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Platão - As Leis

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xrjv a m a v tr|ç TOÜV VO|ÍOJV 8ia0eaeft)ç;

Livro
I
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livro I

O ateniense: A q u e m a t r i b u i s , e s t r a n g e i r o s , a a u t o r i a de
vossas disposições legais? A um d e u s ou a a l g u m h o m e m ?
CUnias: A u m d e u s , e s t r a n g e i r o , c o m t o d a a c e r t e z a a
u m d e u s . N ó s c r e t e n s e s c h a m a m o s d e Z e u s o n o s s o le-
gislador, e n q u a n t o na Laeedemônia, onde nosso ami-
go a q u i t e m seu domicílio, a f i r m a m - acredito - ser Apo
lo o d e l e s . N ã o é a s s i m , Megilo? " f*W*> *
íiMjiétt apmm o Cfúiian.
Megilo: Sim.
(n.t.)
O ateniense: D i z e s , e n t ã o , • c o m o H o m e r o , • • q u e Minos
"(Missáta, 19,178 e sctj.
costumava ir de nove em nove a n o s m a n t e r conversações
{(li.)
c o m seu pai, •• • e q u e ele e r a g u i a d o p o r seus o r á c u l o s <
• * * ? ) « f»!jo, 2JKüR.(it.l)
d i v i n o s n o e s t a b e l e c i m e n t o d a s leis p a r a v o s s a s c i d a d e s ?
CUnias : A s s i m d i z n o s s o p o v o , q u e d i z t a m b é m q u e s e u
i r m ã o R a d a m a n t o - i n d u b i t a v e l m e n t e ouviste este n o m e
- foi s u m a m e n t e j u s t o . E c e r t a m e n t e n ó s , c r e t e n s e s , s u s -
t e n t a r í a m o s q u e ele c o n q u i s t o u este título devido a s u a
correta a d m i n i s t r a ç ã o da justiça n a q u e l a época.

O ateniense: S i m , s e u r e n o m e é d e f a t o g l o r i o s o e b a s -
t a n t e p r ó p r i o a um filho de Z e u s . E visto q u e tu e n o s s o
a m i g o Megilo f o r a m a m b o s e d u c a d o s e m i n s t i t u i ç õ e s
legais d e tal excelência, n ã o c o n s i d e r a r i a m u m despra-
zer, i m a g i n o , q u e n o s o c u p á s s e m o s e m d i s c u t i r o as-
s u n t o g o v e r n o e l e i s à m e d i d a q u e c a m i n h a m o s . E cer-
t o , c o n f o r m e m e foi d i t o , q u e a e s t r a d a d e C n o s s o s à
c a v e r n a e t e m p l o de Z e u s é longa, e s e g u r a m e n t e en-
c o n t r a r e m o s n e s t a t e m p e r a t u r a a b a f a d a locais d e des-
c a n s o c o m s o m b r a s o b a s á r v o r e s a l t a s a o l o n g o d a es-
trada: neles p o d e r e m o s desca.nsar arniúde, como con-
vém a nossa idade, passando o tempo discursando, e
assim completaremos nossa viagem confortavpJmentc.

CUnias: M u i t o b e m , e s t r a n g e i r o , e à m e d i d a q u e s e p r o s -
segue- à f r e n t e e n c o n t r a - s e n o s b o s q u e s c i p r e s t e s d e p o r -
te e beleza q u e m a r a v i l h a m , e t a m b é m prados, onde
poderemos repousar e conversar.

O ateniense: Dizes b e m .
CUnias: S i m , c o m e f e i t o , e q u a n d o o s v i r m o s d i r e m o s
tal coisa a i n d a com maior ênfase. Bem, mi tão p a r t a m o s
e q u e a b o a sorte nos aguarde!

0 ateniense: Q u e a s s i m seja! M a s d i z - m e . . . p o r q u e m o t i -
v o v o s s a lei d e t e r m i n a a s r e f e i ç õ e s c o m u n s e a s e s c o l a s
de ginástica c os e q u i p a m e n t o s militares?

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Platão - As Leis

Clínias: O s c o s t u m e s d e C r e t a , e s t r a n g e i r o , s ã o a m e u
v e r t a i s q u e q u a l q u e r u m p o d e c o m p r e e n d ê - l o s facil-
mente. C o m o p o d e s perceber, Creta c o m o u m todo n ã o
6 um país p l a n o c o m o a Tessália; c o n s e q ü e n t e m e n t e
e n q u a n t o a m a i o r i a dos tessalianos a n d a a cavalo, nós
cretenses somos corredores já que nossa terra é aciden-
t a d a e m a i s a p r o p r i a d a à p r á t i c a da c o r r i d a a p é . Nes-
tas condições somos obrigados a carregar pouco peso
devido à corrida e evitar equipamento pesado; daí a
a d o ç ã o de arcos e flechas q u e s ã o a d e q u a d o s em fun-
ção de s u a leveza. E assim todos estes nossos costumes
são a d a p t a d o s à g u e r r a e, na m i n h a o p i n i ã o , e r a este o
objetivo q u e o legislador t i n h a em m e n t e q u a n d o os
determinou a todos. Provavelmente estava i m b u í d o da
m e s m a r a z ã o p a r a ter i n s t i t u í d o refeições c o m u n s : per-
cebeu como os soldados todo o tempo em q u e se a c h a m
e m c a m p a n h a s ã o c o m p e l i d o s p o r força d a s c i r c u n s t â n -
cias a t o m a r as refeições em c o m u m , em benefício de
s u a p r ó p r i a s e g u r a n ç a . P a r e c e - m e ter ele m e d i a n t e isso
c o n d e n a d o a estupidez da multidão, a q u a l n ã o conse-
gue compreender que todos os h o m e n s de u m a c i d a d e "
e s t ã o e n v o l v i d o s i n c e s s a n t e m e n t e n u m a g u e r r a vitalí-
c a c o n l T a
* , Q « m lente «!«<' m mate ' i o d o s os o u t r o s E s t a d o s . • Se, e n t ã o , essas
o COM-MO de, TtoJltç c nt p r á t i c a s s ã o n e c e s s á r i a s na g u e r r a - n o m e a d a m e n t e ,
(MwteíÍRtieos d o modeh é refeições em c o m u m p o r u m a q u e s t ã o de s e g u r a n ç a e a
Cidade. £.'i<idn (n.l) d e s i g n a ç ã o d o s r e v e z a m e n t o s d o s oficiais e soldados
rasos p a r a q u e a t u e m c o m o g u a r d a s - devem ser igual-
m e n t e e f e t i v a d a s e m t e m p o d e paz;, p o i s ( c o r n o e l e di-
ria) " p a z " , c o m o o t e r m o é c o m u m e n t e e m p r e g a d o , n ã o
passa de um nome, a verdade sendo que todo Estado*
e s t á , p o r u m a lei d a n a t u r e z a , c o m p r o m e t i d o p e r p e t u a -
rnente n u m a guerra informal c o m todo outro listado.»
E se tu o l h a r e s a m a t é r i a deste p o n t o de vista, eonsta-
larús q u e n o s s o legislador creterise d e t e r m i n o u t o d a s
m i s s a s instituições legais, t a n t o p ú b l i c a s q u a n t o pri-
v a d a s , c o m u m o l h o f i x a d o tia g u e r r a , e q u e e l e , p o r
t a n t o , n o s i n c u m b i u d a t a r e f a d e p r e s e r v a r n o s s a s leis
com segurança na convicção de q u e sem a vitória na
g u e r r a n a d a m a i s , seja posse, seja i n s t i t u i ç ã o , terá o
m e n o r valor, m a s q u e todos os bens do vencido caem
rias m ã o s d o s v e n c e d o r e s .

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Livro I

O ateniense: T e u t r e i n a m e n t o , estrangeiro, certamente,


como a m i m parece, proporcionou-te u m a excelente
c o m p r e e n s ã o cias p r á t i c a s l e g a i s d e C r e t a , M a s m e es-
clarece a i n d a c o m m a i s clareza: pela definição q u e des-
t e d o E s t a d o b e m c o n s t i t u í d o p a r e c e - m e q u e q u e r e s in-
ferir q u e ele deve ser o r g a n i z a d o de tal m a n e i r a a ser
v i t o r i o s o n a g u e r r a s o b r e t o d o s o s o u t r o s E s t a d o s . E isto?

CUnias: C o m e f e i t o . E a c h o q u e n o s s o a m i g o a q u i c o m -
partilha de minha opinião.
Megilo: N e n h u m l a c e d e m ô n i o , m e u b o m s e n h o r , p o d e -
ria possivelmente dizer coisa distinta.
O ateniense: Se e s t a , e n t ã o , é a atitude correta a ser
empregada por um Estado em relação a outro Estado,
será a a t i t u d e correta a ser a d o t a d a p o r um p o v o a d o
em relação a outro diferente desta?
CUnias: De m o d o algum.
O ateniense: D i z e s e n t ã o q u e ó i d ê n t i c a ?
CUnias: Sim.

O ateniense: E s e r á a m e s m a a t i t u d e t a m b é m d e u m a
casa no povoado em relação à outra, e de cada h o m e m
em relação a q u a l q u e r outro?
CUnias: A mesma.
O ateniense: E d e v e r á c a d a h o m e m c o n s i d e r a r a si m e s -
mo c o m o seu próprio inimigo? Ou o q u e dizermos q u a n -
do c h e g a m o s a este ponto?
CUnias: O e s t r a n g e i r o d e A t e n a s - p o i s n ã o d e s e j a r i a c h a -
má-lo d e h a b i t a n t e d a Atiea, vi-lo que, m e p a r e c e q u e
m e r e c e s tu ais ser n o m e a d o s e g u n d o a d e u s a •• - vejo •• A t c v a , prihnitn ili
q u e t o r n a s t e o a r g u m e n t o m a i s c l a r o f a z e n d o - o retor- .„.4l(!(\fi"., |H(II('IMO (J«s aalau
n a r n o v a m e n t e a o seu p o n t o d e p a r t i d a , pelo q u e d e s densa dei w i í v r l r M i n r dn
cobrirás mais facilmente a justeza de nossa afirmação énifíwin. aqui
em p a u t a , a s a b e r , que, c o l e t i v a m e n t e todos s ã o p ú b l i c a
mpuseelmín". |»Po mhtuup.íio
e p r i v a d a m e n t e i n i m i g o s de t o d o s , e i n d i v i d u a l m e n t e
t a m b é m c a d a um é seu p r ó p r i o inimigo.
O ateniense: O q u e « p í e r e s d i z e r , h o m e m admirável?
CUnias: E p r e c i s a m e n t e n e s s a g u e r r a , m e u a m i g o , q u e
a v i t ó r i a s o b r e o eu é de t o d a s as v i t ó r i a s ti m a i s glorio-
sa e a m e l h o r , e a u u t o - d e r r o t a é de t o d a s as d e r r o t a s de
p r o n t o a p i o r e a m a i s vergonhosa, frases q u e d e m o n s -
t r a m q u e u m a g u e r r a c o n t r a n ó s m e s m o s existe d e n t r o
ile c a d a u m d e n ó s .

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Platão - As Leis

O ateniense: M a s r e t o m e m o s a g o r a o a r g u m e n t o a o i n -
v e r s o . Visto q u e i n d i v i d u a l m e n t e c a d a u m d e n ó s é p a r -
• ©u sejo. ó, ma m f>»óf>Mo c i a l m e n t e s u p e r i o r a si m e s m o e p a r c i a l m e n t e i n f e r i o r , *
«sucedo», m m ptópM devemos nós entender q u e n u m a casa, n u m povoado e
d e a n t a t o . (n.l.) n u m Estado as coisas se p a s s a m de m a n e i r a idêntica,
ou d e v e m o s negá-lo?

CUnias: T u t e r e f e r e s à c o n d i ç ã o d e s e r e m e m p a r t e s u -
periores a si m e s m o s e em p a r t e inferiores?

O ateniense: Sim.

CUnias: E s t a t a m b é m é u m a q u e s t ã o a p r o p r i a d a , p o i s
u m a tal c o n d i ç ã o c o m t o d a a certeza existe e, sobretu-
do, n o s E s t a d o s . T o d a s a s vezes c o m efeito q u e n u m
E s t a d o os m e l h o r e s t r i u n f a m sobre a m u l t i d ã o e as clas-
ses inferiores, poder-se-á c o m j u s t e z a d i z e r d e s s e E s t a -
do q u e s u p e r a a si m e s m o , d e v e n d o ele c o m s u í n a justi-
ç a ser e n c o m i a d o p o r u m a v i t ó r i a d e s s a e s p é c i e ; e s e r á
o i n v e r s o se o c a s o for o o p o s t o .

0 ateniense: B e m , d e i x a n d o d e l a d o a q u e s t ã o d e s e o
pior elemento jamais é superior ao melhor elemento
( u m a q u e s t ã o q u e exigiria u m a discussão m a i s prolon-
gada), o q u e afirmas, como posso agora percebê-lo, é
isto: q u e à s vezes c i d a d ã o s d e u m a l i n h a g e m e d e u m
Estado, os q u a i s são injustos e n u m e r o s o s , p o d e m se
u n i r e t e n t a r escravizar mediante, a força os q u e são
justos, p o r é m em m e n o r n ú m e r o , e o n d e os primeiros
triunfassem o E s t a d o em p a u t a seria corretamente cha-
m a d o de inferior a si m e s m o e m a u , e n q u a n t o o n d e os
p r i m e i r o s fossem derrotados, o E s t a d o seria d e n o m i n a
do s u p e r i o r a si m e s m o e b o m .

CUnias: E i s a í , e s t r a n g e i r o , u m a a s s e r ç ã o d e v e r a s e x t r a -
o r d i n á r i a , e n ã o o b s t a n t e , n ã o h á c o m o refutá-la.

O ateniense: E s p e r a u m m o m e n t o . Há aqui igualmente


um ponto q u e t a m b é m merece nosso exame. Supondo
q u e houvesse vários i r m ã o s dos m e s m o s pais, n ã o seria
e m a b s o l u t o s u r p r e e n d e n t e s e a m a i o r i a d e l e s fosse in-
justa e a p e n a s a minoria, justa.

CUnias: D e f a t o , n ã o .
O ateniense: E, a d e m a i s , n ã o c a b e r i a a v ó s ou a m i m ir à
caça dessa f o r m a de expressão, de q u e pela vitória d o s
m a u s , tal c a s a e família p o d e r i a m na s u a totalidade ser

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Livro I

tidas c o m o inferiores a si m e s m a s , e de q u e pela s u a


d e r r o t a , a o contrário, p o d e r i a m ser t i d a s c o m o superio-
res, pois n o s s a p r e s e n t e referência ao uso do d i s c u r s o
ordinário não concerne à propriedade ou improprieda-
de dos t e r m o s m a s sim à retidão ou i m p e r f e i ç ã o essen-
ciais d a s leis.

Clínias: É b a s t a n t e v e r d a d e i r o o q u e d i s s e s t e , e s t r a n g e i r o .

Megilo: E b e l a m e n t e expresso, t a m b é m , a m e u ver alé


aqui.

O ateniense: M a s e x a m i n e m o s , a i n d a , o p o n t o s e g u i n t e :
o s i r m ã o s q u e a c a b a m o s d e m e n c i o n a r p o d e r i a m , su-
p o n h o , d i s p o r d e u m juiz?

Clínias: Certamente.

O ateniense: E q u a l d e s t e s d o i s s e r i a o m e l h o r : u m j u i z
q u e destruísse todos os m a u s no seu seio e encarregasse
o s b o n s d e s e g o v e r n a r , o u u m juiz q u e fizesse o s b o n s
m e m b r o s governar e ao mesmo tempo q u e permitisse
q u e o s m a u s vivessem, o s fizesse s u b m e t e r - s e v o l u n t a r i a -
m e n t e ao governo? E há um terceiro juiz q u e temos
q u e m e n c i o n a r (terceiro e m e l h o r do p o n t o de vista do
mérito) - se de fato um tal juiz p o d e ser e n c o n t r a d o -
q u e a o lidar com u m a ú n i c a família dividida n ã o des
trói n e n h u m d o s m e m b r o s d e s t a , m a s s i m o s r e c o n c i l i a
e c o n s e g u e , d e c r e t a n d o leis p a r a eles, a s s e g u r a r e n t r e
os mesmos doravante u m a amizade permanente.

Clínias: U m j u i z e l e g i s l a d o r d e s s a e s p é c i e s e r i a , s e m
dúvida alguma, o melhor.

O ateniense: E , n o e n t a n t o , n ã o s e r i a a g u e r r a , m a s e x a -
t a m e n t e o c o n t r á r i o q u e o levaria a d e c r e t a r essas leis.
_., . . , , , E t U G l Ç , O nçno dt
Camas: I s t o e v e r d a d e . . , . , .
(wintat, «fe se pt» (te f)í'. <fe
O ateniense: E q u a n t o à q u e l e q u e c o n d u z o E s t a d o à m py^ritmitc, <J ; n

h a r m o n i a ? At) o r g a n i z a r a v i d a do E s t a d o se p r e o c u p a - KkMidada, [>o*fio tufm


r i a e l e m a i s c o m a g u e r r a e x t e r n a do q u e c o m a g u e r r a f.n mo n pm (V(ni"nc
att

inlestina o n d e esta ocorresse, esla a q u e d a m o s o n o m e aquein que poastttacm ama


d e g u e r r a c i v i l " e q u e é u m a g u e r r a q u e c a d a u m ja- (.afiçãopofítim. í > erulldo
m a i s d e s e j a r i a q u e o c o r r e s s e em s e u p r ó p r i o E s t a d o , e e-pirí^cc, oqui à d e
;
q u e se o c o r r e s s e d e s e j a r i a v e r t e r m i n a d a o m a i s d e p r e s - ; „x, vf)
m W ki anfp c m-no
sa p o s s í v e l ? mré,çào, o <jw infira. i.a
Clínias: E v i d e n t e m e n t e e l e s e p r e o c u p a r i a m a i s c o m a |MÓIÍP«, un <fa ÍWJKI «o <m
segunda. rfri &<i«da mimo gamo mt.
(h.t.)

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Platão - As Leis

0 ateniense: E n e s t e c a s o o q u e se p r e f e r i r i a ? Q u e os
c i d a d ã o s fossem o b r i g a d o s a d e d i c a r s u a a t e n ç ã o a ini-
migos externos depois da h a r m o n i a i n t e r n a ter sido
a s s e g u r a d a m e d i a n t e a d e s t r u i ç ã o d e u m a p a r t e e a vi-
tória dos oponentes desta ou depois da reconciliação
entre a s p a r t e s q u e e s t a v a m e m d e s e n t e n d i m e n t o inter-
no ter e s t a b e l e c i d o a a m i z a d e e a p a z ?

Clínias: T o d o s t e n d e r i a m a e s t a ú l t i m a a l t e r n a t i v a p a r a
seu p r ó p r i o E s t a d o de p r e f e r ê n c i a à p r i m e i r a .
O ateniense: E n ã o f a r i a o l e g i s l a d o r o m e s m o ?
Clínias: M a s é c l a r o q u e s i m .

O ateniense: N ã o v i s a r á t o d o l e g i s l a d o r e m t o d a s u a le-
gislação o m a i o r bem?

Clínias: Seguramente.

O ateniense: O m a i o r b e m , c o n t u d o , n ã o é n e m a g u e r r a
n e m a revolução - coisas em relação às q u a i s devería-
mos, de preferência, orar p a r a delas sermos p o u p a d o s -
m a s s i m a p a z r e c í p r o c a e o s e n t i m e n t o a m i s t o s o . Di-
ria, a d e m a i s , q u e a vitória q u e m e n c i o n a m o s de um
listado sobre si m e s m o n ã o é apenas u m a das melhores
coisas a s e r e m atingidas, m a s sim u m a d a q u e l a s neces-
sárias, corno se um h o m e m supusesse q u e um corpo
h u m a n o está na sua melhor condição q u a n d o se a c h a
e n f e r m o e s o b efeito d e u m m e d i c a m e n t o , s e m n u n c a
atentar p a r a um corpo q u e n ã o necessita de medica-
m e n t o em absoluto! Analogamente, com relação ao bem-
estar de um Estado ou um indivíduo, tal h o m e m jamais
s e revelaria u m g e n u í n o político p r e s t a n d o a t e n ç ã o pri-
m e i r a c e x c l u s i v a m e n t e n a n e c e s s i d a d e d a g u e r r a ex-
terna, c o m o t a m b é m jamais se revelaria um legislador
consciencioso a m e n o s q u e concebesse sua legislação
relativa à g u e r r a v i s a n d o à p a z , de p r e f e r ê n c i a a conce-
ber s u a legislação relativa à p a z v i s a n d o à guerra.

Clínias: T u a s a f i r m a ç õ e s , e s t r a n g e i r o , s ã o a p a r e n t e m e n t e
c o r r e t a s . T o d a v i a , a m e n o s q u e e u esteja b a s t a n t e equivo-
c a d o , n o s s a s i n s t i t u i ç õ e s legais e m C r e t a , b e m c o m o e m
Laeedemônia, são inteiramente dirigidas p a r a a guerra.

O ateniense: E b e m possível, m a s n ã o d e v e m o s n e s t e mo-


m e n t o atacá-las veementemente, m a s sim examiná-las com
s u a v i d a d e , j á q u e t a n t o n ó s q u a n t o vossos l e g i s l a d o r e s

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Livro I

a l i m e n t a m o s u m s é r i o i n t e r e s s e n e s t a s m a t é r i a s . Peço-
vos q u e a c o m p a n h e i s r i g o r o s a m e n t e o a r g u m e n t o . To-
m e m o s a opinião de Tirtaeu,* um ateniense por nasci- « Çf-( ,
m s(im p m w{"(n

m e n l o e d e p o i s c i d a d ã o de o u t r o E s t a d o , • * o q u a l , m a i s £,g0 (L (> „ a pfc eniteõM


m

do q u e q u a l q u e r o u t r o h o m e m , t i n h a a g u d o i n t e r e s s e aG«siw»R n q«ma ( n l )
em nosso assunto. Eis o q u e dizia: " E m b o r a um ho-
•• £5(10*1(1. Ml
m e m fosse o m a i s r i c o d e t o d o s , e m b o r a u m h o m e m
possuísse a b u n d â n c i a de b e n s (e ele especifica q u a s e ilflfeíicwíinio. íu.t)

todos os b e n s existentes), se n ã o conseguisse provar-se


em todas as ocasiões o mais valente na guerra, eu n ã o
faria dele n e n h u m a m e n ç ã o e n ã o o consideraria de
m o d o a l g u m . " S e m d ú v i d a t u j á ouviste estes p o e m a s ,
enquanto n o s s o a m i g o Megilo, i m a g i n o , d e l e s e s t á f a r t o .

Megilo: Por certo, estou.


Clínias: E p o s s o v o s g a r a n t i r q u e a t i n g i r a m ( ' r e l a . t a m -
bém, importados da Lacedemônia.

O ateniense: M a s p r o s s i g a m o s e i n t e r r o g u e m o s e s s e p o -
eta desta maneira: "O Tirtaeu, inspiradíssímo poeta
(pois s e g u r a m e n t e tu te afiguras a nós s á b i o e b o m p o r
ter louvado excelentemente aqueles q u e na guerra se
distinguem): em r e l a ç ã o a esta m a t é r i a q u e nós três -
e s t e q u e a q u i se e n c o n t r a , • • • Clínias de C n o s s o s e eu **"ê<;lo <i, .Alegik. (n.l
m e s m o - já e s t a m o s de inteiro a c o r d o contigo, assim o
s u p o m o s , desejamos estar certos e ter como claro q u e
tanto nós c o m o tu e s t a m o s nos referindo às m e s m a s
pessoas. Diz-nos então: reconheces c l a r a m e n t e , c o m o o
fazemos, dois tipos distintos de guerra? " Em resposta a
isto, p r e s u m o q u e m e s m o u m h o m e m m u i t o m e n o s ca-
paz do q u e Tirtaeu diria q u e está correto, q u e há dois
tipos, um deles o q u e c h a m a m o s de revolução, q u e é de
todas as guerras a m a i s amarga, o q u e dissemos há pou-
co, e n q u a n t o o outro tipo, q u e s u p o n h o todos n ó s con-
cordaremos, é aquele no qual nos envolvemos q u a n d o
l u t a m o s c o n t r a inimigos externos e. estrangeiros - u m a
espécie de guerra muito m e n o s b r a n d a que a primeira.

Clínias: C e r t a m e n t e a s s i m é.
0 ateniense: "Vejamos, então, que. t i p o de g u e r r e i r o s ,
c o m b a t e n d o e m q u e tipo d e g u e r r a , louvaste tão inten-
samente e n q u a n t o censuravas outros? Guerreiros, apa-
rentemente, que c o m b a t e m n u m a guerra no estrangei-
ro. De q u a l q u e r m a n e i r a , em teus p o e m a s tu disseste
que, n ã o p o d e s suportar h o m e n s q u e n ã o o u s a m

73
Platão - As Leis

'encarar a m a t a n ç a sangrenta e atacar o inimi-


* ÇFeõgtiíB de ^Megnm, «os go o e n f r e n t a n d o de perto'."
ultegpM do ânimo t> uno da " E e n t ã o p o d e r í a m o s , p o r n o s s a vez, d i z e r ; " P a r e c e , Tir-
Simulo. Tfoi outo» de rfegicm taeu, q u e estás principalmente louvando aqueles q u e
bem nome A poesins
se d e s t a c a m na g u e r r a e x t e r n a e estrangeira." C o m isto,
(jmIbípos. ÇfíoMswiu m tamo
s u p o n h o , ele c o n c o r d a r i a c d i r i a "Sim", n ã o é m e s m o ?
de incodos do «tato VI o. C.
Clínias; Certamente.
e «amfoo do puMido
afiietoraâtao de suo eiííoífa, O ateniense: E , c o n t u d o , p o r m a i s b r a v o s q u e s e j a m es-

ocnbou pó» se» AsfeModo tes h o m e n s , insistimos a i n d a q u e são s u p e r a d o s , e bas-

polo |or!í:õo dc.»oMóliío.(n.(.) t a n t e , e m b r a v u r a p o r a q u e l e s q u e s e d e s t a c a m e m co-


ragem na mais r u d e das guerras; e contamos, nós tam-
•* fiw...%aXeJtr|.
b é m , com o t e s t e m u n h o de um poeta, Teógnis, • cida-
Kupvc, 8ixooTaatT|...
d ã o d e M e g a r a n a Sícflia, q u e diz :
(... d,t penoso áseóídio, n u
Nos d i a s de p e n o s a discórdia, ó Q u i r n o s , * *
Sumos...), o poeta sc W | C M
o guerreiro leal vale seu peso em o u r o e p r a t a . "
sem dúvida à «í^oCue/ro, õ
goowo cwíC (ti.í.) U m tal homem, n u m a guerra muito mais penosa, se
r e v e l a s e m p r e b e m m a i s s u p e r i o r q u e o o u t r o - d e fato
• • • cA 0'pMsssôo sugew o
m u i t o s u p e r i o r visto q u e a justiça, a p r u d ê n c i a e a sa-
naíéiic.io fio vttlude [otef pot
bedoria unidas à bravura são melhores somadas q u e a
pflllte (fc> McíiC.ültfMiO, q«í:
b r a v u r a p o r s i só, pois u m h o m e m j a m a i s s e m o s t r a r i a
imbuído tno-só rlc coítog»*,
l e a l e í n t e g r o n u m a r e v o l u ç ã o s e d e s t i t u í d o d e u m a vir-
Bfsfii SUS(bííIci«-SC «o senso «1»
tude total, e n q u a n t o q u e na guerra à q u a l Tirtaeu se
justiço, no prnÊnm * no
refere dispõe-se d e u m a e n o r m e q u a n t i d a d e d e merce-
fflWoíií. sr. Ciwilo n
n á r i o s prontos para morrer lutando plantados sobre suas
i«|íftsn»-8e nos jjifpütrjs:
pernas,* * * d o s q u a i s a m a i o r i a , c o m b e m p o u c a s ex-
inimigos, k i t a - » , ' mote f;
ceções, se revela insolente, injusta, b r u t a l , em s u m a os
moM«. («.(.) m a i s insensatos dos h o m e n s . Para q u e conclusão, pois,
• • • * . . . J I A P A Atoç o nosso presente discurso se dirige e q u e p o n t o p r o c u r a
VOHO06TT|Ç..., PitewlWlifc tornar claro através destas afirmações? E v i d e n t e m e n t e
icgnhdo» r/f furto (ie isto: q u e t a n t o o l e g i s l a d o r i n s p i r a d o p o r Z e u s * * * '
sfgw|iemi(ío rio po*lc A §a& t r
deste E s t a d o q u a n t o todo legislador q u e vale o q u e c o m e
pó» nfc iiistwído. (IU.) legislará c o m t o d a a certeza t e n d o em vista a v i r t u d e
s u p r e m a e ela somente, e esta, c i t a n d o Teógnis, consis-
• • • • • ^ [iTOMliTO
t e e m " l e a l d a d e n o p e r i g o " , e p o d e r se-ia d e n o m i n á - l a
( a v S p e i O T T i ç ) ísoMn.
" j u s t i ç a c o m p l e t a " . M a s a q u e l a v i r t u d e q u e T i r t a e u lou-
(..(.)
vava especialmente, ***** a despeito de ser bela e c o m
* • * • * * Js Idos píilUíMOS razão exaltada pelo poeta, merece, não obstante, com
fttfwfe sõo o üoWoíin t o d o rigor, ser classificada c o m o a q u a r t a v i r t u d e den-
(<j>povT]cnç). o psudêiipio / tro da ordem das virtudes. • * * • » •
wfidoínçõn (0(j)())poouvri)
í! a justlílO (StKttlOCJUVTl). Clínias: Estrangeiro, estamos relegando nosso próprio
legislador a um nível m u i t o baixo!

74
Livro I

O ateniense: Ele n ã o , meu prezado senhor! É a nós


mesmos que estamos relegando na medida em que
i m a g i n a m o s q u e foi v i s a n d o p a r t i c u l a r m e n t e à g u e r r a
q u e Licurgo e M i n o s f o r m u l a r a m t o d a s as instituições
legais a q u i e em E a c e d e m ô n i a .

Clínias: M a s e n t ã o c o m o d e v e r í a m o s e x p r e s s a r a s i t u a ç ã o ?
O ateniense: D o m o d o q u e é , a m e u v e r , v e r d a d e i r o e
justo q u a n d o nos referimos aos propósitos de h o m e n s
q u e c u i d a m d e u m a l e g i s l a ç ã o d e o r i g e m d i v i n a , isto é ,
d e v e r í a m o s d i z e r q u e eles p r o m u l g a r a m leis n ã o visan-
do a u m a ú n i c a fração, e a m a i s insignificante, da virtu-
de, m a s a virtude c o m o um t o d o e que c o n c e b e r a m as
p r ó p r i a s leis s e g u n d o c a t e g o r i a s , e m b o r a n ã o o s cate-
gorias q u e os atuais legisladores concebem, pois todos
agora p r o p õ e m e concebem a categoria de que tem ne-
cessidade: um h o m e m trata de heranças e herdeiras,
u m o u t r o d e c a s o s d e ultraje- e a s s i m p o r d i a n t e n u m a
variedade interminável. Mas o q u e nós asseveramos aqui
é q u e a c o n c e p ç ã o d a s leis, q u a n d o c o r r e t a m e n t e con-
duzida, segue o procedimento q u e a c a b a m o s de indi-
car. C o m efeito, m u i t o a d m i r e i a m a n e i r a c o m o intro-
d u z i s t e tua i n t e r p r e t a ç ã o d a s leis p o i s c o m e ç a r c o m a
v i r t u d e e a f i r m a r q u e e l a foi a m e t a d o l e g i s l a d o r c o n s -
titui o m o d o c o r r e t o . C o n t u d o , q u a n d o a f i r m a s t e q u e
ele p r o d u z i u leis i n t e i r a m e n t e c o m r e f e r ê n c i a a. u m a
fração da virtude, e esta a m a i s insignificante, pareceu-
me q u e incorreste em erro e toda esta última parte do
m e u d i s c u r s o a i s s o foi d e v i d o . Q u a l e n t ã o s e r i a a . m a -
neira de exposição que eu teria apreciado ouvir de tua
p a r t e ? Poderei dizer-te?

Clínias: Mas certamente.

0 ateniense: "O estrangeiro (assim deverias ter dito),


" n ã o 6 p o r a c a s o q u e a s leis d o s c r e t e n s e s g o z a m d e
e x c e l e n t í s s i m a r e p u t a ç ã o e n t r e t o d o s o s h e l e n o s ; s ã o leis
justas porquanto produzem o bem-estar daqueles q u e
as utilizam p r o p o r c i o n a n d o todas as coisas q u e são
boas. Ora, os b e n s são de d u a s espécie-, a saber, h u m a -
nos e divinos; os bens h u m a n o s d e p e n d e m dos divinos e
aquele que recebe o maior bem adquire igualmente o
menor, ouso c o n t r á r i o é p r i v a d o de a m b o s . E n t r e os b e n s
m e n o r e s a s a ú d e vem em p r i m e i r o lugar, a b e l e z a em

75
Platão - As Leis
•...VOU CflB(t>pü)V Y I R Y J L Ç

e^lç...fíis|iPsi(;.õo nmkmdnm da nCma s e g u n d o , o v i g o r e m t e r c e i r o , n e c e s s á r i o à corri-


oçaxüoda d inklupucia; tmmu (infciíin, o da e todos os d e m a i s exercícios corporais; segue-
tmpmmfi. Matou fanfaoft. como se o q u a r t o b e m , a r i q u e z a , n ã o a r i q u e z a cega,
ecfitpM, q« tman B o n s * » multe wgts m a s aquela de visão aguda, q u e tem a sabedo-
dista» bosta*; dos conceitos gacgos, ria por companheira. A sabedoria, a propósito,
ofiesn» cio gncgo onfigo SB O mnttig o c u p a o primeiro lugar entre os bens q u e são
ftugnfsticíi do tantas tíiiguos postaiows- divinos, vindo a racional moderação da a l m a *
iiicftiísw. ém «omôíticas como n (xifiiugijfs. em segundo lugar; da u n i ã o destas d u a s com a
^ím dos woiwos í;k?i»[>!o<; disso C o c o r a g e m n a s c e a justiça, ou seja, o terceiro b e m
wwprtto DÍ y u % r | , que. mlfjitinfwnío divino, seguido pelo quarto, que é a coragem.
signi|ien « p * > aí? í«/í?. /uítiní/vo iwmifc. t, Ora, todos estes b e n s estão posicionados, p o r na-
oomo toi sg fifi»oslnio do corcpíIo judoíeo tureza, antes dos bens humanos, e, em verdade,
n é n t e e n Miiíixrfi que oponncc w assim deverá o legislador posicioná-los, depois
píiiinnlM) te* do "Tteitalosmo alsibufdn a do q u e deverá ser proclamado aos cidadãos q u e
vAlofíiós. syllna, oo m obsoíwdo (i todas as outras instruções q u e recebem têm em
taminoPofjío ^'Po!in|i«i, a pofoite vista esses b e n s ; e q u e os b e n s h u m a n o s são orien-
u !
¥ X ' n - T" ootwnlcmniilf! toadugítwos (mi t a d o s p a r a os b e n s divinos, e estes p a r a a r a z ã o ,
«ft«o (Patim: nw/wj) ou netíi: arigniM; mu que é soberana. E c o m respeito às relações
bm m sentido pfímmdui «a sentido de casamento dos cidadãos e subseqüente nas-
Ifiraiipo íntíptíjiío. Êw u t e f ó f o t e i , ò guiso cimento e educação das crianças, m e n i n o s ou
do «'FÜIIFIFC. a piiquê:(\ mtpmitt dc mmsi meninas, tanto durante a juventude quanto na
(ncuMadís, do apofifMMiistitifftü oí(: a vida m a d u r a e até a velhice, o legislador deverá
c
do iitfpfcoío atiiO; | i o » Ph(ão a ^>vx^ supervisionar os cidadãos, d i s p e n s a n d o devida-
ifiwhrím í> empkm. ulsBim, mente h o n r a c desonra; e com respeito a todas
éfamtmute. da awfKMO sittgefa o a s f o r m a s d e r e l a c i o n a m e n t o dos c i d a d ã o s , será
«sliita (pie ofübiww» gmâmto, A imperioso que o legislador observe e acompa-
paUanim afím m fontjo do Iitetódia da n h e s u a s d o r e s , prazeres, desejos e todas as pai-
^ifo«o]tic< FIRJS-Mtafl C do fiisíóíio do xões intensas, distribuindo aprovação e repro-
»nftgiõo mérim, ofestifcw* expKS)» v a ç ã o d e m o d o c o r r e t o m e d i a n t e a s p r ó p r i a s leis.

no iiilftir:o»hflPidad(: no» o tonto fispttiln Ademais, no q u e concerne ao ódio c ao medo, e

no dícolowio aptwi/oo/ifip ou cs|>Mo/ a t o d a s a s p e r t u r b a ç õ e s q u e a f e t a m a s a l m a s de-

MONSMO. (ieMmeK te O» H'«h' ( P P /WS^Mf vido à d e s v e n t u r a e a t o d a s as f o r m a s de evitá-

s(i contelo do fif!iif:of>M»to g»fgo íSgai|if.a las na v e n t u r a , e a t o d a s as vicissitudes q u e atin-

o mk liofcjoqftifw o, MiJPifnítff! doe gem os h o m e n s através d a s e n f e r m i d a d e s , guer-

O J K Í T I L F Ü . FLOIRFLCS. FMFLÇÕF??;, OTL|IIU(»LTOS O


ras, p e n ú r i a ou seus opostos - em relação a t u d o
isto o l e g i s l a d o r d e v e r á o r i e n t a r e d e f i n i r q u a n -
pmmmtm. Oo*» orfxwws <j*
to ao q u e é c o r r e t o e o q u e é i n c o r r e t o em c a d a
«liíofogia (! ^"íraojift |o»iot»i um f>f<»
caso. È necessário, a seguir, q u e o legislador
OIIOOBFODO», tiõo w s i s t a o s oni indica» oo
CMIm RRO-ottodtini (wslo que os «tfodoms m a n t e n h a u m a vigilância sobre os métodos q u e

fosluftifini ftwilds-sf nos talou (fftiieos de. os c i d a d ã o s e m p r e g a m p a r a o g a n h o e o gasto

|iPof;o|io) o ^óíwPo oítesmo de iiiirio do dinheiro, c supervisione as associações q u e

í^JIBIMO Pme •Pmqitê. rjuc wwsla m <0 eles f o r m a m e n t r e si e a d i s s o l u ç ã o d e s t a s , se são

íststifl tirfiittp. (TI.T.)

76
Livro 1
••...£<17tStpü)
v o l u n t á r i a s ou c o m p u l s ó r i a s ; ele d e v e r á o b s e r v a r a m a - xc%vr\.... po» mm do
neira pela q u a l o s c i d a d ã o s c o n d u z e m f a d a u m a dessas PA|W!:»iftlfilll(lÇSn OU fUltfi. £'s
m ú t u a s t r a n s a ç õ e s , v e r i f i c a n d o o n d e a j u s t i ç a e s t á pre- íjieqns ontwjos Mio èiÜMjm»
s e n t e e o n d e e s t á a u s e n t e . A o s q u e r e s p e i t a m a s leis e l e o íiiy» o ifctpif.fi do mte
d e v e r á proporcionar h o n r a s c o n f o r m e a s leis, m a s a o s (%E%vr\), cano nóf!
que as d e s r e s p e i t a m deverá impor penalidades devida-
LOJFTMDB. '_/ssiw, rtiiíiMin n
m e n t e estabelecidas. E e n t ã o , finalmente, ao atingir a
ffinrcitn F I E TE^VT] r.fir>,jn
c o n c l u s ã o d e s u a o b r a p o l í t i c a n a s u a t o t a l i d a d e , terá
ftwfs fiiiówwo ffc mk
que considerar de q u e maneira cm c a d a caso o sepulla-
mammí íwfasfitiatn,
m e n t o dos m o r t o s deve ser realizado, e q u e h o n r a s de-
íiwfuinfio ermo üPufi rigfiiilr:'; o
v e r ã o ser p r e s t a d a s a eles. Isto s e n d o f i x a d o , o legisla-
ofewi, o ktfíno, fi pfnto,i f! o
dor passará todos seus estatutos à responsabilidade de
guardiões das leis, q u e , u n s g u i a d o s p e l a s a b e d o r i a , o u - fiSfiiKf», erim onhrw - o

tros pela opinião sincera, farão com q u e pela razão, a íttfjitiMo, F! (K)flO I! o
q u a l vincula todos esses estatutos n u m sistema único, (íwniri!u>f|o fomlióm são
toda essa legislação fique s u b o r d i n a d a n ã o à cupidez oíleíõfis/fisfisifis/fí-oiiiens.
p e l a riqueza ou à a m b i ç ã o , m a s sim à t e m p e r a n ç a e a fom am> o wdn.o ipir Ma
j u s t i ç a . " E a s s i m , e s t r a n g e i r o s , que, t e r i a d e s e j a d o , e i n d a a nnúdce olá n Miprtno ia
d e s e j o , q u e vós t i v é s s e i s p l e n a m e n t e e s c l a r e c i d o d e q u e nntf? q«C: p.wdtg o mgcw da
m a n e i r a t o d a s e s s a s r e g r a s c o n s t a m n a s leis a t r i b u í d a s maniia. vjaf eomilo f Mo
a Z e u s e n a q u e l a s de A p o i o pífio, as q u a i s f o r a m esta- Pfiln n ponto do rikíwjo»
b e l e c i d a s por M i n o s e L i c u r g o , e de q u e m a n e i r a o ar-
quasn tudo que rmecnite. ti
ranjo sistemático delas se mostra a b s o l u t a m e n t e eviden-
fonijof^fio o« pwifíuf-fio d('
te para aquele que, por arte ou prática, •• é um perito
(iCfjíi & p.vMt/m dfiqniíf) quo d
n a s l e i s , e m b o r a n ã o seja d e m o d o a l g u m e v i d e n t e p a r a
|)/ifif(ugidf! |y>Co tifiíwogo,
o r e s t o de, n ó s , l e i g o s .
fjf:eiif»do |w.w o tic&no
Clínias: E c o m o e n t ã o , e s t r a n g e i r o , d e v e r e m o s p r o c e d e r OlnfiPlKifiiO finncfSfo
doravante em nosso discurso? ofiidotilnf modo/um dc
ailiptíaíl m oposiçõn ò
O ateniense: Deveríamos, a meu ver, f a z e r c o m o fize-
tirifttmt '-Poso mm lé/W.:n r
m o s i n i c i a l m e n t e , ou seja, c o m e ç a r do c o m e ç o a fim de
explicar p r i m e i r a m e n t e as instituições q u e t ê m a ver um eonjtmlo de fimatfliMutlog

c o m a c o r a g e m e d e p o i s d i s t o , s e for d e v o s s o a g r a d o , ^mfímmn rinpttyodm paia

nos o c u p a r e m o s dc u m a segunda e u m a terceira forma l»pdugi,i afija po.ii f-v cm\ih.

de virtude. E assim (pie tivermos concluído nossa abor- um W!lf'|«to wiiiio um

d a g e m d o p r i m e i r o t e m a , t o m a r e m o s esta c o m o mode- oofçodo, m oowpiifodf,,'! ou


lo e m e d i a n t e u m a discussão do resto em termos seme- mm obfi de, mfa. v\n mm
l h a n t e s teremos c o m o p a s s a r o t e m p o nesta longa estra- piiitu.M tu um pomo. €>
d a . E oo fim de nossa a b o r d a g e m da v i r t u d e sob t o d a s emmU> <fc t c x v q a t e m
s u a s f o r m a s , d e i x a r e m o s c l a r o , s e for d a v o n t a d e d a D i - tudo isto e mal». etífainfJo tnC
v i n d a d e , que a s r e g r a s a t é a g o r a v e n t i l a d a s t i n h a m a Mino g«tfiiifif> paute dos
própria virtude como sua meta. MWMffS! fJMfjCf:. euownf!
ftwgttogo sfiinfinliíifi. iVt.)
77
Platão - As Leis

Megilo: U m a b o a s u g e s t ã o ! E p r i n c i p i a c o m n o s s o a m i -
go a q u i , o panegirista de Z e u s * - procura primeiro
* (k seja, CêJiiaa, Mmm,
pô-lo à prova.
m. e fegistotio» dc C»eta, do
O ateniense: P ô - l o à p r o v a , eu o f a r e i , s e m e x c l u i r - t e e a
Huai ÍMiiãg c" o digno
m i m m e s m o t a m b é m d e s s e e x a m e , visto q u e a d i s c u s s ã o
mpmxmtmk, d jifto de
diz r e s p e i t o a t o d o s n ó s três. M a s d i z - m e , * * e n t ã o ; esta-
m o s d e a c o r d o q u e a s r e f e i ç õ e s c o m u n s e a g i n á s t i c a fo-
"* (0 (jttttiaisip se diAige o r a m concebidas pelo legislador em função da guerra?
í.Aêf/íã) c «fio o í 5 ? Í W »
Megilo: Sim.

O ateniense: E haverá u m a terceira instituição dessa


espécie, e u m a quarta...? Pois provavelmente seria de
se e s p e r a r q u e se e m p r e g a s s e esse m é t o d o de e n u m e r a -
ç ã o t a m b é m n o t r a t o d a s s u b d i v i s õ e s ( o u s e j a c o m o for
que. c h a m e m o s ) d a s o u t r a s f o r m a s de v i r t u d e , se é q u e
p r e t e n d e m o s d a r clareza a o q u e q u e r e m o s dizer.

Megilo: A t e r c e i r a c o i s a q u e o l e g i s l a d o r c o n c e b e u foi a
*** K p u j t t e i a , c a ç a - é o q u e eu e t o d o l a c e d e m ô n i o d i r í a m o s .
substaiilfm opojentodo an
O ateniense: T e n t e m o s igualmente indicar o que vem
uraèo K p U T r c e u c o (manta - e m q u a r t o lugar... e m q u i n t o , t a m b é m , s e possível.
se <>soo»dido, WIKSMWM-SP a»
Megilo: Q u a n t o a o q u e v e m e m q u a r t o l u g a r é - m e p o s s í
rwhoscodo) c no teêo
vel i n d i c á - l o : é o t r e i n a m e n t o , l a r g a m e n t e d i f u n d i d o e n -
Kpl'.TT(t> (oeiiftoíl-SC,
tre n ó s , envolvendo rigorosa resistência à dor, p o r meio
etíbmse. cseonde» s* pow
t a n t o de concursos de pugilato q u a n t o furtos realizados
sub(/iaií-se oo oPíioses, etc).
sempre sob o risco de u m a boa surra; além disso, a
eitifiiéio cm ««cvw.ieío
criptéia, * * * c o m o é c h a m a d a , p r o p o r c i o n a um m a r a v i -
da Iteiwmietilo ijnmam no
l h o s o t r e i n a m e n t o d e resistência, h a v e n d o e m p l e n o in-
guo? jowj.bs soPdados
v e r n o a m a r c h a de p é s n u s , o d o r m i r s o b r e o solo d u r o e a
o<!|io«taiwi Sfí tttatiíidam em
a u s ê n c i a do auxílio dos serviçais, os h o m e n s c u i d a n d o
emhoncodn po»o o coso do d e si, e a s v i a g e n s e r r a n t e s n o i t e e d i a p o r t o d a a r e g i ã o .
necessidade d« sufoca» A d e m a i s , e m n o s s o s jogos e x p e r i m e n t a m o s severos tes-
«cfiePiõcs dos ife(os.(«.t.) t e s d e r e s i s t ê n c i a q u a n d o h o m e n s n u s r e s i s t e m à vio-
lência do calor,**** e outros em tão elevado n ú m e r o
•••• u4 giiuiújyedia, dança
que. s u a m e n ç ã o m i n u c i o s a s e r i a infindável.
«o <f*rf ns ejionçds e os joiws
c,sf>a«fattos cc. wortaw «ns soh O ateniense: Esplêndido, ó estrangeiro da Lacedemô-
o coníeoío fio* uoflo do nia! Mas vejamos, a coragem, como a definiremos? Sim-
cofclírio d e « W N . (n.t) p l e s m e n t e c o m o o c o m b a t e ao t e m o r e à d o r tão-somen-
te, o u t a m b é m a o d e s e j o , a o p r a z e r c o m s u a s c a r í c i a s e
seduções perigosas q u e derretem corno cera os corações
dos h o m e n s - m e s m o daqueles q u e se crêem austeros?

Megilo: C r e i o q u e a c o r r e t a d e f i n i ç ã o é o c o m b a t e a t u d o
isso q u e citaste.

78
Livro 1

O ateniense: A n t e r i o r m e n t e e m n o s s a d i s c u s s ã o (se n ã o
estou equivocado), este nosso a m i g o u s o u a expressão
"inferior a si m e s m o " referindo-se a um E s t a d o ou a
um i n d i v í d u o . C o n c o r d a s q u e o fizeste, ó e s t r a n g e i r o
de Cnossos? ••*** f) a/nmaisf: oqoto
CUnias; S e m a m e n o r d ú v i d a . iioflrt n íli*igis-w, o CiíNmi.
M.)
O ateniense: E a g o r a d e v e m o s n ó s a p l i c a r o t e r m o " m a u "
ao h o m e m q u e cede (que é inferior) à dor ou t a m b é m
à q u e l e q u e cede (que é inferior) ao prazer?

Clínias: P a r e c e - m e q u e m a i s a o h o m e m q u e c e d e a o p r a z e r
d o q u e a o o u t r o . T o d o s n ó s , d e fato. q u a n d o a l u d i m o s a
um h o m e m q u e é v e r g o n h o s a m e n t e "inferior a si m e s m o " ,
q u e r e m o s c o m isto d i z e r m a i s a q u e l e q u e é s u b j u g a d o p e l o s
prazeres do q u e a q u e l e q u e o é, pelas dores.

O ateniense: C o n s e q ü e n t e m e n t e , o l e g i s l a d o r de Z e u s e
'...AlOÇ OUV ÒT)
o d e A p o i o • • • • • • n ã o d e c r e t a r a m p o r lei u m t i p o h e -
KOU O riuOlKOÇ
miplégico de coragem, capaz a p e n a s de se defender pela
VOUO0£TT]Ç.... p
e s q u e r d a , m a s i n c a p a z de resistir às atrações e sedu-
c m
íctjiftPnrifw de S '-c f> jfilipfi.
ções da direita. N ã o teriam, de preferência, d e c r e t a d o
um tipo c a p a z de resistir em a m b o s os f lanços? ou sujo, 'jUíiioí: iitspi/ifido prei
^ M : (min Cuia e. íiiruiwjíi
Clínias: E u d i r i a , c o m e f e i t o , q u e u m t i p o d e c o r a g e m
iiispijodo pm tAfx&o (mo
p a r a a m b o s os flancos.
P.spoido; m jpfoçõfi o este.
O ateniense: M e n c i o n e m o s m a i s u m a v e z a s i n s t i t u i ç õ e s úPtinio, ci 4m •Afoh (woJmki
d e vossos dois Estados q u e p r o d u z e m nos h o m e n s u m os («uíotiCos nttoDei: do
gosto pelos p r a z e r e s em lugar de deles afastá-los - do RII>0ia (/te-
m e s m o m o d o q u e longe d e afugentarem a s dores mergu- sow,«RFOFIBÍ< do IMHPÍO da
l h a m seus cidadãos no meio delas, compelindo-os assim
^Apcéi fm •"-"DíÍIor, «ri .w/jífin
ou os i n d u z i n d o m e d i a n t e recompensas a subjugá-las.
do Tlófidn situado oo pé do
O n d e e n c o n t r a r e m v o s s a s leis d i s p o s i ç õ e s i d ê n t i c a s n o
«tonto <f>omm mimdn
q u e se refere a o s p r a z e r e s ? Dizei me q u a l a regra e n t r e
(«ido R I T ) 8 t ó ) . -_A ptopüsíto,
v ó s q u e faz o s m e s m o s h o m e n s s e r c o r a j o s o s d i a n t e d a s
os ípml/m difjiiilóMos dos reis
dores e dos prazeres igualmente, subjugadores daquilo
dc fispoífo incumbidos do
q u e é preciso subjugar e de m o d o a l g u m inferiorizados
fioasuífo ao oiifieiiín do.
pelos seus inimigos m a i s próximos e m a i s temíveis.
TV^os exm ('domados de, ot
Megilo: E m b o r a , e s t r a n g e i r o , e u fosse c a p a z d e m e n c i o n a r l l l i O i o t , os fittimim.
m u i t a s leis q u e t r a t a m d o d o m í n i o s o b r e a s d o r e s , n o i/ktomois, pitíeo d'q .««peito
q u e c o n c e r n e a o s p r a z e r e s n ã o j u l g a r i a t ã o fácil i n d i c a r tombem oos jogos pítinos
e x e m p l o s i m p o r t a n t e s e m a r c a n t e s , p o d e n d o , talvez, no eéeh<md(M\ m íTMjn* do
entanto, apresentar alguns exemplos de menor monta. i|yfí^io otn qtiabd onos oro
Clínias; Nem poderia eu m e s m o d a r claros exemplos hmm de ^Apoff) pético, o d a s
n e s s e s e n t i d o d a s leis cretenses. o(u(! mntr* a SMpímte de nome
R I U E Ü Í \ ' (PILO»), FUI.)

79
Platão - As Leis

O ateniense: O q u e n ã o é «1c se s u r p r e e n d e r , m e u s e x c e
lentíssimos amigos. M a s se no seu desejo de d e s c o b r i r o
q u e é verdadeiro e o melhor, q u a l q u e r um de n ó s encon-
t r a r a l g o c r i t i c á v e l ern q u a l q u e r lei n a c i o n a l d e s e u s vizi-
n h o s , e n c a r e m o s isto s e m i m p a c i ê n c i a e s e m m e l i n d r e s .

Clínias: Esl.ás c e r t o , e s t r a n g e i r o : é o q u e t e m o s a f a z e r .

O ateniense: De fato, Clínias, p o i s t a i s s u s c e t i b i l i d a d e s


não caberiam a h o m e n s de nossa idade.

Clínias: Realmente seriam descabidas.


O ateniense: Q u a n t o a s a b e r s e s e t e m r a z ã o ou n ã o
n a s c e n s u r a s q u e s e faz à c o n s t i t u i ç ã o d a L a c e d e m ô -
nia e àquela de Creta.* é u m a outra história. Mas
•...AaKOJviKri K C U xr|
eu estaria provavelmente em melhor condição do que
Kpr|TiKTi noXiTsta...,
vós p a r a a p o n t a r o q u e é e f e t i v a m e n t e d i t o p e l a m a i o -
ou nojo, 'PPolão rfig nqai
ria, j á q u e e m vosso c a s o , s e n d o vossas leis s a b i a m e n t e
iianõtia, P uno ílofiedcinôiiio
concebidas, u m a das melhores é aquela que proíbe
ou í?ífio»fo. tinto que o código
q u e os jovens q u e s t i o n e m o q u e é certo ou e r r a d o no
dc ftss clVikwodo | I O Í iíirMgo
c o n j u n t o d a s leis, t e n d o todos, a o c o n t r á r i o , q u e de-
cm (Snapxri),
c l a r a r em u n í s s o n o , de um só voz q u e t o d a s são reta-
ííaccdomnnfo (o (owitóíío onde
mente estabelecidas por decreto divino, não se d a n
te iMdrimw ^nfn&lq) Joi
do ouvidos a q u e m q u e r q u e afirme coisa diversa; e.
opwiwlo «> ulifijoflo cm todo o
ademais, q u e se alguma pessoa idosa tiver a l g u m a
'iStmdm. o «gtóft ísirfcite do
crítica a fazer em r e l a ç ã o a a l g u m a de vossas leis,
'TVofmiteBO coíliofado pok
Pipaiiki o do fp«C üütft Í - J O n q u e n ã o profira tais opiniões na presença de q u a l
CO|)i(o{. (u.(J q u e r j o v e m , m a s s i m p e r a n t e u m m a g i s t r a d o o u al-
guém de sua própria idade.

Clínias: Muito b e m o b s e r v a d o , estrangeiro! Tal como


um a d i v i n h o , a d e s p e i t o de estar t ã o d i s t a n t e do legisla
d o r o r i g i n a l , t u v i s l u m b r a s t e b e m , m e p a r e c e , s u a in-
tenção e a descreveste E O I N perfeita justeza.

O a t e n i e n s e : B e m , n ã o h á p e s s o a s j o v e n s c o n o s c o ago-
ra, d e m a n e i r a q u e n o s s e r á p e r m i t i d o p e l o legislador,
v e l h o s c o m o s o m o s , d i s c u t i r e s s a s m a t é r i a s e n t r e né>s
p r i v a d a m e n t e sem incorrer em q u a l q u e r ofensa.

Clínias: E v e r d a d e , d e s o r t e q u e n ã o h á m o t i v o p a r a
h e s i t a r e s E M c e n s u r a r n o s s a s leis, pois n a d a h á d e de-
sonroso E M ser advertido d e u m a falha ; a o contrário,
r e c o n h e c i d o o erro, é p r e c i s a m e n t e isto q u e c o n d u z ao
r e m é d i o e à c u r a s e a c r í t i c a for a c e i t a s e m a n i m o s i d a -
de e n u m a disposição amigável.

80
Livro I

O ateniense,: Ó t i m o ! M a s e n q u a n t o e u n ã o tiver i n v e s t i
g a d o v o s s a s leis c o m o m á x i m o c u i d a d o d e q u e s o u c a -
paz n ã o as censurarei, preferindo sim apresentar as dú-
vidas q u e t e n h o a respeito. Vós a p e n a s entre os helenos c
os b á r b a r o s , pelo q u e está ao m e u alcance saber, possuis
um legislador q u e vos prescreve a a b s t e n ç ã o dos praze-
res e d i v e r t i m e n t o s m a i s a t r a e n t e s e o n ã o f r u i r d e l e s .
Contudo, no q u e diz respeito às dores c os temores, como
dissemos antes, o legislador sustentava q u e q u a l q u e r um
q u e d e l e s f u g i s s e c o n t i n u a m e n t e d e s d e a i n f â n c i a fica-
ria reduzido a, q u a n d o d i a n t e de a p u r o s , temores c do-
res inevitáveis, fugir d o s h o m e n s q u e s ã o t r e i n a d o s nes-
sas coisas, destes se t o r n a n d o escravo. Ora, me p e r m i t o
p r e s u m i r q u e esse m e s m o legislador devia ter s u s t e n t a -
do a m e s m a posição c o m referência aos prazeres tam-
b é m , e devia ter cogitado q u e se nossos c i d a d ã o s se de-
senvolvem desde a juventude distantes do gozo dos maio-
res prazeres, a conseqüência será q u e q u a n d o se encon-
trarem em meio aos prazeres sem serem treinados no
dever de resistir-lhes e r e c u s a r c o m e t e r q u a l q u e r ato de-
sonroso, devido à n a t u r a l a t r a ç ã o d o s prazeres, sofrerão
o mesmo destino daqueles q u e cedem ao medo: serão dc
u m a outra forma, a i n d a mais vergonhosa, escravizados
p o r a q u e l e s q u e são c a p a z e s d e resistir e m m e i o a o s pra-
zeres c a q u e l e s q u e são versados na arte do prazer - seres
h u m a n o s q u e são, p o r vezes, i n t e i r a m e n t e perversos - de
m o d o q u e suas a l m a s serão e m p a r t e escravas, e m p a r t e
livres, n ã o m e r e c e n d o e l e s s e m r e s e r v a s r e c e b e r o t í t u l o
d e h o m e n s l i v r e s e h o m e n s d e c o r a g e m . Q u e vós c o n s i d e -
rei s , a g o r a , s e a p r o v a m e s t a s m i n h a s o b s e r v a ç õ e s .

Clínias: Depois de ouvir-te, em princípio estamos


inclinados a aprová-las, c o n t u d o d a r crédito de m a n e i r a
i m e d i a t a e fácil no q u e se r e f e r e a m a t é r i a s de tal
i m p o r t â n c i a s e r i a , a m e u ver, p r e c i p i t a d o o i n s e n s a t o .

O ateniense: Bem, Clínias, e tu, estrangeiro da


Laeedemôrúa, se e x a m i n a r m o s o segundo dos nossos
a s s u n t o s , c o n f o r m e o q u e n o s p r o p o m o s fazer - pois
d e p o i s da c o r a g e m d e v e m o s p a s s a r à t e m p e r a n ç a - o
que encontraremos em nossas constituições que as
distingo daquelas concebidas ao acaso, como
presenciamos presentemente no q u e diz respeito à
organização militar destas?

81
Platão - As Leis
*...a<j)poSi0ia
r | S o v a ç . . . , ptoym do Megilo; C e r t a m e n t e u m a s s u n t o n a d a f á c i l ! E , n o e n -
amou, que* diga, f>*n#ft»es t a n t o , provavelmente os repastos c o m u n s e os exercícios
scuiais. eMicos. íj^/iodite físicos c o n s t i t u e m b o a s c o n c e p ç õ e s p a r a f o m e n t a r es-

( A < t ) p o ô i T T | ) é o denso sas duas virtudes.

da faologo, encanto, O ateniense: E m v e r d a d e , e s t r a n g e i r o s , p a r e c e difícil p a r a

atAação e sedução |ettiínitias as constituições se m a n t e r e m i g u a l m e n t e a l é m da crítica


t a n t o n a teoria q u a n t o n a p r á t i c a . S u a s i t u a ç ã o s e asse-
oc.awoiotido as idéias A
melha a do corpo h u m a n o , em relação ao qual parece
paimo secua? c psage»
impossível i n d i c a r q u a l q u e r t r a t a m e n t o específico p a r a
sraunf. finos ( E p m ç ) 6
cada easo sem descobrir q u e essa m e s m a indicação é em
/ « f e dc oA|*ofiite, isto é,
p a r t e benéfica e em p a r t e prejudicial ao corpo. Assim,
«u« certo sentido uma e s s a s refeições c o m u n s , p o r e x e m p l o , e a ginástica, em-
crfensão ou apêndice tÍGÍn, b o r a sejam a t u a l m e n t e benéficas aos Estados em muitos
íesteiiginrJo a idéia do outros aspectos, no caso de revolução revelam-se perigo-
amo* sewaf mois oo sas (como é i n d i c a d o no caso d o s jovens de Mileto, Beó-
etfemento íkmfa que o sigo/t cia e Túrio); a d e m a i s , essas instituições, estimuladas há
é mais IKCTSCUFÍTIO do que m u i t o p e l a lei, p a s s a r a m a d e g r a d a r o s p r a z e r e s d o

jemiMuo; EptuÇ (epaxj amor, • os quais são naturais não só para os indivíduos
h u m a n o s como também para os animais. Relativamen-
signijica mais estMaitictite
t e a isto v o s s o s E s t a d o s s e r ã o o s p r i m e i r o s a s e r r e s p o n s a -
desejo (11110M80. dl ejetiua
bilizados j u n t a m e n t e c o m t o d o s o s o u t r o s q u e d ã o especi-
f)ote/iipç(ío sexwrf é jwta
a l ê n f a s e a o e m p r e g o d a g i n á s t i c a . E faça-se a o b s e r v a ç ã o
abones do deus <_A,v,s
e m t o m s é r i o o u a t í t u l o d e gracejo, s e g u r a m e n t e n ã o s e
( A p q ç ) , que é, o deus do
deixa de constatar q u e q u a n d o o m a c h o se u n e à fêmea
guewa e da mlôiMa, para procríação o prazer experimentado é considerado
fi/iitifiífiio «osfiufítio ar.fuo da devido à natureza, p o r é m contrário à natureza q u a n d o o
scwoMade. e que jowna m a c h o se u n e ao m a c h o ou a fêmea se u n e à fêmea, sendo
fto» íAfp.odit(i o giiatide |->o» q u e o s p r i m e i r o s r e s p o n s á v e i s p o r t a i s e n o r m i d a d e s fo-
dd amantes da mitologia r a m i m p e l i d o s p e l o d o m í n i o q u e o p r a z e r e x e r c i a sobre,
gíega. LA \whma Á p t ] C eles. E t o d o s n ó s a c u s a m o s o s c r e t e n s e s d e t e r e m i n v e n t a -
do a f á b u l a de C a n i m e d e s i *• visto q u e se acreditava q u e
pa/tHftlpa da mesma *afg de,
s u a s leis p r o v i n h a m de, Z e u s , eles h a v i a m a c r e s c e n t a d o -
a p e i r ) , cvecíêtioia,
diz-se - e s s a h i s t ó r i a e n v o l v e n d o Z e u s d e m a n e i r a a justifi-
quaCidade tia quaí se é
car o gozo desse p r a z e r t e n d o o d e u s c o m o modelo. Quan-
erecfaite, Di/itade, was que
to à fábula em si n ó s n ã o temos m a i o r interesse, m a s q u a n -
significa fawbéw co/tagew e,
do os indivíduos h u m a n o s estão investigando o assunto
«o pftuaf alos (k Mítta(p>i. d a s leis, t a l i n v e s t i g a ç ã o e n v o l v e q u a s e q u e t o t a l m e n t e o s
AvSpeia significa tanto p r a z e r e s e a s d o r e s , seja n o s E s t a d o s , s e j a n o s i n d i v í d u o s .
ui,«fidadc quanto o.oiago». Estes são a s d u a s fontes q u e j o r r a m m e d i a n t e o i m p u l s o
da n a t u r e z a e todo aquele q u e delas b e b e r a devida q u a n -
(_A insinuação de que a
t i d a d e n o d e v i d o l u g a r e , h o r a ó a b e n ç o a d o - seja ele u m
co/iage» é uma qualidade
Estado, um indivíduo ou qualquer tipo de criatura; m a s
ou i«idüide giKMciíta
immmii/ia c evidente. (n.Ü
82
Livro I
** -..,4 «íti.eo ric. "-Wnfõo ao

a q u e l e q u e fizer i s s o s e m e n t e n d i m e n t o e fora d a d e v i d a liOínossMuflftswo é j/toiteo,


estação trilhará u m a s e n d a inversa. poítaiifoMttfe no

Megilo: R e a l m e n t e d i z - s e i s s o , e s t r a n g e i r o , e n ã o é d i t o (lowossfiuwfeitio mascuíino


s e m r a z ã o . E eu n ã o sei b e m o q u e r e s p o n d e r a isso. De (pedcMisttti). tWa
q u a l q u e r m o d o , n o m e u p o n t o d e v i s t a o l e g i s l a d o r la- ao.epoionni »a QURCÂÜ
c e d e m ô n i o estava certo ao d e t e r m i n a r q u e os p r a z e r e s antigo. i_A idéia da
f o s s e m e v i t a d o s , e n q u a n t o n o q u e c o n c e r n e à s leis d e distinção «*t»c .tcíoçôeí;
C n o s s o s , n o s s o a m i g o Clínias, s e j u l g a r a p r o p r i a d o , a s
sciíuntü am/a>me a mhiMga
defenderá. As regras relativas aos prazeres em E s p a r t a
r menções fíontua o imhanga
m e p a r e c e m a s m e l h o r e s d o m u n d o p o i s n o s s a lei b a -
e aqui ev]iPiMl(i!*KÍc
n i u c o m p l e t a m e n t e desta (erra o q u e p r o p o r c i o n a a
m a i o r i a d a s o p o r t u n i d a d e s p a r a os indivíduos se entre- inbodugida. Quanto à

g a r e m a excessos de prazer, t u m u l t o s e. l o u c u r a s de t o d a o.oiwão mim a


o r d e m . N ã o e n c o n t r a r á s n e m n o c a m p o n e m n a s cida- drwossewnfiaWfi waWturi
des controladas pelos espartanos locais a d e q u a d o s a o o ginástico no sentido
festins e t a m p o u c o n a d a d a q u i l o q u e p o r via de conse- desta ptúmom QfjBíífti, tal
qüência incita ao desregramento em todos os prazeres. tese esto/tio wdimdo numa
D e fato, n ã o h á u m ú n i c o h o m e m q u e n ã o p u n i s s e ime-
eiwifjsfxição dn eufo o
d i a t a m e n t e e com m á x i m a severidade q u a l q u e r beber-
befego do ««fio masftuíitio
rão com o qual porventura encontrasse, n ã o servindo
abada ao assíduo e quase
n e m s e q u e r a festa d e D i o n í s i o c o m o j u s t i f i c a t i v a p a r a
fazê-lo e s c a p a r d a p u n i ç ã o - festim q u e e u , u m a vez, arofinfi» fiuíliW) do

presenciei no teu país c o m esses indivíduos sobre as cowfionko masculina em


carroças; e na nossa colônia de Tarenlo, igualmente, vi dehimwlo do contato com a
a c i d a d e i n t e i r a e m b r i a g a d a n a festa d e D i o n í s i o . C o n - nniWifiit, o neio-eotitafo o
t u d o , conosco tal coisa n ã o é possível. distanciamento desto dando
maífjc» o fuomísonidade
O ateniense: E s t r a n g e i r o da L a c e d e m ô n i a , t u d o isso 6
digno de louvor desde q u e exista u m a firme resistência; oii|»e homem, desenuoteiido
m a s s e e s t a for r e l a x a d a , t u d o i s s o s e r e v e l a r á p u r a t o l i c e . o gosto fcfíVi pitapk
Qualquer cidadão de nosso Estado poderia de imediato scfMsentado peta íieloçõo
retaliar a p o n t a n d o para a licenciosidade de vossas 3>eus/Qfliiiwedfis.
m u l h e r e s . R e l a t i v a m e n t e a t o d a s e s s a s p r á t i c a s , seja em L,4dowois, É iiBíw.Ç n
T a r e n t o , seja e n t r e n ó s o u e m E s p a r t a , h á u m a ú n i c a
eshMfo «neufoção E S B E os
r e s p o s t a c a p a z de justificá-las. A r e s p o s t a universal q u e
pjícícír.fos jísioos constantes
se dá ao estrangeiro q u e se surpreende ao testemunhar
em emrúc.ii de instituiçoo e o
n u m E s t a d o a l g u m a p r á t i c a (pie p a r a ele é i n e o m u m é:
ptótico béfioo, 0 qurií
" N ã o há razão p a r a surpreender-se, estrangeiro, trata-
se de nosso costume... em teu país talvez o costume no erefuí o m u í f e ; o coftngew
q u e se refere a isto seja d i f e r e n t e . " P o r é m , m e u s c a r o s ( A P E X R I ) É o qualidade
senhores, nossa discussão agora n ã o diz respeito ao resto [rtimo/tdiaC e funríamcutoP na
d a espécie h u m a n a , m a s u n i c a m e n t e concerne a o mérito fiofaflio (JIOÀ.EUX>ç),
ou demérito dos próprios legisladores. Portanto, vamos qualidade esta ausente na
mufe. (n.t.)

83
Platão - As Leis

nos ocupar de modo mais minucioso da questão da


e m b r i a g u e z e m geral, visto q u e n ã o s e t r a t a d e u m a
prática de ínfima i m p o r t â n c i a e em relação à qual se
exija a p e n a s o e n t e n d i m e n t o d o l e g i s l a d o r m e d í o c r e . N ã o
me refiro neste m o m e n t o à q u e s t ã o de b e b e r ou n ã o b e b e r
o v i n h o em geral, m a s sim à e m b r i a g u e z c o m o tal, e a
q u e s t ã o q u e se coloca é a seguinte: d e v e r e m o s lidar c o m
ela c o m o f a z e m os citas e, os p e r s a s e t a m b é m os
cartagineses, os celtas, os ibéricos e os trácios, todos estes
povos de estirpe guerreira, ou c o m o vós, e s p a r t a n o s , fazem?
Pois vós, c o m o o a s s e v e r a m , a r e j e i t a m t o t a l m e n t e ,
enquanto os citas e os trácios, h o m e n s e m u l h e r e s ,
t o m a m o v i n h o p u r o e d e i x a m q u e ele escorra s o b r e s u a s
vestes, e n c a r a n d o esta sua prática como nobre e
a f o r t u n a d a ; e os p e r s a s c e d e m l a r g a m e n t e a estes e o u t r o s
d e l e i t e s q u e vós r e p u d i a i s , s e b e m q u e d e u m a m a n e i r a
m a i s o r d e n a d a q u e os d a q u e l e s outros povos.

Megilo; Mas, meu b o m amigo, q u a n d o tomamos as


a r m a s eles s e p õ e m e m fuga.

O ateniense-. N ã o d i z t a l c o i s a , p r e z a d o a m i g o , p o i s n a
verdade houve no passado e haverá no futuro muitas
fugas e m u i t a s perseguições de d ú b i a explicação, de sor
te q u e a vitória ou a d e r r o t a em b a t a l h a j a m a i s p o d e r i a
ser c o n s i d e r a d a u m a prova decisiva m a s sim m e r a m e n -
te discutível do mérito ou d e m é r i t o de u m a instituição.
E s t a d o s m a i o r e s , por exemplo, se s a g r a m vitoriosos em
b a t a l h a s o b r e E s t a d o s menores, d e m o d o q u e assisti-
m o s aos s i r a c u s a n o s s u b j u g a n d o os lócrios, q u e , entre-
t a n t o , t ê m a r e p u t a ç ã o d e t e r e m d e t i d o a m e l h o r consti-
tuição d o s povos d a q u e l a região; e q u e se acresça o caso
dos atenienses ern relação aos h a b i t a n t e s de Quios. Ou-
tros exemplos incontáveis do m e s m o tipo p o d e r i a m ser
encontrados. Portanto, convém que desconsideremos de
m o m e n t o vitórias e d e r r o t a s e d i s c u t e m o s c a d a u m a d a s
instituições sob o prisma dc seus próprios méritos n u m
e s f o r ç o d e p e r s u a d i r m o s a n ó s m e s m o s e e x p l i c a r de.
eme m o d o u m a e s p é c i e d c i n s t i t u i ç ã o é b o a e a o u t r a ,
m á . E p a r a começar, ouvi-me sobre o m é t o d o correto de
investigar os méritos e deméritos d a s instituições.

Megilo: O q u e p e n s a s d i s s o ?

O ateniense: Penso q u e todos aqueles q u e t o m a m u m a


instituição c o m o objeto de discussão e se p r o p õ e m de

84
Livro I

i m e d i a t o a censurá-la ou louvá-la estão p r o c e d e n d o de


maneira absolutamente errônea. Seu procedimento é
a n á l o g o à q u e l e d o h o m e m q u e t e n d o o u v i d o a l g u é m lou-
var o queijo como um b o m alimento, passa imediata-
m e n t e a d e p r e c i á - l o s e m t e r s e i n f o r m a d o s o b r e s e u s efei
tos, o s e m p r e g o s q u e d e l e s e p o d e f a z e r e s e m t e r a p r e n -
dido de que maneira, por meio do que, em meio de qual
regime, s o b q u e f o r m a e c o m q u e gênero de i n d i v í d u o s
p o d e empregá-lo. Isto, parece-me, é e x a t a m e n t e o q u e
estamos fazendo agora em nossa discussão. Diante da
primeira m e n ç ã o d a m e r a palavra e m b r i a g u e z eis alguns
de n ó s já se p o n d o a censurá-la, o u t r o s a louvá-la, o q u e
é s u m a m e n t e absurdo. C a d a p a r t i d o conta com o supor-
te de testemunhos, e e n q u a n t o um partido sustenta que
sua afirmação é convincente com base no grande n ú m e -
r o d e t e s t e m u n h o s a p r e s e n t a d o s , o o u t r o o faz s o b o fun-
d a m e n t o d e q u e s e c o n s t a t a q u e q u e m s e a b s t é m d e vi-
n h o sagra-se vitorioso em b a t a l h a , e e n t ã o t a m b é m este
ponto dá origem a u m a polêmica. Ora, n ã o me agrada-
ria n e m um p o u c o a b o r d a r todo o resto d a s instituições
legais desta m a n e i r a , e. no q u e diz respeito à n o s s a pre-
sente matéria, a embriaguez, desejo mc expressar de u m a
m a n e i r a i n t e i r a m e n t e d i v e r s a ( e m m i n h a o p i n i ã o , a cer-
ta) e m e e m p e n h a r e i , s e p o s s í v e l , e m m o s t r a r o m é t o d o
c o r r e t o d e l i d a r c o m t o d o s e s s e s a s s u n t o s , p o i s , c o m efei-
to, a c e r c a d e s s e p o n t o , m i l h a r e s d e m i l h a r e s d e povos
n ã o c o m p a r t i l h a r i a m d a o p i n i ã o d e vossos dois E s t a d o s
e vos c o n t e s t a r i a m .

Megilo: Certamente, se tivermos conhecimento de um


m é t o d o correto p a r a investigar tais m a t é r i a s , e s t a r e m o s
dispostos a aprendê-lo.

O ateniense: V e j a m o s o m é t o d o a s e g u i r . Imaginai que


a l g u é m tivesse em g r a n d e estima a criação de c a b r a s e
o próprio a n i m a l como u m a p r o p r i e d a d e preciosa; ima-
ginai, t a m b é m , q u e u m o u t r o i n d i v í d u o q u e tivesse v i s
to cabras p a s t a n d o longe do r e b a n h o e do controle do
pastor - c a u s a n d o d a n o s em terra cultivada - se pusesse
a criticá-las e e n c o n t r a s s e motivo de c e n s u r a igualmen-
t e c o m r e l a ç ã o a todo a n i m a l q u e visse s e m u m g u a r -
dião ou m a l g u a r d a d a - teria a censura deste h o m e m ,
acerca de q u a l q u e r objeto, o m e n o r valor?

85
Platão - As Leis

Megilo: Certamente não.

O ateniense: E q u a n t o a u m b o m c a p i t ã o d e n a v i o ? N ó s
o j u l g a r e m o s c o m o tal s o m e n t e p o r deter a ciência da
n a v e g a ç ã o , i n d e p e n d e n t e m e n t e d e s o f r e r o u n ã o d c en-
jôo n o m a r ? Q u e d i z e r n o q u e d i z r e s p e i t o a isto?

Megilo: Q u e n ã o e s t a r e m o s d e m o d o a l g u m d i a n t e d e
u m b o m c a p i t ã o s e além d e deter s u a ciência ele sofrer
do mal que mencionas.

O ateniense: E o q u e d i z e r d o c o m a n d a n t e d o e x é r c i t o ?
S e r á um h o m e m t a l h a d o p a r a o c o m a n d o pelo fato de
d e t e r c o n h e c i m e n t o militar, m u i t o e m b o r a seja covar-
de diante do perigo, o m e d o a b a l a n d o sua coragem como
u m a espécie d e embriaguez?

Megilo: E c e r t o q u e n ã o .

O ateniense: E imaginai que lhe falta conhecimento


militar além de ser um poltrão...

Megilo: E s t á s d e s c r e v e n d o u m indivíduo absolutameu-


, , te indigno, de m a n e i r a a l g u m a um c o m a n d a n t e de ho-
• u\ «MMOT mm wifuac . . , . . .
. , „ metis, m a s sim d a s mais femininas d a s mulheres. *
amtaiwititMwi mfiMwiiio t.
mms «mo *.g cnjoligodo. («.(.) O ateniense: C o n s i d e r a a g o r a o c a s o de q u a l q u e r i n s t i -
tuição social q u e n a t u r a l m e n t e tem alguém q u e a admi-
nistra e q u e , sob esta a d m i n i s t r a ç ã o é benéfica; supõe
q u e a l g u é m q u e j a m a i s tivesse assistido à a d m i n i s t r a -
ção dessa instituição, m a s apenas a observasse sem
qualquer administração ou mal administrada, se pu-
sesse a l o u v a r ou r e p r o v a r a instituição: i m a g i n a r í a m o s
nós q u e o louvor ou a reprovação de um tal observador
d e u m a tal i n s t i t u i ç ã o tivesse a l g u m a valia?
Megilo: E c o m o p o d e r í a m o s se tal indivíduo jamais
assistiu ou participou de u m a comunidade onde a
i n s t i t u i ç ã o foi c o r r e t a m e n t e a d m i n i s t r a d a ?
O ateniense: E s p e r a u m m o m e n t o ! P o d e m o s n ó s a d m i t i r
que, entre as n u m e r o s a s m o d a l i d a d e s de instituições
sociais, está i n c l u í d a t a m b é m a q u e l a c o n s t i t u í d a p o r
u m a reunião de bebedores de vinho?

Megilo: C o m toda a certeza.

O ateniense: Mas a l g u é m a l g u m d i a p o r v e n t u r a já con-


templou u m a tal instituição sendo b e m administrada?

86
Livro I

Ambos poderão facilmente responder-me "Não, n u n c a "


pois em vossos E s t a d o s essa i n s t i t u i ç ã o n ã o é n e m con-
s o l i d a d a pelo uso, n e m u m a instituição legal. E n t r e t a n -
t o , e u f r e q ü e n t e i m u i t o s d e s s e s l u g a r e s o n d e tais festas
s ã o r e a l i z a d a s , me d i s p o n d o a e s t u d a r s u a q u a s e totali-
d a d e , e m u i t o r a r a m e n t e observei u m a ou ouvi falar de
u m a u n i r a q u e fosse q u e t i v e s s e s i d o e m t o d o s o s p o n -
tos c o r r e t a m e n t e a d m i n i s t r a d a ; exceto p o r a l g u n s deta-
lhes r e g u l a r e s a q u i e ali, o c o n j u n t o se revelava, devo
dizê-lo, i n t e i r a m e n t e falho.

Clínias: 0 q u e queres dizer com isso, estrangeiro? Ê


mister q u e te expliques com m a i o r clareza pois consi-
d e r a n d o - s e q u e n ã o d i s p o m o s (corno m e n c i o n a s t e ) d e
q u a l q u e r experiência com respeito a tais instituições,
e m b o r a as observemos, provavelmente n ã o conseguiría-
m o s de i m e d i a t o perceber o q u e nelas está certo e o q u e
está errado.

O ateniense: É b a s t a n t e p r o v á v e l . T e n t a , t o d a v i a , te i n s -
truir b a s e a d o em m i n h a s explicações. Admites q u e em
todas as reuniões e associações c o m os m a i s diversos pro-
pósitos c certo q u e c a d a g r u p o s e m p r e t e n h a u m chefe?

Clínias: Sem dúvida.

O ateniense: A l é m d i s s o , d i s s e m o s h á p o u c o q u e o co-
m a n d a n t e d o s c o m b a t e n t e s t e m q u e ser corajoso.

Clínias: É claro.

O ateniense: O r a , o c o r a j o s o e x p e r i m e n t a m e n o s q u e o
covarde os transtornos do medo.

Clínias: Isto é i g u a l m e n t e v e r d a d e i r o .

O ateniense: A g o r a , s e h o u v e s s e q u a l q t i e r m e i o d e c o l o -
c a r u m e x é r c i t o n a s m ã o s d e u m g e n e r a l q u e fosse a b s o -
l u t a m e n t e impermeável ao t e m o r e à p e r t u r b a ç ã o , não
f a r í a m o s n ó s t o d o s o s e s f o r ç o s c o n c e b í v e í s p a r a fazê-lo?
Clínias; C o m toda » certeza.

O ateniense; M a s o q u e e s t a m o s d i s c u t i n d o a g o r a n ã o é
o h o m e m a ser e n c a r r e g a d o do c o m a n d o de um exérci-
to em tempo de guerra nos encontros de inimigo contra
inimigo, mas sim o h o m e m q u e será incumbido de
orientar amigos em associação amigável com amigos
em tempo de paz.

87
Platão - As Leis

Clínias: Precisamente.

O ateniense: Ora, se uma semelhante assembléia for


a c o m p a n h a d a p e l a e m b r i a g u e z , n ã o e s t a r á livre d e tu-
multo, certo?

Clínias: D e c i d i d a m e n t e n ã o ; i m a g i n o q u e j u s t a m e n t e o
contrário.

O ateniense: Assim sendo, esses indivíduos também


n e c e s s i t a m , a c i m a de t u d o o mais, de um chefe.

Clínias: E i n d u b i t á v c l . . . e l e s a t é m a i s q u e o s o u t r o s .

O ateniense; D e v e r í a m o s né>s, se p o s s í v e l , d a r - l h e s um
chefe imperturbável?

Clínias: Seguramente.

O ateniense: Naturalmente, também, ele deveria ser


capaz de mostrar sabedoria no trato das assembléias
sociais, visto q u e t e r á t a n t o q u e p r e s e r v a r a a m i z a d e j á
existente entre os m e m b r o s do grupo como cuidar p a r a
eme a presente a s s e m b l é i a fortaleça o g r u p o a i n d a mais.

Clínias: I s t o é b e m v e r d a d e .

O ateniense; E e n t ã o um h o m e m sóbrio e sábio que


devemos instalar no c o m a n d o de indivíduos ébrios, e
n ã o o c o n t r á r i o , visto q u e u m chefe d e é b r i o s q u e fosse e l e
m e s m o é b r i o , j o v e m e tolo, se, r e v e l a r i a u m g r a n d e f e l i z a r d o
se conseguisse se furtar a cometer um sério d a n o .

Clínias: lnvulgarmente felizardo.

O ateniense: Supõe, e n t ã o , q u e a l g u é m e n c o n t r a s s e fa-


lhas em relação a essas instituições em listados nos (piais
e l a s s ã o a d m i n i s t r a d a s d a m e l h o r f o r m a p o s s í v e l , o u seja,
tivesse u m a o b j e ç ã o c o m r e s p e i t o à i n s t i t u i ç ã o e m si. N e s t e
c a s o p o d e r i a , t a l v e z , e s t a r c e r t o e m fazê-lo. M a s s e a l g u é m
ofende u m a i n s t i t u i ç ã o q u a n d o p e r c e b e q u e essa é a d m i -
n i s t r a d a d a p i o r f o r m a possível, está c l a r o q u e s e trata
d e u m i g n o r a n t e , p r i m e i r o d o fato d e q u e t a l i n s t i t u i ç ã o
é mal a d m i n i s t r a d a e s e g u n d o de q u e toda instituição se
afigurará similarmente ruim q u a n d o 6 implantada sem
um. mestre e. a d m i n i s t r a d o r sóbrio, pois p o r certo perce-
berá» q u e um piloto no m a r e aquele q u e c o m a n d a qual-
q u e r c o i s a , s e e m b r i a g a d o s , a t u d o t r a n s t o r n a m , seja u m a
e m b a r c a ç ã o , u m a bíga, u m exército o u q u a l q u e r coisa
q u e esteja s o b s e u c o m a n d o .

88
Livro I

CUnias; O q u e d i z e s , e s t r a n g e i r o , é p e r f e i t a m e n t e v e r d a -
deiro. M a s diz-nos, p a r a p a s s a r m o s à q u e s t ã o seguinte,
s u p o n d o q u e essa i n s t i t u i ç ã o d o b e b e r fosse c o r r e t a m e n -
t e a d m i n i s t r a d a , q u e possível benefício n o s traria? T o m a
o exemplo de um exército, q u e a c a b a m o s de m e n c i o n a r ;
neste caso, contando-se c o m o chefe correto, os c o m a n -
d a d o s d e s t e c o n q u i s t a r ã o a v i t ó r i a n a g u e r r a o q u e , cer-
tamente, n ã o constitui p e q u e n o benefício, o m e s m o su-
c e d e n d o n o s o u t r o s casos: m a s q u a l efetiva v a n t a g e m
a d v i r i a seja p a r a os i n d i v í d u o s , seja p a r a o E s t a d o da
correta administração de um b a n q u e t e regado a vinho?

O ateniense; Bem, q u e grande vantagem diríamos q u e


adviria ao Estado a partir do correto controle de u m a
ú n i c a c r i a n ç a o u d e u m g r u p o d e c r i a n ç a s ? A u m a tal
q u e s t ã o a s s i m c o l o c a d a a n ó s r e s p o n d e r í a m o s q u e o Es-
t a d o e x t r a i r i a p o u c o p r o v e i t o d i s s o ; s e , e n t r e t a n t o , s e for-
m u l a u m a questão geral com referência a qual vanta-
g e m efetiva e x t r a i o E s t a d o d a e d u c a ç ã o d a s c r i a n ç a s ,
e n t ã o prover u m a resposta será e x t r e m a m e n t e simples
p o i s r e s p o n d e r í a m o s q u e . c r i a n ç a s b e m e d u c a d a s s e re-
velarão bons indivíduos, q u e sendo bons vencerão seus
inimigos em batalha, além de agirem com nobreza em
relação a outras coisas. Assim, se p o r um lado a educa-
ç ã o t a m b é m p r o d u z vitória, e s t a , p o r vezes, p r o d u z falta
d e e d u c a ç ã o visto q u e o s h o m e n s a r n i ú d e s e t o r n a m m a i s
insolentes devido á vitória na guerra, e através de sua
wisolência se t o r n a m repletos de o u t r o s vícios incontá-
veis; e se ao p a s s o que, a e d u c a ç ã o j a m a i s se mostrou a t é
a g o r a cadminna, * as vitórias q u e os h o m e n s o b t ê m na
guerra com freqüência foram e serão cadrníanas.* • . . . KGU TOlSeUI U.KV
ouScTHOtiotE ycyovE
CUnias: Insinuas, meu amigo, parece-nos, que tais
K c t S u E i a . . . - o »eJ6»ÍJtMíi
reuniões festivas q u a n d o c o r r e t a m e n t e c o n d u z i d a s
é 00 fcndoMo {««fado» At,
constituem um importante elemento educativo.
Ódios, CWmos. fislo
O ateniense: E como!
amam dotilos de d/iogão dm
CUnias: Poderia- agora d e m o n s t r a r a v e r d a d e do q u e (pois íoweMim os Rf>míi, q » ,
acabas de afirmar? o despeito do ooftfi.ww vmo
O ateniense: A v e r d a d e da m i n h a a f i r m a ç ã o , a q u a l é uitójfio, «esto oeobwtoM st
questionada por muitos, compete a um deus assegurar, motoiifío ertw si. u4
m a s estou i n t e i r a m e n t e pronto a dar, se necessário, «fiwisson úodiriioito, po*

minha própria opinião agora que, realmente, coussguitils, sug«sf! oígo rjac
e m b a r c a m o s n u m a d i s c u s s ã o d a s leis e constituições. oooMetfl fiifits saMn «goíiiíi
do que f>osiiit'n. (»i.)

89
Platão - As Leis

Clínias: B e m , é p r e c i s a m e n t e t u a o p i n i ã o a r e s p e i t o d a s
questões agora em discussão que estamos tentando
apreender.

0 ateniense: A s s i m , c o m e f e i t o , d e v e m o s f a z e r , e v ó s d e -
veis unir-vos no esforço de a p r e e n d e r o a r g u m e n t o en-
q u a n t o eu devo e m p e n h a r - m e em expô-lo o m e l h o r pos-
sível. M a s , e m p r i m e i r o l u g a r , t e n h o u m a o b s e r v a ç ã o
inicial a fazer: m i n h a c i d a d e é, s e g u n d o a o p i n i ã o geral
dos helenos, tanto apreciadora da conversação q u a n t o
repleta de conversação, m a s a L a c e d e m ô n i a é m u i t o
pouco l o q u a z , e n q u a n t o Creta é m a i s ciosa da r i q u e z a
de sentido do q u e da a b u n d â n c i a das palavras; de ma-
n e i r a q u e receio vos fazer p e n s a r q u e s o u u m g r a n d e
d i s c u r s a d o r d e u m p e q u e n o t e m a , e l a b o r a n d o u m dis-
curso de prodigiosa extensão em torno do insignifican-
te a s s u n t o da e m b r i a g u e z . M a s o fato é q u e a c o r r e t a
o r d e n a ç ã o disso j a m a i s p o d e r i a ser a b o r d a d a a d e q u a
da e claramente em nossa discussão independentemente
d a c o r r e ç ã o n o q u e s e refere à m ú s i c a , b e m c o m o n ã o
poderia a música independentemente da educação
c o m o um todo, o q u e exigiria u m a longa discussão. Vede,
e n t ã o , o q u e p o d e r í a m o s fazer, a s a b e r , q u e tal se d e i -
xássemos estas m a t é r i a s em suspenso p o r ora e cuidas
s e m o s d e a l g u m o u t r o tópico legal?

