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Livro Visibilidade e Resistência Negra

Livro Visibilidade e Resistência Negra

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FRANK MARCON

VISIBILIDADE E RESISTÊNCIA NEGRA EM LAGES

projeto gráfico e editoração eletrônica Estúdio Letras Contemporâneas Ilustração da capa Cacimba da Santa Cruz. de Marino Malinverni.letrascontemporaneas.com. by Frank Marcon Capa.br . www. primeiros anos do século XX. Acervo família Malinverni.Copyright © 2010. Preparação de originais Fábio Brüggemann Conselho editorial Daniel Mayer Fábio Brüggemann Péricles Prade ISBN 978-85-7662-52-9 Todos os direitos reservados à LETRAS CONTEMPORÂNEAS OFICINA EDITORIAL LTDA.

Para dona Basilícia. . dona Marieta (Mulata) e seu Sebastião Ataide.

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....” Carlo Ginzburg “Quando você for convidado pra subir no adro/Da Fundação Casa de Jorge Amado/Pra ver do alto a fila de soldados.“A mais estúpida mania dos brasileiros. reze pelo Haiti/ O Haiti é aqui. nem o disco de Paul Simon/ Ninguém é cidadão/ Se você for ver a festa no Pelô.” Lima Barreto “O fato de uma fonte não ser ‘objetiva’ – mas nem mesmo um inventário é ‘objetivo’ – não significa que seja inutilizável. quase pretos de tão pobres são tratados/ E não importa se os olhos do mundo inteiro/ Possam estar por um momento voltados para o largo/ Onde os escravos eram castigados/ E hoje um batuque. e se você não for/ Pense no Haiti.. pobres e mulatos/ E quase brancos. nos deslumbra e estimula/ Não importa nada: nem o traço do sobrado/ Nem a lente do Fantástico. Caetano Veloso e Gilberto Gil . Olha que ninguém quer ser negro no Brasil!. o Haiti não é aqui [. e logo das com os clichês muito negros..] )”. é a aristocracia. a mais estúpida e lorpa. Abre aí um jornaleco desses bonecos. um batuque/ Com a pureza de meninos uniformizados de escola secundária em dia de parada/ E a grandeza épica de um povo em formação/ Nos atrai. quase todos pretos/Dando porrada na nuca de malandros pretos/ De ladrões mulatos e outros quase brancos/ Tratados como pretos/ Só pra mostrar aos outros quase pretos/ (Que são quase todos pretos)/ Como é que pretos.

8 .

.................................................................................................................................................................................................................127 Bibliografia ....................... 15 Capítulo 1 O negro lageano no campo e na cidade..............................................11 Introdução .............................................................................. visibilidade histórica ...................................................................................................................................................................................................................................... 123 Notas ...................... 25 Capítulo 2 A “cor” manifesta: práticas cotidianas contra a “cor” inexistente .........................................Sumário Prólogo .............................................................. 57 Capítulo 3 “Homens de cor” no espaço urbano de Lages ...................................................... 117 Anexos .......................................................................................................................................... 91 Considerações Finais ............................................................ 139 9 .

10 .

Ilka Boaventura Leite. a partir de pesquisa realizada entre os anos de 1997 e 1999. no acervo de jornais da Biblioteca do Estado de Santa Catarina.Prólogo E ste livro foi escrito originalmente no ano 2000. encontrando novas possibilidades de análise e novos sujeitos de pesquisa. recorrendo ainda a entrevistas com alguns descendentes de africanos octogenários na cidade de Lages. A maior parte foi feita nos arquivos judiciários de Lages e de Florianópolis. Joana Maria Pedro e Maria Bernardete Ramos Flores. Tais referências. bem como a inspiração indiciária da “micro-história italiana” e a influência da semiótica na 11 . A contribuição mais interessante daquele momento foi a desconstrução dos discursos sobre a invisibilidade de alguns grupos sociais e o estímulo às releituras críticas da produção ensaística. em forma de dissertação de mestrado. científica e documental sobre o estado de Santa Catarina. por pesquisadores como Élio Cantalício Serpa. O principal argumento do trabalho surgiu a partir do contato com algumas publicações realizadas nos anos noventa. que enfrentavam o desafio de questionar os discursos historiográficos e sociológicos estabelecidos.

como encontrar entre os atores dos processos judiciais. a leitura detalhada dos documentos. cruzamentos indiciários e análises densas dos textos narrativos dos depoimentos e testemunhos integrantes dos processos. Visões da Liberdade. as análises que realizamos. corrente entre alguns historiadores e cientistas sociais brasileiros. a partir daí. priorizamos o período pós-escravidão. a linguagem jurídica utilizada e. tivemos outros desafios. a estrutura dos documentos. e a metodologia utilizada para tal fim. aqueles que eram mencionados ou identificados de alguma forma como negros. e. no século XIX. inspiraram. Diferente do recorte de Chalhoub. que nortearam boa parte desta pesquisa. A existência e a disponibilidade desta documentação no Fórum de Lages e no Tribunal de Justiça de Santa Catarina foram fundamentais para que a pesquisa ganhasse corpus cronológico e temático adequados. libertos e livres no Rio de Janeiro. que cobriu as décadas finais do século XIX e as décadas iniciais do século XX. 12 . associadas a técnicas de tabulação de dados. naquele momento. teve influências muito peculiares a partir da leitura do livro de Sidney Chalhoub. vítimas ou testemunhas nos processos. para tal caso. fossem eles réus. A utilização dos processos judiciais. mas algumas pareceram mais interessantes aos propósitos iniciais de demonstrar a presença negra na região. sobre escravos. Os processos judiciais se mostraram com inúmeras possibilidades de análise e de prioridades interpretativas.“antropologia interpretativista norte-americana”. A pesquisa com os processos judiciais exigiu certa familiarização sobre os tramites processuais.

o leitor já deve imaginar que está diante de um livro com a característica peculiar das influências de um momento relevante de renovação do “olhar” sobre o tema da escravidão e da história das populações negras na Região Sul. bem como sobre o uso 13 . o que foi imprescindível para análise das tensões sociais que surgiam dos depoimentos dos réus. muitas vezes permeados pela emergência de referências à “raça” ou à “cor” dos envolvidos. possibilitaram a análise sobre as conexões de uma ampla teia de relações e tensões sociais próprias da região. de comportamentos e de convicções sociais. Diante de tais considerações. das vítimas. Também poderá se deparar com algumas categorias de análise e um vocabulário que expressam em muito as orientações teóricas. estava em voga na época. sugerida por Heloísa Jochmins Reichel.As características dos processos crimes e dos inquéritos policiais exigiram ainda a utilização de teorias analíticas que dessem conta de uma peculiaridade importante destes documentos: os conflitos sociais recorrentes entre os envolvidos. imaginando que ele ainda tenha algo a contribuir sobre o tema das populações negras no Sul do Brasil. A categoria “resistência”. Publicar este livro depois de dez anos é gratificante pelo desafio de ampliar à difusão de seu acesso entre pesquisadores. dos técnicos do judiciário e das testemunhas que participavam dos processos. orientadora da pesquisa. professores e outros interessados. num contexto de teorias que revisavam o marxismo a partir da “história social”. Contradições de valores. as preocupações e o contexto de uma dada época em que o texto foi originalmente escrito.

neste caso. Além disto. com as quais este livro pode contribuir direta ou indiretamente. no caso mais específico da pesquisa com processos judiciais.de algumas fontes e metodologias de pesquisa. principalmente. num contexto de amplo debate sobre políticas de ações afirmativas. da necessidade ou não de cotas raciais nas universidades e. principalmente aquelas sobre inclusão do conteúdo de História da África e Cultura AfroBrasileira nas escolas. de inspiração por possibilidades de pesquisas interdisciplinares e. entre outros. dos debates em torno da questão quilombola. encontramo-nos em um momento importante de discussões teóricas sobre identidades. Frank Marcon Aracaju. outono de 2010 14 .

os meios de comunicação de massa vêm construindo uma imagem de loira catarina. ao observarem elementos específicos da narrativa sociológica. Entre eles. a antropóloga Ilka Boaventura Leite (1996) e a historiadora Patrícia Freitas (1997) abordaram a “invisibilidade”2 e “insignificância”3 negra na historiografia. Joana Maria Pedro e outros (1996). literária ou histórica sobre os descendentes de africanos. acaba-se acrescentando. desta forma. pelo viés da desconstrução dos discursos históricos. literários e dos meios de comunicação que projetaram e projetam a imagem de um Estado catarinense branco e europeizado. mais um dos atributos pagos por populações de origem africana em Santa Catarina. Além da historiografia. um pedaço da Europa no Sul do Brasil. denun15 . e. (p.Introdução lguns trabalhos recentes de autores ligados à História e à Antropologia Social em Santa Catarina têm tratado da “invisibilidade negra” no Estado. portanto. afirmam que: A invisibilidade tem sido. As autoras. 233) A Além de Joana Maria Pedro (1996). no artigo “Escravidão e preconceito em Santa Catarina: história e historiografia”1. mesmo que involuntariamente. mais uma forma de discriminação: a negação da existência e da memória.

40) Desde as primeiras décadas do século passado até os anos de 1980. sugerindo que existiram relaões mais democráticas e igualitárias entre escravos e senhores ou. Walter Piazza6. Segundo a antropóloga Ilka Boaventura Leite. fundamentada a partir de uma análise do passado colonial. a historiografia sobre Lages – município localizado na área central de Santa Catarina – re- 16 .ciaram a “negação da existência e a negação da memória” em relação àquelas populações. em algumas de suas produções. sugere que em algumas áreas e em certos tipos de atividade. A segunda. Estas relações seriam decorrentes sobretudo do modelo econômico implantado. foram: Heitor Blum4. de sua reduzida importância histórica e. duas “especificidades” do tratamento historiográfico sobre a temática dos negros em todo o Sul do Brasil contribuíram para “invisibilizar” a sua presença nesta região: A primeira. entre negros e a sociedade catarinense em geral8. Renato Barbosa5. Concentrando tal problema num espaço mais específico dentro do Estado. eles confirmaram o discurso da insignificância numérica dos negros no Estado. p. 1996. ainda. posteriormente. como ocorreu em outras regiões do Brasil. tradicionalmente. (Leite. Fernando Henrique Cardoso e Octávio Ianni7. afirma que o negro teve e tem presença rara. sempre usando como método de análise e discurso a comparação com outras regiões do Brasil. existiram relações mais democráticas e igualitárias. Osvaldo Cabral. o negro em Santa Catarina. em Santa Catarina. inexpressiva ou insignificante e atribui a isto a ausência de um grande sistema escravista voltado para exportação. os nomes mais expressivos que focalizaram. No entanto.

tanto para os pesquisadores que os seguiram. em artigo escrito sobre “A escravidão numa área de pastoreio: os ‘Campos’ de Lages” . mas argumentam pela sua “insignificância” numérica e produtiva. como define Patrícia Freitas (1996)9. diz que “[. vindas de historiadores que falam de um lugar como o Instituto Histórico. Ao trabalharem com o período escravista.. quanto para o senso comum local. Walter Piazza (1990). 181).. e também membro do Instituto Histórico e Geográfico de Santa Catarina. ao fazer uso de censos e matrículas de escravos. As conclusões. e membro do Instituto Histórico e Geográfico de Santa Catarina. (p. historiador da região de Lages. O fato de a historiografia tradicional do Estado ter identificado um número menor de escravos em relação a outras províncias do período imperial. Lages não foi um município de grande população escrava”.] uma das maiores evidências deste estudo é o pequeno número de escravos em relação à propriedade fundiária. O historiador. de pecuária extensiva”... “espaços de saber autorizado”. ambos admitem a existência negra na história da região. não é argumento suficiente para associarmos que tais números correspondessem à toda a população negra da região. pois é necessário reconhecer que houve um significativo número de descendentes de africanos livres ou libertos em 17 . conclui que “[. e considerando sua extensão territorial.] em relação ao restante da Província de Santa Catarina. Licurgo Costa (1997) .produziu o mesmo discurso da “invisiblidade” e da “insignificância” negra em sua história. se consolidaram como insofismáveis. 272). (p.

porque a população negra não sumiu instantaneamente com a abolição. em 1888. a existência da população negra estigmatizada por ele. Segundo Lilia Moritz Schwarcz (1995).13 Com base nas teorias “racialistas” europeias. Além disto. 34). o reconhecimento da existência histórica dos descendentes de africanos não pode ficar restrito aos anos de escravismo. a miscigenação11 da sociedade brasileira12 começou a ser pensada por grande parte da intelectualidade como alternativa possível ao branqueamento da população do país. A necessidade de esquecer o passado escravocrata e. o evolucionismo e o darwinismo-social10. Atualmente. estas teorias eram assimiladas “por parte das elites intelectuais e políticas brasileiras trazendo a sensação de proximidade com o mundo europeu e de confiança na inevitabilidade do progresso e da civilização.Santa Catarina. o discurso da imprensa e de parte da intelectualidade daquela época orientava pelos interesses de uma elite branca e burguesa. apesar da referência à “cor” ter desaparecido dos registros estatísticos. por consequência. tornando-se os veiculadores das ideias de progresso e civilização que ela absorvia do exterior. Desde os últimos anos do século XIX. era justificada pela reprodução de teorias científicas absorvidas da Europa. da documentação oficial e da historiografia. entre elas: o positivismo. Ao mesmo tempo. como foi predominantemente focalizado por aqueles que estudaram o negro na região.” (p. acrescentaram ao determinismo ra18 . um dos maiores desafios temáticos em relação à visibilidade negra é trabalhar com a história da população negra após a escravidão.

a eliminação gradual da barbárie que o negro e o índio representavam.] na desigualdade das raças humanas. Segundo Thomas Skidmore (1989). ocorreria uma miscigenação seletiva.16 A intelectualidade brasileira concluía. como prioridade para a nação atingir “foros de civilizada”. (p. Silvio Romero escrevia.. de vez que as teorias racistas passaram a ser interpretadas pelos brasileiros como confirmação das suas idéias de que a raça superior – a branca –. Durante o período alto do pensamento racial – 1880 a 1920 – a ideologia do ‘branqueamento’ ganhou foros de legitimidade científica. nas páginas da Revista do 19 . Para os teóricos da época. Inserido em tal hierarquia. 1987. numa seleção natural e social que conduziria a um povo brasileiro branco num futuro não muito remoto.cial a crença “[. p.. assim. vinculando a capacidade intelectual e o posicionamento social dos indivíduos às características raciais do seu grupo.15 Promover a invisibilidade negra foi um dos suportes da “ideologia do branqueamento”. as previsões deterministas europeias de degeneração racial brasileira pela mistura das raças. alegando que através da “mestiçagem” é que se construiria um “Brasil branco”. e principalmente. por sua vez. a hierarquia social14 existente no país. 25). Segundo Lilia Schwarcz (1995).” (Schwarcz. através dele e do estímulo à entrada de imigrantes no país. 63) Esse discurso racial determinista à brasileira legitimou. onde prevaleceria a vitória da “raça” branca superior. o “mestiço” passou a ser pensado como sendo antídoto ao veneno da degeneração. acabaria por prevalecer no processo de amalgamação. e um meio para a conquista de uma harmonia racial após a abolição. Contrariavam.

porém compartilhada por grande maioria de seus pares. naquela época. p. melhor adaptado ao meio – que recaíam as esperanças do autor. Romero.” A “ordem” para civilizar passaria pela prioridade de reordenação e disci-plinação do espaço público. “o horizonte vislumbrado pelas elites locais foi o de civilizar o povo a partir dos paradigmas europeus. em vez de lamentar a “barbárie do indígena e a inépcia do negro”. resumindo uma ideia polêmica na época. segundo Serpa (1995. 115) Foi também naquele mesmo período – dos últimos anos de escravidão às primeiras décadas da República – que se enfatizou a necessidade de consolidação de um processo “civilizador”17 e urbanizador da sociedade brasileira. embelezamento da cidade. Assim. corroborada pelos intelectuais brasileiros da época. sobre suas conclusões a esse respeito. que esteve empenhada em coagir as manifestações populares e em propagar um discurso de igualdade e mestiçagem racial que invisibilizasse e imiscuísse o negro numa massa popular única20. a característica dos primeiros trinta anos do período pós-escravista foi o prevalecimento de uma orientação ideológica19 e política. Lilia Schwarcz (1995): Tomando como suposto inicial que ao elemento branco cabia um papel fundamental no processo civilizatório. 8). Diz. através da higienização. partia para soluções originais: estava na mestiçagem a saída ante a situação deteriorada do país e era sobre o mestiço – enquanto produto local. 20 . surgimento de sociedades recreativas privadas e a reformulação dos códigos de posturas e leis municipais em geral18. de novas edificações. Em Lages. em 1908. (p.Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro.

portanto.” (Ortiz.. que o incluía no discurso e o excluía ao exercício prático da cidadania. assinada em 1888. outro marco referencial de sua história foi ano de 1918. em algumas de suas práticas cotidianas21. p. justamente em uma época em que se fortalecia. a diferença ante uma suposta identidade nacional homogênea. 1985. Para o negro lageano. não significou apenas o direito jurídico à liberdade física. além da abolição. Naquele ano.Para toda a população brasileira. Para os negros. fundou-se o Centro Cívico Cruz e Souza – hoje com noventa anos – como um “clube para negros”. observando. 22).. mas o momento de sua inserção no mercado de trabalho e de consumo. de renovação de suas manifestações e tradições culturais. “[. a Lei Áurea. o Centro Cívico Cruz e Souza tornou-se o espaço específico onde o negro passou a exercer alguns aspectos de sua sociabilidade. da reformulação dos objetivos a serem alcançados para sua própria sobrevivência e a possibilidade aberta para a conquista de novos espaços sociais. reconhecendo a sua ascendência africana e escrava e.] o espírito nacionalista que procura se desvencilhar das teorias raciais e ambientais características do início da República Velha. 21 . Assim. manifestada através do discurso e de práticas civilizadoras da sociedade. as formas de resistência articuladas por eles contra a dominação da elite branca. A proposta deste livro é perceber a visibilidade histórica das populações de origem africana em Lages durante as primeiras décadas da República. principalmente a de origem africana. políticos ou econômicos. no Brasil. representou um marco histórico.

para encontrarmos respostas aos problemas da visibilidade e da resistência negra em relação ao projeto civilizador.Tal objetivo tem por inspiração a seguinte reflexão de Joana Maria Pedro (1996): Historicizar a criação de instituições e espaços de sociabilidade. não de forma fragmentada. apontamos a “cultura popular” como “defesa” contra o exercício de dominação por parte de outros grupos sociais. Entendemos aqui “cultura”. a cultura dos descendentes de africanos – inseridos na heterogênea camada de populares – nos mais diversos contextos do seu cotidiano.] (p. 22 . um grupo social só adquire existência ao longo do processo de luta que o leva à gradual aquisição de identidade cultural e política. a serviço dos próprios interesses do “popular”. mas sim como costume. Observar a construção de diferenciadas formas de resistência articuladas nos embates do cotidiano. É necessário investigarmos os “costumes”. Thompson (Apud. o identificam culturalmente. Dessan. Perceber a ressignificação de valores ditos “brancos”. As manifestações cotidianas de um grupo social inserido num contexto de relações com outros grupos sociais se chocam. P. formas manifestas de manutenção ou exercício de tradições e usos habituais que caracterizam as ações de um grupo social como resistência contra a dominação. 244) Para E. que possa distrair-nos a atenção das existentes contradições sociais. sempre que os interesses em defesa de seus costumes são confrontados. São estas ações que ajudarão a tirar as populações negras da invisibilidade [.. capaz ainda de transformar-se de acordo com suas relações sociais. A padronização das formas de agir e se comportar de um determinado grupo. Aqui.. 1992).

Segundo a análise que o historiador Élio Serpa (1996) faz sobre Lages. 15) Com o processo de abolição e implantação da República. sobre o combate dessa elite em relação às manifestações culturais tradicionais. renovaram-se as formas de dominação sobre os descendentes africanos. 17) Sidney Chalhoub (1990). através de processos judiciais. através das diversas visões e manifestações de liberdade. em A reformulação das condutas e das sociabilidade durante a Primeira República: O horizonte vislumbrado pelas elites foi o de civilizar o povo a partir dos paradigmas europeus. em seu estudo sobre o fim da instituição escrava no Brasil. p. ( p. portanto. surgiram processos de luta no interior do 23 . Porém. elas subsistiram em meio à discriminações e até porque a existência de grande quantidade de descendentes de africanos denunciava que estas expressões culturais ainda estavam presentes na própria permanência destes no convívio social. Élio Serpa (1996) diz o seguinte: Isto não quer dizer que estes tipos de manifestações deixaram de ser cultivadas. Manifestações culturais. além de outras que destoassem do exemplo de “civilização” europeia. passaram a ser consideradas como sinônimo da “não civilização” e. por exemplo. combatidas por uma “elite burguesa e branca”22. 1996. (Serpa. tradicionais e populares. criando novas formas de sociabilidades que denotassem mudanças de hábitos culturais considerados rústicos e obsoletos. antes marcada pela escravidão negra. embora sofrendo ingerências de políticas e práticas segregacionistas. enraizados numa população marcada pela heterogeneidade étnica e cultural. analisou o “significado de liberdade forjado pelos negros durante a experiência escravista” e concluiu que.

inseridos na camada popular. diante das formas de dominação exercidas contra os descendentes de africanos. 1990. 25). na tentativa de construção de identidades regionais e nacionais. Reconhecer e evidenciar a existência de uma “hegemonia de classe” não implica necessariamente a esterilização das lutas e das transformações sociais ou vigência de um consenso paralisante (Thompson. Desconstruir as noções de invisibilidade e de “inexistência teórica” é necessário para demonstrar como o discurso das elites mascarou a presença negra. cabe a análise de como se cultivaram ou transformaram as manifestações de resistência negra. 24 . p. Atentando para a afirmação acima. Apud: Chalhoub. em Lages. do período que vai da Abolição da Escravatura até a fundação do Centro Cívico Cruz e Souza. aliadas aos conceitos eurocêntricos de civilização.cativeiro que revelam a atuante participação do negro no processo de extinção da escravidão.

social e político de todo o Planalto Serrano catarinense. e uma camada popular de homens livres de diversos matizes compuseram o mapa 25 . bugres gentios e escravizados. Além deste fator. a historiografia local afirmou que o relacionamento entre senhores e os “poucos escravos” que aqui existiram. Foi varido cativero Na Tera de Bendengó. Tudo fica um gente só. foi mais harmônico e afável do que em outras regiões do Brasil escravista. escravos negros. visibilidade histórica “Babaô tera de Congo. foi comumente assimilada como insignificante e justificada. por Antônio Correia Pinto de Macedo.Capítulo 1 O negro lageano no campo e na cidade. Visibilidade negra durante o período escravista Lages. em Lages. como tal. Não se toma mais rovado. em 177124. Matheus Junqueiro23 A questão quantitativa dos descendentes de africanos. pelos números apresentados por pesquisadores que tradicionalmente estudaram a temática da escravidão na região. Não guenta mais vregaio. tornou-se o núcleo econômico. Negro agora anda contente. Fazendeiros e suas famílias. desde sua fundação como vila. Não Padece mais trabaio”.

dos quais 10. Lages “contava com 218 brancos livres. assinada por João Damasceno de Córdova. Em 1801. algumas vezes classificados como pardos. os pretos 2. Curitibanos e São Joaquim27. compreendidas as freguesias de Lages. os pardos somavam 28.1 % de habitantes livres. Em tal listagem. realizado em 1798. sendo 136 escravas. que também classificou os habitantes através da categoria “cor”. por ocasião do primeiro “Recenseamento Geral do Brasil”.585 pessoas – classificados segundo a “cor” 28 entre negros e pardos29. Baguaes. Mais de meio século depois do último levantamento demográfico apontado acima. contra 380 pessoas formadas por pretos livres e mulatos escravos” (Serpa. no ano de 1872. segundo a “Lista Geral dos Habitantes da Villa de Lages e seu Disctricto”. No entanto. a população era de 715 pessoas. Pardo e Branco25. dos restantes 89. O número de pardos e pretos livres era três vezes maior do que o número de escravos e. a região do Planalto Serrano catarinense. adicionados ao de escravos.549 habitantes. 60). 1. aleatoriamente foram identificados como agregados ou como proprietários de um minguado número de itens de subsistência.17% da população como “não branca”. Campos Novos. outras vezes como brancos. Em levantamento da população da vila. totalizava uma população de 14.05%. foi levantado um número considerável de pardos e negros que. percentuais que.98% e os caboclos 3. representavam um total de 45. quando “livres”. Na denominação “escravos” foram arrolados também alguns poucos “gentios” 26 . somadas as 26 . nomeando-os como: Negro.9 % eram escravos – ou seja. 1990. sargento-mor comandante.demográfico da região. p.24%.

poderiam estar entre libertos. um grande entusiasta das lides do campo.] negro não ter sido. representavam quase metade dos habitantes do Planalto Serrano. observamos que. 1982. Quanto à classificação social. pois muitos deles trabalhavam na agricultura e em outras atividades domésticas.585 escravos. Porém.” (Costa. porém. insinuando que o número da população negra na região esteve diretamente relacionado com o número da população escrava31. entre homens e mulheres. Quanto à “cor”. dos 1. ou eram de nação. Esse aspecto do discurso de Licurgo. Analisando o censo de 187232. concluiu que o motivo pelo qual a região não apresentou um índice expressivo de população escrava foi o fato de este ser um centro quase que exclusivamente de atividades pastoris e o “[. ou eram crioulos. a historiografia tradicional potencializou a “invisibilidade” negra na região. nunca. 605 foram descritos como “sem profissão”. mulatos ou pretos.. eram pardos. p. não estava necessariamente empregado nas lides pastoris. mesmo quando o era. 377 em “serviço doméstico” e ou27 . contribuiu para invisibilizá-la. As condições da população de descendentes de africanos que compunha o quadro demográfico da região durante o século XIX eram as mais diversas. que um número significativo de descendentes de africanos em Lages não era escravo e. o historiador Licurgo Costa (1982). nascidos no Brasil. Por exemplo. africanos. livres ou escravos. 495 foram definidos pela atividade de “lavradores”. Quanto à naturalidade.. 181).duas categorias sociais. É importante salientar. levantando vários números30 sobre a população escrava de Lages.

