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REVISTA DE ARQUEOLOGIA VOLUME 23 _ NUMERO 2 _ DEZEMBRO 2010
REVISTA DE ARQUEOLOGIA VOLUME 23 _ NUMERO 2 _ DEZEMBRO 2010

REVISTA DE ARQUEOLOGIA

VOLUME 23 _ NUMERO 2 _ DEZEMBRO 2010

REVISTA DE ARQUEOLOGIA ARTIGOS 07 Editorial 10 Using C dates to track early human dispersals
  • REVISTA DE ARQUEOLOGIA

ARTIGOS

  • 07 Editorial

  • 10 Using 14 C dates to track early human dispersals James Steele

  • 20 Cazadores-Recolectores Tempranos, Supervivencia De Fauna Del Pleistoceno (Equus Sp. Y Glyptodon Sp.) Y Tecnología Lítica Durante El Holoceno Temprano En La Frontera Uruguay-Brasil Rafael Suárez e Guaciara M. Santos

  • 40 Indústrias Líticas em Contexto: O Problema Humaitá na Arqueologia Sul Brasileira Adriana Schmidt Dias e Sirlei Elaine Hoeltz

  • 68 Análise Intra-Sítio Do Sítio Justino, Baixo São Francisco – As Fases Ocupacionais Marcelo Fagundes

  • 98 Novas perspectivas sobre a arquitetura ritual do planalto meridional brasileiro: pesquisas recentes em Pinhal da Serra, RS Jonas Gregorio de Souza e Silvia Moehlecke Copé

  • 112 Levantamento arqueológico na Aldeia Lalima, Miranda/MS: uma contribuição ao estudo da trajetória histórica da ocupação indígena regional Eduardo Bespalez

  • 136 Da força repressora à coesão sutil: a arqueologia da vila operária

RESE nh AS TESES E DISSERTA çõ ES

Cláudia Regina Plens

  • 156 Patrimônio Arqueológico de Caxias do Sul Francisco Silva Noelli

  • 160 A arte rupestre de Jequitaí/MG entre práticas gráficas padronizadas e suas manifestações locais: Interseções Estilísticas no Sertão Mineiro Rogério Tobias Junior

  • 162 Holocene hunter-gatherer plant use and foraging choice: a test from Minas Gerais, Brazil

n OTAS

Myrtle Shock

  • 164 Diálogo com Francisco Noelli a respeito da resenha para o livro “Patrimônio Arqueológico de Caxias do Sul” Rafael Corteletti

  • 168 Normas Editoriais

Fotos Capa: Rafael Suarez

  • REVISTA DE ARQUEOLOGIA

  • VOLUME 23 _ NUMERO 2 _ dEzEMbRO 2010 _ ISSN 0102-0420

  • A Revista de Arqueologia, fundada em 1983 pela Profª Maria da Conceição M. C. Beltrão e editada originalmente pelo

  • Museu Paraense Emilio Goeldi/CNPq, é uma publicação oficial
    e semestral da Sociedade de Arqueologia Brasilieira - SAB.

REVISTA DE ARQUEOLOGIA

VOLUME 23 _ NUMERO 2 _ dEzEMbRO 2010 _ ISSN 0102-0420

Conselho Editorial Abdulay Câmara Adriana S. Dias Astolfo Gomes de Mello Araujo Alberico Nogueira de Queiroz André P. Prous André O. Rosa Claudia Rodrigues Ferreira de Carvalho Denise P. Schaan Eduardo G. Neves Fabíola A. Silva Gilson Rambelli Gislene Monticelli Gustavo Politis João Pacheco de Oliveira Filho José Lopez Mazz Loredana Ribeiro Luiz Cláudio Symanski Luiz Ossterbeek Marco Aurélio Nadal De Masi Michael Heckenberger Sheila Mendonça de Souza Tania Andrade Lima Veronica Wesolovski

Diretoria da SAB Sociedade de Arqueologia Brasileira Presidência Eduardo G. Neves (Universidade de São Paulo) Vice-Presidência Silvia M. Copé (Universidade Federal do Rio Grande do Sul) Secretaria Luís Cláudio Symanski (Universidade Federal do Paraná) Sibeli Aparecida Viana (Pontifícia Universidade Católica de Goiás) Tesouraria Loredana Ribeiro (Universidade Federal de Pelotas) Jacionira Coelho Silva (Universidade Federal do Piauí) Comissão Editorial Gabriela Martin D’Ávila (Universidade Federal de Pernambuco) Arno A. Kern (Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul) Lucas M. Reis Bueno (Universidade de São Paulo) Comissão de Seleção Ondemar Dias Jr. (Instituto de Arqueologia Brasileira) Maria Lúcia F. Pardi (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) Vera Lúcia C. Guapindaia (Museu Paraense Emilio Goeldi) Conselho Fiscal Pedro Ignácio Schmitz (Instituto Anchietano de Pesquisas) Fernanda B. Tochetto (Prefeitura Municipal de Porto Alegre) Cláudia Alves de Oliveira (Universidade Federal de Pernambuco)

Museu de Arqueologia e Etnologia Universidade de São Paulo Av. Prof. Almeida Prado, 1466 São Paulo - SP - Brasil

05508-900

Comissão Editorial: Gabriela Martin, Arno Kern, Lucas Bueno Editor Responsável: Lucas Bueno Gestão 2009-2011

Dados Internacionais de Catalogação

Revista de Arqueologia / Sociedade de Arqueologia Brasileira, 2010. São Paulo: SAB, 2010, V. 23, M.1

Semestral a partir de 2008: 2010. ISSN: 0102-0420

1. Ciências Humanas. 2. Arqueologia. 3. Antropologia. 4. Sociedade de Arqueologia Brasileira

REVISTA DE ARQUEOLOGIA

ARTIGOS

SUMÁRIO

  • 07 Editorial

  • 10 Using 14 C dates to track early human dispersals James Steele

  • 20 Cazadores-Recolectores Tempranos, Supervivencia De Fauna Del Pleistoceno (Equus Sp. Y Glyptodon Sp.) Y Tecnología Lítica Durante El Holoceno Temprano En La Frontera Uruguay-Brasil Rafael Suárez e Guaciara M. Santos

  • 40 Indústrias Líticas em Contexto: O Problema Humaitá na Arqueologia Sul Brasileira Adriana Schmidt Dias e Sirlei Elaine Hoeltz

  • 68 Análise Intra-Sítio Do Sítio Justino, Baixo São Francisco – As Fases Ocupacionais Marcelo Fagundes

  • 98 Novas perspectivas sobre a arquitetura ritual do planalto meridional brasileiro: pesquisas recentes em Pinhal da Serra, RS Jonas Gregorio de Souza e Silvia Moehlecke Copé

  • 112 Levantamento arqueológico na Aldeia Lalima, Miranda/MS: uma contribuição ao estudo da trajetória histórica da ocupação indígena regional Eduardo Bespalez

  • 136 Da força repressora à coesão sutil: a arqueologia da vila operária

RESE nh AS TESES E DISSERTA çõ ES

Cláudia Regina Plens

  • 156 Patrimônio Arqueológico de Caxias do Sul Francisco Silva Noelli

  • 160 A arte rupestre de Jequitaí/MG entre práticas gráficas padronizadas e suas manifestações locais: Interseções Estilísticas no Sertão Mineiro Rogério Tobias Junior

  • 162 Holocene hunter-gatherer plant use and foraging choice: a test from Minas Gerais, Brazil

n OTAS

Myrtle Shock

  • 164 Diálogo com Francisco Noelli a respeito da resenha para o livro “Patrimônio Arqueológico de Caxias do Sul” Rafael Corteletti

  • 168 Normas Editoriais

  • 07 EDITORIAL Editor Responsável: Lucas Bueno

Apresentamos neste número sete artigos, sendo cinco deles escritos por pesquisadores nacionais e dois internacionais. Os temas são variados: questões teórico-metodológi- cas relativas ao estudo da dispersão e diver- sificação cultural de grupos humanos a par- tir de datações radiocarbônicas provenientes de sítios arqueológicos, ocupação antiga da América e relação entre homem e mamífe- ros de grande porte, variabilidade tecnológi- ca das indústrias líticas do sul do Brasil e seus significados, tecnologia lítica e análise intra-sítio, arquitetura ritual e construção do espaço, arqueologia em área indígena e ar- queologia numa vila operária do século XIX. O artigo de James Steele, do Institute of Archaeology/University College London aborda uma questão crucial para a discussão sobre dispersão e diversificação cultural de grupos humanos em diferentes períodos e regiões. Focando a questão da utilização das datações radiocarbônicas como uma ferra- menta para estimar direção e velocidade de deslocamento, James Steele apresenta de forma suscinta as principais abordagens es- tatísticas e os problemas enfrentados com relação à composição da amostra. Este é um ponto fundamental do artigo, pois sem uma amostra confiável e com boa resolução a di- mensão e significado das lacunas pode se tornar um obstáculo para discussão dessas questões. Esse é comumente o cerne das dis- cussões sobre ocupação da América, por exemplo, uma vez que muitas das datas anti- gas apresentam problemas com relação aos critérios de legitimidade definidos e aceitos por grande parte da comunidade acadêmica. A fim de esclarecer este ponto o autor men- ciona um estudo reallizado em colaboração

com Gustavo Politis, onde ambos procuram re-datar sítios potencialmente antigos no ex- tremo sul do continente. O artigo de Rafael Suarez traz informa- ções inéditas sobre ocupação antiga no norte do Uruguai, numa região de fronteira com o Brasil. Além de apresentar datas ainda inédi- tas, há uma discussão sobre a relação entre ocupação humana e fauna Pleistocênica de grande porte, com indicações da presença de Equus sp e Glyptodon sp até cerca de 9.500 anos AP na região entre o rio Uruguai e Qua- raí. No entanto, o autor ressalta que com base nas evidências coletadas a subsistência des- ses grupos humanos estaria baseada na caça de mamíferos de pequeno e médio porte, aves e peixes, com apropriação dos mega-mamí- feros como complemento, não de forma fre- quente. A tecnologia lítica associada a estas ocupações envolve a produção de artefatos bifaciais, dentre os quais pontas de projétil . A discussão apresentada pelo autor centra-se nos dados do sítio Pay Paso 1, mas em função das datas e dados apresentados certamente tem repercussão para discussões regional- mente mais abrangentes, envolvendo todo o norte do Uruguai e sul do Brasil, além de con- tribuir para discussões referentes às estraté- gias adaptativas dos primeiros grupos huma- nos a ocuparem a América do Sul na transição Pleistoceno/Holoceno. Continuando na região sul do Brasil, te- mos o artigo de Adriana Dias e Sirlei Hoeltz que, a partir de uma detalhada revisão bi- bliográfica, discute a variabilidade tecnlógi- ca das Indústrias Líticas do sul do Brasil, principalmente no que diz respeito à Tradi- ção Humaitá. A partir de uma abordagem sistêmica a respeito da variabilidade tecno-

8

lógica, as autoras diferenciam entre o que

fia dessas estruturas levam os autores a propor

seria o Contexto do Problema e o Problema

não só funções, quanto significados distintos

em Contexto. Neste último segmento, desta-

para esses dois conjuntos de estruturas que es-

cam três aspecto principais da discussão: o

tariam relacionados a agrupamentos sociais de

Problema Regional em Contexto, O Proble-

escalas distintas. Enquanto os primeiros se-

ma Cronológico em Contexto e o Problema

riam cemitérios de grupos ocupando casas se-

Tecnológico em Contexto. A junção desses

mi-subterrâneas vizinhas, os segundos esta-

três aspectos, segundo as autoras, permite

riam relacionados a agregação de diversas

propor a hipótese de que o que se convencio-

comunidades dispersas.

nou definir como Tradição Humaitá repre-

Já o artigo de Eduardo Bespalez enfoca o

sentaria conjuntos distintos associados a

processo de formação da terra Indígena Lali-

diferentes estratégias de ocupação relacio-

ma, confrontando dados etnográficos, etnohis-

nadas aos grupos humanos que ocuparam a

tóricos e arqueológicos. A partir desse conjunto

região sul do País ao longo do Holoceno.

de dados o autor sugere que a TI Lallima deve

No texto de Marcelo Fagundes a temática

ser compreendida como um palimpsesto da

da variabilidade tecnológica das indústrias líti-

história indígena regional, uma vez que oferece

cas continua a desempenhar um papel impor-

evidências para ocupação dos diversos grupos

tante, mas está voltada para discutir o processo

que atualmente ocupam essa TI em diferentes

de ocupação intra-sítio ao longo do Holoceno.

períodos de sua trajetória histórica.

O sítio Justino, localizado na região do Baixo

No último artigo deste número, Cláudia

São francisco foi intensamente escavado, for-

Plens discute a relação entre distintas classes

necendo uma rica e diversificada amostra de

sociais entre fins do século XIX e início do

vestígios materiais. Com datas entre o Holoce-

século XX, enfatizando a situação da classe

no Inicial, Médio e Recente este sítio é uma

trabalhadora em um contexto histórico logo

referência importante para discussão relacio-

após a abolição da escravidão. O trabalho

nada ao processo de ocupação do Nordetse e

tem como foco a vila operária de Paranapia-

aos processos de mudança envolvidos na tran-

caba, obra elaborada e executada pela com-

sição entre economias baseadas na caça e co-

panhia inglesa The São Paulo Railway Co.

leta para aquelas mais centradas em atividades

Ltd A partir da escavação das residências da

..

de hortocultura. A análise da composição e

vila operária construída em 1865, a autora

distribuição interna dos vestígios materiais

discute a relação entre cultura material e

identificados neste sítio embasa um modelo a

classe social nesse contexto histórico de tran-

respeito do processo de ocupação da paisagem

sição entre escravidão e trabalho assalariado.

circundante, conferindo diferentes funções

Temos ainda neste número a resenha do

para o sítio Justino ao longo do Holoceno.

livro “Patrimonio Arqueológico de Caxias do

Mudando de temática, temos o artigo de Jo-

Sul”, apresentada por Francisco Noelli e, na se-

nas de Souza e Silvia Copé que discutem arqui-

ção Notas, um comentário de Rafael Corteletti,

tetura ritual associada às ocupações Jê do sul

autor do livro, sobre a resenha apresentada.

do Brasil. A partir de escavações em montícu-

Espero que aproveitem a leitura e partici-

los e aterros anelares os autores fazem uma

pem da Revista enviando seus trabalhos, re-

distinção entre pequenos aterros cercando

senhas, resumos e notas.

montículos funerários e grandes aterros cer-

cando uma praça interna. Análises da compo-

sição dos conjuntos de vestígios e da estratigra-

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ARTIGO

Using 14 C dates to traCk early hUman dispersals

James Steele AHRC Centre for the Evolution of Cultural Diversity, Institute of Archaeology, University College London, 31-34 Gordon Square, London WC1H 0PY, UK. j.steele@ucl.ac.uk

 

R ESU mo

Este artigo apresenta uma revisão de algu-

A b S t RACt

mas questões metodológicas no uso de datas

This paper reviews some methodological

radiocarbônicas para reconstrução de episó-

problems in the use of radiocarbon dates to

dios de dispersão humana registrados arqueo-

reconstruct episodes of archaeologically-re-

logicamente. Estudos sobre este tema têm in -

corded human dispersal. Much effort has

vestido em estimar ritmos e direções da expansão

been expended estimating speeds and direc-

espacial de populações. Uma aplicação apro-

tions of spatial population expansion in such

priada para estas técnicas é o povoamento

cases. An appropriate application for these

inicial das Américas. Discutimos neste artigo

techniques is the first peopling of the Ameri-

técnicas de regressão para estimar ritmos de

cas. We discuss regression techniques for es-

frentes de deslocamento e salientamos algu-

timating front speeds, and consider some

mas limitações decorrentes de uma amostra-

limitations due to incomplete archaeological

gem arqueologica incompleta e de datações

sampling and imprecise radiocarbon dating.

radiocarbônicas imprecisas. Apresentamos

We also summarise results from a recent pro-

também resumidamente resultados de um

gramme of dating of previously-excavated

programa recente de datação de sítios previa-

late Pleistocene sites in Argentina and Chile.

mente escavados na Argentina e no Chile.

 

K EY W o RDS Radiocarbon, calibration, hu-

PALAv RAS - CHAv E Radiocarbônico, cali -

man dispersals, Paleoindian

bragem, dispersão humana, paleoíndios

 

REVISTA DE ARQUEOLOGIA

Volume 23

- N.2:10-19

- 2010

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Int R o DUCtI on

 

biologists by Hastings et al. 2005; for inter-

This paper reviews some methodologi-

disciplinary physicists by Fort and Pujol 2008;

cal problems in the use of radiocarbon

and for archaeologists by Steele 2009).

dates to reconstruct episodes of archaeo -

Much effort has been expended estimat-

logically-recorded spatial population ex -

ing speeds of spatial population expansion

pansion. It draws on material published in

for archaeologically-documented dispersal

previous papers by the author and his col-

episodes, initially to confirm predictions of

laborators and brings that work together

front speeds in the Fisher-Skellam model

for the first time (for the previous publica -

from independently-estimated population

tions see Glass, Steele and Wheatley 1999;

growth and migration rates, and more re -

Hazelwood and Steele 2004; Steele 2009;

cently to assess how far the classic Fisher-

Steele and Politis 2009; and Steele 2010). It

Skellam model falls short of reality in its

is hoped that this review may be useful to

treatment of human mobility patterns in a

archaeologists working on population dis -

dispersal phase. In ecology, simulations have

persal problems in South American archae-

shown that regressing distance to the point

ological contexts. For this overview the ex-

of origin of the invasion as a function of time

plicit mathematical and statistical content

of first detection is the most robust way of

has been minimised and discussion has

estimating invasion speeds, particularly

been kept to a conceptual level, but inter -

where there is only a small sample of obser-

ested readers can find more technical de -

vations (Gilbert and Liebhold 2010). Nu-

tails in the papers just cited.

merous archaeologists have suggested that

In basic demographic terms, modelling

radiocarbon dating can be used for this pur-

large-scale human dispersals requires us

pose, yielding estimates of the timing of pas-

to consider the rate at which the population

sage of the expanding population front at

increases locally, and the rate at which

different spatial locations. For the spread of

people move across the landscape. In popu-

farming in Europe, Ammerman and Cavalli-

lation ecology, the simplest model of such

Sforza (1971, 1984) fitted a linear regression

processes is a reaction-diffusion system

to dates and distances from Jericho, finding

defined by Fisher (1937) and Kolmogoroff,

a mean front speed of about 1 km yr-1. Sub-

Petrovsky, and Piskunov (1937), and applied

sequently Pinhasi et al. (2005) fitted a linear

to population expansion by Skellam (1951).

regression to dates from a set of 735 Neo-

This system predicts a constant spreading

lithic sites in Europe and the Near East us-

rate for an expanding population in a ho -

ing various origins and two possible dis -

mogeneous habitat; this rate will vary as

tance measures, and found an average front

a function of the average reproductive

speed in the range 0.6–1.3 km yr-1. For earlier

rate and the average rate of mobility of

episodes of hunter-gatherer dispersal, Fort

the population. In recent years an enor -

et al. (2004) estimated by regression a mean

mous amount of work has been done by

speed of late glacial recolonization of north-

biologists using this system to model the

ern Europe of 0.8 yr-1 (0.4–1.1 km yr-1 at

spread of invasive species, and numerous

the 95% confidence interval).

modifications and extensions have been

An appropriate case study for these tech-

proposed to improve the match between

niques is the first peopling of the Americas.

the modelled dynamics and those observed

For the last 50 years it has been the preva-

in the real world (see recent reviews for

lent view that the North American Clovis

 
Using C dates to track early human dispersals

Using 1 4 C dates to track early human dispersals

James Steele

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culture represents the earliest successful

trol for variation in precision by excluding

colonization phase, in which hunter-gath-

any dates that had standard errors of mea-

erers invaded the continent south of the ice

surement greater than 200 radiocarbon years

sheets from a Beringian source population.

(e.g. Ammerman and Cavalli-Sforza 1971,

However radiocarbon dates have subse -

1984). Subsequently, partly as an outcome of

quently constrained the Clovis phase to an

the extension of consensus calibration curves

increasingly short interval, most recently to

into the late Pleistocene, it has also become

between ~11,050 14C yr bp and ~10,800

normal to check the front speeds estimated

14C yr bp (Waters and Stafford 2007). Mean-

in this way against front speeds estimated

while dates from sites in South American,

using some point approximation of the most

including the southernmost part of that con-

likely or mid-range value of the calibrated

tinent, have been confirmed for the same

probability distribution for that radiocarbon

time range (e.g. Steele and Politis 2009).

measurement (e.g. Pinhasi et al. 2005; Ham-

This has led some scholars to propose a

ilton and Buchanan 2007).

 

colonization model including multiple dis-

Most recently, it has become possible to

persals, perhaps synchronous but geographi-

estimate relationships between dates and

cally separated (Steele and Politis 2009; for

distances from an assumed origin using as

congruent arguments from human genetics

the date variable a set of single calendar

see Hellenthal, Auton and Falush 2008 and

year values for each radiocarbon-dated

Perego et al. 2009). Accurate reconstruction

event, in each case drawn at random from

of the passage times of the expanding popu-

its calibrated probability distribution (Steele

lation front is a pre-requisite for resolving

2010). By repeating this regression analysis

such debates and exploring the underlying

many times, each time with a fresh draw of

demographic processes.

a single calendar year for each of the events

in the dataset, we can estimate a confidence

R EGRESSI on APPR oACHES

interval for the regression model parame-

A basic requirement of regression analy-

ters (slope, intercept, p-value, Pearson’s

sis for determining population front speed is

and Spearman’s correlation coefficients)

the ability to estimate timing of cultural

that takes account of the known uncertain-

events at known spatial locations using ra-

ty (calibrated date range) in the date of each

diocarbon dates. Obtaining archaeological

event. One method of drawing single values

estimates for first arrival times at different

from the calibrated distribution is the MCMC

locations remains a very imprecise science,

routine in the most recent online beta-ver-

because of sampling biases and of uncertain-

sion of OxCal (Version 4.1b3; Bronk Ramsey

ties (e.g. of stratigraphy) in the documented

1995, 2001), which will take a snapshot ev-

archaeological record. However, let us as-

ery (user-specified) n iterations of all of the

sume that we have a set of dated events that

parameters of the model obtained by the

we wish to analyse on the basis that they rep-

MCMC analysis, and which will save a us -

resent a set of first arrival times. We then

er-specified number of such snapshots to a

need to assign each event a point value (a

file for subsequent analysis (cf. Steele 2010).

single calendar age) for our regression anal-

The speed of propagation of an expanding

ysis. It was initially the practice to use the

front is then estimated in archaeology by fitting

modal value of an uncalibrated radiocarbon

a regression line to a set of estimated dates and

measurement as the point value and to con-

of values for some measure of the dated sites’

 

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relative position in space. Most often this is

 

take account of error in both variables. The

done by bivariate regression using distance as

presence of sampling error and measure -

measured from a hypothesised origin point.

ment uncertainty in a sample of radiocar -

The appropriate regression model to use when

bon dates is obvious to an archaeologist,

estimating this functional relationship is one

but the presence of error and uncertainty

which takes account of error and uncertainty

in the estimation of distance between two

in both variables. Reduced major axis regres-

locations should be equally obvious to any

sion (RMA), whose slope is the geometric

archaeologist who stops to consider the ef-

mean of the two ordinary least-squares slopes,

fects on large-scale dispersal patterns of

is preferable to the principal or major axis re-

terrain relief, of soil type and vegetation

gression technique used by Ammerman and

cover, and of rivers and large bodies of wa-

Cavalli-Sforza (1971, 1984) because RMA is

ter. If we try to estimate front propagation

scale-invariant. Simulations (Babu and Feigel-

speeds using great circle distances from a

son 1992) have shown that RMA performs well

point origin, then clearly the distance mea-

in recovering the true functional relationship

surements will be error-prone and a line-

between two error-prone variables: the angu-

fitting technique such as reduced major

lar bisector of the two ordinary least-squares

axis should therefore be used. In practice it

regression slopes (obtained by regressing x on

is commonplace for archaeologists to esti-

y and y on x) performed slightly better but

mate front speeds as within the range indi-

given the coarse order of approximation that

cated by the two OLS slopes (date on distance,

archaeologists require when interpreting front

and distance on date) and that is perfectly ac-

speeds, and given that the latter method is less

ceptable provided that this range is of the

widely implemented in statistics and spread-

same order of approximation as the reac -

sheet packages, I think that it is satisfactory to

tion-diffusion model’s predictions. Howev-

use the reduced major axis technique. To il-

er, this approach yields an excessively

lustrate the relevance of this choice, Cantrell

wide range of estimates for the values of

(2008) has used simulations to assess the abil-

the true underlying functional relation.

ity of ordinary least squares (OLS) regression

Finally, in some cases, it may make sense

to estimate a functional relationship between

to cluster sites into bins of equal distance from

two variables where each contain error, and

the assumed origin of the dispersal, and only

where the underlying relationship is unity (a

take the age of the oldest early site (or the av-

slope of value 1): he found that OLS underesti-

erage of all their ages) for each such bin. This

mated the true slope, with a systematic frac-

is because if a colonizing population expands

tional error of underestimation of the order

at a constant rate, the area colonized will tend

[1-r], where r is Pearson’s correlation coeffi-

to increase as the square of time, so that the

cient. RMA can easily be implemented in a

number of sites will be correlated with time

spreadsheet or other computer program either

and with distances from the origin. This can

by inputting the relevant formula for the slope

bias the regression results.

and intercept directly, or by using for example

We should note at this point that calibra-

an Excel add-in such as Sawada’s (1999) which

tion of late Pleistocene radiocarbon dates is

returns the full basic set of regression statistics

still an inexact science. In particular, and

(slope and SD, intercept and SD, r2).

compared with INTCAL04, the latest con-

It is perhaps useful to consider here why

sensus calibration curve (INTCAL09, Re-

we might prefer methods of line-fitting that

imer et al. 2009) substantially changes the

 
Using C dates to track early human dispersals

Using 1 4 C dates to track early human dispersals

James Steele

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picture for dates deriving from approximate-

reached its greatest density on the settled

ly the onset of the Younger Dryas, and uses

landscape at some distance from the en -

only marine data for periods before 12,550

try point, we may find it very difficult in -

cal BP (for the implications for dispersal

deed to recognize the direction of spread or

chronology in North America, see e.g. Steele

the location of the entry point using archae-

2010). Meanwhile the Huon Pine (HP-40)

ological data.

tree-ring sequence now anchors the previ-

Let us consider the process of first detec-

ously floating Late Glacial Pine (LGP) 14C

tion of an archaeological marker. The Fish-

sequence (Hua et al. 2009), and supports the

er-Skellam model predicts a travelling pop-

reduction in calendar age of radiocarbon de-

ulation density wave that is at carrying

terminations (12900-12550 cal BP) obtained

capacity behind the front and decreases to

with INTCAL09 as compared with IN -

an infinitesimally small value ahead of the

TCAL04 (Reimer et al. 2009). However, a plot

population front. At what population densi-

of the anchored LGP tree-ring 14C sequence

ty would we expect to detect the arrival of

(Hua et al. 2009: 2986) also suggests that a

the population? If the population is highly

Pacific coral-based calibration may overesti-

mobile and has a relatively slow reproduc-

mate both that reduction in age at the young-

tive rate, then it may reach local densities

er end of the range (12700-12550 cal BP), and

sufficient for first archaeological observa-

the associated uncertainty due to trends in

tion at similar times at very different dis-

atmospheric 14C concentration. Future revi-

tances from the entry point. The fact that

sions of the calibration curve incorporating

radiocarbon dates have an intrinsic uncer-

the anchored LGP tree ring 14C series are

tainty about the precise date of any event

therefore likely to change the picture again.

only adds to the problem. We have explored

Thus, even if we have a good statistical tech-

this analytically elsewhere (Hazelwood and

nique that enables us to make full use of the

Steele 2004). Other things being equal, pop-

probabilistic nature of radiocarbon dates, we

ulation front profiles (waves of advance)

must remember that for such periods our

will be broad if the population was highly

conclusions remain dependent on the accu-

mobile, and narrow if the population was

racy of the calibration curves themselves.

more restricted in mobility. If mobility is

held constant, then the front will travel fast-

PRobLEmS In RECovERInG A

er if the population reproduces rapidly. In-

CoHEREnt SPAtIAL GRADIEnt In

tuitively, we might expect that narrow and

ARRIvAL tImES WItH SPARSE AnD

slow waves will be the best for estimating

ImPRECISELY-DAtED SAmPLES

the rate of population advance. By contrast,

Although careful use of regression tech-

with broad and fast waves it might be ex-

niques can help us to reliably detect spatial

pected to be more difficult to determine

patterns in a sample of radiocarbon-dated

whether we are detecting pioneer or estab-

events, failure to detect such structure is not

lished phase occupation. Our intuition is

always the fault of our statistical technique.

usually correct in archaeological situations,

Nor need such a failure mean that no dis-

because the uncertainty in radiocarbon de-

persal took place at the time when we had

terminations makes fast waves hard to track

expected to see evidence for one. In fact, for

accurately using that method.

 

many plausible scenarios where the pop -

An additional complication arises where

ulation spread quickly and/or where it

the population is expanding into regions

 

REVISTA DE ARQUEOLOGIA

Volume 23

- N.2:10-19

- 2010

16

that are richer in resources, and therefore

 

cupation. Before we can analyse evidence for

able to support higher population densities

early human dispersal trajectories in space

(higher carrying capacities). In such cases,

and time, we have to obtain a large enough

if we assume that the quantity of artefacts

sample of securely-dated observations of

that survives is broadly in proportion to the

early human occupation. This remains a

size of the local population at any location,

work in progress.

then initially the archaeological record will

The obvious ideal requirements for diag-

contain more material near the entry point;

nosing and dating past human activity at an

but after some time the greatest density of

archaeological location are that there should

artefacts will be in the locations which sup-

be undeniable traces of humans (artefacts or

port higher population densities, and which

skeletons) in undisturbed geological deposits,

may be considerable distance from the en -

with indisputable dates. A more detailed re-

try point. If we have no typological basis for

cent specification stipulates the following

differentiating artefacts of the initial spread-

standards of validity for early Palaeoindian

ing phase from those of the established phase,

sites: there should be a consistent series of

then we could easily be tricked into think -

accurate and statistically precise radiometric

ing that the population had existed longest

dates, based on taxonomically-identified sin-

at locations where we find the greatest quan-

gle objects of carefully cleaned cultural car-

tity of archaeological material. Indeed, if the

bon (which will be considered especially

population was at very low densities in lo-

reliable if fruit/seed remains or purified ami-

cations close to the entry point during the

no acid fraction of bones/teeth of prey ani-

spreading phase, then we may fail to notice

mals), found in primary stratigraphic asso-

them at all unless we carry out very exten-

ciation with artefacts, and with the results

sive (and also intensive) archaeological sur-

documented by peer-review publication

veys and excavations. Again, we have ex -

(Roosevelt et al 2002). Some scholars would

plored this problem analytically elsewhere

further modify this to exclude samples with

(Hazelwood and Steele 2004).

errors of more than ± 1% of the mean age, in

radiocarbon years.

tHE C on S tA nt n EED fo R DAtA

Our specific objectives in a recent archae-

RE f I n E m E nt

ological dating project (Steele and Politis

In parallel with the development of statisti-

2009) were therefore to reassess the age of

cal techniques for tracking dispersal trajecto-

the earliest cultural phases of a set of early

ries, we must also constantly attempt to im-

archaeological sites in southern South Amer-

prove the quality and completeness of our

ica (Argentina and Chile), applying such

archaeological samples. In our own previous

criteria to the extent that this was possible

studies, we have tried to reconstruct the pattern

with already-excavated material. In each

of late Pleistocene population expansion in the

case, pre-existing radiocarbon dates sug -

Americas using the above and related GIS-

gested an age contemporary with or earlier

based techniques (e.g. Glass, Steele and Wheat-

than the North American Early Palaeoindi-

ley 1999, Steele 2010), but have been limited by

an record. We wanted, in collaboration with

the small size of the sample of dated sites, and

these sites’ investigators, to submit for AMS

by the lack of widespread consensus on which

14C dating additional previously-excavated

sites (and which radiocarbon dates) can be

specimens from the same stratigraphic units

treated as a reliable record of early human oc-

that had previously yielded individual dates

 
Using C dates to track early human dispersals

Using 1 4 C dates to track early human dispersals

James Steele

17

suggesting a late Pleistocene human pres -

America at or soon after 11,000 BP. This ob-

ence in the southern cone. Our preference

servation is corroborated by the new results

was for single pieces of hearth charcoal and

obtained from this study for at least three of

for clearly cut-marked animal bones. Where

the six sites in our own sample: Cerro Tres

such specimens were not available we also

Tetas (11,087±48 BP and 10,886±48 BP, hearth

accepted burnt animal bone, and animal

charcoal, both averaged from two replicate

bone which was helically fractured by dy-

determinations); Cueva de Lago Sofia 1

namic impact (although we were aware that

(10,710±70 BP [OxA-8635], bone tool); Piedra

such fracture patterns are not necessarily an-

Museo (10,675±55 BP [OxA-15870], cut-

thropogenic [Haynes 1983, 1988] and that

marked bone). In addition, Tres Arroyos has

the argument for human agency must there-

two secure hearth charcoal dates (10,600±90

fore be made from other aspects of the archae-

BP [Beta 113171] 10,580±50 BP [Beta 113171])

ological context). Finally, where no modified

obtained independently of our study but

bone was available, we accepted specimens of

which are consistent with the results we

unmodified animal bone; but we were aware

obtained. Finally, independently-obtained

that dates on such bone would be less reliable

hearth charcoal dates from two other sites in

indicators of the age of human activity, be-

our sample (Cueva de Lago Sofia 1, 11,570±60

cause other taphonomic agents could have

BP [PITT-0684]; Piedra Museo, 11,000±65 BP

caused those bones to be present in the de-

[AA-27950]) suggest somewhat earlier dates

posits. To control for potential error in in -

for first occupation which our own observa-

terpreting 14C measurements on bone

tions did not directly confirm, but which re-

and charcoal specimens (for example due

main plausible in principle in terms of strati-

to the burning of old wood, or to the diffi-

graphic context (and which should now be

culty of eliminating diagenetic contami -

revisited by additional determinations on

nants from bone samples), a combination of

charcoal from the same features).

 

both materials was selected where possible.

Similar evidence to that obtained in the

The results were very interesting. With

study by Steele and Politis (2009) has been

one possible exception, we did not obtain new

reported from other sites in the southern

results to confirm earlier observations of pre-

cone of South America. These include - in

Clovis-age cultural activity at any of the sites

the Humid Pampas sub region (see refer -

considered in this study. The exception, Ar-

ences in Steele and Politis 2009) - Cerro La

royo Seco 2, is considered in detail elsewhere

China 1 (10,706±40 BP, average of five char-

(Politis and Gutierrez, in press). In the light of

coal dates), Cerro La China 2 (with charcoal

the results of this study, which appear to have

dates of 10,560±75 BP and 11,150±130 BP),

resolved many of the dating issues surround-

Cerro La China 3 (with a single charcoal date

ing the Arroyo Seco 2 Pleistocene component,

of 10,610±180 BP), and Cerro El Sombrero

debate must now focus on the taphonomic

(with four charcoal dates in the range

arguments for humans as the agents of bone

10,270±85 BP to 10,725±90 BP). In Uruguay,

accumulation and bone modification. Leav-

the site of Urupez 2 has two charcoal dates

ing Arroyo Seco 2 aside, our results on the

(10,690±60 BP and 11,690±80 BP; Meneghin

specimens which were the most preferred in-

2004, 2006). In southern Patagonia an addi-

dicators of cultural events (hearth charcoal

tional key site is Cueva Casa del Minero

and cut-marked bone) do however confirm

(10,983±39 BP, average of two charcoal

that people were in the southern cone of South

dates; Paunero 2003). Cueva del Medio

 

REVISTA DE ARQUEOLOGIA

Volume 23

- N.2:10-19

- 2010

18

has four charcoal dates in the range 10,930±230

gentina and Chile, where the chronology

to 9,595±115 (Nami and Makamura 1995).

of the earliest settlement phases was re -

Finally, we also mention here two sites from

vised in the light of new dates. Early hu -

lower latitudes in South America which have

man dispersals can indeed be reconstruct -

multiple 14C measurements that appear to

ed reliably by these means, and once we

be quite consistent and well-controlled, and

have a reliable picture of the chronology

are of similar age: in the semi-arid Andean

of first occupation at a sufficient sample

Pacific region of Chile, a layer at Quebrada

of spatial locations, we can also begin to

Santa Julia has recently been dated to

reconstruct the demographic and cultur -

11,024±47 BP (average of two charcoal and

al dynamics of this expansion process.

one wood samples; Jackson et al. 2007); and

This kind of work is a major scientific

in addition, the Initial A stratum at Caverna

undertaking. Modern genetics has revo -

da Pedra Pintada in Brazilian Amazonia has

lutionised our understanding of modern

a date for its basal cultural layer of 11,077±106

human origins and of the timing of hu -

BP (average of four burned palm seed dates;

man dispersals out of Africa, and has

Roosevelt et al. 2002). However, a full evalu-

contributed to a new understanding of

ation of the early settlement chronology in

our species’ biological identity. Archaeol -

lower latitudes of South America (and in

ogy has a fundamental role to play, not

countries such as Brazil) was outside the

only in providing an independent chronol-

scope of our own study.

ogy to calibrate the geneticists’ models, but

also in reconstructing the origins of hu -

Con CLUDI n G RE m ARKS

man cultural diversity. The potential sci -

This paper has reviewed some robust

entific rewards of large-scale collaboration

statistical techniques for estimating the

and data pooling, and of the establishment

rate of expansion of a population front,

and application of agreed standards for

but has also noted the limitations of an

data screening, will justify the hard work

incomplete archaeological sample and im -

which such integration must inevitably

precise radiocarbon dates. We have also

involve when working with models of

summarised the implications of a recent

processes on a continental scale.

study of previously-excavated sites in Ar -

Using C dates to track early human dispersals

Using 1 4 C dates to track early human dispersals

James Steele

19

bIbLIoGRAPHY

   

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REVISTA DE ARQUEOLOGIA

Volume 23

- N.2:10-19

- 2010

CaZadores-

reColeCtores
20 tempranos, sUperViVenCia de FaUna del pleistoCeno

ARTIGO

(equus sp. y glyptodon sp.)

y teCnologÍa lÍtiCa dUrante el holoCeno temprano en la Frontera UrUgUay-Brasil

Rafael Suárez1 y Guaciara m. Santos2 1 facultad de Humanidades y Ciencias de la Educación, Universidad de la República (montevideo) y museo de Arqueología y Ciencias naturales (Salto). Coronel Raíz 1107. montevideo, Uruguay. suarezrafael23@gmail.com

A b S t RACt

On this paper we show records of Pleis-

tocene fauna from the archaeological site of

PayPaso 1, located near of the Quarai River.

On this site we recovered two extinct spe-

cies, Equus sp. (ancient horse) e Glyptodon

sp. (giant armadillo), direct associated with

lithic artifacts. Our results indicate that

these extinct mammals lived in the begin-

ning of the Holocene (9,600 – 9,100 years

14C BP), based on nine 14C age results ob-

tained by AMS (Accelerator Mass Spectrom-

etry) measurements. In this work, these re-

sults are compared with others in South

America. Human adaptation, lithic technol-

ogy, Pleistocene fauna extinction and cli -

mate change at the transition between Pleis-

tocene-Holocene are also discussed.

K EY W o RDS Extinction-survival Pleistoce-

ne fauna, Paleoindian, high resolution chro-

nology, lithic technology, Quaraí river.

R ESU mo

O trabalho apresenta registros de fauna

do Pleistoceno identificados no sítio arque-

ológico Pay Paso 1, localizado no rio Quaraí.

A investigação permitiu recuperar duas es-

pécies extintas, Equus sp. (cavalo pré-histó-

rico) e Glyptodon sp. (gliptodonte), associa-

das diretamente in situ com artefatos líticos.

Os dados permitem propor a sobrevivência

desses mamíferos extintos até o Holoceno

Inicial (9.600 – 9.100 anos C14 AP) a partir

de 9 datações radiocarbônicas obtidas pela

técnica de AMS (Accelerator Mass Spectro-

metry). Os dados são comparados com os

obtidos em outras regiões da América do

Sul. São apresentadas e discutidas questões

como a adaptação humana, tecnologlogía

lítica, a extinção da fauna do Pleistoceno e

as mudanças climáticas durante o final do

Pleistoceno-Holoceno Inicial.

PALAv RAS-CHAv E Extinção- sobrevivên-

cia fauna do Pleistoceno, Paleoindio, crono-

logía de alta resolução, tecnología lítica, río

Quaraí.

REVISTA DE ARQUEOLOGIA

Volume 23

- N.2:20-39

- 2010

22

Int R o DUCCI ón

Ant ECEDE nt ES E n EL n o R o ES t E DE

La investigación arqueológica que se

U RUGUAY

desarrolla en el Norte de Uruguay es un pro -

Los antecedentes conocidos de sitios ar-

yecto interdisciplinario de largo alcance,

queológicos tempranos en el Norte de Uru-

iniciado a finales del año 1999. Entre los

guay son escasos, comparados a escala regio-

principales objetivos se busca integrar

nal. Las primeras edades tempranas en

datos culturales, arqueológicos, paleoam -

Uruguay se conocieron a finales de la década

bientales y paleoecológicos en relación a

de 1980 (MEC, 1989a; 1989b): son las datacio-

la ocupación humana del final del Pleis -

nes C 14 de 10.420 ± 90 años C 14 AP 1 (Kn 2531)

toceno y el Holoceno temprano. Se ha to -

(sitio K87), 11.200 ± 500 años C 14 AP (Gif 4412)

mado geográficamente la cuenca del río

(sitio Y58) y 9.320 ± 170 años C 14 AP (Dik 1224)

Cuareim (o Quaraí) y río Uruguay medio

(sitio D03). Estas fechas fueron obtenidas en

como objeto de estudio. Los trabajos de

sitios arqueológicos ubicados en la costa del

campo incluyen prospecciones arqueoló -

río Uruguay medio en los departamentos de

gicas intensivas donde se describen per -

Artigas y Salto en el noroeste del Uruguay. Las

files de interés arqueológico (Suárez y

fechas de los sitios Y58 y D03 no están directa-

Piñeiro, 2002). Adicionalmente, se identi -

mente asociadas a material lítico o arqueoló-

ficaron nuevos sitios arqueológicos tem -

gico, sino que fueron tomadas por debajo de

pranos, paleontológicos y de interés pa -

niveles culturales o arqueológicos. En el caso

leoambiental (Suárez, 2002; Suárez y

del sitio Y58 por ejemplo, la muestra de car-

López, 2003; Suárez y Gillam, 2008).

bón utilizada para realizar la datación se obtu-

El Norte de Uruguay presenta registros

vo de varios carbones dispersos en un nivel de

de fauna del Pleistoceno (Ubilla et al.

20 cm entre 5,69 y 5,89 metros de profundidad.

2008). Esta fauna formó parte del “Piso

Además, fue obtenida por lo menos a 0,32 y

Lujanense”, definido en la Pampa (Argen -

0,36 metros debajo de un conjunto lítico for-

tina), e incluyó un número cercano a 38

mado por desechos de talla identificado a 5,33

géneros de herbívoros mayores a los 100

y 5,37 metros (MEC, 1989a:459-460). Para el

kg. de los cuales 20 fueron megaherbívo -

sitio D03 no se especifica a que profundidad

ros extinguidos entre aproximadamente

respecto al material arqueológico se recolectó

11.000-8.000 años C 14 AP (Borrero, 2009;

la muestra; sí se indica que la muestra provie-

Fariña, 1996; Tonni y Pascuali, 2005).

ne debajo de un nivel con material cultural.

El presente trabajo tiene tres objetivos

Las edades de los sitios Y58 y D03 deben ser

principales: a) presentar los primeros re -

utilizadas con precaución y cautela, debido a

gistros de fauna del Pleistoceno recupera-

como se indicó arriba no están directamente

dos en un componente cultural datado du-

asociadas a material cultural. El sitio Pay Paso

rante el Holoceno temprano en Uruguay;

1 fue originalmente investigado entre 1979 a

b) avanzar hacia una cronología de alta

1989 por A. Austral (1995:213) y presenta una

resolución en sitios tempranos; y c) discu-

edad de 9.890 años C14 AP (Rt 1445).

tir la supervivencia de fauna del Pleistoce-

Resumiendo, de los cuatro sitios arqueoló-

no en el Norte de Uruguay en el contexto

gicos tempranos datados en el Noroeste de

regional y su implicancia en las recons -

Uruguay, solamente en los sitios K87 (Hilbert,

trucciones paleoclimáticas.

1991) y Pay Paso 1 (Austral, 1995) las mues-

Todas las edades presentadas en el texto están en años C14 sin calibrar, a excepción de las edades calibradas en la Tabla 2.

Cazadores-Recolectores Tempranos, Supervivencia De Fauna Del Pl

eistoceno ...

Rafael Suárez y Guaciara M. Santos

23

tras de carbón utilizadas para realizar las da-

rium robustum (Miller, 1987:48).

 

taciones estaban asociadas directamente con

La asociación entre el material lítico y Glos-

artefactos líticos de origen cultural. Los inves-

sotherium robustum en RS-I-50 no fue realiza-

tigadores que intervinieron en las excavacio-

da en una excavación arqueológica, sino que

nes arqueológicas no registraron fauna del

proviene del perfil de la barranca en un aflora-

Pleistoceno asociada o no, con material lítico

miento natural, como se observa en la fotografía

en ninguno de los sitios mencionados (K87,

que presenta Miller (1987:45 Figura 4). Varios

Pay Paso, Y58 y D03).

autores brasileños vienen discutiendo la asocia-

ción del material lítico con fauna extinguida

AntECEDEntES En EL SUR DE bRASIL

para el sitio RS-I-50. Dias (2004:258) argumenta

(Río URUGUAY Y CUAREIm o QUARAí)

que la fauna del Pleistoceno (megafauna) pro-

En la margen derecha del río Cuareim (o

viene de arrastre fluvial y el material lítico es

río Quaraí) en el lado brasileño son clásicos

producto de “lascados y procesos naturales”,

los trabajos de Miller (1969, 1987), sobre sitios

por lo que los artefactos serian en realidad

arqueológicos tempranos que se ubican a dis-

geofactos. Algo similar sucedería con el sitio RS-

tancias mínimas de 8 km (sitio RS-Q-2) y

Q-2 (Paso de la Cruz 2) sobre el río Quaraí, don-

máximas de 260 km (sitio RS-IJ-68) del área

de una fecha de 12,690 ± 100 años C14 AP (SI-

y sitios que estamos investigando en Uruguay.

2351) no estaría asociada a material cultural

Por este motivo, se analizan y discuten los an-

(Dias, 2004; Dias y Jacobus, 2001; Milder 1995).

tecedentes del río Uruguay medio del lado

Por lo tanto, hay cierta confusión al inten-

brasileño, porque desde el punto de vista geo-

tar, con el fechado de un sitio RS-Q-2B donde

gráfico, paleoambiental, paleoclimático, sedi-

no hay asociación con material cultural, datar

mentario y arqueológico el sector sur del área

otro sitio RS-Q-2. La ausencia de excavaciones

de investigación de Miller puede ser conside-

arqueológicas en los sitios, indican problemas

rada la misma región donde nosotros realiza-

de relaciones contextuales-estratigráficas con-

mos nuestra investigación.

fiables. La baja cantidad de artefactos y escaso

Miller (1987:47-51) presenta una síntesis

número de dataciones C14 generan dudas en

con datos interesantes de sus investigaciones

relación a la existencia de ocupaciones que su-

realizadas a sitios arqueológicos ubicados en

peren los 12,500 años C14 AP. En este sentido

las márgenes del río Uruguay y algunos de sus

los 46 artefactos líticos recuperados para los

afluentes - Cuareim, Touro Passo, Ibicuí e Ijuí.

tres sitios indican un promedio de 15,3 artefac-

Los sitios más tempranos son tres sitios

tos por sitio; si tenemos en cuenta que existe

a cielo abierto, dos ubicados sobre el río

una sola datación de C14 representada por la

Uruguay (RS-I-50) y uno sobre el río Cua-

muestra SI-801 en el sitio RS-I-70, y que el ma-

reim o Quaraí (RS-Q-2). Miller (1987:41,

terial lítico podría ser producto de procesos

Tabla 1) fechó por C 14 el sitio RS-I- 50 en

naturales como señala Dias (2004), es muy di-

12,700 ± 220 años C 14 AP (SI-801) y el sitio

fícil caracterizar estas ocupaciones tempranas

RS-Q-2 en 12,690 ± 100 años C 14 AP (SI-

con la escasa evidencia presentada por Miller

2351). Según Miller (1987:48) la evidencia

(1987). Se debería tomar con cautela y precau-

de esta ocupación que supera los 12.000

ción la edad de estos sitios, como fue sugerido

años está dada por la presencia de 46 arte-

por los colegas brasileños (Dias & Jacobus,

factos líticos y 2 restos óseos de fauna del

2001; Dias, 2004). Esto no significa que no pue-

Pleistoceno con ranuras paralelas, finas y

dan existir sitios y ocupaciones humanas de ~

rasas, así como por un cráneo de Glossothe-

12,700 años C14 AP o que superen esa edad en

 

REVISTA DE ARQUEOLOGIA

Volume 23

- N.2:20-39

- 2010

24

la región. Solamente señalamos que los datos

analizados arriba presentan insuficiencia de

evidencia sólida y decisiva para justificar ocu-

paciones del orden de los 12,700 años C14 AP

en la zona de los ríos Uruguay-Cuareim-Ibicuí.

En la región comprendida entre los ríos

Cuareim por el sur, río Uruguay y río Ijuí al

norte, Miller (1987:41-48) define la “fase Uru-

guai” sobre la base de una serie de 18 datacio-

nes C14 ubicadas entre 11.555 ± 230 años C14

AP (SI-3750) y 8,585 ± 115 años C14 AP (SI-

2636) efectuadas en 11 sitios arqueológicos.

Los artefactos definidos incluyen puntas de

proyectil pedunculadas de variadas formas ta-

lladas bifacialmente y de tamaño pequeño-

mediano, cuchillos bifaciales con retoque a

presión, raspadores, láminas, choppers y nú-

cleos. Miller (1987:54 Figura 13) presenta una

importante variabilidad en el diseño de las

puntas de proyectil

pedunculadas re -

cuperadas en las

excavaciones de

los sitios RS-I-69 y

RS-I-70 para la

transición Pleisto -

ceno-Holoceno.

Miller (1987:57)

señala que cinco

muestras de C14

datan a las puntas

de proyectil pedun-

culadas para el pe-

riodo comprendi -

do entre 11.555 y

9.120 años C14 AP.

Hubiera sido un

avance trascenden -

te para la arqueolo-

gía regional americana, conocer exacta -

mente la secuencia cronológica y cultural

de las puntas de proyectil recuperadas por

Miller en el río Uruguay medio. En este sen-

tido, es importante la investigación que viene

llevando a cabo A. Dias, quien aporta una

nueva visión a partir de estudios sobre tecno-

logía lítica y variabilidad artefactual en con-

textos arqueológicos de la tradición Umbu y

otros contextos tempranos del sur de Brasil

(Dias, 1994, 2006, 2007, Dias y Bueno 2010).

EL SItIo PALEoAmERICAno PAY PASo:

fAUnA DEL PLEIStoCEno, CRonoLo- GíA DE ALtA RESoLUCIón Y tECono- LoGíA LItICA

El curso inferior del río Cuareim tiene de-

bido a diferentes procesos ambientales y geo-

morfológicos ocurridos desde el último máxi-

mo glacial, una alta tasa de sedimentación,

que ha generado albardones y barrancas ex-

puestas con perfiles naturales de entre 6 a 8

metros de potencia. Aquí se presentan condi-

ciones óptimas que posibilitan la realización

Figura 1. Mapa de ubicación localidad Pay Paso

Figura 1. Mapa de ubicación localidad Pay Paso

de excavaciones arqueológicas, donde recu-

perar evidencia cultural-arqueológica, faunís-

tica y paleoambiental desde por lo menos el

final del Pleistoceno hasta el presente. A partir

del año 2000 se retoman los trabajos de cam-

Cazadores-Recolectores Tempranos, Supervivencia De Fauna Del Pl

eistoceno ...

Rafael Suárez y Guaciara M. Santos

25

po y excavaciones arqueológicas en el sitio

Pay Paso 1 (Suárez, 2003a), ubicado a 15 km

de la desembocadura del río Cuareim.

La investigación de campo se centró en la

localidad Pay Paso, donde se descubrieron un

total de 9 sitios de interés arqueológico, pa-

zaron zarandas con mallas de 1, 0.5 y 0.25

cm para los sedimentos arenosos y zaran-

das de agua con mallas de 0.25 cm para los

sedimentos areno-limosos.

Los resultados obtenidos indican una in-

teresante variabilidad cultural, con tres

componentes ar -

queológicos para la

transición Pleisto -

ceno Holoceno, de-

finidos a partir de

observaciones y

evidencia cultural-

arqueológica, cro -

nológica y estrati-

gráfica (Suárez,

2011). La base cro-

nológica para defi-

nir los tres compo-

nentes culturales

se realizó a partir

de una serie exten-

sa de 32 dataciones

C14, 28 realizadas

por el método AMS de alta resolución, va-

rias de las cuales fueron replicadas para te-

ner certeza de su edad. Las fechas obtenidas

para cada uno de estos componentes, indi -

can edades sin calibrar entre 10.930-10.500

años C14 AP (unidad estratigráfica 2a),

10.200-10.100 años C14 AP (unidad estrati-

gráfica 2c) y 9.600-8.600 años C14 AP (uni-

dad estratigráfica 2d)(Suárez, 2011). En este

artículo se presentan sintéticamente los da-

tos obtenidos para uno de los componentes

culturales, el más reciente datado entre

9.600-8.600 años C14 AP y que corresponde

al Holoceno Temprano.

Estratigráficamente Pay Paso 1 presenta

una secuencia sedimentaria que se apoya so-

bre la Formación Arapey (Basalto) (Suárez,

2011). La porción basal de la secuencia está

formada por un conglomerado (U1). Sobre

éste se apoya una sucesión de estratos ondu-

Figura 2. Sitio Pay Paso 1, vista general del perfil o pared Oeste, excavación 1.

Figura 2. Sitio Pay Paso 1, vista general del perfil o pared

Oeste, excavación 1.

leontológico y paleoecológico. El sitio Pay

Paso 1 (30°16´ 08.29´´S - 56°27´38.36´´O) se

ubica en la margen uruguaya del río Cuareim

(Quaraí) frontera entre Artigas (Uruguay) y

Rio Grande do Sul (Brasil)(Figura 1).

Los trabajos de excavación arqueológica

se focalizan en el sitio Paleoamericano mul-

ticomponente Pay Paso 1, donde en diferen-

tes campañas realizadas se excavó una su-

perficie de 114 m2 (Figura 2). La excavación

se realizó por niveles naturales, realizando

el destape de los estratos sedimentarios in-

versamente como fueron depositados. El

material arqueológico se dejó in situ en pe-

destales-testigos, hasta que fue levantado en

distintos conjuntos contextuales-estratigrá -

ficos-arqueológicos. El carbón se recuperó

haciendo referencia al sector y la unidad

estratigráfica donde fue recuperado, se eti-

quetó y guardó en papel aluminio. Se utili-

REVISTA DE ARQUEOLOGIA

Volume 23

- N.2:20-39

- 2010

26

lantes de matriz arena arcillo-limo- sa (U2) de edad Pleistoceno final- Holoceno tempra - no. En
lantes de matriz
arena arcillo-limo-
sa (U2) de edad
Pleistoceno final-
Holoceno tempra -
no. En el interior de
la U2 se definieron
una serie de sub-
unidades U2a, U2b,
U2c, U2d, U2e, que
en conjunto poseen
1,20 metros de po-
tencia y presenta
tres componentes
arqueológicos en
una secuencia cul-
tural interestratifi-
cada. Sobre la U2 se
Figura 3. Fauna del Pleistoceno in situ asociada a material lítico de origen cultural
en el componente 3 datado durante el Holoceno temprano (excavación 1, sitio Pay
Paso 1). 1) Plaqueta de gliptodonte; 2) fragmento de diente caballo extinguido (Equus
sp.); 3) hueso en estado inicial de fosilización (sin identificar); 4) artefactos líticos;
5) carbón
apoyan otras uni-
dades estratigráfi -
Nombre
cas holocénicas
Sector
Estrato
MNI
NISP
Taxa
Común
con ~ 4 metros de
Caballo
D0
U2d
1
1
potencia (U3, U4 y
Equus sp.
Americano
U5).
Glyptodon
C0
U2d
1
2
Gliptodonte
sp.
fAUnA DEL SItIo
PAY PASo 1
C0
U2d
-
4
s/i
-
C1
U2d
-
1
s/i
-
Durante el desa-
Myocastor
rrollo de la investi-
C1
U2d
1
3
Nutria
coipus
gación se logró iden-
Glyptodon
tificar asociación
B6
U2d
1
8
Gliptodonte
sp.
contextual y estrati-
C0
U2d
-
2
s/i
-
gráfica de mamífe-
ros extinguidos del
C2
U2d
-
1
s/i
-
Pleistoceno con arte-
factos líticos manu-
Tabla 1. Fauna recuperada en el componente 3 del Holoceno temprano
(9.600–9.100 años C 14 AP) sitio Pay Paso 1, exc.1 2
facturados por hu-
manos, en dos de los
cación fuera bastante ardua, realizándose
componentes tempranos del sitio Pay Paso 1
por el paleontólogo A. Rinderknecht. Cinco
(Suárez, 2003b).
especies de fauna se identificaron en los tres
La colección ósea en general está frag-
componentes culturales. Las 186 piezas óseas
mentada lo que hizo que la tarea de identifi-
recuperadas en la excavación 1 de Pay Paso,
  • 2 s/i : sin identificar. Otras especies Leporinus sp. (boga) y Rhea americana (Ñandú) se recuperaron en la U2 (componente cultural 2).

  • 3 Las fechas UCIAMS 21646 y UCIAMS 21647, así como las fechas UCIAMS 21641 y UCIAMS 21642 son respectivamente 2 replicaciones de dos muestras de carbón.

Cazadores-Recolectores Tempranos, Supervivencia De Fauna Del Pl

eistoceno ...

Rafael Suárez y Guaciara M. Santos

27

   
 

Número

Fracción

Edad

años

Edad años

 

δ 13 C

 

Laboratorio a

Moderna

C 14 AP b

Calendario AP c

 

0

/00

UCIAMS 21641 d

0,3032

  • 9.585 ± 25

 

10.960

a >11.000 g

 

-23,9

10.850

a 10.860

 

10.720

a 10.795

UCIAMS 21642 d

0,3045

  • 9.555 ± 25

 

10.980

a 10.990

 

-32,6

10.695

a 10.790

 

UCIAMS 21647 d

0,3046

  • 9.550 ± 20

 

10.690

a 10.780

 

-22,4

UCIAMS 21646 d

0,3047

  • 9.545 ± 20

 

10.690

a 10770

 

-27,0

UCIAMS 21635 d

0,3047

  • 9.545 ± 20

 

10.690

a 10770

 

-24,3

UCIAMS 21640 d

0,3055

  • 9.525 ± 20

 

10.670

a 10.750

 

-27,3

UCIAMS 21638 d

0,3054

  • 9.525 ± 20

 

10.670

a 10.750

 

-23,6

Uru-246 e

0,318

  • 9.280 ± 200

 

10.200

a 10.680

 

-21

Beta-156973 d

Sin dato

  • 9.120 ±

 

40

10.200

a 10.240

 

-26,2

Uru-248 e,f

0,347

 

± 150

  • 8.570 9.370 a 9.680

 

-21

9.300

a 9.360

 

Tabla 2. Edades C 14 obtenidas para el componente del Holoceno temprano del sitio Pay Paso 1, excavación 1

   

son hasta el presente la única colección co-

 

entre humanos y Equus y Glyptodon entre

nocida de fauna recuperada en un sitio ar-

9,600 y 9,100 años C14 AP. Hay que señalar

queológico del Pleistoceno final-Holoceno

que el carbón utilizado para datar la muestra

temprano en Uruguay. Dos especies corres-

Uru-248 (Tabla 2), no se encontraba directa-

ponden a mamíferos extinguidos del Pleisto-

mente asociado con la fauna extinta del Pleis-

ceno Glyptodon y Equus, tres corresponden a

toceno, aunque sí con material cultural, por

registros fósiles de fauna actual, Leporinus sp.

eso se tiene precaución de no extender hasta

(boga) (Suárez y Rinderknecht, 2007), Rhea

ca. 8,600 años C14 AP la supervivencia de

americana (ñandú) y Myocastor (nutria). Los

fauna del Pleistoceno. Obsérvese en la Figura

huesos recuperados no presentan marcas de

3 la proximidad de un fragmento de plaqueta

corte realizada por artefactos líticos.

 

de gliptodonte, un fragmento de diente de

 

El contexto arqueológico donde se recu-

Equus y el carbón utilizado para realizar las

peraron los fragmentos óseos de gliptodonte

dataciones UCIAMS 21646 y UCIAMS 21647

y caballo americano extinguido fue definido

(Tabla 2). Se intentó hacer dataciones direc-

como componente 3, cronológicamente ubi-

tas sobre el material óseo recuperado en la

cado durante el Holoceno temprano. Las pie-

excavación 1 de Pay Paso 1, sin embargo no

zas óseas (NISP = 22) de este componente

se pudo extraer colágeno del hueso.

 

(tabla 1) se ubicaban muy próximas entre sí

Las partes esqueletarias de megafauna

(algunas a menos de 10 cm) y están asocia-

del Pleistoceno presentes corresponden a

das con artefactos líticos destacándose pun-

una plaqueta de Glyptodon sp. fracturada en

tas proyectil, raspadores, raederas, láminas y

dos partes que ensamblan y 8 osteodermos

así como cientos de desechos de talla produc-

de Glyptodon sp. (Figura 4). La plaqueta y os-

to de la manufactura y reavivamiento de ar-

teodermos indican que los huesos pertene-

tefactos ( Figura 3).

 

cieron a individuo/s infantiles y/o juveniles

 

Los resultados de las 8 muestras de car-

(Rinderknecht, comunicación personal

bón y su duplicación 3 sugieren la asociación

2008).

