Jacques Rousseau e Saint-Simon. de comum acordo. publicando.. Dante Alighieri retomou o assunto e. e sim Europa”. porém fracassaram.02. em 1304 o jurista Pierre Dubois concebeu um projeto de Estados Uni­ dos da Europa.] Empalideceu com a sua própria coragem chorando o ato vergonhoso [. 27) Séculos mais tarde. va­ lendo lembrar que em 1867 Victor Hugo profetizara: “ No século X X haverá uma Nação extraordinária [. o desenvolvimento har­ monioso e equilibrado das atividades econômicas. promover. em toda a Comunidade... (Carmine. restando evidente que apenas pela força do Direito a união seria possível. o aumento do nível e da qualidade dc vida. o Pre­ sidente da República Federal da Alemanha. o Conde Coudenhove-Kalergi. um alto grau de convergência dos comportamen­ tos das economias. mulher do invencível Júpiter! Deixa de soluçar e aprende a fruir uma grande fortuna: uma parte do globo receberá teu nome.. mas não se chamará França. uma confederação apta a unir seus destinos.] esta nação terá por capital Paris.. que instituiu a Comunidade Europeia. Napoleão c Hitler tentaram a unificação pela força intimidatória das armas. a célebre expressão Cortina dc Ferro: “Uma cortina de ferro acaba de tombar sobre a Europa! ” Na oportunidade. sobre o qual empregou. na oca­ sião e pela primeira vez.1957 foi firmado o Tratado dc Roma. o Presidente da República Francesa. no ano seguinte.

de atos normativos diversos (decisões ge­ rais ou regulamentos. Rea­ firmando o seu objetivo de facilitar a livre circulação de pessoas. à qual sc submetem os Estados signatários. e que por isso deles derivam. Decidiram instituir uma União Europeia. Na perspectiva das etapas ulteriores a transpor para fa­ zer progredir a integração europeia. a identidade europeia e a sua independência. em que as de­ cisões sejam tomadas no nível mais próximo possível dos cidadãos. Resolvidos a conseguir o reforço e a convergência das suas economias e a instituir uma União Econômica e Monetária. assim. os Tratados de Paris e de Roma instituíram uma ordem jurídica própria. Com a criação das três Comunidades Européias (Comunidade Europeia do Carvão e do Aço. da democracia. Confirmando o seu apego aos princípios da liberdade. Sua Alteza Real o Grão-Duque do Luxem­ burgo. outras resultam da adoção. no presente Tratado. a fim de lhes permitir me­ lhor desempenhar. nos termos das disposições do presente Tra­ tado. no momento próprio. do respeito pelos direitos do Homem e liberdades fun­ damentais e do Estado de Direito. incluindo. a uma defesa comum. fortalecendo. Resolvidos a continuar o processo dc criação dc uma união cada vez mais estreita entre os povos da Europa. uma moeda única e estável. num quadro institucional único. Resolvidos a assinalar uma nova fase no processo de integração europeia ini­ ciado com a instituição das Comunidades Européias. a segurança e o progresso na Europa e no mundo. de acordo com o princípio da subsidiariedade. cultura e tradições. Desejando aprofundar a solidariedade entre os seus povos. Re­ solvidos a executar uma política externa e dc segurança que inclua a definição. Sua Majestade a Rainha dos Países Baixos. Recordando a importância his­ tórica do fim da divisão do Continente Europeu c a necessidade da criação dc bases sólidas para a construção da futura Europa. as tarefas que lhes estão confiadas.. constituem o direito comunitário derivado (Direito . o Presidente da República Portu­ guesa. respeitando a sua História. no contexto da realização do mercado interno e do reforço da coesão e da proteção do ambiente. de disposi­ ções relativas à justiça e aos assuntos internos. em ordem a promover a paz. Sua Majestade a Rainha do Reino Unido da Grã-Bretanha e da Irlanda do Norte.9 0 Estado entre Estados: as organizações interestatais 237 landa. Resolvidos a instituir uma cidadania comum aos nacionais dos seus países. Assinala João Mota de Cam­ pos que uma parte dessas normas consta dos próprios Tratados. recomendações ou diretivas c decisões). de uma política de defesa comum que poderá conduzir. Determinados a promover o progresso econômico e social dos seus povos. constituindo o cha­ mado direito comunitário originário. o Presidente da Republica Italiana. sem deixar de garan­ tir a segurança dos seus povos mediante a inclusão. resultado de uma produção legislativa realizada na conformidade dos Trata­ dos.. Desejando reforçar o caráter democrático e a eficácia do funcionamento das instituições. Comunidade Econômica Europeia e Comunidade Europeia da Energia Atômica). a pra­ zo. e a aplicar políticas que garantam que os progres­ sos na integração econômica sejam acompanhados dc progressos paralelos noutras áreas. Estas últimas nor­ mas. pela autoridade comunitária (duo Comissão-Conselho).

país situado no sudoeste do atual Irã. o Mercado Comum do Sul (Mercosul) congrega Brasil. povo indo-europeu de grande poderio militar.C. Ramsés II. que assinalava os confins do império dos hititas. aceitou o desafio e a guerra foi inevitável. Lisboa. muito maior. propiciando condições de concorrência entre os Estados-membros. como visto. dois príncipes das cidades sumérias de Lagash e Uruk. O rei hitita. p. em alguma data entre 2291 e 2255 antes da Era Cristã. Muwatalis. celebraram um tratado de paz e fraternidade. de 26. c) a criação de uma tarifa externa e dc uma política comercial comuns. 4) 0 MERCADO COM UM DO S U L-M E R C O S U L Instituído pelo Tratado de Assunção. Fundação Calouste Gulbenkian. monetário.C. Paraguai e Uruguai. cidade do sul da Mesopotâmia. entretanto.. passou a se proclamar vencedor. Em 17. no tocante ao comércio exterior. foi assinado o Protocolo de Ouro Preto. sem dúvida. p. d) a coordenação de políticas macroeconômicas e setoriais entre os Estados-membros. 1.1994. Seriam estes os primeiros tratados internacionais registrados pela História.. indevidamente. dc serviços.12.. Após o conflito. soberano hitita. embora seja admiti­ . outro tratado seria. sendo estes os seguintes: a) a adaptação da legisla­ ção de cada Estado-membro à legislação dos demais. embora sua importância fosse. de 1980. b) a livre circulação de bens e serviços entre os Estados-membros. em 1296 a. de transportes e comunicações. formalizado numa tabuinha de argila encontrada por arqueólogos c enviada ao Museu do Louvre. cambial c de capitais. que emprestaria seu nome à celebre batalha.238 Teoria Geral do Estado comunitário. e v. Pouco mais tarde. alfandegários. conside­ rado o mais antigo. forma­ da apenas por Brasil e Argentina e. um rei do Elam.. depois. que estruturou ór­ gãos e objetivos do Mercosul. ampliada pelo Tratado de Assunção. celebrou com Akkadc ou Agadé. 19 e segs. agrícola. na antiga Mesopotâmia (atual Iraque). industrial. editando nada me­ nos que 46 exemplares do texto. após dramática batalha. Esta­ mos nos referindo ao célebre tratado de paz entre Ramsés II. Argentina. 2.). outro tratado de paz. eclodindo na localidade de Kadesh. fiscal. mediante a supressão de direitos alfandegá­ rios. v.03. Seu histórico remonta ao Tratado de Montevidéu. que teria sobrevivido milagrosamente no embate. Ramsés II contestara as fronteiras do Egito e da região que hoje é a Síria. que criou a Associação Latino-Americana de Integração (Aladi). 13 e scgs. cujo resul­ tado ainda hoje não ficou claro.1991.C. provavelmente em 2400 a. com vistas à inte­ gração do chamado Cone Sul. 5) OS TRATADOS INTERNACIONAIS (NATUREZA E EFICÁCIA) Por volta do remoto período entre 2404 e 2375 a. monarca egípcio e Muwatalis. mais tarde.

mediante contratos. se não foi o pri­ meiro. sanções de ordem econômica. 177) Vejam. um pacto que ultrapassa. muitos dos tratados de paz que têm sido produzidos pelas nações do vigésimo século da Era Cristã. consideram prudente alternativa compor suas querelas e atender seus interesses suasoriamente. verdadeiramente figura entre essas batalhas de primei­ ra importância para o mundo. a antiguidade do acordo celebrado entre egípcios c hititas. naqueles tempos.9 0 Estado entre Estados: as organizações interestatais 239 do por muitos historiadores que os egípcios teriam sido fragorosamente derrota­ dos. bem demonstra que os governantes já intuíam a importância dos tra­ tados. confere a seguinte definição des­ te ato: Tratado significa um acordo internacional concluído entre Estados. além de ser manifestação de vontade objetiva democrá­ tica por excelência. qualquer que seja a sua designação específica. conduzi­ das por seus governantes. . foi o mais significativo da História antiga do Próximo Oriente. travada no ano de 1296 antes de Cristo. W. tendo em vista a participação direta dos Estados interessados. A complexidade crescente das relações da comunidade internacional. também as antigas sociedades políticas. a interde­ pendência cada vez maior imposta a cada Estado em relação aos demais. já reconheciam as vantagens da composição amigável de suas dissidências. Qual a natureza do tratado internacional? Qual sua eficácia? O tratado é a fonte primeira do direito internacional c. Como as pessoas naturais. supostamente. de 1969. seria praticamente impossível um Estado impor. Em sua obra O segredo dos hititas. a história do mundo. Hoje. Ceram assinala: A batalha de Kadesh. unilateralmente. no mí­ nimo. cm época tão remota. imediatamente. a outro ou outros Estados qualquer conduta de seu ex­ clusivo interesse. principalmente os de paz. em sabedoria política. sem falarmos no ubíquo terrorismo que solapa o mo­ ral de qualquer Estado que. Ela decidiu o destino da Síria e da Palestina. política ou. assim como da balança do poder entre o Egito e Hatti. o fato é que por seu intermédio se regem as matérias mais importantes. C. E na sua esteira veio o primeiro tratado dc paz detalhado de que temos conheci­ mento. tem ense­ jado a multiplicação dos tratados. tangidas pela razão. entre o faraó Ramsés II e o rei hitita Muwatalis. sobre tratados. consubstanciado em um único instru­ mento ou em dois ou mais instrumentos conexos. (p. O fato é que dessa animosidade surgiu um tratado de paz que. É a primeira batalha da que somos capazes dc recons­ truir. em forma escrita e regulado pelo Direito Internacional. embora haja acordos de outra natureza no plano interestatal. morais se fariam sentir. Há outro aspecto fascinante nesta batalha junto ao rio Orontes. E o que acontecia aos países entre o Nilo e o Tigre era. A Convenção de Viena. venha a sc impor a outro pela força.

podendo estas ser nacionais ou estrangeiras. conforme a teoria dualista. a ordem internacional rege rela­ ções entre Estados. a CF adverte. a ordem internacional obtém sua validade em pro­ cedimentos típicos da comunidade internacional. o referendo do Congresso Nacional (CF. c) consentimento mútuo c válido. qual delas deve prevalecer? Duas correntes doutrinárias se opõem no tocante à vigência dos tratados no plano inter­ no de cada Estado. obje­ to lícito e possível. exclusivamente. b) habilitação dos agentes signatários. de Albuquerque Mello.ato que estabelece as regras de criação e funcionamento de novos ór­ gãos. VIII). b) Estatuto .o termo tem dois significados: c. no art. para ter validade e eficácia no âmbito inter­ no do Estado. Para o dualismo a ordem interna­ cional e a interna são realidades distintas. b) protocolo-acordo . como no caso dc notas diplomáticas confirmando acordos verbais anteriores (cf. Curso de direito internacional público.240 Teoria Geral do Estado Embora a forma escrita seja exigida para a validade do tratado devido à im­ portância deste.trata de matéria de competência comum da Igreja e do Esta­ do. d) no caso do Brasil. embora a denominação dualista a ela atribuída seja de Alfred Verdross. que brota da vontade de um Estado apenas. Havendo conflito entre a norma internacional e a norma interna. f) Compromisso . O tratado é apenas uma dentre as espécies da grande família dos atos inter­ nacionais de consenso.ato destinado a instituir princípios jurídicos ou reafirmar uma atitude política comum. Nesse senti­ do. é fato que alguns autores ainda consideram a forma oral de certos acordos internacionais. inconfundíveis. geralmente tribunais internacionais (Estatuto de Roma do Tribunal Penal In­ ternacional. a) a ata de uma conferência. enquanto a interna se ocupa somente de pes­ soas naturais e jurídicas. A teoria dualista foi elaborada por Heinrich Triepel. com fundamentos e des­ tinatários distintos. Entretanto. p. Com efeito. Celso D.ato que versa matéria cultural ou transporte. Ora. valendo uma referência aos seguintes: a) Declaração . orientação adotada em 1928 na Convenção de Havana sobre tra­ tados. a dualista e a monista. a ordem jurídica interna disciplina as relações entre pessoas naturais (relações de direito privado) ou entre estas e o próprio Estado em que se situam (relações de direito público interno). art. esta pressupõe: a) capacidade dos contratan­ tes. g) Convênio . a norma internacional deve ser admitida oficialmente no âmbito des­ te. é relativamente ao concurso entre o tratado internacional e as nor­ mas internas de cada Estado que surgem a maiores indagações. resultando da vontade de vários Estados contratantes. VIII. 84. Ademais. 259. de 1998. c.tratado em que são criadas normas jurí­ dicas. 84. ao passo que a ordem interna funda-se na Constituição. que a eficácia dos tratados no territó­ . No Brasil. d) Acordo . e) Concordata .ato utilizado para acordos sobre litígios que vão ser submetidos à arbitragem.trata-se dc um ato com objetivos econômico-financeiros ou cul­ turais. nota). Quanto à eficácia dos tratados. a saber. c) Protocolo .

dispositivos estes que dizem: Art. no caso. validade decorrente daquele. estas não poderiam se chocar: a recepção do Direito Internacional seria realizada mediante sua transforma­ ção cm Direito Interno. que elaborou com outro jurista. o que se coaduna com a moderna concepção da soberania. como se observa nos arts. Uma norma. soberana. segundo a qual. haja vista terem. de maneira que a execução seja impossível. a do monismo internacionalista e a do monismo nacionalista.. pacta sunt servanda. a não ser a moral. Assim. acordos ou atos internacionais que acarretem encargos ou compromissos gravosos ao patrimônio nacional. onde reina. não es­ taria subordinado a qualquer espécie de ordem. O monismo viria a se cindir cm duas correntes. existindo duas ordens jurídicas independentes. a ordem jurídica internacional c as ordens jurídicas in­ ternas seriam apenas comunicantes. da Lei Magna. e 26 e 27 da Convenção de Viena sobre o Direito dos Tratados entre Estados e organizações internacionais ou entre organizações internacionais. as normas de direito interno. re­ tira sua validade daquela que lhe é imediatamente superior. Se a organização do Estado mudar. A superioridade hierárquica do direito internacional sobre o direito interno seria es­ sencial da própria existência deste. definitivamente. Kelsen justifica o monismo invocando sua conhecida teoria da pirâmide nor­ mativa. exclusivamente. norma que se conjuga com o art. mas apenas uma. Adolf Mcrkl.] não haveria conflito de fontes nas relações entre Direito Internacional e Direito Interno.. a Gründnorm ou norma fundamental. Assim. a partir do momento da transformação da norma internacional cm norma interna. a norma de direito internacional fundada no costume. por divisão de território ou por ou­ tros motivos análogos. 11 da Convenção de Havana sobre tratados. daí a denominação de sua dou­ trina. diz Kelsen. qual seja. mostra-se antípoda do pensamento dualista. prevalece a norma de direi­ to internacional. A primeira afirma a absoluta primazia do trata­ do sobre a ordem interna: havendo conflito entre eles. sobre tratados. [. Para o conhecido mestre vienense. desvinculado daquele. (Pacta sunt servanda) Todo tratado em vigor obriga as partes e deve ser cumprido por .9 0 Estado entre Estados: as organizações interestatais 241 rio brasileiro depende de referendo do Congresso Nacional. cujo expoente é Hans Kelsen. de 1928. Quanto à teoria monista. como lembra Larissa Ramina. Os tratados continuarão a produzir os seus efeitos. até chegarmos ao ápice da pirâmide. Estado so­ berano é aquele que se acha diretamente subordinado ao direito internacional. pois.. o qual. ao Congresso Nacional resolver. não pode haver duas ordens jurídicas independentes. 26. 11.1.. 4 9 . ainda quando se mo­ difique a constituição interna dos Estados contratantes. que diz competir. os tratados serão adaptados às novas condições.] Art. como observa Larissa Ramina [. Kelsen afirma o primado do direito internacional. de 1986. ademais.

1).388. . a partir de uma lista de Estados que lhe tenham manifestado a sua dis­ ponibilidade para receber pessoas condenadas. e 109.TPl O Tribunal Penal Internacional (TPI) é uma pessoa jurídica de direito públi­ co externo. vinculada à União Europeia (UE).09. de 06. As penas privativas de liberdade serão cumpridas num Estado indicado pelo Tribunal. incluída a internacional. 7°). O Tribunal poderá. 4. arts. tendo por objetivo julgar os crimes de genocídio. I o) e sede em Flaia . 4o.2002. 27. d) crime de agressão. 112. Tem personalidade jurídica internacional (art. mediante o Decreto Legislativo n.5o. pois a Constituição Federal. guerra e agressão. a qualquer mo­ mento. 48. deve prevalecer aquela. b) crimes contra a humanidade (art. 1. item 1°. c) crimes dc guerra (art. 3o. com recepção na ordem jurídica brasileira desde 06.06. a sa­ ber. §§ 2o e 3o.02.2000. 4 9 . 6) 0 TRIBUNAL PENAL INTERNACIONAL . O direito público brasileiro consagra essa corrente.242 Teoria Geral do Estado elas de boa-fé. 1). II. impõe-se a to­ das as outras.1998. III e V.2002.2002. caráter permanente (art. e promulgado internamen­ te pelo Decreto n. O Tribunal terá competência exclusiva para decisões sobre qualquer pedido de revisão ou recurso. de 25. bem assim outros crimes contra a humanidade. 8o). Art. Qualquer Estado-parte poderá denunciar ao procurador uma situação em que haja indícios de ter ocorrido a prática de um ou vários crimes da competência do Tribunal e solicitar ao procurador que a investigue. decidir transferir um condenado para uma prisão de outro Estado. esta afirma a primazia da Constituição do Estado sobre as normas internacionais. VIII. com vista a determinar se uma ou mais pessoas identificadas deverão ser acusadas da prática desses crimes.1 . caput. 84. O Estado da execução não obstará a que o condenado apresente um tal pedido. a qualquer momento. a saber: a) crimes de genocídio (art. 4°.07. A competência do Tribunal restringir-se-á aos crimes mais graves que afetam a comunidade internacional. 6o). solicitar sua transferência do Estado incumbido da execução. como norma fundante primeira. devem ser obedecidos os dispositivos constitucionais respectivos. Por ou­ tro lado. do qual o Brasil é signa­ tário desde 07.06. a pessoa condenada pelo Tribunal poderá. havendo conflito entre uma norma interna e uma internacional. Um Estado-parte de um tratado não pode invocar as disposições de seu direito interno para justificar o inadimplemento de um tratado. E para que haja recepção dessa pela ordem ju­ rídica brasileira.Países Baixos (art. Quanto à teoria monista nacionalista. Foi instituído pelo chamado Estatuto de Roma. de 17.

diante de si. um excelente complemento para a pesquisa acadêmica.LEITURAS COMPLEMENTARES 10 Na seleção dos textos a seguir. dificilmente encontrada nas livra­ rias ou. Dos deveres e Da República. príncipe dos advogados e célebre orador. de modo a ativar o senso crítico do leitor iniciante. trad. na medida de nossas possibilidades. do que à sua brilhante produção jurídica e filosófica. escritor e político ro­ mano. trad. o que torna os textos que o leitor tem. Cultura Brasileira. embora de notória importância.d. hoje. trad. Integram o rol seleto dos clássicos. nas quais refulge a chamada humanitas ou sabedoria civil e moral tipicamente romana. Rio de Janeiro.C. s. deve sua fama menos à sua atividade política. o acesso a obras hoje raras fica. consistente em obras ainda hoje prestigiadas. mesmo. facilmente encontrados num sem-número de recentes antologias. como Do orador. de modo que o intento de facilitar. durante a qual manteve. Livr. como o leitor perceberá de imediato. ao mestre e ao aluno. Antunes.. e notas de Maximiano Augusto Gonçalves. cumpre ressaltar que evitamos a inclusão de excertos já conhecidos por todos. Nestor Silveira Chaves. São Paulo. postu­ ra ambígua. Vale acrescentar que tais escritos revelam ideologias dc toda ordem. Bruto. 243 . São Paulo. A maior parte desta coletânea é. H. De officiis.). nos sebos. em respeito ao mais autêntico espírito democrá­ tico e à liberdade de opinião. quase sempre. Ed. Saraiva. Nes­ te diapasão. 1) MARCO TÚLIO CÍCERO1 Dos deveres ("De o ffic iis ") (Tratado dos deveres. Dos deveres. não levamos em conta a vetustez ou modernida­ de dos autores. e notas de João Mendes Neto.) 1 Marco Túlio Cícero (106-43 a. e clássicos não envelhecem. Da velhice. concretizado. Vale lembrar que são textos pouco conhecidos da maioria do público.

ou depois dc declaração formal. que dela fazia parte. ao contrário. quando estabelece como única guerra legítima aquela que é feita para reivindicar um território usurpado. ficou no exército. receber generosamente os sitiados que depuseram ar­ mas e se colocaram à disposição do general. o nome se tornou duro. não é menos indispensável a existência de uma razão legítima. temperando assim a doçura da palavra com a dureza da coisa. não podia legalmente combater o inimigo: tanto era ele rigoroso em observar as leis de guerra. e mais adiante Auctoritas aeterna adversus hostem. entendo que nunca sc deve rejeitar proposições de paz. XII Sobre isso quero observar: mudamos o nome de perduellis. Esse general deliberou licenciar uma legião. Temos ainda a carta que o velho Catão escreveu a seu filho Marcos. e só se diz de quem toma armas contra nós. que foste licenciado pelo Cônsul. De outro lado. e não a que existe. que servia na Macedônia na época da guerra contra Perseu: “Soube. os Sânitas. não se tem o direito de combater”. e o filho de Catão. As condições que justificam uma guerra têm sido santamente consignadas no direito do povo romano. Fizemos a guerra aos Celtibcros c aos Cimbros como a inimigos. Há alguma coisa mais humana que dar nomes tão moderados a quem nos faz a guerra? Contudo. com o tempo. teríamos uma república. nossos maiores chamavam hostis os que chamamos agora perigrinus. uma magistratura. De um lado. sendo a glória a finalidade da guer­ ra. se encontrava licenciado. ainda quando o cerco começa a pene­ trar na muralha. governador de uma província. Lê-se na Lei das Doze Tábuas: Aut dies status cum hoste. que designava. quando não há aparência de perfídia. Nas guer­ ras civis se comportam diferentemente com um inimigo e com um competidor. só combatemos pelo império. Sobre isso. a justiça foi tão bem observada por nossos maiores que aqueles que tinham recebido a submissão das cidades e nações tornavam-se seus protetores. Catão escreveu a Pompílio que. propriamente. tendo sido o pri­ meiro dispensado. de outro. a honra. com o outro se defende a vida. pelo de hostis. ao rei Pyrro. contendo os motivos. pois que. Os . mas. que fazia suas primeiras armas. tinha no seu exército um filho de Ca­ tão.244 Teoria Geral do Estado Por mim. Pompílio. talvez a melhor de todas. é preciso consolar os que foram vencidos pela força. se ele consentisse em ter seu filho sob sua bandeira. por uma questão de existência e não de supremacia. os Cartagineses. Cuidado em se meter em qualquer comba­ te: desde que não se é soldado. era preciso engajá-lo de novo. diz ele. Com efeito. com os latinos. uma guerra dessa natureza deve ser conduzida com maior animosidade. com este sc disputa uma dignidade. os Sabinos. como gostava de guerra. Mesmo quando se luta pela supremacia. se quisessem me ouvir. inimigo.

Tomando por testemunha a majestade dos deuses. voltou sob o pretexto de que havia esquecido qualquer coisa. Observemos ainda que devemos praticar justiça mesmo com as pessoas de baixo nível. Eu juro deixar a doce liberdade. Fabricius entregaram o trânsfuga a Pyrro. mas os outros não se mostravam mais justos. para mim nem o ouro. XIII O cidadão. Aníbal. dignas do sangue de Eacides. Ninguém de mais humilde condição que os escravos. Ora. Regulus. Nossos antepassados deram um lindo exemplo de justiça para o inimigo. Pyrro os devolverá. Para saber quem possuirá o Império! Que o valor decida. depois de tê-los fei­ to jurar que retornariam se nada obtivessem. foi enviado a Roma para tratar da troca de prisioneiros. São palavras dignas de um rei. a palavra empenhada deve sempre refletir o que se pensa e não o que sc diz. Recusaram assim comprar com um crime a morte de um inimigo poderoso e que declarou guerra sem ser provoca­ do. deve manter sua palavra. Aníbal en­ viou prisioneiros a Roma para negociarem o resgate de cativos. não o ouro. e preferiu submeter-se ao suplício a faltar com a palavra dada ao inimigo. crendo-se quite com a sua palavra por não ter estado nos termos do tratado. os que se tornaram perjuros. Com efeito. Um trânsfuga do exército de Pyrro ofereceu-se ao Senado para envenenar o rei. saindo do acampamento com permissão de Aníbal. nem resgate para mim! Não transformemos a guerra num tráfico infame! Que o ferro. fez uma promessa ao inimigo. aconse­ lhou o Senado a não devolver os cativos. o Se­ nado e C. sem exclusão do que recorreu à astúcia para se desembaraçar de compromisso. decida a nossa sorte. que. Quando chegou. depois. Levareis vossos prisioneiros. retornou em seguida. voltou. Na primeira guerra púnica. Mas é o bastante sobre os deveres na guerra. mesmo sob pressão dc circunstâncias. c jurou voltar. Lembra-se a nobre resposta de Pyrro quando se tratou do resgate dos pri­ sioneiros: Romanos. Escutai minhas palavras! Àqueles que o destino da batalha poupar. No tempo da segunda guerra púnica. são aqueles que são tratados como mercenários aos quais se exige trabalho a troco do necessário para viverem. apesar das súplicas de parentes e amigos. preso pelos Cartagineses. cruel.10 Leituras Complementares 245 cartagineses foram pérfidos. antes da batalha de Cannes. foram degradados pelos censores e relegados toda a vida para a classe dos tributários. .

19. v.). era-Lhc conveniente fazer muitos graus de cria­ turas. pois. Logo. 47. também será causa da sua desigualdade. à perfeição do universo contribui não só haver muitos indivíduos. a mais abominável é a desses homens que.246 Teoria Geral do Estado Quanto à injustiça. Nos seres naturais vemos que as espccies são gradativamente ordenadas. pois teriam o que tem este e ainda mais. mais acrescenta a bondade do universo a multiplicidade das es­ pécies do que a dos indivíduos de uma mesma espécie. as plantas do que os mi­ nerais. logo.. quando enganam. Encyclopaedia Britannica. Gap.] A diversidade e a desigualdade das criaturas não procede do acaso. a. I. Ademais.31) (Suma contra os gentios.) Tradução do autor. é mais perfeito o universo ha­ vendo muitas criaturas do que se houvesse um único grau delas. [.J Muitos bens finitos são melhores do que um só. q. Suma teológica. Sen­ do. Suma con­ tra os gentios. Daí dizer-se no Gênesis: “Viu Deus tudo o que tinha feito. a Divina Sabedoria a causa da distinção das coisas para a perfeição do universo. Livro II. Logo. Todas as duas são indignas do homem. nem da diversidade da matéria. por conseguinte. 2) [. e era excelente7 ’ (1. As­ sim.. Pois não seria perfeito o univer­ so se nas coisas só se encontrasse um grau de bondade (Santo Tomás de Aquino. . cit. diferentes graus de coisas (Santo Tomás de Aquino. mas haver diferentes espécies e. é finita a bondade de toda criatura. mas a fraude é mais odiosa. Em cada uma dessas classes encontram-se espécies mais perfeitas do que as outras. é cometida de duas maneiras: pela violência e pela frau­ de. os animais do que as plantas e os homens do que os outros animais. 45). procuram parecer homens de bem. os compostos são mais perfeitos do que os elementos. pois é deficitária da infinita bondade de Deus. Uma pertence à raposa. nem da intervenção de al­ gumas causas ou méritos. mas procede da própria intenção de Deus.. Por isso.. 2) SANTO TOMAS DE AQUINO Suma teológica e Suma contra os gentios (Thomas Aquinas. como o formal exce­ de o material. É o bastante so­ bre a justiça. De todas as injustiças. in Britannica Great Books o f the Western World. Ao Sumo Bem compete fazer o que é melhor. Ora. a bondade da espécie excede a do indivíduo. outra ao leão. que quis dar à criatura a perfeição que lhe era possível ter.

1969. dedicou-se à pesquisa histórica e à ela­ boração de obras que se tornariam célebres. sendo adquiridos com tropas de ou­ trem ou com as próprias. deve ter o cuida­ do de não usar mal essa piedade. Nesta. entretanto. que lhe inspiraram a feitura de inúmeros escritos. como foi M ilão com Francisco Sforza. Capítulo XVII Da crueldade e da piedade: se é m elhor ser tem ido ou ser amado Reportando-me às outras qualidades já mencionadas. Itália. Conseguida a unifi­ cação. II príncipe. Sendo esse objetivo nobre. sem que seus detratores se apercebessem de que O príncipe não fora escrito para todos os povos e todas as épocas. pensador italiano natural de Florença. Os novos podem ser totalmente novos. quan­ do o sangue senhorial é nobre já há muito tempo. o qual. todos os meios para alcan­ çá-lo seriam válidos. digo que cada príncipe deve desejar ser tido como piedoso e não como cruel. Os principados são hereditários. Capítulo I De quantas espécies são os principados e de que form as são adquiridos Todos os Estados. ou membros acrescidos ao Estado hereditário do príncipe. de várias missões diplomáticas junto à corte francesa. e Tutte le opere. procurou demonstrar como deveria agir o homem providencial que unificaria os italianos e emanciparia a Itália. se bem considerado for. ou novos. Stabilimenti Grafici Bemporad Marzoco.) Tradução do autor. todos os governos que tiveram e têm poder sobre os ho­ mens. Tal diretriz acarretou-lhe a má fama dc escritor cínico e insensível. essa sua crueldade tinha recuperado a Romanha. para fugir à pecha de cruel. porque cumprida sua missão. Edipem. mostrará ter sido ele muito mais pie­ doso do que o povo florentino. Novara. foi incumbido. a italiana. Exilado em 15 12. O que. especialmente os Discursos sobre a primeira década de Tito Lívio c O príncipe. Nomeado secretário da senhoria de Florença em 1498. entretanto. que os adquire. sua obra mais conhecida. bem como pela fortuna ou por virtude. deixou que Pis- Nicolau Maquiavel (1469-1527). mas sim para um momento grave da história de uma nação. principalmente pelo prestígio de que ain­ da frui O príncipe. entre 1503 e 1512. .10 Leituras Complementares 247 3) NICOLAU MAQUIAVEL2 O príncipe (Machiavelli. Esses domínios assim obtidos estão acostumados ou a viver submetidos a um príncipe ou a ser livres. tomar-se-ia um dos mais conhecidos doutrinadores do seu tempo e da atualidade. 1980. César Bórgia era considerado cruel. Firenze. logrando uni-la e pô-la em paz e em lealdade. foram e são repúblicas ou principados. o príncipe seria perfeitamente descartável. como é o reino de Nápoles em relação ao rei da Espanha.