36 Como agregados. a região de Lages detinha 18 escravos em domicílio urbano e 708 em domicílio rural. estabeleciam-se com suas famílias na pro28 . pela estatística oficial. em ocupações outras que demandassem maior esforço físico. Com o auxílio de outras fontes documentais35. constatamos também que os negros e pardos livres se empregavam como jornaleiros e agregados. inclusive. ora exercendo trabalhos domésticos variados. ou. em toda a província de Santa Catarina somavam-se 4. e a população escrava da região de Lages representava 14. campeiros. às vezes se tornando. Francisco José da Rocha à Assembléia Legislativa Provincial. prestavam serviços como feitores. exerciam atividades variadas. sem ofício definido. com atividades como o pastoreio do gado. há pouco menos de um ano do “13 de Maio de 1888”. naquele momento. tropeiros. através da matrícula. artesãos ou lavradores. Segundo “Relatório apresentado pelo presidente da província dr. ora nos serviços do campo. operários. como a construção de casas e o levante de taipas. de um total de 736 escravos matriculados. em outubro de 1887”34. o rocio e a produção de alimentos. Entre aqueles descritos como “sem profissão”. Portanto.94% daquele total. acusando a realização de um levantamento do número de escravos existentes em Santa Catarina.927 escravos. então. pequenos proprietários. vendendo sua mão-de-obra a algum “homem de posses” da região. No caso dos jornaleiros.tros 88 distribuídos em diversas atividades.33 O fato de 377 escravas ou escravos trabalharem em serviços domésticos não significava que residissem na área urbana. por exemplo.

agregados. e não somente os escravos. No que se refere aos que se tornavam pequenos proprietários. estes eram responsáveis pelo próprio sustento. a auto- 29 .priedade de algum criador. Até mesmo os pequenos proprietários acabavam por submeter-se à autoridade de um ou outro grande fazendeiro. como também entre pequenos proprietários brancos e negros. vagabundos e pequenos proprietários com diversos matizes. de onde tiravam o seu sustento em troca do trabalho realizado. A sociedade tradicional escravocrata em Lages Naqueles anos do século XIX. por exemplo. composta de escravos. onde o grande proprietário latifundiário concentrava todos os poderes temporais e religiosos em suas mãos. proprietários de pequenas casas comerciais ou botequins. Sobre a sociedade patriarcal no Brasil. diz Sérgio Buarque de Holanda (1997): Os escravos das plantações e das casas. como os agregados. baseado na tradição das sociedades que se desenvolveram distantes dos poderes centrais. Frequentemente. como. “índios mansos” e a prole do fazendeiro estavam sujeitos ao seu poder pátrio. com ele. criando uma massa subalterna. com suas pequenas fainas agrícolas ou outras atividades urbanas37. dilatam o círculo familiar e. ou mulatos38. fazendeiro ou negociante. jornaleiros. havia uniões conjugais entre escravos negros e agregados pardos ou brancos. predominava nas relações sociais o patriarcalismo nuclear e hierárquico. Esta era uma característica do período escravista em todo o Brasil. agregados. Escravos.

O promotor público de Lages. derivada de “famulus”. que fosse impossível resistir a ela. de 78 anos. Segundo a promotoria. e Leonardo.ridade imensa do pater-famílias. natu30 . e em que mesmo os filhos são apenas os membros livres do vasto corpo. também. se acha estreitamente vinculada à idéia de escravidão. natural de Lages. os “liberi”. teve motivos para repreendê-lo. inteiramente subordinado ao patriarca. José Madruga. (p. A autoridade exercida pelo senhor legitimava-se através da violência ou da sua ameaça. até mesmo. Porém. ao verificar os serviços de que encarregara seu escravo – “o de fazer uma irra para trilhar trigo” –. Maria Rosário Pereira.39 A ordem social era definida por contextos hierárquicos específicos. Esse núcleo bem característico em tudo se comporta como seu modelo da Antigüidade. José Madruga de Córdova Primo. o escravo Plácido. fugindo após roubar-lhes alguns objetos. em resposta. em que a própria “família”. pela tradição se construíram mecanismos para ludibriar e reverter a ordem estabelecida. o escravo José. no dia 23 de maio de 1879. mas não significa que dentro desta concepção de sociedade não houvesse mobilidade social ou. imediatamente puxou de um facão e deu-lhe até a morte. Os limites da relação entre senhores e subjugados eram estabelecidos pela tradição da arbitrariedade do primeiro para com o segundo. 81) A historiografia recente demonstra que essa relação hierárquica e vertical entre dominados e dominadores não representou uma total submissão do primeiro para com o segundo. de assassinato de seu senhor. denunciou o “ex-escravo” Plácido. Testemunharam o fato a escrava Rita. de 17 anos. “pardo escuro”. na manhã do dia 7 de fevereiro de 187940. e o que fez com empurrões.

outro tipo de representação que se construiu foi a de uma escravidão que teria sido 31 . e não estava apenas ligada a um fato isolado. além da invisibilidade numérica. no ano de 187541. como se estivesse no seu direito de reagir àquele tipo de condição. carpinteiro. pois era maltratado com castigos e passava fome. não se importando com as possíveis consequências de seu julgamento. finalmente afirmando. Capturado e inquirido. há muito suportando os maus tratos e castigos de seu proprietário. Plácido envolvera-se. conforme denunciado pela promotoria. Plácido. O réu. Nenhuma das testemunhas interferiu. injustamente tratado. anteriormente.ral dos EUA. para que este o vendesse. disse que confessara um roubo que não cometera. voltouse contra a autoridade hierárquica. “que não desejava mais servir a tal senhor”. como no estado de Santa Catarina. com o intuito de desgastar a imagem de seu senhor. que agira motivado pela contestação da maneira pela qual era. José Madruga. pois. em outro processo-crime. Naquela ocasião. O réu acabou condenado à pena de morte pelo juiz Cândido Alves Duarte de Lima. a ponto de reconhecer. alegava que José Madruga era mau para com ele e não lhe dava dia para trabalhar. profissão campeiro. dizendo não ter medo das consequências. Em Lages. o réu relatou com detalhes como assassinou José Madruga. por motivo de furto. A situação conflituosa entre Plácido e Madruga já vinha de alguns anos antes da tragédia da manhã de 7 de fevereiro de 1879. limitando-se a chamar ajuda. conhecido como “alemão”. na casa de negócios de Miguel Francisco Melo. em seus depoimentos. em sua concepção.

Em outro processo. humana e afável.. originados pelos mais diversos motivos. Alguns processos crimes demonstraram que as relações entre senhores e escravos não foram afáveis e tampouco humanitárias. Historiadores como Licurgo Costa (1997). Através de processos criminais. sempre foi benigna. com mais de 70 anos. inquéritos policiais ou processos cíveis de liberdade referentes ao período escravista. como denúncia de que a escrava fora cruelmente açoitada a cordas de couro cru. há tempos encontrava-se doente. por esse motivo. inquérito de corpo delito da vítima escrava Verônica. foi aberto. vinha sendo espancada. a promotoria pública denunciou o proprietário João O. do senhor Francisco Borges do Amaral e Castro.” No entanto. 32 . que.diferente em relação a outras regiões do Brasil42. Branco por espancamento de seu escravo de nome Luis. o senhor Antônio Joaquim da Silva Júnior foi acusado pelo bacharel Braulio Colônia. sem poder prestar serviços ao seu senhor e. vários são os exemplos em que foi possível verificarmos o contrário. por dois escravos de seu senhor. pelo juiz municipal Henrique Ribeiro de Córdova. de 26 de abril de 187944. determinadas pelo tipo de produção econômica e relações sociais existentes (Leite. Em 9 de abril de 188445. No dia 15 de junho de 186743. contradizendo o que se tornou senso-comum no discurso historiográfico sobre a escravidão e o negro na região. proprietários da quase totalidade deles. observamos as manifestações de conflito e violência entre senhores e escravos. até que veio a falecer.. afirmam que “[.] o tratamento dado aos escravos pelos fazendeiros. por assassinato de sua escrava Mariana. por suas características mais dóceis. 1996).

pedia a liberdade.. dizendo dispor a quantia de 200$000 réis. O autoritarismo hierárquico dos grandes proprietários se estendia para além dos seus cativos. através de seus curadores. para o ajuntamento de pecúlio 48. preto. em 1885. denunciando a crueldade e os maus tratos de seu senhor. em 1884. em que os cativos se julgavam tratados “injustamente” por seus senhores.. de José Manoel Oliveira Branco. a parda Margarida.]”50.46 Em Lages. entre as diversas ações de liberdade47 impetradas na década de oitenta do século XIX. porque este não lhe permitia o trabalho aos domingos e dias santos. escrava do capitão José Antunes Lima. declarava que já havia sido dada como livre pelos seus patrões e que estes ainda a mantinham em cativeiro49. pedia liberdade. a todos que o rodeavam. a procurar a justiça foram. entre escravos e senhores. por viver há 6 anos em completo abandono pelos seus senhores herdeiros51. estão registrados nas Ações Cíveis de Liberdade. inclusive aos trabalhadores livres52 ocasionalmente contratados. Muitas dessas ações eram originadas por motivos diversos. para reafirmar escalas hierárquicas em que se pressupunha 33 . Na ordem social escravocrata brasileira. em 1885. A violência era uma instituição comumente praticada em todos os meios. Adão. “a fim de evitar os maus tratos de seu senhor [. de Venâncio Antunes de Moraes. algumas situações que levaram os escravos. em 1883.Conflitos jurídicos de outra ordem. requeria sua liberdade. escravo do senhor Ramiro Pereira de Andrade. os seguintes: o escravo João. o fantasma das relações conflituosas entre senhores e escravos rondava a vida comum de toda a sociedade. o escravo Manoel.

eram rompidas espontaneamente. constantes no corpo delito do processo. a promotoria pública denunciou o operário pedreiro. que o pariu”. por ter aquele agredido o filho deste. a presença negra.um respeito a graus superiores de tais escalas que. peões. Assim sendo. através de um escravo de nome Honorato. um carcereiro e escravos confirmaram 34 . O fato se deu no dia 16 de outubro. no entanto. jornaleiros e membros da família senhorial também desenvolveram práticas de resistência e mobilidade àquela prática social. ainda.. do que este se defendeu. Pouco depois. ele e Vidal Ribeiro trocaram desagravos. o filho do coronel enviou ao dito Gregório. tendo demorado um pouco. tentando Vidal acertar com sua bengala o denunciado. o pano de fundo dos processos citados foram as relações de trabalho e de autoridade entre senhores e escravos. identificamos. Gregório Evaristo de Almeida. e se não quizesse fosse a put. Agregados. Gregório deliberou a retirar-se da obra. Vidal Ribeiro. o seguinte recado: “que se quizesse ir trabalhar fosse depressa.. fazendo-lhe os ferimentos. ofendido. chegando à obra. pelo motivo de ter o denunciado se retirado da obra para ir jantar em sua casa e. No dia 20 de outubro de 188353. Na grande maioria dos casos. onde a hierarquia tradicional era geralmente contestada. empregado na construção da casa do tenente coronel Manoel Ribeiro da Silva. seu contratante. Entre as testemunhas. vez por outra. Mas não apenas os escravos encontraram suas formas de subversão à ordem patriarcal. outros pedreiros. Entre os trabalhadores livres que contestavam tal ordem. indo buscar suas coisas. derrubando-o em um buraco de amassar barro.

por causa das ofensas verbais recomendadas por Vidal. branco é civilidade” Com a progressiva miscigenação. A ideia que perpassava por esse discurso de omissão era de que o Brasil se confirmasse como um país de mestiços e progressivamente passasse por um processo de branqueamento. nenhum documento oficial como. nos textos e no discurso da elite. principalmente. um filho da puta”. rompeu um elo da tradição hierárquica e pessoal que o tratou indignamente. Negro é barbárie. tentando agredi-lo. “Após a Abolição. o pressuposto da servidão pacífica. por exemplo. certidões de nascimento. A partir da abolição até a década de vinte do século passado. No caso acima. ao que o “negro”. a ordem hierárquica foi rompida em dois momentos. na atitude rebelde de cunho moral de Gregório ao retirar-se deliberadamente da obra. gradativamente as diferenças quanto à “cor”. com ela. defendendo-se. quando Vidal soube de tal atitude. Primeiro.os insultos de Vidal ao réu. casamento e óbito. inclusive o de ter-lhe dito: “ – você não quer trabalhar porque é um negro ordinário. Segundo ela: 35 . permite um levantamento exato. Segundo. insistindo em sua condição de homem livre. ou até mesmo aproximado. Hebe Mattos (1998) explica as razões. O pedreiro Gregório carregava. deixaram de ser referidas. Entretanto. considerou-a uma insolência à sua autoridade e foi ao encontro de Gregório. pela “cor”. em dois atos. estatísticas. derrubou-o. após a Abolição da Escravatura. o estigma da inferioridade social e. da população pela “cor”. a partir de meados do século XIX e. censos.

em alguns casos. casamento e óbito.[. a civilidade e o progresso que eles representavam. absorver o imigrante europeu. que se faz notar desde meados do século XIX. Segundo. Processos cíveis e criminais. na maioria dos casos. antes mesmo da abolição. também as fontes estatísticas conhecidas sobre o período54 silenciam quanto a informações em relação à “cor” dos indivíduos. foi possível identificar. não apenas pela inexistência de práticas legais. 19). escravocrata. através da leitura minuciosa de todo o conteúdo dos processos. como também a africanidade e a indianidade que representavam a velha ordem e os maus costumes da sociedade brasileira. Por outro lado. torna-se bastante mais difícil encontrá-los nas fontes de época... quanto ao problema de identificar ou visibilizar o negro. em muitos casos ela se faz ausente. onde citar a cor era legalmente obrigatório. entretanto. foi a fórmula encontrada na tentativa de acelerar a 36 . Com advento da República. é especialmente acentuada. que utilizando os processos criminais como fontes. a “cor” de alguns dos indivíduos envolvidos55. de se discriminar a cor de homens e mulheres livres nos registros históricos disponíveis. registros de batismo. de negros e mestiços livres. baseadas em distinções de cor e raça ou pela presença demograficamente expressiva. mesmo nos registros civis. tornou-se preocupação da elite brasileira não só esquecer o passado monárquico. e mesmo majoritária. não fazem menção da cor e. (p. no que se refere às primeiras décadas do período pósabolicionista. Podemos completar o pensamento de Hebe Mattos. nas antigas sociedades escravistas. que além das fontes documentais citadas por ela. mas pelo desaparecimento. Esta é uma dificuldade geral nas pesquisas sobre a experiência histórica pós-emancipação nas Américas. com duas considerações. instituídos em 1888. Primeiro.] desde que os libertos deixam de ter um estatuto jurídico específico. No Brasil.

que fundamentavam o chamado determinismo racial56 e. exactamente o contrário do que se nota nos Estados Unidos. Assim.” (Schwarcz. que apressa a eliminação certa da raça de cor.] No Brazil. a partir daí. dizia o seguinte sobre o “problema negro”57: [. a intelectualidade brasileira passa a absorver as ideologias positivistas. evolucionistas e darwinistas gestadas na Europa. no entanto. do dia 27 de setembro de 1903. as diversas discussões e divergências que se seguiram sobre a temática. p.59 37 . Cientistas. e princípios deixam-se absorver naturalmente. onde os brancos ocupavam o topo e os negros a base de uma dada estrutura evolucionista da humanidade. hábitos. Os negros pelas crenças. os índios e os mestiços do país como possuidores de atributos físicos e morais negativos. afastar-se do princípio básico do “racialismo” europeu que hierarquizava as raças. por sua vez. no Brasil. acabaram concebendo a ideia de um país em processo de branqueamento e em harmonia racial sem. Observadores auctorizados58 assignalam a extensão da mestiçagem brazileira. Em Lages. não foi diferente. os negros puros vão sendo substituídos pelos mestiços. estabeleciam uma hierarquia entre as raças. concorrendo mutuamente para transformação ou substituição. os negros. O jornal O Imparcial. 22). Aproximadamente nos anos setenta do século XIX. intelectualmente inferiores perante “outros tipos raciais que compunham a população brasileira. especificamente. Aqui as raças como que amplexam-se. políticos e literatos brasileiros definiram. Nos Estados Unidos um abysmo separa fundamentalmente as duas raças..transformação dos tradicionais costumes populares e apressar o desejo de “branqueamento” vislumbrado pela elite.. 1987.

o atraso em relação à modernidade e à civilização almejadas. no entanto. de 3 de outubro de 1903.. sim. exaltando positivamente o aspecto da “mestiçagem brasileira”. o indiano indolente que dorme à sombra das palmeiras. a evolução de sua moralidade. 38 . os artigos de jornais que explicitavam a crença na degeneração do negro e do índio.] precisamos de reforma dos costumes. seguia “naturalmente” seu curso no país.Segundo os jornais dos primeiros anos da República. o autor adjetivou negativamente o passado escravocrata e a composição étnica do país. 15). Sem ser explicitamente racista. era considerada de forma homogênea.] enraizados numa população marcada pela heterogeneidade étnica e cultural [. a isto.]” (Serpa. associando. Estes se encontravam “[. relacionando as características culturais de tal passado como causadoras de um “problema” característico de seu presente.. o articulista alertava “explicitamente”: Fomos e somos sempre o escravocrata ocioso.60 Neste caso. os discursos jornalísticos sobre o tema não eram marcadamente de caráter “racialista” discriminatório. o projeto de mestiçagem brasileira. em um fragmento de artigo do jornal O Imparcial. [.. hábitos e costumes. Poucos foram. que possibilitaria eliminar os “negros puros”. e. como popular. que. objetivavam reformulações dos hábitos culturais das classes populares. p. Observamos ainda que o articulista do jornal usou a comparação com os Estados Unidos. porém. no entanto. 1996. também. ressaltando o branqueamento fenóptico da população negra do Brasil. Em grande parte.. considerados rústicos e obsoletos.. de envolta com o africano superticioso que espreita nos symbolos e fetiches a ‘buena dicha’ do porvir..

profissões sem dúvida menos trabalhosas. pelo prazo máximo de cem annos [. [. começa a affluir para o nosso Município. disse o major. pelo superintendente. de modo animador. sinônimo do progresso econômico.Pobres.. é pouco inclinado à agricultura. ao presidente do Congresso Representativo de Santa Catarina”. O nosso povo.].]. em sua maioria. 39 . que dessa nascente immigração deve resultar para a nossa terra [. à industria pastoril ou ao pequeno comércio. a conceder lotes suburbanos. attentas as grandes vantagens. sobre a colonização que afluía para o município: No intuito de attrair a immigração expontânea que. negros e mestiços eram estigmatizados como responsáveis pelo atraso do país. Cumpre. porém. por outro lado. o estado de Santa Catarina sempre associou a imigração à perspectiva de desenvolvimento. a Superintendência Municipal foi auctorisada. o imigrante europeu era visto como a renovação dos costumes. em 01 de janeiro de 1899.. Enquanto isso. pela Lei n.]”62 dizia a “sinopse da administração do Estado de 1910-14.. Major Vidal de Oliveira Ramos Júnior”. apresentada pelo governador Vidal José de Oliveira Ramos.. não desanimar.61 Assim como em outras regiões do país. procedente dos núcleos coloniaes allemães e italianos do Estado. representantes da velha ordem escravista e monárquica de um Brasil que se pretendia esquecer. embora também menos lucrativas [. e o brasileiro à incapacidade produtiva.. No “relatório apresentado ao Conselho Municipal de Lages.42 de 05 de janeiro do anno passado. o Brazil só na immigração terá factor essencial ao seu progresso econômico. dedica-se de preferência.. da urbanidade e da civilidade vindoura..]. “Paiz novo e despovoado. por aforamento..

Damaso de tal. a vítima. 39 anos. disse que. 45 anos. norteava as práticas de relações sociais do Brasil.. no nosso caso específico de Lages.Esta mentalidade “racialista”.. e os réus João Pereira. mascarada e discriminatória propagada pelos dirigentes e pela intelectualidade do país. negociante. antes do acontecido. inquirido no processo. natural do Rio Grande do Sul. em seguida deu-lhe uma bofetada que ele respondente desviou com o braço. na localidade de Índios 64. disse que os réus eram de “[. na casa de negócios de João Naschenveng. No sábado de Aleluia do mês de abril de 191263. João Cruz Júnior. quando os outros acusados também o atacaram. Damaso de tal atirou-lhe aos olhos o fumo e. que respondendo não ter palha.. 29 anos. pois “[. suscitou-se uma dúvida entre Miguel Joaquim Bernardo.] boa índole [e] trabalhadores. que Damaso de tal levou a mão ao cabo do facão desembainhando-o e ele respondente correu para a rua [. disse que viu a discussão entre os envolvidos e mandou que Miguel se retirasse. e que tinha sido agredido porque “Damaso de tal pediu a ele respondente o seu fumo e pediu também.. palha para o cigarro. servindo como testemunha. Miguel Bernardo..] Miguel Bernardo é um negro muito sem vergonha e que não respeita os outros. natural e residente na comarca de Lages.]”. João Naschenveng. desordeiro [e] 40 . sempre tinha mantido boas relações com os acusados.. jornaleiro. como atestam os depoimentos constantes no processo crime abaixo. logo em seguida.” Outra testemunha. O dono da casa de negócios. mas Miguel Bernardo é dado [à] embriagues. Generoso Miguel Valente e Carlos Müller. natural da Áustria.

o seu oposto. Enquanto isso. à branquidade. que o sistema escravista tinha semeado. a presença destas representações no imaginário coletivo66 da sociedade de Lages. p. pelos testemunhos de Carlos Augusto do Amaral e do italiano Desidério Daboit. a negritude. Ambos os argumentos produziram um imaginário estigmatizante (Azevedo. Os debates quanto à transição do trabalho escravo para o livre e sobre o destino racial do país. Mesmo que os discursos acima já não fossem mais necessários com o fim do escravismo. travados nos meios políticos e intelectuais desde meados do século XIX.metido a machão”. foi relacionada à desordem e à indolência. desordeiro e metido a machão”. a mancha da inferioridade do sangue negro presente nas veias de quase todo brasileiro. a “cor” continuou sendo o símbolo da inferiori41 . estigmatizaram o Brasil escravista e monárquico como sinônimo de atraso ante dois argumentos: em primeiro lugar. igualmente. de que “Miguel Bernardo é um negro muito sem vergonha dado à embriaguez. segundo. com a adoção de uma política imigrantista e a consequente perspectiva de branqueamento. a imoralidade e a inépcia econômica do sistema escravista em si.65 Os fragmentos do processo citado acima servem para demonstrar como o senso-comum associou certos valores morais. ainda. Carlos Augusto Amaral e Desidério Daboit demonstramnos. Tais conceitos foram corroborados. como nos depoimentos citados. como a dedicação ao trabalho e a boa índole. indígenas e brancos pobres. pardos. 241) àqueles indivíduos egressos do sistema escravista – negros. Os testemunhos de João Cruz Júnior. 1987. e.

indisciplinado. o crescimento econômico da elite e sua projeção na política estadual.. do desenvolvimento. Trabalho e civilização X tradição Esta fúria de embelezamento. foram definitivos para as transformações sociais. da inépcia e da velha ordem do país. (Pesavento. da liberdade. 1994. Mesmo isolada no ermo planalto catarinense. do trabalho disciplinado. de sociabilidade e racionalidade científica eram espelhados nos padrões culturais europeus e vistos como transformações prioritárias para a conquista do progresso e da civilização. Lages – através do comércio que faziam os viajantes que partiam ou chegavam à cidade e de determinado grupo da elite que enviava seus filhos a São Paulo. 1996.]. 140) Fatores como a chegada da imprensa à cidade. estéticos. com aspecto e comportamento não recomendável. implícitos na renovação urbana. o imigrante europeu. Porto Alegre e Florianópolis para terem sua formação escolar – entrava em contato com os novos padrões morais das condutas ditas civilizadas (Serpa. Enquanto isso. 67 42 . afastada dos grandes centros68.. econômicas e culturais que passaram a ocorrer a partir dos últimos anos do século XIX.. 20). Principalmente quando de cor [. em 1883 . urbanos.]. sujos e malvados [.dade. tanto sob o aspecto cultural quanto racial. p. Os padrões liberais econômicos. tinha o seu complemento na estruturação de uma imagem do pobre como perigoso. representado como o portador da boa-nova. conforto. Feios. tanto expressava um ideal de civilização quanto aos interesses burgueses. enfim. da síntese do progresso. higiene e segurança que. p. higiênicos.. era visto como o alvo imaginário das ambições civilizadoras. São Leopoldo.

ao projetarem. os roubos de gado. a prostituição e os bailes populares – também chamados “sambas” ou “fandangos” –.Como em praticamente todas as cidades brasileiras. em oposição à “ordem”. associando-as à civilidade. aos maus costumes e à ociosidade. em 25 de junho de 1902. à civilidade e à urbanidade apregoadas pelas elites. em suas páginas. como maus costumes e imoralidades. como um dos principais instrumentos na defesa dos interesses da elite70. a mesma imprensa registrava que. os mesmos jornais definiam. caboclos e descendentes de africanos em geral formavam essa classe de populares e tinham suas manifestações cotidianas associadas à barbárie. a vagabundagem.71 Os próprios jornais se pronunciavam como porta-vozes de tal discurso72. No entanto. publicado em Lages nos idos de 1904: 43 . O jornal Cruzeiro do Sul. em seus artigos. Por outro lado. a jogatina. afetando a moral e os significados das práticas cotidianas populares existentes. Brancos pobres. dizia: O jornalismo que dia a dia se espalha cada vez mais em todo mundo é por sem dúvida um dos agentes principais do progresso e de civilização moderna. Lages foi impulsionada a seguir a lógica da civilização69. resistia uma moral da “desordem” nas manifestações do cotidiano das classes populares. a prática do curandeirismo. Os jornais. Segundo o jornal Cruzeiro do Sul. em artigo intitulado “O Jornalismo”. a moral idealizada pela mesma. a partir de meados do século XIX. ao noticiarem os melhoramentos urbanos73 e as novas práticas sociais da elite. combatiam as de caráter popular e tornavam-se o órgão difusor oficial de um “discurso civilizador” para a sociedade.

como institucionalizadora da moral branca da elite. a elite.. mascarada pela homogeneização da camada popular e. A construção da imagem de ‘bom trabalhador’ [. todas as idades e todas as procedências... a imprensa.[. ‘bons costumes’ . em oposição aos desclassificados. Festas noturnas. a construção de uma ordem disciplinar. 74 Pelo trecho da citação acima. Às noutes porém a gaita solta suas notas gafas manuseada por um vadio e a sala soturna de bachanal enche-se de vagabundos de todos os sexos.] se apoiava em diversas expectativas de comportamento: assiduidade. aos quais se legava a exclusão. Como facetas daquele discurso. todas as cores .. ainda. ou mesmo os brancos pobres. para se diferenciar das práticas populares e tradicionais vigen44 . em relação ao trabalho. referia-se à necessidade de repressão à vadiagem. etc.]. que buscava. Sidney Chalhoub (1985) analisou a transição do trabalho escravo para o trabalho livre no Brasil. eficiência. teriam que ser reeducados numa nova ética de trabalho. populares. como forma de ordenar e submeter os ditos “vadios” ao trabalho. que os transformaria em trabalhadores disciplinados. 1985. (Chalhoub.. p. responsabilidade. foi possível identificarmos a invisibilidade étnica.] é necessário a repressão dos vadios e vagabundos que infestam esta cidade [. apresentando como se pretendia instituir novos valores à sociedade: Os trabalhadores libertos. onde estavam presentes vagabundos de “todas as cores”. eram adjetivadas como “bacanais”. definir aqueles que seriam aceitos positivamente no círculo social. Em artigo publicado pela Revista Brasileira de História.. nas casas de família há falta de creadas e muitos serviços que exigem o braço do jornaleiro são demorados porque falta quem queira empregar-se. 105) Além de exaltar o trabalho como valor moral positivo e construir as expectativas acima sobre ele. através do discurso.

por outro lado. o pardo Luiz Eufrázio. o paradigma europeu de civilização. há um ano atrás da data do roubo do toucinho em sua casa. que frequentavam a mesma casa: Raimundo Corneta. atribuiu o furto ao “pardo Luiz Eufrazio dos Santos e ao preto Raimundo Corneta”. mais próximas dos padrões de civilidade almejados. exaltando os valores de uma nova moral civilizada e. O próprio caráter repreensivo e legal do aparelho administrativo e policial foi instituído. ter 21 anos de idade. além daquele crime. investindo em educação. combatendo as práticas costumeiras de divertimento. ajudando-lhe a carnear uma rês. o pardo Luiz respondeu chamar-se Luiz Eufrázio dos Santos. A queixosa Albertina. clubes e sociedades musicais. ainda. um moço de nome 45 . quando o dito Bernardo de Cezare estava em casa. sempre ia até lá por motivos de serviço. Vadios. imigrante natural da Itália. o preto Marcelino. denunciou ao delegado de polícia. Interrogado. a preta Joanna. sabendo. profissão jornaleiro e que. sociabilidade e significado de trabalho livre para a massa popular. casada com Bernardo de Cezare. residente na cidade. ou seja. e que só ficara sabendo por uma preta que vira a dita carne na chácara de Dona Anna Passos. Luiz. onde o mesmo Luiz era caseiro. que tinham roubado de sua cozinha duas arrobas de toucinho. tomou a iniciativa de reformular seus costumes. dançantes e recreativas. tirou-lhe duas mantas de carne.tes. associações beneficentes. Disse ainda que. Albertina Catadore. criando grupos teatrais. solteiro. trabalhadores e tradição No dia 18 de setembro de 1889 75. ele.

um carpinteiro natural de São Paulo.. Marcelino disse. Outro acusado e interrogado foi Raimundo Corneta. de nome Cândido e por alcunha Condoco. acrescentando que sabia que freqüentavam. a casa da queixosa e tinham conhecimento do tal toucinho. solteiro. Sobre o roubo do qual foi acusado.] o preto Marcelino que foi escravo de Antonio de Palmas.. um sobrinho do capitão Antonio Ricken do Amorim. 22 anos de idade. que foi escrava de Clementino Alves.. às vezes em casa do dito doutor Fiúza. sobre a noite do roubo. a preta Thereza. subúrbio da cidade de Lages. dizendo “não haver matéria para a denúncia”. que. residente na cidade de Lages. que respondeu chamar-se José Raimundo da Silva. “[. O promotor público encerrou o inquérito sem citar judicialmente nenhum dos acusados.. foi também inquerido o preto Marcelino. disse Luiz que “[. ainda. natural da Bahia. a parda Beacta de tal. Luiz Eufrazio dos Santos.”76 Por suspeita. regularmente. e que todos eram recebidos na cozinha pela dona da casa. solteiro. além dele.Cândido e uma mulher. disse ter pernoitado em casa de José Paranaguá. de quem era camarada.] nunca teve em sua casa duas mantas de carne”. em altas horas da noite. 49 anos de idade. por ocasião de ter ido levar até o bairro Ponte Grande. natural desta província. naquele dia em que ocorreu o crime. que não tendo lugar certo onde dormir. o preto Dionizio. Maria Romana. casado com a parda Manoela. profissão jornaleiro. um cavalo de propriedade do doutor Fiúza. que disse chamar-se Marcelino Maria de Jesus. e. residente na cidade de Lages e que. às vezes pernoitava no Corpo da Guarda. Não há sequer um depoimento 46 . passou trabalhando em quitanda.

