07 Editorial
10 Using 14 C dates to track early human dispersals James Steele
20 Cazadores-Recolectores Tempranos, Supervivencia De Fauna Del Pleistoceno (Equus Sp. Y Glyptodon Sp.) Y Tecnología Lítica Durante El Holoceno Temprano En La Frontera Uruguay-Brasil Rafael Suárez e Guaciara M. Santos
40 Indústrias Líticas em Contexto: O Problema Humaitá na Arqueologia Sul Brasileira Adriana Schmidt Dias e Sirlei Elaine Hoeltz
68 Análise Intra-Sítio Do Sítio Justino, Baixo São Francisco – As Fases Ocupacionais Marcelo Fagundes
98 Novas perspectivas sobre a arquitetura ritual do planalto meridional brasileiro: pesquisas recentes em Pinhal da Serra, RS Jonas Gregorio de Souza e Silvia Moehlecke Copé
112 Levantamento arqueológico na Aldeia Lalima, Miranda/MS: uma contribuição ao estudo da trajetória histórica da ocupação indígena regional Eduardo Bespalez
136 Da força repressora à coesão sutil: a arqueologia da vila operária
Cláudia Regina Plens
156 Patrimônio Arqueológico de Caxias do Sul Francisco Silva Noelli
160 A arte rupestre de Jequitaí/MG entre práticas gráficas padronizadas e suas manifestações locais: Interseções Estilísticas no Sertão Mineiro Rogério Tobias Junior
162 Holocene hunter-gatherer plant use and foraging choice: a test from Minas Gerais, Brazil
Myrtle Shock
164 Diálogo com Francisco Noelli a respeito da resenha para o livro “Patrimônio Arqueológico de Caxias do Sul” Rafael Corteletti
168 Normas Editoriais
Fotos Capa: Rafael Suarez
VOLUME 23 _ NUMERO 2 _ dEzEMbRO 2010 _ ISSN 0102-0420
A Revista de Arqueologia, fundada em 1983 pela Profª Maria da Conceição M. C. Beltrão e editada originalmente pelo
Museu Paraense Emilio Goeldi/CNPq, é uma publicação oficial
e semestral da Sociedade de Arqueologia Brasilieira - SAB.
VOLUME 23 _ NUMERO 2 _ dEzEMbRO 2010 _ ISSN 0102-0420
Conselho Editorial Abdulay Câmara Adriana S. Dias Astolfo Gomes de Mello Araujo Alberico Nogueira de Queiroz André P. Prous André O. Rosa Claudia Rodrigues Ferreira de Carvalho Denise P. Schaan Eduardo G. Neves Fabíola A. Silva Gilson Rambelli Gislene Monticelli Gustavo Politis João Pacheco de Oliveira Filho José Lopez Mazz Loredana Ribeiro Luiz Cláudio Symanski Luiz Ossterbeek Marco Aurélio Nadal De Masi Michael Heckenberger Sheila Mendonça de Souza Tania Andrade Lima Veronica Wesolovski
Diretoria da SAB Sociedade de Arqueologia Brasileira Presidência Eduardo G. Neves (Universidade de São Paulo) Vice-Presidência Silvia M. Copé (Universidade Federal do Rio Grande do Sul) Secretaria Luís Cláudio Symanski (Universidade Federal do Paraná) Sibeli Aparecida Viana (Pontifícia Universidade Católica de Goiás) Tesouraria Loredana Ribeiro (Universidade Federal de Pelotas) Jacionira Coelho Silva (Universidade Federal do Piauí) Comissão Editorial Gabriela Martin D’Ávila (Universidade Federal de Pernambuco) Arno A. Kern (Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul) Lucas M. Reis Bueno (Universidade de São Paulo) Comissão de Seleção Ondemar Dias Jr. (Instituto de Arqueologia Brasileira) Maria Lúcia F. Pardi (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) Vera Lúcia C. Guapindaia (Museu Paraense Emilio Goeldi) Conselho Fiscal Pedro Ignácio Schmitz (Instituto Anchietano de Pesquisas) Fernanda B. Tochetto (Prefeitura Municipal de Porto Alegre) Cláudia Alves de Oliveira (Universidade Federal de Pernambuco)
Museu de Arqueologia e Etnologia Universidade de São Paulo Av. Prof. Almeida Prado, 1466 São Paulo - SP - Brasil
05508-900
Comissão Editorial: Gabriela Martin, Arno Kern, Lucas Bueno Editor Responsável: Lucas Bueno Gestão 2009-2011
Dados Internacionais de Catalogação
Revista de Arqueologia / Sociedade de Arqueologia Brasileira, 2010. São Paulo: SAB, 2010, V. 23, M.1
Semestral a partir de 2008: 2010. ISSN: 0102-0420
1. Ciências Humanas. 2. Arqueologia. 3. Antropologia. 4. Sociedade de Arqueologia Brasileira
07 Editorial
10 Using 14 C dates to track early human dispersals James Steele
20 Cazadores-Recolectores Tempranos, Supervivencia De Fauna Del Pleistoceno (Equus Sp. Y Glyptodon Sp.) Y Tecnología Lítica Durante El Holoceno Temprano En La Frontera Uruguay-Brasil Rafael Suárez e Guaciara M. Santos
40 Indústrias Líticas em Contexto: O Problema Humaitá na Arqueologia Sul Brasileira Adriana Schmidt Dias e Sirlei Elaine Hoeltz
68 Análise Intra-Sítio Do Sítio Justino, Baixo São Francisco – As Fases Ocupacionais Marcelo Fagundes
98 Novas perspectivas sobre a arquitetura ritual do planalto meridional brasileiro: pesquisas recentes em Pinhal da Serra, RS Jonas Gregorio de Souza e Silvia Moehlecke Copé
112 Levantamento arqueológico na Aldeia Lalima, Miranda/MS: uma contribuição ao estudo da trajetória histórica da ocupação indígena regional Eduardo Bespalez
136 Da força repressora à coesão sutil: a arqueologia da vila operária
Cláudia Regina Plens
156 Patrimônio Arqueológico de Caxias do Sul Francisco Silva Noelli
160 A arte rupestre de Jequitaí/MG entre práticas gráficas padronizadas e suas manifestações locais: Interseções Estilísticas no Sertão Mineiro Rogério Tobias Junior
162 Holocene hunter-gatherer plant use and foraging choice: a test from Minas Gerais, Brazil
Myrtle Shock
164 Diálogo com Francisco Noelli a respeito da resenha para o livro “Patrimônio Arqueológico de Caxias do Sul” Rafael Corteletti
168 Normas Editoriais
|
Apresentamos neste número sete artigos, sendo cinco deles escritos por pesquisadores nacionais e dois internacionais. Os temas são variados: questões teórico-metodológi- cas relativas ao estudo da dispersão e diver- sificação cultural de grupos humanos a par- tir de datações radiocarbônicas provenientes de sítios arqueológicos, ocupação antiga da América e relação entre homem e mamífe- ros de grande porte, variabilidade tecnológi- ca das indústrias líticas do sul do Brasil e seus significados, tecnologia lítica e análise intra-sítio, arquitetura ritual e construção do espaço, arqueologia em área indígena e ar- queologia numa vila operária do século XIX. O artigo de James Steele, do Institute of Archaeology/University College London aborda uma questão crucial para a discussão sobre dispersão e diversificação cultural de grupos humanos em diferentes períodos e regiões. Focando a questão da utilização das datações radiocarbônicas como uma ferra- menta para estimar direção e velocidade de deslocamento, James Steele apresenta de forma suscinta as principais abordagens es- tatísticas e os problemas enfrentados com relação à composição da amostra. Este é um ponto fundamental do artigo, pois sem uma amostra confiável e com boa resolução a di- mensão e significado das lacunas pode se tornar um obstáculo para discussão dessas questões. Esse é comumente o cerne das dis- cussões sobre ocupação da América, por exemplo, uma vez que muitas das datas anti- gas apresentam problemas com relação aos critérios de legitimidade definidos e aceitos por grande parte da comunidade acadêmica. A fim de esclarecer este ponto o autor men- ciona um estudo reallizado em colaboração |
com Gustavo Politis, onde ambos procuram re-datar sítios potencialmente antigos no ex- tremo sul do continente. O artigo de Rafael Suarez traz informa- ções inéditas sobre ocupação antiga no norte do Uruguai, numa região de fronteira com o Brasil. Além de apresentar datas ainda inédi- tas, há uma discussão sobre a relação entre ocupação humana e fauna Pleistocênica de grande porte, com indicações da presença de Equus sp e Glyptodon sp até cerca de 9.500 anos AP na região entre o rio Uruguai e Qua- raí. No entanto, o autor ressalta que com base nas evidências coletadas a subsistência des- ses grupos humanos estaria baseada na caça de mamíferos de pequeno e médio porte, aves e peixes, com apropriação dos mega-mamí- feros como complemento, não de forma fre- quente. A tecnologia lítica associada a estas ocupações envolve a produção de artefatos bifaciais, dentre os quais pontas de projétil . A discussão apresentada pelo autor centra-se nos dados do sítio Pay Paso 1, mas em função das datas e dados apresentados certamente tem repercussão para discussões regional- mente mais abrangentes, envolvendo todo o norte do Uruguai e sul do Brasil, além de con- tribuir para discussões referentes às estraté- gias adaptativas dos primeiros grupos huma- nos a ocuparem a América do Sul na transição Pleistoceno/Holoceno. Continuando na região sul do Brasil, te- mos o artigo de Adriana Dias e Sirlei Hoeltz que, a partir de uma detalhada revisão bi- bliográfica, discute a variabilidade tecnlógi- ca das Indústrias Líticas do sul do Brasil, principalmente no que diz respeito à Tradi- ção Humaitá. A partir de uma abordagem sistêmica a respeito da variabilidade tecno- |
8
|
lógica, as autoras diferenciam entre o que |
fia dessas estruturas levam os autores a propor |
|
seria o Contexto do Problema e o Problema |
não só funções, quanto significados distintos |
|
em Contexto. Neste último segmento, desta- |
para esses dois conjuntos de estruturas que es- |
|
cam três aspecto principais da discussão: o |
tariam relacionados a agrupamentos sociais de |
|
Problema Regional em Contexto, O Proble- |
escalas distintas. Enquanto os primeiros se- |
|
ma Cronológico em Contexto e o Problema |
riam cemitérios de grupos ocupando casas se- |
|
Tecnológico em Contexto. A junção desses |
mi-subterrâneas vizinhas, os segundos esta- |
|
três aspectos, segundo as autoras, permite |
riam relacionados a agregação de diversas |
|
propor a hipótese de que o que se convencio- |
comunidades dispersas. |
|
nou definir como Tradição Humaitá repre- |
Já o artigo de Eduardo Bespalez enfoca o |
|
sentaria conjuntos distintos associados a |
processo de formação da terra Indígena Lali- |
|
diferentes estratégias de ocupação relacio- |
ma, confrontando dados etnográficos, etnohis- |
|
nadas aos grupos humanos que ocuparam a |
tóricos e arqueológicos. A partir desse conjunto |
|
região sul do País ao longo do Holoceno. |
de dados o autor sugere que a TI Lallima deve |
|
No texto de Marcelo Fagundes a temática |
ser compreendida como um palimpsesto da |
|
da variabilidade tecnológica das indústrias líti- |
história indígena regional, uma vez que oferece |
|
cas continua a desempenhar um papel impor- |
evidências para ocupação dos diversos grupos |
|
tante, mas está voltada para discutir o processo |
que atualmente ocupam essa TI em diferentes |
|
de ocupação intra-sítio ao longo do Holoceno. |
períodos de sua trajetória histórica. |
|
O sítio Justino, localizado na região do Baixo |
No último artigo deste número, Cláudia |
|
São francisco foi intensamente escavado, for- |
Plens discute a relação entre distintas classes |
|
necendo uma rica e diversificada amostra de |
sociais entre fins do século XIX e início do |
|
vestígios materiais. Com datas entre o Holoce- |
século XX, enfatizando a situação da classe |
|
no Inicial, Médio e Recente este sítio é uma |
trabalhadora em um contexto histórico logo |
|
referência importante para discussão relacio- |
após a abolição da escravidão. O trabalho |
|
nada ao processo de ocupação do Nordetse e |
tem como foco a vila operária de Paranapia- |
|
aos processos de mudança envolvidos na tran- |
caba, obra elaborada e executada pela com- |
|
sição entre economias baseadas na caça e co- |
panhia inglesa The São Paulo Railway Co. |
|
leta para aquelas mais centradas em atividades |
Ltd A partir da escavação das residências da .. |
|
de hortocultura. A análise da composição e |
vila operária construída em 1865, a autora |
|
distribuição interna dos vestígios materiais |
discute a relação entre cultura material e |
|
identificados neste sítio embasa um modelo a |
classe social nesse contexto histórico de tran- |
|
respeito do processo de ocupação da paisagem |
sição entre escravidão e trabalho assalariado. |
|
circundante, conferindo diferentes funções |
Temos ainda neste número a resenha do |
|
para o sítio Justino ao longo do Holoceno. |
livro “Patrimonio Arqueológico de Caxias do |
|
Mudando de temática, temos o artigo de Jo- |
Sul”, apresentada por Francisco Noelli e, na se- |
|
nas de Souza e Silvia Copé que discutem arqui- |
ção Notas, um comentário de Rafael Corteletti, |
|
tetura ritual associada às ocupações Jê do sul |
autor do livro, sobre a resenha apresentada. |
|
do Brasil. A partir de escavações em montícu- |
Espero que aproveitem a leitura e partici- |
|
los e aterros anelares os autores fazem uma |
pem da Revista enviando seus trabalhos, re- |
|
distinção entre pequenos aterros cercando |
senhas, resumos e notas. |
|
montículos funerários e grandes aterros cer- |
|
|
cando uma praça interna. Análises da compo- |
|
|
sição dos conjuntos de vestígios e da estratigra- |
James Steele AHRC Centre for the Evolution of Cultural Diversity, Institute of Archaeology, University College London, 31-34 Gordon Square, London WC1H 0PY, UK. j.steele@ucl.ac.uk
R ESU mo |
||||
|
Este artigo apresenta uma revisão de algu- |
||||
A b S t RACt |
mas questões metodológicas no uso de datas |
|||
|
This paper reviews some methodological |
radiocarbônicas para reconstrução de episó- |
|||
|
problems in the use of radiocarbon dates to |
dios de dispersão humana registrados arqueo- |
|||
|
reconstruct episodes of archaeologically-re- |
logicamente. Estudos sobre este tema têm in - |
|||
|
corded human dispersal. Much effort has |
vestido em estimar ritmos e direções da expansão |
|||
|
been expended estimating speeds and direc- |
espacial de populações. Uma aplicação apro- |
|||
|
tions of spatial population expansion in such |
priada para estas técnicas é o povoamento |
|||
|
cases. An appropriate application for these |
inicial das Américas. Discutimos neste artigo |
|||
|
techniques is the first peopling of the Ameri- |
técnicas de regressão para estimar ritmos de |
|||
|
cas. We discuss regression techniques for es- |
frentes de deslocamento e salientamos algu- |
|||
|
timating front speeds, and consider some |
mas limitações decorrentes de uma amostra- |
|||
|
limitations due to incomplete archaeological |
gem arqueologica incompleta e de datações |
|||
|
sampling and imprecise radiocarbon dating. |
radiocarbônicas imprecisas. Apresentamos |
|||
|
We also summarise results from a recent pro- |
também resumidamente resultados de um |
|||
|
gramme of dating of previously-excavated |
programa recente de datação de sítios previa- |
|||
|
late Pleistocene sites in Argentina and Chile. |
mente escavados na Argentina e no Chile. |
|||
|
K EY W o RDS Radiocarbon, calibration, hu- |
PALAv RAS - CHAv E Radiocarbônico, cali - |
|||
|
man dispersals, Paleoindian |
bragem, dispersão humana, paleoíndios |
|||
|
REVISTA DE ARQUEOLOGIA |
Volume 23 |
- N.2:10-19 |
- 2010 |
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12
Int R o DUCtI on |
biologists by Hastings et al. 2005; for inter- |
|||
|
This paper reviews some methodologi- |
disciplinary physicists by Fort and Pujol 2008; |
|||
|
cal problems in the use of radiocarbon |
and for archaeologists by Steele 2009). |
|||
|
dates to reconstruct episodes of archaeo - |
Much effort has been expended estimat- |
|||
|
logically-recorded spatial population ex - |
ing speeds of spatial population expansion |
|||
|
pansion. It draws on material published in |
for archaeologically-documented dispersal |
|||
|
previous papers by the author and his col- |
episodes, initially to confirm predictions of |
|||
|
laborators and brings that work together |
front speeds in the Fisher-Skellam model |
|||
|
for the first time (for the previous publica - |
from independently-estimated population |
|||
|
tions see Glass, Steele and Wheatley 1999; |
growth and migration rates, and more re - |
|||
|
Hazelwood and Steele 2004; Steele 2009; |
cently to assess how far the classic Fisher- |
|||
|
Steele and Politis 2009; and Steele 2010). It |
Skellam model falls short of reality in its |
|||
|
is hoped that this review may be useful to |
treatment of human mobility patterns in a |
|||
|
archaeologists working on population dis - |
dispersal phase. In ecology, simulations have |
|||
|
persal problems in South American archae- |
shown that regressing distance to the point |
|||
|
ological contexts. For this overview the ex- |
of origin of the invasion as a function of time |
|||
|
plicit mathematical and statistical content |
of first detection is the most robust way of |
|||
|
has been minimised and discussion has |
estimating invasion speeds, particularly |
|||
|
been kept to a conceptual level, but inter - |
where there is only a small sample of obser- |
|||
|
ested readers can find more technical de - |
vations (Gilbert and Liebhold 2010). Nu- |
|||
|
tails in the papers just cited. |
merous archaeologists have suggested that |
|||
|
In basic demographic terms, modelling |
radiocarbon dating can be used for this pur- |
|||
|
large-scale human dispersals requires us |
pose, yielding estimates of the timing of pas- |
|||
|
to consider the rate at which the population |
sage of the expanding population front at |
|||
|
increases locally, and the rate at which |
different spatial locations. For the spread of |
|||
|
people move across the landscape. In popu- |
farming in Europe, Ammerman and Cavalli- |
|||
|
lation ecology, the simplest model of such |
Sforza (1971, 1984) fitted a linear regression |
|||
|
processes is a reaction-diffusion system |
to dates and distances from Jericho, finding |
|||
|
defined by Fisher (1937) and Kolmogoroff, |
a mean front speed of about 1 km yr-1. Sub- |
|||
|
Petrovsky, and Piskunov (1937), and applied |
sequently Pinhasi et al. (2005) fitted a linear |
|||
|
to population expansion by Skellam (1951). |
regression to dates from a set of 735 Neo- |
|||
|
This system predicts a constant spreading |
lithic sites in Europe and the Near East us- |
|||
|
rate for an expanding population in a ho - |
ing various origins and two possible dis - |
|||
|
mogeneous habitat; this rate will vary as |
tance measures, and found an average front |
|||
|
a function of the average reproductive |
speed in the range 0.6–1.3 km yr-1. For earlier |
|||
|
rate and the average rate of mobility of |
episodes of hunter-gatherer dispersal, Fort |
|||
|
the population. In recent years an enor - |
et al. (2004) estimated by regression a mean |
|||
|
mous amount of work has been done by |
speed of late glacial recolonization of north- |
|||
|
biologists using this system to model the |
ern Europe of 0.8 yr-1 (0.4–1.1 km yr-1 at |
|||
|
spread of invasive species, and numerous |
the 95% confidence interval). |
|||
|
modifications and extensions have been |
An appropriate case study for these tech- |
|||
|
proposed to improve the match between |
niques is the first peopling of the Americas. |
|||
|
the modelled dynamics and those observed |
For the last 50 years it has been the preva- |
|||
|
in the real world (see recent reviews for |
lent view that the North American Clovis |
|||
Using 1 4 C dates to track early human dispersals |
James Steele |
|||
13
|
culture represents the earliest successful |
trol for variation in precision by excluding |
|||
|
colonization phase, in which hunter-gath- |
any dates that had standard errors of mea- |
|||
|
erers invaded the continent south of the ice |
surement greater than 200 radiocarbon years |
|||
|
sheets from a Beringian source population. |
(e.g. Ammerman and Cavalli-Sforza 1971, |
|||
|
However radiocarbon dates have subse - |
1984). Subsequently, partly as an outcome of |
|||
|
quently constrained the Clovis phase to an |
the extension of consensus calibration curves |
|||
|
increasingly short interval, most recently to |
into the late Pleistocene, it has also become |
|||
|
between ~11,050 14C yr bp and ~10,800 |
normal to check the front speeds estimated |
|||
|
14C yr bp (Waters and Stafford 2007). Mean- |
in this way against front speeds estimated |
|||
|
while dates from sites in South American, |
using some point approximation of the most |
|||
|
including the southernmost part of that con- |
likely or mid-range value of the calibrated |
|||
|
tinent, have been confirmed for the same |
probability distribution for that radiocarbon |
|||
|
time range (e.g. Steele and Politis 2009). |
measurement (e.g. Pinhasi et al. 2005; Ham- |
|||
|
This has led some scholars to propose a |
ilton and Buchanan 2007). |
|||
|
colonization model including multiple dis- |
Most recently, it has become possible to |
|||
|
persals, perhaps synchronous but geographi- |
estimate relationships between dates and |
|||
|
cally separated (Steele and Politis 2009; for |
distances from an assumed origin using as |
|||
|
congruent arguments from human genetics |
the date variable a set of single calendar |
|||
|
see Hellenthal, Auton and Falush 2008 and |
year values for each radiocarbon-dated |
|||
|
Perego et al. 2009). Accurate reconstruction |
event, in each case drawn at random from |
|||
|
of the passage times of the expanding popu- |
its calibrated probability distribution (Steele |
|||
|
lation front is a pre-requisite for resolving |
2010). By repeating this regression analysis |
|||
|
such debates and exploring the underlying |
many times, each time with a fresh draw of |
|||
|
demographic processes. |
a single calendar year for each of the events |
|||
|
in the dataset, we can estimate a confidence |
||||
R EGRESSI on APPR oACHES |
interval for the regression model parame- |
|||
|
A basic requirement of regression analy- |
ters (slope, intercept, p-value, Pearson’s |
|||
|
sis for determining population front speed is |
and Spearman’s correlation coefficients) |
|||
|
the ability to estimate timing of cultural |
that takes account of the known uncertain- |
|||
|
events at known spatial locations using ra- |
ty (calibrated date range) in the date of each |
|||
|
diocarbon dates. Obtaining archaeological |
event. One method of drawing single values |
|||
|
estimates for first arrival times at different |
from the calibrated distribution is the MCMC |
|||
|
locations remains a very imprecise science, |
routine in the most recent online beta-ver- |
|||
|
because of sampling biases and of uncertain- |
sion of OxCal (Version 4.1b3; Bronk Ramsey |
|||
|
ties (e.g. of stratigraphy) in the documented |
1995, 2001), which will take a snapshot ev- |
|||
|
archaeological record. However, let us as- |
ery (user-specified) n iterations of all of the |
|||
|
sume that we have a set of dated events that |
parameters of the model obtained by the |
|||
|
we wish to analyse on the basis that they rep- |
MCMC analysis, and which will save a us - |
|||
|
resent a set of first arrival times. We then |
er-specified number of such snapshots to a |
|||
|
need to assign each event a point value (a |
file for subsequent analysis (cf. Steele 2010). |
|||
|
single calendar age) for our regression anal- |
The speed of propagation of an expanding |
|||
|
ysis. It was initially the practice to use the |
front is then estimated in archaeology by fitting |
|||
|
modal value of an uncalibrated radiocarbon |
a regression line to a set of estimated dates and |
|||
|
measurement as the point value and to con- |
of values for some measure of the dated sites’ |
|||
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REVISTA DE ARQUEOLOGIA |
Volume 23 |
- N.2:10-19 |
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relative position in space. Most often this is |
take account of error in both variables. The |
|||
|
done by bivariate regression using distance as |
presence of sampling error and measure - |
|||
|
measured from a hypothesised origin point. |
ment uncertainty in a sample of radiocar - |
|||
|
The appropriate regression model to use when |
bon dates is obvious to an archaeologist, |
|||
|
estimating this functional relationship is one |
but the presence of error and uncertainty |
|||
|
which takes account of error and uncertainty |
in the estimation of distance between two |
|||
|
in both variables. Reduced major axis regres- |
locations should be equally obvious to any |
|||
|
sion (RMA), whose slope is the geometric |
archaeologist who stops to consider the ef- |
|||
|
mean of the two ordinary least-squares slopes, |
fects on large-scale dispersal patterns of |
|||
|
is preferable to the principal or major axis re- |
terrain relief, of soil type and vegetation |
|||
|
gression technique used by Ammerman and |
cover, and of rivers and large bodies of wa- |
|||
|
Cavalli-Sforza (1971, 1984) because RMA is |
ter. If we try to estimate front propagation |
|||
|
scale-invariant. Simulations (Babu and Feigel- |
speeds using great circle distances from a |
|||
|
son 1992) have shown that RMA performs well |
point origin, then clearly the distance mea- |
|||
|
in recovering the true functional relationship |
surements will be error-prone and a line- |
|||
|
between two error-prone variables: the angu- |
fitting technique such as reduced major |
|||
|
lar bisector of the two ordinary least-squares |
axis should therefore be used. In practice it |
|||
|
regression slopes (obtained by regressing x on |
is commonplace for archaeologists to esti- |
|||
|
y and y on x) performed slightly better but |
mate front speeds as within the range indi- |
|||
|
given the coarse order of approximation that |
cated by the two OLS slopes (date on distance, |
|||
|
archaeologists require when interpreting front |
and distance on date) and that is perfectly ac- |
|||
|
speeds, and given that the latter method is less |
ceptable provided that this range is of the |
|||
|
widely implemented in statistics and spread- |
same order of approximation as the reac - |
|||
|
sheet packages, I think that it is satisfactory to |
tion-diffusion model’s predictions. Howev- |
|||
|
use the reduced major axis technique. To il- |
er, this approach yields an excessively |
|||
|
lustrate the relevance of this choice, Cantrell |
wide range of estimates for the values of |
|||
|
(2008) has used simulations to assess the abil- |
the true underlying functional relation. |
|||
|
ity of ordinary least squares (OLS) regression |
Finally, in some cases, it may make sense |
|||
|
to estimate a functional relationship between |
to cluster sites into bins of equal distance from |
|||
|
two variables where each contain error, and |
the assumed origin of the dispersal, and only |
|||
|
where the underlying relationship is unity (a |
take the age of the oldest early site (or the av- |
|||
|
slope of value 1): he found that OLS underesti- |
erage of all their ages) for each such bin. This |
|||
|
mated the true slope, with a systematic frac- |
is because if a colonizing population expands |
|||
|
tional error of underestimation of the order |
at a constant rate, the area colonized will tend |
|||
|
[1-r], where r is Pearson’s correlation coeffi- |
to increase as the square of time, so that the |
|||
|
cient. RMA can easily be implemented in a |
number of sites will be correlated with time |
|||
|
spreadsheet or other computer program either |
and with distances from the origin. This can |
|||
|
by inputting the relevant formula for the slope |
bias the regression results. |
|||
|
and intercept directly, or by using for example |
We should note at this point that calibra- |
|||
|
an Excel add-in such as Sawada’s (1999) which |
tion of late Pleistocene radiocarbon dates is |
|||
|
returns the full basic set of regression statistics |
still an inexact science. In particular, and |
|||
|
(slope and SD, intercept and SD, r2). |
compared with INTCAL04, the latest con- |
|||
|
It is perhaps useful to consider here why |
sensus calibration curve (INTCAL09, Re- |
|||
|
we might prefer methods of line-fitting that |
imer et al. 2009) substantially changes the |
|||
Using 1 4 C dates to track early human dispersals |
James Steele |
|||
15
|
picture for dates deriving from approximate- |
reached its greatest density on the settled |
|||
|
ly the onset of the Younger Dryas, and uses |
landscape at some distance from the en - |
|||
|
only marine data for periods before 12,550 |
try point, we may find it very difficult in - |
|||
|
cal BP (for the implications for dispersal |
deed to recognize the direction of spread or |
|||
|
chronology in North America, see e.g. Steele |
the location of the entry point using archae- |
|||
|
2010). Meanwhile the Huon Pine (HP-40) |
ological data. |
|||
|
tree-ring sequence now anchors the previ- |
Let us consider the process of first detec- |
|||
|
ously floating Late Glacial Pine (LGP) 14C |
tion of an archaeological marker. The Fish- |
|||
|
sequence (Hua et al. 2009), and supports the |
er-Skellam model predicts a travelling pop- |
|||
|
reduction in calendar age of radiocarbon de- |
ulation density wave that is at carrying |
|||
|
terminations (12900-12550 cal BP) obtained |
capacity behind the front and decreases to |
|||
|
with INTCAL09 as compared with IN - |
an infinitesimally small value ahead of the |
|||
|
TCAL04 (Reimer et al. 2009). However, a plot |
population front. At what population densi- |
|||
|
of the anchored LGP tree-ring 14C sequence |
ty would we expect to detect the arrival of |
|||
|
(Hua et al. 2009: 2986) also suggests that a |
the population? If the population is highly |
|||
|
Pacific coral-based calibration may overesti- |
mobile and has a relatively slow reproduc- |
|||
|
mate both that reduction in age at the young- |
tive rate, then it may reach local densities |
|||
|
er end of the range (12700-12550 cal BP), and |
sufficient for first archaeological observa- |
|||
|
the associated uncertainty due to trends in |
tion at similar times at very different dis- |
|||
|
atmospheric 14C concentration. Future revi- |
tances from the entry point. The fact that |
|||
|
sions of the calibration curve incorporating |
radiocarbon dates have an intrinsic uncer- |
|||
|
the anchored LGP tree ring 14C series are |
tainty about the precise date of any event |
|||
|
therefore likely to change the picture again. |
only adds to the problem. We have explored |
|||
|
Thus, even if we have a good statistical tech- |
this analytically elsewhere (Hazelwood and |
|||
|
nique that enables us to make full use of the |
Steele 2004). Other things being equal, pop- |
|||
|
probabilistic nature of radiocarbon dates, we |
ulation front profiles (waves of advance) |
|||
|
must remember that for such periods our |
will be broad if the population was highly |
|||
|
conclusions remain dependent on the accu- |
mobile, and narrow if the population was |
|||
|
racy of the calibration curves themselves. |
more restricted in mobility. If mobility is |
|||
|
held constant, then the front will travel fast- |
||||
PRobLEmS In RECovERInG A |
er if the population reproduces rapidly. In- |
|||
CoHEREnt SPAtIAL GRADIEnt In |
tuitively, we might expect that narrow and |
|||
ARRIvAL tImES WItH SPARSE AnD |
slow waves will be the best for estimating |
|||
ImPRECISELY-DAtED SAmPLES |
the rate of population advance. By contrast, |
|||
|
Although careful use of regression tech- |
with broad and fast waves it might be ex- |
|||
|
niques can help us to reliably detect spatial |
pected to be more difficult to determine |
|||
|
patterns in a sample of radiocarbon-dated |
whether we are detecting pioneer or estab- |
|||
|
events, failure to detect such structure is not |
lished phase occupation. Our intuition is |
|||
|
always the fault of our statistical technique. |
usually correct in archaeological situations, |
|||
|
Nor need such a failure mean that no dis- |
because the uncertainty in radiocarbon de- |
|||
|
persal took place at the time when we had |
terminations makes fast waves hard to track |
|||
|
expected to see evidence for one. In fact, for |
accurately using that method. |
|||
|
many plausible scenarios where the pop - |
An additional complication arises where |
|||
|
ulation spread quickly and/or where it |
the population is expanding into regions |
|||
|
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|
that are richer in resources, and therefore |
cupation. Before we can analyse evidence for |
|||
|
able to support higher population densities |
early human dispersal trajectories in space |
|||
|
(higher carrying capacities). In such cases, |
and time, we have to obtain a large enough |
|||
|
if we assume that the quantity of artefacts |
sample of securely-dated observations of |
|||
|
that survives is broadly in proportion to the |
early human occupation. This remains a |
|||
|
size of the local population at any location, |
work in progress. |
|||
|
then initially the archaeological record will |
The obvious ideal requirements for diag- |
|||
|
contain more material near the entry point; |
nosing and dating past human activity at an |
|||
|
but after some time the greatest density of |
archaeological location are that there should |
|||
|
artefacts will be in the locations which sup- |
be undeniable traces of humans (artefacts or |
|||
|
port higher population densities, and which |
skeletons) in undisturbed geological deposits, |
|||
|
may be considerable distance from the en - |
with indisputable dates. A more detailed re- |
|||
|
try point. If we have no typological basis for |
cent specification stipulates the following |
|||
|
differentiating artefacts of the initial spread- |
standards of validity for early Palaeoindian |
|||
|
ing phase from those of the established phase, |
sites: there should be a consistent series of |
|||
|
then we could easily be tricked into think - |
accurate and statistically precise radiometric |
|||
|
ing that the population had existed longest |
dates, based on taxonomically-identified sin- |
|||
|
at locations where we find the greatest quan- |
gle objects of carefully cleaned cultural car- |
|||
|
tity of archaeological material. Indeed, if the |
bon (which will be considered especially |
|||
|
population was at very low densities in lo- |
reliable if fruit/seed remains or purified ami- |
|||
|
cations close to the entry point during the |
no acid fraction of bones/teeth of prey ani- |
|||
|
spreading phase, then we may fail to notice |
mals), found in primary stratigraphic asso- |
|||
|
them at all unless we carry out very exten- |
ciation with artefacts, and with the results |
|||
|
sive (and also intensive) archaeological sur- |
documented by peer-review publication |
|||
|
veys and excavations. Again, we have ex - |
(Roosevelt et al 2002). Some scholars would |
|||
|
plored this problem analytically elsewhere |
further modify this to exclude samples with |
|||
|
(Hazelwood and Steele 2004). |
errors of more than ± 1% of the mean age, in |
|||
|
radiocarbon years. |
||||
tHE C on S tA nt n EED fo R DAtA |
Our specific objectives in a recent archae- |
|||
RE f I n E m E nt |
ological dating project (Steele and Politis |
|||
|
In parallel with the development of statisti- |
2009) were therefore to reassess the age of |
|||
|
cal techniques for tracking dispersal trajecto- |
the earliest cultural phases of a set of early |
|||
|
ries, we must also constantly attempt to im- |
archaeological sites in southern South Amer- |
|||
|
prove the quality and completeness of our |
ica (Argentina and Chile), applying such |
|||
|
archaeological samples. In our own previous |
criteria to the extent that this was possible |
|||
|
studies, we have tried to reconstruct the pattern |
with already-excavated material. In each |
|||
|
of late Pleistocene population expansion in the |
case, pre-existing radiocarbon dates sug - |
|||
|
Americas using the above and related GIS- |
gested an age contemporary with or earlier |
|||
|
based techniques (e.g. Glass, Steele and Wheat- |
than the North American Early Palaeoindi- |
|||
|
ley 1999, Steele 2010), but have been limited by |
an record. We wanted, in collaboration with |
|||
|
the small size of the sample of dated sites, and |
these sites’ investigators, to submit for AMS |
|||
|
by the lack of widespread consensus on which |
14C dating additional previously-excavated |
|||
|
sites (and which radiocarbon dates) can be |
specimens from the same stratigraphic units |
|||
|
treated as a reliable record of early human oc- |
that had previously yielded individual dates |
|||
Using 1 4 C dates to track early human dispersals |
James Steele |
|||
17
|
suggesting a late Pleistocene human pres - |
America at or soon after 11,000 BP. This ob- |
|||
|
ence in the southern cone. Our preference |
servation is corroborated by the new results |
|||
|
was for single pieces of hearth charcoal and |
obtained from this study for at least three of |
|||
|
for clearly cut-marked animal bones. Where |
the six sites in our own sample: Cerro Tres |
|||
|
such specimens were not available we also |
Tetas (11,087±48 BP and 10,886±48 BP, hearth |
|||
|
accepted burnt animal bone, and animal |
charcoal, both averaged from two replicate |
|||
|
bone which was helically fractured by dy- |
determinations); Cueva de Lago Sofia 1 |
|||
|
namic impact (although we were aware that |
(10,710±70 BP [OxA-8635], bone tool); Piedra |
|||
|
such fracture patterns are not necessarily an- |
Museo (10,675±55 BP [OxA-15870], cut- |
|||
|
thropogenic [Haynes 1983, 1988] and that |
marked bone). In addition, Tres Arroyos has |
|||
|
the argument for human agency must there- |
two secure hearth charcoal dates (10,600±90 |
|||
|
fore be made from other aspects of the archae- |
BP [Beta 113171] 10,580±50 BP [Beta 113171]) |
|||
|
ological context). Finally, where no modified |
obtained independently of our study but |
|||
|
bone was available, we accepted specimens of |
which are consistent with the results we |
|||
|
unmodified animal bone; but we were aware |
obtained. Finally, independently-obtained |
|||
|
that dates on such bone would be less reliable |
hearth charcoal dates from two other sites in |
|||
|
indicators of the age of human activity, be- |
our sample (Cueva de Lago Sofia 1, 11,570±60 |
|||
|
cause other taphonomic agents could have |
BP [PITT-0684]; Piedra Museo, 11,000±65 BP |
|||
|
caused those bones to be present in the de- |
[AA-27950]) suggest somewhat earlier dates |
|||
|
posits. To control for potential error in in - |
for first occupation which our own observa- |
|||
|
terpreting 14C measurements on bone |
tions did not directly confirm, but which re- |
|||
|
and charcoal specimens (for example due |
main plausible in principle in terms of strati- |
|||
|
to the burning of old wood, or to the diffi- |
graphic context (and which should now be |
|||
|
culty of eliminating diagenetic contami - |
revisited by additional determinations on |
|||
|
nants from bone samples), a combination of |
charcoal from the same features). |
|||
|
both materials was selected where possible. |
Similar evidence to that obtained in the |
|||
|
The results were very interesting. With |
study by Steele and Politis (2009) has been |
|||
|
one possible exception, we did not obtain new |
reported from other sites in the southern |
|||
|
results to confirm earlier observations of pre- |
cone of South America. These include - in |
|||
|
Clovis-age cultural activity at any of the sites |
the Humid Pampas sub region (see refer - |
|||
|
considered in this study. The exception, Ar- |
ences in Steele and Politis 2009) - Cerro La |
|||
|
royo Seco 2, is considered in detail elsewhere |
China 1 (10,706±40 BP, average of five char- |
|||
|
(Politis and Gutierrez, in press). In the light of |
coal dates), Cerro La China 2 (with charcoal |
|||
|
the results of this study, which appear to have |
dates of 10,560±75 BP and 11,150±130 BP), |
|||
|
resolved many of the dating issues surround- |
Cerro La China 3 (with a single charcoal date |
|||
|
ing the Arroyo Seco 2 Pleistocene component, |
of 10,610±180 BP), and Cerro El Sombrero |
|||
|
debate must now focus on the taphonomic |
(with four charcoal dates in the range |
|||
|
arguments for humans as the agents of bone |
10,270±85 BP to 10,725±90 BP). In Uruguay, |
|||
|
accumulation and bone modification. Leav- |
the site of Urupez 2 has two charcoal dates |
|||
|
ing Arroyo Seco 2 aside, our results on the |
(10,690±60 BP and 11,690±80 BP; Meneghin |
|||
|
specimens which were the most preferred in- |
2004, 2006). In southern Patagonia an addi- |
|||
|
dicators of cultural events (hearth charcoal |
tional key site is Cueva Casa del Minero |
|||
|
and cut-marked bone) do however confirm |
(10,983±39 BP, average of two charcoal |
|||
|
that people were in the southern cone of South |
dates; Paunero 2003). Cueva del Medio |
|||
|
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Volume 23 |
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|
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|
has four charcoal dates in the range 10,930±230 |
gentina and Chile, where the chronology |
|
to 9,595±115 (Nami and Makamura 1995). |
of the earliest settlement phases was re - |
|
Finally, we also mention here two sites from |
vised in the light of new dates. Early hu - |
|
lower latitudes in South America which have |
man dispersals can indeed be reconstruct - |
|
multiple 14C measurements that appear to |
ed reliably by these means, and once we |
|
be quite consistent and well-controlled, and |
have a reliable picture of the chronology |
|
are of similar age: in the semi-arid Andean |
of first occupation at a sufficient sample |
|
Pacific region of Chile, a layer at Quebrada |
of spatial locations, we can also begin to |
|
Santa Julia has recently been dated to |
reconstruct the demographic and cultur - |
|
11,024±47 BP (average of two charcoal and |
al dynamics of this expansion process. |
|
one wood samples; Jackson et al. 2007); and |
This kind of work is a major scientific |
|
in addition, the Initial A stratum at Caverna |
undertaking. Modern genetics has revo - |
|
da Pedra Pintada in Brazilian Amazonia has |
lutionised our understanding of modern |
|
a date for its basal cultural layer of 11,077±106 |
human origins and of the timing of hu - |
|
BP (average of four burned palm seed dates; |
man dispersals out of Africa, and has |
|
Roosevelt et al. 2002). However, a full evalu- |
contributed to a new understanding of |
|
ation of the early settlement chronology in |
our species’ biological identity. Archaeol - |
|
lower latitudes of South America (and in |
ogy has a fundamental role to play, not |
|
countries such as Brazil) was outside the |
only in providing an independent chronol- |
|
scope of our own study. |
ogy to calibrate the geneticists’ models, but |
|
also in reconstructing the origins of hu - |
|
Con CLUDI n G RE m ARKS |
man cultural diversity. The potential sci - |
|
This paper has reviewed some robust |
entific rewards of large-scale collaboration |
|
statistical techniques for estimating the |
and data pooling, and of the establishment |
|
rate of expansion of a population front, |
and application of agreed standards for |
|
but has also noted the limitations of an |
data screening, will justify the hard work |
|
incomplete archaeological sample and im - |
which such integration must inevitably |
|
precise radiocarbon dates. We have also |
involve when working with models of |
|
summarised the implications of a recent |
processes on a continental scale. |
|
study of previously-excavated sites in Ar - |
Using 1 4 C dates to track early human dispersals |
James Steele |
19
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REVISTA DE ARQUEOLOGIA |
Volume 23 |
- N.2:10-19 |
- 2010 |
||
Rafael Suárez1 y Guaciara m. Santos2 1 facultad de Humanidades y Ciencias de la Educación, Universidad de la República (montevideo) y museo de Arqueología y Ciencias naturales (Salto). Coronel Raíz 1107. montevideo, Uruguay. suarezrafael23@gmail.com
2
Earth System Science Dept, University of California Irvine, b321 Croul Hall, Irvine, CA 92697-3100 USA.
On this paper we show records of Pleis-
tocene fauna from the archaeological site of
PayPaso 1, located near of the Quarai River.
On this site we recovered two extinct spe-
cies, Equus sp. (ancient horse) e Glyptodon
sp. (giant armadillo), direct associated with
lithic artifacts. Our results indicate that
these extinct mammals lived in the begin-
ning of the Holocene (9,600 – 9,100 years
14C BP), based on nine 14C age results ob-
tained by AMS (Accelerator Mass Spectrom-
etry) measurements. In this work, these re-
sults are compared with others in South
America. Human adaptation, lithic technol-
ogy, Pleistocene fauna extinction and cli -
mate change at the transition between Pleis-
tocene-Holocene are also discussed.
K EY W o RDS Extinction-survival Pleistoce-
ne fauna, Paleoindian, high resolution chro-
nology, lithic technology, Quaraí river.
O trabalho apresenta registros de fauna
do Pleistoceno identificados no sítio arque-
ológico Pay Paso 1, localizado no rio Quaraí.
A investigação permitiu recuperar duas es-
pécies extintas, Equus sp. (cavalo pré-histó-
rico) e Glyptodon sp. (gliptodonte), associa-
das diretamente in situ com artefatos líticos.
Os dados permitem propor a sobrevivência
desses mamíferos extintos até o Holoceno
Inicial (9.600 – 9.100 anos C14 AP) a partir
de 9 datações radiocarbônicas obtidas pela
técnica de AMS (Accelerator Mass Spectro-
metry). Os dados são comparados com os
obtidos em outras regiões da América do
Sul. São apresentadas e discutidas questões
como a adaptação humana, tecnologlogía
lítica, a extinção da fauna do Pleistoceno e
as mudanças climáticas durante o final do
Pleistoceno-Holoceno Inicial.
PALAv RAS-CHAv E Extinção- sobrevivên-
cia fauna do Pleistoceno, Paleoindio, crono-
logía de alta resolução, tecnología lítica, río
Quaraí.
|
REVISTA DE ARQUEOLOGIA |
Volume 23 |
- N.2:20-39 |
- 2010 |
22
Int R o DUCCI ón |
Ant ECEDE nt ES E n EL n o R o ES t E DE |
|
La investigación arqueológica que se |
U RUGUAY |
|
desarrolla en el Norte de Uruguay es un pro - |
Los antecedentes conocidos de sitios ar- |
|
yecto interdisciplinario de largo alcance, |
queológicos tempranos en el Norte de Uru- |
|
iniciado a finales del año 1999. Entre los |
guay son escasos, comparados a escala regio- |
|
principales objetivos se busca integrar |
nal. Las primeras edades tempranas en |
|
datos culturales, arqueológicos, paleoam - |
Uruguay se conocieron a finales de la década |
|
bientales y paleoecológicos en relación a |
de 1980 (MEC, 1989a; 1989b): son las datacio- |
|
la ocupación humana del final del Pleis - |
nes C 14 de 10.420 ± 90 años C 14 AP 1 (Kn 2531) |
|
toceno y el Holoceno temprano. Se ha to - |
(sitio K87), 11.200 ± 500 años C 14 AP (Gif 4412) |
|
mado geográficamente la cuenca del río |
(sitio Y58) y 9.320 ± 170 años C 14 AP (Dik 1224) |
|
Cuareim (o Quaraí) y río Uruguay medio |
(sitio D03). Estas fechas fueron obtenidas en |
|
como objeto de estudio. Los trabajos de |
sitios arqueológicos ubicados en la costa del |
|
campo incluyen prospecciones arqueoló - |
río Uruguay medio en los departamentos de |
|
gicas intensivas donde se describen per - |
Artigas y Salto en el noroeste del Uruguay. Las |
|
files de interés arqueológico (Suárez y |
fechas de los sitios Y58 y D03 no están directa- |
|
Piñeiro, 2002). Adicionalmente, se identi - |
mente asociadas a material lítico o arqueoló- |
|
ficaron nuevos sitios arqueológicos tem - |
gico, sino que fueron tomadas por debajo de |
|
pranos, paleontológicos y de interés pa - |
niveles culturales o arqueológicos. En el caso |
|
leoambiental (Suárez, 2002; Suárez y |
del sitio Y58 por ejemplo, la muestra de car- |
|
López, 2003; Suárez y Gillam, 2008). |
bón utilizada para realizar la datación se obtu- |
|
El Norte de Uruguay presenta registros |
vo de varios carbones dispersos en un nivel de |
|
de fauna del Pleistoceno (Ubilla et al. |
20 cm entre 5,69 y 5,89 metros de profundidad. |
|
2008). Esta fauna formó parte del “Piso |
Además, fue obtenida por lo menos a 0,32 y |
|
Lujanense”, definido en la Pampa (Argen - |
0,36 metros debajo de un conjunto lítico for- |
|
tina), e incluyó un número cercano a 38 |
mado por desechos de talla identificado a 5,33 |
|
géneros de herbívoros mayores a los 100 |
y 5,37 metros (MEC, 1989a:459-460). Para el |
|
kg. de los cuales 20 fueron megaherbívo - |
sitio D03 no se especifica a que profundidad |
|
ros extinguidos entre aproximadamente |
respecto al material arqueológico se recolectó |
|
11.000-8.000 años C 14 AP (Borrero, 2009; |
la muestra; sí se indica que la muestra provie- |
|
Fariña, 1996; Tonni y Pascuali, 2005). |
ne debajo de un nivel con material cultural. |
|
El presente trabajo tiene tres objetivos |
Las edades de los sitios Y58 y D03 deben ser |
|
principales: a) presentar los primeros re - |
utilizadas con precaución y cautela, debido a |
|
gistros de fauna del Pleistoceno recupera- |
como se indicó arriba no están directamente |
|
dos en un componente cultural datado du- |
asociadas a material cultural. El sitio Pay Paso |
|
rante el Holoceno temprano en Uruguay; |
1 fue originalmente investigado entre 1979 a |
|
b) avanzar hacia una cronología de alta |
1989 por A. Austral (1995:213) y presenta una |
|
resolución en sitios tempranos; y c) discu- |
edad de 9.890 años C14 AP (Rt 1445). |
|
tir la supervivencia de fauna del Pleistoce- |
Resumiendo, de los cuatro sitios arqueoló- |
|
no en el Norte de Uruguay en el contexto |
gicos tempranos datados en el Noroeste de |
|
regional y su implicancia en las recons - |
Uruguay, solamente en los sitios K87 (Hilbert, |
|
trucciones paleoclimáticas. |
1991) y Pay Paso 1 (Austral, 1995) las mues- |
Todas las edades presentadas en el texto están en años C14 sin calibrar, a excepción de las edades calibradas en la Tabla 2.
|
Cazadores-Recolectores Tempranos, Supervivencia De Fauna Del Pl |
eistoceno ... |
Rafael Suárez y Guaciara M. Santos |
23
|
tras de carbón utilizadas para realizar las da- |
rium robustum (Miller, 1987:48). |
|||
|
taciones estaban asociadas directamente con |
La asociación entre el material lítico y Glos- |
|||
|
artefactos líticos de origen cultural. Los inves- |
sotherium robustum en RS-I-50 no fue realiza- |
|||
|
tigadores que intervinieron en las excavacio- |
da en una excavación arqueológica, sino que |
|||
|
nes arqueológicas no registraron fauna del |
proviene del perfil de la barranca en un aflora- |
|||
|
Pleistoceno asociada o no, con material lítico |
miento natural, como se observa en la fotografía |
|||
|
en ninguno de los sitios mencionados (K87, |
que presenta Miller (1987:45 Figura 4). Varios |
|||
|
Pay Paso, Y58 y D03). |
autores brasileños vienen discutiendo la asocia- |
|||
|
ción del material lítico con fauna extinguida |
||||
AntECEDEntES En EL SUR DE bRASIL |
para el sitio RS-I-50. Dias (2004:258) argumenta |
|||
(Río URUGUAY Y CUAREIm o QUARAí) |
que la fauna del Pleistoceno (megafauna) pro- |
|||
|
En la margen derecha del río Cuareim (o |
viene de arrastre fluvial y el material lítico es |
|||
|
río Quaraí) en el lado brasileño son clásicos |
producto de “lascados y procesos naturales”, |
|||
|
los trabajos de Miller (1969, 1987), sobre sitios |
por lo que los artefactos serian en realidad |
|||
|
arqueológicos tempranos que se ubican a dis- |
geofactos. Algo similar sucedería con el sitio RS- |
|||
|
tancias mínimas de 8 km (sitio RS-Q-2) y |
Q-2 (Paso de la Cruz 2) sobre el río Quaraí, don- |
|||
|
máximas de 260 km (sitio RS-IJ-68) del área |
de una fecha de 12,690 ± 100 años C14 AP (SI- |
|||
|
y sitios que estamos investigando en Uruguay. |
2351) no estaría asociada a material cultural |
|||
|
Por este motivo, se analizan y discuten los an- |
(Dias, 2004; Dias y Jacobus, 2001; Milder 1995). |
|||
|
tecedentes del río Uruguay medio del lado |
Por lo tanto, hay cierta confusión al inten- |
|||
|
brasileño, porque desde el punto de vista geo- |
tar, con el fechado de un sitio RS-Q-2B donde |
|||
|
gráfico, paleoambiental, paleoclimático, sedi- |
no hay asociación con material cultural, datar |
|||
|
mentario y arqueológico el sector sur del área |
otro sitio RS-Q-2. La ausencia de excavaciones |
|||
|
de investigación de Miller puede ser conside- |
arqueológicas en los sitios, indican problemas |
|||
|
rada la misma región donde nosotros realiza- |
de relaciones contextuales-estratigráficas con- |
|||
|
mos nuestra investigación. |
fiables. La baja cantidad de artefactos y escaso |
|||
|
Miller (1987:47-51) presenta una síntesis |
número de dataciones C14 generan dudas en |
|||
|
con datos interesantes de sus investigaciones |
relación a la existencia de ocupaciones que su- |
|||
|
realizadas a sitios arqueológicos ubicados en |
peren los 12,500 años C14 AP. En este sentido |
|||
|
las márgenes del río Uruguay y algunos de sus |
los 46 artefactos líticos recuperados para los |
|||
|
afluentes - Cuareim, Touro Passo, Ibicuí e Ijuí. |
tres sitios indican un promedio de 15,3 artefac- |
|||
|
Los sitios más tempranos son tres sitios |
tos por sitio; si tenemos en cuenta que existe |
|||
|
a cielo abierto, dos ubicados sobre el río |
una sola datación de C14 representada por la |
|||
|
Uruguay (RS-I-50) y uno sobre el río Cua- |
muestra SI-801 en el sitio RS-I-70, y que el ma- |
|||
|
reim o Quaraí (RS-Q-2). Miller (1987:41, |
terial lítico podría ser producto de procesos |
|||
|
Tabla 1) fechó por C 14 el sitio RS-I- 50 en |
naturales como señala Dias (2004), es muy di- |
|||
|
12,700 ± 220 años C 14 AP (SI-801) y el sitio |
fícil caracterizar estas ocupaciones tempranas |
|||
|
RS-Q-2 en 12,690 ± 100 años C 14 AP (SI- |
con la escasa evidencia presentada por Miller |
|||
|
2351). Según Miller (1987:48) la evidencia |
(1987). Se debería tomar con cautela y precau- |
|||
|
de esta ocupación que supera los 12.000 |
ción la edad de estos sitios, como fue sugerido |
|||
|
años está dada por la presencia de 46 arte- |
por los colegas brasileños (Dias & Jacobus, |
|||
|
factos líticos y 2 restos óseos de fauna del |
2001; Dias, 2004). Esto no significa que no pue- |
|||
|
Pleistoceno con ranuras paralelas, finas y |
dan existir sitios y ocupaciones humanas de ~ |
|||
|
rasas, así como por un cráneo de Glossothe- |
12,700 años C14 AP o que superen esa edad en |
|||
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24
la región. Solamente señalamos que los datos
analizados arriba presentan insuficiencia de
evidencia sólida y decisiva para justificar ocu-
paciones del orden de los 12,700 años C14 AP
en la zona de los ríos Uruguay-Cuareim-Ibicuí.
En la región comprendida entre los ríos
Cuareim por el sur, río Uruguay y río Ijuí al
norte, Miller (1987:41-48) define la “fase Uru-
guai” sobre la base de una serie de 18 datacio-
nes C14 ubicadas entre 11.555 ± 230 años C14
AP (SI-3750) y 8,585 ± 115 años C14 AP (SI-
2636) efectuadas en 11 sitios arqueológicos.
Los artefactos definidos incluyen puntas de
proyectil pedunculadas de variadas formas ta-
lladas bifacialmente y de tamaño pequeño-
mediano, cuchillos bifaciales con retoque a
presión, raspadores, láminas, choppers y nú-
cleos. Miller (1987:54 Figura 13) presenta una
importante variabilidad en el diseño de las
puntas de proyectil
pedunculadas re -
cuperadas en las
excavaciones de
los sitios RS-I-69 y
RS-I-70 para la
transición Pleisto -
ceno-Holoceno.
Miller (1987:57)
señala que cinco
muestras de C14
datan a las puntas
de proyectil pedun-
culadas para el pe-
riodo comprendi -
do entre 11.555 y
9.120 años C14 AP.
Hubiera sido un
avance trascenden -
te para la arqueolo-
gía regional americana, conocer exacta -
mente la secuencia cronológica y cultural
de las puntas de proyectil recuperadas por
Miller en el río Uruguay medio. En este sen-
tido, es importante la investigación que viene
llevando a cabo A. Dias, quien aporta una
nueva visión a partir de estudios sobre tecno-
logía lítica y variabilidad artefactual en con-
textos arqueológicos de la tradición Umbu y
otros contextos tempranos del sur de Brasil
(Dias, 1994, 2006, 2007, Dias y Bueno 2010).
El curso inferior del río Cuareim tiene de-
bido a diferentes procesos ambientales y geo-
morfológicos ocurridos desde el último máxi-
mo glacial, una alta tasa de sedimentación,
que ha generado albardones y barrancas ex-
puestas con perfiles naturales de entre 6 a 8
metros de potencia. Aquí se presentan condi-
ciones óptimas que posibilitan la realización
Figura 1. Mapa de ubicación localidad Pay Paso
de excavaciones arqueológicas, donde recu-
perar evidencia cultural-arqueológica, faunís-
tica y paleoambiental desde por lo menos el
final del Pleistoceno hasta el presente. A partir
del año 2000 se retoman los trabajos de cam-
|
Cazadores-Recolectores Tempranos, Supervivencia De Fauna Del Pl |
eistoceno ... |
Rafael Suárez y Guaciara M. Santos |
25
po y excavaciones arqueológicas en el sitio
Pay Paso 1 (Suárez, 2003a), ubicado a 15 km
de la desembocadura del río Cuareim.
La investigación de campo se centró en la
localidad Pay Paso, donde se descubrieron un
total de 9 sitios de interés arqueológico, pa-
zaron zarandas con mallas de 1, 0.5 y 0.25
cm para los sedimentos arenosos y zaran-
das de agua con mallas de 0.25 cm para los
sedimentos areno-limosos.
Los resultados obtenidos indican una in-
teresante variabilidad cultural, con tres
componentes ar -
queológicos para la
transición Pleisto -
ceno Holoceno, de-
finidos a partir de
observaciones y
evidencia cultural-
arqueológica, cro -
nológica y estrati-
gráfica (Suárez,
2011). La base cro-
nológica para defi-
nir los tres compo-
nentes culturales
se realizó a partir
de una serie exten-
sa de 32 dataciones
C14, 28 realizadas
por el método AMS de alta resolución, va-
rias de las cuales fueron replicadas para te-
ner certeza de su edad. Las fechas obtenidas
para cada uno de estos componentes, indi -
can edades sin calibrar entre 10.930-10.500
años C14 AP (unidad estratigráfica 2a),
10.200-10.100 años C14 AP (unidad estrati-
gráfica 2c) y 9.600-8.600 años C14 AP (uni-
dad estratigráfica 2d)(Suárez, 2011). En este
artículo se presentan sintéticamente los da-
tos obtenidos para uno de los componentes
culturales, el más reciente datado entre
9.600-8.600 años C14 AP y que corresponde
al Holoceno Temprano.
Estratigráficamente Pay Paso 1 presenta
una secuencia sedimentaria que se apoya so-
bre la Formación Arapey (Basalto) (Suárez,
2011). La porción basal de la secuencia está
formada por un conglomerado (U1). Sobre
éste se apoya una sucesión de estratos ondu-
Figura 2. Sitio Pay Paso 1, vista general del perfil o pared
Oeste, excavación 1.
leontológico y paleoecológico. El sitio Pay
Paso 1 (30°16´ 08.29´´S - 56°27´38.36´´O) se
ubica en la margen uruguaya del río Cuareim
(Quaraí) frontera entre Artigas (Uruguay) y
Rio Grande do Sul (Brasil)(Figura 1).
Los trabajos de excavación arqueológica
se focalizan en el sitio Paleoamericano mul-
ticomponente Pay Paso 1, donde en diferen-
tes campañas realizadas se excavó una su-
perficie de 114 m2 (Figura 2). La excavación
se realizó por niveles naturales, realizando
el destape de los estratos sedimentarios in-
versamente como fueron depositados. El
material arqueológico se dejó in situ en pe-
destales-testigos, hasta que fue levantado en
distintos conjuntos contextuales-estratigrá -
ficos-arqueológicos. El carbón se recuperó
haciendo referencia al sector y la unidad
estratigráfica donde fue recuperado, se eti-
quetó y guardó en papel aluminio. Se utili-
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2 s/i : sin identificar. Otras especies Leporinus sp. (boga) y Rhea americana (Ñandú) se recuperaron en la U2 (componente cultural 2).