Megilo; 0 e s t r a n g e i r o d e A t e n a s , n ã o e s t a i s , t a l v e z , c i e n t e
d e q u e m i n h a f a m í l i a é , r e a l m e n t e proxena' d c t u a ci-
d a d e . É provavelmente certo no q u e concerne a todas as
* 7 E p o Ç e v o ç , «ilwos
c r i a n ç a s q u e u m a v e z a e l a s s e t e n h a d i t o q u e s ã o proxe
Srfndos (rfêmror: o Ittufo dc
nas d e u m c e r t o E s t a d o , d e s e n v o l v e m u m a f e t o p o r e s t e
fc>«« concedido o eidodõo DE
E s t a d o m e s m o a p a r t i r da infância, e c a d a u m a delas o
oulío fislnrfo g/icgo o« mesmo
e n c a r a c o m o u m a s e g u n d a terra n a t a l , logo d e p o i s d e
íi «fdodAo fiíío-dePctiieo m
s u a pátria. E este p r e c i s a m e n t e o s e n t i m e n t o q u e eu ago
(UIIÇÕO dc oCfJuA' .«'fcinnlc
r a e x p e r i m e n t o . Q u a n d o , c o m efeito, u m a c r i a n ç a o u v i a
semiço [MCSLODO no oslndo
os l a e e d c m ô u i o s tecer críticas ou elogios a o s a t e n i e n s e s e
outot da coiicesraio: CSRC loimo
s c m e d i z i a : " V o s s a c i d a d e , Megilo, c o m p o r t o u - s e b e m o u
tombem indico o h»óh*in . , I - " , y j I-
1
c o m p o r t o u - s e m a l em r e l a ç ã o a n o s - q u a n d o , digo, ou
rstoonqeito que mmu «wo . - . . . L . J
via t a i s o b s e r v a ç õ e s , c o n s t a n t e m e n t e c o m b a t e n d o con-
cuioar * riaeo mmmpdo. . , . , . <
, t r a a q u e l e s q u e e s t a v a m a s s i m d e s a c r e d i t a n d o vosso Kv r

0 (ílufti íiotio.tíiíee. d n dc/,0'.'0 I I J - - r j r • ~ IJ I


1 1
tqat di eo , a ga od rqau inr ãi ao au pmean aps r oa pl ur encdiao av toesisçoa os opt ao qr ueel ec, o dr ne o mjulgo
odo
dos ittuwfR dc.e
Qfní.iicauiciite ma ciríwfc.
«tfmfm
j>C*
a b s o l u t a m e n t e v e r d a d a d e i r o o adágio ordinário q u e diz
S T Q N1 D I M 1 fiwitrt.0,* OU O H I J O I I O . „ , , • - • , . , ~,
' ' que bonsaleinenses sao incomparavelmente bons pois
In.l.)

90
Livro I

s ó eles são b o n s n ã o p o r c o m p u l s ã o externa m a s sim


p o r disposição interior. Assim, no q u e me diz respeito,
p o d e s falar s e m receio e dizer o q u e desejas.

Clínias: Q u a n t o a m i n h a h i s t ó r i a , e s t r a n g e i r o , i g u a l m e n -
te d e p o i s de a ouvires te sentirá* totalmente à vontade
p a r a dizere.9 o q u e d e s e j a s . P r o v a v e l m e n t e d e v e s t e r
ouvido falar como a q u e l e h o m e m inspirado, E p i m ê n i -
des, q u e era meu parente, nasceu em Creta, e como dez
a n o s antes da guerra contra a Pérsia, em obediência ao
o r á c u l o d o d e u s , e l e s e d i r i g i u a A t e n a s e o f e r e c e u cer-
tos sacrifícios q u e h a v i a m sido o r d e n a d o s pelo d e u s , e
corno, a d e m a i s , q u a n d o os atenienses ficaram alarma-
d o s d i a n t e d a f o r ç a e x p e d i c i o n á r i a d o s p e r s a s , e l e fez
esta profecia: "Eles n ã o virão por dez a n o s e q u a n d o
realmente vierem, retornarão novamente com todas suas
e s p e r a n ç a s f r u s t r a d a s , e d e p o i s d e s o f r e r e m m a i s infeli-
1
cidades do q u e as infligirem. ' E n t ã o nossos ancestrais
p a s s a r a m a p e r m u t a r hospitalidade e a m i z a d e com os
vossos, e d e s d e e n t ã o t a n t o m e u s pais q u a n t o eu desen-
volvemos u m a afeição por Atenas.

O ateniense: Evidentemente, então, estais a m b o s pron-


tos a me ouvirem. M a s da m i n h a parte, e m b o r a vonta-
de h a j a p a r a isso, e m p r e e n d e r a t a r e f a n ã o é fácil. De
q u a l q u e r m a n e i r a , é p r e c i s o q u e e u t e n t e . D e s t a feita,
em p r i m e i r o lugar, nossa reflexão r e q u e r q u e defina-
m o s a e d u c a ç ã o e d e s c r e v a m o s s e u s efeitos: este é o ca-
m i n h o q u e o nosso presente discurso deve trilhar até
q u e finalmente atinja o deus do vinho.

Clínias: P e r f e i t a m e n t e , q u e f a ç a m o s a s s i m , j á q u e é d e
teu agrado.

O ateniense: E n t ã o , s e e u , p o r u m l a d o , d i g o n o q u e d e v e
c o n s i s t i r a e d u c a ç ã o , vé>s, d e v o s s a p a r t e , d e v e i s c o n s i -
d e r a r se estais satisfeitos com m i n h a definição.

Clínias: Pois e n u n c i a t u a definição.

O ateniense: E u o f a r e i . O q u e a f i r m o é q u e t o d o h o m e m
q u e p r e t e n d a ser b o m e m q u a l q u e r a t i v i d a d e precisa
dedicar-se à prática d e s s a a t i v i d a d e em especial desde a
infância utilizando todos os recursos relacionados a sua
a t i v i d a d e , s e j a e m s e u e n t r e t e n i m e n t o , seja n o t r a b a l h o .
Por e x e m p l o , o h o m e m q u e p r e t e n d e ser u m b o m cons-
trutor necessita ( q u a n d o menino) entreter-se b r i n c a n d o

91
Platão - As Leis

d e c o n s t r u i r casas, b e m c o m o a q u e l e q u e deseja ser


agricultor deverá (enquanto menino) brincar de lavrar
a terra. C a b e r á aos educadores dessas crianças supri-
las com f e r r a m e n t a s d e b r i n q u e d o m o l d a d a s s e g u n d o
as reais. A l é m disso, dever-se-á m i n i s t r a r a essas crian-
ças instrução básica em todas as m a t é r i a s necessárias;
sendo, por exemplo, ensinado ao aprendiz de carpin-
teiro sob forma de b r i n q u e d o o m a n e j o da r é g u a e da
trena, à q u e l e q u e será um soldado c o m o m o n t a r e de-
m a i s c o i s a s p e r t i n e n t e s . E a s s i m , p o r m e i o de. s e u s b r i n -
q u e d o s c jogos, n o s e s f o r ç a r í a m o s p o r dirigir os gostos e
desejos d a s c r i a n ç a s p a r a a direção do objeto q u e cons-
titui seu objetivo p r i n c i p a l r e l a t i v a m e n t e à i d a d e a d u l -
ta. Em p r i m e i r o lugar e a c i m a de t u d o , a e d u c a ç ã o , nós
o asseveramos, consiste na formação correta q u e m a i s
intensamente atrai a a l m a da criança d u r a n t e a brin-
cadeira para o amor d a q u e l a atividade da qual, ao se
t o r n a r adulto terá q u e deter perfeito d o m í n i o . Agora
julgai, c o m o eu disse a n t e r i o r m e n t e , se até este ponto,
estais satisfeitos c o m m i n h a definição.

CUnias: E c e r t o q u e e s t a m o s .

O ateniense: M a s é i m p e r i o s o q u e n ã o d e i x e m o s q u e n o s -
sa definição de e d u c a ç ã o p e r m a n e ç a vaga, pois atual-
mente q u a n d o censuramos ou elogiamos a formação
de um indivíduo h u m a n o , definimos um como educa-
•...Kunn/xiuç kui do e um o u t r o c o m o n ã o - e d u c a d o , a d e s p e i t o d e s t e últi-
VU!iK>.r||U{.(.Ç.... «fiawlf: m o p o d e r ser e x t r a o r d i n a r i a m e n t e b e m e d u c a d o n o
ou pilote do wlmíonçno; comércio c o m o mascate ou como piloto de e m b a r c a -
va»KA,r|piaç <!iqní{tiofl ção, • ou a i n d a em a l g u m a o u t r a o c u p a ç ã o similar. Mas
(anta o oopilõo íjuc omwwdfl nós, naturalmente, na presente discussão não estamos
nono do iwiwi «1M0 (o a s s u m i n d o o parecer q u e coisas como essas constituem
(jcaoíifBwcnh o piio|is«õn do educação: a educação a q u e nos referimos é o treina-
piPolo) rj(in«(o n iwiiiio m e n t o desfie a i n f â n c i a na v i r t u d e , o q u e t o r n a o indiví-
(jjelndo. f. conto tentei d u o entusiusticamente desejoso de se converter n u m
oiitan, «mo paftnMi dctiiodo c i d a d ã o perfeito, o q u a l possui a c o m p r e e n s ã o t a n t o de
de v a u ç (nou. nowo, mmr, g o v e r n a r c o m o a de ser g o v e r n a d o c o m justiça. E s t a é a
embo*0flçfio), como forma específica de f o r m a ç ã o à q u a l , s u p o n h o , nossa
vauKA.r| p o ç {pimwks). d i s c u s s ã o em p a u t a r e s t r i n g i r i a o t e r m o exiitcação, en-
v a u x i i c o ç ((jiio díg quanto seria vulgar, servíl e inteiramente i n d i g n o cha-
Kspcffo ò Houcgoono, ttflufiO.o) m a r fie educação uma f o r m a ç ã o q u e visa. s o m e n t e à
r. v a u t i a (fttijôü cômodo a q u i s i ç ã o d o d i n h e i r o , rio v i g o r f í s i c o o u m e s m o d e a l -
polo mm p pot. nvk-mõn guma h a b i l i d a d e mctilal destituída de sabedoria c

náusea]- (».(.)

92
Livro I

justiça. Q u e n ã o d i s p u t e m o s , entretanto, por c a u s a de


um n o m e , mas atenhemo-nos à afirmação com a qual
concordamos há pouco, a saber, q u e aqueles que são
c o r r e t a m e n t e e d u c a d o s se t o r n a m , via de r e g r a , b o n s , e
q u e em caso a l g u m a e d u c a ç ã o deve ser d e p r e c i a d a pois
ela é o p r i m e i r o dos m a i o r e s b e n s q u e são proporciona-
dos aos melhores liome e l a a l g u m a vez d e s v i a r
d o c a m i n h o certo, m a s p u d e r ser r e e n e a m i n h a d a , t o d o
h o m e m , e n q u a n t o viver, d e v e r á e m p e n h a r - s e c o m to-
d a s s u a s forças a essa tarefa.

Clínias: E s t á s c e r t o e c o n c o r d a m o s c o m o q u e d i z e s .

O ateniense: A d e m a i s , c o n c o r d a m o s h á m u i t o q u e s e o s
h o m e n s são capazes de d o m i n a r a si mesmos, são bons,
m a s s e i n c a p a z e s d e fazê-lo, s ã o m a u s .
Clínias: I s t o é a b s o l u t a m e n t e v e r d a d e i r o .

O ateniense: V a m o s , e n t ã o , r e s t a b e l e c e r m a i s c l a r a m e n -
t e o q u e e n t e n d e m o s p o r isso. S e v ó s o p e r m i t i r d e s , fa-
r e i u s o d e u m a i m a g e m c o m o fito d e e x p l i c a r o a s s u n t o .

Clínias: Vai em f r e n t e .

O ateniense: E possível i m a g i n a r m o s q u e cada um de


nós é p o r si só um todo?

Clínias: Sim.

O ateniense: E q u e c a d a um possui d e n t r o de si dois


conselheiros antagônicos e insensatos, aos quais deno-
m i n a m o s prazer e dor?

Clínias: T r a t a - s e d e u m f a t o .

O ateniense: E q u e , a l é m d e s s e s d o i s , c a d a h o m e m p o s -
sui o p i n i õ e s a c e r c a d o futuro, q u e a t e n d e m pela de-
signação geral de expectativas, das (mais aquela que
p r e c e d e a d o r d e t é m o n o m e e s p e c i a l d e medo, e a q u e
p r e c e d e o p r a z e r o n o m e e s p e c i a l d e confiança; e «pie
s e s o m a n d o a t o d a s e s t a s h á a avaliação, s e p r o n u n c i -
a n d o s o b r e q u a l d e l a s ó b o a , q u a l é m á ; e à avaliação
q u a n d o se t o r n o u o decreto p ú b l i c o do Estado dá-se o
n o m e d e lei,

Clínias: Estou e x p e r i m e n t a n d o certa dificuldade para


s e g u i r t e u r a c i o c í n i o , m a s c o n t i n u a corno s e e u o se-
guisse sem maiores p r o b l e m a s .

Megilo: E u t a m b é m m e e n c o n t r o n o m e s m o c a s o .

93
Platão - As Leis

O ateniense: V a m o s c o n c e b e r a m a t é r i a d a s e g u i n t e m a -
n e i r a : s u p o n h a m o s q u e c a d a u m d e n ó s , c r i a t u r a s vi-
vas, é um engenhoso marionete dos deuses, ou inventa-
d o p a r a ser u m b r i n q u e d o deles, o u p a r a u m p r o p ó s i t o
sério - com referência ao que n a d a s a b e m o s , exceto q u e
e s s e s nossos sentimentos interiores, como tendões ou
c o r d é i s , o os a r r a s t a m e, s e n d o p o s t o s em o p o s i ç ã o recí-
proca, arrastam-se u n s contra os outros p a r a ações con-
trárias; e aqui jaz a l i n h a divisória entre a v i r t u d e e o
vício, pois c o m o i n d i c a n o s s o r a c i o c í n i o , é forçoso q u e
todo h o m e m obedeça a u m a dessas forças de tração,
n ã o a s o l t a n d o em n e n h u m a c i r c u n s t â n c i a , contraba-
l a n ç a n d o desta forma à tração dos outros tendões: é o
fio c o n d u t o r , d o u r a d o e s a g r a d o , d a avaliação q u e s e
i n t i t u l a lei p ú b l i c a d o E s t a d o ; e e n q u a n t o o s o u t r o s cor-
d é i s são d u r o s e corno a ç o , e de todas as formas e a s p e c
t o s p o s s í v e i s , e s s e fio é f l e x í v e l e u n i f o r m e , v i s t o q u e é
d c o u r o . C o m e s s e e x c e l e n t í s s i m o f i o c o n d u t o r d a lei
nós temos q u e cooperar sempre pois considerando-se
q u e a avaliação é s u m a m e n t e boa, porém mais b r a n d a
do que dura. seu fio condutor requer colaboradores p a r a
assegurar que a raça áurea dentro de nós possa derro-
tar as outras raças. Deste m o d o a alegoria q u e nos com-
p a r a a m a r i o n e t e s n ã o s e r á s e m efeito e o s i g n i f i c a d o
das e x p r e s s õ e s superior a si mesmo e inferior a si mesmo
se tornará um tanto m a i s claro, e t a m b é m q u ã o neces-
sário será p a r a o indivíduo compreender o verdadeiro
v a l o r d e s s a s forças de t r a ç ã o i n t e r i o r e s e viver de acor-
d o c o m isto, e q u ã o n e c e s s á r i o a o E s t a d o ( q u a n d o este
r e c e b e u t a l valor seja d e u m d e u s , seja d e u m h o m e m
e s c l a r e c i d o ) f a z e r d i s s o u m a lei p a r a s i e s e r g u i a d o p o r
meio dela em sua relação tanto consigo m e s m o q u a n t o
c o m o u t r o s E s t a d o s . Assim, t a n t o o vício q u a n t o a virtu-
de seriam p a r a nós diferenciados com maior clareza, e
se t o r n a n d o estes mais evidentes, provavelmente a edu-
cação t a m b é m e as outras instituições p a r e c e r i a m me-
n o s o b s c u r a s ; e q u a n t o à i n s t i t u i ç ã o d o s b a n q u e t e s rega-
•...Otvotç d o s a v i n h o * cm p a r t i c u l a r , poder-se-ia, m u i t o provalvel-
SiatplPqç..., ÇiliwifWüif, m e n t e , d e m o n s t r a r q u e n ã o se trata, e m absoluto, c o m o
o[>msa,i n tcmpri eam P rido. se p o d e r i a p e n s a r , de um a s s u n t o d e s p r e z í v e l q u e s e r i a
(„lj d i s p a r a t a d o discutir m i n u c i o s a m e n t e , m a s sim u m as-
s u n t o totalmente digno dc ser extensivamente discutido.

94
Livro I

Clínias: A b s o l u t a m e n t e c e r t o . V a m o s e x a m i n a r c a d a t ó p i -
c o epie s e a f i g u r e i m p o r t a n t e p a r a a p r e s e n t e d i s c u s s ã o .

O ateniense: E n t ã o d i z - m e : s e d é s s e m o s b e b i d a f o r t e a
esse nosso m a r i o n e t e , q u e efeito p r o d u z i r i a e m s e u
caráter?

Clínias: C o m r e f e r ê n c i a a o q u e f a z e s e s t a p e r g u n t a ?

O ateniense: De m o m e n t o , c o m referência a n a d a em
p a r t i c u l a r : e s t o u c o l o c a n d o a q u e s t ã o e m t e r m o s ge-
rais - quando isto participa daquilo, no que se converte
em conseqüência? T e n t a r e i expressar o que quero di-
zer a i n d a m a i s c l a r a m e n t e . 0 q u e i n d a g o é o seguinte:
beber intensifica os prazeres, as dores, os scrilimen-
tos • • e os d e s e j o s * *?
* * . . . 0 u u . o u ç KOU
Clínias: Sim, bastante. epmaç..., o moção (como
ü ateniense: E q u a n t o às s e n s a ç õ e s , l e m b r a n ç a s , o p í n i - sede dos sentimentos c das
õ e s e p e n s a m e n t o s ? B e b e r , do m e s m o m o d o , os t o r n a m a i s pairõesj o o desejo sensual
intensos? Ou, pelo c o n t r á r i o , n ã o a b a n d o n a m estes in- („ |)
t e i l a m e n t e o i n d i v í d u o q u a n d o este se e n c h e de b e b i d a ?

Clínias: D e f a t o , e l e s o a b a n d o n a m c o m p l e t a m e n t e .

O ateniense; E e n t ã o e l e a t i n g e o m e s m o e s t a d o d e a l m a
de q u a n d o era u m a criancinha?

CUnias: Sem dúvida.

O ateniense; E n e s s e m o m e n t o e l e t e r á u m m í n i m o c o n -
trole de si m e s m o ?

CUnias: De fato, m í n i m o .

O ateniense: E um t a l i n d i v í d u o , n ó s o d i r í a m o s , é m u i -
to m a u ?

CUnias: Muito, realmente.

O ateniense: P a r e c e , p o r t a n t o , q u e n ã o a p e n a s o a n c i ã o
de b a r b a grisalha p o d e estar em sua segunda infância,
c o m o t a m b é m o ébrio.

Clínias: F i z e s t e u m a a d m i r á v e l o b s e r v a ç ã o , e s t r a n g e i r o .

O ateniense: Haveria algum argumento que pudésse-


m o s e m p r e e n d e r a fim d e n o s p e r s u a d i r q u e d e v e m o s
u s u f r u i r d e s s a p r á t i c a e m lugar d e evitá-la c o m t o d a s
nossas forças?

Clínias: P a r e c e q u e h a v e r i a . A o m e n o s foi o q u e afir-


m a s t e e estavas há p o u c o p r o n t o a a p r e s e n t á - l o .

95
Platão - As Leis

0 ateniense: T u a m e m ó r i a e s t á s e n d o fiel a ri, e eu e s -


t o u a i n d a p r o n t o a fazê-lo a g o r a q u e t u e Megilo e x p r e s -
s a r a m a m b o s vosso desejo de ouvir-me.

Clínias: E s t á c l a r o q u e t e o u v i r e m o s , m e s m o q u e s e j a
apenas em função do elemento extraordinário e descon-
certanle pelo q u a l u m ser h u m a n o , d e s u a livre v o n t a d e ,
se dispõe a mergulhar n a s profundezas da abjeção.

O ateniense: A b j e ç ã o d a a l m a , q u e r e s dizer, n ã o é m e s m o ?

Clínias: Sim.

O ateniense: E q u a n t o a m e r g u l h a r n u m e s t a d o r u i m do
c o r p o , tal c o m o a m a g r e z a , a d i s f o r m i d a d e ou a i n c a p a c i -
d a d e física? D e v e r í a m o s n ó s n o s s u r p r e e n d e r s e a l g u é m
d e s u a p r ó p r i a livre v o n t a d e m e r g u l h a s s e n u m tal e s t a d o ?

Clínias: É c l a r o q u e d e v e r í a m o s .

O ateniense: B e m , e n t ã o , p o d e m o s n ó s s u p o r q u e p e s -
soas q u e se dirigem por si m e s m a s aos hospitais p a r a
i n g e r i r e m r e m é d i o s n ã o e s t ã o c i e n t e s q u e logo d e p o i s , e
por muitos dias subseqüentes, se acharão n u m estado
físico t a l q u e t o r n a r i a s u a v i d a i n t o l e r á v e l s e t i v e s s e m
q u e p e r m a n e c e r a s s i m s e m p r e ? E rios s a b e m o s , n ã o é
m e s m o , q u e os h o m e n s q u e se dirigem ao ginásio p a r a
u m á r d u o t r e i n a m e n t o dele s a e m n o c o m e ç o m a i s fracos?

Clínias: È v e r d a d e q u e s a b e m o s d e t u d o i s s o .

O ateniense: S a b e m o s , i n c l u s i v e , q u e e l e s a l i v ã o vo-
l u n t a r i a m e n t e em função de um benefício posterior,
n ã o é assim?

Clínias: E exato.

O ateniense: E n ã o se d e v e r i a f a z e r o m e s m o r a c i o c í n i o
no q u e respeita t a m b é m a. outras instituições?

Climas: Certamente.

O ateniense: E n t ã o é preciso t a m b é m a s s u m i r raciocí-


nio idêntico q u a n t o à prática de passar o t e m p o tornan-
d o v i n h o n o s b a n q u e t e s , c a s o s e p o s s a c l a s s i f i c á - l a legi-
timamente entre as demais práticas.

Clínias: Está claro q u e é preciso.

0 ateniense: S e e n t ã o e s s a p r á t i c a s e m o s t r a r t ã o b e n é -
fica a n ó s q u a n t o o t r e i n a m e n t o físico, s e g u r a m e n t e s e r á
n o c o m e ç o s u p e r i o r a ele n a m e d i d a e m q u e n ã o é , c o m o
o t r e i n a m e n t o físico, a c o m p a n h a d a d a d o r .

96
Livro I

Clínias: I s t o é v e r d a d e i r o , m a s e u m e s u r p r e e n d e r i a s e
conseguíssemos descobrir nela q u a l q u e r benefício.

O ateniense: E s t e é p r e c i s a m e n t e o p o n t o q u e n e c e s s i t a -
mos tentar deixar claro i m e d i a t a m e n t e . Diz-me, agora:
p o d e m o s nós discernir dois tipos de m e d o , dos q u a i s
um é q u a s e o oposto do outro?

Clínias: A. q u e t i p o s tu te r e f e r e s ?

O ateniense: E s t e s : q u a n d o v i s l u m b r a m o s a o c o r r ê n c i a
dos males, nós os tememos...

Clínias: Sim.
O ateniense:...E a m i ú d e tememos pela reputação, quan-
d o refletimos que incorreremos n u m a m á r e p u t a ç ã o a o
f a z e r o u d i z e r a l g o vil; e a e s t e m e d o n ó s ( c o m o t o d a s a s
outras pessoas além de nós, eu presumo) d a m o s o n o m e
de vergonha.
Clínias: Certamente.

O ateniense: S ã o e s s e s o s d o i s m e d o s a o s q u a i s m e refe-
r i a , e d o s d o i s o s e g u n d o se o p õ e a o s s o f r i m e n t o s e a
todos os d e m a i s objetos do m e d o , c o m o t a m b é m se opõe
a o s m a i o r e s prazeres e à maioria destes.

Clínias: O q u e d i z e s é m u i t o j u s t o .
O ateniense: N ã o t e r á , p o r t a n t o , O l e g i s l a d o r e t o d o h o -
m e m q u e seja d i g n o d e s t e N O M E , esse tipo de m e d o n a
c o n t a da h o n r a m a i s e l e v a d a , c h a m a n d o - o de. pudor e
n ã o d a r á à confiança q u e s e l h e o p õ e o n o m e d e impu
dêncki, j u l g a n d o e s t a p a r a t o d o s , t a n t o p u b l i c a q u a n t o
privadamente, um grandíssimo mal?

Clínias: Estás totalmente certo.


O ateniense: E esse medo, além de n o s p r e s e r v a r cm
m u i t o s outros aspectos i m p o r t a n t e s , n ã o se revela inais , „
. . . . r • I * A è o B o v rmcov
eticaz do q u e q u a l q u e r outra C O I S A assegurantto-nos a .
• • i . • a p a ÒKi Y i v v c a t 11
v i t o r i a na g u e r r a e s e g u r a n ç a . ' Isto p o r q u e a v i t ó r i a e, '
K C t l < 0 E a v
de, f a t o , a s s e g u r a d a p o r d u a s c o i s a s , s e n d o u m a d e l a s a P P P — <•
1
c o n f i a n ç a p e r a n t e os i n i m i g o s , e a o u t r a o m e d o da ver- o t ' " " ' * w>*'«íi(;oo n
g o n h a da c o v a r d i a p e r a n t e os amigos. f>mmmú^ éwidodn péos
1
ílítímo : ( T R I Í N C F O ' ; dr a/rtiifiiw,
Clínias: Assim é.
ou sejn, aro; mam |>«fru»o<::
O ateniense: D e s t e m o d o , c a d a u m d e n ó s d e v e s e tor- í pt»im <M> tni":i«fi t(»i|if>
n a r t a n t o d e s t e m i d o q u a n t o t e m e r o s o , • e isto d e v i d o às
drutemca dionlf. do inimigo
várias razões q u e acabamos de explicitar.'
(«Kl wwí-fc e hm» da
Clínias: P e r f e i t a m e n t e . vwpéo d« erao.tán PTUOSLR

o amigo, fti.f.j

97
Platão - As Leis

0 ateniense: A d e m a i s , q u a n d o d e s e j a m o s t o r n a r u m a p e s -
soa d e s t e m i d a e o m r e s p e i t o a v á r i o s m e d o s é c o n d u z i n d o *
c o m o a u x í l i o d a lei p a r a o m e d o q u e a t o r n a m o s s e m m e d o .
Clínias: A s s i m é a p a r e n t e m e n t e .

O ateniense: E q u a n t o ao c a s o o p o s t o , q u a n d o c o m a
ajuda da justiça t o r n a m o s um h o m e m temeroso? N ã o é
colocando-o contra a i m p u d ê n c i a e o exercitando con-
tra ela q u e d e v e m o s torná-lo vitorioso n a l u t a c o n t r a
seus próprios prazeres? Ou d i r e m o s nós q u e e n q u a n t o
no caso da coragem é s o m e n t e c o m b a t e n d o e subjugan-
d o sua covardia inata q u e a l g u é m p o d e s e t o r n a r per-
feito ( e n i n g u é m n ã o - v e r s a d o e s e m p r á t i c a e m c o m p e t i -
ções desse tipo é c a p a z de obter s e q u e r a metade da
excelência da q u a l esse a l g u é m é c a p a z ) , no caso da tem-
perança, por outro lado, pode-se atingir a perfeição s e m
u m a luta o b s t i n a d a c o n t r a as h o r d a s de p r a z e r e s e de-
s e j o s q u e i m p u l s i o n a m p a r a a i m p u d ê n c i a e a a ç ã o in-
correta, e sem subjugá-las m e d i a n t e o discurso, o ato e
a a r t e , t a n t o n o s jogos q u a n t o no t r a b a l h o - e, r e a l m e n -
te, s e m se s u b m e t e r a q u a i s q u e r d e s s a s e x p e r i ê n c i a s ?

Clínias: N ã o s e r i a p l a u s í v e l s u p ô - l o .

0 ateniense: M u i t o b e m ! N o c a s o d o m e d o , e x i s t e a l g u m a
droga dada por um deus à humanidade que q u a n t o mais
um i n d i v í d u o a p r e c i e t o m á - l a , m a i s a c a d a d< >se e l e se c r e i a
m e r g u l h a d o t a n t o n a infelicidade c o m o n a angústia, m a i s
ele t e m a t u d o q u e l h e a c o n t e ç a n o p r e s e n t e e p o s s a a c o n -
t e c e r rio f u t u r o , a t é q u e f i n a l m e n t e , e m b o r a c i e seja o m a i s
bravo dos homens, chegue ao terror mais pleno, e n q u a n t o
q u e , s e l i b e r t a d o d a p o ç ã o e d e s p e r t o d e s e u t o r p o r , ele
s e m p r e volta a s e r e l e m e s m o n o v a m e n t e ?

Clínias: Q u e p o ç ã o desse tipo, q u e existisse em q u a l -


quer parte, poderíamos mencionar, estrangeiro?

0 ateniense; N ã o h á n e n h u m a . M a s s u p o n d o , c o n t u d o ,
q u e h o u v e s s e u m a , seria ela d e a l g u m a u t i l i d a d e p a r a
o legislador p a r a promover a coragem? Por exemplo,
p o d e r í a m o s p e r f e i t a m e n t e nos dirigir a ele referiudo-
n o s a ela nos s e g u i n t e s t e r m o s : " V e j a m o s , legislador -
esteja vós l e g i s l a n d o p a r a c r e t e n s e s o u q u a i s q u e r ou-
tros - n ã o s e r i a vosso p r i m e i r o desejo d i s p o r de um teste
de. c o r a g e m e d c c o v a r d i a q u e fosse a p l i c á v e l a o s v o s s o s
cidadãos?"

98
Livro I

Clínias: Obviamente qualquer legislador responderia


q u e sim.

O ateniense; " E d e s e j a r i a s u m t e s t e q u e f o s s e s e g u r o e
isento de sérios riscos, ou o contrário?"
Clínias: Q u a l q u e r l e g i s l a d o r d i r i a q u e o t e s t e t e r i a q u e
ser seguro.
O ateniense: " E f a r i a s u s o d o t e s t e e x p o n d o o s h o m e n s
às circunstâncias geradoras de m e d o e provando-os en-
q u a n t o f o s s e m a s s i m a f e t a d o s , c o m o s e p a r a forçá-los a
se t o r n a r e m destemidos, distri-buindo exortações, adver-
tências e recompensas, m a s t a m b é m p r o m e t e n d o a de-
g r a d a ç ã o à q u e l e s q u e sc r e c u s a s s e m a se c o n f o r m a r in-
t e i r a m e n t e aos vossos ditames? E absolverias sem qual-
q u e r p e n a l i d a d e q u a n t o s tivessem s e s u b m e t i d o a o trei-
n a m e n t o d e m a n e i r a viril e b o a , i m p o n d o , p e l o c o n t r á -
rio, u r n a p u n i ç ã o a q u a n t o s tivessem se s a í d o mal? Ou
vos r e c u s a n e i s t e r m i n a n t e m e n t e a e m p r e g a r a p o ç ã o a
título de teste, e m b o r a não tivésseis q u a l q u e r o b j e ç ã o a
ela q u a n t o ao mais? "

Clínias: Não resta dúvida que ele a empregaria,


estrangeiro.

0 ateniense: De q u a l q u e r f o r m a , m e u amigo, o treina-


m e n t o envolvido seria tremendamente simples se compa-
r a d o a o s n o s s o s m é t o d o s a t u a i s , fosse ele a p l i c a d o a o s in-
divíduos i s o l a d a m e n t e , ou a p e q u e n o s g r u p o s , ou a gru-
p o s c a d a vez m a i o r e s . S u p õ e , e n t ã o , q u e u m h o m e m i m -
pulsionado por um sentimento de vergonha e relutante
e m exibír-sc e m p ú b l i c o a n t e s d e g o z a r d e m e l h o r condi-
ç ã o , d e v e s s e p e r m a n e c e r s o z i n h o e n q u a n t o fosse s u b m e -
tido a esse t r e i n a m e n t o c o n t r a os m e d o s e contasse s o m e n t e
c o m a p o ç ã o c o m o s e u r e c u r s o solitário, e m l u g a r d e exercí-
cios i n t e r m i n á v e i s - ele e s t a r i a a g i n d o d e m a n e i r a i n t e i r a -
mente acertada, do m e s m o m o d o q u e aquele q u e confian-
do em si m e s m o q u e pela n a t u r e z a e a prática já está bem
equipado, n ã o hesitaria em treinar em c o m p a n h ia dc mui-
tos q u e b e b e m , m o s t r a n d o a d i c i o n a l m e n t e c o m o q u a n t o
à v e l o c i d a d e e f o r ç a ele é s u p e r i o r a o p o d e r d a s d o s e s q u e
ê i m p e l i d o a b e b e r , r e s u l t a n d o q u e e m f u n ç ã o d e s u a ex-
celência ele n e m c o m e t e qualquer i m p r o p r i e d a d e grave
n e m perde sua cabeça, c é q u e m , antes da última rodada,
é capaz de deixar os convivas graças ao m e d o da derrota
infligida a todos os h o m e n s pela taça de vinho.

99
Platão - As Leis

Clínias: Sim, estrangeiro. Um tal h o m e m seria s á b i o


assim agindo.
0 ateniense: U m a v e z m a i s c u m p r e q u e n o s d i r i j a m o s
ao legislador e d i g a m o s : " Q u e a s s i m seja, ó legislador,
q u e p a r a combater m e d o u m a tal droga n ã o t e n h a apa-
r e n t e m e n t e sido concedida aos h o m e n s por u m deus,
n e m n ó s m e s m o s a i n v e n t a m o s (pois n ã o se e n c o n t r a m
m a g o s e n t r e n o s s o s c o n v i v a s ) ; p o r é m e f e t i v a m e n t e exis-
te u m a poção p a r a induzir à ausência do m e d o e a u m a
c o n f i a n ç a excessiva e i n t e m p e s t i v a - ou o q u e d i r e m o s
acerca disso?"

Clínias: E p r e s u m í v e l q u e e l e a f i r m a s s e q u e e x i s t e u m a ,
a saber, o vinho.
0 ateniense: E n ã o é e s t e e x a t a m e n t e o o p o s t o da p o ç ã o
d e s c r i t a há p o u c o ? Afinal p r i m e i r o ele t o m a a p e s s o a
q u e o b e b e m a i s jovial do q u e e r a a n t e s e «pranto m a i s
ela o saboreia, m a i s se enche de belas e s p e r a n ç a s e de
um senso de poder, até q u e finalmente estufado de pre-
'...CTCKJKX; t o v sunção, * ela explode n u m a completa liberalidade de
U E O T O U T a i . . . . Mpklo de discurso e ação e toda o r d e m de ousadia, sem q u a l q u e r
sim snliedonia, ai rjuisOBitos e s c r ú p u l o q u a n t o a o q u e diz o u faz. T o d o s , i m a g i n o ,
esta* wnis (iKówmos fio concordariam q u e assim é.

UmMaài. f) km. r. Clínias: Indubitavelmente.


«íiiamciití! («ósif.o, fido IJNÍ
O ateniense: R e c o r d e m o s de n o s s a a f i r m a ç ã o an-terior,
(«'líaiiitoi o (MICIUQÕO oo segundo a q u a l temos q u e cultivar em nossas a l m a s d u a s
(•orffi. («.(.) coisas, a saber, a m a i o r confiança possível, e seu oposto,
o m a i o r m e d o possível.

Clínias: O ( p i e c o n s í d e r a s t e c o m o a s m a r c a s d o p u d o r ,
me parece.
O ateniense: T u a m e m ó r i a é p a r a t i u m a e f i c i e n t e s e r v a .
. . . A V Õ P T A V Kai T R | V Visto q u e a c o r a g e m e o d e s t e m o r * ' t ê m q u e ser
a<j>o(3iav.... praticados em meio aos medos, é mister que
e x a m i n e m o s se a q u a l i d a d e oposta deve ser cultivada
{«.tj
cm meio a condições do tipo oposto.

Clínias: I s t o s e m e a f i g u r a c e r t a m e n t e p r o v á v e l .

O ateniense: Parece, e n t ã o , q u e d e v e m o s ser c o l o c a d o s


em meio àquelas circunstâncias que tendem
n a t u r a l m e n t e a nos t o r n a r excepcio n a l m c n t e confiantes
e a u d a c i o s o s q u a n d o e s t a m o s às voltas com a prática
d e c o m o e s t a r o m a i s livre possível d a i m p u d ê n c i a e d a
a u d á c i a excessiva, e t e m e r o s o s de em q u a l q u e r ocasião
o u s a r dizer, sofrer o u fazer q u a l q u e r coisa v e r g o n h o s a .

1 0 0
Livro I

Clínias: Assim parece.


0 ateniense: E n ã o s ã o e s t a s a s c o n d i ç õ e s n a s q u a i s n o s
e n q u a d r a m o s n o s s e n t i m e n t o s j á d e s c r i t o s , o u seja, cóle-
ra, desejo sensual, ínsolência, ignorância, cobiça e prodi-
g a l i d a d e , b e m c o m o r i q u e z a , beleza, vigor e t u d o o m a i s
q u e inioxii a u m i n d i v í d u o d e p r a z e r e l h e t r a n s t o r n a a
cabeça? E t e n d o em mente, em p r i m e i r o lugar, a disponi-
b i l i d a d e d e u m teste b a r a t o c r e l a t i v a m e n t e i n ó c u o p a r a
essas condições ou s e n t i m e n t o s e, em s e g u n d o lugar, p u r a
prover a s u a p r á t i c a , q u e e x p e d i e n t e m a i s a d e q u a d o p o -
d e r í a m o s n ó s i n d i c a r d o q u e o v i n h o , e s t e teste d i v e r t i d o -
( « m a n t o q u e fosse e m p r e g a d o c o m t o d o o c u i d a d o ? Pois
reflete n o CASO d e se t e s t a r u m c a r á t e r difícil e s e l v a g e m
(do q u a l e m e r g e m i i i i q ü i d a d e s s e m conta); n ã o é m a i s
perigoso testá-lo e n t r a n d o e m t r a n s a ç õ e s q u e envolvem
d i n h e i r o consigo, sob o próprio risco pessoal, do q u e se
a s s o c i a n d o a ele c o m a a j u d a de Dionísio d e n t r o de seu
e s p í r i t o festivo? E q u a n d o u m a a l m a ' * * é escrava dos
p r a z e r e s do sexo, n ã o s e r á teste m a i s a r r i s c a d o confiar a
ela n o s s a s p r ó p r i a s filhas, filhos e esposa, p o n d o em peri-
go aqueles q u e n o s s ã o m a i s p r ó x i m o s e m a i s c a r o s a fim
d e a v e r i g u a r a d i s p o s i ç ã o d e tal a l m a * * * ? N a v e r d a d e , * * • vjcdíirt-íic em mente n
p o d e r í a m o s citar i n ú m e r o s exemplos n u m desnecessário concerto dc V|/U^r|, oo qiioP
e m p e n h o d e d e m o n s t r a r a total s u p e r i o r i d a d e d e s s e d i - jó MS v^iaimos cm noto
v e r t i d o m é t o d o de i n s p e ç ã o , q u e é isento seja de conse- pücecdcnlc.
q ü ê n c i a s s é r i a s , seja d e d a n o s custi isos. R e a l m e n te, n o q u e („.(.)
c o n c e r n e a isso, n e m o s c r e t e n s e s , s u p o n h o , n e m q u a l q u e r
o u t r o p o v o c o n t e s t a r i a m o fato q u e d i s p o m o s n e s t e c a s o
d e u m excelente teste p a r a t e s t a r m o s u n s aos outros, e q u e
no q u e diz respeito à m o d i c i d a d e , segurança e rapidez
trata-se de um teste s u p e r i o r a q u a i s q u e r o u t r o s .
Clínias: Isto é c e r t a m e n t e v e r d a d e i r o .
O ateniense: Isso, por conseguinte, quer dizer, a d e s c o -
berta das naturezas e disposições das a l m a s h u m a n a s -
se revelará c o m o u m a d a s coisas m a i s úteis p a r a a arte
cuja i n c u m b ê n c i a é d e l a s tratar. E esta a r t e é ( c o m o
p r e s u m o q u e o diríamos), a política, n ã o é mesmo?

Clínias: N ã o há dúvida.

101
Platão - As Leis

T o ôr| uetqt x o u x o , coç e o v k c , a K e i x x e o v e k e i v o n s p i


a u t t ú v , r c o x e p a x o o x o p o v o o a y a f l o v e%ei,...

Livro
II

102
Livro II
* ©u sejft, o d f s fconqueíes
negados a tinto, (n.tj
O ateniense: A s e g u i r , p r o v a v e l m e n t e d e v e r í a m o s investi-
• • ... rjipovnmv 5 e tem
gar, r e l a t i v a m e n t e a e s t e a s s u n t o , s e a d e s c o b e r t a d a s d i s -
aXiiOeiç 8 o E , a ç . . . .
posições n a t u r a i s h u m a n a s constitui a ú n i c a v a n t a g e m
Mssnftondo que a X q O c i a
q u e se pode extrair dos b a n q u e t e s em q u e se passa o tem-
(nadado) não «iMraponoV
po t o m a n d o vinho ou se estes trazem benefícios tão gran-
ontanrate oo conceito ocirfetttaC
d e s q u e m e r e ç a m o nosso meticuloso e x a m e . O q u e dizer-
moderno do t«w'o do
m o s acertai disto? N o s s a l i n h a d e r a c i o c í n i o e v i d e n t e m e n -
confcwiwnto (o tmtma ftjira
te tende a indicar q u e efetivamente trazem tais bene- entuf. o objeto «ogncscíueü
fícios. M a s s o b q u e f o r m a e d e q u e m a n e i r a , é o q u e n o s (KSffibido çnipiíicotiietito e n
c o m p e t e e s c u t a r a t e n t a m e n t e , ( a s o c o n t r á r i o essa n o s s a li- pwpraiçoo tcó/iico emitido pejo
n h a d e r a c i o c í n i o m e s m a p o d e r i a n o s f a z e r perdia- o r u m o . .'ajeito o «ospeito do objeto

Clínias: P o i s b e m ! Fala! eonkeido). o que nõo tèfcm


PssewsoíWiilc da « ç õ o uiígo/i e.
0 ateniense: Gostaria que relembrássemos a q u e l a nos-
enwítn de ee.td/ide. rpe te», o
sa d e f i n i ç ã o da c o r r e t a e d u c a ç ã o , visto q u e a preserva-
pnopósiln, ^«domonto {íPosélioo:
ção desta depende, pelo q u e s u p o n h o agora, do acerta-
JfiôKjidn dig que (oi Ayr ri
do estabelecimento da instituição em pauta. •
fseolh mas uno (ei. isto ó, a
Clínias: E i s u m a a f i r m a ç ã o d c m o n t a ! («oposição omitido po* efe, rio
digoi ò meie que ^oi nõo
O ateniense: O q u e a f i r m o é o s e g u i n t e : q u e q u a n d o c r i a n -
oow^ipoflde o um fato
ças as p r i m e i r a s sensações pueris a serem e x p e r i m e n t a -
(enipiw,omríito eooiptóiuodnj de.
d a s s ã o o p r a z e r e a d o r , e q u e é s o b essa. f o r m a q u e a
te» ido. ÁÀqB-nÇ . o
v i r t u d e e o vício s u r g e m p r i m e i r a m e n t e na a l m a ; m a s no
«doíieko, ptfo (Síitiioftyjo da
q u e r e s p e i t a à s a b e d o r i a e às o p i n i õ e s v e r d a d e i r a s • • e s -
poítari, c o imofsqimrío, o
t a b e l e c i d a s , u r n s e r h u m a n o s e r á feliz s e e s t a s o a l c a n ç a -
lão-miàatío. o ivrmi^o r
r e m m e s m o na velhice, e a q u e l e q u e é d e t e n t o r dessas
nrfiiki que não se jietden.
b ê n ç ã o s , e de t u d o q u e a h a r c a m , é de fato um h o m e m
npavcr.íoíido- se. ossim, tnois oo
p e r f e i t o . E n t e n d o a s s i m p o r educação a p r i m e i r a a q u i s i -
eotiWto moderno de nenfidade elo
ç ã o q u e a c r i a n ç a fez d a v i r t u d e . Q u a n d o o p r a z e r , o
, #
que doqiirfr. de aetdnde, qw
amor,* a dor e ódio nascem com justeza n a s a l m a s
aemwta o dieotoniio i ^ d o -
a n t e s d o d e s p e r t a r d a r a z ã o , e u m a vez a r a z ã o d e s p e r t a ,
dei,(f.íjfl5so p«escnl<> na fórjirw,
o s s e n t i m e n t o s s e h a r m o - r i i z a m c o m ela n o r e c o n h e c i -
que t o instiüiiifiifo do
mento de q u e t i r a m b e m treinados pelas práticas ade-
gnoseofogio. 9, po» isso que <i
q u a d a s c o r r e s p o n d e n t e s , e essa h a r m o n i z a ç ã o , vista
p r e s s ã o np/eiões' widodnims
como um todo. constitui a virtude; rnas a parte dela q u e nos soo es(;tni4n. me*\mo pesque, r
é c o r r e t a m e n t e t r e i n a d a q u a n t o a o s p r a z e r e s e o s sofri- ip.compotMiP com o eoiieepefio
m e n t o s , de m o d o a o d i a r o q u e deve ser o d i a d o d e s d e o (tiiiiiotiisto do ^ifriscjío modrwn
início até o fim, c a m a r o q u e deve ser a m a d o , esta á it sutijolitidode. e
a q u e l a q u e a razão isolará para denominá-la educação, objctiifdndíi. (n.t.)
o q u e é , a r n e u ver, d e n o m i n á - l a c o r r e t a m e n t e . * * • (|>t/Ua, que abrange
tOBrXW $rm conceito dr,
Clínias: E s t á s , p e l o q u e n o s p a r e c e , i n t e i r a m e n t e c e r t o ,
owigode. mets distinto de Kpoç
estrangeiro, tanto q u a n t o no q u e disseste antes como
w tyiwç fnmr* erasuof) e
no q u e agora profcrisle sobre o educação.
OtyttJtu, (coticeiio fwm jjmíímo
do Patim emi/aq- (n.l.)

103
Platão - As Leis

O ateniense: Ó t i m o . E p r o s s e g u i n d o n o t a r e m o s q u e es-
sas formas dc t r e i n a m e n t o infantil, q u e consistem na
correta disciplina dos prazeres e das dores, se afrouxam
e se debilitam n u m a g r a n d e m e d i d a ao longo da vida
h u m a n a : assim, os deuses, c o m p a d e c i d o s pela espécie
h u m a n a deste m o d o nascida p a r a a miséria, instituíram
os banquetes dc ação de graças como períodos de trégua
em relação às vicissitudes h u m a n a s ; e à h u m a n i d a d e
conferiram como companheiros de seus banquetes as
Musas, Apoio, o mestre da m ú s i c a c Dionísio p a r a q u e
p u d e s s e m , a o m e n o s , restabelecer s u a s f o r m a s d e disci-
plina se reunindo em seus banquetes com os deuses.
Devemos considerar, portanto, se o a r g u m e n t o q u e apre-
sentamos neste m o m e n t o tem fundamento na natureza
ou d i f e r e n t e m e n t e . O q u e ele assevera é q u e , q u a s e s e m
exceção, t o d o s os i n d i v í d u o s jovens s ã o i n c a p a z e s de con-
s e r v a r seja o c o r p o seja a l í n g u a imóveis, e s t a n d o tais
jovens s e m p r e p r o c u r a n d o i n c e s s a n t e m e n t e s e m o v e r e m
e gritarem, s a l t a n d o , p u l a n d o e se d e l i c i a n d o com d a n -
ç a s e jogos, a l é m d e p r o d u z i r e m r u í d o s d e t o d o n a i p e .
Ora, e n q u a n t o todos os outros a n i m a i s carecem de qual-
q u e r senso de o r d e m ou desordem nos seus movimentos
(o q u e c h a m a m o s de r i t m o c h a r m o n i a ) , a nós os pró-
prios deuses, q u e se prontificaram c o m o já o dissemos
em ser nossos companheiros na d a n ç a , concederam a
agradável percepção do ritmo e da harmonia, por meio
do q u e n o s fazem n o s mover e c o n d u z i r nossos coros, de
m o d o que. n o s ligamos m u t u a m e n t e m e d i a n t e c a n ç õ e s e
d a n ç a s ; e o n o m e c o r o p r o v é m d o j ú b i l o q u e d e l e extraí-
• Sklt) sc áwiiwtnos mos. • D e v e r e m o s n ó s a c e i t a r esse a r g u m e n t o p a r a ter-
Xopoç de %apa, júbito. m o s com o q u e começar, e postular q u e a e d u c a ç ã o deve
(fi.í.) s u a o r i g e m a A p o i o e às M u s a s ?

Clínias: Sim.

O ateniense: Poderemos supor que o homem não-


e d u c a d o n ã o conta c o m o treinamento nos corais e q u e
o e d u c a d o conta inteiramente, com tal treinamento?
Clínias: Certamente.

O ateniense: O t r e i n a m e n t o n o s c o r a i s , c o m o u m todo,
inclui, é claro, t a n t o a d a n ç a q u a n t o as canções.
Clínias: N ã o há dúvida.

O ateniense: E p o r t a n t o o h o m e m b e m e d u c a d o terá a
capacidade tanto de cantar quanto de dançar bem.

104
Livro II

Clínias: Evidentemente.

O ateniense: C o n s i d e r e m o s a g o r a o q u e s u g e r e e s s a n o s s a
última afirmação.

Clínias: Que afirmação?


0 ateniense: N o s s a s p a l a v r a s s ã o : " e l e e a n t a b e m e d a n -
ç a b e m " - d e v e m o s o u n ã o d e v e m o s a j u n t a r : *... c o n t a n -
to q u e cante belas canções e d a n c e belas danças"?

Clínias: P e n s o q u e d e v e m o s a j u n l a r i s s o .
O ateniense: E s e , t o m a n d o o b e l o p e l o b e l o , e o feio
p e l o feio e l e o s e n c a r a r s e g u n d o e s t e c r i t é r i o ? C o n s i d e -
r a r e m o s u m tal indivíduo c o m o m e l h o r t r e i n a d o nos
corais e na m ú s i c a q u a n d o se revela s e m p r e c a p a z tan-
t o n o s gestos c o m o n a voz d e r e p r e s e n t a r a d e q u a d a m e n -
te a q u i l o q u e c o n c e b e ser belo, e m b o r a n ã o sinta n e m o
deleite na beleza, n e m o ódio da disforrnidade - ou q u a n -
do, omito e m b o r a n ã o plenamente capaz de represen-
tar s u a c o n c e p ç ã o a c e r t a d a m e n t e m e d i a n t e a voz e os
gestos, ele a i n d a a s s i m s e m a n t é m g e n u í n o etn seus sen-
t i m e n t o s dc d o r e prazer, a c o l h e n d o t u d o q u e é belo e
repelindo t u d o q u e n ã o é belo?

Clínias: H á u m a e n o r m e d i f e r e n ç a e n t r e o s d o i s c a s o s ,
estrangeiro, no q u e diz respeito à educação.

O ateniense: S e , e n t ã o , n ó s t r ê s d i s c e r n i m o s n o q u e c o n -
siste a b e l e z a r e l a t i v a m e n t e à d a n ç a e à c a n ç ã o , t a m -
b é m saberemos discernir entre q u e m é e q u e m n ã o é
c o r r e t a m e n t e e d u c a d o ; m a s sem este c o n h e c i m e n t o
n u n c a s e r e m o s c a p a z e s de discernir se existe q u a l q u e r •*... KOU ueAx>Ç K t t l
salvaguarda p a r a a e d u c a ç ã o ou o n d e ela d e v e ser cn ojõr|v kcu opxnotv.,
1
contrada. N ã o é assim? muno hadiupa mono : fliiw. ...
a mfadin mm a canção <' fí
Clínias: E.
dança- (n.t.j
O ateniense: O q u e t e m o s q u e l o c a l i z a r n a s e q ü ê n c i a , c o m o
cães no rastro da caça, são a beleza d a s posturas c d a s me- avoptKnc
l o d i a s em c o n e x ã o c o m a c a n ç ã o c a d a n ç a ; * • se n o s per- ¥ t ' x n ç - > 'wp'"' «
d e r m o s n e s t a b u s c a será i n ú t i l c o n t i n u a r m o s a d i s c u t i r so- tdaàtfpmpki « « « ( ( u n i e
b r e a c o T r e t a e d u c a ç ã o , s e j a d e gregos o u d e b á r b a r o s . 1
flVi (HrHifdfillíflWí f-OJti (i
Clínias-, Sim. hmm. 'Vtmt '"Pínlôr. e os

O ateniense: B e m , e n t ã o c o m o d e f i n i r a beleza da p o s t u r a rpegos u oo^on/!íw f, umo

ou da m e l o d i a ? Vejamos: q u a n d o u m a a l m a viril * • * é a t i n - uiítiif/í' woíuüiito f


gida por transtornos e u m a alma covarde é atingida por nwKO/IIRMKIIITE iviowuftno, do
t r a n s t o r n o s idênticos e iguais, s ã o as p o s t u r a s e expressões quoí o-: awfttSH» soo
vocais d a í resultantes s e m e l h a n t e s n o s dois casos? mhwhimk üwopfigco- (n.t.)

105
Platão - As Leis

• X P C O U . A (e« rfn pek: Clínias: E c o m o p o d e r i a m s e r s e a t é s u a s c o r e s * d i f e r e m ?


gpjcdfoaweiifc, cai) sigrtjíen O ateniense; M u i t o b e m d i t o , m e u a m i g o . M a s r e a l m e n t e
tombe» modnCaçâo, embora posturas e melodias existam efetivamente na
deeifjBOftdo ignafeierte um tipo m ú s i c a , • • a q u a l envolve ritmo e h a r m o n i a , de m a n e i r a
dc composição nwsicnJ ei» que q u e se p o d e falar a p r o p r i a d a m e n t e de u m a melodia ou
sc pnoeede [>o» sctnitoiis - a p o s t u r a c o m o s e n d o rítmica o u harmoniosa, n ã o s e p o d e
clamado «feten mmálica. apropriadamente aplicar a m e t á f o r a bem colorida dos
\Aima\&, o (ifJjcfluo m e s t r e s d e c o r o à m e l o d i a e à p o s t u r a ; n o e i i i a n to, p o d e -
% p u ) l i a t l K O Ç sc, ,M!JB»f! se u s a r essa expressão a respeito da p o s t u r a e m e l o d i a
tfinío o iiinri gamo cie cones do h o m e m corajoso e do covarde, sendo a p r o p r i a d o
como a nino gomo iwisiool (o c h a m a r as do h o m e m corajoso de belas, e as do covarde
jamoso oitava de 'Pitógosas, d e feias. E p a r a n o s p o u p a r u m a d i s c u s s ã o t e d i o s a m e n t e
o escalo fiuKicnP). (tii.) longa, r e s u m a m o s t o d o o assunto a f i r m a n d o q u e as
posturas e as melodias q u e se v i n c u l a m à virtude da
•• poucjucoç (r), OV)
alma ou do corpo, ou a alguma imagem deste, são
é o odijctii'0 que indica «s
universalmente belas, enquanto q u e aquelas que se
adies que eoneeinem às
v i n c u l a m ao vício, s ã o e x a t a m e n t e o c o n t r á r i o .
•m especialmente o
Clínias: O q u e p r o p õ e s e s t á c o r r e t o , e n ó s d e m o m e n t o
música. Mm é acftessáíin
formalmente o endossamos.
que nos p/iendaraos ao
conceito do g«:go, ou sejo. O ateniense: U m o u t r o p o n t o : e x p e r i m e n t a m o s o m e s m o

po.to os Menos a música p r a z e r em todas as d a n ç a s c o m coral • • • ou longe disto?

não ffio distinta da dama Clínias: D e f a t o , b e m l o n g e d i s s o .


(opxriatç, O ateniense: Então o q u e poderíamos nós supor q u e nos
opXTioxoç), Induz ao erro? S e r á o fato de q u e n ó s t o d o s n ã o v e m o s
comfweetiaWo-a além. da c o m o b e l a s a s m e s m a s c o i s a s , o u s e r á o fato d e q u e , e m -
(mano que itiefcín, fio» sua bora elas sejam as m e s m a s , n ã o são p e n s a d a s corno as
wg, o ncotnpaníiamento mesmas?. . . pois c e r t a m e n t e n i n g u é m sustentará q u e as
instatneslaf {designados a p r e s e n t a ç õ e s corais d a n ç a n t e s d o vício são m e l h o r e s d o
como ü)6t]). (jt música e,»a q u e a s d a virtude, o u q u e ele p r ó p r i o d e s f r u t a d a s postu-

pfeetttoda índitldualtMinta ras da m a l d a d e e n q u a n t o todos os outros experimentam


p r a z e r c o m a m ú s i c a do t i p o o p o s t o . * * • « A m a i o r i a d a s
{aoÀà) ou po/i g/mpas
pessoas, contudo, afirmam q u e o valor da música reside
(xopeia) e na músico
n o s e u p o d e r d e p r o p o r c i o n a r p r a z e r à a l m a . E s t a afir-
assim entendida a posliun
m a ç ã o , entretanto, é a b s o l u t a m e n t e inaceitável e u m a
(oxr||ia) digia ««peito
i m p i e d a d e o m e r o a t o d e p r o f e r i - l a . O fato q u e n o s i n d u z
ao daneaiino ou dança/iinn
ao erro é c o m m a i o r p r o b a b i l i d a d e o seguinte.,.
(opxricJTpiç). e a melo-
Clínias: Qual?
dia ( u e ^ o ç ) oo cantai ou
oanfofto (toôoç). (n.t.) O ateniense: V i s t o q u e a s a p r e s e n t a ç õ e s c o r a i s d a n ç a n -
tes s ã o r e p r e s e n t a ç õ e s d e p e r s o n a g e n s , e x i b i d a s m e d i a n -
te ações e circunstâncias de Ioda espécie, n a s q u a i s os

106
Livro II

vários intérpretes d e s e m p e n h a m seus papéis por hábito


e arte intitativa, s e m p r e q u e as apresentações corais se
lhes a d e q u a m p o r meio de palavras, melodia ou outros • * • % 0 p 8 t a , um outito
a s p e c t o s (seja p o r p e n d o r n a t u r a l , s e j a p o r h á b i t o , o u a tetmo o ílqoí intjndugíucC;

p a r t i r d e u m a c o m b i n a ç ã o destas d u a s causas), esses concebendo n Músico


olrtongcndo o danço, t*otota-
intérpretes i n v a r i a v e l m e n t e e x p e r i m e n t a m p r a z e r e m t a i s
».(: IccaiCíiBienlc do movimento
apresentações e as exaltam como belíssimas; p o r outro
icgiodo pefo .Wduo,
lado, aqueles que as julgam adversas às suas naturezas,
consubstanciando o dotiço,
disposições ou hábitos são possivelmente incapazes de
atoando ootafuotnonle cm
extrair p r a z e r delas ou louvá-las. considerando-as, ao
oombineiçõo com o coto. (n.i.)
c o n t r á r i o , d i s f o r m e s , • • • • • E q u a n d o o s i n d i v í d u o s es-
• • • • ... UÁ./.0I
t ã o certos e m seus gostos n a t u r a i s , m a s e r r a d o s n a q u e l e s
evavtta Taurqç
a d q u i r i d o s p o r h á b i t o , ou certos nestes m a s e r r a d o s na-
Mourrn, t i v i ... . no
q u e l e s o c o r r e q u e a t r a v é s de. s u a s m a n i f e s t a ç õ e s d e l o u -
out»oe apseeiam umo woso
vor t r a n s m i t e m o oposto do q u e s e n t e m realmente, pois oposta a esta. (n.t.)
e m b o r a digam q u e u m a apresentação é agradável, po
r é m r u i m e se s i n t a m e n v e r g o n h a d o s de c e d e r e m a esses •••••ciPo ponío dc tisto do

m o v i m e n t o s corporais d i a n t e d e h o m e n s cuja s a b e d o r i a educação espcoiafmontc,


"Tilatõo tem o» oPlíssima
r e s p e i t a m , ou c a n t a r e m certas c a n ç õ e s (como se seria-
conto o ijosmoçòo dos gostos
m e n t e a s a p r o v a s s e m ] , n a v e r d a d e d e l a s e x t r a e m [prazer
c dos, o*,/isòes, o que dotem
íntima e particularmente.
um peso {««comente estético.
Clínias: I s t o é b e m v e r d a d e i r o . £.'• notoliio o enowtfi apíeeo
O ateniense: E se segue q u e a q u e l e q u e se c o m p r a z c o m que os gwgos nhibtiíont ò
p o s t u r a s e m e l o d i a s r u i n s sofre q u a l q u e r d a n o e m í>e%o so opondo ei incisiiJn
c o n s e q ü ê n c i a disto, ou q u e a q u e l e q u e tira p r a z e r do iiepuqnôtifia que lOtoiíoin a
L :

oposto obtém q u a l q u e r benefício c o m o resultado? dis/jrímidfldc, Poso T(filfío


o Manca bem e.dueodo
Clínias: E provável.
deiifttio se sentiu
0 ateniense: N ã o s e r á a p e n a s p r o v á v e l m a s i n e v i t á v e l o instintivamente (úmida paio o
resultado nesse caso ser e x a t a m e n t e idêntico à q u e l e q u e bofo o eypeíímenfo,! uma
advém ao h o m e m q u e vivendo segundo os m a u s hábitos fioptifso imediato dinnto, do
de h o m e n s perversos, realmente n ã o os a b o m i n a m a s {ao. .9sto eonduj o umo
sim os a c e i t a e c o m eles se c o m p r a z , e m b o r a os c e n s u r e espécie dfl conjunção o«He o
casualmente, como se vagamente ciente dc sua própria estético o o ético, pois o Mo
p e r v e r s i d a d e ? N u m tal caso é s e g u r a m e n t e inevitável q u e ooaho se identificando com o
um h o m e m q u e assim se c o m p r a z assimile tais hábitos, bom a o {cio com o mau. A

b o n s o u r u i n s , m u i t o e m b o r a se, e n v e r g o n h e d e l o u v á - l o s . fritam o« wfcitirta do diáíogo

E não obstante, o q u e haveria de melhor ou pior do q u e :J ''RepiíMíeci \fmmtk oo


Peito* p*oeiosos subsídios
essa assimilação a nos acontecer tão inevitavelmente?
pawi a cowpjfonsão desso
Clínias: Acredito q u e n a d a . quesfõo no domínio do
pensamento píotõnieo. (n.l.)

107
Platão - As Leis

O ateniense: O r a , o n d e l e i s r e l a t i v a s à e d u c a ç ã o m u s i -
cal e à r e c r e a ç ã o existirem (agora ou no futuro), estabe-
lecidas corretamente, seria de se supor q u e aos poetas
fosse o u t o r g a d o o d i r e i t o d e e n s i n a r e m a f o r m a d e r i t -
m o , m e l o d i a o u letra q u e b e m e n t e n d e s s e m a o s filhos
d e c i d a d ã o s ciosos d a lei e a o s j o v e n s n o s c o r o s , n ã o
i m p o r t a n d o q u a l seria o resultado no q u e respeita à
v i r t u d e o u a o vicio?

• <_A despeito dos mePindíes Clínias: C o m t o d a a c e r t e z a i s s o s e r i a i n s e n s a t o .


doe íiistoíiodoícs o/itodome, O ateniense: E no e n t a n t o atualmente tal direito é
•testa pouquíssima dúwda de concedido em p r a t i c a m e n t e todos os Estados, à exceção
que TVolõo tendo eonliccido do Egito.
peesooíWnlc o Sgito e sido
Clínias: E eomo é, a propósito, na tua opinião, a
uni iniciado nutua de suas
legislação no Egito (no q u e se refere a esse ponto)?
Psrofas r/r ^ílisfêios. o4
O ateniense: O s i m p l e s e n u n c i a d o d e l a já é a d m i r á v e l .
odniiioçõo e pPcna opftovoeõo
Parece-me q u e há muito t e m p o a p r e n d e r a m esta regra de
que etpmm em íiePação o
q u e estamos falando agora, a saber, q u e os jovens de um
umo instituição egípcio pcPa
Estado devem praticar em seus ensaios boas posturas e
dono dc O afrniriisr nõo soo,
b o a s m e l o d i a s . E s t a s f o r a m p o r eles p r e s c r i t a s m i n u c i o s a -
po/itonto, smp/ieendentes. f)
m e n t e e e x p o s t a s n o s t e m p l o s , s e n d o i n t e r d i t o ( a s s i m foi e
íóluPo de oíeoisino em tuotrâío
a i n d a é ) a o s p i n t o r e s e t o d o s o s d e m a i s c r i a d o r e s d e postti-
de poesio e músico, que
r a s e r e p r e s e n t a ç õ e s i n t r o d u z i r n e s s a lista o f i c i a l q u a l q u e r
TUIWioitítjj, pa» evempPo,
i n o v a ç ã o o u c o n c e p ç ã o n o v a , seja e m t a i s p r o d u ç õ e s , seja
Píie imputo, embota acertado
e m q u a l q u e r o u t r o r a m o d a m ú s i c a , q u e afete d e u m a
em ptincípio, c dc pouco eafia
m a n e i r a ou outra as formas tradicionais. Se o examina-
do ponto dc Cisto do conteria
res, verás q u e a s coisas p i n t a d a s o u e s c u l p i d a s l á h á dez
da jifoeojia poPítieo
m i l a n o s ( e q u a n d o d i g o d e z m i l a n o s , n ã o s e t r a t a d e for-
pPatônieo, já que num fistado
ça de expressão, m a s de literalidade) n ã o são n e m melho-
eomunisio a Pibctdadc dc r e s n e m p i o r e s q u e a s p r o d u ç õ e s d e h o j e , m a s s i m confec-
es'p,tcs8ào indieiduaP de cionadas com a m e s m a técnica. •
o/distas e quaisquet outtos
cidadãos no que se tcjctc oo Clínias: E admirável!

inteiicssc comum (no que se O ateniense: D i z a i n d a m a i s q u e é d i g n o n o m a i s a l t o


inscitc. a n a i ô s i a ) é grau de um h o m e m de E s t a d o c de um legislador. S e m
insustenfá^cC. P, pe;^ei(amenie dúvida, tu e n c o n t r a r á s no Egito outras coisas q u e são
Pcgífimo e possácP tc£uto,t e reprováveis. M a s essa r e g u l a m e n t a ç ã o d a m ú s i c a cons-
ejitica» o conscíÇadatísttio t i t u i u m fato r e a l e d i g n o d e m e n ç ã o p e l o q u a l s e reve-
«manjado na base do cisão lou possível q u e a s m e l o d i a s d e t e n t o r a s d e u m a exati-
socioPisto de 'PPotão, mas d ã o c o n f o r m e a n a t u r e z a fossem p r o m u l g a d a s p e l a lei
bastante di^íeiP nc.imii o c c o n s a g r a d a s p e r m a n e n t e m e n t e , isto teria sido a o b r a
mesl/(C da L.irndr/m'0 de de um deus ou de um homem semelhante a um deus
ineocitêncio. (n.l.) ou m e s m o , como dizem no Egito, q u e as melodias

108
Livro II

p r e s e r v a d a s p o r t o d o esse t e m p o são c o m p o s i ç õ e s d e
Tsis. A s s i m , c o m o e u a s s e v e r e i , s e a l g u é m a l g u m d i a p u -
desse captar de algum modo o princípio da exatidão
em matéria de melodia, poderia então confiantemente
reduzi-lo a u m a forma e prescrição legais, visto q u e a
tendência do prazer e da d o r de serem transmitidos cons-
t a n t e m e n t e através de música nova n ã o exerceu, afinal,
um poder muito g r a n d e capaz de corromper os corais
consagrados pelo tempo simplesmente os t a x a n d o de
a n t i q u a d o s . No Egito, ao m e n o s , n ã o p a r e c e ter possuí-
do tal p o d e r de c o r r u p ç ã o - aliás, m u i t o pelo c o n t r á r i o .

Clínias: P a r e c e s e r e s t e e v i d e n t e m e n t e o c a s o , a j u l g a r
pelo q u e a c a b a s t e de dizer.

O ateniense: Poderíamos, então, de maneira confiável


descrever o correto m é t o d o na m ú s i c a e n a s festas
associadas às d a n ç a s corais nestes termos: regozijamos
s e m p r e q u e a c h a m o s q u e e s t a m o s p r o s p e r a n d o , e vice-
versa, sempre q u e regozijamos a c h a m o s q u e estamos
prosperando? Não é assim?

Clínias: Sim, é assim.

O ateniense: E q u a n d o e s t a m o s n e s s e e s t a d o d e r e g o z i j o
somos incapazes de permanecer em repouso.

Clínias: E verdade.

O ateniense: E também não é verdade que enquanto


n o s s o s j o v e n s t ê m efetiva d i s p o s i ç ã o p a r a d a n ç a r , n ó s ,
os velhos, a c h a m o s q u e nos convém mais empregar nos-
so t e m p o a o b s e r v á - l o s , felizes c o m s e u s jogos e s u a s
festas, a g o r a q u e n o s s a ligeireza n o s está a b a n d o n a n -
d o ; e é n o s s o s e n t i m e n t o de p e s a r em r e l a ç ã o a isso q u e
n o s faz p r o p o r t a i s c o n c u r s o s p a r a a q u e l e s q u e s ã o r a -
pazes de melhor despertar em nós por meio da recorda-
ção as emoções latentes da juventude.

Clínias: Isto é b a s t a n t e v e r d a d e i r o .

O ateniense: Assim não podemos descartar como


completamente destituída de f u n d a m e n t o a opinião
a t u a l m e n t e de o r d i n á r i o e x p r e s s a a r e s p e i t o do folião,
ou seja, que aquele que é o m a i s c a p a z de nos
p r o p o r c i o n a r alegria e p r a z e r d e v e r i a ser j u l g a d o o m a i s
hábil e p r o c l a m a d o o vencedor, pois desde q u e nos
p e r m i t i m o s a diversão em tais ocasiões, decerto a m a i o r

109
Platão - As Leis

• paycuôia, h o n r a e os louros da vitória, como acabei de dizer,


genffliiMWjtfe mítação A tirn d e v e r i a m s e r c o n c e d i d o s a o c o n v i v a e f o l i ã o c a p a z de.
pamt, es[**!$car»(*l/!. produzir a maior diversão ao maior n ú m e r o de pessoas.

«citação dc «m |w:ma «f*o. N ã o é esta a p o s i ç ã o a c e r t a d a e. t a m b é m o m o d o


a c e r t a d o d e a ç ã o , s u p o n d o q u e fosse l e v a d o a c a b o ?
(wCfiwa designaia lambem
de modo genético o p-tópsio Clínias: Talvez.
poewa, e e.<í)>fri|í(V:niwiite o O ateniense: M a s , m e u c a r o s e n h o r , n ã o d e v e m o s d e c i d i r
(im«ci épico. Cl patfraôoç este a s s u n t o a p r e s s a d a m e n t e , e sim pelo contrário
({fenfaenfe oqmk que ajusta analisá-lo por inteiro, e x a m i n a n d o - o de u m a m a n e i r a
miifcv) Via m cantai c o m o a s e g u i n t e ; s u p õ e q u e u m h o m e m fosse o r g a n i z a r
iwda/iilfc que «siiaio eidades: u m a competição, sem qualificá-la como de ginástica,
sucessiias .wütando | « m a s . musical ou eqüestre; e s u p õ e q u e ele devesse r e u n i r t o d a

pjiitcípaftíictile | « i w i c <piw. a p o p u l a ç ã o do Estado, e p r o c l a m a n d o que se t r a t a


p u r a m e n t e de u m a c o m p e t i ç ã o p a r a o p r a z e r de todos
e onhe estes poífioiuWwte os
da q u a l , q u e m o deseje, p o d e p a r t i c i p a r , ofereça um
do maio» poeto épien da antiga
prêmio ao participante que proporcionar mais
Q/iéniíi, 'tjfelnftio. (lü.)
entretenimento aos espectadores do concurso - sem
*•... Ki0ap«Ôiav.... q u a l q u e r restrição aos métodos empregados - e que
© KiOapaoiooç o» n exceda a todos os outros na concretização de tal coisa
locado* dc citam; o adjeliiso no m a i s alto g r a u possível, s e n d o julgado veucedor
KlOttpOJÔiKOÇ SC .v(mn aquele que produz mais prazer entre todos os
à mie. daquele que emiava mm competidores. Qual seria, segundo nossa conjetura, o
o acotnpanliaiMRbi iristawcntaí efeito d e u m a tal p r o c l a m a ç â o ?

da citam. (n.(.) Clínias: Q u e r e s d i z e r e m r e l a ç ã o a o q u e ?


• • • tpaycoôia, O ateniense: Naturalmente haveria alguém que
ftf&iaft»«[c canto rio Me, apresentaria, como Homero, u m a rapsódia*, outro
pois atígiiiaftimik: {oi um canto que apresentaria u m a canção de citara,* * um outro
Hêtftm intogwintc dos fpiim u m a tragédia*** e um outro ainda, urna comédia;
c
de P,aeo que c/<n mloado nem nos surpreenderia, tampouco, que alguém
duAanle a imotaçõo dc um Me chegasse, a i m a g i n a r q u e t e r i a a m e l h o r d a s c h a n c e s
(xpayoç). Qpiiaicamenle o de g a n h a r com um espetáculo de marionetes. Desta
significado é dc um eanlo ou m a n e i r a , e n t r a n d o estes e m i l h a r e s de outros em tal
étm k/ióieo: mais competição, poderíamos nós dizer quem se sagraria

pOlttio.u(!a*f)tenlo se. wff.ie o uma vencedor?

encenação lealíaí fetóien eie Clínias: Tua pergunta é estranha•••• • pois q u e m


(fcaJBB» in^iPig e dcsasbioso, poderia respondê-la c o m conhecimento de causa antes de
daí as harpéacde físquiíb e ter o u v i d o c a d a u m d o s c o m p e t i d o r e s e o p r ó p r i o v e r e d i t o ?
fiójocfei (cs giiandcs poetas 0 ateniense: M u i t o b e m , e n t ã o ! Q u e r e i - * * * * * * q u e eu
taógioos giegos) fi de vos dê a r e s p o s t a a essa e s t r a n h a p e r g u n t a ?
fifcifrespeo.te, (n.l.) Clínias: Sem dúvida.

110
Livro II
••••Ktopwòta,
O ateniense-. S e o s j u i z e s f o s s e m c r i a n ç a s p e q u e n a s , d a r i a m oiiigiiiaiiameulf; cm(}õo ou
o prêmio ao apresentador de marionetes, n ã o é mesmo? OOitfo que SO HOlTOltl às

CUnias: Certamente, (louças ovewrfofíos oWh(í! os


jáníosets e hti/joimsfirig /«/«<?
O ateniense: Se fossem g a r o t o s m a i s v e l h o s p r e m i a r i a m
em /1011X1 e/o e/as 'Dionísio
o cômico, e n q u a n t o as mulheres educadas, 03 h o m e n s
(TETUPOÇ). Qene»io,amírf.c
jovens e, creio, o c o n j u n t o do p ú b l i c o p r e m i a r i a m o
trágico. igpktmUtqüh astísficn
(leohaC t? Musicai) dc, htm e
CUnias: E b e m p r o v á v e l ,
mais espceiaíVcnte I o » (íc
O ateniense: E quanto a nós, h o m e n s velhos, muito fJMCCjO ou escárnio, d
provavelmente experimentaríamos mais prazer ouvindo
K r o p o ) ô o ç nm 0 canlos
u m r a p s o d o r e c i t a r a ( l i a d a o u a O d i s s é i a d c H o m e r o , 011
que; ítttnp/iofa» as canções
u m d o s p o e m a s d e H e s í o d o e d e c l a r a r í a m o s s e r ele, o
dc edflfioto nos {estos dc
rapsodo, sem q u a l q u e r dificuldade, o vencedor. Ora, q u e m
'•Dionísio; | « f r a i o « . n ( c o dc
e n t ã o seria, a justo título, o v e n c e d o r da competição? Esta
íiifl«SMi tjoMÍW'0 assa
é, a p e r g u n t a q u e se c o l o r a a g o r a , n ã o é m e s m o ?
pcifcwa passou a significa»!
CUnias: Sim.
tanto olofl cômico quanto
O ateniense: E v i d e n t e m e n t e nós três não poderíamos ouloíi cômico, (n.t.)
d e i x a r d e d i z e r q u e a q u e l e q u e foi j u l g a d o o v e n c e d o r
• • • • • ' - p f a t ã o etvifMgo o
pelos de nossa i d a d e seria o justo vencedor, já q u e nos-
looáliuío A T O T O V , O U
sa experiência p a r e c e ser entre os diversos títulos q u e
seja. aqiitfo que não está iw
se a p r e s e n t a m a t u a l m e n t e em todos os Estados e luga-
res o q u e h á d e m a i s excelente. .seu devido êifjaa. ;_,4ssiw. a
coíitcsfação de Climas não
CUnias: Certamente.
indico que a questão do
O ateniense: T e n d o a t é a c o n c e d e r a f a v o r da m a i o r i a
oMniense seja eshanéa no
q u e o critério da m ú s i c a deva ser o prazer; c o n t u d o ,
sentido dc se» ohcu/ido ou
n ã o o prazer dc q u a l q u e r indivíduo ordinário, deven- 1
iMacionot , mas sim que c
do eu, sim. considerar aquela música q u e agrada os
dosfvhida. (n.t.)
melhores indivíduos e os muito bem educados como
aproximadamente a melhor, e como absolutamente a • " • • • • C o m o scmpflf, 0
melhor se produzir prazer àquele que supera todos os afeitifjise cia dc negiia s«
outros em virtude c e d u c a ç ã o . E dizemos q u e os juizes díwqe a Cfíttías,
desses assuntos necessitam de virtude p o r q u e é neces- cBpoKadic.fimcrfe a .AkgiCo,
sário q u e p o s s u a m n ã o só s a b e d o r i a em geral c o m o par- c po» a-jos, ceitiio aqui. o
t i c u l a r m e n t e c o r a g e m , pois o v e r d a d e i r o juiz n ã o deve owbos; po» oulia fado, não
dar seus vereditos a partir dos ditames da platéia, ncui fi. mm seu intesíocuioít
ceder d e b i l m e n t c ao t u m u l t o da m u l t i d ã o ou à falta de OMnoipaP, Cêiiías,
e d u c a ç ã o d e l e p r ó p r i o ; n e m t a m p o u c o , t e n d o ele, t o m a - inanijosfo'1-sc «'píessondo
do ciência da v e r d a d e , deverá emitir seu veredito negli-
não apenas suo oscilação ao
g e n t e m e n t e movido pela covardia e a tibiez, falsean-
sím dísciaso, como também
do com a m e s m a boca c o m a q u a l invocou os deuses
«jp.iesenlaiido o ap*oiriçó(>
dc uikejih. (n.t.)

111
Platão - As Leis

• fi KpiTT|Ç (julg) dos q u a n d o pela p r i m e i r a vez t o m o u o assento c o m o juiz, •


cottipetiçõps de. tmtítim pois, a f a l a r m o s c o m justeza, o juiz a s s u m e seu posto
empomín (yuuvaotiKOç) n ã o como u m discípulo, m a s sim como u m mestre dos
bem como dos ctmmm espectadores, estando pronto para se opor àqueles q u e
I W M i S (flOUCTlKOÇJ. l h e s o f e r e c e m p r a z e r de. u m a m a n e i r a i n c o n v e n i e n t e o u
pMbM. «w» todo» os e r r ô n e a ( o p o s i ç ã o p o s s í v e l e m f u n ç ã o d e a n t i g a l e i lielò
mofjrslíados do ê s f o d o . um n i c a ) , fj q u e , i n c l u s i v e , é o q u e f a c u l t a a lei v i g e n t e tia
jmomta mvpmaplmdo-w a Sicília e na Itália, a q u a l ao confiar a d e c i s ã o do p r e m i a -
desempenha, RAIOS jutiçÃcs «otw do a o s e s p e c t a d o r e s p e l o voto destes m e d i a n t e o ergui-
eibso&íta ftxuw. («.(.) m e n t o d a s m ã o s n ã o s ó c o r r o m p e u o s p o e t a s (visto q u e
adaptam suas obras ao precário p a d r ã o de prazer dos
juizes, o q u e significa q u e os e s p e c t a d o r e s é q u e são os
mestres dos poetas), como t a m b é m degradou os praze-
res da platéia, pois se d e v i a m estar a p r i m o r a n d o seu
p a d r ã o de prazer ouvindo a personagens superiores aos
s e u s , o q u e fazem a g o r a exerce p r e c i s a m e n t e o efeito
oposto. Qual, então, é a conclusão o ser retirada deste
exame? E esta, supões?

Clínias: Qual?

O ateniense: E s t a é , s u p o n h o , a t e r c e i r a o u q u a r t a v e z
q u e nosso discurso descreveu um círculo e retornou a
este m e s m o p o n t o , a saber, q u e a e d u c a ç ã o é o processo
de a t r a i r e o r i e n t a r c r i a n ç a s r u m o a esse p r i n c í p i o q u e
é p r o n u n c i a d o c o m o c o r r e t o p e l a lei e c o r r o b o r a d o c o r n o
v e r d a d e i r a m e n t e c o r r e t o p e l a e x p e r i ê n c i a d o s m a i s ve-
lhos e dos m a i s justos. Assim p a r a q u e a a l m a da crian-
ç a p o s s a n ã o s e t o r n a r h a b i t u a d a a e x p e r i m e n t a r sofri-
m e n t o s e p r a z e r e s q u e c o n t r a r i e m a lei e a q u e l e s q u e
a c a t a m a l e i , m a s s i m e m c o n f o r m i d a d e c o m e l a , expe-
rimentando prazer e dor c o m as m e s m a s coisas q u e o
h o m e m velho, por essa razão d i s p o m o s daquilo q u e
c h a m a m o s d e cantos, q u e e v i d e n t e m e n t e são n a reali-
" . . . w o a ç KfjAooucv, d a d e e n c a n t a m e n t o s • * seriamente concebidos p a r a pro-
OVTWÇ p x v KítOÔai ..., duzir nas almas aquela conformidade e harmonia a que
can/cvi, que nídciiíemenfc são n o s referimos. M a s visto q u e a s a l m a s d o s jovens s ã o
na mfidade /«wá? i n c a p a z e s de s u p o r t a r o sério estudo, nós os c h a m a m o s
iiirígimft. («.(.) d e jogos c cantos e o s u s a m o s c o m o t a i s , c o m o c o m o s
enfermos e de s a ú d e precária: as pessoas encarregadas
de sua a l i m e n t a ç ã o tratam de lhes servir o q u e é sadio
em a l i m e n t o s e b e b i d a s a g r a d á v e i s , e o q u e n ã o é sa
dio, ao contrário, sob formas desagradáveis, de sorte

112
Livro II

que possam formar o hábito acertado de aprovar um


t i p o c a b o m i n a r o o u t r o . Dc, m a n e i r a a n á l o g a , n o q u e
diz respeito ao trato do poeta, o b o m legislador o persua-
d i r á - ou o c o m p e l i r á - c o m s u a b e l a e louvável l i n g u a -
gem a retratar por m e i o de seus r i t m o s os gestos, e p o r
meio de suas harmonias as melodias de homens que
são m o d e r a d o s , corajosos e b o n s em todos os aspectos,
daí compondo corretamente os poemas.

Clínias: P o r Z e u s , e s t r a n g e i r o . . . a c r e d i t a s q u e e s s a é a
m a n e i r a de c o m p o r poesia a t u a l m e n t e nos outros Esta-
dos? Dentro do q u e eu m e s m o posso observar, ignoro
q u a i s q u e r p r á t i c a s tais c o m o e s t a s q u e descreves salvo
em m e u p r ó p r i o país e na Lacedemônia. listou ciente,
e n t r e t a n t o , d o q u e n o v i d a d e s e s t ã o s e n d o s e m p r e intro-
duzidas na d a n ç a c cm todas as outras formas da músi-
ca, a l t e r a ç õ e s q u e s e d e v e m n ã o à s leis, m a s s i m a gos-
t o s d e s o r d e n a d o s , q u e b e m longe, d e s e r e m c o n t i n u a -
m e n t e u n i f o r m e s e estáveis - c o r n o e x p l i c a s ern r e l a ç ã o
ao Egito - não são uniformes jamais.

O ateniense: D i s s e n t e b e m , ó Clíniasl M a s , c o n t u d o , se, a


t i p a r e c e u q u e e u d i s s e q u e a s p r á t i c a s à s q u a i s te. refe-
riste estão h o d i e r n a m e n t e e m uso, m u i t o provável m e u
t e t e u e r r o foi g e r a d o p o r m i n h a p r ó p r i a f a l h a d e e x p r i -
m i r o que, eu q u e r i a d i z e r c o m c l a r e z a ; é provável q u e
eu t e n h a expresso m e u s próprios desejos relativamente
à m ú s i c a d c u m a t a l m a n e i r a q u e m e i m a g i n a s t e ex-
p r e s s a n d o fatos p r e s e n t e s , D e n u n c i a r coisas q u e s ã o
i r r e m e d i á v e i s , e n a s q u a i s o e r r o foi d e m a s i a d o l o n g e , 6
u m a i n c u m b ê n c i a n a d a agradável, a despeito dc ser por
vezes n e c e s s á r i a . E a g o r a que, tu p a r t d h a s da m e s m a
o p i n i ã o a respeito dessa matéria, me diz: afirmas q u e
tais práticas são mais c o m u n s entre os cretenses e os
l a c e d e m o n i o s d o q u e entre o s d e m a i s gregos?

Clínias: Certamente.

O ateniense: Supõe, desta feita, que passariam a ser


t a m b é m comuns entre os dentais. Diríamos que assim
seria m e l h o r do q u e o é agora?

Clínias: O melhoramento seria i m e n s o se, a s coisas


f o s s e m f e i t a s c o m o s ã o n a m i n h a t e r r a e n a deste, n o s s o
amigo, como, ademais, tu m e s m o aeabaste de dizer q u e
deveriam.