Tal inquérito foi útil por trazer à luz fragmentos do cotidiano negro do pós-escravismo. a mobilidade era um valor importante para o negro (Mattos. em 47 . fornecendo alguns indícios sobre os significados de trabalho e as práticas sociais dos ex-escravos e seus descendentes na região. o “preto” Dionizio. Pairam apenas suspeitas sem testemunhos. aquele homem era um tipo de mascate que contratava ocasionalmente os “pretos” acima para serviços domésticos de carneação e de quitanda. e se tornavam camaradas de um ou outro chefe político. ele se movimentava livremente em busca de sua subsistência. a “preta” Thereza. ou criador da região. No entanto. comerciante. 1998). Pelos indícios. como o caso de Marcelino.mais objetivo que possa incriminar um dos autuados pelo roubo do toucinho. como Luiz Eufrazio. em grande parte. O “preto” Marcelino. se identificavam profissionalmente. suburbano e rural onde ocorriam as relações entre pretos e brancos. Ora aqui. não pretendemos encontrar respostas às indagações de quem teria cometido o crime. Ou. e ia à casa de Bernardo sempre a motivo de serviço. No espaço urbano. então. Humildes em suas posses. observamos que os descendentes de africanos da região. o “preto” Raimundo e o “pardo” Luiz Eufrazio frequentavam a cozinha da casa do senhor Bernardo Cezare. que era caseiro na chácara de dona Anna Passos. Através da leitura e análise dos mais de 350 processos-crime e inquéritos policiais dos ano de 1889 a 192077. alguns deles eram exescravos que não tinham sequer casa para dormir. a “parda” Beacta de tal. ora acolá. na Lages do recente período pós-escravista.

no entanto.35% 1. normalmente tinham sua pequena roça de subsistência. foi denunciado o criador major Diogo Alves Vieira por assassinato de seu cama48 . e os que “vivem de suas agências”. conforme quadro abaixo: Quadro das profissões de negros/mulatos/pardos e morenos.35% 1.76% 4. conforme quadro.62% de jornaleiros e das variáveis dessa categoria. ainda. Muitos lavradores. etc.97% 21. “camaradas”.35% 1.35% 1. Do índice de 21. são atividades que pressupunham a mobilidade. para complementar a renda familiar.70% 2. como no caso do “pardo” Domingos Padilha. como jornaleiros e camaradas. porque eram temporárias ou ocasionais. principalmente como “jornaleiros” e “lavradores”.62% 6. na cidade ou no campo.35% 1. “peões”.. às vezes propriedade própria.35% Obs: a) dos quais foram arrolados um total de 74 pessoas “de cor”.. às vezes de forma agregada à propriedade de algum outro proprietário de terras. b) alguns foram arrolados com mais que uma profissão.35% 1.35% 1. Quanto aos “lavradores” descendentes de africanos.35% Profissão Lavadeira De suas Agências Pedreiro Sapateiro Parteira Oleiro Praça Ferreiro Quantidade 01 01 01 01 01 01 01 01 Índice 1. como os “criados”. arrolados nos processos crimes e apelações de 1889 à 1920 Profissão Quantidade Não cita profissão 21 Lavrador 17 Jornaleiro 16 Camarada 05 Doméstica 03 Criada 03 Peão 02 Negociante 02 Agregado 01 Índice 28. Em 13 de outubro de 191578.tais processos. se empregavam.70% 1.37% 22.05% 2. ou peão e camarada.05% 4. ex: lavrador e jornaleiro.

Segundo a promotoria. João Fernandes Ayres Varella.rada Domingos. 49 . tradicionalmente tão profundo nos meandros sociais daquele período.” Ora. foi acusado. defendendo-se. o elo hierárquico e paternalista. filhos de seu patrão. ainda.] queria ir embora por isso tinha morto as crianças. o fato se deu por ocasião de uma discussão entre o réu e a vítima. o réu escolheu a sua maneira de contestá-la. na qual o “pardo” Domingos teria agredido com um facão ao réu que. Outra questão das relações entre senhores e trabalhadores livres é o significado que tais relações representavam para os negros egressos de uma tradição escravista. porém. em 189980. Talvez não imaginasse sua trágica pena. jornaleiro e agregado de João Aquino Cabral. Em outra ocasião. sem criar o “motivo que a legitimasse”. o réu disse: “Domingos Padilha era seu peão desde mais de um ano e vivia como agregado numa casa de campo.. Em depoimento por escrito. não fosse tão fácil desvencilhar-se das amarras hierárquicas e paternalistas que a tradição lhe impunha.. poderia ser contestado de várias formas. acreditasse na impunidade. Em seu depoimento. pelo assassinato de três crianças menores de dois anos. acrescentou ainda João Fernandes que “ [. mesmo anos após a abolição. cedida gratuitamente pelo suplicante e sita na sua propriedade ‘dos Conselhos’ [no quarteirão dos Índios]”. com lavouras e outras benfeitorias. filho da ex-escrava Gervásia de tal79. deu-lhe um tiro mortal. disse que o fez para vingar-se de uma surra que lhe dera João Aquino. pelo motivo de ele não ter encontrado umas rezes que saíra para procurar. Talvez. ou no “seu direito” de contestação àquela ordem.

no que tange à definição de suas relações de trabalho. pelo contrário. que nem sempre tinha um fim trágico como nos casos acima.81 Denegrindo alguns valores e associando-os negativamente em relação a outros. e que iam de encontro às práticas de vida cotidiana dos populares. por curto espaço de tempo. No jornal A Evolução. 50 . eram-lhes imprescindíveis como significantes de liberdade. eram consideradas pela elite branca como insubmissão. jornaleiros. muitas vezes. até o surgimento de uma distensão entre o proprietário e o dito agregado. Quando se estabeleciam em propriedades alheias como agregados. 1990) remetiam a noções de mobilidade. de 8 de fevereiro de 1906. a imprensa difundia uma nova moral de trabalho. criados e peões. vadiagem e propensão ao roubo e à criminalidade. geralmente era a de trabalho ocasional. isto se dava. Por outro lado.A forma com que se empregavam camaradas. e isto estava ligado. Assim como as visões do negro sobre liberdade (Chalhoub. Por mais que se perpetuasse algum tipo de vínculo patriarcal hierárquico entre os negros livres em relação a antigos ou novos patrões – por imperativo daquela ordem social – a mobilidade espacial e o arbítrio de decidir quando e a quem servir. a elite branca sentia-se prejudicada com a arbitrariedade de criados e jornaleiros. encontramos o seguinte anúncio: Precisa-se: de uma criada que não se dê ao vício da embriagues e que não faça mudanças por conta própria. às expectativas de liberdade construídas na época escravista. ainda. que estava relacionada a certos padrões de comportamento e “bons costumes” ditos civilizados.

não procuraram até hoje dedicar-se ao trabalho e não possuindo nada de seu. em setembro de 1888. ou seja. a partir da segunda metade do século XIX. camaradas. todos que se mantinham em atividades sazonais e circulavam livremente pela região eram suspeitos. entre negros. constituindo a gatunice quase que um meio de vida ou profissão.” Os denunciados. denunciou83 Manoel Waltrick e seu irmão Serafim Waltrick pelo roubo de três reses em dezembro de 1887. retiradas dos campos do criador Lourenço José Theodoro Waltrick.Livres. de quem os denunciados são agregados. onde residem. teem no entretanto feito constantemente carneação de gados em casa da preta velha Mariana. também fazendeiro. Jornaleiros. Manoel e Serafim eram ex-es51 . Justificando a denúncia. indígenas e brancos pobres. agregados. o promotor público João José Theodoro da Costa. Já alguns meses após abolida a escravidão. o roubo de gado tornou-se uma das principais preocupações das autoridades e dos criadores. que os denunciados vivem do furto.82 Comum e muito combatido na região. ditos pelo próprio promotor “agregados” de Felipe José Barrios. disse o promotor: “está pois claro. desde que “foram libertados. e isto sempre que se ausenta Felippe José Bairros. não possuindo nada de seu”. não eram porém de “dedicar-se ao trabalho”. Ora. O problema se agravara com a progressiva abolição dos escravos. porquanto desde que foram libertados. despossuídos e móveis O furto de animais nesta comarca é um crime que campeia impunemente desde épocas remotas.

Assim como o pardo Luiz Eufrázio. segundo o promotor João Costa85. conflitante com o seu bem-viver. por isso. o que revela uma certa ambiguidade das relações hierárquicas naqueles termos e a possibilidade prática de contestação a uma ordem pré-estabelecida.138). do processo ante84 rior . 2) para vender e conse52 . os acusados Manoel e Serafim. identificamos vinte e nove processos referentes a furto de bovinos. O ideal de acúmulo e riqueza não fazia parte da mentalidade daqueles negros. Em muitos dos casos. o que significa a sua “não submissão a um “tempo burguês”. cavalares e muares86. Ainda assim. as justificativas dos acusados. em seus depoimentos. roubando e/ou trabalhando periodicamente.” (Thompson. o mesmo sobrenome de seu antigo proprietário. apud Azevedo. ainda. Do fichamento de processos-crimes. em um ou outro momento da leitura de seus conteúdos. não possuindo nada de seu”. externo às suas necessidades de sobrevivência e.cravos de Lourenço Waltrick. p. foram: 1) a de que furtaram para comer e alimentar a sua família. a vítima. o relacionamento não impediu que Manoel e Serafim roubassem o gado do senhor Waltrick. o que demonstrava uma relação de dependência e afinidade. “vivem de furto. 1987. Usavam. inquéritos policiais e apelações crimes da comarca de Lages dos anos de 1888 a 1920. “nunca teve em sua casa duas mantas de carne”. Após adquirirem a liberdade. muitos dos descendentes de africanos viveram perambulando. houve o envolvimento de descendentes de africanos. como também de autoidentificação perante a sociedade de que faziam parte. de acordo com suas necessidades e vontades. Em oito destes.

Com a libertação total dos escravos. caracterizando aquele momento de transição. Os cavalos e mulas eram vendidos em localidades distantes. a venda. onde os furtos de gado são freqüentes e a repressão difícil. pelo Engenheiro Civil Hercílio Pedro da Luz. não organizado. há muito tempo comum no meio rural do Planalto Serrano catarinense e agravado pelo processo abolicionista. em muitos dos casos. no caso de gado bovino. Esse tipo de banditismo89. attentas as grandes distâncias em que se acham uma das outras e dos centros populosos as fazendas de criação. aleatório e espontâneo.88 Mesmo assim. A “Mensagem dirigida ao Congresso Representativo de Santa Catarina. urbana e capitalista que se instituía. também. dizia: Faz-se necessária a creação de uma companhia montada e que permaneça na região serrana. depois de carneado. ou ainda. Governador do Estado”. Essa categoria de crime chegou a preocupar o governo estadual. até mesmo em outras cidades. aumentara a massa de despossuídos que disputavam as migalhas do velho sistema e. em agosto de 1896.guir algum dinheiro. a quantidade de cada furto era pequena. para que não fossem reconhecidos. e. frequentemente era feita no próprio mercado público. uma condição de sobrevivência daqueles que usufruíam de tais furtos. não houve policiamento eficiente ou suficiente para a contenção da prática. assim. por significar. a problemática dos furtos 53 . era uma forma de resistência individual em relação a uma nova moral civilizatória. 3) pensando que os animais roubados seriam “orelhanos”87. Geralmente. por vários anos após tal pronunciamento.

Os mapas de abril e maio no original são individuais. Gercina Dos Santos S. dos quais identificamos ape54 . apenas uma mulher foi caracterizada como “branca”. de Moraes 9. Souza 15. Daqueles. Além das características apontadas acima. Mauricio Rita Theresa 7. 16. estado civil e estatura. Da grande maioria desses presos. F. apenas dois indivíduos foram arrolados por crime de morte. Mn. a maioria era descendente de africanos. Manoel Ant. José Paranaguá 5. Jacintho 13. Da Conceição Idade 21 22 22 46 30 21 24 29 25 20 25 26 26 24 22 21 Ofício Jornaleiro Lavrador Jornaleiro Carpinteiro Pedreiro Jornaleiro Jornaleiro Jornaleiro Jornaleiro Jornaleiro Jornaleiro Jornaleiro Lavadeira Lavadeira Lavadeira Lavadeira Sinais Pardo Pardo Pardo Pardo Preto Pardo Pardo Moreno Preto Preto Preto Pardo Branca Parda Parda Parda Crime Morte Ferimentos Furto Furto Morte Morte Furto Furto Furto Furto Furto Furto Furto Furto Furto Furto Entrou 04/4 29 10 10 12/4 24 24 24 24 24 24 24 24 24 24 Saiu 14/5 10 11 14/5 14 27 27 27 25 Por ordem do Juiz Municipal Delegado Juiz de Direito Subdelegado Juiz Municipal Juiz Municipal Delegado Delegado Delegado Delegado Delegado Delegado Delegado Delegado Delegado Delegado Obs: 1). outras são: naturalidade. sendo que doze foram presos por crime de furto. em que muitas vezes estavam presentes os negros. Maurício Rita Theresa 2. Amancio B. Cyrina Maria Pereira 14. Gersino D. Maria Ignacio d. enquanto os outros foram presos por ordem do delegado ou subdelegado municipal. Clara M. da Cruz 6. Silva 4. sendo a grande maioria denominada de “parda”. da Costa 11. referentes aos meses de abril e maio de 188990. ou seja. Apenas três indivíduos foram presos por ordem do juiz municipal ou do juiz de Direito.não só de animais -. Antonio Luiz 3. David Canabarro 8. existe a seguinte relação: Nome 1. Dos mapas demonstrativos da movimentação da cadeia de Lages. investigamos a possibilidade de encontrar os devidos processos-crime ou inquéritos policiais referentes a tais prisões. entre alguns “pretos” e um “moreno”. Dos dezesseis indivíduos que entraram ou saíram da prisão nos referidos meses. Alexandre V. Manoel André 10. Souza 12. Mn.

por suspeita ou por estratégia de coibir-se a criminalidade. que é o quesito “cor”. A característica “cor” foi anotada no mapa como sinônimo do quesito “sinais”. 55 . No entanto. principalmente quanto ao tópico que mais interessa. não existindo uma documentação policial particularizada sobre cada uma daquelas prisões. não existem muitos relatórios tão detalhados como os da fonte acima. as demonstrações autorizam a afirmar a existência de uma classe marginalizada na sociedade lageana. Além disso. apesar do “silêncio” – o das fontes documentais – característico daquele período.nas dois daqueles indivíduos. que se refere ao tipo de característica física dos indivíduos presos. onde se encontrava um número significativo de descendentes de africanos propensos a uma criminalidade. definida segundo os valores ditos brancos e burgueses. o que significa que muitas das prisões foram realizadas preventivamente.

56 .

As emoções não são. p.Capítulo 2 A “cor” manifesta: práticas cotidianas “As emoções possuem sempre um fundamento de classe muito bem determinado. assinado por um indivíduo com o pseudônimo de Bisbilhoteiro. as práticas sociais vivenciadas em toda a região de Lages foram marcadas por uma íntima relação com os valores religiosos. específica. e se acreditava curar as pessoas rezando sobre suas feridas (Queiroz. Através dos chamados curandeiros ou feiticeiros. limitada. em absoluto universais nem intemporais. 6). sem a intervenção eclesiástica e oficial da Igreja Católica. 1996. Para os habitantes do Planalto Serrano. distrito de Lages. ligada a uma época. onde denunciava 57 . quer dizer. residente em Capão Alto. o jornal O Planalto publicou o artigo intitulado “Fanatismo em Lages”. a religião possuía sentido tão pragmático que as roças e os animais eram benzidos. os populares estabeleceram sua devoção religiosa.” Bertolt Brecht D Contra a “cor” inexistente urante o século XIX e as primeiras décadas do século XX. a forma sob a qual elas se manifestam é sempre histórica. Em 18 de julho de 1918.

residente há 15 anos em Lages. Dizia o Bisbilhoteiro: [.] além do Luciano e do Daniel. todo um arcabouço vernacular era usado indistintamente para associar a religiosidade popular a aspectos negativos. ambos do Painel. xaropistas. como no caso de Painel. uma tal Maria Eugenia (do Boava) que é sortista. ocorrido em 14 de julho na localidade Cerrito93. principalmente entre os setores mais populares da sociedade. no lugar – Cerro Negro –. Pedro Guilherme da Silva. Além da área urbana. xaropista e bêbado”. casado. sortistas e curandeiros eram sempre seguidos por cognomes de: fanáticos. No districto de Campo Bello. Para os porta-vozes da moral civilizadora. que é também adivinho e benze com patuás. 35 anos.. discípulo de Daniel. costumando receitar chá de raspagem de uma madeira que só elle fornece. feiticeiros. vulgo Pedro Barulho. existe um tal Manoel Xerengue.. benzedor. benzedeira e xaropista. 50 anos. Benzedeiras. teria aconte- 58 . como aquela manifestada pelo jornal O Planalto. ou qualquer outra denominação que reforçasse o seu aspecto depreciativo para a sociedade civilizada. foi denunciado por crime de ferimentos contra Antonio de Mello Corrêa. lavrador. prevaleciam as costumeiras práticas de curandeirismo. O crime. Capão Alto e Campo Belo. em que Manoel Xerengue foi lembrado como “benzedor. natural de Desterro.a prática um tanto comum de aspectos da religiosidade popular na região. xaropista e bêbedo”91. No dia 16 de setembro de 190292. em toda a ampla área suburbana e rural sob a jurisdição da cidade de Lages. exploradores. temos outros fanáticos e exploradores de algibeiras. criador e lavrador. Neste districto (Capão Alto) Therezio Brasileiro e João Olympio. entre os quaes sobresahem os seguintes: Nessa cidade.

Enquanto isso. onde o promotor público Manoel Thiago de Castro. chamou-o de “esse indivíduo de cor escura” 96. Pedro Barulho teria ainda distribuído a todos os presentes uma “beberagem e encerrado a vítima em um quarto. Pedro defendeu-se dizendo que apenas benzeu a vítima com arruda molhada. ao denunciá-lo. Ao escurecer. confirmaram a versão da promotoria. em seguida. O réu foi condenado a um ano de prisão. Segundo. o envolvimento de Pedro Barulho. preto.cido na ocasião em que Pedro Barulho apresentara-se em casa de Antonio. alegando que Barulho era feiticeiro. Em seu depoimento94. usando de “um rosário e vara de marmeleiro. em 17 de março de 1907. que na noite de 20 59 . inclusive o da própria vítima. Pedro Barulho começou a bater em Antonio. se retirado do local. A análise de tal documento teria sido dada por estar inserida no espaço de tempo escolhido para esta pesquisa. o que mais chamou a atenção é que nenhum o teria qualificado de negro. Primeiro. também em notícia do jornal A Evolução. de que “Pedro em companhia de outros pretos metteuse numa grossa carraspana”97. foi publicada a informação sobre o mesmo episódio. pardo ou escuro em tal processo. dizendo que tudo aquilo era para tirar o mau espírito que Mello tinha no corpo”. produzindo-lhe diversos ferimentos”. por meio de magias. No entanto. e a furar-lhe com um chifre de veado branco. Autorizado pelos que se encontravam na casa. dizendo que. tendo. em um “rolo effectuado no lugar denominado Índios”95. outros testemunhos do processo. De todos os epítetos dados a Pedro. curandeiro e monge. o curava das moléstias que o importunavam. dois fatos permitiram a identificação da “cor” daquele indivíduo.

onde se realizava um baile. como nos autos processuais em que o curandeiro Pedro Barulho foi acusado por ferimentos contra Antônio de Mello Corrêa. em casa de Antonio Machado. vindo a saber depois que o moço branco era filho do senhor Diogo Vieira e o preto era filho de um tal Pedro Barulho”.para 21 de abril de 191898. Assim como Hebe Mattos (1998) detectou o progressivo desaparecimento da “cor” nos processos judiciais do Sudeste brasileiro no século XIX. Aproximadamente até meados do século XIX. que viu “um moço de boa altura tendo um revólver na mão. É provável que muitos dos processos estudados. Luiz Vieira e “seu capanga e empregado Antonio Barulho”. não foi possível identificar a “cor” de Barulho. envolveram-se em uma discussão. ofendendo fisicamente várias pessoas. e um preto que empunhava um facão. 43 anos. A partir daí. apenas os indivíduos que tinham alguma relação com um próximo passado escravista. na rua da Santa Cruz. envolvendo populares no período da Primeira República. disse a testemunha João Pedro Luiz. fossem brancos ou negros. embora. operário. passaram a ser nomeados pela “cor”. Por exemplo: pretos e pardos eram 60 . Sobre tal acontecimento. À primeira vista. Só depois de confrontar com outras informações obtidas através de uma nota de jornal e de outros processos é que foi possível distingui-la. não tenha sido possível identificá-los. idenficava-se a “cor” dos envolvidos nos processos. geralmente. por vezes. incluíssem descendentes de africanos. armados. pudemos também percebê-lo na análise dos processos-crime da comarca de Lages durante a Primeira República.

sem nenhum critério aparentemente técnico. dos homens livres e pobres. o delegado de polícia. os homens livres se dividiam. o juíz . aleatoriamente. os peritos do corpo delito – ou. referentes a seu caráter de não cidadãos. vítimas e réus. houve um progressivo desaparecimento da definição da “cor” dos indivíduos arrolados em tal documentação. até então sinônimos de escravo ou ex-escravo e. um ou outro escrivão. pela transcrição literal dos depoimentos de testemunhas.. pois com o progressivo distanciamento da ascendência escrava. mas uma prática já plenamente vigente. mas como ‘preto’ ou ‘negro’. observamos que.]. inclusive nos processos judiciais a partir das últimas décadas do século XIX até os anos vinte e trinta deste século. em relação aos homens nascidos livres. alguma vezes identificando-a por livre arbítrio. a vivência da liberdade. portanto. 1998. Perder o estigma do cativeiro era deixar de ser reconhecido não só como liberto (categoria necessariamente provisória). Era como se a “cor” estivesse cumprindo um papel de distinção quanto ao status social. ainda.. (Mattos. à maneira colonial. não era incomum que. 61 . tenha usado distinguir a “cor”99 naqueles autos. inclusive em termos policiais e criminais. O desaparecimento da marca racial dos registros policiais não foi uma invenção republicana. em praticamente todos os registros oficiais. p. deixava-se de citar tal categoria.sempre identificados como escravos ou libertos. No entanto. na segunda metade – se bem que continuasse fundamentalmente hierarquizada – já não incorporava a diferenciação racial ao controle social. 284) Em Lages. nas últimas décadas da escravidão [. Sobre isso. até a primeira metade do século XIX. em brancos e pardos. Hebe Mattos (1998) faz a seguinte afirmativa: Se. outras pela transcrição da fala de funcionários da justiça envolvidos no processo – o promotor público.

expressava a existência de uma 62 . quase metade deles. em 16. Em 31. ou seja. em 47.51 % 47.51% dos casos. como elemento social diferenciador. constata-se que a manifestação da “cor”. a “cor” se manifestava. só foi possível a identificação dos negros pela leitura cuidadosa do conteúdo dos depoimentos de testemunhas. vítimas e réus.95% dos casos. foi citada pelos responsáveis pelo exame de corpo delito das vítimas.37% TOTAL 73 Obs: a) o ítem “dito pelo próprio depoimento”.44 % 2. referente ao momento em que foi possível localizar os descendentes de africanos no conteúdo dos autos: Em relação à origem da sua citação nos processos.Dos processos-crimes consultados. resultou o quadro a seguir. pelos depoentes.95% dos processos. de 1889 a 1920: Origem do termo Citado pela denúncia: Citado por testemunhos/réu/vítima Corpo delito Cito pelo próprio depoimento Outros Quantidade de processos 23 35 12 02 01 Índice proporcional 31. Por outro lado. por vezes. Apesar de não haver distinções étnicas definidas oficialmente por qualquer tipo de política racial. se refere à condição quanto à situação de ex-escravo ou filho de ex-escravo. tais índices totalizam 48. Somados. no cotidiano conflituoso daquela sociedade. A origem do termo “cor” foi citada oficialmente por funcionários da justiça em dois momentos.75% 1. Com uma leitura atenta de todos os processos crimes de 1880 a 1920. b) o ítem “outros” é referente à identificação da “cor” por uma fotografia anexa aos autos do processo.44% das vezes.95 % 16. a citação foi feita pela promotoria e.