3 Las fechas UCIAMS 21646 y UCIAMS 21647, así como las fechas UCIAMS 21641 y UCIAMS 21642 son respectivamente 2 replicaciones de dos muestras de carbón.
|
Cazadores-Recolectores Tempranos, Supervivencia De Fauna Del Pl |
eistoceno ... |
Rafael Suárez y Guaciara M. Santos |
27
|
Número |
Fracción |
Edad |
años |
Edad años |
δ 13 C |
||||||||
|
Laboratorio a |
Moderna |
C 14 AP b |
Calendario AP c |
0 |
/00 |
||||||||
|
UCIAMS 21641 d |
0,3032 |
|
10.960 |
a >11.000 g |
-23,9 |
||||||||
|
10.850 |
a 10.860 |
||||||||||||
|
10.720 |
a 10.795 |
||||||||||||
|
UCIAMS 21642 d |
0,3045 |
|
10.980 |
a 10.990 |
-32,6 |
||||||||
|
10.695 |
a 10.790 |
||||||||||||
|
UCIAMS 21647 d |
0,3046 |
|
10.690 |
a 10.780 |
-22,4 |
||||||||
|
UCIAMS 21646 d |
0,3047 |
|
10.690 |
a 10770 |
-27,0 |
||||||||
|
UCIAMS 21635 d |
0,3047 |
|
10.690 |
a 10770 |
-24,3 |
||||||||
|
UCIAMS 21640 d |
0,3055 |
|
10.670 |
a 10.750 |
-27,3 |
||||||||
|
UCIAMS 21638 d |
0,3054 |
|
10.670 |
a 10.750 |
-23,6 |
||||||||
|
Uru-246 e |
0,318 |
|
10.200 |
a 10.680 |
-21 |
||||||||
|
Beta-156973 d |
Sin dato |
|
40 |
10.200 |
a 10.240 |
-26,2 |
|||||||
|
Uru-248 e,f |
0,347 |
± 150 |
|
-21 |
|||||||||
|
9.300 |
a 9.360 |
||||||||||||
|
Tabla 2. Edades C 14 obtenidas para el componente del Holoceno temprano del sitio Pay Paso 1, excavación 1 |
|||||||||||||
|
son hasta el presente la única colección co- |
entre humanos y Equus y Glyptodon entre |
||||||||||||
|
nocida de fauna recuperada en un sitio ar- |
9,600 y 9,100 años C14 AP. Hay que señalar |
||||||||||||
|
queológico del Pleistoceno final-Holoceno |
que el carbón utilizado para datar la muestra |
||||||||||||
|
temprano en Uruguay. Dos especies corres- |
Uru-248 (Tabla 2), no se encontraba directa- |
||||||||||||
|
ponden a mamíferos extinguidos del Pleisto- |
mente asociado con la fauna extinta del Pleis- |
||||||||||||
|
ceno Glyptodon y Equus, tres corresponden a |
toceno, aunque sí con material cultural, por |
||||||||||||
|
registros fósiles de fauna actual, Leporinus sp. |
eso se tiene precaución de no extender hasta |
||||||||||||
|
(boga) (Suárez y Rinderknecht, 2007), Rhea |
ca. 8,600 años C14 AP la supervivencia de |
||||||||||||
|
americana (ñandú) y Myocastor (nutria). Los |
fauna del Pleistoceno. Obsérvese en la Figura |
||||||||||||
|
huesos recuperados no presentan marcas de |
3 la proximidad de un fragmento de plaqueta |
||||||||||||
|
corte realizada por artefactos líticos. |
de gliptodonte, un fragmento de diente de |
||||||||||||
|
El contexto arqueológico donde se recu- |
Equus y el carbón utilizado para realizar las |
||||||||||||
|
peraron los fragmentos óseos de gliptodonte |
dataciones UCIAMS 21646 y UCIAMS 21647 |
||||||||||||
|
y caballo americano extinguido fue definido |
(Tabla 2). Se intentó hacer dataciones direc- |
||||||||||||
|
como componente 3, cronológicamente ubi- |
tas sobre el material óseo recuperado en la |
||||||||||||
|
cado durante el Holoceno temprano. Las pie- |
excavación 1 de Pay Paso 1, sin embargo no |
||||||||||||
|
zas óseas (NISP = 22) de este componente |
se pudo extraer colágeno del hueso. |
||||||||||||
|
(tabla 1) se ubicaban muy próximas entre sí |
Las partes esqueletarias de megafauna |
||||||||||||
|
(algunas a menos de 10 cm) y están asocia- |
del Pleistoceno presentes corresponden a |
||||||||||||
|
das con artefactos líticos destacándose pun- |
una plaqueta de Glyptodon sp. fracturada en |
||||||||||||
|
tas proyectil, raspadores, raederas, láminas y |
dos partes que ensamblan y 8 osteodermos |
||||||||||||
|
así como cientos de desechos de talla produc- |
de Glyptodon sp. (Figura 4). La plaqueta y os- |
||||||||||||
|
to de la manufactura y reavivamiento de ar- |
teodermos indican que los huesos pertene- |
||||||||||||
|
tefactos ( Figura 3). |
cieron a individuo/s infantiles y/o juveniles |
||||||||||||
|
Los resultados de las 8 muestras de car- |
(Rinderknecht, comunicación personal |
||||||||||||
|
bón y su duplicación 3 sugieren la asociación |
2008). |
||||||||||||
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a Identificación del laboratorio que proceso la muestra: U.CIAMS# de KCCAMS/UCI facility, Beta# de Beta Analytic y Uru# del Laboratorio C14 de Uruguay (Facultad de Química). b Edad radiocarbónica y ±1δ error (Stuiver and Polach, 1977).
c Curva y programa de calibración de McCormac et al. 2004 (SHCal04.14C SH terrestrial dataset) y programa CALIB6.0. (1δ range).
d Método de datación AMS
e Método de datación estándar f Uru-248 no está asociada a con fauna extinguida del Pleistoceno. g La curva SHCal04 termina en 11ka cal AP C 14, por consiguiente el límite máximo de edad que se muestra debe considerarse como edad mínima.
|
Cazadores-Recolectores Tempranos, Supervivencia De Fauna Del Pl |
eistoceno ... |
Rafael Suárez y Guaciara M. Santos |
plata espeso (para quitar el azufre así como el
cloro). Después, criogénicamente el CO2 pu-
rificado se transfirió individualmente a los
reactores y fue reducido a grafito, usando el
hidrógeno encima del polvo férrico pre-ca-
lentado a 550°C (Santos et al. 2004). Los fila-
mentos de grafito se apretaron entonces en
los poseedores designados, y se cargaron en
el ion-fuente junto al AMS (NEC 0.5MV
1.5SDH-2) para la medida. Los blancos indi-
viduales se contaban a eventos de aproxima-
damente 500,000 C 14 cada uno. Los errores
se calculaban en base estadística y se espar-
cen en medidas múltiples para cada muestra,
junto con las incertidumbres propagadas de
la normalización, la substracción de fondo
(basado en las medidas de C14 de material
libre), y las correcciones del fraccionamiento
isotópicas, siguiendo el análisis instrumental
descrito por Santos (et al. 2007b).
Durante el traslado de CO2 a los reactores
de grafitización se extrajo un alícuota peque-
ña de ~30cc y se colocó en 13mm redomas de
gas para obtener las determinaciones de la
firma isotópicas. Se midieron los valores δδ 13 C
mostrados en Tabla 2 a una precisión de <
0.1‰ relativo a los estándares de VPDB
( Vienna-PeeDee Belemnite), usando Thermo
Finnigan Delta Plus Isotope Ratio Mass Spec-
trometer (IRMS) con la entrada de Banco de
Gas.
A pesar de los problemas que tienen la ca-
libración en este hemisferio, en la tabla 2 se
presenta la calibración de las edades C14 a
edades calendario, usando el programa CA-
LIB6.0 radiocarbon calibración terrestre
para el hemisferio sur que llega hasta el año
11,000 cal. AP (McCormac et al. 2004). La ca-
libración es un intento de aproximarnos a las
edades calendario, porque aunque nuestros
resultados C14 son muy precisos (± 20 años
para la mayoría de las muestras), las curvas
de calibración pueden variar significativa-
mente de una línea recta a una meseta y vi-
29
cie-versa. Estas fluctuaciones de la curva a
veces pueden hacer la media de las fechas
calibradas inciertas, pues se observan va-
riantes a veces muy grandes como 400 años
para una sola edad C14 sin calibrar. Además,
la dendrocronología para el hemisferio sur
cubre el período de 0 a 1000 cal BP. Por con-
siguiente, la porción restante de esta curva de
la calibración hasta 11,000 cal. AP se realiza
con un modelo aleatorio (Buck y Blackwell
2004), usando los mismos parámetros terres-
tres de NH IntCal04 (hemisferio norte), y una
corrección para responder el desplazamiento
debido al formulario estructural de la cali-
bración de radiocarbono de cada hemisferio
(McCormac, et al. 2004). Hay que notar que
para las muestras UCIAMS21641,
UCIAMS21642 y Uru-248 las edades C14
convencionales se cortaron en rangos múlti-
ples en la curva de calibración SHCal04 debi-
do a una fluctuación pequeña en esta región
para estas edades. Del mismo modo, aunque
la precisión de la muestra Beta-156973 tiene
una margen de error mayor (±40) que las
muestras UCIAMS # unos (±20), esta edad
radiocarbónica intercepta una sección lineal
de la curva de calibración, lo que produce un
rango de edad calibrado muy estrecho. Por
consiguiente, es más adecuado para nuestra
discusión referirnos a los resultados como
C14 sin calibrar, en lugar de las edades C14
calibradas AP, hasta que se extienda y esté
disponible una dendrocronología más afina-
da para el hemisferio sur.
El conjunto artefactual lítico recuperado
en las excavaciones del sitio Pay Paso 1 inclu-
ye 124 artefactos formatizados y 1390 dese-
chos de talla para los tres componentes cul-
turales. Aquí vamos a centrarnos en el
conjunto artefactual del componente 3, se
haría demasiado extenso describir todo el
|
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|
Unidad estratigráfica |
Materia |
Forma |
Canto |
||||||
|
Sector/es |
Componente cultual |
Prima |
N lascas |
Bifaz |
Rodado |
||||
|
A0,A1, B1,B0 |
|||||||||
|
C0,D0,z3 |
U2d-C3 |
Are. silicif. |
24 |
X |
|||||
|
B6-C6 |
U2d-C3 |
Are. silicif. |
64 |
X |
|||||
|
D1-D0 |
U2d-C3 |
Are. silicif. |
13 |
X |
|||||
|
C1 |
U2d-C3 |
Are. silicif. |
5 |
X |
|||||
|
D0 |
U2d-C3 |
Jaspe |
35 |
X |
|||||
|
z2-z3 |
U2d-C3 |
Are. silicif. |
8 |
X |
|||||
|
A1 |
U2d-C3 |
Are. silicif. |
3 |
X |
|||||
|
A1 |
U2d-C3 |
Are. silicif. |
6 |
X |
|||||
|
C1 |
U2d-C3 |
Are. silicif. |
3 |
X |
|||||
|
B6-B7 |
U2d-C3 |
Are. silicif. |
3 |
X |
|||||
|
B6-B7 |
U2d-C3 |
Are. silicif. |
4 |
X |
|||||
|
C0 |
U2d-C3 |
Are. silicif. |
2 |
X |
|||||
|
D1 |
U2d-C3 |
Are. silicif. |
2 |
X |
|||||
|
Tabla 3. Conjuntos de materias primas que corresponden a eventos de reducción de un mismo núcleo o preforma, sitio Pay Paso 1, excavación 1 2 |
|||||||||
|
conjunto, además no es este el objetivo del |
forma bifacial o punta de proyectil. Los con- |
||||||||
|
trabajo. A continuación se describen por un |
juntos se ubican en sectores acotados y |
||||||||
|
lado los desechos de talla y por otro los arte- |
reducidos dentro de la excavación con diá- |
||||||||
|
factos formatizados de forma muy sintética. |
metros de entre 0,40 y 1,5 metros. Todos ellos |
||||||||
|
Una descripción profunda y detallada de la |
fueron reconocidos durante la excavación, a |
||||||||
|
tecnología lítica del sitio se realiza en otra pu- |
excepción de un conjunto de desechos de ta- |
||||||||
|
blicación (Suárez 2011). |
lla, recuperados en 7 sectores diferentes, par- |
||||||||
|
El total de desechos de talla del compo- |
cialmente reconocidos en el campo y otros en |
||||||||
|
nente 3 incluye 917 piezas. La materia prima |
el laboratorio. Durante la excavación los dife- |
||||||||
|
más utilizada en los desechos de talla es la |
rentes conjuntos identificados presentaban |
||||||||
|
arenisca silicificada con el 88%, seguida por |
-no sólo-, idénticas tonalidades en cuanto al |
||||||||
|
ágata-calcedonia con el 11,19%, por último el |
color, textura, tamaño de grano, inclusiones |
||||||||
|
grupo jaspe-ópalo alcanza el 0,55% del total |
y estructura, sino que además formaban |
||||||||
|
de los desechos de talla. Es interesante seña- |
agrupamientos de lascas, en sectores conti- |
||||||||
|
lar que la excavación 1 permitió identificar |
guos de la excavación. La Tabla 3 presenta los |
||||||||
|
una serie de conjuntos de lascas y desechos |
conjuntos de desechos de talla de la misma |
||||||||
|
de talla pertenecientes a eventos de reduc- |
materia prima y mismo evento de reducción. |
||||||||
|
ción de un mismo núcleo y/o forma base pre- |
Los conjuntos del componente 3 contie- |
||||||||
2 Are. silicif. = Arenisca silicificada.
|
Cazadores-Recolectores Tempranos, Supervivencia De Fauna Del Pl |
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31
Figura 5. Conjunto de desechos de talla de un mismo evento de reducción de una preforma bifacial y/o punta de proyectil recu- perado en el componente 3, sitio Pay Paso 1, excavación 1
nen entre 2 y 64 desechos de talla (lascas,
fragmentos de lascas, esquirlas, etc.). El con-
junto de piezas ilustrado en la Figura 5 co-
rresponde con 64 desechos de talla. Este con-
junto es el resultado de la etapa final de
adelgazamiento y/o reducción de un/os
biface/s y/o punta/s de proyectil en el sitio.
Algunas lascas presentan ángulos obtusos de
hasta 160° y plataformas intensivamente
abradidas. Este conjunto en particular está
acotado estratigráfica y espacialmente a me-
nos de dos metros cuadrados, o sea dos sec-
tores contiguos –B6 y C6- de 1 x 1 cada uno,
en la planta de excavación. Estos conjuntos
de desechos de talla indican que el material
arqueológico fue sepultado por sedimento en
un evento relativamente rápido y de muy
baja energía, donde el desplazamiento o
arrastre del material arqueológico en el inte-
rior del sitio debió ser mínimo, a pesar de
estar en un ambiente fluvial. Obsérvese el
diminuto tamaño de las esquilas recuperadas
–parte superior derecha de la foto- en la Figu-
ra 5.
El conjunto de artefactos formales (sensu
Andrefsky, 1994) se presenta en de-
talle en la tabla 4.
Se recuperaron 5 bifaces fractu-
rados en diferentes etapas de manu-
factura. El bifaz ilustrado en la Figu-
ra 6B es un bifaz con dos fracturas,
una presenta retoques escamosos
irregulares y retalla que indican que
luego de la fractura, la pieza fue uti-
lizada como un filo activo, el bisel
que forma la superficie de la fractura
con la retallada tiene 68°. El borde
original de la arista del bifaz tiene
abrasión y pulido. La pieza está com-
pletamente adelgazada en ambas ca-
ras con negativos de entre 22 y 36
mm de largo. El bifaz fue manufactu-
rado en una variante de arenisca si-
licificada de grano muy fino de color
gris y está en una etapa final de adelgaza-
miento bifacial. El bifaz de la Figura 6A pre-
|
Artefacto |
C3 (n) |
|
Bifaz |
5 |
|
Punta proyectil |
2 |
|
Raspador |
13 |
|
Raedera |
2 |
|
Cuchillo de filo retocado |
2 |
|
Cuchillo de filo natural |
1 |
|
Láminas de arista simple y rastros complement. |
2 |
|
Filo natural con rastro complementario |
3 |
|
Artefacto con formatización sumaria |
1 |
|
Núcleo |
1 |
|
Chopper |
3 |
Tabla 4. Artefactos formatizados recuperados en el componente 3, sitio Pay Paso 1
|
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Volume 23 |
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Figura 6. Bifaces del componente 3 recuperados en la excavación 1, sitio Pay Paso 1. A) Base de bifaz fracturado en etapa intermedia de manufactura, obsérvese espesor de la pieza (14,31mm), arenisca silicificada de grano medio-fino. B) Bifaz con doble fracturada, estadio final de adelgazamien- to, arenisca silicificada de grano muy fino
senta una fractura “perversa” que se extiende
transversalmente a lo que sería el eje morfo-
lógico de la pieza, es un bifaz en etapa de
adelgazamiento intermedia.
El componente 3 presenta puntas de pro-
yectil con base del pedúnculo cóncava escota-
da (Figura 7 y 8). Las principales característi-
cas tecnológicas y morfológicas se describen
a continuación. La punta ilustrada en la Figu-
ra 7A y Figura 8A presenta adelgazamiento
bifacial, limbo triangular alargado con lados
levemente convexos, y pedúnculo diferencia-
do con hombros redondeados. La base del
pedúnculo es cóncava profunda (escotada),
los lados del pedúnculo son cóncavos expan-
didos hacia la base y presentan abrasión en
ambos bordes del pedúnculo. La base del pe-
dúnculo ha sido adelgazada en ambas caras
con negativos triangulares (ver Figura 8A),
uno de estos tiene 11,2 x 8,6 mm de largo y
ancho máximo respectivamente. Los lados
del limbo son levemente convexos, presenta
hombro redondeados. La sección transversal
en la punta del limbo es bi-triangular (helicoi-
dal) y en el centro del limbo es biconvexa si-
Figura 7. Puntas de proyectil recuperadas en el componente 3, excavación 1, sitio Pay Paso 1. A) Arenisca silicificada de grano muy fino. B) Madera silicificada o xilópalo, esta punta presenta daño de impacto en el ápice (punta), fracturas en ambos lados de la base del pedúnculo y en el limbo
métrica. El retoque en ambas caras es parejo,
con negativos paralelos cortos irregulares y
laminares. La punta fue manufacturada en
una variante de arenisca silicificada de grano
muy fino de color gris.
La punta ilustrada en la Figura 7B y Figura
8B presenta adelgazamiento bifacial, limbo
Figura 8. Dibujo de puntas de proyectil recuperadas en el componente 3, la línea de puntos en los lados del pedúnculo indica abrasión. Obsérvese las secciones del pedúnculo, que en la pieza A que ha sido adelgazada en ambas caras. Ambas puntas provenientes de la excavación 1, sitio Pay Paso 1
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|
triangular aunque el ápice o punta está frac- |
Las puntas del componente 3 comparten |
||||
|
turado. La base del pedúnculo en ambos la- |
características tecnológicas, morfológicas y |
||||
|
dos presenta fracturas, sin embargo permiten |
métricas similares. La forma y tamaño del pe- |
||||
|
distinguir que la base de la punta es cóncava |
dúnculo son las más notorias, los lados con- |
||||
|
profunda (escotada). Los lados del pedúnculo |
vexos expandidos hacia la base, la base cón- |
||||
|
son convexos, la base tiene en un lado un ne- |
cava escotada, y el adelgazamiento en la base |
||||
|
gativo de adelgazamiento (pseudo-acanala- |
del pedúnculo son sus principales caracterís- |
||||
|
dura) de 10 x 7 mm. Presenta aleta y hombro |
ticas. Hay que señalar que uno de los ejempla- |
||||
|
anguloso. Una de las caras muestra dos nega- |
res (Figura 7B y Figura 8B) presenta una serie |
||||
|
tivos de retalla paralelos extendidos que se |
de fracturas que se indicaron más arriba, am- |
||||
|
extienden diagonalmente de lado a lado de la |
bas puntas también tienen algunas diferen- |
||||
|
cara. La otra cara tiene un negativo ancho y |
cias tanto en el pedúnculo como en el limbo. |
||||
|
corto de 9,7 mm de largo x 17,70 de ancho que |
Otras puntas de similares características téc- |
||||
|
finaliza abruptamente. El ápice como se seña- |
nicas y morfológicas fueron reconocidas en |
||||
|
ló tiene una fractura de 8,05 mm de ancho |
las colecciones superficiales de sitios tempra- |
||||
|
que presenta microretoques adyacentes y ras- |
nos, tanto en el río Uruguay como en el río |
||||
|
tros complementarios, el ángulo del bisel es |
Negro medio (Suárez y Gillam, 2008), y sur |
||||
|
de 52° en la zona de la fractura-microretoque. |
del Brasil (Mentz Ribeiro, et al. 1995), así |
||||
|
Ambos lados del pedúnculo presentan abra- |
como el nivel 6 del sitio K87 (MEC, 1989b). |
||||
|
sión. La punta fue manufacturada en una va- |
Debido a las características tecnológicas- |
||||
|
riante no local de madera silicificada rojiza |
morfológicas y a su distribución regional se |
||||
|
(xilópalo) con manchas rosadas y blanqueci- |
define a este diseño como punta Pay Paso |
||||
|
nas. Esta punta sufrió diversos daños, uno en |
(Suárez 2003a), diseño que se expone en la |
||||
|
la punta del limbo, otro en el borde del limbo |
Figura 9 en diferentes etapas de vida útil. |
||||
|
y en base del pedúnculo, posiblemente fue re- |
Otros artefactos formales recuperados son |
||||
|
ciclada. |
láminas de arista simple con rastros comple- |
||||
|
mentarios, las piezas ilustradas en la Figura |
|||||
Figura 9. Diseño de puntas Pay Paso en diferentes |
10 comparten características técnicas en la |
||||
|
forma de preparar la plataforma y porcentaje |
|||||
|
de cortex en la cara dorsal que podrían indi- |
|||||
|
car la utilización de una tecnología orientada |
|||||
|
a la producción de láminas en este compo- |
|||||
|
nente. Una de las raederas corresponde con |
|||||
|
una raedera parcialmente denticulada (Figu- |
|||||
|
ra 11), la pieza presenta adelgazamiento bifa- |
|||||
|
etapas de vida útil. A) Proveniente del componente |
cial (etapa inicial-intermedia) de reducción. El filo fue formatizado por medio de una serie |
||||
|
3, recuperada en estratigrafía y datada entre 9.500- 8.500 años C14 AP, sitio Pay Paso 1. B) Proveniente |
de lascados paralelos cortos en la zona denti- |
||||
|
de superficie sitio Pay Paso 7. C) Proveniente de |
culada del borde. Otra serie de negativos irre- |
||||
|
superficie sitio Pay Paso 1. Obsérvese características tecnológicas similares: base escotada, lados del |
gulares sin patrón diferenciado se observan |
||||
|
pedúnculo expandido hacia la base, adelgazamiento de la base del pedúnculo por retoques triangulares |
en una extensión de 95 mm, aquí hay dos sec- |
||||
|
(A y C); y por retoques paralelos irregulares (B). |
tores de 10,23 mm y 24,51 mm del filo que |
||||
|
Los tres ejemplares manufacturados en arenisca silicificada de grano muy fino |
presentan un intenso pulido de la arista. |
||||
|
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||
34
Figura 10. Láminas recuperadas en el componente 3, excavación 1 sitio Pay Paso 1. A) Lámina de arista simple en arenisca silicificada. B) Lámina de arista simple en ágata traslúcida. Obsérvese que ambos ejemplares tienen preparada la plataforma en la cara dorsal con un negativo en forma de V invertido y presentan sobre la dorsal similar porcentaje de cortex
El sitio se ubica estratégicamente a 180
metros de un paso del río Cuareim, donde hay
extensos lechos de cantos rodados que sirvie-
ron para manufacturar artefactos. Adicional-
mente este es el primer gran desnivel desde la
desembocadura del río que presenta el cauce
del río Cuareim, lo que provoca que sea “un
paso” natural de fauna y humanos, que fácil-
mente pueden cruzar de una margen a otra
del río, que aquí tiene 142 metros de ancho.
Pay Paso 1 es interpretado como un sitio
residencial-logístico a cielo abierto re-ocupa-
do en diferentes periodos de tiempo, donde se
realizaron actividades múltiples. Las princi-
pales actividades incluyeron aprovisiona-
miento de materias primas y talla de artefac-
tos. Tecnológicamente la reducción de la
mayoría de los artefactos formatizados se ini-
ció a partir de cantos rodados (seixos). Los
desechos de talla señalan manufactura, re-
ducción y adelgazamiento de artefactos unifa-
ciales y bifaciales en distintas etapas de pro-
ducción. Los conjuntos de desechos de talla
que representan eventos únicos de reducción-
adelgazamiento de bifaces y/o puntas de pro-
yectil (ver Figura 5), aportan interesantes da-
tos en relación a la manufactura y tecnología
de producción de artefactos bifaciales en el
sitio. Las puntas de proyectil recuperadas pre-
sentan daños de impacto, evidencias de haber
sido altamente reavivadas, y fracturas en di-
versas partes tales como el limbo y el pedún-
culo. Las puntas de proyectil dañadas y frac-
turadas presentes en el sitio, sumados a los
eventos de reducción pertenecientes a una
misma pieza bifacial, señalan que otra activi-
dad que se realizó en el sitio fue la manufac-
tura de puntas de proyectil, con el objetivo
quizás de reemplazar armamento dañado,
que funcionalmente no era operativo su uso
en actividades de caza. En el sitio además se
descartaron puntas de proyectiles. La presen-
cia de láminas con rastros complementerios,
así como de cuchillos de filo retocados, cuchi-
llos con dorso formatizado, y cuchillos de filo
natural; artefactos estos relacionados con ac-
tividades de corte (Aschero, 1975, 1983), pue-
den indicar que en el sitio se pudo haber pro-
cesado o trozado presas producto de las
actividades de caza.
La investigación que se viene realizando
permitió definir un diseño de punta que se
denomina Pay Paso (Suárez 2003a) que circu-
ló en la región durante el Holoceno temprano.
Este diseño se caracteriza por la forma del
pedúnculo con lados cóncavos expandidos
hacia la base, la base del pedúnculo es cónca-
|
Cazadores-Recolectores Tempranos, Supervivencia De Fauna Del Pl |
eistoceno ... |
Rafael Suárez y Guaciara M. Santos |
36
|
habitaban esas regiones (Borrero, 2009; Mio- |
ción estratigráfica y contextual con artefactos |
|
|
tti y Salemme 1999). Si bien, se recuperaron |
líticos de origen cultural (Bird, 1938:270). |
|
|
en los conjuntos óseos de sitios tempranos |
En otras zonas como el centro Este de Bra- |
|
|
pampeanos y patagónicos evidencia que in- |
sil, en la región de Lagoa Santa en sitios pa- |
|
|
dica depredación humana, fundamental- |
leontológicos sin evidencia de ocupación hu- |
|
|
mente de Glyptodon sp., Equus sp. y Mega- |
mana se han obtenido dos edades de 9,990 y |
|
|
terium sp. (Alberdi et al. 2001; Messineo y |
9260 años C14 AP para perezosos gigantes |
|
|
Politis 2009; Miotti y Salemme, 1999; Politis |
(Hubble et al. 2007:1643, tabla 1). |
|
|
y Gutiérrez, 1998; Politis et al. 1995; Politis y |
Los datos y evidencias obtenidas en el No- |
|
|
Messineo, 2008), la caza no se focalizó ni se |
roeste de Uruguay no están aislados, son aná- |
|
|
especializó exclusivamente en alguna de las |
logos al registro de Pampa (Argentina), donde |
|
|
citadas especies. |
la supervivencia de fauna del Pleistoceno se |
|
|
En el sitio arqueológico La Moderna (Pam- |
extendió hasta el Holoceno temprano. Los |
|
|
pa) hay datos que sugieren la utilización hu- |
huesos de fauna extinguida recuperados en |
|
|
mana de gliptodontes entre 8.300 y 7.500 años |
Pay Paso 1 no poseen trazas o marcas de corte |
|
|
C14 AP. Por otra parte en el sitio Arroyo Seco 2 |
provocadas por artefactos líticos, que indi- |
|
|
(Pampa) se recuperó evidencia que señala la |
quen procesamiento de presas de caza. La |
|
|
presencia de Equus Amerhippus neogeus y Me- |
evidencia actual es insuficiente para sugerir |
|
|
gaterium americanum hacia 8.900-7.300 años |
que los cazadores-recolectores de Pay Paso 1 |
|
|
C14 AP, aunque recientemente discutida (ver |
hubieran cazado caballos extinguidos y/o |
|
|
Politis et al. 2003:45-46). Por otra parte, recien- |
gliptodontes. Lo que sí se puede afirmar y está |
|
|
temente se presentan datos de un nuevo sitio |
claro, es la coexistencia simultánea entre hu- |
|
|
Campo Laborde donde registros de Megate- |
manos con fauna del Pleistoceno durante el |
|
|
rios datados por AMS fueron fechados entre |
Holoceno temprano hace 9.600-9.100 años |
|
|
ca. 9,700 y 7.000 años AP (Messineo y Politis |
C14 AP. |
|
|
2009; Politis y Messineo, 2008). Resumiendo, |
La fauna del Pleistoceno recuperada en el |
|
|
las dos especies recuperadas en Pay Paso 1 |
sitio Pay Paso 1 genera una importante impli- |
|
|
Equus sp. y Glyptodon sp., se registraron pre- |
cancia en los modelos de reconstrucción pa- |
|
|
viamente durante el Holoceno temprano en |
leoclimática realizados para el periodo en |
|
|
sitios arqueológicos de Pampa hasta 7.000- |
cuestión, tanto en el Sur de Brasil (Behling et |
|
|
8.000 C14 AP (Miotti y Saleme, 1999; Politis et |
al. 2005; Behling y Pillar, 2008; Bombin, 1975, |
|
|
al. 1995; Politis y Gutiérrez, 1998:130). Otro |
1976) como en el Norte del Uruguay (Antón, |
|
|
sitio arqueológico temprano importante en el |
1975; Ubilla, 1996; Ubilla y Perea, 1999; Ubilla |
|
|
cono sur es Piedra Museo, donde Hippidion |
et al. 2004). Esto permite a su vez, plantear |
|
|
saldiasi (otra especie de caballo prehistórico |
diferentes aspectos sobre la extinción, los |
|
|
americano) fue utilizado como recurso ali- |
cambios climáticos y la adaptación humana |
|
|
menticio por los grupos humanos que ocupa- |
ocurrida durante la transición Pleistoceno- |
|
|
ron la Mesta Central Patagónica durante la |
Holoceno que se detallan a continuación. |
|
|
transición Pleistoceno Holoceno (Miotti y Sa- |
Primero, la extinción de mamíferos del |
|
|
lemme, 2005:211). Por último debemos recor- |
Pleistoceno fue un proceso lento y gradual, |
|
|
dar, que en el sur de Patagonia (Chile) la cue- |
donde algunos representantes se extinguen |
|
|
va Fell fue el primer sitio arqueológico de |
inicialmente al final del Pleistoceno en tanto |
|
|
América del Sur, donde se recuperaron hue- |
otros sobreviven hasta el Holoceno temprano |
|
|
sos de Equus sp. y fauna fósil actual en asocia- |
como es el caso de Equus sp. y Glyptodon sp. |
|
|
Cazadores-Recolectores Tempranos, Supervivencia De Fauna Del Pl eistoceno ... |
Rafael Suárez y Guaciara M. Santos |
|
Segundo, caballos prehistóricos america-
nos (Equus sp.) y gliptodontes (Glyptodon sp.)
sobreviven en determinados nichos ecológi-
cos en el Noroeste de Uruguay y quizás el sur
de Brasil hasta el Holoceno temprano. Uno de
estos paleoambientes donde éstos herbívoros
del Pleistoceno sobreviven corresponde a la
desembocadura del río Cuareim o Quaraí.
Tercero y último, la adaptación humana
de los grupos tempranos en la región del río
Cuareim o Quaraí y río Uruguay medio, debió
incluir la explotación generalizada de recur-
sos, donde la estrategia económica se orientó
hacia fauna actual como mamíferos de me-
diano porte (nutria), peces (boga) y aves (ñan-
dú), complementado quizás con caza esporá-
dica de algunos ejemplares de mamíferos de
gran porte del Pleistoceno -caballos extingui-
dos y gliptodontes-, similar a lo registrado
previamente en Pampa y Patagonia.
El componente cultural datado durante el
Holoceno temprano en Pay Paso 1, indica la
coexistencia de dos especies de fauna del
Pleistoceno con humanos en el curso inferior
del río Cuareim entre ca. 9.600-9.100 años
C14 AP. Estos registros son los primeros de su
clase realizados en Uruguay, necesitan ser
confirmados con nuevos datos provenientes
de otros sitios arqueológicos tempranos para
evaluar el rol que jugaron tanto caballos
como gliptodontes en la economía de los po-
bladores tempranos de Uruguay y Sur del
Brasil hacia el final del Pleistoceno e inicio del
Holoceno. De todas formas la utilización de
otros recursos como peces (boga), mamíferos
de pequeño porte (nutria) y huevos de ñandú
en el registro de Pay Paso 1, indicarían que las
poblaciones tempranas se orientaban hacia
una economía generalizada donde se utiliza-
ron variados recursos y no se dependió eco-
nómicamente de los grandes herbívoros del
Pleistoceno, como generalmente se había pro-
puesto para este período. Algo similar ocurre
en el sitio Garivaldino hacia el año 9,400 AP
37
donde el conjunto faunístico indicaría una es-
trategia generalizada de utilización de los re-
cursos hacia el inicio del Holoceno (Rosa,
2009). Los datos de Pay Paso 1 deben ser am-
pliados con nuevas muestras zooarqueológi-
cas para confirmar o descartar la idea de una
economía generalizada de recursos como se
propone aquí, para los grupos tempranos de
la frontera Uruguay-Brasil del río Cuareim
(Quaraí).
La evidencia presentada de Pay Paso 1 se
integra a la previamente conocida de la re-
gión pampeana, que señala la supervivencia
de fauna del Pleistoceno hasta el Holoceno
temprano. Esto deberá ser considerado parti-
cularmente en los modelos de reconstrucción
paleoclimáticos y paleoambientales que se
generen para la transición Pleistoceno Holo-
ceno, abriendo nuevas perspectivas y pregun-
tas en las investigaciones arqueológicas, pa-
leontológicas, paleoambientales y
paleoclimáticas en el Noroeste de Uruguay y
Sur de Brasil.
La investigación y excavación arqueológi-
ca del sitio Pay Paso 1 se realizó con proyectos
financiados por National Geographic Society a
través del Committee for Research and Explo-
ration (research grant 7892-05), The Wenner-
Gren Foundation for Anthropological Re-
search (research grant 7864), y
CONICYT-Fondo Clemente Estable (proyecto
5093). La comunidad de Bella Unión (Depto.
de Artigas) colaboró en diferentes instancias
de la investigación de campo. La fauna del si-
tio Pay Paso 1 fue identificada por el paleontó-
logo Lic. Andrés Rinderknecht. A los revisores
o parceristas, uno anónimo y Adriana Schmidt
Dias quienes colaboraron con sugerencias y
comentarios que ayudaron a mejorar la ver-
sión final del manuscrito. Cualquier omisión o
error es responsabilidad de los autores.
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REVISTA DE ARQUEOLOGIA |
Volume 23 |
- N.2:20-39 |
- 2010 |
38
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REVISTA DE ARQUEOLOGIA |
Volume 23 |
- N.2:20-39 |
- 2010 |
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Adriana Schmidt Dias 1 e Sirlei Elaine Hoeltz 2 1. Professora do Departamento e do Programa de Pós-graduação em História,
Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Federal do Rio Grande do Sul
(IfCH/UfRGS). Pesquisadora CnPq. dias.a@uol.com.br. 2. Pesquisadora da ARCHAEo: Pesquisas Arqueológicas. sirleihoeltz@yahoo.com.br.
RESU mo |
|||||
|
Ao analisar através de uma perspectiva |
|||||
|
sistêmica as indústrias líticas aferidas à Tra- |
|||||
A b |
S t RACt |
dição Humaitá, percebe-se que sua variabi- |
|||
|
When analysed by a systemic perspective, |
lidade está relacionada a diferentes estraté- |
||||
|
the lithic assemblages of Humaita tradition |
gias de uso de um espaço regional que foi |
||||
|
indicate that its variability could be related to |
compartilhado ao longo do Holoceno por |
||||
|
different strategies of land use in a region that |
distintas sociedades caçadoras coletoras e |
||||
|
was occupied by diverse hunter gatherer and |
agricultoras. A análise crítica dos contextos |
||||
|
horticulturalists societies along the Holocene. |
regionais, cronológicos e tecnológicos rela- |
||||
|
A critical analysis of regional, chronological |
cionados a estes conjuntos líticos, revela |
||||
|
and technological contexts related to these |
uma realidade complexa que transcende a |
||||
|
lithic assemblages points to a complex reality |
tipologia dos artefatos. O conceito de Tradi- |
||||
|
that goes beyond a typology. The Tradition |
ção tecnológica, tal como empregado neste |
||||
|
concept, as applied in this case, compromise |
caso, simplifica o entendimento do signifi- |
||||
|
the understanding of the meaning of artefacts |
cado da variabilidade artefatual, devendo |
||||
|
variability, requiring a revision of this theme |
esta problemática ser revista através de |
||||
|
by theoretical and methodological perspec- |
perspectivas teórico-metodológicas de na- |
||||
|
tives that emphasizes its contextual nature. |
tureza contextual. |
||||
|
K EY W o RDS Humaitá Tradition, lithic in- |
PALAv RAS-CHAv E Tradição Humaitá, in- |
||||
|
dustries of Sothern Brazil, settlement syste- |
dústrias líticas do sul do Brasil, sistemas de |
||||
|
ms and technology |
assentamento e tecnologia |
||||
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REVISTA DE ARQUEOLOGIA |
Volume 23 |
- N.2:40-67 |
- 2010 |
||
42
Int R o DU ção |
mento do significado da variabilidade artefa- |
|||
|
Entre 1965 e 1970, Eurico T. Miller realizou |
tual, devendo esta problemática ser revista |
|||
|
prospecções na região do nordeste do Rio |
através de perspectivas teórico-metodológicas |
|||
|
Grande do Sul, enquanto integrante do Progra- |
de natureza contextual. |
|||
|
ma Nacional de Pesquisas Arqueológicas (PRO- |
||||
|
NAPA), tendo levantado na ocasião mais de 300 |
o Cont E xto D o P R ob LE m A |
|||
|
sítios arqueológicos entre abrigos sob rocha, |
Os conceitos de Tradição e fase foram as |
|||
|
sítios a céu aberto, casas subterrâneas e samba- |
ferramentas metodológicas utilizadas pelas |
|||
|
quis (Miller, 1967, 1974). Ao sistematizar os |
primeiras gerações de arqueólogos brasilei- |
|||
|
achados realizados no vale do rio Maquiné, |
ros vinculados ao PRONAPA para propor um |
|||
|
Miller definiu a fase Humaitá a partir de dois |
esquema preliminar do desenvolvimento |
|||
|
sítios “caracterizados por artefatos líticos lasca- |
histórico-cultural da ocupação pré-colonial |
|||
|
dos por percussão e confeccionados a partir de |
brasileira. O PRONAPA consistia em um des- |
|||
|
lascões destacados de grandes blocos de basal- |
dobramento para o território nacional das |
|||
|
to, conservando grandes porções da crosta na- |
pesquisas de Betty Meggers e Clifford Evans |
|||
|
tural ( |
). Os sítios localizam-se acima de 700 m |
quanto às rotas de migração e difusão cultu- |
||
|
de altitude, nos patamares arredondados da |
ral relacionadas à origem da agricultura e da |
|||
|
encosta do planalto, próximos a sangas e junto |
cerâmica nas Terras Baixas da América do |
|||
|
a grandes blocos de basalto”. Quanto aos artefa- |
Sul. Seguindo uma perspectiva histórico-cul- |
|||
|
tos, Miller enfatiza que “estão, em grande parte, |
tural, sequências seriadas semelhantes para |
|||
|
trabalhados na face externa de lascões e quase |
uma mesma região foram reunidas em fases |
|||
|
irreconhecíveis pelo efeito da decomposição. |
que, por sua vez, formavam Tradições, con- |
|||
|
Os talhadores (“choppers”) e os lascões discoi- |
ceitos que expressariam os ritmos da distri- |
|||
|
dais unifaciais grandes, representam mais de |
buição espaço-temporal da cultura material |
|||
|
50% dos artefatos”, estando também presentes |
de distintos grupos pré-históricos identifica- |
|||
|
numerosas lascas (Miller, 1967:17-18). |
dos a partir das atividades do Programa. |
|||
|
Partindo destes parâmetros estabelecidos |
No entanto, no contexto histórico das pes- |
|||
|
por Miller nos anos iniciais do PRONAPA, os |
quisas arqueológicas brasileiras, a aplicabili- |
|||
|
sítios líticos identificados no sul do Brasil nas |
dade dos conceitos de fase e Tradição sofreu |
|||
|
últimas quatro décadas vêm sendo classifica- |
com a “tradução”, perdendo as conotações |
|||
|
dos em duas tradições tecnológicas. No entan- |
originalmente utilizadas na arqueologia ame- |
|||
|
to, ao analisar através de uma perspectiva sis- |
ricana (Willey & Phillips, 1958). De acordo |
|||
|
têmica as indústrias líticas aferidas à Tradição |
com Dias (2007a), a falta de reflexão teórica na |
|||
|
Humaitá, percebe-se que sua variabilidade |
arqueologia brasileira na década de 1960 |
|||
|
está relacionada a diferentes estratégias de |
abriu margem para a consolidação de uma |
|||
|
uso de um espaço regional que foi comparti- |
visão míope quanto à amplitude destes con- |
|||
|
lhado ao longo do Holoceno por distintas so- |
ceitos, estruturalmente limitada ao nível des- |
|||
|
ciedades caçadoras coletoras e agricultoras. A |
critivo de análise. No Brasil a definição de fa- |
|||
|
análise crítica dos contextos regionais, crono- |
ses desconsiderou sua premissa subjacente, |
|||
|
lógicos e tecnológicos relacionados a estes |
relacionada à comparação de aspectos crono- |
|||
|
conjuntos líticos revela uma realidade com- |
lógicos e contextuais do registro arqueológico |
|||
|
plexa que transcende a tipologia dos artefatos. |
que deveria orientar sua integração em uma |
|||
|
O conceito de Tradição tecnológica, tal como |
Tradição. Por sua vez, as Tradições passaram |
|||
|
empregado neste caso, simplifica o entendi- |
a assumir conotações distintas da enfatizada |
|||
Indústrias Líticas em Contexto: O Problema Humaitá na Arqueolog ia Sul ... |
Adriana Schmidt Dias e Sirlei Elaine Hoeltz |
|||
43
|
pela definição original, limitada a descrever |
sença ou ausência de fósseis guia para aferição |
|||||
|
fenômenos de continuidade temporal relacio- |
de afiliação cultural, parte da premissa que os |
|||||
|
nados a aspectos de natureza tipológica. Esta |
sítios arqueológicos são entidades homogêneas |
|||||
|
postura anômala da arqueologia brasileira |
e repetitivas em termos de conteúdo cultural e, |
|||||
|
cristaliza-se no pensamento de Meggers e |
portanto, podem ser percebidos unicamente |
|||||
|
Evans ao sugerirem que “fases definidas em |
enquanto índices de diversidade geográfica e |
|||||
|
termos de sequências seriadas podem ser cor- |
temporal na ocupação do espaço regional. As |
|||||
|
relacionadas a comunidades autônomas ou |
estratégias metodológicas empregadas no |
|||||
|
semi-autônomas e que tradições definidas em |
PRONAPA refletem esta pré-concepção. As |
|||||
|
termos de fases que compartilham um con- |
prospecções exploratórias realizadas abrange- |
|||||
|
junto de elementos ( |
), |
provavelmente, repre- |
ram áreas muito amplas associadas a bacias |
|||
|
sentam entidades tribais ou linguísticas” (Me- |
hidrográficas que, em sua maioria, apresentam |
|||||
|
ggers & Evans, 1985: 5). Desta forma, as |
contextos arqueológicos e ecológicos extrema- |
|||||
|
Tradições assumiram no Brasil um papel dis- |
mente diversificados. No entanto, as estratégias |
|||||
|
tinto do proposto por Willey e Phillips (1958), |
de campo empregadas para realizar as compa- |
|||||
|
ocupando a posição reservada aos distintos |
rações regionais privilegiaram coletas assiste- |
|||||
|
estágios histórico-desenvolvimentais (Lítico, |
máticas de superfícies e sondagens restritas, |
|||||
|
Arcaico, Formativo, Clássico e Pós-clássico) |
em níveis artificiais, com o objetivo de estabe- |
|||||
|
que ofereceriam a coesão necessária aos con- |
lecer cronologias relativas através de compara- |
|||||
|
textos culturais identificados nas pesquisas. |
ção estratigráfica e tipológica dos conjuntos |
|||||
|
Na medida em que as propostas metodoló- |
artefatuais. Quanto ao estudo das coleções líti- |
|||||
|
gicas do PRONAPA estavam voltadas à análise |
cas geradas pela atuação do PRONAPA, a maio- |
|||||
|
de contextos arqueológicos que possuíssem |
ria das análises centrou sua atenção na descri- |
|||||
|
cerâmica, os sítios líticos identificados nestas |
ção tipológica dos artefatos diagnósticos, |
|||||
|
pesquisas foram classificados tendo em vista |
desprezando os resíduos de lascamento e as |
|||||
|
as similaridades tipológicas de conjuntos de |
sequências tecnológicas associadas a estas ca- |
|||||
|
artefatos considerados diagnósticos. Ao desta- |
tegorias (Kern, 1983, 1991; Dias & Silva, 2001). |
|||||
|
car a tipologia formal dos artefatos líticos en- |
é a partir deste contexto histórico que as |
|||||
|
quanto fósseis guia para o estabelecimento de |
Tradições pré-cerâmicas do sul do Brasil fo- |
|||||
|
unidades culturalmente significativas em ter- |
ram definidas e enquanto conceitos histórico- |
|||||
|
mos de fases e Tradições, os aspectos tecnoló- |
-classificatórios foram empregados na análise |
|||||
|
gicos e contextuais intrínsecos aos conceitos |
de conjuntos líticos identificados nas últimas |
|||||
|
receberam pouca atenção. Por consequência, |
quatro décadas. Enquanto as pontas de projétil |
|||||
|
esta postura justificou a proposta de que a |
representavam o fóssil guia da Tradição Umbu, |
|||||
|
ocupação pré-colonial do território brasileiro |
a Tradição Humaitá foi definida em função da |
|||||
|
fosse dividida em dois estágios de desenvolvi- |
presença de artefatos bifaciais de grande porte |
|||||
|
mento cultural marcados pela diversidade |
e tipologia variada, caracterizados pela alta di- |
|||||
|
tecnológica: o período pré-cerâmico, que |
versidade tipológica em termos regionais, o |
|||||
|
compreenderia sítios líticos associados dire- |
que justificou a definição de 22 fases arqueoló- |
|||||
|
tamente a sociedades caçadoras coletoras e o |
gicas (Meggers & Evans, 1977). |
|||||
|
período cerâmico, que pressuporia socieda- |
A abrangência geográfica da Tradição |
|||||
|
des que praticavam a agricultura. |
Humaitá está vinculada ao planalto sul |
|||||
|
Esta perspectiva minimalista quanto à di- |
brasileiro e ao domínio ecológico da Mata |
|||||
|
versidade cultural do passado, restrita à pre- |
Atlântica, em associação com as bacias hi- |
|||||
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Figura 1. Dispersão geográfica da Tradição Humaitá (Kern, 1981: 311). Em destaque fases e áreas de pesquisa mencionadas neste artigo (ilustração: Wagner Marin)
drográficas dos rios Paraná, Uruguai e Ja-
cuí. A maioria dos sítios arqueológicos as-
sociados a esta Tradição são superficiais e
a céu aberto, com profundidades em média
entre 20 a 30 cm e áreas que variam entre
400 a 10.000 m2. As datações distribuem-se
entre 310 e 8.640 anos AP, estando as mais
recentes associadas aos contextos do Rio
Grande do Sul e as mais antigas, aos Esta-
dos de Santa Catarina e Paraná (figura 1).
A indústria lítica é caracterizada pelo uso
de matérias-primas disponíveis nas proxi-
Indústrias Líticas em Contexto: O Problema Humaitá na Arqueolog ia Sul ... |
Adriana Schmidt Dias e Sirlei Elaine Hoeltz |
midades dos assentamentos, como as ro -
chas vulcânicas e o arenito silicificado, e
os artefatos são produzidos, em geral, a
partir de núcleos ou de lascas de grandes
dimensões, sendo menos frequente a pro -
dução a partir de seixos. A técnica de lasca-
mento empregada, na maioria dos casos, é
a percussão direta, sendo pouco frequente
a técnica de lascamento bipolar e a presen-
ça de retoques por percussão direta. Por
sua vez, estas indústrias líticas apresentam
variações regionais e cronológicas. Um
primeiro conjunto apresenta datações
mais antigas e abrange os vales do médio
rio Paraná e do alto rio Uruguai, onde
ocorre uma maior variedade de formas de
artefatos bifaciais (longos e retos com uma
ponta, com duas extremidades ativas ou
curvos em forma de bumerangue). Con -
juntos líticos mais recentes estão presentes
nos vales dos rios das Antas e Pelotas, no
domínio do planalto das araucárias, e no
vale do rio Jacuí e principais afluentes, as-
sociados à Depressão Central Gaúcha, sen-
do caracterizados pela presença predomi-
nante de talhadores bifaciais elaborados
sobre núcleos ou seixos (Hoeltz, 1997,
2005; Kern, 1981, 1991, 1994; Meggers &
Evans, 1977; Noelli, 1999/2000; Prous,
1992; Schmitz 1984, 1987).
A abrangência temporal e a dispersão geo-
gráfica identificadas embasaram a hipótese de
que a Tradição Humaitá representava indús-
trias líticas de caçadores coletores adaptados a
contextos de floresta subtropical, em oposição
à Tradição Umbu, que estaria associada a so-
ciedades caçadoras coletoras especializadas
na exploração de áreas de campo. As origens
destas populações estariam vinculadas a dis-
tintas rotas de colonização do território brasi-
leiro. A Tradição Umbu estaria culturalmente
relacionada ao povoamento inicial da região
pampeana e patagônica argentina, encontran-
do-se seus sítios mais antigos no vale do médio
45
rio Uruguai. A Tradição Humaitá representa-
ria populações caçadoras coletoras original-
mente vinculadas ao Complexo Alto-parana-
ense da região de Missiones, Argentina, que a
partir de 8.000 anos AP passariam a ocupar o
território brasileiro a partir do vale do alto rio
Uruguai, expandindo-se posteriormente para
o sul até os limites das escarpas do planalto sul
brasileiro, associadas ao vale do rio Jacuí. A
coexistência entre estas distintas populações
de caçadores coletores em territórios muitas
vezes sobrepostos era explicada em termos de
adaptação ecológica, opondo os caçadores de
zonas de ecótone entre pampa e floresta da
Tradição Umbu aos caçadores exclusivamente
adaptados às florestas subtropicais da Tradição
Humaitá. Por sua vez, a presença de artefatos
diagnósticos da tradição Humaitá em associa-
ção a sítios cerâmicos embasaram hipóteses
que sugeriam a possibilidade de contatos cul-
turais com as populações agricultoras a partir
do início da era cristã. As hipóteses levantadas
supõem que esta relação poderia ter se dado
através da aculturação dos caçadores coletores
da Tradição Humaitá que se transformariam
em ceramistas através do contato com as po-
pulações Guarani, explicando assim a origem
das Tradições Taquara-Itararé do Planalto Me-
ridional, ou ainda através da difusão das técni-
cas de lascamento destes caçadores coletores
entre os agricultores Guarani, que passaram a
ocupar o alto rio Uruguai e o vale do rio Jacuí
a partir do início da Era Cristã (Kern, 1981,
1991, 1994; Ribeiro 1979, 1991; Schmitz, 1984,
1987; Schmitz & Brochado, 1981a, 1981b).
No inicio da década de 1990, as primei-
ras influências das vertentes processuais
começam a fazer-se sentir no estudo das
Tradições e fases pré-cerâmicas do sul do
Brasil, desencadeando um processo de re-
flexão crítica quanto aos significados da va-
riabilidade das indústrias líticas refletidos
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pelas categorias conceituais utilizadas pelo
histórico-culturalismo (Dias, 1994, 1995,
1996; Dias et al., 1997; Dias & Hoeltz, 1997;
Hilbert, 1994; Hoeltz, 1995, 1997). Um pri-
meiro movimento neste sentido se deu atra-
vés da análise comparativa de coleções líti-
cas orientadas pela noção de cadeia
operatória ou sequência de produção, des-
locando a ênfase na tipologia dos artefatos
formais para o processo de produção dos
conjuntos artefatuais. Os resultados iniciais
destes trabalhos revelaram a necessidade
de um redirecionamento teórico-metodoló-
gico das pesquisas de campo em âmbito re-
gional, a fim de oferecer subsídios interpre-
tativos quanto à natureza contextual da
variabilidade observada nestas indústrias
líticas (Dias, 2007b; Hoeltz, 2007).
Na última década, os resultados dos es-
tudos levados a cabo em distintos contextos
regionais e cronológicos permitiram rever
os esquemas histórico-classificatórios que
deram origem às Tradições Umbu e Humai-
tá (Dias, 2003, 2004a, 2006a, 2006b, 2007a,
2007b; Dias & Hoeltz, 2002; Hilbert, Hoeltz
& Costa, 2000; Hoeltz, 2005, 2007; Hoeltz &
Brüggemann, 2003, 2010). A partir de uma
perspectiva sistêmica, o conceito Tradição
Humaitá deixa de ser uma ferramenta ope-
racional para descrever a variação espaço-
-temporal da ocupação pré-colonial de uma
dada região, tornando-se um problema de
pesquisa relativo aos significados contextu-
ais da variabilidade tecnológica de indús-
trias líticas integradas a distintas formas de
ocupação, utilização e significação do espa-
ço regional no passado.
Compreender a problemática Humaitá
em contexto demanda avaliar os conjuntos
líticos associados a este conceito histórico-
-classificatório através da integração de três
escalas de análise. Em primeiro lugar, uma
avaliação crítica dos contextos regionais per-
mite concluir que grande parte dos sítios líti-
cos associados à Tradição Humaitá estão inte-
grados aos sistemas de assentamento de
populações agricultoras. A ênfase nos estudos
cerâmicos associada à orientação teórico-me-
todológica do PRONAPA abriu margem para
uma visão fragmentada do universo da cultu-
ra material das populações agricultoras do sul
do Brasil associadas às Tradições Guarani e
Taquara-Itararé, com reflexos claros na ca-
racterização dos conjuntos líticos a estas rela-
cionados. Se por um lado, os artefatos polidos
associados aos sítios cerâmicos foram classi-
ficados como diagnósticos destas Tradições,
por outro a presença de artefatos lascados, em
muitos casos, foi considerada como represen-
tativa de intrusões ou sobreposições a contex-
tos da Tradição Humaitá. A ausência de uma
perspectiva contextual na interpretação da
variabilidade de sítios que podem compor os
sistemas de assentamento de agricultores
contribuiu, ao longo dos anos, para transfor-
mar a Tradição Humaitá em um depositário
de conjuntos líticos bifaciais, com ampla va-
riabilidade formal, que representam parte do
universo da cultura material de populações
que também produziam cerâmica (Dias,
2003; Dias & Silva, 2001).
Em segundo lugar, raros são os sítios líticos
aferidos à Tradição Humaitá que apresentam
datações radiocarbônicas e uma avaliação crí-
tica destes contextos cronológicos indica in-
consistências de interpretação, destacando-se
aqueles relacionados ao Holoceno Inicial e
Médio. Em parte, os problemas cronológicos
relacionam-se à interpretação das característi-
cas deposicionais dos sítios estratificados e a
sua relação contextual com sítios superficiais.
No entanto, no que diz respeito aos sítios anti-
gos, percebe-se também uma compreensão
limitada da natureza da variabilidade funcio-
nal de sítios líticos integrados a sistemas de
assentamento caçador coletor. Embora as pon-
tas de projétil estejam ausentes ou pouco re-
presentadas nestes conjuntos, a cronologia dos
Indústrias Líticas em Contexto: O Problema Humaitá na Arqueolog ia Sul ... |
Adriana Schmidt Dias e Sirlei Elaine Hoeltz |
47
|
sítios e as características das indústrias líticas |
que são sequenciais, destacando a percepção |
||||||
|
indicam relação contextual clara com os siste- |
de que existem sítios especializados em dife- |
||||||
|
mas de assentamento da Tradição Umbu. |
rentes atividades (Binford, [1983] 1994: 125- |
||||||
|
Por fim, a ênfase dada à caracterização ti- |
126). Por sua vez, sítios de atividade limitada |
||||||
|
pológica dos fosseis guia da Tradição Humai- |
corresponderiam a locais onde uma ou algu- |
||||||
|
tá priorizou categorias funcionais inferidas a |
mas atividades foram realizadas por popula- |
||||||
|
partir da morfologia dos artefatos. No entanto, |
ções, cujo domicílio situa-se em outro local, |
||||||
|
a análise diacrítica dos conjuntos artefatuais |
sendo sua distribuição determinada pela lo- |
||||||
|
genericamente definidos como talhadores bi- |
calização do sítio-base ou de conjuntos de re- |
||||||
|
faciais revela variações significativas relacio- |
cursos a serem explorados (Plog & Hill, 1971: |
||||||
|
nadas às suas sequências de produção e estra- |
13). Quando relacionamos os conjuntos líti- |
||||||
|
tégias de usos, resultantes de escolhas |
cos comumente aferidos à Tradição Humaitá |
||||||
|
culturalmente determinadas. Desta forma, é |
aos modelos de sistema de assentamento para |
||||||
|
na análise dos contextos tecnológicos que en- |
as sociedades de agricultores do sul do Brasil |
||||||
|
contramos o suporte metodológico para inter- |
representadas pelas Tradições Guarani e Ta- |
||||||
|
pretar o significado dos sítios líticos em asso- |
quara-Itararé, percebemos que sua variabili- |
||||||
|
ciação a distintos sistemas de assentamento |
dade apresenta relação com distintos níveis |
||||||
|
em âmbito regional e temporal. |
de utilização do espaço regional, associados a |
||||||
|
complexos situacionais de sítios que opõe áre- |
|||||||
o PRobLEmA REGIonAL Em ContExto |
as domésticas e sítios de atividades limitadas. |
||||||
|
A Tradição Humaitá revela-se uma ferra- |
A partir de 2.000 anos AP, a Tradição Gua- |
||||||
|
menta conceitual inoperante quando enfoca- |
rani está associada à transposição para o Bra- |
||||||
|
mos os contextos pré-coloniais do sul do Bra- |
sil meridional dos modelos amazônicos de |
||||||
|
sil através de uma perspectiva sistêmica. Um |
exploração e manejo de longa duração dos |
||||||
|
sistema de assentamento pressupõe que |
contextos de várzea de grandes cursos flu- |
||||||
|
“cada sítio representa uma visão parcial e li- |
viais, abrangendo as bacias dos rios Paraná, |
||||||
|
mitada do comportamento regional ( |
). |
Em |
Uruguai e Jacuí e litoral sul atlântico (Brocha- |
||||
|
cada sítio, o uso do espaço e a tecnologia de- |
do, 1984; Noelli, 1993, Soares, 1995). Baseado |
||||||
|
senvolvida ( |
) são uma resposta específica a |
em uma extensa revisão da bibliografia dos |
|||||
|
circunstâncias concretas. Em outras palavras, |
cronistas do século XVI a XIX, com ênfase no |
||||||
|
vislumbram um sistema cultural no qual tive- |
Tesoro de la Lengua Guarani, escrito por |
||||||
|
ram lugar diferentes atividades, em espaços |
Montoya entre 1612 e 1617, Noelli (1993) pro- |
||||||
|
distintos” (Binford, [1983] 1994: 117). Nesta |
põe que as categorias que classificam os do- |
||||||
|
perspectiva, os conceitos de complexo situa- |
mínios territoriais entre os Guarani pré-colo- |
||||||
|
cional de sítios (Binford, [1983] 1994) e de sí- |
niais refletiam os laços de parentesco e |
||||||
|
tios de atividade limitada (Plog & Hill, 1971) |
reciprocidade em três níveis espaciais inclu- |
||||||
|
consistem em ferramentas analíticas que per- |
sivos: Guará, tekohá e teii. O Guará é um con- |
||||||
|
mitem compreender a relação diferencial do |
ceito sócio-político que diz respeito a extensos |
||||||
|
uso do espaço em contextos intra/inter sítios |
trechos das bacias hidrográficas, sendo com- |
||||||
|
e como esta se relaciona com a variabilidade |
posto por unidades sócio-econômicas aliadas, |
||||||
|
dos conjuntos líticos. O conceito de complexo |
denominadas tekohá, que possuíam uma |
||||||
|
situacional de sítios traduz a idéia de conjun- |
área definida, delimitada por arroios ou rios e |
||||||
|
tos de sítios contemporâneos, onde ocorrem |
utilizada de forma comunal e exclusiva pelo |
||||||
|
diferentes etapas de um processo produtivo |
grupo local. Os tekohá eram formados por teii |
||||||
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isolados ou agrupados, em função das condi-
ções locais e políticas. O teii corresponde à
parcialidade ou família extensa, sendo desig-
nada de teii oga a casa onde vivia a linhagem
e de amundá o local da aldeia ou sede do
tekohá. O tekohá, por sua vez, comporta um
jogo entre três espaços distintos: a aldeia
(amundá), as roças (cog) e a vegetação cir-
cundante (caa). As roças (cog) iniciavam-se
fora do perímetro da aldeia, localizando-se a
diferentes distâncias, de acordo com a sua an-
tiguidade. Além das roças, inicia-se o espaço
das matas (caa), no qual se situava as áreas de
pesca, coleta e caça e as jazidas litológicas e
de argila. Nestas também estavam outras áre-
as de manejo que podiam refletir antigas ocu-
pações ou a preparação de futuros assenta-
mentos, levando a crer que o raio de ação do
ambiente humanizado estendia-se por mui-
tos quilômetros a partir da sede do tekohá.
Em termos arqueológicos, a variabilidade
dos sítios da Tradição Guarani é baixa, sendo
caracterizada por sítios cerâmicos e lito-cerâ-
micos a céu-aberto, associados às várzeas de
rios, com altitudes inferiores a 400 m. A data-
ção dos sítios indica períodos de permanência
relativamente curtos nas aldeias, sugerindo-
-se episódios de abandono frequentes. No en-
tanto, o modelo de manejo e a densidade de
sítios sugerem que as sedes das aldeias circu-
lavam no ambiente manejado do tekohá, ga-
rantindo a manutenção dos assentamentos
por longos períodos de tempo.
Por sua vez, a Tradição Taquara-Itararé
estaria relacionada às migrações e transfor-
mações de longa duração das populações
Macro-Jê que passam a ocupar o Planalto
brasileiro a partir de 3.500 anos atrás (Bro-
chado, 1983; De Mais, 2006; Noelli, 1999/2000).
Embora apresentem diferenças regionais
marcantes quanto aos estilos cerâmicos, ob-
serva-se entre os Jê do Sul um padrão similar
de estruturação dos territórios de domínio
que integravam distintos contextos ecológi-
cos, explorados de forma sazonal: as cotas
mais elevadas do planalto relacionadas às flo-
restas mistas de araucárias, os vales fluviais
das áreas de encosta e a região litorânea (Sch-
mitz & Becker, 1991). As fontes etno-históri-
cas e etnográficas para os Jê do Sul demons-
tram uma adaptação integrada aos variados
ecótonos do Brasil meridional indicando es-
tratégias de circulação no território de domí-
nio, em diferentes áreas satélites da aldeia
principal, onde predominavam certos tipos de
ofertas de alimentos (Noelli, 1999/2000). O
início do ciclo anual parece ter sido regido
pelo cultivo das roças, havendo a dispersão
dos grupos afins após a colheita para áreas
com concentração de diversas plantas de co-
leta como o pinhão, que, provavelmente, cor-
respondem a antigos locais de manejo agro-
florestal. Estas florestas antropogênicas, por
sua vez, também atraíam determinadas espé-
cies animais, como o porco do mato, consti-
tuindo-se igualmente em reservas de caça. O
mesmo tipo de comportamento extrativo sa-
zonal estaria associado às atividades de pesca
litorânea e estas atividades extrativas intensi-
vas, concentradas em um determinado perío-
do do ano, garantiriam o abastecimento anual
através de diversas técnicas de preservação
de alimentos. As carnes, tanto provenientes
da caça e da pesca, quanto da coleta de molus-
cos, poderiam ser desidratadas no moquém
ou sob o sol e o pinhão, coletado no inverno,
podia ser hidratado e depositado em silos
subterrâneos e cestas em locais úmidos, per-
mitindo seu consumo por vários meses.
Em termos arqueológicos, a variabilidade
de sítios relacionados ao modelo de mobilida-
de associado à Tradição Taquara-Itararé é
amplo: nas cotas elevadas do planalto predo-
minam as aldeias de casas subterrâneas, nas
encostas os sítios cerâmicos e lito-cerâmicos
a céu aberto e no litoral os concheiros (Sch-
mitz & Becker, 1991). Todos os casos, no en-
tanto, indicam estratégias de domínio e ma-
Indústrias Líticas em Contexto: O Problema Humaitá na Arqueolog ia Sul ... |
Adriana Schmidt Dias e Sirlei Elaine Hoeltz |
nejo territorial de longa duração, atestados
por sucessivos episódios de reocupação dos
contextos de casas subterrâneas e concheiros
e pela presença de sítios cerimoniais relacio-
nados a práticas funerárias associados aos
distintos contextos ecológicos explorados.