Diz Virgílio. desde que. mas. fuja ao ódio. Isso porque dos homens pode-se dizer. e aquele que começa a viver de rapi­ nagem sempre encontra razões para apossar-se dos bens alheios. que são ingratos. com mui poucos exemplos. no momento oportuno. é quebrado em cada oportunidade que a eles convenha. é ao novo que se torna impossível fugir à pecha de cruel. enquanto aquelas execuções que emanam do prín­ cipe atingem apenas um indivíduo. os filhos. pois. quando esta se avizinha. são compradas. tementes do perigo. de forma que. deve ser lento no crer e no agir. ele será mais piedoso do que aqueles que. ambiciosos dc ganho. mesmo porque podem muito bem coexistir o ser temido c o não ser odiado: isso conseguirá sempre que se abstenha de tomar os bens e as mu­ lheres de seus cidadãos e de seus súditos. et late fines custode tuerr. geralmente. por excessiva piedade. em se lhe tomando necessário derramar o sangue de alguém.248 Teoria Geral do Estado toia fosse destruída. encon­ trando-se destituído de outros meios de defesa. nunca fal­ tam motivos para justificar as expropriações. que. desde que por ela conserve seus súditos unidos e leais. et regni novitas me talia cogunt moliri. posto que os homens esquecem mais rapidamente a morte do pai do que a perda do patrimônio. como é difícil reuni-las. não se alarmar por si mesmo e proceder por forma equilibrada. por serem os homens maus. buscan­ do evitar que a excessiva confiança o torne incauto e a demasiada desconfiança o faça intolerável. revoltam-se. oferecem-te o próprio sangue. então é de todo necessário não se importar com a . faça-o quando existir conveniente justificativa e causa manifes­ ta. não se torna possível utilizá-las. a necessidade esteja longe de ti. cm tendo que faltar uma das duas é muito mais seguro ser temido do que amado. E os homens têm menos escrúpulo em ofender a alguém que se faça amar do que a quem se faça temer. ao passo que as ra­ zões para o derramamento de sangue são mais raras e esgotam-se mais depressa. si­ muladores. a vida. volúveis. não obstante. posto que a amizade é mantida por um vínculo de obrigação. pois que. E. porque estes costumam prejudicar a comunidade inteira. temer a fama de cruel. enquanto lhes fizeres bem. Mas quando o príncipe está à frente de seus exércitos e tem sob seu coman­ do uma multidão de soldados. O príncipe. po­ rém. mas com elas não se pode contar e. abster-se dos bens alheios. Além disso. Nasce daí uma questão: se é melhor ser amado que temido ou o contrário. como se disse acima. E o príncipe que confiou inteiramente em suas palavras. Um príncipe não deve. se não conquistar o amor. dentre todos os príncipes. deixam acontecer as desordens das quais resultam assassínios ou rapinagens. c. pela boca de Dido: “ Res dura. Deve. está perdido: as amizades que se adquirem por dinheiro. sobretudo. contudo. Deve o príncipe. e. os bens. e não pela grandeza e nobreza de alma. visto serem os Estados novos cheios de pe­ rigos. A resposta é que seria necessário ser uma coisa e outra. com prudência e humanidade. fazer-se temer. mas o temor é mantido pelo receio de castigo. que jamais se aban­ dona. são todos teus.

tanto assim que. cujos exérci­ tos se revoltaram na Espanha em conseqüência de sua excessiva piedade. demonstra. que um príncipe sábio. o qual o chamou de corruptor da milícia romana. pode-se considerar o caso de Cipião. Júlio César. como lhe resultou em glória. e. Rio de Janeiro. em face de seus interesses imediatos. sem ela. deve apenas empe­ nhar-se em fugir ao ódio. a mutabilidade da chamada opinião pública. disse haver muitos homens que me­ lhor sabiam não errar do que corrigir os erros. nunca surgiu qualquer dissensão entre eles ou contra o príncipe. sem aquela crueldade. de um lado. nem a insolência daquele lega­ do foi reprimida. fruto do gênio de Shakespearc. o tornou sem­ pre venerado e terrível no conceito de seus soldados. o Prof. já que. pois que havia concedido aos seus soldados mais liberdades do que convinha à disciplina militar. Ora enaltecendo Brutus e ultrajando o cadáver de Cé­ sar. 4) W IL U A M SHAKESPEARE J ú lio César3 {Obras completas. as outras suas virtudes não seriam bastantes. Ed. como foi dito. de outro. aliada às suas infinitas virtudes. v. Nova Aguilar. resultando tudo isso de sua natureza fácil. deve apoiar-se naquilo que é seu e não no que é dos outros. pois. condenam a principal causa da mesma. bem. realmente.) Este belo e. as vir­ tudes não lhe teriam bastado para surtir tal efeito. p. tremendo texto. que­ rendo alguém desculpá-lo perante o Senado. Pedro Salvetti Netto adverte ser fundamental que a opinião pública autêntica só é possível . paradoxalmente. constituído de homens de inúmeras raças. 1988. Isso não pode resultar dc outra coisa senão da­ quela sua desumana crueldade. tendo sido arruinados e abatidos por um legado de Cipião. amando os homens como a eles agrada e sendo por eles temido como dese­ ja. homem dos mais notáveis não somente nos seus tempos mas também na memória de todos os fatos conhecidos. Para prova de que. esta sua prejudicial qualidade não só desapareceu. não foram por ele vingados. todavia. que. Dentre as admiráveis ações de Aníbal. Concluo. percebe-se a volubilidade do ser humano. tanto 11a má como na boa fortuna. 1. Essa sua natureza teria com o tempo sacrificado a fama e a glória de Cipião. ora amaldiçoando Brutus e divinizando César. 447 c scgs. menciona-se esta: tendo um exército imenso.10 Leituras Complementares 249 fama de cruel. escritores nisto pouco ponderados. tão logo se soube que este deixava bens ao povo. jamais se conservará exército unido e disposto a al­ guma empresa. voltando à questão de ser temido e amado. Os locrences. essa sua atuação e. mas vivendo sob o governo do Senado. conduzido a batalhar em terras alheias. Tal fato foi-lhe censurado no Senado por Fábio iMáximo. Em festejada obra. tragédias. admiram. tivesse ele perseverado no coman­ do.

digo-lhe que o afeto de Bruto por César não era menor do que o dele. compatriotas e amigos! Escutai-me defender minha causa e guardai silêncio para que possais ouvir-me.Sede pacientes até o fim! Romanos. um escravo que. acompanhai-me e escutai. foi valente. prossegue. ed. . c morte para sua ambição. porém porque amava mais Rom a” . / \ideia de decadência na história ocidental. Bruto sobe à tribuna. ide à outra rua e dividi a multidão. . poderão acompanhá-lo. que caracterizam uma rixa ou uma horda de linchadores (cf. C id a d ã o s . se informada. se responsável. Se então esse amigo perguntar por que Bru­ to se levantou contra César. . faziam-no acom­ panhar. júbilo para sua fortuna. Pelo simples fato de fazer parte dc uma mul­ tidão.Eu ouvirei Cássio e assim poderemos comparar-lhes as opiniões. 89-90). Gustave Le Bon. Fora disso. advertia Le Bon. São Paulo. ao agraciarem o conquistador com as pompas e as honras do triunfo. como foi ambicioso. honra para seu valor. (Sai Cássio com al­ guns Cidadãos.São Paulo. pode ser uma pessoa sóbria e refinada. ora a tributar-lhe a glória. quan­ do as pessoas se juntam numa reunião política ou. . como o Redemptor Hominis e o Messias . publicou uma pequena obra intitulada A psicologia das multidões. Acreditai-me por minha honra e respeitai minha honra para que possais acreditar-me. na visão intuitiva da própria psicologia das massas.O nobre Bruto já está na tribuna. P r i m e i r o C i d a d ã o . ele foi afortunado. o homem desce vários degraus na escada da civilização. Julgai-me com vossa sabedoria e avivai vossos sentidos para que possais ser melhores juizes. eu o venero. portanto. “a opinião das massas é so­ bremaneira influenciável e. Quem é aqui tão vil que deseje ser escravo? Se alguém existe. para adverti-lo de que a mesma multidão. . na biga majestosa..Então. p. Na percepção genial do agir humano. numa via pública. que fale. . na qual afirmava que. 137-8). provocam. 1979. Por si mesmo.Queremos que nos seja dada uma explicação! Dai-nos explicação! B r u t o . a regressão em massa a um estado primitivo. Rio de Janeiro .levou-o à cruz cinco dias depois. Silêncio! Br u t o . na multidão. uns nos outros. fiquem aqui. seguidamente. um eminente sociólogo francês. Se houver nesta assembleia algum amigo caro a César. . exal­ tando Cristo em um domingo. mas. mesmo. levá-lo à rocha Tarpeia” (Curso de teoria do Estado. porque eu o ofendi! Quem é aqui tão estú- se conscientizada. meus amigos. a César morresse e vivêsseis todos livres? César gostava de mim e eu choro por ele. S e g u n d o C i d a d ã o . em tempo próximo. bem pode­ ria. 1999. médico de profissão. tão volúvel como a pluma ao vento da ópera de Verdi. Serão expostas publicamente as razões da morte de César. Preferiríeis que César vivesse e morrêsseis to­ dos escravos. transforma-se num bárbaro capaz das ações mais brutais e irracionais.) Te r c e ir o C i d a d ã o .Eu ouvirei Bruto falar. eu me alegro.250 Teoria Geral do Estado CENA 11:0 Fórum Entram Bruto e Cássio com uma turba de Cidadãos. lhe murmurava aos ouvidos: Lembra-te de que és homem. 3. os romanos. Os que desejarem ouvir-me. esta é minha resposta: “Não que amasse menos César. Record Ed. Cássio. eu o matei. p. quando tivermos ouvido separadamente um e outro. Em 1895. Há lágrimas para sua amizade. Os que deseja­ rem acompanhar Cássio. Arthur Herman.. Sa­ raiva.

.Meus compatriotas!.Em consideração a Bruto.) Q uarto C i d a d ã o . . tenho uma obrigação para convosco. não foi diminuída. .Vamos erigir-lhe uma estátua junto de seus antepas­ sados! T e r c e ir o C i d a d ã o . e. .Vamos carregá-lo para casa em triunfo! Se g u n d o C i d a d ã o . por consideração a Bruto. .) Aqui chega o corpo dele.. . Se matei meu melhor amigo pela felicidade de Roma. que lhe valeram os méritos que possuía. que fale. .Seria melhor que não falasse mal de Bruto aqui. Vamos! B r u t o . nem foram exage­ radas as ofensas que lhe valeram a morte. sem tomar parte em sua morte.Não há.Sim.Q u e disse de Bruto? T e r c e ir o C i d a d ã o . porque eu o ofendi. não há dúvida.As melhores qualidades dc César sejam coroadas em Bruto! P r i m e i r o C i d a d ã o . Nada mais fiz com César do que teríeis feito com Bruto! Os motivos da morte dele estão registrados no Capitólio. que. To d o s . Q uarto C i d a d ã o . . tem uma obrigação para com todos nós.10 Leituras Complementares 251 pido que não queira ser romano? Se existir. . P r i m e i r o C i d a d ã o . até que Antônio haja acabado de falar. nobre Antônio! A n t ô n i o . .Fiquemos! Vamos ouvir Marco Antônio.. não há! B r u t o .Caros compatriotas.Vamos levá-lo para casa com vivas e aclamações! Br u t o . um lugar na República.Diz que.Esse César foi u m tirano! Te r c e ir o C id a d ã o . deixai-me ir embora sozinho. Subi.Que suba à tribuna pública: nós o escutaremos. S e g u n d o C i d a d ã o . . dela auferirá benefícios. (Sobe na tribuna. permanecei aqui com Antônio.) P r i m e i r o C i d a d ã o . Suplicovos! Ninguém deve afastar-se. . porque eu o ofendi! Quem é aqui tão baixo que não ame sua pátria? Se existir. somente. Quem de vós não conseguirá outro tanto? Ainda uma palavra e partirei. . . pranteado por Marco Antônio. Foi uma bênção para nós que Roma se tivesse libertado dele. Es­ pero uma resposta. com nosso beneplácito. Honrai o cadáver dc César e ouvi a apo­ logia de suas glórias que. . . estou pronto a usar meu punhal contra mim.Calem. (Sai. . em considera­ ção a mim. . A gló­ ria. exceto eu.Viva Bruto! Viva! Viva! P r i m e i r o C i d a d ã o . Bruto. .Vamos nomeá-lo César! Q u a r t o C i d a d ã o . se mi­ nha pátria quiser reclamar minha morte. T e r c e ir o C i d a d ã o .C alem ! Silêncio! Fala B ruto. que fale. Antônio pronunciará. To d o s . . P r i m e i r o C i d a d ã o . (Entram Antônio e outros com o corpo de César. não ofendi ninguém.Então. .

Não falo para desa­ provar o que Bruto disse. .Silêncio! Vamos ouvi-lo. são homens honrados. A n t ô n i o . era uma grave falta e César a pagou gravemente.Se considerares devidam ente o assunto. . Desculpai-me! Meu coração está ali com César.Não existe homem mais nobre em Roma do que An­ tônio. . fugiste para os irracionais. Bruto é um homem honrado. Aqui. não sem motivo. Todos vós o vistes nas Lupercais: três vezes eu lhe apresentei uma coroa real e três vezes ele a recusou.Nobres romanos!. Que razão. César derramava lágrimas. .. com eteram um grande erro c o m César.Silêncio! Vamos ouvir o que Antônio tem para dizer. Não quero ser .Amigos. . vos detém. não lhe presta uma só homenagem! Ó senhores.. T e r c e ir o C i d a d ã o . o bem que fizeram é sepultado com os próprios ossos! Que assim seja com César! O nobre Bruto vos disse que César era ambicioso.Vamos observá-lo agora. prestai-me atenção! Estou aqui para sepultar César. não há dúvida de que não fosse ambicioso. . os quais.. sem dúvida alguma. Bruto disse que ele era am­ bicioso. cidadãos? Temo que um pior do que ele possa substituí-lo. parecia ambicioso? Quando os pobres deixavam ouvir suas vozes lastimosas. Q u a r t o C i d a d ã o . Está recomeçando a falar.Notastes as palavras que pronunciou? Não quis aceitar a coroa. P r i m e i r o C i d a d ã o . To d o s . . e preciso esperar até que ele para mim volte! P r i m e i r o C i d a d ã o . alguns terão que pagar caro. . cujos resgates encheram os cofres do Estado. O mal que fazem os homens perdura de­ pois deles! Frequentemente. . Q uarto C i d a d ã o . romanos. .Sc for exato. César. seria injusto com Bruto e com Cássio.Pobre coitado! Está com os olhos vermelhos como fogo de tanto chorar.Ainda ontem a palavra de César podia ser mais forte do que o universo! Agora. agora. Se assim foi. . e Bruto é um homem honrado. Portanto. pois os homens perderam o juízo!.. c. então. não para glorificá-lo. A ambição deveria ter um coração mais duro! Entretanto. para pranteá-lo? Oh! inteligência.Acho que tem muita razão no que está dizendo. mas aqui estou para falar sobre aquilo que conheço! To­ dos vós já o amastes. . compatriotas.Não é. leal e justo comigo. com a permissão de Bruto e dos demais (pois Bruto é um homem honrado. mas Bruto diz que era ambicioso. como todos os demais são homens honrados). ali ele jaz e ninguém. se estivesse disposto a excitar vos­ sos corações e vossos espíritos para o motim e a cólera. Isto era ambição? Entretanto. neste particular. . Bruto disse que ele era ambicioso e Bruto é um homem hon­ rado. como todos vós sabeis. T e r c e ir o C i d a d ã o . S e g u n d o C id a d ã o . A n t ô n i o . Se g u n d o C i d a d ã o . Trouxe muitos cativos para Roma. mesmo que seja o mais miserável possível. Era meu amigo. A n t ô n i o . venho falar nos funerais de César.252 Teoria Geral do Estado S e g u n d o C i d a d ã o .

. quando morrer. sendo homens. Posso descer? Vós me dareis vossa permissão? To d o s . dentro da tenda. para sua descendência. mergulhando os lenços em seu sangue sagrado! Mendigará um ca­ belo como relíquia e. Era uma tarde de verão. como precioso legado. . Ouça somente o povo este testamento (embora. assassinos! O testamento! Lede o testa­ mento! A n t ô n i o . A n t ô n i o . .Se tiverdes lágrimas.O testamento! O testamento! Queremos ouvir o testamento de César. .) T e r c e ir o C i d a d ã o . Olhai: por este lugar penetrou o punhal de Cássio! Vede que rasgão abriu o invejoso Casca! Por este. Temo ser injusto com os homens honrados. A n tô n io ! É pre­ ciso que leiais o testam ento! O testam ento de César! A n t ô n i o . comigo e convosco.D am o s! (Antônio desce do púlpito. não pretenda lê-lo).Não vos aproximeis do ataúde! Não vos aproximeis do corpo! S e g u n d o C i d a d ã o .São covardes. Q u a r t o C i d a d ã o .Recuai! Dai lugar! Retirai-vos! A n t ô n i o . . cujos punhais feriram Cé­ sar! É o que temo! Q u a r t o C i d a d ã o .Sua última vontade! O testamento! S e g u n d o C i d a d ã o . não sois de pe­ dra.Descei! . desculpai-me. Q u a r t o C i d a d ã o . for­ mai um círculo em torno do cadáver de César e deixai-me mostrar-vos aquele que fez o testamento. se vós o soubésseis. observai como o san­ gue de César parece que se lançou atrás dele. Não é bom que saibais que sois o herdeiro dele. -Tereis paciência? Esperareis um pouco? Fui longe demais contan- do-vos isto.Lede o testam ento! Q uerem os ouvi-lo.Não vos aperteis tanto assim contra mim! Permanecei bem longe! To d o s . 0 I1 ! que poderia acontecer? Q uarto C i d a d ã o . mas sois humanos e. . ao ouvirdes o testamento de César. . . P r i m e i r o C i d a d ã o . Marco Antônio! To d o s . ficareis enlouquecidos. Eu o encontrei 110 gabinete dele: são as suas últimas vontades. Todos vós conheceis este manto. a ser injus­ to com homens tão honrados! Mas. o mencionará nos testamentos. então. . no dia em que venceu os nérvios. amáveis amigos! Não devo lê-lo! Não é conve­ niente que saibais quanto César vos amava! Não sois de madeira.10 Leituras Complementares 253 injusto com eles! Prefiro ser injusto com o morto. . para transmi­ ti-lo. ao retirar o maldito aço. c irá beijar as feridas de César morto. lembro-me da primeira vez que César o usou. preparai-vos agora para derramá-las.Quereis compelir-me então a ler o testamento? Pois. Colocai-vos cm volta. . .Sede pacientes.São traidores: Homens honrados! To d o s . .Formai um círculo. o bem-amado Bruto o feriu! E. como se quisesse certificar-se de que S e g u n d o C i d a d ã o . para o nobilíssimo Antônio! A n t ô n i o . .Queremos ouvir o testamento! Lede-o. . ficareis inflamados.Estais autorizado. aqui está um pergaminho com o selo de César. .Lugar para Antônio.

.Bons amigos. . onde o sangue não parava de jor­ rar!. Não deixemos que nenhum traidor fique vivo! A n t ô n i o .. .Incendiemos a casa de Bruto! Te r c e ir o C id a d ã o . . pobres bocas mudas e peço-lhes que fa­ lem por mim! Se eu fosse Bruto..Vamos. ó deuses.Nós o escutaremos! Nós o seguiremos! Nós morrere­ mos com ele! A n t ô n i o . era o anjo de César! Julgai. .. enquanto triunfava sobre nós a traição sangrenta! Oh! Estais choran­ do agora e percebo que sentis a marca da piedade! São lágrimas generosas! Almas bondosas. sem dúvida.Oh! traidores. Matemos!. Eles são sensatos e honrados e. .Seremos vingados! To d o s .Oh! nobre César! T e r c e ir o C i d a d ã o . Vamos!. Procuremos!. por que chorais. nem o poder da palavra capazes de excitar o sangue dos ho­ mens! Falo muito claramente e só vos digo o que todos vós já conheceis. Estou mos­ trando as feridas do bondoso César.Oh! visão sangrenta! S e g u n d o C i d a d ã o . vós e todos caímos. para roubar vossos corações! Não sou orador como Bruto.. não me deixeis excitar-vos com esta repentina explosão de revolta! Aqueles que consumaram este ato são homens hon­ rados.. como todos vós sabeis. . esse Antônio perturbaria a serenidade de vossos espíritos e colocaria uma língua em cada uma das feridas de César.Silêncio! Escutai o nobre Antônio! S e g u n d o C i d a d ã o . . . apresentarão a todos vós as razões que possuíam.. . c. . eu. como estais vendo. então! Vinde! Vamos procurar os conspiradores! A n t ô n i o . pois. a ingratidão..Esperai. Quais eram as queixas secretas que tinham para fazê-lo? Ai! E O que igno­ ro. pobres.Vingança!.Oh! dia calamitoso! Q u a r t o C i d a d ã o . nem ação. . cobrindo o rosto com o manto. nem mérito.Nós nos revoltaremos! P r i m e i r o C i d a d ã o . Queimemos!.. . bandidos! P r i m e i r o C i d a d ã o .. como sa­ beis. um homem franco e simples que amava meu amigo e isso sabem perfeitamente bem os que me deram publicamente licença para falar a respeito dele. . e se Bruto fosse Antônio. compatriotas! P r i m e i r o C i d a d ã o .Oh! lamentável espetáculo! S e g u n d o C i d a d ã o . Degolemos!. quando o nobre César viu que ele o feria.Ouvi-me ainda. com que ternura César o amava! Esse foi o mais cruel de todos os golpes. compatriotas! Ouvi-me ainda falar! . amáveis amigos. Não tenho espírito. meus compatriotas! Naquele momento.. meus amigos. estalou seu poderoso coração.254 Teoria Geral do Estado era ou não Bruto quem tão desumanamente abria a porta! Porque Bruto... mas. o grande César caiu aos pés da estátua dc Pompcu. . mais poderosa do que os braços dos traidores. quando só vistes ainda as feridas do manto de César? Olhai: aqui está o próprio César. capaz de comover e levantar em motim as pedras de Roma! Todos. . Não vim aqui.. desfigurado pelos traidores! P r i m e i r o C i d a d ã o . nem eloqüência. nem palavras. venceu-o completa­ mente! Então. Oh! que queda foi aquela.

10 Leituras Complementares 255 . T o d o s .. seus pomares recém-plantados deste lado do Tibre.) Tradução do autor. dadãos transportando o corpo de César. . Grupo Cultural Zero. então. jamais. Aqui estava um César! Quando aparecerá outro? P r i m e i r o C i d a d ã o . nem praticar a resignação.Nobilíssimo César! Vingaremos a morte dele! T e r c e i r o C i d a d ã o . vamos embora! Queimemos o corpo dele em lugar sagrado c com as tochas incendiaremos as casas dos traidores! Levantai o corpo! S e g u n d o C i d a d ã o .Silêncio! A n t ô n i o .A q u i está ele c c o m o selo de César. a cada h o m e m . Lega-os perpetuamente para vós e para vossos herdeiros como parques públicos. Nobilíssimo Antônio! A n t ô n i o .Ouvi-me com paciência! T o d o s . . Em sua obra mais conhecida. . . Dele se disse que não desejava viver o que não c vida. estranho ao individualismo egoísta burguês.Amigos. . .Derrubai os bancos! Q u a r t o C i d a d ã o . p.Ide procurar o fogo! T e r c e i r o C i d a d ã o . um Estado realmente livre e esclarecido. A n t ô n i o .Derrubai as arquibancadas. ensaísta e poeta norte-americano. nunca! Vinde.É verdade! O testamento! Fiquemos para escutar o testamento! To d o s . 4 Henry David Thoreau (1817-1862). vós o ignorais! Devo. . Cultivou um individualismo radical.Oh! régio César! A n t ô n i o .Silêncio! Ouçamos Antônio!.. . até que o Estado reconheça o poder do indivíduo como um poder mais alto e independente. da qual pinçamos um trecho. A cada c id a d ã o ro m a n o . ele vos deixa todos os seus passeios. formou-se em Harvard. . Desobediência civil. .) 5) HENRY DAVID THOREAU4 Desobediência c iv il (Madrid.Além disso. do qual derivam seu próprio po­ der e sua autoridade”. po­ rém romântico. ten­ do sido aluno e grande amigo de Ralph Waldo Emerson. seus jardins pri­ vados. 47-8.Nunca. dizer-vos. a menos que absolutamente necessária. . 1985. in d iv id u alm e n te . Esquecestes o tes­ tamento de que vos falei. seu individualismo resta patente quan­ do diz: “Não haverá. . para que possais passear e divertir-vos. . as janelas e tudo! (Saem Ci­ Se g u n d o C id a d ã o . não sabcis o que ides fazer! Que fez César para assim merecer vossos afetos? Ai. ele lega setenta e cinco dracm as.

que é apenas a forma escolhida pelo povo para fazer va­ ler sua vontade. com a maior convicção. sem maiores preocupações. algumas vezes. o lema: “ O melhor governo é aquele que me­ nos governa”. a cada momento. porque um só homem pode dobrá-lo à sua vontade. que se esforça por prolongar-se. Foi graças ao próprio caráter que os americanos conseguiram o que pos­ suem. oxalá também se façam ao governo permanente. e conseguiriam muito mais se o governo não se intrometesse. muitas respeitáveis e que devem prevalecer. terminada com o Tratado de Guadalupe/Hidalgo. O gover­ no americano o que é. c to­ dos. embora a maioria dos governos. após o que chegaríamos àquele em que também creio: “O melhor governo é o que não governa nada cm absoluto”. Nela. senão uma tradição. a não ser abandonar o próprio rumo. todos devemos aceitá-lo. Observem que no atual conflito mexi­ cano um pequeno grupo utiliza o governo permanente em benefício próprio. mesmo. Desta maneira os governos demonstram com que sucesso é possível enganar os homens e. Quanto ao “atual conflito mexicano” referido na antologia. não passa de um artifício. N ão pacifica o oeste. mas que perde. o povo não deu seu consentimento a esse ponto. o Novo México e a Califórnia. desacreditados os ideais pacifistas de Thomas Jefferson e iniciado o processo imperialista estadunidense nas Américas. e quando os homens estiverem preparados para ele. O governo. O mesmo governo. útil. porque as pessoas querem ter uma maquinaria complicada e ouvir seu estrondo para satisfazer a ideia que têm do governo. Não educa. por­ que. o México perdeu o Texas. normalmente. Apesar disso. O exército permanente é apenas o braço do governo perma­ nente. nos anos 1846 a 1848. até a posteridade. incólume. na melhor das hipóteses. especialmente na Amé­ rica do Sul. antes de mais nada. Não passa de uma escope­ ta de madeira. embora recente. uma parte de sua integridade? Não tem a vitalidade ou a força de um mero ser huma­ no. As objeções que foram feitas ao exército per­ manente. para seu próprio proveito. conforme se disse. o governo será tanto mais útil quanto mais deixe em paz os governados.256 Teoria Geral do Estado Aceito. corre o risco de ser violado e corrompido antes que o povo possa fazer valer sua vontade por seu intermédio. Gostaria de vê-lo realizado de uma forma mais rápida e sistemática. N ão mantém o país livre. sejam inúteis. Porque o go­ verno é um recurso mediante o qual os homens conseguiriam viver em paz uns com os outros c. mas nem por isso é menos necessário. enganar-se a si mesmos. É excelente. esse governo jamais assumiu qualquer responsabilidade espontaneamente. trata-se da guer­ ra travada entre os Estados Unidos e o México. . tal será a espécie de governo que terão.

Se esses 25 milhões de homens fossem imortais e se os deputados não fossem reelcgívcis. porque o povo que manda não é o povo que obedece. para sentir que ele care­ ce de um comentário. Mas então o povo é também vassalo.10 Leituras Complementares 257 6) JOSEPH DE MAISTRE O pensamento s o c ia l cristão antes de M arx (Textos e comentários pelo P. vez por outra. é o mesmo que dizer que Deus não é o cria­ dor do homem. estão com a razão e seria completamente inútil continuar a discutir. a imaginação fica estarrecida ante o número formidável de reis que morrem sem ter reinado. O povo é um soberano que não pode exercer a soberania. A ver as coisas de modo sumário e num nível mais terra-a-terra. Assim pois. aqui se esconde al­ gum equívoco.) A soberania do povo O povo é soberano! É o que sc diz. cada francês se veria eleito soberano.J. Mas como neste período continua-se a morrer. Por exemplo: suponhamos que existam hoje na França 25 milhões de homens sem contar as mulheres. de repente. eis a explicação. É impossível imaginar uma soberania. como sobre tantos outros. 20-5. 1972. Mas soberano de quem? Pelo visto de si mesmo. durante certo tem­ po. terminaria a soberania. Tem-se discutido com veemência o problema da origem do poder: a sobera­ nia vem de Deus ou dos homens? Não sei se já se observou que as duas alternati­ vas podem ser verdadeiras. se os adversários da origem divina do poder não pretendem dizer mais que isto. Co­ mecemos pois por situar claramente a questão. Somen­ te cada indivíduo do sexo masculino tem sua vez de comandar. Mas é mister examinar com mais seriedade a questão. sem imaginar um povo que consente cm obedecer. numa periodicidade mais ou menos de 3500 anos. Se um povo. Basta enunciar o slogan: o povo é soberano. A Deus não interes­ sava empregar meios sobrenaturais para fundar impérios. Sobre este ponto. O povo. exerce a sua soberania através de seus representantes. Tal comentário não se fará esperar. é possível que as partes não se tenham feito bem entender. porque Ele se serve dos homens para a constituir. e 700 deputados com mandatos de dois anos. . Tudo devia ser feito por intermédio dos homens. .Livraria José Olympio Editora. Evidentemente. é bem verda­ de que a soberania sc funda no conscntimento humano. se decidisse cm bloco a não obedecer. Mas dizer que a soberania não vem de Deus. A coisa come­ ça a se esclarecer. p. Fernando Bastos de Ávila S. ao menos no sistema francês. porque todos temos um pai e uma mãe. e como os eleitos po­ dem reeleger os já eleitos. para não dizer um erro.

o autor desses mesmos governos. essas leis vêm também dos homens. Talvez não mais do que qua­ tro ou cinco pessoas darão amanhã um rei à França. não será o povo que terá decretado a sua volta. Os partidários da origem divina do poder não podem negar que a vontade humana desempenha um certo papel na criação dos governos. exce­ to do mal. porque foi Deus que criou o homem sociável. que não pode existir sem a soberania. Assim. a soberania vem de Deus. Da mesma forma. por sua vez.. como não foi o povo que a baniu.. de vez que são eles que as elaboram.. porque na rua será um atropelo. sem as quais uma so­ ciedade não pode subsistir.. o povo quer.” Se voltar a mo­ narquia...258 Teoria Geral do Estado Todos os teístas haverão de convir que aquele que viola as leis se opõe à von­ tade divina e se torna culpado perante Deus. autor especialmente da sociedade. Com estas precauções estamos certos de não nos extraviar e assim podere­ mos aceitar sem riscos o que disse aquele escritor: não venho aqui dizer-vos que a soberania vem de Deus ou que ela vem dos homens. e os partidários do sistema oposto não podem negar. Sabem qual será sua reação? “ Possível? Que coisa curiosa! Por que porta o rei haverá de entrar? E melhor ir tra­ tando de alugar alguma sacada. é apenas como instrumento meramente passivo. o povo não consentirá jamais. autor de tudo. por excelência e de modo eminente... estas duas proposições: a soberania vem de Deus e a soberania vem dos homens.”. que Deus seja. haverão de tomar conhe­ cimento de manhã ao acordar que eles têm um rei. As leis vêm pois de Deus. Foi Deus que assim quis a sociedade e. contentemo-nos em examinar juntos o que há de divino e o que há de humano na soberania. em certo sentido. ou seja que a forma de go­ verno é estabelecida e proclamada pelo consentimento humano. no entanto. F ' as províncias gritarão: Viva o Rei! Em Paris mesmo todos os habitantes. sem as con­ fundir. não se contradizem de for­ ma alguma. . Cartas despachadas dc Paris anunciarão às províncias que a França tem um rei... Mas esta vem também dos homens. também a soberania e as leis. Quanta balela! Nas revoluções. como também não é contraditório afirmar que as leis vêm de Deus e que elas vêm dos homens.. neste sentido que Ele quer que existam leis c que se­ jam obedecidas. o povo está por fora e se nelas entra. apesar de violar apenas disposições humanas. pôr as ideias no seu lugar. não é do in­ teresse do povo. para inaugurar o governo revolucionário. por conseguinte. salvo uns 20. (Este povo soberano tem alguma interferência na escolha do regime pelo qual será governado? Que papel desempenha ele nas mudanças eventuais de regime?) É muito comum o erro de raciocínio que consiste em pensar que uma even­ tual contrarrevolução só poderia ocorrer como o resultado de uma deliberação po­ pular: “o povo teme. Basta pois se entender sobre os termos.

As­ . eu?. tendo-se portanto acrescentado mais um. O vosso engano e o meu compromisso disputam entre si a preferência.. Estas atribui­ ções aproximam-se bastante das que existem no sistema liberal. 151-67.pelo opróbrio a que me condenais com a vossa confian­ ça. magistrados. pelos princípios adotados entre os povos livres. apenas pôde ver cativos com grilhetas e companheiros como armas para destrui-las? Legislador. Nenhum objeto pode ser mais importante para um cidadão do que a eleição dos seus legisladores. sem com isso complicar a divisão clássica de cada um dos outros. envolven­ do a pequena ilha da liberdade que se vê perpetuamente sujeita à violência das va­ gas e furacões em fúria e que procuram submergi-la.10 Leituras Complementares 259 7) SIM ON BOLÍVAR Discurso perante o Congresso Constituinte de Bolívia (1825) (Lisboa. pro­ víncia ou cantão. 1977. juizes e pastores. O Projeto de Constituição para a Bolívia está dividido em quatro poderes po­ líticos. Que guia será o nosso . e não sei quem so­ fre mais neste horrível conflito: se vós . O eleitoral recebeu faculdades que não lhe eram assinaladas nos outros governos que se julgam entre os mais liberais. nascido en­ tre escravos e sepultado nos desertos da sua pátria. Reuni todas as minhas forças para vos expor as opiniões que mantenho sobre o modo de dirigir homens livres. Tende em vista esse mar que ireis sulcar com frágil barca e cujo timoneiro é tão inexperiente.. p. pois estou convencido da minha incapaci­ dade para fazer leis.) Legisladores! Ao oferecer-vos o Projeto de Constituição da Bolívia. Editorial Estampa. para depois vos atacarem simultanea­ mente: a tirania e a anarquia constituem um oceano imenso de opressão. digamos assim. Quando considero que a sabedoria de todos os scculos não é suficiente para criar uma lei fundamental que seja perfeita c que o mais esclareci­ do legislador pode ser a causa imediata da infelicidade humana e ludibrio. conceder aos representantes imediatos do povo os privilégios que mais podem desejar os cidadãos dc cada departamento. do seu ministério divino .que poderei dizer-vos do soldado que.pelos males que deveis temer das leis que me haveis pedido. Atrever-me-ia a afirmar com alguma exatidão que esta representatividade partici­ pa dos direitos de que gozam os governos particulares dos estados federados. se eu . ainda que as lições e a experiência nos mostrem apenas vastos períodos de desas­ tres. sinto-me dominado pela confusão c pela timidez. Pareceu-me não só conveniente e útil. como também fácil. Os colégios elei­ torais de cada província representam os seus interesses e necessidades e servem de veículo às queixas das infrações das leis e dos abusos cometidos pelos magistrados. interrompidos por breves relâmpagos de ventura.à sombra de tão tenebrosos exemplos? Legisladores! o vosso dever chama-vos a resistir ao choque de dois monstros inimigos que reciprocamente se combatem.