113
Platão - As Leis
' . . . 7tai6eia KCCI

poucnicn, ... , educação e O ateniense: O r a , c h e g u e m o s a um c o n s e n s o s o b r e e s s e


tmísico, «11Í1O1W o contarei a s s u n t o . N ã o é v e r d a d e q u e entre vós no q u e c o n c e r n e à
sugõto educação musical!, que c e d u c a ç ã o e a m ú s i c a * o v o s s o e n s i n o é este?... ou seja:
o opção de mim tmétom v ó s o b r i g a i s o s p o e t a s a e n s i n a r q u e o h o m e m b o m , sá-
lioPcnistos. (n.t.) b i o e j u s t o , • • é p r ó s p e r o e feliz, a d e s p e i t o d e s e r g r a n d e
••... ayaOoç avr|p o u p e q u e n o , forte o u fraco, rico o u p o b r e , e n q u a n t o em-
aco(J)pcov «V ícai b o r a s e j a m e s m o m a i s a b a s t a d o » d o q u e C i n i r a s e Mi-
SiKaioç... . --PPotõo das,•*• s e for i n j u s t o , é u m h o m e m d e s g r a ç a d o e vive
emprega avr|p o» Pugru de u m a v i d a m i s e r á v e l . V o s s o p o e t a , • * • • se é q u e se e x p r i -
«vOpftmoç;, ojícofwindo o m e c o r r e t a m e n t e , diz-, "Eu n ã o g a s t a r i a s e q u e r u m a p a -
muÇlto* (yuvr|) da pc»íiitêiicia lavra e não teria n e n h u m a consideração pelo homem...
de lodo este tópico, (n.t) q u e s e m j u s t i ç a f i z e s s e o u a d q u i r i s s e t o r l a s a s c o i s a s ti-

•*• ICiwjpa. «ei JOOUPOBO


d a s p o r b o a s ; " e m a i s u m a vez ele d e s c r e v e c o m o o ho-
c
dc Pajpí; ou Oíiip/iO; tj-lidos, m e m j u s t o "... u s a s u a l a n ç a c o n t r a o i n i m i g o à q u e i m a -

,wi ela \3F*i'gi« (n.t.) r o u p a , . e n q u a n t o o i n j u s t o n ã o o u s a . . . "olhar o r o s t o d o


m o r t i c í n i o s a n g u i n á r i o , ..." n e m t a m p o u c o s u p e r a e m
• * • • © conceito de
v e l o c i d a d e n a c o r r i d a "...o v e n t o n o r t e d a T r á c i a . . . e n e m
TtOlTITriÇ 6 tuuito foto,
t a m p o u c o a i n d a a d q u i r e n e n h u m a d a s o u t r a s c o i s a s de-
podendo até se* tadugido
n o m i n a d a s boas." Pois as coisas q u e a m a i o r i a denomi-
goneiicantonte pomo atado* e
na b o a s são e r r o n e a m e n t e designadas. Dizem q u e o b e m
ptodiito» (TO)IT|OIÇ Bigni/ica
m a i o r é a saúde, o s e g u n d o a beleza, o terceiro a riqueza;
o ação do fa-jc», dc etiat, a
e c h a m a m d e bens i n ú m e r a s o u t r a s c o i s a s - t a i s c o m o a
criação}; o lo.wo 7tOtnTr|Ç
a c u í d a d e visual e a u d i t i v a , e a a g i l i d a d e na p e r c e p ç ã o
designa todos oquo.Pes que
de todos os objetos dos sentidos; e t a m b é m ser um tirano
entendemos (nosdo.inomenle
e fazer t u d o q u e se deseja; e p o s s u i r a t o t a l i d a d e d e s s a s
como artesãos p a/i/isfas i> até
c o i s a s e se, t o r n a r d e i m e d i a t o i m o r t a l - i s t o , c o m o d i z e m ,
Cientistas e técnicos, já que os
c o n s t i t u i o c o r o a m e n t o e o c l í m a x de t o d a a f e l i c i d a d e .
gwgos não disfinguiam no se«
M a s o q u e vós e eu d i z e m o s é isto: q u e t o d a s essas coisas
tempo a espaço cuftu/ioís orfo, e
s ã o m u i t o b o a s c o m o posses p a r a h o m e n s q u e s ã o justos
técnica (índiBCjiwtofldoiiipiite
V T ; 0 S 6
c piedosos, p o r é m p a r a os injustos elas são (todas elas, a
T , :
X 11 t
' " . nesse
começar pela saúde) muito ruins; e dizemos, ademais,
Conceito se inefeom arjucPe que
q u e a visão, a a u d i ç ã o , as s e n s a ç õ e s e m e s m o a p r ó p r i a
(soduçjia lijoPonfo oPei.io), liem
vida constituem g r a n d e s males p a r a o h o m e m detentor
como o constato da casa, o
d e t o d o s esses d e s i g n a d o s b e n s , m a s q u e c a r e c e d e justi-
ojniciio foonfVee.iotiodoi de,
ça e virtude e goza da imortalidade, s e n d o um m a l m e n o r
ojtnos) e (odos os demais
p a r a t a l h o m e m s e sobrevivesse a p e n a s p o r u n i c u r t o p e r í o -
oitíjie.es e: orfesnos, lonto
d o d e t e m p o . I s t o , i m a g i n o , é o q u e vós ( c o m o e u p r ó p r i o j
quonlo o e,scuPlo;i (éíiiodot do
c o n v e n c e r e m o s ou c o m p e l i r e m o s vossos p o e t a s a e n s i n a r ,
Bslrihio). o pinte (ciiodos do
eompelindo-os t a m b é m a e d u c a r vossa juventude suprin-
píntoo). o músico (citado* dc
do-os c o m r i t m o s e , h a r m o n i a s q u e s e c o a d u n e m c o m esse
Ritmos. Ito^monios, postu,tas,
e n s i n o . Estarei certo? S i m p l e s m e n t e c o n s i d e r a i : o q u e as-
mePodios, ete) c inclusiue o
s e v e r o é q u e a q u i l o q u e é c h a m a d o de males é o b e m do
médico fwriodea do soúde).
lA pnhmn Jtoiripa

114
Livro II
[também da mí% do w.nbo
JTOtEtú (fogci. jobietu.
injusto, s e n d o p o r é m o m a l do justo, e n q u a n t o os c h a m a -
p.todujii, eaía*)l (em o sentido
d o s bens s ã o r e a l m e n t e b e n s p a r a o s b o n s , e c o n h i d o m a -
g » t t r » de obna (o tijodo, o
l e s p a r a o s m a u s . R e p i l o , p o r t a n t o , m i n h a p e r g u n t a : es-
mc#4, n enaa, a cstrSfun, o
tais de a c o r d o comigo... ou c o m o fica o assunto?
canção, a saúde, etc), ateu
Clínias: P a r e c e - m e q u e e m p a r t e c o n c o r d a m o s , m a s e m
dc detc» o sentido panfioute
parte muito pelo contrário.
de abta jiréiiea, 'fieejwi. 0
O ateniense: T o m a i o c a s o d e a l g u é m q u e g o z a de. s a ú d e , sentido neste conforto de i_As
possui riqueza e poder absoluto em caráter d u r a d o u r o - 3'r'i?. cttewMOHte às antes
a l é m do q u e , eu lhe c o n c e d e r i a , se é do vosso a g r a d o , dos ,/Uusa.e (nic.wenle
força e c o r a g e m i n c o m p a r á v e i s s o m a d a s à i m o r t a l i d a d e músico, dança, teot«) e pocao
e i m u n i d a d e e m r e l a ç ã o a t o d o s o s c h a m a d o s males - - pato os gnogos ftmm
m a s me referindo a alguém q u e abriga d e n t r o de si tão- /ii(f's.inêímis. itimpaiãveiài,
s o m e n t e injustiça e insolência. P r o v a v e l m e n t e eu fracas- CiePiii os artesãos e se
s a r i a e m vos p e r s u a d i r q u e a l g u é m q u e viva tal v i d a n ã o aptovimo pfcusiiefwente do
seja o b v i a m e n t e v e n t u m s o , m a s d e s v e n t u r a d o ? nosso conceito dc, a.tfista «ão-
Clínias: Dizes a v e r d a d e m e s m a . ffefico, afiançando os
conceitos cspccioíigndos de
0 ateniense: B e m , q u e d e v e r e i d i z e r a s e g u i r ? N ã o jul-
músico (ennfoí, cemposito»,
g a i s q u e se a l g u é m é corajoso, forte, b e l o , rico, age exa-
instíumcntista), de dançarino
t a m e n t e como bem e n t e n d e toda sua vida, e além disso
(eyceutnnte do dança,
é realmente injusto c insolente, n ã o deve estar necessa-
co»eógno|o), dc auto» (cotaC
r i a m e n t e v i v e n d o u m a v i d a vil?
(e o ato») c de "poeto . (n.t.)
Clínias: Certamente.

O ateniense: E também uma vida iná?***'* ••••* 'Ttiá aqui «mi cento
Clínias: N ã o i r í a m o s t ã o l o n g e a p o n t o d e a d m i t i - l o . ambigüidade nisto que f)
almimge (pensonagem oentunt
O ateniense: B e m , e a d m i t i r i a s os q u a l i f i c a t i v o s desa-
de ^PPotão que substitui
gradável c desvantajosa para si mesmo?
fióMalw}, psocoieCmenle po»
Clínias: E c o m o p o d e r í a m o s c o n c o r d a r c o m e s s a s n o v a s nabitidode dtaífetíco no uso
designações? da oiaiêutieo soenótieo,
O ateniense: Como? Somente (como parece, meu ami- indago T l 5 e ; T O K C U
go) s e u m d e u s n o s p r e s e n t e a s s e c o m essa c o n c o r d â n - KCXKtòÇ; oeoMC que
cia, pois n o m o m e n t o e s t a m o s n i t i d a m e n t e d i s c o r d a n - KaKtóÇ Çr|V significa
d o u m d o outro. E m m i n h a o p i n i ã o tais fatos são abso- tanto i/me» mal (em más
l u t a m e n t e indiscutíveis, até m a i s claramente, m e u caro fio/irfifôes) quanto i/im
(Mintas, q u e o f a t o d e C r e t a s e r u r n a i l h a , e s e e u fosse moMeesameitle f, mm
u m l e g i s l a d o r m e e m p e n h a r i a e m forçar o s p o e t a s e to- (ievvrtittimrfaMefiie e t nesta
d o s os c i d a d ã o s a se e x p r i m i r e m n e s s e s e n t i d o , e infligi- uflinm acepção que CPmias
ria as penalidades mais pesadas sobre todo aquele no entende, (n.t.)
país q u e declarasse q u e h o m e n s maldosos levam vidas
agradáveis, ou q u e coisas vantajosas e lucrativas são
diferentes de coisas justas; e há m u i t a s outras coisas

115
Platão - As Leis

contrárias ao q u e é atualmente dito, como parece,


p o r cretenses e l a c e d e m ô n i u s , e - está c l a r o - p e l o res-
to da humanidade que eu persuadiria meus cidadãos
a p r o c l a m a r . Pois, c o n v e n h a m o s , e x c e l e n t í s s i m o s se-
nhores, em nome de Zeus e de Apoio, supondo que
interrogássemos esses próprios d e u s e s q u e legislaram
p a r a vós e os i n d a g á s s e m o s : "E a m a i s j u s t a d a s vi-
das a mais agradável, ou existem d u a s vidas, das
q u a i s u m a é a m a i s a g r a d á v e l e a o u t r a a m a i s jus-
ta?" Se respondessem q u e existem duas, poderíamos
a i n d a lhes indagar, se estivéssemos dispostos a lhes
colocar a q u e s t ã o correta: " Q u a l d a s d u a s dever-se-ia
d e s c r e v e r c o m o a m a i s feliz, o u m e l h o r , q u e h o m e n s
seriam os mais aprovados pelos deuses - aqueles q u e
levam a vida m a i s justa ou a q u e l e s q u e levam a vida
m a i s a g r a d á v e l ? " S e r e s p o n d e s s e m " À q u e l e s q u e le-
vam a vida m a i s agradável", esta seria u m a m o n s t r u o -
sa afirmação em s u a s bocas. Mas eu prefiro n ã o atri-
buir tais afirmações aos deuses, m a s sim a ancestrais
e legisladores; s u p o n h a m o s , então, q u e as p e r g u n t a s
que apresentei tivessem sido a p r e s e n t a d a s a um an-
cestral e legislador e q u e este tivesse r e s p o n d i d o q u e
o h o m e m q u e leva a v i d a m a i s a g r a d á v e l é o m a i s
feliz. A s e g u i r eu d i r i a a ele: " O , p a i , n ã o d e s e j a v o s
q u e eu vivesse o m a i s a f o r t u n a d a m e n t e possível? E,
todavia, tu me exortavas incessantemente em todos
os e n s e j o s a viver o m a i s j u s t a m e n t e p o s s í v e l . " E n e s -
te ponto, c o m o penso, nosso legislador ou ancestral
se mostraria incapaz de p e r m a n e c e r coerente consi
go m e s m o . M a s , se ao c o n t r á r i o , ele a p o n t a s s e a v i d a
m a i s j u s t a c o m o a m a i s feliz, t o d o s q u e o o u v i s s e m
indagariam, suponho, qual é o bem e o encanto que
essa vida contém q u e são superiores ao prazer e pe-
los q u a i s o legislador a louva. Pois, s e m c o n t a r c o m
o p r a z e r , c o m q u e b e m pode. c o n t a r o justo? "Pois,
diz-me, s ã o a b o a faina e o louvor o r i u n d o s d a s b o c a s
dos h o m e n s c dos deuses u m a coisa nobre e boa, m a s
d e s a g r a d á v e l , e n q u a n t o a má f a m a é o o p o s t o ? " De
modo- a l g u m , m e u caro legislador, n ó s d i r í a m o s . E é
d e s a g r a d á v e l , p o r é m n o b r e e b o m , n ã o ferir n i n g u é m
e n ã o ser ferido p o r n i n g u é m , e n q u a n t o é a g r a d á v e l
o o p o s t o , p o r é m igné-bil e m a u ?

116
Livro II

Clínias: De maneira alguma.

O ateniense; E n t ã o o e n s i n o q u e se r e c u s a a s e p a r a r o
agradável do justo ajuda, no m í n i m o , a induzir um
h o m e m a viver a v i d a p i e d o s a e justa, de m a n e i r a q u e
q u a l q u e r d o u t r i n a q u e n e g a r essa v e r d a d e é, a o s olhos
do legislador, s u m a m e n t e vergonhosa e a b o m i n á v e l ,
pois ninguém consentiria voluntariamente em ser
i n d u z i d o a cometer um ato a n ã o ser q u e este envolvesse
c o m o sua c o n s e q ü ê n c i a m a i s p r a z e r do q u e dor. A
distância torna obscura a visão de q u a s e todas as
pessoas, especialmente a das crianças; mas nosso
legislador eliminará essa falha visual removendo a
obscuridade, c l a n ç a n d o m ã o de um recurso ou outro
(hábitos, elogios ou a r g u m e n t o s ) c o n v e n c e r á as pessoas
q u e s u a s noções de justiça c de injustiça são i m a g e n s
ilusórias, objetos injustos p a r e c e n d o agradáveis e objetos
justos e x t r e m a m e n t e desagradáveis à q u e l e q u e se o p õ e
à justiça e n q u a n t o são e n c a r a d o s p o r seu p r ó p r i o p o n t o
de vista injusto e m a u , sendo q u e q u a n d o e n c a r a d o s do
p o n t o de vista da justiça, a m b o s parecem de todos os
m o d o s inteiramente o oposto.

Clínias: Assim parece.

O ateniense: Mas dessas duas reivindicações ao


v e r d a d e i r o , q u a l delas d i r e m o s ser a m a i s bem
f u n d a m e n t a d a - a da pior a l m a ou a da m e l h o r ?

Clínias: A da m e l h o r , incontestavelmentc.

O ateniense: E n t ã o é t a m b é m incontestável q u e a vida


i n j u s t a n ã o é a p e n a s m a i s vil e i g n ó b i l , c o m o t a m b é m
m u i t o v e r a z m e n t e m a i s desagradável do q u e a vido
justa e piedosa.

Clínias: E o q u e p a r e c e , m e u s a m i g o s , a c r e r m o s n o
presente argumento.

O ateniense: E m e s m o q u e as coisas fossem diferentes


d o q u e a g o r a foi p r o v a d o q u e s ã o p o r n o s s o a r g u m e n t o ,
poderio um legislador digno deste n o m e descobrir urna
f a l s i d a d e m a i s ú t i l d o q u e e s t a (se e l e o u s a s s e e m p r e g a r
q u a l q u e r f a l s i d a d e no o c u p a r - s e c o m os jovens p a r a o
b e m destes), o u m a i s eficaz n a p e r s u a s ã o d e todos n o
s e n t i d o de agir com justiça em relação a t o d a s as coisas
dc livre v o n t a d e e s e m c o a ç ã o ?

117
Platão - As Leis

Clínias: A v e r d a d e é u m a c o i s a n o b r e , e s t r a n g e i r o , e
d u r a d o u r a , c o n t u d o n ã o m e p a r e c e fácil f a z e r c o m q u e
seja admitida.

O ateniense: T e n h o q u e r e c o n h e c ê - l o . E n t r e t a n t o , fazer
• (\ seja, a ^ábuCa do a d m i t i r a fábula de Sidônío, • por m a i s incrível q u e
jiwdnção do fJebas ftíw fosse, revelou-se fácil, o q u e se a p l i c a , i n c l u s i v e , a
(ladinos, (st.f.) i n ú m e r a s outras.

Clínias: Qual fábula?

O ateniense: A q u e l a d o s d e n t e s q u e f o r a m s e m e a d o s e
dos hoplitas q u e deles n a s c e r a m . O legislador dispõe
aqui, realmente, de um exemplo notável de c o m o sc
pode, caso se tente, p e r s u a d i r as a l m a s dos jovens de
seja l á o q u e for, d e u m a t a l m a n e i r a q u e a ú n i c a q u e s t ã o
a s e r c o n s i d e r a d a p o r ele q u a n t o a s u a ficção é o q u e
t r a r i a m a i o r b e n e f í c i o a o E s t a d o c a s o essa ficção fosse
*• W a í ã c i sábio, a c r e d i t a d a ; e e m s e g u i e l a ele, t e r i a q u e c o n c e b e r t o d o s
cspeeiaôiicnfc ogota no idade os meios possíveis para assegurar que toda a
Mancado em q* compuním comunidade constantemente, e n q u a n t o sobrevivesse,
c-fe í f e , q«õo dijíeií dia
1
empregasse exatamente a mesma linguagem, na medida
consofidot o E s t a d o do possível, r e l a t i v a m e n t e a esses a s s u n t o s , em s u a s
comunista que, concebe» ei» <_A c a n ç õ e s , em seus rnitos e em seus discursos. •• Se,
lítpiíMica, daí não desita* t o d a v i a , vós p e n s a i s d i f e r e n t e m e n t e , n ã o faço o b j e ç ã o a
cm enunciai o principio que argumenteis contrariamente.
segundo o quaf a {jie.r/w. a
Clínias: Penso que nenhum de uós dois poderia
|oí?sídoffc a menton
a r g u m e n t a r contra os princípios q u e expuseste.
( y e o o o ç ) p«fc scmí» o
O ateniense: C o m p e t e a m i m , p o r c o n s e g u i n t e , l i d a r c o m
letdode ( a À n B e t a ) . 'Po>
o p r ó x i m o assunto. Sustento q u e todos os três coros»**
oufjfi fado, se admitíssemos o
precisam encantar as a l m a s d a s crianças, e n q u a n t o estas
'Wofrio Melado nas fiseoüas
são jovens e ternas, e n s a i a n d o todas as coisas nobres q u e
df. L,'ilisté!iios do 8gito,
já expusemos ou q u e exporemos doravante, o que
conelui.ífaiMOs com ele que
sintetizamos assim: ao afirmar q u e os deuses d e c l a r a m
kuraia iMuiln tentado, oeníío
q u e u m a única e m e s m a vida é tanto a mais agradável
nos mitos, (ii.i.)
q u a n t o a mais justa, n ã o estaremos somente dizendo o
••• f)atarimanse «ejete a que é s u m a m e n t e verdadeiro, como também estaremos
e s p a n t a , onde ftobitaoíWnle convencendo aqueles q u e necessitam do convencimento
eojilnea-se com ttcc, cotas m a i s i m p e r i o s a m e n t e d o q u e p o d e r í a m o s fazer m e d i a n t e
moscuPijios nos Jeslitais: o dos qualfiuer outra asserção.
meninos, o dos mocos e o dos
Clínias: E m i s t e r a q u i e s c e r m o s a o q u e d i z e s .
íiomens mais tildes. £ que se
«rfembíc que o mo (xopoç) 0 ateniense: Em primeiro lugar, portanto, segundo a
ineíuía ncecesaitiowente, a o r d e m correta, avançaria o coro d a s crianças consagrado
danço, (n.t.)

118
Livro II

às Musas para c a n t a r essas m á x i m a s com o m á x i m o


vigor c d i a n t e de toda a c i d a d e ; em s e g u n d o l u g a r viria
o coro daqueles que têm menos de trinta anos,
invocando Apoio Paeon"" como testemunha da •*•• r i a t a v fTIaitüv
, , , #
verdade do que é d i t o * e suplicando sua graça signiijiwi Fjtenafmcule
p a r a p e r s u a d i r os jovens; os cantores q u e se seguiriam cmdn}; A K O À A Ü J V {de.
pertencem ao terceiro coro, constituído de h o m e n s AneXXwv, n que- aiasln r
de mais de trinta anos e menos de sessenta. mal') 'U) deus do.': natos
Finalmente sobrariam aqueles que não sendo mais (ineftiindo n wiísiea e a
capazes de erguer suas vozes, se o c u p a m dos m e s m o s poesia), o gi«' o !>igo
temas morais em narrativas e. por meio de discursos fistaifriwciite às .^Uuscis. Sn»
dc inspiração oracular. fllMbuiçõo adicionai de
mandai mo t> de esLtniuW
Clínias: A q u e m te referes, e s t r a n g e i r o , no caso d o s
pois os íjuegos (oo menos,
m e m b r o s desse terceiro coro? N ã o c o m p r e e n d e m o s com
aqucPes ipc cuPhiaeo» R_4poft>
m u i t a clareza o q u e queres dizer a respeito deles.
T l a e o v ) e«'íwm«»i o
0 ateniense: E , n o e n t a n t o , foi a e l e s e f e t i v a m e n t e q u e
«U6ie.il ramo nina mcdioifia da
dedicamos a maior parte de nossa discussão precedente. aftna. (n.t.)
Clínias: Permanecemos diante da obscuridade. Tenta
• * • * • ü c pflitside.WIWOS n
explicar-te a i n d a com m a i s clareza.
«»dode, n pnobídodc p a
O ateniense: N o c o m e ç o de nossa discussão dissemos, rnen í i ia qurinf íf a! iin mente,
s e b e m l e m b r a m o s , q u e c o m o t o d o s o s i n d i v í d u o s jo- uApoíVi é um dos mais
vens são por natureza ardentes, são incapazes de man- «iidfideiíios (s pitohos cnf/ic «
ter tanto o corpo q u a n t o a língua em repouso, e s t a n d o deuses gregos. Sfc» nnfó.iine
sempre gritando c saltando de m a n e i r a desordenada; suas di{c,wn(ION com seu limão
d i s s e m o s t a m b é m q u e n e n h u m d o s o u t r o s s e r e s vivos F i p p r n ç . o deus do
d i s p õ e de s e n s o de o r d e m , seja c o r p o r a l ou vocal; e q u e oenmnierição, do eomAteio e

este é p o s s u í d o exclusivamente p e l a h u m a n i d a d e ; e q u e dos íodjões. (ti.l.j

a o r d e m n o s m o v i m e n t o s é c h a m a d a d e ritmo e n q u a n -
t o q u e a q u e l a d a voz ( n a q u a l t o n s a g u d o s e g r a v e s s ã o
mesclados) é chamada de harmonia, sendo a combi-
nação destas duas denominada dança coral. Afirma-
mos, igualmente, que os deuses, compadecidos de nós,
nos concederam, p a r a q u e partilhassem e dirigissem
nossa d a n ç a coral, Apoio e as Musas além dos quais
fizemos m e n ç ã o , se é q u e o r e c o r d a m o s , em terceiro
lugar, de Dionísio.

Clínias: P o r c e r t o o r e c o r d a m o s .

O ateniense: A d a n ç a c o r a l de A p o i o e a d a s M u s a s f o r a m
descritas, tendo q u e ser descrita a terceira e restante,
ou seja, a d a n ç a coral de D i o n í s i o .

119
Platão - As Leis

Clínias: E c o m o isso? E x p l i c a - t e . Ao ouvi-lo à p r i m e i r a


vista, soa bastante, e s t r a n h o um coro d i o n i s í a c o f o r m a d o
p o r velhos - se q u e r e s d i z e r q u e h o m e n s c o m mais de
trinta anos e m e s m o h o m e n s dc mais de cinqüenta e até
sessenta anos irão realmente d a n ç a r em h o n r a do deus.

O ateniense: 0 q u e d i z e s , c o m efeito, é perfeitamente


v e r d a d e i r o . I m a g i n o q u e p a r a d a r p l a u s i b i l í d a d e a isso
há necessidade de argumentação.

Clínias: Com certeza!

O ateniense,: Estamos de acordo quanto aos pontos


anteriores?

Clínias: C o m r e s p e i t o a o q u e ?

O ateniense; Q u e c o n s t i t u i a o b r i g a ç ã o d e t o d o i n d i v í d u o
e toda criança escravos e livres, h o m e n s e m u l h e r e s - e
a o b r i g a ç ã o de t o d o o E s t a d o e n c a n t a r a si m e s m o s
incessantemente com os cantos que descrevemos,
a l t e r a n d o <•< c o n t i n u a m e n t e e a s s e g u r a n d o a v a r i e d a d e
de todas as m a n e i r a s possíveis, de m o d o a inspirar os
cantores c o m um apetite insaciável pelos hinos e o prazer
nestes contidos.

Clínias: Seguramente concordaríamos com essa


obrigação.

O ateniense: P o i s , e n t ã o , o n d e a e l i t e d o E s t a d o , c u j a
i d a d e e s a b e d o r i a faz d e l a o c o n j u n t o d e c i d a d ã o s m a i s
influentes, cantará o q u e há de m a i s belo visando a
p r o d u z i r o m á x i m o de b e m ? Ou s e r e m o s tão tolos a
ponto de dispensar essa parte de cidadãos detentora da
mais elevada capacidade para interpretar as mais
nobres e m a i s úteis canções?

Clínias: N ã o h a v e r i a c o r n o d i s p e n s á - l a , a j u l g a r p e l o q u e
a c a b a s dc dizer.

O ateniense: Então, qual seria o m é t o d o conveniente a


ser a d o t a d o ? S e r á q u e este?...

Clínias: Qual?

O ateniense: Todo aquele que envelhece torna-se


r e l u t a n t e a n t e a idéia de c a n t a r canções e extrai m e n o s
prazer do canto, e q u a n d o obrigado a cantar, q u a n t o
m a i s v e l h o e m a i s m o d e r a d o for m a i s s e s e n t i r á
envergonhado. Não é assim?

120
Livro II

Clínias: E.

O ateniense: C o m c e r t e z a , p o r t a n t o , f i c a r á m a i s d o q u e
n u n c a constrangido em levantar-se e c a n t a r no teatro
diante de pessoas de todos as espécies. Ademais, se
h o m e n s velhos c o m o este fossem força-dos a fazer c o m o
fazem os m e m b r o s do coro, q u e se e x t e n u a m e jejuam
d u r a n t e o t r e i n o de s u a s vozes p a r a u m a repetição,
certamente considerariam o cantar uma tarefa
desagradável e degradante, e a empreenderiam com
pouca disposição.

Clínias: I s s o n ã o d e i x a m a r g e m à d ú v i d a a l g u m a .

O ateniense: E n t ã o c o m o o s e s t i m u l a r e m o s a s e p r e -
pararem para o canto? Não deveremos promulgar
u m a lei s e g u n d o a q u a l e m p r i m e i r o l u g a r n e n h u -
ma criança abaixo de dezoito anos pode tocar de
m o d o algum o vinho, ensinando que é errado verter
fogo s o b r e fogo n o c o r p o e n a a l m a a n t e s q u e p r i n c i -
piem a se o c u p a r de seus efetivos l a b o r e s , e a s s i m
n o s g u a r d a n d o da disposição excitável d o s jovens?
E em seguida r e g u l a - m e n t a r e m o s p a r a q u e o jovem
de menos de trinta anos possa tomar vinho com mo-
deração, abstendo-se inteiramente da intoxicação e
da embriaguez. Mas q u a n d o um indivíduo atingir
quarenta a n o s , p o d e r á p a r t i c i p a r d a s r e u n i õ e s fes-
tivas e invocar os deuses, p a r t i c u l a r m e n t e Dionísio, » TCÀ-CTLL, fio,» CVÍOliSÒO
c o n v i d a n d o este d e u s p a r a o q u e é s i m u l t a n e a m e n t e | ("iíri eu sito jpftrjiose.
:

cerimônia religiosa» c a recreação dos mais velhos, eirjnijieoffi Bspecijíeantcnlc o


a q u a l ele c o n c e d e u à h u m a n i d a d e c o m o um p o t e n t e tttei inírtirííím cm imc ('Mm
m e d i c a m e n t o » * contra a rahugíce da velhice, p a r a « f e h w d o s os mis/é»ins. «crie
q u e através deste possamos reavivar nossa juventude coso cs dionisíacos, (n.t.)
e q u e o l v i d a n d o seu zelo, a t e m p e r a de n o s s a s a l m a s
••..jlPguiis («tenistas que
possa p e r d e r sua d u r e z a e se t o r n a r m a i s macia e
cstoiiofeeesatn o terfo íjfitqo
m a i s d i í c t i l , t a l c o m o o f e r r o q u e foi f o r j a d o n o f o g o TOV
«'(jishrim fltitM coMiftec
e p a s s o u a ser m a i s maleável. N ã o t o r n a r á esta dis-
otvov antes de
posição mais branda, em primeira instância, cada
<|>upuaKOV. Oiitios não o
um daqueles idosos mais disposto e menos constran-
\A nós («woc,
gido a entoar cantos c encantamentos (como ainiú-
im|)Píeilo que o medicamento
de os chamamos) na presença não de um grande
í<j>apuaKOvj é o uiiuVi
grupo de estrangeiros, mas de um pequeno número
(ÒIVOÇ), mas oonifxiccndcttios
de amigos íntimos?
o enidodo dc queni optou peto
Clínias: F i c a r i a b e m m a i s d i s p o s t o . ecpfViloçõo. (n.t.)

121
Platão - As Leis

O ateniense: Assim, com o propósito de levá-los a


p a r t i l h a r de nosso c a n t o , esse método não seria
absolutamente impróprio.

Clínias: De m o d o algum.

O ateniense: Q u e t i p o d e c a n ç ã o e s s e s h o m e n s s e f a r ã o
ouvir? N ã o será, e v i d e n t e m e n t e , a q u e l a q u e s e e n q u a d r a
na p r ó p r i a condição deles em todos os casos?

Clínias: Sem dúvida alguma.

O ateniense: Qual canção, então, caberia a homens


divinos? Seria u m a c a n ç ã o d a s d a n ç a s corais?

Clínias: Bem, estrangeiro, de q u a l q u e r m o d o nós e


* Cyífiifivw ftí^pftc nos nossos amigos a q u i * seríamos incapazes de entoar
oMtatscs e nos {OOP.OWÔKÍOS quaisquer outras canções além daquelas que
toiwndo a si p ^Megih pomo a p r e n d e m o s na prática nas d a n ç a s corais.
«!|),w.son(o«(fis. (n.tj O ateniense; N a t u r a l m e n t e p o i s e m v e r d a d e v ó s n u n c a
atíngistes o m a i s belo c a n t o . Vossa o r g a n i z a ç ã o cívica
é m a i s de um exército em acampamento do q u e de
habitantes fixados cm cidades. C o n s e r v a i s vossos
jovens a j u n t a d o s c o m o um b a n d o de potros no pasto.
N e n h u m de vós t o m a seu p r ó p r i o potro, afastando-o
de seus companheiros, e m b o r a ele seja b r a v i o c
irritadiço, p a r a confiá-lo a um cavalariço p a r t i c u l a r ,
treiná-lo c u i d a n d o dc seus ferimentos, doniesticando-
o e e m p r e g a n d o todos os meios a p r o p r i a d o s de u m a
e d u c a ç ã o q u e possa fazer dele n ã o a p e n a s u m b o m
soldado, mas também alguém capaz de administrar
Estados e cidadãos, em suma, um h o m e m q u e (como
d i s s e m o s n o p r i n c í p i o ) é m e l h o r guerreiro.) q u e o s
guerreiros de Tirtaeu, p o r q u a n t o sempre e cm toda
p a r t e , t a n t o no» q u e d i z r e s p e i t o a o s E s t a d o s q u a n t o
ao q u e diz respeito a o s i n d i v í d u o s , ele t e m a c o r a g e m
c o m o a q u a r t a na o r d e m das virtudes e n ã o a p r i m e i r a .

Clínias; M a i s u r n a v e z , e s t r a n g e i r o , e s t á s d e u m a c e r t a
m a n e i r a r e b a i x a n d o os nossos legisladores.

O ateniense: N ã o é i n t e n c i o n a l m e n t e q u e o faço. m e u
a m i g o . . . sc o estou f a z e n d o ; m a s se é a s s i m q u e a
discussão n o s c o n d u z , é preciso q u e sigamos por este
c a m i n h o , s e c q u e isto é d e v o s s o a g r a d o . S e t i v e r m o s
conhecimento de u m a música q u e é superior a dos coros
ou a d o s teatros públicos, t e n t e m o s fornecê-la à q u e l e s

122
Livro II

h o m e n s que, c o m o dissemos, fieam envergonhados com


estas últimas, desde q u e se motivem p a r a participar
dessa m ú s i c a q u e é a mais excelente.

CUnias: Certamente.

0 ateniense: O r a , p a r a c o m e ç a r , n ã o u r g e q u e s e j a v e r -
dadeiro de t u d o q u e é a c o m p a n h a d o de um certo en-
c a n t o q u e seu e l e m e n t o m a i s i m p o r t a n t e seja o u esse
encanto em si mesmo, ou alguma forma de retidão, ou,
E M terceiro lugar, a utilidade? Por exemplo, c o m i d a e
b e b i d a e o a l i m e n t o em geral c o m o o estou a f i r m a n d o ,
são a c o m p a n h a d o s pelo encanto q u e deveríamos cha-
m a r d e prazer; M A S com relação a s u a retidão e utilida-
de, q u a n d o nos referimos à qualidade de sadio de cada
i g u a r i a servida e s t a m o s i n d i c a n d o p r e c i s a m e n t e o ele-
m e n t o de retidão contido no alimento. ** Ai seja. os antes fioi
Clínias: I s t o é c e r t o . p t p q c r i ç (imitação),
aquelas: que m baseiam «um
O ateniense: O e s t u d o t a m b é m é a c o m p a n h a d o p e l o e l e -
moffcPo oíiiOjinnP pana pnodiigi»
m e n t o de e n c a n t o q u e é o prazer, m a s o q u e p r o d u z s u a
MIIFI imagem poi anaíogia,
retidão e utilidade, seu b e m e sua beleza, é a v e r d a d e .
tais somo a pintuíin, a
Clínias: Exatamente.
neeiiPtina e mesmo a
O ateniense: Ora, e quanto às artes que produzem iep;ieeenlaeõe leat/ioP pato os
s e m e l h a n ç a s ? * • Se são eficientes em suas criações, n ã o g.tegos, que no píiáiiea
deveria q u a l q u e r prazer concomitante q u e delas resulta ouofWa o múeiea e o poesia.
ser c h a m a d o com m a i o r p r o p r i e d a d e d e encanto}' ("-!•)
('línias: Sim. **• Ce sos easos ia
O ateniense: E n t r e t a n t o , f í d a n d o em t e r m o s g e r a i s , a reti- aPimciilaeõe e inePusitc do
d ã o nessas artes provém m a i s da exata correspondência estudo a ufiftdade i
n a relação q u a n t i d a d e / q u a l i d a d e d o q u e d o prazer. • • * indissofeP da wtidõfí, a
pnitiieíto está ausente, a
Clínias. Perfeitamente.
IMiueífiio, nas atles imifotitaü;
O ateniense; Por conseguinte, julgaremos corretamente neste raso se impõe cofoenj a
m e d i a n t e o critério do p r a z e r a p e n a s o objeto q u e n o s lelidão oeimo do psaget. ^4
seus efeitos n ã o p r o d u z n e m u t i l i d a d e , R I E M verdade, pieiaíêneia da .lefaeão ruim
n e m s e m e l h a n ç a E n e m s e q u e r d a n o , e q u e existe tão-só quantidade e qnafidnde ce
E M função d o elemento concomitante d o encanto, jando nn ^nlo de que numa
elemento que será melhor designado c o m o prazer <:iwrSa»(n r p,;eeiso íiam.i
s e m p r e q u e n ã o for a c o m p a n h a d o p o r n e n h u m a d a s efwespoiidêneio quntititaliW e
outras qualidades mencionadas. qiiadloliiYi. J\.« seqüenein do
Clínias: E n t ã o te referes s o m e n t e ao prazer que não dióPoqo esio questão adqui-re

produz dano. mriiat oltocga. (ti.!.)

123
Platão - As Leis

O ateniense: S i m , e d i g o q u e e s s e m e s m o p r a z e r é t a m -
b é m jogo q u a n d o o d a n o o u b e m p o r ele p r o d u z i d o s
forem irrisórios.

Clínias: Isto é b a s t a n t e v e r d a d e i r o .

O ateniense: Diante disso n ã o deveríamos nós afirmar,


a título de conclusão, q u e n e n h u m a i m i t a ç ã o deveria
ser julgada segundo o critério do p r a z e r ou da opinião
* ...So^T| m-| inexata,* como tampouco realmente deveria qualquer
a X r | 9 e i . . . , opinião oontíáJio tipo de igualdade ser assim julgada? A razão pela q u a l
ò vmdadt. (n.t.) o i g u a l ó i g u a l ou o s i m é t r i c o é s i m é t r i c o , n ã o é ern
absoluto porque alguém assim opina ou se encanta com
isso, m a s a c i m a de t u d o p o r c a u s a da v e r d a d e , e o míni-
m o possível p o r q u a l q u e r o u t r a razão.

Clínias: Com toda a certeza.

O ateniense: A f i r m a m o s , n ã o é m e s m o , q u e t o d a a m ú -
sica é r e p r e s e n t a t i v a e imitativa?

Clínias: E s t á c l a r o q u e s i m .
• * S |«(iciso gRw|i,!f! te* em
O ateniense; A s s i m q u a n d o alguém afirmar que o pra-
mente o rawfifc conceito gicgo
zer é o critério da m ú s i c a , nós d e c i d i d a m e n t e contesta-
de mácica como mm
r e m o s tal a f i r m a ç ã o , e c o n s i d e r a r e m o s tal m ú s i c a c o m o
eomliinoção naMoniosn de
a m e n o s s é r i a d e t o d a s (se é q u e r e a l m e n t e a t r i b u í m o s
poesio, canto eonaP, fiança e
seriedade a q u a l q u e r música) e preferiremos aquela q u e
wpíesentaçoo f e o t a P .
detém s e m e l h a n ç a em sua imitação do belo.
o{ofilonflo nosso conceito
cspocioPígodo e iestíiiío dc Clínias: E b a s t a n t e v e r d a d e i r o o q u e d i z e s .
música como cHoçoo ontístico O ateniense: A s s i m a q u e l e s q u e e s t ã o e m b u s c a d o m e -
alistada, paio o quoP mesmo lhor canto e da m e l h o r música têm q u e buscar, como
a klta (ptoesifi) í dispensáeeP parece, n ã o a que é agradável, mas a q u e tem retidão, e
e opcionoP. 0)HEide»e-se, a retidão no imitativo consiste, dizemo-lo, na reprodu-
tombem, é ePoso, o mclojísica ção do original na s u a própria quantidade e qualidade.
pPolônica, segundo a gtioP o
Clínias: E indubitável.
iNiiftdo sensíéeP é incüa imogeoí
(eiôOJÀOV) fto mundo O ateniense: E i s s o é c e r t a m e n t e v e r d a d e i r o n o q u e c o n -
intcPigíveP. (n.l.) c e r n e à m ú s i c a , c o m o t o d o s o a d m i t i r i a m , o u seja, q u e
todas as suas criações são imitativas c representati-
*** ... T t o t r | | i a T f t ) V . . . , a
vas... o q u e m a i s admitiriam u n a n i m e m e n t e p o e t a s ,
despeito do pwitwdirrf sentido
platéia e atores? • •
genésico de J t o i T ) u a , o
C l í u a i s : C e r t a m e n t e a d m i t i r i a m isso.
sentido aqui é de «tio ohsa
peViíiea, poema, insortielo mmm O ateniense: O r a , a q u e l e q u e d e v e j u l g a r a c e r t a d a m e n l e

composição tnnsienP nos u m a o b r a * * * necessita em cada caso particular conhe-

moPdes íiePcnicos. (n.t.) cer a n a t u r e z a e x a t a d a o b r a * * * p o i s s e d e s c o n h e c e r s u a

124
Livro II

essência, q u a l é seu p r o p ó s i t o e q u a l o original real do


q u a l ela é a i m a g e m , dificilmente será c a p a z de decidir
a t é q u e p o n t o tal o b r a c o n s e g u i r á o u d e i x a r á d e conse-
guir realizar seu propósito.

Clínias: Dificilmente, c o m certeza.

O ateniense: E a l g u é m q u e i g n o r a o q u e é a r e t i d ã o se-
ria capaz de decidir quanto à boa qualidade ou má
q u a l i d a d e dc u m a obra? M a s n ã o estou sendo absolu-
t a m e n t e claro: ficaria m a i s claro se eu me exprimisse
d a s e g u i n t e m a n e i r a ...

Clínias: Que maneira?

O ateniense: N o q u e s e r e f e r e a o s o b j e t o s d a v i s ã o , d i s -
p o m o s , está claro, de i n u m e r á v e i s representações.
Clínias: Sim.

O ateniense: Bem, o q u e a c o n t e c e r i a se em c o n e x ã o c o m
essa classe de objeto se ignorasse a natureza, dc c a d a
u m d o s c o r p o s r e p r e s e n t a d o s ? Poder-se-ia a l g u m a vez
estar certo de sua correta execução? O q u e q u e r o dizer
é isto: s e r á q u e p r e s e r v a as p r ó p r i a s d i m e n s õ e s c as dis-
posições de cada u m a das parles do corpo e captou o
exato n ú m e r o delas além da ordem correta na qual cada
p a r t e está d i s p o s t a j u n t o às o u t r a s , e a i n d a s u a s cores e
formas, ou estarão todas essas coisas na representação
compostas confusamente? Imaginas q u e alguém pode-
ria definir esses p o n t o s se ignorasse t o t a l m e n t e q u a l o
s e r vivo q u e e s t i v e s s e s e n d o r e p r e s e n t a d o ?

Clínias: E como poderia?


O ateniense: B e m , s u p õ e q u e s o u b é s s e m o s q u e o o b j e t o
p i n t a d o ou e s c u l p i d o é um h o m e m , e q u e a a r t e o do-
t o u de todas as suas partes, cores e. formas próprias.
N ã o será de i m e d i a t o forçoso q u e a pessoa d e t e n t o r a
desse c o n h e c i m e n t o possa facilmente discernir se a o b r a
é bela, ou no q u e carece de beleza?

Clínias: S e a s s i m f o s s e , e s t r a n g e i r o , e u p o d e r i a d i z e r - t e
q u e praticamente todos uós conheceríamos a beleza dos
s e r e s vivos.

O ateniense: E s t á s p l e n a m e n t e c e r t o . R e l a t i v a m e n t e , p o r -
t a n t o , à t o d a r e p r e s e n t a ç ã o - s e j a n a p i n t u r a , tia m ú s i -
ca ou em q u a l q u e r outra arte - n ã o necessitará o críti
co judicioso possuir os seguintes requisitos, a saber:

125
Platão - As Leis

p r i m e i r a m e n t e , u m c o n h e c i m e n t o d o o r i g i n a l , e m se-
g u n d o lugar um conhecimento da retidão da cópia e
e m t e r c e i r o u m c o n h e c i m e n t o ela e x c e l ê n c i a c o m a q u a l
a cópia é executada? •
• ftihjrwmc o levlo gwgo
Clínias: A s s i m pareceria, seguramente.
cstotiepeeido pa\ muitos
O ateniense: Não hesitemos, portanto, em indicar o
k&mstm:, # amsrvk mpi
ponto em que reside a dificuldade da música.
(ejittie cofckles nu não) o
S i m p l e s m e n t e porque, dela s e fala m a i s d o q u e d c
seguinte,: p n , u . a . 0 i ts
qualquer outra forma de representação, requer maior
Kai U £ À £ G L Kttl TOIÇ
cautela do que qualquer outra. Aquele q u e comete
p u O u x i i ç (ImodtmteJ
t r o p e ç o s n e s s a a r t e p e r p e t r a r á ele p r ó p r i o o m a i o r d a n o
pafmm.i, mekidtas e setjndti
m e d i a n t e a a c o l h i d a de m a u s c o s t u m e s ; e a d e m a i s é
o <:(u titmo). -DcxifJo ns
muito difícil discernir seus tropeços p o r q u a n t o nossos
dqfícuMades de hmsfmln» o
p o e t a s • • são inferiores c o m o p o e t a s * * às próprias
pensamento dc um quodio de
Musas, pois as Musas jamais e r r a r i a m a ponto de
signos po«a ouíjo (bodução)
atribuir u m a m e l o d i a e u m a p o s a t r a femininas a versos
« " f o f a d o o gMgo antigo v, m
compostos p a r a h o m e n s , o u a d a p t a r o s r i t m o s d e cativos
wlatiUow(!»te jmrékio ídionra
e escravos à m e l o d i a e às p o s t u r a s c o n s t r u í d a s p a r a
raode/iHO, centos hndutoMis
h o m e n s livres, o u i n v e r s a m e n t e , d e p o i s d e c o n s t r u i r o s
p»e^?»em, em Pugnft de
r i t m o s e p o s t u r a s d e h o m e n s livres a t r i b u i r a o s r i t m o s
ocieseenttH o tteefio ndicionof,
u m a m e l o d i a o u versos d e u m estilo oposto. T a m p o u c o
[íundi-fo pa»« efeito de
jamais m e s c l a r i a m as M u s a s n u m a ú n i c a peça gritos e
taduçõo ao twcím rinte/uo» do
v o z e s d e a n i m a i s e de, s e r e s h u m a n o s , o e n t r e c h o q u e , d e
fatixito iwjo», pelo que
i n s t r u m e n t o s e ruídos de todas as espécies c o m o meio
ojcscccmos U » n i»od«çno
de, representar um único objeto, enquanto os
opeionoí: ... o e» (mmlto qnf
compositores h u m a n o s , insensatamente misturando tais
wâu pmmitni todm mm
coisas e fazendo u m a m i x ó r d i a c o m elas, forneceriam
imqem iiipiodigi/ína pot meio
um objeto de riso a todos os indivíduos h u m a n o s q u e ,
de, loeáMo':, mfatm e
na frase dc Orfeu "alcançaram a plenitude da
sa quedo <:en si fixo. (n.l.)
primavera", • • • pois vêem Iodas essas coisas
• • P u seja, ciindoMS d e s o r d e n a d a m e n t e misturadas; e p a r a cúmulo os poetas
(eompoxi/amj de i»ií';ica, grosseiramente separam da melodia o r i t m o e as
posturas, colocando nos versos palavras sem

• • * (Ou s e | o . " Xa%av a c o m p a n h a m e n t o melódico, ou d e i x a n d o a m e l o d i a e

COpaV TT|Ç TKpt(/lOÇ". o ritmo s e m palavras, u s a n d o o s o m isolado da citara

(•a.) o u d a f l a u t a , e m t u d o isso s e n d o q u a s e impossível


discernir o q u e pretendem c o m esse ritmo e h a r m o n i a
destituídos de palavras, ou q u e original digno de nota
eles r e p r e s e n t a m . T a i s p r o c e d i m e n t o s , c o m o é i m p e r i o s o
q u e se compreenda, são extremamente rudes na medida
em que exibem um desejo excessivo de velocidade,
p r e c i s ã o m e c â n i c a e i m i t a ç ã o ele s o n s p r ó p r i o s d o s

126
Livro II

animais, resultando n u m emprego da flauta e da citara


sem o acompanhamento da dança e da canção,
desconsiderando-se que o uso de um ou outro desses
instrumentos isoladamente é a característica do
c h a r l a t ã o o u d o i n d i v í d u o vulgar. Eis a í n o s s a a v a l i a ç ã o
e hasta, portanto, deste assunto. O que estamos
c o n s i d e r a n d o não é a f o r m a p e l a q u a l a q u e l e s e n t r e
nós que têm acima de trinta anos, ou mais de cinqüenta,
n ã o devem cultivar a música, mas sim a forma pela qual
d e v e m cultivá-la. • • • • P e n s o q u e nossa d i s c u s s ã o já nos ^ imp( m

e n c a m i n h a p a r a e s t a c o n c l u s ã o , a s a b e r , q u e t o d o s os nr> ((fio de wúsiea (H t)


indivíduos de mais de cinqüenta anos q u e estão em
condições de cantar devem contar com um treinamento
superior àquele, dos coros musicais p o r q u e é necessário
que possuam conhecimento c uma pronta percepção
d o s r i t m o s e h a r m o n i a s , pois sem isto c o m o p o d e r á
alguém reconhecer as melodias corretas?
Clínias: E ó b v i o q u e , n ã o p o d e r i a d e m a n e i r a a l g u m a .

O ateniense: E absurdo aqueles que pertencem à


multidão ordinária imaginarem que. podem
c o m p r e e n d e r p l e n a m e n t e o (pie é h a r m o n i o s o e rítmico
e o q u e n ã o é pelo fato de terern sido t r e í - n a d o s a c a n t a r
com o a c o m p a n h a m e n t o de flauta e se m o v e r e m c o m
c a d ê n c i a ; está claro q u e n ã o c o n s e g u e m c o m p r e e n d e r
q u e ao realizarem estas d u a s coisas as realizam sem
c o n h e c i m e n t o . O fato é q u e I o d a m e l o d i a q u e possui
seus elementos adequados é correta, enquanto é
incorreta aquela q u e possui elementos inadequados,

Clínias: N ã o r e s t a dúvida.
O ateniense: E o q u e dizer daquele q u e desconhece até
q u a i s são os e l e m e n t o s da m e l o d i a ? S a b e r á ele, c o m o o
dissemos, aquilatar da retidão desta ou daquela
melodia?

Clínias: N ã o h á c o m o e l e p u d e s s e f a z ê - l o .

O ateniense: Estamos agora, mais u m a vez, pelo q u e


p a r e c e , c o n s t a t a n d o o fato d e s s e s n o s s o s c a n t o r e s ( q u e
estamos presentemente convidando e de certo modo
c o n s t r a n g e n d o , p o r a s s i m dizer, a c a n t a r de s u a livre
vontade) terem q u e q u a s e n e c e s s a r i a m e n t e ser treina-
d o s até o p o n t o de c a d a um deles mostrar-se c a p a z tan-
to de a c o m p a n h a r a cadência d e t e r m i n a d a pelos ritmos

127
Platão - As Leis

quanto as notas das melodias, de maneira que pela


observação das harmonias e dos ritmos possam estar
aptos a selecionar aqueles q u e sejam de um tipo ade-
q u a d o à interpretação de h o m e n s de sua i d a d e e situa-
ção, p o d e n d o eles c a n t a r d e s s a forma, e neste c a n t a r
n ã o s ó e x p e r i m e n t a r , eles m e s m o s , u m p r a z e r i n ó c u o ,
c o m o t a m b é m servir corno mestres dos m a i s jovens n a
s u a c o n v e n i e n t e a d o ç ã o d e c o s t u m e s virtuosos. S e trei-
n a s s e m a t é tal p o n t o , s e u t r e i n a m e n t o seria m a i s c o m -
• ... KaXov s i x s (IT| pleto d o q u e o d a m a i o r i a , o u c o m efeito m a i s c o m p l e t o
K d X o V T O ( i l ( i T | U a ... . d o q u e o d o s p r ó p r i o s p o e t a s , pois e m b o r a seja p a r a
&tcndo-se aqui O béo m> estes p r a t i c a m e n t e n e c e s s á r i o c o n h e c e r h a r m o n i a e rit-
unicamente como quaíWade m o , é-lhes d i s p e n s á v e l o c o n h e c i m e n t o do terceiro i t e m ,
nbfitwitn aqmdávé captado a s a b e r , se a r e p r e s e n t a ç ã o é b e l a ou n ã o - b e l a . • T o d a -
Via sensação ( a i a 0 T | C J l ç ) ; via, no caso dos nossos c a n t o r e s m a i s velhos o conheci-
c
pa»a Phtüo o manca m e n t o de todos esses três itens é m i s t e r v i s a n d o a capa-
(danada umo ò iMtude c i t á - l o s a d e t e r m i n a r o q u e é p r i m o r d i a l e o q u e é se-
(apETTi) dem desenuofoojt c u n d á r i o na ordem da beleza, • • caso contrário n e n h u m
np.ccssa/iiatwínti; a natural- deles j a m a i s terá êxito em atrair p a r a a v i r t u d e por
apuotação pc.Co befo e a meio de seus e n c a n t a m e n t o s os jovens. Assim, a tarefa
poíuífií tepugnãncio peto inicial de nossa discussão, q u e era d e m o n s t r a r q u e
difif,o«t»c, dc so»tc que o n o s s a defesa do coro de Dionísio e r a justificável foi
constituição dn k*ut» vithioso agora realizaria da m e l h o r forma de q u e somos capa-
f. iiiconccbíucP som a z e s . M a s v e j a m o s fsc foi o s u f i c i e n t e ] p a r a g a r a n t i r s e u
mnbüídade, estética, a ponto sucesso. • • • U m a tal r e u n i ã o t e n d e i n e v i t a v e l m e n t e , à
dc po* urges m éjfcfl m e d i d a q u e prossegue a bebedeira, a se t o r n a r m a i s
distingui* n jsonttMo ente! o c m a i s t u m u l t u a d a ; é o q u e no p r i n c í p i o a p o n t a m o s
estético (domínio do bcfega) c c o m o inevitável n e s s a s r e u n i õ e s d o m o d o q u e s e rea-
o ótico (domínio do conduto lizam atualmente.
Humana). '-Dn quoPqtM
Clínias; E inevitável.
MOMü/io, o poeto ou
cowposito» enquanto loí não é O ateniense: P o r o u t r o l a d o , c a d a u m s e e x a l t a , s e s e n t e

obftigodo a »sesponsobifigo* m a i s superficial e m m e i o a o p r ó p r i o a t r e v i m e n t o , rego-

pelo conseqSCiicin psiooPógioo zijo e l o q u a c i d a d e e n ã o s e d i s p õ e a e s c u t a r s e u s vizi-

ou moiof emeida po» suo n h o s , c o n s i d e r a n d o - s e c o m p e t e n t e t a n t o p a r a s e gover-

coiuposifjão. (n.l.) n a r como p a r a governar a todos os demais.

Clínias: Decerto é assim.


** Ajide noto acima.
O ateniense: E n ã o d i z í a m o s n ó s q u e o p t a n d o i s s o o c o r -
(n.t.)
re, a s a l m a s d o s b e b e d o r e s s e t o r n a m m a i s b r a n d a s
***f)u seja, umo justificação
c o m o o ferro q u e a q u e c i d o torna-se m a i s m a l e á v e l , e
no pPono leeí/iico do /iagãe> tem
t a m b é m r e j u v e n e s c i d a s , a p o n t o d e p a s s a r e m a s e r fle-
que era coi^iiimodo em suo
xíveis, c o m o q u a n d o e r a m j o v e n s , n a s m ã o s d a q u e l e q u e
opíicoçno píãtico. (n.l)

128
Livro II

d e t é m o t a l e n t o e a c a p a c i d a d e de t r e i n á - l a s e m o l d á -
las? E t a n t o agora q u a n t o e n t ã o o seu m o d e l a d o r é o
b o m legislador: c a b e - l h e d a r o b a n q u e t e d e leis c a p a -
zes de controlar a q u e l e conviva q u e se t o r n a confiante,
a u d a c i o s o , i n d e v i d a m e n t e d e s a v e r g o n h a d o e n ã o dese-
joso de a c a t a r a s u a vez de se c a l a r e de falar, de b e b e r
e de cantar, permitindo-se fazer de t o d a s as m a n e i r a s o
o p o s t o disso - leis c a p a z e s , t a m b é m , a j u d a d a s p e l a jus-
tiça, d e c o m b a t e r a e n t r a d a d a i m p u d ê n o i a a t r a v é s d a
a d m i s s ã o d a q u e l e m e d o s u m a m e n t e n o b r e • * • » ao q u a l
demos o nome de pudor e auta-respeito.
• • • • Çíló fifiteiisfns que
Clínias: Assim é.
estobefccew»" o tato gtego
0 ateniense: E , c o m o g u a r d i õ e s d e s s a s l e i s e s e u s c o l a - («•wíüíio Q E I O V qwPov
boradores, devem haver sóbrios e serenos estrategos q u e ontfií: dc ( r t v o p a t í a u x v , n
atuem como controladores dos ébrios, pois combater a qt«; «os n t a j w l a o ocícsee*
e m b r i a g u e z s e m e l e s s e r i a u m a i n c u m b ê n c i a m a i s for- oqtii ... , mxífí (laivo, (n.t.)
midável do q u e c o m b a t e r inimigos sem chefes serenos.
Todo aquele q u e se recusar voluntariamente, a obede-
cer a esses estrategos e os oficiais de Dionísio ( q u e t ê m
m a i s de sessenta a n o s de idade) incorrerá em tanta des-
g r a ç a q u a n t o a q u e l e q u e d e s o b e d e c e o s oficiais d e Ares,
e até mais.
Clínias; Certíssimo.

O ateniense: Se e s s e fosse o c a r á t e r do b e b e r e do r e c r e a r -
se n ã o t i r a r i a m tais convivas disto o m e l h o r proveito e
com maior a m i z a d e do q u e antes, em lugar de o fazerem
c o m o i n i m i g o s , q u e é , o que, s u c e d e a g o r a ? P o i s s e r i a m
g u i a d o s p o r leis e m t o d a s a s s u a s relações e d a r i a m
ouvidos às orientações d a d a s aos ébrios pelos sóbrios.

Clínias: S c o c a r á t e r d a r e u n i ã o fosse r e a l m e n t e c o m o
descreves, tenho o q u e dizes c o m o verdadeiro.

O ateniense: Portanto não devemos continuar, de ma-


n e i r a d e s q u a l i f i c a d a , a r e p r o v a r o d o m de Dioní-
sio • • • • « c o m o s e n d o m a u e i n d i g n o dc ser a d o t a d o n u m
'do, íu.í.)
l i s t a d o . D e fato, dever-se-ia a m p l i a r c o n s i d e r a v e l m e n t e
a d i s c u s s ã o deste a s s u n t o visto q u e há m u i t a h e s i t a ç ã o
q u a n t o a se d e c l a r a r d i a n t e da m u l t i d ã o o m a i o r benefí-
cio c o n f e r i d o p o r esse d o m , j á q u e q u a n d o a s s i m decla-
r a d o é m a l c o m p r e e n d i d o e difícil d e s e r r e c o n h e c i d o .

Clínias: A o q u e t u t e r e f e r e s ?

129
Platão - As Leis

O ateniense: Há uma tradição e um rumor que


i n s i n u a m q u e e s s e d e u s foi d e s p o j a d o d e s e u j u í z o
m e n t a l p o r sua m a d r a s t a H e r a e p a r a se vingar criou
os rituais das bacantes e todas as d a n ç a s delirantes,
t e n d o com o m e s m o intuito concedido o d o m do vinho.
Deixo, entretanto, estas coisas p a r a a q u e l e s q u e a c h a m
p r u d e n t e mencioná-las em conexão com os deuses. O
q u e sei é q u e n e n h u m s e r vivo j a m a i s n a s c e d e p o s s e
dessa razão, ou da quantidade dc razão que deverá
ter em sua i d a d e adulta; c o n s e q ü e n t e m e n t e , todo ser
vivo, d u r a n t e o p e r í o d o em q u e a i n d a é falto da
inteligência q u e lhe é própria, p e r m a n e c e louco, emite
gritos selvagens e t ã o logo se e r g u e s o b r e os p é s põe-se
a saltar. R e l e m b r e m o s q u e situamos aí as origens da
m ú s i c a e da ginástica.
Clínias: P o r c e r t o n o s l e m b r a m o s , é c l a r o .

O ateniense; E porventura não nos lembraremos


t a m b é m q u e a f i r m a m o s q u e a p a r t i r d e s s a o r i g e m foi
inculcado em nós, seres h u m a n o s , o senso do ritmo e
da h a r m o n i a e q u e os co-autores disso foram Apoio e as
Musas, além do deus Dionísio?

Clínias: P o r c e r t o n o s l e m b r a m o s .

O ateniense: A d e m a i s , q u a n t o a o v i n h o , p a r e c e q u e a
o p i n i ã o c o r r e n t e é q u e foi c o n c e d i d o a nós, seres
h u m a n o s , c o m o u m a p u n i ç ã o a fim d e n o s e n l o u q u e c e r ;
p o r é m nossa opinião ao contrário é q u e o vinho é um
m e d i c a m e n t o q u e n o s foi d a d o c o m o p r o p ó s i t o d e
facilitar à a l m a a a q u i s i ç ã o do p u d o r e ao c o r p o a
a q u i s i ç ã o da s a ú d e e da força.

Clínias: R e s u m i s t c a d m i r a v e l m e n t e a n o s s a o p i n i ã o , ó
estrangeiro.

O ateniense: E - n o s l e g í t i m o d i z e r e n t ã o q u e d e m o s c o n t a
da m e t a d e do assunto da d a n ç a coral. Passaremos a
tratar i m e d i a t a m e n t e d a outra m e t a d e d a forma que
nos parecer melhor ou a deixaremos de lado?

Clínias: A q u e m e t a d e s t e r e f e r e s ? C o m o e s t á s d i v i d i n d o
o assunto?

O ateniense: A n o s s o v e r , a d a n ç a c o r a l c o m o um t o d o é
idêntica à e d u c a ç ã o c o m o um todo e a p a r t e dela q u e
c o n c e r n e à voz consiste dc r i t m o s e h a r m o n i a s .

130
Livro I I

Clínias: Sim.

O ateniense: E a parte que concerne ao movimento


corporal possui, em c o m u m com a vocalização, • ritmo,
* Sfoc/iafincnte <|xt)vr|Ç
a l é m do q u e d e t é m como seu atributo peculiar a
Kivnotç significo
posUira, tal c o m o a m e l o d i a constitui o a t r i b u t o peculiar
mmí/rmfo ipm/i o conceito
da v o c a l i z a ç ã o . •
KtVT|CJlÇ é muito móis
Clínias: I s t o é i n t e i r a m e n t e v e r d a d e i r o . ofew»geiiíe do que o «osso dc,
O ateniense; Ora, q u a n d o a v o c a l i z a ç ã o se i n s e r e no moMmmtp. cngCoboído «ossos
treinamento que visa a excelência da alma, nos concertos dc estímuto.
a r r i s c a m o s d e a l g u m m o d o a c h a m á - l a d e música. joiticnin, wnííiraçõo.
tíonstowo, poíturtíiaçãe,
Clínias: S i m , i s t o é e x a t o .
instfibiíidodt. comoção c
O ateniense: Quanto aos movimentos corporais que
emoção. Os i o d o s tnma o
c h a m a m o s de d a n ç a dc folguedos, caso tais movimentos
múbiPl^a» (dn fnlíw mmw)
se prestem à consecução da excelência do corpo, nos
guasdoin poíte. dr.sso oa»ga
s e r á p o s s í v e l d a r o n o m e d e ginástica a o treinamento
semântica (ww como o
d o c o r p o p a r a essa finalidade.
snbstontiio moto*, (n.t.)
Clínias: E a b s o l u t a m e n t e certo.
** 'J-laie uma w% o
O ateniense: Q u a n t o à m ú s i c a , à q u a l f i z e m o s r e f e r ê n c i a woi&itico seoflótíca
alguns momentos atrás ao afirmarmos que metade do citifijcgodo |iO!t (
PSMIÕO |w.i
a s s u n t o d a d a n ç a c o r a l fora d e s c r i t o e t r a t a d o , q u e s e intcMtwdio do n/rnimv mfâm
diga o m e s m o dela agora; porém com relação à outra suo eficiência, pois Cfínias,
metade, deveremos abordá-la ou o q u e faremos? desta jeito, «ao apenos anut c
Clínias: M e u c a r o s e n h o r , e s t á s a c o n v e r s a r c o m c r e t e n s e s coiupoítídia dos (raciocínios
e lacedemônios e discorremos longamente sobre a do «conttfiiWcJ. da
m ú s i c a ... Q u e r e s p o s t a a tua p e r g u n t a , p o r c o n s e g u i n t e , discussão, como fantíietn
e s p e r a s q u e um ou outro de nós d a r á q u a n d o o a s s u n t o sepfiea ínoníeomrnte ante <i
que p e r m a n e c e n ã o abordado é a ginástica? indagação didaticamente
pjrofoealiwi do otaiicmc.
O ateniense: Eu diria que me deste uma resposta
TJorfos Sflíx» quanlo os
perfeitamente clara fazendo-me essa pergunta,
enetenses <>. os espoilaiios
e n t e n d e n d o q u e e m b o r a t e n h a sido u m a pergunta é
pícgaeam a ginástica.' (»,(.)
t a m b é m (eu o repito) u m a resposta, ou m e l h o r a i n d a -
u m a determinação para discutir de m a n e i r a plena o
assunto da ginástica.
• • * _Aln ip.rdodr- dão se (nata
;

Clínias: Perc.ebcste o q u e e u q u i s d i z e r p e r f e i t a m e n t e . aqui pMrpíioiiicntc de uma


(Assim) o f a z . " » jiiose eonePusieo. {ícapdo no

0 ateniense; F a z ê - l o d e v o eu e r e a l m e n t e n ã o c o n s t i t u i Püiiitc etit»c o eoücfticWi c o

t a r e f a m u i t o difícil f a l a r d e c o i s a s t ã o b e m c o n h e c i d a s mraa«ie«le odífíto. mt seja, ...

por vós, visto q u e t e n d e s m u i t o m a i s e x p e r i ê n c i a nesta x c teca ouxw 5q

arte do q u e na outra. t r a t e i ... . (n.l.)

131
Platão - As Leis

Clínias: D i z e s a p u r a v e r d a d e ,

O ateniense: A o r i g e m d o f o l g u e d o * a q u e e s t a m o s n o s
referindo deve ser e n c o n t r a d a n o h á b i t o n a t u r a l q u e
todo ser vivo tem de saltar; assim, o ser h u m a n o
a d q u i r i n d o , como dizíamos, o senso do ritmo, deu
origem e produziu a dança, e considerando-se que o
ritmo é sugerido e despertado pela melodia, a união
* Ou scjo, o rinnço de d e s t e s d o i s p r o d u z i u a d a n ç a ••oral e o f o l g u e d o .
fO%uodos ou luoeituettio
Clínias: I s t o é b e m v e r d a d e i r o .
coupodol fmut e hímSvo
O ateniense: INo que diz respeito à d a n ç a coral, já
que se coiitiopõe õ música ou
discutimos u m a parte, e nos empenharemos em seguida
linjwouio. que se eíigino, po»
em discutir a outra parte.
suo upg. do unhunf lióbito
kmaito de qsilnj. («.(.) Clínias: De p l e n o acordo.

O ateniense: M a s , s e vós a m b o s c o n c o r d a r e m , a n t e s d i s s o
daremos urn fecho à nossa discussão acerca dos
banquetes com bebida.

Clínias: D c q u e f e c h o f a l a s ?

O ateniense: S e u m l i s t a d o s e d i s p u s e r a fazer u s o da
i n s t i t u i ç ã o e m p a u t a d e u m a m a n e i r a legal e o r d e n a d a ,
encarando-a oireunspeclamente e liberando sua prática
com vistas à t e m p e r a n ç a , e c e d e n d o a todos os d e m a i s
prazeres analogamente e conforme o m e s m o princípio,
irias a s s u m i n d o os m e i o s de, s o b r e eles, exercer controle,
ter-se-á à disposição um m é t o d o a ser e m p r e g a d o
c
•O jwneo efcgio de PPatõo extensivamente;* * s e , t o d a v i a , p o r o u t r o l a d o , tal
à píófieo dos .wuiiiõos i n s t i t u i ç ã o for e n c a r a d a c o m o u m f o l g u e d o c q u a l q u e r
«igodos o Mudo em cmMet um q u e o desejar goze da p e r m i s s ã o de b e b e r q u a n d o
insíitueiowiP se itestMttge q u i s e r e com q u e m q u i s e r e c o m b i n a n d o isso c o m t o d o s
esbwfnweiile o esle quodío. os outros tipos de licenças, eu n ã o d a r i a o m e u sufrágio
(«.}.) favorável à p r á t i c a ele b e b e r a tal E s t a d o ou tal
indivíduo, mas indo além m e s m o do uso dos cretenses
e l a c e d e m ô n i o s , e u d a r i a m i n h a a d e s ã o à lei d e C a r t a g o ,
a qual ordena que n e n h u m soldado em c a m p a n h a
j a m a i s prove a poção e m b r i a g a n t e , limitando-se d u r a n t e
todo esse tempo a beber unicamente água. E eu
a c r e s c e n t a r i a q u e na cidade, t a m b é m os escravos e,
e s c r a v a s j a m a i s a p r o v a s s e m ; e «pie o s m a g i s t r a d o s n o
desenrolar do a n o de seu m a n d a t o , os pilotos e, os juizes
enquanto no cumprimento de seus devores não
bebessem vinho algum, bem como qualquer conselheiro

132
Livro II

q u e fosse c o n v o c a d o a d a r s e u p a r e c e r c o l i m a n d o u n i a
deliberação de considerável monta; nem qualquer
pessoa d u r a n t e o d i a salvo por motivo de t r e i n a m e n t o
físico o u s a ú d e ; n e m t a m p o u c o u m h o m e m o u u m a
m u l h e r à noite, q u a n d o se p r o p õ e m a procriar. Poder-
se-ia c i t a r u m g r a n d e n ú m e r o de, o u t r a s c i r c u n s t â n c i a s
n a s q u a i s o v i n h o n ã o deve ser b e b i d o por a q u e l e s q u e
s ã o d i r i g i d o s p e l a r e t a r a z ã o e a lei. P o r c o n s e g u i n t e , d e
acordo com essa reflexão n ã o haveria necessidade
alguma para Estado algum de contar com um grande
n ú m e r o de vinhedos; e se todos os outros produtos
agrícolas e todos os gêneros alimentícios seriam
controlados, a p r o d u ç ã o de vinho em especial seria
mantida dentro das menores e mais modestas
p r o p o r ç õ e s . Q u e este seja e n t ã o , estrangeiros, o fecho
ao discurso concernente ao vinho.

Clínias: E x c e l e n t e , e c o m o que, c o n c o r d a m o s t o t a l m e n t e .

133
Platão - As Leis

TauTrx U . E V ouv 5r\ T C X U T T | noXmmc, 8

apXT]v t i v a I T O T G $(Ü\IEV yeyovevou;...

Livro
III

134
Livro III

O ateniense: E i s q u e e s s a q u e s t ã o e s t á e n c e r r a d a . E a g o -
ra o q u e t e r e m o s a dizer a respeito da origem d a s cons-
tituições?* N ã o será através deste p o n t o de vista q u e a
vislumbraremos c o m m a i o r facilidade?
«... jtoXtteiaç 8
Clínias: Q u e p o n t o d e v i s t a ?
apxev..., o g o A w o
O ateniense: D a q u e l e a p a r t i r d o q u a l s e d e v e s e m p r e pofitim, isto t, ki TtoXiÇ;
observar o progresso dos Estados à m e d i d a q u e cami- po» « t e s ã o , a (o/rma de
n h a m r u m o à v i r t u d e o u a o vício. ffoWMo do Ssíado, a
Clínias: M a s q u e p o n t o q u e r e s d i z e r ? Kjustltmção.

O ateniense: A o b s e r v a ç ã o , c o m o e u o s u p o n h o , d e u m ÍK.t.)
p e r í o d o de tempo infinitamente longo e d a s transfor-
mações que nele ocorrem.

Clínias: E x p l i c i t a o q u e e n t e n d e s p o r i s s o .

O ateniense: D i z - m e o s e g u i n t e : a c h a s q u e s e r i a s c a p a z
de i n d i c a r a longa d u r a ç ã o de t e m p o t r a n s c o r r i d a des-
de q u e as c i d a d e s p a s s a r a m a existir e os seres h u m a -
nos vivem como cidadãos?

Clínias; S e g u r a m e n t e n ã o s e r i a u m a fácil e m p r e s a .

O ateniense: De q u a l q u e r modo, podes perceber com


facilidade q u e se trata de u m a d u r a ç ã o i m e n s a e inco-
mensurável?

Clínias: I s s o p o s s o p e r c e b e r c o m t o d a a c e r t e z a .

O ateniense; D u r a n t e e s s e t e m p o , n ã o p a s s a r a m a exis-
tir m i l h a r e s e m i l h a r e s de E s t a d o s e, n u m cálculo simi-
lar, m i l h a r e s e m i l h a r e s n ã o p e r e c e r a m ? E n ã o apre-
s e n t a r a m eles, c a d a u m p o r s u a vez, t o d a s a s espécies
de constituições ciclicamente? E n ã o aconteceu que, por
vezes, os p e q u e n o s se t r a n f o r m a r a m em grandes, os
grandes cm pequenos, os melhores em piores, os piores
em melhores?

Clínias; Necessariamente.
O ateniense: T e n t e m o s d e s c o b r i r a c a u s a desse proces-
so de transformação, se o p u d e r m o s , pois q u e m sabe
isso p o d e r i a n o s revelar a o r i g e m p r i m e i r a d a s consti-
tuições, b e m como a transformação destas.

Clínias: T e n s r a z ã o e t o d o s n ó s t e m o s q u e n o s e m p e n h a r
nisso. T u , e x p o n d o t u a o p i n i ã o e n ó s te a c o m p a n h a n d o ,

O ateniense; Parece-vos que as antigas tradições


encerram alguma verdade?

135
Platão - As Leis

Clínias; Quais?

* :_-4 MSpOSlB pfl»OT! f!M O ateniense: A q u e l a * segundo a q u a l o i n u n d o dos seres


dado oo singufe* h u m a n o s foi d i v e r s a s v e z e s d e s t r u í d o p o r d i l ú v i o s , p r a -
|i»o()Osiín6ufiit(f! pois (P g a s e m u i t o s o u t r o s f l a g e l o s , d e tal m o d o q u e a p e n a s u m a
afmeitse psctende cmienedm o p e q u e n a porção da espécie h u m a n a sobreviveu. • •
temo pato «ma so(ósffio(jo Clínias: T o d o s c o n s i d e r a r i a m t a i s r e l a t o s p e r f e i t a m e n t e
f,SpCSf|ifO. críveis.
«• £ sswpjc opothwo O ateniense: Pois bem, vamos nos ater, a título de
íembiim que esse ,v(Vito som exemplo, à imagem da catástrofe que ocorreu outrora
efeito PBÍÓ essencialmente através do dilúvio.
píicsente «os («adições dos
Clínias: E q u e imagem p o d e r í a m o s fazer dele?
mais tomados poios (iitcJusiwí
Ac oufímns tão distintas O ateniense: Q u e a q u e l e s q u e n e s s a o c a s i ã o e s c a p a r a m

quanto «ekcus d indianos); o à d e s t r u i ç ã o d e v e m ter sido p r i n c i p a l m e n t e p a s t o r e s dos

tema do K a t a K À u c r u o ç montes, p e q u e n a s centelhas da espécie h u m a n a preser-

(inundação, diCúiio) c ütelkeiep vadas nos cimos das m o n t a n h a s .

l.wlndo pejo psópíio ' Platão Ciúiias: E evidente.


no seu dióCogo inacabado O ateniense: E q u e s e a c r e s ç a a i s s o q u e i n d i v í d u o s d e s -
(l»âimr\m SP «c|eíic o s e t i p o d e v e m ter sido f o r ç o s a m e n t e i n e x p e r i e n t e s n a s
.JlPâiilida. (n.t.) artes em geral, e p a r t i c u l a r m e n t e no q u e c o n c e r n e a
esses i n s t r u m e n t o s q u e o s c i d a d ã o s u t i l i z a m u n s con-
t r a os o u t r o s n a s c i d a d e s a serviço da a m b i ç ã o e da ri-
validade e de todas as d e m a i s vilezas q u e c o n c e b e m u n s
contra os outros.

Clínias: I s s o é c e r t a m e n t e p r o v á v e l .

O ateniense: P r e s u m i r e m o s q u e a s c i d a d e s s i t u a d a s n a s
planícies e p r ó x i m a s ao m a r foram i n t e i r a m e n t e des-
truiídas na ocasião?

Clínias: Vamos presumi-lo.

O ateniense: V. s u s t e n t a r e m o s q u e t o d o s os i m p l e m e n t o s
foram perdidos e que suas descobertas importantes cm
t o d a s a s a r t e s d a s q u a i s p o d e m ter sido d e t e n t o r e s , envol-
v e n d o a política ou o u t r a s ciências, d e s a p a r e c e r a m na-
q u e l a o c a s i ã o . Pois s e s u p u s é s s e m o s q u e e s s a s c o i s a s - q u e
b o m - tivessem p e r m a n e c i d o todo esse t e m p o o r d e n a d a s
tal c o m o a s v e m o s a t u a l m e n t e . . . c o m o , m e u c a r o s e n h o r ,
p o d e r i a ter h a v i d o l u g a r p a r a n o v a s descobertas?
Clínias: Q u e r e s i n s i n u a r q u e t a i s c o i s a s p e r m a n e c e r a m
desconhecidas p a r a os h o m e n s primitivos d a q u e l a épo-
ca p o r m i l h a r e s e m i l h a r e s de a n o s e q u e há mil ou dois

136
Livro III

m i l a n o s a t r á s a l g u m a s d e l a s f o r a m r e v e l a d a s a Décla-
lo, o u t r a s a O r f e u , o u t r a s a P a l a m e d e s , a a r t e m u s i c a l a
M á r s i a s e O l i m p o , a lírica a A n f i o n e, cm síntese, um
e n o r m e n ú m e r o de outras a outros - todas d a t a n d o , p o r
assim dizer, de o n t e m ou a n t e o n t e m ?

O ateniense: E s t á s c i e n t e , Clínias, q u e o m i t i s t e t e u a m i -
g o , q u e foi l i t e r a l m e n t e u m h o m e m d e o n t e m ?

Clínias: Tu te r e f e r e s a Epiinènides?

O ateniense; S i m , é a e l e q u e m e r e f i r o p o i s d e l o n g e
s u p e r o u a todos, m e u a m i g o , m e d i a n t e a q u e l a sua in-
v e n ç ã o * * • da q u a l foi o efetivo a u t o r , c o m o v ó s c r e t e n -
s e s d i z e m , e m b o r a H e s í o d o a t i v e s s e p r e v i s t o e d e l a fa-
' " A tíWctiçõo dc.
lado muito antes.
Êfiimcnidcs tolo sido um
Clínias: N ó s o d i z e m o s , c o m e f e i t o .
|iM:fi(isfldo dc ewos. e<t mnis
O ateniense: P o d e r í a m o s e n t ã o a f i r m a r q u e na época cwilomcntfi o íOÍWf fia vida.
d e s s a d e s t r u i ç ã o o s a s s u n t o s h u m a n o s e s t a v a m n a se-
g u i n t e s i t u a ç ã o : u m a i m e n s a e a t e r r a d o r a s o l i d ã o so-
bre u m a e n o r m e superfície de terra, a maioria dos
a n i m a i s destruídos c u n s poucos r e b a n h o s de bois e
b a n d o s de cabras que haviam sobrevivido fornecen-
do escasso sustento, nesse início, aos seus boiadeiros
c pastores?

Clínias: Sim.

O ateniense: E q u a n t o a o s a s s u n t o s v e n t i l a d o s n a n o s s a
presente discussão, a saber. Estados, constituições e
legislação - é-nos cabível p e n s a r q u e eles p u d e s s e m
ter retido q u a l q u e r l e m b r a n ç a , falando no geral, de
tais assuntos?
Clínias: De modo algum.

O ateniense: M a s n ã o foi d e s s a s i t u a ç ã o q u e b r o t o u t o d o
o nosso sistema atual. Estados e constituições, artes e
leis, a c o m p a n h a d o s d e u m a g r a n d e q u a n t i d a d e d e
vício e v i r t u d e ?

Clínias: O q u e q u e r e s d i z e r ?

O ateniense; Imaginas, meu bom homem, que os


indivíduos daquela época, q u e n a d a conheciam dos
c o s t u m e s da vida u r b a n a - m u i t o s e n t r e eles b o n s , outros,
i n a u s - l i a v i a m a t i n g i d o a p e r f e i ç ã o n a v i r t u d e o u n o vício?

(Imitiu: A h , t u o d i s s e s t e b e m ! A g o r a t e c o m p r e e n d e m o s .

137
Platão - As Leis

O ateniense: À medida que o tempo passou e nossa


espécie multiplicou-se, houve progresso, n ã o é m e s m o ?
Progresso p a r a a condição agora existente.

Clínias: Precisamente.

O ateniense; Mas, com toda a probabilidade, eles


progrediram muito gradualmente e n ã o de súbito,
exigindo para seu progresso u m a e n o r m e q u a n t i d a d e
de tempo.

Clínias; S i m , i s s o é s u m a m e n t e p r o v á v e l .

O ateniense: P o i s t o d o s , i m a g i n o , s e n t i a m a i n d a r e n o v a r -
se o terror a n t e a idéia de d e i x a r as elevações p a r a
ocuparem as planícies.

Clínias: Obviamente.

O ateniense; E p e l o f a t o d e s e r e m t ã o p o u c o s n a q u e l e s
dias não sentiam grande prazer em se verem? Mas como
se os meios de transporte q u e lhes possibilitariam se
visitarem m u t u a m e n t e através de m a r e terra haviam
t o d o s p r a t i c a m e n t e d e s a p a r e c i d o j u n t a m e n t e c o m a s ar-
tes? D a í c o n c l u o q u e o r e l a c i o n a m e n t o n ã o e r a n a d a
fácil. S e p o r u m l a d o o f e r r o , o b r o n z e e t o d o s o s m e t a i s
e minérios nas m i n a s haviam sido colhidos pelo dilú-
vio e assim p e r d i d o s , p o r o u t r o l a d o era e x t r e m a m e n t e
difícil v o l t a r a extraí-los; a l é m d i s s o , h a v i a escassez de
árvores p a r a d e r r u b a m e n t o e de madeira, pois m e s m o
q u e a i n d a tivessem restado a l g u m a s f e r r a m e n t a s e m
a l g u m a p a r t e d a s m o n t a n h a s , estas logo se desgasta-
r a m , n ã o p o d e n d o ser s u b s t i t u í d a s p o r o u t r a s até q u e
os h o m e n s redescobrissem a arte da metalurgia.

Clínias; R e a l m e n t e n ã o p o d e r i a m fazê-lo.

O ateniense: E q u a n t a s gerações, p o d e r í a m o s supor,


s e r i a m n e c e s s á r i a s p a r a q u e isso ocorresse?

Clínias; Muitíssimas, evidentemente.

O ateniense: E d u r a n t e t o d o e s s e p e r í o d o , o u m e s m o m a i s ,
t o d a s as artes q u e r e q u e r i a m ferro e b r o n z e , e todos os
d e m a i s m e t a i s d e v e m ter p e r m a n e c i d o em suspenso?
Clínias: Certamente.

O ateniense: Ademais, as revoluções e as guerras


t a m b é m d e s a p a r e c e r a m d u r a n t e esse t e m p o e isto p o r
muitas razões.

138
Livro III

CUnias: Como assim?

0 ateniense; Em p r i m e i r o lugar, d e v i d o à solidão, ali-


m e n t a v a m u m a d i s p o s i ç ã o a m á v e l e a m i s t o s a e n t r e si;
em segundo lugar, n ã o precisavam entrar em conflito
p o r c a u s a d e a l i m e n t o p o i s n ã o f a l t a v a m r e b a n h o s (ex-
ceto, talvez, a l g u n s deles no início) e n a q u e l a é p o c a e r a
principalmente com base nessas coisas q u e os h o m e n s
viviam. Assim c o n t a v a m com b o m s u p r i m e n t o de leite
e c a r n e e s u p l e m e n t a v a m seus estoques de vívcres, de
boa q u a l i d a d e e em a b u n d â n c i a , m e d i a n t e a caça. Tam-
b é m contavam com boa provisão de roupas, cobertores
e m o r a d i a s , b e m como utensílios de cozinha e outros,
j á q u e n ã o h á necessidade d e ferro p a r a a s artes d a
modelagem e da tecelagem, as q u a i s foram outorgadas
à h u m a n i d a d e pela divindade p a r a supri-la de todos os
r e c u r s o s p a r a q u e a espécie, h u m a n a p u d e s s e g e r m i n a r
e crescer s e m p r e q u e caísse e m tal e s t a d o d e d e s o l a ç ã o .
Conseqüentemente, n ã o eram excessivamente pobres,
e tampouco não e r a m impelidos pela pressão da pobre-
z a a b r i g a r e m e n t r e si; e , p o r o u t r o l a d o , v i s t o q u e n ã o
d i s p u n h a m de ouro e prata, jamais podiam se tornar
ricos. Ora, a c o m u n i d a d e q u e n ã o c o n h e c e j a m a i s n e m
a r i q u e z a n e m a p o b r e z a é geralmente a q u e l a na q u a l
se desenvolvem as personalidades m a i s nobres, pois aí
n ã o há espaço p a r a o crescimento da insolência e da
injustiça, d a s rivalidades e dos ciúmes. Eles e r a m , por-
tanto, bons, tanto por essas razões q u a n t o por sua can-
dura, como a c h a m a m o s , pois sendo cândidos q u a n d o
ouviam coisas ditas m á s ou boas, t o m a v a m o q u e e r a
d i t o p o r p u r a v e r d a d e e a c r e d i t a v a m , N e n h u m d e l e s ti-
n h a a perspicácia do h o m e m m o d e r n o em suspeitar de
u m a falsidade; aceitavam como verdadeiras as afirma-
ções feitas a r e s p e i t o de d e u s e s e seres h u m a n o s e nor-
teavam suas vidas p o r elas. Assim, d e t i n h a m inteira-
m e n t e o caráter q u e a c a b a m o s de descrever.

Clínias: P o r c e r t o Megilo e e u c o n c o r d a m o s p l e n a m e n t e
com o q u e dizes.

O ateniense: E não diremos nós q u e pessoas vivendo


por várias gerações dessa forma estavam condenadas à
inabilidade se c o m p a r a d a s com os antediluvianos e os

139
Platão - As Leis

hodiernos; e q u e e r a m ignorantes d a s artes em geral,


especialmente das artes bélicas q u e são atualmente
praticadas na terra e no mar, inclusive aquelas artes
belicosas, q u e disfarçadas com os n o m e s de processos
judiciais e sedições, caracterizam as cidades, a p a r e l h a
das c o m o estão pela palavra e pela ação p a r a se agredi-
rem e se provocarem d a n o s reciprocamente; e q u e e r a m
t a m b é m mais cândidas, mais corajosas e mais modera-
d a s , e de toda sorte m a i s justas? A r a z ã o desse estado
d e c o i s a s j á foi p o r n ó s e x p o s t a .

Clínias: li e x a t o o q u e d i z e s .

O ateniense: D e v e m o s t e r e m m e n t e q u e t o d o o p r o p ó s i t o
do q u e d i s s e m o s e do q u e v a m o s d i z e r a seguir é este: a
c o m p r e e n s ã o d a possível n e c e s s i d a d e d e leis p o r p a r t e
dos seres h u m a n o s d a q u e l a época e identificação de
seu legislador.

Clínias: Excelente.

O ateniense: Será cabível supormos que não tinham


necessidade de legisladores e q u e naqueles dias n ã o era
a i n d a u s u a l d i s p o r d e tal instituição?... visto q u e a q u e l e s
q u e nasceram n a q u e l a época da história do m u n d o n ã o
p o s s u í a m a i n d a a a r t e da escrita, limitando-se a viver
* (-)u seja. fi «efoíiidode do
s e g u n d o os costumes e o q u e era c h a m a d a d e lei d o s
J i c c t r j p , o fiíii (imkfm. o
ancestrais.
rwôj. e (ifit orfettecm, os m'ós,
Clínias: I s s o ó s e g u r a m e n t e p r o v á v e l .
otiocslwiis. .J,\n pjóiioo.
ttotaua-sc fio iiinn oiiío»idode O ateniense: E n t r e t a n t o , isso j á r e s u l t a v a n u m a e s p é c i e
pessoal? obsofttfo cneosnodo de governo.
no pm ou ctejí! dc ijotiiíCio Clínias: Que espécie?
(&caKQTr\ç sem quoquoj
O ateniense: T o d o s , a c r e d i t o , a t r i b u e m a e s s a é p o c a u m a
coitolflçõo ficjrwoliwi) c
forma de governo baseada na autoridade pessoal,* q u e .
k a d o d o tio Pinliorjem
a propósito, c o n t i n u a existindo hoje entre gregos e
moscuPino, doí o sentido
b á r b a r o s em muitos lugares. E, evidentemente, H o m e r o
p f x M m da paktm
m e n c i o n a tal forma de governo em conexão com o
pat.iia.wodo. islo é,
sistema d o m é s t i c o dos ciclopes** q u a n d o diz:
outosidode, pode», enturmdo,
goiano (apxi) delido pcftw
setes íminoeos do srao Estas nem assembléias deliberativas nem regulamentos têm,

mosoufao. (n.l.) Mas nos ocos de cavernas nos cimos das montanhas

KUKÀ.WJMÚV Habitam, cada um fazendo seu próprio regulamento


O I K I | C H V . . . . (ii.f.) Para, seus filhos fí mulheres, sem com seus vizinhos se importar. •••

140
Livro 111

* * *f)dmsãfi, ir, 112 o 115: T O I O T V 8 o u x a y o p a i pouXr)<j)opoi o u t e Scpurraç,


cOJk o i y uv|/rj>uüv o p g i o v v a t o u c n í c a p n v a

E V cnteoCTi y  a q w p o i a i , O e p t a x s u e i 5 e e t c a o - t o ç

T t a t f i t o v T]S a À o x t u v , o u S aXXr|X(ov a  s y o u c J i v .

Clínias: l i s t e v o s s o p o e t a p a r e c e t e r s i d o e n c a n t a d o r . L e -
m o s t a m b é m outros versos dele e e r a m e x t r e m a m e n t e
belos, e m b o r a na v e r d a d e n ã o t e n h a m o s lido m u i t o de
tal poeta, já q u e nós, cretenses, n ã o nos d e t e m o s m u i t o
com a poesia estrangeira.

Megilo: M a s n ó s • • • • s i m , c o c o n s i d e r a m o s o m e l h o r • • • • f ) u sejo, os eipastanos.


d e t o d o s , isto e m b o r a o m o d o d e v i d a q u e ele d e s c r e v e ( (j
(|

ser s e m p r e m a i s p r o p r i a m e n t e jônico d o q u e lacônico.


E n e s t a o p o r t u n i d a d e ele p a r e c e e s t a r c o r r o b o r a n d o
admiravelmente tua afirmação ao atribuir em sua nar-
rativa mitológica os m o d o s primitivos dos ciclopes a
sua sclvageria.

O ateniense: S i m , o seu t e s t e m u n h o n o s a p o i a , de m a -
neira q u e p o d e m o s tomá-lo c o m o prova de q u e formas
de governo dessa espécie, p o r vezes, de fato existiram.

Clínias: Perfeito.

O ateniense: E u ã o teria nascido entre aqueles grupos


h u m a n o s q u e viviam dispersos c m clãs s e p a r a d o s o u e m
famílias isoladas devido aos infortúnios resultantes das
catástrofes, o n d e os m a i s velhos governavam em função
do p o d e r a eles t r a n s m i t i d o pelos p a i s , t e n d o eles em su-
cessão a estes f o r m a d o u m ú n i c o b o n d o , c o m o u m a ni-
n h a d a de pássaros, e vivendo sob um governo patriarcal,
u m a realeza, q u e era de todas as realezas a m a i s justa?

Clínias: Com certeza.

O ateniense; Em seguida, devem ter se c o n g r e g a d o cm


grupos maiores, formando multidões maiores; e
p r i m e i r a m e n t e dedicaram-se à agricultura nos flanços
das m o n t a n h a s , fazendo cercas de pedras brutas p a r a
s e d e f e n d e r e m dos a n i m a i s ferozes, até q u e f i n a l m e n t e
construíram u m a grande habitação c o m u m única.

('línias: E c e r t a m e n t e provável q u e as coisas t e n h a m


acontecido assim.

141
Platão - As Leis

O ateniense: E n ã o s e r i a t a m b é m p r o v á v e l i s t o ?

Clínias: I s t o o q u e ?

O ateniense: Q u e à m e d i d a q u e e s s a s i n s t a l a ç õ e s m a i o r e s
foram se desenvolvendo a p a r t i r d a s m e n o r e s originais, c a d a
u m a d a s instalações m e n o r e s c o n t i n u o u a reter consigo o
m e m b r o m a i s velho c o m o chefe de família e a l g u n s hábitos
peculiares engendrados por seu isolamento m ú t u o . C o m o
a q u e l e s q u e os h a v i a m gerado e e d u c a d o e r a m diferentes,
t a m b é m seus c o s t u m e s relativos aos d e u s e s e a si próprios
diferiam, sendo m a i s o r d e n a d o s o n d e seus ascendentes ti-
n h a m s i d o o r d e n a d o s , e m a i s c o r a j o s o s o n d e eles h a v i a m
s i d o corajosos; e a s s i m o s p a i s d e c a d a c l ã n o d e v i d o t e m p o
i n c u b a r a m e m s e u s f i l h o s e n o s filhos d e s e u s filhos s u a
p r ó p r i a m e n t a l i d a d e , c h e g a n d o eles e n t ã o a c o m u n i d a d e s
m a i o r e s , c a d a u m a d e l a s d o t a d a d e leis p r ó p r i a s .

Clínias: Isto p a r e c e evidente.

0 ateniense; E n e c e s s a r i a m e n t e c a d a clã t i n h a em a l t a
c o n t a s u a s p r ó p r i a s leis, n ã o t e n d o e m t ã o alta c o n t a a s
leis de s e u s vizinhos.

Clínias: Inegável.

O ateniense: Parece que inadvertidamente pusemos


nossos pés, p o r assim dizer, na origem da legislação.

Clínias; Realmente.

