BAREMBLITT, G.. Compêndio de Análise Institucional. Rio de Janeiro: 3a. ed., Rosa dos Tempos, 1996.

“O Movimento Institucionalista é um conjunto heterogêneo e polimorfo de orientações, entre as quais é possível encontrar-se pelo menos uma característica comum: sua aspiração a deflagrar, apoiar e aperfeiçoar os processos auto-analíticos e autogestivos dos coletivos sociais” (BAREMBLITT: 1996, p.11). Cap. I - O Movimento Institucionalista, a Auto-análise e a Auto-gestão. Baremblitt (1996) considera que as relações humanas na sociedade

contemporânea se tornaram extremamente complexas e que a produção de conhecimento se intensificou significativamente. Neste cenário, o conhecimento científico ocupou um lugar de destaque pela pretensão de garantir uma ação mais objetiva sobre esta realidade. Tais circunstâncias produziram em nossa sociedade a figura do expert, ou seja, um indivíduo cuja formação oferece uma condição privilegiada para falar sobre um determinado assunto. Esse profissional, pela forma como a sociedade se organiza, está freqüentemente a serviço de grupos, empresas ou instituições que podem pagar pelo seu trabalho. Nessa divisão social do trabalho, a sociedade civil viu-se despossuída daqueles conhecimentos que antes eram socialmente validados, conhecimentos que organizavam seu cotidiano. Esse saber é considerado, pelo pensamento moderno, “rudimentar e inadequado”, alienando as pessoas da possibilidade de gerenciar as instituições das quais fazem parte e mesmo suas próprias vidas. Cria-se uma dependência em relação ao expert, personagem legitimado por seus conhecimentos considerados universais e responsável por fazer diagnósticos e intervenções sobre problemas diversos, inclusive sociais. A noção de um conhecimento considerado universal, o qual o expert domina, será criticada pelo Movimento Institucionalista. O conceito de demanda, estudado à frente, nos permitirá entender essa crítica. As políticas públicas muitas vezes partem do pressuposto de necessidades universais nas instituições sociais, como se estas necessidades fossem inequívocas, naturais. O Movimento Institucionalista considera que as necessidades destas instituições

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processos voltados para garantir que o cidadão comum possa ocupar novamente o lugar de sujeito de sua trajetória e suas instituições. A auto-análise e a autogestão não prescindem. têm alienado o saber acerca de sua própria vida. de suas demandas. adquirir ou readquirir um vocabulário próprio que lhes permita saber acerca de sua vida” (17) Esse processo de auto-análise é realizado dentro do próprio grupo e pelo próprio grupo. o saber acerca de suas reais necessidades. Para tanto. o processo de auto-análise é simultâneo ao processo de auto-organização. produzidas dentro de um contexto dentro do qual merecem ser avaliadas e questionadas. o objetivo principal dos Movimentos Institucionalistas. uma vez que exige que o grupo se reposicione diante das novas demandas que irão emergir. de suas demandas. “A auto-análise consiste em que as comunidades mesmas. p. Sendo assim. o Movimento Institucionalista se utiliza dos processos de auto-análise e autogestão.17) Analisar a demanda de um grupo é. de seus desejos. contudo. Devem prescindir. pois através da análise das condições nas quais está imerso. é de fundamental importância que os experts tenham uma reflexão epistemológica sobre as formas como o conhecimento pode se produzir através da interação com o senso comum. O Movimento Institucionalista vem mostrar que “os coletivos têm perdido. sim. portanto.são forjadas historicamente. da figura do expert. esse grupo conseguirá entender quais são suas reais necessidades – o que pode diferir em muito das necessidades socialmente instituídas. possam enunciar. grupo capaz de rever e produzir novas formas de organização. e permite aos sujeitos participantes avaliar as condições nas quais estão inseridos e buscar soluções para seus problemas. mas não dos instrumentos e da disciplina que ele dispõe e que pode favorecer a organização dos saberes desses sujeitos. O Movimento Institucionalista trabalha com o conceito de grupo instituinte. compreender. ou seja. É fundamental que estabeleça uma relação de 2 . de suas necessidades. como protagonistas de seus problemas. da postura centralizadora e dominante do expert. de suas limitações e das causas que determinam estas necessidades e estas limitações” (BAREMBLITT: 1996. Para atingir esse objetivo.