Cada dez cidadãos nomearão um eleitor c assim se achará representada a na­ ção pelo décimo dos seus cidadãos. e o mesmo acontece na América do Norte. corregedores e todos os subalternos do departamento de Justiça. nem é ne­ cessário possuir bens para representar a augusta função de soberano. e a questão examinada pelas duas partes contendentes terá uma. da ociosidade e da ignorância absoluta. Saber e honradez. go­ vernadores. zelando para que a Constituição e os tratados públicos se­ . onde. Serão eles os fiscalizadores junto do governo. Dir-me-ão que os Congressos modernos se compõem apenas de duas seções. os arcebispos. dignidades e cônegos. mas deve o cidadão saber escrever as suas votações. O que é verda­ de é que dois corpos deliberantes acabam por combater-se mutuamente. a discórdia entre duas será sempre resolvida pela terceira. Assim as Câmaras guardarão entre si as considerações que são indispensáveis para conservar a união do todo. onde a nobreza e o povo estão representados em duas Câmaras. É do pelouro do Senado tudo quanto pertence à religião e às leis. é o que o exercício do poder público exige. Clássico absurdo! A primeira Câmara é a dos tribunos e goza da atribuição de dar início às leis relativas à Fazenda. Como pas­ sarão a existir três. à Paz e à Guerra.260 Teoria Geral do Estado sim se colocou novo peso na balança contra o Executivo. Pro­ põe à Câmara dos Censores os membros do Tribunal Supremo. pelo menos. já que foi sua colônia. Não lhe são postas outras exclusões que não sejam as do crime. que nos serviu de modelo. seria pois absurdo que nos interes­ ses mais árduos da sociedade se desprezasse tal providência ditada por uma neces­ sidade imperiosa. novos títulos e distinguindo-se entre os mais de­ mocráticos. como acontece quando existem apenas duas Câmaras. Os senadores criam os códigos e regulamentos eclesiásticos e velam sobre os tribunais e o culto. que a jul­ ga. deste modo nenhuma lei útil ficará sem efeito ou. mais popularidade. Terá de professar uma ciência ou arte que lhe assegure um alimento honesto. duas. Tem a seu cargo a inspeção imediata dos ra­ mos que o Executivo administra com menos intervenção do Legislativo. Cabe ao Senado escolher os prefeitos. não dinheiro. Assim acontece com a Inglaterra. será analisada uma. bis­ pos. O Corpo Legislativo apresenta uma composição que o torna necessariamen­ te harmonioso entre as diversas partes: jamais se encontrará dividido por falta de um juiz árbitro. Em todos os assuntos entre dois contrários sc nomeará um terceiro para decidir. podemos to­ davia imaginar que se inspirou naquele país. assinar o seu nome e ler as leis. três vezes. Não são exigidas nem capacidades. não existindo nobreza. imparcial. Essa a ra­ zão por que Siéyès apenas defendia a existência de um. antes de sofrer a negativa. os juizes do distrito. Os censores exercem um poder político e moral que tem certa semelhança com o do Areópago de Atenas e o dos censores de Roma. para poderem deliberar ausentes de paixões e com a calma da sabedoria. adquirindo o governo mais garantias.

O presidente da Bolívia participa das faculdades do Executivo americano. na tranqüilidade de um reino legítimo. Eles condenarão ao opróbrio eterno os usurpadores da autoridade soberana e os crimi­ nosos importantes. Confiaram nele e os destinos de Haiti não vacilaram mais. se torna necessário um ponto fixo à volta do qual devem girar os magistrados e os cidadãos. dizia um antigo. Prova triunfante de que um presiden­ te vitalício. Dai-me um ponto fixo. a república. por isso mesmo. com direitos para nomear sucessor. re­ presentaram o mais pequeno perigo para o Estado. firme 110 seu centro. tudo continuou sob o signo Boyer. uma vez que nos sistemas sem hierarquias. O fiel da glória estará confiado às suas mãos. Cortou-se-lhe a cabeça para que ninguém receie as suas intenções e ataram-se-lhe as mãos para que não cause dano a ninguém. Concederão honras públicas aos serviços c às virtudes dos ci­ dadãos ilustres. to­ dos os governos conhecidos e alguns mais. o reino. A ilha de Haiti (seja-me permitida esta digressão) encontra-se em permanen­ te insurreição: depois de haver experimentado o império. Com a designação de Petion para presidente vitalício. como o Sol que. mais que nos outros. a instrução e a im­ prensa.10 Leituras Complementares 261 jam observados com zelo. com faculdades de eleger su­ cessor. Os sacerdo­ . nem a sucessão do novo presidente. Para a Bolívia esse ponto é o presidente vitalício. é a inspiração mais sublime na or­ dem republicana. e o modo de su­ cessão mais seguro para o bem do Estado. Esta diminuição de poderes ainda ne­ nhum governo bem constituído a sofreu nos nossos dias: ela virá trazer entraves sobre entraves à autoridade de um chefe que sempre se apresentará ao povo sob o domínio dos que exercem as funções mais importantes da sociedade. mas com restrições favoráveis ao povo. A mais terrível e a mais augusta das missões pertence pois aos censores. São os censores quem protege a moral. Nele se estriba toda a nossa ordem. que deve decidir da boa ou má administração do Executivo. E sob a sua égide se encontra também o Juízo Nacional. dá vida ao Universo. as ciências. o presidente da Bolívia fica privado de todas as influências: não nomeia magistrados. sem que isso implique. ainda que se trate de faltas insignificantes. A sua duração é a mesma dos presidentes do Haiti. na nossa Constituição. os homens e as coisas. ação. por parte dele. Além disso. Esta suprema autoridade deve ser perpétua. Trouxe para a Bolívia o sistema executivo da república mais democrática do mundo. viu-se forçada a recorrer ao ilustre Petion para que a salvasse. O presidente da Bolívia será menos perigoso que o do Haiti. nem a morte desse grande homem. O presidente da República acaba por ser. as artes. e com ele moverei o mundo. nem juizes ou dignidades eclesiásticas. os censores devem gozar de uma inocência intacta e de uma vida sem mancha. Se trans­ gredirem serão acusados. pois são eles que devem levantar a voz contra os seus profanadores. A estes sacer­ dotes das leis confiei a conservação das nossas tábuas sagradas. por mais pequenas que sejam.

As nossas riquezas eram praticamente nulas. Iturbide. Cristóbal. Bonapartc. juizes c ci­ dadãos. alcançará fundar monarquias. num solo incendiado pelas chamas brilhantes da liberdade. os mais adequados para lhe captar a aura popular. a paz e guerra e a mandar no exército. os juizes sobre a propriedade. Sem estes dois apoios. As barreiras constitucionais integram uma consciência política e con­ ferem-lhe a firme esperança de encontrar o farol que a guie entre os escolhos que . não são.262 Teoria Geral do Estado tes mandam sobre as consciências. c se alguns ambiciosos se empenham em levantar im­ périos. únicos agentes deste ministério. São estas as suas funções. os ti­ ranos não são permanentes. magistrados. O vice-presidente é o magistrado mais manietado que serviu o mando: obe­ dece simultaneamente ao Legislativo e ao Executivo de um governo republicano. está longe de as­ pirar ao domínio. a honra e a vida. Devendo estes ao povo as suas dignidades. apesar da influência que goza. não logrou triunfar de tal regra. do segundo as ordens. Não há poder mais difícil de manter do que o dc um novo príncipe. assim a sua influência é nula. é preferível governar assim a ter nas mãos um impé­ rio absoluto. Os príncipes flamantes que se afadigam a construir tronos sobre os escombros da liberdade. na verdade. responsável perante os censores e está sujeita à vigilância zelosa dc todos os legisladores. Dessalines. A administração pcrtencc toda ao ministério. testemunhando no futuro dos séculos a sua fátua ambição pela li­ berdade e pela glória. A igreja. E sc o grande Napolcão não conseguiu manter-se contra a ligação de republi­ canos c aristocratas quem. devorador de entraves erguidas e criador de cadafalsos régios? Não. Os limites constitucionais do presidente da Bolívia são os mais estreitos que se conhecem: limita-se a nomear os funcionários da Fazenda. glória e fortuna. logo são informados do que os espera. Obser­ ve-se a natureza selvagem deste continente que só por si exclui a ordem monárqui­ ca. erguerão túmulos para as suas cinzas. Legisladores! A liberdade de hoje. e os magistrados cm todos os atos públicos. Ape­ sar de tantos inconvenientes. Os aduaneiros e os soldados. e satisfaz-se com a sua conservação. parece-me que há razão para ficarmos seguros da usurpação do poder público ser mais longínqua nesta forma de governo do que em qualquer outra. Não existem nobres importantes ou grandes eclesiásticos. Do primeiro recebe as leis. legisladores: não temais os pretendentes a coroas: elas serão para as suas cabeças a espada suspensa sobre Dionísio (sic). mais forte que os impé­ rios. vence­ dor de todos os exércitos. jamais será destruída na América. e entre estas duas barreiras vê-se obrigado a avançar por um caminho angustiado e flanqueado de precipícios. na América. Se acrescentarmos a esta consideração as que naturalmen­ te surgem das oposições gerais que enfrenta um governo democrático cm todos os momentos da sua administração. não poderá o presidente esperar complicá-los com as suas ambiciosas pretensões.

O Poder Judicial que proponho goza de uma independência absoluta: em ne­ nhuma outra parte tem tanta. o crédito que necessita para desempenhar as mais al­ tas funções e esperar a grande recompensa nacional . são os que constituem a liberdade. em toda a sua pureza. senhores legisladores. legisladores. Este vice-presidente terá dc esforçar-se por merecer.10 Leituras Complementares 263 a rodeiam: servirão de apoio contra os impulsos das nossas paixões. este príncipe a que me atreveria a chamar a ironia do homem. a monarquia que governa a terra obteve os seus títulos de aprovação da herança que a torna estável. Sendo a herança aquilo que perpetua o regime monárquico e assim acontece na quase generalidade. Considerai. fechado no seu palácio. e o Legislativo es­ colhe os indivíduos que hão de formar os tribunais. manda no gênero humano. em lugar de se ficarem inativos e ignorantes. Apoderei-me desta ideia e estabeleci-a como lei. Quando inicia o exercício das suas novas funções já vai formado. e da unidade que a torna forte. Nada c tão conveniente. sem dúvida. Se o Poder Judicial não tiver esta origem ser-lhe-á impossível conservar. pelos seus serviços. a anarquia que é o luxo da tirania e o perigo mais imediato e mais terrível dos governos populares. quanto mais útil não é o método que acabo de propor para a sucessão? Que aconteceria se os príncipes fossem eleitos. O povo apresenta os candidatos. E ainda que um príncipe soberano seja um menino mimado. na tremenda crise das repúblicas! O vice-presidente deve ser o homem mais puro: pois se o primeiro magistra­ do não elege um cidadão justo. No governo dos Estados Unidos observou-se ultimamente a prática de nomear o primeiro-ministro para suceder ao presidente. O Cor­ po Legislativo e o povo exigirão capacidades c talentos da parte deste magistrado e pedir-lhe-ão uma cega obediência às leis da liberdade. concertadas com os interesses alheios. A verdadeira constituição liberal está nos códigos civis e penais. e a mais terrível tirania é exercida pelos tribunais . se pusessem à frente da ad­ ministração? Haveria. todas as garantias da ordem social. os direitos indi­ viduais. porque conserva a ordem das coisas e a subordinação entre os ci­ dadãos. levando consigo a auréola da popularida­ de e uma prática consumada. que produzem grandes reveses nas repúblicas. legisladores. que estas grandes vantagens se encontram reunidas no presidente vitalício e no vice-presidente hereditário. Reparei no que acon­ tece nos reinos legítimos. monarcas mais esclarecidos e dispostos a faze­ rem felizes os povos que governassem. a segurança. como este método: reúne a vantagem de colocar à cabeça da administra­ ção um indivíduo experimentado no manejo do Estado. Com esta providência se evitam as eleições. numa re­ pública.o mundo supremo. não pela sorte. com um poder firme e uma ação constante. Estes direitos. deverá temê-lo como inimigo encarniçado e suspei­ tar até das suas ambições mais secretas. mas pelo mérito e. educado pela adulação e conduzido por todas as paixões. O presidente da república nomeia o vice-presidente para que este administre o Estado e lhe suceda no mando. Sim. a igualdade.

o Estado é um caos. Por isso recomendo uma lei que prescreva um método de responsabili­ dade anual para cada funcionário. Sem responsabilidade. Pensei que a Constituição da Bolívia devesse reformar-se por períodos. Toda gente fala em liberdade. que é o fim da sociedade. e que do bem-estar destas resulta a felicidade do Estado. interessa à república guarnecer as fron­ teiras com tropas de linha e tropas de fiscalização contra a guerra da fraude. O Poder Judicial contém a medida do bem ou do mal dos ci­ dadãos. O destino do exército é o de guarnecer a frontei­ ra.264 Teoria Geral do Estado através do instrumento das leis. A força armada divide-a em quatro partes: exército dc linha. não obstante. mas quase sempre não se passa de palavras. legisladores: os ma­ gistrados. e entretanto as vítimas deste abuso são os cidadãos. governadores. Atrevo-me a instar encarecidamente junto dos legisladores para que ditem leis for­ tes e determinantes sobre esta matéria. milí­ cia nacional e fiscalização militar. juizes e funcionários abusam das suas faculdades porque não se detêm com rigor os agentes da administração. bastas vezes desdenhado. sem repressão. as outras são nominais ou de pouca influência no respeitante aos ci­ dadãos. A Bolívia não possui grandes costas e por isso é inútil a marinha: apesar disso esperamos obter um dia uma e outra coisa. segun­ do as exigências do movimento do mundo moral. A fiscalização militar é preferível em todos os aspectos aos guardas. Tende presente. O território da república é governado por prefeitos. muitas vezes. mas os tribunais são os árbitros das coisas próprias . e se houver liberdade e justiça na república. A responsabilidade dos funcionários fica assinalada na Constituição bolivia­ na da forma mais efetiva. De acordo com as ideias em voga. que as nações são formadas por cidades e aldeias. e da qual dima- . Pouco importa. por isso. Deus nos preserve de ele voltar as armas contra os cidadãos! Basta a milícia na­ cional para conservar a ordem interna. serão distribuídos através des­ se poder. Nunca será demasiada a atenção que prestardes ao bom regime dos departamentos. e que encurtássemos a duração dos pleitos no intricado la­ birinto das apelações. corregedo­ res. Não pude entrar no regime interno e nas faculdades destas jurisdições. um serviço seme­ lhante é mais imoral que supérfluo. seria de esperar que proibíssemos o uso da tortura e das confissões. Foram estabelecidas as garantias mais perfeitas: a liberdade civil é a verdadei­ ra liberdade. Garantiu-se a segurança pessoal. a organização política: o importante é que a civil seja perfeita. que as leis se cumpram religiosamente e se tenham por inexo­ ráveis como o destino. Este ponto é da predileção da ciência legislativa e. é meu dever recomendar ao Congresso os regulamen­ tos respeitantes ao serviço dos departamentos e províncias. o Executivo não é mais que um depo­ sitário da coisa pública. Não existe responsabilidade.das coisas dos indivíduos. esquadra. contudo. Os trâmites da reforma foram assinalados nos termos que julguei mais apropriados ao caso. Geralmente. juizes de paz e alcaides. legisla­ dores.

E poderá haver escravatura onde reina a igualdade? Uma tal con­ tradição seria mais o vitupério da nossa razão do que da nossa justiça: reputados por dementes. prorrogar.a igualdade sem ela. provocasse a ira do céu. dentro de si pró­ prio: ela apenas tem o direito de examinar a sua consciência íntima. cúmplice dos seus crimes. quan­ do os tribunais estão no céu e quando Deus é o juiz? Só a Inquisição seria capaz de substituí-los neste mundo. As leis. não por usurpadores. velar pelo cumprimento das leis religiosas e atribuir prêmio ou castigo. A lei que a conservas­ se seria a mais sacrílega das leis. coberta de humilhação. a infame escravatura. é de natureza indefinível na ordem social c pertence à mo­ ral intelectual. no gabinete. A seus pós colo­ quei. Um homem na posse de outro! Um homem proprie­ dade! Uma imagem de Deus subjugada como um animal! Dizei-me: onde estão os títulos dos usurpadores do homem? Foram-nos enviados pela Guiné. essa depende do código civil que a vossa sabedoria deverá redigir em seguida. Toda lei sobre ela a anula. Quanto à propriedade. pelo contrário. porque impondo a necessidade tira mérito à fé. segundo a minha consciên­ cia. à de um cativo ao serviço de um infame tirano que. A religião governa o homem em casa. devia omitir. Numa Constituição política não deverá prescrever-se uma profis­ são religiosa. mas a religião não se integra em nenhum destes direitos. Que direitos poderão ser alegados para que se mantenha? Observe-se este crime sob todos os aspectos. E se não houvesse um Deus Protetor da inocência e da liberdade. pois a África devastada pelo fratricídio só nos apresenta crimes. eternizar este crime eivado de suplícios. parece-me o ultraje mais chocante. que lei ou poder será capaz dc sancionar o domínio sobre tais vítimas? Transmitir. a infração dc todas as leis é a escravatura. Ninguém pode violar o santo dog­ ma da igualdade. Legisladores! Farei agora menção de um artigo que. Basear um princípio de posse sobre a mais fe­ roz delinqüência só poderá conceber-se com a alteração dos elementos do direito c a perversão mais absoluta das noções do dever. todos os direitos.10 Leituras Complementares 265 nam as outras. preferiria a sorte de um leão generoso dominando nos desertos e bosques. Voltará ainda a Inquisição com os seus archotes incen­ diários? A religião é a lei da consciência. Legisladores. Con­ servei intacta a lei das leis . Por ela devemos fazer todos os sacrifícios. para descanso dos vossos concidadãos. que é a base da religião. Transplantadas para aqui estas relíquias das tribos africanas. poderá um Estado reger a consciência dos seus sú­ ditos. porque segundo as melhores doutrinas sobre as leis fundamentais es­ tas são as garantias dos direitos políticos c civis. desaparecem todas as garan­ tias. estou convencido que não existe um único boliviano tão depravado que pretenda legitimar a mais insigne vio­ lação da dignidade humana. Mas não: Deus destinou o homem à liberdade e protege-o para que exerça a fun­ ção celeste do livre-arbítrio. Os preceitos e dogmas sa­ . Aplicando estas considerações. têm em vista a superfície das coisas: governam fora da casa dos cidadãos.

o Corpo Nacional que dirige o poder público para objetos pura­ mente temporais.. ao ver proclamada a nova nação boliviana quão generosas e su­ blimes considerações deverão elevar as vossas almas! A entrada de um novo Esta­ do na sociedade dos outros é motivo de júbilo para o gênero humano. lá se encontra o tribunal que recompensa o mé­ rito e faz justiça segundo o código ditado pelo legislador. quais são. . de modo algum. todos devemos professá-los. mas a moral não se impõe. sendo os seus primeiros benfeitores. mas a minha. Os pastores espirituais estão obrigados a ensinar a ciência do céu: o exemplo dos verdadeiros discípulos de Jesus c o mestre mais eloqüente da sua divina moral. acabais por ligar o meu nome a todas as vossas gerações. deverão receber recompensas imortais. Mas o meu desespero aumenta ao contemplar a imensidade do vosso prêmio. nada mais viu que fosse igual ao seu valor. as virtudes. o homem apoia a sua moral nas verdades reveladas e professa de fato a religião. Onde está a repúbli­ ca. Inebriados por tal explosão de senti­ mentos. mas este dever é moral. quando ela jamais conseguirá alcançar a expres­ são do que eu sinto com a vossa bondade que.. porque depois de haver esgotado os talentos. Não havendo castigos temporais nem juizes que os apliquem. luminosos e de evidência metafísica. Legisladores. ultrapassa todos os limites! Sim: só Deus teria poder para chamar a esta terra Bolívia. porque é au­ mentada a grande família dos povos. nem o que ordena é senhor. nem a força deve ser empregada em dar conselhos. quando este progresso é conseguido.o meu! Falar da minha gratidão. Sendo tudo isto de juris­ dição divina. neste mundo. a lei deixa de ser lei. antecipou-sc todos os meus serviços e é infinitamente superior a quantos bens possam trazer-me os homens. Qual não será o dos seus fundadores .266 Teoria Geral do Estado grados são úteis. não é político.o Pai da Cidade Eterna! Esta glória pertence de direito aos criadores das nações que. parece-me à primeira vista sacrílego e profano misturar as nossas prescrições como os mandamentos do Senhor. Legislar sobre a religião não cabe ao legislador que deve sim prescrever penas às infrações das leis para que estas não se­ jam meros conselhos. Além disso. que mais eficaz se torna quando adquirida por investi­ gações próprias.vendo-me em igualdade com o mais célebre dos antigos . Deus c os seus ministros são as au­ toridades da religião que atua por meios e órgãos exclusivamente espirituais. o próprio gênio do maior dos heróis.e o meu! . mas. O progresso moral do homem é a intenção primeira do legislador. não me sinto digno de merecer o nome que lhe haveis querido dar-lhe . Por outro lado. os pais de família não podem descuidar o dever religio­ so para com os filhos. dedicando-me uma nação. além de imortal tem o mérito de ser gratuita porque não merecida. Bolívia que quer dizer? Um amor arrebatado pela liberdade e que o vosso impulso ao recebê-la. como a de Deus. os direitos do homem para com a re­ ligião? Esses direitos estão no céu. onde a cidade que fundei? A vossa exuberância.

Einaudi. Regina Lúcia E de Moraes. patrício e plebeu. Dentro de cada uma de todas estas classes. A sociedade burguesa atual. e o gozo dc serem homens. 23 de maio de 1826 8) KARL MARX E FRIEDRICH ENGELS 0 manifesto comunista (Manifesto dei Partido Comunista. com novas classes sociais e novos meios de opressão. mestre de corporação e companheiro. constata-se. ed. Manifesto do Partido Comunista . levado a efeito numa guerra incessante. opressores e oprimidos em confli­ to permanente entre si. aprendizes e servos. felizes vós que presidis aos destinos de uma república que nasceu coroada com os louros de Ayacucho. apenas substituiu as antigas formas de luta por outras. Lima. plebeus e escravos. que é inaudito na história dos séculos. é-o ainda mais na história dos desprendimentos sublimes. ainda. em todos os lugares. uma cla­ ra divisão da sociedade cm classes diferentes.10 Leituras Complementares 267 Isto. 1981. São Paulo.. encontra-se. a apenas dois campos hostis. que é a posse de exercer as vir­ tudes políticas. 1978. em suma. provará que sois crcdores dc obter a grande benção do Céu . não aboliu os antagonismos de classe.Burgueses e proletários A história de todas as sociedades. a cada vez.a única autori­ dade legítima das nações. senhores. mestres. Laski. temos os patrícios. Global. vassalos. Entretanto. Tal feito mostrará aos tempos que estão 110 pensamento do Eterno. Rio de Janei­ ro. que surgiu dos escombros da sociedade feudal.) I . Na Idade Média. cavaleiros. repito. Harokl J. até hoje existentes. duas grandes classes que se defrontam: a bur­ guesia e o proletariado! . a qual sempre se encerrou. Turim. paulatina­ mente. Homem livre e escravo. Desde os primórdios da História.c a Soberania do Povo . na calma que se sucedeu à tempestade da guerra. 1978. de forma tal que a sociedade como um todo vai se reduzindo. 2. senhor e servo. ligadas a uma progressiva modifica­ ção nas condições de vida. Legisladores. se confunde com a his­ tória das lutas de classes. a existên­ cia de diversas camadas sociais subordinadas. O manifes­ to comunista de Marx e Engels. às claras ou dissi­ muladamente. e que decidis na posse dos vossos direitos. Na Roma antiga. e que deve perpetuar uma ditosa existência sob as leis ditadas pela vossa sabedoria. trad. companheiros. ou pela reestruturação revo­ lucionária da sociedade como um todo ou pela destruição das classes em choque. Este feito. Zahar. nos­ sa sociedade burguesa se caracterizou pela simplificação dos antagonismos entre as classes.

Não há dúvida de que. do comércio. A descoberta do Novo Mundo permitiu que a indústria moderna criasse seu mercado mundial. Mais tarde. no período manufatureiro. da navegação e dos meios de comunicação. de uma escalada de revoluções nos modos de produção e dc troca. senhores dc verdadeiros exércitos industriais. historicamente. Os mestres das corporações foram substituídos pela pequena burguesia industrial. tributário da monarquia (como na França). para que subsistisse . patriarcais e idílicas. a evolução notável dos mecanismos de troca c o aumento das mercadorias cm geral foram os fatores que ensejaram um desenvolvimento. Onde conquistou o poder. A produção manufatureira tomou o seu lugar. continuavam em expansão e a demanda aumentando sem parar. Conforme se desenvolviam a indústria. Cada fase na formação histórica da burguesia veio acompanhada de um processo político correlato: a classe oprimida pelo feudalismo despótico sc organi­ za cm associação armada e autônoma na Comuna. o comércio. cruelmente. A descoberta da América e a circunavegação da África abriram para a bur­ guesia emergente novas alternativas. os diversos la­ ços que uniam o homem feudal aos seus superiores naturais. A manufatura foi substituída pela gigantesca indústria moderna. Conclui-se. trazendo com isto o apressamento do processo revolucionário 110 seio da enfraquecida sociedade feudal. Então.268 Teoria Geral do Estado Dos servos da Idade Média surgiram os burgueses privilegiados das antigas cidades e. terceiro estado. Os mercados da índia Oriental e da China. ela destruiu to­ das as relações feudais. e a divisão do trabalho entre as di­ ferentes corporações foi extinta. aqui. ali. o governo não passa de um órgão destinado a gerenciar os interesses comuns de toda a bur­ guesia. aumentando seu capital e colocan­ do em plano secundário toda classe oriunda da Idade Média. sendo que este promoveu um espantoso desenvolvimento do co­ mércio. a burguesia. a burguesia desempenhou um papel revolucionário dos mais significativos. e como fundamento principal das grandes monarquias. a burguesia se firmava. a colonização do Novo Mundo. como contrapeso da no­ breza. já não poderia mais atender à crescente demanda dos novos mercados. a na­ vegação e as ferrovias. portanto. O sistema feudal. entrementes. o comércio com as colônias. os primeiros representantes da burguesia de hoje. república urbana indepen­ dente (como na Itália e na Alemanha). conquistou afinal o domínio político exclusivo do Estado representativo moderno. Os mercados. destes. Neste. o vapor e as má­ quinas revolucionaram a produção industrial. da navega­ ção e da indústria. Dilacerou. A própria manufatura não mais atendia a esta. Tal redundou numa expansão ainda maior da indústria. constituindo a bur­ guesia moderna. e a classe média industrial ultrapassada pelos capi­ tães dc indústria. com o estabelecimento da indústria moderna e do mercado mundial. nunca antes verificado. com sua produção industrial monopolizada por grupos fe­ chados. que a burguesia atual é o produto de um longo proces­ so de desenvolvimento. em face da divisão do trabalho em cada oficina.

até então. obriga todas as nações a adotarem um modo burguês dc produção. Em suma. Com mão dc ferro. Kairós. o padre. 1933. transformando o médico. Estudos Político-Sociais. para adotar a exploração aber­ ta. São Paulo. São Paulo. o Oriente ao Ocidente. trad.) . o poeta. visando.10 Leituras Complementares 269 apenas o laço frio do interesse. com a ameaça de seu desaparecimento. a burguesia consegue atrair. em síntese. do entusiasmo cavalheiresco. estabeleceu a implacável liberdade do comercio. reduzindo-as a meras es­ peculações financeiras. cínica. mesmo as mais atrasa­ das. e Publ. 9) FERDINAND LASSALLE Que é uma Constituição? (O que é uma Constituição política . de maneira ir­ resistível. Fez da dignidade pessoal mero valor dc troca c. os povos agrícolas aos povos bur­ gueses. São Paulo. o ju­ rista. todas as nações para o seu modelo de civilização. do sentimentalismo pequeno-burguês nas águas geladas do cálculo egoísta. Sufocou o êxtase sagrado do fervor religioso. Col. Arran­ cou o véu sentimental que envolvia as relações familiares. em trabalhadores assalariados. aumentando descontroladamente a população das cidades e esvaziando os campos. Ed. Global. submeteu. Brasil. dando origem a gigantescos aglomerados urbanos. 1985. Walter Stõnncr. e os países atrasados ou me­ nos evoluídos aos civilizados. força-as a optarem pelo que ela considera civilização. cm nome dc todas as liberdades conquis­ tadas. o insensível “pagamento a vista” nas relações hu­ manas. também. Que é uma Constituiçãof. capaz dc derrubar até as muralhas da China e de subjugar os bárbaros mais desconfiados. liberando imensos contingentes do embrutecimento da vida rural. Que é uma Constituição?. A burguesia retirou a auréola de todas as atividades consideradas. respeitáveis e veneráveis. transformar o mundo à sua imagem e semelhança! O sistema burguês submeteu o campo à cidade. Sua mercadoria barata constitui sua mais poderosa arma. 1987. Graças ao incrível desenvolvimento dos meios de produção e às facilidades ensejadas pelos meios de comunicação. afastou a explo­ ração camuflada pelas ilusões religiosas e políticas. se não o fizerem. Manoel Soares. direta e brutal. Assim como submeteu o campo à cidade. o homem de ciência. trad.

certamente. Todas essas respostas jurídicas. minha palestra com esta pergunta: o que é uma Constituição? Qual a verdadeira essência de uma Constituição? Em todos os lugares e a toda hora. distanciam-se muito de explicar cabalmente a pergunta que fiz. factível ou irrealizável. existem muito pou­ cas que possam dar-nos uma resposta satisfatória. porém. nos clubes. boa ou má. na qual se baseia a organização do Direito público dessa nação”. seja qual for o seu conteúdo. Na imprensa. à tarde. Estas. Primeiramente torna-se necessário sabermos qual é a verdadeira essência de uma Constituição. ou por isso mesmo. sejam quais forem. mas não explicam o que é uma Constituição. a essência constitucional. isto é. nos cafés e nos restaurantes é este o assunto obrigatório de todas as conversas.é a fonte primitiva da qual nascem a arte e a sabedoria cons­ titucionais. poderemos saber se a Carta Constitucional determinada e concreta que estamos examinando se acomoda ou não às exigências substanciais. porém não esclarecem onde está o conceito de toda Constituição. apesar disso. procurariam o volume que fala da legislação prussiana de 1850 até encontrarem os dispositivos da Constituição do reino da Prússia. a da Prússia ou outra qualquer. porém. Mas isso não seria. Para isso. depois. pois. E. pois para isso se­ ria necessário que explicassem o seu conceito. estamos ouvindo falar da Constituição e de seus pro­ blemas constitucionais. . está claro. notas explicativas para conhecer juridicamente uma Constituição. e porque. o verdadeiro conceito de uma Constituição? Estou certo de que. ou outras parecidas que se possam dar. para orientar-nos sobre se uma determinada Constituição é. pela manhã e à noite. entre essas milhares de pessoas que falam desta. Não servem. formulo em termos precisos esta pergun­ ta: qual a verdadeira essência. duradoura ou insustentável. receberia mais ou menos esta res­ posta: “Constituição é um pacto juramentado entre o rei e o povo. estabelecendo os princípios alicerçadores da legislação e do governo dentro de um país”. pois. limitam-se a descrever exteriormente como se formam as Constituições e o que fazem. de nada servirão as definições jurídicas que podem ser aplicadas a todos os papéis assinados por uma nação ou por esta e o seu rei. O u ge­ neralizando. e. sem penetrarmos na sua essência. Dão-nos critérios. O conceito de Constituição . para responder satisfatoriamente à pergunta por mim formulada: onde podemos encontrar o conceito de uma Constituição. proclamando-as Constituições.como demonstrarei logo . para responder-nos. pois existe também a Constituição nos países de governo republica­ no: “A Constituição é a lei fundamental proclamada pelo país.270 Teoria Geral do Estado Capítulo 0 que é uma Constituição? Inicio. seja ela qual for? Se fizesse esta indagação a um jurisconsulto. Não basta apre­ sentar a matéria concreta de uma determinada Constituição. iVIuitos. responder à minha pergunta.