O ateniense: O s e g u i n t e p a s s o n e c e s s á r i o s e r i a e s s a s p e s -
soas d a s c o m u n i d a d e - se reunirem c escolherem alguns
m e m b r o s d e c a d a clã q u e , d e p o i s d e u r n e x a m e d o s cos-
t u m e s legais d e t o d o s o s clãs notificariam p u b l i c a m e n t e
os líderes e chefes tribais ( q u e p o d e r i a m ser c h a m a d o s
d e s e u s reis) q u a i s d a q u e l e s c o s t u m e s o s h a v i a m a g r a d a -
d o m a i s , r e c o m e n d a n d o s u a a d o ç ã o . E s s e s m e m b r o s se-
r i a m c h a m a d o s e l e s m e s m o s legisladores, e quando ti-
v e s s e m e s t a b e l e c i d o os c h e f e s c o m o magistrados e e s t r u -
turado u m a aristocracia, ou possivelmente até m e s m o
u m a monarquia a partir da pluralidade de patriarcados,
t o d o s p a s s a r i a m a viver s o b a n o v a f o r m a d e g o v e r n o .

Clínias: O p r ó x i m o p a s s o s e r i a t a l c o m o d e s c r e v e s t e .

O ateniense: P r o s s i g a m o s d e m o d o a n o s r e f e r i r a u m a
terceira forma de governo na q u a l estão c o m b i n a d o s
todos os tipos e variedades de formas de governo tanto
quanto Estados.

142
Livro III

Clínias: E q u e f o r m a é e s s a ?

O ateniense: A m e s m a q u e o p r ó p r i o H o m e r o m e n c i o -
n o u a p ó s a s e g u n d a ao dizer q u e a terceira f o r m a sur-
giu assim... E i s s e u s versos:

Fundou ele Dardãnia quando ainda


A santa ílion não fora construída
Na planície, unia cidade para humanos mortais,
Mas inda habitavam eles nas encostas elevadas
Do Ida de muitas fontes. •

• -Moda. n, 216 n 218: KTiooe Se AapSaviqv eitet ouítü) Xkxoq ipr|


8V JieoWrt J t E J t o l l O T O , H O X I Ç uepoTtíuv avOptoTtwv,
aXX e i ujwapciaç C U K O U V « o X o n t ô a i c o u I 8 r | ç (*.t.)

R e a l m e n t e ele profere estes seus versos, b e m c o m o a q u e l e s


em relação aos ciclopes c o m o se falando segundo a
divindade e a natureza, pois sendo divinamente inspirados
q u a n d o ela canta, os p o e t a s com a ajuda d a s Graças e d a s
M u s a s c o m freqüência c a p t a m a v e r d a d e histórica.

CUnias: I s s o é c e r t o .

0 ateniense:' A g o r a a v a n c e m o s a i n d a m a i s n o m i t o q u e
n o s o c o r r e u pois talvez p o s s a n o s sugerir algo c o m r e l a ç ã o
à m a t é r i a q u e t e m o s e m v i s t a . D e v e r í a m o s n ó s fazê-lo?

CUnias: C o m t o d a a c e r t e z a .

O ateniense: l l i o n foi f u n d a d a , d i z e m o s , q u a n d o h o u v e o
d e s l o c a m e n t o d a s regiões elevadas p a r a u m a g r a n d e e
excelente planície sobre um outeiro de p o u c a altura junto a
muitos rios q u e t i n h a m suas nascentes n o s cimos d o Ida.
Clínias: A s s i m s e d i z .

O ateniense: E p o d e m o s s u p o r q u e i s s o s u c e d e u m u i t a s
«iras d e p o i s d o dilúvio?

Clínias: C o m c e r t e z a s i m - m u i t o t e m p o d e p o i s .

O ateniense: E de q u a l q u e r f o r m a , p a r e c e q u e as pes-
«ous s e e s q u e c e r a m e s t r a n h a m e n t e d a catástrofe q u e
acabamos de mencionar já que instalaram sua cidade
j u n t o a m u i t o s r i o s q u e f l u í a m d e m o n t a n h a abaixe» e
c o n f i a r a m s u a s e g u r a n ç a e m p e q u e n a s c o l i n a s d e al-
tura modesta.

143
Platão - As Leis

Clínias: O q u e t o m a e v i d e n t e q u e u m tempo bastante


considerável as s e p a r a v a de tal catástrofe.

O ateniense: Por essa época, t a m b é m , como a espécie


h u m a n a se multiplicara, muitas outras cidades tinham
sido fundadas.

Clínias: E claro.

O ateniense: E essas cidades, a d e m a i s , a t a c a r a m ílion


p o r terra, e t a m b é m p r o v a v e l m e n t e p o r m a r , visto q u e
n e s s a época todos faziam uso d o m a r destemidamente.
Clínias: Assim parece.

O ateniense: E d e p o i s de u m a s s é d i o ele d e z a n o s o s
a q u e u s s a q u e a r a m Tróia.
Clínias: Precisamente.

O ateniense. O r a , d u r a n t e e s s e p e r í o d o d e d e z a n o s , q u e
foi o t e m p o q u e d u r o u o a s s é d i o , a s i t u a ç ã o d o m é s t i c a
d a q u e l e s q u e s i t i a v a m T r ó i a foi m u i t o p r e j u d i c a d a d e -
vido às insurreições da juventude que, por ocasião do
r e t o r n o d o s s o l d a d o s à s sueis p r ó p r i a s c i d a d e s e l a r e s ,
• Acoptqç personagem n ã o os recebeu c o n d i g n a m e n t e e com justiça, m a s de
dúbio do pouío dc wsto da u m a tal m a n e i r a q u e s e s e g u i u u m e n o r m e n ú m e r o d e
íusoáiio ofieioP wsto que assassinatos, massacres e desterros. Conseqüentemen-
poiioco set 'VMão o único o t e o s b a n i d o s m i g r a r a m p e l o m a r e d e v i d o a o fato d e ter
l
wciifíoiin-Po. T)e qooPqiu» sido Dorieus» q u e m os r e u n i u eles a d o t a r a m o n o m e
modo, o ofncõo ó n imosõc P d e dórios e m l u g a r d e a q u e u s . Vias q u a n t o a o s e v e n t o s
conquisto do ''pcpoponoso, q u e se sucedem a partir d a q u i , as tradições dos lacede-
quando os dówes po« tofto dc mônios os narram completamente.
9 0 0 o. C eifpufsotom os
Megilo: Decididamente.
aqueus do suf da ("JjCeía.
' ("•(.) O ateniense: E a g o r a , c o m o se p o r o r i e n t a ç ã o d i v i n a ,
r e t o r n a m o s m a i s u m a vez a o p r ó p r i o p o n t o d a n o s s a
d i s c u s s ã o - o b r e a s leis q u a n d o a n o s s a d i g r e s s ã o n o s
** f) piitwciso é o {amípia ou fazia m e r g u l h a r no a s s u n t o da m ú s i c a e dos b a n q u e t e s
cln sob n oulo,»idode pessoa?
c o m bebida; e p o d e m o s , p o r assim dizer, executar unia
abeoPuta do T C a t n p . o
r e t o m a d a do a r g u m e n t o , a d i s c u s s ã o t e n d o atingido esse
segundo o tcunióc dos ePõs
p o n t o , ou seja, o e s t a b e l e c i m e n t o da E a c o d e m ô i i i u , a
sob um goucíno íi.wsfocsnlipo
r e s p e i t o d o q u a l vós v e r d a d e i r a m e n t e d e e l a r a s t e s ter
ou monósquíco o o tacciío um
s i d o ele b e m c o m o o de C r e t a f u n d a d o s em leis a f i n s . O
p.sfndo /«oífc íum Gelado no
curso tortuoso de nossa discussão e nossa excursão por
pPfltooic pomo yprcti), que c
várias formas de governo e fundações resultaram n u m
opípspntodo como dcmocMideo
grande ganho: discernimos um primeiro, um segundo e
cm :.J 'VffúMiCfí. (n.l.)
um terceiro Estado,» * todos, c o m o s u p o m o s , s u c e d e n d o

144
Livro III

um ao outro nas fundações q u e ocorreram no desenro-


lar de m u i t a s e l o n g u í s s i m a s eras, E a g o r a surgiu este
quarto E s t a d o , • • • o u nação, s e o p r e f e r i s , q u e esteve,
outrora a c a m i n h o de s u a f u n d a ç ã o e está agora funda-
o S < !
d o . Se p u d e r m o s c o n c l u i r de t u d o isso (piais d e s s a s fun- *** ' 1*"'" f i s l n d n
1 0,
d a ç õ c s e s t a v a m c o r r e t a s e q u a i s , e r r ô n e a s , q u a i s leis v- ''' segundo "Tfetóo, «»»o
g a r a n t e m a s e g u r a n ç a do q u e e s t á s e g u r o , q u a i s a r r u i - eoii|f,dc»oeão de. fítc.e Estados
n a m aqiúlo q u e está a r r u i n a d o e quais transformações flssocmdos. '

(em rjuais p a r t i c u l a r i d a d e s ) p r o d u z i r i a m a felicidade


d o E s t a d o - t e r e m o s , e n t ã o , Megilo e Clínias, q u e d e s c r e -
ver essas coisas n o v a m e n t e , r e c o m e ç a n d o do início - a
menos q u e n ã o t e n h a m o s nenhuma, objeção às nossas
prévias afirmações.

Megilo: P o s s o a s s e g u r a r - t e , e s t r a n g e i r o , q u e s e a l g u m d e u s
n o s p r o m e t e s s e q u e f a z e n d o essa s e g u n d a t e n t a t i v a d e
investigação d a legislação o u v i r í a m o s u m discurso q u e
n ã o seria pior n e m m a i s curto d o q u e este q u e estamos
a c o m p a n h a n d o , eu, de m i n h a parte, faria um longo
c a m i n h o p a r a ouvi-lo, e esse d i a me p a r e c e r i a curto,
e m b o r a d e fato e s t e j a m o s p r ó x i m o s d o solstício d e v e r ã o ,

O ateniense: A s s i m me parece q u e d e v a m o s prosseguir


com nossa investigação.

Megilo: C o m t o d a a c e r t e z a .

O ateniense: M u i t o b e m ! Então vamos nos transportar


pelo p e n s a m e n t o à q u e l a época q u a n d o a L a c e d e m ô n i a ,
j u n t a m e n t e com Argos, a Messênia e suas possessões
foram completamente submetidos, Megilo, a vossos
a n t e p a s s a d o s . S e g u n d o a tradição, eles se d e c i d i r a m em
seguida pela divisão de suas hostes em três partes e pela
f u n d a ç ã o de três E s t a d o s , a s a b e r : Argos, M e s s ê n i a e
Eneedemônia.

Megilo: Perfeitamente.

O ateniense: E Tememos tornou-se rei de Argos,


Cresfontes da Messênia, e Prócles e E u r í s t i n e s da
Lacedemônia.

Megilo: Estou de a c o r d o .

O ateniense; E todas as populações daquela época


j u r a r a m q u e s o c o r r e r i a m esses reis se alguém tentasse
d e s t r u i r seu r e i n o s .

Megilo: Exatamente.

145
Platão - As Leis

O ateniense: E a d i s s o l u ç ã o d e u m r e i n o o u d e q u a l q u e r
g o v e r n o q u e j a m a i s foi d i s s o l v i d o a n t e s c a u s a d a p o r
q u a l q u e r o u t r a a ç ã o salvo a d o s p r ó p r i o s g o v e r n a n t e s ?
Ou será q u e tendo colocado esta q u e s t ã o há pouco q u a n -
do tratamos dessa matéria a esquecemos agora?*

M e l l K C o m o o d e r í a l n o s t M
• ê akmm » o o » P « esquecido?
Çftuol. (n.t.) O ateniense: B e m , d e s t a v e z e s t a b e l e c e r e m o s m e l h o r
n o s s a tese p o i s a p o r t a m o s à m e s m a d o u t r i n a a g o r a , p e l o
q u e p a r e c e , a o l i d a r c o m fatos históricos. E p o r c o n s e -
guinte n ã o nos deteremos no seu e x a m e em abstrato
m a s n o s r e f e r i n d o a e v e n t o s efetivos. O r a , o q u e a c o n t e -
c e u r e a l m e n t e foi o s e g u i n t e : c a d a u m a d a s t r ê s c a s a s
reais e as c i d a d e s a elas s u b m e t i d a s j u r a r a m e n t r e si
s e g u n d o a s leis q u e h a v i a m e s t a b e l e c i d o o b r i g a n d o t a n t o
governantes q u a n t o súditos, q u e os primeiros com o
p a s s a r do t e m p o e o progresso da raça se conteriam no
sentido de n ã o t o r n a r s u a a u t o r i d a d e m a i s severa, e q u e
os segundos - e n q u a n t o os governantes se mantivessem
fiéis a s u a p r o m e s s a - j a m a i s t r a n s t o r n a r i a m a m o n a r -
q u i a eles m e s m o s , c o m o t a m b é m n ã o p e r m i t i r i a m q u e
o u t r o s o fizessem; e a m b o s , g o v e r n a n t e s e povos s u b m e -
tidos, j u r a r a m q u e os reis d e v e r i a m auxiliar t a n t o reis
q u a n t o povos em caso de injustiça, e os povos tanto po-
v o s q u a n t o r e i s e m c a s o i d ê n t i c o . N ã o e r a isso?
Megilo: Era.

O ateniense: N a s f o r m a s de governo l e g a l m e n t e estabe-


lecidas - pelos reis ou p o r o u t r o s - n o s três E s t a d o s , n ã o
e r a este o p r i n c í p i o m a i s i m p o r t a n t e ?

Megilo: Qual?

O ateniense: A q u e l e s e g u n d o o q u a l dois E s t a d o s deve-


r i a m s e m p r e se u n i r c o n t r a o terceiro s e m p r e q u e este
d e s o b e d e c e s s e as leis e s t a b e l e c i d a s .

Megilo: E v i d e n t e m e n t e era.

O ateniense: O r a , c e r t a m e n t e a m a i o r i a d a s p e s s o a s i n -
sistiam q u e os legisladores deveriam p r o m u l g a r um tipo
dc leis q ue a m a s s a p o p u l a r a c e i t a s s e v o l u n t a r i a m e n t e ,
d o m e s m o m o d o q u e s e insistiria p a r a q u e treinadores
e médicos t r a t a s s e m e c u r a s s e m os corpos h u m a n o s de
maneira agradável.

Megilo: I s s o é e x a t o .

146
Livro III

0 ateniense: Mas na verdade amiúde temos que nos


c o n t e n t a r c o m o f a t o de a l g u é m l e v a r a s a ú d e e o v i g o r a
u m c o r p o s e m d o r excessiva.

Megilo: E s s a é a p l e n a v e r d a d e .

O ateniense: O s h o m e n s d a q u e l a é p o c a c o n t a v a m c o m
u m a o u t r a v a n t a g e m q u e e r a d e g r a n d e v a l i a p a r a faci-
litar a legislação.

Megilo: E q u a l e r a e l a ?

0 ateniense: S e u s l e g i s l a d o r e s , n o s o u e m p e n h o d e e s t a -
belecer a i g u a l d a d e d o s b e n s , e s t a v a m livres d a p i o r d a s
acusações que acontecem comumente em Estados onde
v i g o r a m leis d e t i p o d i v e r s o , q u a n d o q u a l q u e r um. s e
p r o p õ e a t r a n s t o r n a r a o c u p a ç ã o da t e r r a ou p r o p õ e a
a b o l i ç ã o d a s d í v i d a s visto q u e p e r c e b e q u e s e m a a d o -
ç ã o d e s s a s m e d i d a s a i g u a l d a d e n u n c a p o d e r i a ser ple-
n a m e n t e assegurada. Em tais casos, se o legislador ten-
tasse transtornar q u a i s q u e r dessas coisas, todo um povo
o confrontaria dizendo-lhe p a r a não m u d a r o imutável,
e o a m a l d i ç o a r i a p o r i n t r o d u z i r r e d i s t r i b u i ç õ e s de ter-
r a s e supressões de dívidas, r e d u z i n d o todos à impotên-
cia. M a s os dórios d i s p u n h a m dessa v a n t a g e m adicio-
n a l , p e l a q u a l e s t a v a m livres d e t o d o m e d o d e c a u s a r
animosidade: p o d i a m dividir sua terra sem contesta-
ç ã o e n ã o t i n h a m d í v i d a s de m o n t a e a n t i g a s . * •

Megilo: E verdade. • • O s doutos imindiitani o


c
O ateniense: O r a , c o m o e x p l i c a r , e x c e l e n t e s s e n h o r e s , o Petefio«eso, se cstafccftceso»
fato de seu estabelecimento e s u a legislação t e r e m se e po* dincito de ««quisto
tornado tão ruins? podiom rjoge» o que bem fe
enlcndcsse. ».màme.no
Megilo: O q u e q u e r e s d i z e r ? Q u e f a l h a p o d e s a í e n c o n t r a r ?
de dine.itos po» pente, dos
O ateniense: Esta: havendo três Estados estabelecidos, ontiqos pMiptietó.iios de tejtras
dois deles, • • • r a p i d a m e n t e d e s t r u í r a m sua constitui- ou e«edo»es cm. ponto»to,
ç ã o e s u a s leis, a p e n a s u m d e l e s p e r m a n e c e n d o está- infidmissiVcP.
v e l . . . e e s t e foi o t e u E s t a d o , Megilo.
(n.t.)
Megilo: E s t a q u e s t ã o n ã o é n a d a fácil.
• • • ©u scjn, -jbr-jns o o
O ateniense: E n o e n t a n t o e m n o s s o e x a m e e i n v e s t i g a - -jtlcssênia. (n.t.)
ç ã o deste a s s u n t o , n o s d e d i c a n d o a o jogo s ó b r i o d a s leis
da m a n e i r a q u e compete a h o m e n s velhos, é imperioso
q u e prossigamos em nossa jornada sem pesar, como
dissemos q u a n d o partimos.

147
Platão - As Leis

Megilo: C e r t a m e n t e , é p r e c i s o q u e f a ç a m o s c o m o d i z e s .
* Conjoime o feudo, esposo O ateniense: B e m , q u e l e i s o f e r e c e r i a m m e l h o r a s s u n t o
de Sewíwjmis, Jundodofi do p a r a i n v e s t i g a ç ã o d o opie a s l e i s p e l a s q u a i s a q u e l e s
Anpówo O S S Í M O e íiosponsóücí Estados eram governados? Ou, existiriam Estados maio-
jioCo oonstwçÃn do ^Alútirt: po» res ou m a i s notórios em relação aos q u a i s p u d é s s e m o s
lioftn do 2 2 0 0 o. C.. >-Alino investigar o estabelecimento?
teia sido assassinado po»
Megilo: S e r i a difícil e n c o n t r a r e x e m p l o s s u p e r i o r e s a esses.
«<fe» do Soniíwmis. (n.l.)
O ateniense: E b a s t a n t e óbvio q u e as p e s s o a s d a q u e l a
** fisfa cvp.iossõo, constante época visavam com sua organização a suprir u m a prote-
nos itiseiiiçõcs do Ci»o, em ção a d e q u a d a n ã o só p a r a o Peloponeso como t a m b é m
p.toioeoiaí pn/rfl a designação para toda a H c l a d e no caso de um a t a q u e de qualquer
dos pode/tosoc u m d a % « , povo b á r b a r o , e x a t a m e n t e c o m o os antigos h a b i t a n t e s
inas t hem posséJef. que d o território d e llion s e h a v i a m s e n t i d o n a sua arrogân-
Tfotno se wffiWsse cia e s t i m u l a d o s a e m p r e e n d e r a G u e r r a de T r ó i a confian-
oepeoijieoí«on(o ao eonliwpoMW do no p o d e r assírio c o m o este fora no r e i n a d o de
u t a a m n s II. sei do (
P<"»BÍO Nino,' pois m u i t o d o esplendor d a q u e l e I m p é r i o a i n d a
e.nl»o 4 0 5 e 3 S g a. (!.. que subsistia e as pessoas d a q u e l a é p o c a t e m i a m o s e u po-
( m i a eoPebtado oi« 8 8 7 a. C. d e r c o n f e d e r a d o , t a l c o m o n ó s h o j e t e m e m o s o Orande
um ttafado oo» fispaífa que Rei.'* P e l o f a t o d e T r ó i a t e r s i d o u m a p a r t e d o I m p é r i o
punda fim a todas os assírio, a s e g u n d a • * • t o m a d a de Tróia representava u m a

coi>fode»açõcs ItePêniens.
séria a c u s a ç ã o c o n t r a o s gregos. Foi e m f u n ç ã o d e t u d o
isso q u e a s forças d ó r i a s e s t a v a m n a q u e l a é p o c a organi-
*** psimeisa tomada dc
z a d a s e distribuídas entre três Estados sob a soberania
Tlióia c mencionado; pm de p r í n c i p e s i r m ã o s , os filhos de H é r a c l e s , « * • • o q u e
rííotKfJio no canlo -Ti (640 e era considerado admirável e nos seus recursos superior
seys.) da SPiarifl como afeta m e s m o à s forças q u e h a v i a m m a r c h a d o c o n t r a T r ó i a , pois
de TMésacPes (vJióseuPes) os h o m e n s estimavam, em primeiro lugar, q u e dispu-
duíionte o «oino dc '-lioomcdoti, n h a m de m e l h o r e s c h e f e s do q u e os pelópidas • • • • • n a s
pní dc (n.t.)
'PÍÍOJHO. p e s s o a s d o s filhos de H é r a c l e s c em s e g u n d o l u g a r q u e
. . . . (f) . HpaKÍxtSat
r
esse exército e r a d e valor s u p e r i o r a o exército q u e r u m a -
(fidos de ^((iioeSes) jrí r a p a r a T r ó i a , este ú l t i m o , a q u e u , t e n d o s i d o d e c i d i d a -
mencionados amm Qcmenos. m e n t e d e r r o t a d o pelo p r i m e i r o , q u e e r a dório. N ã o deve-
r í a m o s n ó s s u p o r q u e e r a d e s s a m a n e i r a , e c o m e s s a in-
sobeíono de ._4»gos. 'piióefe
tenção q u e os homens daquela época se organizavam?
e P,(i«íslinos da idíae.ônía e
Om^mim da ^ilessôiiiain.t.)
Megilo: Certamente.
•**•• f)s I leXomôai
O ateniense: N ã o é t a m b é m p r o v á v e l q u e s u p u n h a m s e r
(jiílos dc '-PéCops) cio» os
esse um sistema estável e t e n d e n t e a p e r d u r a r muitíssi-
elwfes gtegos do cosco o
m o t e m p o v i s t o q u e t i n h a m c o m p a r t i l h a d o m u i t o s la-
'i'J»óia: \A gnmoiioii. Í C Í de
b o r e s e perigeis, e e r a m c o m a n d a d o s p o r c h e f e s d e u m a
..Aliecítns e de trigos, e ú n i c a família (sendo s e u s principies, i r m ã o s ) c visto q u e ,
.^'UenePau, /iei de ademais, h a v i a m consultado vários adivinhos e, entre
P,spfi*ta.{n.l.) o u t r o s , Apoio em Delfos?

148
Livro III

Megilo: N ã o h á d ú v i d a q u e i s s o é p r o v á v e l .

O ateniense: Mas parece que tais g r a n d e s expectativas


desvaneceram celereinente, com a ú n i c a exceção, c o m o o
d i z e m o s , d e u m a p e q u e n a p a r t e , o vosso E s t a d o d a Laoô
n i a ; c d e s d e e n t ã o a t é a a t u a l i d a d e e s s a p a r t e n u n c a ces-
s o u de fazer g u e r r a c o n t r a as o u t r a s d u a s , e todavia se o
p l a n o original tivesse sido c o n c r e t i z a d o n o s e n t i d o d a
u n i ã o , u m p o d e r bélico invencível teria sido c r i a d o .

Megilo: I s s o c o m t o d a a c e r t e z a .

O ateniense: E n t ã o c o m o e p o r q u e m e i o s t a l p l a n o foi
frustrado? N ã o valeria a p e n a inquirir q u e golpe do
destino • • • • • • teria arruinado uma união políti- . . . . . . TUXT), 0 jojtimo. 0
ca • • • • * » • tão grandiosa?
OCOCO, 0 Sft*! fcs *.5jCS
Megilo: S i m , p o i s c a s o se. n e g l i g e n c i a s s e t a l c o i s a , p r o v a fcmáxf c f r % . às «fjps
velmente não se encontraria alhures constituições ou dcejflOWiueP s iii^ííg). (n.t.)
leis q u e p r e s e r v a s s e m i n t e r e s s e s t ã o l e g í t i m o s e g r a n d i o - . . . . . . . jl j { :, ,
) 0 a i (

sos ou q u e , ao c o n t r á r i o , os a n i q u i l a s s e m c a b a l m e n t e . 0UCTTT)pa no sou sentido


O ateniense: Neste ensejo, então, por u m a felicidade, 1
&tM0J OWjitmí S!(|liií.ifOM
c o m o p a r e c e , e m b a r c a trios n u m a i n v e s t i g a ç ã o d e c e r t a eim|ifositicníe rosi/Mt/o. MftMíi,
importância. tcwtião, dapns/fâô, mo

Megilo: Indubitavelmente. iin|ift"f!Oiiflr! neecesaMomcnlo no


CPKWtto de um conjunto coeso
O ateniense: O r a , m e u c a r o s e n h o r , n ã o i m a g i n a m i n c o n s -
e owjraitgfido no quuí Iodos OS
c i e n t e m e n t e os seres h u m a n o s em geral, c o m o nós presen-
[íoiifes eonhitiuem peno o
t e m e n t e , q u e ti>do b e l o o b j e t o e m q u e p o u s a m o o l h a r p r o -
|iei^eifo fitiieionnidoflf do
duziria resultados maravilhosos se alguém simplesmente
lodo. rpie é o eoneelto modismo
compreendesse a m a n e i r a correta de lazer um bom uso
de Vr.iftw. ^4qni
dele? C o n t u d o , n o q u e c o n c e r n e a nós, s u s t e n t a r u r n a tal
especi^ícomailc o conceito se
idéia relativamente a o a s s u n t o q u e d e p a r a m o s seria pos-
ri|wovii»o muito do conceito de
sivelmente tanto errado q u a n t o contrário à natureza, o
CTltffdfMlçáo
m e s m o sendo verdadeiro em conexão c o m todos os outros
(au.<|>tKTiovia,
casos n o s q u a i s os h o m e n s s u s t e n t a m tais idéias.
au(|)iKTiX)Vta). (n.l.)
Megilo: O q u e q u e r e s d i z e r ? E q u e d i z e r m o s d o q u e s e -
ria o propósito de t u a s palavras?

O ateniense: Ora, meu b o m senhor, é de m u n m e s m o


q u e a c a b o d e z o m b a r , p o i s q u a n d o c o n t e m p l e i e s s a or-
g a n i z a ç ã o d a q u a l e s t a m o s f a l a n d o julguei-a urna coisa
e s t u p e n d a e p e n s e i q u e s e a l g u é m t i v e s s e feito u m b o m
u s o dela. n a q u e l a é p o c a , t e r i a s e r e v e l a d o , c o m o disse,
u m t e s o u r o prodigioso p a r a o s gregos.

149
Platão - As Leis

Megilo: E n ã o foi a b s o l u t a m e n t e a c e r t a d o e . s e n s a t o d e
t u a p a r t e d i z e r isso, e da n o s s a endossá-lo?

0 ateniense: T a l v e z , e m b o r a e u c o n c e b a q u e t o d o s q u a n -
do c o n t e m p l a m algo g r a n d e , p o d e r o s o e vigoroso s ã o ins-
t a n t a n e a m e n t e atingidos pela convicção de q u e se seu
possuidor soubesse como empregar um instrumento de
tal m a g n i t u d e e q u a l i d a d e , p o d e r i a p r c i m o v e r s u a p r ó p r i a
felicidade m e d i a n t e m u i t a s realizações maravilhosas.

Megilo: E n ã o é e s s a u m a c o n v i c ç ã o l e g í t i m a ? Q u e t e
parece?

O ateniense: E x a m i n a p o i s a s c o n s i d e r a ç õ e s q u e , e m re-
l a ç ã o a q u a i s q u e r objetos, conferem l e g i t i m i d a d e a esse
louvor. E a c o m e ç a r pelo a s s u n t o neste m o m e n t o discuti-
do: se os h o m e n s que se achavam então c o m a n d a n d o o
exército s o u b e s s e m c o m o o r g a n i z a r c o n v e n i e n t e m e n t e
s u a s forças, c o m o t e r i a m l o g r a d o o êxito? N ã o deveria
ter sido c o n s o l i d a n d o tais forças com firmeza e as con-
servando perpetuamente, de modo que poderiam tanto
assegurar s u a p r ó p r i a liberdade «pianto ser senhores de
t o d o s a q u e l e s q u e escolhessem, e de m o d o q u e eles e seus
filhos p u d e s s e m fazer o q u e lhes a p r o u v e s s e m através do
m u n d o d o s gregos b e m c o m o d o m u n d o d o s b á r b a r o s ?
N ã o seriam essas as razões pelas q u a i s s e r i a m louvados?

Megilo: Certamente.

O ateniense: E e m t o d o s o s c a s o s e m q u e a l g u é m faz o
discurso do louvor a n t e a opulência, ou à vista de hon-
ras q u e d i s t i n g u e m famílias ou de q u a l q u e r o u t r a coisa
d o g ê n e r o , n ã o s e r i a c o r r e t o d i z e r q u e a o e m p r e g a r tal
d i s c u r s o , esse a l g u é m tivesse s o b r e t u d o e m m e n t e q u e é
provável q u e o p o s s u i d o r dessas coisas concretizaria
todos, ou. ao m e n o s , a m a i o r i a e os m a i s caros entre os
seus desejos?

Megilo: P a r e c e - m e s e r i s s o p r o v á v e l .

0 ateniense: O r a , v e j a m o s . . . h á a l g u m d e s e j o - a p o n t a -
do p o r n o s s a d i s c u s s ã o - q u e seja c o m u m a t o d o s os
seres h u m a n o s ?

Megilo: Q u a l s e r i a e s s e ?

O ateniense: A q u e l e s e g u n d o o q u a l t u d o - o u a o m e n o s
t u d o q u e é h u m a n a m e n t e possível - acontecesse de acor-
do com as exigências de nossa alma.

150
Livro III

Megilo: Com certeza.

O ateniense: B e m , c o n s i d e r a n d o - s e s e r este o n o s s o d e s e j o
c o m u m e c o n s t a n t e , seja n a i n f â n c i a , n a m a t u r i d a d e o u n a
v e l h i c e , d e v e r i a m s e r a favor d e l e n o s s o s c o n t í n u o s votos?

Megilo: M a s é c l a r o .

O ateniense: A d e m a i s , em n o m e de n o s s o s a m i g o s so-
m a r í a m o s a o s s e u s n o s s o s p r ó p r i o s votos.

Megilo: Com certeza.

O ateniense: O r a , u m f i l h o , q u e é u m a c r i a n ç a , é a m i g o
do h o m e m q u e é seu pai.
Megilo: Certamente.

O ateniense: E, no entanto, um pai pedirá freqüentemente


a o s d e u s e s q u e a s c o i s a s q u e s e u filho solicita p o s s a m n ã o
s e r d c m o d o a l g u m c o n c e d i d a s c o n f o r m e o voto d o filho.
Megilo: Q u e r e s d i z e r q u a n d o o f i l h o q u e s u p l i c a é a i n -
da j o v e m e tolo?

0 ateniense: S i m , e t a m b é m q u a n d o o p a i , o u p o r s e r j á
velho ou p o r ser jovem d e m a i s , destituído de t o d o senso
d o d i r e i t o e d o j u s t o , c e d e a v e e m e n t e s s ú p l i c a s a favor d a
p a i x ã o ( c o m o a q u e l a s d e T e s e u c o n t r a H i p ó l i t o , q u e en-
c o n t r a u n i fim d e s v e n t u r a d o • ) , e n q u a n t o o filho, a o c o n - • íAmado de. to (ratado
trário, d i s p õ e de um senso de justiça. E neste caso s u p õ e s dcsoMOí 'xíedko, suo
q u e o filho a c o m p a n h a r á o p a i n a s súplicas deste? mndiwisla, Wipóftlo fltwiiu o
Megilo: C o m p r e e n d o o q u e rpieres dizer. O q u e preten- | a n dc vleseu, m pau o
des dizer, a m e u ver, é q u e a q u i l o q u e u m h o m e m deve quoP eijcíiijmnfiiiu" iMoeott m
s u p l i c a r e a n e l a r pelos seus votos n ã o é q u e t u d o cami- fwónitío pof (o deus 'Poscidon)

n h e s e g u n d o seu p r ó p r i o desejo - visto q u e seu desejo uma moídiçõo c o n t a o |ítto,


Quiottdo suo bígo. ÇtíipóCito
de m a n e i r a alguma acata sua própria razão. E sim pela
{oi irtaceptodo poa um tomo,
vitória da r a c i o n a l i d a d e q u e todos nós - tanto E s t a d o s
que eni/iodo po« •Ttoscídon
q u a n t o indivíduos - devemos suplicar e lutar.
ossosío» os eoDofos; estes
0 ateniense: S i m , e q u e , e u a t i v a r i a v o s s a m e m ó r i a b e m
desequiPibttttont o biga,
c o m o a m i n h a , d e c o m o foi d i t o (se b e m o l e m b r a i s ) n o
cousfudo o quedo de
princípio q u e o legislador do Estado ao estabelecer suas
tUipófito. que oiiido p»e.so ò
d e t e r m i n a ç õ e s legais, t e m s e m p r e q u e levar em c o n t a a
mesmo {oi ottostado oté o
racionalidade. A injunção que apresentastes 6 que o
iitoiiíc. (n.t.)
b o m l e g i s l a d o r t i n h a q u e m o l d a r t o d a s s u a s leis c o m
vistas na g u e r r a ; eu, por outro lado, sustentei q u e e n q u a n -
to c o n f o r m e vossa i n j u n ç ã o as leis fossem m o l d a d a s ten-
d o c o m o referencial a p e n a s u m a d a s q u a t r o virtudes, e r a

1S1
Platão - As Leis

•... i()povr)CTiç 8 E I T | r e a l m e n t e essencial considerar a virtude total e a c i m a de


T O U T O K C U V O Ü Ç Kttt tudo dar conta da principal virtude entre as quatro, a qual
8 o £ , a . . . ij, luqrn. o é a sabedoria, a razão e a opinião, * associadas à paixão e
páincipoP iwtude psopíW.afnenfe ao d e s e j o * • q u e as a c o m p a n h a m . E a g o r a a d i s c u s s ã o re-
dita é o sabcdo.wo t o r n o u o u t r a vez a o m e s m o p o n t o , d c sorte q u e r e p i t o nes-
( u ) p o v r | m ç ) , o lHtf.0en.to e o te m o m e n t o m i n h a afirmação anterior, a título de grace-
OpiniOO SCildo OS «(CePoS C jo, s e p r c f e r i s , o u c o m g r a v i d a d e . E s t i m o q u e a s ú p l i c a
»oc«sos indíspensáais pm c o n s t i m i u m a p r á t i c a perigosa p a r a a q u e l e q u e está pri-
atingi-la. (n.t.) v a d o d a r a z ã o e q u e o q u e ele o b t é m é o o p o s t o d e s e u s
desejeis, p o i s s e g u r a m e n t e e s p e r o q u e , n a m e d i d a q u e
"... € p ( O T O Ç T E Kttt
a c o m p a n h a i s o a r g u m e n t o recém-proposto, percebereis
e m O u p t a ç . . . , o dmjo
q u e a c a u s a da r u í n a desses reinos e de seu projeto na
smmée o apti/ik mm
t o t a l i d a d e n ã o foi a c o v a r d i a o u a i g n o r â n c i a d a a r t e d a
tradução mais pwVimo do
guerra por parte dos governantes ou daqueles que deviam
PiíeítaPidadc, (n.t.)
ter sido seus súditos, m a s q u e a q u i l o q u e o s a n i q u i l o u
**•... e a v 0 e o ç f o r a m vícios d e o u t r o s g ê n e r o s , e e s p e c i a l m e n t e i g n o r â n -
e O c ^ T ] . . . . fi perfeitamente c i a d o s i n t e r e s s e s m a i o r e s d a h u m a n i d a d e . Q u e e s t e foi o
oobúJeJ do ponto ds uisla curso dos eventos então, q u e a i n d a p e r d u r a sempre q u e
jiWógioo oejui todujis tais eventos o c o r r e m e q u e será s e m e l h a n t e no futuro -
montado deus no SÜKJBPO*. isto, c o m v o s s a p e r m i s s ã o , m e e m p e n h a r e i e m d e s c o b r i r
Cfmiac podouo te* em mente n o d e c o r r e r d a p r ó x i m a d i s c u s s ã o , t o r n a n d o - o o m a i s cla-
um dm em pa»tieufos, rfigninos r o q u e p o s s a a vós, m e u s e x c e l e n t e s a m i g o s .
o deus mais pnestigiado dc
( V i a . 'Discordamos, Clínias: C u m p r i m e n t o s verbais t ê m peso precário, cs

entíietanto, dc fcwdugi/i po» trangeiro. Mas pela ação, se n ã o pela palavra, prestare-
<Zkm (... m Daiis qwsnt...) m o s a ti os m a i s elevados c u m p r i m e n t o s a t e n t a n d o an-
pois o monoteístno com base s i o s a m e n t e a o t e u d i s c u r s o , e é a s s i m q u e o h o m e m livre
num "DIIUS úiiifto taiiscendonto, demonstra se os cumprimentos são espontâneos ou não.
destituído dc owíMades c O ateniense: Muito bem, Clínias. F a ç a m o s como dizes.
allibutos liumaiios (da
Clínias: A s s i m s e r á , s e o s d e u s e s o q u i s e r e m . • * • A p e -
concepção |udoíco, po*
nas prossegue falando.
erempfc) é tetaPmcnío csl»f»ilio
O ateniense: B e m , a f i m d e a v a n ç a r n a s e n d a d c n o s s a
à teíigiosidode g tego c.
;

d i s c u s s ã o , a f i r m a m o s q u e foi a i g n o r â n c i a s o b s u a for-
incompatíucf com sua
ma mais aguda que naquela época destruiu o poder
mitofogio. (n.t.)
que descrevemos, e que, naturalmente, continua pro-
* * * • a v o i a é o negação d u z i n d o os m e s m o s resultados; e se assim é, conclui-se
ou ausência da v o i g a i ç , rpm q u e o legislador precisa procurar instalar nas cidades o
é o jaeuPelodo ele pensa», o m á x i m o p o s s í v e l ele s a b e d o r i a e d e s e n r a i z a r a e s t u l t í -
intePiqíncío, sendo assim eia • • • • o m á x i m o q u e s e u p o d e r o permitir.
Ptlowrfmcntc o inidtêgmia.
Clínüis: Obviamente.
JnoPogamenfe. o poPomo
O ateniense: Que ignorância mereceria ser c h a m a d a a
a y v o t a (ignosâneia) designa
o negação ou Poeuno de maior? V e d e s e v ó s c o n c o r d a i s c o m m i n h a d e f i n i ç ã o . . .

y v o x n ç (e.oníiee.imento); p a r a m i m é esta...
PPolão também cjnpíioga ouUn
poPruio jownnaa com o fmjfm

152
Livro III

dc. ncgoçòn a pa»o designa» a


Clínias: Qual?
iíjnciítâwsn. deseonfccimcnlo,
O ateniense: A q u e v e m o s n a q u e l e q u e o d e i a em lugar ((iip. c. a u a O t a , o ous&eia
de a m a r a q u i l o q u e julga ser n o b r e e b o m , ao m e s m o da | i u ü r ) c u ç eu
t e m p o q u e a m a e a c a r i n h a o q u e julga ser m a u e injus- ua8T|jirjt (iustaiçãa, «iêncio.
to. E s s a falta d e h a r m o n i a e n t r e o s s e n t i m e n t o s d e d o r ccníipeitnento). (n.t.)
e p r a z e r e o d i s c e r n i m e n t o r a c i o n a l é, eu o s u s t e n t o , a ***** ()aimimelf% ama
extrema f o r m a de i g n o r â n c i a e também a maior p o r - onaPogio cnljc O Selado
q u e é p e r t i n e n t e à m a i o r p a r t e da a l m a , ou seja, a q u e l a ÍTtOÀtç) r. a afina (vjyuxr|).
q u e sente dor e prazer, correspondente à massa popu- Como cm otefofcíte. polia
l a c i o n a l do E s t a d o . • • • • • Assim s e m p r e q u e essa p a r t e VQrtãa a riíwa (WÍMIUO c,
se opõe ao que por natureza são os princípios regulado- compAs» c licte.wgênca, um
res ( c o n h e c i m e n t o , o p i n i ã o ou razão), c h a m o essa con- todo constante que necessito
d i ç ã o d e estultíc.ia seja n u m E s t a d o ( q u a n d o a s m a s s a s m noinogonigado. Aíeste caso
L

d e s o b e d e c e m o s g o v e r n a n t e s e a s leis), s e j a n u m i n d i v í -
1
Wolãn eompo«o a fcí
d u o ( q u a n d o o s n o b r e s e l e m e n t o s r a c i o n a i s q u e exis- (voftoç). iísfaoicifirc do
t e m n a a l m a n ã o p r o d u z e m n e n h u m b o m efeito, m a s icgpiitc do £'stado, à mgão
p r e c i s a m e n t e o contrário). Todas estas eu teria na con- (Koyoq, V Ü U Ç - o pa,ttc. da
t a d a s m a i s d i s c o r d a n t e s f o r m a s d e i g n o r â n c i a , seja n o afina a que c a l » otaa» como
e.Pemeiito «cgeute no indiiíduo).
E s t a d o ou no indivíduo, e n ã o a ignorância do artesão,
Sn sumo, no fisloda como na
se é q u e me entendeis, estrangeiros.
oPma íiumono lia uma pa»tc rjue
Clínias: E n t e n d e m o s , c a r o a m i g o , e c o n c o r d a m o s . dm gowMo» e autua a se*
O ateniense: E n t ã o q u e f i q u e a s s i m r e s o l v i d o e d e c l a r a - gotciiKodo. mas a pMnwina
poste (a jKvjno o« a ki do
do q u e n e n h u m controle será confiado a c i d a d ã o s de-
gwcwante,
t e n t o r e s d e t a l i g n o r â n c i a , m a s s i m q u e e s t e s s e r ã o re-
provados por sua ignorância, m e s m o sendo experientes iíifeíoíWntc
no raciocínio, treinados em todas as habilidades e em OlKO<t>(k>pOÇ, que
tudo que promove a agilidade da alma, enquanto aque- fiiienicníe poderíamos undují.»
les q u e d e t ê m u m a d i s p o s i ç ã o m e n t a l o p o s t a a e s s a , como nqucfe que rmuíKO m
deverão ser considerados sábios, até m e s m o se - como uegófínt domésticos, já que o
diz o provérbio " N ã o s a b e m n e m ler n e m n a d a r " . A conceito o i K t a P muito mais
estes últimos, c o m o a h o m e n s de senso, o governo deve- fato do que casa. (n.t)
r á ser c o n f i a d o , p o i s s e m h a r m o n i a , m e u s a m i g o s , c o m o quofifatiiompnte supe.tioí) c
p o d e r i a existir s e q u e r a m a i s í n f i m a fração de s a b e d o guniifitatiiomeníe ii^nío» à
ria? È impossível. E a maior e melhor d a s h a r m o n i a s segunda paute (constituído pejo
seria tida c o m justeza c o m o a m a i o r sabedoria, da q u a l insfiiiliiO e a emocionai na
c o m p a r t i l h a a q u e l e q u e vive s e g u n d o a r a z ã o , e n q u a n - nfma c a mossa dc go*,tnados
to a q u e l e a q u e m ela falta s e m p r e se revelará um des- no ísiado). embata 'TÍVilão
t r u i d o r d e c a s a s * * * * ' ' e j a m a i s u m s a l v a d o r d o Esta- distingo o sentimento, o poftõo
do devido a sua ignorância dessas matérias. Portanto, (Bllpoç) do desejo, apetite
q u e tal e n u n c i a d o p e r m a n e ç a , conforme o dissemos há (eretOupta), suo onaíVigío é
pouco, como um dos nossos axiomas. láfido e eficiente pois avim
deite» sc» eoni»oíadoe pefa
10-300. (n.l.)

153
Platão - As Leis

CUnias: Que permaneça.

O ateniense: N o s s o s E s t a d o s , p r e s u m o , n e c e s s i t a m c o n -
tar com governantes e governados.

CUnias: É claro.

O ateniense: M u i t o b e m . Q u a i s e q u a n t o s s ã o o s t í t u l o s
ou direitos, sob consenso, de a u t o r i d a d e e de obediên-
cia existentes t a n t o nos Estados, g r a n d e s ou p e q u e n o s ,
como nos ambientes domésticos? N ã o será um deles o
do p a i e da m ã e ? E, no geral, n ã o será o direito dos pais

• LA ftesficito da aulokidade c, de governar seus d e s c e n d e n t e s u n i v e r s a l m e n t e justo?»

diluída das pais, um dos CUnias: Certamente.


oCicenees da cidade, antiga, c
O ateniense: E d e p o i s d e s s e o d i r e i t o d o n o b r e g o v e r n a r
bastante (wo*itosa a Peitaa
o n ã o - n o b r e , • • e a s e g u i r c o m o um t e r c e i r o d i r e i t o , o
dc lA Cidade cAntiga, dc,
d o s m a i s v e l h o s g o v e r n a r e m e o s m a i s j o v e n s s e r e m go-
cKisteP dc CouPanges, fftod. dc
vernados. • • •
fídson ífiüii, (incsente nesta
CUnias: Está certo.
mesma Séíiie Clássicos
Sdipno. (n.t.) O ateniense: O q u a r t o d i r e i t o é o q u e e x i g e a o b e d i ê n c i a
dos escravos d i a n t e do m a n d o dos senhores.
•v.ysvvatouç
aysvvcov apxeiv.... CUnias: É indiscutível.
'-PPotão é pessoaCmcnte um O ateniense: E o q u i n t o é, eu o i m a g i n o , o do m a n d o do
aftistocftata c o gouewo guc m a i s forte s o b r e o m a i s fraco.
ideaPiga pana o seu modePo CUnias: Acabas de formular u m a forma de autoridade
soo.iaPista de fístado c verdadeiramente compulsória.
aitisiocitáHco, ou seja,
O ateniense: E q u e p r e d o m i n a e n t r e t o d o s o s s e r e s vi-
eoPocado nas meios dos
vos, s e n d o " d e a c o r d o c o m a n a t u r e z a " , c o m o o disse
a p n x u o v , os rnePíioies
P í n d a r o de Tebas. O m a i s i m p o r t a n t e título ou direito
[cidadãos], aqucPes que
é, a p a r e n t e m e n t e , o sexto, o q u a l d e t e r m i n a q u e a q u e l e
reuniam o moio/i númefto de
q u e carece de e n t e n d i m e n t o deve a c a t a r , e o s á b i o con-
lirfudes (sobedoJia, bftafuía,
duzir e c o m a n d a r . Ora, neste caso, m e u m u i sapiente
te.inpctattç.a, etc), Cim, na
Píndaro, eu n ã o diria certamente q u e é contra a n a t u
prática estes rafitn os mais
r e z a , p o r é m i n t e i r a m e n t e de a c o r d o c o m ela - a a u t o r i -
bom nascidos, os nohtcs. (n.t.)
d a d e e x e r c i d a s e m c o n s t r a n g i m e n t o p e l a lc;i s o b r e o s
* * * p.stó cPaio que o governados que a aceitam voluntariamente.
ducito de mandou de quem
CUnias: Uma justíssima observação.
goeowo ini|iPieo
O ateniense: O f a v o r d o s d e u s e s c da f o r t u n a c a r a c t e r i -
ncecBSfl.tiainente o deie» de
za a sétima forma de governo, na qual um h o m e m se
obedecei de quem é goecwado.
adianta p a r a um lance da sorte e declara q u e se g a n h a r
(n.t.)
s e r á c o m j u s t i ç a o g o v e r n a n t e , e se n ã o o c o n s e g u i r as-
s u m i r á s e u l u g a r e n t r e eis g o v e r n a d o s .

154
Livro III

CUnias: Corretíssimo.

O ateniense: " V ê , ó l e g i s l a d o r . . . , " e i s o q u e p o d e r í a m o s


dizer p a r t i c i p a n d o d o jogo d e u m d a q u e l e s q u e ence-
t a m d e s p r e o c u p a d a m e n t e o l a b o r l e g i s l a t i v o , "... q u a n -
tos são os direitos q u e c o n c e r n e m aos governantes, e
q u a l é a oposição essencial q u e os s e p a r a ? Descobri-
m o s a q u i agora u m a fonte d e divisões q u e deves reme-
diar. Assim, em p r i m e i r o lugar, junta-te a n ó s no inves-
tigar c o m o aconteceu e devido a q u e transgressão des-
ses direitos os reis de Argos e M e s s ê n i a p r o v o c a r a m a
r u í n a t a n t o p a r a s i c o m o p a r a o p o d e r d a G r é c i a , for-
midável c o m o era este n a q u e l a época. N ã o teria sido
através da ignorância d a q u e l e justíssimo dito de Hesío-
do, a saber, A m i ú d e é a m e t a d e maior q u e o todo'?" • • • • • • " l A j i f t m o e õ o Pogieomentc
No caso de ser p r e j u d i c i a l t o m a r o t o d o , s e n d o a m e t a - mulMiátóMa se eonsidcftodn
de suficiente, julgava ele c o n c l u s i v a m e n t e a favor da isoPodoinente, „OÍO de

superioridade do m o d e r a d o sobre o imoderado, do conterfo. L/Uns se o


melhor sobre o menos bom. eyotninaitmos em A
ÜMÒnfíios fi ps T)io<! e o
c

CUnias: Justíssimo, realmente.


eineuCasmos ei qucefrio aqui
O ateniense: E e n t ã o , a n o s s o ver, j u n t o a o s reis q u e
ttntodo poí ^Píofõn, ue»cmos
isso a p a r e c e u s u a l m e n t e p a r a a r u í n a deles ou j u n t o
que o que se cjuticn é ei p/iófwio
aos povos?
cieesso do podeit poPítioo. ou
CUnias: Provavelmente isso é, principalmente, uma sejo, se a sduocõo é toP que
d o e n ç a dos reis q u e se c o m p r a z e m na s o b e r b a e na nõo nesta o que fogo* senõo
voluptuosidade. optem entoe o todo oiwss/W e
O ateniense: N ã o é evidente q u e a q u i l o pelo q u e esses o mo/ode aqudd-imda, dcue-se
r e i s s e e m p e n h a r a m i n i c i a l m e n t e foi o b t e r o m e l h o r d a s p*ofe«i« esta úptiina. (n.t.)
leis e s t a b e l e c i d a s , e q u e n ã o e s t a v a m de a c o r d o e n t r e si
quanto ao que haviam prometido e jurado, de m o d o
que a discórdia gozando da reputação de sabedoria,
m a s r e a l m e n t e , c o m o a s s e v e r a m o s , o fastígio da igno-
r â n c i a - d e v i d o a s u a d i s s o n â n c i a e falta de h a r m o n i a ,
c o n d u z i u todo o m u n d o grego à r u í n a ?

Clínias: Assim parece, seguramente.

O ateniense: M u i t o b e m . Q u e p r e c a u ç ã o d e v e r i a t o m a r o
l e g i s l a d o r n a é p o c a a o p r o m u l g a r a s l e i s a fim d e s e p r o -
teger contra o d e s e n v o l v i m e n t o d e s s a d o e n ç a ? Pelos deu-
s e s , p a r a p e r c e b ê - l o a g o r a n ã o s e exige g r a n d e s a b e d o r i a
e n e m s e t r a t a d e algo difícil d e ser r e c o n h e c i d o , m a s
a q u e l e q u e o tivesse previsto n a q u e l e s d i a s - se possível
fosse p r e v ê - l o - t e r i a s i d o a l g u é m m a i s s á b i o d o q u e n ó s .

155
Platão - As Leis

Megilo: A o q u e e s t á s a l u d i n d o ?

0 ateniense: O b s e r v a n d o - s e o q u e a c o n t e c e u , Megilo, e n t r e
v ó s , l a c e d e m f t n í o s , é fácil p e r c e b e r e d e p o i s d e p e r c e b e r
a f i r m a r o q u e d e v i a t e r s i d o feito n a q u e l a é p o c a .
Megilo: S ê a i n d a m a i s c l a r o e m t u a s p a l a v r a s .
O ateniense: A m a i s c l a r a d a s a f i r m a ç õ e s s e r i a e s t a . . .
Megilo: Qual?

O ateniense: Se d e s o n r a r m o s da regra da m e d i d a atri-


b u i n d o coisas de d e m a s i a d o p o d e r a coisas d e m a s i a d a -
m e n t e p e q u e n a s , sejam velas à s e m b a r c a ç õ e s , alimen-
tos a o s c o r p o s , cargos a d m i n i s t r a t i v o s à s a l m a s , e n t ã o
t u d o se t r a n s t o r n a r á , e f u n c i o n a r ã o m e d i a n t e o excesso
da d e s m e d i d a , resultando em alguns casos em distúrbios
c o r p o r a i s , n o u t r o s n a q u e l e r e b e n t o d a d e s m e d i d a cpie
é a injustiça. O q u e temos, p o r t a n t o , a concluir? N ã o
s e r á isto?... o u seja, q u e n ã o existe, m e u s a m i g o s , u m a
a l m a mortal cuja n a t u r e z a , e n q u a n t o jovem e irrespon-
sável, j a m a i s seja c a p a z d e s e colocar n a m a i s e l e v a d a
posição de m a n d o na Terra s e m ter a m e n t e e m p a n
t u r r a d a da m a i o r das e n f e r m i d a d e s , a estultíeia, e
g r a n j e a n d o a a b o m i n a ç ã o de seus a m i g o s mais próxi-
m o s ; e q u a n d o isso o c o r r e , r a p i d a m e n t e a r r u i n a a p r ó
pria a l m a e a n i q u i l a a totalidade de seu poder. Exercer
p r o t e ç ã o c o n t r a isso m e d i a n t e a p e r c e p ç ã o da d e v i d a
m e d i d a constitui a tarefa do g r a n d e legislador. Por con
s e g u i n t e , a m a i s razoável c o n j e c t u r a q u e p o d e m o s esta-
b e l e c e r n o m o m e n t o a r e s p e i t o d o q u e pode; t e r a c o n t e -
cido n a q u e l a é p o c a p a r e c e ser esta...

Megilo: Qual?

O ateniense: P a r a c o m e ç a r , h a v i a u m d e u s z e l a n d o p o r
vós e, a n t e v e n d o ele o f u t u r o p r e n d e u d e n t r o de limites
a p r o p r i a d o s o poder real fazendo com q u e vossa linha-
e n l
f)<: w s m m d m «unos. 8 d e i x a s s e de ser s i m p l e s p a r a ser d u p l a . • Em segui-
(„j_) da, um certo h o m e m • • no q u a l a n a t u r e z a h u m a n a
foi m e s c l a d a a o p o d e r d i v i n o , v e n d o q u e v o s s a r e a l e z a
' 0 flwjisPnrfri* íilifiaijo
a i n d a p e r m a n e c i a t o m u d a d e delírio febril, c o m b i n o u
(Al)KOÜpyOÇ) nV:
a força o r g u l h o s a da r a ç a c o m o p o d e r da t e m p e r a n ç a
Q»mhi. (ii.l.)
dos velhos, d a n d o ao p o d e r do conselho d o s vmte e oito
a n c i ã o s o m e s m o peso d a q u e l e dos reis no e x a m e dos
a s s u n t o s m a i s i m r i o r t a n t e s , N a s e q ü ê n c i a , o vosso t e r c e i r o

156
Livro III

s a l v a d o r , • • • o b s e r v a n d o o g o v e r n o a i n d a c o r r o í d o e ir- •••TEOJIOU.JEO, que


ritado, o enfreiou, c o m o poder-sc-ia dizer, m e d i a n t e o («"'bou Aiterníe eis quentci
p o d e r d o s é f o r o s , o q u e o a p r o x i m o u do p o d e r a t r i b u í cmlm o ^Mcssèno t, |(u
f: akl t a W f )
do p o r s o r t e i o . A s s i m , em v o s s o c a s o , de a c o r d o c o m * •~ P " <** <fc
esse relato, e m função d a m i s t u r a dos elementos corre- ^ 0 ° " ^ " ^"'^
tos e da d e v i d a m e d i d a , a realeza n ã o a p e n a s sobrevi-
veu c o m o t a m b é m assegurou a sobrevivência de t u d o o
m a i s . Pois s e a m a t é r i a tivesse ficado n a s m ã o s d e Te-
m e n o s e d e C r e s f o n t e s e d o s l e g i s l a d o r e s q u e l h e s fo-
r a m c o n t e m p o r â n e o s - q u e m q u e r q u e f o s s e m e s s e s le-
gisladores - m e s m o a p a r t e de A r i s t o d e m o s j a m a i s po-
d e r i a ter sobrevivido visto q u e n ã o e r a m i n t e i r a m e n t e
v e r s a d o s na arte, de legislar, já q u e se o fossem dificil-
m e n t e teriam julgado suficiente m o d e r a r por m e i o de
compromissos sob juramento u m a a l m a jovem d o t a d a
d e u m t a l p o d e r p a s s í v e l de, c o n v e r t e r - s e e m t i r a n i a ; m a s
agora os deuses m o s t r a r a m q u e espécie de governo de-
v i a t e r h a v i d o entãe», e d e v e h a v e r a t u a l m e n t e , q u e s e j a
d u r á v e l . Q u e n ó s o c o m p r e e n d a m o s d e p o i s de ter a c o n -
t e c i d o é - c o m o e u disse, a n t e s - n e n h u m g r a n d e a t e s t a -
d o d e s a b e d o r i a , visto q u e n ã o é a b s o l u t a m e n t e difícil
inferir com base n u m exemplo do passado; m a s se na-
q u e l a é p o c a tivesse h a v i d o a l g u é m q u e previsse o resul-
t a d o e fosse c a p a z d e a t e n u a r o s p o d e r e s r e i n a n t e s e
unificá-los, t a l h o m e m teria p r e s e r v a d o todos os gran-
diosos p l a n o s e n t ã o c o n c e b i d o s e n e n h u m exército per-
sa ou o u t r o teria m a r c h a d o c o n t r a a Grécia ou n o s en-
carado com desprezo c o m o um povo de p o u c a monta.

Clínias: E verdade.

0 ateniense: O modo como repeliram tal exército foi


desonroso, Clínias. Mas quando digo desonroso não
q u e r o dizer q u e n ã o c o n q u i s t a r a m g r a n d e s vitórias tan-
to p o r terra c o m o por m a r n a q u e l a s b e m sucedidas cam-
p a n h a s ; o q u e c o n s i d e r o desonroso é o f a t o , e m p r i m e i -
r o lugar, d e a p e n a s u i n d a q u e l e s três E s t a d o s d e f e n d e r
a Grécia, e n q u a n t o os outros dois foram tão sordida-
m e n t e corruptos a p o n t o de um d e l e s • • • • r e a l m e n t e • • • • : À .Mcainin. { «
i m p e d i r a L a c e d e m ô n i a dc auxiliar a Grécia l u t a n d o
c o n t r a os l a c e d c m ô n i o s com t o d a s as s u a s forças, ao
passo q u e Argos, o o u t r o Estado q u e se, d e s t a c a r a c o m o
p r i m e i r o e n t r e os três n o s d i a s do e s t a b e l e c i m e n t o d ó r i o -
q u a n d o convocado para d a r sua assistência no c o m b a t e

157
Platão - As Leis

aos bárbaros, n ã o se dignou a dar n e n h u m a atenção e


• T f e t õ o akda o iwasõo n ã o prestou q u a l q u e r ajuda. • N a d a honrosas são as
dos ( I M S O S comandada ficfe m u i t a s a c u s a ç õ e s a s e r e m feitas c o n t r a a G r é c i a relati-

gsnewif t/Wa*dônu>. (n.t.) v a m e n t e a o s e v e n t o s d e s s a g u e r r a : de fato, f a l t a r i a à


verdade q u e m sustentasse que a Grécia se defendeu
p o r q u e s e n ã o fosse p e l a d e c i s ã o c o n j u n t a d c a t e n i e n -
ses e l a c e d e m ô n i o s de a f a s t a r a a m e a ç a da s e r v i d ã o ,
seria q u a s e certa agora a confusão de todas as raças
helênicas, b e m c o m o a m i s t u r a de b á r b a r o s c o m gregos
e gregos com b á r b a r o s - e x a t a m e n t e c o m o as raças atual-
m e n t e s u b m e t i d a s ao Império persa se a c h a m disper-
sas no estrangeiro ou d e s o r d e n a d a m e n t e miscigenadas,
v i v e n d o n u m a c o n d i ç ã o m i s e r á v e l . T a i s s ã o , ó Megilo e
Clínias, a s a c u s a ç õ e s q u e t e m o s q u e f a z e r c o n t r a o s c h a -
m a d o s estadistas e legisladores, tanto do pretérito q u a n -
to do presente a fim de p o r meio da s o n d a g e m de suas
causas p o d e r m o s descobrir q u a l é o curso diferente a
s e r s e g u i d o ; a s s i m c o m o n o c a s o d i a n t e de. n ó s , j u l g a -
mos um erro crasso instituir legalmente um governo
demasiado grande c puro.»* D e f e n d e m o s a idéia de
ueyaXaç apxctç
q u e um E s t a d o deve ser livre, r a c i o n a l e a m i g o de si
o»Ô ao auiKiouç....
mesmo, o legislando devendo d e s e m p e n h a r seu traba-
gowsmo dswasiodo grande e
l h o v i s a n d o a isso. T a m p o u c o n o s s u r p r e e n d a m o s se as
«w» jfiisfitfa. islo é, cujos
finalidades q u e propomos freqüentemente como metas
mtognanfas jossci» w e f b s t w «
a serem colunadas pelo legislador em seu mister são
cstwlamcnte dos " f s v o u ç do
a p a r e n t e m e n t e distintas. E preciso refletir q u e a sabe-
Q M S Í O . (n.t.)
doria e a a m i z a d e q u a n d o colocadas c o m o a m e t a a ser
atingida não são r e a l m e n t e m e t a s distintas, m a s sim a
mesma, n ã o devendo nos perturbar a multiplicidade
de expressões q u e possamos encontrar.

Clínias: N ó s n o s e s f o r ç a r e m o s p o r t e r i s s o e m m e n t e a o
repassarmos os argumentos. Mas, de m o m e n t o , no que
diz respeito à a m i z a d e , à s a b e d o r i a e à l i b e r d a d e , escla-
rece-nos q u a n t o à m e t a q u e a t r i b u i r i a s ao legislador.

O ateniense: Escutai. Há duas formas de constituição


q u e são p o r assim dizer, as matrizes a partir d a s q u a i s ,
q u e se o afirme em verdade, todas as restantes nascem.
Destas u m a é c h a m a d a a d e q u a d a m e n t e de m o n a r q u i a ,
e a o u t r a , d e m o c r a c i a , s e n d o o caso e x t r e m a d o da pri-
m e i r a a f o r m a de g o v e r n o d o s p e r s a s , e o da s e g u n d a a
» • • .(feio c. dc . J f e n o s . nossa; ** * as restantes são p r a t i c a m e n t e todas, c o m o eu
disse, modificações dessas d u a s . Ora, é essencial q u e
(iii.)

158
Livro III

u m a constituição encerre elementos dessas d u a s formas


de governo se quisermos q u e disponha de liberdade e
a m i z a d e c o m b i n a d a s c o m a s a b e d o r i a . E é isto q u e
nossa argumentação pretende reivindicar a partir da
afirmação de que a menos que um Estado participe
dessas d u a s formas jamais poderá ser b e m governado.

Clínias-, Não poderia.

O ateniense: O r a , v i s t o q u e u m d e s s e s E s t a d o s a b r a ç o u
a m o n a r q u i a o o u t r o a l i b e r d a d e , de m a n e i r a exclusiva
e excessiva, n e n h u m d e l e s a t i n g i u a j u s t a m e d i d a - vos-
sos E s t a d o s , L a c e d e m ô n i a e Creta estão m e l h o r e s nes-
se aspecto do q u e estiveram A t e n a s e a Pérsia de outro-
ra - se c o m p a r a r m o s com s u a a t u a l c o n d i ç ã o . Devere-
m o s e x p o r as razões disso?

Clínias; N ã o há a m e n o r d ú v i d a , se é q u e d e s e j a m o s
completar a tarefa q u e nos p r o p o m o s .

O ateniense: E n t ã o , e s c u t e m o s . Q u a n d o o s p e r s a s , s o b o
c o m a n d o de Ciro, s u s t e n t a r a m o d e v i d o e q u i l í b r i o en-
tre a e s c r a v i d ã o e a l i b e r d a d e , eles se t o r n a r a m , em pri-
m e i r o lugar, livres eles p r ó p r i o s e em s e g u n d o , s e n h o -
res d e m u i t o s outros. Pois q u a n d o a q u e l e s q u e m a n d a -
v a m c o n f e r i r a m u m a p a r c e l a d e l i b e r d a d e a o s seus su-
bordinados e os impulsionaram p a r a u m a posição de
igualdade, os soldados p a s s a r a m a ser m a i s amigáveis
c o m s e u s oficiais o, d e m o n s t r a r a m s u a d e v o ç ã o n o s mo
••••pavTsta. anéeufo,
m é r i t o s d e p e r i g o ; e se, h o u v e u m h o m e m s á b i o e n t r e
eles, c a p a z d e a c o n s e l h a r , visto q u e o rei n ã o e r a incli- pkiídieãa e. o ptôpm ato de.

n a d o ao c i ú m e , p e r m i t i a a livre e x p r e s s ã o da p a l a v r a e cottsufto* ou intofisetau um

respeitava aqueles q u e decididamente p o d i a m ajudar OíifiMÍn; 7ICXVTE10V é o


m e d i a n t e seu c o n s e l h o , tal h o m e m teve a o p o r t u n i d a d e MSpuia dt um OrióouPo. í)
de, c o n t r i b u i r c o m s u a s a b e d o r i a p a r a o i n t e r e s s e co- emumk) em a «sposfoi de. m
m u m . Conseqüentemente, n a q u e l a época todos os seus ém owboia fosso wüouPodn
negócios p r o s p e r a r a m devido à sua liberdade, a m i z a d e poj uma p.wjoiiso mwíoC em
e p e r m u t a de idéias. < n # K (><*< n u O t a .
•_A1os«o MI fsndiono wligioso
Clínias: É p r o v á v e l q u e u s c o i s a s d e q u e f a l a s t e n h a m
Mifí-kíê.men o píofeln ó m
acontecido dessa maneira.
i/i.fii.mnh ppfii dii/tododc, a
O ateniense: C o m o e x p l i c a r e n t ã o q u e t e n h a m s i d o a r - (nwfofoejin fln Cníifn dãlma, I
ruinadas no reinado de Camhíses c quase restauradas e de fa)i(fli: PdlitKK ODIIIO o
novamente sob o governo de Dario? Deveremos nós usar (MMfel (f/feiii)e. dei ptffiMn
u m c e r t o t i p o de, a d i v i n h a ç ã o • • * • p a r a r e a l i z a r u m a ítif|Pôí: data é. bosfanfe
reconstituição d o q u e teria acontecido? siinostíMi. (n.l.)

159
Platão - As Leis

Clínias: S i m . Tsso c e r t a m e n t e n o s a j u d a r á n o e x a m e d o
objeto de nossa investigação.

O ateniense: O que eu a g o r a profetizo relativamente a


• MavTCuoucu S r ) Ciro« é q u e a despeito de ser um b o m c o m a n d a n t e e
vuv jrspi ye patriota, carecia completamente de u m a b o a educação e
KupoD.... T>ft<foo insiste n ã o deu nenhuma atenção à administração doméstica.
nn idéia da odivitilmção Clínias: E o q u e d e v e m o s e n t e n d e r p o r i s s o ?
fiíoyawifmsiihí poitqitc não
O ateniense: E p r o v á v e l q u e e l e t e n h a p a s s a d o t o d a s u a
ásfiufida dc dodos fcslósíoüs
vida desde a meninice em expedições militares, deixan-
snjifüwtos fiaso ma cjctiw
do q u e as m u l h e r e s e d u c a s s e m s e u s filhos, e essas m u -
fcipÓfCSC, SOSiOiwf. (".(.)
lheres os e d u c a r a m desde a mais tenra infância como
se já tivessem a l c a n ç a d o a p l e n i t u d e da felicidade, corno
s e n a d a m a i s l h e s f a l t a s s e e m b e m a v e n t u r a n ç a ; e tra-
t a n d o - o s c o m o os favoritos do c é u e à força de i m p e d i r
q u e q u a l q u e r urn l h e s c a u s a s s e a m a i s í n f i m a contra-
r i e d a d e e forçando a todos a louvar c a d a u m a de suas
palavras e ações, fizeram deles o q u e eram.

Clínias: U m a bela educação, eu diria!

0 ateniense: Seria m e l h o r d i z e r e s u m a e d u c a ç ã o femi-


*• ... PaaiÃiooov nina de mulheres do serralho** recentemente enrique-
• y u v a i K t ú v . . . filMoènculr cidas e q u e e d u c a v a m seus filhos s e m c o n t a r c o m os
miSãms do M-í. f) tom c h o m e n s ausentes, retidos por muitos perigos e guerras.
{«mtC(i«K»(o pcjowrUuo,
Clínias: I s s o s o a b e m p l a u s í v e l .
coiidigctilc com o joMc doso dc
O ateniense: E o p a i d e l e s e n q u a n t o c o n q u i s t a v a r e b a -
Btisorjinin pmmhi m
n h o s de g a d o e de ovelhas, b e m c o m o b a n d o s de ho-
pensamento gingo. {».(.)
m e n s e d e a n i m a i s d e t o d a e s p é c i e , i g n o r a v a q u e o s fi-
lhos a o s q u a i s pretendia legar essas r i q u e z a s estavam
p r i v a d o s da e d u c a ç ã o p a t e r n a l , a d o s p e r s a s - pastores -
q u e e r a d u r a , a p r o p r i a d a p a r a p r o d u z i r p a s t o r e s vigo-
rosos, c a p a z e s de a c a m p a r ao relento e e s t a r e m vigilan-
tes e, se necessário, t o m a r d a s a r m a s . Passou-lhe desa-
p e r c e b i d o q u e s e u s filhos r e c e b i a m u m a f o r m a ç ã o n o
estilo d a q u e l a d o s m e d a s , u m a e d u c a ç ã o d e t e r i o r a d a
por u m a pretensa felicidade ministrada por mulheres e
e u n u c o s - e d u c a ç ã o cujo r e s u l t a d o e r a fazê-los se t o r n a -
rem aquilo q u e se poderia esperar q u e se tornassem
por terem sido educados segundo um método no qual
os e d u c a d o r e s se abstinliam de corrigir a q u e l e q u e se
p r e t e n d e educar. Assim q u a n d o por ocasião da m o r t e
de C i r o seus filhos a s s u m i r a m o r e i n o , e x c e s s i v a m e n t e

160
Livro III

a m i m a l h a d o s e indisciplinados corno e r a m , em primei-


ro l u g a r um a s s a s s i n o u o o u t r o • • • p o r a b o r r e c e r - s e p e l o
* * * 0 u st-„jn, Ooiitbisce (fjnii
fato d e o i r m ã o ser c o l o c a d o a o seu l a d o e m c o n d i ç ã o
a fido de Sstiwíiífe. (n.t.)
de i g u a l d a d e . Logo d e p o i s o a s s a s s i n o p e r d i a ele m e s -
mo o trono p a r a os m e d a s por mergulhar no desvario
devido à e m b r i a g u e z e o d e b o c h e , isto por i n t e r m é d i o
do h o m e m a q u e m se c h a m o u o e u n u c o , * • • • o q u a l • • • • C mago éjornuola, que
desprezava a l o u c u r a de G a m b i s e s . pesmonceen sete ivees no
Clínias: N ã o h á d ú v i d a q u e i s s o é o q u e s e d i z e p r o v a - l.ioíio do Péfisin cm G2! o. ().
velmente está p r ó x i m o da verdade. possando-ee poí Pemcrdis. (D
«Mparfc* {oi então mo»l r> pos
O ateniense: D i z - s e , a d e m a i s , c o m o o r e i n o foi r e c u p e -
sete nofejes pc«sos, sendo um
r a d o p o r D a r i o e os sete. • » • • •
destes <TV«o. (n.t.)
Clínias: De fato.
Aapetou KUI
O ateniense; V a m o s a c o m p a n h a r a n a r r a t i v a e v e r q u a l TÍDV e i r t a . . . ,
foi o d e s e n r o l a r d o s a c o n t e c i m e n t o s . D a r i o n ã o e r a u m estintiníseimo diseseperneio
f i l h o d e r e i n e m foi e d u c a d o n a f r o u x i d ã o . Q u a n d o c h e - 1
cometido, pos Púaláo pois
g o u ao p o d e r e a s s u m i u o reino c o m s e u s seis c o m p a - '-DOMO era um dos ICÍK P. não
n h e i r o s , logo o dividiu em sete p a r t e s , d a s q u a i s a i n d a o oitavo doe nobses pessos.
r e s t a m a l g u n s m o d e s t o s vestígios a t é os d i a s de hoje.
Julgou a d e q u a d o a d m i n i s t r a r o r e i n o p r o m u l g a n d o leis
pelas quais introduziu na coletividade u m a certa dose
d e i g u a l d a d e e t a m b é m i n c o r p o r o u n a lei r e g u l a m e n t a -
ções relativas ao tributo q u e Giro p r o m e t e r a aos per-
sas, pelo q u e assegurou a a m i z a d e e a c a m a r a d a g e m
e n t r e t o d a s as classes e c o n q u i s t o u a p o p u l a ç ã o por m e i o
de d i n h e i r o e p r e s e n t e s . E em f u n ç ã o disso, a d e v o ç ã o
de seus exércitos rendeu-lhe u m a q u a n t i d a d e tão gran-
d e d e t e r r i t ó r i o s q u a n t o a l e g a d a p o r ( a r o . D a r i o foi
s u c e d i d o p o r X e r x e s , q u e t a m b é m foi e d u c a d o s e g u n -
do a frouxidão da casa real; "0 Dario,..." - pois assim é
c o m o s e p o d e r i a c o m j u s t e z a elirigir-se a o p a i - "... c o m e i
e n t e n d e r q u e i g n o r a s te o e r r o g r o s s e i r o de Giro e fizes
t e c o m q u e X e r x e s fosse, e d u c a d o e x a t a m e n t e n o s m e s -
m o s h á b i t o s d e vida e m q u e Giro fizera e d u c a r Gam-
bises?" E Xerxes, s e n d o o p r o d u t o da m e s m a educa-
ção, acabou por reproduzir q u a s e exatamente as mes-
mas desgraças de Gambises. Daqueles tempos para cá
nfio s u r g i u m a i s e n t r e o s p e r s a s u m ú n i c o r e i q u e t e -
nha sido tanto real c o m o n o m i n a l m e n t e grande. E,
como nossa a r g u m e n t a ç ã o demonstra, a causa disso
u n o reside n o a c a s o , m a s sim n a m á vida e m q u e s e

161
Platão - As Leis

comprazem geralmente monarcas excessivamente abas-


tados, pois tal e d u c a ç ã o j a m a i s p o d e p r o d u z i r u m m e -
nino, ou um h o m e m , ou um velho q u e se dístinga pela
v i r t u d e . E a isso, n ó s o d i z e m o s , q u e o legislador d e v e
dar sua atenção - como nós devemos nesta ocasião.
Convém, entretanto, m e u s amigos lacedemônios, dar ao
vosso E s t a d o , a o m e n o s , este crédito, o u seja, q u e n ã o
atribuí- educação ou honra de maneira diferenciada
a o p o b r e o u a o rico, a o c i d a d ã o c o m u m o u a o rei a l é m
d a q u i l o q u e é e s t i p u l a d o pelo vosso o r á c u l o original da
parte de um deus. N e m é t a m p o u c o legítimo q u e hon-
ras especiais n u m Estado sejam conferidas a um ho-
m e m p o r q u e este é invulgarmente a b a s t a d o , do m e s m o
m o d o q u e n ã o é legítimo conferi-las p o r q u e é corredor
célere, ou formoso, ou forte m a s d e s p r o v i d o d e virtu-
des, ou virtuoso porém carente da temperança.

Megilo: O q u e q u e r e s d i z e r c o m i s s o , e s t r a n g e i r o ?

O ateniense: A c o r a g e m é , p r e s u m i v e l m e n t e , u m a p a r t e
da virtude.

Megilo: Seguramente.

O ateniense: A g o r a q u e j á a t e n t a s t e p a r a o a r g u m e n t o ,
julga p o r si m e s m o se acolherias c o m o c o m p a n h e i r o em
t u a casa ou c o m o vizinho um h o m e m q u e é extrema-
m e n t e corajoso, m a s t a m b é m m a i s licencioso d o q u e
detentor da temperança.

Megilo: E v i t a t a i s p a l a v r a s d e m a u a g o u r o !

O ateniense: Bem, o q u e d i r i a s de a l g u é m conhecedor


d a s a r t e s e d o s ofícios, m a s injusto.

Megilo: D e m a n e i r a a l g u m a o a c o l h e r i a .

O ateniense: M a s a j u s t i ç a , c e r t a m e n t e , não é gerada


independentemente da temperança.

Megilo: Impossível.

0 ateniense: T a m p o u c o é e l e a q u e l e ( p i e p r o p o m o s r e c e n -
t e m e n t e c o m o o nosso ideal de h o m e m sábio - a l g u é m qui-
tem seus s e n t i m e n t o s dc p r a z e r e de d o r h a r m o n i z a d o s
c o m o ( p i e é d i t a d o p e l a j u s t a r a z ã o e ( p i e a isso a c a t a m .

Megilo: Decididamente não.

O ateniense: Eis a q u i uni p o n t o q u e t e m o s (pie exami-


n a r a fim d e d e l i b e r a r m o s a r e s p e i t o d a c o n c e s s ã o d a s

162
Livro III

h o n r a s o u d i r e i t o s civis n o s E s t a d o s , q u a n d o s ã o c o r r e -
tos ou incorretos.

Megilo: E q u a l 6 e s s e p o n t o ?

O ateniense: Se a temperança existisse isoladamente


na alma h u m a n a divorciada de todo o conjunto das
outras virtudes, mereceria ela c o m justiça a nossa apro-
vação ou não?

Megilo: N ã o c o n s e g u i r i a d a r u m a r e s p o s t a a essa per


gunta.

O ateniense: E n o e n t a n t o , e m v e r d a d e j á d e s t e u m a r e s -
p o s t a , e u m a r e s p o s t a razoável, p o i s se tivesses se decla-
r a d o a favor d e u m a o u o u t r a d a s a l t e r n a t i v a s p r e s e n -
tes em m i n h a pergunta, terias dito o que, na m i n h a
opinião, seria c o m p l e t a m e n t e despropositado.
Megilo: A s s i m a c a b o u s u r t i n d o u m e f e i t o p o s i t i v o .

0 ateniense: M u i t o b e m . D e a c o r d o c o m i s s o o e l e m e n t o
adicional nos objetos q u e merece aprovação ou repro-
v a ç ã o será a q u e l e q u e d i s p e n s a d i s c u r s o , q u e , p e l o con-
trário, exige q u e nos calemos.

Megilo; E me p a r e c e q u e te referes à t e m p e r a n ç a .

O ateniense: S i m , e n a v e r d a d e t a m b é m à q u i l o q u e e s -
t i m a d o no m a i s alto grau e q u e seria o estimado com
m a i o r justiça o u q u e , colocado n o nível s e c u n d á r i o m e -
receria a p r o v a ç ã o de nível s e c u n d á r i o , é o q u e , e n t r e as
d e m a s v i r t u d e s nos traz, c o m a a d i ç ã o da t e m p e r a n ç a ,
os m a i o r e s benefícios: e assim r e l a t i v a m e n t e a t o d a s as
outras virtudes sucessivamente a cada u m a será apro-
priado atribuir a honra q u e cabe à sua posição.

Megilo; A s s i m é.

ü ateniense; Bem, será q u e n ã o deveríamos dizer agora


q u e a d i s t r i b u i ç ã o d e s s a s h o n r a s é a tarefa do legislador?

Megilo: Certamente.

O ateniense: E t e u d e s e j o q u e e n t r e g á s s e m o s t o d a a d i s -
tribuição a ele, de m o d o q u e sc o c u p a s s e de todos os
c a s o s e t o d a s as m i n ú c i a s , e n q u a n t o ruis - t a m b é m n ó s
próprios entusiastas da legislação - nos restringiríamos
u fazer u m a tripla p a r t i l h a e n o s e m p e n h a r í a m o s em
distinguir o q u e por sua importância vem em primeiro
lugar, em s e g u n d o e em terceiro?

163
Platão - As Leis

Megilo: S e m d ú v i d a a l g u m a ,

O ateniense: Declaramos, portanto, q u e um Estado q u e


p r e t e n d e d u r a r e s e r o m a i s feliz q u e for h u m a n a m e n t e
possível terá necessariamente que dispensar
corretamente h o n r a s e desonras, sendo o modo correto
o seguinte: d e v e r á ser e s t a b e l e c i d o q u e os b e n s da a l m a
recebam as mais elevadas honras e v e n h a m em primeiro
l u g a r d e s d e q u e a a l m a seja d e t e n t o r a d e t e m p e r a n ç a ;
em segundo lugar viriam as coisas boas e belas do corpo;
c em terceiro lugar os c h a m a d o s b e n s s u b s t a n c i a i s e
propriedades. E se q u a l q u e r legislador ou Estado
t r a n s g r e d i r e s s a s regras, seja a t r i b u i n d o ao d i n h e i r o o
p o s t o d a h o n r a , seja d e s i g n a n d o u r n a p o s i ç ã o s u p e r i o r
a u r n a d a s classes dc b e n s inferiores, será responsável
por infringir tanto o sagrado q u a n t o o político. Será
esta a n o s s a d e c l a r a ç ã o ou o q u e t e r e m o s q u e declarar?

Megilo: Que tenhamos isso, absolutamente, como


evidente.

O ateniense; F o i a n o s s a i n v e s t i g a ç ã o d a f o r m a de go-
v e r n o d o s p e r s a s q u e n o s fez d i s c u t i r e s s a s m a t é r i a s d e
m a n e i r a extensiva e minuciosa. Ora, c o n s t a t a m o s q u e
eles n o d e s e n r o l a r d o t e m p o a i n d a p i o r a r a m , a r a z ã o
sendo a nosso ver q u e - tendo privado o povo indevida-
m e n t e de s u a l i b e r d a d e e t e n d o i n t r o d u z i d o excessivo
despotismo - d e s t r u í r a m no E s t a d o os laços de amiza-
de c c a m a r a d a g e m . E q u a n d o estes são d e s t r u í d o s , o
conselho dos governantes n ã o delibera m a i s no interes-
se d o s g o v e r n a d o s e do povo, m a s somente, no interesse,
da m a n u t e n ç ã o de seu próprio poder; desde q u e creia
p o d e r tirar p a r a si a m í n i m a v a n t a g e m se p õ e a q u a l -
quer tempo a aniquilar Estados, destruindo t a m b é m
nações amigas pelo incêndio; c assim os governantes
o d e i a m o , s ã o o d i a d o s eorn u m ó d i o c r u e l e i m p l a c á v e l .
E q u a n d o acontece q u e necessitam do povo p a r a q u e
e s t e l u t e a s e u favor, e n c o n t r a m m n p o v o d e s t i t u í d o d e
patriotismo ou disposição para arriscar suas vidas na
b a t a l h a , de, s o r t e q u e m e s m o d i s p o n d o d e u m n ú m e r o
incontável de indivíduos, estes são Iodos i n ú t e i s p a r a a
g u e r r a , e e n t ã o eles c o n t r a t a m s o l d a d o s estrangeiros
c o m o s e lhes faltassem h o m e n s , i m a g i n a n d o q u e s u a
segurança será gurantida por m e r c e n á r i o s e estrangeiros.

164
Livro III

E , a l é m d e t u d o isso, e x i b e m f a t a l m e n t e s u a l o u c u r a
p o r q u a n t o , p o r seus atos, a t e s t a m q u e as coisas r e p u t a
das como honradas e nobres n u m Estado não passam
n u n c a de rebotalho c o m p a r a d a s ao o u r o e à prata.

Megilo: Decididamente verdadeiro.

O ateniense: A s s i m é o b a s t a n t e p a r a a n o s s a q u e s t ã o
do Império persa e do seu atual m a u regime de governo
q u e se deve ao excesso de escravidão e despotismo.

Megilo: Perfeitamente.

O ateniense: O q u e d e v e m o s e x a m i n a r n a s e q ü ê n c i a , d e
a n á l o g a m a n e i r a , é a c o n s t i t u i ç ã o da Á t i e a • e m o s t r a r • epfafo m w ,|l - „
(s(

c o m o a l i b e r d a d e p l e n a s e m os grilhões de q u a l q u e r ( 4( >(,
( ns ( [)
n

a u t o r i d a d e é s u m a m e n t e i n f e r i o r a u m a f o r m a de go-
v e r n o m o d e r a d a s o b o c o r n a n d o d e m a g i s t r a d o s elei-
tos. •• Q u a n d o os p e r s a s a t a c a r a m os gregos, e de fato - • • • ' p f a i õ o «fio t o m e m o
poder-se-ia dizer - q u a s e todos os povos i n s t a l a d o s n a dnmomma COMO {O*PO dc
E u r o p a , n ó s , a t e n i e n s e s , d i s p ú n h a m o s de u m a a n t i g a (pmm idm( m suo ktm
c o n s t i t u i ç ã o * e de m a g i s t r a t u r a s b a s e a d a s n u m e s - poPítieo c . oten disso, {oi m
calonamento quádruplo; ademais tínhamos o temor cgUKi iucisiio csficcijicoincuic
respeitoso c o m o u m a espécie de d é s p o t a q u e nos fazia dm*mio |>mticodo m

viver c o m o os e s c r a v o s v o l u n t á r i o s d a s leis e x i s t e n t e s . , ,4( ,r MJf! , C\y' ra ^cpúMim


A l é m d i s s o , o t a m a n h o g i g a n t e s c o do exército p e r s a q u e (laubtm tmitmte ncslo imw
nos ameaçava tanto por terra como por mar, pelo m e d o Cláciicos d a Pép.iàj (ti I )
desesperado q u e nos inspirava nos prendia ainda mais
e s t r e i t a m e n t e n o s laços d e e s c r a v i d ã o a o s n o s s o s gover-
<>íi 0
n a n t e s e n o s s a leis, e em f u n ç ã o de t u d o isso a a m i z a d e *" ^" " * • ' "-
entre nós c o p a t r i o t i s m o foram b a s t a n t e intensifica-
dos. Foi a p r o x i m a d a m e n t e dez a n o s antes da b a t a l h a
naval e m S a l a m i n a q u e u m outro exército chegou com
o c o m a n d o de Dális, o q u a l Dario d e s p a c h a r a expres-
s a m e n t e c o n t r a o s a t e n i e n s e s c o s c r e t r i a n o s c o m or-
dens de reconduzi-los acorrentados além da advertên-
cia de q u e a m o r t e s e r i a a p u n i ç ã o em c a s o de fracasso.
A s s i m , t r a n s c o r r i d o c u r t o p e r í o d o d e t e m p o , D á l i s , co-
m a n d a n d o t r o p a s i n c o n t á v e i s , c a p t u r o u pela força a
t o t a l i d a d e d o s c r e t r i a n o s ; e c m A t e n a s foi d i f u n d i d a a
notícia a l a r m a n t e segundo a q u a l nem sequer um úni
co eretriano lhe havia escapado; c o m p o n d o um enca-
d e n m e n t o dc m ã o s unidas, os s o l d a d o s de Dátis t i n h a m
c o l h i d o a t e r r a i n t e i r a d o s c r e t r i a n o s c o m o se fosse c o m
u m a r e d e . E s s a n o t í c i a - fosse v e r d a d e i r a ou n ã o , ou

165
Platão - As Leis

q u a l q u e r q u e fosse s u a origem - i n f u n d i u o terror e n t r e


os gregos em geral, e p a r t i c u l a r m e n t e entre os atenien-
ses, e q u a n d o estes e n v i a r a m e m b a i x a d o r e s e m t o d a s
as direções em b u s c a de ajuda, todos a n e g a r a m exceto
os laeedemônios, q u e retidos pela guerra q u e travavam
contra Messênia e possivelmente por outros obstáculos
(sobre os q u a i s n ã o d i s p o m o s de informações) chega-
r a m u m d i a a t r a s a d o s p a r a a b a t a l h a que, o c o r r e u e m
M a r a t o n a . A p ó s isso», a m e a ç a s i n f i n d á v e i s e r e l a t o s d e
preparações colossais p a s s a r a m a chegar constantemen-
t e d a p a r t e d o rei p e r s a . E e n t ã o , c o m o t r a n s c o r r e r d o
t e m p o , c h e g o u a n o t í c i a d a m o r t e fie D a r i o e a i n f o r m a -
ção de q u e seu filho, q u e o s u c e d e r a no trono, era um
j o v e m fogoso e q u e n ã o d e s i s t i r a d a p r o j e t a d a expedi-
ção. Üs atenienses imaginavam q u e todas essas prepa-
r a ç õ e s t i n h a m a e l e s como» a l v o poir c a u s a d o q u e a c o n -
tecera e m M a r a t o n a ; e q u a n d o s o u b e r a m d e corno fora
feito o c a n a l a t r a v é s de Atos c da p o n t e l a n ç a d a s o b r e o
I l e l e s p o n t o e os i n f o r m a r a m do e n o r m e n ú m e r o de be-
lonaves d a frota persa s e n t i r a m q u e n ã o havia salvação
p a r a eles p o r t e r r a n e m t a m p o u c o p o r m a r . N ã o ali-
m e n t a v a m q u a l q u e r e s p e r a n ç a d e r e c e b e r q u a l q u e r aju-
• f)u seja, os domens que d a d e q u e m q u e r q u e seja p o r t e r r a p o i s s e l e m b r a v a m
o/mm então meAosos. q u e por ocasião da primeira investida dos persas e dc
(rnsiteiimes l o £ t X o ç ) . s u a subjugação da Eretria n i n g u é m os ajudara ou se
PColõo se íiojoit aqui à a r r i s c a r a a a c o m p a n h á - l o s n a l u t a , fie m a n e i r a q u e es-
aeeoeinçáo de dois medos que p e r a v a m q u e algo idêntico a c o n t e c e s s e n o v a m e n t e na-
wdundew na p.tãtiea «a quela o p o r t u n i d a d e . N ã o viam t a m b é m q u a l q u e r espe-
safcaçrlo dos atenienses diante r a n ç a de salvação por m a r com m a i s de mil vasos de
do dcsooMimaP |>ode» deitai g u e r r a a a f r o n t á - l o s . S o m e n t e u m » e s p e r a n ç a de, s a l v a -
dos j>e«sns e suo teMéJeP ç ã o era c o n t e m p l a d a p o r eles pequena e desesperada
ameaça. „41ns o|ieeot desse esperança, é verdade, m a s a única esperança - extraída
(ato erfsacwdinettio, jxuodoefll dos eventos do p a s s a d o , q u a n d o a vitória na b a t a l h a
(napaooi;oç), parecia nascer de u m a situação d e s e s p e r a d a ; e susten-
efwewnj que 'PPoleio, eomo t a d o s p o r essa e s p e r a n ç a , d e s c o b r i r a m q u e p r e c i s a v a m
tio de tflfjjfl todos os o/iondee em m a t é r i a de refúgio c o n t a r u n i c a m e n t e c o m cies pró-
[leneado/ies qieejoe. lôn o p r i o s e c o m o s d e u s e s . E foi a s s i m q u e t u d o i s s o n e l e s
SElIia ( >fMii-ídõo,
f
gerou urna a m i z a d e recíproca - tanto o m e d o q u e e n t ã o
eoi'o»dio) mouoooda pofei os possuía q u a n t o a q u e l e temor e n g e n d r a d o do passa-
medo ( q j o l i o ç ) e o imni do c a d q u i r i d o d e v i d o a s u a sujeição as leis m a i s anti-
(ôiHLia) olioomeato eomo um gas (temor ao qual cm nossa discussão anterior a m i ú d e
dos osíodos mfjis deptWneie d e m o s o n o m e dc temor respeitoso, d i z e n d o o p a ' a e l e o
no eenduía do ktmm
(avnp). (n.l.J

166
Livro III

indivíduo deve se s u b m e t e r p a r a ser b o m - e m b o r a os '-Watão distingue aqui com


pusilânimes dele estejam liberados e n ã o necessitem detê- a deuida psopsiedade
lo). M a s s e e s s e t e m o r n ã o t i v e s s e s e a p o d e r a d o e n t ã o íüigiiístíca 6 r | | i O ç IpfW). tfiín
deles, j a m a i s t e r i a m • se u n i d o p a r a a p r ó p r i a defesa e í, todo o conjunto dos
t a m p o u c o teriam defendido seus templos, t ú m u l o s e a goiwmodos sob guoÇquc/i
terra pátria, b e m c o m o seus parentes, amigos, como na- foimia de goiüMio («o
q u e l a o c a s i ã o d e f e n d e r a m ; p e l o c o n t r á r i o , t o d o s n ó s te- dcmocsocjo, todo o conjunto
r í a m o s sido divididos e dispersos em t o d a s as direções. dc cidadõos Cimos) «'ceto o

Megilo: O q u e d i z e s , e s t r a n g e i r o , é p e r f e i t a m e n t e v e r d a - goüosnanfe ou goi'c/mantcs| dc

deiro e digno tanto de teu Estado como de ti mesmo. T t À r j o o ç (o mossa pofwfat.


o muftidão, o pofxtfesfe). que
O ateniense: A s s i m o c r e i o , Megilo. C o n v é m r e l a t a r a ti
suge»e. o incjainente
os acontecimentos daquele período já q u e compartilhas
quantitativo em oposlçno oo
p o r n a s c i m e n t o d o c a r á t e r d e t e u s a n c e s t r a i s . M a s ago-
qualilotWo). (n.l.)
r a t u e CUnias d e v e i s c o n s i d e r a r s e o q u e . e s t a m o s d i z e n -
do é a b s o l u t a m e n t e p e r t i n e n t e a n o s s a legislação, pois *** 1 wpMsseío íui/iioso o
n ã o faço este m e u r e l a t o s i m p l e s m e n t e p e l o p r a z e r d e Rígnijicatiwt do ''Pfefão é
f a z ê - l o , m a s s i m e m f u n ç ã o d a l e g i s l a ç ã o a q u e m e refi- «fio6«!nte SKCOV

r o . Assim refleti vós: c o n s t a t a n d o q u e n ó s , a t e n i e n s e s , cSouXsue xotç


e x p e r i m e n t a m o s na prática a m e s m a sorte dos persas - VOptOtç, (n.t.)
eles p o r r e d u z i r e m seu povo • • à escravidão e x t r e m a e
nós, ao contrário, por impelirmos a massa do p o v o " à •••• BpqVQC. conto

liberdade extrema - n ã o se conclui q u e m i n h a s afirma- fünebic. (n.t.)