“fronteira situacional e contrastiva” entre os indivíduos daquela sociedade. Segundo o historiador gaúcho Paulo Roberto Staudt Moreira (1995),
“[...] no seu dia-a-dia, os indivíduos elaboram estrategicamente sistemas de símbolos e classificações, visualizando grupos adversários - demarcando-os - e construindo sua própria auto-imagem. Neste jogo diário de convivência em um mesmo espaço, os indivíduos acabam por elaborar sua identidade de forma situacional e contrastiva.” (p. 78).

Através da vivência em seu cotidiano, os indivíduos estabeleciam entre si códigos de relacionamento. As distenções e alianças que se manifestavam através das experiências estabelecidas entre eles permitiam o surgimento de uma identidade situacional e contrastiva que, por sua vez, possuía fronteiras próprias. Estas constituíam-se em “fronteira situacional e contrastiva” nos momentos em que afloravam determinados conflitos sociais. Assim, a “fronteira” é delimitada pelo momento em que uma dada unidade social é rompida pela manifestação de uma situação conflituosa. Estes conflitos podiam ser de forma horizontal, ou seja, entre as próprias classes populares, ou ainda, de forma vertical, entre subalternos e dominadores. A fronteira situacional e contrastiva se manifesta em certas situações práticas do cotidiano, definindo hierarquicamente posições e diferenças em que estariam inseridos brancos e negros, bem como pobres e ricos, nacionais e estrangeiros, homens e mulheres, entre outros grupos que compõem dado quadro social em que, por vezes, os indivíduos se incluem ou se excluem de uma dada unidade, dependendo da situção social manifesta. No entanto, no que
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se refere a questões étnicas no Brasil, essa “fronteira” mal definida e embaçada pelo discurso e prática do “branqueamento” e pelo silêncio sobre as diferenças no Brasil pósabolicionista, nem sempre salientou a alteridade pela questão da “cor”, manifestando-se de outras formas. Como não se expunha necessariamente a “cor” dos indivíduos envolvidos em todos os processos do período pesquisado, fato que também ocorria com outros documentos, não foi possível identificar com exatidão todos os negros, pardos ou mulatos envolvidos. Porém, quando foi possível fazê-lo, seja através da fala de um depoente, seja colidindo informações entre fontes como processos e jornais, verificou-se algumas situações sociais específicas do cotidiano de Lages, em que era comum a presença de descendentes de africanos, como no exemplo da prática de curandeirismo. No processo em que Pedro Barulho foi acusado de provocar ferimentos graves em Antonio Mello Corrêa, várias testemunhas depuseram, dizendo que Pedro era curandeiro, feiticeiro e monge, com a intenção de ressaltar, ao aparelho judiciário aspectos da vida do acusado, que a ordem social predominante considerava como imoral. Em tal caso, a “fronteira” se manifestou em outros termos, não sendo lembrada a “cor” do acusado, pois quem sabe outros presentes, ou a maioria em questão, também fossem descescendentes de africanos. Por mais que as pessoas que testemunharam o fato em casa de Antonio tenham se mostrado coniventes com a prática curandeira, permitindo que Barulho benzesse Antonio, eram amigas da vítima e sabiam que, ao narrarem para o
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judiciário a atividade do curandeiro, comprometeriam sua índole diante da moral “civilizadora”, não sendo necessário destacar a sua “cor”. Aspectos da religiosidade popular: a presença negra
Devoção aos santos, festas, novenas, promessas e benzeduras eram elementos fortes do catolicismo popular e se caracterizavam pelo seu caráter festivo, pela interpenetração entre sagrado e profano e pela mínima ingerência da hierarquia eclesiástica. (Serpa, 1997, p. 55)

Em Igreja e poder em Santa Catarina, o historiador Élio Cantalício Serpa (1997) disserta como, concomitante a um processo civilizador da sociedade catarinense, entre 1889 e 1920, houve uma reorganização burocrática, institucional e devocional da Igreja Católica no Estado, seguindo a lógica de transformações que ocorria em todo o país com a proclamação da república. Na expressão de Serpa, a Igreja se “romanizava”101 e pretendia instituir, simbolicamente, uma hierarquia administrativa e devocional, que contradizia o costume e a tradição das camadas populares da região. Na mentalidade daquela diversidade de populares do Planalto Serrano Catarinense, formada por descendentes de portugueses, espanhóis, indígenas e africanos, as autoridades eclesiásticas eram pouco reconhecidas. Além disto, até fins do século XIX, os sacramentos da igreja como o batismo, a comunhão e o casamento, eram pouco considerados em suas práticas cotidianas. Em Lages e região, com a vinda dos padres alemães da Ordem Franciscana, a partir de 1892, começou a reestruturação do catolicismo pela Igreja, preocupada em implementar e estabelecer práticas disciplinadoras em re65

lação à hierarquia da Igreja e legitimar a autoridade de padres, vigários, bispo e papa. Para isto, encontraram apoio entre as classes dirigentes e os setores médios que, naquele momento, reformulavam suas condutas sociais de acordo com os padrões de civilização adotados, branco e burguês, e que relacionavam os costumes tradicionais ao atraso e à ignorância. Por conta daquelas intenções, pela primeira vez, no ano de 1898, a região recebeu a visita de um bispo, dom José de Camargo Barros102. Festas e recepções foram preparadas pelos padres franciscanos em diversas cidades e freguesias da região, como: São Joaquim, Painel, Lages, Canoas, Curitibanos e Campos Novos. Em seus diários, (Barros, apud Piazza, 1984) dentre as impressões de pouca consideração à sua presença por parte do povo em geral, de atraso, ignorância e pobreza da região, o Bispo afirmou que, no Painel “[...] são quase todos caboclos e mulatos” e que, em Lages, “[...] a população de negros e mulatos é muito grande”103. Dom José visitou várias cidades catarinenses onde a afluência de imigrantes europeus já se fazia presente há algumas décadas em grande número, como na região do vale do Rio Itajaí e na região sul de Santa Catarina. Por isso se explica a atitude incomum do bispo, identificando a diferença fenótipa da composição populacional da região do planalto, em fins do século XIX. A visita de dom José procurava submeter o caráter de reconhecimento da autoridade episcopal aos populares, dentro do plano de “romanização” da Igreja. Entre as estratégias de disciplinarização religiosa, que incluíam
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o curandeirismo e outras práticas cotidianas tradicionais. associações beneficentes e jornais – como por exemplo o Cruzeiro do Sul. 111). as capelas eram geridas por capelães que não estavam subordinados à hierarquia eclesiástica. as benzeduras eram práticas corriqueiras. 67 . tinha outras formas de se relacionar com o sagrado. pois o caboclo pobre. transgredindo a normalidade do cotidiano vivido” (Serpa. A Igreja fundou ainda escolas. No entanto. 1997. perpetuavam-se as práticas cotidianas do curandeirismo e das benzeduras. pelos quais impunha um conjunto de moralidade civilizada e condenava outros de caráter popular. que nunca antes fizera parte do mundo que vivenciaram. jogava-se. crismando e casando a população. em 1903 –. batizando. alijado da posse e dos meios de produção. Estes habitantes.a ação dos padres pelo interior da região. (p. bebia-se e brincava-se. vivenciavam suas práticas devocionais típicas do catolicismo popular em que: o leigo tinha participação ativa nos assuntos religiosos. p. sendo considerado o momento em “que todos estavam juntos. o culto aos santos tinha um papel central. Nestas. extraindo da terra os mínimos vitais. a Igreja também condenava o concubinato. designados por caboclos. enfrentaram dificuldades e reações. sem distinção de classe ou “cor”. entre outros instrumentos. bandas musicais. segundo Élio Serpa (1997): Junto às camadas pobres da sociedade. como as festas profanas dos populares. bem como a resistência à “romanização” de algumas capelas em que os fiéis e capelães não admitiam subordinar-se à hierarquia eclesiástica. vivendo em completo analfabetismo. a crença em pessoas com poderes sobrenaturais fazia parte do cotidiano de homens e mulheres. vivendo muitas vezes sob a dependência dos ricos fazendeiros. 79) Dentre as manifestações religiosas populares e tradicionais da região.

A primeira. São parcas as informações sobre a capela Nossa Senhora do Rosário106. Por um lado. talvez a capela lembrasse aos ex-escravos um passado e uma condição social que preferiam esquecer e. por outro. Provavelmente. celebravam-se pomposas festas em homenagem à santa padroeira dos pretos e escravos108. o controle administrativo exercido pelos padres franciscanos em relação às capelas que não demonstravam resistência popular à “romanização”. sendo fechada entre os anos vinte e trinta do século XX. tradicionalmente no mês de outubro. pelo seu caráter extremamente popular e característico da região. e demolida nos anos quarenta 109. 68 . e a vinda dos padres franciscanos a Lages. onde se fundam as raízes do movimento milenarista caboclo104 e a crença em São João Maria – um santo de “carne e osso”105 – em Lages. pelo seu significado para as populações de origem africana durante o período escravista e. A falta de interesse e recursos para mantê-la levou suas instalações às ruínas. a capela congregava os escravos da cidade e seus descendentes. a segunda. Durante o período escravista. escravo do fazendeiro Manoel Joaquim Pinto. em 1892. dois fatos contribuíram para o gradativo desdém dos descendentes de africanos à devoção de Nossa Senhora do Rosário: a abolição da escravatura. fez com que a capela do Rosário ficasse cada vez mais fragilizada em relação ao número de fiéis.Duas capelas de caráter popular merecem atenção: a de Nossa Senhora do Rosário e a de Santa Cruz. Construída por volta de 1860107 pelo mestre pedreiro Pai João. natural de Angola. em 1888.

”111 Pretos e brancos frequentavam as festas e os cultos da capela de Santa Cruz112 durante o período. a partir de 1920. 203). p. 1997. e a capela constituiu-se num foco de conflitos entre franciscanos e os devotos de Santa Cruz. dado o caráter exclusivamente popular da capela. arbitrariamente. Porém. perdeu seu vínculo com a religiosidade popular tradicional. Até por volta do ano de 1915. para a maioria da população. plantando uma cruz no local onde se originou a capela. construída com o esforço dos seus devotos. fora da jurisdição franciscana. a capela foi fechada para ser demolida. outra seria construída por acordo entre os franciscanos e o poder público municipal. registrado em cartório (Serpa. Em seu lugar.]” e não darei “satisfações sobre ela a nenhum Vigário. nas suas andanças pelo interior de Santa Catarina. Lourenço Dias Baptista. deixou sua marca registrada na cidade. Cruz. mantendo-se. No entanto.. através da elaboração dos Estatutos da Irmandade de Santa Cruz. p.. ela resistiu. O monge João Maria. só em 1931. 110 69 . 209). a capela de Santa Cruz representava. O zelador de Santa Cruz.Segundo Serpa (1997. um marco significativo da presença de João Maria de Agostinho em Lages. foi lançada a pedra fundamental do novo templo de Santa Cruz que. aos poucos. surgiram muitas lendas e verdades. Em torno da cruz. escreveu no jornal O Imparcial. em novembro de 1902: “a capela de Santa Cruz tem estado muitíssimos anos sob minha gerência [. visto que considero que somente devo prestar contas aos devotos de S. O controle total da capela foi passado à autoridade diocesana em 1924.

Commissário de polícia. dizia o seguinte: Na noite de 17 do andante ficou reduzida a cinzas a casa de residência do sr. o hebdomadário O Clarim. denunciou113 o “mulato Justino do Carmo. casado. natural da antiga Desterro. solteiro. Achavam-se em casa o sr. na fazenda Santo Antônio Lisboa. distante a légua e meia desta cidade. no momento de exaltação de Waltrick. Se não fosse o coronel Waltrick chamá-lo de “mulato”. em casa de João Waltrick. feiticeiro ou curandeiro. profissão criador. com 45 anos de idade. Justino Augusto do Carmo disse que era sapateiro.Feiticeiros e curandeiros: a crendice popular Antonio Waltrick. que pouco salvar puderam. Interrogado.114 Não há menção nenhuma referente à “cor” de Justino na nota de O Clarim. na madrugada de 18 de abril de 1908. em uma nota com o título “Casa Queimada”. Em vista de uma carta que está em mão do sr. como autor do incêndio proposital em sua casa. por sua con70 . no dia 30 de abril de 1908. Waltrick. o incêndio parece ter sido praticado por um curandeiro ou feiticeiro que há tempo se acha nesta praça induzindo o povo incauto com suas bestialogias que estão passando despercebidas às autoridades. No entanto. Sobre o fato do incêndio. na rua Santa Cruz. no momento em que fez a denúncia. 79 anos. Justino finalizou seu depoimento alegando sua inocência. Antonio Waltrick. morador da cidade”. Tenente Cel. o que leva-nos a crer que estas não comprehendem que nosso adiantamento moral já não permitte tal MODUS VIVENDI que só tem entrada onde a ignorância tem domicílio. onde se ocupava de fazer flores de papel e “preparar remédios”. talvez jamais o soubéssemos. a “fronteira situacional e contrastiva” se manifestou no inquérito policial. há um ano morador na cidade de Lages. sua exma Esposa e um filho.

e que ficou muito chateado com suas insinuações. dias antes. Waltrick receberia “um sinal de Deus” para lhe mostrar como ele. e acrescentou ter ouvido dizer que uma parda. Ao corpo delito e inquérito policial do incêndio na casa da Fazenda Santo Antonio Lisboa115. natural do Ceará. Justino dizia que respeitava o coronel. João Waltrick. reforçando as intrigas entre seu pai e Manoela. do processo anterior. pela sua “cor”. filho do coronel. defendeu o curandeiro a quem tinha como hóspede. eram curandeiros. Naquele momento. Justino confirmou a autoria da carta. 70 anos. cabe esclarecer que Justino. Domingas Manoela. negou ter cometido o crime ou rogado pragas ao senhor Waltrick. na sexta-feira santa. porém. três dias antes do incêndio. Antes de passarmos a ela. lembrando. que por outras três vezes já havia sido queimada a dita casa. Por coincidência ou não. Inquirida. mas negou o crime. Outras 71 . Na carta. o estigma da condição social passada de Justino. teria rogado pragas ao senhor Waltrick. negociante. era inocente. conhecida como Manoela. Domingas Maria Henrique. relembrando ao aparato jurídico-policial. havia preparado um remédio para Waltrick. que o tomou. Justino. foi anexada uma carta enviada por Justino ao senhor Waltrick. 45 anos. lavradora.vicção de que o incêndio foi causado por aquele a quem chamou de “mulato” Justino. e que. A testemunha. alegando ter-lhe feito “mal as ervas que o recomendara” e que “continham venenos”. tanto Justino quanto Pedro Barulho. o coronel Waltrick intencionava reforçar os valores negativos do acusado em relação aos padrões de civilidade aceitos. também.

some-se a este raciocínio que o preconceito em relação à “cor” de Justino também o é de 72 . à interpretação do acontecimento.. Houve.testemunhas disseram ser “voz geral” na cidade que Justino foi o autor do crime de incêndio. poderia ser vista como preconceito moral de setores da sociedade em relação aos populares.. pois o incêndio ocorreu exatamente na sexta-feira santa. na atitude de Justino. que não apenas a ordem hierárquica foi rompida. dizendo que não tinha argumentos suficientes para confirmar a denúncia e pediu que se arquivasse o inquérito em julho de 1908. dia previsto por ele para Waltrick receber “um sinal de Deus”. o que foi despachado pelo juiz. na carta anexa ao processo. O “mulato” disse. por si só. acrescentando que. que “respeita o coronel e que ficou muito chateado com suas insinuações [. Acrescentamos. ameaçando toda a ordem social vigente e uma nova moral que se pretendia implantar. a evidência de um questionamento moral quanto à ordem hierárquica. A condenação moral do curandeirismo. A promotoria pública finalizou. No entanto. Isto. não considerando a possibilidade do ato do incêndio pelo curandeiro. A prática social do curandeirismo e da feitiçaria sobrevivia como elemento da religiosidade popular e intimidava. e o incêndio foi dado como casual. na “Sexta-Feira Santa receberás um sinal de Deus”. mas foi desconsiderado todo um discurso de “adiantamento moral” que já não permitia tal modus vivendi propagado incansavelmente pelas elites.]”. é bastante provável que Justino tenha tido parte em tal crime. pelo tom ameaçador de suas palavras. Embora não tenha sido condenado.

As manifestações do preconceito de ordem moral da sociedade branca e elitizada de Lages contra as práticas tradicionais de religiosidade popular eram duplamente reforçadas quando tais práticas se manifestavam por descendentes de africanos. todos os preconceitos se caracterizam por uma “tomada de posição moral”.ordem moral. entre outros. da moral do próprio coronel Waltrick. de certa forma. nacional. étnico. em que as práticas de crendice e religiosidade popular eram consideradas como manifestações imorais e ilegais: Sabemos que existe nesta cidade curandeiros charlatães que aqui andam explorando o povo. Por mais que determinada fonte omitisse informações quanto à “cor”. É necessário que 73 . Para a pensadora Agnes Heller (1992). Exemplificamos os procedimentos de tal mentalidade preconceituosa da época com as palavras do jornal O Clarim. mormente aquellas pessoas de pouca instrucção que facilmente estão sendo levadas pela fama de taes curandeiros. científico. que era cúmplice da moralidade civilizadora das elites e da Igreja e. manifestações de um Brasil arcaico. pois quando da distinção de sua “cor” por parte do depoimento de Waltrick. de 29 de janeiro de 1908. por sua vez. Qualquer acusação de imoralidade de um grupo social em relação a outros grupos. para a elite. verdadeiros charlatães exploradores. representando uma ordem moral em que a influência negra era bastante significativa em sua formação. está relacionada a um tipo de preconceito de ordem moral. tais práticas eram reconhecidamente. este a ressaltou como intenção estratégica de denegrir a imagem de Justino diante do aparato jurídico. sejam estes de caráter econômico.

esses senhores deixem taes modos de vida para que não sejam punidos pela lei que aberta e energicamente se oppõe a taes practicas.116

O combate às práticas de uma moral tradicional e popular não foi diretamente tratado envolvendo a questão da “cor”, embora esta fosse uma condição intrínseca nas práticas sociais. Não afirmamos que todo curandeiro ou feiticeiro fosse descendente de africano, mas entendemos que tais atividades eram características de uma ampla classe popular de indistinta ascendência étnica e diversos matizes, onde, também, a população negra se fez – e se faz – presente de forma significativa. Aspectos do cotidiano lúdico popular em Lages
Nesta busca de construção de um espaço urbano está a preocupação das elites em construir a esfera pública, mas concomitantemente esta edificação não está isenta de medidas que denotem segregação no caso, mendigos, desocupados, loucos e bêbados e expressões culturais “sambas e batuques” passam a ser consideradas expressões de “não civilização” e que, portanto, deveriam ser banidas. Estas manifestações culturais deveriam ser extirpadas como forma de possibilitar a construção de uma esfera pública burguesa e branca. (Serpa, 1996, p. 17)

Na citação acima, o historiador Élio Serpa refere-se ao processo civilizador em Lages durante a Primeira República. Sua ênfase é quanto aos mecanismos utilizados pela elite econômica, política e intelectual da região, na busca pelo “civilizar-se”. As elites idealizavam um novo espaço urbano ordenado e civilizado, de acordo com os padrões espelhados nas principais cidades do mundo e do país, como Londres, Paris, Rio de Janeiro e São Paulo. Desde os últimos anos do século XIX, o poder público, a polícia e o aparato jurídico passaram a delimitar e
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remodelar os padrões de conduta lúdico-popular da sociedade (Chalhoub, 1985, p. 112). No dia 3 de novembro de 1895, o jornal Gazeta de Lages publicou, entre outras regulamentações do Código de Posturas da cidade de Lages, o fragmento em que dizia ser “proibido”:
# 1o. Fazer bulhas ou voserias, dar gritos altos sem necessidade reconhecida. # 2o. Fazer sambas, ou batuques quaisquer que sejam as denominações, dentro das ruas e das povoações.117

As práticas sociais de entretenimento denominadas “sambas” e “batuques”118, que estão diretamente relacionadas à africanidade, foram as únicas identificadas textualmente, pelo Código de Posturas, como ilegais. No entanto, outras nomenclaturas sinônimas, como: “fandangos”119 ou “bailes populares”, foram usadas pela elite da região para identificar “quaisquer que sejam as denominações” dos ajuntamentos de pessoas que produzissem ruídos, barulhos e algazarras. Esta definição incerta de tais categorias era uma demonstração do sincretismo tradicional e cultural do cotidiano de negros, mestiços e brancos pobres da sociedade lageana. A condenação das práticas sociais e de vida desses descendentes de africanos e brancos pobres pela sociedade civilizada, branca e burguesa, não impediu que aquelas formas de manifestação deixassem de existir, embora os porta-vozes do discurso civilizador fizessem de tudo, através da imprensa, para associar tais bailes a aspectos morais negativos, relacionando-os à negritude e reclamando a vigilância das autoridades policiais.
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O jornal Região Serrana, de 15 de maio de 1910, clamava a devida atenção policial para acabar com aquele tipo de divertimento popular que persistia no centro da cidade. Segundo o articulista:
Ultimamente a nossa polícia tem cochilado um pouquinho [...]. Assim é que nenhuma providência tomou para acabar com esses indecentes fandangos que quasi todas as noites, como á atrasada, perturbam a tranqüilidade das famílias, especialmente na rua Cel. Córdova, onde existem alguns cortiços infectos e antihygiênicos. Admira-nos o consentimento que por parte do proprietário da casa encontram as perturbadoras do sossego que à noite tem direito as famílias daquella rua, para a realização desses nauseabundos fandangos. Esperamos da auctoridade policial as providências que esse acto reclama.120

Os intelectuais, a elite e o poder público121, além do discurso e institucionalização de uma moral civilizada, através dos inúmeros jornais do período, adotaram, na prática, outras estratégias para redefinição da sensibilidade e dos costumes da sociedade. A criação de escolas particulares e a fundação do Instituto Estadual de Educação Vidal Ramos, em 1912; a fundação de clubes sociais, como o 1o. de Julho, em 1896, e o 14 de Junho, em 1920; a criação de sociedades literárias, teatrais e musicais; a ênfase à higiene e ao embelezamento122 na reformulação do espaço urbano; e o reaparelhamento dos órgãos repressivos, como as constantes ampliações e reformas da cadeia municipal e o aumento do efetivo policial, foram alguns dos instrumentos usados para a implantação gradativa das novas práticas sociais que se pretendia regulamentar, no intuito de se fazer cumprir as leis e posturas, além de manter uma determinada ordem em relação ao comportamento social que condissesse com a propagada moral civilizada.
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216). houve um chimfrim.123 Os bailes populares subsistiam. apesar do olhar vigilante da imprensa e da ação da polícia. O “samba” realizado em casa de Theresa de tal demonstra a persistência da prática. meretrizes e outras pessoas de “duvidosa conduta” desobedeciam os códigos de posturas e promoviam arbitrariamente suas “reuniões dançantes”. Ou seja. violento e anti-higiênico. o caráter lúdico e profano de seus bailes representava códigos legítimos de conduta. o sonho de que todos fossem civilizados esbarrava em individualidades recalcitrantes e formas de subjetivação alheias ao processo ou submersas em seu mundo. resistiam a um processo civilizador e intolerante das elites. que pretendia instituir novos valores morais e bur77 . Avisado. em que elos hierárquicos e a ordem de situações convencionais do dia-a-dia eram rompidos. p. Na noite de 24. n’um dos costumeiros sambas que realizava-se na casa de Thereza de tal. p.A grande preocupação da elite e do poder público com as manifestações cotidianas de entretenimento dos populares era o seu caráter barulhento. lá para as bandas da antiga rua das Tropas. Delegado de polícia que acabou com a festa. Pretos. 1995. 25). compareceu o sr. Quatro praças que policiavam o bairro foram aggredidas e contundidas algumas. Segundo Serpa (1996. lugar onde a bebida estimulava os participantes a expansões de certas práticas. serenando o ânimo dos exaltados que na maior parte estavam armados de cacetes. Para os descendentes de africanos e outros populares. Com o conceito de “legítimo” queremos dizer que os homens e mulheres que constituíam a multidão acreditavam estar defendendo direitos ou costumes tradicionais124 (Thompson.

vulgo alferes. disciplina. trabalho e higiene. Feliciano Francisco dos Santos. Antonio Guerreiro perguntar à seu camarada: “O que foi que os negros disseram”. o preto conhecido por Justino. a cantar e a beber” quando. já deitado. entre outros. Manoela preta. estavam reunidas várias pessoas “a tocar viola. em frente a casa. começou uma briga entre Benedicto Nogueira de Andrade. negociante. 58 anos. 37 anos. outro negro. jornaleiro. as mulheres. em casa de negócios de Francisco Circumpcisão Farias. sua esposa Maria Rodrigues. filho de pais incógnitos e Benedicto de Calazans Guerreiro. Por ocasião do testemunho de Olivério Rodrigues Nunes127. Estavam presentes no local: Manoel Serafim da Cruz. casado. respondendo o camarada: “A rapariga. Benedicto Nogueira. da qual foi vítima de morte Antonio Tolentino Guerreiro.gueses de ordem. natural de Curitiba. e. de nome Justino Vieira Camargo. filha de Maria Preta. jornaleiro. 40 anos. Adão. filha de Maria Preta. jornaleiro. solteiro. e. peão do senhor João Luiz Vieira Júnior. 35 anos. que cantava. Nhinhara. 35 anos. por causa de uma prostituta de nome Julia. Candida Zangada e a própria Julia. Julia. conhecido como Bernardo Bexiga. avessos à moralidade lúdica e tradicional dos descendentes de africanos e populares. este disse “que estando em sua casa. 52 anos. que tocava viola. no Arraial do Painel126. ouviu na rua. dissera que se era por di78 . Bailes populares: a presença negra Na noite de 11 de fevereiro de 1892125. natural de Vacaria. filho de Maria Benedicta.

dentre os quais vários dos presentes eram de “cor” preta.128 Nas “reuniões dançantes”. onde estavam reunidos lavradores. 79). que acabou morrendo no conflito.. Benedicto Nogueira e Feliciano dos Santos. após a abolição. Pela habilidade e hábitos adquiridos. os descendentes de africanos consagraram-se na região. a dança. Segundo o memorialista Armando Ramos (1988) “[. alguns bailes eram realizados após o chamado “pixurum” ou “puxurum”. principalmente gaitas. ter ouvido de seus antepassados que os proprietários de escravos da região compravam os instrumentos musicais. Tradicionalmente. Aquele era um típico “baile popular”. Ramos (1988) disse. pela sua sensibilidade musical.]”.. O cotidiano popular da região era marcadamente profano.] aqui em Lages de 1905 a 1915 eu só conheci tocadores pretos. e davam aos escravos para que eles animassem seus bailes de senzala. a música..” (p. No auto de perguntas aos denunciados.. Antonio Guerreiro pediu um rifle ao seu camarada e sahiu correndo para a casa de Francisco Farias [. quase sempre eram os negros que estavam no comando dos instrumentos musicais. onde deu-se o conflito. Naquele tipo de reunião lúdica. ainda. jornaleiros e prostitutas. a prostituição e a bebida eram os principais ingredientes. ambos disseram que foram à casa de Farias para “cantar e tocar” e que foram agredidos por Antonio Guerreiro. que era um trabalho realizado solidariamente entre vários indi79 .nheiro que ella ficava com os negros. A violência também era comum e manifestada geralmente por ânimos mais exaltados como conduta legítima. não ia.

a recompensa e o estímulo para que os vizinhos se socorressem mutuamente. Geralmente. tal situação predispunha um ambiente ao conflito. que na sede do distrito de Capão Alto130. estavam algumas pessoas em uma “reunião familiar”. onde frequentavam indivíduos de várias classes e etnias . cativos de uma dada vizinhança que. sen80 .. tanto por parte de indivíduos das classes populares. na verdade. pela realização de uma festa dançante. os bailes tinham uma composição informalmente segregada e excludente.]”. peões. “perturbando a ordem pública. quanto por parte de indivíduos das elites. Denunciou à promotoria pública da comarca de Lages. agregados. vez por outra. entre criadores. que era. ou eram “bailes familiares”. às 23 horas da noite de 14 de abril de 1914131. solidariamente se reuniam para fazer uma roça. quando.. No entanto. De maneira geral.. entre outros trabalhos que exigissem urgência e um maior números de pessoas para realizá-lo. no tempo da escravidão. jornaleiros e. Ou eram “bailes populares”.129 A grande expectativa dos envolvidos era o fim do trabalho e a realização do baile. de faca em punho. conforme a tradição.víduos: lavradores. com insólitas provocações a todos [. ou “baile”. negociantes e artistas. Acresce que Geraldo é tido e havido como desordeiro de peor espécie [. na parte de fora da casa. como no caso que segue. Essa solidariedade era premiada.. havia certas “invasões” desses espaços. apareceu Geraldo. subdelegado de polícia daquele distrito. lidar com o gado. onde a presença das pessoas se fazia de forma mais homogênea. fazendeiros. entre as quais José Zeferino Neves. erguer uma taipa ou um galpão.].