Uma Constituição. Por isso. até. uma Constituição deve ser qualquer coisa de mais sagrado. po­ deria demonstrá-lo com centenas de exemplos. para reger. tem que ser também lei. consta que para reformá-la não é o bastante que uma simples maioria assim o deseje. deverá ser nomeada uma nova Assembleia Legislativa. seria absolutamente supérflua e não teria motivos para ser aprovada. Baseia-se em compararmos a coisa cujo conceito não sabemos com outra semelhante a ela. porém. esforçando-nos para pene­ trar clara e nitidamente nas diferenças que afastam uma da outra. ad hoc. de mais firme e de mais imó­ vel que uma lei comum. minha pergunta: Que é uma Constituição? Onde encontrar a verdadeira essência. Faço outra vez a pergunta anterior: qual a diferença entre uma Constituição e uma simples lei? .. mas será necessário obter dois terços dos vo­ tos do Parlamento. não protestamos quando as leis são modificadas. pois. Lei e Constituição Aplicando esse método. senão que. que faz com que a Constituição seja mais do que simples lei. criada expressa e exclusivamente para esse fim. O país. todos nós sabemos que se torna necessário que to­ dos os anos seja criado maior ou menor número de leis. para reformá-la. pergunto: Qual a diferença entre uma Constituição e uma lei? Ambas. no espírito unânime dos povos. isto é. pelo contrário. a lei e a Constituição. que é esta a missão normal e natural dos governos. uma essência genética co­ mum. uma simples lei. por exemplo. Constituições que dispõem taxativamente que a Constituição não poderá ser alterada de modo algum. para que se ma­ nifeste sobre a oportunidade ou conveniência de ser a Constituição modificada. aplicaremos um mé­ todo que é de utilidade pôr em prática sempre que quisermos esclarecer o concei­ to de uma coisa. há também desse­ melhança. o verdadeiro conceito de uma Constituição? Como o ignoramos. Não pode. pois é agora que vamos desvendá-lo. Entre os dois conceitos não existe somente afinidade. se a nova lei não motivasse modificações no aparelhamento legal vigente. evidentemente. não protesta pelo fato de constantemente serem apro­ vadas novas leis. quando mexem na Constituição. Todavia. protestamos e gritamos: Deixai a Constitui­ ção! Qual é a origem dessa diferença? Esta diferença é tão inegável que existem. nem mesmo unidos ao Poder Executivo. decre­ tar-se uma única lei que seja nova sem alterar a situação legislativa vigente no momento da sua aprovação. existem ainda algumas onde se declara que não é da compe­ tência dos Corpos Legislativos sua modificação. pois no­ tamos.10 Leituras Complementares 271 Repito. Esta. é mais do que isso. e estamos cientes disso. não é uma lei como as outras. pois. Mas.. Este método é muito simples. necessita a aprovação legislativa. Todos esses fatos demonstraram que. têm. noutras.

existem porque necessariamente devem existir. Sendo a Constituição a lei fundam ental de uma nação. um termo novo. “lei fundamental”. é uma lei fundam ental da nação. será . ou. mais do que as outras comuns. como indica seu próprio nome: “fundamental”. para sê-lo. se é o resultado como preten­ dem os cientistas da força da atração do Sol. deverá. Somente ganhamos um vocábulo novo.272 Teoria Geral do Estado A esta pergunta responderão: Constituição não é uma lei como as outras. uma exigência da necessidade. quer dizer seria variável. dc forma bastante confusa. Intentemos. com que todas as outras leis e instituições jurídicas vigentes no país sejam o que real­ . se dc fato responde a um fundamento. movem-se de um modo determinado. repito. não poder deixar-nos satisfeitos. que de nada nos servirá enquanto não soubermos explicar qual é. Mas a mes­ ma. isto c. a diferença entre lei fundam ental e outra lei qualquer. Para isso será necessário: 1) que a lei fundamental seja uma lei básica . implicitamente. ou não? Se não existissem tais fundamen­ tos. Os planetas. se realmente pretende ser merecedora desse nome. pois. substituindo a outra. indagando que ideias ou que noções são as que vão associadas a esse nome de4 4 lei fundamentar’.qualquer coisa que logo poderemos definir e esclare­ cer. assim formulada. de uma força eficaz que toma por lei da necessidade que o que sobre ela se baseia seja assim e não de outro m odo . sua trajetória seria casual e poderia variar a todo momento. continuamos onde começamos. que são as casuais e as fortuitas. A lei fundamental. deverá informar e engendrar as ou­ tras leis comuns originárias da mesma. podem ser como são ou mesmo de qualquer outra for­ ma. atuar e irradiar através das leis comuns do país. O fundamento a que respondem não permite serem de outro modo. uma força ativa que faz. como já vimos. em outros termos. 3) mas as coisas que têm um fundamento não o são assim por um capricho. por exemplo. A ideia de fundamento traz. É possível. que nesta resposta se en­ contre. pois aqui rege a lei da necessidade. como poderíamos distinguir uma “lei fundamental” de outra lei qualquer para que a primeira possa justificar o nome que lhe foi assinalado.e agora já co­ meçamos a sair das trevas . a noção de uma necessidade ativa .o verdadeiro fundamento das outras leis. Imediatamente surge. esta interrogação: como distinguir uma lei da lei fundam ental? Como podeis ver. ou. as que possuem um fundamento não. é o bastante isto para que o movimen­ to dos planetas seja regido e governado de tal modo por esse fundamento que não possa ser de outro modo. meus senhores. 2) que constitua . Somente as coisas que carecem de fundamento. a fundamentos exatos. pois. a lei fundamental. a não ser tal como de fato é. Este movimento res­ ponde a causas. a verdade que estamos investigando. Mas. aprofundar um pouco mais no assunto. embora de modo obscuro. ou melhor.pois de outra forma não poderíamos chamá-la de funda­ mental .

não interessa sabermos se o fato pode ou não acontecer. por um momento. completamente livre. pergunto eu.e fazendo esta per­ gunta os horizontes clareiam . em substância. por causa deste sinistro. não podem decretar. Os originais das leis guardam-se nos arquivos do Estado. como vou expô-lo. e em outros arquivos. Suponhamos ainda que o país. embora este exemplo possa dar-se dc outra forma. nos fatores reais do poder que regem uma determinada sociedade. de tal forma que. mas sim o que o exemplo nos possa ensinar se este chegasse a ser realidade. será que existe em algum país . Vamos supor.igual desastre se desse em todas as cidades do país. a partir desse instante. outras quaisquer: M uito bem. a não ser tal como elas são. ficasse sem nenhuma das leis que o governavam e que por força das circunstâncias fosse necessário de­ cretar novas leis. todas as bibliotecas públicas..10 Leituras Complementares 273 mente são. determinando que não possam ser. Suponhamos isto. que um grande incêndio irrompesse e que nele se queimassem todos os arquivos do Estado.alguma força ativa que possa influir dc tal forma que todas as suas leis. o que são e como são sem poder ser de outro modo f Capítulo II Os fatores reais do poder Sim. por uma triste coincidência . e esta incógnita que estamos investigando apoia-se.estamos no terreno das suposições . embora quisessem. Não ignoram os meus ouvintes que na Prússia somente tem força de lei os tex­ tos publicados na Coleção legislativa. dc tal maneira que em toda a Prússia não fosse possível achar um único exemplar das leis do país. Os fatores reais do poder que regulam no seio de cada sociedade são essa força ativa e eficaz que informa todas as leis e instituições jurídicas da sociedade em apre­ ço. Vou esclarecer isto com um exemplo. Porém. . desde os alicerces até o telhado. desaparecendo in­ clusive todas as bibliotecas particulares onde existissem coleções. Esta Coleção imprime-se numa tipografia concessionária instalada em Berlim. até certo ponto. não pode realmente acontecer. este exemplo. que as obrigue a serem necessariamente. existem sem dúvida. bibliotecas e depósitos guardam-se as coleções le­ gislativas impressas. poderia fazer leis a ca­ pricho de acordo com o seu modo de pensar? A m onarquia Suponhamos que os senhores respondam: visto que as leis desapareceram e que vamos redigir outras completamente novas. naquele país. que o sinistro destruísse também a tipografia concessionária onde se imprimia a Cole­ ção legislativa e que ainda. Naturalmente. Julgai que neste caso o legislador. simplesmente.

O monarca responderia assim: podem estar destruídas as leis. Mas a gravidade do caso está em que os grandes fazendeiros da nobreza tive­ ram sempre muita influência na Corte e esta influência garante-lhe a saída do Exér­ cito e dos canhões para seus fins. dc grandes proprietários agrícolas. acatando minhas ordens. impedindo-se seu desenvolvimento sob aquele regime. não respeitaremos prerrogativas nem atri­ buições de espécie alguma. Vejam. não queremos a monarquia. Não sabemos por que esse punhado. da Câmara senhorial. porém. progredir e mesmo viver sob o sistema medieval. aplicada a toda a organização social. como se este aparelhamento da força estivesse “ diretamente” ao seu dispor. A grande burguesia Ocorre-me agora assentar o suposto ao inverso. mas não ao pequeno proprietário. as fábricas e a produção mecanizada. “para nada”. um rei a quem obedecem o Exército e os canhões. Possivelmente teriam mais que fazer para li­ vrar-se deles. porque neste regime se levantaria uma série de barreiras legais entre os diversos ramos de produção. e. Entre outros motivos. pois.. é uma parte da Constituição. a realida­ de é que o Exército subsiste e me obedece.274 Teoria Geral do Estado nelas não reconheceremos à monarquia as prerrogativas que até agora gozou ao amparo das leis destruídas. não tolero que venham impor-me posições e prerrogativas em desacordo comigo. Imaginemos que os meus ou­ vintes dissessem: destruídas as leis do passado. pretendessem impor o sistema que regeu na Idade Média. eleita esta pelos votos de todos os cidadãos. de forma alguma. enfim. somos todos “iguais” e não preci­ samos absolutamente. isto é.. recusando sistematicamente todos os acordos que julgarem prejudiciais aos seus interesses. por . sem excluir a grande indústria. A aristocracia Suponhamos agora que os senhores dissessem: somos tantos milhões de prus­ sianos. quer dizer. Como podeis ver. como uma nobreza influente e bem vista pelo rei e sua cortc é também uma parte da Constituição. das baionetas e dos canhões. entre os quais somente existe um punhado cada vez menor de grandes pro­ prietários de terras pertencentes à nobreza. Reconheço que não seria fácil à nobreza atirar contra o povo que assim pen­ sasse seus exércitos de camponeses. efetivo. formando somente eles uma Câmara Alta que fiscaliza os acordos da Câmara dos Deputados. a suposição de que o rei e a nobreza aliados entre si para restabelecer a organização medieval. cada vez menor. É sabido que o “grande” capital não poderia. a realidade é que os comandantes dos arsenais e quartéis põem na rua os canhões e as baionetas quan­ do eu o ordenar. mais ainda. apoiado neste poder real. há dc possuir tanta influencia nos destinos do país como os restantes milhões de habitantes reunidos.

que obtêm numerário naquele estabelecimento bancário para to­ mar acessível o crédito à gente humilde e à classe média. viria fatalmente à luta. na qual o triunfo não seria certamente das armas. que é a de baratear mais ainda o crédi­ to aos grandes banqueiros e aos capitalistas que possuem por razão natural todo o crédito e todo o dinheiro do país e que são os únicos que podem descontar as suas firmas. instigando-a com o seu prestígio. a gran­ de burguesia. sob o sistema gremial daquele tempo. ne­ cessitando ao mesmo tempo da produção em “massa” e a livre concorrência. os grandes industriais de teci­ dos. Poderia isto prevalecer? Não vou dizer que isto desencadeasse uma revolta. Egels. sem restrições. fechariam as suas fábricas despedindo os seus ope­ rários. por um instante. quer dizer. enfim. A grande indústria exige. Neste caso. Isto basta para compreender que a grande produção. Os banqueiros Suponhamos. . que o Banco da Nação não foi criado para a função que hoje cumpre. e nenhum industrial poderia reunir duas ou mais indústrias em suas mãos. sobretudo . por exemplo. não poderia progredir com uma Constituição do tipo gremial.e necessita como o ar que respiramos -.. são todos. isto é. Atrás dela. Demonstrara-se. estabelecer-se-ia por lei a quantidade estrita dc produção de cada industrial e cada indús­ tria somente poderia ocupar um determinado número de operários por igual. que os Borsig. e até as companhias de estrada de ferro seriam obrigadas a agir da mesma forma. assim.10 Leituras Complementares 275 muita afinidade que os mesmos tivessem. obstinadamen­ te implantassem hoje a Constituição gremial? Aconteceria que os senhores Borsig. a indústria mecanizada. Que viria a acontecer se. entre as corporações dos fabricantes de pregos e os ferreiros existiriam constantes processos para deslindar as suas respectivas jurisdições. O comércio e a indústria ficariam paralisados. por exemplo. Suponhamos isto e tam­ bém que ao Banco da Nação pretendesse dar a organização adequada para obter esse resultado. também. Ademais. abertamente lesivas aos interesses dos grandes banquei­ ros. os fabricantes dc sedas etc. que o governo pretendesse implantar uma des­ sas medidas excepcionais. grande número de pequenos industriais seria obrigado a fechar suas oficinas e esta multidão de homens sem tra­ balho sairia à praça pública pedindo. exigindo pão e trabalho. nestas condições e a despeito de tudo. ampla liberdade da fu­ são dos mais diferentes ramos do trabalho nas mãos de um mesmo capitalista. uma parte da Constituição. a possibilidade de empregar quantos operários necessitar. animando-a com a sua influência. Egels etc. a estamparia não poderia empregar em sua fábrica somente a um tintureiro etc. sustentando-a e alentando-a com o seu dinheiro. que esse mesmo governo entendesse. os grandes industriais. mas o governo atual não poderia impor presentemente medida semelhante.

sim. Estes inter­ mediários são os grandes banqueiros c. são também partes da Constituição. de intermediários que lhe adiantem as quantias de que precisa. poderia. ou. o papel da dívida pública.276 Teoria Geral do Estado Demonstrarei por quê. isto é. isto é. punindo na pessoa dos pais os rou­ bos cometidos pelos filhos. ou em pequenos prazos. tornando-o à situação em que viveu durante os tempos da Idade Média? Subsistiria essa pre­ tensão? Não. Para conseguir o dinheiro. . querendo proteger c satisfazer os privilégios da nobreza. e se o governo pretendesse tirar à pequena burguesia e ao operariado não somente as suas liberdades políticas. com toda a energia possível. do papel da dívida locupletando-se também com a alta da cotação que a esses títulos lhe dá a Bolsa artificialmente. que os grandes banqueiros. se pre­ tendesse transformar pessoalmente o trabalhador em escravo ou servo. Mas. É que. da Constituição. da cultura coletiva e da consciência social do país. mais uma vez. contrair empréstimos. por esse motivo. pouco a pouco. correndo depois por sua conta a colocação. e até os sisudos senadores teriam de discordar de tamanho absur­ do. hoje em dia. a maior parte daqueles títulos da dívida vol­ ta às mãos da gente rica e dos pequenos capitalistas do país. Essa lei não poderia reger. dos banqueiros. Para isto necessita dos banqueiros. mesmo que fosse transitoriamente. às vezes muito tempo. serve-se dos particulares. resta a alterna­ tiva dc consumir dinheiro futuro. como Mendclssohn. embora estivessem aliados ao rei a nobreza e toda a grande burguesia. Poderia fazê-lo? Infelizmente. Todos os funcionários. senão sua liberdade pessoal. também a consciência coletiva e a cultura geral da Nação são partículas. e o governo necessita do dinheiro logo e de urna vez. É certo que. De vez em quando o governo sente apertos financeiros devido à necessidade de investir grandes quantias de dinheiro que não tem coragem de tirar do povo por meio dc novos impostos ou aumento dos existentes. A pequena burguesia e a classe operária Imaginemos agora que o governo. o que é a mesma coisa. pois contra ela se levantaria o protesto. burocratas e conselheiros do Estado ergueriam as mãos para o céu. cm troca do dinheiro que recebe adiantadamente. e não pequenas. indispor-se com eles. mas isto requer tem­ po. Schickler. Vemos. dos grandes industriais c dos grandes capitalistas. Nesses casos. Suponhamos que o governo intentasse promulgar uma lei penal semelhante à que prevaleceu durante algum tempo na China. mais dia menos dia. a Bolsa. a nenhum governo con­ vém. ten­ tasse privar das suas liberdades políticas a pequena burguesia e a classe operária. os fatos nos de­ monstram que poderia. dentro de certos limites. entregando.

dali também a sua onipotência e o império absoluto que exercia sobre os seus membros. Juntam-se esses fatores reais do poder. os antigos não co n h e ce ra m a liberdade individual A cidade foi fundada sobre uma religião e constituída como uma igreja. mas sim verdadeiro direito. 2. a Constituição de um país: a soma dos fato­ res reais do poder que regem um país. 1. pertencia-lhe inteiramente. o in­ dustrial. Daí a sua força. Numa sociedade estabelecida sobre tais princípios. e por conseguinte é punido. O povo protestaria. Sousa Costa. pois nos casos extremos c desesperados também o povo. ou que o banquei­ ro X é também outro pedaço. ed. O cidadão estava submetido em todas as coisas e sem reserva alguma à cidade. somos uma parte integrante da Constituição. a nobreza. a pequena burguesia juntar-se-ia solidariamente ao povo e a resistência desse blo­ co seria invencível. Mas que relação existe entre o que vulgarmente denominamos Constituição e a Constituição jurídica? Não é difícil compreender a relação que os dois concei­ tos guardam entre si. gritando: antes morrer do que ser escravo! A multidão sairia à rua e não haveria a necessidade de que seus patrões fechassem as fábricas. Não desconheceis também o processo que se segue para transformar esses escri­ tos em fatores reais do poder. em síntese. e quem atentar contra cies atenta contra a lei. não. A religião que criara o Estado e o Estado que sustentava a religião reciprocamente se auxiliavam e formavam um . 10) FUSTELDECOULANGES A cidade antiga (Trad. não são simples fatores reais do poder. nós to­ dos. incorporados a um papel.10 Leituras Complementares 277 Seria tempo perdido. nas instituições jurí­ dicas. dá-sc-lhcs expressão escrita e. Está claro que não aparece neles a declaração de que o senhor Borsig. a partir desse momento. Lisboa.. Teixeira. Capítulo III Os fatores do poder e as instituições jurídicas Essa é. o povo são um fragmento da Constituição. em essência. isto se define de outra maneira mais limpa. transformando-os desta maneira em fatores jurídicos. M . a liberdade individual não podia existir.) Capítulo XVIII Da onipotência do Estado. mais diplomática. escrevemo-los em uma folha de papel. v. Clássica de A.

proibia-o às mulheres. A vida privada não escapava a esta onipotência do Estado. Tal era o poder do Esta­ do que ordenava a transposição dos sentimentos naturais e se fazia obedecer. a lei proibia aos homens beber vinho puro. de­ via combater com um ou outro partido. O Estado. A educação entre os gregos estava longe de ser livre. Aquela que sabia que nunca mais veria o seu. punia com uma multa quem possuísse uma navalha de barba. em Bizâncio. em Roma. em Atenas e em Esparta toda a vida. Há na história de Esparta um fato muito admirado por Pintarcho e Rousseau. Esparta acabava de ser derrotada em Lentra e muitos dos seus cidadãos tinham mor­ rido. a lei proibia o fazer a barba. O Estado tinha o direito de não tolerar que os seus cidadãos fossem disfor­ mes ou contrafeitos. a perda do direito de cidade. estes dois poderes associados e confundidos formavam um poder quase sobre-humano. sabemos só que Aristóteles e Platão a inscreveram nas suas legislações ideais. o pai não tinha direito algum sobre a educação . em Atenas. o filósofo. A esta notícia. No homem nada havia que fosse independente. A mãe. Em Rodes. mas o que casava tarde. podia prescrever o trabalho. podia ordenar às mulheres que lhe entregassem as joias. que o matasse. Tinha o dever de votar na assembleia e de ser. Era vulgar que a forma de vestir fosse determinada pelas leis dc cada ci­ dade. mostra­ va alegria e percorria os templos agradecendo aos deuses. em Mileto. ao qual a alma c o corpo estavam igualmente subordinados.278 Teoria Geral do Estado só corpo. Num tempo em que as dis­ córdias eram freqüentes. Muitas cidades gregas proibiam ao homem o ficar celibatário. a lei ateniense não permitia ao cidadão a neutralidade. Os seus haveres es­ tavam sempre à disposição do Estado. se a cidade tinha necessidade de dinheiro. mostrava-se aflita c chorava. ordenava ao pai. não tinha o direito de viver isolado. em Roma o serviço militar era obrigatório ate aos quarenta c seis anos. o homem de estudo. por seu turno. Em Esparta. os parentes dos mortos foram obrigados a aparecer em público dc cara alegre. Encontra-se esta lei nos antigos códigos de Esparta e de Roma. Esparta punia não só aquele que não casava. O Estado não admitia que um homem fosse indiferente aos seus interesses. pelo contrário. Era 110 que o Estado ti­ nha mais predomínio. exigia que se rapasse o bigode. aos credores o abandono das dívidas. a quem nascesse assim um filho. Exercia a sua tirania até nas mais pequenas coisas. em Esparta. em Locres. em Esparta. em Marselha. a ociosidade. que sabia que o filho escapara do desastre c ia tornar a vê-lo. Não sabemos se também existia em Atenas. aquele que quisesse estar afastado das fac­ ções infligia a lei uma pena severa. O seu corpo pertencia ao Es­ tado c estava voltado à sua defesa. aos donos das oliveiras que lhe cedessem gratuitamente o azeite fabri­ cado. Por conseqüência. magistrado. a legislação de Esparta regulava o penteado das mulheres e a dc Atenas proi­ bia-lhes levar cm viagem mais dc três vestidos.

por ordem. porque os filhos são menos de seus pais do que da cidade” . Reconhecia-se ao Estado o direito de impedir que houvesse um ensino livre ao lado do seu. porque se precisava deste conhecimento para a boa execução dos sacrifícios e das festas da cidade. Podia odiar-se ou desprezar-se os deuses da cidade vizinha. em Siracusa. mostra-nos as crianças de Atenas a caminho da es­ cola. tinha-se liberdade de crer nelas ou não. à chuva. Esta ins­ tituição não era particular a Atenas. nem a da educação. Aristides certamente não cometera crime algum e nem mesmo se tor­ nara suspeito disso. como nas sociedades modernas. Ensinava-lhe ginástica. mas a cidade tinha o direito de expulsá-lo do seu território pelo único motivo de Aristides ter adquirido. em Megara. Aristófanes. Devia crer na religião da cidade e sub­ meter-se a ela. O homem não tinha escolha dc crenças. os hinos e as danças sagradas. queria formar esse corpo e essa alma de modo a tirar dele o melhor par­ tido. A pessoa humana tinha pequeníssimo valor perante essa autoridade santa e quase divina. distribuídas por bairros. podia tornar perigosa. Deviam conformar-se com todas as regras do culto. e uma outra que proibia especialmente en­ sinar filosofia. porque o corpo do homem era uma arma para a cida­ de. Podia punir sem que houvesse culpa e só porque o seu interesse es­ tava em jogo. A liberdade de pensar sobre religião era absolutamente desconhecida entre os antigos. como Júpiter Celeste. influência demasiada. que se chamava pátria ou Estado. por suas virtudes. Cibele ou Juno. Nisso haveria uma grande impiedade que atingiria a religião e o Estado ao mesmo tempo. figurar em todas as procissões. caminham em filas cerradas. e esta arma devia ser tão forte e tão manejável quanto possível. ou do Erechtea ou de Cecropa. embora a cidade obrigas­ se a que a educação fosse comum e dada por mestres escolhidos por ela. Mas cuidado em não duvidar da Athene Poliada. O Estado considerava como pertença sua o corpo e a alma do cidadão. à neve ou ao sol forte. por isso. numa eloqüente passagem. Parece que em Arenas a lei foi menos rigorosa. Chamava-se a isso ostracismo. portanto. Ensinava-lhe também os cantos religiosos. e Aristóteles dava a entender que existia em todas as cidades gregas que ti­ . Sócrates foi condenado à morte por esse crime. se ele quisesse. um direito de justiça relativamente aos cidadãos. nem a liberdade da vida privada. Os antigos não conheciam. O Estado não tinha só. essas crianças mostram compreender que cumprem um dever cívico. A legislação ateniense punia com forte pena aqueles que se abstivessem de ce­ lebrar religiosamente uma festa nacional. que. encontrava-se em Argos.10 Leituras Complementares 279 do filho. sem uma autorização dos magistrados. tomar parte nos repastos sagrados. nem a religiosa. Atenas promulgou um dia uma lei que proibia instruir os moços. o que o Estado puniria severamen­ te. O Estado queria ser só a dirigir a educação c Platão diz o motivo desta exi­ gência: “Os pais não devem ter liberdade de enviar ou não os seus filhos para os mestres que a cidade escolheu. quanto às divindades de um caráter geral e universal.

quando. Não tinha sequer a mais ligeira ideia dela.280 Teoria Geral do Estado nham um governo democrático. a moral. portanto. um erro singular. sem dúvida. o ostracismo não era um castigo. Em todas as manifestações de vida de uma nação. Ter direitos políticos. Os antigos. a sua vida apresenta-se-nos como a conseqüência regular e fatal dos seus caracte­ res psicológicos. democracia. eis o que eu chamava liberdade. Roma promulgou uma lei. nomear magistrados. Veremos. a liberdade individual. nenhuma garantia havia para a vida do homem. votar. Não julgava que pudesse existir direito em frente da cidade e dos seus deuses. poder scr arcontc. que o governo muitas vezes mudou de forma. pela qual cra permitido matar qualquer homem que tivesse a intenção de se tornar rei. pode considerar-se como a simples expo­ sição dos resultados produzidos pela constituição psicológica das raças. pouco mais ou menos. c sobretudo os gregos. Francisco Luiz Gonçalves. a história deste transforma-se num caos de acontecimentos. mas nenhuma dessas revoluções deu aos homens a verdadeira liberda­ de. acreditar que nas cidades antigas o homem gozava liberdade. A máxima funesta de que a salva­ ção do Estado é a lei suprema foi formulada pela antiguidade. 109-27. Como as instituições derivam da alma dos povos A história. que parecem provir meramente do acaso. mas o homem estava subordinadíssimo ao Estado. Em Atenas podia acusar-se e condenar-se um homem por incivismo. provém dessa constituição assim como os órgãos respiratórios dos peixes se adaptam com a sua vida aquática. mas a natureza do Estado ficou. Pensava-se que o di­ reito. a justiça. a mesma e a sua onipotência não diminuiu. exageravam sempre a importân­ cia e os direitos da sociedade. a alma de um povo nos é conhecida. Lisboa. Desde que se tratasse do interesse da cidade. isto devido. era uma precaução tomada pela cidade contra um cidadão que ela suspeitava que podia um dia incomodá-la. O governo denominou-se alternativamente monarquia. tudo devia ceder perante o interesse da pátria. nas suas grandes linhas. . isto c. por falta de afeto para com o Estado. entre todos os erros humanos. pelo contrário. aristocracia. 1910. encontramos sempre a alma imutável da raça elaborando o seu próprio destino. ao caráter sagrado e religio­ so que a sociedade originariamente revestiu. p. Sem o prévio conhecimento da constituição mental de um povo. 11) GUSTAVELEBON Leis psicológicas da evolução dos povos Trad. Agostinho Fortes. dentro em pouco. Ora. É.

porventura. socialis­ tas. monárquicos. a absorção do indi­ víduo pelo Estado. apresentariam algumas críticas e fariam. nada é mais diferente do antigo regime do que o que foi criado pela nossa grande revolução. ou qualquer outra coisa. o nosso extremo nervosismo. na realidade. O que todos com o mesmo ardor querem é o velho regime centralizador e cesarista. que é a expressão dos sentimentos da alma da raça. radicais. que. a regular e absorver tudo. principalmente. na realidade. O poder inconsciente da alma da nossa raça é tamanho. precisamente re­ presentante do ideal da nossa raça. é fora de dúvida que censurariam algumas das violências que acompanharam a sua reali­ zação. confessariam que um ministro por eles encarregado de exe­ cutar os seus planos não teria conseguido realizar melhor os seus desígnios e diriam que o menos revolucionário dos governos franceses foi precisamente o da revolução. pelo critério psicológico. condena-nos a só mudar­ mos palavras e aparências. na realidade. mais radical­ mente as instituições políticas parecem ter mudado. e sem dar por isso. Se encararmos. forçosamente há dc ter o mesmo ideal. a revolução não fez mais do que continuar a tradição real. dispensando estes de manifesta­ rem qualquer movimento de reflexão c de iniciativa. verificaremos que. procuram com etiquetas diversas atingir um fim perfeitamente idêntico. além disso. estas opiniões aparente­ mente tão divergentes. têm todos um fundo comum perfeitamente idêntico. esse poder. se se erguessem de seus túmulos para julgarem a obra da revolução. o fruto de urna evolução regular. portanto. Sem dúvida. que nem sequer percebemos as ilusões de que somos vítimas. de há um século a esta parte. Consideremos primeiro a França. mas considerá-la-iam rigorosamente em harmonia com as suas tradições e com os seus programas. a ideia de que um governo novo fará a nossa sorte mais feliz. quer imperador. seja qual for.10 Leituras Complementares 281 É. tentou alterar semelhante obra. nenhum dos diversos re­ gimes que se têm sucedido na França. Intransigentes. a continuação do ideal monárquico e a expressão de gênio da raça. o que facilmente provaremos com alguns exemplos. tanto ela e. devido à sua gran­ de experiência. Luís XIII e Luís XIV. presidente. cm que os partidos parecem mais divergentes. regulamentando os mais insignificantes pormenores da vida dos cidadãos. Nem esta consentiria outro. estes ilustres fantasmas. um dos países que mais sujeitos tem estado às mais profundas alterações. observar que . em poucos anos. país em que. Quer o poder posto à frente do Estado se chame rei. a nossa extraordinária facilidade em estarmos descontentes com o que nos cerca. o Estado a dirigir tudo. estes partidos incessantemente em luta. em uma palavra todos os defensores das mais diversas doutrinas. Na verdade. a grande voz dos mortos que é quem nos guia. po­ rém. ou seja. há séculos já iniciada pela monarquia. Se. verificariam. nas instituições políticas que mais visivelmente se manifes­ ta o poder soberano da alma da raça. se apenas nos ativermos as aparências. acabando a obra da centralização. nos levam a mudarmos incessantemente as nossas ins­ tituições.

provêm do caráter dos povos. nos encontraremos espontaneamente. a in­ glesa. e sem o auxílio de qualquer outra revolução. conceber-se que tivessem outros? Daqui a pouco mostraremos com diversos exemplos que um povo se não sub­ trai às conseqüências da sua constituição mental. e provável é também que fizessem notar que.282 Teoria Geral do Estado tendo sido substituída a casta aristocrática governamental pela casta administrativa. nas instituições dum povo. 011 que. nesta objeção. à falta delas as luzes matemáticas que ensinam que os efeitos aumentam em progres­ são geométrica quando as mesmas causas subsistam. Mas então as luzes divinas que iluminam os reis. e as leis permanentes que temos procurado determinar. As circunstâncias acidentais criam os nomes. facilmente suportam todos os despotismos. escapando às mudanças políticas. É pura quimera pensar-se que os governos e as constituições têm alguma ação nos destinos de um povo. as aparências. é possível também que achassem bastante excessivos e assás tirânicos os inumeráveis regulamentos. ausência de responsabilidade e perpetuidade. é apenas por instantes rápidos. caminhos dc ferro. ou ti­ rá-las a um que as possua. e estas. despojando o cidadão de toda e qualquer iniciativa. os mil laços que hoje cercam o mais insignificante ato da vida. possui tradições. cuja constituição psicológica é muito diferente da nossa. motivo este pelo qual as suas instituições se afastarão também radicalmente das nossas. isto é.. Quer os ingleses tenham à sua frente um monarca. des­ de que estes sejam impessoais. encontramos ao mesmo tempo as circuns­ tâncias acidentais. Assim. em pleno socialismo. serão sempre construídos e conserva­ dos pela iniciativa dos particulares e nunca pela do Estado. não há revoluções. Ao exemplo precedente podemos opor o de uma outra raça. o seu governo apre­ sentará sempre as mesmas características fundamentais. precisamente como a areia revolta pela tem­ pestade. estabele­ cimentos de instrução. que mencionamos no começo desta obra. Pode porventura. criam o des­ tino das nações. É 110 povo e não em circunstâncias exteriores que deve­ . que parece escapar momentaneamente às leis da atração. se. como na Inglaterra. as qualidades de caráter de que as suas instituições de­ rivam. acreditamo-lo. uma série de condições que necessariamente o levarão a ser senhor único. etc. por acaso. nem constituições. permitir-lhes-iam conceber que o socialismo não é mais do que a expressão última da ideia monárquica. a elas se subtrai. as leis fundamentais. por isso que só ele. de que a re­ volução do século XVIII foi apenas uma fase aceleradora. Tem-se dito muitas vezes que os povos têm os governos que merecem. preocupando-se muito pouco com a liberdade e muito com a igualdade. nem déspotas que possam dar a um povo que as não possua. entre os ingleses. a redução ao mínimo da ação do Estado e o desenvolvimento máximo da ação dos particulares. espírito de corpo­ ração. quer um presidente como nos Estados Unidos da América do Norte. o que é pre­ cisamente o contrário do ideal latino. canais. Portos. considerando que os povos latinos. se criara 110 Estado um poder impessoal mais temível que o da antiga nobreza. Não insistiram muito. quando o Es­ tado haja absorvido e regulamentado tudo.