Embora estejam integrados a noções dis-
tintas de estruturação e utilização dos territó-
rios regionais, os sítios líticos relacionados
aos sistemas de assentamento das Tradições
Guarani e Taquara-Itararé podem ser enten-
didos enquanto integrantes de um complexo
situacional de sítios. Sua variabilidade, por-
tanto, está relacionada ao papel que desempe-
nham no conjunto de atividades levadas a
cabo nos territórios de domínio das aldeias.
Desta forma, podem estar associados ao con-
texto doméstico, caracterizando os sítios lito-
-cerâmicos, ou a áreas de atividades específi-
cas situadas além do perímetro das aldeias
relacionadas às práticas de cultivo ou à explo-
ração dos afloramentos rochosos, caracteri-
zando sítios onde apenas os vestígios líticos
estão presentes. Em contexto doméstico pre-
domina a relação entre artefatos líticos e ati-
vidades de preparo e consumo de alimentos e
às práticas artesanais. De acordo com as dis-
ponibilidades de matérias-primas em termos
locais, para estes conjuntos líticos destacam-
-se três categorias gerais de artefatos: resídu-
os de lascamento bipolar e unipolar (núcleos,
lascas e fragmentos de lascamento), conjun-
tos de artefatos brutos ativos e passivos e con-
juntos de artefatos polidos relacionados ao
processamento de alimentos e às práticas
simbólicas do grupo, como os acompanha-
mentos funerários.
Por sua vez, as atividades desenvolvidas
fora do perímetro da aldeia demandam um
instrumental lítico específico e de maior porte
associado às práticas de cultivo, à extração e
processamento de material construtivo utili-
zado na sede da aldeia, à confecção de estru-
turas habitacionais e, no caso Guarani, à pro-
49
dução de canoas monóxilas. Os locais de
produção destes tipos de artefatos estariam
associados às áreas de concentração de maté-
rias-primas, como os locais com acúmulo de
seixos associados a cursos de água e os aflo-
ramentos rochosos. As atividades especificas
desempenhadas nestes locais geram concen-
tração de resíduos de lascamento e de artefa-
tos em distintas fases de confecção que podem
situar-se a distâncias variadas da sede da al-
deia, de acordo com as disponibilidades locais
de matérias-primas. Os artefatos acabados,
por sua vez, poderiam ser transportados para
as sedes das aldeias ou abandonados inten-
cionalmente em função de acidentes nos lo-
cais de produção ou por desgaste nas áreas de
extração e processamento de matérias-pri-
mas vegetais. Igualmente poderiam ser acu-
mulados ou estocados junto às roças para uso
posterior, justificando, neste caso, a presença
de conjuntos de artefatos achados de forma
isolada na paisagem.
Partindo deste modelo, sugerimos que a va-
riabilidade dos conjuntos líticos da Tradição
Guarani reflete, em última instância, variações
de áreas de atividade entre zona doméstica e
locais de atividade específica, distribuídos dife-
rencialmente na área pertencente ao tekohá.
Sendo a aldeia (amundá) o epicentro da área
de domínio (tekohá), os conjuntos líticos rela-
cionados às unidades domésticas ou casas ex-
tensas (teii ogas) que a compõem estariam as-
sociados principalmente a atividades de
preparo e consumo de alimentos e à confecção
de artefatos. Estes, por sua vez, podem estar
distribuídos diferencialmente no interior das
casas e no perímetro da aldeia em função de
atribuições de gênero ou categorias de idade.
São raras as publicações relativas à análise
de coleções líticas derivadas de escavações
contextuais de unidades habitacionais Guara-
ni para o sul do Brasil, destacando-se os dados
relativos à aldeia de Candelária, situada no
vale do rio Pardo, Rio Grande do Sul (Schmitz
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50
et al., 1990). A partir das escavações de três
unidades habitacionais que abrangeram uma
área de aproximadamente 400 m2, foi resgata-
da uma coleção de 4.099 peças líticas. Os ma-
teriais mais abundantes são as pedras de fogão
e seixos acondicionados enquanto reservas de
matéria prima, seguidos dos alisadores em ca-
naleta, dos polidores, dos percutores e das las-
cas. Todas estas categorias de artefatos estão
relacionadas a atividades domésticas, ligadas
às ações de corte, abrasão, perfuração, percus-
são, preparo e consumo de alimentos e à con-
fecção e utilização de cerâmica (Noelli & Dias,
1995). Outros estudos mais gerais de coleções
líticas Guarani para o Estado do Rio Grande
do Sul apontam para um predomínio nas
amostras analisadas das categorias de artefa-
tos acima descritos em associação contextual
com unidades habitacionais, predominando
quantitativamente os resíduos de lascamento
associados a matérias-primas de origem local
(Carle, 2002, De Masi & Schmitz, 1987; Sch-
mitz et al., 2000). No entanto, há também evi-
dências arqueológicas de utilização de maté-
rias-primas não disponíveis localmente, como
se observa no sítio Arroio do Conde, no baixo
rio Jacuí (RS), estando as fontes exploradas
distantes entre 13 e 60 km do seu local de im-
plantação, o que remete à noção de área de
domínio (tekohá) no qual esta aldeia estaria
inserida (Noelli, 1993, 1997). Caso similar tam-
bém é observado no sítio PS-03-Totó, situado
na porção sul da Lagoa dos Patos (RS), onde
a presença de calcedônias indicaria explora-
ção de matérias-primas cujas fontes estão
distantes até 200 km do sítio, indicando re-
des de intercâmbio entre distintos tekohá
pertencentes ao mesmo Guará (Milheira,
2008; Milheira & Alves, 2009).
Além do perímetro da aldeia Guarani, as
atividades nas roças, nas florestas manejadas e
nas jazidas de exploração de matéria prima
produziram conjuntos líticos distintos. As ne-
cessidades dos trabalhos em madeira pode-
riam ser atendidas por dois tipos de artefatos
líticos da Tradição Guarani: os machados poli-
dos, associados ao abate de árvores, e os arte-
fatos bifaciais de grande porte de caráter mul-
tifuncional. Esta categoria de artefatos estaria
relacionada a atividades de entalhe (talhado-
res), bem como a atividades de sulcar, cavar,
lavrar ou desbastar a madeira com uma per-
cussão arremessada perpendicularmente,
ação associada à produção de canoas monóxi-
las e ao processamento do material construtivo
utilizado na confecção das casas e paliçadas da
aldeia (Noelli & Dias, 1995). Os locais de pro-
dução destes tipos de artefatos estariam asso-
ciados às fontes de matérias-primas, gerando
concentração de resíduos de lascamento e de
artefatos em distintas fases de confecção.
Exemplos deste tipo de variabilidade lítica
relacionada a áreas de atividades fora da aldeia
Guarani podem ser encontrados em distintos
contextos arqueológicos do Estado do Rio
Grande do Sul em associação aos vales dos rios
Jacuí, Taquari, Caí e dos Sinos (De Masi & Sch-
mitz, 1987; Dias, 2003, 2006a, 2007a; Fiegen-
baum, 2009; Schmitz et al., 2000). Situação se-
melhante observa-se em estudos realizados no
alto vale do rio Uruguai por Hilbert, Hoeltz e
Costa (1999, 2000; ver também Costa, 2000;
Monticelli & Bertolletti 2000), na área de im-
plantação da Usina Hidrelétrica de Machadi-
nho no Rio Grande do Sul e por Hoeltz e Brüg-
gemann (2010) na área de implantação da
Usina Hidrelétrica da Foz do Chapecó em San-
ta Catarina. O mesmo contexto é apontado por
Angrizani (2009) para a análise da variabilida-
de lítica dos sítios identificados nas atividades
de resgate associadas à construção da linha de
transmissão de energia elétrica Santa Rosa-
-Santo Cristo, no noroeste do Rio Grande do
Sul. Neste caso, Angrizani enfatiza a relação
contextual entre sítios líticos e lito-cerâmicos
Guarani que se apresentam distribuídos dife-
rencialmente na paisagem, predominando nas
cotas mais elevadas as áreas de atividade limi-
Indústrias Líticas em Contexto: O Problema Humaitá na Arqueolog ia Sul ... |
Adriana Schmidt Dias e Sirlei Elaine Hoeltz |
tada associadas à exploração de afloramentos
rochosos e próximo ao vale do rio a presença
das aldeias Guarani. A variabilidade artefatual
entre as áreas é compreendida pelo autor em
função de um modelo de integração entre áre-
as de atividade distintas associadas a um mes-
mo tekohá, circulando os artefatos líticos entre
as casas, as roças e as florestas manejadas.
No caso da Tradição Taquara-Itararé as
mesmas causas da variabilidade lítica podem
ser observadas, estando relacionadas às dis-
tintas atividades que tomaram lugar nas áre-
as domésticas e nos contextos de atividades
específicas. Independente do estrato ecológi-
co com o qual se relacionam, nas áreas do-
mésticas associadas ao sistema de assenta-
mento da Tradição Taquara-Itararé
predominam conjuntos líticos relacionados
ao processamento de alimentos e às práticas
artesanais, correspondendo a resíduos de las-
camento e artefatos brutos, bem como artefa-
tos polidos como as mãos de pilão. Sítios líti-
cos de atividade específica relacionados à
extração de matérias-primas e ao manejo
agrícola também estão associados a este com-
plexo situacional de sítios, com desdobra-
mentos similares ao observado no caso da
Tradição Guarani. Junto às fontes de matéria
prima predominam resíduos de lascamento e
artefatos descartados em diferentes etapas de
produção e no que consistiria as áreas de roça
e manejo agroflorestal predomina a presença
de concentrações de artefatos bifaciais, asso-
ciadas à derrubada da mata e as práticas agrí-
colas. No caso das ocupações do Planalto, no
entanto, a presença de concentrações de
grandes talhadores bifaciais também estaria
integrada às atividades construtivas, associa-
das à produção e manutenção das estruturas
subterrâneas e das construções monticulares
de função cerimonial.
Estudos arqueológicos que suportem esta
proposta são mais raros, se comparados aos
contextos Guarani. Em boa parte, isto se deve
51
a interpretação histórico-cultural relativa à
presença de sítios lito-cerâmicos nas áreas
tradicionalmente ocupadas pelas Tradições
Taquara-Itararé. Ao seguir uma lógica de ra-
ciocínio avessa a comparações entre contextos
arqueológicos e etnográficos, cristalizou-se a
idéia de que estes sítios líticos representariam
uma evolução local do horizonte caçador cole-
tor representado pela Tradição Humaitá para
o horticultor representado pela Tradição Ta-
quara-Itararé (Schmitz, 1988; Schmitz & Be-
cker, 1991; Ribeiro, 1979; entre outros). Noelli
(1999, 1999/2000) imputa este modelo inter-
pretativo quanto à origem das populações hor-
ticultoras do planalto sul brasileiro à assimila-
ção acrítica, por parte dos pesquisadores
brasileiros, de uma noção evolucionista sim-
plificada que Oswaldo Menghin, na década de
1950, defendeu para o nordeste da Argentina,
postulando esta improvável continuidade cul-
tural. O argumento central de Menghin, base-
ado em dados empíricos insuficientes, centra-
-se na hipótese de que o Alto-paranaense, com
datações no nordeste da Argentina a partir de
8.000 anos AP, passou por um processo de ne-
olitização a partir de 2.000 anos AP, adotando,
por difusão, a tecnologia de polimento, a agri-
cultura e a cerâmica. Embora os dados lin-
guísticos, etno-históricos e genéticos demons-
trem a improbabilidade desta origem
meridional dos grupos ceramistas do planalto,
nas palavras de Noelli: “a hipótese de Men-
ghin continua sendo aceita até o presente pela
maioria dos pesquisadores que estuda o sul do
Brasil” (Noelli, 1999: 289-290).
Uma exceção a este quadro é oferecida pe-
los resultados das pesquisas arqueológicas
realizadas no canteiro de obras da UHE de
Barra Grande, realizadas entre 2001 e 2003. A
área abrangida pelo empreendimento com-
preendeu uma região de 528 km2 associada
ao vale do rio Pelotas, distribuída entre os mu-
nicípios de Anita Garibaldi (sul de Santa Cata-
rina) e Pinhal da Serra e Esmeralda (norte do
|
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Rio Grande do Sul). A área apresentou uma
grande diversidade de sítios, tendo sido resga-
tados 10 sítios arqueológicos no lado gaúcho
do empreendimento e 21 sítios no lado catari-
nense destacando-se uma grande quantidade
e sítios líticos e lito-cerâmicos que apresenta-
vam associação com artefatos bifaciais de
grande porte, cuja tipologia remete aos fósseis
guia da Tradição Humaitá, bem como um
conjunto de estruturas subterrâneas e quatro
sítios com estruturas anelares envolvendo
montículos e sepultamentos em seu interior.
Foram obtidas datações radiocarbônicas para
dois destes sítios, ambos na margem direita
do rio Pelotas, de 180 ± 50 anos AP, para um
sítio a céu aberto lito-cerâmico, e de 560 ± 50
anos AP, para um sepultamento cremado em
uma estrutura circular em relevo (Saldanha,
2005; Scientia, 2003).
Nos trabalhos realizados na margem di-
reita do rio Pelotas, no município de Anita
Garibaldi, cinco sítios apresentaram maior
densidade de materiais líticos, com conjun-
tos variando entre 374 e 2.523 peças, estan-
do situados a distâncias entre 500 e 1.500 m
entre si (Herbert, 2003; Hoeltz, 2007; Hoeltz
& Brüggemann, 2003). Embora não haja da-
tações para todos os contextos, a análise das
coleções líticas destes sítios evidencia estra-
tégias tecnológicas que apontam para uma
variação das formas de ocupação do espaço
regional. Um primeiro conjunto de sítios
está associado à presença caçadora coletora
na área relacionada à Tradição Umbu em
função das características de suas indús -
trias líticas. Compreende um sítio em abrigo
sob rocha, SC-AG-24, e um sítio a céu aber-
to, SC-AG-97B, que distam 600 m entre si.
Ambos apresentam uma indústria formada
predominantemente por pequenas lascas
residuais unipolares e detritos, embora na
primeira indústria predomine o basalto fino
e na segunda os meta-lamitos disponíveis in
situ. Os instrumentos são raros em ambos
os casos, destacando-se uma ponta de pro -
jétil pedunculada presente no sítio SC -
-AG-24 e uma pequena peça bifacial sobre
lasca no sítio AG-97B.
Os demais sítios da área estão associados
ao sistema de assentamento da Tradição Ta-
quara-Itararé e apresentam altos índices de
variabilidade em suas indústrias em razão
das distintas atividades aos quais estavam as-
sociados. O sítio lito-cerâmico SC-AG-40
apresenta uma indústria lítica representativa
de uma área de atividade doméstica, onde
predominam as lascas bipolares de calcedô-
nia, em detrimento dos detritos e das peças
bifaciais de grande porte de basalto, estando
também presentes percutores de basalto e
alisadores de cerâmica, caracterizando uma
associação a atividades relacionadas ao pre-
paro e consumo de alimentos e à confecção
de artefatos. O mesmo padrão pôde ser iden-
tificado nas escavações de três estruturas
subterrâneas associadas ao sítio Leopoldo 5,
situado na margem esquerda do rio Pelotas,
no município de Pinhal da Serra, onde obser-
va-se a concentração de resíduos de lasca-
mento unipolar e bipolar, além da presença
de artefatos brutos e instrumentos bifaciais
em menor densidade, dispersos em torno das
fogueiras que ocupam uma posição mais
central nas estruturas (Saldanha, 2005; ver
também Copé & Saldanha, 2002).
Nos demais sítios líticos, predominam os
artefatos bifaciais, destacando-se o sítio lítico
SC-AG-97A, cuja alta densidade e diversidade
de peças indicam tratar-se de um local de pro-
dução e de utilização dos artefatos. Sua indús-
tria é formada principalmente por lascas resi-
duais de basalto de baixa qualidade de
lascamento e um alto percentual de núcleos e
artefatos unifaciais e bifaciais com dimensões
entre 5 e 11 cm de comprimento. Peças maio-
res do que estas (entre 22 e 26 cm), de técnica
e de matéria prima idênticas, foram identifi-
cadas em outros 16 sítios líticos da região com
Indústrias Líticas em Contexto: O Problema Humaitá na Arqueolog ia Sul ... |
Adriana Schmidt Dias e Sirlei Elaine Hoeltz |
53
menor densidade de materiais e no
sítio lito-cerâmico SC-AG-47. Estas
peças bifaciais foram produzidas, na
maioria dos casos, sobre blocos,
apresentam resíduo cortical, retira-
das periféricas bifaciais em todo o
contorno (ou apenas em uma lateral)
e uma terminação em ponta. As fon-
tes de matéria prima foram identifi-
cadas em afloramentos localizados
em torno de 500 m ou a 1 km dos as-
sentamentos e frequentemente apre-
sentam lascas e peças bifaciais dis-
postas isoladamente sobre ou nos
seus arredores. Estes sítios constituí-
am-se em locais para além do perí-
metro das aldeias, como as represen-
tadas pelos sítios SC-AG-40 e
Leopoldo 5, e estariam associados a
atividades específicas, como o culti-
vo, o manejo agroflorestal e a extra-
ção de matérias primas minerais e
vegetais (figura 2).
Figura 2. Peças bifaciais de grande porte da Usina Hidrelétrica de Barra Grande (Ilustrações: Adelson Brüggemann)
remontando o Holoceno Inicial (Araujo et al.,,
2005; Dias, 2003, 2004b, 2007b; Dias & Bueno,
2010; Dias & Jacobus, 2003; Rosa, 2009; Rosa
& Jacobus, 2010). Se por um lado, a ocupação
caçadora coletora da região sul brasileira apre-
senta-se claramente definidas na Tradição
Umbu a partir de 10.000 anos AP, por outro, a
análise dos contextos deposicionais de sítios
líticos contemporâneos aferidos à Tradição
Humaitá apontam para uma série de inconsis-
tências de interpretação relacionadas ao con-
texto deposicional dos sítios e à compreensão
limitada dos significados da variabilidade de
sítios líticos em contextos regionais.
Um dos argumentos que sustentam a
hipótese da Tradição Humaitá referir-se
às estratégias tecnológicas de caçadores
coletores baseia-se nas datações do Holo-
Os estudos paleoambientais recentes indi-
cam que as florestas subtropicais já se encon-
travam em formação na região sudeste do Bra-
sil desde 12.000 AP e em franca expansão e
processo de fixação em direção ao sul do país
em torno 9.000 anos AP. Estas características
paleoecológicas têm sido atualmente conside-
radas como um dos fatores de atração e fixação
populacional no Brasil meridional de popula-
ções caçadoras coletores originariamente as-
sociadas à colonização do Pampa argentino na
transição Pleistoceno Holoceno. Estas estariam
enquadradas na definição clássica da Tradição
Umbu e os dados zooarqueológicos referentes
a diferentes contextos no Rio Grande do Sul
apontam que a exploração dos recursos da flo-
resta correspondeu a uma estratégia adaptati-
va de longa duração para estas populações,
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|
Sítios |
Vale de Rio |
Estado |
Datação (AP) |
Fase |
Sigla |
|||||
|
1. Brito |
Paranapanema |
SP |
7020+70 |
GIF 6250 |
||||||
|
5080+60 |
GIF 6253 |
|||||||||
|
4260+60 |
GIF 6251 |
|||||||||
|
3920+60 |
GIF 6254 |
|||||||||
|
2. |
Almeida |
Paranapanema |
SP |
3600+160 |
GIF ? |
|||||
|
3. |
Camargo |
1030+85 |
Monaco |
|||||||
|
2060+230 |
Monaco |
|||||||||
|
Paranapanema |
4650+170 |
Monaco |
||||||||
|
4. |
PR-JA-5 |
Paranapanema |
PR |
310+50 |
Timburi |
SI 139 |
||||
|
5. |
PR-FI-21 |
Iguaçu |
PR |
6910+75 |
Pirajuí |
SI 4994 |
||||
|
6505+105 |
SI 5993 |
|||||||||
|
6265+80 |
SI 4992 |
|||||||||
|
Pirajuí |
Pirajuí |
Pirajuí |
2850+60 |
Pirajuí |
SI 4995 |
|||||
|
2035+70 |
SI 4991 |
|||||||||
|
6. |
PR-FI-49 |
Iguaçu |
PR |
4065+75 |
Tatuí |
SI 5045 |
||||
|
7. José Vieira |
Ivaí |
PR |
6683+355 |
Ivaí |
GIF 78 |
|||||
|
5241+300 |
GIF 80 |
|||||||||
|
3435+175 |
GIF 82 |
|||||||||
|
8. PR-QN-01 |
Ivaí |
PR |
5380+110 |
Ivaí |
SI 1014 |
|||||
|
9. SC-U-6 |
Alto Uruguai |
SC |
8640+95 |
Alto-paranaense |
SI 995 |
|||||
|
8095+90 |
SI 994 |
|||||||||
|
7260+100 |
SI 440 |
|||||||||
|
7145+120 |
SI 993 |
|||||||||
|
10. |
SC-VP-38 |
Alto Uruguai |
SC |
5930+140 |
Tamanduá |
SI 827 |
||||
|
11. |
SC-U-13 |
SC |
3000+120 |
SI 441 |
||||||
|
12. |
RS-Vz -52 |
Várzea |
RS |
675+60 |
Caaguaçu |
SI 799 |
||||
|
13. |
RS-A-12: |
|||||||||
|
Barreiro |
Antas |
RS |
6620+175 |
Antas |
SI 933 |
|||||
|
14. ? |
Pelotas |
RS |
1920+50 |
Cará |
SI 811 |
|||||
|
15. |
RS-MJ-14 |
Jacuí |
RS |
2945+85 |
Canhemborá |
SI 1001 |
||||
|
1165+35 |
SI 1000 |
|||||||||
|
16. |
RS-SM-07 |
Jacuí |
RS |
2795+55 |
Canhemborá |
SI 1004 |
||||
|
17. RS-452: |
||||||||||
|
Ivorá |
Jacuí |
RS |
2190+80 |
Canhemborá |
Beta 129549 |
|||||
|
18. |
RS-RP-81 |
Pardo |
RS |
380+80 |
SI4166 |
|||||
|
19. |
RS-RP-86 |
Pardo |
RS |
2920+120 |
SI4167 |
|||||
|
1425+115 |
SI4168 |
|||||||||
|
Tabela 1 – Sítios datados por radiocarbono associados à Tradição Humaitá |
||||||||||
|
ceno Inicial e Médio para sítios onde as pon- |
de referência indica que apenas 19 sítios ar- |
|||||||||
|
tas de projétil estão ausentes, encontrados em |
queológicos afiliados culturalmente à Tradi- |
|||||||||
|
distintos contextos arqueológicos do Brasil |
ção Humaitá apresentam datações radiocar- |
|||||||||
|
meridional. No entanto, a revisão da literatura |
bonicas (tabela 1). Como conseqüência, |
|||||||||
Indústrias Líticas em Contexto: O Problema Humaitá na Arqueolog ia Sul ... |
Adriana Schmidt Dias e Sirlei Elaine Hoeltz |
|||||||||
apenas 10 das suas 22 fases foram definidas
tendo por base cronologias absolutas, sendo a
posição das demais fases nas sequências de
desenvolvimento regional inferidas em fun-
ção da tipologia dos artefatos bifaciais ou por
sua profundidade estratigráfica (Kern, 1981;
Hoeltz, 1997; Noelli, 1999/2000; Schmitz, 1984,
1987).
Dentre os contextos mais antigos da Tra-
dição Humaitá destacam-se os sítios relacio-
nados ao Complexo Alto-paranaense de Ita-
piranga e da fase Tamanduá, associados ao
alto vale do rio Uruguai (sudoeste de Santa
Catarina), bem como os da fase Antas, asso-
ciada ao vale do rio das Antas (noroeste do
Rio Grande do Sul). A análise crítica destes
contextos deposicionais, no entanto, indica
que as datações entre 8.000 e 6.000 anos AP
aferidas a estas fases referem-se a uma rela-
ção questionável, entre sítios estratificados
sem pontas de projétil e conjuntos líticos de
superfície que apresentam peças
bifaciais(Dias & Jacobus, 2003). No caso do
complexo Alto Parananense de Itapiranga, as
datações entre 8.640 e 7.145 anos AP estão re-
lacionadas a um único sítio, SC-U-6, associa-
do a uma barranca do rio Uruguai que foi
localizado através da extração de argila pelas
indústrias de ladrilhos e telhas da região. As
escavações ocorridas em 1966 e 1968 atingi-
ram uma profundidade de 8,3 m, tendo sido
identificada a presença de cerâmica da Tradi-
ção Guarani até 2 m de profundidade e a pre-
sença de lascas em associação com concen-
trações de carvão entre 5 e 7,3 m de
profundidade com datações na faixa de 8.000
anos AP (Rohr, 1966, 1968, 1973, 1984; ver
também Schmitz & Becker, 1968). Por sua
vez, as prospecções na área revelaram 53 sí-
tios arqueológicos, em sua maioria superfi-
cial, dos quais apenas um apresentava ape-
nas evidências líticas, 30 continham somente
cerâmica da Tradição Guarani (com cronolo-
gia estimada em torno de 2.000 anos AP) e 22
55
possuíam associação entre cerâmica Guara-
ni e artefatos líticos lascados de forma bifa-
cial (Rohr, 1966). O material lítico dos sítios
de superfície foi classificado por Rohr como
associado ao Complexo Alto-paranaense, de-
finido por Menghin para a região de Missio-
nes, no nordeste da Argentina. Embora Rohr
deixe claro que “encontramos a cultura Alto-
-paranaense também em outros sítios, de
mistura com a cultura Guarani e que a área
também apresente conjuntos líticos com as-
sociação de pontas de projétil bifaciais”
(Rohr, 1966: 27), o autor defende a ideia de
que as datações obtidas no sítio SC-U-6 esta-
riam relacionadas às indústrias líticas dos
sítios de superfície em função da tipologia
dos artefatos bifaciais de grande porte. Esta
hipótese foi seguida por Schmitz e Becker
na interpretação de coleções líticas prove-
nientes de coletas superficiais em cinco
sítios da região de Itapiranga e de material
superficial sem procedência (Rohr, 1968;
Schmitz & Becker, 1968, ver também Sch-
mitz & Brochado, 1981b [1974]; Schmitz,
[1978]1981; Kern, 1981).
Esta hipótese de Rohr também foi reforça-
da por Walter Piazza, que definiu a fase Ta-
manduá a partir de um único sítio, SC-VP-38,
situado na confluência entre o rio do Peixe e o
rio Uruguai, com uma datação de 5.930 ± 140
anos AP (SI-827) (Piazza, 1971). No entanto,
este sítio igualmente corresponde a uma bar-
ranca de rio, no qual foi coletado carvão para a
datação a 3,5 m de profundidade. Embora o
autor não faça referência à quantidade de ma-
terial associado ao sítio, nem apresente sua
descrição, afirma que “encontrou-se material
lítico característico Alto-paranaense” (Piazza,
1971: 73). A descrição do contexto de deposição
deste sítio, também um barreiro, a semelhança
do sítio SC-U-6, indica perturbação de contex-
to, e este igualmente apresenta cerâmica da
Tradição Guarani nas camadas superficiais.
Os artefatos referendados à fase Tamanduá,
|
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56
|
ilustrados na publicação e identificados como |
posicional relacionados ao aumento de plu- |
||||
|
raspadores, parecem indicar lascas afetadas |
viosidade do Ótimo Climático. No caso dos |
||||
|
por arraste fluvial. Também se ressalta que, à |
contextos do oeste de Santa Catarina, a au- |
||||
|
semelhança do Alto-paranaense de Itapiranga, |
sência de pontas de projétil, fosseis guia da |
||||
|
este sítio está associado a um contexto de im- |
Tradição Umbu, e a antiguidade das data- |
||||
|
plantação caracterizado pela presença de dois |
ções nos depósitos fluviais foram os critérios |
||||
|
sítios líticos, relacionados à Tradição Umbu |
utilizados para aferir antiguidade aos sítios |
||||
|
(fase Suruvi), e a 46 sítios cerâmicos, em sua |
líticos de superfície em função da tipologia |
||||
|
maioria da Tradição Guarani. |
dos artefatos bifaciais, embora houvesse cla- |
||||
|
Caso similar está relacionado à datação |
ras evidências de associação contextual das |
||||
|
mais antiga da Tradição Humaitá no Rio Gran- |
evidências líticas com os sistemas de assen- |
||||
|
de do Sul associada à fase Antas. O sítio a céu |
tamento da Tradição Guarani da região. |
||||
|
aberto RS-A-12: Barreiro, associado às barran- |
A possibilidade de revisão crítica da inter- |
||||
|
cas do rio das Antas, possui uma datação de |
pretação tradicional de contextos deposicio- |
||||
|
6.620 anos AP a 700 cm de profundidade e sua |
nais como os acima descritos é oferecida pelos |
||||
|
indústria é caracterizada por Miller como re- |
resultados dos trabalhos arqueológicos de |
||||
|
presentada por “toscos artefatos líticos ( |
) |
con- |
obras de engenharia realizados no canteiro de |
||
|
feccionados a partir de seixos rolados ( |
) |
las- |
obras da UHE de Foz do Chapecó, entre os |
||
|
cões e lascas de basalto” (Miller, 1971:40). O |
anos de 2006 e 2010 (Scientia, 2010). O empre- |
||||
|
autor destaca que em “todas as peças observa- |
endimento localiza-se a cerca de 6,5 km a |
||||
|
-se o arredondamento e o polimento natural |
montante da confluência entre o rio Chapecó |
||||
|
nas áreas lascadas e cristas interlascadas. Esse |
com o rio Uruguai, na divisa entre os municí- |
||||
|
desbaste natural, ocasionado pelos detritos |
pios de Águas de Chapecó, em Santa Catarina, |
||||
|
transportados pelas águas ( |
) muito dificil- |
e Alpestre, no Rio Grande do Sul. Nessa pesqui- |
|||
|
mente são distinguíveis de seixos naturais e |
sa foram resgatados 14 sítios arqueológicos |
||||
|
possivelmente chegam a se confundir. ( ) ... |
marcados por uma alta variabilidade de indús- |
||||
|
Como o número de peças é mínimo e maiores |
trias líticas associada a diferenças cronológicas |
||||
|
conhecimentos acerca do contexto integral dos |
significativas. Dentre estes, têm-se sete sítios |
||||
|
sítios implicariam em extensas escavações, |
lito-cerâmicos, três sítios líticos e um sítio cerâ- |
||||
|
consideramos estas caracterizações mais |
mico, com profundidades que não ultrapas- |
||||
|
como um ensaio preliminar” (Miller, 1971: 41). |
sam 50 cm e datações entre 650 ± 90 anos AP |
||||
|
Apesar das ressalvas do autor, este sítio foi con- |
e 320 ± 70 anos AP. Outros três sítios estão as- |
||||
|
siderado nas sínteses posteriores como a evi- |
sociados exclusivamente a indústrias líticas e |
||||
|
dência mais antiga relacionada à Tradição Hu- |
apresentam sobreposição de ocupações. As |
||||
|
maitá no Rio Grande do Sul (Kern, 1981; |
mais antigas estão entre 20 a 170 cm de pro- |
||||
|
Simões, 1972; Schmitz, [1978]1981, 1984; Sch- |
fundidade e foram datadas entre 8270 +70 anos |
||||
|
mitz & Brochado, [1972]1981a, [1974]1981b). |
AP (Beta 236423) e 8370 + 60 anos AP (Beta |
||||
|
Os casos acima analisados apontam para |
236422) para o sítio ACH-LP1 e entre 7260 + 60 |
||||
|
a associação entre material lítico e carvão |
anos AP (Beta 236420) e 6990 + 70 anos AP |
||||
|
depositados em barrancas de rio em função |
(Beta 236421) para o sítio ACH-LP3. |
||||
|
de eventos naturais de arraste fluvial. Este |
A análise das indústrias líticas dos três sí- |
||||
|
aspecto é reforçado pela profundidade dos |
tios com sobreposição de ocupações demons- |
||||
|
depósitos e por suas datações do Holoceno |
trou claramente que estratégias tecnológicas |
||||
|
Médio que indicam eventos de alto fluxo de- |
distintas estavam sendo empregadas por dois |
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Indústrias Líticas em Contexto: O Problema Humaitá na Arqueolog ia Sul ... |
Adriana Schmidt Dias e Sirlei Elaine Hoeltz |
||||
diferentes grupos culturais que ocuparam
aqueles locais em diferentes períodos. As in-
dústrias dos conjuntos exclusivamente líticos,
datados entre 8.300 e 6.900 anos AP, foram re-
lacionadas aos caçadores coletores da Tradi-
ção Umbu por apresentarem estratégias de
produção direcionadas predominantemente à
obtenção de pequenos artefatos de tecnologia
bifacial através da técnica unipolar. Tais pro-
duções, ocorridas principalmente sobre areni-
to silicificado, resultaram em pontas de projétil
de tipologias variadas, um conjunto de lâmi-
nas de gumes finamente retocados, peças bifa-
ciais de tecnotipos variados, sendo as formas
foliáceas e lanceoladas de pequeno porte (en-
tre 5 e 10 cm de comprimento) as mais nume-
rosas, e uma variedade de resíduos de lasca-
mento unipolar. As indústrias dos conjuntos
lito-cerâmicos, associadas às camadas estrati-
gráficas mais recentes e com datações estima-
das entre 650 e 320 anos AP, estão associadas
ao sistema de assentamento da Tradição Gua-
rani. Neste caso, as estratégias de produção lí-
tica foram guiadas principalmente à obtenção
de lascas retocadas bipolares de rochas cripto-
cristalinas e à produção de peças bifaciais de
portes avantajados de arenito silicificado e ba-
salto (entre 8 e 20 cm). Dentre estes artefatos
bifaciais tem destaque a presença dos talhado-
res bifaciais bumerangoides, características do
Complexo Alto-paranaense. Nesses conjuntos
ocorrem também afiadores de arenito, percu-
tores, perfuradores, lâminas de machado poli-
das e tembetás. As características destas indús-
trias permitiram aferir à Tradição Guarani o
restante dos sítios líticos de superfície pesqui-
sados, partindo da idéia de que estes integram
o complexo situacional de sítios associados ao
modelo de sistema de assentamento Guarani.
Assim, os sítios lito-cerâmicos maiores (AA3,
LP1 e LP3), localizados na beira do rio Uru-
guai, com indústrias formadas por conjuntos
adequados a atividades domésticas, como as
lascas retocadas de calcedônia e as peças bifa-
57
ciais de pequeno porte, foram relacionados às
aldeias Guarani (amundá). Os sítios lito-cerâ-
micos menores e os exclusivamente líticos,
pouco mais distantes da margem do rio, com
indústrias formadas sobretudo por núcleos,
lascas residuais e retocadas unipolares e peças
bifaciais de porte avantajados, estariam rela-
cionados às áreas de cultivo, de manejo agro-
florestal e de extração de matérias primas mi-
nerais e vegetais, correspondendo a locais de
atividade específica distribuídos diferencial-
mente na área de domínio do tekohá.
Situação similar ao identificado no contex-
to arqueológico da Foz do Chapecó também
justificaria os sítios líticos estratificados e com
datações antigas associados ao médio vale do
rio Paraná, que também foram afiliados nas
sínteses regionais à Tradição Humaitá (Kern,
1981; Schmitz, 1984, 1987; Noelli, 1999/2000).
Este é o caso dos sítios líticos Brito, Almeida e
Camargo, no vale do rio Paranapanema (São
Paulo), dos sítios José Vieira e PR-QN-01, no
vale do rio Ivaí (Paraná) e PR-FI-21 e PR-FI-49,
na Foz do Iguaçu (Paraná) que apresentam se-
quências de datações entre 7000 e 2000 anos
AP (Chmyz, 1983; Laming-Emperaire, 1968;
Moraes, 1979; Pallestrini, 1980; Pallestrini &
Chiara, 1978; Vilhena de Moraes, 1977; Vilhe-
na-Vialou, 1980, 1983/1984).
Os sítios do vale do rio Paranapanema e o
sítio José Vieira foram escavados entre as déca-
das de 1950 e 1970 por metodologias distintas
à tradicionalmente utilizada pelo PRONAPA,
enfatizando áreas amplas e o registro contex-
tual das evidências, seguindo as orientações da
Escola Francesa. Todos correspondem a sítios
que apresentam sobreposição de ocupações,
sendo as mais antigas datadas entre 7.000 e
2.600 anos AP e associadas unicamente a con-
juntos líticos, e as mais recentes datadas entre
1.200 e 400 anos AP, com associação a conjun-
tos lito-cerâmicos da Tradição Guarani. No
caso do vale do Paranapanema, as sequências
de datações radicarbônicas e as análises dos
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planos de escavação demonstram tratar-se de
claros contextos de sobreposição de ocupa-
ções, separados por camadas aluviais estéreis,
associadas a marcos específicos na paisagem:
os afloramentos rochosos de basalto ou arenito
silicificado. Esta situação é mais evidente no
caso dos sítios Camargo e Almeida cujas in-
dústrias líticas caracterizam-se pela utilização
preferencial dos afloramentos de arenito silici-
ficado situados nas proximidades. Nos níveis
líticos do sítio Almeida, os extensos estudos
tecno-tipológicos desenvolvidos indicam o pre-
domínio de áreas de lascamento e produção de
artefatos elaborados sobre lascas retocadas as-
sociadas aos níveis ocupacionais antigos data-
dos em 3.600 anos AP, estando os bifaces de
grande porte associados preferencialmente aos
níveis lito-cerâmicos mais recentes vinculados
à ocupação Guarani (Vilhena-Vialou, 1980:
155). No caso do sítio Camargo, as zonas de
lascamento também estão presentes nos níveis
ocupacionais mais antigos, porém somente
neste sítio foi encontrado um conjunto de pon-
tas de projétil datadas de 4.250 anos AP (Palles-
trini, 1980; Pallestrini & Chiara, 1978). As pecu-
liaridades destas indústrias bifaciais associadas
à ausência ou pequena representatividade de
pontas de projétil nas amostras regionais é que
determinou sua afiliação cultural à Tradição
Humaitá nas sínteses histórico-culturais ela-
boradas na década de 1980 (Kern, 1981; Sch-
mitz, 1984, 1987).
Analisando-se o contexto regional do Para-
napanema, à luz das pesquisas atuais relativas
às ocupações caçadoras coletoras das Terras
baixas americanas, sugere-se que este repre-
senta uma zona de transição/tensão entre dois
blocos culturais distintos: os caçadores coleto-
res do cerrado associados à Tradição Itaparica
e os caçadores coletores da floresta Atlântica
associados à Tradição Umbu, o que justificaria
a variabilidade regional de suas indústrias se
comparadas ao do Brasil meridional (Dias &
Bueno, 2010; ver também Caldarelli, 1983, Vi-
lhena-Vialou, 2009). Porém, as diferenças in-
ter-sítios, tanto em termos sincrônicos como
diacrônicos, podem estar refletindo diferentes
aspectos de um complexo situacional de sítios,
representando os sítios líticos áreas de ativida-
de limitada associados à exploração dos aflo-
ramentos rochosos, tanto por grupos caçado-
res coletores, quanto pelos grupos agricultores
que em cronologia mais recente ocuparam as
mesmas regiões.
Situação similar também explicaria as in-
dústrias bifaciais sem pontas de projétil asso-
ciadas aos sítios líticos estratificados com da-
tações do Holoceno Médio nos vales dos rios
Ivaí, Guaíra e Foz do Iguaçu, abrangendo as
fases Ivaí, Pirajuí, Timburi e Tatuí. Para estes,
contudo, dispomos de informações mais limi-
tadas quanto às características deposicionais,
tendo em vista os enfoques metodológicos das
pesquisas (Chmyz, 1983). Porém, para contex-
tos regionais cujas indústrias líticas foram es-
tudadas em maior detalhe, a ausência de pon-
tas de projétil não justifica a inexistência de
relação contextual com os sistemas de assen-
tamento da Tradição Umbu. Este é o caso dos
sítios em abrigo sob rocha que apresentam
petroglifos da fase Canhemborá, associados
ao vale do rio Jacuí, no Estado do Rio Grande
do Sul. Embora as pontas de projétil sejam
pouco significativas em termos quantitativos
nas coleções líticas destes sítios, a análise
comparativa da organização tecnológica e dos
estilos rupestres com contextos contemporâ-
neos permite a percepção de que se trata de
locais de atividade específica e de natureza
simbólica associados ao complexo situacional
de sítios que compõem os modelos de sistema
de assentamento da Tradição Umbu (Dias,
2003, 2004a; Castelhano, 2003).
Se por um lado o problema Humaitá reflete
questões de natureza interpretativa quanto ao
Indústrias Líticas em Contexto: O Problema Humaitá na Arqueolog ia Sul ... |
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contexto regional e cronológico das indústrias
líticas do sul do Brasil, por outro igualmente
revela possibilidades de análise quanto aos sig-
nificados culturais da variabilidade tecnológi-
ca relacionada à produção de artefatos bifa-
ciais. Compreender a tecnologia lítica em
contexto significa integrá-la aos sistemas tec-
nológicos de uma dada sociedade, permitindo
situar a variabilidade observada como uma
construção social resultante de escolhas cultu-
ralmente determinadas. Para Lemmonier, a
tecnologia é um produto social, sendo as esco-
lhas tecnológicas estratégias dinâmicas, rela-
cionadas frequentemente com diferenciação e
identidade social. As técnicas são produções
sociais que expressam e definem identidades,
auxiliando a reafirmar, representar e dar sen-
tido a um mundo socialmente construído de
possibilidades e limites (Lemmonier, 1986).
De acordo com esta lógica, grupos vizinhos,
em geral, têm plena consciência das suas esco-
lhas técnicas mútuas e a ausência de um dado
traço tecnológico em um dos sistemas pode
representar uma estratégia consciente de de-
marcação de diferenciação social (Dobres &
Hoffman, 1994). Portanto, os sistemas tecnoló-
gicos são um recurso e um produto de criação
e manutenção de um ambiente natural e so-
cial, simbolicamente constituído, estando a sua
investigação voltada para o entendimento de
sua relação com os demais sistemas de repre-
sentação social (Dias & Silva, 2001).
Sob esta perspectiva, cronologias e tipolo-
gias não bastam para distinguir coleções líti-
cas, tampouco defini-las. As definições, assim
sustentadas, somente correspondem a uma
realidade tipológica que mascara realidades
técnicas que podem ser muito distintas (Boëda,
1997). Este é o caso da Tradição Humaitá cuja
caracterização tecnológica sustentou-se ao
longo dos anos como um paradigma aparen-
temente imutável, sem a percepção de que os
conjuntos líticos a ela relacionados têm signi-
ficados que vão além da forma dos artefatos.
59
Na busca dessa realidade subentendida os ob-
jetos técnicos devem ser definidos pela sua
gênese e não como meramente utensílios.
Esta maneira de apreender a realidade nos
permite disponibilizar de um gradiente suple-
mentar para a análise da variabilidade que
busca investigar as razões de uma dada con-
vergência tipológica.
As análises tecnológicas sugeridas por
Boëda (1997) permitem, teoricamente, com-
preender um sistema técnico de produção
segundo dois eixos. O primeiro diz respeito à
cadeia operatória, que traduz a sucessão ló-
gica dos eventos técnicos. O segundo refere-
-se ao esquema operatório que traduz os as-
pectos cognitivos desta cadeia operatória. é
consenso entre os tecnólogos reconhecer
que um ato técnico isolado é raro e que este
se organiza em séries de operações que so-
mente têm sentido como elos, indispensáveis
e independentes, de uma sequencia nomea-
da de cadeia operatória (Desrosiers, 1991).
De acordo com Perlès (1992), através da se-
quência operacional que leva ao descarte do
artefato lítico, o artesão dispõe de uma série
de opções técnicas, econômicas, sociais e
simbólicas, e a combinação destas pode ex-
pressar-se em termos de estratégias. Para
muitos autores, a cadeia operatória, na práti-
ca, divide-se em três estágios que repousam
sobre bases conceituais diferentes e ocorrem
em sucessão temporal: aquisição de matéria
prima, produção de instrumentos e agencia-
mento do conjunto de instrumentos (Boëda,
1986, 1997; Boëda et al., 1990; Geneste, 1991;
Pelegrin, 1995; Perlès, 1992; entre outros).
Numa compreensão cognitiva das produ-
ções, Boëda (1997) afirma que a realização
de um ato ou de uma sucessão lógica de atos
só é possível pela aplicação de conhecimen-
tos técnicos e de saber-fazer, sendo estes co-
nhecimentos adquiridos desde muito cedo e
quotidianamente pelos artesãos. Dependen-
do da estrutura interna das sociedades e da
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complexidade das técnicas em uso, a aquisi-
ção precoce faz com que os conhecimentos
sejam aprendidos sem necessariamente se-
rem pensados ou discutidos. O autor acres-
centa que estes conhecimentos e saber-fa-
zer técnicos são considerados rígidos e não
serão renegociados na vida adulta, ainda
que uma flexibilidade de adaptação seja
sempre possível. Para Boëda é em função
desta rigidez, sinônimo de estabilidade, que
se pode reconhecer, individualizar e dife-
renciar os saberes técnicos de uma determi-
nada sociedade.
Para operacionalizar, na prática, a análi-
se das sequências gestuais empreendidas
pelos artesãos, recorremos à leitura diacrí-
tica dos instrumentos. Neste tipo de análise
se busca revelar os diferentes agenciamen-
tos que conduziram o artesão à produção do
objeto planejado, que nada mais é senão
procurar dispor em ordem cronológica as
retiradas determinadas pelo artesão ao cur-
so de uma caminhada refletida (Pele -
grin,1995; Boëda, 1997). Parte-se da pers-
pectiva que na produção de um dado
instrumento, o artesão, após a obtenção do
suporte, efetua retiradas numa ordem cro-
nológica a partir das quais organiza super-
fícies a fim de impor ao objeto uma deter -
minada estrutura e, neste processo, ele cria
superfícies adequadas para compor unida-
des ativas e/ou passivas. Assim formado, o
instrumento decompõem-se em três par -
tes: 1) uma parte receptiva de energia que
coloca o instrumento em funcionamento;
2) uma parte preensiva que permite ao ins-
trumento funcionar, podendo, em certos
casos se sobrepor à primeira; e 3) uma par-
te transformativa. Cada uma destas partes
constitui-se de uma ou várias Unidades
Tecno-Funcionais (UTFs). Portanto, a dife-
renciação das sequências ou etapas de las-
camento traduz-se pela interpretação do
objetivo de cada retirada, individualmente,
para em seguida relacioná-las a uma ou
mais unidades tecno-funcionais. Este pro-
cedimento resulta na identificação técnica
de cada uma das etapas, podendo tratar-se
de uma Unidade Tecno-Funcional Trans -
formativa (parte ativa do instrumento) ou
de uma Unidade Tecno-Funcional Preensi-
va (parte passiva do instrumento).
Para o reconhecimento específico das
UTFs transformativas de peças bifaciais,
Boëda observa que há várias combinações
entre as duas superfícies que as compõem
(entre superfícies planas e convexas). Explica
que a assimetria existente entre estas duas
superfícies faz com que os planos de seção
das bordas (planos de corte) sejam também
assimétricos e que modificações podem ocor-
rer às custas destes planos de corte. Se tais
modificações corresponderem a uma afiação
(ou retoque) tem-se um novo plano de seção
e a este denomina-se plano de bico. Obser-
vando o modo como estas afiações foram efe-
tuadas, o autor identificou sempre o mesmo
procedimento, isto é, modificações às custas
da superfície superior, convexa ou irregular,
a partir da superfície inferior, sempre plana.
Frente a essas observações, Boëda afirma que
não há outra maneira de modificação para as
peças bifaciais (Boëda, 1997). Mediante tais
procedimentos, ao término da leitura das pe-
ças bifaciais ter-se-á definido os elementos e
caracteres técnicos que as constituem e, num
processo de encadeamento desses atributos,
a sua gênese. A interpretação dessas infor-
mações torna possível definir como e por que
os instrumentos foram produzidos e, ao com-
pará-los, definir quem os produziu (para a
leitura de outras categorias de objetos líticos
ver Hoeltz, 2005).
As indústrias líticas bifaciais englobadas
pelo conceito de Tradição Humaitá represen-
tam realidades complexas e sua variabilidade
espacial indica escolhas culturais e identida-
des sociais que estão refletidas nas cadeias
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operatórias de produção. Um exemplo dessa
variabilidade de natureza cultural das esco-
lhas tecnológicas pode ser visto no contexto de
ocupação do alto vale do rio dos Sinos, região
nordeste do rio grande do Sul (Dias, 2003,
2006a, 2007b). A análise comparativa das ca-
deias operatórias relacionadas à produção de
artefatos bifaciais de grande porte associados a
sistemas de assentamento distintos indicou va-
riações culturais significativas. Nos conjuntos
líticos da Tradição Guarani, os seixos de mor-
fologia alongada foram selecionados como su-
porte preferencial para a produção de artefatos
unifaciais e bifaciais, sendo mais frequentes
nas coleções as categorias relacionadas às pri-
meiras etapas da cadeia operatória que seriam
descartados em maior frequência junto aos
locais de produção de artefatos (tradicional-
mente definidos como choppers e chopping
tools). As características deste conjunto artefa-
tual indicam que as faces planas originais do
seixo selecionado para a produção do artefato
serviram como plataforma inicial para o lasca-
mento. O lascamento primário inicia-se, em
geral, por duas retiradas em uma das faces,
para teste da matéria prima, centrando-se em
apenas uma das extremidades da peça. Esta
etapa de produção gera um gume funcional,
podendo o artefato ser utilizado, abandonado
em função da presença de irregularidades na
matéria prima ou sofrer de dois a três lasca-
mentos na face oposta, produzindo um gume
bifacial, com terminação em ponta. Intensifi-
cando-se a redução primária em uma das fa-
ces do artefato pode-se ampliar o gume bifacial
até a metade da peça ou optar-se por estender
a redução primária por todo o contorno da
peça, formando um gume periférico. Chama a
atenção que os tipos formais de artefatos destas
coleções líticas da tradição Guarani poderiam
ser relacionados à definição original da fase
Camboatá da tradição Humaitá definida por
Miller (1967). Por sua vez, os conjuntos líticos
da tradição Taquara estão associados à redu-
61
ção de núcleos e produção de bifaces junto aos
afloramentos de basalto. Os bifaces são elabo-
rados sobre blocos de afloramento e a quanti-
dade de córtex é significativa, sendo o investi-
mento tecnológico de formatação relacionado
à elaboração de gume ativo bifacial, apenas em
uma ou em ambas extremidades. Destaca-se
que de acordo com a definição formal do PRO-
NAPA, estes conjuntos líticos da Tradição Ta-
quara se enquadrariam na definição original
da fase Humaitá realizada por Miller (1967).
Para ambos contextos culturais, no entanto, os
artefatos bifaciais serviam a atividades simila-
res podendo ser transportados e utilizados em
distintas atividades nas áreas domésticas, de
cultivo e de manejo agroflorestal.
Outro exemplo pode ser atestado através da
pesquisa efetuada na área de implantação da
Linha de Transmissão Garabi-Itá, localizada
na região noroeste do Rio Grande do Sul (Ho-
eltz, 2005). Neste trabalho, foram selecionadas
para análise as indústrias de três sítios líticos
localizados no vale do rio Ijuí situados em uma
área que também apresenta contextos arqueo-
lógicos relacionados à ocupação Guarani. To-
das as coleções são formadas por núcleos, las-
cas, detritos e artefatos brutos e por peças
bifaciais diversas, especialmente as de grande
porte. A análise da cadeia operatória demons-
trou que essas indústrias foram produzidas,
desde as etapas iniciais, com a seleção e a aqui-
sição das matérias primas, até as etapas finais
de produção, com o agenciamento dos instru-
mentos, através de semelhantes estratégias. Os
artesãos optaram preferencialmente por uma
variedade de rochas metamórficas, ao invés
das rochas basálticas altamente disponíveis na
região. Os aspectos que os levaram a essas es-
colhas seriam a alta qualidade do lascamento,
a necessidade técnica e a restrição funcional.
Selecionadas, as rochas foram transportadas
ao local de assentamento e as produções se de-
ram a partir de dois esquemas operatórios: de-
bitagem e façonnage. Todas as peças foram
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produzidas mediante a técnica de percussão
unipolar com o emprego do percutor duro. A
partir da análise diacrítica dos núcleos e dos
instrumentos, constatou-se que determinados
caracteres técnicos tornavam as peças distintas
uma das outras, mas que essas diferenças
eram comuns às três indústrias. Assim, segun-
do suas estruturas, os núcleos e os instrumen-
tos foram agrupados em diferentes categorias
e, estes últimos, segundo a construção volumé-
trica, a organização das UTFs transformativas
e o tipo de suporte, em diferentes tecnotipos.
Quanto à produção dos instrumentos, ficou
evidente que inúmeros caracteres técnicos
eram comuns a peças pertencentes não so-
mente a tecnotipos, mas também a categorias
Figura 3. Peças bifaciais multifuncionais da área de implantação da Linha de Transmissão Garabi-Itá (ilustrações:
Sirlei E. Hoeltz)
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e, não raramente, a sítios diferentes. Tal cons-
tatação sugeriu que soluções técnicas idênticas
estavam sendo reproduzidas em peças criadas
a partir de métodos operacionais distintos.
Dentre essas concordâncias técnicas encontra-
-se o modo de produção das grandes peças bi-
faciais, onde: a) o lascamento inicial se proces-
sava a partir de blocos elipsóides; b) os blocos
correspondiam aos suportes dos instrumentos;
c) os planos de corte eram sempre criados a
partir de superfícies planas; a extremidade dis-
tal era sempre pontiaguda; e e) a superfície
cortical, quando mantida, relacionava-se sem-
pre à UTF preensiva. Outras características
técnicas comuns dizem respeito à multifuncio-
nalidade da maior parte dos instrumentos, à
criação de UTF opostas e invertidas, à adequa-
ção e organização de zonas preensivas, à pro-
dução de peças trifaciais e à correlação exis-
tente entre a organização de UTFs(t) e de
determinados tipos técnicos (figura 3). Frente
a esses resultados, ficou evidente que as três
indústrias eram muito semelhantes entre si e
que estas correspondiam a escolhas técnicas
de um mesmo grupo cultural, representando
áreas de extração de matérias primas e produ-
ção de bifaces associadas ao complexo situa-
cional de sítios da Tradição Guarani.
Tomando por referência os estudos acima
apresentados é possível perceber que a avalia-
ção da procedência dos conceitos de Tradição
e fase só é possível a partir de estudos específi-
cos, de caráter regional, que respeitem a con-
textualização espacial dos sítios em suas carac-
terísticas internas e externas. No entanto, estes
aspectos contextuais devem necessariamente
estar associados a estudos de coleções que
compreendam os artefatos enquanto resulta-
dos de escolhas tecnológicas e, portanto, pro-
duto de uma tradição cultural que sinalizam,
em última instância, fronteiras e identidades
sociais no registro arqueológico. No caso espe-
cífico da arqueologia do sul do Brasil, análises
desta natureza, conduzidas nos últimos anos,
63
indicam uma clara distinção nas estratégias de
organização tecnológica entre caçadores cole-
tores, representados pela Tradição Umbu, e os
diferentes grupos agricultores, representados
pelas Tradições Guarani e Taquara-Itararé.
Para estes dois últimos casos, as distinções tec-
nológicas identificadas nas cadeias produtivas
da cerâmica também encontram reflexos no
sistema tecnológico relacionado aos conjuntos
líticos. Estas diferenças, porém, não se refle-
tem apenas na morfologia dos artefatos bifa-
ciais de grande porte (talhadores), tradicional-
mente identificados como fósseis guia da
tradição Humaitá, mas estão demarcadas por
diferenças claras nas cadeias operatórias aos
quais estes estão relacionados, indicando esco-
lhas tecnológicas sinalizadoras de identidades
sociais distintas (Dias, 2007a).
A análise do problema Humaitá na arque-
ologia sul brasileira revela as implicações in-
terpretativas de duas perspectivas analíticas
opostas. De um lado, os conjuntos artefatuais
aferidos à Tradição Humaitá são entendidos
pela perspectiva histórico-cultural como assi-
naturas que representam a variação espaço-
-temporal de uma suposta ocupação caçadora
coletora. De outro, pela perspectiva sistêmica,
a variabilidade tecnológica destas indústrias
líticas é entendida enquanto carregada de sig-
nificados contextuais relativos a distintas for-
mas de ocupação e utilização do espaço regio-
nal no passado pré-colonial.
A avaliação do problema Humaitá em rela-
ção aos contextos regionais permite perceber
que a variabilidade destas indústrias bifaciais
está associada a complexos situacionais de sí-
tios pertencentes a diferentes sistemas de as-
sentamento. Os estudos de caso aqui analisa-
dos permitem concluir que os sítios líticos que
se relacionam aos sistemas de assentamento
de agricultores da região sul brasileira apre-
sentam distinções relacionadas aos contextos
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funcionais aos quais estão associados. Nos
contextos domésticos das aldeias, predomi-
nam conjuntos líticos vinculados a atividades
de preparo e consumo de alimentos e às práti-
cas artesanais e simbólicas, destacando-se os
resíduos de lascamento, os artefatos brutos e
os artefatos polidos. Conjuntos líticos distintos
estão associados a atividades especificas de-
sempenhadas fora do perímetro da aldeia,
como a extração de matérias primas litológi-
cas, às práticas de cultivo, à extração e ao pro-
cessamento de material construtivo utilizado
na sede da aldeia e à confecção de estruturas
habitacionais e cerimoniais. As atividades es-
pecíficas desempenhadas em cada um destes
locais geram concentração de resíduos de las-
camento e de artefatos em distintas fases de
confecção que podem situar-se a distâncias
variadas da sede da aldeia, de acordo com as
disponibilidades de matérias primas em ter-
mos locais. Nos locais de extração de matéria
prima, predominam resíduos de lascamento e
artefatos bifaciais que podem ter sido abando-
nados nos locais de produção em função de
acidentes de lascamento ou imperfeições da
matéria prima. Nos locais de cultivo e manejo
agroflorestal encontram-se conjuntos de arte-
fatos bifaciais de grande porte e de caracterís-
ticas multifuncionais, genericamente deno-
minados talhadores, que podem ter sido
intencionalmente estocados ou abandona-
dos em função do desgaste, justificando nes-
te caso a presença de conjuntos de artefatos
achados de forma isolada na paisagem.
A avaliação do problema Humaitá em rela-
ção aos contextos cronológicos do sul da Brasil
igualmente revela inconsistências de interpre-
tação quanto às características deposicionais
de conjuntos líticos datados do Holoceno Ini-
cial e Médio onde as pontas de projétil estão
ausentes ou são pouco frequentes. Os casos
aqui analisados indicam que estes sítios líticos
estratificados também se relacionam a locais
de atividades específicas associados ao com-
plexo situacional de sítios que compõe os siste-
mas de assentamento da Tradição Umbu.
Contudo, os problemas de natureza inter-
pretativa associados ao conceito Tradição
Humaitá igualmente revelam possibilidades
de análise quanto aos significados culturais
da variabilidade tecnológica relacionada à
produção de artefatos bifaciais. As indústrias
líticas englobadas pelo conceito de Tradição
Humaitá representam realidades complexas
e sua variabilidade espacial e temporal indi-
cam escolhas culturais que estão refletidas
nas cadeias operatórias de produção e estra-
tégias de usos. Desta forma, é na análise dos
sistemas tecnológicos que encontramos o
suporte metodológico para interpretar o sig-
nificado dos sítios líticos em associação con-
textual a distintos sistemas de assentamento
em âmbito regional e temporal.