esses processos encontram sérias dificuldades. Não se tratam de ações burocráticas. que delibera e decide. No entanto. Não que se ignore e se busque outros saberes. os movimentos instituintes não encontram um momento muito favorável para sua ocorrência. 19) O Movimento Institucionalista também não prescinde da divisão social de tarefas. O objetivo do Movimento Institucionalista é. já que estão desacreditados quanto à validade de seu saber e muitas vezes privados dos recursos para efetivar transformações. vale perguntar de que forma podem obter poder enquanto coletividade para a viabilizar suas propostas. mas a consecução de um projeto definido consensualmente. e para desmistificar o saber dominante” (BAREMBLITT: 1996. “O institucionalismo é alguma coisa assim como o resultado do ensinamento destas iniciativas históricas sobre os próprios experts. elas têm de construir um dispositivo no seio do qual esta produção seja possível. portanto. Elas têm de organizar-se em grupos de discussão. “Mas até para que a auto-análise seja praticada pelas comunidades. 23) Contudo. em assembléias. (. que considera o saber constituído nesse coletivo. elas têm de dar-se condições para produzir este saber. p.transversalidade. que muitas vezes não o são da forma idealizada. Por um lado. sem sentido para seus executores. integrando-se ao movimento de auto-análise e autogestão do grupo e colocando seu saber a serviço do mesmo.. p. Por outro lado. O poder está na mão do coletivo. uma vez que as pessoas detêm conhecimentos distintos e as hierarquias podem auxiliar no processo de organização. o institucionalismo produz muita resistência no sistema social. hierarquia. mas que este esteja sempre orientado pelo que o coletivo institui como desejável para si.. na forma como o Movimento Institucionalista define. elas têm de chamar experts aliados para colaborarem com elas. mas que partem de alguns pressupostos comuns.) temos aprendido que isso existe e que poderíamos colaborar para seu desenvolvimento a partir as experiências históricas que já existiram neste sentido e das que estão existindo e se desenvolvem perfeitamente ou dificilmente sem a nossa participação” (BAREMBLITT: 1996. não deve significar hierarquia de poder. Nesse sentido. resgatar experiências autogestivas. porque visam 3 .

As instituições são entidades abstratas. não teriam realidade social se não fosse através das organizações. As instituições. ou seja. Todo esse aparato descrito acima só pode ter dinamismo através dos agentes e suas práticas. mas alterando-as em sua essência. o que não deve e o que é indiferente. dizem o que deve ser. Nesse sentido. Segundo Baremblitt (1996) esses conceitos não podem ser confundidos pois é através deles que os institucionalistas conseguem compartilhar uma nomenclatura que permite sua comunicação. uma entidade. Mas as organizações não teriam sentido. 4 . são composições lógicas. organização e estabelecimento. Isto é. são as estruturas propriamente físicas que conjuntamente integram a organização. II – Sociedade e Instituições O Movimento Institucionalista concebe a sociedade como uma rede de instituições “que se interpenetram e se articulam entre si para regular a produção e a reprodução da vida humana sobre a terra e a relação entre os homens” (BAREMBLITT: 1996. As organizações são a materialização das instituições sob a forma de um organismo. Os equipamentos são os dispositivos técnicos cujo objetivo é facilitar a consecução dos objetivos específicos ou genéricos propostos pela instituição. conventos.30). quartéis etc. um conjunto de leis e princípios que prescrevem ou proscrevem comportamentos e valores.alterar uma organização vigente. encontram-se muitas vezes severamente reprimidas ou cooptadas. assumindo uma configuração mais complexa ou mais simples. p. não teriam objetivos. não teriam direção se não estivessem informadas como estão. p. por sua vez. que concretizam as opções que as instituições distribuem. por sua vez. Cap. incorporadas pelo sistema. pelas instituições” (BAREMBLITT: 1996. Os estabelecimentos. que as instituições enunciam. Os equipamentos podem ter realidade material que se restringe a um estabelecimento ou o suplanta. “São grandes ou pequenos conjuntos de formas materiais que põem em efetividade.29). as instituições não teriam vida. São as escolas.

