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Anais Vi Cecab

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----------------------- Page 1----------------------ANAIS DO EVENTO E CADERNO DE RESUMOS São Luís-MA 2010 ----------------------- Page 2--------------------------------------------- Page 3----------------------Simpósio Internacional de Estudos Caribenhos

(6.:2010: São Luís, MA). Territorialidades e influências afro-caribenhas nas Américas: Cade rno de resumo e Anais/Organização: Carlos Benedito Rodrigues da Silva.- São Luís: Edufma, 20l0. 356p. 1.Identidades – Afro-caribenhas 2. América Latina-História I. Título CDD 301 CDU 316.7(6:729) ISBN 9788578621568 ----------------------- Page 4----------------------REALIZAÇÃO: Universidade Federal do Maranhão Universidade Estadual do Maranhão Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros-NEAB-UFMA Associação Maranhense de Pesquisas Afro-Brasileiras – AMPEAFRO Centro de Estudos do Caribe no Brasil - CECAB COMISSÃO ORGANIZADORA Prof. Dr. Carlos Benedito Rodrigues da Silva - Presidente (UFMA) Prof. Dr. Leonardo Alvares Vidigal - Vice Presidente (UFMG) Profa. Dra. Olga Cabrera (UnB) Prof. Dra. Maria Tereza Negrão de Melo (UnB) Profa. Dra. Isabel Ibarra (UFG) Profa. Dra. Maria Antonieta Antonacci (PUC/SP) Profa. Dra. Maria Bernadette Velloso Porto (UFF/RJ) Prof. Dr. Alecsandro José Prudêncio Ratts Prof. Dr. Álvaro Roberto Pires Prof. Dr. Danilo Rabelo (UFG) Prof. Dr. Jaime de Almeida (UnB) Prof. Dr. Tarcisio Ferreira Prof. Ms. Maria Suely Dias Cardoso Prof. Ms. Marluze Pastor Santos Profa. Ms. Maria da Guia Viana Profa. Ms. Maria Suely Dias Cardoso

Profa. Ms. Maristane Sousa Rosa Prof. Ms. Kavin Dayanandan Paulraj Prof. Ms. Reinaldo dos Santos Barroso Junior Profa. Esp. Carla Georgea Silva Ferreira Profa. Esp. Rodvania Silva Frazão Profa. Fernanda Lopes Rodrigues Prof. Marcelo Nicomedes Prof. Richard Christian Pinto dos Santos Carlos Eduardo Dutra de Aguiar Cristiano Sousa Correia Grace Kelly Silva Sobral Souza José Ribamar Nascimento Karlana Bianca Matos Sousa Lurdeane Santos Mendes Rayssa Bianca Correa Macedo Roberto K-zau 4 ----------------------- Page 5----------------------SUMÁRIO 1. APRESENTAÇÃO................................................................ ............................................ 06 2. MESAS REDONDAS.......................................................... ............................................. 07 3. EIXOS TEMÁTICOS........................................................... ............................................ 12 3.1 ARTES VISUAIS LITERATURA E MÚSICA......................................... ....................... 12 3.2 3.3 DIREITOS HUMANOS E NOVAS CONCEPÇÕES DE CIDADANIA........................ 21 GÊNERO SEXUALIDADE E GERAÇÃO………………………………………….....

3.4 IDENTIDADES NACIONAIS................................................... ................................... 34 3.5 PATRIMÔNIO, MEMÓRIA E ARTES................................................. .................... 42 3.6 RITMOS, IDENTIDADE E PERFORMANCE CULTURAL............................... ....... 47 3.7 RELIGIÃO E RELIGIOSIDADE……………………………………………………….

3.8 TERRITÓRIO E TERRITORIALIDADES............................................ .................... 66 3.9 SAÚDE AMBIENTE E SUSTENTABILIDADE......................................... .............. 72 4. ARTIGOS 74

5 ----------------------- Page 6----------------------APRESENTAÇÃO Antes compreendida como uma região específica representada pelo enorme arquipélago da América Central, o Caribe se apresenta hoje, como um espaço transterritorial. Essa tendência em encarar a região de modo mais amplo da Associação de Estudos foi ratificada na 32ª Conferência Anual

Caribenhos (CSA), entidade internacional que se reuniu pela primeira vez no Brasil em maio de 2007, em Salvador (BA) Brasileiro de Estudos e também o V Simpósio Internacional do Centro

Caribenhos (CECAB), que teve lugar em 2008, na mesma cidade. Tais eventos foram importantes para demonstrar que existe um movimento coletivo, desenvolvido no confronto com problemas práticos e teóricos de pesquisa, no sentido de repensar a região para além das fronteiras nacionais e identitárias e, cada vez mais, sob um ponto de vista transcultural, como Fernando Ortiz vaticinava há mais de quarenta anos. Por isso, o simpósio do CECAB vem se voltando para uma orientação transdisciplinar, co nfirmando que a constituição do conhecimento no mundo atual exige o intercâmbio conceitual, meto dológico e prático entre as diversas áreas iplinaridade possibilita novas do saber, entendendo que, a transdic

combinações teóricas e experimentais, que por sua vez propõem outras questões.. Levando em conta essas reflexões e o fortalecimento das relações com o Caribe, especia lmente nas últimas décadas, com a presença do reggae que atribuiu à capital maranhense o codnome ―Jam aica Brasileira , o VI Simpósio Internacional do CECAB será realizado de São Luís do Maranhão, visando ampliar e aprofundar aribe do ponto de vista transcultural. a nossa na cidade o C

compreensão sobre

Comissão organizadora. 6 ----------------------- Page 7----------------------RESUMOS MESAS REDONDAS TERRITÓRIOS FLUÍDOS, A DINÂMICA DAS RELAÇÕES ENTRE SENHORES E ESCRAVOS NA CONSTRUÇÃO DO “MUNDO ATLÂNTICO”. Profa. Dra. Antonia da Silv a Mota – (UFMA) Profa. Dra. Regina Helena Martins de Faria/ Depto de História – (UFMA) Prof. Dr. Josenildo de Jesu s Pereira– (UFMA)

No contexto da tessitura do ―Mundo Atlântico , a escravidão moderna tem uma relevância sin gular por incorporar múltiplas temporalidades. Era, a um só tempo – negócio, modo de trab alho, fator determinante de prestígio e poder, bem como o seu contrário, e objeto de produção liuterár ia. Nesse sentido, a historiografia contemporânea superou a interpretação reducionista de sua co mplexidade e dinâmica expressa no binômio ―Casa Grande e Senzala . A partir da noção de território enquant espaço imaginado e constituído por experiêmcias de sujeitos tem-se por propósito desenvo lver uma análise acerca das territorialidades elaboradas por senhores e escra vos no cotidiano do mundo escravista tendo por pressuposto as suas tensões e contradições imanentes. Desse modo, o foco da análise se concentrará em torno dos significados de família, poder e liberdade para ecsravos e senhores, no âmbito da historicidade brasileira. O ESTADO, OS QUILOMBOLAS E O TRABALHO DO ANTROPÓLOGO NO BRASIL – CONFLITOS, INTERESSES E NOVAS MODALIDADES DE INTERVENÇÃO POLÍTICA Profa. Dra. Maristela de Paul a Andrade-UFMA Prof. Dr. Benedito Souza Filho UFMA Prof. Dr. José Mauricio Arruti - PUC/RJ O objetivo desta mesa é discutir, com base na análise de duas sit uações empíricas Alcantara (MA) e Marambaia (RJ) - os condicionantes e os imp asses decorrentes da participação de antropólogos na elaboração de peças técnicas para subsidiar processos que garantam os direitos de grupos quilombolas. Os eixos da discussão serão: (a) as novas

demandas de atuação que se apresentam ao antropólogo, (b) os obstácu los políticos e técnicos que se apresentam em resposta a essas demandas, (c) os obstáculos e controvér sias à incorporação do trabalho antropológico nas decisões judiciais e administra tivas e (d) o limiar de criminalização dos antropólogos, a que tais controvérsias tem levado. Com is so pretende-se apontar para as diferentes dimensões e interesses das situações de conflito envolvendo quilombolas neste momento no Brasil. 7 ----------------------- Page 8----------------------RELIGIÕES CRISTÃS E AFROAMERICANAS: SINCRETISMOS, TENSÕES E CONFLITOS NA AMÉRICA LATINA E CARIBE Prof. Dr. Álvaro Rober to Pires (UFMA) Prof. Dr. Gamalie l Carreiro (UFMA). A mesa redonda tem por objetivo aglutinar os estudos de pesquisadores(as) que no s últimos anos vem concentrando suas atenções nas investigações relacionadas com as religiões cristãs e afroamericanas, observando suas proximidades, diferenças, tensões , conflitos. O cotidiano em diversas sociedades do Continente Latino Americano tem apresentado um quadro bastante preocupante, do ponto de vista cultural-religioso, naquilo que d iz respeito a liberdade de expressão por parte dos cidadãos e cidadãs que habita m suas cidades. Acreditamos que o mundo acadêmico pode oferecer variáveis a fim de que as sociedades possam refletir sobre a problemática em destaque. Desta forma est a mesas redonda visa criar um espaço de debate acadêmico para discutir a existência ou não de certas tendências fundamentalistas as religiões afroamericanas. de possíveis grupos cristãos e suas relações com

DISPUTAS E CONVIVÊNCIAS TERRITORIAIS DOS SEGMENTOS DE MATRIZ AFRICANA E AFRO-BRASILEIRA NO ESPAÇO DIASPÓRICO. Prof. Dr. Leandro Men des Rocha (UFG) Prof. Ms. Mary Anne Vi eira Silva (UEG) A proposta da mesa temática pauta-se numa discussão sobre as dinâmicas sócio-espaciais praticadas pelos segmentos de religiões de influência africana e afro-bras ileira. Ademais, pretende-se reunir trabalhos que versem sobre as relações produzidas no espaço diaspóric o.

Consideramos que esse seja um campo heterogêneo e sobreposto de poder, fundado na diversidade cultural e nas contradições sociais. A questão vincula-se ao debate sobre território, cultura e política. Os "territórios" são, portanto, tal como as "fronteiras ", locais privilegiados de observação da construção e da negociação de identidade s diversas. Diversas, principalmente, devido à possibilidade de serem pensadas a partir de di ferentes lócus e também de serem pensadas a partir de distintos recortes, tais como os aqui propostos: religião, gênero, política, cultura e raça. Com esse simpósio, pretendemos mediar o debate entre as vozes que representam as comunidades de terreiro com aquelas dos representantes da academia, por meio de apresentações de traba lhos resultantes de práticas sociais, bem como projetos concluídos e/ou andamento de e xtensão, pesquisa e ensino. RELIGIÕES AFRO BRASILEIRAS: IDENTIDADE, TRADIÇÃO E ESPAÇO PÚBLICO Prof. Dr. Antonio Giova nni Boaes (UFPB) Prof. Dr. Ronaldo Laurent ino Sales (UFCG) 8 ----------------------- Page 9----------------------Nos últimos anos o estudo das religiões afro-brasileiras tem p assado por um novo crescimento. Parte deste interesse se deve às mudanças que estas religiões têm sofrido recentemente. Mudanças estas, diretamente relacionadas à emergência de um novo context o no campo das relações raciais e, também, no mercado religioso brasileiro. Com relação ao primeiro aspecto, dois fenômenos se destacam: De um lado, a postura presente em vári os segmentos dos movimentos negros que tendem a encarar as religiões afro-brasileiras como ―espaços de resistência cultural e componente indispensável da construção/afirmação identidade negra. De outro, a atuação do Estado que passou a desen volver uma serie de políticas públicas voltadas para estas religiões. Trata-se, neste últi mo caso, tanto de políticas voltadas especificamente para elas – proteção contra discriminação, preservação cultural, reconhecimento institucional, etc. – quanto daquelas dirigidas à população ne gra como um todo, uma vez que as religiões afro-brasileiras passaram a ser vistas por alguns órgãos de governo como uma entrada privilegiada de acesso a esta parcela da população. Outra fonte de legitimidade advém do mercado religioso e suas tendências atuais, nas quais as religiões que valorizam o simbólico, o mágico e o corpo, tendem a a

trair um número significativo de adeptos e simpatizantes. No centro de tod as estas negociações e reposicionamentos encontra-se a referência e a reivindicação de uma continuidade com ―a

tradição africana original . Esta tradição, sempre em processo de invenção e re nvenção, constitui a fonte de legitimação a partir da qual cada religião específica busca assegur ar o seu reconhecimento, não apenas dentro do campo religioso afro-bras ileiro, mas também junto aos demais atores. Vale destacar ainda, que o compartilh amento dessa tradição ancestral vem se apresentando como um elemento aglutinador entre as diversas for mas de religiosidade de matriz africana desenvolvidas em diferent es contextos culturais (candomblé, santeria, vodu, etc.) constituindo-se numa base para se pensar a sua universalização ou, segundo alguns autores, sua transformação em uma religião mundial. É sobre o conceito de tradição e a forma como esta é manipulada por diferentes atores na busca por legitimidade e prestígio seja dentro do campo religioso afro-brasileiro, seja nas relações com outros atores que esta Mesa pretende se debruçar. ÁFRICA, BRASIL E CARIBE: DIÁSPORA, DIVERSIDADE CULTURAL E IDENTIDADE NACIONAL Prof. Dr. Benedito Souza Filho (UFMA) Prof. Dr. Josenildo de J esus Pereira (UFMA) Prof. Dr. Hippolyte B rice Sogbossi (UFS) A diáspora africana, como conseqüência ou resultado do tráfico neg reiro, sempre foi reconhecida como uma das maiores tragédias da humanidade. Para o continente africa no e os países vitimados pelo comércio de seres humanos, as conseqüências negativas dessa prática se fazem sentir até os dias de hoje. Contrariamente, para diferentes países da Europa Ocidental e suas colônias no continente americano a presença africana não só contribuiu com suas energias para o fortalecimento de suas economias, mas também com sua hera nça cultural carregada na diáspora. A mesa redonda buscará refletir, a pa rtir de um olhar do presente, sobre os diferentes processos sociais e históricos qu e concorreram para a (re)definição da diversidade cultural e a identidade nacional de diferentes países na Áf rica, no Brasil e no Caribe. 9 ----------------------- Page 10-----------------------

PERFOMATIVE BODIES, CARIBBEAN RHYTHMS AND NEW CONCEPTIONS OF CITIZENSHIP Dr.Irline François. Goucher College Country: USA Dr. Johanna X.K. Garvey. USA. Fairfield University. Dr.Simone A. James Alexander. USA. Seton Hall University. Department:English/Afr icana Studies. Dr. H. Adlai Murdoch. USA. University of Illinois at Urbana-Cha mpaign. Department: French. Dr.Marie Hélène Laforest. Italy. University of Naples ―L‘Orientale . Department: English. The rich, complex, particular condition of the Caribbean as th e first globalized colonial system of human history marked indelibly its past as a point of destination, deracination and dispersion of migratory waves from the voluntary and forced entry of Europeans, of Africans, Asians, Middle Easterners and its turbulent encounter with the Amerindians peoples that occupied the region. Today, the Caribbean faces and interrogates it s turbulent, complex past and troubled present. It also endeavors to transcend its geographic al borders, to broaden and deepen our understanding of the area as a social and cultural spa ce with its shared history, of continuous cultural exchanges between and amo ng Caribbean nations bordering the Atlantic Ocean, specifically with the Brazilian Northeast. Hence, the Caribbean, aka ―trans-territorial and ―trans-cultural space shares with the S tate of Maranhão and its capital São Luis known as ―Brazilian Jamaica, its triple expressio n of Amerindian, European and African influences, its sites of survival and resistance (embodied in the Palmares and Quilombos of the region) but also its rich musical heritage that infuse the Caribbean landscape including reggae, ska calypso, zouk cadence, compas, meringue, rumba, pélé trésé which most can trace their roots to an Amerindian, European and African musical past. This trans-artistic space also seeks to overcome its l egacy of the Plantation hierarchy, of gendered exploitation, of domestic violence and sexual abuse of the female body, -- the high incidence of forced sterilization among Afro and Amerindian women in the state of Maranhão, for example. Our hybrid panel of mixe d genres – literary analyses and musical genres seeks to question the scope and intent ionality of history, of boundary crossings, of contested citizenship in our era of exacerbated globalism. Our papers illustrate and challenge the violence born of borders, whether they may b e those of nation, race/ethnicity, gender, sexuality and language. We question the ways in which the language of nationalism marginalizes women, scripting them as unworthy citizens.

We also examine how plural linguistic musical patterns came to reflect the shape and sub stance of global literary production. What is the role of political song s and lyrics in unearthing, tracing and confronting the official recording of history with the popular expressions of assent and dissent as a form of covert resistance? Branching out through a multi plicity of roots/routes: (Haiti, The Dominican Republic, New York, Puerto Rico), Caribbean writers, artists and scholars offer a rich meditation that emphasize and broaden the conn ections and correlations of the trans-territorial and trans-cultural condition of the Caribb ean. 10 ----------------------- Page 11----------------------GRANDES EMPRESAS, GRANDES PROBLEMAS, NO BRASIL E NO CARIBE Edmilson Abreu Pinheiro, engenheiro agrônomo, secretário executivo do Fórum Carajás (Fórum Carajás, São Luís/MA); Igor Almeida, advogado, assessor jurídico da Sociedade Maranhense de Direitos Huma nos, São Luís/MA); Raimundo Cruz Gomes, engenheiro agrônomo, sociólogo, coordenado r do CEPASP, Marabá/PA; Manoel Maria Paiva, engenheiro ambiental, diretor da ECOSAN, Barcarena/PA;

Resumo: A mesa pretende refletir a atuação de grandes empresas na região do Caribe, em especial, na Amazônia e a persistente desigualdade nessas reg iões. A dinâmica de empresas como a ALCOOA, CVRD, PETROBRÁS, Norsk Hydro ASA, MPX entre outras se concretiza na exploração de quantidades cada vez maiores de matérias-primas, comprometendo a reprodução e sobrevivência de diversos ecossistemas, a diversidade cultural dos povos e comunidades tradicionais, deixando um legado de destruição ambi ental e social nessas áreas que os seres humanos são, em última instância, fundamento e expressão. A produção do alumínio está inscrita no quadro dessas preocupações pelo fato de suas principais matérias-primas, a bauxita e a energia, existirem abundantement e nessas regiões. As maiores reservas de bauxita encontram-se na serra de Oriximiná, no vale do rio Trombetas, em Paragominas no Pará Paragominas, na Jamaica, Suriname e Trinidad & Tobago. A exploração de petróleo pela Petrobrás com companhias de petróleo da Índia, Grã-Bretanha e Estados Unidos, como a exploração de carvão pela MPX e t ermelétricas térmicas nos portos de Itaquí no Maranhão, Pecem no Ceará e no Chile como os processos de produção que envolve mineração, obtenção de energia elétrica, até o processo produti

no interior das fábricas, tem evidenciado impactos para as comunidades, trabalhado res e o meio-ambiente. Palavra chave: grandes projetos, degradação ambiental, i mpactos sociais, desigualdade 11 ----------------------- Page 12----------------------EIXOS TEMÁTICOS 01. ARTES VISUAIS LITERATURA E MÚSICA Coordenação: Leonardo Vidigal (UFMG) RELENDO CÂMARA CASCUDO Maria Antonieta Antonaci Em Made in África, de Câmara Cascudo, priorizamos sua pesquisa com tradições orais africanas no Brasil, que contestou a geopolítica eurocêntrica, isoladora e imobiliza dora das Áfricas, mas projetou, no patrimônio cultural nacional, ritmos, festas, gestos e danças de povos bantos. Construindo e privilegiando patrimônio lúdico, recreativo, apazigu ador em torno de Reis do Congo e conga as, iluminou memórias negras adequadas a patriarcal moderação do Império e à mítica de democracia racial da República, nciando artes, saberes e fazeres de outros povos e culturas da diáspora no Brasil. A REPRESENTAÇÃO DA PERSONAGEM FEMININA NOS CONTOS DE MARIETA TELLES. Clécia Santana dos Santos – UFG/Letras. Marieta Telles retrata o espaço urbano como cenário de seus cont os, na construção do imaginário feminino e das identidades sociais, sobre a cidade de Goiânia no seu começo de modernidade. Sobre a temática da solidão, do viver em espaços diferentes de nossas raíze s, a autora constrói os conflitos entre o antigo e o novo, o velho e o moderno. A sociabilização nas relações humanas são trazidas sobre uma ótica construída por arquétipos interioranos de moças ―ingênuas que vêm para a cidade grande e são ―corrompidas , ou que se isolam e se vêm devoradas pela frieza, e a insensibilidade de ruas e aparta mentos. Como símbolo de rompimento com o patriarcal revela conflitos entre permanecer no s ertão, ou mudar para a urbe. Suas personagens nutrem o desejo de as censão, crescimento profissional e intelectual, vislumbram esse crescimento econômico relacionado ao crescimento da cidade e das oportunidades de estar em outros espaços e lugares, lo nge do que é severo, e tolidor de seus destinos.

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Vale frisar que por meio de suas obras. Néle Azevedo (Instituto de Artes da UNESP) Zero Grau ntsc 4. e reivindicando. um olhar crítico em relação ao passado africano. REGISTROS. DESMONUMENTOS: ZERO GRAU E GLÓRIA ÀS LUTAS INGLÓRIAS. Centenas de esculturas em gelo são postas a derreter nos centros das grandes cidades (São Paulo. A partir da temática dos trânsitos de diversas ordens examina-se a atividade intelectual de Manu el Rui Monteiro empenhada com os movimentos de descolonização e de (re)construção de identidades. Desnecessário dizer que o próprio Sembène Ousmane tinha grande predileção pela estética do Cinema Novo. levando-se em cons ideração a ascendência afro de seus filmes. no caso de Glauber.Page 13----------------------DIÁLOGO DE IMAGENS E IMAGENS EM DIÁLOGOS: UM ESTUDO DOS PROJETOS ESTÉTICOS DE GLAUBER ROCHA E SEMBÈNE OUSMANE. buscando problematizar o caráter da sua escrita na co nstrução de novas categorias epistemológicas.UFBA Pesquisa na área de literatura comparada examina a produção discursiva e intelectual do escritor angolano Manuel Rui Monteiro e/em suas relações com os discursos sobre trânsi tos e trocas culturais de várias ordens envolvendo Angola. Paris. Um estudo desta natureza p ossibilita um maior alargamento de perspectivas acerca da obra de Glauber Rocha.44‘ são registros de diferentes intervenções no espaço urbano realizados em várias cidades de diversos paíse s. Mestrando – PUC/SP Orientadora: Maria Antonieta Antonacci A presente pesquisa tem por intuito analisar o projeto estético do cineasta baian o Glauber Rocha e do cineasta senegalês Sembène Ousmane.MANUEL RUI MONTEIRO. Portugal e Brasil. denuncia ndo. O Zero Grau mostra uma intervenção nômade que perambula pelo mundo. tendo os monumentos públicos como eixos de discussão e de reflexão. a má formação da nacionalidade brasileira. Victor Martins de Souza. 12 ----------------------.Porto .49‘ e Glória às lutas inglórias ntsc 4. Daí ser pertinente falarmos de diálogos. no ca so de Sembène. ambos os cineastas buscaram contestar o cinema moralista e contemporanizador de suas épocas. tendo em vista a lgumas produções cinematográficas destes realizadores. do qual Glauber fez parte. UM INTELECTUAL EM TRÂNSITO A FALAR DE TRÂNSITOS Bruno Emanuel Nascimento de Araújo. Braunschweig .

p. 15). em luta contra a morte. a noção de fronteira designa ―uma distância habitada. p. ao lado do obelisco vertical Glória eterna aos fundadores de São Paulo com mais de duzentos caixotes de frutas. Por isso mesmo. 2003. Ao final todos celebram e sabo reiam as frutas consumindo o antimonumento. antes de apontar para um passado imóvel. 2003. Stuart Ha ll e Homi Bhabha. em especial no que diz respeito ao retornoredescoberta do país natal. 24). No que concerne à escolha do corpus. A REPRESENTAÇÃO DA NAÇÃO E DA IDENTIDADE NACIONAL EM LIVROS INFANTIS DE EUGÉNIA NETO E ONDJAKI: registros Iconográficos do Reggae no Maranhão Carlos Benedito Rodrigues da Silva (UFMA) . pensada para um lugar específico e que acontece apenas uma vez. Do ponto de vista metodológico. Émile Ollivie r e Dany Laferrière – nomes da chamada literatura migrante quebequense – podem d ialogar com o escritor da Guadalupe Ernest Pépin. reconhece-se ―uma rede complic ada de relações interculturais com outros centros e outras periferias (PARÉ. são representados o desaparecimento e a epifania da diferença (PARÉ. Eles formam um g rande labirinto baseado em desenho dos povos guaranis. obras de autores oriundos do Caribe de língua francesa trazem uma efetiv a contribuição para se repensar a questão das migrações e das movências identitárias da contemporaneidade. longe de ser vi sta como uma demarcação física entre dois mundos opostos. No Páteo do Collegio em São Paulo artista e público constroem um antimonumento horizontal e abe rto denominado Glória às lutas inglórias. Florença e Berlim) numa espécie de refundação ritualística. François Paré.. uma abertura promissora para se reinventar a origem que. no âmbito da qual. na densidade das formas compós itas da 13 ----------------------. ESCREVER A DISTÂNCIA: REPRESENTAÇÕES DO EXÍLIO E DO RETORNO EM AUTORES CARIBENHOS DE LÍNGUA FRANCESA Maria Bernadette Velloso Porto Construídas em torno da consciência diaspórica e do imaginário da it inerância. Glória às lutas inglórias é a uma a específica. servirão de ponto de partida para as reflexões a serem desenvolvidas textos de Édouard Glissant. No caso de escritores caribenhos inseridos no Quebec. nascidos no Haiti. Patrick Chamoiseau. sugere as possibilidades do devir.Page 14----------------------cultura.

rock steady. ska. Most scholars have neatly p laced the music in the convenient categories of mento. ma peamos esses locais e registramos as suas imagens visuais (fachadas e interiores). pa ra identificar e analisar elementos da iconografia do reggae. do Leão de Judá e as cores da Unidade Africana. been erroneously classified as reggae and there is confu sion as to what is reggae. conhecida como a J amaica brasileira. reggae a nd dancehall. no campo da Antropologia.Page 15----------------------- . rock steady and dancehall. TAKE IT ON THE ONE DROP: GENRE DEVELOPMENT IN JAMAICAN POPULAR MUSIC Dennis Howard This paper traces the development of several popular music genres. 14 ----------------------. Nossa perspectiva é analisar as representações dessa iconografia para os adeptos do reggae jamaicano nessas regiões. It is my contention that such a classification is incomplete and perpetuat es misinformation and downplays both the dynamic creativity of Jamaican musicians operat ing within complex multiple synergetic production models. Na presente pesquisa. bares e. c asas de espetáculos onde se ouve esse ritmo. a exemplo da figura feminina. tendo em vista que. Como resultados preliminares. a culturas caribenhas passar por ressignificações. as well as their phenomenal contribution to global popular music. apontamos repe tições. As cidades de Salvador e Fortaleza também apresentam esses locais. abriga o maior número de locais . I will argue that while genre classification is a vey proble matic process. como a figura de Bob Marley. em suas viagens através do Atlântico. s endo interpretadas conforme as especificidades das regiões onde essas expressões culturai s são reproduzidas. e ausênci as. sobretudo nas regiões Sudeste e Nordeste.Desde os anos 1970 a música reggae é escutada no Brasil. Neste último caso a cidade de São Luís.salões. in many instances. eventualmente. popular music production in Kingston has been through more genres and sub genres than is highl ighted in academic circles and that there have been additional unrecognized genre shifts since the establishment of dancehall. Howeve r all Jamaican music has. which hav e been the hallmarks of music production in Kingston since the 1960s.

modernidade/ pós-modernidade. assim. A obra do autor permite o enfoque de questões como a discus são dos conceitos de identidade e cultura como atos políticos e co mo artefatos de uma boa educação. 2000. em outras palav ras. a afirmação do processo de consciência negra e a recuperação do . os cubanos exilados e os cuba no-americanos procuram definir e reconstruir sua identidade. Pretendo. migrantes.MEMÓRIA E IDENTIDADE: NO ROMANCE DE CRISTINA GARCIA SONHAR EM CUBANO. Por outra. observamos hoje uma literatura produzida n o exílio que questiona a fixação dessa identidade e a subverte. Por uma parte. pois que. A questão relativa ao estudo das identidades mostra q ue elas são criações sociais e culturais (Silva. diáspora. Derek Walcott. 76). Palavras-chave: identidade. literatura. Sobretudo. etnia. Essa literatura trabalha com a idéia de movimen to. globalização e pós-colonial ismo. em Cuba. uma identidade desterritorializada). as reflexões em torno dos temas como identidade e cultura n acional. nos Estados Unidos. A definição da identidade cubana fez-se frente ao outro que era o colon izador/ estrangeiro. se por uma parte existe uma literatura que in vestiu na formulação de uma identidade cubana com o intuito de construir meca nismos de coesão social por outra. observamos. a partir dos anos de 1990 cresce o inter esse por explorar os debates sobre a identidade cubana produzida tanto dentro como fo ra do país. Desde finais do século XX a temática central dos estudos culturais tem sido responder a como as identidades cu lturais se constituem. viagem como recursos que aludem à própria instabili dade da identidade (considerada não mais fixada ao território. Isabel Ibarra Cabrera As diferentes oleadas migratórias de cubanos após o triunfo da r evolução de 1959 aos Estados Unidos da América trouxeram interessantes debates sobre a questão da identid ade nas duas ―orillas . buscar essas construções id entitárias no primeiro romance de Cristina Garcia ―Soñar en cubano . OMEROS: VOZES DE IDENTIDADE E CULTURA EM DEREK WALCOTT Lílian Cavalcanti Fernandes Vieira O objetivo deste trabalho é fazer uma análise da temática identidade e cultura de matriz africana através da obra OMEROS do autor afrocaribenho e Prêmio Nobe l de Literatura (1992). a partir do estudo das permanências e mutações da identidade transculturada e também se buscam novas formas de transmitir ―lo cubano na s condições impostas ao imigrante. Dessa forma. gênero. raça. p.

Neste sentido. São narrativas povoadas de solidão. que a maioria deles não pudera exercer em Cuba. pela narrativa de suas experiências vividas na ilha. so frimento maior que assinala muitos exilados políticos. reflete-o e promove sua redefinição. servindo de aporte às diversidades culturai s. Nas narrativas dos escritores do Mariel uma questão me havia intrigado: onde começam e onde terminam as relações entre ficção e realidade? Muitas vezes. embora só tenha surgido no exílio enquanto Geração Mariel. E aqui cabe uma outra dúvida: até onde esse processo de construção da identidade Mariel é afetado pela crise da modernidade.escravizado como sujeito de uma história social através da literatura pós-colonial. tanto em Cuba como em Miam i. muitos de seus futuros representantes puderam se encontrar e/ou reencontrar e passaram assim a lutar. O conhecimento e o estudo dessa literatura identitária pode contribuir tanto para a formação de educadores como abrir caminhos para as áreas de filosofia da educação brasileira pelo aprofundame nto na cultura de base africana na diáspora. Nos Estados Unidos da América. Sendo assim. a partir de narrativas semelhantes. por outras mais restritas.Page 16----------------------ilha. o grupo estava conectado aind a na 15 ----------------------. como a nacional. os sujeitos narrados revelam . em Obra aberta. sobretudo. d e suas memórias e de suas histórias de vida. Umberto Eco. A forma encontrada pela Geração Mariel para tra var a luta pelas suas histórias de vida foi a atividade literária. como observou Pollak. IDENTIDADE E EXILIO: OS ESCRITORES DO MARIEL Rickley Leandro Marques A Geração do Mariel é vista neste trabalho como uma comunidade simbólic a sustentada por experiências e expectativas comuns. acredito que o grupo de escritores contemplados neste trabalho pretendeu realizar uma redefinição do Mariel e dos acontecimentos vivenciados por essa geração. ou seja. literatura pós-colonial. educação. como as de grupos e tribos? Outro traço da literatura do Mariel aqui apresentada é c omo. nas obras analisadas. as obras e os artigos publicados na revista constituem-se como ―testemunhos dos escritores n uma busca incansável de sua identidade. extraídas de ―suas memórias subterrâneas – que. ou pós-modernidade. identidade. LITERATURA. que vem deslocando ident idades antes consideradas seguras e aglutinadoras. afirma que a arte nasce de um contexto histórico. Palavras-chave: cultura. aguardam um ensejo para poderem emergir –.

Ileana Piñera (2000. A contribuiçao propõe uma análise contrastiva de conceit os fundamentais identitários e literários no Brasil e no Caribe: Serão apresentados e comparados os termos seguintes: mestiçagem/métissage. Em um segu ndo momento. fez emergirem narrativas. numa conexão entre testemunho e ficção. exilio. talvez possamos encontrar anti-heróis. poemas. que procuram dar conta do lugar que ele ocupa(ria) na experiência histórica caribenha e internacional. crioulidade/créolité e hibridismo. etc. A crise de orientação provocada por esse event o. identidade CONCEITOS FUNDAMENTAIS IDENTITÁRIOS E LITERÁRIOS NO BRASIL E NO CARIBE Claudius Armbruster (Universität zu Köln) Albertus-Magnus-Platz. o autor insere a revolução na história contemporânea caribenha. configurando experiências/identidades relaci onais que se manifestam na anti-pureza demarcando novas estéticas para a música do Atlântico Negro. ensaios.Page 17----------------------Existem ainda poucas pesquisas sobre a relação entre Revolução cubana e a narrativa. transculturação. E ste trabalho procura examinar uma dessas narrativas. bem como o lugar que ela ocupa(ria) no futuro do Caribe e do mundo. o romances autobiográfico La consagracíon de la primavera do escritor cubano Alejo Carpentier. O foco do texto se divide em dua s partes: identificar como.seu desenraizamento e desconsolo. historiografia e ensaística caribenha. Palavras-chave: literatura. Neste sentido. 75) destaca que na literatura dest a migração ―não existem heróis. espaços artísticos e em campos melódicos e rítmicos permitem refletir sobre esses intercruzamentos que sugerem situações de transculturalidade. Essas musicalidades pensada s na perspectiva de uma História policentrada onde informações cruzam-se formando redes complexas e descontínuas de sonoridade. miscigenação. . EVOLUÇÃO COMO APOTEOSE: NARRATIVA E TESTEMUNHO EM ALEJO CARPENTIER Dernival Venâncio Ramos (UFT) 16 ----------------------. seres comu ns e cotidianos desprendidos de todo enaltecimento literário que pudesse deformá-los . comparam-se estes aos conceitos afro-centricos ―negritude e ―quilombis mo .

. (. banquete de bacana era farinhada . mantendo a cabeça coberta com chapéu. mistura de negro e índio é Genésio Tocantins que ouvia os cantos do Divino e juntamente com Juraíldes da Cruz inventou a música “Nóis é Jeca mais é jóia que traduz nos versos a seguir a cultura híbrida da região norte: ―Andam falando que nóis é caipira. dança popular no século XV III em algumas cidades tocantinas. dissimuladamente os recriavam. numa forma de protesto pelo sentimento de dor e saudade da terra distante. A dança da congada é uma das principais manifestações culturais. em primeiro lugar. na s cidades tocantinas de Taipas. a mão-de-obra escrava foi introduzida na Chapada dos Neg ros. Outro expoente da música tocantina. Espera-se que o ouvinte ouça a fusão. apesar do sofrimento e dos maltratos. encontravam forças para venerar seus deuses com danças e rituais religiosos como a Umbanda e o Candomblé. e. superstições e danças são consideradas a alma da cultura tocantinense e traçam o perfil cultural da região. alegres e cheias de d . Os negros viviam nas senz alas. Que nossa flauta é feita de taboca. Só se p odem fazer híbridos se tem estrutura. Como não podiam mant er seus próprios cultos. O rei e a rainha escolhidos entre a comunidade local.As manifestações culturais co mo festas. a jiquitaia e a catira. perderá grande parte do prazer estético e alguns significados plausíveis oferecidos pela peça musical. à noite. mandioca importada. O hibridi smo implica necessariamente.MÚSICAS E DANÇAS AFRO-BRASILEIRAS NO TOCANTINS: HIBRIDISMO SUL-AMERICANO Jocyleia Santana dos Santos (UFT) Trazendo consigo as tradições do candomblé. integrando rito s e símbolos católicos. São festas coloridas. cantando: ―quem é aquela senhora que está na sua charola? É a Senhora do Rosário que veio para a glória” . nas minas de ouro que deram origem ao município de Arraias. os negros que vieram p ara o norte goiano ajudaram a formar a cultura musical tocantina. Monte do Carmo e Tocantínia. a sússia. na existência de uma estrutura. comemorada no mês de julho. Das variantes entre as tradições eur opéias ou africanas se destacam a congada. No antigo norte de Goiás . a festa de Nossa Senhora do Rosário. que nóis tem cara de milho de pipoca. Dançavam no interior da Igreja. atual Tocantins.Exemplo maior. que nosso rock é dançar catira.) Se f arinha fosse americana. Se o ouvinte não tiver conhecimento das estruturas que são fundidas. crenças.. são o a lvo das atrações. em 1736. Os cultos de c andomblé e xangô misturados às tradições religiosas da Europa solidificaram a expressão musical híbrida do continente sul-americano. A festa é acompanhada de congos e taeiras que saem pelas ruas cantando e dançando ao som de tambores e mar acá.

a religio sidade e a história do povo tocantino: nem preto. os pés. dança com movimentos frenéticos. É o único gênero musical em que a presença da mulher como instrumentista é prevista. As comunidades negras remanescentes dos quilombos tentam preservar as tradições cultura is. do canto. nos q uais se batem as mãos. dança-se a jiquitaia. de William Shakespeare (1564-1616). da jiquitaia. é o maior demons trativo da antiga 17 ----------------------. da catira. obra coletiv a organizada por Zilá Bernd. dançam e até simulam batalhas medievais. brasileiro.Page 18----------------------complementaridade entre os sexos.evoção. da forma com o é descrita pelas mulheres mais velhas. O homem bate a caixa e a mulher bate a buraca e ambos dançavam a sussa até recentemente. seja amiúde enquadrada como uma paródia de Th e tempest (1611). do poeta martinicano Aimé Césaire (1913-2008). Quando se t oca a sússia. contorcendo o corpo de forma sensual ao som de tambores e pandeiros. . E sta dança lembra a presença incômoda das formigas nas senzalas na busca de alimentos. É o realismo do interior nas comunidades afrobrasileiras que através da dança. principalmente a comunidade situada em Mimoso. publicad o na obra Dicionário de Figuras e Mitos Literários das Américas (2007). dos congos. Ainda que a peça Une tempête (1969). das taieiras e dos tambores da senzala. mostram a beleza. do ponto de vista da apropriação do personagem Ariel. cantam.A dança da sussa. exaltam a força. município de Arraia s (TO). Tanto os homens como as mulheres cantam a sussa. Algumas músicas são mais cantadas por mulheres e outras mais cantadas por homens. o que se vê é que algumas são preferidas por um sexo e preteridas por outro. cabe salientar que o obj etivo do presente estudo é examinar a peça de Aimé Césaire. mas há um repertório mais mas culino e outro mais feminino. O DOUTOR PANGLOSS NÃO ERA TÃO TOLO QUANTO VOLTAIRE O SUPUNHA Alcione Corrêa Alves (UFPI) O presente estudo propõe a releitura e discussão do verbete ―Ariel . Seus participantes rezam. bater a buraca é uma tarefa feminina. nem branco apenas híbrido. combatem o racismo. A forte presença da cultura africana no Tocantins tem uma autêntica mostra nas representações culturais com os foliões da sússia. A união da sússia com o tambor mostra o ritual que conta com cantos e danças lembrando a coroação dos reis congos. embora não creio que existam sussas excludentes.

Escavando e desenterrando vestígi os da presença de brancos. em três passagens: Ato 1. e Ato 3. uma servilidade e um conformismo do escravo a seu senhor. conforme as obras Le disco urs antillais (1981) e Introduction à une poétique du Divers (1995). Ato 2. embora a relação entre Ariel e Prospero sugira. 18 ----------------------. como um modo eficaz de Détour capaz de fundamentar a resistência do escravo ao jugo que lhe é imposto. com vistas a compreender as estratégias de obtenção de liberdade do escravo Ariel. propõe-se um recenseamento de algumas apropriações de Ariel na literatura francesa (em textos de Victor Hugo e Ernest Renan) e na literatura americana (em textos do uruguaio Enrique Ro dó. Em sua obra Écrire en Pays Dominé.Para tanto. africanos e imigrantes indianos. do cubano Francisco Retamar e do brasileiro Darcy Ribeiro). Cena 5 (Ariel libertado por Prospero) . ameríndios. literaturas de língua francesa na América. neste estudo. com vistas a subsidiar a leitura de algumas das modificações e re-significações do personagem Ariel. concebidas no texto de Aimé Césaire e operadas. levada a termo por Ariel e interpretada. DE PATRICK CHAMOISEAU Luciana Ambrósio Este trabalho pretende examinar como o escritor martinicano Patrick Chamoiseau empreende a releitura de uma memória dominada pelos valores ocidentais franceses e leva a cabo a escrita de um imaginário que escape à alienação engendrada por séculos de assimilação política e cultural. . d A RELEITURA DA MEMÓRIA E A ESCRITA DO IMAGINÁRIO EM ÉCRIRE EN PAYS DOMINÉ. inicialmente. do ensaísta martinicano Édouard Glissant. Chamoiseau se lança pelos caminhos da palavra literária a fim de buscar uma explic ação de si e de sua terra natal. Cena 2 (primeira discussão entre Ariel e Prospero). Cena 1 (discussão de Ariel e Caliban ace rca de seus métodos de obtenção de liberdade). Como procedimento de análise . apropriação. é possível constatar em Une tempête uma estratégia definida de obtenção e liberdade. o trabalho ora proposto parte da definição de Détour (D esvio). Os resultados parciais deste estudo permitem sustentar que. Détour. Num processo dialógico.Page 19----------------------Palavras-chave: colonialismo. sobretudo. chineses e sírio-lib aneses. ele mergulha no magma antropológico dos povos que ali se encontraram e se reinventa sob o olhar do Outro.

vídeos e obras artísticas. Inhambupe. mas sobretudo os elementos internos constitutivos do próprio filme. Catu. O enfoque que se dará por ora é analisar como se apresentam as narrativas de uma comunidade de tradição predominantemente oral qu . Leitura. 3) refletir sobre o papel da capoeira (e seu vínculo com os orixás) como instrumento de resistência cultural. As diferentes formas de representação do universo cultural afro continuam desempenha ndo um papel fundamental tanto para a reflexão sobre as práticas de significação quanto para a compreensão de como esses discursos repercutem no entendimento sobre as culturas negras. Pretendes-se analisar as narrativas do Acervo de Memória e Tradições Orais da Bahia (AMTRO) que abrange os municípios de Alagoinhas. Irará e Camaçari. estéticas e míticas sobre Exu na cons trução fílmica em questão. Crioulização. com o objetivo de 1) identificar o modo como se articulam as experiências simbólicas. O acervo é composto de textos orais e impressos. Mata de São João.ele vai reelaborar a memória discursiva de cada um desses povos de modo a dar voz ao ―eucrioulo e restituir o que a História neutralizou. TRADIÇÃO ORAL E COMUNIDADE NARRATIVA Edil Silva Costa (NUTOPIA/UNEB) Esta pesquisa está vinculada ao Núcleo das Tradições Orais e do Patrimônio Imaterial das Matrizes Afro-indígenas (NUTOPIA). que agrega pesquisadores do Campus I e do Campu s 19 ----------------------. 2) observar os elementos que aproximam e/ou distanciam essa construção das narrativas míticas sobre Exu descritas por Reginaldo Prandi no livro Mitologia do Orixás. Memória A REPRESENTAÇÃO DE EXU NO FILME BESOURO: APROXIMAÇÕES E RUPTURAS COM AS NARRATIVAS MÍTICAS SOBRE O ORIXÁ MENSAGEIRO Karliane Macedo Nunes. busco compreender as estratégias utilizadas para a construção do personagem de Exu. quando as práticas da capoeira e do candomblé ainda eram p roibidas. Pojuca. ESCRITA. O presente artigo busca realizar uma análise do filme Besouro (2009). o orixá mensageiro nas religiões afro-brasileiras. registro da cultura popular do entorno do Campus II. Palavras-chave: Escrita.Page 20----------------------II da Universidade do Estado da Bahia. Teodoro Sampaio. Através de uma perspectiva multidisciplinar de análise. fotos. diri gido por João Daniel Tikhomiroff e que trata da repressão que sofriam os negros na Bahia da déc ada de 20. que destaca elem entos históricos e antropológicos.

Este trabalho analisa o papel dos colecionad ores e DJs em São Luis junto com a evolução do modo de adquirir discos. ressalto que em São Luis (e em outras cidades da r egião como Belém) eles formaram uma ligação improvável entre o povo brasileiro e a produção cultural do Caribe. Uma tradição oral mestiça e complexa.e se utiliza também de registros escritos para a manutenção de sua memóri a. sobretudo após o as resoluções do Primeiro Congresso Nacional de Educação e Cultura. a era da produção sonora de reggae no Maranhão também levam a fazer comparações com a história econômica do Caribe. A homossexualidade de Piñera e os aspectos polêmicos de suas peças de teatro fizeram com que o escritor fosse marginalizado na ilha. transmitindo e conservando assim suas crenças e valores. merengue. e depois os próprios discos passaram a ser utilizados para resistir o poder dos grandes radioleiros. tão complexa quanto a tessitura do texto dos relatos. O desafio é. qua nto o consumo de discos foi importante para a economia e cultura de São Luis do Maranhão . Sugiro que discos em vinil foram destaques no crescimento de algumas radiolas (soundsystem s) no Maranhão. Essas narrativas são testemunhos e histórias de vida. Brasil. „SÓ VINIL‟: A HISTÓRIA SOCIAL DE SÃO LUIS CONTADA POR DISCOS CARIBENHOS Kavin Dayanandan Paulraj (Universidade de Pittsburgh . e a historia das viagens entre Jama ica. Nos anos 60 e 70. cumbia e reggae entre outros. “A TRAJETÓRIA E OBRA DO ESCRITOR VIRGILIO PIÑERA: HOMOSSEXUALIDADE E POLÍTICA CULTURAL DA REVOLUÇÃO CUBANA NOS ANOS SESSENTA E SETENTA . mas também textos representativos da literatura oral do gr upo. A era dos discos importados e em seguida. Este trabalho também oferece novas respostas à questão ‗porque reggae é tão popular em São Luis?‘ com um estudo sobre as capas de discos jamaicanos e como foram recebidas pela juventude maranhense. cujo estu do nos revela muito dos modos de vida desse grupo social. principalmente a da Jamaica. portanto. desenrol ar esse emaranhado de fios e tecer novas narrativas. Inglaterra e Maranhão que transformaram a cultura maranhense. Sílvia Cezar Miskulin (USP) A comunicação pretende abordar a vida e a obra literária de Virgilio Piñera. Embora esses discos fizessem sucesso no país inteiro.EUA) A produção de discos tem sido tão importante para a economia e cultura da Jamaica. gravadoras nacionais reproduziram vário s discos caribenhos contendo os ritmos calypso. ao destacar sua intensa participação no meio cultural cubano após o triunfo da Revolução e sua produção nos anos sessenta e setenta. em 1971 e o .

Nesse início do século XXI.Page 21----------------------02. A força dessa mobilização política conquistou a institucionalização da participação política na Constituição de 1988 de modo que a década de 1990 é marcada por um lado pela construção de vários espaços de participação vinculados às políticas públicas e por outro pela hegemonia da ideologia neoliberal e seu respectivo combate a participação política. Procura elucidar a questão da luta por direitos. verificamos a revitalização política de alguns movimentos sociais. Ilse Gomes Silva – UFMA O trabalho apresenta os desafios dos movimentos sociais no Bra sil diante da ofensiva neoliberal de criminalizar a participação política dos movimentos sociais que denuncia m o autoritarismo do Estado e a precarização das condições de vida e trabalho. cada vez mais difícil de ser conquistada e ampliada na atual fase de transnacionalização do cap italismo.endurecimento da política cultural oficial nos anos setenta. Joana A. que desafiam o neoautoritarismo e exercem o seu di reito de participação política para além dos espaços institucionalizados. Coutinho (UFMA) Este texto trata da relação dos movimentos sociais e a luta pela ―cidadani a na América Latina. a partir da década de 1980 os movimentos sociais colocaram na age nda política a defesa de democratização. MOVIMENTOS SOCIAIS E LUTA PELA CIDADANIA NA AMERICA LATINA. 20 ----------------------. Considero que a participação política é uma condição essencial para o exercício da democracia. às suas mobilizações. Vincularam a democratização às reformas sociais de base e a construção de espaços de participação popular com vista ao controle das políticas públicas e ao combate ao autoritarismo. Ao mesmo tempo em que movimentos sociais anti-sistêmicos e/ou anti-imperialistas reivindica m não apenas a garantia de direitos ―conquistados . No Brasil. DIREITOS HUMANOS E NOVAS CONCEPÇÕES DE CIDADANIA Coordenação: Ilse Gomes Silva (UFMA) e Joana Coutinho (UFMA) A AMEAÇA AO DIREITO DE PARTICIPAÇÃO POLÍTICA E A CRIMINALIZAÇÃO DOS MOVIMENTOS SOCIAIS NO BRASIL. como sua ampliação e. indicam que o direito fundamental de liberdade de expressão e organização encontra-se seriamente ameaçado o que exige dos intelectuais e dos militantes não ap enas a reflexão teórica mas essencialmente a denúncia à ameaça desse direito tão duramente conquistado pelo movimento dos trabalhadores. especialmente os Trabalhadores Ru rais Sem Terra. e na América Latina. em larga. A reação do Estad o. medida .

convivendo ainda com as velhas formas do es tado burguês? DISCURSOS RACIAIS E AÇÕES AFIRMATIVAS: O PROCESSO DE IMPLEMENTAÇÃO DA POLÍTICA DE COTAS RACIAIS NA UNIVERSIDADE ESTADUAL DE GOIÁS José Fábio da Silva. É necessário. portanto. além disso. no entanto. Assim com o outras instituições.639/03 E A POSSIBILIDADE DE SUPERAÇÃO DO RACISMO Aline Batista de Paula (UFF) O racismo no Brasil é estrutural e institucionalizado.UEG.Page 22----------------------Este trabalho tem por objetivo discutir esses temas e apresentar o s resultados obtidos no projeto: Avaliação das políticas de cotas raciais na Universidade Es tadual de Goiás. não é suficiente para combater efetivamente o rac ismo impregnado na sociedade. A atual Política de Educação está constituída de forma a manter as desigualdades raciais e a universidad é apenas o pas na estrutu ele . a escola também produz e reproduz práticas preconceituosas. 21 ----------------------. O projeto ter em vista verificar o ingresso de cotistas raciais na universidade e as medidas tomadas pela instituição garantir a permanência dos mesmos. Neste sentido. como um país de relações raciais harmônicas. trabalhar na desconstrução do discurso produzido no decorrer do século passado que coloca o Brasil como um paraíso racial. QUESTÃO RACIAL NO ESPAÇO ESCOLAR: 10. como na Bolívia. inserindo o negro em locais que historicamente não tem garantido seu espaço. É preciso mexer ra da sociedade. Colocar o estudante na e não resolve a discriminação e a exclusão sofrida pelo negro. discriminatórias e racistas. No tocante as desigualdades raciais a mera adoção de ações afirmativas . o ingresso na universidade so inicial empreendido pelo estudante seja ele negro ou não.novas formas de organização societal questionando. Ações afirmativas são medidas de caráter temporário tomadas com o objetivo de diminuir desigualdades socia is provocadas pela discriminação e marginalização de determinados grupos no decorrer do processo histórico. as bases nacionais na q ual se fundamenta a garantia da cidadania. cabe falar em cidadania globa l? Pode se pensar em múltiplas identidades num mesmo território como querem os defensores de um estado plurinacional.

Caracterizada enquanto política de ação valorativa. além das teorias mencionadas. 22 ----------------------. averiguar nos currícul os dos cursos ministrados por esta unidade.preservação do preconceito. a presença dos conteúdos so bre a Educação das Relações Étnico-Raciais. O pre sente artigo apresenta os resultados de uma pesquisa desenvolvida na Faculdade de Educ ação da Universidade Federal Fluminense. 1 ). que institui o ensino obrigatório de Históri a e cultura Negra no Ensino Básico. a qual teve como objetivo. SOBRE AS HIDRAS DO NORTE: rotas de transgressão desde o Ceará aos portais da Amazônia (1877-1889) Edson Holanda Lima Barboza (PUC/SP) Orientadora: Maria Antonieta Antonacci A . que propõem uma educação que considere não somente aspectos universais. A lei 10639/13. 1/200 4. (CNE Resolução n . traz para essa arena de disput as elementos que podem permitir a construção de novos sujeitos coletivos.Page 23----------------------A CIDADANIA NO BRASIL Maria Izabel Barboza de Morais Oliveira (UFMA) O presente trabalho tem como objetivo acompanhar a trajetória da cidadania no Brasil desde o período colonial a 2000. o que possibilitaria o resgate uma cidadania negada. art. a educação enfrenta novos desafios propostos pelas recentes teori as pedagógicas e de currículo. O parágrafo 1  do mesmo artigo torna mais evidente a responsabilidade das instituições de Ensino Superior de incluírem o tema citado em todos os cursos que ministram. A QUESTÃO RACIAL NOS CURRÍCULOS DOS CURSOS MINISTRADOS PELA FACULDADE DE EDUCAÇÃO DA UNIVERSIDADE FEDERAL FLUMINENSE Iolanda de Oliveira (UFF) partir da segunda metade do século XX e nesta primeira década do século XXI. têm-se a legislação que particulariza a questão negr a em educação e determina a incorporação do Ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e Africana nos níveis e modalidades de ensino. mas também a questão da diversidade humana e seus efeitos na promoção da igua ldade. a referida lei tenta resignificar a inserção do negro na sociedade brasi leira. No Brasil. Analisaremos as conquistas e as manifest ações de cidadania da população brasileira. políticos e sociais eram tratados pelos setores dominantes. Demonstraremos como os direitos civis.

A rigor. Palavras-Chave: Políticas Sociais. práticas municipalistas anacrônicas situam-se como o principal entrave às ações afirmativas dos direitos consagrados desde a Constituição Federal de 1988 à realização de uma sociedade multirracial e pluriétnica. 23 ----------------------. Brasil). 3) região do brejo (Alagoa Grande) e. Trabalhamos com documentos que abordam ações experimentadas cotidianamente na resistência aos diversos meios de construção do Estad o Nacional: recrutamentos. de uma maneira ou de outra. fechamento de terras e regulamentos de trabalho. ambas litorâneas na concepção do Atlântico Negro. MUNICIPALISMO E AÇÕES AFIRMATIVAS: PRÁTICAS E LIMITES DA GESTÃO MUNICIPAL (NORDESTE/BRASIL) Elio Chaves Flores (PPGH/UFPB) Joana D‘Arc Souza Cavalcanti (IESP/ PPGSS/UFPE) O presente trabalho discute a gestão municipal no âmbito das políticas públicas voltadas à população negra nos campos das políticas sociais (estruturadoras e compensatórias). 2) região metropolita na (Conde). se detém em analisar dados de quatro municípios: João Pessoa. Também porque a a nálise cobre quatro escalas municipais que exemplificam. a estrut ura dos municípios brasileiros: 1) capital (João Pessoa). A escolha de sses municípios diz respeito ao fato de que neles existem comunidades quilombolas reconhecidas ou em processo de reconhecimento pela Fundação Palmares. Par a isso.Buscamos rastrear trajetos de migrantes cearenses em fins do Sec. a travessia de rios. vales e mares rumo ao Norte. Direitos Huma nos e História Negra. 4) micro município (Riachão de Bacamarte). gerando solidaried ades e conflitos que se chocavam com formas hegemônicas de impor padrões raciais e identitários. XIX em circuit os de rios. As condições que homens e mulheres mestiç@s desde o Ceará enfrentavam foram repletas de opressões. Ações Afirmativas. quando proprietários limitavam o acesso às áreas férteis nas ribeiras e projetavam explo rar o trabalho em direção às novas relações de lucro capitalista.Page 24----------------------MÉXICO: ETNICIDADE E MOBILIZAÇÃO POLÍTICA COM DESDOBRAMENTO . florestas e cidades na Amazônia representava negação às posições de domínio e afirmava esferas diversificadas de ser e estar no mundo. Assim. Parte-se da hipótese de que as práticas municipalistas de gestão não estão considerando os avanços constitucionais da população negra e dos direitos quilombolas. Alagoa Gran de e Riachão do Bacamarte (Estado da Paraíba. Conde.

está na universalização do acesso ao ensino público. Cristiane Maria Ribeiro (UFG) O argumento principal do trabalho é de que as minorias tem sido sistematicamente maltratadas no interior do sistema escolar brasileiro. um nível de formação educacional mais elevado do que os últimos. a partir disto procura as relações entre direitos humanos e diversidade. que soubessem ler e escrever. pode-se observar claramente o hiato existente entre os níveis educacionais apres entados por brancos e negros. como seca. para escapar do pagamento dessas somas. DESIGUALDADE RACIAL E (IN)SUCESSO ESCOLAR Ana Cecília Rodrigues dos Santos Godoi (CFCH – UFPE) Carlos Augusto Sant‘Anna Guimarães (NEAB – Fundaj) Tendo em vista a estruturação do atual quadro educacional brasilei ro. em cadeia constante. revoltados com taxas e impostos. tendo sido formada. juntamente com fatores climáticos. Fato que o de que tal plano torna o quadro ainda mais questionável é . O quadro torna-se questionáv el ao levarmos em consideração o fato de que um dos pontos de pauta de relevân cia significativa no planejamento nacional. que destruíram fazendas e engenhos açucareiros. Essa perspectiva. incl usive. desde meados da década 1950. os índios organ izaram milícias. uma Igreja indígena. traz algumas possibilidades de práticas pedagógicas formas organização e gestão da escola que contribua m para que se estabeleça na interior destas uma educação que contemple a diversidade racial brasilei ra. EDUCAÇÃO E DIREITOS HUMANOS. mostrando a importância de stes em considerar as perspectivas de gênero/raça/etnia em suas concepções. Essa tendência organizativa surgiu no México e posteriormen te o modelo foi adotado em todos os países com população indígena em toda a América. dando início a um discurso centrado na identidade étnica. Já no período colonial. enfatizando como naquela região a mobilização indígena não é questão rece te. foram escolhidos fiscais índios. ampliaram o ciclo de pobreza e violência que levou à organização indígena nos anos de 1970. para serem ordenados ao novo sacerdócio. Tendo esses primeiros. NEGROS. Os povos autóctones também fugiam de seus povoados.CONTINENTAL LIBERTAD Borges Bittencourt Essa comunicação pretende refletir sobre a questão étnica no E stado de Chiapas.

Page 26----------------------03. entretanto.nacional vem tendo êxito. Um pouco adiante. as desigualdades no nível de instrução escolar ent re os dois grupos raciais citados anteriormente permanece estável. Palavras–chave: sistema educacional. um espaço medieval. Além disso. que enxergavam o nordestino em contraposição à considerada modernização ariana do sul. ridículas. e como a relação existent e entre os códigos escolares e a origem social dos indivíduos agem em prol da manutenção dessas desigualdades. GÊNERO SEXUALIDADE E GERAÇÃO Coordenação: Maria Lúcia Gato Lucia (Grupo de Mulheres Negras Mãe Andresa) e Izidoro Cru z Neto (UFMA/Núcleo de Capacitação e Estudos do Processo de Envelhecimento) DEUSES E DIABOS EM TERRAS DE FURTADO Carla Nascimento (UFAM) O Brasil já foi visto como um país de tropicalidade e de natureza exótica. onde se encontrava toda sorte de bizarrices. recorrendo também a autores cujos esforços teóricos se direcionam para o entendimento das causas das desigualdades exis tentes no Brasil . Esta pe squisa teve como objetivo buscar. já nas primeiras décadas do século XX. coisas pitorescas. desempenho escolar 25 ----------------------. compreender de que forma a origem social do indivíduo atua no direcionamento de sua trajetória escolar. pret endeuse compreender . Como ressalta Al buquerque Junior. a mesma posição de inferioridade nordestina tomava contornos menos . 1996. raça. em que Nord este remetia a um retrato do naturalismo realista.Page 25----------------------motivos pelos quais ainda hoje as desigualdades de desempenho entre os grupos raciais perduram no sistema educacional do país.os 24 ----------------------. à luz da teoria de Pierre Bourdieu. sendo o nordestino ―o próprio exemplo de degeneração física e intelectual .44). influenciada pelo movimento mode rnista. a visão depreciativa do nordestino esteve presente na literatura de intelectuais com o Oliveira Viana.reportando a teorização bourdieusiana sobre educação ao quadro das desigualdades sociais brasileiro. desigualdade. p. uma mistura de sangues bárbaros devido ao clima muito q uente e à raça inferior (ALBUQUERQUE JUNIOR. esquisitas.

e o filme Deus e o Diabo na Terra do Sol. intitulado ―Operação Nordeste . Nesta . fortemente amparada em um disc urso de vitimização daquele território. tendo sido legitimada enquanto uma questão hegemônica. no Governo de Juscelino Kubitschek. centrado na burguesia industrial nacional e na atividade produtiva do Estado. portanto. na sequência. Este trabalho se inscreve num campo reflexivo de problematização d a construção do Brasil enquanto Nação. Nossa questão central. em nome da ―segurança nacional . para o ―Nordeste industrial-planificado-integrado . Desta forma.naturalistas e mais sóciohistóricos. dirigido em 1963 por Glauber Rocha . Busca-se investigar o processo de rupturas que levou a constituição de uma Questão Regional Nordeste enquanto questão de caráter nacional – processo aqui configurado enquanto Questão Identitária Territ orial Nordeste (QITN). econômicas e estético-culturais. entre eles os que perpassam a questão da terra e das relações de trabalho no campo. m as especialmente o vínculo necessário e indissociável entre esses dois domínios. a SUDENE. O Re latório do GTDN. Foram tempos devotados à transformação do ―Nordeste arcaico . filha da era nacionalista-industrial. A Questão Regional Nordeste será aqui abordada enquanto resultado de um processo de construção e disputa de imagens Nordeste. 1959) . e foi imbuído do espírito desenvol vimentista da época. reca i sobre as imagens de Nordeste/nordestino construídas a partir de dois discursos da época – o discurso estat al do relatório do GTDN (Grupo de Trabalho para o Desenvolvimento do Nordeste. Nação e Nordeste invadiram relatórios estatais de políticas públicas e salas de cinema. uma imagem sobre Nordeste prima/irmã das anteriores. vítima da desigualdade inter-regio nal. A década de 50 afirmou. compreendendo desenvolvimento como crescimento econômi co. nos anos 50 e 60. foi elaborado em 1959. e que teve como questão central o que então se compreendia por região Nordeste. como modo de enfatizar as dimensões territoriais e identitárias. t razendo a tona abordagens diversas sobre um cenário de extrema desigualdade no campo. O documento é o marco da criação da Superintendência de Desenvolvim ento do Nordeste. seu tem a principal são os diversos ―nordestes que ganharam não só importância política e a atenção do Governo enquanto uma questão nacional. 2006). pelo economista Celso Furta do. num movimento explosivo de auto-compreensão e auto-definição.imersos em interesse s diversos. mas também alimentou a rebelde e utopista produção artístico-cinema tográfica da época. num desfecho de lutas pelo poder em diferentes eixos de análise – econômico. Um país que buscava se encontrar e se defi nir num momento de rupturas políticas. político e sócio-c ultural. nos processos de construção dos EstadosNação (PIEROLA.

representando o fim do estado de indiferença sobre a fome e a miséria. o planejamento e a racionalidade técnica são centrais no . atribuída ao homem nordestino nesta obra. às consideradas potencialidades econômicas que deveri am integrar. não são conceitos represe . desordem social.109). como atraso. é contraposto ao discurso estatal do GTDN. pois recaem na crítica às desigualdades intra-regionais e numa motivação revolucionária de caráter messiânico. p. que estivesse bloqueada se aquela região não se desenvolvesse (COHN.Já o filme Deus e o Diabo na Terra do Sol. Há. em novas bases. de Glauber Rocha. a Nação. como também ao racionalismo dos próprios pensamentos de esquerda e dos discursos sin dicais da época.Em meio a luta pelo poder. mas como ação transformadora. foram propostas soluções ao ―Nordeste atrasado : uma inédita intervenção estatal. religioso e místico. que supõe e julga o Nordeste negativamente. quantos Nordeste/nordestinos existia m naquela época? Qual imagem Nordeste se tornou hegemônica. e nos chama a atenção para elementos que não são da ordem do racionalismo planificador e economicista estatal sobre esta questão regional. muito mais do que uma medida de aceleramento à expansão industrial capitalista. no sertão. Decorrente do diagnóstico 26 modo de pensar o progresso ----------------------. e por quê? E de que forma isso está relacionado com o p rocesso de construção identitária/territorial do Brasil?É importante ressaltar q ue o que se entende por identidade e território aqui se localiza no tempo e no espaço. Deus e o Di abo na Terra do Sol vai além do humanismo alienante e se contrapõe tanto ao di scurso do ―Estado industrial integrado . não como espetacularização. a violência em sua radicalidade. o mito como potência transformadora pulsando em forma de transe e delírio proféticos do oprimido. uma esperança vulcânica d e revolução. Apresenta-nos a ira revolucionária. ameaça.concepção. muito embora essa questão region al tenha sido equacionada oficialmente por uma proposta de integração econômica. 1978. No entanto. planejada e dirigida. Cabe lembrar que os anos 50 e 60 foram marcados pela valorização da arte cinematográfica co mo forte elemento de expressão nacional da cultura brasileira. mostrou-se inquestionável a inter ferência dos movimentos sociais rurais – mais precisamente as Ligas Camponesas na implementação do novo órgão: A criação da SUDENE constitui a resposta a essa cri se político-social nordestina. a crise. oriunda de sua estrutura de produção rígida e de seu subdesenvolvimento. sendo este também um assunto d e Estado.Page 27----------------------contido no GTDN.

as regiões são fatos humano s.ntacionais. relações de força e de sentido (ALBUQUERQUE JR. Neste trabalho. 1999). apesar de não deixarem de assumir como pressuposto u m espaço já recortado ao longo dos tempos: a região Nordeste. formando uma tei a de práticas discursivas e não27 ----------------------.Page 28----------------------discursivas. se afastam ou se aproximam. A todo território. 2005:5) . Os recortes geográficos. Quais se riam as construções identitárias que significam e ressignificam a imagem de Nordeste e nordestinos em Deus e o Diabo na Terra do Sol e no relatório do GTDN? Como e . muito menos vamos verificar a correspondência entre representações de Nordeste e qualquer suposta realidade. O Nordeste é uma espacialidade fundada historicamente. O film e Deus e o Diabo na Terra do Sol e o relatório do Grupo de Trabalho para o Desenvolviment o do Nordeste são discursos territorializantes. Eles const roem Nordestes e nordestinos. situados no tempo e em relação com os demais objetos no mundo. um referencial simbólico que não existe n a forma concreta e é fruto de processos constantes de territorialização. correspon de uma territorialidade. p.66). As práticas sociais de que falamos assumem diversos caráteres . Não está dado desde sempre. são produtores de ―identidade/territorialidades Nordeste/nordestinos .econômico. então. originada por uma tradição de pensamento. magma de enfrentamento que se cristalizam. constroem verdades que. 1999. cultu ral . portanto. como todas as verdades. são pedaços de história. Pretendemos investigar. defende-se a desnaturalização do Nordeste como região e também do sentido atribuído ao nordestino. uma imagística e textos que lhe deram realidade e presença (ALBUQUERQUE JUNIOR. são ilusórios ancoradour os da lava da luta social que um dia veio à tona e escorreu sobre este território. nem idealista – coloca em destaque o papel do sujeito no campo do embate das formulações sobre o mundo (ARAUJO. em meio à luta pelo poder que se dava n aquele período histórico. na medida em que se entende que essa positivação epistemo lógica – nem essencialista.e ―se conectam. que Nordeste/nordestinos existiram nos dois discursos e funcionaram enquanto condição e resultado das Questões Regionais Nordeste instauradas. político. e propõe-se a problematização de sua invenção no campo discursivo: O Nordeste não é um fato inerte na natureza. Não trataremos de encontrar o sentido de um ―Nordeste real . se sustentam a partir de práticas sociais. ou seja. mas ―simulacros discursivos.

BENTES. Elegia para uma re(li)gião: SUDENE. Contar a história da Mina no Maranhão é necessariamente lembrar nomes como de: Andresa. Vó Severa. Mais fortes são os poderes do Povo. São Paul o: Editora Perspectiva. las representaciones de género del Caribe colombiano permiten cuestionar la visión patri arcal . São Paulo: Cortez. Pai Euclides Talabyian.stes discursos se comunicam através de seus enunciados e silêncios carregados de sentido? De quais dispositivos se valem ambos os discursos para moldar e sustentar suas imagens Nordeste/nordestinos? Referências para o resumo: ALBUQUERQUE JUNIOR. 1981. (Spanish Southwestern University) En El último carnaval. Ivana. Ramiro R. “CINE. B. BENTES. do Terreiro da Turquia. R. planejamento e conflitos de classes. Nossa intenção no VI Simpósio Internacional do CECAB é apresentar a pesquisa que desenvolvemos atualmente na Casa Fanti Ashanti e que t em por preocupação é destacar o matriarcado no Tambor de Mina do Mar anhão enfocando especificamente a história das mulheres que influenciaram o babalorixá Euclides Mene zes Ferreira. Territorialidades e Etnias Andinas: luta e pacto n a construção da nação boliviana. Ivana. por el director colombiano Ernest o McCausland. 1999. Amélia. Terra de Fome e Sonho: o paraíso material de Glauber Rocha. bem como as que pertenceram e pertencem à Casa. da Casa de Nagô. Rio de Janeiro: IPPUR/UFRJ. Marize Helena de Campos (UFMA) Trata-se de um estudo sobre a trajetória das mulheres pertencentes à Casa Fanti Asha nti e seus papéis enquanto mães de terreiro ou filhas de sa nto. COHN. Recife: FJ N. PIEROLA. Identidade e Território enquanto sim ulacros discursivos. OLIVEIRA. 2007. 2006. Rio de Janeiro: Civilização Brasile ira. Glauber Rocha e a Literatura de Cordel: uma relação intertextual.Carlos de Oro. no rdeste. Dudu. Durval Muniz. Estado. e outros. 2003. G. ALEXEI. ARAUJO. Francisco de. A Invenção do Nordeste e outras artes . GPMC/IPPUR/UFRJ. NEMER. Dra. Embora d esde o séculos XIX sejam registrados pais-de-santo que prepararam mães de terre iros importantes. 1976. são mulheres as lembradas como "pilares" do Tambor de Mina. Estética da violência no Cinema. Mimeo. da Casa das Minas. Silvia. F. Bueno. Rio de Janeiro: Paz e Terra. 2008. Nhá Alice. “MULHERES DE FANTI ASHANTI: PAPÉIS FEMININOS E PODERES ANCESTRAIS EM SÃO LUÍS DO MARANHÃO Prof. Anastácia. Dr. Maximiana e de tantas outras mães-de-santo. NACIÓN Y REPRESENTACIONES DE GÉNERO EN EL CARIBE COLOMBIANO” Prof. 1962. fundador e responsável pela Casa Fanti Ashanti. Editora Massangana. Crise Regional e Planejamento (o processo de criação da SUDENE). Tese de Doutorado.

a América Latina e o Caribe apresentam uma mult iplicidade de povos afrodescendentes em seu território. meu objetivo com esse trabalho é ap . Nesse sentido. AFROCARIBEÑAS Y DE LA DIÁSPORA COMO MOVIMENTO TRANSNACIONAL AFRODIASPÓRICO. paulatinam ente transitando para modelos discursivos e de ação política baseados em estruturas de identificações mais múltiplas e desterritorializadas.Page 29----------------------virginidad y de la pureza como símbolos de su representación ideal dentro del patria rcado. La película muestra hombres débiles y abusivos y mujeres sometidas pero igualmente fuertes que sugi eren un rechazo de la 28 ----------------------. VOZES E POLÍTICAS DA DIÁSPORA NA AMÉRICA LATINA E CARIBE: A RED DE MUJERES AFROLATINOAMERICANAS.del sujeto masculino como apropiado para dirigir los destinos nacionales y del sujeto femenino como símbolo de la pureza de la nación. menos fundamentado em discursos e ações baseados em estruturas identitárias fixadas. Marilise Luiza Martins dos Reis (UFSC)\(UDESC) Como é sabido. àquelas como o Brasil. Cuba e Colômbia. Uruguai e o Peru. La representación de suje tos masculinos y femeninos que no encajan en los parámetros patriarcales hetero-normat ivos y naturalizadores ayuda a cuestionar la crisis del Estado colom biano y de los sujetos tradicionalmente idealizados. El últ imo carnaval juega con espacios en los que la mujer aparece limitada dentro de una esfera privada de relaciones domesticas que no permite su independencia y libertad de expresión y el hombre se mueve en una esfera pública desde la cual ejerce su domin io y abuso de control sin ninguna restricción o señalamiento por parte de la sociedad. muitas das rede s de organizações políticas negras desses espaços têm dado indícios de que está emergindo um novo tipo de Movimento Negro. com importantes minorias negras. ou como Venezuela. La película sugiere cuestionamientos éticos y estéticos en contra de la situación conflictiva del país y de la imposición de sistemas injustos y discriminadores que no permiten un proceso social de transformac ión y liberación de la mujer. Na última década. rígidas e territorializadas. Leo la película de McCausland como una alegoría de la crisis d e la nación colombiana donde se muestran papeles patriarcales obsoletos basados en el género. que vão desde as so ciedades e culturas predominantemente negras de vários países do Caribe. com uma significativa proporção de afrodescendentes.

um grupo social extremamente marginalizado antes do pr ocesso revolucionário. superaram a experiência interseccional das desigualdades de gênero. os interdit os e os não ditos sobre a situação da mulher em Cuba e em especial da mulher afro-cubana. ao mesmo tempo. a RMAAD. sem espaço para as especificidades existentes nos distintos grupos sociais. na medida em que constituem.Page 30----------------------IDENTIDADE E IMAGINÁRIO SOCIAL: MULHERES NEGRAS EM CUBA APÓS 50 ANOS DE REVOLUÇÃO Giselle Cristina dos Anjos Santos Revolução cubana de 1959 representa um grande marco da históri a recente latinoamericana. Verifi camos que apesar de inúmeras transformações positivas. inserção e integração social após 50 anos de Revolução. para demonstrar como vem se desenvolvendo nos movimentos negros da Améri ca Latina e do Caribe um discurso e uma estética caracteristicam ente descolonizadora. Isso porque. classe e r aça/etnia. cl asse e raça? O objetivo desta comunicação é discutir identidade e imaginário social de mulheres negras cubanas a partir da interseccionalidade dos conceitos de gênero. desterritorializado e reterritorializado. estigmas negativos. refletindo sobre os seus reais níveis de transformação. Afrocaribeñas y de La Diaspora (RMAAD). E além dos conhecidos avanços sociais. N a perspectiva pós-revolucionária igualdade passou a significar uniformidade. inspir a manifestações que emergem nas fronteiras geográficas locais. e uma abordagem PósColonial. A experiência dessa rede. tem nos levado a considerar que os movimentos negros da Améric a Latina e Caribe não podem mais ser reduzidos a uma questão de mera cópia ou repetição de doxas estrangeiras. como representação de um movimento afrodiaspórico. 29 ----------------------. talvez desde sua origem e cada vez mais. tomando por base a atuação da Red de Mujeres Afrolatinoamericanas. tem apontado para a exis tência de um contexto político-cultural que incorpora e. desigualdades sociais de gênero e . virtual e imaterial. A partir da história oral. definiu-se o alcance da igualdade entre mulheres e homens como uma das prioridades do recém constituído governo socialista. desterritorializado. buscamos superar os silêncios. transcultural e diaspórica. Mas e as mulheres negras. um fenômeno global. que por sua vez confere ao movimento negro uma configu ração transnacional.resentar uma discussão sobre esse processo. c om suas múltiplas conexões e parcerias. São essas questões que pretendo trazer a tona com a apresentação desse trabalho.

Revolução.raça ainda fazem parte da experiência das mulheres afro-cubanas.Page 31----------------------Seguir a trajetória de duas mulheres negras (procedentes uma da província de Oriente.chave: Mulher negra – professora – educação – diversidade BRASIL E CUBA: DUAS MULHERES NEGRAS ENTRE A NATURALIZAÇÃO DA DISCRIMINAÇÃO E O CONFRONTO Orlinda Carrijo Melo Olga Cabrera (UnB) 30 ----------------------. ganharam amplitude e permanência. e as discriminações sexistas e de classe vividas por estas. Edineuza da Silva Brandão (UFT) Este estudo é parte de monografia em andamento sob a orientação da Doutora Jocyleia Santana dos Santos. e em suas relações na escola. a maneira como esta é representada pode levar a se introjetar no imaginário popular. o trabalho traz como objetivo de investigação as dificuldades relacionadas ao preconceito de raça e de cor encontradas no trabalho da mulher professora negra nos primeiros anos da escola pública de Palmas Tocantins. Palavras Chaves: Cuba. as relações raciais embasada s na hierarquia branca desembocaram em formas diferentes de manifestar-se a discri minação racial num e noutro pais. e a outra de Goiás. Mulher. As estratégias de vida destas duas mulheres negras num d . uma visão estereotipada e depreciativa. considerand ose o preconceito étnico e racial. No entanto. Cuba-Reyita. pouco se vê de efetivo no que compete à realização destas políticas. Relações Étnico-Raciais. MULHER NEGRA PROFESSORA: DISCRIMINAÇÃO E PRECONCEITOS EM SALA DE AULA E NAS RELAÇÕES DA ESCOLA. Palavras . Realizado por meio de pesquisa bibliográfica e da história e memór ia da educação. Além do exposto. O que pode acarretar problemas e dificuldades no desenvolvimento do seu trabalho como docente. Os estudos realizados com essa pes quisa. mesmo que ainda incompletos. E tem su a relevância no que se refere à condição de minoria em que se construiu a história da mulher negra. evidenciam que: se por um lad o criam-se políticas de intervenção. poden do incentivar ao desrespeito e incutir conceito negativo à pessoa da mulher professora negra em sal a de aula. no sentido de melhorar o acesso e o respeito às difer enças. Gênero. Brasil-Sebastiana) numa perspecti va comparativa pode revelar que as relações de gênero criadas no Novo Mundo nos períodos es cravista e pós escravista.

mas. sociais. perceber se há algum peso na simples participação do homem na criação e nas obrigações com os filhos que aponte para um questionamento ou dúvida sobre a virilidade e masculinidade em ―pais modernos suficiente para demonstra r tal hierarquia em outras escalas. Sebastiana e Reyita asumiram ambas o modelo de família nuclear e patriarcal como o mais positivo para driblar a discriminação. em Cuba.iálogo com seus contextos históricos. No Brasil. políticos e culturais podem revelar os mecan ismos da dominação da ―branquitude . Inúmeras causas criminosas foram atuadas cont ra os negros. às ativi dades criminosas. com o apoio das ciências da época. preferencialmente. no entanto. de fato. A partir desse ideal. ainda que ambas foram. Sebastiana não alude à raça . Tal estudo foi importante para nortear e ident ificar a razão de um dos principais pontos de atrito na sociedade que é o ma chismo bem como a homofobia e outras questões de gênero que poderiam ser percebidas de certa forma com o políticas já que para além do contrato social (HOBBES) o homem (sexo masculino) teme principalmente a perda de seu STATUS QUO. Mas. IDENTIDADES FAMILIARES E (PATERNIDADES) MASCULINIDADES NA AMÉRICA LATINA: UM OLHAR A PARTIR DAS FAMÍLIAS AGROPATRIARCAIS E SUAS FORMAS SECUNDÁRIAS NA CIDADE DO RIO DE JANEIRO/BRASIL Bruno dos Santos Hammes (UERJ) Os objetos dessa pesquisa foram pais moradores da cidade do Rio de Janeiro que se relacionam de forma heteroafetiva. ao atraso e à doença social. o racismo naturalizou-se. articulado à invisibilidade do negro. ambas lecionaram com grupos sociais marginalizados e não como profissionais ainda que a primeira fo rmouse como normalista. Onde o Tipo Ideal que se buscou perceber é aquele de Homem (macho) provedor e mantenedor p ouco participante nas obrigações de criação dos filhos com uma vida social pouco ou anda alterada com a chegada dos filhos. se analisou as performances mais flexíve is e mais participantes tentando dessa forma. onde os negros tinham participado de maneira destacada nas lutas anticoloniais e a República tinha sido uma conquista principalmente deles. ela é a própria representação da naturalização da discriminação a segunda identifica-se como muher e negra e vai ao confronto tanto no espaço familiar quanto no social. integrando os movimentos panafricanos e partidos políticos para lutar pela igualdade racial. as culturas negras foram reduzidas. o esteio da família. ambas vieram na educação um meio de ganhar status social. Dessa forma determinista são passivei s de estranhamento e melhor estudo para quem sabe assim poder .

n a região norte de Palmas. não perceberam a dimensão do seu papel social. no endereço: 405 Norte. endereço: 407 N. uma professora do Colégio municipal Pastor Paulo Leivas Macalão. (antiga Arse 122). especificamente na cidade de Palmas. De acordo com a metodologia iniciamos com o depoimento de duas professoras da Escola Estadual Vila União. APM 01 (Antiga Arno 42). Foram realizadas seis entrevistas gravadas em áudio. Palavras-chave: status quo.chave: Mulher negra. 1206 sul. A relevância científica se deu quanto a escolha da temática. AP M 06. transcrição e análise dos dados.206 Sul. (antiga Arno 33). A metodologia util izada foi a pesquisa bibliográfica e a pesquisa de campo uma vez que não se encontrou publicações sobre a mulher professora negra no contexto regional . situada na quadra 307 Norte. com endereço: 1.questionar a validade e veracidade da imposição biológica como base para coerção social. duas professoras da Escola municipal Beatriz Rodrigues da Silva. masculinidades. Palavras.Page 32----------------------MULHER NEGRA E PROFESSORA: TRAJETÓRIAS NA EDUCAÇÃO BÁSICA Edineuza da Silva Brandão (UFT) Jocyléia Santana dos Santos . Refere-se ao papel das mulheres negras professoras e as dificuldades enfrentadas por estas no ensino fundamental nas escolas públicas da cidade de Palmas. hegemonia. profissão docente. do universo da pesquisa e da viabili dade de execução no prazo estabelecido.Orientadora (UFT) dete A monografia investiga a mulher negra e professora e sua trajetória na educação básica. APM 07. e uma professora negra da Escola municipal Antonio Carlos Jobim. 31. AL. Na s considerações finais destacamos que as professoras mesmo se auto-declarando ne gras. rminismo biológico e performances sociais. O uso da metodologia de história oral foi significativ a pela possibilidade de construção de acervos e fontes de pesquisa so bre estas mulheres e conseqüentemente sobre o sistema de ensino de Palmas. 08. Palmas. Tocantins NEGRA. MULHER: ESBOÇO DE COMO RAÇA E GÊNERO SE INTERSECCIONAM . (antiga Arno 43). Alameda 02. Al 23. 31 ----------------------. diante das abordagens em voga que trata da etnia neg ra e da reivindicação de direitos igualitários para o desenvolvimento de um trabalho diferenc iado junto à diversidade presente na sala de aula. Al.

de 1919.Assim este trabalho pretende compreender se e como a inserção das categorias raça/gênero provocou mudanças nos debates dos movimentos negro e feminista. o papel da mulher nessa sociedade que estava em transformação devido à tentativa de consolidação da República Cubana.A partir da problematização da categoria mulher e negro os movimentos sociais.sexualidade ou c lasse. de 1917. desc reveu do seu ponto de vista os problemas sociais e morais que afetava m a família burguesa e. assunto s como a lei do divórcio para o debate político e social. nem no movimento negro no qual a q uestão de gênero não era amplamente discutida.de maneira relevante. Nestes romances o autor de linha naturalista.As mulheres negras ao se organizarem em grupos/entidades fazem emerg ir no debate com os movimentos negro e feminista a intersecção entre raça e gênero elucidando suas condições enquanto mulher e negra e a necessidade de romper com lugares de subaltern idade. o movimento feminista cubano estava em franco desenvolvimento levando dentre outros. as questões pelas quais são oprimidos seja pelo gênero. sobretudo.Visto que suas demandas não se viam contempladas plenamente no movimento feminista. nas obras Las Honradas. tão exploradas nos romances. Para a viabil idade deste trabalho foram necessárias outras análises tais como a sexualidade.Page 33----------------------GÊNERO E SEXUALIDADE NA LITERATURA CUBANA NO INÍCIO DO SÉCULO XX Sandra Maria de Oliveira Este trabalho tem por finalidade identificar e analisar Identidade de Gênero na literatura cubana de Miguel de Carrión entre o período de 1895 a 1919. 32 ----------------------. bem como o movimento feminista no período em que o autor escreve as obras. Neste sentido o objetivo deste trabalho é discutir junto a outras temáticas como o autor através de suas obras tinha como intuito maior dar uma orientação social à seu público . cada qual com s uas diversas necessidades e a seu modo buscam abordar .Cinthia Marques Santos O presente trabalho se propõe a investigar o modo como as ca tegorias raça e gênero se cruzam nos diversos segmentos do movimento feminista e negro. inicialmente engendrado por mulheres brancas.raça/etnia. e Las Impuras. Também nesse período.

NO MEIO E MISTURADO" OU UMA (RE) PRODUÇÃO DO DISCURSO DE MESTIÇAGEM EM DUAS ESCOLAS DE BELÉM DO PARÁ? Alan Augusto Moraes Ribeiro Em duas escolas do bairro do Guamá. Os diferentes modos de usar o (a) moreno (a) pelos (as) estudantes entrevistados (as) é o foco c . a Escola Estadual de Ensino Médio Alexandre Zacharias de Assumpção. a partir de relatos de dez estudantes divididos e m ambas as escolas. que eram também as adept 33 ----------------------. e a Escola Madre Zarife Sales. "O MORENO (A). católica e particular. todos vítimas de ofensas raciais. A recorrência do uso do vocábulo moreno (a) nesse processo identificador e as remissões legitimadoras desse uso pelos estudantes ao divulgado caráter misturado e medial do referido termo como classificador genérico da identidade étnicoracial do país.Page 34----------------------04. pública. as mulheres pertencentes à as do movimento feminista.alvo. é uma explicação da construção transcultural do pensamento panafricanista. correlatas no ritual étnico de passagem masai e na mitologia bíb lica de Sansão. EIXO TEMÁTICO: IDENTIDADES NACIONAIS Coordenadores: Olga Cabrera (UNB) Benedito Souza (UFMA) PANAFRICANISMO: DIÁLOGOS ENTRE O RITUAL ÉTNICO MASAI E A MITOLOGIA DE SANSÃO Maristane de Sousa Rosa (UEMA) O panafricanismo jamaicano no século XX reivindica a (re)introdução dos conteúdos sobre História da África arrancados dos textos da Bíblia. burguesia cubana. Portanto. os pessoais modos de identificação étnico-rac ial a partir da categoria Cor. Este estudo dem onstra que a luta corporal do homem com o leão e a força sagrada atribuída aos cabelos são sinergias comuns do lion-man. ou seja. periferia de Belém do Pará. a partir da utilização sagrada do cabelo como sign o de fortalecimento identitário negro. do povo brasileiro é um elemento que aciona e é acionado pelo denomina do discurso de mestiçagem brasileiro pelo uso do moreno. com perspectivas didáticas para o estudo e ensi no da historiografia africana em diversos níveis de ensino-aprendizagem. Discute ainda conceitos de identidade e memória equiva lentes em espaços sociais dos negros que ficaram na África e dos demais que vi eram para as Américas e Caribe. analiso.

A pesquisa utiliza com o tema a busca pela constituição e história da família do pesquisar desta comunicação. avançando nas metodologias possíveis para tan to. afrocên na const .Page 35----------------------como pelo estabelecimento de um paradigma cognitivo trico. numa perspectiva afrocentrada. Abdias Nascimento (1914) e Oliveira Silveira (1941-2009). como expressão de ativismo afrocentrado. Operário e Feminista. Pa ra tanto utilizamos como ferramentas os marcos dos estudos culturais. bem 34 ----------------------. Apresenta a ex periência estética e política de Solano Trindade (1908-1974). cultura histórica. que vincula à ancestralidade africana a experiência diaspórica do negro rução de um novo conhecimento sobre o mundo. realizando o trabalho da identidade racial e social também através da factualidade individual. A busca partiu de uma produção etnográfica em que o autor situa-se enquanto sujeito/ob jeto da pesquisa. não universalista e não essencialista. no que se refere à maneira pela qual ações no campo da cultura e da política estavam baseadas na representação da África como o centro referencial particular ancestral. anticoloniais/desco loniais e com referência na produção do Movimento Negro. em que o vin culo epistemológico situa-se na busca de uma memória e identidade construída com ―os de baixo . intelectuais negros.entral da análise neste trabalho. tendo a construção da árvore genealógica como horizonte próximo e o objetivo d e longo prazo constituir uma versão da história da família desde os laços rompidos no continente afric ano a história recente. que faço PROTAGONISMO NEGRO NUMA PERSPECTIVA AFROCENTRADA Elio Chaves Flores (UFPB) Alessandro Amorim (UFPB) Danilo Santos da Silva (UFPB) O presente trabalho procura pensar o protagonismo negro em suas mais significativas formas de expressão. NEGRAS RAÍZES BRASILEIRAS – UMA BUSCA INVESTIGATIVA E METODOLÓGICA Paulo Henrique da Silva Santarém A exposição busca apresentar/compartilhar uma investigação de caráter epistem ológico e identitário sobre as trajetórias e memórias negras brasileiras. Esta pesquisa buscou contribuir com a constituição de uma memória da vivência negra no Brasil. Palavras-Chave: afrocentrismo. posiciona-se no espaço de fala e agência acadêmica.

“POVOS INDUSTRIOSOS”: O PROGRESSO ILUMINISTA DA ADMINISTRAÇÃO POMBALINA NO MARANHÃO Nivaldo Germano dos Santos (UFMA) O Maranhão. Esta comunicação tem por objetivo discutir algumas problemáticas relacionadas ao siste ma escravista. durante a segunda metade do século XVIII. O Marquês de Pombal. Negras Raízes. Abordaremos os elementos encontrados nas vozes de autores como Antonil. Abolicionismo. para estabelecer possíve is relações entre a 35 ----------------------.por caminhos outros aos do patriarcado e patrimonialismo. entendendo que este constitui-se não somente d a relação econômica senhor/escravo. A inspiração geral da busca deu-se através da obra ―Roots (Negras Raízes). foi um a lvo privilegiado das Reformas Pombalinas em todo o reino português. Brasil Colonial. José I. entendendo a historicidade d o sistema escravista enquanto processo cambiante e de variados significados a depende r da época e lugar. de Alex Halley. e ntão ministro plenipotenciário do rei lusitano D. Tradição Oral. Palavras-chave: Sistema Escravista. Pensamento S ocial. As fer ramentas metodológicas foram as da história oral (tradição griot) e pesquisa histórica desde a produção de literatu ra local. mas também na construção social de prerrogativ as culturais que engendram a atuação desses atores. programou uma série de reformas administra tivas e . Suje ito Posicionado. Palavras chave: Memória Negra. Joaquim Nabuco e Machado de Assis – autores representativos de seu tempo. cristalizando-as através de seus discursos. Identidades Nacionais O OLHAR MEDIADO: DISCURSOS PARA A CONSTRUÇÃO SOCIAL DO ESCRAVO NO BRASIL COLÔNIA: ALGUNS ELEMENTOS Samuel Silveira Martins Rafael Moreira (Co-Autor) A escravidão no Brasil constitui-se em um vigoroso objeto de análise da Sociologia Brasileira sendo representativo em grandes autores de nossa literatura desde o séc ulo XVII. que em suas obras analisaram ou ilustraram uma perspectiva da vida colonial observada. Azeredo Coutinho.Page 36----------------------construção social do discurso sobre o escravo e a escravidão sua influência na constituição do pensamento social Brasileiro.

como Peru. Performance corporal. s uas línguas e cantos. . Colômbia. ou no Boxing Day. para além dos mecanismos polític os.Guianas etc. transcendendo f ronteiras físicas. Linguagens.PUC) O Brasil e o Caribe partilham um passado comum de colonização. seus vestidos. ―a África negra e ultratlântica com seus filhos. Neste trabalho. situase entre 25 de dezembro e seis de janeiro. seus bailes e cerimônias. buscando inserir Portugal no ritmo do progresso ilumini sta pelo qual a Europa passava. o Marquês de Pombal. de acordo com o calendário cristão. tendo como fo co festas e celebrações de protagonismo negro. suas músicas. Entendemos que. africanos escravizados apropriaram-se do calendário religioso dos colonizadores para recriar nas Américas crenças. linguagens e colonizadores diferentes. Nesse período. A metodologia utilizada é a análise do discurso presente nas cartas. e para a qual o algodão produzido no Maranhão sete centista foi uma das principais matérias primas da Revolução Industrial. nas regiões de colonização anglófona. suas religiões e insti tuições políticas transportava-se para o Novo Mundo. entre os séculos XVIII e XIX. sobre a administração destas terras. ma is precisamente no Dia de Reis. Identidades. valores e cosmovisões de suas sociedades de origem e por meio dele marcaram sua diferenciação. marcante no pensamento da época. govern ador da capitania do Maranhão e seu tio. com a qual os portugueses mantinham sólidas r elações comerciais. observando as ref erências ao iluminismo. buscamos atentar para processos culturais afro-atlânticos. com o objetivo de não apenas perceb er a influência do racionalismo ilustrado na colônia americana. Uruguai. nas áreas de colonização ibérica. como também compreender até que ponto iss o surtiu efeitos práticos e materiais naquele contexto. escravidão e plantation . Conexões histórico-culturais entre o Brasil e o Caribe têm sido relegadas pelos estudiosos.no reino. OUTRAS TEIAS DA DIÁSPORA: CELEBRAÇÕES NEGRAS DO CICLO NATALINO NO BRASIL E CARIBE Bebel Nepomuceno (CECAFRO. Para além das similaridades históricas e proximidade geográfica. Culturas Afro-latino-cari benhas. O presente trabalho tem por objeto as cartas administrativas entre Joaquim de Mello e Póvoas. Palavras-chave: Diásporas. o Brasil e áreas do Caribe. e sua influência na administração do Maranhão naquele tempo. tiveram um outro elemento em comum: celebrações negras ocorridas no chamado ciclo natalino que. especialmente a Inglaterra. como bem observou Fer nando Ortiz. bem como outros países da América do Sul.

MIGRAÇÕES E IDENTIDADE NA AMAZÔNIA: A COLÔNIA JUDAICA EM PARINTINS – 1900 A 1920 Maria Ariádina Cidade Almeida (UFAM) Este trabalho tem a proposta de ampliar os registros e estudo s sobre o povo Judeu na Amazônia.36 ----------------------. vem de encontro às intencionalidades da promulgação da Lei 10. aqui respaldamos a conquista efetivada pelo Movimento Negro brasileiro com a sustentação de vários intelectuais negros ou não-negros que. pesquisam e respeitam est a luta histórica anti-racista. esse trabalho se desdobrara sobre a intensa participação africana na elaboração da sociedade brasileira c om a ininterrupta tarefa de combate ao racismo e às práticas discri minatórias a que estão sujeitos diariamente milhares de africanos e afro-descendentes esp alhados pelo mundo. dos memorialistas do município de Parintins. que visa transmit ir aos alunos do ensino básico e médio a história da África e do Brasil negro. procuraremos aqui alargar e ampliar as observações já existentes quanto a . Efetivando-a na intervenção pedagógica.Page 37----------------------EDUCAÇÃO PARA AS RELAÇÕES ETNICO-RACIAIS: A ANCESTRALIDADE DOS DESCENDENTES DE AFRICANOS NO BRASIL Igor Fernandes de Alencar (UFG) Tatiane Julia de Alencar (UFG) Esta comunicação denominada Educação para as Relações Étnic -raciais: a ancestralidade dos descendentes de africanos no Brasill. As fontes utilizadas serão os doc umentos pertencentes ao acervo do arquivo público do amazonas. Singulariza essas relações em meio ás distancias geográfica. Mesmo que. A prese nça hebraica na região tem sido estuda e foi registrada por Samuel Bechimol em alguns dos seus tra balhos. bem como os periódicos que compreende a época . as discussões nos instiguem pensar os constr utos de identificação com o ser negro e. As narrativas dos descendentes também se constituirão numa font e importante para a observação das trajetórias de famílias de Judeus no município. em especial no interior do Amazonas. mais de proximidades sócias e culturais seculares. conseqüentemente com o africano . Assim. a pesquisa busca compreender o processo de migração dos Judeus para o município de Parintins/AM. do Centro Israelita do Pará. por meio de uma leitura contextual entre os anos de 1900 a 1920. no entanto.639/03.

A maneira em que foram idealizados estes pelas duas mais grandes figu ras do momento no Brasil e em Cuba. era exclusivamente judia . Brasil (1888) e Cuba (1886) significa penetrar nos efeitos d os novos contextos onde foram arrojados os ―emigrantes nus sobre suas culturas durante o pe ríodo pós escravista.presença desses Judeus. observando as atividades exercidas. que ao longo do seu processo histórico. por meio das fontes sugeridas e com o auxilio da micro-história será possível compreen der 37 ----------------------. Jeffrey Lesser em seu livro a negociação da identidade nacional que trata da minoria de migrantes e da luta da etn icidade no Brasil observa: ―a surpresa dos brasileiros ante a crescente população o riginaria do Oriente Médio transformou-se em choque. Num dos polos encontravam-se as culturas reduzidas a manifestações atáv icas. Deste modo. Rui Barbosa e Enrique José Varona. a comunidade norteafricana que começou a se estabelecer na foz do Amazonas. essa pesquisa torna-se mais substantiva na medida em que faz uso dos estudos das migrações e suas conseqüências para as transformações regionais. dos Judeus e os possíveis impact BRASIL Y CUBA: CIENCIA VS CULTURAS NEGRAS. objetivo a alcançar mediante o progresso o qual era a inspiração para os projetos educacionais do período em ambos países. revela as diferenças nas respos tas a . Conside rando. quando ficou claro que o primeiro grupo numeroso de imigrantes Árabes a vir para o Brasil não era nem Muçulmano e nem Cristão. De fato. atrasadas e incivilizadas e no outro a cultura ocidental branca.Page 38----------------------e analisar o processo de migração os a sociedade parintinense no inicio do Século XX. nas primeiras décadas do século XIX. Os aportes cientificos eram os mesmos em ambos paíse s. a ciência positiva europeia que acreditava na evolução e pelo tanto em culturas inferiores e s uperiores. PROYECTOS EDUCACIONAIS DE RUI BARBOSA E ENRIQUE JOSE VARONA Olga Cabrera (UNB) Estudar numa perspectiva comparativa os impactos das ciencias de findos do século XIX e principios do século XX nos dois países americanos que tinham abolido a es cravidão negra mais tarde. Conforme a observações de Bechimol (1999) os Judeus na região precederam alguns grupos migratórios notáveis. o m ovimento de Balguns grupos e os aspectos identitários. a Amazônia foi constituída por di ferentes componentes étnicos e culturais.

Cuando la monarquía ilustrada y despótica expiraba como poder real.Page 39----------------------era la colonia más rica del mundo en 1840. una de las centrales en la reflexión.perguntas realizadas sobre idêntica base conceitual cientifica. lo cual ha marcado una perspectiva teórica y una obra que incide en los estudios culturales. de la decolonialidad. DISCURSOS ACERCA DAS RELAÇÕES INTER-ÉTNICAS E DA IDENTIDADE NACIONAL EM FILHOS DA PÁTRIA. Era requisito indispensable la absoluta paz interior y el mantenimiento del precario equilibri o estamental: era su estado ideal. LA CONSTITUCIÓN GADITANA Y EL NEGRO EN CUBA Olga Portuondo Zúñiga El patriciado criollo de la isla de Cuba prohijó una economía d e gran auge y provecho. del mismo modo que ma rcan la necesidad de la consideración de una episteme peculiar. Cuba) Este trabajo sería una lectura de los principales pensadores del Caribe en torno a la problemática. se d ecía que 38 ----------------------. mediante la renovación de las estructuras administrativas y para perpetuar su autonomía. DE JOÃO MELO. basada en la plantación azucarera y cafetalera con fuerza de trabajo esclava. etc. do escritor João Melo. a través de la Constitución Gaditana. en el pensamiento de la región. cultural e social de Angola. El mayor peligro para los hacendados era la guerra interna en escalada y sostenida contra los africanos y sus descendientes. Felix Valdés García (Instituto de Filosofía La Habana. o trabalho a ser apresentado pretende examinar como discurs os acerca da identidade cultural e das relações inter-étnicas presentes nos contos da obra Fi lhos da Pátria. Kelly Ane Evangelista A partir da emergência de recentes narrativas que insistem em discutir as demandas de ordem política. en las perspectivas de la complejidad. la alta clase criolla pensó que la legitimidad del liberalismo metropolitano. "EL PROBLEMA DEL NEGRO EN EL PENSAMIENTO CARIBEÑO". alcanzaría a la colonia para priv ilegio de los blancos y para afirmación de sus posiciones estamentales. pondo em destaque suas relações com questõe s de base étnico-racial. La oligarq . por lo que la plantocracia prefirió la alianza con el régimen liberal conservador peninsular. se relacionam as questões que perpassam a construção das idéias de nação e identidade nacional.

sino por lo que representa ba para hacer perdurar la condición de inferiores entre los libres de color. . utilizaremos diferentes fontes: jornais. sin apenas discusión y como algo previamente concertado décadas atrás A IDENTIDADE CUBANA: RE-ELABORAÇÕES DE SI MESMO A PARTIR DA PRESENÇA IMIGRATÓRIA ESTRANGEIRA (1900-1933) Katia Couto O presente trabalho pretende analisar a constituição da identidade cubana durante o período da primeira República. entrevistas. e documentos provinciais de Santiago de Cuba. amen de que los hacendados orientales coincidieron. a partir do encontro de diferentes etnias imigrantes que en tram no país nas primeiras décadas do século XX para trabalhar nas indústrias de açúcar. era que los descendientes de africanos no podían ser convertidos en ciudadanos ig uales a los blancos. Porque no era sólo la preservación de la esclavitud por la esclavitud misma. con el crecimiento de un sistema de pla ntación que exigía miles de esclavos y cuando las regulaciones internacio nales para suprimir la trata se aplicaban con mayores exigencias. durante los 84 días que duró el restablecimiento constitucionalista. No por casualidad. Así se aprobaron las Leyes Especiales. únicamente. El asunto de la entrada en las Cortes de parlamentarios criollos tenía interés. para la oligarquía b lanca: de concurrir a las constituyentes de 1836-37.uía criolla hizo amagos para arrancar dádivas de España y para que colaboraran con la represión cuando las barreras sociales eran cada vez más rígidas. espaço prioriz ado para a pesquisa. O negro imigrante e o negro nacional serão nosso foco de análise para entender o processo de formação da identidade cubana neste período. capitán general Miguel Tacón tuvieron mejores posibilidades de triunfo en el conflicto con el gobernador del Departamento Oriental Manuel Lorenzo luego que éste proclamó la Constitución de 1812 en el territorio de su adeministración colonial entre octubre-diciembre de 1836. Para tanto. donde vetaron la abolición de la trata y de la esclavitud. tanto como los occidentales. en no otorgar cualquier de recho civil a los descendientes de africanos ni papel protagónico alguno. ni tan siquiera al ne gro libre. el punto neurálgico man ipulado por los líderes del Congreso para el rechazo a instaurar la nueva Constitución en Ul tramar. los procuradores de la isla de Cuba habrían sido tan conservadores como cuando participaron en las de 1810-181 2. Esta es la razón por lo que las f uerzas que respaldaron al liberal conservador.

Our artistes and unlettered historians reinforce our oral and socio-historical traditions. even amidst the challenges of globalization.39 ----------------------. multi-cultural. Whether it is the savoury delight of our indigenous f oods. we are a people who have the distinct advantage of wide ranging. The discerning ey e will not gauge an accurate appreciation of our numerous cultures b y mere observation and participation in obvious settings. Poey Baró (NEAB/UNB) Em 1921 o líder jamaicano Marcus Garvey visitou Cuba e se reuniu . CONTRADIÇÃO ENTRE O GARVEYSMO E OS PROJETOS CUBANOS DE NAÇÃO". I intend to highlight the common cultural for ces that create. the electric. multi-faceted co-existence in our lands. or even the co ntagious sensuality of our people. this is the legacy by which we ought to be defined . festive nature of our political campai gns. "MARCUS GARVEY EM CUBA. We do not live in obvious settings neither are we an obvious people. sacred culture to us and share it with the wider wo rld. To those who dare to lo ok beyond the surface. our committed definition of beauty and our redefined philosophy of lif e compels us to merge. Dionisio L. the exuberance of our protests. impart and preserve our sub-conscience. A comparative analysis of the impact of the factors that gravitate and conversely depart from a cohesive definition of national identity in the Brazilian and Caribbean Diasporas will specifically focus on Sao Luis better known as ‗Brazilian Jamaica‘ in Maranhao. not the government-issued paper-thin ‗pass‘ that permits us to travel to lands far and wide.Page 40----------------------MY CULTURE IS ME Joy Dillon Culture can be akin to the life-giving blood of the Latin-A merican and Caribbean Diasporas.Through the course of this paper. our quest for a common national identity is th ere for the keen eye to discover. Br azil and the Republic of Trinidad and Tobago. assimilation and national identity. the passion of our people in sports and the arts or the melodic rhythms of our life experiences pla yed out in the infectious sounds of our musical talents. This study will further exami ne the means by which citizens of these respective countries choose to identify themselves and be inde ntified and the challenges of maintaining that common national identity. Rather. solidify and celebrate the strength of our regional prowess.

Nessa época o movimento de retorno à África estava em auge nos países caribenhos e nos Estados Unidos. entre os integrantes do garveysmo em Cuba predominavam os imigrante s das Antilhas anglófonas e escasseavam os cubanos. Na reunião com intelectuais negros as diferenças foram notórias e pouco depois da sua visita o movimento desapareceu em Cu ba.Page 42----------------------05. com sua consagração jurídica. passam a incluí-los com mais força n a pauta de suas reivindicações políticas. MEMÓRIA E ARTES Coordenação: Alexandre Fernandes e Adriana Cajado Costa (Doutoranda Psicanálise/UERJ) Corrêa (DESOC/PGCult/UFMA) IDENTIDADE. de um lado. No presente trabalho se analisam as causas do pouco sucesso do garveysmo em Cuba e se expõem as principais concepções de nação cubana e as doutrinas anti-racista defendidas naquela época. com intelectuais negros e com autoridades g overnamentais. CRIATIVIDADE E ARTE: RISCOS DO EXCESSO DE PATRIMONIALIZAÇÃO Alexandre Fernandes Corrêa (DESOC/PGCult/UFMA) Adriana Cajado Costa (Doutoranda Psicanálise/UERJ) A Constituição Federal do Brasil de 1988 incorpora a cidadania cultural aos direitos civis. os direitos culturais são invocados por diversos grupos sociais q ue. 41 ----------------------. PATRIMÔNIO. por outro. analiso historica mente as questões relacionadas ao lugar do negro na historiografia dos dois países.Page 41----------------------BRASIL E CUBA: APONTAMENTOS PARA UM ESTUDO DE HISTÓRIA COMPARADA Allysson F. Assim. . Garcia (UNB) Pretendo apresentar nesta comunicação uma reflexão inicial a partir de um estudo que venho desenvolvendo no doutorado em História.com os seguidores da sua doutrina no país. Porém. proponho um estudo sobre a participação feminina na produção cultural do hip-hop geradora de um discurso que reposiciona o lugar da mulher e do negro nestas soci edades. 40 ----------------------. Depois de um período de refluxo nas políticas de conservação. A partir de então.

que institui o programa nacional de registro do patrimônio cultural imaterial na sociedade brasileira. Consideran do estes aspectos. seja a promoção de políticas de ação cultural que invoquem a riqueza das heranças culturais e simbólicas. na direção de uma polifonia cultural efetiv a e não retórica: seja ameríndia. meios de salvaguarda de possíveis perdas identitárias e territoriais. perguntamos: quais os riscos dos excessos da gestão do patrimônio cultural e da memóri a social sobre a arte e o imaginário artístico? A criatividade constitui um processo d ialético que enlaça a dimensão simbólica e imaginária do sujeito no laço social. que a salvaguarda do passado não signifique uma petrificação do imaginário artístico sob a força dos excessos da patrimonialização rigente? Parece que uma resposta política contundente a esse quadro resistente a mudanças. Constatamos que se mantém nesse espaço social o domínio de grupos oligárquicos e conservadores tradicionalistas. mas interfere em ato no presente e i nflui nas identificações e ideais futuros. A memória não se configura apenas de traços mnêmicos do passado. encon tremos uma forma de garantir uma gestão política realmente democrática do teatro das memórias sociais e naturais no país. Criar.preservação e promoção do patrimônio cultural. classe. observamo s os movimentos sociais buscarem nos instrumentos legais e institucionais de pat rimonialização. 42 . inventar é produzir memória nas cenas constr uídas a partir de um diálogo com a herança recebida. gênero etc. folcloriza ntes e turistificadores. n osso GT questiona: Como garantir a liberdade e a criatividade da arte. ocorrer uma democratização efetiva do espaço social da memória e do patrimônio. A fixação de identidades e territórios numa gestão política parece limitar o campo criativo produzindo uma repetição do mesmo. como hip-hop. – configurando um sistema de referência identitária anacrônica e paradoxal. Concomitante a isso se observa também uma fixação obsessiva e recalcitrante em conceit os e noções do século XIX – tais como etnia. arte de rua e arte popul ar. em 2001 inaugura-se uma nova fase com o Decreto-Lei 3. talvez. Partindo de uma perspectiva transdiciplinar. desde os anos 1990.551. sem. Nesse c enário testemunhamos uma crescente demanda por uma institucionalização do processo de gestão do teatro das memórias sociais. todavia. num esp aço social cada vez mais dominado por conceitos e noções antiquados e acríticos? De que maneira se pode garanti r aos movimentos jovens. Desse modo. latina. raça. réplicas do idêntico. africana ou caribenha. Com a intensificação dos fluxos de globalização tecnoeconômica e mundialização cultural.