 

REVISTA DE ARQUEOLOGIA

Volume 23

- N.2:20-39

- 2010

28 las muestras utilizamos seis grafito de ácido oxálico I (OX-I, prymary es- tándar) de ~
28
las muestras utilizamos seis grafito
de ácido oxálico I (OX-I, prymary es-
tándar) de ~ 1mgC. Los resultados de
C14 fueron corregidos por fracciona-
miento isotópico utilizando valores
AMS δ13C on-line. Para la corrección
de fondo utilizamos 3 grafitos produ-
cidos a partir de carbón muerto (con-
siderado como en blanco, ya que el
material no poseen partículas de
C14) de diferentes tamaños, según
los procedimientos y las fórmulas
presentadas en Santos et al. (2007a).
Figura 4. Fauna del Pleistoceno recuperada en el componente 3
del Holoceno temprano, excavación 1, sitio Pay Paso 1 (9.600-9.100
años C14 AP). 1-6 Osteodermos de Glyptodon sp. 7 Plaqueta de
coraza de Glyptodon sp. fracturada en dos partes que ensamblan
Todas las muestras de carbón fue-
ron lavadas con agua destilada y se-
cadas en horno a 50°C antes de ser
enviadas a los respectivos laborato-
La asociación estratigráfica y contextual
rios. Con respecto a las muestras del carbón
entre Equus sp. (caballo prehistórico ameri-
procesadas en KCCAMS Facility (Keck Car-
cano extinguido), Glyptodon sp. y material
bon Cycle AMS Facility de University of Cali-
arqueológico en el componente 3 se respalda
fornia Irvine) las muestras se limpiaron físi-
cronológicamente con nueve edades radio-
camente de impurezas como arena y arcilla,
carbónicas del Holoceno temprano (ver Ta-
usando un microscopio de 40X y un cepillo.
bla 2), que indican la convivencia de dos es-
Se efectuó un pre tratamiento químico, con
pecies de fauna pleistocénica con humanos
lavados del ácido-base-ácido para eliminar
en el Noroeste de Uruguay entre 9.600-9.100
carbonatos y cualquier otro carbono lábil
años C14 AP.
limpiando los carbones de cualquier rastro
de carbono extraño que pudiera estar presen-
CRonoLoGíA DE ALtA RESoLUCIón
te como el resultado de exposición que pudie-
En la Tabla 2 las concentraciones de ra-
ra haber sufrido el carbón del ambiente
diocarbono se presentan como fracciones
cuando estuvo in situ. Las muestras una vez
modernas de C, convencional y calibradas en
que se limpiaron químicamente fueron seca-
años C14 calendario AP, siguiendo la conven-
das en un horno a 60°C, y posteriormente se
ción de Stuiver y Polach (1977) y la curva de
quemaron al vacio para producir CO2, fue-
calibración terrestre del hemisferio sur (Mc-
ron pre-calentadas a 900°C y cargadas con
Cormac et al. 2004). Para el cálculo de nor-
60mg de óxido cúprico (para proporcionar
malización y la medición de la edad C14 de
oxígeno) y 3 mm × largo 1 mm el alambre de

a Identificación del laboratorio que proceso la muestra: U.CIAMS# de KCCAMS/UCI facility, Beta# de Beta Analytic y Uru# del Laboratorio C14 de Uruguay (Facultad de Química). b Edad radiocarbónica y ±1δ error (Stuiver and Polach, 1977).

  • c Curva y programa de calibración de McCormac et al. 2004 (SHCal04.14C SH terrestrial dataset) y programa CALIB6.0. (1δ range).

  • d Método de datación AMS

e Método de datación estándar f Uru-248 no está asociada a con fauna extinguida del Pleistoceno. g La curva SHCal04 termina en 11ka cal AP C 14, por consiguiente el límite máximo de edad que se muestra debe considerarse como edad mínima.

Cazadores-Recolectores Tempranos, Supervivencia De Fauna Del Pl

eistoceno ...

Rafael Suárez y Guaciara M. Santos

plata espeso (para quitar el azufre así como el

cloro). Después, criogénicamente el CO2 pu-

rificado se transfirió individualmente a los

reactores y fue reducido a grafito, usando el

hidrógeno encima del polvo férrico pre-ca-

lentado a 550°C (Santos et al. 2004). Los fila-

mentos de grafito se apretaron entonces en

los poseedores designados, y se cargaron en

el ion-fuente junto al AMS (NEC 0.5MV

1.5SDH-2) para la medida. Los blancos indi-

viduales se contaban a eventos de aproxima-

damente 500,000 C 14 cada uno. Los errores

se calculaban en base estadística y se espar-

cen en medidas múltiples para cada muestra,

junto con las incertidumbres propagadas de

la normalización, la substracción de fondo

(basado en las medidas de C14 de material

libre), y las correcciones del fraccionamiento

isotópicas, siguiendo el análisis instrumental

descrito por Santos (et al. 2007b).

Durante el traslado de CO2 a los reactores

de grafitización se extrajo un alícuota peque-

ña de ~30cc y se colocó en 13mm redomas de

gas para obtener las determinaciones de la

firma isotópicas. Se midieron los valores δδ 13 C

mostrados en Tabla 2 a una precisión de <

0.1‰ relativo a los estándares de VPDB

( Vienna-PeeDee Belemnite), usando Thermo

Finnigan Delta Plus Isotope Ratio Mass Spec-

trometer (IRMS) con la entrada de Banco de

Gas.

A pesar de los problemas que tienen la ca-

libración en este hemisferio, en la tabla 2 se

presenta la calibración de las edades C14 a

edades calendario, usando el programa CA-

LIB6.0 radiocarbon calibración terrestre

para el hemisferio sur que llega hasta el año

11,000 cal. AP (McCormac et al. 2004). La ca-

libración es un intento de aproximarnos a las

edades calendario, porque aunque nuestros

resultados C14 son muy precisos (± 20 años

para la mayoría de las muestras), las curvas

de calibración pueden variar significativa-

mente de una línea recta a una meseta y vi-

29

cie-versa. Estas fluctuaciones de la curva a

veces pueden hacer la media de las fechas

calibradas inciertas, pues se observan va-

riantes a veces muy grandes como 400 años

para una sola edad C14 sin calibrar. Además,

la dendrocronología para el hemisferio sur

cubre el período de 0 a 1000 cal BP. Por con-

siguiente, la porción restante de esta curva de

la calibración hasta 11,000 cal. AP se realiza

con un modelo aleatorio (Buck y Blackwell

2004), usando los mismos parámetros terres-

tres de NH IntCal04 (hemisferio norte), y una

corrección para responder el desplazamiento

debido al formulario estructural de la cali-

bración de radiocarbono de cada hemisferio

(McCormac, et al. 2004). Hay que notar que

para las muestras UCIAMS21641,

UCIAMS21642 y Uru-248 las edades C14

convencionales se cortaron en rangos múlti-

ples en la curva de calibración SHCal04 debi-

do a una fluctuación pequeña en esta región

para estas edades. Del mismo modo, aunque

la precisión de la muestra Beta-156973 tiene

una margen de error mayor (±40) que las

muestras UCIAMS # unos (±20), esta edad

radiocarbónica intercepta una sección lineal

de la curva de calibración, lo que produce un

rango de edad calibrado muy estrecho. Por

consiguiente, es más adecuado para nuestra

discusión referirnos a los resultados como

C14 sin calibrar, en lugar de las edades C14

calibradas AP, hasta que se extienda y esté

disponible una dendrocronología más afina-

da para el hemisferio sur.

mAtERIAL LítICo DEL ComPonEntE 3 DEL SItIo PAY PASo 1

El conjunto artefactual lítico recuperado

en las excavaciones del sitio Pay Paso 1 inclu-

ye 124 artefactos formatizados y 1390 dese-

chos de talla para los tres componentes cul-

turales. Aquí vamos a centrarnos en el

conjunto artefactual del componente 3, se

haría demasiado extenso describir todo el

REVISTA DE ARQUEOLOGIA

Volume 23

- N.2:20-39

- 2010

30

 
   

Unidad estratigráfica

 

Materia

 

Forma

Canto

 

Sector/es

Componente cultual

Prima

N lascas

Bifaz

Rodado

A0,A1, B1,B0

         

C0,D0,z3

U2d-C3

 

Are. silicif.

24

X

B6-C6

U2d-C3

 

Are. silicif.

64

X

 

D1-D0

U2d-C3

 

Are. silicif.

13

 

X

C1

U2d-C3

 

Are. silicif.

5

 

X

D0

U2d-C3

 

Jaspe

35

 

X

z2-z3

U2d-C3

 

Are. silicif.

8

 

X

A1

U2d-C3

 

Are. silicif.

3

 

X

A1

U2d-C3

 

Are. silicif.

6

 

X

C1

U2d-C3

 

Are. silicif.

3

 

X

B6-B7

U2d-C3

 

Are. silicif.

3

 

X

B6-B7

U2d-C3

 

Are. silicif.

4

 

X

C0

U2d-C3

 

Are. silicif.

2

 

X

D1

U2d-C3

 

Are. silicif.

2

 

X

Tabla 3. Conjuntos de materias primas que corresponden a eventos de reducción de un mismo núcleo o preforma, sitio Pay Paso 1, excavación 1 2

 

conjunto, además no es este el objetivo del

 

forma bifacial o punta de proyectil. Los con-

trabajo. A continuación se describen por un

juntos se ubican en sectores acotados y

lado los desechos de talla y por otro los arte-

reducidos dentro de la excavación con diá-

factos formatizados de forma muy sintética.

metros de entre 0,40 y 1,5 metros. Todos ellos

Una descripción profunda y detallada de la

fueron reconocidos durante la excavación, a

tecnología lítica del sitio se realiza en otra pu-

excepción de un conjunto de desechos de ta-

blicación (Suárez 2011).

 

lla, recuperados en 7 sectores diferentes, par-

 

El total de desechos de talla del compo-

 

cialmente reconocidos en el campo y otros en

nente 3 incluye 917 piezas. La materia prima

el laboratorio. Durante la excavación los dife-

más utilizada en los desechos de talla es la

rentes conjuntos identificados presentaban

arenisca silicificada con el 88%, seguida por

-no sólo-, idénticas tonalidades en cuanto al

ágata-calcedonia con el 11,19%, por último el

color, textura, tamaño de grano, inclusiones

grupo jaspe-ópalo alcanza el 0,55% del total

y estructura, sino que además formaban

de los desechos de talla. Es interesante seña-

agrupamientos de lascas, en sectores conti-

lar que la excavación 1 permitió identificar

guos de la excavación. La Tabla 3 presenta los

una serie de conjuntos de lascas y desechos

conjuntos de desechos de talla de la misma

de talla pertenecientes a eventos de reduc-

materia prima y mismo evento de reducción.

ción de un mismo núcleo y/o forma base pre-

Los conjuntos del componente 3 contie-

  • 2 Are. silicif. = Arenisca silicificada.

Cazadores-Recolectores Tempranos, Supervivencia De Fauna Del Pl

eistoceno ...

Rafael Suárez y Guaciara M. Santos

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Figura 5. Conjunto de desechos de talla de un mismo evento de reducción de una preforma

Figura 5. Conjunto de desechos de talla de un mismo evento de reducción de una preforma bifacial y/o punta de proyectil recu- perado en el componente 3, sitio Pay Paso 1, excavación 1

nen entre 2 y 64 desechos de talla (lascas,

fragmentos de lascas, esquirlas, etc.). El con-

junto de piezas ilustrado en la Figura 5 co-

rresponde con 64 desechos de talla. Este con-

junto es el resultado de la etapa final de

adelgazamiento y/o reducción de un/os

biface/s y/o punta/s de proyectil en el sitio.

Algunas lascas presentan ángulos obtusos de

hasta 160° y plataformas intensivamente

abradidas. Este conjunto en particular está

acotado estratigráfica y espacialmente a me-

nos de dos metros cuadrados, o sea dos sec-

tores contiguos –B6 y C6- de 1 x 1 cada uno,

en la planta de excavación. Estos conjuntos

de desechos de talla indican que el material

arqueológico fue sepultado por sedimento en

un evento relativamente rápido y de muy

baja energía, donde el desplazamiento o

arrastre del material arqueológico en el inte-

rior del sitio debió ser mínimo, a pesar de

estar en un ambiente fluvial. Obsérvese el

diminuto tamaño de las esquilas recuperadas

–parte superior derecha de la foto- en la Figu-

ra 5.

El conjunto de artefactos formales (sensu

Andrefsky, 1994) se presenta en de-

talle en la tabla 4.

Se recuperaron 5 bifaces fractu-

rados en diferentes etapas de manu-

factura. El bifaz ilustrado en la Figu-

ra 6B es un bifaz con dos fracturas,

una presenta retoques escamosos

irregulares y retalla que indican que

luego de la fractura, la pieza fue uti-

lizada como un filo activo, el bisel

que forma la superficie de la fractura

con la retallada tiene 68°. El borde

original de la arista del bifaz tiene

abrasión y pulido. La pieza está com-

pletamente adelgazada en ambas ca-

ras con negativos de entre 22 y 36

mm de largo. El bifaz fue manufactu-

rado en una variante de arenisca si-

licificada de grano muy fino de color

gris y está en una etapa final de adelgaza-

miento bifacial. El bifaz de la Figura 6A pre-

Artefacto

C3 (n)

Bifaz

5

Punta proyectil

2

Raspador

13

Raedera

2

Cuchillo de filo retocado

2

Cuchillo de filo natural

1

Láminas de arista simple y rastros complement.

2

Filo natural con rastro complementario

3

Artefacto con formatización sumaria

1

Núcleo

1

Chopper

3

Tabla 4. Artefactos formatizados recuperados en el componente 3, sitio Pay Paso 1

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- N.2:20-39

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Figura 6. Bifaces del componente 3 recuperados en la excavación 1, sitio Pay Paso 1. A)

Figura 6. Bifaces del componente 3 recuperados en la excavación 1, sitio Pay Paso 1. A) Base de bifaz fracturado en etapa intermedia de manufactura, obsérvese espesor de la pieza (14,31mm), arenisca silicificada de grano medio-fino. B) Bifaz con doble fracturada, estadio final de adelgazamien- to, arenisca silicificada de grano muy fino

senta una fractura “perversa” que se extiende

transversalmente a lo que sería el eje morfo-

lógico de la pieza, es un bifaz en etapa de

adelgazamiento intermedia.

El componente 3 presenta puntas de pro-

yectil con base del pedúnculo cóncava escota-

da (Figura 7 y 8). Las principales característi-

cas tecnológicas y morfológicas se describen

a continuación. La punta ilustrada en la Figu-

ra 7A y Figura 8A presenta adelgazamiento

bifacial, limbo triangular alargado con lados

levemente convexos, y pedúnculo diferencia-

do con hombros redondeados. La base del

pedúnculo es cóncava profunda (escotada),

los lados del pedúnculo son cóncavos expan-

didos hacia la base y presentan abrasión en

ambos bordes del pedúnculo. La base del pe-

dúnculo ha sido adelgazada en ambas caras

con negativos triangulares (ver Figura 8A),

uno de estos tiene 11,2 x 8,6 mm de largo y

ancho máximo respectivamente. Los lados

del limbo son levemente convexos, presenta

hombro redondeados. La sección transversal

en la punta del limbo es bi-triangular (helicoi-

dal) y en el centro del limbo es biconvexa si-

Figura 7. Puntas de proyectil recuperadas en el componente 3, excavación 1, sitio Pay Paso 1.

Figura 7. Puntas de proyectil recuperadas en el componente 3, excavación 1, sitio Pay Paso 1. A) Arenisca silicificada de grano muy fino. B) Madera silicificada o xilópalo, esta punta presenta daño de impacto en el ápice (punta), fracturas en ambos lados de la base del pedúnculo y en el limbo

métrica. El retoque en ambas caras es parejo,

con negativos paralelos cortos irregulares y

laminares. La punta fue manufacturada en

una variante de arenisca silicificada de grano

muy fino de color gris.

La punta ilustrada en la Figura 7B y Figura

8B presenta adelgazamiento bifacial, limbo

Figura 8. Dibujo de puntas de proyectil recuperadas en el componente 3, la línea de puntos

Figura 8. Dibujo de puntas de proyectil recuperadas en el componente 3, la línea de puntos en los lados del pedúnculo indica abrasión. Obsérvese las secciones del pedúnculo, que en la pieza A que ha sido adelgazada en ambas caras. Ambas puntas provenientes de la excavación 1, sitio Pay Paso 1

Cazadores-Recolectores Tempranos, Supervivencia De Fauna Del Pl

eistoceno ...

Rafael Suárez y Guaciara M. Santos

33

triangular aunque el ápice o punta está frac-

Las puntas del componente 3 comparten

turado. La base del pedúnculo en ambos la-

características tecnológicas, morfológicas y

dos presenta fracturas, sin embargo permiten

métricas similares. La forma y tamaño del pe-

distinguir que la base de la punta es cóncava

dúnculo son las más notorias, los lados con-

profunda (escotada). Los lados del pedúnculo

vexos expandidos hacia la base, la base cón-

son convexos, la base tiene en un lado un ne-

cava escotada, y el adelgazamiento en la base

gativo de adelgazamiento (pseudo-acanala-

del pedúnculo son sus principales caracterís-

dura) de 10 x 7 mm. Presenta aleta y hombro

ticas. Hay que señalar que uno de los ejempla-

anguloso. Una de las caras muestra dos nega-

res (Figura 7B y Figura 8B) presenta una serie

tivos de retalla paralelos extendidos que se

de fracturas que se indicaron más arriba, am-

extienden diagonalmente de lado a lado de la

bas puntas también tienen algunas diferen-

cara. La otra cara tiene un negativo ancho y

cias tanto en el pedúnculo como en el limbo.

corto de 9,7 mm de largo x 17,70 de ancho que

Otras puntas de similares características téc-

finaliza abruptamente. El ápice como se seña-

nicas y morfológicas fueron reconocidas en

ló tiene una fractura de 8,05 mm de ancho

las colecciones superficiales de sitios tempra-

que presenta microretoques adyacentes y ras-

nos, tanto en el río Uruguay como en el río

tros complementarios, el ángulo del bisel es

Negro medio (Suárez y Gillam, 2008), y sur

de 52° en la zona de la fractura-microretoque.

del Brasil (Mentz Ribeiro, et al. 1995), así

Ambos lados del pedúnculo presentan abra-

como el nivel 6 del sitio K87 (MEC, 1989b).

sión. La punta fue manufacturada en una va-

Debido a las características tecnológicas-

riante no local de madera silicificada rojiza

morfológicas y a su distribución regional se

(xilópalo) con manchas rosadas y blanqueci-

define a este diseño como punta Pay Paso

nas. Esta punta sufrió diversos daños, uno en

(Suárez 2003a), diseño que se expone en la

la punta del limbo, otro en el borde del limbo

Figura 9 en diferentes etapas de vida útil.

 

y en base del pedúnculo, posiblemente fue re-

Otros artefactos formales recuperados son

ciclada.

láminas de arista simple con rastros comple-

mentarios, las piezas ilustradas en la Figura

Figura 9. Diseño de puntas Pay Paso en diferentes

Figura 9. Diseño de puntas Pay Paso en diferentes

 

10 comparten características técnicas en la

forma de preparar la plataforma y porcentaje

de cortex en la cara dorsal que podrían indi-

car la utilización de una tecnología orientada

a la producción de láminas en este compo-

nente. Una de las raederas corresponde con

una raedera parcialmente denticulada (Figu-

ra 11), la pieza presenta adelgazamiento bifa-

etapas de vida útil. A) Proveniente del componente

cial (etapa inicial-intermedia) de reducción.

El filo fue formatizado por medio de una serie

3, recuperada en estratigrafía y datada entre 9.500- 8.500 años C14 AP, sitio Pay Paso 1. B) Proveniente

de lascados paralelos cortos en la zona denti-

de superficie sitio Pay Paso 7. C) Proveniente de

culada del borde. Otra serie de negativos irre-

superficie sitio Pay Paso 1. Obsérvese características tecnológicas similares: base escotada, lados del

gulares sin patrón diferenciado se observan

pedúnculo expandido hacia la base, adelgazamiento de la base del pedúnculo por retoques triangulares

en una extensión de 95 mm, aquí hay dos sec-

(A y C); y por retoques paralelos irregulares (B).

tores de 10,23 mm y 24,51 mm del filo que

Los tres ejemplares manufacturados en arenisca silicificada de grano muy fino

presentan un intenso pulido de la arista.

 
   
 

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Figura 10. Láminas recuperadas en el componente 3, excavación 1 sitio Pay Paso 1. A) Lámina

Figura 10. Láminas recuperadas en el componente 3, excavación 1 sitio Pay Paso 1. A) Lámina de arista simple en arenisca silicificada. B) Lámina de arista simple en ágata traslúcida. Obsérvese que ambos ejemplares tienen preparada la plataforma en la cara dorsal con un negativo en forma de V invertido y presentan sobre la dorsal similar porcentaje de cortex

fU n CI ón DEL SItI o PAY PAS o 1

El sitio se ubica estratégicamente a 180

metros de un paso del río Cuareim, donde hay

extensos lechos de cantos rodados que sirvie-

ron para manufacturar artefactos. Adicional-

mente este es el primer gran desnivel desde la

desembocadura del río que presenta el cauce

del río Cuareim, lo que provoca que sea “un

paso” natural de fauna y humanos, que fácil-

mente pueden cruzar de una margen a otra

del río, que aquí tiene 142 metros de ancho.

Pay Paso 1 es interpretado como un sitio

residencial-logístico a cielo abierto re-ocupa-

do en diferentes periodos de tiempo, donde se

realizaron actividades múltiples. Las princi-

pales actividades incluyeron aprovisiona-

miento de materias primas y talla de artefac-

tos. Tecnológicamente la reducción de la

mayoría de los artefactos formatizados se ini-

ció a partir de cantos rodados (seixos). Los

desechos de talla señalan manufactura, re-

ducción y adelgazamiento de artefactos unifa-

ciales y bifaciales en distintas etapas de pro-

ducción. Los conjuntos de desechos de talla

que representan eventos únicos de reducción-

adelgazamiento de bifaces y/o puntas de pro-

yectil (ver Figura 5), aportan interesantes da-

tos en relación a la manufactura y tecnología

de producción de artefactos bifaciales en el

sitio. Las puntas de proyectil recuperadas pre-

sentan daños de impacto, evidencias de haber

sido altamente reavivadas, y fracturas en di-

versas partes tales como el limbo y el pedún-

culo. Las puntas de proyectil dañadas y frac-

turadas presentes en el sitio, sumados a los

eventos de reducción pertenecientes a una

misma pieza bifacial, señalan que otra activi-

dad que se realizó en el sitio fue la manufac-

tura de puntas de proyectil, con el objetivo

quizás de reemplazar armamento dañado,

que funcionalmente no era operativo su uso

en actividades de caza. En el sitio además se

descartaron puntas de proyectiles. La presen-

cia de láminas con rastros complementerios,

así como de cuchillos de filo retocados, cuchi-

llos con dorso formatizado, y cuchillos de filo

natural; artefactos estos relacionados con ac-

tividades de corte (Aschero, 1975, 1983), pue-

den indicar que en el sitio se pudo haber pro-

cesado o trozado presas producto de las

actividades de caza.

DISCUSIón Y ConCLUSIonES

La investigación que se viene realizando

permitió definir un diseño de punta que se

denomina Pay Paso (Suárez 2003a) que circu-

ló en la región durante el Holoceno temprano.

Este diseño se caracteriza por la forma del

pedúnculo con lados cóncavos expandidos

hacia la base, la base del pedúnculo es cónca-

Cazadores-Recolectores Tempranos, Supervivencia De Fauna Del Pl

eistoceno ...

Rafael Suárez y Guaciara M. Santos

35 va profunda (escotada), presenta abrasión en sociales, económicos, ideológicos y/o simbó- ambos lados del pedúnculo
35
va profunda (escotada), presenta abrasión en
sociales, económicos, ideológicos y/o simbó-
ambos lados del pedúnculo y adelgazamiento
licos (Boivin, 2004; Binford, 1978, 1980; In-
de la base generalmente con un negativo
gold, 1993; Politis, 1996a, 1996b; Morgan,
triangular profundo o con retoques paralelos
2009).
irregulares, los lados del limbo son levemente
Una ocupación del espacio similar que
convexos y presenta hombros redondeados
comprende varios territorios fue planteada
(Figura 9). En general estas puntas han sufri-
para la tradición Umbu en el noreste del esta-
do un intenso proceso de mantenimiento y/o
do de Rio Grande do Sul (Dias, 2006). Esto
reavivamiento del limbo, lo que hace que éste
permite sugerir que por lo menos en dos zo-
tenga variaciones.
nas del Sureste de América del Sur, los grupos
El diseño de puntas Pay Paso se recuperó
humanos del Holoceno temprano continua-
hasta el presente en estratigrafía en dos sitios
ron manteniendo patrones de movilidad y
y contextos arqueológicos tempranos. En el
territorialidad similar a la utilizada por los
sitio K87 sobre el río Uruguay medio que fue
grupos del final del Pleistoceno, que podemos
excavado por Peter y Klaus Hilbert
en la década de 1970, allí en el ni-
vel 6 por encima del nivel 7 que fue
datado en 10,420 ± 90 años C14 AP
(Kn 2531), se recuperó una punta
que presenta reavivamiento y
mantenimiento (ver Hilbert 1991
Figura 16-3; MEC 1989b:122, figu-
ra 62-2) que presenta las caracte-
rísticas tecnológicas y morfológi-
cas del diseño Pay Paso (comparar
Figura 11. Raedera denticulada bifacial recuperada
en el componente 3, sitio Pay Paso 1
ver Figura 9 C). Por otro lado, en el
sitio Pay Paso 1 este diseño fue da-
tado a partir de 10 edades radiocarbónicas
relacionar a los portadores del diseño de pun-
entre 9,600- 8,500 años C14 AP.
tas “cola de pescado” o “rabo de peixe”. Adi-
El diseño de puntas Pay Paso aparece fre-
cionalmente, recientemente se ha sugerido
cuentemente en contextos arqueológicos re-
desplazamientos de entre 140-170 km desde
gionales superficiales del río Uruguay medio
sitios residenciales del río Uruguay medio
y río Negro medio en Uruguay, así como en el
hasta canteras de aprovisionamiento de ágata
Sur de Brasil (ver Mentz Ribeiro et al. 1995:207
traslúcida ubicadas en la zona de los arroyos
Figura 6 f, g, y h), en una superficie de aproxi-
Catalanes en el norte de Uruguay (Suárez,
madamente 100.000 km2. Esta nueva eviden-
2010).
cia permite sugerir una alta movilidad y una
Los principales registros de fauna del
territorialidad extensa para los grupos socio-
Pleistoceno para la transición Pleistoceno-
culturales que utilizaron el diseño de punta
Holoceno y Holoceno temprano, provienen
Pay Paso durante el Holoceno temprano en el
fundamentalmente en el cono sur de sitios
centro-norte-noroeste de Uruguay y el su-
arqueológicos en Pampa y Patagonia. Se ha
roeste de Rio Grande do Sul. El territorio uti-
demostrado que los grupos humanos del final
lizado por estos cazadores-recolectores debió
del Pleistoceno estuvieron lejos de depender
estar ligado e interrelacionado con aspectos
económicamente de los megaherbívoros que
REVISTA DE ARQUEOLOGIA
Volume 23 - N.2:20-39 - 2010

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habitaban esas regiones (Borrero, 2009; Mio-

ción estratigráfica y contextual con artefactos

tti y Salemme 1999). Si bien, se recuperaron

líticos de origen cultural (Bird, 1938:270).

en los conjuntos óseos de sitios tempranos

En otras zonas como el centro Este de Bra-

pampeanos y patagónicos evidencia que in-

sil, en la región de Lagoa Santa en sitios pa-

dica depredación humana, fundamental-

leontológicos sin evidencia de ocupación hu-

mente de Glyptodon sp., Equus sp. y Mega-

mana se han obtenido dos edades de 9,990 y

terium sp. (Alberdi et al. 2001; Messineo y

9260 años C14 AP para perezosos gigantes

Politis 2009; Miotti y Salemme, 1999; Politis

(Hubble et al. 2007:1643, tabla 1).

y Gutiérrez, 1998; Politis et al. 1995; Politis y

Los datos y evidencias obtenidas en el No-

Messineo, 2008), la caza no se focalizó ni se

roeste de Uruguay no están aislados, son aná-

especializó exclusivamente en alguna de las

logos al registro de Pampa (Argentina), donde

citadas especies.

la supervivencia de fauna del Pleistoceno se

En el sitio arqueológico La Moderna (Pam-

extendió hasta el Holoceno temprano. Los

pa) hay datos que sugieren la utilización hu-

huesos de fauna extinguida recuperados en

mana de gliptodontes entre 8.300 y 7.500 años

Pay Paso 1 no poseen trazas o marcas de corte

C14 AP. Por otra parte en el sitio Arroyo Seco 2

provocadas por artefactos líticos, que indi-

(Pampa) se recuperó evidencia que señala la

quen procesamiento de presas de caza. La

presencia de Equus Amerhippus neogeus y Me-

evidencia actual es insuficiente para sugerir

gaterium americanum hacia 8.900-7.300 años

que los cazadores-recolectores de Pay Paso 1

C14 AP, aunque recientemente discutida (ver

hubieran cazado caballos extinguidos y/o

Politis et al. 2003:45-46). Por otra parte, recien-

gliptodontes. Lo que sí se puede afirmar y está

temente se presentan datos de un nuevo sitio

claro, es la coexistencia simultánea entre hu-

Campo Laborde donde registros de Megate-

manos con fauna del Pleistoceno durante el

rios datados por AMS fueron fechados entre

Holoceno temprano hace 9.600-9.100 años

ca. 9,700 y 7.000 años AP (Messineo y Politis

C14 AP.

2009; Politis y Messineo, 2008). Resumiendo,

La fauna del Pleistoceno recuperada en el

las dos especies recuperadas en Pay Paso 1

sitio Pay Paso 1 genera una importante impli-

Equus sp. y Glyptodon sp., se registraron pre-

cancia en los modelos de reconstrucción pa-

viamente durante el Holoceno temprano en

leoclimática realizados para el periodo en

sitios arqueológicos de Pampa hasta 7.000-

cuestión, tanto en el Sur de Brasil (Behling et

8.000 C14 AP (Miotti y Saleme, 1999; Politis et

al. 2005; Behling y Pillar, 2008; Bombin, 1975,

al. 1995; Politis y Gutiérrez, 1998:130). Otro

1976) como en el Norte del Uruguay (Antón,

sitio arqueológico temprano importante en el

1975; Ubilla, 1996; Ubilla y Perea, 1999; Ubilla

cono sur es Piedra Museo, donde Hippidion

et al. 2004). Esto permite a su vez, plantear

saldiasi (otra especie de caballo prehistórico

diferentes aspectos sobre la extinción, los

americano) fue utilizado como recurso ali-

cambios climáticos y la adaptación humana

menticio por los grupos humanos que ocupa-

ocurrida durante la transición Pleistoceno-

ron la Mesta Central Patagónica durante la

Holoceno que se detallan a continuación.

transición Pleistoceno Holoceno (Miotti y Sa-

Primero, la extinción de mamíferos del

lemme, 2005:211). Por último debemos recor-

Pleistoceno fue un proceso lento y gradual,

dar, que en el sur de Patagonia (Chile) la cue-

donde algunos representantes se extinguen

va Fell fue el primer sitio arqueológico de

inicialmente al final del Pleistoceno en tanto

América del Sur, donde se recuperaron hue-

otros sobreviven hasta el Holoceno temprano

sos de Equus sp. y fauna fósil actual en asocia-

como es el caso de Equus sp. y Glyptodon sp.

Cazadores-Recolectores Tempranos, Supervivencia De Fauna Del Pl

eistoceno ...

Rafael Suárez y Guaciara M. Santos

Segundo, caballos prehistóricos america-

nos (Equus sp.) y gliptodontes (Glyptodon sp.)

sobreviven en determinados nichos ecológi-

cos en el Noroeste de Uruguay y quizás el sur

de Brasil hasta el Holoceno temprano. Uno de

estos paleoambientes donde éstos herbívoros

del Pleistoceno sobreviven corresponde a la

desembocadura del río Cuareim o Quaraí.

Tercero y último, la adaptación humana

de los grupos tempranos en la región del río

Cuareim o Quaraí y río Uruguay medio, debió

incluir la explotación generalizada de recur-

sos, donde la estrategia económica se orientó

hacia fauna actual como mamíferos de me-

diano porte (nutria), peces (boga) y aves (ñan-

dú), complementado quizás con caza esporá-

dica de algunos ejemplares de mamíferos de

gran porte del Pleistoceno -caballos extingui-

dos y gliptodontes-, similar a lo registrado

previamente en Pampa y Patagonia.

El componente cultural datado durante el

Holoceno temprano en Pay Paso 1, indica la

coexistencia de dos especies de fauna del

Pleistoceno con humanos en el curso inferior

del río Cuareim entre ca. 9.600-9.100 años

C14 AP. Estos registros son los primeros de su

clase realizados en Uruguay, necesitan ser

confirmados con nuevos datos provenientes

de otros sitios arqueológicos tempranos para

evaluar el rol que jugaron tanto caballos

como gliptodontes en la economía de los po-

bladores tempranos de Uruguay y Sur del

Brasil hacia el final del Pleistoceno e inicio del

Holoceno. De todas formas la utilización de

otros recursos como peces (boga), mamíferos

de pequeño porte (nutria) y huevos de ñandú

en el registro de Pay Paso 1, indicarían que las

poblaciones tempranas se orientaban hacia

una economía generalizada donde se utiliza-

ron variados recursos y no se dependió eco-

nómicamente de los grandes herbívoros del

Pleistoceno, como generalmente se había pro-

puesto para este período. Algo similar ocurre

en el sitio Garivaldino hacia el año 9,400 AP

37

donde el conjunto faunístico indicaría una es-

trategia generalizada de utilización de los re-

cursos hacia el inicio del Holoceno (Rosa,

2009). Los datos de Pay Paso 1 deben ser am-

pliados con nuevas muestras zooarqueológi-

cas para confirmar o descartar la idea de una

economía generalizada de recursos como se

propone aquí, para los grupos tempranos de

la frontera Uruguay-Brasil del río Cuareim

(Quaraí).

La evidencia presentada de Pay Paso 1 se

integra a la previamente conocida de la re-

gión pampeana, que señala la supervivencia

de fauna del Pleistoceno hasta el Holoceno

temprano. Esto deberá ser considerado parti-

cularmente en los modelos de reconstrucción

paleoclimáticos y paleoambientales que se

generen para la transición Pleistoceno Holo-

ceno, abriendo nuevas perspectivas y pregun-

tas en las investigaciones arqueológicas, pa-

leontológicas, paleoambientales y

paleoclimáticas en el Noroeste de Uruguay y

Sur de Brasil.

AGRADECI m IE nto

S

La investigación y excavación arqueológi-

ca del sitio Pay Paso 1 se realizó con proyectos

financiados por National Geographic Society a

través del Committee for Research and Explo-

ration (research grant 7892-05), The Wenner-

Gren Foundation for Anthropological Re-

search (research grant 7864), y

CONICYT-Fondo Clemente Estable (proyecto

5093). La comunidad de Bella Unión (Depto.

de Artigas) colaboró en diferentes instancias

de la investigación de campo. La fauna del si-

tio Pay Paso 1 fue identificada por el paleontó-

logo Lic. Andrés Rinderknecht. A los revisores

o parceristas, uno anónimo y Adriana Schmidt

Dias quienes colaboraron con sugerencias y

comentarios que ayudaron a mejorar la ver-

sión final del manuscrito. Cualquier omisión o

error es responsabilidad de los autores.

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- 2010

38

bI b LI o GRA f IA

   

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39

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REVISTA DE ARQUEOLOGIA

Volume 23

- N.2:20-39

- 2010

40

ARTIGO

indústrias lÍtiCas em Contexto:

o proBlema hUmaitá na arqUeologia sUl Brasileira

Adriana Schmidt Dias 1 e Sirlei Elaine Hoeltz 2 1. Professora do Departamento e do Programa de Pós-graduação em História,

Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Federal do Rio Grande do Sul

(IfCH/UfRGS). Pesquisadora CnPq. dias.a@uol.com.br. 2. Pesquisadora da ARCHAEo: Pesquisas Arqueológicas. sirleihoeltz@yahoo.com.br.

 

RESU mo

Ao analisar através de uma perspectiva

sistêmica as indústrias líticas aferidas à Tra-

A b

S t RACt

dição Humaitá, percebe-se que sua variabi-

When analysed by a systemic perspective,

lidade está relacionada a diferentes estraté-

the lithic assemblages of Humaita tradition

gias de uso de um espaço regional que foi

indicate that its variability could be related to

compartilhado ao longo do Holoceno por

different strategies of land use in a region that

distintas sociedades caçadoras coletoras e

was occupied by diverse hunter gatherer and

agricultoras. A análise crítica dos contextos

horticulturalists societies along the Holocene.

regionais, cronológicos e tecnológicos rela-

A critical analysis of regional, chronological

cionados a estes conjuntos líticos, revela

and technological contexts related to these

uma realidade complexa que transcende a

lithic assemblages points to a complex reality

tipologia dos artefatos. O conceito de Tradi-

that goes beyond a typology. The Tradition

ção tecnológica, tal como empregado neste

concept, as applied in this case, compromise

caso, simplifica o entendimento do signifi-

the understanding of the meaning of artefacts

cado da variabilidade artefatual, devendo

variability, requiring a revision of this theme

esta problemática ser revista através de

by theoretical and methodological perspec-

perspectivas teórico-metodológicas de na-

tives that emphasizes its contextual nature.

tureza contextual.

K EY W o RDS Humaitá Tradition, lithic in-

PALAv RAS-CHAv E Tradição Humaitá, in-

dustries of Sothern Brazil, settlement syste-

dústrias líticas do sul do Brasil, sistemas de

ms and technology

assentamento e tecnologia

 
 

REVISTA DE ARQUEOLOGIA

Volume 23

- N.2:40-67

- 2010

42

Int R o DU ção

 

mento do significado da variabilidade artefa-

Entre 1965 e 1970, Eurico T. Miller realizou

tual, devendo esta problemática ser revista

prospecções na região do nordeste do Rio

através de perspectivas teórico-metodológicas

Grande do Sul, enquanto integrante do Progra-

de natureza contextual.

ma Nacional de Pesquisas Arqueológicas (PRO-

NAPA), tendo levantado na ocasião mais de 300

o Cont E xto D o P R ob LE m A

sítios arqueológicos entre abrigos sob rocha,

Os conceitos de Tradição e fase foram as

sítios a céu aberto, casas subterrâneas e samba-

ferramentas metodológicas utilizadas pelas

quis (Miller, 1967, 1974). Ao sistematizar os

primeiras gerações de arqueólogos brasilei-

achados realizados no vale do rio Maquiné,

ros vinculados ao PRONAPA para propor um

Miller definiu a fase Humaitá a partir de dois

esquema preliminar do desenvolvimento

sítios “caracterizados por artefatos líticos lasca-

histórico-cultural da ocupação pré-colonial

dos por percussão e confeccionados a partir de

brasileira. O PRONAPA consistia em um des-

lascões destacados de grandes blocos de basal-

dobramento para o território nacional das

to, conservando grandes porções da crosta na-

pesquisas de Betty Meggers e Clifford Evans

tural (

).

Os sítios localizam-se acima de 700 m

quanto às rotas de migração e difusão cultu-

de altitude, nos patamares arredondados da

ral relacionadas à origem da agricultura e da

encosta do planalto, próximos a sangas e junto

cerâmica nas Terras Baixas da América do

a grandes blocos de basalto”. Quanto aos artefa-

Sul. Seguindo uma perspectiva histórico-cul-

tos, Miller enfatiza que “estão, em grande parte,

tural, sequências seriadas semelhantes para

trabalhados na face externa de lascões e quase

uma mesma região foram reunidas em fases

irreconhecíveis pelo efeito da decomposição.

que, por sua vez, formavam Tradições, con-

Os talhadores (“choppers”) e os lascões discoi-

ceitos que expressariam os ritmos da distri-

dais unifaciais grandes, representam mais de

buição espaço-temporal da cultura material

50% dos artefatos”, estando também presentes

de distintos grupos pré-históricos identifica-

numerosas lascas (Miller, 1967:17-18).

dos a partir das atividades do Programa.

Partindo destes parâmetros estabelecidos

No entanto, no contexto histórico das pes-

por Miller nos anos iniciais do PRONAPA, os

quisas arqueológicas brasileiras, a aplicabili-

sítios líticos identificados no sul do Brasil nas

dade dos conceitos de fase e Tradição sofreu

últimas quatro décadas vêm sendo classifica-

com a “tradução”, perdendo as conotações

dos em duas tradições tecnológicas. No entan-

originalmente utilizadas na arqueologia ame-

to, ao analisar através de uma perspectiva sis-

ricana (Willey & Phillips, 1958). De acordo

têmica as indústrias líticas aferidas à Tradição

com Dias (2007a), a falta de reflexão teórica na

Humaitá, percebe-se que sua variabilidade

arqueologia brasileira na década de 1960

está relacionada a diferentes estratégias de

abriu margem para a consolidação de uma

uso de um espaço regional que foi comparti-

visão míope quanto à amplitude destes con-

lhado ao longo do Holoceno por distintas so-

ceitos, estruturalmente limitada ao nível des-

ciedades caçadoras coletoras e agricultoras. A

critivo de análise. No Brasil a definição de fa-

análise crítica dos contextos regionais, crono-

ses desconsiderou sua premissa subjacente,

lógicos e tecnológicos relacionados a estes

relacionada à comparação de aspectos crono-

conjuntos líticos revela uma realidade com-

lógicos e contextuais do registro arqueológico

plexa que transcende a tipologia dos artefatos.

que deveria orientar sua integração em uma

O conceito de Tradição tecnológica, tal como

Tradição. Por sua vez, as Tradições passaram

empregado neste caso, simplifica o entendi-

a assumir conotações distintas da enfatizada

Indústrias Líticas em Contexto: O Problema Humaitá na Arqueolog ia Sul ...

Indústrias Líticas em Contexto: O Problema Humaitá na Arqueolog ia Sul ...

Adriana Schmidt Dias e Sirlei Elaine Hoeltz

43

   

pela definição original, limitada a descrever

sença ou ausência de fósseis guia para aferição

fenômenos de continuidade temporal relacio-

de afiliação cultural, parte da premissa que os

nados a aspectos de natureza tipológica. Esta

sítios arqueológicos são entidades homogêneas

postura anômala da arqueologia brasileira

e repetitivas em termos de conteúdo cultural e,

cristaliza-se no pensamento de Meggers e

portanto, podem ser percebidos unicamente

Evans ao sugerirem que “fases definidas em

enquanto índices de diversidade geográfica e

termos de sequências seriadas podem ser cor-

temporal na ocupação do espaço regional. As

relacionadas a comunidades autônomas ou

estratégias metodológicas empregadas no

semi-autônomas e que tradições definidas em

PRONAPA refletem esta pré-concepção. As

termos de fases que compartilham um con-

prospecções exploratórias realizadas abrange-

junto de elementos (

),

provavelmente, repre-

ram áreas muito amplas associadas a bacias

sentam entidades tribais ou linguísticas” (Me-

hidrográficas que, em sua maioria, apresentam

ggers & Evans, 1985: 5). Desta forma, as

contextos arqueológicos e ecológicos extrema-

Tradições assumiram no Brasil um papel dis-

mente diversificados. No entanto, as estratégias

tinto do proposto por Willey e Phillips (1958),

de campo empregadas para realizar as compa-

ocupando a posição reservada aos distintos

rações regionais privilegiaram coletas assiste-

estágios histórico-desenvolvimentais (Lítico,

máticas de superfícies e sondagens restritas,

Arcaico, Formativo, Clássico e Pós-clássico)

em níveis artificiais, com o objetivo de estabe-

que ofereceriam a coesão necessária aos con-

lecer cronologias relativas através de compara-

textos culturais identificados nas pesquisas.

ção estratigráfica e tipológica dos conjuntos

Na medida em que as propostas metodoló-

artefatuais. Quanto ao estudo das coleções líti-

gicas do PRONAPA estavam voltadas à análise

cas geradas pela atuação do PRONAPA, a maio-

de contextos arqueológicos que possuíssem

ria das análises centrou sua atenção na descri-

cerâmica, os sítios líticos identificados nestas

ção tipológica dos artefatos diagnósticos,

pesquisas foram classificados tendo em vista

desprezando os resíduos de lascamento e as

as similaridades tipológicas de conjuntos de

sequências tecnológicas associadas a estas ca-

artefatos considerados diagnósticos. Ao desta-

tegorias (Kern, 1983, 1991; Dias & Silva, 2001).

car a tipologia formal dos artefatos líticos en-

é a partir deste contexto histórico que as

quanto fósseis guia para o estabelecimento de

Tradições pré-cerâmicas do sul do Brasil fo-

unidades culturalmente significativas em ter-

ram definidas e enquanto conceitos histórico-

mos de fases e Tradições, os aspectos tecnoló-

-classificatórios foram empregados na análise

gicos e contextuais intrínsecos aos conceitos

de conjuntos líticos identificados nas últimas

receberam pouca atenção. Por consequência,

quatro décadas. Enquanto as pontas de projétil

esta postura justificou a proposta de que a

representavam o fóssil guia da Tradição Umbu,

ocupação pré-colonial do território brasileiro

a Tradição Humaitá foi definida em função da

fosse dividida em dois estágios de desenvolvi-

presença de artefatos bifaciais de grande porte

mento cultural marcados pela diversidade

e tipologia variada, caracterizados pela alta di-

tecnológica: o período pré-cerâmico, que

versidade tipológica em termos regionais, o

compreenderia sítios líticos associados dire-

que justificou a definição de 22 fases arqueoló-

tamente a sociedades caçadoras coletoras e o

gicas (Meggers & Evans, 1977).

 

período cerâmico, que pressuporia socieda-

A abrangência geográfica da Tradição

des que praticavam a agricultura.

Humaitá está vinculada ao planalto sul

Esta perspectiva minimalista quanto à di-

brasileiro e ao domínio ecológico da Mata

versidade cultural do passado, restrita à pre-

Atlântica, em associação com as bacias hi-

 

REVISTA DE ARQUEOLOGIA

Volume 23

- N.2:40-67

- 2010

44

Figura 1. Dispersão geográfica da Tradição Humaitá (Kern, 1981: 311). Em destaque fases e áreas de

Figura 1. Dispersão geográfica da Tradição Humaitá (Kern, 1981: 311). Em destaque fases e áreas de pesquisa mencionadas neste artigo (ilustração: Wagner Marin)

drográficas dos rios Paraná, Uruguai e Ja-

cuí. A maioria dos sítios arqueológicos as-

sociados a esta Tradição são superficiais e

a céu aberto, com profundidades em média

entre 20 a 30 cm e áreas que variam entre

400 a 10.000 m2. As datações distribuem-se

entre 310 e 8.640 anos AP, estando as mais

recentes associadas aos contextos do Rio

Grande do Sul e as mais antigas, aos Esta-

dos de Santa Catarina e Paraná (figura 1).

A indústria lítica é caracterizada pelo uso

de matérias-primas disponíveis nas proxi-

Indústrias Líticas em Contexto: O Problema Humaitá na Arqueolog ia Sul ...

Indústrias Líticas em Contexto: O Problema Humaitá na Arqueolog ia Sul ...

Adriana Schmidt Dias e Sirlei Elaine Hoeltz

midades dos assentamentos, como as ro -

chas vulcânicas e o arenito silicificado, e

os artefatos são produzidos, em geral, a

partir de núcleos ou de lascas de grandes

dimensões, sendo menos frequente a pro -

dução a partir de seixos. A técnica de lasca-

mento empregada, na maioria dos casos, é

a percussão direta, sendo pouco frequente

a técnica de lascamento bipolar e a presen-

ça de retoques por percussão direta. Por

sua vez, estas indústrias líticas apresentam

variações regionais e cronológicas. Um

primeiro conjunto apresenta datações

mais antigas e abrange os vales do médio

rio Paraná e do alto rio Uruguai, onde

ocorre uma maior variedade de formas de

artefatos bifaciais (longos e retos com uma

ponta, com duas extremidades ativas ou

curvos em forma de bumerangue). Con -

juntos líticos mais recentes estão presentes

nos vales dos rios das Antas e Pelotas, no

domínio do planalto das araucárias, e no

vale do rio Jacuí e principais afluentes, as-

sociados à Depressão Central Gaúcha, sen-

do caracterizados pela presença predomi-

nante de talhadores bifaciais elaborados

sobre núcleos ou seixos (Hoeltz, 1997,

2005; Kern, 1981, 1991, 1994; Meggers &

Evans, 1977; Noelli, 1999/2000; Prous,

1992; Schmitz 1984, 1987).

A abrangência temporal e a dispersão geo-

gráfica identificadas embasaram a hipótese de

que a Tradição Humaitá representava indús-

trias líticas de caçadores coletores adaptados a

contextos de floresta subtropical, em oposição

à Tradição Umbu, que estaria associada a so-

ciedades caçadoras coletoras especializadas

na exploração de áreas de campo. As origens

destas populações estariam vinculadas a dis-

tintas rotas de colonização do território brasi-

leiro. A Tradição Umbu estaria culturalmente

relacionada ao povoamento inicial da região

pampeana e patagônica argentina, encontran-

do-se seus sítios mais antigos no vale do médio

45

rio Uruguai. A Tradição Humaitá representa-

ria populações caçadoras coletoras original-

mente vinculadas ao Complexo Alto-parana-

ense da região de Missiones, Argentina, que a

partir de 8.000 anos AP passariam a ocupar o

território brasileiro a partir do vale do alto rio

Uruguai, expandindo-se posteriormente para

o sul até os limites das escarpas do planalto sul

brasileiro, associadas ao vale do rio Jacuí. A

coexistência entre estas distintas populações

de caçadores coletores em territórios muitas

vezes sobrepostos era explicada em termos de

adaptação ecológica, opondo os caçadores de

zonas de ecótone entre pampa e floresta da

Tradição Umbu aos caçadores exclusivamente

adaptados às florestas subtropicais da Tradição

Humaitá. Por sua vez, a presença de artefatos

diagnósticos da tradição Humaitá em associa-

ção a sítios cerâmicos embasaram hipóteses

que sugeriam a possibilidade de contatos cul-

turais com as populações agricultoras a partir

do início da era cristã. As hipóteses levantadas

supõem que esta relação poderia ter se dado

através da aculturação dos caçadores coletores

da Tradição Humaitá que se transformariam

em ceramistas através do contato com as po-

pulações Guarani, explicando assim a origem

das Tradições Taquara-Itararé do Planalto Me-

ridional, ou ainda através da difusão das técni-

cas de lascamento destes caçadores coletores

entre os agricultores Guarani, que passaram a

ocupar o alto rio Uruguai e o vale do rio Jacuí

a partir do início da Era Cristã (Kern, 1981,

1991, 1994; Ribeiro 1979, 1991; Schmitz, 1984,

1987; Schmitz & Brochado, 1981a, 1981b).

o P R ob LE m A E m Cont E xto

No inicio da década de 1990, as primei-

ras influências das vertentes processuais

começam a fazer-se sentir no estudo das

Tradições e fases pré-cerâmicas do sul do

Brasil, desencadeando um processo de re-

flexão crítica quanto aos significados da va-

riabilidade das indústrias líticas refletidos

REVISTA DE ARQUEOLOGIA

Volume 23

- N.2:40-67

- 2010

46

pelas categorias conceituais utilizadas pelo

histórico-culturalismo (Dias, 1994, 1995,

1996; Dias et al., 1997; Dias & Hoeltz, 1997;

Hilbert, 1994; Hoeltz, 1995, 1997). Um pri-

meiro movimento neste sentido se deu atra-

vés da análise comparativa de coleções líti-

cas orientadas pela noção de cadeia

operatória ou sequência de produção, des-

locando a ênfase na tipologia dos artefatos

formais para o processo de produção dos

conjuntos artefatuais. Os resultados iniciais

destes trabalhos revelaram a necessidade

de um redirecionamento teórico-metodoló-

gico das pesquisas de campo em âmbito re-

gional, a fim de oferecer subsídios interpre-

tativos quanto à natureza contextual da

variabilidade observada nestas indústrias

líticas (Dias, 2007b; Hoeltz, 2007).

Na última década, os resultados dos es-

tudos levados a cabo em distintos contextos

regionais e cronológicos permitiram rever

os esquemas histórico-classificatórios que

deram origem às Tradições Umbu e Humai-

tá (Dias, 2003, 2004a, 2006a, 2006b, 2007a,

2007b; Dias & Hoeltz, 2002; Hilbert, Hoeltz

& Costa, 2000; Hoeltz, 2005, 2007; Hoeltz &

Brüggemann, 2003, 2010). A partir de uma

perspectiva sistêmica, o conceito Tradição

Humaitá deixa de ser uma ferramenta ope-

racional para descrever a variação espaço-

-temporal da ocupação pré-colonial de uma

dada região, tornando-se um problema de

pesquisa relativo aos significados contextu-

ais da variabilidade tecnológica de indús-

trias líticas integradas a distintas formas de

ocupação, utilização e significação do espa-

ço regional no passado.

Compreender a problemática Humaitá

em contexto demanda avaliar os conjuntos

líticos associados a este conceito histórico-

-classificatório através da integração de três

escalas de análise. Em primeiro lugar, uma

avaliação crítica dos contextos regionais per-

mite concluir que grande parte dos sítios líti-

cos associados à Tradição Humaitá estão inte-

grados aos sistemas de assentamento de

populações agricultoras. A ênfase nos estudos

cerâmicos associada à orientação teórico-me-

todológica do PRONAPA abriu margem para

uma visão fragmentada do universo da cultu-

ra material das populações agricultoras do sul

do Brasil associadas às Tradições Guarani e

Taquara-Itararé, com reflexos claros na ca-

racterização dos conjuntos líticos a estas rela-

cionados. Se por um lado, os artefatos polidos

associados aos sítios cerâmicos foram classi-

ficados como diagnósticos destas Tradições,

por outro a presença de artefatos lascados, em

muitos casos, foi considerada como represen-

tativa de intrusões ou sobreposições a contex-

tos da Tradição Humaitá. A ausência de uma

perspectiva contextual na interpretação da

variabilidade de sítios que podem compor os

sistemas de assentamento de agricultores

contribuiu, ao longo dos anos, para transfor-

mar a Tradição Humaitá em um depositário

de conjuntos líticos bifaciais, com ampla va-

riabilidade formal, que representam parte do

universo da cultura material de populações

que também produziam cerâmica (Dias,

2003; Dias & Silva, 2001).

Em segundo lugar, raros são os sítios líticos

aferidos à Tradição Humaitá que apresentam

datações radiocarbônicas e uma avaliação crí-

tica destes contextos cronológicos indica in-

consistências de interpretação, destacando-se

aqueles relacionados ao Holoceno Inicial e

Médio. Em parte, os problemas cronológicos

relacionam-se à interpretação das característi-

cas deposicionais dos sítios estratificados e a

sua relação contextual com sítios superficiais.

No entanto, no que diz respeito aos sítios anti-

gos, percebe-se também uma compreensão

limitada da natureza da variabilidade funcio-

nal de sítios líticos integrados a sistemas de

assentamento caçador coletor. Embora as pon-

tas de projétil estejam ausentes ou pouco re-

presentadas nestes conjuntos, a cronologia dos

Indústrias Líticas em Contexto: O Problema Humaitá na Arqueolog ia Sul ...

Indústrias Líticas em Contexto: O Problema Humaitá na Arqueolog ia Sul ...

Adriana Schmidt Dias e Sirlei Elaine Hoeltz

47

sítios e as características das indústrias líticas

que são sequenciais, destacando a percepção

indicam relação contextual clara com os siste-

de que existem sítios especializados em dife-

mas de assentamento da Tradição Umbu.

 

rentes atividades (Binford, [1983] 1994: 125-

Por fim, a ênfase dada à caracterização ti-

126). Por sua vez, sítios de atividade limitada

pológica dos fosseis guia da Tradição Humai-

corresponderiam a locais onde uma ou algu-

tá priorizou categorias funcionais inferidas a

mas atividades foram realizadas por popula-

partir da morfologia dos artefatos. No entanto,

ções, cujo domicílio situa-se em outro local,

a análise diacrítica dos conjuntos artefatuais

sendo sua distribuição determinada pela lo-

genericamente definidos como talhadores bi-

calização do sítio-base ou de conjuntos de re-

faciais revela variações significativas relacio-

cursos a serem explorados (Plog & Hill, 1971:

nadas às suas sequências de produção e estra-

13). Quando relacionamos os conjuntos líti-

tégias de usos, resultantes de escolhas

cos comumente aferidos à Tradição Humaitá

culturalmente determinadas. Desta forma, é

aos modelos de sistema de assentamento para

na análise dos contextos tecnológicos que en-

as sociedades de agricultores do sul do Brasil

contramos o suporte metodológico para inter-

representadas pelas Tradições Guarani e Ta-

pretar o significado dos sítios líticos em asso-

quara-Itararé, percebemos que sua variabili-

ciação a distintos sistemas de assentamento

dade apresenta relação com distintos níveis

em âmbito regional e temporal.

 

de utilização do espaço regional, associados a

 

complexos situacionais de sítios que opõe áre-

o PRobLEmA REGIonAL Em ContExto

as domésticas e sítios de atividades limitadas.

A Tradição Humaitá revela-se uma ferra-

A partir de 2.000 anos AP, a Tradição Gua-

menta conceitual inoperante quando enfoca-

rani está associada à transposição para o Bra-

mos os contextos pré-coloniais do sul do Bra-

sil meridional dos modelos amazônicos de

sil através de uma perspectiva sistêmica. Um

exploração e manejo de longa duração dos

sistema de assentamento pressupõe que

contextos de várzea de grandes cursos flu-

“cada sítio representa uma visão parcial e li-

viais, abrangendo as bacias dos rios Paraná,

mitada do comportamento regional (

).

Em

Uruguai e Jacuí e litoral sul atlântico (Brocha-

cada sítio, o uso do espaço e a tecnologia de-

do, 1984; Noelli, 1993, Soares, 1995). Baseado

senvolvida (

)

são uma resposta específica a

em uma extensa revisão da bibliografia dos

circunstâncias concretas. Em outras palavras,

cronistas do século XVI a XIX, com ênfase no

vislumbram um sistema cultural no qual tive-

Tesoro de la Lengua Guarani, escrito por

ram lugar diferentes atividades, em espaços

Montoya entre 1612 e 1617, Noelli (1993) pro-

distintos” (Binford, [1983] 1994: 117). Nesta

põe que as categorias que classificam os do-

perspectiva, os conceitos de complexo situa-

mínios territoriais entre os Guarani pré-colo-

cional de sítios (Binford, [1983] 1994) e de sí-

niais refletiam os laços de parentesco e

tios de atividade limitada (Plog & Hill, 1971)

reciprocidade em três níveis espaciais inclu-

consistem em ferramentas analíticas que per-

sivos: Guará, tekohá e teii. O Guará é um con-

mitem compreender a relação diferencial do

ceito sócio-político que diz respeito a extensos

uso do espaço em contextos intra/inter sítios

trechos das bacias hidrográficas, sendo com-

e como esta se relaciona com a variabilidade

posto por unidades sócio-econômicas aliadas,

dos conjuntos líticos. O conceito de complexo

denominadas tekohá, que possuíam uma

situacional de sítios traduz a idéia de conjun-

área definida, delimitada por arroios ou rios e

tos de sítios contemporâneos, onde ocorrem

utilizada de forma comunal e exclusiva pelo

diferentes etapas de um processo produtivo

grupo local. Os tekohá eram formados por teii

 

REVISTA DE ARQUEOLOGIA

Volume 23

- N.2:40-67

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isolados ou agrupados, em função das condi-

ções locais e políticas. O teii corresponde à

parcialidade ou família extensa, sendo desig-

nada de teii oga a casa onde vivia a linhagem

e de amundá o local da aldeia ou sede do

tekohá. O tekohá, por sua vez, comporta um

jogo entre três espaços distintos: a aldeia

(amundá), as roças (cog) e a vegetação cir-

cundante (caa). As roças (cog) iniciavam-se

fora do perímetro da aldeia, localizando-se a

diferentes distâncias, de acordo com a sua an-

tiguidade. Além das roças, inicia-se o espaço

das matas (caa), no qual se situava as áreas de

pesca, coleta e caça e as jazidas litológicas e

de argila. Nestas também estavam outras áre-

as de manejo que podiam refletir antigas ocu-

pações ou a preparação de futuros assenta-

mentos, levando a crer que o raio de ação do

ambiente humanizado estendia-se por mui-

tos quilômetros a partir da sede do tekohá.

Em termos arqueológicos, a variabilidade

dos sítios da Tradição Guarani é baixa, sendo

caracterizada por sítios cerâmicos e lito-cerâ-

micos a céu-aberto, associados às várzeas de

rios, com altitudes inferiores a 400 m. A data-

ção dos sítios indica períodos de permanência

relativamente curtos nas aldeias, sugerindo-

-se episódios de abandono frequentes. No en-

tanto, o modelo de manejo e a densidade de

sítios sugerem que as sedes das aldeias circu-

lavam no ambiente manejado do tekohá, ga-

rantindo a manutenção dos assentamentos

por longos períodos de tempo.

Por sua vez, a Tradição Taquara-Itararé

estaria relacionada às migrações e transfor-

mações de longa duração das populações

Macro-Jê que passam a ocupar o Planalto

brasileiro a partir de 3.500 anos atrás (Bro-

chado, 1983; De Mais, 2006; Noelli, 1999/2000).

Embora apresentem diferenças regionais

marcantes quanto aos estilos cerâmicos, ob-

serva-se entre os Jê do Sul um padrão similar

de estruturação dos territórios de domínio

que integravam distintos contextos ecológi-

cos, explorados de forma sazonal: as cotas

mais elevadas do planalto relacionadas às flo-

restas mistas de araucárias, os vales fluviais

das áreas de encosta e a região litorânea (Sch-

mitz & Becker, 1991). As fontes etno-históri-

cas e etnográficas para os Jê do Sul demons-

tram uma adaptação integrada aos variados

ecótonos do Brasil meridional indicando es-

tratégias de circulação no território de domí-

nio, em diferentes áreas satélites da aldeia

principal, onde predominavam certos tipos de

ofertas de alimentos (Noelli, 1999/2000). O

início do ciclo anual parece ter sido regido

pelo cultivo das roças, havendo a dispersão

dos grupos afins após a colheita para áreas

com concentração de diversas plantas de co-

leta como o pinhão, que, provavelmente, cor-

respondem a antigos locais de manejo agro-

florestal. Estas florestas antropogênicas, por

sua vez, também atraíam determinadas espé-

cies animais, como o porco do mato, consti-

tuindo-se igualmente em reservas de caça. O

mesmo tipo de comportamento extrativo sa-

zonal estaria associado às atividades de pesca

litorânea e estas atividades extrativas intensi-

vas, concentradas em um determinado perío-

do do ano, garantiriam o abastecimento anual

através de diversas técnicas de preservação

de alimentos. As carnes, tanto provenientes

da caça e da pesca, quanto da coleta de molus-

cos, poderiam ser desidratadas no moquém

ou sob o sol e o pinhão, coletado no inverno,

podia ser hidratado e depositado em silos

subterrâneos e cestas em locais úmidos, per-

mitindo seu consumo por vários meses.

Em termos arqueológicos, a variabilidade

de sítios relacionados ao modelo de mobilida-

de associado à Tradição Taquara-Itararé é

amplo: nas cotas elevadas do planalto predo-

minam as aldeias de casas subterrâneas, nas

encostas os sítios cerâmicos e lito-cerâmicos

a céu aberto e no litoral os concheiros (Sch-

mitz & Becker, 1991). Todos os casos, no en-

tanto, indicam estratégias de domínio e ma-

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Indústrias Líticas em Contexto: O Problema Humaitá na Arqueolog ia Sul ...

Adriana Schmidt Dias e Sirlei Elaine Hoeltz

nejo territorial de longa duração, atestados

por sucessivos episódios de reocupação dos

contextos de casas subterrâneas e concheiros

e pela presença de sítios cerimoniais relacio-

nados a práticas funerárias associados aos

distintos contextos ecológicos explorados.