ções anteriores são, n u m certo sentido, perfeitamente jtatav, omito
a d e q u a d a s à questão de definir a seqüência de nossas
e o f c t í » «efeito
considerações?
(piúMipnUmtmk es» dou/ia de
Megilo: D i s s e s t e b e m , m a s t e n t a t o r n a r a i n d a m a i s c l a - cApoCo) dc enmkk « « f a d o ,
ro p a r a n ó s o q u e q u e r e s dizer. podendo so* f/mofuo, do
O ateniense: E u o farei. S o b a s a n t i g a s l e i s , m e u s a m i g o s , fooMtoçwo ou súpíteo, o,
nosso povo n ã o d e t i n h a controle sobre coisa a l g u m a , m a s di|e»etitf»ionto, dc oPegjia,
e r a , p o r a s s i m d i z e r , v o l u n t a r i a m e n t e e s c r a v o d a s leis * * *. dc festa, gftwtWtite entoado
Megilo: A q u e l e i s t u t e r e f e r e s ? ofitcs, duwmtc ou depois do

O ateniense: E m p r i m e i r o l u g a r a s q u e d i z i a m r e s p e i t o combate em soPioitooôo do


i » m ú s i c a d a q u e l a é p o c a , s e for p a r a d e s c r e v e r m o s d e s - tilõitio ou jeí ficPe.bfiaíido
de o início c o m o a vida de l i b e r d a d e excessiva se desen- esto. (n.t.)
volveu. N a q u e l a é p o c a e n t r e n ó s a m ú s i c a era d i v i d i d a
StBupauBoç,
em vários g ê n e r o s e. estilos: um g ê n e r o de c a n ç ã o e r a o
canto cm lioicia dc 1'eiMos
d o s o r a ç õ e s a o s d e u s e s , o q u a l o s t e n t a v a o n o m e d e hino;
c o n t r a s t a n d o m m e s t e g ê n e r o h a v i a u u t o u t r o , a ende- dwindados, cspcoiaCmonto

elia • • • » e um o u t r o e r a et peã e outro a i n d a era o -'-TSiotiisío. (n.l.)


ditirambo, • • • • • • que recebeu este n o m e , s u p o n h o , e m vouoç, cotitn
c o n f o r m i d a d e c o m D i o n í s i o . Os c h a m a d o s notnos* • •••••
ou inePodio em t o » eíocado.

(»>.(•]

167
Platão - As Leis

e r a m considerados t a m b é m um gênero distinto de can-


to, s e n d o p o s t e r i o r m e n t e descritos c o m o nomos cüaro-
•Ki8ap©5ih:ouç, o édicos'. Estes e o u t r o s g ê n e r o s s e n d o a s s i m classifica-
iwimo eanlndo C O » dos e estabelecidos, era p r o i b i d o fixar um tipo de letra
ofMiviponiiawíííito da cílata. a um diferente gênero de melodia. A autoridade q u e

kú t i n h a p o r o b r i g a ç ã o c o n h e c e r e s s a s regras e a p l i c á - l a s
c o m c o n h e c i m e n t o d e c a u s a p e n a l i z a n d o o s infratores
não era um assobio, n e m tampouco, como é agora, os
gritos n a d a musicais da t u r b a ou a i n d a o bater de pal-
m a s q u e e x p r i m e m o a p l a u s o ; em s u b s t i t u i ç ã o a isso
havia u m a regra feita p o r a q u e l e s q u e c o n t r o l a v a m a
e d u c a ç ã o s e g u n d o a q u a l eles m e s m o s d e v i a m e s c u t a r
p o r s u a conta e m silêncio, e n q u a n t o q u e a s crianças, o s
*• f) ^aiôayojyoç cm o pedagogos» * destas e a multidão eram mantidos sob
cscjtauo que finda corno disciplina mediante o bordão dos guardas. Em matéria
de música, a m a s s a popular se submetia voluntariamen-
Junção Cttidngl» aí ftWangas
te ao controle disciplinar e se a b s t i n h a de pronunciar-
à escoCa: «nem cr-.tfa medida
se ultrajantemeute através do c l a m o r ; m a s posterior-
o t e g a * a se* uma espécie de
mente surgiram como cabeças da ilegalidade anti-mu-
instoifoi! defas. fn.f.)
sical c o m p o s i t o r e s q u e , e m b o r a n a t u r a l m e n t e poéticos,
i g n o r a v a m o r p i e e r a j u s t o e legal n a m ú s i c a ; e e s t e s ,
enlouquecidos e inconvenientemente possuídos pelo
prazer, misturavam endechas com hinos e peãs com
d i t i r a m b o s , e i m i t a v a m na citara a m e l o d i a da flauta, e
se p u n h a m a m i s t u r a r indiscriminadamente todos os
tipos de m ú s i c a , e desta m a n e i r a , p o r m e i o de sua in-
s e n s a t e z , s e m o p e r c e b e r p r o n u n c i a r a m um falso teste-
m u n h o c o n t r a a m ú s i c a , corno u m a c o i s a s e m q u a l q u e r
p a d r ã o de retidão, da q u a l o m e l h o r critério é o p r a z e r
d o o u v i n t e , seja ele u m h o m e m b o m o u m a u . Através d e
composições desse jaez, q u e r e c e b i a m letras similares,
i n o u l e a r a m n a rnassa p o p u l a r f a l s o s p r i n c í p i o s r e l a t i -
v a m e n t e à m ú s i c a e o a t r e v i m e n t o de s u p o r e m a si m e s -
mos capazes de a avaliarem competentemente. C o m o
c o n s e q ü ê n c i a , a s p l a t é i a s s e t o r n a r a m l o q u a z e s e m lu-
gar de silenciosas, c o m o se c o n h e c e s s e m a diferença
e n t r e a m ú s i c a b e l a e a feia, e c m l u g a r d e u m a a r i s t o -
c r a c i a d a m ú s i c a n a s c e u u m a vil t e a t r o c r a e i a , p o i s s e
na música, e na música apenas, houvesse surgido uma
d e m o c r a c i a d e h o m e n s l i v r e s , u m t a l r e s u l t a d o n ã o te-
ria sido tão seriamente alarmante; p o r é m , da m a n e i r a
q u e t u d o a c o n t e c e u , n a e s t e i r a ela p r e s u n ç ã o u n i v e r s a l

168
Livro III

d a s a b e d o r i a t o t a l e d o d e s p r e z o p e l a lei o r i g i n a d o s n o
â m b i t o da m ú s i c a veio a l i b e r d a d e , c o m o se crendo-se
c o m p e t e n t e s os indivíduos p e r d e s s e m o m e d o , a a u d á -
cia g e r a n d o o a t r e v i m e n t o - isto p o r q u e , ter receio da
opinião de alguém superior devido ao orgulho, não
p a s s a de vulgar atrevimento, o q u a l é e n g e n d r a d o por
u m a liberdade demasiado audaciosa.

Megilo: Bastante verdadeiro.

O ateniense: Logo d e p o i s dessa f o r m a d e l i b e r d a d e vi-


ria a q u e l a q u e se rebela ante a sujeição aos governan-
tes, q u e é seguida pelo esquivar-se à s u b m i s s ã o aos pró-
prios pais, aos m a i s velhos e suas c e n s u r a s ; e e n t ã o no
p e n ú l t i m o estágio v e m o esforço no s e n t i d o de descon-
s i d e r a r a s leis. N o ú l t i m o estágio d e t o d o s p e r d e - s e t o d o
o respeito pelos juramentos, compromissos e divinda-
d e s - no q u e se exibe c se r e p r o d u z a n a t u r e z a d o s titãs
d a n a r r a t i v a , • • • d o s q u a i s s e diz q u e r e v e r t e r a m a o seu • * • 'Pfotõo i M « i espérilo
estado original, arrastando u m a existência dolorosa dc. jeitcPdio dos trios cm
p a r a a q u a l j a m a i s há q u a l q u e r r e p o u s o ou t r é g u a di- Jiefoção oo': deuses ofitupieoc
a n t e d o i n f o r t ú n i o . E m a i s u m a vez n o s p e r g u n t a m o s : Pideírodee |'0i 3 ' " -
( í !

q u a l o objetivo d e d i z e r m o s t u d o isso? E v i d e n t e m e n t e , episódios que oqwímem tof


c imperioso q u e eu, a todo m o m e n t o , use as rédeas cm seJicCdio c 'rieoPidode já cõo
m e u discurso, corno s e fora u m cavalo, n ã o d e i x a n d o «Oiiwidos no Qeogoirio dc
q u e d e s e m b e s t e . c o m i g o c o m o s e I h e f a l t a s s e freio à b o c a TíJcsíodo, onde se desfocam
1
e assim "caia do b u r r o ' , c o m o diz o adágio. Por conse- o guowi dos fiteis
guinte, devo n o v a m e n t e repetir m i n h a pergunta e inda- cíienhceadrie po» ^AlPos
g a r : c o m q u e i n t u i t o t u d o i s s o foi d i t o ? eoMsa os ofitupicos c o
Megilo: Excelente. desobediência de ' Píroiuefoi
(jiOdo de Jflprie), que
O ateniense: B e m , o i n t u i t o e r a e s t e . . .
(Wifxiiondo 2tCns. fufilo 0
Megilo: Qual? jogo dos atum e o concede à
O ateniense: Dissemos que o legislador tem q u e visar ktm(míA(iA(i(k, fnifo que irfo
em s u a legislação a três objetivos: a l i b e r d a d e , a u n i d a - o otíoção dri espécie íuunono.
d e e a r a c i o n a l i d a d e d o E s t a d o p a r a o q u a l l e g i s l a . Foi («•(•)
o q u e d i s s e m o s , n ã o foi?

Megilo; Certamente.

O ateniense: C o m e s s e i n t u i t o s e l e c i o n a m o s a m a i s d es
p ó t i e a d a s f o r m a s de g o v e r n o e a m a i s livre e e s t a m o s
agora investigando qual destas é c o r r e t a m e n t e consti-
tuída. Q u a n d o tomamos em relação a cada u m a delas
uma amostra na devida medida - do governo despótico

169
Platão - As Leis

p o r um lado e do governo da l i b e r d a d e p o r outro - obser-


v a m o s a presença da p r o s p e r i d a d e no m a i s alto grau. m a s
q u a n d o c a d a u m a a v a n ç o u - u m a p a r a o e x t r e m o d a es-
cravidão, a o u t r a p a r a o e x t r e m o da l i b e r d a d e - constata-
m o s a ausência de proveito p a r a q u a l q u e r u m a delas.

Megilo: I s s o é s u m a m e n t e v e r d a d e i r o .

O ateniense: C o m o m e s m o intuito em vista e x a m i n a -


m o s t a m b é m o e s t a b e l e c i m e n t o d a s forças d ó r i a s e a fun-
d a ç ã o q u e D a r d a n o produziu ao pé das colinas, b e m
c o m o a colônia junto ao m a r e os primeiros h o m e n s q u e
s o b r e v i v e r a m a o d i l ú v i o , isto s o m a d o à s n o s s a s d i s c u s -
sões anteriores relativas à m ú s i c a e à e m b r i a g u e z , a l é m
de todas a q u e l a s q u e as p r e c e d e r a m . O objetivo de todas
e s s a s d i s c u s s õ e s foi d e s c o b r i r a f o r m a p e l a q u a l s e p o d e -
r i a m e l h o r a d m i n i s t r a r u m E s t a d o e q u a l a m e l h o r for-
m a d e c a d a c i d a d ã o v i v e r a s u a v i d a . M a s q u a n t o a o va-
lor d c n o s s a s c o n c l u s õ e s , q u e t e s t e p o d e r í a m o s a p l i c a r -
l h e s a q u i m e s m o entre, n ó s , ó Megilo e Clíniiis?

Clínias: A c h o , e s t r a n g e i r o , q u e c o n h e ç o u m . F o i u m b o -
c a d o d e s o r t e p a r a m i m o fato d e t e r m o s a b o r d a d o t o d a s
essas matérias em nossas discussões, pois na realidade
acontece q u e no m o m e n t o delas tenho necessidade, dc
m o d o q u e m e u e n c o n t r o c o n t i g o e Megilo a q u i foi a b s o -
l u t a m e n t e o p o r t u n o . N ã o farei q u a l q u e r s e g r e d o d o q u e
1
* C íiflbiP -Pfílfõo, (lf[ui tuflfS a m i m s u c e d e u d i a n t e de ti - n ã o . . . pelei c o n t r a r i o , e u o
ftlMtiln do que {ipósojo (pois t e n h o a t é c o m o u m feliz, p r e s s á g i o . A m a i o r p a r t e d e C r e -
põe no bom fio CJiuaa e «fio t a está s e e m p e n h a n d o n a f u n d a ç ã o d e u m a colônia, sen-
so aleiiKim o escopo maio» do q u e os cnossianos foram encarregados desse empreen-
fio diófogo) apMísenta o d i m e n t o ; a c i d a d e de C n o s s o s , p o r s u a vez, confiou a m i m
inhóito do :JÍÍI'JO IV o seguiu, e nove outros o e m p r e e n d i m e n t o . Fornos e n c a r r e g a d o s
tetovnonrío o tnesn*o (ema t a m b é m de, l e g i s l a r , p r o m u l g a n d o a s l e i s q u e n o s agra-
ccnhoP de ,J '"Pijxtfjâm, d a m , d e r i v a d a s d e n o s s a s p r ó p r i a s leis l o c a i s o u d e o u -
ogoío «o auge dc sua tros E s t a d o s , s e m q u a l q u e r restrição a o s e u c a r á t e r exó-
woliUidfido Jiíosofiea. tico, d e s d e q u e n o s p a r e ç a m m e l h o r e s . F a ç a m o s , p o r t a n -
Oonscqüontoiriontc, umo t o , e s t e f a v o r a m i m , e a vós t a m b é m ; f a ç a m o s u m a sele-
.«(•ciluw de ,_J 'Vo/iiêêm ção de t u d o q u e d i s s e m o s e e d i f i q u e m o s p e l a força d o s
pltef/oicePinoiite em píuoPePo o a r g u m e n t o s a estrutura de um E s t a d o , c o m o se o estivés-
fito de iJg Uifol. nos powe semos construindo a partir da fundação. Desta maneira
obigolóiia pena o e s t a r e m o s d a n d o s e g u i m e n t o à n o s s a i n v e s t i g a ç ã o e... é
eoínpícensoo da concepção possível, talvez eu p o s s a utilizar n o s s a e s t r u t u r a no Esta-
pofitico de ''Pífllão. (n.t.) do a s e r f o r m a d o . *

170
üvro III

O ateniense: T u a declaração, Clínias, não é certamente


u m a declaração de guerra! Assim, n ã o h a v e n d o q u a l q u e r
o b j e ç ã o p o r p a r t e d e Megilo, p o d e s c o n t a r c o m i g o e m t u d o
q u e esteja a o m e u a l c a n c e p a r a satisfazer teu desejo.

Clínias: E b o m o u v i r i s s o .

Megilo: E podes contar comigo, t a m b é m .

Clínias: E s p l ê n d i d o ! M a s c m primeiro lugar tentemos


f u n d a r u m E s t a d o e m teoria.

171
Platão - As Leis

4>spe <ST|, T i v a Sei S i a v o r ) 0 T ] v a i TCOTC Tnv


7toA.iv scecrfltti;

Livro
IV
172
Livro IV

O ateniense: V e j a m o s , e n t ã o , s e p o d e m o s s u p o r o q u e s e r á
esse E s t a d o . N ã o estou m e referindo a o seu presente n o m e
o u a o n o m e q u e terá q u e o s t e n t a r n o porvir, pois isto po-
deria originar-se d a s condições de seu estabelecimento,
o u d o n o m e d c a l g u m a localidade, o d e u m rio o u d e u m a
f o n t e , o u u m a d i v i n d a d e local p o d e r i a a s s o c i a r s e u n o m e ,
s a g r a d o a o n o v o E s t a d o . O p o n t o a q u e m e r e f i r o é , dife-
r e n t e m e n t e , o seguinte: deverá esse E s t a d o localizar-se no
interior d o c o n t i n e n t e o u n a costa m a r í t i m a ?

CUnias: 0 E s t a d o que- a c a b e i de, m e n c i o n a r , e s t r a n g e i r o ,


está situado a p r o x i m a d a m e n t e a oitenta estádios * do mar.

0 ateniense: B e m , e, s e u s p o r t o s f i c a m s i t u a d o s desse 1
PColfin f!»i[)*ra)n oqui o
lado da costa ou n ã o há portos?
fmPoiíio c r c a S i o v poso
Clínias: P o s s u i d e s s e l a d o os m e l h o r e s p o r t o s p o s s í v e i s , dmipm a wtMe (mm
estrangeiro. gn»fjfi ra»M'f:|i«ííra(f- « wsoo
s m
0 ateniense: O q u e d i z e s ? E q u a n t o à r e g i ã o q u e o cir- * t* (< íMmm, 6 0 7
c u n d a ? É p r o d u t i v a em t o d o s os a s p e c t o s , ou é l a c u n a r W<*>"P<". 6 9 0 <•
e m certos produtos? *»«• W W s do
Qwoío). v^lohiMrlatMte dpl<(:~
CUnias: N ã o h á p r a t i c a m e n t e n e n h u m p r o d u t o q u e l h e
««Kidííirai oqui o,<: 6 0 7 pé:,
falte.
ssjO, ofixftimadomttlc 183 m
O ateniense: Haverá a l g u m E s t a d o q u e faça fronteira
em suas proximidades?

Clínias: A b s o l u t a m e n t e n e n h u m , e é e s t a p r e c i s a m e n t e
a r a z ã o p a r a f u n d a r esse Estado pois t e n d o ocorrido
um êxodo nessa região outrora, esta se encontra desde
há muito tempo deserta.

0 ateniense: E q u a n t o a p l a n í c i e s , m o n t a n h a s e flores-
tas? Q u a n t a extensão possui disto?

Clínias: C o m o u m t o d o , s u a c o n f i g u r a ç ã o s e a s s e m e l h a
a t o d o o r e s t o de C r e t a .

O ateniense: Q u e r e s d i z e r q u e 6 m a i s a c i d e n t a d o d o q u e
plano?

Clínias: Com certeza.

O ateniense: E n t ã o tal Estado n ã o seria irremediavel-


mente i n a d e q u a d o para a aquisição da virtude, pois se
t i v e s s e q u e s e l o c a l i z a r ria c o s t a m a r í t i m a , d i s p o r d e
b o n s p o r t o s , m a s ser deficiente e m m u i t o s p r o d u t o s
em lugar de produzir tudo, necessitaria um poderoso
p r e s e r v a d o r e legisladores divinos p a r a , d o t a d o de tais

173
Platão - As Leis

características, evitar u m a m u l t i p l i c i d a d e de costumes


t a n t o s u n t u o s o s q u a n t o vis. C o m o e s t ã o a s c o i s a s , c o n -
tudo, esses oitenta estádios r e p r e s e n t a m u m a esperan-
ça. De q u a l q u e r forma, esse E s t a d o se s i t u a a u m a in-
d e v i d a p r o x i m i d a d e do m a r e t a n t o m a i s pelo fato de,
como dizes, contar com bons portos. Temos, entretan-
t o , q u e t i r a r o m á x i m o de. p r o v e i t o d i s s o , p o i s e m b o r a a
p r o x i m i d a d e d o m a r t o r n e a g r a d á v e l a viria c o t i d i a n a ,
o m a r é verdadeiramente " u m vizinho salgado e amar-
go" já q u e enchendo os mercados da cidade de merca-
d o r i a s e s t r a n g e i r a s e c o m é r c i o a v a r e j o , e f a z e n d o ger-
minar nas almas h u m a n a s os expedientes da desones-
t i d a d e e da a s t ú c i a , t o r n a a c i d a d e ineonfiávcl e. s e m
amizade, n ã o a p e n a s p a r a consigo m e s m a como t a m -
b é m e m r e l a ç ã o a o r e s t o d o m u n d o . N e s s e a s p e c t o , to-
davia, n o s s o E s t a d o e n c o n t r a c o m p e n s a ç ã o n o fato d e
ser totalmente produtivo, m a s sua superfície acidenta-
da o i m p e d i r á de, s i m u l t a n e a m e n t e , produzir t u d o e
p r o d u z i r e m a b u n d â n c i a , p o i s s e a s s i m fosse a s n u m e -
r o s a s e x p o r t a ç õ e s q u e isso p e r m i t i r i a i n u n d a r i a m o
E s t a d o de m o e d a s de o u r o e p r a t a - o q u e seria, pode-se
dizer, u m a condição calamitosa n u m E s t a d o o n d e s e
p r e t e n d e s s e a d q u i r i r c o s t u m e s n o b r e s e. justos - como
d i s s e m o s , vós o l e m b r a i s , em n o s s a d i s c u s s ã o a n t e r i o r .

Clínias: N ó s o l e m b r a m o s e e n d o s s a m o s o q u e d i s s e s t e
então e agora.

O ateniense: B e m , e c o m o é n o s s a r e g i ã o n o q u e s e refe-
re à m a d e i r a p a r a a c o n s t r u ç ã o de navios?

Clínias: N ã o h á a b e t o q u e v a l h a a p e n a , n e m p i n h e i r o e
s o m e n t e p o u c o c i p r e s t e ; t a m p o u c o foi p o s s í v e l e n c o n -
trar-se m u i t o lariço ou p l á t a n o , dos q u a i s os construto-
res n a v a i s s e m p r e s e s e r v e m p a r a a s p a r t e s i n t e r i o r e s
das embarcações.

O ateniense: Essas t a m b é m são características naturais


da região q u e n ã o serão nocivas ao Estado.

Clínias: E por que?

O ateniense: C o n s t i t u i u m a b o a c o i s a n ã o s e r fácil p a r a
uni Estado copiar os m a u s hábitos de seus inimigos.

Clínias: C o m e s s a o b s e r v a ç ã o à q u a l d e n o s s a s a f i r m a -
ções visas?

174
Livro IV

O ateniense: M e u c a r o s e n h o r , a t e n t e p a r a m i m c o m u m
o l h a r l a n ç a d o d e v o l t a à nossa afirmação de abertura a
r e s p e i t o d a s leis c r e t e n s e s . A f i r m a m o s q u e e s t a s t i n h a m
um único objetivo, e q u a n d o deelarastes q u e era o po-
der bélico, e u vos a p a r t e e i d e c l a r a n d o q u e era preciso
l o u v a r a p r o m u l g a ç ã o d e t a i s leis d o p o n t o d e v i s t a d a
virtude, m a s q u e eu, de m o d o algum, aprovava q u e o
objetivo se restringisse a u m a p a r t e em lugar de se apli-
c a r a o t o d o . P o r c o n s e g u i n t e , vós a g o r a , e m v o s s a vez,
deveís vos m a n t e r vigilantes a o a c o m p a n h a r m i n h a pre-
sente obra de legislador p a r a o caso de eu promulgar
q u a l q u e r lei q u e n ã o t e n d a e m a b s o l u t o p a r a a v i r t u d e
ou q u e t e n d a a p e n a s para u m a parte dela. E aqui eu
f o r m u l o o a x i o m a s e g u n d o o q u a l t o d a lei p r o m u l g a d a
q u e n ã o visa, c o m o u m a r q u e i r o , a q u e l e o b j e t o * e ele
s o m e n t e ( q u e é c o n s t a n t e m e n t e a c o m p a n h a d o p o r algo
f)u «jfl, o vühicfc totoP.
s e m p r e belo - elevando-se a c i m a de todo outro objeto,
,1.)
seja a r i q u e z a ou q u a l q u e r coisa d e s t e t i p o q u e é desti-
t u í d a d e b e l e z a ) é u m a lei i n c o r r e t a m e n t e p r o m u l g a d a .
C o m o fito d e i l u s t r a r c o m o a n o c i v a i m i t a ç ã o d o s ini-
m i g o s d e q u e falei o c o r r e q u a n d o u r n p o v o v i z i n h o d o
m a r é m o l e s t a d o p o r seus inimigos eu vos a p r e s e n t a r e i
u m e x e m p l o ( s e m a i n t e n ç ã o , é c l a r o , d e v o s f a z e r evo-
car lembranças amargas ••). Q u a n d o Minos outrora
••SendoefcdnLÁfíca, o
s u b m e t e u t o d o o povo d a Ática a o p a g a m e n t o d e u m
EPÍRÓEFÍO oo (poP o rrieiiimv
p e s a d o t r i b u t o , ele p o s s u í a u m a frota n a v a l m u i t o p o
posso 0 mtsm o guiso fie
d e r o s a , e n q u a n t o o povo da Ática n ã o d i s p u n h a , na- (Mttipío podeMo cnitmtàt
quela época, dc belonaves como dispõe atualmente, ronslitotigei som rtitaPoculo»cs,
b e m como não era s u a terra tão rica em m a d e i r a q u e osjxfioíWntí (VíMag elo Oicffi.
lhe possibilitasse a construção de navios p a r a consti- kl.)
t u i r u m a força n a v a l . C o n s e q ü e n t e m e n t e , s e viu inca-
p a c i t a d o de r a p i d a m e n t e copiar os métodos de cons-
t r u ç ã o naval de s e u s inimigos e repeli-los t o r n a n d o - s e
ele m e s m o um povo de m a r i n h e i r o s . E r e a l m e n t e teria
sido d e m a i o r valia p a r a eles p e r d e r a i n d a s e t e n t a vezes
sete c r i a n ç a s d o q u e s e t o r n a r e m m a r u j o s , hoplitas d e
t e r r a f i r m e s e c o n v e r t e n d o e m h o m e n s d o m a r , visto q u e
marujos estão h a b i t u a d o s a saltar freqüentemente às
praias e voltar velozmente aos seus navios, e n ã o vêem
n e n h u m a vergonha em não morrer o u s a d a m e n t e em seus
postos p o r ocasião do a t a q u e do inimigo, e p r o n t a m e n t e
d e s c u l p a s s ã o f a b r i c a d a s p a r a eles q u a n d o p e r d e m s u a s

175
Platão - As Leis

* fi pwiwieel! que '"Pfetão


a r m a s e s e v a l e m d o q u e c h a m a m fie " f u g a n ã o d e s o n -
(enfio «rboído estos crpuessõcs rosa". * E s t e s feitos c o n s t i t u e m o r e s u l t a d o u s u a l d o
de poemas que se pc»de«»>t, e m p r e g o d e h o p l i t a s n a v a i s c n ã o m e r e c e m " u m a infi-
(ni-) nidade de louvores",* porém precisamente o oposto,
pois n ã o se deve j a m a i s h a b i t u a r os c i d a d ã o s aos costu-
m e s vis, e s p e c i a l m e n t e o s m e l h o r e s d e l e s . O e n s i n a m e n -
to de q u e tal i n s t i t u i ç ã o é i n d i g n a e n c o n t r a - s e m e s m o
O S u a a s u ç , Qlftssee. em H o m e r o , o q u a l faz O d i s s e u * * repreender Agame-
iioii por ordenar aos aqueus q u e arrastem seus navios
a o m a r q u a n d o n a refrega e r a m p r e s s i o n a d o s pelos
t r o i a n o s . T o m a d o d e ira ele lhe diz:

Tu ordenas ao teu povo que reboijuem seus navios de bons bancos


Rumo ao mar quando a guerra, e os brados nos envolvem?
E assim verão CM troianos suas súplicas atendidas,
li o aniquüamento completo sobre nós sc abaterá!
Pois quando os rtaves fxira o mar/orem arrastadas, não movi
Irão nossos aqueiís manter o vigor da batalha,
Mas com o olhar na retaguarda, abandonarão a luta,
E assim teu conselho pernicioso se comprovará. * • *

•** f)disséia, vi , % 0 112 : O Ç KSÀXU.1 T t O À f p O l O CJUVECTXaOTOÇ K t t l at)TTjÇ

•••• xpiripne, novio- vrjaç etxraeXuoüç aÀctS eAxstv, o§p ext uaXXov
í:n.«j«ciM) ou befonote (aqui,
TpojCTi pxv cvKxa yevqiat eeASouEvotcn nep ep.7tr|ç,
bcJouoec) de (têe eaMciítos
sobíeposfne de sentas fie eacía
rjpiv 8 atrcuç oAxüpoç raippEnri ou yap A%atoi
M o . (n.t.) axrjCToixnv TXOA.8u.OU V T J Ü J V aAxxÔ eXmpzvamv,

KUpepvqTnÇ, o aXk (xitonarc xaveouatv, epaitqaouat ôe %apurjç


iinionoi.'(0-ckc|c. ((.(.)
cvOa K E O T | pouÂrj 8r|A,r|acxai, o i ayopeuetç (ni.)
••••••
Ttevxr) K o v x a p x o ç Assim, t a m b é m H o m e r o estava ciente d o f a t o d e q u e
ftaoftiofe comandan/c dc trirremes**** alinhadas n o mar n a s proximidades d a
ciiiqíiiiln homem; oqui este Irawo i n f a n t a r i a c o m b a t e n d o e m t e r r a n ã o s ã o b o a coisa, p o i s
composto posexe designo» o a t é leões, se tivessem e s s e s hábitos, a c a b a r i a m se acos-
segundo eontandoitic de «»>« t u m a m ! » a fugir d a s corças! A d e m a i s , E s t a d o s q u e de-
1
beAinoit ío q»osso modo p e n d e m d e f o r ç a s n a v a i s p a r a a m a n u t e n ç ã o de, s e u
eawspondctite ao jvimeiko p o d e r oferecem h o n r a s , c o m o recompensa d c s u a s e g u -
imediato Am (cwpos m e d e » ) , r a n ç a , a u m a p a r t e d e s s a s forças q u e n ã o r e p r e s e n t a o
1
mas c fwnie pwMep que PPafão melhor dos guerreiros, pois d e v e m sua segurança às
eefjicsee se sc{cS(itdo a r t e s d o piloto, ***** d o mestre d a e q u i p a g e m » • « • • • e ,
eiwppeeitiente ao thfa do d o r e m a d o r - h o m e n s d c t o d a espécie e d e p o u c a respeita-
iMpufoçõo, ou seja. o fiapilão. b i l i d a d e - d e m o d o a s e r impossível a t r i b u i r c o r r e t a m e n t e
ÍH.t.)

176
Livro IV

as h o n r a s aos indivíduos q u e a merecem. E portanto, como


p o d e ser b o m u m E s t a d o q u e s e q u e r goza dessa retidão?
Clínias: E q u a s e i m p o s s í v e l . C o n t u d o , e s t r a n g e i r o , foi a
b a t a l h a naval em S a l a m i n a , travada pelos gregos con-
tra os bárbaros q u e , ao m e n o s segundo nós, cretenses,
salvou a Grécia.

O ateniense: S i m , ó o q u e é d i t o p e l a m a i o r i a d o s g r e g o s
e dos b á r b a r o s . Porém nós, q u e r dizer, eu m e s m o e nosso
a m i g o Megilo, a f i r m a m o s q u e foi a b a t a l h a t e r r e s t r e d e
M a r a t o n a q u e d e u início à salvação da Grécia e a de Pla-
téia q u e a concluiu, e a f i r m a m o s , inclusive, q u e e n q u a n -
to essas b a t a l h a s t o r n a r a m os gregos melhores, as bata-
lhas m a r í t i m a s os t o r n a r a m piores - se tivermos q u e nos
e x p r e s s a r n e s s e s t e r m o s d e b a t a l h a s que, n o s a j u d a r a m
n a q u e l a época a n o s s a l v a r m o s (pois conceder-te-ei cha-
m a r a b a t a l h a de Artemísio do b a t a l h a naval, tanto q u a n -
to a de S a l a m i n a ) . M a s visto q u e o n o s s o presente objeto
de d i s c u s s ã o é a excelência política, o q u e e s t a m o s exa-
m i n a n d o é o c a r á t e r n a t u r a l de um país e suas institui-
ç õ e s l e g a i s , de, m o d o q u e n o s d i s t i n g u i m o s d e m u i t a s
p e s s o a s p e l o fato d e u ã o c o n s i d e r a r m o s a m e r a s e g u r a n -
ça e a m a n u t e n ç ã o da existência c o m o as coisas m a i s
preciosas a serem possuídas pela h u m a n i d a d e , m a s sim
a c o n q u i s t a de t o d o o b e m p o s s í v e l c a p r e s e r v a ç ã o d e s t e
a t r a v é s d a v i d a . A c r e d i t o j á t e r m o s a f i r m a d o isto a n t e s .

Clínias: Com certeza.

O ateniense: A s s i m s e n d o , e x a m i n e m o s s o m e n t e i s t o , a
saber, se c a m i n h a m o s pelo m e s m o c a m i n h o q u e t o m a
m o s n a q u e l a o p o r t u n i d a d e , q u e ê o m e l h o r p a r a os Es-
t a d o s em m a t é r i a de fundações e legislações.
Clínias: Muito melhor.

O ateniense: Na s e q ü ê n c i a d i z - m e : q u a l é o p o v o a s e r
instalado? Será este constituído por todos a q u e l e s q u e
desejam d e i x a r q u a l q u e r ptirte d e C r e t a s u p o n d o que.
em cada u m a das cidades a população tenha superado o
n ú m e r o d e c i d a d ã o s q u e o solo d a r e g i ã o p o d e a l i m e n -
t a r ? D a m i n h a p a r t e , c r e i o q u e n ã o e s t a i s r e u n i n d o to-
dos q u e t e n h a m tal desejo, e m b o r a r e a l m e n t e e u perce-
b a a p r e s e n ç a e m vosso p a í s d a q u e l e s q u e s e e s t a b e l e c e -
r a m v i n d o de Argos, E g i n a e de o u t r a s p a r t e s da Grécia.
Por conseguinte, conta-nos dc q u e regiões será r e t i r a d o
provavelmente o presente contingente de cidadãos.

177
Platão - As Leis

Clínias: S e r á p r o v a v e l m e n t e d e C r e t a i n t e i r a , e n o q u e
s e refere a o resto d a Grécia, p a r e c e m e s t a r m a i s predis-
postos a admitir gente do Peloponeso como companhei-
ros de i n s t a l a ç ã o . De fato, é vero, c o m o a c a b a s t e de di-
zer, q u e t e m o s a q u i g e n t e d e Argos, c o n s t i t u i n d o eles o s
m a i s f a m o s o s de n o s s o s clãs, ou seja, os g o r t í n i o s , q u e é
u m a colônia da Cortine* do Peloponeso.

* Toptovoç, cidade tio O ateniense: N ã o s e r i a t a m b é m f á c i l p a r a o s E s t a d o s


pé do monlc êda. Semente et» o r i e n t a r c o l o n i z a ç õ e s se isto n ã o se fizesse à m a n e i r a de
18S4 foi deseobato p o r u m a ú n i c a r a ç a de c o l o n o s
código fcgoí esc.jiío. (n.l.) v i n d a de u m a ú n i c a t e r r a , c o m o um a m i g o q u e viesse do
s e i o d e a m i g o s , s o b a p r e s s ã o c r i a d a p e l a falta d e e s p a ç o o u
o constrangimento de alguma outra necessidade p r e m e n t e
d o m e s m o gênero. P o r vezes, t a m b é m , a violência d e u m a
revolução p o d e r i a o b r i g a r u m a p a r l e inteira d e u m Esta-
do a emigrar, e até já sucedeu de um Estado inteiro em-
p r e e n d e r o exílio q u a n d o t o t a l m e n t e e s m a g a d o p o r u m
a t a q u e d e p o d e r d e s c o m u n a l . E m todos esses casos, s e essa
for a m a n e i r a , a d i f i c u l d a d e s e r á m e n o r d o p o n t o d e v i s t a
do f u n d a d o r e do legislador, p o r é m será m a i o r se a m a n e i -
ra for diversa. Em caso de u n i d a d e racial, p r e s e n ç a de
l í n g u a i d ê n t i c a e leis i d ê n t i c a s , e s t a u n i d a d e p r o d u z i r á
amizade já q u e haverá t a m b é m participação c o m u m nos
ritos s a g r a d o s e em todas as m a t é r i a s religiosas, m a s u m a
t a l e s t r u t u r a n ã o t o l e r a r á f a c i l m e n t e leis o u c o n s t i t u i ç õ e s
q u e sejam distintas d a q u e l a s da metrópole. Além disso,
no caso de u m a tal estrutura p e r d e r a u n i d a d e por c a u s a
d e u m a r e v o l u ç ã o p r o v o c a d a p e l a m á q u a l i d a d e d a s leis,
e a i n d a reter (à força do h á b i t o de m u i t o t e m p o ) os pró-
p r i o s costumes q u e c a u s a r a m s u a r u í n a , a pessoa q u e de-
tiver o c o n t r o l e d e s u a f u n d a ç ã o e s u a s leis t e r á n a s m ã o s
u m a s s u n t o difícil e e s p i n h o s o . P o r o u t r o l a d o , o c l ã for-
m a d o p e l a fusão d e vários e l e m e n t o s e s t a r i a , talvez, m a i s
p r e p a r a d o p a r a s u b m e t e r - s e a leis n o v a s , e m b o r a s e reve-
l a s s e n e s t e c a s o u m a t a r e f a p e n o s a e d i f i c í l i m a fazê-lo
co participar n u m m e s m o espírito e arquejo (como dizem)
e m u n í s s o n o c o m o u m a p a r e l h a d e c a v a l o s . M a s , e m ver-
d a d e , a legislação e a f u n d a ç ã o de E s t a d o s s ã o e m p r e e n -
dimentos q u e exigem q u e h o m e n s a p r i m o r e m , acima d e
tudo, outros homens na virtude.

Clínias: E b e m p r o v á v e l , m a s e x p l i c a a i n d a c o m m a i o r
clareza o q u e te i n d u z a expressar-se a s s i m .

178
Livro IV

O ateniense: M e u c a r o s e n h o r , a o v o l t a r a o a s s u n t o d o s
legisladores de nossa investigação, creio q u e possa ao
m e s m o t e m p o dizer algo desrespeitoso. Mas se o q u e
d i s s e r for a p r o p ó s i t o , a c r e d i t o q u e n ã o h a v e r á m a l n i s -
so. Afinal, p o r q u e deveria eu me c o n s t r a n g e r ? N ã o é
assim praticamente, com todos os assuntos humanos?

Clínias: A o q u e t u t e r e f e r e s ?

0 ateniense: E u e s t a v a n a i m i n ê n c i a d e d i z e r q u e i n d i v í -
d u o h u m a n o a l g u m j a m a i s p r o d u z leis, m a s q u e s ã o o s
a c a s o s e a c i d e n t e s de t o d o s os t i p o s , < >s q u a i s o c o r r e m de
t o d a s a s m a n e i r a s , q u e a s p r o d u z e m p a r a n ó s - seja u m a
g u e r r a q u e v i o l e n t a m e n t e d e r r u b a g o v e r n o s e a l t e r a a s leis,
seja a p e n ú r i a c a u s a d a p e l a p o b r e z a a v i l t a n t e . A s d o e n ç a s ,
t a m b é m , c o m f r e q ü ê n c i a prove>eani i n o v a ç õ e s q u a n d o ir-
r o m p e m epidemias e as estações de clima rigoroso se p r o
l o n g a m p o r m u i t o t e m p o . A n t e v e n d o t u d o isso, p o d e r - s e -
ia julgar a p r o p r i a d o dizer - c o m o eu disse há pouco - q u e
n e n h u m s e r h u m a n o m o r t a l p r o d u z q u a l q u e r lei, o s a s
suntos h u m a n o s s e n d o q u a s e todos p r o d u t o s d o p u r o aca-
s o . E n t r e t a n t o , o fato é q u e , e m b o r a p a r e ç a q u e a l g u é m
e s t e j a a b s o l u t a m e n t e c e r t o a o d i z e r isso t u d o a r e s p e i t o
d a s artes do navegador, do piloto, do m é d i c o e do general,
a i n d a a s s i m há, r e a l m e n t e algo a m a i s q u e p o d e m o s dizer
com a m e s m a certeza acerca dessas m e s m a s coisas.

Clínias: E o q u e ê?

0 ateniense: Q u e h á u m d e u s q u e c o n t r o l a t u d o q u e é , e
q u e o acaso c a ocasião c o o p e r a m c o m e s s e d e u s no c o n t r o -
le de todos os assuntos h u m a n o s . Será m e n o s d u r o , entre-
t a n t o , s e a d m i t i r m o s q u e esses d o i s e l e m e n t o s s ã o a c o m p a -
n h a d o s p o r u m terceiro; a arte., p o i s e m t e m p o d e t o m i e t i t a
q u e a a r t e do timoneiro coopere c o m a ocasião - o q u e eu
r e p u t a r i a como u m a g r a n d e vantagem. N ã o é assim?

Clínias: È.

0 ateniense: D i a n t e d i s s o t e r e m o s q u e c o n c e d e r q u e tal
coisa é i g u a l m e n t e v e r d a d e i r a n o s outros casos, p o r su-
jeição aos m e s m o s princípios de raciocínio, inclusive
no caso da legislação. Q u a n d o t o d a s as outras condi
ções estão p r e s e n t e s , com o q u e um p a í s precisa c o n t a r
e m m e i o a o j o g o d a s c i r c u n s t â n c i a s s e for p a r a s e r feliz,
tal E s t a d o n e c e s s i t a r á ter à s u a d i s p o s i ç ã o u m legisla-
dor comprometido com a verdade.

179
Platão - As Leis

l
* xün («Pesistas mine. os ejuc Clínias; D i z e s a l g o m u i t o v e r d a d e i r o .
miabémmu» o tolo gMgo
O ateniense; N ã o s e r i a e n t ã o a q u e l e q u e p o s s u í s s e a a r t e
que mtotjKND o jmigunta de
relativa a c a d a u m d o s ofícios m e n c i o n a d o s c a p a z d e
(Vimas c a svs,pmki-p'k(j<wki
suplicar s e m receio de erro por a q u e l a condição q u e , se
tia afattimigi! (as quais
fosse p r o p o r c i o n a d a p e l o a c a s o , r e q u e r e r i a t ã o - s o m e n -
cnâmnioi) «m i/áâsoj como
te o suplemento de s u a própria arte?
fiOMpfeiiMto do Mo.ioeínio dc
Glinias: C e r t a m e n t e seria.
olmiMsc fogo atiles (que
eoPocatiios era fonte ifcíPieo/ O ateniense: E s e t o d o s o s o u t r o s q u e a c a b a m o s d e m e n -
neg/iiro), ou se„jo: c i o n a r f o s s e m c o n v i d a d o s a e x p r e s s a r o o b j e t o rie s u a s
(9 afunifitisc. "njojooiof!, s ú p l i c a s , s e r i a m c a p a z e s d e fazê-lo, o u n ã o ?

PegisPado»... "nós fc Clínias: C l a r o q u e s e r i a m .


diAÍoivios."... o que quraes e o O ateniense: E o l e g i s l a d o r , s u p o n h o , t a m b é m s e r i a c a p a z ?
físfndo ei» que eotidiçõo pato
Climas: Suponho que sim.
que, som isco, o pom®
admini.sta O ateniense: " Vejamos, legislador,.." n/m lhe diríamos,
"... o que queres e o Estado em que condição para que,
safisfalojiamente?" QuoP o
com isso, o possas administrar satisfatoriamente.?''
fionlo o seguis a soj riifo com
1
psopsiodode ? "Dosemos esto Clínias: Qual o ponto a seguir a ser dito com propriedade?
sesposlo fio ponto de. i<ie(o do O ateniense: Queres dizer, suponho, do ponto de vista, do
PegisPado»? (n.l.) legislador?*

Clínias: Sim.
Pu sejo, iiw
tupavvoç, MM otonaíco O ateniense: E i s o q u e e l e r e s p o n d e r á : " D á - m e o E s t a d o
({no delem fiodc» absoluto, c c o m um s o b e r a n o d e s p ó t i c o • * e q u e este seja p o r u a t u
não ncccssoWomcnte um r e z a d e t e n t o r d e b o a m e m ó r i a , j o v e m , d o t a d o d e facili-

usu»|iodo» do (sono do d a d e dc compreensão, coragem e maneiras nobres,**»


c que aquela qualidade que anteriormente menciona
meiBOSquio que se scrtlo, cíc,
mos**** acompanhe necessariamente todas as partes
«o píióliea ctucP e
da virtude, estando presente t a m b é m agora na alma de
i»cot«pclcn(e (senUelo jeí
n o s s o m o n a r c a , se é q u e q u e r e m o s que, o resto de s u a s
fwjosolieo qno o poPowo
q u a l i d a d e s a p r e s e n t e m q u a l q u e r proveito." N ã o é?
adqulíe postesiosmorto o fttg
d a s pouco bem sucedidos Clínias: T e m p e r a n ç a , s u p o n h o , M e g i l o é o q u e o e s t r a n -
evpotíêneios deis nsmpadoscs geiro indica c o m o c o m p l e m e n t o necessário.
nos tsoiios da íjsCcio artigo). O ateniense: Sim, Clínias, a temperança, q u e r dizer, a
iA f:fiticcpe;õfi da (ttaMO como o r d i n á r i a , n ã o a q u e l e t i p o d e t e m p e r a n ç a a q u e s e faz
«ma JIIMI cioccíbado ou referência q u a n d o se u s a linguagem a c a d ê m i c a e se
degenosodo do tnonosquío não identifica a t e m p e r a n ç a com a sabedoria, m a s sim o
é, assim. osiginoP. powiin tipo q u e pelo instinto n a t u r a l brota por ocasião do nasci-
pSfisnniiecPtncnlc rfasiWido do mento nas crianças e animais, de m o d o q u e alguns são
dcPicadíssiino pode» obsoftilo incontinentes, outros continentes no q u e diz respeito aos

maP uliPigodo nas meios da p r a z e r e s . C o m r e l a ç ã o a isso, d i z í a m o s q u e , q u a n d o essa

usuítpadoíics. (n.l.)

180
Livro IV

•••.avõpeioç MM
t e m p e r a n ç a e s t á i s o l a d a d o s n u m e r o s o s c h a m a d o s bens,
ueyaÂoupejiriç...,
carecia de importância. Entendeis, p r e s u m o , o q u e que-
CMogcm K IUOMÍWS nr/tm,
ro dizer?
«sto tioíwiíjfl jó eicço o
Clínias; Certamente.
conjugou rfupfo mtlée, ou
O ateniense: Que o nosso m o n a r c a despótico possua eejo, ceie tomem f*rto ' PPfltõo
essa qualidade natural além das outras qualidades c neceíxáwn e obeiomoslc de
m e n c i o n a d a s se é q u e q u e r e m o s q u e o Estado adqui- finíiogem nohw, mat e
ra da m a n e i r a m a i s r á p i d a e m e l h o r possível a consti- p.itiu/planefimpíife dotodo de
tuição q u e necessita p a r a assegurar a vida m a i s ven iiohwga do fííhfi. t> fejiino
t u r o s a , visto q u e n ã o existe n e m p o d e r i a j a m a i s surgir peyaX.o7tpgjtEta, o
um meio mais rápido e melhor de estabelecer u m a (nopósifo, sígni{iea iiioPueiee,
forma de governo. magnanimidade, genejocidade.

Clínias: C o m o e p o r i n t e r m é d i o d e q u a l a r g u m e n t o , es- («•(•)

t r a n g e i r o , p o d e r í a m o s c o n v e n c e r a n ó s m e s m o s d e «pie, **"f)v seja. o tem|)e,TOiieo


a o d i z e r m o s isso, f a l a m o s c o m r a z ã o ? (a(D(J)porjüVq). (n.t.)

O ateniense: Pode-se conceber facilmente, Clínias, que


e s t á n a n a t u r e z a d a s p r ó p r i a s c o i s a s q u e a s s i m seja.

Clínias: D e q u e m a n e i r a q u e r e s d i z e r ? S o b a c o n d i ç ã o ,
segundo dizes, de q u e haja um m o n a r c a despótico q u e
seja j o v e m , m o d e r a d o , d e c o m p r e e n s ã o fácil, d e b o a
m e m ó r i a , bravo e de nobres maneiras?

O ateniense: A c r e s c e n t a t a m b é m feliz p e l o m e r o fato de


q u e d u r a n t e s u a v i d a p u d e s s e s u r g i r u m l o u v á v e l legis
l a d o r e q u e p o r um b o c a d o de boa sorte a m b o s se en-
c o n t r a s s e m , p o i s s e a s s i m fosse e n t ã o a d i v i n d a d e t e r i a
feito q u a s e t u d o q u e faz q u a n d o d e s e j a q u e u m E s t a d o
seja p a r t i c u l a r m e n t e próspero. A c o n d i ç ã o í m e d i a ta-
m e n t e inferior corresponderia ao surgimento de dois
c o n d u t o r e s desse jaez; e e n t ã o viria a terceira com três
condutores, e assim por diante, a dificuldade aumen-
t a n d o à m e d i d a q u e esse n ú m e r o de condutores a u m e n -
tasse, e vice-versa.

Clínias: A p a r e n t e m e n t e q u e r e s d i z e r q u e o m e l h o r Es-
t a d o nasceria de urna m o n a r q u ia despótiea q u a n d o esta
contasse com um legislador de primeira categoria e um
m o n a r c a despótico decente, sendo estas as condições
n a s q u a i s a m u d a n ç a p a r a u m tal E s t a d o p o d e r i a ser
e f e t u a d a c o m m a i o r facilidade e r a p i d e z , e a s e g u i r de
u m a o l i g a r q u i a - ou o q u e é isso que. q u e r e s d i z e r ? E
a i n d a a seguir de u m a democracia?

181
Platão - As Leis

* €)u SCJO, 0 TIIOBFUÍJUÍO LLFL


O ateniense: N ã o exatamente. O passo mais fácil é a
quaí não kâ fintile pa»o o partir de u r n a m o n a r q u i a despótica, • o próximo mais
pode» pessoal do mona»e.o, o fácil de u m a m o n a r q u i a c o n s t i t u c i o n a l * * e o t e r c e i r o a
nionaJiquia absctula
partir de a l g u m a forma de democracia. U m a oligarquia,
(tupavviç). (n.i.J
q u e vem em quarto lugar na ordem, somente mediante a
•• LA »oiio,»f}uio «Palito, m a i o r das dificuldades permitiria o desenvolvimento do
ooin ÍIHMTOÇÕO do pode* do m e l h o r E s t a d o j á q u e é a f o r m a d e g o v e r n o n a q u a l exis-
«ei; o que T % l à o etomo de te m a i o r n ú m e r o de condutores. • * • O q u e digo é q u e a
PamÂiKnç m u d a n ç a ocorre q u a n d o a natureza supre um verdadei-
TtoXiteiaç. (n.t.; ro legislador e q u a n d o acontece q u e a opinião política
dele é partilhada pelos indivíduos m a i s poderosos do
E s t a d o ; a s m u d a n ç a s s ã o realizadas g e r a l m e n t e c o m ra-
oÃiyapxia c o joumo de
pidez e facilidade o n d e as a u t o r i d a d e s do E s t a d o são a
goWtno «o. quoJ o podei é
um t e m p o as m a i s p o d e r o s a s e as m e n o s n u m e r o s a s . » * * *
MGAcldo po* poucos pessoas
ou poucas {nmíPias, mos o Clínias: C o m o assim? Não compreendemos.
»e{e«!iieiof de. 'PPaíõo é O ateniense: E n o e n t a n t o i s s o foi e n u n c i a d o n ã o u m a
pMeisowentc o monmqiiio vez, s u p o n h o , m a s m u i t a s vezes. E n t r e t a n t o , é b e m pro-
despóíieo, «o quoP o pedes vável q u e vós j a m a i s vistes u m E s t a d o s u b m e t i d o a o
esteí inteifia e cffiftisiwmentc poder d e u m m o n a r c a despótico.
eo»R*«T*ado «a pcssoo do
Clínias: N ã o e t a m p o u c o a l i m e n t o e u q u a l q u e r d e s e j o
tijnno - oo sejo, um úitifio
de vê-lo.
conduto» do fistado. fioli este
ítejejcneifti o oíigoftquio í o O ateniense: E t u , c o n t u d o , p o d e r i a n e l e v e r u m a i l u s -
sistema poPítioo que conta com t r a ç ã o d o q u e a c a b o d e falar.
o maio» núnieso de eondefaíes. Clínias: Como?
(n.t.) O ateniense: O f a t o d e u m m o n a r c a d e s p ó t i c o , q u a n d o
• • * * © que é cncontsorío num se decide a alterar os costumes de um Estado, n ã o ne-
goue.tno moiirisquieo c e s s i t a r p a r a isso d e g r a n d e s esforços n e m d e m u i t í s s i -
abeofctista ( T u p a v v t ç j . m o tempo, s e n d o l h e necessário r e a l m e n t e a p e n a s en-
veredar, ele m e s m o , p r i m e i r a m e n t e p e l o c a m i n h o de-
sejado, seja este impelir os c i d a d ã o s r u m o à virtude ou
o c o n t r á r i o . Através de seu e x e m p l o p e s s o a l ele deve,
e m p r i m e i r o lugar, t r a ç a r a s l i n h a s c e r t a s , seja distri-
b u i n d o l o u v o r e s e h o n r a s seja d i s t r i b u i n d o c e n s u r a s ,
seja castiganelo a d e s o b e d i ê n c i a a c a d a m a n i f e s t a ç ã o .

Clínias: S i m , t a l v e z p o s s a m o s s u p o r q u e o s d e m a i s ci-
dadãos n ã o demorarão a imitar o governante q u e ado-
ta tal c o m b i n a ç ã o de p e r s u a s ã o e coerção.

O ateniense: Que n i n g u é m , m e u s a m i g o s , t e n t e n o s p e r -
s u a d i r q u e u m E s t a d o p o s s a j a m a i s a l t e r a r s u a s leis
mais rápida ou facilmente por outro meio além do

182
Livro IV

n o r t e a m e n t o pessoal d o s governantes: tal coisa n u m a


p o d e r i a a c o n t e c e r , seja n a a t u a l i d a d e o u d o r a v a n t e . N a
v e r d a d e , n ã o é b e m o r e s u l t a d o q u e j u l g a m o s difícil o u
i m p o s s í v e l d e s u c e d e r ; o q u e é difícil s u c e d e r , p e l o c o n -
trário, é aquele resultado q u e sucede apenas raramen-
t e n o d e s e n r o l a r d e l o n g a s e r a s e q u e , q u a n d o efetiva
m e n t e sucede n u m Estado, p r o d u z neste Estado incon-
táveis b ê n ç ã o s de t o d a ordem.

Clínias: A ( p i e r e s u l t a d o tu te referes'/'

O ateniense: Q u a n d o um desejo divino d a s práticas da


t e m p e r a n ç a e d a justiça n a s c e n o seio d c u m g r a n d e po-
• * * • • L.4 bodueão da
d e r q u e é s o b e r a n o s o b a forma da m o n a r q u i a institucio-
0«i<|>poo~uvr| c seus
nal ou se destaca graças à superioridade da riqueza ou
dc/utados. mesmo num
do nascimento, ou a i n d a se alguém passa a exibir as
dofcesininodo eenlevfo, po* umo
q u a l i d a d e s d e Nestor, d e q u e m s e diz q u e s e e r a cie supe-
única fiafaiíia dccignndoM (te.
rior a todos os outros seres h u m a n o s em eloqüência, o
um conCCilr unáoeo na {íngua
e r a a i n d a m a i s e m t e m p e r a n ç a . » • • * • I s t o foi, c o r n o d i -
modetna, é as ee.íjes muito
zem, na época de Tróia - s e g u r a m e n t e n ã o no nosso tem-
psobfomático; aqui pon
po. D e q u a l q u e r m a n e i r a , s e u m tal h o m e m existiu, o u
existirá ou existe e n t r e n ó s a t u a l m e n t e , a b e n ç o a d a é a eyempPo a fempe.ionea iinpPieo

v i d a q u e leva e a b e n ç o a d o s s ã o a q u e l e s q u e s e u n e m p a r a tiocossíwiomonte a sabodoíeo.

o u v i r a s p a l a v r a s dt; t e m p e r a n ç a q u e e m e r g e m d e s u a nu seja. denlíio da p.wp.Wo

boca. A n a l o g a m e n t e no q u e diz respeito ao poder em concepção da nioianquio d a s

geral, a m e s m a regra é aplicável: s e m p r e q u e o p o d e r Wittudes c do nilurie tolnf, é

supremo reúne, n u m indivíduohumano, sabedoria etem- twipossíutiP que qualquct domem


p e r a n ç a , • • • • • está p l a n t a d a a semente da m e l h o r cons- seja detento) de lompcüanoa
tituição c da melhor legislação, c de n e n h u m a outra se» dele» pAoviafiiCiilc

m a n e i r a chegar-se-á a isto. C o n s i d e r e m o s q u e t e m o s a q u i snbedr.ilo: não i«í como


um mito proferido por um oráculo e consideremos como concebei no pxílica as duas
(
c o n s p í c u o q u e s e é difícil p a r a u m E s t a d o c h e g a r à s s u a s liiitfufíee isofadnnieiitc. do<p
m e l h o r e s leis, d o m o d o q u e d i s s e m o s s e r á s u m a m e n t e a b a i » isto é sugotído já no
m a i s fácil e m a i s r á p i d o d o q u e q u a l q u e r o u t r a c o i s a . pfrino feO.iioo pefa inatfoPogifl
das paPa«as:...(J)povt;iv
Clínias: Provavelmente.**•• • •
TC KCÜ CTOMJipOVClV...
0 ateniense: A p l i q u e m o s o o r á c u l o a o t e u E s t a d o , t e n - L.scibedo.iio e tem|«ança...).
tando assim, como meninos de b a r b a grisalha, moldar fci.)
s u a s leis s e g u i d o n o s s o d i s c u r s o
Ou seja. ItJOJÇ.
Clínias: S i m , v a m o s e m f r e n t e s e m m a i s d e l o n g a s . u U o s neste eoso os nopenistas
O ateniense; I n v o q u e m o s a p r e s e n ç a do d e u s na f u n d a - que eslabePco.cNam o fovto
ç ã o do E s t a d o , e q u e ele possa n o s e s c u t a r , e n o s escu- gjcfjo díic.tgein. _,4
t a n d o ser propício e benevolente assistíndo-nos na cons- intcíPocuçiõo de CMutos
t r u ç ã o do E s t a d o e s u a s leis. podciMa sen também: Como'?
(ftaç) (n.t.)

183
Platão - As Leis
• Optamos po« esto
ccpMssõo composto pois nos
Clínias: S i m , q u e e l e s e m a n i f e s t e .
pOMCC menos sujeito ò
ambigüidade tio que o (cimo O ateniense: Bem, q u e forma de governo t e n c i o n a m o s

(IMmia. (n.t.) atribuir ao nosso Estado?


• • <_k nosso pofotMi daiiôMos Clínias: Ao q u e te referes especificamente? Explica-te
é demasiado inconveniente pois d e m o d o a i n d a m a i s claro. Creio q u e t e n s e m vista u m a
adquisiu, cspeeiaCmentc o pa/ttiu democracia, u m a oligarquia, u m a aristocracia ou u m a
do jim da -ôdade antiga, com m o n a r q u i a constitucional?... pois c e r t a m e n t e n ã o te
a instafeção do c/uslionistno referes a u m a m o n a r q u i a despótica, * o q u e n u n c a po-
ojíeiaf c. insíitueionaf na d e r í a m o s supor...
fiu/iopa, acepções e conotações
O ateniense: V e j a m o s , q u a l d o s d o i s g o s t a r i a d e m e r e s -
intci/iamentc esfsannas sejo ao
p o n d e r em primeiro lugar e dizer em q u e tipo de forma
pensamento gsego, seja e)
de governo se e n q u a d r a a forma de governo de seu pró-
mitologia da Qíéeia, seja d sua
prio Estado?
wda Midgiosa. Cs píiineiMS
fadtca c teóPogos da -5g»cjo Megilo: N ã o s e r i a a p r o p r i a d o q u e e u , s e n d o m a i s v e -
ftUsíã cm {o*i«ação nüida no lho, respondesse primeiramente?
aduento do sectasismo ejüstão (a Clínias: È provável.
começo,» po» S ã o Justino,
Megilo: N a v e r d a d e , e s t r a n g e i r o , q u a n d o p e n s o n a for-
ijt(e»ógo»as, ííanln âtâm c
m a d e g o v e r n o d a L a c e d e m ô n i a , fico i m p o s s i b i l i t a d o
atingindo seu auge. com
de dizer-te p o r q u a l n o m e se deveria designá-la. Parece-
ÇJéfituftono, fiftsiicíite dc
m e , c o m efeito, q u e s e a s s e m e l h a a u r n a m o n a r q u i a
(/tteffflidwa e Oifígotes), no seu
d e s p ó t i c a já q u e a institutiçâo de éforos q u e ela encer-
twbafto e gelo de estabelece»
ra é s u m a m e n t e despótica; e, no e n t a n t o , p o r vezes me
os dogmas da noeo neligião e
p a r e c e m a i s p r ó x i m a d e u m a d e m o c r a c i a d o «pie t o d o s
eombat» as seitas antagônicas
os outros Estados. De q u a l q u e r m o d o , seria inteiramen-
e kJtétiwf: (p»ineipa!«cn(e os
te a b s u r d o negar q u e se trata de u m a aristocracia, mas
gnestioos), oMoíoot uma
q u e inclui u m a realeza vitalícia, a m a i s antiga de todas
toíiiinoligia tcóiogieo wftcjioea
a c r e r m o s n ã o s ó e m n ó s m e s m o s c o r n o e m tejda a h u -
que não dei»» de inefoij a
oduftaoção de concerteis manidade. Mas de m i n h a parte, diante agora dessa

Médicos, isto, é ela,», usando p e r g u n t a r e p e n t i n a , estou r e a l m e n t e , corno disse, im-

o dcsmcficoci o jifoso|ia gieijo e possibilitado de dizer definitivamente a q u a l dessas


NWJ uma gijfttsa mim o formas de governo pertence.
paganismo. "Uma das fiAm Clínias: E e u , Megilo, e n c o n t r o - m e i g u a l m e n t e p e r p l e x o
faimm dessa aduffe»ação {oi p o i s a c h o m u i t o difícil a t r i b u i r a o r e g i m e d e C n o s s o s
ptecisamente {mjaír «mr< um desses n o m e s com certeza.
dualidade metafísica nn
O ateniense: S i m , m e u s c a r o s s e n h o r e s , p o i s v ó s , efetiva-
eoiice|)Ção do dwino dos gitegos,
mente, participais de várias formas de governo, enquan-
seefessi{ieando o
to aquelas que a c a b a m o s de n o m e a r n ã o são [a rigor|
o c u p o v i o v (ou S a i u w v )
formas de governo, m a s sim a g r u p a m e n t o s ou sistemas
como um se* nccescawamenlc
políticos q u e d o m i n a m ou servem parcelas de si mes-
maíigno c dedicado etenomenlc
mos, sendo cada um n o m e a d o de acordo com o poder
ao ntfrf, cm oposição absoftiía o
c
Beus, ou seja. uma

184
Livro IV
concepç/io meiniqueíslo
fotaftwrfe ausento no mito P *
d o m i n a n t e . M a s s e o E s t a d o devesse, s e r n o m e a d o d e a c o r -
\*tm gregos, -jfa pníanos
do c o m isso, o n o m e q u e deveria o s t e n t a r é o do d e u s q u e
ô a t u t ü v f. OCtlUÜVtOV
é o v e r d a d e i r o g o v e r n a n t e de i n d i v í d u o s r a c i o n a i s .
íiijMJienm ftfeinitiicfití
Clínias: E q u e m é esse deus?
dimtdadr, nõo dando metógetn (t
O ateniense: Será q u e n ã o deveríamos, então, recorrer queiftjiie» díeotomto e mi»
m a i s u m a vez a o m i t o d e m o d o a r e s p o n d e r satisfato- itínfiutwi rmpfeao,ão metafísico
r i a m e n t e a essa q u e s t ã o ? (•Lm; o ml.» sentido eobftef o

Clínias: E por que não? estos i m l t a a s , deAühdo desse,


sentido plinWiflí e fiíojoí, e,
O ateniense: Ótimo! Longas eras antes q u e existissem c
que Motõo iiftftgo eiquí bon
até m e s m o essas cidades d a s q u a i s indicamos a forma-
eomo eo»entc»ente em seus
ção a n t e r i o r m e n t e , existia n o t e m p o d e C r o n o s , c o n t a
fiiita: difiüofjos (de, iwnneüvi
se, u m g o v e r n o e f u n d a ç ã o s u m a m e n t e p r ó s p e r o s c o r r i
mateonle nei lApoérjin, onde
b a s e n o s q u a i s o m e l h o r d o s E s t a d o s a t u a l m e n t e exis-
fiócsatos se, MJTJK CIO S O I
t e n t e s foi m o l d a d o .
ôcuucov) t, o de umo
Clínias: E e v i d e n t e q u e é de e x t r e m a i m p o r t â n c i a ter fíivindode mejto/i,
c o n h e c i m e n t o disso. (ucjetóquiofinicntc infcnioa nos
O ateniense: P a r e c e - m e q u e s i m e foi p o r i s s o q u e i n t r o - deuses (iné-oífmpicos ou
duzi esse p o n t o em n o s s a discussão. oPímpieos, o (íoiiHn de

Megilo: N e s s e c a s o a g i s t e a d m i r a v e l m e n t e e v i s t o q u e o X p o v o ç ) que, o p.wpósito.

m i t o a q u e te referes ó p e r t i n e n t e , farás m u i t o b e m em gcfc pcPa numonidade, inspiw e

prosseguir dele t r a t a n d o até o fim. Oflicnto cada indiiíduo tumono,


como um gênio pfiofctoí; um
O ateniense: S ó m e c a b e f a z e r c o m o d i z e s . B e m , a t r a d i -
conceito eotnpa»ó«P oo conceito
ç ã o n o s fala d e q u ã o v e n t u r o s a e r a a v i d a h u m a n a n a -
dc. anp da rjuatda do
q u e l a é p o c a , s u p r i d a c o m t u d o e m a b u n d â n c i a e e m es-
csistianismo. poitcim oPo/ia e,
p o n t â n e o d e s e n v o l v i m e n t o . E diz-se q u e a c a u s a d i s t o
profundamente distinto elo
fora o seguinte: C r o n o s estava ciente de q u e n e n h u m ser
conoeiío HiPgeu dc danam.
h u m a n o , por sua natureza (como já explicamos) tem a f
Jf«to -igostinlto (354 - 4 3 0
c a p a c i d a d e de ter controle absoluto dc todos os assuntos
•A.. 'Ti) psoiaueénonte tone o
h u m a n o s sem se t o r n a r locupletado de insolência e, in
concibiíModo perto pejoebe»
justiça; assim, p o n d e r a n d o s o b r e esse fato, d e s i g n o u c o m o
quão inlePoetnoPmente desonesto
reis e g o v e r n a n t e s p a r a n o s s a s c i d a d e s n ã o seres h u m a -
e p,iOfji>ioticomontc inútif oíw
nos, m a s sim seres d e u m a raça m a i s divina, n o m e a d a -
csai uiimãn de dapmsm e
m e n t e , o s dáimons. * • E l e a g i u e x a t a m e n t e c o m o n ó s p r e -
of*onfa» o pensamento gwjn e
sentemente agimos no raso de ovelhas e rebanhos de
se devotou no suo fiPosefio
a n i m a i s domesticáveis: n ã o colocamos bois a governa
potósfico ò fentotwo do
r e m b o i s , o u c a b r a s a g o v e r n a r e m c a b r a s , m a s s i m colo-
eonciftfi-Po com o dogmrííica
camos a nós mesmos, q u e somos de u m a raça melhor, a
custo, tomondo pam iw: p»eci-
exercer o controle, sobre eles. De m a n e i r a a n á l o g a , o d e u s ,
somente o fííbsofio platônico;
e m s e u a m o r p e l a h u m a n i d a d e , i n s t a l o u p a r a n o s con-
wos ínfrfigmente, po*. esse
trolar n a q u e l a época a raça s u p e r i o r d o s dáimons' • a
le«ipo, o dúbio tejiminoPogiei do
í)g»e,(o jeí se mnsoifííwi- (n.t.)

185
Platão - As Leis

• 'Pfatõo nciiena aqui o idéia qual, muito facilmente de sua parte e p a r a nossa gran-
de que a condução da «da de v a n t a g e m , encarregou-se de nós, p a s s a n d o a distri-
ladiuidnaf no seio do jomítio,
b u i r p a z e s e n s o dc h o n r a , leis e j u s t i ç a c o p i o s a , t o r n a n -
ou mclio», do cidadão (jó que
do a s s i m as tribos h u m a n a s e s t r a n h a s aos conflitos e
raf « d a d e * ÜB» em ptsqWia
p r e s e r v a n d o s u a felicidade, E m e s m o hoje este discur-
consonância oom o uida do
s o e n c e r r a u m a v e r d a d e , a s a b e r , q u e e m q u a l q u e r lu-
E s t a d o e, mesmo subordinada
g a r q u e seja o n d e u m E s t a d o t e m u m m o r t a l e n e n h u m
ao bew eofcfieo) bem como o
deus como governante, nesse lugar as pessoas não têm
condução do ê s t o d o não
trégua em relação ao peso dos m a l e s e das dificulda-
|rteselndem da i«s|ii*oção do
des; e se considera q u e devamos por todos os meios
eJemcnto divino ( t o
i m i t a r a v i d a da é p o c a de C r o n o s , tal c o m o a t r a d i ç ã o a
8 a i | i O v t o v ) [nesenle «o
retrata, o r d e n a n d o tanto nossos lares q u a n t o nossos
íntimo do lioinem. fintatanlo,
Estados segundo o acatamento ao elemento imortal no
fiascoe te» sido, eniiie, nuí.ws
nosso interior,* d a n d o a essa o r d e n a ç ã o da razão o
coisas, a fidelidade de
n o m e d e lei. M a s s e u m i n d i v í d u o h u m a n o , u m a o l i g a r -
S ó e w t e s ao seu Saifiov
quia ou uma democracia encerram u m a alma que se
que o {toou na (isãlica a se
e m p e n h a pelos prazeres e apetites, b u s c a n d o e m p a n -
desentende» com o Séada
turrar-se deles, i n c a p a z de continência e presa de um
ateniense de enlão e se»
m a l i n t e r m i n á v e l e insaciável, se u m a a u t o r i d a d e de tal
condenado à t»o«(e, {m a
espécie, c h e g a r a g o v e r n a r u m E s t a d o o u i n d i v í d u o pi-
^AfxiQogiti de, SfieMles, de,
s a n d o s o b r e a s leis, e n t ã o n ã o h a v e r á (corno e u disse h á
j>»e{e»e«c.(o a edição da
c
ÇJfgftms, S ã o Paufo, p o u c o ) n e n h u m m e i o d e s a l v a ç ã o . E s t a é a r e f l e x ã o , Clí-

í/tadtiçãc dc j U d i c i o ípugPicsi nias, q u e d e v e m o s e x a m i n a r d e m o d o a c o n c l u i r s e n e l a

c Êdeo» íRini). (ni.) d e v e m o s a c r e d i t a r o u o q u e d e v e m o s fazer.


Clínias: D e v e m o s , é c l a r o , d a r c r é d i t o a e l a .

O ateniense: E s t á s c i e n t e d e q u e d e a c o r d o c o m a l g u n s
há t a n t o s t i p o s dc leis q u a n t o tipos de constituições. E
n ó s a c a b a m o s de discorrer sobre os tipos de constitui-
ç õ e s c o m u m e n t e r e c o n h e c i d a s . E p o r favor n ã o s u p õ e
q u e o p r o b l e m a agora levantado carece de g r a n d e im-
portância, pois e s t a m o s novamente frente ao p r o b l e m a
do q u e deve ser o objetivo da justiça c da injustiça. N ã o
é, c o m efeito - a s s e v e r a m - à g u e r r a ou h v i r t u d e total
q u e a s leis v i s a m , m a s s i m a o i n t e r e s s e d a f o r m a d e
governo estabelecida, q u a l q u e r q u e seja esta, d e ma-
n e i r a a ser p e r p e t u a d a no p o d e r c n u n c a ser dissolvida,
de sorte qtie a n a t u r a l definição de justiça seja m e l h o r
formulada deste modo...

Clíniiis; Que modo?

O ateniense: A f i r m a n d o se que a justiça consiste no


interesse do mais forte.

186
Livro IV*

Clínias; E x p l i c a - t e c o m maior clareza.

O ateniense; O r a , é a s s i m q u e é : a s l e i s m i m E s t a d o -
dizem - são sempre promulgadas pelo poder q u e nele
vigora no m o m e n t o . N ã o é assim?

Clínias: I s s o é i n t e i r a m e n t e v e r d a d e i r o .

O ateniense: S u p õ e s e n t ã o - a r g u m e n t a m e l e s - q u e u m a
d e m o c r a c i a ou q u a l q u e r outra forma de governo, até
m e s m o u m a m o n a r q u i a despótica, t e n d o ela conquis-
tado a hegemonia, irá por sua própria ação produzir
l e i s que n ã o t e n h a m c o m o o b j e t i v o p r i m o r d i a l a s s e g u -
rar sua própria permanência no poder?

Clínias; Certamente que não.

O ateniense: P o r c o n s e g u i n t e , c» l e g i s l a d o r c l a s s i f i c a r á
c o m o justas a s l e i s a s s i m p r o m u l g a d a s , • * p u n i n d o to- • * Í V Mijo, ai Pote
d o s a q u e l e s q u e a s v i o l e m c o m o c u l p a d o s d e injustiça. pmdajidm m trftwsse
Clínias: N ã o h á d ú v i d a d e q u e i s s o é p r o v á v e l . evePusito fia {(«tina dc rjoWsna
ifigetiff!, íjiie é sua iiiatuií«içõo
O ateniense: E a s s i m t a i s l e i s p r o m u l g a d a s c o n s t i t u i r ã o
|ifw[yifun no podes, (n.t.)
aí s e m p r e a justiça.

Clínias: B e m , i s s o é , d e q u a l q u e r f o r m a , o q u e e s s e
argumento sustenta.

O ateniense: Sim, pois este é um d a q u e l e s direitos ou


títulos sob consenso relativos ao governo. " * o 4 P u s ã o à passagem do
;
9 i-fiifto III í>m fjur: PPatão
Clínias: Que. títulos.
d i s c o » : sofro os Muito: ou
O ateniense: A q u e l e s d o s ( p i a i s t r a t a m o s a n t e s - t í t u l o s
divilos íOJMíüitfs ao goLMnos
o u d i r e i t o s q u a n t o a q u e m d e v e g o v e r n a r q u e m . Foi n sus goimmodo <: oito
d e m o n s t r a d o q u e os p a i s d e v e m g o v e r n a r os filhos, os TíndoMi. (n.t.)
mais velhos os m a i s jovens, os de l i n h a g e m nobre os
s e m l i n h a g e m n o b r e , e (se l e m b r a i s ) h a v i a m u i t o s o u -
tros títulos, a l g u n s e n t r e eles m u t u a m e n t e conflitantes.
O título ou direito d i a n t e de n ó s a g o r a é um destes e
d i s s e m o s c i t a n d o P í n d a r o q u e a lei c a m i n h a c o m a n a -
t u r e z a q u a n d o justifica o direito do poder.

Clínias: S i m , i s s o é o q u e foi d i t o e n t ã o .

O ateniense: Observa agora a que partido deveríamos


confiar o nosso E s t a d o , pois a situação q u e temos aqui
de fato já s u c e d e u aos E s t a d o s m i l h a r e s de vezes.

Clínias: Que situação?

187
Platão - As Leis

• "TWos dcMolodos, ptmm- O ateniense: Q u a n d o h á l u t a p e l o p o d e r , o s q u e s e sa-


se. (n.t.) g r a m v i t o r i o s o s s e a p r o p r i a m elos c a r g o s p ú b l i c o s c o m -
** £ «fio cidadãos, (n.t.) pletamente, de m o d o a não deixar a m e n o r parcela de

* * * QJm neofogisiMO que nos


autoridade p a r a os próprios vencidos e seus descenden-

(ip.ítmitiwo.<5 pona designo» ou. tes, e c a d a p a r t i d o p a s s a a vigiar o o u t r o , c o m receio q u e

oo nienoe, sugenü m pseudo- h a j a u m a i n s u r r e i ç ã o e m r e p r e s á l i a a o s t r a n s t o r n o s so-

eonstituieôo hoseodo em fridos a n t e r i o r m e n t e . • Com certeza negamos q u e essas

feudos oo dwi.eões pos (««tido. formas de governo sejam realmente formas de governo,
c o m o n e g a m o s q u e s e j a m leis v e r d a d e i r a s a s q u e n ã o
í»ij
são feitas a favor do interesse c o m u m de t o d o o E s t a d o .
**** Suai digo», o p,stado
A s s i m r p i a n d o a s leis s ã o p r o m u l g a d a s n o i n t e r e s s e d e
eujo fundoçõo e eonstituiçõo
u m a p a r t e , c h a m a r e m o s a estes p r o m u l g a d o r e s de parti-
{oiíow eonjiodos o CJinios e
dários" e a q u i l o q u e julgam ser s u a f o r m a de governo
autos, (n.t.)
d e enfeudamento • * * e n ã o de u m a a u t ê n t i c a f o r m a de
* • • • • U7tT)peTaÇ TOtÇ g o v e r n o , s e n d o a justiça q u e a t r i b u e m a e s s a s leis m e -
vouoiç. (n.t.) r a m e n t e um n o m e vazio. Se o dissemos é p o r q u e n ã o
t e u c i o n a m o s no t e u E s t a d o * * • • d i s t r i b u i r c a r g o s t o m a n -
• • • • • • f í hm píoitieef que
do c o m o critério p a r a t a n t o a riqueza, ou qualejuer o u t r a
"Tfelclo se (tejisa oqui o «»
q u a l i d a d e d o g ê n e r o , t a i s c o m o f o r ç a , c o m p l e i ç ã o física
poemo de fi»jcu. (n.t.)
ou nascimento. Os cargos deverão caber aos h o m e n s q u e
s e d e s t a c a m n a o b e d i ê n c i a à s leis e e s t e n d e m e s t a v i t ó r i a
• • • • • • • A I K T | . a justiço a o E s t a d o , o m a i s elcvadei c a r g o ( o s e r v i ç o a o s d e u s e s ) a o
pcAscnifleodo peto diWndode. p r i m e i r o destes, o s e g u n d o cargo ao s e g u n d o destes, e os
(n.t.) d e m a i s cargos s e n d o necessariamente distribuídos de ma-
neira a n á l o g a e s u c e s s i v a m e n t e a t o d o s esses h o m e n s . Se
c h a m o de servidores d a s leis* * * • • aqueles aos quais
d a m o s o n o m e de magistrados n ã o é pelo simples prazer
d e c u n h a r u m a expressão nova, m a s sim p o r q u e acredi-
to q u e a salvação ou a ruína de um Estado, a c i m a de
q u a l q u e r o u t r a coisa, se b a s e i a nisso, pois t o d o E s t a d o
q u e t e m a lei n u m a c o n d i ç ã o s u b s e r v i e n t e e i m p o t e n t e
está à b e i r a d a r u í n a e n q u a n t o q u e p a r a t o d o E s t a d o n o
q u a l a lei é s o b e r a n a s o b r e os m a g i s t r a d o s e, e s t e s s ã o
servidores da lei h a v e r á salvação e t o d a s as benesses q u e
os deuses outorgam aos Estados.

Clínias: S i m , p o r Z e u s , e s t r a n g e i r o ! C o m o s e c o a d u n a
com tua idade, tens r e a l m e n t e u m a visão aguda.
Ãime. o rjesese
do inundo k o a p i o y o v i a ) O ateniense: E q u e p a r a essa m a t é r i a a visão de u m a
segundo 'PPolõo eonsufta o h o m e m está m a x i m a m e i i t e e m b o t a d a na sua juventu-
diófogo O/mcn, que eiieotl-e d e , e n q u a n t o m a x i m a m e i i t c a g u d a n a s u a velhice.
eslo queeíõo do abandono do Clínias; E b e m verdadeiro.
deus. ftunp&e ofisowin que o

188
Livro IV
1
(l(il)ilO (il ' PPolÕO (Io .WOlUlSO
no tnilo r-nm o intuito elo
O ateniense: Q u a l s e r á e n t ã o o nosso próximo passo?
poisundis o facilitai o
Não poderíamos supor q ue nossos imigrantes chegaram,
ocíiimiCaeão dc suas idéias (e.
q u e e s t ã o a q u i e c o n t i n u a r m o s a d i s c o r r e r s o b r e eles?
|ucsí<i!iíiwiCtM:ü((!. também
Clínias: Sem dúvida.
gonfcu o n|>oin do poftloí<wo
O ateniense: F a l e m o s , p o r t a n t o , ti eles da s e g u i n t e for oficiai, c nóo indispo.) mi com
ma: "Homens, o deus q u e tem em suas m ã o s segundo a cpe), « f>o» um Podo jag do
t r a d i ç ã o a n t i g a , • o c o m e ç o , o f i m e o m e i o d c to- mestíc da .Academia um
dos os seres q u e existem, e n c a m i n h a - s e diretamente para jifOse.fo-Piloiolo, po) ontíto
sua m e t a entre as revoluções da natureza; a c o m p a n h a - o muitos wges, pn/iodíwiíiiiciifc,
s e m p r e a Justiça, • • • • • • • q u e s e v i n g a d a q u e l e s q u e i n toma o entendimento de suo
f r i n g e m a lei d i v i n a ; e e l a é, p o r s u a vez, a c o m p a n h a d a doiií'itua psohPesnátie.o.
p o r t o d o a q u e l e q u e d e s e j a a f e l i c i d a d e , q u e a c i a s e liga '•PPatão, «o eoidode, distingue
com humilde e ordenado comportamento; m a s aquele que do ponto do lista cosmngòMeo
se enche de soberba, exaltado por suas riquezas e suas o r.tiodat [ou mePlioii.
h o n r a s o u a i n d a p e l a b e l e z a física e q u e . a t r a v é s d e s s e or- inodePafíos e instauJadot do
gulho associado à juventude e à loucura tem sua a l m a unitcwo í k - o a p o ç ) o paitis
i n f l a m a d a pela insolência, acreditando q u e prescinde de do ajganigaçõo ( K o a p o ç )
q u e m o governe ou o c o n d u z a e crendo, ao contrário, q u e do caos ( x a o ç ) , ou soja. o
é c a p a z de c o n d u z i r os o u t r o s - e s s e é a b a n d o n a d o c p r e t e - ôripioupyoçl dos deuses
r i d o p e l o d e u s , • • • • • • • • c s e n d o a b a n d o n a d o cie att'ai p a r a e díiindadcs raiados
si outros de n a t u r e z a s e m e l h a n t e a s u a , e p o r seu pavonea- (conceitos de 6eoç o
m e n t o desatinado mergulha a todos na confusão; p a r a ftutpovtov oo SaipeovJ.
m u i t o s , r e a l m e n t e , ele é u m a p e s s o a i m p o r t a n t e , m a s n ã o _.4ssii«. deio-se entendei no
d e m o r a p a r a q u e ele t e n h a «pie a c e r t a r a s c o n t a s , m e r e c i - contcvto da filosofia
d u m e n t e , com a Justiça ao e n c a m i n h a r p a r a si a r u í n a pPoiônien (que nos é
l o t a i , f i c a n d o ó r f ã o d e s u a c a s a e d c seu E s t a d o . L a n ç a n - apíosoníodo ftét oon|iinlo de
do um o l h a r a estas coisas, a s s i m dispostas, o q u e deveria todos os eiieilhjeii o a
o h o m e m p r u d e n t e fazer, o u p e n s a r , o u d e i x a r d e f a z e r ? " Ji<oio(jin rir Oóntei/es)

Clínias: A r e s p o s t a é e v i d e n t e : o q u e d e v e p e n s a r t o d o ohaiidonn do demimqo e «rio

h o m e m é estar entre aqueles q u e seguem na trilha do deus. ain/idoito de mu deis. (n.l.)