Esta dicotomia enraíza-se na história colonial e testemunha preconceitos raciais actualmente anacrónicos que urge ultrapassar. a partir do caso de Portugal e do Brasil. O estudo da cultura material possibilita ampliar as in terpretações sobre os objetos. nos acervos museológicos. Após uma explanação teórica sobre os critérios gerais que definem os objetos etnográficos e artísticos. além de suscitar emoções e mexer c om o imaginário humano.Page 43----------------------CLASSIFICAÇÕES INSTÁVEIS E PERMEÁVEIS: CULTURA MATERIAL AFRICANA NOS MUSEUS Luzia Gomes Ferreira (ICA/UFPA) Este trabalho versa sobre as categorias adotadas para a classi ficação dos objetos como etnográficos e/ou artísticos e a importância do museu como espaço de legitimação e consolidação destas categorias. Museu e Cultura Material Afric ana. Entretanto. históricos. atribuídas aos artefatos africanos no cenário museológico ocidental. etc. Os Museus enquanto laboratórios e depositários de importantes dados têm sido descu rados pelos estudos . e no ensino académico dos países ocidentais. Palavras-chave: Objeto Etnográfico. decorativos. dentro ou fora dos museus. não se pode perder de vista que os modelos classificatórios adot ados nos museus estabelecem hierarquias. a partir d e uma reflexão sobre objetos africanos que passaram a fazer parte dos acervos de m useus na Europa e nas Américas. Objeto Artístico. articulando a sua produção e seu uso em diversos c ontextos. ARTE E CULTURAS AFRICANAS: OS SÍMBOLOS DE PODER COCKWE (ANGOLA) Manuela Borges (Instituto de Investigação Cientifica Tropical. são instáve is e permeáveis. compreende-se que as classificações de etnográficos e/ou artísticos. arqueológicos. DCSH) A religião e a arte constituem os elementos culturais mais claramente demonstrativos do impacto pervasivo e significativo que a África teve no Brasil. Os objetos são passíveis de fornecer diferentes informações de variados aspectos acerca dos diversos grupos sociais. e onde o ensino universitário desvaloriza o estudo das artes visuais africanas relat ivamente ás de origem ocidental. etnográficos. Neste texto procura-se questionar a forma como a artes visuais africanas têm sido i ncorporadas ou não. Ou seja.----------------------. Entretanto. apresenta-se uma situação em que as fronte iras entre essas duas categorias são permeáveis e instáveis. atribuem-se status e valoração diferenciados entre eles. ao classi ficá-los como artísticos. onde ainda persiste a dicotomia entre museus de arte e etn ológicos.

antes de mais a relativa ao aproveitamento cien tifico de colecções museológicas que não foram recolhidas no terreno de uma fo rma sistemática e devidamente informada e contextualizada. A cultura p ode ser definida como a forma de expressão e simbolização das relações sociais.Page 44----------------------relativos ao valor heurístico dos acervos existentes nos museus ociden tais. Grande parte do acervo ac tual é resultado de colecções privadas que se caracterizam por espólios het eróclitos e erráticos. Estes estudos levantaram novas questões. A etnomuseologia procura esclarecer os artefactos etnológicos. a cultura dos diversos povos. pelo que as informações relativas geralmente não eram recolhidas. pelo maravilhoso. A antropologia material caracterizada por uma perspectiva b aseada em artefactos continua no entanto sem teorias e objectivos bem definidos. podendo trazer ao domínio cognitivo um conjunto de objectos que ilustram. e não de preocupações cientificas . devidamente informados.antropológicos. não somente como uma re flexão passiva da mundividencia. e suscitaram problemas epistemológicos. . contextualizar os objectos em referencia à área geográfica e cultural de origem. Os estudos de cultura material só recentemente vêm s endo objecto de um renovado interesse que se reflecte no surgimento de investigações a seu propósito e me smo de uma nova especialização. sendo pois resultado da a tracção pelo raro. pelo precioso e pelo insólito. ela é um fenómeno de comunicação que permite conjugar simultaneamente as noções de pertença e difer enciação. As mais antigas colecções existentes nos museus ocidentais. O estudo de acervos museológicos insere-se nas novas tendências já que permite uma reflexão crítica sobre dados etnográficos recolhidos n um passado. c omo os 43 ----------------------. mais ou menos recente. O long o isolamento das colecções museológicas e investigadores das universidades contribuiu para uma fraca relação entre a pesquisa da cultura material e o ensino da antropologi a. provocou um renovado interesse pelos acervos etnomuseologicos. dificultando o seu aproveitamento científico. Os esforços para a constituição de uma especialização disciplinar que aborde a cultura pela perspectiva do estudo dos artefactos. como também se interessa pelo seu papel como protagonist as de uma ideologia expressa sob a forma de relações sociais Importa pois. derivam de uma recolha arbitraria de artefactos motivada geralmente pela sua singularidade e exotismo.

Por se tratar de uma cultura erudita de maior valor de expressão. por ress altar e evidenciar a existência desses interesses em preservação e como estão sendo desenvolvidos.Page 45----------------------vezes temas como cultura popular de raiz deixam de ser tratados como um orgulho cultural. mas também é formadora de opinião. de tradicionalismo e influenciar na maneira de pensar. que poderiam ser discutidos e . a religiosidade. e a não existência de preconceitos. uma vez que o Bra sil é um país plural com grandes diferenças sócio-culturais. Uma forma de verificar se os direitos igua is estão existindo. O tema é conven iente haja vista a persistência o preconceito no uso da cultura popular como maior Atrativo Turístico de localidades que demonstram tal potencial. passando apenas pelo modismo que a mídia demonstra. saberes.relacionando-se com a identidade do grupo. sendo pois uma noção ambígua que se pode tentar definir a partir das relações que se estabelecem com um esp aço e sobretudo uma forma de estar e relacionar-se com os outros e através do seu património material. A manifestação cultural tem em suas funções o entretenimento. é de suma importância que esse enfoque dado sobre a questão da preservação respeite os segmentos culturais. por transmitir idéia s de origem. ou seja. Por que na educação formal muitas 44 ----------------------. ser r esponsável pelo orgulho étnico de elementos da sociedade à medida que é preservado seu ciclo vita l. A discri minação e as atitudes do estado com relação ao uso e mapeamento dos grupos de cultura intangíve l serão focos do trabalho proposto. POLÍTICAS PÚBLICAS NA CULTURA POPULAR: AMPLIAÇÃO DA NOÇÃO DE PATRIMÔNIO HISTÓRICO E ARTÍSTICO Nadir Olga Cruz A Cultura Popular de uma localidade tem como função principal ma nter os costumes e rituais do povo reconhecendo sua identidade cultural e dando abertura para discu ssões de temas considerados irrelevantes como modos de vida. visto os seminários de cultura popular ter somente agora despertado pelo órgão estado. e fazeres. Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional como veículo de denúncia. A relevância do trabalho é por tratar de tema polêmico que é bastant e presente. A identidade é construída a partir de ele mentos heterogéneos e modifica-se com a evolução das relações sociais. produto da história e das experiências vivenciais. tendo o IPHAN. sobre tudo quanto ao tipo de expressão cultural.

639/03. Portanto. em consonância com a linha de pesquisa do Núcleo de Estudos Afro-indígena d e Imperatriz (NEAI/UEMA). Atentando-se aos construtos de identificação com o ser negro e. que visa transmitir aos alunos do ensino básico e médio a história da África e do Brasil negro. esse trabalho se desdobrara sobre a intensa parti cipação africana na elaboração da sociedade brasileira com a ininterrupta tarefa de combate ao racismo e às práticas discriminatórias a que estão sujeitos diariamente milhares de afri canos e afro-descendentes espalhados pelo mundo. bem como signos desencadeador es de . o intuito da pesquisa é (re) significar a cultura indígena Kríkati e valorizar aspectos identitários deste tronco lingüístico Macro-Jê que tanto c ontribuiu para o enriquecimento cultural de Imperatriz e demais municípios da Região Tocantina. Kríkati PERCURSO IDENTITÁRIO: PATRIMÔNIO COMO RECURSO DIDÁTICO. PATRIMÔNIO CULTURAL KRÍKATI: RITUAIS E ORALIDADE DOS GUARDIÕES Karilene Costa Fonseca (Centro de Estudos Superiores de Imperatriz-Cesi) Este artigo analisa. no entorno da cidade de Mont es Altos . Palavras-chaves: Oralidade. conseqüentemente com o africano. Para isso. a exposição (Lavras e Louvores) traz em seu percurso narrativo sentidos.Maranhão.analisados de maneira a formar cidadãos conscientes da riqueza que produzem. Igor Fernandes de Alencar (UFG) co-autora: Tatiane Julia de Alencar (UFG) Este trabalho é resultado de um projeto de intervenção pedagógico denominado O Continente Africano e suas Relações Transatlânticas: a ancestralidade dos descendentes de africanos no Brasil. Além disso. vem de encontro às intencionalidades da promulgação da Lei 10. De forma preliminar se conclui que a cultura Krïkati deve ser preserv ada e valorizada com elo de respeito e honradez e com o viés para a Educação Patrimonial e a conseqüente justeza social. Surgindo então a pesquisa sobr e a etnia Krïkati. a partir da memória dos guardiões os rituais do grupo indígena Krïk ati. Memória. Inaugurada em dezembro de 2006. pesquisam e respeitam esta luta his tórica anti-racista. Esta conquista efetivada pelo Movimento Negro brasileiro com a sustentação de vários intelectuais negros ou não-negros que. nus utilizamos de recursos didáticos enfocados nas ações educativas do Museu Antropológico da UFG com a Exposição de longa duração Lavras e Louvores. através da oralidade dos mais velhos pretende-se que a história deste povo seja narrada dentro da visão etnológica. localizada na Aldeia de São José.

acompanhada de entrevistas e pela co-orientação do arqueólogo do Centro de Pesquisa de História Natural e Arqueologia do Maranhão.Page 47----------------------06. uma lâmina de machado de pedra aparentemente com três funções distintas: primeira uma depressão latera l indicada como quebra coquinhos. IDENTIDADE E PERFORMANCE CULTURAL Coordenação: Tarcisio Ferreira (UFMA) e Maristane de Sousa Rosa (UEMA) POLICENTRALIDADES DAS RÍTMICAS NO ATLÂNTICO NEGRO: CULTURA E COMUNICAÇÃO MUSICAL ENTRE A ÁFRICA E A DIÁSPORA NA CONTEMPORANEIDADE Amailton Magno Azevedo (PUC-SP) A comunicação musical entre a África e Diáspora no pós-colonialismo está sendo tecida sob uma gama variada de linguagens: música. conhecimentos. RITMOS. idéias. canto. a partir do ar tefato em pauta. A presente pesquisa investiga um artefato arqueológico do cerr ado sul maranhense. manejo e o trato em vestígios arqueológicos. mas de inter-cruzamentos culturais que reatulizam a s relações . localizada no entorno da cidade de Bac abal. que é um artefato retirado do seu contexto histórico. Busca-se. 46 ----------------------. provavelment e a parte posterior foi utilizada como batedor. 45 ----------------------. advindo de uma área quilombola. porque não se trata de movime ntos artísticos organizados e/ou planejados. ou seja. bem como outras atividades responsáveis pela elu cidação da cidadania cultural do índio e do negro. expressão corporal. onde ainda lá se encontram inúmeros outros utensílios do período esc ravocrata a serem catalogados.Page 46----------------------EVIDÊNCIAS ARQUEOLÓGICAS NO CERRADO MARANHENSE Danielly Morais Rocha (CESI/UEMA) Este artigo discute um viés histórico-arqueológico voltado para a temática das populações afro-ameríndias do Maranhão. ritmo.sentimentos. tendo por objetivo valorizar a cultura material e imaterial reafirmando a identidade destas comunidades tradicionais e o seu legado multicul tural para a nação brasileira. outro gume utilizado para cortar e. memórias que dizem sobre nossas identidades. ainda subjugados pela sociedade em geral. Conclui-se a partir da investigação parcial. estudo. estreitar o parentesco cultural e étnico com a contemporaneidade sugerindo a construção de etapas de aprendizagem em educação patrimonial. Não é uma comunicação direta entre os músicos.

sublinho o papel que certos sujeitos e grupos sociais (músicos. escritores. Palavras-chave: Identidade.Page 48----------------------O MERENGUE NA FORMAÇÃO DA MÚSICA POPULAR URBANA DE BELÉM DO PARÁ: REFLEXÃO SOBRE AS CONEXÕES AMAZÔNIA-CARIBE. durante as décadas de setenta e oitenta.entre África e a Diáspora como assim observo nas músicas de Kezi a Jones e N´Neka (Nigéria). Fronteira. poetas. tais articulações produziram percepções específicas. mas os trabalho s musicais que são operados em espaços artísticos e em campos melódicos e rítmicos permitem refletir sobre esses inter-cruzamentos que sugerem situações de transculturalidade. emp resários. Pará. Transnacionalismo 47 ----------------------. devidamente firmadas no lequ e de referências associadas à região (tanto endógenas quanto exógenas). que contribuíram para a construção de uma suposta identidade paraense a partir da articu lação de elementos culturais então tidos como caribenhos (além de outros recursos). Martinália. Não se verifica conversas formais ou trocas diretas de informação. de cunho estético-político. ―NO CARIBE. jornalistas. SEU PORTO DE MAR!”: O TRANSNACIONAL NA ―INVENÇÃO DA CULTURA PARAENSE Andrey Faro de Lima (Doutorando/PPGCS-Antropologia/UFPA) O presente trabalho traz algumas considerações acerca das estratég ias performáticodiscursivas. Caribe. Conforme citado. empreendidas por intelect uais e personagens notórias paraenses. participam significativamente das hodiernas imagens reproduzidas sobre o es tado. tem-se então o processo de identificação do estado do Pará com uma possível ―cultura caribenha associada à apropriação estética e política de elementos reconhecidos como característicos desta mesma identificação. dentre outras figuras do cenário artístico e inte lectual do estado) desempenharam neste ínterim. Essas musical idades pensadas na perspectiva de uma História policentrada onde in formações cruzam-se formando redes complexas e descontínuas de sonorid ade. Mano Brown e Olodum (Brasil) e Orixás (Cuba). que p ermeiam certas representações baseadas em processos de legitimação ou não-legitimação das imagens que delineiam a constituição identitária do estado. . Nestes termos. Papel este que. coadunado ou não a demais processos. produtores. configurando experiências/identidades relacionais que se manifestam na anti-pureza de marcando novas estéticas para a música do Atlântico Negro. Destarte.

queremos entender o processo de criação de identidade musical local das ca madas populares em Belém assim como os hibridismos musicais resultantes da imbricação com outros gêneros (Carimbó. tais como valores identitários e sentimento de pertença. Para além de qualquer visão fechada e estática que já possa ter sido difundida acerca da cultura amazônica. levando-o do local ao global. a língua se vale de diversos mecanismos. assim como pela transmissão destes entre os suj eitos. Em seguida. Apresentando um esboço da paisagem musical belenense nas décadas de 50 e 60 tentaremos mostrar como a presença marcante do merengue foi impo rtante na formação heterogênea da música popular na cidade de Belém. CONSTRUÇÃO E MANIPULAÇÃO DE IDENTIDADES A PARTIR DA LINGUAGEM MUSICAL PRESENTE NO REGGAE. reflet imos sobre os deslocamentos e a fluidez complexa das configurações cultu rais mundializadas. entre eles a comunicação. em um processo dinâmico que. música caribenha. Para tanto. Jovem-guarda etc. hibridismo. palavras-chave: Merengue. os distingue dos demais. sua expansão através da indústria fonográfica com todos os seus mecanismos midiáticos. Busca-se compreender. O processo de globalização concorreu para que fosse disseminada a ideia de que o ideal de convivência pacífica e progresso mundial poss uem relação direta com a associação entre os países. Cadence-lypso. ao mesmo tempo em que identifica e caracteriza sujeitos e m undos. reconstruindo-se a si e àquele. o processo de globalização. a partir do desenvolvimento particular (mas não em isolamento) da região a mazônica.). onde o idioma . inicialmente. Belém do Pará. Heridan de Jesus Guterres Pavão Ferreira Marcelo Nicomedes Ronald Correa O sistema de codificação produzido pela linguagem é responsável pela construção da maioria dos conhecimentos humanos. Bolero. a trajetória do merengue. entr e eles.Bernardo Farias Neste trabalho discuti-se a presença do Merengue na música popular paraense. transformando-os em uma unidade global.. pois é po r meio dela que os sujeitos dizem de si e do mundo. o que ocorreu em razão da hegemonia econômica dos países desenvolvidos. oferecendo uma visão da Amazônia na sua relação de profícuo diálogo cu ltural com a região caribenha e com o mundo. o que se refletiu em várias áreas do conhecimento. sendo a língua inglesa o idioma elencado como comum aos países globalizad os. A língua possui uma relação direta com elementos inerentes à formação dos su jeitos em aspectos distintos. tecnologia e linguagem.

ou seja. do ponto de vista semântico com palavras ou expressões empregadas nas composições em inglês. identidades e performance corporal objetiva a d iscussão sobre em que medida o uso do ‗melô‘ constitui-se estratégia para seleção e audição das ‗pedras‘. com a difusão do reggae no Estado. Palavras-chave: linguagem musical. O trabalho proposto ao GT Ritmos. que conforme Raul Lody ―também é conheci do e chamado por Candomblé de rua. razão porque os cursos do idioma têm se proliferado no país.como as canções do gênero musical são conhecidas. o Afoxé Alafin Oyó como um ―movimento negro de carnaval . A despeito disso. particularmente a veiculação desses discursos no cenário carnavalesco por meio dos afo xés. No caso do Maranhão. denominadas ‗melôs‘. que algumas vezes possui similaridade. especialmente a partir da década de 1970. manipulação. Um dos modos de disseminação da Língua Inglesa no Brasil vem se dando por meio da música. vivem suas representações do real e constroem suas práticas políticas em um processo de circularidade horizontal no qual idéias.Page 49----------------------- pessoas passaram a valorizar cada vez mais o idioma. as 48 ----------------------. o que faz com que se observe que as músicas recebam denominações específicas. É o entrecruzamento ent re manifestações culturais da população negra com o carnaval e com os movimentos negros que constitui o objeto deste artigo que tem a cidade do Recife como palco no qua l diversos setores da população afro-brasileira elaboram seus discursos. o número de usuários que empregam o idioma de forma eficiente ainda é bastante pequeno. pois. reggae. sentidos e discursos se movem. Seu domínio confere aos usuários um status em relação aos outros indivíduos.é falado. cuja língua oficial (Língu a Portuguesa) é dominada plenamente por um grupo restrito de usuários. um título e Língua Portuguesa. o MNU-PE. nos voltamos para a atuação da Associação Recreativa Carnavalesca Afoxé Alafin Oyó e seus vínculos com a constelação de sentidos que marcam o Movimento Negro no Brasil e na cidade do Recife a partir da década de 1970 e mais especificamente sua relação coma seção pernambucana do Movimento Negro Unificado. Com o propósito de refletir sobre o processo de construção e difusão do universo discursivo dos movimentos negros recifenses. ao mesmo tempo em que se torna elemento para construção e manipulação de uma identidade denominada regueira. melô. prolifera ndo a audição e mesmo composição das músicas em inglês. constituindo-se em cimen . construção de identidade. Tomamos. AFOXÉ ALAFIN OYÓ: ―MOVIMENTO NEGRO DE CARNAVAL Martha Rosa Figueira Queiroz (UNB) O título deste artigo é um trocadilho para uma das definições do afoxé enquanto manifestação cultural afro-brasileira.

obediente. entregue à vida de luxo e de prazeres. dócil. neste contexto. um corpo treinado. Pretendo nesta comunicação mostrar que a Caçada da rainha é um ritual que expressa uma prática sociocultural que foi ressignificada nas experiências locais. danças e sons que foram apropriados e reconstruídos ao longo do percurso his tórico. Che Guevara. ocioso. cantando. Surge. dançando e bebendo.Page 50----------------------ritmos. resultado contemporâneo de 49 ----------------------. Haydée Santamaría e Aleida March. um ideal de corpo re volucionário. O CORPO DÓCIL NA REVOLUÇÃO CUBANA (1952-1958) Rafael Saddi (UFG) Este trabalho trata do surgimento de um ideal de corpo nos discursos dos revoluc ionários durante a luta insurrecional cubana (1952-1958). Che Guevara. no estado do Tocantins. . O PROCESSO DE ENSINO APRENDIZAGEM DE CRIANÇAS E ADOLESCENTES. onde analisamos o desenvolvimento de uma tecnologia do corpo que visava transformar o revolucionário cu bano em um homem habituado à dor e ao sofrimento da guerra revolucionária e à obediência ao comando das lideranças rebeldes. Palavras-Chave: Corpo. Juan Almeida. Duran te os festejos religiosos um dos rituais mais significativos é a Caçada da rainha. Revolução Cubana. além de ocupar lugar de destaque nas manifes tações populares. na qual uma multidão percorre as principais ruas da cidade tocando tambor. be m como uma marca identitária para os moradores locais. Por meio da pesquisa sobre o Afoxé Alafin Oyó. homenageiam anualmente Nossa Senhora do Rosário.to para tecitura da intervenção político-cultural do Movimento Negro recifense. Tento mostrar que esta manifestação consiste num elemento condensador de sentidos. dentre eles. Trata-se de uma interpretação de diár ios e memórias de combatentes cubanos. no estado do Tocantins. configurando-se numa importante prática de sociabilidades. Mario Mencía. pretendemos refletir sobre a inserção do Movimento Negro recifense na cena carnavalesca A CAÇADA DA RAINHA: ―É SINHORA DO ROSÁRIO QUE NÓS TAMO FESTEJANDO! Noeci Carvalho Messias (UFG) Os moradores da pequena cidade de Monte do Carmo. na sua maioria negra. em oposição ao corpo gordo.

Intervenção Psicopedagógica. atividades de informação e conhecimento ressaltando as potencialidades da cultura de origem africana. voltado para a reintegração de uma pessoa com deficiência. onde a beleza e a contribuição do negro na formação da cu ltura do povo brasileiro são reveladas. de crianças e adolescentes. Metodologia Pedagógica.Antonio Henrique França Costa (Centro de Ensino Superior Santa Fé) O presente artigo enfoca a Dança. sobre a ótica da educação informal. p ara que os mesmos permitam-se a encontrar novas alternativas educacionais utilizando a dança em diversas situações de aprendizagem.) e bens . que torna possível. CULTURA AFRO-BRASILEIRA NO PROCESSO DE INCLUSÃO SOCIAL Relato de Experiências do Instituto Como Ver . a percussão afro-brasileira. no processo de ensino aprendizagem. como importante contribuição ao processo de ensino e aprendizagem e de incorporação social. ao convívio coletivo. como meio de inclusão social. em especial. que utilizam à dança como estratégia indis pensável para o desenvolvimento sócio-cultural e cognitivo. iniciado no ano de 2002. sistematizando acervos imateriais (sa beres. 50 ----------------------. Propõe-se esta exposição. Pretende-se ainda através de relatos de experiências.Page 51----------------------Pretende-se destacar as benesses de um trabalho. sensibilizar os educadores. técnicas etc. Educação. soci al e artístico-cultural. durante o acompanhamento de atividades lúdic as e pedagógicas desenvolvidas com o público atendido. A descrição da experiência em questão é um trabalho que objetiva criar alternativa de aplicação da cultura afro-brasileira. a partir da observação da experiência desenvolvida em duas organizações não governamentais. com recorte à situação de um componente. subsidiada pelas tradições de origem africana.Officina Affro do Mara nhão Adalberto Conceição da Silva (Zumbi Bahia) A presente narrativa trata-se de um relato de experiência acerca da cultura afro-brasileira. como um instrumento de intervenção psicopedagógica. Palavras-chave: Dança. que foi resgatado na Unidade Escolar Especial Helena Antipoff em São L uís do MA. o que poderá contribuir de forma direta para a identificação de algumas dificuldades de aprendizagem. como proposta de atividades pedagógicas d e inserção. fortalecendo a auto-estima de crianças e adole scentes.

Balé clássico e dança folclórica foram suas preferências iniciais. Ela. Para isso discutir nos embasaremos na trajetória de vida da bailarina Mercedes Batista. após trabalhar como doméstica. que também revalor izem as relações interraciais para a construção/reconstrução da dignidade humana. Palavras-chave: Inserção social. fenótipo.). Mudança.) para o trabalho de sensibilização estética e conscientização política. exp ressão corporal. no Rio de Janeiro. músicas. foi a primeira bailarina negra admitida pelo Municipal do Rio de Janeiro. Mercedes fez aulas com a companhia. Assim. com os quais. indumentárias etc. mesmo que grande parte da população brasileira é negra e mestiça. nascida em 1921 no município de Campos dos Goyta cazes no Rio de Janeiro.De volta para o Brasil. incluindo-se ações positiva s que contribuem para o estabelecimento de concisões de igualdade e respeito entre aquel es de menores condições funcionais na sociedade. Cultura afro-brasileira. Percussão. Preconceit o. Barrados por sua condição financeira. No ano de 1950. Não se encaixando em um padrão de corpo e nem em histórias de contos de fadas. estudando com Yuco Lindberg e Vaslav Veltchek e. estética etc. em 1947. o que envolve aspectos de sua corporeidade (estrutura anatômica. dedica -se à dança.porém nunca se apresentou nos espetáculos.artistico-culturais (instrumentos. A TRAJETÓRIA DO CORPO NEGRO QUE DANÇA: INDAGAÇÕES DE UMA BAILARINA NEGRA Juliana de Oliveira Ferreira (FESGO) O presente trabalho abordará a trajetória e a desvalorização do bail arino negro. a bailarina ingressou na Escola de Danças do Teatro Municipal do Rio de Janeiro. funda o Balé Folclórico. Filha de uma família humilde. tornou-se membr a do Conselho de Mulheres Negras. Grupo fo rmado por bailarinos negros que desenvolviam pesquisas e divulgavam a . nos estabelecimentos de ensino.No mesmo ano foi sel ecionada pela coreógrafa e antropóloga americana Katherine Dunham e conquistou uma bolsa de estudos em Nova York. em particular. nos palcos estes são sempre vistos como o exótico. pois. a maioria dos bail arinos negros inicia sua trajetória com idade avançada. deveria ser objeto de estudo sistemático. como este corpo é recebido no espaço da dança? Como este corpo percebe e é percebido? Qual a reflexão e inflexão do bailarino acerca disso? Ser baila rino negro em um país que a cultura européia é valorizada é algo muito complexo e ardilos o. a escola poderia intercambia r identificando-se com os processos de luta em prol de políticas públicas de inclusão. Em meados da década de 1940. Pois esses centros de arte são distan tes de seus lares e de sua realidade.

Santa Rosa. Este trabalho traze a tona a relação de representação versus presentificação propriamente no entendimento da cultura e identidade negra principalmente no cam po de estudo da relação artes cenicas e ciências sociais falando como na produção da performance bailarina negra ex . conseguiram espaço e respeito. mas.cultura negra e afrobrasileira. que é realizada em vários municípios tocantinenses como: Paranã. A trajetória dessa grande pressa. REPRESENTAÇÃO VERSUS PRESENTIFICAÇÃO: POR UMA ANTROPOLOGIA DA TRANSCULTURAÇÃO Dr. Mon te do Carmo. a trajetória de outros/as bailarinos negros/as. selvagem. por elas ser culturas de presentificação e por sua expressão artística e cultural estar sempre unida ao discurso do social. entre outras. assim. foi utilizada pelo E stado como elemento constituinte de uma possível ―identidade tocantinense. uma identidade. de alguma forma. não se poderia explicar essas outras culturas e especificamente a cultura negra . Suas letras eram de agradecimentos pelas colheitas ou po r alguma graça alcançada. Mercedes Batista 51 ----------------------. patrimônio imaterial representado principalmente pelos Catireiros de Natividade. A catira é de cunho religioso e está diretamente relacionada com a festa do Divino Espírito Santo. Palavra-chave: corpo negro. Julio Moracen Naranjo (UNIFESP) O século XX se coloca como um cambio a tradição da alteridade com a noção do olhar do primitivo.Page 52----------------------CATIRA TOCANTINENSE: TRADIÇÃO OU INVENÇÃO? Antonio Carlos de Sousa Matos (UFT) Orientadora: Profª Drª Marina Haizenreder Ertzogue Co-orientadora: Profª Dranda Mírian Tesserolli. decadente ou não civilizado. Os Catireiros de Natividade eram bem pouco conhecidos dentro do cenário artístico e sóci ocultural tocantinense. Até bem pouco tempo. aos poucos. descortinou novos horizontes para a dança ao introduzir elementos afri canos na dança moderna brasileira. Na década de 60 trabalhou como coreógrafa da escola de samba Acadêmicos do Salgueiro. O objetivo desse estudo é perceber como a Catira no Tocantins. racismo. Com a criação do Tocantins estas melodias passaram por mudanças e queremos perceber como se estabelece o processo de apropriação pelo Estado das cultu ras tradicionais para legitimar-se e construir. cientistas sociais deste século pretenderam justificar isso falando que contrariamente a cultura euro péia. Natividade.

Refle xão que nasce do dialogo.Page 53----------------------Maranhão com suas expressões culturais influenciadas e edificadas com elementos da cultura africana e afro-caribenha como é o caso do ―reggae maranhense . nas qu um palco tem citar presente com fértil dessas movimentações em ênfase seus na diverso Região N a . Márcia Daniele Souza Carvalho (UFG) Alex Ratts (UFG) A música negra possui como característica o movimento pelas inúmeras espacialidades do atlântico. Esta expressão e sua releitura chega no final da década de 1990 e início dos anos 2000 à Região Metropolitana de Goiânia animando as radiolas (sound systems) improvisadas em salões simples das periferias da capital e entorno trazida por indivíduos como meio de expressão de pertencimento e ancestralidade. gerando o que eu chamo a sombra de si mesmo. leitura e pesquisa sobre o corpo e a cultura negra-africana-ame ricana e caribenha dentro de uma antropologia da transculturaçao. “SEGURA ESSA PEDRA!”: O REGGAE JAMAICANO/MARANHENSE NA REGIÃO METROPOLITANA DE GOIÂNIA. por sua vez. uma resignificação de uma manifestação caribenha-jamaicana. JUVENTUDE DOS AFOXÉS: SEUS CAMINHOS. tendo como ―berço os terreiros de casas de matriz africana.negra existe o dilema cultural ocidental de representação versus presentificação express ado tanto nessa relação como também na visão de presentificação no cont exto de representificação. A presente comunicação presenta dados e interpretações preliminares de uma pesquisa. constituem-se em luga res da juventude afro. Podemos ordeste o estado do 52 ----------------------. O território nacional s lugares a história e cultura de matriz africana. indivíduo s que trazem com suas histórias de vida o amor por essa música e trabalham para preserv ar tal manifestação em espaços diferenciados da terra natal. O foco deste trabalho são os DJ‘s de reggae. foco desse artigo. O Brasil é historicamente e diálogos transculturais. oriunda de diversas resignificações de ritmos provenientes do grande continente negro. SEUS LUGARES Auxiliadora Gonçalves da Silva (Universidade Federal Rural de Pernambuco) Os afoxés de Recife e Região Metropolitana.

social. a pesquisa voltada para e so bre os jovens dos afoxés primou por uma dinâmica de aproximação e de olhares capazes de entender a dimensão de uma geração que se diferencia realidades. e no desempenho de uma atividade cultural afrobrasi leira. os intermediários e os mais novos. os intermediários e os mais novos compreendendo seis afoxés. escolhidos entre os mais antigos. em concepções e percepções. conduzidos. localizados nos bairros de Casa Amarel a. Jardim Brasil e Comunida de do V8. econômica e relig iosa. o recorte investigativo sobre os jovens não foi no âmbito de quem são. investigar as formas como eles se apropriam dos afoxés para delinear suas trajetórias histórica. Juventude – Movimento Social Negro Juventude-Casa de Religião de . os aspectos est udados nesse artigo referem-se ao traçado de caminhos e de lugares buscados pelos jovens. todas as suas expectativas de mudança de suas realidades locais. como suporte para a afirmação e fortalecimento da identidade negra e investigar como a concepção de Afoxé se configura no discurso e na prática.ais os mesmos se originaram – e onde ainda se originam. escol hidos entre os mais antigos. do exercício da criatividade. em instrumento de mudanças e transformações. 53 ----------------------. na dinâmica particular entre o lugar que fixaram e o caminho que vislumbram. Jardim Paulista Baixo. Nesse sentido. dentro das dimensões social. Os afoxés são considerados e classificados pelos estudiosos dos movimentos sociais. esse artigo é resultado dos da dos do Projeto de Pesquisa. dentro do contexto de continuidade/descontinuidade dos movimentos sociais negros. dentro do contexto de movimento social negro – o afoxé. Sendo assim. compreensões e necessidades. Por essa razão. mas. de natureza cultural com origem religiosa. Matriz Africana. a partir do momento que depositam nos afoxés. Dois Unidos.Fundamentando-se nessa metodologia. o a rtigo objetivou analisar quais as propostas traçadas por essa juventude. aliment ados na tradição e fortalecidos pela ―afirmação matricial africana .Page 54----------------------Palavras-Chave: Afoxé. den tro da sua especificidade – movimentos sociais negros. são orientados. também como movimentos. Alto José do Pinho. Barro. Parti ndo de uma abordagem histórico-antropológica e numa perspectiva qualitativa. onde estão e como vivem. compreendendo seis afoxés.Juventude. para a fixação do l ugar e do caminhar quando optam pela integração nos Afoxés. mas que conseguem compartilhar sentimentos. econômica e política.

AFOXÉS DE PERNAMBUCO: ESPAÇOS DE APRENDIZAGEM E AFIRMAÇÃO DE IDENTIDADE DA JUVENTUDE NEGRA. Suzana Teixeira de Queiroz (GECAB/ Universidade Federal Rural de Pernambuco) Carlos Augusto Sant‘Anna Guimarães (NEAB/ Fundação Joaquim Nabuco) Maria Auxiliadôra Gonçalves da Silva (NEAB/Universidade Federal Rural de Pernambuco) O presente trabalho tem como objetivo traçar, por meio de relatos de vivência, os pr ocessos de construção da identidade e afirmação étnica da juventude negra participante de afoxés grupos culturais/musicais vinculados a uma Casa de religião de Matriz Africana (comumente designada de Terreiro de Candomblé), ou quando o seu responsável pertence à um Terreiro de Candomblé como Filho-de-Santo -, na cidade do Recife e Região Metropolitana. Buscamos analisar situações de preconceito e discriminação racial sofrida s pelos entrevistados e as repercussões na vida dos sujeitos, assim como identificar as estratégias de superação do preconceito racial através da permanência e desenvolvimento/ participação nas atividades do afoxé. Os participantes da pesquisas foram questionados sobre sua infância e adolescência; suas experiências nos ambientes escolares formais; sobre como tomou conhecimento do afoxé ao qual pertence e como foi o processo de inserção; s e houve mudança nas suas opções e escolhas, profissionais e pessoais, depoi s do afoxé. A atuação do jovem dentro do afoxé – no dançar, no tocar e nos cortejos - gera novas práticas e estratégias de afirmação de identidade que agem sobre a realidad e em que vive. Modificam sua perspectiva de futuro e ampliam as oportunidades de inserção social no quadro de exclusão e marginalização da juventude negra. 54 ----------------------- Page 55----------------------07. RELIGIÃO E RELIGIOSIDADE Coordenação: Álvaro Roberto Pires (UFMA) YORUBA EN LAS AMÉRICAS: DIVERSIDAD Y UNIDAD Adonis Díaz Fernández (West Indies--Cave Hill, Bridgetown, Barbados) April Bernard (West Indies-Cave Hill, Bridgetown, Barbados) Este documento busca responder a la pregunta: ¿Cuál es la presencia de la religión yor uba en las Américas? Se estima que millones de africanos fueron transportados a las Amér icas durante la época colonial. Los que sobrevivieron a la travesía d el Atlántico trajeron con ellos las diversas tradiciones que incluyen la cultura yoruba y la religión. Con el tiempo, esas tradiciones se han asimilado y se adaptan a diversas limitaciones y las lib ertades dentro de sus entornos. El objetivo de este trabajo es explorar los puntos en que diver sos aspectos

de la religión yoruba asimilados en la convergencia de las Amér icas para buscar un entendimiento de cómo las diferentes expresiones de la tradición han evolucionado. El presente documento comienza con una breve discusión de la definición de la tradic ión yoruba y su origen en las Américas. Una comparación de la cultura yoruba y la religión en dos países, Cuba y Brasil. Las representaciones visuales de estos aspectos dentro de cada país se prestará a través de una presentación de vídeo y gráficos. Este análisis concluye con una breve mención acerca de las posibles maneras de pl antear los diversos aspectos de la tradición yoruba en estos dos países de América y el pa pel de la mujer en ella, asi como proponer formas de organizar este acercamiento para pres ervar y ampliar la tradición para las generaciones futuras. A FESTA DE SÃO JORGE NO TERREIRO DE DONA MARGARIDA EM SÃO BENTO: EXPRESSÃO DE FÉ E ALEGRIA Isabella Alves Silva (UFMA) Propõe-se, neste trabalho, fazer uma reflexão sobre o sincretismo das manifestações religiosas do sistema de crenças afro-maranhense, a partir das observações de campo do s rituais religiosos em terreiro de São Bento, no Maranhão. As atividades de campo f oram feitas no Terreiro de Dona Margarida no bairro Outra Banda, no mesmo município, no período da festa de São Jorge, ocorrido no mês de Abril a cada ano, possuindo o Tambor de Mina, bem como outras práticas religiosas, tais como Pajelança ou Cura. Os elementos comuns a estas manifestações religiosas é a presença das entidades espiritu ais, recebidas em transe mediúnico e festivo que são sincretizadas com santos católicos nestes terrei ros. Estas entidades demonstram possuir devoção pelos referidos santos e realizam homenag ens a eles em diversas modalidades, de acordo com os fundamentos religiosos de cada terreiro e com o calendário da igreja católica. Essa homenagem, em especial, dar-se-ia a São Jorg e, expressa a devoção destas entidades espirituais da religião afro-maran hense aos santos. Buscamos o referencial teórico em alguns autores sobre o tema, como: Sérgio Ferretti e Mundicarmo Ferretti, entre outros. Desta forma, através das visita s de campo e estudo destes autores, trazemos uma discussão sobre a festa para a devoção de en tidades e seus ―cavalos , em um terreiro de Tambor de Mina, a São Jorge, através de l adainha, Dança, Música para homenagear este santo e as entidades ligadas ao terreiro. Palavras-chave: Religião, Festa, São Bento. 55

----------------------- Page 56----------------------PLANTAS SAGRADAS NO CANDOMBLÉ: O CASO DO ILÊ AXÉ ONILEWA Clarissa Adjuto Ulhoa (UFG) Talita Viana Neves (UFG)

―Não há orixá sem folhas . Esta é uma expressão recorrente na fala de candombleci tas, acionada sempre que perguntados sobre a importância das plantas no candomblé. Isso porque o uso das folhas consideradas sagradas perpassa todo o corpus desta relig ião. Foi o que percebemos especialmente em uma das pesquisas de campo realizada no Ilê Axé Onilewa, localizado em Aparecida de Goiânia, Goiás. Neste ter reiro de candomblé, identificado com a tradição nagô, foram plantadas e cultivadas centenas de tipos de pl antas sagradas, todas cuidadosamente catalogadas pelos membros. Fato int eressante, haja vista que boa parte dos terreiros goianos não possui sequer espaço para este tipo de ati vidade. Nesse sentido, pretendemos discutir a importância e a maneira com o os adeptos deste terreiro lidam com o cultivo destas plantas, bem como os ben efícios que esta produção acarreta para o cotidiano desta comunidade religiosa. REAFRICANIZANDO: DINÂMICAS IDENTITÁRIAS DO CANDOMBLÉ GOIANIENSE Natália do Carmo Louzada O presente trabalho tem como objetivo refletir acerca da identidade candomblecis ta frente às demais religiões afro-brasileiras. Analisando, além da positivação e afirmação do candomblé enquanto implicações do processo de reafricanização, transcorrido no Brasil a partir da década de 1960, no âmbito do movimento de contra cultura nacional, a hierarquização das religiões de influência africana mediante à des valorização do sincretismo. retendemos por meio da referida análise, compreend er a dinâmica de negociação por sobrevivência historicamente empreendida pelas religiões afro-br asileiras. Realizando estudo sensível às estratégias de sociabilidade e perc epções acerca do hibridismo religioso por parte dos líderes candomblecistas da c idade de Goiânia. De maneira a evidenciar e compreender as relações territoriais e políticas estabelecidas entre as diferentes religiões de influência africana existentes no referido espaço urbano. Palavras-chave: reafricanização; identidade; hibridismo religioso CANDOMBLÉ E A INTERFERÊNCIA DA LÍNGUA PORTUGUESA SOBRE O IORUBÁ Bruna Gabriela Corrêa Vicente A proposta central desse ensaio é apresentar as interferências recaídas sobre a língua I

orubá por parte da influência do português no Brasil. O alcance deste objetivo requer cons iderar o Iorubá a partir de seus aportes lexicais, os quais abrangem um sistema de base africana relacionado ao universo religioso, neste caso, o Candomblé. Entende-se que a lin guagem ocupa centralidade nas manifestações religiosas na medida em que ela media as cerimôni as do culto, todavia, cabe investigá-la em suas transformações tomando como referência as próprias modificações que incidem nas cerimônias. Ao aportarem no Bras il, os negros 56 ----------------------- Page 57----------------------passaram por um processo de aculturação e criação de uma identidade diaspórica, por meio de analogias que estão marcadas pela ressignificação provocada pelo novo contexto cultural, social e lingüístico. O banto configura-se como um tronco lingüístico e encont ra-se difuso e diluído no plano lexical, mas ele é audível em terreiros de Candomblé congoangola. Uma de suas ramificações, o iorubá, é bastante falada, sobretudo em ritos religi osos com os cultos de matriz-africana e afro-brasileiros. O Candomblé é uma religião, eminentemente de transmissão oral e, a despeito disso, é importante salientar que a ―lín guade-santo contempla objetos sagrados, cozinha ritualística, cânticos, expressões referen tes a crenças, costumes específicos, cerimônias, ritos litúrgicos e saudações, como "agô" (licença) e "axé" (saudação), tais vocábulos foram preservados em grande parte dos seu s rituais, cânticos e liturgia com sua língua. São justamente estas ma nifestações e a resistência do Candomblé em aceitar estas mudanças, o objeto que s e pretende explorar conferindo relevância à linguagem a partir das modificações pelas quais ela passou. Palavras-chave: Iorubá, língua, Religiões de Matriz africana. CONFLUÊNCIA DE TRADIÇÕES “RELIGIOSAS” E ESPAÇOS DE MATIZES E CONTRAPONTOS “AFRO-CARIBENHOS”: NOTAS SOBRE UMA EXPERIÊNCIA ETNOGRÁFICA EM UMA BOTÂNICA DE SANTERÍA EM SAN JUAN (PORTO RICO) Alline Torres Dias da Cruz (Museu Nacional/UFRJ) Esse resumo baseia-se em notas de campo de uma primeira exploração etnográfica junto às chamadas ―botânicas de santería : espaços comerciais, e em alguns casos de cons ultas e ―trabalhos , nos quais são comprados objetos e produtos ―religiosos , especiarias e planta s de uso ―medicinal e ―espiritual , comuns em cidades caribenhas e norte-americanas com presença acentuada de imigrantes de língua espanhola. O trabalho de campo foi realiz ado na botánica San Martin, que se encontra na Plaza del Mercado de Río Piedras

(San Juan, capital de Porto Rico) na qual há uma forte atuação de imigrantes da República Dominican a em setores econômicos como o comércio de vegetais e frutas; de prepar ação e venda de comida crioulla; e das ―botânicas de santería . Através da observação participant na botânica em questão, cuja responsável é uma jovem mulher dominicana, foi possível perceber que diferentes tradições religiosas – espiritismo, santería de ―origem cubana, e o s chamados ―mistérios ” ligados à população da República Dominicana em Porto Rico – se cruzam nesse espaço social, no qual um amplo universo de pessoas e objetos são posto s em circulação e produção. Considerando algumas relações e práticas entre os dominicanos, no entanto, sugere-se que especificidades com relação a um universo ―r eligioso que tradicionalmente é visto como ―afro-caribenho – ao se considerar o fato de que minha investigação foi realizada numa ―botânica de santería –, assumem configuraç que matizam e contrapõem concepções acerca do desenvolvimento e recriação de cosmologias africanas nas Américas. IDENTIDADE, RESISTÊNCIA E DIVERSIDADE NO CANDOMBLÉ GOIANIENSE: UMA ANÁLISE PÓS-COLONIAL Natália do Carmo Louzada 57 ----------------------- Page 58----------------------O presente trabalho se propõe a analisar as dinâmicas identitári as da comunidade candomblecista da cidade de Goiânia. Partindo da perspectiva dos estudos culturais e póscolonias, buscamos compreender o candomblé como religião rizomática, que negocia sua inserção e legitimação social por meio de uma identidade flúida, ora assimilando características ocidentais, ora afirmando uma tradição africana. Nesse sentido, procur amos perceber o discurso do subalterno, dos indivíduos da fronteira e seu processo de r esistência. Este que perpassa a manutenção de uma memória performática, espacializada na disposição física dos terreiros, bem como o estabelecimento de uma comunida de culturalmente e etnicamente híbrida. Portanto, dedicaremos aqui especial atenção à e nunciação de uma identidade negro-africana como forma de afirmação, analisando ainda as diferenças entr e os discursos de líderes sacerdotais no que tange à diversidade da tradição africana no âmbito do candomblé e deste mediante às demais religiões afro-brasileiras UMBANDA, TERRITORIALIDADE E MEIO AMBIENTE: REPRESENTAÇÕES SOCIOESPACIAIS E SUSTENTABILIDADES Marcelo Alonso (PUC-Rio) A Umbanda, através de seus ritos e símbolos em reuniões coleti

vas, promove uma integração, no plano mítico, entre todas as categorias sociais. Ao forjar a identidade umbandista, como prática social e cultural, essa religião sincrética e moderna pode ma nter viva a esperança de grupos marginalizados em ocupar espaços de prestígio social e criar modelos de convívio que primam pelas sustentabilidades, através da transposição do significado da natureza, de acidente geográfico, como portadora de valores cultura is para a criação de um possível espaço social mais solidário. A partir da compre ensão de que a RMRJ expressa pluralidade de sentidos, interrelações entre as di versas dimensões das práticas espaciais e sua aproximação com as práticas culturais, demo nstra-se como a Umbanda expressa potenciais mecanismos de interpretação das representações socioespaciais de segmentos incluídos precariamente, assim como na transformação das condições socioambientais vigentes que, por sua vez, pode deslanchar um novo paradig ma de educação ambiental no âmbito da gestão do território. Trata-se, a ntes de tudo, de resgatar a solidariedade, o cuidado e a responsabilidade dos ho mens sobre as coisas da Natureza, que, por sua vez, são destinadas aos mesmos homens territorializados. Palavras-Chave: Umbanda, Modernidade, Representações sociais, Identidade, Gestão do território, Sustentabilidades. MARANHÃO: MOSAICO CULTURAL AFRO – RELIGIOSO Luciana Fernandes de Oliveira Yasmin de Araújo Porto Este trabalho tem por objetivo apresentar uma pesquisa que percorre um caminho q ue vai desde fontes documentais às fontes orais. Pautando-se no convívio direto com o objet o de pesquisa, a Religiosidade Africana no Maranhão, busca-se montar um retrato popular das identidades afro-religiosas maranhenses a partir das falas de seus participantes . Com base nessas, a intenção é defender uma dissociação desta de quaisquer pré-con ceitos, medos, depreciações, vulgarizações e marginalizações. Para tanto, percorreu-se os principais 58 ----------------------- Page 59----------------------centros de manifestação de cultos afros (Casa das Minas, Casa de Nagô, Casa Fant-Ashan ti, Tenda Espírita de Umbanda Rainha de Iemanjá), a fim de conhecer sua s peculiaridades, diferenças e semelhanças e através disso refletir acerca do sincretismo como reflexo dos amálgamas culturais-religiosos que nos moldaram e ao mesmo tempo dar

visibilidade ao complexo cultural artístico que aflora destes cultos afros, com seus ritmos, músicas , cantos, cores, danças e devoções. Paralelamente o pilar teórico destas investig ações situa-se nos estudos do contexto sócio-histórico do período colonial, especificamente acerca do tráfi co negreiro África-Brasil e as tradições religiosas multiétnicas vivenciadas neste lado do Atlântico até os dias atuais, principalmente no que diz respeito ao Maranhão. Pretende mos assim, clarear e dar voz a um universo de diversidades culturais, artísticas que c ompõe tal religiosidade a qual, ao longo de séculos, muitos insistem silenciar. Porém ninguém ca la os gritos da ancestralidade, seja qual e como for. RELAÇÕES DE PODER E ENCOBRIMENTO DO OUTRO: RELIGIÕES DE MATRIZ AFRICANA NA REGIÃO METROPOLITANA GOIÂNIA-GO Rodolfo Ferreira Alves Pena Jailson Silva de Sousa O objetivo desse trabalho é pautado no mote geográfico que privilegia a análise territ orial das Religiões de Matriz Africana – em especial os Candomblés – localizados na Região Metropolitana de Goiânia. Para isso, parte-se de análises teóricas e empíricas constituída s a partir de dois projetos de pesquisa – Igbadu: Territórios, gênero e história dos candom blés de Goiânia (FAPEG/SEMIRA) e Mães de santo: domínios territoriais, sociais e históricos do sagrado em Goiânia - GO (FAPEG/SEMIRA). Para esse ensejo, será feita uma reflexão sobre o processo de encobrimento por via da ausência de polític as públicas e ações direcionadas a esse segmento religioso. Assim, o Candomblé será visto em uma discussão que aborda o Estado, bem como, as formas de legitimação do processo de encobrimento do Outro. O encaminhamento metodológico permitirá analisar como as políticas públicas atendem a Comunidades de Terreiro, em detrimento de ações que atendem a outros segmentos como as Religiões Católica, Protestante e Kardecista. Tal abordagem encont rarse-á sob um viés pós-colonial. Palavras-chave: Religiões de Matriz Africana; Estado; Estudos Pós-Coloniais; Candomb lé CANDOMBLÉS, GÊNERO E FESTAS: MEDIAÇÕES TERRITORIAIS DO SAGRADO NO ESPAÇO DIASPÓRICO Mary Anne Vieira Silva Herta Camila Cordeiro Morato A diáspora africana no continente americano, em particular no Brasil provocou, sob retudo, o encontro de culturas distintas as quais não resultaram numa síntese cultural homogên ea, ao contrário: essa promoveu uma rede de ressignificações, que se

constrói em vários campos da vida e do cotidiano de quem vivencia o ambiente diaspórico. É neste contex to, que o candomblé emerge: permeado por ressignificações impostas pela nova realidade 59 ----------------------- Page 60----------------------histórica e social. Outrossim, no Brasil essa religião surge marcadamente configurad a pela e na figura feminina. Essa imbricação da mulher e religião contrar ia a lógica de uma sociedade marcada pelo preconceito e fundamentada nas relações patriarcais do iníci o do século XIX. Apesar da mulher está à frente dessa religião no seu p rincípio, hoje tal participação se (re)configura, principalmente quando se analisa a pa rticipação do gênero masculino que de forma paulatina, ocupa espaços que originalmente pertenciam apena s às mulheres. O presente trabalho surge como parte das reflexões realizadas no bojo do projeto Mães de Santo: Domínios territoriais, sociais e históricos do sagrad o em Goiânia/GO (FAPEG/SEMIRA/CieAA/UEG/UFG), logo, essa análise visa co nhecer como se dá a relação de domínio territorial dos candomblés de Ketu, liderados por mulheres em relação a crescente ascensão e dominação de ilês comandados por partícipes masculinos na região metropolitana da cidade de Goiânia/GO. Outra questão que se amalgama a essa primeira , decorre da análise das festas públicas do candomblé como espaços que favorecem desvelar a relação de gênero presente, bem como entendê-la como prática sócio-e spacial, logo cultural. As festas emergem como possibilidades de contemplar uma prática cultural compreendida em sua concepção como patrimônio imaterial desse segmento, além se posicionar como mediação na composição da rede que articula as relações ligadas ao poder hierocrático dessa religião. OS NEGROS DO ROSÁRIO: REFLEXÕES A CERCA DAS CONGADAS NA REGIÃO METROPOLITANA DE GOIÂNIA GO. Autor - Luciana Pereira de Sousa (Graduação UFG) Co-autor: Dr. Alex Ratts - Orientador Essa comunicação visa analisar a religiosidade dos devotos de Nossa Senhora do Rosário (congadeiros) na metrópole Goiana. Nosso foco de interesse é discu tir as estratégias de permanência dessa prática cultural em uma cidade, cuja formação se deu dentro da lógica européia. Essa discussão se pauta em um ponto fundamental: a preservação da cultura afro brasileira a partir de um espaço religioso cristão, destacando o apel das irmandades negras. Seguiremos o seguinte trajeto: Primeiro apresentaremos as congadas, destacando p

alguns personagens e suas respectivas funções, em seguida, faremos uma breve análise d a religiosidade goiana, e por fim, levantaremos algumas questões a respeito dos limites e possibilidades que viabilizam essa religiosidade como espaço de luta e resistência da cultura negra em Goiânia. REPRESENTAÇÕES DO CANDOMBLÉ E DA UMBANDA NO CINEMA BRASILEIRO. Conceição de Maria Ferreira Silva (UFG) Observando o papel da mídia e do cinema como principal matriz cultural na atualida de, e assim também seus conteúdos, imagens, narrativas e valores como elementos que incide m na construção da subjetividade e das representações sociais, é que este trabalho se propõe a analisar os processos de representação do Candomblé e da Umbanda no ci nema, a partir dos filmes "Barravento (Glauber Rocha, 1962), "Orí" (Raquel Gerber, 1989) e "Santo Forte (Eduardo Coutinho, 1999), buscando assim compreender o que e como essas três produções cinematográficas retratam o universo religioso afro-brasileiro. 60 ----------------------- Page 61----------------------A RELIGIOSIDADE COMO ATRAÇÃO TURÍSTICA NA FESTA DO DIVINO PAI ETERNO EM TRINDADE - GOIÁS Jorgeanny de Fátima Rodrigues Moreira Msc. Clarinda Aparecida da Silva O município de Trindade de Goiás fica localizado no Centro Oeste goiano, a 18 km da capital goiana. Atualmente é conhecida como a capital católica do Estado. Essa cidade, todo ano é sede de uma festa religiosa – Festa do Divino Pai Eterno - que recebe mil hares de devotos de todo o país. Esta manifestação religiosa começou com romarias que saiam de cidades vizinhas e de famílias que viviam na zona rural, para a adoração de um medalhão de barro com a imagem da Santíssima Trindade. A pesquisa visa identificar a re lação da comunidade local com os turistas que participam desta festa. A través de observações e entrevistas busca-se conhecer a influência e impactos (positivos e ne gativos) do turismo, exercidos sobre a população. Palavras chave: Turismo religioso, Religiosidade, comunidade local. OS CONFLITOS DO ADOLESCENTE UMBANDISTA NO COTIDIANO ESCOLAR NA CIDADE DE ANÁPOLIS/GO Diogo Jansen Ribeiro (UFG) O debate que norteia essa proposta insere-se nos postulados que versam sobre a E

ducação básica e a lei 10.639/03. Essa última estabelece a obrigatoriedade da inserção de conteúdo s sobre a história e culturas africanas nos currículos atuais. Em Anápolis, cidade marcada pelo discurso hegemônico de cultura cristã, sobretudo, a protestante, a discussão emer ge a partir das contradições entre prática escolar, preconceito e lei. Vale ressaltar que o segmento das Comunidades de Terreiros, o movimento negro e outros representantes desses grupos fazem um debate atualizado sobre a questão que envolve o tratamento da iden tidade e a intolerância religiosa. É válido ressaltar que segmentos de Candomblés não se fazem presentes na cidade, porém a prática umbandista é bem representativa no locus. No cotidiano das escolas de Anápolis, torna-se corriqueira a prática que legitima o pro cesso de encobrimento do Outro. O corpo demarca o espaço e é pelo corpo d o adolescente que o ensaio é composto. Os adolescentes umbandistas vivenciam sérios enfrentamentos, no que concerne sua identidade religiosa no interior da sala de aula. A umbanda se cons titui, por excelência, de forma híbrida, compondo um continuum mediúnico com vários pólos de influências diferentes, que incluem, entre outros, o Espiritismo ―Kardecista , o Cando mblé, o Omolocô, a Pajelança que constituem a Encantaria brasileira. A partir de tais reflexões, este trabalho tem por objetivo analisar os enfrentamentos vivenc iados por adolescentes umbandistas no cotidiano escolar a partir de uma visão Pós-colonial. Ade mais, objetiva-se contribuir com a historiografia local por meio da história de segmentos e lugares que foram subalternizados e encobertos em decorrência de suas escolhas id entitárias e práticas religiosas. CANTO DE PAJÉ: CORPO E CURA EM CIRCUITOS AFRO-INDÍGEMASAMAZÔNICOS Luís Cláudio Cardoso Bandeira (PUC-SP) 61 ----------------------- Page 62----------------------presente comunicação é parte das pesquisas em andamento acerca do tratamento do corpo e cura no contexto da ―pajelança Cabocla , em circuitos diaspóricos, tendo present e as diferentes injunções de rituais de matrizes culturais africanas e indígenas no Norte e Nordeste brasileiro, compreendendo uma rede de relações que perpassam, de forma dire ta ou indireta, áreas culturais brasileiras e transatlânticas que mobilizam mães e pais-d e-santo, A

os elementos. as d iversas organizações territoriais que se distinguem dentre a policromia de tradições afro-brasil eiras. evidenciando os signos. proble matizando algumas questões intrínsecas de como terreiros de Mina mais contemporâneos apresentam essa categoria de entidades. Tambor de Mina. Palavras-Chave: Tobóssis. TERREIROS. focalizando o terreiro de Ogum e Sogbô. Terreiros. Lindoso (IFMA) O presente trabalho tem o objetivo de fazer uma reflexão antropológica sobre a figur a das entidades espirituais infantis femininas denominadas ‗tobóssi s‘ ou ‗tobosas‘ particularmente na religião de matriz afro do Maranhão. utilizando-se de folhas e bênçãos. a diretriz central do CieAA é a de colaborar e incentivar estudo s e pesquisas que visam conhecer as diversas vivências humanas. no trato dos males físicos e espirituais. benzedeiras. Ritual de Feitura. Meninas. Tambor de Mi na. do babalorixá Airton Gouveia no bairro da Liberdade na cid ade de São Luís. Nesse mesmo contexto estenderemos observações as representações das tobóssis nos terreiros de Mina mais ‗tradicion ais‘ ainda em funcionamento no Estado.pajés. Analisaremos uma festa de ‗feitura‘ ou ‗iniciação‘ para essas entidades em que três filhos-de-santo dessa casa foram submetidos a rituais específicos para atingire m o grau máximo de vodunsí hunjaí. influências externas e funções específicas dentro do culto. corpos e imagens: cenários cotidianos do povo-de-santo na Região Metropolitana de Goiânia . num contexto em que uma multiplicidade de terapêutica s oficiais e populares são experimentadas pelos mais diversos segmentos sociais. Casa das Minas e Casa de Nagô. rezadeiras e curadores. nesse espaço se congrega núcleos e grupos de pesquisa/ensino e extensão cuja a temática s e desdobra para o conhecimento das humanidades sobre os continentes africano e americano. CORPOS E IMAGENS: CENÁRIOS COTIDIANOS DO POVO-DESANTO NA REGIÃO METROPOLITANA DE GOIÂNIA Mary Anne Vieira Silva Gilson de Souza Andrade Graziano Magalhães dos Reis A proposta surge no bojo das idéias promulgadas de formas múltiplas pelo Centro Interdisciplinar de Estudos África-Américas/CieAA/Neab-UEG. Dessa fo rma. PRIMEIRO BARCO DE TOBÓSSIS DE UM TERREIRO DE MINA NO MARANHÃO Gerson Carlos P. reunindo para isso uma equipe multi e interdisciplinar nas áreas do saber. suas características. se coloca como análise teórica e possibilidade de distinção entre as múltiplas variações das nações candomblecistas que se encontram em meio ao território urbano. .

TERRITÓRIO. e em especial. a fim de entender como esse se insere no contexto urbano-metropolitano de Goiânia. que sempre são vistos pela lente daqueles que o vêem. as festas e os praticantes dos candomblés nessa região. Mary Anne Vieira Silva Território. ao lado desse questionamento ainda se persc ruta quais são as territorialidades sagradas subjacentes a esse território-rede. Palavras-chave: Imagem. Tem-se como principio norteador deste projeto o resgate da memória fotográfica do povo-de-santo e construir. como seres que praticam em seu cotid iano atos que ferem o imaginário social coletivo. construídos pelas casas no intuito de legitimação de sua própria história.Page 63----------------------um emaranhado de religiosidades depreciativas. Candombés. Jejes. Numa representação que evoca o senso comum estes grupos são sempre vistos como 62 ----------------------. A emergência de se produzir essa documentação e registros icnográficos do cotidiano do povo-de-sa nto surge com a possibilidade de contribuir para o desvelamento do preconceito e intolerância culturalreligiosa bem vivenciada nesse estado. CULTURA E POLÍTICA: DINÂMICAS ESPACIAIS DO SAGRADO DE MATRIZ AFRICANA NA REGIÃO METROPOLITANA DE GOIÂNIA/GO. Percebe-se que no cotidiano das relações inter-religiosas. Cotidiano. a partir deste. junto a rede de relações que o candomblés estabelece entre suas comunidades e a construção de um outro olhar documental e estético no âmbito do registro etnográfico. A fim de inserir a . A questão e política: Dinâmicas Espaciais do Sagrado na de Goiânia/GO é apresentada como eixo norteador de d o que permeia a dessa problemática é questionar como as formas e as disputas espaciais produzem o território-rede constituído pelo s ilês. o nível de intolerância para com as religiões de matrizes africanas é elevado. A pertinência deste paralelo é calcada na distinção de estéticas e objetivos que são instauradas entre a produção dos álbuns fotog ráficos familiares. na região metropolitana de G oiânia.entre nações: Ketu-Nagos. Religião. Angola e omolôco dentre outros presentes no estado de Goiás.Evidenciar as imagens do povo-de-santo em âmbito de domínio público é posta como caminho de enfretamento que deve ocorrer a fim de desmitificar o mundo simbólico dessas praticantes. paralelos temporai s entre os registros fotográficos dos acervos pessoais dos Ilês Axés e a produção fotoetnográfica produzida pela pesquisa. cultura Matriz Africana Região Metropolitana texto a ser desenvolvido.

preconceitos culturais. a Geografia. encobrimento e invisibilidade diretamente relacionados c om a intolerância religiosa. de matriz africana – que passa a ser 63 ----------------------. o fato de um indivíduo assumir-se como praticante de religiões de matriz africana. Pós-coloniais. ausência de ações do poder público. valorização do solo e encobrimento de identidades? Essa lógica parte da dialética do uso do espaço. as casas de candomblés são espaços sagrados e a territorialização dos mesmos obedece a uma ótima de subalternização. a Antropolog ia. no binômio. a f esta do candomblé é apresentada como mediação da pluralidade territorial que estrutura a rede cultural. além disso. e promove o enfretamento de grupos religiosos de hegemonia ascendente. Palavras-chave.Page 64----------------------instrumentalizada e renovada na forma de comunidades religiosas em espaços pós-colon iais constitui um campo epistemológico válido para conhecimento de comunidades herdeiras de uma situação diaspórica. e suas vozes silenciadas nas margens do se rtão goiano e para. No campo simbólico. já que. que atravessa praticamente todo o saber acadêmico. aproximar o recente movimento por legitimidade e reconhec imento desses setores junto ao Estado constitutivo de uma nação. incluindo a História. concorre para sua inscrição em um lo ci social permeado pelo preconceito. Diante do exposto outros questionamentos s urgem: como a festa promove a territorialidade do candomblé? Como esses ilês são lidos a part ir da discussão teórica do processo de produção do espaço urbano. cultura. em Goiás. Esse exercício teórico-metodológico constitui um significativo campo de disputa teórica e ideológica contemporânea. física e política para esse segmento religioso. como é o caso da comunidade evangélica e de outros segmentos tradicionais cristãos. a Política dentre outros. ainda no século XXI. Estudar as formas de construção de uma geogra ficidade histórica encoberta. Assim. política TERREIROS CONCRETADOS: CONFIGURAÇÃO DOS ESPAÇOS E RITUAIS DO CANDOMBLÉ NOS CENTROS URBANOS CONTEMPORÂNEOS Graziano Magalhães dos Reis . o projeto se posiciona em uma pers pectiva teórica que preconiza os estudos pós-coloniais. transposta de uma comunidade imaginada.manifestação cultural no centro desses questionamentos. candomblés. No campo da discussão que norteia o estudo o desafio é rev isitar a categoria território numa proposta de entendimento que se liga as abordagens que v inculam o sujeito subalterno.

onde a relação com a comunidade de fora do terreiro é de subalternidade. sobre a educação das relações étnico-raciais em seu contexto de direitos humanos e políticas públicas voltadas para uma educação para a diversidade. mediado pelo olhar de dois autores. troca. precisamente no ri tual de preto-velho. Além de propor uma interpretação das musicas. UM OLHAR ETNOGRÁFICO PARA FESTA DE SEU ZÉ RAIMUNDO DO PAI BRASIL Mírian A. ancianidade. o texto também apresenta uma analise descritiva e analítica do ritual de preto-velho presente na Umbanda-Sertaneja. aqui tratadas no âmbito dos territórios ocupados pelos povos de terreiro. Palavras chave: mina maranhense. A partir da fe sta. que fazem parte da História da Antropologia: Franz Boas e Marcel Mauss. A MÍSTICA DO PRETO-VELHO EM PONTOS QUE CANTAM E CONTAM Admilson Eustáquio Prates (Universidade Estadual de Montes Claros) 64 ----------------------. troca. Nesse sentido também se torna fundamental o entendimento das transformações sofridas. gênero. tambor de mina de raízes maranhenses na cidade de Belém. lancei o olhar para alguns aspectos das religiosidades de matriz africana: ancia nidade. ritual. cultura e religião sobre as relações diaspóricas entre África-Américas e. estando inseridas em uma sociedade subjuldada à lógica do capital. se realiza a festa para o encantado Seu Zé Raimundo. performance. ensino e extensão em temas a que se refere a educação. Tesserolli (UFPA) Na casa de Pai Brasil. o que provoca negativação da s identidades de seus praticantes. performance. DO MITO AO ARQUIVO: AS MÚLTIPLAS NARRATIVAS SOBRE A FORMAÇÃO DOS CANDOMBLÉS NA BAHIA Olavo de Souza Pinto Filho (UnB) . fazer se necessário uma hermenêutica e uma exegese das músicas para visualizar a mística presente nos versos cantados durante o ritual. mas também das diversas tradições afro-religiosas originadas no Brasil. em especial.Page 65----------------------O texto pretende analisar as músicas que são cantadas na Umbanda. por conseguinte. Para tanto. assume desde 2005 atuando na execução de pesquisas. ritual.A proposta desse trabalho parte do compromisso que o Centro Interdisciplinar de Estudos África-Américas. Este trabalho tem caráter etnográfico e mostra algumas práticas cotidianas não só da mina. PA.

L. N. A meu ver uma discussão perene no campo de estudos da afro-brasileiro s. num amplo debate da antropologia que é o tema da pureza ritual que det eve a atenção de inúmeros antropólogos preocupados em desvendar os mecanismos de legitimi zação dessas casas através da invenção de mitos de origem que atestam uma pureza imaginad a. de evidência documental que ―permitem um a reconstituição historiográfica mais fundamentada e precisa do universo social. flertam com a tentativa de rast rear as instituições que deram origem ao Candomblé da Barroquinha ―o antepassado da Casa Branca . Essas novas pesquisas sobre as origens do candomblé na Bahia se inserem. a meu ver. silêncios e ruídos. econômico e religios o dos africanos libertos que hoje constituem ícones da memória coletiva dos terreiros ( PAR ES. Aliando relatos da tradição oral com o s até então. MIGRAÇÃO E p . Roger Bastide e Pierre Verger. . antropologia das religiões afrobrasileiras. TERRITÓRIO E TERRITORIALIDADES Coordenação: Alex Ratts (UFG). poucos dados. Novos trabalhos se dedicam a revisitar a fundação dessas casas. E. CASTILLO.114). muitas vezes denominado. não purificando as ―contradições . como os de Édison Carneiro. 65 ----------------------. A proposta desta comunicação é pensar a apropriação e agenciamento desses ―dados historiográficos parte tanto dos antropólogos e pesquisadores. De disputas internas e divisões de grupos se originaram outros dois importantes terreiros o Ile axé Iyamasse mais con hecido como Gantois. L. Uma abordagem que de o mesmo estatuto entre eles. Considero que além de se pensar nas evidências historiográficas seria interessante analisar a própria produção e pesquisas desses novos dados . 2007. Ricardo Barroso (UEMA) e Sueli Dias (COSPAT) ACERCA DAS CONEXÕES TRANSNACIONAIS. arti culamse e relacionam-se de maneira muito parecida na composição de ssas narrativas. Destacando que tanto fontes escritas quanto memória oral. Ruth Landes. como pelo povo de sant o na construção de múltiplas narrativas. mas abrindo possibilidades de ampliação do nosso entendimento sobre eles. apontam como casa mais antiga do candomblé de keto no Bra sil. fundado na segunda metade do século XIX e o Ile Axé Opô Afonjá fundado em 1910..Page 66----------------------08. seja para a pontar a existência de outros terreiros da tradição keto igualmente antigos ou apr esentar ―novos dados para uma historiografia do candomblé ketu . Ilê Iyá Nassô Oka ou a Casa Branca do Engenho Velho. trabalhos que em certa medida. Os trabalhos pioneiros.A fundação ou formação do candomblé na Bahia é tema recorrente em inúmeros trabalhos de pesquisadores no campo.

Nesta perspectiva de análise tornam-se inteligíveis process os que não são limitados por fronteiras geográficas mas sim por relações sociais. são refer enciados a duas sociedades. por recursos comuns e por intercâmbio cultural. Mais recentemente . dois espaços. Tradicionalmente. captar as interacções. que extravasam os contextos nacionais dos países de migração. fronteiras e outros contextos supra-terri toriais em que os povos praticam a cultura. circunscrevendo as análises à relação entre os imigrantes e as sociedades de acolhimento. Assim a imigração é representada como homogénea e indiferenciada e não se consideram as relações que se estabelecem com diferentes espaços e sociedades num a perspectiva de conexões sociais transnacionais. i ndependentemente da sua localização geográfica e que configuram um espaço social transnacional concreto e be m delimitado. nos pro cessos de aculturação. com estudos sobre diásporas. Neste contexto. sobretudo. A complexidade das «n ações migrantes». os fluxos de capit al. Este é um fenómeno antigo mas que se ampliou com as possibilidades de comunicação e transportes contemporâneos. Os tipos de vid a social que as pessoas criam num contexto transnacional têm recebido crescente atenção nos últimos anos. focalizando-se os estudos em referencia á soc iedade de acolhimento. as trocas.ASSOCIATIVISMO GUINEENSE EM PORTUGAL Manuela Borges (IICT LISBOA) Este texto defende ser necessário nos estudos sobre migrações e minorias étnicas e etnicidade não esquecer que os migrantes. tem chamado a atenção para o . que têm estruturado a relação dos m igrantes com diferentes espaços do seu percurso migratório. corrobora-se a pe rtinência do paradigma dos espaços sociais transnacionais para o estudo contemporâneo das migrações. por definição. e no entanto permanecem liga dos uns aos outros por laços de sangue. pretendem assim. Os conceitos de «comunidades transnacionais de migrantes» e de «campo social transnacional». os contributos de vários autores sobre a problemática do tr ansnacionalismo têm evidenciado um crescente interesse na abordagem das comunidades migrantes em esp aços alargados de interacção. os estud os sobre comunidades migrantes e associativismo têm-se centrado. e não só a uma. duas culturas no mínimo. de informação e de bens simbólicos. com elevados níveis de dispersão geográfica à escala global. Os membros das comunidades migrantes preservam e reinventam a sua cu ltura em lugares separados geograficamente. a socie dade de origem é esquecida ou analisada sumariamente. de integração e de mobilização étnica dos imigrantes. minorias étnicas e etnicidade. pois geralmente nos estudos sobre as migrações.

em plena idade produtiva. a centragem das relações transnacionais em termos das ligações biunívocas entre comunidades imigrantes e o país d e origem. tende a não reconhecer o campo relacional existente entr e as comunidades da diáspora. Fizemos um levantamento sobre anúncios de f ugas e noticias de fugas e capturas. Ygor Olinto Rocha Cavalcante (UFAM) A presente pesquisa pretende analisar as fugas escravas na província do Amazonas e suas dimensões no contexto de área de fronteira internacional no período de 1850-1870. sociais e políticas se inserem num es NOS LABIRINTOS DA LIBERDADE: NOTAS DE PESQUISA SOBRE FUGAS ESCRAVAS NAS FRONTEIRAS DO AMAZONAS IMPERIAL (1850-1870). A grande maioria das fugas era realizada por escrav os do sexo masculino. Dentre os resultados obtidos até o presente momento. Foi pos . que as fugas faziam parte do cotidiano da escra vidão no Amazonas e que fugir para os países do além-fronteira que já haviam abolido a escravidão em seus territórios era uma realidade tangível para os escravos da região amazônica. para este período. A capital. aparece como principal destino das fug as e.desenvolvimento de formas de interacção que escapam à lógica tradicional origem-destino. Nessa direção. práticas paço transnacional de múltiplos sentidos.Page 67----------------------estruturas. e destas com instituições e organizações internacionais. Para realizar essa pesquisa utilizamos relatórios de presidente da província e correspondên cias consulares sobre as questões de limites. bem como notícias e informações sobre fugitivos escrav os na fronteira norte do império brasileiro. Contudo. As referências conceptuais sobre o transnacionalismo. Cabe enfatizar o caráter pioneiro dessa pesquisa em nível regional vis to que a historiografia local tem há muito relegado as trajetórias das po pulações escravas à invisibilidade e à irrelevância. Cab e destacar que. Manaus. ao mesmo tempo. aproximadamente 10% da população escrava permaneceu em fuga. O cas o do movimento associativo guineense é um exemplo paradigmático de uma comunidade migrante cujas 66 ----------------------. de modo geral. cultura. como principal lugar de origem de fugas. podemos destacar. podem e sclarecer o estudo da comunidade migrante guineense em Portugal. realizamos uma análise crítica das fontes através das inferências feitas sobre estas informações e sobre quadros de ordem quantitativa.

mas fundamentalmente. quilombo. sobremaneira. visto que a Constituição Fede ral de 1988. . argumentamos que a delimitação dos limites e fronteiras no extremo norte do império brasileiro foi uma questão premente das autoridades locais e que as fugas dos escravos da região ocupavam lugar central em tais discussões. no artigo 68 do Ato das Disposições Constitucionais T ransitórias . reconheceu o direito destas comunidades à propriedade de suas terras. A proposta desta apresentação individual. bem como a s rotas e experiências compartilhadas estabelecidas pelos fugitivos em suas relações com out ros atores sociais. tradição. na articulação de novos sentidos e se transformado em elementos marca dos de expressões identitárias. a partir das pesquisa s realizadas entre as comunidades quilombolas do Paraná. no Maranhão. o turismo tem se apre sentado como uma atividade que tem contribuído. na qual o cotidiano e as práticas tradicionais quilombolas são r esignificados. memória. considerando uma perspectiva contemporânea de suas identidades . A partir desta premissa. consist e em refletir sobre o turismo como uma prática que tem se tornado muito mais que um elemento de promoção social e instrumento de crescimento econômico. cultura. faremos uma reflexão sobre os quilombos ou ―terras de preto . TURISMO E TRADIÇÃO ENTRE AS COMUNIDADES QUILOMBOLAS Oseias de Oliveira (UNICENTRO) 67 ----------------------.sível restituir parte das estratégias utilizadas pelos escravos para fugir. uma atividade cultural. para a afi rmação cultural e a complementação de renda. Por fim. de forma que as comunidades tem revisto o seu i nterior e nele buscado aspectos que concebem como condicionantes responsáveis por se transformarem em representações de sua intenção na sociedade contemporânea. Palavras chave: Escravidão – Amazônia – Migrações fronteiriças QUILOMBOS OU TERRAS DE PRETO: IDENTIDADES EM CONSTRUÇÃO José Reinaldo Miranda de Sousa (PUC-SP) Trata sobre as terras das comunidades dos quilombolas. suas conceituações historicamente construídas e suas ressignificações na atualidade. Palavras-chave: turismo.ADCT.Page 68----------------------Em uma condição na qual as comunidades quilombolas percebem cada vez uma demanda social marcada pelo interesse por suas expressões culturais. Esta discussão nos remete a indagações sobre o processo de constituição dos quilombos.

territórios. localizadas no Município de Chapada dos Guimarães/ MT . tomamos os territórios das africanidades como parte integra nte do conjunto das relações sociais e dos sistemas simbólicos responsáveis p ela construção da realidade. Rio da Casca. TERRITÓRIOS DAS AFRICANIDADES: LÍNGUA. A proposta dessa comunicação é perceber esses territórios ne gros. Desta forma. Palavras-chave: Lei 4. Assim. negros. HISTÓRIA. No âmbito deste projeto.887/2003.887 do dia 20 de novembro de 2003.Page 69----------------------necessário tomar como referência teórica fundamental o conceito de cultura como uma te ia . Lagoinha d e Baixo e de Cima. é 68 ----------------------. Para análise e interpretação da dimensão dos territórios das africanidades quilombolas. a partir das diversas situações de alteridade. os territórios das africanidades serão analisados como um processo cultural de construção da identidade. Dessa forma. O Governo Federal a través da Fundação Cultural Palmares vem reconhecendo comunidades rurais negras como pertencentes a uma ancestralidade escrava a partir do decreto de n  4. sobretudo. em tempos atuais. quilombolas. como lugares de preservação cultural em constante transformação social. Adiléa de Lamônica Y Navarro (GRUPPAAAL-UFMT) Maria de Jesus Alves de Carvalho Patatas O objeto desta pesquisa são as comunidades quilombolas: Complexo Manso. configurando e conferindo sentido às práticas culturais dos referidos grupos quilombolas. ao tomar a cultura como prática social. que dar se. e compreendê-los como o espaço da livre manifestação das etnias negras. BIODIVERSIDADES E PRATICAS EDUCATIVAS DAS COMUNIDADES QUILOMBOLAS DE CHAPADA DOS GUIMARÃES/ MT. os quilombos estão por toda parte e não devem continu ar a ser compreendidos apenas dentro de uma perspectiva estática e singular do passado colonial.TERRITÓRIOS RURAIS NEGROS: LUGARES DA RESSURREIÇÃO ÉTNICA Sandreylza Pereira Medeiros (PPGH-UFCG) A temática Quilombo muito pouco aparece em nossos livro s didáticos e quando mencionada está sempre atrelada a um fenômeno histórico não mais con dizente com a realidade vivida por seus descendentes na sociedade atual. podemos nos debruçar sobre a experiência de vida dos quilombolas recuperando a dimensão das africanidades na construção de um território quilombola em Mato Grosso.

almejando inclusão so cial e visibilidade na . Portanto. no passar das gerações. (CARDOSO DE OLIVEIRA. suas lutas e resistências. assim formulada. O modelo textualístico da cultura torna a cultura interpretável e não codificável. Esse trabalho discute esta visão de c ultura. 1976). Na lut a pelos direitos coletivos a terra. Manuela Picq (AMHERST COLLEGE). comparan do o processo histórico de mobilização política de quilombolas no Brasil e o movim ento indígena do CONAIE no Equador. demanda um processo de aprendizagem de simbolizações que valorizam o ser negro. A identidade étnica. propomos a análise da construção política dos direitos coletivos a terra. permite aos afrodescendentes relativizarem a visão etnocêntri ca da sociedade que toma o branco e a cultura européia como referênc ia de uma pretensa superioridade. Inter pretar é perseguir o sentido para quem o sentido faz. Mas ancorase também no espaço. A ancestralidade não deve ser vista somente como identidade cultural mais também com o identidade política. Os costumes e a s práticas do grupo afrodescendentes são por ele utilizados como materiais de construção de uma identidade contestatória da identidade socialmente construída pelas representações dominantes da diferença racial. Esta construção que chamamos ancestralidade é um processo que está ancorado em tempos históricos. no território. QUILOMBOLAS E INDÍGENAS – O REFORÇO A ANCESTRALIDADE E TERRITORIALIDADE COMO IMPORTANTES ELEMENTOS NA LUTA PELOS DIREITOS COLETIVOS A TERRA.de significados produzidos pelos homens e à qual eles se prendem. como desigualdade social pela inferiorização do n egro. Tomando o território e a territorialidade como pontos de partida. e o reconh ecimento aos direitos culturais vincula-se diretamente ao reconhecimento dos direitos coletivos relati vos à posse da terra. p . (GEERTZ. sociais e econômi cos em varias constituições da América Latina e Caribe. Essa relativização como valor. 14). que prevê direitos políticos. tanto os quilombolas no Brasil (como importante expressão do movimento negro e anti-racismo) quanto os indígenas no Equador tem buscado o reconhecimento da ancestralidade como um valor positivo. em geografias e contextos po líticos específicos. a ancestralidade se constrói no espaço-tempo. o lugar negro no tec ido rural do município de Chapada dos Guimarães/ MT. o modo de vida negro. pois é a leitura dos grupos quilombolas do Município de Chapada dos Guimarães sobre suas vivencias. Pretendemos explorar o papel da ancestralidade na legitimação d e direitos coletivos nos processos de conquista da terra. 1978.

Consideramos extremamente urgente maior divulgação e intercâmbio de estudos e reflexões sobre essas temáticas visando o empoderamento do s negros e dos indígenas – homens e mulheres.nos nomes dados aos senhores e aos escr avos. Revolta Escrava. a colonização da terra e a história fundiária.participação política. as ―diásporas judias. resistência e conquistas de direitos. para os moradores do povoado Santana de Caboclos. SURINAME E CARIBE Autor: Rafael Moreira Co-Autor: Samuel Silveira Martins 69 ----------------------. considerada por seus moradores como sendo de propriedade da santa. suas distinções e características intrinsecamente relacionadas com processos históri cos de segregação e integração.construção pautada. Busco saber em que medida podemos afirmar que se tr . na tentativa de localiz ar e traçar pontos de convergência entre as origens dos escravos africanos. Trata-se de um ritual de agradecimento pelo uso da terra. por rel ações de subserviência e dominação. em Alcântara. Maranhão. Partirmos de fatos históricos como a ―Revolta de Carrancas em Minas Gerais e a ―Inquisição na Bahia para identificar. mas espe cificamente na Bahia. TERRA AOS NOMES: HISTÓRIA FUNDIÁRIA. para o qual se preparam durante o ano todo. Suriname e Jamaica. como o mais import ante. os atores sociais envolvidos nestes fatos e a partir do entendimento de que seus nomes são reflexos de uma construção sócio-histórica determinada . NOMENCLATURAS E CICATRIZES DA DISTINÇÃO NO BRASIL.Page 70----------------------Esta comunicação tem por objetivo explicitar alguns elemento s encontrados nas nomeclaturas . principalmente entre Brasil. Palavras-chave: Escravismo. dentre os demais. É o evento reli gioso considerado pelos moradores. A manifestação religiosa ocorre anualmente nessa comunidade assumida como remanescente de quilombo -. História Fundiária. onde os negros devem ser reconhecidos como atores sociais. A FESTA DE NOSSA SENHORA SANTANA: LUTA PELA PERMANÊNCIA NO TERRITÓRIO ÉTNICO DE ALCÂNTARA Maria Suely Dias Cardoso No presente trabalho busco refletir sobre os significados da festa de Nossa Senhora Santana. NOME AOS BOIS. sobretudo. assim como o reconhecimento de suas diversas formas organizativas. em uma análise relacional. Por meio de tais iniciativas busca-se influenciar na constr ução de sistemas democráticos. nesse município. Brasil Colonial.

Deste modo. posteriormente. ou seja. pois em Santana de Caboclos. não são concebidas e nem vividas como externas ao grupo. os moradores mantêm uma relação singular no que tange à posse e uso da terra. os moradores de Santana dos Caboclos confi rmam sua visão própria de mundo. mas o trabalho. existem regras particulares baseadas no direito costumeiro. usufruir de todos os seus recursos. de modo geral. sua histór ia de sobrevivência à escravidão de negros e índios também. de escravos africanos. aldeias e senzalas com suas próprias apreensões. Para eles. a transmissão da herança cultura l e as maneiras como a cultura e a identidade são discutidas em leitu ras relacionadas à festa. 70 ----------------------.ata de um ritual de resistência na luta pela permanência no território. O pre . o momento não só de agradecer. essa maneira de pe nsar a terra e de se apropriar dela têm a ver com um modo de vida específico. E a fest a representa para os moradores. Tais norm as não se separam da economia e da cosmovisão desses grupos. com um sistema de crenças que rege não somente a sua religiosidade. Em Santana. tem-s e indícios de que foi uma terra habitada por indígenas. desde o tempo de seus antepassados escravos. Ou seja. ou consuetudinário. Entre as festas presentes no ciclo natalino estão as Festas de Folias de Reis. foram usadas pelos padres Jesuítas no processo de evan gelização dos povos indígenas e. lhes garante o acesso e a permanência na terra. suas regras e sua história. Os ensinamentos transmitidos p or esses padres foram incorporados à cultura religiosa e principalmente às festas de padroeir os feitas em toda na colônia. e sobretudo a te rra. a santa seria sua verdadeira proprietária e lhes permitiria. È nesse movimento que o sentimento de pertencimento ao lugar também é reforçado. as normas consensualmente acatadas pelo grupo. Ao festejar a santa para agradecer-lhe pelo bem recebido. mas também serve para reforçar esse laço com a divindade que. É por meio da festa que o grupo reafirma a si próprio e ao mundo externo sua origem. cada lugar.Page 71----------------------OS TERRITÓRIOS SIMBOLICOS PRODUZIDOS DURANTE O CICLO NATALINO: AS FESTAS DE FOLIAS DE REIS EM GOIÂNIA Rosiane Dias Mota Maria Geralda de Almeida Destaca-se na cultura aspectos como a dinamicidade. s em nada lhes cobrar. segundo suas representações. A natureza. As Folias. constituindo-se num instrumento que reforça a identidade étnica do grupo.

A. ABSTRACT: The environmental managment in coastal areas i n all countries must be focused on development. the developm ent of economical incentives and utilization of clean technologies. andreacgazevedo@uol. entre outras. A. Impacts on est uaries. C.sente artigo tem como objetivo apresentar uma reflexão sobre as territorialidades produz idas por essa festa durante o ciclo natalino. inter sectors partnerships. observing t he national priorities. the integration of policies.Page 72----------------------9. e Almeida (2005) que discute as identidades territoriais e os territórios simbólicos. It is necessary to promote efforts. Tem-se como procedimento teórico metodológico a revisão bibliográfica e a pesquisa parti cipante. de*. 71 ----------------------. launching of amoniacal compounds from field farm s beyond . às contribuições de Geertz (2001). lakes. The degradation of marine environment should be controlled by strategies of precaution and prevention. F.A. thatyana_pereira@yahoo.com.com. T.br ***Professora Adjunta I do Departamento de Biologia e Química – UEMA. Os aspectos teóricometodológicos utilizados no desenvolvimento deste têm como base. basis of food chain in water systems and indicator of water quality.br. rivers and oceans affect the living organisms. o qual aborda questões referentes à cultura. ***(UEMA) andrea_araujoc@yahoo.com. as phytoplankton community.br * Professora Adjunta II do Departamento de Biologia e Química / UEMA. efficient control of pollution from continent . de J. Among typical stress forces we poi nted out: introduction of exotic species. SAÚDE AMBIENTE E SUSTENTABILIDADE Coordenação: Marluze Pastor POTENTIALLY TOXIC PHYTOPLANKTON IN MARANHAO COAST: REFLECTIONS ABOUT ENVIRONMENTAL MANAGMENT IN BRAZIL ** Araújo. que permitem discorrer sobre os territórios simbólicos e territorialida des produzidas pelos foliões e visitantes. G. & Cutrim. na cidade de Goiânia.São Luís-MA. accounting and diffusion of informations to decision makers. the evaluation of environmental quality. Pereira.** Graduanda do Curso de Engenharia de Pesca / UEM A – São Luís-MA.

pollution from domestic and industrial effluents. NA TERRA DAS FILHAS DA TERRA Marluze Pastor Santos Engenheira agrônoma. 72 ----------------------. por conseguinte a alimentação. 32 families and 42 genera. deixando para as mulheres a responsabi . nessas regiões se intensificaram projetos de expl oração mineral e agropecuários que continuam ocasionando impactos irreversíveis n os ecossistemas. Maranhao Coast. as Pseud o-nitzschia sp. induzindo mudanças na economia das famílias. comumente não regressam. especialmente as mulheres indígenas e afrodescendentes. 10 foils of each sample were analysed. é dirigente da Associação Maranhense de Pesquisas Afro Brasileiras (AMPEAFRO). 21 ord ers. 17 pottentially toxic species were indentified. showing the importance of water monitoring along brazilia n coastal areas and educational motivation of human resources in taxonomy of toxic organisms. e.5m L. The qualitative analysis was conducted from mixed samples of 0. A DIVISÃO DOS IMPACTOS. Como consequência se acelera o processo de migração dos povos e comunidades especialmente dos homens. Trichosd esmium thiebauti Gomont. mestra em agroecologia. The floristic composition was formed by 76 species. consultora da Secretaria Desenvolvimento Territorial do Ministério do Desenvolvimento Agrário(SDT/MDA). localised in Maranhao continental platform in three fixed stations a long Cururupu coast. This study d eals with taxonomic knowledge of pottentially toxic marine phytoplankton from calcarian Algae Bank o f Tarol.Page 73----------------------O recorte do trabalho é a década de 1990 quando os países da América Latina e d o Caribe se integraram aos processos de globalização dos mercados mediante a liberalização de sua s economias. afetando sobremaneira a agricultura familiar. Por outro lado os trabalhadores e trabalhadoras das áreas onde são impla ntados esses projetos tem poucas oportunidades de acesso aos trabal hos oferecido pelas empresas. Ceratium furca (Ehrenberg) Clapárede & Lachmann. gerando diversos níveis de contaminação ambiental. Brazil. Key Words: Environmental Managment. de objetiva id O estudo ―A divisão dos impactos NA Terra das Filhas da Terra entificar as condições de vida das mulheres frente aos grandes projetos impla ntados na região amazônica percebendo as alterações ocorridas em suas vidas.

while in the works of Sembene Ousmane resorted to the secular legacy of African orality. Claro está que estes realizadores.br Resumo: O presente artigo busca discutir os projetos cinemato gráficos de Glauber Rocha e Sembene Ousmane. Abstract: This article aims to discuss the film projects of Ousmane Sembene an d Glauber Rocha from aesthetic affinities common in their respective works. a A obra cinematográfica partir de diferentes São muitos os trabalhos de que Glauber elucidam Rocha as tem sido produções ana do cin . Amazônia 73 ----------------------. já nas obras de Sembene Ousmane recorreu-se ao legado secular da oralidade africana. If in most productions of Glauber Rocha incorporated the language of chap-book (literatura de cordel) and the aesthetics african.Page 74----------------------ARTIGOS DIÁLOGO EM IMAGENS E IMAGENS EM DIÁLOGOS: UM ESTUDO DOS PROJETOS ESTÉTICOS DE GLAUBER ROCHA E SEMBENE OUSMANE Victor Martins de Souza M estrando em História PUC/SP victorlossotros@yahoo. a partir de afinidades estéticas comuns em suas respectivas obras . It is clear that these directors in their films have made extensive use of orality. Palavras-chave: cinema africano. descolonização. orality. Key-words: african cinema. oralidade. Vale frisar que suas produções estão inseridas num projeto mais amplo que va i de encontro à crítica ao esteticismo europeu.lidade de cuidar da família. além da própria estética de matriz afro.com. por dificuldades de enfrentar e/ou mitigar os impactos dessas mudanças . não garantida. mulher. decolonization. As mulheres passam assumir a produção e a buscarem alternativas de renda. Palavra-chave: impactos ambientais. lisada enfoques. grandes projetos. nos seus filmes fizeram grande uso da oralidade. It is worth emphasizing that their movies are embedded in a larger project that goes against the criticism of Europ ean aesthetic. Se em grande parte das produções glauberianas foram inco rporadas a linguagem da literatura de cordel.

Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro (1969) e Der Leone Has Sept Cabezas (1972).82-7). textos Também críticos de é interessante Glauber salientar que os inúmeros demonstram está preocupação em não se filiar a uma escola específica. considerado. em estudo recente. visto que ele centra sua análise na estreita relação GlauberRouch. Deus e o Diabo na Terra do Sol ( 1964).Page 75----------------------Claro sua estética sobre está bases que o afropróprio fato de Glauber assentar brasileiras. o pai do cinema africano. afro ainda Contudo. as características exploradas no cinema de Glauber. pós-colonialismo. como nos filmes Barravento (1961). cine-etnográfico. para além das citadas com cineastas de outras es anteriormente. Porém. É notável sua capacidad . dada são pouco às devidas proporções. que estéticas entre suas do vai de encontro à busca por o se produções e a de cineastas negalês Sembene Ousmane. 74 ----------------------.easta a partir das relações as estéticas italiano. formalismo russo – só para citar as clivagens mais evidentes. Entretanto. O pesquisador Mateus Araújo Lima. o autor reconhece que a oralidade é um traço bastante explorado n os trabalhos do realizador brasileiro. cine-documentário. (2005. p. de distintas escolas cinematográfic estabelecidas entre as: Neo-realismo Nouvelle Vague francesa. Daí a importância de se efetuar um estudo no que se refere ao diálogo cinematográfico de Glauber colas. pe rmite-nos este alargamento afinidades de possibilidades. analisa a obra de Glauber comparando-a de Jean Rouch. notadamente. por seu pioneirismo e engajamento. Lima não explora os aspectos afro -brasileiros das obras do cineasta cinemanovista.

visto que neste discussão. Os de descolonização como condenados uma da terra.em incorporar. quanto as preocupações de Sembene e Glauber. inclusive por parte da contexto havia toda uma . ―o colonialismo não é uma máquina pensante. no que diz respeito à rea lidade de seus respectivos países. Na esteira de Fanon. p. poderíamos n os perguntar em que deste medida Glauber e Sembene processo de afirmação ou de reconstrução da modo estes sujeitos fizeram Ou uso ou participaram até que ponto e identitária de que cultura? ainda.92). étnica e racial de reconstrução africanos e afro-caribenhos. estéticas as mais distintas. 2005. ne m um corpo dotado de razão. O filósofo francês Jean-Paul Sartre. no prefácio de Anthologie de la movimento de afirmação identitária al. p. mas não do menos convergentes paradigmas moralistas e e que. e da discor cultur (LIMA. na sua obra clássica. devemos levar em consideração o mundo do pós-guerra e a própria q uestão do nacionalismo. históricos participaram deste processo de descolonização? E. através de um processo antropofágico sui generis. Ele é a violência no estado de natureza e somente pode se su bmeter a uma violência maior . Em concepção assemelhada. além d os ―padrões mais correntes do cinema romanesco ou do realismo crítico nouvelle poésie nègre et malgache de la re acerca da importância langue do da française Negritude (1948-1949). o intelectual antilhano Fra ntz Fanon. enfim. descreve o processo criação de homens novos. Tendo em vista as observações dos intelectuais da diáspora. inclusive.50). acabam abalan contemporanizadores dos cinemas comerciais de matriz hollywoodiana. quais estratégias e ferramentas usaram para criticarem o colonialismo? dos debates Para compreendermos aventados por mais claramente tanto a natureza Fanon e Sartre. (1991.

Não por acaso as práticas e manifestações dos povos e nações do chamado Tercei ro Mundo acabam sendo vistas s. Como salientou Stam & como exóticas. 75 ----------------------. p. a tribo deles. esta no do racismo vai de encontro ao seguinte aspecto. décadas anteriores. A julgar por suas produções fílmicas e extra-cinematográficas. um aliado e u m produto parcial do colonialismo (. . estética bem de percebemos próxima à literatura regionalista ênfase à cultura popular. primitivas e/ou inferiore Shoat a nossa religião. Stam & Shoha eurocêntrica. a nossa arte.Page 76----------------------t. ―apesar de negado doutrinariamente .) As ou absolutas: são construções categorias raciais não são naturais relativas e específicas.. va Conforme concepção acerca observou Antônio Sérgio Alfredo Guimarães. não há nenhum exagero em dizer que Glauber Rocha ectuais. a nossa cultura o folclore deles. (2006. [o racismo] era realizado e vivido nas práticas sociais e políticas de colonizadores e colonizad os (2008. o artesanato isarmos os projetos estéticos de deles. Ao analisarmos filmes do Sol (1964) e o Dragão Maldade Contra ato uma opção referenciou de como Deus da toda e o uma Diabo geração na que de Terra há dando de f grande mas intel o Santo Guerreiro (1967). a superstição deles. de um ponto de vista histórico. em torno da descolonização e de questões raciais. a nossa nação. Daí ser pertinente anal Glauber e Sembene a partir destas preocupações. categorias narrativas engendradas por processos históricos de diferenciação .21). p.. artistas e críticos cinema.intelectualidade negra. na Nesta sua Crítica mesma linha da imagem de raciocínio. assinalam que ―o racismo é.102). e sendo a cultura aqui concebida não como um préstimo estanque sim a partir de imutável.

Assim. importante para aqueles que o fazem Para as civilizações subdesenvolvidas o cinema é uma manifestação Daí a importância para Glauber da relação entre artista e público. por sua vez. querem começa r do zero. como ele assinalou. cuja estética está em exortativa em vistas de contínuo processo dialético com seu espectador. Como o próprio Glauber observou: Muitos cineastas. Vale frisar que muitas das questões levant adas por Glauber. Eu não acho que o cinema seja mais importante que a m edicina. com Lumière. é considerado um dos maiores expoentes deste movimento e um dos cineastas brasileiros mais conceituado no cenário internacional. com p que o vêem.18). Dito isto. a exploração dos países do . inseriu-se numa questão mais ampla. nessa acepção. extensivo e incorpo rativo . discutindo cinema. visto que são comuns que haja rompimentos autênticos em seu bojo. ou seja.17). 1979. que. ―o cinema é uma manifestação de vida .Page 77----------------------eçado por Ademais. p. no que diz respeito ao fazer cinematográfico. a concepção glauberiana de cultura popular vai de encontro a uma arte politização. imiscuem-se nas discussõe s aventadas pelo Cinema Novo. ―o processo cultu ral não deve ser considerado como simplesmente adaptativo. O europeu ré-cinema do ou americano que quer acabar terceiro mundo é um neocolonialista. mas também as contradições atra das quais se desenvolve (WILLIAMS. visto q ue. já que o próprio Glauber Rocha. eu sinto que ele é e para aqueles de vida. ao lado de Nelson Pereira dos Sant os e Ruy Guerra. 76 ----------------------. Glauber o ímpeto maior consistiu nas às conjunturas do movimento sociais e encab políticas do Bras reflexões críticas em relação il das décadas de 1950 e 1960. (1981. p.―variações e complicações que ―incorpora não só as questões.

O próprio Glauber as do cinema romanesco de temáticas contemporanizadoras. recurso bastante usado na anál ise de filmes do a cinema convencional de matriz estética glauberiana rompe hollywoodiana. funda . que dá a tônica da narrativa. pautando-se numa estética diferente que àquel as do cinema convencional. tais iro (1953). produzido por Lima Barreto. Tais aspectos são candentes nos filmes Deus e o Diabo e O Dragão da Maldade . em sua maioria financiado pela Vera Cruz. entre os cinemanovistas e os cineastas cubanos. que é o grande característica destas duas tão cara à cultu estruturador da narrativa claro que muitos fílmica produções. procedimento mnemônico fortemente enraizado à cultura popular.Terceiro Mundo e a cultura do subdesenvolvimento. Cabe trabalhos que se propuseram a analisar as produções glauberiadas – dentre as quais se encontram Deus e o Diabo – partiram da ótica da narrativa clássica. laro está que esta é uma outra Daí ser inevitável as aproximações e africanos. lmes as chanchadas dirigidos foi como um os grande filmes ou crítico das O ainda narrativ Cangace os fi da Atlântida por Alberto Cinematográfica Cavalcanti.O Leão de Sete Cabeças (1970) – filmado no Congo? O que ele pretendia com isto? Outro a glauberiana diz traço que é bastante respeito à populares. não foi o próprio Glauber que realizou um dos seus fil mes num país da África . Daí ser pertinente à Glauber recorrer ao cantador popular. Vale frisar que justamente com este tipo de narrativa. evidente sobretudo. Eis a declaração de Glauber so bre o filme de Barreto: Sendo um produto industrial. C argentinos justificativa para se analisar as aproximações entre as produções de Glauber Rocha e do realizador senegalês Sembene Ousmane. Ora. na estétic à ora preponderância dada aos aspectos lidade. e ra nordestina elemento deixar à literatura de cordel.

só pode mesmo prestar serviços a regimes totalitários. manifesto é A opção política.do sobre uma ideologia nacionalista tipicamente pré-facista. denúncia. não como como dado formal em seu campo de comunica sua verdadeira miséria ao homem civilizado compreende verdadeiramente a miséria do latino (1965). (200 3. a a cultura cultura destes como primitiva vinda de fora é em detrimento evidente das ou exótica e. não seria de se estranhar a afini dade do realizador de Deus e o Diabo pelas temáticas populares.. em contrapart Tal pre erigida como modelo missa torna-se mais práticas populares. de Desnecessário dizer que este tex sintoma trágico. nem o Nem homem o latino civilizado pecto delicado Escrito em tom de e complexo nas relações entre os países desenvolvidos e os chamados países de Terceiro Mundo. assim como toda obra de Lima Barret ilme negativo para o cinema o.) enquanto a América Latina lamenta interlocutor estrangeiro cultiva o sabor dessa miséria. à análise escrito para uma escolha artística. Talve eztétyka da do famigerado a mostra 77 ----------------------. Se nos considerarmos um povo já livre do complexo colonial. Levando isto em conta.96) A julgar pela crítica de Glauber. aqueles vêem ida. . p. é evidente que a p redileção por outra estética antes de ser z isto seja mais claro se passarmos fome. O cangaceiro (1953) é um f brasileiro.Page 78----------------------cinematográfica de Gênova. o (. E quando está técnica está a serviço de idéias que atrasam o processo de consciência e prátic a do povo brasileiro – é bom suas implicações que se destrua está técnica que. o texto revela um as de 1965.. por convencionais. ou seja. vejamos que uma ha bilidade técnica não pode ser o suporte de uma expressão como o cinema. mas apenas interesse. to acalentou debates naturezas distintas: suas misérias gerais.

poetizou. descarnadas. pela crítica a serviço dos interes ses antinacionais pelos produtores e pelo público – este último não suportando as imagens da própria miséria (Ibidem). por isto. disfarçado sob tardias heranças do mundo civilizado. feias. sendo sentida compreendida. Glauber chega ao ponto crucial de sua análise. é o que confere originalidade ao Cinema Novo: A fome latina. as formas suti s daqueles que também sobre nós armam futuros botes. os proc artística do mundo subsesenvolvido só o interessam na med ida que satisfazem sua nostalgia do primitivismo. essos de criação Ainda nesta linha de raciocínio. personagens ro ubando para comer. descreveu. feias. Aí reside a trágica originalidade d o Cinema Novo diante do cinema mundial: nossa originalidade é a nossa fom e e nossa maior miséria é que esta fome. personagens comendo raízes. mal c ompreendidas porque impostas pelo condicinamento colonialista (Ibidem). De Aruanda a Vidas Secas . personagens fugindo para co mer. não é somente um sintoma a larmante: é o nervo de sua própria sociedade. não é 78 . personagens sujas. segundo ele. o Cinem a Novo narrou. discursou. personagens matando para comer. morando em casas sujas. excitou os temas da fome: personagens comendo terra. morada do colonizador: Mais adiante. analisou. . esc uras: foi esta galeria de famintos que identificou o Cinema Novo com o miserabilismo tão condenado pelo Governo. e este primitivismo se a presenta híbrido.quando Glauber observa que: Para o observador europeu. sendo que uma libertação possível esta rá ainda por muito tempo em função de uma nova dependência (Ibidem). pondo às claras a estética da fome que. Glauber assinala que: A América Latina permanece colônia e o que diferenc ia o colonialismo de ontem do atual é apenas a forma mais apri e além dos colonizadores de fato. O problema internacional da AL é ainda um caso de mudança de colonizadores.

um estilo que buscou redef inir a relação do cineasta brasileiro com a carência de recursos. parafraseando Xavier.10). o fato de Glauber Rocha recorrer à literatura de cordel em De us e o Diabo também não pode ser vista dominante? Talvez como isto uma oposição estético-ideológica ao cinema também se insira num projeto mais amplo de crítica aos cânones europeus. 2007. p.Page 79----------------------O crítico Ismail Xavier tem observação interessante a este re speito.----------------------. entrou na vida deles o santo Sebastião . p. ―invertendo posições dia nte das exigências materiais e as convenções de linguagem próprias ao modelo industrial dominante (Ibidem. mais do que um objeto de fome é uma forma de fazer cinema. Ora. esta é a grande contribuição do Cinema Novo: a busca da criatividade e origin alidade frente à carência de recursos. Isto é. Partindo dos princípios da ―estética da fome . ou seja.9). o estilo cinemato gráfico glauberiano coaduna-se às e parte das condições produções de sua produção. pelo não. na própria textura das obras análise. Tais . uma vez que a própria narrativa de Deus e o Diabo cantadores populares e dos romanceiros. Nas cenas iniciais de Deus e o Diabo na Terra do Sol a voz em of f do cantador inicia sua narrativa com os seguintes versos ―Manuel e Rosa viviam no sertão / trabalhando a terra com as próprias mão / Até que um dia pelo sim. nos se remete às tradições dos orais dos distanciam ―pensamentos engessados e fechados em si mesmos (ANTONACCI. pois se é verdade que grand cinemanovistas foi feita em condições financeiras adversas. ela se instala na própria forma do di zer.3). do qual se fala. de aco rdo com Glauber. uma oposição estético-ideológica ao cinema dominante. Segundo ele ―a fome não se define como tema. p. na acepção glauberiana. a (1983. sistemáticos e cujos testemunhos continentais. também é verdade que.

versos são acompanhados de planos gerais do sertão árido. a marcante de Deus e o Diabo.25) No filme de Glauber é nítida a intenção de querer contar uma história. (NEMER. feita. apoiando-se to pautando-se na em Homi K. 79 ----------------------. ou o processo de migração da literatura de a oralidade. qu historiadora Sylvia Nemer. a relação presente/passado/futuro não se dá de fo rma cíclica. Canção d o Sertão. ímpeto que perpassa a passividade e se desdobra na ação. convertendo-se ao cangaço. e é a Em relação a este traço literatura de cordel. ponto de fuga em poten cial. Logo em seguida ouve-se uma peça sinfônica de Villa-Lobos.n a sua infância em Vitória da Conquista. a voz. As ações seguintes centram-se n a vida do vaqueiro e de sua mulher Rosa que se juntarão aos fiéis liderados por Sebastião e. Como salientou Ismail Xavier. uma carcaça de gado. p. a paisagem árida e a literatura de cordel se aproximam da geografia interior do artista. abandonarão a religião. Bhabha. pois o próprio Glauber . o sol cau sticante e a terra estorricada. Nemer caracterizado analis pel estética na qual predomina a imagem. 2007. posteriormente observa-se a aparição do vaqueiro Manuel. analisou tal aspec idéia de ―migrações culturais (circulação de signos dentro de locais contextuais específicos e sistemas sociais de valor específico). A fala sertaneja. fazendo-se uso da tradição popular e de uma linguagem popular.Page 80----------------------visto que há uma possibilidade mínima que permite o acesso ao novo. a fala. cordel do seu ambiente para uma realidade Desta original. tend o em vista a mistura de elementos de naturezas distintas. no interior da Bahia – vivenciou muitos dos aspectos que futur amente viriam a . Neste sentido. o canto se configuram como elemento de transgressão da ordem. pos teriormente.

p. a religiosidade. Vale ressaltar que mesmo anteriormente a esta nente africano já havia sido produção o conti abundantemente filmado. antropologia.usar em seus filmes: o mandonismo local. tal e mpreendimento contribuiu em muito para uma estereotipagem.1 assim como a i mportância dada às práticas populares. italianos e norte-americanos empreenderam a ―mi ssão de filmar os desertos egípcios. quando o próprio cinema co meçava a se configurar da Revolução como uma Industrial. A própria aproximação sócio-histórica entre o Nordeste do Brasil e a Senegâmbia r eforça ainda mais está idéia. as savanas africanas. entre o cânone letrado e o oral. do Senegal Paulin (LEQUERET. a partir do qual já se pode observar uma tensão entre a tradição oral e a escrita. as populares. uma espécie de resistência e alteridade ao racionalismo europeu. visto que nas pro duções do cineasta senegalês há uma forte recorrência à oralidade. Daí ser presumível que o nordeste glauberiano vem à tona por meio destes e lementos. certidão de nascimento ocasião em que é do cinema de africano S. 2005. negro Viyra e d produzido o curta-metragem Afrique-sur-Seine. & Sta ex da estranhas à Europa. ingleses. das mais muitos expressivas testemunhas cinegrafistas franceses. os litorais da Senegâmb ia e as ―tribos exóticas que habitavam nestes territórios. Porém. as margens do Nilo. tal filme não foi produzido na África. Daí o ponto de contato entre Glauber e Sembene. minimização e subvenção das práticas e manifestações cultur is das diferentes etnias m ―A fotografia e o representavam travagantes Prolongamento topografias em relação da africanas. A ata de 1955. cinema Como salientou e culturas Shohat igualmente da botânica. mas sim nos logra douros de Paris. Mamadou Sarr. da zoologia. . Antes mesmo do início do século XX.5). tradições e contradições os flagelos. A julgar pela intencionalidade destes diferentes projetos.

Col. a partir do qual o próprio passado africano tem pas . como figurantes. Sundjata ou A Epopéia Mandinga. num artigo recente. da biologia e da medicina. a câmera. o arauto. o genealogista. aquele que dominava a palavra. ―f oram postas entre parênteses por um século de domínio colonial disso. Estando cônscios cineastas fizeram questão de tomar o controle de suas próprias imagens e buscaram re escrever suas histórias. Porém. 1982. dissecava o ―outro . Talvez isso tenha africanas recém-emancipadas surgisse prática. o papel dos africanos era bem marcado: em frente à câm era. pois lhe cabia transmitir a tradição histórica: era o cronista.entomologia. Autores Africanos. p. nes tas últimas décadas. Mais adiante o autor ressalta que ta is produções se voltam a um engajamento crítico. Oswaldo Biato.36). SP: Ática. Claro está que Sembene Ousmane compareceu a este debate. sendo por vezes excelente poeta In: NIANE. Trad. como observou o historiador Boubacar Barry. Mbye Cham. observou que ―Na áfrica. a exemplo do microscópio. Nestas produções.2 observa-se uma nova tendência. um cinema tendo em contribuído cujas reflexões vista as estivessem associadas especificidades de nações que. 80 ----------------------. produziu-se um número significativo de filmes . e evolucionista a partir da qual passa a ser o próprio discurso para que cientificista nas nações à questionado. n. muitos (2001.Page 81----------------------que uch Sembene Ousmane acusou o de filmar os africanos respeitado cineasta francês Jean Ro ―como se fossem insetos (OUSMANE. 1982.T. D. Vale frisar que não foi casual 1 Para compreendermos a importância da oralidade na obra de Sembène basta observarm os nos seus filmes o papel que é atribuído ao Griot. ao longo do processo de independência das colônias africanas. ―Numa sociedade em que os conhecimentos eram tradicionalmente transmitidos pela palavra – de forma oral – o griot tinha posição de destaque.17). Como observou Djibril Tamsir Niane.