Embora estejam integrados a noções dis-

tintas de estruturação e utilização dos territó-

rios regionais, os sítios líticos relacionados

aos sistemas de assentamento das Tradições

Guarani e Taquara-Itararé podem ser enten-

didos enquanto integrantes de um complexo

situacional de sítios. Sua variabilidade, por-

tanto, está relacionada ao papel que desempe-

nham no conjunto de atividades levadas a

cabo nos territórios de domínio das aldeias.

Desta forma, podem estar associados ao con-

texto doméstico, caracterizando os sítios lito-

-cerâmicos, ou a áreas de atividades específi-

cas situadas além do perímetro das aldeias

relacionadas às práticas de cultivo ou à explo-

ração dos afloramentos rochosos, caracteri-

zando sítios onde apenas os vestígios líticos

estão presentes. Em contexto doméstico pre-

domina a relação entre artefatos líticos e ati-

vidades de preparo e consumo de alimentos e

às práticas artesanais. De acordo com as dis-

ponibilidades de matérias-primas em termos

locais, para estes conjuntos líticos destacam-

-se três categorias gerais de artefatos: resídu-

os de lascamento bipolar e unipolar (núcleos,

lascas e fragmentos de lascamento), conjun-

tos de artefatos brutos ativos e passivos e con-

juntos de artefatos polidos relacionados ao

processamento de alimentos e às práticas

simbólicas do grupo, como os acompanha-

mentos funerários.

Por sua vez, as atividades desenvolvidas

fora do perímetro da aldeia demandam um

instrumental lítico específico e de maior porte

associado às práticas de cultivo, à extração e

processamento de material construtivo utili-

zado na sede da aldeia, à confecção de estru-

turas habitacionais e, no caso Guarani, à pro-

49

dução de canoas monóxilas. Os locais de

produção destes tipos de artefatos estariam

associados às áreas de concentração de maté-

rias-primas, como os locais com acúmulo de

seixos associados a cursos de água e os aflo-

ramentos rochosos. As atividades especificas

desempenhadas nestes locais geram concen-

tração de resíduos de lascamento e de artefa-

tos em distintas fases de confecção que podem

situar-se a distâncias variadas da sede da al-

deia, de acordo com as disponibilidades locais

de matérias-primas. Os artefatos acabados,

por sua vez, poderiam ser transportados para

as sedes das aldeias ou abandonados inten-

cionalmente em função de acidentes nos lo-

cais de produção ou por desgaste nas áreas de

extração e processamento de matérias-pri-

mas vegetais. Igualmente poderiam ser acu-

mulados ou estocados junto às roças para uso

posterior, justificando, neste caso, a presença

de conjuntos de artefatos achados de forma

isolada na paisagem.

Partindo deste modelo, sugerimos que a va-

riabilidade dos conjuntos líticos da Tradição

Guarani reflete, em última instância, variações

de áreas de atividade entre zona doméstica e

locais de atividade específica, distribuídos dife-

rencialmente na área pertencente ao tekohá.

Sendo a aldeia (amundá) o epicentro da área

de domínio (tekohá), os conjuntos líticos rela-

cionados às unidades domésticas ou casas ex-

tensas (teii ogas) que a compõem estariam as-

sociados principalmente a atividades de

preparo e consumo de alimentos e à confecção

de artefatos. Estes, por sua vez, podem estar

distribuídos diferencialmente no interior das

casas e no perímetro da aldeia em função de

atribuições de gênero ou categorias de idade.

São raras as publicações relativas à análise

de coleções líticas derivadas de escavações

contextuais de unidades habitacionais Guara-

ni para o sul do Brasil, destacando-se os dados

relativos à aldeia de Candelária, situada no

vale do rio Pardo, Rio Grande do Sul (Schmitz

REVISTA DE ARQUEOLOGIA

Volume 23

- N.2:40-67

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50

et al., 1990). A partir das escavações de três

unidades habitacionais que abrangeram uma

área de aproximadamente 400 m2, foi resgata-

da uma coleção de 4.099 peças líticas. Os ma-

teriais mais abundantes são as pedras de fogão

e seixos acondicionados enquanto reservas de

matéria prima, seguidos dos alisadores em ca-

naleta, dos polidores, dos percutores e das las-

cas. Todas estas categorias de artefatos estão

relacionadas a atividades domésticas, ligadas

às ações de corte, abrasão, perfuração, percus-

são, preparo e consumo de alimentos e à con-

fecção e utilização de cerâmica (Noelli & Dias,

1995). Outros estudos mais gerais de coleções

líticas Guarani para o Estado do Rio Grande

do Sul apontam para um predomínio nas

amostras analisadas das categorias de artefa-

tos acima descritos em associação contextual

com unidades habitacionais, predominando

quantitativamente os resíduos de lascamento

associados a matérias-primas de origem local

(Carle, 2002, De Masi & Schmitz, 1987; Sch-

mitz et al., 2000). No entanto, há também evi-

dências arqueológicas de utilização de maté-

rias-primas não disponíveis localmente, como

se observa no sítio Arroio do Conde, no baixo

rio Jacuí (RS), estando as fontes exploradas

distantes entre 13 e 60 km do seu local de im-

plantação, o que remete à noção de área de

domínio (tekohá) no qual esta aldeia estaria

inserida (Noelli, 1993, 1997). Caso similar tam-

bém é observado no sítio PS-03-Totó, situado

na porção sul da Lagoa dos Patos (RS), onde

a presença de calcedônias indicaria explora-

ção de matérias-primas cujas fontes estão

distantes até 200 km do sítio, indicando re-

des de intercâmbio entre distintos tekohá

pertencentes ao mesmo Guará (Milheira,

2008; Milheira & Alves, 2009).

Além do perímetro da aldeia Guarani, as

atividades nas roças, nas florestas manejadas e

nas jazidas de exploração de matéria prima

produziram conjuntos líticos distintos. As ne-

cessidades dos trabalhos em madeira pode-

riam ser atendidas por dois tipos de artefatos

líticos da Tradição Guarani: os machados poli-

dos, associados ao abate de árvores, e os arte-

fatos bifaciais de grande porte de caráter mul-

tifuncional. Esta categoria de artefatos estaria

relacionada a atividades de entalhe (talhado-

res), bem como a atividades de sulcar, cavar,

lavrar ou desbastar a madeira com uma per-

cussão arremessada perpendicularmente,

ação associada à produção de canoas monóxi-

las e ao processamento do material construtivo

utilizado na confecção das casas e paliçadas da

aldeia (Noelli & Dias, 1995). Os locais de pro-

dução destes tipos de artefatos estariam asso-

ciados às fontes de matérias-primas, gerando

concentração de resíduos de lascamento e de

artefatos em distintas fases de confecção.

Exemplos deste tipo de variabilidade lítica

relacionada a áreas de atividades fora da aldeia

Guarani podem ser encontrados em distintos

contextos arqueológicos do Estado do Rio

Grande do Sul em associação aos vales dos rios

Jacuí, Taquari, Caí e dos Sinos (De Masi & Sch-

mitz, 1987; Dias, 2003, 2006a, 2007a; Fiegen-

baum, 2009; Schmitz et al., 2000). Situação se-

melhante observa-se em estudos realizados no

alto vale do rio Uruguai por Hilbert, Hoeltz e

Costa (1999, 2000; ver também Costa, 2000;

Monticelli & Bertolletti 2000), na área de im-

plantação da Usina Hidrelétrica de Machadi-

nho no Rio Grande do Sul e por Hoeltz e Brüg-

gemann (2010) na área de implantação da

Usina Hidrelétrica da Foz do Chapecó em San-

ta Catarina. O mesmo contexto é apontado por

Angrizani (2009) para a análise da variabilida-

de lítica dos sítios identificados nas atividades

de resgate associadas à construção da linha de

transmissão de energia elétrica Santa Rosa-

-Santo Cristo, no noroeste do Rio Grande do

Sul. Neste caso, Angrizani enfatiza a relação

contextual entre sítios líticos e lito-cerâmicos

Guarani que se apresentam distribuídos dife-

rencialmente na paisagem, predominando nas

cotas mais elevadas as áreas de atividade limi-

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Indústrias Líticas em Contexto: O Problema Humaitá na Arqueolog ia Sul ...

Adriana Schmidt Dias e Sirlei Elaine Hoeltz

tada associadas à exploração de afloramentos

rochosos e próximo ao vale do rio a presença

das aldeias Guarani. A variabilidade artefatual

entre as áreas é compreendida pelo autor em

função de um modelo de integração entre áre-

as de atividade distintas associadas a um mes-

mo tekohá, circulando os artefatos líticos entre

as casas, as roças e as florestas manejadas.

No caso da Tradição Taquara-Itararé as

mesmas causas da variabilidade lítica podem

ser observadas, estando relacionadas às dis-

tintas atividades que tomaram lugar nas áre-

as domésticas e nos contextos de atividades

específicas. Independente do estrato ecológi-

co com o qual se relacionam, nas áreas do-

mésticas associadas ao sistema de assenta-

mento da Tradição Taquara-Itararé

predominam conjuntos líticos relacionados

ao processamento de alimentos e às práticas

artesanais, correspondendo a resíduos de las-

camento e artefatos brutos, bem como artefa-

tos polidos como as mãos de pilão. Sítios líti-

cos de atividade específica relacionados à

extração de matérias-primas e ao manejo

agrícola também estão associados a este com-

plexo situacional de sítios, com desdobra-

mentos similares ao observado no caso da

Tradição Guarani. Junto às fontes de matéria

prima predominam resíduos de lascamento e

artefatos descartados em diferentes etapas de

produção e no que consistiria as áreas de roça

e manejo agroflorestal predomina a presença

de concentrações de artefatos bifaciais, asso-

ciadas à derrubada da mata e as práticas agrí-

colas. No caso das ocupações do Planalto, no

entanto, a presença de concentrações de

grandes talhadores bifaciais também estaria

integrada às atividades construtivas, associa-

das à produção e manutenção das estruturas

subterrâneas e das construções monticulares

de função cerimonial.

Estudos arqueológicos que suportem esta

proposta são mais raros, se comparados aos

contextos Guarani. Em boa parte, isto se deve

51

a interpretação histórico-cultural relativa à

presença de sítios lito-cerâmicos nas áreas

tradicionalmente ocupadas pelas Tradições

Taquara-Itararé. Ao seguir uma lógica de ra-

ciocínio avessa a comparações entre contextos

arqueológicos e etnográficos, cristalizou-se a

idéia de que estes sítios líticos representariam

uma evolução local do horizonte caçador cole-

tor representado pela Tradição Humaitá para

o horticultor representado pela Tradição Ta-

quara-Itararé (Schmitz, 1988; Schmitz & Be-

cker, 1991; Ribeiro, 1979; entre outros). Noelli

(1999, 1999/2000) imputa este modelo inter-

pretativo quanto à origem das populações hor-

ticultoras do planalto sul brasileiro à assimila-

ção acrítica, por parte dos pesquisadores

brasileiros, de uma noção evolucionista sim-

plificada que Oswaldo Menghin, na década de

1950, defendeu para o nordeste da Argentina,

postulando esta improvável continuidade cul-

tural. O argumento central de Menghin, base-

ado em dados empíricos insuficientes, centra-

-se na hipótese de que o Alto-paranaense, com

datações no nordeste da Argentina a partir de

8.000 anos AP, passou por um processo de ne-

olitização a partir de 2.000 anos AP, adotando,

por difusão, a tecnologia de polimento, a agri-

cultura e a cerâmica. Embora os dados lin-

guísticos, etno-históricos e genéticos demons-

trem a improbabilidade desta origem

meridional dos grupos ceramistas do planalto,

nas palavras de Noelli: “a hipótese de Men-

ghin continua sendo aceita até o presente pela

maioria dos pesquisadores que estuda o sul do

Brasil” (Noelli, 1999: 289-290).

Uma exceção a este quadro é oferecida pe-

los resultados das pesquisas arqueológicas

realizadas no canteiro de obras da UHE de

Barra Grande, realizadas entre 2001 e 2003. A

área abrangida pelo empreendimento com-

preendeu uma região de 528 km2 associada

ao vale do rio Pelotas, distribuída entre os mu-

nicípios de Anita Garibaldi (sul de Santa Cata-

rina) e Pinhal da Serra e Esmeralda (norte do

REVISTA DE ARQUEOLOGIA

Volume 23

- N.2:40-67

- 2010

52

Rio Grande do Sul). A área apresentou uma

grande diversidade de sítios, tendo sido resga-

tados 10 sítios arqueológicos no lado gaúcho

do empreendimento e 21 sítios no lado catari-

nense destacando-se uma grande quantidade

e sítios líticos e lito-cerâmicos que apresenta-

vam associação com artefatos bifaciais de

grande porte, cuja tipologia remete aos fósseis

guia da Tradição Humaitá, bem como um

conjunto de estruturas subterrâneas e quatro

sítios com estruturas anelares envolvendo

montículos e sepultamentos em seu interior.

Foram obtidas datações radiocarbônicas para

dois destes sítios, ambos na margem direita

do rio Pelotas, de 180 ± 50 anos AP, para um

sítio a céu aberto lito-cerâmico, e de 560 ± 50

anos AP, para um sepultamento cremado em

uma estrutura circular em relevo (Saldanha,

2005; Scientia, 2003).

Nos trabalhos realizados na margem di-

reita do rio Pelotas, no município de Anita

Garibaldi, cinco sítios apresentaram maior

densidade de materiais líticos, com conjun-

tos variando entre 374 e 2.523 peças, estan-

do situados a distâncias entre 500 e 1.500 m

entre si (Herbert, 2003; Hoeltz, 2007; Hoeltz

& Brüggemann, 2003). Embora não haja da-

tações para todos os contextos, a análise das

coleções líticas destes sítios evidencia estra-

tégias tecnológicas que apontam para uma

variação das formas de ocupação do espaço

regional. Um primeiro conjunto de sítios

está associado à presença caçadora coletora

na área relacionada à Tradição Umbu em

função das características de suas indús -

trias líticas. Compreende um sítio em abrigo

sob rocha, SC-AG-24, e um sítio a céu aber-

to, SC-AG-97B, que distam 600 m entre si.

Ambos apresentam uma indústria formada

predominantemente por pequenas lascas

residuais unipolares e detritos, embora na

primeira indústria predomine o basalto fino

e na segunda os meta-lamitos disponíveis in

situ. Os instrumentos são raros em ambos

os casos, destacando-se uma ponta de pro -

jétil pedunculada presente no sítio SC -

-AG-24 e uma pequena peça bifacial sobre

lasca no sítio AG-97B.

Os demais sítios da área estão associados

ao sistema de assentamento da Tradição Ta-

quara-Itararé e apresentam altos índices de

variabilidade em suas indústrias em razão

das distintas atividades aos quais estavam as-

sociados. O sítio lito-cerâmico SC-AG-40

apresenta uma indústria lítica representativa

de uma área de atividade doméstica, onde

predominam as lascas bipolares de calcedô-

nia, em detrimento dos detritos e das peças

bifaciais de grande porte de basalto, estando

também presentes percutores de basalto e

alisadores de cerâmica, caracterizando uma

associação a atividades relacionadas ao pre-

paro e consumo de alimentos e à confecção

de artefatos. O mesmo padrão pôde ser iden-

tificado nas escavações de três estruturas

subterrâneas associadas ao sítio Leopoldo 5,

situado na margem esquerda do rio Pelotas,

no município de Pinhal da Serra, onde obser-

va-se a concentração de resíduos de lasca-

mento unipolar e bipolar, além da presença

de artefatos brutos e instrumentos bifaciais

em menor densidade, dispersos em torno das

fogueiras que ocupam uma posição mais

central nas estruturas (Saldanha, 2005; ver

também Copé & Saldanha, 2002).

Nos demais sítios líticos, predominam os

artefatos bifaciais, destacando-se o sítio lítico

SC-AG-97A, cuja alta densidade e diversidade

de peças indicam tratar-se de um local de pro-

dução e de utilização dos artefatos. Sua indús-

tria é formada principalmente por lascas resi-

duais de basalto de baixa qualidade de

lascamento e um alto percentual de núcleos e

artefatos unifaciais e bifaciais com dimensões

entre 5 e 11 cm de comprimento. Peças maio-

res do que estas (entre 22 e 26 cm), de técnica

e de matéria prima idênticas, foram identifi-

cadas em outros 16 sítios líticos da região com

Indústrias Líticas em Contexto: O Problema Humaitá na Arqueolog ia Sul ...

Indústrias Líticas em Contexto: O Problema Humaitá na Arqueolog ia Sul ...

Adriana Schmidt Dias e Sirlei Elaine Hoeltz

53

menor densidade de materiais e no

sítio lito-cerâmico SC-AG-47. Estas

peças bifaciais foram produzidas, na

maioria dos casos, sobre blocos,

apresentam resíduo cortical, retira-

das periféricas bifaciais em todo o

contorno (ou apenas em uma lateral)

e uma terminação em ponta. As fon-

tes de matéria prima foram identifi-

cadas em afloramentos localizados

em torno de 500 m ou a 1 km dos as-

sentamentos e frequentemente apre-

sentam lascas e peças bifaciais dis-

postas isoladamente sobre ou nos

seus arredores. Estes sítios constituí-

am-se em locais para além do perí-

metro das aldeias, como as represen-

tadas pelos sítios SC-AG-40 e

Leopoldo 5, e estariam associados a

atividades específicas, como o culti-

vo, o manejo agroflorestal e a extra-

ção de matérias primas minerais e

vegetais (figura 2).

o P R ob LE m A C R ono Ló GIC o E m Cont E xto

Figura 2. Peças bifaciais de grande porte da Usina Hidrelétrica de Barra Grande (Ilustrações: Adelson Brüggemann)

Figura 2. Peças bifaciais de grande porte da Usina Hidrelétrica de Barra Grande (Ilustrações: Adelson Brüggemann)

remontando o Holoceno Inicial (Araujo et al.,,

2005; Dias, 2003, 2004b, 2007b; Dias & Bueno,

2010; Dias & Jacobus, 2003; Rosa, 2009; Rosa

& Jacobus, 2010). Se por um lado, a ocupação

caçadora coletora da região sul brasileira apre-

senta-se claramente definidas na Tradição

Umbu a partir de 10.000 anos AP, por outro, a

análise dos contextos deposicionais de sítios

líticos contemporâneos aferidos à Tradição

Humaitá apontam para uma série de inconsis-

tências de interpretação relacionadas ao con-

texto deposicional dos sítios e à compreensão

limitada dos significados da variabilidade de

sítios líticos em contextos regionais.

Um dos argumentos que sustentam a

hipótese da Tradição Humaitá referir-se

às estratégias tecnológicas de caçadores

coletores baseia-se nas datações do Holo-

Os estudos paleoambientais recentes indi-

cam que as florestas subtropicais já se encon-

travam em formação na região sudeste do Bra-

sil desde 12.000 AP e em franca expansão e

processo de fixação em direção ao sul do país

em torno 9.000 anos AP. Estas características

paleoecológicas têm sido atualmente conside-

radas como um dos fatores de atração e fixação

populacional no Brasil meridional de popula-

ções caçadoras coletores originariamente as-

sociadas à colonização do Pampa argentino na

transição Pleistoceno Holoceno. Estas estariam

enquadradas na definição clássica da Tradição

Umbu e os dados zooarqueológicos referentes

a diferentes contextos no Rio Grande do Sul

apontam que a exploração dos recursos da flo-

resta correspondeu a uma estratégia adaptati-

va de longa duração para estas populações,

REVISTA DE ARQUEOLOGIA

Volume 23

- N.2:40-67

- 2010

54

   
   
   

Sítios

Vale de Rio

Estado

 

Datação (AP)

Fase

Sigla

 
 

1. Brito

Paranapanema

SP

 

7020+70

 

GIF 6250

       

5080+60

 

GIF 6253

       

4260+60

 

GIF 6251

       

3920+60

 

GIF 6254

2.

Almeida

Paranapanema

SP

 

3600+160

 

GIF ?

3.

Camargo

     

1030+85

 

Monaco

       

2060+230

 

Monaco

 

Paranapanema

   

4650+170

 

Monaco

4.

PR-JA-5

Paranapanema

PR

 

310+50

Timburi

SI 139

5.

PR-FI-21

Iguaçu

PR

 

6910+75

Pirajuí

SI 4994

       

6505+105

 

SI 5993

       

6265+80

 

SI 4992

 

Pirajuí

Pirajuí

Pirajuí

 

2850+60

Pirajuí

SI 4995

       

2035+70

 

SI 4991

6.

PR-FI-49

Iguaçu

PR

 

4065+75

Tatuí

SI 5045

7. José Vieira

Ivaí

PR

 

6683+355

Ivaí

GIF 78

       

5241+300

 

GIF 80

       

3435+175

 

GIF 82

8. PR-QN-01

Ivaí

PR

 

5380+110

Ivaí

SI 1014

9. SC-U-6

Alto Uruguai

SC

 

8640+95

Alto-paranaense

SI 995

       

8095+90

 

SI 994

       

7260+100

 

SI 440

       

7145+120

 

SI 993

10.

SC-VP-38

Alto Uruguai

SC

 

5930+140

Tamanduá

SI 827

11.

SC-U-13

 

SC

 

3000+120

 

SI 441

12.

RS-Vz -52

Várzea

RS

 

675+60

Caaguaçu

SI 799

13.

RS-A-12:

           

Barreiro

Antas

RS

6620+175

Antas

SI 933

 

14. ?

Pelotas

RS

 

1920+50

Cará

SI 811

15.

RS-MJ-14

Jacuí

RS

 

2945+85

Canhemborá

SI 1001

       

1165+35

 

SI 1000

16.

RS-SM-07

Jacuí

RS

 

2795+55

Canhemborá

SI 1004

17. RS-452:

           
 

Ivorá

Jacuí

RS

2190+80

Canhemborá

Beta 129549

18.

RS-RP-81

Pardo

RS

 

380+80

 

SI4166

19.

RS-RP-86

Pardo

RS

 

2920+120

 

SI4167

       

1425+115

 

SI4168

Tabela 1 – Sítios datados por radiocarbono associados à Tradição Humaitá

   

ceno Inicial e Médio para sítios onde as pon-

 

de referência indica que apenas 19 sítios ar-

tas de projétil estão ausentes, encontrados em

queológicos afiliados culturalmente à Tradi-

distintos contextos arqueológicos do Brasil

ção Humaitá apresentam datações radiocar-

meridional. No entanto, a revisão da literatura

bonicas (tabela 1). Como conseqüência,

Indústrias Líticas em Contexto: O Problema Humaitá na Arqueolog ia Sul ...

Indústrias Líticas em Contexto: O Problema Humaitá na Arqueolog ia Sul ...

Adriana Schmidt Dias e Sirlei Elaine Hoeltz

apenas 10 das suas 22 fases foram definidas

tendo por base cronologias absolutas, sendo a

posição das demais fases nas sequências de

desenvolvimento regional inferidas em fun-

ção da tipologia dos artefatos bifaciais ou por

sua profundidade estratigráfica (Kern, 1981;

Hoeltz, 1997; Noelli, 1999/2000; Schmitz, 1984,

1987).

Dentre os contextos mais antigos da Tra-

dição Humaitá destacam-se os sítios relacio-

nados ao Complexo Alto-paranaense de Ita-

piranga e da fase Tamanduá, associados ao

alto vale do rio Uruguai (sudoeste de Santa

Catarina), bem como os da fase Antas, asso-

ciada ao vale do rio das Antas (noroeste do

Rio Grande do Sul). A análise crítica destes

contextos deposicionais, no entanto, indica

que as datações entre 8.000 e 6.000 anos AP

aferidas a estas fases referem-se a uma rela-

ção questionável, entre sítios estratificados

sem pontas de projétil e conjuntos líticos de

superfície que apresentam peças

bifaciais(Dias & Jacobus, 2003). No caso do

complexo Alto Parananense de Itapiranga, as

datações entre 8.640 e 7.145 anos AP estão re-

lacionadas a um único sítio, SC-U-6, associa-

do a uma barranca do rio Uruguai que foi

localizado através da extração de argila pelas

indústrias de ladrilhos e telhas da região. As

escavações ocorridas em 1966 e 1968 atingi-

ram uma profundidade de 8,3 m, tendo sido

identificada a presença de cerâmica da Tradi-

ção Guarani até 2 m de profundidade e a pre-

sença de lascas em associação com concen-

trações de carvão entre 5 e 7,3 m de

profundidade com datações na faixa de 8.000

anos AP (Rohr, 1966, 1968, 1973, 1984; ver

também Schmitz & Becker, 1968). Por sua

vez, as prospecções na área revelaram 53 sí-

tios arqueológicos, em sua maioria superfi-

cial, dos quais apenas um apresentava ape-

nas evidências líticas, 30 continham somente

cerâmica da Tradição Guarani (com cronolo-

gia estimada em torno de 2.000 anos AP) e 22

55

possuíam associação entre cerâmica Guara-

ni e artefatos líticos lascados de forma bifa-

cial (Rohr, 1966). O material lítico dos sítios

de superfície foi classificado por Rohr como

associado ao Complexo Alto-paranaense, de-

finido por Menghin para a região de Missio-

nes, no nordeste da Argentina. Embora Rohr

deixe claro que “encontramos a cultura Alto-

-paranaense também em outros sítios, de

mistura com a cultura Guarani e que a área

também apresente conjuntos líticos com as-

sociação de pontas de projétil bifaciais”

(Rohr, 1966: 27), o autor defende a ideia de

que as datações obtidas no sítio SC-U-6 esta-

riam relacionadas às indústrias líticas dos

sítios de superfície em função da tipologia

dos artefatos bifaciais de grande porte. Esta

hipótese foi seguida por Schmitz e Becker

na interpretação de coleções líticas prove-

nientes de coletas superficiais em cinco

sítios da região de Itapiranga e de material

superficial sem procedência (Rohr, 1968;

Schmitz & Becker, 1968, ver também Sch-

mitz & Brochado, 1981b [1974]; Schmitz,

[1978]1981; Kern, 1981).

Esta hipótese de Rohr também foi reforça-

da por Walter Piazza, que definiu a fase Ta-

manduá a partir de um único sítio, SC-VP-38,

situado na confluência entre o rio do Peixe e o

rio Uruguai, com uma datação de 5.930 ± 140

anos AP (SI-827) (Piazza, 1971). No entanto,

este sítio igualmente corresponde a uma bar-

ranca de rio, no qual foi coletado carvão para a

datação a 3,5 m de profundidade. Embora o

autor não faça referência à quantidade de ma-

terial associado ao sítio, nem apresente sua

descrição, afirma que “encontrou-se material

lítico característico Alto-paranaense” (Piazza,

1971: 73). A descrição do contexto de deposição

deste sítio, também um barreiro, a semelhança

do sítio SC-U-6, indica perturbação de contex-

to, e este igualmente apresenta cerâmica da

Tradição Guarani nas camadas superficiais.

Os artefatos referendados à fase Tamanduá,

REVISTA DE ARQUEOLOGIA

Volume 23

- N.2:40-67

- 2010

56

ilustrados na publicação e identificados como

posicional relacionados ao aumento de plu-

raspadores, parecem indicar lascas afetadas

viosidade do Ótimo Climático. No caso dos

por arraste fluvial. Também se ressalta que, à

contextos do oeste de Santa Catarina, a au-

semelhança do Alto-paranaense de Itapiranga,

sência de pontas de projétil, fosseis guia da

este sítio está associado a um contexto de im-

Tradição Umbu, e a antiguidade das data-

plantação caracterizado pela presença de dois

ções nos depósitos fluviais foram os critérios

sítios líticos, relacionados à Tradição Umbu

utilizados para aferir antiguidade aos sítios

(fase Suruvi), e a 46 sítios cerâmicos, em sua

líticos de superfície em função da tipologia

maioria da Tradição Guarani.

dos artefatos bifaciais, embora houvesse cla-

Caso similar está relacionado à datação

ras evidências de associação contextual das

mais antiga da Tradição Humaitá no Rio Gran-

evidências líticas com os sistemas de assen-

de do Sul associada à fase Antas. O sítio a céu

tamento da Tradição Guarani da região.

aberto RS-A-12: Barreiro, associado às barran-

A possibilidade de revisão crítica da inter-

cas do rio das Antas, possui uma datação de

pretação tradicional de contextos deposicio-

6.620 anos AP a 700 cm de profundidade e sua

nais como os acima descritos é oferecida pelos

indústria é caracterizada por Miller como re-

resultados dos trabalhos arqueológicos de

presentada por “toscos artefatos líticos (

)

con-

obras de engenharia realizados no canteiro de

feccionados a partir de seixos rolados (

)

las-

obras da UHE de Foz do Chapecó, entre os

cões e lascas de basalto” (Miller, 1971:40). O

anos de 2006 e 2010 (Scientia, 2010). O empre-

autor destaca que em “todas as peças observa-

endimento localiza-se a cerca de 6,5 km a

-se o arredondamento e o polimento natural

montante da confluência entre o rio Chapecó

nas áreas lascadas e cristas interlascadas. Esse

com o rio Uruguai, na divisa entre os municí-

desbaste natural, ocasionado pelos detritos

pios de Águas de Chapecó, em Santa Catarina,

transportados pelas águas (

)

muito dificil-

e Alpestre, no Rio Grande do Sul. Nessa pesqui-

mente são distinguíveis de seixos naturais e

sa foram resgatados 14 sítios arqueológicos

possivelmente chegam a se confundir. ( ) ...

marcados por uma alta variabilidade de indús-

Como o número de peças é mínimo e maiores

trias líticas associada a diferenças cronológicas

conhecimentos acerca do contexto integral dos

significativas. Dentre estes, têm-se sete sítios

sítios implicariam em extensas escavações,

lito-cerâmicos, três sítios líticos e um sítio cerâ-

consideramos estas caracterizações mais

mico, com profundidades que não ultrapas-

como um ensaio preliminar” (Miller, 1971: 41).

sam 50 cm e datações entre 650 ± 90 anos AP

Apesar das ressalvas do autor, este sítio foi con-

e 320 ± 70 anos AP. Outros três sítios estão as-

siderado nas sínteses posteriores como a evi-

sociados exclusivamente a indústrias líticas e

dência mais antiga relacionada à Tradição Hu-

apresentam sobreposição de ocupações. As

maitá no Rio Grande do Sul (Kern, 1981;

mais antigas estão entre 20 a 170 cm de pro-

Simões, 1972; Schmitz, [1978]1981, 1984; Sch-

fundidade e foram datadas entre 8270 +70 anos

mitz & Brochado, [1972]1981a, [1974]1981b).

AP (Beta 236423) e 8370 + 60 anos AP (Beta

Os casos acima analisados apontam para

236422) para o sítio ACH-LP1 e entre 7260 + 60

a associação entre material lítico e carvão

anos AP (Beta 236420) e 6990 + 70 anos AP

depositados em barrancas de rio em função

(Beta 236421) para o sítio ACH-LP3.

de eventos naturais de arraste fluvial. Este

A análise das indústrias líticas dos três sí-

aspecto é reforçado pela profundidade dos

tios com sobreposição de ocupações demons-

depósitos e por suas datações do Holoceno

trou claramente que estratégias tecnológicas

Médio que indicam eventos de alto fluxo de-

distintas estavam sendo empregadas por dois

Indústrias Líticas em Contexto: O Problema Humaitá na Arqueolog ia Sul ...

Indústrias Líticas em Contexto: O Problema Humaitá na Arqueolog ia Sul ...

Adriana Schmidt Dias e Sirlei Elaine Hoeltz

diferentes grupos culturais que ocuparam

aqueles locais em diferentes períodos. As in-

dústrias dos conjuntos exclusivamente líticos,

datados entre 8.300 e 6.900 anos AP, foram re-

lacionadas aos caçadores coletores da Tradi-

ção Umbu por apresentarem estratégias de

produção direcionadas predominantemente à

obtenção de pequenos artefatos de tecnologia

bifacial através da técnica unipolar. Tais pro-

duções, ocorridas principalmente sobre areni-

to silicificado, resultaram em pontas de projétil

de tipologias variadas, um conjunto de lâmi-

nas de gumes finamente retocados, peças bifa-

ciais de tecnotipos variados, sendo as formas

foliáceas e lanceoladas de pequeno porte (en-

tre 5 e 10 cm de comprimento) as mais nume-

rosas, e uma variedade de resíduos de lasca-

mento unipolar. As indústrias dos conjuntos

lito-cerâmicos, associadas às camadas estrati-

gráficas mais recentes e com datações estima-

das entre 650 e 320 anos AP, estão associadas

ao sistema de assentamento da Tradição Gua-

rani. Neste caso, as estratégias de produção lí-

tica foram guiadas principalmente à obtenção

de lascas retocadas bipolares de rochas cripto-

cristalinas e à produção de peças bifaciais de

portes avantajados de arenito silicificado e ba-

salto (entre 8 e 20 cm). Dentre estes artefatos

bifaciais tem destaque a presença dos talhado-

res bifaciais bumerangoides, características do

Complexo Alto-paranaense. Nesses conjuntos

ocorrem também afiadores de arenito, percu-

tores, perfuradores, lâminas de machado poli-

das e tembetás. As características destas indús-

trias permitiram aferir à Tradição Guarani o

restante dos sítios líticos de superfície pesqui-

sados, partindo da idéia de que estes integram

o complexo situacional de sítios associados ao

modelo de sistema de assentamento Guarani.

Assim, os sítios lito-cerâmicos maiores (AA3,

LP1 e LP3), localizados na beira do rio Uru-

guai, com indústrias formadas por conjuntos

adequados a atividades domésticas, como as

lascas retocadas de calcedônia e as peças bifa-

57

ciais de pequeno porte, foram relacionados às

aldeias Guarani (amundá). Os sítios lito-cerâ-

micos menores e os exclusivamente líticos,

pouco mais distantes da margem do rio, com

indústrias formadas sobretudo por núcleos,

lascas residuais e retocadas unipolares e peças

bifaciais de porte avantajados, estariam rela-

cionados às áreas de cultivo, de manejo agro-

florestal e de extração de matérias primas mi-

nerais e vegetais, correspondendo a locais de

atividade específica distribuídos diferencial-

mente na área de domínio do tekohá.

Situação similar ao identificado no contex-

to arqueológico da Foz do Chapecó também

justificaria os sítios líticos estratificados e com

datações antigas associados ao médio vale do

rio Paraná, que também foram afiliados nas

sínteses regionais à Tradição Humaitá (Kern,

1981; Schmitz, 1984, 1987; Noelli, 1999/2000).

Este é o caso dos sítios líticos Brito, Almeida e

Camargo, no vale do rio Paranapanema (São

Paulo), dos sítios José Vieira e PR-QN-01, no

vale do rio Ivaí (Paraná) e PR-FI-21 e PR-FI-49,

na Foz do Iguaçu (Paraná) que apresentam se-

quências de datações entre 7000 e 2000 anos

AP (Chmyz, 1983; Laming-Emperaire, 1968;

Moraes, 1979; Pallestrini, 1980; Pallestrini &

Chiara, 1978; Vilhena de Moraes, 1977; Vilhe-

na-Vialou, 1980, 1983/1984).

Os sítios do vale do rio Paranapanema e o

sítio José Vieira foram escavados entre as déca-

das de 1950 e 1970 por metodologias distintas

à tradicionalmente utilizada pelo PRONAPA,

enfatizando áreas amplas e o registro contex-

tual das evidências, seguindo as orientações da

Escola Francesa. Todos correspondem a sítios

que apresentam sobreposição de ocupações,

sendo as mais antigas datadas entre 7.000 e

  • 2.600 anos AP e associadas unicamente a con-

juntos líticos, e as mais recentes datadas entre

  • 1.200 e 400 anos AP, com associação a conjun-

tos lito-cerâmicos da Tradição Guarani. No

caso do vale do Paranapanema, as sequências

de datações radicarbônicas e as análises dos

REVISTA DE ARQUEOLOGIA

Volume 23

- N.2:40-67

- 2010

58

planos de escavação demonstram tratar-se de

claros contextos de sobreposição de ocupa-

ções, separados por camadas aluviais estéreis,

associadas a marcos específicos na paisagem:

os afloramentos rochosos de basalto ou arenito

silicificado. Esta situação é mais evidente no

caso dos sítios Camargo e Almeida cujas in-

dústrias líticas caracterizam-se pela utilização

preferencial dos afloramentos de arenito silici-

ficado situados nas proximidades. Nos níveis

líticos do sítio Almeida, os extensos estudos

tecno-tipológicos desenvolvidos indicam o pre-

domínio de áreas de lascamento e produção de

artefatos elaborados sobre lascas retocadas as-

sociadas aos níveis ocupacionais antigos data-

dos em 3.600 anos AP, estando os bifaces de

grande porte associados preferencialmente aos

níveis lito-cerâmicos mais recentes vinculados

à ocupação Guarani (Vilhena-Vialou, 1980:

155). No caso do sítio Camargo, as zonas de

lascamento também estão presentes nos níveis

ocupacionais mais antigos, porém somente

neste sítio foi encontrado um conjunto de pon-

tas de projétil datadas de 4.250 anos AP (Palles-

trini, 1980; Pallestrini & Chiara, 1978). As pecu-

liaridades destas indústrias bifaciais associadas

à ausência ou pequena representatividade de

pontas de projétil nas amostras regionais é que

determinou sua afiliação cultural à Tradição

Humaitá nas sínteses histórico-culturais ela-

boradas na década de 1980 (Kern, 1981; Sch-

mitz, 1984, 1987).

Analisando-se o contexto regional do Para-

napanema, à luz das pesquisas atuais relativas

às ocupações caçadoras coletoras das Terras

baixas americanas, sugere-se que este repre-

senta uma zona de transição/tensão entre dois

blocos culturais distintos: os caçadores coleto-

res do cerrado associados à Tradição Itaparica

e os caçadores coletores da floresta Atlântica

associados à Tradição Umbu, o que justificaria

a variabilidade regional de suas indústrias se

comparadas ao do Brasil meridional (Dias &

Bueno, 2010; ver também Caldarelli, 1983, Vi-

lhena-Vialou, 2009). Porém, as diferenças in-

ter-sítios, tanto em termos sincrônicos como

diacrônicos, podem estar refletindo diferentes

aspectos de um complexo situacional de sítios,

representando os sítios líticos áreas de ativida-

de limitada associados à exploração dos aflo-

ramentos rochosos, tanto por grupos caçado-

res coletores, quanto pelos grupos agricultores

que em cronologia mais recente ocuparam as

mesmas regiões.

Situação similar também explicaria as in-

dústrias bifaciais sem pontas de projétil asso-

ciadas aos sítios líticos estratificados com da-

tações do Holoceno Médio nos vales dos rios

Ivaí, Guaíra e Foz do Iguaçu, abrangendo as

fases Ivaí, Pirajuí, Timburi e Tatuí. Para estes,

contudo, dispomos de informações mais limi-

tadas quanto às características deposicionais,

tendo em vista os enfoques metodológicos das

pesquisas (Chmyz, 1983). Porém, para contex-

tos regionais cujas indústrias líticas foram es-

tudadas em maior detalhe, a ausência de pon-

tas de projétil não justifica a inexistência de

relação contextual com os sistemas de assen-

tamento da Tradição Umbu. Este é o caso dos

sítios em abrigo sob rocha que apresentam

petroglifos da fase Canhemborá, associados

ao vale do rio Jacuí, no Estado do Rio Grande

do Sul. Embora as pontas de projétil sejam

pouco significativas em termos quantitativos

nas coleções líticas destes sítios, a análise

comparativa da organização tecnológica e dos

estilos rupestres com contextos contemporâ-

neos permite a percepção de que se trata de

locais de atividade específica e de natureza

simbólica associados ao complexo situacional

de sítios que compõem os modelos de sistema

de assentamento da Tradição Umbu (Dias,

2003, 2004a; Castelhano, 2003).

o PRobLEmA tECnoLóGICo Em ContExto

Se por um lado o problema Humaitá reflete

questões de natureza interpretativa quanto ao

Indústrias Líticas em Contexto: O Problema Humaitá na Arqueolog ia Sul ...

Indústrias Líticas em Contexto: O Problema Humaitá na Arqueolog ia Sul ...

Adriana Schmidt Dias e Sirlei Elaine Hoeltz

contexto regional e cronológico das indústrias

líticas do sul do Brasil, por outro igualmente

revela possibilidades de análise quanto aos sig-

nificados culturais da variabilidade tecnológi-

ca relacionada à produção de artefatos bifa-

ciais. Compreender a tecnologia lítica em

contexto significa integrá-la aos sistemas tec-

nológicos de uma dada sociedade, permitindo

situar a variabilidade observada como uma

construção social resultante de escolhas cultu-

ralmente determinadas. Para Lemmonier, a

tecnologia é um produto social, sendo as esco-

lhas tecnológicas estratégias dinâmicas, rela-

cionadas frequentemente com diferenciação e

identidade social. As técnicas são produções

sociais que expressam e definem identidades,

auxiliando a reafirmar, representar e dar sen-

tido a um mundo socialmente construído de

possibilidades e limites (Lemmonier, 1986).

De acordo com esta lógica, grupos vizinhos,

em geral, têm plena consciência das suas esco-

lhas técnicas mútuas e a ausência de um dado

traço tecnológico em um dos sistemas pode

representar uma estratégia consciente de de-

marcação de diferenciação social (Dobres &

Hoffman, 1994). Portanto, os sistemas tecnoló-

gicos são um recurso e um produto de criação

e manutenção de um ambiente natural e so-

cial, simbolicamente constituído, estando a sua

investigação voltada para o entendimento de

sua relação com os demais sistemas de repre-

sentação social (Dias & Silva, 2001).

Sob esta perspectiva, cronologias e tipolo-

gias não bastam para distinguir coleções líti-

cas, tampouco defini-las. As definições, assim

sustentadas, somente correspondem a uma

realidade tipológica que mascara realidades

técnicas que podem ser muito distintas (Boëda,

1997). Este é o caso da Tradição Humaitá cuja

caracterização tecnológica sustentou-se ao

longo dos anos como um paradigma aparen-

temente imutável, sem a percepção de que os

conjuntos líticos a ela relacionados têm signi-

ficados que vão além da forma dos artefatos.

59

Na busca dessa realidade subentendida os ob-

jetos técnicos devem ser definidos pela sua

gênese e não como meramente utensílios.

Esta maneira de apreender a realidade nos

permite disponibilizar de um gradiente suple-

mentar para a análise da variabilidade que

busca investigar as razões de uma dada con-

vergência tipológica.

As análises tecnológicas sugeridas por

Boëda (1997) permitem, teoricamente, com-

preender um sistema técnico de produção

segundo dois eixos. O primeiro diz respeito à

cadeia operatória, que traduz a sucessão ló-

gica dos eventos técnicos. O segundo refere-

-se ao esquema operatório que traduz os as-

pectos cognitivos desta cadeia operatória. é

consenso entre os tecnólogos reconhecer

que um ato técnico isolado é raro e que este

se organiza em séries de operações que so-

mente têm sentido como elos, indispensáveis

e independentes, de uma sequencia nomea-

da de cadeia operatória (Desrosiers, 1991).

De acordo com Perlès (1992), através da se-

quência operacional que leva ao descarte do

artefato lítico, o artesão dispõe de uma série

de opções técnicas, econômicas, sociais e

simbólicas, e a combinação destas pode ex-

pressar-se em termos de estratégias. Para

muitos autores, a cadeia operatória, na práti-

ca, divide-se em três estágios que repousam

sobre bases conceituais diferentes e ocorrem

em sucessão temporal: aquisição de matéria

prima, produção de instrumentos e agencia-

mento do conjunto de instrumentos (Boëda,

1986, 1997; Boëda et al., 1990; Geneste, 1991;

Pelegrin, 1995; Perlès, 1992; entre outros).

Numa compreensão cognitiva das produ-

ções, Boëda (1997) afirma que a realização

de um ato ou de uma sucessão lógica de atos

só é possível pela aplicação de conhecimen-

tos técnicos e de saber-fazer, sendo estes co-

nhecimentos adquiridos desde muito cedo e

quotidianamente pelos artesãos. Dependen-

do da estrutura interna das sociedades e da

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complexidade das técnicas em uso, a aquisi-

ção precoce faz com que os conhecimentos

sejam aprendidos sem necessariamente se-

rem pensados ou discutidos. O autor acres-

centa que estes conhecimentos e saber-fa-

zer técnicos são considerados rígidos e não

serão renegociados na vida adulta, ainda

que uma flexibilidade de adaptação seja

sempre possível. Para Boëda é em função

desta rigidez, sinônimo de estabilidade, que

se pode reconhecer, individualizar e dife-

renciar os saberes técnicos de uma determi-

nada sociedade.

Para operacionalizar, na prática, a análi-

se das sequências gestuais empreendidas

pelos artesãos, recorremos à leitura diacrí-

tica dos instrumentos. Neste tipo de análise

se busca revelar os diferentes agenciamen-

tos que conduziram o artesão à produção do

objeto planejado, que nada mais é senão

procurar dispor em ordem cronológica as

retiradas determinadas pelo artesão ao cur-

so de uma caminhada refletida (Pele -

grin,1995; Boëda, 1997). Parte-se da pers-

pectiva que na produção de um dado

instrumento, o artesão, após a obtenção do

suporte, efetua retiradas numa ordem cro-

nológica a partir das quais organiza super-

fícies a fim de impor ao objeto uma deter -

minada estrutura e, neste processo, ele cria

superfícies adequadas para compor unida-

des ativas e/ou passivas. Assim formado, o

instrumento decompõem-se em três par -

tes: 1) uma parte receptiva de energia que

coloca o instrumento em funcionamento;

2) uma parte preensiva que permite ao ins-

trumento funcionar, podendo, em certos

casos se sobrepor à primeira; e 3) uma par-

te transformativa. Cada uma destas partes

constitui-se de uma ou várias Unidades

Tecno-Funcionais (UTFs). Portanto, a dife-

renciação das sequências ou etapas de las-

camento traduz-se pela interpretação do

objetivo de cada retirada, individualmente,

para em seguida relacioná-las a uma ou

mais unidades tecno-funcionais. Este pro-

cedimento resulta na identificação técnica

de cada uma das etapas, podendo tratar-se

de uma Unidade Tecno-Funcional Trans -

formativa (parte ativa do instrumento) ou

de uma Unidade Tecno-Funcional Preensi-

va (parte passiva do instrumento).

Para o reconhecimento específico das

UTFs transformativas de peças bifaciais,

Boëda observa que há várias combinações

entre as duas superfícies que as compõem

(entre superfícies planas e convexas). Explica

que a assimetria existente entre estas duas

superfícies faz com que os planos de seção

das bordas (planos de corte) sejam também

assimétricos e que modificações podem ocor-

rer às custas destes planos de corte. Se tais

modificações corresponderem a uma afiação

(ou retoque) tem-se um novo plano de seção

e a este denomina-se plano de bico. Obser-

vando o modo como estas afiações foram efe-

tuadas, o autor identificou sempre o mesmo

procedimento, isto é, modificações às custas

da superfície superior, convexa ou irregular,

a partir da superfície inferior, sempre plana.

Frente a essas observações, Boëda afirma que

não há outra maneira de modificação para as

peças bifaciais (Boëda, 1997). Mediante tais

procedimentos, ao término da leitura das pe-

ças bifaciais ter-se-á definido os elementos e

caracteres técnicos que as constituem e, num

processo de encadeamento desses atributos,

a sua gênese. A interpretação dessas infor-

mações torna possível definir como e por que

os instrumentos foram produzidos e, ao com-

pará-los, definir quem os produziu (para a

leitura de outras categorias de objetos líticos

ver Hoeltz, 2005).

As indústrias líticas bifaciais englobadas

pelo conceito de Tradição Humaitá represen-

tam realidades complexas e sua variabilidade

espacial indica escolhas culturais e identida-

des sociais que estão refletidas nas cadeias

Indústrias Líticas em Contexto: O Problema Humaitá na Arqueolog ia Sul ...

Indústrias Líticas em Contexto: O Problema Humaitá na Arqueolog ia Sul ...

Adriana Schmidt Dias e Sirlei Elaine Hoeltz

operatórias de produção. Um exemplo dessa

variabilidade de natureza cultural das esco-

lhas tecnológicas pode ser visto no contexto de

ocupação do alto vale do rio dos Sinos, região

nordeste do rio grande do Sul (Dias, 2003,

2006a, 2007b). A análise comparativa das ca-

deias operatórias relacionadas à produção de

artefatos bifaciais de grande porte associados a

sistemas de assentamento distintos indicou va-

riações culturais significativas. Nos conjuntos

líticos da Tradição Guarani, os seixos de mor-

fologia alongada foram selecionados como su-

porte preferencial para a produção de artefatos

unifaciais e bifaciais, sendo mais frequentes

nas coleções as categorias relacionadas às pri-

meiras etapas da cadeia operatória que seriam

descartados em maior frequência junto aos

locais de produção de artefatos (tradicional-

mente definidos como choppers e chopping

tools). As características deste conjunto artefa-

tual indicam que as faces planas originais do

seixo selecionado para a produção do artefato

serviram como plataforma inicial para o lasca-

mento. O lascamento primário inicia-se, em

geral, por duas retiradas em uma das faces,

para teste da matéria prima, centrando-se em

apenas uma das extremidades da peça. Esta

etapa de produção gera um gume funcional,

podendo o artefato ser utilizado, abandonado

em função da presença de irregularidades na

matéria prima ou sofrer de dois a três lasca-

mentos na face oposta, produzindo um gume

bifacial, com terminação em ponta. Intensifi-

cando-se a redução primária em uma das fa-

ces do artefato pode-se ampliar o gume bifacial

até a metade da peça ou optar-se por estender

a redução primária por todo o contorno da

peça, formando um gume periférico. Chama a

atenção que os tipos formais de artefatos destas

coleções líticas da tradição Guarani poderiam

ser relacionados à definição original da fase

Camboatá da tradição Humaitá definida por

Miller (1967). Por sua vez, os conjuntos líticos

da tradição Taquara estão associados à redu-

61

ção de núcleos e produção de bifaces junto aos

afloramentos de basalto. Os bifaces são elabo-

rados sobre blocos de afloramento e a quanti-

dade de córtex é significativa, sendo o investi-

mento tecnológico de formatação relacionado

à elaboração de gume ativo bifacial, apenas em

uma ou em ambas extremidades. Destaca-se

que de acordo com a definição formal do PRO-

NAPA, estes conjuntos líticos da Tradição Ta-

quara se enquadrariam na definição original

da fase Humaitá realizada por Miller (1967).

Para ambos contextos culturais, no entanto, os

artefatos bifaciais serviam a atividades simila-

res podendo ser transportados e utilizados em

distintas atividades nas áreas domésticas, de

cultivo e de manejo agroflorestal.

Outro exemplo pode ser atestado através da

pesquisa efetuada na área de implantação da

Linha de Transmissão Garabi-Itá, localizada

na região noroeste do Rio Grande do Sul (Ho-

eltz, 2005). Neste trabalho, foram selecionadas

para análise as indústrias de três sítios líticos

localizados no vale do rio Ijuí situados em uma

área que também apresenta contextos arqueo-

lógicos relacionados à ocupação Guarani. To-

das as coleções são formadas por núcleos, las-

cas, detritos e artefatos brutos e por peças

bifaciais diversas, especialmente as de grande

porte. A análise da cadeia operatória demons-

trou que essas indústrias foram produzidas,

desde as etapas iniciais, com a seleção e a aqui-

sição das matérias primas, até as etapas finais

de produção, com o agenciamento dos instru-

mentos, através de semelhantes estratégias. Os

artesãos optaram preferencialmente por uma

variedade de rochas metamórficas, ao invés

das rochas basálticas altamente disponíveis na

região. Os aspectos que os levaram a essas es-

colhas seriam a alta qualidade do lascamento,

a necessidade técnica e a restrição funcional.

Selecionadas, as rochas foram transportadas

ao local de assentamento e as produções se de-

ram a partir de dois esquemas operatórios: de-

bitagem e façonnage. Todas as peças foram

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produzidas mediante a técnica de percussão

unipolar com o emprego do percutor duro. A

partir da análise diacrítica dos núcleos e dos

instrumentos, constatou-se que determinados

caracteres técnicos tornavam as peças distintas

uma das outras, mas que essas diferenças

eram comuns às três indústrias. Assim, segun-

do suas estruturas, os núcleos e os instrumen-

tos foram agrupados em diferentes categorias

e, estes últimos, segundo a construção volumé-

trica, a organização das UTFs transformativas

e o tipo de suporte, em diferentes tecnotipos.

Quanto à produção dos instrumentos, ficou

evidente que inúmeros caracteres técnicos

eram comuns a peças pertencentes não so-

mente a tecnotipos, mas também a categorias

Figura 3. Peças bifaciais multifuncionais da área de implantação da Linha de Transmissão Garabi-Itá (ilustrações: Sirlei

Figura 3. Peças bifaciais multifuncionais da área de implantação da Linha de Transmissão Garabi-Itá (ilustrações:

Sirlei E. Hoeltz)

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Adriana Schmidt Dias e Sirlei Elaine Hoeltz

e, não raramente, a sítios diferentes. Tal cons-

tatação sugeriu que soluções técnicas idênticas

estavam sendo reproduzidas em peças criadas

a partir de métodos operacionais distintos.

Dentre essas concordâncias técnicas encontra-

-se o modo de produção das grandes peças bi-

faciais, onde: a) o lascamento inicial se proces-

sava a partir de blocos elipsóides; b) os blocos

correspondiam aos suportes dos instrumentos;

c) os planos de corte eram sempre criados a

partir de superfícies planas; a extremidade dis-

tal era sempre pontiaguda; e e) a superfície

cortical, quando mantida, relacionava-se sem-

pre à UTF preensiva. Outras características

técnicas comuns dizem respeito à multifuncio-

nalidade da maior parte dos instrumentos, à

criação de UTF opostas e invertidas, à adequa-

ção e organização de zonas preensivas, à pro-

dução de peças trifaciais e à correlação exis-

tente entre a organização de UTFs(t) e de

determinados tipos técnicos (figura 3). Frente

a esses resultados, ficou evidente que as três

indústrias eram muito semelhantes entre si e

que estas correspondiam a escolhas técnicas

de um mesmo grupo cultural, representando

áreas de extração de matérias primas e produ-

ção de bifaces associadas ao complexo situa-

cional de sítios da Tradição Guarani.

Tomando por referência os estudos acima

apresentados é possível perceber que a avalia-

ção da procedência dos conceitos de Tradição

e fase só é possível a partir de estudos específi-

cos, de caráter regional, que respeitem a con-

textualização espacial dos sítios em suas carac-

terísticas internas e externas. No entanto, estes

aspectos contextuais devem necessariamente

estar associados a estudos de coleções que

compreendam os artefatos enquanto resulta-

dos de escolhas tecnológicas e, portanto, pro-

duto de uma tradição cultural que sinalizam,

em última instância, fronteiras e identidades

sociais no registro arqueológico. No caso espe-

cífico da arqueologia do sul do Brasil, análises

desta natureza, conduzidas nos últimos anos,

63

indicam uma clara distinção nas estratégias de

organização tecnológica entre caçadores cole-

tores, representados pela Tradição Umbu, e os

diferentes grupos agricultores, representados

pelas Tradições Guarani e Taquara-Itararé.

Para estes dois últimos casos, as distinções tec-

nológicas identificadas nas cadeias produtivas

da cerâmica também encontram reflexos no

sistema tecnológico relacionado aos conjuntos

líticos. Estas diferenças, porém, não se refle-

tem apenas na morfologia dos artefatos bifa-

ciais de grande porte (talhadores), tradicional-

mente identificados como fósseis guia da

tradição Humaitá, mas estão demarcadas por

diferenças claras nas cadeias operatórias aos

quais estes estão relacionados, indicando esco-

lhas tecnológicas sinalizadoras de identidades

sociais distintas (Dias, 2007a).

Con SIDERA çõ ES f I n AIS

A análise do problema Humaitá na arque-

ologia sul brasileira revela as implicações in-

terpretativas de duas perspectivas analíticas

opostas. De um lado, os conjuntos artefatuais

aferidos à Tradição Humaitá são entendidos

pela perspectiva histórico-cultural como assi-

naturas que representam a variação espaço-

-temporal de uma suposta ocupação caçadora

coletora. De outro, pela perspectiva sistêmica,

a variabilidade tecnológica destas indústrias

líticas é entendida enquanto carregada de sig-

nificados contextuais relativos a distintas for-

mas de ocupação e utilização do espaço regio-

nal no passado pré-colonial.

A avaliação do problema Humaitá em rela-

ção aos contextos regionais permite perceber

que a variabilidade destas indústrias bifaciais

está associada a complexos situacionais de sí-

tios pertencentes a diferentes sistemas de as-

sentamento. Os estudos de caso aqui analisa-

dos permitem concluir que os sítios líticos que

se relacionam aos sistemas de assentamento

de agricultores da região sul brasileira apre-

sentam distinções relacionadas aos contextos

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funcionais aos quais estão associados. Nos

contextos domésticos das aldeias, predomi-

nam conjuntos líticos vinculados a atividades

de preparo e consumo de alimentos e às práti-

cas artesanais e simbólicas, destacando-se os

resíduos de lascamento, os artefatos brutos e

os artefatos polidos. Conjuntos líticos distintos

estão associados a atividades especificas de-

sempenhadas fora do perímetro da aldeia,

como a extração de matérias primas litológi-

cas, às práticas de cultivo, à extração e ao pro-

cessamento de material construtivo utilizado

na sede da aldeia e à confecção de estruturas

habitacionais e cerimoniais. As atividades es-

pecíficas desempenhadas em cada um destes

locais geram concentração de resíduos de las-

camento e de artefatos em distintas fases de

confecção que podem situar-se a distâncias

variadas da sede da aldeia, de acordo com as

disponibilidades de matérias primas em ter-

mos locais. Nos locais de extração de matéria

prima, predominam resíduos de lascamento e

artefatos bifaciais que podem ter sido abando-

nados nos locais de produção em função de

acidentes de lascamento ou imperfeições da

matéria prima. Nos locais de cultivo e manejo

agroflorestal encontram-se conjuntos de arte-

fatos bifaciais de grande porte e de caracterís-

ticas multifuncionais, genericamente deno-

minados talhadores, que podem ter sido

intencionalmente estocados ou abandona-

dos em função do desgaste, justificando nes-

te caso a presença de conjuntos de artefatos

achados de forma isolada na paisagem.

A avaliação do problema Humaitá em rela-

ção aos contextos cronológicos do sul da Brasil

igualmente revela inconsistências de interpre-

tação quanto às características deposicionais

de conjuntos líticos datados do Holoceno Ini-

cial e Médio onde as pontas de projétil estão

ausentes ou são pouco frequentes. Os casos

aqui analisados indicam que estes sítios líticos

estratificados também se relacionam a locais

de atividades específicas associados ao com-

plexo situacional de sítios que compõe os siste-

mas de assentamento da Tradição Umbu.

Contudo, os problemas de natureza inter-

pretativa associados ao conceito Tradição

Humaitá igualmente revelam possibilidades

de análise quanto aos significados culturais

da variabilidade tecnológica relacionada à

produção de artefatos bifaciais. As indústrias

líticas englobadas pelo conceito de Tradição

Humaitá representam realidades complexas

e sua variabilidade espacial e temporal indi-

cam escolhas culturais que estão refletidas

nas cadeias operatórias de produção e estra-

tégias de usos. Desta forma, é na análise dos

sistemas tecnológicos que encontramos o

suporte metodológico para interpretar o sig-

nificado dos sítios líticos em associação con-

textual a distintos sistemas de assentamento

em âmbito regional e temporal.

Indústrias Líticas em Contexto: O Problema Humaitá na Arqueolog ia Sul ...

Indústrias Líticas em Contexto: O Problema Humaitá na Arqueolog ia Sul ...

Adriana Schmidt Dias e Sirlei Elaine Hoeltz

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Indústrias Líticas em Contexto: O Problema Humaitá na Arqueolog ia Sul ...

Indústrias Líticas em Contexto: O Problema Humaitá na Arqueolog ia Sul ...

Adriana Schmidt Dias e Sirlei Elaine Hoeltz

67

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REVISTA DE ARQUEOLOGIA

Volume 23

- N.2:40-67

- 2010

68

ARTIGO

análise intra-sÍtio do sÍtio JUstino, Baixo sÃo FranCisCo – as Fases oCUpaCionais

marcelo fagundes Coordenador do Laboratório de Arqueologia e Estudo da Paisagem da Universidade federal dos vales do Jequitinhonha e mucuri (UfvJm) marcelo.fagundes@ufvjm.edu.br/ fagundes_fgs@yahoo.com.br

 

RESU mo

O presente artigo é fruto da tese de douto-

ramento intitulada Sistema de assentamento e

A b S t RACt

tecnologia lítica: organização tecnológica e va-

This paper is part of the thesis named

riabilidade no registro arqueológico em Xingó,

“Settlement Systems and Lithic Technology:

Baixo São Francisco, Brasil, a qual teve como

technological organization and variability in

objetivo apresentar os resultados alcançados

archaeological record in Xingó Area, São

por meio de pesquisas sistemáticas de campo,

Francisco low valley, Brazil, that aimed to

laboratório e gabinete, que, interligadas, coligi-

present the final results of a long-term study

ram dados responsáveis por uma compreen-

after systematic research in field, laboratory

são mais assertiva sobre o modo de vida e di-

and in office that interconnected unify data

nâmica cultural dos grupos pré-históricos que

which gives an assertive understanding of

ocuparam a Área Arqueológica de Xingó du-

the life and cultural dynamic of prehistoric

rante quase oito milênios. Esse artigo, por sua

societies who occupied the Archaeological

vez, tem como objeto a compreensão de como

zone of Xingó during eight thousand years.

as populações pré-históricas que ocuparam a

This paper aims to comprehend how the pre-

região estabeleceram seu sistema regional de

historic groups established their regional

assentamento em terraço, tendo como hipóte-

settlement system on the fluvial benches. I

se norteadora que todos os sítios contemporâ-

used as a guide hypothesis the fact that all

neos estariam conectados entre si no chamado

contemporaneous sites were connected

complexo situacional de sítios. Para tanto foi

among them in a situational complex of sites.

utilizada a análise intra-sítio tendo como mo-

So, I used the intrasite analyze basing my

delo gravitacional o sítio Justino, de forma a

data in Justino archaeological site, my gravi-

elucidar o sistema de assentamento regional.

tational model, to elucidate the regional set-

Em relação ao referencial teórico, foram utili-

tlement system. I used multiples concepts

zados múltiplos conceitos e abordagens que

and approaches that worked together to un-

convergiram para a compreensão da paisagem

derstand the landscape while a social con-

enquanto construção social que, dotada de va-

struction immersed in social means and val-

lores e significados, pode ser compreendida

ues which have been understood as a loci of

como o loci de ocupação continuada, ou luga-

continuous occupation or persistent places

res persistentes.