Não há governos nem instituições que possamos chamar absolutamente bons ou maus. isto eqüivale a querer persuadir os peixes a que vivam no ar. povo esse para que seria má a mais sábia constituição europeia. tomá-los-emos em uma região. rivais. por outro lado porque o dos senhores. pode­ mos avançar mesmo que semelhante estudo evitaria muitos erros e muitas altera­ ções. Ora. que po­ vos diferentes não poderiam por muito tempo subsistir sob um regime idêntico. Capítulo II A p lica ç ã o dos princípios pre cedentes ao estudo com parado da evolução dos Estados Unidos da A m érica do Norte e das Repúblicas H ispano-A m ericanas As breves considerações precedentes mostram que as instituições de um povo são a expressão da sua alma e que. se a esse povo é fácil mudar as formas das ins­ tituições. ao lado uma da outra. em que vivem. Os grandes impérios que abrangem povos diversos têm sido sempre condena­ dos à efêmera existência. tem sido. se quiséssemos indicar todas as conseqüências da constituição psicológica dos povos. E devido apenas ao fato da diversidade da sua constituição mental. duas raças europeias igualmente civilizadas e inteligentes. reunidos por um istmo. quando têm tido alguma duração. se a voz da razão não fos­ se sempre abafada pela voz imperiosa dos mortos. por um lado. com o pretexto de que a respiração aérea cabe a todos os animais superiores. portanto. por­ tanto. como o dos mongóis e depois o dos ingleses na índia. o eslavo e o húngaro. O governo do rei dc Daomé cra provavelmente um governo excelente para o povo que administrava. as colônias podem governar-se com as instituições das suas metrópoles. é a imagem. deixando-os viver com as leis que lhes eram próprias. Estes exemplos. Escrever-se-iam muitos livros. que nem sequer podiam pensar em sc unirem. O francês e o inglês. É isto o que desgraçadamente ig­ noram os estadistas que imaginam ser um governo objeto de exportação e que. se os povos pudessem evitar os fatalismos de raça. refazer-se-ia até toda história sob um critério novo. tiveram instinto político bastante hábil que os levou a respeitarem os costumes dos povos conquistados. só com as maiores di­ ficuldades e à custa de incessantes revoluções é que se têm mantido sob as mesmas leis. em condições de meio pouco diferentes. a América. pelo fato da existência. lhe é todavia impossível mudar-lhes o fundo.10 Leituras Complementares 283 mos procurar o destino desse mesmo povo. Vamos agora mostrar com exemplos muito precisos a que ponto a alma de um povo rege os destinos deste e o insignificante papel que as instituições desempenham nesses destinos. O seu estudo cuidado devia ser a base da política e da educação. o árabe e o francês. O mais que podemos exigir de um go­ verno é que seja a expressão dos sentimentos c das ideias do povo que dirige e de que. estrangeiros. as superfícies de cada um . porque as raças em presen­ ça eram por tal forma numerosas c diferentes c. Esta é formada por dois continentes distintos. divergindo apenas no caráter.

não podem indicar-se elementos particulares. recusa em consentirem 110 es­ tabelecimento de um túnel na Mancha. em suas linhas gerais. se tenha feito mais homogênea e cuja cons­ tituição mental seja. . encarado filoso­ ficamente. na linha de conduta para com os outros povos. uma energia indomável. um tal ou qual acanhamento de espírito. exceto talvez os romanos. Um deles foi conquistado e povoado pela raça inglesa. No ponto de vista intelectual. na época dc sua gran­ deza. que impede de ver os lados fracos das coisas religiosas. como muito justamente nota o general inglês Wolseley. se atendermos à prosperidade de um povo. estas crenças ao abrigo da discussão. Vejamos. é tão grande que para com os estrangeiros toda regra moral desaparece. Talvez nenhuma outra haja no mundo que. possuíram. que facilitaria imenso as relações com o continente. na Inglaterra. Es­ tas duas raças vivem com constituições republicanas semelhantes. a propósito da sua.284 Teoria Geral do Estado destes continentes são quase iguais. As características preponderantes desta constituição mental são. de mais fácil definição. atividade poderosa. por conseqüência. que sabe sempre o que lhe exigem a pátria. pois que as re­ publicas da America do Sul tomaram como modelo a dos Estados Unidos. o solo de um e de outro muito semelhante. mas. a família e os deuses. é um dos sentimentos que contribuem para a força da Inglaterra. que povoou os Estados Unidos. e. isto é. pondo. sentimento de independência levado até excessiva insociabilidade. sem dúvida. gosto mui­ to acentuado pelos fatos e medíocre pelas ideias gerais. Este sentimento de desdém pelo estrangeiro é. atos que provocariam a mais profunda e a mais unânime indignação se fossem praticados contra compa­ triotas. certamente. N ão há nenhum estadista inglês que não julgue perfeitamente legítimo. porém resumamos em algumas palavras os caracteres da raça anglo-saxônica. o outro pela raça espanhola. sentiam pelos bárbaros. portanto. A estas características gerais deve acrescentar-se o otimismo completo do ho­ mem cujo caminho está bem traçado na vida e que pressupõe até que não pode escolher outro melhor. Antes. e muito nítida ideia do dever. é extremamente útil. em presença mais do que as diferenças de raças para sc explicarem os destinos diversos destes povos. não obstante a diversidade de origem. sentimentos religiosos muito vivos. império absoluto sobre si. de resto muito judiciosa. o que tais diferenças produziram. extraordinária iniciativa. Com razão se disse. O desprezo pelo estrangeiro e pelos usos deste so­ brepuja. no que diz respeito ao caráter: uma força de vontade que muito poucos povos. que nada se encontrem nas outras nações civilizadas. um sentimento de ordem inferior. pois. o que outrora os romanos. não podem dar-se características especiais. Só há a notar um juízo seguro que permite aprender o lado prá­ tico e positivo das coisas sem se perderem em investigações quiméricas. moralidade muito fixa. Não há. que os ingleses empregavam tantos esforços como os chineses para im­ pedirem a entrada de qualquer ação estranha. Este otimismo vai ao ponto de fazer considerar como extremamente des­ prezível tudo que é estrangeiro.

10 Leituras Complementares

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Todos os caracteres que acabamos de enumerar se encontram nas diversas ca­ madas sociais; nenhum elemento da civilização inglesa se encontra que não tenha fortemente gravados esses caracteres; o estrangeiro que visitar a Inglaterra, embo­ ra com pouca demora, conhecerá claramente esse fato, verificará a necessidade da vida independente na casa do mais modesto empregado, que habita, sem dúvida, uma moradia estreita mas ao abrigo de qualquer constrangimento e isolada de quaisquer vizinhos; nas gares mais freqüentadas, onde o público circula a toda hora, sem estar encurralado como um rebanho de carneiros dóceis por trás de um corri­ mão guardado por um policial, como se fosse necessário assegurar pela força a se­ gurança de pessoas incapazes de encontrarem em si a atenção necessária para não serem esmagadas. Encontrará a energia da raça tanto no trabalho duro do operá­ rio como no de estudante que, entregue a si, desde a mais tenra idade, aprende a conduzir-se sozinho nos seus atos e fica desde logo sabendo que pela vida fora só ele e mais ninguém se preocupará com o seu destino; nos professores, que pouca importância ligam à instrução por a concederem principalmente ao caráter, por eles considerado uma das maiores forças motoras do mundo. Se entrar na vida públi­ ca do cidadão, verá que não é para o Estado, mas para a iniciativa individual que sempre se apela, quer se trate de reparar a fonte de uma aldeia, de construir um porto dc mar ou criar um caminho de ferro; continuando o seu inquérito, reconhe­ cerá, bem depressa que esse povo, não obstante os defeitos que fazem dele o mais insuportável dos povos para o estrangeiro, é o único verdadeiramente livre, porque é o único que, tendo aprendido a governar-se por si, deixou ao governo o mínimo de ação. Se percorrermos a sua história, veremos que foi o povo inglês o primeiro que soube libertar-se de qualquer domínio, quer da Igreja: quer do rei. Já no sécu­ lo XV, o legista Fortscue opunha a lei rom ana, herança dos povos latinos , à lei in­
glesa; um a obra de príncipes absolutos e destinada exclusivamente a sacrificar o in­ divíduo, a outra obra da vontade com um e sempre pronta a proteger a pessoa.

Seja qual for o lugar do globo para que um povo semelhante a este emigre, esse povo será imediatamente preponderante e fundará impérios poderosos. Sc a raça invadida, como os pelcs-vermelhas da América, por exemplo, for bastante fra­ ca e pouco utilizável, será metodicamente exterminada; se, como a das populações da índia, for muito numerosa para que possa ser destruída e, além disso, dê traba­ lho produtivo, ficará simplesmente reduzida a dura vassalagem e será obrigada a trabalhar quase exclusivamente para os seus senhores. E, porém, num país novo, como a América, que devemos principalmente acom­ panhar os progressos espantosos devido à constituição mental da raça inglesa. Trans­ portada para regiões incultas, só habitadas por alguns selvagens, contando só con­ sigo, sabemos bem o que contudo fez; bastou-lhe um século para se colocar na primeira linha das grandes potências do mundo e ninguém hoje há que possa lutar contra ela. Às pessoas desejosas de conhecer a enorme soma de iniciativa e energia individuais empregadas pelos cidadãos da grande república norte-americana, reco­

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mendamos a leitura dos livros de Rousier e Paulo Bourgel. A aptidão dos homens em se governarem por si, cm se associarem para fundar grandes empresas, fundar cidades, escolas, portos, caminhos de ferro, etc. é levada a tal máximo e a ação do Estado reduzida a tal mínimo que quase pode dizer-se que não existem lá poderes públicos, pois que, se tirarmos a polícia c a representação diplomática, não e pos­ sível descortinar-sc para que esses poderes possam servir. Nos Estados Unidos só é possível prosperar quem possua as qualidades de ca­ ráter que acabamos de indicar, e a isto se deve o não poderem as imigrações estrangei­ ras modificar o espírito geral da raça. As condições de existência são tais que todos aqueles que não possuam as qualidades indicadas estão condenados a desapareci­ mento rápido; nesta atmosfera, saturada de independência e de energia, só pode vi­ ver o anglo-saxão; o italiano morre aí de fome, o irlandês e o negro apenas conse­ guem vegetar em condições perfeitamente subalternas. A grande república, a que nos vimos referindo, é seguramente a terra da liber­ dade, mas não é com certeza a terra da igualdade e da fraternidade, as duas quime­ ras latinas que às leis do progresso não c dado conhecerem; em nenhuma região do globo, a seleção natural tem feito sentir mais rudemente o seu férreo braço. É descaroávcl, não há dúvida; mas é precisamente por não ter compaixão que a raça, para cuja formação a seleção contribuiu, conserva o seu poder e a sua energia. No solo dos Estados Unidos não há lugar para fracos, para os medíocres, nem para os incapazes de qualquer coisa. Indivíduos isolados ou raças inteiras estão destinados a desaparecer só pelo fato de serem inferiores; os peles-vermelhas, havendo-se tor­ nado inúteis, foram exterminados a tiro ou condenados a morrer de fome. Os ope­ rários chineses, cujo trabalho constitui incômoda concorrência, acabarão por so­ frer sorte análoga. À lei que ordenou a expulsão total dos chineses não pôde ser aplicada, devido às despesas enormes que da sua execução proviriam. Sem dúvida, será prontamente substituída por uma instrução metódica iniciada já em alguns distritos mineiros. Recentemente foram votadas outras leis proibitivas da entrada no território americano a imigrantes pobres. Com respeito aos negros, que servi­ ram de pretexto à guerra da secessão, entre os que tinham escravos c os que, não podendo tê-los, não podiam sofrer que os outros tivessem, são apenas, por assim dizer, tolerados, por isso que ficam adstritos a funções subalternas que nenhum ci­ dadão americano quereria para si. Teoricamente, os negros têm todos os direitos; praticamente, são tratados como animais semiúteis dos quais se desembaraçam logo que se tornem perigosos. Os processos sumários da lei de Lynch são reconhecidos geralmente como bastante para eles; ao primeiro delito que pratiquem, fuzilados ou enforcados. Estas são, sem dúvida, as manchas do quadro, que é, contudo, suficientemen­ te brilhante para que diminua de valor. Se forçoso fosse definir-se por uma palavra a diferença entre a Europa continental e os Estados Unidos, poderíamos dizer que a primeira representa o máximo do que pode dar a regulamentação oficial substi­

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tuindo a iniciativa individual, os segundos o máximo que pode dar a iniciativa in­ dividual absolutamente desembaraçada de qualquer regulamentação oficial. Estas diferenças fundamentais são exclusivamente conseqüências do caráter. Não é no solo da rede república norte-americana que o socialismo europeu tem probabilida­ des dc vir um dia a implantar-sc. Última expressão da tirania do Estado, o socialis­ mo só poderá prosperar nas raças envelhecidas, sujeitas há séculos a um regime que lhes tirou toda e qualquer capacidade de governo próprio e pessoal. Acabamos de ver o que numa parte da América produziu uma raça possuido­ ra de certa constituição mental em que predominam a perseverança, a energia e a vontade; falta que mostremos no que se transformou um país, quase semelhante, nas mãos de uma outra raça, muito inteligente, na verdade, mas sem possuir ne­ nhuma das qualidades de caráter cujos efeitos passamos em revista. A América do Sul é, atendendo-se às suas produções naturais, uma das mais ricas regiões do globo. Duas vezes maior que a Europa e dez vezes menos povoa­ da, a terra não faz falta e está, por assim dizer, à disposição de todos. A população preponderante, de origem espanhola e portuguesa, está dividida em numerosas re­ públicas, Argentina, Brasil, Chile, Peru etc. Todas elas adotaram a constituição po­ lítica dos Estados Unidos do Norte e, por conseqüência, vivem sob a ação de leis idênticas. Pois, simplesmente pelo fato da raça ser diferente e lhe faltarem as qua­ lidades fundamentais que possui a raça que povoa os Estados Unidos, todas estas repúblicas, sem exceção, são presa perpétua da mais sangrenta anarquia e, não obs­ tante as extraordinárias riquezas do seu solo, sossobram, umas após outras, em de­ la pidações de toda espécie, falências e despotismos. Lendo-se a notável e imparcial obra de Th. Child acerca das repúblicas lati­ no-americanas, apreciar-se-á com exatidão a profundeza da sua decadência. As cau­ sas encontram-se todas na constituição mental de uma raça sem energia, nem von­ tade, nem moralidade. A ausência de moralidade, principalmente, excede tudo o que de pior conhecemos da Europa. Referindo-se a uma das cidades mais impor­ tantes, Buenos Aires, o autor declara-a inabitável para quem quer que seja que te­ nha delicadeza dc consciência e alguma moralidade, c a propósito dc uma das me­ nos degradadas dessas repúblicas, a Argentina, o mesmo escritor diz que, se a examinarmos sob o ponto de vista comercial, ficaremos abismados com a imorali­ dade que aí se manifesta. Nenhum exemplo há que melhor mostre quanto as instituições são filhas da raça e portanto, a impossibilidade de se transferirem de um povo para outro. Seria interessantíssimo saber-se o que aconteceria às instituições tão liberais dos Estados Unidos da América do Norte, se fossem transportadas para uma raça inferior. Es­ tes países, diz-nos Child, falando das diversas repúblicas latino-americanas, estão sob a férula de presidentes que exercem uma autocracia não menos absoluta que a do czar de todas as Rússias; mais absoluta até, por isso que estão ao abrigo de to­ das as importunações e da ação da censura europeia, o pessoal administrativo é ex­

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clusivamente constituído por criaturas dos presidentes...; os cidadãos votam como melhor lhes parece, mas ninguém dá importância aos seus sufrágios. A República Argentina é apenas república no nome, porque, na realidade, é uma oligarquia de indivíduos que fazem da política verdadeiro negócio. Só um país, o Brasil, escapara um pouco a tão profunda decadência, mercê de um regime monárquico, que colocava o poder a coberto das lutas de competido­ res. Demasiadamente liberal para raças sem energia e sem vontade, a monarquia brasileira sucumbiu, caindo desde logo o país em plena anarquia. Dentro de pou­ cos anos, a gente do poder delapidou por tal forma o tesouro que os impostos au­ mentaram em mais de sessenta por cento. Não é só na política, muito naturalmente, que se manifesta a decadência da raça latina que povoou a América, mas sim em todos os elementos da civilização. Reduzidas aos seus próprios recursos, estas desgraçadas repúblicas regressariam ao barbarismo puro; toda a indústria e todo o comércio estão em mãos de estrangei­ ros: ingleses, americanos e alemães. Valparaíso é uma cidade inglesa, e nada ficaria no Chile se lhe tirassem os estrangeiros; mercê destes é que estas regiões conservam ainda um verniz de civilização que ilude a Europa. A República Argentina tem qua­ tro milhões dc brancos de origem espanhola; não sabemos se poderemos citar um branco que seja, além dos estrangeiros, que se encontre à frente dc uma indústria verdadeiramente importante. Esta terrível decadência da raça latina, abandonada a si mesma, posta em con­ fronto com a prosperidade da raça inglesa numa região vizinha, é uma das mais sombrias, mais tristes e, ao mesmo tempo, das mais instrutivas experiências que po­ demos citar para apoio das leis psicológicas que expusemos.

12) ALMEIDA GARRETT

Obras
(Porto, Lello 6c Irmão, Editores, 1963, v. 1, p. 734-5.)

Justiça (Lúcio Júnio Bruto, juiz de seus filhos)
Lúcio Júnio Bruto era cônsul ou primeiro magistrado de Roma; e, na ocasião em que a cidade era sitiada por um poderoso exército inimigo, foi descoberta uma conspiração de traidores que tentavam entregar-la. Entrava nesta conspiração gran­ de número dos principais do Estado e com eles os filhos do cônsul. Foram todos presos e processados por tão horrível crime; que o não há maior nem mais atroz. Chegou a hora tremenda em que os réus deviam ser afinal julgados. Apareceu o cônsul Lúcio Júnio Bruto em seu tribunal no foro ou praça pública de Roma, ro­

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deado do senado, que era o conselho dos anciãos e homens bons do Estado, e dian­ te de todo o povo - porque em Roma foram sempre públicos os processos, para que nem as paixões dos julgadores nem as peitas dos culpados os pudessem torcer, mas se fizesse sempre justiça direita e lisa. Compareceram os acusados diante do cônsul; dentre estes, seus próprios filhos. Todo o povo tinha os olhos neles e no pai, c parecia duvidar que o sangue c a natu­ reza não movessem da justiça o ânimo do magistrado. íMas o cônsul interrogou seus filhos com a mesma tranqüilidade e firmeza com que fez aos outros. O crime foi pro­ vado; eles confessaram: e não restava senão pronunciar o juiz a sentença. Hoje dá-se aos condenados tempo suficiente para se prepararem a aparecer na presença de seu Deus, tribunal mais terrível porque são eternas suas decisões, porém mais indulgente porque lhe cabe perdoar crimes provados e confessados quando deles há verdadeiro arrependimento. Mas nesses tempos a religião cristã, que é toda humanidade e brandura, não tinha ainda adoçado os costumes daque­ les honrados mas ferozes republicanos. Os réus convencidos e julgados iam ser para logo executados. Lúcio Júnio Bruto, rodeado de lictorcs - oficiais públicos a quem incumbia pôr cm continente por obra os mandatos do cônsul-, pronuncia a fatal sentença: 4 4 O crime está provado; os acusados são réus dc alta traição: lictorcs feri, executai a sentença da república”. A natureza não podia com mais: o cônsul cobriu o rosto com a toga... e as ca­ beças dos filhos rolaram a seus pés. Mas Roma foi salva, a rebelião afogou-se; e Júnio Bruto, órfão de seus filhos, não o foi da pátria. Tal é um dos maiores exemplos de justiça que já se deram no mundo.

13) ALBERTO TORRES

A Organização N acional
Cia. Editora Nacional, São Paulo, 1978, 3. ed.

0 espírito e as te n d ê n cia s da política
Em outros tempos, no período de romantismo político que sucedeu à Revo­ lução Francesa, quando a questão das formas de governo era a tese predileta dos publicistas, a unidade e a continuidade da política pareciam aos olhos dos partidá­ rios do regime monárquico a grande causa de sua superioridade. A pretensão era falaz, como todas as ideias a priori da política. A unidade e a continuidade da política resultam da existência de um caráter nacional. Onde há uma nação, homogênea em seus elementos, ou fortemente subordinada a um espíri­

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to, um móvel, uma aspiração, ou uma classe preponderante, define-se uma políti­ ca: os órgãos dessa política surgem da reação dos acontecimentos, e, seja dinástica ou republicana a forma do governo, o poder vem a cair nas mãos dos combaten­ tes mais fortes, dos representativos. Em Washington, como cm Bismarck, encontra-se o mesmo traço das perso­ nalidades dominantes, os eleitos desse sufrágio tácito, que faz brotar os proto-homens do tempo, em sua terra - como a flor brota da planta, na estação própria, sobre a haste do valor pessoal. Homens dessa têmpera comandam as gerações a que pertencem, nas grandes épocas de crise nacional, e impulsionam o movimen­ to que se perpetua pelas gerações adiante. Há casos notabilíssimos de proeminência de um homem, ou de uma aristocra­ cia mental, sobre os destinos de um povo, nenhum, porém, mais expressivo que o dos Estados Unidos, onde um grupo de precursores eminentes assentou, nos primei­ ros dias da constituição do país, os princípios que o haviam de dirigir até hoje. Quem lê o Federalista, as cartas e os manifestos de Washington, os trabalhos de Jefferson, dc Hamilton, dc Madison c de Franklin, encontra estudados, nessas soberbas profis­ sões dc fé, os caracteres práticos e morais da nacionalidade, expostos os seus pro­ blemas, indicadas as suas soluções, previstos os seus destinos, com precisão e clare­ za tão fortes que projetam luz sobre o futuro da grande pátria, até nossos dias. Esses homens deram aos olhos de sua pátria a consciência do nosce te ipsum; mostram-lhe as suas necessidades, os seus problemas, as suas soluções, os seus des­ tinos. A nação despertou formada, cônscia de sua posição e de seu papel no mun­ do, pronta para caminhar com os olhos fitos num objeto conhecido. Sua história foi o desenvolvimento natural de um atleta. Esta preparação inicial era mais difícil, entre nós, por causas geográficas e por causas históricas. Território heterogêneo, de conformação longitudinal, com rios e vias de comunicação menos favoráveis, eriçado de cadeias de montanhas que o di­ videm e separam, era mais penoso ligar e abranger, num todo, as diversas zonas, para lhes estudar o caráter comum c prefixar as condições de unidade e dc solida­ riedade. Não era fácil assimilá-lo, com seus produtos exóticos, às condições nor­ mais do comércio internacional, entremeando os seus interesses nas correntes or­ dinárias dos negócios. O comércio brasileiro ficou, como todos os que versam sobre especiarias, sujeito às oscilações, aos entraves, às espoliações, que acompanham, em toda parte, os negócios sobre gêneros que não são de uso necessário. Os homens públicos estavam, por outro lado, longe de possuir o preparo dos fundadores da república americana. Cientistas, literatos e juristas da escola de Coim­ bra trouxeram, para o nosso meio, brilhantes ideias, conceitos teóricos, fórmulas jurídicas, instituições administrativas, estudados nos centros europeus. Com tal es­ pólio de doutrinas e de imitações, arquitetou-se um edifício governamental, feito de materiais alheios, artificial, burocrático. Os problemas da terra, da sociedade, da produção, da povoação, da viação e da unidade econômica e social, ficaram en­

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tregues ao acaso; o Estado só os olhava com os olhos do fisco; e os homens públi­ cos - doutos parlamentares e criteriosos administradores - não eram políticos, nem estadistas; bordavam, sobre a realidade da nossa vida, uma teia de discussões abs­ tratas, ou retóricas; digladiavam-sc em torno dc fórmulas constitucionais, france­ sas ou inglesas; tratavam das eleições, discutiam teses jurídicas, cuidavam do exer­ cito, da armada, da instrução, das repartições, das secretarias, das finanças, das relações exteriores, imitando ou transplantando instituições e princípios europeus. Sob a impetuosidade do primeiro monarca e o academicismo do segundo, o meca­ nismo governamental trabalhou sempre, desorientado e sem guia, estranho às ne­ cessidades íntimas, essenciais, do nosso meio físico e social. A República desenvolveu consideravelmente a curiosidade intelectual, nas le­ tras, nas ciências, na política. Conservando a maioria na representação nacional, viram-se os juristas cercados de outras aptidões e capacidades. Moços, ardentes, ambiciosos, os políticos do novo regime lançaram-se à pesquisa de novos assuntos, novos problemas, novas conquistas a explorar, nos anais do Congresso, na impren­ sa, cm periódicos c livros, multiplicaram-se estudos c investigações, de incontestá­ vel mérito e marcada originalidade - mas esses trabalhos mostravam, em regra, a tara da nossa tendência e a lacuna do nosso preparo: eram teóricos, analíticos, li­ mitados a uma especialidade, a um ramo dc conhecimentos, alheios aos problemas concretos e oportunos. O regime não trouxe consigo os estadistas que o haviam de construir. Os estudos ganharam em variedade, mas perderam, em dispersão e inde­ finido, alguma precisão que os antigos tinham. É certo que os manifestos e mensagens presidenciais sumariam, com mais ou menos amplitude, notas sobre os departamentos dos serviços públicos, faces diver­ sas dos problemas nacionais, e que sugerem alvitres e soluções sobre variados as­ suntos; por amplos que sejam, têm, contudo, todos eles, um caráter, minucioso e pormenorizado, de catálogos de sugestões e propostas, para aplicações parciais, sem espírito de conjunto, sem vista geral e coordenada de nossa fisionomia social, política e econômica, de seus problemas, de suas soluções. São programas de ges­ tão transitória, para os quatro anos de período; faltam-lhes a envergadura e a luz, com que costumam verdadeiros estadistas concentrar, em traços fortes e nítidos, o sistema da política prática, o estudo positivo da fisiologia de um país, para lhes in­ dicar o movimento e a direção. Esses programas quadrienais, esboçados no curto período de cada governo, são esquecidos, para se dar começo a novos ensaios e tentativas, na seguinte presidência. A história da política republicana, em seu conjunto e em seus vários interesses, é uma jornada de marchas e contramarchas, de experiências e retrocessos... Somos um país sem direção política e sem orientação social e econômica. Este é o espírito que cumpre criar. O patriotismo sem bússola, a ciência sem síntese, as letras sem ideal, a economia sem solidariedade, as finanças sem continuidade; a educação sem sistema, o trabalho e a produção sem harmonia e sem apoio, atuam

que sc fixou o tipo mais perfeito do reino animal. sobre a ruína da vida comum. meramente política. e os egoísmos e interesses ilegítimos florescem. vão produzindo. p. como a vida dos homens sem ob­ jetivo e sem método. São Paulo. Tal foi a obra dos estadistas. que acidentes. entretanto. só começará a formar-sc quando mais estreita c solidariedade entre os habitantes das várias zonas lhe der a consciência dc uma unidade moral. E em sua geografia e no quadro da sociedade contemporânea que está a base do conhecimento de sua sorte. foi em climas médios. procurando apreender o caráter das diversas zonas geológicas e mineralógicas. para aí convergem. Sem esse estudo. aos azares. eis o que deverá ser o lema do patriotismo e do zelo pela sor­ te de nossa terra. sujeita às oscilações. a sua fauna.. Melhoramentos. mas em sua na­ tureza dinâmica e funcional. naturalmente. a prolife­ ração das populações. É natural que o homem tente vol­ tar para seu berço. 29-42. que tiveram dc vencer. A zona intcrtropical é o berço do animal humano. aos desvios. econômica e social. O Brasil não tem história. erros de apreciação.292 Teoria Geral do Estado como elementos contrários e desconexos.) . ou cálidos. as incursões bárbaras e as guerras conseguiram arremessar grandes massas de população para zonas frias. interesses ocasionais ou parciais. as aspirações e os desejos dos homens de todas as regiões! Só o esgotamento do solo. ame­ ricanos da fase constitucional. O destino de um país e função de sua história e de sua geografia. para conhecer os elementos e aptidões de sua exploração e cultura. aí floresceram as primei­ ras e mais luxuriantes civilizações. que a unidade política está lon­ ge de realizar. que tal nome não merece a série cronológica dos fastos das colônias dispersas. 14) FRANCISCO JOSÉ DE OLIVEIRA VIA N N A 0 ocaso do Império (2. eis o pon­ to dc partida dc toda política sensata e prática. a marcha de um país fica. destroem-se reciprocamente. os seus vasos hidrográficos. c a sucessão. Estudar o Brasil. uma gravíssima dificul­ dade: a tendência separatista das antigas colônias. a sua flora. dc episódios militares e governamen­ tais: sua história étnica. Estudar a geografia de um país não em seu aspecto descritivo. O Brasil é. aliás. um dos países que apresentam mais sólidos elementos dc prosperidade c mostram condições para um mais nobre e brilhante destino. 1933. sempre que aí encontre terras férteis c climas propícios à vida. a sua estrutura orográfica. ed. e ao mesmo tempo as condições necessárias ao espírito de unidade social e econômica e à solidariedade entre os interesses e tendências divergentes. vínculo íntimo e profundo.

entretanto. Sr. como porcada é uma reunião de porcos”. a vida política foi sempre preocupação e obra de uma minoria diminuta. tendo modificado a colora­ ção política do Gabinete. quando chamou Sinimbu. não existe povo no sentido político da expressão. Falta-nos espírito público. não dava importância alguma à opinião dos partidos. nem consciência al­ guma do papel que estava representando. Só nos países de opinião organizada é que o processo eleito­ ral pode ser um meio eficaz de sondagem da opinião do povo. na verdade. como se vê. Foi o que fez em 78. onde estão os nossos partidos?” perguntava. Realmente. dentro dos princípios de pura teoria do regime representativo.e o resultado é que a Coroa tem cm má conta um e outro'’. O imperador apelou para ele várias vezes. que porventura animassem a consciência do país. do que o próprio Zacarias este estado de alma do imperador. . No fundo.10 Leituras Complementares 293 Os dois velhos partidos do Império. também não lhe dava nenhum índice seguro da opinião nacional. o conservador flagela o liberal. Foi o que fez em 68. era este o mais legítimo processo de sondagem da opinião pública. O grosso do povo. como não tinham programas. Falta-nos li­ berdade civil. espírito público nunca existiu no Brasil. E um espírito irreverente expri­ miu uma vez este mesmo pensamento. a Paraná. e com maior conheci­ mento de causa. o liberal flagela o conservador . o recurso das eleições. O golpe parlamentar de 68 é. uma bela prova disto. num país como o nosso. não tinham opinião. certo. dizendo que aqui “povo é uma reunião dc homens. Essa atitude dos dois grupos partidários fazia com que o imperador acabasse convencido de que não podia encontrar na opinião dos partidos nenhum índice se­ guro das correntes interiores. dissolvia a Câmara e procurava informar-se da opinião do país através da coloração partidária do futuro Parlamento. No Brasil. Dis­ se ele. O processo eleitoral. com efeito. Entre nós. na sessão de 18 de junho de 1870: “O conservador não respeita o liberal. Num e noutro caso. quando concedia a dis­ solução da Câmara. Em tese. o liberal não respeita o conservador. sente-se que ele dava uma importância pequena. quando chamou Itaboraí. levado às urnas apenas pela pressão dos caudilhos territoriais. nunca teve espírito político. de volume pequeníssimo em relação à massa da população. ou mesmo. como observava Luís Couty. Falta-nos organização de classes. VI Havia. Honório. não. em 53. “Mas. Ninguém exprimiu melhor. conservá-lo a todo transe: nada mais. Hra este o principal programa dos liberais como o era dos conservadores. conquistado este. O objetivo era a conquista do poder e.

porque há de fazê-la. chegou mesmo a formular esta lei no seu famoso sorites: “O Poder Moderador pode chamar quem quiser para organizar Ministérios. o processo de “consulta à nação”. não se podiam formar. a estrutura social era quase tão rudimentar como nos campos. na oposição. ou pudesse ter. uma pura ficção constitucional. estava realmente conde­ nado a ser. como sempre foi. os conflitos dc classes. e o partido que estivesse “debaixo”. devido à extrema simplificação trazida à nossa estrutura social pelos grandes domínios independentes. opinião. pois. Em síntese: pela grande simplicidade da nossa estrutura social. Durante o período imperial tínhamos. sob o segundo Império. não tinham ainda razão de ser. Então. Nos grupos urbanos. como ainda não existe.294 Teoria Geral do Estado Organização de classes também não existia. uma estrutura social muito simplificada. a “opinião do povo”. Demais. perdia sempre . nem a plebe dos campos tives­ se. capaz de dar ao processo eleitoral uma significação realmente democrática. próprios às sociedades de alta or­ ganização industrial. Igualmente não se havia cons­ tituído aqui . ao imperador nenhum elemento seguro de orientação. Esta preponderância tão absorvente da grande aristocra­ cia da terra fazia com que nem a classe média rural. acordavam-se. pela feição acentuadamente patriarcal da nossa socieda­ de. Mesmo que o nosso povo tivesse opinião.e ainda nos faltam agora . pela ausência de antagonismo de classe. no seio da população dos campos. os interesses das classes po­ pulares rurais não estavam propriamente em oposição aos da aristocracia territo­ rial. estava ainda em condição muito rudimentar. de maneira que a vida política não se distribuía por vários centros da atividade. correntes de opinião desencontradas. Uma dessas condições é precisamente que cada um dos ci­ . esta eleição faz a maioria É que nos faltavam então .tal como hoje. por sua vez. De modo que. o velho.as condições necessá­ rias para eleições livres. à maneira britâ­ nica ou norte-americana. que era a gran­ de aristocracia territorial. próprio aos governos parlamentares. a dissolução da Câmara para a consulta à Nação se havia transfor­ mado numa farsa ridícula. a fraude não a deixaria revelar-se . antes. VII Demais. como nunca se formaram. ainda mais do que hoje.e isto porque o partido que estivesse no poder ganhava sempre. segundo Sarmiento . capazes de revelar-se no processo eleitoral. verdadeira burla .ne­ nhum antagonismo entre as populações dos campos e as populações das cidades.como na Argentina da época caudilheira. O processo de sondagem por meio das eleições não podia trazer. esta pessoa faz a eleição. não se dispartia por várias classes ou grupos profissionais: concentrava-se quase toda numa classe única. Num povo sem educação eleitoral e de opinião embrionária. Nabuco.dada a corrupção do próprio proces­ so eleitoral.

com a certeza certa de uma previsão astronômica . na prá­ tica. Dis­ solvida a Câmara.e a lei Saraiva. C'est fait de moi. Em julho de 68 caía o gabinete Zacarias com uma Câmara unanimemente liberal. o Gabinete Sinimbu: e a Câmara. Era debalde que as oposições tentavam lutar con­ tra a força irresistível dessa compressão organizada. entretanto.que a nova Câmara vinha inteiramente à feição do novo Gabinete. Cada homem do sertão ou da mata entre nós bem podia dizer como aque­ le camponês de Paul Louis Courier: Je suis malheureux: )'ai fáché monsieur le maire.e era isto o que não acontecia aqui. “ O Governo. reformas várias do mecanismo eleitoral procuravam pôr um óbi­ ce a estes desmandos da fraude .e nenhum deles. cada um dos eleitores. soberbamente conservadora. il me faut vendre tout et quitter le pays. pelo mecanismo da centralização. conservadora. Este. dissolveu: a Câmara nova. si je ne pars hientôt. dissolvida. mobilizava à sua vontade esse formi­ dável exército de tiranetes locais. tanto liberais como conservadores. O recurso da dissolução da Câmara. Nem a Magis­ tratura aqui teve jamais essa força. à maneira da Inglaterra. Itaboraí. se havia transformado numa verdadeira burla. que punha uma tão confiada arrogância no coração do moleiro de Frederico. foi o Gabine­ te conservador que caiu. veio unanimemente conservadora! Em 1878 deu-se o contrário. dc garantias no papel. afinal. dos chefes de Gabinete. na verdade. com efeito. em que ninguém mais acreditava. na execução da lei da eleição direta. todos esses aparelhos protetores das liberdades individuais sempre funcionaram mal. tenha perfeitamente assegurada a sua liberdade ci­ vil . através da poderosa máquina centralizadora. onde os preceitos da common law tem qualquer coisa dc sagrado aos olhos das autoridades c aos olhos das multidões. esse prestígio. todos esses mandões locais estavam na dependência dos Gabinetes. Em nosso país.10 Leituras Complementares 295 dadãos. tanto li­ berais como conservadores . Esta Câmara. desmentiu esta regra . continuaram a scr precárias. eleita no mesmo ano. em 1840. essa autoridade. Esta doutrina absurda pode-se dizer que era a expressão do pensamento íntimo de todos os políticos no poder. substituiu-o um Gabinete liberal. os velhos costumes permaneceram . expressão de um partido. Estas garantias.e estes asseguravam o mais completo absolutismo aos mandões locais.o que lhe valeu uma ascendência imensa sobre todos os políticos do seu tempo. dei­ xando o homem do povo na iminência ou na atualidade dos golpes de vindita dos poderosos. Ora. já se sabia de antemão . o expediente da “consulta à Nação”. voltou soberbamente liberal! Certamente. a condição das nossas massas populares sob a lei de 3 de dezembro de 41. Aqui. tem o direito de intervir no processo eleitoral” .dizia. Antônio Carlos. ou mais exatamente. É certo que a Reforma Judiciária de 71 assegurou um pouco mais os particulares contra o arbítrio das autoridades. Só Saraiva. o Grande. deixou de aplicá-la integralmente. nunca existiram grandes tradições de legalidade. Era esta. que substituiu o velho sistema da . não passavam. por exemplo. em 82.