Indústrias Líticas em Contexto: O Problema Humaitá na Arqueolog ia Sul ... |
Adriana Schmidt Dias e Sirlei Elaine Hoeltz |
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RE f ER ên CIAS b I b LI o GR áf ICAS |
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Volume 23 |
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Adriana Schmidt Dias e Sirlei Elaine Hoeltz |
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REVISTA DE ARQUEOLOGIA |
Volume 23 |
- N.2:40-67 |
- 2010 |
marcelo fagundes Coordenador do Laboratório de Arqueologia e Estudo da Paisagem da Universidade federal dos vales do Jequitinhonha e mucuri (UfvJm) marcelo.fagundes@ufvjm.edu.br/ fagundes_fgs@yahoo.com.br
RESU mo |
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|
O presente artigo é fruto da tese de douto- |
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|
ramento intitulada Sistema de assentamento e |
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A b S t RACt |
tecnologia lítica: organização tecnológica e va- |
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|
This paper is part of the thesis named |
riabilidade no registro arqueológico em Xingó, |
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|
“Settlement Systems and Lithic Technology: |
Baixo São Francisco, Brasil, a qual teve como |
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|
technological organization and variability in |
objetivo apresentar os resultados alcançados |
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|
archaeological record in Xingó Area, São |
por meio de pesquisas sistemáticas de campo, |
||
|
Francisco low valley, Brazil, that aimed to |
laboratório e gabinete, que, interligadas, coligi- |
||
|
present the final results of a long-term study |
ram dados responsáveis por uma compreen- |
||
|
after systematic research in field, laboratory |
são mais assertiva sobre o modo de vida e di- |
||
|
and in office that interconnected unify data |
nâmica cultural dos grupos pré-históricos que |
||
|
which gives an assertive understanding of |
ocuparam a Área Arqueológica de Xingó du- |
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|
the life and cultural dynamic of prehistoric |
rante quase oito milênios. Esse artigo, por sua |
||
|
societies who occupied the Archaeological |
vez, tem como objeto a compreensão de como |
||
|
zone of Xingó during eight thousand years. |
as populações pré-históricas que ocuparam a |
||
|
This paper aims to comprehend how the pre- |
região estabeleceram seu sistema regional de |
||
|
historic groups established their regional |
assentamento em terraço, tendo como hipóte- |
||
|
settlement system on the fluvial benches. I |
se norteadora que todos os sítios contemporâ- |
||
|
used as a guide hypothesis the fact that all |
neos estariam conectados entre si no chamado |
||
|
contemporaneous sites were connected |
complexo situacional de sítios. Para tanto foi |
||
|
among them in a situational complex of sites. |
utilizada a análise intra-sítio tendo como mo- |
||
|
So, I used the intrasite analyze basing my |
delo gravitacional o sítio Justino, de forma a |
||
|
data in Justino archaeological site, my gravi- |
elucidar o sistema de assentamento regional. |
||
|
tational model, to elucidate the regional set- |
Em relação ao referencial teórico, foram utili- |
||
|
tlement system. I used multiples concepts |
zados múltiplos conceitos e abordagens que |
||
|
and approaches that worked together to un- |
convergiram para a compreensão da paisagem |
||
|
derstand the landscape while a social con- |
enquanto construção social que, dotada de va- |
||
|
struction immersed in social means and val- |
lores e significados, pode ser compreendida |
||
|
ues which have been understood as a loci of |
como o loci de ocupação continuada, ou luga- |
||
|
continuous occupation or persistent places |
res persistentes. |
||
|
K EY W o RDS Intrasite analyses, Settlement |
PALAv RAS-CHAv E Análise intra-sítio, Sis- |
||
|
Systems, Xingó |
tema de Assentamento, Xingó |
||
|
REVISTA DE ARQUEOLOGIA |
Volume 23 - N.2:68-97 |
- 2010 |
|
70
I |
nt R o DU ção |
A vegetação circundante era a caatinga |
||
|
O artigo aqui apresentado tem como obje- |
hiperxerófita, constituída por cantigueiras |
|||
|
tivo apresentar os resultados da análise intra- |
(caesalpinia bracteosa), juazeiros (ziziphus |
|||
|
sítio do sítio Justino (Fagundes, 2007), o que |
joazeiro), pau-ferro (Caesalpinia ferrea), en- |
|||
|
denominamos de Fases de Ocupação, de modo |
tre outras. Além disso, o terraço foi utilizado |
|||
|
que pudéssemos compreender a variabilidade |
para plantações de subsistência de feijão (Vi- |
|||
|
tecnológica observada na análise dos conjun- |
gna unguiculata) e milho (zea mays). Sendo |
|||
|
tos líticos que foram evidenciados durante as |
assim, devido à intervenção antrópica em |
|||
|
campanhas de escavação do referido assenta- |
função das atividades agrícolas, foram evi- |
|||
|
mento (Fagundes, 2010a; 2010b). |
denciados na superfície deste sítio muitos |
|||
|
O sítio Justino foi o assentamento com |
fragmentos cerâmicos. Além disso, as bor- |
|||
|
maior intervenção na Área Arqueológica de |
das do terraço, por questões de ordem natu- |
|||
|
Xingó, já que o terraço onde estava localizado |
ral, encontravam-se bastante erodidas em |
|||
|
foi completamente escavado em relação ao es- |
toda sua extensão, fator responsável pela |
|||
|
paço/profundidade, atingindo o embasamento |
perda de valiosas informações arqueológicas |
|||
|
rochoso, utilizando o método etnográfico de |
(Vergne, 2004). |
|||
|
superfícies amplas (Leroi-Gourhan, 1950, |
||||
|
1972). Tal procedimento efetivou-se após a evi- |
REfEREnCIAL tEóRICo |
|||
|
denciação de uma série de esqueletos huma- |
O interesse de compreendermos a re - |
|||
|
nos geralmente associados a um rico enxoval |
lação entre os diversos sítios contem - |
|||
|
funerário que, no final da escavação, totalizou |
porâneos distribuídos em uma paisagem |
|||
|
167 sepultamentos com presença de 185 es- |
centra-se na assertiva de que estes man - |
|||
|
queletos (Vergne, 2004). |
têm relações intrínsecas entre si, cada |
|||
|
Este sítio localiza-se na fazenda Cabeça |
um ocupando um papel no sistema produ - |
|||
|
de Nego, município de Canindé de São Fran- |
tivo/ de subsistência, na mobilidade e na |
|||
|
cisco, na margem direita do São Francisco, |
própria organização social e cultural dos |
|||
|
na confluência de um riacho, com coordena- |
grupos pré-históricos. |
|||
|
das UTM 8.938.881/ 627.561. Sua área total é |
Neste caso, esses sítios não podem ser com- |
|||
|
de aproximadamente 1.500 m2, com altitude |
preendidos separadamente “( ) |
como enti- |
||
|
média de 37 metros em relação ao nível do |
dades estáticas e isoladas” (Dias, 2003: 40), já |
|||
|
mar, sendo escavada uma área total de 1.265 |
que cada um assume uma função fundamen- |
|||
|
m2 (23 x 55 m). |
tal dentro das estratégias/ escolhas do grupo. |
|||
|
Conforme Dominguez & Britcha (1997), |
Cada sítio compreende, assim, uma cé - |
|||
|
a formação geológica deste terraço estava |
lula dentro de um sistema sócio-cultural |
|||
|
associada à descida de sedimentos dos alti- |
abrangente e de fundamental importância, |
|||
|
planos semi-áridos, sobretudo através do |
mas que por si só não é capaz de esgotar a |
|||
|
riacho Curituba, formando deposições sed- |
compreensão da organização tecnológi - |
|||
|
imentares de características deltaicas, com |
ca 1 , da mobilidade, das estratégias, capta - |
|||
|
ocorrência de camadas aluvionares que |
ção de recursos, enfim da dinâmica cul - |
|||
|
apresentavam espessuras variáveis, consti- |
tural na pré-história. |
|||
|
tuídas por areia fina ou grossa, seixos, siltes |
Além do mais, partindo do princípio de to- |
|||
|
e argilas. Além disso, deve-se citar o papel |
talidade em Mauss (1974), a unidade se dá |
|||
|
das cheias do São Francisco para a deposição |
pela complementaridade entre as partes con- |
|||
|
de sedimentos neste terraço. |
stitutivas de um domínio cultural (abrangen- |
|||
|
ANÁLISE INTRA-SÍTIO DO SÍTIO JUSTINO, BAIXO SÃO FRANCISCO – AS FASES OCUPACIONAIS |
Marcelo Fagundes |
|||
71
|
do tanto o contexto social como natural), que, |
texto sistêmico (Schiffer, 1972, 1983, 1987). |
|
|
sob nosso ponto de vista, na Arqueologia se |
Nesse artigo ao privilegiarmos as |
|
|
visualiza pela identificação e correlação dos |
análises intra-sítios – os diferentes tipos |
|
|
geoindicadores 2 (Morais, 2006). |
de uso de um dado assentamento em lon - |
|
|
Logo, esse reconhecimento das caracter- |
ga duração –, estávamos preocupados |
|
|
ísticas regionais, que nos serviram de mod- |
(no caso específico do sítio Justino), com |
|
|
elo locacional de caráter preditivo, acaba |
a distribuição espacial e relacional, além |
|
|
por permitir à constituição dos lugares per- |
da densidade e diversidade dos remanes - |
|
|
sistentes 3 , inclusive como meio de estabel- |
centes culturais bem como suas sequên - |
|
|
ecer padrões à compreensão dos sistemas |
cias operacionais de produção (Fagundes, |
|
|
regionais de assentamento. |
2010a, 2010b, 2010c), de modo que pu - |
|
|
Com base nesses pressupostos só poder- |
déssemos inferir seus “papéis” dentro da |
|
|
emos realizar inferências sobre o sistema |
organização social do grupo (ou grupos) |
|
|
regional de assentamento quando estabelec- |
em estudo. |
|
|
emos correlações e conexões entre os diver- |
Ou seja, o que pretendemos frisar é que os |
|
|
sos sítios e lugares persistentes de uma área |
estudos sistemáticos intra-sítio da distribuição |
|
|
(Schlanger, 1992), relacionando-os impret- |
e associação artefatual em termos espaço-tem- |
|
|
erivelmente à paisagem, utilizando exem- |
porais têm sido considerados inerentes à pes- |
|
|
plos advindos da etnologia, da organização |
quisa arqueológica que pretende compreender |
|
|
tecnológica, das estruturas evidenciadas, das |
a dinâmica cultural nas ocupações pré-históri- |
|
|
possíveis escolhas, por meio do uso intensivo |
cas, tendo em vista a integração dos processos |
|
|
das geotecnologias, ou seja, por meio de in- |
naturais e culturais de formação dos sítios ar- |
|
|
ferências e dados estatístico-comparativos |
queológicos (Panja, 2003). |
|
|
que mapeiem as possibilidades (e restrições) |
Aliás, para Bamforth et al (2005: 577) a pri- |
|
|
para as hipóteses levantadas (Fagundes, |
meira questão que se deve ter em mente antes |
|
|
2009; Fagundes & Mucida, 2010). |
de empreendermos a pesquisa arqueológica é |
|
|
Portanto, a dinâmica cultural resultante |
estabelecer critérios de compreensão de |
|
|
dos processos de continuidade e mudança |
como forças naturais e antrópicas interagi- |
|
|
deve ser ‘garimpada’ em meio aos remanes- |
ram para ‘criar’ um sítio arqueológico. |
|
|
centes culturais nas escavações compreen- |
Os trabalhos de André Leroi-Gourhan |
|
|
dendo a estrutura de cada sítio, visto que a |
durante as décadas de 1950 e 1960 sobre a |
|
|
Arqueologia aqui é definida como a discip- |
estrutura de sítios a céu aberto do paleolíti- |
|
|
lina responsável em obter conhecimento |
co europeu, sobretudo Pincevent, podem ser |
|
|
(ou conhecimentos) válido sobre o passado. |
apontados como precursores de análises |
|
|
Isto é, buscar no estático representado pelo |
que pretendem reconstruir (e interpretar) |
|
|
registro arqueológico o dinamismo dos pro- |
integralmente os solos de ocupação pré-his- |
|
|
cessos e das conexões culturais, de modo a |
tóricos, coligindo técnicas, métodos e refle- |
|
|
encontrar no contexto arqueológico o con- |
xões teóricas acerca da reconstrução dos |
|
|
) the spatial and temporal juxtaposition of the manufacture of different tools within |
|
a cultural system, their use, reuse and discard, and their relation not only to tool function and raw material type, but also to behavioral
variables which mediate the spatial and temporal relations among activity, manufacture, and raw material loci” (Kelly, 1988: 717).
2 “Elementos do meio físico-biótico dotados de alguma expressão locacional para os sistemas regionais de povoamento,
indicando locais de assentamentos antigos (
...
).
Assim, os geoindicadores arqueológicos sustentam um eficiente modelo
locacional de caráter preditivo, muito útil no reconhecimento e levantamento arqueológico” (MORAIS, 2006).
3
“(
...
)
places that were repeatedly used during long-term occupations of regions. They are neither strictly sites (that
is, concentrations of cultural materials) nor simply features of a landscape. Instead, they represent the conjunction of
particular human behaviors on a particular landscape” (Schlanger, 1992: 97).
|
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Volume 23 - N.2:68-97 |
- 2010 |
72
solos paleoetnográficos. Suas pesquisas,
deste modo, foram de fundamental impor-
tância para a compreensão das estruturas
in loco, que seria sob o nosso olhar o passo
inicial para a elaboração de inferências à
busca da compreensão do modo de vida e
dinâmica cultural de grupos pré-históricos
(Leroi-Gourhan, 1950, 1972).
Em suas reflexões Bamforth et al (2005),
também destacam que as análises intra-sí-
tio têm focado a distribuição dos artefatos
no solo arqueológico, utilizando diversas
técnicas para tal intento, de forma a eviden-
ciar o modo que o sítio arqueológico foi uti-
lizado em longa duração, isto é:
• Compreensão das estruturas internas dos
sítios e suas distribuições espaço-tempo -
rais;
• Demarcação meticulosa dos remanescen-
tes culturais, de acordo com os locais exatos
em que foram evidenciados durante as es-
cavações, assim como suas associações,
possibilitando a construção de mapas tridi-
mensionais para posterior comparação en-
tre os diferentes períodos de ocupação dos
sítios arqueológicos;
• Estratificação e análises estatísticas da di-
versidade e freqüência vertical (e horizon-
tal) dos remanescentes culturais;
• Evidenciação de características que apon-
tem para ocupação, abandono e reocupação
dos assentamentos;
• Distribuição das estruturas de combustão
e materiais associados, sobretudo em ocu-
pações de caçadores coletores;
• Inspeções visuais de mapas de distribui-
ção de vestígios (fato que exige o uso de fer-
ramentas apropriadas advindas da ciência
da informática).
Os autores destacam que em toda análi-
se arqueológica escolhas são realizadas
principalmente em relação aos métodos
analíticos utilizados pela pesquisa, incluin -
do as questões que serão abordadas, o tipo
de material que terá maior enfoque, além do
nível de detalhes espaciais disponíveis nos
dados a serem examinados. De forma geral,
as pesquisas se direcionam para as respos-
tas que são esperadas pelo arqueólogo (Ba-
mforth et al, 2005).
Já para Munday as análises intra-sítios
são extremamente relevantes na medida em
que cooperam para a elaboração de hipóte-
ses e interpretações que podem ser conclu-
sivas à compreensão inter sítios, sendo, por-
tanto, “(
...
)
uma ferramenta para testar
suposições implícitas que direcionam mui-
tas comparações contemporâneas tanto in-
ter sítio quanto inter níveis” (Munday, 1984:
32).
Trabalhando com sítios musterienses, a
autora enfatiza a importância da análise
intra-sítios para uma compreensão efetiva
das dimensões temporais e espaciais de um
assentamento como facilitador de uma aná-
lise regional, ou seja, de um sistema de as-
sentamento.
Por outro lado, nos pressupostos de Fer-
ring (1984), as atividades que são vistas
como o principal aporte para as análises es-
paciais, sendo definidas como tarefas que,
após sofrerem as ações do processo deposi-
cional, acabam por se transformarem em
remanescentes culturais alvos das interven-
ções e diagnósticos arqueológicos. Portan-
to, o foco central de uma análise intra-sítio
é a identificação das áreas de atividades em
um sítio passando para a estruturação dos
grupos e subgrupos que constituem os re-
manescentes destas. Na sua letra:
A principal função das análises intra-sítio é per- mitir uma visão explícita de como as atividades foram conduzidas em um sítio. As atividades podem ter sido estruturadas pela composição sócio-econômica/ étnica de uma unidade de as- sentamento; pelas relações de procura/ tarefas
|
ANÁLISE INTRA-SÍTIO DO SÍTIO JUSTINO, BAIXO SÃO FRANCISCO |
– AS FASES OCUPACIONAIS |
Marcelo Fagundes |
73
|
de processamento que constituem o sistema de |
• Maior desenvolvimento tecnológico ou |
|
subsistência; a periodicidade/ intensidade da |
da arte; |
|
ocupação, etc. (Ferring, 1984:117). |
• Ou mesmo questões sócio-ambientais que |
|
interferem nos processos culturais do grupo |
|
|
Entretanto, acreditamos que para que |
(restrições, por exemplo). |
|
haja um real entendimento do passado é |
|
|
fundamental estabelecermos o caráter |
A sedentarização, todavia, é responsá - |
|
sistêmico às pesquisas arqueológicas, ou |
vel por acarretar no aumento do número |
|
como salientado por Panja (2003: 107), |
da diversidade de sítios componentes de |
|
por meio de modelos diacrônicos empre - |
um sistema regional de assentamento em |
|
endermos uma visão holística da nature - |
função das especificidades inerentes às |
|
za, contexto e processos formativos do |
necessidades do novo sistema de subsis - |
|
registro arqueológico. |
tência/produtivo no tocante às estratégias |
|
Para tanto, deve-se fazer uso de ferramen- |
de obtenção de recursos (exploração, pro - |
|
tas teórico-metodológicas que cooperem para |
dução e apropriação). Com isso surgem |
|
compreensão do contexto regional sob a égide |
novos sítios mais especializados para de - |
|
de abordagens paleoambientais, organização |
terminada atividade social (Hitchcock, |
|
tecnológica, organização cultural-produtiva e, |
1987; Kelly, 1992). |
|
numa amplitude maior, a interpretação inter |
Mediante este aparato teórico devemos |
|
sítios ou do sistema de assentamento 4 . |
ter em mente uma série de condições que |
|
Além do mais, alguns autores apontam |
afetam a estrutura de um sítio em relação |
|
que a mudança de um modo de vida nôma- |
à densidade e freqüência artefatual, varia - |
|
de para um mais sedentário pode estar vin- |
bilidade espaço-temporal da distribuição |
|
culada a um número infinito de causas, mo- |
de vestígios e associações, e na própria |
|
dificadas de região para região, de grupo |
tecnologia; que, de certo modo, permitem |
|
para grupo, visto que isso envolve novas |
inferências acerca da emergência da com - |
|
relações sociais (e de poder) intra-grupo, |
plexidade social, padrões de mobilidade e |
|
novas estratégias de mobilidade e apropria- |
sedentarização para compreensão do sis - |
|
ção de recursos, e mesmo uma maneira de |
tema regional de assentamento, a saber: |
|
perceber a paisagem que interfere no pa- |
|
|
drão de assentamento, nos rearranjos espa- |
• Os processos naturais de formação de um |
|
ciais, em investimentos nas estruturas in- |
sítio arqueológico; |
|
tra-sítio, etc 5 . |
• Que a “função” de um sítio, associada ao |
|
Não há um consenso na literatura so - |
tempo de permanência do grupo no assen- |
|
bre os motivos reais para a sedentariza - |
tamento, também são variáveis que alteram |
|
ção, os quais são comumente vinculados |
a estrutura e a formação do sítio arqueoló - |
|
aos seguintes itens: |
gico; |
|
• Padrão de utilização e reutilização dos sí- |
|
|
• Crescimento populacional e pressão de- |
tios arqueológicos; |
|
mográfica; |
• Que não há necessariamente uma associa- |
|
• Indícios de complexidade social; |
ção entre o contexto de uso de um artefato e |
4 Discussões sob esses assuntos em Xingó são encontradas em Fagundes (2007:429-499).
5 Segundo análises de Vergne (2004), o sítio Justino é marcado pela permanência cultural, sendo que as mudanças observadas
nas cadeias operatórias ou nas estruturas internas do assentamento são vistas como um “rearranjo” na organização interna do
grupo, em um processo de maior sedentarização nos terraços.
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REVISTA DE ARQUEOLOGIA |
Volume 23 - N.2:68-97 |
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|
o seu contexto de descarte (noção de refugo |
-temporal dos remanescentes culturais e |
|
primário, secundário e refugo de facto. |
aliadas às associações e estruturas no |
|
Schiffer, 1972); |
solo ocupacional do referido sítio arque - |
|
• Flutuações climáticas e sazonalidade de |
ológico. Além disso, pudemos perceber |
|
recursos (ou abundância de recursos obte- |
que a análise dos processos formativos |
|
níveis na paisagem); |
vai de encontro com as conjecturas de |
|
• Crescimento populacional e pressão de- |
Dominguez & Britcha (1997, p. 06), com |
|
mográfica; |
concentração destes remanescentes em |
|
• Diferenças organizacionais nas estratégias |
faixas entre 40 e 70/80 cm de espessura. |
|
de mobilidade (residencial e logística); |
Logo, tendo como suporte os traba - |
|
• Manejo de informações e manutenção de |
lhos realizados em Xingó sobre paleoam - |
|
território (disputas e competições intra e in- |
biente, sobretudo de Ab’Saber (2002) e |
|
ter grupos); |
Dominguez & Britcha (1997); acerca da |
|
• Questões acerca da integração social, rela- |
ritualidade (Vergne, 2004); da bioantro - |
|
ções familiares/ parentesco, relações de po- |
pologia (Carvalho, 2006), da análise da |
|
der, gênero e prestígios, assim como dife- |
cultura material cerâmica (Luna, 2001), |
|
renciação social; |
dos resultados laboratoriais das cadeias |
|
• A organização e os tipos de atividade que |
operatórias líticas (Fagundes, 2010a, |
|
são levadas a cabo em um sítio, sejam bases |
2010b, 2010c; Mello, 2005; Silva, 2005); |
|
residenciais ou locações de atividades espe- |
formação e uso de sítios arqueológicos |
|
cíficas, estando vinculados aos preceitos |
(Schiffer, 1983, 1987), entre outros; traça - |
|
culturais do grupo, além disso, dependendo |
mos um modelo sobre a ocupação espa - |
|
do tipo de matéria-prima a ser manufatura- |
ço-temporal (análise intra-sítio) do sítio |
|
da, longevidade da atividade, aspectos sim- |
Justino e, a partir daí, inferirmos sobre a |
|
bólicos associados ao trabalho, podem alte- |
variabilidade espacial e relacional (aná - |
|
rar significantemente a cadeia operatória e |
lise inter sítios), para compreensão do |
|
o processo de descarte; |
dos sítios em terraço do sistema regional |
|
• Cada grupo apresenta padrões próprios de |
de assentamento (Fagundes, 2007). |
|
manutenção dos sítios e atividades de des- |
Logo, os episódios ocupacionais do sí - |
|
carte, isto é, noções de higiene que alteram |
tio Justino foram pensados (e guiados) |
|
a formação do registro arqueológico; |
não exclusivamente pelas decapagens 6 |
|
• Cada grupo tem percepções particulares |
realizadas em campo, mas pela somató - |
|
sobre as atividades que desempenha, assim |
ria de resultados das pesquisas científi - |
|
como noções próprias de como os objetos |
cas realizadas em Xingó, sobretudo após |
|
são usados e quando e porque devem ser |
da sistematização dos dados pela equipe |
|
descartados. |
de geoprocessamento do MAX/UFS. |
|
Entre as Fases 01 a 03 do Justino, sobre- |
|
AS fASES DE oCUPAção |
tudo em torno das decapagens 59 até 25 – a |
|
Com base no referencial descrito, nos - |
análise dos remanescentes culturais permi- |
|
sas análises levaram a compreensão de |
tiu a inferência de que neste terraço ocorre- |
|
cinco fases distintas de ocupação do sítio, |
ram flutuações em termos ocupacionais, |
|
obtidas por meio da distribuição espaço - |
sendo que na Fase 02 (decapagens 42 a 35), |
6 O uso desse termo, para se referir às técnicas de escavação em Xingó, foi instituído por Vergne (2004).
|
ANÁLISE INTRA-SÍTIO DO SÍTIO JUSTINO, BAIXO SÃO FRANCISCO |
– AS FASES OCUPACIONAIS |
Marcelo Fagundes |
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|
Profundidade |
||||||||||
|
Decapagem |
(base da |
Método |
Laboratório |
Cronologia |
||||||
|
estrutura) |
||||||||||
|
03 |
40 |
cm |
|
Inst. Radiocarbônico da Univ. de Lyon – França |
1280±45 AP |
|||||
|
06 |
60 |
cm |
|
Inst. Radiocarbônico da Univ. de Lyon – França |
1780±60 AP |
|||||
|
08 |
90 |
cm |
|
Instituto de Geociências da UFBA |
2530±70 AP |
|||||
|
10 |
1,10 m |
|
Instituto de Geociências da UFBA |
2650±150 AP |
||||||
|
13 |
1,40 m |
|
Inst. Radiocarbônico da Univ. de Lyon – França |
3270±135AP |
||||||
|
20 |
2,10 m |
|
Beta Analytic – USA |
4790±80 AP |
||||||
|
30 |
3,10 m |
|
Beta Analytic – USA |
5570±70 AP |
||||||
|
40 |
4,10 m |
|
Beta Analytic – USA |
8950±70 AP |
||||||
|
04 |
0,50 m |
TL |
LabDat / UFS |
2191±276 AP |
||||||
|
08 |
0,90 m |
TL |
Instituto de Geociências da UFS |
1800±150 AP |
||||||
|
08 |
0,90 m |
AD |
LabDat / UFS |
2010±430AP |
||||||
|
10 |
1,10 m |
AD |
LabDat / UFS |
2700±620 AP |
||||||
|
10 |
1,10 m |
TL |
Instituto de Geociências da UFS |
2050±140 AP |
||||||
|
13 |
1,40 m |
PD |
LabDat / UFS |
4310±800 AP |
||||||
|
15 |
1,60 m |
TL |
LabDat / UFS |
3865 ± 398 AP |
||||||
|
20 |
2,10 m |
TL |
Instituto de Geociências da UFS |
4496±225 AP |
||||||
|
20 |
2,10 m |
AD |
LabDat / UFS |
5500±980 AP |
||||||
|
Tabela 01. Datações do sítio Justino. Legenda: C 14 (Carbono 14); TL (termoluminescência); AD (Dose aditiva); PD |
||||||||||
|
(pré-dose). Fontes: Vergne, 2004; MAX, 2006b; Santos & Munita, 2007 |
||||||||||
|
a freqüência artefatual demonstrou que a |
sociados, além de muitas manchas de dife- |
|||||||||
|
área foi mais procurada que nos demais pe- |
rentes colorações, algumas das quais com |
|||||||||
|
ríodos de ocupação (Fases 01 e 03), não ha- |
presença de restos faunísticos, ferramentas |
|||||||||
|
vendo no registro arqueológico, com base |
líticas e muito pouco carvão. Por meio do |
|||||||||
|
na distribuição e freqüência artefatual, evi- |
carvão extraído da fogueira 25 (decapagem |
|||||||||
|
dências de abandono por longo período |
40) nos forneceu a datação mais antiga da |
|||||||||
|
para a Fase 02. |
área: 8950 ± 70 A.P. (Tabela 01). |
|||||||||
|
Na Fase 01 observou-se que os solos |
Como veremos, esta fixação próxima ao |
|||||||||
|
de ocupação estavam abaixo do nível atu - |
rio adquiriu características peculiares de |
|||||||||
|
al do rio no momento da escavação, ou |
forma que podemos indicar o papel base |
|||||||||
|
seja, houve alterações em seu curso e/ ou |
do Justino neste momento, inclusive desta- |
|||||||||
|
volume ao longo do tempo. Tal fato pode |
cando que é a partir deste período que o |
|||||||||
|
ser a explicação pela quantidade menor |
sítio passa a ser utilizado como cemitério. |
|||||||||
|
de vestígios e, principalmente, a inexis - |
Além disso, como apontado nas análi - |
|||||||||
|
tência em algumas camadas de estrutu - |
ses acerca da ritualidade funerária em |
|||||||||
|
ras de combustão (foram evidenciadas |
Xingó realizada por Vergne (2004), se tra - |
|||||||||
|
apenas manchas). |
ta do intervalo onde houve, segundo a |
|||||||||
|
A fase seguinte (Fase 02) é um momen- |
autora, a menor distinção social entre os |
|||||||||
|
to de presença de estruturas de combustão |
indivíduos, fato que nos permitiu inferir |
|||||||||
|
com material lítico e restos faunísticos as - |
que não houve nenhum tipo de diferen - |
|||||||||
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REVISTA DE ARQUEOLOGIA |
Volume 23 - N.2:68-97 |
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|
ciação social e que a maior “fixação” nes - |
capagem 19 (entre 1,90 e 2,00 m de pro - |
|
te período não esteja vinculada ao cresci - |
fundidade) em diante. |
|
mento populacional ou questões acerca |
A cerâmica surge no registro arqueo - |
|
de prestígio, poder, cooperação ou mes - |
lógico a partir da decapagem 32 (01 frag - |
|
mo competição. |
mento de bojo evidenciado a 3,29 m de |
|
Nossa hipótese diz respeito às flutua - |
profundidade), entretanto só se torna re - |
|
ções paleoclimáticas que podem ter ocor - |
presentativa entre as decapagens 21 e 19 |
|
rido (Ab’Saber, 2002; Cavalcanti, 2005), e |
(um intervalo entre 2,20 m e 2,00 m de |
|
que tiveram como conseqüência uma va - |
profundidade) 8 , com significativo au - |
|
riabilidade significativa nos padrões eco - |
mento de elementos a partir da decapa - |
|
nômicos/ produtivos e de subsistência do |
gem 17 (137 fragmentos evidenciados a |
|
grupo (grupos), obrigando-o a permane - |
1,80 m de profundidade). |
|
cer mais tempo no canyon e próximo ao |
A Fase 04 é o período de mais intensa |
|
rio, local com maiores possibilidades e |
ocupação do Justino, visto que se observa |
|
com menor propensão às flutuações pa - |
maior quantidade e diversidade de rema - |
|
leoambientais do período, ou seja, com |
nescentes culturais. Todo o arranjo das |
|
probabilidade menor de ocorrência de sa - |
estruturas, distribuição espacial, concen - |
|
zonalidade de recursos (Ab’Saber, 2002). |
trações e associações demonstram que o |
|
A Fase 03 (equivalente ao cemitério C |
grupo tenha mudado sua morfologia so - |
|
entre as decapagens 34 e 16, em um in - |
cial, tornando-se, pelo menos hipotetica - |
|
tervalo de 2,10 m) 7 , foi datada entre 5570 |
mente, mais complexo. Em relação à tec - |
|
e 3270 AP. Esta foi subdividida em três |
nologia lítica, não há mudanças extremas, |
|
ocupações distintas: a primeira entre as |
exceto que o quartzo passa a ser mais uti - |
|
decapagens 34 e 29 (um intervalo de 0,50 |
lizado para a confecção de instrumentos |
|
m), a segunda entre a 28 e 22 (um inter - |
expeditos (ou de ocasião). Assim, há uma |
|
valo de 0,60 m) e a terceira entre a 21 e 16 |
grande freqüência e diversidade dos con - |
|
(um intervalo de 0,50 m). |
juntos líticos e cerâmicos evidenciados |
|
No início são claras as evidências de |
(tanto no solo de ocupação quanto em as - |
|
ocupação e re-ocupação do sítio, que pas - |
sociação com os sepultamentos consti - |
|
sa por processos contínuos de abandono |
tuindo o mobiliário funerário 9 . |
|
somados às curtas permanências dos gru - |
A Fase 05, último período de ocupação do |
|
pos na área, fator verificável pela baixa |
sítio entre as decapagens 08 e 01 (um interva- |
|
densidade e diversidade de remanescen - |
lo de 0,70 m), é datada em torno de 1300 A.P. |
|
tes culturais, evidenciando o uso do local |
é o momento que apresentou maior diferença |
|
enquanto acampamento temporário (en - |
tecnológica quando comparado aos demais, |
|
tre as decapagens 34 e 24, um intervalo de |
com a presença de artefatos líticos mais expe- |
|
1,00 m aproximadamente). |
ditos e vestígios cerâmicos pouco requintados |
|
A partir da decapagem 21 (entre 2,15 e |
no tocante à decoração plástica. |
|
2,20 m de profundidade) há uma maior |
De modo geral, uma das características |
|
permanência no terraço, com incidência |
mais interessantes deste sítio diz respeito à |
|
da explosão dos vestígios cerâmicos da de - |
diversidade e quantidade de cultura material, |
7 Lembrando que os sepultamentos ocorrem entre as decapagens 28 e 15.
8 Decapagem 21 = 28 fragmentos; decapagem 20 = 41 fragmentos; decapagem 19 = 69 fragmentos.
9 Para tecnologia cerâmica vide Luna (2001).
|
ANÁLISE INTRA-SÍTIO DO SÍTIO JUSTINO, BAIXO SÃO FRANCISCO |
– AS FASES OCUPACIONAIS |
Marcelo Fagundes |
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|
tanto associada aos sepultamentos (enquanto |
22 manchas vermelhas e 10 cinzas. |
|||||
|
‘bens funerários’), quanto associada às estru- |
Feitas as primeiras indicações, cabe des- |
|||||
|
turas com contextos domésticos. A cerâmica, |
crições pormenorizadas das Fases e possí- |
|||||
|
por exemplo, conta com 14743 fragmentos |
veis ocupações para o Justino. |
|||||
|
distribuídos a partir da decapagem 32 (3,29 m |
||||||
|
de profundidade), datada de 5570 ± 70 anos |
S o Lo S PALEo E tno GR áf IC o S DA |
|||||
|
AP (datação para a decapagem 30 10 . O mate- |
fASE 01 D o JUS tI no |
|||||
|
rial lítico ocorre em todas as decapagens, sen- |
Na Fase 01 o sítio tem características cla- |
|||||
|
do que o polimento da pedra já é evidenciado |
ras de acampamento temporário com dois |
|||||
|
na decapagem 40 datada de 8950 anos AP. a |
momentos distintos de ocupação: o primeiro |
|||||
|
4,10 m de profundidade. |
entre as decapagens 59 a 51 (6,00 e 5,20 m de |
|||||
|
Referente às estruturas de combustão, fo- |
profundidade), onde a freqüência artefatual |
|||||
|
ram evidenciadas trinta fogueiras, todas com |
é baixa, denotando que os grupos permane- |
|||||
|
carvão e outros remanescentes associados (ce- |
ceram pouco tempo no sítio. Os remanescen- |
|||||
|
râmica, lítico, restos faunísticos, etc.), sendo |
tes estão representados por sete manchas no |
|||||
|
que algumas relacionadas aos sepultamentos. |
solo e dezoito peças líticas. Foram evidencia- |
|||||
|
Destas estruturas, um total de oito forneceu as |
dos dois sepultamentos: sepultamento 159, |
|||||
|
datações absolutas em C14 (Tabelas 01 e 02). |
decapagem 52; sepultamento 161, decapa- |
|||||
|
Além das fogueiras estruturadas foram eviden- |
gem 51 (Vergne, 2004). |
|||||
|
ciadas 355 manchas escuras, muitas das quais |
O segundo momento ocorre entre as deca- |
|||||
|
com pequenos fragmentos de carvão associa- |
pagens de número 50 e 43 (5,20 e 4,40 m). Na |
|||||
|
dos (além de restos faunísticos e cultura mate- |
Fase 01 não foram evidenciadas fogueiras, |
|||||
|
rial), indicando que eram antigas estruturas de |
apenas manchas no solo, sendo que do total de |
|||||
|
combustão, e outras que por prováveis ações |
manchas desta fase 75,0% concentra-se neste |
|||||
|
naturais, permaneceram exclusivamente as |
segundo momento ocupacional, indicando |
|||||
|
manchas no solo. Ainda foram localizadas e |
que o sítio (por algum motivo), passa a ser |
|||||
|
demarcadas 11 manchas de tonalidade clara, |
mais “visitado” ou que, perante as condições |
|||||
|
número das |
||||||
|
fases |
ocupações |
decapagens |
profundidades |
datações |
||
|
Fase 05 |
|
Intervalo de 0,20m entre 0,50 e 0,20 m |
|
|||
|
cem a |
|
Intervalo de |
0,40 m entre 1,00 e 0,50 m |
|
||
|
||||||
|
cem b |
Fase 04 |
|
Intervalo de |
0,60 m entre 1,70 e 1,00 m |
2650 ± 150 AP (decapagem 10) |
|
|
||||||
|
Intervalo de 0,50m entre 2,30 e 1,70 m |
|
||||
|
cem c |
Fase 03 |
|
Intervalo de 0,60m entre 3,00 e 2,30 m |
Sem datação |
||
|
Intervalo de 0,50m entre 3,60 e 3,00 m |
|
||||
|
Fase 02 |
|
Intervalo de 0,70m entre 4,40 e 3,60 m |
|
|||
|
cem d |
Fase 01 |
|
Intervalo de 0,70m entre 5,20 e 4,40 m |
Sem datação |
||
|
Intervalo de 0,80m entre 6,00 e 5,20 m |
Sem datação |
||||
|
Tabela 02. Fases de ocupação do sítio Justino |
||||||
10 Cabe destacar que, entretanto, acreditamos que a tecnologia cerâmica deve ter ocorrido a partir da decapagens 21/20,
em torno de 4790±80 AP. Vide Fagundes (2007), em especial capítulo 06.
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Volume 23 - N.2:68-97 |
- 2010 |
78
naturais, parte dos remanescentes da ocupa-
ção anterior se perdeu com o tempo (?).
Sobre os vestígios líticos, que permitiu a
identificação desta Fase de ocupação, o con-
junto artefatual é marcado pela presença es-
paçada de material, ou seja, distribuído irre-
gularmente ao longo dos solos de ocupação.
Percebe-se que grande parte está consti-
tuída por instrumentos (37,25%) representa-
dos, sobretudo, por raspadores unifaciais
sobre seixos e lascas corticais, obtidas por
meio da técnica de redução unipolar, tendo
como núcleo seixos de diversas morfologias,
mas com preferência para aqueles mais
achatados com planos de percussão natural,
isto é, seixos que apresentavam determinada
morfologia (pré-concebida) apta a receber
golpes para a obtenção de suportes sem que
necessitasse de transformações prévias em
suas estruturas (Fagundes, 2010b).
Outro predicado importante é que o ma-
terial não foi exclusivamente manufaturado
neste sítio, ou seja, parte das ferramentas
deve ter sido debitada em outros locais, sen-
do levadas ao Justino como parte do estojo
pessoal, fato que explicaria, inclusive, a pre-
sença de núcleos no registro, totalizando
15,68% do conjunto.
Acreditamos que neste momento o sítio
não era utilizado como cemitério, nem mes-
mo esta ocupação teria caráter simbólico-ritu-
alístico, sendo que os sepultamentos eviden-
ciados nestas decapagens diriam respeito à
Fase 02. De qualquer forma, é possível que os
sepultamentos 159 e 161 sejam decorrentes do
último momento de ocupação da Fase 01, fato
que cooperaria para a explicação do aumento
significativo de remanescentes culturais. Con-
tudo, a análise das plantas baixas do sítio, o
estudo dos conjuntos artefatuais, a freqüência
de remanescentes culturais e a própria posi-
ção estratigráfica dos sepultamentos eviden-
ciados na Fase 01, sugerem que sejam intrusi-
vos decorrentes da fase posterior.
Entre as decapagens de número 59 e 54
pudemos observar a escassez dos vestígios
arqueológicos irregularmente distribuídos
pela área escavada do sítio, com maior con-
centração nas quadrículas FL 37/39, sobre-
tudo no intervalo da decapagem 55 (aproxi-
madamente 5,60 m e profundidade). Na AM
21/25 foi evidenciada uma mancha escura
de 0,78 m2 de área com material lítico e res-
tos faunísticos associados, seguindo entre
as 58 e 57. Tudo indica que se tratava de
uma fogueira, sendo a ausência de carvão
causada pela ação de agentes naturais. Na
FL 20/30, decapagem 58, foi evidenciado
um percutor, isolado dos demais vestígios.
Entre as decapagens de número 53 e 51
(5,40 a 5,20 m de profundidade), ocorrem os
primeiros esqueletos do sítio Justino. O en-
terramento 159 tem sua base na decapagem
52, quadrículas FL 45/50, com muito mate-
rial lítico no entorno o que indica a associa-
ção como mobiliário funerário.
Sabendo que os sepultamentos são ‘intru-
sivos’ tivemos o cuidado de analisar o entor-
no das decapagens superiores (51 a 40) para
observar indícios de remoção de material
arqueológico dos níveis inferiores para os
superiores devido ao ato de cavar o terreno
para a execução da cova. Não há indícios
desse tipo de remoção (o mesmo foi feito
com o próximo enterramento).
Já o enterramento 161 tem sua base na
decapagem 51 (5,20 m de profundidade), lo-
calizado espacialmente nas quadrículas LM
44/45, ocorrendo o mesmo comportamento
observado no enterramento anterior.
O que podemos extrapolar por meio da
análise da distribuição espacial dos vestígios
são as concentrações e associações com man-
chas escuras que possivelmente eram foguei-
ras e, desse modo, possibilitando a inferência
do uso do sítio como acampamento temporá-
rio. Na FL 10/15 foi evidenciada, por exemplo,
uma mancha escura com 0,47 m2, com mate-
|
ANÁLISE INTRA-SÍTIO DO SÍTIO JUSTINO, BAIXO SÃO FRANCISCO |
– AS FASES OCUPACIONAIS |
Marcelo Fagundes |
rial lítico associado, além de outra pequena
concentração de líticos nas quadrículas FL
15/20, indicando a associação com a mancha.
Entre as decapagens de números 50 e 43
(5,20 a 4,40 m de profundidade), ou seja, na
segunda ocupação da Fase 01, foi possível ob-
servar a maior concentração de enterramentos
representados pelos de número 160, 163 e 161.
Realizando-se o exercício de sobreposi-
ção dos planos de plotação dos vestígios
das oito decapagens, observaram-se as se-
guintes realidades:
• Muita concentração de vestígios no entorno
dos enterramentos, o que sugere: (a) Mobili-
ário funerário associado aos sepultamentos,
supondo possível deslocamento vertical de
alguns vestígios; (b) Mistura entre enterra-
mentos e vestígios arqueológicos de ocupa-
ções anteriores.
• Concentração de vestígios arqueológi -
cos associados às manchas no solo (de
diferentes colorações), fora do contexto
dos enterramentos.
Os dados apontam para a hipótese de que
realmente os sepultamentos pertençam a Fase
02, destacando o fato de que eles ocorrem na
face norte do terraço (exceto o de número
160), ambos concentrados entre as quadrícu-
las AM 40/55, sendo que os indícios inequívo-
cos do uso do assentamento como acampa-
mento, referem-se aos vestígios e associações
evidenciados nas faces leste/ nordeste. A ob-
servação das planimetrias indica que os vestí-
gios materiais associados às manchas estão
dispostos ao redor e em semicírculo, caracte-
rística que permite a inferência de que real-
mente se tratavam de fogueiras.
Fato a ser destacado é a existência de
manchas escuras com vestígios líticos de di-
ferentes morfologias associados, localizadas
nas quadrículas FL 45/50, a partir da deca-
pagem 44 com ápice na decapagem 41, entre
79
0,80 – 1,10 m acima do sepultamento 159
(base na decapagem 52). A disposição e con-
centração de vestígios associados às man-
chas sugerem algum tipo de ritual que pode
ter sido executado no ato do enterramento.
Em relação às demais manchas escuras
evidenciadas nessa fase, podemos observar
claramente que há prosseguimento de algu-
mas entre as distintas decapagens, sugerin-
do que eram fogueiras que, devido aos pro-
cessos naturais, não foi evidenciado carvão.
Na decapagem 49 foi evidenciar três man-
chas entre as quadrículas FL 11/16, a primei-
ra com 0,23 m2, a segunda com 0,36 m2 e a
terceira com 0,42 m2.
Na decapagem 48 foram evidenciadas qua-
tro pequenas manchas (todas inferiores a 0,20
m2), três escuras e uma avermelhada (FM
15/20), com material lítico associado. Perante
as dimensões pode-se inferir que seriam pe-
quenas estruturas de combustão para fins bem
específicos. Nas decapagem 47/46 outra peque-
na mancha avermelhada, quadrículas FM
25/30 (sem associações).
Na decapagem 45 ocorre uma mancha de
1,30 m2 nas quadrículas FL 50/55, com ma-
terial lítico associado e outras duas na FL
45/50, porém sem associações; a primeira
com 0,27 m2 e a segunda com 0,93 m2. Na
decapagem 44 foi evidenciada uma mancha
vermelha alongada com 0,42 m2, porém sem
vestígios associados.
Enfim, o conjunto das decapagens, a dis-
posição dos remanescentes culturais aliados
à cadeia de produção dos conjuntos artefatu-
ais líticos sugerem o uso temporário do sítio
como acampamento nesse período.
A ausência de estruturas de combustão e
de restos faunísticos em quantidade pode ser
explicada pela ação de agentes naturais nos
processos formativos do sítio, entretanto a
seqüência dessas manchas, somada a dispo-
sição dos vestígios líticos colaboram com
nossas hipóteses.
|
REVISTA DE ARQUEOLOGIA |
Volume 23 - N.2:68-97 |
- 2010 |
80
sua utilização em longa duração, passou a
integrar os sistemas de significação do grupo
(Hitchcock & Bartram, 1998).
A base empírica para tais afirmações par-
te da assertiva que é neste momento que no
Justino passa a ocorrer os rituais funerários,
e por acreditarmos que nenhum grupo en-
terra seus mortos em um local aleatório, so-
bretudo quando este local serviu de “cemité-
rio” em um período que segue de 8950 A.P.
até aproximadamente 1200 A.P.
Em suma, como todo enterramento é intru-
sivo nos pacotes sedimentares, ou seja, se en-
terra o indivíduo em covas rasas ou profundas;
acreditamos que os sepultamentos evidencia-
dos no cemitério D (entre as decapagens 44 e
52) são provenientes dessa ocupação, onde foi
possível observar uma concentração maior de
estruturas e associações. Assim, o terraço do
Justino neste período passa a ser reconhecido
pelos grupos como um signo.
Com base nos apontamentos de Schlan-
ger (1992), acreditamos que a área onde foi
evidenciado o sítio Justino, bem como todo o
seu entorno, passa a constituir um lugar per-
sistente, inicialmente relacionado às suas
características funcionais, mas que, ao longo
do tempo, seu uso foi redirecionado até ser
incorporado aos sistemas cognitivo e de sig-
nificação do grupo (ou grupos), assumindo
um caráter ora residencial ora ritualístico,
ou ambos; sobretudo relacionado ao apego
sentimental como local dos ancestrais (Hi-
tchcock & Bartram, 1998).
Assim sendo, neste período o local
perpassa de entidade física e assume um
caráter duplo. Um enquanto sua inerente
materialidade e outro enquanto constitu -
ído por aspectos cognitivos e comporta -
mentais, visto que como lugar persistente
pode ser concebido como um sistema de
signos e símbolos apropriados e transmi -
tidos por sociedades humanas (Mauss,
1974; Fagundes, 2009).
Na Fase 02 há mudanças significativas
sobre o uso, orientação e permanência dos
grupos no sítio, incidindo na própria tecno-
logias (lítica em específico. Fagundes,
2010b). Foi datado pelo método C14 em
8950 ± 70 A.P. (Fogueira 25, decapagens
40/41. Beta Analytic), equivalente a um es-
paço de 0,70 cm entre as decapagens 42 e
35 (entre aproximadamente 4,30 a 3,60 m
de profundidade).
Há indícios que cooperam para a hipó-
tese de que as ferramentas líticas passam a
ser produzidas no Justino, visto que nas
análises das seqüências operacionais e dos
produtos gerados do processo de manufa-
tura, 75,0% do conjunto está constituído
por resíduos de lascamento, além da pre -
sença significativa de núcleos (27 peças) e
percutores (16 peças). Os instrumentos
ainda aparecem em número elevado
(17,51% do total), além disso, grande parte
dos implementos foi manufaturada em
arenito silicificado que ocorre em 30,43%
das peças desta fase, índice significativo
quando comparado com as demais fases ou
sítios da Área 03.
Há cinco estruturas de combustão organi-
zadas, com presença de carvão, além de qua-
renta manchas escuras, todas com quantidade
significativa de restos faunísticos. Outra carac-
terística de suma importância é que não há
sepultamentos nestes solos ocupacionais.
Nossa hipótese é que a partir deste perío-
do o sítio Justino passa a ser concebido pelo
grupo como um lugar persistente (Schlan-
ger, 1992; Fagundes, 2009), dadas as caracte-
rísticas de ambientação do local; sua impor-
tância regional em termos de disponibilidade
de recursos; acesso ao pediplano sertanejo
pelo riacho Curituba, um dos maiores da re-
gião; estabilidade micro-climática oferecida
pelo canyon (Ab’Saber, 2002); e, quiçá, dada
|
ANÁLISE INTRA-SÍTIO DO SÍTIO JUSTINO, BAIXO SÃO FRANCISCO |
– AS FASES OCUPACIONAIS |
Marcelo Fagundes |
Na análise da distribuição espaço-tempo-
ral dos remanescentes culturais (687 no to-
tal), percebe-se que a maior concentração de
vestígios situa-se na face leste do sítio, espa-
ço marcado pela existência de muitas man-
chas no solo, com associação de cultura ma-
terial lítica e restos faunísticos.
A estrutura de combustão 25, localizada
entre as decapagens 41/40 e medindo 1,22
m2, apresentou material lítico associado e
restos faunísticos. Fato a ser destacado en-
quanto recorrência é que tanto nessa foguei-
ra quanto em duas manchas escuras com
material lítico associado, destaca-se a pre-
sença de um percutor e de resíduos.
Ainda nas mesmas decapagens, na man-
cha evidenciada entre as quadrículas AL
21/25 (mancha A), medindo 0,90 m2, há
muito material lítico concentrado, constitu-
ído por resíduos com presença de uma las-
ca bruta, em sua maior parte; além de restos
alimentares. Já a evidenciada entre as qua-
drículas FM 10/15 (mancha B) trata-se de
uma grande mancha medindo 2,15 m2, com
blocos e vestígios líticos associados (resídu-
os e um percutor). Conjectura principal diz
respeito ao processo de reparo de instru-
mentos durante o preparo de alimentos nas
fogueiras (?), uma vez que não há indícios
de lascamento ‘stricto-sensu’ ou de lasca-
mento térmico que justificasse a presença
de resíduos e percutores associados às fo-
gueiras.
A primeira associação ocorre próximo
ao local do sepultamento 158 associada a
uma mancha escura de 1,80 m2, com pre-
sença de muito material lítico (inclusive ar-
tefatos) e restos alimentares carbonizados.
A segunda concentração está localizada na
FM 40/45, próxima de uma mancha 1,33
m2, com muito material lítico e restos fau-
nísticos associados; a terceira na FM 50/55
outra mancha esta com 0,70 m2, com lítico
associado; a quarta na FM 45/50, uma gran-
81
de mancha com 2,15 m2 de extensão; e a
última na AE 50/55 de pequena dimensão
0,64 m2, mas com muito lítico associado.
Entre as decapagens 39 e 35 percebe-se
que o comportamento da distribuição espa-
cial continua o mesmo. Entre as decapa-
gens 39/38 foram evidenciadas cinco man-
chas escuras e três concentrações de
material lítico (duas isoladas e uma asso-
ciada à área de sepultamento).
Nas decapagens 36/37 a porção do sítio
com maior concentração de vestígios está
entre as quadrículas AM 10/25 (não relacio-
nadas aos sepultamentos) e AM 30/45, rela-
cionadas aos sepultamentos do cemitério D,
mas é notório o uso mais freqüente do eixo
AS 01/35, ou seja, área sem sepultamentos.
Foi possível identificar as seguintes estrutu-
ras e concentrações:
• Entre a decapagem 37/36, quadrículas FL
35/40, concentração circular de vestígios
(líticos, vértebras de peixes e conchas calci-
nadas), porém sem estarem associados às
fogueiras ou manchas.
• Duas manchas escuras na área de sepulta-
mento, entre as quadrículas AE 40/45, a pri-
meira (M01), associada a vestígios líticos,
medindo 0,93 m2; a segunda sem associa-
ções, medindo 0,48 m2.
• Duas estruturas de combustão localizadas
na face leste do sítio, com material lítico e
restos faunísticos circundando ambas.
a) Fogueira 22, localizada na quadrícula
AE21/25, medindo 0,36 m2.
b) Fogueira 21, também localizada na
quadrícula AE 21/25, medindo 0,25 m2.
• Logo atrás dessas fogueiras observa-se a
presença de quatro manchas escuras, todas
com material lítico e restos faunísticos asso-
ciados, a saber:
a) Mancha escura 01, localizada na FL
25/20, medindo 0,61 m2, com muito líti-
co associado.
|
REVISTA DE ARQUEOLOGIA |
Volume 23 - N.2:68-97 |
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|
lascamento e núcleos), aparecendo geral - |
||||||||||||||
|
01, localizada na quadrícula FL 16/20 |
mente associados às fogueiras ou manchas |
||||||||||||||
|
medindo aproximadamente 2,00 m2, |
no solo, indicativo de que pelo menos parte |
||||||||||||||
|
sem material associado. |
do processo de debitagem estava ocorren - |
||||||||||||||
|
do no local, tanto relacionado à produção |
||||||||||||||
|
cula da mancha 02, porém bem peque- |
de artefatos mais expeditos, sobretudo de |
||||||||||||||
|
na, aproximadamente 0,10 m2, sem ma- |
quartzo, como também no processo de ma- |
||||||||||||||
|
terial associado. |
nutenção/ reparo, este último processo in- |
||||||||||||||
|
dicado pela quantidade de estilhas de sílex. |
||||||||||||||
|
dindo 2,80 m2, com material lítico e fau- |
|||||||||||||||
|
nístico associado. |
S o L o S |
PALE o E tno GR áf IC o S |
DA |
||||||||||||
fASE 03 D o JUS t I no |
|||||||||||||||
|
O que se percebe é que este espaço do |
A Fase 03 (entre as decapagens de nú - |
||||||||||||||
|
sítio foi utilizado constantemente. A título |
mero 34 e 16 – 3,50 a 1,70 m de profundida- |
||||||||||||||
|
de especulação podemos considerar: (1º) |
de), coincidente com o cemitério C, é mar- |
||||||||||||||
|
Área habitacional; (2º) Área onde ocupa - |
cada por períodos de curtas ocupações, que |
||||||||||||||
|
ções seqüenciais ocorreram em um curto |
podem estar associadas ao uso do sítio |
||||||||||||||
|
espaço de tempo, dada a quantidade de es- |
como acampamento temporário ou de in- |
||||||||||||||
|
truturas de combustão e manchas que, es- |
cursões para visitação aos mortos, ou am- |
||||||||||||||
|
tariam associadas às antigas fogueiras. |
bas as situações. |
||||||||||||||
|
De qualquer forma podemos inferir que |
Entretanto, a questão é: por que nesse pe- |
||||||||||||||
|
nesse espaço entre as quadrículas AM (S) |
ríodo de quase 800 anos o terraço é suposta- |
||||||||||||||
|
1/35, foi uma área com indícios de acampa- |
mente ‘abandonado’ pelos grupos (entre 5570 |
||||||||||||||
|
mento com o registro arqueológico apon- |
A.P. a aproximadamente 4790 A.P. com base |
||||||||||||||
|
tando para o desenvolvimento de ativida- |
nas datações das decapagens 30 e 20)? |
||||||||||||||
|
des relacionadas ao preparo de alimento, |
A Fase 03 foi dividida em três períodos de |
||||||||||||||
|
proteção e lascamento. |
ocupação distintos, sobretudo relacionados às |
||||||||||||||
|
No tocante a tecnologia lítica, foi possí- |
indicações de Dominguez & Britcha (1997). To- |
||||||||||||||
|
vel perceber uma quantidade significativa |
davia, antes de iniciarmos a descrição dos so- |
||||||||||||||
|
de peças líticas (principalmente resíduos de |
los evidenciados pelas escavações, acredita- |
||||||||||||||
|
lascas |
liticos |
total |
|||||||||||||
|
decap. |
residuos |
brutas |
nucleos |
perutores |
artefatos |
total |
ec |
me |
ra |
c |
vestigios |
||||
|
06 |
|
|
06 |
02 |
03 |
|||||||||
|
04 |
|
– |
|
06 |
04 |
03 |
82 |
|||||||
|
07 |
|
|
01 |
– |
07 |
|||||||||
|
– |
|
05 |
– |
59 |
||||||||||
|
05 |
|
|
01 |
07 |
05 |
|||||||||
|
12 |
|
|
02 |
06 |
– |
|||||||||
|
15 |
|
|
03 |
– |
86 |
|||||||||
|
26 |
|
128
|
01 |
07 |
– |
136 |
||||||||
|
Tabela 03. Remanescentes culturais da Fase 02 do Justino. Legenda: EC= estruturas de combustão; ME=Mancha |
|||||||||||||||
|
escura; RA=restos faunísticos; C=conchas. |
|||||||||||||||
|
ANÁLISE INTRA-SÍTIO DO SÍTIO JUSTINO, BAIXO SÃO FRANCISCO |
– AS FASES OCUPACIONAIS |
Marcelo Fagundes |
|||||||||||||
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|
mos ser interessante à realização de um |
terraço do Justino (além dos demais sítios |
||
|
exercício especulativo comparando a Fase 03 |
surgirem após esse período), pode-se inferir |
||
|
com as demais, em função da série de hipóte- |
sobre as causas desta quebra de estabilidade |
||
|
ses que têm sido formuladas, pensadas e re- |
ocupacional entre a Fase 02 e Fases 04 e 05, |
||
|
pensadas sobre esse sítio. |
representada pelas curtas permanências na |
||
|
A equipe de escavação privilegiou datar o |
primeira e segunda ocupações da Fase 03. |
||
|
sítio em intervalos de 1,00 m de profundidade |
De qualquer forma, todos os dados apre- |
||
|
entre as decapagens 10 e 40, exceto que dadas |
sentados são pouco conclusivos e, por isso, |
||
|
às particularidades dos cemitérios B e A outras |
o caráter especulativo. |
||
|
decapagens foram datadas. Com base exclusi- |
Mesmo com as indicações de Domin- |
||
|
vamente nesses resultados das datações abso- |
guez & Britcha (1997) sobre as cheias do |
||
|
lutas em C14, observou-se que durante a Fase |
São Francisco e a intensidade das mesmas, |
||
|
03, entre as decapagens 30 e 20, o processo de |
não podemos afirmar com certeza até que |
||
|
formação do terraço foi mais rápido que nos |
ponto elas influenciaram na organização |
||
|
demais períodos, ou seja, em aproximadamen- |
social desses grupos, sobretudo a partir da |
||
|
te 800 anos fora acrescido mais um metro de |
decapagem 20 onde a quantidade de rema- |
||
|
sedimento, conforme tabela 02. |
nescentes culturais, concentrações e asso- |
||
|
Os dados de paleoambiente que temos |
ciações são imensas, não havendo espaços |
||
|
para a área de pesquisa (Ab’Saber, 1989, |
sem presença de cultura material, enterra- |
||
|
2002, 2003; Cavalcanti, 2005), apontam para |
mentos intactos (exceto na Fase 05, onde há |
||
|
uma estabilidade climática no Nordeste a |
muitas concentrações de ossos que podem |
||
|
partir da passagem do pleistoceno para o |
ter sido enterramentos bioturbados, porém |
||
|
holoceno, com a presença do clima semi- |
em função de diferentes causas), etc. |
||
|
-árido e da caatinga, sendo que, inclusive, a |
Logo é extremamente importante des - |
||
|
região passou por um período ainda mais |
tacar que se trata de um exercício repleto |
||
|
árido do que atualmente, com estações se- |
de limitações, sobretudo do ponto de vista |
||
|
cas mais prolongadas. Entretanto, é notório |
geomorfológico, uma vez que não está in - |
||
|
que o regime de cheias do São Francisco in- |
cluso em uma teoria interpretativa dos so - |
||
|
depende, até hoje, do clima semi-árido. |
los, com dados acerca de índices erosivos |
||
|
Assim, supondo que no período entre 5500 |
e de sedimentação aliados à situação to - |
||
|
e 4500 A.P. as cheias e vazão do rio fossem |
poambiental da área de estudo, destacando |
||
|
mais intensas (e por isso que o processo depo- |
as qualidades de vazão e dinâmica alu - |
||
|
sicional foi mais rápido que nos demais – le- |
viais nos terraços. |
||
|
vando em conta os processos deposicionais |
Neste caso as informações aqui apresen- |
||
|
coluviares e os erosivos), seria uma entre as |
tadas não podem ser consideradas como |
||
|
possíveis explicações da causa do terraço ter |
conceitos chaves/interpretativos para ava- |
||
|
sido ‘abandonado’? Seria em função desta |
liação da Fase 03, mas indicam a necessida- |
||
|
condição que os demais sítios arqueológicos |
de de estudos da relação deposição/erosão e |
||
|
da Área 03, com base nas datações de alguns |
formação do pacote arqueológico e sedi- |
||
|
deles por termoluminescência, passam a sur- |
mentar no holoceno médio em Xingó. |
||
|
gir apenas após esse período? |
Em meio a estas extrapolações pode-se |
||
|
Dessa forma, somando-se essas hipóteses |
indicar que entre as causas da inexistência |
||
|
com a nossa realidade empírica de que os |
de remanescentes culturais em densidade |
||
|
grupos não permaneceram muito tempo no |
no Justino decorre das suposições, a saber: |
||
|
REVISTA DE ARQUEOLOGIA |
Volume 23 - N.2:68-97 |
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|
as primeiras ocupações da Fase 03 diz res- |
||||||||||
|
• Que o processo de cheias (e vazão) do São |
peito ao uso do sítio enquanto acampamen- |
|||||||||
|
Francisco impediu a ocorrência de ocupa- |
to temporário, podendo estar relacionado |
|||||||||
|
ções mais fixas ou prolongadas no terraço |
ao desempenho das atividades cotidianas |
|||||||||
|
do Justino no período indicado. |
do grupo (grupos), bem como aquelas de |
|||||||||
|
• Que em função desse provável período de ins- |
caráter mais ‘ritualístico’ (visita aos ances - |
|||||||||
|
tabilidade ambiental, associado a uma maior e |
trais). Não acreditamos que se trata de solos |
|||||||||
|
presumível vazão do São Francisco, transforma- |
de ocupação intactos, principalmente em |
|||||||||
|
do o terraço do Justino em um patamar antigo |
função da complexidade que envolve a estrati- |
|||||||||
|
ficação desse sítio. |
||||||||||
|
Decapa- |
Datação |
Método |
Profundi- |
Intervalo |
Formação |
Se pensarmos o |
||||
|
gem |
dade (M) |
(M) |
(Anos) |
sítio em sua totali- |
||||||
8950 ± 70 AP |
14 |
|
– |
dade esse período não registra a pre- sença de estruturas |
||||||
5570 ± 70 AP |
14 |
|
3400 |
|||||||
4790 ± 80 AP |
14 |
|
780 |
|||||||
|
± 35AP
3270 |
14 |
|
1520 |
de combustão or - |
||||||
|
2650 ± 150 AP
|
14 |
|
620 |
ganizadas, apenas |
||||||
2530 ± 70 AP |
14 |
|
120 |
manchas (entre as |
||||||
1780 ± 60 AP |
14 |
|
490 |
decapagens de nú- |
||||||
|
± 45 AP
1280 |
14 |
|
1280 |
mero 34 e 21 – de |
||||||
|
Tabela 04. Dados comparativos de formação do terraço Justino |
3,50 a aproximada- |
|||||||||
|
(partindo da sedimentação – sem índices erosivos) |
mente 2,20/2,10 m |
|||||||||
|
de profundidade – |
||||||||||
|
de inundação; pode-se imaginar que tal ação |
foram evidenciadas 62 manchas escuras no |
|||||||||
|
deve ter interferido significantemente na com- |
solo), e a própria distribuição dos vestígios |
|||||||||
|
posição de estruturas existentes e mesmo des- |
nos solos de ocupação; pode-se inferir que |
|||||||||
|
truído parte de um pacote cultural preexistente. |
ocorreram bioturbações significativas, mui- |
|||||||||
|
to embora a maior parte desses vestígios |
||||||||||
|
Ou seja, poderiam ter ocorrido duas |
esteja associada às manchas de prováveis |
|||||||||
|
situações: |
antigas fogueiras, nesse caso, pode-se infe- |
|||||||||
|
rir que os materiais mais leves (carvão, es- |
||||||||||
|
• Os grupos estavam ali, porém as ações natu- |
tilhas, restos faunísticos, etc.), possam ter |
|||||||||
|
rais foram responsáveis em desmantelar o re- |
sido mais facilmente carreados. |
|||||||||
|
gistro arqueológico; |
Feito nosso exercício, cabe a descrição |
|||||||||
|
• Os grupos não permaneceram no local, vi - |
das diferentes ocupações da Fase 03. A pri- |
|||||||||
|
sitando-o com certa freqüência, mas em pe- |
meira ocupação ocorre em um intervalo de |
|||||||||
|
quenas ocupações. |
0,60 m, entre as decapagens 34 e 29. é mar- |
|||||||||
|
cada pela presença de poucos remanescen- |
||||||||||
|
Sob o nosso ponto de vista, sobretudo |
tes culturais, evidenciando o uso do sítio, |
|||||||||
|
após a avaliação dos mapas de plotação de |
sobretudo no eixo AS 1/35, fora da área de |
|||||||||
|
vestígios, características da cadeia operató- |
sepultamentos, dado que corrobora com |
|||||||||
|
ria lítica e a inexistência de pacotes arqueo- |
nossa hipótese de seu uso como acampa- |
|||||||||
|
lógicos com sepultamentos provindos desse |
mento temporário, datado de 5570 ± 70 A.P. |
|||||||||
|
período; acreditamos que a realidade para |
(Decapagem 30. Beta Analytic). |
|||||||||
|
ANÁLISE INTRA-SÍTIO DO SÍTIO JUSTINO, BAIXO SÃO FRANCISCO – AS FASES OCUPACIONAIS |
Marcelo Fagundes |
|||||||||
Os vestígios líticos estão representados
por trinta e seis peças e, nesse período,
ocorrem os primeiros elementos cerâmicos
representados por seis fragmentos. Além
disso, nota-se o número elevado de man-
chas escuras no solo (32 no total).