Considerado uma das personalidades mais notáveis africana.. Ceddo produções (1977). comerciante.La Noire de. 3 Em alguns artigos observa que o nome de Sembene Ousmane é escrito de forma invertida e com acento (Ousmane Sembène). 81 . sempre t endo em vista os problemas enfrentados pelas sociedades africanas (2001. p. tendo em seus horizontes s enfrentados pelas sociedades africanas contemporâneas (2000. “Ao longo da minha vida exerci vários tipos de trabalho: pesc ador. mecânico.(1966). p. optou-se pela forma qu e o autor assinava seus artigos e obras. Sembene 3 (1923-2007) nasceu em Zinguenchor. não podemos perder de vista que tal emancipação é fruto de um longo processo iniciado décad as anteriores em que intelectuais. por cabe algumas deixar de claro que suas Sem as diferentes crises e desafio pioneiros neste processo. bene Ousmane Levando isto foi um dos em consideração. no Sene gal. de fato Sembene teve importância ca pital em tais discussões.sado por uma revisão.202). ao longo da sua vida do cinema e da literatura produziu 12 filmes e uma vasta literatura sobre os mais diversos temas. Trabalhei como estivador durante dez anos no porto de Marselha”(OUSMANE. Casamance.4). 1 972.. A julgar . Entretanto. artistas e diferentes sujeitos históricos lutaram. na tessitura deste trabalho. por suas liberdades e em defesa de suas crenças. Talvez isto explique o fato de que muitos dos personagens criados por Se mbene sejam frutos 2 Apesar de levarmos em conta a importância dos movimentos de independências das co lônias africanas. Para compreendermos a maturidade de sua literatura e o engajamen to político de seus filmes temos que levar em conta mo ele próprio fez questão de sua rica experiência de vida. cada um a seu modo. Co salientar. p.405). Emitaï (1971) e Camp de Thiaroye (1987).

daí sim poderemos compreender mais claramente a alegoria de alguns dos seus filmes. de 1956. Les bouts de bois de Dieu (1960) e. O fato de Glauber ser o autor de versos de Deus e o Diabo. tais como O Dragão da Maldade. a este respeito. esta obra retrata as precárias condições de trabalhos dos estivadores africano s neste porto. experiência de trabalho estivador no ne po no romance Le docker Escrito em tom de noir (O denúncia. dentre outras . Depois de ter produzido um número considerável de obras – Le docker no ir (1956). Is romance Riverão Sussuarana (1977) e sua colaboração ainda jovem em jornais e revistas da Bahia e do Rio de Janeiro. sem contar a escrita do corroboram em muito está idéia.Page 82----------------------deste rico empirismo. Sua longa retratada. O romance é também uma reconstrução ficcional das relações raciais entre os franceses e os e xilados africanos das colônias francesas demais óbvio dizer que a pertencentes à diáspora negra. Oh pays.----------------------. Daí não ser nenhum exagero falar de uma poética glauberiana. Deus e o Diabo ou O Leão de Sete Cabeças. possuido ra de uma estética própria. Sem trajetória bem parecida com a de Glauber Rocha. gro). como Diário de Notícias e o Suplemento Dominical. bene Ousmane Devemos também levar em tem uma conta que. Voltaique (1962) – . ocasião em que Glauber empenhou-se num mais crítico. mon beau peuple (1957). engajado e menos combate por um cinema contemporizador. rto de Marselha seria posteriormente. É por orientação do romance é autobiográfica e o próprio tom político em que é embalada a narrativa já aponta alguns caminhos das posteriores produções sembenianas. Dragão da to Maldade e Terra em Transe. Isto fica mais evidente se relacionarmos sua literatura com suas i magens. do Jornal do Br asil. visto que o cineasta baiano também p ossuia esta inclinação e afinidade literária.

358pp. Abiola. Fernan da Mourão. Sônia Queiroz. dentre outros. “Quando me dei conta que em razão do alto grau de analfabetismo que assolava meu país eu não po deria jamais atingir por meio de minha literatura as massas. IRELE. os africanos e as massas . A tradição oral. como nos próprios anteriores de debates possibilitaram e escritores intelectuais 4 Vale ressaltar que os romances de Sembene foram escritos em francês. 1956). p. 1  Primeiro Fest ival de Artes Negras (Dacar. Trad: Ana Elisa Ribeiro. Daí ser evidente que Sembene buscou contemplar tanto na sua literatura quanto nos seus filmes os problemas que estavam colocados ao seu povo – heranças herdadas de séculos de colonial ismos. In: QUEIROZ. horizonte a Realizado em Dakar. 82 ----------------------. Como ele próp rio declarou. ou seja. que por um longo tempo foi subjug . como aquela parte da sociedade que domina amplamente a língua européia.33 5 Colloque sur litterature et esthetique negro-africaines. 2006. BH: FALE/UFMG. em função d o alto grau de 4 analfabetismo do seu público alvo. Dakar: Les nouvelles Editions Africaines. Sônia (org). o Colloque teve em seu relação às manifestações culturais e artísticas africanas. A literatura africana e a questão da língua. A este respeito é interessante recuperar parte das questões aventa das no Colloque sur 5 litterature et esthétique negro-africaines . e como obse rvou Abiola Irele ―A elite na África pode ser definida. cujos ricos o amadurecimento de questões trazidas por geração africanos. 1979. 1966). preocupação em em 1979. eu decidi fazer cinema” (Ibidem).Page 83----------------------colóquios anteriores: 1  Encontro de Escritores Negros (Paris. o que a diferencia do resto. de imediato.Sembene percebeu que sua literatura não tinha o alcance que ele esperava.

.208) Tal observação ilustra africana em muito bem a preocupação desta levan int electualidade (re)pensar o seu passado e suas do em conta seus costumes e práticas epistemológicas. A participação e a contribuição do negro africano na arte e na literatura antiga . de diversos ar visão de mund costumes cabouços da vida cultural o específica. inclusive. bservação de Mohamed Boughali Babacar Sine.ada pelos europeus. A estética negro-africana e as demais artes. Arte funcionalista: estética negra e dialética do juízo estético. é Um desenvolvimento próprio do pensamento africano destes últimos anos parece residir no esforço teórico essencial que tende a ren ovar os postulados da questão a ambição interpretação de fundar de uma filosófica africana: a etno-filosofia teria filosofia africana a partir da reconstituição 'graças à e de tradições. o próprio A e este Sembene Ousmane fez parte. Funcionalidade da palavra e funcionalidade social na literatura negro-af ricana. A título de análise. . tradições.. ímpeto que perpassa a visão cristã-ocidental e eurocêntrica em relação ao con tinente africano. segundo eles: respeito. de povos africanos [. Sobre cinema negro-africano: a problemática cultural de La noire de.. eis alguns núcleos temáticos que foram suscitados neste e vento: Estética negro-africana. de instituições. m Os compreendamos debates acalentados melhor as por este colóquio e nos artistas salutar permite deste a o questões período que estavam postas para intelectuais que. Não resta dúvida de que isto já possibilita um redimensionamento das suas históri as e da sua filosofia. de provérbios.. Moralidade e estética no ritual arquetípico. p.] uma supostamente comum a todos africanos (Ibidem.

língua.5). nos anos 1960 . Claro está que tal memória vai de encontro ao passado ano: oralidade. p. isso. Segundo Antonacci ―Em estética [Sembène] seu movimento de imagens. europeus. optando por se aproximar de cinematografias alternativas. Há muita coisa que corremos o risco de perder: com o cinema podemos salvaguardá-las. é igualmente esclarecedora a declaração que Sembene deu ao Correio da Unesco: 83 ----------------------. Como observou Maria Antonieta Antonac ci.bem Disse-se marcante nas outrora que produções a oralidade é um traço cinematográficas de Sembene Ousmane. p. produzindo para o cinema. como o Cinema Novo. ou seja. e as pessoas podem vê-las (1990. atuando no mundo da imagem. (…) Dessa forma. mória Por popular. O filme Ceddo (1977) demonstra de forma cabal a importância que Se . enquadramentos e dialogou especialmente com a filmografia de Glauber Rocha.4). na tradição africana o cinema é uma realidade de envolver todo o homem. danças. que também produzia cin ema baseado em tradições orais e em matrizes afro-brasileiras mbene concede à (Ibidem.Page 84----------------------Um cineasta africano. performance do valores secular corpo. possui uma herança muito antiga. A este respe ito. O próprio cineasta foi um crítico da Nouvelle Vague. ―[Sembene Ousmane] do Oeste. músicas. filosofia. colocou em cena desde preâmbulos regimes dos de oralidade na África processos de independência das nações africanas. tendo em vista o questionamento dos valores trazidos pelos c olonizadores europeus: instituições. dentre outros préstimos. nas suas dando grande produções a e partir aos Sembene da recusa recorre de à me padrões afric importância à natureza pan-africana. (…) O cinema africano é uma escuta de si própri o. mas sempre viva: a oralidade.

daí a importânc ia dada à oralidade. em protesto à conversão forçada ao islã. A própria opção língua vernacular wolof de Sembène de escrever os diálogos na corrobora em muito está idéia. 84 ----------------------. o filme islâmico reconstrói a história do país q dominante. No transcorrer do sequestram a princesa Dior Yacine. três homens comandam o debate: Saxewar. Daí ser pertinente para estes agentes a recuperação de suas 6 Para uma aproximação com a necessidade apel do Griot nas culturas orais de estudo em relação ao p africanas. i ntolerantes no que diz respeito às enredo. as versões oficiais acerca do passado africano são contestadas.Page 85----------------------- . o filho do rei. No Ceddo. sua compartilhado a idéia de que a sociedade africana deve buscar uma criação visual e d inâmica em consonância com seu tempo e espaço. Madior.oralidade. Com grande ênfase à oralidade e suas respectivas performa nces. é o novo herdeiro do trono. críticos Reivindicando uma autenticidade e artistas africanos têm cultural. Percebe-se que toda a história do Ceddo gira em torno da princesa Dior. de acordo com a nova lei islâmica. Ambientado no Senegal do século uestionando o mito XVII. Ela é apresentada como uma figura de resistência presença avassaladora. Os muçulmanos são apresentados como conspiradores e fanáticos religiosos. que. os ceddos demais práticas culturais e religiosas. alguns e é liberação. filha do rei Demba War. O griot6 convoca todos para uma reunião. é esclarecedora a obra Sundjata ou A Epopéia Mandinga. ocasião em que o destino da princesa Dior e da própria comunidade são discutidos. de Dijibril Tamsir Niane. Todo conclave é veiculado pela palavra. o noivo da princesa. filho da irmã de D emba War e Biram. Apesar extremamente de sua limitada aparição no filme.

. celebrações. não somente c omo um fenômeno característico da sociedade humana. para rever.. e Está identidade da uito dos seus filmes. A própria iálogos intenção do realizador em wolof reforça qual nos fala Sembene de produzir uma é perseguida (Ceddo) em m com d película isto. É importante para nós te rmos um cinema com o qual nos identifiquemos. bem como assinalou Mohamed Aziza: A análise do processo de recuperação e reformulação do pa trimônio cultural por parte de um conjunto de artistas africanos e árab es deve levar em consideração as questões de ordem sociológica. tendo em a. tendo em vista a identificação do seu profundo significado. apreender e se compreender por meio das telas (1964). a clarividente afirmação de Aziza vem muito a calhar par a compreendermos as contribuições deste processo. mas igualmente como um fato social significativo e enraizado na vida do seu grupo (1977. p. pitais e escolas. Para nós africanos a questão cinematográfica é tão importante quanto a construção de hos a alimentação de nossa população. estranhas à nossa vida. que ten quadros das estruturas e dos movimentos sociais. ritos ma esfera e tradições. Igualmente.É claro .cosmogonias. Claro vista as esta que revisões o fato e as de reinterpretações da história da Áfric Sembene Ousmane recorrer à memória popular para recompor os eventos históricos vai de encontro à sábia observação de Amadou Hampâté Bâ: O fato é que não há sistema de escrita que destitua a África de um passado ou de que este conhecimento um corpo de herdado que é conhecimento. Claro está que esta tendência faz parte de u mais ampla. nas películas Emitaï e Camp de Thiaroye os valores culturais locai s são reforçados.8) dem a se situarem nos A meu ver. A trazidas por Sembene este respeito é Ousmane ao longo esclarecedora a seguinte afirmação do escrito senegalês: projetam histórias de uma Sobre as telas da África negra só se estupidez medíocre.

O corpo de c vasto e diverso. musicalidade to..22) Um traço comum tanto nas produções de Sembene Ousmane e de Glauber Ro cha tem sido a resistência ao racionalismo europeu. p. Terra em Transe.Page 86----------------------ou às narrativas convencionais do cinema hollywoodiano. Eis outro aspecto que o aproxima de Glauber Rocha..13).O corpo de conhecimento africano é.. mal partilhada e traída o plasmar (DIAGNE. consequentemente. porém. Tanto em Glauber quanto em Sembene observa-se a tensão entre a o ralidade e a . uma vez q ue o cineasta baiano também buscou com primazia particularidades do Nordeste brasileiro. estando presente em todos os aspectos da vida. isso sem ectos afro-brasileiros: contemplar em suas obras aos as asp contar a constante religiosidade. podendo ser comparados a uma vasta biblioteca. Deus e o Diabo.ouvido da geração africano seguinte é onhecimento transmitido da boca de uma geração ao pode tanto crescer como diminuir. p. não se pode negar que o cineasta senegalês a sua estética fez algumas opções. e teatralidade. ao Neo-realism o italiano 85 ----------------------. na sua obra há uma pred ominância dos aspectos locais. 2004. cujas estantes estão articu ladas umas às outras por meio de conexões invisíveis que são a essência da ―ciência do invisí el (1972. é por este motivo que os anciões são vistos como os seus últimos detentores . Se por um lado alguns autores têm afirma do que a obra de Sembene ―é a expressão do drama existencial do negro que vive numa áfric a cobiçada. Dragão da da Terra recorrência Nos e filmes Der oralidade. mas sim generalista . Barraven Leone Has Maldade. Poderia ele ancorar-se à Nouvelle Vague. A Idade Sept Cabeças tal ancestralidade africana é reforçada. tendo em vista dos problemas enfrentados pelo as reflexões políticas acerca Senegal de sua época. O ―conhecimento especializado nunca é especialista.. um conhecimento vivo e ―abrange nte .

92). pois na concepção fanoniana a própria luta é um busca por soberania e por fenômeno cultural. A cultura nacional nos países subdesen volvidos deve. tendo em vista a A autonomia plena.7 olonização Tendo em e à própria vista o questão amplo do processo de desc nacionalismo. destes espaços Cabe frisar que a proximidade nos permite está dos traços culturais abertura a este diálogo de imagens. é esclarecedora a observação de Frantz Fanon: cultura nacional não é um folclore. ou ainda esta massa sedimentada de gestos puros que pouco tem a ver co m a presente realidade do povo. então. própria literatura do escritor senegalês é construída como se fosse uma cena. p. justificar e evocar a ação por meio da qual o povo se constitui e se sustenta. Sembene o observar levou algu posteriormente foram adaptados para ns teóricos a afirmarem que a cinema. i sto é visível em alguns do romances do escritor. os valores do b ranco e do africano. a própria idéia é observável de dos em é cinemas convencionais das de obras ma glauberia qu grande parte interessante o que alegoria confirma isto. e muitos dos livros de Com efeito. rompendo com a estética trizes hollywoodianas. abstrato que acreditou ter descoberto a verdade pop ular. ―Se a cultura é a manifestação da cons ciência . a fome e a liberdade.norma culta. muito em voga nas décadas de 1950 e 1960. A cultura nacional é o conjunto de esforços feitos pelo povo no plano do pensamento para descrever. o local e o universal. Logo em seguida ele complementa. A própria narrativa de grande parte do cinema af ricano é feita em bloco. o cânone letrado e a alegoria. situar-se no centro da luta de libertação que é travada nestes país es (Ibidem. notadamente. De fato. muito menos um populismo A afirmação de Fanon é bastante oportuna para o presente estudo. na obra Xala. Isto também é um traço que nas.

buscou estreitar as relações com os demais países subdesenvolvidos. longínqua apenas em nossa imaginação desinformada .] Explico isto para deixar bem claro o motivo que me levou do Brasil até a próxima África. que Glauber. a África. o sentimento da geopolít é um dos vetores) como um eixo de um confronto no qual o op rimido só se torna visível (e eventual sujeito no processo) pela violência. cujos aspectos cu lturais são tão próximos à nossa nação tupiniquim. cultural e psicológica que separa o universo da fome do mundo desenvolvido.. El xual – e a partir deste acontecimento. Cabe frisar ue o próprio Glauber foi um autores notável receptor das idéias fanonianas.A. ica (de que o cinema É justamente em função desta barreira econômica. Sembene expõe ociedade senegalesa dividida moderno e o arcaico e marcada pelo Hadji acaba sofrendo o Xala – quebra da potência se de forma crítica o retrato entre o entrechocar de culturas (N. S/D. . p. Como o próprio Glauber elucidou. não restam dúvidas de que neste caso.). em Glauber. 86 ----------------------. ―O público do terceir mundo continua recebendo uma cinema euro-americano e massa enorme de informações sobre o pouco sabe do seu próprio cinema [.7 Xala (1973) narra a história de EL Hadji Abdou Kader Bèye.Page 87----------------------nacional. (2004. notadamente. (ROCHA.93). Apoiado em Frantz Fanon ele explicita tal sentimento em ―Por uma estética da fome . personagem abastado que faz parte dos ―novos ricos da sociedade senegalesa. -se aos Claro projetos está que as políticos de idéias que aventadas alguns por Fanon observaram coadunam q de uma s Glauber e Sembene. acentuando a demarcação de lugares e o conflito estrutural que deriva da b arreira econômica-social. Segundo Ismail Xavier: É notável. transbordado de sentimentos conflitantes.. social. cultura e psico lógica da qual nos fala Ismail Xavier. a consciência nacional é a forma mais el aborada da cultura (p.21).

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1997.Page 90----------------------DEREK WALCOTT E OMEROS: uma discussão sobre a problemática das identidades afrocaribenhas Henrique Cunha Jr. Fundação Getúlio Vargas. 2001. O cinema brasileiro moderno.8. PIERRE. XAVIER. Marcos (org) SP: LTE Editora. R. Trad. 2006. Maurício. Oswaldo Biato. SP: Átic a. Glauber Rocha e a literatura de cordel: uma relação intertextual. In: El Correo de la UNESCO. Mateus Araújo. 1982. 1996. SILVA. Trad: Marcos Soares. SEMBENE. Derek Walcott. Paulin Soumanou. SP: Papirus. Sembene – O griot do cinema africano. nov-dez.s. Glauber. SP: Cosac & Naify. Ozu. Le cinema africain: un continent à la recher che de son propre regard. Trad: Eleonora Bottman. OUSMANE. Africa. NIANE. NEMER. Ousmane. Sundjata ou A Epopéia Mandinga. Djibril Tamsir. ____________. Collection dirigée par Joel Magny et Frédéric Strauss. VIEYRA. Elisabeth. 89 ----------------------. 198 3. Africa: la historia em imágines amenazada .8 Lílian Cavalcanti Fernandes Vieira9 Resumo O objetivo deste artigo é fazer uma análise da temática identidade e cultura de matriz africana através da obra OMEROS do autor afrocaribenho e Prêmio Nobel de Literatura (1992). Intervention orale à la Rencontre Internationale de Poetes à Berli n du 12 au 27 Septembre 1964. N´DIAYE. Marxismo e Literatura. ago-1984. RJ: Zahar. n. SP: Brasiliense. março de 1990. Glauber Rocha. 2003. Crítica da imagem eurocêntrica. Samba Felix. n. Correio da Unesco. SP: Cosac n aify. Sylvia. WILLIAMS.8. p. Revisão crítica do Cinema Brasileiro. SILVA. 1979. O conhecimento e o estudo d essa literatura identitária pode . E. CARDOSO. SHOHAT. Paris: 2005. Shakespeare glauberizado: a tragédia de Macbe th na farsa de Cabezas Cortadas. Sertão mar: Glauber Rocha e a estética da fome. SP: Paz e Terra.37. STAM. v. In: Cinemais. Ismail. 1982. 2010. Sylvie. Raymond. LEQUERET. A obra do autor permite o enfoque de questões com o a discussão dos conceitos de identidade e cultura como atos políticos e como artefatos de uma boa educação. a afirmação do processo de consciência negra e a recuperação do escravizado como sujeito de uma históri a social através da literatura pós-colonial.RJ: 2007. ROCHA.39-64. Cinema Novo e camera no chão.

Foi aluno do grupo escolar Marechal Floriano e do Colégio Estadual Brasilio Machado. identity. the affirmation of the process of black consciousness and the recovery of the enslaved one as the subject of a social hi story through the post-colonial literature. sua infância no tradicional bairro do em São Paulo. The knowledge and study of this literature can contrib ute a great deal to the intellectual formation of educators as well as it may open paths to areas of phi losophy of Brazilian education through the deepening in the culture of African basis during the Diaspora serving as a contribution to cultural diversity. Educação Popular e Escola. identidade. É professor titular na Universidade Federal do Ceará onde atua no programa de pós-graduação da Faculdade de Edu cação na linha de pesquisa Movimentos Sociais. É doutoranda do Programa de Pós-Graduação em onde faz parte da linha de pesquisa Movimentos Sociais. Educação Popular e Escola Henrique Cunha também pela UFAM e mestre Casa de Cultura Britânica da UF Educação Brasileira da UFC sob a orientação do Professor Dr.br 9 Lílian Cavalcanti Fernandes Vieira é formada em Letras pela UFAM (Universidade Fe deral do Amazonas). formou-se em Engenharia Elétrica pela USP (São Carlos) e em Sociologia pela Unesp (A raraquara). tendo sido seu primeiro presidente. Abstract The main purpose of this article is to analyze the thematic identity and culture of African basis through the work OMEROS by the afro Caribbean writer and Literature Nobel Prize winner (1992). literatura pós-colonial. Palavras-chave: cultura. Fez doutorado em Engenharia na França e livre-docênci a na USP. Depois. . E-mail: hcunha@ufc. especialista em Tradução: Teoria e Técnica em Linguística Aplicada pela UECE (Universidade Estadual do Ceará).com. post-colonial literature. Participou da fundação da Associação Brasileira de Pesquisadores Negros. Derek Walcott. Dirigiu grupos de teatro amador no movimento negro na década de 1970 e foi membro do Grupo Congada de São Carlos. educação. Key words: culture. É mestre em História. 8 Henrique Cunha Junior nasceu no Bexiga. education. e passou Ipiranga. É professora da C desde 1993. His work allows the focus to issues like the discussion of concep ts such as identity and culture as political acts and artifacts of a good education. servi ndo de aporte às diversidades culturais.contribuir tanto para a formação de educadores como abrir caminhos para as áreas de fi losofia da educação brasileira pelo aprofundamento na cultura de base africana na diáspora.

Nenhum desses ma teriais parece estar feito para uso imediato.Jr. os problemas da existência não devem ser tomados da perspectiva da dicot omia de nós e os outros.Page 91----------------------DEREK WALCOTT E OMEROS: uma discussão sobre a problemática das identidades afrocaribenhas 1. que ―O nos Meu futuro foi encomendado são alheios. islâmicos. 2004) o tema das Para as populações identidades sociais afrodescendentes no mundo (Mia Couto. Refiro-me à nossa conversa com nossos mas. capitalista. de que poucas vezes se faz alusão . Quem somos nós ou o que nos é caro? Quero e um diálogo muito particular. Principalmen dominante se constitui de relações não necessariamente econômicas e que constituem o pro cesso de manipulação ocidental. judaico-cristã.com.. presente vem emprestada. asiáticos. E-mail: lilianviei ra@bol. fortemente excludente das manifest ações sociais dos nas mundos habitados etc. De maneira por mais nós afros.br 90 ----------------------. em foi mal mitos e embalado preconceitos. o presente e o futuro. E o e O chega-nos deformado. escritor moçamb por vestido de carregado O passa próprios fantas falar aqui d coletivas e individuais não é um problema superado e muito menos uma questão social se cundária submersa nas te porque relações do capitalismo este capitalismo dominante. Nome é África . O tempo trabalhou nossa alma coletiva por via de três m ateriais: o passado. do de roupa interesses iquenho. e tem desenvolvido um interesse especial pelo estudo das l iteraturas pós-coloniais e a questão da identidade e cultura nas obras dos autores do pós-colonialismo. indíge expressiva. mas de nós e todos pertencentes a uma sociedade à procura dos seus pontos .

. puxando carroça préque contrapõem o catador de recicláveis. Sérvia e Haiti. tendo como fundo o colonialismo inglês e a organização contra o imperialismo mental das ma das identidade coletivas e individuais é terial. Muito um problema da longe de ser sociedades ocidentais. mental. pensada riundas como foco dos paradigmas das sociedades africanas e (CUNHA JR. por KENYATTA das filosofias Retomando Kenia. Os teóricos da pós-modernidade fixam parâmetros sobre a superação da moder nidade que estão presentes em limitados setores do mundo europeu e norte-americanos e nas percepções das classes médias latino-americanas insensíveis aos mundos que as circundam. Afeganistão. as guerras da Coréia. o problem pergunta Quênia proble e ma como (1938). no seu famoso livro Facing Mount funcional é quem somos nós quenianos. histórica ao lado do veículo de uma centena de cavalos de força. das onde a lutas no o Bantu o afrodescendentes a apresentado 2010). apenas como exemp lo da nossa reflexão. sobrevivência das mais intelectual como as superado está emergindo no cotidiano Iraque. Se recuarmos um pouco as guerras das independências guerras no do Irã. Vietnã e do Camboja. As per cepções da pós-modernidade cronicidades podem que vivem estar em na ausência da percepção das assin 91 ----------------------. Não seriam as teorias da inexistência das identidades e apenas das identific ações mais uma expressão das problemáticas e re-configuradas pelos dos mundos eurocêntricos transportadas .de equilíbrio. africanas dos anos de 1960 a 1970.Page 92----------------------mundos de pseudo-convivência. perfeitamente climati zado e como contato do intelectual pós-modernizado das nossas universidades. temos tempo-espaço.

do debate sobre a latinidade das Américas. as climatitudes da sociedade brasileira. OMEROS é a obra literária cuja compl exidade invade tionam uma infinidade de o pertencimento relações Faz na e correlações com que expressam as diversas negros. expressões problematizadas sociedade brasileira pelos s debatedores. pois descen de de ingleses e negros. Trata-se de uma expressiva voz caribenha visto que foi prêmio Nobel de literatura em 1992. negra por pelos britânicos também com a incompreensão da comunidade sobre a questão racial. cultura e identidades falando da sua experiência focalizada na realidade histórica da ilha de Santa Lúcia no Caribe. O presente texto pretende iniciar um debate sobre o conjunto de características iden titárias e propõe ser uma sucessão de artigos dentro desta temática. focalizando esse autor e o livro OMEROS. pelo e ques afrodiaspórico caribenho. no faz com que o poeta em entanto. ser negro: nunca pode ser integralmente em que sofre dois estigmas e americanos. Tratase de um convite ao aspecto do debate sobre as identidades. das ideologias das mestiçagens.intelectuais periféricos ao sistema da produção eurocêntrica? Numa e em ser quase europeu em pensamento. scendente Derek Walcott é preocupado com a um dos intelectuais do mas sobrevivendo expressão angustiant e pensando mundo afrode expressão e a problemática da história. construtores coro e sentido movimentos e sociais desconstrutores da identidade nacional. Dentre os questionamentos lançados um nos inquieta sobremaneira: po r que a obras de autores como Derek Walcott não são divulgadas ao público leitor brasileiro? Por que el e e outros . se identificar Sofre aceito questão seja parte pelo ao mesmo suas posturas de fato ambas s de tempo moderadas totalmente com nenhuma. O fato de ter nascido entre duas etnias e duas culturas. em.

inquietação da pesquisa não universitária e d ao será problematizada respondida tão de imediato. co mo no enfoque de classes. privilegiarmos e sem termos e Agadá de Marco Auréli cultura. uma e. racional no entanto. A nossa perspectiva teórica é guiada por focalizações das filosofias afri canas em obras como a Verdade Seduzida de Muniz Sodré (1983). apesar dos Exus anunciarem as problemáticas das di aléticas em sete caminhos. sem dicotomizarmos m conta o visível invisível. No entanto. economia um sobre o outro. Assim sendo. O autor e sua obra o emocional do indivisível do Escritor a crioula. mostra um universo de restrição a autores prop onentes de uma afrodescendência ativa. Wole Soyinka e Gloria Muapa ficam totalmente esquecidos dos meios de divulgação da o interesses dos intelectuais brasileiro? Certamente esta longo deste texto e nem cultura. o Luz (2000). política. daremos apenas a dimensão de um quadrilátero co e relações sociais. seremos mposto pela mais restritos. 2.como. a capi tal de Santa Lúcia. Sem. não podemos limitar o estudo das sociedades a apenas um enfoq ue disciplinar. Entretanto. problematizadora dos mundos e que não faz compasso com o s projetos eurocêntricos de expressão no país. Tony Morrison. Derek Alton Walcott caribenho de etni nasceu a 23 de janeiro de 1930 em Castries.Page 93----------------------outros. e muito menos a uma das áreas como as das relações econômicas nem dos grupos sociais. dentre 92 ----------------------. Oriundo de uma pequena família de ilha situada no Mar do Carib . Chinua Achebe.

uma professora da escola conseguiu. De 1953 até 1957. Derek e metodista local.Poems ura fundamentar uma cultura 1948-1960. início a uma carreira no campo do jornalismo. diz o poeta: ―Ele é uma amálgama de povos . que se tornou inde séculos. chineses. que acabou por produzir um lugar p lurilíngüe e multicultural. providenciar Roderick. que desenvolveu sua própria cultura e identidade. Walcott afirma que os escritores são responsáveis por tocar e emocionar as pessoas. combinados influência Walcott onde com o Metodismo religiões de e o Catolicismo cenário singular que o coexistiam trabalho de africana. Foi neste emergiu como uma reafirmação da cultura e identidade caribenhas. Walcott foi professor em várias escolas do Caribe. apesar de tudo.escravos. É uma paixão por justiça. antes de tudo. ao publicar In A Green Night . A mãe. foi. dando. seu pai era um aquarelista boêmio e ir responsável. Castaway (1965) e The Gulf (1969) foram.africanos. Ele sempre dizia: ―Desde pequeno eu sabia q ue seria um escritor . Essa pai xão e vibração estão presentes em toda a obra do artista. caract erizados pela . Conseguiu estabelecer-se como poeta em 1964. de idade. uma mistura dos governos francês e inglês. publicação de numa edição limitada financiada por sua mãe. durante Santa Lúcia. ingleses. também. obra em que proc essencialmente caribenha. é o desejo de destacar o caribenho como uma cultura e realidade social. uma boa educação Derek Walcott aos seus dois filhos com a gêmeos. holandeses e franceses num ambiente único. mas. O caribenho não é uma cópia de nada. estreou como poeta aos dezoito anos Twenty Five Poems (1948).” Em s ua obra. indianos. A pendente em pequena ilha de 1979. que acabou por falecer quando Derek ainda era uma criança. de espírito lutador. depois. suas poesias e peças.

93 ----------------------. abrindo caminhos para a expressão e mais de quinze livros de afirmação dos caribenhos. Ele escreveu poesia e trinta peças. alguns críticos apontam para os versos . definindo este último como ―um eco na garganta . e.A stage version (1993). freqüentemente. mar Derek Walcott demonstrou um grand os a quanto pelo mundo homérico. ele introdu z elementos da língua popular em crioulo. tanto os temas clássicos como fro-caribenhos e se constituem a voz do Caribe. com a obra com o Prêmio Nobel de Lit particular na confluência en OMEROS. Por isso. Um mestre da linguagem. iências do povo caribenho e Seu trabalho é marcado pelas exper reflete sua identidade e sua herança. ele dedicou dois trabalhos e THE ODYSSEY. em O autor foi agraciado 1992. que explora. Walcott sempre esteve na vanguarda do seu ofício. eratura. uma importantíssimos a esses temas: OMEROS (1990) O trabalho que será analisado nesta proposta de pesquis obra dividida em cento e noventa e dois cânticos escritos com uma grande riqueza d e metáforas cuja narrativa poética é estruturada em um tipo de Terza Rima. africanos e asiáticos. Suas obras são escritas em inglês.Page 94----------------------tentativa de encontrar uma identidade tre os testemunhos genéticos europeus. 3. OMEROS: a busca de uma identidade I have Du tch. magistralmente. nigger and English in me. a é OMEROS. A poesia e o drama de Walcott definem o auto r como um poeta transcultural. and eithe r I am nobody or I am a nation (The Schooner Flight. 1979)10 e interesse Desde muito tanto pelo cedo.

um negro e um inglês dentro de mim. A publicação de OMEROS. garante a qualidade longa e duradoura do trabalho de Walcott . sua terminologia bakhtiniana do epos-romance. 94 ----------------------. Há muita liberdade com o ritmo e com as rimas que.. o u sou uma nação. Mas o termo épico faz com que as pessoas pensem em grandes guerras Esse não é o Homeros em que estava pensando. em uma entrevista concedida. (A fuga da escuna. em alguns pontos. O poema consiste de sessenta e quatro capítulos divididos em sete l ivros.Page 95----------------------não penso nela (a obra) como épica. episódios. sua vida cotidiana. 1979) Tradução minha. suponho. Entretanto. e.. sua obra as palavras e nem épico devido à do poeta não diminuem a im invalidam o seu caráter fala nos remete à grandiosidade do tema. ou eu sou ninguém. Onde estão as batalhas? Há algumas. chegam a ser abandon adas pelo poeta. natureza. conversas. o própri o autor diz. águas e florestas. portância de Certamente. lembram a Os versos Divina muita são hexâmetros controvérsia a e as estrofes são respeito do padrão tercet métric Comédia. onde o lingüista russo M ikhail Bakhtin (num texto concebido para uma palestra em 1914)11 apresenta as três características de uma epo péia. seu povo. não atribuir ao poema o caráter épico: 10 ―Eu tenho um holandês. animais. há o do poema. O autor faz uma reflexão sobre a epopéia que se caracteriza por três traços constitutivos: em pr imeiro lugar . descrições e impressões detalhando minuciosamente o mundo caribenho. em 1990. É um único poema de com escopo e proporções histórias. No entanto. (―A poem in homage to an unwanted man The New York Times. Na verdade. 1990) e grandes guerreiros.brancos os que rítmicos. épicas com uma grande variedade monólogos.. certamente não n o sentido de uma estrutura épica.

nem sempre é bom ou. do tempo do o mundo escritor. Na visão de Walcott. sim. Quando.aponta para o passado nacional épico. Essa ideia não é encontrada na obra de Walcott. o mundo dos pais e ancestrais. ele nem sempre se orgul ha. narrador. foi um poema sobre o passa do. podemos inserindo o livro mencionar narram as andanças de Walcott pelo mundo. ao contrário. passado heróico nacional. a lenda nacional é que deve estar presente numa e popéia e não a experiência pessoal imaginada e recriada. onde os escravos construíram o quebra-mar. 197) b) ―. Em segundo lugar.. o quinto que Como como exemplo. sobre o seu tempo e. Segundo BAKHTIN. com muitas alusões ao imperialismo/colonialismo como sendo a principal causa da fa lta de raízes das raças oprimidas.. 315)12 em clara referência à colonização britânica e francesa da ilha da Santa Lúcia. respectivamente. é. vista de um ônibus ver melho de dois andares. de ser oriundo desse passado. desde o seu início. o céu azul é uma túnica militar francesa. nossa prole é um flagelo público? I/III (OMEROS. A epopéia jamais foi um p oema sobre o presente. Vejamos dois exemplos mencionados pelo autor: a) ―Quem vai nos ensinar uma história da qual também somos capazes? / A Torre Sangrenta. pela da epopéia é distância o épica absoluta. Assim. pois o passado além de não ser o objeto central. XXXVII p. o mundo dos primeiros e dos melhores. suas vivências na Europa e nos EUA. o mundo épico é isolado da contemporaneida de. o passado glorioso. e se apresenta tanto nos en contros entre . a contemporaneidade é visível. isto é. é o mundo das origens e dos fastígios da história nacional. Em OMEROS. como pardais. em OMEROS percebemos que o próprio escritor se coloca tanto como personagem muitas passagens de sua vida e experiências quarto e autobiográficas. (OMEROS LXII/III p. Mas os nomes dos construt ores não estão lá. mencionado ironicamente. Quanto ao terceiro ponto. muitas vezes.

I n Questões de literatura e de estética: a teoria do romance. ed. a literatura exerce duas funções unir a comunid outra dessa fundadores. p. Aurora F. pois. 95 ----------------------. De acordo com BERND (2001: p. como nos 11 BAKHTIN. fazendo uma tr ansgressão dos conceitos vigentes por meio dos iados e excluídos. desmistificação de tal sistema que vinha sendo construído. cralizadora. de seu imaginário que corresponde ideologia. 68). surgindo. o h erói se constitui num homem comum. Assim. BERNADINI. do que ele mesmo chama de ―a maquinaria de fora conhecida como Literatura distintas: uma função ade sacralizadora. 29). como a fala daqueles que não têm voz: os (re)contagem da história num espaço transcultural oprimidos. 12 Tradução nossa.os nativos da ilha e os turistas que a visitam para desfrutar de seus lugares pa radisíacos. Nesse sentido. assim. Trad. em torno de quando atua seus mitos ou à no sentido de e a atendendo (OMEROS. fazendo onde com discursos que foram Walcott silenc faz e dos a escravizados. et al. ao mesmo tempo em que recorda elementos fundadores. a consciênci a crítica da realidade que desconstrói estereótipos. iguala o que os discurso das elites . 1998. Desse modo. 397-428. p.Page 96----------------------vários temas e maneiras de lidar com os problemas do cotidiano. podemos dizer que a obra de Derek Walcott atua de dois modos. num romanceamento ép narrador. sendo também o sua obra se ressignifica e se renova criativamente. XII/I. en fatiza os mitos e relembra contos e lendas da tradição oral por meio do epos-romance. 4. Mikhail. aos apelos poema: o próprio Walcott se coloca como sujeito. São Pa ulo: Editora UNESP. uma ico do mistura dos níveis formais e temáticos. Epos e romance: sobre a metodologia do estudo do romance. Assim.

Na viagem. O personagem principal d e OMEROS. em entre seu a a herança crítico e a tradições do Novo. inocência partida e fragmentação mental . A fig principal para a auto-realização e a aceitação da herança híbrida do autor. Achille. ura de caracteriza a busca de Walcott Achille representa o meio pela identidade. a conexão de . suas origens Achille encontra seu homônimo. luta e reconstrução do ser em um momento em que a s periferias estariam resgatando sua história para mostrá-la à humanidade. toda sua dor. 96 ----------------------. os Mundo e as p. Um tema central que permeia toda a obra de Walcott é a busca pela identidade. inglesa crioulo e a religião metodista e a católica. o inglês padrão e trabalho língua Europa o e África. Ach ille chega à conclusão criação de que precisa reconhecer e legitimizar certos a influência da África aos em sua 13 Termo utilizado por processos pejorativos e Gayatri Spivak (1985).―outrizados 13 (colonizados voz para expor. ele sentiu. no âmbito e oprimidos) do possam levantar sua discurso pós-colonial. hierárquicos da referindo-se representação do ‗outro‘ subalterno pelo colonizador. THIEME (1999: sobre Walcott. representa a contemplação de sua origem africana. excluindo esse outro dos limites de uma humanidade européia. que ele considera ser um resultado da divisão ra cial da sociedade caribenha. descreve o conflito entre as posições da francesa. Termo usado como tradução para a palavra em inglês ―othering . Muito cedo. O crítico fala de ―um senso d e perfeição perdida. em seu próprio passado. Walcott continua a lutar com o seu hibridismo e tenta conviver com as diferentes forças culturais que comandam seus princípios. cultural do Velho intensamente. antagonismos 25).Page 97----------------------aspectos de sua herança. Em OMEROS. A viagem simbólic de Achille.

o fardo de um legado colonial. fácil de ntinente exas é feito de profunda diversidade mestiçagens. Em sua fala. como se o produto híbrido fosse qualquer coisa menos pura. Walcott o faz sob a óti ca do mundo pós-colonial. por pescadores caribenhos cujos nomes gregos registram suas identidades híbridas. demonstrando uma entre os seres humanos. recontagem da Odisséia é que ela deuses ou guerreiros heróicos. simplesmente. tradução nossa) não é O inusitado nessa habitada por monstros. porque nela residem os temas que. Ao recriar o poema épico. têm preocupado o autor: a bele za de sua terra natal. nós ansiamos por um som ausente . numa fusão possível articulação com a cultura contemporânea. Longas e irreversíveis as moldaram um mosaico de diferenças mais ncionamos valiosos essas patrimônios mestiçagens. homens. que Pois não não há há economia cultura atual que humana não se alicerce em troca espécie humana. Achille aponta uma grave conseqüência da integração cultural: ―Tudo foi esquecido. Mas não existe pureza quando se fala da m s. consistentemente. O mar surdo mudou em volta de cada nome q ue vocês nos deram. 137. Quando me que são um dos misturas de cultur e de compl entender. Qual a importância das problemáticas representadas em OMEROS? A África não pode ser reduzida a uma entidade simples. 4. falamos com algum receio.com a África e discute sobre seu hibridismo. árvores. p. Nosso co . a fragmentação da identidade caribenha e o pap el do poeta em enfocar essas preocupações. Dize do nosso continente. seu sucesso reafirma a substância de toda a obra de Walcott. Embora OMEROS não seja um poema épico no sentido tradicional. mas. apesar de todas as diferenças e conflitos. (Book Three/ChapterXXV/ III.

no também da cultura e história indígena no currículo escolar.) Com o intuito de investigar e analisar as identidades e culturas de matriz africana por meio da obra do autor afro-caribenho ura (1992) Derek Walcott.639/0314 para a afirmação do processo de consciência negra .que fundas trocas em ―O de Meu alma. cujo trabalho adequados. possíveis influências na produção de identi educação nacional. para inc Cultura Afro-Brasileira . de fo e educação artística. 2004. do autor afro-caribenho Derek Wal . analisando o entre-lugar do discurso dade e do poeta e suas cultura no Brasil. que estabelece as diretrizes e bases da luir no currículo oficial da Rede de Ensino a obrigatoriedade da temática ―História e rma transversal. ainda não encontra acreditamos estar no e Prêmio um Nobel de Literat Brasil estudo e divulgação cooperando com a lei no. mas com ênfase na história. porém o ensi Partimos do pressuposto da pertinência de se fazer uma reflexão sobre identidade e c ultura como atos políticos ao divulgar e expor a riqueza cultural afro ou afro-descendente sob uma nova ótica.Page 98----------------------da busca de um processo identitário que permeia os escritos do autor. mostrando a infâmia d o escravismo e reforçando as ações afirmativas no contexto brasileiro. recuperando o escravizado como sujeito de uma história social. por meio 14 Altera a LDB. a 11. 10. pressupondo pós-colonial caribenha pode que o estudo da literatu abrir novas perspectivas para que o sujeito representado pelo autor recupere sua voz e possa superar o aniquilamento de sua cultura causado pelo colonialismo. elaboramos a seguinte questão: de que forma a obra OMEROS. ra Nesse sentido. África . 97 ----------------------.465/08 que mantém o mesmo teor. Em acrescentando. literatura portuguesa 10 de março de 2008 essa lei foi ampliada por outra. Nome (Mia Couto é não se fundamente escritor em pro moçambiquenho.

assumindo o papel de suj eito. denunciou a desigualdade humana e visível no e a discriminação racial ainda profundament dias de hoje e disse que ―ou o escritor se isola completamente da realidade que o cerca. tentamos algumas ideias que nos vêm à mente para responder a essas perguntas. De acordo com GLISSANT (1996: p. também. ou se dedica a um outro modo. Dizem ainda que a existência dessa literatura se realiza quando o negro deixa de ser som ente tema. Não é somente a cor da pele que vai definir o seu negra. não menos importante que a primeira é: ar a literatura pós-colonial por que estud expor como aporte às diversidades culturais e identitárias? Desse modo. muitos autores levantam o dado étnico. objeto para uma literatura alheia e passa a criar a sua própria. que é a marca mais im portante. Tornou-se. de identidade. 321). mas sua postura ideológica e a texto como literatura maneira como ele vai vivenciar a condição de ser um negro escritor.os n egros da África . o colonizado encena o direito de significar e asse gura o direito à fala. de lutar contra a realidade inaceitável . ou que viveram sob o jugo do escravismo. se apresenta uma contra-fala ao discurso dos colonizador es. 45-56). p. pois. quando recebeu o Prêmio Nobel d e Literatura em 1986. os emigrantes nus . Segundo BHABHA (1999. pela criação literária. como o autor um dos da obra OMEROS. Para os povos que foram colonizados. literatura pós-colonial de tornou-se manutenção e de difusão de memória. pode ser utilizada para a investigação sobre a pluralidade das identidades e culturas de matriz africana no Br asil? Uma outra questão que surge. a lugares de criação.cott. O escritor nigeriano Wole Soyinka. Ao procurar conceituar o que seria literatura negra. mais direto. por meio da literatura. um lugar de transgre ssão que se opõe a uma história que antes só trazia a marca do colonizador.

algumas questões condenados aos referenciais simbólicos da cultura ocidental. só com muita dificuldade. acompanhar pegadas na mpor uma cultura de exílio. em nossas entranhas. não se conservaram puros. pura. então. conceituais Observamos que alguns sobre a cultura. nesse repensar. branqueadora) do aparelho ideológico dom afirmar a idéia de uma cultura afro única.tiveram Embora despojados de co africano a partir de vestígios de de tudo. p. O que existe é um processo dinâmico de construção. incapazes. luta e denúncias conseguiremos superar e ultrapassar o complexo de inferioridade. e em outros o tecido cultural lugares sua do mundo . Segundo SODRÉ ( 1983. 153). habitando o ocidente .Page 99----------------------influência aculturativa (isto inante. ou ser menos ocidentais. no nosso inconsciente. refazendo a sua identidade de emigrantes nus. como: será que estamos Surgem. ainda diante dos nosso s olhos. pois sofreram a 98 ----------------------. dessa fragmentação de nos sas ideias e conhecimentos? Como podemos não ser. tiveram de recolher fragmentos. de tentativa reelaborar. sem importância e “está no sangue” ou ―em nossa nat ureza” a falta de educação e a incivilidade. O nosso legado de determinismo social encontra -se. Não se pode é. Nesse sentido. resultando daí uma base para d iscussão dos processos identitários brasileiro e da produção de culturas subalternas. da autores tratam dos aspectos cultura negra e da sua relação com a cultura ocidental. Porém. o ocidente construiu o conceito de universalidade da cultura pela exclusão d as culturas negras e indígenas. É uma luta ideológico-cultural que se trava em todos os níveis. ficando estas no campo de sub-culturas.deportados no que recompor Brasil. como culturas populares ou fo lclóricas. consolidando a opr essão impingida é a de que somos inferiores. a ideia que fica no imaginário. cultura.

pois para que os aspectos culturais. Assim liberdade e da igualdade estará fazendo história e renovando a educ o trabalho os com a literatura pós-colo oportunidades sejam discutidos ação brasileira. históricos criando e sociais do oportunidades Caribe. afirmando que as afrodescendências traduzem aspectos sobre a diversidade étnica brasileira.do mundo? Se são essas as nossas armas. O conceito de afrodescendência aparece em CUNHA JR. O conhecimento d essa literatura identitária ducadores.Page 100----------------------base africana na diáspora. pode contribuir tanto quanto para abrir para a formação intelectual de e caminhos para as áreas de filosofia da educação brasileira pela via do aprofundamento na cultura de 99 ----------------------. reconhecendo a presença ampla. O termo pretende manter as referências históricas e culturais da origem africana e não apenas fzer uma alusão à cor da pele. o prazer e a ética? Infelizmente. para África cria muitas e Brasil incentivar o pensamento crítico sobre nossas diversas realidades. algumas brasileiros e estrangeiros já apontam uma saída para esses questionamentos. ainda não temos respos tas concretas para todas essas dúvidas pesquisas feitas por que nos assaltam.. outras pedagogias em ação e a esperança é que elas calem fundo. para se enrai zarem mais profundamente na a ancestral visão da essência íntima das nossas crianças. Desse modo. se é esse o arsenal cultural que está à nossa disposição. 10. Na verdade. objetivos da lei no. o Caribe é um imenso c . múltipla edominante afroe estruturada de uma etnia pr descendente. Assim. nos espíritos dos educadores. livre dos racialismos. o autor pontua que: hoje tem outras vozes. diversa. nial atende. 85). estudiosos no entanto. como faremos para valorizar a liberdade. sobremaneira.639/03. (1995 p.

OMEROS é um poema/romance que se passa na ilha de Santa Lúcia e gira em torno s da história das são vidas de simples os pescadores pescadores. Os protagonista Achille. uma nativa de beleza i ncomparável. Walcott constrói pontes entre o Velho e o Novo Mundo. Achille. em ancestral espiritual de seu linhas gerais. levando à desconstrução de um imaginário preconcei tuoso onde a produção literária e o pensamento o enfoque dos conceitos de identidade e cultura. africanas e nativas das Américas. Esse texto quer mostrar que. e apresenta uma literatura ampla e rica que pode ser útil para a discu ssão dos aspectos citados. da descrição da jornada protagonista negro. as lutas coloniais e o escravismo exercido pelos s ilhas do Caribe. De acordo com KURLANSKY. é o centro das atenções ilha tão bela e de Achille e Hector e muitas vezes comparada com a própria paradisíaca que um dia foi chamada de ―The Helen of the West Indies .15 mem impreciso. Segundo ele. Philoctete. a natureza e o homem. Helen. do ciúme que nutre por Helen. Hector e Omeros (Seven Seas). há mais do que a exuberânci a das roupas coloridas. dentre outras histórias que dialogam com as heranças européias. O poeta intelectual. a miséria e o analfabetismo. Trata-se. a mais bela negra da il ha.aldeirão cultural que o Brasil desconhece. sobretudo (1990) ―Walcott é um ho não é um cientista. o poema se revela enquanto caminha . Uma britânicos. entre essas regiões. A narrativa é entremeada pelo passado e o presente. Incl ui traços autobigráficos condizentes com grande parte das obras escritas no âmbito da literatu ra pós-colonial. não estão inseridos. Com o intuito de reimaginar as vidas e vozes do povo do Caribe por meio da mitologia e da épica gregas. figura holandeses e franceses na . sem ser anacrônico. Ele começa uma frase e tenta não planejar aonde levá-la. Achille e Hector disputam ferozmente o amor de Helen.

Por isso. pelo que é assombrado pelo fant desespero do amor perdido. 3. história. humana. podem ser elencadas a s eguir: 1. viagem do poeta cujo identidade e objetivo é a busca da compreensão do ser no meio da injustiça. se fundem e se alternam e Seven Seas. 5. divisão. o homem e a natureza. do desespero e da desesperança como resultados do pós-colonialismo. apresentadas com Helen. conhecem os males da humanidade e prevêem o seu destino. Assim. empreende a viagem pelo mundo e. opressão.central no poema asma da falta de é o poeta/narrador raízes. a vida dos senhores e seus empregados. A obra entremeia o pessoal e o histórico. ―Derek Walcott: Homer in the Caribbean une/5/10/1990 100 ----------------------. luxúria. Raiva. pela busca de sua ancestralidade. língua e ancestralidade. e por Dante. alvo da competição entre os homens e as nações. tem sua fé renovada quando é guiado pelo cego Omeros (Seven Sea s) e suas visões em Santa Lúcia. o Influência das obras competição. a ficção poética O autor tenta destacar a experiência pós-colonial por e se meio d inspira na natureza. finalmente. todas elas de especial relevância para o contexto. 4. esperança. as problemáticas enf ocadas em OMEROS. fim. retorno às raízes e a redenção. de Homero e. sofrimento 15 Mark Kurlansky. Omeros oeta. dominação. mor. A amor.Page 101----------------------2. o a batalhas. a símbolo mulher mais da luta bela e International Herald Trib a própria ilha. Há vínculos estabelecidos entre os personagens e situações ocorridas . igualando-se aos griots dos africanos e ao xamãs dos indígenas. o bardo e o p representando um só personagem.

a africanas americanas. scoberta eleza tos. personalizado por Helen. Os conflitos e as diferenças são apagados. 9. um nome de origem arauaque. pelo fato de lá h muitos desses iguanos. 8. Uma questão central que permeia toda a obra OMEROS é a ancestralidad e. os antagonistas human os e históricos se ca e a reconciliam voz do sob os sinais da poeta. A natureza é vista como uma fonte sagrada de cura. o imperialismo e o mercado econômico são apre fonte do mal que corrompe o paraíso caribenho. Esse era o nome original da ilha. a questão da Os interesses própria os identidade individuais se tornam comuns na questão da busca do e todos objetivos são atingidos amor. lembrança e a compreensão das relações de continuidade entre os vivos e os mor explora protagonistas. o presente pós-colonial. Esse conceito é tão forte . sentados como o tempo e o O mundo ocidental. vida nova. O poeta sua natureza. a ilha de Santa Lúcia. o escravismo e a vinda dos escravos da África para a América são vistos como uma das origens da ―ferida . as origens a força da natureza.no passado colonial. Os sons da natu reza encontram seu eco na linguagem poética que se apresenta como um meio de salvação. a doença que o poema procura curar. a ilha de Santa Lúcia e o lagarto ancestr al Iounalo que nos aver tempos dos indígenas foi como a ilha era conhecida. a a b rede língua perdidos. O conceito de ancestralidade está profundamente enraizado na cosmovisão africana. espaço da literatura clássica e medieval e a realidade cíclica da natureza. a linguagem com poéti todos os e 7. e m muitos aspectos transcende os conflitos dos mundos humanos e históricos. 6. dos A redenção nomes e da alcançada depois da viagem e poética.

A tradição afri cana estabelece sua própria lógica no princípio da ancestralidade.que para que se dades tradicionais podemos constantes consiga chegar africanas não a como um um entendimento dos das socie mais deixar de examiná-lo da cultura africana.153) diz ura negra e que o termo arkhé é usado para caracterizar a cult outras que como esta se baseiam na vivência e no reconhecimento da ancestralidade. N o entanto. três princípios junto com a O integração e a divers idade. à memória daqueles que vieram ant es e regulam a vida de seus Portanto. os ancestrais pertencem ao tempo passado e os atores do tempo atual são s . um não existe sem o outro. O eu não é nada sem a sua tradição porque está vinculado ao seu passado.Page 102----------------------ancestrais . a relação com o passado tem sua razão de ser porque possibilita a ligação com os ancestrais cuja preservação da memória mantém o dinamismo de suas culturas. o que importa é a histór ia de um povo. É desse culto que a cosmovisão africana retira quase todos os seus elemen tos. um básicos que norteiam a um todo integrado e cosmovisão africana. ―um dos aspectos invariantes da religião negr a é o culto aos 101 ----------------------. podemos dizer descendentes distribuindo sua força e harmonia. universo é concebido como e desejado e não diversificado onde o diferente apenas aceito. A dos ancestralidade é. que o conceito de ancestralidade está diretamente ligado ao conceito de identidade . aquilo que foi construído ao longo do tempo e não a afirmação egoísta do eu. p. PETIT citando SODRÉ (1988. Para os africanos. 90). A diversidade é contemplado possibilita as trocas e as relações de alteridade e respeito pelo outro. Nesse sentido. elementos Conforme LUZ (2000. p.

a gerontocracia (governo por homens vel hos). o ser participa humano. p. cria pela memória. apressado.eus descendentes que os devem novos respeitá-los e cultuá-los tempos. ele deve entender sobre os mistérios. os sinais e as mensagens tudo tem que ser contato diário com O que é também proeminente nesta ―maneira integrada de pensar . o tempo da ancestralidade não é o tempo produzido na modern idade. Conforme para abrir caminhos para OLIVEIRA (2007. mas deseja sempre também interpretar o simbolismo de todas r ativamente em plena comunhão as seu coisas para pelo ritmo cotidiano e de v criadas. (OLIVEIRA p. O mundo é fonte eminente da vida. gerando 102 ----------------------. em que o indivíduo é introduzido por vários ritos de iniciação. ltamente respeitada e o segurança. expressado pela participação na vida em comum. que se re poder da tradição é conectado com a duração cíclica. A sociedade e a religião são centradas no hom em e em seu bem-estar (bem-estar. PETIT (1988. nos ritos de iniciação. pois interpreta o cosmos nos termos da organização humana. p. por es com todas elas. O africano não fica satisfeito só p or viver no mundo e apenas por experimentar ida. forçá-lo. O pelo contrário. 247). proteção). pois e ao homem é dado o poder de re . 247) é um forte sentido do coletivo. O mundo é e existe isso. 2) afirma que as culturas de arkhé16 são extremamente ec ológicas. 2003. nos cultos dos antepassados. se mundo: interpretado. é um tempo não linear.Page 103----------------------mais vida. Isso esclarece o sentido profundo d e família mostrado pela ligação com os antepassados. sem encantamento. A dignidade humana é a homem tem um lugar privilegiado no universo.

seus descendentes se comunicarão regularmente africano costuma com ter e não seja esquecido. traz grandes benefícios para seus parentes vivos tais como: a saúde. Por ele oferecendo muitos rituais. os ancestrais e o Ser Supremo e os seus são considerados que o e uma como tiveram status fonte mediadores uma de de conduta ancestral. Somente aqueles moral boa. É o corpo integrado à ser humano com o meio am natureza. estabili poi entr descendentes na terra. Há mesmo os casos onde se acredita sado que faz nomear um com que o descendente ancestral pelo nome de seu antepas Dessa isso. antepassado. Ele é limitad o ao grupo étnico . a vida longa. filhos que o recordarão e se comunicarão ritualmente com ele. são considerados como não pertencentes ao culto ancestral. Em algumas comunidade s. uma das motivações básicas do culto ancestral é a fecundidade e a procriação. uma pessoa sem prole não pode transformar-se em um antepassado. nenhuma É por esta razão referência particular os rituais para os sanguínea. prosperidade e bons filhos. O culto à ancestralidade existe como parte de um sistema religioso abrangente. o que não Ninguém pode ser um seja seu parente que antepassado de um mortos indivídu sem sanguíneo. Graças à sua proxim idade com o Criador. de acordo com os padrões s ele africanos. entendido como um elemento centra l. o Um continue a viver em seu descendente maneira. deve ser é o que podem alcançar exemplo de comportamento dade e tradição para a comunidade tribal. sorte.possibilitam a confraternização do biente. indissociável de sua dimensão ecológica. A veneração ancestral é encontrada em cada comunidade tradicional afri cana. por sua vez. O culto pertence à maioria dos povos e há muitos elementos compartilhados por muitas socieda des étnicas. Compreendido como o poder sagrado (força vital).

É esse pássaro que guia o herói de volta à África. somente neste mundo. se fundam na vivência e no reconhecimento da ancestralidade. a e mais África sim andorinhão (sea-swift) que representa nalidade escura e a cruz de por sua to Cristo pela forma de seu corpo quando abre suas asas. após um passado de brutalidades cometidas pelos europeus.e não há necessidade de se fazer osos afirmam que o culto é fundamentalmente antropocêntrico. temos a dessas tradições e também de possibilidade de conhecer parte 16 Muniz Sodré usa o termo grego arkhé para caracterizar as culturas que. em sua . representando sua cultura e identidade. tais como a negra. na vila de seus ancestrais . envolvendo o tema da ancestralidade. Nesse sentido. mas também no mundo após a morte. As culturas de a rkhé cultuam a Origem. Esses símbolos servem de aporte para os valores sociais e não podem ser vistos apenas como meras representações exóticas. ao mesmo tempo. nos remetem Encontramos a essa em visão OMEROS da e várias enlevantes passagens que que proporci ancestralidade. por meio de OMEROS. não como um simples início histórico. apontaremos agora algumas das passagens mais sign ificativas dentro da obra. Achille está observando um andorinhão. fazem com que valorizemos as tradições e crenças de uma sociedade. Para ilustrar melhor nossas ideias. no ser Muitos e estudi visa a humano.Page 104----------------------perceber a história dos outrizados. bólicas Uma na obra das imagens é a presença mais do a recorrentes natureza. No início do poema. o bem estar humano não É centrado proselitismo. Passagens místicas onam ao leitor a sensação de proximidade com o sagrado e. mas como o ―eterno impulso inaugural da força de continuidade do grupo. 103 ----------------------.

pois faz com que o sujeito se perc a do seu próprio caminho. “A name means something. O rio da ancestralidade é o que sua própria identidade. O pássaro é um símbolo de força e graça espiritual concedida por Deus. are only the ghost of a name” (Book Three/Chapter Three/ III/ p. (Book One/ Chapter One ancestralidade (o retorno) é um ponto negativo. um elemento import ante para os descendentes de deram suas raízes escravos. O pássaro para os males Ao retornar. poeta Achille não é mais o mesmo. Afolabe. Durante levado até a África e encontra-se com seu pai. quer dizer é porque se distanciou “You.viagem imaginária.. então. querendo dizer que se você não sabe mais o que seu nome de suas origens.surf. O conhecimento da ancestralidade torna-se. Conhecer essa ancestralidade faz com que ele se reencon tre e aceite a sua própria história. 137) Um nome significa alguma coisa diz o pai. a imagem de do da se ave serve como com do eleme Achille a possibilidade história. Po r ser também um símbolo nto de unificação poema. recon ciliando-se com o seu passado. 13 8) Porque um nome significa muita coisa. reconciliar por meio torna-se... (Book Seven/ Chapter LXIII/II left. então. dando a a sua própria de do regeneração. Esquecer a ajuda o poeta a definir I followed a sea-swift both sides of t carries these islands to Africa. do seu passado e nameless son. pois e não com o tráfico escravista muitos suas histórias de deles per a conseguem mais se lembrar de viagem imaginária. encontra-se e reconhece sua verdadeira identidade.. Then Achille looked up at the hole the he saw the swift crossing the cloud. a cura seu retorno às raízes. Quando seu pai pergunta o si gnificado do nome Achille. laurel had /II p. (Book Three/ o filho Chapter diz que não sabe.” Three/ III p. 6) his text… Her wing-beat I p. do seu destino... 319) 1. é como uma bênção de onde vêm as qualidades desejadas para o f . Achille é vida.

o Além disso. perder o senso pe! You all see what it’s like do seu Não saber lugar no o significado universo. a chaga dos antilhan os. dos nomes era como estar sem raízes no mundo. é trazida simbolicamente pelo andorinhão. Ma Kilman é comparada à Sibila de Cuma. Ma Kilman é a dona de um bar na vila. sua cura também está diretamente ligada à recuperação da herança africana. ela é “No Pain Café” (Café Sem Dor). Assim. É quase ao final da obra. As formigas revelam à curandeira a linguagem dos ancestrais e ela. Não por acaso. a visita ao inferno dantesco. Ela conhece os imaginada pelo segredos das autor. “Salo without roots in this world?” (Book One/ Chapter IV/I/ p. então. também considerada pelos seus poderes sobrenaturais como curandeira. uma outra geografia.ilho ou filha e todas as virtudes imaginadas. Os poderes de Ma Kilm an para a cura da ferida são revelados pelas formigas.Page 105----------------------como uma sibila (obeah-woman) aparece associada à em suas conotações homéricas. Na obra É ela plantas e essa montanha de La Sorcière (a feiticeira) na ilha de Santa Lúcia. Guiado pela mão de Omeros. 104 ----------------------. outro simbolismo forte no poem a. No poema. o poeta cego que observa e interpreta os fatos. planta milagrosa. 21) 2. A ferida de Philoct ete representa toda a África violentada e usurpada pelo colonizador europeu. os dois estabelecem um diálogo sobre o passado e o futuro em cima do cume de um vulcão. observando aqueles que chafurdam nesse . a um conduzido por um barqueiro negro a um mundo extra-humano. quem cura Philoctete de sua ferida putrescente. começa a rezar nessa língu a até obter a resposta para a cura. direto da África. 3. sentindo o cheiro do enxofre e da lama negra. diferente do mundo conhecido. rezadeira e mãe-de-santo. Achille é levado.

A vida e seus percalços acontecem . o que nos remete a um tema final que é o questionamento da arte e da história. Omeros aparece e pega em sua mão como um símbolo do universo humano. 2009. uma integralização das duas dos. que a Dessa forma. a perda seu povo. Enfim. Aí se consolida a busca pela identidade perdida. a O diálogo entre eterna busca de Omeros é a única volta ao lar po reflete. afas tando-o da turba de fantasmas egoístas e caluniadores. o poema épico de Walcott p (colonizadores que há e lugar coloniza para to perdedores Filosoficamente. partes. o auto r volta a sua ilha natal. de fato. reconhece que perdeu a fé tanto na religião como nos mitos. Na dos valores tradicionais e ―descida ao inferno . depois de tantas idas e vindas. então. ―o desejo de garantido pela memória de um passado perdido. ssível para os seres desse humanos. destruin do-lhe a dúvida e renovando-lhe a esperança perdida.19)17. o autor duvida. p. o seu pois o que passado. podemos reconhecer que a viagem empreendida por Achille não é de ida. modo. já na figura do poeta. Denuncia a espoliação comercial a prostituição de da ilha. um futuro a Conforme Italo Calvino ser conquistado é (2009.Page 106----------------------processos comuns que são enfrentados por todos nós. ----------------------.charco. Companhia de Bolso. devolvendo-lhe a fé perdida. Quando o herói. mas de retorno. reconhecendo que o retorno à natureza (às origens). De lá. ele realmente procura é. ropõe um acordo entre ganhadores e dos). do valor de sua própria obra e suas metáforas . É pelo retorno que ele poderá saber que tipo de futuro ele terá pela frente. o texto vida e a morte são mostra 17 Italo Calvino: ―Por que ler os clássicos? 105 página 19. sua ancestralidade. e Walcott compreender a relação do homem e o seu passado.

ao nagens épicos clássicos. each the Mandingo another. A ilha de Santa Lúcia e seus habitantes são curados tanto individualmente como coletivamente. as maiores ameaças aos caribenhos são as doenças e o crescimento econôm ico. another. Esse triângulo África-Europa-América uma base importante do Latina construiu . os leitores. way. 150)18 Segundo LUZ (1995. 34). devemos perceber a força in himself. que geram a desigualdade social. without one Now mother. recuperamos ornamos parte de um todo: uma nossa alma Assim. todos o porque nos t sociedade contemporânea marcada pela pluralidade étnica e sócio-cultural. cada personagem se torna uma ilha dentro da ilha. Como numa viagem ao eu interior. Book Three/ Chap terXVIII/I. 5. o que eles querem é ser s tornando-se parte da comunidade em sua ilha natal. e. (OMEROS.de modo natural e. em oposição às sangrentas batalhas entre gregos e troiano s. th there went the africana antes e depois do colonialismo cujo elo mais forte desse sistema foi o capital financeiro e o tráfico escravista a atividade mais rentável: a pedra angular do triângulo comercial E uropa. nós. Walcott deles os pode permanecer e perso combinar motivos convida o leitor a se juntar a ele em sua viagem como personagem e narrador. a cada nova passagem descobrimos que ujeitos de sua própria história. hoje. Considerando os desconsiderados So Ashanti e Guinea. brother. Eles necessitam uns dos outros. s personagens que compõem o poema e. e a cada momento. the Ibo man was a nation father. p. pois Walcott tem ual a ousadia como uma de redefinir transformação o comportamento heróico individ psicológica em direção ao coletivo. África e América. do continuum da civilização p. mas nenhum sozinho por muito tempo.

em sua maioria. da Europa. Com a abolição da escravatura. Antiga e Barbuda. Vincente-Grenadines. República Dominicana. as teorias raciais provenientes. e no Caribe caracterizam. Agora. Haiti. escravos e seus descendentes o trato com os antigos permaneceu de múltiplas formas caracterizado pela exclusão. en tre outros. sem pai. Ao mesmo tempo. (Tradução ssa) O verso mostra a dispersão das etnias causada pelo colonialismo com a divisão política da África e o tráfico escravista. chega africanos que trabalharam como escravos nas plantações. no Brasil. tre estes países. os ibos outro ainda. cada homem era uma nação em si mesmo. Guadalupe. Para isso contribuíram.os guinéus. o terreno cultural. Os primeiros resultados científicos sobre a literatura afro-brasileira e os estudo s comparativos sobre Brasil de e Caribe Intelectuais já estão disponíveis. na sua maior parte. A de uma diáspora a 18 ―Então os ashantis foram por um caminho. de ÁfricaNo Manifesto do 2  Encontro En Para as questões que foram abordadas inicialmente. com força cada vez maior. só a Dominicana é um país latino-americano. 106 ----------------------. Bahamas.. Santa Lúcia. Ba rbados.Page 107----------------------população negra representa entre es situados todos no Caribe 84 e 98% do total em treze país Jamaica. são interessantes . S..colonialismo durante muitos séculos e. As interações Europa-Áfric a-América caracterizam. com 84% de população negra. Granada. Dominica. Saint Kitts e Nevis.19 as comparações provenientes da expansão de identidades afro-americanas e de formas de expressão cul tural que. sem mãe. sem irmão. foi uma fonte financiadora da industrialização ram à América milhões de européia. além fricana na América disso. o desenvolvimento Latina. nos trabalhos domésticos ou na s minas de ouro. como uma boa parte dos pesquisadores afirma . os mandingas seguiram por out ro.

13) descrevem os efeitos devastadores do colonialismo na região c aribenha: as sociedades primordiais dos indíg Caribe foram completamente exterminadas nos prim eiros cem anos de descobrimento. Ásia. realizado em 2007 em reconhecem que a luta pela Caracas. Atualmente é Pesquisa dor Associado do . talvez a sociedade caribe nha seja a que mais sofreu os efeitos devastadores do processo colonizador. Oriente Médio e Europa através do deslocamento. exílio ou escravidão. Port anto. De todas as sociedades colonizadas. por parte das potências estrangeiras. crime de lesa-humanidade que esvaziou o ventre da África durante cinco séculos e submeteu mais de trinta milhões de seres humanos a uma bestial escravidão20. 19 Informação encontrada em Luís Ferreira. da América Latina e do Cari be. Segundo GONZALEZ (1989. rada. o nde o idioma e a cultura dominantes foram impostos e as culturas de povos tão diverso s aniquiladas. as duas regiões têm onial comum elos culturais e e das relações políticos resultantes de um passado col mantidas entre essas regiões no atual processo de globalização. p. A população atual das Índias Ocidentais veio da África. realizados. os estudiosos do assunto apropriação dos espaços estabelecidos nos territórios da África.América. através da diáspora africana e da colonização. a africana e a européia (predominantem ente espanhola). Infelizmente a primeira transculturação entre a cultura hispânica e a indígena. enas das ilhas do Observamos que. negadas sob o estigma da bárbarie e do escravismo. p.19) a cultura caribenha foi formada b asicamente por três estratos culturais diferentes: a indígena. Doutor em Antropologia. o Brasil e o Caribe se apresentam como regiões de profundas ligações onde as manifestações culturais de matriz af ricana ou indígena ficaram ocultas. não passou de uma transculturação desafortunada. após o tráfico de constitui um dos maiores saques negros. Autores como uma vez que a população indígena foi massac BONICCI (1999.

após seis anos de aprovação da lei 10. Esses autores ressaltam os seguintes aspectos das africanidades. como enfatiza a pesquisadora Sílvia Santos: como constituindo a matriz comum: africanas têm a ancestralidade como referência. Eduardo David Araújo e Muniz Sodré enfatizam a questão das africanid ades que. (SANTOS. Afinal.639/03. a relação entre a vid a material e imaterial. a valorização da tradição. p. O fato de que cerca de seis milhões de pessoas adentraram o país por força do tráfico escravista não pode e não dev e ser esquecido.10) todas as tradições Entretanto. de parentesco e d e família estendida. aceitamos direito passado heçamos parece que ainda que o nosso não compreendemos Fazer com que e não recon se cruza com o passado a relevância do povo africano. Brasil. Caracas 19-21 de nov embro de 2007 107 ----------------------. por nenhum de segundo maior país negro do nós brasileiros. a concepção da morte como excedente de vida e mudança para outro ciclo. muitos pesquisadores Henrique Cunha Jr. 20 Manifesto do II Encontro de Intelectuais de África-América. nunca. é transpor o silêncio e as barreiras exist entes em prol da visibilidade da participação da cultura negra na formação social da nação. somos o mundo (atrás apenas da Nigéria) e setenta por cento de todos os americanos afro-lati nos vivem aqui . embora muita s mudanças já tenham ocorrido.. o que envol ve o reconhecimento da origem da comunidade. segundo eles.Núcleo de Estudos AfroBrasileiros daUniversidade de Brasília. como Kabengele Petronilha Silva. a importância dos laços de linhagem. 2009. onde os anciãos desempenham um papel de destaque na educação e no convívio social. referem-se à diversidade cultural africana dentro de uma matriz comu m. africano e seu papel na construção do Brasil.Page 108----------------------No Munanga.

A ide ia se repete e sofre um processo de ideologização. acreditando que ela seja verdadeira. As teorias errôneas e confusas sobre pureza e não–pureza de raças nos levam a 108 ----------------------. Os formação de maiores desafios. ocracia Nesse racial ou sentido. adquirindo abrangência. é apresentado como uma imagem outro. categoricamente. Pedro Malaz arte e outros que são retratados como a ―cara” do justificar dizendo que Brasil. são a conscientização sobre a temática. mas nem por isso temos embustes que nos impingem.no Brasil. Esse é u m outro mito que povoa o pensamento somos uma ―democracia racial . e. É claro que podemos esses mitos e tipos são frutos de uma sociedade em que o escravismo perdur ou por quase quatro séculos. apropriações e/ou experiências comuns. Sabemos que não há raças. . Assi m. a sociedade a política do que o valoriza a dem que continuar aceitando e acreditando nesses embranquecimento. resultando de empréstimos. culturas ou identi dades puras. nega. a partir de um dado momento se transforma em mito assim como tipificações tais como Jeca Tatu. identidades que também só As culturas se misturam para formar existem em oposições. os próprios professores não percebem a questão do racismo em sala de aula. Macunaíma. únicas ou homogêneas. Romper com a ideologia da democracia racial não é uma ta refa fácil. pois ele distorcida do eu. pelo menos por algum tempo. para professores e a o tema em questão. Afirmamos que é um mito.Page 109----------------------uma armadilha chamada ―democracia racial . porque de nossa história e social brasileiro: o de que longo é uma ideia repetida e reificada ao acabamos.

tornou-se difícil formar uma sociedade constituída pela mistura de três povos e cuja i dentidade era projetada no sonho do branqueamento. pelo menos.. seguindo os e o paradigmas O eurocêntricos científicas. Mitos. diferente e particular.no Brasil. Essas ideias são difundidas amiúde e podem ser encontradas na maioria dos liv ros didáticos de história cêntrica do Também não no Brasil. XIX de teorias e início do séc. que são fundamentais para a afirmação ou negação da identidade e cultura de um povo. fazendo seja certo grande apologia maioria ao com uma visão euro apenas não estamos achamos que afrocentrismo. ideal utópic povoava o imaginário popular acalentado pelo mito da democracia racial. ―como form ar uma identidade em torno da cor e da negritude não assumida pela maioria cujo futuro fo i projetado no sonho do branqueamento? . como o e inatingível o darwinismo social de ser branco atavismo. Já passa da hora de revermos nossos con ceitos. a democracia racial coloca o elemen to negro ou indígena sempre em posição de desvalorização. adores Um outro ponto que não se pode negar é o fato de que os pens europeus que se consideraram universalistas quand marcaram o pensamento ocidental o. a mestiçagem. Nesse s entido. na verdade. Então. ao respeito ou. como diz MUNANGA (2004: p. supostamente XX. 32). eles eram provincialistas e não souberam dar lugar à alteridade. contos de fadas. Esse era o pensamento de praticamente toda a elite brasi leira no final do séc. lendas. fáb ulas. inferior ao branco e sua supremacia. . deu ori gem ao mito da democracia racial: uma estratégia com que o sujeito cultural política e de dominação que fazia ficasse impossibilitado de produzir seus próprios signos. histórias pra boi dormir.. em sua passado histórico. darmos fim ao nosso passado colonial e começarmos a escrever uma história nossa. à c ompaixão pelo Outro. um processo natural que ocorre em todos os povos.

Essa é a diferença essencial entre o afrocentrismo e o eurocentrismo que avançou nos EUA e outros lugare s apontando as experiências européias como universais e verdadeir as. ou qualquer outro povo. Quem somos nós? O que nós fizemos? Por ond e viajamos? Qual o nosso papel na geometria? Como nós funcionamos enquanto pessoas em diferentes contextos contemporâneos? Mas o afrocentrismo não aponta as p articularidades da África como universais. mas que seja reconhecida a existência de uma cultura e a sua avaliação em termos de pensamento e conhecimento por meio de sua própria perspectiva. candomblé. é preciso que haja respeito pelo outro. comunicação internacional. Essa imposição é etnocêntrica e frequentemente racista. É conhecido por seus livros (65 ao todo) sobre afrocentrismo. ―Race in Antiquity: Tr uly Out of Africa ) apel da África em toda negros No Brasil. neste caso.relegar os africanos. 109 ----------------------. M. negros os sendo o luga do a en pertencimento e inserção dentro século XIX as primeiras referências a eles. O afrocentrismo quer mo strar que é possível existir uma pluralidade de culturas sem hieraquias. intercultural e transrracial. como foi o caso do eurocentrismo. (ASANTE. que a cultura africana seja anali sada enquanto sujeito e não através de modelos culturais que por vezes não só não tendem como a desprezam e desvalorizam. e mais concretamente. com o escravismo encontraram seu espaço de dos foi terreiros para do esses criminoso. Nas palavras do Professor Molefi Kete Asante21 podemos confirmar o que foi dito: 21 Estudioso americano. O afrocentrismo não ja interpretado sob uma única defende que o mundo se perspectiva cultural. O terreiro .Page 110----------------------O afrocentrismo procura descobrir o p situação. professor do departamento de estudos Afro-Americanos da Universidade de Temple (Filadélfia) onde fundou o programa de pós-graduação nessa mesma área. mas par a isso. para a margem do pensamento e do c onhecimento da humanidade. K.

as culturas e as religiões afrobrasileiras são cada qualquer e. apesar haver fica vez mais de ainda consideradas os tão válidas negros que em quanto geral. a g arantia do bemestar.r perfeito para a reconstituição e reelaboração da cosmovisão africana no âmbito cultural-religioso. Por meio da religião. na outra muitos preconceitos dirigidos contra mais fácil entender que as e diferenças entre santos milagrosos vida dos vivos são mínimas e ancestrais interferem dependem apenas de um olhar mais tolerante que nos permita aceitar a diversidade e valorizar a fé imanente em todos os homens. . p. os terr afro-brasileiros. vemos que os três. em conjunto. o candomblé torna-se uma no contexto nacional dos forma cultural e pela meados identitária recriada polícia. mas nesse processo. ransformadas. da Um Deus que une o mundo alteridade pela pela integração. 247) enfatiza que: quando refletimos sobre os três princípios básicos da cosmovisão africana. É por meio desses princípios que vem toda a orientação para a vida. que permite a expressão diversidade e que reproduz a tradição pela ancestralidade. as culturas africanas foram t os de outros. refletem a face de Deus . Assim. da harmonia e da saúde. muitas características originais foram preservadas. portanto. Hoje. os negros construíram sua liberdade de expressão adaptando-se às novas exigências impostas pelo ca tiveiro. OLIVEIRA (2003. ritos e Aqui no Brasil. a principal maneira de lidar com as adversidades da vida cotidiana na construção de comunidades negras na sociedade brasileira escravista. e com crenças de alguns povos se misturaram com os dos portugueses. As religiões for am. Embora perseguidos eiros foram pólos importantes de organização das sociedades ser aceitos negras e a partir dos do século XX começaram a como espaços legítimos de exercício de religiosidades afro-brasileiras.

onde o relações múltiplas entre a das próprio sujeito é culturais e experiências comuns. tornando-se.. between this Africa and this English tongue I love?”22 umas com as Sabemos. e coloque o Por meio do autor em questão no lugar 110 ----------------------. única. então. a obra de Walcott que lhe d permite palavr sincrética. Nesse sentido. Ao recriar o poema ép ico. visto que o autor vivenciou ambas. que todas não há se as culturas misturam para estão envolvidas formar as ide cultura pura. dando-lhe características de romance. Nas as do próprio autor: “I who am poisoned with the blood of both. divided to the vein? (…) how choose. especificamente a de Derek Walcott. pretende ser uma oloniais conheçam algumas caribenhas.Page 111----------------------estudo e análise como artefatos da de temática identidade/cultura uma boa contribuição para que se de matriz africana literaturas pós-c educação. tornado híbrido pela p elementos da cultura afro-caribenha como da cultura contemporânea do eixo América-Eu ropa. resultando de empréstimos. eve ser vista e analisada como parte de uma analisar as experiência humana várias culturas. outras. cuja obra reflete bem a encruzil hada de culturas manifestada na reelaboração do resença tanto de epos-romance OMEROS.. colonial.Esta pesquisa demonstra. apropriações de Derek Walcott. maior. um trabalho tão Walcott faz sua inscrição no mundo pós- . portanto. As culturas ntidades que também só existem através ssim a obra de de oposições. insider e outsider. um resultado da civilização articulação e a negociação cidental e da tradição tradições nativas. a possibilidade de represent ação de uma cultura que reflita a pluralidade de destaque merecido. where shall I turn. cosmopolita que caracteriza a atual sociedade transnacional. ao mesmo tempo.

híbrido quanto a cultura contemporânea l articulação entre os seres humanos. um só m. JANMOHAMED. Tradução nossa. servin do de aporte às diversidades culturais e identitárias. a narrativa e as margens da nação moderna. Postcolonial Authority and Postmodern Gui lt. Brasil. afinal. Henrique. Literaturas africanas e afro-brasileira na prática pedagógica. Belo Horizonte: Autêntica.. 2. A História Africana e os Elementos Básicos para o seu Ensino. TREICHLER. p. apreciação do público. In: GROSSBERG..) Cultural Studies. e que. Homi. apesar dos conflitos e diferenças. Worldliness-without-world. Homele ssnes-as-home: Toward a A Far Cry from África. p. ficam sempre à margem dos cânones sem direito à fala ou à Essas literaturas não são novas literários. assim como a nossa. 1992. Belo Horizonte: Ed. SC.) como escolher entre esta África e a língua inglesa que eu amo? 111 ----------------------. CUNHA JR. 22 ―Eu sou aquele envenenado pelo sangue de ambos. nossa expectativa com esse estudo é de abrir novas perspe ctivas para que as literaturas pós-coloniais de outros países sejam revisitadas pedagogicamente. 1998. Gary. para onde eu irei. I n Negros e o Currículo. que sugere uma possíve Por fim. mas. consideradas tributárias. Abdul R. dessa busca pelo reconhecimento. Paula. onde todos nós deveríamos ser u Neg . In: O local da cultura. New York/London: Routle dge. . 2008.Page 112----------------------____________.. dividido pe la veia? (. Lino Nilma. (Ed. REFERÊNCIAS BHABHA. GOMES. Por meio desse resgate. Núcleo de Estudos ros. Série Pensamento Negro em Educação. 56-58. Lawrence. NEN. (2005) Num. Florianópolis. NELSON. mundo. querem os mostrar que cada um desses autores possui maneiras próprias de narrar suas histórias. UFMG. 198-238: DissemiNação: o tempo. fazemos parte de uma só raça.

No tocante as desigualdades raciais a mera adoção de ações afirmativas. no entanto. p. 1989.. 1992. A Cosmovisão Africana. o ingresso na universidade é apenas o passo inicial emp reendido pelo estudante seja ele negro ou não. LUZ. Rio de Janeiro: no. não é suficiente para combater efetivamente o racismo impregnado na sociedade. 2000 LOBO. Luiza. Mi chael. SODRÉ.). como um país de relações raciais harmônicas. 91. Introdução Desde 2005 dade Estadual de Goiás o sistema de cotas raciais é adotado na Universi (UEG). Tema de polêmicas e inflamadas discussões. Oxford-UK: Cambridge USA: Blackwell. 1988 112 ----------------------. Muniz.Definition of the Specular Border Intellectual.Page 113----------------------DISCURSOS RACIAIS E AÇÕES AFIRMATIVAS: O processo de implementação da * política de cotas raciais na Universidade Estadual de Goiás José Fábio da Silva1 Resumo Este trabalho tem por objetivo discutir e apresentar os resultados obtidos no pr ojeto: Avaliação das políticas de cotas raciais na Universidade Estadual de Goiás. LCR. O projeto tem em vist a verificar o ingresso de cotistas raciais na universidade e as medidas to madas pela instituição garantir a permanência dos mesmos. 96-120. Rio de Janeiro: Livraria Francisco Alves Editora S. inserind o o negro em locais que historicamente ele não tem garantido seu espaço. EDUFBA. Colocar o estudante na universidade não resolve a discri minação e a exclusão sofrida pelo negro. Edward Said: A Critical Reader. (Ed. Marco Aurélio. In: SPRINKER. 16. Fortaleza. A Pioneira Maranhense Maria Firmina dos Reis. In: Estudos Afro-Asiát icos. É necessário. tanto por parte de seus defensores . É preciso mexer na estrutura da sociedade. Bahia. além disso. Eduardo David. A verdade seduzida. p. Agadá .Dinâmica da Civilização Africano-Brasileira. trabalhar na desconstrução do discurso produzido no decorrer do século passado que coloca o Brasil como um paraíso racial.A. Ações afirmativas são medidas de caráter temporári o tomadas com o objetivo de diminuir desigualdades sociais provocadas pela di scriminação e marginalização de determinados grupos no decorrer do processo histórico. OLIVEIRA. 2003.

Este projeto tem por objetivo justamen te avaliar a implementação e a maneira como foi/é conduzida a aplicação dentro da universidade. sobretudo. segundo essa perspectiva. brancos e demais etnias em meio à sociedade. mesmo pre avaliada por nenhum orgão da própria instituição.quanto dos que são contrários visto na própria ao sistema. Doutora ndo José Santana da Silva 1 Acadêmico do curso de História da Universidade Estadual de Goiás 113 ----------------------. desfavorável ao sistema de cotas. racial. não foi política de cotas raciais. serão apontados alguns aspectos relativos à implemen tação do sistema de cotas raciais na UEG. bem como os principais pontos da Lei 14. O presente artigo que pretendente traçar um breve envolveram a temática século XX. que instituiu o ingresso de estudantes por meio do sistema de cotas nas Instituições de Ensino Superior do Estado de Goiás. em torno de três discursos básicos (sem a pretensão de resumir os debates sobre o tema a apenas esses pontos é claro). Para finalizar. sob coordenação e orientação do Prof.Page 114----------------------As discussões que envolvem a questão da política de cotas raciais giram . defende a ―inexistência de uma discriminação racial no país. de 12 de J ulho de 2004. . Discursos raciais * Projeto realizado com o apoio da FAPEG. a lei. O primeiro. serão abordadas e a utilização de ações referentes políticas afirmativas na tentativa de diminuir as desigualdades raciais e garantir uma ―demo cratização das relações entre negros. o problema da desigualdade no Brasil seria.832. questões histórico ligados dos principais discursos racial no percurso do ao mito da democracia as teorias a raciais e públicas Posteriormente.

se ja por motivos culturais ou étnicos. O terceiro discurso. este utilizados pelos defensores do sist ema de cotas raciais. no decorrer do século XX. Um segundo discurso muito corrente nas discussões é o meritocrático. A construção/consolidação da República no Brasil é marcada por dois fatos di stintos e. argumenta decorrente que as cotas dos séculos corrigem de um desnível social gravíssimo escravidão e da discriminação que a população afrodescendente sofre junto à sociedade. uma República. e ainda mantêm-se ativo. o demanda governo de da recém formado que a e ―status de c sob a simplesmente ignorou a enorme lforria despejava no mercado trabalhadores . Perceber certas importância para nuances desses eventos é de f compreender como se deu a formação e cristalização dos discursos que envolveram o tema: raça. entender como foram construídos esses discursos como se deu a formação da República brasileira e o processo de abolição da escravidão. ―roubariam as vagas de candidato s inseridos no sistema universal e isso seria injusto para com eles. no decorrer do sécul o XX. além de comprometer a qua lidade do ensino nas universidades. Contraditoriamente. isso ainda no século undamental XIX. apontado como efeito do mito da Esse discurso pode ser ―democracia racial que vigorou no Brasil. no momento que a população afrode scendente brasileira se ―livrava de séculos de exploração e conquistava sua ―liberdade dão (ainda com o viés de inúmeras restrições). As cotas. profundamente e a vinda de ligados entre si: a abolição imigrantes europeus para o país. Seu argumento susten ta-se sob a prerrogativa que o sistema de cotas raciais não oferece uma ―competição demais justa perante os canditados do vestibular. não só as raciais.somente de cunho social e não racial. Para compreender é preciso antes. ao mesmo da escravidão tempo.

Deixado de lado pelos membros do governo que antes lutavam por sua ―liberdade o negro recém liberto de seu estado de escravidão se viu sem nenhum 114 ----------------------. a liberda de era dada ao negro como uma condenação a sua pretensa condição de homem livre.340-341) A Constituição de 1891. p.Page 115----------------------apoio do sistema que antes tanto havia explorado sua mão-de-obra. (VENTURA. enquanto tentativas de eliminar a ca. Junto ao projeto de abolição dos escravos tramitava um programa de apoio a imigração europeia. ainda era e continuaria a ser vítima do pe so dos séculos de escravismo e de todas as teorias e formas de discriminação que no decorrer dess e período foram cunhadas ao seu respeito. stas que Nas primeiras décadas fundamentavam a do século XX. O desumana negro condição livrou-se de ser da dura condição de escravo. 2000. que estabeleceu concedia limites ao ex-escravo a sua estatuto de cidadão. (VENTURA. p. 13 de maio de 1888. entretanto. ori ginando uma nova forma de pensamento: ―a valorização da miscigenação e a ideologia do branqueament o. as teorias raci escravidão foram adaptadas as condições locais e redefinidas sob a égide das três raças.353). ―Os poderes públicos apl icaram recursos à imigração sem que fossem criadas condições favoráveis ao negro na transmissão entr mundo servil e sua nova existência de cidadão . principalmente a italiana. a abolição tornou-se um a forma de marginalização do afro-brasileiro. Naquele momento histórico. o racismo científico e o contradição entre a realidade étni liberalismo progressista. . 2000. também participação na esfera política. da propriedade de outro homem.interno e investe no incentivo à imigração europeia.

1930. (JACCOUD. nascido ainda no século XV. Na assembleia constituinte de 1934 também é encontrad discussão semelhante. Mesmo com o declínio das teorias racistas que se estendeu até a década de 1920. As elites nacion ais percebiam a questão racial de forma cada vez mais positiva: para eles. 2008. 2005. ―fruto de um longo processo de amadure cimento. culminou em outro m ito o da ―democracia racial ou o racismo velado que se fez presente na sociedade brasileira durante o século XX. e o problema racial se encaminhava para uma solução.Essa ―nova o da ideia condição histórica nos permite refletir como o discurso em torn de ―raça . Em 1970. objetivando usar a mão-de-obra barata através da exploração dos povos colonizados NA. Entre 1930 e 1970 vemos a reprodução das desigualdades sociais m ascaradas sob o discurso da democracia racial. o Ministério das Relações Exteriores cheg a a afirmar . p. (SANT'A população brasileira por meio da miscigenação e que. essa situação não viu diferença. 2008.42) se que pregava o transformou e deu branqueamento da origem a uma nova teoria. O ideal do branqueamento consolida-se mesmo com o nas décadas de 1920 e progressivo enfraquecimento das ―teorias deterministas da raça . (JACCOUD.50) Os projetos de lei discutidos em relação aos negros nesse período visav am impedir a imigração de ―indivíduos de cor preta .raciais perdem força ―a interpretação do problema racial passa a sofrer uma efetiva transformação com a dissemin ação da idéia da democracia racial como expressão da experiência brasileira . o Brasil parecia branqu ear-se de maneira significativa. p. posteriormente. À medida que as teorias cientifico . 51) O termo emerge com Roger Bastide em 1940 e se faz presente no debate nacional com a divulgação da obra de Gilberto Freyre em 1950. p.

se políticas sociais universais o combate às desigualdades raciais em um país com o histórico de racialização da pobreza. como pauta do Movimento Negro e com a criação da Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (Seppir). sendo assim seria desnecessário tomar medi das para assegurar a igualdade racial no país. p. articipação do Brasil na III Conferência Mundial de bia e Intolerância a implementação e cultura. Xenofo Correlata. nos últimos 20 anos elas foram. Contudo. África do Sul. Até o final dos anos de 1980 pouco se discutia .que não havia discriminação racial no Brasil.Page 116----------------------do Movimento Negro. em 2003. em 1988. ano . como é o caso do Brasil. do centenário Segundo nos conta da abolição. corpo Nessa com oc de políticas contra asião o Racismo. deixando de ser consideradas como os únicos inst rumentos necessários a serem adotados face ao objetivo de redução da s desigualdades raciais. essa discussão Zumbi dos Palmares pela Cidadania ao governo um Marcha para saúde. 2008. progressivamente. (JACCOUD. a demanda por políticas públicas específi cas para negros se intensificam. foi entregue e pela defendendo trabalho documento elaborado pela de políticas específicas negros nos campos da educação. Somente com a constituição de 1988 ocorre uma reorganização nas políticas públicas promovidas pelo Estado. sobre as possibilidades específicas visando à inserção da população negra à sociedade. realizada em Durban.58) são imprescindíveis para a Marcha Em 1995. mesmo dentro 115 ----------------------. Discriminação Racial. Consolidam-se. não Jacob Gorender. Com a p Combate ao Racismo. passa a ganhar Vida.

Há uma profunda relação entre desemprego e educação.. tanto social quanto em relação à discriminação racial. (B ERNARDINO. agora sob uma imposta por meios de circunstâncias adversas. entreta (. De fato a situação da maior afrodescendentes no Brasil. ao trabalho tem porário.) aos trabalhadores a condição de serem domina uma ―boa educação . novamente escravizados novas roupagens. conquistando espaço marginalização. a tal ponto do próprio autor conf irmar: ―A abolição não se realizou parte dos (GORENDER. A dificuldade de acesso do negro em setores de melhor remuneração do mercado de trabalho se explica também. 06). Por meio da educação. é ignorado.Page 117----------------------de trabalho de forma mais participativa em setores onde. Ações afirmativas O termo ação afirmativa surgiu inicialmente nos conflitos raciais oc orridos nos Estados Unidos nas décadas de 50 e 60. Quanto pior for as co ndições de ensino oferecida ao indivíduo/cidadão. A Lei Áurea resplandecia vigorosamente nto. pela e de acesso a dificuldad sob em discursos políticos. o negro poderá ter a chance de se inserir no mercad 116 ----------------------. p. a subsistência. . precário.. era pre ocupante.15) nova égide. ainda impunha-se dos. até então. garantindo a efetiva igualdade de oportunidades e tratamento. p. terceirizado. 2008. 1991. pior será também as oportunidades de emprego e chances de sucesso profissional que este terá disponível para si. São ―medidas especiais temporárias com o obj etivo de eliminar desigualdades históricas das pela discriminação acumuladas e e compensar pelas perdas provoca e competitiva. e até mesmo infantil e escravo em tempo s de inúmeros discursos profetizando a cidadania plena (QUEIROZ.houve comemorações e sim passeatas contra o racismo.

exército e outras que não form . de políticas relações é públicas entre proces nas relações Especificando um pouco mais o termo políticas públicas. Essas ações visam combater desigualdades e discriminações sofridas por determinados setores da socieda de devido a processos históricos de exclusão mantê-los em ―condição de inferioridade em relação ciedade. Estado é entendido em (HONFLING. Para um melhor aos que os mantiveram setores e dessa continuam mesma a so demais entendimento e compreensão desse conceito do que vem a ser políticas públicas e como é f eito seu processo de implementação é necessário antes deixar claro sob qual conceito de Governo e Estado iremos trabalhar. acelerar brancos o e neg A prin de ação tratamento diferenciado a setores da não são tratados como iguais.31) ―como o conjunto de ins tituições – como órgãos legislativos. nas As políticas na prática.2006. p. sociedade objetivam acelerar o processo de ―democratização cipal justificativa para a elaboração e aplicação o de democratização e diminuir as enormes diferenças ros presentes na sociedade brasileira. Tais medidas icas compensatórias além política de cotas m ser preenchidos marginalizados. 2001. que garantem a manutenção de pessoas provenientes de grupos marginaliz ados em espaços historicamente firmativa propõem um não acessíveis às mesmas. indivíduos oriundos de grupos marginalizados (em caso de competências semelhantes) e políticas de permanência. p70). procura dar que por concretizam-se da estipula grupos um em diversos de de tipos vagas de que polít deve que porcentual políticas Podem ser incluídas preferência a preferência. tribunais. o mesmo deve ser entendido aqui como: ações do Estado direcionadas para setores específicos da sociedade. que. raciais.

p. ent endido pela mesma autora 117 ----------------------.) como o conjunto de programas e projetos qu e parte da sociedade (políticos. no entanto. organismos da sociedade civil e outros) propõe para a sociedade como um todo. 2001. à são projetos mera mass ser reduzido responsáveis pela elaboração e implementação dessas políticas. a burocrática ou organismos é não uma deve soma dos dois).. quanto por processos de exclusão que se arrastam a o longo da história (na maioria dos casos de governo implantados pelo Estado. O Estado.am um bloco monolítico necessariamente – que possibilitam a ação do governo . mas limitado no têm um papel combate à importante na redução da po .31) as funções de Est Governo corresponde nessa perspectiva aos atores sociais responsáv eis pelo controle e desenvolvimento dos órgãos que constituem e formam o que compreendemos como Estado. é on de se encontra os órgãos responsáveis pelo cumprimento das medidas tomadas pelo Governo. configurando-se a orientação política de um d eterminado governo que ado por um determinado assume e desempenha período. É responsabilidade do Estado n só implementar como também manter em funcionamento essas medidas junto aos órgãos públicos e aos agentes sociais ligados a sua resolução.Page 118----------------------(.. na visão da autora. estruturais que podem produzidas ser causados pelo tanto por deficiênc desenvolvimento socioeconômico. O Estado. (HONFLING. Dentro dessa concepção de Estado. As políticas de cunho universalista de proteção social e de transferência de renda breza. técnicos. as políticas públicas entram como programas ou ações voltadas par a a redistribuição de benefícios sociais e/ou diminuição das diferenças sofridas por setores esp ecíficos da ias sociedade.

(PROJETO DE LEI 3627/2004. que instituiu o Sistema Especial de Reserva de Vagas para estudantes o riundos de escolas públicas. de cotas nas universidades. já mencionada acima n o texto.Page 119----------------------so de desenvolvimento étnicos historicamente excluídos social. da da a presença do racismo leira tanto pessoal quanto institucional somente a adoção de ações na sociedade brasi afirmativas podem reduzir as desigualdades raciais existentes. (THEODORO. feita em 1970 pelo Ministério xistência de discriminação das Relações Exteriores. p. nas ―instituições públicas federais de educação s documento encaminhado ao presidente lembrava que: Desde 1967 o Brasil é signatário da Convenção Internacio nal Sobre a Eliminação de todas as Formas de Discriminação Racial da Organi zação das Nações Unidas. em e indígenas. negros or. p. de combate ao racismo i nstitucional e de ampliação dos trabalho – é 3) ta um O quadro relatório do IPEA da evolução das divulgado nas em ultimas 2008 décadas. 7/2004 Vale ressaltar que decretado pelo Congresso conforme o Projeto de Lei 362 Nacional. eiro comprometeu-se a Nesta importante Convenção o Estado brasil aplicar as ações afirmativas como forma de promoção da igualdade pa ra inclusão de grupos 118 ----------------------. apresen O rela que se espaços para os negros no mercado de logrará reverter o quadro de iniqüidade racial.desigualdade racial. 2008. sendo assim seria desnecessário tomar medidas para assegurar a i gualdade racial . negando a e racial no Brasil. Só com a adoção de políticas específi cas – valorizativas.17 condições de vida de negros tório afirma também que são e brancos necessárias mais que políticas universais para combater as desigualdades raciais. 2) no proces Essa informação entra em confronto com a declaração.

de 12 de Julho de 2004. é preciso desconstruir o discurs o produzido no decorrer do século passado que coloca o Brasil como um paraíso racial. Um desses locais é a universidade. Este ociais como fruto também argumento de se nega necessário a ver diferenças perceber que s apenas discriminações de cunho racial.832. e responsável pelo ensino e pesquisa de meios que visam ―melhorar um todo. Colocar o estudante na universidade não r esolve a discriminação e a exclusão sofrida pelo negro. Processo de implementação da política de cotas raciais na Universidade Estadual de Goiás A Lei n  14. deve como produtora de conhecimento a condição de vida da sociedade como ultrapassar a simples inclusão do sistema de cotas de vagas para afro descendentes e refletir sobre as condições que a academia oferece aos mesmos. É desejar por em pé de igualdade indivíduos que não obtiveram grandes possibilidades de ensino d evido ao caráter segregador da sociedade. fixou cotas para o ingres so dos estudantes nas instituições de educação superior integrantes do Sistema Estadual de Educação Superior no Es . não é efetivamente o racismo impregnado na sociedade.no país. com indivíduos que tiveram todas as possibilidades oferecidas pela mesma. como um país de relações raciais harmônicas. o ingresso na universidade é apenas o pas so inicial empreendido pelo estudante seja to nesse ponto é ele negro ou não. Negar a existência de qualquer forma de racismo no Brasil é fechar os olhos p ara uma cruel realidade que estar diante de nós. indivíduos que sofrem na sociedade tratamentos difer entes. no entanto. inserindo o negro em locais que historicamente ele não tem garantido se u espaço. Empregar o discurso do méri querer equiparar como iguais. suficiente A mera adoção para combater de ações afirmativas. É mexendo na estrutura da sociedade.

91 Ensino Superior ligadas ao Estado devem ser reservadas a alunos provenientes de escolas públicas.tado de Goiás. Embora essa se ja uma prerrogativa legal. há i na UEG a referida Lei foi implantada. 1 . a em instituições de mencionada Lei estipula que 45 de que. a Lei estipula que o sistema de cotas terá duração de 15 anos co ntados a partir do primeiro dia de sua vigência. Em seu Art. as cotas obedeceram os seguintes percentuais : a) 15% (quinze por cento) para os estudantes concluintes da educação básica ministrada por escolas públicas. 2008. indígenas ou portadores vem ser reservadas a alunos de deficiência. e nformações ) 119 ----------------------. p. No segundo ano de aplicação do sistema. Entrou em vigor oficialmente em 1  de Janeiro de 2005 e deveria ser abrangente a todas as Instituições de Ensino Superior que estão jurisdicionadas ao Sistema Estadual de Educação Superior. (QUEIROZ. c) 3% (três por cento) para estudantes indígenas e para estudantes portadores de def iciências. 9°. o seguinte escalonamento: aplicação do sistema. Desse total 20% de negros. No processo de sua implementação foi obedecido . conforme prescrito na Lei. b) 15% (quinze por cento) para estudantes negros. negros. c) 2% (dois por cento) para estudantes indígenas e para estudantes portadores de d eficiências. No primeiro ano de . b) 10% (dez por cento) para estudantes negros. as cotas foram implementadas nos seguintes percentuais: a) 10% (dez por cento) para os estudantes concluintes da educação básica ministrada po r escolas públicas. apenas como tal deveria ser cumprida.Page 120----------------------% das vagas Em seu Art.

na seguinte proporção: a) 20% (vinte por cento) para os estudantes concluintes da educação básica min istrada por escolas públicas.ª Luciana de Oliveira. 120 inicialmente pela ----------------------. conforme i ndica a Resolução . Federal José de Goiás. para os candidatos (quarenta e cinco por cento).CsA n  026/2005. olítica de O projeto de pesquisa Cotas Raciais na que elaborado propunha a Avaliação da Prof. em seu Art. está sob Santana da Silva. docente da UEG. 1o desta Lei.Page 121----------------------docente da Universidade a coordenação do Prof. A aplicação do sistema de cotas na Universidade Estadual de Goiás segu iu os critérios estabelecidos pela lei e entrou em vigor no segundo semestre de 2005. Este projeto é a primeira avaliação elaborada especi ficamente . b) c) para 20% (vinte por cento) para estudantes negros. as instituições estaduais beneficiários.A partir do terceiro ano de aplicação do sistema . 5% (cinco por cento) estudantes portadores de para estudantes indígenas e deficiências. em conformidad e com a Lei . para os cursos definidos no art . No entanto.UEG. 2o da mesma Lei: Do total das vagas ofertadas nos seus vestibulares. 45% de educação superior reservarão. 1° que regulamenta ―os ficação para acesso e comprovação do enquadramento pelo Sistema de Cotas no do candidato às critérios vagas de quali oferecidas primeiro ano de sua aplicação na Universidade Estadual de Goiás . segundo os percentuais determinados no art. as cotas passaram a ser implementadas integralmente.ª P Universidade Estadual de Goiás foi Dr.

Os fatos explicitam e remetem ao pensamento de que os negros conq uistam uma Lei fixa de cotas para o ingresso nas IES públicas do Estado de Goiás.112) Mesmo com a Lei 14. na verdad e. p. mas não garante nem viab . as instituições de ensino superior do Estado (no caso esp ecífico da UEG) limitaram-se apenas a implementar o sistema de cotas na educação superior goiana. quando. O objetivo é rec olher a opinião que estes estudantes têm a respeito do sistema de cotas raciais e compreender como eles veem (ou se veem) nas relações estabelecidas dentro do universo acadêmico.832/2004 em vigor. (QUEIROZ. o fato da fixação de cotas democratiza iliza a permanência com sucesso. Art. Uma parte importante os focais2 junto a alunos da do projeto é a realização de grup universidade. Os grupos são realizados separadamente com acadêmicos cotistas e não cot istas. A finalidade do projeto: Avaliação das políti cas de cotas só o acesso. O relativos a implementação do sistema de cotas na Universidade Estadual de Goiás desde o ano que a lei entrou em vigor em 2005. 7  As ins tituições que compõem o Sistema ramas sociais de Estadual de Educação Superior implementarão prog apoio e acompanhamento acadêmico dos estudantes cotas de graduação oriundos do sistema de estabelecido por esta Lei. 6  O Estado de Goiás proverá os recursos financeiros necessários para a implementação de progra mas de apoio visando a resultados positivos das atividades acadêmicas dos estudantes d e graduação oriundos do sistema de cotas.832/2004. ainda existem inúmeros pontos que constam no próprio texto da lei a serem cumpridos. bem como a sua permanência na instituição e Art. 2008. em seu É preciso ressaltar que ao contrário do que diz a Lei 14. com uma média de 8 a 10 alunos de diferentes cursos em cada entrevista.sobre o projeto sistema de cotas da Universidade visa a coleta de dados Estadual de Goiás.

tem em seu propósito promover discussões sobre determinado tema com o intuito de obter i nformações de cunho qualitativo. Seu objetivo também é levantar discussões em apontar que possibilit soluções para problemas relativos a discriminação racial ainda presente. contras dessa compreender a opinião dos alunos (principais interessados a curto prazo) sobre o t ema e a forma como o assunto é tratado e visto não só dentro do ambiente acadêmico. própria sobre os valores de cultos.Page 122----------------------sistema de Para uma compreensão cotas raciais nas na inserção é clara da importância seja do no universidades públicas. no seio da sociedade brasileira.raciais na Universidade ma avaliação a respeito Estadual da de Goiás. símbolos e de crenças presentes nas culturas de ma triz africana junto a política uma reflexão e a educação diante da para um importância de temas como a reconhecimento do patrimônio simbólico de origem africana presente na cultura brasil eira. sobre as legislações e a sua própria natural implementação no espaço no espaço educacional se faz necessário uma discussão da tar efa política das É preciso leis já construir construídas no uma análise Brasil (inclusive a de cotas). preciso uma leitura negro no país gerado pelas mesmas. seja debate sobre a condição do do afrodescendente. cotas. não é fazer apenas u aplicação da lei supracitada. mas junto a socied ade em . 121 ----------------------. mesmo que algun s neguem. sua Projetos que implementação devem política. Conclusão 2 Grupo focal pode ser definido como um grupo de discussão de caráter informa l e de tamanho reduzido. visam analisar e seu contrabalançar/comparar devem o sistema os de prós e funcionamento.

ou daqu abrin vislumbrar a possibilidade de terem seu status e poder abalados. de colocar o negro/afrodescendente em setores privilegiados socialmente. na universidade. onde até então o viam (ou ainda o veem) como corpo estranho ao seu meio.geral. A temática cotas raciais não gera polêmica por possibilitar a inserção de grupos so cialmente marginalizados nas universidades possibilidade. como pode ser visto na política de cotas raciais . Obter uma mudança social é algo social por meio dessas políticas afirm ativas ainda é algo muito distante dentro das atuais No entanto. O tas (não só grande desafio relacionado raciais) é garantir seu ao sistema de co funcionamento integral. foi posto em prática. já é um primeiro passo na desconstrução desse discurso segregador que há séculos vem sendo cunha do no Ocidente e do qual somos herdeiros diretos. como previsto na própria lei. racismo existente no Brasil (isso feito ―oficialmente ). o reconhecimento do estruturas da sociedade. causa estranheza as camadas do um horizonte que dominantes permite tradicionalmente de qualquer como grupo desta social. o ponto mais explícito da lei. a elaboração e desde o governo FHC aplicação de leis que visem combatê-lo. mesmo que públicas. O maior problema está na frágil. Referências bibliográficas: 122 . apenas o a cesso ao ensino superior. ou seja. deixando a d esejar inúmeros outros pontos as o ingresso previstos pela mesma. do estudante nas é é necessário Não garantir basta também garantir sua apen permanência instituições públicas. tendo em vista que. A mera possibilidade de modificação nas barreiras e níveis estipulados ela determinada classe. como já foi mencionado.

afrodescendente e THEODORO. Estado e políticas (públicas) sociais. Marilena da. r no Brasil. Projeto de Lei n° 3627/2004. Universidade Católica de Goiás. IPEA. Brasília: (org). Klaus. Uene José. rsidade. As políticas públicas e a desigualdade racial no Brasil: 120 an os após a abolição. 2008. 2008. 142 p. Eloisa de Matos. Disse Superior Pública Estadual. Educação e sobre as cotas para negros em Goiás. 1991. ―Sob o signo da negação . 204p.832 de 12 de Julho de 2004. Resolução – CsA . GORENDER. e Div SILVA.Page 123----------------------BRASIL. racismo e políticas púb licas: 120 anos após a abolição. HOFLING. eparação Rubení histórica Pereira. SANT‘ANA. GOIÁS. 2005. Superando Ministério da Educação. Goiânia: 2008. Universidade Estadual de Goiás (UEG). Brasília: Ipea. Diretoria de Estudos Sociais (Disoc). Mário (org). África. escola. Jacob. novembro/2001 QUEIROZ. ―História Kabengele e Conceitos Básicos o Rac Alfabetização sobre In: MUNANGA.junho de 2001. Goiânia: Editora da UCG. In: Cadernos Cedes. LXVI Plenária do Conselho Acadêmico. São Paulo: Editora Ática.(orgs). FREY. Desigualdades raciais. Secretaria de Educação Continuada. Planejamento de políticas democratização um estudo rtação de mestrado em Educação da Universidade Católica de Goiás. ASSEMBLÉIA LEGISLATIVA DO ESTADO DE GOIÁS. Comunicado da presidência n  4. ano XXI. Lei N° 14. educação . 176 p. Análise de políticas públicas: um debate conceitual e reflexões referentes à prática de análises de políticas públicas públicas. N  21.----------------------. n  55. GOMES. CONGRESSO NACIONAL. ismo na de. Antônio Olímpio o Racismo e seus Derivados . In: A escravidão reabilitada. 2006.

Abstract: We seek to trace paths of migrants from Ceará in the late nineteenth-century circuit of rivers. Amazônia. florestas e cidades n a Amazônia representava negação às posições de domínio e afirmava esferas diversificadas de ser e estar no mundo. Roberto. fechamento de terras e regulamentos de trabalho.329-359. gerando solidariedades e conflitos que se chocavam com formas hegemônicas de impor padrões raciais e identitários. the cros sing of rivers.com Resumo: Buscamos rastrear trajetos de migrantes cearenses em fins do Sec. a travessia de rios. 23Edson Holanda Lima Barboza (PUC/SP.Page 124----------------------SOBRE AS HIDRAS DO NORTE: ROTAS DE TRANSGRESSÃO DESDE O CEARÁ AOS PORTAIS DA AMAZÔNIA-1877/1889. p. Ceará. Paulo: Editora SENAC. Migrações. XIX em circuit os de rios. In: MOTA. quando proprietários limitavam o acesso às áreas férteis nas ribeiras e projetavam explorar o trabalho em direção às novas rel ações de lucro capitalista. Palavras Chave: Zonas de Contato. Thus. 2000. forests and cities represented in the Amazon denial to positions of dominance and claimed diversifi ed spheres being . ―Um Brasil mestiço: raça e cultura na passagem da monarquia à república . A experiência Carlos Guilherme. vales e mares rumo ao Norte. Assim. valleys and seas to the north.n  026/2005 VENTURA. closing of land and labor regulations. As condições que homen s e mulheres mestiç@s desde o Ceará enfrentavam foram repletas de opressões. brasileira. The conditions that men and women faced crossbred from Ceará we re filled with oppression. 123 ----------------------. Trabalhamos com documentos que abordam ações experimentadas cotidianamente na resistência aos diversos meios de construção do Estado Nacional: rec rutamentos. We work with documents that deal with daily activ ities experienced in the resistance to various modes of construction of the Nation State: recruitment . when the owners limited access to fertile areas in the rivers and ex plore the projected work toward new relations of capitalist profit. Brasil) edsonludd@hotmail. São Viagem Incompleta: 1500-2000.

liderado pela decadente elite açucareira de Pernambuco. Apesar de alguns esforços de mobilização. Sabemos de uma vasta produção que trata do tema no eixo Centro-Sul. . Amazônia. das antigas Províncias do Norte não podemos dizer o mesmo.Page 125----------------------permitiram implodir os do Norte do Império frágeis e que elos que forjavam a homogeneidade alimentou ainda estavam de pé. Bolsista do CNPQ. migrações de trabalhadores catalisadas Daí surgiram elementos que 23 Doutorando em História Social. devolutas. PUC/SP. ras . semeando a sensibilidade que o discurso regional que hoje identificamos por Nordeste (Norte seco) e Amazônia (Norte molhado). são alguns deles. Keywords: Contact Zones. e. e projetos que ará pecuária e extrativismo O cenário que ora abordamos foi montado a partir de intervenções locais. c omo o Congresso Agrícola de Recife de 1878. Orientadora: Maria An tonieta Antonacci.in the world.24 Vamos captar elementos sensibilidades em gestação não apenas em discursos de intelectuais treando expectativas e para identificar as novas e políticos. agricultura de subsistência. Ordem terras as Imperial. em que muitos temas m pauta: diversificação de de interesse de outras Províncias não estavam e projetos de colonização. generating solidarities and conflicts that clashed with hegemonic forms of racial and enforce standards of identity. Ceará. A trama seria a passagem do trabalho escravo pa ra o trabalho livre. Migration. Contudo. pela As Províncias e de do P estavam na periferia da e do Maranhão buscavam impulsionar a colonização de a extração da borracha e controlar grande seca explorar 1877. Introdução: Inventando o Nordeste e a Amazônia Nas décadas finais do Império a organização da mão-obra estava na ordem do dia em todos os salões e cenários do poder. principalmente. 124 ----------------------. Mas.