K EY W o RDS Intrasite analyses, Settlement

PALAv RAS-CHAv E Análise intra-sítio, Sis-

Systems, Xingó

tema de Assentamento, Xingó

 
 

REVISTA DE ARQUEOLOGIA

Volume 23 - N.2:68-97

- 2010

70

I

nt R o DU ção

A vegetação circundante era a caatinga

O artigo aqui apresentado tem como obje-

hiperxerófita, constituída por cantigueiras

tivo apresentar os resultados da análise intra-

(caesalpinia bracteosa), juazeiros (ziziphus

sítio do sítio Justino (Fagundes, 2007), o que

joazeiro), pau-ferro (Caesalpinia ferrea), en-

denominamos de Fases de Ocupação, de modo

tre outras. Além disso, o terraço foi utilizado

que pudéssemos compreender a variabilidade

para plantações de subsistência de feijão (Vi-

tecnológica observada na análise dos conjun-

gna unguiculata) e milho (zea mays). Sendo

tos líticos que foram evidenciados durante as

assim, devido à intervenção antrópica em

campanhas de escavação do referido assenta-

função das atividades agrícolas, foram evi-

mento (Fagundes, 2010a; 2010b).

denciados na superfície deste sítio muitos

 

O sítio Justino foi o assentamento com

fragmentos cerâmicos. Além disso, as bor-

maior intervenção na Área Arqueológica de

das do terraço, por questões de ordem natu-

Xingó, já que o terraço onde estava localizado

ral, encontravam-se bastante erodidas em

foi completamente escavado em relação ao es-

toda sua extensão, fator responsável pela

paço/profundidade, atingindo o embasamento

perda de valiosas informações arqueológicas

rochoso, utilizando o método etnográfico de

(Vergne, 2004).

superfícies amplas (Leroi-Gourhan, 1950,

1972). Tal procedimento efetivou-se após a evi-

REfEREnCIAL tEóRICo

denciação de uma série de esqueletos huma-

O interesse de compreendermos a re -

nos geralmente associados a um rico enxoval

lação entre os diversos sítios contem -

funerário que, no final da escavação, totalizou

porâneos distribuídos em uma paisagem

167 sepultamentos com presença de 185 es-

centra-se na assertiva de que estes man -

queletos (Vergne, 2004).

têm relações intrínsecas entre si, cada

 

Este sítio localiza-se na fazenda Cabeça

um ocupando um papel no sistema produ -

de Nego, município de Canindé de São Fran-

tivo/ de subsistência, na mobilidade e na

cisco, na margem direita do São Francisco,

própria organização social e cultural dos

na confluência de um riacho, com coordena-

grupos pré-históricos.

das UTM 8.938.881/ 627.561. Sua área total é

Neste caso, esses sítios não podem ser com-

de aproximadamente 1.500 m2, com altitude

preendidos separadamente “(

)

como enti-

média de 37 metros em relação ao nível do

dades estáticas e isoladas” (Dias, 2003: 40), já

mar, sendo escavada uma área total de 1.265

que cada um assume uma função fundamen-

m2 (23 x 55 m).

tal dentro das estratégias/ escolhas do grupo.

 

Conforme Dominguez & Britcha (1997),

Cada sítio compreende, assim, uma cé -

a formação geológica deste terraço estava

lula dentro de um sistema sócio-cultural

associada à descida de sedimentos dos alti-

abrangente e de fundamental importância,

planos semi-áridos, sobretudo através do

mas que por si só não é capaz de esgotar a

riacho Curituba, formando deposições sed-

compreensão da organização tecnológi -

imentares de características deltaicas, com

ca 1 , da mobilidade, das estratégias, capta -

ocorrência de camadas aluvionares que

ção de recursos, enfim da dinâmica cul -

apresentavam espessuras variáveis, consti-

tural na pré-história.

tuídas por areia fina ou grossa, seixos, siltes

Além do mais, partindo do princípio de to-

e argilas. Além disso, deve-se citar o papel

talidade em Mauss (1974), a unidade se dá

das cheias do São Francisco para a deposição

pela complementaridade entre as partes con-

de sedimentos neste terraço.

stitutivas de um domínio cultural (abrangen-

 

ANÁLISE INTRA-SÍTIO DO SÍTIO JUSTINO, BAIXO SÃO FRANCISCO

– AS FASES OCUPACIONAIS

Marcelo Fagundes

71

do tanto o contexto social como natural), que,

texto sistêmico (Schiffer, 1972, 1983, 1987).

sob nosso ponto de vista, na Arqueologia se

Nesse artigo ao privilegiarmos as

visualiza pela identificação e correlação dos

análises intra-sítios – os diferentes tipos

geoindicadores 2 (Morais, 2006).

de uso de um dado assentamento em lon -

Logo, esse reconhecimento das caracter-

ga duração –, estávamos preocupados

ísticas regionais, que nos serviram de mod-

(no caso específico do sítio Justino), com

elo locacional de caráter preditivo, acaba

a distribuição espacial e relacional, além

por permitir à constituição dos lugares per-

da densidade e diversidade dos remanes -

sistentes 3 , inclusive como meio de estabel-

centes culturais bem como suas sequên -

ecer padrões à compreensão dos sistemas

cias operacionais de produção (Fagundes,

regionais de assentamento.

2010a, 2010b, 2010c), de modo que pu -

Com base nesses pressupostos só poder-

déssemos inferir seus “papéis” dentro da

emos realizar inferências sobre o sistema

organização social do grupo (ou grupos)

regional de assentamento quando estabelec-

em estudo.

emos correlações e conexões entre os diver-

Ou seja, o que pretendemos frisar é que os

sos sítios e lugares persistentes de uma área

estudos sistemáticos intra-sítio da distribuição

(Schlanger, 1992), relacionando-os impret-

e associação artefatual em termos espaço-tem-

erivelmente à paisagem, utilizando exem-

porais têm sido considerados inerentes à pes-

plos advindos da etnologia, da organização

quisa arqueológica que pretende compreender

tecnológica, das estruturas evidenciadas, das

a dinâmica cultural nas ocupações pré-históri-

possíveis escolhas, por meio do uso intensivo

cas, tendo em vista a integração dos processos

das geotecnologias, ou seja, por meio de in-

naturais e culturais de formação dos sítios ar-

ferências e dados estatístico-comparativos

queológicos (Panja, 2003).

que mapeiem as possibilidades (e restrições)

Aliás, para Bamforth et al (2005: 577) a pri-

para as hipóteses levantadas (Fagundes,

meira questão que se deve ter em mente antes

2009; Fagundes & Mucida, 2010).

de empreendermos a pesquisa arqueológica é

Portanto, a dinâmica cultural resultante

estabelecer critérios de compreensão de

dos processos de continuidade e mudança

como forças naturais e antrópicas interagi-

deve ser ‘garimpada’ em meio aos remanes-

ram para ‘criar’ um sítio arqueológico.

centes culturais nas escavações compreen-

Os trabalhos de André Leroi-Gourhan

dendo a estrutura de cada sítio, visto que a

durante as décadas de 1950 e 1960 sobre a

Arqueologia aqui é definida como a discip-

estrutura de sítios a céu aberto do paleolíti-

lina responsável em obter conhecimento

co europeu, sobretudo Pincevent, podem ser

(ou conhecimentos) válido sobre o passado.

apontados como precursores de análises

Isto é, buscar no estático representado pelo

que pretendem reconstruir (e interpretar)

registro arqueológico o dinamismo dos pro-

integralmente os solos de ocupação pré-his-

cessos e das conexões culturais, de modo a

tóricos, coligindo técnicas, métodos e refle-

encontrar no contexto arqueológico o con-

xões teóricas acerca da reconstrução dos

  • 1 Kelly define organização tecnológica como: “(

)

the spatial and temporal juxtaposition of the manufacture of different tools within

a cultural system, their use, reuse and discard, and their relation not only to tool function and raw material type, but also to behavioral

variables which mediate the spatial and temporal relations among activity, manufacture, and raw material loci” (Kelly, 1988: 717).

  • 2 “Elementos do meio físico-biótico dotados de alguma expressão locacional para os sistemas regionais de povoamento,

indicando locais de assentamentos antigos (

...

).

Assim, os geoindicadores arqueológicos sustentam um eficiente modelo

locacional de caráter preditivo, muito útil no reconhecimento e levantamento arqueológico” (MORAIS, 2006).

3

“(

...

)

places that were repeatedly used during long-term occupations of regions. They are neither strictly sites (that

is, concentrations of cultural materials) nor simply features of a landscape. Instead, they represent the conjunction of

particular human behaviors on a particular landscape” (Schlanger, 1992: 97).

REVISTA DE ARQUEOLOGIA

Volume 23 - N.2:68-97

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72

solos paleoetnográficos. Suas pesquisas,

deste modo, foram de fundamental impor-

tância para a compreensão das estruturas

in loco, que seria sob o nosso olhar o passo

inicial para a elaboração de inferências à

busca da compreensão do modo de vida e

dinâmica cultural de grupos pré-históricos

(Leroi-Gourhan, 1950, 1972).

Em suas reflexões Bamforth et al (2005),

também destacam que as análises intra-sí-

tio têm focado a distribuição dos artefatos

no solo arqueológico, utilizando diversas

técnicas para tal intento, de forma a eviden-

ciar o modo que o sítio arqueológico foi uti-

lizado em longa duração, isto é:

• Compreensão das estruturas internas dos

sítios e suas distribuições espaço-tempo -

rais;

• Demarcação meticulosa dos remanescen-

tes culturais, de acordo com os locais exatos

em que foram evidenciados durante as es-

cavações, assim como suas associações,

possibilitando a construção de mapas tridi-

mensionais para posterior comparação en-

tre os diferentes períodos de ocupação dos

sítios arqueológicos;

• Estratificação e análises estatísticas da di-

versidade e freqüência vertical (e horizon-

tal) dos remanescentes culturais;

• Evidenciação de características que apon-

tem para ocupação, abandono e reocupação

dos assentamentos;

• Distribuição das estruturas de combustão

e materiais associados, sobretudo em ocu-

pações de caçadores coletores;

• Inspeções visuais de mapas de distribui-

ção de vestígios (fato que exige o uso de fer-

ramentas apropriadas advindas da ciência

da informática).

Os autores destacam que em toda análi-

se arqueológica escolhas são realizadas

principalmente em relação aos métodos

analíticos utilizados pela pesquisa, incluin -

do as questões que serão abordadas, o tipo

de material que terá maior enfoque, além do

nível de detalhes espaciais disponíveis nos

dados a serem examinados. De forma geral,

as pesquisas se direcionam para as respos-

tas que são esperadas pelo arqueólogo (Ba-

mforth et al, 2005).

Já para Munday as análises intra-sítios

são extremamente relevantes na medida em

que cooperam para a elaboração de hipóte-

ses e interpretações que podem ser conclu-

sivas à compreensão inter sítios, sendo, por-

tanto, “(

...

)

uma ferramenta para testar

suposições implícitas que direcionam mui-

tas comparações contemporâneas tanto in-

ter sítio quanto inter níveis” (Munday, 1984:

32).

Trabalhando com sítios musterienses, a

autora enfatiza a importância da análise

intra-sítios para uma compreensão efetiva

das dimensões temporais e espaciais de um

assentamento como facilitador de uma aná-

lise regional, ou seja, de um sistema de as-

sentamento.

Por outro lado, nos pressupostos de Fer-

ring (1984), as atividades que são vistas

como o principal aporte para as análises es-

paciais, sendo definidas como tarefas que,

após sofrerem as ações do processo deposi-

cional, acabam por se transformarem em

remanescentes culturais alvos das interven-

ções e diagnósticos arqueológicos. Portan-

to, o foco central de uma análise intra-sítio

é a identificação das áreas de atividades em

um sítio passando para a estruturação dos

grupos e subgrupos que constituem os re-

manescentes destas. Na sua letra:

A principal função das análises intra-sítio é per- mitir uma visão explícita de como as atividades foram conduzidas em um sítio. As atividades podem ter sido estruturadas pela composição sócio-econômica/ étnica de uma unidade de as- sentamento; pelas relações de procura/ tarefas

ANÁLISE INTRA-SÍTIO DO SÍTIO JUSTINO, BAIXO SÃO FRANCISCO

– AS FASES OCUPACIONAIS

Marcelo Fagundes

73

de processamento que constituem o sistema de

• Maior desenvolvimento tecnológico ou

subsistência; a periodicidade/ intensidade da

da arte;

ocupação, etc. (Ferring, 1984:117).

• Ou mesmo questões sócio-ambientais que

interferem nos processos culturais do grupo

Entretanto, acreditamos que para que

(restrições, por exemplo).

haja um real entendimento do passado é

fundamental estabelecermos o caráter

A sedentarização, todavia, é responsá -

sistêmico às pesquisas arqueológicas, ou

vel por acarretar no aumento do número

como salientado por Panja (2003: 107),

da diversidade de sítios componentes de

por meio de modelos diacrônicos empre -

um sistema regional de assentamento em

endermos uma visão holística da nature -

função das especificidades inerentes às

za, contexto e processos formativos do

necessidades do novo sistema de subsis -

registro arqueológico.

tência/produtivo no tocante às estratégias

Para tanto, deve-se fazer uso de ferramen-

de obtenção de recursos (exploração, pro -

tas teórico-metodológicas que cooperem para

dução e apropriação). Com isso surgem

compreensão do contexto regional sob a égide

novos sítios mais especializados para de -

de abordagens paleoambientais, organização

terminada atividade social (Hitchcock,

tecnológica, organização cultural-produtiva e,

1987; Kelly, 1992).

numa amplitude maior, a interpretação inter

Mediante este aparato teórico devemos

sítios ou do sistema de assentamento 4 .

ter em mente uma série de condições que

Além do mais, alguns autores apontam

afetam a estrutura de um sítio em relação

que a mudança de um modo de vida nôma-

à densidade e freqüência artefatual, varia -

de para um mais sedentário pode estar vin-

bilidade espaço-temporal da distribuição

culada a um número infinito de causas, mo-

de vestígios e associações, e na própria

dificadas de região para região, de grupo

tecnologia; que, de certo modo, permitem

para grupo, visto que isso envolve novas

inferências acerca da emergência da com -

relações sociais (e de poder) intra-grupo,

plexidade social, padrões de mobilidade e

novas estratégias de mobilidade e apropria-

sedentarização para compreensão do sis -

ção de recursos, e mesmo uma maneira de

tema regional de assentamento, a saber:

perceber a paisagem que interfere no pa-

drão de assentamento, nos rearranjos espa-

• Os processos naturais de formação de um

ciais, em investimentos nas estruturas in-

sítio arqueológico;

tra-sítio, etc 5 .

• Que a “função” de um sítio, associada ao

Não há um consenso na literatura so -

tempo de permanência do grupo no assen-

bre os motivos reais para a sedentariza -

tamento, também são variáveis que alteram

ção, os quais são comumente vinculados

a estrutura e a formação do sítio arqueoló -

aos seguintes itens:

gico;

• Padrão de utilização e reutilização dos sí-

• Crescimento populacional e pressão de-

tios arqueológicos;

mográfica;

• Que não há necessariamente uma associa-

• Indícios de complexidade social;

ção entre o contexto de uso de um artefato e

  • 4 Discussões sob esses assuntos em Xingó são encontradas em Fagundes (2007:429-499).

  • 5 Segundo análises de Vergne (2004), o sítio Justino é marcado pela permanência cultural, sendo que as mudanças observadas

nas cadeias operatórias ou nas estruturas internas do assentamento são vistas como um “rearranjo” na organização interna do

grupo, em um processo de maior sedentarização nos terraços.

REVISTA DE ARQUEOLOGIA

Volume 23 - N.2:68-97

- 2010

74

o seu contexto de descarte (noção de refugo

-temporal dos remanescentes culturais e

primário, secundário e refugo de facto.

aliadas às associações e estruturas no

Schiffer, 1972);

solo ocupacional do referido sítio arque -

• Flutuações climáticas e sazonalidade de

ológico. Além disso, pudemos perceber

recursos (ou abundância de recursos obte-

que a análise dos processos formativos

níveis na paisagem);

vai de encontro com as conjecturas de

• Crescimento populacional e pressão de-

Dominguez & Britcha (1997, p. 06), com

mográfica;

concentração destes remanescentes em

• Diferenças organizacionais nas estratégias

faixas entre 40 e 70/80 cm de espessura.

de mobilidade (residencial e logística);

Logo, tendo como suporte os traba -

• Manejo de informações e manutenção de

lhos realizados em Xingó sobre paleoam -

território (disputas e competições intra e in-

biente, sobretudo de Ab’Saber (2002) e

ter grupos);

Dominguez & Britcha (1997); acerca da

• Questões acerca da integração social, rela-

ritualidade (Vergne, 2004); da bioantro -

ções familiares/ parentesco, relações de po-

pologia (Carvalho, 2006), da análise da

der, gênero e prestígios, assim como dife-

cultura material cerâmica (Luna, 2001),

renciação social;

dos resultados laboratoriais das cadeias

• A organização e os tipos de atividade que

operatórias líticas (Fagundes, 2010a,

são levadas a cabo em um sítio, sejam bases

2010b, 2010c; Mello, 2005; Silva, 2005);

residenciais ou locações de atividades espe-

formação e uso de sítios arqueológicos

cíficas, estando vinculados aos preceitos

(Schiffer, 1983, 1987), entre outros; traça -

culturais do grupo, além disso, dependendo

mos um modelo sobre a ocupação espa -

do tipo de matéria-prima a ser manufatura-

ço-temporal (análise intra-sítio) do sítio

da, longevidade da atividade, aspectos sim-

Justino e, a partir daí, inferirmos sobre a

bólicos associados ao trabalho, podem alte-

variabilidade espacial e relacional (aná -

rar significantemente a cadeia operatória e

lise inter sítios), para compreensão do

o processo de descarte;

dos sítios em terraço do sistema regional

• Cada grupo apresenta padrões próprios de

de assentamento (Fagundes, 2007).

manutenção dos sítios e atividades de des-

Logo, os episódios ocupacionais do sí -

carte, isto é, noções de higiene que alteram

tio Justino foram pensados (e guiados)

a formação do registro arqueológico;

não exclusivamente pelas decapagens 6

• Cada grupo tem percepções particulares

realizadas em campo, mas pela somató -

sobre as atividades que desempenha, assim

ria de resultados das pesquisas científi -

como noções próprias de como os objetos

cas realizadas em Xingó, sobretudo após

são usados e quando e porque devem ser

da sistematização dos dados pela equipe

descartados.

de geoprocessamento do MAX/UFS.

Entre as Fases 01 a 03 do Justino, sobre-

AS fASES DE oCUPAção

tudo em torno das decapagens 59 até 25 – a

Com base no referencial descrito, nos -

análise dos remanescentes culturais permi-

sas análises levaram a compreensão de

tiu a inferência de que neste terraço ocorre-

cinco fases distintas de ocupação do sítio,

ram flutuações em termos ocupacionais,

obtidas por meio da distribuição espaço -

sendo que na Fase 02 (decapagens 42 a 35),

  • 6 O uso desse termo, para se referir às técnicas de escavação em Xingó, foi instituído por Vergne (2004).

ANÁLISE INTRA-SÍTIO DO SÍTIO JUSTINO, BAIXO SÃO FRANCISCO

– AS FASES OCUPACIONAIS

Marcelo Fagundes

75

   
   
   

Profundidade

         

Decapagem

(base da

Método

Laboratório

Cronologia

estrutura)

03

40

cm

  • C 14

 

Inst. Radiocarbônico da Univ. de Lyon – França

1280±45 AP

06

60

cm

  • C 14

 

Inst. Radiocarbônico da Univ. de Lyon – França

1780±60 AP

08

90

cm

  • C 14

 

Instituto de Geociências da UFBA

2530±70 AP

10

1,10 m

  • C 14

 

Instituto de Geociências da UFBA

2650±150 AP

13

1,40 m

  • C 14

 

Inst. Radiocarbônico da Univ. de Lyon – França

3270±135AP

20

2,10 m

  • C 14

 

Beta Analytic – USA

4790±80 AP

30

3,10 m

  • C 14

 

Beta Analytic – USA

5570±70 AP

40

4,10 m

  • C 14

 

Beta Analytic – USA

8950±70 AP

04

0,50 m

TL

 

LabDat / UFS

2191±276 AP

08

0,90 m

TL

 

Instituto de Geociências da UFS

1800±150 AP

08

0,90 m

AD

 

LabDat / UFS

2010±430AP

10

1,10 m

AD

 

LabDat / UFS

2700±620 AP

10

1,10 m

TL

 

Instituto de Geociências da UFS

2050±140 AP

13

1,40 m

PD

 

LabDat / UFS

4310±800 AP

15

1,60 m

TL

 

LabDat / UFS

3865 ± 398 AP

20

2,10 m

TL

 

Instituto de Geociências da UFS

4496±225 AP

20

2,10 m

AD

 

LabDat / UFS

5500±980 AP

Tabela 01. Datações do sítio Justino. Legenda: C 14 (Carbono 14); TL (termoluminescência); AD (Dose aditiva); PD

 

(pré-dose). Fontes: Vergne, 2004; MAX, 2006b; Santos & Munita, 2007

 

a freqüência artefatual demonstrou que a

sociados, além de muitas manchas de dife-

área foi mais procurada que nos demais pe-

rentes colorações, algumas das quais com

ríodos de ocupação (Fases 01 e 03), não ha-

presença de restos faunísticos, ferramentas

vendo no registro arqueológico, com base

líticas e muito pouco carvão. Por meio do

na distribuição e freqüência artefatual, evi-

carvão extraído da fogueira 25 (decapagem

dências de abandono por longo período

40) nos forneceu a datação mais antiga da

para a Fase 02.

 

área: 8950 ± 70 A.P. (Tabela 01).

 
 

Na Fase 01 observou-se que os solos

Como veremos, esta fixação próxima ao

de ocupação estavam abaixo do nível atu -

rio adquiriu características peculiares de

al do rio no momento da escavação, ou

forma que podemos indicar o papel base

seja, houve alterações em seu curso e/ ou

do Justino neste momento, inclusive desta-

volume ao longo do tempo. Tal fato pode

cando que é a partir deste período que o

ser a explicação pela quantidade menor

sítio passa a ser utilizado como cemitério.

de vestígios e, principalmente, a inexis -

Além disso, como apontado nas análi -

tência em algumas camadas de estrutu -

ses acerca da ritualidade funerária em

ras de combustão (foram evidenciadas

Xingó realizada por Vergne (2004), se tra -

apenas manchas).

 

ta do intervalo onde houve, segundo a

 

A fase seguinte (Fase 02) é um momen-

autora, a menor distinção social entre os

to de presença de estruturas de combustão

indivíduos, fato que nos permitiu inferir

com material lítico e restos faunísticos as -

que não houve nenhum tipo de diferen -

 

REVISTA DE ARQUEOLOGIA

Volume 23 - N.2:68-97

- 2010

76

ciação social e que a maior “fixação” nes -

capagem 19 (entre 1,90 e 2,00 m de pro -

te período não esteja vinculada ao cresci -

fundidade) em diante.

mento populacional ou questões acerca

A cerâmica surge no registro arqueo -

de prestígio, poder, cooperação ou mes -

lógico a partir da decapagem 32 (01 frag -

mo competição.

mento de bojo evidenciado a 3,29 m de

Nossa hipótese diz respeito às flutua -

profundidade), entretanto só se torna re -

ções paleoclimáticas que podem ter ocor -

presentativa entre as decapagens 21 e 19

rido (Ab’Saber, 2002; Cavalcanti, 2005), e

(um intervalo entre 2,20 m e 2,00 m de

que tiveram como conseqüência uma va -

profundidade) 8 , com significativo au -

riabilidade significativa nos padrões eco -

mento de elementos a partir da decapa -

nômicos/ produtivos e de subsistência do

gem 17 (137 fragmentos evidenciados a

grupo (grupos), obrigando-o a permane -

1,80 m de profundidade).

cer mais tempo no canyon e próximo ao

A Fase 04 é o período de mais intensa

rio, local com maiores possibilidades e

ocupação do Justino, visto que se observa

com menor propensão às flutuações pa -

maior quantidade e diversidade de rema -

leoambientais do período, ou seja, com

nescentes culturais. Todo o arranjo das

probabilidade menor de ocorrência de sa -

estruturas, distribuição espacial, concen -

zonalidade de recursos (Ab’Saber, 2002).

trações e associações demonstram que o

A Fase 03 (equivalente ao cemitério C

grupo tenha mudado sua morfologia so -

entre as decapagens 34 e 16, em um in -

cial, tornando-se, pelo menos hipotetica -

tervalo de 2,10 m) 7 , foi datada entre 5570

mente, mais complexo. Em relação à tec -

e 3270 AP. Esta foi subdividida em três

nologia lítica, não há mudanças extremas,

ocupações distintas: a primeira entre as

exceto que o quartzo passa a ser mais uti -

decapagens 34 e 29 (um intervalo de 0,50

lizado para a confecção de instrumentos

m), a segunda entre a 28 e 22 (um inter -

expeditos (ou de ocasião). Assim, há uma

valo de 0,60 m) e a terceira entre a 21 e 16

grande freqüência e diversidade dos con -

(um intervalo de 0,50 m).

juntos líticos e cerâmicos evidenciados

No início são claras as evidências de

(tanto no solo de ocupação quanto em as -

ocupação e re-ocupação do sítio, que pas -

sociação com os sepultamentos consti -

sa por processos contínuos de abandono

tuindo o mobiliário funerário 9 .

somados às curtas permanências dos gru -

A Fase 05, último período de ocupação do

pos na área, fator verificável pela baixa

sítio entre as decapagens 08 e 01 (um interva-

densidade e diversidade de remanescen -

lo de 0,70 m), é datada em torno de 1300 A.P.

tes culturais, evidenciando o uso do local

é o momento que apresentou maior diferença

enquanto acampamento temporário (en -

tecnológica quando comparado aos demais,

tre as decapagens 34 e 24, um intervalo de

com a presença de artefatos líticos mais expe-

1,00 m aproximadamente).

ditos e vestígios cerâmicos pouco requintados

A partir da decapagem 21 (entre 2,15 e

no tocante à decoração plástica.

2,20 m de profundidade) há uma maior

De modo geral, uma das características

permanência no terraço, com incidência

mais interessantes deste sítio diz respeito à

da explosão dos vestígios cerâmicos da de -

diversidade e quantidade de cultura material,

  • 7 Lembrando que os sepultamentos ocorrem entre as decapagens 28 e 15.

  • 8 Decapagem 21 = 28 fragmentos; decapagem 20 = 41 fragmentos; decapagem 19 = 69 fragmentos.

  • 9 Para tecnologia cerâmica vide Luna (2001).

ANÁLISE INTRA-SÍTIO DO SÍTIO JUSTINO, BAIXO SÃO FRANCISCO

– AS FASES OCUPACIONAIS

Marcelo Fagundes

77

tanto associada aos sepultamentos (enquanto

22 manchas vermelhas e 10 cinzas.

‘bens funerários’), quanto associada às estru-

Feitas as primeiras indicações, cabe des-

turas com contextos domésticos. A cerâmica,

crições pormenorizadas das Fases e possí-

por exemplo, conta com 14743 fragmentos

veis ocupações para o Justino.

distribuídos a partir da decapagem 32 (3,29 m

de profundidade), datada de 5570 ± 70 anos

S o Lo S PALEo E tno GR áf IC o S DA

AP (datação para a decapagem 30 10 . O mate-

fASE 01 D o JUS tI no

rial lítico ocorre em todas as decapagens, sen-

Na Fase 01 o sítio tem características cla-

do que o polimento da pedra já é evidenciado

ras de acampamento temporário com dois

na decapagem 40 datada de 8950 anos AP. a

momentos distintos de ocupação: o primeiro

4,10 m de profundidade.

 

entre as decapagens 59 a 51 (6,00 e 5,20 m de

Referente às estruturas de combustão, fo-

profundidade), onde a freqüência artefatual

ram evidenciadas trinta fogueiras, todas com

é baixa, denotando que os grupos permane-

carvão e outros remanescentes associados (ce-

ceram pouco tempo no sítio. Os remanescen-

râmica, lítico, restos faunísticos, etc.), sendo

tes estão representados por sete manchas no

que algumas relacionadas aos sepultamentos.

solo e dezoito peças líticas. Foram evidencia-

Destas estruturas, um total de oito forneceu as

dos dois sepultamentos: sepultamento 159,

datações absolutas em C14 (Tabelas 01 e 02).

decapagem 52; sepultamento 161, decapa-

Além das fogueiras estruturadas foram eviden-

gem 51 (Vergne, 2004).

ciadas 355 manchas escuras, muitas das quais

O segundo momento ocorre entre as deca-

com pequenos fragmentos de carvão associa-

pagens de número 50 e 43 (5,20 e 4,40 m). Na

dos (além de restos faunísticos e cultura mate-

Fase 01 não foram evidenciadas fogueiras,

rial), indicando que eram antigas estruturas de

apenas manchas no solo, sendo que do total de

combustão, e outras que por prováveis ações

manchas desta fase 75,0% concentra-se neste

naturais, permaneceram exclusivamente as

segundo momento ocupacional, indicando

manchas no solo. Ainda foram localizadas e

que o sítio (por algum motivo), passa a ser

demarcadas 11 manchas de tonalidade clara,

mais “visitado” ou que, perante as condições

   
   

número das

       

fases

ocupações

decapagens

profundidades

datações

 

Fase 05

 
  • 02 03–01

 

Intervalo de 0,20m entre 0,50 e 0,20 m

  • 1280 ± 45 AP (decapagem 03)

cem a

 
  • 01 08–04

Intervalo de

0,40 m entre 1,00 e 0,50 m

  • 1780 ± 60 AP (decapagem 06)

           
  • 3270 ± 135AP (decapagem 13)

cem b

Fase 04

  • 01 15–09

Intervalo de

0,60 m entre 1,70 e 1,00 m

2650 ± 150 AP (decapagem 10)

  • 2530 ± 70 AP (decapagem 08)

     
  • 03 21–16

 

Intervalo de 0,50m entre 2,30 e 1,70 m

  • 4790 ± 80 AP (decapagem 20)

cem c

Fase 03

 
  • 02 28–22

 

Intervalo de 0,60m entre 3,00 e 2,30 m

Sem datação

 
  • 01 34–29

 

Intervalo de 0,50m entre 3,60 e 3,00 m

  • 5570 ± 70 AP (decapagem 30)

 

Fase 02

 
  • 01 42–35

 

Intervalo de 0,70m entre 4,40 e 3,60 m

  • 8950 ± 70 AP (decapagem 40)

cem d

Fase 01

 
  • 02 50–43

 

Intervalo de 0,70m entre 5,20 e 4,40 m

Sem datação

 
  • 01 64–51

 

Intervalo de 0,80m entre 6,00 e 5,20 m

Sem datação

Tabela 02. Fases de ocupação do sítio Justino

 
 

10 Cabe destacar que, entretanto, acreditamos que a tecnologia cerâmica deve ter ocorrido a partir da decapagens 21/20,

em torno de 4790±80 AP. Vide Fagundes (2007), em especial capítulo 06.

REVISTA DE ARQUEOLOGIA

Volume 23 - N.2:68-97

- 2010

78

naturais, parte dos remanescentes da ocupa-

ção anterior se perdeu com o tempo (?).

Sobre os vestígios líticos, que permitiu a

identificação desta Fase de ocupação, o con-

junto artefatual é marcado pela presença es-

paçada de material, ou seja, distribuído irre-

gularmente ao longo dos solos de ocupação.

Percebe-se que grande parte está consti-

tuída por instrumentos (37,25%) representa-

dos, sobretudo, por raspadores unifaciais

sobre seixos e lascas corticais, obtidas por

meio da técnica de redução unipolar, tendo

como núcleo seixos de diversas morfologias,

mas com preferência para aqueles mais

achatados com planos de percussão natural,

isto é, seixos que apresentavam determinada

morfologia (pré-concebida) apta a receber

golpes para a obtenção de suportes sem que

necessitasse de transformações prévias em

suas estruturas (Fagundes, 2010b).

Outro predicado importante é que o ma-

terial não foi exclusivamente manufaturado

neste sítio, ou seja, parte das ferramentas

deve ter sido debitada em outros locais, sen-

do levadas ao Justino como parte do estojo

pessoal, fato que explicaria, inclusive, a pre-

sença de núcleos no registro, totalizando

15,68% do conjunto.

Acreditamos que neste momento o sítio

não era utilizado como cemitério, nem mes-

mo esta ocupação teria caráter simbólico-ritu-

alístico, sendo que os sepultamentos eviden-

ciados nestas decapagens diriam respeito à

Fase 02. De qualquer forma, é possível que os

sepultamentos 159 e 161 sejam decorrentes do

último momento de ocupação da Fase 01, fato

que cooperaria para a explicação do aumento

significativo de remanescentes culturais. Con-

tudo, a análise das plantas baixas do sítio, o

estudo dos conjuntos artefatuais, a freqüência

de remanescentes culturais e a própria posi-

ção estratigráfica dos sepultamentos eviden-

ciados na Fase 01, sugerem que sejam intrusi-

vos decorrentes da fase posterior.

Entre as decapagens de número 59 e 54

pudemos observar a escassez dos vestígios

arqueológicos irregularmente distribuídos

pela área escavada do sítio, com maior con-

centração nas quadrículas FL 37/39, sobre-

tudo no intervalo da decapagem 55 (aproxi-

madamente 5,60 m e profundidade). Na AM

21/25 foi evidenciada uma mancha escura

de 0,78 m2 de área com material lítico e res-

tos faunísticos associados, seguindo entre

as 58 e 57. Tudo indica que se tratava de

uma fogueira, sendo a ausência de carvão

causada pela ação de agentes naturais. Na

FL 20/30, decapagem 58, foi evidenciado

um percutor, isolado dos demais vestígios.

Entre as decapagens de número 53 e 51

(5,40 a 5,20 m de profundidade), ocorrem os

primeiros esqueletos do sítio Justino. O en-

terramento 159 tem sua base na decapagem

52, quadrículas FL 45/50, com muito mate-

rial lítico no entorno o que indica a associa-

ção como mobiliário funerário.

Sabendo que os sepultamentos são ‘intru-

sivos’ tivemos o cuidado de analisar o entor-

no das decapagens superiores (51 a 40) para

observar indícios de remoção de material

arqueológico dos níveis inferiores para os

superiores devido ao ato de cavar o terreno

para a execução da cova. Não há indícios

desse tipo de remoção (o mesmo foi feito

com o próximo enterramento).

Já o enterramento 161 tem sua base na

decapagem 51 (5,20 m de profundidade), lo-

calizado espacialmente nas quadrículas LM

44/45, ocorrendo o mesmo comportamento

observado no enterramento anterior.

O que podemos extrapolar por meio da

análise da distribuição espacial dos vestígios

são as concentrações e associações com man-

chas escuras que possivelmente eram foguei-

ras e, desse modo, possibilitando a inferência

do uso do sítio como acampamento temporá-

rio. Na FL 10/15 foi evidenciada, por exemplo,

uma mancha escura com 0,47 m2, com mate-

ANÁLISE INTRA-SÍTIO DO SÍTIO JUSTINO, BAIXO SÃO FRANCISCO

– AS FASES OCUPACIONAIS

Marcelo Fagundes

rial lítico associado, além de outra pequena

concentração de líticos nas quadrículas FL

15/20, indicando a associação com a mancha.

Entre as decapagens de números 50 e 43

(5,20 a 4,40 m de profundidade), ou seja, na

segunda ocupação da Fase 01, foi possível ob-

servar a maior concentração de enterramentos

representados pelos de número 160, 163 e 161.

Realizando-se o exercício de sobreposi-

ção dos planos de plotação dos vestígios

das oito decapagens, observaram-se as se-

guintes realidades:

• Muita concentração de vestígios no entorno

dos enterramentos, o que sugere: (a) Mobili-

ário funerário associado aos sepultamentos,

supondo possível deslocamento vertical de

alguns vestígios; (b) Mistura entre enterra-

mentos e vestígios arqueológicos de ocupa-

ções anteriores.

• Concentração de vestígios arqueológi -

cos associados às manchas no solo (de

diferentes colorações), fora do contexto

dos enterramentos.

Os dados apontam para a hipótese de que

realmente os sepultamentos pertençam a Fase

02, destacando o fato de que eles ocorrem na

face norte do terraço (exceto o de número

160), ambos concentrados entre as quadrícu-

las AM 40/55, sendo que os indícios inequívo-

cos do uso do assentamento como acampa-

mento, referem-se aos vestígios e associações

evidenciados nas faces leste/ nordeste. A ob-

servação das planimetrias indica que os vestí-

gios materiais associados às manchas estão

dispostos ao redor e em semicírculo, caracte-

rística que permite a inferência de que real-

mente se tratavam de fogueiras.

Fato a ser destacado é a existência de

manchas escuras com vestígios líticos de di-

ferentes morfologias associados, localizadas

nas quadrículas FL 45/50, a partir da deca-

pagem 44 com ápice na decapagem 41, entre

79

0,80 – 1,10 m acima do sepultamento 159

(base na decapagem 52). A disposição e con-

centração de vestígios associados às man-

chas sugerem algum tipo de ritual que pode

ter sido executado no ato do enterramento.

Em relação às demais manchas escuras

evidenciadas nessa fase, podemos observar

claramente que há prosseguimento de algu-

mas entre as distintas decapagens, sugerin-

do que eram fogueiras que, devido aos pro-

cessos naturais, não foi evidenciado carvão.

Na decapagem 49 foi evidenciar três man-

chas entre as quadrículas FL 11/16, a primei-

ra com 0,23 m2, a segunda com 0,36 m2 e a

terceira com 0,42 m2.

Na decapagem 48 foram evidenciadas qua-

tro pequenas manchas (todas inferiores a 0,20

m2), três escuras e uma avermelhada (FM

15/20), com material lítico associado. Perante

as dimensões pode-se inferir que seriam pe-

quenas estruturas de combustão para fins bem

específicos. Nas decapagem 47/46 outra peque-

na mancha avermelhada, quadrículas FM

25/30 (sem associações).

Na decapagem 45 ocorre uma mancha de

1,30 m2 nas quadrículas FL 50/55, com ma-

terial lítico associado e outras duas na FL

45/50, porém sem associações; a primeira

com 0,27 m2 e a segunda com 0,93 m2. Na

decapagem 44 foi evidenciada uma mancha

vermelha alongada com 0,42 m2, porém sem

vestígios associados.

Enfim, o conjunto das decapagens, a dis-

posição dos remanescentes culturais aliados

à cadeia de produção dos conjuntos artefatu-

ais líticos sugerem o uso temporário do sítio

como acampamento nesse período.

A ausência de estruturas de combustão e

de restos faunísticos em quantidade pode ser

explicada pela ação de agentes naturais nos

processos formativos do sítio, entretanto a

seqüência dessas manchas, somada a dispo-

sição dos vestígios líticos colaboram com

nossas hipóteses.

REVISTA DE ARQUEOLOGIA

Volume 23 - N.2:68-97

- 2010

80

S o L o S

PALE o E tno GR áf IC o S

DA

sua utilização em longa duração, passou a

integrar os sistemas de significação do grupo

(Hitchcock & Bartram, 1998).

A base empírica para tais afirmações par-

te da assertiva que é neste momento que no

Justino passa a ocorrer os rituais funerários,

e por acreditarmos que nenhum grupo en-

terra seus mortos em um local aleatório, so-

bretudo quando este local serviu de “cemité-

rio” em um período que segue de 8950 A.P.

até aproximadamente 1200 A.P.

Em suma, como todo enterramento é intru-

sivo nos pacotes sedimentares, ou seja, se en-

terra o indivíduo em covas rasas ou profundas;

acreditamos que os sepultamentos evidencia-

dos no cemitério D (entre as decapagens 44 e

52) são provenientes dessa ocupação, onde foi

possível observar uma concentração maior de

estruturas e associações. Assim, o terraço do

Justino neste período passa a ser reconhecido

pelos grupos como um signo.

Com base nos apontamentos de Schlan-

ger (1992), acreditamos que a área onde foi

evidenciado o sítio Justino, bem como todo o

seu entorno, passa a constituir um lugar per-

sistente, inicialmente relacionado às suas

características funcionais, mas que, ao longo

do tempo, seu uso foi redirecionado até ser

incorporado aos sistemas cognitivo e de sig-

nificação do grupo (ou grupos), assumindo

um caráter ora residencial ora ritualístico,

ou ambos; sobretudo relacionado ao apego

sentimental como local dos ancestrais (Hi-

tchcock & Bartram, 1998).

Assim sendo, neste período o local

perpassa de entidade física e assume um

caráter duplo. Um enquanto sua inerente

materialidade e outro enquanto constitu -

ído por aspectos cognitivos e comporta -

mentais, visto que como lugar persistente

pode ser concebido como um sistema de

signos e símbolos apropriados e transmi -

tidos por sociedades humanas (Mauss,

1974; Fagundes, 2009).

fASE 02 D o JUS t I no

Na Fase 02 há mudanças significativas

sobre o uso, orientação e permanência dos

grupos no sítio, incidindo na própria tecno-

logias (lítica em específico. Fagundes,

2010b). Foi datado pelo método C14 em

8950 ± 70 A.P. (Fogueira 25, decapagens

40/41. Beta Analytic), equivalente a um es-

paço de 0,70 cm entre as decapagens 42 e

35 (entre aproximadamente 4,30 a 3,60 m

de profundidade).

Há indícios que cooperam para a hipó-

tese de que as ferramentas líticas passam a

ser produzidas no Justino, visto que nas

análises das seqüências operacionais e dos

produtos gerados do processo de manufa-

tura, 75,0% do conjunto está constituído

por resíduos de lascamento, além da pre -

sença significativa de núcleos (27 peças) e

percutores (16 peças). Os instrumentos

ainda aparecem em número elevado

(17,51% do total), além disso, grande parte

dos implementos foi manufaturada em

arenito silicificado que ocorre em 30,43%

das peças desta fase, índice significativo

quando comparado com as demais fases ou

sítios da Área 03.

Há cinco estruturas de combustão organi-

zadas, com presença de carvão, além de qua-

renta manchas escuras, todas com quantidade

significativa de restos faunísticos. Outra carac-

terística de suma importância é que não há

sepultamentos nestes solos ocupacionais.

Nossa hipótese é que a partir deste perío-

do o sítio Justino passa a ser concebido pelo

grupo como um lugar persistente (Schlan-

ger, 1992; Fagundes, 2009), dadas as caracte-

rísticas de ambientação do local; sua impor-

tância regional em termos de disponibilidade

de recursos; acesso ao pediplano sertanejo

pelo riacho Curituba, um dos maiores da re-

gião; estabilidade micro-climática oferecida

pelo canyon (Ab’Saber, 2002); e, quiçá, dada

ANÁLISE INTRA-SÍTIO DO SÍTIO JUSTINO, BAIXO SÃO FRANCISCO

– AS FASES OCUPACIONAIS

Marcelo Fagundes

Na análise da distribuição espaço-tempo-

ral dos remanescentes culturais (687 no to-

tal), percebe-se que a maior concentração de

vestígios situa-se na face leste do sítio, espa-

ço marcado pela existência de muitas man-

chas no solo, com associação de cultura ma-

terial lítica e restos faunísticos.

A estrutura de combustão 25, localizada

entre as decapagens 41/40 e medindo 1,22

m2, apresentou material lítico associado e

restos faunísticos. Fato a ser destacado en-

quanto recorrência é que tanto nessa foguei-

ra quanto em duas manchas escuras com

material lítico associado, destaca-se a pre-

sença de um percutor e de resíduos.

Ainda nas mesmas decapagens, na man-

cha evidenciada entre as quadrículas AL

21/25 (mancha A), medindo 0,90 m2, há

muito material lítico concentrado, constitu-

ído por resíduos com presença de uma las-

ca bruta, em sua maior parte; além de restos

alimentares. Já a evidenciada entre as qua-

drículas FM 10/15 (mancha B) trata-se de

uma grande mancha medindo 2,15 m2, com

blocos e vestígios líticos associados (resídu-

os e um percutor). Conjectura principal diz

respeito ao processo de reparo de instru-

mentos durante o preparo de alimentos nas

fogueiras (?), uma vez que não há indícios

de lascamento ‘stricto-sensu’ ou de lasca-

mento térmico que justificasse a presença

de resíduos e percutores associados às fo-

gueiras.

A primeira associação ocorre próximo

ao local do sepultamento 158 associada a

uma mancha escura de 1,80 m2, com pre-

sença de muito material lítico (inclusive ar-

tefatos) e restos alimentares carbonizados.

A segunda concentração está localizada na

FM 40/45, próxima de uma mancha 1,33

m2, com muito material lítico e restos fau-

nísticos associados; a terceira na FM 50/55

outra mancha esta com 0,70 m2, com lítico

associado; a quarta na FM 45/50, uma gran-

81

de mancha com 2,15 m2 de extensão; e a

última na AE 50/55 de pequena dimensão

0,64 m2, mas com muito lítico associado.

Entre as decapagens 39 e 35 percebe-se

que o comportamento da distribuição espa-

cial continua o mesmo. Entre as decapa-

gens 39/38 foram evidenciadas cinco man-

chas escuras e três concentrações de

material lítico (duas isoladas e uma asso-

ciada à área de sepultamento).

Nas decapagens 36/37 a porção do sítio

com maior concentração de vestígios está

entre as quadrículas AM 10/25 (não relacio-

nadas aos sepultamentos) e AM 30/45, rela-

cionadas aos sepultamentos do cemitério D,

mas é notório o uso mais freqüente do eixo

AS 01/35, ou seja, área sem sepultamentos.

Foi possível identificar as seguintes estrutu-

ras e concentrações:

• Entre a decapagem 37/36, quadrículas FL

35/40, concentração circular de vestígios

(líticos, vértebras de peixes e conchas calci-

nadas), porém sem estarem associados às

fogueiras ou manchas.

• Duas manchas escuras na área de sepulta-

mento, entre as quadrículas AE 40/45, a pri-

meira (M01), associada a vestígios líticos,

medindo 0,93 m2; a segunda sem associa-

ções, medindo 0,48 m2.

• Duas estruturas de combustão localizadas

na face leste do sítio, com material lítico e

restos faunísticos circundando ambas.

  • a) Fogueira 22, localizada na quadrícula

AE21/25, medindo 0,36 m2.

  • b) Fogueira 21, também localizada na

quadrícula AE 21/25, medindo 0,25 m2.

• Logo atrás dessas fogueiras observa-se a

presença de quatro manchas escuras, todas

com material lítico e restos faunísticos asso-

ciados, a saber:

  • a) Mancha escura 01, localizada na FL

25/20, medindo 0,61 m2, com muito líti-

co associado.

REVISTA DE ARQUEOLOGIA

Volume 23 - N.2:68-97

- 2010

82

 
  • b) Mancha escura 02, ao lado da mancha

lascamento e núcleos), aparecendo geral -

01, localizada na quadrícula FL 16/20

mente associados às fogueiras ou manchas

medindo aproximadamente 2,00 m2,

no solo, indicativo de que pelo menos parte

sem material associado.

 

do processo de debitagem estava ocorren -

  • c) Mancha escura 03 na mesma quadrí-

do no local, tanto relacionado à produção

cula da mancha 02, porém bem peque-

de artefatos mais expeditos, sobretudo de

na, aproximadamente 0,10 m2, sem ma-

quartzo, como também no processo de ma-

terial associado.

 

nutenção/ reparo, este último processo in-

  • d) Mancha escura 04, na FL 11/15, me-

dicado pela quantidade de estilhas de sílex.

dindo 2,80 m2, com material lítico e fau-

nístico associado.

 

S o L o S

PALE o E tno GR áf IC o S

DA

 

fASE 03 D o JUS t I no

 
 

O que se percebe é que este espaço do

A Fase 03 (entre as decapagens de nú -

sítio foi utilizado constantemente. A título

mero 34 e 16 – 3,50 a 1,70 m de profundida-

de especulação podemos considerar: (1º)

de), coincidente com o cemitério C, é mar-

Área habitacional; (2º) Área onde ocupa -

cada por períodos de curtas ocupações, que

ções seqüenciais ocorreram em um curto

podem estar associadas ao uso do sítio

espaço de tempo, dada a quantidade de es-

como acampamento temporário ou de in-

truturas de combustão e manchas que, es-

cursões para visitação aos mortos, ou am-

tariam associadas às antigas fogueiras.

bas as situações.

 
 

De qualquer forma podemos inferir que

Entretanto, a questão é: por que nesse pe-

nesse espaço entre as quadrículas AM (S)

ríodo de quase 800 anos o terraço é suposta-

1/35, foi uma área com indícios de acampa-

mente ‘abandonado’ pelos grupos (entre 5570

mento com o registro arqueológico apon-

A.P. a aproximadamente 4790 A.P. com base

tando para o desenvolvimento de ativida-

nas datações das decapagens 30 e 20)?

 

des relacionadas ao preparo de alimento,

A Fase 03 foi dividida em três períodos de

proteção e lascamento.

 

ocupação distintos, sobretudo relacionados às

 

No tocante a tecnologia lítica, foi possí-

indicações de Dominguez & Britcha (1997). To-

vel perceber uma quantidade significativa

davia, antes de iniciarmos a descrição dos so-

de peças líticas (principalmente resíduos de

los evidenciados pelas escavações, acredita-

   
     

lascas

     

liticos

       

total

 

decap.

residuos

brutas

nucleos

perutores

artefatos

total

ec

me

ra

c

vestigios

 
  • 42 01

06

  • 61 03

   
  • 02 84

    • 73 –

 

06

02

03

 
 
  • 41 05

04

  • 58 02

 

  • 69 –

 

06

04

03

82

 
  • 40 04

07

  • 45 01

   
  • 05 70

    • 62 –

01

07

   
 
  • 39 05

    • 43 05

   

 
  • 01 –

    • 54 –

 

05

 

59

 
  • 38 03

05

  • 52 02

   
  • 01 76

    • 63 –

01

07

 

05

 
 
  • 37 02

12

  • 66 03

   
  • 03 94

    • 86 –

02

06

   
 
  • 36 03

15

  • 56 01

   
  • 08 –

    • 83 –

 

03

 

86

 
  • 35 04

26

  • 85 05

   

128

  • 08 –

01

07

 

136

Tabela 03. Remanescentes culturais da Fase 02 do Justino. Legenda: EC= estruturas de combustão; ME=Mancha

   

escura; RA=restos faunísticos; C=conchas.

   
   
 

ANÁLISE INTRA-SÍTIO DO SÍTIO JUSTINO, BAIXO SÃO FRANCISCO

– AS FASES OCUPACIONAIS

 

Marcelo Fagundes

83

mos ser interessante à realização de um

terraço do Justino (além dos demais sítios

exercício especulativo comparando a Fase 03

surgirem após esse período), pode-se inferir

com as demais, em função da série de hipóte-

sobre as causas desta quebra de estabilidade

ses que têm sido formuladas, pensadas e re-

ocupacional entre a Fase 02 e Fases 04 e 05,

pensadas sobre esse sítio.

representada pelas curtas permanências na

A equipe de escavação privilegiou datar o

primeira e segunda ocupações da Fase 03.

sítio em intervalos de 1,00 m de profundidade

De qualquer forma, todos os dados apre-

entre as decapagens 10 e 40, exceto que dadas

sentados são pouco conclusivos e, por isso,

às particularidades dos cemitérios B e A outras

o caráter especulativo.

 

decapagens foram datadas. Com base exclusi-

Mesmo com as indicações de Domin-

vamente nesses resultados das datações abso-

guez & Britcha (1997) sobre as cheias do

lutas em C14, observou-se que durante a Fase

São Francisco e a intensidade das mesmas,

03, entre as decapagens 30 e 20, o processo de

não podemos afirmar com certeza até que

formação do terraço foi mais rápido que nos

ponto elas influenciaram na organização

demais períodos, ou seja, em aproximadamen-

social desses grupos, sobretudo a partir da

te 800 anos fora acrescido mais um metro de

decapagem 20 onde a quantidade de rema-

sedimento, conforme tabela 02.

nescentes culturais, concentrações e asso-

Os dados de paleoambiente que temos

ciações são imensas, não havendo espaços

para a área de pesquisa (Ab’Saber, 1989,

sem presença de cultura material, enterra-

2002, 2003; Cavalcanti, 2005), apontam para

mentos intactos (exceto na Fase 05, onde há

uma estabilidade climática no Nordeste a

muitas concentrações de ossos que podem

partir da passagem do pleistoceno para o

ter sido enterramentos bioturbados, porém

holoceno, com a presença do clima semi-

em função de diferentes causas), etc.

 

-árido e da caatinga, sendo que, inclusive, a

Logo é extremamente importante des -

região passou por um período ainda mais

tacar que se trata de um exercício repleto

árido do que atualmente, com estações se-

de limitações, sobretudo do ponto de vista

cas mais prolongadas. Entretanto, é notório

geomorfológico, uma vez que não está in -

que o regime de cheias do São Francisco in-

cluso em uma teoria interpretativa dos so -

depende, até hoje, do clima semi-árido.

los, com dados acerca de índices erosivos

Assim, supondo que no período entre 5500

e de sedimentação aliados à situação to -

e 4500 A.P. as cheias e vazão do rio fossem

poambiental da área de estudo, destacando

mais intensas (e por isso que o processo depo-

as qualidades de vazão e dinâmica alu -

sicional foi mais rápido que nos demais – le-

viais nos terraços.

vando em conta os processos deposicionais

Neste caso as informações aqui apresen-

coluviares e os erosivos), seria uma entre as

tadas não podem ser consideradas como

possíveis explicações da causa do terraço ter

conceitos chaves/interpretativos para ava-

sido ‘abandonado’? Seria em função desta

liação da Fase 03, mas indicam a necessida-

condição que os demais sítios arqueológicos

de de estudos da relação deposição/erosão e

da Área 03, com base nas datações de alguns

formação do pacote arqueológico e sedi-

deles por termoluminescência, passam a sur-

mentar no holoceno médio em Xingó.

 

gir apenas após esse período?

Em meio a estas extrapolações pode-se

Dessa forma, somando-se essas hipóteses

indicar que entre as causas da inexistência

com a nossa realidade empírica de que os

de remanescentes culturais em densidade

grupos não permaneceram muito tempo no

no Justino decorre das suposições, a saber:

 

REVISTA DE ARQUEOLOGIA

Volume 23 - N.2:68-97

- 2010

84

 

as primeiras ocupações da Fase 03 diz res-

• Que o processo de cheias (e vazão) do São

 

peito ao uso do sítio enquanto acampamen-

Francisco impediu a ocorrência de ocupa-

to temporário, podendo estar relacionado

ções mais fixas ou prolongadas no terraço

ao desempenho das atividades cotidianas

do Justino no período indicado.

 

do grupo (grupos), bem como aquelas de

• Que em função desse provável período de ins-

 

caráter mais ‘ritualístico’ (visita aos ances -

tabilidade ambiental, associado a uma maior e

trais). Não acreditamos que se trata de solos

presumível vazão do São Francisco, transforma-

de ocupação intactos, principalmente em

do o terraço do Justino em um patamar antigo

função da complexidade que envolve a estrati-

   

ficação desse sítio.

 

Decapa-

Datação

Método

Profundi-

 

Intervalo

Formação

   

Se pensarmos o

gem

dade (M)

(M)

(Anos)

sítio em sua totali-

             
 
  • 40 4,10

8950

± 70 AP

14

  • C 1,00

   

dade esse período

não registra a pre-

sença de estruturas

 
  • 30 3,10

5570

± 70 AP

14

  • C 1,00

   

3400

 
  • 20 2,10

4790

± 80 AP

14

  • C 1,00

   

780

 

± 35AP

  • 13 1,40

3270

14

  • C 0,70

   

1520

de combustão or -

 

2650 ± 150 AP

  • 10 1,10

14

  • C 0,30

   

620

ganizadas, apenas

 
  • 08 0,90

2530

± 70 AP

14

  • C 0,20

   

120

manchas (entre as

 
  • 06 0,70

1780

± 60 AP

14

  • C 0,60

   

490

decapagens de nú-

 

± 45 AP

  • 03 0,40

1280

14

  • C 0,30

   

1280

mero 34 e 21 – de

Tabela 04. Dados comparativos de formação do terraço Justino

 

3,50 a aproximada-

(partindo da sedimentação – sem índices erosivos)

 

mente 2,20/2,10 m

   

de profundidade –

de inundação; pode-se imaginar que tal ação

 

foram evidenciadas 62 manchas escuras no

deve ter interferido significantemente na com-

solo), e a própria distribuição dos vestígios

posição de estruturas existentes e mesmo des-

nos solos de ocupação; pode-se inferir que

truído parte de um pacote cultural preexistente.

ocorreram bioturbações significativas, mui-

 

to embora a maior parte desses vestígios

 

Ou seja, poderiam ter ocorrido duas

 

esteja associada às manchas de prováveis

situações:

 

antigas fogueiras, nesse caso, pode-se infe-

 

rir que os materiais mais leves (carvão, es-

• Os grupos estavam ali, porém as ações natu-

 

tilhas, restos faunísticos, etc.), possam ter

rais foram responsáveis em desmantelar o re-

sido mais facilmente carreados.

gistro arqueológico;

 

Feito nosso exercício, cabe a descrição

• Os grupos não permaneceram no local, vi -

 

das diferentes ocupações da Fase 03. A pri-

sitando-o com certa freqüência, mas em pe-

meira ocupação ocorre em um intervalo de

quenas ocupações.

 

0,60 m, entre as decapagens 34 e 29. é mar-

 

cada pela presença de poucos remanescen-

 

Sob o nosso ponto de vista, sobretudo

 

tes culturais, evidenciando o uso do sítio,

após a avaliação dos mapas de plotação de

sobretudo no eixo AS 1/35, fora da área de

vestígios, características da cadeia operató-

sepultamentos, dado que corrobora com

ria lítica e a inexistência de pacotes arqueo-

nossa hipótese de seu uso como acampa-

lógicos com sepultamentos provindos desse

mento temporário, datado de 5570 ± 70 A.P.

período; acreditamos que a realidade para

(Decapagem 30. Beta Analytic).

 

ANÁLISE INTRA-SÍTIO DO SÍTIO JUSTINO, BAIXO SÃO FRANCISCO

– AS FASES OCUPACIONAIS

Marcelo Fagundes

Os vestígios líticos estão representados

por trinta e seis peças e, nesse período,

ocorrem os primeiros elementos cerâmicos

representados por seis fragmentos. Além

disso, nota-se o número elevado de man-

chas escuras no solo (32 no total).

Observa-se que na área dos sepultamen-

tos relacionados ao cemitério D (AS 35/55)

quase não há remanescentes culturais, sen-

do que a maior parte dos evidenciados nes-

se solo de ocupação diz respeito à parte

oposta do sítio.

Na decapagem 34, quadrículas AE 20/25,

foi evidenciada uma grande mancha escura

de 2,80 m2, com bastante material lítico e

restos alimentares associados, inclusive é a

maior concentração de peças líticas dessa

ocupação, visto que nas decapagens subse-

qüentes o número de elementos é bem re-

duzido, geralmente sem associações. As de-

mais manchas desse período são

numericamente significativas, porém muito

pequenas, geralmente não passando de 0,20

m2, exceto por uma grande mancha escura

evidenciada na decapagem 30, de 1,80 m2,

localizada na área de sepultamento, quadrí-

culas FL 50/55, podendo estar relacionada à

ritualidade (?).

A segunda ocupação ocorre entre as de-

capagens 28 a 22, em um intervalo de 0,70

m, não havendo datações absolutas para

esse período entre 5570 e 4790 A.P., aproxi-

madamente. Há uma diminuição dos rema-

nescentes culturais no sítio, evidenciando o

seu uso esporádico (sazonal), estando rela-

cionado aos acampamentos temporários,

como associado à ritualidade funerária,

muito embora possa se alegar à ação de

agentes naturais nos processos formativos

do registro arqueológico.

Nesse período começam novamente a

ocorrer enterramentos. Todavia, lembrando

que todo o sepultamento é intrusivo, além

disso, que há padrões regulares na confec-

85

ção das covas para os sepultamentos e que

no Justino as camadas de ocupação apre-

sentavam muito pouca inclinação (Vergne,

2004); é justo creditar que os indivíduos

exumados entre as decapagens 28 e 22

(aproximadamente), sejam provenientes

de um novo momento nos terraços em Xin-

gó, representado pelo advento da tecnolo-

gia cerâmica que deve ter ocorrido em tor-

no 4790 ± 80 AP (datação para a decapagem

20), sendo que os elementos anteriores a

esta decapagem devem ter origem também

intrusiva em função da própria intervenção

humana, pré-histórica, no solo; fato que de-

ver ser somado às características acerca da

freqüência e morfologia dos elementos evi-

denciados.

Neste caso, recuamos o advento da ce-

râmica em Xingó aproximadamente 1000

anos. Todavia, esta conjectura necessita de

uma análise mais bem detalhada. Logo, o

que queremos afirmar é que esses ‘mortos’

são provenientes das ocupações entre as

decapagens 15 e 20/22, ou seja, do último

período de ocupação da Fase 03.

Nessa segunda ocupação, há um redire-

cionamento do uso do espaço, uma vez que

o eixo de utilização se confirma no corre-

dor AS 01/35 (aproximadamente 700 m2),

como salientado, com o surgimento de se-

pultamentos (decapagens 28 e 27). Diferen-

te dos demais cemitérios estudados por

Vergne (2004), não há concentrações espe-

cíficas, estando os enterramentos distribu-

ídos sob forma de conjuntos em semicírcu-

lo tanto nas faces norte como face sul do

sítio.

Para Vergne (2004), esses enterramen-

tos estariam ‘arrumados’ em semicírculos

acompanhando o que seriam as antigas ha-

bitações dos primeiros ceramistas na área.

A partir decapagem 26 até a 23/22 ob -

servam-se poucos vestígios materiais no

solo de ocupação, contudo os vestígios

REVISTA DE ARQUEOLOGIA

Volume 23 - N.2:68-97

- 2010

86

líticos só aparecem associados às man -

chas no solo, salvo raras exceções. Essas

concentrações estão distribuídas irregu -

larmente, sobretudo nesse espaço do sítio

supracitado. De qualquer forma cabe uma

pequena descrição dos remanescentes

culturais por decapagem:

• Decapagem 28 – Entre as quadrículas FL

45/50 há um número significativo de cultura

material lítica, entretanto associada aos se-

pultamentos. Na quadrícula EF 49/51 foi evi-

denciada uma mancha avermelhada no solo

de 0,90 m2, com uma lasca bruta associada.

• Decapagem 27 – ocorre a base do esquele-

to 168 na quadrícula AE 26/30, com muito

lítico associado como enxoval funerário. Na

quadrícula FL 50/55 ocorre uma mancha

escura de 0,30 m2 sem material arqueológi-

co associado.

• Decapagens 26 e 25 – quase não há vestígios

materiais que ocorrem distribuídos pelo espa-

ço do sítio, são quatro líticos e dois fragmentos

cerâmicos. Há uma pequena mancha escura

na área de sepultamentos, FL 45/50.

• Decapagem 24 – ocorre o mesmo que nas

anteriores, sendo evidenciados apenas dois

fragmentos cerâmicos, associados a uma pe-

quena mancha na quadrícula AF 15/20. Entre

as quadrículas AM 10/20 há concentração de

manchas escuras no solo, todas muito peque-

nas e sem vestígios arqueológicos associados.

Na quadrícula FL 49/52 uma mancha cinza de

0,73 m2, com um fragmento de resto faunístico.