]”. e José Luiz Tubbs.. criador. acompanhado de um negro e de um mulato. porque não reuniam “requisitos para tanto”. um “negro” e um “mulato”. entre outros. por resistência a entregar a arma. o criador José Leite disse que “pelas onze horas mais ou menos. artista sapateiro. em uma reunião familiar. 81 . continuando. que eles se retirassem. Sendo notada a presença. o que fizeram.”132 Conforme os testemunhos...] quando o denunciado entrou na sala de baile.do. o denunciado começou a provocar a todos indistintamente proferindo palavras injuriosas. com uns fumeiros. portanto. José Xavier Leite Sobrinho. foram chamados para prestar depoimento. preso em flagrante pelo delegado presente. os quais não tinham sido convidados e não são pessoas que reunam requisitos para tanto. Manoel José Pereira de Jesus. o denunciado entrou na sala do baile de que se estava dançando. Em seu depoimento. o artista José Luiz Tubbs acrescentou que: “[. devido a sua “cor” e condição social. daqueles fumeiros e do próprio denunciado. 19 anos. pelo que foi mandado sair o mulato que não tinha convite para o baile. alguém dos presentes pediu-lhes. a provocar [. na rua. mandou que este dançasse. os presentes no dito baile: José Waltrick Branco. Em outro testemunho do mesmo processo.. o acusado e seus companheiros. como descrito por José Luiz Tubbs e José Leite. Quando iam saindo para a rua. Aberto o inquérito. criador. como também não tinha o denunciado e muito menos o negro. pois era uma reunião familiar e que nenhum deles poderia ter cabida. com bons modos. criador. não eram bem vindos no “baile familiar” realizado por criadores133 e artistas.

As distinções entre “bailes familiares” e “bailes populares” eram significativamente demarcadas. como principal condição nivelar todos os cidadãos brazileiros na mesma raia de direitos. o outro ocupava as páginas policiais. isto é. sem devida venia do sr. pelo facto de ter este feito um baile. e si é certo que a lei áurea de 13 de maio de 88 veio arrancá-los do nefando captiveiro e considerá-los irmãos na mesma pátria. contanto que este não ultrapasse as normas da razão. que concede a todos o exercício livre da sua vontade e liberdade. os valores sociais negativos da sociedade tradicional. veio. o direito de liberdade. representado pelo discurso da elite como um modelo ideal de comportamento. Enquanto o primeiro ocupava as páginas dos jornais. com o facto da prisão de um preto velho desta cidade. como se pode admitir que haja um completo traço de distincção entre classes. legando a todos os mesmos direitos assegurados na constituição republica- 82 . e a explendorosa pronunciação de 15 de novembro de 1889 veio com mais amplitude ligá-los mais intimamente ao seio da cara pátria. Ora. se a nova forma de governo. É um facto contrastável com as disposições constitucionaes da República. o artigo publicado no jornal O Clarim. de 27 de maio de 1908. e assegura a cada um o direito de inviolabilidade individual. em potencial. Abaixo. divertirem-se independentemente da vontade de um superior. com o título de “Violências Policiais”: Há poucos dias ficamos perplexos e até certo modo completamente attonitos. que fez derruir a dynastia. ou entre indivíduos que tentam exercitar o mesmo direito. simbolizando. Si os pretos não podem fazer bailes. isto é. Commissario de polícia que se achava em viagem ou a passeio fora da cidade. exceptos os casos pela própria lei determinados. do justo e do honesto. claro é que essa raça não tem a verdadeira e completa independência. na íntegra.

. não será que estes pobres. por parte da imprensa lageana. a denúncia de atitudes que denotassem caráter segregacionista de qualquer segmento social contra descendentes de africanos. TOLLITUR QUESTIO!134 Nunca foi comum.. coincidentemente. percorreu as ruas desta cidade.. pobres já porque deixam-se subjugar miseravelmente.. onde “uma grande massa popular. não escapam ao chanfalho policial que sobre elles pesa como reflexo d’outr’ora.. por força. sem que para isso seja preciso mendigar uma previa licença.]”136. e . sendo estrepitosamente correspondido pelo povo em massa [. inflamado pelos acontecimentos da semana anterior. 83 . – Não podemos admitir que haja um completa prohibição para essa pobre gente dar azas as suas expansões. caído em dias próximos à comemoração dos 20 anos da Abolição da Escravatura e que o articulista.. que são de carne e osso também possam dar os seus bailes.] redacção do ‘Clarim’ a qual foi saudada pelo sr.]”135 seguindo até a “[. Gustavo Martins que à frente do povo ergueu um viva ‘a democrata redacção do Clarim’. tenha sensibilizado a redação do jornal pela injustificada prisão do “preto velho”.. trucidada a sua liberdade e integridade individual – que se estão no mesmo nível de garantias constitucionaes. pobres já por sua inferioridade de raça.na que considera iguaes todos os homens – menos certo. si essa prohibição firma-se em disposição da lei municipal. é justo que elles. E. festejando esse dia comemorativo de sua liberdade [. então é o caso de dizer-se: – CADA MUNICÍPIO É UMA REPÚBLICA DENTRO DA REPÚBLICA. porque se nós outros temos livremente as nossas occasiões de júbilo e nos divertimos.. A justificativa mais provável para a publicação do artigo acima é que o fato tenha ganho tal entonação por ter.

A presença negra em outras formas de entretenimento Na casa de negócios do cidadão Manoel Francisco da Silva. disse em seu depoimento. instituídos pela moral civilizadora.. fazenda Pinheiros Ralos. Em síntese. pelas duas horas da tarde do dia 20 de janeiro de 1905137. que a briga entre ele e Francisco Xavier foi inicia84 . foi limitado pelas ditas “normas da razão. do justo e do honesto”. os pretos”. esbordoando-o até que este saiu para fora do pátio da casa onde se achavam [. em que é possível observar o sentimento de alteridade e superioridade do autor (“nós outros”) em relação aos descendentes de africanos (“ele”s). lavrador. demonstrando o aspecto racialista de seu discurso. na localidade de Campo Belo138. o mesmo Xavier deu de relho no dito Innocencio. “o direito da inviolabilidade individual” e a condição de cidadão legada a todos os brasileiros com a Abolição da Escravatura e pelas “disposições constitucionais da República”. casado. o próprio autor imprimiu na redação do artigo um caráter de diferenciação entre “nós outros” e “eles. natural de Lages. a quem chamou de “estes pobres. com 25 anos de idade. não podendo se “admitir que haja um completo traço de distinção entre classes”. Innocencio. pobres já por sua inferioridade de raça”. O artigo expressa com realismo a convivência entre a elite branca e “os pretos e pobres”..]”. “travando-se de palavras Innocêncio e Francisco Xavier por motivo de não ter este cumprimentado aquelle.Apesar dos apelos feitos pelo articulista às leis que vieram “nivelar todos os cidadãos brasileiros na mesma raia de direitos”.

natural de Lages. foi agredido a relhos por Xavier. teria sido ele. excepto a Innocencio. a ruptura de uma hierarquia 85 . que respondeu-lhe que o fazia pelo fato de ele. que negro nunca foi gente. e que perguntando o porquê de tal atitude. viúvo.139 Lavrador e negro. Xavier ficou irritado pela presunção do negro em dirigirlhe a palavra. este disse que chegou à casa de negócios e cumprimentou “a todos com aperto de mão. Quanto ao depoimento de Francisco Xavier de Souza. Innocencio foi o único dos presentes ao qual Xavier não estendeu a mão para cumprimentar. agredido primeiramente por Innocencio. por fim.]” recebendo diversas relhadas... Innocencio. menos a ele. exigindo o direito de ser tratado como um igual. criador. ao que retrucou-lhe Innocencio perguntando se negro não era gente. recebendo como resposta que o motivo era o fato de ele “ser negro.” como alguém que nunca perderá a marca da escravidão. ainda mais. que sim. demonstrando sentirse ofendido pelo tom com o qual foi chamado de “negro. Importunado.da porque Xavier cumprimentou a todos os presentes. ao que. “Innocencio ser negro. Innocencio respondeu que “o captiveiro já tinha acabado”. Innocencio retrucou a Xavier. prontamente. cobrando-lhe uma atitude de igual consideração à dada aos outros presentes. respondendo-lhe elle depoente. à quem apenas cortejou dizendo-lhe: – Boa tarde..]”. Xavier. e que. deu-lhe como resposta que “o captiveiro já tinha acabado [.. A reação de Innocencio demonstra como o fim da escravidão representava na visão de alguns negros. ainda mais nas condições delle [. defendendo-se. e como tal precisa de laço”. e como tal precisa de laço”.

ela mostrou-se como uma conquista individual dos negros pelo reconhecimento de sua cidadania. prevaleceu uma diferença hierárquica marcada pela etnicidade140. botequins ou “casas de negócio” eram o espaço de lazer diário. Os conflitos também se tornaram frequentes. a negritude em relação à antiga condição social escrava dos descendentes de africanos.pré condicionada à “cor”. Como espaço público141. associando. a presença diversificada de indivíduos de várias classes sociais e ascendência étnica era comum. sempre que possível. jogar e conversar sobre os acontecimentos do dia-adia. legitimada pelas teorias racialistas. Por exemplo. mesmo que nem sempre resultassem em processos ou inquéritos criminais. E nos momentos em que essa hierarquia foi contestada. devido à inexistência de vítimas com ferimentos graves ou por causa do silêncio dos envolvidos em relação à justiça ou à 86 . Os bares. várias testemunhas foram arroladas no processo em que Innocencio e Francisco Xavier entraram em conflito e. nada limitava a presença da diversidade social e étnica naqueles ambientes. como no caso de Innocencio. onde o respeito e o tratamento de igualdade eram requisitados por eles próprios. botequins e outros espaços sociais de lazer. quando se sentiam redimidos por outrem. a moral dominante. entre elas. na prática. alguns criadores e lavradores que estiveram presentes na “casa de negócios” de Manoel Francisco da Silva. onde os homens se reuniam para beber. No entanto. A Abolição da Escravatura e a Proclamação da República colocaram os negros legalmente sob a mesma condição jurídica de cidadãos que o restante da sociedade. Nos bares.

irmão de Francisco. mas agravara-se no momento 87 . No lugar chamado Amola Facas. no dia 24 de agosto de 1913143. E Sebastião respondeu que “ele não tinha dinheiro para comprar negros da qualidade delle [.. logo em seguida. O depoimento da testemunha Irineu Antunes de Castro. ou algo similar. Dentre outros diversos testemunhos.polícia.]”. A discussão entre Antonio Lara e os irmãos ‘Anhaya’ iniciou-se por causa da aposta. ao que Antonio.. 50$000 réis em uma corrida de cavalos. lavrador. numa raia em frente à casa de Alexandre Ignacio de Jesus. pois era costumeira a resolução de contendas sem a intervenção policial ou jurídica142. Sebastião convidou a Antonio para “abrirem o dinheiro”. a vítima Francisco Bibiano de Anhaya. residente e inspetor do quarteirão do Amola Facas. no mínimo. Porém. distrito de Lages. nenhum confirmou ser o tiro que saiu da arma de Antonio o mesmo que atingiu Francisco. foi o que melhor situou os acontecimentos daquela tarde. confirmaram ter visto a tentativa de agressão por parte de Antonio e ouvido a expressão: “eu tenho dinheiro para comprar toda essa negrada”. Segundo Irineu. A testemunha acrescentou. terminando com as seguintes palavras: tenho dinheiro para comprar toda essa negrada”. o acusado Antonio apostou com Sebastião. 45 anos. natural de Lages. outras três testemunhas. foi gravemente ofendido pelo acusado Antonio Ribeiro Lara. durante uma corrida de cavalos. “insultou muito Sebastião. casado. indignado. ao afirmarem estar próximas do acontecido. Porém. que Manoel segurou a espada que Antonio iria dar em Sebastião e que Antonio começou a atirar contra o grupo de pessoas em que estavam reunidos os irmãos de Sebastião. ainda. além de Antunes Castro.

posteriormente. “havia sempre grande afluxo de povo para as raias: faziam-se vultuosas apostas. danças. associando diretamente tal termo ao passado escravista dos ofendidos. sobre as “carreiras” realizadas em Lages. lavradores. peões – brancos e pretos – para apreciarem as corridas de cavalos147. ao dizer que poderia “comprá-los”. insistia em aparecer naquele momento. dos ânimos mais exaltados. Segundo Licurgo Costa (1982). jogos. estimulando o surgimento de uma etnicidade negra. era comum que. A fronteira tênue. na área rural145 ou nos arrabaldes da cidade146. Sebastião e seus irmãos responderam em defesa própria contra um tipo de ofensa que não aceitavam mais: a qualificação de inferioridade. Os espaços não eram especificamente populares. chamando-os de “negrada”. Os negros sabiam muito bem o que aquelas palavras representavam. se produzisse algum tipo de intriga verbal ou violência física. situacional e contrastiva que se tentou omitir com a ideia de unidade da nação brasileira. de “democracia racial”144. juntavam-se criadores. Devido à diversidade social. 88 . mas não deixavam de ter uma característica profana. mestiça e harmônica.em que Antonio “insultou” Sebastião e seus irmãos. marcada pelo reconhecer-se e ser reconhecido como diferente pela “cor”. elaborada naquela época sob a égide mítica do que se convencionou chamar. bebedeiras e conflitos. vendedores de comidas e bebidas instalavam suas tendas. suscetível a brincadeiras. A negritude era a marca do cativeiro e de uma condição social e racial estigmatizada hierarquicamente como inferior em todos o País. Nos fins de semana.

subúrbio da cidade. um espaço específico e definitivo para a atividade. já que. corria muita cachaça e as brigas eram frequentes. aos poucos. a Associação Turf Catharinense inaugurou um hipódromo. na maior parte dos casos. pelos costumes de um passado recente e tradicional. por ela adotada. a elite lutava insistentemente para impor uma outra moral. eram os criadores e fazendeiros quem as promoviam. o que possibilitava um controle mais eficiente sobre tais manifestações. Apesar das mudanças promovidas pela elite e pelo poder público. surgiam tocadores de violas e sanfona. civilizadora e renovadora dos costumes da sociedade. gradativamente.” (p. em substituição às velhas raias de corridas. remodelaram-se as corridas de cavalos. foram se esgotando. 89 . Além disso. o pagamento de taxas foi adotado pelo poder público municipal para coibir a realização das “corridas” em outros espaços públicos ou privados que não aquele determinado pelos fazendeiros. mas. criando-se. muitas vezes com graves conseqüências.muitos assistentes montavam barracas. as “carreiras” continuaram ocorrendo em alguns dos antigos locais. A religiosidade e o entretenimento estavam profundamente arraigados em sua moralidade. em julho de 1917. em local doado pela prefeitura na localidade da Várzea. 1429) Com a fundação da Associação Turf Catharinense por um grupo de fazendeiros lageanos. improvisavam-se danças. pretos e brancos pobres. Em 1920. com características mais “ordeiras”. As situações cotidianas dos populares em Lages eram comuns entre mulatos. No entanto. “elitizadas” e “civilizadas”.

90 .

Há poucos dias tivemos occasião de vê-lo. Embriagado. Ó ser humilde entre os humildes seres. a seguinte nota: Chamamos a attenção de quem competir afim de providenciar no sentido de serem suavisados os males do pobre preto velho Amaro que habita em uma casa mais semelhante a uma pocilga nas proximidades da Santa Cruz. tonto dos prazeres. Entregue aos cuidados de uma aleijada que tem que sahir à rua arrastando-se para obter o duro pão de sua subsistência o infeliz preto velho paralítico jáz sobre os mais repelentes trapos tendo como única faculdade respirar o ar infecto que exahala de dentro da casucha. algumas imagens das condições de vida de po91 . É quase indiscritível a impressão que nos causou o mísero preto velho. O mundo para ti foi negro e duro.” Cruz e Sousa N o dia 14 de março de 1907 foi publicada no jornal A Evolução.Capítulo 3 “Homens de cor” no espaço urbano de Lages “Ninguém sentiu o teu espasmo obscuro. alli num miserável cochichólo replecto de vermina e nú.148 Para os novos padrões de civilidade e urbanidade que contagiavam as elites lageanas das primeiras décadas da República. E isto passa-se dentro da área urbana desta cidade sem um rápido olhar dos que devem zelar pela saúde pública e mitigar os sofrimentos dos desamparados da sorte.

lembrando que aquela situação passava-se “dentro da área urbana desta cidade”. Além das associações. pela Igreja e por homens de posses. ressaltando os aspectos repugnantes da condição em que o dito preto se encontrava. ao mesmo tempo que aliviavam a 92 . também estabeleceram em seus estatutos a beneficência. Além da causa arquitetônica. bem como a denunciar a presença do indesejável e do patológico150. adotada pelas elites e pelo poder público na renovação do espaço urbano149. outras de caráter diverso. literário ou religioso. era necessário “limpar a cidade”. como recreativo. dar-lhe aspecto salubre. confortável e seguro. O aspecto sujo e feio do ambiente em que vivia o “preto velho” fazia parte de um cenário social pobre e comum de bairros periféricos ao centro da cidade.pulares e miseráveis não poderiam permanecer à vista pública. as associações beneficentes se multiplicaram na cidade151 e incorporaram a filantropia pública como sinônimo de civilidade. A caridade e a generosidade para com os mendigos e os enfermos. sob a perspectiva da sua lógica moral de civilização. incentivar e estabelecer os requisitos materiais necessários para que a cidade se tornasse civilizada. principalmente no que se refere às áreas centrais da urbe e suas proximidades. em que a maioria da população vivia aquém das condições de higiene propagadas como necessárias pela moral burguesa e civilizadora. conclamando a ação do poder público e de particulares. políticos. Financiadas por intelectuais. O olhar vigilante da imprensa lageana estava atento a fiscalizar. A situação infeliz vivida pelo miserável Amaro foi narrada pela imprensa.

pobres. contribuíam para sanar a pobreza das ruas centrais. melhorando seu aspecto. p. através dos jornais e de mensagens. 140). saudável e ordeiro para a moral burguesa de civilização. 1994. Em 20 de agosto de 1912. bonito. o embelezamento constituía-se em “uma ação urgente e execução inadiável. pela lei estadual número 928..”153 A questão do embelezamento da cidade passava pela definição do que é belo. exhibindo-a nas vestes andrajosas e nas feições denunciadoras de amargas e continuas privações sofridas. sinopses e relatórios periódicos da administração pública do município e do estado. Alguns anos antes. o clero. o Hospital de Caridade de Lages152. “principalmente quando de cor” (Pesavento. que usufruía de uma vida economicamente tranquila. por ser o thermometro característico e denunciante do desenvolvimento e progresso daquelles que nella vivem. foi criado. sem pão e sem lar que passeiam a miséria pelas ruas da cidade. Os miseráveis. estendendo a mão ao óbulo generoso da philantropia pública. loucos e aleijados. pois “[.”154 Naqueles primeiros anos da República. representavam a estética social do feio e do indesejado na esfera do espaço público que a elite branca pretendia construir e consolidar. a região de Lages crescia economicamente e demograficamente. o poder público e a elite local. Estes fatores impulsionaram 93 . discursavam sobre o caráter essencial da construção de um hospital e casa de caridade para a cidade. ampliando a representatividade política local155 em relação ao estado de Santa Catarina.] já não é pequeno o número de desprotegidos da fortuna.. Para os setores sociais que representavam a moral da elite.consciência da elite.

aos arrabaldes.o desenvolvimento da cidade e. principalmente. a região denominada de Banhado157. com o crescimento populacional da urbe. (Pesavento. convergiam as opiniões de homens de governo e daqueles mais situados socialmente. as elites na área central da cidade e os pobres na área suburbana. os subalternos deveriam ser varridos da área central. No entanto. uma nova configuração de seu espaço urbano. onde a ocupação dos espaços estava preestabelecida pela condição social. sobre a cidade de Porto Alegre nos primeiros anos da República: Na divisão do espaço que obedecia à assimetria social. ao mesmo tempo saneadora. alguns espaços geográficos da cidade foram gradativamente ocupados por populares e. moralizante. também se desenhou em Lages um quadro social geograficamente segregado. 138) Como em Porto Alegre. por descendentes de africanos. por consequência. da área rural da própria região. conhecida como Lagoão e o bairro da Brusque158. levados aos subúrbios. estética e especulativa. respeitadas as proporções. principalmente.1994. os mais significantes foram as proximidades da região onde estava localizada a capela de Santa Cruz156. moradores antigos do “centro”. às novas áreas que eram loteadas. Para esta operação. mas sempre baseada em critérios classistas. O fluxo deste crescimento vinha de outras cidades e. Após a Abolição da Escravatura. resistiram enquan94 . devido à falta de propriedade e trabalho àqueles que deixaram de ser cativos e não queriam permanecer ou não eram mais aceitos nas antigas propriedades em que serviram como escravos. cresceram os “indesejáveis sociais”. Alguns populares. Entre outros. Segundo Sandra Pesavento. p.

p. à medida que o “centro” crescia e incorporava esses antigos bairros. No entanto.. aparecem referências a estes locais como sendo a residência de algum indivíduo de “cor” negra. Brusque.] um vasto mundo de participação popular.. Como exemplos.] concretizava-se em pequenas comunidades étnicas.160 Banhado e Santa Cruz. Só que este mundo passava ao largo do mundo oficial da política. [. transladando-se à periferia urbana. o poder público estava sempre renovando as leis e posturas do município.to puderam a deslocarem-se para a periferia. 38) Os bairros161 que antigamente eram reconhecidos como Lagoão.] havia [. como estratégia para a expulsão dos indesejados sociais do “centro”. Brusque e Lagoão [. Nos bairros Banhado e Santa Cruz.. estabelecendo-se nos bairros e arrabaldes da cidade. por falta de condições materiais para se manterem nas antigas propriedades.. além 95 . saneamento e melhorias dos passeios públicos em frente às casas.. locais ou mesmo habitacionais.. através das quais aumentava os impostos sob as propriedades.]. exigia dos proprietários a reforma estética das residências. viviam diversos descendentes de africanos. (Carvalho. Em alguns jornais da cidade e processos crimes pesquisados. hoje fazem parte da área central da cidade.. abrigando a população de descendentes de africanos e os brancos pobres. Banhado162 e Santa Cruz. Desta forma. os próprios populares acabavam saindo gradativamente da área central.. vizinhos um do outro. [. 1997. Muito pouco dos descendentes daquelas populações permaneceram nestes locais. tudo sob a ameaça de taxas e multas159.

em casa de Antonio Machado. chegaram o “preto” Guilherme da Silva. 96 . O capanga e empregado do denunciado Luiz Vieira. o “pardo” Antonio Gonçalves da Silva Porto165. identificamos como moradores das imediações do Banhado e da Santa Cruz. Na noite de 20 para 21 de abril de 1918169. O Banhado e o Santa Cruz. filho de Pedro Barulho170. travando-se uma discussão entre Vieira e Juventino Xavier. fatalmente. eram espaços onde se manifestavam as situações do cotidiano lúdico.do “preto velho Amaro que habita em uma casa mais semelhante a uma pocilga nas proximidades da Santa Cruz”163. filho de Diogo Vieira. filho de Miguel Coelho. por vezes pretos. Lá pela madrugada. atirou-se contra os que se achavam em sua frente. o “preto” Francisco Gonçalves167 e o curandeiro “mulato” Justino do Carmo168. o “moreno” Claudino de Chaves Lins164. o “preto” Laurindo José Garcia166. além de serem ocupados por moradores humildes. acertando. O baile corria animado até o momento em que Vieira entrou numa sala onde alguns indivíduos conversavam e começou provocá-los. entre outros. alguns dos locais em que visualizamos a presença de descendentes de africanos naquelas imediações. inclusive sendo atraídos moradores negros de outros bairros ou arrabaldes da cidade. o menor Luiz Vieira. Os bares. muitas vezes. e Agostinho de tal – “mulato”171 –. conhecido como Antonio Barulho. Fermino José dos Santos. casas de prostituição. bailes ou festas em residências particulares e a própria rua foram. tendo em uma das mãos um punhal. realizou-se um baile na rua da Santa Cruz.

também eram comuns as chamadas 97 . descobrimos as profissões de alguns deles. ruidosos e promíscuos pela ótica civilizadora. Apesar da impossibilidade de identificar a “cor” de todos os presentes. Entre eles. onde souberam que a dita meretriz tinha ido a um baile em casa de Antonio Machado. na rua dos marmeleiros. considerados como violentos. e o jornaleiro Jerônimo Lopes de Liz. Tal dado demonstra o caráter popular do baile e a provável presença de outros descendentes de africanos em seu meio. 28 anos. o pedreiro João Ozorio dos Santos. pedreiros ou lavradores de Lages. 28 anos. além dos bailes em casas de particulares. identificamos outros dos presentes naquele baile. Disse também. cidades próximas. Além da presença do “mulato” Agostinho de tal. o “preto”172. jornaleiro Laurindo José Garcia. do “preto” Antonio Barulho e do menor Luiz Vieira. que saiu de sua casa em companhia de ambos para irem a cidade à procura de uma meretriz de nome Sebastiana. bairro de Santa Cruz. natural de São Joaquim. Agostinho de tal era seu vizinho e Antonio Barulho. natural de Curitibanos. ou das redondezas. o pedreiro João Pedro Luiz. seu camarada. o lavrador Sebastião Borges. 43 anos. arrolados pela justiça como testemunhas do crime. residente na cidade. 31 anos. 23 anos. Jornaleiros. 27 anos. o jornaleiro André Francisco da Silva. para onde se dirigiu com seus companheiros. o jornaleiro Emílio Roza. No Banhado e no Santa Cruz.Em seu depoimento. eram a grande maioria das pessoas presentes naquele tipo de divertimento dos bairros periféricos da cidade. o acusado Luiz Vieira disse sobre seus parceiros que.

negros e aqueles mais pobres” 176 de toda a região. da venda de quitutes. no alto da Santa Cruz. realizadas com bastante frequência. do serviço doméstico para terceiros. Além do aspecto lúdico do cotidiano dos bairros citados acima. Tio Eufrázio. também concentraram-se vários descendentes de africanos que migraram para a cidade após a Abolição da Escravatura. debaixo de lampiões. viviam de vender a lenha que recolhiam de matas próximas. batuque e “bate pé”175. O senhor Sebastião Ataide. “em geral o pessoal mais humilde. estudioso da história de seus antepassados. o que perturbava a tranquilidade social das elites. onde os negros acendiam fogueiras e cantavam até determinada hora. Na sua maioria jornaleiros e lavradores. as reuniões eram realizadas no Santa Cruz. e ainda de serviços esporádi98 . ex-escravo da família Ribeiro. foi um dos puxadores das rezas em frente à capela Santa Cruz178. homens e mulheres. compareciam populares diversos e produzia-se muito barulho. do excedente de suas lavouras. em busca de oportunidades de sobrevivência. Disse que. onde os fiéis do monge São João Maria.177 Segundo Sebastião Ataide. em entrevista no dia 26 de junho de 1998. velas de cera e sabão caseiro. nascido em 1923 e morador de Lages desde o ano de 1929. da lavagem de roupas às margens do rio Lagoão. devido à proximidade da área central. segundo o que soube pela tradição oral. falou173 sobre o que seriam as “reuniões de rua”. se reuniam para orar.174 Nas reuniões. descendente de africanos. porque a cidade não tinha iluminação elétrica. a capela de Santa Cruz estava localizada numa colina. Nos bairros Brusque e Lagoão.“reuniões de rua”.