Observa-se que na área dos sepultamen-
tos relacionados ao cemitério D (AS 35/55)
quase não há remanescentes culturais, sen-
do que a maior parte dos evidenciados nes-
se solo de ocupação diz respeito à parte
oposta do sítio.
Na decapagem 34, quadrículas AE 20/25,
foi evidenciada uma grande mancha escura
de 2,80 m2, com bastante material lítico e
restos alimentares associados, inclusive é a
maior concentração de peças líticas dessa
ocupação, visto que nas decapagens subse-
qüentes o número de elementos é bem re-
duzido, geralmente sem associações. As de-
mais manchas desse período são
numericamente significativas, porém muito
pequenas, geralmente não passando de 0,20
m2, exceto por uma grande mancha escura
evidenciada na decapagem 30, de 1,80 m2,
localizada na área de sepultamento, quadrí-
culas FL 50/55, podendo estar relacionada à
ritualidade (?).
A segunda ocupação ocorre entre as de-
capagens 28 a 22, em um intervalo de 0,70
m, não havendo datações absolutas para
esse período entre 5570 e 4790 A.P., aproxi-
madamente. Há uma diminuição dos rema-
nescentes culturais no sítio, evidenciando o
seu uso esporádico (sazonal), estando rela-
cionado aos acampamentos temporários,
como associado à ritualidade funerária,
muito embora possa se alegar à ação de
agentes naturais nos processos formativos
do registro arqueológico.
Nesse período começam novamente a
ocorrer enterramentos. Todavia, lembrando
que todo o sepultamento é intrusivo, além
disso, que há padrões regulares na confec-
85
ção das covas para os sepultamentos e que
no Justino as camadas de ocupação apre-
sentavam muito pouca inclinação (Vergne,
2004); é justo creditar que os indivíduos
exumados entre as decapagens 28 e 22
(aproximadamente), sejam provenientes
de um novo momento nos terraços em Xin-
gó, representado pelo advento da tecnolo-
gia cerâmica que deve ter ocorrido em tor-
no 4790 ± 80 AP (datação para a decapagem
20), sendo que os elementos anteriores a
esta decapagem devem ter origem também
intrusiva em função da própria intervenção
humana, pré-histórica, no solo; fato que de-
ver ser somado às características acerca da
freqüência e morfologia dos elementos evi-
denciados.
Neste caso, recuamos o advento da ce-
râmica em Xingó aproximadamente 1000
anos. Todavia, esta conjectura necessita de
uma análise mais bem detalhada. Logo, o
que queremos afirmar é que esses ‘mortos’
são provenientes das ocupações entre as
decapagens 15 e 20/22, ou seja, do último
período de ocupação da Fase 03.
Nessa segunda ocupação, há um redire-
cionamento do uso do espaço, uma vez que
o eixo de utilização se confirma no corre-
dor AS 01/35 (aproximadamente 700 m2),
como salientado, com o surgimento de se-
pultamentos (decapagens 28 e 27). Diferen-
te dos demais cemitérios estudados por
Vergne (2004), não há concentrações espe-
cíficas, estando os enterramentos distribu-
ídos sob forma de conjuntos em semicírcu-
lo tanto nas faces norte como face sul do
sítio.
Para Vergne (2004), esses enterramen-
tos estariam ‘arrumados’ em semicírculos
acompanhando o que seriam as antigas ha-
bitações dos primeiros ceramistas na área.
A partir decapagem 26 até a 23/22 ob -
servam-se poucos vestígios materiais no
solo de ocupação, contudo os vestígios
|
REVISTA DE ARQUEOLOGIA |
Volume 23 - N.2:68-97 |
- 2010 |
86
líticos só aparecem associados às man -
chas no solo, salvo raras exceções. Essas
concentrações estão distribuídas irregu -
larmente, sobretudo nesse espaço do sítio
supracitado. De qualquer forma cabe uma
pequena descrição dos remanescentes
culturais por decapagem:
• Decapagem 28 – Entre as quadrículas FL
45/50 há um número significativo de cultura
material lítica, entretanto associada aos se-
pultamentos. Na quadrícula EF 49/51 foi evi-
denciada uma mancha avermelhada no solo
de 0,90 m2, com uma lasca bruta associada.
• Decapagem 27 – ocorre a base do esquele-
to 168 na quadrícula AE 26/30, com muito
lítico associado como enxoval funerário. Na
quadrícula FL 50/55 ocorre uma mancha
escura de 0,30 m2 sem material arqueológi-
co associado.
• Decapagens 26 e 25 – quase não há vestígios
materiais que ocorrem distribuídos pelo espa-
ço do sítio, são quatro líticos e dois fragmentos
cerâmicos. Há uma pequena mancha escura
na área de sepultamentos, FL 45/50.
• Decapagem 24 – ocorre o mesmo que nas
anteriores, sendo evidenciados apenas dois
fragmentos cerâmicos, associados a uma pe-
quena mancha na quadrícula AF 15/20. Entre
as quadrículas AM 10/20 há concentração de
manchas escuras no solo, todas muito peque-
nas e sem vestígios arqueológicos associados.
Na quadrícula FL 49/52 uma mancha cinza de
0,73 m2, com um fragmento de resto faunístico.
Entre as decapagens 21 a 16 é o momento
marcado pelo aumento significativo dos rema-
nescentes culturais, sobretudo a cerâmica,
sendo datado em 4790 ± 80 A.P. (Decapagem
20. Beta Analytic). Acreditamos que aqui é o
momento de transição indicado por Vergne
(2004), onde o grupo passa a se fixar por maior
tempo no terraço do Justino, por todos os fato-
res que temos discutido ao longo deste texto, ou
seja, um novo cenário que obrigou a popula-
ção a traçar estratégias adaptativas ao meio
natural e social; tal fato é observado empirica-
mente pelos itens, a saber:
• O aumento significativo dos remanescentes
culturais evidenciados na escavação, sobretu-
do referente aos itens que são descartados na
área habitacional (espaço ‘doméstico’).
• Pela mudança na tecnologia lítica e pelo
advento da cultura material cerâmica.
• Pela diminuição paulatina na diversidade
do uso de recursos líticos.
• Diminuição dos implementos de curado-
ria nos solos de ocupação do Justino que,
inversamente, passam a existir nos sítios de
atividade específica.
• Surgimento de novos sítios de terraço.
• Diminuição na mobilidade residencial e
aumento na logística.
A partir da decapagem 21 observa-se o
aumento de cultura material lítica e cerâ-
mica, bem como o número de sepultamen-
to que, supostamente, sejam decorrentes
das ocupações anteriores. Há também uma
nova realidade no uso do espaço no tocan-
te aos locais onde os sepultamentos estão
sendo levados a cabo, passando a se con-
centrar na FL 10/35 e na PR 35/39. O que
se pode observar por meio da disposição
dos sepultamentos tanto vertical como ho-
rizontalmente é uma ‘mescla’ entre os pa-
drões do cemitério D e B. Novamente con-
firmando a hipótese de Vergne (2004), de
um período transitório.
A partir da decapagem 18/16, há uma
‘explosão’ de cultura material, associada
ou não aos sepultamentos. é a partir des -
se momento, com ápice no cemitério B,
que acreditamos que o sítio passa a ser
mais usado pelo grupo (ou grupos), tanto
para execução de suas práticas cotidia -
nas (enquanto espaço doméstico), quanto
|
ANÁLISE INTRA-SÍTIO DO SÍTIO JUSTINO, BAIXO SÃO FRANCISCO |
– AS FASES OCUPACIONAIS |
Marcelo Fagundes |
87
Gráfico 01. distribuição espaço-temporal dos remanescentes culturais evidenciados na fase 03 do sítio justino.
eixo y – quantidade de vestígios eixo x – decapagens: 01 = decapagem 36 e 19= decapagem 16
para as culturais-simbólicas relaciona -
das às práticas mortuárias, como discuti -
remos a frente.
Em resumo, a Fase 03 é marcada por
diferentes níveis e tipos de ocupação do es-
paço do Justino. Não sabemos as causas
diretas do abandono do sítio durante a pri-
meira e segunda ocupações, do mesmo
modo, quais os motivos que levaram o gru-
po (grupos) a utilizá-lo novamente como
habitação após um longo período. De qual-
quer forma o estudo dessa Fase foi de suma
importância uma vez que foi possível ma -
pear características para a compreensão
do assentamento em sua totalidade.
A Fase 04, entre as decapagens 15 a 09, é
o momento de explosão no tocante ao uso
do espaço no Justino. Há um aumento sig-
nificativo na quantidade, diversidade e con-
centração dos remanescentes culturais, in-
clusive com presença de diferentes
estruturas no solo de ocupação, datado en-
tre 3270 ± 135 AP (decapagem 13) e 2650 ±
150 AP (decapagem 10).
Com base na distribuição estratigráfica
dos remanescentes culturais, nos estudos
sedimentológicos (Dominguez & Britcha,
1997) e da ritualidade funerária (Vergne,
2004), pode-se observar que não há interva-
los de abandono do sítio neste período, ca-
racterística observada pela distribuição dos
remanescentes culturais na estratificação,
marcada pela presença expressiva de estru-
turas em todas as decapagens.
Estes remanescentes estão distribuídos
por toda a área do sítio, porém estando con-
centrados na parte leste, mais próxima à
encosta do canyon (entre as quadras AS
35/55); geralmente associados às diferentes
estruturas, não apenas aos sepultamentos.
Cabe ressaltar que neste período é que se
encontra o maior número de enterramentos
do Justino. Indiscutivelmente é na Fase 04,
cemitério B, que o sítio estava sendo ocupa-
do como habitação semipermanente.
A respeito dos sepultamentos exumados
nessa Fase, pode-se concentrá-los em três
momentos distintos, a saber:
• Entre as decapagens 14 e 13 (entre 1,50 m
e 1,30 m de profundidade) – em que foram
evidenciadas nove sepulturas e três agrupa-
mentos de ossos, concentrados entre as
quadrículas M z 21/35; período datado em
3270 ± 135 A.P., com base no carvão da fo-
gueira 09 evidenciada na decapagem 13.
• Entre as decapagens 12 e 11 (entre 1,30 m
a 1,10 m de profundidade) – em que foram
evidenciados treze sepultamentos e três
|
REVISTA DE ARQUEOLOGIA |
Volume 23 - N.2:68-97 |
- 2010 |
88
concentrações de ossos, entre as quadrícu-
las Fz 21/32;
• Entre as decapagens 10 e 09 (entre 1,10 m
a 0,90 m de profundidade) – onde foi exu-
mado o maior número de indivíduos, totali-
zando trinta e nove sepultamentos e cinco
concentrações de ossos, datados em 2650 ±
160 A.P., com base no carvão da fogueira 19;
ambos localizados entre as quadrículas Fz
21/35.
Ainda segundo Vergne (2004) a distri -
buição dos enterramentos nesse momen -
to segue uma ordem lógica, estando divi -
didos em diferentes conjuntos: um
principal e quatro secundários, além do
sepultamento n°165 que se encontrava
completamente isolado dos demais.
é importante frisar que os conjuntos
secundários trazem especificidades tais
como vasilhames completos sobre o indi -
víduo sepultado (conjunto 03, constituído
pelos sepultamentos de número 118, 116
e 10), ou dentro de vasilhames cerâmicos
(conjunto 04, sepultamento 167 e 166).
Além disso, a distribuição espacial das
sepulturas do cemitério B (em forma cir -
cular e extremamente agrupados) sugere
que os enterramentos tenham sido reali -
zados seguindo o contorno da habitação
(conforme Vergne, 2004).
Ou seja, com base nos dados empíricos
da autora, percebe-se que os enterramen-
tos distinguem-se até mesmo no espaço do
sítio arqueológico, além disso, foi notória a
hierarquia social entre os indivíduos, ob -
servada em sua pesquisa por meio da aná-
lise dos remanescentes culturais associa -
dos aos sepultamentos como mobiliário
funerário (Vergne, 2004).
Assim, diferente que se observou no Ce-
mitério C, os sepultamentos aqui estão
concentrados (salvo raras exceções) na
face sul do terraço, entre as quadrículas Fz
21-35, perfazendo 225 m2, também abran-
gendo o setor II do Justino (Vergne, 2004).
No que se refere aos conjuntos artefa -
tuais líticos, a expediência é notória nes -
se desse período, mas também encontra -
mos artefatos mais bem manufaturados,
sobretudo em sílex. Aqui o uso do quartzo
torna-se realmente majoritário entre os
conjuntos líticos (cerca de 73,00%). Nos -
sa hipótese, como anteriormente se dis -
cutira, vincula-se à maior sedentarização
do grupo (grupos) nesse período, instau -
rando decididamente o uso do assenta -
mento como base (habitação).
Segundo nossas inferências, obtidas
em meios aos dados estatístico-comparati-
vos (Fagundes, 2007; 2010b), os núcleos es-
gotados encontram-se nas decapagens fi -
nais desta Fase (11 a 09), período que
também ocorre a maior quantidade de resí-
duos de lascamento (52,28% do total) e
maior freqüência de percutores (52,38% do
total). Tais recorrências indicam que em
torno de 2500 A. P. a atividades redutivas
para a produção de ferramentas líticas eram
mais freqüentes, sobretudo para a manufa-
tura de ferramentas expeditas para uso mo-
mentâneo, com pouca preocupação com a
morfologia ou questões relativas à durabili-
dade ou ‘estética’, ou seja, a ferramenta de-
veria ser útil para uma atividade imediata e
certamente pouco especializada.
Na decapagem 11, por exemplo, a maior
parte dos artefatos stricto-sensu estava
constituída por ferramentas sobre seixo ou
bloco, que receberam poucos golpes para a
criação de um bordo ativo. São pouco espe-
cializados e pela análise macroscópica per-
cebeu-se que foram peças utilizadas e des-
cartadas.
O conjunto artefatual depositado como
mobiliário funerário, entretanto, há modifi-
cações sensíveis. São peças mais bem elabo-
radas, com marcas claras de manutenção/
|
ANÁLISE INTRA-SÍTIO DO SÍTIO JUSTINO, BAIXO SÃO FRANCISCO |
– AS FASES OCUPACIONAIS |
Marcelo Fagundes |
89
|
reparos em muitas, sendo que as ações |
• Na decapagem 10, quadrícula AE 35/40, foi |
||
|
transformativas pós-debitagem ocorrem |
evidenciada uma imensa mancha escura de |
||
|
com maior freqüência, denotando uma |
aproximadamente 6,00 m2, retangular, com |
||
|
maior preocupação com a durabilidade do |
uma significativa quantidade de fragmentos |
||
|
instrumento, características que afastam a |
cerâmicos e restos faunísticos associados. |
||
|
possibilidade desse material ter sido manu- |
Na quadrícula ao lado, AE 40/45, foram evi- |
||
|
faturado exclusivamente para fazer parte do |
denciadas seis manchas escuras, todas de |
||
|
mobiliário funerário. |
pequenas dimensões, porém também com |
||
|
Em relação à tecnologia cerâmica obser- |
muito material faunístico e fragmentos ce- |
||
|
vamos uma maior diversidade de tipos de- |
râmicos associados (mancha 01 = 0,42 m2; |
||
|
corativos em relação à Fase posterior (Luna, |
mancha 02 = 0,40 m2; mancha 03 = 0,37 |
||
|
2001; Vergne, 2004). |
m2; mancha 04 = 0,17 m2; mancha 05 = |
||
|
No tocante ao estudo dos solos de ocupa- |
0,55 m2 e mancha 06 = 0,43 m2). Na qua- |
||
|
ção dada a quantidade imensa de material é |
drícula FL 51/55 foi evidenciada a fogueira |
||
|
quase impossível indicar concentrações e |
19 (0,60 m2), com muitos remanescentes |
||
|
associações. São 61 manchas escuras, todas |
associados na face norte dessa estrutura, so- |
||
|
com remanescentes associados; 08 man- |
bretudo cerâmica, peças líticas e restos fau- |
||
|
chas claras, 03 manchas vermelhas e 01 |
nísticos. |
||
|
mancha cinza. No que diz respeito às estru- |
• Na decapagem 12 o maior destaque diz |
||
|
turas de combustão pode-se evidenciar 05 |
respeito à fogueira 15 (quadrícula AE 36/40 |
||
|
nessa fase do Justino, sendo que 02 que es- |
com 0,71 m2 de dimensão), onde havia |
||
|
tavam associadas aos conjuntos de estrutu- |
grande concentração de remanescentes cul- |
||
|
ras funerárias foram datadas: as fogueiras |
turais, dispostos ao redor da estrutura (em |
||
|
09 e 19. |
círculo). |
||
|
Para essa fase, dada a quantidade de re- |
|||
|
manescentes culturais nos solos de ocupa- |
S o L o SPALE o E tno GR áf IC o S |
DA |
|
|
ção, tornou-se difícil a visualização de con- |
fASE 05 D o JUS t I no |
||
|
centrações ou associações dos |
A última fase de ocupação do sítio está lo- |
||
|
remanescentes culturais, exceto em casos |
calizada entre as decapagens 08 e 01 (um in- |
||
|
específicos. Assim, julgamos não ser neces- |
tervalo de 80 cm, entre 0,10 e 0,90 m de pro- |
||
|
sária a descrição minuciosa de cada uma |
fundidade), ocorrendo duas datações para o |
||
|
das decapagens, exceto para algumas parti- |
período: para a primeira ocupação 1780 ± 60 |
||
|
cularidades, a saber: |
AP (decapagem 06); e 1280 ± 45 AP (decapa- |
||
|
gem 03), para a segunda ocupação. |
|||
|
• Na decapagem 09 a maior concentração de |
A Fase 05 (equivalente ao cemitério A) foi |
||
|
remanescentes culturais está na área de se- |
subdividida por nós em duas ocupações, uti- |
||
|
pultamentos. Na fogueira 09 (AF 15/20 com |
lizando como critério a presença de sepulta- |
||
|
0,18 m2 de dimensão) havia uma concen- |
mento (que ocorrem entre as decapagens 08 |
||
|
tração de vestígios materiais, sobretudo ce- |
e 04) ou ausência deles (entre 03 e 01). Entre- |
||
|
râmica, na face sul dessa estrutura, em for- |
tanto, o estudo das cadeias operatórias líticas |
||
|
ma de semicírculo. Na fogueira 08 (AE |
demonstrou uma similaridade extrema entre |
||
|
16/20 com 0,80 m2), apesar de maior que a |
os conjuntos provenientes dessa divisão, no- |
||
|
anterior não houve nenhum tipo de vestígio |
toriamente arbitrária. |
||
|
material associado. |
Como dito anteriormente, esse pode ser |
||
|
REVISTA DE ARQUEOLOGIA |
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vestígios cerâmicos apenas alisados (diferente
ver era literalmente uma imensa mancha es-
ras de combustão; 122 manchas escuras, com
tos fragmentos de restos faunísticos; 10 con-
marcante desta fase é a expediência dos dife-
breposição de camadas o que conseguíamos
tefatuais; e a disposição do cemitério e sua re-
com a presença de artefatos mais expeditos e
mos a citar a quantidade de remanescentes
de remanescentes culturais evidenciados em
ando mobiliário funerário), 12821 remanes-
gens 08 e 01 (apenas solo de ocupação, excetu-
cerâmicos; 2513 elementos líticos; 17 estrutu-
considerado o período com maior diferença
das outras fases). Logo, a característica mais
chas vermelhas; 05 manchas cinzas; 1972 res-
que, certamente, é assombrosa; as principais
características tecnológicas dos conjuntos ar-
cura em toda a área (!). Nesse caso, nos atere-
concentrações que em nossos exercícios de so-
centes culturais, a saber: 8667 fragmentos
solo de ocupação. São tantas as estruturas e
carvão associado; 01 mancha clara; 18 man-
entre os demais em relação à tecnologia lítica,
Em relação ao uso do espaço como cemi-
Assim foram evidenciados entre as decapa-
Também é o período com maior número
chas carbonizadas (Fagundes, 2007).
lação com os solos ocupacionais.
rentes conjuntos artefatuais.
– AS FASES OCUPACIONAIS
tério, percebemos um novo direcionamento
dos enterramentos. Segundo análises de Verg-
ne (2004), há dois subconjuntos principais
nesse cemitério, ambos situados no quadran-
te leste, entre as quadrículas AE /FL /R –
06/30. São sepulturas mais dispersas se com-
paradas ao cemitério anterior, além de
estarem distribuídas de forma alongada e não
circular. Entretanto, percebe-se que os sepul-
tamentos tanto o cemitério A quanto o B, não
ocorrem na face sudeste/ sul do sítio, onde há
muitas estruturas em meio a espaços vazios
que podem indicar o local das habitações.
A indústria lítica é marcada pelo caráter
expedito, com instrumentos sobre lascas de
quartzo muito mal retocadas, mas na maioria
sendo manufaturados sobre pequenos blocos
de quartzo (11 peças), onde eram executadas
pequenas retiradas para criação de bordo ati-
vo, do mesmo modo ocorrendo em raspado-
res sobre seixo todos unifaciais (12 exempla-
res). O restante dos artefatos está representado
por quatro raspadores sobre lasca quadran-
gular e vinte e duas lascas retocadas. Desse
total, vinte e nove são de quartzo, dez de sílex,
dez de arenito silicificado e três de quartzito.
Foi nessa Fase de ocupação do sítio que te-
mos os dados sobre zooarqueologia mais bem
trabalhados sobre o Justino, análises executa-
das por Silva (1994) e Palmeira (1997).
ANÁLISE INTRA-SÍTIO DO SÍTIO JUSTINO, BAIXO SÃO FRANCISCO
91
C on SIDERA çõ ES f I n AIS |
sujeita à dinâmica de um grande rio, o São |
||||||||||||||||
|
A redação da tese que deu origem a esse |
Francisco – que tem cooperado efetivamen- |
||||||||||||||||
|
artigo foi um desafio em todas suas etapas, |
te para as mudanças na paisagem ao longo |
||||||||||||||||
|
principalmente se pensarmos na complexi- |
dos anos; esperava-se encontrar um assen- |
||||||||||||||||
|
dade que envolve todas as questões arqueo- |
tamento com estratificação no mínimo |
||||||||||||||||
|
lógicas para a Área Arqueológica de Xingó, |
complicada, além de desarranjos estrutu- |
||||||||||||||||
|
dentre as quais: |
rais que, a priori, não possibilitariam (ou |
||||||||||||||||
|
• Seus conjuntos artefatuais não apresen- |
permitiriam) uma sistematização coerente |
||||||||||||||||
|
tam similaridades com as áreas circunvizi- |
dos dados empíricos em função dos prová- |
||||||||||||||||
|
nhas, sobretudo as ferramentas líticas e a |
veis movimentos verticais das peças, mistu- |
||||||||||||||||
|
tecnologia cerâmica; |
ras entre camadas arqueológicas, impossi- |
||||||||||||||||
|
• O sítio Justino, nosso modelo gravitacional, |
bilitando uma compreensão dos solos |
||||||||||||||||
|
vestÍgios lÍticos |
outros remanescentes |
||||||||||||||||
|
Decap. |
res |
lb |
n |
per |
art |
total |
cer |
ec |
me |
mc |
mv |
mcz |
ra |
total |
|||
|
08 |
|
05 |
|
|
02 |
01 |
01 |
01 |
958 |
||||||||
|
07 |
|
07 |
08 |
|
01 |
16 |
|
293 |
741 |
||||||||
|
06 |
|
02 |
|
|
12 |
03 |
03 |
197 |
805 |
||||||||
|
05 |
15 |
06 |
|
03 |
23 |
|
218 |
1010 |
|||||||||
|
04 |
|
02 |
|
|
02
|
01 |
01 |
64 |
943 |
||||||||
|
03 |
|
01 |
|
|
05
|
11 |
11 |
|
|||||||||
|
02 |
|
05 |
– |
1944
|
03 |
02 |
02 |
|
|||||||||
|
01 |
|
12 |
06 |
1915 |
01 |
13 |
– |
|
|||||||||
|
Total |
2287 |
110 |
34 |
|
2513 |
8667 |
17 |
122 |
01 |
18 |
05 |
1972 |
12821 |
||||
|
Tabela 06. Remanescentes culturais da Fase 05 |
|||||||||||||||||
|
apresentou datações antigas em torno de 9000 |
paleoetnográficos de ocupação (Leroi-Gou- |
||||||||||||||||
|
anos A.P.; surgimento da tecnologia cerâmica |
rhan, 1950, 1972). |
||||||||||||||||
|
no holoceno médio, por volta de 4500 anos |
Precisávamos entender o rio, a caatinga, os |
||||||||||||||||
|
A.P.; além dos 185 esqueletos evidenciados. |
diferentes compartimentos componentes da |
||||||||||||||||
|
paisagem e, sobretudo, elucidar o contexto sis- |
|||||||||||||||||
|
Em função dessas e outras tantas caracte- |
têmico em um exercício reflexivo de como se- |
||||||||||||||||
|
rísticas, discussões arqueográficas, metodoló- |
ria o modo de vida e dinâmica cultural em |
||||||||||||||||
|
gicas e conceituais surgiram (e surgem) rela- |
nossa área de pesquisa, buscando possibilida- |
||||||||||||||||
|
cionadas ao Justino. Obviamente o modelo |
des e limitações para questões acerca da mobi- |
||||||||||||||||
|
aqui apresentado para o Justino poderá não vir |
lidade, da realização das atividades cotidianas, |
||||||||||||||||
|
a ser consenso entre os pesquisadores que efe- |
das seqüências operacionais e, conseqüente, |
||||||||||||||||
|
tuaram trabalhos em Xingó, uma vez que as |
organização tecnológica, da função de sítios e |
||||||||||||||||
|
diversas interpretações que têm sido dadas ao |
do sistema regional de assentamento. |
||||||||||||||||
|
sítio Justino, principalmente porque grande |
Foi nesse momento que passamos a nos |
||||||||||||||||
|
parte desses estudos teve como foco as análises |
interessar pela paisagem (‘arqueológica’) e |
||||||||||||||||
|
intra-sítio deste assentamento. |
que descobrimos o conceito de persistent pla- |
||||||||||||||||
|
Por ser um sítio em terraço fluvial, área |
ces (Schlanger, 1992). Derivado/ extraído da |
||||||||||||||||
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REVISTA DE ARQUEOLOGIA |
Volume 23 - N.2:68-97 - 2010 |
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92
|
abordagem de lugar, assim como outros tan- |
Loci, refletindo sobre as condições que per- |
|
tos ramificados do artigo de Lewis R. Binford |
mitiram certas escolhas/ estratégias e as in- |
|
(1982 11 ) em que o autor amplia noção de sítio |
ter-relações entre sociedade versus meio |
|
arqueológico, sem desmerecê-lo, mas apon- |
que, ao final de nossa pesquisa, nos apareceu |
|
tando para a necessidade de compreensão dos |
de maneira distinta do que concebíamos. |
|
não-sítios e, principalmente, da importância |
Constantemente nos reportamos ao con- |
|
em entender as inter-relações entre sítios con- |
texto enquanto uma unidade básica inter- |
|
temporâneos de uma área. |
pretativa. O artefato nos diz pouco (ou nada |
|
Assim, discorrer sobre lugares persistentes |
quando fora de seu ‘contexto’), as estruturas |
|
é diferente de falar em multicomponencialida- |
devem estar devidamente mapeadas em |
|
de, isto é, o uso do primeiro pressupõe que |
suas dimensões horizontal e vertical; sítios |
|
houve (ou há) no local sob intervenção, condi- |
isolados nos respondem sobre uma realida- |
|
ções tais que permitiram sua ocupação e reo- |
de fracionada. O contexto pressupõe totali- |
|
cupação em longa duração, diferente de um |
dade, partindo do estratigráfico (diacrôni- |
|
único sítio (ou conjunto de sítios) com níveis |
co); da distribuição espacial dos vestígios |
|
líticos e lito-cerâmicos. |
(sincrônico); do domínio de Mauss (1974) |
|
Vale destacar que um sítio (ou sítios) |
que supõe a interlocução entre as partes |
|
multicomponencial pode ser integrante de |
constitutivas de um lugar; ou do complexo |
|
um lugar persistente, mas a abordagem |
situacional de sítios à moda binfordiana; se- |
|
implica na ampliação da noção de sítio ar- |
guindo pela distribuição de diferentes sítios |
|
queológico, compreendendo os espaços so- |
em diferentes compartimentos que consti- |
|
ciais, os não-sítios, as ocorrências arqueo- |
tuem uma paisagem; além das distintas as- |
|
lógicas, etc. |
sociações entre trabalho, organização tec- |
|
Tal perspectiva está muito próxima ao |
nológica e estratégias/ escolhas. |
|
que Mauss definiu como domínio em sua no- |
Assim, acreditamos que o Justino, nosso |
|
ção de estabelecimento (1974), todavia sendo |
modelo gravitacional, foi ocupado em longa |
|
aqui compreendida em um sentido mais es- |
duração em distintos momentos da paisa- |
|
pecífico para o uso em Arqueologia, uma vez |
gem regional, sendo-lhe atribuídas pelo |
|
que sob a ótica dos lugares persistentes pres- |
grupo (ou grupos) funções diversas ao lon- |
|
supõe-se a paisagem em sua totalidade. |
go do tempo, até que, em um período que |
|
Nesse caso, o Locus de ocupação ultra- |
coincide com o aparecimento da tecnologia |
|
passa o sítio arqueológico, estando consti - |
cerâmica no registro arqueológico, houve |
|
tuído por elementos bem demarcados no |
uma maior fixação dos grupos no terraço, |
|
sistema sócio-cultural por meio de frontei- |
fato que não implica na não-existência de |
|
ras estabelecidas enquanto elemento de |
outros sítios habitacionais em outros com- |
|
significação (mesmo que fluídas), e forma- |
partimentos da paisagem 12 . |
|
dos por todos os locais de uso continuado, |
O modelo criado teve como base os sítios |
|
tanto em uma perspectiva sincrônica, |
de terraço e é nesse espaço que é aplicado (e |
|
quanto diacrônica (Silva-Mendes, 2007). |
aplicável), fato que não nos impediu de es- |
|
A intenção do conceito, dessa forma, é |
pecular sobre a mobilidade e dispersão es- |
|
mapear a utilização em longa duração dos |
pacial de sítios e ocorrências, tendo como |
11 Ver também os textos de 1992, 2001.
12 Não é insensato destacar que com isso não estamos relacionando cerâmica e sedentarização (ou semi), mesmo porque há
grupos detentores dessa tecnologia aliada à horticultura que são extremamente ‘móveis’. Além disso, se pensarmos em uma
morfologia social baseada na dinâmica do rio, nossas respostas ficam mais claras.
|
ANÁLISE INTRA-SÍTIO DO SÍTIO JUSTINO, BAIXO SÃO FRANCISCO |
– AS FASES OCUPACIONAIS |
Marcelo Fagundes |
aporte os geoindicadores para aplicação do
conceito de lugares persistentes.
Os demais sítios (evidenciados nas cam-
panhas de salvamento) surgem a partir des-
se período, enquanto complementares às
prováveis novas necessidades do grupo
(grupos), mais complexo em sua organiza-
ção social, obviamente, com base no estudo
da ritualidade funerária de Vergne (2004).
Esse artigo encerra-se com um modelo
de ocupação para Xingó, em suas particula-
ridades atestadas no início dessas conside-
rações, apresentando dados fundamentais
para inserção dos grupos pré-históricos na
paisagem constituída e remodelada ao lon-
go de quase oito mil anos de ocupação, a
saber:
• Na paisagem do pleistoceno para o holoce-
no inicial (cerca de 12 a 9000 anos A.P. – Fa-
ses 05 e 04) – bandos de caçadores coletores
percorriam os diferentes compartimentos
da paisagem, dentro dos aportes de mobili-
dade apresentados por Binford (1982), per-
mitindo a formação de sítios arqueológicos
dispersos. Tal fato se fundamenta no núme-
ro baixo de sítios em terraços com ocupa-
ções de caçadores coletores (Justino e São
José II). A indústria lítica, expedita, apre-
senta artefatos mais bem elaborados que
nas fases ocupacionais seguintes, sobretudo
manufaturados em matérias-primas silico-
sas. Em torno de 9000 e 8000 mil anos A.P.,
o terraço onde estava assentado o Justino
passa a ser mais utilizado pelo grupo. O solo
de ocupação registra uma maior densidade
de remanescentes culturais, geralmente as-
sociados às estruturas de combustão. Nesse
momento que acreditamos que o grupo pas-
sa a enterrar seus mortos no terraço. Entre-
tanto, a imensa quantidade desses vestígios
materiais estaria além de questões ritualís-
ticas, uma vez que há estruturas com ferra-
mentas líticas e restos alimentícios relativa-
93
mente distantes das áreas de sepultamento
e todo o comportamento observável pelas
plantas do sítio indicam uma setorização de
atividades.
• No holoceno médio (cerca de 5000 a 4000
mil anos A.P. – Fase 03) – o terraço passa a
ser pouco freqüentado pelo grupo (ou gru-
pos), que, pelo menos hipoteticamente,
pode ter algum tipo de relação com o regi-
me de cheias do rio. Os remanescentes con-
centram-se em torno de possíveis estrutu-
ras de combustão, ou melhor, manchas
indicativas das mesmas. Não há presença
de materiais leves, tais como estilhas ou
carvão. No final desse período surge a tec -
nologia cerâmica, sobretudo a partir da de-
capagem 21/20.
• No holoceno tardio (3000 a 1000 anos A.P.
– Fases 02 e 01) – marcado pelo surgimento
dos demais sítios na área arqueológica 03
que, segundo nosso modelo, estariam liga-
dos ao sítio base enquanto locais de desen-
volvimento de atividades especializadas, no
chamado complexo situacional de sítios. No
Justino há uma explosão de remanescentes
culturais associados às estruturas ou em
concentrações. A tecnologia lítica adquire
um caráter ainda mais expedito, com predo-
minância de lascas corticais ou semicorti-
cais de quarto e raspadores sobre bloco e
seixo, ambos com poucas ações transforma-
tivas pós-debitagem.
Quando comparamos os conjuntos arte-
fatuais de sítios contemporâneos compo -
nentes de uma mesma área, percebemos
que são complementares e, portanto, a aná-
lise isolada não responderia às diversas in-
terrogações que surgem ao longo da pesqui-
sa. Tal fato foi observado nas análises dos
conjuntos líticos em Xingó (Fagundes,
2010a).
Como já comentado, os pesquisadores
responsáveis pelas análises paleoambien -
|
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tais em Xingó indicaram que mesmo me- |
levadas a cabo, aos sítios mais especializa- |
|
diante ao regime de cheias do rio São Fran- |
dos. |
|
cisco (que existiram), as denominadas |
Esses dados partiram principalmente da |
|
“excepcionais” não eram tão freqüentes po- |
análise das cadeias operatórias dos conjun- |
|
dendo ocorrer em intervalos de dezenas ou |
tos líticos. De modo geral podemos caracte- |
|
centenas de anos. Em suas palavras: |
rizá-los (Fagundes, 2010b): |
|
O principal risco geológico ao qual estas popu- |
• Pelo uso de seixos com pré-disposição à |
|
lações primitivas estavam sujeitas era sem dúvi- |
retirada dos suportes desejados, representa- |
|
da as cheias do rio São Francisco. As cheias ex- |
dos por lascas quadrangulares e trapezoi- |
|
cepcionais ( com tempo de recorrência de |
dais, unifaciais, sendo que em alguns foram |
|
algumas dezenas ou até mesmo uma centena |
realizadas ações transformativas pós-debi- |
|
de anos) podiam alcançar cerca de 25 metros |
tagem, representadas por golpes de adelga- |
|
acima do nível normal do rio. Estas poderiam |
çamento e retoques (curtos e em escama), |
|
resultar em grande destruição, até mesmo com |
executados na face interna para atingir a |
|
mortes, uma vez que se tratam de fenômenos re- |
externa (retoques diretos). O tipo de técnica |
|
lativamente rápidos e de grande capacidade |
mais freqüente é a unipolar, com uso de |
|
destruidora (Landim Dominguez e Brichta, |
percutor duro. Em suma, a escolha pelo su- |
|
1997:07) [grifo nosso]. |
porte pressupõe uma economia nos gestos |
|
técnicos: seixos com certa morfologia para |
|
|
Além disso, uma visão mais minuciosa |
obtenção de lascas corticais ou semi para |
|
sobre os espaços topográficos próximos ao |
produção dos implementos líticos. |
|
terraço demonstra que há condições reais |
• Pela produção de raspadores sobre seixos, |
|
de formação de acampamento e/ou aldeias, |
novamente suportes previamente escolhi- |
|
distante cerca de 50 a 200m das margens do |
dos por sua morfologia, onde foram realiza- |
|
rio 13 . |
dos golpes abruptos e perpendiculares ao |
|
Durante as duas primeiras ocupações da |
eixo morfológico da peça para a obtenção |
|
Fase 03, atestamos que o sítio Justino passa |
de gume ativo, sendo este último muito |
|
a ser menos utilizado pelo grupo quando |
pouco trabalhado e, quando há retoques, é |
|
comparado as estruturas e remanescentes |
evidente que foram realizados com a inten- |
|
culturais com a Fase 02. |
ção de ativação do bordo. |
|
Uma das causas poderia ser estas cheias |
• Uso preferencial do sílex, mas o quartzo é |
|
excepcionais entre 5500 e 4500 A.P., mas, |
extremamente utilizado, sobretudo para a |
|
novamente, não há dados concretos. No en- |
obtenção de lascas corticais para uso oca- |
|
tanto, o emaranhado de dados elencados |
sional. |
|
(Fagundes, 2007; 2010a, 2010b, 2010c) aca- |
• Utilização de pequenos blocos de quartzo, |
|
bou por nos permitir inferir que os sítios da |
geralmente quadrangulares, como raspado- |
|
Área 03 em Xingó realmente seriam com- |
res, onde foram realizadas pouquíssimas |
|
plementares em meio a um amplo sistema |
transformações para adelgaçamento do |
|
de assentamento regional: do sítio base, |
bordo à ativação de um gume cortante. |
|
onde as atividades sociais cotidianas eram |
Enfim, é uma indústria expedita, mas |
13 Nesse caso, áreas inundadas pelo lago da UHE-Xingó.
14 Aliada a toda discussão em torno da dinâmica ambiental da área, não havia unidades crono-estratigráficas que orientassem de
maneira inequívoca a escavação.
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ANÁLISE INTRA-SÍTIO DO SÍTIO JUSTINO, BAIXO SÃO FRANCISCO |
– AS FASES OCUPACIONAIS |
Marcelo Fagundes |
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que traz consigo traços fundamentais para a |
ses autores, guiamos nosso olhar para o sí- |
|
compreensão da pré-história de Xingó. |
tio Justino. Com exceção das Fases 04 e 05, |
|
Uma das grandes discussões sobre o sí- |
pudemos realizar exercícios com as plantas |
|
tio Justino diz respeito a sua estratigrafia. |
de plotação de vestígios e pudemos verificar |
|
Acreditamos que é uma estratificação com- |
que vestígios nessas camadas entre 40 e 70 |
|
plexa e de difícil leitura 14 . Além havia a pos- |
cm se relacionavam em diferentes estrutu- |
|
sibilidade real de movimentação vertical |
ras ou concentrações (apresentado nesse |
|
das peças e mistura dos solos de ocupação. |
texto). |
|
Justamente por isso preferimos seguir as |
De qualquer forma, o sítio Justino é um |
|
orientações paleoambientais de Landim |
importante assentamento no vale do São |
|
Dominguez & Britcha (1997). |
Francisco e novos estudos são necessários |
|
Assim, não se pode negar que ocorrem |
para se discutir lacunas existentes, princi- |
|
movimentos verticais ou que processos ero- |
palmente em sua estratificação. Para tanto, |
|
sivos foram responsáveis por perdas de par- |
como apresentado em nosso doutoramento |
|
celas significativas dos solos de ocupação, |
(2007), dados paleoambientais seriam fun- |
|
todavia estamos falando de uma área de |
damentais para a compreensão do contexto |
|
1265 m2 escavadas. Com a orientação des - |
arqueológico regional. |
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Volume 23 - N.2:68-97
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1.Jonas Gregorio de Souza e 2.Silvia moehlecke Copé 1.mestrando do Programa de Pós-Graduação em Arqueologia do mAE-USP, bolsista CAPES e pesquisador associado ao nuPArq-UfRGS. núcleo de Pesquisa Arqueológica – nuPArq – Departamento de História – IfCH. Universidade federal do Rio Grande do Sul – UfRGS. Avenida bento Gonçalves, 9500. Porto Alegre – RS. jonas.gregorio@yahoo.com.br. 2. Professora do Departamento de História e coordenadora do nuPArq-UfRGS. núcleo de Pesquisa Arqueológica – nuPArq – Departamento de História – IfCH. Universidade federal do Rio Grande do Sul – UfRGS. Avenida bento Gonçalves, 9500. Porto Alegre – RS. smcope@terra.com.br.
RESU mo |
|||
|
Neste artigo apresentamos o resultado |
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de escavações em montículos e aterros |
|||
A b S t RACt |
anelares Jê do Sul no município de Pinhal |
||
|
In this article we present the results of ex- |
da Serra, RS. Fazemos uma distinção en - |
||
|
cavations in southern Jê mounds and earth- |
tre pequenos aterros cercando montícu - |
||
|
works located in Pinhal da Serra, Rio Grande |
los funerários e grandes aterros cercando |
||
|
do Sul. We make a distinction between small |
uma praça interna. Em um montículo fu - |
||
|
earthworks around burial mounds and large |
nerário encontramos dois sepultamentos |
||
|
earthworks around a central plaza. In one of |
cremados, um primário e o outro secun - |
||
|
the mounds, we found two cremated burials, |
dário. Um grande aterro apresentou, em |
||
|
one primary and the other secondary. A large |
sua estratigrafia, evidências de que a ter - |
||
|
earthwork exhibited stratigraphical evidence |
ra usada em sua construção possivelmen - |
||
|
that the earth for its construction was possi- |
te foi trazida de longa distância. Concluí - |
||
|
bly brought from a long distance. We con- |
mos que os montículos e pequenos aterros |
||
|
clude that the mounds and small earthworks |
seriam cemitérios de grupos habitando |
||
|
were cemeteries for groups inhabiting pit |
casas semi-subterrâneas vizinhas, en - |
||
|
houses nearby, while the large earthworks |
quanto os grandes aterros anelares de - |
||
|
would demand, for their construction, the ag- |
mandariam, para sua construção, a agre - |
||
|
gregation of many dispersed communities, |
gação de diversas comunidades dispersas, |
||
|
which would also gather for rituals in the |
que também participariam de rituais no |
||
|
wide internal space of these structures. |
amplo espaço interno dessas estruturas. |
||
|
K EY W o RDS southern Jê, funerary ritual, |
PALAv RAS-CHAv E Jê do Sul, rito funerá- |
||
|
earthworks and mounds |
rio, aterros anelares e montículos. |
||
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Este artigo é decorrente de uma comu-
nicação por nós apresentada no simpósio
“Más allá de los Andes: monumentalidad y
espacios públicos en las tierras bajas suda-
mericanas”, ocorrido em 2009 durante o XV
Congresso da Sociedade de Arqueologia
Brasileira. O objetivo do simpósio era com-
parar diferentes casos de emergência de
sociedades de nível médio de complexidade
nas terras baixas da América do Sul, sendo
uma de suas características arqueologica-
mente reconhecíveis o investimento em
construções monumentais e espaços públi-
cos. O caso que apresentamos refere-se aos
montículos funerários e grandes aterros
anelares de função ritual dos grupos Jê do
Sul, tradição arqueológica Taquara, em pe-
ríodo pré-colonial. Acreditamos que esses
sítios devem ser compreendidos como um
dos muitos elementos no sistema de assen-
tamento desses grupos, que incluía tam -
bém conjuntos de casas semi-subterrâneas,
sítios líticos e sítios lito-cerâmicos a céu
aberto. A fim de compreender esse sistema
de assentamento, examinamos inicialmen-
te os diferentes tipos de sítios registrados e
escavados pela equipe do Núcleo de Pesqui-
sa Arqueológica (NuPArq) da UFRGS no
município de Pinhal da Serra, RS. Para a
análise específica dos aterros anelares e
montículos, selecionamos para apresenta-
ção os resultados das escavações de duas
estruturas do sítio RS-PE-29: um montículo
funerário cercado por um pequeno aterro
anelar de 20 m de diâmetro, e um grande
aterro anelar de 80 m de diâmetro cercando
um amplo espaço vazio. Os dados prove -
nientes dessas escavações nos permitiram
levantar hipóteses relativas à articulação
entre esses “centros cerimoniais” e os de-
mais sítios da região, assim como questões
relacionadas à escala da população que os
construiu e utilizou.
Desde 2001 a equipe do Núcleo de Pes-
quisa Arqueológica (NuPArq) da UFRGS
está envolvida com o projeto de escavação
dos sítios arqueológicos no entorno da Usi-
na Hidrelétrica de Barra Grande, rio Pelo-
tas, município de Pinhal da Serra, Rio Gran-
de do Sul, na divisa com Santa Catarina. Em
termos geomorfológicos, essa área faz parte
do Planalto das Araucárias, cuja cobertura
vegetal se destaca pela presença de floresta
ombrófila mista (caracterizada pela predo-
minância da Araucaria angustifolia) inter-
calada com campos (IBGE, 1992).
Um levantamento inicial da área havia
sido realizado na década de 1980 pelo ar -
queólogo P. A. Mentz Ribeiro, que locali -
zou sítios da tradição Taquara, incluindo
casas semi-subterrâneas e sítios com ater -
ros anelares e montículos. As datas de C14
obtidas em duas casas do sítio RS-PE-10,
uma casa do sítio RS-PE-26 e outra casa
do sítio RS-PE-28 se situaram entre cal
AD 1.300 e 1.560 (Ribeiro & Ribeiro,
1985:79-80). Os sítios líticos da área foram
remetidos por Ribeiro a um período pré -
-cerâmico. Além da localização e escava -
ção de novos sítios, os trabalhos da equipe
da UFRGS trouxeram novas hipóteses de
pesquisa: a partir de uma perspectiva sis -
têmica, a variabilidade de sítios na área
foi entendida como representando não pe -
ríodos distintos, mas diferenças funcio -
nais dentro de um mesmo sistema de as -
sentamento (Copé et al., 2002) (Figura 1).
Entre os diferentes tipos de sítios, pode-
mos contar 1) as estruturas semi-subterrâ-
neas; 2) os sítios lito-cerâmicos superficiais;
3) os sítios líticos superficiais; 4) os conjun-
tos de aterros anelares e montículos. As es-
truturas ou casas semi-subterrâneas são
encontradas predominantemente em cotas
altas, acima dos 800 m de altitude, em zonas
Novas perspectivas sobre a arquitetura ritual do planalto merid iona l ...
|
Jonas Gregorio de Souza e Silvia Moehlecke Copé |
|
101
Figura 1 – Sítios arqueológicos identificados em Pinhal da Serra, RS
de transição entre os campos e a floresta
ombrófila mista que, nessas altitudes, é
composta principalmente por matas de
araucária. A maioria dos sítios é composta
de 1 ou 5 estruturas, embora existam con-
juntos de 6, 15, 19 e até 23 estruturas semi-
-subterrâneas. Nesses conjuntos, há uma
predominância de estruturas pequenas e
médias, entre 2 e 8 m de diâmetro (Salda-
nha, 2005; Copé, 2007).
Os sítios lito-cerâmicos são variados em
termos de dimensões: os sítios maiores, com
concentrações densas de artefatos, grande di-
versidade artefatual, e micro-estruturas de fo-
gueira parecem corresponder a habitações,
com a dispersão do material sugerindo descar-
te primário de unidades domésticas, enquanto
os sítios menores, muito variados (alguns com,
outros sem micro-estruturas de fogueira e ne-
gativos de postes)
mas com menor di-
versidade de artefa-
tos, poderiam cor-
responder a lugares
de atividades especí-
ficas de diferentes
tipos, como acampa-
mentos ou habita-
ções temporárias de
famílias nucleares
(Saldanha, 2005;
Copé, 2007).
Os sítios lí-
ticos superficiais
apresentam concen-
trações esparsas de
grandes artefatos bi-
faciais, sem micro-
-estruturas como fo-
gueiras ou bolsões
de lascamento. Con-
centram-se em cotas
altimétricas baixas,
nas encostas pró -
ximas à calha do
rio Pelotas, em zona de floresta ombrófila
mista. Ao contrário do que supunha Ribei -
ro, atualmente é possível interpretar esses
sítios como áreas de atividades específicas
dos ceramistas, provavelmente ligadas à
abertura de roças e ao cultivo (Saldanha,
2005; Copé, 2007). Tal associação é de -
monstrada pela presença, nesses sítios,
dos mesmos tecno-tipos identificados nos
sítios considerados de habitação – lito-ce -
râmicos ou de estruturas semi-subterrâne-
as – somado ao fato de que, nos sítios de
habitação, encontra-se grande quantidade
de debitagem e de lascas de façonagem, o
que sugere que os instrumentos eram fa -
bricados nas áreas domésticas e então
transportados às áreas onde eram utiliza -
dos (Copé et al., 2002; Saldanha, 2005).
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Nosso foco neste artigo é um outro tipo de
sítio: os aterros anelares e montículos. Estru-
turas construídas em terra com diferentes
funções existem em todo o território Jê do Sul,
o que causa uma profusão de termos para
descrevê-los. Em conformidade com a pro-
posta de Copé (2006:380) reservamos o termo
montículo para as estruturas de caráter fune-
rário. Estas não devem ser confundidas com
os depósitos resultantes da construção de ca-
sas semi-subterrâneas que, quando possuem
a função de nivelar o terreno circundante à
casa, podem ser chamados de aterros. Em Pi-
nhal da Serra e em outras regiões do planalto,
os montículos aparecem cercados por aterros
anelares, termo que adotaremos para desig-
nar “muros” de terra formando um contorno
circular ou, mais raramente, retangular. Esse
tipo de sítio foi inicialmente estudado na pro-
víncia argentina de Misiones, cidade de Eldo-
rado, onde, no topo de um morro com boa
vista dos arredores, um aterro anelar de 180
m de diâmetro cercando um montículo em
associação com cerâmica Taquara (chamada
então de Eldoradense) e unido a outros qua-
tro aterros anelares foi descrito pelo arqueó-
logo Oswald Menghin, que interpretou essa
estrutura como remanescente de uma antiga
paliçada cercando um túmulo, representado
pelo montículo, à semelhança das atuais al-
deias circulares Jê (Menghin, 1957). Recente-
mente, os trabalhos nesse sítio foram retoma-
dos por Iriarte et al. (2008, 2010) com novas
questões e resultados, como comentaremos
mais adiante.
Após as descobertas de Menghin, sítios
similares foram identificados no Paraná e
em Santa Catarina. No Paraná, Chmyz
(1968) encontrou, no médio vale do rio Igua-
çu, conjuntos de montículos alongados em
topos de morros. Em um dos casos, os mon-
tículos estavam cercados por um aterro ane-
lar. Não foi possível identificar vestígios di-
retos de sepultamentos nessas estruturas,
embora o autor descreva que na base de um
dos montículos escavados havia uma fina
camada de cor escura contendo muitos car-
vões (Chmyz, 1968:46).
No planalto leste de Santa Catarina, nos
arredores de Urubici, o arqueólogo João Al-
fredo Rohr (1971) identificou aterros anela-
res com dimensões que variavam de 15 a 70
m de diâmetro, localizados sempre em to-
pos de morros com vista panorâmica dos
arredores. Dos sítios visitados por Rohr, os
aterros menores, de 15 e 20 m de diâmetro,
cercavam montículos, ao passo que os de
maiores dimensões, entre 30 e 70 m de diâ-
metro, não apresentavam montículo em seu
centro. Apesar da denominação popular de
“danceiros” ou “terreiros de dança dos bu-
gres”, Rohr conclui a partir de suas escava-
ções que tais sítios seriam remanescentes
de antigas aldeias fortificadas, uma inter-
pretação similar à de Menghin.
Os aterros anelares e montículos de Pi-
nhal da Serra foram primeiro descritos por
Ribeiro (Ribeiro & Ribeiro, 1985). Levando
em conta a possibilidade de os montículos
encerrarem sepultamentos, o arqueólogo re-
colheu amostras do solo para testes de Ph,
que não apontaram qualquer diferença entre
o solo dos montículos e o do terreno circun-
dante. Somando isso ao fato de que nas estru-
turas por ele escavadas foram encontrados
fogões e cerâmica, Ribeiro segue Rohr e
Menghin em suas conclusões e interpreta as
estruturas de Pinhal da Serra como vestígios
de aldeias cercadas por paliçadas, embora
reconheça que algumas pudessem ter fun-
ções distintas (Ribeiro & Ribeiro, 1985:90-
91). Na verdade, a possibilidade de que os
montículos poderiam ser de caráter funerá-
rio sempre foi sugerida, mas nenhuma esca-
vação pôde comprová-la, de modo que a hi-
pótese das “aldeias fortificadas” foi mantida.
Uma vez que os trabalhos da equipe da
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Jonas Gregorio de Souza e Silvia Moehlecke Copé |
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Figura 2. Localização das diferentes estruturas do sítio
RS-PE-29, com plantas topográficas em detalhe. Imagem de
satélite do Google Earth. Topografias realizadas entre
julho de 2007 e fevereiro de 2009 por Rodrigo Torres (Es-
trutura 1) e Jonas Souza (Estruturas 2, 3 e 4)
UFRGS no mesmo município foram guiados
por uma perspectiva sistêmica, que considera
que os diferentes tipos de sítios representam
diferentes atividades realizadas por um grupo
humano em seu território, procurou-se, por
amostragem, escavar um sítio de cada tipo a
fim de se compreender sua função no sistema
de assentamento local. O sítio de aterros ane-
lares e montículos inicialmente escolhido
para escavação foi o sítio RS-PE-21. Este con-
siste em dois aterros anelares de 15 e 20 m de
diâmetro, ambos cercando montículos. Foi
aberta uma trincheira cortando parte do ater-
ro da estrutura maior, bem como seu montí-
culo central. Neste, aos 45 cm de profundida-
de, foi localizada uma micro-estrutura de
fogueira com ossos calcinados, cercada por
terra queimada (Copé et al., 2002). Isso confir-
mou a função funerária dos montículos, e
desde então sítios semelhantes foram identifi-
cados e escavados no vale do rio Pelotas e do
rio Canoas em Santa Catarina, via de regra
encontrando-se sepultamentos nos montícu-
los (Herberts & Müller, 2007; Müller, 2008; De
Masi 2006, 2009).
Este padrão, contudo, não é encontrado em
toda a área de dispersão Jê meridional, sendo
mais comum, em certos locais, o sepultamento
coletivo em grutas. Saldanha (2008) utili-
zou essa diferença para desfazer a ima-
gem demasiadamente homogênea que se
construiu sobre os grupos Jê meridionais
no passado. Para o autor, a diferença nos
padrões de sepultamento entre Pinhal da
Serra e Bom Jesus, RS, implica distintas
concepções de ancestralidade e descen-
dência. Em Bom Jesus, onde há sepulta-
mentos coletivos em grutas em que os
falecidos estão acessíveis à visitação futu-
ra e manipulação, os ritos funerários es-
tariam voltados para a negociação de ter-
ritórios extensos congregando unidades
formadas por diversas famílias dispersas,
agregadas pelo uso dos abrigos rochosos
para sepultamentos coletivos. Por outro lado,
em Pinhal da Serra, os aterros anelares e mon-
tículos seriam de propriedade de grupos do-
mésticos específicos, que por meio de tais mo-
numentos funerários demarcariam seus
territórios por referência a uma série de ances-
trais identificáveis (Saldanha, 2008).
No entanto, nem todos os sítios de aterros
anelares são de caráter funerário. Gostaríamos
de ilustrar a variabilidade desses sítios a partir
do conjunto abarcado sob a denominação RS-
-PE-29, que representa a maior concentração
de aterros anelares e montículos na região de
Pinhal da Serra. Esse conjunto tem sido traba-
lhado intensivamente desde 2007 pela equipe
da UFRGS. Todas as estruturas foram constru-
ídas no topo alongado de um morro, em uma
altitude de 900 m, com ampla vista dos arredo-
res (Figura 2). A Estrutura 1 possui as maiores
dimensões da região: trata-se de um aterro
anelar, de forma circular, com 80 m de diâme-
tro, porém sem montículo em seu centro (Fi-
gura 3). Essa estrutura encontra-se entre as
descritas por Ribeiro, tendo sido escavada pelo
mesmo (Ribeiro & Ribeiro, 1985). Retornamos
ao local com objetivos diferentes, buscando
compreender o processo de construção do
aterro anelar, que poderia ter se dado de duas
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104
formas: ou através do uso da terra do próprio
local, ou através do transporte de terra recolhi-
da em outra fonte. Essa segunda hipótese é
sugerida pelo relato de Mabilde (1897:165) a
respeito da construção de um montículo sobre
a sepultura de um cacique Kaingang, emprei-
tada para a qual seus subordinados transpor-
tavam terra em cestos desde uma distância
considerável, indo buscá-la nos barrancos às
margens de algum arroio ou sanga. A fim de
resolver a questão, abrimos duas trincheiras,
uma cortando o aterro e outra na área interna
cercada por ele, além de poços-teste nas áreas
externas, fora da estrutura. A comparação da
estratigrafia das diferentes áreas é um primei-
ro indício de que o aterro anelar foi construí-
do com terra vinda de outro local, embora
análises de solo ainda estejam para ser reali-
zadas, de modo a fundamentar essa hipótese.
O que ficou claro durante os trabalhos de
campo é que a trincheira escavada cortando o
aterro revelou duas camadas inexistentes no
espaço interno da estrutura. Após a camada
húmica (I) e a camada II, mais argilosa e
compacta, o aterro apresentou uma camada
(III) bastante argilosa e viscosa, com uma
mistura de manchas acinzentadas e escuras.
A camada seguinte (IV) apresentava a mesma
textura argilosa, coesa e viscosa, embora hou-
vesse uma mudança na cor, mais amarelada,
permanecendo, contudo, as manchas escu-
ras. A coloração acinzentada e escura existen-
te nessas duas camadas parece ser decorrente
da presença de certa quantidade de matéria
orgânica, o que, somado às demais caracterís-
ticas, leva a crer que esse sedimento tenha
sido transportado da beira de algum lago ou
córrego, embora ainda não tenhamos deter-
minado sua origem (Figura 3). Essas cama-
das não estão presentes nas áreas internas ou
externas ao aterro anelar, que apresentaram
apenas a transição entre camada húmica e
basalto decomposto comum ao latossolo da
região, de modo que sugerimos que as cama-
Figura 3. Planta topográfica do sítio RS-PE-29,
Estrutura 1, com identificação da trincheira esca-
vada sobre o aterro anelar. Abaixo, estratigrafia
do aterro anelar, com destaque para as camadas
III e IV, que representam o evento de construção.
Abaixo delas, a camada V já corresponde ao ba-
salto decomposto
das III e IV representam o evento de constru-
ção do aterro anelar. Ao se realizarem análi-
ses do solo recolhido nessas distintas áreas
será possível testar a possibilidade, levantada
pela comparação das estratigrafias, de que o
Figura 4. Planta baixa das Estruturas 3A e 3B, sítio
RS-PE-29. Abaixo, planta topográfica da Estru-
tura 3A, com indicação da área escavada entre
janeiro de 2008 e fevereiro de 2009
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Jonas Gregorio de Souza e Silvia Moehlecke Copé |
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105
aterro foi construído com sedi-
mento alóctone – o que assumi-
mos, no momento, como uma
hipótese de trabalho.
Cerca de 400 m a noroeste,
encontra-se a Estrutura 3, com-
posta de dois aterros anelares, am-
bos de forma circular e com 20 m
de diâmetro, denominados A e B,
cada um cercando um montículo
(Figura 4). Entre 2008 e 2009, es-
cavamos o montículo central da
Figura 5. Fotografias da pira funerária (à esquerda) e das con-
centrações de ossos calcinados (à direita). Montículo central da
Estrutura 3A, sítio RS-PE-29
lizada ao lado da primeira, consistia em
diversos carvões de grandes dimensões e ossos
calcinados cercados por terra queimada. A dis-
posição e alinhamento dos carvões, alguns pa-
ralelos, outros perpendiculares, permitem vi-
sualizar a forma da pira funerária (Figuras 5 e
6). As datações feitas a partir do carvão asso-
ciado aos ossos revelaram que essas duas mi-
cro-estruturas não são contemporâneas, sendo
a primeira datada de 490 ± 40 BP, cal AD 1410
a 1440 (Beta-242869), e a segunda de 340 ± 40
BP, cal AD 1480 a 1630 (Beta-242860). Essa
última parece ser contemporânea ao sepulta-
mento no sítio RS-PE-21, o primeiro da região
a ser escavado pela equipe da UFRGS, cuja da-
tação se situou em 350 ± 40 BP, cal AD 1480 a
1630 (Beta-242868).
Ocorrem, portanto, tanto sepultamentos
primários quanto secundários. No primeiro
caso, representado pelo segundo sepulta-
mento do sítio RS-PE-29 3A e pelo sepulta-
mento do sítio RS-PE-21, o montículo é er-
guido diretamente sobre os vestígios da pira
funerária, como é possível observar pela
quantidade e disposição dos carvões, bem
como pela presença de terra queimada cer-
cando a micro-estrutura. No segundo caso,
representado pelo primeiro sepultamento
do sítio RS-PE-29 3A, o corpo é cremado em
um determinado local, seus ossos desarti-
culados são recolhidos e transportados,
Estrutura 3A. Aos 25 cm de pro-
fundidade, localizamos duas mi-
cro-estruturas, a primeira delas constituída
por uma mancha acinzentada, pequenos nó-
dulos alaranjados e carvões, e ossos calcina-
dos. Após completamente escavada a micro-
-estrutura, retirados todos os ossos e carvões,
foi possível observar que esta se assentava so-
bre um aprofundamento da camada, forman-
do uma cova. A segunda micro-estrutura, loca-
Figura 6. Planta final da escavação no montículo
da Estrutura 3A, sítio RS-PE-29. À esquerda, nota-
se a pira funerária e, à direita, o sepultamento
secundário. Abaixo, detalhe da posição estratigrá-
fica dos dois sepultamentos sob o montículo
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possivelmente dentro de um cesto, para um
local diferente, onde são depositados em
uma cova sobre a qual se ergue o montícu-
lo. Esses dois padrões foram também obser-
vados em sítios escavados em Santa Catari-
na, onde, assim como em Pinhal da Serra,
ambos os padrões eram por vezes encontra-
dos associados sob o mesmo montículo
(Herberts & Müller, 2007; Müller, 2008; De
Masi 2006, 2009). Para Müller (2008), a pre-
sença única de piras funerárias em alguns
dos montículos implica que este é um pa-
drão de disposição diferente do sepulta -
mento secundário. Por outro lado, os dados
obtidos por De Masi (2006, 2009) sugerem
que, ao menos no caso do sítio SC-AG-12,
onde foram evidenciados 6 sepultamentos
secundários e uma pira funerária com pou-
cos ossos calcinados na base do montículo,
não haveria sepultamentos primários no
sentido estrito do termo, uma vez que a pira
seria limpa dos ossos recolhidos para serem
transportados ao local definitivo de sepulta-
mento. No caso do sítio RS-PE-29 3A, a dife-
rença nas datas refutou a hipótese inicial de
que as duas micro-estruturas localizadas
lado a lado representariam duas etapas do
mesmo rito, implicando que, no caso em
questão, é pertinente a diferenciação entre
dois padrões de disposição dos ossos cre-
mados, um primário (pira funerária com os
ossos sepultada in loco) e outro secundário
(ossos transportados em um cesto). Esta é,
contudo, uma interpretação preliminar que
pode ser alterada por escavações futuras de
um número maior de sepultamentos.