Entre as decapagens 21 a 16 é o momento

marcado pelo aumento significativo dos rema-

nescentes culturais, sobretudo a cerâmica,

sendo datado em 4790 ± 80 A.P. (Decapagem

20. Beta Analytic). Acreditamos que aqui é o

momento de transição indicado por Vergne

(2004), onde o grupo passa a se fixar por maior

tempo no terraço do Justino, por todos os fato-

res que temos discutido ao longo deste texto, ou

seja, um novo cenário que obrigou a popula-

ção a traçar estratégias adaptativas ao meio

natural e social; tal fato é observado empirica-

mente pelos itens, a saber:

• O aumento significativo dos remanescentes

culturais evidenciados na escavação, sobretu-

do referente aos itens que são descartados na

área habitacional (espaço ‘doméstico’).

• Pela mudança na tecnologia lítica e pelo

advento da cultura material cerâmica.

• Pela diminuição paulatina na diversidade

do uso de recursos líticos.

• Diminuição dos implementos de curado-

ria nos solos de ocupação do Justino que,

inversamente, passam a existir nos sítios de

atividade específica.

• Surgimento de novos sítios de terraço.

• Diminuição na mobilidade residencial e

aumento na logística.

A partir da decapagem 21 observa-se o

aumento de cultura material lítica e cerâ-

mica, bem como o número de sepultamen-

to que, supostamente, sejam decorrentes

das ocupações anteriores. Há também uma

nova realidade no uso do espaço no tocan-

te aos locais onde os sepultamentos estão

sendo levados a cabo, passando a se con-

centrar na FL 10/35 e na PR 35/39. O que

se pode observar por meio da disposição

dos sepultamentos tanto vertical como ho-

rizontalmente é uma ‘mescla’ entre os pa-

drões do cemitério D e B. Novamente con-

firmando a hipótese de Vergne (2004), de

um período transitório.

A partir da decapagem 18/16, há uma

‘explosão’ de cultura material, associada

ou não aos sepultamentos. é a partir des -

se momento, com ápice no cemitério B,

que acreditamos que o sítio passa a ser

mais usado pelo grupo (ou grupos), tanto

para execução de suas práticas cotidia -

nas (enquanto espaço doméstico), quanto

ANÁLISE INTRA-SÍTIO DO SÍTIO JUSTINO, BAIXO SÃO FRANCISCO

– AS FASES OCUPACIONAIS

Marcelo Fagundes

87

Gráfico 01. distribuição espaço-temporal dos remanescentes culturais evidenciados na fase 03 do sítio justino. eixo y

Gráfico 01. distribuição espaço-temporal dos remanescentes culturais evidenciados na fase 03 do sítio justino.

eixo y – quantidade de vestígios eixo x – decapagens: 01 = decapagem 36 e 19= decapagem 16

para as culturais-simbólicas relaciona -

das às práticas mortuárias, como discuti -

remos a frente.

Em resumo, a Fase 03 é marcada por

diferentes níveis e tipos de ocupação do es-

paço do Justino. Não sabemos as causas

diretas do abandono do sítio durante a pri-

meira e segunda ocupações, do mesmo

modo, quais os motivos que levaram o gru-

po (grupos) a utilizá-lo novamente como

habitação após um longo período. De qual-

quer forma o estudo dessa Fase foi de suma

importância uma vez que foi possível ma -

pear características para a compreensão

do assentamento em sua totalidade.

S o Lo S PALEo E tno GR áf IC o S DA fASE 04 D o JUS t I no

A Fase 04, entre as decapagens 15 a 09, é

o momento de explosão no tocante ao uso

do espaço no Justino. Há um aumento sig-

nificativo na quantidade, diversidade e con-

centração dos remanescentes culturais, in-

clusive com presença de diferentes

estruturas no solo de ocupação, datado en-

tre 3270 ± 135 AP (decapagem 13) e 2650 ±

150 AP (decapagem 10).

Com base na distribuição estratigráfica

dos remanescentes culturais, nos estudos

sedimentológicos (Dominguez & Britcha,

1997) e da ritualidade funerária (Vergne,

2004), pode-se observar que não há interva-

los de abandono do sítio neste período, ca-

racterística observada pela distribuição dos

remanescentes culturais na estratificação,

marcada pela presença expressiva de estru-

turas em todas as decapagens.

Estes remanescentes estão distribuídos

por toda a área do sítio, porém estando con-

centrados na parte leste, mais próxima à

encosta do canyon (entre as quadras AS

35/55); geralmente associados às diferentes

estruturas, não apenas aos sepultamentos.

Cabe ressaltar que neste período é que se

encontra o maior número de enterramentos

do Justino. Indiscutivelmente é na Fase 04,

cemitério B, que o sítio estava sendo ocupa-

do como habitação semipermanente.

A respeito dos sepultamentos exumados

nessa Fase, pode-se concentrá-los em três

momentos distintos, a saber:

• Entre as decapagens 14 e 13 (entre 1,50 m

e 1,30 m de profundidade) – em que foram

evidenciadas nove sepulturas e três agrupa-

mentos de ossos, concentrados entre as

quadrículas M z 21/35; período datado em

3270 ± 135 A.P., com base no carvão da fo-

gueira 09 evidenciada na decapagem 13.

• Entre as decapagens 12 e 11 (entre 1,30 m

a 1,10 m de profundidade) – em que foram

evidenciados treze sepultamentos e três

REVISTA DE ARQUEOLOGIA

Volume 23 - N.2:68-97

- 2010

88

concentrações de ossos, entre as quadrícu-

las Fz 21/32;

• Entre as decapagens 10 e 09 (entre 1,10 m

a 0,90 m de profundidade) – onde foi exu-

mado o maior número de indivíduos, totali-

zando trinta e nove sepultamentos e cinco

concentrações de ossos, datados em 2650 ±

160 A.P., com base no carvão da fogueira 19;

ambos localizados entre as quadrículas Fz

21/35.

Ainda segundo Vergne (2004) a distri -

buição dos enterramentos nesse momen -

to segue uma ordem lógica, estando divi -

didos em diferentes conjuntos: um

principal e quatro secundários, além do

sepultamento n°165 que se encontrava

completamente isolado dos demais.

é importante frisar que os conjuntos

secundários trazem especificidades tais

como vasilhames completos sobre o indi -

víduo sepultado (conjunto 03, constituído

pelos sepultamentos de número 118, 116

e 10), ou dentro de vasilhames cerâmicos

(conjunto 04, sepultamento 167 e 166).

Além disso, a distribuição espacial das

sepulturas do cemitério B (em forma cir -

cular e extremamente agrupados) sugere

que os enterramentos tenham sido reali -

zados seguindo o contorno da habitação

(conforme Vergne, 2004).

Ou seja, com base nos dados empíricos

da autora, percebe-se que os enterramen-

tos distinguem-se até mesmo no espaço do

sítio arqueológico, além disso, foi notória a

hierarquia social entre os indivíduos, ob -

servada em sua pesquisa por meio da aná-

lise dos remanescentes culturais associa -

dos aos sepultamentos como mobiliário

funerário (Vergne, 2004).

Assim, diferente que se observou no Ce-

mitério C, os sepultamentos aqui estão

concentrados (salvo raras exceções) na

face sul do terraço, entre as quadrículas Fz

21-35, perfazendo 225 m2, também abran-

gendo o setor II do Justino (Vergne, 2004).

No que se refere aos conjuntos artefa -

tuais líticos, a expediência é notória nes -

se desse período, mas também encontra -

mos artefatos mais bem manufaturados,

sobretudo em sílex. Aqui o uso do quartzo

torna-se realmente majoritário entre os

conjuntos líticos (cerca de 73,00%). Nos -

sa hipótese, como anteriormente se dis -

cutira, vincula-se à maior sedentarização

do grupo (grupos) nesse período, instau -

rando decididamente o uso do assenta -

mento como base (habitação).

Segundo nossas inferências, obtidas

em meios aos dados estatístico-comparati-

vos (Fagundes, 2007; 2010b), os núcleos es-

gotados encontram-se nas decapagens fi -

nais desta Fase (11 a 09), período que

também ocorre a maior quantidade de resí-

duos de lascamento (52,28% do total) e

maior freqüência de percutores (52,38% do

total). Tais recorrências indicam que em

torno de 2500 A. P. a atividades redutivas

para a produção de ferramentas líticas eram

mais freqüentes, sobretudo para a manufa-

tura de ferramentas expeditas para uso mo-

mentâneo, com pouca preocupação com a

morfologia ou questões relativas à durabili-

dade ou ‘estética’, ou seja, a ferramenta de-

veria ser útil para uma atividade imediata e

certamente pouco especializada.

Na decapagem 11, por exemplo, a maior

parte dos artefatos stricto-sensu estava

constituída por ferramentas sobre seixo ou

bloco, que receberam poucos golpes para a

criação de um bordo ativo. São pouco espe-

cializados e pela análise macroscópica per-

cebeu-se que foram peças utilizadas e des-

cartadas.

O conjunto artefatual depositado como

mobiliário funerário, entretanto, há modifi-

cações sensíveis. São peças mais bem elabo-

radas, com marcas claras de manutenção/

ANÁLISE INTRA-SÍTIO DO SÍTIO JUSTINO, BAIXO SÃO FRANCISCO

– AS FASES OCUPACIONAIS

Marcelo Fagundes

89

reparos em muitas, sendo que as ações

• Na decapagem 10, quadrícula AE 35/40, foi

transformativas pós-debitagem ocorrem

evidenciada uma imensa mancha escura de

com maior freqüência, denotando uma

aproximadamente 6,00 m2, retangular, com

maior preocupação com a durabilidade do

uma significativa quantidade de fragmentos

instrumento, características que afastam a

cerâmicos e restos faunísticos associados.

possibilidade desse material ter sido manu-

Na quadrícula ao lado, AE 40/45, foram evi-

faturado exclusivamente para fazer parte do

denciadas seis manchas escuras, todas de

mobiliário funerário.

pequenas dimensões, porém também com

Em relação à tecnologia cerâmica obser-

muito material faunístico e fragmentos ce-

vamos uma maior diversidade de tipos de-

râmicos associados (mancha 01 = 0,42 m2;

corativos em relação à Fase posterior (Luna,

mancha 02 = 0,40 m2; mancha 03 = 0,37

2001; Vergne, 2004).

m2; mancha 04 = 0,17 m2; mancha 05 =

No tocante ao estudo dos solos de ocupa-

0,55 m2 e mancha 06 = 0,43 m2). Na qua-

ção dada a quantidade imensa de material é

drícula FL 51/55 foi evidenciada a fogueira

quase impossível indicar concentrações e

19 (0,60 m2), com muitos remanescentes

associações. São 61 manchas escuras, todas

associados na face norte dessa estrutura, so-

com remanescentes associados; 08 man-

bretudo cerâmica, peças líticas e restos fau-

chas claras, 03 manchas vermelhas e 01

nísticos.

mancha cinza. No que diz respeito às estru-

• Na decapagem 12 o maior destaque diz

turas de combustão pode-se evidenciar 05

respeito à fogueira 15 (quadrícula AE 36/40

nessa fase do Justino, sendo que 02 que es-

com 0,71 m2 de dimensão), onde havia

tavam associadas aos conjuntos de estrutu-

grande concentração de remanescentes cul-

ras funerárias foram datadas: as fogueiras

turais, dispostos ao redor da estrutura (em

09 e 19.

círculo).

Para essa fase, dada a quantidade de re-

manescentes culturais nos solos de ocupa-

S o L o S

PALE o E tno GR áf IC o S

DA

ção, tornou-se difícil a visualização de con-

fASE 05 D o JUS t I no

centrações ou associações dos

A última fase de ocupação do sítio está lo-

remanescentes culturais, exceto em casos

calizada entre as decapagens 08 e 01 (um in-

específicos. Assim, julgamos não ser neces-

tervalo de 80 cm, entre 0,10 e 0,90 m de pro-

sária a descrição minuciosa de cada uma

fundidade), ocorrendo duas datações para o

das decapagens, exceto para algumas parti-

período: para a primeira ocupação 1780 ± 60

cularidades, a saber:

AP (decapagem 06); e 1280 ± 45 AP (decapa-

gem 03), para a segunda ocupação.

 

• Na decapagem 09 a maior concentração de

A Fase 05 (equivalente ao cemitério A) foi

remanescentes culturais está na área de se-

subdividida por nós em duas ocupações, uti-

pultamentos. Na fogueira 09 (AF 15/20 com

lizando como critério a presença de sepulta-

0,18 m2 de dimensão) havia uma concen-

mento (que ocorrem entre as decapagens 08

tração de vestígios materiais, sobretudo ce-

e 04) ou ausência deles (entre 03 e 01). Entre-

râmica, na face sul dessa estrutura, em for-

tanto, o estudo das cadeias operatórias líticas

ma de semicírculo. Na fogueira 08 (AE

demonstrou uma similaridade extrema entre

16/20 com 0,80 m2), apesar de maior que a

os conjuntos provenientes dessa divisão, no-

anterior não houve nenhum tipo de vestígio

toriamente arbitrária.

material associado.

Como dito anteriormente, esse pode ser

 

REVISTA DE ARQUEOLOGIA

Volume 23 - N.2:68-97

- 2010

90

4563 01 – – – – 01 08 1054 – ec – – – 03 01
4563
01
01
08
1054
ec
03
01
01
03
02
02
08
mv
01
05
01
01
mcz
6929
805
total
958
741
1010
943
913
1558
146
ra
91
151
183
outros remanescentes
Tabela 05. Remanescentes culturais da Fase 04, Justino. Legenda: RES = resíduo; LB = lasca bruta; N = núcleo;
PER = percutor; ART = artefato; CER = fragmentos cerâmicos; EC = estruturas de combustão; ME = mancha
escura; MC = mancha clara; MV = mancha vermelha; MCZ = mancha cinza; RA = resto alimentar.
mc
me
10
03
15
08
12
05
61
546
01
03
211
213
302
1297
07
n
03
02
04
02
04
03
03
21
per
02
03
05
03
02
06
76
04
04
08
07
08
45
total
136
21
127
140
175
139
07
991
vestÍgios lÍticos
10
14
72
Decap.
15
14
13
12
11
12
09
Total
cer
504
721
525
668
545
111
art
15
res
118
49
106
124
151
198
173
832
lb
06
08
07
10

vestígios cerâmicos apenas alisados (diferente

ver era literalmente uma imensa mancha es-

ras de combustão; 122 manchas escuras, com

tos fragmentos de restos faunísticos; 10 con-

marcante desta fase é a expediência dos dife-

breposição de camadas o que conseguíamos

tefatuais; e a disposição do cemitério e sua re-

com a presença de artefatos mais expeditos e

mos a citar a quantidade de remanescentes

de remanescentes culturais evidenciados em

ando mobiliário funerário), 12821 remanes-

gens 08 e 01 (apenas solo de ocupação, excetu-

cerâmicos; 2513 elementos líticos; 17 estrutu-

considerado o período com maior diferença

das outras fases). Logo, a característica mais

chas vermelhas; 05 manchas cinzas; 1972 res-

que, certamente, é assombrosa; as principais

características tecnológicas dos conjuntos ar-

cura em toda a área (!). Nesse caso, nos atere-

concentrações que em nossos exercícios de so-

centes culturais, a saber: 8667 fragmentos

solo de ocupação. São tantas as estruturas e

carvão associado; 01 mancha clara; 18 man-

entre os demais em relação à tecnologia lítica,

Em relação ao uso do espaço como cemi-

Assim foram evidenciados entre as decapa-

Também é o período com maior número

chas carbonizadas (Fagundes, 2007).

lação com os solos ocupacionais.

rentes conjuntos artefatuais.

vestígios cerâmicos apenas alisados (diferente ver era literalmente uma imensa mancha es- ras de combustão; 122
– AS FASES OCUPACIONAIS

– AS FASES OCUPACIONAIS

Marcelo Fagundes
Marcelo Fagundes

tério, percebemos um novo direcionamento

dos enterramentos. Segundo análises de Verg-

ne (2004), há dois subconjuntos principais

nesse cemitério, ambos situados no quadran-

te leste, entre as quadrículas AE /FL /R –

06/30. São sepulturas mais dispersas se com-

paradas ao cemitério anterior, além de

estarem distribuídas de forma alongada e não

circular. Entretanto, percebe-se que os sepul-

tamentos tanto o cemitério A quanto o B, não

ocorrem na face sudeste/ sul do sítio, onde há

muitas estruturas em meio a espaços vazios

que podem indicar o local das habitações.

A indústria lítica é marcada pelo caráter

expedito, com instrumentos sobre lascas de

quartzo muito mal retocadas, mas na maioria

sendo manufaturados sobre pequenos blocos

de quartzo (11 peças), onde eram executadas

pequenas retiradas para criação de bordo ati-

vo, do mesmo modo ocorrendo em raspado-

res sobre seixo todos unifaciais (12 exempla-

res). O restante dos artefatos está representado

por quatro raspadores sobre lasca quadran-

gular e vinte e duas lascas retocadas. Desse

total, vinte e nove são de quartzo, dez de sílex,

dez de arenito silicificado e três de quartzito.

Foi nessa Fase de ocupação do sítio que te-

mos os dados sobre zooarqueologia mais bem

trabalhados sobre o Justino, análises executa-

das por Silva (1994) e Palmeira (1997).

ANÁLISE INTRA-SÍTIO DO SÍTIO JUSTINO, BAIXO SÃO FRANCISCO

91

C on SIDERA çõ ES f I n AIS

 

sujeita à dinâmica de um grande rio, o São

 

A redação da tese que deu origem a esse

Francisco – que tem cooperado efetivamen-

artigo foi um desafio em todas suas etapas,

te para as mudanças na paisagem ao longo

principalmente se pensarmos na complexi-

dos anos; esperava-se encontrar um assen-

dade que envolve todas as questões arqueo-

tamento com estratificação no mínimo

lógicas para a Área Arqueológica de Xingó,

complicada, além de desarranjos estrutu-

dentre as quais:

 

rais que, a priori, não possibilitariam (ou

• Seus conjuntos artefatuais não apresen-

permitiriam) uma sistematização coerente

tam similaridades com as áreas circunvizi-

dos dados empíricos em função dos prová-

nhas, sobretudo as ferramentas líticas e a

veis movimentos verticais das peças, mistu-

tecnologia cerâmica;

 

ras entre camadas arqueológicas, impossi-

• O sítio Justino, nosso modelo gravitacional,

bilitando uma compreensão dos solos

   
     

vestÍgios lÍticos

   

outros remanescentes

     

Decap.

res

lb

n

per

art

total

cer

ec

me

mc

 

mv

mcz

ra

total

08

  • 568 14

 

05

  • 05 07

   
  • 599 08

02

 

01

  • 942 238

01

01

 

958

07

  • 462 11

 

07

 
  • 06 –

08

 
  • 494 –

01

16

 
  • 716 –

 

293

741

06

  • 190 12

 

02

  • 03 07

   
  • 752 –

  • 214 –

 

12

   

03

03

197

805

05

 
  • 225 –

15

   
  • 06 –

06

 
  • 252 –

03

23

 
  • 834 –

 

218

1010

04

  • 222 13

 

02

  • 04 05

   
  • 246 04

02

  • 772 –

     

01

01

64

943

03

  • 218 12

 

01

  • 02 09

   
  • 242 28

05

  • 792 –

     

11

11

 
  • 366 913

02

  • 200 13

 

05

 
  • 03 18

 

1944

  • 221 –

03

     

02

02

 
  • 314 1558

01

  • 202 20

 

12

 
  • 05 –

06

 
  • 245 –

1915

01

13

 

   
  • 282 6929

Total

2287

110

34

 
  • 34 48

2513

8667

17

122

01

 

18

05

1972

12821

Tabela 06. Remanescentes culturais da Fase 05

   

apresentou datações antigas em torno de 9000

paleoetnográficos de ocupação (Leroi-Gou-

anos A.P.; surgimento da tecnologia cerâmica

rhan, 1950, 1972).

 

no holoceno médio, por volta de 4500 anos

 

Precisávamos entender o rio, a caatinga, os

A.P.; além dos 185 esqueletos evidenciados.

 

diferentes compartimentos componentes da

 

paisagem e, sobretudo, elucidar o contexto sis-

 

Em função dessas e outras tantas caracte-

têmico em um exercício reflexivo de como se-

rísticas, discussões arqueográficas, metodoló-

ria o modo de vida e dinâmica cultural em

gicas e conceituais surgiram (e surgem) rela-

nossa área de pesquisa, buscando possibilida-

cionadas ao Justino. Obviamente o modelo

des e limitações para questões acerca da mobi-

aqui apresentado para o Justino poderá não vir

lidade, da realização das atividades cotidianas,

a ser consenso entre os pesquisadores que efe-

das seqüências operacionais e, conseqüente,

tuaram trabalhos em Xingó, uma vez que as

organização tecnológica, da função de sítios e

diversas interpretações que têm sido dadas ao

do sistema regional de assentamento.

 

sítio Justino, principalmente porque grande

 

Foi nesse momento que passamos a nos

parte desses estudos teve como foco as análises

interessar pela paisagem (‘arqueológica’) e

intra-sítio deste assentamento.

 

que descobrimos o conceito de persistent pla-

 

Por ser um sítio em terraço fluvial, área

ces (Schlanger, 1992). Derivado/ extraído da

 

REVISTA DE ARQUEOLOGIA

 

Volume 23 - N.2:68-97

- 2010

92

abordagem de lugar, assim como outros tan-

Loci, refletindo sobre as condições que per-

tos ramificados do artigo de Lewis R. Binford

mitiram certas escolhas/ estratégias e as in-

(1982 11 ) em que o autor amplia noção de sítio

ter-relações entre sociedade versus meio

arqueológico, sem desmerecê-lo, mas apon-

que, ao final de nossa pesquisa, nos apareceu

tando para a necessidade de compreensão dos

de maneira distinta do que concebíamos.

não-sítios e, principalmente, da importância

Constantemente nos reportamos ao con-

em entender as inter-relações entre sítios con-

texto enquanto uma unidade básica inter-

temporâneos de uma área.

pretativa. O artefato nos diz pouco (ou nada

Assim, discorrer sobre lugares persistentes

quando fora de seu ‘contexto’), as estruturas

é diferente de falar em multicomponencialida-

devem estar devidamente mapeadas em

de, isto é, o uso do primeiro pressupõe que

suas dimensões horizontal e vertical; sítios

houve (ou há) no local sob intervenção, condi-

isolados nos respondem sobre uma realida-

ções tais que permitiram sua ocupação e reo-

de fracionada. O contexto pressupõe totali-

cupação em longa duração, diferente de um

dade, partindo do estratigráfico (diacrôni-

único sítio (ou conjunto de sítios) com níveis

co); da distribuição espacial dos vestígios

líticos e lito-cerâmicos.

(sincrônico); do domínio de Mauss (1974)

Vale destacar que um sítio (ou sítios)

que supõe a interlocução entre as partes

multicomponencial pode ser integrante de

constitutivas de um lugar; ou do complexo

um lugar persistente, mas a abordagem

situacional de sítios à moda binfordiana; se-

implica na ampliação da noção de sítio ar-

guindo pela distribuição de diferentes sítios

queológico, compreendendo os espaços so-

em diferentes compartimentos que consti-

ciais, os não-sítios, as ocorrências arqueo-

tuem uma paisagem; além das distintas as-

lógicas, etc.

sociações entre trabalho, organização tec-

Tal perspectiva está muito próxima ao

nológica e estratégias/ escolhas.

que Mauss definiu como domínio em sua no-

Assim, acreditamos que o Justino, nosso

ção de estabelecimento (1974), todavia sendo

modelo gravitacional, foi ocupado em longa

aqui compreendida em um sentido mais es-

duração em distintos momentos da paisa-

pecífico para o uso em Arqueologia, uma vez

gem regional, sendo-lhe atribuídas pelo

que sob a ótica dos lugares persistentes pres-

grupo (ou grupos) funções diversas ao lon-

supõe-se a paisagem em sua totalidade.

go do tempo, até que, em um período que

Nesse caso, o Locus de ocupação ultra-

coincide com o aparecimento da tecnologia

passa o sítio arqueológico, estando consti -

cerâmica no registro arqueológico, houve

tuído por elementos bem demarcados no

uma maior fixação dos grupos no terraço,

sistema sócio-cultural por meio de frontei-

fato que não implica na não-existência de

ras estabelecidas enquanto elemento de

outros sítios habitacionais em outros com-

significação (mesmo que fluídas), e forma-

partimentos da paisagem 12 .

dos por todos os locais de uso continuado,

O modelo criado teve como base os sítios

tanto em uma perspectiva sincrônica,

de terraço e é nesse espaço que é aplicado (e

quanto diacrônica (Silva-Mendes, 2007).

aplicável), fato que não nos impediu de es-

A intenção do conceito, dessa forma, é

pecular sobre a mobilidade e dispersão es-

mapear a utilização em longa duração dos

pacial de sítios e ocorrências, tendo como

  • 11 Ver também os textos de 1992, 2001.

  • 12 Não é insensato destacar que com isso não estamos relacionando cerâmica e sedentarização (ou semi), mesmo porque há

grupos detentores dessa tecnologia aliada à horticultura que são extremamente ‘móveis’. Além disso, se pensarmos em uma

morfologia social baseada na dinâmica do rio, nossas respostas ficam mais claras.

ANÁLISE INTRA-SÍTIO DO SÍTIO JUSTINO, BAIXO SÃO FRANCISCO

– AS FASES OCUPACIONAIS

Marcelo Fagundes

aporte os geoindicadores para aplicação do

conceito de lugares persistentes.

Os demais sítios (evidenciados nas cam-

panhas de salvamento) surgem a partir des-

se período, enquanto complementares às

prováveis novas necessidades do grupo

(grupos), mais complexo em sua organiza-

ção social, obviamente, com base no estudo

da ritualidade funerária de Vergne (2004).

Esse artigo encerra-se com um modelo

de ocupação para Xingó, em suas particula-

ridades atestadas no início dessas conside-

rações, apresentando dados fundamentais

para inserção dos grupos pré-históricos na

paisagem constituída e remodelada ao lon-

go de quase oito mil anos de ocupação, a

saber:

• Na paisagem do pleistoceno para o holoce-

no inicial (cerca de 12 a 9000 anos A.P. – Fa-

ses 05 e 04) – bandos de caçadores coletores

percorriam os diferentes compartimentos

da paisagem, dentro dos aportes de mobili-

dade apresentados por Binford (1982), per-

mitindo a formação de sítios arqueológicos

dispersos. Tal fato se fundamenta no núme-

ro baixo de sítios em terraços com ocupa-

ções de caçadores coletores (Justino e São

José II). A indústria lítica, expedita, apre-

senta artefatos mais bem elaborados que

nas fases ocupacionais seguintes, sobretudo

manufaturados em matérias-primas silico-

sas. Em torno de 9000 e 8000 mil anos A.P.,

o terraço onde estava assentado o Justino

passa a ser mais utilizado pelo grupo. O solo

de ocupação registra uma maior densidade

de remanescentes culturais, geralmente as-

sociados às estruturas de combustão. Nesse

momento que acreditamos que o grupo pas-

sa a enterrar seus mortos no terraço. Entre-

tanto, a imensa quantidade desses vestígios

materiais estaria além de questões ritualís-

ticas, uma vez que há estruturas com ferra-

mentas líticas e restos alimentícios relativa-

93

mente distantes das áreas de sepultamento

e todo o comportamento observável pelas

plantas do sítio indicam uma setorização de

atividades.

• No holoceno médio (cerca de 5000 a 4000

mil anos A.P. – Fase 03) – o terraço passa a

ser pouco freqüentado pelo grupo (ou gru-

pos), que, pelo menos hipoteticamente,

pode ter algum tipo de relação com o regi-

me de cheias do rio. Os remanescentes con-

centram-se em torno de possíveis estrutu-

ras de combustão, ou melhor, manchas

indicativas das mesmas. Não há presença

de materiais leves, tais como estilhas ou

carvão. No final desse período surge a tec -

nologia cerâmica, sobretudo a partir da de-

capagem 21/20.

• No holoceno tardio (3000 a 1000 anos A.P.

– Fases 02 e 01) – marcado pelo surgimento

dos demais sítios na área arqueológica 03

que, segundo nosso modelo, estariam liga-

dos ao sítio base enquanto locais de desen-

volvimento de atividades especializadas, no

chamado complexo situacional de sítios. No

Justino há uma explosão de remanescentes

culturais associados às estruturas ou em

concentrações. A tecnologia lítica adquire

um caráter ainda mais expedito, com predo-

minância de lascas corticais ou semicorti-

cais de quarto e raspadores sobre bloco e

seixo, ambos com poucas ações transforma-

tivas pós-debitagem.

Quando comparamos os conjuntos arte-

fatuais de sítios contemporâneos compo -

nentes de uma mesma área, percebemos

que são complementares e, portanto, a aná-

lise isolada não responderia às diversas in-

terrogações que surgem ao longo da pesqui-

sa. Tal fato foi observado nas análises dos

conjuntos líticos em Xingó (Fagundes,

2010a).

Como já comentado, os pesquisadores

responsáveis pelas análises paleoambien -

REVISTA DE ARQUEOLOGIA

Volume 23 - N.2:68-97

- 2010

94

tais em Xingó indicaram que mesmo me-

levadas a cabo, aos sítios mais especializa-

diante ao regime de cheias do rio São Fran-

dos.

cisco (que existiram), as denominadas

Esses dados partiram principalmente da

“excepcionais” não eram tão freqüentes po-

análise das cadeias operatórias dos conjun-

dendo ocorrer em intervalos de dezenas ou

tos líticos. De modo geral podemos caracte-

centenas de anos. Em suas palavras:

rizá-los (Fagundes, 2010b):

O principal risco geológico ao qual estas popu-

• Pelo uso de seixos com pré-disposição à

lações primitivas estavam sujeitas era sem dúvi-

retirada dos suportes desejados, representa-

da as cheias do rio São Francisco. As cheias ex-

dos por lascas quadrangulares e trapezoi-

cepcionais ( com tempo de recorrência de

dais, unifaciais, sendo que em alguns foram

algumas dezenas ou até mesmo uma centena

realizadas ações transformativas pós-debi-

de anos) podiam alcançar cerca de 25 metros

tagem, representadas por golpes de adelga-

acima do nível normal do rio. Estas poderiam

çamento e retoques (curtos e em escama),

resultar em grande destruição, até mesmo com

executados na face interna para atingir a

mortes, uma vez que se tratam de fenômenos re-

externa (retoques diretos). O tipo de técnica

lativamente rápidos e de grande capacidade

mais freqüente é a unipolar, com uso de

destruidora (Landim Dominguez e Brichta,

percutor duro. Em suma, a escolha pelo su-

1997:07) [grifo nosso].

porte pressupõe uma economia nos gestos

técnicos: seixos com certa morfologia para

Além disso, uma visão mais minuciosa

obtenção de lascas corticais ou semi para

sobre os espaços topográficos próximos ao

produção dos implementos líticos.

terraço demonstra que há condições reais

• Pela produção de raspadores sobre seixos,

de formação de acampamento e/ou aldeias,

novamente suportes previamente escolhi-

distante cerca de 50 a 200m das margens do

dos por sua morfologia, onde foram realiza-

rio 13 .

dos golpes abruptos e perpendiculares ao

Durante as duas primeiras ocupações da

eixo morfológico da peça para a obtenção

Fase 03, atestamos que o sítio Justino passa

de gume ativo, sendo este último muito

a ser menos utilizado pelo grupo quando

pouco trabalhado e, quando há retoques, é

comparado as estruturas e remanescentes

evidente que foram realizados com a inten-

culturais com a Fase 02.

ção de ativação do bordo.

Uma das causas poderia ser estas cheias

• Uso preferencial do sílex, mas o quartzo é

excepcionais entre 5500 e 4500 A.P., mas,

extremamente utilizado, sobretudo para a

novamente, não há dados concretos. No en-

obtenção de lascas corticais para uso oca-

tanto, o emaranhado de dados elencados

sional.

(Fagundes, 2007; 2010a, 2010b, 2010c) aca-

• Utilização de pequenos blocos de quartzo,

bou por nos permitir inferir que os sítios da

geralmente quadrangulares, como raspado-

Área 03 em Xingó realmente seriam com-

res, onde foram realizadas pouquíssimas

plementares em meio a um amplo sistema

transformações para adelgaçamento do

de assentamento regional: do sítio base,

bordo à ativação de um gume cortante.

onde as atividades sociais cotidianas eram

Enfim, é uma indústria expedita, mas

  • 13 Nesse caso, áreas inundadas pelo lago da UHE-Xingó.

  • 14 Aliada a toda discussão em torno da dinâmica ambiental da área, não havia unidades crono-estratigráficas que orientassem de

maneira inequívoca a escavação.

ANÁLISE INTRA-SÍTIO DO SÍTIO JUSTINO, BAIXO SÃO FRANCISCO

– AS FASES OCUPACIONAIS

Marcelo Fagundes

95

que traz consigo traços fundamentais para a

ses autores, guiamos nosso olhar para o sí-

compreensão da pré-história de Xingó.

tio Justino. Com exceção das Fases 04 e 05,

Uma das grandes discussões sobre o sí-

pudemos realizar exercícios com as plantas

tio Justino diz respeito a sua estratigrafia.

de plotação de vestígios e pudemos verificar

Acreditamos que é uma estratificação com-

que vestígios nessas camadas entre 40 e 70

plexa e de difícil leitura 14 . Além havia a pos-

cm se relacionavam em diferentes estrutu-

sibilidade real de movimentação vertical

ras ou concentrações (apresentado nesse

das peças e mistura dos solos de ocupação.

texto).

Justamente por isso preferimos seguir as

De qualquer forma, o sítio Justino é um

orientações paleoambientais de Landim

importante assentamento no vale do São

Dominguez & Britcha (1997).

Francisco e novos estudos são necessários

Assim, não se pode negar que ocorrem

para se discutir lacunas existentes, princi-

movimentos verticais ou que processos ero-

palmente em sua estratificação. Para tanto,

sivos foram responsáveis por perdas de par-

como apresentado em nosso doutoramento

celas significativas dos solos de ocupação,

(2007), dados paleoambientais seriam fun-

todavia estamos falando de uma área de

damentais para a compreensão do contexto

1265 m2 escavadas. Com a orientação des -

arqueológico regional.

REVISTA DE ARQUEOLOGIA

Volume 23 - N.2:68-97

- 2010

96

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  • 98 noVas perspeCtiVas soBre a arqUitetUra ritUal do planalto meridional Brasileiro:

ARTIGO

pesqUisas reCentes em pinhal da serra, rs

1.Jonas Gregorio de Souza e 2.Silvia moehlecke Copé 1.mestrando do Programa de Pós-Graduação em Arqueologia do mAE-USP, bolsista CAPES e pesquisador associado ao nuPArq-UfRGS. núcleo de Pesquisa Arqueológica – nuPArq – Departamento de História – IfCH. Universidade federal do Rio Grande do Sul – UfRGS. Avenida bento Gonçalves, 9500. Porto Alegre – RS. jonas.gregorio@yahoo.com.br. 2. Professora do Departamento de História e coordenadora do nuPArq-UfRGS. núcleo de Pesquisa Arqueológica – nuPArq – Departamento de História – IfCH. Universidade federal do Rio Grande do Sul – UfRGS. Avenida bento Gonçalves, 9500. Porto Alegre – RS. smcope@terra.com.br.

 

RESU mo

Neste artigo apresentamos o resultado

de escavações em montículos e aterros

A b S t RACt

anelares Jê do Sul no município de Pinhal

In this article we present the results of ex-

da Serra, RS. Fazemos uma distinção en -

cavations in southern Jê mounds and earth-

tre pequenos aterros cercando montícu -

works located in Pinhal da Serra, Rio Grande

los funerários e grandes aterros cercando

do Sul. We make a distinction between small

uma praça interna. Em um montículo fu -

earthworks around burial mounds and large

nerário encontramos dois sepultamentos

earthworks around a central plaza. In one of

cremados, um primário e o outro secun -

the mounds, we found two cremated burials,

dário. Um grande aterro apresentou, em

one primary and the other secondary. A large

sua estratigrafia, evidências de que a ter -

earthwork exhibited stratigraphical evidence

ra usada em sua construção possivelmen -

that the earth for its construction was possi-

te foi trazida de longa distância. Concluí -

bly brought from a long distance. We con-

mos que os montículos e pequenos aterros

clude that the mounds and small earthworks

seriam cemitérios de grupos habitando

were cemeteries for groups inhabiting pit

casas semi-subterrâneas vizinhas, en -

houses nearby, while the large earthworks

quanto os grandes aterros anelares de -

would demand, for their construction, the ag-

mandariam, para sua construção, a agre -

gregation of many dispersed communities,

gação de diversas comunidades dispersas,

which would also gather for rituals in the

que também participariam de rituais no

wide internal space of these structures.

amplo espaço interno dessas estruturas.

K EY W o RDS southern Jê, funerary ritual,

PALAv RAS-CHAv E Jê do Sul, rito funerá-

earthworks and mounds

rio, aterros anelares e montículos.

 
 

REVISTA DE ARQUEOLOGIA

Volume 23 - N.2:98-111

- 2010

100

  • I nt R o DU ção

Este artigo é decorrente de uma comu-

nicação por nós apresentada no simpósio

“Más allá de los Andes: monumentalidad y

espacios públicos en las tierras bajas suda-

mericanas”, ocorrido em 2009 durante o XV

Congresso da Sociedade de Arqueologia

Brasileira. O objetivo do simpósio era com-

parar diferentes casos de emergência de

sociedades de nível médio de complexidade

nas terras baixas da América do Sul, sendo

uma de suas características arqueologica-

mente reconhecíveis o investimento em

construções monumentais e espaços públi-

cos. O caso que apresentamos refere-se aos

montículos funerários e grandes aterros

anelares de função ritual dos grupos Jê do

Sul, tradição arqueológica Taquara, em pe-

ríodo pré-colonial. Acreditamos que esses

sítios devem ser compreendidos como um

dos muitos elementos no sistema de assen-

tamento desses grupos, que incluía tam -

bém conjuntos de casas semi-subterrâneas,

sítios líticos e sítios lito-cerâmicos a céu

aberto. A fim de compreender esse sistema

de assentamento, examinamos inicialmen-

te os diferentes tipos de sítios registrados e

escavados pela equipe do Núcleo de Pesqui-

sa Arqueológica (NuPArq) da UFRGS no

município de Pinhal da Serra, RS. Para a

análise específica dos aterros anelares e

montículos, selecionamos para apresenta-

ção os resultados das escavações de duas

estruturas do sítio RS-PE-29: um montículo

funerário cercado por um pequeno aterro

anelar de 20 m de diâmetro, e um grande

aterro anelar de 80 m de diâmetro cercando

um amplo espaço vazio. Os dados prove -

nientes dessas escavações nos permitiram

levantar hipóteses relativas à articulação

entre esses “centros cerimoniais” e os de-

mais sítios da região, assim como questões

relacionadas à escala da população que os

construiu e utilizou.

o PR o JE to DE ESCAvA çõ ES E m P I - n HAL DA S ERRA

Desde 2001 a equipe do Núcleo de Pes-

quisa Arqueológica (NuPArq) da UFRGS

está envolvida com o projeto de escavação

dos sítios arqueológicos no entorno da Usi-

na Hidrelétrica de Barra Grande, rio Pelo-

tas, município de Pinhal da Serra, Rio Gran-

de do Sul, na divisa com Santa Catarina. Em

termos geomorfológicos, essa área faz parte

do Planalto das Araucárias, cuja cobertura

vegetal se destaca pela presença de floresta

ombrófila mista (caracterizada pela predo-

minância da Araucaria angustifolia) inter-

calada com campos (IBGE, 1992).

Um levantamento inicial da área havia

sido realizado na década de 1980 pelo ar -

queólogo P. A. Mentz Ribeiro, que locali -

zou sítios da tradição Taquara, incluindo

casas semi-subterrâneas e sítios com ater -

ros anelares e montículos. As datas de C14

obtidas em duas casas do sítio RS-PE-10,

uma casa do sítio RS-PE-26 e outra casa

do sítio RS-PE-28 se situaram entre cal

AD 1.300 e 1.560 (Ribeiro & Ribeiro,

1985:79-80). Os sítios líticos da área foram

remetidos por Ribeiro a um período pré -

-cerâmico. Além da localização e escava -

ção de novos sítios, os trabalhos da equipe

da UFRGS trouxeram novas hipóteses de

pesquisa: a partir de uma perspectiva sis -

têmica, a variabilidade de sítios na área

foi entendida como representando não pe -

ríodos distintos, mas diferenças funcio -

nais dentro de um mesmo sistema de as -

sentamento (Copé et al., 2002) (Figura 1).

Entre os diferentes tipos de sítios, pode-

mos contar 1) as estruturas semi-subterrâ-

neas; 2) os sítios lito-cerâmicos superficiais;

3) os sítios líticos superficiais; 4) os conjun-

tos de aterros anelares e montículos. As es-

truturas ou casas semi-subterrâneas são

encontradas predominantemente em cotas

altas, acima dos 800 m de altitude, em zonas

Novas perspectivas sobre a arquitetura ritual do planalto merid iona l ...

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Jonas Gregorio de Souza e Silvia Moehlecke Copé

101

Figura 1 – Sítios arqueológicos identificados em Pinhal da Serra, RS

Figura 1 – Sítios arqueológicos identificados em Pinhal da Serra, RS

de transição entre os campos e a floresta

ombrófila mista que, nessas altitudes, é

composta principalmente por matas de

araucária. A maioria dos sítios é composta

de 1 ou 5 estruturas, embora existam con-

juntos de 6, 15, 19 e até 23 estruturas semi-

-subterrâneas. Nesses conjuntos, há uma

predominância de estruturas pequenas e

médias, entre 2 e 8 m de diâmetro (Salda-

nha, 2005; Copé, 2007).

Os sítios lito-cerâmicos são variados em

termos de dimensões: os sítios maiores, com

concentrações densas de artefatos, grande di-

versidade artefatual, e micro-estruturas de fo-

gueira parecem corresponder a habitações,

com a dispersão do material sugerindo descar-

te primário de unidades domésticas, enquanto

os sítios menores, muito variados (alguns com,

outros sem micro-estruturas de fogueira e ne-

gativos de postes)

mas com menor di-

versidade de artefa-

tos, poderiam cor-

responder a lugares

de atividades especí-

ficas de diferentes

tipos, como acampa-

mentos ou habita-

ções temporárias de

famílias nucleares

(Saldanha, 2005;

Copé, 2007).

Os sítios lí-

ticos superficiais

apresentam concen-

trações esparsas de

grandes artefatos bi-

faciais, sem micro-

-estruturas como fo-

gueiras ou bolsões

de lascamento. Con-

centram-se em cotas

altimétricas baixas,

nas encostas pró -

ximas à calha do

rio Pelotas, em zona de floresta ombrófila

mista. Ao contrário do que supunha Ribei -

ro, atualmente é possível interpretar esses

sítios como áreas de atividades específicas

dos ceramistas, provavelmente ligadas à

abertura de roças e ao cultivo (Saldanha,

2005; Copé, 2007). Tal associação é de -

monstrada pela presença, nesses sítios,

dos mesmos tecno-tipos identificados nos

sítios considerados de habitação – lito-ce -

râmicos ou de estruturas semi-subterrâne-

as – somado ao fato de que, nos sítios de

habitação, encontra-se grande quantidade

de debitagem e de lascas de façonagem, o

que sugere que os instrumentos eram fa -

bricados nas áreas domésticas e então

transportados às áreas onde eram utiliza -

dos (Copé et al., 2002; Saldanha, 2005).

REVISTA DE ARQUEOLOGIA

Volume 23 - N.2:98-111

- 2010

102

oS AtERRoS AnELARES E montíCULoS

Nosso foco neste artigo é um outro tipo de

sítio: os aterros anelares e montículos. Estru-

turas construídas em terra com diferentes

funções existem em todo o território Jê do Sul,

o que causa uma profusão de termos para

descrevê-los. Em conformidade com a pro-

posta de Copé (2006:380) reservamos o termo

montículo para as estruturas de caráter fune-

rário. Estas não devem ser confundidas com

os depósitos resultantes da construção de ca-

sas semi-subterrâneas que, quando possuem

a função de nivelar o terreno circundante à

casa, podem ser chamados de aterros. Em Pi-

nhal da Serra e em outras regiões do planalto,

os montículos aparecem cercados por aterros

anelares, termo que adotaremos para desig-

nar “muros” de terra formando um contorno

circular ou, mais raramente, retangular. Esse

tipo de sítio foi inicialmente estudado na pro-

víncia argentina de Misiones, cidade de Eldo-

rado, onde, no topo de um morro com boa

vista dos arredores, um aterro anelar de 180

m de diâmetro cercando um montículo em

associação com cerâmica Taquara (chamada

então de Eldoradense) e unido a outros qua-

tro aterros anelares foi descrito pelo arqueó-

logo Oswald Menghin, que interpretou essa

estrutura como remanescente de uma antiga

paliçada cercando um túmulo, representado

pelo montículo, à semelhança das atuais al-

deias circulares Jê (Menghin, 1957). Recente-

mente, os trabalhos nesse sítio foram retoma-

dos por Iriarte et al. (2008, 2010) com novas

questões e resultados, como comentaremos

mais adiante.

Após as descobertas de Menghin, sítios

similares foram identificados no Paraná e

em Santa Catarina. No Paraná, Chmyz

(1968) encontrou, no médio vale do rio Igua-

çu, conjuntos de montículos alongados em

topos de morros. Em um dos casos, os mon-

tículos estavam cercados por um aterro ane-

lar. Não foi possível identificar vestígios di-

retos de sepultamentos nessas estruturas,

embora o autor descreva que na base de um

dos montículos escavados havia uma fina

camada de cor escura contendo muitos car-

vões (Chmyz, 1968:46).

No planalto leste de Santa Catarina, nos

arredores de Urubici, o arqueólogo João Al-

fredo Rohr (1971) identificou aterros anela-

res com dimensões que variavam de 15 a 70

m de diâmetro, localizados sempre em to-

pos de morros com vista panorâmica dos

arredores. Dos sítios visitados por Rohr, os

aterros menores, de 15 e 20 m de diâmetro,

cercavam montículos, ao passo que os de

maiores dimensões, entre 30 e 70 m de diâ-

metro, não apresentavam montículo em seu

centro. Apesar da denominação popular de

“danceiros” ou “terreiros de dança dos bu-

gres”, Rohr conclui a partir de suas escava-

ções que tais sítios seriam remanescentes

de antigas aldeias fortificadas, uma inter-

pretação similar à de Menghin.

Os aterros anelares e montículos de Pi-

nhal da Serra foram primeiro descritos por

Ribeiro (Ribeiro & Ribeiro, 1985). Levando

em conta a possibilidade de os montículos

encerrarem sepultamentos, o arqueólogo re-

colheu amostras do solo para testes de Ph,

que não apontaram qualquer diferença entre

o solo dos montículos e o do terreno circun-

dante. Somando isso ao fato de que nas estru-

turas por ele escavadas foram encontrados

fogões e cerâmica, Ribeiro segue Rohr e

Menghin em suas conclusões e interpreta as

estruturas de Pinhal da Serra como vestígios

de aldeias cercadas por paliçadas, embora

reconheça que algumas pudessem ter fun-

ções distintas (Ribeiro & Ribeiro, 1985:90-

91). Na verdade, a possibilidade de que os

montículos poderiam ser de caráter funerá-

rio sempre foi sugerida, mas nenhuma esca-

vação pôde comprová-la, de modo que a hi-

pótese das “aldeias fortificadas” foi mantida.

Uma vez que os trabalhos da equipe da

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Jonas Gregorio de Souza e Silvia Moehlecke Copé

103

Figura 2. Localização das diferentes estruturas do sítio RS-PE-29, com plantas topográficas em detalhe. Imagem de

Figura 2. Localização das diferentes estruturas do sítio

RS-PE-29, com plantas topográficas em detalhe. Imagem de

satélite do Google Earth. Topografias realizadas entre

julho de 2007 e fevereiro de 2009 por Rodrigo Torres (Es-

trutura 1) e Jonas Souza (Estruturas 2, 3 e 4)

UFRGS no mesmo município foram guiados

por uma perspectiva sistêmica, que considera

que os diferentes tipos de sítios representam

diferentes atividades realizadas por um grupo

humano em seu território, procurou-se, por

amostragem, escavar um sítio de cada tipo a

fim de se compreender sua função no sistema

de assentamento local. O sítio de aterros ane-

lares e montículos inicialmente escolhido

para escavação foi o sítio RS-PE-21. Este con-

siste em dois aterros anelares de 15 e 20 m de

diâmetro, ambos cercando montículos. Foi

aberta uma trincheira cortando parte do ater-

ro da estrutura maior, bem como seu montí-

culo central. Neste, aos 45 cm de profundida-

de, foi localizada uma micro-estrutura de

fogueira com ossos calcinados, cercada por

terra queimada (Copé et al., 2002). Isso confir-

mou a função funerária dos montículos, e

desde então sítios semelhantes foram identifi-

cados e escavados no vale do rio Pelotas e do

rio Canoas em Santa Catarina, via de regra

encontrando-se sepultamentos nos montícu-

los (Herberts & Müller, 2007; Müller, 2008; De

Masi 2006, 2009).

Este padrão, contudo, não é encontrado em

toda a área de dispersão Jê meridional, sendo

mais comum, em certos locais, o sepultamento

coletivo em grutas. Saldanha (2008) utili-

zou essa diferença para desfazer a ima-

gem demasiadamente homogênea que se

construiu sobre os grupos Jê meridionais

no passado. Para o autor, a diferença nos

padrões de sepultamento entre Pinhal da

Serra e Bom Jesus, RS, implica distintas

concepções de ancestralidade e descen-

dência. Em Bom Jesus, onde há sepulta-

mentos coletivos em grutas em que os

falecidos estão acessíveis à visitação futu-

ra e manipulação, os ritos funerários es-

tariam voltados para a negociação de ter-

ritórios extensos congregando unidades

formadas por diversas famílias dispersas,

agregadas pelo uso dos abrigos rochosos

para sepultamentos coletivos. Por outro lado,

em Pinhal da Serra, os aterros anelares e mon-

tículos seriam de propriedade de grupos do-

mésticos específicos, que por meio de tais mo-

numentos funerários demarcariam seus

territórios por referência a uma série de ances-

trais identificáveis (Saldanha, 2008).

No entanto, nem todos os sítios de aterros

anelares são de caráter funerário. Gostaríamos

de ilustrar a variabilidade desses sítios a partir

do conjunto abarcado sob a denominação RS-

-PE-29, que representa a maior concentração

de aterros anelares e montículos na região de

Pinhal da Serra. Esse conjunto tem sido traba-

lhado intensivamente desde 2007 pela equipe

da UFRGS. Todas as estruturas foram constru-

ídas no topo alongado de um morro, em uma

altitude de 900 m, com ampla vista dos arredo-

res (Figura 2). A Estrutura 1 possui as maiores

dimensões da região: trata-se de um aterro

anelar, de forma circular, com 80 m de diâme-

tro, porém sem montículo em seu centro (Fi-

gura 3). Essa estrutura encontra-se entre as

descritas por Ribeiro, tendo sido escavada pelo

mesmo (Ribeiro & Ribeiro, 1985). Retornamos

ao local com objetivos diferentes, buscando

compreender o processo de construção do

aterro anelar, que poderia ter se dado de duas

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Volume 23 - N.2:98-111

- 2010

104

formas: ou através do uso da terra do próprio

local, ou através do transporte de terra recolhi-

da em outra fonte. Essa segunda hipótese é

sugerida pelo relato de Mabilde (1897:165) a

respeito da construção de um montículo sobre

a sepultura de um cacique Kaingang, emprei-

tada para a qual seus subordinados transpor-

tavam terra em cestos desde uma distância

considerável, indo buscá-la nos barrancos às

margens de algum arroio ou sanga. A fim de

resolver a questão, abrimos duas trincheiras,

uma cortando o aterro e outra na área interna

cercada por ele, além de poços-teste nas áreas

externas, fora da estrutura. A comparação da

estratigrafia das diferentes áreas é um primei-

ro indício de que o aterro anelar foi construí-

do com terra vinda de outro local, embora

análises de solo ainda estejam para ser reali-

zadas, de modo a fundamentar essa hipótese.

O que ficou claro durante os trabalhos de

campo é que a trincheira escavada cortando o

aterro revelou duas camadas inexistentes no

espaço interno da estrutura. Após a camada

húmica (I) e a camada II, mais argilosa e

compacta, o aterro apresentou uma camada

(III) bastante argilosa e viscosa, com uma

mistura de manchas acinzentadas e escuras.

A camada seguinte (IV) apresentava a mesma

textura argilosa, coesa e viscosa, embora hou-

vesse uma mudança na cor, mais amarelada,

permanecendo, contudo, as manchas escu-

ras. A coloração acinzentada e escura existen-

te nessas duas camadas parece ser decorrente

da presença de certa quantidade de matéria

orgânica, o que, somado às demais caracterís-

ticas, leva a crer que esse sedimento tenha

sido transportado da beira de algum lago ou

córrego, embora ainda não tenhamos deter-

minado sua origem (Figura 3). Essas cama-

das não estão presentes nas áreas internas ou

externas ao aterro anelar, que apresentaram

apenas a transição entre camada húmica e

basalto decomposto comum ao latossolo da

região, de modo que sugerimos que as cama-

Figura 3. Planta topográfica do sítio RS-PE-29, Estrutura 1, com identificação da trincheira esca- vada sobre

Figura 3. Planta topográfica do sítio RS-PE-29,

Estrutura 1, com identificação da trincheira esca-

vada sobre o aterro anelar. Abaixo, estratigrafia

do aterro anelar, com destaque para as camadas

III e IV, que representam o evento de construção.

Abaixo delas, a camada V já corresponde ao ba-

salto decomposto

das III e IV representam o evento de constru-

ção do aterro anelar. Ao se realizarem análi-

ses do solo recolhido nessas distintas áreas

será possível testar a possibilidade, levantada

pela comparação das estratigrafias, de que o

Figura 4. Planta baixa das Estruturas 3A e 3B, sítio RS-PE-29. Abaixo, planta topográfica da Estru-

Figura 4. Planta baixa das Estruturas 3A e 3B, sítio

RS-PE-29. Abaixo, planta topográfica da Estru-

tura 3A, com indicação da área escavada entre

janeiro de 2008 e fevereiro de 2009

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Jonas Gregorio de Souza e Silvia Moehlecke Copé

105

aterro foi construído com sedi-

mento alóctone – o que assumi-

mos, no momento, como uma

hipótese de trabalho.

Cerca de 400 m a noroeste,

encontra-se a Estrutura 3, com-

posta de dois aterros anelares, am-

bos de forma circular e com 20 m

de diâmetro, denominados A e B,

cada um cercando um montículo

(Figura 4). Entre 2008 e 2009, es-

cavamos o montículo central da

Figura 5. Fotografias da pira funerária (à esquerda) e das con- centrações de ossos calcinados (à

Figura 5. Fotografias da pira funerária (à esquerda) e das con-

centrações de ossos calcinados (à direita). Montículo central da

Estrutura 3A, sítio RS-PE-29

lizada ao lado da primeira, consistia em

diversos carvões de grandes dimensões e ossos

calcinados cercados por terra queimada. A dis-

posição e alinhamento dos carvões, alguns pa-

ralelos, outros perpendiculares, permitem vi-

sualizar a forma da pira funerária (Figuras 5 e

6). As datações feitas a partir do carvão asso-

ciado aos ossos revelaram que essas duas mi-

cro-estruturas não são contemporâneas, sendo

a primeira datada de 490 ± 40 BP, cal AD 1410

a 1440 (Beta-242869), e a segunda de 340 ± 40

BP, cal AD 1480 a 1630 (Beta-242860). Essa

última parece ser contemporânea ao sepulta-

mento no sítio RS-PE-21, o primeiro da região

a ser escavado pela equipe da UFRGS, cuja da-

tação se situou em 350 ± 40 BP, cal AD 1480 a

1630 (Beta-242868).

Ocorrem, portanto, tanto sepultamentos

primários quanto secundários. No primeiro

caso, representado pelo segundo sepulta-

mento do sítio RS-PE-29 3A e pelo sepulta-

mento do sítio RS-PE-21, o montículo é er-

guido diretamente sobre os vestígios da pira

funerária, como é possível observar pela

quantidade e disposição dos carvões, bem

como pela presença de terra queimada cer-

cando a micro-estrutura. No segundo caso,

representado pelo primeiro sepultamento

do sítio RS-PE-29 3A, o corpo é cremado em

um determinado local, seus ossos desarti-

culados são recolhidos e transportados,

Estrutura 3A. Aos 25 cm de pro-

fundidade, localizamos duas mi-

cro-estruturas, a primeira delas constituída

por uma mancha acinzentada, pequenos nó-

dulos alaranjados e carvões, e ossos calcina-

dos. Após completamente escavada a micro-

-estrutura, retirados todos os ossos e carvões,

foi possível observar que esta se assentava so-

bre um aprofundamento da camada, forman-

do uma cova. A segunda micro-estrutura, loca-

Figura 6. Planta final da escavação no montículo da Estrutura 3A, sítio RS-PE-29. À esquerda, nota-

Figura 6. Planta final da escavação no montículo

da Estrutura 3A, sítio RS-PE-29. À esquerda, nota-

se a pira funerária e, à direita, o sepultamento

secundário. Abaixo, detalhe da posição estratigrá-

fica dos dois sepultamentos sob o montículo

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106

possivelmente dentro de um cesto, para um

local diferente, onde são depositados em

uma cova sobre a qual se ergue o montícu-

lo. Esses dois padrões foram também obser-

vados em sítios escavados em Santa Catari-

na, onde, assim como em Pinhal da Serra,

ambos os padrões eram por vezes encontra-

dos associados sob o mesmo montículo

(Herberts & Müller, 2007; Müller, 2008; De

Masi 2006, 2009). Para Müller (2008), a pre-

sença única de piras funerárias em alguns

dos montículos implica que este é um pa-

drão de disposição diferente do sepulta -

mento secundário. Por outro lado, os dados

obtidos por De Masi (2006, 2009) sugerem

que, ao menos no caso do sítio SC-AG-12,

onde foram evidenciados 6 sepultamentos

secundários e uma pira funerária com pou-

cos ossos calcinados na base do montículo,

não haveria sepultamentos primários no

sentido estrito do termo, uma vez que a pira

seria limpa dos ossos recolhidos para serem

transportados ao local definitivo de sepulta-

mento. No caso do sítio RS-PE-29 3A, a dife-

rença nas datas refutou a hipótese inicial de

que as duas micro-estruturas localizadas

lado a lado representariam duas etapas do

mesmo rito, implicando que, no caso em

questão, é pertinente a diferenciação entre

dois padrões de disposição dos ossos cre-

mados, um primário (pira funerária com os

ossos sepultada in loco) e outro secundário

(ossos transportados em um cesto). Esta é,

contudo, uma interpretação preliminar que

pode ser alterada por escavações futuras de

um número maior de sepultamentos.

Do IS tIP o S DE S ítI o S:

o S “DA n CEIR o S” E o S túm ULo S

As duas estruturas analisadas corres -

pondem a dois tipos diferentes de sítios: um,

representado pela Estrutura 3, apresenta

dois pequenos aterros anelares cercando

montículos funerários; o outro, representa-

do pela Estrutura 1, apresenta um grande

aterro anelar delimitando um espaço inter-

no amplo e limpo, porém sem sepultamen-

tos. Esse padrão pode ser encontrado desde

as pesquisas de Rohr (1971), pois entre os

sítios identificados por esse arqueólogo ape-

nas os pequenos (aterros de 15 a 20 m de

diâmetro) possuíam montículos, enquanto

os maiores (65 e 70 m de diâmetro) cerca-

vam um amplo espaço vazio. De Masi

(2006) retomou essa distinção para o baixo

vale do rio Canoas, Santa Catarina, denomi-

nando os círculos menores com montículos

de “túmulos” (e seus agrupamentos de “ce-

mitérios”) e os círculos maiores sem montí-

culos de “danceiros”.

O autor chega a essas conclusões a par-

tir de analogia etnográfica com os Xokleng,

habitantes da região por ocasião do contato.

Os Xokleng praticavam a cremação dos

mortos, sepultando-os sob pequenos montí-

culos, de 60 cm de altura, ainda no início do

século XX (Silva, 2001:152; Métraux,

1946:465). O cadáver, envolvido em um co-

bertor, era disposto sobre uma pilha de ma-

deira à qual se ateava fogo, retornando os

participantes da cerimônia um dia depois

para recolher os ossos calcinados em um

cesto forrado com folhas de xaxim, que era

então transportado ao local definitivo de se-

pultamento, sendo depositado em uma pe-

quena cova sobre a qual se erguia um mon-

tículo cônico (Lavina, 1994:66). A

construção de montículos funerários era

também uma prática entre os Kaingang do

Rio Grande do Sul (Mabilde, 1897), do Para-

ná (Borba apud Silva, 2001:151) e de São

Paulo (Métraux, 1946), embora sem a cre-

mação. O rito funerário Jê do Sul envolven-

do o sepultamento secundário após crema-

ção e a posterior construção de um

montículo sobre a cova pode ser traçado até

o século XVII, graças à descrição do Pe. Ruiz

de Montoya que, em missão entre os então

Novas perspectivas sobre a arquitetura ritual do planalto merid iona l ...

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Novas perspectivas sobre a arquitetura ritual do planalto merid iona l ...

Jonas Gregorio de Souza e Silvia Moehlecke Copé

107

chamados “Gualachos” da província espa-

etnográficos (Iriarte et al., 2008, 2010). é im-

nhola do Guairá (hoje Paraná), testemu-

portante ressaltar que, ao passo que no sítio

nhou: “queman el cuerpo [

]

recojen las

SC-AG-12 os fornos estavam dispostos em

cenizas y hacen un hoyo y enterranlas [

]

y

semi-círculo ao redor de um montículo cen-

sus caciques hacen un monton de tierra so-

tral, ou seja, na praça interna, no caso do

bre la sepultura” (Montoya, 1628 apud

sítio PM01 tais fornos se encontram direta-

D’Angelis e Veiga, 1996:94).

mente sob o aterro anelar, incorporados a

Em relação aos “danceiros”, não há equi-

ele. Embora a maioria dos grandes aterros

valentes etnográficos da construção dos mo-

anelares ou “danceiros” cerque um espaço

numentais aterros anelares. Contudo, De

vazio, espécie de “praça” interna, deve-se ter

Masi (2006, 2009) faz uso de analogia com

em conta que tanto no caso do sítio SC -

os locais onde os Xokleng realizavam o rito

-AG-12 quanto no caso do sítio PM01 o gran-

de iniciação que envolvia a perfuração dos

de aterro anelar e as evidências de feasting

lábios dos meninos. Para esse rito, os Xok-

estão associados a um montículo central de

leng reuniam periodicamente todos os ban-

caráter funerário. Para De Masi (2006, 2009),

dos dispersos e limpavam uma grande área

isso implica que os indivíduos sepultados no

circular, ao redor da qual construíam abri-

montículo central, um adulto e uma criança,

gos; o rito, realizado na “praça” central, in-

possuíam um status diferenciado, marcado

cluía o consumo de bebida alcoólica e cul-

também pelos acompanhamentos funerá-

minava com a perfuração dos lábios dos

rios que consistiam em uma fogueira e duas

meninos para introdução dos tembetás (La-

pequenas vasilhas. Em contraste, logo ao

vina, 1994:64). De Masi (2006, 2009) identi-

lado do grande aterro, foi localizado um

ficou, em um dos “danceiros” escavados (sí-

aterro anelar de pequenas dimensões cer-

tio SC-AG-12), um grande número de

cando um montículo com 6 sepultamentos,

estruturas de combustão na praça central,

sem que houvesse quaisquer acompanha-

além de estatuetas de argila e um tembetá de

mentos que se pudesse associar a um indiví-

quartzo, confirmando o caráter ritual do sí-

duo específico. Iriarte et al. (2008, 2010)

tio e sua possível conexão com as práticas

também interpretam o sítio PM01 como um

Xokleng descritas na etnografia. Em Eldora-

local onde um indivíduo de grande impor-

do, Argentina, novas pesquisas realizadas

tância foi sepultado no montículo central,

no sítio originalmente descrito por Menghin

sendo esse local revisitado periodicamente

(sítio PM01), um aterro anelar de 180 m de

para a realização de festejos funerários en-

diâmetro, ao qual se ligam outros aterros

volvendo o consumo de uma bebida fermen-

anelares menores, trouxeram informações

tada de milho e grande quantidade de carne.

semelhantes: estruturas de combustão aná-

Ao mesmo tempo, durante tais encontros se

logas a fornos subterrâneos ou de tipo “poli-

acrescia mais terra ao grande aterro anelar,

nésio” – um tipo de estrutura descrita por

aumentando suas dimensões ao longo de

Métraux (1946:452-453) para os Kaingang

gerações, conforme evidenciado pelas datas

do período histórico – associadas a cerâmica

obtidas em diferentes níveis do aterro (Iriar-

contendo fitólitos de milho – sugerindo um

te et al., 2008:951-953).