Sebastião Ataide (1998)... alí por 1927. “Brusque”. né. é o seguinte: que foi devido à quantidade de mulatos. Lino Euphrazio Garcia Ribeiro. Era uma pilhéria. pardo182... a hipótese do senhor Sebastião Ataide (1998) sobre o nome do bairro originou-se do fato de que o agrimensor Brüsk teria se 99 . Outros. servidores da Prefeitura e gente que foram requerendo terras ali e fazendo casas. exerceram atividades como o recolhimento do lixo e material fecal. parece. é que veio. como funcionários do poder público. Como vimos. muita gente de cor. Disse ele que: Existem certas versões [. quando o senhor Caetano Vieira da Costa foi prefeito de Lages. que eram Franceses e Alemãos. relembrando de sua infância e do que ouvira pela tradição oral. ele residiu numa casa ali mais ou menos onde está o Pronto Socorro.. E o outro. jornaleiro. não é? 181 A referência documental mais antiga que encontramos sobre a denominação daquela região como “Brusque” foi no processo crime de 10 de março de 1927.. em que fora acusado e qualificado como reú.. que dizem. que a chamar: – Ele mora lá pra “Brusque”. “Brusque”. lá perto da “Brusque”. e.. esse engenheiro. lá. Também existe isso aí. do outro lado – até a casa eu conheci –.. aqui.] A única informação meio certo que se sabe. 28. o nome total.. gente loira. identificado como morador “na rua Brusque”183. “Brüsk”. parece que ele tinha uma placa.. como tinha muito moreno.. ele parece que contratou um engenheiro para fazer um levantamento topográfico da cidade. no Estado. Agrimensor. e. e começou. A nossa Brusque..cos diversos pela venda de seu jornal de trabalho179. né. apontou os prováveis motivos da origem do nome Brusque para o bairro. o acendimento da iluminação a gás das ruas da cidade e o serviço de praças da força pública policial180. com o nome dele.. “Brüsk” – eu não estou lembrado bem do primeiro nome –.. dizia: – Isso aqui está até parece Brusque..

já era. progressivamente. representaria o seu oposto. tal forma de identificar a localidade. ou seja. o “bairro”. A presença do agrimensor Brusk naquelas imediações se tornava irônica. vista como feia. A “Brusque” de Lages. no Vale do Rio Itajaí. Naquela região. reconhecidamente uma das colônias germânicas mais prósperas e numerosas do estado de Santa Catarina. Por outro lado. acumularam-se. tornou-se uma forma de gracejar com a região. em busca de sobrevivência. Nos bairros em que se estabeleceram as populações pobres. 100 . moradores negros e pobres vindos da área rural e de outras cidades. pois como disse Sebastião Ataide (1998). tendo como referência a residência do agrimensor. como uma normalidade vivida por seus habitantes. ocupada principalmente por descendentes de africanos. há muitos anos. os bailes populares – sambas ou fandangos – e a insalubridade de ruas e casas. momento a partir do qual a região ficara conhecida como “Brusque”.instalado naquela região de “1927 a1928”. até a década de cinquenta do século passado184. a violência. a idéia de pilhéria deve ser considerada. pois o município de Brusque. para os moradores das áreas centrais. eram comuns as casas de prostituição. inicialmente as pessoas se referiam à localidade da Brusque. desde o período da libertação dos escravos. Em virtude da característica da grande maioria da população e do número de casas com aspecto humilde. que se diferenciava da realidade do modelo de civilidade que a elite implantava nas áreas centrais. Tal informação coincide com a referência ao ano do processo do “pardo” Lino Euphrazio Garcia de Ribeiro. suja e de aspecto brusco. na sua maioria.

no caso dos descendentes de africanos no interior do conceito de populares. um fazer-se em sua experiência comum. e contra outros homens cujos interesses diferem (e geralmente se opõe) dos seus. de igualdade. dizendo que: “[. 1987. A consciência de classe é a forma como essas experiências são tratadas em termos culturais: encarnadas em tradições. pelas relações de produção em que os homens nasceram . 10) Tomando de empréstimo a definição de Thompson sobre “classe” para conceituar um grupo étnico-social específico. tanto na matéria-prima da experiência como na consciência. que produziam inclusive. de sua consciência de alteridade. que unifica uma série de acontecimentos díspares e aparentemente desconectados. idéias e formas institucionais.] um fenômeno histórico. E.. nas primeiras décadas da República no Brasil. conceitua seu entendimento de “classe”. sistemas de valores.. o surgimento do sentimento de alteridade.” (p. Thompson (1987). liberdade e cidadania aos egressos do regime escravocrata. no prefácio do livro A formação da classe operária inglesa. em grande medida. 101 . como resultado de experiências comuns (herdadas ou partilhadas).” (Thompson. p. observamos um “fazer-se da etnicidade”185 desse grupo social. os descendentes de africanos reconheciam solidariamente aqueles códigos sociais. sentem e articulam a identidade de seus interesses entre si. continua com sua definição. P. de diferença em relação ao outro. E.. A experiência de classe é determinada.] a classe acontece quando alguns homens.No interior da diversidade popular. 10). O discurso das elites. da elite e civilizado.. ficou apenas no papel. entre eles. surgidos com a Abolição da Escravatura e a Constituição Republicana. como “[.ou entraram involuntariamente.

festejando esse dia comemmorativo de sua liberdade. as diferenças entre negros e brancos permaneceram latentes e foram. à República. de 20 de maio de 1908. da casa do comissário de polícia Francisco de Paula Ramos e.”187 A manifestação dos descendentes de africanos na cidade de Lages.. de uma das janelas.]186 Naquele mesmo dia. onde um dos manifestantes falou. sobre o “reconhecimento profundo à família imperial. em casa do senhor Luiz Pimentel. pela comemoração dos vinte anos de Abolição da Escravatura. e muito especialmente a Dona Isabel. ao povo lageano.]. 102 .. na rua Deodoro. pelo ato magnânimo que concedeu aos de sua raça a liberdade considerando-os irmãos [. da redação do jornal Região Serrana.Na prática social. sugere que começara a florescer um autoreconhecimento. Tais diferenças constituíram-se em elementos importantes para o florescimento de uma etnicidade negra.. trouxe em sua terceira página a notícia de que: No dia 13 de maio um grupo de pretos. [.. da redação do jornal O Clarim. do Colégio São José. de certa forma. reforçadas pelo grande volume de imigrantes europeus que entraram no Brasil durante a primeira República. donde sahiram. Levando à frente uma banda musical. por último. O “Centro Cívico Cruz e Souza”: etnicidade e civilidade O jornal O Clarim. começou a dar expanção aos seus justo enthusiasmo. acompanhados de uma grande massa popular. por parte daqueles pretos lageanos. os manifestantes se prostraram em frente à sede do “Club 1o de Julho”. percorreu as ruas desta cidade. percorrendo todas as outras ruas em repetidos vivas ao 13 de maio.

alguns pretos de Lages fundaram o “Centro Cívico Cruz e Souza”188. como 1o. secretário. o ‘Centro Cívico’. Joaquim Pinto de Oliveira. solenidades e sessões comemorativas foram realizados no 103 . um ano após a sua fundação.. contava com 60 sócios contribuintes que pagavam mensalidade de 1$000 réis192.. Saturnino Antonio do Pilar. Congregando os descendentes de africanos do município. em relação aos “outros”. esses jovens chamaram ao seu lado alguns elementos de fóra [. Segundo o jornal Cruz e Souza. os idealizadores da sociedade “Centro Cívico Cruz e Souza” foram alguns negros “[. passara a se dar pela distinção da “cor”. cívica e literária dos “homens de cor”189. como vice-presidente. como 2 o.. e. assim formada: como presidente.1919. Alípio Cruz. Paulino Saldanha do Amaral. Vicente Cassuly de Menezes190.]”191 e levaram adiante a idéia de uma agremiação para os “homens de cor”. Suas primeiras reuniões foram realizadas no “edifício onde funcciona a Escola Nocturna dos Amadores da Arte”193.de sua diferença pela “raça” ou pela “cor”. como estigma de uma posição social passada. Em 6 de outubro do mesmo ano. como orador oficial. considerados “irmãos” a partir de 13 de maio de 1888. No dia 22 de setembro de 1918. secretário. como entidade recreativa. como tesoureiro.] allumnos da Escola Nocturna dos Amadores da Arte. Os primeiros grandes bailes.. A distinção social hierárquica. no regime de trabalho livre. que no sistema escravista se deu pela condição de livre. Hemiliano Honorato da Silva. liberto e escravo. elegeram sua primeira diretoria para a gestão de 1918 .

os mais badalados eram o “13 de Maio”. No exemplar do jornal O Planalto. pela fundação do Centro Cívico. Esteve muito concorrida essa festa. O espaço social. pela comemoração da Abolição da Escravatura. a bandeira Nacional. às 12 horas. Conforme o protocolo. Joaquim Pinto de Oliveira que. e o “22 de Setembro”. comparecendo á ella o senador Vidal Ramos. O surgimento do Cruz e Souza era associado à necessidade emergente dos descendentes de africanos de conquistarem e estabelecerem um espaço social próprio. sr. declarando inaugurado o Centro Cívico Cruz e Souza. estadoaes e municipaes. era ditado. Dos eventos anuais. á 19. pronunciou notável peça oratória. Á noite. federaes.Inauguração do Centro Cívico Cruz e Souza”. controlado e manipulado pelas elites. Às 8 horas foi aberta a sessão pelo presidente. no Theatro Municipal. de certa forma. Belisário Ramos. com o seguinte conteúdo: Realizou-se. foi hasteada. a festa da bandeira. promovida pela recem-creada sociedade – Centro Cívico Cruz e Souza – que escolheu esse dia para a sua inauguração official. de novembro de 1918. foi publicada a notícia “A Festa da Bandeira . até então atribuído. Em seguida o senador Coronel Vidal Ramos. em todas as repartições. muitas outras pessôas eradas e os representantes da imprensa local. onde a congregação mútua promovesse. entre eles. Vicente Cassuly de Menezes que produziu um bom discurso. ou como um “grupo social”. cheio de belíssimos ensinamentos cívicos. o superintendente cel. distinto de “homens de cor”. sendo muito applaudido. rece- 104 . um caráter de autorreconhecimento como “classe”. nesta cidade.“Theatro Municipal”194. através da coerção policial e da progressiva urbanização da cidade. deu a palavra ao sr. houve uma sessão cívica commemorativa.

estava “desnacionalizada pela leitura. estrangeirada pelos costumes alheios” (Skidmore.D.195 No mesmo número do jornal O Planalto. provocando um fortalecimento das ideias cívicas e de unidade nacional. Um “novo nacionalismo”. quando o Brasil declarou guerra à Alemanha. principalmente quanto aos de origem europeia. diversas peças do seu vasto repertorio. A Orchestra do G. ao terminar. A crise política social e econômica que proliferou em todo o mundo atingiu também o País. nos jornais. e. até então. prolongada salva de palmas. artigos sobre a questão do perigo germanófilo para o Brasil e de exaltação do civismo e do nacionalismo no país. multiplicaram-se. 174). A imprensa local acompanhou atentamente o desenrolar da guerra em seus quatro anos de conflitos. “Amadores da Arte” abrilhantou a festa executando alem do Hynno Nacional e da Marselhesa. em seguida. fundadores do centro. principalmente. foi também publicada a notícia referente às condições do tratado de armistício que pôs fim à Primeira Guerra Mundial. principalmente a partir de 1917.P. De 1914 a 1918. as notícias sobre o front. Paulino Saldanha do Amaral e Jucundino Godinho. 1989. os srs. Fallaram.bendo. Para o pesquisador Thomas Skidmore. o período de 1914 a 1918 foi de transição ideológica para um “novo nacionalismo”196. Às 22 horas terminou a festa retirando-se todos satisfeitos pela captivante gentilesa dos homens de côr. A questão posta pela intelectualidade era da necessidade de despertar o sentimento cívico e nacio- 105 . p. pelo qual a intelectualidade brasileira passou a ressaltar o civismo e a necessidade de uma produção literária e científica nacional que.

] E embora não exista nenhuma separação no plano legal.] O negro não é bem recebido. o Negro se sente como uma minoria oprimida.nal em todos os recantos do país. por carregarem o estigma da inferioridade racial.. em Lages. onde a imigração branca se vem processando em larga escala. amadureceu progressivamente. [..185) 106 . estimulando na população o espírito de nação e de unidade. nas elites. A comemoração e exaltação de datas cívicas pelos descendentes de africanos demonstrou o seu desejo de participar de um novo projeto de nação e a inserirem-se como sujeitos históricos desse processo. sobre uma das primeiras sociedades negras surgidas no estado de São Paulo nos anos vinte197. A percepção.] vamos encontrar uma sociedade formada. “[. de que a abolição e a constituição republicana não os colocou efetivamente em igualdade de oportunidades econômicas e sociais em relação aos outros elementos nacionais. (p. o sentimento de alteridade em relação a outros grupos sociais.” (p..186) A fundação de uma sociedade recreativa para os “homens de cor”. foi imbuída pelo caráter cívico. e até mesmo entre alguns setores populares. na comunidade branca. embora a legislação não estabeleça nenhuma separação. [.. por acontecer num momento em que o civismo estava latente no meio intelectual. Segundo o antropólogo Arthur Ramos (1956). como nos outros Estados do Centro e do Norte. como parte do seu todo.. que se propunha a realizar ‘tudo pela integração do homem negro na comunidade nacional’. Para Arthur Ramos (1956): Na zona Sul. o preconceito de cor se estabelece na opinião pública.. por parte dos negros. durante as primeiras décadas da República.

[. de negros e brancos. Estas agremiações negras. colocou os “homens de cor”.. da Inauguração do Centro Cívico Cruz e Souza.]. [. em 1920.Exemplificando o proliferamento desse tipo de associação no estado de São Paulo. política e cultural. o “Clube 14” foi fundado por alguns representantes da elite que apoiaram e aplaudiram a iniciativa dos descendentes de africanos no ato cívico da Festa da Bandeira. apesar da latente moral preconceituosa.. no calendário programático de atividades sociais das elites políticas e da imprensa. a legitimidade. proclamam ainda os direitos iguais. onde se proibia em seus estatutos a inclusão de negros como sócios (Serpa. (p. Sob a bandeira do civismo.] Como conseqüência lógica dos preconceitos de cor que lá se formaram.185). o respeito e o apoio da intelectualidade e da elite lageana. na ordem econômica. A iniciativa da fundação do Centro Cívico. Por outro lado. quando da proibição de 107 . de ascenção social dos negros. talvez o receio preconceituoso das elites. da elite em relação à negritude. 1996.. O preconceito estabelecido desde a abolição em relação aos descendentes de africanos negou-lhes as oportunidades de ascenção social a esferas superiores de um mundo que se consolidava como burguês e branco.. a partir de 1918. estrategicamente. continua Ramos (1956): [. Por ironia. p. 19).. o “Cruz e Souza” procurava ganhar o reconhecimento. tenha se manifestado na fundação do Clube 14 de Junho.. nem sempre manifesta.] o Negro se arregimentou em associações contemporâneas que visam à afirmação dos seus direitos sociais e políticos. em igualdade de condição com os brancos. dando-lhes um espaço que antes era só branco. Como exemplo. há o fato da fundação do “Clube 14 de Junho”. de São Paulo.

foi imposta a necessidade de fortalecer o nacionalismo. para que seja a nossa divisa: – Moralidade. Em síntese. 1989. através de referenciais próprios e nativos (Skidmore. sem desvanecimentos pela nosso futurosa sociedade. uma ambiguidade entre a perspectiva de dominação pelas elites. estimulando-se o progresso interno da nação. para continuarmos a honrar o excelso e immortal nome do nosso Patrono poeta lyrico Cruz e Souza. desenvolver. p. assim. Trabalhamos pois. 180) que rompessem com os ícones estrangeiros do pensamento literário e social. através de projetos civilizadores e uma perspectiva de resistên108 .198 A ideia de civismo no Brasil. o que nunca antes se fez necessário. em relação aos descendentes de africanos. Para tanto. pela sua dependência econômica direta em relação às potências estrangeiras. Diante da crise provocada pela guerra e o reconhecimento dos intelectuais e políticos de que a crise atingiu o país.pretos como sócios. Civilidade e negritude Trabalhamos pois unidos com afinco. o Brasil deveria se autoinventar culturalmente. Estabeleceu-se. que são documentos que confrontam e nos reabilitam para com os homens de mérito e de consciência. assimilou a moralidade e a civilidade como elementos de seu significado. não só pelo seu desenvolvimento moral e intellectual. era preciso modernizar. Os negros fundadores do Centro Cívico Cruz e Souza perceberam que um comportamento dentro dos padrões moralmente aceitos na sociedade possibilitava-lhes negar o estigma da “cor” associado à barbárie. como também. pois os lugares sociais estavam preestabelecidos. civilizar e educar o Brasil. trabalho e civilização. forjada pela intelectualidade naqueles anos da guerra mundial.

”201 Os jornais locais constantemente elogiavam e parabenizavam os negros do Cruz e Souza pela demonstração de civismo.] trabalhando pelo levantamento do nível moral e social dos homens de côr. de 17 de maio de 1919.”199 Como sociedade recreativa. por outro lado. aspecto importante para o reconhecimento moral positivo da agremiação ante as elites. Segundo um dos diretores da sociedade. Cruz e Souza. era com a manutenção da ordem e a demonstração de civilidade200. de nome Genésio. O jornal O Lageano.. principalmente aquelas onde a maioria era descendente de africanos. pela denúncia de 109 ..C. na promoção de seus bailes e festas..] na melhor da boa ordem [. comentou que tudo ocorreu “[. aberto em 31 de novembro de 1931202 por crime de defloramento de Natalina da Silva Xavier. organizados pelo Cruz e Souza. articularam a possibilidade de alcançar uma projeção social.. nada mais fazemos do que grangear a sympathia de todos os que se interessam pelo progresso desta terra. a preocupação da diretoria do Centro Cívico.cia dos próprios descendentes de africanos. ao relatar sobre os acontecimentos comemorativos do “13 de Maio” daquele ano. De certa forma. civilidade e ordem com que realizavam suas festas. 18 anos de idade. “nós os do C. que sempre vigiaram atentas as manifestações de divertimento populares. foi acusado o namorado da vítima. mas. os negros aceitaram uma segregação racial informal..].. de “cor” morena. No inquérito policial de número 466. [. que construíam sua consciência de classe e possibilidade de ascensão social na prática daqueles embates morais. arquivado no foro da comarca de Lages.

novamente no quintal da casa da vítima. no Centro Cívico Cruz e Souza. Várias testemunhas arroladas no inquérito. em sua companhia. lavrador. demonstrando para o aparato jurídico que o comportamento da vítima estava dentro dos padrões de moralidade aceitos pela sociedade. frequentando pela última vez. assim como na sociedade Centro Cívico Cruz e Souza e que seu comportamento era de respeito e honestidade. que atestou “[. destacaram o costumeiro comportamento regrado e moral da vítima. profissão doméstica.] diversas vezes em bailes familiares. No entanto. Praxédes Goulart. membro da diretoria do Cruz e Souza.José Gregório da Silva Xavier. 42 anos. no entanto. foram surpreendidos no pátio de sua casa pela sua avó. 19 anos. Os depoentes que entonaram tal condição em seus testemunhos eram próximos à vitima e sabiam como o aparato jurídico interpretaria suas palavras.. residente na cidade.” 203 Outro testemunho foi dado por Antonio Manoel dos Santos. entre amigos e conhecidos de Natalina. Natalina respondeu ser namorada do acusado há dois anos e que a primeira vez que ele tentou ter relações sexuais com ela. pois Natalina frequentava bailes no Cruz e Souza. fazendo-lhe promessas de casamento. lavrador. o álibi da boa índole de Natalina. continuou a namorar Genésio. natural de Lages. Inês Zuza. com as mesmas promessas de casamento.] lá ver Natalina dançar e ter seu procedimento digno de uma sociedade. por con110 .”204 Outras testemunhas reforçaram.. disse que viu Natalina por “[. 23 anos. No auto de perguntas.. ainda. Disse ainda Natalina que. o baile do dia “22 de Setembro” de 1931.. pai da vítima. o réu conseguiu desvirginá-la. em outubro. O “Centro Cívico Cruz e Souza” sedimentara-se.

fazer os bailes de vocês. Joaquim Pinto de Oliveira. para a fundação do Cruz e Souza.. com o apoio político e decisivo do então deputado estadual Caetano Costa.venção social. passaram-se trinta anos do ano de fundação do Centro Cívico. em 1918. “Cruz e Souza”: resistência pela unidade. trocar as ideias. comentando que ele e outros desejavam fazer um baile com “gente escolhida”. o dito político lhe disse: “Mas vem cá! Tá na hora! Por que vocês não se organizam. o réu foi declarado culpado. não se reúnem vocês pretos. ele conta que este contou que a ideia da fundação do Centro surgiu quando ele. através da compreensão mútua de uma moralidade positiva da vítima. Da Abolição da Escravatura.. como também absorvida pelo judiciário. No final do inquérito. estava fazendo uma calçada de pedras na casa do político Caetano Vieira da Costa206 e. como um representante da ordem. não organizam um centro cívico? Centro cívico. para não acontecerem as costumeiras confusões.”207 Daí que surgiu pela primeira vez a ideia posteriormente discutida pelos alunos pretos da Escola Noturna Amadores da Arte. que conheceu o primeiro presidente do Centro Cívico Cruz e Souza. Joaquim. se aculturarem [. até alta da madrugada. da moral civilizada e dos bons costumes. justificada pelo fato de que ela frequentava o Cruz e Souza.].205 Na entrevista com Sebastião Ataide (1998). A integridade moral de Natalina foi avaliada pelos depoentes. onde vocês possam se reunir. No de111 . e dissidência E assim foi que seguiu-se o baile na maior ordem e alegria. em 10 de agosto de 1932.

Se o trabalho. a ordem e a civilidade eram elementos do mundo burguês e branco. A maioria deles estava interessada no ambiente festivo e seguro que o Centro Cívico proporcionava em relação a possíveis interferências policiais. novos elementos de significado social foram inseridos ao cotidiano daqueles populares. Joaquim Pinto de Oliveira e Alípio Cruz eram pedreiros. o lazer. o profano e o festivo o eram do mundo popular e negro. de sua existência. Mas com o progressivo aburguesamento da cidade. de acordo com sua visão das coisas. a moralidade. sendo resignificados por eles. destacamos alguns deles e suas ocupações. pela absorção da moral civilizada pela popular e pela resistência da moral popular à civilizada. A preocupação cívica e moral estava restrita ao grupo específico daqueles negros mais próximos da diretoria da agremiação. base da sustentação de seu quorum e.correr deste período. consequentemente. a estratégia civilizadora de dominação das elites fez conquistas. Desorganizados. Paulino Saldanha do Amaral 112 . impôs seu modelo e sua moral de sociedade. A diversão ou tradição lúdica dos descendentes de africanos foi a motivação primeira para o surgimento do clube . mas não sem a oposição veemente da moral popular. sem perspectivas econômicas. De acordo com Sebastião Ataide (1998) sobre o perfil dos negros fundadores do “Cruz e Souza”. O Centro Cívico Cruz e Souza se consolidou pelo entrosamento do considerado “ordeiro” com o “desordeiro”. a vida cotidiana tradicional era o único sistema de valores em que os populares compreendiam o seu mundo.

conquistado algum tipo de formação escolar ou erudita. viagens. não deixará por isso.209 O jornal Cruz e Souza teve duração efêmera. de auxiliar-nos. dizendo: Apparece hoje ao povo de Lages. e Sebastião de Oliveira Dias era professor. o último. [. a leitura deles é fundamental para compreender os significados da fundação do Centro Cívico para os descendentes de africanos.] Conhecemos perfeitamente que a nossa leitura não fascinará e nem irá prender a attenção do nosso povo. o diretor Vicente de Menezes fez a apresentação do jornal à sociedade.. foram apenas cinco números. conseguiu rodar nas oficinas do jornal O Planalto. que trazia a epígrafe: “Orgam do Centro Civico Cruz e Souza”. senão o de bem servir os interesses do ‘Centro Cívico Cruz e Souza’ e despertar o gosto pela leitura entre os seus associados. sendo o primeiro com data de 3 de agosto de 1919. falecimentos. festas e a vinda 113 . alguns deles se distinguiam da maioria por terem. que [porém] reconhecendo os nossos esforços na fundação de um jornal para negros. o jornal Cruz e Souza208. Apesar de humildes em suas posses.tinha uma casa de secos e molhados no Santa Cruz. de alguma forma. O “Centro Cívico Cruz e Souza”. o “Cruz e Souza” não visa outro fim. Saturnino Antonio do Pilar e João Maria da Rosa eram funcionários do poder público. Vicente Cassuly de Menezes era tipógrafo de jornal. O jornal mantinha a coluna “entre sócios” que noticiava aniversários. Luiz Gomes Dias era sapateiro. através do tipógrafo e jornalista Vicente Cassuly de Menezes.. Despido de toda e qualquer pretenção. e. este modesto jornalzinho. em 1919. Em seu primeiro número. ou destituídos de tal. datado em 5 de outubro de 1919. No entanto.

aculturador.] O digno official providenciou ainda mais. além de artigos de opinião. e “abrasileirador” de um grupo de negros. Assim como o reconhecimento nacional conquistado por alguns descendentes de africanos na política e na literatura. entre outras notícias sociais sobre a comunidade do Centro Cívico.. elogiando a atuação do delegado de polícia da cidade.]. entre outros. um poema do poeta João da Cruz e Sousa. semanas inteiras.. pelo estigma da “cor”. cantado pela primeira vez por seus membros em 1919.210 O Centro Cívico passou a ser um instrumento civilizador. Sempre trazia. e publicava notícias em geral sobre a vida social e policial da cidade.. os quaes sempre traziam maos resultados. Se isto era impossível.para a cidade de sócios do interior. com ardor. dizia o jornal: [. [. com fé. aquele grupo fundador almejava afeiçoar-se à moral civilizada para ascender socialmente. Não mais se houve o “bate pé” no Alto da Santa Cruz. Em um dos artigos. é esclarecedor: Do Civismo o pendão arvoramos Denodados. para que se acabassem certos “sambas” e fez com que em nossa cidade reinasse completa harmonia. a exemplo do próprio poeta Cruz e Sousa –mesmo que ele só tenha sido reconhecido após a sua morte –. em uma de suas páginas. O hino do “Cruz e Souza”.. seria possível pelo “civilizar-se”. no Banhado e nos seus arrabaldes. Nosso lema é reunir os pequenos Os humildes que ganham seu pão. Quando ufanos e crentes fundamos Este Centro de paz e amor. 114 . perturbando o socego público.