As duas estruturas analisadas corres -
pondem a dois tipos diferentes de sítios: um,
representado pela Estrutura 3, apresenta
dois pequenos aterros anelares cercando
montículos funerários; o outro, representa-
do pela Estrutura 1, apresenta um grande
aterro anelar delimitando um espaço inter-
no amplo e limpo, porém sem sepultamen-
tos. Esse padrão pode ser encontrado desde
as pesquisas de Rohr (1971), pois entre os
sítios identificados por esse arqueólogo ape-
nas os pequenos (aterros de 15 a 20 m de
diâmetro) possuíam montículos, enquanto
os maiores (65 e 70 m de diâmetro) cerca-
vam um amplo espaço vazio. De Masi
(2006) retomou essa distinção para o baixo
vale do rio Canoas, Santa Catarina, denomi-
nando os círculos menores com montículos
de “túmulos” (e seus agrupamentos de “ce-
mitérios”) e os círculos maiores sem montí-
culos de “danceiros”.
O autor chega a essas conclusões a par-
tir de analogia etnográfica com os Xokleng,
habitantes da região por ocasião do contato.
Os Xokleng praticavam a cremação dos
mortos, sepultando-os sob pequenos montí-
culos, de 60 cm de altura, ainda no início do
século XX (Silva, 2001:152; Métraux,
1946:465). O cadáver, envolvido em um co-
bertor, era disposto sobre uma pilha de ma-
deira à qual se ateava fogo, retornando os
participantes da cerimônia um dia depois
para recolher os ossos calcinados em um
cesto forrado com folhas de xaxim, que era
então transportado ao local definitivo de se-
pultamento, sendo depositado em uma pe-
quena cova sobre a qual se erguia um mon-
tículo cônico (Lavina, 1994:66). A
construção de montículos funerários era
também uma prática entre os Kaingang do
Rio Grande do Sul (Mabilde, 1897), do Para-
ná (Borba apud Silva, 2001:151) e de São
Paulo (Métraux, 1946), embora sem a cre-
mação. O rito funerário Jê do Sul envolven-
do o sepultamento secundário após crema-
ção e a posterior construção de um
montículo sobre a cova pode ser traçado até
o século XVII, graças à descrição do Pe. Ruiz
de Montoya que, em missão entre os então
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Jonas Gregorio de Souza e Silvia Moehlecke Copé |
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|
chamados “Gualachos” da província espa- |
etnográficos (Iriarte et al., 2008, 2010). é im- |
|||||
|
nhola do Guairá (hoje Paraná), testemu- |
portante ressaltar que, ao passo que no sítio |
|||||
|
nhou: “queman el cuerpo [ |
] recojen las |
SC-AG-12 os fornos estavam dispostos em |
||||
|
cenizas y hacen un hoyo y enterranlas [ |
] |
y |
semi-círculo ao redor de um montículo cen- |
|||
|
sus caciques hacen un monton de tierra so- |
tral, ou seja, na praça interna, no caso do |
|||||
|
bre la sepultura” (Montoya, 1628 apud |
sítio PM01 tais fornos se encontram direta- |
|||||
|
D’Angelis e Veiga, 1996:94). |
mente sob o aterro anelar, incorporados a |
|||||
|
Em relação aos “danceiros”, não há equi- |
ele. Embora a maioria dos grandes aterros |
|||||
|
valentes etnográficos da construção dos mo- |
anelares ou “danceiros” cerque um espaço |
|||||
|
numentais aterros anelares. Contudo, De |
vazio, espécie de “praça” interna, deve-se ter |
|||||
|
Masi (2006, 2009) faz uso de analogia com |
em conta que tanto no caso do sítio SC - |
|||||
|
os locais onde os Xokleng realizavam o rito |
-AG-12 quanto no caso do sítio PM01 o gran- |
|||||
|
de iniciação que envolvia a perfuração dos |
de aterro anelar e as evidências de feasting |
|||||
|
lábios dos meninos. Para esse rito, os Xok- |
estão associados a um montículo central de |
|||||
|
leng reuniam periodicamente todos os ban- |
caráter funerário. Para De Masi (2006, 2009), |
|||||
|
dos dispersos e limpavam uma grande área |
isso implica que os indivíduos sepultados no |
|||||
|
circular, ao redor da qual construíam abri- |
montículo central, um adulto e uma criança, |
|||||
|
gos; o rito, realizado na “praça” central, in- |
possuíam um status diferenciado, marcado |
|||||
|
cluía o consumo de bebida alcoólica e cul- |
também pelos acompanhamentos funerá- |
|||||
|
minava com a perfuração dos lábios dos |
rios que consistiam em uma fogueira e duas |
|||||
|
meninos para introdução dos tembetás (La- |
pequenas vasilhas. Em contraste, logo ao |
|||||
|
vina, 1994:64). De Masi (2006, 2009) identi- |
lado do grande aterro, foi localizado um |
|||||
|
ficou, em um dos “danceiros” escavados (sí- |
aterro anelar de pequenas dimensões cer- |
|||||
|
tio SC-AG-12), um grande número de |
cando um montículo com 6 sepultamentos, |
|||||
|
estruturas de combustão na praça central, |
sem que houvesse quaisquer acompanha- |
|||||
|
além de estatuetas de argila e um tembetá de |
mentos que se pudesse associar a um indiví- |
|||||
|
quartzo, confirmando o caráter ritual do sí- |
duo específico. Iriarte et al. (2008, 2010) |
|||||
|
tio e sua possível conexão com as práticas |
também interpretam o sítio PM01 como um |
|||||
|
Xokleng descritas na etnografia. Em Eldora- |
local onde um indivíduo de grande impor- |
|||||
|
do, Argentina, novas pesquisas realizadas |
tância foi sepultado no montículo central, |
|||||
|
no sítio originalmente descrito por Menghin |
sendo esse local revisitado periodicamente |
|||||
|
(sítio PM01), um aterro anelar de 180 m de |
para a realização de festejos funerários en- |
|||||
|
diâmetro, ao qual se ligam outros aterros |
volvendo o consumo de uma bebida fermen- |
|||||
|
anelares menores, trouxeram informações |
tada de milho e grande quantidade de carne. |
|||||
|
semelhantes: estruturas de combustão aná- |
Ao mesmo tempo, durante tais encontros se |
|||||
|
logas a fornos subterrâneos ou de tipo “poli- |
acrescia mais terra ao grande aterro anelar, |
|||||
|
nésio” – um tipo de estrutura descrita por |
aumentando suas dimensões ao longo de |
|||||
|
Métraux (1946:452-453) para os Kaingang |
gerações, conforme evidenciado pelas datas |
|||||
|
do período histórico – associadas a cerâmica |
obtidas em diferentes níveis do aterro (Iriar- |
|||||
|
contendo fitólitos de milho – sugerindo um |
te et al., 2008:951-953). |
|||||
|
evento de consumo de grande quantidade de |
As novas pesquisas no Rio Grande do |
|||||
|
comida e, possivelmente, de bebida fermen- |
Sul, em Santa Catarina e em Misiones, Ar- |
|||||
|
tada de milho por ocasião da realização de |
gentina, proporcionaram novos dados que |
|||||
|
festejos funerários, reforçando os paralelos |
permitem refutar a hipótese de que os sí- |
|||||
|
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|
tios com aterros anelares seriam aldeias |
semi-subterrâneas, e podem corresponder a |
|
fortificadas. Não só esses sítios não são ha- |
cemitérios locais dessas comunidades (Salda- |
|
bitações, como também se encontram se - |
nha 2005, 2008). Celebrações funerárias ela- |
|
parados das habitações, o que lhes confere |
boradas reforçam os laços comunitários atra- |
|
o caráter de “centros cerimoniais”, desig - |
vés da construção de uma memória coletiva |
|
nação já utilizada por De Masi (2009). Cen- |
representada pelos ancestrais falecidos. Esse é |
|
tros cerimoniais são lugares onde diferen- |
um aspecto que transparece especialmente |
|
tes grupos vindos de assentamentos |
nos sepultamentos secundários e múltiplos, |
|
dispersos se encontram periodicamente |
como encontramos no planalto meridional. A |
|
para a realização de rituais coletivos (Ber- |
cremação, limpeza, seleção dos ossos e seu |
|
nardini, 2004:331; Twiss, 2008:423-424). |
transporte para o local definitivo de sepulta- |
|
Exemplos freqüentemente citados desse |
mento, por vezes junto com outros indivíduos, |
|
tipo de sítio são os henges construídos du- |
além da construção do montículo e do aterro |
|
rante o Neolítico na Inglaterra (Bradley, |
anelar, revelam grande esforço coletivo. Para- |
|
1998), os templos em forma de U do perío- |
lelos etnográficos revelam que o rito secundá- |
|
do formativo na costa peruana (Dillehay, |
rio, momento em que o morto é considerado |
|
2004) e os aterros geométricos, montículos |
propriamente sepultado, reúne a comunidade |
|
e avenidas do período Woodland médio nos |
por completo, reprimindo a individualidade |
|
Estados Unidos (Bernardini, 2004). Vimos |
do morto e incorporando-o ao coletivo dos an- |
|
que, no caso do planalto meridional brasi- |
cestrais, enfatizando assim a unidade dos vi- |
|
leiro, esses sítios de caráter ritual podem |
vos após a ruptura causada pela morte (Twiss, |
|
ser de dois tipos: montículos encerrando |
2008:437; Larsson, 2003; Pearson, 1999:22, |
|
sepultamentos cremados, cercados por pe- |
50). Propomos, portanto, que os montículos |
|
quenos aterros anelares, e grandes praças |
funerários podem ser considerados estruturas |
|
delimitadas por um aterro anelar. Adler e |
integrativas de baixo nível, construídos e visi- |
|
Wilshusen (1990), a partir da comparação |
tados por moradores de conjuntos de casas |
|
entre casos etnográficos de sociedades que |
semi-subterrâneas nas suas proximidades, |
|
constroem estruturas arquitetônicas “pú - |
que aí participavam de inumações secundá- |
|
blicas” 1 (categoria em que podemos incluir |
rias e ritos funerários coletivos, reforçando |
|
os centros cerimoniais), propõem uma dis- |
seus laços comunitários. |
|
tinção entre estruturas de baixo e de alto |
Para os aterros anelares de grandes di- |
|
nível. As estruturas de baixo nível, com pe- |
mensões, sugerimos uma função distinta. |
|
quenas dimensões e espaço interno reduzi- |
De Masi (2006, 2009) identifica, em um |
|
do, serviriam para integrar apenas uma |
desses sítios, numerosos fornos, duas esta- |
|
porção da comunidade; as estruturas de |
tuetas de argila, uma plataforma central, |
|
alto nível, por outro lado, possuiriam espa- |
dois sepultamentos secundários, e um |
|
ços internos amplos, e serviriam para inte- |
tembetá, equiparando-os aos locais prepa- |
|
grar uma comunidade inteira ou várias |
rados pelos Xokleng para a iniciação dos |
|
comunidades separadas. |
meninos, onde ocorria a reunião dos dife- |
|
Muitos dos montículos funerários estão |
rentes bandos dispersos ao longo do ano. |
|
nas proximidades de algum conjunto de casas |
Iriarte et al. (2008) descrevem um contexto |
O termo “público” não tem aqui o mesmo significado do que quando aplicado às praças mesoamericanas e andinas, mas é
utilizado por nós da mesma forma como se costuma chamar de público o espaço da praça central nas aldeias Jê e Xinguanas,
por oposição ao espaço “privado” das casas. O espaço público, nestes casos, é onde se dão as relações cerimoniais, formais, que
reúnem toda a aldeia (Da Matta, 1976).
Novas perspectivas sobre a arquitetura ritual do planalto merid iona l ...
|
Jonas Gregorio de Souza e Silvia Moehlecke Copé |
|
similar para Misiones, Argentina, onde,
além dos fornos que sugerem consumo de
grande quantidade de alimentos, foram en-
contrados vestígios de consumo de bebida
fermentada de milho. Os autores destacam
a criação de alianças e solidariedade entre
diferentes aldeias através das celebrações
no espaço ritual da estrutura anelar, espe-
cialmente na situação de fronteira em que
esta se encontra (Iriarte et al. 2008:12-13).
O espaço interno delimitado por esses
grandes aterros anelares, uma verdadeira
praça central, é apropriado para a agrega-
ção de um número maior de pessoas do
que as que participariam dos ritos funerá-
rios nos montículos cercados por pequenos
aterros anelares. Na Estrutura 1 do conjun-
to RS-PE-29, com 80 m de diâmetro, a es -
tratigrafia do aterro, como notamos no iní-
cio do artigo, sugere que a terra usada para
construí-lo foi trazida de outro local, apon-
tando para um esforço muito maior na sua
construção em comparação com os sítios
de menores dimensões. Acreditamos, por -
tanto, que esses grandes aterros anelares
ou “danceiros” poderiam corresponder à
categoria de estruturas integrativas de alto
nível, mobilizando o trabalho de muitas
comunidades diferentes, possivelmente
provenientes de distintos conjuntos de ca-
sas semi-subterrâneas dispersos pela re -
gião, e cuja praça interna seria planejada
para abrigar o grande número de pessoas
provenientes dessas comunidades durante
os rituais. Assim, a mesma comunidade
poderia participar, com freqüência, de ritu-
ais mais restritos em montículos funerá -
rios e pequenos aterros anelares próximos
às suas habitações, e também poderia, pe-
riodicamente, integrar-se com membros
de outras comunidades durante a constru-
ção e a realização de rituais coletivos nos
grandes aterros anelares. Essa é uma inter-
pretação que deve ser testada em escava -
109
ções futuras, com o objetivo de recuperar
evidências materiais de tais agregações.
Não se pode esquecer que essa dinâmica
de agregações regionais é atestada pela etno-
grafia dos grupos Jê do Sul. Já mencionamos
o exemplo dos Xokleng, que reuniam os ban-
dos dispersos periodicamente para a realiza-
ção do rito de iniciação. No caso dos Kain-
gang, que estavam tradicionalmente
organizados em cacicados, essa dinâmica é
ainda mais evidente. Segundo Fernandes
(2004), os Kaingang estariam divididos em
facções capazes de atingir formas de atuação
conjunta. Tais divisões corresponderiam a
grupos locais – formados por um conjunto
de grupos familiares – com seus domínios
político-territoriais autônomos, porém inter-
ligadas por redes de aliança e conflito atra-
vés das quais se organizavam para formar
“blocos” de atuação política. O autor reco-
nhece que os Kaingang se enquadrariam na
definição clássica de sociedade segmentar, o
que significa que seu sistema social é com-
posto de grupos locais que podem se articu-
lar em unidades maiores (Fernandes,
2004:102). Nesse caso a integração regional
era mediada pelos caciques principais, auto-
ridade máxima sobre um conjunto de gru-
pos locais, havendo também caciques subor-
dinados responsáveis por cada grupo.
Fernandes (2004:103) destaca o papel das
“festas” ou rituais, especialmente os de cará-
ter funerário, na integração dos grupos re-
gionais Kaingang. Já mencionamos que,
conforme Mabilde (1897:165), os subordina-
dos de um determinado cacique se reuniam
por ocasião de sua morte para a construção
de seu montículo funerário. Ainda recente-
mente, o rito funerário Kaingang realizado
periodicamente para se “rezar” pelos mortos
recentes era peça central de sua sociedade,
momento em que se integravam diferentes
grupos e se fazia referência aos mitos de ori-
gem, promovendo-se cantos e danças nos
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Volume 23 - N.2:98-111 |
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cemitérios acompanhados de bebida de mel
fermentado (Veiga 2000; Crépeau, 1994). A
centralidade dos ritos mortuários, bem como
de rituais de outra natureza, para manuten-
ção das redes de interação e integração re-
gional são aspectos ressaltados pelas etno-
grafias que as pesquisas arqueológicas têm
demonstrado serem também válidos para o
período pré-colonial, de modo que podemos
estar tratando de questões estruturais para
as sociedades Jê do Sul.
As pesquisas em Pinhal da Serra trouxe-
ram informações adicionais sobre a varia-
bilidade dos sítios de aterros anelares e
montículos no planalto meridional. O cená-
rio que propomos possui paralelos em ou -
tros contextos arqueológicos e etnográficos,
como mencionamos ao longo do artigo: a
agregação periódica de comunidades dis -
persas, materializada na construção e uso
de monumentos públicos de caráter ceri-
monial, é utilizada para explicar desde os
barrows e henges da Inglaterra neolítica
(Bradley, 1998) até os templos da costa pe-
ruana no período formativo (Dillehay,
2004). A arquitetura padronizada desses
monumentos – assim como no caso Jê do
Sul – pode ser interpretada como resultante
da interação a nível regional dessas popu-
lações: cada comunidade constrói e usa
múltiplos monumentos, ao mesmo tempo
em que diferentes comunidades podem
convergir na construção e uso de um único
centro cerimonial de maior importância
(Bernardini, 2004:336).
Apesar de ser um processo recorrente
na trajetória das sociedades humanas, a or-
ganização regional e a emergência de mo-
numentos e espaços públicos possuem ca-
racterísticas próprias em cada época e cada
local. Acreditamos que nossas pesquisas
nos aterros anelares e montículos do pla -
nalto meridional (um contexto ainda pouco
conhecido) são uma importante contribui-
ção a um cenário que, graças às discussões
a respeito de sítios como os geoglifos do
Acre, as estruturas megalíticas do Amapá e
os sambaquis do litoral, tem demonstrado a
originalidade e a complexidade do passado
das terras baixas sul-americanas.
Novas perspectivas sobre a arquitetura ritual do planalto merid iona l ...
|
Jonas Gregorio de Souza e Silvia Moehlecke Copé |
|
111
RE f ER ên CIAS b I b LI o GR áf ICAS |
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REVISTA DE ARQUEOLOGIA |
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Eduardo bespalez Doutorando em Arqueologia no mAE/USP, bolsista CAPES, eduardobespalez@usp.br.
RESU mo |
|||
A b S t RACt |
No Território Indígena multiétnico de- |
||
|
In the Indigenous Territory called Lalima |
nominado Aldeia Lalima foram identifica- |
||
|
village were identified 13 sites and 7 archaeo- |
dos 13 sítios e 7 áreas de ocorrência arque- |
||
|
logical occurrence areas, consisting of Gua- |
ológica, constituídos por materiais Guarani, |
||
|
rani materials, of Pantanal Tradition (similar |
da Tradição Pantanal (análogos aos da Fase |
||
|
to the Jacadigo Phase and to the of MS-CP-25 |
Jacadigo e aos sítio MS-CP-25) e por mate- |
||
|
site), and materials associated with the his- |
riais associados à história de formação do |
||
|
torical formation of the current ethnographi- |
contexto etnográfico atual. Considerando os |
||
|
cal context. Considering the detected materi- |
materiais detectados como correlatos da |
||
|
als as correlates of the historical trajectory of |
trajetória histórica da ocupação indígena na |
||
|
indigenous occupation in the village, propose |
Aldeia, proponho que Lalima pode ser com- |
||
|
that Lalima can be understood as a palimp- |
preendida como um palimpsesto da história |
||
|
sest of the indigenous regional history and |
indígena regional e sugiro algumas ques- |
||
|
suggest some issues relating to the deepening |
tões relativas ao aprofundamento das pes- |
||
|
of archaeological research in the area. |
quisas arqueológicas na área. |
||
|
K EY W o RDS Archaeological survey, Indi- |
PALAv RAS-CHAv E Levantamento Arque- |
||
|
genous History, Lalima Indigenous Village/ |
ológico, História Indígena, Aldeia Lalima/ |
||
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Miranda/Mato Grosso do Sul |
Miranda/MS |
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1 Este artigo sintetiza a Dissertação defendida pelo autor no Programa de Pós-graduação do MAE/USP em março de 2009,
sob orientação de Fabíola Andréa Silva. A realização do projeto de pesquisa contou com fomento da FAPESP, através de Bolsa
de Mestrado (Processo nº 05/57404-0) e Auxílio Pesquisa (Processo nº 06/60241-8). As autorizações necessárias à realização da
pesquisa arqueológica e à entrada na Terra Indígena (TI) Lalima foram respectivamente concedidas pelo IPHAN, com apoio
institucional do Museu de Arqueologia da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (MuArq/UFMS), conforme “Portaria
039/07, Seção I do Diário Oficial da União”, e pela FUNAI, de acordo com “Autorização para o ingresso em TI nº 24/CGEP/07”.
Levantamento arqueológico na Aldeia Lalima, Miranda/MS: uma con tribuição ao estudo da trajetória histórica ...
Eduardo Bespalez
115
Mapa 2. Mapa de localização dos sítios arqueológicos na terra indígena Lalima
sistemas tecnológicos dessas populações
apresentavam-se de modo estritamente co-
nectado com os outros elementos que com-
punham os seus respectivos sistemas cultu-
rais (Conkey & Hastorf, 1998; Dias & Silva,
2001; Lemonnier, 1992; Schiffer & Skibo,
1997; Silva, 2000).
As pesquisas arqueológicas realizadas
no Pantanal, compreendido como área de
mosaico cultural, sugerem que o início da
trajetória histórica da ocupação indígena foi
protagonizado por grupos caçadores e cole-
tores que se estabeleceram nas áreas de re-
fúgio ecológico, situadas nas escarpas cir-
cun-adjacentes e nos planaltos residuais, na
transição Pleistoceno-Holoceno (Ab´Sáber,
2006; Eremites de Oliveira, 1999; Schmitz et
al., 1998; Vialou, 2005). No holoceno médio,
com a expansão dos stocks florísticos e fau-
nísticos por conta do fenômeno de aqueci-
mento global denominado optimum clima-
ticum, houve um processo de intensificação
da ocupação caçadora-coletora, seja através
do crescimento demográfico dos grupos es-
tabelecidos desde o holoceno inicial, ou
pelo assentamento de outras populações, do
modo como correlato nos sítios estudados
no Planalto de Maracajú e no rio Paraná, em
Mato Grosso do Sul, na Cidade de Pedras, no
Mato Grosso, e na propagação dos aterros
nas planícies inundáveis do Pantanal (Ere-
mites de Oliveira 2003; Kashimoto 1997;
Martins 2003; Vialou 2006). Em torno de 3
mil anos atrás, o processo de intensificação
da ocupação indígena nas planícies e maci-
ços no Pantanal tornou-se ainda mais dinâ-
mico, com as transformações culturais ver-
ficadas nos conjuntos de materiais
cerâmicos classificados nas Fases da Tradi-
ção Pantanal (Eremites de Oliveira, 2004;
Felicíssimo et al., 2004; Migliacio, 2000; Pei-
xoto, 2002; Peixoto & Bezerra, 2004). Por
volta do início da era cristã, a configuração
etnográfica encontrada pelos europeus co-
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meçou a tomar forma, com o estabeleci-
mento, nas áreas mais férteis da região, de
populações agricultoras e ceramistas de
matriz cultural Macro-Jê, Tupi e Aruak,
sendo as primeiras provenientes do Planal-
to Central e as outras da Amazônia (Berra &
De Blasis, 2006; Brochado, 1984; Hecken-
berger, 2002; Heckenberger, Neves & Pe -
terssen, 1998; Kashimoto & Martins, 2008;
Migliacio, 2000-2001, 2006; Noelli, 1996;
Peixoto, 1998; Pärssinen, 2005; Póvoa, 2007;
Wüst, 1990).
Os dados históricos e etnográficos seis -
centistas e setecentistas indicam que o rio
Miranda era ocupado por populações cultu-
ralmente distintas nos primeiros séculos do
colonialismo (Costa, 1999; Esselin, 2000;
Gadelha, 1980; Nimuendajú, 2002; Souza,
2002). O jesuíta Diego Ferrer, em uma ânua
escrita em 1633, dividiu as sociedades indí-
genas na Provincia del Itaty, nome dado ao
antigo território do Paraguai colonial que
incluía parte considerável do que atualmen-
te é o Mato Grosso do Sul, em dois grandes
grupos: os Guarani-Itatim e os Gualacho
(Cortesão, 1952:47). No grupo dos Itatim, fo-
ram colocadas todas as sociedades de ori -
gem Guarani estabelecidas na área, tais
como os Guarambaré, Ñuara, Temiminós e
Cutaguá, as quais apresentavam traços cul-
turais muito semelhantes entre si. Já no
grupo dos Gualacho, foram inseridas popu-
lações culturalmente distintas, a exemplo
dos Guaná, agricultores de origem Aruak,
Guaikurú, caçadores e coletores de origem
Mbayá-Guaikurú, e Guaxarapó, pescado -
res, caçadores e coletores estabelecidos no
baixo curso do Miranda. Apesar do etnôni-
mo Gualacho estar relacionado com popu -
lações Jê nas regiões sul e sudeste do Brasil
(Monteiro, 1994; Prezia 2000), sabe-se que
muitos dos grupos assim denominados pelo
Padre Ferrer no Itatim apresentavam matri-
zes culturais distintas, de modo que o dito
etnônimo pode ter sido usado apenas para
expressar alteridade entre os Guarani e as
outras populações que ocupavam a área, a
exemplo da famosa dicotomia Tupi/Tapuia
nas regiões sudeste e nordeste. A maioria
dos Itatim e Gualacho abandonaram a re-
gião de Miranda no séc. XVII, devido aos
transtornos causados com o colonialismo,
como as doenças infectocontagiosas trazi-
das pelos europeus, as encomiendas dos
colonos castelhanos do Paraguai, a redução
nas Missões Jesuítas do Itatim, o assalto dos
bandeirantes luso-paulistas e o assédio ter-
ritorial dos índios chaquenhos (Aguirre,
1948; Azara, 1905; Cabeza de Vaca, 1985;
Gandia, 1932, 1935; Guzman, 1835; Hem-
ming, 2007; Maeder, 1996; Martins, 2002;
Meliá, 1986; Monteiro, 1992; Montoya, 1639;
Schmidel, 1986).
Na medida em que o antigo Itatim foi
abandonado pelos Guarani e Gualacho,
grupos Mbayá-Guaikurú, como os Kadiwéu
e Beutuebo, tornados cavaleiros com a
apropriação dos rebanhos dos colonizado-
res, e Chané-Guaná, como Guaná, Kiniki -
nao, Laiana e Terena, populações Aruak
aliadas dos Guaikurú, migraram do Chaco
paraguaio e se assentaram nas regiões de
Corumbá e Miranda, nos pantanais mato-
-grossenses (Carvalho, 1992; Metraux,
1946; Susnik, 1987). Durante todo o séc.
XVIII e a primeira metade do séc. XIX, essas
populações fizeram frente à expansão colo-
nial das coroas espanhola e portuguesa e,
posteriormente, à consolidação do Império
do Brasil e da República do Paraguai. Con-
tudo, a disseminação das epidemias e das
“guerras justas” em represália aos ataques
às monções durante o ciclo aurífero e dia-
mantífero nas minas de Cuiabá e Mato
Grosso, e às fortificações e povoações de
origem castelhano-paraguaia e luso-brasi-
leira, reduziu a resistência Guaikurú e Gua-
ná perante os processos de fragmentação
Levantamento arqueológico na Aldeia Lalima, Miranda/MS: uma con tribuição ao estudo da trajetória histórica ... |
Eduardo Bespalez |
|
cultural e territorial desencadeados pelo
colonialismo, até que os índios foram sujei-
tos à influência portuguesa e brasileira em
Corumbá e Miranda, através da atuação da
Diretoria de Índios da antiga Província do
Mato Grosso e das missões religiosas capu-
chinhas (Almeida Serra, 1845; Bastos, 1972;
Castelnau, 1949; Ferreira, 1971; Holanda,
2000; Moreira Neto, 2005; Prado, 1839; Tau-
nay, 1981). Depois dos prejuízos causados
com a Guerra do Paraguai (1864-1870), as
terras da região foram loteadas e os índios
remanescentes foram escravizados nas co-
lônias de fazenda, sendo poucos os grupos
que lograram manter identidades étnicas,
sistemas culturais e territórios tradicionais
(Azanha, 2004; Cardoso de Oliveira, 1968,
Herberts, 1998; Levi-Strauss, 1986; Ribeiro,
1980; Rivasseau, 1936; Schmidt, 1917; Tau-
nay, 1997, 2000; Weber, 2002). Conforme
constante em documentos da Diretoria de
Índios, o território indígena na Aldeia Lali-
ma, um dos mais tradicionais da região, foi
reconhecido oficialmente como pertencente
aos índios Guaikurú pelas autoridades im-
periais brasileiras neste período (Cardoso
de Oliveira, 1976: 75-6).
Lembrada na memória Terena como
“tempo da escravidão”, a exploração desve-
lada da mão de obra indígena nas fazendas
da região tomou outras formas a partir do
início do séc. XX, com a passagem do então
Major Rondon e a conseqüente implantação
da política indigenista de inspiração positi-
vista do início do período republicano (Al-
tenfelder Silva, 1949; Cardoso de Oliveira,
1976; Oberg, 1949; Rondon, 1949). Neste pe-
ríodo, muitos remanescentes étnicos Guai-
kurú, Guaná, Terena, Laiana e Kinikinao
foram libertos dos cativeiros e confinados
em reservas indígenas tuteladas pelo Servi-
ço de Proteção aos Índios (SPI), sob o pre-
texto da assimilação e da aculturação à so-
ciedade nacional. Em Lalima, a atuação do
117
Posto Indígena, fundado pelo SPI em 1907,
foi responsável pela constituição das bases
multiétnicas do processo de formação do
contexto etnográfico atual, haja vista que
muitos dentre os remanescentes étnicos li-
bertos depois da passagem de Rondon fo-
ram convocados a ocupar a área em con-
junto com os Guaikurú, ali estabelecidos ao
menos desde o final do período imperial.
O órgão indigenista oficial, transforma-
do em FUNAI no período da ditadura mili-
tar, viu na vocação agrícola, no modo de
vida sedentário e na capacidade de articula-
ção política dos Terena, o exemplo e o mo-
delo de índio assimilado e aculturado. Tão
logo, tais traços, característicos das socieda-
des Aruak, foram habilmente utilizados pe-
los Terena na conquista de posições mais
destacadas nas questões indígenas em âm-
bito regional e até mesmo nacional, resul-
tando na terenização dos remanescentes
étnicos em Miranda, inclusive na Aldeia
Lalima, e na transfiguração cultural dos ín-
dios da região (Azanha, 2004; Cardoso de
Oliveira, 1968, 1976, 2002; Ribeiro, 1980).
Assim, partindo das duas premissas teó-
ricas sintetizadas mais acima, dos dados
arqueológicos, históricos e etnográficos so-
bre a ocupação indígena regional, e da pro-
vável relação da ocupação Guarani descrita
nos documentos seiscentistas e setecentis-
tas com o sítio Córrego Lalima, o levanta-
mento arqueológico e a coleta etnoarqueo-
lógica de dados etnográficos e etno-históricos
na Aldeia Lalima foi desenvolvido com o
intuito de detectar sítios formados pelos
correlatos materiais da trajetória histórica
da ocupação indígena regional, seja em re-
lação aos Guarani, às ocupações mais anti-
gas ou às ocupações históricas associadas
com a migração dos Guaikurú e Guaná e à
formação do contexto etnográfico atual. é
aqui que entra a idéia de demonstrar que
Lalima pode ser caracterizada como o pa-
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nome |
sigla |
coordenadas |
atividades |
local de |
Área |
data |
tradição |
|||
|
realizadas |
implantação |
(ha) |
(ap) |
tecnológica |
||||||
|
Registro, topografia, setorização, coletas de assistemáticas, escavação de datação |
Colina suave rodeada por nascentes tributárias da margem direita do rio |
970 +/- 60 |
Guarani e Tradição |
|||||||
|
Córrego Lalima |
MS-MI-01 |
21K 0574802/ 7725523 |
superfície sistemáticas e |
Miranda, onde se situa a Sede, um dos bairros da Aldeia, constituída por |
40 |
Beta (238765) |
Pantanal (análogo à Fase Jacadigo) |
|||
|
sondagens e poços-teste, |
sedimentos arenosos, argilosos e litólicos |
|||||||||
|
José Rondon de |
MS-MI-02 |
21K 0573816/ 7726032 |
Registro, esboço de croqui, coleta assistemática de |
Baixa encosta de colina suave situada na confluência da margem direita de uma pequena nascente com a margem esquerda |
0,75 |
Tradição Pantanal (análogo ao |
||||
|
Souza |
superfície |
do baixo curso do cór. do Lima, constituída por sedimentos arenosos |
MS-CP-25) |
|||||||
|
Tradição Pantanal |
||||||||||
|
Tapera do Limpão |
MS-MI-03 |
21K 0572232/ 7724920 |
Registro e coleta assistemática de superfície |
Topo de colina suave não inundável situada próxima da margem direita do médio Miranda, constituída por sedimentos arenosos e litólicos |
0,25 |
(análogo ao MS-CP-25) |
||||
|
Tapera do |
MS-MI-04 |
21K 0572877/ |
Registro e coleta |
Colina suave situada na margem esquerda de uma nascente tributária da margem |
Etno-histórico, Guarani e Tradição |
|||||
|
Gino |
7725744 |
assistemática de superfície |
direita do rio Miranda, constituída por sedimentos arenosos e litólicos, na divisa entre Lalima e a Faz. Santa Rosa |
Pantanal (análogo ao MS-CP-25) |
||||||
|
Tapera da Mata do |
MS-MI-05 |
21K 0574739/ 7724094 |
Registro, setorização, topografia, coleta sistemática |
Baixa e média encosta de colina suave, constituída por sedimentos litólicos e arenosos, situada em torno de uma |
1 |
Etno-histórico |
||||
|
Urumbeva |
de superfície, escavação de sondagens e de poços-teste |
nascente tributária da margem direita do rio Miranda |
||||||||
|
1070 |
+/- 60 |
|||||||||
|
Registro, setorização, |
Colina suave situada entre a confluência da médio curso da margem esquerda do cór. |
Beta |
||||||||
|
Asa de Pote |
MS-MI-06 |
21K 0574450 |
topografia, coleta sistemática |
margem direita de uma nascente com o |
30 |
(238768) |
Guarani e Tradição Pantanal (análogo à |
|||
|
7727296 |
||||||||||
|
de superfície, escavação de sondagens e poços-teste |
Guanandi, constituída por sedimentos |
6430 +/- 70 Beta |
Fase Jacadigo) |
|||||||
|
argilosos e arenosos |
(238767) |
|||||||||
|
Colina suave situada entre a confluência da margem esquerda de uma nascente com o |
||||||||||
|
Campina |
MS-MI-07 |
21K 0574518/ 7726905 |
Registro |
médio curso da margem esquerda do cór. argilosos e arenosos |
Guarani |
|||||
|
Guanandi, constituída por sedimentos |
||||||||||
|
Tradição Pantanal |
||||||||||
|
Manuel de Souza Neto |
MS-MI-08 |
21K 0573695/ 7725436 |
Registro |
Colina suave, constituída por sedimentos arenosos, situada na confluência de ambas as margens de um nascente uma nascente com a margem direita do rio Miranda |
(análogo ao MS-CP-25) |
|||||
|
Tapera do |
MS-MI-09 |
21K 0573508/ |
Registro e coleta |
Área plana não inundável constituída por sedimentos arenosos situada na planície de |
Etno-histórico |
|||||
|
Pirizal |
7725949 |
assistemática de superfície |
inundação da margem direita do rio |
|||||||
|
Miranda |
||||||||||
|
Sítio |
MS-MI-10 |
21K 0580296/ |
Registro, esboço de croqui e |
Colina suave, constituída por sedimentos argilosos e arenosos, situada entre o sopé do morro do Potrero e o médio curso de um |
Tradição Pantanal |
|||||
|
Potrero |
7725567 |
coleta assistemática de superfície |
cór. sazonal tributário do médio Miranda, na párea retomada do INCRA e da Faz. Vargem Grande pelos Terena em Lalima |
(análogo à Fase Jacadigo |
||||||
|
Colina suave, constituída por sedimentos |
||||||||||
|
Anita Vieira |
MS-MI-11 |
21K 0575314/ 7726195 |
Registro |
arenosos e argilosos, situada na margem esquerda do alto curso do cór. do Lima |
Guarani |
|||||
|
Helio |
MS-MI-12 |
21K 0575535/ |
Registro |
Colina suave, constituída por sedimentos argilosos e arenosos, situadas entre o sopé |
Guarani |
|||||
|
Correia |
7727300 |
do morro do Inocêncio e a confluências das nascentes formadoras do cór. Guanandi |
||||||||
|
Tapera do |
MS-MI-13 |
21K 0574477/ |
Registro |
Baixa encosta e colina suave, constituída por sedimentos arenosos e argilosos, |
Etno-histórico |
|||||
|
Agápto |
7727875 |
situada na margem direita do médio curso |
||||||||
|
do cór. Guanandi, na Faz. Santa Rosa |
||||||||||
|
Tabela 1. Sítios arqueológicos detectados na Aldeia Lalima |
||||||||||
Levantamento arqueológico na Aldeia Lalima, Miranda/MS: uma con tribuição ao estudo da trajetória histórica ... |
Eduardo Bespalez |
|||||||||
119
|
limpsesto da história indígena regional, a |
de 754 fragmentos de vasilhas cerâmicas con- |
|
partir do entendimento do território da Al- |
siderados diagnósticos da morfologia e do |
|
deia como um pergaminho, dos vestígios |
acabamento de superfície das tecnologias ce- |
|
arqueológicos como os borrões das escritas |
râmicas das populações indígenas que ocupa- |
|
apagadas e do contexto etnográfico atual |
ram a região; 4) obtenção de 3 datações ar- |
|
como a última das escritas realizadas no |
queológicas em amostras de carvão pelo |
|
pergaminho reaproveitado. |
método radiocarbônico tradicional; e 5) cole- |
|
ta etnoarqueológica em áudio-visual de infor- |
|
CoRRELAtoS mAtERIAIS DA tRAJEtóRIA |
mações etnográficas de caráter etno-histórico |
HIStóRICA DA oCUPAção InDíGEnA |
em entrevistas realizadas com dezenas de |
REGIonAL nA ALDEIA LALImA |
interlocutores (ver Tabela 1). |
|
Como visto acima, a TI Lalima situa-se na |
As observações realizadas em campo, as |
|
margem direita do médio Miranda, um dos |
análises cerâmicas e as informações etno- |
|
principais tributários do curso pantaneiro do |
gráficas de caráter etno-histórico, revelaram |
|
rio Paraguai, entre a margem esquerda do cór- |
a presença de 4 conjuntos de materiais ar- |
|
rego do Lima e a direita do Barreiro, em meio |
queológicos cerâmicos tecnologicamente |
|
ao relevo ondulado da depressão interplanál- |
distintos, sendo que 3 dentre os sítios detec- |
|
tica de Miranda, constituída por sedimentos |
tados em Lalima foram caracterizados como |
|
litólicos, argilosos e arenosos, outrora predo- |
multicomponenciais, ou seja, formados por |
|
minantemente recobertos por cerrado, no |
vestígios associados com mais de uma Tra- |
|
município de Miranda, no centro-oeste do Es- |
dição Tecnológica. Os conjuntos observados |
|
tado de Mato Grosso do Sul (BRASIL, 1982; |
foram os seguintes: a) Guarani (cf. La Salvia |
|
SEPLAN/IBGE, 1990). O território da Aldeia |
& Brochado, 1989); b) Tradição Pantanal |
|
possui apenas 3 mil ha, os quais são ocupados |
análogo à Fase Jacadigo (cf. Schmitz et al., |
|
por cerca de 1300 habitantes, descendentes de |
1998: 226-228); c) Tradição Pantanal análo- |
|
remanescentes étnicos Guaikurú, Terena, Ki- |
go aos materiais detectados no sítio MS - |
|
nikinao e Laiana. |
-CP-25, em Corumbá/MS (idem: 228-229) 2 ; |
|
Os resultados da pesquisa de levantamen- |
e d) materiais detectados em sítios arqueoló- |
|
to arqueológico, realizada entre maio e julho |
gicos históricos relativos à formação do con- |
|
de 2007, foram os seguintes: 1) detecção de |
texto etnográfico atual, os quais foram deno- |
|
mais 12 sítios e 7 áreas de ocorrência arqueo- |
minados como Etno-históricos. Aos |
|
lógica, todos a céu aberto e nas proximidades |
conjuntos detectados nos contextos arqueo- |
|
de nascentes e calhas fluviais e pluviais tribu- |
lógicos, ainda podem ser somados as poucas |
|
tárias da margem direita do rio Miranda, por |
vasilhas confeccionadas com a tecnologia |
|
meio de levantamento arqueológico oportu- |
atual dos Terena (cf. Cardoso de Oliveira, |
|
nístico e extensivo (ver mapa 2); 2) coleta de |
2002: 237), utilizadas em alguns domicílios |
|
aproximadamente 3.360 vestígios arqueológi- |
para armazenar água e como souvenir, o |
|
cos em superfície, com o estabelecimento de |
que totalizaria 5 conjuntos tecnológicos de |
|
áreas amostrais de coleta, e sub-superfície, |
materiais cerâmicos associados à dinâmica |
|
através da escavação de sondagens com trado |
histórica da ocupação indígena regional, po- |
|
articulado e de poços-teste com 1m² por ní- |
rém as vasilhas etnográficas ainda não fo- |
|
veis artificiais de 0,10m; 3) análise preliminar |
ram analisadas sistematicamente. |
2 Recentemente, Eremites de Oliveira (2009), aludindo Willey (1971), referiu-se ao conjunto em questão como Tradição Chaquenha.
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REVISTA DE ARQUEOLOGIA |
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121
ram segmentadas em quatro setores,
entre os quais três – correspondentes
aos setores 1 e 3, formados principal-
mente por materiais Guarani, e o setor
2, constituído mormente por materiais
da Tradição Pantanal análogos à Fase
Jacadigo – foram abordados através de
atividades de coleta em superfície e
sub-superfície. O outro setor, corres -
pondente ao setor 4, composto por ma-
teriais de ambas as tradições, foi ape-
nas registrado.
Em se tratando dos setores formados
majoritariamente por materiais Guarani,
o setor 1 foi abordado com a realização de
coleta de superfície em área de 7.000m² e
escavações de 13 sondagens e 2 poços-
-teste. A área do setor foi aferida em
80.000m² e a espessura do pacote arqueo-
lógico em 0,30m. Além da superfície, for-
mada por sedimento arenoso marrom-
-claro (pale brown 10YR6/3) e materiais
arqueológicos, foram observadas outras 3
camadas em sub-superfície: a camada A,
situada entre os níveis 1 e 3, constituída por
sedimento areno-argiloso marrom-escuro
(dark brown 10YR3/3) e materiais arqueológi-
cos; a camada B, entre os níveis 3 e 5, constitu-
ído por sedimento areno-argiloso marrom-es-
curo (dark brown 7.5YR3/4) e materiais
arqueológicos em baixa densidade; e a camada
C, a partir do nível 5, composta por sedimento
areno-argiloso marrom-avermelhado (dark
reddish brown 10YR2/2) e arqueologicamente
estéril (ver Figura 1). A estratigrafia apresen-
tou-se muito perturbada por fatores pós-depo-
sicionais antrópicos, associados à ocupação
atual, e biológicos, sobretudo cupins. Ao todo,
foram recolhidos mais de 900 materiais arque-
ológicos e obtida uma datação a partir de uma
amostra de carvão coletada no nível 3 do poço-
-teste 1, datada em 970 ± 70 AP.
Entre os materiais recolhidos no setor 1,
foram selecionados 428 fragmentos de vasi-
Figura 2. Figura 2: a) yapepó; b) ñaetá; c) cambuchi caguâba;
d) cambuchi.
lhas cerâmicas diagnósticos da morfologia e
do acabamento de superfície para a realiza-
ção das análises. Assim, no que se refere à
morfologia, 83,17% dos fragmentos foram
classificados como paredes, 15,65% como
bordas e 0,93% como bases. Em se tratando
dos fragmentos de parede, 5,89% foram cate-
gorizados como paredes infletidas, 4,49%
como paredes carenadas, 0,84% como pare-
des complexas e 0,56% como segmentos su-
periores de vasilhas fechadas com ou sem
pescoço. No tocante aos fragmentos de borda,
13,96% foram classificadas como direta-verti-
cal, 10,44% como direta-inclinada externa,
10,44% como direta-inclinada interna, 10,44%
como côncava, 8,95% como extrovertida,
5,97% como cambada, 1,49% como introverti-
da, 1,49% como carenada e 1,49% como in-
flectida. Acerca da forma do lábio nos frag-
mentos de borda, 44,77% foram tachados
como arredondado, 13,43% como aplanado,
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Prancha 1: A) corrugado; B) pintura vermelha e preta sobre
engobo branco; C) ungulado; D) inciso.
10,44% como reforçado externo, 8,95% como
biselado, 2,98% como ondulado e 1,49% como
expandido. O diâmetro da boca das vasilhas
cerâmicas, aferido em 28,36% dos fragmentos
de borda, estende-se entre 4cm e 58cm. Quan-
to às bases, 75% foram identificados como
circulares e planas e 25% como circular e
côncava. Acerca da espessura, 46,26% dos
fragmentos analisados foram classificadas
como finos (>5 e <10mm), 38,78% como mé-
dios (>10 e <15mm), 9,34% como grossos
(>15 e <20mm), 4,9% como muito finos (>0 e
< 5mm) e 0,46% como muito grossos
(>20mm). Em relação às classes simétricas
das vasilhas, 2,33% dos fragmentos foram as-
sociados com vasilhas fechadas com pescoço,
1,4% com vasilhas fechadas e 1,16% com va-
silhas abertas. No que se refere ao contorno,
1,63% dos fragmentos foram relacionados
com vasilhas com contorno complexo, 1,16%
com contorno simples, 0,46% com contorno
inflectido e 0,46% com contorno composto.
Quanto à comparação da forma das vasilhas
com formas geométricas, 0,7% dos fragmen-
tos foram associados com vasilhas esféricas,
0,46% com vasilhas cônicas e 0,23% com va-
silha semi-esférica. Ainda foram identificados
4 dentre as 7 classes funcionais estabelecidas
por Brochado e colegas (La Salvia & Brocha-
do, 1989; Brochado & Monticelli,
1994; Brochado, Monticelli & Neu-
mann, 1990; Noelli & Brochado,
1998), sendo 3,27% dos fragmentos
analisados relacionados com os ya-
pepó, 2,33% com cambuchi, 1,63%
com cambuchi caguâba e 0,23% com
ñaetá, os quais foram reconstituídos
graficamente (ver Figura 2).
Em relação ao acabamento de su-
perfície na face externa, 68,22% dos
fragmentos analisados foram classifi-
cados como corrugado, 6,77% como
cromático com engobo branco, 3,97%
como cromático com pintura verme-
lha e/ou preta sobre engobo branco, 2,8% como
ungulado, 1,4% como inciso, 0,46% como no-
dulado, 0,46% como impresso com corda,
0,23% como cromático com engobo vermelho
e 0,23% como roletado (ver Prancha 1). Na face
interna, 2,8% dos fragmentos foram taxados
como cromático com engobo branco, 1,16%
como cromático com engobo vermelho e 1,16%
como cromático com pintura vermelha sobre
engobo branco. Entre os fragmentos de borda,
8,95% foram categorizados como cromático
com pintura de faixa vermelha no lábio e 4,47%
como plásticos com aplique de filigranas de ar-
gila no lábio. Novamente considerando-se to-
dos os fragmentos analisados no setor 1, 93,69%
foram classificados como Guarani e 3,5% como
Tradição Pantanal análogo à Fase Jacadigo, os
quais correspondem aos fragmentos com im-
pressões de corda e apliques de filigranas de
argila.
No setor 3, foram realizadas coletas de
superfície em uma área com 12.500m² e fo-
ram escavadas 16 sondagens e 1 poço-teste.
Além da superfície, constituída por sedi-
mento arenoso marrom-claro (pale brown
10YR6/3), e do substrato rochoso, encontra-
do no nível 6, foram observadas 3 camadas
de sedimentos com características seme -
lhantes aos escavados no setor 1, inclusive
Levantamento arqueológico na Aldeia Lalima, Miranda/MS: uma con tribuição ao estudo da trajetória histórica ... |
Eduardo Bespalez |
|
no que se refere às perturbações causadas
pela ocupação atual. A área do setor somou
62.000m² e 0,30m de espessura. Foram cole-
tados mais de 650 materiais arqueológicos,
com destaque para um tembetá lítico polido
esverdeado doado por Sebastião Cabrocha,
morador na área, porém não foram selecio-
nados fragmentos cerâmicos para a realiza-
ção de análises.
Ainda foram realizadas coletas de superfí-
cie de materiais Guarani nos sítios Tapera do
Gino, também formado por materiais da Tra-
dição Pantanal análogos aos do sítio MS -
-CP-25 e Etno-históricos, e Asa de Pote, igual-
mente constituído por materiais da Tradição
Pantanal semelhante à Fase Jacadigo. Na Ta-
pera do Gino, localizada na divisa entre a Al-
deia e a Faz. Santa Rosa, foram coletados 121
fragmentos cerâmicos em um eixo de 300m
ao longo do acero da dita propriedade, entre
os quais 56 foram selecionados para a realiza-
ção das análises. No que se refere à tradição
tecnológica, 57,14% foi associado à tecnologia
Guarani e 37,5% à Tradição Pantanal análogo
à do sítio MS-CP-25. No sítio Asa de Pote, im-
plantado em uma colina suave na margem
esquerda do cór. Nascente do Guanandi, fo-
ram coletados 176 fragmentos cerâmicos
Guarani na superfície de uma área com
10.000m², denominada de setor 1. Foram es-
cavadas 11 sondagens no local, porém, como
sublinhado acima, não foram encontrados
materiais arqueológicos em sub-superfície.
Com efeito, os materiais recolhidos no setor 1
do MS-MI-06 podem ter sido aglutinados à
pouco tempo, talvez não mais que algumas
décadas. Os fragmentos coletados no setor 1
do Asa de Pote não foram analisados.
Afora o cadastro – efetuado em todos os
sítios detectados – não foram realizadas ativi-
dades de pesquisa nos demais sítios com ma-
teriais Guarani detectados em Lalima. Contu-
do, ainda é importante sublinhar que, nos
sítios multicomponenciais, as concentrações
123
de vestígios Guarani apresentam, em superfí-
cie, relações distintas com as concentrações
de resquícios análogos aos da Fase Jacadigo,
do MS-CP-25 da Tradição Pantanal e Etno-
-históricos. Com efeito, independente do con-
teúdo tecnológico, as concentrações de mate-
riais Guarani e semelhantes aos da Fase
Jacadigo nos sítios Córrego Lalima e Asa de
Pote apenas se sobrepõem nos seus limites, ou
seja, nas áreas de menor densidade de vestí-
gios arqueológicos. Já no que se refere à Tape-
ra do Gino, os materiais comparáveis aos do
MS-CP-25 e os Etno-históricos estão disper-
sos em meio aos resquícios Guarani, os quais,
por sua vez, apresentam maior densidade. Em
sub-superfície, apenas foram detectados ma-
teriais distintos tecnologicamente no MS -
-MI-01, no nível 3 do poço-teste 2, escavado no
setor 1, onde foi coletada uma borda com fili-
granas de argila no lábio em meio aos refugos
Guarani. Porém a perturbação do depósito,
atestada por uma série de restos industrializa-
dos, não permite quaisquer inferências a par-
tir da estratigrafia.
Os correlatos apresentados acima indi -
cam que o estabelecimento da ocupação
Guarani na região se estendeu ao menos por
cerca de 500 anos, ou seja, desde o séc. XI
depois de Cristo, conforme a datação obtida
no sítio Córrego Lalima, até meados do séc.
XVII, segundo as fontes históricas e etnográ-
ficas. Todavia, não só é provável que os Gua-
rani tenham explorado, colonizado e se as-
sentado regionalmente em período anterior
ao datado, como ainda é possível que os
mesmos tenham se relacionado diferente-
mente com populações diversas ao longo de
toda a sua dinâmica de expansão e consoli-
dação na área. Tais populações, ao seu tur-
no, poderiam estar estabelecidas adrede à
chegada dos Guarani ou ter advindo poste-
riormente, de modo que muitas podem ter
sido hostilizadas, expulsas, incorporadas ou
aliadas. Seja como for, a variação situacio-
|
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nal, artefatual e cronológica nos correlatos
Guarani demonstram alguma estabilidade,
talvez até mesmo algum padrão, o qual, ao
seu turno, pode indicar, entre outros fatos,
que populações portadoras de matriz cultu-
ral Tupi-Guarani exerceram a hegemonia
territorial no médio Miranda desde períodos
pré-históricos indefinidos até o colapso cau-
sado nos primeiros séculos do colonialismo.
Além do setor 2 do sítio Córrego Lalima e
do setor 2 do sítio Asa de Pote, os correlatos
materiais da ocupação das populações por-
tadoras da Tradição Pantanal análogos à
Fase Jacadigo foram detectados no sítio Po-
trero (MS-MI-10) e
na área de ocorrên-
cia 7 (ver Mapa 2 e
Tabela 1). Em resu-
mo, os sítios com
materiais seme -
lhantes à Fase Jaca-
digo estão implan-
tados em áreas que
apresentam as mes-
mas variáveis am-
bientais que os con-
textos Guarani,
porém enquanto
estes apresentam
uma variação pe -
quena entre si, sen-
do muito semelhan-
tes, os outros variam
muito mais, sobre-
tudo em relação aos
depósitos e aos ele-
mentos. No setor 2
do MS-MI-01, por
exemplo, onde fo -
ram realizadas ati-
vidades de coleta de superfície e de sub-su-
perfície, com a escavação de 14 sondagens e
2 poços-teste, foram coletados 868 materiais
arqueológicos em uma área com 20.000m² e
espessura de até 0,70m, enquanto que no se-
tor 2 do MS-MI-06 foram coletados apenas
151 materiais arqueológicos, através de cole-
ta de superfície e escavação de 28 sondagens
e 3 poços-teste, em uma área com 90.000m²
e 0,50m de profundidade. No MS-MI-10, foi
apenas realizado coleta de superfície de 55
materiais arqueológicos em um eixo de 60m
no interior de uma voçoroca.
Entre os materiais coletados no setor 2
do sítio Córrego Lalima, foram selecionados
179 fragmentos de vasilhas cerâmicas para
a realização das análises. No que se refere à
morfologia, 49,72% dos fragmentos foram
Levantamento arqueológico na Aldeia Lalima, Miranda/MS: uma con tribuição ao estudo da trajetória histórica ... |
Eduardo Bespalez |
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125
classificados como paredes, 44,69% como
bordas, 2,79% como bases e 2,23% como
apêndices de suspensão. Em relação às pa-
redes, 8,37% foram taxadas como infletidas,
2,24% como segmento superior de vasilha
fechada ou fechada com pescoço e 1,12%
como ombro. No tocante às bordas, 28,75%
foram qualificadas como extrovertida, 25%
como direta-vertical, 5% como direta-incli -
nada externa, 5% como direta-inclinada in-
terna, 3,75% como côncava e 1,25% como
inflectida. Em se tratando do lábio, 51,25%
foram identificados como reforçado-exter-
no, 15% como rebarbado-externo, 11,25%
como arredondado, 11,25% como dobrado,
3,75% como apontado, 3,75% como aplanado
e 3,75% como biselado. O diâmetro da boca,
conferido em 20% das bordas, estende-se
entre 10 e 32cm. Todas as bases foram clas-
sificadas como circular-convexa, e todos os
Acerca do contorno, 11,73% foram relacio-
nados com vasilhas de contorno simples e
3,91% com contornos inflectidos. Quanto à
comparação com formas geométricas, 3,91%
foram associados com vasilhas semi-esféri-
cas, 1,11% com vasilhas esféricas, 0,55%
com vasilha semi-elíptica horizontal e 0,55%
com vasilha semi-oval vertical. No tocante à
funcionalidade, 1 fragmento de borda côn-
cava (0,55%) de origem Guarani foi associa-
do a um yapepó.
A análise morfológica dos fragmentos
análogos à Fase Jacadigo, principalmente no
que se refere à qualificação dos fragmentos
de borda, resultou na reconstituição gráfica
de 3 classes distintas de vasilhas (ver figura
3). Todavia, alguns fragmentos indicam que
o vasilhame em questão pode apresentar ou-
tras classes, sobretudo um tipo de vasilha
fechada com pescoço, semelhante à morin-
ga. Além do mais, cabe sublinhar
que apesar das classes identificadas
sugerirem usos diversos e diferen-
ciados para cada uma das vasilhas,
não foram desenvolvidas análises
funcionais.
Em relação ao acabamento de
superfície na face externa, 12,84%
dos fragmentos analisados foram
classificados como cromático com
pintura vermelha, 11,73% como in-
ciso, 7,26% como corrugado, 7,26%
como acanalado, 5,58% como cro-
mático com engobo vermelho,
3,35% como aplicado com filigranas
de argila, 3,35% como impresso com corda,
1,67% como ponteado, 1,67% como inciso-
-ponteado, 0,55% como cromático com en-
gobo branco, 0,55% como impresso com
corda-ponteado e 0,55% como perfurado
(ver Prancha 2). é importante salientar que
o corrugado na Fase Jacadigo da Tradição
Pantanal é distinto do Guarani, sendo carac-
terizado mais como um corrugado-roletado
Prancha 2. A) inciso-ponteado; B) corrugado; C) aplicado
com
filigranas de argila; D) impresso com corda.
apêndices de suspensão como alças. A res-
peito da espessura, 67,03% dos fragmentos
foram qualificados como finos, 22,34% como
muito finos, 9,49% como médios, 0,55%
como grosso e 0,55% como muito grosso. So-
bre as classes de simetria, 11,17% dos frag-
mentos foram associados com vasilhas
abertas, 6,14% com vasilhas fechadas e
0,55% com vasilha fechada com pescoço.
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que como um corrugado-digitado. Na face
interna, 5,02% foram taxados como cromáti-
co com pintura vermelha, 3,91% como cro-
mático com engobo vermelho, 1,11% como
corrugado, 0,55% como cromático com en-
gobo branco e 0,55% como aplicado com fili-
granas de argila. Quanto ao acabamento de
superfície no lábio, 21,25% dos fragmentos
de borda apresentaram apliques de filigra-
nas de argila, 2,5% ponteados e 1,25% ungu-
lações. Em termos tecnológicos, 88,82% dos
fragmentos foram associados à Tradição
Pantanal análogo à Fase Jacadigo, 7,26%
como Guarani e 3,91% como Terena. No se-
tor 2 do Asa de Pote, foram selecionados 42
fragmentos para a realização das análises.
Em relação à tradição tecnológica, 83,33%
dos fragmentos foram taxados como análo-
gos à Fase Jacadigo, 11,9% como Terena e
4,76% como Guarani.
Vale ressaltar que, além dos fragmentos
de vasilhas, também foram coletados outros
artefatos cerâmicos nos contextos arqueoló-
gicos semelhantes à Fase Jacadigo da Tradi-
ção Pantanal, como rodelas de fuso, cachim-
bos tubulares e fichas cerâmicas polidas,
bem como materiais líticos lascados e poli-
dos, com destaque para as lâminas de ma-
chado, bolas de boleadeira e polidores dis-
cóide.
A superfície e a sub-superfície se mostra-
ram tão perturbadas nos setores 2 dos sítios
Córrego Lalima a Asa de Pote quanto nos ou-
tros setores pesquisados em ambos os sítios.
Contudo, ao contrário do MS-MI-01, onde os
impactos mais destrutivos estão associados
com terraplanagens e aterros, no MS-MI-06
a perturbação do sítio está associada com as
atividades agrícolas, sobretudo queimadas
antrópicas e arado mecanizado. Mesmo as-
Levantamento arqueológico na Aldeia Lalima, Miranda/MS: uma con tribuição ao estudo da trajetória histórica ... |
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sim, foram enviadas duas amostras de car-
vão para a obtenção de datações arqueológi-
cas, respectivamente coletadas nos níveis 3 e
6 do poço-teste 1 no setor 2 do Asa de Pote.
Além da camada superficial, constituída por
sedimento arenoso marrom-escuro (dark
brown 10YR3/3) e materiais arqueológicos,
foram observadas mais 4 camadas de sedi-
mentos. A camada A, situada entre os níveis
1 e 2, apresentou os mesmos sedimentos que
a superfície e materiais arqueológicos; a ca-
mada B, entre os níveis 2 e 3, apresentou se-
dimento areno-argiloso marrom-escuro
(very dark brown 7.5YR2.5/2) e materiais
arqueológicos; a camada C, entre os níveis 3
e 4, sedimento variegado argilo-are-
noso marrom-avermelhado (dark
reddish brown 5YR3/3) e materiais
arqueológicos; e a camada D, a par-
tir do nível 4, apresentou sedimento
argilo-arenoso marrom-avermelha-
do (dark reddish brown 2.5YR3/3) e
materiais cuja origem arqueológica
pode ser contestada (ver Figura 4). A
amostra coletada no nível 3 foi data-
da em 1.070 ± 60 AP e a do nível 6
em 6.340 ± 70 AP.
Devido à sua antiguidade, a data
obtida com a amostra coletada no
nível 6 do Poço-teste 1 no sítio Asa
de Pote não foi associada aos con-
juntos de materiais arqueológicos constitu-
ídos majoritariamente por fragmentos de
vasilhas cerâmicas classificados como aná-
logos à Fase Jacadigo da Tradição Pantanal.
Todavia, é importante sublinhar que os
criadores da Fase Jacadigo inferiram que os
conjuntos arqueológicos a ela relacionados
fossem datados do período histórico, asso-
ciando-os com os índios Guaikurú e Guaná
que migraram para a região a partir do séc.