 

evento de consumo de grande quantidade de

As novas pesquisas no Rio Grande do

comida e, possivelmente, de bebida fermen-

Sul, em Santa Catarina e em Misiones, Ar-

tada de milho por ocasião da realização de

gentina, proporcionaram novos dados que

festejos funerários, reforçando os paralelos

permitem refutar a hipótese de que os sí-

 

REVISTA DE ARQUEOLOGIA

Volume 23 - N.2:98-111

- 2010

108

tios com aterros anelares seriam aldeias

semi-subterrâneas, e podem corresponder a

fortificadas. Não só esses sítios não são ha-

cemitérios locais dessas comunidades (Salda-

bitações, como também se encontram se -

nha 2005, 2008). Celebrações funerárias ela-

parados das habitações, o que lhes confere

boradas reforçam os laços comunitários atra-

o caráter de “centros cerimoniais”, desig -

vés da construção de uma memória coletiva

nação já utilizada por De Masi (2009). Cen-

representada pelos ancestrais falecidos. Esse é

tros cerimoniais são lugares onde diferen-

um aspecto que transparece especialmente

tes grupos vindos de assentamentos

nos sepultamentos secundários e múltiplos,

dispersos se encontram periodicamente

como encontramos no planalto meridional. A

para a realização de rituais coletivos (Ber-

cremação, limpeza, seleção dos ossos e seu

nardini, 2004:331; Twiss, 2008:423-424).

transporte para o local definitivo de sepulta-

Exemplos freqüentemente citados desse

mento, por vezes junto com outros indivíduos,

tipo de sítio são os henges construídos du-

além da construção do montículo e do aterro

rante o Neolítico na Inglaterra (Bradley,

anelar, revelam grande esforço coletivo. Para-

1998), os templos em forma de U do perío-

lelos etnográficos revelam que o rito secundá-

do formativo na costa peruana (Dillehay,

rio, momento em que o morto é considerado

2004) e os aterros geométricos, montículos

propriamente sepultado, reúne a comunidade

e avenidas do período Woodland médio nos

por completo, reprimindo a individualidade

Estados Unidos (Bernardini, 2004). Vimos

do morto e incorporando-o ao coletivo dos an-

que, no caso do planalto meridional brasi-

cestrais, enfatizando assim a unidade dos vi-

leiro, esses sítios de caráter ritual podem

vos após a ruptura causada pela morte (Twiss,

ser de dois tipos: montículos encerrando

2008:437; Larsson, 2003; Pearson, 1999:22,

sepultamentos cremados, cercados por pe-

50). Propomos, portanto, que os montículos

quenos aterros anelares, e grandes praças

funerários podem ser considerados estruturas

delimitadas por um aterro anelar. Adler e

integrativas de baixo nível, construídos e visi-

Wilshusen (1990), a partir da comparação

tados por moradores de conjuntos de casas

entre casos etnográficos de sociedades que

semi-subterrâneas nas suas proximidades,

constroem estruturas arquitetônicas “pú -

que aí participavam de inumações secundá-

blicas” 1 (categoria em que podemos incluir

rias e ritos funerários coletivos, reforçando

os centros cerimoniais), propõem uma dis-

seus laços comunitários.

tinção entre estruturas de baixo e de alto

Para os aterros anelares de grandes di-

nível. As estruturas de baixo nível, com pe-

mensões, sugerimos uma função distinta.

quenas dimensões e espaço interno reduzi-

De Masi (2006, 2009) identifica, em um

do, serviriam para integrar apenas uma

desses sítios, numerosos fornos, duas esta-

porção da comunidade; as estruturas de

tuetas de argila, uma plataforma central,

alto nível, por outro lado, possuiriam espa-

dois sepultamentos secundários, e um

ços internos amplos, e serviriam para inte-

tembetá, equiparando-os aos locais prepa-

grar uma comunidade inteira ou várias

rados pelos Xokleng para a iniciação dos

comunidades separadas.

meninos, onde ocorria a reunião dos dife-

Muitos dos montículos funerários estão

rentes bandos dispersos ao longo do ano.

nas proximidades de algum conjunto de casas

Iriarte et al. (2008) descrevem um contexto

O termo “público” não tem aqui o mesmo significado do que quando aplicado às praças mesoamericanas e andinas, mas é

utilizado por nós da mesma forma como se costuma chamar de público o espaço da praça central nas aldeias Jê e Xinguanas,

por oposição ao espaço “privado” das casas. O espaço público, nestes casos, é onde se dão as relações cerimoniais, formais, que

reúnem toda a aldeia (Da Matta, 1976).

Novas perspectivas sobre a arquitetura ritual do planalto merid iona l ...

Novas perspectivas sobre a arquitetura ritual do planalto merid iona l ...

Novas perspectivas sobre a arquitetura ritual do planalto merid iona l ...

Jonas Gregorio de Souza e Silvia Moehlecke Copé

similar para Misiones, Argentina, onde,

além dos fornos que sugerem consumo de

grande quantidade de alimentos, foram en-

contrados vestígios de consumo de bebida

fermentada de milho. Os autores destacam

a criação de alianças e solidariedade entre

diferentes aldeias através das celebrações

no espaço ritual da estrutura anelar, espe-

cialmente na situação de fronteira em que

esta se encontra (Iriarte et al. 2008:12-13).

O espaço interno delimitado por esses

grandes aterros anelares, uma verdadeira

praça central, é apropriado para a agrega-

ção de um número maior de pessoas do

que as que participariam dos ritos funerá-

rios nos montículos cercados por pequenos

aterros anelares. Na Estrutura 1 do conjun-

to RS-PE-29, com 80 m de diâmetro, a es -

tratigrafia do aterro, como notamos no iní-

cio do artigo, sugere que a terra usada para

construí-lo foi trazida de outro local, apon-

tando para um esforço muito maior na sua

construção em comparação com os sítios

de menores dimensões. Acreditamos, por -

tanto, que esses grandes aterros anelares

ou “danceiros” poderiam corresponder à

categoria de estruturas integrativas de alto

nível, mobilizando o trabalho de muitas

comunidades diferentes, possivelmente

provenientes de distintos conjuntos de ca-

sas semi-subterrâneas dispersos pela re -

gião, e cuja praça interna seria planejada

para abrigar o grande número de pessoas

provenientes dessas comunidades durante

os rituais. Assim, a mesma comunidade

poderia participar, com freqüência, de ritu-

ais mais restritos em montículos funerá -

rios e pequenos aterros anelares próximos

às suas habitações, e também poderia, pe-

riodicamente, integrar-se com membros

de outras comunidades durante a constru-

ção e a realização de rituais coletivos nos

grandes aterros anelares. Essa é uma inter-

pretação que deve ser testada em escava -

109

ções futuras, com o objetivo de recuperar

evidências materiais de tais agregações.

Não se pode esquecer que essa dinâmica

de agregações regionais é atestada pela etno-

grafia dos grupos Jê do Sul. Já mencionamos

o exemplo dos Xokleng, que reuniam os ban-

dos dispersos periodicamente para a realiza-

ção do rito de iniciação. No caso dos Kain-

gang, que estavam tradicionalmente

organizados em cacicados, essa dinâmica é

ainda mais evidente. Segundo Fernandes

(2004), os Kaingang estariam divididos em

facções capazes de atingir formas de atuação

conjunta. Tais divisões corresponderiam a

grupos locais – formados por um conjunto

de grupos familiares – com seus domínios

político-territoriais autônomos, porém inter-

ligadas por redes de aliança e conflito atra-

vés das quais se organizavam para formar

“blocos” de atuação política. O autor reco-

nhece que os Kaingang se enquadrariam na

definição clássica de sociedade segmentar, o

que significa que seu sistema social é com-

posto de grupos locais que podem se articu-

lar em unidades maiores (Fernandes,

2004:102). Nesse caso a integração regional

era mediada pelos caciques principais, auto-

ridade máxima sobre um conjunto de gru-

pos locais, havendo também caciques subor-

dinados responsáveis por cada grupo.

Fernandes (2004:103) destaca o papel das

“festas” ou rituais, especialmente os de cará-

ter funerário, na integração dos grupos re-

gionais Kaingang. Já mencionamos que,

conforme Mabilde (1897:165), os subordina-

dos de um determinado cacique se reuniam

por ocasião de sua morte para a construção

de seu montículo funerário. Ainda recente-

mente, o rito funerário Kaingang realizado

periodicamente para se “rezar” pelos mortos

recentes era peça central de sua sociedade,

momento em que se integravam diferentes

grupos e se fazia referência aos mitos de ori-

gem, promovendo-se cantos e danças nos

REVISTA DE ARQUEOLOGIA

Volume 23 - N.2:98-111

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cemitérios acompanhados de bebida de mel

fermentado (Veiga 2000; Crépeau, 1994). A

centralidade dos ritos mortuários, bem como

de rituais de outra natureza, para manuten-

ção das redes de interação e integração re-

gional são aspectos ressaltados pelas etno-

grafias que as pesquisas arqueológicas têm

demonstrado serem também válidos para o

período pré-colonial, de modo que podemos

estar tratando de questões estruturais para

as sociedades Jê do Sul.

Con CLUS ão

As pesquisas em Pinhal da Serra trouxe-

ram informações adicionais sobre a varia-

bilidade dos sítios de aterros anelares e

montículos no planalto meridional. O cená-

rio que propomos possui paralelos em ou -

tros contextos arqueológicos e etnográficos,

como mencionamos ao longo do artigo: a

agregação periódica de comunidades dis -

persas, materializada na construção e uso

de monumentos públicos de caráter ceri-

monial, é utilizada para explicar desde os

barrows e henges da Inglaterra neolítica

(Bradley, 1998) até os templos da costa pe-

ruana no período formativo (Dillehay,

2004). A arquitetura padronizada desses

monumentos – assim como no caso Jê do

Sul – pode ser interpretada como resultante

da interação a nível regional dessas popu-

lações: cada comunidade constrói e usa

múltiplos monumentos, ao mesmo tempo

em que diferentes comunidades podem

convergir na construção e uso de um único

centro cerimonial de maior importância

(Bernardini, 2004:336).

Apesar de ser um processo recorrente

na trajetória das sociedades humanas, a or-

ganização regional e a emergência de mo-

numentos e espaços públicos possuem ca-

racterísticas próprias em cada época e cada

local. Acreditamos que nossas pesquisas

nos aterros anelares e montículos do pla -

nalto meridional (um contexto ainda pouco

conhecido) são uma importante contribui-

ção a um cenário que, graças às discussões

a respeito de sítios como os geoglifos do

Acre, as estruturas megalíticas do Amapá e

os sambaquis do litoral, tem demonstrado a

originalidade e a complexidade do passado

das terras baixas sul-americanas.

Novas perspectivas sobre a arquitetura ritual do planalto merid iona l ...

Novas perspectivas sobre a arquitetura ritual do planalto merid iona l ...

Novas perspectivas sobre a arquitetura ritual do planalto merid iona l ...

Jonas Gregorio de Souza e Silvia Moehlecke Copé

111

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REVISTA DE ARQUEOLOGIA

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ARTIGO

leVantamento arqUeológiCo na aldeia lalima, miranda/ms: Uma ContriBUiçÃo ao estUdo da traJetória históriCa da oCUpaçÃo indÍgena regional

Eduardo bespalez Doutorando em Arqueologia no mAE/USP, bolsista CAPES, eduardobespalez@usp.br.

 

RESU mo

A b S t RACt

No Território Indígena multiétnico de-

In the Indigenous Territory called Lalima

nominado Aldeia Lalima foram identifica-

village were identified 13 sites and 7 archaeo-

dos 13 sítios e 7 áreas de ocorrência arque-

logical occurrence areas, consisting of Gua-

ológica, constituídos por materiais Guarani,

rani materials, of Pantanal Tradition (similar

da Tradição Pantanal (análogos aos da Fase

to the Jacadigo Phase and to the of MS-CP-25

Jacadigo e aos sítio MS-CP-25) e por mate-

site), and materials associated with the his-

riais associados à história de formação do

torical formation of the current ethnographi-

contexto etnográfico atual. Considerando os

cal context. Considering the detected materi-

materiais detectados como correlatos da

als as correlates of the historical trajectory of

trajetória histórica da ocupação indígena na

indigenous occupation in the village, propose

Aldeia, proponho que Lalima pode ser com-

that Lalima can be understood as a palimp-

preendida como um palimpsesto da história

sest of the indigenous regional history and

indígena regional e sugiro algumas ques-

suggest some issues relating to the deepening

tões relativas ao aprofundamento das pes-

of archaeological research in the area.

quisas arqueológicas na área.

 

K EY W o RDS Archaeological survey, Indi-

PALAv RAS-CHAv E Levantamento Arque-

genous History, Lalima Indigenous Village/

ológico, História Indígena, Aldeia Lalima/

Miranda/Mato Grosso do Sul

Miranda/MS

 

REVISTA DE ARQUEOLOGIA

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- 2010

114

Int R o DU ção: A A LDEIA L ALI m A E n QUA nto
Int R o DU ção: A A LDEIA L ALI m A
E n QUA nto PALI m PSES to
DA HIS tó RIA I n D í GE n A REGI on AL
de formação do registro arqueológico e os
significados da variabilidade artefatual; b)
no contexto arqueológico, histórico e et -
Em um trabalho preliminar de levan -
nográfico da ocupação indígena regional;
tamento arqueológico 1 , busquei demons -
e c) na detecção de um sítio arqueológico
trar que o Território Indígena (TI) mul -
com vestígios Guarani na Aldeia Lalima
tiétnico de maioria Terena denominado
(Kashimoto & Martins 2008: 153, 155).
Aldeia Lalima, localizado na margem di -
As pesquisas sobre os processos de for-
reita do médio curso do rio Miranda, Pan -
mação do registro arqueológico, principal-
tanal de Mato Grosso do Sul (ver mapas 1
mente no que se refere aos seus aspectos
e 2), poderia ser compreendido como pa -
culturais, levaram ao entendimento dos
limpsesto da trajetória histórica da ocupa -
vestígios arqueológicos como correlatos
ção indígena regional (Bespalez, 2009).
materiais da dinâmica histórica e cultural
Tendo como objetivo principal contribuir
de longa duração da ocupação indígena re-
com o estudo da história cultural na re -
gional (Barton, 2004; Binford, 1981, 1983;
gião, através de um entendimento de ar -
Cameron & Tomka, 1993; Nelson, 1997;
queologia enquanto história indígena de
Panja, 2003; Schiffer, 1987; zedeño, 1997).
longa duração (Eremites de Oliveira,
Já os estudos relativos aos significados da
2003; Heckenberger, 2005; Hodder, 1987;
variabilidade artefatual, conduziram à com-
Neves 2000), esta proposição foi sugerida
preensão dos vestígios arqueológicos en-
com base em: a) um arcabouço teórico e
quanto testemunhos dos sistemas tecnoló -
metodológico apoiado nas definições con -
gicos desenvolvidos no ínterim dos sistemas
ceituais e nos modelos teóricos concebi -
culturais das populações indígenas que
dos com as pesquisas sobre os processos
ocuparam a região, o que significa que os
Mapa 1. Mapa de localização da terra indígena Lalima

1 Este artigo sintetiza a Dissertação defendida pelo autor no Programa de Pós-graduação do MAE/USP em março de 2009,

sob orientação de Fabíola Andréa Silva. A realização do projeto de pesquisa contou com fomento da FAPESP, através de Bolsa

de Mestrado (Processo nº 05/57404-0) e Auxílio Pesquisa (Processo nº 06/60241-8). As autorizações necessárias à realização da

pesquisa arqueológica e à entrada na Terra Indígena (TI) Lalima foram respectivamente concedidas pelo IPHAN, com apoio

institucional do Museu de Arqueologia da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (MuArq/UFMS), conforme “Portaria

039/07, Seção I do Diário Oficial da União”, e pela FUNAI, de acordo com “Autorização para o ingresso em TI nº 24/CGEP/07”.

115

Mapa 2. Mapa de localização dos sítios arqueológicos na terra indígena Lalima

Mapa 2. Mapa de localização dos sítios arqueológicos na terra indígena Lalima

sistemas tecnológicos dessas populações

apresentavam-se de modo estritamente co-

nectado com os outros elementos que com-

punham os seus respectivos sistemas cultu-

rais (Conkey & Hastorf, 1998; Dias & Silva,

2001; Lemonnier, 1992; Schiffer & Skibo,

1997; Silva, 2000).

As pesquisas arqueológicas realizadas

no Pantanal, compreendido como área de

mosaico cultural, sugerem que o início da

trajetória histórica da ocupação indígena foi

protagonizado por grupos caçadores e cole-

tores que se estabeleceram nas áreas de re-

fúgio ecológico, situadas nas escarpas cir-

cun-adjacentes e nos planaltos residuais, na

transição Pleistoceno-Holoceno (Ab´Sáber,

2006; Eremites de Oliveira, 1999; Schmitz et

al., 1998; Vialou, 2005). No holoceno médio,

com a expansão dos stocks florísticos e fau-

nísticos por conta do fenômeno de aqueci-

mento global denominado optimum clima-

ticum, houve um processo de intensificação

da ocupação caçadora-coletora, seja através

do crescimento demográfico dos grupos es-

tabelecidos desde o holoceno inicial, ou

pelo assentamento de outras populações, do

modo como correlato nos sítios estudados

no Planalto de Maracajú e no rio Paraná, em

Mato Grosso do Sul, na Cidade de Pedras, no

Mato Grosso, e na propagação dos aterros

nas planícies inundáveis do Pantanal (Ere-

mites de Oliveira 2003; Kashimoto 1997;

Martins 2003; Vialou 2006). Em torno de 3

mil anos atrás, o processo de intensificação

da ocupação indígena nas planícies e maci-

ços no Pantanal tornou-se ainda mais dinâ-

mico, com as transformações culturais ver-

ficadas nos conjuntos de materiais

cerâmicos classificados nas Fases da Tradi-

ção Pantanal (Eremites de Oliveira, 2004;

Felicíssimo et al., 2004; Migliacio, 2000; Pei-

xoto, 2002; Peixoto & Bezerra, 2004). Por

volta do início da era cristã, a configuração

etnográfica encontrada pelos europeus co-

REVISTA DE ARQUEOLOGIA

Volume 23 - N.2:112-135

- 2010

116

meçou a tomar forma, com o estabeleci-

mento, nas áreas mais férteis da região, de

populações agricultoras e ceramistas de

matriz cultural Macro-Jê, Tupi e Aruak,

sendo as primeiras provenientes do Planal-

to Central e as outras da Amazônia (Berra &

De Blasis, 2006; Brochado, 1984; Hecken-

berger, 2002; Heckenberger, Neves & Pe -

terssen, 1998; Kashimoto & Martins, 2008;

Migliacio, 2000-2001, 2006; Noelli, 1996;

Peixoto, 1998; Pärssinen, 2005; Póvoa, 2007;

Wüst, 1990).

Os dados históricos e etnográficos seis -

centistas e setecentistas indicam que o rio

Miranda era ocupado por populações cultu-

ralmente distintas nos primeiros séculos do

colonialismo (Costa, 1999; Esselin, 2000;

Gadelha, 1980; Nimuendajú, 2002; Souza,

2002). O jesuíta Diego Ferrer, em uma ânua

escrita em 1633, dividiu as sociedades indí-

genas na Provincia del Itaty, nome dado ao

antigo território do Paraguai colonial que

incluía parte considerável do que atualmen-

te é o Mato Grosso do Sul, em dois grandes

grupos: os Guarani-Itatim e os Gualacho

(Cortesão, 1952:47). No grupo dos Itatim, fo-

ram colocadas todas as sociedades de ori -

gem Guarani estabelecidas na área, tais

como os Guarambaré, Ñuara, Temiminós e

Cutaguá, as quais apresentavam traços cul-

turais muito semelhantes entre si. Já no

grupo dos Gualacho, foram inseridas popu-

lações culturalmente distintas, a exemplo

dos Guaná, agricultores de origem Aruak,

Guaikurú, caçadores e coletores de origem

Mbayá-Guaikurú, e Guaxarapó, pescado -

res, caçadores e coletores estabelecidos no

baixo curso do Miranda. Apesar do etnôni-

mo Gualacho estar relacionado com popu -

lações Jê nas regiões sul e sudeste do Brasil

(Monteiro, 1994; Prezia 2000), sabe-se que

muitos dos grupos assim denominados pelo

Padre Ferrer no Itatim apresentavam matri-

zes culturais distintas, de modo que o dito

etnônimo pode ter sido usado apenas para

expressar alteridade entre os Guarani e as

outras populações que ocupavam a área, a

exemplo da famosa dicotomia Tupi/Tapuia

nas regiões sudeste e nordeste. A maioria

dos Itatim e Gualacho abandonaram a re-

gião de Miranda no séc. XVII, devido aos

transtornos causados com o colonialismo,

como as doenças infectocontagiosas trazi-

das pelos europeus, as encomiendas dos

colonos castelhanos do Paraguai, a redução

nas Missões Jesuítas do Itatim, o assalto dos

bandeirantes luso-paulistas e o assédio ter-

ritorial dos índios chaquenhos (Aguirre,

1948; Azara, 1905; Cabeza de Vaca, 1985;

Gandia, 1932, 1935; Guzman, 1835; Hem-

ming, 2007; Maeder, 1996; Martins, 2002;

Meliá, 1986; Monteiro, 1992; Montoya, 1639;

Schmidel, 1986).

Na medida em que o antigo Itatim foi

abandonado pelos Guarani e Gualacho,

grupos Mbayá-Guaikurú, como os Kadiwéu

e Beutuebo, tornados cavaleiros com a

apropriação dos rebanhos dos colonizado-

res, e Chané-Guaná, como Guaná, Kiniki -

nao, Laiana e Terena, populações Aruak

aliadas dos Guaikurú, migraram do Chaco

paraguaio e se assentaram nas regiões de

Corumbá e Miranda, nos pantanais mato-

-grossenses (Carvalho, 1992; Metraux,

1946; Susnik, 1987). Durante todo o séc.

XVIII e a primeira metade do séc. XIX, essas

populações fizeram frente à expansão colo-

nial das coroas espanhola e portuguesa e,

posteriormente, à consolidação do Império

do Brasil e da República do Paraguai. Con-

tudo, a disseminação das epidemias e das

“guerras justas” em represália aos ataques

às monções durante o ciclo aurífero e dia-

mantífero nas minas de Cuiabá e Mato

Grosso, e às fortificações e povoações de

origem castelhano-paraguaia e luso-brasi-

leira, reduziu a resistência Guaikurú e Gua-

ná perante os processos de fragmentação

Levantamento arqueológico na Aldeia Lalima, Miranda/MS: uma con tribuição ao estudo da trajetória histórica ...
Levantamento arqueológico na Aldeia Lalima, Miranda/MS: uma con tribuição ao estudo da trajetória histórica ...

Levantamento arqueológico na Aldeia Lalima, Miranda/MS: uma con tribuição ao estudo da trajetória histórica ...

Eduardo Bespalez

cultural e territorial desencadeados pelo

colonialismo, até que os índios foram sujei-

tos à influência portuguesa e brasileira em

Corumbá e Miranda, através da atuação da

Diretoria de Índios da antiga Província do

Mato Grosso e das missões religiosas capu-

chinhas (Almeida Serra, 1845; Bastos, 1972;

Castelnau, 1949; Ferreira, 1971; Holanda,

2000; Moreira Neto, 2005; Prado, 1839; Tau-

nay, 1981). Depois dos prejuízos causados

com a Guerra do Paraguai (1864-1870), as

terras da região foram loteadas e os índios

remanescentes foram escravizados nas co-

lônias de fazenda, sendo poucos os grupos

que lograram manter identidades étnicas,

sistemas culturais e territórios tradicionais

(Azanha, 2004; Cardoso de Oliveira, 1968,

Herberts, 1998; Levi-Strauss, 1986; Ribeiro,

1980; Rivasseau, 1936; Schmidt, 1917; Tau-

nay, 1997, 2000; Weber, 2002). Conforme

constante em documentos da Diretoria de

Índios, o território indígena na Aldeia Lali-

ma, um dos mais tradicionais da região, foi

reconhecido oficialmente como pertencente

aos índios Guaikurú pelas autoridades im-

periais brasileiras neste período (Cardoso

de Oliveira, 1976: 75-6).

Lembrada na memória Terena como

“tempo da escravidão”, a exploração desve-

lada da mão de obra indígena nas fazendas

da região tomou outras formas a partir do

início do séc. XX, com a passagem do então

Major Rondon e a conseqüente implantação

da política indigenista de inspiração positi-

vista do início do período republicano (Al-

tenfelder Silva, 1949; Cardoso de Oliveira,

1976; Oberg, 1949; Rondon, 1949). Neste pe-

ríodo, muitos remanescentes étnicos Guai-

kurú, Guaná, Terena, Laiana e Kinikinao

foram libertos dos cativeiros e confinados

em reservas indígenas tuteladas pelo Servi-

ço de Proteção aos Índios (SPI), sob o pre-

texto da assimilação e da aculturação à so-

ciedade nacional. Em Lalima, a atuação do

117

Posto Indígena, fundado pelo SPI em 1907,

foi responsável pela constituição das bases

multiétnicas do processo de formação do

contexto etnográfico atual, haja vista que

muitos dentre os remanescentes étnicos li-

bertos depois da passagem de Rondon fo-

ram convocados a ocupar a área em con-

junto com os Guaikurú, ali estabelecidos ao

menos desde o final do período imperial.

O órgão indigenista oficial, transforma-

do em FUNAI no período da ditadura mili-

tar, viu na vocação agrícola, no modo de

vida sedentário e na capacidade de articula-

ção política dos Terena, o exemplo e o mo-

delo de índio assimilado e aculturado. Tão

logo, tais traços, característicos das socieda-

des Aruak, foram habilmente utilizados pe-

los Terena na conquista de posições mais

destacadas nas questões indígenas em âm-

bito regional e até mesmo nacional, resul-

tando na terenização dos remanescentes

étnicos em Miranda, inclusive na Aldeia

Lalima, e na transfiguração cultural dos ín-

dios da região (Azanha, 2004; Cardoso de

Oliveira, 1968, 1976, 2002; Ribeiro, 1980).

Assim, partindo das duas premissas teó-

ricas sintetizadas mais acima, dos dados

arqueológicos, históricos e etnográficos so-

bre a ocupação indígena regional, e da pro-

vável relação da ocupação Guarani descrita

nos documentos seiscentistas e setecentis-

tas com o sítio Córrego Lalima, o levanta-

mento arqueológico e a coleta etnoarqueo-

lógica de dados etnográficos e etno-históricos

na Aldeia Lalima foi desenvolvido com o

intuito de detectar sítios formados pelos

correlatos materiais da trajetória histórica

da ocupação indígena regional, seja em re-

lação aos Guarani, às ocupações mais anti-

gas ou às ocupações históricas associadas

com a migração dos Guaikurú e Guaná e à

formação do contexto etnográfico atual. é

aqui que entra a idéia de demonstrar que

Lalima pode ser caracterizada como o pa-

REVISTA DE ARQUEOLOGIA

Volume 23 - N.2:112-135

- 2010

118

nome

sigla

coordenadas

atividades

 

local de

Área

data

tradição

realizadas

implantação

(ha)

(ap)

tecnológica

     

Registro, topografia, setorização, coletas de

assistemáticas, escavação de

datação

 

Colina suave rodeada por nascentes tributárias da margem direita do rio

 

970 +/- 60

Guarani e Tradição

Córrego

Lalima

MS-MI-01

21K 0574802/

7725523

superfície sistemáticas e

Miranda, onde se situa a Sede, um dos bairros da Aldeia, constituída por

40

Beta

(238765)

Pantanal (análogo à Fase Jacadigo)

sondagens e poços-teste,

sedimentos arenosos, argilosos e litólicos

José

Rondon de

MS-MI-02

21K 0573816/

7726032

Registro, esboço de croqui, coleta assistemática de

 

Baixa encosta de colina suave situada na confluência da margem direita de uma

pequena nascente com a margem esquerda

0,75

 

Tradição Pantanal

(análogo ao

Souza

superfície

do baixo curso do cór. do Lima, constituída por sedimentos arenosos

MS-CP-25)

               

Tradição Pantanal

Tapera do

Limpão

MS-MI-03

21K 0572232/

7724920

Registro e coleta

assistemática de superfície

Topo de colina suave não inundável situada próxima da margem direita do médio

Miranda, constituída por sedimentos arenosos e litólicos

0,25

(análogo ao

MS-CP-25)

Tapera do

MS-MI-04

21K 0572877/

Registro e coleta

 

Colina suave situada na margem esquerda de uma nascente tributária da margem

   

Etno-histórico, Guarani e Tradição

Gino

7725744

assistemática de superfície

direita do rio Miranda, constituída por sedimentos arenosos e litólicos, na divisa entre Lalima e a Faz. Santa Rosa

Pantanal (análogo ao MS-CP-25)

Tapera da

Mata do

MS-MI-05

21K 0574739/

7724094

Registro, setorização, topografia, coleta sistemática

 

Baixa e média encosta de colina suave, constituída por sedimentos litólicos e

arenosos, situada em torno de uma

1

 

Etno-histórico

Urumbeva

de superfície, escavação de sondagens e de poços-teste

nascente tributária da margem direita do rio Miranda

             

1070

+/- 60

 

Registro, setorização,

Colina suave situada entre a confluência da

médio curso da margem esquerda do cór.

Beta

Asa de Pote

MS-MI-06

21K 0574450

topografia, coleta sistemática

margem direita de uma nascente com o

30

(238768)

Guarani e Tradição

Pantanal (análogo à

7727296

 
   

de superfície, escavação de sondagens e poços-teste

Guanandi, constituída por sedimentos

 

6430

+/- 70

Beta

Fase Jacadigo)

 

argilosos e arenosos

(238767)

         

Colina suave situada entre a confluência da margem esquerda de uma nascente com o

     

Campina

MS-MI-07

21K 0574518/

7726905

Registro

médio curso da margem esquerda do cór.

argilosos e arenosos

Guarani

Guanandi, constituída por sedimentos

               

Tradição Pantanal

Manuel de

Souza Neto

MS-MI-08

21K 0573695/

7725436

Registro

Colina suave, constituída por sedimentos arenosos, situada na confluência de ambas

as margens de um nascente uma nascente com a margem direita do rio Miranda

(análogo ao

MS-CP-25)

Tapera do

MS-MI-09

21K 0573508/

Registro e coleta

 

Área plana não inundável constituída por sedimentos arenosos situada na planície de

   

Etno-histórico

Pirizal

7725949

assistemática de superfície

inundação da margem direita do rio

Miranda

Sítio

MS-MI-10

21K 0580296/

Registro, esboço de croqui e

 

Colina suave, constituída por sedimentos argilosos e arenosos, situada entre o sopé do morro do Potrero e o médio curso de um

   

Tradição Pantanal

Potrero

7725567

coleta assistemática de superfície

cór. sazonal tributário do médio Miranda, na párea retomada do INCRA e da Faz. Vargem Grande pelos Terena em Lalima

(análogo à Fase Jacadigo

         

Colina suave, constituída por sedimentos

     

Anita Vieira

MS-MI-11

21K 0575314/

7726195

Registro

arenosos e argilosos, situada na margem

esquerda do alto curso do cór. do Lima

Guarani

Helio

MS-MI-12

21K 0575535/

Registro

 

Colina suave, constituída por sedimentos argilosos e arenosos, situadas entre o sopé

   

Guarani

Correia

7727300

do morro do Inocêncio e a confluências das nascentes formadoras do cór. Guanandi

Tapera do

MS-MI-13

21K 0574477/

Registro

 

Baixa encosta e colina suave, constituída por sedimentos arenosos e argilosos,

   

Etno-histórico

Agápto

7727875

situada na margem direita do médio curso

do cór. Guanandi, na Faz. Santa Rosa

Tabela 1. Sítios arqueológicos detectados na Aldeia Lalima

 
   
Levantamento arqueológico na Aldeia Lalima, Miranda/MS: uma con tribuição ao estudo da trajetória histórica ...
Levantamento arqueológico na Aldeia Lalima, Miranda/MS: uma con tribuição ao estudo da trajetória histórica ...

Levantamento arqueológico na Aldeia Lalima, Miranda/MS: uma con tribuição ao estudo da trajetória histórica ...

Eduardo Bespalez

119

limpsesto da história indígena regional, a

de 754 fragmentos de vasilhas cerâmicas con-

partir do entendimento do território da Al-

siderados diagnósticos da morfologia e do

deia como um pergaminho, dos vestígios

acabamento de superfície das tecnologias ce-

arqueológicos como os borrões das escritas

râmicas das populações indígenas que ocupa-

apagadas e do contexto etnográfico atual

ram a região; 4) obtenção de 3 datações ar-

como a última das escritas realizadas no

queológicas em amostras de carvão pelo

pergaminho reaproveitado.

método radiocarbônico tradicional; e 5) cole-

ta etnoarqueológica em áudio-visual de infor-

CoRRELAtoS mAtERIAIS DA tRAJEtóRIA

mações etnográficas de caráter etno-histórico

HIStóRICA DA oCUPAção InDíGEnA

em entrevistas realizadas com dezenas de

REGIonAL nA ALDEIA LALImA

interlocutores (ver Tabela 1).

Como visto acima, a TI Lalima situa-se na

As observações realizadas em campo, as

margem direita do médio Miranda, um dos

análises cerâmicas e as informações etno-

principais tributários do curso pantaneiro do

gráficas de caráter etno-histórico, revelaram

rio Paraguai, entre a margem esquerda do cór-

a presença de 4 conjuntos de materiais ar-

rego do Lima e a direita do Barreiro, em meio

queológicos cerâmicos tecnologicamente

ao relevo ondulado da depressão interplanál-

distintos, sendo que 3 dentre os sítios detec-

tica de Miranda, constituída por sedimentos

tados em Lalima foram caracterizados como

litólicos, argilosos e arenosos, outrora predo-

multicomponenciais, ou seja, formados por

minantemente recobertos por cerrado, no

vestígios associados com mais de uma Tra-

município de Miranda, no centro-oeste do Es-

dição Tecnológica. Os conjuntos observados

tado de Mato Grosso do Sul (BRASIL, 1982;

foram os seguintes: a) Guarani (cf. La Salvia

SEPLAN/IBGE, 1990). O território da Aldeia

& Brochado, 1989); b) Tradição Pantanal

possui apenas 3 mil ha, os quais são ocupados

análogo à Fase Jacadigo (cf. Schmitz et al.,

por cerca de 1300 habitantes, descendentes de

1998: 226-228); c) Tradição Pantanal análo-

remanescentes étnicos Guaikurú, Terena, Ki-

go aos materiais detectados no sítio MS -

nikinao e Laiana.

-CP-25, em Corumbá/MS (idem: 228-229) 2 ;

Os resultados da pesquisa de levantamen-

e d) materiais detectados em sítios arqueoló-

to arqueológico, realizada entre maio e julho

gicos históricos relativos à formação do con-

de 2007, foram os seguintes: 1) detecção de

texto etnográfico atual, os quais foram deno-

mais 12 sítios e 7 áreas de ocorrência arqueo-

minados como Etno-históricos. Aos

lógica, todos a céu aberto e nas proximidades

conjuntos detectados nos contextos arqueo-

de nascentes e calhas fluviais e pluviais tribu-

lógicos, ainda podem ser somados as poucas

tárias da margem direita do rio Miranda, por

vasilhas confeccionadas com a tecnologia

meio de levantamento arqueológico oportu-

atual dos Terena (cf. Cardoso de Oliveira,

nístico e extensivo (ver mapa 2); 2) coleta de

2002: 237), utilizadas em alguns domicílios

aproximadamente 3.360 vestígios arqueológi-

para armazenar água e como souvenir, o

cos em superfície, com o estabelecimento de

que totalizaria 5 conjuntos tecnológicos de

áreas amostrais de coleta, e sub-superfície,

materiais cerâmicos associados à dinâmica

através da escavação de sondagens com trado

histórica da ocupação indígena regional, po-

articulado e de poços-teste com 1m² por ní-

rém as vasilhas etnográficas ainda não fo-

veis artificiais de 0,10m; 3) análise preliminar

ram analisadas sistematicamente.

2 Recentemente, Eremites de Oliveira (2009), aludindo Willey (1971), referiu-se ao conjunto em questão como Tradição Chaquenha.

REVISTA DE ARQUEOLOGIA

Volume 23 - N.2:112-135

- 2010

120

Co RRELAto S DA o CUPA ção G UARA n I queológicos constituídos principalmente por Os
Co RRELAto S DA o CUPA ção G UARA n I
queológicos constituídos principalmente por
Os correlatos materiais da ocupação
fragmentos de vasilhas cerâmicas e vestígios
Guarani foram detectados nos sítios Córre-
líticos de polimento e lascamento, dispersos
go Lalima (MS-MI-01), Tapera do Gino (MS -
pela superfície, em áreas com dezenas de
-MI-04), Asa de Pote (MS-MI-06), Campina
milhares de m², e em sub-superfície, até
(MS-MI-07), Anita Vieira (MS-MI-11), Hélio
cerca de 0,30m de profundidade. As exce-
Correia (MS-MI-12) e na área de ocorrência
ções dizem respeito ao setor 2 do sítio Asa
5 (ver Mapa 2 e Tabela 1). Apesar das exce-
de Pote, onde, apesar das sondagens, não fo-
ções, os correlatos Guarani apresentam, em
ram achados materiais em sub-superfície, e
termos gerais, características semelhantes
à área de ocorrência 5, implantada em um
entre si, sobretudo no que se refere ao con-
contexto paisagístico distinto dos demais,
texto de implantação dos sítios na paisagem,
na planície inundável do rio Miranda.
às dimensões dos depósitos arqueológicos e
As atividades de pesquisa realizadas no
à diversidade e densidade dos seus elemen-
sítio Córrego Lalima, situado no bairro da
tos. Destarte, os sítios Guarani estão implan-
Sede, o mais populoso da Aldeia, resulta-
tados em topos e encostas de colinas suaves
ram na identificação de quatro concentra-
e/ou no sopé dos morros, em áreas que ofe-
ções de vestígios arqueológicos, dispersos
recem ampla visibilidade de entorno e proxi-
pelo topo e encostas da colina suave onde o
midades de nascentes e cursos d’água, sendo
sítio está implantado, por uma área com
formados por concentrações de vestígios ar-
mais de 320.000m². As concentrações fo -
Figura 1. Sítio Córrego Lalima (MS-MI-01), Setor 1, Poço-teste 1, Coordenadas 1005N/1000E, Perfil Norte
Levantamento arqueológico na Aldeia Lalima, Miranda/MS: uma con tribuição ao estudo da trajetória histórica ...
Eduardo Bespalez

121

ram segmentadas em quatro setores,

entre os quais três – correspondentes

aos setores 1 e 3, formados principal-

mente por materiais Guarani, e o setor

2, constituído mormente por materiais

da Tradição Pantanal análogos à Fase

Jacadigo – foram abordados através de

atividades de coleta em superfície e

sub-superfície. O outro setor, corres -

pondente ao setor 4, composto por ma-

teriais de ambas as tradições, foi ape-

nas registrado.

Em se tratando dos setores formados

majoritariamente por materiais Guarani,

o setor 1 foi abordado com a realização de

coleta de superfície em área de 7.000m² e

escavações de 13 sondagens e 2 poços-

-teste. A área do setor foi aferida em

80.000m² e a espessura do pacote arqueo-

lógico em 0,30m. Além da superfície, for-

mada por sedimento arenoso marrom-

-claro (pale brown 10YR6/3) e materiais

arqueológicos, foram observadas outras 3

camadas em sub-superfície: a camada A,

situada entre os níveis 1 e 3, constituída por

sedimento areno-argiloso marrom-escuro

(dark brown 10YR3/3) e materiais arqueológi-

cos; a camada B, entre os níveis 3 e 5, constitu-

ído por sedimento areno-argiloso marrom-es-

curo (dark brown 7.5YR3/4) e materiais

arqueológicos em baixa densidade; e a camada

C, a partir do nível 5, composta por sedimento

areno-argiloso marrom-avermelhado (dark

reddish brown 10YR2/2) e arqueologicamente

estéril (ver Figura 1). A estratigrafia apresen-

tou-se muito perturbada por fatores pós-depo-

sicionais antrópicos, associados à ocupação

atual, e biológicos, sobretudo cupins. Ao todo,

foram recolhidos mais de 900 materiais arque-

ológicos e obtida uma datação a partir de uma

amostra de carvão coletada no nível 3 do poço-

-teste 1, datada em 970 ± 70 AP.

Entre os materiais recolhidos no setor 1,

foram selecionados 428 fragmentos de vasi-

Figura 2. Figura 2: a) yapepó; b) ñaetá; c) cambuchi caguâba; d) cambuchi.

Figura 2. Figura 2: a) yapepó; b) ñaetá; c) cambuchi caguâba;

d) cambuchi.

lhas cerâmicas diagnósticos da morfologia e

do acabamento de superfície para a realiza-

ção das análises. Assim, no que se refere à

morfologia, 83,17% dos fragmentos foram

classificados como paredes, 15,65% como

bordas e 0,93% como bases. Em se tratando

dos fragmentos de parede, 5,89% foram cate-

gorizados como paredes infletidas, 4,49%

como paredes carenadas, 0,84% como pare-

des complexas e 0,56% como segmentos su-

periores de vasilhas fechadas com ou sem

pescoço. No tocante aos fragmentos de borda,

13,96% foram classificadas como direta-verti-

cal, 10,44% como direta-inclinada externa,

10,44% como direta-inclinada interna, 10,44%

como côncava, 8,95% como extrovertida,

5,97% como cambada, 1,49% como introverti-

da, 1,49% como carenada e 1,49% como in-

flectida. Acerca da forma do lábio nos frag-

mentos de borda, 44,77% foram tachados

como arredondado, 13,43% como aplanado,

REVISTA DE ARQUEOLOGIA

Volume 23 - N.2:112-135

- 2010

122

Prancha 1: A) corrugado; B) pintura vermelha e preta sobre engobo branco; C) ungulado; D) inciso.

Prancha 1: A) corrugado; B) pintura vermelha e preta sobre

engobo branco; C) ungulado; D) inciso.

10,44% como reforçado externo, 8,95% como

biselado, 2,98% como ondulado e 1,49% como

expandido. O diâmetro da boca das vasilhas

cerâmicas, aferido em 28,36% dos fragmentos

de borda, estende-se entre 4cm e 58cm. Quan-

to às bases, 75% foram identificados como

circulares e planas e 25% como circular e

côncava. Acerca da espessura, 46,26% dos

fragmentos analisados foram classificadas

como finos (>5 e <10mm), 38,78% como mé-

dios (>10 e <15mm), 9,34% como grossos

(>15 e <20mm), 4,9% como muito finos (>0 e

< 5mm) e 0,46% como muito grossos

(>20mm). Em relação às classes simétricas

das vasilhas, 2,33% dos fragmentos foram as-

sociados com vasilhas fechadas com pescoço,

1,4% com vasilhas fechadas e 1,16% com va-

silhas abertas. No que se refere ao contorno,

1,63% dos fragmentos foram relacionados

com vasilhas com contorno complexo, 1,16%

com contorno simples, 0,46% com contorno

inflectido e 0,46% com contorno composto.

Quanto à comparação da forma das vasilhas

com formas geométricas, 0,7% dos fragmen-

tos foram associados com vasilhas esféricas,

0,46% com vasilhas cônicas e 0,23% com va-

silha semi-esférica. Ainda foram identificados

4 dentre as 7 classes funcionais estabelecidas

por Brochado e colegas (La Salvia & Brocha-

do, 1989; Brochado & Monticelli,

1994; Brochado, Monticelli & Neu-

mann, 1990; Noelli & Brochado,

1998), sendo 3,27% dos fragmentos

analisados relacionados com os ya-

pepó, 2,33% com cambuchi, 1,63%

com cambuchi caguâba e 0,23% com

ñaetá, os quais foram reconstituídos

graficamente (ver Figura 2).

Em relação ao acabamento de su-

perfície na face externa, 68,22% dos

fragmentos analisados foram classifi-

cados como corrugado, 6,77% como

cromático com engobo branco, 3,97%

como cromático com pintura verme-

lha e/ou preta sobre engobo branco, 2,8% como

ungulado, 1,4% como inciso, 0,46% como no-

dulado, 0,46% como impresso com corda,

0,23% como cromático com engobo vermelho

e 0,23% como roletado (ver Prancha 1). Na face

interna, 2,8% dos fragmentos foram taxados

como cromático com engobo branco, 1,16%

como cromático com engobo vermelho e 1,16%

como cromático com pintura vermelha sobre

engobo branco. Entre os fragmentos de borda,

8,95% foram categorizados como cromático

com pintura de faixa vermelha no lábio e 4,47%

como plásticos com aplique de filigranas de ar-

gila no lábio. Novamente considerando-se to-

dos os fragmentos analisados no setor 1, 93,69%

foram classificados como Guarani e 3,5% como

Tradição Pantanal análogo à Fase Jacadigo, os

quais correspondem aos fragmentos com im-

pressões de corda e apliques de filigranas de

argila.

No setor 3, foram realizadas coletas de

superfície em uma área com 12.500m² e fo-

ram escavadas 16 sondagens e 1 poço-teste.

Além da superfície, constituída por sedi-

mento arenoso marrom-claro (pale brown

10YR6/3), e do substrato rochoso, encontra-

do no nível 6, foram observadas 3 camadas

de sedimentos com características seme -

lhantes aos escavados no setor 1, inclusive

Levantamento arqueológico na Aldeia Lalima, Miranda/MS: uma con tribuição ao estudo da trajetória histórica ...
Levantamento arqueológico na Aldeia Lalima, Miranda/MS: uma con tribuição ao estudo da trajetória histórica ...

Levantamento arqueológico na Aldeia Lalima, Miranda/MS: uma con tribuição ao estudo da trajetória histórica ...

Eduardo Bespalez

no que se refere às perturbações causadas

pela ocupação atual. A área do setor somou

62.000m² e 0,30m de espessura. Foram cole-

tados mais de 650 materiais arqueológicos,

com destaque para um tembetá lítico polido

esverdeado doado por Sebastião Cabrocha,

morador na área, porém não foram selecio-

nados fragmentos cerâmicos para a realiza-

ção de análises.

Ainda foram realizadas coletas de superfí-

cie de materiais Guarani nos sítios Tapera do

Gino, também formado por materiais da Tra-

dição Pantanal análogos aos do sítio MS -

-CP-25 e Etno-históricos, e Asa de Pote, igual-

mente constituído por materiais da Tradição

Pantanal semelhante à Fase Jacadigo. Na Ta-

pera do Gino, localizada na divisa entre a Al-

deia e a Faz. Santa Rosa, foram coletados 121

fragmentos cerâmicos em um eixo de 300m

ao longo do acero da dita propriedade, entre

os quais 56 foram selecionados para a realiza-

ção das análises. No que se refere à tradição

tecnológica, 57,14% foi associado à tecnologia

Guarani e 37,5% à Tradição Pantanal análogo

à do sítio MS-CP-25. No sítio Asa de Pote, im-

plantado em uma colina suave na margem

esquerda do cór. Nascente do Guanandi, fo-

ram coletados 176 fragmentos cerâmicos

Guarani na superfície de uma área com

10.000m², denominada de setor 1. Foram es-

cavadas 11 sondagens no local, porém, como

sublinhado acima, não foram encontrados

materiais arqueológicos em sub-superfície.

Com efeito, os materiais recolhidos no setor 1

do MS-MI-06 podem ter sido aglutinados à

pouco tempo, talvez não mais que algumas

décadas. Os fragmentos coletados no setor 1

do Asa de Pote não foram analisados.

Afora o cadastro – efetuado em todos os

sítios detectados – não foram realizadas ativi-

dades de pesquisa nos demais sítios com ma-

teriais Guarani detectados em Lalima. Contu-

do, ainda é importante sublinhar que, nos

sítios multicomponenciais, as concentrações

123

de vestígios Guarani apresentam, em superfí-

cie, relações distintas com as concentrações

de resquícios análogos aos da Fase Jacadigo,

do MS-CP-25 da Tradição Pantanal e Etno-

-históricos. Com efeito, independente do con-

teúdo tecnológico, as concentrações de mate-

riais Guarani e semelhantes aos da Fase

Jacadigo nos sítios Córrego Lalima e Asa de

Pote apenas se sobrepõem nos seus limites, ou

seja, nas áreas de menor densidade de vestí-

gios arqueológicos. Já no que se refere à Tape-

ra do Gino, os materiais comparáveis aos do

MS-CP-25 e os Etno-históricos estão disper-

sos em meio aos resquícios Guarani, os quais,

por sua vez, apresentam maior densidade. Em

sub-superfície, apenas foram detectados ma-

teriais distintos tecnologicamente no MS -

-MI-01, no nível 3 do poço-teste 2, escavado no

setor 1, onde foi coletada uma borda com fili-

granas de argila no lábio em meio aos refugos

Guarani. Porém a perturbação do depósito,

atestada por uma série de restos industrializa-

dos, não permite quaisquer inferências a par-

tir da estratigrafia.

Os correlatos apresentados acima indi -

cam que o estabelecimento da ocupação

Guarani na região se estendeu ao menos por

cerca de 500 anos, ou seja, desde o séc. XI

depois de Cristo, conforme a datação obtida

no sítio Córrego Lalima, até meados do séc.

XVII, segundo as fontes históricas e etnográ-

ficas. Todavia, não só é provável que os Gua-

rani tenham explorado, colonizado e se as-

sentado regionalmente em período anterior

ao datado, como ainda é possível que os

mesmos tenham se relacionado diferente-

mente com populações diversas ao longo de

toda a sua dinâmica de expansão e consoli-

dação na área. Tais populações, ao seu tur-

no, poderiam estar estabelecidas adrede à

chegada dos Guarani ou ter advindo poste-

riormente, de modo que muitas podem ter

sido hostilizadas, expulsas, incorporadas ou

aliadas. Seja como for, a variação situacio-

REVISTA DE ARQUEOLOGIA

Volume 23 - N.2:112-135

- 2010

124

nal, artefatual e cronológica nos correlatos

Guarani demonstram alguma estabilidade,

talvez até mesmo algum padrão, o qual, ao

seu turno, pode indicar, entre outros fatos,

que populações portadoras de matriz cultu-

ral Tupi-Guarani exerceram a hegemonia

territorial no médio Miranda desde períodos

pré-históricos indefinidos até o colapso cau-

sado nos primeiros séculos do colonialismo.

Co RRELAto S DA o CUPA ção DA tRADI ção PA ntA n AL A ná Lo G o S à fASE J ACADIG o

Além do setor 2 do sítio Córrego Lalima e

do setor 2 do sítio Asa de Pote, os correlatos

materiais da ocupação das populações por-

tadoras da Tradição Pantanal análogos à

Fase Jacadigo foram detectados no sítio Po-

trero (MS-MI-10) e

na área de ocorrên-

cia 7 (ver Mapa 2 e

Tabela 1). Em resu-

mo, os sítios com

materiais seme -

lhantes à Fase Jaca-

digo estão implan-

tados em áreas que

apresentam as mes-

mas variáveis am-

bientais que os con-

textos Guarani,

porém enquanto

estes apresentam

uma variação pe -

quena entre si, sen-

do muito semelhan-

tes, os outros variam

muito mais, sobre-

tudo em relação aos

depósitos e aos ele-

mentos. No setor 2

do MS-MI-01, por

exemplo, onde fo -

ram realizadas ati-

vidades de coleta de superfície e de sub-su-

perfície, com a escavação de 14 sondagens e

2 poços-teste, foram coletados 868 materiais

arqueológicos em uma área com 20.000m² e

espessura de até 0,70m, enquanto que no se-

tor 2 do MS-MI-06 foram coletados apenas

  • 151 materiais arqueológicos, através de cole-

ta de superfície e escavação de 28 sondagens

e 3 poços-teste, em uma área com 90.000m²

e 0,50m de profundidade. No MS-MI-10, foi

apenas realizado coleta de superfície de 55

materiais arqueológicos em um eixo de 60m

no interior de uma voçoroca.

Entre os materiais coletados no setor 2

do sítio Córrego Lalima, foram selecionados

  • 179 fragmentos de vasilhas cerâmicas para

a realização das análises. No que se refere à

morfologia, 49,72% dos fragmentos foram

Figura 3: a) vasilha cerâmica aberta, simples, semi-esférica; b) vasilha aberta, simples, semi-elíptica horizontal; c) vasilha
Figura 3: a) vasilha cerâmica aberta, simples, semi-esférica; b) vasilha aberta, simples,
semi-elíptica horizontal; c) vasilha fechada, inflectida, semi-oval vertical.
Levantamento arqueológico na Aldeia Lalima, Miranda/MS: uma con tribuição ao estudo da trajetória histórica ...
Levantamento arqueológico na Aldeia Lalima, Miranda/MS: uma con tribuição ao estudo da trajetória histórica ...

Levantamento arqueológico na Aldeia Lalima, Miranda/MS: uma con tribuição ao estudo da trajetória histórica ...

Eduardo Bespalez

125

classificados como paredes, 44,69% como

bordas, 2,79% como bases e 2,23% como

apêndices de suspensão. Em relação às pa-

redes, 8,37% foram taxadas como infletidas,

2,24% como segmento superior de vasilha

fechada ou fechada com pescoço e 1,12%

como ombro. No tocante às bordas, 28,75%

foram qualificadas como extrovertida, 25%

como direta-vertical, 5% como direta-incli -

nada externa, 5% como direta-inclinada in-

terna, 3,75% como côncava e 1,25% como

inflectida. Em se tratando do lábio, 51,25%

foram identificados como reforçado-exter-

no, 15% como rebarbado-externo, 11,25%

como arredondado, 11,25% como dobrado,

3,75% como apontado, 3,75% como aplanado

e 3,75% como biselado. O diâmetro da boca,

conferido em 20% das bordas, estende-se

entre 10 e 32cm. Todas as bases foram clas-

sificadas como circular-convexa, e todos os

Acerca do contorno, 11,73% foram relacio-

nados com vasilhas de contorno simples e

3,91% com contornos inflectidos. Quanto à

comparação com formas geométricas, 3,91%

foram associados com vasilhas semi-esféri-

cas, 1,11% com vasilhas esféricas, 0,55%

com vasilha semi-elíptica horizontal e 0,55%

com vasilha semi-oval vertical. No tocante à

funcionalidade, 1 fragmento de borda côn-

cava (0,55%) de origem Guarani foi associa-

do a um yapepó.

A análise morfológica dos fragmentos

análogos à Fase Jacadigo, principalmente no

que se refere à qualificação dos fragmentos

de borda, resultou na reconstituição gráfica

de 3 classes distintas de vasilhas (ver figura

3). Todavia, alguns fragmentos indicam que

o vasilhame em questão pode apresentar ou-

tras classes, sobretudo um tipo de vasilha

fechada com pescoço, semelhante à morin-

ga. Além do mais, cabe sublinhar

que apesar das classes identificadas

sugerirem usos diversos e diferen-

ciados para cada uma das vasilhas,

não foram desenvolvidas análises

funcionais.

Em relação ao acabamento de

superfície na face externa, 12,84%

dos fragmentos analisados foram

classificados como cromático com

pintura vermelha, 11,73% como in-

ciso, 7,26% como corrugado, 7,26%

como acanalado, 5,58% como cro-

mático com engobo vermelho,

3,35% como aplicado com filigranas

de argila, 3,35% como impresso com corda,

1,67% como ponteado, 1,67% como inciso-

-ponteado, 0,55% como cromático com en-

gobo branco, 0,55% como impresso com

corda-ponteado e 0,55% como perfurado

(ver Prancha 2). é importante salientar que

o corrugado na Fase Jacadigo da Tradição

Pantanal é distinto do Guarani, sendo carac-

terizado mais como um corrugado-roletado

Prancha 2. A) inciso-ponteado; B) corrugado; C) aplicado com filigranas de argila; D) impresso com corda.

Prancha 2. A) inciso-ponteado; B) corrugado; C) aplicado

com

filigranas de argila; D) impresso com corda.

apêndices de suspensão como alças. A res-

peito da espessura, 67,03% dos fragmentos

foram qualificados como finos, 22,34% como

muito finos, 9,49% como médios, 0,55%

como grosso e 0,55% como muito grosso. So-

bre as classes de simetria, 11,17% dos frag-

mentos foram associados com vasilhas

abertas, 6,14% com vasilhas fechadas e

0,55% com vasilha fechada com pescoço.

REVISTA DE ARQUEOLOGIA

Volume 23 - N.2:112-135

- 2010

126

Figura 4. Sítio Asa de Pote (MS-MI-06), setor 2, poço-teste 1, coordenadas 1260N/785E, perfil norte
Figura 4. Sítio Asa de Pote (MS-MI-06), setor 2, poço-teste 1, coordenadas 1260N/785E, perfil norte

que como um corrugado-digitado. Na face

interna, 5,02% foram taxados como cromáti-

co com pintura vermelha, 3,91% como cro-

mático com engobo vermelho, 1,11% como

corrugado, 0,55% como cromático com en-

gobo branco e 0,55% como aplicado com fili-

granas de argila. Quanto ao acabamento de

superfície no lábio, 21,25% dos fragmentos

de borda apresentaram apliques de filigra-

nas de argila, 2,5% ponteados e 1,25% ungu-

lações. Em termos tecnológicos, 88,82% dos

fragmentos foram associados à Tradição

Pantanal análogo à Fase Jacadigo, 7,26%

como Guarani e 3,91% como Terena. No se-

tor 2 do Asa de Pote, foram selecionados 42

fragmentos para a realização das análises.

Em relação à tradição tecnológica, 83,33%

dos fragmentos foram taxados como análo-

gos à Fase Jacadigo, 11,9% como Terena e

4,76% como Guarani.

Vale ressaltar que, além dos fragmentos

de vasilhas, também foram coletados outros

artefatos cerâmicos nos contextos arqueoló-

gicos semelhantes à Fase Jacadigo da Tradi-

ção Pantanal, como rodelas de fuso, cachim-

bos tubulares e fichas cerâmicas polidas,

bem como materiais líticos lascados e poli-

dos, com destaque para as lâminas de ma-

chado, bolas de boleadeira e polidores dis-

cóide.

A superfície e a sub-superfície se mostra-

ram tão perturbadas nos setores 2 dos sítios

Córrego Lalima a Asa de Pote quanto nos ou-

tros setores pesquisados em ambos os sítios.

Contudo, ao contrário do MS-MI-01, onde os

impactos mais destrutivos estão associados

com terraplanagens e aterros, no MS-MI-06

a perturbação do sítio está associada com as

atividades agrícolas, sobretudo queimadas

antrópicas e arado mecanizado. Mesmo as-

Levantamento arqueológico na Aldeia Lalima, Miranda/MS: uma con tribuição ao estudo da trajetória histórica ...
Levantamento arqueológico na Aldeia Lalima, Miranda/MS: uma con tribuição ao estudo da trajetória histórica ...

Levantamento arqueológico na Aldeia Lalima, Miranda/MS: uma con tribuição ao estudo da trajetória histórica ...

Eduardo Bespalez

127

sim, foram enviadas duas amostras de car-

vão para a obtenção de datações arqueológi-

cas, respectivamente coletadas nos níveis 3 e

6 do poço-teste 1 no setor 2 do Asa de Pote.

Além da camada superficial, constituída por

sedimento arenoso marrom-escuro (dark

brown 10YR3/3) e materiais arqueológicos,

foram observadas mais 4 camadas de sedi-

mentos. A camada A, situada entre os níveis

1 e 2, apresentou os mesmos sedimentos que

a superfície e materiais arqueológicos; a ca-

mada B, entre os níveis 2 e 3, apresentou se-

dimento areno-argiloso marrom-escuro

(very dark brown 7.5YR2.5/2) e materiais

arqueológicos; a camada C, entre os níveis 3

e 4, sedimento variegado argilo-are-

noso marrom-avermelhado (dark

reddish brown 5YR3/3) e materiais

arqueológicos; e a camada D, a par-

tir do nível 4, apresentou sedimento

argilo-arenoso marrom-avermelha-

do (dark reddish brown 2.5YR3/3) e

materiais cuja origem arqueológica

pode ser contestada (ver Figura 4). A

amostra coletada no nível 3 foi data-

da em 1.070 ± 60 AP e a do nível 6

em 6.340 ± 70 AP.

Devido à sua antiguidade, a data

obtida com a amostra coletada no

nível 6 do Poço-teste 1 no sítio Asa

de Pote não foi associada aos con-

juntos de materiais arqueológicos constitu-

ídos majoritariamente por fragmentos de

vasilhas cerâmicas classificados como aná-

logos à Fase Jacadigo da Tradição Pantanal.

Todavia, é importante sublinhar que os

criadores da Fase Jacadigo inferiram que os

conjuntos arqueológicos a ela relacionados

fossem datados do período histórico, asso-

ciando-os com os índios Guaikurú e Guaná

que migraram para a região a partir do séc.

XVII (Schmitz et al., 1998: 228). Com efeito,

mesmo considerando que os dados alcança-

dos em Lalima não permitem apontamen-

tos mais acurados sobre o sistema cultural

das populações portadoras da tradição tec-

nológica semelhante à Fase Jacadigo no rio

Miranda, a data do nível 3 não só sugere que

os vestígios detectados foram deixados em

período pré-histórico, como a variação situ-

acional e artefatual indica que as ditas po-

pulações podem ser caracterizadas como

sociedades agricultoras e ceramistas cultu-

ralmente distintas do Guarani. Assim, ape-

sar da fragilidade das informações sobre

cronologia de ocupação e relações sociais e

ecológicas entre os Guarani e as populações

por trás dos materiais parecidos com os da

Fase Jacadigo, não só lança-se a hipótese,

Prancha 3: fragmentos cerâmicos estilizados com impressões de corda: A) sítio José Rondon de Souza; B)

Prancha 3: fragmentos cerâmicos estilizados com impressões de

corda: A) sítio José Rondon de Souza; B) Tapera do Limpão;

C) Tapera do Gino; D) fragmento perfurado, Tapera do Gino.

com base na variabilidade situacional, arte-

fatual e cronológica entre os conjuntos, de

que ambas podem ser caracterizadas como

sociedades agricultoras e ceramistas pré-

-históricas que se estabeleceram no rio Mi-

randa ao longo da dinâmica histórica da

ocupação indígena regional, como também

inferimos que a diversidade cultural encon-

trada pelos europeus no curso fluvial retro-

-citado durante os séculos XVI e XVII, for-

mada por vários grupos étnicos distintos, já

devia se processar ao menos desde o séc. XI

depois de Cristo.