mas apenas uma prolação do movimento europeu neste sentido. o movimento pela eleição direta. o sistema dos dois graus falhara: mostrara-se extremamente dócil à vontade do poder. Mas a verdade c que nem esta lei.c os espíritos mais impacientes volta­ ram-se. intangíveis. Esta tendência atingia o seu máxi­ mo dc intensidade. Todas elas deixavam brechas por onde o governo pudera insinuar-se. Todos os outros sistemas eleitorais. o sufrágio revelava ali uma tendência a generalizar-se. de 55. que era. mas uma questão nacional: todo o país a reclamava! O imperador foi um dos primeiros a perceber isto e foi ele quem. insinuou Sinimbu a agitar o problema e promover a sua solução parlamentar. em que se consubstanciara a gran­ de aspiração nacional. Falhara a reforma de 75. como confessava Sinimbu. Falhara a “lei dos círculos”. com os seus distritos de três deputados. Porque o nosso movimento pela eleição direta não foi original. para o sistema da eleição direta. ter conseguido este grande objetivo. o Parlamento seria. O que aconteceu com o sistema da eleição direta é típico. Saraiva. não tinha o temperamen­ . não mais uma massa passiva de de­ pendentes. com o estímulo do imperador. Esta contemporaneidade dos dois movimentos mostra o caráter meramente reflexo do nosso . aliás. Sente-se que ele se deixara tomar também do idealismo ambiente. Por mais cautelosas c casuísticas que fossem todas es­ tas leis. pareceu. O mal devia estar então neste sistema . à primeira vista. Coube a Saraiva a execução da lei de 81. Estávamos na convicção dc que o novo sistema eleitoral armaria o povo com uma arma invencível contra o arbítrio do po­ der. que estabelecera o princípio da repre­ sentação das minorias.e nossa esperança qua­ se messiânica na eleição direta não era senão a esperança contemporânea de todos os povos civilizados no sufrágio universal. cheios de esperanças. mas uma legítima expres­ são da vontade nacional. que ela passara a ser. justamente na época em que iniciávamos aqui. Estes sempre se mos­ traram inapreensíveis. com a sua alta autoridade. nem as leis anteriores pu­ deram contravir às artimanhas dos nossos bosses eleitorais. invencíveis no prodigioso diabolismo das suas habilidades de prcstímanos. eram nada diante dos truques sugeridos pela inventiva maravilhosa desses Fregolis da cabala. Este sistema havia aparecido nos nossos meios partidários como uma criação miraculosa do engenho político. o idealismo do mundo. Falhara a reforma de 60. Houve um momen­ to mesmo cm que foi tamanho o entusiasmo pela eleição direta. impor a sua vontade c o seu arbítrio. tinham falhado. até então praticados. tamanha a fé nas suas virtudes.296 Teoria Geral do Estado eleição de dois graus pela eleição direta. Refletíamos os clamores dos partidos europeus e as aspirações que agitavam o ve­ lho mundo. Em suma. Com o sufrágio direto. a apro­ ximar-se cada vez mais das maiorias populares. ao contrário de Zacarias. saídos dos conluios dos gabinetes ministeriais. não mais uma ques­ tão de partido. Então.

diz um historiador. em que a qualidade principal do executor seria o des­ prendimento. cm parte. nas elei­ ções de 84. a lei Saraiva também falhou. Por isso. Os resultados da nova lei foram surpreendentes. Soberano visceralmente democráti­ co. também. porém. e mesmo depois. O êxito inicial da lei Saraiva foi devido. como ou- . ao seu pequeno horizonte intelectual e voltam a viver dentro do seu egoísmo anterior. A oposição. por exagerada. cuja compressão eleitoral dc 78 enchera de surpresa. que acompanha sempre a estreia das grandes reformas e sob a qual todos os pequenos egoísmos. insusceptível ao fanatismo das grandes convicções e inapto às grandes vibrações do entusiasmo. mas atento aos menores detalhes e às me­ nores providências. desde que ela se lhe revelasse de uma maneira clara e insofismável. passou a ganhar sempre. No fundo. Quem ler hoje a correspondência dele com Dantas por essa época. Nada mais comprobativo da alta compreensão que o velho dinasta tinha da sua grande missão constitucional do que a sua insistente diligência junto a Saraiva.. senão dc es­ panto. como todas as outras leis. Nenhum mais se resignou a sofrer a provação da sua derrota. mandando às Câmaras uma representação que fosse a expressão legítima da sua vontade. à ação conjugada do impe­ rador e do chefe do Gabinete. a este estado dc exaltação gene­ rosa e idealista. não poderá deixar de sentir uma emoção comovida diante deste ancião. esta fase climática de exaltação. aliás. Nas eleições seguintes restauravam-se as velhas praxes opressivas. Passada. quase redunda­ va em preferência pelos adversários” . sobrecarrega­ do das mil preocupações do seu cargo. Ninguém mais capaz de executar uma lei. a dos círculos. ao pon­ to de Dantas considerar que aquela preocupação. D.como não a executariam Paulino ou Sinimbu. com o seu vivo sentimento partidário não a executaria . Nenhum dos homens do poder teve mais a abnegação de Saraiva. em parte. todas as pequenas impurezas da nossa pobre huma­ nidade como que se fundem ou se volatizam. a fria imparcialidade. Ele confessou. junto a Dantas. como outrora. a consciência do país. em que certamen­ te não acreditava. O nosso povo teve por um momento a impressão que havia encontrado nela a chave da sua liberdade políti­ ca: pela primeira vez o governo fora derrotado! Para este magnífico êxito não contribuiu apenas a retidão e a imparcialidade de Saraiva: há que contar também com a intervenção direta do imperador. Pedro sentia que o resultado bom ou mau da lei Saraiva ia dar a prova crucial da excelência do velho regime. os homens retornam logo ao seu pequeno horizonte emotivo e. por oca­ sião da primeira experiência da lei de 80. ele não teria nenhuma repugnância em acatar a opinião do povo. isto mesmo nas suas notas ao livro de Tito Franco. mesmo. a do terço etc. Zacarias. cioso da sua dignidade de rei. o sentimento da verdade pura. mas não do seu direito divino. necessárias a assegurar uma execução perfeita àquela grande lei. O governo.10 Leituras Complementares 297 to de um homem de partido: era uma natureza álgida. “O Imperador se tornou o fiscal-mor da oposição junto ao ministério.

ora chamava outro ao poder. Numa Câmara liberal. os admiráveis mecanismos de compressão política. Ora chamava um. de Saraiva ou de Cotegipe.sem conceder a dissolução da Câmara seria logicamente impossibilitar àquele os meios de governo. e julgando-se indesmontáveis. isto importaria na vitória segura do novo Gabinete: e a situação anterior. Em suma. o desespero dos condenados às geenas do ostracismo. que os próprios partidos.e é isto justamente que transparece das suas notas ao livro de Tito Franco. Ele bem compreendia que o papel do rei constitucional.ao ostracismo permanente e irremissível. essas belas unanimidades parlamentares. haviam organizado.e a política rotativa do imperador sempre permitia que isto acontecesse . por mais sólida que fosse. Pedro . todas as vezes que se abria uma crise de Gabinete. Por isso mesmo. mas na opinião dos Gabinetes. Ele fazia cair os par­ tidos e fazia subir os partidos. passou a perder sempre. o destino dos partidos estava. Pedro era um espírito liberal e equânime. por exemplo. quando no poder.chamando este ou aquele prócer partidário ao Paço. Estes c que davam aos partidos no poder. quando se operava uma crise ministerial. puro homem de bem. exercido à maneira in­ glesa. mas. desta ficção. ao sopro violento das “der­ rubadas” . con­ tra que investia a cólera dos políticos caídos em desgraça. não na opinião do povo. com as situações locais c provinciais.fixar 110 poder ad aetermitatem o partido do Gabinete. em vez de formar um Gabinete de coloração contrária. Seria o que Saraiva chamava “a condenação dos adversários ao inferno de Dante” . sem dar nenhuma consideração apreciável à opinião da Câmara. desta artifi­ cialidade do regime representativo no Brasil do que D. cujas origens espúrias bem conhecia. seria reduzida a destroços. Voltaram as Câmaras unânimes . concedida a dis­ solução. seria isto .o matiz político que cobria o país passava a ser desde então impressionadoramente liberal! IX Ninguém mais convencido de tudo isto. desta burla. o clamor. como costumava de quando em quando fazer.e com elas o pro­ testo. sc ele chamasse um Gabinete conservador . a de­ licadeza da sua situação no exercício da grande faculdade constitucional.ele bem o sentia . durante o império. Se. O destino dos partidos estava. Compreende-se. ele adotasse sistematicamente a fórmula britânica e formasse sempre Gabinetes da mesma coloração da Câmara. dependente de um simples aceno do im­ perador . sem gosto nenhum pela política e as suas agitações. pois. mas. adotara uma atitude de paternal e displicente imparcialidade para com os dois partidos. todo o país se revestia de uma coloração conservadora. pois.298 Teoria Geral do Estado trora. à vontade: bastava para isto pôr nas mãos de Z a­ carias ou de Itaboraí. se acontecia ser liberal o Gabinete . seria aqui absolutamente irrepresentável por qualquer soberano que aspiras­ se ao título de justo. de Nabuco ou de Uruguai. . Sc cra conservador o Ga­ binete. D.

aliás.10 Leituras Complementares 299 Nestas alternativas das situações partidárias. todos os ocupan­ tes adversários. nas províncias. com efeito. a conquista do poder é um fato inquestionavelmente mais sério e mais dramático do que em outro país. fazia subir os liberais. espinhosa. Entre nós a política é. depois dc dez anos dc governo conservador. quando o imperador os fazia apearem-se do poder. o partido conservador. nada mais lógico do que a irritação dos políticos contra esse personagem.c todos acham infinitamente mais docc viver do Estado do que de outra coisa. Daí a áspera violência das famosas “derrubadas” . com a sua equanimidade. Era uma vassourada geral. Há os proventos morais. que. quando teve que deixar a pasta de ministro: Perdi o emprego! Era um graccjo. o exercício do Poder Moderador num sistema parlamentar é uma tarefa delicada. quando não mal compreendida. o poder é disputado pelos proventos que concede aos políticos e aos seus clãs.quer dizer: sa­ cudia para fora dos cargos públicos. Num país assim. não compreendiam (ou fingiam não compreender) esta imparcialidade do imperador. um meio dc vida: vive-se do Estado. com surpresa geral. Em nosso país. aquele dito espiri­ tuoso de Martinho de Campos. No fundo. a frase motejadora de Martinho: também eles perdiam o emprego! Está claro que. entretanto. quando caía um Gabinete. em que os indivíduos vão ao poder no intuito altruístico de realizar um grande ideal coletivo. com a sua incapacidade de­ mocrática. ou podiam repetir realmente. Em 1878. não sabia realizar. an­ tes dc tudo. que essa posse também dá. se não há engano na filosofia de Quincas Borba. O partido que subia derrubava tudo . fazia subir ao poder. Sabe-se. mas há tam­ bém os proventos materiais. que sempre dá a posse da autoridade. Estes se julgavam sempre esbulhados. do co­ mércio c da indústria . pelo menos mal aceita pe­ los detentores eventuais dos instrumentos do governo. provinciais e gerais. aquilo que o povo. em- .porque fatalmen­ te mal compreendida e. o imperador parecia não ter ou­ tro critcrio senão o do tempo: ele fazia o revezamento dos partidos conforme o tempo da estada deles no poder. mas este graccjo encerra a síntese dc toda a filosofia política no Brasil. Eqüivale dizer que cabiam a estes as batatas. Desde que nada podia explicar esta queda senão a vontade do monarca. todos os que formavam o estado-maior deste partido nos municípios. Em boa verdade não a podiam compreender. como sc vive da lavoura. no centro repetiam. Em 1868. depois de seis anos de domínio do par­ tido liberal. não a podiam admitir. X Os políticos. que deixava o campo inteiramente lim­ po e aberto ao assalto dos vencedores. ou antes. num país em que a vida política se modela por esse padrão e se restringe a esses objetivos personalíssimos. os partidos não disputam o poder para realizar ideias. Realiza­ va assim. ingrata . locais.

con­ vertendo-se ao catolicismo em 1906. lecio­ nou também na América do Norte e no Canadá. Agir. os destituía das suas situações de mando. em frases de recriminação violen­ ta ou cólera impulsiva. da experiência c da individualidade. às vezes. uma encarnação superior da razão. 15) JACQUES M ARITAIN5 0 homem e o Estado (Trad. às vezes mesmo.300 Teoria Geral do Estado buçado dentro de uma prerrogativa constitucional. O Estado é uma parte que se especializa no interes­ se do todo. cujo funcionamento pode ser considerado como ra­ cional em segundo grau. constitui. ed. obra que escolhemos para transcrever o trecho supra. 22-3. O Estado não é uma espécie de super-homem coletivo. é um conjunto de institui­ ções combinadas em uma máquina altamente aperfeiçoada. O Estado é apenas uma insti­ tuição autorizada a usar do poder e da coação. todavia. Escreveu inúmeras obras. Alceii Amoroso Lima. O Estado não é a suprema encarnação da ideia. mais separada das contingências. em suma.) 0 Estado O Estado é unicamente a parte do corpo político que se refere especialmente à manutenção da lei. Rio de Janeiro. Embaixador da França no Vaticano (1945-1948).. filósofo e diplomata francês. é mais abstrata. sem outra razão senão as razões do seu capricho. feridos no seu pundonor pessoal c guardavam do imperador uma sorte de ressentimento íntimo. ar­ ticulada pela lei e por um sistema de normas universais. universidades de Toronto. Kste explodia. com destaque para Filosofia moral (1960). 3. No campo da filosofia política legou-nos O homem e o Estado. na medida em que a atividade racional nele envolvida. um instrumento ao 5 Jacques Maritain (1882-1973). de rancor. e constituída por técnicos e espe­ cialistas em questões de ordem e bem-estar público. tornou-se adversário do Concilio Vaticano e do movimento neomodernista. . uma superestrutura impessoal e duradoura. Chicago e Princeton (1948-1960). Homens de clã para quem o inimigo político era quase sempre inimigo doméstico e a luta política uma luta pessoal. Não é um homem ou um grupo de homens. como o acreditava Hegel. Colúmbia. Arte e escolástica. Professor do Instituto Católico de Paris {1914-1940). mais impiedosa também do que em nossas vidas individuais. Tal obra de arte foi construída pelo homem e serve-se dos cérebros e das energias humanas e nada é sem o homem. 1959. p. estudou em Paris e Heidelberg. ao fomento do bem comum e da ordem pública e à adminis­ tração dos negócios públicos. eles não se sentiam apenas esbulhados com o ato da Coroa que cha­ mava ao poder os adversários: sentiam-se também humilhados.

A pessoa humana como indivíduo existe para o corpo político. suprimirá um regi­ me condenado. Pierre Joseph-Proudhon e Henri Bergson. as quais levariam o trabalhador à sua eman­ cipação mediante o estímulo a uma greve geral e universal. resolvi escrever. um notá­ vel ideólogo. Quando. de maneira alguma. Tal concepção não implica nenhuma das sutis interpretações em que se esmera Jaurès. tornou-se. construindo. que.) Tradução do autor. de forma re­ lativamente profunda. isto sim. Trata-se. mas o cor­ po político existe para a pessoa humana como pessoa. Ensaios dc crítica do marxismo e. sobre a violência proletária. de uma transformação radical. A greve é uma guerra! Consequentemente. dois ilustres discípulos: Lenin e Mussolini. seu famoso sindicalismo revolucionário. simultaneamente. semelhantemente a uma batalha napolcônica. O Estado e que existe para o homem. em 1905. entre elas A ruína do mundo antigo. da qual cada grande greve constitui mero episó­ dio. Collcction Rcssourccs. . eis por que os sindicalistas se referem a tal revolução empregando o linguajar típico das greves. Sua importância para as ideias políticas pode ser resumida no fato de que inspirou. porque os trabalhadores levam tais expressões ao pé da letra. destinado a desaparecer das greves.10 Leituras Complementares 301 serviço do homem. engenheiro de profissão. acre­ ditava na formação de elites no seio do proletariado. A revolução social é o prolongamento desta guerra. existe para o Estado. Dedicou-se à questão social desde 1892. 1981. 16) GEORGES SOREL6 Reflexões sobre a violência (Réflcxions sur la violence. o mais significativo dos mitos proletários. é uma grande mentira dizer que a violência não passa de um fenômeno acidental. Reflexões so­ bre a violência (1906). um clássico da Política. Para eles o socialismo se reduz à ideia. por inclinação natural. Mas o homem. Aqueles que dirigem ao povo palavras revolucionárias têm a obrigação de ser sinceros. inspirando-se principalmente em Karl Marx. espera e preparação da greve geral. com a eli­ Georges Sorel (1847-1922). Tenho certeza de que o socialismo não sobreviverá sem a apologia da violência. Não me conformo com a visão limitada de alguns em considerar as greves como algo seme­ lhante a uma desavença comercial entre um feirante e seu fornecedor. estava consciente da grande res­ ponsabilidade que assumia ao tentar demonstrar a importância histórica de ccrtas ações que nossos socialistas “parlamentários” tentam ocultar com suas artimanhas. Deixou várias obras de considerável significado. Com efeito. não se dei­ xando condicionar por metáforas. Colocar o homem a serviço desse instrumento é uma perversão política. o mais importante de seus trabalhos. Paris-Genève. é durante as greves que o proletariado reafirma sua existência. com bruscas alterações de rumo. Vergastando a burguesia e a democracia parlamentar.

ao levar a efeito obra tão séria. Somente a guer­ ra social. e que trabalhavam para o fortalecimento do Estado legado pelo Antigo Regime. exclui todas as abominações que desonraram a revolu­ ção burguesa do século XVIII. já que tais sentimentos são demasiado fortes para que exortações inconseqüentes possam reprimi-los. Incansavelmente. Ainda que não houvesse outra razão para atribuir ao sindicalismo revolucionário um elevado papel civilizador. A ideia de greve geral. com precisão. Por isso. traz consigo o ideal de uma grande transformação. A guerra social. A guerra travada de peito aberto. c cnchc-mc dc horror qualquer medida que atinge o mais fraco sob um dis­ farce judicial. contra os quais a mo­ ral continuaria impotente. em tudo isto. e os socialistas “parlamentários”. que parecerá ainda mais impressionante quanto maior for o convencimento alcançado pela violência no ânimo dos proletários. aliás. ao apelar para o sentimento de honra que se desenvolve naturalmente em todo exército organizado.que a guerra proporcionou.salvo D ’Estournelles de Constant . vai-se fir­ mando uma filosofia até pouco tempo despercebida. pode dar origem aos fundamentos de uma nova civilização. as ideias que constituem o mais belo monumento da moderna civilização. a mesma indulgência com que ele os en­ carou. típica de um povo de produtores. sc tornarão inúteis. pode suprimir tais sentimentos vis. que vêem na organização criada pela burguesia os meios que lhes permitem dominar uma parccla do poder. Fecunda dc conseqüências c a comparação que estabelecemos entre as greves violentas e a guerra. enquanto o sindicalismo revolucionário corres­ ponderia. desenvolvida pela prática de greves violentas. hoje. é sobre seu enorme alcance que a democracia fundamenta sobretudo sua força. filosofia esta profundamente vinculada à apologia da violência. nem experimento. serão relegados à sua literatura. Há. Seria caso de se comparar os socialistas “parlamentários” aos servidores com que Napoleão formara uma nobreza. os socialistas situam-se em nível superior ao da nossa leviana sociedade. Não adiantaria tentar convencer os pobres de que estão equivocados ao nu­ trirem inveja e rancor contra seus patrões. cujos soldados levam a efeito . pelos guilhotinadores. Ninguém duvida . que esperam obter da democracia os melhores cargos. para a qual o proletariado não cessa de se preparar nos sindicatos. do ponto de vista de uma civilização de produtores. aos exércitos napoleônicos. às repúblicas antigas. e tornam-se dignos de ensinar ao mundo novos caminhos.302 Teoria Geral do Estado minação dos patrões e do Estado pelos produtores organizados. esta mc pareceria decisi­ va cm favor dos apologistas da violência. Nossos intelec­ tuais. a apologia da violência me é particular­ mente simpática. sem hipocrisia. Todavia. Jamais nutri por certo “ódio criador” a admiração que lhe concedeu Jaurcs. algo tremendo. comprovo que. chamo a aten­ ção de meus jovens discípulos para os problemas que o socialismo apresenta. temível e sublime como esta. visando a destruir um inimigo irreconciliável.

desenvolveu inten­ sa atividade intelectual e de ativista político. última fase do capitalismo (1919). Que restou do Império? Nada mais do que a cpopeia da Grande Armada. nos seus argumentos. p. Entre outros temas. anali­ sou a chamada fase imperialista do capitalismo e elaborou o conceito de ditadura do proletariado. é igualdade. A ditadura do proletariado e o renegado Kautsky (1919). Estado e revolução (1917). travada contra o Império Austro-Húngaro. a de­ Nikolaj Lenin era o pseudônimo de Vladimir Ulianov (1870-1924). membro da Internacional dc Berna. semiconscientemente. os bolcheviqucs escolheram o mé­ todo da ditadura e. Kautsky. São suas obras principais Materialismo e empiriocriticismo (1909). 17) NIKOLAJ LÊNIN7 Como ilu d ir o povo com os slogans de liberdade e igualdade (3. preparando a segunda fase do processo revo­ lucionário. voltando à Rússia para se tornar o chefe da Revolução Socialista deflagrada em 1905. Global. K assim que ele argumenta. líder revolucionário soviético. bem como a distribuição das terras aos camponeses e a atribuição de todo o poder aos sovietes. 1980. a igualdade. lançando as bases de um novo Estado socialista de inspiração marxista. endereçada aos revolucionários dc seu país. o chefe ideológico da Segunda Interna­ cional e. doença infantil do comunismo (1920). Assumindo o poder. impediu a intervenção mili­ tar estrangeira em seu país e deu início à sua reconstrução econômica. os filisteus repetem-no. é a referência à Democracia. Já tive várias vezes que fazer notar que a justificação.10 Leituras Complementares 303 tantas proezas. exigindo a imediata retirada. em que todas as facções socialistas que o apoiavam o elegeram como o grande líder do movimento operá­ rio internacional. passando três anos deportado na Si­ béria. mesmo sabendo que continuariam pobres. apareceu na literatura eu­ ropeia como o mais decisivo representante deste ponto de vista: “Os bolcheviqucs escolheram um método que viola a Democracia. São Paulo..) Passarei agora à questão seguinte . Tcórico brilhante da doutrina marxista. Esta conclusão apareceu milhares de vezes em todo o lado e aparece constantemen­ te em toda a imprensa e nos jornais já mencionados por mim. por um lado. e Extremismo. por vezes. 24-34. . Tornou-se militante ainda jovem. Refugiando-se no exterior dois anos mais tarde. se. contestou o revisionismo desta. encerrou a guerra civil. a defesa mais proveito­ sa destas posições políticas que os democratas lançam contra nós. por outro rejeitou as correntes radicais dc extrema esquerda. portanto. Como sabem. da Primeira Guerra Mundial. que pode haver de mais importante do que a liberdade.ntre 1900 e 1917 viveu no exterior. “A Democracia é liberdade. é claro. e o que perdurará no movimen­ to socialista atual será a epopeia das greves. voltou novamente à Rússia. Imperialismo. F. a sua causa é injusta” . até agora. é a decisão da maioria. tendo sido preso em 1895. Eclodindo a Revolução dc 1917. Em 1919 organizou a Terceira Internacional. Toda a intelligentsia o repete constantemente e. de seu país. ed.A atitude em relação à Democracia em ge­ ral.

qualquer pessoa que. se afastaram disto. e que con­ sideramos esses que se intitulam democratas. está a serviço dos exploradores e nada mais. em tal momento po­ lítico. atue contra a ditadura do proletariado. e ainda tiveram a ou­ sadia de declarar abertamente que são mais importantes que a liberdade. igualdade. preferindo direta ou indiretamente esta à ditadura do proletariado. quando a principal tarefa for a luta das classes trabalhadoras pelo total aniquilamento do Capital. nesse momento histórico. no programa do partido. e dizemo-lo sempre. do ponto de vista dos fundamentos da luta proletária e do poder proletário. Mas o nosso programa declara: “A Liberdade 6 uma frau­ de se se opõe à emancipação do Trabalho da opressão do Capital”. “igualdade” e “a vontade da maioria”. e a decisão da maioria. é sua aliada. fraudulentamente. a liberdade do Capital. em nome desta liberdade. Serão os democratas puros real­ mente censuráveis por ensinarem a pura Democracia. muito importante em qualquer revolução. quando não subordinada aos interesses da emanci­ pação do Trabalho do jugo do Capital. que não lançamos. que criou a liber­ dade burguesa. consideramo-los como aliados de Kolchak. ou mesmo num país. ou são censuráveis por surgirem ao lado da classe capitalista. c um slogan muito. no nosso pro­ grama. ao lado de Kolchak? Comecemos por esclarccer a noção de “liberdade” . para oprimir as massas trabalha­ doras.304 Teoria Geral do Estado cisão da maioria! Se vocês. que destruiu a escravatura feudal. a igual­ dade. No momento em que se atingir a destruição do poder do Capital em todo o mundo. como declaramos claramen­ te no nosso programa do partido. dissemos. mas é fundamental do ponto de vista da nossa propaganda e educação. 110 seu tempo. porque a liberdade. adeptos da pura Democracia. das suas obras. Sim. pois desejamos clareza acima de tudo. para provar que por detrás destas frases se encontram os interesses da liberdade do proprietário. vontade da maioria e a todas as espécies de Benthams que o descrevem. Esclareça-se. e a maior parte das suas investigações científicas exatamente à ridicularização da li­ berdade. por defenderem-na contra os usurpadores. pois é necessário esclarecê-lo. pela com­ pleta destruição da produção mercantil. teve à sua fren­ te a tarefa de criar a liberdade. socialista ou democrática.quem quer que tenha lido mesmo uma divulgação po­ pular de Marx . E qualquer pes­ soa que tiver lido Marx . que. sabemos perfeitamente que o Capital mundial. utilize as palavras “Liberdade em geral”. “Liberdade”.sabe que ele devotou a maior parte da sua vida. então não se surpreendam e não se queixem se vos chamarem dc usurpadores e violadores!” De modo algum nos surpreendemos. sabemos perfeitamente que isto foi um progresso histórico mundial. . adep­ tos da Democracia consistente. e só contamos com o setor avançado dos trabalhadores que tem uma real e verda­ deira consciência da sua posição. bolcheviques. como “liberdade”. é uma fraude. Sabemos perfeitamente que temos que lutar contra o Capital mun­ dial. Talvez isto seja supérfluo do ponto de vista da formulação externa do programa. c inútil acentuá-lo. tais slogans altissonantes.

cla­ ro. respondemos nós.França. cavalheiros ingleses. Sim. Reparem em todos os países da Europa Ocidental. a França está a manter mais que nunca o seu “alto ideal dc Liberdade”. violaram a liberdade de reunião”. e ouvimos as emissões de rádio estrangei­ ras . e agora esses “países civilizados” . Encontramos coisas deste gênero a cada passo.é assim na realidade que está es­ crito na vossa Constituição.erguem esse es­ tandarte. indo contra os bolcheviques c apoiando os seus adversários. Consideramos essencial dar-lhe esta resposta no nosso programa. marcham contra os bolcheviques “em nome da liberdade” . Em todos os livros. ame­ ricanos. onde quer que tenham estado. É esta a essência do problema. mas a informação chega-nos pelo telégrafo.10 Leituras Complementares 305 E declaramos que somos contra o Capital em geral. dado que por enquanto ainda é impossível cercar o ar. Mas talvez isto seja impossível? Talvez seja impossível que a liberdade seja contrária à emancipação do Trabalho do jugo do Capital. ou sobre os quais te­ nham lido. tendes que respeitar a propriedade . desculpem-me. Isto significa que os grandes auditórios que existem nas grandes ci­ dades. mas isso é propriedade privada. com a lei de servi­ dão medieval.recebemos agora raramente os jornais franceses porque estamos cercados por um anel. contra o Capitalismo Republi­ cano. civilizados cavalheiros. Todos os socialistas o reconheceram ao utilizar esta liberdade da sociedade burguesa para ensinar ao proletariado o modo de acabar com a opres­ são do Capitalismo. como este onde agora nos encontramos.consegui ler nos boletins emitidos pelo governo francês dc rapina que. isto é usual cm todas as suas polêmicas contra nós. E nós respondemos. por exemplo. contra o livre Capitalismo e. sc é contrária aos interesses da emancipação do Tra­ balho da opressão do Capital. um imenso progresso em comparação com a ordem feudal. Podeis reunir-vos livremente com cidadãos da República Democrática Russa. Mas a vossa liberdade é de uma tal espécie que é uma liberdade no papel e não na prática. esquece­ ram que a vossa liberdade está escrita numa Constituição que legaliza a proprieda­ de privada. é uma fraude. pertencem aos capitalistas e aos proprietários e chamam-se. bolche­ viques. O fato dc reconhecerem a liberdade de reunião é. Ainda há pou­ cos dias atrás . se está em contradição com a emancipação do Trabalho da opressão do Capital. Juntamente com a liberdade. E a que chamam eles liberdade? Estes “civilizados” franceses. sabemos que ele erguerá a bandeira da liberdade contra nós. Inglaterra. a propriedade . o seu sistema é descrito como o sistema mais livre. franceses. Esqueceram um pormenor. contra o Capitalismo Democrático. dizem eles. Na Constituição deve es­ tar escrito: “ Liberdade de reunião para todos os cidadãos”. “é o verdadeiro significado e a principal manifestação de liberdade. ingleses e ame­ ricanos chamam liberdade mesmo à liberdade de reunião. E vocês. “A Sala dos Nobres”. a vossa liberdade. claro está. Qualquer espé­ cie de Liberdade é uma fraude. América . “ Isto”.

gatunos. depois falaremos sobre liberdade. Estamos numa batalha . ladrões. pois sabemos como tratar de emanci­ par os trabalhadores do jugo do Capital. Primeiro trans­ formamos este edifício. isto constrói essa verdadeira li­ berdade. fantasista. Lu­ tamos contra eles. Pas­ saram os dias do Socialismo ingênuo. que não é mais que a liberdade de reunião dos contrarrevolucionários. pessoas in­ solentes. Isto ajuda a emancipação do Trabalho da opressão do Capital. utópico. desencadearam uma revolução. A li­ berdade de reunião. e a cul­ pa é dos cavalheiros burgueses. na Inglaterra de 1649. nem pelo palavreado de muitas das revoluções dc 1848. dizemos: Vocês mentem quando nos atiram à cara a acusação de es­ tarmos destruindo a liberdade! Quando os vossos grandes revolucionários burgue­ ses. quando queremos nos reunir. Aos cavalheiros intelectuais burgueses. Quando isto acontecer. e porque foi uma revolução a serio que não só derrubou os monárquicos.trata-se aqui de um proprietário. quando se pensava que bastava convencer a maioria das pessoas e pintar um belo quadro da sociedade socialista para que a maioria adotasse o ponto de vista do So­ cialismo. na França de 1792-1793. é uma fraude porque. é necessário retirar ou cortar-lhes a sua “liberdade” . Vocês acusam-nos de violarmos a liberdade. protegidos do tempo. sob a qual não existirão grandes edifícios onde apenas uma família vive e que pertence a um único indivíduo . os melho­ res edifícios são propriedade privada. então seremos pela liberdade de reunião para todos. criminosos. é necessário retirar a liberdade de reunião aos capitalistas. assim como dos cavalheiros intelectuais burgueses -. e havemos de abolir esta liberdade.é este o significado da ditadura do proletariado. mecânico e intelectual. Afirmamos que a liberdade de reunião para os capitalistas é o maior crime contra os trabalhadores. então. num edifício das organizações dos trabalhadores e só então falaremos dc liberdade dc reunião. Nessa altura seremos pela total “liberdade”. mas hoje a liberdade de reu­ nião significa liberdade de reunião dos capitalistas.306 Teoria Geral do Estado privada senão passais a ser Bolcheviques. Também sabe­ mos como tratar os cavalheiros capitalistas. aos cavalheiros que apoiam a Democracia. a “Sala dos Nobres”. não permitiram a liberdade de reunião aos monárquicos. que reconhece como inevitável a . então o povo se es­ quecerá de que é possível existirem edifícios públicos propriedade de um particu­ lar.isto não acontecerá tão cedo. nós afirmamos que qualquer liberdade não subordinada aos interesses da emancipação do Trabalho da opressão do Capital ê uma fraude. Passou o tempo em que era possível iludirmo-nos a nós mesmos e aos ou­ tros com estas histórias de fadas. dos contrarrevolucionários. de um ca­ pitalista ou de uma sociedade anônima. como também os suprimiu. meias-tintas. A Revolução Francesa e chamada a Grande. Mas nós dizemos: Estamos virando isto “de pernas pro ar”. porque não se caracterizou por molezas. Primeiro apoderemo-nos dos melhores edi­ fícios e. incluída nas Constituições de todas as repúblicas burguesas. Q uando só houver no mundo trabalhadores e as pessoas se esquecerem dc pensar cm como era possível ser um membro da sociedade e não um trabalhador . O Marxismo.