Não se tratam de conceitos com características negativas ou positivas.33). Responde a um desejo humano de segurança. mas com uma tendência a se burocratizar. Baremblitt (1996) irá afirmar que a sociedade se polariza entre duas características: as utopias sociais e as características históricas que as comprometem: a exploração. a maior criatividade de todos os membros. entre o organizante e o organizado se mantêm permanentemente permeáveis. O instituinte é caracterizado como um processo. entendida como o processo em permanente transformação que deve tender ao aperfeiçoamento. os produtos resultantes das instituições são chamados instituídos. não se nega que o instituído traz em si as características próprias ao conservadorismo e à resistência a mudanças. sempre históricos. “O instituído é o efeito da atividade instituinte” (BAREMBLITT: 1996. a realização de um ideal social. O organizante voltado para a busca permanente de maior pertinência nas ações organizacionais. buscado nas instituições.Uma das maiores evidências da vitalidade de uma instituição é sua capacidade de manter um movimento de transformação.32). o aperfeiçoamento da vida social. o organizado como a estrutura que solidifica as organizações. sendo o instituído os parâmetros de convivência e o instituinte o movimento de transformação permanente da sociedade aos novos estados sociais. Estes ideais. quando nessas instituições e organizações a relação e a dialética existentes entre o instituinte e o instituído. a maior saúde. Contudo. são desvirtuados ou comprometidos por uma deformação que se desdobra em três ações: a exploração de uns sobre outros (expropriação da potencia e do resultado 5 . p. elásticas” (BAREMBLITT: 1996. a dominação e a mistificação. p. o Movimento Institucionalista trabalha com os conceitos de organizante e organizado para caracterizar os movimentos ocorridos no interior das organizações. a maior realização. Em contrapartida. fluidas. os dois constituem o movimento histórico da sociedade. As utopias sociais são construções que visam satisfazer à vontade coletiva. que deve visar a maior felicidade. essa vida só é possível quando ela é regulada por instituições e organizações. Essas forças transformadoras das instituições ou capazes de instituir uma instituição são chamadas de instituinte. Na mesma lógica anterior. esclerosar. “É importante saber que para que a vida social. um movimento.

organizado) e resistência à transformação pressuposta pela utopia social e seus princípios. mas estão presentes em todas elas simultaneamente. que perpetuam a exploração. quando as instituições. exploração e mistificação. (BAREMBLITT: 1996. Nesse sentido. ao contrário. a criação a fundação. engano. sonegação de informação.). procedimentos. que se interpenetram para fundar conceitos. organizações e estabelecimentos favorecem grupos dominantes.34) Para as utopias sociais. organizantes) que se manifestam na sociedade voltadas para a transformação social e ruptura com a dominação. Dois indicadores são concebidos pelo institucionalismo para compreender esta organização social: atravessamento e transversalidade. O conceito de transversalidade. Apesar desta distinção. uma função disfuncional. não se pode pensar que esses conceitos caracterizam uma ou outra instituição. O objetivo da Análise Institucional é verificar em cada instituição. organização ou equipamento. é inevitável que se compreenda a indissociabilidade entre os conceitos que foram aqui apresentados e a forma como se articulam pró ou contra os movimentos considerados necessários ao funcionamento social. cada organização. no sentido das transformações necessárias à realização da utopia social. 6 . uma forma de intervir para propiciar-lhes a ação do instituinte e do organizante. etc. valores. o funcionamento institucional visa sempre a produção. considera as diversas dimensões (instituintes. a dominação (imposição da vontade de uns sobre os outros e não-respeito à vontade coletiva) e a mistificação (administração arbitrária ou deformada do que se considera saber e verdade histórica. compreende-se que têm uma função reprodutiva. Contudo. O conceito de atravessamento considera as diversas dimensões sociais voltadas para a reprodução da sociedade (instituído. a dominação e a mistificação. ilusão. p.produtivo de uns por parte dos outros). que é substituída por diversas formas de mentira.