O ateniense: V. q u a l é e n t ã o a c o n d u t a q u e é c a r a ao * • • • • • • • * ._4 fsase com-

d e u s e q u e s e e n q u a d r a tio s e u c a m i n h o ? I m c e r t o t i p o pPelo de VjJomoio, psosente na


de c o n d u t a é expresso n u m a frase a n t i g a , • • • • • • • • • H
PdtWía, ww. 2f?> k ÍÜC

s a b e r , q u e " o s e m e l h a n t e é c a r o a o s e m e l h a n t e ' " ({lian- OU Kl xov opoiov (/VIU

do é moderado, e n q u a n t o coisas i m o d e r a d a s n ã o são (teoç toç tov ouotov,

c u r a s n e m e n t r e s i n e m à s c o i s a s m o d e r a d a s . Aos n o s - (.1.1.J

s o s o l h o s a d i v i n d a d e s e r á " u m e d i d a d e t o d a s a s coi- • • • • • • • • • • pfrilõo .< íljfJlll

sas" n o m a i s alto g r a u - u m g r a u m u i t o m a i s alto d o aos sofistas o mais peoilieePas


q u e a q u e l e e m q u e está q u a l q u e r "ser h u m a n o " d o q u a l mente a ' P.iologo.ws. a.ilci do
1
eles • • • • • • • • • • f a l a m . Aquele, por Imito, q u e p r e t e n d e s e seiiíe nço o se / iumoue c o
t o r n a r c a r o a u m tal s e r p r e c i s a s e e m p e n h a r c o m t o d a s u s medido de iodeis eis eoisos.
(n.t.J

189
Platão - As Leis

s u a s forças p a r a s e t o m a r n a m e d i d a d o possível, d e u m
caráter s e m e l h a n t e , e de acordo c o m o presente raciocínio
a q u e l e q u e entre nós é temperante será caro ao deus, já
q u e é s e m e l h a n t e a ele, e n q u a n t o aquele que não é
t e m p e r a n t e s e r á d e s s e m e l h a n t e e hostil a e l e - c o r n o t a m -
b é m a q u e l e q u e é injusto, c assim de m o d o a n á l o g o mm o
restante, p o r p a r i d a d e dc raciocínio. E disto se segue, q u e
o observemos, esta regra c o m p l e m e n t a r - q u e de t o d a s as
r e g r a s é a m a i s n o b r e e a m a i s v e r d a d e i r a - a s a b e r , q u e se
d e d i c a r ao sacrifício e à c o m u n h ã o d o s d e u s e s c o n t i n u a -
m e n t e p o r intermédio de orações, oferendas e devoções de
t o d a espécie constitui algo s u m a m e n t e belo, b o m e útil
p a r a a v i d a feliz, s e n d o t a m b é m s o b e r a n a m e n t e a d e q u a -
do ao h o m e m b o m ; m a s p a r a o h o m e m perverso é preci-
s a m e n t e o c o n t r á r i o , p o i s este t e m a a l m a i m p u r a e n q u a n t o
a do h o m e m b o m é p u r a ; e d a q u e l e q u e t e m as m ã o s sujas
n e n h u m h o m e m b o m e n e n h u m deus receberá dádivas.
Por conseguinte, todos os g r a n d e s trabalhos q u e os ho-
m e n s ímpios realizam pelos deuses são em vão, e n q u a n t o
c
aqueles dos piedosos são m u i t o proveitosos p a r a todos
* PfolnV> HÍ baseio aqui «a
estes. E i s aí, p o r t a n t o , o alvo q u e d e v e m o s visar, m a s q u a n -
dmíMm pífagé.tiea dos
t o à s f l e c h a s q u e d e v e m o s l a n ç a r , e , p o r a s s i m d i z e r , o vôo
opostos, segundo a qttaf o
delas, q u e t i p o d e f l e c h a s - a c h a i s - v o a r i a m m a i s d i r e t a -
númeto íiitfia» c stpetim no
m e n t e r u m o a o alvo? S ã o , e m p r i m e i r o lugar, d i r í a m o s ,
núinan pat e o Mo íiitüílo
as h o n r a s q u e a p ó s serem prestadas aos olímpicos e aos
siipe/tiat 0.0 mqimdo, hei»
deuses que m a n t ê m o Estado rendemos aos deuses do
somo o maseulíino í sufifirtlo»
m u n d o i n f e r i o r ; r e s e r v a n d o - l h e s o par, o inferior e o es-
ao jeniinino. u4
(juerdo a t e n d e m o s m e l h o r a o o b j e t i v o a q u e v i s a n o s s a
PO,WCSf)Oli(lêll(!IO (,'HtMí OS
piedade, enquanto as h o n r a s s u p e r i o r e s a e s s a s , o ímpar
deuses do mundo subteMoneo
e o direito c a b e r ã o a o s d e u s e s q u e m e n c i o n a m o s anterior-
(..•XOovioiç a v T I Ç mente.• Na seqüência depois destes deuses o h o m e m dc
Geoiç..) i! o Pado cequendo s e n s o p r e s t a r á c u l t o a o s dáimons e d e p o i s d e s t e s a o s he-
(apurtepoç) cneotiLw eeo róis, a p ó s os q u a i s virão os s a n t u á r i o s p r i v a d o s legalmen-
também na dMnaçáo te d e d i c a d o s às d i v i n d a d e s ancestrais, e a seguir as h o n r a s
(itavieta) dos gíiegoe, nn p r e s t a d a s a o s p a i s vivos, p o i s é j u s t o q u e l h e s p a g u e m o s
quaP o Pado esque»da »a o nosso dívida p r i m o r d i a l e essencial, de todos os créditos o
Podo do ma pseísógio. do m a i o r , e r e c o n h e c e r que, t u d o q u e p o s s u í m o s e t e m o s
injojlúwo (crivoç, que p e r t e n c e à q u e l e s q u e rios g e r a r a m e e d u c a r a m , d e m o d o
(sodngiu o latim siMsfm, que q u e d e v e m o s servi-los a o m á x i m o d e n o s s a s forças - m e -
siíjnijioa Imilo esquado. do d i a n t e , n o s s a r i q u e z a , n o s s o c o r p o e n o s s a a l m a - recorri-
Podo csqiindo quanto eíwsfjo. pensando-os pelos e m p r é s t i m o s q u e nos fizeram há mui-
de mau lisssságio, {micsto). to q u a n d o é r a m o s c r i a n ç a s em c u i d a d o s e esforços q u e
(n.l.) d e s p e n d e r a m , e os a m p a r a n d o em sua velhice, q u e é

190
Livro IV

q u a n d o m a i s n e c e s s i t a m de a m p a r o . E ao longo de t o d a
nossa vida devemos observar diligentemente, sobremanei-
ra, o acato verbal ao nos dirigirmos aos nossos pais, pois
p a r a a s p a l a v r a s , c o i s a s leves e a l a d a s , a r e p a r a ç ã o e m
relação ao d a n o cometido é incomparavelmente pesada;
N ê m e s i s , a m e n s a g e i r a d a J u s t i ç a , foi d e s i g n a d a p a r a s e
m a n t e r v i g i l a n t e q u a n t o a isso. C o m p e t e a o filho, a s s i m ,
c e d e r a o s p a i s q u a n d o estes e s t ã o i r a d o s , e q u a n d o d ã o
r é d e a solta à s u a cólera p o r p a l a v r a s ou ações deverá per-
doá-los c o m p r e e n d e n d o q u e é b a s t a n t e n a t u r a l p a r a um
p a i ficar p a r t i c u l a r m e n t e f u r i o s o q u a n d o julga q u e e s t á
s e n d o e n g a n a d o p e l o filho. • • Q u a n d o os p a i s m o r r e m , os c\]m 0 (Jinfogo Calou
melhores funerais são os de maior sobriedade, aqueles
n o s q u a i s o filho n e m s e excede n a p o m p a h a b i t u a l n e m
fica a b a i x o d o q u e s e u s p r ó p r i o s a n c e s t r a i s f i z e r a m p o r
seus pais; e de m o d o similar deverá ele c u i d a r d a s cerimô-
nias anuais q u e são celebradas em h o n r a daqueles q u e
c h e g a r a m a o d e s f e c h o . D e v e r á s e m p r e v e n e r á - l o s n ã o ces-
s a n d o j a m a i s d e m a n t e r viva a m e m ó r i a d e l e s e d e s i g n a n -
do aos mortos a devida parcela dos recursos q u e a fortuna
l h e d i s p o n i b i l i z a . T o d o s ruis, s e a s s i m a g i r m o s e o b s e r v a r -
m o s essas regras de vida ganharemos sempre a devida
r e c o m p e n s a d o s d e u s e s e d e t o d o s [os s e r e s j m a i s p o d e r o -
sos d o q u e n ó s m e s m o s , c p a s s a r e m o s a m a i o r p a r t e d e
nossas vidas d e s f r u t a n d o as e s p e r a n ç a s da felicidade. No
q u e d i z r e s p e i t o à s o b r i g a ç õ e s c o m o s filhos, o s p a r e n t e s ,
o s a m i g o s , o s c o n c i d a d ã o s , e t o d o s esses d e v e r e s e s t a b e l e -
cidos pelos d e u s e s relativos à b o a h o s p i t a l i d a d e c o m os
estrangeiros e t o d a s as classes de pessoas, p a r a essas obri-
g a ç õ e s cujo c u m p r i m e n t o s e g u n d o a lei p r o d u z i r á o en-
c a n t o e o a d o r n o de n o s s a s e x i s t ê n c i a s , a c o n s e q ü ê n c i a
d a s p r ó p r i a s leis - seja p e r s u a d i n d o , seja c a s t i g a n d o m e -
d i a n t e , a c o e r ç ã o e a j u s t i ç a q u a n d o os c o s t u m e s d e s a f i a m
a p e r s u a s ã o - t o r n a r á (com a intereessão dos deuses) nosso
Estado venluroso e próspero, l l á t a m b é m matérias q u e
u m l e g i s l a d o r , s e c o m p a r t i l h a r d e m i n h a o p i n i ã o , terá n e -
cessariamente que regulamentar, embora não se prestem
b e m a u m a f o r m u l a ç ã o s o b a f o r m a d e lei. A o s e o c u p a r
d e s s a s m a t é r i a s c i e d e v e r i a , a m e u ver, p r o d u z i r u m m o -
d e l o p a r a s e u p r ó p r i o u s o e p a r a a q u e l e s a favor d e q u e m
está l e g i s l a n d o , isto a n t e s d e s e d e t e r e m I o d a s a s m a t é r i a s
restantes na m e d i d a de s u a c a p a c i d a d e e iniciar assim a
tarefa d c r e d i g i r a s leis.

191
Platão - As Leis

Clínias: Qual a forma especial, de formular tais matérias?


O ateniense: Não é nada fácil abarcá-las todas num, por
assim dizer, modelo único de formulação; mas tentemos
pensá-las de uma tal maneira, já que contamos com a
possibilidade de conseguirmos afirmar algo definitivo a
* Segundo nCguns kCenislae, respeito delas. •
todo o («Io em líâllco ao Clínias: C o n t a - n o s o q u e é e s s e algo.
Pado (inteiifoeuçõo de CfíUas
0 ateniense: E u d e s e j a r i a q u e a s p e s s o a s f o s s e m o m a i s
e «aposta Ao atmiettse) se,
d ó c e i s possível em m a t é r i a de v i r t u d e , e isto ó e v i d e n t e -
soma às oonsideMções
m e n t e o q u e o legislador se e m p e n h a r á em b u s c a r em
Imediatamente ontwiowiS do
toda a sua obra.
ateniense, (n.t.)
Clínias: Seguramente.

0 ateniense: A c r e d i t o q u e a a b o r d a g e m q u e f i z e m o s re-
c e n t e m e n t e p o d e r i a ser d e a l g u m a u t i l i d a d e p a r a fazer
as pessoas escutarem as advertências q u e ela contém
c o m s u a s a l m a s n ã o n u m e s t a d o d e c o m p l e t a selvage-
ria, m a s n u m a disposição de m a i o r civilidade e m e n o r
h o s t i l i d a d e . E s e r i a p a r a n o s c o n t e n t a r m o s se, c o m o
digo, tornasse aqueles q u e as escutassem a p e n a s um
p o u c o m a i s dóceis pelo fato d e e s t a r e m u m p o u c o me-
n o s hostis, pois n ã o h á u m a e n o r m e q u a n t i d a d e d e pes-
soas ansiosas p a r a se t o r n a r e m as m e l h o r e s possíveis
c o m t o d a a r a p i d e z ; a m a i o r i a , de fato, serve p a r a de-
m o n s t r a r q u ã o s á b i o foi H e s í o d o a o d i z e r q u e " . . . s u a v e
é o c a m i n h o q u e c o n d u z à p e r v e r s i d a d e . . . * e q u e "...per-
corrê-lo d i s p e n s a q u a l q u e r suor...", visto q u e é "...extre-
m a m e n t e curto...", e m b o r a ele diga t a m b é m que...

Diante da virtude os deuses imortais


Colocaram o suor do esforço e longa
E íngreme é a senda que a ela conduz,
Sendo áspera a primeira subida; mas
Conquistado o primeiro cimo, a jornada
Facilitada é, a despeito de árdua ainda ser. » •

• • Os QíohcSos e os '-nas. 2 8 7 o 2 9 2 :

T T | Ç Ô a p t t q ç , rjmmv, i S p w i a 0 e o i E p o n a p o i B c v sOrjicav

aflavatoi, ucucpoç bt teca opOioç O I J Í O Ç eç avxr\v,

K U I T p q x u ç T O n p o J T o v e w r | v 8 eiç a t e p o v u c q e u ,

p r p ô i v S r | j i e i t a <()epeiv, x a l e j i q jtep e o u c r a . (n.t.)

192
Livro IV

CUnias: L u d i r i a q u e e l e s e e x p r i m e m u i t o b e m .

O ateniense: C e r t a m e n t e . A g o r a d e s e j o v o s c o m u n i c a r o
resultado da argumentação precedente.

CUnias: P o i s o f a z .

O ateniense: V a m o s n o s d i r i g i r a o l e g i s l a d o r e i n d a g a r :
"Diz-nos, ó legislador: se s o u b e s s e s o q u e d e v e r í a m o s
fazer e dizer, n ã o é óbvio q u e o f o r m u l a r i a s ? "

Clínias: Necessariamente.
0 ateniense; Mas há p o u c o n ã o ouvimos nós dizer que
o legislador n ã o deveria permitir q u e os poetas compu-
s e s s e m c o m o b e m l h e s a p r o u v e s s e ? Isto p o r q u e p r o v a -
velmente desconheceriam q u e palavras suas poderiam
infringir as leis e p r o v o c a r d a n o ao E s t a d o ?
CUnias: I s s o é b e m v e r d a d e .

O ateniense: E s t a r í a m o s n o s d i r i g i n d o a ele r a z o a v e l m e n t e
se o fizéssemos em n o m e d o s p o e t a s n o s seguintes termos...

Clínias: Que termos?

O ateniense: E s t e s : " H á , ó legislador, um a n t i g o provér-


b i o - c o n s t a n t e m e n t e r e p e t i d o p o r n ó s m e s m o s e q u e re-
cebe a a p r o v a ç ã o de todos - s e g u n d o o q u a l s e m p r e q u e
um p o e t a está s e n t a d o no t r i p é d a s M u s a s , falta-lhe o
controle s o b r e a m e n t e , a s s e m e l h a n d o - s e a u m a fonte (pie
dá livre c u r s o à á g u a q u e afltii; e visto q u e s u a a r t e con-
siste n a i m i t a ç ã o , e l e é a m i ú d e c o m p e l i d o a c o n t r a d i z e r
a si m e s m o ao criar personagens de disposições contra-
ditórias, a l é m d e i g n o r a r d e q u e lado n o q u e d i z e m está
a v e r d a d e . M a s o l e g i s l a d o r n ã o p o d e e m s u a lei f a z e r o
m e s m o , isto é, c o m p o r d u a s f o r m u l a ç õ e s a respeito de
u m a ú n i c a m a t é r i a , s e n d o necessário (pie p r o c l a m e sem-
pre u m a ú n i c a f o r m u l a ç ã o a respeito d e u m a m a t é r i a .
T o m a como exemplo u m a das próprias afirmações que
f o r m n l a s t e h á p o u c o . E p o s s í v e l q u e u m f u n e r a l s e j a ex-
cessivo, deficiente o u m o d e r a d o : d e s t a s três a l t e r n a t i v a s
escolhes u m a , o m o d e r a d o , a p ó s louvá-la i n c o n d i c i o n a l -
t mente. E u , p o r o u t r o l a d o , se tivesse u m a e s p o s a extre-
m a m e n t e rica q u e me incumbisse de representa la em
•ett f u n e r a l m e d i a n t e m i n h a p o e s i a , o f a r i a c o m t o d a a
p o m p a , e n q u a n t o u m h o m e m p o b r e e p a r e i n i o n i o s o lou-
v a r i a o t ú m u l o d e f i c i e n t e , e a p e s s o a d c m o d e r a d o s re-
cursos, se ela m e s m a m o d e r a d a , louvaria o m e s m o q u e

193
Platão - As Leis

tu. M a s t u n ã o deves m e r a m e n t e falar d e u m a eoisa


c o m o ' m o d e r a d a ' d a m a n e i r a q u e fizeste a g o r a , d e v e n -
do sim explicar o q u e é 'o m o d e r a d o ' e q u a i s os s e u s
limites; caso contrário, será p r e m a t u r o p a r a ti p r o p o r
q u e t a l f o r m u l a ç ã o s e t o r n e lei.

Clínias: A d m i t o q u e i s s o é s u m a m e n t e v e r d a d e i r o .

O ateniense: D e v e , e n t ã o , o p r e p o s t o q u e n o m e a m o s p a r o
essas leis d e i x a r d e fazer u m a t a l f o r m u l a ç ã o inicial e
d e c l a r a r i m e d i a t a m e n t e o q u e t e m q u e s e r feito e o q u e
n ã o tem e i n d i c a r a p u n i ç ã o na q u a l incorre a desobe-
d i ê n c i a , e a s s i m voltar-se p a r a u m a o u t r a lei, s e m acres-
centar aos seus estatutos u m a única palavra de encora-
jamento e persuasão? Tal como ocorre com os médicos,
u m n o s t r a t a de, u m a m a n e i r a , o u t r o d e o u t r a : e l e s d i s -
p õ e m de dois métodos diferentes dos q u a i s p o d e m o s
nos lembrar para que, como crianças que pedem ao
médico para q u e as trate pelo método mais brando,
p o s s a m o s fazer u m p e d i d o s e m e l h a n t e a o legislador. E
o q u e q u e r e m o s d i z e r c o m isso? f lá h o m e n s q u e s ã o
médicos, segundo dizemos, e outros q u e são assistentes
d o s m é d i c o s , m a s c h a m a m o s estes ú l t i m o s t a m b é m d e
médicos, não é mesmo?

Clínias: S e m d ú v i d a n ó s o f a z e m o s .

O ateniense: E s s e s , s e j a m e l e s l i v r e s o u e s c r a v o s , a d q u i -
rem sua arte sob a direção de seus mestres» por meio
• ÔEOTtOTCOV, OS oliefes da observação e da prática* • e n ã o pelo estudo da na-
do jonntio/soso ( O I K O Ç ) , e t u r e z a , que, é o m e i o p e l o q u a l os m é d i c o s livres eles
seus scníioiies absolutos; m e s m o s a p r e n d e m a arte, s e n d o t a m b é m este o m e i o
diíiginm, ífiofcsi*, o pelo qual i n s t r u e m seus próprios discípulos. Dirias q u e
treinamento o inshuçrio dos t e m o s a q u i d u a s c l a s s e s d o q u e é c h a m a d o d e médicos?
mfmhnm kmonos do O l t c o ç , CUnias: Certamente.
«ias uno M M píceisoinentc o s
O ateniense: E s t á s t a m b é m c i e n t e d e q u e c o m o a s p e s s o -
ItlOstllCS (tllCstllC
a s e n f e r m a s n a s c i d a d e s s ã o c o n s t i t u í d a s t a n t o p o r es-
õiScxaKaXoç) dos a*fe.e,
cravos q u a n t o p o r c i d a d ã o s livres, o s escravos s ã o geral-
somo, neste coso, do
m e n t e t r a t a d o s pelos escravos, em s u a s r o n d a s pela cida-
medicino, (n.t.)
de ou a g u a r d a n d o nos dispensários; e n e n h u m desses
Ocwptav Kai
médicos dá ou recebe quaisquer explicações sobre as
K(XT C|i7teipiav...,
várias d o e n ç a s dos diversos servos q u e t r a t a m , limitan-
1
PKcjotWnle j/ya mela ,da
do-se a prescrever p a r a c a d a um d e l e s o q u e julga certo
fTMlmphfâo f da
c o m b a s e ria e x p e r i ê n c i a , c o m o s e d e t i v e s s e c o n h e c i m e n t o
oiiw:iiwniloifia. (n. f.)

194
Livro IV

exato, e com a auto-suficiência de um m o n a r c a despóti-


co; e m seguida p a s s a d e u m átimo m u i t o r a p i d a m e n t e
p a r a u m outro servo enfermo, p o u p a n d o assim seu mes-
tre do a t e n d i m e n t o dos doentes. M a s o médico nascido
l i v r e s e o c u p a p r i n c i p a l m e n t e e m v i s i t a r e t r a t a r d a s en-
fermidades d a s p e s s o a s l i v r e s e o faz i n v é s t i g a n d o - a s d e s -
de o c o m e ç o e c o n f o r m e o c u r s o n a t u r a l ; c o n v e r s a c o m o
p r ó p r i o p a c i e n t e e c o m seus a m i g o s , p o d e n d o a s s i m tan-
to obter conhecimento a partir daquele q u e padece da
d o e n ç a [e s e u s a m i g o s ] c o m o t r a n s m i t i r a estes as devi-
d a s impressões n a m e d i d a d o possível. A d e m a i s , ele n ã o
prescreve n a d a ao paciente e n q u a n t o n ã o conquistar o
Consentimento deste,*** p a r a só q u a n d o consegui-lo * • • f)u seja, (iiifiuafifn «ão o
e n t ã o , m a n t e n d o a d o c i l i d a d e • • • • do p a c i e n t e p o r m e i o fw» ecnwiiieide das
da p e r s u a s ã o , r e a l m e n t e tentar c o m p l e t a r a tarefa de imjijcssfkü! (jtifc eh (iiiciííeo)
devolver-lhe a s a ú d e . Q u a l dessas d u a s f o r m a s da medi- esffi feudo do jmbkno de
cina revela o m e l h o r médico, c em m a t é r i a de treinamen- saúde, do (ineiejitc. (*.(.)
to, o melhor treinador? Deverá o m é d i c o esecular u m a
**•* Ou scjrt, <iun ennfifmço
única função idêntica de d u a s maneiras ou de u m a ma-
t; pac.d(íifiosiçfif) pata m
neira apenas, e neste caso a pior m a n e i r a das d u a s e a
boiada, (ti.f.j
menos humana?

Clínias: A c r e d i t o , e s t r a n g e i r o , q u e o m é t o d o d u p l o é s e m
d ú v i d a o melhor.

0 ateniense: Desejanas que examinássemos o método


d u p l o e o s i m p l e s t a m b é m e m s u a a p l i c a ç ã o n a s legis-
lações?

Clínias: C o m t o d a a c e r t e z a e u o d e s e j a r i a .

O ateniense; Pois e n t ã o , diz-me, em n o m e dos deuses,


q u a l s e r i a a p r i m e i r a lei a s e r f o r m u l a d a p e l o l e g i s l a -
dor? N ã o seguirá ele a o r d e m da n a t u r e z a c o m e ç a n d o
cm suas disposições pela regulamentação dos nascimen-
tos em seu p o n t o de p a r t i d a n o s Estados?
Clínias: M a s é. c l a r o .

O ateniense: E n ã o r e s i d e o p o n t o d e p a r t i d a d o s n a s c i -
mentos em todos os Estados na união e celebração do
casamento?
(Uínias: Certamente.

O ateniense; P o r t a n t o p a r e c e q u e s e n d o a s leis d o c a s a -
mciilo as primeiras a serem p r o d u z i d a s [e promulgadasl,
esto s e r i a o p r o c e d i m e n t o c o r r e t o e m t o d o s o s E s t a d o s . . .

195
Platão - As Leis

Clínias: C o m t o d a a c e r t e z a .

O ateniense: B e m , v a m o s e n u n c i a r a lei n a s u a f o r m a
m a i s simples primeiro. E corno seria? Provavelmente
assim: "Dever « s i casar entre trinta e trinta e cinco anos,
o n ã o fazê-lo a c a r r e t a n d o c o m o p u n i ç ã o m u l t a e d e g r a -
* c r a u r a , Çi(c»nf«(>itt(! d a ç ã o , * a m u l t a c o r r e s p o n d e n d o a esta ou a q u e l a q u a n
degpscge. degtndtiçõo. <Jkm t i a , e a d e g r a d a ç ã o a e s t e ou a q u e l e t i p o . " E s t a s e r á a
aqui '-Platão empuegn a f o r m a s i m p l e s d a lei d o c a s a m e n t o . E e i s a f o r m a d u -
pahsm sejesindo-se pla: "Dever-se-á c a s a r entre t r i n t a e t r i n t a e cinco a n o s ,
especificamente o UM tipo de tendo-se cm m e n t e q u e este é o m o d o pelo q u a l a r a ç a
punição pwiticndo cin ^Atenos, h u m a n a , por natureza, participa da imortalidade, e
a sobes, a destituição paseiai p a r a o q u a l a n a t u r e z a implantou em todo indivíduo
ou totaf (dependendo do soso) h u m a n o urn desejo forte. O desejo de g r a n j e a r a glória,
dos diiieifos dc cidadania, e m lugar d e r e p o u s a r n u m t ú m u l o a n ô n i m o , visa a u m
pelo n«ai k cioso, alguém ma objetivo s e m e l h a n t e . • • Assim a h u m a n i d a d e t e m u m a
derpmdadn. (n.t.) a f i n i d a d e n a t u r a l c o m o c o n j u n t o do t e m p o , * • • acom-
p a n h a n d o - o continuamente no presente e no futuro,
* * t.A Respeito deste assunto,
s e n d o o m e i o pelo q u a l se i m o r t a l i z a este: d e i x a n d o atrás
consi/fíc-se moimento o
dc si os filhos d o s filhos e pn •-seguindo s e m p r e u n a e
'•'-Banquete ( E u u j c o a i o v )
idêntica, cia assim pela r e p r o d u ç ã o participa da imor-
piSescnte nesta Sétie Ctrissicns
talidade. J a m a i s será um ato piedoso privar-se disso
dnSdlpMi. (n.t.)
v o l u n t a r i a m e n t e e a q u e l e q u e negar a si m e s m o esposa
* * * . . , TOU TTttVXOÇ
e filhos é c u l p a d o de tal p r i v a ç ã o i n t e n c i o n a l . A q u e l e
Xpovou..., n totalidade do q u e a c a t a r a lei e s t a r á livre d e p u n i ç ã o , m a s q u e m d e -
tempo, (n.t.)
sobedece la e n ã o casar até os trinta e cinco a n o s paga-
r á u m a m u l t a a n u a l d e u m certo valor - a fim d e q u e
n ã o veja n o c e l i b a t o u m m o t i v o d e g a n h o e b e m - e s t a r e
n ã o deixe d e ter s u a p a r c e l a n a s h o n r a s p ú b l i c a s q u e o s
jovens de tempos em tempos p r e s t a m aos m a i s velhos."
Ao o u v i r - s c e c o m p a r a r - s e e s t a lei c o m a a n t e r i o r , é p o s -
sível j u l g a r e m c a d a c a s o p a r t i c u l a r s e a s leis d e v e m ser
duplas ao menos em extensão, s o m a n d o a persuasão à
ameaça, ou somente simples em sua extensão empre-
gando apenas a ameaça.

Megilo: N ó s , l a e o n i a n o s , e s t r a n g e i r o , p r e f e r i m o s s e m p r e
a c o n c i s ã o , m a s tivesse e u q u e o p t a r q u a l d e s s a s d u a s
d i s p o s i ç õ e s legais d e s e j a r i a v e r p r o m u l g a d a p o r escrito
em m e u Estado, escolheria a m a i s extensa; e igualmente
e m r e l a ç ã o a t o d a s a s d e m a i s leis, c a s o s e a p r e s e n t a s s e m
sob d u a s formas e x i m o nesse exemplo, faria a m i n h a
e s c o l h a ela m e s m a m a n e i r a . É n e c e s s á r i o , e n t r e t a n t o ,

196
Livro IV

q u e t i s leis q u e e s t á v a m o s c r i a n d o a g o r a c o n t e m c o m a
aprovação de nosso amigo Clínias t a m b é m , pois no
m o m e n t o é o seu E s t a d o q u e se p r o p õ e a u s a r essas leis.

Clínias: Tu te e x p r e s s a s t e b e m , Megilo.

O ateniense: D e q u a l q u e r m o d o , s e r i a e x t r e m a m e n t e t o l o
d i s c u t i r a c e r c a d a e x t e n s ã o o u c o n c i s ã o d a s leis escri-
t a s , p o i s o q u e d e v e m o s valorar, a meti ver, n ã o é se s ã o
e x c e s s i v a m e n t e breves ou prolixas, m a s sim s u a exce-
l ê n c i a ; e , n o c a s o d a s l e i s q u e a c a b a m o s de. m e n c i o n a r ,
u m a forma possui o d o b r o do valor da o u t r a do p o n t o
d e vista d a excelência prática c o m o t a m b é m g u a r d a u m a
perfeita a n a l o g i a c o m o e x e m p l o d o s dois tipos de mé-
d i c o s q u e há. p o u c o a p r e s e n t a m o s . A e s t e r e s p e i t o p a r e -
ce q u e n e n h u m legislador jamais percebeu a i n d a q u e
e m b o r a esteja e m seu p o d e r fazer u s o d o s dois m é t o d o s
em s u a legislação, a s a b e r , a p e r s u a s ã o e a força, na
m e d i d a e m q u e seja p r a t i c á v e l q u a n d o s e lida c o m a
m a s s a h u m a n a inculta, os legisladores na realidade
e m p r e g a m a p e n a s u m m é t o d o , o u seja, a o l e g i s l a r e m
n ã o c o m b i n a m a coerção com a persuasão, empregan-
do sim s o m e n t e a coerção pura. E eu, m e u s caros se
nhores, noto a i n d a um terceiro requisito q u e deve estar
p r e s e n t e r i a s l e i s e q u e , n o e n t a n t o , a t u a l m e n t e n ã o te-
mos onde encontrar.

'í Clínias: A. q u e r e q u i s i t o a l u d e s ?

O ateniense: U m a m a t é r i a q u e , p o r u m a e s p é c i e d e o r i e n ta-
çâo divina, acabou brotando dos próprios assuntos
que estamos agora discutindo. Foi logo depois d a
a u r o r a q u e p r i n c i p i a m o s a falar s o b r e leis c a g o r a é
meio-dia e aqui estamos neste belo posto de descanso,
t e n d o p a s s a d o todo o t e m p o s e m falar de o u t r a coisa a
nfio s e r d e l e i s ; e n o e n t a n t o , p e l o q u e p a r e c e , m a l e o
m e ç a m o s a formulá-las, pois t u d o q u e dissemos a t é o
m o m e n t o n ã o p a s s o u d c p r e l ú d i o s à s leis. O q u e p r e -
t e n d o ao d i z e r isto? T o d o d i s c u r s o e toda e x p r e s s ã o vo
<:ul c o n t a c o m p r e l ú d i o s e p r e l i m i n a r e s q u e p r o d u z e m
Uma espécie de p r e p a r a ç ã o em apoio ao desenvolvimen-
t o p o s t e r i o r d o a s s u n t o . D e fato, d i s p o m o s d e e x e m p l o s
tle p r e l ú d i o s a d m i r a v e l m o n t e e l a b o r a d o s q u e p r e c e d e m
o tipo de canto a c o m p a n h a d o pela citara a q u e se dá
o n o m e d e nomo b e m c o m o melodias de todo tipo.

197
Platão - As Leis

c
• P?otóo joga com o potania
M a s p a r a as v e r d a d e i r a s leis • q u e d e n o m i n a m o s políti-
voitoç n«c sigtíjica torto cas,** n i n g u é m a t é a g o r a j a m a i s formulou, compôs ou
noivo ípoitío costume, opinião p u b l i c o u um p r e l ú d i o , c o m o se a n a t u r e z a n ã o o com-
gwaí, no*mo de conduta, portasse. Contudo, nossa presente discussão prova, a
coneenção e ên {n.t) m e u ver, q u e existe t a l c o i s a , e m e o c o r r e u h á p o u c o
" A t a é, tio KoXiç q u e a s leis q u e e s t á v a m o s f o r m u l a n d o s ã o algo m a i s d o
(eidadc-êstado). (n.l.) q u e simplesmente duplas, consistindo sim dessas duas
c o i s a s c o m b i n a d a s , i s t o é, a lei e o prelúdio à lei. A p r e s -
c r i ç ã o q u e d e s i g n a m o s c o m o despótica e c o m p a r a d a à s
p r e s c r i ç õ e s d o s m é d i e o s - e s c r a v o s e r a a lei p u r a , m a s o
' fis-pPicitamcníe po*
q u e dissemos antes, e q u e foi tido c o m o persuasivo •* •
.Jégé. (n.t)
era realmente b e m persuasivo e cumpre t a m b é m a mes-
ma função do prelúdio de u m a oração. Assegurar q u e a
p e s s o a a q u e m o l e g i s l a d o r e n d e r e ç a a lei a c e i t e a p r e s -
crição c o m tranqüilidade, e devido a esta tranqüilida-
de a aceite c o m d o c i l i d a d e era, eu s u p u n h a , o conspí-
c u o objetivo do o r a d o r ao proferir seu p e r s u a s i v o dis-
curso. Por conseguinte, de acordo com m e u argumento,
o t e r m o c e r t o p a r a e l e s e r i a n ã o t e x t o d a lei, m a s s i m
p r e l ú d i o , e n e n h u m o u t r o v o c á b u l o . T e n d o d i t o isso,
q u a l é a p r ó x i m a a f i r m a ç ã o q u e eu gostaria de fazer?
Ei-la: q u e o l e g i s l a d o r n ã o d e v e j a m a i s d e i x a r d e forne-
cer prelúdios a título de p r e â m b u l o s t a n t o do conjunto
d a s leis q u e n ã o c e s s a m d e s e a p r e s e n t a r c o m o d e c a d a
lei p a r t i c u l a r , p o i s g r a ç a s a isso t a i s leis g a n h a r ã o t u d o
• • • • ^ e f c a c n e i o oes
q u e g a n h a r a m as leis f o r m u l a d a s a i n d a há p o u c o . • • • •
üwtíipfos dados: /tá patino das
josntas siínpPss e dupfo dn
Clínias: Eu, de m i n h a parte, e n c a r r e g a r i a o especia-
wdação das ( t e . (n.t.)
lista nessas m a t é r i a s em assim legislar, e n ã o de m a -
neira diversa.

O ateniense: Penso, Clínias, que acertas acerca deste


p o n t o a o d e s e j a r q u e t o d a s a s leis t e n h a m u m p r e l ú d i o
e q u e ao c o m e ç o de t o d a o b r a legislativa se d e v a prefa-
ciar cada promulgação com o prelúdio q u e naturalmen-
te l h e d i g a respeito, pois a f o r m u l a ç ã o q u e se seguirá
a o p r e l ú d i o t e m g r a n d e i m p o r t â n c i a e faz e n o r m e dife-
rença se essas formulações são l e m b r a d a s distinta ou
i n d i s t i n t a m e n t e : dc, q u a l q u e r m a n e i r a , e s t a r í a m o s er-
r a d o s se p r e s c r e v ê s s e m o s q u e t o d a s as leis, g r a n d e s c pe-
q u e n a s , fossem d o t a d a s d e p r e l ú d i o s d e m o d o invariável,
p o i s isso n ã o d e v e s e r feito n o c a s o d e c a n ç õ e s e d i s c u r s o s
d e e s p é c i e a l g u m a visto q u e se, t o d o s t ê m n a t u r a l m e n t e

198
Livro IV

prelúdios n e m sempre p o d e m o s empregá-los, o q u e deve


ser deixado em c a d a caso a critério do p r ó p r i o orador,
c a n t o r ou legislador.

Clínias: O q u e d i z e s é , c r e i o , b a s t a n t e v e r d a d e i r o . M a s
n ã o retardemos mais. Retorna ao nosso assunto princi-
p a l e r e c o m e ç a , se o c o n c o r d a i s , pelo que. disseste e n t ã o
sem incluir um preâmbulo. Retomemos, portanto, como
se c o s t u m a dizer, m e d i a n t e um segundo lance de m a i o r
sorte, c o m a i n t e n ç ã o de executar um prelúdio e n ã o ,
c o m o antes, de fazer um d i s c u r s o fortuito; t o m e m o s o
início c o m o um p r e l ú d i o confesso. S o b r e o culto aos
d e u s e s e o s c u i d a d o s d e v i d o s a o s a n c e s t r a i s , o q u e foi
d i t o a n t e r i o r m e n t e é s u f i c i e n t e ; é o q u e se s e g u e a i s t o
q u e deves tentar dizer até q u e a totalidade do prelúdio
t e n h a sido, em nossa opinião, a d e q u a d a m e n t e formu-
l a d a p o r ti. D e p o i s d i s s o t u p r o s s e g u i r á s c o m a i n d i c a -
ç ã o d a s p r ó p r i a s leis e s c r i t a s .

O ateniense: E n t ã o o prelúdio q u e anteriormente com-


p o m o s referente aos deuses e àqueles q u e lhes estão
p r ó x i m o s , r e f e r e n t e a o s p a i s , vivos e m o r t o s , foi, c o m o o
d e c l a r a m o s agora, suficiente; e estás neste m o m e n t o me
s o l i c i t a n d o , p e l o q u e c o m p r e e n d o , q u e traga, p o r as-
s i m dizer, à luz do d i a o resto desse m e s m o assunto.

Clínias; Precisamente.

0 ateniense: B e m , c o m c e r t e z a é c o n v e n i e n t e e do m a i o r
interesse c o m u m que, j u n t a m e n t e com os assuntos men-
cionados, o o r a d o r e seus ouvintes tratassem da q u e s t ã o
d o g r a u d e zelo o u n e g l i g ê n c i a q u e a s p e s s o a s d e v e m uti-
lizar com respeito às suas a l m a s , seus corpos e seus bens,
e s o b r e isto p o n d e r a r e a s s i m a m p l i a r s u a e d u c a ç ã o n a
m e d i d a do possível. E p r e c i s a m e n t e esta a f o r m u l a ç ã o
q u e p r e c i s a m o s r e a l m e n t e fazer e e s c u t a r a seguir.

Clínias: Perfeitamente.

199
Platão - As Leis

AKOUOI 8r| mia ocnrep vov Sn xa rapi Qsmv

TE nKOUC KfXl XÜOV (JHÀ.C0V JtpOJXClXOptOV IiaVTIMV

itüv autou KTnpaxtov pexa 9eouç V|/uxn Oeioxaxov,


oiKcioxaxov ov.

Livro
V
200
Livro V

O ateniense: Q u e m e e s c u t e m , p o r t a n t o , t o d o s a q u e l e s • .Quonto o esto questão do


q u e há pouco me ouviram falar dos deuses e de nossos
oosótc» pessoa? da o&no.
caros ancestrais. De todos os bens q u e se possui depois
quo sc titc.iilo itiojinentc oo foto
dos deuses, o m a i s divino é a a l m a visto q u e é o m a i s
dc m >'h ponto T ^ o t ã o
pessoal. * Esses b e n s de todo ser h u m a n o p e r t e n c e m
iiwfttaf ( a O a v a t o ç ) c
i n v a r i a v e l m e n t e a d u a s categorias: os b e n s s u p e r i o r e s e
m a i s fortes q u e c o m a n d a m e os b e n s inferiores e m a i s twMiswigsn» iueiuidueiênmif!
d é b e i s q u e s e r v e m ; * • deve-se, e n t r e esses b e n s , s e m p r e opôs o «oito dc um coípo po.ta
preferir os q u e c o m a n d a m aos q u e servem. Assim, por- «loto (doutjiino do
t a n t o , q u a n d o a f i r m o q u e s e d e v e h o n r a r a a l m a logo iiiCtcmpsicoscJ, eonsitPfei» o
d e p o i s d o s d e u s e s q u e c o m a n d a m e , a s d i v i n d a d e s se- fJedou, o Qtílem. o éuitipe» c
cundárias, •* • estou fazendo u m a correta injunção.
o u4f>ofiirjt'o de Qéemles.
Ora, dificilmente h á alguém entre nós q u e h o n r e corre-
(»-t.)
t a m e n t e s u a a l m a , e m b o r a creia q u e o faça, pois en-
"... xá pev ouv
q u a n t o urna h o n r a p r e s t a d a a u m a coisa divina é be-
nigna, n a d a q u e é maligno confere h o n r a ; e a q u e l e q u e KpeiTTÜ) KO.1 apsivo)

pensar estar engrandecendo sua alma mediante pala- S k o t o Ç o v h i xa 8


vras, dádivas ou mesuras e n q u a n t o n ã o a aprimora, qxro) x e l
P m
5ooX.a...,
e s t a r á i m a g i n a n d o q u e lhe p r e s t a h o n r a , m a s d e fato os bens supcwotcs c imms jrafts
n ã o estará. Por exemplo, todo aquele q u e atinge a ida- que seio sede,»es e os bem
de a d u l t a , se julga c a p a z de a p r e n d e r t o d a s as coisas e
in^Moscs o móis doteis que são
s u p õ e q u e h o n r a sua a l m a a o louvá-la, p e r m i t i n d o - l h e
usemos- <j\ fama de.
de f o r m a p r e c i p i t a d a fazer o q u e lhe a p r a z . E n t r e t a n t o ,
Pinguagem dc '-"PPntõo »oea»o ò
a s s i m a g i n d o , ele e s t a r á o f e n d e n d o s u a a l m a e m lugar
onaPogia com a distinção
de honrá-la, nós o asseveramos agora, c o n t r a r i a m e n t e
fundntncnioP no seio do
a o q u e a f i r m a m o s , isto é , q u e ele deve p r e s t a r - l h e h o n -
r a logo d e p o i s d o s d e u s e s . E t a m b é m q u a n d o u m ser o i k o ç (n.l.)
h u m a n o i m p u t a s e m p r e a o u t r o s c n ã o a si m e s m o a *** <Pam '"Píntoo oPmo e
r e s p o n s a b i l i d a d e por s u a s faltas e a d o s m a l e s m a i s nu-
cotpo são distintos e o p/iitnci»o
m e r o s o s e m a i s graves, i s e n t a n d o - s e a si m e s m o s e m p r e
iieocsseiiioíncnte euposio/t oo
d a c u l p a , i m a g i n a n d o que, m e d i a n t e isso está h o n r a n -
segundo o immlni duafewo
d o s u a p r ó p r i a a l m a , n ã o o e s t a r á f a z e n d o de, m o d o a l -
que Pito pekmlie foge» do riPino
gum, e sim a ofendendo. E q u a n d o alguém cede aos
m ha» ou tosomo Í K t r i p a )
p r a z e r e s c o n t r á r i o s a o c o n s e l h o e r e c o m e n d a ç ã o d o le-
gislador, t a m b é m n ã o está h o n r a n d o sua alma, m a s sim í[nc o objeto elo op»f:f;o. de

a d e s o n r a n d o ao carregá-la de i n f o r t ú n i o s e r e m o r s o s ; e lioitto ( t t p r | ) e tão pwcioso o


a i n d a n o caso oposto, q u a n d o s e r e c o m e n d a m esforços, ponto de esto» Pogo abfliwi dos
t e m o r e s , d i f i c u l d a d e s e d o r e s e o ser h u m a n o se e s q u i - dfíininitg e /mtois. fionsuPto* os
v a a e s t e s e m l u g a r d e s u p o r t á - l o s c o m f i r m e z a t a l es- dinPofjos 'i7ée/em. Ctífait.
q u i v a m e n t o n ã o confere h o n r a n e n h u m a a sua a l m a Pulípem e o ..Âpofoejia de
fiois m e d i a n t e t o d a s essas ações ele a deprecia. T a m -
Sóemies. (ni.)
pouco h á h o n r a q u a n d o julga, sem q u a i s q u e r reservas,

201
Platão - As Leis

«... v | / u x r | ç yap
a v i d a c o m o u m a coisa b o a p o i s n e s t e caso a a l m a to-
arapa evxipoxepov m a r á p o r um m a l t o d a s as condições do H a d e s e a pes-
OUTOÇ o À,oyoç soa a ela cederá em lugar de se lhe o p o r p a r a instrui-la
<t>Tjcnv eivai e convencê-la de q u e p o d e m o s encontrar, ao contrário,
vj/eu8opevoç..„ pofs tí a s m a i o r e s b ê n ç ã o s n o r e i n o d o s d e u s e s d o m u n d o infe-
Meioeínio euefeutei que o empo rior. T a m b é m q u a n d o s e t e m m a i o r a p r e ç o p e l a b e l e z a
é mais digno de op.ie.co do que do q u e pela v i r t u d e deprecia-se literal e t o t a l m e n t e a
a nfmo. o que é feiéo - esta a l m a pois, isto i m p l i c a o r a c i o c í n i o c u j a c o n c l u s ã o é q u e
sesia «mo ttodnçõo wais o c o r p o é m a i s d i g n o dc a p r e ç o do q u e a a l m a , o q u e é
tendente n ftte/iaftdadc. (n.t.) falso* já q u e n a d a n a s c i d o na terra é digno dc m a i o r
** Ou seja, fio domínio dos a p r e ç o do q u e o o l í m p i c o • • e a q u e l e q u e c o m referên-
deuses oÊmpifiac. (D tadiitai cia à a l m a professa p a r e c e r diverso ignora de q u e ad-
se sente tentado eiejui a opo* mirável tesouro está deseurando. Igualmente q u a n d o

o toíiestíte ao otàsfied mas u m ser h u m a n o a n s e i a a d q u i r i r r i q u e z a d e s o n e s t a m e n -


t e o u n ã o s e aflige p o r a d q u i r i - l a a s s i m n ã o e s t a r á atra-
como eè!« cw g»ego c
vés d e s u a s d á d i v a s h o n r a n d o s u a a l m a - b e m l o n g e dis-
|iso|iwomente oupavoç
to!... p o i s o q u e a í h á d e h o n r o s o e b e l o e s t á s e n d o n e g o -
(que é a mo/ioda pié-
ciado por um p u n h a d o de ouro, n ã o obstante todo o
aê'mf>!cei dos deuses)
ouro sobre a T e r r a e sob ela n ã o se iguale ao valor da
f
tmèHmum <pe Wa(óx> não
virtude. Para sermos concisos: com respeito às coisas
tenda «nfinegado o («wci
q u e o legislador i n d i c a e classifica c o m o , de um l a d o ,
OXuprcicov vis e m á s , ou do o u t r o , n o b r e s c b o a s , q u e m q u e r q u e
ittdisaMininadamcitlc, seja q u e se r e c u s a r a evitar p o r t o d o s os m e i o s as pri-
w:je*indo-se dc JCMMO m e i r a s e a p r a t i c a r c o m t o d a s as s u a s forças as segun-
ospenífíca ao adeenf.o da das saberá q u e está t r a t a n d o sua a l m a , a m a i s divina
licgcinonia dc %t>m; (inimigo- d a s coisas, da m a n e i r a m a i s d e s o n r o s a e lamentável.
«o» d o s tilflsj a portii de Dificilmente alguém se dá conta do m a i o r julgamento,
Gtnws. O X u p j r o ç c o m o é dito, da a ç ã o m á , ou seja, a s s e m e l h a r - s e a h o -
(monte «a jiioíiíeijta entre a m e n s q u e são perversos c assim f a z e n d o afastar-se dos

Yjensáfta c o Mawdònin) h o m e n s b o n s , dos b o n s conselhos e c o m estes romper,


a p e g a n d o se. ao c o n t r á r i o , à c o m p a n h i a d o s p e r v e r s o s
não significa ftfMisnmenta'
e o s s e g u i n d o ; e a q u e l e q u e s e j u n t a r a t a i s h o m e n s fa-
« k LAIA tleogonio dc
t a l m e n t e fará e e x p e r i m e n t a r á o q u e essas pessoas se
TÍterfodo, Qhami
c o n v i d a m m u t u a m e n t e a fazer. O r a , t a l r e s u l t a d o n ã o é
(Ovpavoçj nan c apenas
u m julgamento ( p o r q u a n t o j u s t i ç a e j u l g a m e n t o s ã o coi-
o pai de Oionos e rreô de
s a s h o n r o s a s ) , m a s s i m u m a p u n i ç ã o , u m efeito q u e s e
"jjeus, como tawbíw o
segue à injustiça; e a q u e l e q u e s u p o r t a essa p u n i ç ã o e
geKidn* de uníiíris deuses c a q u e l e q u e n ã o a s u p o r t a são i g u a l m e n t e infelizes • este
dns fWí? com Qéia (inofusii/e p o r q u e ficou sem c u r a , a q u e l e p o r q u e p e r e c e a fim de
C a p e l o , jiaí dc (Alfas e de a s s e g u r a r a salvação dc m u i t o s outros.* " A s s i m , decla-
'Piometeu). (n.t.) r a m o s q u e a h o n r a , em termos gerais, consiste em acatar
o m e l h o r e em e m p r e e n d e r o m á x i m o p a r a m e l h o r a r o
*** flahiie. isto e.onsuPta* o
Qfiàgios. (».(..)

202
Livro V

m e n o s r u i m , q u a n d o este o a d m i t e . O ser h u m a n o n ã o
dispõe por natureza em si mesmo de n a d a mais apro-
p r i a d o do q u e a a l m a p a r a evitar o mal, localizar e
apreender tudo que há de melhor, e depois de apreen-
d ê - l o v i v e r c o m isso p e l o r e s t o d e s u a v i d a , p e l o q u e a
a l m a está classificada em segundo lugar na o r d e m d a s
h o n r a s . Q u a n t o ao terceiro todos seriam u n â n i m e s em
dizer q u e este lugar cabe a h o n r a d e v i d a ao c o r p o e
a q u i , novamente, é preciso investigar as várias formas
de h o n r a - q u a i s as g e n u í n a s , q u a i s as falsas - o q u e é
f u n ç ã o d o l e g i s l a d o r . O r a , ele - s u p o n h o - d e c l a r a q u e
as h o n r a s são as seguintes e dos seguintes tipos; o corpo
d i g n o de a p r e ç o n ã o 6 o c o r p o b e l o , o forte, o célere,
n e m o grande e n e m mesmo o corpo saudável, embora
muitos creíam nisto; n ã o é t a m p o u c o o corpo que reú
ne as q u a l i d a d e s o p o s t a s a estas. Os c o r p o s q u e ocu-
p a m a posição m e d i a n a entre todos esses extremos opos-
tos s ã o , c o m l a r g a v a n t a g e m , os de m a i o r t e m p e r a n ç a e
e s t a b i l i d a d e pois se um e x t r e m o t o r n a as a l m a s sober-
b a s e o r g u l h o s a s , o o u t r o as t o r n a v i s e m e s q u i n h a s . O
m e s m o se aplica à posse de b e n s c riquezas, d e v e n d o
e s t e s s e r v a l o r a d o s n u m a e s c a l a s i m i l a r ; q u a n d o exces-
sivos, g e r a m a n i m o s i d a d e s e conflitos t a n t o no E s t a d o
c o m o no â m b i t o particular e q u a n d o deficientes geram,
via de regra, servidão. E q u e n i n g u é m a m e as riquezas
p o r c a u s a d e s e u s f i l h o s c o m o filo d e d e i x á - l o s o m a i s
r i c o s possível, p o i s isto n ã o é b o m n e m p a r a eles n e m
p a r a o Estado. P a r a os jovens, recursos q u e n ã o a t r a e m
bajuladores, e q u e n ã o os p r i v a m do necessário, consti-
t u e m os mais h a r m o n i o s o s e mais excelentes de todos,
v i s t o q u e t a i s r e c u r s o s e s t ã o e m s i n t o n i a e a c o r d o co-
nosco, t o r n a n d o nossa vida em todos os aspectos isen-
t a d e s o f r i m e n t o . Aos filhos deve-se d e i x a r u m g r a n d e
l e g a d o de. r e s p e i t o p r ó p r i o e n ã o d e o u r o . I m a g i n a m o s
q u e é m e d i a n t e a correção da i m p u d ê n c i a da juventu-
d e q u e lhe l e g a m o s essa v i r t u d e , m a s n ã o é isto q u e
r e s u l t a d a r e p r e e n s ã o d i r i g i d a c o m u m e n t e h o j e a o s jo-
vens q u a n d o a s p e s s o a s lhes d i z e m q u e "os jovens de-
1
v e m r e s p e i t a r a todos* . 0 l e g i s l a d o r p r u d e n t e d e v e r á ,
a n t e s , advertir a s p e s s o a s m a i s velhas p a r a q u e respei-
t e m o s j o v e n s e , a c i m a de, t u d o , s e a c a u t e l e m p a r a n ã o
serem jamais surpreendidas por um jovem fazendo ou

203
Platão - As Leis

d i z e n d o a l g o v e r g o n h o s o , p o i s ali o n d e o s v e l h o s s ã o
i m p u d e n t e » , os jovens fatalmente o s e r ã o a i n d a m a i s ; o
m o d o rnais eficiente de e d u c a r os jovens - b e m c o m o as
próprias pessoas mais velhas - n ã o é repreender m a s
sim simplesmente, praticar por toda nossa vida aquilo
pelo q u e repreendemos os outros. Q u a n t o à parentela,
a q u e l e s a q u e m nos ligam os deuses familiares e q u e
n o s s ã o c o n s a n g ü í n e o s , q u e m q u e r q u e o s h o n r e e re-
verencie pode, na m e d i d a de q u a n t o é piedoso, assegu-
rar a b o a vontade dos deuses do nascimento p a r a a pro-
c r i a ç ã o d e s e u s filhos. A d e m a i s , u m ser h u m a n o encon-
trará a m i g o s e c o m p a n h e i r o s b e m p r e d i s p o s t o s p a r a o s
r e l a c i o n a m e n t o s d a v i d a s e c o l o c a r m a i s alto d o q u e
eles colocam o valor e a i m p o r t â n c i a d o s serviços q u e
lhe p r e s t a m e conferir m e n o s valor aos favores q u e lhes
p r e s t a do q u e eles p r ó p r i o s (seus a m i g o s c c o m p a n h e i -
ros) c o n f e r e m . N a r e l a ç ã o c o m s e u E s t a d o e s e u s c o n c i -
d a d ã o s e s s e ser h u m a n o s e d e s t a c a r á , preferível m e n t e
n ã o o b t e n d o u m a vitória e m O l í m p i a o u e m q u a l q u e r
outro concurso de guerra ou de paz, m a s optando pela
r e p u t a ç ã o de vencedor no serviço d a s leis de s u a cida-
de, sendo o indivíduo q u e superou a todos os demais as
servindo d e m a n e i r a m a r c a n t e d u r a n t e t o d a s u a vida.
Além disso, um indivíduo deve c o n s i d e r a r c o m o especial-
m e n t e sagrados os contratos celebrados com estrangei-
r o s p o i s , p r a t i c a m e n t e , t o d a s a s faltas c o n t r a o s e s t r a n -
geiros são - se c o m p a r a d a s com a q u e l a s c o m e t i d a s con-
t r a c o n c i d a d ã o s - m a i s e s t r e i t a m e n t e l i g a d a s a u m a di-
v i n d a d e vingadora. O estrangeiro, p o r q u a n t o está pri-
vado de c o m p a n h e i r o s e da família, é q u e m mais atrai
a c o m p a i x ã o de seres h u m a n o s e deuses, pelo q u e a q u e -
les q u e têm a c a p a c i d a d e de vingá-lo e se a p r e s s a m p a r a
socorrê-lo s ã o o dáimon c o d e u s do e s t r a n g e i r o , os q u a i s
• f) rlc«: í|WM()ifio rios f a z e m p a r l e da e s c o l t a de Z e u s X e n i o s . • T o d o a q u e l e ,
(lucilo': cie tospilnfòflWc. p o r t a n t o , q u e for m i n i m a m e n t e p r u d e n t e t o m a r á o
(iU.) m á x i m o c u i d a d o de viver t o d a s u a v i d a , até o s e u fim,
s e m perpetrar q u a l q u e r ofensa c o n t r a estrangeiros. De
t o d a s as ofensas c o m e t i d a s c o n t r a estrangeiros ou com-
p a t r i o t a s , em todos os casos a m a i s grave é a q u e se
refere aos r e q u e r e n t e s , p o r q u e q u a n d o u m r e q u e r e n -
te, a p ó s i n v o c a r u m d e u s c o m o t e s t e m u n h a , é l u d i b r i a -
d o , e s s e d e u s s e t o r n a o p r o t e t o r e s p e c i a l d e q u e m foi

204
Livro V

ludibriado, de sorte q u e « v í t i m a jamais ficará sem vingan-


ça. N o q u e c o n c e r n e à s relações d e a l g u é m com s e u s
pais, consigo m e s m o e seus próprios bens, b e m c o m o
c o m o E s t a d o e s e u s p a r e n t e s - s e j a m as relações exterio-
res, sejam as d o m é s t i c a s - c o m p l e t a m o s nosso e x a m e .
Na s e q ü ê n c i a nos cabe e x a m i n a r o caráter q u e é o m a i s
c o n d u z e n t e a u m a vida digna, e depois disto teremos
q u e indicar todas as matérias q u e estão sujeitas n ã o à
lei, m a s s i m a o l o u v o r e à c e n s u r a , c o m o o s i n s t r u m e n -
tos pelos q u a i s os c i d a d ã o s são e d u c a d o s individual-
m e n t e e t o r n a d o s m a i s dóceis e p r e d i s p o s t o s às leis q u e
lhes serão impostas. Entre todos os bens tanto p a r a os
d e u s e s q u a n t o p a r a os seres h u m a n o s , a v e r d a d e v e m
e m p r i m e i r o lugar. Q u e dela participe c a d a indivíduo
h u m a n o d e s d e o p r i n c í p i o dc s u a vida se seu p r o p ó s i t o
for a b e m - a v e n t u r a n ç a c a f e l i c i d a d e , d e m o d o q u e p o s -
s a v i v e r s u a v i d a o r n a i o r t e m p o p o s s í v e l s e g u n d o a ver-
d a d e . E s t e é u m i n d i v í d u o d i g n o d e c o n f i a n ç a , m a s in-
digno de confiança é aquele q u e gosta de m e n t i r volun
t a r i a m e n t e , e n q u a n t o , p o r o u t r o l a d o , é i n s e n s a t o o in-
divíduo a q u e m a p r a z a m e n t i r a involuntária. E ne-
n h u m destes dois ú l t i m o s é p a r a ser invejado pois q u e m
é i n s e n s a t o oit i n d i g n o d e c o n f i a n ç a n ã o t e m a m i g o s e
q u a n d o o d e c o r r e r do t e m p o se faz c o n h e c e r , ele • • cons- " • f e r i é, o insenfinta nu
trói p a r a s u a velhice u m i s o l a m e n t o total a o fim d e s u a ndiruio dc fiotijweo. (n.l.)
vida, estejam s e u s c o m p a n h e i r o s e filhos vivos ou n ã o .
Aquele q u e n ã o comete q u a l q u e r erro é efetivamente
um h o m e m digno de honra, porém digno de honra em
d o b r o , e m a i s , é a q u e l e q u e em a d i ç ã o a isto n ã o p e r m i -
te q u e os c o m e t e d o r e s de erros os c o m e t a m , pois en-
q u a n t o o p r i m e i r o vale p o r um h o m e m o s e g u n d o vale
por muitos já q u e informa os magistrados a respeito da
ação errônea dos outros. E aquele q u e auxilia os magis-
trados, na m e d i d a de suas forças, a p u n i r , q u e o procla-
m e m o s o grande homem no Estado,**» e homem con- •••..pcyaç avqp gv
s u m a d o , c a m p e ã o da virtude. A t e m p e r a n ç a e à sabe- TtoXst.... <A «mal
d o r i a deve-se a t r i b u i r o m e s m o louvor e a t o d o s os ou- |>fu'tiio<jio cio wfificuPíno «o
tros b e n s q u e seu p o s s u i d o r n ã o p o d e m a n t e r a p e n a s íuwfcifn do a p t - r n i se {oj
p a r a si m a s q u e p o d e m t a m b é m ser repartidos c o m os rooK umo w% fXiesotife. («.(.)
outros; a q u e l e q u e o s r e p a r t e deve ser h o n r a d o corno d e
s u m o mérito e aquele q u e os q u e r repartir m a s n ã o tem
c o n d i ç õ e s d e fazê-lo c o m u m m é r i t o s e c u n d á r i o , e n q u a n t o

205
Platão - As Leis

o egoísta» e n ã o desejoso de repartir q u a i s q u e r b o a s


c o i s a s c o m o s o u t r o s d e v e r á ser o b j e t o d e c e n s u r a , e m -
<}>0ovouvra...,
bora o b e m q u e possui n ã o deva ser depreciado p o r sua
fítoolmenle cijiwefifo, ou aejo,
c a u s a , m a s p e l o c o n t r á r i o motivo d e g r a n d e esforço p a r a
aqueUe qiie tem ciúme de seus
ser obtido. Q u e todos nós ambicionemos a conquista
bem. o que. o |og jornais
d a v i r t u d e , p o r é m d e m o d o b e n e v o l e n t e , * * pois a s s i m
liristiPíiá-Pos ( m u outws. (n.l.)
os Estados serão ampliados, rivalizando no empenho
•*... ttd>9ovcoç..„ sem sem se paralisarem pela maledicência; m a s o malevo-
«Ví/ie (oPtaictieflmeíte). (n.(.} lente, p e n s a n d o q u e a melhor forma de assegurar sua
s u p e r i o r i d a d e é m a l d i z e r o s o u t r o s d e s p e n d e p o u c o es-
forço p a r a g a n h a r excelência v e r d a d e i r a e d e s e s t i m u l a
s e u s r i v a i s o s c e n s u r a n d o i n j u s t a m e n t e , c o m o q u e leva
t o d o o E s t a d o a ser m a l t r e i n a d o na c o m p e t i ç ã o pela
v i r t u d e e o t o r n a , de, s u a p a r t e , m e n o s d e t e n t o r d e b o a
r e p u t a ç ã o , l o d o h o m e m deve tinir à cólera a m a i o r
a m a b i l i d a d e possível. E m relação aos erros dos outros
q u e nos p õ e m em perigo e q u e têm p o u c a ou n e n h u m a
chance de serem remediados, só podemos nos subtrair
t r i u n f a n d o sobre eles m e d i a n t e u m a l u t a defensiva c os
castigando inflexivebnente, o q u e n e n h u m a alma pode
realizar s e m u m a n o b r e cólera. • • • M a s , p o r o u t r o lado,
q u a n d o s e c o m e t e u e r r o s remediáveis, dever-se-ia, e m
p r i m e i r o lugar, r e c o n h e c e r q u e todo c o m e t e d o r d e e r
r o s o é i n v o l u n t a r i a m e n t e , • • • • p o i s n i n g u é m em p a r t e

•**... Buuou a l g u m a j a m a i s iria d e b o a v o n t a d e g r a n j e a r n e n h u m

yevvaioo,,., pomo dos grandes males, sobretudo em meio ao q u e possui

qepofioeri. -jl idéia mais de m a i s p r e c i o s o . Ora, a a l m a , c o m o d i s s e m o s , é c o m

Uíginíw que dislo ICJÍaraoe t o d a a verdade p a r a todo h o m e m o b e m m a i s precioso.

sesin m Hoknlo sentimento de. N i n g u é m , p o r t a n t o , a d m i t i r á v o l u n t a r i a m e n t e a o seio

iudígimeâo diante do mal {oito d e s s a coisa p r e c i o s a o m a i o r d o s m a l e s , p a s s a n d o a vi-

c pwttofaxm-te pwart': o ver sua vida inteira o a b r i g a n d o . Mas q u e m cometer

mei&eilo.i que noo Prwmin erros merece toda a compaixão, tanto q u a n t o qualquer

fcfjiilmonicnle o nos enfutecei h o m e m q u e for a t i n g i d o p e l o m a l , e p o d e m o s n o s c o m -

(!, ineJueWe, oHugi-Co com padecer daquele que padece de um mal remediável,

nosso jé»io. (n.t.) conter e a b r a n d a r nossa cólera em lugar de p r o p a g a r


c o n s t a n t e m e n t e o m a u h u m o r c o m o u m a m u l h e r ra-
*••• TAÍÍI O -Ptotáípws.
l h a d o r a : m a s ao t r a t a r m o s com a q u e l e q u e é total e obs-
(u.f.)
t i n a d a m e n t e perverso e irrecuperável será necessário
d a r livre c u r s o à ira. r a z ã o p e l o q u a l d i s s e m o s q u e c a b e
ao h o m e m de b e m unir a a m a b i l i d a d e à cólera, sendo
colérico ou a m á v e l de a c o r d o c o m a ocasião. Há um
m a l , m a i o r q u e todos os outros, q u e a m a i o r i a dos seres

206
Livro V

h u m a n o s í n c u l c a r a m em suas a l m a s e, cada um deles


d e s c u l p a e m s i m e s m o , n ã o f a z e n d o n e n h u m esforço p a r a
evilá-Io. T r a t a - s e d o m a l q u e i n d i c a m o s a o d i z e r q u e t o d o
ser h u m a n o é, p o r n a t u r e z a , um a m a n t e de si m e s m o , e
q u e é c o r r e t o q u e a s s i m seja, M a s a v e r d a d e é q u e a c a u -
s a d e t o d a s a s faltas e m t o d a s a s c i r c u n s t â n c i a s está n o
excessivo a m o r q u e a p e s s o a d e d i c a a si m e s m o , p o i s
a q u e l e q u e a m a é cego e m s u a visão d o objeto a m a d o , d e
sorte q u e se revela u n i m a u juiz d a s coisas justas, b o a s e
belas ao julgar q u e deve s e m p r e preferir o q u e lhe é pró-
prio ao verdadeiro; n ã o é n e m a nós m e s m o s e n e m aos
nossos próprios b e n s q u e devemos nos devotar se preten-
d e m o s s e r grandes, m a s s i m a o q u e é j u s t o , i n d e p e n d e n -
t e m e n t e da a ç ã o justa ser nossa ou dos outros. E é dessa
m e s m a falta q u e t o d o ser h u m a n o tirou a idéia d e q u e
sua loucura é sabedoria, de m o d o que sem nada saber
o u q u a s e n a d a saber, c r e m o s s a b e r t u d o , e visto q u e n ã o
c o n f i a m o s aos outros o fazer a q u i l o q u e i g n o r a m o s , ne-
c e s s a r i a m e n t e e r r a m o s a o fazê-lo n ó s m e s m o s . P o r c o n -
s e g u i n t e , t o d o s e r h u m a n o d e v e fugir d o e x c e s s i v o a m o r
de si m e s m o e s e m p r e seguir a l g u é m m e l h o r do q u e ele,
sem pretextar jamais a vergonha q u e experimenta nessa
ocasião. Preceitos q u e são m e n o s importantes do q u e
estes, e a m i ú d e r e i t e r a d o s - e m b o r a n ã o m e n o s proveito-
i , ,
• i / i i i i • ••***r .n(i"iiPlf -< r' r> 'fl-ifrbo
s o s - c o m p e t e a n o s r e p e t i - l o s a t i t u l o de l e m b r e t e , p o i s " ' ' "
o n d e há um c o n s t a n t e refluxo deverá s e m p r e se produ- ^
z i r t a m b é m u m i n f l u x o c o r r e s p o n d e n t e , e q u a n d o a sa- •••••• íhip (, o dâímu,

b e d o r i a r e f l u i o i n f l u x o a d e q u a d o é c o n s t i t u í d o p e l a re- dmudmk hii-hm dc mda


m i n i s c ê n c i a , • • • • • p e l o q u e s e faz n e c e s s á r i o r e p r i m i r iwfwíduo.
riso e l á g r i m a s intempestivos, e t o d o h o m e m [ b e m c o m o •• • « • • • ( t o n n o W)SW! ^in,
o c o n j u n t o do E s t a d o ] deverá c o b r a r de t o d o h o m e m a K g r s m >(l çõo
J( n a f, ( s 0

t e n t a t i v a de d i s s i m u l a r t o d a e x i b i ç ã o d o s e x t r e m o s de poPoWo, o («rio moslun '*


alegria e de tristeza, de m a n e i r a a comportar-se con- mntejiio c im|uw!so, p m
v e n i e n t e m e n t e t a n t o na p r o s p e r i d a d e s o b a b o a s o r t e de Qeov (lrmr:) c ynhlcn. q > , r

a c o r d o c o m o gênio i n d i v i d u a l de c a d a um • • • • • • c n o s qiinPquia jowm. d pmtité <ff


i n f o r t ú n i o s s o b a má s o r t e q u a n d o os dáimons se o p õ e m ípÇoiõo. oo uso* o milo t o
a c e r t o s a t o s h u m a n o s q u e se c h o c a m c o n t r a a l t u r a s v e r - nfogoMn pma w p m m ti
tíginosas; é preciso sempre esperar q u e a dívinda mux&dm mm fdíiios, osfajn
de • • • * * * • r e d u z a os i n f o r t ú n i o s q u e c a e m s o b r e eles p o r j i,; í(, jru j i pen^tM r> oo m
Wl (i w ;

meio d o s b e n s q u e confere, e q u e m u d e p a r a m e l h o r a § r | i u o u p y o ç . aue. f ; o


situação presente, e q u e , n o q u e diz respeito aos bens, ao ( M B I 0 , ijf ^
t t n m f/Jiww,
c o n t r á r i o , q u e c o m a a j u d a da b o a s o r t e os a u m e n t e m . diófogo CM que. «bonita o
ooanogotiio. («.(.)

207
Platão - As Leis

Nestas esperanças e nas reminiscôncias de todas essas


v e r d a d e s d e v e c a d a u m viver, s e m s e p o u p a r d o s s o f r i -
m e n t o s a fim d e m a n t e r c o m c l a r e z a a s r e m i n i s c ê n c i a s
tanto para os outros quanto para si mesmo, no traba-
lho e no e n t r e t e n i m e n t o . E assim, q u a n t o ao q u e res-
peita ao devido caráter d a s instituições e o devido c a r á
ter d o s indivíduos, t e m o s a g o r a f o r m u l a d a s q u a s e to-
d a s as regras de sanção divina; as de origem h u m a n a
i n d a n ã o f o r m u l a m o s , o q u e d e v e m o s fazer visto q u e
nos dirigimos a seres h u m a n o s e n ã o a deuses. Praze-
res, dores e desejos são p o r n a t u r e z a especialmente hu-
m a n o s e é destes, necessariamente, q u e cada criatura
m o r t a l e s t á , p o r assim dizer, s u s p e n s a e d e p e n d e n t e p o r
m e i o d o s m a i s fortes laços d e influência. Assim, deve-se
r e c o m e n d a r a vida m a i s n o b r e n ã o só p o r q u e exterior-
m e n t e seja s u p e r i o r e m t e r m o s d e b o a r e p u t a ç ã o , m a s
t a m b é m p o r q u e se a l g u é m c o n s e n t e em gozá-la e n ã o
evitá-la na juventude, será igualmente superior naqui-
lo q u e todos os indivíduos h u m a n o s cobiçam: o máxi-
mo de prazer e o m í n i m o de d o r ao longo de toda a
e x i s t ê n c i a . Q u e e s t e s e r á c l a r a m e n t e o r e s u l t a d o , s e al-
g u é m desfrutar tal vida corretamente, ficará p l e n a m e n t e
e v i d e n t e d c i m e d i a t o . M a s n o q u e c o n s i s t e e s s a retidão?
Esta é a q u e s t ã o q u e agora temos dc e x a m i n a r à luz de
nosso a r g u m e n t o . C o m p a r a n d o a vida m a i s prazerosa
com a mais dolorosa, será nossa tarefa através deste
m e i o c o n s i d e r a r se u m a é-nos n a t u r a l e a o u t r a c o n t r a
a natureza. Desejamos o prazer e n q u a n t o a dor nós n e m
o p t a m o s por ela e n e m a desejamos; q u a n t o ao estado
n e u t r o , n ã o o d e s e j a m o s no l u g a r do p r a z e r , m a s o de-
sejamos como substituto da dor; e desejamos m e n o s dor
com mais prazer, mas não desejamos menos prazer com
m a i s dor; e q u a n d o os dois estão equilibrados por igual,
somos incapazes de afirmar claramente nossa preferên-
cia. E todos esses e s t a d o s - no q u e se refere ao seu n ú -
mero, q u a n t i d a d e , grandeza, igualdade e os opostos
destes - t ê m ou n ã o têm influência sobre o desejo no
s e n t i d o de c o n t r o l a r a escolha q u e o desejo fará de c a d a
um. E s t a n d o as coisas assim dispostas necessariamen-
te, d e s e j a m o s a q u e l e tipo d e v i d a n o q u a l o s s e n t i m e n -
tos são muitos, g r a n d i o s o s e intensos com a p r e d o m i -
nância dos prazerosos, mas não desejamos a vida na

208
Livro V

q u a l p r e d o m i n a m 08 sentimentos dolorosos; e, inversa-


mente, n ã o desejamos a vida na q u a l os sentimentos
são escassos, modestos e s e m i n t e n s i d a d e , com a predo-
m i n â n c i a dos dolorosos; m a s se os prazerosos predomi-
narem, nós os desejamos. Ademais, temos q u e conside-
rar a vida em q u e há um equilíbrio igual de prazer e
dor c o m o o fizemos previamente referindo-nos ao esta-
do n a t u r a l : d e s e j a m o s a vida e q u i l i b r a d a na m e d i d a
em q u e ela excede a v i d a d o l o r o s a n a q u i l o q u e gosta-
mos, m a s n ã o a desejamos na m e d i d a cm q u e excede a
vida prazerosa n a q u i l o d e q u e n ã o gostamos. I o d a s as
vidas h u m a n a s têm q u e ser e n c a r a d a s como natural-
m e n t e circunscritas a esses s e n t i m e n t o s , e o q u e n o s c a b e
discernir 6 q u a i s os tipos de vida q u e n a t u r a l m e n t e de-
sejamos; p o r é m , se acontecer de d e s e j a r m o s algo m a i s
a l é m desses limites, será devido à ignorância e inexpe-
riência das vidas como elas r e a l m e n t e são q u e estare-
mos nos pronunciando. Quais e q u a n t a s , então, são as
vidas em q u e um indivíduo - t e n d o ele e s c o l h i d o o de-
s e j á v e l e o v o l u n t á r i o p r e f e r i v e l m e n t e ao i n d e s e j á v e l e o
i n v o l u n t á r i o e t e n d o t o r n a d o i s s o u m a lei p a r a s i m e s -
mo selecionando o q u e de i m e d i a t o é t a n t o a d e q u a d o e
p r a z e r o s o q u a n t o s u m a m e n t e b o m e belo - p o d e viver
t ã o feliz q u a n t o é h u m a n a m e n t e p o s s í v e l ? D e c l a r e m o s
q u e u m a delas é a vida de t e m p e r a n ç a , o u t r a a vida do
s á b i o , o u t r a a do corajoso e c l a s s i f i q u e m o s a v i d a s a u -
dável c o m o u m a outra; e a estas colocaremos em oposi-
ção q u a t r o o u t r a s : a vida do tolo, a do covarde, a do
licencioso e a do enfermo. Aquele q u e conhece á v i d a
de t e m p e r a n ç a verá diante de si u m a vida delicada em
todos os aspectos, proporcionando prazeres b r a n d o s
b e m c o m o dores b r a n d a s , apetites e desejos m o d e r a d o s
t o t a l m e n t e e s t r a n h o s ao frenesi; m a s o q u e c o n h e c e a
vida licenciosa d e s c o r t i n a r á d i a n t e de si u m a v i d a vio-
lenta em todos os sentidos, p r o p o r c i o n a n d o dores c
prazeres extremos, apetites intensos e desvairados e
os desejos m a i s frenéticos possíveis; e e n q u a n t o na vida
de temperança os prazeres têm maior peso que as do-
res, n a vida lic.cnsiosa a s d o r e s e x c e d e m o s p r a z e r e s
e m e x t e n s ã o , n ú m e r o c f r e q ü ê n c i a . Disto r e s u l t a forço-
s a m e n t e q u e u m a d e s t a s v i d a s t e m q u e ser n a t u r a l m e n t e
mais prazerosa c a outra mais dolorosa p a r a nós; e n ã o

209
Platão - As Leis

é m a i s possível p a r a o h o m e m q u e deseja u m a v i d a pra-


z e r o s a v i v e r v o l u n t a r i a m e n t e u m a v i d a l i c e n c i o s a , fi-
c a n d o c l a r o a g o r a (se a c e r t a d o for o n o s s o a r g u m e n t o )
q u e p a r a n i n g u é m é possível ser licencioso v o l u n t a r i a -
m e n t e , ou seja, é d e v i d o à i g n o r â n c i a ou à i n c o n t i n ê n -
cia, ou devido a a m b a s q u e a m a i o r i a e s m a g a d o r a da
h u m a n i d a d e vive v i d a s n a s q u a i s a t e m p e r a n ç a e s t á
ausente. Analogamente, com relação à vida de enfermi-
d a d e e à vida de s a ú d e , é preciso observar q u e e n q u a n -
t o a m b a s a p r e s e n t a m p r a z e r e s e d o r e s , o s p r a z e r e s ex-
cedem as dores na saúde, m a s as dores excedem os pra-
z e r e s n a e n f e r m i d a d e . N o s s o d e s e j o n a e s c o l h a d a s vi-
d a s n ã o é q u e a d o r s e j a e x c e s s i v a , m a s a v i d a q u e julga-
m o s a m a i s p r a z e r o s a é a q u e l a na q u a l a d o r é excedi-
da pelo prazer. Afirmaremos, então, q u e já q u e a vida
de temperança abriga sentimentos mais modestos, mais
escassos e m a i s leves q u e a v i d a licenciosa, o m e s m o
acontecendo com à v i d a do sábio em relação à vida do
tolo, e c o m a do corajoso em r e l a ç ã o à v i d a do covarde,
e já q u e u m a vida ó superior à o u t r a em prazer, m a s
inferior em dor, a vida do corajoso triunfa sobre a do
c o v a r d e e. a do s á b i o s o b r e a do tolo. C o n c l u í m o s q u e o
p r i m e i r o conjunto de v i d a s se classifica c o m o m a i s pra-
zeroso q u e o segundo, q u e r dizer, as vidas de t e m p e r a n -
ça, de coragem, de sabedoria e de s a ú d e são m a i s pra-
zerosas q u e as vidas do licencioso, do covarde, do tolo e
do enfermo. Em s u m a , a vida q u e c o n t a com a excelên-
cia do corpo e da a l m a c o m p a r a d a à q u e l a q u e abriga o
vício n ã o é a p e n a s m a i s p r a z e r o s a c o m o t a m b é m é gran-
d e m e n t e s u p e r i o r e m b e l e z a , r e t i d ã o , v i r t u d e e b o a re-
p u t a ç ã o , de m o d o a fazer c o m q u e a q u e l e q u e a vive,
v i v e r s e m p r e m u i t o m a i s feliz d o q u e q u e m v i v e a v i d a
oposta. Assim até a q u i f o r m u l a m o s o prelúdio de nos-
sas hás, e q u e esta formulação se encerre. Ao prelúdio
•v_Alnwi"f*t.<! 'Tíotõo deve n e c e s s a r i a m e n t e ; seguir-se o i i o m o * , ou m e l h o r ,
(stéfiPki f»m o dufrfo sentido p a r a ser r i g o r o s a m e n t e e x a t o , um e s b o ç o da o r g a n i z a -
d o pafama v o p o ç . (n.t.) ç ã o elo E s t a d o . E a g o r a , t a l c o m o n o c a s o d c u m p e d a ç o
de tecido, ou q u a l q u e r outra m e r c a d o r i a entretecida,
n ã o é p o s s í v e l f a z e r do mesme> m a t e r i a l a u r d í d u r a e a
t r a m a , s e n d o n e c e s s á r i o q u e o m a t e r i a l d a u r d i d u r a seja
de melhor q u a l i d a d e por sua resistência e u m a certa
firmeza que lhe é inerente, e n q u a n t o a t r a m a é mais

210
Livro V
•""Uejo-sc o 'dhâiieo. mãe,

m a c i a e apresenta u m a razoável flexibilidade:» * po- Tflnlno uso o ttoliofk» do

demos perceber que, de maneira um tanto semelhante, tafóo «o íeo» como w l ó j o »

teremos que distribuir aqueles q u e deterão as grandes do ítcéâo iíw/cujo tabnlio

m a g i s t r a t u r a s no E s t a d o e a q u e l e s aos (piais serão con- delicado consiste ei* combina»

fiadas as p e q u e n a s m a g i s t r a t u r a s * * • d e p o i s da apli- os oposto*, ftgo» e enteango*

cação d e u m teste educacional a p r o p r i a d o e m c a d a u m os tendências m oposição do

d o s casos, isto em f u n ç ã o de d u a s tarefas a s e r e m e m - wdldtwi (ou seja. daqueles que

p r e e n d i d a s na o r g a n i z a ç ã o do E s t a d o , a saber, a desig- goi&winm) e do tmma (que*

n a ç ã o dos indivíduos p a r a os cargos e a atribuição d a s diy/i. dos governados), (n.t.)

leis a o s c a r g o s . M a s , e m v e r d a d e , a n t e s d e n o s o c u p a r - •••Tiejo-se noWimenlo o


m o s de todas essas matérias é imperioso q u e observe- W/fm {«.!.)
m o s o seguinte: Ao cuidar de um r e b a n h o de q u a l q u e r ****... K a G a p u o u ç
tipo, o p a s t o r ou b o i a d e i r o , a q u e l e q u e c u i d a de cava- nókatúç... &lende-se que o
los o u q u a i s q u e r d e s s e s a n i m a i s , j a m a i s t e n t a r á fazê-lo jonitiQçõo e |*fst*oçõo de um
e n q u a n t o n ã o tiver a p l i c a d o a c a d a g r u p o de a n i m a i s a tom fistado sob quolque»
devida d e p u r a ç ã o - q u e consiste em separar os a n i m a i s jonKO dc gowuto (iftcfcsite a
saudáveis dos q u e n ã o estão saudáveis e os de boa raça aMstrwãtiea, |«cc:onígodo pot
dos q u e n ã o o são, e n v i a n d o em seguida estes últimos a 'Watão) erigem a seleção
outros rebanhos e m a n t e n d o apenas os primeiros sob inicial e contínua (iodo
seu c u i d a d o , visto q u e reconhece, q u e seu labor seria «instituição do cidodonio, sob
infrutífero e i n t e r m i n á v e l se d e s p e n d i d o em c o r p o s e wí»ios jownos dc, dcpoMiçâo, que
a l m a s q u e a n a t u r e z a e a má formação se c o m b i n a r a m incluem desde a dcpontoçõo
p a r a a r r u i n a r , esses corpos e a l m a s m e s m o s promoven- suiwifiia dc indiifduos
do a r u í n a de r e b a n h o s saudáveis e incólumes nos há- eottsidcsadoB MsotfMwtet ao

b i t o s e n o s c o r p o s - s e j a q u a l for a e s p é c i e d e a n i m a l - s e fistado até o crfcuMÍnio de

u m a c o m p l e t a d e p u r a ç ã o n ã o for feita n o r e b a n h o exis- indivíduos tidas como gnondes


ttiwinosos [especialmente os
tente. Esta é u m a matéria de importância secundária
acusados e condenados po»
q u a n d o se refere a outros a n i m a i s , m e r e c e n d o m e n ç ã o
delitos conta os pais, o
a q u i s o m e n t e a título ilustrativo; m a s q u a n d o se refere
fistado ou seus deuses
a o ser h u m a n o a d q u i r e s u m a i m p o r t â n c i a e c o m p e t e a o
{impiednd^, rjiiinc cm que
legislador investigar e declarar o q u e é a p r o p r i a d o a c a d a
Ineowiu o psópwo Síicuatee na
classe t a n t o no q u e c o n c e r n e à d e p u r a ç ã o q u a n t o ao q u e
democrática ijUcnos], <tfm a
diz respeito a t o d a s as d e m a i s m e d i d a - cabíveis. Por exem- c
Rcpftíica e a cApoCogia de
p l o , r e l a t i v a m e n t e à d e p u r a ç ã o civil, * * • • d e v e r i a s e r fei-
SfimoHs. (,n.t.)
ta da m a n e i r a seguinte: dentre os muitos modos de depu-
r a ç ã o p o s s í v e i s , a l g u n s s ã o m a i s b r a n d o s , o u t r o s m a i s se- *""<JÍ despeito de acabou
v e r o s ; u m l e g i s l a d o r q u e fosse s i m u l t a n e a m e n t e u m m o - po» p»e|cji* a osistocMio,
n a r c a despótico p o d e r i a utilizar o s m a i s severos, q u e são '-Platão não consegue disjaitçns
o s melhores, ***** m a s u m legislador q u e n ã o dispusesse uma senta simpatia pela
de poder despótico poderia m u i t o b e m contentar-se, ao monoíquia dcspóiico, etnbma
estabelecer u m a nova constituição e nova legislação, c o m concebo esse despotismo sendo
a possibilidade de efetuar a m a i s b r a n d a d a s depurações. CMieido po* um sábio
moixam-fifósofo e não um
tiíano comum, (n.t.)