Se pudessem ver o que está se passando na “livre” Suíça. e na véspera da Revolução de Outubro gracejava ainda muito feliz e despreocupada. c ainda não cm todos. que foi derrubada num único país. precisamente por não estar ainda totalmente derrubada. a luta de classes assume as suas mais profundas formas e esses democratas e socialistas não servem para nada e enganam-se a si próprios e depois os outros ao afirmarem que. concreta e claramente. c que. pois não compreende que a liberdade e a Democra­ cia. viram e reconheceram tam­ bém que as coisas tinham tomado um aspecto sério e agora estão todos a armar-se. como estão a armar lite­ ralmente todos os burgueses. como está sendo criada uma Guarda Branca porque sabem que as coisas chegaram a um ponto em que se põe a questão de consegui­ rem manter os seus privilégios. antes de tudo. os cavalheiros burgueses ingleses. sangrenta e terrível.haverá outra palavra que soe melhor? Será possível imaginar o desenvolvimento da consciência de classe dos trabalhadores sem liber­ dade de reunião? íYlas nós afirmamos que a liberdade de reunião nas Constituições da Inglaterra e dos Estados Unidos da América do Norte é uma fraude porque ata as mãos das massas trabalhadoras durante o período de transição para o Socialis­ mo. ilude o povo. até hoje. e tais palavras não devem ser atiradas levianamente. que consideravam a sua “repúbli­ ca democrática” como uma armadura que os defendia. é necessário. Gracejavam porque não tomavam as coisas seriamente.10 Leituras Complementares 307 luta de classes. se lança à luta com o maior ódio. franceses e suíços. quem hoje nos ataca com palavras como “Democracia”. Liberdade de reunião . afirma: A humanidade só pode atingir o Socialismo através da D i­ tadura do Proletariado. para se con­ seguir a liberdade dos trabalhadores. no início. vencer a resistên­ . que refle­ tiram. por­ que a burguesia ainda não acredita que foi derrubada. “ Liberdade”. que é tão insólito. portanto. e. portanto. tão “monstruoso”. é uma fraude porque sabemos perfeitamente que a burguesia fará tudo para derrubar este poder. a tarefa chegou ao fim. está ao lado da classe capitalista. e. Não pode ser de outro modo aos olhos daqueles que refletiram sobre a luta de classes. dado que a bur­ guesia foi derrubada. que lhes permitem conservar milhões de pessoas em escravatura salarial. sobre as relações dos trabalhadores em revolta con­ tra a burguesia. Exatamente depois da destruição da burguesia. Que é liberdade de reunião quando os trabalhadores são esmagados pela es­ cravatura do Capital e pelo trabalho para o Capital? É uma fraude. séria. H apenas o começo e não o fim. foram a liberdade e a Democracia dos proprietários e meras migalhas para os sem-propriedades. Hoje a luta estendeu-se a todo o mundo. Ditadura é uma palavra crua. Milyukov gracejava as­ sim como Chernov e os seguidores do jornal Novaya Zbizn. mas agora viram que as coisas eram sérias. Se os socialistas lançaram um tal slogan é porque sabem que a elasse dos exploradores só cederá em resultado duma luta desesperada c sem piedade c tentará disfarçar o seu domínio por meio das mais variadas palavras agradáveis.

Eis o que é o dinheiro. os socialistas afirmaram que era impossível abolir imediatamen­ te o dinheiro. e conservar condições tais que. É possível apossarmo-nos imediatamente da propriedade e dos edifícios suntuosos. Neste caso estamos diante de uma questão ainda mais séria. Para abolir o dinheiro são necessárias grandes conquistas técnicas e . Ainda não conseguimos abolir totalmente o di­ nheiro.não o dissemos especialmente no nos­ so programa.! O dinheiro é a “nata” da riqueza social. Todos são iguais. no seu curso. e podemos confirmá-lo. Afirmamos que uma república democrática com igualdade é uma mentira. sejam quais forem os seus bens. isso. o direito de explorar. mas. é a pro­ va do tributo dc todos os trabalhadores. Aqui o problema é ainda mais com­ plexo. A revolução. e. do dinheiro e do Capital. inclusive o milionário c o vagabundo . uma fraude. é a relíquia da antiga exploração. dado ser tão claro como o que dissemos sobre a liberdade . todos são iguais. durante o período transitório do velho sistema capitalista ao novo sistema . afirmamos que o dinheiro se manterá. de uma república. porque na realidade a igualdade não existe nem pode existir. e afirmava-se que a igualdade era a condição sob a qual o milionário c o trabalhador deviam possuir iguais direitos. e isto durante um largo espaço de tempo. é possível apossarmo-nos relativamente depressa do Ca­ pital e dos instrumentos de produção. a “nata” do trabalho social.organizacionais. A revolu­ ção avançou mais. que provoca de­ sacordos ainda maiores e mais violentos. e vocês sabem que toda a luta contra a ordem medieval.diz que a igualdade é uma fraude quan­ do em contradição com a emancipação do Trabalho da opressão do Capital. IV Passo agora da liberdade para a igualdade. quem tiver dinheiro. contra o feudalismo. Afir­ mamo-lo. se fez sob o slogan de “igualdade”.o que é muito mais difícil e importante . é necessário manter uma igualdade em palavras na Constituição. pensavam c consideravam. mas se eu tenho de me haver com a resistência de toda uma classe.era assim que os revolucionários do período que ficou na história como o período da Grande Revolução Francesa sinccramentc falavam.308 Teoria Geral do Estado cia dos exploradores. Primeiro destruiu a monarquia e entendeu por liberdade simplesmente a existência do poder eleitoral. de fato.. destrói uma após outra as classes exploradoras. até as conseguirmos.. Diz que a “igualdade” . A revolução fez-se contra os pro­ prietários sob o slogan de igualdade. por experiência. pos­ sui. Em seguida destruiu os proprietários. quanto à propriedade em dinheiro. então c óbvio que não posso prometer nem liberdade. em virtude da propriedade privada dos meios de produção. e é totalmente verdade. Antes da Re­ volução Socialista. Poderá ser destruído de uma hora para outra? Não. nem igualdade ou mesmo decisão majoritária a essa classe. mas é impossível continuar a repeti-lo sem fim.

s. antes de tudo. Só destruindo as classes haverá igualdade. E é isto que afirmamos... d. Marx e Engels. mas não tem qualquer significado. pág. não podemos falar de igualdade sem correr o risco de fazer o jogo da burguesia. separadamente da abolição de classes. ainda poderia chamar-se socialista. não sabiam que os socialistas. por vezes conscientemente.) O elemento essencial do Estado é a força. A igualdade é o nosso objetivo.“a falta de poder material (Macht) é pecado mor­ tal do Estado. Mas. 18) LÉON DUGUIT Os elementos do Estado (Trad. ed. um Estado sem poder material de constrangimento é uma contra­ dição em si” (“Der Zveck im Recht”. Tentaram atribuir aos socialistas este absurdo por eles inventado. não é senão uma frase sem sentido e uma invenção estúpi­ da do intelectual.10 Leituras Complementares 309 socialista. Ed. mas sob a forma de abolição de classes. 41-2. É este precisamente o nosso objetivo. mas não vale a pena discutir pala­ vras. Alguns profes­ sores burgueses tentaram convencer-nos dum conceito de igualdade pelo qual to­ dos seriam iguais.. O Estado. deturpa as palavras. tinham razão. Inquérito. Se interpretarmos a palavra socialismo num certo sentido. Eduardo Salgueiro. Uma sociedade cm que se mantém a diferença dc classe entre trabalhadores e camponeses não é nem comunista. A igualdade é uma fraude se está em oposição aos interesses da emanci­ pação do Trabalho da opressão do Capital. ou qualquer outra coisa. que. Mas. Uma coisa é certa: enquanto houver diferenças de classe entre trabalhadores e camponeses. p. mas a sua doutrina implicava um erro irremissível e era por virtude disso abominável. nem socialista.. 311) . na sua ignorância. Só existe verdadeiramente Estado num certo país quando um homem ou certo grupo de homens dispõe nesse país duma força material preponderante. pretender que queremos fazer com que todos sejam iguais. mesmo se se intitula escritor e por vezes mesmo como um ho­ mem culto. O Socialismo é a primeira fase do Comunismo. é uma for­ ça que se impõe pelo constrangimento material. Quando Ihering escrevia . tinham afirmado: a Igual­ dade é uma frase oca a não ser que por igualdade se entenda a abolição de classes.. Aque­ . mas isto é um mero jogo de palavras. Lisboa. Assim e também necessário destruir a diferença de classe entre trabalhadores e camponeses. 2.Der Staat ist Macht .e quando Treitschke formulava o adágio que se tornou célebre . e especialmente os funda­ dores do moderno Socialismo Científico. Engels tem toda a razão quando afirma que o conceito de igualdade é um pre­ conceito estúpido c absurdo..

Afirmo que a doutrina de Maquiavel está. “A for­ ça cria o direito” dizia Treitschke. hoje. na forma condensada de O Príncipe. A indagação se impõe: após quatro séculos. para conseguirem ser mais obedecidos. a vida individual. mas força subordinada a uma regra de direito superior a ele. então o pressuposto dessa arte é o próprio homem. se os governantes aceitam que a sua força seja regulada pelo direito. “O direito é a política da força” dizia Ihering. inevitavelmente limitado e. ou seja. Sim. 19) BENITO MUSSOLINI Prelúdio a 0 príncipe. se isto é a política. que ele conhecia tão bem.310 Teoria Geral do Estado la força de constrangimento era para eles ilimitada ou pelo menos só era limitada pela regra de direito na medida em que os governantes se lhe submetessem. força que só le­ gitimamente se impõe quando atua em conformidade com essa regra de direito. que levou a Alemanha a cometer os crimes mais monstruosos da história. querendo exprimir que. imperioso estabelecer o conceito de Maquiavel sobre a humanida­ de em geral e sobre os italianos em particular. mesmo numa lei­ tura superficial de O Príncipe. o que resta de válido na obra O Príncipe? Os conselhos de Maquiavel ainda poderiam ser úteis para os modernos governantes? O valor do sistema político de O Príncipe fica circunscrito à época em que tal livro foi escrito. Se houve inúmeras modificações sociais. 1930. antes de proceder a uma análise do sistema político maquiavélico. pelo contrário. portanto. edu­ car suas paixões. Doutrina ignóbil.) Tradução do autor. doutrina contra a qual se levantou todo o universo civilizado. o Estado é a força. quase sempre. 473-9. dc orientar. porque projetadas no futuro. Ele é o seu ponto de partida. mais viva que há qua­ tro séculos. de M aquiavel (in II príncipe. Resulta evidente. Sc a política é a arte de conduzir os homens. Roma. em parte. Libreria dei Littorio. é universal e. utilizar. a força sem o direito é simplesmen­ te barbaria. caduco ou. ou no sentido amplo e intemporal do gênero humano? Creio que. seu egoísmo e seus interesses cm face de objetivos gerais que trans­ cendem. é por mera política. o pessimismo de Maquiavel sobre a natureza huma­ . Se o direito sem a força se arrisca a ser impotente. principalmente. p. atual? Minha tese responde a tais perguntas. Que representam os homens no sistema político de Maquiavel? Que pen­ sa Maquiavel a respeito dos homens? Ele é otimista ou pessimista? Dizendo ho­ mens devemos restringir tal vocábulo aos italianos de seu tempo. não se verificaram alterações consideráveis na mentalidade dos indivíduos e dos povos.

e que esta­ rão. Maquiavel c bastante claro: “Dos homens é pos­ sível dizer que.] Os homens nunca fazem o bem. pragmatismo ou cinismo maquiavélicos se baseia. ao passo que a intimidação impõe um receio dc ser castigado que não os abandona jamais”. Porque o amor cria um vínculo de deveres que. simuladores ou dissimuladores. mais apegados aos bens mate­ riais que aos próprios pais. mas se me fos­ se permitido julgar meus contemporâneos. evidente que Maquiavel. não assim aque­ le que se faz temer. sempre. na doutrina de Maquiavel o príncipe é o próprio Estado. a não ser por interesse. estando. avessos ao perigo e ávidos dc lucro. os homens são mórbidos. italianos que. em desgraça. intemporal. prontos a agir com maldade logo que surja a ocasião para isto [. Merecida c desanimadora convicção. mas poderá fazer valer. Esse ponto inicial c essencial precisa scr considcrado para entendermos bem o desenvolvimento das ideias dc Maquiavel. se rebelam. novamente. Por outro lado. também. são ingratos. quando exigidos. não atenuaria. os filhos. Enquanto os indi­ víduos se inclinam. evidentemente. Maquiavel tinha bem pouca consideração pelos homens. dispostos a mudar seus sentimentos. confundindo-se com a licenciosidade. não fazia referência apenas àqueles de seu tempo: florentinos. e não titubea­ va em apresentá-los nos seus aspectos mais negativos. julgando como julgava os homens. As tristezas aqui reportadas são suficientes para demonstrar que a opinião negativa sobre os homens não é casual. No Capítulo XVII dc O Príncipe. nessa posição inicial. a opinião de Maquiavel. geralmente. É. logo imperam a incerteza e a desordem”. As antíteses príncipe/povo e Estado/indivíduo são cruciais no conceito de Maquiavel. Meu tempo ainda não passou. levados pelo egoísmo. mesmo. A exemplo de muitos que pesquisaram e conviveram com os mais diversos tipos humanos. Segundo Maquiavel. E no Capí­ tulo Terceiro dos Discursos: “Como demonstram aqueles que meditam sobre a so­ ciedade civil. mas também ao próprio gênero humano. o seguinte: “Os ho­ mens sc revoltam mais contra a perda de uma insignificante prerrogativa. toscanos. e onde a liberdade é excessiva. em nada. eu a consideraria suave. e o governante crédulo cai. Tudo o que foi denominado utilitarismo.. para o atomismo social. o direito perdido”. será facilmente rompido. pelo próprio ca­ ráter dos homens. os bens materiais não. sempre. Qualquer um sabe que uma revolução não trará de volta os mortos. mas característica do pensamento maquiavélico. Maquiavel não se deixa iludir e não ilude o príncipe. imperioso a quem dirige uma república e legisla para tanto pressupor que seus governados são maus. que con­ tra o assassinato dc seus pais ou irmãos. Quanto ao egoísmo humano. porém. Outras citações poderiam ser feitas.10 Leituras Complementares 311 na. porque sc a própria morte pode scr esque­ cida. desiludido. oferecendo a própria vida e. volúveis. Enquanto lhes fazem benefícios. Acha-se pre­ sente em toda a sua obra. o Estado repre­ . N ão va­ cilam em ofender e magoar um príncipe que se limite a ser amado. e como é cheia de exemplos a História. demonstram uma falsa fidelidade. entre os séculos XV e XVI ainda andavam a cavalo.. mas isto não é necessário. encontro na correspondência (Cartas Variadas) de Maquiavel. Ao contrário.

a não pagar impostos. considerando o poder uma emanação da vontade livre do povo. s. de Roberto das Neves. se não empregassem a intimidação” . mas não exerce soberania algu­ ma. quando muito. provavelmente.d. que a soberania generosamente atribuída ao povo. c os desarma­ dos são vencidos. 20) VARLAN TCHERKESOFF Erros e contradições do marxismo (Trad. aplicado ao povo.que pecavam.) . delega. Ciro. Se­ ria possível imaginar uma guerra declarada mediante referendum popular? Com efeito. Mesmo nos países onde tais mecanismos são tradicionais. Tende a descumprir a lei. mesmo os governos ultrademocráticos se abstêm de expô-los à apreciação popular. Tem permissão para utilizá-la somente cm questões de administração ordinária. até nos regimes polí­ ticos idealizados pelos enciclopedistas .312 Teoria Geral do Estado senta uma organização e uma limitação a tal tendência. E nada mais lhe resta que um monossílabo para aceitar e obedecer. mas difícil mantê-los persuadidos desta. continuamente. sobrevêm situações graves. Teseu e Rômulo jamais teriam conseguido fazer seus povos cumpri­ rem as leis.. a esquivar-se de participar da guerra. não existem e. o referendum é excelente quando se trata de escolher o melhor local para instalar a fonte luminosa de um pequeno município. porque é sabido que a resposta seria fa­ tal: arrancar coroas c cabeças imperiais. M uito antes de meu conhecido artigo Força e Consenso. sendo fácil incutir-lhes uma ideia. e só. por ex­ cesso de otimismo . As revoluções dos séculos XVII c XVIII ten­ taram resolver essa antinomia. segundo Rousseau. sendo necessário organizar-se de tal modo que. O povo. se ordena ao povo. que aceita a revolução ou marche para o desconhecido de uma guerra. O indivíduo tende a se es­ quivar.] a natureza dos povos é variada. e introd. Pouquíssimos são aqueles que . Porque [. Antes de mais nada. O adjetivo soberano. Resta inevitável. de seus deveres.o conflito entre força organizada do Estado e tendência ao atomismo de indivíduos e grupos. Trata-se de mais uma ficção ilusória dentre tantas. du­ rante as quais nada se pergunta ao povo. Ninguém sabe onde começa ou termina.sacrificam a própria vida no altar do Estado.he­ róis ou santos . Maquiavel já escrevia em O Príncipe (Ca­ pítulo VI): “Disto se conclui que todos os profetas armados vencem. Moisés. É uma entidade abstrata como entidade política. Vejam. M undo Livre. é uma trágica farsa. boas somente em tempo de paz! Por isso. quando não acreditarem mais pela persuasão. Os demais estão em permanente revolta contra o Estado. Os sistemas representativos pertencem mais à mecânica que à moral. sem maiores explicações.. lhe é subtraída justamente nos momentos em que mais necessária se mostra. portanto. Regimes políticos exclusivamente consensuais nunca existiram. portanto. Rio de Janeiro. creiam pela força. o povo jamais foi definido. jamais existirão. Quando interesses supre­ mos de um povo estão em jogo.

temos Guizot. J. que tratava a história de “antagonismo das classes” na Inglaterra. S. Delas foram extraídos os estudos clássicos sobre a legislação agrária de Licinius. mas até deístas con­ victos e fervorosos cristãos. e que era tão beato como um trapista. Este modesto filó­ sofo jamais pretendeu o materialismo. formulou. e a (segunda explica as causas).. Delas saíram as minuciosas investigações de Mommsen. escravos e libertos. Entre outros. com a sua habitual . não somente idealistas e metafísicos. conhecidas pelo nome de doutrinas materialistas. Temos Niebuhr. não são senão uma variedade da mesma espécie”.. de Solon e dos Gracos. O mesmo disseram os seus contemporâneos Mignet. O modo de produção é somente “um” fator. li­ berais c servis. Outro economista. Nun­ ca houve mais de dois partidos que se enfrentassem . guelfos e gibelinos. Segui passo a passo os grandes acontecimentos. menos profun­ do e menos original que Adam Smith.J A primeira fornece os fatos. o pa­ pel que representam os elementos econômicos na história: “Não tardei em advertir que existiam entre estas duas ciências (a histórica e a econômico-política) relações de tal modo íntimas que não se pode estudar uma sem a outra. decla­ rou que a lenda dc Tito Lívio sobre a fundação de Roma dcvc ser desprezada. frisa. no século XVII. A parte não pode conter o todo. de Michelet. O mesmo se verifica com Adam Smith. não é ainda o “materialismo”. b) o aumento das riquezas depende das condiçõcs econômicas c sociais do trabalho e da relação entre o número de produtores e de não produtores.10 Leituras Complementares 313 O conjunto dos fatores econômicos. Mas Niebuhr. “A economia política explica as causas dos fatos econômicos”. Blanqui. um elemen­ to entre muitos outros que servem às generalidades evolucionistas. disse Blanqui. fundador da economia política. Agustin Thierry c outros. Michelet. Se remontarmos ao primeiro historiador que tenha cogitado da influência das condições cósmicas e econômicas sobre o progresso e o desenvolvi­ mento da Humanidade. o economismo não constitui a doutrina materialista. que por sua vez insistia sobre o estado econômico da nação. da qual Momm­ sen é um dos mais brilhantes representantes. em 1825. nem aprofundá-las separadamente [. Niebuhr. o qual exprimiu. cavaleiros e peões.o dos que querem viver do seu trabalho e o dos que querem viver do trabalho dos outros. entretanto. na sua análise do primeiro volume da História da França. Mill. pois é necessário estudar a história segundo as condições econômicas e sociais do povo ro­ mano. nos princípios do século. e que eram.. ao fazer a classificação das escolas históricas. do modo seguinte. outro homem de gênio. o grande fundador da escola histórica alemã. Patrícios e plebeus. que chamamos “economismo”.l Mais ainda. em 1776. ou melhor. as duas fórmulas fundamentais: a) o trabalho é a única origem da riqueza social. e consultarmos Vico (1668-1744) e o seu tradutor francês. veremos que não fazem menção ao materialismo.. Na Inglaterra. Mommsen e toda a escola alemã estavam longe do materialismo f. vermelhos e brancos. Conhecemos muitos autores que admitiam a influên­ cia das condições e das relações econômicas sobre o desenvolvimento da Humanida­ de.

no qual analisa toda a história da Inglaterra sob o ponto de vista econômico. que o futuro da humanidade depende da nossa felicidade c dc condições favoráveis à vossa atividade produtiva (Smith). um dia. Rogers. a ciência de­ monstra que o bem-estar c o progresso do gênero humano são criados pelo vosso trabalho. investigadores da verdade. que a história. como se fosse uma coisa nova e completamente “materialista”. publicou o seu volume “Interpretação econômica da história”.48. Buckle. não. Como aconteceu.] Como se nunca tivessem existido Louis Blanc. Selva­ gens impotentes diante da natureza. por que. que pos­ suía uma boa instrução e que havia lido muito. com ares triunfais. uma passagem da polêmica de Engels com o professor Diihring: “Saída de uma ori­ gem animal. incapazes. como ciência moderna. desgraçadamente para ele. a humanidade apareceu na história em estado semi-selvagem. Que decepção para as pessoas honradas. na bela tentativa que fez para retraçar a influência das leis cósmicas. chamou “materialismo” ao que os sábios chamaram “cconomismo” ? Por que. a organização do Es­ tado e das classes exploradoras e opressoras”. que Engels. em vez de fa­ zer uma exposição científica. e que com tal bagagem se dão ares de homens de ciência. disse que “a acumulação da ri­ queza é um dos principais fatores. pois. Um contemporâneo de Marx e Engels. o socialismo teve representação no parlamento [. O nosso interlocutor lera-nos. c. o autor da grande obra Seis séculos de trabalho e de salário. quando.. e que decoram dois pequenos folhetos de Engels e uma vulgarização de Marx. um dos mais impor­ tantes” (p. sem nenhuma ideia da sua própria força e das . 50 c 53). o mais depressa possível. das condições sociais c ate da manutenção da história. Foram sábios. antes deles. sobre muitos aspectos. Aplicaram o método das investigações científicas ao estudo da história.. por conseguinte. perguntamos. publicações “censuradas” por Engels e Auer. havia alguns anos que estava embebido na leitura dos folhetos e publicações do partido. mas que. abrirem os olhos e compreenderem a mistificação de que foram vítimas! Lembramo-nos de uma discussão com um jovem social-democrata. IT. Proudhon c outros. contou tantas lorotas aos bravos e honrados traba­ lhadores que confiavam na sua palavra? Que resultado se obtém com tão estranho método? O dos politiqueiros. cscrcvendo especialmente para os traba­ lhadores esmagados pelo trabalho incessante e que não têm tempo nem meios para verificar as suas afirmações. declaram que jamais. é obrigatório para a classe trabalhadora destruir. Uma vez enviados ao par­ lamento pelos trabalhadores enganados em sua boa-fé. se ocupa das leis sociais e cósmicas que regem o desenvolvimento da Humanidade (“Dissertation ct discussion”). em vez de dizer aos trabalhadores: “Amigos. e não puderam dar aos resultados dos seus traba­ lhos outro nome a não ser o de “interpretação econômica da história”. mas que os des­ conhecia por completo. que. por sua ignorância.314 Teoria Geral do Estado lucidez. 38. ho­ mens sem escrúpulos. do menor trabalho intelectual. Pode-se cha­ mar “materialistas” a estes sábios de nacionalidades diferentes? Certamente. T.T.

o fato deu-se. “saído da animalidade”. mas uma doutrina corrente e aceita pelos espíritos esclarecidos. propagou as ideias do seu tem­ po. nu dc corpo c de espírito. A glória da descoberta não pertence a Vico. a descendência do homem por ele provada. é neces­ sário estudar. pretendemos provar que a explicação econômica não era. Espírito claro. de Darwin c dc Hemholtz é pura metafísica. uma concepção conhecida somente pelos homens de gênio excepcional. os homens eram pobres e miseráveis como os animais e produ­ ziam pouco mais do que estes”. procurou os alimentos. dc Locke. A ciência designava sob o nome de metafísica uma parvoíce escolástica. errou no meio dos bosques. As intempéries levaram-no a cobrir o corpo. o único que a ciência afirma. ou aos filósofos ingleses. que tiveram a desgra­ ça de ler os folhetos de Engels. cncontrou-se sobre a Terra confusa c selvagem. qualquer um diria que Engels copiara Volney. ano 12 da República). que pregou o absurdo de que a natureza e tudo o que nos rodeia é apenas um reflexo das nossas ideias inatas. Esses gloriosos precursores da ciência dos nossos dias estabeleceram que o nosso saber e as nossas ideias são o resultado da observação e do estudo da natureza. enquan­ to a ciência indutiva de Bacon. e os operários alemães. estão convencidos de que a metafísica de Hegel é a ciência com os seus sistemas de transformismo. mas os fatos e os fenômenos sobrenaturais do espí­ rito. não a natureza. se converteria num benfeitor da humanidade. de Lamarck. A ciên­ cia não tem culpa se Engels fez uma mistura extravagante de várias coisas. e que. sem experiência do passado c sem entrever o futuro. abrimos-lhe as Ruínas de Volney. se amalgamou a metafísica com o economismo. Em resposta. não. admitiu.10 Leituras Complementares 315 suas capacidades. Se Engels acreditou que. como veremos diante. do que derivou a palavra “metafísica” (por cima da física e da natureza). Acicatado pela fome. indivíduo pretensioso. Se em Volney faltam as três palavras. aos enciclopedistas. dc evolução c de monismo. e se. Por mais in­ verossímil que pareça. pla­ giado por Engels: “Na sua origem. Era de ver a decepção que o nosso interlocutor experimentou. por . guia­ do e governado tão somente pela sua natureza. O golpe mortal nessa estupidez teológica e sobrenatural foi vibrado por Ba­ con e Locke. Afora isto. a Niebuhr ou à brilhante escola histórica alemã. Parecido com os restantes animais. se pronunciou contra o materialismo dos naturalistas. para conhecer o mundo físico. e Engels. e ele pôde ler este trecho. por Voltaire e os enciclopedistas e por toda a filosofia inglesa. enganou-se lastimavelmente. Mas foi acaso Volney o iniciador da doutrina da evolução? Absolutamente. com talento literário incomum. foi porque a obra de Darwin apa­ receu em 1859. e que. o homem. a Adam Smith. Citando Volney e Blanqui. assimilando as ideias expandidas desde mui­ to tempo. Paris. se bem que oposto ao materialismo dos naturalistas. e assim se vestiu. acercou-se de um ser que lhe era parecido e perpetuou a es­ pécie” (Les ruines. Pela atra­ ção de um forte poder. para ser lido. desde o princípio do século XV III.

era uma expressão das suas ideias barrocas. De outra maneira não poderíamos explicar as suas ridículas pretensões. o homem é regido por leis naturais. a metafísica do século 17 tirou a sua desforra e a sua restauração na filosofia especulativa alemã do século 19. a bela natureza viva e vivificantc. Mas. Foi devido a tal crença metafísica que tudo que lia ou via achava que devia ser um reflexo das suas próprias ideias.era coisa corrente entre os filósofos e publicistas franceses desde mais de meio século antes da publicação da obra dc Feuerbach. análogos aos do sé­ culo 18. afundado nos absurdos metafísicos. Nas Ruínas. Acaso devemos supor que Engels não suspei­ tava sequer da existência de toda essa literatura histórica? Neste caso é de lastimar tão estranho “chefe” da ciência de um partido “cien­ tífico”. Desde que Hegel fun­ dou o seu império metafísico universal. dc Volney. dc que as doutrinas evolucionistas e transformistas. regulares em seu curso. isto é. acreditou até 1842 que o mundo. Marx. este método (concepção indutiva da natureza) produziu o acanhamento intelectual bem característico dos tempos antigos (?) e criou o método do raciocínio metafísico. e que a isso se deve atribuir a sua estranha mania de reivindicar a paternidade das ideias e dos sistemas elaborados pela ciência muito tempo antes do seu nascimen­ to. as suas expressões muito pouco “científicas” . lemos: “Do mesmo modo que o mun­ do. emprestou-lhe os seus sentimentos” (p. deri­ vam da filosofia de Hegel são erros palmares. “ Não foi Deus que fez o homem à sua imagem. A ciência não tem culpa sc Engels. numa das suas obras. deu-lhe o seu espírito. os ataques à teologia. que a natureza. é necessário estudar a natureza e seus fenômenos em suas manifesta­ ções e em sua origem. foram renovados e dirigidos em geral contra toda a filosofia especulati­ va. Foi Marx em pessoa quem a desmentiu solenemente: “Denunciada e derro­ tada pelo materialismo francês. conseqüentes nos seus efeitos. Dir-me-ão que Engels sabia tudo isso. Seja. a ciência dos naturalistas. mas sim o homem quem fez Deus à sua. Sim. Um exemplo nos mostrará a sua maneira de agir. imutáveis na sua essência” (p. 30).” Esta afirmação dc Engels. não foi em proveito do socialismo. segundo o método indutivo. 85). .a de ter o homem divinizado a sua própria natureza na pessoa dos deuses . Sabeis o que ensinou Engels aos trabalhadores? “Transportado à filosofia por Bacon e Locke. neste caso. por que empre­ gou tanta má-fé e se esforçou em criar uma confusão mais que deplorável na cons­ ciência do proletariado? Com que objetivo desviou a opinião dos seus leitores? Se­ guramente. contra toda a metafísica” (K. revestiu-o dos seus atributos. contrários a toda terminologia cien­ tífica. do qual é parte. Sobre o materialismo francês no século 18). Ele ignora completamen­ te que a ideia principal da doutrina ateísta de Feuerbach .316 Teoria Geral do Estado conseguinte.

A fic ç ã o da representação A diferenciação das condições sociais conduz à divisão do trabalho não ape­ nas na produção econômica. 1979. esp. cuja conduta se acha regulada por essas normas. são nomeados ou selecionados mediante procedimentos distintos da eleição popu­ lar. Na maioria delas. México. c cm quase todas as chamadas democracias “representativas” os membros eleitos do parlamento e outros funcionários de eleição popular. e as funções administrativa c judicial por funcionários que são. ou não têm uma responsabilidade que o corpo eleitoral seja capaz de tornar efetiva” (J. enquanto no poder. 343-7. O princípio democrático da autodeterminação é limitado ao procedi­ mento pelo qual tais órgãos são designados. Garner. É necessário que o represen­ . Universidad Autônoma de México. Para estabelecer uma verdadeira relação de representação. A forma democrática de indicação é eletiva. não são. nenhuma das democracias de­ nominadas “representativas” é. Esta é uma característica chamada democracia indireta ou representativa. um governo é representativo quando e na medida em que seus funcio­ nários refletem. também. Não há dúvida dc que. realmente. especial­ mente o Chefe de Estado. 317). O que foi dito implica um considerável enfraquecimento do princípio da au­ todeterminação política. Conforme tal definição. O órgão autorizado a criar ou executar as normas jurídicas é eleito pelos súditos. submetida a tal critério. p. juridicamente. os ór­ gãos administrativos c judiciários são selecionados mediante critérios diversos da eleição popular. de fato não re­ presentam a vontade da maioria dos eleitores. responsáveis perante o corpo elei­ toral. Eduardo Garcia Máynez. W. p. Trad. A função do go­ verno é transferida dos cidadãos organizados em assembleia popular para órgãos específicos. embora eleitos por um corpo democrático constituído. ou que. “não é verdadeiramente representativo um go­ verno em que os funcionários. representativa. Trata-se dc uma democracia em que a função legislativa é cxcrcida por um parlamento dc eleição popular.) Tradução do autor. Dc acordo com a definição tradicional. como também na criação do direito. Political Science and governmenty 1928. a vontade do eleitorado e são responsáveis pe­ rante este. sejam do Legislativo. nomeados por eleição.10 Leituras Complementares 317 21) HANS KELSEN Teoria g e ra l do D ireito e do Estado (Teoria general dei derecbo y dei Estado. não basta que o re­ presentante seja nomeado ou eleito pelo representado. do Executivo ou do Judiciário.

por exemplo. a qualquer tempo. os membros do parlamento não são. no caso de as atividades deste último não se ajustarem aos desejos do primeiro. no caso.. Muitas Constituições democráticas estipulam. por voto popular. ou. já que se achavam submetidos a certas instruções e a qualquer momento podiam ser removidos pelos representados. mediante decisão dos tribunais. verda­ deiros agentes da classe ou grupo profissional.. estabelece: “Todo funcionário público do Estado da Califórnia pode. a Constituição da Califórnia. Os membros destes corpos eram verdadeiros representantes. Normalmente. e que o cumprimento desta obrigação esteja garantido juridicamente. o presidente do Reicb fica impedido de continuar no exercício do cargo. Não obstante. que no art. de todo o Es­ . expressa no voto popular. Seção Primei­ ra. eqüivale a uma reelei­ ção e tem como conseqüência a dissolução do parlamento”. ser removido de seu posto pelos eleitores. porque estes não devem ser representantes de nenhum distrito em especial. a indepen­ dência dos deputados perante seus eleitores. mediante solicitação do Parlamento. É precisamente nesta independência à frente do corpo eleitoral que o parlamento mo­ derno se distingue dos corpos legislativos de eleição do período anterior à Revolu­ ção Francesa. como dizem alguns autores. A recusa cm removê-lo dc seu cargo. 43. podemos citar as Constituições de alguns Estados-Membros dos Estados Unidos da América do Norte. ser removido de seu cargo. X X III. procedimento ao qual se dá o nome de remoção [. que os elegiam. antes do término do mandato. é o poder representado de destituir o representante. o Chefe eleito do Estado e outros órgãos de eleição somente po­ dem ser removidos de seu cargo. Outra exceção nos oferece a Constituição alemã de Weimar.]”. Os membros eleitos de um parlamento moderno não se acham juridica­ mente ligados por quaisquer instruções do corpo eleitoral. mediante o procedimento e na forma aqui estabele­ cida. A garantia. Prin­ cipalmente nas democracias modernas. que. nem podem ser removidos por este. Tal independência do parlamento pe­ rante o corpo eleitoral é um dado característico do parlamentarismo moderno. no art. A Constituição francesa de 1791 foi a que proclamou solenemente o princípio de que não deveriam ser dadas instruções aos deputados. Adotada tal resolução. as Constituições das democracias modernas apenas excepcionalmente concedem ao eleitorado o po­ der de revogar o mandato dos funcionários eleitos. mas de toda a nação. antes do término do seu mandato. que têm a prerrogativa de votar por um sucessor do removido. A fórmula segundo a qual o membro do parlamento não é representante de seus eleitores.318 Teoria Geral do Estado tante se ache juridicamente obrigado a cumprir a vontade do representado. via de regra. estabelece: “O Presidente do Reicb pode. expressamente. Seu mandato legislativo não tem o caráter de um mandat impératif’ como os franceses denominam a função do deputado eleito que se acha juridicamente obrigado a executar a vontade dos eleitores. juridicamente responsáveis perante o eleitorado. Como exceções. A de­ cisão do parlamento deve ser adotada por uma maioria dc dois terços. mas de todo o povo. e apenas em caso de violação da Constituição ou de outras leis.