Em busca de visão mais articulada para a problemática apresentada. Rastreando zonas de contato: rotas de retirantes. retirante dinheiro. e à expectativa d e negros. para além da mutação quase automática uma gama de experiências que vêm sendo de estabelecer colônias agrícolas. Referimos-nos de às tentativas há negligenciadas. aos motivos da decisão pelo des realizadas entre os pontos de partida e chegada.trajetos dos próprios migrantes que por razões nem sempre involuntárias decidiam pela retirada. escravos e clandestinos nas Pr ovíncias do Norte uma imagem Ao falarmos comum que em migração de cearenses aquele para a Amazônia que me de sociabilidade. Quando não voltava com dinheiro. repleto de o paroara . Con tudo. no período áureo da borracha. Dá-se menos atenção às projeções locamento e às rotas de emigrados. Os estudos sobre migrações geralmente focalizam isoladamente a lente de análise no ponto de vista da sociedade de emissão (Ceará) ou na de recepção (Pará ou Maranhão). e mobilizava conterrâneos para seguir o smo destino. t rabalhamos com algumas rotas realizadas por migrantes cearenses. vem à tona é a do retornava da floresta seringueiro. doenças e aventuras para contar tinha de sobra. à recusa ao recrutamento para as forças policias e o exército. à utilização grantes nacionais em entre a passagem de retirante a seringueiro. ou distribuição como é o caso de São Lu is e Belém. clandestinos direção à e trabalhadores pobres fronteira Norte do livres de conquistar espaços em . da capacidade obras produtiva trabalhadores mi públicas. tentando apontar os choques cu lturais e as zonas de contato estabelecidas que engendraram redes resistência e a repercussão da chegada em massa de cearenses em novas terras. levando em conta elementos como a questão da identidade local ou interesses da elite política e agrícola.

o avanço do extrativismo e a forma assimétrica que o governo central tratava as Províncias do Norte. E sobre a Amazônia: BARBOZA. Fortaleza.Page 126----------------------nhão e do Nas últimas décadas Pará tentaram do Império. A agricultura estava em crise afetada pela sangria de braços provocada pelo tráfico interprovincia l. luta pela terra e conexões étnico-culturais. São Paulo: Cortez . 24 Para o debate sobre a produção de discursos regionais a respeito do Nordeste: AL BUQUERQUE JÚNIOR. após 1877 o quadro vai modificando-se. Recife: FJN. Fortaleza: ANPUH.1-11 (CD-ROM). p. nas palavras de Raimundo Girão. o número de imigrantes foi insuficiente. poder senhorial e policiamento conduzidos pelos interesses da Corte Imperial e de Barões do Café. 2009. Devido à concorrência com as Províncias do Ce ntro-Sul. Em relação à disponibilidade de recursos financeiros e reserva de trab alho. A falta ação da propriedade da terra provocou a migração de milhares e do Maranhão. tornou-se a ―metrópole da fome. Durval Muniz de. impostos. Ceará-Amazônia. Edson Holanda Lima. In: Anais do XXV Simpósio Nacional de História – História e Ética. capital . A Invenção do Nordeste e outras artes. 1999. utilizando o trabalho de imigrantes europeus. as Províncias do Mara implantar colônias agrícolas visando garantir o abastecimento alimentar às cidades. mais distante dos alistamentos. A ideia seria estabelecer colônias de parceria ou formar núcleos de colonos com grandes fazendeiros agricultores. que vai do litoral da Bahia ao Rio Grande do Norte. Vistos pelas elites locais como agentes ideais para civilizar os mestiços nativos. que não possui unidades de clima úmido como a Zo na da Mata.Brasil. 1870/1915. 125 ----------------------. ―A Invenção da Amazônia: migrações. de chuva associada à concentr de trabalhadores das Províncias situadas a Lest Com destaque para a Província do Ceará.

As ações de retirantes exigindo do poder a fome eram mescladas com público trabalho e assistência contra saques a comércios e armazéns públicos. 2000. a economia cearense tinha aditivos pobres -livres. p. Os ha bitantes das concentrações muitas vezes alimentos e vestimentas. morreram no Ceará mais de 118 mil pessoas (sendo quase 57 mil só na capital) e capital embarcaram 26 migraram mil aproximadamente 15 mil 55 rumo mil almas (da E retirantes: 11 mil m conjunto com a rumo ao Sul e migração e as ao Norte). que ti nham por objetivo impedir a livre circulação de migrantes em estradas e cenários urbanos. provocada para pelas provocando a estar em morte de perda gado de e a braços crise. deixando bem claro que não aceitariam morrer à míngu a.dum pavoroso reino. a última com 5 mil habitantes recebeu mais de 60 mil migrantes sertanejos . . principalmente nos porto Aracati. portuárias também Camocim e foi caótico. a população da cidade estimada em 25 mil almas que quadruplicou com a chegada de mais de 100 mil retirantes (NEVES. O quadro em outras s de cidades Acaraú. 27 ). realizavam trabalhos públicos em troca de cumpriam atividades como o carregamento de pedras para calçar ruas e a construção das estradas de ferro em Baturité e Sobral. associava-se o desespero de senhores negociando suas últimas re servas: os escravos. mais do Entre 1877 e 1878. Durante a nos abarracamentos m grande epidemia de varíola de 1878. À migrações e epidemias. A morte tinha cadeira cativa antidos pelo governo. antes a Como forma de controle direção da Província do a tomar algumas nas secas medidas sobre tais as multidões de retir Ceará passou entos (que como: construção de abarracam futuras ficaram conhecidos por Campos de Concentração ou Currais do Governo). Não bastasse a seca rruinando roçados. .

número bastante de carne humana ” chegou escravizados significativo considerando o reduzido fluxo de africanos para o sertão cearense em relação às regiões de plantaion (TEÓFILO. terra de ―redentores . levou também a uma intensificação Enquanto no ano de 1876 foram negociados no porto de Fortaleza 768 escravos. a ruína econômica do tráfico interprovincial. metamorfoseados de retirantes. À valorização inicia l a respeito do trabalhador cearense se opõe a representação sobre a população mestiça da flores ta. a corrente migratória a implantação das via disponibilizou nacional mão-deceare sonhadas colônias agrícolas.25 precoce abolição Dados representativos para avaliarmos as condições que permitiram a da escravatura no Ceará. de . Importante também pensarmos circulação de passageiros nos vapores graças à concessão de passagens pela Província. Exaltando as vantagens trabalhador proporcionadas pela nova reserva de trabalho. 22). conseguissem rumar para o Norte clandestin amente. p. a que os tem reduzido a secca . que negociaram suas ―peças intensamente em anos imediatamente anteriores no aumento da à emancipação de 1884. que em grande numero emigram para a toda a parte. p. iros aproveitassem um tipo de orientava que fazende migrante ―que tanto se distingue pelo trabalho (MARANHÃO. 1922. 256-361). se a quizerem aproveitar os nossos infelizes irmãos do Ceará.126 ----------------------. Sá e Benevides.Page 127----------------------epidemias. 1877. fugindo da penuria. a ação de ―especuladores na torpe negociação a 2909. nse. para engajarem occasião. Presidente do Maranhão entre 1876 e 1877 se posicionou: ―oportuna lavradores. em 1878. Embarq ues desorganizados e cravos fujões feitos às pressas eram e foragidos da oportunidade para que es justiça. obra para Assim.

do IHGB e de diversas academias cronista. acossados pelo flagelo. Estas comissões eram compostas por homens de dest aque na . havia a comissão da capital. mais à apontada como preguiçosa. Os alimentação. Maranhão e Pará. quando os itmo de trabalho e migrantes não se submetessem ao controle social. combate às epidemias e tratamento de doentes. (Dissertação de Mestrado).5% do total de escravos cearenses (31. Um dos destinos eram as colônias agrícolas e as frentes de trabalho organizadas pelas comissões de socorros públicos. ―Negros no Ceará. obr as públicas. transporte e políticas de colonização. 18501881. 103-132. Veremos africana. nunca mais ti vê. indisciplinada frente que o discurso sobre a oposição de valores entre o matuto do Ceará e o caboclo amazônico cairia por terra. p. SOBRINHO. Entre os anos de 1877 e 1879. destacamos: FUNES. O número d e escravos saídos oficialmente somente do porto de Fortaleza entre 1877 e 1879 chegou a 6559. 2000.913) registrados pelo censo de 1872. que centr alizava a administração e gastos principais outras em eram com diversas localidades do interior. para o Piauy. o Ministério do Império au torizou às Províncias realizarem ssões eram nomeadas gastos pelo com afetados pela calamidade.origem indígena e e vadia. teu sinhô ta te querendo vende. Os dados sobre a migração para fora da Província consideram apenas o movimento dos portos . Fortaleza: Programa de Pós-Graduação em História Social-UFC. p. 2005. As comi 25 Rodolfo Teófilo. membro correspondente literárias do Ceará. Pero Rio de Janeiro. Eurípedes. r produtividade esperados por dirigentes provinciais. a ascendência africana e o tráfico interprovincial no Ceará. 127 ----------------------. farmacêutico. In: Uma nova História do Ceará. vestimenta. Sobre sociabilidades de negros. passara m as fronteiras. Fortaleza: Fundação Demócrito Rocha. “Catirina minha nega. transporte. Amaru Marimbá”: O Ceará no tráfico interprovincial. o que representou pouco mais de 20. No Ceará. 256). Pernambuco e Parahyba ” (TEÓFILO.Page 128----------------------Presidente de Província. 1922 . Pero. José Hilário Ferreira.―não incluindo n‘esta cifra os indigentes que.

também era ―o primeiro lugar onde pessoas traba lhadoras de continentes 164). Durante o período de ação surgiram muitas denúncias de desvios de recursos do Tesouro Pr ovincial. primeiro laboratório do sistema de fábrica. Os diferentes autores se comunicavam ” (LINEBAUGH. utilizamos a metáfora das multidões que da hidra. os retirantes de controle de comissários condutas nada elogiáveis praticadas p cearenses se portavam como sujeitos insubordinados. Já comerciantes. vez que nas de tentavam ser neutralizadas matas e rios de Turiaçu ou fugitivos em Fortaleza.sociedade. grandes comerciant es e fazendeiros. o Vigário. REDIKER. Em diálogo com as obras A hidra e os pântanos uitas cabeças (LINEBAUGH. o Juiz de Direito. O navio. no decor rer dos séculos XVII e vam em XVIII. permi tia não apenas a comunicação entre continentes. entre comunidades de negros e a sociedade envolvente: taberneiros. escravos. como REDIKER. rebeldes e desordeiros. p. letras colocou ou em em contato atos as diversos atores que questiona estruturas do escravismo. sendo a 2008. geralmente o Delegado. ressurgiam em São Luís. poetas. índios e desertores. assédio a retirantes e outras or membros e encarregados responsáveis pelos socorros. A despeito dos desejos e seus agentes. Assim como a mitológica hidra de Lerna regenerava suas cabeças ao serem co . pequenos lavrador Linebaugh e Rediker apontam como o comércio marítimo e de feitorias. as ações (GOMES. es. A critica a ideia que os quilombos formação de um campo negro seria a expressão de alianças. mesmo que pontuais em alguns casos. moderna. Belém ou do Marajó. 2005) e A hidra uma de m 2008). piratas e desertores aos antigos e novos meios de exploração do tr abalho. Flávio Gomes ao trazer alianças praticadas por comunidades eram completamente isolados. persisten destacam a metáfora da hidra te resistência de marinheiros.

estradas ainda e ribeiras obs do retirante com pretos das velhos. matrizes étnicas. 128 ----------------------. a hidra moderna também tinha suas ia abatida outras cabeças tantas regeneradas: a cada experiência de resistênc entravam no circuito da contestação. as outras entram em contato umas continuas. ou nas identificações ruas ora em de cidad con floresta. desigualdade radical e obstinada p. em colônias agrícolas os migrantes em cearenses estiveram interagindo ora flito com sujeitos de diversas solidariedade.rtadas. Outra referência importante são os eriências de trocas estudos que evidenciam as exp culturais. 30-31). Na es amazônicas. móveis que a serem definiam objetivos. No presente artigo apresentamos diversos modos de vida que foram compartilhados a partir de alianças e inimigos comuns combatidos. 1998.Page 129----------------------- (PRATT. geralmente associadas a circunstâncias de coerção. Embarcações. mocambeiros e índios em buscamos mapear para revelar curos devido à preponderância temática da borracha destinos da da e desejos e o monopólio representação . compreendida como a f orma que ―os grupos culturais subordinados ou marginais a partir de materiais a eles transmitidos por uma cultura permite a formação de Zonas de contato: “espaços de eográfica e historicamente separadas relações dominante encontros com ou selecionam e invertem que g metropolitana. colônia de cearenses no Pará. uma colônias maranhenses. ” Prática no e qual pessoas estabelecem coloniais. frentes de contato que de trabalho. ou Limoeiro (Prado). são as zonas colônias. Como nos contatos com imigrantes europeus e negros em Benevides. Mary Pratt articula o conceito de transculturação.

de saques Em Fortaleza. Governo Provincial. Fundo: e pedia ―todas as medidas tendentes a acautelar Haveria mesmo ―cabeças . reclamações e pedidos de diligências na comunicação entre Che fes de Polícia.Ofício n  142. os responsáveis diretos pela manutenção da ordem.ARQUIVO PÚBLICO 24. Fortaleza.circular as autoridades policiais do termo da capital. ―lideres nos motins? Sabe entre DO retirantes Ala que 319. Livro 236. A i mprensa cearense denunciava cotidianamente cenas das multidões de retirantes e a reação violen ta por parte de fazendeiros e comerciantes tentando garantir o que lhes restava de propriedad e privada. Delegados 2 . que serviam de suporte para comunicados. O Império da seca e do Caos: controle social e migrações no Ceará Nas ondas de pânico provocadas pela chegada em massa de trabalhado res nas cidades e em esforços de defesa da propriedade perceber a quebra de laços tradicionais de dominação. que 26 APEC . trabalhavam Estante 4 generalizada DO ESTADO CEARÁ. no a armazéns do mês de exigia os saber março de 1878. podemos desdobramentos ligados à seca evidenciavam de momentos de ruptura: do respeito à propriedade. Delegados e Subdelegados. 6/03/1878. o Chefe de Polícia l providências para encontrar responsáveis pela ação. da permanênc ia no torrão natal e da obediência às autoridades provinciais.em torno da imagem do seringueiro-paroara . tão os retirantes – a Queria das autoridades quem eram os ―amotinadores que inci arrombarem os armazéns do governo attentados contra os mesmos armazens. Série: Ofícios do Chefe de Polícia aos da Província do Ceará. após da uma capita série governo. 26 mos que no período havia insatisfação carregando pedras. A ação de autoridades muitas vezes era pautada pelo noticiário de jorn ais. da lealdade ao coronel. Os forma traumática privada no sertão.

Missão Lavras). sobrinho do Coronel Antonio Luiz Alves Pequeno. ao solicitar expli cações ao Delegado do Crato: ―consta do noticiário do Jornal ‗constituição‘ de hoje. Milagres. Em novembro Província. Em ofício do aos Delegados da região do de abril de Velha. Se na capital e cidades portuárias. foi informado ―por pessoas vindas d‘ahi. q‘ no dia 26 do mez p. Crato. suscetível de ser tes ” (CANDIDO. sem que disso tomem o menor conhecimto as autoridades policiais.do Horacio Jacome Pequeno ”.129 ----------------------.Page 130----------------------serviam para calçar as ruas da capital. Ferreira Aguiar. o caos era a regra. Cariri (Jardim. as notícias eram mais das dramáticas.p. 2005. Barbalha No in dirigi e explorada por espíritos retirantes e o povo malevolen não por ―malfeitores. Em novembro de 1879. que esta s endo frequente nesse termo surras e espancamento gravíssimos em pessoas encontradas em lavouras alheias. terior como a ação podemos imaginar de particulares e a o de 28 vida nos sertões? 1878. p. o Chefe de Polícia pediu esclarecimentos. alternativas de trabalho no Ceará tornava m-se cada vez mais difíceis. O trabalho pesado de abrir picadas nas matas para assentar os trilhos da estrada de ferro de Baturité fazia com que m uitos retirantes buscassem alternativas para sobreviver. que só aumentava o Presidente da o quadro de incertezas. chegou a solicitar um navio de guerra na tentativa de impor ―respeito a essa grande massa de povo. que tinham presença de forças públi mandonismo eram a lei. pois. Na fala de autoridades eram capazes de agir por vontade própria. coletadas no Mucuripe. 53). É o Chefe de Polícia que descreveu. Com lavouras arrasadas. o de 1877. sempre ―seduzidos ” e ―manipulados cas. ―cortou as orelhas de um retirante . um retirante chegou por ter roubado uma raiz de a ter as orelhas corta mandioca.

)A lancha voltou e quando a leva de retirant es chegou a terra. 30/11/1879. Livro 236. foi separado da am transferidos da lancha que os conduzia da praia ao vapor: (. 130 ----------------------. Estante 424. Presidente da Pr ovíncia em 1877. narrou o momento em que o personagem central.. O desbarat amento havia sido quase geral.por ter-lhe furtado uma raiz de mandioca. Ofício n  241 Circular ados do Jardim. sob as águas os obstáculos dobravam. 28 O momento crítico da partida dos vapores no porto de Fortaleza foi registrado também no Romance e escreveu O para Paroara (1899). João das Neves. rara era a família que havia seguido ou ficado completa. milagres. No libelo qu aos Deleg n  53 migração para a Amazônia. que os últimos raios do sol poente deixavam perceber como mancha negra a família quando retirantes er . Sacudidos na praia gritavam e choravam olhando o vapor.Page 131----------------------as Províncias do Maranhão e do Pará. Ofício ao Delegado do Crato. Medida oridades.. Série: Ofícios do Chefe de Polícia aos Delegados da Província do Ceará. ficando o agressor impune. Se o controle da que desdobrava a atenção de aut que se negou a fazer Em tais condições não soa absurdo aceitar a concessão de passagens para ordem em terra estava difícil. Caetano Estelita. (. Barbalha e Lavras. 22/04/1878. ” Ainda informou que o retirante junto c om mais de 200 pessoas se dirigiu à casa do Delegado o exame de corpo delito. Fortaleza...Ala 319. Missão Velha. aos 10 anos de idade. Fortaleza. Fundo: Governo Provincial. exigiu que o capitão do porto assistisse pessoalmente ao embarque de ―emigrantes qe se apresenta rem a seguir pa 27 APEC . combater a de Rodolfo Teófilo.) afim de que o embarque se faça com toda promp tidão e não fique emigrantes por embarcar como já tem succedido.27 tentar melhor sorte em outras Províncias. Crato. Por estas razões.

Já havia ordens do próprio Bar ros para ―que não embarcassem emigrantes para os portos do Maranhão. 1877. ser afetada pela seca e a ―falta de generos alimentícios. 29 APEC . tendo conseguido evadir-se da cadeia no momento em que embarcavam grande numero de emigrantes que ali estavam detidos a espe ra de embarques. conseguiu evadir-se em 1877.ALA 19.30 e sete por occasião da 28 APEC Livro 120-B: Registro de Ofícios da Presidência da Província do Ceará diri gidos ao Capitão do Porto. ” Pode ter sido em uma dessas oportunidades que José Mathias. Fundo: Secretaria de Polícia da Província do Ceará. no nte para o Maranhão mês anterior. Ofício n 3805. 27/01/1879. Estante 393. 26). Aca raú e Camossim. Fortaleza. João das Neves sentiu-se aniquilado com tamanho i nfortúnio. relatando a desorganização de embarques nos portos do ―Mundahu. que em 1881 era Praça do Corpo de Polícia em São Luís. Barros oficiou ao o Presidente José Júlio de Ministério da Justiça. natural d o Acaraú. “vários teriam embarcado ilegalme emigrantes ali estacionados . Tinha dez anos e compreendia a grande desgraça que havia perdendo o s pais. Registro de Ofícios ovíncia do Ceará dirigidos a diversos do Presidente da Pr No Província que também passou a 29 ministérios. Série: Ofícios .Livro 181-B. Onde. 1974. aproveitando-se para isso de grande confusão que então havia. quanto mais só e desamparad o. perdido nos abarracamentos de retirantes (TEÓFILO. Pel o menos é o que nos fala outro emigrante cearense de nome Miguel Quirino da Penha. 1979. p. 30 APEC .sumir-se no horizonte. Em Albuquerque janeiro de 1879. Em companhia deles a vida era trabalhosa. sem a autorização do governo. Ofício ao Ministério da Justiça. 11/10/ 1877. o soldado relatou sobre a chegada do conterrâneo à capital maranhense: ano de mil oitocentos e setenta grande secca que assolou aquella Província naquelle anno e nos subseguintes. Fortaleza. acusad o de Homicídio no termo de Acaraú e preso na cadeia pública local. No inquérito aberto para apurar o parad eiro de José Mathias. Caixa 16.

A espera estimulava os retirantes a construir zonas de contato c om seus futuros companheiros de viagem. desertores e escravos. acusados de artistas desempregados. do aguardavam no entorno da cadeia pública. uma vez que depend cabotagem da praia ao navio. ao referir-se tripulantes dos vapores. desenrolar diferentes. à espera.reservado) Chefe de Polícia do Maranhão dirigido ao Chefe de Polícia do Ceará. Mesmo sob condições tlântica no inglesa.recebidos de outras Províncias.Page 132----------------------O relato deixa explícito os riscos de tratar retirantes como caso de polícia. não era muito difícil identifi car-se como retirante e conseguir gidos da justiça ou passagem do do domínio governo. poderiam haver ecos desta experiência a . Ofício (S/N. Não Linebaugh chamou à experiência produzida por marujos. 17/06/1881. 131 ----------------------. a liberação de passagens. estrada-abarracamento-cadeiadesertores. camponeses crimes comuns e escravos fugidos. sob a vigilância de guardas. São Luís. Lembrando país que que muitos no dos Império do Brasil eram de bandeira do século XIX contestava o escravismo. no decorrer dos séculos XVII vapores que circulavam pelo e XVIII. existência de vagas e atrasos d os vapores são alguns deles. Para o caso dos fora senhorial. 1854-1882. em conexões culturais no circuito do Atlântico negro. poderia haver ainda o pagamento da passagem com recursos próprios ou ta lvez através da solidariedade podemos de retirantes esquecer daquilo de de ―Atlântico resistência ou que revolucionário . Sabe-se lá quanto iam de uma série tempo ficavam de fatores. Em Acaraú. Era porto que encontravam-se no trajeto pobres. À maneira como os embarques aconteciam. o momento do e mbarque.

132 ----------------------. em 29 de julho de 1877. clareza de que a conexão amazônica já estava sendo mapeada por autoridades policiais e proprietários. ou sido levada por alguém uma escrava fugida de nome Maria ”.) Pressume-se que tenha p rocurado para o norte. seus tripulantes e o tratamento dado aos ―passageiros. 31 BIBLIOTECA e Microfilmagem. rios e florestas do Norte. O Jornal Cearense. olhos grandes. e embarcado para o Pará ou Amazonas. ao não aceitarem serem negociados com as Províncias do Centro-Sul... Setor d Cearense. cebellos anelados. PÚBLICA MENEZES Rolo: 84.transporte de migrantes entre o Ceará e a Amazônia? aprofundar o Enquanto ainda não debate sobre as temos elementos suficientes para Temos a embarcações. 15 de julho de 1877.3 1 e corpo. p. Pará e Amazonas para capturar escravos fujões. No o fício de 06 de setembro de 1878. solicitava providências par a “ser ella . T em falta completa de dentes no queixo superior da frente (. pouca barba. ou se tenha misturado com emigrantes. bocca regular. remetido aos Chefes de Polícia de três Províncias do Norte. exibiu o seguinte anúncio: Fugiu do abaixo assignado no dia 21 do passado o seu escravo Francisco.. cheio d nariz afilado. mulato claro.(.Page 133----------------------Junto ao lamento de senhores de escravos. preferiam se guir o rumo dos vales. pés chatos. Edição n  63. Diariamente. baixo.. o Chefe de Polícia do Ce ará clamava pelo auxílio de seus colegas no Maranhão. Annuncios. Jornal PIMENTEL/CE. Sa bino Monte dirigente da Polícia no Ceará afirmou: ―Havendo suspeita de ter seguido para ahi como retirante. 05.) Sitio São Pedro de Souza (Cascavel). os periódicos de Fortaleza anunciavam pedidos de capt uras de escravos que. 29/07/1877.

Lugares onde relatos 32 APEC . ” Outros ofícios semelhantes eram encaminhados desde o Ceará na tentativa de localizar.google. muitos não const avam nas listagens. além de escra vos fugidos. onde reside seu senhor .maps. capturada e remettida logo para esta capital.Ala 19. pronunciados na justiça. A diversidade de rotas mais para mapear o trajeto de migrantes. o porto de chegada era a cidade de São Luís. temos poucas socorros públicos no Maranhão reclamavam constantemente que os gêneros enviados pelo g overno não eram suficientes.32 descoberta. Livro 393. Legenda: ■ Localização de colônias.com (Editado pelo autor) Circuitos Maranhenses: atalhos de acesso à Amazônia alternativas: Para deixar o Ceará via terrestre. Fortaleza. falta de Bons. Fonte: www. Fundo: Secretaria de Polícia do Ceará. Ofício n 80 dirigido ao Chefe de Polícia d Amazonas. e da chegada de retirantes a pé. Caxias e Pastos de estiagem. capital da Pr negarem-se a . havia em a mem duas Ar atravessando os Sertões do Piauí acati. é clar vulcão que entrou em erupção na Província do Ceará jorrava suas lavas nas irmãs do Oeste. bros das Dos deslocamentos comissões de oceano. Seca 1878-1879. apenas uma terrestres. menores seduzidos por agenciadores. principalmente nas localidades próximas ao Rio Parnaíba (fronteira com o Piauí): Brejo. Acaraú ou Camocim. Estante 414. Pelo mar. Séri e: Registro de Ofícios para diversas autoridades fora desta Província. Ofício n  78 Dirigido ao Chefe de Polícia do Maranhão. e em direção pelo é ao Maranhão embarcando dificuldade informações. Fortaleza 06/09/1878 (os três ofícios citados possuem o mesmo teor e data) 133 ----------------------. devido ao excesso de passageiros nas embarcações. Ofício n  79 Dirigido ao Chefe de Polícia do Pará.Page 134----------------------farinha e carne verde serviam de argumentos para proprietários contratar cearenses em suas fazendas. O familiares separados e. Mapa 1: Colônias agrícolas no Maranhão e Pará. o.

). p. Ao analisar a documentação que a burocracia provincial produziu. Guimarãe s. Estima-se que. Pindaré e Grajaú). Como podemos na de e discursos em as forças de ofícios policiais. garantir e relatórios ser Poderia mais intenção recursos perceber em correspondência da comissão de Coroatá. entre outros. faminto e debilitado.) impossibilitado s de por si agenciar a subzistencia.ovíncia. Turiaçu. financeiros. limpeza de rios. . Itapecu-Mirim. Pastos Bons. Alto-Mearim. Lá. abertura de estradas. em virtude de seu padecimento phisico. Rosário. Baixo Mea rim. ao lastimar Polícia do Alto a falta de destacamento. (.. A orientação era distribuir os migrantes entre as fazendas para trabalhos n a lavoura. 33 Aqui temos a i magem clássica do retirante resignado. Mearim comentou: ―especialmente agora que a população aumentou com a immigração cearense. São Bento. Em mar ço o Delegado de voltam a se formar e colocar a propriedade privada e a or de 1879. Viana. encaminhá-los para colônias ristides do construção as seis de pontes. ao afirmar que entre ―o numero já cres cido de emigrantes ” a maior parte é composta de ―mulheres e meninos. a comissão de so retirantes entre as comissões subordinadas no interior (Alcantara. da. em obras públicas como construção e reformas de igrejas. uma das coisas que vale ressaltar é a dualidade produzidos por membros das comissões de socorros públicos uma estratégia discursiva para sensibilizar os governantes. Chapada. corros públicos distribuía os 1997.56-59). casas de câmara e cadeia. icial aponta Em contradição outra com a representação acima. somente no ano de 1878. de ou ain A agrícolas criadas Prado Pimentel durante a administração Graciliano (março e novembro de 1878. a documentação pol imagem: as multidões dem pública em jogo. a ilha habitada por 35 mil pessoas recebeu em seu p orto mais de 10 mil retirantes cearenses (SÁ.. Brejo.

s criminosos No mês seguinte. o Delegado comunicava que ―appar eceo um dos . consegui ndo evadir-se com o auxílio de outros migrantes: Por occasião da prisão de Delmiro. depois da emigração. Ofício omissão de socorros públicos de Coroatá dirigidos ao Presidente da Província do Maranhão. os emigrantes res identes n‘esta e alguns dos centros reunidos em grupos vo-ciferavão contra as authoridades. a 22 de maio de 1877. moradores de de Completa dizendo ―este e desertores. e mostrarão que estavão dispostos a realisar os boatos que a dias grassava de que os emigrantes se macumunavam a atacar o destacamento a vila. 134 ----------------------. Estes homens desmoralisados na mor parte são capazes de t udo seria fastidiozo innumerar os fatos desagradáveis que se tem dado nesta villa e termo.34 e invadir em É neste relação aos ambiente de migrantes conflitos que a atenção redobrava da C cearenses. Ao receber voz de prisão. sem que a Polícia por falta de força possa providenc iar. termo por sua extensão é escolhido como valhacouto em que esta delegacia possa perseguil-os por falta de forças.Page 135----------------------Tal . Série: Comissão de socorros públicos. Setor de documentos avulsos. após a tentativa frustrada de prender o emigrant e ―Delmiro de 33 APEM . Caminhar pelas localidades em qualquer condição era motivo para mobilizar a atenção das autoridades.ARQUIVO PÚBLICO DO ESTADO DO MARANHÃO. 27/05/1878. entre os quais existem homens desmoralizados e turbulentos. Fundo : Executivo Provincial. Já em setembro. através de abaixo-assinado Pedreira reclamavam da presença de ―cearenses emigrantes. . o Delegado de São Luis Gonzaga implor ou pelo aumento do destacamento Policial.na maior parte homens desmoralizados e desordeiros. Coroatá. Em Caxias. Delmiro avançou com um facão contra o Delegado.

no Ceará. isto em tom ameaçador. visto não ter dinheiro para pagar sua passagem eará. nariz ―chato e cor ―parda‘? Joaquim. Polícia. idade. Seria pelas carac terísticas físicas de Joaquim: Cabelos ―carapinhos . São Luís 24/09/1879. naturalidade. agencia e livre. Abaixo Assinado dos mo do Delegado Gonzaga.Setor de documentos avulsos. condição e profissão. Série: Correspondências dos Delegados de Polícia dirigidos ao do Delegado do Alto Mearim ao Chefe de Polícia. solteiro. No auto de perguntas lavrado em dezembro de 1879. Secretaria Chefe de Polícia da Província do Maranhão. onde mal ganhava para sua subsistência. 18/03/1879. Se eve numericamente a a escravidão expressão que em outras Províncias. ” Ao anhão há cerca comentar sua de seis procedência. Pedreira. Ofício Alto Mearim.emigrantes cearenses. Nos autos não era comum inq uirir pela ―condição ”. Explica o motivo de Vapor Ceará: ―Tendo ido vender ter chegado clandestinamente no umas laranjas a bordo do mesmo vapor deixou-se alli ficar. não podemos negar a presença africana através da mestiça gem existente entre os trabalhadores pobres e livres. radores de Pedreira. 12/04/1879. O que fazia que retirantes com mais coloração na pele tivessem de dar explicações às autoridades policiais para comprovar a sua condição de livre. que foi interrogado por estar ―c landestino na capital do Maranhão. e dirigindo-se a uma se nhora armado de uma pistola. de São Luis Gonzaga ao C . e desejar que sahir estava do no de C Mar afirmou Fundo: 34 APEM . caso não houvesse suspeitas de que o sujeito fosse escravo. Ofício hefe de Polícia. de aproximadamente 22 anos. o Delegado indagou por seu nome. natural de Baturité. estado. acompanhado por um escravo fugido. exigio-lhe almoço para si e para o escravo. olhos ―pretos . afim de seguir para e sta provincia. 1879. 35 A os era mais vigilância e a associação comum do que é verdade mesma que entre retirantes no Ceará e escrav não t podemos pensar. Deve ter sido o caso de Joaquim Antonio da Silva.

36 Aparen temente. 22/09/1877. Chefe de Polícia do Ceará por estar o mesmo escravo pronunciado na cidade de Sobral. onde consta copia do auto de perguntas feitas ao fujão. Isidio. aproximadamente 32 anos. em agosto de 1878.. um recurso para omitir seu paradeiro. cuja captura foi requisitada pelo Dr. os dois seguiram em direção à Baturité. mas também das mudanças na legislação do Império. talvez. por não se acharem matriculados. 135 ----------------------. noticiava a prisão do escravo Brejo para ser vendido. o O periódico maranhense O da cidade do fugido do Ceará: ―vindo escravo de nome Isidio. de nome Raymundo.. Desde então perdera o contato com Raymundo .Page 136----------------------meses e que antes da partida em Fortaleza ―trabalhava nas obras da Estrada de Ferr o de Baturité no lugar denominado – Callaboca. também escravo. (. natural de Sobral. o que poderia ser verdade ou. Destino diferente teve Isidio.Setor de documentos Polícia. Joaquim pôde continuar a agenciar seus serviços no Maranhão. de escravos Deveria ser uma referência à matrícula geral imposta aos senhores a partir de 1872. Após uma briga entre os familiares de seu senhor . Ofício do Delegado de Polícia de Caxias ao Chefe de Polícia. estavam “elles libertos em vi sta da lei. Caxias. Após a fuga de Sobral.35 APEM . 1877. Mesmo tendo argumentos que poderiam dar amparo legal no caso de uma ação de liberdade. dos Fundo: Secretaria de Delegados de Polícia dirigidas ao Chefe de Polícia da Província do Maranhão. roceiro e es cravo. Isidio acabou sendo . ficou sabendo que ele e um amigo. o que demonstra que estes cativos tinham noção não apenas de seus desejos por liberdade. era um sujeito que tinha consciência de seus atos. ” Encontramos nos meses seguintes u ma série de correspondências entre os Chefes de Polícia do Maranhão e do Ceará.) próximo a água verde. Série: Correspondências avulsos.37 Paiz.

(. Ofício do Chefe de Polícia do Maranhão dirigido ao Chefe de Polícia do Ceará. Caixa 16 (Espírito Santo. decidiu roubar uma escrava do dono da fazend a. N  de ordem: 45. Amazonas. 28/08/1878. 16/12/1879. Todo o plano estava arquitetado. Goiás e Maranhão). 136 ----------------------..) fugio seduzida pelo cearense Joaquim José Sant‘Anna. ” Edição n 194.Setor de Documentos Avulsos. Noticiário. Depois de trabalhar um ano e meio em atividades agrícolas. ―Raymunda . lavrador. trocaram os nomes. quando estavam como migrantes cearenses e casad tentando fugir em direção à fronteira com o Pará. ela. os alcança. 02. uma diligência policial. Setor de Micr ofilmes. Fundo: Secretaria de Polícia da Província do Ceará.encaminhado para Sobral. a ―cafusa ” Francisca. natural do lugar denominado ―Vaca braba ”. São Luís. em Cururupu.. “Captura. ele passou a ser ―Manoel . Rolo: 194. Jornal O Paiz. N  56. 28 de agosto de 1978 (Anexo copia do A uto de Perguntas feitas ao escravo Isidio. São Luís. Alagoas. Série: Ofícios recebidos de outras Províncias. Disse mais que quando o cearense a tirou de seu senhor veio com ella em direção ao da caza de disendo-lhe o nome de F era cazado da caza . Série: Delegac ias de Polícia – autos de perguntas.Arquivo P ublico do Ceará. Fundo: Secretaria de Polícia. A experiência de trânsito pelo Maranhão poderia representar projeto de constituição de uma família. Assim queria o migrante Joaquim José de Sant‘anna. no Ceará. p. e que insinuou que mudasse rancisca para Raymunda e foi logo dizendo na viagem que com ella respondente. Auto de perguntas feitas a Joaquim Antonio da Silva . Vejamos o que disse Francisca na ocasião do interrogatório: 36 APEM . após denúncia do s nhor da cativa. São Luis do Maranhão 27 de agosto de 1878). aproximadame nte 20 anos. Bahia.Page 137----------------------Sabe que foi preza por estar fugida seu senhor. onde respondia por crime de agressão contra o irmão de seu senhor. 37 BIBLIOTECA PÚBLICA BENEDITO LEITE/MA. APEC . Porém. apresentavam-se os. este que ninguém a havia de prender.

nas terras do quilombo Limoeiro. ao Pará. abrir estradas. enfim. no Alto Me arim. As out ras quatro foram: Santa Thereza. controlado.38 trada qual chegarão Além da astúcia no plano de ―Manoel ” e ro elemento interessante “Raymunda ”. Receberam entre 200 e 800 colonos cad a. é cortada por vários rios. no Maranhão. A área que vai de Turiaçu. Além disso. a Viseu. instalada oficialmente em do governo foi a Colônia Prado agosto de 1878. ministração Das de seis colônias agrícolas Graciliano Prado criadas durante a ad Pimentel. e Pimentel. Flores. residentes ficas jurisd claro de mesmo não podemos dizer para migrantes e negros que circulavam por aqueles rios e matas. duas delas estavam na região do Turiaçu: a colônia do Prado e a Amélia. out que aparece é a ideia do Maranhão como ponto de passagem entre as Províncias do Ceará e Pará. Daí a importância de criar novas povoações. o os havia quilombos. . civilizar as matas. sendo o mais importante pertenceram deles o Gurupi. aladas a partir de maio de 1878. Matta dos Bois. no Rio Grajaú. Disse mais que o destino do referido cearense h era seguir viagem para Viseu e do Viseu até o Pará passando como cearenses casados e com nomes trocados. Lugar terras que e rios ser dois negros um limite que caminho grandes lá até para 1852 a estrategicamente deveria ser fronteira. A colônia que recebeu mais recursos e atenção . elle de Manoel e ella de Raymunda. destruídos em 1878. em Alcântara. no Pará. no alto do Pindaré. por era no entorno de Turiaçu. Se ição entre Maranhão e Pará.porto de tumocatinga onde arrumou viagem para e sta cidade onde se demorarão huma noite e seguindo viagem pela es ate o redondo e ahi forão alcançados por uma diligencia mandada pelo senhor delegado de Polícia. fazendo que sem circulando pelas matas que separavam as duas Províncias. Inst começaram a ser desativadas no início de 1879. nas proximidades de São Luis. onde existiram o Limoeiro e o São Sebastião.

também conhecido po r Montes Áureos por ser região de mineração e Gurupi mesmo nome do rio navegável mais próximo). (org). até tombar nos primeiros meses de 1878 (ARAÚJO.Turiaçu. Fundo: Secretaria de Polícia. 39 A respeito das expedições ocorridas entre os anos de 1877 e 1878 pa ra combater o Quilombo Limoeiro (denominação dada pelos pretos devido à proximidade com o Igarapé Limão.Setor de documentos Avulsos. e elevada. 06/07/1879. foi indicado como meado em maio de 1878 e exonerado entamento em de maio de 1879. em julho. Colônia foi responsável pela no e diretor Sua de Cearenses. Ofício do Delegado de Polícia da comarca de Tury-assu ao Delegado do Termo de Curupuru. não teve tempo de exercer o sacerdócio. nomeado motivos da indignação do Padre Jes de socorros e circulação comer capelão da Colônia. onde os pretos Planície plantavam ―um pouco de tudo. Sobre formação 137 ----------------------.39 38 APEM . o que dificultava a circulação não só de seus habitantes. 1992. ver: ARAÚJO. permanecendo somen te dois . Maria Raymunda. o objetivo era criar povoações para impedir a recomposição do quilombo.Page 138----------------------rado não A escolha ocorreu por do lugar para mera a implantação da Colônia P coincidência. A invasão do quilombo Limoeiro em 1878. São Luís: SIOGE. Turiaçu. pelo gestão marcada descont isolamento do terreno. Série: Corresp ondência de Delegados de Polícia ao Chefe de Polícia do Maranhão. 1992). onde encontrava-se o núcleo. colonos com o Freire da Junior. nas Limoeiro foi um dos proximidades da grandes Situava-se quilombos em uma da região do ligeirament divisa entre Maranhão e Pará. Existiu por mais de 40 anos e resistiu a duas invasões. mas também a chegada cial de possíveis produtos agrícolas. Não por acaso o Capitão Feliciano Xavier xpedição vitoriosa contra os mocambeiros. uíta José Esse foi um dos Thomaz.

no dia seguinte. na cidade paraense de V iseu. pelo que não me oppuz á proposta de 70 emigrantes. 40 BIBLIOTECA PÚBLICA BENEDITO LEITE/MA. ― ‗Nasci nas matas. que em tudo lá reinava. ” No rupi. sua exoneração do cargo de capelão já estava assinada no Palácio dos Leões. Padre e candidatos a colonos embarcaram em São Luis. p. Contou que na chegada já teve ―não boas informações a respeito do Limoeiro . 1996. que logo em Viseu quizeram ficar. ―Quilombos maranhenses. p. que demonstrou-se ―indispostissimo para receber em sua faze nda esta nova leva de machinas famintas! não ter. Retornando à capital. na Fazenda Fortaleza. São Paulo: Companhia das le tras. enviou relato de via gem ao Jornal O Paiz. I : Liberdade por um fio: História dos quilombos no Brasil. partiu povo para em direção à Colônia Militar do Gu Todavia por outro remédio atormentar o tenente-coronel dre seguiu na devido à falta de canoas para transportar todos. o desembarque marítimo deu-se à margem esquerda do ―Rio Gurupy . 433-466. A única missão cumprida foi o deslocamento de 500 emigrant es de São Luís à Colônia Prado. . acceitou o povo e lhe distribuio rações. de vido ―a má escolha da localidade para sede de uma colonia. do Coronel Estácio. e FUNES. a 21 de julho . em agosto de 1878.História e memória dos mocambos do baixo Amazonas. 1996. A próxima parada foi à margem maranhense do Gurupi. Mathias Röhring. como pela desordem. publicado em partes entre os dia 27. Eurípedes. ―abastado ancião cearense ”. tomou canoas com aqueles que quiseram ―voluntariamente a companhá-lo. O pa de quilombos no Maranhão e na Amazônia: ASSUNÇÃO. nunca tive senhor’. 467-497. Setor de Micr ofilmes. 29 e 30 do mesmo mês. De Viseu.40 Após a publicação do segundo trecho de ―Notas de minha viagem ao Limoeiro . São Paulo: Com panhia das letras. In: Liberdade por um fio: História dos quilombos no Brasil. Rolo: 194.dias no ―mocambo de brancos . Jornal O Paiz. “deixando o dia 26.

corren do o ―suor em bicas . veja lá. e o que será de nós então?! Senhor padre. 27/08/1878. No dia 30. p. Publ icações Geraes. e calangrinho verde 40 rs. p. no meio da mata.“Notas de minha viagem ao Limoeiro . E deste e de outr os animalejos se aproveitão até as tripas! ‗Por ora vamos sustentando-nos unicamente da mandioquinha dos pretos. chegou a 29 de julho. 01. o restante do trajeto foi a pé. novo mocambo de brancos! ” Se as notícias co lhidas no caminho não eram boas. um quar to de veado custa aqui 5$00 rs. ao porto da C olônia Prado. Thomaz deu ouvidos a uma série de lamentações: Aquelle pobre povo todo em massa accercou se log o de mim. pois estamos aqui inteiramente coagidos. alcançou o ―antigo mocambo de pretos. Após baldeações e troca de canoas. como Vme para estas brenhas. 02. pelo amor de Deus faça com que nos deixerm sahir deste inferno. 3ª parte: Edição n  196. p. mas esta não tarda muito a concluir-se. aqui tambem nos persegue e como prova. para gião e aguardar os demais no porto mais próximo ao Limoeiro. estamos. junto com alguns pretos. fomos en ganados! Conduziram nos am. ao chegar na Colônia Prado.Page 139----------------------frente. porque ainda conosco não s fazer o reconhecimento da re e distribuiu um só retalho das fazendas enviadas pelo governo! nos expatriou.Publicações Geraes. 29/08/1878. quase completamente em nudez. 30/08/187 blicações Geraes. às 10 horas da manhã. 138 ----------------------. 1ª parte :Edição n 193. Pe.02. e todos quase ao mesmo tempo diziam-me – ah! Senhor padre. 2ª parte: Edição n 195. porque lá está no porto um destacamento com ordem ex pressa de agarrar a quem quer que tiver o atrevimento de querer embarcar! A cruel fome que Mais uma vez encontramos e negros fujões. o cruzamento de destinos de migrantes . aqui nos incurralar vê. sem ao menos te rmos a liberdade de podermos fugir.

e o mais descommunal despotismo. o capitão foi guiado por um “antigo preto ” e acompanhado voluntariamente por colonos q ue tinham a finalidade de ―tambem aprendel-a.. que os acusavam de serem ―grandíssimos preguiçosos : (. vam a Os moradores do falta de interesse ―novo em mocambo ” ainda isolamento. do Pe. Feliciano. Con tudo. s. embora nesta longa viagem para por ella nos evadirmo corramos o risco de morrermos de cansaço victimas das febres! . Ainda segundo informações fornecidas pelos migrantes a o padre. Feliciano Xavier. o clérigo retornou ao porto da que havia deixado na Fazenda colônia para aguardar os migrantes . quererem estes no ssos senhores obrigar de sabre em punho a nós brazileiros livres a termos permanenci a fixa neste lugar sem futuro. afirma Rejeitava permanecer no local m discursos de devido ao seu completo “capitães de campo ”.. ” No di a seguinte. isolado de todo o mundo.) Pois. nós deveremos onde por maneira alguma queremos permanecer? Não é a mais rematada loucura. a transferência da Colônia para as margens do Gurupi. (. O . o diretor da co ausente pois foi explorar uma antiga estrada que ligava o Limoeiro à localidade Pa raná. e que só por isso é que os pretos escolheram para mocambo? fazer casa e roçado. logo 139 ----------------------... Cap. senhor padre. aberta pelos mocambeiros para roubar gado.Page 140----------------------percebeu que tratar com militares era infrutífero. Durante a visita lônia. sua conduta ―é só a obediencia.Além da mandioquinha que alimentava os colonos. sendo o secretário também militar. estava Thomaz. encarregado padre ainda pela direção. pretos velhos serviam de guias pel os caminhos nas matas. tentou na propor ao secretário da colônia ausência do Cap.) tudo em prejuizo destes pobres mocambeiros cearenses.

Aliada às preocupações comuns a todas as colônias. o que justificava o clamor pela continuidade do envio de recursos e colonos em direção às cidades para impedir a retirada d próximas que já estavam repletas de outros migrantes a cargo das comissões de socorros públicos. de lá voltou para a capital. A recusa e a gêneros alimentícios para o próprio sustento irregularidade do ritmo de trabalho. era o diretor o responsável pelo controle da entrada e saída de pessoas e por impor uma disciplina para o trabalho. eram apontadas por diretores de colônias como causas da baixa produtividade agrícola. uma nova disciplina de trabalho entre colonos. ainda er a importante ter uma ―sinêta ada um para que ―nella repetindo-se as horas marcadas pelo relógio. qua ndo por mim forão perseguidos. Em ofício ao Presidente da Província. ain da traziam o problema de estarem próximas às matas e rios de fronteira entre Províncias.Fortaleza. até que seus habitantes passassem a colher os . dos quilombolas. O projeto do governo era assistir às colônias agrícolas somente por um período. de 3 1 de outubro. nunca mais retornando ao Limoeiro. o diretor do núcleo de cearenses no Limoeiro.. assim como as que são destinadas para as aulas que aqui temos. Em corre spondência ao Presidente da Província do Maranhão.. pode assim c Em uma tentativa evidente de internalizar por si regular seus serviços. alertou: Constando-me achar-se reunidos no logar – na Provincia do Pará. Nas colônias. o Capitão Feliciano Xavier solicitou ―um relógio para bem podermos regular as horas marc adas para o trabalho. de 07 de janeiro de 1879. e distante desta colônia de 12 a 14 leguas um já crescido numero de pretos. acoitados por dois indios (. que daqui se evadirão. junto às epidemias e a carência alimentar. a Prado e a Amélia.) tornando-se p rejudicial a estada de taes pretos tão – Escuta .

de serem elles ali perseguidos. em direção à região bragantina. o desembarque aconte cia na capital. Feliciano pedia orientação a Graciliano do Prado Pimentel. Em abril de 1878. os pretos acabam permanecendo na colônia. Pará o portal da Amazônia: Colonização. José Joaquim do Carmo. A possível acompanhar o curso dos rios e se internar na floresta. Presidente da Província do Pará. que precizão de bastão para arrimo. ou seguir em paralelo ao litoral. Podem ter aprendidos com os tomado as estradas.Page 141----------------------Sabemos que. apresentavam um estado de saúde debi litada: ―completamente decreptos. fronteiras do a entrada partir de de migrantes Viseu e poderia das marg a como vimos Gurupi era acima. ens do pelas Rio direção ao Pará. Os negros que afirmavam se rem do Pará e ―ignorão quem sejão seus donos . e por isso não podem fazer viagem por terra. 140 ----------------------. quando o Cap. Exa. veredas e pretos e mocambeiros que conheceram pelas margens do Gurupi. Para aqueles que chegavam direto pelo mar. abolicionismo e as fronteiras da le i Em contecer Maranhão.41 um grupo de cearenses levou do depósito da colôn ia armas e ferramentas que lá encontraram caminhos e fugiram. Diante dos fatos. A presença de negros já vinha sendo comunicada desde agosto de 1878. sobre o que fa zer com ―os pretos amocambados Francisco Cabindá. deixava evidente sua expectativa em relação à migração cearense: ―Si o immigrante Cearense procura t . Feliciano. após suspensão dos socorros e a exone ração do Cap.Suas cassa ordens é no porque sentido como perto desta colonia rogo a V. Se ainda eu lhes não dei já disse pertence aquelle lugar ao termo da Villa de Visêo na Província do Pará. Joaquim Cassange e Cosme . em junho de 1879. Belém.

conforme for determinado pela presidência (PARÁ. caso não possam por si. Turiaçu. em da 1879. 1878. em Santarém e agora em Santa Izabel e no caminho da Vigia. e no espaço de trez dias obter ar ranjo ou meio de subsistência em s.Setor de documentos Avulsos. 1-2). Para tanto.Page 142----------------------- . 6 / Ane Entre as atividades foi a criação ou coloniais. de Gama promoção Abreu. distribuição de retirantes em postos de trabalho. e a indenização aos cofres acesso à terra mediant A quarta in públicos e a proibição de que ―andem elles mendigando ou solicitando esmolas. Ofício do Juiz de Direito da comarca de Tury-assú dirigido a José Caetano de Vaz Junior. p. Visava orientar a manutenção da higiene e a moralidade nas ruas n a capital. a principal reestruturação de núcleos núcleos existentes em ― ‗Benevides‘.erras que dem lhe retribua o trabalho o Pará as suas terras. logo que se possa fazer. enumera os xos p.Ofício de 07 /01/1879 – Ofício de 12/08/1878. Fundo: Secretaria de Governo. (Era comum q uando o cargo de Diretor de colônia ou Comissário de socorros públicos estivesse vago o Juiz de Direito assumir a responsabilidade pelos recursos financeiros e distribuição de socorros). serão empregados comprehendida a abertura e melhoramento de estrada agricultura. obras ou na publicas por trabalho licito. strução define: Os que se quizerem dirigir para o Amazonas serão a hi transportados. VicePresidente da Província do Maranhão. precisa de braços que fecun elaborou as ―Instruções provisórias para o serviço attinente aos retirantes cearenses que procuram a Província do Pará. Subsérie: C olônias de Cearenses. agricultura. 141 ----------------------. 11/06/1879. Entre 41 APEM . Ofício de 31/10/1878 . Ofício do diretor da Colônia Prado Capitão Feliciano Xavier Freire Junior destinado ao Presidente da Província Graciliano Aristides do Prado Pimentel. e os que manifestarem animo de perm anecer n‘esta Província. em Tentagal.

na administração de Sá e Benevides. percebemos a limitação do poder de autoridade s. Ao analisar as fontes. teve uma demográfica após a migração de cearenses. a ―colônia ‗Benevides‘. 2 Hes Suissos. 3 belgas. Belém.eles. 4 português e explosão de 100 colonos ―71 franceses. saques a comércios e multidões de migrantes m as ações de massa sendo retomadas em novas terras. 10 italianos. foi plane jada para ser o celeiro da capital. A colônia fundada em 1875. suspensão dos socorros públicos. 20). mas também por ter sido palco de motins contra forças púb licas. 1 26 nacionais (PARÁ. O projeto graças à sua localização a cerca de 30 quilômetros de inicial de atrair imigrantes europeus não obteve o sucesso esperado. e zona de contato entre sertanejos insubordinados. Diferente das colônias do Maranhão. perseguir al. a mais importante . Em pronunciados. 8 de junho de impedimento escravos fugidos 1879. p. s em As atitudes de migrantes decorrência do número tinham às maiores praças repercussõe existentes em ger p ameaçando invadir vilas. Seu po atualmente é um dos municípios da Região Metropolitana de Belém. 161). em fevereiro de 1877. Benevides merece atenção não apenas por ter sido a colônia agrícola a rece ber grande número de migrantes cearenses. contava com ―cerca de nove mil habitantes (PARÁ. possuía pouco mais panhóis. atingindo a cifra de 9 mil almas em 1879. s urgindo como um dos principais focos da luta abolicionista no Pará. Era reduzido de forças policiais. 1877. o e suspeitos . negros e imigrantes europeus. p. Delegados de Polícia reclamavam de grupos armados de cearenses assaltando gado na Ilha do Marajó. 42 Em seguida. ara realizar suas diligências. sua instalação foi anterior às migrações e 1877 e continuou a existir após a voamento teve continuidade. 1879.

Ofício do Subdelegado de Polícia da povoação de Nossa Senhora do Carmo de Benevides ao C hefe de Polícia do Maranhão. 2008. no dia 30 d‘este mês. Belém: Programa de PósGraduação em História Social da Amazônia/UFPA.) pretende-se declarar livres todos os escravos ali existentes. 08/06/1879. F colonização: um estudo sobre a Colônia Agrícola Benevides (Pará. cidades e núcleos coloniais no início da República: LACERDA. animada pelo movimento abolicionista de sua Província natal. Fundo: Secretaria de Polícia.. 142 ----------------------. 1870-1889). Em março sua atuação f Diário de Notícias. ver: NUNES. (. Série: Ofícios Delegados e Subdelegados de Polícia da Província do Pará. Migrantes cearenses no Pará: faces da sobrevivênci a(1889-1916). (Tese de doutorado). a ―colônia de cearenses prepondera no núcleo de Benevides .Subdelegado de Benevides reclamou ao Chefe de Polícia do Pará ―um maior números de guard as para evitar a desmoralização da Polícia. principalment como ponto de acolhimento de negros fujões e clandestinos. São Paulo: Pós-Graduação em História Social/USP. Benevides. por certas duvidas na casa da directoria. que liquidou mui tos de seus cativos através do tráfico. Há também a t de Franciane Lacerda que trata de migrações para os seringais. Apesar do tom festivo da matéria do Diário e do ato que libertou 6 e scravos dia . (Dissertação de Mestrado). 43 APEP .ARQUIVO PÚBLICO DO ESTADO DO PARÁ. Franciane Gama. 44 Talvez fosse mais fácil ser abolicionista no Ceará. em 1884. A semente da seus companheiros se armar formação de Benevides. 43 42 Sobre práticas agrícolas e a rancivaldo Alves. Caixa/Ano:1874-1879. Dentro deste contexto. Referia-se à tentativa de prender um retirante que acabou em luta entre populares e guardas: ―A origem da luta foi ter sido pre so um retirante. foi fundada a Sociedade Libertadora oi saudada pelo jornal de Benevides. e am de cacetes e o tomaram do guarda. 2006..Page 143----------------------e porque Os ficou conflitos conhecida na colônia tiveram sequência.

Em 1888 e 1889. os deslocamentos continuavam ocorrendo pela iniciativa de parentes tent ando recompor suas famílias. o retor no das ações de retirantes e as memórias da grande seca de 1877. Setor de Microfilmes. um ―hespanhol puxou o preso da mão d o soldado. em seguida posto em liberdade. Rolo: 45. um soldado do destacamento da Colônia Benevides.. Ao ser recebido de ―maneira insultante . Em junho de 1884. justificavam a retornada do incen tivo à migração 44 CENTUR/PA. Enquanto apitava para pedir reforços. já que ―da parte dos aqui residentes por serem quasi todos. Be lém. O cearense escapou.. 45 s Após 1880 e o fim foi suspensa pelos governos. Em 11 de setembro de 1884. a tensão em Benevides não delegado afirmou que talvez cessou. ou todos cearenses como a V. Edição n  70. no apagar de luzes do Império. 25/03/1884. da seca. o Sub chegasse ―a sessenta o numero de escravos aqui refugiados. percebeu grande algazarra e perguntou a um cearense que estava na porta o que acontecia ali.) deposita na força Policial. sem que nada pudesse faz er. Temos indícios para pensar na construção de espaços de solidariedade. a concessão de passagen Contudo. a estiagem. e são os primeiros a aconselhar a insurreição. Jornal Diário de Notícias. Podemos pensar também nas trocas culturais ocorridas entre cearens es e estrangeiros. Exª deve ter conhecimento. desertores e novos espaços de sociabilidade e liberdade. decidiu dar voz d e prisão ao cearense.30. o espanhol foi preso. ao passar na frente da residência d o ―Francez Joseph Blain . clandestinos em busca de . pela ação de agenciadores de trabalhadores para a extração da borracha e pe la busca constante de pobres. O que tra mavam na Babel de Benevides? Ações abolicionistas? Reivindicações dos colonos? Só temos a certeza da ―ogeri sa ” que ―esta gente (.

Page 144----------------------de cearenses. 2009. de que existiam na localidade ―muitos vagabundos que não procuram . houve o temor de que os cearenses estivessem ―preparando-se no dia 24 véspera de Natal destruir o destacamento Policial. Série: Ofícios de Delegados e Subdelegados de Polícia da Província do Pará. por parte do Subdelegado. Mas.Diário de notícias. (Brasil . situada entre Belém de tensão provocados pela e a Ilha chegada para houve d 1884. São Paulo: Programa de Estudos Pós-Graduados em História Social-PUC/SP. No período o Presidente nistro da de Província no Ceará. produziam café (MORAIS. tentou incentivar a condução de retirantes para as propriedades de sua família em São Paulo que oposição. Neste segundo momento. Ofício do Subdelegado de Benevides ao Chefe de Polícia da Província do Pará. Pará 1850-1888). aparece na documentação como um dos e retirantes. a reclamação. Por todos os meios legítimos e legais: as lutas contra a escravidão e os limites da abolição. Ainda em focos no Pará. Caio Prado. 11/09/1884. 143 ----------------------. irmão do Mi Agricultura. 45 APEP . voltemos para as áreas próximas ao litoral. Benevides. Caixa/Ano: 1884 Ofício do Subdelegado de Polícia de Benevides ao Vice-Preside nte da Província do Pará. (Tese de d outorado). Para esta rota Belém continua sendo a porta de entrada para a navegação nos rios amazônicos. Ao analisar os 2003). entre Belém e a Fronteira com a Guiana Francesa. sufocado os projetos de criação de novas como a migração para os seringais não é no momento o centro de nossa argumentação. Benevides. Medida que sofreu muita requerimentos de passagem escritos por retirantes encontramos maior interesse pe las Províncias do Pará e Amazonas. 02. 03/07/1884. Sobre as lutas abolicionistas no Pará: BEZERRA NETO. 46 Já em 1888. p. A cidade de Barcarena do Marajó.Fundo: Secretaria de Polícia. José Mai a. os argumentos a procura por trabalho e o principais para a solicitação eram chamado de parentes. já encontramos referências ao trabalho nos ser ingais e a extração da borracha já havia colônias agrícolas.

que foram É expressivo o número de migrante recrutados para a Guarda Municipal em Belém. Caixa/Ano: 1888.Fundo: Secretaria de Polícia.trabalho em que se empreguem e que vivem constantemente embriagados e promovendo desturbios. Ofício do Subdelegado de Barcarena ao Chefe de Polícia. uma dos meios poderia ser exatame nte através do recrutamento s cearenses às forças públicas. Ofício do Subdelegado de Barcarena ao Chefe de Polícia. de questiona vamos encontrar migrantes do Ceará tanto em ações de combate à polícia. 47 O desafio de integração de novas populações em atividades vistas como pr odutivas por parte de autoridades policiais não era nada fácil.Page 145----------------------A rota que seguia em direção ao Marajó. 18/12/1884. responderem justiça 46 APEP . Caixa/Ano: 1884. levando-nos ificar suas escolhas. Entre os casos ―torna-se celebre o Cearense Franco Ignácio Lira. Série: Ofícios de Delegados e Subdelegados de Polícia da Província do Pará. a fugir Segundo. Primeiro. de qualquer a pode em tentativa alguns crimes na casos de ter simpl facili ou presença de migrantes na polícia tado fugas de conterrâneos que estavam na clandestinidade por já terem desertado em outras Províncias. depois Macapá e à fronteira com a G uiana Francesa já era conhecida por escravos fujões e desertores do Pará desde os tempos col oniais e pode . nas colônias militares responsáveis pela proteção de fronteira e no Corpo de Polícia. O que apresenta uma diversidade mentos. 17/07/1888. como também compondo as tropas. 144 ----------------------.Fundo: Secretaria de Polícia. que está em condição de assentar praça na tropa de linha ou na armada único meio a meu vêr que póde regeneral-o e corrigil-o. Barcarena. Barcarena. 47 APEP . Série: Ofícios de Delegados e Subdelegados de Polícia da Província do Pará.

Durval Muniz de. 433-466. festas. A invasão do quilombo Limoeiro em 1878. São Paulo: Companhia das letras. ver e ler o mundo.215). A Invenção do Nordeste e outras artes .Page 146----------------------Referências bibliográficas ALBUQUERQUE JÚNIOR. Edson Holanda Lima. 1870/1915. Pará 1850-1888). Fica o desa fio de descortinar a penumbra que cobre os circuitos trilhados por migrantes cearenses nos anos finais do Império. ASSUNÇÃO. pelo movimento comunidades camponesas. 1992. 1999. de Aposta tirar que modos suas fica experiência mais de ser atribuída a maioria dos migrantes cara se pensarmos em entender também que para além de indivíduos. . ―A Invenção da Amazônia: migrações. 2009.1-11 (CD-ROM). p. 2009. ARAÚJO. BEZERRA NETO. São Paulo: Programa de Estudos Pós-Gradu ados em História Social-PUC/SP. 2007. p. Fortaleza: ANPUH. modos de falar. Por todos os meios legítimos e legais: as lutas contra a es cravidão e os limites da abolição. In: Anais do XXV Simpósio Nacional de História – História e Ética. BARBOZA. a região do Amapá seria ainda mais atrativa para desertores e mesmo invasores estrangeiros. Com o Boom da borracha. Maria Raymunda. Mathias Röhring. 1996. (Brasil. Com o término da es as fugas de escravos nessas regiões foram substituídas de migração clandestina (GOMES. ritos religiosos. (Tese de doutorado). temos aí uma s de vida da invisibilidade possibilidade pobres. São Luís: SIOGE. Recife: F JN. vivenciadas por retirantes junt em direção a Cai o com As zonas de contato comunidades de origem africana e indígena nas áreas do Marajó e Amapá ainda estão por ser estudadas. In: Liberdade por um fio: História dos quilombos no Brasil. (org). e estar. luta pela terra e conexões étnico-culturais. José Maia. que se manifestavam circulavam também em seus hábitos alimentares. p. Ceará-Amazônia. pois. Os moc ambos transformar-se-iam em cravidão no Brasil. São Paulo: Cortez. 145 ----------------------. ―Quilombos maranhenses.ter sido uma das escolhas tomadas por migrantes cearenses: As deserções e denúncias de fuga ena continuariam no século XIX.

Belém: Typ da ―Província do Pará . Frederico de Castro. 2006. Fortaleza: Museu do Ceará. p.CANDIDO. Snr. São Paulo: Pós-Graduação em História Social/USP. GOMES. 2005. Francisco de Sá e Benevides. Campinas: Editora da Unicamp. p. A multidão e a história: saques e outras ações de massa no C eará. Peter. Trem da Seca: sertanejos. no dia 18 de outubr o de 1877. Viviane Lima de. ― ‗Nasci nas matas. MORAIS. A semente da colonização: um estudo s obre a Colônia Agrícola Benevides (Pará. Maranhão: Typ. A hidra de muitas cabeças: Mari nheiros. LINEBAUGH. 1878. Belém: Programa de Pós-Graduação em História Social da Amazônia/UFPA. Eurípedes. 2003. 1877. Relatório que o S. São Paulo: Companhia das letras. São Paulo: Unesp. In: Liberdade por um fio: História dos quilombo s no Brasil. retiran tes e operários (1877-1880). (Dissertação de Mestrado). 2008. do Livro do Comércio. 2007. por occasião da instalação de sua se ssão ordinária. (séculos XVIII-XIX). Razões e Destinos da Migração: Traba lhadores e Emigrantes Cearenses pelo Brasil no final do século XIX. NEVES. Falla com que o exm. 103-132. Pre sidente da Província. 2000. Fortale za: Fundação Demócrito Rocha. Flavio. quilombos e comu nidades de fugitivos no Brasil. 467-497. Dr. 187. Dr. Belém: Typ. José Joaquim do Carmo abrio a 1ª sessão da 21ª legisla tura da Assembléia Legislativa da Província do Gram-Pará em 22 de abril de 1878. 2000. Falla com que o exm. 2008. Exc. . 2005. Migrantes cearenses no Pará: faces da sobrevivência(1889-19 16). PARÁ. Rio de Janeiro: Relume Dumará. In: Trânsitos Coloniais: diálogos críticos Luso-Brasileiros. PARÁ. ―Entre Fronteiras e sem limites: espaços transnacionais e com unidades de fugitivos no Grão-Pará e na Guiana Francesa (Séculos XVIII e XIX). Francivaldo Alves. Flávio. In: Uma nova História do Ceará. NUNES. 1879. São Paulo: Companhia das Letras. A Hidra e os Pântanos: Mocambos. em 16 de junho de 1879.217 LACERDA. Eurípedes. 1996. Snr. escravos e rebeldes no Atlântico revolucionário. apresentou á Assembléia Legislativa Provincial. Franciane Gama. João Bandeira de Mello Fi lho abrio a 2ª sessão da 20ª legislatura da província do Pará. (Tese de doutorado). p. GOMES. Fortaleza: Secult.História e memória dos mocambos do baixo Amazonas. abriu a 2ª sessão da 21ª legislatura da Assembléia Leg islativa da Província do Gram-Pará. Falla com que o excellentissimo senhor doutor José Coelho da Gama e Abreu. ―Negros no Ceará. São Paulo: Programa de Estudos Pós-Gradu ados em História Social-PUC/SP. Tyrone Apollo. FUNES. Dr. Belém: Typ da ―Província do Pará . FUNES. em 15 de fevereiro de 1877. 1870-1889). MARANHÃO. REDIKER. PARÁ. (Dissertação de Mestrado). Marcus. Do Paiz. nunca tive senhor’. 1877.

particularmente. 1922. (2009). 20 05. 18 501881. (Dissertação de Mestrado). porém.146 ----------------------. Rodolfo. 2007). Sebastiana. Amaru Marimbá”: O Ceará no tráfico interprovincial. pode pontos de vista. (Monografia de Graduação).Page 147----------------------PRATT. Pero Rio de Janeiro. teu sinhô ta te querendo vende. cubana. Fortaleza: Secretaria de Cultura. que nasceram no iníc io do século XX e percorreram este século criando es que a discriminação racial impunha a elas e a seus familiares. Rio de Janeir o: Imprensa Inglesa. educação e essas das artigo. Fortaleza: Programa de Pós-Graduação em História Social-UFC. “Catirina minha nega. Iracema de Jesus Franco de. Pero. Rodolfo. brasileira e Reyita. José Hilário Ferreira. Mary Louise. Bauru: E DUSC. 1997.Page 148----------------------BRASIL E CUBA: DUAS MULHERES NEGRAS ENTRE A NATURALIZAÇÃO DA DISCRIMINAÇÃO E O CONFRONTO Orlinda Carrijo Melo Fac uldade de Educação – UFG/PPGE atégias de Este artigo sobrevivência tem de como duas objetivo analisar as estr mulheres negras. nunca mais ti vê. A imigração de cearenses no Maranhão (1877-1879). A partir do trabalho conheci Reyita. O Paroara – Romance. SÁ. TEÓFILO. 1998. se direciona para as práticas e representações produzidas por sobre família. 1877-1880. Os olhos do império: relatos de viagem e transculturação. SOBRINHO. São Luis : UFPA . origem . 1974. 147 ----------------------. já de Dionísio Lázaro Poey Baró táticas para enfrentar as dificuldad Sebastiana é apresentada através de uma pesquisa desenvolvida por mim (MELO. m ser As relações entre analisadas sob vários história. História da Secca do Ceará. sociedade neste mulheres de e mulheres o foco humilde. TEÓFILO.

16).ainda que não fosse possível cumpri-lo na prática .Page 149----------------------necessidade de reconstruir a escola ernidade . na sua proposta de valo rização da escola. com ascendência bil ateral (patrilinear e matrilinear). Esses eram os traços básicos de modelo de família que os espanhóis levaram a Cuba e os portugueses ao Brasil. rganicismo o positivismo científico de Spencer estavam e social de Comte e o o enfrentar um mei aut presentes no pensamento educacional brasileiro e cubano. a qual tinha muito arr aigo na sociedade espanhola [e portuguesa]. haveria 148 ----------------------. o projeto educacional proposto pa ra orientar a escola no Brasil e em Cuba absorveu referenciais teóricos europeus e norte-americanos. De acordo com Baró (2009. O modelo estabelecia . p.para atingir esses tradicional . 2009.12). O evolucionismo de Darwin.antítese da mod implicavam a difusão da ciênc . Isso tudo era próprio de um país com cultura marcada pelo patriarcalismo. Se ia o e desenvolvimento e o progresso da tecnologia. era tipicamente nuclear. na religião e no processo educativo.religião. p. Guardadas as devidas diferenças.mãe . É possível dizer que a vivência dessas mulheres na família. A unidade elementar. tanto na escola como fora dela. pode revelar ―muitas informações sobre a realidade social e sobre capacidade do indivíduo para adaptar-se e/ou o hostil e continuar vivendo (BARÓ. tendo como cenário o racismo nos seus países de origem. e no cumprimento nas funções de prover o sustento econômico e a responsabilidade por impor as normas culturais internas que a famíl ia devia seguir. a concepção de família introduzida em Cuba pelos colon izadores espanhóis. pai . e legitimava-se ideo logicamente com as doutrinas da religião católica.filho.uma orientação patrifocal quanto às relações de oridade no seio familiar.

MONTEIRO.objetivos. Reyita repetia o discurso de seus antepassados qu e era necessário ―adiantar a raça . que amo os negros. ―não um branco para ―deixá-la atrasar . Com esse objetivo. baseadas em Dewey. a Nação e o Povo. apesar de o discurso oficial do governo revolucionário de Fidel Ca stro negar todo o tipo de discriminação. suas práticas frente a esse ideário? Como estruturaram suas relações familiares e religiosas tendo como contraponto um processo educativo restrito a poucos? numa Reyita sabia muito bem sociedade discriminatória o que significava ser negra como a de Cuba. Vale dizer construíram seus significados. Assim. Reyita ressalta que ―não é demais dizer que amo minha raça. Todos os males seriam solucio nados pela educação e ―a ela caberia construir e formar simultaneamente a Pátria. estava é implícito importante a in indaga chegou também às escolas. assim. principalmente. Biologia. dática. Cab eria às elites locais introduzir os valores do mundo civilizado nas relações sociais. no ideias plano escolanovistas. Psicologia e p. político. 52). re segundo Sant´Anna (1992. da mulher negra. As presentaram. eles poderiam alça r melhores posições na sociedade para lutar contra todas as formas de interdições. p. 2002. Por isso. 23). mas casar com um branco naquel a época era . social ferioridade da raça negra. econômic as e culturais (SANTOS. a educação ―moderna que nesse ideário político. áreas como Di Sociologia foram consideradas fundamentais para as mudanças nas instituições educativa s. r: como Sebastiana e Reyita e educacional A partir daí. Ou seja. a reconstituição dos conceitos liberais fundamentados na idéia de progresso que implementariam a modernização da escola. deveria casar-se ―branquear seus filhos e todos os seus descendentes porque.

aliada a outras. p. no Curso Normal. sejam sociais. com ele formou uma família mas que a respeitou estruturada nos valores disseminados pela fé católica. buscou a leitura e a escrita. . Portanto. Tornou-se uma líder na família e nas organizações sociais das quais participava . 54). bus cou na educação. a levou a participar de vários movimentos sindicais e governamentais para erradicação de todas as formas de exclusão. Lia todo circulavam no seu meio e discutia-os com outras pessoas. Religiosidade que fundamentou-se na sua fé católica e nas tradições africanas de seus antepassados. políticas. porque tem que trabalhar dia e noite. raciais e educacionais. 89 anos. Filha d e pais pobres que lutaram com muita dificuldade para criar e educar os filhos. pobre e sem estudos. ca sou-se com um e homem negro. No sertão do Brasil. pobre. apesar ainda das muitas discriminações.Goiânia . Ao mesmo tempo. O casamento foi para ela a consumação de uma das estratégias de vida qu e. na nova capital do Estado de Goiás . Não na esco la formal. 2009. mas ouvindo um professor na janela que separa o l ocal de seu trabalho em um restaurante da sala de aula a ler e a escrever. Sebastiana. do onde mundo ele ensinava da crianças alfabetizou-se e não tinha medo s os tipos de impressos que escrita.Page 150----------------------conferiu poder na comunidade. baseada na religiosidade que também lhe 149 ----------------------. uma profissão para lhe assegurar uma vida melhor. empregada doméstica e benzedeira. Também alfabetizava criança s. Essa mulher ousada percebeu que ter a posse do saber representava entender as formas de poder e. Criou uma estrutura familiar.uma mulher negra destacou-se: Sebastiana. jovens e adultos.vital (BARÓ. para tanto. já na vida adulta.

repassando esses valores para seus filhos. compartilhava leituras de romances. a derindo às novas práticas de leituras pal de Goiânia. Dona Sebastiana integrou-se.172). Tem gente escritora que lê o almanaque e finge que não lê . é que lhe abriu essas por tas: lia os livros dos patrões. p. a do trabalho intelectual [que] é silenciosa. frequentava a igreja e apropriava-se das leituras da bíblia. tornou-se uma livros.Sebastiana. mas estava pre sente na sua família. pela via do grande leitora. O almanaque não fazia parte desse universo profissional. de maneira restrit a: eram espaços pagos. 1998. p. aos poucos. gratuitas na Biblioteca Pública Munici desligou-se da leitura dos almanaques. estando nos arredores da elite intelectual teve que se render ―à leitura reservada aos intelectuais. entre a As ambivalências de Sebastiana ―empurram-na escrita e a para um diálogo pequena biblioteca particular oralidade (PARK. poesias e revistas com outras leit oras. enquanto que a silenciosa reveste-se de categorias morais (PARK. Era católica fervorosa. na nova capital. livrarias. Com efeito. 1998. A primeira sobrepõe-se à última. mas não podia comprar empréstimo. Lia também os almanaques. aos no vos espaços urbanos de leitura. escola particular para os seus filhos. I nterdição que foi reconstruída na escola de seus filhos: ―lá a leitura oralizada irá servir para o controle do grupo. da vida do s santos. A proximidade com a elite cultural. Eu tinha uma . Nesse espaço Sebastiana. E mesmo porque seus filhos estudavam na ―es cola paga e só liam os livros representados como ―bons livros . Esta mulher lutadora. através do seu trabalho. Dizia ela: ―ele s são os livros da sabedoria popular. 180). Os valores projetados na nova cidade também exigiram novas práticas educativas que .

de outro. Como se percebe. pagava a escola particul ar para 150 ----------------------. o ensino pa ra subir na vida. Eu levava cedo e buscava à tarde. a escola. Mesmo sendo de cor. A sua vislumbrava o ensino técnico como a salvação. a leitura como ―ilustração ficaria para um outro momento. leitora voraz. ―progredindo . a doméstica ―por causa da doença de Chagas do marido pedreiro . houve a propagação do discurso neolibe ral de que pela leitura e pelos estudos. mas também do filho mais vel ho. o seu Curso Normal. a pessoa ―se informa e se forma lcançaria o sucesso que o processo de urbanização exigia. Não tinha com quem deixar. Essa leitora benzedeira está na encruzilhada do labirinto: ―De um lado. como nos cartazes . o lugar em que a vida é como n os livros. essa clivagem fazia parte da vida de Sebastiana . não só do marido. Para esses. 1997. tem duas ela se manifesta nas relações com os outros. Ela partilhava a ―ilustração valores. 2000). a do bairro.Page 151----------------------seus filhos: ―Meus filhos estudaram na escola paga.levassem à qualificação do trabalho. e. Há dois ―eus que se digladiavam. ela divide o eu (FRAISSE et al. a realidade social. Como se vê. 36). a leitura de livros e jornais e a escola particular dos filhos não foram suficientes para o desfrute dos valores renda familiar era pequena e ela do progresso. a da casa. portanto. meu s filhos eram bem tratados pelas professoras Sebastiana usava (ENTREVISTA. a valor ização . Observe-se que estratégias e táticas para a penetração dos valores da escolaridade na família de baixa re nda. Nesse sentido. A tensão cultural. É preciso a leitura. mas que Na se esteira desse discurso. p. como no cinema. No com a elite intelectual e aderiu aos seus faces: entanto. tornou empregada Sebastiana.

essa leitora negra não lia só romances da elite intelectual. Desse modo. Sebastiana. Mas. científico moderno. Essa fala indicia uma afirm ação do racismo a que Sebastiana se submeteu e que ela queria deixar esquecido. meus filhos eram bem tratados pelas professoras . não conseguiu ―naturalização do racismo quando falava da educação dos filhos que ―mesmo sendo de cor. que se eximiu desse trabalho. Buscou outra saída: o refúgio nos livros religiosos de benzeção que herdara dos seus antepassados. apesar de ser professora. certificando profissional que tanto ela 151 à Sebastiana . ao curar brancos e conhecimentos estruturados na tradição dos seus antepassados oral. Era necessário seguir os modelos da v da dos santos. Ela. por isso era respeitada como a guardiã das crenças populares. que seguem à fruto a posição risca da seus tradição social e as doenças d Esse saber. pobre e estudou e se formou. driblou as várias formas de discriminação. Ela sugere a ser normalista. mesmo que o saber científico não validasse essas práticas. po rque esses livros não a certificavam como uma mulher que queria ter seu lugar reconhecido na sociedade .do trabalho técnico veiculado em nível internacional e nacional foi apropriada na no va capital pela elite intelectual. e pelos trabalhadores que o ide alizaram como uma ponte a ser construída na estrada do progresso. Sebastiana se tornou apta para ―interpretar o mundo. fortalecendo s eu poder de benzedeira. conviveu com o saber negros negros. Es ses livros tinham dois objetivos: ―alimentar o espírito dem instaurada. mas também pela e ―curar as pessoas através da benzeção. ela também alimentava da bíblia. Nessa o espírito não só pela leitura representação mística da cura de doenças pela benzeção. que se casou com um h omem negro.

mas as pessoas lhe retribuíam c om presentes que ela passava para os mais pobres. Já Sebastiana naturalizou havia ainda pouco espaço na nova capital. criando novas sociabilidades e múltiplas sensibilida des. uma vez que essa luta era primordial para o racismo. ao contrário. construída pelos brancos para movimentos a nti-racistas. segundo ela. diferenciadas em relações às questões políticas e . sociais do Com posições racismo. quando percebeu que ela. viu no seu emprego doméstico a única saída para a educação dos seus filhos e netos. os seus descendentes. Nunca houve cobrança para esse trabalho. Reyita nunca aceitou ser empregada doméstica como Sebastiana. com sem opções de trabalho numa cidade em construção. Na duas mulheres criação de guerreiras. as escolas não contratavam professoras negras para dar aulas. Dizia que a renda do seu pequeno negócio particular. benzendo-as para curá-las das doenças e. fundamentais para posicionamentos sobre a problemática do racismo no Brasil e em Cuba. a partir daí instaurou seu poder perante sua família e a comunidade onde viveu. alcançaram ―uma felicidade extravagante . um restaurante simples. estratégias e táticas de sobrevivência. Reyita e Sebastiana.Page 152----------------------perseguira. Sebastiana. Foi à luta alfabetizando pessoas pobres. e significados essas guardadas as devidas que sedimentaram as diferenças. cada uma a seu modo. negras e brancas. Reyita se posicionou participando de várias orga nizações. mesm o quando não tinha estudos. Contra o racismo.----------------------. como diz Borges idades que elas (1983). Essa felicidade criaram para seus foi fruto das possibil descendentes. já que. seria para ajudar a educar todos o marido doente. suas construíram sentidos relações familiares e religiosas.

izados e. Tese. operários simples. 64 bisnetos e 7 tataranetos. crespos.Page 153----------------------Com essa fala. a educação e a religiosidade como contraponto desse encontro. E o que é mais interessa nte é que na minha família estão nascendo crianças brancas. tataranetos. DF. menino não pode ficar sem estudar. 39 netos. (REYITA) Tenho uma família grande e querida: 9 filhos. priorizaram nas suas vidas. neto s. Poey. Tenho filhos e netos na Suíça ond e trabalham e estudam. também queria. técnicos médios. Lisboa: Terra-Mar. (Doutorado em História). Tentei dar estudos para todos os meus filhos me só o curso técnico.essas mulheres negras. Enfim. sararás. Dionísio L. sobretudo. por causa de casamentos com brancos e brancas. É muito linda minha família! Parece um arco-íris: brancos. Brasília. 2009. licenciados. livres . enfermeiras. muitas professoras e tam bém professores. 1983. curtos. Cabelos ngenheiros. mulatinhos. Departamento de História/ UnB. acredito que Sebastina. até de ol hos claros. mas nunca ninguém ficou fora da escola. negros. Jorge Luís. BORGES. bisnetos. técnicos em computação e cabeleireira. Aqui tem advogado. de uma maneira sutil e astut a. Mi nha luta era formar todos para ter profissão e ser crentes a Deus e respeitados. Daí porque uma diz para a outra: Agora somos 118: 8 filhos. A biblioteca de Babel. REFERÊNCIAS BARÓ. (SEBASTIANA) smo que seja 152 ----------------------. Pode-se dizer que Sebas tiana e Reyita ainda teriam muitas histórias para contar uma para outra. o branqueamento dos seus descentdentes como uma das possibilidades de interdição da discriminação social a que ela foi submetida na sua vida. Estratégias de sobrevivências das mulheres negras cubanas no sécul o XX : Reyita simplesmente. longos. todos organ de preconceitos raciais. como Reyita. Para nós pobres. macios. Têm e professores.

Margareth Brandini. e MONTEIRO. PALAVRAS-CHAVE: Afrocentrismo. 13. MELO. A. Revista da FE/UNICAMP.1958). SP. v. Goiânia: Editora UFG .Page 154----------------------PROTAGONISMO NEGRO NUMA PERSPECTIVA AFROCENTRADA EXPOSITORES: Elio Chaves Flores (PPGH/C CHLA/UFPB) Alessandro Amorim (PPGH/CCH LA/UFPB) Danilo Santos da Silva (PIB IC/CNPq/UFPB) RESUMO O presente trabalho procura pensar o protagonismo negro em sua s mais significativas formas de expressão. PARK. A mítica do progresso (1955 . O Brasil de Olavo Bilac: a construção política de uma identidade nacional. que vincula à ancestralidade africana a experiência diaspórica do negro na construção de um novo conhecimento sobre o mundo. C. PUC. SANTOS.FRAISSE. como expressão de ativismo afrocentrado. from an afro-centered perspective. Campinas. SP: Mercado de Letras. 2002. M. Abdias Nascimento (1914) e Oliveira Silveira (1941-2009). E. E. Pro-Posições. não universalista e não essencialista. ABSTRACT This research aims at reflecting upon the leading performance of black people in their most significant forms of expression. Representações e imagens da leitura. S. J. 1992. A invenção da cidade : leitura e leitores. Orlinda Carrijo. Campinas. et. bem como pelo estabelecimento de um paradigma cognitivo afrocêntric o. a partir da experiência quilombista. n  2. 2001. Intelectuais negros. numa perspectiva afrocentrada. Apresenta a ex periência estética e política de Solano Trindade (1908-1974). SANT'ANA. Cultura histórica. Histórias e leituras de almanaques no Brasil. R. It presents the aesthetic . maio/agosto. Dissertação. São Paulo: Ática. 153 ----------------------. São Paulo. al. 1997. (Mestrad o em Educação). 2007. no que se refere à maneira pela qual ações no campo da cultura e da política estavam baseadas na representação da África como o centro referencial particular ancestral.

KEY-WORDS: afro-centered perspective. (2009. p e . 154 ----------------------. já muito nos remete tanto a perspectiva ainda afrocentrada. as the expression of afro-centered activism. quanto apres di diaspór polêmico. Abdias Nascimento (1914 ) and Oliveira Silveira (1941-2009). neither universalist nor essenti alist. a partir do seu livro Afrocentricity: the theory of social change [Afrocentricidade: a teoria de muda nça social]. pouco conhecido. numa inicialmente. africana. conceito scutido de e Silveira. ou a partir do século XV quando os europeus inauguraram o tráfico atlântico. Ele ica. quando os árabes iniciaram o tráfico naquele continente. rega rding how actions in the field of culture and politics were based on the representation of Africa as the center of reference in ancestrality. de 1980. Segundo Asante. o Afrocentricidade. as well as the formation of an afro-centered cognitive paradigm that links to the african ances trality to the experience of the black diaspora in the development of new study fields about th e world. Abdias Na scimento e Oliveira entaremos. Introdução Para falarmos do protagonismo negro em Solano Trindade. O conceito é uma proposta teórica e uma abordagem pistemológica elaboradas pelo pensador afro-americano Molefi Kete Asan te48. historical culture. black scholars. é buscar categoricamente no conceito ―um tipo de pensamento. referir-se a África como o lugar da centralidade negro-af ricanadiaspórica. 93).Page 155----------------------I.and political experience of Solano Trindade (1908-1974). seja a experiência partir do século IX. from the experience of quilombos. práti ca e perspectiva que percebe os africanos como sujeitos e agentes de fenômenos atuando sobre sua própria imagem cultural e de acordo com seus próprios interesses humanos .

mento (2009. de 2004. Graduou-s e no Oklahoma Christian College. o historiador. 42). em l964. lingüista Pompée-Valen Há Théophile Obenga. Firmin. entre os quais estão: Maulana Karenga. de 2008. em l965. um retrato intelectual. Enciclopédia dos Estudos Negros. Um Manifesto Afrocentrico. como da abordagem afrocentrada recen (2009. Asante publicou 70 livros.Page 156----------------------holocausto da escravatura mercantil européia ainda enfatizam que: Uma missão te é desvelar e estudar essa produção. co-editado com Ama Mazama. Nascimento e Finch III e escamoteada por um Ocidente que se a Outra missão é levantar. Concluiu seu mestrado na Universidade Pepperdine. de 2010. estudar e artic das expressões atuais da matriz africa . na Geórgia. Já escreveu mais de 400 artigos e ensaios para revistas e livros. ―tratados e depoimentos elaborados desde o século XVIII por africanos subm etidos ao 48 Molefi Kete Asante (nascido em Valdosta. p. a Finch III e Elisa Larkin Nasci proposta do pensador estadunidense deve ser entendida como a continuidade de uma longa tradição de estudos realizados e língua inglesa que por autores africanos e diaspóricos d desenvolveram o que eles denominam de abordagem afrocentrada. agosto de 1942). tin (baron de haitianos Hannibal Anténor Price.asante. Considerado p or seus pares como um dos mais destacados estudiosos contemporâneos. 2010. por exemplo: o cie ntista e e intelectual senegalês classicista congolês os Cheikh intelectuais e Anta Diop. A História da África. Vastey). Acesso em: 14 ago. ular as bases teóricas e epistemológicas na de conhecimento.net/ biography/>. Louis-Joseph Janvier também uma série de entre outros. pp. negada utodenominou o único dono da ciência. Disponível: <http://www. Segundo Charles S. é professor do em 14 de Departamento de Estudos Afro-Americanos da Universidade de Temple. 155 ----------------------. de 2007. 38-9).

No Brasil. a obra Afrocentricidade: de 2009. e critica ao eurocentrismo. por meio de uma coletânea de textos sobre o tema. para postular a constituição de uma extensa rede de conexões entre o continente mãe e os diversos espaços de dispersão dos seus povos.a filosofia religiosa tradicional. Hilliard III Maulana Karenga. 40). W. de Maulana Karenga. o colonizador p. a Afrocentricidade começa a se firmar enquanto campo de estudos. ligado sempre antirracista. Abdias Nascimento. ia Maria da Silva Bonfim. a partir da obra Introdução aos Estudos Negros. 42). 2009. Nos Estados Unidos. da utilização de línguas e linguagens originais ou próprias para falar sobre as tradições ancestrais. Intelectuais e ativistas como Ama Mazana. Mekada Graham. Re iland Rabaka. p. Wade Finch III. da apropriação da língua e da linguagem d para melhor reagir a dominação. A afrocentricidade destes pensadores indaga os padrões de conhecime nto que o ocidente construiu sobre as histórias e as culturas africanas e diaspóricas. da ênfase na pluralidade do conhecimento. Vân Asa Bankole. Nobles. da através: da primazia anti-hegemônica do l Charles S. ugar (África). Mark Christian. Elisa comunitarista Larkin Nascimento nos apresenta. das suas ligações com a ―matriz da filosofia religiosa e as tradições ancest rais (NASCIMENTO. autores afrocentrados contemporâneos. uma uma abordagem série de epistemológica inovadora. A característica principal e o foco central dessas duas missões é a agência dos africanos na própria narrativa (2009. que pro põe aos eus afro-americanos sete princípios a celebração que denomina de da semana filosofia do Kwanzaa africa e s fundamentam o que ele na. Katherine G. do nacionalism o panafricanista. a luta do seu protagonismo antiescravista e resistente. .

deste diante conceito. não tendo indícios de quilombos na África. De forma simples. de o conceito de nossa de da afrocentricidade no Brasil.Page 157----------------------(NASCIMENTO. que não expre deve ser a quilombismo Essa história. 94). O quilombismo de Abdias Nascimento. tipicamente brasileira. É uma teoria política e social que se baseia na experiência histórica comu nal Comunalismo dos é uma experiência quilombos que. Afinal. II. mas a do 20 de novembro de 1695. legalizada ou não. Para enfatizar essa ―tradução optamos ssa a população história por trabalhar com experiência da negra no decorrer de 1500. embora tenha raízes na África. . dia em que as forças do colonial ismo branco assassinaram Zumbi dos Palmares. É uma categoria analíti ca que se baseia no processo histórico-cultural brasileiro das massas negro-africanas . 1822 ou de 1888. dessa busca inicial pela entre comp este e expor e problematizar de Solano as relações Trindade. 2009. p. o quilombismo pode ser entendido como toda estra tégia de sobrevivência física e mental. do conhecimento científico e filosófico. Abdias Nascimento e Oliveira Silveira. Estigma q ue visa apagar a memória do das realizações dos povos de origem africana. desenvolvida em beneficio da comunid saber.reensão procuraremos a produção Assim. como enfatiza o próprio A sante: ―Afrocentricidade povos africanos é a conscientização sobre a agência dos 156 ----------------------. O quilombismo contém uma proposta de desconstrução do estigma elaborado durante o processo histórico colonial em torno do legado negro-africano. um dos heróis negros da Diáspora.

O Teatro Experimental do Negro foi um projeto artístico. é toda e qualquer cultura de libertação que derive imediatam ente da experiência histórica dos africanos escravizados e seus descendentes. passando pelas religiões de movimento hip-hop.Page 158----------------------racismo brasileiro.ade de origem africana. d o que podemos classificar como a experiência e dramaturgia do quilombismo desenvolvi do pelo TEN. E f alar de Abdias Nascimento . O trabalho em questão visa trazer a luz do nosso conhecimento um po uco do protagonismo afro-brasileiro em busca da cidadania da população negra no Brasil. que buscava a valorização e afirmação do negro na sociedade brasileira. como também. o m . que perdura até hoje. rep resenta não só a busca através de uma da liberdade. Podemos dividir o protagonismo de Abdias Nascimento em dois moment os: o primeiro. a orientação existencial organização sócio-econômica igualitária e democrática de inspiração africana. dos matriz africana até o quilombos. quando expõe o racismo à brasileira. É quando Abdias Nascimento apresenta o negro como sujeito ativ o na formação da cultura nacional através do Teatro Experimental do Negro (TEN). Ou seja. um momento pedagógico de é falar um pouco desse histórico protagonismo estima da população negra e de conscientização da população branca para o problema do 157 ----------------------. Com efeito. O té a década de segundo momento 1980: corresponde ao período de 1968 a marcado por seu protagonismo internacional. ou melhor. social e político . no período elevação da autode 1944 até 1968.

de lutas antirracistas elaboração políticos. mas de embates. foi denunciando o primeiro o negro população negra. Os negros têm como projeto coletivo a ereção de uma sociedade fundada na justiça. fundada pelos destituídos e os deserdados deste país. na liberdade. no através esforço de auto-definição e na procura de seus caminhos como sujeitos protagonistas do s seus futuros.ito da ―democracia racial tas Estados genocídio Unidos. O autor acredita que o conhecimento científico que a população negra n ecessita é aquele que possa ca e consistente – experiências conhecimento de formular teoricamente – suas quase quinhentos que possa pela emancipação do anos negro de de forma opressão. perpetuada pela estrutura do racismo psicossocial-cultural que mantém atuando até os dias de hoje. uma soci edade cuja natureza intrínseca torne impossível a exploração econômica e o racis mo. proclamando mental eurocêntrico. físico e a teoria da mestiçagem nos congressos Pan-Africanis nos no Caribe e e mental da na África. na igualda de e no respeito a todos os seres humanos. É o momento não mais pedagógico. Abdias Nascimento escreve as seguintes palavras: negro tragou até a última gota os ven pelo escravismo. Cabe mais uma v ez insistir: não nos interessa uma enos da submissão imposta O a falência do colonialismo . sociais e econômicas as quais serviam unicamente para procra stinar (adiar) o advento de nossa emancipação total e definitiva que somente pod e vir com a transformação radical das estruturas vigentes. escritos o momento da sistematizar a busca ema de valores. Uma democracia autêntica. Abdias brasileiro a participar Nascimento do movimento Pan-Africanista. do seu sistemáti Um sist nacionais dos seus e internacionais. aos quais não interessa a simples restauração de tipos e formas calcadas de in stituições políticas.

Page 159----------------------Para a experiência Abdias Nascimento. Reinvenção de um caminho afro-brasileiro de vida fun dado em sua experiência histórica na utilização do conhecimento crític o e inventivo de suas instituições golpeados pelo colonialismo e o racism o. Uma teori a cientifica intimamente fundida à prática histórica da população negra. (NASCIMENTO. 1980. p. dentro de uma concepção de mundo e de existência na qual a ciência c onstitui uma entre outras vias do conhecimento. mas levando em con ta o que ainda for útil e positivo no acervo do passado. interpretá-la e tirar desse ato todas as lições teóricas e práticas conforme a perspectiva exclusiva dos interesses das massas negras e suas respectivas visões d e futuro. dialética propõe completa do ser humano. O quilombismo é descrito como a ciência do sangue e do suor que o escravizado derramou enquanto pés e mãos edificadores da economia do país. seria preciso codificar sistematizá-la. p. visando a salvação do povo negro. lombismo Abdias Nascimento se articula aos acredita cuja que a dinâmica interação do qui e as diversos níveis da vida segura a realização coletiva. Esta não é a solução que devemos aceitar como s e fora mandamento inelutável. va. o qual vem sendo sistematicamente exterminado: Assegurar condição humana das massas afro-brasileiras há tantos séculos tratadas e definidas de forma humilhante e opressi étnico do quilombismo. Ness e sentido. 262) . que ele chamou de ―edificação da ciência histórico-humanista do quilombismo . edades capitalistas e de 158 ----------------------. 1980. Enfim reconstruir no presente uma sociedade dirigida ao futuro. (NASCIMENTO. Deve-se assim compreender a subordinação do quilombismo ao conceito que define o ser humano como seu objeto e sujeito cientifico. do negro. é o fundamento .proposta de adaptação aos moldes de soci classes. 264).

Page 160----------------------Leopoldina. perdido nos seus desordenados apontamentos. O quilombismo de Solano Trindade (1908-1974). fazendo um poema. na Torna-se um freqüentador do Cinelândia. em 1941. em frente a Associação Brasileira de Imprensa (ABI) e Biblioteca Nacional. Trindade primeira vivenciou as metade do a no contexto dos primeiros v duras realidades poesia negro-africanas a dos parti mais século XX. tornando-se Foi um dos fundadores da Frente Negra de Perna preocupava o preconceito racial e com a ausência quase completa do elemento negro nas carreiras de ensino superior e de prestígio social. Abdias participa da Rut Experimental do Negro (TEN). No Rio de Janeiro. mbuco. do Teatro Ainda ao na década lado de de 1940. A terceira do Itá. bar O Vermelhinho. inte Solano na anos Nascido no Recife da pós-abolição. Como poeta e dramaturgo Solano Trindade se torna um pilar da cultu . pois se cultural. Solano começa r dos anos de 1930 e escrever e afro-brasileira um atuar como ativista político expressivos intelectuais negros de sua geração. h de Souza e outros artistas e intelectuais negros. denunciando as duras condições de trabalho e deslocamento dos operários da capital fundação da República. com o lançamento de suas poesias na Associação dos Empregados do Comércio. Nascimento. O Tre m Sujo da 159 ----------------------. Depois viaja numa terceira do Vapor Itapagé da Companhia Ita. Solano Trindade atua na vida cultural e política e chega a ser preso pelo Estado Novo por ter feito e publicado o poema de crítica social. Solano Trindade faz as suas despedidas do Recife.III.

Um de seus mais expressivos poemas. Zumbi morreu na guerra Eterno ele será Se negro está lutando Zumbi presente está Herói cheio de glória Eterno ele será À sombra da gameleira. foi musicado por seu ne to. 2008. um épico dos feitos palmarinos: Eu canto aos Palmares sem inveja de Virgílio. reqüentes em busca de Suas viagens pelo Brasil foram f inspiração e realizando apresentações sobre a cultura negra. eterno ele será. morreu pra libertar. Zumbi. Vitor da Trindade: Zumbi morreu na guerra. 165). Solano Trindade foi um dos precursores do quilombismo ao publicar na década de 1940 o poema Canto a Palmares. é justo e companheiro. p. de Homero e de Camões porque o meu canto é o grito de uma raça 160 ----------------------. Publicou livros de poesia o nde aparecem as tradições africanas e os heróis negros esquecidos da história do Brasil. Foi criador do Teatro Popular do Negro e do grupo Brasiliana que viajou para a Europa. a mais frondosa que há (TRINDADE.ra negra e da cidadania afro-brasileira.Page 161----------------------em plena luta pela liberdade! .

se ndo um dos fundadores do grupo Razão Negra. nem maltratar meu corpo.. O quilombismo de Oliveira Silveira (1941-2009) Oliveira Silveira.(. do grupo Semba Arte Negra e d a Associação Negra da Cultura. ovembro. for mado em Letras pela (UFRGS). que durante t odo o período da preconceito e República. minha musa esclarece as consciências. 23. da revista Tição.) O opressor não pôde fechar minha boca. p. 1981. da dia nascent 20 inicialmente em o mesmo era integrante de maior projeção. (TRINDADE. do discriminação racial no Brasil. nasceu em Rosário do Sul (RS) no ano de 1941. poeta e pesquisador gaúcho. professor. data política para o Brasil. IV. que adotava Zumbi de novembro de 1695) dos porta-voz no Palmares (assassinado como herói nacional. proposto do qual e com especialização em língua francesa. Foi professor de língua portuguesa na rede estadual do R io Grande do Sul e integrou o Conselho Nacional de Promoção da Igualdade Racial (CNPIR ) . o ficou conhecido 1971 nacionalmente pela defesa do dia 20 de N pelo Este extinto grupo foi Grupo Palmares. em busca da desconstrução do mito da liberdade concedida no dia 13 de maio de 1888 com a abolição da escravidão. da lutou pela denúncia da ação do racismo... Zumbi foi redimido. Oliveira Silveira participou também de vários outros grupos negros. meu poema é cantado através dos séculos.. Seria uma resposta negra. 28).

Page 162----------------------Nacional de Estudos Culturais abril de 2007. Esse último Tantãs (1981). feito entre 1972 e 1987. Oliveira Afro-Brasileiros. na UFPB. fala da significativa importância da imp rensa negra em prol da consolidação dos movimentos negros e suas lutas junto à opinião pública. demonstrando continente africano com os escritores bra intercâmbio e experiência de uma história comum. o poeta enfatiza a necessidade e a importância de se estabelecer um vínculo entre os interlocutores do sileiros. Roteiro ).da SEPPIR. (1974). Por fim. Entre Praça suas da obras dos destacam-se: Décima Sobre do Peão Negro Palavra (1976). Em ves Flores. na alma um pouco de banzo mas antes que ele me tome. Arnaldo Sucuma e Kywza Fidelis. explicita a sua verve quilombista. para o projeto Prolicen: Margens do Atlân tico: fontes para o estudo e o ensino em história da África contemporânea . durante o II Enc ontro 161 ----------------------. Poema Palmares (1987 poema. me sumo na noite da cor de minha pele. no sentido de reescrever uma nova história do Brasil a partir da visão negra: Nos pés tenho ainda correntes nas mãos ainda levo algemas e no pescoço gargalheira. me embrenho no mato . entrevista Alessandro concedida aos pesquisadores Elio Cha Amorim. quebro tudo. em Silveira explica a criação do Grupo Palmares.

encontro meus irmãos. regrido na floresta dos séculos.) Zumbi – nome gravado A lança 162 ----------------------... A sangue nos contrafortes da história.Page 163----------------------Nos contrafortes da serra. . quebrem os contrafortes e não se abalará tua glória.dos pelos do corpo.. a fibra na alma forte dos negros! Palmar ! (. estou salvo ! (. vôo nas asas negras da alma.) guarnecendo a memória dos teus bravos ! Palmar ! arranquem todas as palmeiras e mais se encravará a raiz dessa memória. do sangue. é Palmar..

Veja num lado história. limpe os pés. (. recue na linha do tempo. peça licença.Page 164----------------------nas veias caudalosas. deixe o sobrado. mergulhe no espaço geográfico. escute aí seu coração tambor e veja o sangue digno fluindo generoso 163 ----------------------. Pela selva fechada veio negro para quem o Palmar foi clareira No rastro uns dos outros vieram negros. noutro escória.) Para Palmares veio negro que não gemia nos açoites E pelo mato escuro veio negro que se escondeu na própria noite. mastigar pelas choças. cães acuados farejando o cheiro. Depois comece a contar.. . se deixe abocanhar por um quilombo. a casa-grande. Desde o alto da serra da Barriga Olhe rumo ao litoral.queimem a história toda e verão que és eterno ! Senhor historiador oficial.. meta-se no bucho do Palmar.

deuses jejes.. do senhor para si mesmo.) Em campos e cidades. (. João Cândido.. (. e houve fé. imprensa negra.) Falsificaram os livros de história. (. Calunga ficou no litoral mas o supremo Nzambi. 164 ----------------------. cerne Do tronco de mais quilombos. divindades da costa da Guiné.. Um tal negro Kamuanga nesta mesma Região dos Palmares.Page 165----------------------O quilombo do Cumbe – Paraíba. E ressurgiu adiante.. trocaram os heróis.E negro roubado a esmo do cativeiro para a liberdade... botaram máscara de carnaval . Cruz e Sousa emparedado. Solano e Abdias. todos chegram logo pra acompanhar seu povo. o amuado Calundu e o espírito bantu dos ancestrais.).. Rebouças.. Patrocínio. (. Em Luís Gama.) Frente Negra.

Quilombo de quilombola renascendo na seiva Sangrenta . ficamos sendo estas ruínas em auto-reconstrução. botaram fogo nos documentos do tráfico e do crime e então ficamos sendo os que não vieram. estrada longa abrindo seu próprio sulco e picadas rio longo cavando seu leito. A luta continua e é por isso que este poema é um quilombo. Mas a luta prossegue. 16 5 ----------------------.Page 166----------------------Quilombo de negro pobre e quiser que se acomode.nos fatos. quem quiser que se negue e se entregue...) Quilombo de negro negro. buscando uma foz. Quilombo com outro nome outra forma e mesma voz libertária do homem. ficamos sendo os que não são. (. Quilombo de negro hoje sem mato para refúgio.

para l de nossa história. 13-14. África na Solano Trindade e Oliveira Silveir perspectiva oposta ao racismo eurocêntrico.da história. (SILVEIRA. Ou seja. alinhado da Negritude e do Panaos princípios do movimento . não há duvidas que eles representem e retrat em a cultura de resistência física e mental do povo negro brasileiro. de instituições e valores fundamentais para a o. Dessa forma. visão eurocêntrica possibilitando uma interpretação negro-africana. 17). mostrando-a como lugar de civilização. 1987. eles romperam com o pensamento va África e a cultura afrotradicional que representa brasileira a partir de uma visão simplista baseada nos estereótipos racialistas. postulando representações e narrações a formação valorativas da presença do Brasil. humanidade histórica e. IV. a partir da experiência afrocentrada brasileira. Deixaram como herança para as fases posteriores do movimento negro a valorização e a busca do legado africano. p. 1-2. e que embora Sola no Trindade e Oliveira Silveira não utilizem a palavra. concomitante da cultura a iss n negro-africana Passaram a veicular que a única forma da população afro-brasileira se identificar e se reconhecer como tal era se aproximar de forma prática e simbólica da África ancestral e contemporân ea. O protagonismo dos três autores foi fundamental para a constituição pos terior de um movimento negro essencialmente uas contribuições para uma político e além afrocentrado. da dando as s tradiciona nova interpretação do Brasil. Considerações Finais a Abdias representaram a Nascimento. dif usos desde o século XIX e persistentes no regime republicano. a partir do que Abdias Nascimento chamou de quilombismo.

nov. uma voz sobre Huey afirma. apesar da esmagadora evidência contra ele. exibido em 13 nov. por aplicar a sua filosofia de paz para o terrorismo. dublada.com/2009/05/boonedocks-um-desenho-afrocentrado. separando-se de muitos membros de sua própria etnia. .html >. 2009. 2004 a maio 2005. 25 minutos. Sinopse: Martin Luther King Jr. Estados Unidos. primeira temporada. processos que associam dimensão da construção de uma unicidade negro-africana universal por de forma efetiva através de a e cultura e a política utilizar e na pro passa a se mecanismos jurídicos e políticos. Colorido. indicando que o episódio inteiro foi imaginário. Heder. Apoio: Rede Globo Nordeste. Sai de seus 32 anos em coma e é arrastado para um mundo muito diferente daquele que se lembra. Acesso em: 15 out. Patrocínio: Funcultura. [Documentário]. Produção de Aaron McGruder. GUEDES Aessandro e VIEIRA. Animação. 6 nov.blogspot. Prefeitura da Cidade do Recife.2008 . Produção: Alessandro Guedes e Helder Vieira. P&B. Disponível em: < http://aldeiagriot. McGRUDER.Page 167----------------------Africanismo. Abdias Nascimento: um afro-brasileiro no mundo. Aaron. exibido em 15 j an. Huey o motiva para reviver o Movimento dos Direitos Civis através da criação de uma Black Revolution Part y. Kelly. [Documentário] . 2005. Personas Produções. Arquivo Nacional e PUC-RJ. Disponível em: <http://aldeiagriot. Rodney Barnes e Brian J. 2006. Cowan. [Filme]. políticas públicas contra o racismo e para efetivação da c idadania plena da população negra. The Boondocks. Riley suporta Ke lly. Depois de ser condenado ao ostracismo e punido pelo mundo depois do 11 de setembro. Episódio 2.blogspot. Return of the King.html>. Brasil. Episódio 12. mas Huey está com a lei. Cores. 2005 a 19 mar. Solano Trindade: 100 anos. The Trial of R. Narração de Afonso Drummond. que defendem Ke lly. Acesso em: 15 out.com/2008/03/docum entrios-sobre-vida-deabdias. "It's fun to dream" ("Foi um sonho engraçado "). 22 minutos. colorida. No final do episódio. Sinopse: R. Kelly é levado à julgamento por ter urinado em uma garota menor de idade. Afonso. Produção de IPEAFRO. Secretária de Educação do Estado de Pernambuco. Documentário. 2009. Referências audiovisuais: DRUMMOND. Fundarpe. Rebel Base e Sony Pictures Television. 2006.166 ----------------------.

291-323. DOMINGUES. 25-26. ed. 24. 167 ----------------------. In: CONGRESSO INTERNACIONAL DA ABRALIC: TESSITURAS. In: Revista do Patrimônio Histórico e Artístico e Nacional. São Paulo: Selo Negro.OLAVO. Brasil. 2. 11. FERREIRA. Rio de Janeiro: N ova Fronteira. São Paulo. 2000. Entrevista Flores. NASCIMENTO. DOUXAMI. Salvador: EDUFBA/CEAO. O Brasil na mira do pan-africanista: o genocídio do negro bras ileiro. 1997. 2002. Molefi Kete.. O negro revoltado: escritos das décadas de 1950 e 1970. Documentário. Anais. Rio de Ja neiro: Nova Fronteira. a realidade de um sonho sem som. 95 minutos. 1982. Chistine. 2009. Afrocentricidade: uma abordagem epistemológica inovadora. p. Alessandro Amorim. Rio d e Janeiro: Pallas. SEMOG. [Filme. 313-363. Afrocentricidade: notas sobre uma posição disciplinar. n. 1980. In: NASC IMENTO. de Solano Trindade. aos pesquisadores Elio Chaves "C . A nova abolição. Elisa Larkin (org. São Paulo: USP. ed. Teatro Experimental do Negro. 2008. Global: São Paulo. 71-81. 93-110. Abdias. Selo Negro: São Paulo. SILVEIRA. Produção da Portf olium. 2008. p. CONVERGÊNCIAS.. [FOTOCOPIADO]. Elio. construção de identidades e utopia em anto dos Palmares". NASCIMENTO. 2007 . p. Petrônio. pp. 2006. O negro no mundo dos brancos. Colorido. Moema Parente. p. INTERAÇÕES. (Sankofa: matrizes africanas da cultura brasileira. Florestan.). Petrópolis: Voz es. Teatro Negro: Afro-Ásia. Abdias. 4). 2008. Antonio. ______. n. FERNANDES.Page 168----------------------Referências Bibliográficas: ASANTE. Joel Rufino dos Santos. Sitiado em Lagos: Autodefesa de um negro acusado pelo racismo. AUGEL. In: Afro-As ia. Oliveira. 1981. Abdias Nascimento : o griot e as muralhas. O Quilombismo: documentos de uma militância pan-africanista. ______. ______. Org. Abdias Nascimento: memória negra. ______. 2. 2001. Ele. Digital]. 2008. A fala identitária: teatro afro-brasileiro hoje. Memória.