XVII (Schmitz et al., 1998: 228). Com efeito,
mesmo considerando que os dados alcança-
dos em Lalima não permitem apontamen-
tos mais acurados sobre o sistema cultural
das populações portadoras da tradição tec-
nológica semelhante à Fase Jacadigo no rio
Miranda, a data do nível 3 não só sugere que
os vestígios detectados foram deixados em
período pré-histórico, como a variação situ-
acional e artefatual indica que as ditas po-
pulações podem ser caracterizadas como
sociedades agricultoras e ceramistas cultu-
ralmente distintas do Guarani. Assim, ape-
sar da fragilidade das informações sobre
cronologia de ocupação e relações sociais e
ecológicas entre os Guarani e as populações
por trás dos materiais parecidos com os da
Fase Jacadigo, não só lança-se a hipótese,
Prancha 3: fragmentos cerâmicos estilizados com impressões de
corda: A) sítio José Rondon de Souza; B) Tapera do Limpão;
C) Tapera do Gino; D) fragmento perfurado, Tapera do Gino.
com base na variabilidade situacional, arte-
fatual e cronológica entre os conjuntos, de
que ambas podem ser caracterizadas como
sociedades agricultoras e ceramistas pré-
-históricas que se estabeleceram no rio Mi-
randa ao longo da dinâmica histórica da
ocupação indígena regional, como também
inferimos que a diversidade cultural encon-
trada pelos europeus no curso fluvial retro-
-citado durante os séculos XVI e XVII, for-
mada por vários grupos étnicos distintos, já
devia se processar ao menos desde o séc. XI
depois de Cristo.
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15,78% como bordas e 5,6% como base, cate-
gorizada como circular-plana. Entre as pare-
des, 20% foram associadas com parede inflec-
tida de vasilha fechada com ou sem pescoço,
6,66% como segmento superior de vasilha fe-
chada com ou sem pescoço e 6,66% como pa-
rede carenada. No que se refere às bordas,
apenas 6,66% foram identificadas, sendo taxa-
das como diretas-verticais. Quanto ao lábio,
33,33% foram categorizadas como reforçado-
-externo, 33,33% como rebarbado-externo e
33,33% como ondulado. O diâmetro da boca
foi aferido em apenas um fragmento, com
14cm. Em relação à espessura, 84,21% dos
fragmentos foram caracterizados como finos,
10,52% como médios e 5,26% como grosso.
Não foi possível qualificar os fragmentos sele-
cionados acerca das classes de simetria, do
contorno e da forma geométrica.
Em se tratando do acabamento de super-
fície na face externa, 26,31% dos fragmentos
foram classificados como cromático com en-
gobo vermelho, 21,05% como decorados com
motivos estilizados com impressão de corda,
10,52% como cromático com engobo branco
e 5,26% como aplicado. é importante ressal-
tar que as decorações com motivos feitos
com impressões de corda nos sítios com ma-
teriais análogos àqueles detectados no MS -
-CP-25 (ver Prancha 3) são diferentes das
impressões de corda analisadas nos sítios
semelhantes à Fase Jacadigo, na medida em
que estes apresentam apenas alinhamentos
paralelos feitos com impressão de corda. Na
face interna, 21,05% foram taxados como
cromático com engobo vermelho, 10,52%
como cromático com engobo branco e 5,26%
como cromático com enegrecimento. Este
último fragmento, categorizado como borda,
também apresentou enegrecimento no lábio.
Todos os fragmentos foram tecnologicamen-
te associados à Tradição Pantanal análoga ao
sítio MS-CP-25.
Na Tapera do Limpão, foram coletados
Os correlatos da ocupação por grupos
indígenas portadores de tecnologia cerâmica
análoga àquela detectada no sítio MS-CP-25,
na região de Corumbá/MS, foram detectados,
na Aldeia Lalima, nos sítios José Rondon de
Souza (MS-MI-02), Tapera do Limpão (MS -
-MI-03), Tapera do Gino (MS-MI-04) – o
qual também apresenta materiais Guarani e
Etno-históricos – Manuel de Souza Neto
(MS-MI-09) e na área de ocorrência 2 (ver
Mapa 2 e Tabela 1). Apesar da realização
apenas de coletas de superfície e análises ce-
râmicas, foi possível observar, em compara-
ção aos sítios com materiais Guarani e aná-
logos à Fase Jacadigo, que aqueles com
materiais semelhantes aos do MS-CP-25
apresentam variações situacionais e artefa-
tuais distintas. Com efeito, a maioria dos sí-
tios estão implantados nas proximidades da
planície de inundação do Miranda, com ex-
ceção da Tapera do Gino e da ocorrência 2,
localizadas em topos colinares próximos de
nascentes fluviais, e são formados por depó-
sitos com dispersão, diversidade e densidade
menores de elementos, mesmo consideran-
do os achados de materiais de origem indus-
trializada, estruturas de habitação e ecofatos
em alguns sítios.
No José Rondon de Souza, foram coletados
57 materiais arqueológicos em área constituí-
da por sedimento arenoso marrom-claro (very
pale brown 10YR6/3) com 7.500m². O Sr. José
Rondon, morador na área do sítio, ainda nos
mostrou duas lâminas líticas polidas de ma-
chado recolhidas no local. Entre os fragmen-
tos cerâmicos, apenas 19 apresentaram atri-
butos diagnósticos da morfologia e do
acabamento de superfície. Assim, no tocante à
análise da forma das vasilhas, 78,94% dos
fragmentos foram classificados como paredes,
Levantamento arqueológico na Aldeia Lalima, Miranda/MS: uma con tribuição ao estudo da trajetória histórica ... |
Eduardo Bespalez |
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117 fragmentos cerâmicos em área com
2.500m² constituída por sedimento litólico.
Entre estes, foram selecionados 16 fragmen-
tos diagnósticos para a realização das análi-
ses, os quais apresentaram as mesmas ca-
racterísticas que aqueles analisados no
MS-MI-02. No entanto, cabe acrescentar que
no MS-MI-03 também foram encontrados
líticos lascados, fragmentos de louça, esteio
queimado, clareira e plantas alimentícias e
medicinais. Os resultados das atividades de
coleta em superfície a das análises dos frag-
mentos selecionados no MS-MI-04 foi aludi-
da acima, enquanto se tratou dos correlatos
da ocupação Guarani, cabendo apenas infor-
mar que também foram identificadas bordas
perfuradas e lábios dentados entre os mate-
riais cerâmicos, e que foi coletada uma conta
azul de vidro, a qual pode estar relacionada
com quaisquer dos contextos tecnológicos
observados no sítio. Não foram realizadas
atividades de coleta no MS-MI-09. Também
é importante sublinhar que, devido ao estado
de preservação dos fragmentos, geralmente
muito pequenos, não foi possível a reconsti-
tuição gráfica do vasilhame cerâmico asso-
ciado à tradição tecnológica semelhante
àquela do MS-CP-25.
Assim como no que se refere à Fase Jaca-
digo, os materiais coletados no sítio MS -
-CP-25 também foram associados aos Guai-
kurú (Schmitz et al., 1998: 229), devido à
semelhança latente entre os motivos estiliza-
dos com impressões de corda e as técnicas
decorativas das ceramistas Kadiwéu, preco-
nizadas desde o final do séc. XVIII (cf. Bog-
giani, 1975; Ferreira, 1971; Ribeiro, 1980; Si-
queira Jr., 1992). Apesar da não obtenção de
datações arqueológicas nos sítios com mate-
riais análogos aos do MS-CP-25 detectados
em Lalima, acredita-se na plausibilidade da
hipótese aventada. Contudo, também é pos-
sível que tal tecnologia cerâmica tenha sido
compartilhada com outras populações desde
129
períodos pré-históricos, inclusive com aque-
las de origem Aruak, tais como os Guaná,
Kinikinao, Laiana e Terena, os quais, ao seu
turno, migraram para o Pantanal juntamente
com os Guaikurú e mantinham relações cul-
turais muito próximas com os mesmos. Des-
tarte, diante da variação situacional e artefa-
tual em tono de si mesmo e da variabilidade
em relação aos conjuntos Guarani e análo-
gos aos da Fase Jacadigo, é provável que os
materiais parecidos com os do MS-CP-25
correspondam aos correlatos dos processos
de migração, estabelecimento e fragmenta-
ção cultural e territorial dos Guaikurú e
Guaná no rio Miranda, decorridos entre os
séculos XVII e XIX, ou seja, entre o abandono
Guarani e a Guerra do Paraguai, e, por con-
seguinte, ao período inicial da história de
formação do contexto etnográfico atual, pro-
tagonizado pelos Guaikurú no último quartel
dos oitocentos. Nesse sentido, a variação nos
conjuntos similares aos do MS-CP-25 pode
ter se originado a partir de acampamentos,
pequenas aldeias ou taperas dos ascendentes
dos Guaikurú e Guaná encontrados por Ron-
don no início do sec. XX.
Além da Tapera do Gino, os correlatos
materiais da história de formação do con-
texto etnográfico atual foram observados
nos sítios Tapera do Urumbeva (MS -
-MI-05), Tapera do Pirizal (MS-MI-09) e
Tapera do Agápto (MS-MI-13). Afora o MS -
-MI-04 e o MS-MI-13, localizados em topos
de colina nas proximidades de nascentes
fluviais, o MS-MI-05 e o MS-MI-09 apre -
sentam implantação semelhante aos sítios
com materiais análogos aos do MS-CP-25,
porém os depósitos dos sítios Etno-históri-
cos são constituídos por densidades, diver-
sidades e áreas de dispersão relativamente
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maiores que aqueles. Contudo, esta última
assertiva não vale para os fragmentos de
vasilhas cerâmicas, cujas amostras se
mostraram ainda menores, sendo válida
apenas para os vestígios de origem indus -
trializada, tais como metais, vítre -
os e sintéticos; orgânicos, sobretu-
do restos faunísticos de
alimentação; e ecofatos, semelhan-
tes aos do MS-MI-03.
Além da Tapera do Gino, os cor-
relatos materiais da história de for-
mação do contexto etnográfico atu-
al foram observados nos sítios
Tapera do Urumbeva (MS-MI-05),
Tapera do Pirizal (MS-MI-09) e Ta-
pera do Agápto (MS-MI-13). Afora
o MS-MI-04 e o MS-MI-13, locali-
zados em topos de colina nas pro-
ximidades de nascentes fluviais, o
MS-MI-05 e o MS-MI-09 apresen-
tam implantação semelhante aos sítios
com materiais análogos aos do MS-CP-25,
porém os depósitos dos sítios Etno-históri-
cos são constituídos por densidades, diver-
sidades e áreas de dispersão relativamente
maiores que aqueles. Contudo, esta última
assertiva não vale para os fragmentos de
vasilhas cerâmicas, cujas amostras se
mostraram ainda menores, sendo válida
apenas para os vestígios de origem indus -
trializada, tais como metais, vítreos e sinté-
ticos; orgânicos, sobretudo restos faunísti -
cos de alimentação; e ecofatos, semelhantes
aos do MS-MI-03.
Apesar de nem todos conhecerem as his-
tórias associadas aos processos de constitui-
ção da configuração etnográfica hodierna de
modo tão profundo como Manuel de Souza
Neto, o principal auxiliar e interlocutor das
pesquisas arqueológicas e etnoarqueológicas
na Aldeia Lalima, a maioria dos adultos de
ambos os sexos detém alguma informação
sobre a origem dos materiais deixados nos
sítios Etno-históricos. A Tapera do Pirizal,
por exemplo, seria o local onde Rondon en-
controu os Guaikurú em Lalima; já a Tapera
do Urumbeva teria se formado após abando-
nada pela primeira família de índios Terena
Figura 5. a) vasilha aberta, simples, semi-esférica;
b) bordas extrovertidas.
levada para a Aldeia pelo SPI, de sobrenome
Cororó, cujos descendentes encontram-se
em Lalima até hoje; a Tapera do Agápto, ao
seu turno, teria se constituído a partir do do-
micílio de um índio empregado na Faz. Santa
Rosa; e a Tapera do Gino, por sua vez, teria
sido abandonada há apenas 20 anos, com a
mudança do Gino para outra área da Aldeia.
Na Tapera do Urumbeva, foram realiza-
das coletas de superfície e sub-superfície,
com a escavação de 15 sondagens e de uma
área de decapagem com 12m² em torno de
uma estrutura de combustão. O sítio apre-
sentou sedimento litólico, área com
10.000m², 0,10m de espessura e vestígios
de materiais industrializados, estruturas
de habitação, fragmentos de vasilhas cerâ-
micas, restos orgânicos de alimentação,
utensílios líticos e ecofatos.
Foram coletados 57 fragmentos cerâmi-
cos, entre os quais apenas 14 continham
atributos diagnósticos da morfologia e do
acabamento de superfície das vasilhas.
Levantamento arqueológico na Aldeia Lalima, Miranda/MS: uma con tribuição ao estudo da trajetória histórica ... |
Eduardo Bespalez |
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Logo, no tocante à forma, 92,85% dos frag-
mentos foram classificados como bordas e
7,14% como parede. Em relação às bordas,
46,15% foram taxadas como direta-vertical
e 15,38% como extrovertida. Quanto ao lá-
bio desses fragmentos, 69,23% foram cate-
gorizados como aplanado, 7,69% como ar-
redondado, 7,69% como apontado, 7,69%
como biselado e 7,69% como expandido. O
diâmetro da boca foi medido em apenas
uma borda, em 22cm. No que se refere à
espessura, 92,85% dos fragmentos foram
qualificados como finos e 7,69% como mé-
dio. Em se tratando da classe de simetria,
contorno e forma geométrica, 57,14% dos
fragmentos foram associados com vasilhas
abertas, simples e semi-esféricas. Apenas
foi possível a reconstituição gráfica de 1
classe de vasilha cerâmica a partir dos
fragmentos coletados na Tapera do Urum-
beva (ver Figura 5).
Somente foram observados acabamento
de superfície distinto de alisamento e poli-
mento na face interna dos fragmentos, com
14,28% classificados como cromático com
engobo vermelho e 7,14% como cromático
com pintura vermelha. Todos os fragmen-
tos foram tecnologicamente associados ao
contexto etnográfico atual, porém é impor-
tante sublinhar que a tecnologia em ques -
tão, atualmente em desuso, é distinta da
tecnologia Terena atual, conhecida e even-
tualmente operada em alguns domicílios,
apesar dos índios alegarem que “o barro da
Aldeia não é bom”.
Com efeito, os significados da variabi -
lidade e da variação nos correlatos mate -
riais de ocupação relativos à história da
formação do contexto etnográfico atual
podem ser compreendidos através da con -
juntura histórica das transformações só -
cio-culturais impulsionadas pela política
indigenista do séc. XX e da abordagem
etnoarqueológica. Como aludido acima,
131
muitos remanescestes étnicos Guaikurú e
Guaná dispersos e escravizados nas fa -
zendas da região foram libertados por
Rondon e adensados pelo SPI nas reservas
indígenas, com o propósito da assimilação
e da aculturação. Em Lalima, a atuação do
SPI e, posteriormente, da FUNAI, agrupou
remanescentes étnicos distintos junta -
mente com os Guaikurú, acelerou a trans -
figuração da cultura indígena e fomentou
a difusão da influência cultural dos Tere -
na. Desafortunadamente, os registros au -
diovisuais obtidos com os interlocutores
ainda não foram analisados sistematica -
mente a partir de uma perspectiva etnoar -
queológica concernida com a construção
de um modelo interpretativo, porém os
dados contidos nas gravações, ainda mais
se somadas aos dados históricos, etnográ -
ficos e arqueológicos, apresentam infor -
mações sobre a história e a cultura da
ocupação indígena contemporânea que
permitem transpor o estabelecimento do
fato pelos materiais, incrementar o conhe -
cimento sobre o passado, compreender as
questões postas pelo presente e refletir so -
bre o futuro da comunidade indígena lo -
cal e regional.
Em conformidade com a hipótese conce-
bida em relação à pesquisa de levantamento
arqueológico em Lalima, bem como com as
proposições teóricas, históricas, etnográfi-
cas e arqueológicas que a embasam, os cor-
relatos ora apresentados, mesmo conside-
rando o caráter preliminar dos resultados
obtidos até momento, não só estabelecem o
fato de que a área estudada pode ser com -
preendida enquanto palimpsesto da trajetó-
ria histórica da ocupação indígena regional,
na medida em que os dados demonstram
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que a Aldeia foi ocupada por populações di-
versas ao longo do tempo, como ainda ofe-
recem elementos que podem ser utilizados
na elaboração de novas inferências.
Até onde se permite generalizar, os corre-
latos detectados em Lalima tratam de aproxi-
madamente mil anos de história indígena na
região do médio curso do rio Miranda. Os fa-
tos mais notáveis em tal ínterim são o estabe-
lecimento de populações ceramistas distintas
e os impactos do colonialismo sobre as mes-
mas. Em se tratando do primeiro fato, preva-
lece a hipótese de que os conjuntos classifica-
dos como Guarani, Tradição Pantanal
(análogos à Fase Jacadigo e aos materiais do
MS-CP-25) e correlatos da história de forma-
ção do contexto etnográfico atual podem ser
compreendidos como testemunhos da diver-
sidade cultural descrita desde a chegada dos
primeiros conquistadores e colonizadores até
o presente, cujas origens encontram-se na
pré-história. Destarte, apesar do desconheci-
mento sobre a cultura das populações porta-
doras de tecnologia cerâmica semelhante
àquela da Fase Jacadigo e das interações des-
tas com os Guarani, bem como da possibilida-
de de compartilho dos materiais similares aos
do MS-CP-25 entre populações diferentes
desde períodos pré-históricos e das limitações
da abordagem etnoarqueológica junto à co-
munidade, postula-se, no que concerne às re-
lações dos conjuntos de correlatos materiais
de ocupação detectados na Aldeia e a história
indígena regional de longa duração, que: a)
tanto os Guarani quanto as populações com
cerâmicas parecidas com aquelas da Fase Ja-
cadigo podem ser caracterizadas como socie-
dades agricultoras, ceramistas, sedentárias e
culturalmente distintas que se estabeleceram
no médio Miranda em períodos pré-históri-
cos; 2) cedo ou tarde, os Guarani se impuse-
ram cultural e territorialmente sobre as ou-
tras populações que se estabeleceram na
região, inclusive em relação aos que porta-
vam cerâmicas análogas aos da Fase Jacadi-
go, até o início do colonialismo; 3) os conjun-
tos constituídos principalmente por
fragmentos cerâmicos semelhantes aos do
sítio MS-CP-25 eram portados pelas popula-
ções migrantes do Chaco, sobretudo Guaiku-
rú e Guaná, os quais se estabeleceram na re-
gião a partir dos séculos XVII e XVIII, após o
abandono dos Guarani; e 4) os conjuntos atri-
buídos pelos interlocutores indígenas ao pro-
cesso de constituição da configuração etno-
gráfica hodierna foram deixados pelos
remanescentes étnicos adensados em Lalima
pelos órgãos indigenistas oficiais entre o fim
do império e a república do presente.
No que concerne ao segundo fato, ou seja,
aos impactos do colonialismo nas populações
indígenas no médio Miranda, pode-se asso-
ciar o abandono Guarani e a variabilidade
entre os conjuntos datados como pré-históri-
cos e históricos, ou melhor, entre Guarani e
análogo à Fase Jacadigo, de um lado, e similar
ao MS-CP-25 e Etno-históricos, de outro, aos
constrangimentos e transtornos causados
com a chegada e a conquista do continente
pelos europeus, mormente no que se refere ao
baixio demográfico e à desestruturação dos
territórios e das culturas indígenas.
Seja como for, as considerações tecidas
acima apenas poderão se confirmar, ou não,
com a continuidade e o aprofundamento
das pesquisas. Tal intuito, ao seu turno, so-
mente poderá ser empreendido com a valo-
rização da colaboração e da participação da
comunidade indígena em Lalima no pro-
cesso de construção do conhecimento, atra-
vés de uma perspectiva interdisciplinar,
diacrônica, holística, crítica e comunitária,
tendo em vista o retorno das informações à
sociedade, o combate ao colonialismo e a
descolonização da arqueologia e do passado
(Layton, 1989, 1994; Shepherd, 2003; Silli-
man, 2005; Smith & Wobst, 2005).
Levantamento arqueológico na Aldeia Lalima, Miranda/MS: uma con tribuição ao estudo da trajetória histórica ... |
Eduardo Bespalez |
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RE f ER ên CIAS b I b LI o GR áf ICAS |
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Volume 23 - N.2:112-135 |
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Eduardo Bespalez |
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REVISTA DE ARQUEOLOGIA |
Volume 23 - N.2:112-135 |
- 2010 |
Cláudia Regina Plens Profa. Dra. Curso de História Universidade federal de São Paulo - UnIfESP clauplens@gmail.com
A b S t RACt |
A pesquisa arqueológica na vila operária |
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The archaeological research at the rail- |
de Paranapiacaba, Santo André, SP, buscou |
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|
way worker village of Paranapiacaba (mu- |
compreender como as modificações no sis- |
||
|
nicipal district of Santo André, São Paulo |
tema de trabalho afetaram o comportamen- |
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|
State) studies the consequences of the work- |
to de um segmento da classe trabalhadora |
||
|
ing system change, which was impelled by |
brasileira – no segundo quartel do século |
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|
the construction of the British “The São Paulo |
XIX - impulsionada pela construção da fer- |
||
|
Railway Co. Ltd.” in the last quarter of the |
rovia inglesa The São Paulo Railway Co. |
||
|
19th century. The research focus was the be- |
Ltd. O tema do projeto abordou o assunto da |
||
|
havior shift of a particular segment of the |
classe trabalhadora paulista no momento |
||
|
Brazilian working class during the transition |
de transição do trabalho escravo para o as- |
||
|
period from the slavery to the hire system. So |
salariado. Para tanto, teve como objeto de |
||
|
far, the project had as research object, the |
estudo as residências da vila ferroviária |
||
|
residences of the railway village built since |
construídas a partir de 1865, para a moradia |
||
|
1865, to lodge the employees of the company, |
dos funcionários da companhia inglesa, |
||
|
Brazilians and immigrants. The archaeologi- |
brasileiros e imigrantes. As intervenções ar- |
||
|
cal surveys in the residential discard areas |
queológicas nas áreas de descarte residen- |
||
|
identified different characteristics. Such re- |
cial identificaram diferentes características. |
||
|
sults brought into the discussion about the |
Tais resultados nos remeteram à discussão |
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|
behavior among the social classes between |
a respeito do comportamento entre as clas- |
||
|
the final slavocrat period and the beginning |
ses sociais desde o período escravocrata até |
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|
of the 20th century. |
o começo do século XX. |
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K EY W o RDS Historical Archaeology, |
PALAv RAS-CHAv E Arqueologia Histórica, |
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Atlantic Rain Forest, labor class, labor |
Mata Atlântica, classe trabalhadora, vila |
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villa, railway |
operária, ferrovia |
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REVISTA DE ARQUEOLOGIA |
Volume 23 - N.2:136-155 |
- 2010 |
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Int R o DU ção |
Brasil, o pensamento abolicionista foi mani- |
|
Este trabalho é o resultado da pesquisa |
festado a partir da assinatura dos Tratados |
|
arqueológica desenvolvida como projeto de |
de Comércio e Amizade com o governo bri- |
|
mestrado no Museu de Arqueologia e Etno- |
tânico, em 1810, e intensificou-se no mo- |
|
logia da Universidade de São Paulo, nos |
mento do Congresso de Viena. Tal fato tinha |
|
anos de 1999 a 2002 1 , cujo enfoque foi a vila |
caráter efetivamente econômico, mesmo |
|
operária de Paranapiacaba, município de |
que mascarado por qualquer caráter huma- |
|
Santo André, Estado de São Paulo, Brasil. |
nitário (Neves, 2000: 375). |
|
O objetivo geral do projeto foi a busca de |
D. João, príncipe regente, que defendia |
|
parâmetros para a compreensão do processo |
arduamente a escravidão, no Congresso de |
|
de transformação da paisagem no cotidiano |
Viena fundamentou as razões e motivos que |
|
da comunidade operária oitocentista da Vila |
o prendiam ao comércio do tráfico negreiro, |
|
de Paranapiacaba, perante o sistema ideológi- |
o qual considerava indispensável para a |
|
co inglês e, ainda, compreender como a classe |
prosperidade das colônias portuguesas. A |
|
operária, composta por brasileiros e imigran- |
sua posição foi discutida pelo representante |
|
tes, sobretudo espanhóis e italianos, se adap- |
inglês quanto aos motivos humanitários, |
|
tou a uma postura ordenada de uma vila pré- |
entre os econômicos, que faziam do aboli- |
|
-fabricada que lhes foi imposta. A Arqueologia |
cionismo o melhor caminho para a prospe- |
|
nos permitiu explicar alguns dos mecanismos |
ridade desses países e colônias (Neves, |
|
dos hábitos de comportamento adotados pe- |
2000: 376). No Brasil, em 1822, dentro de |
|
los trabalhadores (e também moradores desta |
um clima agitado, os debates por meio da |
|
vila), analisando as informações contidas nos |
imprensa permitiram que ainda aflorassem |
|
artefatos para a apresentação de um modelo |
outras dimensões da questão abolicionista. |
|
do cotidiano da vila operária, e discutir estra- |
As idéias abolicionistas tornavam-se uma |
|
tégias de ação e reação estabelecidas entre |
luta pelo poder (Neves, 2000: 391). |
|
patrões/empregados, brasileiros/imigrantes e |
Neste período a condição dos escravos, em |
|
mão de obra assalariada/escrava, vivenciadas |
São Paulo, estava passando por várias contur- |
|
no século XIX na Vila de Paranapiacaba e ad- |
bações. O interior, onde se expandiria a cultu- |
|
jacências, em função da estrada-de-ferro. |
ra cafeeira, contava com poucos escravos no |
|
começo do século XIX. Bacellar (2000: 240) |
|
A CLASSE t RA b ALHAD o RA no f I m D o |
relata que em Sorocaba, no ano de 1810, havia |
Im P é RI o PARA A R EP úb LICA n A vILA |
9.581 habitantes, dos quais apenas 1.938 eram |
DE PARA n APIACA b A |
escravos, sendo que estes estariam distribuí- |
|
Em 1807, a Inglaterra suprimiu o seu |
dos em 360 domicílios, representando 20,4% |
|
próprio comércio negreiro transatlântico. A |
do total, completando a média de 5,4 escravos |
|
partir de então, iniciou-se uma cruzada |
em cada casa. A distribuição de escravos, no |
|
para convencer os outros países a seguir o |
entanto, não se dava sempre nesse número, |
|
seu exemplo. D. João VI viu-se obrigado a |
sendo que muitos dos documentos apontam |
|
restringir a escravidão às colônias portu- |
para a existência de um único escravo em |
|
guesas ao sul do equador, e a posicionar-se |
cada residência, muitas vezes crianças, devi- |
|
para que elas também passassem a extin- |
do ao seu baixo valor comercial (Bacellar, |
|
guir o tráfico negreiro (Dean, 1996: 161). No |
2000:251). |
1 A pesquisa arqueológica teve apoio da fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo.
Da força repressora à coesão sutil: a arqueologia da vila operá ria
|
Cláudia Regina Plens |
|
Com o advento do café, porém, grandes
fazendas passaram a ocupar o interior e
também a deter um maior número de escra-
vos concentrados em um mesmo espaço. As
relações entre senhor e escravo se tornaram
cada vez mais distantes. O sistema discipli-
nar da fazenda exigia ritmo de trabalho
mais acelerado que anteriormente e, em
contrapartida, reivindicações por melhores
condições de sobrevivência por parte dos
escravos. Suas reivindicações giravam em
torno de folgas semanais, alimentação e
vestuário, recebimento pelo trabalho e re-
dução de castigos sofridos (Machado,
1994:25). A conseqüência: violência, onde
os escravos passavam a agir de maneira or-
ganizada, rebelando-se contra seus senho-
res (Azevedo, 1987:199). Nos jornais passa-
ram a ser comuns denúncias de atos de
desobediência às regras disciplinares nas
fazendas, como revoltas organizadas e cri-
mes sangrentos (Machado,1991:67). Todo
este movimento trazia fortes preocupações
tanto para os senhores de escravos quanto
para a polícia, responsável pela manuten-
ção da ordem.
A pressão da polícia sobre os escravos au-
mentava e as reivindicações ganhavam novos
espaços. Os escravos fugiam das fazendas po-
voando cidades, estradas, estações de trens
(Machado, 1991: 69). A comunicação do mo-
vimento, fundamental para a manutenção do
abolicionismo, se realizava através de caixei-
ros, tropeiros e ferroviários e assim seguiam
para as cidades por onde o transporte passava
(Machado, 1991:92). Toda essa movimenta-
ção estava ocorrendo às margens das ferro-
vias Companhia Ferroviária e Mogiana, im-
plantadas na década de 1870 por interesse dos
cafeicultores, como prolongamento da São
Paulo Railway (Machado, 1991:91).
Os santistas, que se mantinham atentos
a estes acontecimentos e viam constante-
mente fugas das fazendas e a movimenta-
139
ção diária por Cubatão e Bertioga, organiza-
ram-se em apoio ao movimento. Como o
número de fugitivos crescia, tornava-se im-
possível colocar a todos nos serviços do por-
to e das casas de comércio, ainda mais por-
que aderiam a esse movimento também
crianças e mulheres, sendo necessária a
criação de um novo espaço que acolhesse
este contingente.
Foi somente em 1882, numa reunião que
contava com a presença de Xavier Pinheiro,
Guilherme Souto, Geraldo Leite, Júlio Ba-
ckauser, Santos Pereira, conhecido como
“Santos Garrafão”, Ricardo Pinto de Olivei-
ra, Júlio Maurício, Constantino de Mesqui-
ta, Joaquim Fernandes Pacheco, Teófilo de
Arruda, José Inácio da Glória, Afonso Veri-
diano, Antônio Augusto Bastos entre outros,
que foi decidido que deveria ser construído
um reduto para os fugitivos do trabalho es-
cravo (Moura, 1988:211). Com a morte de
Luiz Gama, um líder abolicionista, a ação
passou a ser liderada por Antonio Bento,
que fez com que o movimento se avantajas-
se, tomando proporções antes nunca vistas
em São Paulo. Neste ano houve vários rela-
tos de incitamento a revoltas de escravos
por pessoas de fora das fazendas (Azevedo,
1987: 201).
Primeiramente a estratégia utilizada por
Antonio Bento consistia na utilização dos
meios jurídicos. Através do jornal intitulado
A Redempção, instalado na confraria negra
de Nossa Senhora dos Remédios, no centro
de São Paulo, eram divulgadas suas idéias
abolicionistas. Este jornal destinava-se às
pessoas de classe social baixa, mas chegou
a alcançar aceitação desde os próprios es-
cravos nas senzalas até famílias mais abas-
tadas de São Paulo. Na cidade de São Paulo,
Bento também possuía alojamentos para os
negros que não tinham para onde ir. Indo
mais longe, “Bento reuniu uma coleção de
instrumentos que, antigamente, haviam
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REVISTA DE ARQUEOLOGIA |
Volume 23 - N.2:136-155 |
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sido usados em escravos: chicotes de couro, |
Quintino Lacerda, que aí residiu, junto com |
||||||
|
coleiras, correntes, cangas e gargalhadeiras |
antigos ocupantes do Quilombo até 1898, |
||||||
|
de ferro”, simbolizando sua luta (Conrad, |
quando faleceu ( )” ... |
||||||
|
1978: 294-5). Com o tempo sua manifesta - |
|||||||
|
ção foi ganhando outros rumos, através do |
O movimento crescia e mais pessoas de |
||||||
|
apoio ao abandono das fazendas pelos es - |
diferentes classes sociais - como ex-es - |
||||||
|
cravos, proteção para fuga, açoitamento e |
cravos e antigos donos de escravos e seus |
||||||
|
a colocação dos libertos no mercado de tra- |
filhos, a elite intelectual da província e |
||||||
|
balho (Machado, 1991: 96). Para a acolhi - |
pessoas de diferentes partidos políticos -, |
||||||
|
da dos negros fugidos, Antonio Bento, sob o |
se juntavam à causa (Conrad, 1978:295). |
||||||
|
comando de Quintino de Lacerda, um ex - |
A viagem dos escravos fugitivos era pe - |
||||||
|
-escravo, acompanhado de Julio Mauricio, |
rigosa e ocorria principalmente à noite, |
||||||
|
Wansuit, Santos Garrafão, entre outros mi- |
tendo por objetivo atingir o alto da serra e |
||||||
|
litantes abolicionistas, estabeleceu um qui- |
descer para o vale, onde se encontrava o |
||||||
|
lombo, que viria a se tornar um dos maio - |
quilombo (Santos, 1942: 178-9). Em San - |
||||||
|
res de São Paulo. |
tos, os quilombolas achavam subempre - |
||||||
|
Este quilombo, localizado na Serra do |
gos nos cais do porto entre outros bisca - |
||||||
|
Mar, pertencente ao município de Santos, |
tes. A ação popular era visível durante as |
||||||
|
contou com cerca de dez mil escravos no |
muitas excursões de autoridades à procu - |
||||||
|
século XIX (Reis e Santos, 1989:71-3 e |
ra de fugitivos. Com pedras, madeiras e |
||||||
|
Moura, 1988: 211). A sua formação seria |
paus, saíam à rua em favor da abolição. |
||||||
|
diferente dos demais quilombos brasilei - |
Em um desses momentos de fuga de |
||||||
|
ros, pois teria surgido de ações sistemati - |
escravos a manifestação de operários da |
||||||
|
zadas, com ajuda do branco. O quilombo |
São Paulo Railway Co. Ltd. se fez presente: |
||||||
|
na Serra do Mar representaria, segundo |
|||||||
|
Queirós (1977:144), o caráter quase único |
“Intervieram então o superintendente da S. Pau- |
||||||
|
de protesto, devido à ação coordenada por |
lo Railway, William Speers, e o chefe do trafego, |
||||||
|
brancos na luta contra a escravização. |
Antonio Fidelis, e discretamente offerceram uma |
||||||
|
O quilombo estava situado em terras altas |
solução. A locomotiva que trouxéra a composi- |
||||||
|
e férteis, que na época estavam desabitadas. O |
ção seria desatrelada. Uma outra seria posta á |
||||||
|
quilombo Jabaquara situava-se segundo San- |
retaguarda, e a compromettida diligencia, sem |
||||||
|
tos (citado em Machado, 1991: 169), |
delongas nem altos, bateria simplesmente em |
||||||
|
retirada. Já sabemos das bôas disposições da |
|||||||
|
“atrás das terras de Matias Costa, ainda em |
gente ferroviária para com a ordem libertadora |
||||||
|
estado primitivo, coberta de mato e cortadas |
dos caiphases. A manobra executou-se com in- |
||||||
|
de riachos, havia uma extensão de várzea |
crivel rapidez e, a levantar um alto pennacho de |
||||||
|
trançadas apenas de caaqueras, cambarás e |
vapor claro, num longo apito victorioso, lá se foi |
||||||
|
existiam ao lado da Santa Casa, subindo a |
o trem em direção á serra |
... |
A autoridade publi- |
||||
|
lombada do morro, passando pela casa de |
ca havia feito, no municipio de Santos, a sua |
||||||
|
Benjamim Fontana, e a seguiu pelo sítio de |
ultima tentativa no sentido legal da escravidão. |
||||||
|
Geraldo Leite da Fonseca que ficava ao alto, |
Naquella noite accendeu-se uma immensa fo- |
||||||
|
caindo então para a várzea do Jabaquara |
gueira no Jabaquara, e o samba retumbou festi- |
||||||
|
( |
) As terras do Jabaquara, pertencentes a |
vo e exultante até alta madrugada ”(Santos, .... |
|||||
|
Benjamim Fontana, foram arrendadas por |
1942: 183-4). |
||||||
Da força repressora à coesão sutil: a arqueologia da vila operá ria
|
Cláudia Regina Plens |
||||||
Este episódio traz à tona a presença britâ-
nica nos movimentos em favor da libertação
dos escravos. E embora não haja trabalhos
históricos com registros dos trabalhadores da
São Paulo Railway Co. Ltd., um levantamento
efetuado em 1920 registrou 3.286 moradores
na Vila de Parapiacaba, todos imigrantes, por-
tugueses, espanhóis e italianos.
Inicialmente o que se tornou a Vila de Para-
napiacaba era um acampamento provisório
para os 5000 trabalhadores que começaram as
obras da construção da ferrovia Estes, depois de
concluído o empreendimento, não continua-
vam a trabalhar para a empresa. Contudo, mais
tarde seriam necessários trabalhadores contra-
tados para a manutenção da ferrovia. Desta for-
ma foram contratados outros 2000 trabalhado-
res, dando, assim, início a ondas migratórias
que tinham por finalidade a busca de trabalho.
A Vila de Paranapiacaba se divide em três
diferentes conjuntos de aspectos urbanísti-
cos e arquitetônicos distintos entre si: Vila
Velha, Vila Nova e Parte Alta (Malentaqui,
1984:18-9). Na Vila Velha, local onde ocorreu
a primeira fase da ocupação inglesa em
1860/62, onde além das residências estão lo-
calizados os mais antigos depósitos da em-
presa, as características são: construções que
seguem os alinhamentos das ruas; distribui-
ção pouco ordenada das construções; inexis-
tência de calçamento nas ruas; inexistência
de um modelo de arruamento, com a exis-
tência de apenas um eixo principal (Rua Di-
reita) que dá acesso aos depósitos e oficina.
As residências dos trabalhadores na Vila
Velha diferenciam-se em relação ao tamanho
da família a quem se destinavam, desde os cô-
modos que abrigariam os solteiros (Casa tipo
D), até para famílias na qual o trabalhador mo-
rava com esposa e uma grande quantidade de
filhos (Casa tipo C) (Figura 1).
141
A Vila Nova (antigamente denomina -
da Vila Martin Smith), foi uma área pla -
nejada, construída devido ao aumento do
Figura 01. Esquema de residências dos trabalha-
dores na Vila Velha. Fonte: Ferreira et. alii, 1990.
número de funcionários e, também ao ace -
lerado desenvolvimento da ferrovia. Nes -
ta área, as casas teriam sido construídas
também de acordo com o estado civil do
trabalhador, mas, sobretudo, em relação à
função exercida pelo trabalhador na fer -
rovia, como engenheiros, manobristas e
mecânicos. Todas essas construções foram
feitas em madeira sobre alvenaria. As re -
sidências nesta área foram construídas
em quatro padrões (figura 2):
O planejamento e extensão da vila de Para-
napiacaba para a Parte Alta ocorreu de acordo
com a necessidade de abrigar a classe de tra-
balhadores aposentados pela Rede, pois estes,
Figura 02. Esquema de residências dos trabalha-
dores na Vila Nova. Fonte: Ferreira et. alii, 1990.
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devido ao clima, ao costume ou a outro motivo,
preferiam ficar morando em Paranapiacaba
(Malentaqui,1984:14). A parte baixa, conside-
rando o declive do Vale, foi primeiramente for-
mada por habitações provisórias (acampa-
mento) dos operários da São Paulo Railway.
A intenção da companhia era a fixação de pou-
cos operários no local, porém, devido às difi-
culdades, às obras de conservação e às exigên-
cias oficiais, cresceu a necessidade de um
maior número de funcionários no local em
caráter permanente.
A vila operária, em geral, não permitia uma
grande locomoção dos operários e seus fami-
liares, com o objetivo de mantê-los o maior
tempo possível em função do trabalho. Para as
horas de lazer, necessárias para uma vida mi-
nimamente confortável, estabeleceram-se cen-
tros religiosos, desportivos, de lazer, localiza-
dos dentro, também, da visualização do
superintendente, com o objetivo de manter
uma ordem social para que a força de trabalho
não seja despendida em outras atividades.
Na análise da cultura material da Vila de
Paranapiacaba, adotamos o pós-processualis-
mo em duas vertentes transdisciplinares: o
marxismo e o pensamento foucaltiano. A apli-
cação do marxismo pelo pós-processualismo é
baseada na idéia de ideologia, não apenas rela-
cionada ao dominante, mas, sobretudo ao inte-
resse (Hodder 1992). Nesta perspectiva, enten-
de-se que diferentes grupos da sociedade são
capazes de desenvolver ideologias divergentes.
A influência do pensamento foucaltiano, no
que se refere à ideologia, baseia-se na relação
do poder, conhecimento e verdade. Para Hod-
der, o poder manipulado pelos recursos mate-
riais deve ser estudado a partir destas três pre-
missas supracitadas (seria importante uma
citação, de preferência com página).
Na tentativa de argüir a questão do poder
e da ideologia durante o período de indus-
trialização na Europa, Foucault (1987:118)
explica que, desde a época clássica, o corpo
humano era considerado como um objeto
submetido à força do poder e, como tal, passa
a ser manipulado, modelado e treinado sen-
do o fim responder e obedecer às necessida-
des da elite. Tais condições de manipulação
do corpo não são exclusividade de uma úni-
ca sociedade, ao contrário, elas se dão em
qualquer sociedade, impondo limitações,
proibições ou obrigações através de métodos
de controle sobre o indivíduo. Vários proce-
dimentos de coerção semelhantes foram
muito vigentes nos século XVII e XVIII como
uma alternativa aos métodos mais bruscos
de coerção ao trabalho: a escravidão.
Apesar de se fazer presente em todas as so-
ciedades, a disciplina passou a exercer função
mais centralizada na vida individual no século
XVIII, devido ao aumento da demografia na
Europa associada ao crescimento do aparelho
de produção que, com controle sistemático,
proporcionava maiores e melhores resultados
mas, em contrapartida, requeria maiores custo
e esforço. Sobre o indivíduo passou a ser exer-
cida a disciplina do corpo e não somente a sua
apropriação. Através da disciplina é possível
fazer com que os corpos se tornem submissos,
aumentando gradativamente sua capacidade
de trabalho, em um menor intervalo de tempo.
“Se a exploração econômica separa a força e o
produto do trabalho, digamos que a coerção
disciplinar estabelece no corpo o elo coercitivo
entre uma aptidão aumentada e uma domina-
ção acentuada” (Foucault, 1987: 119).
No século XVIII, Jeremy Bentham, filósofo
e jurista inglês, concebeu um sistema de vigi-
lância denominado sistema panóptico (pan-
-óptico), cuja função inicial era o projeto de
prisão modelo que posteriormente foi adota-
do por instituições educacionais e de trabalho.
O sistema panóptico era, portanto, a maneira
utilizada para neutralizar a desordem através
Da força repressora à coesão sutil: a arqueologia da vila operá ria
|
Cláudia Regina Plens |
|
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|
da fixação das populações que pudessem sub- |
mar a população camponesa com o ritmo do |
||||
|
verter a ordem. Na Inglaterra, coube às ins- |
trabalho industrial foi a congregação para |
||||
|
tituições religiosas a responsabilidade das |
aprenderem, de forma uniforme, os novos |
||||
|
primeiras ações disciplinares sobre grupos |
procedimentos (1987:122). |
||||
|
populacionais. A disciplina, reconhecida como |
Ainda segundo Foucault, ‘”a disciplina ‘fa- |
||||
|
técnica para a ordenação das complexidades |
bricaria’ indivíduos”. é nesse momento de dis- |
||||
|
humanas (Foucault, 1987:173-9), por sua vez, |
ciplina dos atos que ocorrem os primeiros pas- |
||||
|
obedece a uma série de regras para que suas |
sos da individualização. Nesse contexto o |
||||
|
condições sejam desenvolvidas. |
indivíduo é, sem dúvida, o átomo fictício de |
||||
|
Ainda segundo Foucault (1987:122), a colo- |
uma representação “ideológica” da sociedade, |
||||
|
cação do indivíduo – e, por conseguinte, do |
mas é também uma realidade fabricada por |
||||
|
grupo - no espaço, é fundamental e pode ser |
essa tecnologia específica de poder que se cha- |
||||
|
realizada por meio de quatro regras. A primei- |
ma a “disciplina” (Foucault, 1987: 143-161). |
||||
|
ra delas é a escolha do local, sendo este “hete- |
O lugar, o espaço construído para que a dis- |
||||
|
rogêneo a todos os outros e fechado em si mes- |
ciplina seja exercida sobre os atores, foi estu- |
||||
|
mo”; a segunda é a manutenção de um espaço |
dado pelo plano Panóptico de Bentam através |
||||
|
enclausurado, sem, no entanto, haver a per- |
da arquitetura, onde de forma periférica ane- |
||||
|
cepção disto, separando os grupos em sistemas |
lar, a torre estaria centralizada com janelas |
||||
|
individuais, a fim de evitar corporações e pro- |
para toda sua circunferência. Para tanto, este |
||||
|
porcionando a fácil verificação dos presentes e |
autor se refere ao poder visível e inverificável, |
||||
|
ausentes “procedimento, portanto, para conhe- |
com a finalidade de vigiar sem perturbar o in- |
||||
|
cer, dominar e utilizar. A disciplina organiza |
divíduo, pois este não se sente vigiado. |
||||
|
um espaço analítico”; a terceira trata da deter- |
Segundo Foucault, estes elementos teriam |
||||
|
minação dos espaços, proibindo comunicação |
o poder de automatizar e despersonalizar o po- |
||||
|
que ponha o sistema em perigo e, ao mesmo |
der. Para ele o plano panóptico de trabalho tem |
||||
|
tempo, criando um espaço que seja inteira- |
por objetivo otimizar o trabalho através da mo- |
||||
|
mente útil. O refinamento na técnica de distri- |
dificação do comportamento e do treinamento |
||||
|
buição dos indivíduos no espaço, de maneira a |
dos indivíduos no serviço. é uma implantação |
||||
|
articular a distribuição dos indivíduos, ocorreu |
dos corpos no espaço, de distribuição dos indi- |
||||
|
nas fábricas, nas décadas finais do século |
víduos em relação mútua, de organização hie- |
||||
|
XVIII, colocando-os em posição isolada e rapi- |
rárquica, de disposição dos centros e dos ca- |
||||
|
damente localizável; a quarta, onde todos os |
nais de poder, de definição de seus |
||||
|
elementos podem ser trocados, pois cada qual |
instrumentos e de modos de intervenção, que |
||||
|
ocupa um espaço idêntico aos dos demais, |
se podem utilizar nos hospitais, nas oficinas |
||||
|
criando espaços complexos que tenham de- |
( |
) |
(Foucault, 1987: 165-70). |
||
|
sempenho, ao mesmo tempo, arquitetônico, |
Ainda segundo Foucault, o que importa no |
||||
|
funcional e hierárquico. Tudo isso cria valores |
sistema panóptico é o desenvolvimento da pro- |
||||
|
e impõe a obediência que leva a uma econo- |
dução, o desenvolvimento da economia, a difu- |
||||
|
mia de ações que, por sua vez, leva à melhoria |
são da instrução e a elevação do nível da moral |
||||
|
do trabalho e por conseqüência, ao lucro. |
pública. Para o autor, tal constituição foi possí- |
||||
|
No sistema disciplinar do trabalho, cada |
vel através da separação, coordenação e con- |
||||
|
minuto passa a ser importante no emprego |
trole de tarefas impostas junto ao quadricula- |
||||
|
do corpo como instrumento de trabalho. |
mento do espaço que maneja o tempo, gestos e |
||||
|
Na Europa, o primeiro passo para acostu- |
força dos corpos com a finalidade de submetê- |
||||
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|
-las aos mecanismos de produção. Este proces- |
trabalho. Assim sendo, a função do em - |
||
|
so realiza-se através da coerção, porém, sem |
prego do piche foi tanto impermeabili - |
||
|
violência (Foucault, 1987: 172-82). |
zante e higiênica quanto ordeira. |
||
|
Durante as escavações arqueológicas |
|||
mE to D o Lo GIA |
foram encontradas camadas de piche em |
||
|
Com a finalidade de compreender as es- |
todas as estruturas escavadas. Algumas |
||
|
tratégias estabelecidas pelos moradores para |
vezes, como no caso do Hotel dos Engenhei - |
||
|
a adaptação de suas vidas em um sistema im- |
ros, foi emcontrada mais do que uma ca - |
||
|
posto, analisamos diversos pontos da vila que |
mada, o que nos mostra que, ao longo dos |
||
|
representariam exemplos de setores públicos |
anos, estes quintais e arruamentos passa - |
||
|
e privados e, também, de classes sociais dife- |
vam por reformas. O emprego deste mate - |
||
|
renciadas, tal como o Hospital, a Igreja e ha- |
rial para o asfaltamento de ruas e quintais |
||
|
bitações de engenheiros e funcionários de |
foi, sem dúvida, o fator principal que afe - |
||
|
baixo escalão, respectivamente. |
tou a composição do registro arqueológi - |
||
|
A partir de pesquisas históricas e arquite- |
co e formação de áreas de refugo. |
||
|
tônicas, foram definidas as áreas para pros- |
Sem exceção, foram encontrados vestí - |
||
|
pecções e escavações arqueológicas de possí- |
gios de piche em todos os quintais das re - |
||
|
veis espaços para descarte de lixo doméstico. |
sidências investigadas e, também, na vie - |
||
|
Esses foram divididos por duas característi- |
la. Acreditamos que, nos casos onde as |
||
|
cas: locais de ordem pública e privada e clas- |
intervenções arqueológicas não localiza - |
||
|
ses sociais alta e baixa. Os locais de ordem |
ram vestígios de lixo doméstico, o fator pre - |
||
|
pública foram cinco, o Hospital, a Viela, o Li- |
ponderante para a ausência de material, |
||
|
xão (depósito de lixo), Igreja (Presbiteriana), |
deve-se, sobretudo, ao fato de haver pi - |
||
|
e o Hotel dos Engenheiros, enquanto que os |
che. A ação impermeabilizante do piche |
||
|
locais de ordem privada, de classe alta, o Cas- |
exigia da população a limpeza constante e |
||
|
telinho (como é chamada a casa do engenhei- |
não possibilitava que os materiais fossem |
||
|
ro chefe), a Casa de Engenheiro, a Casa do |
encobertos rapidamente por terra. |
||
|
Médico, enquanto que os locais de ordem pri- |
Comparando os locais que apresenta - |
||
|
vada destinadas à classe baixa foram três, |
ram vestígios arqueológicos e os que não |
||
|
duas residências destinadas à famílias e uma |
apresentaram, notamos que o que os dife - |
||
|
à grupo de solteiros. |
rencia é a existência do piche. O fato das |
||
|
residências destinadas às classes mais |
|||
RESULtADoS |
abastadas, assim como os lugares públi - |
||
|
cos, possuírem maior espaço, que era usa - |
|||
o PICHE |
do como jardim ou, em alguns casos, áre - |
||
|
A escavação arqueológica demonstra |
as perto de encostas (onde a circulação |
||
|
que na Vila Velha de Paranapiacaba, dife - |
de pessoas não era tão freqüente), não ne - |
||
|
rente do que se supunha (Ferreira ET. A.l |
cessitava de uma manutenção exígua, per - |
||
|
1990), já havia calçamento de piche, não |
mitindo que produtos descartados fossem |
||
|
apenas nas ruas mas, também, nos quin - |
absorvidos pelo sedimento |
||
|
tais das casas, mostrando a preocupação |
|||
|
com a manutenção da higiene além de |
oS tIJ o Lo S |
||
|
arruamentos bem transitáveis que facili - |
Dentre os materiais construtivos da Vila |
||
|
tassem, aos trabalhadores, o acesso ao |
de Paranapiacaba, destacamos os tijolos, |
||
Da força repressora à coesão sutil: a arqueologia da vila operá ria
|
Cláudia Regina Plens |
||
145
sua importância para os moradores ao lon-
go da ferrovia S. Paulo Railway Co. Ltd.
é importante notar que, desde os primei-
ros séculos de colonização européia, a pro-
víncia de São Paulo teve como papel econô-
mico a produção de itens cerâmicos, onde os
habitantes possuíam apenas alguns instru-
mentos de ferro para o seu trabalho, além de
poucos outros utensílios como roupas, por
exemplo. A ferrovia provocou o aumento de
trabalhos em torno da produção de recipien-
tes cerâmicos, tais como pratos e potes, entre
outros. Houve variações nas técnicas, formas
e estilos mais do que encontrados entre os
séculos XVII e XVIII (Morales, 2000:146).
Destaca-se aí, a importância da região do
ABC com o aumento da produção dos itens
cerâmicos em São Caetano, São Bernardo,
Estação S. Bernardo (atual Santo André), Ipi-
ranguinha, Pilar (atual Mauá), Ribeirão Pires
e Rio Grande da Serra (Tabela 2). Aos poucos,
a região que produzia utensílios cerâmicos
que serviam tão somente aos tropeiros que
subiam e desciam a Serra do Mar, e também
para o uso doméstico das poucas famílias da
região, passou a ter uma forte produção de
tijolos, impulsionando, assim, o aumento po-
pulacional, principalmente através da imi-
gração, que era a base da mão-de-obra.
Para a companhia ferroviária, os tijolos
passaram a ganhar cada vez mais espaço
como material de construção, enquanto que
as casas de pau-a-pique serviriam somente
para o abrigo de operários durante a cons-
trução da ferrovia.
Depois, com o in -
tuito de fazer núcle-
os habitacionais
mais duradouros e
que permitissem a
fixação e o desen -
volvimento de ati-
vidades mais com-
plexas, recorreram
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146
à construção de casas, em alguns casos toda
em alvenaria, ou em outros, em madeira -
neste caso, o tijolo era empregado na cons-
trução do alicerce das edificações.
O desenvolvimento da região, em rela-
ção às olarias, foi impulsionado pela cons-
trução da ferrovia que, além de ter utilizado
muito material para a sua ampliação, tam-
bém fomentou a movimentação da popula-
ção neste mercado.
Não existem trabalhos que aprofundam
a questão destas olarias de modo abrangen-
te, contudo, um relatório elaborado pela
prefeitura de Santo André (1991), que trata do
imposto de Indústrias e Profissões, imposto
cobrado pela municipalidade sobre as in-
dústrias e profissões, aponta para alguns as-
pectos das olarias na região circunvizinha à
Paranapiacaba ao afirmar “que de acordo
com o Novo Código de Posturas Municipaes
aprovado pela Lei nº 73 de 19 de julho de
1910, é uma das rubricas da Receita Ordiná-
ria do Município”.
Apesar dos números apresentados na ta-
bela 2, talvez houvesse olarias que não pa-
gassem seus impostos devidamente, ou en-
tão, somente a partir deste período o
desenvolvimento desta atividade tenha sido
tão promissora que, meio século mais tarde
as olarias chegavam a ser 800 na região
(Wiegratz, 2000).
Segundo Marqueiz (1969), a implanta-
ção das olarias na região teve como causa a
geografia local, pois costumam estar próxi-
mas a terrenos alagadiços que propiciam
barro de ótima qualidade para produção de
tijolos.
Os tijolos encontrados em Paranapiaca-
ba diferem em suas dimensões e peso, cada
qual sendo indicado para utilizações distin-
tas, dependendo das obras a que se destina-
vam. A análise morfológica e das marcas
dos tijolos resultaram nas classificações da
tabela 03.
Foram analisados 15 tijolos representan-
do aqueles que ainda se encontram nas ca-
sas que continuam ocupadas por grupos
familiares. é importante ressaltar que, por
se tratar de uma vila ainda ocupada, onde
os tijolos ainda exercem suas funções den-
tro da construção, é impossível quantificar
o número de tijolos utilizados na Vila ou
mesmo em cada residência. Portanto, traba-
lhamos somente com uma amostra dos tijo-
los mais representativos. Para a conclusão
desta pesquisa, contudo, não foi possível
estabelecer conexões entre o logotipo dos
tijolos com possíveis olarias existentes na
região que permitam levantar questões co-
merciais entre os produtores e os consumi-
dores.
Além das diversas madeiras provenien-
tes da Mata Atlântica e do cerrado, utiliza-
das como dormentes para a construção da
ferrovia, outra madeira de lei muito utiliza-
da na arquitetura da Vila de Paranapiacaba,
especificamente, foi o Pinho de Riga. No
norte da Europa, era prática a utilização
desta madeira na marcenaria. Como o pa-
drão arquitetônico da Vila de Paranapiaca-
ba seguia o modelo europeu de vilas operá-
rias, se utilizou o mesmo material para sua
pré-fabricação, na Inglaterra, de onde fo -
ram importadas.
A importação desta matéria-prima num
ambiente de Mata Atlântica é bastante sig-
nificativa para a discussão sobre a imposi-
ção de uma postura ordenada de uma vila
pré-fabricada, pois nos remete a duas hipó-
teses, por um lado, estaria ocorrendo à ex-
tinção de madeiras de lei nesta vegetação
pela devastação ou, por outro, não haveria
a preocupação pela substituição desta ma-
deira por outra que fosse facilmente adqui-
rida no Brasil, no próprio ambiente onde
seria implantada a Vila de Paranapiacaba.
Da força repressora à coesão sutil: a arqueologia da vila operá ria
|
Cláudia Regina Plens |
|
|
Baixo Relevo (BR) Alto Relevo (AR) |
Inscrição |
Medidas |
|
AR |
BG |
?X13X7,0 |
|
BR |
LM |
28X14X7,0 |
|
BR |
A.F |
26X12.5X6.5 |
|
AR |
N ... |
?X13X6 |
|
BR |
JG |
28X13X7 |
|
BR |
MPC |
20,5X10X5 |
|
AR |
G&F |
27X13X7 |
|
BR |
LPI |
28X13.5X7,5 |
|
AR |
SPR |
23,5X12X7 |
|
AR |
FSE |
27,5X12,5X8,0 |
|
BR |
H&B |
22X9,5X5 |
|
BR |
S .... |
– |
|
BR |
JPP |
26X12X6.5 |
|
BR |
GN |
24X11,5X6 |
|
BR |
*O* |
25X12X6,0 |
|
BR |
A*B |
25X12X6,0 |
|
AR |
z.V..... |
?X13X6,5 |
|
BR |
CM |
12,5X7X? |
|
AR |
PILAR |
24X12X7 |
Tabela 03. Relação de tijolos segundo suas inscrições
Este tipo de material foi empregado tanto
na composição de residências (por exemplo,
vaso sanitário), como na ferrovia (por exem-
plo, roldanas) sendo, grande parte, de origem
inglesa. Apesar da grande importância que o
material metálico tem na Vila de Paranapiaca-
ba, ainda muito utilizado pelos moradores atu-
ais, a sua análise foi superficial, pois, mesmo
sendo encontrado em todos os níveis arqueoló-
gicos, a coleta deste tipo de material no solo
não se mostra conveniente pela rapidez da sua
oxidação, o que prejudicou a análise mais
aprofundada do material.
Os artefatos encontrados em maior quanti-
dade no lixo doméstico são aqueles que com-
punham as mesas das residências. O histórico
destes artefatos mostra que, no século XIX, em
147
quase todo o mundo, o sistema mercantil-capi-
talista inglês incentivava a aquisição de itens
específicos de consumo, em geral, de uso do-
méstico, antes restrita às elites. Desta forma,
quando as primeiras iniciativas capitalistas
passaram a ser introduzidas no Brasil permi-
tiu-se que a entrada de novos gêneros refletisse
diretamente no padrão de comportamento de
consumo em todas as classes sociais. O que
possibilitou, materialmente, a aquisição de
produtos por toda a sociedade, porém, cada
segmento social estava apto a adquirir produ-
tos em quantidade e qualidade distintas. As di-
ferenças de classes que antes era perceptível
rapidamente no ambiente macro, ou seja, na
arquitetura, passa também a ser refletido na
cultura material de menor porte (Andrade
Lima, 1995; Andrade Lima,1997).
A paisagem do Brasil do século XIX passa
a ser, cada vez mais, repleta de artefatos de
consumo doméstico em todas as classes so-
ciais. Se primeiramente a faiança portu -
guesa tinha entrada restrita nas classes mais
abastadas por razão de seu alto custo, poste-
riormente as classes menos privilegiada eco-
nomicamente puderam adquirir estes pro-
dutos graças aos baixos preços alcançados
pela industrialização inglesa (Brancante,
1981:495). Em pouco tempo as novidades do
mercado passavam a ser obsoletas e novos
produtos eram introduzidos. Com o alto índi-
ce de aceitação e consumo destes gêneros, os
produtos, que outrora tinham significado pu-
ramente utilitário, passam a ser consumidos
com o intuito de ascensão social (Andrade
Lima, 1995:164-177; 1997:111-117).
A recuperação deste tipo de artefato na
Vila de Paranapiacaba nos permitiu com -
preender algumas características do com-
portamento de consumo deste grupo, não
apenas pela quantidade, mas, sobretudo
pelos espaços ocupados pelas lixeiras do -
mésticas que nos revelaram dados bastante
significativos. Através das escavações ar -
|
REVISTA DE ARQUEOLOGIA |
Volume 23 - N.2:136-155 |
- 2010 |
148
queológicas pudemos detectar que, para a
análise da diferenciação das classes so -
ciais, a interpretação da existência ou au-
sência de lixeiras é o dado mais marcante
deste grupo. Devido à ausência destes arte-
fatos, do segundo quartel do século XIX,
nas residências dos trabalhadores, a pro -
posta inicial do projeto de interpretar o
comportamento da classe operária através
de seu lixo doméstico foi, em parte, invia-
bilizada, não permitindo que todas as ques-
tões levantadas pudessem ser respondidas.
Antes de abordarmos a análise dos artefa-
tos recuperados durante as campanhas ar-
queológicas, faz-se importante abordar a
questão do padrão de descarte para podermos
entender o que ocorreu na Vila de Paranapia-
caba, uma vez que, materiais arqueológicos
foram encontrados em determinados am-
bientes bastante caracterizados.
O fator primordial para determinação do
registro arqueológico é o seu processo de
formação. Os vestígios materiais, manipula-
dos por determinada sociedade, passam por
um contexto sistêmico, ou seja, passa por
diversas fases durante sua formação, fun-
cionalidade e abandono ou descarte, até o
momento em que se torna um contexto ar-
queológico. Sob a forma de registro arqueo-
lógico, os materiais ainda sofrem perturba-
ções, seja por intemperismo, erosões,
biológicas e as culturais, que derivam das
mais variadas formas de (re) utilização do
mesmo espaço, vindo a causar, direta ou in-
diretamente, impacto sobre o registro ar -
queológico (Schiffer, 1972).
O trabalho de lixeiras domésticas refere-
-se, essencialmente, ao tema de formação de
registro arqueológico. Freqüentemente, em
sítios arqueológicos históricos (South, 1977;
1988; Andrade Lima, 1995, Symanski, 1998),
essas áreas de concentrações de artefatos são
delimitadas a partir da organização espacial
doméstica, nas quais são demarcadas áreas
próprias para o descarte residencial. Na busca
de informações a respeito de áreas de descar-
te aplicou-se, como metodologia de campo, a
prospecção arqueológica nas áreas residen-
ciais da Vila de Paranapiacaba (Vila Velha e
Vila Nova), para a localização de maiores in-
cidências de artefatos.
O material arqueológico de uso coti -
diano, que remonta ao século XIX, na Vila
de Paranapiacaba, foi localizado essen -
cialmente em dois pontos da Vila: a Casa
do Engenheiro Chefe e Hotel dos Enge -
nheiros, sendo que nas residências dos
operários os materiais recuperados refe -
rem-se apenas ao século XX. Os dados ob -
tidos pelo material arqueológico, como a
louça e o vidro, nos permitem constatar
que, apesar do consumo desses materiais
não ter sido distribuído entre todas as
classes sociais, havia um fluxo constante
destes materiais na vila, mesmo sendo um
lugar de subúrbio e longe das demais ci -
dades. Isto só foi possível pelo acesso pro -
porcionado pela ferrovia.