Todavia. A independência jurídica do parlamento à frente do povo significa que o princípio da democracia é. sc não há nenhuma garantia jurídica de que a vontade do eleitorado seja cumprida pelos eleitores.ou.se acha limitada à criação do órgão legislativo. muito menos a afirmação de que um órgão de eleição só pode formar parte do povo se é o representante jurídico de todo o Es­ tado. de modo a ser necessário conferir a função de legislar a um parlamento eleito pelo povo. Semelhante órgão “representa” o Estado de uma forma que não difere daque­ la em que é representante do Estado um monarca hereditário ou um funcionário nomeado por este. como o povo não pode exercer de forma direta c imediata o poder de legislar. e estes são juridica­ mente independentes dos eleitores. a função do povo . A resposta à pergunta sobre se de lege ferenda o membro eleito do corpo le­ gislativo se encontra juridicamente obrigado a executar a vontade de seus eleitores c. mas preconizando uma ideologia política. então será demo­ crático garantir. é impossível estabelecer uma democracia direta. scr responsável perante estes depende da opinião sobre em que medi­ da seja desejável realizar a ideia da Democracia. tal responsabilidade é inteiramen­ te distinta da jurídica e não justifica a afirmação de que o órgão de eleição é um re­ presentante jurídico de quem o elegeu. e alguns tratadistas chegam a declarar que o mandat impératifé contrário ao princípio do governo representativo. substituído . A afirmação de que o povo se acha representado pelo parlamento significa que. uma espécie de responsabilidade política. na medida do possível. apesar de sua independência jurídica à frente do corpo eleitoral. que a atividade de cada membro do parla­ mento reflita a vontade dos eleitores. portanto. tal poder c cxcrcido por mandato. apesar de que. é uma ficção política. não há qualquer relação de representação ou de mandato. nem pode ser remo­ vido por estes. do corpo eleitoral . A independência jurídica dos eleitos perante os eleitores é incompatível com a representação legal. O fato de que um órgão de eleição não tenha a probabilidade de ser reelei­ to ou a circunstância de que tal probabilidade se acha diminuída se sua atividade não é considerada por seus eleitores como satisfatória. ao agirem assim não es­ tão propondo uma teoria científica. Se é democrático que a legislação seja elaborada pelo povo c se. porém. constitui. em certa medida.10 Leituras Complementares 319 tado. se o eleitorado se acha democraticamen­ te organizado. razão por que não se liga às instruções dos seus eleitores. por razões técnicas. A independência jurídica do parlamento diante do corpo eleitoral somente pode ser justificada pela opinião de que o Poder Legislativo se encontra mais bem organizado quando o princípio democrático de que o legislador deve ser o povo não é levado ao extremo. Sc os escritores políticos insistem cm caracterizar o parlamento da democra­ cia moderna como órgão “representativo”. verdadeiramente. O chamado mandat impératif e a destituição dos eleitos são instituições democráticas. A função desta ideologia é ocultar a situação real e manter a ilusão de que o legisla­ dor é o povo. na realidade. mais precisamen­ te.

cit. op. apesar dc que em sua fun­ ção não restam vestígios da influência do monarca. d. pág. O Secretário de Estado da Justiça fixou publicamente a atitude dos juizes nestes termos: “o juiz não pode ter em face do direito e da lei uma atitude conforme ao dever do Estado Nacional-Socialista. 133-8.) Observemos preliminarmente. I. No direito inglês chega-se ao extremo de supor que o rei está presente. que na Alemanha nazista. 74) ensinam a respeito da interpretação na Alemanha nacional-socialista: “Embora continuem vigentes as grandes codificações alemãs. 1939. s. 29) ALÍPIO SILVEIRA Da interpretação das leis na Alemanha nacional-socialista e hitlerista (In Da interpretação das leis em face dos vários regimes políticos. a independência c a imparcialidade dos magistrados são supridas. Ainda na Alemanha atual. no momento em que a decisão do tribunal é pronunciada. e a pena pode ser apli­ cada a delitos cometidos antes de ela ter sido editada.“é absolutamente indiferente buscar a épo­ ca na qual o Estado julgou necessário sancionar por uma interdição legal seus prin­ cípios racistas Assim. não obstante. Periodicamente são publicadas “ins­ truções” impondo aos juizes as interpretações oficiais. A ideologia da monar­ quia constitucional traz consigo a doutrina dc que o juiz. p. Para ocultar tal desvio de um princípio a outro. usa-se a ficção de que o parlamento “representa” o povo.. Ficção semelhante é a empregada para ocultar a perda de poder sofrida pelo monarca ao scr consumada a independência dos tribunais. contrariamente à regra res­ tritiva . EDU ARDO THEILER.que domina o direito penal clássico e tem sido sempre considerada como essencial (EDUARDO THEILER. o princípio da não retroatividade das leis. a este: as decisões judiciais são dadas “em nome do rei” . Os eminentes jurisconsultos EDUARDO ESPÍNOLA e EDUARDO ESPÍNOLA FILHO. deixa de existir qualquer prazo de prescrição. em seu magnífico “Tratado de Direito Civil Brasileiro” (vol. senão renunciando à neutralidade” (V.320 Teoria Geral do Estado pelo da divisão do trabalho. . Um julgamento de 1936 declarou que o acusado não podia invocar que em Junho de 1935 os casamentos entre judeus e arianos não eram ainda legalmente in­ terditos. “Crise no Direito Moderno” ). afirmou este julgamento que . mesmo as penais.). constitucionalmente “represen­ ta ”. devem os juizes interpretar essas leis segundo a mentalidade nacional-socialista. em espírito.nulla poena sine proevia lege . é considerado como ideia antiquada.

que re­ cusasse reconhecer o caráter obrigatório do pagamento dos juros de um mútuo.La con­ ception hitlcrienne du droit. sob o fundamento de que o programa do partido exige o ‘fim da escravidão dos ju­ ros’. um dos grandes erros do liberalismo consiste em crer que o povo deseja governar-se a si mesmo. porque é ao Führer que compete fixar o grau de realização da Weltanscbauung (concepção filosófica). que cita ECKHARDT). dizia H. págs. 1938. 207-208. não obedeceria a um imperativo nacional-socialista. como se disse. c que foi recusado o casamento dum judeu com uma aria­ na. pergunte a si mesmo: . os ESPÍNOLA observam: “HITLER é o soberano legislador e a mais alta encarnação da justiça. FRANK. fora de todo o texto legal e sem qualquer forma (MARCEL COT . pág. COT . Em outra parte de seu Tratado. Mas o juiz. haurida na unidade do todo popular nacional-socialista e do reconhecimento da vontade do Führer Adolf Hitler’ (Apud M. “Assim e que um juiz se recusou a inscrever no Grundbuch o título de pro­ priedade de um judeu. O povo alemão foi poderoso enquanto foi conduzido). " O indivíduo é absorvido no Volksgeist.JACQUES FOURNIER . que manda interpretar as leis fiscais de acordo com a Weltanscbauung nacional socialista. porque se tornou incompatível com o programa e os princípios do nacional-socialismo. cumpre verificar em que si­ tuação político jurídica ficou a Alemanha.10 Leituras Complementares 321 “Tem-se entendido que o art. e a jurisdição é fazer do juiz um adversário do Führer’ (A. Não! o povo quer ser conduzido e governado. “Se o nacional-socialismo seguiu a orientação do programa com que se apre­ sentou o partido operário alemão em Munich (1921). inamovível e irresponsável. poden­ do pronunciar sentenças imediatamente executórias. estabelece uma regra geral aplicável a todos os domínios do di­ reito. e op. “Num discurso proferido numa reunião de juristas. V.como decidiria o Führer em meu lugar? Esta deci­ são estará de acordo com a consciência nacional-socialista do povo alemão? Então terá ele uma base de consciência bem firme. separar ou opor a soberania. “Não somente as leis do Führer devem ser obedecidas incondicionalmente. também . “A Constituição de W EIM A R não está mais em vigor.La conception nacionale-socialiste du droit des gens. cit. 1938. antes das leis de Nuremberg (COT. “ Citam-se as palavras do constitucionalista CARL SCHMITT: ‘o verdadeiro chefe deve ser ao mesmo tempo juiz. considerando como deve o juiz completar a lei: ‘cumpre que o juiz. ao proferir uma decisão. 54). 1939)” . em 1936. do qual. levando à esfera de sua decisão a au­ toridade do IIIo Reich. . ainda que não expres­ samente revogada. I o da lei de 16 de Outubro de 1934 (Steueranpassungsgesetz). é expressão suprema o Führer. assim também os seus atos independentemente da forma. Observa COT que segundo G Ò R IN G e H Õ H N . por efeito de sua vitória.La conception bitlérienne du droit.

como uma pessoa jurídica de di­ . 1940) versa este aspecto da doutrina nacional-socialista. sucumbe o próprio Estado. que não mais é considerado. COUTURE. (“Tratado” citado. sentido e energicamente realizado pelo juiz alemão’ (Número inaugural de 1 ’Akademie für deutsches Recht. direito reconhecido.. Existe. com a condição que seja de raça pura e que se inspire. até hoje não foi decretada. intitu­ lado Der deutsebe Ricbter. 6. vice-presidente da referida academia. O professor CLAUDE DU PASQUIER. as gerações novas confiam no senso inato do direito que o juiz descobre em si. para o povo alemão. págs. muito em­ bora em todos os pontos substanciais sc tenha tornado incompatível com as leis fundamentais da Alemanha atual. págs. 1934. um vasto movimento geral de dou­ trina que seus autores chamam Kampf wieder das subjektive Recht . com as modifica­ ções introduzidas pelo imperativo do novo regime. “Zeitschrift fiir das gesamtc Handelsrecht”. 262). pág. ou melhor.) Alguns autores legitimam a interpretação contra legem ‘quando o bem do Estado manifestamente o exige’ (SAUER. social e jurídica”. ao tratar dos métodos novos de inter­ pretação na Alemanha atual assim se exprime: “O advento do Nacional-socialismo em 1933 acarretou uma completa reno­ vação das ideias reinantes na Alemanha sobre o direito e sobre a missão do juiz. professor EDUARDO J. “Aliás ‘a lei não é senão um dos aspectos do direito na técnica da vida públi­ ca moderna. 44 c 82). permaneceram as grandes leis e códigos. KISCH. 201-202).322 Teoria Geral do Estado “De modo geral. As construções lógicas dos romanistas foram repudiadas. Nesta luta para a abolição do direito subjetivo. 202-203). mas não é o único’. 1937. uma constituição nova. Vejamos sua douta exposição. mas na concepção universalista do direito e do Estado (BINDER.a luta contra o direito subjetivo. artigo do professor W. Rechts u. no brilhante estudo “Trayectoria y destino dei Derecho Procesal Civil Hispano-Ame­ ricano” (Cordoba. na doutrina recente. junho de 1934. Arch. f. e se funda em copiosa bibliografia. pág. Phil. Soz. cujo horizonte político cra entretanto mui­ to diferente. págs. tomo 28. Existe também ‘um direito não escrito que se des­ prende da alma do povo alemão e que é conforme às necessidades da vida nacio­ nal. A doutrina nacional-socialista apropriou-se assim de algumas das ideias pre­ conizadas pelos adeptos do Freiesrecht. “A própria Constituição de Weimar não foi expressamente abolida. Recht und Wolksmoral im Führerstaat.1934-35. e incorporou-as habilmente à sua mística nacional” (“Introduction à la Théorie Générale et à la Philosophie du Droit”. não num individualismo obsoleto. na Alemanha nacional-socialista. muito embora se proclame que a sua interpretação e a sua aplicação se subordinam aos princípios dominantes na organização político-social do terceiro Reich. que lhe trace definidamente os fundamentos da vida polí­ tica. O eminente jurisconsulte uruguaio.

mas ape­ nas se afirma que o Führer é o intérprete autêntico e único deste estado de consciên­ cia. p. “O juiz não seria mais um meio que o Estado põe à disposição das partes. que é a do Führer. não pôde suportar algumas objeções fundamentais. um dos mais importantes executores da vontade do Führer. Mas esta doutrina. e trata de ex­ traí-lo na forma mais pura possível da consciência popular. Este princípio do povo como comunidade vivente. ROTHENBERGER. O direito nacional-socia­ lista é. segundo a qual o juiz é o Führer dentro do processo. 1937. não é o Estado. Pelo contrário. 637). Mas. que c quem levou mais longe este desenvolvimento. inspiran­ do-se nos sentimentos dessa comunidade à qual serve e pertence” (“Gedankcn zur Neugestaltung des Zivilprozesses”. 504 e segs. tal como é interpretada pelo Führer. o Führer exami­ na essa sentença e dissuade ao cidadão se este estiver equivocado. a admitir outro direito além do que vive na consciência popular. mas como membro ativo da comunidade. in “Deutsches Recht”. O Führer é o investigador ou pesquisador do direito. admite-se que o interprete da vontade popular c o Führer. Pois que o direito (nessa doutrina) reside no povo e é mister interpretá-lo.10 Leituras Complementares 323 reito subjetivo. No processo judiciário o direito é declarado através da única expressão possí­ vel. o Reichsgericht. um estado de consciência popular. Não está acima das partes como órgão neutro. por exemplo. Não se chega. ou assinala ao tri­ bunal os inconvenientes que sua decisão acarreta para o ideal nacional-socialista. mas o povo. in “Zeitchrift der Akademie für Deutsches Recht”. e como o povo não tem fisicamente um órgão único de expressão. que parecia destinada a triunfar. a supressão do direito como norma. a doutrina procurou novos fundamentos para assentar o princípio: De um lado. Outra fundamentação ou justificação mais profunda do referido princípio provém dc FREISLER. sustenta. em compensação. . em um ensaio aparecido em 1937 (“ Richterliche Unabhãngigkeit und Dienstaufschit”. conduziu ao que se chamou “doutrina do Führerprinzip”. e a existência de um direito ocasional para cada caso concreto. admite sempre uma espécie de recurso hie­ rárquico. e. evidente­ mente. tomando como ponto de partida o acima menciona­ do. que nccessita de interprete. As palavras textuais dc SEYDEL. Uma delas. Isto supõe. para decidir seus conflitos particulares. a dc que não podem existir na Alemanha tantos Führer fieis intérpretes do direito. 1935. consequen­ temente. que em 1938 (“Nazional socialistichc Recht und Rechtsdenken”. embora emane do órgão definitivo da justiça. que o direito é o reflexo da consciência popular. como novo aspecto da doutrina. pp. opúsculo) sustentou. Derivou-se toda a ordem jurídica processual civil do princípio do Rechtsfinder. mas um representante soberano da lei. e ver no di­ reito a ordenação da vida desta comunidade”. Se o cidadão se queixa ao Führer que a sentença é injusta. segundo seus próprios definidores. são: “ Deve-se partir do conceito do povo como comunidade vivente no qual o cidadão reveste a condição dc membro.). o pró­ prio receptáculo do direito. a base. que o direito pronunciado 011 declarado pelo juiz da sentença. diferentemente da doutrina fascista. com isso.

não fez caminho.). em sua qualidade de chefe de governo. in “Récuéil d’études sur les Sources du Droit en Phonneur de François Gény. A doutrina dc BAUMBACH. na doutrina de FREISLER. a individualização extremada do direito é uma ideia preconizada pelos adeptos do Freiesrecht. o pro­ fessor americano JO H N D ICK IN SON afirma que tais ideias são “de fato. Freies Recht). não obstante. if not as a rational human heing E KOKOUREK conclui com acerto: “In its extreme forms the \ fre ejudge’ movement in America is nihilistic in tendency”. cit. “free judicial power” movement. mas os fatos. é nada” (“The Problem of the unprovided case”. Some of th em would rest legal judgements entirely on the intuition of the judge. in “Zeitschrift der Akademie”.324 Teoria Geral do Estado A culminância desta doutrina foi efetuada por BAUMBACH (“Zivilprozess und frciwillige Gerichtsbarkeit”. de acordo com esta tendência extrema. Law would not any longer he a compound of unformulated postulates. sob o novo absolutismo. of aholishing or wishing to abolish ali conceptual thinking in law. em sua feição extremada de niilismo legislativo. Neste dia o Führer dis­ se. acrescenta a respeito: “ Acceptance o f it leads to the logical consequence that rules o f law have no official or hinding character and are in their nature oflittle importance. Ora. que começavam a funcionar.Les sources générales des systèmes juridiques actuels”. Ao passo que sob o velho absolutismo a re­ gra legal era tudo. cit. suprimir a justiça para transformá-la cm um poder administrativo dc fundamento discrecionário. 461). tome II . p. e a existência de um direito ocasional para cada caso concreto. Adiante. Vemos como ele friza. it would seem. in “Récueil”. as regras legais deixam dc ter razão de existência numa orga­ nização jurídica perfeita. que ficaria absorvida pelo que hoje chamamos “jurisdição voluntária”. é de tendência niilista. 583). as an officer o f the State. Esta é a doutrina alemã até I o de Setembro de 1939. . pelo menos quando considerada em seus repre­ sentantes mais extremados.. 1938. By th is Une of reasoning the judge is made free. que não era mais o direito. O professor americano ALBERT KOKOUREK assim descreve as tendências extremistas que surgiram nos Estados Unidos: “Some writers have gone to the length. principies. No que toca ao aspecto político das ideias extremadas do direito livre. uma observação à exposição do professor COUTURE. Agora. segundo o qual devia ser suprimida a jurisdição. standards. rules. and discretion” (“Libre Recherche in America”. Esta escola ou método (direito livre. pg. Vemos aí a cha­ mada individualização do direito. “free judge” movement. Com efeito. apenas uma espécie de absolutismo invertido. a supressão do direito como norma.

telle qu’elle se dégage du sens naturel et normal du texte. Se a doutrina nacional-socialista parece aderir a este niilismo legislativo. lamen­ tavelmente enxertado no tradicional corpo dc leis que o nacional-socialismo já en­ contrara. a ce qu il considere comme rexpression de la conscience collective du peuple. pg. suivant le sentiment personnel de /’interprete. mas não deixa de ser tirania” (“Positivism and the Limits of Idealism in the Law”. paradoxal e ilusória porque o intérprete tem de ater-se à vontade real ou presumida do Führer. subs­ tituindo a “consciência coletiva” pela “consciência nacional-socialista”. Ela pode muitas vezes ser inteligente e benevolente. Esta atitude da Escola Histórica .que o eminente T H E O D O R STERNBERG apodou de fetichismo espiritual . 1932. e incorporou-as cm seu misticismo jurídico. C O H E N é exatamente da mesma opinião de DICKINSON.) . cit). au moment ou il doit appliquer la loi. 1927. con­ cepção do direito livre foi forjada pelo hitlerismo. com efeito. mas também paradoxal e ilusória. répugne. 1949. 258). O Estado Nacional-Socialista habilmente apossou-se das ideias básicas da Es­ cola Histórica de SAVIGNY. Em conclusão. tirania ou despotismo. “ Columbia Law Review”. 237). il rihésitera guère à préférer a sou imparfaite traduction la révélation directe de cette source commune et plus profonde” (“Méthode dMntérpretation et Sources en Droit Privé Positif”. Ela é. A atitude da Escola Histórica em face da autoridade da lei é assim sintetizada por GÉNY: “5/ la pensée du législateur. afim de afastá-las pela simples ação do juiz.foi adotada pelo Estado Nacional-Socialista. que é uma expressão das tendências extremadas do Freies Recht. 27. 23) JOSÉ PEDRO GALVÃO DE SOUSA Conceito e natureza da sociedade p o lítica (São Paulo. uma nova e original. cumpre observar que seu horizonte político é muito diferente. KOKOUREK também é do mesmo sentir: “To rest the task o f legal justice entirely on the judgey s discretion would be nothing less tban a surrender to tyranny” (op. na extensão em que ele não é ligado pela lei. pois assevera: “Ser governado por um juiz é.10 Leituras Complementares 325 O professor M O R R IS R. O resultado final é um critério perfeitamente autocrático de aplicação. Deve também observar-se que a “consciência nacional-socialista” e a “vontade do Führer” se confundem praticamente.1.

Para determinar exatamente o conceito c a natureza da sociedade política. em tor­ . pois como nos ensina a filosofia o fim é a primeira das causas. Analisando-sc os diversos tipos dc sociedade política encontrados através da história. de seres racionais. Sociedade de pequenas dimensões. escre­ via Boccio. tal colaboração deve ser permanente. não consti­ tuem verdadeira sociedade. além de voluntária. no cárcere. o que hoje chamamos de Estado. “Pessoa”.326 Teoria Geral do Estado 1a Parte A sociedade política. quer dizer. tem a mesma significação: a cidade. com o ajuntamento de pessoas numa praça. Resta saber quais as notas específicas deste último. são a aldeia e a tribo. “c uma substância individual dc natureza racional” . Os animais gregários. o filósofo que. Caracteriza-se pela localização territorial. Todas essas notas do conceito genérico de sociedade devem naturalmente exis­ tir no conceito dc socicdadc civil ou política. como as abelhas ou os castores. grega ou latina. a razão de ser de qual­ quer sociedade: o bem comum. Nessa breve definição encontramos os seguintes elementos: a) fim ou bem comum. Não se deve confundir sociedade com multidão. seus elem entos com pon entes e principais ca ra cte rística s As expressões “sociedade política” e “sociedade civil” equivalem-se na etimo­ logia: “política”. designando não a urbs. resultante da prática de actos racionais e livres. b) pessoas ou indivíduos racionais. quer dizer. a tribo fun­ da-se em vínculos de parentesco. Reaparece frequentemente 11a linguagem dos escritores de hoje uma ex­ pressão muito antiga das mais sugestivas para indicar o fim. E. o que não se dá. A palavra originária. c) união moral e permanente. lembremos antes dc mais nada o conceito dc sociedade cm geral. num teatro. Sociedade é uma reunião de pessoas. torna-se fácil perceber cm todos eles alguns característicos fundamentais comuns. “civil". num estádio. pro­ curava a consolação da filosofia para balsamizar seus sofrimentos. Tornou-se clássica a definição dc pessoa formulada por Boccio. é muitas vezes um tipo interme­ diário entre a família e a tribo. Chegamos assim ao terceiro elemento de toda sociedade: a união moral. de polis. mas a comunidade or­ ganizada politicamente. Quanto à aldeia. Os primeiros desses tipos. por exemplo. dc civitas. isto é. Sem colaboração voluntária dos sócios não pode haver sociedade. Sociedade c a união moral e permanente dc várias pessoas cm vista dc um fim comum. Em primeiro lugar. pois lhes falta o conhecimento do fim social e a cola­ boração voluntária para alcançá-lo. o fim. pela sua maior simplicidade e também pela ordem cronológica. Só entre pessoas há sociedade.

10 Leituras Complementares 327 no do mercado ou da cidadela. as sociedades heterogêneas cm que os grupos familiares sc foram constituindo até chegar aos clãs matronímicos ou patronímicos e depois às pequenas famílias agrupadas em aldeias. sociedade rudimentar e indifercnciada. seja esse povo dominan­ te de estrutura tribal e patriarcal (Impérios do oriente). aos poucos. É um pressuposto ideológico que tem contra si o relato bíblico da criação do homem e da constituição da primeira socie­ dade por Deus. Com efeito. de­ senvolvendo-se em torno de um mesmo tronco. Outras vezes. Dcssc caos originário te­ riam saído. Partindo. e além disso faz parte de outros agrupamentos sobrepostos ou de qualquer modo relacionados entre si. O indivíduo nunca está abandonado a si mesmo ou aos poderes absolutos da comunidade total. devemos fazê-lo levando em conta as peculiari­ dades distintivas do tipo de sociedade cuja fisionomia nos interessa agora traçar. dá origem às sociedades patriar­ cais. é formada por famílias de procedência diversa associadas num mesmo local. no sentido em que aqui o tomamos. gerada pelo naturalismo so­ ciológico do nosso tempo. Fato importantíssimo este para assinalarmos com precisão a natureza da so­ ciedade política. Pertence sempre a um grupo familiar que se integra no todo social. Em todas essas formas dc sociedade política um fato resulta desde logo pa­ tente. . Uma transformação em tudo semelhante ao processo evolutivo do cosmos. Repelem-no a história e a etnologia. o Império c a Nação. da aldeia c da tribo. apresenta-nos um vasto organismo administrativo e a centraliza­ ção política com o predomínio de um povo sobre outros. Daí a polis e a civitas dos antigos. pois. cujos membros estariam dc tal modo absorvidos pelo todo coletivo que nem sequer teriam consciência dc sua existência pessoal. à formação dos mundos oriundos da nebulosa primitiva e à diferenciação das espécies segundo o quadro traçado em esquemas simplifica dores e arbitrários. Sociólogos evolucionistas falam-nos da horda. a cidadc. A organização política da N a­ ção é o que propriamente sc entende hoje por Estado. podemos considerar os diversos tipos dc sociedade política na ordem cm que sc sucederam historicamente c veremos então formarem-se a confederação dc tribos. A tribo. a tradição oral dos povos mais antigos e dos selvagens de hoje. O Império. O postulado da horda é uma hipótese absurda. aplicando-se aqui os elementos acima discriminados como partes lógicas do conceito de sociedade. surgindo quase sempre no centro de uma área de terra cultivada. podendo neste caso também haver associação ou confederação de Estados. de organização citadina (Império Romano: predomínio de uma “cidade” sobre outras e sobre outros po­ vos) ou de formação nacional (Império Britânico). A cidade pode ser constituída por uma confederação de tribos que se torna se­ dentária.

Se isto se dá com as coisas da natureza física. nem a causa formal teria realização concreta. cuja determinação nos faz conhecer a origem da sociedade. A forma de um instrumento se modela con­ forme o fim a que se destina. Por outras palavras. Para saber cm que consiste o bem comum. temos que considerar a autoridade. Causa eficiente é o próprio homem. A forma da sociedade política. princípio de uni­ dade social. pela sua cooperação voluntária em vista do escopo comum. e sua matéria não consiste 11a massa amorfa dos cidadãos. por essa conjugação de esforços que a autoridade torna efetiva e assegura permanentemente sob uma determinada ordenação jurídica. Como ficou dito. estes elementos à sociedade política. a sociedade política não resulta de uma simples soma de indi­ víduos. sem cuja ação unificadora e coordenadora nem a causa final seria alcançada. nunca se vê o indivíduo isolado sem vínculos sociais em face da civitas. como de toda sociedade. E a sua matéria. Apliquemos. Tanto a causa final como a causa eficiente são causas extrínsccas. A causa formal e a causa material. É através desses agrupamentos. pois. especialmente a família. dc que se constitui? Aqui está um ponto nevrálgico na concepção da sociedade civil. unificando-os na prossecução do bem comum. não me­ nos importante é a consideração do fim em se tratando do ser social. naturais ou voluntárias. Causa final é o bem comum das pessoas reunidas política 011 civilmcntc.328 Teoria Geral do Estado Os elementos já mencionados indicam-nos a causa final da sociedade (bem co­ mum). Além desses elementos. Toda sociedade política é uma sociedade composta de outros agrupa­ mentos reunidos entre si e subordinados ao poder que se constitui acima destes cír­ culos sociais menores. do seu constitutivo essencial. su­ bordinados a uma autoridade suprema. é o termo a que se dirigem as so­ ciedades mais simples. é que nos dão propriamente o conhecimento da natu­ reza de um ser. ter presente a finalidade pessoal do homem. Muitos erros se têm cometido por não se levar em conta devidamente qual a matéria societatis nas comunidades politicamente organizadas. A sociedade política resulta da ten­ dência natural do homem para a vida em comum. A causa material da sociedade política está nas famílias e nas outras associa­ ções. Mas a constituição de qualquer coisa depende do fim para que é feita. que a compõem. que não exclui a liberdade. fator da efetiva coordenação das vontades individuais em vista do bem comum. causas intrínsecas. a causa material (pessoas) e a causa formal (união moral). cuja natureza nos escapará por completo se não tivermos presente a razão de ser sociedade. Fica faltando a causa eficiente. isto e. Toda sociedade requer necessariamente uma autoridade. O Estado é pre­ . Esta causalidade eficiente pode dar-se pela vontade livre do homem (sociedades puramente voluntárias) ou então por uma inclinação natural. que o indivíduo se integra 11a vida social. que pela sua ação forma todas as sociedades de que participa. nos é dada pela pró­ pria união dos seus membros. é prcciso. antes de mais nada.

Reunidas as famílias. Nações independentes constituem-se em Estado. A família é unidade social. formam a socie­ dade civil ou política. 4) Unidade interior dos vínculos sociais c coordenação exterior. 2) Formação histórico-natural. a aldeia. Como a célula é a última parcela de vida. Entretanto. Constitui um centro relativamente autônomo de vida. É uma sociedade composta de outras menores. para subsistir. resultam do trabalho das células assimilando os elementos indispensáveis à subsistência de todo o corpo. cujo remate é quase sempre uma nacionalidade plena­ mente constituída. pois. porém. organizados juridicamente. A célula é unidade vital. que geralmente compreende também outros agrupamentos. pode-se verificar que a família aí exerce uma função análoga à da célula num todo orgânico. para dar à Nação existência ju­ rídica. por sua vez. a não ser em sociedades decadentes e profundamente alteradas 110 ínti­ . assim definir a sociedade política: conjunto de famílias e de outros grupos. sob a direção dc uma autoridade cen­ tral suprema. O Estado é a sociedade política mais desenvolvida. variam de sociedade para sociedade. À família se tem chamado a “célula social”. Supõe agrupamentos de longa formação histórica.10 Leituras Complementares 329 cedido de uma estrutura social organizada que nele se aperfeiçoa e cujo fundamen­ to natural e histórico não está na ação dos indivíduos solitários. na ordem social. § 1o Pluralidade de grupos E óbvio que sem pluralidade de pessoas não pode haver sociedade. 3) Organização dos bens particulares. em que se decompõe o complexo orgânico. das energias que circulam por todo o organismo. mas no dinamismo dos grupos so­ ciais autônomos convergindo para uma commnnitas communitatum. Passemos a um breve exame dc tais propriedades. além da pluralidade de pessoas. sc bem que imperfeito. de época para época. Surge 110 termo dessa formação. tampouco na organização da coletividade pelo poder central. O núcleo familiar exis­ te sempre. Dentre estas merece particular aten­ ção a família. pois necessita. como se dá com as sociedades políticas mais elementares: a tribo. Estes agrupamentos. estas energias. cons­ titui o núcleo fundamental da comunidade. Podemos. simples reuniões de famílias. Mas a so­ ciedade política supõe. sem cair no exagero dos que a identificam em tudo aos corpos vivos. Em toda sociedade política e particularmente no Estado encontramos os se­ guintes característicos: 1) Pluralidade de grupos. Comparando-se a sociedade a um grande organismo. Podem mesmo deixar de existir. pluralidade de grupos. c o Estado pode ser defini­ do como a organização política da Nação. assim também a família.

ordenada à conservação da espécie. casos esporádicos e passageiros. Inserindo-se no plano do espiritual e do temporal. bens que a sociedade civil deve ajudar a conseguir na ordem física. pelo contrário. O município já é uma . E só pelo trabalho podemos assegurar a própria subsistência. portanto. A célula reduz-se à simples parte de um todo. só o consegui­ mos pelo trabalho. muito maior que a da célula como centro de atividade biológica. o modo de ser de cada um na sociedade civil. Mas esta integração sc faz também através dc outros agrupamentos. O trabalho c dever primordial do homem e manifesta