e só pode se satisfazer ao corresponder a essas determinações. Para este. Distinguindo-se dos processos sociológicos. as crenças em torno do que seja a vida social. Sabe-se que mesmo a melhor política pública só irá se efetivar se contar com a adesão do público-alvo. o conceito de produção e antiprodução. o desejo freudiano é determinado inconscientemente. são tão importantes as vontades. mas diferente da psicanálise freudiana. tendo uma determinação involuntária em relação ao sujeito. os desejos e as representações com que os homens entram nos processos históricos quanto as estruturas ‘materiais’. circunscritas social e historicamente. transformando-se continuamente. p. O prazer que o indivíduo busca satisfazer é satisfação deste desejo. o desejo era constituído a partir das vivências subjetivas. Outra concepção particular ao Institucionalismo é a consideração à subjetividade no processo de transformação social. O institucionalismo parte do mesmo conceito. 47-8) Mas como psicanalista. “O Institucionalismo tende a não privilegiar a priori nenhuma determinação mais que outra. fazem escolhas. enquanto o conceito de antiprodução diz respeito ao processo de absorção daquilo que é considerado novo pelo sistema. concebem a si próprios. III – A História O Institucionalismo trabalha com dois conceitos antagônicos. O conceito de produção está relacionado ao processo de criação. o desejo pode ser satisfeito a todo momento nas circunstâncias sociais. 7 . concebendo que o psiquismo tem peso similar aos processos de produção. mais voltados para a explicação dos fenômenos molares. Em outras palavras. dentro das quais os indivíduos constroem significados para suas ações. o Institucionalismo está voltado para os fenômenos moleculares. econômicas. Mas não se trata do desejo tal como Freud o concebeu. Contudo. Baremblitt (1996) considera que as forças psíquicas mobilizadas para as escolhas são determinadas pelo inconsciente. políticas ou naturais que vigoram sobre eles” (BAREMBLITT: 1996. isto é. mais especificamente pelo desejo.Cap. só haverá conivência do público com qualquer proposta se forem mobilizadas as representações.

A resposta é que os indivíduos sucumbem ao discurso institucional. O institucionalismo. uma essência-homem. (. nem tampouco voluntária. Não de forma passiva. é o aspecto psíquico da mesma força que no social é o instituinte. semiótico. em todos os momentos históricos. Então. p. a leitura de aparelhos ou equipamentos que estão destinados a produzir a reprodução de subjetividades submetidas” (BAREMBLITT: 1996. mas porque este discurso institucional satisfaz certos desejos inconscientes.) um inconsciente pré-pessoal e natural que compreende todos os saberes.. Também não existe uma estrutura. todas as matérias não-formadas e energias não-vetorizadas que são capazes de gerar transformação. não existe uma estrutura. em algum momento. libidinal. que seria o mesmo em todas as sociedade. o que existe são processos de produção de subjetivação ou de subjetividade ” (BAREMBLITT: 1996. etc. a não ser para denunciá-los.. O desejo no Institucionalismo não tem essas peculiaridades. ele vai privilegiar a intelecção de dispositivos que são capazes de produzir subjetivações. é uma tendência reprodutiva. Para o institucionalismo. p. ou proposta. O desejos do institucionalismo é imanente à produção. é uma força de conexão. mas está submetido por um recalque complexo que é simultaneamente político. sujeito psíquico. Este inconsciente não está submetido apenas por um recalque psíquico. instituinte. 49-50) A pergunta do institucionalismo é por que os indivíduos não cedem sempre à satisfação de seu desejo. foi o estado em que o protossujeito esteve integralmente. que supostamente. em todas as raças. A condição de produtor ou reprodutor da sociedade está associada à produção de subjetividade por parte do sujeito.“O desejo segundo a psicanálise é um impulso que tende a reconstituir estados perdidos a se realizarem em fantasmas. (. por que as pessoas não rompem com regras sociais. Mas é inconsciente. em todas as classes sociais. movimento. como o imprevisível.. como é possível entrever nos conceitos acima apresentados é uma construção que “rouba” conceitos de teorias diversas com o objetivo de tentar 8 . “Por que esta discriminação é importante? Porque na leitura que o institucionalismo vai fazer de cada organização. apenas preenchido com conteúdos históricos sociais variáveis. para o Institucionalismo não existe o que seria um homem universal. É uma forma que tende a criar o novo. E não vai privilegiar. etc.51).) Para o institucionalismo não existe este sujeito eterno e universal. é uma anseio que tende a restaurar o narcisismo. no caso de submeter seu desejo aos interesses dominantes ou no caso de constituir uma subjetividade absolutamente original. é uma força de invenção e não é uma força restauradora dos estados antigos. uma essência –sujeito.. de cada estabelecimento.