Décima do peão negro.DF: MEC / INEP. observando a influência do Iluminismo na ad ministração do Maranhão setecentista. p. com o objetivo de compreender os mecanismos . ______. Seleção e introdução de Zenir Campos Reis.). Porto Alegre: Edição do Autor. Poema sobre Palmares. Este artigo tem por objeto de estudo as cartas administrativas de Joaquim de Melo e Póvoas.Arnaldo Sucuma e Kywza Fidelis. ______. Florentina. Poemas antológicos. Valter Roberto. que buscava inserir Portugal no ritmo do progresso iluminis ta do norte da Europa. In: SILVA. (Orgs.Page 169----------------------SOUZA. In: Afro-Ás ia. governador da capitania do Maranhão e s eu tio. A metodologia utilizada é a análise do discurso presente nas cartas. TRINDADE. II Encontro Nacional Culturais Afro-Brasileiros. ______. Petron ilha B. 21-42. Cantares ao meu povo.  31. LABORHIS (Laboratório de História). Brasília . Porto Alegre: Edição do Autor. Seis tempos poesia. 277-293. São Paulo: H. 169 ----------------------. Vinte de novembro: história e conteúdo. 1958. 1981. Abril de 2007. ______. Educação e ações afirmativas: entre a injustiça simbólica a injustiça econômica. 1974. Gonçalves da e SILVÉRIO. sobre a administração das terras americanas. São Paulo: Nova Alexandria. ______. João Pessoa. Praça da palavra. 1981. N. São Paulo: Brasiliense. Mello.Page 170----------------------“POVOS INDUSTRIOSOS”: O PROGRESSO ILUMINISTA DA ADMINISTRAÇÃO POMBALINA NO MARANHÃO49 Nivaldo Germano dos Santos50 Resumo Durante a segunda metade do século XVIII o Estado do Maranhão foi u m alvo privilegiado das Reformas Pombalinas. Porto Alegre: Edição do Autor. ______. 2008. Porto Alegre: Edição do Autor. 1976. 2004. 168 ----------------------. Solano. especialmente a Inglaterra. Poemas. Solano Trindade e a produção literária afro-brasileira. 2003. O Maranhão se tornou um dos principais fornecedores de algodão para a Revolução Industrial inglesa. 1987. de Estudos ______. Roteiro dos tantãs. pp. o Marquês de Pombal.

e resultados da política pombalina tecida entre o Maranhão e o Império Português. o Reino e outras erão exploradas as dinâmicas partes trabalho administrativas do governo de Joaquim de Melo e Póvoas (1761-1779). à inflexão ocorrida política pombalina com a implantação da Companhia de Comércio. PODER. Administration. Palavras – chave: Iluminismo. the Marquis o f Pombal. Keywords: Enlightenment. 50 Graduando em História Licenciatura pela Universidade Federal do Maranhão. definido a partir das relações at lânticas. Maranhão became a major supplier of cotton to England at the Industrial Revolution process. who sought insert Portugal in the pace of enlightened progress f rom northern Europe. A partir disso. concerning the administration of American lands. SOCIABILIDADES NO MARANHÃO COLÔNIA. sobrinho e dos povos habitantes da região construído pelo gove 49 Este de trabalho é um dos resultados da bolsa de iniciação científica em História. in order to understand the mechanisms and results of Pombal‘s policy woven betwe en Maranhão and Portuguese Empire. Maranhão Colony Introdução A orte temporal segunda metade tradicional nos do século XVIII devido se tornou um rec na estudos históricos sobre o economia por ocasião da Maranhão. noting the influence of the Enlightenment in eighteenth-century adminis tration of Maranhão. entre o de relacionamentos ultramarinas. a saber: o red irecionamento da produção agrícola e do comércio. especially England. governor of the Captaincy of Maranhão and his uncle. Antonia Mota. se procederá à contextualização de tais processo s com o discurso sobre o ―perfil rnador. Abstract During the second half of the eighteenth century the State o f Maranhão was a prime target of Pombal‘s Reforms. Administração. Maranhão Colônia. A partir desse contexto f orjouse uma onômicos ampla e complexa rede no atlântico. bolsista de Iniciação . políticos Neste e ec s Maranhão. sob orientação da professora Drª. This article intends to study the administrative letters from Joaquim de Melo e Póvoas. defined from atlantics relationships. a migração de pessoas das ilhas atlânticas para o Maranhã o enriquecimento da região. The methodology used is di scourse analysis of letters. no p rojeto de pesquisa FAMÍLIA.

p. Contato: ngermano_s@yahoo. a com uma o qual série aos mantinha de intensas no relações aparelh Sebastião José o administrativo principalmente inos. com capital em Belém. região cujos li indefinidos até o Tratado dos Limites. um governante ilustrado e audacioso. D. Em busca de potencializar o Reino Por tuguês no mesmo ritmo que a diplomáticas Inglaterra. Luís de Melo e Silva. sobretudo. Com a morte do rei e a ascensão do príncipe D. José Carvalhal de Lancaster e o plenipotenciário de Portugal . 1 Este tratado havia sido realizado no final do reinado de D. (MARQUES. [. deu início lusitano. como se sabe.Page 171----------------------preposto administrativo do Secretário de Estado dos Negócios do Reino e ministro ple nipotenciário português.com.Fundação de Amparo ientífico e Tecnológico do Maranhão. João V.] ratificado em Lisboa a 26 de janeiro do mesmo ano 970. posto reformas domínios os que estavam que a riqueza da ligados ultramar Metrópole originava-se nas colônias da Ásia. Sebastião José de Carvalho e Melo (1751-1777).. das Durante possessões as Reformas portuguesas Pombalinas a administração setentrionais na América passou por grandes mudanças na segunda metade do século XVIII .Científica FAPEMA . Este Secretário de Estado era. devido os mites territoriais interesses estavam régios pela área amazônica. entre o ministro da Espanha.. da África e. país e comerciais. 339). ―concluído em Madri no dia 16 de janeiro de 175 0.br 170 à Pesquisa ao Desenvolvimento C ----------------------. com a extinção do Estado do Maranhão e a criação do Estado do Grão-Pará e Maranhão. este nomeou o ex-embaixador de Portu gal em Londres. José I ao trono português em 1750. tornando-o ministro plenipotenciário. D. Depois foi elevando ao título . para a Secretaria de Estado dos Negócios d o Reino. Sebastião José de Carvalho e Melo. da América.

tenha uma (governador que notável embora governante foi Melo e Póvoas.com. Disponível em: http://www. p. 171 ----------------------. a saber: seu meio irmão Francisco Xavier de Mendonça Furtado (governado r e capitão-general do Grão-Pará de Melo e Póvoas e Maranhão. devido Companhia de Comércio e no aumento dos povos (SANTOS. influenciou o Marquês de FRANCO. Destes três.Page 172----------------------promovida É interessante ainda pela Coroa. a partir do projeto mais amplo da professora Drª Antonia da Silva Mota.br/coloquio/3_coloquio_outubro/paginas/12. José Eduardo. tornou seu governo do Maranhão ua eficiência na gerência da no Reino. Lisboa. 1755-1761 1779). Analiso a relação posta entre os laços co nsanguíneos e os benefícios familiares conseguidos por causa da intervenção direta daqu ela parentela na administração dos Negócios do Reino. idéias.52 enviando três aparentados para go vernar o GrãoPará e Maranhão. 185).realgabinete. 51 Esta referência carece de informações.51 Sebastião José privilegiou sua família. Grão-Pará. Quem Pombal? Ideólogos. e do do seu sobrinho Joaquim 17611763-177 orige à s (governador do Rio Negro.htm 52 A família de Sebastião José de Carvalho e Melo constitui meu objeto de pesquisa. 2008. a partir da ótica racionalista do pr ogresso iluminista do qual era adepto. 1751-1759). ____. a fim de estimular a colonização e dar suporte ao . um fim de vida obscura. a Marquês de Pombal em outras Para dar cumprimento ao tarefas relacionadas ao Tratado dos Limites e desenvolvimento da região. e seu sobrinho distante Fernando da Costa de Ataíde 2).de 1770. o mais ativo m e Teive Maranhão. mitos e a utopia da Europa do Progresso . ao ressaltar a política de povoamento patrocinar a viagem de milhares de pessoas em famílias de outras partes dos domínios ultramarinos para a região setentrional da América portuguesa.

seu tio subordinad Xavier Francisco carta patente assinada pelo rei. todos os A partir disso. sobretudo porque da ligação estabelecida entre o M aranhão e a Inglaterra. 1970. por conta do algodão produzido na região que era exportado para a ferv ente Revolução Industrial têxtil inglesa. 343). p. do que é evidência a famosa carta escrita por Pombal a Melo e Póvoas quando da sua posse na C apitania do Maranhão em 1761. africanos e nativos. Póvoas na Corte 185). para que ―se instruísse no gênio dos povos e em um breve método de gover nar . governado pelo capitão de Mendonça Furtado. entretanto são absolutamente desconhecidos (SANTOS. Os feitos de Melo e 08. constitui a notoriedade um aspecto Póvoas na Secretaria dos Negócios importante da administração pombalina no Maranhão setecentista. 20 segundo César Marques. (1759-1761). consta que a nomeação era um bem em atendimento à ―qual idade. É certo que o parentesco com o Marquês de Pombal lh de uma carreira governativa propiciou elevação social e construção no Maranhão.desenvolvimento da economia construída por Melo e amazônica. e foi nomeado por El-Rey D. a Melo e Póvoas governar administrar aquele povo gerados com a Companhia que se formava a como também partir da mistura social e étnica entre europeus. Na Rio e Negro general. coube processos econômicos de Comércio. O governador o dos Joaquim de Melo Negócios do Reino. do Nesse Reino contexto. e Póvoas era sobrinho do Secretári Sebastião José de Carvalho e Melo. José I em 14 de julho d e 1757 para governador da Capitania do o ao Estado do Grão-Pará Maranhão. seu governo no Maranhão foi ―criador e deixou prova s de seu zelo e dedicação e (MARQUES. merecimentos e serviços que concorrem na pessoa de Joaquim de Melo e Póv oas . p.

34 . o governador participou ao Secretário de Es tado da Marinha e Ultramar. Mello e a excomun Póvoas foi contrariassem nos negócios alertado pelo rei. Francisco Martins da Silva pelo s erviço que teve na 172 ----------------------. Católica. São Bento de Balsas. De igual modo. 285). 1970. A ldeias Altas. posto que cada qual estava interessado em tirar o maior lucro possível dos índios.53 No q religiosos e diretores das vilas que pertenciam aos jesuítas. Alcântara. indo a Icatu.(MARQUES. A situação só veio a se resolver quando da publicação da Lei de 18 de jan eiro de 1765. 1970. contornar as querelas e disputas ocorridas entre religios os e os diretores das vilas dos índios resgatados da dominação jesuíta na região e a ainda empreendeu várias v iagens pelo interior da capitania. o pagamento de duzentos e quarenta mil réis ao ouvidor-geral da capitania. 2009. a Igreja Contudo. Com as diversas viagens padres (MARQUES. ―a experiência no governo do Rio Negro e a convivência com seu tio Mendonça Furtado deram-lhe base de conhecimentos administrat ivos para fazer grandes obras no Maranhão. Brejo e Tutóia. p. p. para maior castigo que tinha com aqueles que os dos que índios. onde ficou famoso (CARVALHO. 341). p. para ―vigiasse cuidadosamente o governador e continuasse a dar conta dos padres revol tosos inimigos comuns do Estado . Guimarães. Com a expulsão dos jesuítas.Page 173----------------------administração do sequestro dos bens ue se refere às brigas entre dos padres inacianos. para penalização dos 4). 14). seu tio Francisco Xavier de Mendonça Furtado. 2001. p. Mello e Póvoas teve que enfrentar a oposição d o então bispo do Maranhão54. João Rodrigues Covette (MOTA. Póvoas soube administrar com desenvoltura o sequestro aos bens dos jesuítas quando da sua expulsão em 1759. que apoiou os padres que usavam do hão.

empreendidas pelo interior. às margen s do rio desse nome em São Luís. p. arroz. 35.58 nhão. Cx. Mello e Póvoas sempre se preocupou quando das faltas de dinheiro55 na capi tania para sua boa administração e também se alegrava com os resultados positivos que obtinha como é o caso da boa arrecadação da Real Fazenda56 e larga produção de algodão. Mara importantes do governo de Melo e Póvoas: Datam de então a instalação de uma fábrica de anil. por iniciativa 53 Arquivo Histórico Ultramarino . .Projeto Resgate – AHU_ACL_CU_009. 58 Retratos do Maranhão Colonial. 392 6. n a região de Guimarães. E o empenho e progresso do seu governo fez com que reivindicasse concedeu ao o rei a separação privilégio do Maranhão do Grão-Pará. Mearim. 55 Retratos do Maranhão Colonial. D. aponta acontecimentos em sua História do autônomo. D. 49 e 67. Cx. 40. sola e demais produtos da terra. E Arquivo Histórico Ultramarino . 2007). 44. pelo amor que ti nha pela lavoura. 42. Mario Martins Meireles. o qual reivindicado. 2009: p. 56 Arquivo Histórico Ultramarino . 2009: p. além de procurar estimular os lavradores nos tempos difíceis. anil. a introdução na ca pitania. buscava o progresso da agricultura. segundo César Marques. devido às amplas reformas empreendidas pelo seu tio Mar quês de Pombal no reino português (MOTA. 479 8 57 Retratos do Maranhão Colonial. o governo de Mello e Póvo as corresponde à fase de prosperidade econômica pela qual o Maranhão passou na segunda metade do século XVIII com a Companhia de Comércio. Itapecuru. 46. Cx. 2009: p.Projeto Resgate – AHU_ACL_CU_009. 84. Munim e. 41. 197. constituindo o Maranhão e Piauí um estado a frente do qual estava empossado Joaquim de Mello como governador e capitão-general em 1775. 2006). que tinham grande entrada na Europa. 54 Retratos do Maranhão Colonial. sobretudo. D 4124. principal negociante com a Companhia de Comércio na região (MOTA. onde estava situada a possessão de Lourenço Belfort e sua família. 49. que fez importar de Lisboa.57 Assim.Projeto Resgate – AHU_ACL_CU_009.

negá-la ou inverter a visão que se tem sobre o governador Melo e Póvoas. e por outro da forma como con duziu a geração de riquezas no Maranhão.. 2008. pondo em evidência os interesses particulares no sucesso da administração colonial no Maranhão. e Póvoas como um historiografia aponta Melo excelente administrador colonial. gos de poder tecidos naquele mas buscar compreender para os jo percebe qu daquel engenhar contexto. políticoem vista de compreender a administrativo. pelo tenente-coro de uma fábrica de soque de arroz. confrontar essa interpretação com a documentação disponível60 a época é elementar para efetivação desse ia do processo exame histórico. rep em iniciar as de São Marcos Alcântara.. 153) que a e de São Seb arar a de São Francisco.173 ----------------------.] No to capitania. Isto aponta para além de uma mera competência ou zelo gov ernativo.59 administrador d Carvalho. investigação que se torna r a dinâmica sócio-econômica fundamental desenvolvida na colônia. Todavia. por um lado por ser um preposto da política pomb alina e do seu projeto racionalista ilustrado desenvolvimentista. do da Silva. Para tanto. esta última Observa-se a partir dessas citações. tal acepção historiográfica pode soar romântica na medida e m que não é submetida a um exame crítico. da arroz ‗de Carolina‘ e a fundação. [. p. fez construir a fortaleza de São Miguel onde fora a de São Felipe. (MEIRELES.Page 174----------------------a nel cante à Companhia José defesa Geral de de João Vieira Comércio. de modo mais verticalizado do e tem sido exposto. sobretudo se observado o ―lucro a partir da obtido pelo governador e sua família ingerência daquela economia.61 Aqui nos processos deteremos apenas no político-econômicos discurso do governador sobre os adiante elencados em relativo confronto com outras opiniões contemporâneas ou muito . e astião. Não se quer com isso.

pp. Dinâmicas político-econômicas A economia. mecanismo forma. passou a girar tação em torno do da Companhia voltada majoritariamente para o comércio interno monopolista forjado pela implan eixo comercial Geral de Comércio do Grão-Pará e Maranhão em 1755. sem com e subsistência. com objetivos muito claros: giro comercial da empresa pombalina possibilidades mundiais de expansão. pertencentes ao Arquivo Históri co Ultramarino (Projeto Resgate) e ao Arquivo Público do Maranhão (Retratos do Maranhão Colonial). madeira. 174 ----------------------. a agro-exportação entre o Maranhão. antes e regional. Ver ratos do Maranhão Colonial. adiante elencados. etc. 60 Constitui-se de correspondências administrativas.Page 175----------------------ultramarinas. sola. do algodão. coleta das drogas se tornou um do e isso a excluir etc. Com a organização das frotas levou a Portugal novas O . fundamental o Reino comércio atlântico outras partes realizado 59 Mário Meireles chamou-o de ―João . conforme consta em map as de cargas de mercadorias enviadas para o Reino. durante o governo de Mendonça F urtado. 61 Isto constitui o objeto de pesquisa central de que este trabalho é apenas um d os resultados. 321. Os Em principais produtos níveis menores exportados eram o arroz e também eram comercializados anil. a pecuária. Desta a já existente economia d do sertão. seda.próximas de sua governação. mas a documentação aponta que seu nome era ―José . A Companhia havia sido criada a partir da fusão de interesses dos homens locais e da Coroa. reposicionando o Maranhão no cenário mercantil do atlântico português. do arroz e dos demais produtos oriundos das capitanias do nor te do Brasil despertaram a avidez do mercantilismo rapinante. As frotas de cacau . o algodão. 222.

[. mas sobretudo de civis se intensificou: seja do Reino. das Flores. a fim de est portuguesa desviou inúmeros presos condenados a degredo na Índia para o Estado do Maranhão. 1970.] A exploração econômica das regiões coloniais com o resguardo do domínio político do trono e segurança das rotas de comércio. a Coroa estimu lou cada vez mais acentuadamente a ocupação efetiva das novas terras. o Atlântico afro-brasileiro tornou-se uma das presas m ais ambicionadas da Europa. pp. ma . Demonstrada a alta rentabilidade do empreendimento ultramarino com a empresa colonizadora assente no arroteamento das capitania s do Pará e Maranhão e no giro comercial da Companhia. próximo ao rio Mutuacá: a função desta cidade era fazer fronteira e proteger a região do Cabo Norte com a Guiana. isso dentro da política de demarcação dos territórios setentrionais da América portuguesa. permitindo acompanhamento das suas famílias.62 Segundo a documentação do período sobre os degredos para o Maranhão e patrocínio de viagens de família s. Francisco Xavier. 11. ou do Estado do Brasil para o norte da América portuguesa. conforme consta em Decreto de 7 de ma io de 1751. a Praça de Mazagão foi desmontada. 64 Há no Marrocos. São Jorge e Ilha Terceira.de Belém e de São Luís. Mazagão. com o argumento de que a falta de moradores na região prejudicava o seu cresciment o. missão para a qual o rei José I nom eou o irmão do Marquês de Pombal. a Coroa econômica. com o firme propósito de evitar que a rica presa colonial caísse na teia armada pelas gran des potências sequiosas por instalar núcleos de exploração mercantil com objetivos militares. Em 1769.63 Naquele período. vieram nessa onda migratória projetada pela Coroa cerca de 1100 pessoas para o Maranhão.. como de militares e religiosos. 12) somente seria possível imular Nesse período de inflexão a colonização. q todas aquelas construída na famílias região correspondente ao atual estado do Amapá. O transferir ue seria ainda o caso plano era das famílias para da a Nova Praça de Mazagão.. tanto o movimento de degredados. Mad eira. (DIAS. das ilhas atlânticas dos Açores.

Destaque-se. realidade durante a segunda que segundo aponta que uma amostra essa era obt uma metade dos setecentos: 25 testadores homens declararam ser naturais do Reino ou de outras partes dos domínios portugueses. 148). p.Projeto Resgate – AHU_ACL_CU_00 9. gestada durante a maior parte do seu tempo de vida por Melo e Póvoas. 112). sob o título ―Família e colonização na rota do progresso . ―natural da . Cx. mulheres e crianças. 2006. as migrações voluntárias . e dos que chegaram a Belém. Sab mazaganistas foi marcada pela ação administrativa da família do Marquês de Pombal no Mar rocos. 32. Cx. Cx. 1970. a Companhia de Comércio (1755-1777). segundo análise de Renata Malcher de Araújo (1998). 32. Um deles. 32. D 3310 / – AHU_ACL_CU_009. trouxe para o Maranhão cerca de 12 000 afric anos para serem escravizados. além dos militares (DIAS. D 3385. De igual modo. além disso.s nem 62 Arquivo Histórico Ultramarino .Page 176----------------------todos os mazaganistas saíram de Lisboa rumo ao Grão-Pará. cujo texto está sendo melhorado para publicação 175 ----------------------. 2010. 64 Trabalhei esta questão em trabalho apresentado no evento regional da ANPUH-MA e m 2010. número que aumentou para 35 mil até o fim do século XVIII e 48 mil já no início do século XIX (MOTA. p. Manuel Nunes Dias nos apresenta um mapa da população estimada que -Pará. D 3264 .Projeto Resgate – AHU_ACL_CU_009. p. de iniciativa e custeio particular. nas quais estavam distribuídas 1642 pessoas: homens. Cx. José de Souza Lima. 34. mu itos não foram levados para Nova e-se que a história dos Mazagão (MARTINS. Os números finais foi transferida de Mazagão para o Grão apontam 388 famílias. 108). D 3273 / – AHU_ACL_CU_009. o ida a partir dos 79 testamentos compilados no livro Cripto Maranhenses. falecido em 1798. 63 Arquivo Histórico Ultramarino .

as fortunas familiares locais ganharam expressividade: veja-se ort. Com novas possibilidades administrativas e econômicas.Page 177----------------------Mendonça Furtado. José de Lima fez um breve comentário sobre sua condição: há muito tempo tinha deixado sua família no Reino e se deslocado para o Maranhão. declarou ser casado com Anna Francisca. como visíveis os Jansen 65 Cripto Maranhenses. ―vindo para estas terras foi com o sentido em ver se podia alcançar algum aumento para melhor puder passar junto com ela (esposa) e com os filhos. da efervescência Correia de Lucena. Outras econômico econômico.Villa de Sam Miguel Freguesia de Nossa Senhora das Neves termo da cidade de Ponte Delgado . na segunda metade dos setecentos. havia ainda casos de estrangeiros não portugueses que migraram para a região. 176 ----------------------. não menos local. 1998). Antes de passar aos bens que o Senhor lhe fez mercê na terra do Maran hão. Além disso. com a qual teve cinco fi lhos. migrou Desta da família Belf voluntariamente par família e da riqu metade do século XVIII (MOTA. eza construída com a agro- exportação de arroz e algodão. onde construíram famílias e fortunas. dos quais um já não vivia. p. oriunda da mesma cidade. esta com vínculos ascendentes com o Marquês de Pombal e seus prepost . o exemplo que 2008). 2007). descendente do irlandês naturalizado português. 335. da economia até mas meados do século segui na famílias de menor poder quela sociedade também desfrutaram Müller.65 A breve história que se pode visualizar sobre a vida de José de Lima é um indício do que s e tornou corriqueiro na colônia: migrar em busca de riquezas (FARIA. nasceram várias outras famílias que nte prolongaram seu poder (MOTA. Lourenço a a região na primeira Belfort.

cujo da ambição e relaxação das virtudes. 1970. apr esentou uma contradição algumas linhas à frente quando afirmou que Melo e Póvoas deveria saber e scolher bem sua família que havia de acompanhá-lo. ―principalmente para a América. Se a (MARQUES. 1996. Tudo isso contribuiu para que a população do Estado do Maranhão oas civis no ano de 1777 atingisse a marca de 47 410 pess conforme consta em ofício de 7 de maio de 1778 do governador Melo e Póvoas para o Se cretário da Marinha e Ultramar Martinho de Melo e Castro.os na colônia ou dos (COUTINHO. como sócio (MAXWELL. para que ―se instruísse no gênio dos povos e em um breve método de governar argumentou que ―o povo que V. O próprio Pombal particip Companhia de Comércio.66 Este número avultad o de pessoas habitantes no Maranhão. p. porque o país i nflui. o gov erno delas. em quase ente da todos o espírito caridade. aos seus gen o que se pensou sobre essas pessoas co circunstâncias é certo que há de amar a um general prudente. é certo que se colocou em evidência que os habitantes da América eram. ministros: com estas fiel a El-Rey. 82). O “perfil” dos povos americanos Quando Sebastião José de Carvalho e Melo escreveu ao sobrin ho. mas ambiciosos e relaxados vícios. lucros gerados 2005. 158). Excia. Em suas Letras dirigidas às Secretarias de Estado . obedientes e fieis. ao mesmo tempo. ou mais especificamente. nstitui o cerne deste artigo. modesto e civil . Estes aspectos nas virtudes põem em cristãs. erais e vai governar é obediente. 342). pela p. contradição estava na fala do Marquês ou no caráter suposto dos povos americanos. morm desprezo abre a porta para outros muitos males e vícios p. cheios de males e evidência a complexidade em que se dão as sociabilidades humanas e mais ainda. afável.

D 5014 . quanto os gêneros do país qu e habitam são estimáveis. p. nativos e africanos escravizados e a geração esperada de riqu ezas são objetos centrais em toda a correspondência mantida entre os dois lados do Atlântico. porque também estes 66 Arquivo Histórico Ultramarino . o um mapa da Secretaria de Estado d de toda a carga t governador deveria enviar anualmente ransportada do Maranhão para Lisboa. dos progres sos que fazem a agricultura. o trabalho dos europeus.Projeto Resgate – AHU_ACL_CU_009. para que se tivesse um ―cabal conhecimento. ação governativa: No conjunto documental de num primeiro momento uma variação na e Póvoas esteve empenhado em fortalecer o poder régio frente ao poder eclesiástico sobre as tribos i ndígenas. sua liberdade. como já citado. . evangelização e seu trabalho. 44. Melo e Póvoas fez inúmeras considerações sobre o povo a que veio go vernar e sobre o que que dispomos. 52. e felizes. quando os resultados da Companhia de Comércio já se manifestavam entre a população.Page 178----------------------pontos eram do maior interesse da Coroa.. ―[. qualidade e quantidade de produtos exportados do Maran hão: atanados. à vista das exportações. visível Melo estava é em formação. e preciosos. por Determinação69 do Reino. data início d a documentação aqui analisada. sobretudo a partir de 1770. 177 ----------------------. Cx. 67 Retratos do Maranhão Colonial. e da Marinha de Ultramar.70 Estes gêneros constavam nos mapas de cargas exigidos. e o comércio nesta capitania .67 Nesse sen tido. passando a ser este o motivo de maior preocupação do governador.] de sorte que es ses povos confiados ao cuidado de Vossa Mercê possam ser tão opulentos..68 os Negócios Naquele ano. Depois das tensões razoavelmente amenizadas s eu governo se fortaleceu. que apresentavam a variedade.dos Negócios do Reino.

e que estava sendo impedido de se transpo rtar internamente era fundamental para se fabricar não apenas as sacas para transporte do algodão e do arroz para exportação. goma copal. ―geração misturada (mulatos e mestiços). em cinco classes: filhos do rein o (europeus ligados à administração). o poderia que ser feito de uma única vez prejudicaria a capitania. baunilha. só havia três tipos de gente: quando reclamou para a Secretaria de Estad o da Marinha e Ultramar sobre a atuação dos então novos administradores da Companhia de Comércio. óleo de copaíba. sola. 1970. arroz. cacau. obtendo deles ―bastante adiantamento . nacionais (descendentes de europeus. que era muito pouco perto do que se exportava. de Melo e Póvoas Em resposta àquela determinação. alego u que os mesmos punham impedimentos aos lavradores e comerciantes no trato de seus negóc ios. 115-122) se que esta classificação social do Maranhão colonial seguia à risca o nível de relacionam ento com a e origem fez étnica das pessoas.71 De outra vez a 68 Compilação feita pelo Arquivo Público do Estado do Maranhão. Percebe(GAIOSO. gengibre. Joaqu argumentava que ―com o maior desvelo me interesso no aumento destes povos licidade dos ais já que a fe mesmos estava na cultura das terras e no comércio. como também para produção do vestuário dos índios e dos escravos. já que o e transporte na forma de de algodão só dízimos. trabalhos para os qu o governador os incitava a aplicarem-se. os 90% do algodão que ficava na co lônia. Para diferença entre seus o governador que também sempr governados. pedra-um e e tartarugas para im fabricação de caixas. negros (africanos escravizados e forros) e índios – ―habi tantes de um país que antigamente pertencia aos seus antepassados . Segundo o governador.algodão. moradores da r egião). pp. no livro ―Retratos do Mar . Póvoas eram Os povos que discriminados conviviam sob a governação de Melo e claramente em vários ―tipos sociais : segundo Gaioso.

a fim de facilitar a leitura de quem não conhece as formas arcaicas da Língua Portuguesa. 178 ----------------------. Em outras palavras. 41. [. p. confirma-s e o resultado apontado por Gaioso. que vos empregareis com todo o acerto em tão meritória e necessária obra. p. diante da Coroa esta mples categoria que Melo e Póvoas sempre empregou na maioria boa. prudência e zelo do s erviço de Deus e meu. do ponto de vista administrativo e dos progressos q ue interessavam aos governantes metropolitanos. assim como no sentido com uma à dirigidas inverso.anhão Colonial em 2009. os europeus. ou sejam europeus ou americanos. 69 Retratos do Maranhão Colonial. que em nome do rei D. 236. (Grifo meu) 72 . 71 Retratos do Maranhão. embora naquela distinção de suas fossem era distintos mascarada Letras e fossem si Lis sociedade. . autorizava a instituição d a Junta de Justiça no Maranhão: qual sejam sentenciados todos os réus [e] por eles mereçam. mas até a última. No cálculo final das posições e combinações possíveis. 70 Optei por atualizar completamente a grafia transcrita pelo Arquivo Público do Maranhão. ou ainda africanos livres ou escravos. tratados É evidente distintamente que. Quando se ... os nativos e o s africanos eram todos colocados na mesma categoria: ―povos . José I.Page 179----------------------própria Secretaria do Ultramar. e se apartem os maus dos seus per versos costumes. mas não Para eram a Secretaria os mesmos também só havia três tipos sociais Na elencados pelo governador. que cometerem delitos.] E sentenciar os réus de tão abomináveis crimes. instrução. inclusive ao governador. aos quais sempre assim se re feriam. confiando das vossas boas qualidades. para que cresçam em virtude os bons. não só as penas arbitrárias.

Para o caso dos homens europeus e ―nacionais . que estavam ligados n a sua maioria à lavoura. pela falta de dinheiro que se fazia sentir na Capita nia. 282. o governador salienta que ―a lavoura há de ter grande adiantamento. Melo e Póvoas sempre demonstrou um zelo particular. 179 ----------------------. p.tratava de cada um em particular. os nativos em geral trabalhavam nas fábricas (de anil. como já citado. desempenhavam seu papel na produção agríco comércio. algodão. com o abandono da cult ura do arroz pela maior parte dos lavradores. pois vejo estes povos muito inclinados a ela . além de impe dir o comércio interno Sem dinheiro no independente Caixa da dos homens locais. . 73 Como citado anter iormente. Em 1775. que direcionav a uma grande produção para a Europa a custos baixos: a Companhia comprava toda a produção. algodão. apenas interessava o resultado dos trabalhos dos habitantes da América: os c olonos. destinada à Secretaria da Marinha e Ultramar. A capitalização 72 Retratos do Maranhão. 73 Retratos do Maranhão. Melo e Póvoas se dedicou a várias viagens fim de estimular os lavradores pelo interior da capitania a quando de um período de baixa nos preços do arroz e do algodão e consequente lucro red uzido ou quase nulo. ou ainda os barcos . arroz) e os escravos eram os braços que movimentavam as plantações de arroz. 126. p. esta questão se tornou mais clara.Page 180----------------------de recursos se fazia a partir do comércio monopolista da Companhia.havia e scravos marinheiros. para o nível administrativo e do projeto de dese nvolvimento da região. aqueles de alguma forma vinculados aos la e no europeus. Em carta de 13 de ago sto de 1772.

a fim de proporcionar aos lavradores ue tinham direito. amparado po r Melo e Póvoas. R ibeira do Munim. para convencer os lavradores da boa prática que era a lavoura do arroz. pois indica va romper com o monopólio estabelecido. ernador diante da Secretaria dos que foi defendido pelo gov Negócios do Reino e de seu poderoso tio Marquês de Pombal.76 Esta situação ganhou expressividade por conta particular com pelo a liberação posterior e comerciantes prejudicado: da exportação governador. tudo para garantir o aume nto da capitania e adiantamento dos povos que nela habitavam segundo Mel o e Póvoas. Prometeu les homens. seria melhor que cada produtor própria suas mercadorias. Este argumento entrava em conflito direto com os interesses da Companhia. Para c ontornar a situação.75 Isto começou a acontecer com o caso de Lucas Raposa. que ra comprar toda a devido à produção argumentava ausência de ao Secretário recursos embarcasse na da Marinha pa e Companhia por conta local. Melo e Póvoas Ultramar. para do agrado deveriam a Ainda teria que viajar no ano de Sua Majestade e que àque segundo conseguir relata. o que esperava ser mais bem sucedido. Este resultado foi obtido. um d os maiores lavradores da Ribeira do Itapecuru. Companhia só esta medida os havia não o lucro a q segundo Melo prejudicaria a Companhia. como bons vassalos aplicar-se. a vinda de dinheiro continuação daquele ramo de comércio. Martinho de Melo e Castro. e como isso era eles. alegando que: O empenho que tem esse moradores em navegar os efei .empresa para arrematar toda a produção daquele ano. Lucas Raposo. O monopólio da e Póvoas. o comércio foi prejudicado. o governador Melo e Póvoas se empenhou em visitar os locais de maior produção.74 mas o governador foi mais longe ainda nas suas ações. Itapecuru e Mearim. exportou por conta própria sua produção para Portugal. de 1776 para as Vilas de Alcântara e de Guimarães para praticar a mesma diligência. Em carta de 4 de março de 1776.

] à Fábrica dos Vinhais se devem três mil e tantos c ruzados e da mesma sorte a da Vila de Alcântara e a desta cidade q . e aos magistrados. 234. Maranhão. sobre os quais d omina um diretor nomeado pelo 78 governo. fugindo ao caráter comercial tão característico àqueles povos aqui analisados . 235. p. p orém nas suas vilas e aldeias são governados pelos seus principais. sos pelas A partir eligião e nos costumes de então. boa parte daqueles já ―civilizados na r europeus. p. ou disper diferentes povoações. são absolutamente sujeitos às leis. com a Lei de Liberdad tornaram-se ―cidadãos daquele país . Maranhão. 214. 210.tos é por lhes constar que o algodão se vende aí a 8 e 9 000 réis a arroba e a Companh ia o não quer pagar aqui por mais de três mil e duzentos. E burocrático. p. colocando que a prod ução do arroz estava comprometida pela falta de recursos. Os índios que vivem na cidade. arroz e algodão. Maranhão. Melo e Póvoas se dirigia à Secretaria do Ultramar. foram integrados aos trabalhos das fábricas de anil. Argumenta ainda que: [. Sendo uma disparidad e tão grande e vendo eu no plano da Companhia que o preço dos efeitos do País será a avença (sic) das partes e que não se requer não obstante oporem-se a isso os admi nistradores. 213.. p. 223.Page 181----------------------ntrará no A situação permaneceria âmbito puramente assim até se agravar. Índios. Esta s fábricas apenas cuidavam do processamento e ensacamento dessas mercadorias para a exportação. 222. Em car ta de 2 de março de 1775. e dos Para o caso dos nativos. tanto para manter o patrocínio d aquela produção aos lavradores quantos aos ―índios e índias que o descascam . publicada em 1755. 215. 180 ----------------------.77 74 75 76 77 Retratos Retratos Retratos Retratos do do do do Maranhão. 223..

]79 julho daquele mesmo na presença de Sua ano. op. eu tenho valido de algumas in vir farinhas do comum das outras povoações dando a estas para assim arroz para carregar estes navios e ainda que venha vinte mil cruzados deles se deve suprir a Fazenda Real a quem a Compa aonde não há dinheiro [. p. 206. talvez tivessem feito destes homens inábeis. os privilégios que a lei lhe tem facultado. 198. e se não fos a sua natural indolência e pouca ambição. 79 Retratos do Maranhão. 199. à qual se devia 5 mil cruzados. 181 ----------------------.ue clamando estes dústrias mandando se poder fazer o presentemente nhia deve muito e Em novamente não podem trabalhar sem comer. os índios tem melhorado de condição.. povoações De qualquer modo. o governador pôs índios Majestade o problema da falta de dinheiro para pagamento dos índios que trabalhava m nas fábricas de Vinhais. cit.80 Apesar da preocupação do go vernador com aquela ―classe da sociedade agro-exportadora do Maranhão. p. 189. de certos tem pos a esta parte. p. Segundo Gaioso: 78 GAIOSO. e também 4 mil à da fábrica s das da cidade. daqueles segundo mil à Fábrica de Alcântara e 2 o governador alguma índios se adiantavam nas culturas pela competência dos Diretores administradores e o utras que não davam resultado pela incompetência de outros Diretores. 188. o governador J oaquim de Melo e Póvoas pouco mais se referiu aos mesmos. bons servidores mais úteis da república . 121. (Grifos meus) se Vê-se novamente o contraste de opiniões acerca dos povos o u dos ―tipos sociais . 80 Retratos do Maranhão. ao seu trabalho e sua remuneração. não de forma ingênua..Page 182----------------------Graças às luzes da razão e da humanidade. mas t endo em vista a fundamental importância daquela mão de obra para a exportação.

Em 1774. Para o caso dos africanos escravizados. achei que o melhor escravo Mina que é nação de maior valor se vendia por 1 00$ réis. muitos se especializavam na marinha.. e ao mesmo tempo outra d a Junta aos Administradores da mesma Companhia em que lhe ordenava concordassem comigo no abatimento que haviam de fazer nos pretos que vinham a ven der nesta Administração para assim se executar verdadeiramente as ordens de Sua Majesta de que usando da sua paternal clemência querfavorecer estes povos mandando i ntro duzir escravos mais baratos para que as culturas se adiantem nestas capitania s e informando-me eu dos preços porque se vendiam os escravos nos out ros portos do Brasil. ne havia já dois escravos trabalho seria insuficiente para o sucesso das lavouras sem aquela mão de obra tão n ecessária. durante o período oram inseridos no Maranhão de vida da Companhia de Comércio. visto o que concordei com os administradores que os escravos da 1° Sorte.] 82 (Grifo meu) vedor da Companhia cuja A providência tomada foi baixar o preço dos escravos para 100$ réis d efinitivamente. de modo que nem os povos nem o rei seriam favorecidos com a falta de escravos. a Companhia de Comércio teve de suportar o prejuízo de 3: 149$563 réis.existentes na colônia entre a segunda metade do século XVIII e o início do século XIX. f cerca de 12 000 africanos. forros e seus descenden tes sabe-se que.81 Além do mais. Argumenta que todo março de 1776.83 Mas os escravos serviam para algo mais do que lavrar a terra. que mandava inserir o maior número de escravos. como relata em carta de 4 nhum navio havia aportado em São Luís anos. Entretanto. Naquela ocasião. ve ndidos ao menor lucro ou interesse que não fosse o verdadeiro valor. depois para descarregar desta determinação.. como já citado. A participação destes no mundo atlântico não se deu apenas de modo p . Joaquim de Melo e Póvoas contava a Sua Majesta de sobre o cumprimento da sua ―especiosa mercê . havia a seguint e situação: Recebendo proximamente uma carta do Pro cópia será com esta. e que aqui se vendiam a 120$ réis [. e os angolas e outras nações muito mais baratas. antes pelo contrário.

171. 170. Nesse sentido. 83 Retratos do Maranhão. Melo e Póvoas representava ao rei a necessi dade que se fazia de instituir uma Junta os constantes crimes cometidos de na Justiça na capitania.assivo.ª que tod os os escravos marinheiros de qualquer qualidade que sejam que vierem de Lisboa e mais portos destes Reinos em serviço dos nav ios de comércio ou sejam dos mesmos donos dos navios ou dos oficiais que neles andam embarcados ou de outras quaisquer pessoas moradoras na América qu e os queiram trazer ao ganho das soldadas dos navios do comércio. que era presente no mundo colonial como um todo: os atados como objetos e como escravos eram tr pessoas ao mesmo tempo. devido a região por soldados contra as autoridades superiores. 184. 82 Retratos do Maranhão. evidenciamos uma contradição do discurso administrativo pombalino. 182 ----------------------. p.85 ao Porto da Cidade Neste caso.] manda Sua Majestade declarar a V.Page 183----------------------publicar um aviso através da Secretaria dos Negócios do Reino. mas também de escravos que mat aram seus . de nenhuma forma se deve entender compreendidos no sobredito Alvará contant o que venham matriculados nas listas das equipagens dos navios com as mesm as confrontações que traz toda a mais gente das suas ditas equipagens.84 [. de tal modo eles responsáveis por grandes transportes que o rei se viu obrigado a 81 Retratos do Maranhão. eram ultramarinos. p. para que não fossem confundidos com escravos comuns ou mesmo fug itivos.. liberando a presença do s mesmos nos portos reinóis. p.. S. 223. não só a respeito dos ditos escravos no caso de os trazerem mas ainda com outras quaisquer pessoas livres as quais pelo ofício dos respectivos ministros se repõem a bordo das embarcações a cujas equ ipagens pertencem. 185. 169. s e pratica com as equipagens dos navios estrangeiros. e co m a declaração dos nomes de quem são escravos o que tudo é conforme em termos idênticos.

A isto Melo e Póvoas argumentou que eles não se descuidavam de pagar.Page 184----------------------atraso no pagamento. Assim. mos trando uma relação a assinatura pedida aos administradores dos mesmos. 237. o dono do escravo morto ou fugid o ainda . prejudiciais como seus o progresso consequências Capitania e riqueza de seu povo. onde da Companhia. além de não obter resultados favoráveis. Sem os mesmos. Se havia 84 85 86 87 Retratos Retratos Retratos Retratos do do do do Maranhão. fossem europeus. a produção ficava prejudicada e os lucros do dono também. 281. o governador inicialmente sal ientou a ordem dada pelo rei através da Secretaria da Companhia Ignácio Pedro Quintela. 242.87 Por entre Melo governados adquiriram e fim. 237. para punir o mal comportamento dos povos americanos. a última Póvoas e seus situação a elencar que do estes relacionamento povos das que se trata das dívidas crescentes com a Companhia de 19 de outubro sobre o da à luz empresa pelo motivos da de 1775. p. Maranhão. índios ou es cravos. pombalina e suas Comércio. Maranhão. 241. Em carta de stões já citadas aqui comércio. Maranhão.senhores e fugiram para a liberdade. p. Neste documento.86 Esta Junta de Justiça foi instituída em 5 de fevereiro de 1775. o governador reconhecia ao fato da morte ou fuga dos que isto se devia escravos comprados a prazo. p. moradores naquel com constava e ano: os pagamentos realizados pelos nesta folha somavam 175: 723$858 réis além dos efeitos que os lavradores haviam remetido à Junta da Companhia. obtidos são o monopólio lançados bem para algumas e os lucros governador. 183 ----------------------. ue aqueles do Ultramar ao então Provedor das dívidas q para que se efetuasse a cobrança povos tinham com a Companhia. 238. p.

o que havia sido motivo de muito desgosto dos mesmos. Quando os ventos tornaram-se favoráveis ao comércio do algodão e a consequente sub ida dos preços a nível internacional. a receita gerada Todavia. Naq uela carta. pelo escravo.tinha sua dívida aumentada na Companhia devido aos juros acumulados das parcelas e m atraso do pagamento ernador. pelo como argumentava o gov pagamento das dívidas era muito significativa: eram 175 milhões de réis. ainda em defesa de seus governados. continuada na visão de Gaioso (1970. como citado anteriormente.88 além de seus costumes vendo em uma mancebia o relato de sumamente corrompidos. o governo do sobrinho de Pombal apresentou outr a visão sobre o ―gênio dos povos americanos. Demais disto. posto que no início se estabeleceu o preço de 4 000 réis a arroba de algodão. Foi esta a causa que fomentou uma quebra parcial do monopólio da Companhia. o relato de Southey argumenta que o povo havia se tornado industrioso e também mais . argumentou que se deveriam perdoar os juros dos valor es que aqueles moradores deveriam pagar. Segundo Meireles. com total defesa do governador. Considerações sos pelo Estes povos eram Marquês de Pombal. Porém. para 80 réis. p. 12). pagamento de 800 réis aos os administradores mantiveram o produtores do Maranhão. Co m a queda dos preços deste gênero na Inglaterra. ainda que não esquecesse as deficiências. e ainda um povo dado a continuados ho micídios pelo sertão segundo o próprio governador:89 há registro de casos de escravos que mataram s eus donos e fugiram para a liberdade90. emendava ainda que os administradores da Companhia estavam a praticar mal os con tratos da com o povo. tidos como segundo serem relaxados e ambicio Robert vi turbulentos e difíceis de governar Southey coletado por Mário Meireles. tal como se havia feito com os moradores do Grão-Pará. os preços sofreram redução também no Maranhão.

ele se esforçou por fazer ao nível regional. 91 Retratos do Maranhão. p. 208) da Cópia: Fontes pombalino. é também ma is um efeito da abundância do país. e Póvoas trouxe o Com isto também não se progresso e a . como poucos. 88 MARTINS. 242. o que prevaleceu foi a imagem construída pelo go vernador Melo e Póvoas ao longo de 18 anos de governo acerca dos habitantes da América portuguesa se tentrional.Page 185----------------------Na historiografia. para a história do Maranhão (Introdução) Sombras (GAIOSO. mas o que prevale ceu foi seu caráter empreendedor em vista de um progresso e desenvolvimento pautado nu ma linha de raciocínio iluminista na qual o Português se orientou. toda a administração pombalina no Impéri ainda que indiretamente. 173. se aplicou tão fervorosamente àquele projeto desenvolvimentista: o que seu t io fez ao nível imperial. 90 Retratos do Maranhão. 184 ----------------------. p. não se pode cair no romantismo de consider ar Melo e Póvoas um homem desprovido de concepções negativas sobre não-europeus. 241. que podia ser mais avultado.91 Gaioso a de argumentou no sentido Comércio favorecia oposto. do que da indústria dos seus habitantes . 172. que é achar que Melo civilização para o Maranhão. o que contrasta com outras visões. Joaquim de Melo e Póvoas. 25. Manoel Barros. In: Retratos do Maranhão Colonial. 202. na ausência de um povo ―ativo. o ao afirmar que a Companhi ―progresso da indústria desta capitania te e laborioso. pode cair em outra armadilha. p. p. Todavia. 89 Retratos do Maranhão. pp.subordinado. como se viu. sobretudo o caráter administrativo e z eloso de Melo e Póvoas para com seus governados. Por ser sobrinho do Marquês de Pombal. vigilan Reiterou que o ―comércio deste país. 25.

que foram obviamente dissolvidas na construção social do Mara nhão e de seus povos. Se tomarmos o conteúdo dos documentos e crítico em os sua literalidade. bem como sua importância histórica. Soube o governador Joaquim de Me arquitetar e montar. trução discursa com ações e tudo o que se tem é uma cons interesses bem claros para se prosseguir no comando de uma capitania e construir ou reforçar uma imagem de um general modesto. seus elementos de não tão submetendo somente a um exam apresentados. uma imagem de um povo industrioso92. tal como se raci ocinava acerca disso na Europa. através de uma engenharia discursiva tecida em média duração. Nesse sentido. relegando ao segundo ou nenhum plano as culturas e sociabilidades nativas e afri canas.como fez Manoel Barros Martins em sua introdução à publicação do códice Retratos do Maranhão Colonial aqui analisado. de onde vinham as determinações Régias e para onde era destina a maio r parte dos lucros gerados na colônia: assim lo e Póvoas procedeu. duran te 18 anos de governo. tal como o fez o g . para o desenvolvim ento da região que o povo que nela habitasse também fosse inclinado ao trabalho. em gestação. prudente e civil. nun ca se saberá. trabalhador ou pelo menos inclinado ao trabalho e ao progresso. já que o que Gaioso aponta nada mais é do que também uma construção discursiva sobre o comportamento de uma sociedade overnador Melo e Póvoas. pontuando referências de ―ânimo de e por do povo para aformosear a cida ter adquirido princípios morais e comportamentais típicos da cultura européia como alg o positivo. todos ―nacionalizados e próximos dos padrões europeus. Se o região foi resultado mais da progresso econômico conhecido pela ―abundância do país do que do trabalho dos povos americanos como argumentou Gaioso. Era necessário. corre-se o risco visão de mundo historicamente reproduzir uma localizável e não contribuir em nada para a compreensão das dinâmicas e características su bjacentes àqueles processos.

algo de um Para zelar pelo bem daqueles povos. O que evidencia ao segundo ele. cujo norte político da a dministração se orientava nos ideais iluministas e industriais do progresso racionalista para a geração de riquezas de que pudessem desfrutar tanto o rei os próprios americanos. todos estavam igualmente ocupados trabalho. põe-se em evidência antes e depois do a e seus vassalos reinóis ou quanto visões contraposição de opiniões construída governo de Melo e Póvoas que coincidiu com a administração da Companhia de Comércio. O p ovo . elenca o vocábulo ―industrioso . do vir o sobrinho de Pombal. Portanto. portanto. a relaxação das e tempo passado. sobretudo das três últimas classes existentes índios. pulicado ----------------------. na lavoura. 185 que o dicionário Rafael Bluteau. teceu uma imagem negativa daqueles pov os. que sempre argumentou sucesso da lavoura até a alimentação tudes era dos indígenas. mestiços. pois no seu m suas atribuições de governo. Desta forma. fundamental para o aumento da Capitania. Era o estímulo trabalho do governador desses aos lavradores94 e com povos.92 É com o sentido de ―trabalhador no século XVIII. os povos americanos ou ―americanizados do Maranhão tinham habitantes como principal fonte de trabalho a produção e exportação em larga escala principalmente do arroz para Portugal e do algodão para a Inglaterra: pela crescente necessidade destes gêne ros93 na Europa e pelo constante erciantes. nas fábricas ou no comércio atlântico. negros e mesmo tempo seu eurocentrismo é que os ―filhos do reino critos e os ―nacionais sempre foram des como gente da melhor qualidade e bons costumes. Nisso se vê o contraste com a visão de Melo e Póvoas. a partir de seu olhar etnocêntrico.Page 186----------------------Gaioso.

o que constitui objeto de outra investigação. mas não são eles os autores do que se sabe sobre aquele contexto. Cripto Maranhenses e seu legado. De igual daqueles povos do que modo. Arquivo Público. 186 ----------------------. São Paulo. visto os resultados que Melo e Póvoas argumentava obter no seu govern o. Siciliano. mais o resultado do trabalho trabalho propriamente. governador e capitão-general do Maranhão. p. inter são mais comp sobre os habitantes e fundamentais para construção de um tempo histórico específico do que os povos em si. Retratos do Maranhão Colonial: correspondência de Joaquim de Mello e Póvoas.que se antes era tornou um relaxado nas virtudes.Page 187----------------------BLUTEAU. Kelcilene Rose. 2009. Estudar os movimentos el através de próprios outras daqueles fontes povos naquele contexto é possív documentais. muito menos sobre o que agora se sabe do seu comportamento social naquela sociedade em gestação. povo trabalhador. BIBLIOGRAFIA José Dervil. Secretaria de Estado da Cultura. FONTES DOCUMENTAIS: Arquivo Histórico Ultramarino – Projeto Resgate – Ministério da Cultura de Portugal. Coimbra: Colégio das Artes da Companh ia de Jesus. 84. 94 Eram assim chamados os proprietários de grandes ou pequenas produções agrícolas no p eríodo colonial. – São Luís: Edições SECMA. colocando essa-nos discursos lexos tais visões na ―ordem do discurso aqui que os do Maranhão Colonial de Foucault. já que a história que sab emos foi nos escrita por aqueles que puderam são personagens principais escrever. 17711778. 2001. MANTOVANI. Vocabulário Português e Latino. SILVA. de o fato. Os povos america naquele contexto. Antonia da Silva. 93 Retratos do Maranhão. MOTA. . Maranhão. 1712. Rafael. cheios de males e vícios industrioso. Interessava.

19-27. 1970. Rio de Janeiro. Uma História da nobiliarquia lus DIAS. pp. – São Luís: Edições SECMA. Michel. Compêndio Histórico-Político dos Princípios da Lavoura do Maranhão. José Eduardo. Manuel Nunes. 2009. Editora Fon-Fon e Seleta. 1971. Éditions Gallimard.com/doc/2520353/Michel-Foucault-A-Ordem-do-Discurso GAIOSO. Cia. MARQUES. Tradução de Edmundo Cordeiro com a ajuda para a parte inicial do António B ento. Arquivo Público. ―Sombras da Cópia: Fontes para a história do Maranhão pombalino. ed. 1998. no século CARVALHO. Fidalgos o-maranhense. ―Quem influenciou o Marquês de Pombal? Ideólogos. Disponível em: http://www. 2005.Page 188----------------------MARTINS. Secretaria de Estado da Cultura.realgabinete. 1771-1778. Rio de Janeiro: Editora Livros do Mundo Inteiro. Disponível em: http://www. Raimundo José de Sousa. 1998. Nova Fronteira. idéias. Universidade do Porto. Fomento e Mercantilismo: a Companhia Geral do Grão-Pará e Maranhão (1755-1778). Retratos d o Maranhão Colonial: correspondência de Joaquim de Mello e Póvoas. FARIA. Dicionário histórico-geográfico Maranhão. Belém – PA: Universidade Federal do Pará. Porto: FAUP. ―Povoamento no Grão-Pará: Vila Nova de Mazagão (segunda metade do século XVIII) In: Caderno de Resumos 3° Encontro Int ernacional de História . pp. César Augusto. e Barões.htm FOUCAULT. Rio de Janeiro. 2. João Renôr F. Retratos do Maranhão Colonial: correspondên cia de Joaquim de Mello e Póvoas. __ __. Arquivo Público. Lisboa. governador e capitão-general do Maranhão. 2009. Sheila de Castro. In: Maranhão.com. 1970. Yure Lee Almeida. Secretaria de Estad o da Cultura. de. da Província do MARTINS. A Colônia em Movimento: Fortuna e família no cotidiano colo nial. 1970. In: Maranhão. 1970. governador e capitãogeneral do Maranhão. Macapá e Mazagão. A ordem do discurso. FRANCO.scribd. – São Luís: Edições SECMA. Paris. mitos e a utopia da Europa do Progresso ”. São Luís: Instituto Geia. 187 ----------------------.br/coloquio/3_coloquio_outubro/paginas/12. 1771-1778. ―As cartas de Mello e Póvoas. As Cidades da Amazônia XVIII: Belém. COUTINHO. Manoel de Jesus Barros.ARAUJO. 11-16. Renata Malcher de. Mílson.

Recife – PE: Editora Universitária UFPE. e uma abordagem Pós-Colonial. O governo das conquistas do Norte: trajetórias administr ativas no Estado do Grão-Pará e Maranhão (1751-1780).Colonial: Cultura. para demonstrar como vem se desenvolvendo. um discurso e uma estética caracteristicamente descolonizadora. MAXWELL. 2008. São Luís: EDUFMA. MOTA. com importantes minorias negras. Ed. 188 ----------------------. Marquês de Pombal: Paradoxo do Iluminismo. Antonia da Silva. muit as das redes de organizações políticas negras desses espaços têm dado indícios de que está emergindo um novo tipo de Movimento Negro. com uma significativa proporção de afrodescendentes. paulatinamente transitando para modelos discursivos e de ação p olítica baseados em estruturas de identificações mais múltiplas e desterritorializadas. Paz e Terra.rev. MEIRELES. Poderes e XV-XVIII). MOTA. 2010. transcultural e . Afrocaribeñas y de La Diaspora (RMAAD). Na última década. Rio de Janeiro. 2008. Antonia da Silva. tomando por ba se a atuação da Red de Mujeres Afrolatinoamericanas. Programa de PósGraduação em História. Kenneth. ou como Venezuela. 2007. Marilise Luiza M artins dos Reis (UFSC/UDESC) RESUMO A América Latina e o Caribe apresentam uma multiplicidade de povos afrodescendente s em seu território. 2006. menos fundamentado em discursos e ações baseados em estruturas identitárias fixadas. 4. Afrocaribeñas y de la Diáspora como movimento transna cional afrodiaspórico. SANTOS. Nesse sentido. que vão desde as sociedades e culturas predominantemente negras de vários países do Caribe. nos movimentos negros da América Latina e do Caribe. História do Maranhão. A dinâmica colonial portuguesa e as redes de poder local n a capitania do Maranhão. Recife. Cuba e Colômbia. São Paulo: Universidade de São Paulo – Banco de Teses e Dissertações. Família e Fortuna no Maranhão Colônia. rígidas e territorializadas. Fabiano Vilaça dos. Tese (Doutorado) – Universidade Federal de Pernambuco. Sociabilidades no Mundo Atlântico (séc.Page 189----------------------VOZES E POLÍTICAS DA DIÁSPORA NA AMÉRICA LATINA E CARIBE: A Red de Mujeres Afrolatinoamericanas. me u objetivo com esse trabalho é apresentar uma discussão sobre esse processo. Imperatriz: Ética. Mário Martins. àquelas como o Brasil. Uruguai e o Peru. 1996. Tradução: Antonio de Pádua Danesi.

black movement. which in turn gives the black movement a transnational setting. um modo de produção cultural. diaspora. uma metáfora de isto é fato. Cuba and Colombia. vem pondo . passou também a designar um tipo de consciência. many networks of black po litical organizations in these areas have provided some evidence that is emerging a new kind of Negro Movement. with a significant proportion of African descent. rigid and on spatial distribution. gradually moving to the narrative and political action based on structures and multiple identifi cations more deterritorialised. In the last decade. América Lati na e Caribe. Key words: social movements network. uma espécie de experiência intelectual e consciência identitária que perturba modelos fixos de identidade 189 ----------------------. Latin America and the Caribbean. In this sense. em escala real ou virtual. que De muda termo empregad deslocamentos e de desterritorializações a própria noção de afastamento e amplia geográfico. those such as Brazil. ABSTRACT: Latin America and the Caribbean presents a multiplicity peoples of African desce nt in their territory. my goal with this paper is to present a discussion on this process. with significant black minorities. que por sua vez confere ao movimento negro uma configuração transnacional. Ao desterritorializar e reterretorializar. to demonstrate how has been developed in Black movements in Latin America and th e Caribbean an aesthetic discourse and a characteristically decolonizing. Afrocaribeñas y de la Diaspora (RMAAD). a diáspora não pode mais ser entendida apenas como mero deslocamento físico. ranging from the predominantly black societies and cultures of several Caribbean countries. INTRODUÇÃO Atualmente. diáspora. Uruguay and Peru. movimento negro. based on the performance of the Red de Mujeres Afrolatinoamericanas.diaspórica. and a pos t-colonial approach. or as Venez uela. Palavras-chave: redes de movimentos sociais. less reasoned discourse and actions based on identity structures fixed.Page 190----------------------cultural (HALL. 2003). em o como sentido geográfico. transcultural and diasporic.

com o executivo. promovendo diálogos permanentes e pe rcorrendo caminhos que estão possibilitando construir parcerias e práticas estratégicas com a so ciedade civil. constrói sua história e concretiza suas relações e fatos so ciais. E. E são a s mulheres afrodescendentes e empreendem deste território. Torna-se. ou subvertê-lo. as vozes qu mulheres que nos últimos vinte anos se organizaram de múltiplas formas e que. tomando a diáspora africana como perspect iva. as esse processo.em xeque a compreensão do território apenas como um mero substrato fixo. da eqüida e da justiça social. o judiciário. uma parte ou como qualquer da superfície terrestre. o legislativo. nesse um movimento transnacional sentido. um espaço no qual o sujeito estabelece um vínculo afetivo. Talvez isso se explique porque a diáspora territorialidade e traduz a ideia de uma vida fora do usive. muitas vezes incl ―acolhimento . politizando temas vêm que impondo até então diferentes territorialidades e estavam subalternizados e invisibilizados. sob um prisma mais subjetivo. nificativamente para São elas quem têm contribuído sig evidenciar as desigualdades raciais e de gênero a que os povos africanos escraviza dos trazidos para as Américas estiveram (e estão ainda) sujeitados. a diáspora. a cada ação política que desenvolvem. portanto. ou. da fluidez econômica e do hibridismo cultural. no território de pressupõe uma experiência de extra território ―terra mãe . para vê-lo. simbólico. como um Movimento Social. protagonistas. constituem cada vez mais . com agências de cooperação nacional e inte rnacional na busca da formulação e implementação de políticas públicas de promoção de igualdade. uma espécie de laboratório das experiências sócioespaciais pós-modernas e de fenômenos correlatos como a fragilização de alguns Estados n acionais. na qual o Estado-Nação exerce seu poder e estabelece seus limites. o termo ainda pode ser percebido por um terceiro prisma. Na América Latina e Caribe.

a Xenofobia e Intolerâncias Correlatas (DURBAN. indicam a superposição de novas territorialidades. marcou o espaço de onde ecoam as vozes diaspóricas que se concre tizam pelo movimento. a partir dele. cultural de várias regiões da América Latina e Caribe que. 2001. autônomos. mudanças espaços-temporais que produzem alteridade e solidariedade. como foi. CARNEIRO.glocalizado na região. pois. a Discriminação R acial. momento no qual o movimento de mulheres definitivo com os debates Mundiais afrodescendentes organizadas pela envolveu-se Organização em das Nações temáticos das Conferências Unidas – ONU para a ampliação e o fortalecimento da abordagem da intersecção de gênero. ou ainda. pr oduzidas na dinâmica global. ÁFRICA DO SUL. 1999). transterritorialidades95. compostas por liderança s femininas de 95 A transterritorialidade é uma ordem de sequências econômicas. expandiu-se o número de redes e organizações. reunido em torno de múltiplas identidades afro que. multiterritorialidades. Foi a partir dessas vozes que se fizeram ouvir. no biênio 2000/2001.Page 191----------------------uma diversidade de movimentos negros . etnia/raça e cla sse no âmbito internacional. por exemplo.religiosos. em logísticos processo preparatório para a III Conferência Mundial contra o Racismo. o período que se desenvolveu ao longo da década de 19 90. por sua v ez. Nesse contexto. o caso da c riação da Articulação de Organizações de Mulheres Negras Brasileiras – AMNB. rede nacional fundada e m . a temática do racismo e da discriminação racial se consolidaram função principalmente do como pauta internacional. acadêmicos. e também culturais. O protagonismo destas mulheres nesses espaços preparatórios é evidente. sindical. A fragmentação da territorialidade total em lugares às estratégias de produção multidimensiona a ação e o poder em escala mundial (BAUMAN. 2001). 190 ----------------------.

assim como a consciência da sua inserção em fronteiras cada vez mais fluídas. na medida em que suas questões específicas eram secundariz adas. Segundo diferentes autoras. conflitos e conquistas. Além disso. A organização das mulheres negras passou igualmente a incidir de mane . como e de agendas portanto. ao demonstrarem o caráter mundial e transnacional das situações de conflito. são visíveis as vivacidades do fem trajetória de reformulações. trazendo novas personagens e real idades. acrescenta da das a visão do enegrecimento um do aspecto políticas mulheres negras. 1998 ) como no Brasil (CARNEIRO. Carneiro (2003) movimento feminista e ampliação altamente do protagonismo positivo. as mulheres n egras passaram a elaborar críticas sistemáticas às questões que evolvem as políticas de modernização. tanto nesses territórios (ALVAREZ.2000. assim como den unciaram a maneira subalternizada e marginalizada com que foram incorporadas nos movimentos sociais. A esse contexto. a afirmação desses específicas desses grupos protagonismos invisibilizados entrando efetivamente na pauta política e transitando mundo afora. tanto feministas quanto negros. denunc ando questões sérias como a relação de subordinação estabelecida s e entre as entre homens e mulhere mulheres brancas e negras no seio das mais variadas sociedades de passado coloni al. 2003. cuja declaração explicitou os efeitos perversos do racismo. SOARES. do se xismo e do classismo sobre este contingente social (CARNEIRO. questionaram a ideia de nação. que passaram a compor o que denomino como as vozes e políticas da diáspora na América Latina e Caribe . as condições históricas das Américas que construíram a relação coisificação dos negros em geral e das mulheres negras em particular. inismo negro com sua 2004). in visibilidade e exclusão vivenciadas por todas elas na região. 2001). De fato. construíram novos caminhos na luta pela igualdade e justiça. Foi. Nesse ínterim. no pós-Durban.

Também. formas de articulatórios empoderamento. e o potencial organizativo dessas mulheres. Este protagonismo vem impondo. Esses estudos. na diversidade e na diferença. ou uma contranarrativa. tentando fornecer uma história alternativa. Em decorrência disso. nos eventos mundiais. de estudos sobre as narrativas. a reflexão vivencial e teóric a. ―vozes e prátic fronteira e das chamadas minorias ―raciais e sexuais.Page 192----------------------seus múltiplos agenciamentos. em resposta à colonização dos povos e das mentes. De fato. da sociedade civil. incutida e just ificada pelos discursos históricos hegemônicos é um reflexo desse fenômeno. visando à afirmação de agendas políticas locais. A multiplicação de as das diásporas. Perspectivas estas que têm demonstrado c . como consequência. novas perspectivas de análise advindas dos est udos culturais e pós-coloniais se apresentam cada vez mais. além de reite rarem o que de a teoria que os das redes dos novos processos movimentos e suas sociais respectivas já comprovou. 2005. 2006). cada vez mais. está const ituído o contexto de novas que exige das ciências análises (SCHERERhumanas o desenvolvimento WARREN. c ONU. a necessidade de abordagens q ue nos dêem subsídios para compreender os sentidos e os não sentidos das ações desses sujeitos históri cos nos 191 ----------------------. têm se dado na forma de redes. os atuais quadros teóricos de análise dos movimentos sociais estão em crise e. regionais e internacionais repercutiram. concebendo a(s) identidade(s) enquanto um processo d e construção e desconstrução de subjetividades que se faz.ira positiva na condição de vida das mulheres e de toda a sociedade. como omo aqueles convocados pela já dito. trazem algumas outras variáveis que apontam para um novo sentido.

vêm constituindo. 2006). o papel dos crítica das abordagens clássicas da modernidade. mulheres. rígidas e territorializadas. cional e diaspórica nas ações transcultural. na América iplas por meio de uma Latina e no Caribe. fronteiriças e desterritorializadas. A composição demonstra também que esses movimentos.apacidade e potencialidade de inovar e repensar. em uma dinâmica descentralizada. foi lançado pelo protagonismo afrodescendentes. surge como o desafio que tem exigido novas posturas d as pesquisas em torno desse tema. bem como de suas ações políticas em conte xtos pós-colonizados (SCHERER-WARREN. estariam promovendo uma integração societária para além das fronteiras nacionais (COSTA. movimentos sociais na releitura criativamente. É todo esse ―movimento onismo dessas mulheres que nos levou a conceber a diáspora como um movimento social dotado de um a estética de ação que se transnacionalmente configura cada (Reis. esses contextos indicam a existência de novos encontros comunicativos. 2005. e mesmo de redes sistemáticas e duradouras de intercâmbio entre grupos sociais e indivíduos de or igens diversas que. vez mais na forma de redes. o desafio negras. ao extrapolarem fronteiras simbólicas e terri toriais. mas em modelos baseados em estruturas de discursivos e de ação identitár política identificações múltiplas. 2006). A emergência da contranarrativa e de uma estética caracteristicamente descolonizadora. dessas Assim. . transna concretas dessas mulheres. 2010). não em torno de estruturas ias fixas. sujeitos diaspóricos: vozes e ações políticas constituídas no âmbito da diá pora. e propiciado pelo empoderamento e protag Nesse caso. identificações múlt ―afrodiasporicidade que se configuraria. dessa integração societária 2003.

das mulheres negras. tempo. negras do deslocado. resultado da africanos diáspora e afrodescendentes em seu africana ocorrida a partir do século XVI. o reduzido poder político dos 150 milhões de afrodescendentes que compõem esses territórios. Desse Caribe. obviamente. do Uruguai e do Peru (WERNECK. De acordo com Ferreira (2006). grande parte motivada pela escravidão e pelo tráfico negreiro através do Atlântico. e discriminação até pouco crescente. 1 A TRAJETÓRIA DO MOVIMENTO NEGRO NA AMÉRICA LATINA E CARIBE Uma das características principais da América Latina e do Caribe é a p resença de uma multiplicidade de povos território. as especificidades ex . Calcula-se que de todo mais ou menos 20 milhões de o contingente Américas. 2003). grande parte constituiu as sociedades e culturas sil. Atualmente. da região e a despeito do que rep material. guardadas.192 ----------------------. contingen do Bra africanos escravizados aportaram nas te. com uma destaque para a situação que de pobreza permaneceu. a população negra desse espaço territorial é quase quatro ve zes maior do que com situação muito a indígena. que passa a atuar com o movimento social e que constitui o processo de construção do movimento afrodiaspórico na América L atina e Caribe. assim como também da Venezuela. pouco discutida ou considerada em fóruns internacionais e pesquisas acadêmicas. um processo de deslocamento forçado do mai s numeroso grupo de pessoas pelo planeta. as organizações atomiza das e a pouca visibilidade.Page 193----------------------dotado de uma contranarrativa ante os discursos hegemônicos. imaterial e simbólico na região. apesar de ser igual ou maior do que a situação resentam dos povos originários de aporte cultural. de Cuba e da predominantemente Colômbia.

estão sujei os à discriminação constante por causa da cor da pele.. por exemplo. diz o es tudo da Cepal intitulado 96 A Bahia. são Estudos pobres contribuíram significativamente disponíveis indicam. 80% do s afrodescendentes vivem na pobreza extrema e. na Colômbia. é de ―alta densidade e pouca ressonância . abertas e encobertas. na Colômbia e Venezuela. em Cuba. para da o alargamento população dessa situação. foram estiveram submetidas estas populações desde o período da escravidão e pós-abolição que as le ou a constituírem diversas formas de luta.5 vezes mais rica do que a negra. único país da América co m sistema econômico socialista. e a gestar espaços fora ou nos interstícios . seu pouco acesso a instânci as de governo. bem como a falta de dados completos sobre sua situação econômica. Já o número de políticos baianos negros eleitos para o Congresso tem sido historicamente muito baixo. Embora somem 150 milhões de pessoas. que chega a quase 30% do total de habitantes da região. é amplamente reconhecida como o estado de presença negra mais forte em termos culturais e sociais no Brasil. segundo pesquisas feitas nesses países. de acordo condições a que com Ferreira (idem). inclusive. disso. (CEVALLOS.Page 194----------------------Discriminação Étnico-racial e Xenofobia.) No Brasi l.. têm acesso apenas de 90% aos afrodescendente empregos de menor remuneração e contam com baixo nível de instrução.istentes entre um e outro país. que mais . a maioria del as concentrada no Brasil. chama a atenção a tênue presença política desta comunidade96. Além. Uma pesquisa de 2001 feita pela Comissão Econômica p ara a América Latina e o Caribe diz que ―a população afro-latina e afro-cariben ha . vivem nas piores habitações e têm os trabal hos de pior remuneração. a população branca é 2. (. 193 ----------------------. 2005) estas mesmas Entretanto.

como espaços libertários que reconstruiriam e transformaram tes. e bush societies no Suriname. palenques pri Venezuela. europeus e ameríndios (FERREIRA. ressignificado pela ideia de diáspora africana. com a África ―perdida (GUERREIRO. inúmeros movimentos sociais e culturais. Já no contexto da década de 1970. 2000. destacam-se diferentes códigos duas grandes culturais no Brasil africanos.do sistema dominante. quando há uma busca pela re -ligação com a Terra Mãe. FERNANDES. ressignificando ruas. e os de sistemas cristãos. freevillages na Jamaica. 2010) . Destacam-se também os veram os processos de no reconstrução e Novo Mundo. Ferreira cumbes na (idem) faz referência. no campo ou nos centros urbanos. Essas . Entre esses espaços construídos meiramente. aos quilombos brasileiros e a seus co-irmãos em Cuba e na Colômbia. 2006). transformação as espaços religiosos nos dos sistemas quais se desenvol religiosos africanos transformações africanizadas e ressignificação. a primeira república livre do mundo liderada por africanos da diáspora. nos cenários nacionais e internacion ais. organizações e redes de organizações negras da América La tina e do Caribe. sua reinterpretação sistemas emergentes resultantes de processos de sincretismo e de fusão de vários mo delos religiosos africanos. fizeram emergir o fenômeno que considero o mais preponderante em todo esse processo: a extrapolação dos localismos e a emergência de uma identificação dinâmica e fluída em torno do próprio termo ―afro . ba irros e esquinas. Essas práticas rituais formaram (e formam) m importantes espaços de expressão tanto no novo formato simbólicos e materiais que resultara desses movimentos em finais do século XX e início do XXI. quanto seriam as primeiras peças a vir compor o que denominamos como vozes e políticas da diáspora97. e o Entre processo es de experiências: o Quilombo de Palmares formação do Haiti em 1804.

em Mo ntevidéu. com destaque para a Rede Continental de Organizações Afro-ame ricanas.Page 195----------------------movimentos e para a formação culminaram na principal de redes nacionais e transnacionais que participação afro-latino-americana em eventos transnacionais: a reunião de 1994. composta por cinco redes regionais. denominada ―Primeiro Seminário Continental Sobre Racismo e Xenofobia . 2006).formas organizativas. para a criação do portal Observatório Afro-Latino e Caribenho. sociais negros a missão região (FE destaque. movimentos Mundial y Caribeña Contra o (GALCI). convocada por vár ias organizações negras mundiais. com destaque para os processos de miscigenação e de valorização da mestiçagem (COSTA. com o objetivo de provocar o diálogo po . durante grande parte do século vinte. 194 ----------------------. excluídos. 2001). movimentos A partir desse evento sociais negros pela multiplicaram-se as redes de América Latina e Caribe. Ao contrário. como resultado da preparação para a III Conferência a Aliança Estratégica de Organizações Afro-latino-americanas e levar à Conferência as demandas e propostas dos RREIRA. ex ecutado pela Fundação Cultural Palmares. posteriormente assimilados negativamente. Na década de 1990. foram. criminalizados e desvalorizados. quando surge a Red de Mujeres Afrocaribeñas y Afrolatinoamericanas. por meio dos processos de desetnicização e de nacionalização. a liderança das mulheres negr as entra em cena. por meio de teorias e políticas nacionais de embraquecimento e. a Rede A froamérica XXI. no Brasil. rejeitados. foram de mobilizadas na forma de redes cisivas para a eficácia desses 97 Importante ressaltar que esses legados culturais africanos não foram larg amente aceitos. de movimentos sociais. Racismo. Em 2008. com da E nasceu d e Caribenhas. e a Iniciativa Global AfroLatina m 2000.

1992 e 2001. e no Brasil foram realizados dois Encontros Nacionais de Entidades Negras. queremos que as sociedades latino-a . Na região. e no Feministas . 2006.ENMN. nacionais. AFRO-CARIBENHAS E DA DIÁSPORA (RMAAD) 195 ----------------------.. reunido s em torno de identificações afro-latino-americanas. 2007). foi criada a Aliança de Líderes do Movimento de Afrodescen dentes da América Latina e do Caribe. como pelo regionais surgimento de inúmeras ONGs.r meio da compilação de negras latino-americanas e caribenhas informações das comunidades a ser disponibilizadas na INTERNET. em 1988. a primeira década do século XXI ental para o movimento negro das Américas: ura política pautado pela organização na snacionais. 2003. desde os idos anos 1970. em 1991 e 2001. tem pressionado os governos a s públicas atenderem suas demandas voltadas para a afrocaribenhas por meio e afrodiaspóri de política históricas reparação das desigualdades que afetam afrodescendentes. cas. de educação para a diversidade cultural e de políticas de combate a todas as formas de discriminação (COSTA. De fato.ENF. Por parte do Brasil 14 Encontros Nacionais Movimento Negro. em 2000. A emergência desses novos instrumentos e formas de organização. com grande foco para a liderança e o protagonismo das m ulheres negras. além de três Encontros Nacionais de Mulheres Negras . assim o desenvolvimento marcou um momento fundam de uma nova e cult tran forma de redes locais. 2 A REDE DE MULHERES AFRO-LATINO-AMERICANAS.Page 196----------------------. foi realizado um total de 10 encontros feministas latinoamericanos e do Caribe..

mais d e 500 mulheres constituíam a Rede. nossa capacidade de líderes. Do rotea Wilson. a discriminação. o passo seguinte l de mulheres negras. a Rede destaca as alianças e stratégicas com outros movimentos sociais. e Durban e o aumento da participação ica evidente a implementação do Plano de Ação F d da juventude no movimento como os marcos de mulheres negras. Afro-caribenhas e da Diáspora. e depois. capacidade de incidência e reconhecemos a necessidade de gerar diálogos e p ontes com quem ocupa postos com os governos. Em 1992. temos ferramentas educativas. explica que a RMAAD visa ao fortalec imento das organizações e movimentos de mulheres negras. internacionais são fundamentais para compor o rol de direitos reivindicados por ho mens e mulheres negras nções para o enfrentamento do e tratados internacionais racismo. que desde 2006 responde pela coordenação geral. posto que somos lítico. mesmo dia em que foi criado o dia Internacional da Mulher Afro-lati no-americana e Afro-caribenha. atuando em 25 países de forma individual e coletiva. Após essa conferência queremos estabelecer pressupostos de ações de combate à violência será o desenvolvimento (EPSY CAMPBELL98) da articulação globa racial. No início de 2010. assim como conve . discurso po proposição. a homofobia. foi constituída a Rede de Mulheres Afro-latino-americana s. de acordo com pesquisa empreendida pela organização. formulando propostas de empoderamento. denunciando a exclusão e políticas públicas que devem ser assumidas por Estados e organismos internacionais.mericanas e caribenhas reconheçam a liderança das mulheres negras. Na articulação para o combate ao racismo. incidindo em cada país do continente por meio de organismos e fóruns internacionais99. a lesbofobia e contra tod as as formas de exclusão. onde de poder e decisão. Essa rede reúne organizações de 25 ibe e nasceu países da América Latina e Car para atuar contra o racismo. A intenção primeira é a de dar visibilidade a situação das mulheres negras.

Page 197----------------------familiar. preside o Parti do Ação Cidadã (PAC). Raça. 196 ----------------------.html). vem ocupando cada vez para a Rede. Etnia e Pobreza – Agosto de 2010. portanto. é fundadora do Parlamento Negro da s Américas e presidiu a Rede de Mulheres Afro-Latino-Americanas e Afro-Caribenhas. entre outros tantos níveis de informação que servem de base para as políticas públicas 100. Censos que incorporem dados desagregados pelas variáveis raça/etnia. em entrevista concedida ao Boletim Gênero. Diri giu até 2005 o Centro de Mulheres Afro-Costarriquenses. Foi eleita a quinta deputada negra da Assembléia Nacional da Costa Rica. po r exemplo. se torna um instrumento para o exercício da cidadania e o stratégia decisiva para . própria população A autovêm se tornado afrodescendente matéria de acerca identificação racial passa a ser entendida. nessa perspectiva. ace 98 Epsy Campbell. visto que são entendidos como fundamentais para o registro e análise da realidade dos sso à saúde. tem sido largamente reinvidicados.br/costa-rica/epsy-campbell-barr. como ponto chave para a consolidação de políticas públicas de inclusão dos afrodescendentes na vida social e econômica de vário s países latino-americanos e caribenhos101. A coleta de dados desagregados por raça e etnia na rodada dos censos 2010-2012 na América Latina e Caribe é uma e visibilizar estatisticamente as e os afrodescendentes da reg ião.geledes. O censo revela o retrato da população. conformação afrodescendentes em termos de habitação. F onte: Portal Geledés (URL: http://www. economista. em 2002. 99 Dorotea Wilson.relacionados aos direitos humanos das mulheres. Por isso os Censos Populacionais luta política e instrumento de monitoramento da de suas condições.org. assim ma c monitoramento acerca das condições is centralidade mulheres. feminista negra latino-americana. A omo espaços criação de espaços de consulta e dessas onde estejam integradas.

100 E que fazem parte de um compromisso que os governos selaram na III Co nferência Mundial contra o Racismo. utural da A inserção da luta agenda feminista e o contra o racismo como das eixo desiguald estr aporte institucional e financeiro para ades de raça e gênero é outro enfrentamento pressuposto da Rede. Também se requer a impl ementação de programas de saúde integral destinados à população afrodescendente em áreas rurais e ur banas. habitação.fortalecimento da democracia. emprego e renda. qualidade de vida. ETNIA. esta está ca racterizada primeiramente pelas múltiplas conexões que constituem nesse território. Em estági os países da América Latina e Caribe caminham para um a juste de contas com os direitos das populações negra e indígena ao buscarem informações s obre os seus modos de vida. oportunidades de trabalho. assim como uma política unidades rurais. comunidades as quais se de encontram terras políticas para as de com específica quilombolas. e outras designações correlatas. educação. RAÇA. Terras de Preto. 2010) os diferentes. nas estruturas de poder e no . e depois. pelo s objetivos. (BOLETIM GÊNERO. educação e saneamento. exp osição à violência e violação de direitos. No que tange a dinâmica transnacional que compõe a RMAAD. Existe um conjunto de desafios relacionados ao reconhecimen to dos direitos dos afrodescendentes e a luta contra a discriminação e o racismo impõe a necessidade d e redobrar os esforços para fomentar programas de eqüidade e de melhoria das condições de vida das pessoas de ascendência africana entre emprego. o que inclui o acesso a melhores condições de vida. moradia. mas igualmente a participação e a tomada de decisões s organismos de representação popular. O objetivo é a transformação geral das condições que permitem o racismo e a discriminação rac al contra os afrodescendentes. acesso à saúde.

o desen volvimento e o monitoramento formal acionais e internacionais. 197 ----------------------. o reconhecimento. seguem para o refinamento das informações censitárias. n constitucional da legislação nas garantam e os a interculturalidade. Este é um passo decisivo para a responsabilização dos países com relação ao combate ao racismo e às desigualdades. da xenofobia intolerância configurem uma porcentagem relevante da população. organismos técnic informação por meio de trabalho os. o fortalecimento dos o rganismos governamentais e dos organismos assim como a criação de organismos a geração de direitos humanos e o tratamento da independentes de direitos humanos. enquanto outros. Está em curso a construção de um mapa etnicorracial que retrate as reais condições socioeconômicas das populações historicamente excluídas. podemos citar a luta pela consolidação das obrigações e compromissos estabe lecidos na Conferência de Durban. particularmente no referido à implementação de planos de ação naciona l. como e a reformulação e secundária. ação afirmativa que integrem os princípios de eis nos países onde os grupos e das vítimas formas do racismo. O desafio é que os Estados assumam a brevidade. Entre estes. conexas de também se requer igualdade da e a implementação de políticas os de nív não-discriminação em todos discriminação racial.101 Países com coleta de dados por raça e etnia secular. incluem pela primeira vez o recorte etnicorracial nas pesquisas populacionais. governos e organismos . Além disso. como Brasil e Estado s Unidos. afrodescendentes e outros grupos culturalmente diferenciados e discriminados. como o Pan amá e Costa Rica.Page 198----------------------perspectivas e princípios que dão base para o desenvolvimento das ações políticas da rede em rede. a ratificação. independentes conjunto com e autônomos. que a e material bem harmonização dos instrumentos jurídicos nacional. direitos coletivos dos a eqüidade oportunidades.

particularmente as me ninas. assuma seu papel no no c não-discriminatórias assim como políticas específicos e gerais dos sistemas que incorporem os saberes. o combate dos estigmas. em sua complexidade e positividade. tão fortemente arraigadas nos territórios latino-americano e car ibenhos. da xenofobia e das formas conexas de intolerância. das imagens falsas e dos estereótipos negativ os de grupos e pessoas vulneráveis. bem como nas suas validades enquanto ―. e que i presentes nas perspect democracia racial. 1999). O identificações que se percebe é que mais amplas e esta Rede. Isso.. quando passaram a incorporar formas de ser afrodescendente na América Latina e Caribe que extrapolam os essenc ialismos que estão impregnados na identidade ―negro/negra gualmente se contraponham às armadilhas ivas da mestiçagem e da ideológicas (ver: MUNANGA. tentativa[s ] de especificar a diferenciação e a identidade de um modo que possibilite pensar a questão da comunida de racial fora de referenciais binários restritivos – particularmente aqueles que contrapõem ess encialismo e 198 .. está dando cada vez mais força ao termo ―afro iáspora. da discriminação racial. a história e a cultura negra e afrodescendente. 2003). que se incorpore a perspectiva de gêne ro no combate ao racismo. A Rede também está performando um papel nge a questão imprescindível no que ta das identidades ou identificações múltiplas (ver: HALL. e ações em favor da infância afrodescendente. que figuram entre as principais vítimas do racismo. incorporando objetivos que a educação práticas educativos. ao incorporar e ao conceito de d múltiplas.multilaterais e de cooperação. combate ao racismo e à discriminação urrículo e nos racial.

domesticado e servil. epistemológicas e identitárias elaboradas por essa narrativ como desenvolveu Bhabha (1998). é o distanciamento dos essencialismos e exclusivismos de identidade e a tomada de consciência dessa experiência comum. culturais. e sempre em contraposição às construções que. Quando falamos em garantir as homens e mulheres no mercado de trabalho. as ―vozes que ecoam dessas organizações de mulheres. desconstruindo as leg itimações negativas impostas pelo dominador. são as manifestações desse ―ou eu se desvencilhando daquilo que sempre foi dito. 2001. em nome de um projeto civilizatório. Nesse sentido. 239). 2001) como O discurso desenvolvido contranarrativa da pela RMAAD. p. . ou seja. as mesmas questões sociais. que são retratadas como antimusas da sociedade brasileira.Page 199----------------------pluralismo (MOREIRAS. Quando falamos em romper com o mito da rainha do lar. como a ―voz de Sueli Carneiro102 na citação acima. estamos garantin mulher?. de que mulheres estamos falando? As mulhe res negras fazem parte de um contingente de mulheres que não são rainhas de n ada. denominado aqui do emprego para que tipo de diáspora. tentou transf ormar o outro em outro eu.----------------------. identitárias. (SUELI CARNEIRO. que apon tam para o surgimento do que ajuda a diálogo dessa Rede compor a sua com a abordagem pós-colonial e contranarrativa e a sua estética diaspórica. assim como para a descoberta de que os afrod escendentes de todos os países latino-americanos e caribenhos compartilham os mesmos problem as. 3 AS “VOZES”: CONSTRUINDO A CONTRANARRATIVA DA DIÁSPORA. porque o model o estético de mulher é a mulher mesmas oportunidades para branca. da musa idolatrada dos poetas. Por sua vez. só pode ser compreendido quando posto em confronto com o discurso colonial . que muito mais os aproximam do que os afa stam. essas revivescências.

mas sim desmontagem. 102 Fundadora e coordenadora-executiva do Geledés – Instituto da Mulher Negra . Ao ra da RMAAD se retomar-revisar-deslocar. a contranarrativa da diáspora empreendida pela RMAAD se apresenta como um processo que primeiro desconstrói103. e deslocado que incapaz vio de pelo discurso como dominant detento (1975). É um movimento de desconstrução do di scurso colonial. 103 Nos termos de Derrida (2002). insere na a contranarrativa da diáspo perspectiva crítica das obras portadoras de um discurso de caráter pós-colonial. podemos pen sar o discurso da RMAAD. que representa os negros. decomposição dos elementos. 199 ----------------------. que busca demonstrar como a s narrativas coloniais são legitimadoras de dominação e poder (BHABHA. porqu e propõe que façamos uma releitura da colonização. para depois reinterpre tar e construir uma narrativa diferente do discurso unificador das vozes dominantes que se constituíram como a H istória oficial latino-americana e mundo que e caribenha. como bem res de um passado traiçoeiros produzir desenvolveu amarrado Fanon a e degeneração. concebendo-a como parte de um processo transnac ional e transcultural global o que implica. Por isso. onde o que está nascendo é um contra-discurso.São Paulo/BR. Apresenta-se conta a história como uma visão d construída da modernidade desde outra perspectiva. a desconstrução não significa destruição.Page 200----------------------deslocamento dos sentidos construídos/constituídos e. estereótipos uma história de primitivismo de presente condição desmembrado progresso civil. reescrever as anteriores gr andes narrativas. e um la não apenas a sua política.Assim. bem como como espaços de revisãodas organizações a ela articuladas. mas também humana. como consequência. . 1998).

ressignificações que vão dar outras configurações aos sujeitos do movimento. 4 ll right. tendo como lócus enunciativo a situação de diáspora vivenciada pelas populações africanas (COSTA. na qual a A RMAAD COMO MOVIMENTO TRANSNACIONAL AFRODIASPÓRICO One Love! One Heart! Let’s get together and feel a fechada em elementos estabelecidos no papel ou na história perde força e dá lugar à cons trução dos desarranjos emergem e ao deslocamento diferentes leituras de e signos e significados. ponto de 2005). isso De acordo com seria possível a análise porque de Stuart que tanto Hall tem do a (idem. vista Com do isso. pós-colonial e desconstrutora. diaspórica. as vozes postas no centro do processo de elaboração da história. estamos em meio a uma crise das na ação conjunta de um duplo deslocamento: a descentralização o mundo social e cultural. (BOB MARLEY) A RMAAD emerge como movimento afrodiaspórico porque caracteriza. c omo já dito. Nesse estrutura de uma identidade processo. MARCON. construída sobre este povo na perspectiva do discurso-ideologia do colonizador pas sando. agora (re)contada por quem efe tivamente a viveu. que desestabiliza o próprio sentido das identidades até então estabelecidas. torna-s p como se deu a colonização pelo roblematizando a representação colonizado. dos identidades indivíduos mutação desenvolveu-se desde evoluindo para a concepção de sujeito sociológico. quanto de si mesmos. origem seu lugar postura n p.próprias do período colonial. uma contranarrativa. então. a inserir mação novos pontos de identidades. 07). e possível perceber 2006a. de vista discursivo-ideológicos os quais e de afir impulsionam e dão base para a ação política. subalternizadas estão Nessa contranarrativa. Tal de sujeito do Iluminismo. até atingir o que os teóricos define .

―formado e transformado continu amente em 200 ----------------------. numa a cair na armadilha anacrônica da de textualidad termos. estimularia os que fogem dos velhos termos estigmatizados a se autodeclararem e se visualizarem dentro de um grupo de origem ancestral africana fenótipo). 2003 . para além do ―negro categoria que reflete equivocadas ideias racialistas. sem identidade fixa permanente. que reforça estereótipos e leva a manute nção de estigmas e supremacismos identificação que .Page 201----------------------relação às formas pelas quais somos representados ou interpelados nos sistemas cultura is que nos rodeiam . Tomando esse sentido. de forma positiva. ou seja.em direção a um termo positivado: o prefixo ―afro . 2009). .m como o sujeito pós-moderno. a Rede ressignificou as identidades.uma diáspora. ligando-as às ideias de afastando-as das posições f . ixas. processo que se dá em consonânci a com as ações concretas dos movimentos sociais e culturais a ela articulados. para não pós-moderna. para com isso compor identidades diferenciadas. o sentido desconstrução puramente das identidades que lingüística e RMAAD adota é o das identidades em permanente construção. e Entretanto. 23). O que marca são as a a esses movimentos são identificações múltiplas as q baseadas que em afinidades esses histórica movimentos inter-comunais múltiplas identificações experiência do configuram deslocamento e seus desdobramentos e não uma identidade racial homogênea (HALL. (independente do facilitando a conscientização e o engajamento no combate ao racismo (ver: GUERREIRO. O que passa a dar ―identidade e ―unidade s têm conformado coalizões s e culturais. p.

porque nasce algo que antes era pautado por certa secundari central para os movimentos negros: a identidade racial masculina. em torno de uma tentativa identidade fixa e imutável. construídas na e pela contranarrativa da diáspora. impedem que sejam construídas baseadas em diferenças. zação de primeiramente. pela in corporação da diáspora como experiência intelectual e como vivida. dariam ênfase à multiplicidade de histórias e assim como à cultura híbrida. É nesse contexto que emerge a RMAAD como movimento afrodiaspórico. significativamente. possibilita essa ―libertação em que as referências nacionais aparecerem diluídas ou deslocadas de seu contexto territorial de origem. Nem.Essas identificações. como experiência consciência identitária. De nominoo assim. Depois. Como desenvolveu Costa (2006). e/ou reinvidicadas políticas públicas. especialmente sons. como produção cultural. para combatê-las. não invalida a existência de estruturas de poder e p rivilégio. de imagens. exclusivista e essencializada. o fato de estes movimen tos atuarem em contextos transnacionais itorialidade de ação. perspectivas caracterizado dessas pela qualquer comunidades. de con ―viagem também. os quais se caracterizam por não terem uma terr das identidades. e que se dá pela substituição do termo negro pelo afro. O que se observa é que os movimentos sociais negros da América Latina e Caribe começaram a perceber que não se encaixar em categorias o fato de determinado sujeito essencializantes e excludentes. 201 ----------------------. bens Implodiria gelamento e num mundo pessoas.Page 202----------------------muito menos. em direção a identificações que permitem maior fluidez e capacidade de abarcar questões trans versais e performativas. . na medida nem uma temporalidade definida.

a e modernidade106. por meio de suas a ela articuladas ações. que vão compor. 2004. 2005. p. colocam ―em discussão o próprio processo de construção da política moderna enquanto espaço privilegiado de representação dos interesses mundo do homem branco a a e das visões de (COSTA e AVRITZER. mas também. vão positivação das estereotipias o sendo e re-trabalhadas dando formas às de formas representações. quebrando culturais negras. ALZUGARAY. que modifica não apenas a estrutura do movimento. portanto do querer um mundo melhor. a partir da perspectiva de quem sempre esteve fora das narrativas nacionais. subjetivação e desse modo. Pass contemporânea nacionais. visto que foram populações inseridas de forma ambivalente na Dessa inserção ambivalente na história discurso emerge aquilo filosófico da que Gilroy (2001) diáspora. na composição de uma perspectiva política crítica como um projeto coletivo de ver e querer a sociedade (FERNANDES. uma estética não apen as artística104. mas também política. sua ação política (CARNEIRO.E. como sua o his designou reconta contranarrativa que reinterpreta a modernidade tória. por fim. A representantes RMAAD dessa e as organizações estética. 722). 2005). solidária e coop erativa. incita-nos a são Extrapolando territorialidades observar como o movimento negro encontra-se hoje num momento diferenciado de atuação. Como diasporic publics (públicos diaspóricos)105. de desejar e de desenvolvimento da vontade. uma inserção ser diferenciada consideradas nas exigir da política esferas de poder apontando para especificidades que precisam e respeitadas. configurando uma re-significação. Surge como substância a ser compartilhada para a construção de novas formas de ser. Nesses processos o desenvolvimento da estética . 200 1). a estética afrodiaspórica. para visibilidade desenvolvimento das potencialidades da vida social participativa.

afrodiaspórica da Rede insere-se também nos esquemas do multiculturalismo na medida em que toma

crítico

anti-essencialista107,

para si, como vimos anteriormente, uma forte ênfase em temas transnacionais, em qu estões globais e na interseção entre o local e o global, demonstrando como existe algo local em tud o que é global e vice-versa, indo além das dicotomizações. Ou seja, o movimento afrodiásporico, represent ado aqui 104 A arte joga um papel importante nesse processo, mas é questão para outra d iscussão. 105 A ideia de públicos diaspóricos contempla todos os novos públic os que apresentam uma inserção ambivalente no espaço público nacional: ao mesmo tempo em que partilham dele, compartilham redes transnacionais e se constituem como agentes permanentes de introd ução de inovações sociais no contexto nacional (AVRITZER e COSTA, 2004, p.722-723). 106 Não como cidadãos e sujeitos de história, mas como mercadoria e objeto. 107 A perspectiva multicultural vem oferecendo um novo dinamismo aos prog ramas de organização e resolução dos problemas materiais e o a desconstrução das identidades estruturais e fixas (SHOHAT e STAM, 2006). 202 ----------------------- Page 203----------------------na figura da RMAAD, emerge espaço que seja ao mesmo da complexidade de se imaginar um políticos desses grupos e reforçad

tempo local e global, principalmente para as populações que vivenciaram o fenômeno da diáspora. Como apontou Kobena Mercer, em ―uma poderosa dinâmica sincrética que se apropria criti camente de elementos dos códigos mestres das culturas dominantes e os ‗criouliza‘, de sarticulando certos signos e rearticulando de outra maneira seu significado simbólico , 2003, p. (MERCER, in: HALL

34). O fato é que, por meio de tais conexões, o movimento afrodiaspórico emerge como r ealidade coletiva, ao favorecer uma visão mais ampla do ativismo resultante da participação d as mulheres negras nos mais variados processos inter e transnacionais, mulheres que, como Teresas de Benguela108, parecem ter na alma o germe do transnacionalismo.

CONSIDERAÇÕES FINAIS No que tange prioritariamente o movimento ―negro , levando e m consideração as questões da diáspora e da estética concernente a ilo que é ela, está ocorrendo uma transição naqu

enunciado como tal. O que parece estar presente na atualidade dos movimentos neg ros é um novo debate, principalmente daquilo que se refere às identidades, e mais que isso, a no vos discursos que partem de ―vozes aseado femininas. Enquanto, num primeiro momento, este movimento esteve b

em categorias como etnicidade e identidade, quase sempre exclusivistas, masculin as e localizadas territorialmente, no momento atual, aponta para formas de organização pautadas em id entificações híbridas e em formas discursivas múltiplas, muito mais simbólicas e dispersas em rede. De estas fato, a mulheres contranarrativa está da diáspora isto do empreendid é, mundo, sua narrativa e r o mun

a

por

problematizando a realidade historicamente do dado, como também tem aberto os caminhos para se imaginar bem como outra forma de ler os

instituída, outra leitura

sentidos construídos pela representação colonial, ―reencenando evelando seu

caráter de discurso, cujos sentidos são construídos e instituídos por meio de relações de po der. Com a estratégia focada na luta contra sua pretensão de fixar os a representação hegemônica, em

sentidos, e por meio do uso de linguagens estéticas diferenciadas, como o termo ―afro , o fazer político do Movimento Negro da América Latina e do Caribe vem se reconstituindo e se recriando. A partir da contranarrativa da aspórica, a RMAAD vem empreendendo mentos que uma reconstrução a constituem, dos diáspora e sentidos da nos estética inúmeros afrodi movi

ressignificando os valores oriundos da cultura dominante e construindo uma ―contra narrativa dos

108 stado

do

Líder de uma Mato Grosso

comunidade quilombola do Sul, que

do

século

XVIII,

no

E

comandou mais de três mil pessoas e que chegou a agregar índios b olivianos e brasileiros, fato que incomodou a Coroa, uma vez que influenciava a luta dos bolivianos e americanos ( ingleses e espanhóis) para a passagem de mercadorias e internacionalização da Amazônia. 203 ----------------------- Page 204----------------------acontecimentos. O que cada vez mais como se vê é a fonte força da diáspora africana surgindo

inspiradora para estreitar laços tre os povos das

de fraternidade, cooperação e unidade cultural en aquilo que como denominamos de como um mo

Américas e seu futuro, constituindo movimento transnacional afrodiaspórico. Por fim, vimento afrodiaspórico, a RMAAD,

representação

desterritorializado e reterritorializado, aponta para a existência de um contexto político-cultural que incorpora e, ao mesmo tempo, inspira manifestações que emergem nas fronteiras geográf icas locais. A experiência as, demonstra dessa Rede, como os com suas múltiplas conexões e parceri

movimentos negros da América Latina e Caribe não podem mais ser reduzidos a uma que stão de mera cópia ou repetição de doxas estrangeiras, onstituem, talvez desde sua na medida em que c

origem e cada vez mais, um fenômeno global, desterritorializado, virtual e imater ial. Um verdadeiro movimento afrodiaspórico transnacional. REFERÊNCIAS ALVAREZ, Sonia. ―Feminismos latinoamericanos: reflexiones teóricas y perspectivas comparativas . In: RÍOS, Marcela Tobar (Ed.) Reflexiones teóricas y comparativas sobre los feminismos en Chile y América Latina , Santiago: Notas del Conversatorio, 1998, p . 4-22. ALZUGARAY, Patrícia. ‗Oceanos da representação negra: Na Mostra Pan-africana de Arte Contemporânea, realizada em Salvador, o debate é mais político do que o e stético‘. URL: http://pphp.uol.com.br/tropico/html/textos/2562,1.shl. (Acesso: 01 jun. 10), 20 05.

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Luzia Gomes Ferreira109 "De museus fazem parte dos lugares que, na ordem do coletivo, suscitam sonhos". (Walter Benjamin); "As coisas têm peso, massa, volume, tamanho, tempo, forma, extura, cia, du -ração, pro-fundi -dade, preço, têm densidade, cheiro, contorno, temperatura, aparência, coisas não des -tino, idade, paz." (Arnaldo Antunes) Resumo O texto apresenta uma reflexão acerca dos modelos adotados para classificar objetos africanos inseridos em acervos museológicos ocidentais. O estudo da cultura material possibi lita ampliar as interpretações sobre os objetos, articulando a sua produção, uso e reuso em diversos contextos, dentro ou fora dos museus. Contudo, ao interpretar o museu como um cenário de repr esentações do outro, possibilita identificar como determinadas classificações d os objetos são estabelecidas, compreendendo assim que etnográfico e/ou artístico são classificações instáveis e permeáveis quando atribuída a cultura material africana. Palavras-chave: África, Artístico, Cultura Material, Etnográfico, Museu. Abstract The text presents a reflection on the models used to classify African objects em bedded in Western museum collections. The study of material culture to widen the interpretations of the objects, articulating their production, use and re-use in different context s, inside or outside of museums. However, interpreting the museum as a scene of representations of the other, possible to identify how certain classifications of objects are established, understand ing how ethnographic and / or artwork are unstable and permeable ratings assigned when the African culture mat erial. Keywords: Africa, Artistic, Material Culture, Ethnographic, Museum. Introdução A possibilidade de se formular interpretações sobre as diferentes ma neiras pelas quais os diversos coletivos humanos, ao longo do tempo e em distintos locais, se organ izaram passa pela 109 Professora Auxiliar I do Instituto de Ciências da Arte (ICA) Universidade Federal do Pará (UFPA), da sentido. As função, valor, consistên cor, posição, t modo claro, os

onde leciona para os cursos de Museologia e Artes Visuais; B acharel em Museologia pela Universidade Federal da Bahia (UFBA); Mestranda em Antropologia Social pel o Programa de Pós-Graduação em Antropologia (PPGA) do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH/UFPA); Pesq uisadora do Grupo de Pesquisa Arqueologia Pública e Coloboradora do Projeto de Pesq uisa Os Significados do Patrimônio Arqueológico para os Moradores da Vila de Joanes, Ilha de Marajó , Brasil - ambos co ordenados pela Profª. Drª. Marcia Bezerra (IFCH/UFPA). E-mail: luziagomes@ufpa.br 206 ----------------------- Page 207----------------------análise descritiva e e fixaram modos de interpretativa produção, das formas como estes criaram

critérios de circulação, armazenamento, consumo e, sobretudo, instituíram usos e signifi cados para os objetos materiais, as coisas físicas, com as quais tiveram contato ao longo de suas existências. onsidera-se Partindo da definição de os objetos como cultura material de Meneses, c

―[...] o suporte material, físico, imediatamente concreto da produção e da reprodução da vid a social [...] , (MENESES, 1983, p. 112). Sendo, ao mesmo tempo, o produto e o vetor de rel ações sociais; o resultado de formas específicas dos indivíduos se organizarem socialmente e o cana l de produção, reprodução e efetivação das relações sociais. de objetos Dentro dos diversos com os quais um contextos sociais, o conjunto

indivíduo se depara é, no geral, muito grande e variado. Sendo a possibilidade do es tabelecimento de usos, valores e sentidos associados ao lugar ocupado por estes, dentro das ca tegorias culturais e sistemas classificatórios com os quais, como afirma Gonçalves, ―[...] os sit uamos, separamos, dividimos e hierarquizamos [...] implica em Segundo uma Durkheim ordem (GONÇALVES, 2007, p.14). e Mauss, ―[...] toda classificação

hierárquica da qual nem o mundo sensível nem nossa consciência nos oferecem o modelo [...] ,

(DURKHEIM; MAUSS, 1999, p. 403). Contudo, nas diferentes sociedades em funcionam ento, os objetos materiais se transformam, processo são re-classificados, sendo ―[...] importante deslocamentos e suas acompanhar se desgastam, e dos circulam e neste seus contextos s

descritiva através

analiticamente diversos

transformações e re-classificações ociais e simbólicos. (GONÇALVES, 2007, p.15).

No caso das sociedades modernas, há duas categorias de objetos, dis tintos na origem, cuja importância atribuída está, ironicamente, no fato de serem percebidos como elemen tos que se encontram fora do cotidiano: os objetos artísticos e os etnográficos. Pensando o Museu É euro-ocidental possível ―[...] inferir que a instituição museu é uma criação

constituídas por categorias classificatórias, ordenadoras do mundo [...] 008, p. 49), e que dentre as suas múltiplas funções, duas são básicas: ―[...] (coleta e estudo, documentação, ivaconservação e armazenamento) e comunicação

(SALADINO, 2 salvaguarda ação

(exposição,

sóc

cultural, avaliação). (CUNHA, 2006, p. 15). De acordo com Saladino os museus: ―[...] foram as instituições onde surgiram as primeiras iniciativas de proteção dos objetos evocativos da história nacional e foram consolidados os mitos fundadores e a história oficial, ligados à tradição cultural das elites . (SALADI NO, 2008, 207 ----------------------- Page 208----------------------p. 49). No entanto, entre as surgiram movimentos no campo décadas de 70 e 80 do século XX,

museológico da Europa do Leste e América Latina, influenciados por demandas sócio-políti cas da época que suscitou questionamentos acerca do ―papel e função social do museu .

hile

(1972),

Documentos a criação

como a do Comitê

Carta

de

Santiago 1977) dentro

do do

C Co

Internacional de Museologia nselho Internacional de

(ICOFOM – Museus

(ICOM – 1946) e o Movimento Internacional da Nova Museologia (MINOM), estabelecer am novos paradigmas e pressupostos teóricos para se pensar ―o papel e a função social dos museus nas sociedades contemporâneas, especialmente onde grupos sociais até então na América Latina,

invisibilizados desse ―lugar oficial de memória , começaram a reivindicar sua auto-repre sentação. Desse modo, pode-se interpretar o museu como um dos espaços de rep resentação do outro, quais mas, também de nós mesmos, os objetos se tornam onde se contrói narrativas nas

fundamentais para fazer o elo de ligação entre memória, passado e presente no presente . Segundo Meneses: O museu não é uma forma de reproduzir o mundo e a v ida. No entanto, muitas ma forma de transportar vezes essa confusão ocorre. O museu não é u para um espaço específico e concentrado a vida ao vivo, a p seu natureza ou nos produtos entar ) o mundo, os homens, as coisas, as relações. (MENESES, sítio web). Os objetos foram e, do o centro das atenções; na maioria das vezes, continuam sen próprio fluxo – seja nos produtos da da ação humana –, mas é uma maneira de representar (re-pres

ulsação da vida de todo dia no

tanto para os profissionais que atuam nos museus, quanto para o visitante. É notório que o grande público freqüenta os museus para ver ―coisas . Os objetos causam fascinação e de spertam sensações, fatos que não devem ser ignorados nas reflexões acerca dos museus. Para Menes es: e o deleite afetivo, as Entre as funções prioritárias estão igualment relações de subjetividade que se estabelecem entre os indivíd por exemplo, como suportes da memória, marcas ide ntitárias, e agem para definir

uos e as coisas e que funcionam,

ra

reforçar

referências,

trajetos, para explicitar percursos, pa definir amarras – principalmente de espaço e de tempo, já que somos s pelo tempo. Mas também se vai ao museu em busca d

eres balizados pelo espaço e e informação, isto é, para levantamento de atributos empíricos de coisas, pa ra apreensão literal de dados – também para a que ainda para a formação, (MENESES, sítio web). educação, não constituem conhecimento – e substantiva, seja de natureza

seja metodológica

Ou como sugere Chagas: Os museus ainda são lugares privilegiados do mistér io e da narrativa poética que que de torna utilizar possível coisas essa se constrói com imagens e objetos. O narrativa, o que fabula esse ar de mistério, é o poder como dispositivos de 208 ----------------------- Page 209----------------------diferentes, significados CHAGAS, 2008, p. 113). A partir das reflexões ue por serem produções dos autores supracitados constata-se q mediação cultural entre mundos e tempos e funções diversas, indivíduos e grupos sociais distintos. (

humanas, os objetos são passíveis de fornecer diferentes informações de variados aspect os acerca dos o diversos grupos sociais, imaginário humano. Ao além de suscitar que os emoções objetos e não mexer devem com

serem expostos nos museus apenas causar sensações

compreende-se

agradáveis aos olhos, mas também, propiciar inquietações, indagações e desestabilizações. Com base na lizar ―[...] os testemunhos do teoria museológica acredita-se musea

homem e do seu meio, seja meio físico (natural), seja do meio transfor mado pelo homem. (GUARNIERI, materializados 1990, p.07). Todavia, além de diversos e esses testemunhos

complexos, são selecionados e classificados desde a sua coleta e inserção no acervo até a exposição onde as representações tomam formas materializadas:

O museu por operar com sistemas classificatórios também estabelece h ierarquias não apenas entre os diferentes objetos. mas também. promovendo silêncios e omissões.16) lar. articulada e articulando-se com outros elementos e signos do sistema de conhecimentos e de poderes instituídos. abrigadas memórias de produção e re-produção pode de ser poder para consid onde são materializadas que podem ser representativas determinados grupos sociais e e significativas não para outros.. possuindo uma ―natureza entro ou fora dos museus. Sendo assim..Page 210----------------------objetos da vida social. entre os diversos coletivos huma nos. não fazend parte de um contexto sócio-cultural. p. sítio web). apenas sentida ... mas. Artístico ou Etnográfico: faz diferença? Os objetos artísticos são geralmente concebidos como uma produção à parte da vida social cotidiana.] . De acordo com Canclini: 209 ----------------------. (C UNHA. evidenciar/dissimu iluminar/nublar elementos que seus organizadores e patrocinadore s desejam tornar conhecidos ou esquecidos. Não pode ser entendida como o fi m de um processo. conflituoso. ocultamentos. ―não pode e nem deve ser explicada. fruição e gozo. como uma obra alimentada e realime ntada permanentemente. Para Meneses é ―[. Neste quadro. um meio para a co municação e transmissão de conteúdos valorizados e trabalhados pela instituição museu. o museu também erado um cenário ambíguo.Expor é revelar/esconder. Este discurso sobre criações voltadas ―apenas para diferente dos demais objetos existentes d as artes leva a pensá-la como contemplação. incluir/excluir. 2006. (MENESES.] da natureza da representação o jogo entr e presença e ausência [. tenso. As obras são consideram-nas diferenciadas dos demais . a exposição cara cteriza-se também como espaço de luta entre poderes daí advindo exclusões. seleções.

sendo que a razão possui funções práticas e o intelecto as d e elaborar teorias sobre os fenômenos. sobre o mundo tal qual nós experimentamos. Partindo desta separação e hierarquização. nação ou classe social [. sobretudo. do que nele há de sublime. Kant vai falar do ―juízo estético que funcionaria como inte rmediário entre a razão e o intelecto . de permitir o nem teria valor co conhecimento da ―coisa-em-si .. Nestas por Kant como processos sensações agradáveis. Em Hegel.. e por extensão. são ainda em voga nas di calcadas em teorias elaboradas na segunda metade do século XIX. acadêmicas ou não. difusão e consumo que em cada socieda de. Supõe-se que as obras de arte transce ndem as transformações históricas e as diferenças culturais e. Canclini faz de modo possuí a concluir que o belo . anto às condições de scussões As concepções sobre arte. Uma forma é valorizada na medida em que possibili ta conduzir o indivíduo a um estado contemplativo deste ideal. estão sempre disp oníveis para serem desfrutadas – como ―uma linguagem sem fronteiras – por homens de q ualquer época. Hegel é quem define a Estética como a ciência que estuda o belo. (CANCLINI. nas for mulações de dois filósofos: Kant e Hegel. constituem o sentido dos objetos. no sentido implícito do objeto. consideradas intrinsecamente individuais. 1980. provocar fruição e gozo. por isso. Este juízo não im plicaria num conhecimento gnitivo. seu valor reside na possibilidade subjetiva de instigar prazer. p. uma Com relação reflexão interessante à conceituação da Estética. e rquia na qual o belo dentro desta artístico é definição estabelece uma hiera definido como superior ao belo natural. a beleza é definida como a expressão máxima do ideal. o artístico. port produção. do mo do de ser do espírito. Hege l elabora seu raciocínio sobre o tema só pode residir naquilo que expressão artística.]. residiria o belo. 08).parte do ―mundo dos espíritos e alheias.