Os vestígios arqueológicos encontrados
nos ambientes de maior prestígio são os vi-
dros seguidos das porcelanas (salvo telhas e
tijolos). Tanto na Casa do Engenheiro Chefe
(Castelinho) quanto no Hotel dos Engenhei-
ros, as estruturas construtivas revelam uma
arquitetura mais sofisticada que, associada à
questão da quantidade de lixo doméstico,
mostram que o cenário social vivido por esta
classe diferenciava-se da classe composta
pelos demais trabalhadores, ou seja, o fato
do material mais antigo aparecer somente
nas áreas residenciais da elite sugere que a
quantidade de materiais como vidros e por-
celanas concentravam-se nas mãos desta
classe, o que não quer dizer que a classe ope-
rária também não tivesse acesso a esses gê-
neros, mas que a quantidade de material re-
ferente a estes segmentos fosse menor, por
falta de oportunidade em adquirir novos pro-
Da força repressora à coesão sutil: a arqueologia da vila operá ria
|
Cláudia Regina Plens |
|
dutos, associado a uma possível utilização de
suportes materiais substitutivos, muito mais
resistentes e que, portanto, possuíssem uma
sobrevida maior.
Na Vila de Paranapiacaba a pesquisa ar-
queológica recuperou 356 vestígios prove-
nientes de antigas áreas de descarte de lixo
doméstico, dentre eles 115 fragmentos de
louça. Entendemos como louça todas as for-
mas de cerâmica, ou seja, produtos manu-
faturados como a cerâmica, o grés, a faian-
ça simples, a faiança fina e, por fim, a
porcelana, que são compostas por substân-
cias minerais que permitem queimas de
caulim e argila, além de feldspato e quartzo
(Brancante,1981:155).
Foram identificados 5 fragmentos de
cerâmica provenientes do Castelinho e
Hotel dos Engenheiros, produzidas em
tornos mecânicos.
O grés cerâmico encontrado em Parana-
piacaba durante a campanha arqueológica
serviu unicamente como manilha para o
escoamento das águas pluviais. Este mate-
rial possui uma composição de textura
muito mais resistente do que a cerâmica
comum. O grés possui espessura grossa,
porém de grãos muito finos, cozido a alta
temperatura, o que o torna vitrificado e, por
conseguinte, impermeável, ideal para pe -
ças que requerem utilidade constante. Se-
gundo zanettini (1998:121), já foram en-
contrados fragmentos desta qualidade
cerâmica no nordeste brasileiro, remon -
tando ao século XVII. Já em São Paulo, o
grés só é conhecido a partir do século XIX,
através da importação, trazido pelos ingle-
ses e, normalmente, destinava-se a peças
149
para tubos, manilhas, azulejos ou peças sa-
nitárias.
A baixa concentração deste material
deve-se ao fato de que muitas peças en -
contrarem-se inteiras, talvez em atividade
até os dias atuais.
Apesar da alta fragmentação das louças,
alguns padrões decorativos puderam ser iden-
tificados e, mesmo se tratando de um número
muito reduzido de fragmentos, mostra que
moradores da Vila de Paranapiacaba, ao me-
nos uma parcela deste segmento social, ti-
nham algum tipo de acesso a estes produtos.
Pôde-se observar que, de acordo com as pastas,
a maior parte da louça doméstica dividia-se
em faiança simples, faiança fina e porcelana.
Um único fragmento analisado foi classifi-
cado como faiança simples. A faiança, segun-
do zanettini (1986:120) e Carle, et. al.
(1996:56), é uma cerâmica feita de argila de
grande plasticidade, cozida à temperatura re-
duzida, apresentando-se numa textura porosa
e resistente, recoberta de esmalte opaco à
base de chumbo ou estanho, o que a torna
mais dura e sonora. O seu histórico mostra
que sua utilização começou já no século XV,
levada pelos árabes que, por sua vez, toma-
ram seu conhecimento técnico da Pérsia. No
Brasil apareceram desde a colonização portu-
guesa até o século XIX, quando passou a divi-
dir espaço com a faiança fina.
A faiança fina, derivada da faiança simples,
foi uma invenção inglesa, no século XVIII, du-
rante a Revolução Industrial, e passou a ser
importada pelo Brasil durante a Abertura dos
Portos em 1808, ou mesmo anteriormente atra-
vés de contrabando (zanettini, 1998: 123 e Car-
le et al, 1996:56). Sua produção no Brasil só se
deu a partir do século XX, inicialmente no Pa-
raná e, posteriormente, em São Paulo, em 1902
|
REVISTA DE ARQUEOLOGIA |
Volume 23 - N.2:136-155 |
- 2010 |
150
e 1913, respectivamente. Dentro da classe de
faiança fina pôde-se distinguir três padrões,
sendo eles o “Blue or Green Edge”, o Policro-
mo e o “Borrão Azul”.
Do padrão “Blue or Green Edge” foi re-
cuperado apenas um fragmento. Este é o
padrão adotado para a faiança fina inglesa,
referindo-se a uma faiança estampada em
azul na qual a tinta escorre dentro do es-
malte. Segundo Lima et. al (1989: 211), é
resultante de processo químico, tal como o
óxido de cálcio ou cloreto de amônia, dentro
do forno de vitrificação. Sua periodização
na Inglaterra deu-se entre os anos de 1835 e
1845, tornando-se muito popular na época
vitoriana (1837-1901). Ela é caracterizada
pela incisão limitada em suas bordas, na
qual é aplicada uma pintura, tanto em tona-
lidades azul como verde, podendo apresen-
tar baixo relevo (Carle et al, 1996: 58). Foi
fabricada entre 1780 e 1830. Normalmente é
usada em pratos de cozinha, pela sua sim-
plicidade decorativa (Andrade Lima,
1989:211). Esta teria sido uma das primei-
ras variedades da faiança fina conhecida
como pearlware na primeira década da sua
existência. Pode haver variações de acordo
com o momento de produção. Existem ou-
tras variações de cores além do verde e o
azul, tal como rosa, castanho e púrpura (Sy-
manski, 1998:172). Miller (1980) destaca
que entre as variedades decoradas, esta te-
ria sido a mais barata durante a primeira
metade do século XIX. Diversos trabalhos
em sítios brasileiros, desde o nordeste até o
sul do país, atestam que o alto consumo des-
ta variedade foi constante durante todo o
século XIX .
Do padrão Policromo obteve-se um úni-
co fragmento. Este padrão de faiança fina
tem em sua decoração flores pintadas à
mão e foi normalmente vinculado à louça
de serviços de chá e café, tendo sido produ-
zido entre 1820 e 1840.
Foram identificados dois fragmentos de
faiança fina no padrão “Borrão Azul”, consis-
tindo sua decoração em um estampado em
azul no qual a tinta escorre dentro do esmalte.
Sua origem na Inglaterra remonta aos anos
1835 e 1845 (Andrade Lima, et. al 1989:211).
O maior número de louça branca encon-
trada (51fragmentos) é lisa ou em relevo. A
única marca encontrada foi na parte posterior
da base de um prato branco com as inscrições
J. & G. Meakin. Além disso, também foram
encontrados 5 fragmentos de bordas de faian-
ça fina em creamware, 3 no padrão “Royal”, e
2 no padrão “Feather Edge”. O primeiro ca-
racteriza-se pelas bordas em relevo tipo folha-
gem, enquanto o segundo pelas pinturas de
faixas simples executadas à mão nas bordas.
Quanto à presença de porcelana podemos
destacar a presença apenas de 10 fragmentos.
A porcelana teve sua fabricação iniciada na
China por volta de 618 a 906 a. C., durante a
Dinastia T’ang. Não se tem certeza quando os
europeus tomaram conhecimento da porcela-
na, mas sabe-se que, desde o século XVI tenta-
vam produzi-la na Europa. Depois de várias
tentativas em se produzir o gênero, com a cria-
ção da Faiança Fina e a Porcelana Mole (rica
em feldspato e óxido de chumbo, temperatura
de queima em 1.200°C), a Alemanha foi a pri-
meira a conseguir fabricar porcelana dura, se-
melhante à chinesa. Esta é queimada entre
1.350º a 1400º, é composta de caulim, quartzo,
feldspato ou outros minerais de composição
muito parecida (Brancante, 1981:155).
A classificação dos fragmentos de louça
permitiu a identificação das peças e, através da
tabela 04, podemos observar que as louças es-
tavam concentradas em maior quantidade no
Castelinho e, sobretudo, que o maior índice de
fragmentos brancos também estava nesta mes-
ma residência. No total, os resultados da amos-
tra revelam que cerca de 75 (65%) fragmentos
Da força repressora à coesão sutil: a arqueologia da vila operá ria
|
Cláudia Regina Plens |
|
151
|
são louças brancas, podendo ser conseqüência |
que o mercado consumidor aumentava pro- |
||||||||||||||||||||||
|
da quebra e conservação de determinadas par- |
gressivamente, talvez na tentativa de suprir as |
||||||||||||||||||||||
|
tes brancas de alguns utensílios que apresenta- |
necessidades da população local. é importante |
||||||||||||||||||||||
|
vam decorações, ou mesmo por tratar-se de |
lembrar que os locais de fabricação de louças |
||||||||||||||||||||||
|
louça realmente branca. Devido à variedade |
estão concentrados unicamente nos bairros |
||||||||||||||||||||||
|
de decorações nos fragmentos encontrados no |
onde estavam situadas as estações ferroviárias |
||||||||||||||||||||||
|
Hotel dos Engenheiros, não foi possível detec- |
da São Paulo Railway Co. Ltd .. |
||||||||||||||||||||||
|
tar qualquer indício de “louça de hotel”, que |
|||||||||||||||||||||||
|
começou a ser produzida no final do século |
oS vIDRoS |
||||||||||||||||||||||
|
XIX para uso em espaços como restaurantes, |
Foram identificados 197 vidros prove - |
||||||||||||||||||||||
|
hotéis, forças armadas, etc. |
nientes do Castelinho, Hotel dos Engenhei- |
||||||||||||||||||||||
|
Para a realização desta pesquisa arqueoló- |
ros, Hospital, Casa dos Solteiros e Igreja. |
||||||||||||||||||||||
|
gica o aprofundamento na questão da produ- |
Suas cores variam entre transparente, bran- |
||||||||||||||||||||||
|
ção da louça, preços e processos de importa- |
co, tons de verde claro e escuro, marrom e |
||||||||||||||||||||||
|
ção, não se mostrou conveniente, contudo, |
azul. Existem, sobretudo, fragmentos de |
||||||||||||||||||||||
|
faz-se necessário enfatizar que a região circun- |
garrafas como bojo, gargalo e base de garra- |
||||||||||||||||||||||
|
vizinha à Paranapiacaba, desde o século XVIII |
fas. Devido a fragmentação da maioria das |
||||||||||||||||||||||
|
produzia itens cerâmicos e, posteriormente, |
bases e gargalos, não foi possível fazer uma |
||||||||||||||||||||||
|
veio a produzir também itens de louça. Assim |
análise de identificação mais profunda, |
||||||||||||||||||||||
|
sendo, existe a probabilidade de que, além da |
contudo, pôde-se observar que existem, |
||||||||||||||||||||||
|
aquisição de produtos importados, estivessem |
pelo menos, sete gargalos dentre outros |
||||||||||||||||||||||
|
sendo consumidos produtos de manufatura |
fragmentos vítreos. Apenas foram identifi- |
||||||||||||||||||||||
|
local, já que através da tabela 02 fica evidente |
cados 3 fragmentos de garrafas fabricadas |
||||||||||||||||||||||
|
Porcelana |
Porcelana |
Faiança Fina |
Faiança Fina |
||||||||||||||||||||
|
1 |
2 |
Branca 3 |
4 |
5 |
1 |
2 |
Colorida 3 |
4 |
5 |
1 |
2 |
Branca 3 |
4 |
5 |
1 |
2 |
3 |
ColoColorida 4 |
5 |
Total |
|||
|
Função |
– |
– |
– |
1 |
– |
– |
– |
– |
– |
– |
1 |
4 |
6 |
17 |
– |
– |
– |
– |
2 |
– |
|||
|
Prato |
– |
2 |
– |
4 |
– |
– |
– |
– |
– |
– |
1 |
1 |
4 |
8 |
– |
1 |
– |
9 |
1 |
– |
31 |
||
|
Prato (borda) |
– – |
2 |
1 |
5 |
3 |
– – |
– – |
– – |
1 |
– – |
- |
– |
1 |
6 |
1 |
1 |
– – |
– – |
2 |
- |
28 |
||
|
Prato (base) |
– |
– |
– |
– |
– |
– |
– |
– |
– |
– |
– |
– |
– |
2 |
– |
– |
– |
2 |
4 |
1 |
14 |
||
|
Xícara |
– |
– |
– |
– |
– |
– |
– |
– |
– |
– |
– |
– |
– |
1 |
– |
– |
– |
– |
1 |
3 |
9 |
||
|
Xícara (borda) |
– |
– |
– |
– |
– |
– |
– |
– |
– |
– |
– |
– |
– |
– |
1 |
– |
– |
– |
– |
– |
5 |
||
|
Xícara (asa) |
– |
– |
– |
1 |
– |
– |
– |
– |
1 |
– |
1 |
1 |
1 |
8 |
– |
– |
– |
– |
4 |
4 |
1 |
||
|
Vasilhame |
– |
– |
– |
– |
– |
– |
– |
– |
– |
– |
2 |
– |
– |
– |
– |
1 |
– |
– |
– |
– |
21 |
||
|
Pires |
– |
– |
– |
– |
– |
– |
– |
– |
– |
– |
– |
– |
– |
1 |
– |
– |
– |
– |
2 |
– |
3 |
||
|
Pires (borda) |
– |
– |
1 |
– |
– |
– |
– |
– |
– |
– |
– |
– |
– |
– |
– |
– |
3 |
||||||
|
Outros |
– |
– |
– |
– |
1 |
||||||||||||||||||
|
Total |
104 |
||||||||||||||||||||||
|
Tabela 04 : Quadro resumo da função utilitária das louças, em relação ao tipo de louça*. Legenda: 1 = Hospital; |
|||||||||||||||||||||||
|
2 = Casa dos Solteiros; 3 = Hotel dos Engenheiros; 4 = Castelinho; 5 = Igreja |
|||||||||||||||||||||||
* Para este quadro-resumo considera-se somente como louça apenas os fragmentos de maior representatividade, as porcelanas e
as faianças.
|
REVISTA DE ARQUEOLOGIA |
Volume 23 - N.2:136-155 |
- 2010 |
152
automaticamente, da cor verde-escura.
A quantidade de vidro recuperado no Cas-
telinho é superior às demais sondagens reali-
zadas na Vila de Paranapiacaba. A interpreta-
ção para esse dado é que, se nos outros
ambientes a quantidade de vidro não é tão alta
quanto no Castelinho, deve-se ao fato de uma
maior incidência na reutilização deste mate-
rial, ou a substituição deste produto por outro
de maior durabilidade. Ambos os casos mos-
tram que, apesar do vidro ter livre circulação
na Vila de Paranapiacaba, em diversas qualida-
des, o seu acesso era restrito para a maioria
das classes, sendo, preponderantemente, ad-
quirido pela família do Engenheiro Chefe.
As residências nas quais os materiais
arqueológicos foram encontrados em
maior número foram o Hotel dos Enge -
nheiros e o Castelinho, tal como está con -
tabilizado no gráfico 01. A diferença nos
resultados da análise quantitativa das
louças (tabela 06) e vidros encontrados
no Hotel dos Engenheiros e no Casteli -
nho, não se deve atribuir às sondagens
porque as escavações arqueológicas efe -
tuadas no Hotel dos Engenheiros foram
em maior quantidade e mais profundas, o
que nos indica diferenças no padrão de
consumo e/ou de descarte.
disCUssÃo
Em consideração aos nossos objetivos
iniciais, não pudemos verificar a relação
brasileiro/imigrante, nem por meio de do-
cumentos históricos nem pela arqueologia.
|
1 |
2 |
3 |
4 |
5 |
6 |
7 |
8 |
9 |
10 |
11 |
|
12 |
1 |
36 |
141 |
– |
– |
– |
– |
– |
– |
1 |
Tabela 05. Quantidade de vidros encontrados
durante as escavações arqueológicas segundo sua
localização. Legenda: 1 = Hospital I;
2 = Casa dos Solteiros; 3 = Hotel dos Engenheiros;
4 = Castelinho; 5 = Casa do Engenheiro; 6 = D.
Lúcia; 7 = Casa da Zilda; 8 = Casa do Médico;
9 = Viela; 10 = Lixão; 11= Igreja
Já a arquitetura revelou que as diferenças
na relação patrão/empregado eram estrita-
mente sociais, na qual o chefe ocupava a
melhor residência. Nesse sentido, a regra da
moral familiar era bastante importante,
pois era ela que determinava a ascensão da
residência numa ordem que começava a
partir da Casa dos Solteiros até os núcleos
familiares mais complexos. Estas determi-
nações, como tudo indica, provinham de
um pensamento social panóptico, por meio
do qual a ordem levaria a um sistema de
trabalho intenso (Foucault, 1987).
A arquitetura e urbanização da Vila de Pa-
ranapiacaba seguiam dois objetivos: permitia,
dentro de seu espaço, o exercício de todas as
atividades necessárias para a boa convivência
da comunidade e, ao mesmo tempo, exigia
novas regras de trabalho para a época. Quan-
to melhores as condições do trabalhador,
mais afinco ele teria na produção de seu tra-
balho, resultando, enfim, em lucro para a em-
presa. O trabalhador que convivia neste es-
quema de patronato sentia-se mais fiel e
responsável às regras de trabalho e, também,
|
Materiais |
Hotel dos Eng. |
Castelinho |
|
Louça |
34 |
66 |
|
Azulejo |
2 |
9 |
|
Vidro |
40 |
146 |
Tabela 06. Tabela de comparação dos materiais
de maior relevância em dois pontos da Vila de
Paranapiacaba
mais seguro quanto ao seu padrão de vida
econômico que lhe permitia acesso a inúme-
ros gêneros que antes não lhe era permitido.
O Hospital e a Igreja, dentro deste contexto,
são paliativos, são formas de “domesticação”
do corpo e da alma desta classe trabalhadora.
As diferenças são flagrantes, pois os espaços
se tornam mais hierarquizados e as funções
passam a ser desenvolvidas em espaços espe-
cíficos. Há vielas para colocação de lixo e há
Da força repressora à coesão sutil: a arqueologia da vila operá ria
|
Cláudia Regina Plens |
|
Gráfico 01. Gráfico de comparação dos materiais
de maior relevância em dois pontos da Vila de
Paranapiacaba.
Obs.: Separou-se louça de cerâmica para melhor
observação dos materiais.
Hotel dos engenheiros
Castelinho
piche para propiciar uma melhor qualidade
de vida – voltada, exclusivamente, a uma ga-
rantia de produção de força de trabalho.
Se por um lado a arquitetura explica a
relação patrão/empregado, a Arqueologia,
por meio do lixo doméstico, explica como as
regras sociais ocorriam na relação classe
alta e baixa. Dentre os vários aspectos da
investigação arqueológica, destacamos aqui
um ponto que acreditamos ser o mais im-
portante na relação dicotômica patrão/em-
pregado da Vila de Paranapiacaba, marcada
pela ausência de material arqueológico em
pontos definidos. A ausência de registros
arqueológicos nas áreas residenciais dos
trabalhadores nos diz muito sobre a estru-
turação e hierarquização da vila, pois o fato
do material arqueológico de cunho domés-
tico estar localizado, exclusivamente, em
estruturas destinadas aos engenheiros e
completamente ausentes naquelas destina -
das aos operários, nos remete à questão da
mudança comportamental entre as classes
do período escravocrata e assalariada em
conseqüência do capitalismo: a individuali-
dade (Deetz, 1977:257).
Atribuída às famílias do século XIX, a indi-
vidualidade é o modo pelo qual a classe alta
separa um grupo que, antes, coeso pela sen-
153
zala, se corporifica e age cada vez mais em
prol de seus ideais – embora ainda haja a dis-
tância sócio-econômica -, o operariado. Neste
caso, é importante lembrar que não se trata
do mesmo grupo que teria passado da escra-
vidão para o trabalho assalariado, mas nesta
sociedade onde os trabalhadores eram os ne-
gros/escravos e passam rapidamente a ser
substituídos pelos brancos/operários, onde as
relações sociais são da mesma ordem. Neste
contexto, deve-se pensar que, se no regime
escravista as diferenças entre senhor e escra-
vos era declarada, neste novo comportamento
social as diferenças são mais sutis. Estas dife-
renças passam não apenas pela aquisição de
novos bens, mesmo porque os operários tam-
bém estão adquirindo bens (mesmo que de
menor qualidade), mas pela forma de utiliza-
ção destes. Neste contexto entram as regras de
etiqueta, que uma determinada parcela da
sociedade tem e outra não. A aquisição de
produtos de valores diferentes, bem como a
sua utilização dentro do padrão aceito pela
sociedade da época, separa as classes alta e
baixa e, neste caso, as louças de mesa forne-
cem subsídios de como a sociedade estava se
adaptando a estas possibilidades de etiqueta e
comportamento social. Portanto, a individua-
lidade “de classe” adquire novos condicionan-
tes, incluindo objetos e comportamentos (An-
drade Lima, 1995; Andrade Lima, 1997).
Se por um lado existe a diferença de indi-
vidualidade entre trabalhadores escravo/as-
salariado, por outro, existe uma semelhança
quanto ao processo de descarte de lixo do-
méstico. A freqüência em que o lixo domés-
tico aparece no espaço ocupado pela classe
mais abastada e a constatação da ausência
de material nas classes menos privilegiadas
na Vila de Paranapiacaba, faz-nos associar
esta pesquisa com o trabalho de Andrade
Lima (et alii, 1989), sobre os sintomas do
modo de vida burguês no Vale do Paraíba, no
século XIX. Neste estudo da Fazenda São
|
REVISTA DE ARQUEOLOGIA |
Volume 23 - N.2:136-155 |
- 2010 |
154
Fernando, em Vassouras, RJ, os resultados
obtidos através da investigação da cultura
material dos segmentos subalternos (os es-
cravos) e dos dominantes (o senhor e sua
família) mostram que não foram recupera-
dos vestígios arqueológicos na área da sen-
zala, além dos materiais construtivos, e a
concentração de vestígios na área da casa
grande, portanto um padrão similar ao visto
nas casas de da Vila de Paranapiacaba.
A análise dos fragmentos recuperados nos
locais de maior prestígio na Vila de Parana-
piacaba, por sua vez, nos leva a interpretar os
dados de maneira mais minuciosa. A freqüên-
cia com que o material vítreo aparece no Ho-
tel dos Engenheiros pode estar relacionada a
uma maior reutilização deste material, prin-
cipalmente, as garrafas, o que é lógico para
um ambiente onde, devido ao número de pes-
soas que freqüentam um hotel ser muito su-
perior aos de uma residência, a dinâmica de
reposição e reutilização de material, visando
o lucro, deve ser mais ampliada.
Quanto à louça do hotel dos Engenheiros,
pudemos notar que neste edifício a diversi-
dade de fragmentos é maior em relação ao
Castelinho. A interpretação neste caso, é que
num ambiente onde as pessoas se estabele-
cem por apenas um período e não se reúnem
todos numa única mesa, não há a necessida-
de de um jogo de louça no mesmo padrão de
decoração. Não havendo, desta maneira, a
necessidade de uma mesa harmônica, como
requeriam as cerimônias do final do século
XIX. Fato que não ocorreria numa mesa
mais suntuosa, tal como no Castelinho, cujo
lixo doméstico apresentou, além de alguns
fragmentos com diferentes decorações, lou-
ça branca em maior quantidade e em dife-
rentes peças, nos levando a pensar na possi-
bilidade de representarem jogos de louça
branca, como de requinte em determinadas
épocas, como bem apontado por Andrade
Lima (1997:115).
A leitura da paisagem da Vila de Parana-
piacaba, desde os artefatos arquitetônicos até
o lixo doméstico, nos permite visualizar um
panorama onde a força repressora dá lugar à
coesão sutil. Tanto na arquitetura quanto nos
produtos domésticos há a legitimação das di-
ferenças sociais. Neste contexto, o que contro-
lava o indivíduo era o olhar da sociedade. A
sua residência, bem como seus objetos, rela-
cionada à sua postura em relação a eles, o
identificava quanto a sua posição social. Seu
mérito dentro da sociedade dependia, direta-
mente, da avaliação do seu comportamento
por outros indivíduos.
Agradeço a Professora DrªMargarida Da-
vina Andreata, Ana Cristina de Sousa, Rosana
Najjar e Carolina Kesser, Lucas Bueno pelos
conselhos, críticas e revisão. E a Fundação de
Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo,
FAPESP, pelo incentivo à pesquisa.
Da força repressora à coesão sutil: a arqueologia da vila operá ria
|
Cláudia Regina Plens |
|
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REVISTA DE ARQUEOLOGIA |
Volume 23 - N.2:136-155 |
- 2010 |
|||
Rafael Corteletti. Porto Alegre: nova Prova Editora, 2008. 199p. ISbn 9788589344456.
Resenha por francisco Silva noelli, Prof. Aposentado da Universidade Estadual de maringá, Paraná.
Qual o destino dos sítios arqueológicos
quando uma pesquisa é concluída no Bra -
sil? Poucos entre milhares passaram efeti -
vamente a ser preservados e transforma -
dos em tema de amplo (re)conhecimento
público e pesquisa continuada. O esqueci -
mento e o abandono foi o destino da maio -
ria. A destruição, total ou parcial, pelos mais
diversos meios, também foi o que aconte -
ceu com uma quantidade desconhecida de
sítios arqueológicos país afora. Todavia,
existe uma parcela da comunidade de ar -
queólogos brasileiros – acadêmicos, fun -
cionários do IPHAN e de outros órgãos
públicos, de ONGs e do setor privado –, bus -
cando alternativas para solucionar a des -
truição do patrimônio arqueológico no
Brasil, uma tarefa gigantesca.
O consenso internacional indica que a
principal solução é a publicação dos dados
de pesquisa e do sítio arqueológico e a pro-
gramação de ações que ativem a atuação da
sociedade civil organizada em programas
como a AGENDA 21. é o meio mais próxi-
mo da transparência e da ética aliadas com
a ciência, como ferramenta de trabalho da
gestão do patrimônio arqueológico. Junto
com elas, a construção de relações simétri-
cas em nível local, envolvendo as comuni-
dades, os pesquisadores, o IPHAN, o Minis-
tério Público e os três níveis de Poder
Executivo, para tomar decisões sobre o des-
tino dos sítios arqueológicos.
O livro de Rafael Corteletti é um exem -
plo relevante, que merece ser seguido quan -
do se trata de sítios arqueológicos. Espe -
cialmente quando apresenta a localização
e o estado de conservação, relatando te -
mas científicos com linguagem despida de
jargões, cumprindo o objetivo de atrair e
informar o público não acadêmico. Sua
abordagem mostra o que aconteceu com
os sítios ao longo de 40 anos, desde os pri -
meiros trabalhos de Fernando La Salvia e
Pedro Inácio Schmitz em 1966, até Corte -
letti e seus colegas retornarem em 1999,
2000 e 2006.
Os sítios são apresentados individual-
mente, através de um memorial descritivo
das evidências arqueológicas, principal -
mente das estruturas subterrâneas, dos
abrigos sob rocha e dos montículos, da sua
quantidade e dimensões, do seu estado de
conservação e da distância de outros sítios.
A maioria dos cadastros de 1966 finalmente
recebeu sua coordenada geográfica. Todos
os dados quantitativos aparecem em diver-
sas tabelas e gráficos. Várias fotos mostram
aspectos dos sítios e das pesquisas em 1966
e 1999-2000, 2006. Diversos mapas contex-
tualizam a área piloto da pesquisa, muitos
deles vêm acompanhados de tabelas e grá-
ficos de diversas informações, desde a rela-
ção entre sítio e proprietário atual do terre-
no, até a relação entre índices de preservação
e destruição. Croquis dos sítios também
ilustram o livro e mostram aspectos espa-
ciais das estruturas. Desenhos em perspec-
tiva e fotos panorâmicas mostram a inser-
ção dos sítios. Algumas fotos mostram o
estado atual dos sítios, inclusive de um
aproveitado como lixeira (foto 27). Tabelas
com as datações informam sobre a cronolo-
gia da ocupação regional. Também foram
realizadas diversas análises comparadas
sobre as estruturas subterrâneas.
Corteletti complementa a descrição da
inserção dos sítios com várias informações
sobre o contexto ambiental da área piloto.
Com o objetivo de relatar os processos de
transformação da paisagem e dos seus im-
pactos sobre os sítios, sobretudo o desmata-
mento, apresenta um capítulo sobre o pro-
cesso de ocupação européia da região da
pesquisa, a partir do século 18, com a distri-
buição de sesmarias pelo governo colonial
aos “lusitanos” e seus escravos. Depois trata
da instalação de imigrantes, principalmen-
|
REVISTA DE ARQUEOLOGIA |
Volume 23 - N.2:156-159 |
- 2010 |
158
te, italianos. é uma parte importante, pois
mostra com clareza como as serrarias, la-
vouras e a implantação da malha urbana e
das vias públicas, afetaram os sítios arque-
ológicos. O autor mostra qual foi a relação
dos italianos, dos lusos e descendentes com
a preservação/destruição dos sítios, em fun-
ção dos tipos de exploração econômica. Nas
terras dos italianos 19% estão preservados e
35% alterados, enquanto que os lusos pre-
servaram 36% e alteraram 46%, e Corteletti
ressalta que seu objetivo não é “condenar
ou isentar quem quer que seja”, mas verifi-
car os efeitos dos modelos de colonização
sobre a degradação dos sítios arqueológi-
cos. Com efeito, o balanço geral é alarman-
te: 39,5% dos sítios foram destruídos e 37,5%
estão seriamente ameaçados. O patrimônio
arqueológico registrado da região de Caxias
do Sul está por um fio e o livro é um diag-
nóstico que precisa ser debatido, para deci-
dir qual o destino dos sítios restantes.
Outro aspecto que o livro revela, que de
certa forma ocorre desde a pesquisa de 1966,
é a relação positiva dos pesquisadores com a
comunidade. Por todo o livro, especialmente
quando os sítios são descritos, a comunidade
aparece representada por diversos persona-
gens, a maioria interessada em colaborar
com a pesquisa. O autor faz um balanço so-
bre o problema da destruição e reflete sobre
a necessidade de “vestir a camiseta” da pre-
servação e da busca de alternativas.
Por fim, algumas palavras a respeito da in-
terpretação dos dados de Caxias do Sul como
tradição arqueológica. Trata-se do calcanhar
de Aquiles da arqueologia brasileira, que não
é exclusivo de Corteletti, que se posicionou as-
sim nas conclusões sobre os sítios arqueológi-
cos: “O que se sabe, de concreto, é a ligação
com o Tronco Jê. Daí em diante, surge uma
série de especulações e hipóteses que tentam
atrelar os construtores do planalto com as po-
pulações Kaingang”. Corteletti sugere de for-
ma acertada, que o estabelecimento de uma
relação de continuidade entre os contextos
arqueológicos e históricos “deve ser uma ob-
sessão”. Porém, como autor de trabalhos dedi-
cados a revisar as interpretações dos arqueó-
logos sobre o caso dos Jê do sul, publicados
antes de 2008, não posso concordar com a
afirmação de que o estado da arte esteja ape-
nas em nível de “especulação e hipóteses”. Pri-
meiro, Corteletti ignora solenemente análises
dedicadas “obsessivamente” a examinar os
problemas de pesquisa das Tradições Taquara
e Itararé, especialmente da minha avaliação
detalhada sobre todas as interpretações arque-
ológicas que trataram da continuidade entre
essas tradições e os Jê do sul. Segundo, ele pre-
feriu seguir a linha do PRONAPA, que não teve
por objetivo examinar o tema da continuidade
e passou os últimos 40 anos sem refletir sobre
os processos da longa duração dos Jê do sul,
problemática que eu também analisei com
cuidado e de modo muito circunstanciado.
Terceiro, ao seguir essa linha também deixou
de lado uma série de historiadores, antropólo-
gos e lingüistas que publicaram estudos que
contextualizam de forma cabal a presença dos
Jê do sul, especialmente dos Kaingang, em to-
dos os territórios onde são encontradas estru-
turas subterrâneas. Quarto, quando trata da
ocupação do sul do Brasil pelos Jê, Corteletti
escreveu que “acredita-se numa possível liga-
ção com povos da chamada Tradição Una”.
Novamente desconheceu a detalhada análise
que publiquei sobre o processo de ocupação
do sul do Brasil, comparando estudos de lin-
güistas e arqueólogos. Também não citou a
tese de José Brochado, autor da mais ampla e
detalhada pesquisa sobre as relações entre as
cerâmicas da Tradição Una e das Tradições
Itararé e Taquara.
Corteletti não é obrigado a citar as mi-
nhas publicações ou a tese de Brochado.
Todavia, como ele se apresentou a um cam-
po científico composto de várias perspecti-
|
Patrimônio Arqueológico de Caxias do Sul |
Resenha por Rafael Corteletti |
159
vas e linhas de pesquisa, deveria no mínimo
ter justificado uma razão para não concor-
dar ou não considerar nossas abordagens e
conclusões. Especialmente a famosa tese de
Brochado, um divisor de águas da arqueolo-
gia brasileira. Talvez seja por causa da linha
de pesquisa da instituição onde Corteletti
fez seu mestrado, origem do livro, o Institu-
to Anchietano de Pesquisas da UNISINOS,
que mantém basicamente a mesma posição
desde o final da década de 1960, centrada na
catalogação e descrição. A análise e a inter-
pretação movida por problemas da teoria
arqueológica e antropológica não está pre-
sente, na espinha dorsal dos inúmeros e im -
portantes projetos conduzidos pelo Anchie-
tano. O fato é que a interpretação de dados
tão bem coletados perdeu espaço neste rele-
vante livro, cujo maior mérito é oferecer
informações úteis e decisivas para a gestão
do patrimônio arqueológico.
Finalmente, o título do livro destoa dos
debates contemporâneos sobre patrimônio
cultural. Tem sido cada vez mais freqüente
que arqueólogos, no Brasil, intitulem seus
livros, pomposamente, como patrimônio
arqueológico de tal ou qual região. Contudo,
o que notabiliza o debate contemporâneo
internacional é a definição de patrimônio
como categoria de pensamento e ação polí-
tica, e não como um dado em si, a depender
exclusivamente de um cientista – ou de um
arqueólogo e sua equipe – para conceituá-lo
e protegê-lo. Patrimônio cultural, na acep-
ção contemporânea, é uma categoria que
envolve, por um lado, o conjunto de repre-
sentações culturais dos diversos grupos so-
ciais de um contexto dado, considerando-se,
inclusive, os próprios arqueólogos, cujas
noções e definições nunca estão isentas de
políticas e critérios culturais sobre a paisa-
gem; de outro, instituições variadas, como
as comunidades científicas, ONGs, univer-
sidades, comunidades locais e os dispositi-
vos da legislação. Os arqueólogos brasilei-
ros, no geral, passam, lamentavelmente, ao
largo dessa definição mais ampla e infor-
mada sobre patrimônio arqueológico. O li-
vro de Corteletti não é exceção. Uma coisa é
estudar para delinear políticas de proteção
aos sítios arqueológicos, função muito bem
realizada por Corteletti; outra, muito distin-
ta, é, de saída, definir o conjunto de sítios de
uma região como patrimônio, desconside-
rando-se a riqueza e sofisticação contempo-
râneas dos debates sobre patrimônio cultu-
ral. Ainda assim, os agentes dos órgãos
públicos, os arqueólogos e a sociedade civil
organizada, dispõem no livro de Corteletti,
de um diagnóstico efetivo para definir suas
pautas de trabalho em defesa dos sítios ar -
queológicos da região de Caxias do Sul.
|
REVISTA DE ARQUEOLOGIA |
Volume 23 - N.2:156-159 |
- 2010 |
Rogério tobias Junior mestre em Antropologia pelo Programa de Pós Graduação em Antropologia da fAfICH/UfmG. Pesquisador colaborador do setor de Arqueologia do museu de História natural da UfmG.
|
A dissertação de mestrado enfoca a |
anteriores para a arte rupestre da região |
||
|
arte rupestre de sete sítios pré-históricos |
de Jequitaí, que alegam certo “caráter |
||
|
localizados no trecho médio-baixo da ba - |
transicional” nos conjuntos gráficos lá |
||
|
cia do rio Jequitaí, localizada no norte de |
observados, determinados por fatores |
||
|
Minas Gerais. Ela privilegia uma análise |
ambientais distintos atuantes nos mes - |
||
|
estilística dos conjuntos gráficos em bus - |
mos locais: a presença de diferentes lito - |
||
|
ca da construção de um quadro cronoes - |
logias que levou à caracterização da re - |
||
|
tilístico micro regional e sua comparação |
gião como local de transição geoestrutural, |
||
|
com regiões vizinhas, já pesquisadas por |
o desenvolvimento de diferentes fitofisio - |
||
|
outros arqueólogos. O método de classifi - |
nomias (cerrado e caatinga, principal - |
||
|
cação adotado procura integrar diferentes |
mente) e diferentes influências climáti - |
||
|
variáveis do registro gráfico e da paisa - |
cas. A conclusão do trabalho busca uma |
||
|
gem ampliando as possibilidades de asso - |
interpretação para a variabilidade dos |
||
|
ciação estilística para além dos limites |
grafismos e dos padrões de escolha, fun - |
||
|
impostos pela simples análise formal das |
damentada na possibilidade de intercâm - |
||
|
figuras e incorporando possibilidades |
bio de repertórios gráficos identificáveis |
||
|
efetivas de identificação dos padrões de |
na região da pesquisa. A Interseção esti - |
||
|
escolha envolvidos no ato de grafar. Neste |
lística, mais do que a transição, foi efeti - |
||
|
sentido, é de fundamental importância a |
vamente observada entre as Unidades Es - |
||
|
discussão sobre o conceito de paisagem e |
tilísticas descritas regionalmente, que |
||
|
o estabelecimento de uma compreensão |
apresentam comportamentos peculiares |
||
|
das relações estabelecidas entre os seres |
quando comparados a seus correspon - |
||
|
humanos e aquela paisagem específica. |
dentes em outras regiões, destacadamen - |
||
|
Tal abordagem foi escolhida levando em |
te os grafismos atribuíveis à Tradição São |
||
|
consideração a existência de hipóteses |
Francisco e Planalto. |
||
|
REVISTA DE ARQUEOLOGIA |
Volume 23 - N.2:160-161 |
- 2010 |
|
myrtle Shock University of California, Santa barbara, EUA.
A tese de doutorado “Holocene hunter-
-gatherer plant use and foraging choice: a
test from Minas Gerais, Brazil” foi realizada
na University of California, Santa Barbara
EUA, sob a orientação de Michael Jochim. O
foco da tese envolve uma abordagem paleo-
etnobotânica sobre o período em que plan-
tas domesticadas foram introduzidas no
cerrado brasileiro. Além disso a pesquisa
complementou os trabalhos sobre outros
elementos de cultural material da região,
que vem sendo desenvolvidos nas áreas
pesquisadas.
Durante a escavação de sítios arqueoló-
gicos em abrigos secos do norte de Minas
Gerais foram coletados inúmeros vestígios
botânicos. A tese apresenta uma analise sis-
temática e diacrônica destes vestígios com a
finalidade de gerar uma reconstrução da
alimentação pré-histórica. O foco temporal
foi a subsistência durante o Holoceno re-
cente. Em dois sítios, Lapa dos Bichos e
Lapa Pintada, localizados na região norte de
Minas Gerias (respectivamente no vale do
Peruaçu e no município de Montes Claros)
plantas domesticadas e comestíveis foram
identificadas e coletadas nos depósitos ar-
queológicos. No sítio Lapa dos Bichos milho
(zea mays) e mandioca (Manihot esculen-
ta) foram encontrados pela primeira vez em
estrato arqueológico datado entre 2.000 e
750 AP. No estrato datado entre 750 e 150 AP
abobora (Cucurbita sp.) e feijão (Phaseolus
sp.) também foram encontrados. Alem de
plantas comestíveis e domesticadas a pes-
quisa registrou frutos nativos e várias ou-
tras plantas nos sítios estudados. Em suma
822 tipos morfológicos de vestígios de se-
mentes e frutas foram recolhidos em penei-
ras com malhas de dois milímetros ou
maior. Destes, 98 tipos foram identificados.
Nas amostras foram encontradas plantas
163
nativas comestíveis como coquinhos (Sya-
grus olearus), maracujá (Passiflora sp.), ja-
tobá (Hymenaea sp.), umbu (Spondias tube-
rosa), e pequi (Caryocar brasiliensis).
A análise de vestígios botânicos prove-
nientes da Lapa dos Bichos e da Lapa Pinta-
da foi utilizada para abordar varias ques-
tões. Nos estratos componentes desses
sítios, numerosas sementes e frutos foram
encontrados em feições espacial e estrutu-
ralmente definidas, apresentando bom esta-
do de preservação. Com base na forma e
composição dessas feições concluimos que
sua função esteve relacioanda a áreas de
aúmulo de lixo.
Além das feições, nos dois sítios foram en-
contrados vestígios botânicos ao longo dos
estratos arqueológicos. Embora os vestígios
dos estratos inferiores não estejam tão bem
preservados quanto os dos estratos superio-
res, a preservação em si não ofusca os pa-
drões de mudança na alimentação relaciona-
dos ao comportamento humano. O registro
arqueológico indica que a introdução de espé-
cies domesticadas não ocorreu em um único
momento, mas sim, que, ao invés disso a in-
trodução é caracterizada por uma variação
cronológica na utilização das espécies.
Considerado em conjunto com os resul-
tados de outros projetos de pesquisa, obser-
vou-se que as plantas domesticadas se espa-
lharam por um processo de difusão
tecnológica e não de forma ordenada pela
expansão populacional em grande escala.
As previsões dos modelos da teoria de forra-
geiros para mudanças na cadeia alimentar
associadas com a introdução de plantas do-
mesticadas não encontram base no registro
arqueológico dos sítios estudados. A diversi-
dade de plantas nativas comestíveis aumen-
tou ao lado dos aumentos no numero de
espécies domesticadas utilizadas.
|
REVISTA DE ARQUEOLOGIA |
Volume 23 - N.2:162-163 |
- 2010 |
Rafael Corteletti. Doutorando em Arqueologia no museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de São Paulo (mAE-USP), bolsista CnPq. E-mail: rafacorteletti@hotmail.com. Endereço: Avenida venâncio Aires 70/405, bairro Cidade baixa, Porto Alegre, RS, brasil, CEP 90040-190.
Não posso negar que Noelli foi bastante
crítico em sua resenha. Lembro muito bem
do momento em que estava redigindo as pas-
sagens que foram comentadas por ele com
tanto vigor. Eu estava processava uma grande
quantidade de dados numéricos que compõe
o capítulo de distribuição e implantação dos
sítios e quiçá posso ter construído uma inter-
pretação arqueológica discutível. Diria que
em momentos de grande produção, por vezes,
ficamos meio cegos. Enfim, hoje sei que, infe-
lizmente, esqueci muitos autores e não tratei
determinadas abordagens. Mas, exatamente
por saber disso, atualmente oriento meu tra-
balho no sentido de contemplar uma série de
questões que deem conta da multiplicidade de
estórias-até-agora dos Jê Meridionais.
Mas o objetivo principal dessa publicação
não foi abordar as origens desse povo, mas
sim falar da conservação de sítios arqueológi-
cos. O estudo de caso é Caxias do Sul, mas falo
do Brasil e dos desafios da Arqueologia Brasi-
leira. é bom citar que a obra nasceu, ainda em
2006, de uma dissertação de mestrado intitu-
lada “Casas Subterrâneas em Caxias do Sul:
Conservação, Distribuição e Implantação”.
Em 2007 o texto foi premiado num concurso
municipal chamado Fundoprocultura. Se-
gundo a comissão de avaliação e seleção ele
seria publicado com a condição de que o tom
acadêmico fosse esmaecido. Dessa forma
adaptei o texto para deixá-lo mais leve e dinâ-
mico e redigi de tal maneira que fosse possí-
vel a um leigo a compreensão absoluta da te-
mática arqueológica e, principalmente, da
temática conservacionista. Assim, com novo
título e remodelado, em 2008, lancei a obra
com um objetivo acima de tudo educativo.
Com financiamento da Prefeitura Municipal
de Caxias do Sul, através do Fundoprocultura,
foi feito um “convite à arqueologia”.
Portanto, o uso da palavra patrimônio no
título não teve objetivos pomposos, muito pelo
contrário, foi pragmatismo puro. Indepen-
165
dente do que se debate na esfera internacional
eu precisava convencer a opinião pública e o
pequeno produtor rural de Caxias do Sul de
que os “buracos de bugre” ou as grutas com
sepultamento tinham um valor imensurável
para toda a sociedade caxiense e, por exten-
são, à brasileira. Precisava despertá-los para a
necessidade de manter a mata no entorno dos
sítios em pé, precisava alertá-los de que o me-
lhor lugar para a produção de tomates não
era exatamente onde os sítios estavam
...
Por
isso o nome do livro tornou-se “Patrimônio
Arqueológico de Caxias do Sul” diferente da
dissertação de mestrado que, convenhamos,
tem um título que não chama a atenção de
mais do que 20 ou 30 arqueólogos, que dirá de
uma comunidade que, como Noelli muito
bem apontou, criou um cenário alarmante no
que se refere à conservação dos sítios. Com
esse título eu disse à comunidade que os sítios
têm valor e que é ela, em última instância, que
detém a responsabilidade por sua conserva-
ção ou não. Em momento algum o trabalho
foi direcionado no sentido de policiar as atitu-
des e elencar boas ou más ações dos indivídu-
os ou estabelecer o que deve ou não ser valo-
rizado enquanto bem cultural. Orientei o
trabalho no sentido de incorporar os sítios
arqueológicos à vida das comunidades (rural
e/ou urbana) e dessa forma produzir uma re-
flexão sobre as facetas da história daqueles
locais. Desde o tempo-espaço em que os sítios
eram habitados pelos Jê, passando pela che-
gada das famílias de colonizadores europeus,
pelas memórias das pesquisas e das pessoas
dos anos 60 e chegando até hoje quando al-
guns sítios já estão fisicamente apagados e
outros ainda não.
O livro é na verdade um catálogo atualiza-
do das condições em que se encontra a maior
parte dos sítios arqueológicos no município
– já que após a publicação outros sítios já fo-
ram detectados. Em determinados momentos
o tom é de denúncia pelo patrimônio destruí-
|
REVISTA DE ARQUEOLOGIA |
Volume 23 - N.2:164-167 |
- 2010 |
166
do e o estado em que se encontra o conserva-
cionismo arqueológico no Brasil, em outros o
tom é de paixão pelo patrimônio e a paisagem
em que esses assentamentos se inserem. E
permeia em todo o texto a ideia de que é o
indivíduo que vai preservar ou destruir esse
patrimônio, e por isso, é o indivíduo, em últi-
ma instância, que precisa ser informado para
que “a marcha destrutiva e silenciosa que
ocorre dia-a-dia sobre este patrimônio cultu-
ral e instrumento de trabalho” de inúmeros
profissionais deixe de ocorrer. Assim sendo,
como contrapartida à publicação da obra,
uma série de atividades de educação patrimo-
nial e arqueologia pública foram realizadas.
Durante 30 dias a mostra “Fragmentos da
História”, com as peças arqueológicas que es-
tavam há mais de 30 anos na reserva técnica
do Museu Municipal, recebeu mais de 1.500
visitantes. Antes disso, a exposição perma-
nente começava sua narrativa com a funda-
ção da colônia italiana, mas agora o passado
indígena também faz parte do contexto muse-
alizado. Cada escola do Município (das redes
municipal, estadual e privada) recebeu um
exemplar (num total de 300 livros doados) e
professores assistiram palestras sobre o tema.
Junto disso, no primeiro trimestre de 2009,
num novo desdobramento provocado pelas
vontades locais, foi dada a largada experi-
mental para aquilo que hoje já é mais uma
atividade de desenvolvimento sustentável: o
turismo arqueológico.
Imbuído da ideia de que o Patrimônio Ar-
queológico é integrado tanto por bens mate-
riais como pelas informações que dele pode-
mos aferir como, por exemplo, a implantação
geográfica, a ocupação do espaço e as confi-
gurações ecológicas escolhidas pelas popu-
lações pretéritas, foi selecionado um sítio de
beleza cênica impar localizado na comuni-
dade da Criúva. Para lá durante os anos de
2009 e 2010 foram levadas mais de 500 pes-
soas em grupos que variam em número: des-
de famílias com 4 ou 5 pessoas até grupos de
30 ou mais em ônibus escolares. Muitos não
sabiam da existência de tal patrimônio e fica-
ram impressionados com o que viram. Al-
guns professores das escolas da região rela-
taram total desconhecimento deste
patrimônio. De certa forma, 500 pessoas não
parece um grande número, principalmente,
se comparado aos visitantes de sítios como a
Missão de São Miguel Arcanjo, por exemplo.
Mas o fato é que esta atitude é um embrião
que explora as potencialidades locais e gera
sustentabilidade – apesar de não existir qual-
quer tipo de infraestrutura criada para visi-
tação ou divulgação em mídia. Enfim, de-
pois de 40 anos de esquecimento, cooptamos
multiplicadores do conhecimento dessa ri-
queza cultural para que a arqueologia e o
passado indígena desabrochassem nova-
mente. O resultado é o trabalho de guias de
turismo da própria comunidade instruídos
arqueologicamente e dispostos a informar
que eles são os agentes diretamente respon-
sáveis pela conservação dessa memória e
promoção desse patrimônio.
Por tudo isso, creio que Noelli se enga -
na ao comentar que o livro não trata o pa -
trimônio como “uma categoria de pensa -
mento e ação política”. Como Noelli se
notabiliza por ser um grande debatedor
teórico-conceitual, é compreensível que
sua leitura observe o quanto o livro con -
templa a base epistemológica das agendas
internacionais. Entretanto, apesar de No -
elli discordar, o livro cumpre sim – mes -
mo que incipientemente – a função de ar -
ticular elementos para a compreensão do
“conjunto de representações culturais dos
diversos grupos sociais de um contexto
dado”, na medida em que seu objetivo
central é o exercício do diálogo, em pri -
meira instância, com os grupos sociais da
comunidade de Caxias do Sul – e quiçá da
brasileira – para alavancar o despertar de
|
Diálogo com Francisco Noelli a respeito da resenha para o livro "Patrimônio Arqueológico de Caxias do Sul"
|
Rafael Corteletti |
|
uma prática conservacionista. E realmen -
te, minhas “noções e definições” não “es -
tão isentas de políticas e critérios cultu -
rais sobre a paisagem”, pelo simples fato
de que além de ser arqueólogo sou um
membro da comunidade. Sou mais um da -
queles que tanto entrevistei em Caxias – e
continuo entrevistando em outros locais
– que lembram com nostalgia das brinca -
deiras de infância dentro das enormes
crateras que ninguém sabia o que eram ...
No meu caso a nostalgia é maior ainda, já
que o sítio que tanto brinquei, anos depois
cedeu lugar às ruas de um novo bairro,
talvez ao mesmo tempo em que, numa
universidade a 300km dali, eu descobria o
que as tais crateras significavam. Nesse
sentido, a paisagem é um elemento ativo
nas ações humanas, ela nutre e é nutrida
pelas interações sociais como um conjun -
to de formas que em dado momento expri -
mem memórias socialmente construídas
– como as minhas.
Em linhas gerais nas Ciências Humanas
gostamos muito debater sobre a construção
do conhecimento, às vezes falando da socie-
dade, mas, infelizmente, à parte dela. Alguns
arqueólogos, nesse sentido, esquecem que
vários sítios arquelógicos, nossa matéria-pri-
ma de discussão, estão sendo descartados
cotidianamente. Há o descarte inconsciente,
por indivíduos que desconhecem totalmente
o que é um sítio arqueológico e o destroem
por ignorância. Há, também, o descarte leva-
do a cabo conscientemente por indivíduos
que precisam obter renda – como é o caso
dos vendedores de terra preta dos cerritos da
Praia do Laranjal, entre tantos outros exem-
plos. E não podemos esquecer, nesses tempos
de desenvolvimentismo acelerado, que há o
descarte legalizado de sítios através da práti-
ca do “resgate” ou “salvamento”. A coleção
arqueológica é salva ou resgatada, mas per-
de-se o sítio arqueológico, perde-se o lugar e
167
todo o simbolismo que ele poderia expressar
se fosse conservado. Não estou demonizando
a arquelogia empresarial, não é isso. Afinal,
sabemos que a Arqueologia Brasileira vem
sendo impulsionada pelas grandes obras de
infraestrutura dos últimos anos de tal forma
que novas graduações estão aí para suprir a
demanda de profissionais. O que questiono,
com esse comentário, é a ação de órgãos go-
vernamentais e arqueólogos no processo de
decisão daquilo que é relevante e deve ser
“salvo” e daquilo que não é relevante e, dessa
forma, nem “salvo” precisa ser. Será que nos-
sos profissionais trabalhando em ritmo in-
dustrial e, por vezes, com métodos de pros-
pecção pouco sistemáticos realmente
conseguem medir a relevância de um bem
cultural? Além disso, questiono qual é o nos-
so papel como produtores e disseminadores
de conhecimento? Questiono a validade da
produção de conhecimento que não vai além
dos debates do próprio grupo que o gerou?
Afinal, temos em nossas mãos um objeto de
pesquisa que seduz as pessoas, ou uma gran-
de parcela delas. Temos de usar esse objeto a
nosso favor e tornar a arqueologia mais po-
pular, mais pública e assim disseminar o
conservacionismo do patrimônio arqueológi-
co e, em última instância, evitar o descarte
dos lugares, o descarte dos sítios arqueológi-
cos para que as pesquisas de hoje e do futuro
possam ser desenvolvidas.
Em síntese, concordo com Noelli quando
ele diz que devemos buscar arqueologica-
mente as diferenças que vemos etnologica-
mente entre os Kaingang e os Xokleng, por
mais complicada que essa tarefa seja. E
mais, devemos investigar as origens dos Jê
Meridionais para ilustrar a emergência da
complexidade social desses grupos. Mas,
não podemos nos furtar de lutar pela con-
servação dos sítios arqueológicos, já que são
eles que nos darão as pistas para elucidar
nossas problemáticas.
|
REVISTA DE ARQUEOLOGIA |
Volume 23 - N.2:164-167 |
- 2010 |
ob JE tI vo S E PERI o DICIDADE |
a opção de assinar ou não seu parecer. No- |
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A Revista de Arqueologia é um veículo |
tas, resumos de dissertações de mestrado e |
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de teses de doutorado, resenhas e documen- |
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leira (SAB) e destina-se à publicação de tra- |
tos inéditos serão submetidos à apreciação |
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balhos que possam contribuir para o apro- |
da Comissão Editorial e do Conselho Edito- |
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fundamento e a socialização de |
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conhecimentos científicos sobre temas rela- |
tos para publicação deverão estar de acordo |
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tivos à Arqueologia Brasileira e seus cam- |
com as especificações que se seguem: |
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pos interdisciplinares. Ela tem como priori- |
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dade a divulgação dos trabalhos nacionais |
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mais expressivos nesta área de conheci- |
gens teórico-metodológicas referentes à Ar- |
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mento, bem como de artigos de pesquisado- |
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nalmente poderão ser aceitos trabalhos |
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Arqueologia, bem como as datas de fecha- |
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mento de cada edição, são definidos pela |
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Comissão Editorial da SAB, composta por |
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sobre determinada temática de valor cientí- |
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mente publicadas no país e no exterior, de |
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interesse para a Arqueologia, com no máxi- |
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elaborados em português, espanhol, francês |
mo 2.000 palavras. |
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e inglês. No caso específico de artigos origi- |
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nais e artigos de revisão ou atualização, es- |
IV. Resumos de dissertações de mestrado e de |
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tes somente serão aceitos após serem sub- |
teses de doutorado defendidas nos últimos |
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metidos à apreciação de pelo menos dois |
dois anos sobre temática arqueológica ou |
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revisores ou pareceristas. A identificação do |
sobre assunto de interesse à arqueologia, |
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parecerista é opcional, cabendo a cada um |
devendo ter entre 500 e 2.000 palavras. |
V. Notas que consistem em textos curtos, nas
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minares de pesquisas em andamento ou co-
mentários e críticas à artigos e resenhas
publicados na Revista de Arqueologia, de-
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VI. Documentos inéditos transcritos ou re-
produzidos, de interesse para a história da
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Editorial.
I. Os trabalhos deverão ser acompanhados,
obrigatoriamente, de resumo em português
(que não exceda 120 palavras) e resumo em
inglês fiel ao resumo em português, e igual-
mente de três palavras-chaves para indexa-
ção da revista.
II. Ao título do trabalho seguir-se-á(ão) o(s)
nome(s) do(s) autor(es). No rodapé serão
mencionados a(s) instituição(ões) em que o
artigo foi elaborado, endereço completo
para correspondência e, sendo necessário, a
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qual(is) foram obtidos os auxílios relativos
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III. Os trabalhos deverão ser elaborados se-
guindo estritamente a seguinte ordem: Títu-
lo, autor(es), resumo, palavras-chave, abs-
tract, key-words, informações sobre o(s)
autor(es) em nota de rodapé; Texto; Agrade-
cimentos; Referências bibliográficas.
IV. Os originais devem ser encaminhados
anexados a mensagens eletrônicas para re-
vistadearqueologia@gmail.com. O texto
deve ser digitado através de editor compatí-
169
vel com Word for Windows em folha A4,
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reita não justificada, fonte Arial, tamanho
11, com páginas numeradas sequencial -
mente.
As obras citadas deverão ser referenciadas
no próprio corpo do texto, indicando-se: so-
brenome do autor, data da publicação, pá-
gina citada. Exemplos: (Clark, 1975), (Lévi-
-Strauss, 1982:47), (Renfrew & Bahn, 1998);
Willey & Philipps (Willey & Philipps,
1958:95), Plog et al. (Plog et al., 1976), Bin-
ford (Binford 1967, 1978, 1983). Notas de
rodapé (numeradas sequencialmente) de-
verão ser utilizadas exclusivamente como
notas explicativas. As referências bibliográ-
ficas completas das obras citadas deverão
vir em uma lista ao final do trabalho.
VI. As referências bibliográficas deverão se-
guir as seguintes normas:
Livros:
MEGGERS, B. J. 1979 América Pré-histórica.
Trad. de E. T. de Carvalho. 2ª ed. Rio de Ja-
neiro, Paz e Terra. 185pp.
Artigos ou capítulos em livros:
PROUS, A. 1999 Arqueologia, Pré-história e
História. In: TENÓRIO, M. C. (Org.), Pré -
-história da Terra Brasilis. Rio de Janeiro,
EdUFRJ, pp.19-32.
Mais de uma citação do mesmo autor:
MARTIN, G. 1998 O povoamento pré-histó-
rico do vale do São Francisco (Brasil). Clio,
Série Arqueológica, Recife, 13:9-41.
MARTIN, G. 1997 Pré-História do Nordeste
do Brasil. Recife, Ed. Univ.UFPE.
Artigos de revistas
(com um, dois ou mais autores):
MARTIN, G. 1998 O povoamento pré-histó-
rico do vale do São Francisco (Brasil). Clio,
|
REVISTA DE ARQUEOLOGIA |
Volume 23 - N.2:168-170 |
- 2010 |
170
|
Série Arqueológica, Recife, 13:9-41. |
XII. Cada autor(a) poderá publicar até um |
|
NEME, S. & BELTRÃO, M. 1993. Tupinam- |
trabalho individual em cada número da re- |
|
bá, franceses e portugueses no Rio de Janei- |
vista e mais um outro em co-autoria, desde |
|
ro durante o século XVI. Revista de Arqueo- |
que não seja o autor principal. |
|
logia, São Paulo, 7:133-151. |
|
|
Dissertações e teses: |
XIII. Os trabalhos aprovados serão encami- |
|
WUST, I. 1990. Continuidade e mudança: |
nhados em PDF para revisão final dos auto- |
|
para uma interpretação dos grupos pré-colo- |
res, que devem devolvê-lo no prazo máximo |
|
niais na bacia do rio Vermelho, Mato Gros- |
de dez dias a partir da data do recebimento. |
|
so. Tese de Doutorado. São Paulo, Universi- |
O Editor deve ser informado por escrito so- |
|
dade de São Paulo. 210pp. |
bre possíveis alterações ou sobre a aprova- |
|
ção final de cada trabalho. Nessa etapa não |
|
|
VII. A revisão gramatical deve ser previa- |
serão aceitas modificações no conteúdo do |
|
mente providenciada pelo(s) autor(es). |
trabalho ou que impliquem em alterações |
|
no número de páginas. Caso o autor não |
|
|
VIII. As ilustrações (que não excedam a 6), |
responda no prazo, o trabalho será publica- |
|
tabelas, gráficos e demais figuras com res- |
do conforme a última versão autorizada. |
|
pectivas legendas deverão ser numeradas |
|
|
sequencialmente e apresentadas, quando |
XIV. Após aprovado, o trabalho será publi- |
|
for o caso, com os devidos créditos autorais, |
cado por ordem de chegada. O Editor res- |
|
enviadas separadamente, com a indicação |
ponsável também pode determinar o mo- |
|
no texto do lugar onde devem ser inseridas. |
mento mais oportuno. |
|
Todas as imagens deverão ser apresentadas |
|
|
em arquivos digitais individualizados, em |
XV. A Revista de Arqueologia não aceita re- |
|
formato jpg ou tif, em preto e branco com |
sumos expandidos nem textos na forma de |
|
resolução igual ou superior a 300 dpi. |
relatórios. |
|
IX. Textos encaminhados fora das normas |
XVI. Ao autor principal de cada trabalho pu- |
|
acima definidas serão retornados aos auto- |
blicado serão oferecidos, gratuitamente, até |
|
res antes de serem encaminhados aos pare- |
5 (cinco) exemplares do número correspon- |
|
ceristas. |
dente da revista. |
|
X. O(s) autor(es) será(ão) informados sobre |
XVII. Uma vez publicados os trabalhos, a |
|
a avaliação do texto que encaminhou(ram) |
Revista de Arqueologia se reserva todos di- |
|
para publicação no prazo máximo de 3 |
reitos autorais, inclusive os de tradução, |
|
(três) meses, contados após o envio dos ar- |
permitindo, entretanto, sua posterior repro- |
|
tigos de acordo com as normas estabeleci- |
dução como transcrição, desde que com a |
|
das neste documento. |
devida citação da fonte. |
|
XI. São de responsabilidade do(s) autor(es): |
XVIII. Os casos não previstos nestas normas |
|
o conteúdo científico do trabalho, a tradu- |
serão analisados e decididos pela Comissão |
|
ção do título do trabalho para o inglês, o |
Editorial da SAB, ouvido o Conselho Edito- |
|
abstract e keywords. |
rial da revista. |
Muito mais do que documentos
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Cancele quando quiser.