Embora existam várias interpretações do conceito de desejo em Freud pelo institucionalismo. apenas é preciso produzir condições históricas em que ele possa realizar-se produtivamente. os artísticos. portanto. uma vez que ele é o motor a partir do qual nos inserimos na realidade. Isso inclui engendrar modos de subjetivação que co-protagonizem este processo” (BAREMBLITT: 1996.) Para o institucionalismo o desejo realiza-se sempre. revolucionário. “O desejo é essencialmente produtivo. Algumas vertentes radicais do institucionalismo. a concepção que orienta Baremblitt (1996) considera a origem desse desejo (o Id).responder de forma plural ao lugar da subjetividade na dinâmica social. Nessa perspectiva. envolvendo “todos os saberes de uma época.. o institucionalismo aposta na imprevisibilidade humana como fonte infinita de respostas ao contexto no qual se insere. Não uma subjetividade consciente e racional.55) Cap. como Guattari e Deleuze. necessariamente envolvida com prazer e desprazer. Apenas se deve criar condições para que ele possa animar dispositivos e máquinas revolucionárias capazes de realizá-lo (. inventivo. fundadores da Esquizoanálise. a formação de um institucionalista deve ser extremamente diversificada. em lugar de pensar o humano a partir de categorias universais previsíveis. no terreno complexo das múltiplas dimensões da sociedade com o objetivo de identificar os movimentos a partir de sua posição instituída ou instituinte. como fonte primária disforme capaz de produzir infinitas possibilidades de manifestação. Em suma. 61). A concepção que a orienta é que: 9 . é o conceito de desejo que sustenta a proposta revolucionária de transformação do institucionalismo. mas pulsional. A formação do institucionalista é interminável. os populares” (BAREMBLITT: 1996. p.. inclusive os saberes não-científicos. IV – O desejo e outros conceitos no institucionalismo O institucionalismo se orienta. tal como se tentou adequar a teoria psicanalítica. p. envolvida com a produção a partir da noção de desejo. No entanto. abdicaram da concepção de conhecimento científico como fonte fidedigna e propuseram que as artes e a literatura tivessem o mesmo escopo.

O institucionalista deve compreender como foi produzida 10 . de uma representação por parte daquele que demanda sobre o que o trabalho do institucionalista irá promover. Baremblitt (1996) irá sistematizar um processo de análise institucional padrão. ao contrário do campo de análise que pode ser mais amplo. Em geral. p. tanto quanto a natureza e as máquinas técnicas e semióticas” (BAREMBLITT: 1996. dita no sentido amplo. essa representação são produzidas socialmente. Apresenta as ressalvas de que não é a única forma de fazê-la. Esse pressuposto. Assim. O passo seguinte à delimitação do campo de intervenção é a análise da oferta e a análise da demanda. tática. que não pode ser senão desejante. irá procurar saber como funciona. etc. na medida em que as subjetivações estão essencialmente envolvidas nestes processos produtivos. É um tipo de análise no qual podese eleger um campo mais amplo. VI – Roteiro para uma Intervenção Institucional Padrão Neste capítulo. os efeitos que produz. Campo de Análise: é um recorte eleito pelo institucionalista o qual buscará compreender através do aparelho conceitual do institucionalismo. Trata-se de aprender a pensar um desejo essencialmente produtivo e aprender a pensar uma produção. Baremblitt apresenta uma distinção entre campo de análise e campo de intervenção. A análise da oferta antecede a análise da demanda porque toda demanda parte de um pressuposto.“a Esquizoanálise consiste em introduzir o desejo na produção e a produção no desejo. suas causas. o campo de intervenção deve ser restrito. pois correria o risco de enrijecer o processo. não é necessariamente a melhor e nem sempre é possível tal como está descrita. sem necessariamente realizar uma intervenção. logística. a relação entre seus determinantes. técnica para se operar sobre ele e efetivamente transformá-lo. Campo de intervenção: pressupõe as atividades desenvolvidas no campo de análise mas envolve estratégias. Ele faz uma série de ponderações que visam esclarecer ao leitor que não é uma proposta do institucionalismo formatar um modelo de intervenção.65) Cap.