REVISTA DE ARQUEOLOGIA

Volume 23 - N.2:112-135

- 2010

128

15,78% como bordas e 5,6% como base, cate-

gorizada como circular-plana. Entre as pare-

des, 20% foram associadas com parede inflec-

tida de vasilha fechada com ou sem pescoço,

6,66% como segmento superior de vasilha fe-

chada com ou sem pescoço e 6,66% como pa-

rede carenada. No que se refere às bordas,

apenas 6,66% foram identificadas, sendo taxa-

das como diretas-verticais. Quanto ao lábio,

33,33% foram categorizadas como reforçado-

-externo, 33,33% como rebarbado-externo e

33,33% como ondulado. O diâmetro da boca

foi aferido em apenas um fragmento, com

14cm. Em relação à espessura, 84,21% dos

fragmentos foram caracterizados como finos,

10,52% como médios e 5,26% como grosso.

Não foi possível qualificar os fragmentos sele-

cionados acerca das classes de simetria, do

contorno e da forma geométrica.

Em se tratando do acabamento de super-

fície na face externa, 26,31% dos fragmentos

foram classificados como cromático com en-

gobo vermelho, 21,05% como decorados com

motivos estilizados com impressão de corda,

10,52% como cromático com engobo branco

e 5,26% como aplicado. é importante ressal-

tar que as decorações com motivos feitos

com impressões de corda nos sítios com ma-

teriais análogos àqueles detectados no MS -

-CP-25 (ver Prancha 3) são diferentes das

impressões de corda analisadas nos sítios

semelhantes à Fase Jacadigo, na medida em

que estes apresentam apenas alinhamentos

paralelos feitos com impressão de corda. Na

face interna, 21,05% foram taxados como

cromático com engobo vermelho, 10,52%

como cromático com engobo branco e 5,26%

como cromático com enegrecimento. Este

último fragmento, categorizado como borda,

também apresentou enegrecimento no lábio.

Todos os fragmentos foram tecnologicamen-

te associados à Tradição Pantanal análoga ao

sítio MS-CP-25.

Na Tapera do Limpão, foram coletados

Co RRELAto S DA o CUPA ção DA tRADI ção PA ntA n AL A ná Lo G o S Ao S m At ERIAIS D o S ítI o m S-CP-25

Os correlatos da ocupação por grupos

indígenas portadores de tecnologia cerâmica

análoga àquela detectada no sítio MS-CP-25,

na região de Corumbá/MS, foram detectados,

na Aldeia Lalima, nos sítios José Rondon de

Souza (MS-MI-02), Tapera do Limpão (MS -

-MI-03), Tapera do Gino (MS-MI-04) – o

qual também apresenta materiais Guarani e

Etno-históricos – Manuel de Souza Neto

(MS-MI-09) e na área de ocorrência 2 (ver

Mapa 2 e Tabela 1). Apesar da realização

apenas de coletas de superfície e análises ce-

râmicas, foi possível observar, em compara-

ção aos sítios com materiais Guarani e aná-

logos à Fase Jacadigo, que aqueles com

materiais semelhantes aos do MS-CP-25

apresentam variações situacionais e artefa-

tuais distintas. Com efeito, a maioria dos sí-

tios estão implantados nas proximidades da

planície de inundação do Miranda, com ex-

ceção da Tapera do Gino e da ocorrência 2,

localizadas em topos colinares próximos de

nascentes fluviais, e são formados por depó-

sitos com dispersão, diversidade e densidade

menores de elementos, mesmo consideran-

do os achados de materiais de origem indus-

trializada, estruturas de habitação e ecofatos

em alguns sítios.

No José Rondon de Souza, foram coletados

57 materiais arqueológicos em área constituí-

da por sedimento arenoso marrom-claro (very

pale brown 10YR6/3) com 7.500m². O Sr. José

Rondon, morador na área do sítio, ainda nos

mostrou duas lâminas líticas polidas de ma-

chado recolhidas no local. Entre os fragmen-

tos cerâmicos, apenas 19 apresentaram atri-

butos diagnósticos da morfologia e do

acabamento de superfície. Assim, no tocante à

análise da forma das vasilhas, 78,94% dos

fragmentos foram classificados como paredes,

Levantamento arqueológico na Aldeia Lalima, Miranda/MS: uma con tribuição ao estudo da trajetória histórica ...
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Eduardo Bespalez

117 fragmentos cerâmicos em área com

2.500m² constituída por sedimento litólico.

Entre estes, foram selecionados 16 fragmen-

tos diagnósticos para a realização das análi-

ses, os quais apresentaram as mesmas ca-

racterísticas que aqueles analisados no

MS-MI-02. No entanto, cabe acrescentar que

no MS-MI-03 também foram encontrados

líticos lascados, fragmentos de louça, esteio

queimado, clareira e plantas alimentícias e

medicinais. Os resultados das atividades de

coleta em superfície a das análises dos frag-

mentos selecionados no MS-MI-04 foi aludi-

da acima, enquanto se tratou dos correlatos

da ocupação Guarani, cabendo apenas infor-

mar que também foram identificadas bordas

perfuradas e lábios dentados entre os mate-

riais cerâmicos, e que foi coletada uma conta

azul de vidro, a qual pode estar relacionada

com quaisquer dos contextos tecnológicos

observados no sítio. Não foram realizadas

atividades de coleta no MS-MI-09. Também

é importante sublinhar que, devido ao estado

de preservação dos fragmentos, geralmente

muito pequenos, não foi possível a reconsti-

tuição gráfica do vasilhame cerâmico asso-

ciado à tradição tecnológica semelhante

àquela do MS-CP-25.

Assim como no que se refere à Fase Jaca-

digo, os materiais coletados no sítio MS -

-CP-25 também foram associados aos Guai-

kurú (Schmitz et al., 1998: 229), devido à

semelhança latente entre os motivos estiliza-

dos com impressões de corda e as técnicas

decorativas das ceramistas Kadiwéu, preco-

nizadas desde o final do séc. XVIII (cf. Bog-

giani, 1975; Ferreira, 1971; Ribeiro, 1980; Si-

queira Jr., 1992). Apesar da não obtenção de

datações arqueológicas nos sítios com mate-

riais análogos aos do MS-CP-25 detectados

em Lalima, acredita-se na plausibilidade da

hipótese aventada. Contudo, também é pos-

sível que tal tecnologia cerâmica tenha sido

compartilhada com outras populações desde

129

períodos pré-históricos, inclusive com aque-

las de origem Aruak, tais como os Guaná,

Kinikinao, Laiana e Terena, os quais, ao seu

turno, migraram para o Pantanal juntamente

com os Guaikurú e mantinham relações cul-

turais muito próximas com os mesmos. Des-

tarte, diante da variação situacional e artefa-

tual em tono de si mesmo e da variabilidade

em relação aos conjuntos Guarani e análo-

gos aos da Fase Jacadigo, é provável que os

materiais parecidos com os do MS-CP-25

correspondam aos correlatos dos processos

de migração, estabelecimento e fragmenta-

ção cultural e territorial dos Guaikurú e

Guaná no rio Miranda, decorridos entre os

séculos XVII e XIX, ou seja, entre o abandono

Guarani e a Guerra do Paraguai, e, por con-

seguinte, ao período inicial da história de

formação do contexto etnográfico atual, pro-

tagonizado pelos Guaikurú no último quartel

dos oitocentos. Nesse sentido, a variação nos

conjuntos similares aos do MS-CP-25 pode

ter se originado a partir de acampamentos,

pequenas aldeias ou taperas dos ascendentes

dos Guaikurú e Guaná encontrados por Ron-

don no início do sec. XX.

Co RRELAto S DA HIS tó RIA DE fo R- m A ção D o C ont E xto E tno GR áf IC o At UAL

Além da Tapera do Gino, os correlatos

materiais da história de formação do con-

texto etnográfico atual foram observados

nos sítios Tapera do Urumbeva (MS -

-MI-05), Tapera do Pirizal (MS-MI-09) e

Tapera do Agápto (MS-MI-13). Afora o MS -

-MI-04 e o MS-MI-13, localizados em topos

de colina nas proximidades de nascentes

fluviais, o MS-MI-05 e o MS-MI-09 apre -

sentam implantação semelhante aos sítios

com materiais análogos aos do MS-CP-25,

porém os depósitos dos sítios Etno-históri-

cos são constituídos por densidades, diver-

sidades e áreas de dispersão relativamente

REVISTA DE ARQUEOLOGIA

Volume 23 - N.2:112-135

- 2010

130

maiores que aqueles. Contudo, esta última

assertiva não vale para os fragmentos de

vasilhas cerâmicas, cujas amostras se

mostraram ainda menores, sendo válida

apenas para os vestígios de origem indus -

trializada, tais como metais, vítre -

os e sintéticos; orgânicos, sobretu-

do restos faunísticos de

alimentação; e ecofatos, semelhan-

tes aos do MS-MI-03.

Além da Tapera do Gino, os cor-

relatos materiais da história de for-

mação do contexto etnográfico atu-

al foram observados nos sítios

Tapera do Urumbeva (MS-MI-05),

Tapera do Pirizal (MS-MI-09) e Ta-

pera do Agápto (MS-MI-13). Afora

o MS-MI-04 e o MS-MI-13, locali-

zados em topos de colina nas pro-

ximidades de nascentes fluviais, o

MS-MI-05 e o MS-MI-09 apresen-

tam implantação semelhante aos sítios

com materiais análogos aos do MS-CP-25,

porém os depósitos dos sítios Etno-históri-

cos são constituídos por densidades, diver-

sidades e áreas de dispersão relativamente

maiores que aqueles. Contudo, esta última

assertiva não vale para os fragmentos de

vasilhas cerâmicas, cujas amostras se

mostraram ainda menores, sendo válida

apenas para os vestígios de origem indus -

trializada, tais como metais, vítreos e sinté-

ticos; orgânicos, sobretudo restos faunísti -

cos de alimentação; e ecofatos, semelhantes

aos do MS-MI-03.

Apesar de nem todos conhecerem as his-

tórias associadas aos processos de constitui-

ção da configuração etnográfica hodierna de

modo tão profundo como Manuel de Souza

Neto, o principal auxiliar e interlocutor das

pesquisas arqueológicas e etnoarqueológicas

na Aldeia Lalima, a maioria dos adultos de

ambos os sexos detém alguma informação

sobre a origem dos materiais deixados nos

sítios Etno-históricos. A Tapera do Pirizal,

por exemplo, seria o local onde Rondon en-

controu os Guaikurú em Lalima; já a Tapera

do Urumbeva teria se formado após abando-

nada pela primeira família de índios Terena

Figura 5. a) vasilha aberta, simples, semi-esférica; b) bordas extrovertidas.

Figura 5. a) vasilha aberta, simples, semi-esférica;

b) bordas extrovertidas.

levada para a Aldeia pelo SPI, de sobrenome

Cororó, cujos descendentes encontram-se

em Lalima até hoje; a Tapera do Agápto, ao

seu turno, teria se constituído a partir do do-

micílio de um índio empregado na Faz. Santa

Rosa; e a Tapera do Gino, por sua vez, teria

sido abandonada há apenas 20 anos, com a

mudança do Gino para outra área da Aldeia.

Na Tapera do Urumbeva, foram realiza-

das coletas de superfície e sub-superfície,

com a escavação de 15 sondagens e de uma

área de decapagem com 12m² em torno de

uma estrutura de combustão. O sítio apre-

sentou sedimento litólico, área com

10.000m², 0,10m de espessura e vestígios

de materiais industrializados, estruturas

de habitação, fragmentos de vasilhas cerâ-

micas, restos orgânicos de alimentação,

utensílios líticos e ecofatos.

Foram coletados 57 fragmentos cerâmi-

cos, entre os quais apenas 14 continham

atributos diagnósticos da morfologia e do

acabamento de superfície das vasilhas.

Levantamento arqueológico na Aldeia Lalima, Miranda/MS: uma con tribuição ao estudo da trajetória histórica ...
Levantamento arqueológico na Aldeia Lalima, Miranda/MS: uma con tribuição ao estudo da trajetória histórica ...

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Eduardo Bespalez

Logo, no tocante à forma, 92,85% dos frag-

mentos foram classificados como bordas e

7,14% como parede. Em relação às bordas,

46,15% foram taxadas como direta-vertical

e 15,38% como extrovertida. Quanto ao lá-

bio desses fragmentos, 69,23% foram cate-

gorizados como aplanado, 7,69% como ar-

redondado, 7,69% como apontado, 7,69%

como biselado e 7,69% como expandido. O

diâmetro da boca foi medido em apenas

uma borda, em 22cm. No que se refere à

espessura, 92,85% dos fragmentos foram

qualificados como finos e 7,69% como mé-

dio. Em se tratando da classe de simetria,

contorno e forma geométrica, 57,14% dos

fragmentos foram associados com vasilhas

abertas, simples e semi-esféricas. Apenas

foi possível a reconstituição gráfica de 1

classe de vasilha cerâmica a partir dos

fragmentos coletados na Tapera do Urum-

beva (ver Figura 5).

Somente foram observados acabamento

de superfície distinto de alisamento e poli-

mento na face interna dos fragmentos, com

14,28% classificados como cromático com

engobo vermelho e 7,14% como cromático

com pintura vermelha. Todos os fragmen-

tos foram tecnologicamente associados ao

contexto etnográfico atual, porém é impor-

tante sublinhar que a tecnologia em ques -

tão, atualmente em desuso, é distinta da

tecnologia Terena atual, conhecida e even-

tualmente operada em alguns domicílios,

apesar dos índios alegarem que “o barro da

Aldeia não é bom”.

Com efeito, os significados da variabi -

lidade e da variação nos correlatos mate -

riais de ocupação relativos à história da

formação do contexto etnográfico atual

podem ser compreendidos através da con -

juntura histórica das transformações só -

cio-culturais impulsionadas pela política

indigenista do séc. XX e da abordagem

etnoarqueológica. Como aludido acima,

131

muitos remanescestes étnicos Guaikurú e

Guaná dispersos e escravizados nas fa -

zendas da região foram libertados por

Rondon e adensados pelo SPI nas reservas

indígenas, com o propósito da assimilação

e da aculturação. Em Lalima, a atuação do

SPI e, posteriormente, da FUNAI, agrupou

remanescentes étnicos distintos junta -

mente com os Guaikurú, acelerou a trans -

figuração da cultura indígena e fomentou

a difusão da influência cultural dos Tere -

na. Desafortunadamente, os registros au -

diovisuais obtidos com os interlocutores

ainda não foram analisados sistematica -

mente a partir de uma perspectiva etnoar -

queológica concernida com a construção

de um modelo interpretativo, porém os

dados contidos nas gravações, ainda mais

se somadas aos dados históricos, etnográ -

ficos e arqueológicos, apresentam infor -

mações sobre a história e a cultura da

ocupação indígena contemporânea que

permitem transpor o estabelecimento do

fato pelos materiais, incrementar o conhe -

cimento sobre o passado, compreender as

questões postas pelo presente e refletir so -

bre o futuro da comunidade indígena lo -

cal e regional.

Con SIDERA çõ ES f I n AIS: A A LDEIA L ALI m A E A o CUPA ção I n D í GE n A REGI on AL

Em conformidade com a hipótese conce-

bida em relação à pesquisa de levantamento

arqueológico em Lalima, bem como com as

proposições teóricas, históricas, etnográfi-

cas e arqueológicas que a embasam, os cor-

relatos ora apresentados, mesmo conside-

rando o caráter preliminar dos resultados

obtidos até momento, não só estabelecem o

fato de que a área estudada pode ser com -

preendida enquanto palimpsesto da trajetó-

ria histórica da ocupação indígena regional,

na medida em que os dados demonstram

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Volume 23 - N.2:112-135

- 2010

132

que a Aldeia foi ocupada por populações di-

versas ao longo do tempo, como ainda ofe-

recem elementos que podem ser utilizados

na elaboração de novas inferências.

Até onde se permite generalizar, os corre-

latos detectados em Lalima tratam de aproxi-

madamente mil anos de história indígena na

região do médio curso do rio Miranda. Os fa-

tos mais notáveis em tal ínterim são o estabe-

lecimento de populações ceramistas distintas

e os impactos do colonialismo sobre as mes-

mas. Em se tratando do primeiro fato, preva-

lece a hipótese de que os conjuntos classifica-

dos como Guarani, Tradição Pantanal

(análogos à Fase Jacadigo e aos materiais do

MS-CP-25) e correlatos da história de forma-

ção do contexto etnográfico atual podem ser

compreendidos como testemunhos da diver-

sidade cultural descrita desde a chegada dos

primeiros conquistadores e colonizadores até

o presente, cujas origens encontram-se na

pré-história. Destarte, apesar do desconheci-

mento sobre a cultura das populações porta-

doras de tecnologia cerâmica semelhante

àquela da Fase Jacadigo e das interações des-

tas com os Guarani, bem como da possibilida-

de de compartilho dos materiais similares aos

do MS-CP-25 entre populações diferentes

desde períodos pré-históricos e das limitações

da abordagem etnoarqueológica junto à co-

munidade, postula-se, no que concerne às re-

lações dos conjuntos de correlatos materiais

de ocupação detectados na Aldeia e a história

indígena regional de longa duração, que: a)

tanto os Guarani quanto as populações com

cerâmicas parecidas com aquelas da Fase Ja-

cadigo podem ser caracterizadas como socie-

dades agricultoras, ceramistas, sedentárias e

culturalmente distintas que se estabeleceram

no médio Miranda em períodos pré-históri-

cos; 2) cedo ou tarde, os Guarani se impuse-

ram cultural e territorialmente sobre as ou-

tras populações que se estabeleceram na

região, inclusive em relação aos que porta-

vam cerâmicas análogas aos da Fase Jacadi-

go, até o início do colonialismo; 3) os conjun-

tos constituídos principalmente por

fragmentos cerâmicos semelhantes aos do

sítio MS-CP-25 eram portados pelas popula-

ções migrantes do Chaco, sobretudo Guaiku-

rú e Guaná, os quais se estabeleceram na re-

gião a partir dos séculos XVII e XVIII, após o

abandono dos Guarani; e 4) os conjuntos atri-

buídos pelos interlocutores indígenas ao pro-

cesso de constituição da configuração etno-

gráfica hodierna foram deixados pelos

remanescentes étnicos adensados em Lalima

pelos órgãos indigenistas oficiais entre o fim

do império e a república do presente.

No que concerne ao segundo fato, ou seja,

aos impactos do colonialismo nas populações

indígenas no médio Miranda, pode-se asso-

ciar o abandono Guarani e a variabilidade

entre os conjuntos datados como pré-históri-

cos e históricos, ou melhor, entre Guarani e

análogo à Fase Jacadigo, de um lado, e similar

ao MS-CP-25 e Etno-históricos, de outro, aos

constrangimentos e transtornos causados

com a chegada e a conquista do continente

pelos europeus, mormente no que se refere ao

baixio demográfico e à desestruturação dos

territórios e das culturas indígenas.

Seja como for, as considerações tecidas

acima apenas poderão se confirmar, ou não,

com a continuidade e o aprofundamento

das pesquisas. Tal intuito, ao seu turno, so-

mente poderá ser empreendido com a valo-

rização da colaboração e da participação da

comunidade indígena em Lalima no pro-

cesso de construção do conhecimento, atra-

vés de uma perspectiva interdisciplinar,

diacrônica, holística, crítica e comunitária,

tendo em vista o retorno das informações à

sociedade, o combate ao colonialismo e a

descolonização da arqueologia e do passado

(Layton, 1989, 1994; Shepherd, 2003; Silli-

man, 2005; Smith & Wobst, 2005).

Levantamento arqueológico na Aldeia Lalima, Miranda/MS: uma con tribuição ao estudo da trajetória histórica ...
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Eduardo Bespalez

133

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Levantamento arqueológico na Aldeia Lalima, Miranda/MS: uma con tribuição ao estudo da trajetória histórica ...
Levantamento arqueológico na Aldeia Lalima, Miranda/MS: uma con tribuição ao estudo da trajetória histórica ...

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REVISTA DE ARQUEOLOGIA

Volume 23 - N.2:112-135

- 2010

136

ARTIGO

da Força repressora à CoesÃo sUtil:

a arqUeologia da Vila operária

Cláudia Regina Plens Profa. Dra. Curso de História Universidade federal de São Paulo - UnIfESP clauplens@gmail.com

RESU mo

A b S t RACt

A pesquisa arqueológica na vila operária

The archaeological research at the rail-

de Paranapiacaba, Santo André, SP, buscou

way worker village of Paranapiacaba (mu-

compreender como as modificações no sis-

nicipal district of Santo André, São Paulo

tema de trabalho afetaram o comportamen-

State) studies the consequences of the work-

to de um segmento da classe trabalhadora

ing system change, which was impelled by

brasileira – no segundo quartel do século

the construction of the British “The São Paulo

XIX - impulsionada pela construção da fer-

Railway Co. Ltd.” in the last quarter of the

rovia inglesa The São Paulo Railway Co.

19th century. The research focus was the be-

Ltd. O tema do projeto abordou o assunto da

havior shift of a particular segment of the

classe trabalhadora paulista no momento

Brazilian working class during the transition

de transição do trabalho escravo para o as-

period from the slavery to the hire system. So

salariado. Para tanto, teve como objeto de

far, the project had as research object, the

estudo as residências da vila ferroviária

residences of the railway village built since

construídas a partir de 1865, para a moradia

1865, to lodge the employees of the company,

dos funcionários da companhia inglesa,

Brazilians and immigrants. The archaeologi-

brasileiros e imigrantes. As intervenções ar-

cal surveys in the residential discard areas

queológicas nas áreas de descarte residen-

identified different characteristics. Such re-

cial identificaram diferentes características.

sults brought into the discussion about the

Tais resultados nos remeteram à discussão

behavior among the social classes between

a respeito do comportamento entre as clas-

the final slavocrat period and the beginning

ses sociais desde o período escravocrata até

of the 20th century.

o começo do século XX.

 

K EY W o RDS Historical Archaeology,

PALAv RAS-CHAv E Arqueologia Histórica,

Atlantic Rain Forest, labor class, labor

Mata Atlântica, classe trabalhadora, vila

villa, railway

operária, ferrovia

 

REVISTA DE ARQUEOLOGIA

Volume 23 - N.2:136-155

- 2010

138

Int R o DU ção

Brasil, o pensamento abolicionista foi mani-

Este trabalho é o resultado da pesquisa

festado a partir da assinatura dos Tratados

arqueológica desenvolvida como projeto de

de Comércio e Amizade com o governo bri-

mestrado no Museu de Arqueologia e Etno-

tânico, em 1810, e intensificou-se no mo-

logia da Universidade de São Paulo, nos

mento do Congresso de Viena. Tal fato tinha

anos de 1999 a 2002 1 , cujo enfoque foi a vila

caráter efetivamente econômico, mesmo

operária de Paranapiacaba, município de

que mascarado por qualquer caráter huma-

Santo André, Estado de São Paulo, Brasil.

nitário (Neves, 2000: 375).

O objetivo geral do projeto foi a busca de

D. João, príncipe regente, que defendia

parâmetros para a compreensão do processo

arduamente a escravidão, no Congresso de

de transformação da paisagem no cotidiano

Viena fundamentou as razões e motivos que

da comunidade operária oitocentista da Vila

o prendiam ao comércio do tráfico negreiro,

de Paranapiacaba, perante o sistema ideológi-

o qual considerava indispensável para a

co inglês e, ainda, compreender como a classe

prosperidade das colônias portuguesas. A

operária, composta por brasileiros e imigran-

sua posição foi discutida pelo representante

tes, sobretudo espanhóis e italianos, se adap-

inglês quanto aos motivos humanitários,

tou a uma postura ordenada de uma vila pré-

entre os econômicos, que faziam do aboli-

-fabricada que lhes foi imposta. A Arqueologia

cionismo o melhor caminho para a prospe-

nos permitiu explicar alguns dos mecanismos

ridade desses países e colônias (Neves,

dos hábitos de comportamento adotados pe-

2000: 376). No Brasil, em 1822, dentro de

los trabalhadores (e também moradores desta

um clima agitado, os debates por meio da

vila), analisando as informações contidas nos

imprensa permitiram que ainda aflorassem

artefatos para a apresentação de um modelo

outras dimensões da questão abolicionista.

do cotidiano da vila operária, e discutir estra-

As idéias abolicionistas tornavam-se uma

tégias de ação e reação estabelecidas entre

luta pelo poder (Neves, 2000: 391).

patrões/empregados, brasileiros/imigrantes e

Neste período a condição dos escravos, em

mão de obra assalariada/escrava, vivenciadas

São Paulo, estava passando por várias contur-

no século XIX na Vila de Paranapiacaba e ad-

bações. O interior, onde se expandiria a cultu-

jacências, em função da estrada-de-ferro.

ra cafeeira, contava com poucos escravos no

começo do século XIX. Bacellar (2000: 240)

A CLASSE t RA b ALHAD o RA no f I m D o

relata que em Sorocaba, no ano de 1810, havia

Im P é RI o PARA A R EP úb LICA n A vILA

9.581 habitantes, dos quais apenas 1.938 eram

DE PARA n APIACA b A

escravos, sendo que estes estariam distribuí-

Em 1807, a Inglaterra suprimiu o seu

dos em 360 domicílios, representando 20,4%

próprio comércio negreiro transatlântico. A

do total, completando a média de 5,4 escravos

partir de então, iniciou-se uma cruzada

em cada casa. A distribuição de escravos, no

para convencer os outros países a seguir o

entanto, não se dava sempre nesse número,

seu exemplo. D. João VI viu-se obrigado a

sendo que muitos dos documentos apontam

restringir a escravidão às colônias portu-

para a existência de um único escravo em

guesas ao sul do equador, e a posicionar-se

cada residência, muitas vezes crianças, devi-

para que elas também passassem a extin-

do ao seu baixo valor comercial (Bacellar,

guir o tráfico negreiro (Dean, 1996: 161). No

2000:251).

1 A pesquisa arqueológica teve apoio da fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo.

Da força repressora à coesão sutil: a arqueologia da vila operá ria

Da força repressora à coesão sutil: a arqueologia da vila operá ria

Da força repressora à coesão sutil: a arqueologia da vila operá ria

Cláudia Regina Plens

Com o advento do café, porém, grandes

fazendas passaram a ocupar o interior e

também a deter um maior número de escra-

vos concentrados em um mesmo espaço. As

relações entre senhor e escravo se tornaram

cada vez mais distantes. O sistema discipli-

nar da fazenda exigia ritmo de trabalho

mais acelerado que anteriormente e, em

contrapartida, reivindicações por melhores

condições de sobrevivência por parte dos

escravos. Suas reivindicações giravam em

torno de folgas semanais, alimentação e

vestuário, recebimento pelo trabalho e re-

dução de castigos sofridos (Machado,

1994:25). A conseqüência: violência, onde

os escravos passavam a agir de maneira or-

ganizada, rebelando-se contra seus senho-

res (Azevedo, 1987:199). Nos jornais passa-

ram a ser comuns denúncias de atos de

desobediência às regras disciplinares nas

fazendas, como revoltas organizadas e cri-

mes sangrentos (Machado,1991:67). Todo

este movimento trazia fortes preocupações

tanto para os senhores de escravos quanto

para a polícia, responsável pela manuten-

ção da ordem.

A pressão da polícia sobre os escravos au-

mentava e as reivindicações ganhavam novos

espaços. Os escravos fugiam das fazendas po-

voando cidades, estradas, estações de trens

(Machado, 1991: 69). A comunicação do mo-

vimento, fundamental para a manutenção do

abolicionismo, se realizava através de caixei-

ros, tropeiros e ferroviários e assim seguiam

para as cidades por onde o transporte passava

(Machado, 1991:92). Toda essa movimenta-

ção estava ocorrendo às margens das ferro-

vias Companhia Ferroviária e Mogiana, im-

plantadas na década de 1870 por interesse dos

cafeicultores, como prolongamento da São

Paulo Railway (Machado, 1991:91).

Os santistas, que se mantinham atentos

a estes acontecimentos e viam constante-

mente fugas das fazendas e a movimenta-

139

ção diária por Cubatão e Bertioga, organiza-

ram-se em apoio ao movimento. Como o

número de fugitivos crescia, tornava-se im-

possível colocar a todos nos serviços do por-

to e das casas de comércio, ainda mais por-

que aderiam a esse movimento também

crianças e mulheres, sendo necessária a

criação de um novo espaço que acolhesse

este contingente.

Foi somente em 1882, numa reunião que

contava com a presença de Xavier Pinheiro,

Guilherme Souto, Geraldo Leite, Júlio Ba-

ckauser, Santos Pereira, conhecido como

“Santos Garrafão”, Ricardo Pinto de Olivei-

ra, Júlio Maurício, Constantino de Mesqui-

ta, Joaquim Fernandes Pacheco, Teófilo de

Arruda, José Inácio da Glória, Afonso Veri-

diano, Antônio Augusto Bastos entre outros,

que foi decidido que deveria ser construído

um reduto para os fugitivos do trabalho es-

cravo (Moura, 1988:211). Com a morte de

Luiz Gama, um líder abolicionista, a ação

passou a ser liderada por Antonio Bento,

que fez com que o movimento se avantajas-

se, tomando proporções antes nunca vistas

em São Paulo. Neste ano houve vários rela-

tos de incitamento a revoltas de escravos

por pessoas de fora das fazendas (Azevedo,

1987: 201).

Primeiramente a estratégia utilizada por

Antonio Bento consistia na utilização dos

meios jurídicos. Através do jornal intitulado

A Redempção, instalado na confraria negra

de Nossa Senhora dos Remédios, no centro

de São Paulo, eram divulgadas suas idéias

abolicionistas. Este jornal destinava-se às

pessoas de classe social baixa, mas chegou

a alcançar aceitação desde os próprios es-

cravos nas senzalas até famílias mais abas-

tadas de São Paulo. Na cidade de São Paulo,

Bento também possuía alojamentos para os

negros que não tinham para onde ir. Indo

mais longe, “Bento reuniu uma coleção de

instrumentos que, antigamente, haviam

REVISTA DE ARQUEOLOGIA

Volume 23 - N.2:136-155

- 2010

140

sido usados em escravos: chicotes de couro,

 

Quintino Lacerda, que aí residiu, junto com

coleiras, correntes, cangas e gargalhadeiras

antigos ocupantes do Quilombo até 1898,

de ferro”, simbolizando sua luta (Conrad,

quando faleceu ( )” ...

1978: 294-5). Com o tempo sua manifesta -

 

ção foi ganhando outros rumos, através do

O movimento crescia e mais pessoas de

apoio ao abandono das fazendas pelos es -

diferentes classes sociais - como ex-es -

cravos, proteção para fuga, açoitamento e

cravos e antigos donos de escravos e seus

a colocação dos libertos no mercado de tra-

filhos, a elite intelectual da província e

balho (Machado, 1991: 96). Para a acolhi -

pessoas de diferentes partidos políticos -,

da dos negros fugidos, Antonio Bento, sob o

se juntavam à causa (Conrad, 1978:295).

comando de Quintino de Lacerda, um ex -

A viagem dos escravos fugitivos era pe -

-escravo, acompanhado de Julio Mauricio,

rigosa e ocorria principalmente à noite,

Wansuit, Santos Garrafão, entre outros mi-

tendo por objetivo atingir o alto da serra e

litantes abolicionistas, estabeleceu um qui-

descer para o vale, onde se encontrava o

lombo, que viria a se tornar um dos maio -

quilombo (Santos, 1942: 178-9). Em San -

res de São Paulo.

 

tos, os quilombolas achavam subempre -

Este quilombo, localizado na Serra do

gos nos cais do porto entre outros bisca -

Mar, pertencente ao município de Santos,

tes. A ação popular era visível durante as

contou com cerca de dez mil escravos no

muitas excursões de autoridades à procu -

século XIX (Reis e Santos, 1989:71-3 e

ra de fugitivos. Com pedras, madeiras e

Moura, 1988: 211). A sua formação seria

paus, saíam à rua em favor da abolição.

diferente dos demais quilombos brasilei -

Em um desses momentos de fuga de

ros, pois teria surgido de ações sistemati -

escravos a manifestação de operários da

zadas, com ajuda do branco. O quilombo

São Paulo Railway Co. Ltd. se fez presente:

na Serra do Mar representaria, segundo

Queirós (1977:144), o caráter quase único

 

“Intervieram então o superintendente da S. Pau-

de protesto, devido à ação coordenada por

lo Railway, William Speers, e o chefe do trafego,

brancos na luta contra a escravização.

 

Antonio Fidelis, e discretamente offerceram uma

O quilombo estava situado em terras altas

solução. A locomotiva que trouxéra a composi-

e férteis, que na época estavam desabitadas. O

ção seria desatrelada. Uma outra seria posta á

quilombo Jabaquara situava-se segundo San-

retaguarda, e a compromettida diligencia, sem

tos (citado em Machado, 1991: 169),

 

delongas nem altos, bateria simplesmente em

 

retirada. Já sabemos das bôas disposições da

“atrás das terras de Matias Costa, ainda em

gente ferroviária para com a ordem libertadora

estado primitivo, coberta de mato e cortadas

dos caiphases. A manobra executou-se com in-

de riachos, havia uma extensão de várzea

crivel rapidez e, a levantar um alto pennacho de

trançadas apenas de caaqueras, cambarás e

vapor claro, num longo apito victorioso, lá se foi

existiam ao lado da Santa Casa, subindo a

o trem em direção á serra

...

A autoridade publi-

lombada do morro, passando pela casa de

ca havia feito, no municipio de Santos, a sua

Benjamim Fontana, e a seguiu pelo sítio de

ultima tentativa no sentido legal da escravidão.

Geraldo Leite da Fonseca que ficava ao alto,

Naquella noite accendeu-se uma immensa fo-

caindo então para a várzea do Jabaquara

gueira no Jabaquara, e o samba retumbou festi-

(

)

As terras do Jabaquara, pertencentes a

vo e exultante até alta madrugada ”(Santos, ....

Benjamim Fontana, foram arrendadas por

1942: 183-4).

 
Da força repressora à coesão sutil: a arqueologia da vila operá ria

Da força repressora à coesão sutil: a arqueologia da vila operá ria

Da força repressora à coesão sutil: a arqueologia da vila operá ria
 

Cláudia Regina Plens

Este episódio traz à tona a presença britâ-

nica nos movimentos em favor da libertação

dos escravos. E embora não haja trabalhos

históricos com registros dos trabalhadores da

São Paulo Railway Co. Ltd., um levantamento

efetuado em 1920 registrou 3.286 moradores

na Vila de Parapiacaba, todos imigrantes, por-

tugueses, espanhóis e italianos.

Inicialmente o que se tornou a Vila de Para-

napiacaba era um acampamento provisório

para os 5000 trabalhadores que começaram as

obras da construção da ferrovia Estes, depois de

concluído o empreendimento, não continua-

vam a trabalhar para a empresa. Contudo, mais

tarde seriam necessários trabalhadores contra-

tados para a manutenção da ferrovia. Desta for-

ma foram contratados outros 2000 trabalhado-

res, dando, assim, início a ondas migratórias

que tinham por finalidade a busca de trabalho.

A ARQUEo Lo GIA DA São PAULo o Ito CE ntIS tA

A Vila de Paranapiacaba se divide em três

diferentes conjuntos de aspectos urbanísti-

cos e arquitetônicos distintos entre si: Vila

Velha, Vila Nova e Parte Alta (Malentaqui,

1984:18-9). Na Vila Velha, local onde ocorreu

a primeira fase da ocupação inglesa em

1860/62, onde além das residências estão lo-

calizados os mais antigos depósitos da em-

presa, as características são: construções que

seguem os alinhamentos das ruas; distribui-

ção pouco ordenada das construções; inexis-

tência de calçamento nas ruas; inexistência

de um modelo de arruamento, com a exis-

tência de apenas um eixo principal (Rua Di-

reita) que dá acesso aos depósitos e oficina.

As residências dos trabalhadores na Vila

Velha diferenciam-se em relação ao tamanho

da família a quem se destinavam, desde os cô-

modos que abrigariam os solteiros (Casa tipo

D), até para famílias na qual o trabalhador mo-

rava com esposa e uma grande quantidade de

filhos (Casa tipo C) (Figura 1).

141

A Vila Nova (antigamente denomina -

da Vila Martin Smith), foi uma área pla -

nejada, construída devido ao aumento do

Figura 01. Esquema de residências dos trabalha- dores na Vila Velha. Fonte: Ferreira et. alii, 1990.

Figura 01. Esquema de residências dos trabalha-

dores na Vila Velha. Fonte: Ferreira et. alii, 1990.

número de funcionários e, também ao ace -

lerado desenvolvimento da ferrovia. Nes -

ta área, as casas teriam sido construídas

também de acordo com o estado civil do

trabalhador, mas, sobretudo, em relação à

função exercida pelo trabalhador na fer -

rovia, como engenheiros, manobristas e

mecânicos. Todas essas construções foram

feitas em madeira sobre alvenaria. As re -

sidências nesta área foram construídas

em quatro padrões (figura 2):

O planejamento e extensão da vila de Para-

napiacaba para a Parte Alta ocorreu de acordo

com a necessidade de abrigar a classe de tra-

balhadores aposentados pela Rede, pois estes,

Figura 02. Esquema de residências dos trabalha- dores na Vila Nova. Fonte: Ferreira et. alii, 1990.

Figura 02. Esquema de residências dos trabalha-

dores na Vila Nova. Fonte: Ferreira et. alii, 1990.

REVISTA DE ARQUEOLOGIA

Volume 23 - N.2:136-155

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142

devido ao clima, ao costume ou a outro motivo,

preferiam ficar morando em Paranapiacaba

(Malentaqui,1984:14). A parte baixa, conside-

rando o declive do Vale, foi primeiramente for-

mada por habitações provisórias (acampa-

mento) dos operários da São Paulo Railway.

A intenção da companhia era a fixação de pou-

cos operários no local, porém, devido às difi-

culdades, às obras de conservação e às exigên-

cias oficiais, cresceu a necessidade de um

maior número de funcionários no local em

caráter permanente.

A vila operária, em geral, não permitia uma

grande locomoção dos operários e seus fami-

liares, com o objetivo de mantê-los o maior

tempo possível em função do trabalho. Para as

horas de lazer, necessárias para uma vida mi-

nimamente confortável, estabeleceram-se cen-

tros religiosos, desportivos, de lazer, localiza-

dos dentro, também, da visualização do

superintendente, com o objetivo de manter

uma ordem social para que a força de trabalho

não seja despendida em outras atividades.

o mARxISmo E o PEnSAmEnto foU- CALtIAno

Na análise da cultura material da Vila de

Paranapiacaba, adotamos o pós-processualis-

mo em duas vertentes transdisciplinares: o

marxismo e o pensamento foucaltiano. A apli-

cação do marxismo pelo pós-processualismo é

baseada na idéia de ideologia, não apenas rela-

cionada ao dominante, mas, sobretudo ao inte-

resse (Hodder 1992). Nesta perspectiva, enten-

de-se que diferentes grupos da sociedade são

capazes de desenvolver ideologias divergentes.

A influência do pensamento foucaltiano, no

que se refere à ideologia, baseia-se na relação

do poder, conhecimento e verdade. Para Hod-

der, o poder manipulado pelos recursos mate-

riais deve ser estudado a partir destas três pre-

missas supracitadas (seria importante uma

citação, de preferência com página).

Na tentativa de argüir a questão do poder

e da ideologia durante o período de indus-

trialização na Europa, Foucault (1987:118)

explica que, desde a época clássica, o corpo

humano era considerado como um objeto

submetido à força do poder e, como tal, passa

a ser manipulado, modelado e treinado sen-

do o fim responder e obedecer às necessida-

des da elite. Tais condições de manipulação

do corpo não são exclusividade de uma úni-

ca sociedade, ao contrário, elas se dão em

qualquer sociedade, impondo limitações,

proibições ou obrigações através de métodos

de controle sobre o indivíduo. Vários proce-

dimentos de coerção semelhantes foram

muito vigentes nos século XVII e XVIII como

uma alternativa aos métodos mais bruscos

de coerção ao trabalho: a escravidão.

Apesar de se fazer presente em todas as so-

ciedades, a disciplina passou a exercer função

mais centralizada na vida individual no século

XVIII, devido ao aumento da demografia na

Europa associada ao crescimento do aparelho

de produção que, com controle sistemático,

proporcionava maiores e melhores resultados

mas, em contrapartida, requeria maiores custo

e esforço. Sobre o indivíduo passou a ser exer-

cida a disciplina do corpo e não somente a sua

apropriação. Através da disciplina é possível

fazer com que os corpos se tornem submissos,

aumentando gradativamente sua capacidade

de trabalho, em um menor intervalo de tempo.

“Se a exploração econômica separa a força e o

produto do trabalho, digamos que a coerção

disciplinar estabelece no corpo o elo coercitivo

entre uma aptidão aumentada e uma domina-

ção acentuada” (Foucault, 1987: 119).

No século XVIII, Jeremy Bentham, filósofo

e jurista inglês, concebeu um sistema de vigi-

lância denominado sistema panóptico (pan-

-óptico), cuja função inicial era o projeto de

prisão modelo que posteriormente foi adota-

do por instituições educacionais e de trabalho.

O sistema panóptico era, portanto, a maneira

utilizada para neutralizar a desordem através

Da força repressora à coesão sutil: a arqueologia da vila operá ria

Da força repressora à coesão sutil: a arqueologia da vila operá ria

Da força repressora à coesão sutil: a arqueologia da vila operá ria

Cláudia Regina Plens

143

da fixação das populações que pudessem sub-

mar a população camponesa com o ritmo do

verter a ordem. Na Inglaterra, coube às ins-

trabalho industrial foi a congregação para

tituições religiosas a responsabilidade das

aprenderem, de forma uniforme, os novos

primeiras ações disciplinares sobre grupos

procedimentos (1987:122).

 

populacionais. A disciplina, reconhecida como

 

Ainda segundo Foucault, ‘”a disciplina ‘fa-

técnica para a ordenação das complexidades

bricaria’ indivíduos”. é nesse momento de dis-

humanas (Foucault, 1987:173-9), por sua vez,

ciplina dos atos que ocorrem os primeiros pas-

obedece a uma série de regras para que suas

sos da individualização. Nesse contexto o

condições sejam desenvolvidas.

indivíduo é, sem dúvida, o átomo fictício de

Ainda segundo Foucault (1987:122), a colo-

uma representação “ideológica” da sociedade,

cação do indivíduo – e, por conseguinte, do

mas é também uma realidade fabricada por

grupo - no espaço, é fundamental e pode ser

essa tecnologia específica de poder que se cha-

realizada por meio de quatro regras. A primei-

ma a “disciplina” (Foucault, 1987: 143-161).

ra delas é a escolha do local, sendo este “hete-

 

O lugar, o espaço construído para que a dis-

rogêneo a todos os outros e fechado em si mes-

ciplina seja exercida sobre os atores, foi estu-

mo”; a segunda é a manutenção de um espaço

dado pelo plano Panóptico de Bentam através

enclausurado, sem, no entanto, haver a per-

da arquitetura, onde de forma periférica ane-

cepção disto, separando os grupos em sistemas

lar, a torre estaria centralizada com janelas

individuais, a fim de evitar corporações e pro-

para toda sua circunferência. Para tanto, este

porcionando a fácil verificação dos presentes e

autor se refere ao poder visível e inverificável,

ausentes “procedimento, portanto, para conhe-

com a finalidade de vigiar sem perturbar o in-

cer, dominar e utilizar. A disciplina organiza

divíduo, pois este não se sente vigiado.

 

um espaço analítico”; a terceira trata da deter-

 

Segundo Foucault, estes elementos teriam

minação dos espaços, proibindo comunicação

o poder de automatizar e despersonalizar o po-

que ponha o sistema em perigo e, ao mesmo

der. Para ele o plano panóptico de trabalho tem

tempo, criando um espaço que seja inteira-

por objetivo otimizar o trabalho através da mo-

mente útil. O refinamento na técnica de distri-

dificação do comportamento e do treinamento

buição dos indivíduos no espaço, de maneira a

dos indivíduos no serviço. é uma implantação

articular a distribuição dos indivíduos, ocorreu

dos corpos no espaço, de distribuição dos indi-

nas fábricas, nas décadas finais do século

víduos em relação mútua, de organização hie-

XVIII, colocando-os em posição isolada e rapi-

rárquica, de disposição dos centros e dos ca-

damente localizável; a quarta, onde todos os

nais de poder, de definição de seus

elementos podem ser trocados, pois cada qual

instrumentos e de modos de intervenção, que

ocupa um espaço idêntico aos dos demais,

se podem utilizar nos hospitais, nas oficinas

criando espaços complexos que tenham de-

(

)

(Foucault, 1987: 165-70).

 

sempenho, ao mesmo tempo, arquitetônico,

Ainda segundo Foucault, o que importa no

funcional e hierárquico. Tudo isso cria valores

sistema panóptico é o desenvolvimento da pro-

e impõe a obediência que leva a uma econo-

dução, o desenvolvimento da economia, a difu-

mia de ações que, por sua vez, leva à melhoria

são da instrução e a elevação do nível da moral

do trabalho e por conseqüência, ao lucro.

pública. Para o autor, tal constituição foi possí-

No sistema disciplinar do trabalho, cada

vel através da separação, coordenação e con-

minuto passa a ser importante no emprego

trole de tarefas impostas junto ao quadricula-

do corpo como instrumento de trabalho.

mento do espaço que maneja o tempo, gestos e

Na Europa, o primeiro passo para acostu-

força dos corpos com a finalidade de submetê-

 

REVISTA DE ARQUEOLOGIA

Volume 23 - N.2:136-155

- 2010

144

-las aos mecanismos de produção. Este proces-

trabalho. Assim sendo, a função do em -

so realiza-se através da coerção, porém, sem

prego do piche foi tanto impermeabili -

violência (Foucault, 1987: 172-82).

zante e higiênica quanto ordeira.

Durante as escavações arqueológicas

mE to D o Lo GIA

foram encontradas camadas de piche em

Com a finalidade de compreender as es-

todas as estruturas escavadas. Algumas

tratégias estabelecidas pelos moradores para

vezes, como no caso do Hotel dos Engenhei -

a adaptação de suas vidas em um sistema im-

ros, foi emcontrada mais do que uma ca -

posto, analisamos diversos pontos da vila que

mada, o que nos mostra que, ao longo dos

representariam exemplos de setores públicos

anos, estes quintais e arruamentos passa -

e privados e, também, de classes sociais dife-

vam por reformas. O emprego deste mate -

renciadas, tal como o Hospital, a Igreja e ha-

rial para o asfaltamento de ruas e quintais

bitações de engenheiros e funcionários de

foi, sem dúvida, o fator principal que afe -

baixo escalão, respectivamente.

tou a composição do registro arqueológi -

A partir de pesquisas históricas e arquite-

co e formação de áreas de refugo.

tônicas, foram definidas as áreas para pros-

Sem exceção, foram encontrados vestí -

pecções e escavações arqueológicas de possí-

gios de piche em todos os quintais das re -

veis espaços para descarte de lixo doméstico.

sidências investigadas e, também, na vie -

Esses foram divididos por duas característi-

la. Acreditamos que, nos casos onde as

cas: locais de ordem pública e privada e clas-

intervenções arqueológicas não localiza -

ses sociais alta e baixa. Os locais de ordem

ram vestígios de lixo doméstico, o fator pre -

pública foram cinco, o Hospital, a Viela, o Li-

ponderante para a ausência de material,

xão (depósito de lixo), Igreja (Presbiteriana),

deve-se, sobretudo, ao fato de haver pi -

e o Hotel dos Engenheiros, enquanto que os

che. A ação impermeabilizante do piche

locais de ordem privada, de classe alta, o Cas-

exigia da população a limpeza constante e

telinho (como é chamada a casa do engenhei-

não possibilitava que os materiais fossem

ro chefe), a Casa de Engenheiro, a Casa do

encobertos rapidamente por terra.

Médico, enquanto que os locais de ordem pri-

Comparando os locais que apresenta -

vada destinadas à classe baixa foram três,

ram vestígios arqueológicos e os que não

duas residências destinadas à famílias e uma

apresentaram, notamos que o que os dife -

à grupo de solteiros.

rencia é a existência do piche. O fato das

residências destinadas às classes mais

RESULtADoS

abastadas, assim como os lugares públi -

cos, possuírem maior espaço, que era usa -

o PICHE

do como jardim ou, em alguns casos, áre -

A escavação arqueológica demonstra

as perto de encostas (onde a circulação

que na Vila Velha de Paranapiacaba, dife -

de pessoas não era tão freqüente), não ne -

rente do que se supunha (Ferreira ET. A.l

cessitava de uma manutenção exígua, per -

1990), já havia calçamento de piche, não

mitindo que produtos descartados fossem

apenas nas ruas mas, também, nos quin -

absorvidos pelo sedimento

tais das casas, mostrando a preocupação

com a manutenção da higiene além de

oS tIJ o Lo S

arruamentos bem transitáveis que facili -

Dentre os materiais construtivos da Vila

tassem, aos trabalhadores, o acesso ao

de Paranapiacaba, destacamos os tijolos,

 
Da força repressora à coesão sutil: a arqueologia da vila operá ria

Da força repressora à coesão sutil: a arqueologia da vila operá ria

Da força repressora à coesão sutil: a arqueologia da vila operá ria

Cláudia Regina Plens

145

1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 2 2 7 11 –
1
2
3
4
5
6
7
8
9 10
11
2
2
7
11
Tabela 01. Quantidade de fragmentos de azulejo
encontrados durante a escavação arqueológica,
segundo sua localização. Legenda: 1 = Hospital;
2
= Casa dos Solteiros; 3 = Hotel dos Engenheiros;
4
= Castelinho; 5 = Casa do Engenheiro;
6
= D. Lucia; 7 = Casa da Zilda; 8 = Casa do Médico;
9
= Viela; 10 = Lixão; 11 = Igreja
pois, durante as prospecções e escavações
arqueológicas, estes revelaram ser de gran-
de diversidade, tanto no tamanho e qualida-
de, quanto nos códigos de identificação. A
partir da análise verificamos que este mate-
rial poderia representar muito mais as
transformações sociais da região do Grande
ABC, concomitantemente ao desenvolvi -
mento de Paranapiacaba, do que quaisquer
outros materiais recuperados na escavação.
Através da diversidade de logotipos dos tijo-
los, notamos que as olarias, que já tinham
uma dada importância na região – como em
São Caetano, cujas olarias edificadas pelos
Beneditinos tiveram suas atividades inicia-
das em meados do século XVII - passaram a
ter um crescimento acelerado com a im-
plantação dos trilhos ferroviários no século
XIX. Deste modo, as olarias representaram
a fonte econômica de maior representativi-
dade para a população das adjacências no
período de transição entre o trabalho escra-
vo e o assalariado. Com base nisso, desen -
volvemos uma metodologia que passa des-
de a descrição do material até o debate da
Olarias
1900 1901
1902
1903
1908 1909
1910
1911 Total
Estação São Bernardo
Ipiranguinha
Pilar
Rio Grande da Serra
São Caetano do Sul
3
2
3
3
7
3
5
26
1
1
3
2
7
1
1
2
5
9
1
3 –
4
Tabela 02 - Olarias na região circunvizinha a Vila de Paranapiacaba no início
do século XX. Fonte: Santo André, 1991.

sua importância para os moradores ao lon-

go da ferrovia S. Paulo Railway Co. Ltd.

é importante notar que, desde os primei-

ros séculos de colonização européia, a pro-

víncia de São Paulo teve como papel econô-

mico a produção de itens cerâmicos, onde os

habitantes possuíam apenas alguns instru-

mentos de ferro para o seu trabalho, além de

poucos outros utensílios como roupas, por

exemplo. A ferrovia provocou o aumento de

trabalhos em torno da produção de recipien-

tes cerâmicos, tais como pratos e potes, entre

outros. Houve variações nas técnicas, formas

e estilos mais do que encontrados entre os

séculos XVII e XVIII (Morales, 2000:146).

Destaca-se aí, a importância da região do

ABC com o aumento da produção dos itens

cerâmicos em São Caetano, São Bernardo,

Estação S. Bernardo (atual Santo André), Ipi-

ranguinha, Pilar (atual Mauá), Ribeirão Pires

e Rio Grande da Serra (Tabela 2). Aos poucos,

a região que produzia utensílios cerâmicos

que serviam tão somente aos tropeiros que

subiam e desciam a Serra do Mar, e também

para o uso doméstico das poucas famílias da

região, passou a ter uma forte produção de

tijolos, impulsionando, assim, o aumento po-

pulacional, principalmente através da imi-

gração, que era a base da mão-de-obra.

Para a companhia ferroviária, os tijolos

passaram a ganhar cada vez mais espaço

como material de construção, enquanto que

as casas de pau-a-pique serviriam somente

para o abrigo de operários durante a cons-

trução da ferrovia.

Depois, com o in -

tuito de fazer núcle-

os habitacionais

mais duradouros e

que permitissem a

fixação e o desen -

volvimento de ati-

vidades mais com-

plexas, recorreram

REVISTA DE ARQUEOLOGIA

Volume 23 - N.2:136-155

- 2010

146

à construção de casas, em alguns casos toda

em alvenaria, ou em outros, em madeira -

neste caso, o tijolo era empregado na cons-

trução do alicerce das edificações.

O desenvolvimento da região, em rela-

ção às olarias, foi impulsionado pela cons-

trução da ferrovia que, além de ter utilizado

muito material para a sua ampliação, tam-

bém fomentou a movimentação da popula-

ção neste mercado.

Não existem trabalhos que aprofundam

a questão destas olarias de modo abrangen-

te, contudo, um relatório elaborado pela

prefeitura de Santo André (1991), que trata do

imposto de Indústrias e Profissões, imposto

cobrado pela municipalidade sobre as in-

dústrias e profissões, aponta para alguns as-

pectos das olarias na região circunvizinha à

Paranapiacaba ao afirmar “que de acordo

com o Novo Código de Posturas Municipaes

aprovado pela Lei nº 73 de 19 de julho de

1910, é uma das rubricas da Receita Ordiná-

ria do Município”.

Apesar dos números apresentados na ta-

bela 2, talvez houvesse olarias que não pa-

gassem seus impostos devidamente, ou en-

tão, somente a partir deste período o

desenvolvimento desta atividade tenha sido

tão promissora que, meio século mais tarde

as olarias chegavam a ser 800 na região

(Wiegratz, 2000).

Segundo Marqueiz (1969), a implanta-

ção das olarias na região teve como causa a

geografia local, pois costumam estar próxi-

mas a terrenos alagadiços que propiciam

barro de ótima qualidade para produção de

tijolos.

Os tijolos encontrados em Paranapiaca-

ba diferem em suas dimensões e peso, cada

qual sendo indicado para utilizações distin-

tas, dependendo das obras a que se destina-

vam. A análise morfológica e das marcas

dos tijolos resultaram nas classificações da

tabela 03.

Foram analisados 15 tijolos representan-

do aqueles que ainda se encontram nas ca-

sas que continuam ocupadas por grupos

familiares. é importante ressaltar que, por

se tratar de uma vila ainda ocupada, onde

os tijolos ainda exercem suas funções den-

tro da construção, é impossível quantificar

o número de tijolos utilizados na Vila ou

mesmo em cada residência. Portanto, traba-

lhamos somente com uma amostra dos tijo-

los mais representativos. Para a conclusão

desta pesquisa, contudo, não foi possível

estabelecer conexões entre o logotipo dos

tijolos com possíveis olarias existentes na

região que permitam levantar questões co-

merciais entre os produtores e os consumi-

dores.

A mADEIRA

Além das diversas madeiras provenien-

tes da Mata Atlântica e do cerrado, utiliza-

das como dormentes para a construção da

ferrovia, outra madeira de lei muito utiliza-

da na arquitetura da Vila de Paranapiacaba,

especificamente, foi o Pinho de Riga. No

norte da Europa, era prática a utilização

desta madeira na marcenaria. Como o pa-

drão arquitetônico da Vila de Paranapiaca-

ba seguia o modelo europeu de vilas operá-

rias, se utilizou o mesmo material para sua

pré-fabricação, na Inglaterra, de onde fo -

ram importadas.

A importação desta matéria-prima num

ambiente de Mata Atlântica é bastante sig-

nificativa para a discussão sobre a imposi-

ção de uma postura ordenada de uma vila

pré-fabricada, pois nos remete a duas hipó-

teses, por um lado, estaria ocorrendo à ex-

tinção de madeiras de lei nesta vegetação

pela devastação ou, por outro, não haveria

a preocupação pela substituição desta ma-

deira por outra que fosse facilmente adqui-

rida no Brasil, no próprio ambiente onde

seria implantada a Vila de Paranapiacaba.

Da força repressora à coesão sutil: a arqueologia da vila operá ria

Da força repressora à coesão sutil: a arqueologia da vila operá ria

Da força repressora à coesão sutil: a arqueologia da vila operá ria

Cláudia Regina Plens

Baixo Relevo (BR) Alto Relevo (AR)

Inscrição

Medidas

AR

BG

?X13X7,0

BR

LM

28X14X7,0

BR

A.F

26X12.5X6.5

AR

N ...

?X13X6

BR

JG

28X13X7

BR

MPC

20,5X10X5

AR

G&F

27X13X7

BR

LPI

28X13.5X7,5

AR

SPR

23,5X12X7

AR

FSE

27,5X12,5X8,0

BR

H&B

22X9,5X5

BR

S ....

BR

JPP

26X12X6.5

BR

GN

24X11,5X6

BR

*O*

25X12X6,0

BR

A*B

25X12X6,0

AR

z.V.....

?X13X6,5

BR

CM

12,5X7X?

AR

PILAR

24X12X7

Tabela 03. Relação de tijolos segundo suas inscrições

oS m E tAIS

Este tipo de material foi empregado tanto

na composição de residências (por exemplo,

vaso sanitário), como na ferrovia (por exem-

plo, roldanas) sendo, grande parte, de origem

inglesa. Apesar da grande importância que o

material metálico tem na Vila de Paranapiaca-

ba, ainda muito utilizado pelos moradores atu-

ais, a sua análise foi superficial, pois, mesmo

sendo encontrado em todos os níveis arqueoló-

gicos, a coleta deste tipo de material no solo

não se mostra conveniente pela rapidez da sua

oxidação, o que prejudicou a análise mais

aprofundada do material.

o LIxo DoméStICo

Os artefatos encontrados em maior quanti-

dade no lixo doméstico são aqueles que com-

punham as mesas das residências. O histórico

destes artefatos mostra que, no século XIX, em

147

quase todo o mundo, o sistema mercantil-capi-

talista inglês incentivava a aquisição de itens

específicos de consumo, em geral, de uso do-

méstico, antes restrita às elites. Desta forma,

quando as primeiras iniciativas capitalistas

passaram a ser introduzidas no Brasil permi-

tiu-se que a entrada de novos gêneros refletisse

diretamente no padrão de comportamento de

consumo em todas as classes sociais. O que

possibilitou, materialmente, a aquisição de

produtos por toda a sociedade, porém, cada

segmento social estava apto a adquirir produ-

tos em quantidade e qualidade distintas. As di-

ferenças de classes que antes era perceptível

rapidamente no ambiente macro, ou seja, na

arquitetura, passa também a ser refletido na

cultura material de menor porte (Andrade

Lima, 1995; Andrade Lima,1997).

A paisagem do Brasil do século XIX passa

a ser, cada vez mais, repleta de artefatos de

consumo doméstico em todas as classes so-

ciais. Se primeiramente a faiança portu -

guesa tinha entrada restrita nas classes mais

abastadas por razão de seu alto custo, poste-

riormente as classes menos privilegiada eco-

nomicamente puderam adquirir estes pro-

dutos graças aos baixos preços alcançados

pela industrialização inglesa (Brancante,

1981:495). Em pouco tempo as novidades do

mercado passavam a ser obsoletas e novos

produtos eram introduzidos. Com o alto índi-

ce de aceitação e consumo destes gêneros, os

produtos, que outrora tinham significado pu-

ramente utilitário, passam a ser consumidos

com o intuito de ascensão social (Andrade

Lima, 1995:164-177; 1997:111-117).

A recuperação deste tipo de artefato na

Vila de Paranapiacaba nos permitiu com -

preender algumas características do com-

portamento de consumo deste grupo, não

apenas pela quantidade, mas, sobretudo

pelos espaços ocupados pelas lixeiras do -

mésticas que nos revelaram dados bastante

significativos. Através das escavações ar -

REVISTA DE ARQUEOLOGIA

Volume 23 - N.2:136-155

- 2010

148

queológicas pudemos detectar que, para a

análise da diferenciação das classes so -

ciais, a interpretação da existência ou au-

sência de lixeiras é o dado mais marcante

deste grupo. Devido à ausência destes arte-

fatos, do segundo quartel do século XIX,

nas residências dos trabalhadores, a pro -

posta inicial do projeto de interpretar o

comportamento da classe operária através

de seu lixo doméstico foi, em parte, invia-

bilizada, não permitindo que todas as ques-

tões levantadas pudessem ser respondidas.

Antes de abordarmos a análise dos artefa-

tos recuperados durante as campanhas ar-

queológicas, faz-se importante abordar a

questão do padrão de descarte para podermos

entender o que ocorreu na Vila de Paranapia-

caba, uma vez que, materiais arqueológicos

foram encontrados em determinados am-

bientes bastante caracterizados.

O fator primordial para determinação do

registro arqueológico é o seu processo de

formação. Os vestígios materiais, manipula-

dos por determinada sociedade, passam por

um contexto sistêmico, ou seja, passa por

diversas fases durante sua formação, fun-

cionalidade e abandono ou descarte, até o

momento em que se torna um contexto ar-

queológico. Sob a forma de registro arqueo-

lógico, os materiais ainda sofrem perturba-

ções, seja por intemperismo, erosões,

biológicas e as culturais, que derivam das

mais variadas formas de (re) utilização do

mesmo espaço, vindo a causar, direta ou in-

diretamente, impacto sobre o registro ar -

queológico (Schiffer, 1972).

O trabalho de lixeiras domésticas refere-

-se, essencialmente, ao tema de formação de

registro arqueológico. Freqüentemente, em

sítios arqueológicos históricos (South, 1977;

1988; Andrade Lima, 1995, Symanski, 1998),

essas áreas de concentrações de artefatos são

delimitadas a partir da organização espacial

doméstica, nas quais são demarcadas áreas

próprias para o descarte residencial. Na busca

de informações a respeito de áreas de descar-

te aplicou-se, como metodologia de campo, a

prospecção arqueológica nas áreas residen-

ciais da Vila de Paranapiacaba (Vila Velha e

Vila Nova), para a localização de maiores in-

cidências de artefatos.