Do Brasil desd’as serras ao mar Os seus feitos de tanta grandeza É mister conhecer. Ao trabalho compete um logar De elevado destaque na História. Conquistemol-a em toda amplitude! Para tanto é mister aprender. Os princípios morais conclamados pelo hino eram o civismo. Da victória teremos a palma. Do saber gozaremos os lumes. a belleza. a fortuna. celebrar. em homenagem ao ‘Centro Cívico’ e musicada pelo maestro Lourenço Baptista e pelo negro Pedro Cândido. A riqueza do pobre é a virtude. o trabalho e a educação dos costumes. foi aceita pela diretoria do clube como seu hino oficial. a humildade. É a consciência da honra e dever. Aos seus filhos compete luctar. P’ra galgal-o com honra e com glória. serenos! A grandeza da nossa missão. Eduquemos os nossos costumes.” A letra foi feita pelo deputado Caetano Vieira da Costa. A extensão. 115 . Mesmo que sua letra não tenha sido feita por negros. Sejamos unidos Que dez Valem mil! Cantemos as glórias [estribilho] Do nosso Brasil. Para tanto elevemos nossa alma. o que significa um compactuar com aquelas ideias.E dizer-lhes. altivos.

Em vista disto.] uma ala de negros criou o ‘Bom Jesus’. 116 . e. onde tá essa ‘Gruta Bom Jesus’ [no antigo bairro do Banhado].”211 Além daqueles negros fundadores do Bom Jesus. tá lá. o Cruz e Souza fazia questão de anunciar nos jornais que não tinha nada a ver com tais eventos212. “[..Aliado da moral civilizada. O Bom Jesus foi um clube de bailes. Mas isto seria outra história. lá fora. apesar de nunca terem conseguido coibi-las totalmente. em seus bailes. segundo Sebastião Ataide (1998). promovia festas sem a preocupação ordeira. e quando isto acontecia. o que significa que os bailes populares continuaram ocorrendo. civilizada e cívica do Centro Cívico. assim como outros particulares que continuavam acontecendo. e a expulsar da “sociedade” os negros que provocassem badernas e imoralidades nas festas do clube. outros continuaram promovendo festas e bailes fora do Centro Cívico. o Centro Cívico passou a proibir a presença. pra eles.. Lá criaram um clube.

a partir dos indícios que possibilitam afirmar como se constituiu certo sentimento de identificação étnica. a resistência individual e coletiva da população negra. e esclarecemos que elas foram invisibilizadas pela historiografia local. a visibilidade histórica da população negra em Lages. terceiro.Considerações Finais O s temas condutores desta pesquisa foram: primeiro. o processo civilizador que administrou a omissão da presença verificável dos descendentes de africanos e sua cultura na região. principalmente pela omissão sobre a população negra não-escrava na região. 117 . A origem do discurso sobre a insignificância numérica da população negra na região está ancorada na história que se fazia sobre o período escravista. no qual constata-se que os negros foram numericamente significativos. Revimos as fontes quantitativas. demonstramos a premissa da existência de um passado histórico escravista. e. Para respondermos qualquer questão sobre a visibilidade dos descendentes de africanos. Através dela. segundo. só podiamos começar por uma releitura da escravidão. a partir da constatação de que ela esteve envolta pela categoria popular.

Apesar da impossibilidade de quantificarmos os números da população negra pós-escravidão. as diferenças constituídas pela referência à “cor”. valores morais e costumes que estavam arraigados em suas vidas cotidianas. de progresso e de civilização. estavam presentes os descendentes de africanos. justamente num período em que ele parece desaparecer da documentação histórica: o período das primeiras décadas da República. Porém. uma batalha moralizadora dos costumes e práticas tradicionais de trabalho. os indivíduos de culturas populares diversificadas e criativas parecem ter resistido a tais projetos. Pela documentação jurídica. lazer e religiosidade. em que não existiam a diversidade e os conflitos sociais com apelos a estereótipos raciais. entre elas. os setores médios e a Igreja Católica promoveram. civilizada e predisposta ao controle político e ao poder econômico. foi possível desmontarmos os argumentos ideológicos de uma região socialmente “homogênea” e “pacífica”. A elite da região. contra as camadas populares. No conjunto daquela população. frequentando 118 . em parte morando nos arrabaldes e bairros pobres de Lages e região. vislumbrando uma composição social cada vez mais ordeira. em que predominava nos jornais impressos e na bibliografia ensaística o discurso burguês de desenvolvimento. primando pela manutenção de certas práticas sociais. percebemos que aqueles embates sociais eram perpassados por significados de diferenças e. foi através dos processos judiciais que surgiu a possibilidade de visualizarmos o negro de maneira qualitativa na região. Ao fazermos uma análise detida do cotidiano social popular daquela época.

e a “cor” parece que passou a ser um elemento fundamental de distinção social. começaram também a se concretizar e consolidar nas práticas do dia-a-dia as diferenças sociais entre os “brasileiros” negros e os “brasileiros” brancos. A partir da aglomeração de famílias negras na periferia e da criação de sociedades recreativas. o discurso de unidade e “democracial racial”. um estereótipo de qualificação social de indivíduos e grupos. no complexo que formava a pluralidade social na região e no País. quando as elites passaram a elaborar suas ideias abolicionistas.“fandangos” e “sambas”. contestava. praticando sua mística religiosidade. não os incorporara incondicionalmente e definitivamente em igualdade de oportunidades sociais ao ideal de civilidade e brancura do projeto nacional. e contesta no presente. a população negra de Lages parece aos poucos ter percebido que o idealismo abolicionista e republicano. roubando ou trabalhando como servidores esporádicos e criados do serviço particular ou público. que os inserira na condição de cidadãos. republicanas e burguesas de liberdade. certa consciência étnica dos descendentes de africanos tenha se constituindo desde o período escravocrata. percebemos alguns exemplos de sentimentos de solidariedade étnica entre os descendentes de africanos. No entanto. 119 . O “ser negro”. Apesar do discurso de igualdade social difundido pelas elites. portanto diferente. a partir das últimas décadas do século XIX. igualdade e cidadania. Talvez. Vimos que no dia-a-dia dos descendentes de africanos surgiam manifestações de reconhecimento de tais diferenças. positivistas.

No embate cotidiano entre as elites e as classes populares. Nem a dominação. por outro lado. Mas antes disto. por um lado. Ambas são construídas nas práticas das relações sociais entre os homens ou entre os grupos. Para os negros de Lages. muitos negros se recusaram a assimilar a moral de civismo e civilidade e não aceitaram fazer parte do club ou não foram aceitos por ele. parece que houve a aceitação da determinação de uma moralidade branca. se. onde o descaso com tais his120 . podem também ser vistas como estratégias de alguns descendentes de africanos para ascenderem socialmente no plano daquela moral civilizadora. parece que havia ali a possibilidade daqueles negros se equipararem socialmente aos ideais de civilidade. apontamos para a necessidade de outros trabalhos sobre o tema. civilizada e excludente. por outro lado. Elas são elaboradas nas manifestações do cotidiano das relações. No caso da fundação do “Centro Cívico Cruz e Souza”. no que diz respeito a moral civilizadora e excludente. podem ser interpretadas como assimiladas pelos negros que fundaram o club. Por um lado. é que foram constituindo-se as estratégias de dominação e resistência na região. bem como na experiência social vivida. e. nem a resistência em relação a ela são vias de sentido único. principalmente no que se refere ao estado de Santa Catarina. As estratégias de resistência não se manifestam apenas nos momentos de conflitos sangrentos entre grupos sociais que se opõem. as estratégias de dominação da elite. Finalmente. a fundação do “Centro Cívico Cruz e Souza” representou um caráter ambíguo em tal embate.

tornaramse alguns dos principais e mais duradouros lugares de sociabilização dos descendentes de africanos na região durante quase todo o transcorrer do século XX. Tais espaços. tanto sobre o período escravista. em relação aos anos que se suscederam a fundação do “Centro Cívico Cruz e Souza” e a constituição do bairro da “Brusque”. assim como outros que ainda precisam ser estudados. principalmente.tórias parece ter sido muito mais recorrente do que em outras partes do país. No que diz respeito ao negro na região de Lages. fica aberta a questão para que se construam outras problemáticas. quanto. 121 .

122 .

(Acervo do Fórum de Lages).Anexos Anexo 01 Mapa da divisão administrativa do Estado de Santa Catarina no ano 1908 (Licurgo Costa. 123 . do ano de 1905. Anexo 02 – Fotografia da folha de rosto de um Processo Crime. 1982). na Comarca de Lages/SC.

Anexo 03 – Fotografia da obra óleo sobre tela Cacimba da Santa Cruz. de Marino Malinverni. Anexo 04 – Mapa da cidade de Lages em 1940. primeiros anos do século XX. (Licurgo Costa. em que aparecem os bairros Banhado. 1982) 124 . (Acervo da família Malinverni). Lagoão e Brusque circundando a área central.

no ano de 1919. (Acervo Museu Thiago de Castro) 125 .Anexo 05 – Fotografia da primeira página do jornal Cruz e Souza.

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cada qual à sua maneira. 15 Sobre tais conclusões. ver a obra organizada pela professora Ilka Boaventura Leite (1996): Negros no Sul do Brasil: invisibilidade e territorialidade. 6 Sobre a produção de Cabral e Piazza. em relação às populações de origem africana em Santa Catarina. em seu livro Relativizando: uma introdução à antropologia social. já citada. 8 Cabe ressaltar que existiram diferenças teóricas e metodológicas entre os autores citados e que. ver a dissertação de mestrado de Patrícia Freitas (1997). ver a dissertação de mestrado de Patrícia Freitas (1997): “Margem da palavra. 12 Sobre as teorias de branqueamento da sociedade brasileira em fins do século XIX e início deste. 3 Sobre a teoria da insignificância. 9 Ver ainda a obra de Lilia Moritz Schwarcz (1995): O espetáculo das raças: cientistas. 1 127 . ou o problema do racismo à brasileira”. obra já citada. 11 A miscigenação já era uma prática comum no Brasil desde a período colonial.Notas Artigo publicado na obra organizada pela professora Ilka Boaventura Leite (1996): “Negros no Sul do Brasil: invisibilidade e territorialidade”. 1870-1930. de Ilka Boaventura Leite (1996. ver a obra de Thomas Skidmore (1989): Preto no Branco: raça e nacionalidade no pensamento brasileiro. ver Lilia Moritz Schwarcz (1995). 5 Ver a obra de Renato Barbosa (1940): Geração Abolicionista. ver Ilka Boaventura Leite (1996). instituições e questão racial no Brasil. obra já citada. silêncio do número”. obra já citada. 4 Ver a obra de Heitor Blum (1939): A Campanha Abolicionista na antiga Desterro. 7 Ver a obra conjunta de Fernando Henrique Cardoso e Octávio Ianni (1960): Cor e mobilidade social em Florianópolis. cientistas e teorias que prevaleceram no Brasil de 1870 a 1930. 13 Sobre as concepções racistas ortodoxas (à frente deles Nina Rodrigues) e os partidários do “branqueamento” (à frente deles Silvio Romero) a partir de fins do século XIX. em especial o artigo “Descendentes de Africanos em Santa Catarina: invisibilidade histórica e segregação”. em seus trabalhos. 41). ver o texto de Roberto da Matta (1997): “A fábula das Três Raças. percorreu objetivos e problemas diferentes. da organizadora. 2 Sobre a invisibilidade negra no Sul do Brasil. 16 Conforme entendimento sobre invsibilidade. p. 14 Sobre o envolvimento do fator racial nas relações hierárquicas no Brasil. ver a obra de Thomas Skidmore (1989). 10 Sobre as instituições.

em que o personagem Gregório Branco. em sua obra O Continente das Lagens: sua história e influência no Sertão da Terra Firme.. O processo civilizador: uma história dos costumes (1994). em artigo sobre a “Reformulação das condutas e sociabilidades durante a Primeira República”. entre outros acontecimentos. a fundação do Club Primeiro de Julho (1896). também. p. 22): Cultura brasileira identidade nacional. várias leis imperiais regulamentaram a proibição da escravização de indígenas. 21 Entenda-se aqui “cotidiano” como vida cotidiana que. a criação da Polícia Municipal. como sinônimos de descendentes de africanos. canta uma música. também denominada “Campos das Lagens”.” (p.18). que aos poucos se extinguiu totalmente. sob os códigos: “B” de branco. mulato e negro foram usadas. e.. 27 Os municípios de Lages. explica que muitos anos antes da fundação da vila. 22 Expressão usada pelo historiador Élio Cantalício Serpa (1996). Curitibanos e São Joaquim podem ser localizados no “Mapa da divisão administrativa de Santa Catarina no ano de 1908”. ou seja. o intercâmbio e a purificação” (p. 28 No “RECENSEAMENTO GERAL DO BRASIL”. os autores afirmaram que tanto pelos levantamentos demográficos feitos no passado. em 1801. depois de algumas tentativas frustradas de fundação de um núcleo populacional. 18 Como exemplos. a construção da nova sede do Poder Público Municipal e da nova Igreja Matriz. “[. por determinação do governador da Capitania de São Paulo – a qual pertencia toda a região do que é hoje o Planalto Catarinense – foi definitivamente estabelecida onde é hoje a parte central da cidade de Lages.] são partes orgânicas da vida cotidiana: a organização do trabalho e da vida privada. O Lageano – e em seguida vários outros –. reformulação do Código de Posturas (1895). “P” de pardo e “N” de negro.é a vida do homem inteiro. e O processo civilizador: formação do estado civilização (1993). como pelos trabalhos realizados por pesquisadores das ciências ditas sociais e humanas. ou “póvoa”. 24 Licurgo Costa (1982). os lazeres e o descanso. estão respectivamente citadas no dito documento.. para aqueles autores. o termo usado foi a categoria raça. neste livro. significa dizer que: “. et al (1985). de 1872.17). o homem participa na vida cotidiana com todos os aspectos de sua individualidade e personalidade. em Lages. a fundação do Mercado Público. no Brasil. pardo. 23 Matheus Junqueiro foi um escritor lageano do início do século. autor da comédia intitulada Trapaça Matrimonial. 19 Ver a obra de Marilena Chauí (1994): Convite à filosofia. na cidade de Lages. sobre “O lugar do negro na força de trabalho”.Ver as obras de Norbert Elias.. ver anexo 01. “cor” preta. na região. havia algumas fazendas e moradores esparsos na região. o surgimento do primeiro jornal em 1883. obra já citada. 26 Assim denominados os índios que eram escravizados até as primeiras décadas do século XIX. coibindo tal prática. A partir daí. No estudo de Lúcia Elena de Oliveira. Campos Novos. segundo a autora Agnes Heller (1992): O cotidiano e a história. a obra de Renato Ortiz (1985. E. Só a partir de 1766. contidas na “Lista Geral dos Habitantes da Villa de Lages e seu Disctricto”. sempre deixaram margem a dúvidas. Por isso. “o termo negro é 17 128 . 20 Ver Lilia Moritz Schwarcz (1995). 25 As categorias referentes à “cor”. 29 As denominações preto. da qual uma das estrofes é a trasncrita em epígrafe. a atividade social sistematizada. e elevada à categoria de vila em 1771. a fronteira entre as categorias de “cor” e “raça”.

no México e em Cuba”. Arquivo do Convento Diocesano da cidade de Lages. 33 Essa informação foi tirada da leitura de diversos processos crimes e ações de liberdade do período escravista. 39 Ver. ou seja. ocupações e observações que se referem à propriedade e à produção dos fogos. o historiador Jacob Gorender (1988). 31 Sobre alguns números da população livre de origem africana. 38 Dos anos de 1799. Michael Hanchard (1995). 40 LAGES. jornal Guia Serrano e Lista Geral dos habitantes.. assinado por João Damasceno de Córdova. 36 Sobre a escravidão nas áreas de criação de gado do Sul do Brasil. 1867. É importante observar que o autor omite a fonte de origem de vários destes números. Foro da Comarca. Processo Crime. 1879. tendências teóricas de excpecionalismo racial. em relação a outras nações ou regiões. ano de 1884: 1233 escravos. Governador (Rocha). ano de 1840: 1000 escravos. 1875. 41 LAGES. 42 O professor de ciências políticas. de Norte a Sul. Florianópolis. 11).um termo consagrado pelo pensamento social brasileiro para designar pretos e pardos [. onde demonstra como se construíram. Foro da Comarca. ano de 1886: 1076 escravos. 15 Jun. a pecuária gaúcha evoluiu no sentido do emprego mais frequente de peões sob formas rudimentares de salariado. o autor relaciona alguns números demográficos sobre população escrava de Lages. idade. 43 LAGES. como exemplos: Sidney Chalhoub (1990): Visões da liberdade: uma história das últimas décadas da escravidão na corte. Sargento Mór Comandante. Francisco José da Rocha à Assembléia Legislativa Provincial do Estado em outubro de 1887". Maço 31. os estudiosos do problema racial usaram o método comparativo. 437/438) 37 Ver. 26 Abr. 129 . diz que “[. 30 Em Licurgo Costa (1982). publicou na revista Estudos Afro-Asiáticos interessante artigo com o título “Fazendo a exceção: narrativas de igualdade racial no Brasil. condição social. Processo Crime. em Lages.] podemos concluir que. ano de 1856: 1195 escravos. coexistiram na pecuária o trabalho escravo e o trabalho livre. em 1801. Processo Crime. obra já citada. Maço 45. cor. [. Foro da Comarca. Processo Crime.. a “Lista Geral dos Habitantes da Villa de Lages e seu Disctricto”.]” (p. durante o período escravista. para negar a existência de conflitos na própria nação ou região de onde falam. àqueles que manifestam fenotipamente características de ascendência étnica africana. Para o autor. Foro da Comarca.. ano de 1801: 136 escravos. Maço 40. 09 Abr. Março 30. “Relatório do Presidente da Província Dr. Maço 48. ano de 1883: 1522 escravos. Os números são os seguintes: ano de 1766: 50 escravos. Processo Crime. a chamada “Lista Geral dos Habitantes da Villa de Lages e seu Disctricto” ou “Mapa Geral dos Habitantes da Villa de Lages e seu Districto” traz informações detalhadas sobre os “fogos” existentes. ano de 1829: 338 escravos. ano de 1776: 110 escravos.” (p. ano de 1887: 1064 escravos. 23 maio 1879. 1887. ano de 1872: 2012 escravos. 35 Processos crimes até 1888. 34 SANTA CATARINA. empregos.. ano de 1777: 191 escravos. e Maria Helena Machado (1994): O plano e o pânico: os movimentos sociais da década da abolição. retirados de fontes diversas. Foro da Comarca.] durante o século XIX. estado civil. 1872. 1800 e 1801.. como nomes de todos os indivíduos da família. 45 LAGES. ver a obra de Maria Hebe Mattos (1998): Das cores do silêncio: os significados da liberdade no Sudeste escravista do Brasil.. naquelas nações. por exemplo. 32 “RECENSEAMENTO GERAL DO BRASIL”. 44 LAGES. 1884.

Governador (Vidal Ramos). denominado Crisol de razas e integración de inmigrantes en la Argentina. São Leopoldo. Sobre as teorias científicas que fundamentaram o determinismo racial.46 47 48 49 50 51 52 53 54 55 56 57 58 59 60 61 62 63 64 65 Segundo Sidney Chalhoub (1990. Rothermund. Caixa 13. nos arredores da cidade. o escravo agia de acordo com a sua própria compreensão em relação à situação em que se encontrava e não simplesmente reproduzindo a ótica opressora. 22 out. Em síntese. Para Hernan Otero (1996). 03 out. 1884. 1883. p.. 19. Foro da Comarca. 1899. Sobre a vida dos homens livres na ordem social escravocrata brasileira. Foro da Comarca. ver a obra de Maria Sylvia de Carvalho Franco (1997): Homens livres na ordem escravocrata. em junho de 1914". citado anteriormente. apresentado pelo Governador Coronel Vidal José de Oliveira Ramos ao senhor Major João Guimarães Pinho. Processo Crime.01. A promotoria pede a condenação dos réus em abril de 1913. LAGES. Sidney Chalhoub (1990). “Relatório do Superintendente Municipal de Lages Major Vidal de Oliveira Ramos Júnior ao Conselho Municipal em 01 de janeiro de 1899. 1870-1930. em seu estudo sobre a Argentina.] matrices mentales y discursivas que desempeñaron un rol importante en la creación y la divusión de uma imagem de la sociedade y la Nación [. No caso do pedreiro Gregório.. Ação Cível de Liberdade. 04 Jun. Lages. p. por estarem diretamente ligados a um determinado projeto de nação branca. 09 mar. O Imparcial. porém. 01. 06. p. só foi possível identificar sua “cor” pelo depoimento de algumas testemunhas arroladas no processo.1912. as categorias oficiais usadas pelo Estado para a identificação dos indivíduos em censos e relatórios demográficos. obra já citada. 1903. é interessante o trabalho de Keila Grinberg (1994) Liberata. O Imparcial. 41). Foro da Comarca. LAGES. século XIX. Superintendente (Vidal Ramos). LAGES. Maço 64. Ação Cível de Liberdade. o processo está incompleto. Processo Crime. 07 jun. Caixa 14. atuam como “[. 1885. assim como outros em documentos oficiais. Foro da Comarca.. LAGES. a lei da ambiguidade: as ações de liberdade da Corte de Apelação do Rio de Janeiro. “Problema Negro” é também o título do artigo. n. Ação Cível de Liberdade. é o desaparecimento das definições que identificam a negritude ou a indianidade em tais documentos. 1903. Foro da Comarca. 18. sobre as “visões da liberdade”. 1886. Para Lilia Moritz Schwarcz (1995). Lages. Typ.11/12. obra já citada. em sua obra O espetáculo das raças: cientistas.. Ação Cível de Liberdade.]” (p. ver a obra de Tzvetan Todorov (1993): Nós e os outros: a reflexão francesa sobre a diversidade humana. p. p. 27 set. Sobre os procedimentos usuais para a entrada com uma ação de kiberdade no período escravista. LAGES. 1883. Caixa 14. 06 Dez. 1869-1914. “Sinopse da Administração do Estado de Santa Catarina. instituições e questão racial no Brasil. Maço 51 A localidade “Santo Antonio dos Índios”. dando margens à dúvida de que foi abandonado à revelia da 130 . é até hoje conhecida como Índios. 26 Dez. SANTA CATARINA.02) desejada pelo Estado. n. ao passar-lhe o governo. LAGES. quadriênio de 1910 a 1914. Ver ainda. Caixa 13. Presidente do Congresso Representativo do Estado. Foro da Comarca. os “Homens de Sciencia” eram aqueles vistos como representantes do saber autorizado e legítimos observadores dos ‘problemas’ raciais do país. LAGES.

Processo Crime. 1899. comerciantes. LAGES.] o imaginário. Esta elite pode ser identificada como sendo formada pelos fazendeiros. em 1883. Lages. 04.49). entre outros temas. no final desta dissertação. o “Região Serrana”. Foro da Comarca. Inquérito Policial. Foro da Comarca. encontrados no Fórum da Comarca de Lages e no Arquivo do Tribunal de Justiça de Santa Catarina. CRUZEIRO DO SUL. LAGES. Maço 60. 14 Dez. 1915. ver Norbert ELIAS (1993). n. Para consulta. p. 1889.66 67 68 69 70 71 72 73 74 75 76 77 78 79 80 81 82 83 justiça – o que é bem provável – ou tenha se perdido no tempo. 900. ver relação de jornais pesquisados em “Fontes documentais”. Lages teve dificuldades na comunicação freqüente com tais centros. 920. 1916. o “Escudo”. 18 Set. e. na virada do século XIX para o XX. cuja duração compreende maior ou menor lapso de tempo” (p. filho da preta Gervásia. Sobre processo civilizador. 1996. Maço 75 131 . todas as classes sociais – interclasse – modelando conjuntos/pacotes de relações sociais hegemônicas. através das mais diferentes linguagens. O primeiro jornal que surgiu na cidade foi “O Lageano”. Anexo ao processo em questão. 1889. Algumas notícias e artigos que se repetiam com freqüência nos jornais da época. 01. atua como um vigoroso caudal que atravessa obliquamente as formações sociais. Foro da Comarca. Processo Crime. 05 abr. Ver Bronislaw Baczo (1985): A imaginação social. o “Município”. Foro da Comarca. Sobre o combate ao comportamento popular e a projeção de uma moralidade civilizada pela imprensa. estavam relacionadas à higiene pública. novo prédio para a prefeitura. Apelação Crime n. Maço 78 Os acervos e documentos consultados para tal caso foram os inquéritos policiais e processos crimes do período entre 1888 e 1920. encontramos a Certidão de Batismo do réu. 18 Set. o “15 de Novembro”. Isso até os anos vinte deste século. Processo Crime. até os primeiros anos do século XX. LAGES. Já citado. p.. surgiram outros tantos. em todos os níveis. SANTA CATARINA. 19 Dez. 1906. reformas no Mercado Público. Processo Crime n. 04. 21. Maço 78 LAGES. Segundo Tania: “[. Inquérito Policial. Caixa 19. 24 Mar. o “O Clarim” e o “O Planalto”. iluminação pública. como o “Echo da Serra”. Porto Alegre e Florianópolis. Tribunal de Justiça. penetrando todos seus meandros. Jun. LAGES. Em seguida. CRUZEIRO DO SUL. Caixa 19. “O Cruzeiro do Sul”. n. o “Rebate”. 01 Set. n. LAGES. A Evolução. melhoramento de vias urbanas. 31. Maço 60. 25 jun. 17). nascido em 16 de outubro de 1881 na Freguesia dos Baguaes. p. Tania Navarro Swain (1994): Você disse imaginário? . saúde. construção e limpeza de cacimbas para o fornecimento de água. Devido à distância e aos acidentes geográficos no caminho entre Lages e alguns centros maiores. SANTA CATARINA. Apelação Crime n. Tribunal de Justiça. Maço 51. o “Aurora”. ver o artigo de Anderson VARGAS (1994): “Moralidade. 14 dez. durante pesquisa realizada em 1999. 7. Lages. 1904. 1899. Foro da Comarca. 1888. 14. altos funcionários públicos e profissionais liberais ( SERPA.. solteira. 1912. como Curitiba. “O Imparcial”. Foro da Comarca. 1902. Lages. autoritarismo e controle social em Porto Alegre na virada do século 19". 19 Dez.