211
Platão - As Leis

A m e l h o r d e p u r a ç ã o é dolorosa, c o m o todos os medica-


m e n t o s e f e t i v a m e n t e eficazes fsão a m a r g o s ) : é a q u e l a
q u e a r r a s t a a punições por meio da justiça associada à
• TT| 8lKT) UETCX v i n g a n ç a , » esta c o r o a n d o com o exílio ou a m o r t e ; essa
T t p W p i a Ç . . . . \ (tolitoiMi
Kj
d e p u r a ç ã o , via d e r e g r a , a f a s t a o s m a i o r e s c r i m i n o s o s
culto SlKTl € TlUCOpia q u e são irrecuperáveis e causadores de sérios d a n o s ao
não C definido e píieoiso como E s t a d o . U m a f o r m a m a i s s u a v e d e d e p u r a ç ã o é a se-
aetm <xm nossos conceitos de guinte; q u a n d o devido à escassez de alimento os caren-
justiça e eingonoo. fimbnío o tes se p r e d i s p õ e m a seguir líderes q u e os c o n d u z e m ao
signifiendo [rtiiuoídiaP desse s a q u e d a s p r o p r i e d a d e s dos ricos, o legislador p o d e con-
segundo eocábirfo gjege ecjn siderá-los c o m o um m a l inerente á c i d a d e e despaeliá-
<:pen»o. p.wíacrip. dc/ean. los p a r a o e x t e r i o r o m a i s d e l i c a d a m e n t e ' p o s s í v e l , u s a n -
significo (owbéiii msóv/o, do o eufemismo emigração p a r a designar sua evacua-
jmuiçãn. Om. o fiiiiiiçõo ê um ção. • • De um m e i o ou o u t r o isso tem q u e ser r e a l i z a d o
instíimncnto neecssóíio da por todo legislador no princípio, m a s no nosso caso a
jusIiÇO; OSSiM n Tl(XO)pia tarefa é presentemente a i n d a mais simples pois n ã o
paítooc eslM melídnm enfrentamos a necessidade de impor no momento nem
ÔIKT). sendo sua riíiodo u m a forma de emigração n e m q u a l q u e r outra seleção
imfifícilo. P. de quoPquei p o r d e p u r a ç ã o ; m a s tal c o m o q u a n d o h á u m a c o n f l u ê n -
modo, o ale dc i/ítigonça peno cia de i n u n d a ç õ e s provenientes de várias origens -
os gw.gos onfigos «elo findo a l g u m a s p r o v e n i e n t e s de fontes, o u t r a s de t e m p o r a i s -
qimPqucíi peso átieo negativo - p a r a u m aguaceiro único, temos q u e t o m a r diligentes
muito frtíPo coitlMíitio... (n.l.) p r e c a u ç õ e s no sentido de nos a s s e g u r a r q u e a á g u a seja
• • O lom Cigciioinunle iiôiiíeo d a m á x i m a p u r e z a possível e n c a m i n h a n d o - a e m a l g u n s
de PCofão é doslonle casos, em outros c a n a l i z a n d o - a de m o d o a desviar seu
eoiiijiicinsiio. ..A despeitei de curso. Em todo e m p r e e n d i m e n t o político há dificulda-
se.» o «cslse da ,_,4eodo«ia e de e risco, m a s considerando-se, entretanto, q u e nossos
do IrtiPíio PitOMMio Co» que, p r e s e n t e s esforços s ã o v e r b a i s e n ã o de a ç ã o , v a m o s su-
oigiíicscflu snns dnuíiiinas por q u e nossa coleção de cidadãos está agora completa
(ífosófioos (que incluem o e que, s u a p u r e z a , a n ó s a s s e g u r a d a , n o s satisfaz, m e s -
concepção dc u» E s t a d o mo porque permaneceremos testando inteiramente e
soeioPielo), for íicmpv um de todas as formas ao longo do t e m p o os indivíduos
genuíno fliiielocsoto o f:,iílieo m a u s que tentarem adentrar nosso presente Estado na
duio do niode.wa demoe.íiaoio qualidade de cidadãos, assim imped indo sua admissão,
ototionse. (n.tj e n q u a n t o d a r e m o s as boas vindas aos virtuosos com
toda a a m a b i l i d a d e e boa vontade possíveis. E q u e n ã o
d e i x e m o s d e n o t a r esta b o a sorte, o u seja, que como
d i s s e m o s , a c o l ô n i a d o s heraclíâeos foi feliz em e v i t a r o
c o n f l i t o b r u t a l e p e r i g o s o epie c o n c e r n e à d i s t r i b u i ç ã o
d a t e r r a e elo d i n h e i r o c o c a n c e l a m e n t o d a s d í v i d a s ( «
a s s i m s o m o s i g u a l m e n t e felizes), p o i s q u a n d o u m E s t a
do se vê c o n s t r a n g i d o a legislar o a s s u n t o dessa d i s p u t a

212
Livro V

n ã o é c a p a z n e m de d e i x a r i n a l t e r a d o » os interesses as-
s e n t a d o s n e m d e alterá-los d e a l g u m a forma, n ã o lhe
restando meio algum a n ã o ser o q u e p o d e r í a m o s cha-
m a r de pia aspiração e m u d a n ç a cautelosa, pouco a
p o u c o e s t e n d i d a s sobre u m longo período, esse m e i o
consistindo no seguinte: deve já existir u m a c e r t a q u a n -
tidade de indivíduos para realizar a m u d a n ç a que, em
cada o p o r t u n i d a d e , eles m e s m o s , d i s p õ e m de terra em
a b u n d â n c i a e t a m b é m têm muitas pessoas que são seus
devedores, e que são suficientemente bondosos a ponto
de estarem dispostos a d a r u m a parcela do q u e possuem
à q u e l e s q u e são carentes, seja c a n c e l a n d o dívidas,
seja d i s t r i b u i n d o t e r r a s , p r o d u z i n d o u m a espécie, d e
regra de m o d e r a ç ã o e p e r s u a d i d o s de q u e o empobreci
m e n t o é constituído menos pela redução da riqueza do
q u e pelo a u m e n t o da ambição, Eis aí o f u n d a m e n t o da
s e g u r a n ç a d o E s l a d o e s o b r e ele, c o m o s o b r e u m a b a s e
firme, é possível c o n s t r u i r q u a l q u e r tipo de o r d e m polí-
tica em c o n f o r m i d a d e c o m as disposições descritas; con-
t u d o , s e o f u n d a m e n t o for p o d r e , a s s u b s e q ü e n t e s o p e -
r a ç õ e s p o l í t i c a s n ã o s e r e v e l a r ã o n a d a fáceis p a r a q u a l -
quer Estado. Esta dificuldade, como dissemos, é para
nos evitávcl, e m b o r a seja m e l h o r q u e e x p l i q u e m o s o
m e i o p e l o q u a l , n a h i p ó t e s e d e , e f e t i v a m e n t e n ã o a evi-
t a r , p o d e r í a m o s e n c o n t r a r u m a m a n e i r a p a r a d e l a es-
capar. Q u e se esclareça q u e esse m e i o consiste cm re-
n u n c i a r à avareza com a ajuda da justiça, n ã o h a v e n d o
outro c a m i n h o , largo ou estreito, de se furtar a essa di-
ficuldade exceto esse expediente. Assim q u e isso fique
pré-fixado p a r a mis agora c o m o u m a espécie d e c o l u n a
do E s t a d o . Os b e n s dos c i d a d ã o s terão q u e estar distri-
b u í d o s dc u m a m a n e i r a a n ã o suscitar conflitos intesti-
nos, caso c o n t r á r i o n o c a s o d a p r e s e n ç a d e p e s s o a s que,
m a n t ê m a n t i g a s d i s p u t a s e n t r e si, o s i n d i v í d u o s h u m a -
nos de livre e e s p o n t â n e a v o n t a d e n ã o p r o g r e d i r ã o na
construção política se n ã o tiverem um m í n i m o de sen
so. E n t r e t a n t o , n o caso d a q u e l e s p a r a q u e m - c o m o p a r a
nós nesta o p o r t u n i d a d e - a d i v i n d a d e deu um novo
E s t a d o p a r a ser f u n d a d o o n d e n ã o e x i s t e a i n d a c o n f l i t o s
internos - q u e esses f u n d a d o r e s f o m e n t a s s e m a animosi-
d a d e c o n t r a s i m e s m o s p o r c a u s a d a d i s t r i b u i ç ã o d a s ter-
ras e d a s c a s a s seria u m a i n s a n i d a d e c o m b i n a d a a u m a

213
Platão - As Leis

c o m p l e t a m a l e v o l ê n c i a d a s q u a i s n e n h u m ser h u m a n o
p o d e r i a ser c a p a z . Q u a l seria, p o r conseguinte, o p l a n e -
jamento para u m a correta distribuição? Em primeiro
l u g a r , faz-se m i s t e r f i x a r o n ú m e r o t o t a l d e c i d a d ã o s ; a
seguir t e r e m o s q u e c h e g a r a um c o n s e n s o q u a n t o à dis-
t r i b u i ç ã o d e l e s , o u seja, e m q u a n t a s classes d e v e r ã o ser
d i v i d i d o s e a d i m e n s ã o d e c a d a u m a d e s s a s c l a s s e s ; fi-
n a l m e n t e restará a tarefa de distribuir, o m a i s e q u â n i -
m e m e n l e possível, t e r r a s e habitações. S e r á impossível
definir um n ú m e r o p a r a a população sem considerar o
território e os E s t a d o s vizinhos. No q u e se refere a terri-
tório, precisamos a p e n a s d a q u a n t i d a d e suficiente p a r a
a l i m e n t a r u m a c e r t a q u a n t i d a d e d e h a b i t a n t e s teitipe-
rantes, e n a d a mais; q u a n t o à p o p u l a ç ã o será necessá-
rio u m n ú m e r o d e h a b i t a n t e s q u e seja suficiente p a r a
defender o Estado contra agressões dos povos vizinhos,
e t a m b é m q u e seja suficiente p a r a q u e o E s t a d o [na
qualidade de aliado] possa prestar ajuda aos vizinhos
agredidos. Definiremos estas matérias p a r a sua aplica-
ção prática sob o suporte da razão q u a n d o examinar-
m o s o território e seus vizinhos. No m o m e n t o , limita-
mo-nos a um esboço de nossa legislação, q u e p a s s a m o s
a completar mediante nossa argumentação. Suponha-
• 'Ttntno «fio CBC.OIW este mos que hajam - como um n ú m e r o a d e q u a d o - 5040*
númoito fowofcwitlf:. Çíiiolo -aí h a b i t a n t e s a serem detentores de terras e defensores de
de «mo oítjKi dt. gnondego seus lotes, a t e r r a e as h a b i t a ç õ e s s e n d o d i v i d i d a s igual-
modmda cm o moiot i<íi>tc*o mente no m e s m o n ú m e r o de partes, um h o m e m e seu
(iossíucÍ ds diUisoíss (ott seja, lote f o r m a n d o u m par. C o m e c e m o s p o r dividir o n ú m e -
nnqiieiifa e. mui incfiiitido a r o t o t a l p o r d o i s , d e p o i s o d i v i d a m o s p o r t r ê s , e e m se-
totalidade dos dígitos, guida na ordem natural por quatro, cinco e assim por
ifol o 10. (n.t.) d i a n t e até dez. No q u e concerne, a n ú m e r o s , todo ho-
m e m q u e e s t á p r o d u z i n d o leis t e m q u e e n t e n d e r a o m e -
n o s q u a l n ú m e r o e q u a l tipo de n ú m e r o será o m a i s útil
a todos os Estados. Escolhamos aquele q u e contém as
m a i s n u m e r o s a s e m a i s c o n s e c u t i v a s s u b - d i v i s õ e s . A sé-
rie n u m é r i c a c o m p l e t a c o m p r e e n d e t o d a s a s divisões p a r a
todos os propósitos, e n q u a n t o o n ú m e r o 5 0 4 0 , seja vi-
s a n d o à g u e r r a , seja v i s a n d o a t o d o s os propósitos da p a z
ligados a c o n t r i b u i ç õ e s e d i s t r i b u i ç õ e s , a d m i t e c o m o di-
visores n ã o m a i s q u e 5 9 divisores, s e n d o estes consecuti-
vos de um a d e z . E i m p e r i o s o q u e esses fatos a respei-
to dos n ú m e r o s sejam captados rigorosamente e com

214
Livro V

d e l i b e r a d a atenção por aqueles q u e são a p o n t a d o s pela


lei p a r a c a p t a los; s ã o p r e c i s a m e n t e c o m o o s i n d i c a m o s
e a r a z ã o p a r a i n d i c á - l o s ao f u n d a r um E s t a d o é a se-
guinte: no q u e diz respeito aos deuses, s a n t u á r i o s e tem-
plos a serem instalados p a r a os vários deuses do Esta-
d o , e o s d e u s e s e dáimons q u e l h e s e m p r e s t a r ã o s e u s
n o m e s , n e n h u m a p e s s o a de s e n s o - esteja ela construin-
do um novo Estado ou reformando um velho q u e tenha
s i d o c o r r o m p i d o - t e n t a r á a l t e r a r as o r i e n t a ç õ e s de Del-
fos, D o d o n a , A m o u o u d e o u t r o d o s a n t i g o s o r á c u l o s ,
s e j a l á q u a l a f o r m a q u e a s s u m a m , s e o r i u n d a s d c vi-
sões o u d e m e n s a g e n s d c i n s p i r a ç ã o divina. S e g u n d o
essas orientações foram instituídos sacrifícios combi-
n a d o s c o m ritos, d e o r i g e m local o u i m p o r t a d o s d a T i r
rênia, •• Chipre ou outros lugares e por meio dessas L
** Pa,»lc do penítwiPo ilnfíco
c o m u n i c a ç õ e s f o r a m s a n t i f i c a d o s o r á c u l o s , e s t á t u a s , al-
cujo costa c íwmkidfl pefo mo*
t a r e s e t e m p l o s e d e m a r c a d o s p a r a c a d a u m d e l e s gle-
TjlMÍJK) (o Crltlíílin). (ll.l.)
b a s sagradas. N e n h u m a destas coisas o legislador deve
a l t e r a r no m a i s í n f i m o g r a u ; a c a d a d i v i s ã o ele d e v e r á
d e s i g n a r u m d e u s , u m dáimon o u a i n d a u m h e r ó i e n a
d i s t r i b u i ç ã o d a t e r r a ele d e v e r á a t r i b u i r p r i m e i r a m e n -
te a essas divindades d o m í n i o s selecionados a c o m p a -
n h a d o s de tudo q u e lhes pertencem, de sorte que, q u a n -
do as reuniões de cada divisão ocorrerem nas ocasiões
pré-eslabelecidas, possam prover um lato suprimento
d a s coisas necessárias c as pessoas p o s s a m se fraterni-
zar e n t r e si n o s sacrifícios e g r a n j e a r c o n h e c i m e n t o e
i n t i m i d a d e , visto q u e n a d a é m a i s benéfico ao E s t a d o
do q u e essa a p r o x i m a ç ã o recíproca, pois o n d e os ho-
m e n s ocultam seus c a m i n h o s u n s dos outros na obscu-
r i d a d e e m l u g a r d e e x p ô - l o s è l u z n e n h u m h o m e m ja-
mais obterá c o m retidão a h o n r a ou o cargo q u e lhe são
devidos, ou a i n d a a justiça q u e lhe cabe, motivo pelo q u a l
todo h o m e m em todo Estado necessita, a c i m a de t u d o ,
e m p e n h a r - s e em exibir-se v e r d a d e i r a e s i n c e r a m e n t e a n t e
t o d o s , n ã o p e r m i t i n d o , a d e m a i s , q u e seja ele m e s m o obje-
to da falsidade d o s outros. O p r ó x i m o p a s s o no nosso esta-
b e l e c i m e n t o d a s leis é d e tal feitio q u e p o d e r á a p r i n c í p i o
c a u s a r s u r p r e s a em r a z ã o de seu c a r á t e r singular, c o m o o
movimento d e u m jogador d e d a m a s que a b a n d o n a s u a
•** ijium Inbutewi dc jogo
" l i n h a s a g r a d a " , • • • e no e n t a n t o a r e f l e x ã o e a e x p e r i ê n -
dc dnmofi, o Pítido mediam.
cia d e m o n s t r a r ã o q u e u m E s t a d o c o r r e p r o v a v e l m e n t e

215
Platão - As Leis

o risco de ser f u n d a d o s e g u n d o um p l a n e j a m e n t o de
segunda do ponto de vista da excelência. E provável q u e
houvesse recusa em aceitá-lo devido a n ã o familiarida-
de com legisladores q u e n ã o são igualmente déspotas, e
c o n t u d o trata-se r e a l m e n t e do p l a n o m a i s correto p a r a
descrever a primeira melhor constituição, a segunda
m e l h o r e terceira melhor, e depois de descrevê-las ceder
a escolha ao indivíduo q u e está e n c a r r e g a d o da funda-
ção. A d o t e m o s este p l a n o agora i n d i c a n d o as constitui-
ções q u e se classificam em p r i m e i r o , s e g u n d o e terceiro
l u g a r em e x c e l ê n c i a . E a e s c o l h a p a s s a r e m o s a Clínias e
a q u e m q u e r q u e seja m a i s q u e q u e i r a a q u a l q u e r t e m -
p o , p r o c e d e n d o à seleção de tais coisas, a s s u m i r de acor-
do com sua própria disposição o q u e tem em apreço em
s u a p r ó p r i a p á t r i a . O p r i m e i r o l u g a r é do E s t a d o e cons-
t i t u i ç ã o (de m e l h o r e s leis, inclusive) n o q u a l s e p o d e
observar o m a i s m e t i c u l o s a m e n t e possível em relação a
sua totalidade o velho dito segundo o q u a l "amigos têm
• Sentença pitngóíien a qixt todas as coisas realmente em c o m u m " . • Q u a n t o a esta
'Pfotõn iWCn/iw lá.iian w.ges. c o n d i ç ã o - existindo ela em a l g u m a p a r t e a t u a l m e n t e
ou a l g u m d i a no f u t u r o - em que há uma comunidade de
esposas, de filhos e de todas as coisas, se por todos os
meios tudo que se tem como privado foi em todo lugar
erradicado, se chegamos na medida do possível a tornar
comum, de uma forma ou outra, mesmo o que por natu-
reza é particular, como os olhos, os ouvidos e as mãos,
como se todos parecessem ver, ouvir e agir em comum; e
que todos os indivíduos tenham, na medida do possível,
logrado a unanimidade no louvor e na censura que con-
ferem, se regozijando e se afligindo com as mesmas coi-
sas c que honrassem de lodo seu coração aquelas leis que
produzem o máximo de união possível ao Estado - neste
caso ninguém jamais formularia u m a outra definição
q u e fosse m a i s v e r d a d e i r a o u m e l h o r d o q u e e s s a n o
q u e diz respeito à excelência. N u m tal E s t a d o que o
h a b i t a s s e m d e u s e s ou filhos de d e u s e s - os h a b i t a n t e s
viveriam a g r a d a v e l m e n t e s e g u n d o esses princípios,
motivo pelo qual estamos dispensados de buscar alhu-
res outro m o d e l o de constituição,* • d e v e n d o n ó s sim
7iapaôeiYu.a y e nos a t e r r a r m o s a esse e c o m t o d a s as n o s s a s forças procu-
7toXueiaç... (n.l.) r a r m o s a c o n s t i t u i ç ã o q u e a ele se a s s e m e l h e o m á x i m o
possível. Essa constituição d e q u e a g o r a nos o c u p a m o s ,

216
Livro V
• • • ^PPatão »ctoina aqui um
se v i e s s e a ser, s e r i a m u i t o p r ó x i m a da i m o r t a l i d a d e e f
' oj-ioucígr turnos de iA
o s

v i r i a em s e g u n d o l u g a r do p o n t o de v i s t a do m é r i t o . • • • dScpébdca. ^Beiteta o
O q u e v i r i a em t e r c e i r o n ó s o i n v e s t i g a r e m o s na s e q ü ê n - supejitotidade d o Sstodo
c i a , se a d i v i n d a d e a s s i m o q u i s e r ; m a s p o r o r a , n o s comunista, mos embata
perguntamos, qual é a segunda melhor constituição e pcjmoneça essencialmente jfet
c o m o p o d e r i a a s s u m i r um t a l c a r á t e r ? Q u e n o s s o s c o l o - a essa sua concepção político,
n o s d i v i d a m a t e r r a e as h a b i t a ç õ e s m a s n ã o c u l t i v e m a '"sislií no binômio possívef
1
t e r r a em c o m u m , visto q u e u m a t a l p r á t i c a e s t a r i a a l é m /ideai c , {ma centos /tebtataçõcs
da c a p a c i d a d e de p e s s o a s do n a s c i m e n t o , f o r m a ç ã o e de idéias explicitadas no
t r e i n a m e n t o q u e s u p o m o s . E q u e a d i s t r i b u i ç ã o seja diálogo ontenio». (n.t.)
feita c o m esta i n t e n ç ã o , ou seja, q u e o h o m e m q u e rece- ^ noção d e
be s e u lote a i n d a a s s i m o c o n s i d e r e c o m o p r o p r i e d a d e /no/Wcdetdepaniieiiüan d a
t m n è
c o m u m de t o d o o E s t a d o • • • • e q u e c u i d e da t e r r a , q u e M<*™k' amsa e
é s u a t e r r a n a t a l , c o m m a i o r diligência do q u e u m a m ã e incompotíiel com o f i s t o d o
c u i d a de seus filhos, p o r q u a n t o ela sendo u m a ideofegodo poí^Plotõo. (n.t.)
d e u s a é t a m b é m senhora sobre sua população • • • • • (f)„ ^^n, a tenta, (n.t.)
mortal, e q u e observe a m e s m a atitude igualmente e m . . . . . . (T) u s p j 0 p a l a

r e l a ç ã o a o s d e u s e s e dáimons l o c a i s . E p a r a q u e e s s a s (Qoio) (n t)
coisas persistam nesse estado i n d e f i n i d a m e n t e deverão
ser a c a t a d a s as seguintes regras adicionais: o n u m e r o
, p t o o m k m 0 0 tn
d e lares, já agora delimitado por nós, precisa * *™"
s n
p e r m a n e c e r i n a l t e r a d o , o u seja, n ã o d e v e r á n u n c a ser 3 ' ' « * ™ ^ « " s Mutações
s o <1(! 1W10 a m e
m a i o r ou m e n o r , o q u e p o d e r á ser c o n c r e t i z a d o c o m ""^ '" ^
! r a , l l i n d o s
s e g u r a n ç a e m t o d o E s t a d o d a m a n e i r a a s e g u i r , quer ' * ^ Mia*cs c
o l f ! M ! , i f n
dizer, o d e t e n t o r d o l o t e d e i x a r á s e m p r e a t r á s d e si c o m o * ' l * catimamente o
h e r d e i r o do l o t e um f i l h o de s u a e s c o l h a q u e o s u c e d a ifíP doméstico que os frite:
no z e l o d o s a n c e s t r a i s d i v i n i z a d o s , d i v i n d a d e s f a m í l i a - p»iwogênitos jamais podiam
r e s e d e u s e s da c i d a d e , t a n t o os v i v o s q u a n t o os q u e já deixo» que se extinguisse, o que,
estiverem mortos; q u a n t o ao r e s t o d o s f i l h o s , oea»eto»ío a extinção do pnóp/iio
q u a n d o um h o m e m tiver m a i s de u m , d e v e r á c a s a r as jaroíftn- íTuetcl d e Coulanges,
f i l h a s de a c o r d o c o m a lei a s e r e s t a b e l e c i d a e a b r i r m ã o '» d Cidade :Jntiga nealigo
d o s f i l h o s do s e x o m a s c u l i n o [ e x c e t o s e u s u c e s s o r ] a fa- «tenso e p/iojundo estudo
vor d o s c i d a d ã o s q u e n ã o t e n h a m f i l h o s - h o m e n s , se p o s - dessa iinpo/itontíssima instituição
sível m e d i a n t e um a r r a n j o a m i g á v e l . M a s , q u a n d o es- ,'iePigioso ente os g/iegos e as;
s e s a r r a n j o s se r e v e l a r e m i n s u f i c i e n t e s , ou q u a n d o n a s iiomanos, o qual findo einouPaçõce
f a m í l i a s os f i l h o s do s e x o f e m i n i n o ou do m a s c u l i n o cslACilns e nccessáiúas com os
f o r e m d e m a s i a d o n u m e r o s o s , ou a i n d a q u a n d o , p e l o instituições Pegais c condieionoio
contrário, forem d e m a s i a d o poucos devido à ocorrên- todo o vido do cidadão, c/f
c i a da e s t e r i l i d a d e - em t o d a s e s t a s s i t u a ç õ e s a a u t o r i - Cidade ^Antiga integ/ia esta
dade que indicaremos como a mais elevada e a mais mesmo Sc.tieCfóssteosda
d e s t a c a d a d e f i n i r á o q u e fazer cm r e l a ç ã o ao excesso pdi/wi. (n.t.)
o u deficiência existentes n o seio d a s famílias, t o m a n d o . . . . . . . . (fi
' • • • • • • • • Ç-J,, (jjj^ m p n i s

os oncest/iais. (n.t.)

217
Platão - As Leis

as melhores m e d i d a s possíveis p a r a assegurar q u e os


5040 lares p e r m a n e ç a m inalterados. Há muitas medi-
d a s q u e são possíveis: e m caso d e m u i t a fertilidade p o d e -
se r e c o r r e r a m é t o d o s a n t i c o n c e p c i o n a i s , e no caso con-
trário a métodos de fomento e estímulo da taxa de nas-
c i m e n t o s , envolvendo a concessão de h o n r a s e deson-
ras, a r e p r e e n s ã o dirigida a o s jovens pelos velhos - to-
d o s estes m é t o d o s c a p a z e s de p r o d u z i r o efeito n e c e s s á -
rio. A d e m a i s , c o m o providência final - no caso de u n i
absoluto desespero p a r a a m a n u t e n ç ã o dos 5040 lares
diante da explosão demográfica devido à afeição m ú -
t u a d a q u e l e s q u e c o a b i t a m entre si - poder-se-á a p e l a r
para aquele antigo expediente que mencionamos amiú-
de, a saber, o envio de rnodo amistoso e n t r e E s t a d o s
amigos da q u a n t i d a d e de colonos q u e se julgar neces-
sária. For outro l a d o , n o caso d o E s t a d o ser a l g u m a vez
vitimado por u m a avassaladora onda de doenças ou
guerras devastadoras, sofrendo a p o p u l a ç ã o t a n t a s per-
das a p o n t o de c o m p r o m e t e r em muito o n ú m e r o pré-
estabelecido de liabilantes. n ã o convém q u e se introdu-
za de b o a vontade novos cidadãos b a s t a r d a m e n t e edu-
c a d o s fno seio do E s t a d o ] , m a s a n e c e s s i d a d e , c o m o diz
o adágio, " n e m o próprio deus pode constranger". *
V a m o s , e n t ã o , e x t r a i r de n o s s o p r e s e n t e d i s c u r s o o se-
T í m o fnasie dc S l m ô i i i f e guinte conselho: m e u s excelentíssimos amigos, n ã o dei-
«À o '-fiw/rígpMs. («.(.) x e m de a c a t a r , s e g u n d o a n a t u r e z a , a s i m i l a r i d a d e , a
i g u a l d a d e , a i d e n t i d a d e e a c o n g r u ê n c i a no n ú m e r o e
em toda p r o p r i e d a d e capaz de produzir coisas belas e
boas. A c i m a de tudo, agora, em primeiro lugar, g u a r d a i
ao longo de vossas v i d a s o n ú m e r o e s t a b e l e c i d o , a se-
guir n ã o ofendei a devida m e d i d a do m o n t a n t e e d a s
d i m e n s õ e s d o s vossos haveres tais c o m o o r i g i n a l m e n t e
recebidos c o m p r a n d o e v e n d e n d o entre vós pois n ã o
tereis ao vosso l a d o n e m a sorte q u e executou a parti-

• • KÂ.r|poç significa lauto


lha, • * q u e é divina, e n e m o legislador pois agora toda

gcnciiicniBCnlc qunPqiie/i objeto


d e s o b e d i ê n c i a s e c h o c a r á p r i m e i r a m e n t e c o n t r a a lei, a

(jiic cc i«n (iojo (Una o coflfc (c


qual advertira para n ã o participar da distribuição sem

himhíw oq«iPo que ce nbíéis:


antes primeiro estar disposto a reconhecer q u e a terra

t»tediot# n antcio) quente Polo,


era c o n s a g r a d a a t o d o s os d e u s e s e a p ó s a c e i t a r que.

píaçõo. posto («rindo, (naonço


tendo sacerdotes c sacerdotisas realizado orações por

c ocpoeifíeomonte. o fole. é.
ocasião do p r i m e i r o sacrifício, depois no s e g u n d o e a t é

imn quf ma cimhfhiklo ao<:


n u m terceiro sacrifício, q u e m q u e r q u e c o m p r a s s e o u

mêmmpm uni teia (n.t.)

218
Livro V

v e n d e s s e a h a b i t a ç ã o ou terreno) a t r i b u í d o s p e l a sorte
sofreria as p e n a l i d a d e s p r o p o r c i o n a i s a esses delitos.
O s oficiais i n s c r e v e r ã o s o b r e t a b u i n h a s d e cipreste re-
gistros escritos p a r a referência futura, e os d e p o s i t a r ã o
n o s santuários; a d e m a i s , colocarão a responsabilidade
de aplicar essas detenções n a s m ã o s d a q u e l e magistra-
d o q u e for c o n s i d e r a d o d e v i s ã o m a i s a g u d a , a f i m d e
q u e t o d a s a s t r a n s g r e s s õ e s d e s s a s r e g r a s p o s s a m ser
p e r c e b i d a s p o r ele, e p o s s a ser p u n i d o t o d o a q u e l e q u e
d e s a c a t a t a n t o a lei q u a n t o o d e u s . Q u ã o g r a n d i o s a -
m e n t e benéfica essa prescrição agora descrita - q u a n d o
a o r g a n i z a ç ã o a p r o p r i a d a a a c o m p a n h a - se r e v e l a a
todos os E s t a d o s q u e a a c a t a m é algo q u e , c o m o diz o
velho provérbio, n e n h u m daqueles q u e são m a u s sabe-
rá, m a s s o m e n t e a q u e l e q u e se tornou experiente e ha-
b i t u a d o à prática da virtude pois na organização des-
crita inexiste o excesso de [formas dej g a n h a r d i n h e i r o ,
envolvendo a condição de n e n h u m a facilidade dever ou
p o d e r ser d a d a a q u e m q u e r q u e seja p a r a fazer d i n h e i -
ro p o r meio de q u a l q u e r comércio indigno de um ho-
m e m livre - n a m e d i d a e m q u e o q u e c h a m a m o s d e ocu-
pações desprezíveis de indivíduos vulgares pervertem o
c a r á t e r d o h o m e m livre - e d e , i n c l u s i v e , n i n g u é m r e i -
vindicar jamais o a m e a l h a m e n t o de riquezas oriundas
d e u m a t a l fonte. A l é m d i s s o , s o m a n d o - s e a t u d o isso
s e g u e - s e a i n d a u m a lei q u e p r o í b e a t o d o c i d a d ã o a p o s s e
p a r t i c u l a r de o u r o e p r a t a , à exceção de m o e d a s p a r a
as p e r r n u t a s diárias, o q u e é p r a t i c a m e n t e indispensá-
vel a o s a r t e s ã o s e a t o d o s a q u e l e s q u e p r e c i s a m d e s s a s
coisas p a r a p a g a r o s m e r c e n á r i o s , escravos o u i m i g r a n -
tes. Por essas razões a f i r m a m o s q u e nosso povo deveria
p o s s u i r m o e d a c u n h a d a c o m valor c i r c u l a n t e legal en-
tre s e u s i n t e g r a n t e s , m a s som valor a l h u r e s . Relativa-
m e n t e à m o e d a c o m u m a toda a G r é c i a - em f u n ç ã o d a s
expedições e visitas estrangeiras, b e m como de embai-
x a d a s o u t p t a i s q u e r o u t r a s missões n e c e s s á r i a s a o Es-
tado, se houver necessidade de enviar alguém ao estran-
geiro - p a r a situações desse n a i p e será preciso q u e o
E s t a d o s e m p r e c o n t e c o m m o e d a g r e g a . S e u m cidadão»
na s u a condição p a r t i c u l a r se vir a l g u m dia forçado a
v i a j a r p a r a o e x t e r i o r , p o d e r á fazê-lo d e p o i s d c s o l i c i t a r
licença aos magistrado» e, na hipótese de retornar com

219
Platão - As Leis

q u a l q u e r excedente em d i n h e i r o estrangeiro, deverá en-


tregado ao Estado, t o m a n d o em seu lugar um equiva-
l e n t e e m m o e d a n a c i o n a l ; e s e a l g u é m for e n c o n t r a d o
c o n s e r v a n d o - o p a r a si, tal d i n h e i r o s e r á c o n f i s c a d o , e
tanto aquele q u e disso estava inteirado e n ã o o d e n u n -
ciou q u a n t o o p o r t a d o r e s t a r ã o sujeitos à m a l d i ç ã o e
i n f â m i a e , a l é m d i s s o , a u m a m u l t a n ã o i n f e r i o r a o di-
n h e i r o estrangeiro m a n t i d o p a r t i c u l a r m e n t e . Por oca-
s i ã o d e c a s a m e n t o o u q u a n d o d c d á u m a f i l h a p a r a ca-
s a m e n t o n e n h u m d o t e , d e valor a l g u m , s e r á d a d o e re-
cebido. N i n g u é m depositará dinheiro em benefício de
alguém em q u e m n ã o confie, n e m fará e m p r é s t i m o a
juros, visto que, é permissível ao e m p r e s t a d o r recusar-
se i n t e i r a m e n t e a p a g a r s e j a o j u r o s e j a o c a p i t a l . A ex-
celência dessas regras a serem observadas como práti-
ca no Estado p o d e ser percebida se as e n c a r a r m o s do
prisma de sua intenção primária. A intenção do h o m e m
de Estado judicioso, nós o asseveramos, n ã o coincide
em a b s o l u t o c o m a i n t e n ç ã o q u e a m a i o r i a a t r i b u i r i a a
ele, q u e d i r i a q u e o b o m legislador d e v e r i a desejar q u e
o Estado, p a r a o qual está legislando benevolentemen-
t e , fosse, o m a i o r e o m a i s r i c o p o s s í v e l , d e t e n t o r d e o u r o
e p r a t a e d o m i n a d o r do m a i o r n ú m e r o de povos possí-
vel s o b r e a t e r r a e o m a r ; e a c r e s c e r i a m q u e e l e d e v e r i a
d e s e j a r q u e o E s t a d o f o s s e o m e l h o r e m a i s feliz p o s s í -
vel, s e n d o u m v e r d a d e i r o legislador. E n t r e estes objetos
de desejo a l g u n s são exeqüíveis, o u t r o s n ã o ; a q u i l o cuja
c o n c r e t i z a ç ã o é possível c o n s t i t u i r á o desejo do o r g a n i -
z a d o r do E s t a d o ; q u a n t o ao impossível ele n ã o o dese-
j a r á e m v ã o e t a m p o u c o o t e n t a r á . Q u e o E s t a d o seja
c o n j u n t a m e n t e feliz e b o m é s i m p l e s m e n t e u m a n e c e s -
* íífrh.W! <":(« uilfilPflÇW: s i d a d e , * d e m o d o q u e ele p r e t e n d e r á q u e a s pessoas
s e j a m t a n t o b o a s q u a n t o felizes; n o e n t a n t o , é impossí-
MWSÉtfO MbR 9» / ( " %
vel q u e s e j a m s i m u l t a n e a m e n t e t a n t o b o a s q u a n t o m u i t o
( a j o a t u x o v ) <: ws hmu
1
ricas, ao m e n o s c o m o a q u e l e s q u e a m u l t i d ã o tem na
P u y a Q o ç ) wiiraiPlm A
conta de ricos pois esta considera c o m o ricos aqueles,
indjf.íêiicifi d -Qrpiihden e o
bastante raros, q u e possuem bens avaliados n u m a enor
9Ma (fi.f.)
m e cifra d e d i n h e i r o , o q u e m e s m o u m h o m e m perver-
s o p o d e r i a p o s s u i r . E visto q u e a s s i m é , e u j a m a i s con-
c o r d a r i a c o m o p o n t o de vista de q u e o h o m e m rico é
r e a l m e n t e feliz n ã o s e n d o t a m b é m b o m ; p o r o u t r o l a d o .
s e u n i h o m e m for s u m a m e n t e b o m , s e r á i m p o s s í v e l q u e

220
Livro V

seja t a m b é m s u m a m e n t e rico. " P o r q u e ? poder-se-ia


indagar. Porque, responderíamos, o lucro q u e se extrai
do q u e é justo s o m a d o ao injusto é m a i s q u e o d o b r o do
q u e o q u e se extrai s o m e n t e do justo, e n q u a n t o a despe-
sa daqueles q u e se recusam a gastar honesta ou deso
n e s t a m e n t e corresponde a somente a m e t a d e da despe-
sa daqueles q u e são honestos e apreciam gastar hones-
tamente; por conseguinte, a riqueza daqueles que do-
b r a m s e u s l u c r o s e r e d u z e m à m e t a d e s e u s g a s t o s ja-
mais será s u p e r a d a pela riqueza daqueles q u e proce-
d e m nesses dois aspectos precisamente de m o d o opos-
to. O r a , d e s t e s d o i s t i p o s de i n d i v í d u o s , um é b o m e o
o u t r o n ã o é m a u e n q u a n t o for p a r c i m o n i o s o , p o r é m
i n t e i r a m e n t e m a u q u a n d o n ã o o for, e , c o m o d i s s e m o s ,
e m m o m e n t o algum, b o m , pois e n q u a n t o u m h o m e m ,
pelo fato de ter lucro tanto justa q u a n t o i n j u s t a m e n t e e
n ã o g a s t a r n e m justa n e m i n j u s t a m e n t e , é rico (e o ho-
m e m i n t e i r a m e n t e m a u , p o r ser via d e regra d e b o c h a -
do, é m u i t o pobre), o outro, q u e gasta em belos objetos
e s ó o b t é m g a n h o s p o r m e i o s j u s t o s p r o v a v e l m e n t e ja- •• 'TViíeec tmpfceita o
m a i s s e t o r n a r á e x t r e m a m e n t e rico o u e x t r e m a m e n t e »cp,MWoçòn fie. •Wafõe à
p o b r e . • * T u d o i s t o c o m p r o v a a v e r a c i d a d e d o q u e afir-
wiiMíjo <! no m opoeln, o
m a m o s , ou seja, q u e os m u i t o ricos n ã o são b o n s e n ã o
pMidigoífdode. (n.t.)
s e n d o b o n s t a m p o u c o s ã o felizes. * • • B e m , o p r o p ó s i t o
•••OonsidcM» o segundo
f u n d a m e n t a l d e n o s s a s leis e r a este: q u e o s c i d a d ã o s
noto ne.tmo. (n.t.)
fossem o m a i s felizes possível e u n i d o s r u i m ú t u a a m i -
zade no mais alto g r a u . • • • • Ora, jamais serão amigos • • • * -_,\ «''peito <fo Oiiin*
se h o u v e r entre eles m u i t o s atos ilegais e processos c o m scneuof c o amtpA (i-."ptt>ç
m u i t a freqüência em lugar destes ocorrerem escassa e e §l~Ma) eoneuPfe-se o

raramente. Afirmamos q u e é imperioso não haver no '-'fímiqt/flfce o 'í7/>dw. ín.f.j


Estado nem ouro nem prata, e nem tampouco muitas ••••• f \ i seja, o cuiai/in fie
f o r m a s d e g a n h a r d i n h e i r o m e d i a n t e o c o m é r c i o vul- animais coetmdos po.in
gar, a u s u r a e a c r i a ç ã o v e r g o n h o s a de a n i m a i s , • • • • • engeado e vendo, (n.t.)
m a s a p e n a s a q u e l e lucro possibilitado e produzido pela
****** 'Poso 'Platão não
a g r i c u l t u r a e a i n d a n a m e d i d a e m q u e tal a t i v i d a d e q u e
só o dinneííiO C um wrtf> e não
t e m c o m o o b j e t i v o o g a n h o d c d i n h e i r o n ã o leve a s p e s -
mu /iiu somo 0': jinc
soas a negligenciar os objetos p a r a os q u a i s o d i n h e i r o
(undomeulois a que doe ecui.*
e x i s t e , » * • • • • q u e s ã o a a l m a e o c o r p o , os q u a i s s e m
não <:ão erfe,>iio»es ao indii-íriao
a ginástica e os outros r a m o s da e d u c a ç ã o n u n c a se
íuimono (fiens maío^iais e
c o n v e r t e r i a m em coisa de valor, pelo q u e assevera-
pooooo). mm tím o /itópiíe
m o s (e isto n ã o só u m a vez) q u e a b u s c a do d i n h e i r o
índiiíduo úumano, on seja. a
está em último lugar no recebimento de nossas honras.
oPtuo e ri eospo que o
eonelileein. («.!.)

221
Platão - As Leis

De todos os três objetos q u e interessam a todo indiví-


d u o h u m a n o , o interesse pelo dinheiro, se corretamen-
te d i r e c i o n a d o , é o t e r c e i r o e ú l t i m o , o i n t e r e s s e p e l o
corpo vindo em segundo, e aquele pela a l m a sendo o
p r i m e i r o . P o r c o n s e g u i n t e , a f o r m a d e g o v e r n o q u e es-
t a m o s d e s c r e v e n d o t e r á s u a s leis c o r r e t a m e n t e f o r m u -
ladas se prescrever as h o n r a s nessa ordem; porém, se
q u a l q u e r u m a d a s leis n e l a p r o m u l g a d a s a p r e s e n t a r
eonspieuamente a saúde como detentora de maior hon-
ra no Estado do q u e a temperança, ou a riqueza deten-
tora de m a i o r h o n r a do q u e a s a ú d e e a t e m p e r a n ç a
teremos claramente urna promulgação errada. Assim,
o legislador terá q u e se interrogar c o m freqüência nes-
tes termos: "O q u e eu p r e t e n d o ? " e " E s t o u c o n s e g u i n d o
isto ou n ã o estou a t i n g i n d o a m e t a ? " Desta m a n e i r a ele
p o d e r i a , talvez, d a r c a b o dc s u a o b r a de legislação e
p o u p a r aos outros essa dificuldade, m a s d e n e n h u m a
o u t r a m a n e i r a p o d e r i a fazê-lo. 0 h o m e m q u e r e c e b e u
uni l o t e o c o n s e r v a r á , c o m o o d i s s e m o s , n o s t e r m o s i n -
d i c a d o s . T e r i a sido r e a l m e n t e e s p l ê n d i d o se c a d a pes-
soa, ao i n g r e s s a r na c o l ô n i a , o fizesse p o s s u i n d o os
m e s m o s b e n s , m a s visto s e r isso impossível, c h e g a n d o
u m a com mais dinheiro do q u e a outra, é necessário
p o r m u i t o s motivos e c o m o objetivo de igualar as chan-
ces n a v i d a p ú b l i c a q u e s e j a m feitas a v a l i a ç õ e s d e s i g u a i s
p a r a q u e cargos e c o n t r i b u i ç õ e s p o s s a m ser i n d i c a d o s
em conformidade com a avaliação a p u r a d a em cada
caso, n ã o a p e n a s segundo a excelência m o r a l dos an-
cestrais de um h o m e m ou dele m e s m o , s u a força e bele-
z a físicas, m a s t a m b é m s e g u n d o s u a r i q u e z a o u p o b r e -
za - d e m o d o q u e p o r u m a r e g r a de. d e s i g u a l d a d e p r o -
p o r c i o n a l • p o s s a m receber cargos e h o n r a s o m a i s igual-
m e n t e possível, p o d e n d o - s e e l i m i n a r q u a l q u e r conflito.
tifi Ofqnônr.tfi fsfo
D i a n t e dessas razões é preciso q u e c r i e m o s q u a t r o clas-
ses c o n f o r m e o g r a u da extensão d o s b e n s , d e n o m i n a n -
do-as primeira, segunda, terceira e q u a r t a (podendo
d e n o m i n á - l a s d i f e r e n t e m e n t e ) seja q u a n d o o s i n d i v í d u o s
p e r m a n e c e m n a m e s m a c l a s s e seja q u a n d o , a t r a v é s d e
u m a m u d a n ç a da pobreza para a riqueza ou desta para
a q u e l a , p a s s a m pela classe à q u a l pertencem. O tipo
d e lei q u e e u p r o m u l g a r i a c m c o n s e q ü ê n c i a d i r e t a d e s -
tas considerações seria o seguinte: é, c o m o a f i r m a m o s ,

222
Livro V

necessário a um Estado q u e pretende evitar a maior


das pragas, q u e seria melhor c h a m a r de r u p t u r a do q u e
d e cisão, q u e n e n h u m d e seus c i d a d ã o s esteja n a condi-
ção de penúria ou naquela da riqueza, já q u e u m a ou
o u t r a g e r a m a q u e l e mal. Conclui-se q u e o legislador t e m
agora q u e declarar u m limite p a r a a m b a s essas condi-
ções. O limite p a r a a p o b r e z a d e v e r á ser o valor do lote,
o q u a l p e r m a n e c e r á fixo e n e n h u m m a g i s t r a d o ( c o m o
tampouco n e n h u m outro cidadão que aspira à virtude)
p e r m i t i r á q u e seja d i m i n u í d o . E t e n d o d e f i n i d o este
c o m o o valor inferior, o legislador p e r m i t i r á q u e se pos-
s u a d u a s , três o u q u a t r o vezes esse valor. N a hipótese
d e a l g u é m a d q u i r i r m a i s d o q u e isso - m e d i a n t e u m a
descoberta, dádiva recebida, bons negócios ou g a n h a n -
do por meio de algum outro golpe de sorte u m a s o m a
q u e exceda a d e v i d a m e d i d a - se d o a r o excedente ao
E s t a d o e aos d e u s e s q u e z e l a m pelo E s t a d o , será alvo
de b o a e s t i m a e e s t a r á isento de p u n i ç ã o ; se, e n t r e t a n -
to, a l g u é m d e s a c a t a r e s t a lei, poder-se-á l i v r e m e n t e d e -
n u n c i á - l o e receber, p o r isso, a m e t a d e do excedente,
além do que o culpado pagará u m a multa no mesmo
índice sobre seus bens legítimos, sendo q u e a outra
m e t a d e do excedente caberá aos deuses. A totalidade
da propriedade adquirida de todo indivíduo acima de
s e u l o t e s e r á d i v u l g a d a p u b l i c a m e n t e p o r e s c r i t o e fica-
r á s o b a g u a r d a d e m a g i s t r a d o s d e s i g n a d o s p e l a lei, d e
sorte q u e os direitos legais p e r t i n e n t e s a t o d o s os assun-
t o s r e l a t i v o s à p r o p r i e d a d e p o s s a m s e r d e fácil d e l i b e -
r a ç ã o e p e r f e i t a m e n t e claros. A seguir, o f u n d a d o r deve-
rá i n s t a l a r a c i d a d e o m a i s p r ó x i m o possível do c e n t r o
d o país, e s c o l h e n d o u m lugar q u e possui todas a s ou-
t r a s c o n v e n i ê n c i a s q u e u m a c i d a d e exige e cuja c o n c e p -
ç ã o e especificação são s u f i c i e n t e m e n t e fáceis. D e p o i s
disso, ele p r e c i s a r á dividir o território em doze p a r t e s ,
começando por separar u m a gleba sagrada para Hés
tia, Z e u s e Atena, à q u a l d a r á o n o m e dc Acrópole e q u e
envolverá com um m u r o circular; p a r t i n d o disto lhe
competirá dividir tanto a própria cidade q u a n t o a região
inteira em doze partes, as q u a i s serão igualadas reser
vando-se m e n o s terra à porção q u e dispuser de terra boa
e mais terra à parte que possuir terra precária. 5.040
l < >tes s e r ã o d e l i m i t a d o s , m a s c a d a u m s e r á d i v i d i d o e m d o i s

223
Platão - As Leis

e se a c o p l a r á d u a s frações, de m a n e i r a q u e c a d a lote
tenha u m a parte aproximada c u m a outra afastada do
centro: u m a parte contígua à cidade constituirá um
ú n i c o lote c o m u m a o u t r a s i t u a d a à fronteira, a segun-
d a p a r t i n d o d a c i d a d e c o m a s e g u n d a p a r t i n d o d a s fron-
teiras, e assim p o r diante. E ao lidar c o m estas porções
s e p a r a d a s dever-se-á utilizar o e x p e d i e n t e q u e m e n c i o -
n a m o s há pouco a respeito da terra precária e terra b o a
e a s s e g u r a r a i g u a l d a d e t o r n a n d o as p o r ç õ e s designa-
das de maior ou m e n o r t a m a n h o . E o fundador deverá
distribuir t a m b é m os cidadãos em doze partes, tornan-
do t o d a s as d o z e p a r t e s o m a i s iguais possível relativa-
m e n t e ao valor do resto de s u a p r o p r i e d a d e , a p ó s ter
feito u m c e n s o d e t o d o s . A p ó s isso, dever-se-á t a m b é m
"... S m S k k o i Oeotç.... d e s i g n a r d o z e lotes p a r a os d o z e d e u s e s , * a l é m de no-
là icjfíwiniü. é. m e a r e c o n s a g r a r a p o r ç ã o a t r i b u í d a a cada. d e u s , d a n -
|i,W8i!mi*Jm<irfp. oos doge d o - l h e o n o m e de tribo. E na s e q ü ê n c i a s e r á i m p e r i o s o
m
deuses oiíinfilons (seis deuses e . V d i v i d a m as doze partes da c i d a d e da m e s m a m a -
seis densos), a sobe», n e i r a q u e d i v i d i r a m o resto do p a í s ; e c a d a c i d a d ã o de-
c v e r t o m a r
PosM(ÍMt, lAffS, Wmm ^ c o m o seu q u i n h ã o d u a s m o r a d a s , u m a pró-
fík/âíe/fíg, ; Âpúft). 'xUfstia, x i m a do c e n t r o do p a í s e a o u t r a p r ó x i m a d o s a r r a b a l -
itími, <DmSa. uíiltmís, d e » - E a s s i m a f u n d a ç ã o e s t a r á c o m p l e t a . M a s t e m o s de
•jifàfidiln c jffma. (n.t) l o d o m o d o q u e o b s e r v a r isto, ou seja, q u e t o d a s as dis-
p o s i ç õ e s q u e f o r a m a g o r a d e s c r i t a s p r o v a v e l m e n t e ja-
m a i s e n c o n t r a r ã o tais condições favoráveis d e m a n e i r a
a t o d o o p r o g r a m a p o d e r s e r i m p l a n t a d o de, a c o r d o c o m
o plano, o q u e requereria q u e todos os cidadãos n ã o
a p r e s e n t a s s e m objeções a um tal m o d o de vida conjun-
ta e t o l e r a s s e m e s t a r restritos a vida i n t e i r a a q u a n t i d a -
d e s f i x a s c l i m i t a d a s d e b e n s e a o t i p o d e e s t r u t u r a fa-
miliar q u e m e n c i o n a m o s , e a e s t a r p r i v a d o s de o u r o e
d a s outras coisas em relação às q u a i s o legislador está
claramente obrigado por nossas regras a proibir, tendo
t a m b é m (os c i d a d ã o s ) q u e s e s u b m e t e r e m a o s a r r a n j o s
q u e o l e g i s l a d o r d e t e r m i n o u p a r a o t e r r i t ó r i o t o d o c in-
clusive a cidade, c o m as m o r a d i a s i n s t a l a d a s no centro
e em círculo - q u a s e c o m o se ele estivesse c o n t a n d o
m e r a m e n t e sonheis o u m o d e l a n d o , p o r a s s i m dizer, uma.
c i d a d e e c i d a d ã o s c o m cera. E s s a s c r í t i c a s n ã o s ã o in-
t e i r a m e n t e i m p r o c e d e n t e s e o legislador deverá reconside-
r a r o s p o n t o s q u e s e s e g u e m . Assim o l e g i s l a d o r n o s f a l a
novamente neste termos: "Não pensais, meus amigos, q u e

224
Livro V

neste m e u discurso deixei de n o t a r a v e r d a d e do q u e é


a g o r a d e s t a c a d o nessa crítica, m a s ao se o c u p a r c o m
todos os e s q u e m a s visando ao futuro, o melhor plano,
a c h o , é este: q u e q u e m p r o p õ e o m o d e l o s e g u n d o o q u a l
o e m p r e e n d i m e n t o deve ser m o l d a d o n ã o o m i t a q u a l -
q u e r detalhe do mais belo e do mais verdadeiro, m a s
o n d e q u a l q u e r u m d e l e s for irrealízável esse d e t a l h e
particular deverá ser omitido e deixado sem execução;
entretanto, o proponente do modelo se e m p e n h a r á em
executar, por outro lado, todos os demais detalhes com
a m a i o r p r o x i m i d a d e possível do m o d e l o perfeito. E de-
veria permitir ao legislador expressar seu ideal comple-
t a m e n t e , e feito i s t o s e l i m i t a r i a a e x a m i n a r e m c o n j u n -
to c o m ele o q u e é e x p e d i e n t e no p l a n o t r a ç a d o e o q u e
e q u a n t o na legislação é i m p r a t i c á v e l . Pois o a r t e s ã o
até m e s m o do m a i s trivial objeto, se quiser ter qual-
quer mérito, tem q u e produzi-lo em todos os pontos
coerente consigo mesmo.'' Assim, nos c o m p e t e agora o
esforço p a r a d i s c e r n i r - a p ó s l e r m o s d e c i d i d o s o b r e nos-
sa divisão em doze partes - de q u e forma as subdivisões
q u e se s e g u e m a essas e q u e são seu p r o d u t o , até o nú-
m e r o derradeiro 5.040 (e d e t e r m i n a n t e s , c o m o o são,
• • pf'ntõo SP. pwjonupo
c

d a s fratrias, d e m o s e povoados, b e m como das milícias


fiPfMniiifitlfi som o
e pelotões, e t a m b é m do sistema de e u n h a g e m , dos pe-
podiTOlii^OPÕO oro (Vurjn
sos e m e d i d a s p a r a os l í q u i d o s e os sólidos), todas essas
cscofti, um dos sim quo um
n u m e r a ç õ e s s e r ã o f i x a d a s p e l a lei de sorte a serem da
do fistado comunista.
g r a n d e z a c o r r e t a e c o e r e n t e s e n t r e si. A d e m a i s , e l e n ã o
deve hesitar, t o m a d o pelo receio de ser responsabiliza-
d o p e l o que, p a r e c e r i a ser reles d e t a l h a m e n t o , e m pres- • * * fXt. m outüos [mfowis,
crever q u e de todos os utensílios q u e os cidadãos estão as tes do asitmétioo (o
a u t o r i z a d o s a possuir, n e n h u m p o d e r á ser de t a m a n h o oirârnia dos númcüos) se
indevido.»'Terá q u e reconhecer como regra universal apíiisom também tonto ò
q u e as divisões e variações dos n ú m e r o s são aplicáveis rjrompl.üo pÇano e o dos
a todos os propósitos - t a n t o às s u a s p r ó p r i a s variações sólidos quarto à acústica
aritméticas q u a n t o às variações geométricas d a s super-
(ciência dos sons) c à citiêlifia
fícies e s ó l i d o s , e t a m b é m à q u e l a s d o s s o n s e d o s m o v i -
(ciência do wowiiwiifoj. (n.t.)
m e n t o s , seja e m l i n h a r e t a a s c e n d e n t e e d e s c e n d e n t e -
oiKOvouiav
m e n t e ou circula r m e n te. •" • O l e g i s l a d o r d e v e r á t e r t u d o
KCU ItpOÇ
isso em vista c p r e s c r e v e r a t o d o s os c i d a d ã o s (pie se
TOÀueiav.,.. a
a t e n h a m f i r m e m e n t e , n a m e d i d a d o p o s s í v e l , a e s s e sis-
administração do j a m í í W
tema n u m é r i c o organizado, pois no q u e se relaciona à
saso (OUCOQ « dos assuntos
vida familiar, à vida p o l í t i c a • • • • e às artes, n e n h u m
da sidade./fislado ( n o ^ t ç ) .
(»•(.)

225
Platão - As Leis

r a m o isolado da educação detém u m a influência tão


g r a n d e q u a n t o o estudo dos n ú m e r o s . O p r i n c i p a l be-
nefício q u e p r o p o r c i o n a é d e s p e r t a r o indivíduo q u e
é p o r n a t u r e z a i n d o l e n t e e de m e n t e p r e g u i ç o s a , tor-
n a n d o - o ágil p a r a o a p r e n d i z a d o , d e t e n t o r de b o a me-
mória e sagaz, progredindo além de sua capacidade
© u B6jo, o s matemáticas. n a t u r a l p e l a a r t e d i v i n a . • T o d o s esses t e m a s da e d u -
(n.t.) c a ç ã o se revelarão b o n s e a d e q u a d o s d e s d e q u e se
elimine a mesquinhez e a avareza p o r m e i o de ou-
t r a s leis e i n s t i t u i ç õ e s d a s a l m a s d a q u e l e s a o s q u a i s
cabe adquiri-los convenientemente e deles tirar pro-
veito; caso c o n t r á r i o , a c a b a r e i s p o r p e r c e b e r q u e se
produziu um espertalhão em lugar de um sábio.
E x e m p l o s d i s t o p o d e m o s o b s e r v a r a t u a l m e n t e n o efei-
to p r o d u z i d o em egípcios e fenícios e o u t r o s povos
pela m e s q u i n h e z v i n c u l a d a à p r o p r i e d a d e e suas ins-
tituições - seja em f u n ç ã o de t e r e m c o n t a d o c o m um
m a u legislador, ou que alguma fortuna adversa os
tenha atingido ou t a m b é m , possivelmente, devido a
a l g u m a d e s v a n t a g e m n a t u r a l . Pois isto i g u a l m e n t e ,
Megilo e Clínias, constitui um p o n t o que não pode-
m o s d e i x a r d e n o t a r , o u seja, q u e a l g u n s locais são
n a t u r a l m e n t e superiores a outros p a r a gerarem indi-
víduos h u m a n o s de u m a índole boa ou má, diferença
natural contra a q u a l nossa legislação n ã o p o d e se
chocar. Alguns locais são desfavoráveis ou favoráveis
em função de ventos de diversos tipos ou o n d a s de
calor p r o d u z i d a s pelos raios solares, outros devido
às suas águas, outros por causa simplesmente dos
p r o d u t o s do solo, o q u e significa b o a ou má n u t r i ç ã o
p a r a os corpos, sendo i g u a l m e n t e capazes de provo-
c a r r e s u l t a d o s s i m i l a r e s t a m b é m n a s a l m a s . E n t r e to-
dos estes, seriam s u m a m e n t e m e l h o r e s os locais q u e
se destacassem pela presença de um sopro divino e
onde as porções de terra estivessem sob o c u i d a d o de
dáimons, os quais acolheriam favorável ou desfavo-
r a v e l m e n t e os c o l o n o s q u e dc t e m p o s a t e m p o s vies-
sem se instalar ali. O legislador judicioso e x a m i n a r á
esses locais na m e d i d a em q u e o e x a m e de tais m a t é -
r i a s seja possível p a r a u m m e r o s e r h u m a n o e t e n t a -
r á a j u s t a r s u a s l e i s a i s s o . E t u t a m b é m , Clínias, t e n s
que adotar o mesmo procedimento. Na tua proposta

226
Livro V

de colonizar o território, deves, em primeiro lugar,


d a r a t e n ç ã o a esse aspecto.

Clínias: D i s s e s t e - o b e m , e s t r a n g e i r o , e d e v o f a z e r c o m o
aconselhaste.
Platão - As Leis

AXXa iir\v \iExa y e j i a v x a Ta v u v a p r | U £ v a

c r x E S o v a v a p ^ c o v e i e v c t o i K a T a O T a c r e i ç xr\ KOXU.

Livro
VI

228
Livro VI

O ateniense: B e m , d e p o i s d e t u d o q u e foi d i t o , s u p o n h o
q u e a próxima tarefa será a p o n t a r os magistrados p a r a
o teu Estado.

Clínias: Assim é.

0 ateniense: N o q u e s e r e f e r e a i s s o h á d o i s e s t á g i o s n a
organização do Estado: primeiro a definição das
magistraturas e a designação dos magistrados, com a
fixação do n ú m e r o correto necessário e o método
c o r r e t o d e d e s i g n a ç ã o ; segundo a a t r i b u i ç ã o d a s l e i s
(considerando a n a t u r e z a e q u a n t i d a d e destas) a cada
magistratura de maneira apropriada. Mas antes de
p r o c e d e r m o s à nossa seleção, v a m o s nos deter por um
m o m e n t o e fazer u m a o b s e r v a ç ã o q u e v e m a c a l h a r a
esse propósito.

Clínias: Que observação?

0 ateniense: E o s e g u i n t e : é um fato c l a r o p a r a t o d o s
q u e , s e n d o a tarefa da legislação u m a o b r a g r a n d i o s a ,
a indicação de magistrados incapazes para se
e n c a r r e g a r e m d e leis b e m c o n s t i t u í d a s e m E s t a d o s b o m
e q u i p a d o s n ã o a p e n a s d e s p o j a r á e s s a s leis d e t o d o o
seu mérito e as tornará ridículas, como t a m b é m ,
provavelmente, se revelará u m a fonte fertilíssima de
d a n o e perigo em tais Estados.

Clínias: Indubitavelmente.

0 ateniense: V a m o s , e n t ã o , m e u a m i g o , t e r i s s o c m m e n -
te incisivamente ao nos ocuparmos agora de t u a cons
t i t u i ç ã o c de teu E s t a d o . P e r c e b e s q u e é n e c e s s á r i o , em
p r i m e i r o lugar, q u e p a r a ter legítimo acesso aos car-
gos oficiais os c a n d i d a t o s d e v e r ã o em todos os casos
s e r c o m p l e t a m e n t e t e s t a d o s - t a n t o e l e s c o m o s u a s fa-
mílias - d e s d e sua infância até a d a t a dc s u a eleição;
em s e g u n d o lugar, q u e seus eleitores t e n h a m sido edu-
c a d o s s e g u n d o o a c a t o à lei, e d e v i d a m e n t e t r e i n a d o s
p a r a s e i n c u m b i r e m a c e r t a d a m e n t e d a tarefa d e acei-
tar ou rejeitar os candidateis q u e merecem sua aprova-
ção ou reprovação. E, c o n t u d o , no tocante a este pon-
to, será q u e p o d e m o s s u p o r q u e p e s s o a s q u e tão recen-
t e m e n t e p a s s a r a m a viver j u n t a s , q u e n ã o se c o n h e -
c e m m u t u a m e n t e e q u e n ã o d i s p õ e m d e n e n h u m trei-
namento, seriam realmente capazes de escolher seus
magistrados de urna maneira impecável?

229
Platão - As Leis

Clínias; I s s o é p r a t i c a m e n t e impossível.

O ateniense: E , n o e n t a n t o , c o m o d i z e m , " a c o n t e n d a n ã o
* f)« seja, uma ttf engajados a d m i t e q u a i s q u e r escusas". * E esta é a i n c u m b ê n c i a q u e
num empmendimmtio, não Im c a b e a ti e a m i m , p o i s t u , c o m o disseste, te c o m p r o m e t e s t e
coma itauiak. f)« ainda, como c o m o s < reicu-.es a , j u n t a m e n t e c o m t e u s n o v e c o l e g a s , d e -
digem os otterfois, uma ie§ votar-te à f u n d a ç ã o de um E s t a d o , e eu, de m i n h a p a r t e ,
eanafyjudo um lig»e, não íá me comprometi a te ajudar no esboço q u e agora estamos
uorno desnoniá-üa «o ootmido- fazendo. E realmente n ã o me sentiria b e m se deixasse nosso

(n.l.) e s b o ç o inacabado • • p o i s e s t e p a r e c e r i a c o m p l e t a m e n t e
a m o r f o se p e r a m b u l a s s e p o r aí n e s s a s i t u a ç ã o . • • •
• * áitenafcieiitc
Clínias: Ê c o m e n t u s i a s m o q u e a p r o v o o q u e d i z e s , e s -
aK6f|iaÀOV (sem cabeça).
trangeiro.
Consulta» o Qóiiffios, o
Witebo e o 0'ímeu. (n.t.) O ateniense: E n ã o m e l i m i t a r e i a d i z ê - l o mas, dentro

<.À noto nníejioíi offwioa de m i n h a s forças, é efetivamente o q u e farei.


esto. (n.t.) Clínias; Perfeitamente, façamos como dizemos.

0 ateniense: A s s i m s e r á f e i t o , se o deus o q u i s e r e se
conseguirmos até lá vencer nossa velhice.
Clínias: É p r o v á v e l q u e e l e o q u e i r a .

O ateniense: É p r o v á v e l , r e a l m e n t e e , c o n t a n d o c o m e l e
c o m o g u i a , o b s e r v e m o s t a m b é m isto...

Clínias: I s t o o q u e ?

O ateniense; C o m q u e c o r a g e m e a u d á c i a n o s s o E s t a -
do, nessas circunstâncias, terá sido fundado?

Clínias: O q u e t e n s a g o r a e m e s p e c i a l na c a b e ç a e o
q u e f a z c o m q u e d i g a s tal c o i s a ?

O ateniense; O f a t o d e e s t a r m o s l e g i s l a n d o p a r a h o m e n s
i n e x p e r i e n t e s s e m r e c e a r s e a c e i t a r ã o a s leis a g o r a p r o -
m u l g a d a s . U m a c o i s a é , a o m e n o s , e v i d e n t e , Clínias, p a r a
t o d o s - m e s m o p a r a a m e n t e m e n o s b r i l h a n t e - ou seja,
q u e n ã o a c o l h e r ã o p r o n t a m e n t e n e n h u m a d e s s a s leis
rio início; p o r é m , s e essas leis p u d e r e m ser p r e s e r v a d a s
i n c ó l u m e s a t é q u e a q u e l e s q u e a s a s s i m i l a r a m n a in-
fância e q u e foram e d u c a d o s s e g u n d o elas e se torna-
r a m p l e n a m e n t e h a b i t u a d o s a e l a s p a r t i c i p e m d a s elei
ções às m a g i s t r a t u r a s em todas as p a r t e s do E s t a d o -
e n t ã o , q u a n d o isso tiver o c o r r i d o ( n a hipéitese d e s e en-
c o n t r a r a l g u m m e i o o u m é t o d o p a r a fazer c o m q u e ocor-
r a a c e r t a d a r o e n t e ) , t e r e m o s , a m e u v e r , u m a s ó l i d a cer-
teza d e q u e a p ó s esse p e r í o d o d e t r a n s i ç ã o d e discipli-
n a d a aeloleseêueia, o E s t a d o se m a n t e r á firme.

230
Livro VI

Clínias: É c e r t a m e n t e r a z o á v e l 8 u p ô - l o .
0 ateniense: P o r t a n t o c o n s i d e r e m o s se c o n s e g u i r í a m o s
s u p r i r u m m e i o a d e q u a d o a esse fim n a s e q ü ê n c i a , p o i s
devo afirmar, Clínias, q u e v ó s , h a b i t a n t e s d e C n o s s o s ,
a c i m a d e q u a i s q u e r o u t r o s c r e t e n s e s , n ã o a p e n a s de-
veis vos a b s t e r d e l i d a r d e u m a m a n e i r a p u r a m e n t e
formal com o território q u e estais agora colonizando,
c o m o deveis t a m b é m t o m a r o m á x i m o c u i d a d o p a r a
q u e os p r i m e i r o s a o c u p a r e m os cargos oficiais sejam
n o m e a d o s do m o d o m e l h o r e m a i s seguro possível. A
seleção dos d e m a i s será u m a tarefa m e n o s séria, m a s
é i m p e r i o s o q u e e s c o l h e i - vossos g u a r d i õ e s d a lei e m
primeiro lugar mediante extremado cuidado,

Clínias: Qual meio p o d e m o s e n c o n t r a r p a r a isso, ou


q u a l regra?

0 ateniense: E s t a , e u d e c l a r o , a v ó s f i l h o s d e ( ' r e l a : q u e
visto q u e os c n o s s i a n o s t ê m p r e c e d ê n c i a s o b r e a m a i o -
ria d a s cidades cretenses, devem se associar àqueles
q u e chegam p a r a essa f u n d a ç ã o a fim de selecionar
t r i n t a e sete p e s s o a s d e n t r e eles m e s m o s e os recém-
c h e g a d o s (dezenove e n t r e estes colonos e os r e s t a n t e s
da p r ó p r i a Cnossos), entregá-las a t u a c i d a d e e fazer
de ti m e s m o , Clínias, u m c i d a d ã o d e s s a c o l c m i a , i n t e -
g r a n d o um d o s dezoito - u s a n d o p a r a isso a p e r s u a s ã o
ou, possivelmente, um grau razoável de força.

Clínias: E p o r q u e , e s t r a n g e i r o , t a m b é m t u e Megilo n ã o
p o d e r i a m [se j u n t a r a n ó s s e t o r n a n d o m e m b r o s d o E s -
tado para] nos dar urna m ã o em nossa constituição?

O ateniense: A t e n a s é o r g u l h o s a , Clínias, c o m o t a m b é m
Esparta é orgulhosa e ambas estão muito distantes,
mas para ti tudo se adequa, bem como para os demais
fundadores da colônia, aos quais se aplicam t a m b é m
a s ú l t i m a s o b s e r v a ç õ e s q u e f i z e m o s s o b r e ti. V a m o s
s u p o r , e n t ã o , que, esse seria o a r r a n j o m a i s e q u i l a t i v o
sob as condições existentes no m o m e n t o . Posteriomen-
te, no caso da p e r m a n ê n c i a da c o n s l i t u i ç ã o , a seleção
dos m a g i s t r a d o s ocorrerá da seguinte forma: da sele
ção irão participar todos aqueles q u e portam a r m a s
como integrantes da cavalaria ou infantaria ou aque-
les q u e s e r v i r a m n a g u e r r a s e s u a i d a d e e c a p a c i d a d e
o p e r m i t i r e m ; eles r e a l i z a r ã o a eleição no s a n t u á r i o

231
Platão - As Leis

q u e o E s t a d o c o n s i d e r a r á o m a i s s a g r a d o e c a d a u m leva-
rá ao altar do d e u s , escrito n u m a t a b u i n h a , o n o m e de
seu c a n d i d a t o , incluindo o n o m e do pai deste, o de sua
tribo e do d e m o a q u e p e r t e n c e e, além disso, incluirá
seu p r ó p r i o n o m e d a m e s m a m a n e i r a . Q u a l q u e r eleitor
terá a permissão de remover q u a l q u e r t a b u i n h a na q u a l
lhe pareça estar impropriamente registrado um n o m e
p a r a levá-la à p r a ç a p ú b l i c a d u r a n t e u m p e r í o d o n ã o in-
ferior a t r i n t a dias. Q u a n t o às t a b u i n h a s q u e , a c o m e ç a r
pelas primeiras até o n ú m e r o de trezentas, foram admiti-
d a s como válidas, os magistrados as exibirão publicamen-
te p a r a q u e t o d o o E s t a d o as veja e t o m e c o n h e c i m e n t o .
Em seguida os cidadãos votarão novamente de m a n e i r a
idêntica nos trezentos indicados de acordo com suas pre-
ferências. O s m a g i s t r a d o s , m a i s u m a vez, e x i b i r ã o publi-
c a m e n t e o s n o m e s d o s p r i m e i r o s i n d i c a d o s , d e s t a vez a t é
o n ú m e r o d e c e m . P e l a terceira vez, c a d a u m d o s cida-
d ã o s eleitoivs facultativamente escolherá seu c a n d i d a t o
e n t r e o s c e m p a s s a n d o , a o fazê-lo, e n t r e a s v í t i m a s s a c r i -
f i c a d a s ; • f i n a l m e n t e os trinta e, sete q u e t i v e r e m o b t i d o o
m a i o r n ú m e r o de sufrágios s e r ã o s u b m e t i d o s ao teste» •
* fisto terei:)» fatio tia
e p r o c l a m a d o s m a g i s t r a d o s . M a s q u e m s ã o , CUnias e
efeçno ineitoia, a lílnfti de
Megilo o s q u e e s t a b e l e c e r ã o e m n o s s o E s t a d o t o d a s e s s a s
notificação ítcfigiosa, uma
regras q u e d i z e m respeito a o s cargos e os testes d o s can-
fonma de iiecnonmiteia
d i d a t o s ? P e r c e b e m o s ( n ã o é m e s m o ? ) q u e p a r a os Esta-
(vEKUOUaVTEia), OU «mit
d o s q u e e s t ã o s e n d o e q u i p a d o s a s s i m p e l a p r i m e i r a vez
erafameufe, umo v e i c u l a ,
d e v a m f o r ç o s a m e n t e h a v e r p e s s o a s p a r a a s s u m i r tais car-
socsífício dc, animais seguido
gos, m a s q u e m p o s s a m ser essas pessoas é impossível dis-
da odiWiíiação pc* melo do
cernir antes q u e existam os primeiros magistrados. De
«'orno de suas enFiiati&ns. (n.t.) u r n a m a n e i r a ou o u t r a elas devem estar presentes, e além
•• (0 momo mcticiiCoso dc disso h o m e n s dc m o d o algum medíocres, m a s do maior
toda a i'ido do coiididfilo a m é r i t o p o s s í v e l ; p o i s , c o m o d i z o p r o v é r b i o , " u m b o m co-
finnfíJ de sua itijônoío, a ejue o m e ç o já é a m e t a d e ela o p e r a ç ã o ' " , e t o d o s os b o n s c o m e -
ofe/itmsp ká pouco níudíu. ç o * a t r a e m a u n a n i m i d a d e d o s elogios; e m v e r d a d e , p e l o
q u e me parece, aí reside mais do q u e a m e t a d e e um b o m
c o m e ç o n u n c a r e c e b e u suficientes elogios.
CUnias: Dizes a verdade.

O ateniense: Que, portanto, sabiamente não deixemos


e s t e p r i m e i r o p o n t o d e s a p e r c e b i d o , n e m t a m p o u c o falhe-
m o s no sentido dc esclarecer a nós m e s m o s sobre o meio
d e r e a l i z á - l o . D a m i n h a p a r t e , e s t o u a p e n a s s e g u r o a res-
p e i t o d i s t o q u a n t o a u m a o b s e r v a ç ã o q u e , e m v i s t a ela
p r e s e n t e s i t u a ç ã o , é a um t e m p o n e c e s s á r i o e útil fazer.

232
Livro VI

CUnias: E q u e o b s e r v a ç ã o é e s s a ?

O ateniense; Ora, devo afirmar que o Estado para o


qual estamos p l a n e j a n d o a f u n d a ç ã o n ã o tem, por as-
sim dizer, n e m pai nem m ã e exceto o E s t a d o q u e o
está f u n d a n d o , e m b o r a e u esteja t o t a l m e n t e ciente d e
q u e muitos dos Estados-colônias estiveram e estarão
m a i s d e u m a vez e m conflito c o m o s E s t a d o s q u e o s
f u n d a r a m . M a s agora, n a s i t u a ç ã o p r e s e n t e , tal c o m o
u m a criança indefesa - a despeito da p r o b a b i l i d a d e de
entrar em desentendimento com seus pais no futuro -
o Estado-eolônia a m a seus pais e é a m a d o por eles, e
sempre apela p a r a a ajuda dos seus, encontrando ne-
les e s o m e n t e neles seus aliados - de sorte q u e agora,
c o m o assevero, essa r e l a ç ã o já 6 existente p a r a os cnos-
sianos em relação ao jovem E s t a d o devido ao seu cui-
d a d o p o r ele e do jovem E s t a d o em r e l a ç ã o aos cnossia-
tios. E u a f i r m o m a i s u m a v e z c o n t o a f i r m e i b á p o u c o -
visto q u e n ã o h á n e n h u m m a l c m reiterar u m a boa
afirmação - q u e os cnossianos têm q u e assumir u m a
p a r c e l a d o c u i d a d o d e t o d a s essas m a t é r i a s , selecio-
n a n d o n ã o m e n o s que cem dos novos colonos, os mais
velhos e m e l h o r e s q u e sejam c a p a z e s de Selecionar, e
q u e entre os próprios cnossianos haja u m a outra cen-
tena. Este corpo conjunto necessita, digo, dirigir-se
e n t ã o ao novo E s t a d o e d i s p o r em c o m u m a c o r d o p a r a
que os magistrados sejam designados em conformida-
de c o m as leis e t e s t a d o s a p ó s a d e s i g n a ç ã o . Isto feito,
d e v e r ã o o s c n o s s i a n o s v o l t a r a v i v e r e m C n o s s o s , o jo-
v e m E s t a d o d e v e n d o e m p r e e n d e r s e u s p r ó p r i o s esfor-
ços p a r a assegurar-se s e g u r a n ç a e sucesso. Q u a n t o aos
q u e i n t e g r a m os t r i n t a e sete, t a n t o a g o r a q u a n t o no
porvir q u e nós os elejamos pura as seguintes atribui-
ções: e m p r i m e i r o lugar d e v e r ã o a t u a r c o m o g u a r d i õ e s
d a s leis e em s e g u n d o l u g a r c o m o g u a r d i õ e s d o s d o c u -
m e n t o s o n d e c a d a u m d e v e r á fazer c o n s t a r p a r a o s m a -
gistrados o m o n t a n t e de seus bens, omitindo q u a t r o
m i n a s se p e r t e n c e r a m a i o r d a s classes p r o p r i e t á r i a s ,
três m i n a s se p e r t e n c e r à s e g u n d a classe, d u a s se per-
t e n c e r à t e r c e i r a e u m a se p e r t e n c e r à q u a r t a classe.
C a s o s e p r o v e q u e a l g u é m p o s s u i m a i s d o q u e o q u e foi
registrado, todo o excedente será confiscado, além do
q u e , tal p e s s o a ficará sujeita a ir a j u l g a m e n t o p e l a

233
Platão - As Leis
* <_Alote-sc que quem psotno* o açõo
juriicioP i ura etdodoo poíliciAit e. uno a ç ã o d e q u e m q u e r rpie deseje processá-la,' um
o Estado, que se contento eoin o j u l g a m e n t o d e s o n r o s o e de má r e p u t a ç ã o se a pes-
confisco. <Pxmmm que osso s o a for c o n d e n a d a p o r d e s a c a t o d a l e i c o m o b j e t i -
eidoeíõo podeiilo se.» níejué» que hm vo de lucro. Assim, q u e m desejá-lo o a c u s a r á de
o/vot cm oPgumn tionsaçõn com fins e x p l o r a ç ã o c o p r o c e s s a r á s e g u n d o a lei p e r a n t e
fccnotiios ou cspeorfotiws (enioteido os p r ó p r i o s g u a r d i õ e s d a s leis; e se o r é u for con-
jwos). opejtaçno «bsoPuíomonle denado não participará mais dos bens públicos e
iníeidíta c ownüioeo «o fisfado t o d a v e z q u e o E s t a d o fizer u m a d i s t r i b u i ç ã o ele
concebido po»' PPrifno: «esta coso. n ã o receberá porção alguma, ficando reduzido ao
opo»ei<to«ci*, o PgísPneõo do s e u lote; a d e m a i s , ficará r e g i s t r a d o c o m o u m crimi-
fislwío sofíoPista não psoiiê nnnfiumo noso c o n d e n a d o n u m lugar no qual q u e m q u e r q u e
ocusooôo (digotnos. de. mmpfíeidade seja p o d e r á l e r s u a s e n t e n ç a e n q u a n t o ele viver. O
ou eonumma) pmo o possíuif m a n d a t o d o g u a r d i ã o d a s leis n ã o d u r a r á m a i s d e
j>nnfidimdfí, n.slo que quoPquos vinte a n o s e s u a eleição só p o d e r á ocorrer após com-
eidodòo nPc.ni dcíe e mesmo p l e t a r c i n q ü e n t a a n o s . P o r o u t r o l a d o , s e for e l e i t o
iníciwmenlc ecfaanlo éi acumuPoeãn c o m sessenta a n o s d e i d a d e , seu m a n d a t o s e r á d e
ifcgoP dc foièm do confiscado, a p e n a s dez anos, e de acordo com a m e s m a regra,
podewn denunciou este úPtímo, atuando q u a n t o m a i s e x c e d e r a i d a d e m í n i m a p a r a ser elei-
eomo um vigilante comum dos (eis do t o , m e n o r s e r á s e u m a n d f i t o , d e m o d o q u e , s e so-
fistodo. (ni.J breviver aos s e t e n t a a n o s , sua p r e t e n s ã o de per-
• • t pnPotto axpaxriYOç m a n e c e r j u n t o a esses m a g i s t r a d o s e n c a r r e g a d o s
Significo geneticamente ennandniite d e u m a r e s p o n s a b i l i d a d e d e tal m o n t a s e t o r n a r á
do ctótrilo, gemiali posem 'PPolãn incogitável. Assim sendo, no q u e se refere aos g u a r
uiifigo oqui o le»mo num seniido um d i õ e s d a s leis, d e c l a r a m o s q u e essas três obriga-
fnnio moic específico ([uc, lodniin, ções lhas são impostas e, à m e d i d a q u e progredir-
nòo evepui o seniido gonótioo. mos m o s c o m a s leis, c a d a n o v a lei i m p o r á a e s s e s ho-
sim o englobo ío,inando-o mais mens quaisquer obrigações adicionais de q u e se
íeonico c cspeoioftgnfio. o sobci. deverão incumbir além dessas agora indicadas. E
umo espécie de mimstw da gticuo r p a s s a r e m o s a descrever a seleção dos outros ma-
aa mesmo fpmftn dqje das foscas gistrados. Os cslrategos» * devem ser selecionados
atinadas. i_A(os pMweiftos tempos dc na s e q ü ê n c i a e c o m o seus s u b o r d i n a d o s p a r a fins
•jtfenns feiHom deg cslíolcgos, que m i l i t a r e s o s h i p a r c a s , * • • o s f i l a r c a s » * • * e o s ofi
esom epoilos nnuoPmenle euhc os ciais-ordenadores d a s fileiras de infantaria recru-
eidorfõos atenienses, cindo um de tadas nas tribos, para os quais a designação de
eodn mm dos do.g txbos e ta.T.iarc,as, • * • • • q u e é a l i á s o próprio) n o m e q u e m u i -
assumindo o f-rmwndo dos ÍMpas tos l h e s d ã o , s e r i a p a r t i c u l a r m e n t e a p r o p r i a d a . O s
aPioMiodomonfe pe.Pa o»dem dc estrategos serão indicados cm primeira m ã o pe-
c
insejíçSo. (.ilm tempos dc PPotno los g u a r d i õ e s d a s leis, senrjo t o m a d o s exclusiva-
os e.stailogoe que efetivamente m e n t e de nosso E s t a d o ; e a p a r t i r d o s i n d i e a d o s a
comandavam o e.véneifo eoi boíaPíio s e l e ç ã o d e v e r á s e r f e i t a p o r t o d o s epie e s t ã o s e r v i u
Mnm openos dois, o eomandonte d o o u s e r v i r a m n a g u e r r a , d e a c o r d o c o m sua varia-
dos /o.tças de saiafem/a (o E J U ção de idades. E se houver alguém q u e julgue q u e
Tü)V 17I7IEOVJ c o comondanlc
deis fa.ieeis de. in/aii/at/a (o OTI

234
Livro VI
TttlV O7tA,lT0Jv); 08 fJfWOiS MIO
deiriwoi» de ses mnqistados
algum entre os q u e n ã o foram n o m e a d o s é melhor
eneattegodos de amdtn liíft«is.
q u e u m d a q u e l e s q u e foi n o m e a d o , d e v e r á i n d i c a r
Bin<! pewnoncoiont em -^Atenas, (n.t.)
o n o m e desse i n d i v í d u o de sua preferência e tam-
b é m o n o m e d a q u e l e q u e a c h a q u e deve ser substi- * * * l 7 r a a p % o ç . ooinonflonfí dos
t u í d o , e f a z e n d o o j u r a m e n t o em r e l a ç ã o a isso p r o - topos de, eamhm. (tü.)
p o r á o substituto; e q u e aquele, entre os dois, q u e
* • • • (fiu^apxoç, o sentido
tiver o m a i o r n ú m e r o de votos ingresse no e l e n c o aqui «npüegado pos 'Watõo c de
d o s elegíveis. E os três c a n d i d a t o s q u e o b t i v e r a m o comandante de uni ceiiifia dc caieiibtia
m a i o r n ú m e r o d e votos p a r a servirem c o m o estra- (mnceida/>n> ama tubo. (n.t.)
tegos e comissários de assuntos bélicos serão sub-
Ta^tapxoç,
m e t i d o s a testes c o m o f o r a m o s g u a r d i õ e s d a s leis.
eowondonlc, dr, um eo/ipo dc
Os estrategos eleitos n o m e a r ã o p a r a si os taxi ar- iiijantojio. (n.t.)
cas, doze p a r a cada tribo; e aqui, no caso dos taxiar-
• • • • • • 7tputavtç, genejicnmcnlc
cas, tal c o m o no caso dos estrategos, vigorará o
mestie. ek/jc ou mesma magistrado
direito de oontra-nomeaçãü (eontra-indicação) e um
« f s n w . cAlos Tfcfio onpiíc.cjo aqui
p r o c e d i m e n t o a n á l o g o de votação e teste. Antes da
o paffluo no sentido eepeeí|icf) que
eleição dos prítanes • • • • • » e do conselho, • • • • • • • tíic ma fltwlmíno m -feiios: MU dos
u m a assembléia será provisoriamente convocada defejodos (que ew -Jtomm «K*I
pelos g u a r d i õ e s d a s leis no sítio m a i s s a g r a d o e m a i s cinqüenta) que e.vu» efeitos (odo ono
espaçoso possível p a r a a í a c o m o d a r , d e u m lado, pelas tubos (fm cAlcncis. dej) po.w
os hoplitas; do outro, os cavaleiros e, n u m a tercei- /o/um» o eanseMo d/x quin/ientos
ra posição, p r ó x i m a a estes últimos, t o d o s a q u e l e s (senado) e, o rrtesidi*. (n.t.)
q u e pertencem às tropas militares. Todos votarão *•••••*[loi)A,T|, q« signi|i«i
, ,
p a r a os estrategos [e os hiparcas*-* ** ***J, todos ftieiioPmente ar/mfo que se quet.
que são portadores dc escudos p a r a os taxiareas; ifiiitnde. drídicMeãn e. po» eriensõo
t o d o s o s c a v a l e i r o s e l e g e r ã o p a r a s i f i l a r c a s ; o s es- conseWio delihmím; -PPotõo está
t r a t e g o s i n d i c a r ã o p a r a s i m e s m o s o s chefes d e in- pfns«do no riMiseffio deis qiuiiiai/as
f a n t a r i a ligeira, os a r q u e i r o s ou q u a i s q u e r outros de uAtenos. P,stn ooopção de
m e m b r o s do serviço bélico. Só nos resta a indica- poii^-n eoweponde
ção dos hiparcas, que serão indicados pelas mes- opson'motii'o»ente oo conceito de
meiliu: (conseCíio dos icído j de
m a s p e s s o a s q u e i n d i c a r a m os e s t r a t e g o s , o siste-
'Uonto. (u.l.j
ma de eleição e a c o n t r a - i n d i c a ç ã o , s e n d o idênti-
cos aos dos estrategos; a cavalaria votará p a r a si • • • • • • • • -Ho oqui diec»gênoia
na presença e. sob o o l h a r dos m e m b r o s da infanta- entac os íiePenístos q«c cstafecJcaewt
c
r i a e os dois cavaleiros q u e o b t i v e r a m m a i s sufrá- o Wti qtego. T)e frito a ouséw-io
g i o s s e r ã o o s c a p i t ã e s d e t o d o s o s m e m b r o s d a ca- desln pequeno fam »eí"ofieo oos
valaria. A votação estará sujeita à contestação ape- f c p o i c o s [ K C U tTtwapxouç]
rlitnina o eontwdiçõo do farto Moda
n a s p o r d u a s vezes; n o c a s o d e u m a t e r c e i r a con-
oftfimfis Pintos a t e m (... Sôim
testação, a decisão final d e p e n d e r á d a q u e l e s a
iieiei a indicação dos /li/micas, „).
q u e m c o m p e t e ern c a d a o p o r t u n i d a d e c o n t a r o s
(n.t.j
sufrágios. • • • • • • • • • O conselho será constituído por
* • • • • • • • • f ) u seja, os
trinta dúzias de m e m b r o s já que o n ú m e r o trezentos
mogist.wdos que pnesidew a
ossxiwljféio. (n.t.)

235
Platão - As Leis

e sessenta se e n q u a d r a b e m n a s suh-divisões; * serão


' ' l e i em monte o c,ifj»a
5 0 4 0 . (n.l.) d i v i d i d o s e m quatro» g r u p o s e e m c a d a u m a d a s q u a -
tro classes definidas de acordo c o m o volume de b e n s
s e e l e g e r á n o v e n t a c o n s e l h e i r o s . E m p r i m e i r o lugar, to-
dos os cidadãos serão obrigados a votar nos candida-
tos a c o n s e l h e i r o s provenientes da classe m a i s a l t a , c
q u e m n ã o o fizer será p u n i d o m e d i a n t e m u l t a . F i n d a
essa votação, os n o m e s dos eleitos serão registrados;
n o d i a s e g u i n t e , votar-se-á n o s c a n d i d a t o s v i n d o s d a
segunda classe segundo um procedimento similar ao
•*... Tcctvra avSpa..., d o dia a n t e r i o r ; n o terceiro d i a votar-se-á s e m o b r i g a
1
Iodos O ! homens, ou seja, toriedade nos c a n d i d a t o s o r i u n d o s da terceira classe,
lionietis odupíos. _A'Wne<ics, m a s e s s a votação» s e r á c o m p u l s ó r i a p a r a o s c i d a d ã o s
e.tíanças«eseíoeos, pertencentes à s três p r i m e i r a s classes, e n q u a n t o q u e
eiideiilemenle, tino |>oiífiei|inm os c i d a d ã o s da q u a r t a e mais b a i x a classe serão pou-
fio nado disso, nisto quo não p a d o s da m u l t a se n ã o q u i s e r e m votar; no q u a r t o dia
são eidnelâos. mns aprens todos deverão votar nos c a n d i d a t o s a conselheiros pro-
bens inóeeis do Olicoç sob o cedentes da q u a r t a classe (a m a i s inferior), m a s se
(Xide.i obsfipulo do e(io|o e/e q u a l q u e r m e m b r o d a terceira o u d a q u a r t a classe n ã o
(,oniíPio íoccmoTnç). „\lo desejar votar, será p o u p a d o da m u l t a , o q u e n ã o ocor-
sca Ssfodo soeíaPista < PPatão rerá com q u a i s q u e r m e m b r o s da p r i m e i r a e segunola
nfin e.iifioo tePiios esíjutioos classes, q u e serão m u l t a d o s se n ã o votarem, o m e m -
Ijodíeintinis fjíeqas eomo osso. bro da s e g u n d a classe no valor c o r r e s p o n d e n t e a três
que ele, (eonsftwndo.i. avesso Vezes o v a l o r d a p r i m e i r a m u l t a e o m e m b r o d a p r i -
òs inoiioçõcs o i-tílieo. isto m e i r a classe no v a l o r c o r r e s p o n d e n t e a rpiatrei v e z e s o
sim, do demoejiaeio modma valor da p r i m e i r a multa. No q u i n t o dia os magistra-
otoitíense) insone e oté (inrjotlgo dos publicarão os nomes registrados p a r a q u e todos os
no seu ideaP de e s t a d o , c i d a d ã o s os v e j a m e teimem c o n h e c i m e n t o ; e loilos os
eofioebendn a eomimldnde eh<! homens* • votarão nos candidatos que constam nessa
esposeis e (i(kos em -,A lista, a a b s t e n ç ã o r e s u l t a n d o em m u l t a no valor esta-
'Vepúhfiea. (n.l.) belecido p a r a a p r i m e i r a m u l t a ; e t e n d o sido selecio-
n a d o s cento e oitenta h o m e n s de cada classe, chegar-
se-é à m e t a d e d e s t e n u m e r o p o r m e i o d e s o r t e i o , o s
trezentos c sessenta s e n d o e n t ã o testados. Estes s e r ã o
* • • <% seja, nino sePeeõo os conselheiros d u r a n t e um a n o . * * • Tal sistema de
m eine.o bmm mais o sosteie; seleção dos magistrados consistirá n u m meio termo
(oPewento que envoPvia o e n t r e as c o n s t i t u i ç õ e s m o n á r q u i c a e d e m o c r á t i c a e a
osfieelo ,'(efi(|('oso). Quanto oo meio c a m i n h o entre estas deve estar sempre nossa cons-
mandato de um ono,'PPatão tituição, pois e n t r e escravos e s e n h o r e s jamais h a v e r á
nejeiodug di;ietfmiente e> a m i z a d e e n e m entre patifes e h o m e n s honestos, mes-
fiüneípio da oonsfildieãe: mo optando o c u p a r e m posições cm direito de igualda-
n/eii{nnse.(»i) d e visto q u e q u a n d o s e c o n c e d e a i g u a l d a d e à s c o i s a s

236

• iMX» -*ft«MMMMai
Livro VI

desiguais, o r e s u l t a d o será desigual a n ã o ser que se


aplique a devida m e d i d a , e é por causa d essas d u a s
condições q u e a s cisões estão m a c i ç a m e n t e p r e s e n t e s
nos regimes políticos. Há um v e l h o e vero d i t a d o se-
gundo o qual "a igualdade gera amizade", ditado q u e ,
sem d ú v i d a , é m u i t o a c e r t a d o e expresso c o m equilí-
brio; m a s o q u e é esta i g u a l d a d e c a p a z de p r o d u z i r tal
e f e i t o 6 a l g o q u e n ã o fica b e m c l a r o , c o n s t i t u i n d o p a r a
nós u m sério p r o b l e m a , pois h á d u a s espécies d e igual-
d a d e que, e m b o r a ostentem o m e s m o nome, são, no
q u e concerne aos seus resultados práticos, com freqüên-
cia, quase opostas. U m a delas - n o m e a d a m e n t e , a igual-
d a d e d e t e r m i n a d a pela medida, peso c n ú m e r o - qual-
q u e r Estado ou legislador tem competência p a r a apli-
car distribuindo por sorteio as honras; m a s a forma
m a i s v e r d a d e i r a e m e l h o r d e i g u a l d a d e n ã o é u m a coi-
s a fácil d e s e d i s c e r n i r . E l a i m p l i c a n o j u l g a m e n t o d e
Zeus e raramente vem em socorro da h u m a n i d a d e ,
embora a esporádica ajuda q u e traz aos Estados e
m e s m o aos i n d i v í d u o s s ó p r o d u z a b e n s , visto q u e dis-
pensa mais ao maior e menos ao menor, proporcio-
n a n d o a devida m e d i d a a c a d a um conforme a n a t u r e
za; e no q u e r e s p e i t a às h o n r a s , t a m b é m , c o n c e d e n d o
o m a i o r àqueles q u e são maiores em virtude e m e n o s
à q u e l e s de c a r á t e r oposto no q u e t a n g e à v i r t u d e ; e a
educação atribui proporcionalmente o que cabe a cada
u m . R e a l m e n t e , c p r e c i s a m e n t e isto q u e c o n s t i t u i p a r a
n ó s a justiça no E s t a d o , q u e é o objetivo q u e d e v e m o s ,
Clínias, n o s e m p e n h a r e m b u s c a r ; e s s a igualdade é o
que temos que colunar agora q u e estamos fundando o
E s t a d o q u e está em seu nascedouro. E q u e m q u e r q u e
seja q u e esteja f u n d a n d o u m E s t a d o e m q u a l q u e r p a r -
te a q u a l q u e r t e m p o deverá visar em s u a legislação a
esse m e s m o objetivo - n ã o à v a n t a g e m de a l g u n s m o -
narcas despótieos, ou de um, ou de alguma forma de
d e m o c r a c i a - m a s sim à justiça sempre, o q u e consiste
no q u e a c a b a m o s de e n u n c i a r , isto é, a i g u a l d a d e con-
cedida em toda ocasião aos desiguais segundo a natu-
reza. E, no e n t a n t o , é necessário q u e todo Estado, às
vezes, e m p r e g u e , m e s m o essa i g u a l d a d e , n u m g r a u va-
riável, se p r e t e n d e r evitar o p r ó p r i o envolvimento em
lutas i n t e s t i n a s , a favor de um p a r t i d o ou outro, já q u e

237
Platão - As Leis

não nos convém esquecer que a eqüidade e a indul-


gência constituem s e m p r e u m a alteração do perfeito e
do exato em d e t r i m e n t o da justiça estrita; pela m e s m a
r a z ã o é m i s t e r fazer u s o t a m b é m d a i g u a l d a d e d o sor-
teio e m f u n ç ã o d o d e s c o n t e n t a m e n t o d a s m a s s a s , e a o
fazê-lo o r a r , i n v o c a n d o a d i v i n d a d e e a b o a f o r t u n a
para q u e guie a sorte r e t a m e n t e r u m o a mais elevada
justiça. Assim é a necessidade q u e nos c o m p e l e a em-
pregar a m b a s as formas de igualdade; entretanto, de-
v e r í a m o s u s a r o m a i s r a r a m e n t e possível a forma q u e
requer b o a sorte. 0 Estado q u e quiser sobreviver terá
q u e agir n e c e s s a r i a m e n t e assim, m e u s amigos, pelas
razões q u e indicamos. Pois d a m e s m a forma q u e u m
navio ao s i n g r a r os m a r e s exige c o n t í n u a vigilância
n o i t e e dia, u m E s t a d o , q u a n d o vive e m m e i o a o s im-
pulsos r e p e n t i n o s de E s t a d o s q u e o c i r c u n d a m e s o b o
risco de ser enredado p o r t o d a s as espécies de t r a m a s ,
requer u m a cadeia ininterrupta de magistrados dia e
noite e noite e dia e guardiões q u e s u c e d a m guardiões
e q u e sejam, p o r s u a vez, sucedidos, de m a n e i r a contí-
nua. U m a multidão jamais é capaz de executar quais-
q u e r dessas tarefas cornpetentemente, e a m a i o r i a dos
conselheiros dedica a maior parte de seu tempo aos
seus negócios privados e assuntos domésticos, de m o d o
q u e é forçoso q u e d e s i g n e m o s a d u o d é c i m n p a r t e de
* ©s fltifmx(«»noto les • p a r a c a d a u m d o s d o z e m e s e s d e m o d o q u e o E s -
olfjumw: [inqltioB nLttfe). («.(.} t a d o seja s u p r i d o de g u a r d i õ e s em r o d í z i o , p r o n t o s p a r a
atender tanto aqueles q u e vêm do estrangeiro q u a n t o
os q u e provêm do próprio Estado, com o intento de
prestar informações ou inquirir sobre algum assunto
de importância na relação dos Estados, ou se algum
E s t a d o j á foi i n d a g a d o o b t e r s u a r e s p o s t a e t a m b é m
com o olhar em todos as inovações q u e n ã o cessam de
t e n d e r a o c o r r e r nos E s t a d o s a fim d e , se possível, im-
p e d i r q u e o c o r r a m e, se r e a l m e n t e o c o r r e r e m , assegu-
r a r q u e o E s t a d o p o s s a d e t e c t a r e r e m e d i a r a ocorrên-
* * (D pfílmoét. (n.t.) cia o m a i s r a p i d a m e n t e possível. Face a essas razões,
essa seção em presidência do conselho do E s t a d o * •
terá q u e deter s e m p r e o controle da convocação e dis-
solução d a s assembléias, as a s s e m b l é i a s legais regula
res b e m c o m o as realizadas em caráter de emergência.
Assim, u m a d u o d é c i m a parte do conselho será o corpo

238
Livro VI

q u e a d m i n i s t r a r á t o d o s esses assuntos, e c a d a um des-


ses c o r p o s p e r m a n e c e r á d e folga, a l t e r n a t i v a m e n t e , d u -
r a n t e onze dos doze meses do a n o ; m a s será necessá-
rio q u e em associação com os d e m a i s magistrados essa
duodécima parte do conselho m a n t e n h a assídua e con
t i n u a m e n t e s u a g u a r d a dos assuntos do Estado. Essa
o r d e n a ç ã o d o s a s s u n t o s d o E s t a d o s e revelará u m ar-
r a n j o c o n v e n i e n t e . M a s q u e c o n t r o l e d e v e r e m o s ter, e
q u e sistema, p a r a todo o resto do território? Agora q u e
t o d a a c i d a d e e todo o território foram, c a d a u m , divi-
didos em doze partes, n ã o será necessário q u e sejam
a p o n t a d o s s u p e r v i s o r e s p a r a a s vias d a p r ó p r i a cida-
d e , p a r a a s m o r a d i a s , edifícios, p o r t o s , m e r c a d o , fon-
tes e t a m b é m p a r a as glebas s a g r a d a s e os t e m p l o s e
o u t r o s sítios d o m e s m o tipo?