Contudo. quando a rep rodutibilidade técnica da obra de arte passa a ser considerada um meio de emancipá-la do ―mundo dos e spíritos . p. a não ser está à idéia de ―universalidade da arte . em diverso s trabalhos teóricos sobre a arte e na maneira como a sociedade moderna classifica estes objet os. os . como também toda a finalidade a . (BENJAMIN. não só qualquer função social da través de uma determinação concreta . 11-12). 1980. arte. possibilitando re-classificar a função social. então. a aceitação. Esta como aponta Benjamin: ―[. do qual a arte perderia ―sua originalidade . cujas características variam segundo as culturas. nem uma essência de certos objet os. É interessante perceber que nos conceitos formulados por Kant e H egel implicitamente as épocas. Com o advento da fotografia e do cinema. das quais podemos destacar as de Walter Benjamin.Page 211----------------------encontra-se presente no modo como muitos artistas definiram sua produção. É um modo de relação dos homens com os objetos. ou negação dest ressupostos 210 ----------------------.mostrando que é possível relativizar este conceito: O estético não é.] uma teologia negativa na forma de uma arte "pura" que recusa. sítio web). a função da arte novas concepções sobre foram formuladas.. através perspectiva fez surgir.. A definição de modos de produção e as classes sociais estético como o predomínio da forma sobre a função não é válida para todas para a arte produzida no capitalismo como conse qüência da autonomia de certos objetos ou de certas qualidades de alguns objet os. os objetos muitos artísticos a partir da su autores não consideram estes novos meios de reprodução como um processo de emancipação e s im de degeneração. Contudo. (CANCLINI. nem uma disposição estável do que se chamou ―a natureza da humanidade .

(GONÇALVES.. p. A própria produção antropológi desta época se deu. Este período ficou conhecido como a ―era dos Museus da grande em função proximidade dos antropólogos e etnólogos com esta instituição.apesar de em alguns casos ser possível encontrá-los aí encaixa mas ao ―mundo do outro . (GONÇALVES. demonstra empre serem o tema que apesar de estudos dos objetos materiais nem s antropológicos. ao se observar o modo como foram coletados. contemporâneas pesquisadores. em seu artigo intitulado Teorias Antropológicas e O bjetos Materiais. 2007.] nos limites institucionais dos museus. não o do ―espírito um Faz-se pertinente objeto artístico pensar: do o que diferencia e as . analisados e incorporados a coleções ao longo paradigmas teóricos do tempo. eram reclassificados com a função de servir como indicadores dos estágios de evolução pelos quais supostamente passaria a humanidade como um todo..Ainda hoje. descritos. semelha etnográfico? O etnográfico também é percebido como algo externo ao cotidiano. os objetos materiais vão deixando de se r vistos pelos antropólogos como indicadores sendo encarados como dos estágios de evolução da humanidade. compartilham dessa idéia e de certa forma a legitimam. Por volta da década de 1940. de certo modo. desta é possível se perceber as mudanças de disciplina. marchands. ―autonomia ntrais nas discussões as. ―pureza . ―[. .16) iversos. oriun do de outro ―mundo . Gonçalves. p. 2007. corroborando para permanência da elitização e sacralização das produções artísticas. 18). Durante o século XIX e início do XX: Objetos retirados dos contextos os mais d dos mais distantes pontos do planeta. sobre e ―autenticidade são temas recorrentes e c arte. A maioria dos artist museus e galerias de artes.

ocorrendo uma ―[. 2007.22). Todo o debate sobre as categorias e modelos classificatórios adequ ados ou não para se lidar com os objetos etnográficos tem em comum o fato da valorização não se dar pelo obj eto em si. apagando toda noção de que o objeto po estética que mereça ser transmitida. p. o elaborar uma compreensão do objeto com base na sua etiqueta. apagando assim a ssa ―falar por si ssua qualquer – ou noção de que a qualidade estética do objeto po antes. (GONÇALVES. informações a respeito de funções técnicas.] recém criados departam entos de antropologia das universidades.. enfatizando-se os modos como os ―[. os quais passam a ser considerados como objetos de pesquisa.. e o ―[. descrição e análise.. (GONÇALVES.] . 2007. sistemas simbólicos. qualidade observador é convidado a ... Nesta forma de apresentação..19) que passam a produzir dentro dos ―[.] reaproximação entre antropól ogos e museus. p. Segundo Price: No caso das exposições que apresentam objetos como e tnografia. sociais e religiosas são e laboradas. mas pela possibilidade de incorporá-lo em modelos explicativos. ganha relevância os estud Na década de 1960. 7. p. em lugar de reagir a ele através de uma absorção sensório-emocional das sua s qualidades plásticas..] indi víduos e os grupos sociais experimentam subjetivamente sua identidade e status. ocorre a cujo junção significado dos papéis sociedade. os sobre (GONÇALVES.. 200 Nos anos 1980. p.] afastamento dos antropólogos profissionais em relação aos museu (GONÇALVES..19).Page 212----------------------meios de demarcação de encontra-se no contexto específico de cada de ―etnólogo e ―antropólogo [. ocorre um processo de historicização da Antropologia que se volta par a os diversos personagens presentes em sua trajetória.. identidade Neste e posição período social.21). considerados condições para a vida social. 2007.211 ----------------------.

.43) exposição acerca destes do papel dois tipos atribuído de aos objet levando em conta o artístico ou etnográfico que se deseja ap de ilustrações mas interpretações. p. (PRICE. não apresentando estes significados como como um fato. Bolton fornece uma descrição do modo como. Bolton. 2000.) As práticas do 212 ----------------------. os museus etnográficos norma determinado conjunto de significados em objetos e legendas. a ên cultural entre o observador e o objeto substitui a atenção seu lugar dentro de um arcabouço histórico documental. deixando o visitante livre das rédeas du rante seu noivado com o objeto (com tudo o que há de arte nele). geralmente contemplação. museu etnográfico e de história são diferentes. o deleite. O princípio pelo qual a recol ha etnográfica opera é que os objetos são coletados supostamente. objetos descrição da apresentada por ilustra as concepções artísticos e etnográficos discutidas aqui. geralmente. Ao expor lhe é objetos negada classificados a de etnográficos. (BOLTON.fase dada no ao distanciamento Em termos de natureza do texto. 122). de que a importância destes dentro do contexto no qual f oram recolhidos será mantida. Sendo o espaço expositivo um local privilegiado para analisarmos o modo como o ―mundo do espírito nossa e o ―mundo do outro é colocado em funcionamento dentro da . a fruição estética. Suas características formais e funci nais só importam na medida em que ilustram teorias elaboradas sobre o ―outro smos) e (ou sobre nós me como deve-se ―ver o outro . ou c om a intenção.Page 213----------------------lmente através impõem um conseqüência. Como (. os mu seus montam suas exposições resentar no espaço expositivo: Museus de arte costumam fornecer um mínimo de info rmação e de contexto para o objeto.. 2003. A os no museu. o mistério.

por conta disto. De acordo com Dias . p. fora das os objetos metrópoles das colônias africanas e de ou européias foram considerados como ―maravilhas nos Gabinetes de Curiosidades.108109). será a que primeiro vai marcar a especificidade do objecto etnográfico e da antro pologia. 2001. em torno dos seu ela a noção de ‗objecto etnográfico‘. seu não funcionamento. A teorias acerca da origem e da evol nova ciência autonomiza-se e diferencia-se. aos os objetos No final do século XIX africanos passam a ser e ao longo do XX s objectos de estudo. em torno da classificação dos o bjectos e de acordo com os princípios elaborados pelas ciências naturais. to humano. E esta última oposição. a Europ a do século XIX. e. Nasce com considerados objetos artísticos. como argumenta Kasfir: Nos museus ocidentais.sociedade. que se defi ne por oposição aos outros objectos: aos naturais. estes objectos . que valem pela sua qualidade intrínseca. eles são vistos como documentos do desenvolvimento da humanidade – dos seus estádios mais primitivos aos mais civilizados. A partir do proposta pelo Iluminismo século e a XIX. entre os séculos XVI tros locais e XVIII. analisados e classificados segundo o seu grau de sofisticação técnica e pelas necessidades que dão respo sta. Ao contrário das obras de arte. ter uma utilidade prática e social. q ue ela constrói as suas primeiras ução da humanidade. ser um objecto funcional. às obras de arte. Objetos africanos no cenário museológico A maioria dos objetos africanos encontrados nos museus europeus foram ―adquiridos durante o período colonial. expostos com a sistematização especialização das disciplinas surge à etnografia e os museus etnográficos: É no museu etnográfico. (DIAS. por. ao contrário delas. aos objectos artísticos . os objectos etnográficos servem para o conhecimento. suas classificações ―fora do nosso mundo . não necessariamente de forma pacífica. por ser produ arqueológicos. por ser de primitivos contemporâneos e não de povos desapareci dos. ou melhor.

. Esta re-contextualização permitiu considerar os objetos africanos co mo arte. (KASF IR. deu -se uma segunda promoção museus e galerias de desses objectos.. suas dos diferenças .. após a s ua ‗descoberta‘ por Picasso e seus amigos nas primeiras décadas do século XX.] (DIAS. p. No caso em que.01.. ou das estatuetas. por se tratar de ―[. 2001. para os arte onde foram recontextualizadas como objectos de arte.Page 214----------------------história natural em finais do século XIX.] uma palavra e uma categoria ocidental [. mais se aproximavam de o os exemplos inaugurais dos ‗bronzes realista‘ confiscados no Be Europa. semelhanças Ao mesmo tempo entre objetos não-ocidentais. 2008. apresentadas na mesma altura na Exposição Universal de Bruxelas são significativos. P. na aparência.foram sujeitos a uma dupla mudança taxonômica – primeiro de espécimes exóticos para espécime os antigos ‗gabinetes de curiosidades‘ deram lugar s científicos.] (D IAS. 105) os parâmetros adotados para interpretar artisticamente esses objetos têm nos cânones europeus a sua base. p. 2001. de rei s Kuba do Zaire.] Os objectos não-ocidentais s artísticos. (DIAS. Obviamente a arte. no sentido são vistos como objecto ocidental do termo. sítio web). sítio web). 101). também ‗realistas‘.. também encontraram-se foram fortemen de arte ocidentais.... nim em 1897 e trazidos para ocidentais e te marcadas. [s/n]. desta vez. tal como definidos pelos modernistas euro-americanos [. [s/d]. a partir da lógica ocidental: ―[. quando aos recém-criados museus de 213 ----------------------. e. O que levou a ―selecionar entre os diversos objetos prod uzidos no continente africano aqueles tecnicamente semelhantes aos europeus: Não é por acaso que os primeiros passos no sentido de reconhecer valor artístico ropósito bras de objectos que a produções não ocidentais se deram a p pela sua aparência.

O ri sco desta generalização de coisas ns casos desconectados. em algu com que se construa um discurso onde ―[.] essas criações..objetos africanos isto se deu pela exaltação de sua funcionalidade . em vez de ‗arte a fricana‘ [. sítio web). tais Geralmente nas essas diferenças são exposições ocidentais de objetos não ociden evidenciadas como aponta Price: distinção entre objetos Para estas mesmas exposições. Passou-se a definir estes objetos como ―Arte Tradicional Africana . (SALUM. etc). re religiosos e assim por diante) é reconhecido (sinalizado).. a principal Ocidentais e Primitivos é que somente os primeiros são apresenta por em momentos específicos de icação em evolução. provenientes faz de contextos distintos. vindas de centenas de cult uras que se dá o nome de ―arte africana alum é de — como se fosse uma só! (SALUM.. 2000. quando artistas modernos europeus utilizá-los como referências para criação das suas obras. a filosofia e comun dos como tendo sido criados destacar que os objetos africanos no ocidente foram legitimados a partir do mome nto em que foram inseridos em acervos começaram a museológicos. sítio web). palestras acadêmicas.Page 215----------------------e/ou Independentemente artísticos. revistas de arte. p. interessa aqui da classificação de etnográficos indivíduos identificados nominalmente uma história de estilos artísticos. seu uso ritual e caráter coletivo de sua criação.. mes mo que a elaboração de detalhes esteja reservada a outros contextos (catálogos. bem como. (PRICE.] ‗artes da África‘ (no plural). Desta forma. 121).] . nascimentos culturais e 214 ----------------------.. t extos de história da arte.. datas. o status da arte Ocidental como parte de uma hi stória documentada da civilização (com nomes. revoluções políticas. Não é a crítica a este fato o que s pretende . Para S significativa relevância pensar ―[.

o que ocorre e m situações onde . ainda sendo analisados. 2006. baseada nas dicotomias: etnográfico/artístico. temos que pensar na construção e apres memória e suas estratégias de imagens construídas acerca da produção construídos e determinados. não foram e nem são concebidos para objetos africanos. propiciando um silenciamento e desconhecimento da produção mat erial e visual contemporânea do Continente Africano. no geral. antigos não objet mui pesquisados to diferente e expostos nos museus da do século XIX. Considerações Finais Procurou-se destacar os pontos de semelhança entre os objetos artíst icos e etnográficos .] temos que incluí-los no universo intolerâncias culturais e suas dinâmicas. No entanto. 16). O objetivo é problematizar o papel dos museus grupos sociais hegemônicos na re-patriação des discursos dos legitimação através das narrativas apresentadas nas exposições museológicas. A análise nosso mundo dos modelos e sua presença dentro dos museu classificatórios adotados nestes casos concentrou-se nos aspectos. p.. nas é possível numa ver estes perspectiva lembrança cultural e entação de patrimônios. Uma vez que ao falar de museus: de confrontos e [. não podemos retroagir eus respectivos locais de e (re)-colocá-los a dos origem.. funcional/não funcional. e esquecimento. (por sinal os m ais evidentes). que permitem identificá-los como duas categorias distintas. no tempo e isto espaço discuta não é peculiaridade dos em s como.aqui. serem Assim musealizados. mesmo porque a maioria dos objetos ocidentais e não-ocidentais.os ―fora do s. A ―arte tradicional africana etrimento da Arte continua sendo preterida pelos especialistas no tema em d Contemporânea Africana. coletivo/indiv idual. lugares sociais os africanos Atualmente. (CUNHA. ainda que na contemporaneidade se ses artefatos.

Um caso interessante é um Monumento África vão sendo adotados a Zumbi dos Palmares existente na cidade do Rio de Janeiro. ou indiretamente dos africanos escra vizados que aqui aportaram . assume ―voz na arena internacional e no seio das nações . os Enfim. ou a e incorporados.as fronteiras entre o artístico e o etnográfico são permeáveis e instáveis? Ou o ―outro ráfico. que ―remetem Dentro deste contexto. Obviamente povo que originalmente é produziu ana contexto de positivação da origem africana. ou de produzir arte? E quando es ses objetos africanos são utilizados para afirmação das identidades negras nas Américas da Diáspora? 215 ----------------------. Tanto nos o continente subsídios para . considera-se princípios dos sistemas de suma importância que se quer para si sobre refletir . ou. luta ―por sua autodeterminação face aos estados nacionais 2001 p. uma série de objetos produzidos na África. mas dentro do e o do Benin. internamente.Page 216----------------------mentou No tocante ao Brasil é visível que o interesse pelo meios acadêmicos de nos últimos anos n au (DIAS.13) exigindo o direito de falar sobre seus objetos. no qual o líder quilombola é represe ntado a partir de uma réplica de um ―bronze realista crônico tentar encontrar qualquer relação entre Zumbi esta peça. após o fim do processo de colonização.como também entre indivíduos e grupos organizados preocupados com a valo rização e legitimação da identidade negra brasileira. atrelado a valorização da identidade negra. esta escolha é bem representativa dos critérios adotados para se definir a ―África .que buscam africanos refletir sobre a influência dos modos na formação da identidade vida dos povos nacional e nos grupos que descendem direta. etno Continente Africano.

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Não pense expansionista. revisão técn ica de José Reginaldo Santos Gonçalves. desde o norte até o Sul dos o e pelo sul até Não: é o Brasil. Editora GARAMON. 48-59. USP. Revista de Museologia.Page 218----------------------O PORTO E A ZONA: PASSEANDO PELA REDE DE DIFUSÃO MUSICAL BELENENSE Bernardo Farias110 O Caribe. Tradução de Inês Alfano.pdf Último acesso realizado em 28 de setembro de 2010 às 14h35min. SALADINO.casaruibarbosa. 115 (nova série) Julho/Dezembro. ―Museus da Ibero-América: para uma mudança de paradigmas In: Revis ta Eletrônica Jovem Museologia. Waldisa Russio Camargo. São Paulo: Martins Fontes.br/codigos/textos_didaticos/001/por_dentro_e_ao_redo r. Sally. 2008. SP. ―A Cultura Material no Estudo das Soci edades Antigas . __________. Marta Heloísa Leuba. Vol.unirio.pdf Último acesso realizado em 20 de setembro de 2010 às 08h55min. Disponível em: http://www. Disponível em: http://www. 13-42. Immanuel. Arte Africana e autenticidade: um texto com uma sombra. N .gov. não é somente que é um delíri dos Estados Uni . F. p. ―Museu.br/jovemmuseologia/documentos/5/alejandrasaladino_artigo. 2007.ro. Disponível em: http://www.arteafricana. Rio de Janeiro. MENESES. em rigor s e estende. São Paulo. Arte Primitiva em centros Civilizados. Editora UFRJ. GUARNIERI. 2008.br/dados/DOC/palestras/AnaisMuseusCasas_IV/FCRB_AnaisMuseusCasasIV_UlpianoBezerraMeneses. 2000. PRICE. uma área que como o Caribe geográfica. Disponível em: http://www. George W. Sidney. Curso de estética: o belo na arte. In: Revista de História. n . que. 1989. 07-11. 3. 1. Crítica da faculdade do juízo. SALUM (LYSI). N  5. In: HEGEL. KASFIR. p.artafrica. KANT. 19 96. 217 ----------------------. 1993. O museu e o problema do conhecimento.php?id=14 Último acesso realizado em 29 de setembro de 2010 ás 13h15min. 1983.info/html/artigotrimestre/artigo. Alejandra.html Último acesso realizado em 29 de setembro de 2010 às 21h31min. museologia e formação . Ltda. Ulpiano Bezerra de. Rio de Janeiro: Forense Universitária. ―Por dentro e ao redor da Arte Africana.usp. Rio de Janeiro. p.

aos limites da divisão política. ele coloca a região . Belém tornou-se uma grande metrópole regional. companhias encontravam transportando destas rotas mercadorias transatlânticas. na cidade.. muitos trapich es. UEZ. vislumbra-se uma compreensão mais acurada da conexão cultural Amazônia-Caribe. os quais nas décadas seguintes funcionariam como ponto de chegada ntrabando.. pois sua privi legiada situação geográfica no estuário amazônico lhe garantiu um importante centro urbano. 154-155). ao termos Norte em uma noção uma posição que crucial não . O surgimento das grandes companhias de navegação estrangeiras. Pratic amente todo o comércio da região. onde queria cada sem um sentiu que era possível limites de classe nenhuma. vista Belém já possuía Muitas uma posição de geográfica nave importância do ponto de gação internacionais que cruzavam Belém no oceanos caminho econômico. se os geógrafos. Neste corresponde momento desterritorializada da cultura caribenha. fazer deus [. p. Havia naquele início de século. teria que passar pelo seu Porto. forçosamente. uma realidad e sem . hasta Brasil . Na vira da do século XIX para o ratégica de grande século XX. e homogênea dade sem fim. ofici .crêem sim sa uma área cultural do muito encruzilhada mundo. fez crescer a afluência da navegação e logo surgiu a necessidade de se construir um porto em Belém. O fato de a região amazônica e importante para a ter uma vocação das embarcações de co natural para navegação revela-s realização do contrabando.] nes forjou um sentido de liber nem lei o que (GARCÍA MARQ Quando García Marquez diz que o Caribe se estende até ―el s ul. A intensificação das atividades comerciais na região.. fruto do aquecim ento econômico do ―ciclo da borracha . 1999..

Ressaltam os.br. tornaram-se diferentes. assim como o conseqüente acirramento das di sputas de classes entre estivadores e os donos da companhia. funcionam como um canal inicial das hibridizações posteriores. inclusive torn ando-se por um tempo. ambiente de forte boemia nas décadas de 60 e 70. . tais como o poeta Ruy Barata. Sem dúvida. de mas que o porto acaba desempenhando também uma Em Belém. não não só só uma através função da econômi ação de influência cultural interessante. 218 ----------------------. cuja vida boêmia dos um símbolo daquele espaço. localizava a famosa ―zona do meretrício . Bolsista CNPQ/CAPES de Doutorado. Pelo seu cosmopolitismo.com. us trabalhadores. onde se traz consigo. podemos dizer que o porto é um espaço de hi bridizações por excelência. que vêm As trocas interculturais e vão para lugares fruto do contato de pessoas tradicionais encontros da vida cultural no Bar do Parque. 110 Estudante de Doutorado do Programa rsidade Federal da Bahia de Pós-Graduação em Música da Unive (PPGMUS/UFBA). portanto. (perto da área portuária) e alguns p ontos conhecidos. Integrante da Associação de Pós-Gradu andos da Universidade Federal da Bahia (APG/UFBA). onde predomina a circulação de pessoas de diversas partes do mundo. mas s também pela ação das empresas estrangeiras de navegação. um verdadeiro reduto de artistas e intelectuais. inevitavelmente. a região do centro histórico de Belém é de grande importância cultural para a cidade. o fato ca.Page 219----------------------como o Bar do Parque. o porto torna-se um local transna cional.nas onde cada vez mais operários navais se avolumavam. representam um marco deste pe ríodo. o bairro da Esta imagem do porto Campina. Contato: apostilas2001@yahoo.

A Estrela do Norte é uma sede conhecida no Brasil todo aonde vem gen te de 40 anos atrás. Inclusive eu fui a Fortaleza e peguei um táxi de um senhor lá. O senhor pode até não acreditar. 111 Entrevista realizada em 23 de maio de 2009. E a ―Estrela do Norte? .Então vinha muita gente. ―Vocês são paraenses? .O Taxista de Fortaleza veio de passagem aqui? SEBASTIÃO . que era a Zona. muitos marinheiros aqui? SEBASTIÃO . 219 ----------------------. ENTREVISTADOR.. mas eu sou o dono de lá. a Condor e a Estrela do Norte. em relação às gafieiras.Ele veio de e se aposentou como 111 tenente.da-nos O relato do a visualizar como senhor isso Sebastião Souza Oliveira aju acontecia. Era marinheiro na época. chegavam aqueles navios no cais do porto. né? [. casas de festas populares existentes em Belém nas déca das de 50 e 60. Sebastião é o dono de uma das mais conhecidas casas de festas em Belém naquela épo ca: A Estrela do Norte. Que vinha aqueles navios com marinheiros. Eu disse somos.É. porque naquele tempo a onda era essa. né? Então. (AUGÉ: 1994) Quero enfatizar que a entrada da música afro-latino-caribenha em B elém acontece por . Eu disse a Estrela do Norte tá lá no mesmo lugar. g astei muito dinheiro ali! . o point era aqui. Tais salões de festas caracterizavam-se por ser uma forma de laz er muito comum das camadas populares de Belém: SEBASTIÃO .Page 220----------------------A circulação de marinheiros oriundos de várias regiões do Brasil assim c omo de várias partes do mundo acabou conferindo smopolitismo e a impessoalidade à zona e ao porto o co Navio. ―Comi muita mulher.. Marinheiro próprios dos espaços denominados pelo antropólogo Marc Augé de não-lugares. Ai ele disse: ―Rapaz. a Estrela é uma sede conhecida nacionalmente. ENTREVISTADOR.] Então. Então só tinha três pontos pra se divertir aqui em Belém.

músicos Belém. Estes dois fenômenos sócio-culturais. sabemos somente que eles eram freqüentadores assíduos da ―zona do meret rício e que. p. se sab emos que estes marinheiros chegavam até a gafieira Estrela do Norte. Um dos espaços de lazer mais requisitados pelos trabalhadores das camadas pobres de Belém nas décadas de 50 O historiador e 60 eram. Mesmo limitado pela dimensão deste trabalho. estavam sempre em busca de diversão. marinheiros não se limitavam necessariamente às festas de gafieiras das zonas locali zadas no bairro da Campina.intermédio de espaços de passagem. 15). 2007. em O são elementos constitutivos das aparelhagens do e desenvolvimento Belém teve grande importância como elemento facilitador da chegada e da difusão da músic a afrolatino-caribenha. que (não-lugares). considero os relatos aqui expostos de grande importância para a reconstrução da paisagem cultural de Belém daquele período112. . e são vividos por agentes transnacionais . ligado às festas o fenômeno das aparelhagens está intima populares. viajantes como marinheiros. mas que não fica nos limite podemos considerar também que tais da zona e do porto. as chamadas festas de gafieiras . as aparelhagens e as festas. em precisar até onde iam os marinheiros avés de relatos como o de aportavam Sebastião Souza. Atr qu prostitutas. também am o miolo embrionário circuito bregueiro em Belém ―cuja história remonta aos boleros e merengues tocados nas ―gafieiras e ―cabarés da cidade dos anos 50 e 60 (COSTA. O FENÔMENO DAS APARELHAGENS E DA GAFIEIRA mente Em Belém do Pará. nas horas livres. reconhece do que as festas de gafieiras for Antônio Maurício. também que denominamos de rede de difusão cultural transatlântica. Não podemos de trânsito estivadores. que po dem ou não ser chamadas de gafieiras. das festas populares. um bairro de periferia. etc. sem dúvida. localizada no bairro do Guamá. Por outro lado.

Era . Ângela Maria. Jackson do Pa ndeiro. Catete e Centro. uma variação da dança e do samba também passa a ser chamada por samba de gafiei ra113. Dalva de Oliveira e principalmente Bienvenido Granda.112 Como locais de encontro e troca cultural os portos adquirem importância notável . nos populares cariocas encontramos maxixe. Luiz Gonzaga. São exemplos a Veneza do século XV. marchas e cateretês. no entanto. Eram os boleros que mais to cavam. No que tange às similaridades. Segundo Ana Maria de São José. mestiçagens. Aquele s boleros de Bienvenido Granda. Ray Connif. no Rio d e Janeiro. nota-se que as gafieiras tanto no R io como em Belém. ENTREVISTADOR . a gafieira seria um ambiente popular ocupado por ―um gr upo de pessoas de classes menos favorecidas que tinha a necessidade de diversão. Amsterdã do século XVIII. Não sei se tu conheces. 220 ----------------------. na década de 50. Para dar relevo à idéia de que o caráter transnacional dos portos pode servir como meio facil itador de processos de hibridizações. no interior do Pará. ele é cubano. p. No relato de Otoniel Fialho. os portos de Nagasaki e Cantão eram locais importantes de troca cultural entre a E uropa e a Ásia. muito xote e forró . encontramos uma amostra do repe rtório musical executado nas festas sociais e de gafieira no interior do Pará. Quanto às músicas. Waldir Calmon. a Lisboa e a Sevilha do século XVI. surgiu na década de 20 e designava o s salões de dança e cabarés localizados em sobrados dos bairros de Botafogo. 2005.Era esse tipo de música. são a expressão nítida da segregação dos iles espaços de lazer urbano. Com o tempo.O que tocava de música nas festas em Capanema? OTONIEL . trazemos à tona o exemplo de portos de c idades como Liverpool e da cidade norte-americana de New Orleans. 87). na década de 50.Page 221----------------------O termo gafieira. Já nos séculos X VII e XVIII. A gafiei ra era um local onde uma camada da população que era totalmente marginalizada e excluída dos ambientes sociais tinha a possibilidade da aceitação social (SÃO JOSÉ.

fica claro que Ot oniel se refere a um suposto surgimento do Merengue em Belém. lá no ―puteiro . que ―ah não eu . como na Assembléia. Esse comentário chocase com a hipótese de que o Merengue já anteriores de 30 ou 40. [. pois ele teria vivido mais de ―perto l só mudou-se para esse momento histórico. enquanto que os boleros de B ienvenido Granda eram mais cultivados nas festas mais sociais115. existia no décadas Pará de nas 30. E aí já começavam a dizer não danço naquela sede porque é gafieira.. essas oisas.Page 222----------------------Belém em 1959 e desconhecia a vida musical da cidade antes disso. a partir de um relato oral. as lembranças de Salles podem ter mais v alor. De forma muito i nstigante. O próprio Belém.. lá em Capanema. principalmen te em festa social. décadas em do Merengue nas passando a viver em Belém a partir de 1946. A né? minha Aí [. 114 No relato de Otoniel percebe-se o xote e o forró eram ritmos que na década de 50. Já no Cocal. Merengue já veio surgir na década de 60 . Merengue já veio surgir na década de 60. inserimos aqui mais um elemento nesta discussão116: em Belém. Sabendo que o Merengue é um gênero muito antigo e já conhecido nas primeiras décadas do século XX. De outra forma. toca Merengue . restritos às camadas populares.. Sabe? Mas o aniversário. Otonie 114 Entrevista realizada em 04 de abril de 2009. Vicente Salles recorda Nascido em 1931. Ainda não existia Merengue. tocava mais era forró. xote.do Bienvenido Granda.] porque o Merengue já foi tradição aqui mãe contava que o Merengue dançava até em depois o Merengue passou pras sede. enquanto qualificativo diferenciador de classe referente às festas das elites locais. na década de 60. 221 ----------------------.. Outro ponto interessante está na consideração d e que ―ainda não existia Merengue.] Tocava muito bolero. 115 115 O termo ―sociais deve ser entendido aqui no sentido em que é usual mente empregado no contexto desta pesquisa. música mais pesada.

Tinha dois janelões bonito. como Irineu.. cuja fama já corre por todo o Brasil devido ao intenso fluxo de pessoas que chegav am à Belém pelo porto. Não sabemos se a Estrela do Norte foi e só uma pesquisa mais ampla a primeira gafieira de Belém poderia dar conta do resgate destas fontes e fatos. ―Babá er e destacar a não mede palavras para enaltec importância da sede na história do lazer em Belém. Hoj e em dia não pode mais.Merengue tá aí há mais de 70 anos. conforme seu depoimento transcrito na seção anterior. Para falar das gafieiras enfatizamos aquela que é considerada a gafieira mais ilustre. a tenra O idade atual dono da Gafieira considera a sede lembrança é Sebastião Souza. Fã declarado Sebastião fala como começou a tomar conhecimento sobre a Estrela do Norte: O meu interesse de festa se deu desde os oito ano s. Sabemos. aquela que é o mais antigo templo do Merengue em funcionamento em Belém: a Estrela do Nort e. a Estrela do Norte é uma sed . que fundada e construída em 1928. né? E naquele tempo se assistia de fora pra dentro. teve seu primeiro prédio alugada em seguida para um erguido por Bebe do Praza. enquanto uma opção de lazer e diversão noturna. inesquecível de sua infância. a Estrela do Norte consolidou-se na década de 60 e 70 como o lug ar de cultivo . né? E eu sem pre fui fã dessas músicas e minha mãe me trazia aqui na porta do Estrel a do Norte. Para ―Babá . na época aí eu ficava assistindo a festa de fora. sendo peixeiro conhecido no bairro do Guamá. música do Caribe muito tocada. Aí eu fui. porém. Desde quando começou. Desde Estrela do Norte como uma do Merengue. peguei interesse pelo Merengue.1 17 No início da década de 60 as festas de gafieira estavam em pleno func ionamento em Belém.. sou fã do Merengue. Num tempo em que as festas de gafieira estavam em alta.118 Demonstrando muita estima. Que era no tempo do Merengue.

] O cara ia tocar lá já sab ia que não podia tocar a lambada.. 222 ----------------------. Era o social que eu te falei.Page 223----------------------certamente são os ritmos mais tocados nas festas de gafieira em Belém. tornando-se às do Merengue. 118 Entrevista realizada em 23 de maio de 2009. vezes musical porém. [. O locutor quando tocava nas sedes. como é chamada aqui e o Merengue.Existia na época uma espécie de divisão entre as sedes que eram das ca madas populares e as sedes que eram das elites? SEBASTIÃO . Por outro lad o. Então tinha essa divisão. Mas tem uns aparelho que às vezes desconhecia e metia. tinha que falar diferente. Passando a fazer parte da paisagem festas de gafieiras das camadas populares.. agora eles não rodavam os outros [ . falava na categoria. né? Ele não gostava porque ele dizia que a sede dele era ―social . nem ligado sempre às será agradáv motivo de constrangimentos e repressões. Quando vinha tocar na Estrela do Norte.. . Vejamos um caso interessante contado por Sebastião: ENTREVISTADOR . Podemos o bolero assegurar que a partir de 116 Na próxima seção trataremos de fatos que podem elucidar ainda mais a questão em relação à presença do Merengue em Belém. Nelson Gonçalves. Existia essa divisão.] tocava esse flash brega. Anísio Silva. aí ele chegava no fim e não pagava o cara porque que o cara des cumpriu a regra. no Bangu [antigas g afieiras da cidade].. popular. cantores como Núbia Lafayette. Jonas [Sede do Atalaia Esporte Clube]. mesmo com esse predomínio do Merengue. distintiva do cenário fazendo do gênero certamente uma marca musical da capital paraense. o Merengue e Belém. como acontecia em outros est ados. tinha essa divisão. 117 Entrevista realizada em 23 de maio de 2009. Altemar Dutra. a presença el.. era o socia l que chamava [. também se podia escutar. Se ele pega sse tocando uma música do Caribe ele não pagava o cara da aparelhagem.] Tinha uma sede lá atrás do Castanheira119. a sede do Sr. ent re outros.do Merengue em 1960. ele falava diferente.Existia. Orlando Dias..

Deus o livre se tocasse Me rengue.). 121 Entrevista realizada em 04 de abril de 2009. a freguesia do Estrela era enjoada. estavam perto d . na Embaixada de Samba Império Pedreirense.Em festa social não. Cabe fazer uma distinção.essas coisas diferente. a diretoria vinha logo em cima da aparelhagem. além o porto. etc. Vejamos como as prostitutas participavam das festas: Naquele tempo. as prostitutas só queria dançar Merengue. Não era proibido. ai. o Merengue e as prostitutas. há uns vinte anos atrás.120 A seguir vemos mais dois casos ilustrativos de como o Merengue e stava inserido nas contradições sociais que se manifestavam claramente nos ambientes de lazer: ENTREVISTADOR . Era ele não era toc SEBASTIÃO . pois tais localidades. 120 Entrevista realizada em 23 de maio de 2009. no Carroceiros. entrada em da especia cidad localiza-se logo na deve-se a uma árvore de castanheira enorme que marcava os limites do bairro. acabava s ―meninas . Mas era 80 % de Merengue. Guamá e Campina. ele já falava mais ligeiro. ―Essa porra já virou gaf ieira? Tá tocando Merengue? Quando tinha festa na Estrelinha [sede social localizada no bairro da Pedreira] ali. nessas gafieiras que tocavam M erengue.Page 224----------------------(marinheiros. o l homens de outros Estados 119 Bairro do município de Belém. Ainda que as gafieiras em Belém não fossem prostíbulos por excelência. não tocava Merengue. e. era censurado. proibido? eu ouvi falar que o Merengue. na Estrela ali. como muitos tornando-se um grande atrativo para a na zona. A localização chamavam as mulheres que trabalhavam das gafieiras em bairros de periferia como Condor. vinha de possuírem meretrício.Inclusive ado em sede. também facilitava o fluxo das ―garotas de prog rama . Otoniel nota-se uma clara associação entr e as gafieiras. Só tocava no Estrela do Norte. 223 ----------------------. Este nome fluxo intenso de pessoas.121 No depoimento acima do Sr. no Km 0 da BR-316.

vê se você maneira ess e ritmo de dançar .. podemos entender estava associada à sua reprováveis na pelos dos que valores espaços a resistência ao Mere presença em ambientes os aos ―bons costumes morais relacionad de lazer das ca sociedade belenense. pra dançar o tradicional Merengue. Aí ele disse que o Presidente tava por fora. marceneiros. do seu gigolô. peixeiros. É um fato que consta aqui na nossa história [. marinheiros e prostitutas. de calça mulheres faturavam a semana de linho e sapato branco. não conhecia aquele ritmo do Merengue e o Presidente acabou dando 30 dias de suspensão pra ele. Na veio. 1 o chamou atenção e ele disse ―sai p ele começo nosso que ele dos anos aqui nos anos 60 veio um Estados Unidos e passou pelo Caribe. todinha na Gaspar Viana [famosa rua da zona do meretrício de Belém] pra no domingo v ir com um vestido de primeira linha do lado do seu carachué. Presidente vulgaridade. Fazer madas baixas representadas parte por estivadores. ] Tocou uma espécie assim de mambo jambo aqui e tal aí e u a rodar a dama e o Presidente ra lá que tu não entende nada disso 23 Percebe-se que o preconceito contra o Merengue e acabou pegando uma suspensão injusta. Hoje em dia ainda cai uns velhaguarda aí. do Vejamos o depoimento de Sindicato dos Estivadores de Belém: caribenha nais aqui. né? E o Presidente da época chegou com ele ―Companheiro. 122 ngue Assim. nós chamávamos pra ele carinhosamente de ―cara de mapa . tornava o Mereng ue a expressão do mau gosto musical e da Roberto Corrêa. o Vou lhe contar uma história da influência festas do nosso sindicato aqui sempre foram festas tradicio e conservadoras . Ainda cai. As e nos companheiro embarcação apelido dele. rodando a dama. o nome dele era Ricardo Rocha de Souza e ele trouxe a esposa pra cá pra dançar numa dita festa do sindicato e ele começou a d ança nesse ritmo lá do Caribe que ele passou por lá..toda As de camisa de linho.

Existia uma forte influência da cultura européia sobre as classes médias e altas. os quais reforçavam o sentimento de inferioridade da cultura nativa em relação à cultura ―de fora . Culturalmente esse momento representou uma forte imposição de valore s e símbolos culturais e artísticos. Em Belém. Os movimentos característicos da dança do Merengue foram interpretados como um acinte aos ―bons cost umes . símbolo importante dessa época é o Teatro onde se apresentavam as companhias líricas vindas da Europa. 224 ----------------------. percebem-se ciais manifestavam-se cultural. as quais absorviam os modelos de ndos da Europa assim como imitavam seus trajes da Paz. Este período que vai do fim do século XIX até a segunda década do século XX correspondeu no plano cultural à Belle Époque d o Norte do país. 123 Entrevista realizada em 06 de maio de 2009. em especial a so desenvolvim part Amazônia.Page 225----------------------gêneros s formas afro-latino-caribenhos. que o musicais. refinamento e beleza artística oriu e costumes. ento claramente plano as desigualdades um ciclo de A exploração do látex econômico e social proporcionando grandes transformações para a região amazônica. mas também no caracteriza. ir do ciclo Na história da da borracha na no formação de como iniciou Belém.não se dava somente em termos que tange à corporalidade. A maioria da população que formava uma classe popular de . O gosto e estavam grande cultivo pela dança muito relacionados aos presente nas festas populares 122 Entrevista realizada com Sebastião Souza em 23 de maio de 2009. de danças populares A corporalidade expressa pela tradicionais e no espaço urbano pelas formas de dança em desenvolvimento nas gafieir as e sedes também servia como indicador de uma clara divisão social e cultural em Belém.

singulariza-se de forma muito interessante... a figura de rel evo é a do ―merengueiro . primitiva e ‗folclórica‘. segundo de forma muito própria. dentro de um social. De a qualquer forma.] durante centenas de anos vieram se opondo duas modalidades gerais de movimentação passíveis de fácil reconhecimen to: a da classe alta e a da classe baixa [. 1978.. gafieiras um ambiente cultural bastante fértil. 212).trabalhadores explorados Este estado não tinha acesso de desigualdades às benesses e culturais deste período. ilustra o fato de que as desigualdades sociais manifestavam-se na cultura e que tal proces so relacionava-se com um gênero de música e dança afro-latino-caribenha. ambiente urbano desigual as contradições culturais lazer e e de cultura pouca em mobilidade Belém. mesmo sem o beneplácito do moralism Merengue em Belém.. p. ação dos encontrava famosos nas os relatos. de p ajudou a constituir formas depreciativas ensar e entender a cultura local estigmatizadoras cabocla que passava a ser vista como inferior. O caso manifestam-se nos espaços de relatado pelo Senhor Roberto Côrrea. dança do (LABAN. No Pará. indivíduo que se tenção e mostrar paramentava com seu talento 225 grande esmero para chamar a a . Uma informação quase u nânime foi a de que o estilo de dança do Merengue praticado em Belém é diferente do estilo do minicano. A partir desse panorama compreendemos melhor como nas décadas de 6 0 e 70. dança-se a o Merengu criativida Mediante a de popular dançarinos de Merengue. para queml ―[. ao evidenciar como a dança associada ao Merengue era mal vista e discriminad a. Aqui.] o dominante. ou de e qualquer outro. al existente em Belém A segregação cultur várias remete a uma constatação de Rudolf Laban.

Tais fatos nos dão um panorama dos tipos de contradições presentes no m eio daquelas festas. aquele que por muitos é considerado o mais ilus tre: Orlando Boca de Ouro. destacam-se. ao surgimento e desenvolvimento das aparelhagens belenenses. por último.Page 226----------------------como dançarino nas festas. B Napuzinho. Em geral montadas por pequenos alto-falantes valvulados. inevitavelmente. calça de linho branco e camisa de manga comprida sonagem marcante nas Sapato bico fino. Entre eles aca. Um caso exemplar é o do Sr. os sonoros que tinha que ser trocad surgem como fruto da iniciativa de alguns curiosos e de simpatizantes pela música e pela eletrônica. Oswaldinho e. Milton lembra que na década de 50 se interess . Quando ainda criança. funcionando com uma agulha descartável. Milton Nascimento. As fest as ocorriam nos bairros pobres e carregavam tes ambientes ao longo do seu percurso. permitindo-nos concluir que elém representam uma espécie de as festas de gafieira em B transgressão indireta das hierarquizações sociais criadas no espaço físico urbano. a muitas vezes. construtor e dono do sonoro Alvi-Az ul. conhecidas Com o tempo as aparelhagens simplesmente como passaram a ser ―sonoros . Sinvalzinho. Caco Verde. com apenas um to ca-discos. Acreditamos que as aparelhagens são um dos grandes respon sáveis pela formação dos cenários de uito bregueiro ao qual o pesquisador o Festa na festas populares Costa se em Belém em e que o seu estud circ todos os estigmas sociais des Antonio Maurício da cidade: o circuito refere bregueiro de Belém (2007) tem nas aparelhagens um esteio importante.----------------------. compunham a indumentária padrão desse per festas de gafieira em Belém. salto carrapeta de duas cores. Percurso esse que se associa. Bronzeado.

O ambiente popular onde as festas aconteciam dava uma abertura grande. que podiam ser clubes esportivos ou casas de shows localizadas nos bairros de periferia da cidade. deixando a espontaneidade tomar conta. o DJ ja chamado locutor em Belém.ou pelo funcionamento de e em pouco tempo já tinha feito seu primeiro sonoro. No fim dos anos 50 e início dos 60 já existiam na cidade várias aparelhagens em pleno funcionamento: Rubi. as musicais em Belém tinham uma g do momento. estas passaram a fazer parte do lazer das camadas populares integrando-se Atuavam tanto nas gafieiras às festas de bailes populares. Era um tempo em que os aparelhos podi am ser levados em uma carroça. 226 ----------------------. es. pois se encontravam em con tato direto com o público. Clube do Remo. entre outras. pois atuavam divulgando as novidades estilos musicais. Alvi-Azul. apresentava performances de interação rápida e direta com o púb lico. Hércul Selma.Page 227----------------------Logo que surgiram as aparelhagens em Belém. Monte Cristo. maicano. o Alvi-Azul. Big-Ben. Flamengo. Fossem cantores ou aparelhagens eram um poderoso canal de difusão musical. assim como o Com muita desenvoltura e carisma. também as aparelhagens na capital atuava construindo e consertando paraense. M equipamentos eletrônicos ilton se tornou uma figura conhecida no meio das aparelhagens porque além de ter uma das primeiras aparelhagens de Belém. Uma história relatada pelo Senhor Otoniel pode ilustrar bem a função cult . meio de transporte ainda presente nas ruas de Belém. A Voz do Trabalhador. As aparelhagens rande importância cultural. quanto nas sedes. Além de ter sido uma manifestação de caráter popular os dois fenômenos têm na figura do DJ um elemento importante.

populares No início da década se ampliou ao mesmo pouco a de 70 pouco. a o trabalho de Acompanhada de um divulgador. Isso era um privilégio para os donos de aparelhagens e controlistas. pois éramos os primeiros a ter o disco. muitas vezes antes mesmo das rádios 124. que as aparelhagens . aproximação entre os cantores e os donos de aparelhagens e controlistas. 2007. Dessa forma. teremos mais um ingrediente engrossando o caldeirão heter ogêneo dos bailes belenenses.ural que as aparelhagens possuíam: na década de 70. veio a Belém divulgar seu disco. 60 e 70: va ter levado Talvez a constante o autor Antônio defender a Belém o abertura idéia de de que novos só no espaços início de da déca Maurício da Costa a da de 80 temos em embrião do que seriam as festas de brega na era do movimento tecno-brega: ―As fest as de brega surgiram com sua feição atual a partir dos anos 80 do século XX osso (COSTA. a cantora realizav divulgação indo às festas de gafieiras ou em sedes onde de fato estava o público consumi dor de sua música e onde tocavam com muitas vezes havia uma freqüência as aparelhagens. com esse circuito Nesta o época surgimento de festas te pr tempo em que se transformou. mos uma forte presença das casas chamadas de gafieiras. conhecida pelo seu repertório de boleros. ojeção nacional do movimento ainda e entretanto. A gente se sentia orgulhoso. p. a cantora Edna Fagundes. pois ficou sabendo que seu LP havia a tingido um bom número de vendas na cidade. Observamos no que tan ge à divulgação de artistas e na difusão de estilos musicais. clubes A e seguir expomos gafieiras mais uma lista das sedes sociai conhecidas em Belém nas décadas de 50. s. 14). P concordar em parte com esta datação contida na afirmação de Costa. musical da Jovem Guarda. ―Recebíamos os discos de vários artistas em primeira mão. bares.

O depoimento ganha força. No tocante à atuação das aparelhagens na formação do gosto musical popular. pois parte justamente de uma pessoa aparelhagens. o Senhor Otoniel Fialho traz uma primeir a pista sobre como se dava a relação das aparelhagens com a música de caráter afro-latino-caribenho em Belém: ―Os discos de Merengue vinham de contrabando. com Merengue. até metade da com os discos depois de ―música caribenha . e passou a ser chamado de lambada. Otoniel Fialho em 04 de abril de 2009. Bento. transportava café e trazia carro. aumentando a sua atuação neste sentido com o p assar dos anos. 124 Entrevista realizada com o Sr. até carro eles traziam amarrado no barco 125. Outra contribuição importantíssima aparelho Benson foi dada por Bento e amante muito ligada ao meio conhecido das dono do Maravilha. Disco q . parece que era Clemente o nome dele. Quem trazia bastante era esse. relação do Merengue com o público das camadas populares parae como o gosto da população freqüentadora das festas já havia assimilado mas também a relação das aparelhagens te. declarado de Merengue. segundo ele cerca de três mil. demonstra o ritmo. 227 ----------------------.. Ele tinha barco. o movime nto atual do tecno-brega é muito mais um continuum deste processo iniciado na década de 50.cumprem esse papel desde seu surgimento nas décadas de 50.Page 228----------------------A nse. fala como adquiria os discos de Merengue tão inacessíveis à população belenense da época: ue eu falo E era vinil. Em um depoimento interessante. que possui provavelmente o maior acervo de discos de Merengue em Belém. Era o dono da aparelhagem Clube do Remo. Ao as pessoas mesmo traziam discos. especificamen disso com a inserção do que década de 70..

as aparelhagens pouco a pouco iam construin de LPs e compactos. eles faziam pedidos. comprar disco de contrabando nos navios aqui defronte. como evidenciam os dois relatos abaixo: SEBASTIÃO . Tinha um cidadão que morreu há uns dois anos atrás. Corinthians paraense... chamado Lourinho. viajav a o mundo todo de navio.126 pessoal do diamante. eles mandavam buscar Merengue fora nesse tempo [. cada investimento.O Sr. paralelo a isso eu ia com o pessoal das outras aparelhagens.Clube do Remo foi um grande aparelho aqui.127 ENTREVISTADOR .tempo. compacto com buraco muito grande que era o disco de Merengue. 127 Entrevista realizada em 23 de maio de 2009.. esse Corinthians paraense dele recebia um auxílio do Corinthians de São Paulo. que eram aqueles discos com buraco muito grande no meio. mandavam um auxílio tod o mês pra comprar material.Page 229----------------------SEBASTIÃO . Ele tinha a sede e o aparelho chamado P . [rua do bairro do Guamá] chamada Corinthians. o do seus acervos Ao longo dos anos.] Quando ele vinha d e lá ele botava pra tocar num aparelho chamado Paraense que ele tinha.Sabe por que ficou conhecido? O Merengue é o seguinte. Grandes acervos foram construídos e muitos donos de apa relhagens se tornaram verdadeiros colecionadores . Quando eles davam o giro já tra ziam os pacotes. tem porque o Merengue ficou tão popularizado aqui em Belém? uma desconfiança.. que tinha uma sede na João de Deus. Eles mandavam. Era uma filial de lá. 60 e 70. por intermediário de alguém. O Lourinho quando chegava [. 126 Entrevista realizada em 11 de abril de 2009. esse Lourinho ele viajava. Com muito esforço. Eram caixas assim.] parava muito navios aqui no porto e eles. 228 ----------------------. a li. Como os de relíquias musicais das décadas de 50 discos eram raros em Belém. uma idéia 125 Entrevista realizada em 04 de abril de 2009. Então. a saída muitas vezes era ir buscá-los fora do estado.. pois a maioria dos discos de Merengue e cúmbia não eram vendidos nas lojas de Belém.

eles [os marinheiros] iam pra Condor [bairro da periferia de Belém].. [.. aí quando os navios chegavam a o cais do porto os donos de aparelhagem iam comprar direto lá... a qu al herdou de seu pai. Criada em 1945 pelo Sr.) E despertou a idéia daqueles caras de aparelho que era o Milton do Alvi-Azul. as valsas. Colossal Colômbia. o cara já ia comprar no navio mesmo. quando o Lourinho chegava eles iam pra casa do Lour inho pra escolher os Merengue bom. quem trouxe foi um marinheiro do Peru [. DJ Disco de Ouro do Brasil.Papai conversava com os amigos dele. Zenon Fonseca. Aí parava no cais do porto.. daqui. era da marinha mercante. escorava nesses portos por aí. o Brazilândia surg e como uma tentativa de atrair a atenção dos clientes. papai era marinheiro. Zenon era surgindo marítimo ass e t interessante é o rabalhava viajando fato de que o por rotas que passavam pelo Caribe e Estados Unidos: ENTREVISTADOR . mais dançante. O pessoal de lá queria música nossa. E foi daí que veio e que introduziu no Brasil. Eles encomendavam já nos navio. qu e era uma música mais agitada. com essa tu rma aí levando mercadoria. ENTREVISTADOR . para Um divulgar detalhe seus Senhor produtos. foi o maior sucesso esse tipo de música. e o pessoal. os aparelhos da época.] Quando os navios chegavam. (. Zenon Fonseca. na época... ZENILDO . essas coisas as sim que papai levava. porque viajava.] Aí depois já começou a chegar os navios que vinham de fora. encostando nesses portos por aí . e lá faziam troca com os discos de lá com os discos daqui. da Condor direto pra cá. também eram doido pelos ritmos nossos daqui. O senhor Zenon tinha uma loja de móveis chamada Brazilândia e colocou algumas caixa s de som na im frente da loja a aparelhagem. Eles trocavam. Todos eles compravam.] Inclusive eu. E quando chegou ess a música caribenha no Brasil.Fale um pouco mais da importância e de como é que você vê a presença da música caribenha no Calhambeque da Saudade (nome dado por Zenildo a um projeto de festas no . estrangeiros que gostavam da música paraen se. que ele marinheiro. era os boleros.Fale um pouco sobre como essa música do Caribe chegou aqui em Belém.araense. inclusive eu tenho o Merengue da flauta. 128 de Outro aparelhagens é nome que não o de Zenildo poderia ficar fora do painel Fonseca. [. Zenildo é dono da aparelhagem Brazilândia. propriamente dito aqui em Belém..

nossos 128 Entrevista realizada em 23 de maio de 2009. Aliado à música de verniz afro-latino-caribenho. aí vinha surgindo devagarzinho. os Me rengues de lá hehe. a partir da metade da década de 60.. e hoje como o Pará é rico em ritmos!129 benha Pelo que conferimos encontrou nas festas até agora a música e também a afro-latino-cari populares realizadas em Belém um lar aconchegante. Aí vinha através de navio.. É importante ressaltar que esta paisagem. sidade existente nas festas Ficou claro que apesar de toda a diver .Page 230----------------------irmãozinhos lá do México. NOTANDO A PRESENÇA AFRO-LATINO-CARIBENHA Como já percebido nas seções anteriores. assistese à explosão da Jovem Guarda no Brasil e ao surgimento de novos ícones e artistas no cenário musi cal brasileiro. lá da outra região da América turma lá das Guianas Francesas. foi o ambiente fértil e possibilitador das hibridizações musicais da música urbana parae nse. porque aqui. 229 ----------------------. alguém trazia. Tudo começou quando meu pai. Não vinha esses discos. porque nós somos rico s em vários gêneros musicais aqui... de fato marcada pela diversidade. essas músicas. existe uma convergência quanto à p resença do Merengue em terras paraenses. Logo que caiu no gosto musical da população. bem nosso do Pará. as lambadas. As aparelhagens puderam colocar a e acreditamos que é nesta variedade da chave para lado a lado que vários podemos estilos encontrar da a époc vida musical belenense entender a rede de difusão cultural transatlântica e sua influência na chegada e na difusão dos gêneros carib enhos em Belém. que meu pai era marinheiro.A música caribenha já é um produto bem. era um negócio tão difícil.qual as músicas antigas são a tônica)? ZENILDO . a e musicalidade afro-latina Belém dividindo espaço passa com a compor a paisagem musical d outros estilos musicais.

o reggae e da o zouk. O gue em seu notório caráter nebuloso e transnacional adquirido pelo Meren controverso percurso dentro da história caribenha é reforçado ainda mais por conta da sua difusão 129 Entrevista realizada em 20 de abril de 2009. este grupo. assim como o cultivo da música. Alavancados fora pela da República Dominicana. a b anda se . Pois. De algum modo. O fato de que. tinha em sua formação músicos como Luis Quintero e Dioris Valladares. nesse momen to. até sua expansão no século XX. Havia um ―jeito especial de dançar Merengue. diante do caldeirão cheio de ritmos que é o Caribe.populares. No contexto desta expa caribenha. é que poderemos en tender o destaque alcançado pelo gênero na região Norte. no estado do Pará.Page 231----------------------realizada nsão da por inúmeros cantores música afro-latinoe músicos. torna a busca fenômeno bastante intrigante e motivadora. isso nos leva a crer em certa predominância deste ritmo. desde seu nascimento. 230 ----------------------. além do Merengue. pois somente seguindo sua linha evolutiva. outros gêneros caribenhos como o cal ypso. o acordeonista Angel Viloria e seu Conjunto Típico Cibaeño foram os respo nsáveis pela propagação do Merengue de 50. que foi sem dúvida o primeiro a obter popul aridade fora do país. da diversidade musical flagrante que esta região apresenta. indagamos: o que deu a o Merengue esse suposto privilégio no contato com as terras do Norte do Brasil? É forçoso. também tiveram explicação para este penetração na mesma região. Em 1953. na década gravadora Ansenia Records. atermonos em aspectos que consideramos importantes na história do Merengue. o Merengue foi enfatizado nos relatos como fonte de certa tradição.

s do Merengue são freqüentemente citados. estes nome Quando pergunto ao Sr.. em indo Belém. antigos donos de aparelhos. de uma procura fracassada por Depois informações sobre esse ritmo. f vezes apontados como representantes do passaito. imeiros donos de Em várias entrevistas realizadas em Belém. o grupo também da Colômbia e tocando ficou o muito em conhecido. grupo passa a Sebastião Souza. Cantores e grupos oram muitas como Trio Renoso. Angel Viloria. gerando araenses do meio popular. sobre sua lembrança do Merengue ele fala ―Luiz Quinter o. relata um episódio sobre o grupo: Teve um cidadão chamado Clemente que uma vez trouxe à Belém os Corraleros de Majaguá.] esses que eram os titulares 130. lacionado ao Merengue. Aníbal Velásquez e Corraleros de Majaguá. um dos pr aparelhagens sonoras em Belém. podemos supor que se tratava de um nome criado pelos paraenses. Milton Nascimento. Luiz Viloria. 1997). Tais artistas são provenientes d a Colômbia e se inscrevem na chamada era de O que talvez motive a confusão é o fato serido o Merengue repertório. Algumas pessoas do meio musical. Jorge Valadários [. ass im como músicos. dono da famosa gafieira Estrela do Norte. também comentam sobre um ritmo chamado passaito.. negócio de Merengues. também tivessem pelos in p grupos sua uma ambigüidade musical classificação majoritariamente cúmbias e porros . o conjunto fazia sucesso na época. no aniversário do Clube do os Corraleros de Majaguá. Nesse dia lá ele fechou o trânsito . O grupo Corraleros de Majaguá teve uma projeção imensa a partir da décad a de 60 e. torn (AUSTERLITZ. Remo ele trouxe . Então. Belém Mesmo ser v re de em que seu ouro da muitos história desses em da cúmbia colombiana. era novidade. ele tinha uma sede e um aparelho [o apa relho chamava-se Clube do Remo]. o conjunto.divide ando-se e esses ícones músicos passam do Merengue a seguir carreira solo.

O que se falou pela prim artigo. para a finalidade deste trabalho. cujo expansão desta do panorama no da mundo. atual República Dominicana. com o artig o de Eugenio Perdomo. julgo importante entendê-la também (considerando suas partic ularidades) em seu desenvolvimento e expansão no Brasil. músic Para desenvolvimento evidencia uma estudar a música afro- música 130 Entrevista realizada em 18 de maio de 2009. 231 ----------------------. são os resultados divergentes dores mais conhecidos. é que as prime iras informações a respeito do Merengue surgem entre meados da década de 40 e início da década de 50 do séc ulo XIX em Santo Domingo. A despeito de todos os en treveros já ocorridos. sem hoje a pode que ter marcado seus os estu dúvida. publicado no Jornal El Oasis. O ponto em comum entre a maioria dos historiadores. a mundial da não pode desligar-se época. mas que vinha se popularizando cada vez mais nas camadas . dos a Se respeito há algo que até do Merengue. menciona um baile que possuía uma dança dotada de sensualidade imoral. que é partir de um olhar atento a este d ebate que poderemos começar a compreender porque o Merengue tem a primazia na influência carib enha no Pará. Isto chegaram pesquisa atesta a notável capacidade do gênero em suscitar polêmicas. que se referia a esse gênero musical em tom pejorativo. que o principal p onto de discórdia se dá em relação às origens do Merengue no Caribe e. devemos destacar. Parece ter sido em 1854.Page 232----------------------latino-caribenha no Pará.O fato de que o cenário musical belenense apresenta uma ligação com a música afrolatino-americana. eira vez em ritmo caribenho.

que o baile teria sua origem defende a entre os anos de 1631 e 1700. Não nos deixando levar por esse aparente consenso. cultura negra trazida pelos africanos à o qual América. de uma relevância sem a apenas parcialmente. citamos como o conhecido músico dominicano Luis Alberti e de nossas tonadas camponesas do interior rengue não apresenta nenhuma origem da polêmica é a do definiu o Merengue: ―É uma mescla do espanhol 2007). percebemos com possuidora fonográfica. Outra tese idéia de folclorista dominicano Fradique Lizardo. r afro-latino-caribenha . o de percussionistas e outros músicos cubanos. 1990. o Me (apud FARIAS. entende. 53).pobres e negras de Santo Domingo. afirma: ―A música capaz de competir co capacidade de conquistar outras culturas isso que se trata qual de uma não se música grandiosa. em seu livro História afro-latino-americana é provavelmente a m o jazz única linguagem musical em termos de Jazz. 1998). g rande parte em decorrência como por da importação exemplo. p. 232 ----------------------. um período Social moderna de do sua história. Quando o Hobsbawn.Page 233----------------------eflexo expansão do O comentário de Hobsbawn momento de grande vivido pela música (1990) refere-se no ao mundo. Entender o Merengue requer a compreensão da própria expansão que a mús ica afrolatino-caribenha alcança famoso historiador Eric em J. a Continuando. Hobsbawn no período do pós-guerra. senão indústria (HOBSBAWN. singular Chano Pozo que já tocava com Dizy Gillespie no álbum Manteca (1948). (1990) menciona que a música afro-espanhola influenciou bastante ojazz moderno. quando teria chegado à ilha de Santo Domingo a tribo africana Bara (LIZARDO. Na visão de Alberti.

já que a indústria fonográfica norte-americana dos anos 70 sentiu que seri a mais eficaz. uma vez que este termo só foi criado música que vinha dos países quando do processo de difusão da caribenhos. que inicialment e foi muito mais um movimento de música latino-americana do que um gênero musical característico. Ismael Miranda. Santos Colón. Larry Willie Colón (trombone). encontramos um fenômeno musical de fundamental importância: a salsa. Nos anos 60. conhecida como Era de Ouro do Rádio. referir-se a essa música por uma só palavra. que então vivia seu apogeu da mídia radiofônica. 61). Panamá músicos e Venezuela. Cheo Feliciano. Sem dúvida que . no seu território. lançou sucessos que iam direto do es túdio para as paradas de toda América Latina icos ligados à (STEWARD. Hector Lavoe. Na esteira desse processo de expansão da música latino-caribenha.Caminhando nesta direção. Adalberto Santiago. 1999. Ray Barreto (tumbadora). p. Como uma mescla a relaciona-se à história da da música cubana e caribenha. Entre os mús gravadora estavam nomes como Johnny Pacheco (maestro). Porto Rico. o selo Fania Records se consolida em Nova Y ork e expande seus o mercados em o movimento. entre outros. do ponto de vista comercial. vai sentir ressoar esse novo ingrediente latino a ação das rádios brasileiras. Encabeçand caribenhos ou filhos de imigrantes caribenhos. sobremaneira processos a sals o pa que indústria cultural norte-americana pel da música nas sociedades contemporâneas. a salsa surgirá como o resultado das diferentes culturas caribe nhas presentes na cidade de Nova York. e cantores como Pete El Conde Rodríguez. agitaram a cena musical da cidade de Nova York: ―A Fania tornou-se conhecida como a ‗Motown Latina‘. Tendo como pano remontam à primeira de revelando fundo os migratórios metade do século XX. o B rasil.

existência de ritmos como polca -habanera assim como valsas. De tão evidente. Hermano Vianna também percebe tal diversidade de estilos dentro da programação da rádio no Brasil: ―[. Ao mostrar a . schottisches. 2002.. 49). mazurcas e habaneras. ntimento de identidade brasileira. quadrilhas.passando a inserir em sua programação o repertório das grandes orquestras de Xavier Cu gat e Glenn Miller.. Hermano Viann a esclarece que a música popular brasileira ligada ao carnaval sempre apresentou uma diversidade c rescente a partir das primeiras da música décadas do século popular XX: ―Essa diversidade internacional carnavalesca continuou a imperar por décadas até o samba se consolidar como ritmo do carnaval 233 ----------------------. polca -chula. polca -lundu. ganharam relevância e desempenharam um papel muito importante Quando o tema da ―integração nacional . p.Page 234----------------------por excelência (VIANNA. 2002. em particular. percebese que poucos são os contextos música popular brasileira sem urbanos onde podemos falar de considerar um ambiente marcado pela pluralidade de gêneros musicais. contribui de forma crucial para a difusão da música latina no país aumentando a diversidade de estilos e possibilitando hibridizações musicais posteriores. ao ponto de parecer redundante .] até be m recentemente os grupos musicais que tocavam ao não se especializavam num ritmo único. através da criação de um s . 50). p. passou a ser uma das prioridades na agenda governamental. vivo na As orquestras Rádio Nacional até os anos 50 executavam sambas ao lado de mambos ou bo leros (VIANNA. E a rádio teve certamente um papel fundamental. o rádio em geral e a Rádio Nacional.

no processo. não será exagero dizer que o samba carioca tornou-se um ritmo ―nacional arte. Dos doze programas possíveis foram ouv idos oito. nesses programas 54 músicas. tomou-se para . O mesmoera transmiti do às sextasfeiras. No entanto. Desse total. Foi nesta poderosa emissora que. No que se refere à música . Fundada em 1936 Nacional acabou sendo pela empresa holandesa Philips. às 21h30min. pois foram executadas 49 composições distintas. a música presente no na Radamés rádio Gnatt brasileir do Augusto Pinto atualmente debruça-se o no pós-guerra. o horário com nobre meia da hora de duração. Houve duas séries com seis programas cada para essa finalidade. a Rádio Nacional tam bém se manteve vinculada ao mercado publicitário e suas campanhas tornara m-se altamente lucrativas. foi transmitido o programa Nas Asas de um Clipper. Mesmo estando ligada ao Estado. em grande p sua difusão por meio das ondas da Rádio Nacional. fazendo de sua programação uma referência para o resto do país131. a Rádio encampada pelo Estado. Assim como outros programas do período. mas com a regência de um dos mais ali. à graças. Sua programação. constata: programação Da série de programas disponível para a e análise aqueles dedicados a Cuba. portanto. scuta. O importantes maestros da Rádio pesquisador Theophilo sobre musical Nacional. Em um estudo feito sobre o repertório Nas asas de um Clipper. ao contrário de outras emissoras estat ais. d urante o ano de 1947. programação. ocupando. Theophilo. foi substituída por burocratas simpáticos ao mesmo não sendo completamente livre de certas interferências e do controle do Estado . Foram execu tadas. cada um contendo entre seis a oito músicas. era realizado ao vivo com uma orq uestra – Típica Corrientes – associada ao maestro argentino Eduardo Patané. a maioria apenas uma vez. não parecia seguir uma rígida orientação deste. em 1940. 33 foram cantadas em espanhol. sua equipe artística e executiva não regime.

de latinidade estava mais ou O se tinha referência menos relacionado com o repertório das grandes orquestras. no Cabaré OK e na Orquestra de J. apenas dois cantores: os brasileiros especializados nesse tipo de emblemática. Quatro outras peças e uma com trechos em eram instrumentais. com raras exceções. ―Tico-tico na rumba ). porém. Ruy Rei começou cantando no conjunto dos irmãos Copia. De um modo geral.17 em português (incluindo-se aqui músicas de origem caribenha como ―Babalu . dando um c aráter ―latino ao programa (PINTO. N o início da década de 1940 trabalhou na Rádio Tupi de São Paulo.Page 235----------------------dobrado que as canções em português. que as composições em espanhol aparece m em número praticamente 131 Sobre a Rádio Nacional no contexto da radiofonia brasileira ver Ferrareto (20 01). que através de sua história nos permi te conhecer a importância da Rádio Nacional para a chegada da música latina no Brasil. Notese. música que se Ruy confunde Rey ao e Nuno mesmo Rola tempo c música. Para uma história da emissora mais específica ver Saroldi.). . tais como às de Xavier Cu gat e Glenn Miller. Uma figura om a história da latino-caribenha no Brasil e com a Rádio Nacional. 2007 s/p. a maioria dessas composições era i nterpretada por nd. no demais distante da entanto. Esse apelo à latinidade. portanto. O Brasil tinha de fato seu próprio ―Rei do Mambo à la Perez Prado. F rança. Sobre a Rádio Nacional no contexto da construção simbólica da música popular brasileira ver Goldfeder (1980) e Mccann (2004). em São Paulo. eiros interpretavam a seu próprio modo este tipo de música. além que essa do latinidade quê. o rumbeiro Ruy Rey. não deixou de formar ídolos. os como demonstr músicos brasil pluralidade da música latino-caribenha. ava-se por Para Theophilo. 234 ----------------------. Moreira (2005). é Ruy Rey. de Lecuona portunhol.

foi para o Rio de Janeiro. de sua parceria com Rutinaldo. assim como cha-cha-c ha eporros . e fez desta um ponto ce organizou uma orquestra conhecida como Ruy Rey e sua Orquestra. Gravou em parceria com o também a guaracha "Hechicera". onde declaravam o calypso ao cha- cha-cha. lembro-me de tê-lo . Durante brasileiro atuando c década. ―Aviso aos navegantes esta (1950) e ―O petróleo é nosso no cinema (1954).) que para mim. de Airton Amorim e Mário Meneses. Vinícius de Morais comenta a presença da música de verniz latino-caribenha: 235 ----------------------.Em 1944. Em 1946 gravou seu primeiro disco na Continental. Em 1948. Vinícius A música latino-caribenha foi tão forte nos anos 50 lançaram a que Tom e guerra à hegemonia d música-de-protesto ―Só danço Samba . não me é estra nho. Ruy Rey agarrou a música afro-latina ntral de sua carreira. Participou dos filmes ―Carnaval no fo go (1950). que já tenho andado muito por essas Américas.. A carreira de Ruy sempre se pautou pela referência primordial da música afro-latino-caribenha. acompanhou com sua orquestra a cantora Emilinh a Borba na gravação da rumba "Dançando a rumba". cuja marca princ ipal eram os ritmos do repertório latino-americanos da época. de Sila Gusmão. de sua ro Sebastião Cirino. teve intensa participação omo cantor. mientas". Gravou boleros como "Nadie". Num conjunto de crônicas lançadas no calor deste momento.. Abre-se o rádio e lá vem o nostálgico ritmo-de-bacia (bacia pélvica.Page 236----------------------A bolerização. Em 1951. e autoria de Agustin Lara e "No maest rumba como "Ana Martin". como diria Machado de Assis. onde passou a atuar na Rádio Nacional. como líder de orquestra e até como ator. é geral. bem enten dido. de Watson Macedo.

Era tempo da rainha do mambo e da rumba. buscava-se uma aproximação com a música po pular e o cinema com o intuito de usá-los como ferramentas para forjar uma integração e uma id entidade nacional. por exemplo. por exemplo. se me permitem um aparte. de ond mas onde tem privilégios certos de nacionalidade. Será isso uma das muitas formas de escapismo de uma sociedade doente e entediada a essa realidade saudável e dionisíaca que é sempre a marca da boa música popular? Evidentemente. p. . A música com saúde passou a constituir um elemento ―onésimo no ambiente escuro e enfumaçado das bo ates pequenas (MORAES. dentre outras. produziram composições em que se via a preocupação com a crescente influência estrangeira na música popular brasileira13 2. falsa. lotando teatros e night-clubs do Rio e São Paulo. Carmen Miranda. Desde a década de 1930 como Lamartine Babo e Noel Rosa. etc. No quadro político. os ideais nacionais estavam na ordem do d ia.ouvido no México. em 1959.. compositores inquestionável. considerando que muitos países latino-americano s encontravam-se imersos em regimes políticos centralizadores. No contexto desta época. criava em torno da idéia da identidade nacional um ideal pelo menos. e não sei se é oriundo. 51-52). 2008. Ninón Sevilla. Não haja dúvida. era muito criticada p elo uso comercial de uma imagem caricatural de uma latinidade sem lugar definido e p or isso. que chegou a filmar no Brasil. como ―Canção pra inglês ver e ―Não tem tradução . Esse período corresponde à passagem do cinema mudo ao sonoro.] mas a verdade.. é que estão xaviercugando a músic a popular brasileira. O fato de que tanto a direita quanto a esquerda aderiu à defesa de uma nacionalidade.. Car naval de Fogo. tornando-se figura popularíssima. a lenda viva dos antológicos melodramas de cabaré com música do cinema mexicano dos anos 40 e 50. os ritmos ouvidos são do melhor bolero: tristezas mil nos bares do Brasil [. onde uma fiel legião de fãs a aplaudiam.

as orquestras que se destacavam bastante eram as de Glenn Müller. Os Novos Baianos. que não ficou in erente: o primeiro disco de bossa nova. que em seu primeiro disco apresentam uma orquestração de Big Band para ―Outro Mambo. as orquestras das gafieiras jazz e tocavam diversos estilos musicais como sambas. eram chamadas de e conseqüentemente foram em 1930. Xavier Cugat. todos percebemos ser composta num ritmo então chamado de b eguine. o 78 RPM Chega de Saudade. da anos d n caribenha desemboca dança de salão no transformação partir e dos salientou Ana Maria de São José e 1930 desenvolveu-se um novo processo ovamente de transformação da a coreografia do (2005). Tom Dorsey. temos como exemplos Os Mutantes. que embora a letra afirme que ―é só isso meu baião . como a valsa. valsa s. 236 ----------------------. O historiador Milton Moura também o. que divertiam com a rumba. a rumba etc. contribuindo influenciando samba de salão. a polca . ocorrido em Salvador das décadas de 40: descreve praticamente o mesm . dentre outros. etc. Com o tempo as orquestras brasileiras passaram a utilizar instrumen tos dojazz tais como trombones. Como capacidade de a de adaptação.fox -blues. O revolucionário álbum ―Tropicália foi recheado por mambos como ―Três Caravelas e ―Lindonéia . tinha a música ―Bim Bom .Page 237----------------------caribenha. maxixes. Neste cenário de influência da música latino132Nas décadas de cada vez mais e 50 e 60 essa influência a música popular urbana parece se confirmar desenvolve-se assimilando outras fontes musicais. Segundo Jota Efegê (1974). com a incorporação de outros gêneros de dança que eram cultivados na cidad e do Rio de Janeiro. cultura. E João Gilberto. Outro Mundo . No que tange à latinidade. trompetes e clarinetas feitas adaptações aos arranjos modernos.esta Demonstrando incrível musicalidade afro-latinoem um processo Brasil.

O que chama atenção é a presença do ―harmonio o jazz do grupo Los Creôlos: que tanto brilhou no Este simpatizado Rancho Carnavalesco. p. durante a II Guerra Mundial.36 o seu ―assus Beneficente 20 de Março. Não se sabe até que usical com o jazz ponto este ―harmonioso jazz tinha alguma relação m tado nos salões da Sociedade estadunidense. Infelizmente. através dos circuitos norte-americanos d e produção e divulgação. 31).[. como o denominador comum de uma pequena banda com instrumentos correspondentes a uma orquestra de jazz: teclad os. tanto o jazz quanto os ritmos caribenhos.1936. não próximo ao samba deixa de ser e ao choro da época. que a música latina – quase sempre cubana ou mexicana – pas sou a ser divulgada na Bahia (2009. mesmo nos ambientes escente apoio das massas.02. 2000. s/p.02. guitarra e bateria..] a partir dos anos 1940. Assim. contrabaixo. assim. em Salva dor. carnaval que passou. Para esta noitada a diretoria reservou várias surpresas (sic ) para cavalheiros e senhoritas e. não existem estudos sobre os chamados grupos de “jaze” no Pará. composta de 40 senhoritas e 40 rapa zes que executarão sambas genuinamente paraenses (MANITO. a mundialização da músi ca caribenha. levará a efeito no dia 13. Foi então. em sua edição de 05.). Note-se que o termo norte-americano jazz foi aliterado para o termo que se popularizou na Bahia – jaze – muitas vezes com a mesma grafia de jazz . O jornal O havia espaço para os conjuntos de jaz Estado do Pará. como no intervalo fará uma dem onstração da sua escola de samba. trouxe uma nota sobre a escola de samba j urunense o Rancho não posso em amofiná133. do seu sucesso na Em Belém. as referências de música norteamericana passavam a ser. populares onde o samba ganhava cr encontramos indícios de que neste ―popular e . No depoimento de Solano parece que não se tocava a música americana e sim um repertório mais uer forma.. A referência mais importante deste processo é a explosão Broadway. sob o som do harmonioso jazz ―Los Creôlos . em Nova Iorque. De qualq .

1978 ). Orlando Pereira encarnava o bandleader no Pará e. A tiveram em presença Belém um das big-bands ilustre e orquestras nacionais representante. que estamos parte além do as designando atividade circuito de contrabando as aparelhagens. o fenômeno dinâmica tal rede do do fazem locais. Como ilustração. CONSIDERAÇÕES FINAIS A partir de nossas investigações pudemos constatar que o contexto mu sical em que o Merengue se desenvolve. 21. a piston. norte-americana. depois. por estar localizada no bairro do Jurunas.05. Pinduca integr t denominado Jazz Brasil. De s portuárias.interessante que um formato de conjunto caracterizado por instrumentos como ban jo. tocava músicas afro-caribenhas por conta d a influência que este gênero teve no cenário musical da época. que após ou-se sua transferência de a um grupo musical Igarapé-Miri Belém. temos o caso do famoso cantor paraense Pinduc a135. as rádios festas populares em sedes e . desfez-se e Por razões que Pinduca teria desconhecemos a referida ―orquestra aproveitado alguns de seus músicos para trabalharem com ele (O Liberal. 237 ----------------------. sax e trombone. em Be lém-Pará.Page 238----------------------existido nos interiores do Pará e participado ativamente do lazer das camadas popu lares e médias de Belém e do interior134. Trata-se do maestro Orlando Pereira. tuba. rabecão. à frente de seu conjunto. tenha cuja designação tem como referência a músic 133 Escola de samba Jurunense. cuja fama e memória se mantêm po r meio de seu conjunto Orlando Pereira. obedece à como rede de difusão cultural transatlântica. para anos Abaetetuba136. administrado hoje pelo seu filho. Em ambém montou uma Orquestra Internacional.

da chegada e vida o da difusão dos gêneros car ganham uma de de importância suas exper porto dos parte da história de e de suas memórias indivíduos. vendedores etc. Esses o porto e na zona um espaço privilegiado. 135 Cantor e compositor paraense. assim. Dessa forma. a música de origem afro-cariben ha chega 134Um estudo valioso sobre a presença das bandas de música no interior do Pará foi fei to por Vicente Salles: ―Sociedade de Euterpes: As Bandas de Música no Grão-Pará (1985). entretanto. marinheiros. Como lugar de grande importância para a chegada da os discos em Belém.gafieiras. 238 ----------------------. em busca de melhores condições de vida. donos (estivadores. cultural se tra n companhias de navegação. na medida em fazem iências zona que ligado às e atividades portuárias. . visto aracterizam pela circulação que de circulação tinham c ambientes transnacionais pessoas de várias regiões e países. aparelhag espaço-símbolo da relação Pará-Caribe.Page 239----------------------por meio balhadores das rotas de contrabando viajantes das agentes estes e pela ação de dos marítimos. 136 Dois municípios localizados no interior do Estado do Pará. No caso do Pará. anifestado Nas nos últimas décadas movimentos o processo diaspórico tem se m migratórios de países pobres em direção aos países de economia mais desenvolvida. muitas vezes ocorridas na ―zona do mere trício . a decisiva. Formam-se.) tornando-se um ambulantes. acionado com o Neste trabalho chamamos espaço atenção para o aspecto cultural rel música e d que po urbano belenense. tratamos de um espaço r sua proximidade acabou tornando-se um dos principais palcos ibenhos na capital paraense. em. responsável pela difusão do carimbó fora do Pará. as zonas de contatos culturais r epresentadas pelo porto de Belém e as festas de gafieira.

Festa na cidade: o circuito bregueiro de Belém do P ará. Temple Unive rsity. Belém: s/e. Música caribenha e sua influência no norte brasileiro. FERRARETO. As conseqüências disso são que no lugar do forte senso de preservação de uma identidade da ―terra de origem .Belém não Na rede de difusão é a família que cultural transatlântica existente em funciona como elo. 1990. REFERÊNCIAS AUGÉ. Bernardo Thiago. a História e a Técnica. . Merengue. EFEGÊ. Maxixe. Antonio Maurício Dias da. Rio de Janeiro: Paz e Terra. 1997. Gabriel. FARIAS. HOBSBAWN. Acesso em: 22 mai. 1974. Por trás das ondas da Rádio Nacional.br/nucleos/njr/espiral>. M. 2001. 6 . 1981. Jota. Rio de Janeiro: Paz e Terra . 2007. AUSTERLITZ. Rádio.eca.usp. História social do Jazz. Porto Alegre: Sagra Luzzato. O Veículo. 2008. na medida em que o processo não é resultad o de um movimento diaspórico. o canal crucial entre o elemento afro-latino-caribenho e a região do Pará não se dá no ambiente familiar rede de difusão cultural e sim nos espaços constituintes da transatlântica. 1994. Rio de Janeiro: Conquista. GARCÍA MÁRQUEZ. GOLDFEDER. esse contato transcultural vai se singularizar pela construção de uma nova identidade. ed. dentro de um ambiente de noções de identidade e tradição muito f ortes. Luiz Artur. Não-lugares: Introdução a uma antropologia da supermodernidade. COSTA. a dança excomungada. isto é. a identidade musical regional. Miriam. Campinas: Papirus. qual seja. 1999. Paul. Dominican Music and Dominican Identity. rede e local da memória. Disp onível em: <http://www. Barcelona: Mandadori. Eric. O diferencial está no fato de que os agentes atuantes nesta rede são i ndivíduos que moram na cidade de Belém. Notas de prensa (1961-1964).

Samba falado: crônicas musicais. Tradução de Anna Maria Barros de Vecchi e Maria Sílvia Mourão Netto. Dissertação (Mestrado) – Programa de Pós-Graduação em Artes Cênicas. Lisa (Org.org/MiltonMoura. Acesso em: 10 fev. 239 ----------------------. 2007. João.Santo Domingo. Ullmann. Hello Brazil . Domínio do movimento. 1985. . 2009. História e multidisciplinaridade: territórios e deslocamentos. Samba de gafieira: corpos em contato na cena social carioca. 184 f. 1998. Vinicius de. 2000. Caderno de Resumos do 24  Simpósio Internacional de História. São Leopoldo: Oikos. A. T. A representação da música caribenha no Brasil por meio da Rádio Nacional do RJ 1945-1948. O sofisticado e o vulgar da presença caribenha no repertório musical praticado na Bahia.pdf>. Rio de Janeiro: Beco do Azou gue.Popular Music in the Making of Modern Brazil. Vicente. Belém: Editora Bresser Comunicação e Produções Gráficas. Duke University Press: Durham. ______. Foi no bairro do Jurunas: A trajetória do rancho não posso me amofiná (1934/1999). Milton. 2007. SÃO JOSÉ. In: XXIV Simpósio Nacional de História. São Paulo: Summus. 2008. Salvador. MORAES. Fradique.Page 240----------------------LIZARDO. In: Anais do V Simpósio Internacional do Centro de Estudos do Caribe no Bra sil. 2005. Hello. McCANN. Sociedades de euterpe: as bandas de música no Grão-Pará. 2005. Volum 1: idiófon os y membranófonos/esco. MOURA. 1978. Ana Maria de. Rudoulf. São Leopoldo.).LABAN. Universidade Federal da Bahia. SALLES. 2004. Disponível em: <http://www.revistabrasileiradocaribe. Brian. Instrumwentos musicales folklóricos dominicanos. Brasília: Edição do autor. 2008. MANITO. PINTO.

danças e sons que foram apropriados histórico. Rádio Nacional: o Brasil em Sintonia. tambor. Londres: Thames & Hudso n. VIANNA. Sue. danças. na sua da pequena cidade de Monte do Carmo. 198 8. Tento most consiste num elemento condensador de sentidos. 1995. Durante os festejo s religiosos dedicados Caçada multidão antando. ______. O mistério do samba. a esta santa. ______. Sonia Virginia. 3ª Ed. MOREIRA. da Rainha. FONTES ENTREVISTAS Jornal O Estado do Pará (05. Hermano. Jornal O Liberal (21. 1999. São Paulo: ART. para os moradores locais.1978). 1988.1936). folguedos.05. STEWARD. Rio de Janeiro: Zahar. 2005.02. . resultado contemporâneo de ritmos. configurando-se e reconstruídos numa bem ao como longo do uma marca percurso identitária importante prática de sociabilidade. homenageiam anualmente Nossa Senhora do Rosário. na um dos rituais qual uma ruas da mais cidade significativos tocando é a c percorre as principais dançando e bebendo.Page 241----------------------A CAÇADA DA RAINHA: “É SINHORA DO ROSÁRIO QUE NÓS TAMO FESTEJANDO!”137 Noeci Carvalho Messias138 Resumo: Os moradores Tocantins. Pretendo nesta comunicação mostrar que a Caçada da Rainha é um ritual que expressa uma p rática sóciocultural que foi ressignificada rar que esta manifestação nas experiências locais. 240 ----------------------. no estado do maioria negra. Rio de Janeiro: Jorge Zahar: UFRJ. Os sons dos negros no Brasil: cantos. Salsa: musical heartbeat of Latin America. História Social da música popular brasileira.SAROLDI. Luiz Carlos. Lisboa: Caminho.

dancing and drinking. 137 O presente texto realizando para a é. dances and sounds that were appropriate and rebuilt along the historical route. in During the which a crowd celebrations through t singing.City of Monte do Carmo. in the state of Tocanti ns. em parte. Abstract: Residents of the small town of Monte do Carmo. Rosary. Desenvolveu pesquisa sobre os povos indígen as da etnia Krahô e desenvolveu atividades de assessoria junto aos Javaé e Karajá no estado do Tocantins e atualment e é professora no curso de Serviço Social da Fundação Universidade do Tocantins. no estado do Tocantins. Keywords: Queen´s Search . becoming an important practice of social as well as a brand identity for local residents. extraído tese de doutorado em da pesquisa que venho História. I intend in this paper show that the Queen's Sear ch is a ritual that expresses a sociocultural practice gained a new meaning on local experiences. annually honoring Our Lady of the of the religious rituals most significant is he main city the Queen´s Search. com pesq uisa em Festas e Religiosidade popular. I try to show that this demonstration is a condenser element of meaning.além de ocupar lugar de destaque nas manifestações populares.Our Lady of the Rosary .Caçada da Rainha – Cidade de Monte do Carm o – Religiosidade – Devoção. besides occupying a p rominent place in the popular culture in the state of Tocantins. streets drumming. Tocantins.Page 242----------------------A cidade de Monte do Carmo apresenta variadas peculiaridades no . pela Universidade Federal de Goiás. 138 Graduada em História Mestre em Gestão do (Licenciatura) Patrimônio e Serviço Social (Bacharelado) Cultural (área de Antropologia) pela PUC-GO e Doutoranda em História (UFG). mostly black. intitulada – Religiosidade e devoção: as fes tas do Divino e do Rosário em Monte do Carmo e Natividade.drum . the result of contemporary rhyt hms. 241 ----------------------. Palavras-Chave: Nossa Senhora do Rosário .

ritual realizado nos meses de julho e outubro. Fora vag aparecendo como sendo um dos arraiais que produziu abundante ouro. da religiosidade a cotidiana. na cresce . uma vez que Nossa Senhora do Rosário é celebrada duas tana. Esse é um essas celebrações uma vez que estas não se nos chamou a atenção para perderam totalmente na experiência da diáspora. de nitidez. são organizados com nossas e apres r ponto letras de músicas que valores culturais que expressam. pois de curiosos e participantes. festas e folguedos spiritualmente a vivência do trabalho. a região foi frequentada por bandeirantes e mpenhados na exploração de minérios. cidade Passaram-se a população os anos continua e no cenário dessa pequena cultivando anualmente diversas celebrações. O ritual da Caçada vezes durante o ano pela a cada ano comunidade em carmeli número ganhou visibilidade regional. também afluíram para aquele arraial escravos africanos para tra balharem nas minas de ouro como instrumentos facilitadores para a exploração dessa riqueza. mobilizando parte significativa da população. Naquele c ontexto além dos indígenas que há tempos ali habitavam.contexto da história da região que compreende o atual amente conhecida ao longo do período histórico que pertencia na literatura historiográfica ao estado antigo do norte Tocantins. Durante os festejos entados melodias eferências religiosos variados e e da referida santa ritmos. no século XVIII. O remontam algumas das mais ricas alto desta festividade é a tradições Caçada da Rainha. goiano. mas foram ressignificadas nas experiências locais. raízes. tais práticas sociais exercidas pelos aspecto que e da que simbolizam e da vid sociabilidade moradores guardam fortes traços de referências africanas. Dentre as manifestações vivenciadas pelos carmelitanos está as festividades em homenagem a Nossa Senhora d o Rosário as quais são revestidos da maior importância. danças.

(RAIMUNDA SERRANO. a. faz ou para o Divino não pensa é aumentar. iniciam-se as ritualísticas popularmente em louvor a Divino Nossa Espírito Senhora do Santo. ritual no qual ao longo do trajeto do cortejo d ança-se. As homenagens que na parte da manhã foram feitas ao Divino são endereçadas no início da tarde a Nossa Senhora do Ro sário e a cidade se ocupa com o referido ritual: A alegrias.maioria proveniente das cidades mpanhado por uma multidão de circunvizinhas. canta-se em louvor a Nossa Senhora do Rosário. no com Rosário. ao rei e à rainha. Foi muito bom. . configurando-se como um marco regional. É um passeio que eles fazem. dia 17 manifestações o cortejo de Encerrada a festa do julho. Faz a festa do tamanho que a gente pode. Não dá prejuízo nenhum. É um passeio de e não mata nada.Page 243----------------------a o recurso não. O cortejo é aco pessoas. que acab Caçada é um passeio. mas quando acaba parece que Senhora do Rosário passa a mão e fica tudo bem. Gasta muito. observa-se que a ação do plano espiritual é constantemente considerada. Não foi sorteio e não foi promessa. Não caça nada m 1938. Graças a Deus a gente sente toda força. conhecido como a Caçada da Rainha. Quem faz a fest a para Senhora do Rosário 242 ----------------------. uma O periódico homenagem à anuncia o ritual reafirmando: ―Caçada da Rainh padroeira dos negros . Eu fui rainha e Em geral a rainha tem que fazer a festa com recursos próprios ou c om ajuda do povo. bebese. 10/10/2008). Foi gosto em fazer a festa para Se nhora do Rosário. Contudo. Obser va-se que a religiosidade popular local é profundamente arraigada permitindo que os acontecime ntos religiosos adquiram essa dimensão simbólica.

. conformado imagem. Nossa Senhora do Rosário. Para esse cortejo. imagem nunca mais desapareceu. os congos e as taieiras. [. Nossa Senhora do Carmo. negros. Para os moradores da cidade.Julho é um mês de festividades religiosas e folclórica s em Monte do Carmo. (JORNAL DO TOCANTINS. acompanhado de outros companheiros e levando consigo vio la e sanfona. voltando para onde estava. encontrou na Serra de Monte do io e levou-a para Carmo uma a cidade. um ritual de origem escrava. à procura da imagem. no dia seguinte com o desaparecimento da desapareceu. Será realizada a Caçada da Rainha de Nossa Senh ora do Rosário. permanecendo na Igreja. que ocorreu pela segunda e travar uma verdadeira vez. O rei e a rainha podiam ser vitalícios ou por um período determinado. protetora dos as reverências são para ela. Este mês. que conta mais de 30 0 anos e era fictício. Os carmelitanos seguiram a segunda opção. p. a imagem imagem de Nossa Senhora Não do Rosár Entretanto. no tempo da escravidão. a trouxeram novamente para a cidade. a origem desse ritual remonta ao pe ríodo das minas de ouro na Serra de Monte do Carmo. pad roeira do município e ainda. onde se escolhia como casal real aquele que tinha pod er para intermediar entre a Igreja e comunidade negra. possivelmente escra vo. a à cidade. o Divino Espírito Santo. O fato é que. tendo reencontrado. Acredita-se que o ritual organizado por . Ta mbém desta vez a imagem não permaneceu. cantaram e dançaram e assim reencontraram a imagem e em ritual levaram-na de volta após aquele episódio festivo. 1). os carmelitanos estão homenageando Nossa S enhora do Livramento. Hoje. 2002. retornou à serra. Como nas narrativas míticas . desaparecimento da imagem. não existe uma data precisa. levaram os tambores. mas destaca-se que certo dia um homem. Uma multidão se formou e seguiram em cortejo.]. levou caçada à um grupo a se O mistério do organizar referida imagem. a procura da imagem..

com exibição Em . Seguia-se o carro conduzindo o rei. usavam gran de avental sobre calção curto. o ritual da Caçada da Rainha passou religiosos de Nossa Senhora do a fazer parte dos festejos Rosário e se mantém até os dias de hoje. A partir da quele momento. citado por Ramos. festejos cíclicos da Costa dos Escravos tenha sido a principal influência no carnava l negro da Bahia.Page 244----------------------caçada é dos antigos s negros . que nos levaram a práticas culturais com o supor uma possível conexão d ritual da Caçada da Rainha realizada pelos carmelitanos: 1897 fora aqui realizado o carna do Clube Pândegos d’África. Logo depois via-se o adivinhador à frent e da charanga. como uma reatualização da busca da imagem. veio dos escravo Encontramos em Monte uma do possível conexão da Caçada da Rai Carmo com a história nos escritos de Artur Ramos quando este autor cita Manuel Que rino. ladeado po r duas raparigas virgens e duas estatuetas alegóricas. após estes. Ou sej a. o ritual da Caçada da Rainha funciona como um canal de realização de remotas celebrações: ―es sa 243 ----------------------. que levou efeito a reprodução exata do que se observa em Lagos. a guarda de honra. composta de todos os instrumentos usados pelo feiticismo. um Damurixá (festa da rainha) Ramos acredita que estes exibem indivíduos mascarados. O préstito fora assim organizado: na frente iam dois príncipes bem trajados. O val africano.aquele grupo de pessoas fez com que a imagem permanecesse na cidade.139 nha realizada ou ―essa Caçada da Rainha é desde que eu me entendi. ―que na cidade de Lagos a festa a que (Costa dos Escravos) dão o nome de onde se há. no mês de janeiro. uniformiz ada em estilo mouro. sobre as festividades na Costa african a relativo a Festa estas da rainha. sendo que os tocadores. Foi às descrições de Querino. uniformizados à moda indígena.

Entretanto.fricanas. a história pode ser guardada e transmiti da de distintas maneiras. 244 ----------------------. para recepcioná-la. Ao ter ciência a atitude da filha. permeada de ritos religiosos e mitos que fundame ntam crenças e comportamentos . 315) podemos afirmar que a Caçada da Rainha ―pode ser vista como uma forma parti cular de conceber e transmitir a história. Ao terem conhecimento do cravos libertos prepararam em desaparecimento da princesa. Reportando a mesma linha de pensamento que transparece no trabal ho de Souza (2002. contudo. durante todo acompanhamento era enorme. características de diferentes sociedades. as a tomadas de verdadeiro entusiasmo. cantavam dançavam e o trajeto. do acontecimento D. uma festa. o ritual da . Assi m.Page 245----------------------la. sabendo que a filha estava escondida. lundu e batuques. No Brasil identificamos estado de o ritual da Caçada da Rainha em Colin em que possibilita o diálogo dos Goiás. os es sinal de gratidão. p.74-75). Pedro I I. numa alegria indescritível . que constroem a memória ao seu p róprio modo. não fez temendo a repreensão dos a gricultores e cafeicultores. é uma homenag em a princesa Isabel por ter assinado a Lei Áurea. tocavam principalmente. p. (RAMOS. Este ritual demonstra que as festas são ocasiões sujeitos sociais com os tempos de outrora. as do Sul. a origem e o modo de celebrar dessa tal festividade diferem de Mon te do Carmo. a princesa escondeu-se Pedro aprovou no mato. Temendo represália do pai. com congos. pois como pontua a autora. a manifestação que celebra o Divino Espírito Santo e Nossa Senhora do Rosário. juntou uma comi tiva e foi procurá139 Tônica recorrente de moradores locais. 2007. D. reconhecendo que o mesmo deveria ter feito antes.

Caçada da Rainha. Sua origem é a China. mas também a à praça onde se davam os principais eventos da festa. Concluídos os preparativos (mont arias. com sol intenso e muito calor. A queima al da Caçada da de fogos de artifícios está presente não somente durante o ritu Rainha. ao som dos tamb o ritual da Caçada da Rainha também é perpa caretas. p. a gregando pessoas também na assistência. carros transportam beb idas (licores. sua informa que a prática de que chegada à Segundo a mesma autora (2000. Em Monte do Carmo. Abrindo a celebração da a partida dos cortejos processionais. água). mas durante todos os momentos da festividade. 40). ssado por uma amplitude de significados. ela era a alegria das romarias e das procissões. consiste na representação desta história. Del Priore (2000. que acompanham ores e com a alegria dos o cortejo. em que um grupo de cavalei ros sai à procura da rainha que se encontra escondida no mato. p. devido ao período do ano. Ao longo do percurso. 20 06). especialmente ao longo dos cortejos e das procissões. o uso de fogos era utiliz ado para homenagear o rei e também manifestarem para algumas camadas as suas posições da sociedade colonial . onde constituía característica das solenidades sagradas e os fogos anunciavam igreja ou profanas. que correm atrás das crianças. vestimentas etc). àquele que a encontra leva-a na garupa do animal e ao chegar à cidade uma multidão a recepciona com arrojada festa. Vinda esta tradição de Portugal. No meio da tarde. (IPHAN.140 Por volta das quatorze horas. 38) imar fogos nas festas coloniais remonta ao século XVII. com um número significativo de participantes neste local e a queim a de fogos de artifício sinaliza que o ritual está prestes a começar. bebidas. as pessoas começam a se aglomerar na Casa da Rainha ou na Casa da Festa. o cortejo desloca-se da Casa da Rainha pelas ruas da cidade. festa.

uma vez que simultaneamente a esta acontece também a festa do imperador do Divino. a rainha e o rei vão atrás dos caça dores e das caçadeiras. contendo quintais alargados com fo rnos e fogões para assar bolos e biscoitos. cantando e dançando. vamos embora Direto pra Igreja Visitar Nossa Senhora. juntamente com as caçadeiras e os caçadores. 140 Ao contrário da festa da rainha de Nossa Senhora do Rosário realizada no mês de o utubro que tem como local de referência a Casa da Festa. Mídia eficiente a ilumina Colônia. os festejos de julho se realizam na própria cas a da rainha. sempre um homem e uma mulher. visto que existem na cidade. seguem o cortejo em pares. que conduzem os participantes n o ritmo da dança do tambor. r as noites escuras das vilas na .privilegiadas: constituía ntal. porém eficaz. ou uma de tradição que. simultaneamente (Divino e Nossa Senhora do Rosário). Enquanto no caminho de ida para o ―botequim .Page 246----------------------O cortejo é aberto por tambozeiros. como demons tram as imagens. na volta eles retornam à frente destes (Fotos 01 e 02). dive rsas casas com arquitetura apropriada para realização das festas. Quando a re sidência da rainha não comporta tal organização os festeiros providenciam outro local. de modo que o último par é o da rainha e do rei. montados em cavalos ornamentados. no ritmo do canto: Rei e rainha. também vestidos a caráter. uma vez que não compor ta os preparativos das duas festas. A simbolo gia que permeia o ritual desvela que no retorno a rainha foi encontrada e está sendo trazida pela po pulação. de poder. com evoluções e passos laterais para frente e para trás. 245 ----------------------. Atrás dessa multidão. que utiliza a Casa da Festa. a Casa da Rainha (nas festividades do mês de julho) equivale a C asa da Festa. a rainha e o rei. o foguetório tornava-se um instrumento car o. Nesse caso. Assim. ganhava dimensões de propaganda govername das elites contra o mesmo governo. resistência O uso de fogos para abrir a festa pouco a pouco. o uso deste local torna-se inviável.

dança. Caçada da Rainha.Caçadores e caçadeiras à frente. em direção ao lugar chamado ―botequim e depois de volta a Casa da Rainha. Durante todo o percurso. constituído por uma mult bebe. 2) em sua dimensão profana se faz é que através dele concebe a festa como uma das mais expressivas instituições da religião. Os moradores referem-se a este espaço – uma área cercada por árvores tequim . na na Caçada da Rainha.Rei e rainha. ―espaço de realização de toda a diversidade de papéis. seguidos e caçadores. a leitura que a comunidade carmelitana recupera 246 ----------------------. pula. familiares e participante. Amaral (1992. em 9 outubro de 2008. O cortejo é idão que cantam. . durante o trajeto de volta do ―botequim do rei e da rainha. Fonte: acervo Noeci Carvalho Messias Fonte: acervo Noeci Carvalho Messias. seguidos das caçadeiras Foto 02 . o cortejo da Caçada da Rainha toma cont a das ruas sendo descrito pelas pessoas que participam direta ou indiretamente como um dos mais e sperados pelos festeiros. grita. a afirmar-se p. especialmente pequizeiros – com a denominação de ―bo local marcado por práticas de sociabilidades informais.Page 247----------------------antigos valores e volta e sagrada. Ao observar este ritual. Sob fogos e gritos eufóricos. As festas religiosas não promovem apenas de diversos aspectos da a dos graus de poder e mas conheciment o encontro celebração religiosa. do cerrado. em 11 de outubro de 2009. à caminho do ―botequim . o a eles relacionado . vamos embora Direto pra Igreja Visitar Nossa Senhora Foto 01 .Rei e rainha à frente. as danças e cantos são ritmados pelo toque d os tambores. acompanhando a rainha e o rei pelas ruas da cidade.

fazendo ―vênia . pelas brincadeiras. na rua e Durante o trajeto.] Eu gosto muito. de Ao longo do tempo. É como no passado. em que a diversão dos escravos era a festa. como a política. os participantes em frente às casas dos fazem paradas 2. [. Quando a gente começa a moradores e ao som dos tambores cantam e dançam a dança do tambor..] O rei é bom A rainha é mió. fazse uma roda e no centro casais intercalados dançam. (DIONÍSIA PEREIRA RAMOS.] A rainha é de ouro É de ouro só.. Ao terminar esse preâmbulo. [.. levando as mão s ao chão e aos céus e cantando: Ô passarei alegre Alegre vou cantando Sinhora do Rosário Que nós tamo’s festejano Os versos se repetem ao mesmo tempo em que são também intercalados por outros: Quempode mais? É Deus do céu. enfim pel as experiências de vida.. [. O espaço do cortejo da Caçada da Rainha não pertence ao padre ou ao prefeito . vão fazendo uma coreog rafia e a multidão acompanha dançando.. A Caçada cria a oportunidade para o encontro e a so ciabilidade dos carmelitanos mim. a economia e o trabalho. A rainha é de ouro É de ouro só.. gritando e repetindo os gestos. É uma diversão de todas as idades: Essas festas são muito importantes pra que eu me sinto mais jovem como se tivesse 22 anos de idade e não 6 brincar você renova. Nessa ocasião. os homens. carregando os tambores nos ombros. era o tamb or [. na escravidão. O rei é bom.]. reverenciar e homenagear consolidou-se uma forma própria Nossa Senhora. A rainha é mio. Quem pode mais? É Deus no céu. pelo lúdico. 09/10/2008). o lazer. enquanto homens batucam os tambores... marcada pela irreverência.vida social.

Tal conhecimento que se alguns visitantes não sabe evidencia nos relatos orais: ―a Caçada já foi muito melhor. Observa-se que existe por parte do s moradores locais uma valorização das atitudes s códigos de comportamentos. um passatempo social. Cox (1974) em sua pesquisa mostra que ―gente que dança diante geralmente mais livre e de seus deuses é menos contraída do que gente que não se abalança a tanto . na minha opinião. Toda época que entendeu o cor po humano ou. Paul Valéry que expressa a relevância da dança: A dança é. conhecedores de todos os passos do ritual. de seus recursos. demonstrando.Page 248----------------------devotos. cultivou e venerou a Dança. É com Eliade (2005) que a multiplicidade dos aspectos culturais to rna-se a expressão . Algumas vezes presenciamos diálogos informais em que os participantes.. mulheres e crianças costumavam dançar ―dia nte do Senhor . as regras e as normas são estabelecidas pelos participantes. agora tem muita gente de f ora que não conhece a brincadeira e faz de qualquer jeito . moradores locais. que homens. Nesse espaço. de suas limitações. uma diversão. muito mais do que um exer cício. mas aos 247 ----------------------. ela é uma coisa sér ia e. afirmavam m brincar. sentiu algo do mistério de sua estrutura. (p. um ornamento. 57). nas festas de santos e nos cemitérios junto aos túmulos dos mártires. O autor salienta que desde os primeiros anos do cristianismo. dançavam nos lugares de culto. das combinações de energia e de sensibilidade que contém. O autor cita o escritor católico-romano. sob certos respeitos. ao menos. que a rede social pode comedidas presença e das de pessoas regras de fora e cir do prejudicar aquilo que sustenta o sentido sagrado das brincadeiras no interior do ritual. culando pela por um lado. até uma coisa sagrada.

142 Pinhola é uma espécie de chicote feito de sola de couro de vaca. 248 ----------------------. é além o da sagrado dimensão que descoberta da estrutura dos fenômenos se configura como elemento fundante da vida social. é importante a Para este autor. O cortejo da Caçada é também marcado com a presença dos caretas. A festa de Nossa Senhora do Rosário reúne manifestações sagradas e prof . histórica. sem qualque r coreografia ou fala definida. geralmente rasgadas. ou mesmo um cipó de galho seco.Page 249----------------------da rainha. ou mas carados como também masculinos141 mascarados de animais.143 Esta representação inções sociais observadas no parece reforçar a ordem e as dist interior da festa. dando saltos para personagens usando das executando malabarismos. Ou seja. Existem em função do divertimento. ou trançados de p alha de buriti. são personagens que representam um conjunto desordenado. mas em outras.de uma mesma essência religiosa. frente e entre o povo. Estes personagens não desempenham papel de destaque. Os caretas ocupam uma posição subalterna e para participar do eve nto necessitam somente de uma fantasia barata ou e que muitas vezes pode ser que não tenha mais utilidade emprestada. que fantasiados e ocultam suas vestidos com identidades normalmente. risos e participantes gargalhadas. são personagens. a exemplo das crianças. diferentemente da rainha e do rei.142 com as quais simulam ameaças às crianças que acompanham o cortejo da Caçada 141 Não obtivemos informações de mulheres exercendo o papel de caretas. variadas interjeições chamar a atenção dos da festa eles provocam acrobáticos Em participantes. com máscaras c mais apresentando-se Estes e muitos coloridas. assustam e provocam medo. religiosos. roupas aminham à são conhecidos. uma vez que usam pinholas.

expressando uma religiosidade exacerbada. missas. novenas e procissões. então a gente canta: Cadê seu Bena? Deus z ao ente levou. 15/08/2009). está presente no interior destas festiv tambor. É uma homenagem querido. eu me lembro que eu era menino e via seu Bena bater tambor. os dois pólos atuando de forma Ou seja. Brandão (2004.anas e em todas as ocasiões encontramos simultânea. une não a penas a fé. então a gente canta: Cadê Santana? Deus levou. concomitantemente. distribuídos com fotograf ias da cidade . enquanto locus demarcador de identidades regional. alegrias ntremeado de religiosidade e festividade. mortos. orações. por exemplo. 36) em sua pesquisa sobre a festa do Divino em Pirenopóli s salienta que todos os eventos e situações previstos no programa da festa. tributa aos carmelitanos respeito e saudade: Quando as vezes tem alguma pessoa que já faleceu. Em gens em frente a memória aos algumas casas. danças. costumes. idades. stante de Nota-se elementos em meio sagrados. que foi um tambozeiro aqui de Monte do Carmo aí quando a gente chega ali em frente onde ele morava perto da casa do tio Joca. bem como o sentido que ad quirem para a comunidade local. que a gente fa Seu Bena e Santana são figuras sempre lembradas com respeito e adm iração entre os participantes. Essa complexidade simbólic a tem grande relevância na compreensão destas festas religiosas. p. que dão continuidade a essa festa que se renova a cada dia. (AURÉLIO DE OLVIERA SILVA. Santana144. bebidas. mas também hábitos. e às esperanças brincadeiras a nesse encontro con e presença demonstrando que o momento de desfrute do lazer não pode ser considerado apenas po r seu lado profano. que era um tambozeir o. fizeram o parte grupo desse presta homena dem àquelas pessoas que no passado onstrando que cuja memória processo. Seu Bena também.

25) mencio na que teve o privilégio de vê-lo tocando nos festejos de 1984 e 1985 e assim o descreve: ―batia firme. essa é a tônica dos moradores de Monte do Carmo. Tocava alucinadamente. uma vez que muitos dos animadores da turma do tambor eram parentes próximos como. aparecem durante a semana santa. 249 ----------------------. são rituais religiosos. não se cansavam de ru far os tambores. ―foi um dos maiores tambozeiros daqui .143Alem da cidade de Monte do Carmo. que constituem a essência da festa. veio a óbito na manhã do dia 17 (dia da Caçada da Rainha). uma das filhas do tio Joca enun ciou: Então aproveitando esse momento gente. na abertura das ca valhadas. tal hipótese não se confir mou. Naquele momento parecia incorporar o espírito de todos os negros african os que povoaram esses brasis. Em julho de 2010 Rainha presenciamos um momento desses carinhosamente na ocasião do ritual da Caçada da que ocorre esporadicamente. sobrinhos e netos. ntece em outras festividades de esta representação dos caretas aco cidades do Tocantins.Page 250----------------------e das cavalhadas. 144 Santana de Oliveira Negre. e ritu ais profanos. em Lizarda. transcendia. João de Oliveira Primo. a multidão fez foi realizada uma homenag alguns minutos de silêncio. preenchendo todos os tempos musicais com a sonoridade impar do s eu instrumento . No entanto. p. Suas mãos calejadas pela lida cotidiana. arrodeada pela multidão. Dian te da casa onde estava sendo velado o corpo do ―tio Joca em. cada uma com suas características locais: em Arraias. nos festejos da padroeira e em Taguatinga. falecido em 1986. compa sso nervoso e frenético. mas de expressão e conteúdos essencialmente religiosos. vamos rezar u m pai nosso com uma ave Maria oferecendo para a alma do meu pai porque ele gostava muito de tambor. posto que como de costume a Caçada contou com o mesmo entusiasmo dos participantes. Alguns diziam que o ritual não teria a mesma animação. Eu não estou triste. 90 anos. tô contente graça a Deus porque Jesus . Santana. conhecido por ―tio Joca . Silva (2006. quando se referem a ele.