18 jul. século XIX. dos anos de 1888 e 1889". 1907. a consideração. 103 Trechos dos “Diários de Dom José de Camargo Barros”. o índio e o negro.75). especialmente o capítulo 18. 16 Set. 1918. Maço 78.. “Mensagem do Governador do Estado de Santa Catarina Engenheiro Civil Hercílio Pedro da Luz dirigida ao Congresso Representativo de Santa Catarina em agosto de 1896". dizendo: “Ninguém é igual entre si ou perante a lei. como também a sua ausência. ou selvagens. Processo Crime. um ponto-chave em sistemas hierarquizantes. autoritária e que relegava aos leigos papel secundário em assuntos de cunho religioso. a literatura utilizou os termos catolicismo romanizado e catolicismo ultramontano. Hobsbawm (1976): Bandidos. 7. 102 Bispo da diocese Paraná . Florianópolis. Lages. Maço 10. 17. 03.Santa Catarina de 1894 a 1904. o favor e a confiança. relações pessoais passíveis de manipulação etc. Processo Crime. 17 Maio 1918. Foro da Comarca. educação. Foro da Comarca. 17 Abr. podem se desenvolver como traços e valores associados à hierarquia indiscutível que emoldura a sociedade [. 1902. está ligada à tendência da Igreja em afirmar os princípios hierárquicos da sua política organizacional fortemente burocratizada. n.. Todo o universo social.Brasil. 58. (p. 89 Sobre banditismo. 100 Roberto da Matta (1997) define o sistema de hierarquia social brasileiro. p. nem senhores (diferenciados pelo sangue. distante 30 km do centro. Foro da Comarca. Foro da Comarca. “orelhano” significa animal sem identificação. 161. 94 LAGES. 101 Segundo Élio Cantalício SERPA (1997): “Do processo de romanização da Igreja. 7. “Ofício do Delegado de Polícia para o Presidente da Província . ver a obra de E. Lages.LAGES. nem os escravos. casamento e registros religiosos. Maço 65. Maço 65. 91 O Planalto. sem marca de propriedade. 01 Set. Inquérito Policial. n. então. Foro da Comarca. criados ou subalternos. A intimidade. Foro da Comarca. Processo Crime n. quando se estabelecem distinções para baixo. J. LAGES.] A referência ao catolicismo. 92 LAGES. 59. consultar a obra de Hebe Maria Mattos (1998): Das cores do silêncio: os significados da liberdade no Sudeste escravista . 99 Sobre as categorias de cor em registros civis de nascimento. 88 SANTA CATARINA. Processo Crime n. 18 Set. colocando tudo em gradações. 95 Conforme jornal A EVOLUÇÃO. 90 ARQUIVO PÚBLICO DO ESTADO DE SANTA CATARINA. o mulato. 96 LAGES.). não há necessidade de segregar o mestiço. Esse é. igualmente diferenciados entre si por meio de vários critérios. 21 mar. 25). n. 87 No linguajar da região. Neste sistema. Governador (Hercílio Luz). 98 LAGES. Maço 30. propriedades. no anexo 04. n. 1907. 16 Set. 17. 01. com adjetivo ultramontano. 1907. parece-me. centralizada. [. 1889. e tomou corpo durante a Primeira República com a expansão de seus ideais por todas as unidades da federação. uma diferenciação para cima. 97 A EVOLUÇÃO. porque as hierarquias asseguram a superioridade do branco como grupo dominante. 86 Ver a imagem da capa de um destes processos crimes. 14. 93 São José do Cerrito é hoje um município localizado na direção oeste da cidade de Lages. p. Processo Crime n. p. óbito.03.. Lages. 1902. acaba pagando o preço da sua extremada desigualdade. nome dinheiro. títulos. 21 mar.Mapas demonstrativos do movimento de entrada e saída de presos da cadeia de Lages. pela mesma lógica.” (p.. em sua visita de outubro 84 85 132 . admiti-se. 1888. que no Brasil se desencadeou na segunda metade do século XIX. n. Maço 75. pois.]”.

106 Sobre “Irmandade do Rosário”. Obra já citada. escravo do fazendeiro Antônio Ribeiro dos Santos. Depois vem o tio Horácio. E vão pela rua Paranaguá e dobram a esquina da velha Matriz e regressam na mesma ordem. Depois vem o Antônio Ismério bem trajado e mais o Pedro Cachoeira. onde residiam muitos descendentes de italianos. alemães e portugueses. Prossegue o articulista. o prestigia e deseja o brilho da festa para cabal desempenho do tio Agostinho. 107 Sobre histórico da fundação da capela Nossa Senhora do Rosário em Lages. Sobre o Contestado. O novo local da igreja do Rosário ficou bem distante da área onde antes funcionava a capela. acusando a irmandade de não entregar a chave da capela e não 104 133 .. 01. a do ano de 1880. escravo de Claudiano Rosa. ver a trabalho de Julita Scarano (1978): Devoção e escravidão: a Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos no Distrito Diamantino. no século XVIII. Novamente a Imagem de N. Atrás do andor vai a música do Justino – o maestro Justino Espíndola de Lima. 111 O Imparcial. com seu cavanhaque.]. 105 Expressão usada por Élio Serpa (1997.. A imagem e as alfaias da antiga capela Rosário foram transpostas para nova igreja. no bairro Coral. Vai Sair a procissão! Lá vem o Agostinho. propriedade de terra nas mãos de poucos. 110 Ver no anexo 3. Igreja e assim contrária as ensinações de Jesus Christo [. p. 01 nov. o tio Cinza.. introdução de novas relações sociais com a penetração do capitalismo no campo e o aumento significativo da população com a construção da estrada de ferro São Paulo-Rio Grande. do Rosário volta para o seu altar. projetando um sonho que de acordo com suas condições concretas e culturais lhes parecia viável. liberto do Padre Camillo. p.” (p. 72). enquanto na rua a música ataca uma marcha religiosa e a Imagem vai solenemente subindo a escada da celebrada Igreja do Rosário. p. 112 Sobre a “Festa de Santa Cruz” no ano de 1911. 1902. foi inaugurada a igreja do Rosário. Depois. Apud. do Rosário. S. que profunda veneração de todos. 108 Referindo-se a uma dessas festas. marido da Iria. o tio Cypriano.. expropriação da posse da terra por empresas estrangeiras. narrou Otacílio Costa (1943): “Dez de outubro! Dia de N. E que respeito. A utopia calcava-se na possibilidade de instaurar ‘um reinado de paz.” 109 Em 1943. Segundo Élio Cantalício Serpa (1997).de 1898 o estado de Santa Catarina. 1911: “É portanto lamentável que a festa que se vai realizar como tantas outras já realizadas seja. fizeram com que homens e mulheres respondessem a esse conjunto de situações. É o festeiro do ano. 55). o Martinho e o Rogério do Juca Antunes. ver trabalho de Sebasitão Ataíde (1988.]”. 22 abr.. independente da boa fé que por ventura haja de seus promotores. n. prosperidade e justiça na terra [. exímio tocador de sino. respeitado. o João Mocámbique. dizia o jornal O Clarim. Walter Fernando Piazza (1984). solene. 21. Lages. a imagem da antiga capela da Santa Cruz.S. completamente contrária aos preceitos da S. Lages. a seu lado. Seu amo. de cartola e calças brancas e sapatos lustrosos.. sobre as raízes do movimento milenarista caboclo do Contestado: “A problemática social esboçada na forma de analfabetismo generalizado.. Que movimento/ Os rojões cortam o espaço. 64): O negro no planalto lageano.. benquisto vem o Padre Antônio e ao seu lado o Manézinho. É de notar o aprumo dos pretos e a tafularia das pretas... por ocasião de sua inauguração. ver também a obra de Maurício Vinhas de Queiroz (1981) Messianismo e conflito social no Brasil: a guerra sertaneja do Contestado: 1912-1916. preto alto. brancos e pretos! .

os termos “fandango” ou “samba” foram usados indiscriminadamente como sinônimos de “baile popular”. 34. intelectual e material desta parte do Estado. 23 mar. em obra já citada. 24 jan. em que enfatizava que. Sobre tais definições. 02. 23 mar. Processo Crime. em 03 de janeiro de 1914.. 127 LAGES. 126 A antiga localidade denominada Painel. Processo Crime. ou “meio fazendeiros” . 51): Homens livres na ordem escravocrata.. Lages. (Thompson. LAGES. 129). 29 jan. Processo Crime. 120 Região Serrana. usando ambas as denominações como sinônimos.” (p. 79. Foro da Comarca. que “[. ver Maria Sylvia de Carvalho Franco (1997. 1912. n. 122 Dizia jornal A Notícia .. transcreveu parcialmente o Código de Posturas do Município de Lages. No processo crime em que foi acusado José Borges de Amaral e Castro: LAGES.. n.. Maço 82. Foro da Comarca. p. n..]”. 113 134 . 116 O Clarim. 24 Abr. disse que: “[. 129 Maria Sylvia de Carvalho Franco (1997). p. 1914: a prefeitura do município de Lages publicou o “Relatório da gestão dos negócios do município de Lages. 128 Sobre a violência como norma comum de conduta. Foro da Comarca. Maço 82.. Lages. 125 LAGES. 36. 131 LAGES. 130 A antiga localidade de Capão Alto é hoje um município localizado na direção sul de Lages. 30 Abr.prestar contas às autoridades diocesanas. 30-42). aprovado em 1895. 03 nov. 1918.. 114 O Clarim. 133 Os criadores da época eram fazendeiros com centenas de cabeças de gado. Processo Crime. 03. com um número menor de cabeças de gado.] acontecia um “samba ou fandango”. n. 1908.03. 01. Processo Crime n. 1908. 124 No original: “Con el concepto de legitimación quiero decir que los hombres y las mujeres que constituían la multitud creían estar defendiendo derechos o costumbres tradicionales [. 11 maio 1914. podemos dizer que eram “os pequenos criadores e grandes negociantes de gado de corte”. 1895. está distante poucos quilômetros da cidade de Lages. Quanto aos “meio fazendeiros”. 03. Lages. a aproximadamente 50 km. no Brasil. Foro da Comarca. 119 Em alguns processos crimes pesquisados.. 134 O Clarim. p. 3. innegavelmente mais adiantada hinterland Chatarinense”. p. p. 07 set. Processo Crime n. 02.] “. “[. 121 Segundo jornal A Notícia. p. 132. 04. Maço 38. Lages. 1899. 1908. Foro da Comarca. 118 Segundo o antropólogo Arthur Ramos (1956): “Batuque e samba tornaram-se dois termos generalizados para designarem a dança profana dos negros. 1900. Foro da Comarca. 125. 27 maio 1908.] a atual administração que manifestamente procura dar a esta cidade um cunho differente alliando a higiene e o embelezamento”. Foro da Comarca. 24 Abr. 1900. Lages. n. 1908. 20. p.. p. p. Processo Crime. 15 maio 1910. apresentado ao Conselho Municipal. p. 216). trabalhou a questão da solidariedade entre os trabalhadores rurais do século XIX (p. 125. 26 dez. 1995. 02. hoje município. 117 O jornal Gazeta de Lages. p. substituto em exercício do Superintendente Municipal”. o promotor público. Maço 38. pelo sr. no anno de 1913. n. Otacílio Vieira da Costa. n. 30. n. Lages. em casa de Domingos Leite Júnior [. 123 Jornal O Planalto. Maço 60. ver Maurício Vinhas de Queiroz (1981.17. 10.] a administração não tem medido esforços em prol do desenvolvimento moral. Maço 32. ao abrir a denúncia. 11 maio 1914. 08 Set.. 132 LAGES. Maço 32. Lages. 115 LAGES. 45).

03. n.. em primeira página: Orgam Popular e Independente. Maço 29. Maria Odila Leite da Silva Dias (1995. (Costa. ver. como o prédio da Prefeitura Municipal. 140 Ver obra de Roberto Cardoso de Oliveira (1976): Identidade. p. Secretário Geral dos Negócios do Estado (Fulvio Aducci). 152 Ver: SANTA CATARINA. algumas casas e edifícios foram construídos ou reformados com traços arquitetônicos ao estilo europeu. 145 Na área rural de Lages existiam raias no Painel. Em 12 de julho de 1906.. e arborizadas outras vias já existentes. hoje município Campo Belo do Sul. Foro da Comarca. Maço 45.03. e da obra de Licurgo Costa (1982. e LAGES. Foro da Comarca. também. Foro da Comarca. 142 Em relação ao cotidiano conflituoso dos populares e sua relação com o aparelho judiciário e a polícia. estas foram algumas das sociedades beneficentes criadas na cidade de Lages.35. Processo Crime. 16 set. ver obra de Roberto Da Matta (1997. foi criada a Ordem Franciscana Secular. fundado em 27 de novembro de 1892. ver Sidney Chalhoub (1986. 139 LAGES. 70. Informação tirada da leitura sistemática dos Processos Crimes de 1888 a 1918. p. Processo Crime. Maço 29.33. 138 A localidade de Campo Belo. 33. p. ainda. Foro da Comarca. 87-107): Carnavais. 1905. Fulvio Aducci apresentado ao Governador do Estado Dr. 22 Mar. n. 150 Conforme Sidney Chalhoub (1986): “ [. Lages. 141 Sobre definições de espaço público e privado. Felippe Schmidt em 1o. p.]”. em 1902. 20 maio1908. Processo Crime. p. do ano 1888 a 1918. Maço 29. 56. 02 Jan. 22 Mar. 1428).] a conduta real vivida pelos membros das classes populares não se ajusta aos padrões dominantes. 151 A primeira entidade beneficente em Lages foi o Clube União Artística. Lages. 137 LAGES. Segundo Licurgo Costa (1982. Coxília Rica. “Relatório do Secretário Geral dos Negócios do Estado Dr. p. Capão Alto. 147 Para confirmação quanto à presença de descendentes de africanos em corridas de cavalos. Observamos ainda que os números do jornal O Clarim vêm com a seguinte subscrição.. 120. malandros e heróis: para uma sociologia do dilema brasileiro. n.114). foi fundada a Conferência Vicentina de Lages. Canoas e Rio Bonito. 148 A Evolução.Artigo com o título “13 de maio” publicado no jornal O Clarim. Campo Belo. de 135 135 . 144 Algumas leituras contemporâneas interessantes sobre o mito da democracia racial brasileira são os trabalhos de Michael Hanchard (1995) e Fernando Rosa Ribeiro (1995): A nação em fluxo. n. Foro da Comarca. o prédio da Escola Estadual Vidal Ramos. n. os seguintes processos: LAGES. está distante pouco mais de 50 km da cidade de Lages em direção ao Rio Grande do Sul. 51). p. 17 Jul. 13. 163-204). 02 14 fev. concluindo-se. Processo Crime. p. etnia e estrutura social. 1890. construídas algumas praças e jardins. p. Quanto à visão das classes dominantes em relação ao cotidiano dos populares como patológico.1401-1405). n. 1428). 1913. (p. que os populares vivem em um estado anômico ou patológico [. 1982. então. 20 maio 1908. Maço 26. as raias se localizavam no “Banhado” e no “Conta Dinheiro”. terminada em 1921. 35. 143 LAGES. 149 Naquela época. Em 19 de janeiro de 1917. 1908. consultar. Processo Crime. 146 Na zona urbana e suburbana da cidade. n. e a Igreja Matriz de Lages. em 1912.. Também foram abertas novas ruas – acabando com alguns cubículos existentes na área central –. 136 O Clarim. já citada. 1905. n. 1907.

Typ. 1895. 162 Sobre a localização dos bairros “Lagoão”. foi parte desse município até o ano de 1875. onde às vezes uma rua. obras em construções que. inclusive. já citada. além de outros cargos. Hoje toda aquela região é conhecida como bairro da Brusque. Godinho. no mês de maio de 1949. 12151390). finalmente. Florianópolis. as estradas de ferros”. Lages. Lages. filho de Vidal. “Brusque” e “Banhado”. no todo ou em parte. demolidas por seus proprietários.] expulsaram-nas o aburguesamento da vila. . 156 Hoje faz parte da área central da cidade. anexo 4. quaesquer edifícios. 1906. 39 . 13. 155 Referimo-nos principalmente à família “Ramos”. Região Serrana.17) 161 Naquela época. do Lagoão e da Brusque. 153 136 . 01.julho de 1916". É o caso de Santa Cruz. 1909. Foro da Comarca. do ano de 1902 a 1922. a parte alta era denominada de Brusque e a parte baixa era chamada de Lagoão – por causa de um córrego que passava naquelas proximidades. “Relatório do Superintendente Municipal Belisário Ramos apresentado ao Conselho Municipal em 02 de janeiro de 1906". 163 A Evolução. Belisário José de Oliveira Ramos. e governador. 159 Impresso em: LAGES. reconhecido com aquele nome. 26 Jan. 30 Mar. um rio.. foi governador e interventor estadual de 1935 a 1945. n. do Banhado. 03. logo após do prazo. o Código de Posturas do município dizia o seguinte: “Art. 01 fev. foi por sucessivas vezes. p.27) 160 Segundo Maria Odila Leite da Silva Dias (1995). chama-se bairro Copacabana. e ocupou. Gabinete Typográfico J. Maço 28. Localizados numa região íngrime. oligarquia de políticos lageanos de renome estadual. junto ao Centro. p. a sua custa. irmão de Vidal. 164 LAGES. e far-se-há a mesma demolição. e a maior parte dela também foi engolida pelo centro da cidade. sobre o cotidiano das mulheres pobres paulistas no século XIX. Lages. Typ. 154 O PLANALTO.” (p. n. Entre os expoentes da família: Vidal Ramos Júnior foi vice-governador do estado de Santa Catarina. Observação: o município de Curitibanos está localizado na região do Planalto Catarinense. consultar a obra de Licurgo Costa (1982. Processo Crime. aproximadamente a 80 Km. 14 fev. frentes. Para maiores esclarecimentos sobre tais nomes. 1907. o encarecimento dos impostos municipais e. Colleção De Leis Do Município. casas e sobrados e. 157 Hoje. 02. LAGES. 165 LAGES. de 1910 a 1914. 185. Processo Crime. e a migração das mesmas das áreas centrais para a periferia: “ [. p. Superintendente (Belisário Ramos). da cidade de Lages. ameacem ruína ou desabamento serão no prazo marcado pela superintendência. em geral.Os muros. 158 O Lagoão era uma região que se confundia com o bairro da Brusque por fazer parte de seu prolongamento. a presidência da República do Brasil por alguns dias. de 1940. o alinhamento das casas. (p. Curitibanos.O infrator será punido com uma multa de 10$000 a 20$000 reis. d’O Estado. Foro da Comarca.. os melhoramentos urbanos. 1917. Nereu Ramos. ver mapa da cidade de Lages. n. de 1902 a 1906. além de outros cargos do executivo municipal e do legislativo estadual e federal. superintendente municipal de Lages. Maço 38. a iluminação. eram localidades da área urbana não necessariamente denominadas oficialmente pelo poder público municipal como “bairros”. 1921. ou outra característica qualquer de suas redondezas acabavam tornando todo um dado recorte da região urbana.

172 A “cor” de Laurindo José Garcia foi identificada no corpo delito do processo: SANTA CATARINA. Caixa 44. n.85) 186 O Clarim. 33. 15 Jun. Suplemento especial: “Os bairros de Lages”. Lages.1998. ainda.. 1998. 10/11 ago. tendo também um trabalho publicado sobre o tema: O Negro no Planalto Lageano. n. duas senhoras com mais de 90 anos. por ocasião de uma briga em que se envolveu. Foro da Comarca. Maço 88. 1998. Foro da Comarca. e auxílio da obra de Janaina Amado. 184 Conforme o jornal Correio Lageano. 05 Fev.1998.] Etnicidade é essencialmente a forma de interação entre grupos culturais operando dentro de contextos sociais comuns [. membro da diretoria do Centro Cívico Cruz e Souza.]. 1926. 183 LAGES. 1997. 03. n. 171 Este termo foi usado na p. Sebastião. e informações do jornal Correio Lageano. 3063. 170 Sobre o curandeiro Pedro Barulho. Maço 27. Maço 77. n. e entrevistas com Marieta Camargo da Silva Santos (1998) e Sebastião Ataide (1998). 10 mar. 33. 187 O Clarim. Lages. 181 Ataide.” (p. 03. Lages. Suplemento especial: “Os bairros de Lages”. n. liberta. 185 Baseado na obra de Roberto Cardoso de Oliveira: Identidade. etnia e estrutura social. 23 do processo em questão. 05. 1919. 179 Conforme informações retiradas da leitura de alguns processos crimes da comarca de Lages durante a década de 30. Sebastião. Lages.SANTA CATARINA. 26 jun. fiz várias entrevistas com descendentes de africanos. 1923. No entanto. Sebastião. ao mesmo tempo que é nascido na região. fiz por ele ser um estudioso da história dos negros em Lages. Foro da Comarca. Processo Crime. 3063. 1921. 178 Ataide. 167 LAGES. p.. Apelação Crime. 17 Maio 1918. 05 out. 26 jun. Marieta de Moraes Ferreira (1996): Usos & abusos da história oral. 26 jun. e foi.161. 198. quando a promotoria requisitou que se identificassem corretamente os réus. Segundo o autor: “[. 1997. Caixa 44. Processo Crime. Inquérito Policial. 173 Não priorizei a fonte oral na pesquisa. e da lavadeira. Quanto à entrevista realizada com Sebastião Ataíde (1998). Carolina Eva 166 137 . 10/11 ago. Maço 10. Sebastião. 26 jun. 169 LAGES. num baile no lugar denominado Banhado. ver o capítulo “Aspectos da religiosidade popular em Lages: a presença negra”. 188 O nome do Centro Cívico Cruz e Souza é uma homenagem ao poeta simbolista catarinense João da Cruz e Sousa. Tribunal de Justiça. 20 maio 1908. Foro da Comarca. Tribunal de Justiça . 1908. 177 Sobre a capela de Santa Cruz. Maço 38. nascido em Desterro (Florianópolis). Foro da Comarca. p. Lages. 174 Ataide. Lages. 176 Ataide. p. 18 Fev. aos 24 dias de novembro de 1861. 20 maio 1908. Processo Crime. 1927. 180 Conforme entrevista com Sebastião Ataide (1998). escravo do marechal Guilherme Sousa. Apelação Crime. 1926.. 03. 175 Cruz e Souza.. n. Entre elas. filho do mestre pedreiro Guilherme. 168 LAGES. Processo Crime. Lages. na intenção de esclarecer algumas dúvidas sobre a vida dos negros no período. 05 fev. ver o capítulo:Contra a ‘cor’ inexistente. Cabe ressaltar que trabalhamos a história oral conforme o entendimento de Verena Alberti (1989): História oral: a experiência do Cpdoc. 182 A cor de Lino Garcia dos Santos foi identificada em: LAGES. 24 Abr.

p. Lages. foi inaugurada sua sede própria. 190 Ver: jornal O Planalto. 466. segundo conversa informal com o diretor e pesquisador do Museu Thiago de Castro.. 195 O Planalto. ver: Arthur Ramos (1956. 210 Cruz e Souza. 138 . p. com “s”. n. Skidmore (1989): obra já citada. 212 Conforme entrevista com: Ataide. 186). Lages. No século XIX. convencionouse alterar seu sobrenome para Sousa. n. 13 Nov. Lages. Foro da Comarca. 05. próximo ao bairro da Brusque. 01. 196 Termo usado por Thomas E. 194 Mais tarde. 196. 70. em 1938. 21 nov. 22 set. 05. Foro da Comarca. Lages. foi alugado um prédio para sede do Centro Cívico Cruz e Souza e. 197 Sobre a sociedade jornalística de homens negros. Lages 26 jun. 06 out. em uma das reformas ortográficas. a grafia “Souza” com a letra ‘z’ foi convencionalmente usada para nominar o “Centro Cívico”. 208 Ver imagem da capa do jornal “Cruz e Souza”. n. 207 Ataide. 01. 03 ago. 192 Conforme o jornal Cruz e Souza. p. 191 Cruz e Souza. Foro da Comarca. 1919. 193 Cruz e Souza. 17 dez. n. 1931. 1918: “A diretoria esforçar-se-a de modo que as festas promovidas pelo Centro sejam realizadas na melhor ordem possível [. Sebastião. E. n. 05. 02. 1931. 03.P. 1998. n. 05 out. Maço 112. 01. (art.]”. p. 198 Cruz e Souza. 03. n. 1919. p. n. 04. 02/03. p. 204 LAGES. Maço 112. Lages. fundada em 1924. 466. 1919.. 22 set. 1919. fundado em 1916. p. Maço 112 205 Cruz e Souza. Lages. p. para se referirem aos sócios daquele club. porque era desse modo que o próprio poeta assinava. Lages. 1919. Inquérito Policial. 1919. senhor Danilo Thiago de Castro.da Conceição. 05. 22 set. 1931. Inquérito Policial. Amadores da Arte mantinha. uma orquestra sinfônica. 466. 13 Nov. 04. 01. Lages. 203 LAGES. 1998. Lages. 05 set. 1918. 26 jun. p. 209 Cruz e Souza. 03. n. n. 1919. Lages. 200 Conforme os “ESTATUTOS DO CENTRO CÍVICO CRUZ E SOUZA”. n. 04. localizada até hoje em frente à Igreja de Santa Cruz. 211 Ataide. 32) 201 O Lageano. secretário geral do governo do estado de Santa Catarina e superintendente municipal de Lages. 13 Nov. 07 set.D. 1918. n. Lages 26 jun. 206 Caetano Vieira da Costa foi deputado estadual. Sebastião. 17 maio 1919. Em todos os documentos pesquisados referentes ao “Centro Cívico Cruz e Souza”. 03. n. 01. 05 out. p. O artigo foi assinado por Cassimiro da Silva Varella. 189 O termo “homens de cor” foi usado difusamente pelos membros do Centro Cívico Cruz e Souza e pela sociedade em geral. Lages. uma biblioteca e um grupo dramático. Inquérito Policial. 1998. p. Lages. n. Sebastião. o G. 03. no anexo 5. 202 LAGES. p. Observação: a Escola Noturna Amadores da Arte pertencia à sociedade Grupo Dramático Particular Amadores da Arte. 74. 199 Cruz e Souza. 1919. além da escola. em São Paulo. “O Clarim d’Alvorada”.

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e impresso na gráfica Nova Letra. em Florianópolis. em abril de 2010. em Blumenau. . no estúdio da Letras Contemporâneas.Composto com a fonte Goudy Old Style.

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