Essa etapa se justifica quando se retoma o conceito de expert que vigora em nossa sociedade. Não existe. análise da oferta e análise da demanda fazem parte de um mesmo processo auto-analítico que se deve empreender ao iniciar uma análise institucional. O analisador funciona no institucionalismo de forma similar ao sintoma na 11 . “entre a organização analisante. a organização que demanda não pode ocupar o lugar de “cliente”. então. vai produzir-se uma interseção que gera uma nova organização. voluntários deste pedido. mas compreender que o lugar de participante é fundamental para operar a auto-análise e a autogestão. também chamada de análise da gestão. além disso. A mensagem subjacente à figura do expert é. conceito institucionalista que caracteriza os indícios apresentados pela organização que poderão auxiliar na explicação de seu objeto de análise. que é o verdadeiro objeto de análise. intervinda.naquele que demanda essa expectativa. deliberados.69). Baremblitt afirma que. Os motivos implícitos. Na análise da demanda. aqui. No decorrer do processo de intervenção. você não entende. 3) Distinguir entre demanda (formal) e encargo (implícito). p. Mas juntos é que vamos tentar entender como é esta realidade nova que se deu na interseção de nosso encontro”. não sabe em que consiste”. Assim. (BAREMBLITT: 1996. aqui chamados de encargo. para o institucionalista. A análise da demanda consiste em saber “quais são os aspectos conscientes. é muito melhor ser solicitado pelas bases que pela direção ou proprietários. e quais são seus aspectos inconscientes e/ou não-ditos” (BAREMBLITT: 1996. interveniente e a organização analisada.68). ocorrem por três motivos: má-fé. Se é objetivo do institucionalismo construir relações horizontais e co-responsáveis. p. uma posição clássica de objetividade: não somos os experts que sabem e a organização-cliente não é um objeto passivo e ignorante. 2) qual foi o segmento que se organizou para procurar o serviço. manifestos. segundo Guilhón de Albuquerque: “Eu tenho o que lhe falta e. uma série de aspectos devem ser observados: 1) quem indicou e por que o trabalho de análise institucional. desconhecimento ou recalque. Ao término deste processo. a organização analisante construirá suas interpretações a partir dos analisadores.

seja a partir de fora. A pesquisa-ação na instituição educativa. Segundo Barbier (1985)1 Entendemos implicação como o ". e que portanto. ou seja. 3) o analisador pode ser espontâneo ou construído. ou seja. seja a partir de dentro da organização. Como o analista institucional não pressupõe uma objetividade na intervenção. é possível se utilizar de qualquer recurso. Este conceito está relacionado ao conceito de contratransferência freudiano. A etapa seguinte do processo é a análise da implicação. ou seja são “pistas” para que se construa uma interpretação sobre a forma como as diversas dimensões envolvidas no processo se articulam. Contudo. também ele produzirá a partir dos recursos que dispõe." (Barbier: 1985. também devem ser analisados. de suas posições passadas e atual nas relações de produção e de classe. engajamento pessoal e coletivo do pesquisador em e por sua práxis científica. 12 . Pressupõe a auto-análise. se refere aos sentimentos do analista em relação ao seu paciente. Os analisadores podem ser encontrados em qualquer lugar na organização ou instituição e são dotados de sentidos que permitem compreender a forma como seus agentes compreendem a instituição e as relações dentro dela. a análise da implicação antecede a relação com as organizações. p. Os analisadores podem ser compreendidos a partir de alguns princípios. 1) a materialidade expressiva de um analisador é totalmente heterogênea. de tal modo que o investimento que resulte inevitavelmente de tudo isso seja parte integrante e dinâmica de toda atividade de conhecimento. 120) 1 Barbier. R.. para compreender suas motivações para desenvolverse em tal área e como estas motivações se envolvem com o projeto organizacional no qual está intervindo. Rio de Janeiro: Jorge Zahar. (1985). involuntariamente. por parte do analista institucional. Para tanto. em função de sua história familiar e libidinal. 2) o analisador contém os elementos para começar o processo de seu próprio esclarecimento. pode ocorrer ao acaso.análise individual.. e de seu projeto sócio-político em ato. pode ser produzido pelo analista institucional com o objetivo de explicitar conflitos ou problemas nas organizações. para o institucionalista.