O material arqueológico de uso coti -

diano, que remonta ao século XIX, na Vila

de Paranapiacaba, foi localizado essen -

cialmente em dois pontos da Vila: a Casa

do Engenheiro Chefe e Hotel dos Enge -

nheiros, sendo que nas residências dos

operários os materiais recuperados refe -

rem-se apenas ao século XX. Os dados ob -

tidos pelo material arqueológico, como a

louça e o vidro, nos permitem constatar

que, apesar do consumo desses materiais

não ter sido distribuído entre todas as

classes sociais, havia um fluxo constante

destes materiais na vila, mesmo sendo um

lugar de subúrbio e longe das demais ci -

dades. Isto só foi possível pelo acesso pro -

porcionado pela ferrovia.

Os vestígios arqueológicos encontrados

nos ambientes de maior prestígio são os vi-

dros seguidos das porcelanas (salvo telhas e

tijolos). Tanto na Casa do Engenheiro Chefe

(Castelinho) quanto no Hotel dos Engenhei-

ros, as estruturas construtivas revelam uma

arquitetura mais sofisticada que, associada à

questão da quantidade de lixo doméstico,

mostram que o cenário social vivido por esta

classe diferenciava-se da classe composta

pelos demais trabalhadores, ou seja, o fato

do material mais antigo aparecer somente

nas áreas residenciais da elite sugere que a

quantidade de materiais como vidros e por-

celanas concentravam-se nas mãos desta

classe, o que não quer dizer que a classe ope-

rária também não tivesse acesso a esses gê-

neros, mas que a quantidade de material re-

ferente a estes segmentos fosse menor, por

falta de oportunidade em adquirir novos pro-

Da força repressora à coesão sutil: a arqueologia da vila operá ria

Da força repressora à coesão sutil: a arqueologia da vila operá ria

Da força repressora à coesão sutil: a arqueologia da vila operá ria

Cláudia Regina Plens

dutos, associado a uma possível utilização de

suportes materiais substitutivos, muito mais

resistentes e que, portanto, possuíssem uma

sobrevida maior.

A Lo U ç A

Na Vila de Paranapiacaba a pesquisa ar-

queológica recuperou 356 vestígios prove-

nientes de antigas áreas de descarte de lixo

doméstico, dentre eles 115 fragmentos de

louça. Entendemos como louça todas as for-

mas de cerâmica, ou seja, produtos manu-

faturados como a cerâmica, o grés, a faian-

ça simples, a faiança fina e, por fim, a

porcelana, que são compostas por substân-

cias minerais que permitem queimas de

caulim e argila, além de feldspato e quartzo

(Brancante,1981:155).

A C ER âm ICA

Foram identificados 5 fragmentos de

cerâmica provenientes do Castelinho e

Hotel dos Engenheiros, produzidas em

tornos mecânicos.

o G R é S

O grés cerâmico encontrado em Parana-

piacaba durante a campanha arqueológica

serviu unicamente como manilha para o

escoamento das águas pluviais. Este mate-

rial possui uma composição de textura

muito mais resistente do que a cerâmica

comum. O grés possui espessura grossa,

porém de grãos muito finos, cozido a alta

temperatura, o que o torna vitrificado e, por

conseguinte, impermeável, ideal para pe -

ças que requerem utilidade constante. Se-

gundo zanettini (1998:121), já foram en-

contrados fragmentos desta qualidade

cerâmica no nordeste brasileiro, remon -

tando ao século XVII. Já em São Paulo, o

grés só é conhecido a partir do século XIX,

através da importação, trazido pelos ingle-

ses e, normalmente, destinava-se a peças

149

para tubos, manilhas, azulejos ou peças sa-

nitárias.

A baixa concentração deste material

deve-se ao fato de que muitas peças en -

contrarem-se inteiras, talvez em atividade

até os dias atuais.

Apesar da alta fragmentação das louças,

alguns padrões decorativos puderam ser iden-

tificados e, mesmo se tratando de um número

muito reduzido de fragmentos, mostra que

moradores da Vila de Paranapiacaba, ao me-

nos uma parcela deste segmento social, ti-

nham algum tipo de acesso a estes produtos.

Pôde-se observar que, de acordo com as pastas,

a maior parte da louça doméstica dividia-se

em faiança simples, faiança fina e porcelana.

fAIA nç A S I m PLES

Um único fragmento analisado foi classifi-

cado como faiança simples. A faiança, segun-

do zanettini (1986:120) e Carle, et. al.

(1996:56), é uma cerâmica feita de argila de

grande plasticidade, cozida à temperatura re-

duzida, apresentando-se numa textura porosa

e resistente, recoberta de esmalte opaco à

base de chumbo ou estanho, o que a torna

mais dura e sonora. O seu histórico mostra

que sua utilização começou já no século XV,

levada pelos árabes que, por sua vez, toma-

ram seu conhecimento técnico da Pérsia. No

Brasil apareceram desde a colonização portu-

guesa até o século XIX, quando passou a divi-

dir espaço com a faiança fina.

fAIAnçA fInA

A faiança fina, derivada da faiança simples,

foi uma invenção inglesa, no século XVIII, du-

rante a Revolução Industrial, e passou a ser

importada pelo Brasil durante a Abertura dos

Portos em 1808, ou mesmo anteriormente atra-

vés de contrabando (zanettini, 1998: 123 e Car-

le et al, 1996:56). Sua produção no Brasil só se

deu a partir do século XX, inicialmente no Pa-

raná e, posteriormente, em São Paulo, em 1902

REVISTA DE ARQUEOLOGIA

Volume 23 - N.2:136-155

- 2010

150

e 1913, respectivamente. Dentro da classe de

faiança fina pôde-se distinguir três padrões,

sendo eles o “Blue or Green Edge”, o Policro-

mo e o “Borrão Azul”.

Do padrão “Blue or Green Edge” foi re-

cuperado apenas um fragmento. Este é o

padrão adotado para a faiança fina inglesa,

referindo-se a uma faiança estampada em

azul na qual a tinta escorre dentro do es-

malte. Segundo Lima et. al (1989: 211), é

resultante de processo químico, tal como o

óxido de cálcio ou cloreto de amônia, dentro

do forno de vitrificação. Sua periodização

na Inglaterra deu-se entre os anos de 1835 e

1845, tornando-se muito popular na época

vitoriana (1837-1901). Ela é caracterizada

pela incisão limitada em suas bordas, na

qual é aplicada uma pintura, tanto em tona-

lidades azul como verde, podendo apresen-

tar baixo relevo (Carle et al, 1996: 58). Foi

fabricada entre 1780 e 1830. Normalmente é

usada em pratos de cozinha, pela sua sim-

plicidade decorativa (Andrade Lima,

1989:211). Esta teria sido uma das primei-

ras variedades da faiança fina conhecida

como pearlware na primeira década da sua

existência. Pode haver variações de acordo

com o momento de produção. Existem ou-

tras variações de cores além do verde e o

azul, tal como rosa, castanho e púrpura (Sy-

manski, 1998:172). Miller (1980) destaca

que entre as variedades decoradas, esta te-

ria sido a mais barata durante a primeira

metade do século XIX. Diversos trabalhos

em sítios brasileiros, desde o nordeste até o

sul do país, atestam que o alto consumo des-

ta variedade foi constante durante todo o

século XIX .

Do padrão Policromo obteve-se um úni-

co fragmento. Este padrão de faiança fina

tem em sua decoração flores pintadas à

mão e foi normalmente vinculado à louça

de serviços de chá e café, tendo sido produ-

zido entre 1820 e 1840.

Foram identificados dois fragmentos de

faiança fina no padrão “Borrão Azul”, consis-

tindo sua decoração em um estampado em

azul no qual a tinta escorre dentro do esmalte.

Sua origem na Inglaterra remonta aos anos

1835 e 1845 (Andrade Lima, et. al 1989:211).

O maior número de louça branca encon-

trada (51fragmentos) é lisa ou em relevo. A

única marca encontrada foi na parte posterior

da base de um prato branco com as inscrições

J. & G. Meakin. Além disso, também foram

encontrados 5 fragmentos de bordas de faian-

ça fina em creamware, 3 no padrão “Royal”, e

2 no padrão “Feather Edge”. O primeiro ca-

racteriza-se pelas bordas em relevo tipo folha-

gem, enquanto o segundo pelas pinturas de

faixas simples executadas à mão nas bordas.

PoRCELAnA

Quanto à presença de porcelana podemos

destacar a presença apenas de 10 fragmentos.

A porcelana teve sua fabricação iniciada na

China por volta de 618 a 906 a. C., durante a

Dinastia T’ang. Não se tem certeza quando os

europeus tomaram conhecimento da porcela-

na, mas sabe-se que, desde o século XVI tenta-

vam produzi-la na Europa. Depois de várias

tentativas em se produzir o gênero, com a cria-

ção da Faiança Fina e a Porcelana Mole (rica

em feldspato e óxido de chumbo, temperatura

de queima em 1.200°C), a Alemanha foi a pri-

meira a conseguir fabricar porcelana dura, se-

melhante à chinesa. Esta é queimada entre

1.350º a 1400º, é composta de caulim, quartzo,

feldspato ou outros minerais de composição

muito parecida (Brancante, 1981:155).

A classificação dos fragmentos de louça

permitiu a identificação das peças e, através da

tabela 04, podemos observar que as louças es-

tavam concentradas em maior quantidade no

Castelinho e, sobretudo, que o maior índice de

fragmentos brancos também estava nesta mes-

ma residência. No total, os resultados da amos-

tra revelam que cerca de 75 (65%) fragmentos

Da força repressora à coesão sutil: a arqueologia da vila operá ria

Da força repressora à coesão sutil: a arqueologia da vila operá ria

Da força repressora à coesão sutil: a arqueologia da vila operá ria

Cláudia Regina Plens

151

são louças brancas, podendo ser conseqüência

   

que o mercado consumidor aumentava pro-

da quebra e conservação de determinadas par-

gressivamente, talvez na tentativa de suprir as

tes brancas de alguns utensílios que apresenta-

necessidades da população local. é importante

vam decorações, ou mesmo por tratar-se de

lembrar que os locais de fabricação de louças

louça realmente branca. Devido à variedade

estão concentrados unicamente nos bairros

de decorações nos fragmentos encontrados no

onde estavam situadas as estações ferroviárias

Hotel dos Engenheiros, não foi possível detec-

da São Paulo Railway Co. Ltd ..

 

tar qualquer indício de “louça de hotel”, que

 

começou a ser produzida no final do século

 

oS vIDRoS

 

XIX para uso em espaços como restaurantes,

 

Foram identificados 197 vidros prove -

hotéis, forças armadas, etc.

   

nientes do Castelinho, Hotel dos Engenhei-

 

Para a realização desta pesquisa arqueoló-

 

ros, Hospital, Casa dos Solteiros e Igreja.

gica o aprofundamento na questão da produ-

Suas cores variam entre transparente, bran-

ção da louça, preços e processos de importa-

co, tons de verde claro e escuro, marrom e

ção, não se mostrou conveniente, contudo,

azul. Existem, sobretudo, fragmentos de

faz-se necessário enfatizar que a região circun-

garrafas como bojo, gargalo e base de garra-

vizinha à Paranapiacaba, desde o século XVIII

fas. Devido a fragmentação da maioria das

produzia itens cerâmicos e, posteriormente,

bases e gargalos, não foi possível fazer uma

veio a produzir também itens de louça. Assim

análise de identificação mais profunda,

sendo, existe a probabilidade de que, além da

contudo, pôde-se observar que existem,

aquisição de produtos importados, estivessem

pelo menos, sete gargalos dentre outros

sendo consumidos produtos de manufatura

fragmentos vítreos. Apenas foram identifi-

local, já que através da tabela 02 fica evidente

cados 3 fragmentos de garrafas fabricadas

   
     

Porcelana

   

Porcelana

 

Faiança Fina

Faiança Fina

   

1

2

Branca

3

4

5

1

2

Colorida

3

4

5

1

2

Branca

3

4

5

1

2

3

ColoColorida

4

5

Total

Função

1

1

4

6

17

2

 

Prato

2

4

1

1

4

8

1

9

1

31

Prato (borda)

– –

2

1

5

3

– –

– –

– –

1

– –

-

1

6

1

1

– –

– –

2

-

28

Prato (base)

2

2

4

1

14

Xícara

1

1

3

9

Xícara (borda)

1

5

Xícara (asa)

1

1

1

1

1

8

4

4

1

Vasilhame

2

1

21

Pires

1

2

3

Pires (borda)

1

 

3

Outros

       

1

Total

       

104

Tabela 04 : Quadro resumo da função utilitária das louças, em relação ao tipo de louça*. Legenda: 1 = Hospital;

 

2 = Casa dos Solteiros; 3 = Hotel dos Engenheiros; 4 = Castelinho; 5 = Igreja

   
   

* Para este quadro-resumo considera-se somente como louça apenas os fragmentos de maior representatividade, as porcelanas e

as faianças.

REVISTA DE ARQUEOLOGIA

Volume 23 - N.2:136-155

- 2010

152

automaticamente, da cor verde-escura.

A quantidade de vidro recuperado no Cas-

telinho é superior às demais sondagens reali-

zadas na Vila de Paranapiacaba. A interpreta-

ção para esse dado é que, se nos outros

ambientes a quantidade de vidro não é tão alta

quanto no Castelinho, deve-se ao fato de uma

maior incidência na reutilização deste mate-

rial, ou a substituição deste produto por outro

de maior durabilidade. Ambos os casos mos-

tram que, apesar do vidro ter livre circulação

na Vila de Paranapiacaba, em diversas qualida-

des, o seu acesso era restrito para a maioria

das classes, sendo, preponderantemente, ad-

quirido pela família do Engenheiro Chefe.

As residências nas quais os materiais

arqueológicos foram encontrados em

maior número foram o Hotel dos Enge -

nheiros e o Castelinho, tal como está con -

tabilizado no gráfico 01. A diferença nos

resultados da análise quantitativa das

louças (tabela 06) e vidros encontrados

no Hotel dos Engenheiros e no Casteli -

nho, não se deve atribuir às sondagens

porque as escavações arqueológicas efe -

tuadas no Hotel dos Engenheiros foram

em maior quantidade e mais profundas, o

que nos indica diferenças no padrão de

consumo e/ou de descarte.

disCUssÃo

Em consideração aos nossos objetivos

iniciais, não pudemos verificar a relação

brasileiro/imigrante, nem por meio de do-

cumentos históricos nem pela arqueologia.

1

2

3

4

5

6

7

8

9

10

11

12

1

36

141

1

Tabela 05. Quantidade de vidros encontrados

durante as escavações arqueológicas segundo sua

localização. Legenda: 1 = Hospital I;

  • 2 = Casa dos Solteiros; 3 = Hotel dos Engenheiros;

  • 4 = Castelinho; 5 = Casa do Engenheiro; 6 = D.

Lúcia; 7 = Casa da Zilda; 8 = Casa do Médico;

  • 9 = Viela; 10 = Lixão; 11= Igreja

Já a arquitetura revelou que as diferenças

na relação patrão/empregado eram estrita-

mente sociais, na qual o chefe ocupava a

melhor residência. Nesse sentido, a regra da

moral familiar era bastante importante,

pois era ela que determinava a ascensão da

residência numa ordem que começava a

partir da Casa dos Solteiros até os núcleos

familiares mais complexos. Estas determi-

nações, como tudo indica, provinham de

um pensamento social panóptico, por meio

do qual a ordem levaria a um sistema de

trabalho intenso (Foucault, 1987).

A arquitetura e urbanização da Vila de Pa-

ranapiacaba seguiam dois objetivos: permitia,

dentro de seu espaço, o exercício de todas as

atividades necessárias para a boa convivência

da comunidade e, ao mesmo tempo, exigia

novas regras de trabalho para a época. Quan-

to melhores as condições do trabalhador,

mais afinco ele teria na produção de seu tra-

balho, resultando, enfim, em lucro para a em-

presa. O trabalhador que convivia neste es-

quema de patronato sentia-se mais fiel e

responsável às regras de trabalho e, também,

Materiais

Hotel dos Eng.

Castelinho

Louça

34

66

Azulejo

2

9

Vidro

40

146

Tabela 06. Tabela de comparação dos materiais

de maior relevância em dois pontos da Vila de

Paranapiacaba

mais seguro quanto ao seu padrão de vida

econômico que lhe permitia acesso a inúme-

ros gêneros que antes não lhe era permitido.

O Hospital e a Igreja, dentro deste contexto,

são paliativos, são formas de “domesticação”

do corpo e da alma desta classe trabalhadora.

As diferenças são flagrantes, pois os espaços

se tornam mais hierarquizados e as funções

passam a ser desenvolvidas em espaços espe-

cíficos. Há vielas para colocação de lixo e há

Da força repressora à coesão sutil: a arqueologia da vila operá ria

Da força repressora à coesão sutil: a arqueologia da vila operá ria

Da força repressora à coesão sutil: a arqueologia da vila operá ria

Cláudia Regina Plens

Gráfico 01. Gráfico de comparação dos materiais de maior relevância em dois pontos da Vila de

Gráfico 01. Gráfico de comparação dos materiais

de maior relevância em dois pontos da Vila de

Paranapiacaba.

Obs.: Separou-se louça de cerâmica para melhor

observação dos materiais.

Gráfico 01. Gráfico de comparação dos materiais de maior relevância em dois pontos da Vila de

Hotel dos engenheiros

Gráfico 01. Gráfico de comparação dos materiais de maior relevância em dois pontos da Vila de

Castelinho

piche para propiciar uma melhor qualidade

de vida – voltada, exclusivamente, a uma ga-

rantia de produção de força de trabalho.

Se por um lado a arquitetura explica a

relação patrão/empregado, a Arqueologia,

por meio do lixo doméstico, explica como as

regras sociais ocorriam na relação classe

alta e baixa. Dentre os vários aspectos da

investigação arqueológica, destacamos aqui

um ponto que acreditamos ser o mais im-

portante na relação dicotômica patrão/em-

pregado da Vila de Paranapiacaba, marcada

pela ausência de material arqueológico em

pontos definidos. A ausência de registros

arqueológicos nas áreas residenciais dos

trabalhadores nos diz muito sobre a estru-

turação e hierarquização da vila, pois o fato

do material arqueológico de cunho domés-

tico estar localizado, exclusivamente, em

estruturas destinadas aos engenheiros e

completamente ausentes naquelas destina -

das aos operários, nos remete à questão da

mudança comportamental entre as classes

do período escravocrata e assalariada em

conseqüência do capitalismo: a individuali-

dade (Deetz, 1977:257).

Atribuída às famílias do século XIX, a indi-

vidualidade é o modo pelo qual a classe alta

separa um grupo que, antes, coeso pela sen-

153

zala, se corporifica e age cada vez mais em

prol de seus ideais – embora ainda haja a dis-

tância sócio-econômica -, o operariado. Neste

caso, é importante lembrar que não se trata

do mesmo grupo que teria passado da escra-

vidão para o trabalho assalariado, mas nesta

sociedade onde os trabalhadores eram os ne-

gros/escravos e passam rapidamente a ser

substituídos pelos brancos/operários, onde as

relações sociais são da mesma ordem. Neste

contexto, deve-se pensar que, se no regime

escravista as diferenças entre senhor e escra-

vos era declarada, neste novo comportamento

social as diferenças são mais sutis. Estas dife-

renças passam não apenas pela aquisição de

novos bens, mesmo porque os operários tam-

bém estão adquirindo bens (mesmo que de

menor qualidade), mas pela forma de utiliza-

ção destes. Neste contexto entram as regras de

etiqueta, que uma determinada parcela da

sociedade tem e outra não. A aquisição de

produtos de valores diferentes, bem como a

sua utilização dentro do padrão aceito pela

sociedade da época, separa as classes alta e

baixa e, neste caso, as louças de mesa forne-

cem subsídios de como a sociedade estava se

adaptando a estas possibilidades de etiqueta e

comportamento social. Portanto, a individua-

lidade “de classe” adquire novos condicionan-

tes, incluindo objetos e comportamentos (An-

drade Lima, 1995; Andrade Lima, 1997).

Se por um lado existe a diferença de indi-

vidualidade entre trabalhadores escravo/as-

salariado, por outro, existe uma semelhança

quanto ao processo de descarte de lixo do-

méstico. A freqüência em que o lixo domés-

tico aparece no espaço ocupado pela classe

mais abastada e a constatação da ausência

de material nas classes menos privilegiadas

na Vila de Paranapiacaba, faz-nos associar

esta pesquisa com o trabalho de Andrade

Lima (et alii, 1989), sobre os sintomas do

modo de vida burguês no Vale do Paraíba, no

século XIX. Neste estudo da Fazenda São

REVISTA DE ARQUEOLOGIA

Volume 23 - N.2:136-155

- 2010

154

Fernando, em Vassouras, RJ, os resultados

obtidos através da investigação da cultura

material dos segmentos subalternos (os es-

cravos) e dos dominantes (o senhor e sua

família) mostram que não foram recupera-

dos vestígios arqueológicos na área da sen-

zala, além dos materiais construtivos, e a

concentração de vestígios na área da casa

grande, portanto um padrão similar ao visto

nas casas de da Vila de Paranapiacaba.

A análise dos fragmentos recuperados nos

locais de maior prestígio na Vila de Parana-

piacaba, por sua vez, nos leva a interpretar os

dados de maneira mais minuciosa. A freqüên-

cia com que o material vítreo aparece no Ho-

tel dos Engenheiros pode estar relacionada a

uma maior reutilização deste material, prin-

cipalmente, as garrafas, o que é lógico para

um ambiente onde, devido ao número de pes-

soas que freqüentam um hotel ser muito su-

perior aos de uma residência, a dinâmica de

reposição e reutilização de material, visando

o lucro, deve ser mais ampliada.

Quanto à louça do hotel dos Engenheiros,

pudemos notar que neste edifício a diversi-

dade de fragmentos é maior em relação ao

Castelinho. A interpretação neste caso, é que

num ambiente onde as pessoas se estabele-

cem por apenas um período e não se reúnem

todos numa única mesa, não há a necessida-

de de um jogo de louça no mesmo padrão de

decoração. Não havendo, desta maneira, a

necessidade de uma mesa harmônica, como

requeriam as cerimônias do final do século

XIX. Fato que não ocorreria numa mesa

mais suntuosa, tal como no Castelinho, cujo

lixo doméstico apresentou, além de alguns

fragmentos com diferentes decorações, lou-

ça branca em maior quantidade e em dife-

rentes peças, nos levando a pensar na possi-

bilidade de representarem jogos de louça

branca, como de requinte em determinadas

épocas, como bem apontado por Andrade

Lima (1997:115).

A leitura da paisagem da Vila de Parana-

piacaba, desde os artefatos arquitetônicos até

o lixo doméstico, nos permite visualizar um

panorama onde a força repressora dá lugar à

coesão sutil. Tanto na arquitetura quanto nos

produtos domésticos há a legitimação das di-

ferenças sociais. Neste contexto, o que contro-

lava o indivíduo era o olhar da sociedade. A

sua residência, bem como seus objetos, rela-

cionada à sua postura em relação a eles, o

identificava quanto a sua posição social. Seu

mérito dentro da sociedade dependia, direta-

mente, da avaliação do seu comportamento

por outros indivíduos.

AGRADECImEntoS

Agradeço a Professora DrªMargarida Da-

vina Andreata, Ana Cristina de Sousa, Rosana

Najjar e Carolina Kesser, Lucas Bueno pelos

conselhos, críticas e revisão. E a Fundação de

Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo,

FAPESP, pelo incentivo à pesquisa.

Da força repressora à coesão sutil: a arqueologia da vila operá ria

Da força repressora à coesão sutil: a arqueologia da vila operá ria

Da força repressora à coesão sutil: a arqueologia da vila operá ria

Cláudia Regina Plens

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REVISTA DE ARQUEOLOGIA

Volume 23 - N.2:136-155

- 2010

156

RESE nh A

patrimônio arqUeológiCo de Caxias do sUl

Rafael Corteletti. Porto Alegre: nova Prova Editora, 2008. 199p. ISbn 9788589344456.

Resenha por francisco Silva noelli, Prof. Aposentado da Universidade Estadual de maringá, Paraná.

Qual o destino dos sítios arqueológicos

quando uma pesquisa é concluída no Bra -

sil? Poucos entre milhares passaram efeti -

vamente a ser preservados e transforma -

dos em tema de amplo (re)conhecimento

público e pesquisa continuada. O esqueci -

mento e o abandono foi o destino da maio -

ria. A destruição, total ou parcial, pelos mais

diversos meios, também foi o que aconte -

ceu com uma quantidade desconhecida de

sítios arqueológicos país afora. Todavia,

existe uma parcela da comunidade de ar -

queólogos brasileiros – acadêmicos, fun -

cionários do IPHAN e de outros órgãos

públicos, de ONGs e do setor privado –, bus -

cando alternativas para solucionar a des -

truição do patrimônio arqueológico no

Brasil, uma tarefa gigantesca.

O consenso internacional indica que a

principal solução é a publicação dos dados

de pesquisa e do sítio arqueológico e a pro-

gramação de ações que ativem a atuação da

sociedade civil organizada em programas

como a AGENDA 21. é o meio mais próxi-

mo da transparência e da ética aliadas com

a ciência, como ferramenta de trabalho da

gestão do patrimônio arqueológico. Junto

com elas, a construção de relações simétri-

cas em nível local, envolvendo as comuni-

dades, os pesquisadores, o IPHAN, o Minis-

tério Público e os três níveis de Poder

Executivo, para tomar decisões sobre o des-

tino dos sítios arqueológicos.

O livro de Rafael Corteletti é um exem -

plo relevante, que merece ser seguido quan -

do se trata de sítios arqueológicos. Espe -

cialmente quando apresenta a localização

e o estado de conservação, relatando te -

mas científicos com linguagem despida de

jargões, cumprindo o objetivo de atrair e

informar o público não acadêmico. Sua

abordagem mostra o que aconteceu com

os sítios ao longo de 40 anos, desde os pri -

meiros trabalhos de Fernando La Salvia e

Pedro Inácio Schmitz em 1966, até Corte -

letti e seus colegas retornarem em 1999,

2000 e 2006.

Os sítios são apresentados individual-

mente, através de um memorial descritivo

das evidências arqueológicas, principal -

mente das estruturas subterrâneas, dos

abrigos sob rocha e dos montículos, da sua

quantidade e dimensões, do seu estado de

conservação e da distância de outros sítios.

A maioria dos cadastros de 1966 finalmente

recebeu sua coordenada geográfica. Todos

os dados quantitativos aparecem em diver-

sas tabelas e gráficos. Várias fotos mostram

aspectos dos sítios e das pesquisas em 1966

e 1999-2000, 2006. Diversos mapas contex-

tualizam a área piloto da pesquisa, muitos

deles vêm acompanhados de tabelas e grá-

ficos de diversas informações, desde a rela-

ção entre sítio e proprietário atual do terre-

no, até a relação entre índices de preservação

e destruição. Croquis dos sítios também

ilustram o livro e mostram aspectos espa-

ciais das estruturas. Desenhos em perspec-

tiva e fotos panorâmicas mostram a inser-

ção dos sítios. Algumas fotos mostram o

estado atual dos sítios, inclusive de um

aproveitado como lixeira (foto 27). Tabelas

com as datações informam sobre a cronolo-

gia da ocupação regional. Também foram

realizadas diversas análises comparadas

sobre as estruturas subterrâneas.

Corteletti complementa a descrição da

inserção dos sítios com várias informações

sobre o contexto ambiental da área piloto.

Com o objetivo de relatar os processos de

transformação da paisagem e dos seus im-

pactos sobre os sítios, sobretudo o desmata-

mento, apresenta um capítulo sobre o pro-

cesso de ocupação européia da região da

pesquisa, a partir do século 18, com a distri-

buição de sesmarias pelo governo colonial

aos “lusitanos” e seus escravos. Depois trata

da instalação de imigrantes, principalmen-

REVISTA DE ARQUEOLOGIA

Volume 23 - N.2:156-159

- 2010

158

te, italianos. é uma parte importante, pois

mostra com clareza como as serrarias, la-

vouras e a implantação da malha urbana e

das vias públicas, afetaram os sítios arque-

ológicos. O autor mostra qual foi a relação

dos italianos, dos lusos e descendentes com

a preservação/destruição dos sítios, em fun-

ção dos tipos de exploração econômica. Nas

terras dos italianos 19% estão preservados e

35% alterados, enquanto que os lusos pre-

servaram 36% e alteraram 46%, e Corteletti

ressalta que seu objetivo não é “condenar

ou isentar quem quer que seja”, mas verifi-

car os efeitos dos modelos de colonização

sobre a degradação dos sítios arqueológi-

cos. Com efeito, o balanço geral é alarman-

te: 39,5% dos sítios foram destruídos e 37,5%

estão seriamente ameaçados. O patrimônio

arqueológico registrado da região de Caxias

do Sul está por um fio e o livro é um diag-

nóstico que precisa ser debatido, para deci-

dir qual o destino dos sítios restantes.

Outro aspecto que o livro revela, que de

certa forma ocorre desde a pesquisa de 1966,

é a relação positiva dos pesquisadores com a

comunidade. Por todo o livro, especialmente

quando os sítios são descritos, a comunidade

aparece representada por diversos persona-

gens, a maioria interessada em colaborar

com a pesquisa. O autor faz um balanço so-

bre o problema da destruição e reflete sobre

a necessidade de “vestir a camiseta” da pre-

servação e da busca de alternativas.

Por fim, algumas palavras a respeito da in-

terpretação dos dados de Caxias do Sul como

tradição arqueológica. Trata-se do calcanhar

de Aquiles da arqueologia brasileira, que não

é exclusivo de Corteletti, que se posicionou as-

sim nas conclusões sobre os sítios arqueológi-

cos: “O que se sabe, de concreto, é a ligação

com o Tronco Jê. Daí em diante, surge uma

série de especulações e hipóteses que tentam

atrelar os construtores do planalto com as po-

pulações Kaingang”. Corteletti sugere de for-

ma acertada, que o estabelecimento de uma

relação de continuidade entre os contextos

arqueológicos e históricos “deve ser uma ob-

sessão”. Porém, como autor de trabalhos dedi-

cados a revisar as interpretações dos arqueó-

logos sobre o caso dos Jê do sul, publicados

antes de 2008, não posso concordar com a

afirmação de que o estado da arte esteja ape-

nas em nível de “especulação e hipóteses”. Pri-

meiro, Corteletti ignora solenemente análises

dedicadas “obsessivamente” a examinar os

problemas de pesquisa das Tradições Taquara

e Itararé, especialmente da minha avaliação

detalhada sobre todas as interpretações arque-

ológicas que trataram da continuidade entre

essas tradições e os Jê do sul. Segundo, ele pre-

feriu seguir a linha do PRONAPA, que não teve

por objetivo examinar o tema da continuidade

e passou os últimos 40 anos sem refletir sobre

os processos da longa duração dos Jê do sul,

problemática que eu também analisei com

cuidado e de modo muito circunstanciado.

Terceiro, ao seguir essa linha também deixou

de lado uma série de historiadores, antropólo-

gos e lingüistas que publicaram estudos que

contextualizam de forma cabal a presença dos

Jê do sul, especialmente dos Kaingang, em to-

dos os territórios onde são encontradas estru-

turas subterrâneas. Quarto, quando trata da

ocupação do sul do Brasil pelos Jê, Corteletti

escreveu que “acredita-se numa possível liga-

ção com povos da chamada Tradição Una”.

Novamente desconheceu a detalhada análise

que publiquei sobre o processo de ocupação

do sul do Brasil, comparando estudos de lin-

güistas e arqueólogos. Também não citou a

tese de José Brochado, autor da mais ampla e

detalhada pesquisa sobre as relações entre as

cerâmicas da Tradição Una e das Tradições

Itararé e Taquara.

Corteletti não é obrigado a citar as mi-

nhas publicações ou a tese de Brochado.

Todavia, como ele se apresentou a um cam-

po científico composto de várias perspecti-

Patrimônio Arqueológico de Caxias do Sul

Resenha por Rafael Corteletti

159

vas e linhas de pesquisa, deveria no mínimo

ter justificado uma razão para não concor-

dar ou não considerar nossas abordagens e

conclusões. Especialmente a famosa tese de

Brochado, um divisor de águas da arqueolo-

gia brasileira. Talvez seja por causa da linha

de pesquisa da instituição onde Corteletti

fez seu mestrado, origem do livro, o Institu-

to Anchietano de Pesquisas da UNISINOS,

que mantém basicamente a mesma posição

desde o final da década de 1960, centrada na

catalogação e descrição. A análise e a inter-

pretação movida por problemas da teoria

arqueológica e antropológica não está pre-

sente, na espinha dorsal dos inúmeros e im -

portantes projetos conduzidos pelo Anchie-

tano. O fato é que a interpretação de dados

tão bem coletados perdeu espaço neste rele-

vante livro, cujo maior mérito é oferecer

informações úteis e decisivas para a gestão

do patrimônio arqueológico.

Finalmente, o título do livro destoa dos

debates contemporâneos sobre patrimônio

cultural. Tem sido cada vez mais freqüente

que arqueólogos, no Brasil, intitulem seus

livros, pomposamente, como patrimônio

arqueológico de tal ou qual região. Contudo,

o que notabiliza o debate contemporâneo

internacional é a definição de patrimônio

como categoria de pensamento e ação polí-

tica, e não como um dado em si, a depender

exclusivamente de um cientista – ou de um

arqueólogo e sua equipe – para conceituá-lo

e protegê-lo. Patrimônio cultural, na acep-

ção contemporânea, é uma categoria que

envolve, por um lado, o conjunto de repre-

sentações culturais dos diversos grupos so-

ciais de um contexto dado, considerando-se,

inclusive, os próprios arqueólogos, cujas

noções e definições nunca estão isentas de

políticas e critérios culturais sobre a paisa-

gem; de outro, instituições variadas, como

as comunidades científicas, ONGs, univer-

sidades, comunidades locais e os dispositi-

vos da legislação. Os arqueólogos brasilei-

ros, no geral, passam, lamentavelmente, ao

largo dessa definição mais ampla e infor-

mada sobre patrimônio arqueológico. O li-

vro de Corteletti não é exceção. Uma coisa é

estudar para delinear políticas de proteção

aos sítios arqueológicos, função muito bem

realizada por Corteletti; outra, muito distin-

ta, é, de saída, definir o conjunto de sítios de

uma região como patrimônio, desconside-

rando-se a riqueza e sofisticação contempo-

râneas dos debates sobre patrimônio cultu-

ral. Ainda assim, os agentes dos órgãos

públicos, os arqueólogos e a sociedade civil

organizada, dispõem no livro de Corteletti,

de um diagnóstico efetivo para definir suas

pautas de trabalho em defesa dos sítios ar -

queológicos da região de Caxias do Sul.

REVISTA DE ARQUEOLOGIA

Volume 23 - N.2:156-159

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a arte rUpestre de JeqUitaÍ/mg

  • 160 entre prátiCas gráFiCas padroniZadas e sUas maniFestações loCais:

TESES

E

DISSERTA çõ ES

interseções estilÍstiCas no sertÃo mineiro

Rogério tobias Junior mestre em Antropologia pelo Programa de Pós Graduação em Antropologia da fAfICH/UfmG. Pesquisador colaborador do setor de Arqueologia do museu de História natural da UfmG.

   

A dissertação de mestrado enfoca a

anteriores para a arte rupestre da região

arte rupestre de sete sítios pré-históricos

de Jequitaí, que alegam certo “caráter

localizados no trecho médio-baixo da ba -

transicional” nos conjuntos gráficos lá

cia do rio Jequitaí, localizada no norte de

observados, determinados por fatores

Minas Gerais. Ela privilegia uma análise

ambientais distintos atuantes nos mes -

estilística dos conjuntos gráficos em bus -

mos locais: a presença de diferentes lito -

ca da construção de um quadro cronoes -

logias que levou à caracterização da re -

tilístico micro regional e sua comparação

gião como local de transição geoestrutural,

com regiões vizinhas, já pesquisadas por

o desenvolvimento de diferentes fitofisio -

outros arqueólogos. O método de classifi -

nomias (cerrado e caatinga, principal -

cação adotado procura integrar diferentes

mente) e diferentes influências climáti -

variáveis do registro gráfico e da paisa -

cas. A conclusão do trabalho busca uma

gem ampliando as possibilidades de asso -

interpretação para a variabilidade dos

ciação estilística para além dos limites

grafismos e dos padrões de escolha, fun -

impostos pela simples análise formal das

damentada na possibilidade de intercâm -

figuras e incorporando possibilidades

bio de repertórios gráficos identificáveis

efetivas de identificação dos padrões de

na região da pesquisa. A Interseção esti -

escolha envolvidos no ato de grafar. Neste

lística, mais do que a transição, foi efeti -

sentido, é de fundamental importância a

vamente observada entre as Unidades Es -

discussão sobre o conceito de paisagem e

tilísticas descritas regionalmente, que

o estabelecimento de uma compreensão

apresentam comportamentos peculiares

das relações estabelecidas entre os seres

quando comparados a seus correspon -

humanos e aquela paisagem específica.

dentes em outras regiões, destacadamen -

Tal abordagem foi escolhida levando em

te os grafismos atribuíveis à Tradição São

consideração a existência de hipóteses

Francisco e Planalto.

 

REVISTA DE ARQUEOLOGIA

Volume 23 - N.2:160-161

- 2010

162

TESES

E

DISSERTA çõ ES

holoCene hUnter-gatherer plant Use and Foraging ChoiCe:

a test From minas gerais, BraZil

myrtle Shock University of California, Santa barbara, EUA.

A tese de doutorado “Holocene hunter-

-gatherer plant use and foraging choice: a

test from Minas Gerais, Brazil” foi realizada

na University of California, Santa Barbara

EUA, sob a orientação de Michael Jochim. O

foco da tese envolve uma abordagem paleo-

etnobotânica sobre o período em que plan-

tas domesticadas foram introduzidas no

cerrado brasileiro. Além disso a pesquisa

complementou os trabalhos sobre outros

elementos de cultural material da região,

que vem sendo desenvolvidos nas áreas

pesquisadas.

Durante a escavação de sítios arqueoló-

gicos em abrigos secos do norte de Minas

Gerais foram coletados inúmeros vestígios

botânicos. A tese apresenta uma analise sis-

temática e diacrônica destes vestígios com a

finalidade de gerar uma reconstrução da

alimentação pré-histórica. O foco temporal

foi a subsistência durante o Holoceno re-

cente. Em dois sítios, Lapa dos Bichos e

Lapa Pintada, localizados na região norte de

Minas Gerias (respectivamente no vale do

Peruaçu e no município de Montes Claros)

plantas domesticadas e comestíveis foram

identificadas e coletadas nos depósitos ar-

queológicos. No sítio Lapa dos Bichos milho

(zea mays) e mandioca (Manihot esculen-

ta) foram encontrados pela primeira vez em

estrato arqueológico datado entre 2.000 e

750 AP. No estrato datado entre 750 e 150 AP

abobora (Cucurbita sp.) e feijão (Phaseolus

sp.) também foram encontrados. Alem de

plantas comestíveis e domesticadas a pes-

quisa registrou frutos nativos e várias ou-

tras plantas nos sítios estudados. Em suma

822 tipos morfológicos de vestígios de se-

mentes e frutas foram recolhidos em penei-

ras com malhas de dois milímetros ou

maior. Destes, 98 tipos foram identificados.

Nas amostras foram encontradas plantas

163

nativas comestíveis como coquinhos (Sya-

grus olearus), maracujá (Passiflora sp.), ja-

tobá (Hymenaea sp.), umbu (Spondias tube-

rosa), e pequi (Caryocar brasiliensis).

A análise de vestígios botânicos prove-

nientes da Lapa dos Bichos e da Lapa Pinta-

da foi utilizada para abordar varias ques-

tões. Nos estratos componentes desses

sítios, numerosas sementes e frutos foram

encontrados em feições espacial e estrutu-

ralmente definidas, apresentando bom esta-

do de preservação. Com base na forma e

composição dessas feições concluimos que

sua função esteve relacioanda a áreas de

aúmulo de lixo.

Além das feições, nos dois sítios foram en-

contrados vestígios botânicos ao longo dos

estratos arqueológicos. Embora os vestígios

dos estratos inferiores não estejam tão bem

preservados quanto os dos estratos superio-

res, a preservação em si não ofusca os pa-

drões de mudança na alimentação relaciona-

dos ao comportamento humano. O registro

arqueológico indica que a introdução de espé-

cies domesticadas não ocorreu em um único

momento, mas sim, que, ao invés disso a in-

trodução é caracterizada por uma variação

cronológica na utilização das espécies.

Considerado em conjunto com os resul-

tados de outros projetos de pesquisa, obser-

vou-se que as plantas domesticadas se espa-

lharam por um processo de difusão

tecnológica e não de forma ordenada pela

expansão populacional em grande escala.

As previsões dos modelos da teoria de forra-

geiros para mudanças na cadeia alimentar

associadas com a introdução de plantas do-

mesticadas não encontram base no registro

arqueológico dos sítios estudados. A diversi-

dade de plantas nativas comestíveis aumen-

tou ao lado dos aumentos no numero de

espécies domesticadas utilizadas.

REVISTA DE ARQUEOLOGIA

Volume 23 - N.2:162-163

- 2010

  • 164 diálogo Com FranCisCo noelli a respeito da resenha para o liVro “patrimônio arqUeológiCo de Caxias do sUl”

n OTAS

Rafael Corteletti. Doutorando em Arqueologia no museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de São Paulo (mAE-USP), bolsista CnPq. E-mail: rafacorteletti@hotmail.com. Endereço: Avenida venâncio Aires 70/405, bairro Cidade baixa, Porto Alegre, RS, brasil, CEP 90040-190.

Não posso negar que Noelli foi bastante

crítico em sua resenha. Lembro muito bem

do momento em que estava redigindo as pas-

sagens que foram comentadas por ele com

tanto vigor. Eu estava processava uma grande

quantidade de dados numéricos que compõe

o capítulo de distribuição e implantação dos

sítios e quiçá posso ter construído uma inter-

pretação arqueológica discutível. Diria que

em momentos de grande produção, por vezes,

ficamos meio cegos. Enfim, hoje sei que, infe-

lizmente, esqueci muitos autores e não tratei

determinadas abordagens. Mas, exatamente

por saber disso, atualmente oriento meu tra-

balho no sentido de contemplar uma série de

questões que deem conta da multiplicidade de

estórias-até-agora dos Jê Meridionais.

Mas o objetivo principal dessa publicação

não foi abordar as origens desse povo, mas

sim falar da conservação de sítios arqueológi-

cos. O estudo de caso é Caxias do Sul, mas falo

do Brasil e dos desafios da Arqueologia Brasi-

leira. é bom citar que a obra nasceu, ainda em

2006, de uma dissertação de mestrado intitu-

lada “Casas Subterrâneas em Caxias do Sul:

Conservação, Distribuição e Implantação”.

Em 2007 o texto foi premiado num concurso

municipal chamado Fundoprocultura. Se-

gundo a comissão de avaliação e seleção ele

seria publicado com a condição de que o tom

acadêmico fosse esmaecido. Dessa forma

adaptei o texto para deixá-lo mais leve e dinâ-

mico e redigi de tal maneira que fosse possí-

vel a um leigo a compreensão absoluta da te-

mática arqueológica e, principalmente, da

temática conservacionista. Assim, com novo

título e remodelado, em 2008, lancei a obra

com um objetivo acima de tudo educativo.

Com financiamento da Prefeitura Municipal

de Caxias do Sul, através do Fundoprocultura,

foi feito um “convite à arqueologia”.

Portanto, o uso da palavra patrimônio no

título não teve objetivos pomposos, muito pelo

contrário, foi pragmatismo puro. Indepen-

165

dente do que se debate na esfera internacional

eu precisava convencer a opinião pública e o

pequeno produtor rural de Caxias do Sul de

que os “buracos de bugre” ou as grutas com

sepultamento tinham um valor imensurável

para toda a sociedade caxiense e, por exten-

são, à brasileira. Precisava despertá-los para a

necessidade de manter a mata no entorno dos

sítios em pé, precisava alertá-los de que o me-

lhor lugar para a produção de tomates não

era exatamente onde os sítios estavam

...

Por

isso o nome do livro tornou-se “Patrimônio

Arqueológico de Caxias do Sul” diferente da

dissertação de mestrado que, convenhamos,

tem um título que não chama a atenção de

mais do que 20 ou 30 arqueólogos, que dirá de

uma comunidade que, como Noelli muito

bem apontou, criou um cenário alarmante no

que se refere à conservação dos sítios. Com

esse título eu disse à comunidade que os sítios

têm valor e que é ela, em última instância, que

detém a responsabilidade por sua conserva-

ção ou não. Em momento algum o trabalho

foi direcionado no sentido de policiar as atitu-

des e elencar boas ou más ações dos indivídu-

os ou estabelecer o que deve ou não ser valo-

rizado enquanto bem cultural. Orientei o

trabalho no sentido de incorporar os sítios

arqueológicos à vida das comunidades (rural

e/ou urbana) e dessa forma produzir uma re-

flexão sobre as facetas da história daqueles

locais. Desde o tempo-espaço em que os sítios

eram habitados pelos Jê, passando pela che-

gada das famílias de colonizadores europeus,

pelas memórias das pesquisas e das pessoas

dos anos 60 e chegando até hoje quando al-

guns sítios já estão fisicamente apagados e

outros ainda não.

O livro é na verdade um catálogo atualiza-

do das condições em que se encontra a maior

parte dos sítios arqueológicos no município

– já que após a publicação outros sítios já fo-

ram detectados. Em determinados momentos

o tom é de denúncia pelo patrimônio destruí-

REVISTA DE ARQUEOLOGIA

Volume 23 - N.2:164-167

- 2010

166

do e o estado em que se encontra o conserva-

cionismo arqueológico no Brasil, em outros o

tom é de paixão pelo patrimônio e a paisagem

em que esses assentamentos se inserem. E

permeia em todo o texto a ideia de que é o

indivíduo que vai preservar ou destruir esse

patrimônio, e por isso, é o indivíduo, em últi-

ma instância, que precisa ser informado para

que “a marcha destrutiva e silenciosa que

ocorre dia-a-dia sobre este patrimônio cultu-

ral e instrumento de trabalho” de inúmeros

profissionais deixe de ocorrer. Assim sendo,

como contrapartida à publicação da obra,

uma série de atividades de educação patrimo-

nial e arqueologia pública foram realizadas.

Durante 30 dias a mostra “Fragmentos da

História”, com as peças arqueológicas que es-

tavam há mais de 30 anos na reserva técnica

do Museu Municipal, recebeu mais de 1.500

visitantes. Antes disso, a exposição perma-

nente começava sua narrativa com a funda-

ção da colônia italiana, mas agora o passado

indígena também faz parte do contexto muse-

alizado. Cada escola do Município (das redes

municipal, estadual e privada) recebeu um

exemplar (num total de 300 livros doados) e

professores assistiram palestras sobre o tema.

Junto disso, no primeiro trimestre de 2009,

num novo desdobramento provocado pelas

vontades locais, foi dada a largada experi-

mental para aquilo que hoje já é mais uma

atividade de desenvolvimento sustentável: o

turismo arqueológico.

Imbuído da ideia de que o Patrimônio Ar-

queológico é integrado tanto por bens mate-

riais como pelas informações que dele pode-

mos aferir como, por exemplo, a implantação

geográfica, a ocupação do espaço e as confi-

gurações ecológicas escolhidas pelas popu-

lações pretéritas, foi selecionado um sítio de

beleza cênica impar localizado na comuni-

dade da Criúva. Para lá durante os anos de

2009 e 2010 foram levadas mais de 500 pes-

soas em grupos que variam em número: des-

de famílias com 4 ou 5 pessoas até grupos de

30 ou mais em ônibus escolares. Muitos não

sabiam da existência de tal patrimônio e fica-

ram impressionados com o que viram. Al-

guns professores das escolas da região rela-

taram total desconhecimento deste

patrimônio. De certa forma, 500 pessoas não

parece um grande número, principalmente,

se comparado aos visitantes de sítios como a

Missão de São Miguel Arcanjo, por exemplo.

Mas o fato é que esta atitude é um embrião

que explora as potencialidades locais e gera

sustentabilidade – apesar de não existir qual-

quer tipo de infraestrutura criada para visi-

tação ou divulgação em mídia. Enfim, de-

pois de 40 anos de esquecimento, cooptamos

multiplicadores do conhecimento dessa ri-

queza cultural para que a arqueologia e o

passado indígena desabrochassem nova-

mente. O resultado é o trabalho de guias de

turismo da própria comunidade instruídos

arqueologicamente e dispostos a informar

que eles são os agentes diretamente respon-

sáveis pela conservação dessa memória e

promoção desse patrimônio.

Por tudo isso, creio que Noelli se enga -

na ao comentar que o livro não trata o pa -

trimônio como “uma categoria de pensa -

mento e ação política”. Como Noelli se

notabiliza por ser um grande debatedor

teórico-conceitual, é compreensível que

sua leitura observe o quanto o livro con -

templa a base epistemológica das agendas

internacionais. Entretanto, apesar de No -

elli discordar, o livro cumpre sim – mes -

mo que incipientemente – a função de ar -

ticular elementos para a compreensão do

“conjunto de representações culturais dos

diversos grupos sociais de um contexto

dado”, na medida em que seu objetivo

central é o exercício do diálogo, em pri -

meira instância, com os grupos sociais da

comunidade de Caxias do Sul – e quiçá da

brasileira – para alavancar o despertar de

Diálogo com Francisco Noelli a respeito da resenha para o livro "Patrimônio Arqueológico de Caxias do Sul"

Diálogo com Francisco Noelli a respeito da resenha para o livro "Patrimônio Arqueológico de Caxias do
Diálogo com Francisco Noelli a respeito da resenha para o livro "Patrimônio Arqueológico de Caxias do

Rafael Corteletti

uma prática conservacionista. E realmen -

te, minhas “noções e definições” não “es -

tão isentas de políticas e critérios cultu -

rais sobre a paisagem”, pelo simples fato

de que além de ser arqueólogo sou um

membro da comunidade. Sou mais um da -

queles que tanto entrevistei em Caxias – e

continuo entrevistando em outros locais

– que lembram com nostalgia das brinca -

deiras de infância dentro das enormes

crateras que ninguém sabia o que eram ...

No meu caso a nostalgia é maior ainda, já

que o sítio que tanto brinquei, anos depois

cedeu lugar às ruas de um novo bairro,

talvez ao mesmo tempo em que, numa

universidade a 300km dali, eu descobria o

que as tais crateras significavam. Nesse

sentido, a paisagem é um elemento ativo

nas ações humanas, ela nutre e é nutrida

pelas interações sociais como um conjun -

to de formas que em dado momento expri -

mem memórias socialmente construídas

– como as minhas.

Em linhas gerais nas Ciências Humanas

gostamos muito debater sobre a construção

do conhecimento, às vezes falando da socie-

dade, mas, infelizmente, à parte dela. Alguns

arqueólogos, nesse sentido, esquecem que

vários sítios arquelógicos, nossa matéria-pri-

ma de discussão, estão sendo descartados

cotidianamente. Há o descarte inconsciente,

por indivíduos que desconhecem totalmente

o que é um sítio arqueológico e o destroem

por ignorância. Há, também, o descarte leva-

do a cabo conscientemente por indivíduos

que precisam obter renda – como é o caso

dos vendedores de terra preta dos cerritos da

Praia do Laranjal, entre tantos outros exem-

plos. E não podemos esquecer, nesses tempos

de desenvolvimentismo acelerado, que há o

descarte legalizado de sítios através da práti-

ca do “resgate” ou “salvamento”. A coleção

arqueológica é salva ou resgatada, mas per-

de-se o sítio arqueológico, perde-se o lugar e

167

todo o simbolismo que ele poderia expressar

se fosse conservado. Não estou demonizando

a arquelogia empresarial, não é isso. Afinal,

sabemos que a Arqueologia Brasileira vem

sendo impulsionada pelas grandes obras de

infraestrutura dos últimos anos de tal forma

que novas graduações estão aí para suprir a

demanda de profissionais. O que questiono,

com esse comentário, é a ação de órgãos go-

vernamentais e arqueólogos no processo de

decisão daquilo que é relevante e deve ser

“salvo” e daquilo que não é relevante e, dessa

forma, nem “salvo” precisa ser. Será que nos-

sos profissionais trabalhando em ritmo in-

dustrial e, por vezes, com métodos de pros-

pecção pouco sistemáticos realmente

conseguem medir a relevância de um bem

cultural? Além disso, questiono qual é o nos-

so papel como produtores e disseminadores

de conhecimento? Questiono a validade da

produção de conhecimento que não vai além

dos debates do próprio grupo que o gerou?

Afinal, temos em nossas mãos um objeto de

pesquisa que seduz as pessoas, ou uma gran-

de parcela delas. Temos de usar esse objeto a

nosso favor e tornar a arqueologia mais po-

pular, mais pública e assim disseminar o

conservacionismo do patrimônio arqueológi-

co e, em última instância, evitar o descarte

dos lugares, o descarte dos sítios arqueológi-

cos para que as pesquisas de hoje e do futuro

possam ser desenvolvidas.

Em síntese, concordo com Noelli quando

ele diz que devemos buscar arqueologica-

mente as diferenças que vemos etnologica-

mente entre os Kaingang e os Xokleng, por

mais complicada que essa tarefa seja. E

mais, devemos investigar as origens dos Jê

Meridionais para ilustrar a emergência da

complexidade social desses grupos. Mas,

não podemos nos furtar de lutar pela con-

servação dos sítios arqueológicos, já que são

eles que nos darão as pistas para elucidar

nossas problemáticas.

REVISTA DE ARQUEOLOGIA

Volume 23 - N.2:164-167

- 2010

168
168

n ORMAS EDITORIAIS

168

ob JE tI vo S E PERI o DICIDADE

a opção de assinar ou não seu parecer. No-

A Revista de Arqueologia é um veículo

tas, resumos de dissertações de mestrado e

oficial da Sociedade de Arqueologia Brasi-

de teses de doutorado, resenhas e documen-

leira (SAB) e destina-se à publicação de tra-

tos inéditos serão submetidos à apreciação

balhos que possam contribuir para o apro-

da Comissão Editorial e do Conselho Edito-

fundamento e a socialização de

rial da revista. Os trabalhos que forem acei-

conhecimentos científicos sobre temas rela-

tos para publicação deverão estar de acordo

tivos à Arqueologia Brasileira e seus cam-

com as especificações que se seguem:

pos interdisciplinares. Ela tem como priori-

dade a divulgação dos trabalhos nacionais

I. Artigos originais que envolvam aborda-

mais expressivos nesta área de conheci-

gens teórico-metodológicas referentes à Ar-

mento, bem como de artigos de pesquisado-

queologia, desde que contenham resultados

res estrangeiros considerados relevantes

conclusivos e relevantes do ponto de vista

para a disciplina.

científico, não devendo ultrapassar a exten-

A revista está aberta a todos os sócios da

são máxima de 8.000 palavras. Excepcio-

SAB e a outros pesquisadores, sejam eles da

nalmente poderão ser aceitos trabalhos

área de arqueologia ou de áreas afins. Sua

com uma extensão superior, desde que

periodicidade será semestral, podendo ter

aprovados pela Comissão Editorial da revis-

tiragem diferenciada.

ta.

O calendário de publicação da Revista de

Arqueologia, bem como as datas de fecha-

II. Artigos de revisão ou atualização que cor-

mento de cada edição, são definidos pela

respondem a textos preparados a partir de

Comissão Editorial da SAB, composta por

uma análise crítica da literatura existente

três membros eleitos para um mandato de

sobre determinada temática de valor cientí-

dois anos, sendo apenas um deles o editor

fico, não devendo ultrapassar 6.500 pala-

da revista.

vras.

mo DALIDADES DE t RA b ALH o S

III. Resenhas versando sobre obras recente-

ACEIto S PARA PU b LICA ção

mente publicadas no país e no exterior, de

Serão aceitos para publicação trabalhos

interesse para a Arqueologia, com no máxi-

elaborados em português, espanhol, francês

mo 2.000 palavras.

e inglês. No caso específico de artigos origi-

nais e artigos de revisão ou atualização, es-

IV. Resumos de dissertações de mestrado e de

tes somente serão aceitos após serem sub-

teses de doutorado defendidas nos últimos

metidos à apreciação de pelo menos dois

dois anos sobre temática arqueológica ou

revisores ou pareceristas. A identificação do

sobre assunto de interesse à arqueologia,

parecerista é opcional, cabendo a cada um

devendo ter entre 500 e 2.000 palavras.

  • V. Notas que consistem em textos curtos, nas

quais são apresentados os resultados preli-

minares de pesquisas em andamento ou co-

mentários e críticas à artigos e resenhas

publicados na Revista de Arqueologia, de-

vendo ter, entre 1.000 e, no máximo, 2.000

palavras.

VI. Documentos inéditos transcritos ou re-

produzidos, de interesse para a história da

Arqueologia Brasileira, desde que aceitos

pela Comissão Editorial e pelo Conselho

Editorial.

I n S t RU çõ ES Ao S AU to RES

  • I. Os trabalhos deverão ser acompanhados,

obrigatoriamente, de resumo em português

(que não exceda 120 palavras) e resumo em

inglês fiel ao resumo em português, e igual-

mente de três palavras-chaves para indexa-

ção da revista.

II. Ao título do trabalho seguir-se-á(ão) o(s)

nome(s) do(s) autor(es). No rodapé serão

mencionados a(s) instituição(ões) em que o

artigo foi elaborado, endereço completo

para correspondência e, sendo necessário, a

indicação da(s) instituição(ões) da(s)

qual(is) foram obtidos os auxílios relativos

à produção do trabalho.

III. Os trabalhos deverão ser elaborados se-

guindo estritamente a seguinte ordem: Títu-

lo, autor(es), resumo, palavras-chave, abs-

tract, key-words, informações sobre o(s)

autor(es) em nota de rodapé; Texto; Agrade-

cimentos; Referências bibliográficas.

IV. Os originais devem ser encaminhados

anexados a mensagens eletrônicas para re-

vistadearqueologia@gmail.com. O texto

deve ser digitado através de editor compatí-

169

vel com Word for Windows em folha A4,

espaço 1,5, margens direita e esquerda com

2 cm, topo e base com 2,5 cm, margem di-

reita não justificada, fonte Arial, tamanho

11, com páginas numeradas sequencial -

mente.

As obras citadas deverão ser referenciadas

no próprio corpo do texto, indicando-se: so-

brenome do autor, data da publicação, pá-

gina citada. Exemplos: (Clark, 1975), (Lévi-

-Strauss, 1982:47), (Renfrew & Bahn, 1998);

Willey & Philipps (Willey & Philipps,

1958:95), Plog et al. (Plog et al., 1976), Bin-

ford (Binford 1967, 1978, 1983). Notas de

rodapé (numeradas sequencialmente) de-

verão ser utilizadas exclusivamente como

notas explicativas. As referências bibliográ-

ficas completas das obras citadas deverão

vir em uma lista ao final do trabalho.

VI. As referências bibliográficas deverão se-

guir as seguintes normas:

Livros:

MEGGERS, B. J. 1979 América Pré-histórica.

Trad. de E. T. de Carvalho. 2ª ed. Rio de Ja-

neiro, Paz e Terra. 185pp.

Artigos ou capítulos em livros:

PROUS, A. 1999 Arqueologia, Pré-história e

História. In: TENÓRIO, M. C. (Org.), Pré -

-história da Terra Brasilis. Rio de Janeiro,

EdUFRJ, pp.19-32.

Mais de uma citação do mesmo autor:

MARTIN, G. 1998 O povoamento pré-histó-

rico do vale do São Francisco (Brasil). Clio,

Série Arqueológica, Recife, 13:9-41.

MARTIN, G. 1997 Pré-História do Nordeste

do Brasil. Recife, Ed. Univ.UFPE.

Artigos de revistas

(com um, dois ou mais autores):

MARTIN, G. 1998 O povoamento pré-histó-

rico do vale do São Francisco (Brasil). Clio,

REVISTA DE ARQUEOLOGIA

Volume 23 - N.2:168-170

- 2010

170

Série Arqueológica, Recife, 13:9-41.

XII. Cada autor(a) poderá publicar até um

NEME, S. & BELTRÃO, M. 1993. Tupinam-

trabalho individual em cada número da re-

bá, franceses e portugueses no Rio de Janei-

vista e mais um outro em co-autoria, desde

ro durante o século XVI. Revista de Arqueo-

que não seja o autor principal.

logia, São Paulo, 7:133-151.

Dissertações e teses:

XIII. Os trabalhos aprovados serão encami-

WUST, I. 1990. Continuidade e mudança:

nhados em PDF para revisão final dos auto-

para uma interpretação dos grupos pré-colo-

res, que devem devolvê-lo no prazo máximo

niais na bacia do rio Vermelho, Mato Gros-

de dez dias a partir da data do recebimento.

so. Tese de Doutorado. São Paulo, Universi-

O Editor deve ser informado por escrito so-

dade de São Paulo. 210pp.

bre possíveis alterações ou sobre a aprova-

ção final de cada trabalho. Nessa etapa não

VII. A revisão gramatical deve ser previa-

serão aceitas modificações no conteúdo do

mente providenciada pelo(s) autor(es).

trabalho ou que impliquem em alterações

no número de páginas. Caso o autor não

VIII. As ilustrações (que não excedam a 6),

responda no prazo, o trabalho será publica-

tabelas, gráficos e demais figuras com res-

do conforme a última versão autorizada.

pectivas legendas deverão ser numeradas

sequencialmente e apresentadas, quando

XIV. Após aprovado, o trabalho será publi-

for o caso, com os devidos créditos autorais,

cado por ordem de chegada. O Editor res-

enviadas separadamente, com a indicação

ponsável também pode determinar o mo-

no texto do lugar onde devem ser inseridas.

mento mais oportuno.

Todas as imagens deverão ser apresentadas

em arquivos digitais individualizados, em

XV. A Revista de Arqueologia não aceita re-

formato jpg ou tif, em preto e branco com

sumos expandidos nem textos na forma de

resolução igual ou superior a 300 dpi.

relatórios.

IX. Textos encaminhados fora das normas

XVI. Ao autor principal de cada trabalho pu-

acima definidas serão retornados aos auto-

blicado serão oferecidos, gratuitamente, até

res antes de serem encaminhados aos pare-

5 (cinco) exemplares do número correspon-

ceristas.

dente da revista.

X. O(s) autor(es) será(ão) informados sobre

XVII. Uma vez publicados os trabalhos, a

a avaliação do texto que encaminhou(ram)

Revista de Arqueologia se reserva todos di-

para publicação no prazo máximo de 3

reitos autorais, inclusive os de tradução,

(três) meses, contados após o envio dos ar-

permitindo, entretanto, sua posterior repro-

tigos de acordo com as normas estabeleci-

dução como transcrição, desde que com a

das neste documento.

devida citação da fonte.

XI. São de responsabilidade do(s) autor(es):

XVIII. Os casos não previstos nestas normas

o conteúdo científico do trabalho, a tradu-

serão analisados e decididos pela Comissão

ção do título do trabalho para o inglês, o

Editorial da SAB, ouvido o Conselho Edito-

abstract e keywords.

rial da revista.

REVISTA DE ARQUEOLOGIA

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