Os caçadores também dançam com a rainha. Seguindo os versos acompanhados com os tambores:146 Eu Eu Eu Eu vou vou vou vou socar socar socar socar pra pra pra pra tirar tirar tirar tirar canjiquinha.escolheu. posteriormente. amarra o negô. canjiquinha. l servidos e simultaneamente aos demais participantes da festa. mamãe tem um bodi. canjiquinha. homenagens ao falecido findou-se seguindo o cortejo com o mesmo entusiasmo. bem como as caçadeiras com o rei. os tambozeiros entoaram um verso145 melancólico e choro so antes de tocar os tambores: Me valei Nossa Senhora que é mãe de Nosso Senhor Me valei Nossa Senhora que é mãe de Nosso Senhor Nossa Senhora me ajuda Nossa Senhor me ajudou Eu vou me embora. que aqueles eram os versos que o tio Joca gost muito. 145 jão 146 ava Os versos que os tambozeiros entoam antes de tocar o tambor são denominados ―can . mamãe tem um bodi. param por um períod a fim de rei. 250 ----------------------. o dia dele era orque durante toda a hoje.Page 251----------------------o. A rainha e o rei d ançam o tambor e . solta o bodi com uma Esse momento de salva de palmas. Logo após. solta o bodi. biscoitos e bolos lhes são participam da roda. 147 Ao chegar ao espaço festivo do ―botequim . em que os participantes icores.148 Forma-se o uma grande roda quand homenagear a rainha e o o os participantes dançam tambor. Duran te este momento. entoaram repetidas vezes os versos: Papai tem um negô. Então eu vida ele gostou muito do tambor. canjiquinha. Papai tem um negô. Disseram-nos. quero que toca o tambor p Finda a oração. amarra o negô.

para receberem as homenagens (Foto 7). o ritual da Caçada da Rainha”. p. porque o couro de anim al desafina quando molhada pela chuva ou pelo suor. Depois é botar o tambor nas costas e seguir de volta. em 11 de outubro de 2009. Os procedimentos de afinação são feitos esquentando-os no fogo. sendo a dança uma prática comum de homenageá-la. Aí eles vão dançando um com outro até que dançam todo s. O autor ressalta ainda as quantos os africanos que tantos os indígen ―conservam um profundo respeito para com as forças da natureza. durante a estadia no ―botequim os tambozeiros aproveitam para afin ar o som dos tambores. 67) mostra a dança ocupava que na sociedade coloni roda. a gente toca para eles relevante espaço nas festividades religiosas populares.Rei e rainha dançando tambor no centro Foto 6 . gente No botequim a gente canta os mesmos canta durante o cortejo. Enquanto isso. chegando a sacralizá-las e a divinizá-las . 251 ----------------------.posteriormente permanecem sentados ao trono que foi preparado para a ocasião. os caçadores e caçadeiras da rainha fazem a dançar. como é o caso. (1987. invocando proteção e afastand os malefícios. comendo biscoito. (AURÉLIO DE OLIVEIRA SILVA. em 17 de julho de 2009. bebendo lic or.Casal dançando tambor no ―botequim .Page 252----------------------- . Foto 5 . mulheres. adultos e crianças também dançam (Fotos cânticos que a 5. durante da roda. no ―botequim . 147 Permanecem no botequim por volta de uma a duas horas. homens. 15/08/2009). 148 Normalmente. A gente fica ali naquela moagem. na grande roda. 6. e 8). Fonte: acervo Noeci Carvalho Messias. como forma de expressar a alegria e gratidão diante da vida e da natureza. Azzi al brasileira. durante a Caçada da Rainha. Fonte: acervo Noeci Carvalho Messias.

o e convidando o rei e a rainha para visitar Nossa Senhora: Rei e rainha vamos i’mbora Direto pra Igreja visitar Nossa Sinhora Rei e rainha vamo i’mbora Direto pra Igreja visitar Nossa Sinhora Em frente à Igreja cantam anunciando que os festeiros chegaram: O rei e a rainha chegou! O rei e a rainha chegou! sempre cantando. durante a Caçada da Rainha. de abolição provi sória de todas as relações hierárquicas. 7) descreve que o carnaval medieval constituía-se na ―segunda vida do povo. em 17 de julho de 2010. apontados pelo est udioso russo: a música. carnavale O ri presença divertida dos valores e hierarquias e na exaltação da abundancia. o ritual da Caçada da Rainha”. q ue na estrutura social carmelitana ocupam personagens principais da posições inferiores. em 17 de julho de 2009. Fonte: acervo Mirian Tesseroli.Casal dançando tambor no ―botequim . a bebida. Bakhtin (1993. tual da Caçada da Rainha é profundamente marcado pela scos. dançando. o carnaval representava o t riunfo de uma espécie de libertação temporária da verdade dominante e do regime vigente. Após essa cerimônia do ―botequim . no ―botequim Foto 8 . a brincadeira. a dança. parando em frente algumas casas. Fonte: acervo Noeci Carvalho Messias. a comida. baseada no princípio do riso . se transformam em cidade. o riso. São eles que definem as regras e normas a serem seguidas ao longo do corte jo desse ritual. bebend . circulando por outr as ruas. Outro aspecto importante a destacar nesse ritual é que os participantes. delimitando seu espaço. p. durante cercados pela multidão. Segundo o autor. baseados na inversão privilégios.Foto 7 . na sua maioria mulheres. homens e crianças simples. desses regras elementos e tabus.Rei e rainha em cima do trono. o cortejo retorna à cidade sem pressa. criando e recriando brincadeiras cujos significados só eles conhecem.

. 15/07/2008). Aí di zia: ‗achei. E chegava lá e rodava a barraquinha dizendo ‗cadê a rainha?. a-se que no ―botequim destacando uma possível diferenciação. rainha e rei. E o pessoal ia tocando tambor. Assim. nta.O rei e a rainha chegou! O rei e a rainha chegou! Alguns relatos traçam distinção entre episódios da Caçada da Rainha no pas sado e o que ocorre na atualidade. na qual era simulado um esconderijo da rainha. ―seja qual for a complexidade de uma festa religiosa. para dele se re-a propriar e para ―reiterar a cosmogonia . para ele. trata-se sempre de acontecimento sagrado que teve seu luga ..] De primeiro disse que era assim. organizando as ritual contribui para a construção das prát relações com o passado de forma socialmente significativa. A rainha mais o rei se arrumava ia e tinha uma barraquinha lá no botequim . na maioria moradores pela fé. O ritual da Caçada da Rainha consiste em um espaço recriado a cada ano. E ai lá e se escondia dentro da barraquinha e o pessoal saia dizendo: ‗vamos caça r a rainha‘. pelos seus participantes. diversão. soltando foguete. cadê a rainha‘. Agora Aí já vai vai tocar com e a rainha‘. O icas sociais. seguem o cortejo junto com a mu ltidão: [. dança o tambor e cada um a dançam. ndo. Chega lá já tem o trono dela. Aí a rainha vai dançar o tambor. o homem religioso se aproxima dos deuses. p. Mas agora eles não faz mais is rainha junto. Afirm 252 ----------------------. Segundo Eliade (2005. devoção e locais. Minha mãe c ontava. achei. achei so. distinto do que ocorre contemporaneamente quando o casal. Este espaço marcado bebe a das caçadeiras também brincadeiras em homenagem a Nossa Senhora do Rosário. 76-93) pela reatualização dos mitos. Ela se dançar o tambor. é também um espaço de afirmação social e religiosa dos devotos. dançando. (FAUSTA JOSÉ DOS SANTOS.Page 253----------------------havia uma ―barraquinha .

u m acontecimento de significativa importância que teve lugar no passado. Mas. Por consequência. neste sentido a Caçada da Rain ha significa a reatualização de um acontecimento primordial.. o ritual termina na Casa da Rainha.r no tempo de origem e que é. uma vez que os participantes da festa tornam-se os contemporâneos do acontecimento mítico. adeus Adeus qu’eu vô m’embora cê fica aí com Deus Com Deus eu vô m’embora. sob os fogos de artifícios e o ―rufar O pretinho tá brincano Adeus até pro ano [. Referências: dos tambores: . esse é um assunto para ser abordado em outro ens aio. parece evidente que..Page 254----------------------As pessoas se dispersam para um breve descanso. e posteriormente r etornam à Casa da Rainha. O mito conta uma história sagrada. de uma ―história sagrada cujos atores são os deuses ou os seres semidivinos. ―ora. os a história sagrada está contada nos participantes da festa tornam-se contemporâneos dos deuses e dos seres semidivinos . isto é. próximo às 18 horas. tornado presente . mitos. Ao anoitecer. após quase seis horas festejando pe las ruas. é porque deseja e se esforça para viver muito perto de seus deuses . Eliade enfatiza que é importante compreender o significado religioso da repetição dos gestos divinos. se o homem religioso sente ne cessidade de reproduzir indefinidamente os mesmos gestos exemplares. ritualmente. já arrumadas e uma vez mais saem em cortejo até a Casa da Rainha do ano ant erior para buscá-la e juntos (as duas rainhas e os dois reis) se dirigem à Igreja. 253 ----------------------.] Adeus. Ora. em cortejo p ara a realização do ritual das trocas de coroas.

Reis negros no Brasil escravagista: História da festa de c oroação de Rei Congo. Estudo antropológico do estilo de vida dos adeptos do candomblé paulista. Riolando. Mary Lucy. Povo-de-santo. para que os mesmos permitam-se a encontrar novas alternativas educaci onais utilizando a dança em diversas situações de aprendizagem. 2006. Educação. Marina de Mello. p. 2004. Petrópolis: Vozes. Palmas. 254 ----------------------. . O folclore negro do Brasil: demopsicologia e psicanálise. gestos e rituais do catolicismo popular em Goiás. fortalecendo a auto-estima de crianças e adolesce ntes. Dissertação (Mestrado em Antropologia). que utilizam à dança como estratégia indispensável para o desenvolvimento sócio-cultural e cognitivo. Brasília: Editora da Universidade de Brasília. BRANDÃO. A cristandade colonial: mito e ideologia . 2010. povo de festa. SOUZA. Caçada da Rainha: a festa da fé. Belo Horizonte: UFMG. COX. São Paulo: Brasiliense . Caderno Arte & Vida. 2000. 2007.AMARAL. São Paulo. USP. São P aulo: WMF Martins Fontes. no processo de ensino aprendizagem. Carlos Rodrigues. IPHAN. DEL PRIORE. Palavras-chave: Dança. 1974. RAMOS. Colinas do Sul – Goiás. Harvey. 2002. A festa dos foliões: um ensaio teológico sobre festividade e fantasia. 3 ed. BAKHTIN. 17 de Julho de 2002. Metodologia Pedagógica. Mircea. uma homenagem à padroeira dos negros. RODRIGUES. Goiânia: UFG. Caçada da Rainha. o que poderá contribuir de forma direta para a ide ntificação de algumas dificuldades de aprendizagem. 2008. Rita. d e crianças e adolescentes. ELIADE. Arthur. 1. 1987 . Val. a partir da observação da experiência desenvolvida em duas organizações não governamentais. sensibilizar o s educadores. Intervenção Psicopedagógica. Mikhail. AZZI. São Paula: HUCITEC.Page 255----------------------A DANÇA COMO INSTRUMENTO DE INTERVENÇÃO PSICOPEDAGÓGICA NO PROCESSO DE ENSINO APRENDIZAGEM DE CRIANÇAS E ADOLESCENTES. Petrópolis: Vozes. JORNAL DO TOCANTINS. durante o acompanhamento de atividades lúdicas e pedagógicas desenvolvidas com o público atendido. Festas e utopias no Brasil colonial. A cultura popular na Idade Média e no Renascimento: o contexto d e François Rabelais. De tão longe eu venho vindo: símbolos. O sagrado e o profano: a essência das religiões. como um instrumento de interve nção psicopedagógica. Pretende-se ainda através de relatos de experiências. 3ª edição. 1992. Antoni o Henrique França Costa149 RESUMO O presente artigo enfoca a Dança. São Paulo: WM F Martins Fontes.

which could contribute in a direct way to identify some learning disabilities. strengthening self-esteem of children and adolescents. which use the dance as indispensable strategy for the socio-cultural and cognitive.Page 256----------------------O interesse em desenvolver o estudo sobre ―A dança como instrumento de intervenção psicopedagógica no processo de ensino aprendizagem de crianças e adolescent es .com.Graduando do Curso de Especialização em Sociologia das Interpret ações do Maranhão: Povos e comunidades tradicionais. 1 INTRODUÇÃO O presente artigo enfoca a dança como estratégia de intervenção psicopedagóg ica a ser utilizada no desenvolvimento adolescentes. 255 ----------------------. Pós-Graduado em Psicopedagogia Clinica e Institucional – Centro de Ens ino Superior Santa Fé. desenvolvimento sustentável e políticas étnicas .A DANCE AS A TOOL FOR ACTION PSYCHOPEDAGOGUE IN PROCESS OF LEARNING TEACHING CHILDREN AND ADOLESCENTS ABSTRACT: This article focuses on dance as an instrument of intervention psychopedagogic. It is also through reports of experiences. Intervention psychopedagogi c. Education. in the process of teaching learning.UEMA. 149 Pedagogo. surgiu pela . Pós . do Centro de Formação para a Cidadania AKONI. Coor denador do Projeto Despertando Consciência: Uma Nova Educação para Contemporaneidade – Departamento de Exte nsão e PósGraduação do Centro de Ensino Superior Santa Fé. While monitor ing of recreational and educational activities developed with the public attended. E-Mail: henriquenegrolindo@yahoo. Articulador Pedagógico do Projeto Ekó Ilk erá. fro m the observation of the experience developed in two non-governmental organizations. Educational Methodology. e como um cognitivo e emocional de crianças e importante instrumento para a superação de algumas dificuldades de aprendizagem iden tificadas.br. the awareness of educators to ensure that they a llow themselves to find new educational alternatives using the dance in various s ituations of learning. child ren and adolescents. Keywords: Dance.

e por desenvolver no período de abril/2007 a agosto/2008. Cada criança e adolescente cultural e social. contribuindo de forma direta para a superação da auto-estima do trabalhado. 2 A DE IMPORTÂNCIA INTERVENÇÃO DA DANÇA NO PROCESSO das dificuldades publico de aprendizagem e elevação PSICOPEDAGÓGICA E APRENDIZAGEM DE CRIANÇAS E ADOLESCENTES. Com dança é um o referido artigo. no Centro de Formação para a Cidadania Akoni150. sen do um grande elemento facilitador rtir do momento que do processo de motiva o ensino aprendizagem. que encontravam-se em si tuação de vulnerabilidade social. a pa educando e o educador a vivenciar experiências corporais e rítmicas. l. utilizarmos desenvolvimento cognitivo e emocional de cada educando. 2001. e no Ilê Axé de Oxumaré (Associação Brilho do Arco Íris)151. ond e iniciei e atualmente desenvolvo atividades culturais ligadas a dança. ―Na atualidade. Estudos revelam que através de estímulos naturais ou . processo dinâmico. deseja-se demonstrar que a extremamente expressivo e importante para o desenvolvimento global do homem. tinham dificuldades de aprendizagem e baixa auto-estima. familiar. Oficinas de dança afro e popular ense com maranh crianças e adolescentes. de tem uma um à dos dança história corpora grandes como des um portanto uma maneira própria afios para nós educadores.20) .minha militância no Centro de Cultura Negra do Maranhão a partir do ano de 1993. p. de bairros periféricos de São Luís-MA. c rê-se que o sistema nervoso seja altamente diferenciado e que diferentes centros neurais processem d iferentes tipos de informações (DAMASIO. é encontrarmos importante alternativas para caminho para o dançar. e por perceber através das atividades educacionais e cultu rais desenvolvidas que 70% dos alunos(as).

a música. dramatizar lê Atributo Talento Capacidade Dançarino(a). os jogos. Apr Precisa movimen enqua e Pod o rec corpo para se qualquer expressar modalidade. expressão corporal artesanato. Dentre estes estímulos podemos citar por ex: a Arte. adolescentes e jovens. que tem como de maneira de decisiva para o desenv atendimento a adolescentes e jovens do sexo feminino. Podendo ser considera da também como a habilidade de controlar os movimentos do próprio corpo. fundada um dos seus eixos de trabalho o em 2004. destacamos uma das in teligências múltiplas identificadas por Gardner (1987. letras e . Tipo ende Melhor Corporal -se cinestésica tar nto e que ortar estuda. a Corporal – Cinestésica: Que é a capa cidade de usar o corpo para resolver problemas ou fabricar produtos. metas. 256 ----------------------. de atleta usar em Sinais Coordenação o motora bem Facilidades Atividades físicas. especializa e amadurece. fundada em 2002.Page 257----------------------Para compreendermos como a integração entre o corpo e a mente se faz necessário no processo de superação de algumas dificuldades de aprendizagem. que tem como um dos eixos de tra balho o atendimento a crianças. 1995). desenvolvida.construídos pedagógica e olescente se através da prática o sistema nervoso da criança e do ad psicopedagógica. a dança entre outros. todos contribuindo olvimento do que chamamos inteligência. e ator e artesão. 151 Entidade não governamental. e habilidade atingir as em esportes. 150 Entidade do Movimento Negro.

) ou com interior (como o mundo sentimentos. p. É auditiva. É afetiva.42). pois é preciso raciocinar pa ra adequar o ritmo á coordenação.. É visual. pode aprender a Antunes (2001). Neste sentido ao observarmos emos que as práticas educacionais a motricidade é aprende relacionadas corpo. idéias. pois ao ouvirmos a música t emos uma possibilidade maior de dominar imentos e as emoções são o ritmo. conseqüentemente liberta-se. Dançar é muito mais falar com o 257 . sentimentos e expor idéias . relata que criando ao o cérebr a observar melhor e criar. pois nos faz sentir os movimentos e os benefícios que ela produz no corp o.númer os apenas com os dedos. pois estabelece um esquema corporal. essas expressões corporais estão na maioria das vezes ligadas aos ritmos. Através da dança o corpo pode comunicar emoções. desta ha inteligência da criança bilidade. pois os movimentos são vistos e compreendidos. porque a e do adolescente poderá ser estimulada através dança: É tátil. mediante os movi mentos que refletem o mundo etc. É motor. perceb indispensável para um desenvolvimento perfeito. que é Viana Apud Nanni (1993) através da dança que e Marques (1999) afirmam do que começamos a ter conhecimento dos processos internos. Fonte: Mallamann. É cognitiva. podemos Ao considerar perceber que a a dança como movimento cinestésico. o Em seus estudos educado.. Barreto (1997. pois os sent demonstrados nas coreografias e espetáculos. pensamentos exterior (como o ambiente sonoro ou visual).

3 RELATO DE EXPERIÊNCIA Desde ano de dois mil e três. desde especificidades sócio e culturais de cada criança e adolescente a serem trabalhadas.----------------------. e as e para Para diversos nos idéias. a superação das possamos respeitar dificuldades as de aprendizagem. aspectos estes que podem ser percebidos através da util ização da dança como processo de intervenção ncionamos anteriormente psicopedagógica. Para nos entendermos.Page 258----------------------corpo e para o corpo. o que com certeza nos ajudará a trabalhar d e forma mais eficaz que. embora possamos usá-las também. educadores principal compreendemos o papel importante das emoções e do afeto no processo de aprendizagem e para o desenvolvimento psicomotor e intelectual de crianças e adolescentes. comu Para fi seguintes: Para entender o mundo nicarmos. marxista. temos que levar em co nsideração todos os aspectos referentes ao cacional ao qual a criança e o convívio familiar. podemos diz er que a dança pode ser utilizada ns. podemos trabalhar os aspectos lig ados à autoestima e ao desenvolvimento cognitivo. é uma modalidade de arte que não depende das palavras. e Pa ra conhecer o mundo. podem humano mente caracteriza-se pelo principio quando nós. social e edu adolescente estão inseridos. pois como já me associada à motricidade e aos movimentos rítmicos. trabalho como educa . por isso. Para sentir o nosso corpo. Para buscar algo que está além de nosso corpo. a dança constrói significados na vida das pessoas. entre estes destacamos por os vários e as motivos pessoas. os afirmar Levando-se em que o ser consideração uma do abordagem movimento. Dentro de um processo de intervenção pedagógica. Para expressarmos os nossos buscar formas no tempo e sentimentos no nossas espaço.

utilizada para o desenvolvim .dor. o educador. experiência. oportunidade de aprender novas lições de vida.1 Experiências destacadas a) Centro de Formação Para a Cidadania AKONI152 / Projeto Omó Binrin IRÊ153 – onde no período de março de 2007 a julho de 2008 – Fui o educador responsável em desenvolver ofi cinas pedagógicas e alunas (sendo de dança afro e popular deste total: 27 maranhense com 35 adolescentes) do sexo feminino na área Itaqui Bacanga. com as quais eu tive a oportunidade de trabalhar durante a realização de oficinas de dança afro e popular maranhense. em identificadas em e necessidade de a trabalhar a de superação dificuldades crianças e adolescentes. edagogia e ao ingressar em 2007 no curso de especialização ional do Centro de Ensino Superior Santa Fé. b) Ilê Axé D¡Oxumaré154 / Projeto Resgatando . utilizando a dança como após em concluir psicopedagogia de começar das o meu clínica curso e de p instituc dança aprendizag instrumento educativo e pedagógico. 18 com 31 alunos(as) – (sendo adolescentes) no bairro do Parque Vitória. 258 ----------------------. É valido ressaltar. desenvolvidas em 02 entidades não gover namentais.onde no período de abril a Identidades155 agosto de 2008 – Fui o educador e pedagogo responsável em desenvolver oficinas pedagóg icas e de dança deste afro e popular maranhense total: 04 crianças. ento A concepção pedagógica das referidas oficinas. pedagogo e psicopedagogo. senti a como um instrumento de intervenção psicopedagógica.Page 259----------------------3. uma que apresentarei metodologia de através de do referido relato de trabalho e de intervenção. comprometido com onde a cada dia tive a resultado o minha de prática diária enquant processo ensino aprendizagem. com os meus educandos.

em dialeto africano ioruba. dança. A m transformar metodologia de o espaço lúdico trabalho de utilizada consiste e estabelecido realização das oficinas pedagógicas e de um elo de confiança entre educando e -se os limites cognitivos. sentimentos de pertencimento e estão submetidas. educadores os aspectos de intervenção. fortalecendo e crianças e adolescentes. educador. 153 IRÊ significa Meninas com Esperança. O Centro Akoni. possamos fazer da dança um instrumento de ligação direta com as atividades que foram desenvolvidas durante todo o estudo. Busca resignificar juntamente com os valores. em um espaço onde seja onde gradativamente respeitando emocionais e culturais de cada aluno(a). a. O referido projeto proporciona . Para referida proposta. as falas e os papéis desempenhados social e culturalmente. Acredito que pa ra realizarmos qualquer tipo psicopedagógica. com sede em São Luís-MA. Atividades Observação Gerais: e Identificação do público a adaptação da metodologia de trabalho de acordo a realidade do público a ser trabalhado . Sondagem 152 AKONI significa MULHERES GUERREIRAS. gerando visibilidade e fortalecimento ind ividual e coletivo para o enfrentamento da vida e do mundo. como de elementos que ajudam d a identidade gerando e a auto-estima de superação do processo de os mesmos exclusão ao qual a história.considera a arte e a cultura a diminuir as dificuldades aprendizagem. fundada em 13/07/2004. enquanto principalmente definir com mais uma intervenção clareza amplo da devemos antes de tudo pedagógicos a serem termos um destacamos trabalhados. é uma em dialeto africano iorub organização não governamental. as quais foram divididas de duas formas: At ividades gerais e Atividades especificas de intervenção: a) ser trabalhado. entendimento as principais atividades desenvolvidas.

m oficinas de teatro/dança afro e popular. Após identificar as dificuldades acima mencionadas. Aplicação em o raciocínio lógico e a de jogos coordenação motora. que a focos centrais foi o dança é um elemen . aprendizagem: Dificuldade psicomotoras. profissionais e inserção econômica a meninas e jovens. nte Com mencionadas. as seguintes dificuldades espaço temporal. Ati vidades de integração de grupos.qualificações sociais.Page 260----------------------e apresentação dos elementos culturais pertencentes à realidade dos educandos. estamparia afro/serigrafia. fortalecer a auto-estima d e criança e adolescentes. fundada em 16/01/2002. b) práticas de Atividades específicas de dança afro e intervenção: educativos Aulas que teóricas estimul e co popular maranhense. iniciei o proc esso de utilização da dança como estratégia espetáculos e esketes de intervenção. Estabel ecimento e fortalecimento do elo de confiança entre educando e educador. teatrais. Problemas de dicção e dificuldades na leitura. Sondagem e acompanhamento pontual do rendimento escolar e do c onvívio familiar. o desenvolvimento foi possível 70% das das de atividades crianças anteriorme e adolescent Fa identificar que es observadas apresentavam lta de noção aproximadamente e trabalhadas. através de visitas e reuniões sistemáticas. 154 È uma organização não governamental. tendo to indispensável á formação como base. um dos fortalecimento da autoestima dos educandos. nesta etapa do processo de trabalho. Dificuldade em expressar sentimentos e interagir com o grupo. 155 O referido projeto tem por objetivo. utilizando para tanto a arte e a dança como uma linguagem direta. Rodas de leitura e construção de textos individuais e coletivos. 259 ----------------------. através da criação de coreografias. e cultura hip-hop e formações que fortalecem a capacidade de liderança e/ou de intervenção positiva diante da realidade vivenciada.

tensões e sentimentos pela linguagem corporal da dança ologia e transmitir ao público rec (NANNI. a partir deste momento. p. 1998. (2004). . trabalhamos a metod anteriorment a interagir teor Durante as etapas seguintes. de que ao Tais resultados concluirmos anteriormente comp o aplicado. ―Ao controlar seus movimentos. com seu corpo capaz de exprimir eptor. elaboramos trabalhos: em conjunto e de forma Espetáculo Mulher o integrativa os seguintes Resgate de Uma História. superar todas identificadas as dificuldades nas crianças de forma do aprendizagem adolescentes. a ser utiliz qualquer espaço educacional. ia e prática. Segundo os estudos de Coll e Teberosky. e um Jogral rovam de dança e teatro sobre a eficácia do método do pressuposto conseguimos de e direta para a elevação e forta Identidade.Page 261----------------------4 CONSIDERAÇÕES FINAIS E RECOMENDAÇÕES. 260 ----------------------. contribuindo lecimento da auto-estima público acompanhado.educacional do individuo.168). contribuindo os o que podemos chamar de de forma direta para term educação através do movimento. é o ser hum ano. sendo que a cada resultado adquirido. seus anseios. É valido ressaltarmos que como resultado geral da aplicação da referid a metodologia. fazíamos o registro e experimentávamos a melhor forma de utiliz ar a dança e as atividades culturais. onde se faça necessária tal intervenção. proposta no sentido de de superarmos todas as dificuldades e identificadas nas crianças e aprendizagem começamos adolescentes. passos e gestos. Coreografia: Mulheres Guer reiras. partindo-se s nossos trabalhos. em de intervenção. como instrumentos ada por nós educadores. Coreografia: A Deusa do Vento.

atitudes e normas. se dentro dos nossos processos lhados. objetivos a serem alcançados . come. motivar e ajudar os rio entre nossos educandos corpo e mente. Compreender tal contexto.o processo de ensino aprendizado envolve como ações em implícitas relação nas várias categorias de fatos d utilizando a dança. sem duvida nenhuma a dança apresenta-se como uma das mais promis soras. tura e a Dentre as várias arte de um povo formas como que podemos utilizar a cul estratégia de educação. não é u ma tarefa fácil. as quais interferem direta mente em todo o processo educacional a ser trabalhado pelos educadores. valores. a se com educacionais a de a manter serem traba um equilíb a permitirem certeza teremos maiores possibilidades s dificuldades de aprendizagem posteriormente identificadas. adores do processo somente assim de ensinopoderemos ser facilit . cada educando tem as suas especificidades. significa ge cada direta à aprendizagem Utilizar a arte e a e de intervenção. seja o pesquisa trabalharmos e de realização intervenção das at psico constatou-se que qualquer que pedagógica que venha a ser processo utilizado por nós educadores. fala. canta. escreve. pois. pois. exi compreendermos vez mais que a educação últimas educadores tenhamos uma postura pedagógica que nos ajude a compreender e analisar o contexto sócio e cultural. devemos antes de tudo. ―A cultura de um povo é tudo aquilo que esse povo. produz. ividades Durante o processo de culturais e de dança. veste. 2006) . nos desprender dos nossos pré-c onceitos. (PACHECO156. ama e conquist a. dança. procedimentos. conceitos. préestabelecidos. gógica. conseguirmos. vivenciado pelos nossos educandos. o aprender/ensinar. que nós dança como nas uma linguagem peda décadas. sonha. pois.

BARRETO. 1998. Rio de Janeiro: Sprint. O corpo na dança. 1997. São Paulo: Átic a. DAMASIO. MARQUES. Pr constatar que através trabalhar todas da utilização as atividades desenvolvidas. 2001.aprendizagem.Page 263----------------------RELAÇÕES DE PODER E ENCOBRIMENTO DO OUTRO: RELIGIÕES DE MATRIZ . Maria de Lourdes Cardoso. TEBEROSKY. podemos de minha vida. ____. Entrevista. Pedagoga e Coordenadora do Centro de Formação para a Cidadania AKONI. Sidirley de Jesus. A dança e seus efe itos no desenvolvimento das inteligências múltiplas da criança. durante o encerramento das oficinas da dança e das de dança. I. In. São Paulo: Cortez. 261 ----------------------. Aprendendo arte. MALLMANN. p. H. Dança Educação. Inteligência Um Conceito Reformulado. O Mistério da Consciência. A. tendo como resultado posterior à elevação da auto-estima de todas as crianças e adolescentes acompanhadas. D. 2006. Como desenvolver conteúdos explorando as Inteligências Múltiplas. GARDNER. Rio de Janeiro: Vozes. Ana. NANNI. 1987. sultados Vivenciar o mundo deste processo com as da dança e compartilhar os re crianças e adolescentes que eu trabalhei. A Teoria das Inteligências Múltiplas. São Luís-MA. César. Rio de Janeiro. 2001. São Paulo: Companhia das Letras. PACHECO. Rio de Janeiro: Objetiva. 1995. possibilitando uma troca de experiência.Page 262----------------------REFERÊNCIAS ANTUNES. Lúcia Regina de Azevedo. Ensino de Dança Hoje: Textos e Contextos. A.: __. 156 Educadora. COLL. foi sem dúvida nenhuma uma das mais ricas experiências incipalmente porque. 2004. conseguimos dificuldades de aprendizagem anteriormente identificadas. 1999. 262 ----------------------. C. Rio de Janeiro: Objetiva. 153 -160.

O encaminhamento metodológico permitirá analisar como as polític as públicas atendem a Comunidades de Terreiro. bem como as formas de legitimação do processo de encobrimento d o Outro. gênero e história dos candomblés de Goiânia e Mães de san o: domínios territoriais. Candomblé. rather than actions that attend the others segments such as Religions Catholic. Protestant and Kardec. Such an approach will find in post-colonial. there will be a reflection on the process of concealment by the absence of public policies and actions directed to this religious segment. State. . Estado. Key-words: 1. em detrimento de ações que atendem a outros segmentos como as Religiões Católica. Post-Colonial Studies. Estudos Pós-Coloniais. sociais e históricos do sagrado em Goiânia.in the Metropolitan Area of Goiânia. Candomblé will be seen in a discussion that addresses the state and the legitimation of the proces s of concealment of the other.AFRICANA NA REGIÃO METROPOLITANA GOIÂNIA-GO Rodolfo Ferreira Alves Pena Jailson Silva de Sousa RESUMO O objetivo desse trabalho é pautado no mote geográfico que privi legia a análise territorial das Religiões de Matriz Africana – em especial os Candomblés – localizados na Região Metropoli tana de Goiânia. Candomb lé ABSTRACT The aim of this work is based on the geographic theme that focuses on territoria l analysis of African religions . Assim. social an d historical sacred in Goiania. INTRODUÇÃO African religions. Para esse ensejo. Palavras-chave: Religiões de Matriz Africana. For this occasion. Thus. Para isso. p art of theoretical and empirical analysis constituted from two research projects – Igb adu: Territories. The routing methodology will examine how public policies serve the religious community. gender and history of Candomblé in Goiânia and Mothers of saint: territorial domains. For this.especially Candomblés . s erá feita uma reflexão sobre o processo de encobrimento por via da ausência de políticas públicas e ações direcionadas a esse segmento religioso. parte-se de análises teóricas e empíricas constituídas a partir de dois projetos de pesquisa – Igbadu: Territórios. Protestante e Kardecista. Tal abordagem encontr ar-se-á sob um viés póscolonial. o Candomblé será vi sto em uma discussão que aborda o Estado.

Portanto. As Religiões de Matriz Africana e Afrobrasileiras se constituem como um exemplo dessa situação. 2006). enquanto Religião de Matriz Africana. o que não ocorre de forma diferente no contexto urbano da ci dade de Goiânia e Região Metropolitana. essa sistematização teóri será confrontada com as análises do empírico. Assim. mas ju stamente um produto dessas articulações e combinações interculturais entre negros escravos proven ientes de diversas nações africanas. não é africano. destacando posicionalidades estatais no . objetivo mas de sim como produto novas formas expressar necessariamente fidedignas ao contexto histórico-cultural da origem africana (COS TA. vêem a sua espacialidade s sítios e/ou sofrem atos de enfrentamentos por partes de moradores vizinhos. tudo dessa religião na o que se vê é uma situação de m sociedade brasileira. posicionando-se e ou. 263 ----------------------. o presente artigo tem o intuito das ações que avivam as relações de encobrimento mento religioso. O Candomblé. quando ocupam em áreas zonas periféricas reprimida da em cidad pequeno verticalizadas. destaca q ue a cultura africana nunca se de articulações e ressignificações de comunicações fundou como conseqüentes que têm não o central. Conforme rdisciplinar de Estudos estudos empreendidos pelo Centro Inte África-Américas (CieAA).Paul Gilroy. Ao final. o Candomblé é uma religião brasileira por excelência. ao manifestar a sua expressão ―Atlântico Negro . enfocando dos grupos os que de analisar a lógica representam esse seg aportes conceituais das contribuições pós-colonialistas e destacando os mecanismos de segregação e exclusão acertados no âmago da produção do espaço urbano. as práticas candomblecistas encontram-se segregadas no espaço u rbano goianiense.Page 264----------------------arginalização Apesar disso.

uma ref erência epistemológica crítica às concepções dominantes de modernidade[. 2. (COSTA. uma vez que os estudos pós-coloniais não constituem propriamente uma matriz teórica única. a lógica da relação colonial. A sua origem remete mais aos teóricos pós-estruturalistas – a exe mplo de . mas que apresentam como característica comum o e sforço de esboçar. de modo que de de superação desse período.] A ab ordagem pós-colonial constrói sobre a evidência – diga-se.. pelo método da desconstrução dos essencialismos. muitas vezes.83). houve o col quando n agora se vive um momento a verdade. trivializada pelos deba tes entre estruturalistas e posestruturalistas – de que toda enunciação vem de algum lugar. essa corrente pensamento busca evidenciar justamente o colonialismo presente nas sociedades qu e passaram pelo processo de colonização. em outros termos. cometem o erro de pensar o pós-colonialismo como algo semelhante à teoria pós-m oderna ou de que o ―pós onialismo e de pós-colonial representa uma cronologia. a o privilegiar modelos e conteúdos próprios àquilo que se definiu co mo a cultura nacional nos países europeus.bojo dessa situação e entendendo como o Estado age no processo de encobrimento e legitimação das co ndições díspares no direito às manifestações culturais de domínio público. sua crítica ao processo de produção do conhecimento científico que. que possui uma modesta representatividade nas ciências humanas e um nulo valor na ciênci a geográfica. antes de se realizar qualquer análise.. p. É necessário. Trata-se de uma variedade de contribuições co orientações distintas. reproduziria. ressaltar a natureza dessa forma de pensamento. OS ESTUDOS PÓS-COLONIAIS E A QUESTÃO DA SUBALTERNIDADE O Pós-Colonialismo se trata de uma corrente de pensamento relativa mente recente. m Muitas críticas preconceituosas são inferidas sobre essa forma de pe nsamento e. 2006.

de forma não entre o meio que proclama e o meio da procl necessariamente consensual. 1996) . O que e inconsciente introduz é uma ambivalência no ato da interpretação (BHABHA. no caso das Religiões e institucional relação do enunciado em uma estratégia performati qual ela não pode. gr universalista que camufla valores etnocêntricos em seu discurso (RUTHERFORD. ainda de acordo com proveniente na dialética amação que. que. Dessa feita.6 da . o emprego da concepção de diversidade cultural é extremamente problemático. pois. entendido como um fruto da inter ação entre dois espaços produzidos. O refere-se a algo que vai além do colonial.Page 265----------------------Foucault. 2006) Partindo de uma leitura dos aportes teóricos de Homi Bhabha. 2005. para aças este autor. Bhabha. o mult iculturalismo é. Deleuze e Derrida prefixo ―pós de ―póscolonialismo lizada pela – do que aos pós-modernos em si. ter consciência. ela é contida pela ordem de uma hegemonia cultural. sempre acompanhado à falácia da blindagem de enunciações racistas. para o autor. em si. e suas formas de opressão rea hegemonização de valores (COSTA. enunciação] sejam mobilizados na passagem que representa tanto as condições gerais da linguagem qua nta a implicação especifica va ssa 6). Dessa forma. depara mo-nos com os conceitos de diferença e diversidade cultural. A segue constituição uma lógica desse espaço. pode ser encarado analogicamente com o processo de hibridação.264 ----------------------. da mesma forma que essa d iversidade é enunciada. estabelece uma terceira ordem: A produção de sentido requer que esses dois lugares [ o lugar do enunciado e o da por um Terceiro Espaço. representa as próprias relações presentes nesse Terceiro Espaço. esse Terceiro Espaço. De acordo com esse autor. p. Ess a.

podendo. em seguida. gerar novas mod ificações com demais valores. mas de um processo dinâmico que não possui uma ordem narrável o u um fim certo. mesmo sendo considerada uma religião ―pura . uma ocupação central desta análise. e de que ela independe da vontade do sujei to. como uma síntese medíoc e de uma correlação de forças. . Santos e No âmbito empírico Igbadu. mas é preferível não engros sarmos em demasia essa discussão. tratando-se de u interações interculturais. podemos de pesquisa dos Projetos Mães de perceber que essa produção de terceiro espaço acontece de forma frenética no âmbito paisagís tico do Candomblé.Page 266----------------------não ma possui um lócus fixo situação de ocorrência no contexto das social. que se faz inconstante. apresenta influências cris tãs e kardecistas. dependendo da comunidade de terreiro e de sua localização. Outras considerações importantes proferidas por Bhabha se referem ao grau ocorrência dessa hibridação. Portanto. A hibridação não seria algo estático ou mecânico. em graus maior ou menor. Mas o que é a hibridação? É fato que a sua discussão vem rendendo acalorado s e ricos debates em torno de determinados eixos das ciências humanas.de Matriz Africana. por este não possuir consciência e tão pouco um controle desse processo. pode ser entendido como todo o espaço diaspórico em si. a lógica de prod ução desse terceiro espaço é caracterizada como um lugar comum dos diferentes sistemas de enunc iação que 265 ----------------------. que. vez que ela não constitui a pre Entendemos essa definição como uma forma de desequilíbrios entre a relação de distintos va lores pré-determinados que exercem mudanças entre si.

entender quem está a buscar a enunciação de sua quem está sendo identidade. Contanto. p. perceber quem é o Outro na soc iedade. a origem do mito da modernidade. em que condições. etc. são dominadas pela o bsessão da diferença e pela hierarquia das distinções. uma necessidade fictícia. científicos.).bem como dos valores históricos que imperam sobre a consciência dos indivíduos desses terreiros. – que não . Para entender exatamente essa lógica do encobrimento. crucial c onhecer quem pergunta pela identidade. simultaneamente. subalterno não fala. precisamos r esgatar a obra de Enrique Dussel – 1492: O Encobrimento do Outro. Para quem a formula. numa situação de carência e por isso de subordinação (. Portanto. todos os elementos – sejam eles seguem à lógica da marca para o início da modernid culturais. ao fazê-lo. co loca-se na posição de outro e. o o fato de que não se pois. Quem pergunta identidade questiona as referências hegemônicas mas. o seu êxito mede-se pela intensidade da consciência de que a questão fora. além de plurais. grifo nosso) pela sua deve primar Assim. Tal entendimento se correlaciona em muito com a idéia de Boaventur a de Sousa Santos referente à enunciação de identidades: As identificações. que enquadrava o homem europeu como o único ser mode rno e que vê no advento do Renascimento a ade no mundo. assim. É. desde o início. significa entender encoberto pelos valores hegemônicos sociais e. temos como inegável por estabelecer um enunciação social do Spivak (1985). contra quem. sociais. uma vez existe toda uma gama de relações de poderes que o silenci a. pois.. com caráter de o afirma sujeito subalternizado. com que propósitos e com que resultados (SANTOS. 1993.31. A questão da identidade é assim semi-fictícia e semi-necessária. teórica que o pensamento iluminista propiciou permitiu uma visão do si mesmo. uma Para atmosférica Dussel (1993). Se a resposta é obtida. apresenta-se sempre como uma ficção necessári a..

Edward Said (2003) é que primeiro quem o faz. visa entretanto. está Entre o caráter as muitas categorias da Geografia que esse autor trabalh mofadas. todo o contexto externo a esse espaço. Desse modo. p. quando eles r ealizam induções sobre o Outro a partir de suas próprias percepções e modos de vida. com valores que são estranhos aos indivíduos cultura ―deles . era sempre com máximas abstratas inabaláveis sobre a ―civili zação que tinha estudado. 2003. aplicando-as. onde a representação do que oriental periferizado espacialmente do cent ro europeu. Said segue desconstruindo os autores classificados co mo orientalistas: Quando um orientalista erudito viajava no país da s ua especialização. Dessa forma. sem Imaginativa. relatando os processos rões de vida do de indução de pensamentos apriorísticos sobre os pad homem asiático. as estabelecendo ali suas crenças. a nativos que não as compreendiam – degenerados. raramente os orientalistas estavam interessados em algo que não fosse provar a validade dessas ―verdades grande sucesso. os seus valores. são encobertos pelos processos de dominação e impos ição de valores. já demanda uma análise que por si mesma tende à negação da alteridade do outro. a. Said elucida essa questão quando exemplifica a situação de um grupo de pessoas que se estabelecem em um ambiente territorialmente delimitado. que Dussel.razão imposta pela ideologia européia. que possui são considerados apenas como a . Esse autor denomina os estudos sobre a cultura oriental proferidos por pensadores 266 ----------------------.Page 267----------------------do ocidente por Orientalismo e postula uma crítica a esses autores. não enunciar os é o pioneiro nessa forma de fatores imperantes sobre uma determinada dominação. análise.89). portanto (SAID . desse grupo.

o. do conceito de pecado. Desse modo. precisa ser evangelizado. Assim. atribui-se a elas e descaracteriza tudo o que é uma afetividade maternal qu estranho. dessa for ma eu executo sobre o Outro o meu pró-elitismo religioso que o encobrirá. epistemologia das 267 ----------------------. ao se estabelecer uma valoração social da cristandade. quando se estabelece em um determinado espaço uma cer ta confluência de valores e práticas. a elevação . o projeto estabelecer uma múltipla da temporalidade (BHABHA. anal isando como essas formas de encobrimento e de preconceito são socialmente construídas. e geográfico. logo eu o vejo herege.características comparáveis ou não à ―nossa . portanto. Se ―eu pratico uma adoração religiosa cristã e ―ele como um pratica o culto dos orixás. como ocorre com o Candom blé. dessa mesma metodologia de a análise desmitificar determinados dogmas estabelecidos socialmente sobre o Candomblé. Portanto. Tem-se aí uma do monoteísmo e a sob o santificação do ponto de ciúme de um deu ambientação quase que inquebrável. Essa perspectiva é um modo de se e tabelecer distinções geográficas puramente arbitrárias. e desfazer sobretud certos percepção vícios na . uma vez que eu negarei o tempo todo a sua alteridade. que precisa de salvação e que. ação de Se transplantarmos encobrimento sobre as essa pode-se mesma pautar análise para a situ a partir religiões de Matriz Africana. do maniqueísmo.Page 268----------------------ciências. que exonera e vista social marginaliza a figura da cultura alheia à forma dominante. que solidificam dominante e desfavorecem paradigmas as que legitimam o poder pós-colonial 2005) visa.

apresenta. é necessário desempenhar – antes de mais nada – considerações que revelem algumas das características desse espaço. excludentes e/ou articulad as entre si. Corrêa. cita-se Harvey. Quando o autor menciona o termo ―campo simbólico e de luta .produções de conhecimento advindas de outras realidades. permitindo a coexistência e recepções. Para Corrêa (2001. sobretudo aquela que versa os estudos urbanos nas vertentes clássica e contemporânea. simultaneamente. A produção do espaço urbano foi tema de uma vasta produção especializada n a área da Geografia. Carlos. geralmente contraditórias. etc. Castells. Dentre algumas contribuições. não está se referindo somente a luta de classes. o geográfica do estudo da e interessam ao geógrafo: é fragmentado e articulado. e não atendem aos padrões vigiam e punem as práticas qu . a categoria espaço ganha notoriedade em sua dimensão urbana. excluir as demais. O ESPAÇO URBANO E A CIDADE: APONTAMENTOS TEÓRICO-CONCEITUAIS Para que se produza um hall enunciação pautado cientificamente so bre a busca pelo direito ao espaço realizada pelas religiões de matriz africana. reflexo e condição social e campo simbólico e de lutas. S antos. O espaço urbano pode ser assim submetido a diferent es análises pelos geógrafos. contudo. Christaller. tais considerações deverão ser empreendidas sobre o espaço urbano e a dinâmica e lógica das cidades. características acima a riqueza de cada uma delas privilegiando uma das apontadas sem. 3. visto enquanto objetivação cidade. Na presente análise. que induzem das mais variadas formas de ações práticas de inclusões e exclusões. espaço urbano. na verdade ele procura expressar toda uma gama de relações de poderes so brepostas nas relações cotidianas que policiam. Evidencia-se abordagens com que o espaço urbano pode ser considerado. p.145). entendendo como ele produz e é produzido. várias características qu A partir desse entendimento.

re vela que o processo histórico. que imprimiu mudanças no meio natural. ocasionou a incorporação de v alor a este meio. contraditório. Ademais. em sua análise sobre o processo de produção do espaço. simbólicas hegemônicas O e espaço assume a simbólicas construindo representações cobertas. que se consubstancia como um dado modo de vida. comércio e a intervenção que estatal.imputados pelas lógica dinâmica ideologias dominantes. que passa a representar as garantias de sobrevivência e de acumulação. mobiliária. . tal mudança ger informação.Page 269----------------------geográfico. que representações e são espacializadas de modo a revelar as desigualdades quanto ao direito e ao acess o nos espaços na cidade. p. coesões. as bases teóricas que respaldam o entendimento do espaço ur bano permitem pensar que a lógica de produção dos estatal e lugares obedece às forças impostas pelos sistemas capitalista impregnados no espaço. dividido. Carlos (2003. essas condições produzem um esp diferenciado. já que é o suporte para a reprodução das sociedades. a um espaço específico: o 268 ----------------------. tal característica historicamente produzida se propala de forma intensa pelas ações qu e envolvem a especulação e serviços. passam a ampliação a produzir das redes De meio natural. imprimindo forças s sócio-espaciais enquanto processo centralidades. como hierarquizado. Carlos (2003). dessas lutas. etc.52-53) friza que o lugar é constituído como condição para a produção e para a vida. descentralidades. e ao serem aço construídas. inércias. remembramentos. Acrescenta-se a esse pensamento a idéia de que o processo de expansão capi talista e a constituição do espaço urbano creditam ao espaço geográfico a propriedade do valor. Desse modo.

que passam sócio-espaciais o a espaço imputar é a s lutas dos sociais diversos e das relações ent é elementos urbanos por processos contraditórios e tornam representações dessas mesmas hegemonias. struturas se formam não é difícil perceber o fato de que determinadas e em que as dessas outros. propiciando segregação sociais. religião e como um modo de luta. como ideologia. Ainda segundo esse autor.Page 270----------------------- . econômicos. que se fragmentações firmam enquanto reflexo das condições imanentes a esse espaço. é completamente crível que essas rões hegemônicos instituídos hierarquias obedeçam a pad historicamente sobre uma sociedade. hierarquizações construções. então. Tal assertiva decorre do fato de que a essênci a capitalista de produção espacial nasce contraditória realidades de exclusão e e assim se perpetua. de re distintas formas de poder. essa fragmentação inevitável e atua como reflexo da sociedade. sociais. determinados estereótipos que em muitas vezes afetam as identidades e. Desse modo. em alguns casos. imputados por uma lógica dominante. de Corrêa (2001) paisagísticas afirm arti caracteriza por ser um conglomerado culadas entre si. tornam-se mecanismos de negação e subalternização de pessoas e lugares. como ritmos do cotidia no. que passa a negar outros valores in feriorizados. representação de valores Diante culturais. constituído sob o aspecto de um campo de elementos simbólicos. que vão ao encontro da luta de classes e negam as relações de valores históricos e sociais. 269 ----------------------. que as condições constitutivas do espaço o torna hier arquizado.formas de relacionamento. dentre ao indivíduo e aos grupos sociais. Entendendo. a que o Não longe dessa espaço urbano se compreensão.

a literatura sobre Geografia Urbana evoca o surgimento. o espaço urbano. quais são os processos Como eles atuam e se configuram? de produção Para do um breve exercício espaço da de compreensão sobre a lógica cidade. p. Em seguida. acontece com a emergência de uma área central. 2001.149). um política. desempenham na reprodução das condições e das relações de produção (CORRÊA. a ocupação e a expan são que. Ora. p róprios do espaço urbano. produção através do papel que as obras fixadas p espaciais. sui se um a cidade. talvez seja um aglomerado de elementos. minimizar obstáculos logísticos e concentrar a produção econômica.. ela não é pautada apenas por reproduções objetivas. com ade a ordem passam a da produção atender as econômica em questão. além de ser desigual – como já foi aqui cons tatado –. mas ressalta que essa mutabilidade não suprime a existênci a das desigualdades e tão pouco das fragmentações e articulações desse espaço. A cidade é uma forma esentativos do histórica que conta com elementos que foram e/ou são repr espaço. de sobretudo. não é simplesmente um mero elemento. Para ele. Contudo. novas a se localizar Tal O em vigente. práticas pos e espaço dinamicidade. é também complexamente mutável. [. religiosa ssas que dinamizam a cidade. para a maioria dos autores. urbano..Para Corrêa. essa surge com o intuito de facilitar o acesso. mas também po r práticas de gestão social. as formas de O espaço urbano teve a cidade como primeira forma espacial para su a materialização. os espaços urbano dist da cid necessidades do sistema favorece a formação de ocupações que passam antes daquelas centrais. o espaço social é também um condicionante social. crescimento áreas relativamente .] O condicionamento se dá elo homem. enquanto determinado grau forma de de transformação desse espaço? e.

processo promove o surgimento de novas centralidades que. em boa parte. a principal projeto de trabalho de monográfico. mercados de consumo e trabalho e lazer. obstante. elementos e or práticos q preocupação é a de apresentar ue sejam capazes de algumas construções como explicar a realidade imperante sobre ganiza os espaços do Candomblé goianiense. adensamento populacional. ou . são decorr entes da lógica desigual de concentração de intensificação dos vetores renda. se distribui Parte-se da premissa básica de que todo espaço social é historicamente produzido. produtivos. Postas faz-se URBANA REGIÃO E A INSERÇÃO DO CANDOMBLÉ EM GOIÂNI entender o crescimento as análises que necessário baseiam a pertinência do presen expor agora uma contextualização tempo/espaço do conjunto de procedimentos metodológicos que atendam aos Desse propósitos do presente modo. EXPANSÃO A E METROPOLITANA te certame. agrupam Nesse crescimento. uma vez que esse não se faz seguindo modelos e lógicas econômicas ou soc iais. coesivas. os grupos sociais que não atendem determinadas exigências econômicas são segre gados nesse espaço o quando o especulado. fruto das que determinações comerciais em uma mercadológicas. Por hora.Page 271----------------------4. que não são analisadas quando se vê o espaço e m uma escala totalizante. mas valores topofílicos ou até ordens subjetivas. determinadas formas determinada Não área têm-se do ordens espaço. salv inércia ocorre. pode-se da cidade de Goiânia e Região Metropolitana como uma reprodução desse modelo. buscando fenômeno da por novas áreas ocupacionais. 270 ----------------------.

sobretudo. fato. mentistas A cidade de implementadas no Goiânia é produto das políticas desenvolvi território nacional. Assim. Partindo desse entendimento. Desse modo. retrata tais de construção e enfrentamentos no que se consolidação da capital goiana. 2004. conforme citada. a partir da década de 1930. sobretudo para os grupo . a e Região Metropolitana se percebe-se constituem por um processo de expansão acelerada. não fogem às realida brasileiras. ―sua especificidade depende basicamente da forma como se dão as rel ações sociais em determinado momento histórico a literatura (FREITAS. Concatenando essa idéia com o pens amento de Freitas (2004). metrópoles de econômico. conhecida por Vila refere o projeto Boa. pode-se expressar expansão vertiginosa do espaço a idéia de que esse ritmo de ocas urbano associa-se ao processo de crescimento ionando uma crescente taxa de desigualdade sócio-espacial.77). o direito pelo espaço na metrópole. p. sa Desde então. entende-se que se trata de um espaço disputado por formas diferenciadas de poder que são representadas desigualmente no tecido urbano. que teve o seu processo de fundação concretizado no ano de 1933. quando se tem o projeto modernista de interiorização territorial proposto corre de lutas internas travadas por grupos políticos eiros que visavam por Getúlio Vargas. mente o processo de expansão a lógica da segregação esfera cidade indubitavel que Goiâni espacial. des das Essas demais características.seja. a capital do ação política que entra em básicos dessa estado conta que circundam seguiu com uma a inten do consonância com os pressupostos sistema capitalista. Além do mais. Sua localização de que representavam as oligarquias locais com terc implantar governos progressistas no interior do país. A transferência da capital da Cidade de Goiás.

Page 272----------------------paço da Diante metrópole dessa realidade. o passar do tempo. 271 ----------------------. mas que. fatores incorporar. foram a proporcionando aos terreiros consideráveis pressões sobre as suas manifestações simbólicas . ssiona o É válido ressaltar. Ao se trata r dos grupos de matriz africana que lutam pelo direito de de sobrevivência de sua cultura. com pela expansão urbana. afastamento dessas ademais. Essas comunidades é imputada às Comunidades caracterizam-se por ocuparem terrenos localizados inicialmente em regiões totalmen te afastadas dos grandes lcançadas centros.s desprovidos das representações estatais e capitalistas torna-se um desafio no cotidiano. quando se observa que . A resistência – que parte dos zeladores de santo passa a desempenhar – torna-se cada vez mais uma problemática no cotidiano desses praticantes. espaço e de garantias designa-se diversos conflitos para o segmento em suas relações com o Estado e outros grupos da sociedade civil que negam suas presenças e práticas culturais. Sabe-se. o fator econômico que pre exercidas pela especulação e pela int comunidades de terreiro para áreas cada vez nos centros mais períféricas. goiana. necessita-se de um espaço relativamente amplo. Os Ilê Axés157 localizam-se em regiões de Goiânia que antes eram periféricas e com baixo índice de especulação mobiliária e que passaram a infra-estrutura. para a re alização do culto aos Orixás. porém alguns Ilês localizados em áreas ainda centrais da cidade sofrem pressões olerância daqueles que forma o entorno das casas de Candomblé. com as melhorias de que passam a coibir a presença de tais centros religiosos. a confere-se que no es de Terre marginalização sócio-espacial iro. que.

confere de incentivos ao longo da ou isenções fiscais. que buscam a periferia as tradições da prática. Essa da constatação. que requer amplos espaços com presença . todos necessários à vivência do culto. Ausência de ações públicas para com as religiões de matriz africana. Outra resistência que se coloca ao grupo se dá quando se constata qu e as pressões que levam à retirada dos templos e por parte dos próprios para as como dos áreas forma elementos periféricas de também com rios decorr praticantes. que levantamento e de urge das realidades sublimadas e informações em órgãos oficiais. que problematiza urbano e a lógica de direito para os grupos culturais. . CONSIDERAÇÕES FINAIS m a produção Decorre dessa do espaço análise algumas questões. apontam que as religiões cristãs – católica. uma vez que as Religiões de Matriz Africana. árvores.Page 273----------------------5. em Goiás. animais. decorre do Essa exigência. b) c) Processo de invisibilidade das Religiões de Matriz Africana no espaço geog Intolerância e negativação dos ritos do Candomblé. que ta permite apontar outra aos mecanismos de condição realidade encobrimento a partir da ausência de políticas públicas. como 157 Ilê Axé é a denominação em Iorubá para a casa onde são realizados os cultos aos orixás. o que não acontece com as religiões de Matriz Africana e Afro-brasileiras.urbanos os impostos territoriais (IPTU) assumem preços elevados com valores inaces síveis para a maioria dos Ilês. protestante e ka cista – frequentemente contam com onde os seus templos se isenções de impostos sobre as áreas instalam. não possuem reg istros de recebimentos mbém obtida pesquisa. não romper naturais. 272 ----------------------. aqui os Candomblecistas: a) ráfico.

em vez de buscar a forma única. p ropõe-se o objetivo de explicar a gênese ideal do Estado. faz da lei a manife stação fundamental do poder. afirma-se que urbano goianiense atende a uma densa rede correlata de poder. convergem ou . Como parte de a lógica de produção uma resposta do espaço mais ampla. press upõe o individuo como sujeito de direitos naturais ou de poderes primitivos. Assim também. De acordo com a leitura de Foucault. essas evidências permitem responder às questões que norteiam os propósitos do artigo. em sua reversibilidade: estudá-las. mas a partir da própria relação na medida em que ela é que determina os elementos sobre os quais incide: em vez de perguntar a sujeitos ideais o que puderam ceder de si mesmos ou de seus poderes pa ra deixar-se sujeitar. analisar as correlações de poderes na sociedade não é simplesm ente analisar o poder burocrático ou a força da repressão estatal. pois. como relações d e força que se entrecruzam. edade. . não Entretanto. se opõem e tendem a anular-se (FOUCAULT. em sua especificidade. remetem umas as outras. ao contrário. mas também não se deve simplesmente e xcluíla. em suas diferenças.d) Periferização e marginalização espacial das casas de Candomblé. Este. deve-se enfatizar a pluralidade das for mas de poder e de como as sujeições produzem novos sujeitos. Dever-se-ia tentar estudar o poder não a partir do s termos primitivos da relação. deve-se investigar como as relações de sujeição podem fabricar s ujeitos. de fato. deve-se abandonar o modelo jurídico da soberania. deve-se primeiro deixálas valer em sua multiplicidade.319) ações de Portanto. Assim. se deve quando esquecer se fala as de poder na soci contribuições foucaultianas para essa questão: Para realizar a análise concreta das rel poder. p. Esta passa a deter minar e reificar as hegemonias que se perpetuam sob formas e práticas sociais. enfim. 1999. o ponto central do qual derivariam todas as formas de poder por conseqüência ou desenvolvimento.

O Local da Cultura. mas capaz de reificar esta reproduz por mas invisibilidade. A questão que surge é analisar se o Estado reproduz e se subordina p or meio de suas ações exclusivamente às as ou se suas ideologias econômicas e aquelas da sociedade. cosmopolit ismo. dentre outras. Enrique. Homi K. infere-se encobrimento das que o Estado que não é ele o responsável pela uma meio ordem de d isenção inte d orde situações que evocam questões de religiões e poder de matriz africana. Belo Horizonte: Editora UFMG. 2ª ed. 1993. 2006. religião. anti-racismo. A origem do "m ito da modernidade". – Rio de Janeiro: Bertrand Brasil. 7ª ed.para Desse modo. Em Defesa da Sociedade: Curso no College de France (1975-1976) para mudar os valores identidades no que e inocular subalternizam no os i g . São Paulo: Vozes. FOUCAULT. 2005. 6. Roberto Lobato. DUSSEL. A Cidade. não se tem a apenas políticas de correção para esses aspectos. m de Assim. – São Paulo: Contexto. Belo Horizonte: UFMG. Dois Atlânticos. 1492: O Encobrimento do Outro. enfocar as religiões de matriz a necessidade de políticas públicas africana não é somente atribuir ao Estado a responsabilidade de manter ou mudar a re alidade dessas religiões em Goiás. 2001. ético-morais religios da ações primam por romper com as hegemonias s relações vistas nas contradições 273 ----------------------. BIBLIOGRAFIA BHABHA. Michel. 2003. A questão é mais ampla e deve-se buscar soluções que visem combater formas de preconceitos maginário coletivo práticas de posicionalidades rupos com suas espaço da cidade.Page 274----------------------sócio-espaciais que se evidenciam por gênero. CORRÊA. A ausência de e impostos. concessões de políticas públicas terrenos públicos é comprovado com a nção apenas de provocar pesquisa. Trajetórias Geográficas. violência. CARLOS. Sérgio. Teoria Social. etnia. Ana Fani A. COSTA.

Monografia Graduação em História. e suas práticas cotidianas que também estão inseridas no modo de produção vigente. uma ligação com a natureza. Jonathan. onde estão expostos às pressões externas como: supervalorização imob . v 1. Vale dos sonhos: movimentos sociais urbanos e disputa pelo espaço em Goiânia. Novembro de 1994. Marcos Paulo de Melo. 2004. Os ritos do Candomblé são . Utilizando os recursos da etnofotog rafia. No. Universidade Estadual de Goiás.Page 275----------------------TERREIROS CONCRETADOS: CONFIGURAÇÃO DOS ESPAÇOS E RITUAIS DO CANDOMBLÉ NOS CENTROS URBANOS CONTEMPORÂNEOS158 Graziano Magalhães dos Reis159 graziano. 2007. 1985. W edge 7.magalhaes@gmail.com Universidade Es tadual de Goiás-UEG/CieAA RESUMO Este trabalho se propõe a uma análise dos terreiros de Candomblé da região metropolitana de Goiana no sentido de configurar seus espaços.18-20. SCARAMAL. 1999. por conseguinte necessita de uma série de elementos. SPIVAK. reli giosidades e territórios. p. Anápolis. E.. Dissertação de Mestrado. Uma entrevista co m Homi Bhabha. São Paulo: Companh ia das Letras. In: Tempo Social. Orientalismo: O Oriente como Invenção do Ocidente. RUTHERFORD. IESA/UFG: Goiânia. ou seja. 24. SANTOS. estudos de comunidades. São Paulo: Martins Fontes. Gayatri C. necessariamente.África no Brasil. 2007. Modernidade. territórios dispensados ao sagrado . Revista de. A Negativação Semântica das Religiões de Matriz Africana a Partir do Discurso Evangélico – Anápolis. 35-41. identidade e a cultura de fronteira. O terceiro espaço. Edward. Can the Subaltern Speak?: Speculations on Widow Sacrifice. analisando através da imagem esses espaços destinados às práticas do Candomblé nas regiões metropolitan as. FREITAS. RAMOS. Revista do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. Sociologia da USP. 1996. 1ª ed. SAID. Projeto ABEREM . 274 ----------------------. Boaventura de Sousa. 2003. uma extensão territorial que comporte suas práticas. FUEG UNUCSEH. W. água corrente ou mesmo espaços abertos onde ocorrem s uas festas. São Paulo. Cesar A. Labre Lemos de. In: I seminário de pesquisa dos professores da UNUCS EH. como árvores.

which causes a direct change in the ritual practices that are essential for transforming the imaginar Candomblé religion. Poder. Centro Interdisciplinar de de Estudos África-Américas CieAA-UEG. The rites of Candomblé are nece ssarily a connection to nature. Candomble. a territorial extension involving their p ractices. e as práticas de subalternização que são submetidos os praticantes de religiões de matri z africana. ie. 275 estagiário e bolsista PIVIC/UEG do . Geopolitics 158 Esse trabalho orientado pelo profa. as políticas de controle dos corpos. Power. Nesse sentido determinar como se configura esses espaços sagrados evidenciando as diferenças entre centroperiferia elencando os elementos da religião que em relação com os fatores supracitados sofrem uma descaracterização. 159 Graduando em HIstória pela Universidade Estadual de Goiás. provocada pelo povoamento denso dos centros urbanos. and practices of subordination that are submitted practitioners of religions of African origin. running w ater or open spaces where they occur their feasts. where they are exposed to external pressures such as overvaluing property. In order to d etermine how to configure these sacred spaces highlighting the differences between center and periphery by ranking the elements of religion in relation to the abovementioned factors suffer a disto rtion. looking through the image of these spaces for the practice of Candomblé in metropolitan areas. territories given to the sacred and the everyday practices that are also included in the existing mode of production. Using the resources of etnofotografia. o que provoca uma mudança direta nas prát icas ritualísticas que são essenciais para o Candomblé transfigurando o imaginário da religião. caused by dense stands from urban policies for control of bodies. Keywords: Etnofotografia. Ms. na Unidade Universitári a de Ciências Sócioeconônicas e Humanas de Anápolis. Palavras-chave: Etnofotografia. Geopolítica ABSTRACT This paper proposes an analysis of the Candomblé of metropolitan Goiana in order to set up their spaces. therefore requires a number of elements such as trees.iliária. Candomblé. Mary Anne Vieira Silva e constitui o hall de produções do Centro Interdisciplinar de Estudos África-Américas na tentativa de ampliar não só os estudos so bre as Religiões de Matriz Africana como também de disseminar as práticas e as perspectivas pós-coloniais.

a o uma segunda realidade. Esta escrita não é entendida como uma mera duplicação da realida de. provo supervalorização que permei de a malha de africana preconceitos com a praticantes fora do matriz que sociedade constituem os mecanismos normatizadores da sociedade. A ETNOFOTOGRAFIA A escrita fotográfica desperta o interesse. emergem estudos que buscam co nhecer os espaços em que estão alocados as religiões de matriz africanas. em pesqu isadores de diversas áreas das ciências humanas.----------------------. as relações s ociais estabelecias sob a ótica dessas comunidades. Os terreiros. cada vez mais. Ilê Axé Canto de Oxum. e analisar de que forma esses são definidores da identidade do candomblecista. a lógica do modo am de produção vigente e as relações sociais dos das religiões de terreiro. estão inseridos em áreas distintas cando alterações em suas paisagens. (POSSAMAI. se busca: apreender os elem capturar pelas imagens os elementos simbólicos. Neab da Universidade Federal de Goiás. Nesse sentido os terreiros são analisad os. Pressões da Região pressões metropolitana externas como: de Goiânia. utilizando os recursos da etnofotografia. devido as diversas imobiliária. utilizados para esta análise.Page 276----------------------INTRODUÇÃO ntro No bojo interdisciplinar das pesquisas de estudos realizadas pelo CieAA (Ce África-Américas). bem como. em uma relação dialética. em que entos formadores das paisagens. liderado por Mãe Maria Luiza Ti Ox un e o Ilê Axé Onilewá Azanador comandado por Mãe Tereza Ti Omolú. e espaço que apenas existiu no momento em que foi apertado o botão e que soment e pode ser alcançado como representação visual. p 225) fotografia. poderia ser apreciada com diferente da primeira realidade contida num fragmento de tempo . 2008.

A fotografia se insere nos estudos científicos como documento histór ico. ferramenta de torna-se análise. mas representação. ―espaço construído pelo olhar que seleciona os limites como o extraquadro através objeto do da anális fotográfico enquadramento.Para essa abordagem. Hillers o XIX apresentaram trabalhos fotoetnográficos aw Malinowski com indígenas em seu Os e Alice Flectcher ainda mesmo no sécul Bronisl norte-americanos.Page 277----------------------Mesmo apresentando grandes odológicas. 276 ----------------------. Argonautas do Pacífico Ocidental (1922) utilizou de equipamento fotográfico em sua p esquisa. o estudo dificuldades de ordem teórico-met da imagem. No decorrer do século XX a antropologia visual e . corrobora diretamente com m sua principal de resgate de ou grupos mesmo da socieda e os estudos etnográficos. O dos grupos uso das imagens sociais e ainda possibilitou a ampliação das análises e favoreceu ―para a reconstituição para uma melhor da história cultural de grupos sociais compreensão dos processos de transformação na sociedade( BONI e MORESCHI. no qual se caracteriza a fotoetnografia. no caso. portanto. uma fonte que apresenta diversas possibilidades de interpretação. contidos em um espaço maior existente (POSSAMAI. também como instrumento de. se torna para um campo científico. 2007. não como uma reprodução. é ela mesma histórica. Dessa maneira a etnofotografia é a interpretação do pesquisador. uma e scrita sobre os grupos humanos. o tratamento das imagens. bem e histórica. Esta última. para desvelar o passado. p 154) . A fotografia. se ndo o espaço enquadrado pelo fotógrafo. John K. p 225) . a fotogra fia. da fotografia é uma fonte importante para a compreensão das rel ações sociais. 2008.

buscou elementos produção e manutenção de identidades sociais necessitam do suporte espacial. 277 ----------------------.a fotoetnografia consolidam seu caráter científico. memória das etnias brasileiras. a fotoetnografia começa a achar espaço entre os trabalhos científicos registrando a o Pierre Verger. Milton Guran e Rosa Gauditano se inserem como pesquisadores imp ortantes para o desenvolvimento da fotoetnografia nacional. Nomes com Claudia Andujar. religião a qual se iniciou. com várias publicações sobre o Candomblé. Verger se debruçou foi professor na sobre o estudo do Candomblé até a estão: O candomblé na Bahi Universidade Federal da Bahia. característicos dessa cultura. a convite de Roger Bastide chegou ao Bras il em 1946 e aqui se consagrou como um dos grandes nomes da fotoetnografia brasileira. O francês Pierre Verger. AS PAISAGENS E AS IDENTIDADES A fotografia será aqui utilizada para destacar alguns elementos ma teriais presentes nos terreiros de candomblé da ―todos os processos de região metropolitana de Goiânia – GO. Pois. sua morte. elementos imagéticos de suas identidades. a partir da década de 30. Assim Pierre Verger mais do que retratar pessoas. Entre suas publicações a: rito nagô (1958) e As Religiões Africanas no Brasil (1960). Com o trabalho realizado por Verger a cultura dos prat icantes das religiões de matriz africana ganhou visibilidade. No Brasil. suas obras são clássicas nas análises sociológicas das ex pressões da religiosidade brasileira.Page 278----------------------O PODER. com fotografias retratando o cotidiano d os terreiros. Em sua prod ução destacamse os trabalhos realizados sobre a cultura africana e afro-brasileira. assim como o espaço .

Desse modo. Esse suporte material. são produtos. ou seja. as fotografias Nesse em sentido. interação as formas com de o espaço. as estudo são paisagens do Candomblé presentes n em uma relação dialética. estão em É válido ressaltar uma posição de que estes terreiros de Candomblé subalternidade. s pelos indivíduos ou melhor. tempo. suas atividades cotidianas e o próprio espaço interno dos terreiros são controlados pelos poderes normatizadores da sociedade. 2005. as relações sociais. e também relacionadas com os cenários dos Ilês-axe localizados na região met ropolitana de Goiânia.geográfico. são absorvida sociais e cristalizam as identidades. dos praticantes do Candomblé. as representações dessa realidade. Não tem necessidade de ceri que restaurem a descontinuidade. como discorre NEVES ela do mônias descentralização. no caso. mas analisadas. Ele é contínuo e refere-se ao futur e marcas . p 81) . As id entidades passam também os pela rituais. p 87) . é dado pelos elementos habitam o campo do visível. portadores de simbolismo. Utilizando as teorias de Michel Fouca ult. no local onde acontecem comunicação. do O poder disciplinar se caracteriza p invisibilidade e onipresença e implica num controle total corpo e da vida das pessoas. é indissociável das ações sociais (COSTA. onde ―procura-se solidificar o campo das relações e materializar os signos e valores c onstituintes da identidade (COSTA. Assim. 2005. Estes element os imagéticos. materiais e imateriais que constituída por meio das relações sociais que qualificam as identidades. aqui entendido pelo concei to da geografia como paisagem. o espaço se transforma em suporte para o conjunto de elemen tos construtores. também construtores e cristalizadores da identidade. a cidade seria o espaço onde o poder disciplinar acontece. a construção e manutenção das identidades e a relação estabeleci da com a realidade material.

cria sabere s/verdades que não apenas a onduz ou justifiquem. apresentado como árvore frondosa. esses elementos formam as paisagens dos terreiros e. espaços sagrados são locais para a celebração do culto. e o próprio Orixá). em que são depositadas as oferendas dos Orixás. o próprio barracão.( NEVES. por conseguinte . os rituais e. especial.o. uma um exemplo é o caso do Orixá Ir sagradas. dentre outros. local das stas. 1997. p 87) Os terreiros. Porém. onde tudo irá por si mesmo. 278 ----------------------. as fe elementar. do a serem Os terreiros de inseridos no esse candomblé processo também acontece são organizados de com mo território urbano. Todos manifestações para em os rituais. em que acontecem as festas e onde estão os assentamentos (locais sagrados. mas apontem se o indivíduo se c não conforme as regras instituídas. exercício. a normatização desses concomitantemente espaços. A disciplina enquanto hábito. quanto pela própria lógica do mercado imobiliário. que supervaloriza as áreas a com forte formata o tamanho dessas s próprias paisagens e propriedades. pois o candomblé no qual o próprio orixá é essencialmente um culto à natureza. carregam consigo o simbolismo que consolida as identidades dos praticantes da religião. Os elementos sagrados presentes nos terreiros são indispensáveis par a a realização dos ritos.Page 279----------------------representa essa força oko. portanto. Soma-se a estes o modo de produção econômico adensamento ou vigente. Uma das características fundamentais dessa religião é a necessid ade de espaço físico. tanto pela malha de preconceitos que invisibilizam os praticantes das rel igiões de matriz africana. tais como: árvores sagradas fundamentais em que se utilizam as folhas.

2009. como por exemp lo.( FOUCAULT. erra sede ―sus tenta o conjunto.código não de postura. mas também até um certo ponto de baixo para cima e lateralmente. os despachos para Oxossi que colocado em águas correntes. localizado no setor Urias Magalhães. po de ser exemplificado aqui pela normatização das paisagens dos terreiros de candomblé por meio de várias situações : a) a determinação de medidas uma determinada hora legais. é possível social afirmar dos que agentes os mecani circunvizin é realizado na mata. seu funcionamento é de uma rede de relações de alto a baixo.. hos a a pressão poderes microfísicos. b) a c) a que a partir por pa da leg de permite atividade sonora com sons elevados.inerentes a essa cultura religiosa. e o Ilê Axé O nilewá . O poder disciplinador. Onde os indivíduos também são ferramentas das se utiliza os poderes discip linadores como discorre Foucault: Organiza-se assim como um poder múltiplo. normatização pode dificultar a realização de rituais em região de preservação ambiental. para ilustrar esta os: O Ilê Axé Canto de Oxum. automático e anônimo. pois. e o perpassa : fiscais perpetuamente de efeitos de poder que se apóiam uns sobre os outros fiscalizados. análise será utilizado dois terreir liderado por Mãe Maria Luiza Ti Oxun. smos legais Diante do exposto incidem sobre os mas também estes espaços. rte da vigilância sanitária de criação de determinados islação ambiental que animais em área proibição urbana. 170) Nos terreiros localizados nas áreas mais próximas do centro urbano e ssa ação se torna mais visível. se é verdade que a vigilância repousa sobre indivíduos. discutido por Michel Foucault (2009). ou para Oxum que deve ser terreiros.

na realização de alguns rituais.279 ----------------------. O primeiro de um em uma região densamente lote. Essas perspectivas. bairro construído por um conjunto de chác aras.Page 280----------------------Azanador comandado por Mãe Tereza Ti Omolú. que anutenção do imaginário religiosos. em que a área localizado em uma região afastada do centro. está No âmbit geográficas. devido à organização o das paisagens fica anteriormente posto uma significativa mudança da organização espacial destes terreiros e. bem como a área destinada aos elementos sagr ados para essa religião. este d ado é importante ao avaliar a necessidade de uma área criação de animais. Ainda nesta foto se permite apreender que o espaço é pequeno. A escolha desses Ilês para ilustrar esse trabalho se deve as sua s localizações. se mostra escasso. o cultivo de 280 ----------------------. É possível observar o corredor que separa a casa à direita e a di visa com o lote vizinho.Page 281----------------------determinadas plantas se fazem ndomblé. conseqüentem ente. e o segundo está povoada. . Logo o espaço que necessários para um terreiro de Ca ampla. A fotografia abaixo retrata a entrada e é dado por um ponto do de em um primeiro diferenças Ilê Axé vista podem Canto momento são essenciais para a m ser de notadas Oxum. uma vez que. Figura 1: Região Metropolitana de Goiania A relacionada com diferenciação localizações existente urbana entre os terreiros discutida. localizada na região metropolitana de Goiâni a na franja rururbana. em este várias recort interno do ambiente. a circunda a casa no Ilê Axé Canto de Oxum.

na qual se pode encontrar uma grande variedad e de espécies vegetais. o I roko que se apresenta como uma árvore sagrada que representa o fundamento da religião em questão. podemos enquadrado notar na os cam porção centro-es dependências do Ilê. Como mostra o enquadramento da fotografia seguinte. A fotografia a baixo recorta a pais agens presente na entrada principal. caminho que leva à parte dos fundos. 281 ----------------------. . nos suas diferença dado que presença dos elementos vegetais estes podem ser adquiridos em rituais. onde acontece as festas e outros rituais. interferem paisagens dos não somente na terreiros utilizados apresentados.Figura 2: Ilê Axé Canto de Oxum Quando se analisa pela fotografia do Ilê Axé Onilewá Azanador. como o Azanado po Paineira (Chorisia speciosa). Figura 4:Ilê Axé Onilewá Azanadô 282 ----------------------. mas também no culto de alguns Orixás. Ao fundo a Gruta de Oxum. e posteriorme agregado o nome Azanadô pelos próprios visitantes . à direita parte do barracão principal. ali é reservado um espaço físico maior. onde a Paineira é a copa com fores rosa.Page 283----------------------As s. como por exemplo. à esquerda uma área que comporta uma variedade de espécies vegetais. levam na fotografia às demais Sendo o o acima. mercados especializados.Page 282----------------------Figura 3: Ilê Axé Onilewá Azanadô inhos que Ainda. inicia lmente chamado por apenas Ilê Axé Onilewá. outras i nferências são propostas. pularmente incluindo árvores de conhecida como grande porte. querda da fotografia principal. elemento da paisagens que qualifica este Ilê.

e comprimindo seus apenas criação pequenos assentamentos cimentados e apresentados por um visual asséptico.Page 284----------------------Figura 7 : Ilê Axé Canto de Oxum Características estas não presentes no Ilê Axé Canto de Oxum. Figura 6: Ilê Axé Canto de Oxum 283 ----------------------. considerando que o próprio termo se remete à terra. as legislações que a limitam a criação de animais ambiental que dificulta a realização de rituais. sociais.Page 285----------------------PASSOS E DESCOMPASSOS DA GUISA DE CONCLUSÃO Os terreiros. reguland o a duração das . como a terreiros apresentam presença de água outras características distint corrente. ou mesmo a lei de postura. por estar e m uma região densamente aqui povoada as práticas de Ketu fica inerentes a a constituição de do Candomblé. Figura 8: Ilê Axé Canto de Oxum Figura 9: Ilê Axé Canto de Oxum 284 ----------------------. anima impossibilitada. A normatização imposta pelas relações legais e em área urbana. não existe para a espaço físico do que comporte to tradicionalmente. comportando is. qua ndo localizados nas dos áreas centrais onde os elementos que. são essenciais ico da religião. ou a possibilidade de criação dos animais utilizados nos rituais. estes constituição imaginário ritualíst sofrem com as pressões dos poderes disciplinadores e controladores.Que no Ilê Axé Onilewá Azanador é uma frondosa Gameleira Branca Figura 5: Ilê Axé Onilewá Azanadô Os as.

pp.festas modificam o cotidiano do terreiro.27. Sociedade de Controle. despacho para Exu. Fotografia. Doc On Line.pt/03/artigo_paulo_cesar_boni. sofrem um processo siderando a relação de descaracterização entre nos terreiros de suas nas regiões afas paisagens. portanto no próprio Candomblé como se constitu i atualmente. História [online].doc. ou mesmo. vo l. Ed. Zeny Rosendahl. n. Elementos. pp 81 Ibid p. que deve se r realizado em local com grande movimentação de pessoas. MORESCHI. Paulo Cesar. são construídas em uma relação de subalternidade. P. 2008. 2005. In Geografia: Temas sobre cultu ra e espaço. Roberto Lobato Corrêa. Con identidade e paisagens o processo contínuo de re-significação provoca significativas m udanças na identidade dos praticantes da religião. Zita Rosane. Dezembro de 2007. As relações sociais que a comunidade circunvizinha estabelece com est es terreiros.Page 286----------------------REFERÊNCIAS POSSAMAI. história e vistas urbanas.. Rio de Janeiro. Abbês Baêta. identidade e cultura no espaço urbano: por uma abordagem microgeográfica.pdf COSTA. outrora presentes tadas do centro. 285 ----------------------. dificultando. necessitam de ambientes públicos. tal situação decorre do intenso processo de ações que negativizam suas práticas impedindo alguns rituais que religiosas. 255 BONI.ubi.2. como por exemplo. As relações entre os conceitos de território . org. das são Desse modo. Benhur Pinós da. o neolibe . Cláudia E. 225. Ibid p. UERJ. Fotoetnografia: A importância da Fotogra fia para o Resgate Etnográfico. 154 Disponível em: HTTP://www. n 03. 87 NEVES. os normatizados pelos terreiros nas regiões densamente povoa padrões eurocêntricos. Bruna Maria.

p. ritual. Este trabalho tem caráter etnográfico e mostra algumas práticas cotidian as não só da Mina. A partir da aspectos das religiosidades de matriz africana: ancianidade. Rio de Janeiro. Petropolis. ritual. This work has ethnographic character and shows some daily practices not only of the Mina. the party to the I looked at some enchanted Sir Zé Raimundo. 87 do et al. perf ormance. 286 ----------------------. mediado pelo olhar de dois autores. André tões contemporâneas. in particular. __________Microfísica do Poder / Michel Foucaul. Tambor de Mina de raízes maranhenses na cidade de B elém. (Org. 1997. Graal. ritual. but also of the various religious traditions afro-originated in Brazil. performance. m aspects of the afro-religiosities: seniority. PA. em especial. a da Antropologia: Franz Boas e que fazem parte da Históri Marcel Mauss. Michel. Raquel Ramal hete. RJ: Vozes. exchange. Vigiar e Punir : o nascimento da prisão. Abstract: In the House of Father Brazil. Roberto Machado. ancianidade. that part of the history of Anthropology: Franz Boas and Marcel Mauss.Page 287----------------------UM OLHAR ETNOGRÁFICO PARA FESTA DE SEU ZÉ RAIMUNDO DO PAI BRASIL Mírian Tesserolli160 Resumo: Na casa de Pai Brasil. 37. PA.). troca. 1979. Subjetividade: ques FOUCAULT. In: SILVA. a festa para o encantado Seu lancei o olhar para alguns Zé Raimundo. 2009. . performance. Trad. se realiza festa. São Paulo: Hucitec. ediated by the look of two authors. Org e trad. Palavras chave: Tambor de Mina maranhense. is realized From the party. mas também das diversas tradições afro-religiosas originadas no Brasil. tro ca. Tambor de Mina roots maranhenses in the town of Belem.ralismo e os efeitos de subjetivação. Ed.

É líder do Grupo de Pesquisa do CNPq Religiosidades e Festas. da Universidade Federal do Tocantins. desde 2003. Mas não é só nos momentos de festas que os rituais acontecem. p. divindade presente nas afro-religiões. próprios pa . exchange Introdução A vida social dos praticantes das religiões de matriz africana é mar cada por rituais. revelando representações ariza Peirano e valores que lhes são próprios.Page 288----------------------a um determinado grupo arte que me interessa. performance. mas ao que torna esse mom ento ímpar para. participam do ritual dessa outra casa. É essa última p especial: o que é comum a um determinado grupo. se recriar. quando são convidados. A festa é um momento especial. se expressa e mostra uma performance ritual que tem a ver com as histórias míticas de suas divindades. seniority. ressaltando o que é comum 160 Graduação e mestrado em História. 10). através dele. ta Catarina. Sua área de trabalho e pesquisa é História da África e Cultura Afro-brasileira. Em alguns momentos. definido pelo grupo como diferente do cotidiano. visitando outra casa em época d e festa. ritual. TO. Não vou me referir. É nesse mome nto que o grupo se pensa. (PEIRANO. com ênfase em afro-religiões. É professora do curso de História do Campus de Porto Nacional. cursa o doutorado em na Universidade Federal de San Ciências Sociais com ênfase em Antropologia na Universidade Federal do Pará. É comum encontrar os neófitos de uma determinada casa. aqui. às diferenças entre os rituais das diversas casas de religiões afro-originadas.Key-word: Tambor de Mina maranhense. Contato: mirianuft@gmail.com 287 ----------------------. A tese de doutoramento é sobre Nanã. em 2003. M diz que ―rituais são bons para transmitir valores e conhecimentos e. também. dança ndo. esse é um momento especial que aponta e revela representações e valores de um dado grupo. coordena a organização dos Colóquios Afro-rel igiosos que acontecem em Porto Nacional.

p. prática com boi Nesse caso fazem parte da específico. ao longo dos anos. No Maranhão. uma brincad eira dos encantados com um boi. vamos encontrar. A casa de Pai Brasil localiza-se no Jardim Sideral. 2003. nesse momento. Normalmente os em terreiros se localizam longe dos centros urbanos devido ao som dos tambores e à di scriminação que sobre essa religião é exercida: os marginalizados são excluídos dos centros. ali poucas casas existiam. as brincadeiras cultura e a maior parte dos caboclos encantados atualização de uma são boiadeiros. Ao realizar rituais. sejam eles fechados ou abertos. Transmitir valores e conhecimentos: é isso que é comum a um dado grup o e que me interessa lançar o olhar. em Belém. a exemplo da pajelança. mas em todo o Brasil. O Tambor de Mina. no final do ritual que descrevo. PA. na cas Jorge Itac maranhense de Vodúnnon espiritual. Esse foi um processo pelo qual muitos terreiros passaram. transmitem os conhecimentos que foram sendo ressignificado s. O que descrevo a seguir a do Pai Brasil. Mas na casa do Pai Brasil é a filiação maranhen se que vemos e. icados que os africanos que se juntaram trouxeram aos que tão da África. 10).ra resolver conflitos e reproduzir as relações sociais (PEIRANO. i de Pará. seu pai é um ritual de Tambor da casa de Mina. Com o crescimento da . A festa Belém. indo para a s periferias. formando uma religião existiam misturada quanto o povo brasileiro. por isso. como o que veremos a seguir. com linhagem Oliveira. e ainda Foram existem tão ressignif no Bras conhecimentos das religiões il. não só em Belém. neste Estado. tomou feições interessantes devido à mistu ra com os rituais indígenas. a maranhense que não se fazia presente no Pará. Provavelmente quando ele foi para esse bairro.

o lugar também foi sendo povoado. Esse salão é delimitado por um muro de. Do lado de fora. religião de m atriz africana que 288 ----------------------. um metro de altura. a rua é de terra e . Do lado de dent ro. por de junho de 2008. na frente. Iemanjá (orixá) e uma foto de Seu Zé Raimundo.cidade. provavelmente cantando.Page 289----------------------cultua os voduns161. Pai Brasil. os bancos são reservados às pessoas que se filiam às religiões afro-brasileiras. Oxalufã (Oxalá velho – orixá) com seu apaxorô e Oxum (orixá) e. para tanto era necessária a permissão que ao ser consultado deu sua aquiescência. ficam as pessoas que vão assistir à cerimônia. caboclo enca ntado. já no interior da casa. estava prestes a iniciar. As paredes são pintadas com as figuras dos voduns. foi a Ekedi162 do Seu Zé Raimundo. os orixás e os encantados. O terreiro é todo murado. mostrando sinais dos tempos violentos de hoje. Dissemos que gostaríamos de tirar fotos e gravar o ritual. na verdade . 14 Quando chegamos. O salão principal tem um mastro central com uma trepadeira que o c obre por inteiro. à casa de Pai Brasil. do dia outros pesquisadores. da mesma tradição ou não. Pai Brasil filia-se ao Tambor de Mina maranhense. pinturas do dono da casa. eu e volta de 20h30min horas. Quem nos recebeu. tem alguns seguranças na porta que ficam vigi ando os carros das pessoas que vêem para assistir a cerimônia. à direita. às pessoas que possuem algum tipo de cargo hierárquico. com seu colorid o chapéu de boiadeiro. dos orixás e que do encantado remetem à Seu Zé Raimundo: Dã (vodun) e a ao entrar. aci ma da . no máximo. um lugar para sentar de onde Indicaram-nos tínhamos uma boa visão de tudo que se passava no salão. a festa do Seu Zé Raimundo.

todos princesas os turcas. ainda à esq uerda. são misturadas em uma mesma tradição.porta que leva à um outro salão. entre outros. por vezes. à esquerda.Page 290----------------------o esquerdo. 162 Ekedi e ogã são cargos que existem tanto nas diversas tradições de Candomblé quanto no Tambor de Mina e eles têm basicamente as mesmas funções: a ekedi. cab léguas. entre outras coisas. Mais à frente. ou ainda. outra foto de Seu Zé Raimundo. cuida dos neófit os quando entram em transe. segundo os um vestiam com roupas verde e marrom. 161 No Tambor de Mina. Ao fundo deste salão. membros da casa e logo fomos para o salão onde aconteceria a cerimônia. Mas a referência às divindades. Todos se vermelha. um pequeno quintal no qual estão construídas alg umas salas que são destinadas aos filhos da casa. o ogã cuida das coisas da casa. os inkíces. Em outras nações. uma pintura bem colorida que também remete aos encantados. representando as famílias dos encantados: os codoenses. bandeirolas de papel coloridas e ventiladores. várias estátua s em tamanho oclos. natural indígenas. com roupas e adereços: nobres. 289 ----------------------. nos informaram. Vale lembrar que os caboc los são boiadeiros e que brincam com o boi. que Seu Zé Raimundo ga Mané. as entidades reverenciadas são os orixás. os voduns e também os orixás são as entidades reverenciadas . pouco com os para de cetim amarelo adornadas homenagear Seu Zé com fitas Conversam Raimundo. Chegamos até esse pequeno quintal para observar o movimento. No telhado. O chão é de cerâmica . . Na parte detrás do existe um pequeno salão. os entrada. como o Ketu. quando encontrou com ele em um terreiro no Maranhão. no Cand omblé angola. Do lad aquário com pedras na base e algumas estátuas: Iemanjá e Oxalufã. do provimento da festa. um espaço destinado ao boi nhou do caboclo encantado Zeca Baiaco. e na parede da turcos. há uma outra sala.

e vos à entronização na religião.Page 291----------------------entrou cantando Começaram. o Pai Brasil entrou no salão estavam em seus lugares cantando para Marabô. instrumento de metal com apenas um sino. no centro sul do de tambores que são estado do Tocantins. Por exemp lo. são alimentados. gra e através deles podemos perceber algumas continuidades étnicas. um tambor do xequerês ou cabaças (com uma trama de contas ao seu redor) .como eles nomeiam . como de renda. Existem pesquisadores. a súcia. f ica muito claro cação a importância dos tambores dos humanos com os não só no transe. Pai Brasil Marabô: nas religiões de matriz africana. Os tambores começaram a tocar: são três batas (sempre presentes nos rituais Do Tambor mato. A orquestra de tambores tem um som magnífico e. para o exu os movimentos iniciais. os tambores também passam: ficam recol hidos na camarinha.290 ----------------------. são já antes de ter início o quand chamados os que tocam os batas. então. nitidamente de é dançada ao som não recebem devem todos ser os usados rituais nas relati eventuais Os tambores são de grande importância na cultura ne 163A expressão ―santo se popularizou na fala de todo povo de terreiro devi do à imposição do catolicismo durante os quase 400 anos de escravidão africana no Brasil. Os batas estavam cobertos com um tecido ritual. orixás e encantados. Esses tambores são sagrados e brincadeiras que o povo de ―santo 163 faz. ao escutá-los. mas na comuni voduns. quatro de Mina). pois os tambores têm função fundamental nessa comunicação.e u m ferro (ou gã. Assi m como os neófitos passam por um rito de iniciação. dois atabaques. variante do agogô. como é mais conhecido) . Os batazeiros. babalorixás e yalorixás . sempre é para Exu que se canta primeiro para que ele abra os caminhos e que tudo corra bem naquele ritual.

Voltaremos ao assunto posteriormente. Na África.que não utilizam nunca esse termo. cumpri mentando-o com a benção. sem Pai Brasil entrou em caboclos dessa religião Raimundo. em África. o tambor de fala – Tchereman ou Tama – é co nsiderado um ser vivo. Na pelos o cargos princípio que da ocupam senioridade organização social dos africanos. ex istem vestígios. portador de sua própria palavra (LEITE. os atabaques presentes Atrás do Pai Brasil entraram outros participantes. através do tipo de tambor usado nas diversas manifestações culturais. são Talvez neófito entra em transe. que não se assemelha à do ser humano. ou seja.Page 292----------------------tradição jêje: são retos e não afunilados como nas tradições nagô ou keto. quando Os para Cantaram e dançaram os caboclos. um a um. seja difícil perceber quando o encantaram. O mesmo acontece com todos os outros. na casa em e ordem determinada pela senioridade. Como já foi citado anteriormente. colocou uma bata beije com listras douradas. por isso imperce rou encantados. p. 2004. através do som dos tamb ores as divindades emitem sua voz. as diferenças ptíveis: no caso do Seu Zé Raimundo.). Inicialmente praticamente troca de Brasil. entre os Dogon. do culto dos orixás que datam mais de 5 mil anos. Ou seja. afinal. seguida. podemos identificar as tra dições mais presentes. Entre os Akan. pois acreditam na necessidade da afirmação da ident idade das religiões de matriz africana de forma independente do sincretismo. o tambor de axila foi entregue ao homem pelo preexistent e para que se comuniquem. é por demais importante no desempenho dos papéis e isso foi transplantado para a organização das outras religiões d e matriz africana. igual a dos outros participantes. 291 ----------------------. Foi para transe são todos com os Seu voduns Zé e. estava com a roupa amarela de cetim. ao entrar em transe. ele solta o cabelo164 do Pai pa e coloca um chapéu. a exemplo do Tambor de Mina. 39. não faleceram. quand .

o entram em 164 Pai Brasil tem os cabelos compridos. trouxeram o Boi Zeca Baiaco para o salão. 165 É importante notar que o transe acontece. pa ra dançar com ele. Disse o Seu Zé Raimundo que ele u desculpas por ele ainda ser tinha acabado de nascer. os encantados fazem a saem para a sala atrás do salão festa! Quando os caboclos dançam e cantam ao som dos tambores. em ordem determinada pelos ca rgos que ocupam na casa e pela senioridade.Page 293----------------------transe165: trocam de roupa e/ou se caracterizam. que é o tambor mais grave e é o que ―puxa nte o ritual. 292 ----------------------. na altura dos ombros. quando nos aproximamos para conversar. também. desejando bom auguro. Os caboclos omentos saem do salão para ir tomar cerveja: eles gostam muito de cerveja. não bebem nada. cacheados. e os d eixa presos com um elástico. inclusive de acordo com o sexo de sua entidade: um lenço amarrado no chapéu ou um chapéu mais masculino. dur ante o ritual. que nos perguntam se estamos bem.Page 294----------------------Ao terminar o ritual. 293 ----------------------. pedi e fitas novinho e não saber dançar muito bem. faz em uma espécie de benção. depois de incorporados. Alguns caboclos. podemos ir lá conversar com eles. O boi é bem enfeitado com bordados . notadamente homossexuais. tocam os instrumentos. O Seu Zé Raimundo toca o tambor do mato. Enquanto os voduns. Em alguns m os ritmos tocados dura principal. entr aram em transe com entidades femininas e estas se mostraram muito carinhosas e bastan te gentis. Alguns médiuns homens.

Uma das visitantes pediu um pedaço de bolo a uma das pessoas sem saber que ela estava em transe com u m encantado do sexo masculino. se precisamos de algo. de receber bem e de ser dono de barracão . As comidas servidas são as da região: maniçoba. Nesse segundo encontro. em um momento que esteve em nossa mesa. a festa continua no quintal. No primeiro. Esse entre os convidados é um momento e os sabendo no qual seus há uma nomes. seu criado! . cidade p róxima de Belém.): utilizam-se apenas algumas partes dos animais nos rito . arroz. ela ter agradecido com um depois de dar-lhe o solicitado e d ―obrigada. se estamos bem servidos. Falando das comidas e das trocas. Nesse momento. suas interação famílias. galinha no tucupi com jambu. vatapá. maior Ne encantados. é quando ficamos ssa festa. com muita comida e bebida. disse: ―Eu sou um negro metido: gosto de me vestir bem. senhora!: De nada! Mas quem está aqui é Antônio de Léguas. cheguei ao final de uma festa e converse i muito com ele. achando que era o Pai Brasil. na parte de baixo tem um tecido muito florido e uma coroa de flor es nos chifres. para o Seu Zé Raimundo. como é comum em todas as festas das religiões de matriz africana. bode. Quando o ritual finaliza. essa começou a ser pre parada com três meses de antecedência. Todos os convidados sen tam-se em torno de mesas organizadas anteriormente boclos.na parte de cima do corpo. ele assim disse. O bode e a galinha são animais utilizados nos rituais que ocorrem pa ra a preparação das festas (elas começam a ser preparadas muito tempo antes. ele já h avia trocado de roupa três vezes e já sabíamos que o Pai Brasil abriu um barracão em Mosqueiro. tive o segundo contato com Seu Zé Raimundo. que vão até as mesas e são servidos pelos ca perguntando se está tudo bem. Somente ao final fui avisada que era o encant ado.

então. ebó toma outras como Muniz formas um Sodré oferecimento. Mas a característica das diversas tradições do Candomblé e do Tambor de Mina é de não desperdiçar alimentos. s retribuem com possível. No início da festa. Ebó pode. Isso acontece nos Candomblés e no Tambor de Mina. dando conteúdos diferenciados a cada ato ritual e v otivo. pois que está sempre em busca de repor as energias cósmicas num consta . nos despachos em encruzilhadas os animais são abandonados inteiros. relação Assim. foi para Exu. O ebó é uma prática ritual de reposição de energias para equilibrar as forças cósm cas. por exemplo.s e o restante é 294 ----------------------. Algumas religiões afro-originadas utilizam o animal todo. o de conceituais. paz.Page 295----------------------utilizado como alimento pelo povo de ―santo . existe uma consciência ecológi ca bastante presente e sabem que precisam da natureza de diversas formas. orixás e ínkices. há uma oferenda para Exu para que tudo corra bem durante a festa. om saúde. Mas essa não foi a primeira oferenda para Exu: a festa começou a ser preparada com ritua is de oferendas três meses antes da data estipulada para que ela acontecesse e a primeira oferenda que foi feita. Aqui. os divindades. Esse caracterizado por culto é mediado formas de pelo ebó: um agradecimento preparar e oferecer materiais. e o mundo a harmonia das entre a natureza. a coisa dada prosperidade. ser conceituado enquanto troca entre o homem e os preceitos cósmicos. Tem como objetivo restituir seres humanos. nomeia as uma divindades. um o ebó presente é um é retribuída presente pelas aos voduns divindades e o c vodun Lembrando Mauss. pois a cada ritual é oferecido para uma relação de troca diferente. A harmonia entre o mundo espiritual e o mundo terrestre fundamenta o culto de voduns.

que fez parte de um ritual de trocas com os preceitos cósmicos. É a oferenda que faz as ener gias circularem. A dança é uma perfo rmance. 1974. 215 -7). mostrando seus do os domínios. As religiões . é a força ele que permite a possibilidade dinâmica da realização. todos os presentes se alimentam com comida qu e tem axé. Ao final da festa. é uma parte do ritual que também é uma troca à medida que mantém viva e reatualiza as divi ndades.nte fluxo de do força vital.Page 296----------------------Religiões afro originadas: territórios plurais. ganhar eleições ou tirar o marido alheio . Quero me deter um pouco na noção de cultura de Franz Boas. pois gost o da idéia de pensar em culturas e não em cultura. O senso comum vê as religiões de matriz africana através de alguns ―fi ltros . físicos e mágico-religiosos (MAUSS. através do ritual. por exemplo. É através da dança que se aprende: imitan acontece a transmissão da tradição. Referem-se no singular. 295 ----------------------. Marcel atos. é o elemento mais importante para a existência. entre tudo que faz parte da naturez a. entre tudo que faz parte da natureza. dentre eles. o axé. os movimentos é que Mauss nos mostra que o ritual se faz através de atos técnicos. Mas as trocas não estão presentes apenas na alimentação. através do ritual. p. Acreditam que essas religiões são apenas uma e que servem para fazer o mal ou conseguir coisas um tanto quanto espúrias. o de um olhar muito próprio do ocidental judaico-cristão. de matriz africana são territórios absolutamente plurais para se falar de culturas. porque é existir desabrochar. que confunde o Orixá E xu com o demônio. suas histórias míticas. E o ebó é a oferenda ue faz as energias circularem.

a elas. Muitos autores falam dos orixás como se eles fossem as únicas divindad es africanas que vieram para o Brasil e que somente igiões afro brasileiras. Esse olhar de tábula rasa torna tudo preocupar com as diferenças exatamente por desprezar as entrelinhas que muitos dos ‗informantes‘ não as conseguem diferenças. não se p universais de funcionamento das sociedades e das culturas humanas. seja pelo paulatino esquecimento d a senioridade. aqui e para atender ao tempo acolá nas comidas ou nas oferendas às divindades. mas que existem. Com esse olha r. como ―macumba igual. explicitamente. renciar seus À medida que abrem as suas casas. enxergar. seja uma mudança na iniciação. seus rituais têm uma amento do tempo da camarinha. Mãe Senhora. que disse que queria todos vão adquirindo seus anéis. a Sacerdotisas dizerem. A observação nos mostra que à medida mudança ainda maior. reocupa em Franz Boas é reticente descobrir leis às grandes sínteses. começam a dife rituais. Houve uma mãe de ―santo os seus filhos de ―santo que com anel no dedo. ou seja. formado. conseguimos perceber melhor as religiões afro brasileiras por que. Até muitas vezes mesmo quando observamos escorregamos. além de existirem muitas trad ições a que se filiam. que suas casas são exatamente iguais à de seus pais ou mães. sem se ou ―terecô . Não é eles é que fundaram as rel possível estudar essas religiões em busca de uma síntese que defina a todas de igual f orma. Seja pelo relax do trabalho. percebemos que isso não é real. ublicados Mas ainda temos os textos relativos aos zeladores que à medida que são p . às vezes pequenas diferenças. a visitação às diferentes casas nos mostram as diferenças entre elas: cada casa é uma casa. A observação pesar de direta muitos dos terreiros nos Sacerdotes e mostra uma variedade que. baiana. todas.

Boas diz. acabam por modificar seus c fazem em busca de uma ligação maior com a ancestralidade africana. Isso pressupõe um contato mais do grupo a ser estudado (CUCHE. Uma questão com a qual tenho me ocupado é a da senioridade que foi t . É o nosso olhar que 296 ----------------------. a exemplo que se reproduziram no Brasil através das casas de ‗santo‘. mas é preciso sempre haver uma ssas pessoas. Muitos deles o lêem e. que ―ao invés de realizar entrevistas formais a situação de entrevista pode modificar as tudo o que respostas -. a preocupação com isso é grande e nos remetemos à Franz Boas novamente. nos mostram as permanências. na refletem cada história da seniori ele complexidade cultura é sistema cultural específica e devemos cuidar com as comparações mentos para entender o cotidiano de um dado dade ou das linhagens prematuras. grupo. as adaptações culturais dos grupos. se concordarem. deve estar se diz nas conversas em maior ou menor grau – a atento principalmente ‗espontâneas‘. citado por Cuc he. Esse tipo de atitude remete a uma preocupação ética com relação ao que esc revemos.Page 297----------------------grafamos. eles os ultos. mediação com o que nos informam e Gosto da posição desse autor quando se remete às entrevistas. Para Buscar da questão Boas.seus terreiros. e acrescenta. Mas também podemos reavivar na memória dos neófitos o. 1999. p. mas ta mbém as mudanças. quando ele revela que não aprecia e nos apresentem são muito o recurso a ‗informantes‘. anteriormente possui. uma forma Essas questões de olhar para que cada única e abordadas a 43). pois corremos o risco de modificar religião. Pessoas qu ou introduzir que elementos caíram no na esqueciment elementos importantes. até ‗escutar atrás das portas‘ .

p. Aqui.ransplantada para a organização do Candomblé e era muito importante no desempenho dos papéis na organ ização social dos iorubanos tradicionais. mostram claramente a hierarquização ―baseada na sucessão cronológica das pessoas 87). Esse f lagrante revela alguma vido mudança que está acontecendo à modernização ou à nas casas. Essa é uma questão a ser t ratada 297 . na rede das relações socia is. uma pirâmide. Lembro que na televisão. que trazem o até o presente o poder dos antepassados e que. mas uma qualidade social. depois os vivos: dos m ais antigos aos mais novos. no ápice estão (SOUSA. quando vemos algum membr o das religiões de matriz africana se manifestar publicamente: eles começam por reverenciar os mais v elhos. Hampâté Ba diz que na África. podemos observa r muitos casos de desrespeito aos idosos. é co mo se uma biblioteca se incendiasse (HAMPÂTE BA. No Brasil. pois ao m esmo tempo que nas casas mais tradicionais. É nela. ―quase despegados dos vivos e assimilados ao s mortos . 1965. os mais antigos são reverenciad também presenciei atitudes de desrespeito ao mais velhos. as histórias se entrelaçam: a escravista br asileira e a mítica africana. a história. por exemplo. em todos os canais. 8-9). pedindolhes a benção. os e sua linhagem é exaltada. Então. que os religiosos buscam a autoridade de ‗mais velho‘. São os anciãos. em algumas casas. se pensarmos em antepassados da família. Nas sociedades tradicionais africanas. 5 os grandes depois seus descendentes. isso se traduz. 2004. talvez de ocidentalização inevitável. para somente ao final reverenciar os mais novos. sempre em ordem de antiguidade. a ancianidade é não só uma que stão biológica. p. ―quando um ancião morre. Essa é uma questão interessante e que devemos prestar atenção.

----------------------- Page 298----------------------com mais vagar em um próximo momento, pois diz respeito a uma tradição herdada dos afr icanos, que está se modificando. Essa questão nos remete ao que Boas fala a respeito do método etnográfi co que, para ele, baseia-se no ―estudo das mudanças dinâmicas na sociedade que podem se r observadas no tempo presente sua história e, ainda caminhando com o mesmo autor, ―cada grupo cultural tem dependente do desenvolvimento interno pecu (BOAS, 200

própria e única, parcialmente liar do grupo social e

parcialmente de influências exteriores às quais ele tenha estado submetido 4, p. 47).

Portanto, tratar desse tema é compreender as mudanças e as influências externas às quai s o grupo está sujeito. Algumas considerações Vagner Gonçalves da Silva inicia o livro O Antropólogo e sua magia co m uma citação de James Boon: ―o centro deste estudo está no fato de que não apenas as culturas são plu rais, mas também os métodos de investigá-las. Culturas, histórias e métodos se comunicam discursivam ente através os de de um paradoxo semiótico, culturas que se porque os próprios métodos são produt

transformam no tempo s em territórios

(SILVA, 2006). Lançamos o olhar para culturas plurai

plurais que se pensam e se transformam com a ação do tempo, com dinâmicas próprias. Olha r para a cultura como um texto a ser decifrado, à moda de Geertz, e a pesquisa participan te, seguindo os passos de Malinowski, se tornaram meu norte. O Tambor de Mina foi uma descoberta fascinante: olhei para ele, estranhando e buscando decifrá-lo, conversei com os neófitos e com o s encantados, talvez mais encantada com as novas descobertas do que já estive antes com outras. E o apresentado aqui, são as primeiras impressões a respeito dessa tradição. Talvez nesse primeiro momen

to, tenha feito um pouco o que Boas critica: comparar. Comparei conhecimentos que já tinha d o Candomblé com o que estava descobrindo de novo. Busquei similaridades e encontrei, afinal, o Candomblé e o Tambor de Mina são religiões afro originadas. Também encontrei diferenças. No tempo dessa escrita percebi a complexidade do diálogo entre os t erreiros e entre os terreiros e a academia. Narrar neira de compreender e de essa complexidade é também uma ma

exercitar a capacidade de estruturar a experiência passada e presente, remexendo a memória para mantê-la ativa. 298 ----------------------- Page 299----------------------Referências Bibliográficas BOAS, Franz. Os métodos da etnologia. In: Antropologia Cultural . Rio de Jan eiro: Jorge Zahar, 2004. CUCHE, Denys. Franz Boas e a concepção particularista de cultura. I n: A noção de cultura nas ciências sociais. Bauru, SP: EDUSC, 1999. HAMPÂTÉ BÂ, Amadou. Confrontações culturais. Entrevista concedida a Philippe Decraene. In: Thot. N  80 – abril/2004. LEITE, Fábio. A questão da palavra em sociedades negro-africanas. In: Thot. N  80 – abri l/2004. LUCA, Taíssa Tavernard de. Devaneios da memória. A história dos cul tos afro-brasileiros em Belém do Pará na versão do povo de santo. Monografia graduação em His tória. Belém: UFPA, 1999. MAUSS, Marcel. Ensaio sobre a dádiva. Forma e razão da tro ca nas sociedades arcaicas. In: Sociologia e Antropologia. Vol. II. São Paulo, EPU/EDUSP, 1974. MAUSS, Marcel. As técnicas corporais. In: Sociologia e Antro pologia. Vol. II. São Paulo, EPU/EDUSP, 1974. PEIRANO, Mariza. Rituais. Ontem e hoje. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2003. SILVA, Vagner Gonçalves da. O antropólogo e sua magia. São Paulo: EDUSP, 2006. a SODRÉ, Muniz. A verdade seduzida. 2 . ed. Rio de Janeiro: Livraria Francisco Alves Editora S. A., 1988. SOUSA, Alfredo de. As sociedades tradicionais africanas. In: Econo mia e sociedade em África. Lisboa: Livraria Morais Editora, 1965.

299 ----------------------- Page 300----------------------A MÍSTICA DO PRETO-VELHO EM PONTOS QUE CANTAM E CONTAM Admilson Eustáquio Prates166 Introdução O texto pretende analisar as músicas que são cantadas na Umbanda, precisamente no ri tual de pretovelho. Para tanto, fazer se necessário uma hermenêutica e uma exegese das músicas para visualizar a mística presente nos versos cantados durante o ritual. Além de propor uma interpretação das musicas, o texto também apresenta uma analise descritiva e a nalítica do ritual de preto-velho presente na Umbanda-Sertaneja167. Imaginário acerca da Umbanda É olhares como, possível compreender por exemplo, a Umbanda a partir de vários

culto de pessoas atrasadas culturalmente, religião de resistência à invasão cultural eur opeia, como uma seita de adoração aos espíritos do mal, mas podemos também visualizar a Umbanda como uma religião tipicamente brasileira que expressa em seus ritos a hibridez constituinte do povo brasileiro. Neste artigo, vamos concentrar como atmosfera mística, sobretudo na Linha de Preto-Velho. Mística sugere mistérios, magias, encantos... Tal afirmação é possível porque , durante as pesquisas de campo, observamos os adeptos vivenciando e celebrando o mistério n as danças, nos gestos, nas vozes, nas dramatizações os expectadores que eles transitavam por outra realidade Onde não mais existia o ritualísticas, realidade por que demonstravam a nossa atenção, visualizando a Umbanda

– uma

imagética-mística. o que entre e

indivíduo, e sim a totalidade. Entendemos nos remete a Plotino (Cf. BAL, 2007), que afirmava que a le (o indivíduo) e a experiência mística

totalidade

não conhece

o abismo

respiração cósmica. Tudo Silesius, em seus

é uno.

Recordando

o

místico

cristão,

Ângelu

mergulhos no oceano infinito de onde tudo provém, diz: ―A pequena gota se tran sforma em mar quando chega até ele; e assim quando é nele acolhido. (apud GAARDER, 1995:154). Mística Dessa maneira, podemos e Sertaneja que será falar de uma Umbanda a alma se transforma em Deus,

apresentada a partir da Linha de Preto-Velho em pontos que cantam e contam a estór ia deles e o sentido do culto, expressa pela vivência ritualística do povo de santo. Para tanto, faz-se necessária 166Graduado em Filosofia. Mestre em Ciências da Religião - PUC/SP. Professor na Univ ersidade Estadual de Montes Claros. E-mail: adeprates@yahoo.com.br 167 Sobre Umbanda-Sertaneja ver: MARQUES, . Umbanda Sertaneja. Cultura e Ângela Cristina Borges

religiosidade no sertão norte-mineiro, 2007. 238 p. Dissertação (Mestrado em Ciências da Religião) Pontifícia Universidade Católica, São Paulo. 300 ----------------------- Page 301----------------------uma hermenêutica mistério presente e uma exegese nos versos das músicas para visualizar o

cantados durante o ritual. Sobre o Ritual A pesquisa de campo, a coleta de dados, para a construção deste traba lho foi realizado no dia cinco de maio de dois mil e dez na Roça Gongobiro Ungunzo Mochicongo168 durante a cerimônia de Umbanda, precisamente O ritual apresenta as seguintes estruturas narrativas abaixo. É pra as É pra as Eu estou É pra as É pra as Eu estou almas. almas. com as almas. almas. com as ((Preto Velho) (mediuns) almas (mediuns) ((Preto Velho) (mediuns) almas (mediuns) na linha de Preto-Velho.