Sua importância está. em instituir. é possível observar que o institucionalismo considera todos os elementos envolvidos no processo. Não se pode esquecer que a construção do contrato já é parte do processo de análise e intervenção. Assim.114-5) É importante lembrar que. aquela que fez a demanda parcial. O diagnóstico permite ao institucionalista preparar dispositivos. justamente. Mas tais dispositivos devem ser orientados por princípios que não permitam ao institucionalista induzir respostas. Elaborado este diagnóstico. “Este contrato já implica a construção de dispositivos para ouvir a todas as partes. O contrato é muito similar aos contratos convencionais. versam sobre os compromissos mútuos. Deve-se lembrar sempre que o objetivo é produzir um processo de auto-análise.Em suma. demanda. Só que é bom fazer este novo acordo. procede-se à construção de um contrato de diagnóstico. planejar. se há resistência. um diagnóstico provisório. até o momento. deve provocar a organização para que novos analisadores possam emergir. A partir da análise desses elementos (oferta. implicação e analisadores). explicitando-se direitos e deveres das partes interessadas. vasculhar os não-ditos. pp. em tudo aquilo que venha a provocar e ser provocado. da duração total e freqüência dos encontros. etc. no caso de existirem honorários. construir analisadores para que essas informações possam ser provocadas. porque ele implica que o diagnóstico já é uma operação de intervenção. e o institucionalista. delimitações de objetivos e autorização de acesso aos materiais de investigação. Porque só ouvimos uma. Então já tem de ser autorizado. em suas expectativas e em seus princípios. legalizado e. os institucionalistas irão efetuar um primeiro diagnóstico. ciente de que todos interferem e precisam ser analisados. promessa de sigilo quanto à informação obtida durante a investigação. organizar. apenas uma parte da organização foi ouvida. a organização em sua materialidade. antecipar e decidir os passos a serem implementados na análise institucional. 13 . já devem ser pagos” (BAREMBLITT: 1996. O dispositivo deve ser um “agitador”. O diagnóstico provisório é apenas uma hipótese sobre os problemas apresentados pela instituição. honorários. etc. É preciso saber como os outros setores se posicionam diante dessa demanda.

a equipe 14 . Alguns momentos são fundamentais: no planejamento da intervenção devem haver avaliações periódicas. p. a necessidade. etc. a freqüência. os honorários. tais como: “Como você concebe esse serviço? Quanto tempo você acha que vai durar? Quanto dinheiro você acha que deve ser pago? E como está distribuído o pagamento? Quando cada um pensa que deve pagar e por quê? Quais são os direitos que você nos vai dar para podermos intervir? Podemos estar aqui todos os dias? Podemos acompanhar o trabalho hora após hora? Podemos estar nas reuniões reservadas? Podemos ver os livros contábeis da organização?” (BAREMBLITT: 1996. A única distinção desta proposta e deste contrato é que. selecionar as táticas e as técnicas. portanto. uma nova proposta de intervenção e um novo contrato. o próprio coletivo será responsável por determinar o formato. do processo de intervenção. Estratégia: sistematiza os grandes objetivos a serem conseguidos (cuja máxima expressão é a auto-análise e a autogestão) assim como a progressão das manobras e outras etapas previstas. nesta fase. Táticas: são os pequenos segmentos nos quais se decompõe a estratégia. retomam a análise da implicação – para verificar os efeitos do dispositivo na relação do institucionalista com a organização – e procede-se ao diagnóstico definitivo e o planejamento da intervenção. o interesse. preparar a logística. Logística: trata-se dos fatores a serem considerados a favor ou contra a consecução do trabalho. Emerge. ao final. Após a aplicação dos dispositivos e a leitura dos analisadores. agora com mais elementos que evidenciam a distância entre os dois. Baremblitt sugere algumas questões para a discussão desse contrato. Ou seja.É a partir do diagnóstico provisório que se pode planejar uma estratégia. os institucionalistas retomam a demanda e o encargo. propõe à organização a autogestão do contrato de intervenção. 118) Após ao acordo entre equipe interventora e a organização procede-se à execução da intervenção. Técnicas:são os instrumentos utilizados para operacionalizar as táticas. tal como foi planejada.

interventora realiza um prognóstico. É possível. que seja agendado o acompanhamento da organização. ainda. 15 .

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