Clínias: Seguramente. ••• aoTuvopoç.


O ateniense: D i g a m o s a g o r a q u e , e m r e l a ç ã o a o s t e m - genoweoincnic gua/idiõo dr.
plos, teremos q u e contar com guardiões, sacerdotes e «mo eidode; (!B|i«:i|íeatvie«fo
sacerdotisas; p a r a a m a n u t e n ç ã o da o r d e m d a s vias c (o signi|iendo oqui)
edifícios, a p r e v e n ç ã o de atos d a n o s o s de seres h u m a - magietnade .mpruisâwf />eê>
n o s e a n i m a i s s e l v a g e n s e a p r e s e r v a ç ã o da d e v i d a or- /mêeia/netita das tuas e
d e m a ser o b s e r v a d a n o s limites da c i d a d e e n o s su- maiuifaifãa da mdem na
b ú r b i o s t e r e m o s q u e selecionar três tipos de magistra- cidade,, (n.t.)
d o s ; c h a m a r e m o s d e aslínomos * * * a q u e l e s q u e s e o c u -
* • • • ayopavouoç,
p a r ã o d a s t a r e f a s q u e a c a b a m o s de. m e n c i o n a r e d e
mogistaodo cneoftítegodo
agorãnornos* • • • a q u e l e s q u e c u i d a r ã o da m a n u t e n -
|ifi«f[í;oCflíi!ií'fi(o da inspeção
ç ã o d a o r d e m n a agora, ü s s a c e r d o t e s o u s a c e r d o t i s a s
do mraendo do e.idnde. ou
dos templos que detêm sacerdócios hereditários não
mnis pseeisotiiente, do
serão afetados por nossas disposições, m a s se - como
ayopa (ngono). 9n
m u i t o p r o v a v e l m e n t e é o caso no q u e se refere a isso
alleiios o a/Opa não e,w
com um povo q u e está s e n d o o r g a n i z a d o pela primei-
openos o esposo onde os
ra vez - inexistir um corpo sacerdotal ou houver ape-
Btejreodo/ics se m*Um e
n a s a l g u n s s a c e r d o t e s , t e r e m o s que, e s t a b e l e c e r u m
jogietii eowíiieií), mos iodo o
corpo sacerdotal composto de sacerdotes e sacerdoti-
ompío esposo onde se
sas q u e serão guardiões dos templos p a r a os deuses.
orJwwim fíwows, jonles, os
N o e s t a b e l e c i m e n t o d e t o d a s e s s a s m a g i s t r a t u r a s te-
edifícios do conatMo dos
r e m o s q u e i n d i c a r a l g u m a s via eleição, o u t r a s via sor-
<l«iiiIie,iiío!i, dos (/«fiunois, os
teio, combinando métodos democráticos com não-
(empfos, ele e diwdido ei»
d e m o c r á t i c o s a fim de a s s e g u r a r a m ú t u a amizade
em todas as áreas tanto da cidade quanto do campo, eeísios seções oiíiÍMiídtts o

de m a n e i r a a se a l c a n ç a r o m á x i m o de u n i ã o possível. codn cfjíipome/io de

Quanto aos sacerdotes, confiaremos ao próprio deus weiendoses. (n.(.)

239
Platão - As Leis

( a s s e g u r a n d o o p r ó p r i o p r a z e r deste) a escolha, efetuan-


do a seleção p o r sorteio e a s s i m d e i x a n d o a s u a in-
dicação a critério da sorte divina; mas, de q u a l q u e r
m o d o . s u b m e t e r e m o s o eleito do d e u s ao devido teste
(exame), p r i m e i r o v e r i f i c a n d o se é s a d i o e l e g i t i m a m e n -
te nascido, e em segundo lugar se provém de u m a casa
s e m q u a l q u e r m á c u l a , n ã o tendo ele j a m a i s c o m e t i d o
um assassinato ou qualquer u m a d a q u e l a s ofensas con-
tra a divi n d u d e , o q u e se e s t e n d e t a m b é m a o s s e u s p a i s .
D e v e r - s e - á t r a z e r d e D e l f o s l e i s p a r a t u d o o q u e s e refe-
re aos cultos religiosos, i n d i c a r seus i n t é r p r e t e s e fazer
uso d e s s a s leis. T o d a m a g i s t r a t u r a s a c e r d o t a l d e v e r á
d u r a r um a n o e n ã o m a i s q u e isto, e a q u e l e q u e será
u m eficiente m a g i s t r a d o dos a s s u n t o s s a g r a d o s confor-
m e a s leis religiosas n ã o d e v e r á ter m e n o s d e s e s s e n t a
anos, estas regras valendo igualmente p a r a as sacer
d o t i s a s . Os i n t é r p r e t e s s e r ã o e s c o l h i d o s em três elei-
ç õ e s à r a z ã o ole q u a t r o p o r g r u p o ole q u a t r o t r i b o s , u m
de c a d a tribo,* e q u a n d o os três c a n d i d a t o s q u e obti-

* xJondo ctn monto os etoge


v e r a m maior n ú m e r o de votos tiverem sido testados, os
l.íifios. n ó s ns dividimos em
outros nove d e v i r ã o ser e n v i a d o s a Delfos p a r a q u e o
íítk fjjrapoe <k qaaíw eodo. oráculo selecione um de c a d a trio; q u a n t o às regras,

Cndn fjimpo s n l ô o tndieo ftos,


teste e limite de i d a d e , serão idênticos aos dos sacer-
totoPigondo assim » « » O S / ' Ô S
dotes. Esses h o m e n s t e r ã o u m a m a n d a t o vitalício c o m o
«OstOnfes 0[u( SÕO O.liíjiflos
intérpretes, e q u a n d o um deles m o r r e r , as q u a t r o tri
bos* * elegerão um substituto proveniente da tribo a
pnw< eompfcío» n mimo (ou
seja, do;jf) s õ o selecionados
q u a l ele p e r t e n c i a . C o m o tesoureiros responsáveis pelo
pos definição (Io «ocupo n
c o n t r o l e d o s f u n d o s s a g r a d o s d e c a d a t e m p l o e d a s gle-
pmtit dos )<wvlt»0': ume bas sagradas c o m sua p r o d u ç ã o e locações, teremos
eandidotcis do Cisto, j l s s i m , q u e escolher e n t r e a s classes m a i s elevadas d e proprie-
o íníní do ofoifos pato o « n g e tários três nomes p a r a os templos maiores, dois p a r a
do infóipjclos seso qiioiltn. os menos grandes e um para os de menor t a m a n h o .
Neste caso o m é t o d o dc seleção e e x a m e será idêntico
(«ol.)
a o u t i l i z a d o c o m o s e s t r a t e g o s . Eis a í a s r e g u l a m e n t a -
* * Ou mePlio», o giupo do ç õ e s r e f e r e n t e s a o c u l t o . N a d a , n a m e d i d a tio p o s s í v e l ,
Whofi pcfo quoP o iniráp.wlo deverá ser deixado) sem p r o t e ç ã o . No q u e diz r e s p e i t o
dosopíHOOido LONA efeito, (n.t.) à cidade, ficarão i n c u m b i d o s de guardá-la os estrate-
gos, os t a x i a r c a s . os h i p a r c a s , os fi(arcas e os p r í t a n e s ,
b e m corno os a s t í n o m o s e os a g o r â n o m o s logo q u e dis
p u s e r m o s de um n ú m e r o suficiente desses magistra-
dos, c o r r e t a m e n t e i n d i c a d o s e eleitos. T o d o o resto do
t e r r i t ó r i o d e v e r á ser p r o t e g i d o d a s e g u i n t e m a n e i r a :

240
Livro VI

n o s s o território i n t e i r o ' • * já estará dividido em doze * * * 3slo ít, a lofoEWode fio


p a r t e s a p r e s e n t a n d o a m a i o r i g u a l d a d e possível; a c a d a te»itó»io menos o cidade, qum
p a r t e u m a tribo será designada por sorteio, tendo q u e dipk, o «egíõo mat In.f.)
fornecer a n u a l m e n t e cinco de seus m e m b r o s p a r a atua- •••• aypovopoç.
r e m c o m o agrônomos * * • * e frourarcas; • • • • • será
místico, Cfltnpcstite; oqui,
o b r i g a ç ã o d e c a d a u m d o s cinco s e l e c i o n a r d o z e j o v e n s
gutudlãn do cnittpo. (n.l.j
de sua p r ó p r i a tribo na faixa etária e n t r e 25 e 30 a n o s .
• • • • • rjipoupapxoç,
A estes g r u p o s de doze as doze p a r t e s do território se
ct>c|e dc. um posto de g«o»do.
rão atribuídas m e d i a n t e sorteio, u m a p a r a cada u m
em sistema de rodízio durante um mês alternadam.cn- (n-t.)

te, d e m o d o q u e t o d o s eles a d q u i r a m e x p e r i ê n c i a e co-


n h e c i m e n t o de todas as regiões do território. O m a n -
dato de g u a r d a s e magistrados será de dois anos. Qual-
quer q u e tenha sido a primeira atribuição das porções
de t e r r a p o r sorteio, eles p a s s a r ã o t o d o m ê s à região
Seguinte, c o n d u z i d o s pelos frourarcas p a r a a direita,
ou seja, do oeste p a r a o leste. C o n c l u í d o o p r i m e i r o
a n o , p a r a q u e o m a i o r n ú m e r o possível d e g u a r d i õ e s
tenha n ã o somente se familiarizado com o território
n u m a ú n i c a e s t a ç ã o d o a n o , c o m o t a m b é m p o s s a ter
a p r e n d i d o o q u e o c o r r e n a s m a i s v á r i a s regiões e m di-
ferentes estações, seus condutores os guiarão de volta
novamente na direção oposta, m u d a n d o continuamen-
te suas regiões, até q u e completem seu segundo a n o de
s e r v i ç o . N o t e r c e i r o a n o d e v e r ã o s e r e l e i t o s n o v o s agrô-
nomos (guardiões do campo) e frourarcas (comandan-
t e s d e p o s t o s d e g u a r d a ) . D u r a n t e s e u s p e r í o d o s d e re-
s i d ê n c i a e m c a d a r e g i ã o d o t e r r i t ó r i o t e r ã o t a r e f a s es-
pecíficas, a saber: em p r i m e i r o lugar, p a r a q u e o terri-
tório se t o r n e o m a i s inacessível possível a o s inimigos,
c o n s t r u i r ã o c a n a i s o n d e f o r n e c e s s á r i o e c a v a r ã o fos-
s o s a l é m d e c o n s t r u i r fortificações n o m á x i m o d e s u a s
forças de sorte a a f a s t a r o p e r i g o da t e n t a t i v a de p e n e -
t r a ç ã o rio t e r r i t ó r i o e m p r e j u í z o d e s t e e d e s u a s r i q u e -
zas; p a r a isso farão u s o d o s a n i m a i s de c a r g a e. d o s
servos em t o d a s as regiões, utilizando os p r i m e i r o s e
s u p e r v i s i o n a n d o o s s e g u n d o s , d a n d o preferência sem-
p r e , n a m e d i d a d o possível, à s ocasiões e m q u e essas
p e s s o a s n ã o estão o c u p a d a s c o m seus p r ó p r i o s negó-
cios. Deverão, de todas as m a n e i r a s , dificultar o aces-
so d o s i n i m i g o s e facilitar- o d o s a m i g o s - s e j a m p e s s o a s ,
mulas ou gado - c u i d a n d o das estradas de m o d o a se

241
Platão - As Leis

t o r n a r e m o m a i s p l a n a s possível e l i d a n d o c o m a á g u a
das chuvas • p a r a q u e beneficie o território em lugar
d e p r e j u d i c a d o à m e d i d a q u e f l u i d a s r e g i õ e s m a i s al-
• ^Respectivamente... A i o ç
tas p a r a todos os vales entre as m o n t a n h a s ; deterão as
uõcacov... e Atoç
i n u n d a ç õ e s p o r meio de b a r r a g e n s e canais a fim de
u õ a x a . . . . CitRíioímcnte a
q u e os vales r e t e n h a m ou a b s o r v a m a á g u a de origem
água de. ^eus. ^PPatão, eomo
pluvial q u e se precipita do céu, • formando assim p a r a
é usuoP, sc apoio «o mito pa»o
todos os c a m p o s e p o v o a d o s s i t u a d o s m a i s a b a i x o pis-
CKpftessait suas idéias c utiPiga
cinas n a t u r a i s o u fontes, f a z e n d o c o m q u e m e s m o a s
à vontade a Cinguagem
regiões m a i s secas sejam s u p r i d a s c o p i o s a m e n t e d e b o a
niitoPógica. ^4 cliuvo é uma
água. Q u a n t o às águas das nascentes, sejam elas sob
água dc o.wgem cePestc, e
forma de rios ou fontes, eles d e v e r ã o a d o r n á - l a s e em-
como fenômeno atmosférico
belezá-las c o m p l a n t a ç õ e s e edifícios, e c o n e c t a n d o as
está sob o cnntíoPe de 'jjeus,
c o r r e n t e s d á g u a p o r m e i o d e t u b o s s u b t e r r â n e o s es-
que c o senlio/i oPímpioo do céu
p a l h a r ã o por todos os lugares a fertilidade; por meio
c tnonipufodou de todos os
da irrigação se embelezará em todas as estações do
seus fenômenos, a começo*
a n o q u a l q u e r g l e b a o u b o s q u e s a g r a d o q u e p o s s a exis-
peto ücPâmpago, o itaio e o
tir n a s v i z i n h a n ç a s c o n d u z i n d o - s e a s á g u a s d i r e t a m e n t e
IftoVão. (n.t.)
p a r a os santuários dos deuses. E em todas as partes
n e s s e s l o c a i s o s j o v e n s d e v e r ã o c o n s t r u i r ginásios t a n -
to p a r a si mesmos como p a r a os velhos, instalando p a r a
estes os b a n h o s q u e n t e s , [para o q u e ] m a n t e r ã o um
abundante suprimento de lenha, proporcionando tam-
b é m amáveis boas vindas e ajuda aos enfermos e àque-
les cujos c o r p o s s e a c h a m d e s g a s t a d o s p e l a l a b u t a c o m o
agricultores acolhida bem melhor do que o cuidado
q u e lhes poderia d a r um médico n ã o muito hábil. Es
sas operações e todas as outras similares n a s regiões
do território servirão tanto ao o r n a m e n t o q u a n t o ao
aproveitamento do território, sem deixar t a m b é m de
• • u.va, unidade dc peso e proporcionar recreação à qual não faltará encanto. Mas
de cáPouPo moncláíio que as ocupações mais sérias serão as seguintes: c a d a gru-
lofio cem Spaxuaç p o d e sessenta g u a r d i õ e s t e r á q u e zelar por sua pró-
(õpa%u.r|, moedo dc píoto, pria região, n ã o a p e n a s protegendo-a de seus inimi-
unidade inonefá/<ia e gos, m a s t a m b é m dos p r e t e n s o s a m i g o s . E se a l g u é m
jcfewnoioP do sistema e n t r e o s v i z i n h o s e s t r a n g e i r o s o u e n t r e o s p r ó p r i o s ci-
monetário ateniense). d a d ã o s ferir u m o u t r o c i d a d ã o , seja o c u l p a d o escravo
Sessenta minos a peso de o u h o m e m l i v r e , o s j u i z e s epre o u v i r e m o q u e i x o s o s e -
pnata eowespondiam em r ã o o s p r ó p r i o s cinco m a g i s t r a d o s n o s c a s o s m e n o s g r a -
<_Atonas a um toPento, o quoP ves, e os cinco, c a d a um a c o m p a n h a d o de seus d o z e
também e/in unidade de peso. s u b o r d i n a d o s , nos casos m a i s graves, em q u e os d a n o s
ufaüm. o mino e o toPento reivindicados forem até três m i n a s . N e n h u m juiz ou

( t a X a v i o v ) não e/iam taP

242
Livro VI
como o meio-óbuh
(qpuoPoA-tov), o óbuPo
m a g i s t r a d o deverá c u m p r i r m a n d a t o sem ser s u b m e t i
(opoA.oç), o dióbolo
do a u m a prestação de contas, com a ú n i c a exceção
d a q u e l e s q u e c o m o reis f o r m a m u m a corte de apela-
(ôuoPoA.ov), o dkacma,
th:, m*dm m wetoC sonanlc
ç ã o e m ú l t i m a i n s t â n c i a . D e s t e m o d o , t a m b é m e m re-
como. digamos, nossas
l a ç ã o a e s s e s agrônomos, s e l e s a r e m d e a l g u m a f o r m a
moedas c céduPas de íieaie
a q u e l e s q u e s ã o p o r eles s u p e r v i s i o n a d o s i m p o n d o - l h e s
(as quais não possam de cem
p a g a m e n t o s i n í q u o s o u t e n t a n d o e x p l o r a r s u a s fazen-
fteais), mos sim unidades de
das e a r m a z é n s sem seu consentimento, ou se aceita-
côntputo em junção do peso
rem um presente a título de s u b o r n o , ou distribuírem
em p.iota ou em ou»o. (n.i.)
bens injustamente - que por cederem à sedução sejam
marcados com a infâmia perante todo o Estado; e com
• • • '-PPalão pe/ioebio que
respeito a t o d a s as outras faltas q u e t e n h a m c o m e t i d o
uma das bases pana o
c o n t r a o p o v o d a r e g i ã o a v a l i a d a s e m a t é u m a mina • •
eficiente funcionamento e
terão que, voluntariamente, se submeter ao julgamen-
p»ese»vnção de um fistado
to do p o v o a d o e d o s v i z i n h o s , e se em q u a l q u e r oca-
soeiaPisto e»a fage» de cada
sião (com respeito a u m a g r a n d e ou p e q u e n a falta) se
cidadão, o começo»
r e c u s a r e m a essa sujeição ao j u l g a m e n t o - c o n f i a n d o
píceísomente petos
q u e devido a sua m u d a n ç a mensal para u m a outra
funcionamos do fístado (o
região se safarão do j u l g a m e n t o - a p a r t e lesada terá
totoPidade dos magistuados)
d i r e i t o a a u d i ê n c i a s n o s t r i b u n a i s p ú b l i c o s e, se ga-
um eigia impüacáiicd'do ouiio
n h a r a causa, exigirá a p u n i ç ã o em d o b r o do réu q u e
cidadão no que «espeitaua ao
se e v a d i u e se r e c u s o u a c o m p a r e c e r l i v r e m e n t e p a r a
oumpitiniento das Peis,
s e r j u l g a d o . O m o d o d e v i d a d o s m a g i s t r a d o s e agrôno-
niinimigando assim o núme»o
mos d u r a n t e o s s e u s d o i s a n o s d e p r e s t a ç ã o d e s e r v i ç o
das l»onsg»essões que
será c o m o se segue: em primeiro lugar, em todas as
omcoço.iiam a outoftidode e
regiões h a v e r á repastos públicos, dos q u a i s todos de-
eetabiPidade do fístado como
v e r ã o p a r t i c i p a r p a r a s u a a l i m e n t a ç ã o . S e a l g u é m fur-
um todo. evWesse contexto, a
tar-se a isto d u r a n t e o d i a ou à n o i t e p a r a d e d i c a r se
denúncia não é vista como uma
ao s o n o s e m o r d e n s expressas dos m a g i s t r a d o s ou de-
atitude dcpConãveC (uiginfco da
v i d o a a l g u m a c a u s a u r g e n t e , e s e o s cinco o d e n u n c i a -
t»oição) que ofende a
r e m e a f i x a r e m seu n o m e na p r a ç a p ú b l i c a c o m o cul-
Pibctidade e os di*citos
p a d o d e a b a n d o n a r seu p o s t o , ele sofrerá d e g r a d a ç ã o
individuais (visão dcmoc»átiea
por trair seu dever público, e todo a q u e l e q u e o encon-
e /(Oniãntiea), mas sim como
trar em seu c a m i n h o e q u e o q u i s e r p u n i r p o d e r á açoi-
uma ob»igação do cidadão e
tá-lo i m p u n e m e n t e . N o c a s o d o s p r ó p r i o s m a g i s t r a d o s ,
espeeinPmcnte do magist»adn,
c a b e r á a t o d o s os s e s s e n t a vigiá-los, e, se um deles che-
que inco»»e num g«avc dePito se
g a r a c o m e t e r u m tal a t o e a l g u m d o s s e s s e n t a o p e r c e -
não »eeowic» a ela, já que ele
ber ou [simplesmente] ficar s a b e n d o e se omitir de
é um dos bnaços do fístado.
processar o faltoso, será c o n s i d e r a d o c u l p a d o de acor-
í) p»ineípio soeiaPisto está
d o c o m a s m e s m a s leis e p u n i d o a i n d a m a i s severa-
impPícito: toda veg que a ação
m e n t e q u e os jovens; estará c o m p l e t a m e n t e desqualifi-
indiuiduaP ameaço» o bem-esta»
c a d o de exercer p o s t o s de c o m a n d o s o b r e os jovens. • • •
comum, o indivíduo devená se»
detido e punido, (n.t.)

243
Platão - As Leis
*...7iav"t a v õ p a . . . . (n.l.)
• • . . . a v Ô p c o T t o ) . . . . (n.l.) S o b r e esses i n c i d e n t e s o s g u a r d i õ e s d a s leis d e v e r ã o
•**...UT| SüuXaxraç exercer u m a s u p e r v i s ã o e x t r e m a m e n t e c u i d a d o s a a fim
o u ô avSscsTtorriç... d e p r e v e n i r , s e p o s s í v e l , s u a o c o r r ê n c i a e o n d e e l e s efe-
COMO-SP fKjui o itísno A tivamente ocorram, assegurar q u e sejam p u n i d o s de-
ratondoít quo, pata tamat-se um v i d a m e n t e . Faz-se m i s t e r q u e t o d o h o m e m • t e n h a e m
sedo» digno de (ouws, é vista, no q u e concerne aos seres h u m a n o s * • cm geral,
ptceiso fe,t sido neeessmiaitienie q u e aquele q u e n ã o a p r e n d e u a servir jamais se torna-
um esemo, idóio etídoníBiienfí rá um s e n h o r * * • d i g n o de louvor e tjue o m e i o corre-
t:
íncogitáiípf pa«n PPatão que to de granjear h o n r a consiste m a i s em servir digna-
p/inwbíj cscwo c sento* COMO m e n t e do q u e em m a n d a r d i g n a m e n t e - servindo pri-
distintos (io» nataego. LJJO m e i r a m e n t e às leis, visto q u e isto é servir a o s d e u s e s , e,
wadade, o eiqiw.esõo Pi. « a i s cm s e g u n d o lugar, da p a r t e dos jovens, servir s e m p r e
wofafjóííoo do que fitem! o, de aos mais velhos e àqueles q u e viveram vidas honra-
sesto. o pjfipMo 'Píoifão d a s . Á s e g u i r , a q u e l e d e q u e m s e fez u m g u a r d i ã o d o
sspPo*po(«á esto ponto fogo no c a m p o deverá p a r t i c i p a r d a s rações diárias, frugais e
seqüência no distingui* os f r i a s * * • * , d u r a n t e o s d o i s a n o s ole s e r v i ç o p o i s , s e m -
conceitos do S o u X o ç p r e q u e o s doze t i v e r e m s i d o e s c o l h i d o s , e s t a n d o r e u -
(oSOM#) O OlKSTr|Ç (sfiíM), n i d o s c o m o s cinco, r e s o l v e r ã o q u e a t u a n d o c o m o s e r -
sciteiçaf d« onsa/jomiftc). ^,4 vos n ã o t e r ã o p a r a atendê-los s e r r o s e escravos • • • • • e
idéie, do m,wik ns tas do n e m e m p r e g a r ã o q u a i s q u e r serviçais pertencentes a
Enfado c. aos deuses enuofee outros agricultores ou habitantes dos povoados para
mais ns senkiics do qwi os atender às suas necessidades pessoais, m a s somente
cs,e,taiOs, já quo estes p a r a o serviço público, c em todos os o u t r o s aspectos
pNiMOttcecin na csjcíia tneno* do se d e t e r m i n a r ã o a viver u m a vida i n d e p e n d e n t e , pres-
OIKOÇ o não no fsjow maioí t a n d o serviço e s e n d o seus próprios servidores, e ade-
da 7ioA,tÇ; a idóio m a i s e x p l o r a n d o , a r m a d o s , o t e r r i t ó r i o i n t e i r o n o ve-
snptWitto» sugcwda oqtii pot r ã o e no i n v e r n o , p a r a protegê-lo e fazer c o n h e c i m e n t o
c
PPofon ó que se todo escm>o e de c a d a u m a d a s várias regiões. Parece, a propósito,
um se»et (widos). nem fado q u e nesse caso constitui um estudo superior a qual-
sm>ém esemuo. (n.l.) q u e r o u t r o c o n h e c e r a f u n d o o p r ó p r i o território, c as-
••••...aicopou..., s i m o s j o v e n s d e v e r ã o p r a t i c a r a c a ç a c o m c ã e s e toolas
ftlMafaenfe <?m fogo. '"Pm as outras formas de caça, tanto por essa razão como
crfcnsõo, oquiCo quo «no foi pelo prazer e benefício q u e p o d e extrair desses espor
submelido oo jogo. que não /ei tes. R e l a t i v a m e n t e , p o r t a n t o , a esse r a m o do serviço -
aqueeida ou soja, no eosfl do t a n t o n o q u e s e refere aos p r ó p r i o s h o m e n s q u a n t o à s
aPimoíilo, aquele. qu(: pftwnancec suas tarefas, quer os chamemos de agentes secre-
tanto fiio quanto em. (n.l.) tos » » * • • * o u g u a r d i õ e s d o c a m p o , q u e r o s d e s i g n e m o s
com q u a l q u e r outro nome - todos aqueles que preten-
••***...oiKstaç T I : K a i d e m proteger seu próprio E s t a d o eficientemente terão
8ou>v,ouç....(n.t.) q u e c u m p r i r s u a t a r e f a c o m z e l o aoi m á x i m o d c s u a s
" • • • * KpUTTTOUÇ, oquiPo forças. A p r ó x i m a e t a p a na n o s s a seleção de magistra-
ou oquoPe quo ostá íPOOÍiotlo, d o s se. r e f e r e a o s agorânomos e astínomos. Aos s e s s e n t a
ooufto, onibosoodo. (n.t.)

244
Livro VI

agrônomos (guardiões do campo) corresponderão três


astínomos, que dividirão as doze porções da cidade
em três p a r t e s e i m i t a r ã o os a g r ô n o m o s no c u i d a d o
das ruas da cidade e das várias estradas q u e penetram
na c i d a d e v i n d o do c a m p o , e d o s edifícios, de m a n e i r a
q u e t u d o isso s e c o n f o r m e à s e x i g ê n c i a s d a lei; t a m -
b é m será d a r e s p o n s a b i l i d a d e d o s a s t í n o m o s o s supri-
mentos de água q u e os guardiões do c a m p o lhes reme-
terão e transmitirão em boa condição, e q u e deverá
chegar pura e a b u n d a n t e às cisternas p o d e n d o assim,
e m b e l e z a r c ser útil à c i d a d e . Faz-se, a s s i m , n e c e s s á r i o
q u e esses h o m e n s t a m b é m d i s p o n h a m tanto d e capa-
cidade q u a n t o de tempo para atender aos assuntos pú-
blicos. C o n s e q ü e n t e m e n t e , p a r a o cargo de a s t í n o m o
todos os cidadãos poderão propor o n o m e de qualquer
p e s s o a da classe m a i s elevada d o s p r o p r i e t á r i o s ; e ten-
do o c o r r i d o a v o t a ç ã o nesses c a n d i d a t o s e se c h e g a d o
aos seis m a i s votados, a q u e l e s [magistrados] q u e pre-
sidem à eleição selecionarão os três p o r sorteio, q u e
d e p o i s de serem s u b m e t i d o s ao teste a s s u m i r ã o o car-
go e o e x e r c e r ã o s e g u n d o as leis e s t a b e l e c i d a s p a r a eles.
Ato c o n t í n u o d e v e r ã o ser eleitos c i n c o a g o r â n o m o s (ins-
p e t o r e s da agora) a s e r e m o b t i d o s da s e g u n d a e pri-
meira classes de proprietários; q u a n t o aos d e m a i s pro-
c e d i m e n t o s de seleção, serão s e m e l h a n t e s aos segui-
dos no caso d o s a s t í n o m o s . Dos dez c a n d i d a t o s defini-
d o s p o r v o t a ç ã o o s c i n c o s e r ã o s e l e c i o n a d o s p o r sor-
teio, e x a m i n a d o s e p r o c l a m a d o s magistrados. Todos
serão obrigados a votar p a r a essas magistraturas. Q u e m
se r e c u s a r a fazê-lo, se d e n u n c i a d o a o s m a g i s t r a d o s ,
será m u l t a d o e m c i n q ü e n t a dra. m a s . a l é m d e ser de-
c l a r a d o m a u cidadão. A assembléia e as reuniões pú-
blicas serão a b e r t a s a todos e será obrigatória a pre-
s e n ç a n e l a s d o s i n t e g r a n t e s d a s e g u n d a e p r i m e i r a clas-
ses d e p r o p r i e t á r i o s , q u e serão m u l t a d o s e m dez drac-
m a s em caso de ausência; os m e m b r o s da terceira ou
q u a r t a classes estarão isentos dessa obrigatoriedade,
e s c a p a n d o de q u a l q u e r m u l t a , a n ã o ser q u e os magis-
trados, devido a algum motivo urgente, intimem todos
ao compareeimento. Os inspetores da praça do merca-
d o (agora) d e v e r ã o c u i d a r p a r a q u e a s atividades na
agora o c o r r a m s e g u n d o a lei e q u e s e u s t e m p l o s e f o n t e s

245
Platão - As Leis

• u4 paüanm y u p v a c u a
n ã o s e j a m d a n i f i c a d o s ; e m c a s o d e d a n i f i c a ç ã o o res-
significa sinipfesmente
p o n s á v e l , s e for e s c r a v o o u e s t r a n g e i r o , s e r á p u n i d o c o m
fimtefetn. (?)
açoites e prisão, e n q u a n t o se o c u l p a d o de tal má con-
y u p v a c m K O ç (o que
d u t a for c i d a d ã o , o s a g o r â n o m o s p o d e r ã o , a s e u crité-
COnCe/MC aOS eVMCÍCiOS
rio e por sua autoridade, aplicar u m a m u l t a de até
coípo/tais) eobiia poittanto c e m d r a e m a s e m e s m o o d o b r o d e s s a q u a n t i a se julga-
uma ompPo gomo dc rem o culpado em associação com os astínomos. De
modaPidades dc atletismo, maneira análoga, os astínomos poderão punir em sua
como a Pula, o tioiuúda, o p r ó p r i a esfera m u l t a n d o e m até u m a m i n a m e d i a n t e
Cançamento do disco c todas sua a u t o r i d a d e , e até o d o b r o dessa s o m a em associa-
as demais modoíidades que se ção com os agorânomos. Será conveniente indicar a
towanoin notótóas poit meio seguir os magistrados q u e se i n c u m b i r ã o da m ú s i c a e
dos jogos ofintpicos do d a ginástica • , q u e serão d e dois tipos p a r a c a d a setor
Qjécio. P) y u p v a c u o v
- o magistrado educador e o magistrado controlador
(ginásio) e»o nos cidades d a s c o m p e t i ç õ e s . A lei e n t e n d e p o r m a g i s t r a d o s e d u c a -
g»cgas um PocaP púbPieo (não dores os supervisores dos ginásios e escolas, q u e estão
necessariamente ao o» Piwe) encarregados tanto da disciplina e do ensino quanto
pa»o a prático dos cveteícíos do controle dos comparecimentos e da acomodação de
físicos, (n.t.) m e n i n o s e m e n i n a s . A lei e n t e n d e p o r m a g i s t r a d o s c o n -
• * cApcsa» dc uma ecíta troladores das competições os árbitros das competições
/tedundoneia, aílguns (tcPonistos tanto de ginástica q u a n t o de música, q u e serão, assim
acjcscentam oqui: wts pruri a t a m b é m , de dois tipos. • • [No q u e diz respeito às com-
imitam, cubos pruri a Ada petições de ginástica] os árbitros das competições hu-
(nepi p o ü a n c r | v u s v m a n a s serão o s m e s m o s d a s c o m p e t i ç õ e s c o m o s cava-
s r s p o u ç , jtepi a y t o v i a v los, m a s n o caso d a m ú s i c a será a p r o p r i a d o ter árbi-
8 aÀÀouç). (n.t.) tros distintos p a r a solistas e representações p o r imita-

• • • c^lote-sc o pMneípio ção, digamos por exemplo, uma equipe selecionada

ma/ieantemente não- p a r a rapsodos, citaristas, flautistas e todos os músicos

dmnocitáiico que nodleio o desse tipo, e urna outra equipe p a r a os intérpretes do

pltocosso cPetiDo dos canto coral. Devemos selecionar p r i m e i r a m e n t e os m a -

magistjiodos em 'PPatão, gistrados p a r a o jovial exercício d o s coros d a s crian-

eonsideíondo-se que os ças, moços e moças n a s d a n ç a s e em todas as outras

p»óp»íoe eCeitojcs já são e.Pes manifestações musicais regulares; neste caso, bastará

prtóprtioe previamente u m m a g i s t r a d o , q u e n ã o deverá ter m e n o s d e q u a r e n -

ccPecionodos c o jato dc que ta anos. No caso dos solistas um árbitro de i d a d e n ã o

somente cidadãos detcnto/iee inferior a trinta anos será suficiente p a r a a t u a r c o m o

dc p/iopdicdadec notam, ou a p r e s e n t a d o r e d a r a d e q u a d a m e n t e o v e r e d i t o em re-

seja, o pequeno contingente lação aos competidores. O magistrado-administrador

popuCaeionaP constituído poli d o s c o r a i s d e v e r á s e r e l e i t o , a p r o x i m a d a m e n t e , d a se-

pa»(e. dos /tomais aduÇtos e guinte forma: todos os aficionados nessa arte deverão

Çiünes. Q.lm cuidado evtícmo comparecer à reunião pertinente [para votação], sob
v
dei'e ses lomado no escodio p e n a de serem m u l t a d o s a critério dos guardiões das

doque.Pec que oeupaȋo os

246
Livro VI

leis; o s d e m a i s e s t a r ã o d i s p e n s a d o s d e s s a o b r i g a ç ã o , congos púbPie.os e não compete

c o m p a r e c e n d o s o m e n t e se o d e s e j a r e m . T o d o s os elei- absoPutatnente ao povo

tores terão q u e escolher entre os n o m e s de um elenco (oT|poç) - eonjunto

de i n d i v í d u o s e x p e r i e n t e s , e o teste (exame) d o s eleitos íictciogênco dos cidadãos sem

só c o m p o r t a r á estes motivos p a r a a p r o v a ç ã o ou reprova- distinções - o.Çegê-Poc.

ção, a saber, a competência (adquirida pela experiên- ademais, não ká eleições

cia) ou a i n c o m p e t ê n c i a ; * • • a q u e l e , e n t r e os d e z num único tietno e a opuovação

c a n d i d a t o s , q u e obtiver o m a i o r n ú m e r o de votos, a p ó s jinaP não depende dos

o e x a m e , será o m a g i s t r a d o do a n o e n c a r r e g a d o dos ePcitoes, mas sim de

c o r o s , c o n f o r m e a l e i . D e m o d o i d ê n t i c o d e v e r á s e r se- inogiefíiadoe supitcmos cm

lecionado o magistrado que se encarregará por um ano creíoício c do sojlcio (a

d a q u e l e s q u e irão p a r t i c i p a r d e competições e m inter- latificação dos deuses), (n.t.)

p r e t a ç õ e s solo e i n t e r p r e t a ç õ e s e m g r u p o d e f l a u t a . N a
s e q ü ê n c i a será conveniente escolher árbitros dos con-
cursos atléticos hípicos e h u m a n o s nos integrantes da •** * Como se eê, o afeito
t e r c e i r a e s e g u n d a classes de p r o p r i e t á r i o s ; a partici- acenoa do p»imogia do
p a ç ã o n e s t a eleição será c o m p u l s ó r i a p a r a as três pri- educação já é antigo. Tilatão
m e i r a s classes, m a s facultativa p a r a a classe m a i s bai- viveu c esoícecu estas Pinkos no
xa, cujos m e m b r o s n ã o serão m u l t a d o s e m caso d e abs- sécuÇo IV a. C. e nós estamos
t e n ç ã o . Três á r b i t r o s serão eleitos d a seguinte m a n e i - no iminência dc odento o
ra: n o p r i m e i r o t u r n o , vinte c a n d i d a t o s s e r ã o i n d i c a IracMio iniPênio com WÍMOS

dos pelas m ã o s erguidas dos eleitores e no segundo, poises cujeis govc/uios seque»
dos vinte, os três serão definidos por sorteio, seguindo- gePam poPo educação básica,
se o usual exame para aprovação ou reprovação. Em inePusive demoetaeias... (n.t.)
caso d e q u a l q u e r c a n d i d a t o à s m a g i s t r a t u r a s ser des- • • • • • L/tesosoido neste ponto
q u a l i f i c a d o n o p r ó p r i o p r o c e s s o d e v o t a ç ã o o u ser re- peu aPguns liePenistos de KCXI
provado no exame, um substituto do candidato deverá avBpcoJitov (e senes
ser p r o v i d e n c i a d o e s u b m e t i d o ao m e s m o e x a m e a q u e kumonos). (n.t.)
foi s u b m e t i d o o c a n d i d a t o o r i g i n a l . N o s e t o r d e q u e
qpepov K C U
estamos nos o c u p a n d o resta a i n d a um magistrado a
ayptcov.... ,_A píimei/ia
ser d e f i n i d o , ou seja, o d i r e t o r geral de t o d a a e d u c a -
destas paPoiítas cobue o
ç ã o d e m e m b r o s d o s dois sexos. N e s t e caso h a v e r á u m
ecpcetío semônticei que. ine.Pui
magistrado legalmente selecionado, q u e n ã o deverá ter
conceitos como domado,
m e n o s de c i n q ü e n t a a n o s e q u e terá q u e ser pai de
domestieado (tejciindo-cc a
filhos legítimos d e u m sexo o u o u t r o , o u d e preferên-
muitas espécies animais),
cia de a m b o s . Q u e o c a n d i d a t o eleito e os eleitores se
euftivado (scjenindo-sc aos
convençam de que, de todas as supremas magistratu-
vegetais, na distinção o.nlte os
r a s do E s t a d o , esta é, em m u i t o , a m a i s i m p o r t a n t e • • • •
pPantos siPi/eslJcs e as
p o i s , no c a s o de t o d a c r i a t u r a vegetal ou a n i m a l • • • • •
ouPfivados. po.t eiempPo, num
- t a n t o d o m é s t i c a q u a n t o s e l v a g e m • • • • •• - é o p r i m e i -
jfliidim ou lauto), e dóciC
ro i m p u l s o de v i d a , é o brotar bem q u e se r e v e l a o m a i o r
e.mdgado («ejeíindo-sc a
promotor do a d e q u a d o desenvolvimento q u e confere à
centos espécies animais,
inePusive a kuinano). (n.t.)

247
Platão - As Leis

c r i a t u r a a necessária excelência, O ser h u m a n o , nós o


afirmamos, é u m a criatura doméstica, civilizada e, no
entanto, se por um lado, graças a u m a correta educa-
ção c o m b i n a d a a u m a felicidade n a t u r a l se converte
o r d i n a r i a m e n t e n a m a i s d i v i n a e n a m a i s d ó c i l d e to-
d a s as c r i a t u r a s , à falta da e d u c a ç ã o suficiente e b e m
o r i e n t a d a , é a m a i s selvagem de t o d a s s o b r e a T e r r a ,
Diante disso, é imperioso q u e o legislador n ã o p e r m i t a
que, a e d u c a ç ã o i n f a n t i l seja e n c a r a d a c o m o m a t é r i a d e
i m p o r t â n c i a s e c u n d á r i a o u inessencial; m a s , visto q u e
o futuro d i r e t o r t e m q u e s e r b e m s e l e c i o n a d o , o legisla-
d o r deverá c o m e ç a r por fazer com q u e se esforcem ao
máximo para indicar entre os cidadãos aquele q u e mais
se d e s t a c a r em t u d o corno o m a i s virtuoso. E, p o r t a n t o ,
t o d o s os m a g i s t r a d o s , exceto os conselheiros e os príta-
nes, d e v e r ã o se dirigir ao templo de Apoio e d a r secreta-
m e n t e o s e u v o t o à q u e l e e n t r e o s g u a r d i õ e s d a s leis q u e
julgarem o m e l h o r p a r a dirigir os assuntos da e d u c a
ç ã o . Aquele, q u e obtiver m a i o r n ú m e r o d e sufrágios,
d e p o i s de se s u b m e t e r favoravelmente, a um e x a m e apli-
c a d o pelos magistrados i n c u m b i d o s da seleção ( n e n h u m
d e l e s u m g u a r d i ã o d a s leis) a s s u m i r á o c a r g o c o o c u p a -
r á p o r cinco a n o s ; n o sexto a n o , u m o u t r o h o m e m deve-
r á s e r e l e i t o p a r a esse, c a r g o n o s m e s m o s t e r m o s . Se, q u a l -
quer magistrado morrer mais de trinta dias antes do
t é r m i n o d e seu m a n d a t o , a q u e l e s a q u e m c a b e e s t a ta-
refa t e r ã o q u e p r o v i d e n c i a r , s e g u n d o o s m e s m o s proce-
dimentos, um substituto.
Se um tutor de órfãos falecer, os p a r e n t e s destes
r e s i d e n t e s n a c i d a d e , d o l a d o p a t e r n o e d o m a t e r n o , até,
os filhos dos p r i m o s c o n s a n g ü í n e o s , deverão a p o n t a r
um substituto no prazo de dez dias; caso contrário,
pagarão cada um u m a multa de u m a d r a e m a por dia
até i n d i c a r e m um substituto p a r a o tutor falecido.
U m E s t a d o , d c fato, n ã o s e r i a u m E s t a d o s e n ã o p o s
suisse tribunais a d e q u a d a m e n t e organizados, m a s u m
j u i z q u e fosse m u d o o u q u e d i s s e s s e t ã o p o u c o q u a n t o
p a r t e s e m l i t í g i o n u m a i n s t r u ç ã o p r e l i m i n a r , c o m o fa-
zem os responsáveis pela arbitragem, n u n c a estará qua-
lificado p a r a d i s t r i b u i r justiça; por conseguinte, n ã o será
f á c i l p a r a u m a g r a n d e o u p e q u e n a e q u i p e de, h o m e n s
julgar b e m se forem p o u c o capacitados, A m a t é r i a em

248
Livro VI
* ©a sejo, po» mm dos
mogisttodos o P s l n d o .
d i s p u t a de c a d a lado t e m s e m p r e q u e ser esclarecida e
dispensando quaísque»
p a r a a elucidação do ponto em questão o t e m p o q u e se
p»ocedii«ntos judiciais que não
a r r a s t a , a d e l i b e r a ç ã o e as i n s t r u ç õ e s f r e q ü e n t e s s ã o
o afetam e aos quais eslá
ú t e i s . É p o r isso q u e os q u e i x o s o s d e v e m se d i r i g i r p r i
imune, eosliyo diwlammhi os
meiramente aos vizinhos e aos amigos que conhecem
cidadãos que, violam certas
b e m a s a ç õ e s e m litígio. S e n ã o c o n s e g u i r e m o b t e r u m a
leis, deixando oo cidadão
decisão conveniente dessa corte, a p e l a r ã o p a r a u m ou-
comum exemplos, que toma os
tro t r i b u n a l e, se as d u a s cortes n ã o forem c a p a z e s de
dotes do e s t a d o no seu senso
definir o assunto, u m a terceira p o r á fim ao caso. N u m
da coisa pública, a ta»cfo
c e r t o s e n t i d o , é-nos lícito d i z e r q u e a o r g a n i z a ç ã o de
c*nt«af dc denuncio» e/oe
tribunais vem a d a r no m e s m o q u e a eleição dos magis-
p«oecssa» aqueles que í«fjtingcm
t r a d o s visto q u e t o d o m a g i s t r a d o t e m q u e ser t a m b é m
as leis em ge»al. fiis um dos
u m juiz d e certas m a t é r i a s , e n q u a n t o u m juiz, m e s m o
pitincipais fundamentos do
n ã o sendo um magistrado, pode-se dizer q u e o é e dc
fístado socialista platônico.
não pouca m o n t a no dia em q u e conclui um processo
Í..I.)
p r o n u n c i a n d o s u a s e n t e n ç a . S u p o n d o e n t ã o q u e o s jui-
zes s e j a m m a g i s t r a d o s , d e c l a r e m o s q u a i s s e r ã o o s jui- * * f)u o feri, P)s gncgos (mais
zes a d e q u a d o s , q u e c a u s a s p o d e r ã o julgar e q u a n t o s pseeisomente, os atenienses) se
serão necessários para cada u m a . A forma mais elemen- baseatam no ciclo Cunot pata
tar de corte é a q u e as d u a s partes a r r a n j a m p a r a si monta» o seu calendário (ano
m e s m a s , escolhendo juizes segundo acordo m ú t u o ; de doge meses oniginafmente de
q u a n t o às r e s t a n t e s , c o n d u z e m a d u a s f o r m a s de julga- t»inta dias). "Daí a possível
m e n t o , a q u e l a n a tpial u m c i d a d ã o p a r t i c u l a r a c u s a ambigüidade raioda po»
u m o u t r o d e lesá-lo e . p r e t e n d e o b t e r u m v e r e d i t o q u e -Platão «este Ueeíio ( „ . U £ T a
l h e seja favorável l e v a n d o o o u t r o c i d a d ã o a j u l g a m e n - flepivaçipcmaçTOJ
to, e a q u e l a na q u a l a l g u é m crê q u e o E s t a d o está sen- ETiiovii p n v i
d o l e s a d o p o r u m d o s c i d a d ã o s e d e s e j a d e f e n d e r o in- y t y v e a G a i . . . ) «ão
teresse c o m u m . • E i m p e r a t i v o i n d i c a r q u e m s e r ã o os jui- jc|>.<TCSontM p»obl(«a algum
zes e de q u e espécie. Em p r i m e i r o lugar, é preciso q u e [mês c u r i v (u.rjv>Qç) e lua f,
t e n h a m o s u m t r i b u n a l q u e seja c o m u m a t o d o s o s cida- HTjvrj]. (n.t,)
d ã o s q u e a p e l a m e m terceira i n s t â n c i a , q u e s e consti- * * * C) início do ano ateniense
tuirá da m a n e i r a q u e descrevemos a seguir, a saber, no etn «o piimeiso dia do més dc
dia q u e precede o começo de um novo ano de m a n d a t o cslio ofwmado
- quer dizer, q u e c o m e ç a c o m o m ê s * * q u e se s e g u e i m e - E K H . T o u . p a t c u v que
d i a t a m e n t e ao solstício de v e r ã o * • • - t o d o s os magis- eonespondia segundo alguns
trados, d c m a n d a t o d e a p e n a s u m a n o o u m a i s longo, s e íielcnistns as peiíodo enfie a
r e u n i r ã o no m e s m o t e m p l o e, a p ó s ter p r e s t a d o j u r a m e n t o segunda meiade dc juldo e a
a o d e u s , t o m a r ã o d e c a d a c o r p o d e m a g i s t r a d o s u m juiz, p»imei»a mclade dc aqoslo.
n o m e a d a m e n t e , o m e m b r o de cada corpo q u e conside- segundo oul»os a junlio/juldo e
r a m o m e l h o r e q u e lhes parece ter m e l h o r e s condições no po/ieec» ainda de outros
d e d e c i d i r q u a n t o a o s litígios d c s e u s c o n c i d a d ã o s du- ofiroxitnadomcnte 00 mês de
rante o a n o seguinte da forma m e l h o r e m a i s s a g r a d a . jullio. (n.l.)

249
Platão - As Leis

E s t a n d o estes escolhidos, s e r ã o s u b m e t i d o s a o e x a m e a n t e
aqueles q u e os elegeram, e no caso de a l g u m a reprova-
ção desqualificadora, devera se p r o c e d e r à substituição
c o n f o r m e p r o c e d i m e n t o s análogos. Os a p r o v a d o s no exa-
me a t u a r ã o corno juizes p a r a os queixosos q u e a p e l a r a m
d a decisão d o s outros t r i b u n a i s , i n d i c a n d o seus votos e m
público. Os conselheiros e todos os outros magistrados
q u e os elegeram serão o b r i g a d o s a c o m p a r e c e r a esses
julgamentos na q u a l i d a d e de ouvintes c p a r a testemu-
n h a r e m o acontecimento; por outro lado, tais julgamen-
tos s e r ã o a b e r t o s a o p ú b l i c o . N o c a s o d e a l g u é m a c u s a r
u m juiz d e a p l i c a r d e l i b e r a d a m e n t c u m a s e n t e n ç a injus-
t a , o a c u s a d o r d e v e r á d i r i g i r - s e a o s g u a r d i õ e s d a s leis e
apresentar-lhes s u a a c u s a ç ã o . S e n d o o juiz c o n d e n a d o
em função de u m a tal acusação se verá obrigado a pa-
Hr
•..10 qntau... g u m a
quantia correspondente à metade* daquela
f i n f i t e t o n í o , o s gsandes a v a l i a d a p a r a os d a n o s sofridos p e l a p a r t e lesada, e se
tcfcnictoe e fifáPogos for julgado q u e merece u m a p u n i ç ã o maior, os juizes do
f.tigftwd e C. 'HiíirA. este caso deverão estimar qual a punição complementar a

úfKmo pos entifei do anoPogio s e r i n f l i g i d a , ou q u a l o v a l o r a d i c i o n a l a s e r p a g o ao E s -


eom um fjcefco «o scqiiê.iiein de. t a d o c ao q u e i x o s o . No q u e c o n c e r n e às o f e n s a s f e i t a s
;jts áftüs, «gtofofacMN T O c o n t r a o E s t a d o é n e c e s s á r i o , em p r i m e i r o lugar, q u e a
S i t t X a a i o v ( o dob»e>) e m m u l t i d ã o p a r t i c i p e do j u l g a m e n t o , pois q u a n d o um deli-
to
Puga» dc TO q u i o T J (o & cometido contra o Estado, todo o povo é atingido, o
metade), (n.l.) q u a l se sentiria l e s a d o se n ã o p a r t i c i p a s s e desses julga-
mentos; p o r é m , se p o r um l a d o é correto q u e o começo e
a conclusão dc tais julgamentos sejam entregues às m ã o s
do povo, a instrução deverá ocorrer diante dc três dos
magistrados supremos, escolhidos sob acordo m ú t u o de
r é u e q u e i x o s o , q u e s e n ã o f o r e m c a p a z e s s o z i n h o s ole
c h e g a r a um c o n s e n s o , p a s s a r ã o ao c o n s e l h o , o q u a l de-
c i d i r á ern ú l t i m a i n s t â n c i a p a r a c a d a u m a d a s d u a s p a r -
tes. I g u a l m e n t e n o s j u l g a m e n t o s p r i v a d o s , n a m e d i d a d o
possível, t o d o s o s c i d a d ã o s d e v e r ã o p a r t i c i p a r , pois l o d o
aquele que n ã o participa dos julgamentos se imagina
a b s o l u t a m e n t e excluído do Estado. C o n s e q ü e n t e m e n t e . s e
faz i m p e r i o s a t a m b é m a e x i s t ê n c i a d c t r i b u n a i s p a r a c a d a
t r i b o , e juizes a p o n t a d o s p o r sorteie} q u e i m p r o v i s a d a r n e n t e
deverão ajuizar os casos, fazendo-se inacessíveis às apela-
ç õ e s ; c o n t u d o , o v e r e d i t o final c m t o d o s e s s e s c a s o s d e v e -
rá ser de responsabilidade do t r i b u n a l a ser organizado,
c o m o d e c l a r a m o s , d a m a n e i r a m a i s i n c o r r u p t í v e l q u e seja

250
Livro VI

h u m a n a m e n t e possível, e s p e c i a l m e n t e p a r a o benefí-
cio d a q u e l e s q u e n ã o c o n s e g u i r a m u m a d e f i n i ç ã o d e
seus casos n e m d i a n t e dos vizinhos, n e m n a s cortes das
tribos. • * P o r c o n s e g u i n t e , no q u e diz respeito a o s tri-
b u n a i s , e m relação aos quais, c o m o a f i r m a m o s , n ã o po-
• * CM »csutno, soo
demos dizer com certeza se são magistraturas o u não
indicados duos modofedndns
s e m c a i r m o s n u m a a m b i g ü i d a d e , - esse e s b o ç o servirá
de ftmsm seguidos de
p a r a dar deles u m a descrição parcial, a despeito de :
jufgowenlos (o p»it odo c o
m u i t o o m i t i r , j á q u e s e r i a m a i s a p r o p r i a d o q u e a legis-
piiíific.o) de que dmm do*
lação o a definição nas suas m i n ú c i a s no q u e trata aos
conta Ms tipos: de Ijibunnis:
processos fossem colocadas na conclusão do código de
os noites íocais fo/urodos po»
leis. Posto isto, q u e e s s a s m a t é r i a s n o s a g u a r d e m n a con-
w-giiiíioc. os SMtes dos b i f a s
c l u s ã o . Q u a n t o à s o u t r a s m a g i s t r a t u r a s , p e n s o q u e re-
c e b e r a m a m a i o r i a d a s l e i s q u e r e q u e r i a m p a r a s e u es- e os e.o»tes dc opefoçõo. (n.t.)

t a b e l e c i m e n t o . M a s será impossível a p r e s e n t a r c l a r a m e n t e
um relato completo e preciso sobre todos os d e p a r t a m e n -
tos do E s t a d o na p a r t i c u l a r i d a d e de c a d a um e s o b r e o
todo da organização do Estado e n q u a n t o nosso exame não
tiver a b a r c a d o t o d a s a s p a r t e s d e s e u o b j e t o , d a p r i m e i r a
à ultima, na devida ordem. De m o d o q u e agora, no ponto
em q u e nos encontramos q u a n d o n o s s a e x p o s i ç ã o j á che-
gou a incluir a eleição d o s magistrados - é-nos possível
a c h a r u m p o r t o seguro p a r a encerrar nosso assunto ante-
rior e iniciar o a s s u n t o da legislação, q u e d i s p e n s a a g o r a
quaisquer adiamentos ou retardamentos.

CUnias: 0 a s s u n t o a n t e r i o r , e s t r a n g e i r o , t u o t r a t a s t e d e
m o d o a nos satisfazer p l e n a m e n t e , m a s a n s i á m o s com
m a i o r e n t u s i a s m o a i n d a ao ouvir te falar do c a m i n h o
p e l o q u a l ligaste t u a s a f i r m a ç õ e s p a s s a d a s às f u t u r a s -
o fim ao início.

0 ateniense: P a r e c e , e n t ã o , q u e a t é a g o r a , j o g a m o s b e m
o n o s s o jogo razoável de velhos.

Clínias: E s t á s m o s t r a n d o , m e p a r e c e , u m b o m t r a b a l h o
para homens.
O ateniense: M u i t o p r o v a v e l m e n t e , m a s v e j a m o s se tu
c o n c o r d a s c o m i g o mini o u t r o p o n t o .
Clínias: Q u a l é e a o q u e s e r e f e r e ?

0 ateniense: S a b e s c o m o , p o r e x e m p l o , a a r t e d o p i n t o r
a o r e t r a t a r o s v á r i o s l e m a s p a r e c e n ã o t e r l i m i t e , s e afi-
g u r a n d o incapaz de se dcier na aplicação dos toques
c o l o r i d o s - o u seja l á q u a l for a e x p r e s s ã o c o m a q u a l o s

251
Platão - As Leis

pintores profissionais d e n o m i n a m este processo e atin-


gir u m p o n t o tio q u a l o q u a d r o n ã o a d m i t a m a i s n e n h u m
a p r i m o r a m e n t o em termos de beleza e expressão.

Clínias: E u , i n c l u s i v e , m e r e c o r d o de. t e r o u v i d o a l g o a
respeito d o q u e m e n c i o n a s , e m b o r a e u n ã o seja d e
m o d o algum prático nesse tipo de arte.

O ateniense: N ã o és c e r t a m e n t e o p i o r n e s s a m a t é r i a .
P o d e m o s , d e q u a l q u e r m a n e i r a , u s a r esse fato q u e n o s
ocorreu e que mencionamos para ilustrar o seguinte
ponto; supondo que alguém se proponha a pintar um
objeto e x t r e m a m e n t e belo n u m esforço n o sentido d e
q u e esse objeto ao longo d o s a n o s j a m a i s p e r c a em be-
leza m a s só a g a n h e , n ã o a c h a s q u e c o n s i d e r a n d o q u e
o p i n t o r é m o r t a l , a m e n o s q u e ele deixe um sucessor
c a p a z de r e p a r a r o q u a d r o em c a s o d e s t e sofrer os des-
gastes provocados pelo tempo e t a m b é m no futuro ain-
d a m e l h o r á - l o r e t o c a n d o q u a l q u e r deficiência p o r seu
próprio lavor imperfeito, o seu t r a b a l h o infindável terá
apenas resultados de efêmera duração?

Clínias: A c h o q u e s i m , evidentemente.

O ateniense: O r a , não achas t a m b é m que o propósito


do legislador é semelhante? Ele se propõe, primeira-
m e n t e , a redigir a s leis, n a m e d i d a d e s u a c a p a c i d a d e ,
com c o m p l e t a precisão; a seguir, q u a n d o no decorrer
d o t e m p o ele s u b m e t e s e u s d e c r e t o s d e lei à p r o v a d a
prática, n ã o p o d e s i m a g i n a r q u e ele (como q u a l q u e r
outro legislador) será tão tolo a p o n t o de n ã o p e r c e b e r
q u e v á r i o s a s p e c t o s f a l h o s d e s u a l e g i s l a ç ã o d e v e m fa-
t a l m e n t e ser e l i m i n a d o s , o q u e será a tarefa de a l g u m
sucessor seu p a r a q u e a constituição e a organização
do Estado possam sempre m e l h o r a r e n u n c a piorar.

Clínias: isso, está claro, é o q u e t o d o s n a t u r a l m e n t e


desejam.

O ateniense: S u p õ e , e n t ã o , q u e a l g u é m c o n h e c e s s e u m
meio pelo qual pudesse ensinar u m a outra pessoa me-
diante a ação e a palavra a compreender, n u m grau
m a i o r o u m e n o r , c o r n o p r e s e r v a r o u c o r r i g i r a s leis -
neste caso, p r e s u m o , esse a l g u é m c e r t a m e n t e j a m a i s
cessaria de expor esse seu meio e n q u a n t o n ã o tivesse
a t i n g i d o seu fim, n ã o é m e s m o ?

Clínias: Certamente, não.

252
Livro VI

O ateniense: Não precisaríamos nós três agir assim


neste ensejo?

CUnias: O q u e q u e r e s d i z e r ?

O ateniense: E s t a m o s p r e s t e s a p r o d u z i r l e i s , e g u a r d i õ e s
d a s leis f o r a m i n d i c a d o s p o r n ó s . P o r t a n t o , c o m o e s t a
m o s n o a n o i t e c e r d a vida, e n q u a n t o eles c o m p a r a d o s
a n ó s são jovens, n ã o d e v e r í a m o s nos limitar a legislar
n ó s m e s m o s , m a s t a m b é m fazer d e l e s legisladores a o
m e s m o t e m p o q u e g u a r d i õ e s d a s leis n a m e d i d a d e
inossa capacidade.

CUnias: D e v e r í a m o s . . . q u e r d i z e r , s e f o r m o s c a p a z e s d e
realizado.

O ateniense: D e q u a l q u e r m a n e i r a , t e m o s q u e t e n t a r , e
duramente.

CUnias: N ã o h á a m e n o r d ú v i d a .

O ateniense: Dirijamo-nos a eles, portanto, nos


seguintes termos: "Caros p r e s e r v a d o r e s d a s leis,
deixaremos muitas lacunas nas matérias que
c o n c e r n e m a essas leis, o q u e é inevitável: a i n d a a s s i m ,
todas as m a t é r i a s i m p o r t a n t e s , b e m c o m o o texto geral
serão incluídos, na medida de nossa capacidade, em
nosso esboço. Vossa a j u d a será exigida p a r a c o m p l e t a r
este esboço e precisais ouvir o q u e temos a dizer a
respeito d o objetivo q u e deveis ter e m m i r a a n t e s d e
e m p r e e n d e r d e s e s s a t a r e f a . Megilo, Clínias e eu * temos
a f i r m a d o c o m freqüência e n t r e nós esse objetivo e •...Mt:ytA,Xoç u e v y a p
concordamos q u e está corretamente expresso, de m o d o K O U eyco K C U
q u e desejamos q u e vós entreis d e i m e d i a t o e m u n í s s o n o K Â E I V U X Ç .yMwjiPn, e» c
conosco, como nossos discípulos, a s s u m i n d o a meta OPínias. (n.l.)
q u e c o n f o r m e o c o n s e n s o de n ó s t r ê s , o legislador e o * • u4f» m rapwnfwita!
g u a r d i ã o d a s leis d e v e m a s s u m i r . N o s s o a c o r d o e m « r i d b e M m m fio (reto
s í n t e s e e n a s u a e s s ê n c i a foi s i m p l e s m e n t e e s t e : q u e
díi'o,*qPí» PIIÍ.ÍO ns
fosse q u a l fosse o m e i o p e l o q u a l u m m e m b r o d e nossa
moífoPeqifnírwitífí sratiePíionlos
C o m u n i d a d e - h o m e m ou m u l h e r , jovem ou velho -
a i r r | o c t o ç (nuí»içõo.
pudesse se tornar um bom indivíduo, detentor da
oftttwnlíiçôo) p K T q c j e o j ç
excelência q u e é própria da a l m a h u m a n a , a partir de
(nqnisipno. posso), fitnbo/in
alguma ocupação, de u m a disposição moral, dc u m a
toiilirmw: lep/iodiigidn fi
f o r m a de n u t r i ç ã o , * * ou a p a r t i r do desejo, da o p i n i ã o
(rtinip.i.m fiosíf/io, o jota ó quo
o u d e c e r t a s f o r m a s d e e s t u d o , a o l o n g o de, t o d a s u a
todos mm ««OPÍIOS SP
existência todos os seus esforços s e r i a m dirigidos à
onqnodtoín jiosín Pinto do
realização desse propósito; e nem urna única pessoa
M/Piopínio dpspnioPiída (>p>;i
c
PPaíòo. (n.l.)

253
Platão - As Leis

sc manifestará ciando preferência a q u a i s q u e r bens q u e


obstem essa meta; finalmente, m e s m o no q u e diz

* Ô « seja, o bom mirnibtc da respeito ao E s t a d o , será preferível q u e ele* o deixe ser

comunidade, (n.f.)
a b a l a d o p o r u m a insurreição, s e p a r e c e r inevitável, d o
q u e voluntariamente se submeter ao jugo da escravidão
sob o governo d o s piores ou, a i n d a m a i s , t e n h a ele q u e
a b a n d o n a r o E s t a d o c o m o um exilado. E preferível q u e
as pessoas s u p o r t e m t o d a s esses sofrimentos a m u d a r
p a r a u m a forma de governo que, naturalmente, torna
a h u m a n i d a d e pior. Foi n i s t o q u e c h e g a m o s a um
c o n s e n s o a n t e r i o r m e n t e e c o m p e t e a vós agora m a n t e r
esses nossos dois objetivos em vista ao revisardes as
leis e reprovardes todas as q u e n ã o são c a p a z e s de
a t e n d e r a eles, a p r o v a n d o t o d a s as q u e sejam c a p a z e s
de os a t e n d e r , e as a c o l h e n d o de t o d o o c o r a ç ã o
governar vossas vidas por elas. A todas as outras
p r á t i c a s q u e t e n d e m p a r a o s c h a m a d o s bens d i f e r e n t e s
desses deveis dizer adeus."
C o m o p o n t o d e p a r t i d a d a s leis q u e s e s e g u e m deve-
m o s nos o c u p a r d a s coisas s a g r a d a s . T o m e m o s nova-
m e n t e o n ú m e r o 5 0 4 0 e o n ú m e r o de subdivisões con-
v e n i e n t e s q u e d e s c o b r i m o s q u e cie c o n t é m t a n t o c o m o
inteiro q u a n t o q u a n d o dividido em tribos. O n ú m e r o
d a s tribos, como dissemos, é a d u o d é c i m a p a r t e do
n ú m e r o inteiro, q u e corresponde exatamente à multi-
plicação de 20 por 2 1 . * * Nosso n ú m e r o inteiro tem
• * (-h mija, a dhiwa
doze subdivisões e o n ú m e r o d a s tribos t a m b é m , e cada
segunda patk de C 0 4 0 é
u m a dessas frações deve n e c e s s a r i a m e n t e ser encara-
4 2 0 , tjuc é f>/tecisanie«te o
ncsuflndo da multiplicação dc
da como um dom sagrado do deus, em conformidade

20 pai 21. (n.t.) com os m e s e s e a revolução do universo, pelo q u e , tam-


bém, todo Estado é guiado pelo seu instinto a preser-
var a s a c r a l i d a d e dessas divisões, e m b o r a a l g u m a s pes-
s o a s t e n h a m p o s s i v e l m e n t e feito s u a s d i v i s õ e s m a i s cor-
retarnentedo que outras, ou as t e n h a m consagrado com
m a i o r felicidade. Nós, em todo caso, a f i r m a m o s agora
q u e estamos perfeitamente corretos em primeiramen-
t e s e l e c i o n a r o n í i m o r o 5 0 4 0 , o q u a l é d i v i s í v e l p o r to-
d o s os n ú m e r o s dc 1 a 12, c o m a ú n i c a e x c e ç ã o do 11,
e x c e ç ã o q u e p o d e s e r m u i t o l a c i l m e u t c r e m e d i a d a vis-
t o cjue a m e r a s u b t r a ç ã o d c d o i s l a r e s d o t o t a l r e s t a u -
•••flusejo, ra um n ú m e r o inteiro c o m o q u o c i e n t e , * * * v e r d a d e

M - (t! v + 2. que poderíamos demonstrar, à vontade, mediante

(n.f.)

254
Livro VI

u m a brevíssima explicação. No m o m e n t o , então, con-


fiaremos na afirmação oracular enunciada e empre-
garemos essas subdivisões, d a n d o a cada fração o n o m e
d e u m d e u s o u d e u m filho d e u m d e u s e a t r i b u i n d o o s
a l t a r e s e todos os acessórios; e d i a n t e destes a l t a r e s de-
terminaremos que ocorram duas reuniões por mês para
a c e l e b r a ç ã o d e s a c r i f í c i o , d a s q u a i s ( a n u a l m e n t e fa-
lando) doze serão para toda a divisão tribal e doze p a r a
s u a p a r t e u r b a n a a p e n a s . O objetivo em p a u t a será,
p r i m e i r a m e n t e , oferecer a ç ã o de graças aos d e u s e s e
servi-los, e em s e g u n d o lugar, f o m e n t a r entre n ó s a
c a m a r a d a g e m , a m ú t u a f a m i l i a r i z a ç ã o e t o d a s a s for-
m a s de r e l a c i o n a m e n t o pois, v i s a n d o à c a m a r a d a g e m
e às u n i õ e s m a t r i m o n i a i s , será n e c e s s á r i o e l i m i n a r a
ignorância tanto da p a r t e do m a r i d o em referência à
m u l h e r q u e d e s p o s a e a f a m í l i a da q u a l ele p r o v é m
como da parte do pai com referência ao h o m e m ao
qual está d a n d o sua filha em casamento. E s u m a m e n -
te i m p o r t a n t e em tais a s s u n t o s evitar, na m e d i d a do
possível, q u a l q uer erro. A fim de atingir essa séria m e t a ,
d e v e r ã o ser o r g a n i z a d a s d a n ç a s p a r a r a p a z e s e m o ç a s ,
n a s q u a i s eles ao m e s m o t e m p o se o b s e r v a r ã o e se dei-
x a r ã o ser o b s e r v a d o s de u m a m a n e i r a razoável e em
ocasiões q u e ofereçam um a d e q u a d o pretexto, com seus
corpos n u s nos limites q u e u m a sábia reserva impo-
n h a a todos. Os magistrados q u e se o c u p a m dos corais
serão os supervisores e controladores de todas essas
matérias, bem como em associação com os guardiões
d a s leis s e r ã o o s l e g i s l a d o r e s d e t u d o q u e d e i x a r m o s
sem r e g u l a m e n t a ç ã o . È, c o m o dissemos, inevitável q u e
no tocante a todas as matérias q u e envolvem numero-
sos p e q u e n o s d e t a l h e s o legislador d e i x e l a c u n a s [e
comedi imperfeições], de maneira q u e modificações e
correções d e v e r ã o ser feitas a n u a l m e n t e p o r a q u e l e s
q u e [ l i d a n d o c o n s t a n t e m e n t e c o m a s leis] a d q u i r e m
experiência delas ao longo dos a n o s e são orientudos
p e l a p r á t i c a , até q u e s e d e c i d a q u e u m c ó d i g o legal
s a t i s f a t ó r i o t e n h a s i d o f o r m a d o p a r u r e g u l a m e n t a r to-
dos esses p r o c e d i m e n t o s . Um p e r í o d o justo c suficien-
te p a r a a execução desse t r a b a l h o experimental seria
dez a n o s , tanto p a r a os sacrifícios q u a n t o p a r a as d a n -
ças em todos os seus diversos detalhes; c a d a e q u i p e de

255
Platão - As Leis

magistrados a t u a n d o em associação com o legislador


o r i g i n a l , s e este a i n d a estiver vivo, o u s o m e n t e eles s e
estiver m o r t o , c o m u n i c a r á a o s g u a r d i õ e s d a s leis a s
omissões observadas em sua própria área, preenchen-
do, completando e aprimorando até q u e cada detalhe
a l c a n c e s e u a d e q u a d o a c a b a m e n t o ; feito isto, o s magis-
t r a d o s d e c r e t a r ã o e s s a s leis c o m o r e g r a s e s t a b e l e c i d a s ,
e a s e m p r e g a r ã o c o m o o r e s t o d a s leis p r o m u l g a d a s o r i -
g i n a l m e n t e pelo legislador. Estas últimas n ã o deverão
j a m a i s ser a l t e r a d a s p o r eles s e g u n d o s u a p r ó p r i a von-
tade. Entretanto, se em algum m o m e n t o se concluir pela
n e c e s s i d a d e de u m a alteração, todo o povo terá q u e ser
consultado, b e m como todos os demais magistrados,
a l é m do fato de ser o b r i g a t ó r i a a b u s c a de o r i e n t a ç ã o
j u n t o a todos os oráculos dos deuses; e caso haja um
c o n s e n t i m e n t o geral p o r p a r t e d c todos, e n t ã o p o d e r ã o
realizar a alteração, m a s sob q u a i s q u e r o u t r a s condi-
ções em m o m e n t o a l g u m ; e a q u e l e q u e objetar a altera-
ç ã o p r e v a l e c e r á s e m p r e d e a c o r d o c o m a lei.
Q u a n d o um h o m e m de vinte e cinco a n o s de idade, •
* :A fflíw ptíí*iíi indicada
a p ó s observação dos outros e depois de ter sido objeto
|io« ' P l a t ã o otitawowcntc ç.
da observação dos outros, acredita ter encontrado em
«rim b o d a e tawte « «uno
algum lugar uma companheira do seu gosto e
mios. (n.t)
a d e q u a d a p a r a a p r o c r i a ç ã o de filhos, ele se c a s a r á ,
sempre antes de completar trinta e cinco a n o s ; ' mas
antes deverá escutar a orientação quanto a como
procurar a m u l h e r conveniente e a d e q u a d a pois, como
s u s t e n t a CUnias, d e v e - s e i n t r o d u z i r c a d a l e i m e d i a n t e
u m p r e l ú d i o q u e l h e seja a p r o p r i a d o .

CUnias; M u i t o b e m l e m b r a d o , e s t r a n g e i r o , e e s c o l h e s t e ,
a m e u ver, u m p o n t o b a s t a n t e o p o r t u n o n o t e u d i s c u r s o
p a r a lembrá-lo.

O ateniense; E s t á s c e r t o . A s s i m d i g a m o s a o f i l h o d e p a i s
e x c e l e n t e s : " M e u f i l h o , eleves c o n c l u i r u m c a s a m e n t o q u e
seja a p r o v a d o por h o m e n s de scuso, q u e te aconse-
l h a r i a m a n ã o evitar a ligação com u m a família p o b r e e
n e m b u s c a r a r d e n t e m e n t e a ligação com u m a família
rica, m a s , sendo todas as outras coisas iguais, preferir
s e m p r e u m a aliança c o m u m a família d e recursos mo-
d e r a d o s . Um tal p r o c e d i m e n t o beneficiará tanto o E s t a d o
q u a n t o os lares u n i d o s já q u e o e q u i l í b r i o e q ü i t a t i v o c a
proporção são s u m a m e n t e superiores a um extremo sem

256
Livro VI

' mescla. O h o m e m q u e se sabe i n d e v i d a m e n t e precipi-


' t a d o e violento em todas suas ações deve c o n q u i s t a r
• u m a noiva o r i u n d a dc pais serenos, e n q u a n t o o ho-
m e m de t e m p e r a m e n t o oposto deve agir v i s a n d o a. se
unir a u m a esposa de tipo oposto. Com relação ao ca-
s a m e n t o e m geral deverá haver u m a regra geral: t o d o
h o m e m terá q u e constituir o c a s a m e n t o m a i s p e n s a n
d o n o benefício d o E s t a d o d o q u e n a q u i l o q u e a g r a d a
, m a i s a si m e s m o . T o d o s t e n d e m n a t u r a l m e n t e a b u s -
car u m a companheira que se assemelhe o máximo
possível a si m e s m o , o q u e p r o d u z em t o d o o E s t a d o o
desequilíbrio tanto dos bens q u a n t o do caráter do pon-
to de vista moral, c por causa disso as conseqüências
m a i s indesejáveis p a r a nós são a q u e l a s q u e geralmen-
te se a b a t e m sobre a maioria dos Estados. Promulgar
leis e x p r e s s a s a c e r c a d e s s a s m a t é r i a s - c o m o p o r exem-
plo proibir q u e u m h o m e m rico s e case com u m a mu-
lher de família rica ou q u e um h o m e m p o d e r o s o se
u n a a u m a família poderosa, ou obrigar um h o m e m :t
. de t e m p e r a m e n t o impulsivo a b u s c a r a l i a n ç a [através
i
do casamento] com aqueles q u e têm t e m p e r a m e n t o s
• m a i s detidos, c o lento c o m o p r e c i p i t a d o - isto, a l é m •• Kparqp
d e s e r r i d í c u l o , p r o d u z i r i a r e s s e n t i m e n t o e m l a r g a es- ( K p a r q p o ç ) , g,w«Jc wiso
c a l a , p o r q u e a s p e s s o a s n ã o a c h a m fácil p e r c e b e r q u e ou fnça dc boca Cawja onde se.
um E s t a d o deveria ser c o m o um grande, v a s o * • con- wistMoVo vitilio o, água pato
t e n d o v i n h o m i s t u r a d o no q u a l q u a n d o o v i n h o é ver- depois se tom dePe » mielriíio
tido, n u m p r i m e i r o m o m e n t o ele e s p u m a furiosamen- em tae,as pequenas eomuue;
te, s e n d o , e n t r e t a n t o , logo m o d e r a d o p o r u m a o u t r a oa uliPijjodo inflPusice et»
sóbria divindade* * • c formando u m a boa combina- oeMíitôMas soPigiosas pana a
ção e produzindo uma bebida saudável e temperada; fibnçeio dos participante; aos
q u e isto é p r e c i s a m e n t e o q u e acontece na p r o c r i a ç ã o deuses. (».(.)
d a s c r i a n ç a s é algo q u e dificilmente a l g u é m é c a p a z ' * ' ( • ) { > seja, a do eiquo.
de perceber. D a í é preciso q u e se o m i t a no código legal
(M.)
tais regras, tentando-se meramente, por meio de u m a
' espécie dc e n c a n t a m e n t o verbal p e r s u a d i r n todos no
sentido dc estimarem o equilíbrio de suas crianças com !
m a i o r peso q u e aquela igualdade dc uru c a s a m e n t o
f com r i q u e z a excessiva, e p o r m e i o de c e n s u r a s desviar * * * * "Õwatando aqui do
! desse objeto a q u e l e q u e se p r o p õ e a c a s a r por dinhei- Casamento. 'TPalão dejine
ro, e m b o r a n ã o p o s s a m o s obrigá-lo p o r m e i o d e u m a bem os domínios do PegaP
lei e s c r i t a . C o m r e f e r ê n c i a a o c a s a m e n t o , e s s a s (vouoç) c do nto.ioP
s e r ã o a s e x o r t a ç õ e s f e i t a s a se, s o m a r e m à s q u e f o r a m (r)9iKOç). (n.l.)

257
Platão - As Leis
• Que se entendo que o
eseoCtia da esposa c família
feitas a n t e r i o r m e n t e , a f i r m a n d o o dever de se ligar à
não seria detesminoda por te.
r e a l i d a d e e t e r n a d e i x a n d o a t r á s de si filhos dos p r ó -
mas o casamento sim. no que
p r i o s filhos e f o r n e c e n d o ao d e u s servidores q u e n o s
' P l a t ã o simplesmente
s u b s t i t u e m i n c e s s a n t e m e n t e . T u d o isso e m a i s p o d e r
honscíiew paro seu fistado
se-ia d i z e r n u m a p r o p r i a d o p r e l ú d i o r e l a t i v o a o c a s a -
ideal a lei »cfe*enfc ao
m e n t o e ao dever de se casar. * No caso de a l g u é m , en-
casamento ( y a u o ç ) eiqgnte
tretanto, furtar-se v o l u n t a r i a m e n t e a esse dever, m a n -
de fato na gwnde maioria das
tendo-se isolado e sem c o m p a n h e i r a no Estado até atin-
cidades gregas da antigüidade
gir a i d a d e de t r i n t a e c i n c o a n o s solteiro, dever-se-á
mais *e»ora (que para ele não
lhe impor u m a multa anual de cem draemas se per-
c»a (no semota), ine(!«si* ei»
tencer à mais alta classe de proprietários, setenta dra-
;.4fenas. >A obrigatoriedade
e m a s se p e r t e n c e r à s e g u n d a , s e s s e n t a se p e r t e n c e r à
do casamento em função da
t e r c e i r a , e t r i n t a se p e r t e n c e r à quarta. O dinheiro
piiOCMação dc, jilfcos legítimos
dessa multa será consagrado a Hera. • * Aquele que
estaio na onfígiiidode g/iega
lineulada Hçeeesa.tíameníe ã
d e i x a r de p a g a r a multa no seu valor total todo a n o
perenidade do culto nas
ficará d e v e n d o d e z vezes o valor d e l a , s e n d o tarefa do
deuses domésticos no Ia» tesoureiro da d e u s a cobrá-lo e exigir tal p a g a m e n t o ,
[EOTial (responsabilidade s o b p e n a d e e l e m e s m o a r c a r c o m o p a g a m e n t o s e fal-
do filto primogênito), céluía- tar a sua tarefa; enfim, na prestação dc contas, lodo
basc do culto »e!ígioso c i d a d ã o [solteiro] d e v e r á fazer s u a q u i t a ç ã o d a m u l t a
p»csen(c «o p»óp»fa y e v o ç (o devida. Do p o n t o de vista financeiro, será essa a m u l t a
família g»ega formado dos eclibatários; m a s além disso serão privados da hon-
Icrjoíwcntc a partir dc iti» ra p r e s t a d a pelos jovens e n e n h u m destes terá de s u a
tronco comum, isto é, de um e s p o n t â n e a v o n t a d e q u a l q u e r c o n s i d e r a ç ã o p o r eles;
antepassado comum de origem se um celíbatário t o m a r a iniciativa de castigar algu-
Píiiíc), euflo este a ser ma pessoa, todos d e v e r ã o vir em auxílio da v í t i m a c
completado pelo culto público defendê-la, e t o d o a q u e l e q u e estiver p r e s e n t e e se
nos deuses do fistado. fislá omitir em relação a essa assistência será p r o c l a m a d o
cloro que -Platão não adota p e l a lei c o m o s e n d o a u m a v e z c o v a r d e e m a u c i d a d ã o .
toda esso ectwiura na sua N o q u e c o n c e r n e a o d o t e , foi a f i r m a d o a n t e r i o r m e n t e ,
concepção da organização do e será a f i r m a d o n o v a m e n t e , q u e um i n t e r c â m b i o igua-
fistado - titoía-se apenas de litário consiste em n e m d a r n e m receber q u a l q u e r pre-
saliento» que o sente, n e m é provável q u e d e n t r e os c i d a d ã o s os po-
obrigatoriedade do casamento bres p e r m a n e ç a m nessa c o n d i ç ã o solteiros até a velhi-
f>fi íficula;imetitc eiibe um
; ce p o r falta de r e c u r s o s , * * • pois cm n o s s o E s t a d o to
elemenio soudosisla no dos terão o necessário para a vida, e o resultado dessa
socialismo platônico, muito regra será m e n o s insolência p o r p a r t e d a s e s p o s a s e
pouco peímeáieí a efcííuae menos h u m i l h a ç ã o e servilismo da parle do m a r i d o
!
armações, Pfeomendatníis por causa de dinheiro. Quem acatar esta regra estará
nofonienle a feitura alenin de agindo nobremente, mas q u e m desacatá-la d a n d o ou
• A ('idade .ytnligo dr \ l u s l c t r e c e b e n d o p a r a o enxoval u m a s o m a s u p e r i o r a cin-
de (íouPangee e de. A
qüenta draemas, ou superior a u m a mina, ou superior
Pfqiiiliííoei dr: • Pfnlan. desta
mesmo série fiteeieoe. (n.t.)

258
Livro VI

a u m a m i n a e m e i a , o u a i n d a (se m e m b r o d a c l a s s e d e • • l l p a . f/Ptin de Ototios e


c

proprietários m a i s elevada) u m a q u a n t i a acima d e d u a s de, í3fiía, raposa legítima

m i n a s - ficará devendo ao tesouro público u m a s o m a de de ^íeus, deuso do


valor c o r r e s p o n d e n t e e a s o m a d a d a ou recebida será ftosawento. (n.l.)
c o n s a g r a d a a H e r a e Z e u s , e os t e s o u r e i r o s d e s s a s divin- • • • A w p í i e a n d o , é cimo, a
d a d e s deverão a d m i n i s t r a r a p r e s t a ç ã o de contas con- ioÈdadc do e o n l w t o c, a
forme a regra dos casos dos celibatários, nos q u a i s o gajontio de que sons
a j u s t e é feito a c a d a o p o r t u n i d a d e p e l o s t e s o u r e i r o s d e
eompjotiiissos se»cío
H e r a , q u e se n ã o o fizerem a r c a r ã o eles m e s m o s c o m a
don»ados. (n.l.)
multa dos devedores às suas próprias expensas.
O direito de contratar c a s a m e n t o pertence em primei-
ro lugar ao pai, a seguir ao avô e em terceiro lugar
aos i r m ã o s n a s c i d o s do m e s m o pai; à falta destes, c a b e
com justiça aos parentes por linhagem materna em
o r d e m a n á l o g a , o c m c a s o d e q u a l q u e r i n f o r t ú n i o ex-
cepcional, o direito c a b e r á aos p a r e n t e s mais próxi-
mos em cada caso, que atuarão em associação com
os g u a r d i õ e s . • • • » C o m r e l a ç ã o ao sacrifício inicial do ••••0» seja, os guoíidióee
c a s a m e n t o e todas as outras cerimônias sagradas pré- dos óíifjãoc. (n.f.)
n u p e i a i s , n u p e i a i s e pós-nupeiais, c a d a um deverá in-
***** :Ã pafcesa usada
t e r r o g a r os i n t é r p r e t e s * • • • • a r e s p e i t o e a c r e d i t a r q u e
c
po* P í W n o é e | r | Y T j T q ç ,
obedecendo às suas orientações terá todas essas coisas
nquek que mtúni $civ> o
f e i t a s a d e q u a d a m e n t e . C o m r e f e r ê n c i a à s f e s t a s d e ca-
/iieamidamento de um
samento, a m b a s as partes devem convidar os amigos
micjáelei, um txomtv (pm
dos dois sexos, em n ú m e r o n ã o superior a cinco pessoas
eranpfo. a d ü r ç ã o de unia
de c a d a l a d o e um n ú m e r o igual de p a r e n t e s e co-
easa); triiiiliím o inféípíete.
nhecidos das d u a s casas. E imperioso q u e em hipóte-
dos OJáeufos, dos píreseágies
se a l g u m a se vá a l é m no q u e se refere às despesas da
e dos soutos. kA({«I,
festa a l é m d o s r e c u r s o s d i s p o n í v e i s , a s a b e r , u m a m i n a
enhefonfo, '-"PPatáo usa a
p a r a a classe m a i s rica, m e i a m i n a p a r a a s e g u n d a clas-
paPnuMi nu» seniido
se e daí por d i a n t e proporcionalmente de acordo com
pristiOuPoí figodn o outonos:
a d i m i n u i ç ã o d o s r e c u r s o s . Q u e m o b e d e c e r a lei s e r á
intésp,íole (erogela) dos
merecedor do encômio de todos, m a s q u e m a desobe-
fOMiiiônioo sagiodos.
d e c e r s e r á p u n i d o p e l o s g u a r d i õ e s d a s leis c o m o u m a
ín.l.)
pessoa de m a u gosto e mal treinado nos n o m o s d a s
M u s a s n u p e i a i s . Beber em excesso é urna prática q u e
cm lugar a l g u m é conveniente, salvo nos b a n q u e t e s do
d e u s q u e é o d o a d o r do v i n h o , • • • • • • e, t a m p o u c o se
••••••Quei di^ei,
gura, o certamente não o é para aqueles que encaram (Atovurnoç), ou
•Difinisio
o c a s a m e n t o com seriedade, pois nesta ocasião em segundo seu nome inoís
p a r t i c u l a r c a b e à noiva c ao noivo e s t a r e m sóbrios, .íoeenie. 'T!oe'o (BaK%oçj.
o.onsiderando-se que, se trata de urna g r a n d e m u d a n ç a (n.l.)

259
Platão - As Leis

e m s u a s vicias, e a f i m d c a s s e g u r a r , n a m e d i d a d e
possível, em iodos os casos que a c r i a n ç a a ser g e r a d a
p o s s a b r o t a r d o s c o r p o s cie p a i s s ó b r i o s , v i s t o q u e q u a l
será, c o m a a j u d a do d e u s , a n o i t e ou o d i a de s u a
geração, ó algo a b s o l u t a m e n t e incerto. A d e m a i s , n ã o
é c e r t o q u e a p r o c r i a ç ã o seja o l a b o r de c o r p o s d i s s o l -
vidos pelo excesso de vinho, m a s sim q u e o e m b r i ã o
possa ser constituído com firmeza, e s t a b i l i d a d e e tran-
qüilidade no útero. Mas o h o m e m tomado pelo vinho
provoca e recebe c h o q u e s de todas as m a n e i r a s , con-
v u l s i o n a d o em seu corpo e a l m a ; c o n s e q ü e n t e m e n t e ,
q u a n d o e m b r i a g a d o , é desgracioso e falho no deitar
seu sêmen, sendo assim provável q u e gere descenden-
tes instáveis e inconfiáveis, distorcidos em s u a forma
e caráter. D i a n t e disto, é m i s t e r q u e seja m u i t o c u i d a -
doso por todo o a n o e ao longo de toda sua vida, p a r
tieularmente d u r a n t e o período em q u e está gerando,
d e m o d o a n ã o c o m e t e r n e n h u m a t o q u e envolva seja
e n f e r m i d a d e d o c o r p o , seja violência o u injustiça, pois
é o q u e i m p r i m i r i a i n e v i t a v e l m e n t e n a s a l m a s e cor-
pos de seus filhos, gerando-os em t u d o c o m o criatu-
r a s inferiores. De a t o s de tal e s p é c i e é p r e c i s o q u e se
a b s t e n h a especialmente no dia e noite de seu casa-
m e n t o , p o i s o começo q u a n d o s e instala como urna
d i v i n d a d e entre os seres h u m a n o s t u d o salva, desde
q u e receba a h o n r a que lhe é devida de c a d a um q u e
dele se a p r o x i m e . • O h o m e m q u e se casa tem q u e se
separar de seu pai e sua m ã e , e t o m a r u m a das d u a s
Co«jo»«c (filo fil/ifio h a b i t a ç õ e s de s e u lote p a r a ser, p o r a s s i m dizer, o ni-
ot#,tjttttiiwta. (n.t.) n h o e lar de seus filhotes, realizar aí seu c a s a m e n t o e
c o n s t i t u i r a m o r a d a de si m e s m o e de seus filhos. C o m
efeito, n a s afeições o n d e h á a p r e s e n ç a d e u m certo
* * n o O o ç tfewjo A * o%» grau de s a u d a d e , * * esta p a r e c e c i m e n t a r v á r i a s dis-
to». |iot cvlcncòo. (ic (éiaím) p o s i ç õ e s e u n i - l a s , e n q u a n t o q u e a c o n v i v ê n c i a fusti-
gue v, oeíio OUÍCIIIC ou d i o s a à q u a l falta a s a u d a d e p r o d u z i d a p o r u m inler-
ojoütorlo. (n.l.) v a l o leva os a m i g o s a se a f a s t a r e m u n s d o s o u t r o s d e -
vido a u m a s a t u r a ç ã o d a c o m p a n h i a r e c í p r o c a . As-
sim, o casal tem q u e deixar suas próprias casas p a r a
s e u s p a i s e os p a r e n t e s da n o i v a e a g i r c o m o se tives-
sem se m u d a d o p a r a u m a colônia, visitando-os e sen-
do v i s i t a d o s em s u a casa, g e r a n d o c e d u c a n d o filhos
e deste m o d o t r a n s m i t i n d o a vida c o m o um archote

260
Livro VI

de geração em geração, e sempre venerando os deu-


ses c o n f o r m e o n o r t e a m e n t o d a s leis.
Na s e q ü ê n c i a , no q u e diz respeito às posses, o q u e
deveria alguém possuir de maneira a formar um
volume razoável de riqueza? Q u a n t o à maioria dos
b e n s , é s u f i c i e n t e m e n t e fácil t a n t o v e r q u a i s d e v a m s e r
q u a n t o adquiri-los. Entretanto, no q u e concerne aos
servos, enfrentamos toda espécie de dificuldade. Â
r a z ã o