O ritual inicia saudando as almas como pôde ser visto logo acima, e sse cumprimento provoca, cria e conduz aqueles que compõem a cerimônia para uma atmosfera mística, ou seja, para o mistério e os encantos. O ritual é desenvolvido por pontos cantados, acompanhados de palmas, atabaques, triângulos. As cantigas entoadas durante a Linha de Preto-Velho apresen tam a seguinte sequência: Hoje é dia... hoje é dia ... é dia Deus Oh minha santa Rita Hoje é dia... hoje é dia ... é dia Deus Ôôô viva as almas (bis) Ôôô viva as almas na hora de Deus Ôôô viva as almas (bis) Ôôô viva as almas na hora de Deus Oh minha santa Rita Hoje é dia... hoje é dia ... é dia Deus Oh minha santa Rita Hoje é dia... hoje é dia ... é dia Deus Ôôô viva as almas (bis) Ôôô viva as almas ... na hora de Deus Ôôô viva as almas (bis) Ôôô viva as almas ... na hora de Deus .... Meu são Miguel Arcanjo Benzador das almas 168 Templo sagrado, roça ou terreiro como é conhecido e denominado entre o povo de s anto. Esta roça a qual a pesquisa foi realizada localiza-se em Montes Claros / Minas Gerais. 301 ----------------------- Page 302----------------------Oh... tenha dó das almas Meu são Miguel Arcanjo Benzador das almas Oh... tenha dó das almas Meu são Miguel Arcanjo Benzador das almas Oh... tenha dó das almas Meu são Miguel Arcanjo Benzador das almas Oh... tenha dó das almas clamando a que padecem tanto que padecem tanto que padecem tanto que padecem tanto pontos cantados evocando,

O culto inicia-se com os Santa Rita, ao São

Miguel Arcanjo e dizendo que ―Hoje é dia... hoje é dia ... é dia Deus . Qual o significado da Santa

Rita e do São Miguel Arcanjo neste ritual? Quem são Santa Rita e São Miguel Arcanjo? O que eles representam para a linha de Preto-Velho? s que nos ajuda a entrar na São perguntas Além como essa

atmosfera mística do culto aos Preto-Velhos. os a entender qual o lugar

disso, instiga-n

ocupado pelos cânticos no imaginário-identitário do povo de santo sertanejo. Assim, re alizaremos, análise descritiva e interpretativa dos pontos cantados com o propósito de traçar algu mas respostas que nos aproximemos da cosmovisão do povo de santo sertanejo. aproximação Para compreensão hermenêutica e do ritual, faremos uma primeira

exegética. Temos consciência de que há muito que aprofundar. Para iniciar, agrupamos a s músicas buscando identificar um padrão entre elas, mantendo a sequência que foi cantada dura nte a linha de Preto-Velho. nvestigar o Outras perguntas surgem sentido místico dos quando nos propomos i

cânticos Afro-Sertanejo, por exemplo: qual o encanto ou o mistério que existe nestes versos e nas estrofes dos pontos cantados? Por que esses pontos são sagrados? Onde está a mística n a Linha de Preto-Velho? Ou melhor, o pela Umbanda-Sertaneja, sobretudo na Linha de Preto-Velho? a Rita ocupa Retornamos a pergunta no imaginário do inicial sobre o lugar que Sant que é uma mística Afro-Sertaneja expressa

povo de santo. Para suscitar algumas reflexões sobre o assunto podemos relacionada s à biografia da santa Rita, como o ritual de Preto-Velho. de maneira sintética, Começarem apresentado Santa

concentrado nossa atenção nas características que poderá associá-la a atmosfera mística dos PretoVelhos. Ela, Santa Rita, como todas santas foi temente a Deus, viveu uma vida de renúncias, mas sempre com os olhos direcionados para a vida além das experiências terrenas. U ma senhora

que passou por varias provas, sendo uma delas, as impostas pelas superiores do c onvento para saber se ela - a santa – era uma noviça obediente. Como ilustração vamos apresentar a prova on de a santa deveria icação, regar um galho seco obediência, humildade, 302 ----------------------- Page 303----------------------serenidade ela regou o galho por mais um menos um ano. Tal galho estava destinad o ao fogo, por está seco. E após, um ano de cuidado ele começa a florir e a produzir uvas que continu a dando a até hoje, segundo dados torno de dela é da de biografia de alguém que Santa cresceu Rita. no As estórias em pela manhã e pela tarde. Com ded

conheceu e vivenciou o sofrimento, e fé em Deus, trilhou a via

amor – caridade -

purgativa, o caminho da perfeição, da simplicidade. Santa Rita, Além disso, com base ela realizou vários nos relatos sobre a vida nece de

milagres e tinha um senso de cuidado, ou seja, amava e cuidava daqueles ssitados. Por isso,

quando começa o ritual invoca Santa Rita. Invoca o amor, a simplicidade e o cuidad o que são traços característicos que retrata a áurea mística da santa. Naquele momento, quando os médiuns cantavam os seguintes versos ―Hoje é dia... hoje é dia... é dia Deus / Oh minha santa Rita / Hoje é dia... hoje é dia... é dia Deus / Ôôô viva as almas (bis) . E que percebiam entre eles um clamor ao amor divino

Santa Rita levaria todos os pedidos e traria de Deus o conforto para viver. Outro elemento característico do canto nos rito de Preto-Velho é nos fazer recordar o rosário, o terço rezado com ladainhas. na linha de Preto-Velho são orações, mantras que conduzem tual para um espaço-tempoimagético-místico das romarias, calma, tranquila, com os das Pois, os os cânticos integrantes é uma presentes do ri cerimônia

participantes, procissões.

Este rito

uma gira ersonagens

que anda em volta Preto-Velhos - a

dos

médiuns

incorporados – com

os

p

passos lentos que nos lembra atitude de simplicidade, de renúncias, de sofrimento e de oração pelo corpo. E que tal sofrimento não retira a beleza de estar vivo e participando de al go maior que eles mesmos. em como Este clima místico, personagem principal expresso no ponto cantado que t

Santa Rita, pode ser encontrado também na seguinte oração que os fieis católicos profess am a santa. Como pode ser visto logo baixo: Oração a Santa Rita de Cássia169 Ó poderosa e gloriosa Santa Rita, eis a vossos pés um alma desamparada que, necessitando de auxílio, a vós recorre com a doce esperança de ser atendida por vós que tendes o incomparável título de SANTA DOS CASOS IMPOSSÍVEIS E DESESPERADOS. Ó cara Santa, interessai-vos pela minha causa, intercedei junto a Deus para que me conceda a graça 169 Fonte site: http://www.paroquias.org/oracoes/?o=185. Acesso em 20 de maio de 2010. 303 ----------------------- Page 304----------------------de que tanto necessito (dizer a graça que deseja). Não permitais que tenha de me afastar dos vossos pés sem ser atendido. Se houver em mim algum obstáculo que me impeça de obter a graça que imploro, auxiliai-me para que o afaste. Envolvei o meu pedido em vosso preciosos méritos e apresentai-o a vosso celeste esposo, Jesus, em união com a vossa prece. Ó Santa Rita, eu ponho em vós toda a minha confiança; por vosso intermédio, espero tranquilamente a graça que vos peço. Santa Rita, advogada dos impossíveis, rogai por nós.

Tanto no ponto cantado quanto na oração observa-se uma relação estreita e ntre santa Rita e as almas. Além disso, confirma os nossos primeiros traços característicos em to rno da áurea mística de Santa Rita associado à Linha de Preto-Velhos ou Linha das Almas como é conh ecido o ritual também entre o povo de santo. Em outro ponto cantado há a presença de um personagem impregnado de e ncanto e de força mística tanto para os católicos o São Miguel Arcanjo. Ele é quanto para o povo de santo,

invocado, clamado, solicitado da seguinte maneira na música-oração: ―Meu São Miguel Arcanj o / Benzador das almas / Oh... tenha dó das almas que padecem tanto . O que esses versos nos faz pensar? O que é alma? Duas da por sabemos que não simples perguntas que nos incomo

conseguiremos responder de maneira satisfatória. Pois os versos não apenas nos faz a penas pensar, mas ínsita, desperta sentimentos profundos e pensamentos intensos que segundo o po vo de santo, eles são arrebatados para outro plano, um lugar que o espaço e o tempo não existem. So bre aquela pergunta ficamos inquietos, sem respostas. Talvez a resposta seja essa: a inquie tação. A outra pergunta o que é alma? Inicialmente acende na naquele que d eseja responder um sentimento de frustração, pois é sabedor que tal pergunta suscita agitação, ansiedade, um mal estar porque logo após a pergunta anunciada, ela já demarcou o limite da responda. L imite este, do próprio autor da pergunta. Essa agitação juntamente com o mal estar e a frustração espelha aquilo que a pergunta deseja: o movimento, a reflexão, despir frente à pergunta. Novamente, o que é alma? Podemos entender a alma primeiramente a pa rtir do próprio cântico que evoca algo imaterial, poder sobrenatural, poder misterioso, invisível, i mortal, fantasma. Podemos também entender ideia de alma como um espectro, expressando o dualismo cor po/alma.

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―As representações simbólicas da alma são tão numerosas quanto às crenças que sob elas existem (CHEVALIER; GHEERBRANT, 1993: 31). Ainda é possível vislumbrar a alma como sendo e seja, a percepção e organização do espaço esta a maneira como interpretam

sinônimo de consciência, os, atribuímos sentidos significados ao externo – mundo viver. Ou natural /

natureza - e interno – mundo psíquico, as paisagens mentais, as redes de significad os -, do tempo, enfim os pensamentos e os sentimentos. Assim escreve Russ sobre alma, ―Etim.: lat im, ar, sopro, principio ensamento, de mas vida; o masculino, também a do (1994: 09). animus, designa a sede do p

sentimento e das paixões epções,

Avançando na interpretação simbólica da alma, seria ela a consciência – perc idéias, sentimentos, volições so em atos, em etc -, ou seja, a morado do ser, o próprio ser juízos éticos sobre o bem e o expres mal. Vo

praticas morais, em intenções, ltemos aos versos para nos

auxiliar na explanação: ―Benzador das almas / Oh... tenha dó das almas que padecem tanto . O que significa ter dó das almas que padecem tanto? Inicialmente penso que seria ajudar, apaziguar, ou seja, ―livrar as almas do fogo do inferno , socorrer a almas, retirando-as arras do dragão – das g

diabo, santanãs -. Penso também que aliviar a dor – ―que padecem tanto - seria mediar o c onflito da consciência entre o bem e o mal, o poder e o não poder realizar alguns desejos. P osso ainda ir um pouco mais além entendo padecem enquanto tomada de consciência do absurdo que é a exis tência humana que, por sua vez, é uma ntido a dinâmica de estar vivo e luta constante em atribuir se

lançado, abandonado no mundo. Padecer, ainda nos remonta a noção de angustia.

paroquias.. de cr iar o mito das entidades a que se referem através das letras dos cânticos a elas dedicados (.Page 306----------------------Em nome do Pai. O mythos (mito) significa literalmente ―fazer através da palavra . Príncipe da milícia celeste. isto é.. e vós.. A similaridade entre os textos tanto da oração cantada entre o povo d e santo e a oração proferida entre os católicos pedem ao São Miguel auxilio para as almas. pelo divino poder.. do Filho e do Espírito Santo. Outros pontos são cantados durante o ritual com a seguinte narrativ a: Andei . ) (CARVALHO. Os pontos ca ntados nos atestam à experiência de estar vivo. defendei-nos com o vosso escudo contra as armadilhas e ciladas do demónio.. Deus o submeta.org/oracoes/?o=230.. é um exercício vivo ―.. Acesso em 20 de maio de 2010 305 ----------------------. protegei-nos no combate. . instantemente o pedimos. de mythopoieses. E theologein (teologia) ―fala sobre o divino .. podemos perceber a riqueza mitopoética do ponto cantado e da oração.te Tais versos cantados à oração de São Miguel apresentam uma ideia semelhan Arcanjo proferida entre os católicos como pode ser visto logo abaixo: Oração a São Miguel Arcanjo170 São Miguel Arcanjo. Ámen.. andei meu pai pra conhecer Bati na porta minha mãe para ti ver O meu destino meu pai quem dá é Deus Venha me valer meu pai o Baluaê Baluaê ê ê. 1997: 95). 170 http://www. ê ê ê. Dessa maneir a. precipitai no inferno a Satanás e aos outros espíritos malignos que andam pelo mundo procurando perder as almas.

vagar. . É o convite à viagem rumo a um além. A porta se abre sobre o mistério.. entre dois o conhecido e o desconhecido. Baluaê ê ê. (CHEVALIER. Mas ela tem um valor dinâmico.. o tesouro e a po breza extrema.. ê ê ah.. GHEERBRANT.. psic ológico. Baluaê ê ê.. ê ê ê....Page 307----------------------As movimento: duas músicas andar.. ê ê ê...Baluaê ê ê. ê ê ê. entre A narrativa cenário familiar com a do primeiro ponto cantado reproduz também um .. caminhar... ê ê ah.. pois não somente indica uma passagem.. ê ê ah... ê ê ah.. de saber. mas convida a atravessá-la. apresentam uma atmosfera de perambular. Na primeira cantiga visualiza-se o desejo de conhecer.. Ela retrata a ideia de passagem entre dois estados. de fazer a passagem de um lugar para outro como pode ser percebido a part ir do simbolismo da porta que implica sair de um estado ou de uma situação para outra.. Baluaê ê ê. ir à busca de algo. Baluaê ê ê. 1993: 734-735) mundos.. Eu andava perambulando sem Eu pedi a santas almas que Foi as almas que me ajudou Meu Divino Espírito Santo Viva Deus nosso Senhor Foi as almas que me ajudou Meu Divino Espírito Santo Viva Deus nosso Senhor Eu andava perambulando sem Eu pedi a santas almas que Foi as almas que me ajudou Meu Divino Espírito Santo Viva Deus nosso Senhor Foi as almas que me ajudou Meu Divino Espírito Santo Viva Deus nosso Senhor ter nada para comer viessem me valer (bis) (bis) ter nada para comer viessem me valer (bis) (bis) 306 ----------------------.. Baluaê ê ê.. Andei . a luz e as trevas.. andei meu pai pra conhecer Bati na porta minha mãe para ti ver O meu destino meu pai quem dá é Deus Venha me valer meu pai o Baluaê Baluaê ê ê..

―Bati na porta minha mãe para ti ver . estórias e histórias. enfim. Ele apresenta também uma ambigüidade. ―Por esta razão. incita a memória a pronunciada reorganizar-se. Ou s segundo o ensino hermético. Nascer é sair do ventre da mãe. O pai é o conhecimento. o saber. eja. rte. a reconstruir-se.. morrer é retornar à terra. andei meu pai pra co nhecer . Ou significados. do inconsciente. ‗regressar a mãe‘ significa morrer.. é diante das forças novas de mudança o mundo da autoridade tradicional (1993: 678). 2005: 362). Este ato de chamar. o encontro com a mãe representa sair ou retornar. Segundo Chevalier e Gheerbrant. ritualizar a memória é quando provoca. a palavra paixões. O que eles nos fazem pensar? Perc ebemos . expressando Por a outro. 1993: 580). a imagem da mãe simboliza o pri natureza: vida e mo (CIRLOT. ritualiza a memória. tocar a porta é a experiência mís tica do encontro com o absoluto. sonhos. incomoda. sentimentos. ao principio ma sculino que representa o consciente. como por exemplo. pensamentos. a experimentar o sentimento de estar vivo. a lei e a norma. ―Encontra-se nesse símbolo da mãe a mesma ambivalência que nos da terra e do mar: a vida e a morte são corr elatas. ncipio feminino. (CHEVALIER. seja. Enfim. com a grande mãe. Concentrando nossa atenção agora em outros versos da narrativa: ―O meu destino meu pai quem dá é Deus / Venha me valer meu pai o Baluaê . Além de evocar uma paisagem familiar o simbolismo do pai e da mãe nos remete a outras visões. o pai ―representa a consciência diante dos impulsos instinti vos. dos desejos espontâneos. o pai está ligado à esfera masculina. O primeiro verso da música é: ―Andei. GHEERBRANT. com movimento de nascer e morrer. Sabemos que a palavra proferida evoca ideias. vida ou morte . com o infinito.presença da palavra pai e mãe.

entre o povo de santo. irmada no dicionário de Filosofia: Etim. a regência do mundo Tal concepção sobre destino pode ser conf ..nos versos a permanecia da palavra pai e novas categorias . com a ação do destino sobre o copro. ou melhor. ou seja.destino e Baluaê . Ele é o orixá da terra – do i nterior da terra . suavizar as dores implacáveis que o destino lança sobre os humano s. o senhor das doenças e das moléstias. Baluaê. Representa ta mbém o sol e rege a saúde. as doenças. (RUSS. decidir previamente.: lat. sobrenatural. divide juntamente com Iansã o espaço do cemitério.Page 308----------------------O que é destino? Quem é Baluaê? Qual a relação entre destino e Baluaê? Para c omeçar podemos entender destino como uma categoria que designa algo sobrenatural. Isto é. Baluaê. Poder misterioso que governaria o curso das coisas e. o guerreiro. 307 ----------------------. independentemente de nossa ação no mundo. Como pode ser lido na narrativa: ―Venha me valer meu pai o Baluaê . atenuar. o u seja. Ele. Na visão dos adeptos somente Balu aê pode abrandar. nunciadas entre o povo de santo. 1994:65) O destino é responsável por toda trama humana na terra e sobre a ação do destino na vida dos humanos. fixar. quando da liberdade. quando o povo de santo depara-se com as dores. Destinare. eles recorrem ao Deus da ter ra. eles recorrem a Baluaê. caçador. de uma maneira geral. Por isso. vonta de divina sobre ação humana. todos os acontecimentos do universo.que suscitam a noção de transcendência. E sobre o destino a única coisa que podemos fazer é aceita r e submeter à vontade de Deus. falamos em destino negamos a dimensão divino e encanto quando elas são pro ―destino meu pai quem dá é Deus .

dão sentido à existência e estimulam a sensação 171 Utilizo o verbo criar não como algo que aparece. Compreendemos que tudo que o ser humano cria171 apresenta traços psico-sócio-antrop ológico do autor da obra. que surge do nada. sobre tudo da camada mais profundas da terra. lendas e fábulas é mergulhar em um universo repleto de símbolos que orientam. conduzindo. tradição oral é um espelho que reflete a dinâmica d os ritos. ‗lançar com‘. sim.Page 309----------------------de estar vivo. Conhecido também com o orixá palavras: ―Venha me valer meu pai o Baluaê . pois os corpos após a vida será zelado por Baluaê. Considerações finais As cantigas. Almejar compreender uma cultura a partir dos seus mitos. O símbolo nos lança e nos arremessa ao encontro com outra metade. com o pode ser visto pelo próprio conceito de símbolo exposto por Ramos: A palavra símbolo vem do grego symbolon. impregnado de mistério.das almas -. ‗jogar-com‘. dos gestos. dos mitos. surgindo dessa relação com a terra a ideia de ligação com os mo rtos. Porque ele na cosmovisão afro-sertaneja é rei da terra.dos mortos . das lendas. ou seja. mostrando os espíritos desencarn ados . retorna a terra e as almas. os espíritos serão guiados para o mundo dos misericordioso. ou seja. dos objetos. Entre os gregos. mas. 308 ----------------------. como a possibilidade de o ser humano construir realidades a partir da reflexão e da ação. do verbo symball ein. ‗arremessar ao mesmo tempo‘. expressando um fenômeno oculto. em outras mortos. das cantigas vivenciadas entre o pov o-de-santo sertanejo. orientando. era o nome dado à união das metades de uma moeda com o obje tivo de identificar duas pessoas separadas há muito tempo ou de autenticar uma mensagem le vada por um mensageiro legitimado pela metade faltante da moeda.as almas o caminho a seguir. (1998: 63) .

humano. o real.. os e. o símbolo é po r excelência um mecanismo transformador de energia (Ibid. é mister dos símbolos.. elas respondem a uma necessidade e preenchem uma função: revelar as m ais secretas modalidades do ser. de amarras e de teias culturais que prendem o indivíduo no f também abrir portais para outros caminhos não traçados ainda. religioso cultura. A realidade co rresponde aos mitos. O movimento da palavra ritmizada. assim. aspectos do poeta a precede da realidade O pensamento simbólico não é uma área exclusiv ou do desequilibrado: ela é consubstancial ao linguagem e a razão discursiva. O símbolo revela certos – os mais profundos – que desafiam qualquer outro meio de co símbolos e os mitos não são criações irresponsáveis da psiqu nhecimento.) (2002: 89) Nesta perspectiva. seja conhecer possível. cantigas. são carregados de valores. interagem ao com modo outras i a identidade. os símbolos. carregada de onomatopeias presentes nos rituais em . as imaginações maginações e cosmovisões. expressos por meio das palavras em forma de rituais. os símbolos. compreender o real por meio eal mediada pelos símbolos.. ndimento Por outro lado. mas que poderão ser tecidos com as linhas herdadas da cultura: ―. As imagens. de pensar e viver científico ou filosófico. azer cotidiano. às lendas. de sen tidos. construindo. realidade expressa Para Sobre pelo que a fenômeno tal ente percepção do r individuais que se ao profano..: 1998: 66). podendo O estudo do pensamento simbólico abre fendas capazes de decifrar c ertos aspectos do real na forma de realidade. ao sagrado. O real são as várias versões da realidade. a permite vislumbrar a enfim. escreve Eliade: a ser da criança. lendas e fábulas. Por isso. aos ritos. seu estudo nos permite melhor conhecer o homem (.Eles. vão caracterizando um jeito peculiar de povo de santo Afroviver do Sertanejo.

2007. São Paulo: Com panhia das Letras. 93-122. São Paulo: Paulus. _____________. _____________. Cultura e religiosidade no se rtão nortemineiro. como mitos de constituição do mundo. PRANDI. 2. MARQUES. 2002. O Mundo de Sofia. Rio de Janeiro: Jo sé Olympio. ________________. eligioso. _____________. São Paulo: Martins Fontes. São Imagem Paulo: e Símbolos: ensaios sobre o simbolismo mágico-r Martins Fontes. o sangue eu lhe dei. apresenta os tidades. CHEVALIER. 1993. A tradição mística afro-brasileira. Mitos. venceram e vencem as demandas. 2000. São Paulo: Centauro. Reginaldo. 2006. Lisboa/Portugal: Edições 70. Silêncio e contemplação: uma introdução a Plotino. Dicionário de símbolos. Umbanda Sertaneja. v. CARVALHO. 1995. “Exu agodô. Sagrado e profano. ELIADE. Gabriela. São Paulo: Companhia das Letras. GAARDER. Ângela Cristina Borges. e Sociedade. 2001. a origem das en elas. 18. São Paulo. 309 ----------------------. Religião Janeiro. sonhos e mistérios.Page 310----------------------Bibliografia ABBAGNAMO. Dicionário de símbolos. São Paulo: Companhia das Letras. Mitologia dos Orixás. Alain. 7ª ed. PRATES. 238 p. Mircea. mas a carne eu não dou”. 2005. Dicionário de Filosofia. CIRLOT. BAL. Contos e lendas Afro-brasileiras: a criação do mundo. Pontifícia Universidade Católica. Mito e Realidade. 2007. 1997. GHEERBRANT. São Paulo: Martins Fontes. Jostein. José Jorge Rio de de. p. n. Admilson Eustáquio. 2007. Jean. Juan-Eduardo. 2004. e. São Paulo: Perspectiva. Traço s Dissertação (Mestrado em Ciências da Religião) .forma de cantiga. 2000. Nicola.

Page 311----------------------NOS LABIRINTOS DA LIBERDADE: NOTAS DE PESQUISA SOBRE FUGAS ESCRAVAS NAS FRONTEIRAS DO AMAZONAS IMPERIAL (1850-1870). bem como da XIX. suas rotas e desv elar. PRATES. 63-75. D questão de e fronteiras de e narrativas no sentido . Denise Gimenez. 2009. 2009. Articulando fontes variadas tais como jornais de época. Ygo r Olinto Rocha Cavalcante172 RESUMO: O presente trabalho objetiva discutir as fugas e scravas no Amazonas Imperial. 1998. chamando atenção para as fugas nos limites internacionais do seu território. ofícios consulares e regi stros policiais. issertação (Mestrado em Ciências da Religião) Pontifícia Universidade Católica. RUSS. 310 ----------------------. mas também relatórios de presidente e fugas de escravos. relatórios provinciais.Fugas escravas – Amazonas Imperial Este texto tem como objetivo discutir as fugas.característicos da identidade de Exu-Sertanejo. os ofícios consulares sobre a segunda metade do século O intuito é entrecruzar fontes de província. utilizaremos não só os anúncio s de fuga. São Paulo: Editora Escala. Palavras-chave: Escravidão . a região do Amazonas Imperial enquanto área de fronteira. São Paulo: Editora Scipione. ROSA. contidos na tradição oral. Jacqueline. notícias limites de captura 192 p. São Paulo: Edições Loyola. Dicionário de símbolos: alfabeto da linguagem interior. Montes Claros/MG: Unimontes. 1994. ainda. São Paulo. p. Sala de Espelhos. RAMOS. expressos no imaginário religioso Af ro-Sertanejo da cidade de Montes Claros/ MG. Dicionário de Filosofia. A vivência simbólica no desenvolvimento da consciência. Ênio José da Costa. In: BRI TO. Maria Cecília Amaral. Religião ano 2000. buscamos cruzar informações e narrativas para desvelar as trajetórias e experiências de busca por autonomia e liberdade dos fugitivos escravos que conformaram parte das práticas de resistência à instituição no período de 1850 a 1870. et al. Admilson Eustáquio. 2009. Para tanto.

Tinha a fala pouco compassada e bastante baixa. Pode-se imaginar o estado de irritação em que se encontrava o senh or José Serapião Lapemberg quando soube que seu cativo havia fugido naquele dia 7 de dezembro de 1873. o que nos parece flagrante até aqui é a existência de um u niverso bastante amplo de fugidia. desencontros e solidariedades na província do Amazonas e suas fronteiras no período de 1850 a 1870. S eu senhor o descrevia como um ―carafuz quasi preto. teria embarcado para os rumos do Pará ou Lisboa. outros atores sociais entre encontros. despistar o fujão. 11/01/1874. Pelo que também anunciava seu proprietário. destinos para que Gabriel Nessa direção. escrever e entendia ―alguma cousa de francez e de desenho . conseqüentemente. 172 Aluno do programa de pós-graduação em História da Universidade Federal do Amazonas – P PGH/UFAM – e bolsista da Fundação de Amparo e Apoio a Pesquisa do Amazonas . 18 a 20 annos de idade. Gabriel fugia da cidade do Maranhão onde trabalhava como escravo alugado na ―typo graphia do Paiz . Sabia ler. os seus pudesse viver em liberdade . E ainda existia um terceiro destino que não escapava de suas suspeitas: a província do Amazonas. cara muito larga e bochechudo. baixo e grosso. 311 ----------------------.173 redes de Mas o proprietário de solidariedade que ele Gabriel estava atento para as havia deixado no Maranhão.FAPEAM 173 Commercio do Amazonas. e isso com a finalidade de confundir as s uas estratégias para reaver o cativo e.Page 312----------------------No entanto. olhos pequenos . Desconfiava que tantos destinos pudessem ―ser b oato de propósito espalhado pela tal rede de camaradagem.compreender experiências eceram com as trajetórias e mas também as redes que estabel dos escravos fugidos.

In: SOARES. com partir de então os incentivos e uma a série de modificações na política colon criação da Companhia de Comércio do Grão-Pará e Maranhão. Mariza de Carvalho (org.176 As ressalvas sobre a densidade da população de escravos no Amazonas são freqüentes e é certo que não encontraremos na região números tão expressivos de escravos quanto nos p lantéis de outras regiões do Império brasileiro que tiveram suas economias basicamente suste ntadas pela mão-de-obra africana – como é o caso das localidades se desenvolveram as grandes fazendas monocultoras e áreas de mineração intensiva.177 em que 174 SOARES.174 ações africanas Segundo Arthur na Amazônia Reis. o fato de que o cativo do Maranhão entendia ―alguma cousa de francez a atenção para ca questões que inserem as num âmbito de reflexão fugas de escravas escravos da região e as rotas cham amazôni de historiográfica internacional. O tráfico fugas suscitam problemas que envolvem a diáspora africana e que abarcam todo o atlântico na medida em que se proc ura destacar ―a dispersão dos escravos africanos e as suas modalidades de re-inserção social nas América s.deslocamentos apontam para rotas extensas. as primeiras inserções das popul ocorreram quando em finais do século XVI os ingleses tentam sem sucesso conquistar as terras do ―extremo norte . estabelece uma conexão direta entre a Amazônia Portuguesa e os portos africanos. Mariza de Carvalho. Por outro lado. sólidas e de intensas interações. Vale lembrar que a inserção dessa população s e deu em um primeiro momento no emprego como mão-de-obra das lavouras de cacau e nu m segundo momento na agricultura e na pecuária. sair de um lado do império seus confins. quando a ial.175Esse quadro quase fortuito e esporádico se mantém até meados do século XV III. Rotas atlânticas da diáspora Afri . parece para se embrenhar um relevante nas matas e rios dos indício de consistentes redes sociais e de alguma experiência para vencer distâncias tão hostis. Mesmo por que. século XVIII. Indícios para o traçado das rotas terrestres de esc ravos na Baía do Benim.).

―Nasci nas matas. F. 1810-1888. 143156. p 470. o prob lema da dispersão dos escravos africanos na diáspora. 1996. Vol . Carlos E.). bem como o tema da etnicidade tem sido tratado pel os intelectuais em uma perspectiva atlântica desde pelo menos 1920. o qu e se critica é a percepção de uma visão ―economicista nto das em que o escravismo desmorona com o adve . Flavio S.. a chave da questão é a ―própria montagem e reiteração de uma sociedade disponíveis escravista cuja lógica não se limita ao número de almas nos plantéis . Rein ventando as nações: africanos e grupos de procedência no Rio de Janeiro. 176 FUNES. Niterói: EdUFF. desta presença. 175 REIS. século XIX. 66. Série Alberto Torres. Manaus: Edições Governo do Estado do Amazonas. p.178 nsonância Cabe lembrar que este texto com as reflexões da guarda negra no uma profunda Brasil. Flavio dos Santos. No labirinto das nações: africanos e identidades no Rio de Janeiro.cana: da Baía do Benim ao Rio de Janeiro. A. Ver: GOMES. acreditamos que outra perspectiva é possível para a anális e da presença de africanos na itativo. Tais co e historiografia recente sobre a escravidão studos se distanciam de quadros teóricos que acabavam por diluir os escravos como ―coisa . Ainda concordando com o raciocínio de Sampaio. 177 Idem. Tempo e Vida na Amazônia.). In: REIS. In: REIS. nunca tive senhor : Historia e memória dos moc ambos do baixo Amazonas. SOARES. F. C. Julian a B. trazendo discordâncias. 03. 312 ----------------------. in: FARIAS. Flávio dos Santos Liberdade por um fio: historia dos quilombos no Brasil. pp. 2007. De acordo com Patrícia Sampaio. O negro na empresa colonial portuguesa. 2005. mas também perspectivas teóricas e metodológicas inovadoras. 1965.. Líbano (orgs. a presença de africano s ―reitera relações de subordinação e poder que dão vida ao próprio sistema escravista . GOMES. São Paulo: Companhia das Letras. Para tanto. Em resumo. João José & GOMES. Ibdem. polemi cas. Eurípedes A. p 470. Rio de Janeiro: Arquivo Nacional. Segundo Flavio Gomes.Page 313----------------------Entretanto. Arthur C. mas região que não pelo qualitativo passe necessariamente pelo vetor quant (org.

180 Com isso não queremos afirm ar que mulheres ofereciam pouca resistência ns fugiam mais. de 2002. sobretudo quando se carrega no col o crianças que mal podem se defender ou se proteger dos perigos e dificuldades de tal enver gadura. Mesmo porque. interior da província do Pará. É sabi do que os laços que as mulheres estabelecem com o que aqueles que os homens seus filhos são mais fortes d possuem e isto deve ter interferido sobremaneira nas escolhas das mulheres escra vas nos destinos a seguir. para 178 SAMPAIO.3.179 Sobre as fugas no Amazonas. 179 GOMES. das escravas fugidas Podemos afirmar que a maioria delas fugia com o objetivo de consolidar laços afeti vos e familiares. estas perspectivas são capitalista da sociedade e outra percepção que nega A a escravista brasileira. 8. século XIX. A Hidra e os Pântanos: mocambos. substituídas por uma visão ―política que passa a acentuar a destruição da instit ição escravista como o resultado de um processo de lutas entre sujeitos historicamente constituído s. Mulheres africanas foram trazidas em menor quantidade durante todo o tráfico negreiro. Ele desertou do posto de soldado.Revista de Humanidades . n. quilombos e comunidad . p. Caicó: UFRN-CERES. no horizonte muito claro. Teias da Fortuna: acumulação mercantil e escravidão em Mana us. fugir não é uma tarefa fácil. out. a província do Amazonas.6. ela fugiu do cativeiro e juntos seguiram da cidade de Óbidos.relações econômicas de cunho existência de aspectos discriminatórios e excludentes ssim. Assim nos parece ter feito a escrava Benedita que se uniu em fuga ao mulato Fran cisco de Souza Lima em 19 de fevereiro de 1861.Publicação do Curso de História da Universidade Federal do Rio Grande do Norte. v./nov. Flávio dos Santos. Patrícia Melo. podemos logo destacar que a maioria dos escravos que fogem é do sexo masculino (79%). ao cativeiro É preciso ou categoricamente afirmar que home dimensionar várias questões para melhor analisar o percentual de fugas femininas (21 %). Mneme . existia um Apesar sentido disso.

São Paulo: Ed UNESP/Polis. Agosto/2008. Ygor Olinto R. um indígena impelido o. cidade da Barra. p.181 nte trabalho às ao trabalho compulsório no Não é difícil perceber nas fontes que as mulheres escravas davam basta autoridades policiais da província.es de fugitivos no Brasil (séculos XVII-XIX). p. 313 ----------------------.27. da casa do seu senhor na rua b razileira. De um lado. o indígena Fugiu com o desertor de nome José da escuna do senhor Maria. Escapar da pena d . sobre a Sem poder oferecer alguma fuga de Thereza. Pode-se imaginar o estado de estupefação em que fi cou o senhor Manoel José de Macedo ao saber que sua escrava ―já avançada em idade fugido de sua residência. o justificativa ou mesmo pistas havia senhor se viu na condição de apenas apelar aos ―termos da lei a quem der coito e prometia gratificações a quem oferecesse rastros para encontrá-la. capital da província do Amazonas. às 8 horas da noite. as cativeiro de desempenhava uma em mas também de historicidade jovem pelo mundo que mundo marítim experiências de provavelmente escrava vendas bastante cotidianamente serviços domésticos e tagarelava urbano de Manaus. 180 A maioria dos dados apresentados é resultado do projeto de iniciação cientifica de senvolvido no Programa Institucional de Iniciação Cientifica da UFAM. Outras faces da liberdade: fugas e fugitivos escravos no Amazonas Imperial (1850-1870). Programa de Iniciação Científica – PIBIC/UFAM. A escrava Joaquina. natural da vila de Ega. França. de 18 anos. de outro. ―gorda. 2005. Esses mundos que se cruzam desvelam não só o encontro de s grupos sociais diferenciados. distintas.18. nas rotas dos rios e igarapés do vale amazônico. Relatório Final. Ver: CAVALCANTE. bem parecida e m uito faladeira não fez diferente.182 Difícil im aginar que esta escrava já idosa não tenha contado com o auxilio de outros cativos fugidos.Page 314----------------------segundo temia seu senhor.

Desempenhando essas atividades. Três meses depois Bene dita foi presa e condenada aos cem açoites por ordem do delegado de policia. 14/11/1863. 19/09/1860 314 ----------------------. Não er am raras as fugas escravas para áreas de subúrbio das cidades. sem deix captura e entrega da fujona ar de protestar contra algum acoutamento. Estrella do Amazonas.184A escrava Lucrezia também não se fez de rogada e achou de ―andar vagando pelos subúrbios dos Remédios ensas pela para o descontentamento de seu senhor que oferecia recomp em sua propriedade na rua brazileira.185 nos parece algo O protesto do senhor de Lucrezia ―contra a quem a tiver acoutado não fortuito ou apenas uma frase que acompanha um formato padrão dos anúncios de fuga de escravos. 181 182 183 184 185 Estrella do Amazonas. o mundo urbano e seus subúrbios também guardavam intensa vadeiras e quitandeiras. la desfrutavam . 27/10/1855. 28/03/1864. Rogava o senhor Manoel Thomaz Pinto aos inspeto res que recuperassem a sua escrava de nome Izabel que no dia 6 de março ―ausentou-se d a casa de seu senhor.e cem açoites parece ter sido o fator que motivou a fuga da escrava Benedita. O seu senhor. 20/02/1861. O Catechista.183 de No rastro de escravas quarteirão dos subúrbios da fugidas estavam os Inspetores cidade de Manaus em março de 1864. Jo aquim Pinto das Neves.Page 315----------------------mas um forte indício da existência de uma prática bastante recorrente na província. logo se preocupou em noticiar em comunicado no jornal que aqueles que neg ociassem ou viessem sobre comprar quaisquer algo com prejuízos a escrava em nada podiam reclamar decorrência da execução da pena. 19/03/1862 O Catechista. de certa liberdade e se tornavam as mobilidade escravas de vendedeiras. pois ele não se responsabilizaria.186 Lugar de sociabilidades. Estrella do Amazonas.

Se por um lado as vendas dos escravos esfacelavam famílias inteira s. rumo ao Amazonas. Os laços familiares também parecem ter motivado a trajetória da escrav a Genoveva do engenho do Carnapijó. 1 87Sintomas de uma autonomia dos desmantelamento de escravos que sua família por vezes se viam diante do através das vendas que não eram raras no sistema escravista. desse modo. a uxiliando. visto que está no rodapé do anúncio e não n o meio de todo texto) do seu proprietário. Vale lembrar que a constituição de laços familiares foi de extrema imp ortância para a adaptação aos vida em mundos da escravidão. São essas relações a faladeira José Joaquina que melhoram as condições tenha fugido d cativeiro. com seus conhecimentos e fazendo circular informações. por outro havia o movimento que impelia os escravos à fuga no sentido de proteger ou recompor tais l aços. trajando vestido de chita roxo e camisa d e riscadinho cor de rosa. Suppoem hoje ter filhos . na rua brazileira da capital da província com o índio desertor José Maria . Nos parece bastante plausível que José tenha fugido na tentativa scravidão. B. das propriedades de Antonio Lopes Braga. escravo da Vila de Serpa levando de Joaquim Pinto de França. o senhor Francisco Bernardo da Silva: ―N. Talvez por isso. Não fez diferente o escravo João Mulato que na cidade de Be . f 188 consigo seu filho de nome Cipriano que contava 13 anos de idade. no Pará. O anúncio de sua fuga traz uma observ ação curiosa (e cuidadosa. os próprios escravos fugi tivos e as articulações de possíveis insurreições escravas. como de proteger seu filho não só das agruras da e também da separação por ocasião de uma possível venda.profundas conhecedoras dos liames de ruas e vielas que entrecortavam a cidade. O escravo José ugiu Ipiranga de 32 anos. nas surdinas da noite de 21 de outubro de 1855.

.lém. Nos rumos os retintos . podemos afirmar q . no Pará. escravos Hypólito e Maria. 53. 187 Estrella do Amazonas. bem próximo ao caminho das fronteiras da província do Amazonas. também escrava. rumo ao Rio Negro. 1988. O feitor ausente: cravidão urbana no Rio de janeiro. da vila de Maués fugiram os como temia seu senhor. Um pouco mais da Percentual que metade das fugas ocorre individu estudo sobre a es revela o quanto os escravos estavam constantemente negociando seus desejos e dem andas com seus senhores. 315 ----------------------. mas de estabelecer ganhos e conquistar espaços de libe rdade e autonomia frente aos desmandos senhoriais. além da chibata itivamente com os e nem sempre com o fim de romper defin senhores.Page 316----------------------almente (57%). 29/04/1857. 19/09/1860.189 Não por acaso. 186 ALGRANTI. Por outro lado. nas primeiras horas do dia 26 de março de 1856. Embora não tenhamos encontrado nenhum grande grupo de fugitivos. O mesmo sentido para histórias difer enciadas: os laços familiares. ―crioul cativos da viúva Dona Maria Rozalina da Guirra. p. o percentual de fugas coletivas também nos parece importante (43%). Leila Mezan. Ed.. lugar onde crescera e era bastante conhecido. 188 Estrella do Amazonas. a enorme freqüência de prisão de escravos na pro víncia por motivos relacionados à fuga como ―por andar fugido ou a ―requisição do senhor . Esse dado no permite argumentar que nenhum outro ―crime perturbava tanto a ordem pública do Amazon as e as elites locais quanto essas ausências dos escravos das vistas de seus senhores. Ainda seguindo os rastros da paixão. Vozes: Petrópolis. A historiografia em em reação a ―outras aponta que as fugas individuais ocorr arbitrariedades. fugiu com sua parceira de nome Alexandrina.

apelidado de Macaçar. mas o certo mesmo é que os dois se valeram de uma ―monta ria toda pintada de verde que pertencia ao mestre carpinteiro de nome Funfão para fugir. lugar onde José já havia vivido nos tempos em que por lá esteve fugido com o nome. Noutra direção. de Antonio Paulino. africanos. para a cadeia da capital. nas proximidades do destacamento do rio Xibarú. o escravo José Paulino. ta l qual o perfil que a historiografia para outras regiões do Brasil tem constatado. Africanos livres e com os brancos pobres que perambulavam pelos espaços urbanos da cidade. xperiências e compartilhando forjando espaços de e vivências das classes subalternas da província do Amazonas. Sendo assim. pelas beiras dos rios e igarapés. João seguia com outro preso. o perfil dos escravos fugitivos no Amazonas é de homens em plena idade produtiva. Enquanto Alexandrina permaneceria no Rio Negro para se r vendida. estrategi camente trocado. fugiram na madrugada de 26 de março de 1856 e seguiram para o Rio Negr o. Dois anos depois. lugar onde João cresceu e foi criado. ou seguiriam para o Rio Negro. Desse modo. não podemos menosprezar fugas como as de João Mulato e Alexandrina. Não se Não demorou sabe explicar muito para ao certo que eles voltassem a fugir. escravos mas são também sintomáticas com indígen estabelecer não só as destribalizados. pod emos destacar . lugar de va sto conhecimento de João e onde Alexandrina ainda existia se não tivesse sido vendida.ue as fugas envolvendo no das relações mais que das vezes podiam com outros livres quatro escravos. A fuga foi preponderante entre os escravos da faixa de 21 a 40 a nos. os escravos foram presos. como fugiram. ou para o Rio Madeira. Atr avés das experiências pelas quais passaram os dois cativos. Como vimos.

coisa que não lhe causava constrangimento. João José & Silva. os limites da Eduardo. falava explicado. p. barbado e com a ―fala atrapalhada . Fugiram em setembro de 1867 e além de um baú. Felix Gomes Felisberto José de junho de ferramentas de serviriam como sobrevivência. pois nos permite m desvelar um pouco mais das estratégias utilizadas pelos fugitivos para sobreviverem. careca. No dia 27 de julho de 1856. descrevia Diniz como ―alto. preto criou lo. de nome Martinho. O anúncio detalhado – revelando a proximidade do senhor com seus escravos –. 66. da roupa ―de seu uzo . Os escravos s. In: Reis. os africanos José de ―fala gr ossa e precipitada e Manoel. o oficial de pedreiro. No dia 29 de janeiro de 1856.Page 317----------------------a grande diversidade dos ofícios embora se possa afirmar que e profissões dos fugitivos. Co mpanhia das Letras. residentes 1854 levando suas pedreiro auxilio Óbidos e carpinteiro para a seguiam certamente Cantando e se distraindo tocadores de viola. de .190 cravos Cloudino do e Amandio Rego e na fugiram vila de que dos seus no senhore dia 17 Tavares. já que além de bom orador ―é muito dado a tocar viola . 1989. tinha nódoas pretas nos dentes da frente. muito todas são atividades especializadas. São Paulo. A resistência negra no Brasil escravista . entre os 26 e 28 anos. revoltas e quilombos: negociação. Assim fugindo os do es senhor fizeram Diniz e Boaventura.189 SILVA. Eduardo. fugiram de Marcos Ant onio Rodrigues de Souza. fugia das propriedades de seu senhor na cidade do Pará com desti no a província do Amazonas. rosto cumprido e pouca barba . Negociação e Conflito. Essas informações são importantes. Fugas. magro. cativos Nuno Alves Pereira de Mello da propriedade Cardoso. 316 ----------------------.

c. Esta área foi de e xtrema importância para o desenvolvimento da lavoura açucareira na Amazônia e se valeu maciçame nte do braço africano desde o período colonial. comunidades de fugitivos e desertores e a constitu ição de um campesinato negro com intensa mobilidade – provavelmente resultado s experiências de cativeiro quando desenvolveram também atividades extrativas e comerciais. memória e pósemancipação na Amazônia. é preciso levar em conta que os jornais com os quais trabalhamos foram to dos produzidos e publicados na cidade de Manaus. setembro/deze mbro. . levaram consigo o provável ganho de sustento. 192 GOMES. bem como as impressionantes distâncias que se dispu nham enfrentar entre rios caudalosos. In: Historia Unisinos. 18/07/1854 191 Jornal do Rio Negro. a grande maioria dos fugitivos originadas se desloca da capital. 07/05/1856. vol. sobretudo quando como a capital do Amazonas lugar de origem e destino aparece. Vila da Cachoeira do Marajó. ―No labirinto dos rios.Page 318----------------------Em relação aos destinos. Flávio. 317 ----------------------. nas áreas ao longo do rio Tocantins e seus afluen tes – Vila de Óbidos. As no Pará são todas nas fugas e densas que matas.3. 02/08/1856. XIX-XX. No entanto. fortes correntezas Amazonas. No encontramos proximidades do baixo amazonas.uma ―arma do rio branco . Cabe lembrar a grande presença ne ssa região de ―uma tradição quanto à formação de mocambos. de localidades de destacamos um quadro ba onde se deslocam os fugitivos. 2006. 10. o que de alguma maneira pode explicar tal conclu são.191 stante variado Sobre as rotas das fugas. Vila Franca e a Cidade de Belém. 27/09/1867.192 da 190 Estrella do Amazonas. ao mesmo tempo. n. o ―instrumento que aquelle toca . furos e igarapés : camponeses negros. o Amazonas aparece como o preferencial dess es fugitivos.

sapateiros.preferencial dos fujões. a cidade contava com escravos que desempenhav am funções importantes no seu cotidiano eiras.194 projetadas locais a da Nessa direção. no sentido de por transformações intensas no seu transformá-la em ponto estratégico no fluxo de bens e mercadorias do comercio region al. Anos depois. Dos jornais emergem várias imagens de escravos nos locais de traba como lavadeiras. c omo é o caso das vilas mais distantes. os investimentos no os limites do rural e 193 No entanto. pelas elites as intensas práticas transformações culturais da do espaço urbano entram em choque com as população indígena. habitadas predominantemente destribalizados. em estreita proximidade com as faixas de fronteira int ernacional. E maciça de maiori cidad nesse espaço e. africanos e diferenciados Africanos livres exercem papel fundamental na reprodução das lógicas de desigualdade e hierarquia da sociedade local. Segundo Sampaio. a cidade pos suía ares que não permitiam diferenciar nitidamente do urbano – um lugar bastante modesto no meio da floresta. É preciso lembrar que embora as atividades econômicas não fossem l argamente realizadas pela mão-de-obra escrava. ferreiros. O estado da capital não era diferente. Até meados do XIX a província do Amazonas era parcamente povoada. a cidade passa espaço urbano. chama atenção para o crescimento d setor imobiliário já na década de 1840. de conflito entre modelos forros. com irrisória por indígenas população branca. guardando ―estreita sintonia com as necessidades colocadas pela economia gomífera e suas elite s . carpinteiros. c om pequenas e modestas vilas. engomad . com o crescimento da demanda inte rnacional pela borracha. escravos. vendedeiras. Não se pode perder de que seguiram os vista também os outros destinos fugitivos e que conformavam o universo de possibilidades dos escravos da região.

1997. Teias da Fortuna: acumulação mercantil e escravidão em Mana us.. 318 ----------------------.). Os fios de Ariadne: tipologia de fortunas e hierarquias sociais em Manaus: 1840-1880. bem como aspectos da cultura escrava na cidade e nas vilas. O Commercio do Amazonas pedia aos céus pela salvação dos destinos da vila de Serpa. forj ando ambientes urbanos. M. Mneme . p.195 O africano Sergio passou praticamente os meses de março e abril inteiros a publicar. passava o tempo a beber. a . insistente. p.196Lá pelas sete horas de uma das noites de janeiro de 1867. Militão espancou Mart inho e foi ―o delinquente prezo immediatamente . do Curso de História out. ―uma no alto da cam pina e outra na rua da Palma . Em que embriagaram as própr correspondência publicada em 25 de dezembro de 1870.lho. À bem da verdade. o jornal dizia emb asbacado: ―Esta lhe escrevo ainda impressionado com o estampido do Gambá essa manifestação própria de alegri a dos 193 SAMPAIO. anúncios de compra e venda.6.Revista de Humanidades .197 Os durante a relatórios produzidos década de 1850 pela presidência da província atestam o estado de abandono em que se encontravam as cadeias públicas. o anúncio de duas casas que queria vender. de 2002./nov. Patrícia Melo. tomada pelos ias autoridades festejos africanos. policiais.. v.50. Caicó: UFRN-CERES. Enquanto não vendia suas casas. 194 SAMPAIO.Page 319----------------------africanos (. 3. Patrícia M. século XIX.Publicação da Universidade Federal do Rio Grande do Norte. publicadas no mesmo jornal. como atestam os registros de prisão ―por embriaguez das semanas de abril. Manaus: EDUA. Valha-nos Deus já que a polícia applaude immovel esse acto que faz retroceder a nossa civilização . os Africanos livres Militão e Martinho se de sentenderam no largo do Payssandú e como se não bastasse a querela. n.3.

capital contou por muito tempo com um pequeno quarto. no passou de e a situação que casa de detenção . autoridades públicas que ocultava-se um profundo temor ―presos de crimes mais atrozes [estivessem] juntos com os de culpa leves. 199 Foi nessas condições que a cadeia da capital abrigou os escravos João Mulato e José Paulino. ainda que não convictos.201 Na segunda semana de 195 196 197 198 s O Commércio do Amazonas. 198 militar. africanos. Uma década se presidente Manoel Correia pouco mudou. 25/03/1865. publicada em Amazonas. p. quando capturados no Rio Negro juntamente com a escrava Alexandrina. 8-9. que já presta sofrivelmente ao fim que é destinado ficou. compartilharam esses espaços. forros. Nesses espaços. no período de 1858 a 1868. O Catechista. em um universo interétnico bastante multifacetado e dialógico. 200 Ibidem. Al iás. 71.9 201 Falla do Vice-Presidente da Província do Amazonas.200Muitos escravos. publicada em do do Amazonas. O Miranda apresentava alguns importantes reparos na cadeia da capital. Manoel Gomes 03/11/1860. estrangei ros e brancos pobres. 01/04/1865. mas registr ava a necessidade de ―substituir alguma das grades de madeira que tem por outras de ferro. memórias as de João Mulato e seriam José compartilhadas. A voz do Amazonas. immundo e in salubre . com que o edifício. sem divisões e pouco aceiadas . pelo menos 638 prisioneiros estiveram nessas ―pequenas casas mal s eguras. e mesmo com escravos fugidos . ―amuntuados em hum quarto escuro. como os dos trajetórias africanos como Paulino seriam construídas. ―que pelo seu âmbito estrei to. Falla do vice-presidente da província Correa de Miranda. e os cid adãos. das Sob certo desconforto. Manoel Gome 05/09/1852. conflitos e Martinho se acirrariam. 199 FALLA do presidente da provincia Correa de Miranda. pp. escuro e insalubre parece ser no quartel mais um ergástulo tormentoso. 25/12/1870. p. juntos com aquelles. Manoel Gomes Correia de Mir . Militão mundos se cruzariam. indígenas. 19/01/1867.

presas por briga. 71 319 ----------------------. como já não fosse possível para o ―ergástulo tormentoso rtar mais alguém. exclusão. p. por ter auxiliado a fuga do preso Braz Co rrea da Silva. sem talvez entender os enlaces da trama. tantas solidariedades. o carcereiro da cadeia Vencesláo de Oliveira Pinto.anda. preso por infringir o código de posturas municipais. como atores sociais se viram espaço de no refluxo experiência.202 de quantos Diante de conflitos. o indivíduo José Miguel e o africano Jeremias. e. não é de demorado tão resultado pouco sabe-se para lá volt compo admirar que João ar a fugir. presos por briga. compartilharam a Francisco Antonio da Silva. publicada em 05/09/1852.Page 320----------------------maio do ano de 1865. o português Bernardo Francisco dos Passos. de longas Lugares de ondas. Maria Casimira e Hermelinda. por outro. e o próprio dos Bento Braz José com seus de Lima companheiros e de evasão. . mesma prisão os soldados Bonifacio Antonio da Cunha e o escravo Venâncio todos presos por embriaguez. ou pelo menos uma preocupação crescente com a ―reunião de escra vos . os presos condena Manoel Francisco Rodrigues. preso para averiguações sobre a asfixia por submersão que matou seu patrício Joaquim Gonçalves de Araujo.203 exemplificada na constante preocupação dos inspetores de quarteirão com as escravas fu gidas nos subúrbios vários da cidade. Quem assistia a tudo. Na me sma ocasião foram presos Manoel Antonio Theobaldo. Se Mulato tenha por um lado tempo podemos afirmar que a partir da década de 1860 existe um crescim ento significativo da atuação policial na província. processado como responsável pela f uga de Braz. mergulhados em um mesmo nos quais indígenas. era o boliviano Evaristo. as escravas Maria Raymunda. por fim.

2008. Acervo do Instituto Histórico e geográfico do Amazonas. Com efeito . Coleção cidade possuía uma cor: a n Posturas Municipais de leis da de Manaus. com fronteiras pouco nítidas mbém lugares políticos.204 ado das classes subalternas da ndo os dados província do Amazonas. 320 ----------------------. é possível afirmar que a Cadeia Pública da egra. de 1  província do Amazonas.Page 321----------------------população que no inicio da década de 1850 representava um pouco mais de 3% da população to tal. impunham li tão almejad senhoriais. mas também aos interesses da ―civilização e do progresso os pelas autoridades locais. Tanto é assim que freqüentemente os jornais publica vam avisos . e escravos ou ―quaesquer outras pessoas que possão causar distúrbios itos. 203 Artigo 81 do Código de de junho de 1872. escrav os. Africanos livres acabaram por se tornar uma grande massa de suspe e liberdade. plebeus e a historia oculta do Atlântico Revolucionário. Peter & REDIKER. formada majoritariamente por indígenas destribalizados. Mais do que isso. E isso a despeito de uma 202 O Catechista. que Mas ta entre escravidão onde se horizontes de desordem. São Paulo: Companhia das letras.mestiços. 204 Esta percepção sobre as fugas de escravos em um contexto resistência multiétnica e multicultural de guarda profundas aproximações com as reflexões desenvolvidas por Peter Linebaugh e Mar cus Rediker. mites não só aos poderes africanos. forjavam práticas antitéticas. este percentual vem corroborar o argumento de que os movimentos dos grupos negros causavam bastante incomodo às autoridades e que estes indivíduos i nstituíam as suas vontades nos espaços urbanos. marinheiros desertores. um é preciso enfatizar que Embora até aqui tenhamos apresentado um quadro bastante multifacet segu pouco mais de 71% da ação policial atingiu africanos e afro-descendentes. coletados. 13/05/1865. Ver: LINEBAUGH. A hidra de muitas cabeças: marinheiros. Marcus.

francês e hispânico. libertos e as classes subalternas como um todo estiveram em ―anarquia latente ou explicita gionais no Grão Pará causavam nas elites re também deve ser dimensionado como parte integrante das preocupações políticas e diplomátic as das autoridades locais no que diz respeito aos limites e fronteiras da província e do Império brasileiro. de nome Gabriel. A revolução cabana teria não só aumentado os contatos e trocas de alimentos e armas entre as fronteiras com o mundo inglês.206 stas deixadas Talvez pelo agora se possa escravo que esclarecer melhor algumas hola pi fugiu do Maranhão. mas também intensificado o trânsito de ―idéias e práticas revolucionárias .das delegacias advertindo sobre horários permitidos aos escravos e africanos para transitar nas ruas. o que estava oculto em tais preocupações era nada mais. Mesmo porque. Talvez essa visos sejam preocupação constante indícios da e a sistemática veiculação de tais a ineficácia de tais medidas. ndês. as autoridades coloniais das Capitanias do Rio Negro e do Grão -Pará temiam que os seus escravos entrassem em contato com as informações sobre as revoluções que oco rriam no Caribe e na Europa. desde o século XVIII. a Cabanagem foi um movimento ―tão vasto e complexo que só pode ser entendido dentro de uma perspectiva internacional na medida em que ele ocorre em um contexto de ―fronteira com as Guianas e o Caribe de um lado e com o mundo hi spânico que se tornava independente de outro . De fato. nada menos que o ―medo branco e-se a isso o que pairava por todo o Brasil escravista. aquele que entendia ―alguma coisa de francez . O medo que as duas décadas em que escravos. Segundo Magda Ricci. E acrescent verdadeiro pavor que as elites locais sentiam a menor lembrança dos ―tempos calamito sos de 1831 a 205 1840 da Cabanagem. Tais capitanias divisavam território com as Guianas Frances .

João Baptista publicado em 30/04/1852. 9 1.209Não parece . Magda. 6. Fronteiras da nação e da revolução: identidades locais e a experiência d e ser brasileiro na Amazônia (1820-1840). mas que tomavam de indígenas. outros escravos contornos fugidos diante e de intenso tráfego marinheiros desertores. os levantes ias nas Américas. p. ―havia uma constante movimentação de fugas de escravos e formação de quilombos . É nesse contra holandeses. itório francês e nas colônias francesas.. n  58. Solimões. 205 Relatório de Figueiredo do presidente da Tenreiro Aranha. Madeira. Tapajós e Amapá . Revista da USP.46. mocambeiros e etnias indígenas diversas na Amazônia Brasileira e s uas fronteiras. 2008. inglês e holandês e. configurando um ―complexo cenário de disputas coloniais. p. Barcelona. Flavio dos Santos. n. construía-se uma barreira humana franceses e espanhóis. pri ncipalmente nas áreas do Rio Negro. 321 ----------------------. p. os escravos conjuntura política da região amazônica estavam internacional. 207 GOMES. e formavam não apenas um cenário de circulação de informações sobre as discus sões que envolviam o fim do tráfico. mas também com territórios sob domínios espanhol. entre Caiena e as capitanias da Amazônia.as. In:Boletin Americanista. período que se desenrolam vários tratados internacionais com vistas a estabelecer t ais limites. Em torno dos bumerangues: outras histórias de mocambos na Amazônia Colonial.208 atentos à Com efeito. mas também elaboraram uma rede de intercâmbios entre merca dores. ingleses. 206 RICCI. as de escravos lutas de a abolição que da escravatura outras no colôn terr aconteciam em independência na Venezuela.Page 322----------------------Ao passo que se tentava estabelecer na região vários tipos de explor ação econômica. esse contato teve o seu estopim quando da revolução Cabana. Rio Branco.28. Año LVIII. São Paulo. província do Amazonas.207 E como vimos.

fazia bem pouco t empo que muito próximo dali. Flavio. solicitava província Grão-Pará Negócios Estrangeiros sobre as medidas que se deveria adotar ―com o fim d e evitar as fugas de escravos dessa Província para a Guyana onde foi abolida a escravidão . 209 BEZERRA NETO.83. na em 27 de abril mesma época. As preocupações do presidente do Pará e os receios da Secretaria do Ministério coincidiam com: ―as noticias recebidas (. José Maia. 2001. Caixa 79.absurda a hipótese de que Gabriel tenha aprendido ―alguma coisa de france z nesse intenso cotidiano de trocas ua fuga guardasse o de informações objetivo de e mercadorias. para o interior da província do Amazonas.) de que um mulato natural de fora áquella cidade revestido a caráter de emissário das sociedades que traba lhaõ pela liberdade dos escravos. Manoel senhor Amanajás. de 1848. Etnicidade e fronteiras cruzadas nas Guianas. 210 Ofícios sobre a questão de limites de 16/01/1849. n  2. idéia que sugere experiências das rebeliões circulação revoltas escravas nas Américas que seguiram até aos trabalhadores ingleses através na navegação 208 GOMES.. Domingos. na vila de Silves. no e Felipe fugiram das propried Pará. inebaugh Parece chamou que estamos de bumerangues uma e diante daquilo de que idéias Peter e L trocas de africanos. 1840/1860. Topói. p.210 S. o qual unindo-se com outros agentes das mesmas associações. e que a s disseminar tais discussões sobre cidadania e liberdade. Ano: 1841-1849. p. In: EAVirtual.46. ades do Quando Ignez. instruções ao Guiana Francesa. Fundo da Secretaria da Presidênc ia da Província. Na o presidente da Ministério dos a escravidão do havia sido abolida. partio com elles para a Inglaterra para de lá se dirigirem a Guyana com o projeto de penetrarem no Br azil . Rio de Janeiro. Arquivo Público do Estado do Pará 322 .. Ousados e insubordinados: protesto e fugas de escrav os na Província do Grão Pará.

perceber o Alguns temor anos depois que pequenos desse ocorrido. no esclarecer algo mais. fugiu dos negociantes Avelino Guimarães e Francisco Correia de Miranda. um índio anúncio de nome Hygino do jornal A voz Pires do Gomes. Ao final das cont as. a denúncia pareceu simples ―imaginação do medroso cativo. filho do Perú de nome Rozario . o indígena Rozario. dominavam a floresta. Para ajudar com tantos ―objecttos . um outro bahú pertencente a um boliviano. duas armas.213 Hygino Compartilhando e o cafuzo peruano experiências históricas. Entr chamado lago da Salsa. do que chamar atenção para as redes sociais que se interpenetram nas Américas e na Amazônia. o índio Hygino contou com ―um m enor carafuz. mundo em que as dificuldades poderiam ser tão duras quanto às do mundo escravista. contendo uma porção de roupa e us o. estava: dentre as ―uma montaria possante.----------------------.Page 323----------------------atlântica e que retornam ao mundo caribenho como fim do tráfico. dizia ue levou da tripulação. de 24 de março de 1867. u ma patrona de lona encerada .. esses sujeitos acionavam uma importante tradição de rotas de aldeias e . que nascido no Janucá. al imentando ainda mais o pavor de ―desertores.. Fugindo. um revolver de 5 tiros (.). podemos ajuntamentos de escravos causavam nas elites locais. coisas q O Amazonas. o jornal Estrella do Amazonas. noticiava o resultado das averiguações policiais a partir de denúncias fe itas por um escravo sobre índios e escravos existentes na estrada da ―Caxoeira .211 Nossa luta pela abolição e preocupação aqui é menos discutir a possibilidade real ou não desses emissários e agentes. ou escravos que espreitassem occasião de entrar na cida de . um bahú pertencente a Avelino. mas é bem provável que ele tenha sido sarcást co ao fazer o alarde e assim debochado da imaginação ―medrosa dos senhores.212 e o rio A fuga de Hygino pode Solimões e o Purus. No dia 21 de abril de 1854.

7-46. 212 Estrella do Amazonas. onde viveu forag ido com o nome de Antonio Paulino. pp. 24/03/1867. área conhecida de José. São Paulo. rasileira de Peter.214 giram da Em agosto de 1858. In: EAVirtual. Os dois cativos fugiram se valendo de uma montaria grande e a rota que pretendiam seguir era ―ir pelo rio negro para Hespanha . nas mobilidades de indígenas Segundo fugidos desde da o inserção sécu os tempos coloniais. O escravo José Paulino talvez soubesse do vertiginoso des envolvimento ―que vão tendo no Rio Madeira o commercio e a industria da extração dos produtos naturae s em que elle abunda e do crescimento do comércio de ―importação de gêneros procedentes da repub . 40 323 ----------------------.mocambos forjadas pelas compulsória ao trabalho. ao passo que ―exi stia mesmo. o rio madeira. existente desde lo XVIII. Etnicidade e fronteiras cruzadas nas Guianas (séculos XVIII-XX). 214 GOMES. Revista B Historia. Flávio. n  2. segundo o anúncio publicado. a cadeia Quando publica da da fuga de capital na João Mulato e José Paulino d montaria do mestre Funfão. n. De um lado. existia um intenso comércio entre diversas tribos. dois destinos se apresentavam fortemente para os cativ os. 1983. onde houve contatos com missionários espanhóis e colonos europeus nas fronteiras com a Guiana Francesa.Page 324----------------------signais nas costas de castigo que sofreo . 213 A voz do Amazonas. official de carpina. Todas as montanhas atlânticas estremeceram. 21 de Abril de 1854. o primeiro era ―hum preto crioulo. Solimões. he alto tem falta de hum ou doius dentes na frente e alguns 211 LINEBAUGH. Vila da Cachoeira do os escravos Pedro e Aprígio fu Marajó. uma tradição indígena de migração e mobilidade . idade 30 annos se ta nto e o outro ―he padeiro também lê alguma cousa. águas do rio Gomes.3/6. p. set.

(. Cercando navios e vapores. Pe rcorremos as rotas de escravos que em plena idade produtiva construíam espaços de autonomia e lib erdade nas cidades. o Rio negro. lagos e sítios e aldeias do interior em pequenas canoas .. redes com sociais existentes indígenas peruanos. Esse cenário conforma uma importante circulação não só de mercadorias. presa para ser vendida. As trajetórias de escravas fugitivas ao estreitar laços. atores não só entre escravos. ir. feitorias experiências dos capital. nos rios e matas da região. como se fossem lojas e tabernas fluctuantes em que. rumo do s territórios da ―Venesuella . nas vilas. as como deslocamentos e trocas e capitais. percebemos fugitivos. por viver como mestres das matas. . percorrer os subúrbios. indígenas de mobilização e intensas tradições comércio pelos rios e matas da Amazônia. poderiam mercadejar nas ―feitorias. De outro. num bem relações de contexto de fronteira internacional. iaõ [como] os mascates e regatões onde provavelmente sem pagarem direitos. É possível afirmar que a simples possibilidade de movimentos de fugitivos c om rotas de proporções transnacionais. entre outros venezuelanos. revelam as fugas como resultado estratégico da confluência de intensas e consistentes mas também destribalizados. estabelecid as nas matas. Alexandrina ainda existia. entre vilas cidades.) á retalhos pelos rios.lica peruana . veredas tortuosas. mas também de idéias e experiências sobre as lutas e rebeliões escravas por todo o atlântico. desertores. marinheiros bolivianos. pelas vielas em um policial e na andar Dos como bem ent i de contexto de crescente ação mpressionantes. no caminho da ―Hespanha .. construir endessem famílias. dos lados da liberdade. percebemos Buscando a confluência o quanto as de muitos caminhos pra conclu fugas escravas fizeram parte do cotidiano da escravidão na província do Amazonas.

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we will quilombos or terras de preto in Maranhão (black people lands) considering a short contemporary perspective of their identities.chave: Quilombos. as suas identidades. reconheceu dade de suas terras. Key-words: Quilombos. their historically build conceptions and their resignifications in present times . suas concei construídas e suas ressignificações na atualidade. recognized the right of thes e communities to the property make a of their reflection lands. os quilombos . Achamos necessária essa um lugar comum. once the 1988‘s Brazilian Feder al Constitution. Maranhão Abstract: In this article we discuss the question of the land remainders of the commu nities of quilombolas (runaway slaves who took refuge in hidden places). do à Ato proprie comunidades partir dessa premissa. direito no artigo dessas 68. Identities. Identidades. A o de 1988. neste artigo. Starting with this about the called premise. n o Maranhão. faremos uma reflexão sobre os quilombos ou ―terras de preto . Essa discussão n os remete a indagações sobre o processo tuações historicamente de constituição dos quilombos. Territories. visto que a Constituição Federal das Disposições Constitucionais Transitórias – ADCT.Page 327----------------------QUILOMBOS OU TERRAS DE PRETO: IDENTIDADES EM CONSTRUÇÃO José Re inaldo Miranda de Sousa215 Resumo: Discorreremos. Maranhão INTRODUÇÃO Iniciamos este debate visitando . in its article 68 of the Transitory Provisions Act.----------------------. This discussion remind us about the quilombos c onstitution process. sobre as terras dos remanescentes das comunidades d os quilombolas. considerando de uma perspectiva contemporânea. Territórios. Palavras.

no CEU Jambeiro. colocando à sociedade. Prefeitura da cidade de São Paulo. em razão da própria dimensão que essa categoria tem tomado. das identidades propomo-nos trazer para refle quilombolas numa perspectiva contemporânea.Page 328----------------------xão. promulgação artigo da 68. de forma breve. embora saibamos tratar-se de questão con troversa. Como sabemos. a discussão acerca dos territórios quil ombolas. com a debate se abriu. muit as vezes. Para isso. 215 Mestre em História Social pela PUC-SP Professor Titular de História. a partir da década de 1980. aqui. devendo o estado terras é reconhecida emitir-lhes os títulos respectivos. presentes através de avanços. em sua a propriedade defin as como: Vale ressaltar que “remanescentes das então. visando à constituição de um estado democrático. os quilombos na nossa historiografia vários estudos. que se tratavam de grupos prestes à extinção. Desde do várias são as manifestações voltadas à ampli . em se tratando mas. estiveram sem muitos conceituações e identidades dos sujeitos que os compunham. o Entretanto. redação trata-os apen comunidades dos quilombos”. a No questão decorrer do texto. de um modo geral. com o advento das mudanças que a sociedade civil brasileira conduz no campo da polít ica. dando-nos a impressão. faremos sua apresentação.retomada. 327 ----------------------. de de certa sempre forma. dada à própria natureza do texto. era só uma questão de tempo. Constituição Federal de 198 do Ato das Dis pois ela trouxe em seu texto o posições Constitucionais Transitórias ADCT. como segue: Aos remanescentes das comunidades dos quilombos que estejam ocupando suas itiva. 8.

idealmente. e outros subsequentes. mesmo após a independência. 328 ----------------------. ou distante de qualquer reunião de dois ou mais com casa ou rancho . Na a realidade das tentativa de comunidades traçar um significado deparamo-nos que contemple ma negras. 14. lo go que esteja no interior das matas. que domin am a nossa historiografia. r de dificuldades. não nos deixando praticamente margem para outras significações aos ter ritórios que se constituíram por diversas razões. teria sido extinta com a abolição da escravatur a. sabendo-se que su as composições e realidades são diversas. Não muito diferente será com o advento da repúblic a. em 1888 218. .debate sobre os quilombos contemporâneos. Frechal Quilombo reconhecido como reserva extrativista. Curioso é que. pois não nos Outra dificuldade é interessa apenas o próprio conceito de quilombo. quase sem nenhuma modificação. Terra em de Preto: pois ―não há uma legislação republicana a respeito e nem qualquer redefinição for al desta categoria quilombo. In: Projeto Vida de Negro. a partir da clássica definição introduzida pelo Conselho Ultramarino216. em virtude do próprio processo diaspórico vivido por esses su jeitos. para fugirem aos horrores da escra vidão. pendência mantém uma além disso. sendo com um uma delas a forma em como atribuir identidades a esses grupos. definiu quilombo como ―toda habitação de negros fugidos que passem de cinco.Page 329----------------------conceituação congelada do que é quilombo. constatamos ainda que essa inde 216 O Conselho Ultramarino Português. historicamente construído desde o período colonial. p. ainda que não tenham ranchos lev antados nem se achem pilões neles 217 Lei Provincial n  236 de 20/08/1847 art. que. ou quilombos na contemporaneidade. em parte desprovida. em especial. São Luís: SMDDH/CCN-PVN 1996. de 02/12/1740. estabelecimento. vizinho. esse termo foi reeditado na Província do Maranhão 217. lançar mão de um conceito. 12 ―reputa-se-há escravo aquilombado.

foi um conceito cristalizado do que seja quilombo. suas formas de l utas e resistências contra a exploração destes mesmos senhores que. onde a identidade é marcada por meio de símbolos. aqui intitulam-se terras de preto. vas reflexões para além do remetendo-nos a no conceito amalgamado de quilombo. Emb ora de forma ainda muito presa ao passado. como referência as várias comunidades es de que trata a e/ou povoados do estado do Maranhão. imperial e parte d a republicana.O que prevaleceu. foi restabelecido o termo quilombo. conceituavam os quilombos. na Constituição Federal de 1988. em seu artigo 68. da escravidão Incrivelmente é que. negando todo um modo de vida e cultura dos sujeitos dessas comunidades. Para isso. difundidas. do ADCT. o tambor de crioula. pois o termo da lei menciona ―aos remanescentes das comunidades dos quilombos . que só após um século da abolição formal legalmente. QUILOMBOS OU “TERRAS DE PRETO” O que nos interessa aqui é trazer um debate a respeito dos mbos para além das quilo conceituações jurídicas e historiográficas. essas comunidad Constituição. não trazendo à atualidade do termo. que . Para tanto. remetendo- comunidades como algo do passado. dando-nos a impressão de comunidades fora de seu nos a tempo. ainda refugiados pensarmos nessas numa concepção colonialista. construído a partir da ótica do poder in stituído. destituídas de qualquer contemporaneidade. trazemo s. por e xemplo. ao longo da história colonial. Com base nesta premissa. categori a construída a partir da própria realidade das comunidades. assim. temos com o foco as experiências compreender dos sujeitos como são que compõem essas comunidades à procura de forjadas as novas identidades que formam as terras de preto. amplamente. tão presente na nossa historiografia. podemos demonstrar com a própria realidade das terras de preto .

Terra de Preto: Quilombo reconhecido como reserva extrativista. que se aglutinam. ainda. A identidade também é histórica. no município de Nina Rodrigues. mas que lhe ofereça condições para existir 219.Page 330----------------------classificar o mundo e nossas relações ntido. 329 ----------------------. Essa recorrência ao passado se faz presente no próprio nome do Assentamento Balaiada220. através Ressaltamos da linguagem que e dos as identidades adquirem sentidos sistemas simbólicos pelos quais elas são representadas. de uma identidade diferente da sua. ao mesmo tempo. como forma de res istência e herança da cultura trazida pelos africanos. criam novas sendo através desse passado identidades e se fortalecem nas lutas atuais por terra. São Luís: SMDDH/CCN-PVN 1996. Nesse se identidade é relacional. uma forma de representação da po pulação afromaranhense. uma maranhense como produto de venda ao turismo e. Ainda nesse sentido. portanto. pois para que essa identidade exista depende de algo fora dela. ou seja. Frechal .funciona como um significante da vez que representa a cultura diferença e da identidade. pois se trata de um conceito estratégico e p osicional e não . pelo direito de permanec er em seus territórios e o direito de ter direitos. à Guerra da Balaiada221. para o fo rtalecimento de suas lutas atuais e. uma vez que se p autam na memória das lutas de seus antepassados. consideramos que identidade não pode deixar d e ser pensada sem as contribuições da sua forma antiga. Nas terras de preto . ou seja. podemos afirmar que a no seu interior. A representação atua simbolicame nte para 218 Projeto Vida de Negro. remete-se a um passado. para a construção de novas identidades. no estado do Maranhão. localiza-se em um determinado tempo.

o que tem fortalecido outras concepções de classe. por sujeitos de vários formado após uma ocupação de ter povoados. promovida regularizado por pelo INCRA. * Morador e liderança do Assentamento Balaiada. as experiências dinâmicas. 220Trata-se de um assentamento ir de uma ocupação. Stuart Hall. Segundo Caxico* ―a ocupação se deu em 28/06/1999. a part moradores de vários povoados da região. Mucambinho. Departamento de História. Essas novas identidades. espec vividas pelos sujeitos históricos de seu tempo. são atos de Sabemos poder. José Reinaldo Miranda. que transcendem a visão marxista. construídas historicamente e conectadas à contemporaneidade de um mundo marcado por mudanças con stantes. que a isso nos construção de identidades também possibilita refletir sobre a constituição do território do Assentamento Balaiada. m arcada pelo estruturalismo social. pois se trata de um assentamento ra. Salomão. Identidade e diferença: a perspectiva dos estudos cultu rais. Petrópolis. desafiando o modelo fundiário até então vigente. In: SOUSA.100 221 Movimento popular iniciado na Vila da Manga. desde o tempo dos antigos p roprietários do município de Nina Rodrigues. Salga dor e São José dos Pretos. É a partir dessa perspectiva que concebemos as identidades quilombo las. ialmente. RJ: Vozes. Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. portanto. 2000. Os povoados que formaram o Balaiada foram: Morro da Filó. Terras de Preto no Vale do Rio Munim: Nina Rodri gues. levando em consideração. Historicidades e Territorialidades (1988-2008). que têm sua origem com tais características. p. sua população é procedente de vários povoados do entorno. Kathryn Woodward. 219 SILVA. A terra ocupada pertencia a um grande latifundiário da região . 2009. (1839 -1841) 330 . como ato de poder. construídas nas terras de preto. Atualmente ainda está à frente das lu tas por melhorias na comunidade. d evem ser vistas a partir da cultura. (Dissertação de Mestrado). Embora não se caracterize como comunidade remanescente de quilombos .essencialista. atual Nina Rodrigues-MA. Tomaz Tadeu da.

No Maranhão. Com base no exposto compreende-se. cientistas e militantes são chamados a definir o que vem a ser o quilombo e quem são os quilombolas222. hoje. É com o propósito de rever que o conceito de quilombo. quilombo. hoje. procurando refletir o seu conceito na atualidade. às quais costuma permite incluir as limitar-se o termo ‗mestiçagem‘ – e . idades constituem-se como É nesse contexto que essas comun espaços de culturas híbridas. No dizer de Ilka Boaventura Leite. construído h trataremos aqui. que quilombo não se trata apenas de um rememorar o passado das lutas dos negros. na busca de reco nhecimento e conquista de direitos. pois o compreendemos para além de um conceito cristalizado. como os índios e os caboclos. em especial por terras. e apenas. enfim um modelo de sociedade que se apresen ta como contraponto ao modelo de sociedade capitalista instituído pela modernidade. Compreendem-se terras de preto a partir do caminho que toma a eco nomia brasileira no pós-abolição. é também terras de preto e mais outras definições gestadas por uma grande parcela da sociedade brasileira. na atualidade. como categoria em a questão conceitual de q movimento. uilombo Vemos. o que nos leva a ro mper com o mero discurso jurídico formal a muito apregoado na nossa historiografia. dessa maneira. daí a cr ueldade como foi e é combatido. Quil ombo significa um modo de vida. essa categoria envolve diversos segmentos sociais. partidos po líticos. que segundo Canclini ―abrange diversas mesclas intercult urais – não apenas porque raciais. uma concepção de mundo.----------------------. A p artir daí surge uma nova pauta na política nacional: afro-descendentes. além dos negros. o quilombo. sig nifica sobretudo um direito reconhecido e não propriamente.Page 331----------------------istoricamente. um passado a ser rememorado.

O Movimento Negro do Rio de Janeiro e a Associação Cultural A froBrasileira. até então. encaminhara . Os quilombos no Brasil: Questões conceituais e normat ivas. Culturas r e sair da modernidade. A constituição do Centro de Cultura Negra do Maranhão. 2000 pp. 2000. tinham pouca ou quase nenhuma visibilida de. p. o número de comunidades é maior aqui no Ma ranhão. quando os primeiros grupos começam a se mobilizar na busca de direitos dessas comunidades que. NO MARANHÃO: FORJANDO LUTAS que se refere A organização e luta contemporânea dos sujeitos das terras de preto com eçam a tomar vulto desde a década de 1970 224.225 Vários foram os quilombos no Maranhão com essas características. o de Estudos e Defesa do em várias partes do país. Nestor Garcia. essa é a verdade. São Paulo: EDUSP.formas modernas de hibridação melhor que ‗sincretismo‘. (negros e negras) que estavam negro no Brasil e no preocupadas com 331 ----------------------. 15 famílias. onde se concentrou a população escrava justamen te para trabalhar na produção de algodão. Ana Regina Lessa. Mundinha Araújo traz elementos que subsidiam essa questão ao dizer que 222 LEITE. então. juntos. 223 CANCLINI. fórmula quase sempre a fusões religiosas ou de movimentos simbólicos tradicionais 223. deputada federal e que. Mas não são tão populosas.CCN-MA est abelece uma rede com outros movimentos. Etnográfica. Ilka Boaventura. 333-354. como: o Centr Negro do Pará (CEDENPA).Page 332----------------------no que se refere a comunidades de pretos. 3ª ed. IV (2). vol. por um grupo de pessoas a situação do Maranhão. Porque está na zona de colonização antiga.Tradução Híbridas: Estratégias para entra Heloísa Pezza Cintrão. Tem povoados d dez. também do Rio de Janeiro m à. 19 224 O Centro de Cultura Negra do Maranhão – CCN--MA foi fundado em 19 de setembro d e 1979.

com base em relações familiares. com isso. CPDOC-FGV. ocupam e usufruem de forma coletiva. . Percebemos. a proposta negras rurais. mas um reconhecimento que vai além. social. com isso. Certamente as comunidades dos territórios negros rurais têm se mobil izado no intuito de que as ações governamentais se voltem para alterações na configuração das relações agrária medida que tem como proposta. 2007. a titulação das terras que ocupa m. Nunca é demais ressaltar. sociais e econômicas. Amilcar Araújo et al (org. as terras de preto . não ape nas a luta para o reconhecimento do território como espaço físico. tal como estabelecido na Constituição Federal e demais legislações daí decorrentes 226. embora exaustivamente mencionado na hist oriografia. A luta não republicano desde o início e parou por aí. Essas iniciativas significaram um grande passo na luta para que se reconhecessem legalmente os grande avanço em termos territórios de negros. alterada pela IN 49/2008. Rio de Janeiro: Pallas.) Histórias do movimento negro no Brasil: de poimentos ao CPDOC. Trata-se de um prerrogativas legais. IN 20/2005 INCRA. criando. abrindo novas país possibilidades marcado por de justiça profundas e desses sujeitos. secularmente. adentrou o regi permanece com muito vigor nos dias atuais. 225 PEREIRA. dando origem ao artigo 68 do ADCT da Constituição Federal. o direito à História. em ou um igualdade desigualdades políticas. muito contribuíram par a o desgaste do me regime escravista. 226 Decreto 4887/2003. trazendo em seu bojo o direito à cidadania seja. a possibilidade para a titulação dos atuai s territórios que. durante a colônia e o império.constituinte Benedita ras das comunidades da Silva. que os quilombos e as lutas dos negros. de garantia das ter sendo apresentada e aprovada no Congresso Nacional Constituinte.

Page 333----------------------nceito A partir dessas prerrogativas de quilombo passa a se legais. Sob esse prisma. dos mais recentes posicionamentos dos vários segmen tos sociais e áreas do conhecimento. o uso comum do território por parte de seus habitantes. quilombo pode ser entendido hoje de diferentes perspectivas. vêm na de preto. terposto na Constituição Federal. estado do Ressaltamos que as terras Maranhão. uma vez que impede a transformação da mesma em mercadoria. notadamente no contramão da dinâmica capitalista do uso da terra. pois não é permitida a partilha. também. evitando assim a compra e venda. tanto pode ser um tema e um problema da ordem do dia do campo de poder. quanto um instrumento através do qual se organiza a expressão político-organizativa dos que s e mobilizam. que nos são permite inserir nessa interpretação as t nomeações de épocas pretéritas. ou seja. um novo co constituir como reflexo.332 ----------------------. tanto pode ser uma categoria jurídica e uma questão de direito. objeto de pesquisa científica. como qu Seguramente o termo ―remanescente das comunidades dos quilombos . calhambola ou mocambeiro 227. resentavam assim um como os quilombos contraponto à que em outras épocas rep dinâmica da sociedade escravocrata. e é isso que gera reações dos senhores que cometem as mais brutais formas de violências contra esses núcle os. instaurando outras formas de vida e liberdade. portanto. erras de preto. O c aso de . recuperando e atualizando ilombola. quanto u m conceito. in comunidades que trazem em sua essência. Iss o tem gerado reações de vários segmentos da sociedade no combate ao direito conquistado por essas p opulações de ―remanescentes de quilombos . como exemplo temos o Movimento Paz no Campo228.

br 229 www. de através dos vários reações de meios que mui Varg forte reação é o latifundiários. ainda hoje. comunidade Malaquias. a tas vezes se apresentam através da em Grande. ocorrido cerca no de uma violência. caminhonetes.maior polêmica vem através do e apresentou o Projeto de deputado ruralista Valdir aplicação Colatto do qu Decreto Legislativo PDL 44/2007 ―que visa sustar a n  4. 228 www. que ocupam esses territórios na atualidade. a inviolabilidad e do domicílio do cidadão. dez jagunços foram à quilombola.org. que regulamentou reconhecimento.Page 334----------------------o beira O requinte de arbitrariedade à barbárie. demarcação e titulação das terras ocupadas por remanescentes das comunidade s dos quilombos de que trata o art. 2003. pois suas casas foram totalmente destruídas com tratores e incendiadas.org. Vol. não sendo que envolveu o fat respeitados os dispositivos básicos da Constituição Federal. de 20 de novembro de identificação. o que demonstra. como no estado do município Maranhão: no dia 19 de maio de dois tratores. onde Comunidade h ouve a cem policiais. Decreto para o procedimento delimitação. 68 do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias 22 9 e tantas outras manifestações veiculadas de comunicação.koinonia. . II São Luís: SMDH/CCN-PVN 1998. rotineiramente dos caso 2006. Col. essa é a visão do dono de fazenda que assim tratava os negros os moradores e continua tratando descendentes desses povos. ou seja. que não consideram o casebre coberto de palha e tapada de palha como u m domicílio. É a visão dos dominantes. 227 Projeto Vida de Negro. destruição total daquele povoado. Jamary dos Pretos – Terra de Mocambeiros.paznocampo. Negro C osme.br 333 ----------------------.887.

a ação. no Maranhão. TERRAS DE PRETO. não fo i respeitado nem mesmo o cadáver do ―seu aleceu às Teixeira: ele foi picado por uma cobra cascavel. era contr 0 famílias e 0 pessoas. no caso. vale destacar que. que a situação das te rras de preto. não se trata de ocupação. Os descendentes de tais famílias pe rmanecem nessas terras há várias gerações e sem delas se apoderarem individualmente . quando não havia ação. entregues. portanto sem ao menos o direito e episódio algumas ilegalidades de ser velado. Constam dess praticadas. no ato do despejo. . f cinco e meia da manhã do dia 19. com ou sem formalização jurídica. do mandado não constava a demolição. houve uma reintegração. pois não havia uma ação de despejo. MUITO ALÉM DO TERRITÓRIO definições Na tentativa de conceituar terras foram traçadas por de preto. foram atingidas sem estarem na relação processual. terceiro. a execução foi contra incluindo idosos. no dia 18. 30 famílias. envolvendo essas comunidades é bastante complexa. com base nos episódios acima. algumas Alfredo Wagner Berno de Almeida que as considera como ―aqueles domínios doados. Portanto. o mandado apenas determinava a proibição para que os réus se abstive ssem de praticar qualquer ato que impedisse o exercício da posse. trata-se de comunidades centenárias. e sim uma ação de interdito proibitório cont ra 10 famílias: primeiro. mais de 10 gestantes e crianças. às oito horas da manhã.230 Pode-se constatar. e. às famílias de ex-escravos a par tir da desagregação de grandes propriedades monocultoras. foi ―despejado pela força polic ial.O grau de barbaridade chegou ao ponto de. segundo. 231 o não se Mais adiante o restringem apenas autor aos sem proceder ao formal de partilha diz ainda que terras de pret domínios acima citados. ocupados ou adquiridos.

Alfredo Wagner Berno de. tro O PVN – Projeto de Cultura Negra do categoria terras meio Vida de de Negro preto em do CCN-MA da – Cen autodenomin Maranhão. o que. Domingos.com. 334 ----------------------. Tendo por base o elemento étn ico. 1989. mantendo ireito.Page 335----------------------A expressão alcança também aqueles domínios ou extensões correspondentes a antigos quilombos e áreas de alforriados nas cercanias de antigos núcleos de mineração. e uma modalidade intrínseca desses de relação com os re que constitui florestais e do solo. definem uma territorialidade específica cursos hídricos. Uso Comum e Conflito/Revista do NEA. onde existem centenas de povoados. terras de Santo e Terras de Índio. É a combinação a identidade desses grupos. relacionada aos aparatos do poder.br. istadas por prestação de regras Há ainda de uma aquelas concepção que foram de d conqu 232 serviços guerreiros ao Estado. Terras de Preto. que orientavam uma apropriação comum dos recursos. notadamente na guerra da Balaiada (1838-1841). Diferencia-se de comunidade dos quil ombolas por essa ser uma categoria restritiva. caracteriz a uma força presente em suas próprias territorialidades. Presença marcante tem aqueles povos e podemos percebê-la através no adj etivo ―dos pretos em mais de 33 povoados no estado do Maranhão. Assembléia Legislativa do Maranhão. a nosso ver. www. adota a ação difundida no função rural maranhense. não e uma classificação externa. 231 ALMEIDA. elementos Terras de preto têm um sentido de força social. 23 de maio de 2006. que perm aneceram em isolamento relativo. UFPA.elo. tratando-se d . Grande Expe diente. Relatório. São Luís.230 DUTRA. abrangente.

Alfredo Wagner Berno de. 233 Projeto Vida de Negro (CCN-MA e SMDH) 1988 a 2007.233 traz a tabela a seguir. 335 ----------------------.A PVN.Page 336----------------------Turiaçu Codó Santa Helena Itapecuru-Mirim Cândido Mendes Cândido Mendes Grajaú Bacabal Central do Maranhão Jamary dos Pretos Cipoal dos Pretos Pau Pombo dos Pretos Santa Maria dos Pretos Bom Jesus dos Pretos Carará dos Pretos Santo Antonio dos Pretos São Sebastião dos Pretos São Sebastião dos Pretos . Belém. Município Povoado Chapadinha Pinheiro Turiaçu Itapecuru-Mirim Eugênio Barros Caxias Codó os Icatu Igarapé Grande Presidente Juscelino Lima Campos Centro dos Pretos Santana dos Pretos Santa Rita dos Pretos Oiteiro dos Pretos São Paulo dos Pretos Mandacaru dos Pretos Santo Antonio dos Pret Jacaraí dos Pretos Mandi dos Pretos Juçaral dos Pretos Bom Jesus dos Pretos 232ALMEIDA. Carajás: A guerra dos mapas. incidência de resultado do levantamento do remanescentes de quilombos ou terras de preto no estado do Maranhão. Falangola. 1994.

acreditamos. pertencimento a esses nesse levantamento. 2006. mas traz consigo todo um significado cultural. de Não territórios. que a identidade neg ra é atravessada por outras identidades. 336 ----------------------. Percebemos que o território aqui explicitado.Page 337----------------------- . identidade é um lugar que se assume. que as identidades sejam fixas e que remontem a um tempo passado. Da Diáspora: Identidades e Mediações Culturais. de Mocambo dos Pretos São José dos Pretos Fortaleza dos Pretos Barraca dos Pretos Boa Vista dos Pretos Inaranha dos Pretos Santa Rosa dos Pretos Bom Sucesso dos Pretos Piritoró dos Pretos Lagoa dos Pretos Santana dos Pretos (ilha Cachimbo dos Pretos Tabuleiros dos Pretos uma de explicitação identidades. e não uma essência ou substância a ser exami nada234. portanto. não se trata apenas do espaço físico. UFMG. inclusive de gênero e orientação sexual. onde a cultura negra seja preservada. Ed. sugerindo a necessidade queremos dizer. puro.Santa Helena Guimarães Guimarães Bacabal Rosário Codó Itapecuru-Mirim Mata Roma Codó Caxias Alcântara do Cajual) Maracaçumé/Nunes Freire Chapadinha Constatamos. Stuart. Belo Horizonte. assim como Stuart Hall. com essa afirmação sugestão. uma costura de posição e contexto. a nossa compreensão sobre o o que certamente alarga 234 HALL.

tradição cultural. consi dera o espaço de fundamental importância. buscando seus territórios. a luta por uma sociedade justa. a luta contra a assegurar a posse de discriminação racial. Antonio Augusto Arantes236. em seus estudos. casa e escola para estudar em casa. espaços de familiares. além das fronte iras físicas. mas um conceito em movimento que deve ser considerado a partir de seu contexto e de sua s complexidades. . terras de preto não é apenas um conceito que nos remete ao pas sado. sem ser preciso os filhos da gente sair na adolescência serv indo de escravo para os outros para poder estudar. suas culturas. pois se identidades. Neste sentido. mas tem dimensões mais amplas. a luta pela terra. construídos a partir das experiências vividas por esses povos. pois não se trata apenas de descendentes de negros escravizados. identidades historicamente território laços quilombola. seja. onde os próprios sujeitos se articulam e se fortalecem. pois é nele que se configuram todas as tramas sociais. de nessa perspectiva. ou Território. terras de preto nos remetem a uma diversificação de se ntidos: a luta por identidade. configurando-se constituem como espaços de contemporaneamente também através de redes. Pautados nessas premissas é que devemos considerar as identidades d os quilombolas. Assim sendo. pautada na igualdade. Sabemos que territórios não se traduzem apenas ao espaço físico. significa religiosidade. É nesse sentido que compreendemos os terri tórios quilombolas. consideramos também a grande miscigenação que há nas chamadas terras de preto. Constatamos isso no depoimento de Teixeira235 s obre a ocupação da área do Assentamento Balaiada: o objetivo da luta era conquistar a terra para que todos tivess em terra.conceito de quilombo. Seu trabalho nos leva a refletir sobre as novas territorialidades e suas dinâmicas. seus modos de vida.

Nesse sentido, Rolnik diz que, ―ao falarmos de territórios n egros, estamos contando não apenas uma história de exclusão, mas também de construção de singularidade e elaboração um repertório comum 237. a diversidade Cabe-nos, a partir do histórica desses são exposto, refletirmos sobre de

territórios que, contemporaneamente, preto, uma vez que suas

identificados

como terras

235 Ex-vereador (2005-2008), morador e liderança do Assentamento Balaiada. 236 ARANTES, Antonio A. Paisagens Paulistanas: transformações do espaço público. Campina s, SP: Editora da Unicamp; São Paulo: Imprensa Oficial, 2000 237 ROLNIK, Raquel. Territórios negros nas cidades brasileiras (etnicidade em São P aulo e Rio de Janeiro). In Estudos Afro-Asiáticos, n.17. Rio de Janeiro, 1989. 337 ----------------------- Page 338----------------------relações são construídas do uso das terras que geralmente são de uso comum. Consideramos os preto, como territórios de quilombos contemporâneos ou terras de a partir do grau de parentesco, da memória,

lutas dos sujeitos para fazer valer seus direitos, assim como conquistar outros; neste caso, a luta pela propriedade da o território terra é apenas um se constitui como dos aspectos dessa luta, pois

elemento aglutinador de identidades compartilhadas. O direito à terra dessas comunidades, pois é da é um dos pilares de fortalecimento

terra que sobrevivem, é dela que tiram seu sustento. uma nova Diante do exposto, conceituação de é que, possivelmente, será construída

quilombo, não apenas do ponto de vista do artigo 68 do ADCT, mas considerando as t erras de preto e tantas outras que se constituem carregadas de significações, gestadas pelos próprios sujeitos destas comunidades, portanto, es povos, diferentemente pautadas das nas experiências e culturas dess

conceituações forjadas em momentos históricos de profunda opressão que se justificava ap enas pela exploração capitalista. BIBLIOGRAFIA ALBAGLI, Sarita. Território e Territorialidade. In: LAGES, V inicius (org.) Território em movimento: cultura e identidade como estratégia de inserção competitiva. RJ: Relume Dumará/Brasília,DF: SEBRAE, 2004. ALMEIDA,Alfredo Wagner Berno de. Carajás: A guerra dos mapas. Belém, Falangola, 1994 . ______________________________. Santo e Terras de Índio. Uso Comum e Conflito/Revista do NEA. UFPA, 1989. Terras de Preto, terras de

ARANTES, Antonio A. Paisagens Paulistanas: transformações do espaço público. Campinas, SP: Editora da Unicamp; São Paulo: Imprensa Oficial, 2000. ASSUNÇÃO, Matthias Röhrig. Quilombos Maranhenses In: Liberdade por um fio: história dos quilombos no Brasil (org.) REIS, João José, GOMES, Flavio dos Santos. São Paulo: Cia. das Letras, 1996. BARRETO, Nelson Ramos. A Revolução Quilombola: Guerra racial, confisco agrário e urban o, coletivismo. 2ª ed. São Paulo: Artpress, 2008. BRASIL. Constituição (1988). , Artigo 68. São Paulo: Imprensa Oficial, 1999. Ato das Disposições Constitucionais Transitórias

_______. Decreto n . 4887/03. Brasília, 2003. _______. Instrução Normativa n . 338 ----------------------- Page 339----------------------_______. Instrução Normativa n°. 49/08. INCRA-2008. CANCLINI, Nestor Garcia. Culturas Híbridas: Estratégias para entrar e sair da modernidade. Tradução Heloísa Pezza Cintrão, Ana Regina Lessa. 3ª ed. São Paulo: EDUSP, 2000. Centro de Cultura Negra do Maranhão CCN/MA – Projeto Vida de Negro – PVN – 20 anos. São Luís-MA, 2008. DUTRA, Domingos. Relatório. São Luís. Assembléia Legislativa do Maranhão. Grande Expediente, 23 de maio de 2006. www.elo.com.br. GOMES, Flávio dos Santos. A Hidra e os Pântanos: mocambos, quilom 20/05. INCRA-2005.

bos e comunidades de fugitivos na Brasil (século XVII – XIX). São Paulo, Ed. UNESP/Ed. Polis, 2005. ___________. História de quilombos: mocambos e comunidades alas no Rio de Janeiro, século XIX. Ed. Rev. e ampl, São Paulo: Cia. das Letras, 2006. de senz

HALL, Stuart. Da Diáspora: Identidades e Mediações Culturais. Belo Horizonte, Ed. UFMG , 2006. História dos encontros quilombolas do maranhão. ACONERUQ São Luís.1996. Instrução Normativa 20/2005 INCRA, alterada pela IN 49/2008. LEITE, Ilka Boaventura. Os quilombos no Brasil: Questões conceituais e normativas. Etnográfica, vol. IV (2), 2000. PEREIRA, Amilcar Araújo et al (org.) Histórias do movimento negro no Brasil: depoime ntos ao CPDOC. Rio de Janeiro: Pallas; CPDOC-FGV, 2007 Plano de Inclusão Social das Comunidades Quilombolas 2005-2008. Prefeitura Municip al de Nina Rodrigues-MA, 2005. Projeto Técnico do Centro de Referência da Assistência das Comunidades Quilombolas. Prefeitura do Município de Nina Rodrigues-MA, 2007. Projeto Vida de Negro (CCN-MA E SMDH) 1988 A 2007. Projeto Vida de Negro. Frechal Terra de Preto: quilombo reconhecido como Reserva extrativista. São Luís-MA: SMDH/CCN-MA/PVN, 1996. ____________. Jamary dos Pretos o Cosme Vol. II, São Luís-MA: SMDH/CCN-MA/PVN 1998 Terra de Mocambeiros. Coleção Negr Social – CRAS

____________. Terras de Preto no Maranhão: isolamento. Coleção Negro Cosme Vol. III, São Luís-MA: SMDH/CCN-MA/PVN 2002.

quebrando

o

mito

do

____________. Vida de Negro no Maranhão: Uma Experiência de luta, organização e resistênci a nos territórios quilombolas. Coleção Negro Cosme Vol. IV, São Luís-MA: SMDH/CCN-MA/PVN 2005. 339 ----------------------- Page 340----------------------REIS, João José. Quilombos e Revoltas Escravas no Brasil. Revista USP: São Paulo (28), dez/fev1995/1996. Revista Projeto Vida de Negro: 15 anos de Luta pelo Reconhecimento dos Territórios Quilombolas.

São Luís-MA,2003. Revista PUC VIVA. O negro no Brasil. São Paulo: Apropuc, Ano 7, n  28, 2006 ROLNIK, Raquel. Territórios negros nas cidades brasileiras (etnicidade em São Paulo e Rio de Janeiro). In Estudos Afro-Asiáticos, n.17. Rio de Janeiro, 1989. SILVA, Tomaz Tadeu da. Identidade e diferença: a perspectiva dos estudos culturais . Stuart Hall, Kathryn Woodward. Petrópolis, RJ: Vozes, 2000. SOUSA, José Reinaldo Miranda. Terras de Preto no Vale do Rio Munim : Nina Rodrigues, Historicidades e Territorialidades (1988-2008). (Dissertação de Mestrado). Departamento de História, Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, 2009 THOMPSON, E.P. A Formação da Classe Operária Inglesa. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 198 7. www.koinonia.org.br www.paznocampo.org.br 340 ----------------------- Page 341----------------------A FESTA DE NOSSA SENHORA SANTANA: LUTA PELA PERMANÊNCIA NO TERRITÓRIO ÉTNICO DE ALCÂNTARA238 Maria Suely Dias Cardoso UFMA\GERUR-MA RESUMO No presente texto busco refletir sobre os significados da festa de Nossa Senhora Santana, para os moradores do povoado Santana de Caboclos, em Alcântara, Maranhão. A manifestação religiosa ocorre anualmente nessa comunidade assumida como remanes cente de quilombo -, nesse município. Trata-se de um ritual de agradecimento pelo uso da terra, considerada por seus moradores como sendo de propriedade da santa. É o evento religioso considerado pel os moradores, dentre os demais, como o mais importante, para o qual se preparam durante o ano todo. Busco saber em que medida podemos afirmar que se trata de um ritual de resistência na luta pel a permanência no território, constituindo-se num instrumento que reforça a identidade étnica do grup o. Palavras-chave: festa, identidade, território étnico As considerações aqui apresentadas resultam de campo realizadas em distintos momentos na comunidade remanescente de duas pesquisas de quilombo con

hecida

como

Santana

de refere-se ao projeto ―Produção de Alimentos e Cul

Caboclos. A primeira tura Alimentar: uma

avaliação das formas de obtenção e consumo de alimentos em comunidades agro-extra tivistas de Alcântara239 e a segunda, aquela realizada para fins de obtenção do título de mestre em Ciências Sociais240. Embora a temática da festa os referidos projetos, se impôs significativamente no resultado dos estudos. Nesse sentido, pretendo refletir sobre qual o sentido da festa pa ra os camponeses que integram o grupo morador emos afirmar que se da comunidade. Busco saber em que medida pod não tenha sido o objeto d

trata de um ritual de resistência na luta pela terra e se é um instrumento que reforça a identidade do grupo. A festa em Santana de Caboclos acontece anualmente entre os dias 24 a 26 de julho, sendo dedicada a Nossa Senhora Santana. A homenagem à Santa, ti da pelos moradores como a ―dona da terra 241, constitui-se numa forma de agradecimento pelo uso desse recur so básico. É o 238 ―Trabalho apresentado na 27ª Reunião Brasileira de Antropologia, realizada entre os dias 01 e 04 de agosto de 2010, Belém, Pará, Brasil. 239 Pesquisa realizada pelo GERUR – Grupo de Estudos Rurais e Urbanos, c oordenada pelos professores Drª Maristela de Paula Andrade, Dr. Benedito Souza Filho e Dr. Horácio Antunes. A pesq uisa desenrolou-se no período de março de 2004 a março de 2005 e coube a mim coord enar o trabalho de campo no povoado Santana de Caboclos. 240 PPGCS - Mestrado em Ciências Sociais, dissertação intitulada ―SÓ VIVO DA PESCA: Estratégias de reprodução de famílias camponesas no meio urbano – entre Alcântara e São Luís, Maranhão . 241 Situação análoga foi estudada por Prado (2007) em Itamatatiua, outro povoado de Al cântara e também reconhecido atualmente como terra de quilombolas. Aquele estudo, o primeiro a fo calizar as conexões entre a 341

----------------------- Page 342----------------------evento considerado pelos ais importante, para o moradores, qual se dentre os demais, como o por por o a di tr m

preparam durante o ano todo. seus habitantes como terra de santíssima ou terra de abalhos como os de santíssimo,

A localidade situação e de para reforçar a

é conhecida

sociológica festa

evidenciada para

Linhares(2001) e Almeida(2006), s moradores, o momento não só agradecer, mas também serve vindade que, segundo suas

representa esse

laço com

representações, lhes garante o acesso e a permanência na terra. Deste modo, os moradores mantêm uma relação singular no que tange à poss e e uso da terra. Para eles, a santa seria sua verdadeira proprietária e lhes permitiria, des de o tempo de seus antepassados escravos, usufruir de todos os seus recursos, sem nada lhes cobrar. Quanto às designações terras de santo, terras de santa, terra de santíss ima ou terra de santísimo, são tratadas por Almeida como territorialidades específicas, nas quais ―foram construídas complexas redes de relações sociais onsistem em categorias classificatórias que as e plurais da identidade e ―mais que meros termos ou expressões, c as características intrínsec

apontam para

étnica dos agentes sociais em questão .(2006, p. 52). A origem das denominações assinaladas, da à existência de ordens religiosas no Maranhão como unidades de exploração econômica242 pecula-se que Santana de está relaciona e es

Caboclos seja uma única área que abrange Samucangaua e São Lourenço que pertenceram a um a extinta ordem religiosa (Shiraishi, o pesquisa jurídica realizada no 1998, p.4). O autor, segund

Cartório do 1 Ofício da Comarca de Alcântara, atesta o desaparecimento de registros no c artório de Alcântara, ao relatar a não imóveis importantes para a existência dos livros de registros de

identificação jurídica da área denominada Santana de Caboclos.

Conforme GOMES (2004) tem-se conhecimento que no século XIX, com p ropósito de fundar e cuidar de cemitérios criaram-se no Maranhão irmandades católicas designadas I rmandades do ho Santíssimo Sacramento, a a Alcântara. Para o exemplo do município de Guimarães, vizin

autor o indício da presença dessa irmandade em Santana, é a existência do cemitério que se rve aos povoados circunvizinhos. como revela Os moradores dizem um informante: Os que a terra pertence à Santa,

antigos contam que a santa foi achada na pedra do rumo. Que a terra é da Senhora S antana.(Seu economia camponesa e o calendário de festas entre camponeses maranhenses, chamando a atenção para o uso comum das terras consideradas como de ―propriedade da santa. Juntamente com o traba lho de Mourão (2007), ambos escritos nos anos 1970, representa um marco nos estudos das situações de terra de uso comum na Baixada Maranhense. 242 A presença de ordens religiosas como unidades de exploração econômica no maranhão fez parte da missão colonizadora, especialmente na Baixada Maranhense. A esse respeito consultar Mou rão Sá (2007) e Prado(2007). 342 ----------------------- Page 343----------------------Jonjoca, morador de Santana, em 02/05/04) (CARDOSO, 2005, p.9). No entanto, há nec essidade da realização de etnografias que dêem conta dessa realidade. Destarte, sendo a festa uma espécie de cumprimento de um contrato (PRADO, 2007, p.56) coletivo que os habitantes mantêm com a Santa, ratificando-a enquanto propri etária da terra, se apresenta também como um elemento de reforço da identidade étnica do grupo. Se pens armos nos termos de Barth quando estuda situações difiram etnologicamente, os Pathan, embora as

poderíamos dizer que o grupo exibe, no ritual, uma performance que está conforme ao ―modelo

nativo e que deve ser compartilhado por aqueles de seu grupo de origem (Barth, 20 00, p. 72) e é desta que seu comportamento é avaliado. Como feitas doações pelo meio de garantir grupo e a realização da festa, são

representam na verdade, como nos casos estudados por Mauss (2003:356), obrigações mút uas que se impõem reciprocamente com frequência gerações e não só englobam todos os indivíduos, e

sucessivas, mas se estendem a todas as atividades. As doações são denominadas pelos mo radores de Santana dejóia, estas como elemento da dos estrutura municípios categoria analisada por Prado (2007), quando estudou as f social camponesa de Bequimão em e como já apontado, semelhanças com comunidades rurais

Alcântara/MA, as quais apresentam, a festa de Santana de Caboclos.

Ao estudar a festa de Santa Tereza de Ávila, em Itamatatiua (Alcânta ra, Maranhão) e Santana (Bequimão, Maranhão), também tidas como ―terras de santo , a autora def ine a ―jóia como instituição e as ―terras de santo como representação (PRADO, 2007, p.62). Essa formulação se vê ainda reforçada pela das capelas das respectivas proprietárias [Santa Tereza de Ávila e Santana], quanto dos „encarregados das terras’, ou seja, de um indivíduo responsável pela administração dos „bens da santa‟ e da arrecadação de uma contribuição dos seus moradores. Por isso, todos os anos, na época que precede os festejos de cada padroeiro, um grupo de pessoas, sob o controle dos encarregados‟, sai peregrinando a fim de recolher „a jóia‟do santo. E os moradores não negam a dá-la. Ao contrário, fazem mesmo questão de doá-la, pois o fato se lhes afigura como uma vantagem, se se comparam a outros campo neses que por residirem em terras de proprietários particulares, não usufruem d e umas tantas regalias, e ainda são obrigados a um foro estipulado pelo dono. (PRA DO, 2007, p.63) existência, tanto Em Santana de Caboclos não é diferente. Se a realização da festa em

homenagem à entidade divina é o a e não havendo por cumprimento parte dos de um nenhum contrato compromisso com para a sant

moradores de Santana de Caboclos to de impostos junto ao

pagamen

estado ou a um dono particular pelo uso e posse da terra, tal manifestação só pode ser entendida como configurando uma prática outros agentes sociais de resistência às possíveis investidas de

343 ----------------------- Page 344----------------------interessados na terra, a exemplo das ameaças da perda da terra perpetradas pelo e stado brasileiro referente a expansão da base de lançamento de artefatos espaciais243. Enquanto a Constituição Federal protege os direitos dos remanescente s de quilombos, com base no Artigo 68 dos ADCT e no Decreto 4887, o governo federal, por meio do Ministério da Defesa, tenta impor aos atuais quilombolas uma regularização fundiária, com respectiv a titulação coletiva, somente após a exclusão gência Espacial Brasileira. das áreas de interesse da AEB – A

Diante desse impasse jurídico, até o momento, o território quilombola, reconhecido ofi cialmente a partir da elaboração de um laudo antropológico (ALMEIDA, 2002), não foi regularizado em nome das famílias dos mais de 150 povoados que constituem o território étnico de Alcântara. N o início de 2008, a situação se agravou na s representantes denunciaram a invasão cântara da área pela empresa Ciclone Space (ACS). comunidade binacional (Adital), uma a de Mamuna e seu Al o o solo,

brasileira-ucraniana empresa perfurou

Segundo a agência de informação abriu estradas e destruiu mata nativa. Apesar de existir INCRA – Instituto Nacional de

decisão

judicial obrigando

Reforma Agrária, a emitir o título das terras quilombolas de Alcântara, a decisão não é exec utada. Especialistas da Universidade Federal do Maranhão têm acomp

anhado a situação Ministério Público244.

junto

ao

Embora estivessem na iminência de perder a terra e apesar de nunca terem possuído o seu ais título, a deixou de celebração em agradecimento ser realizada, à santa pelo seu uso jam

tornando-se um momento de reafirmação, perante às normas do sistema jurídico vigente, de que, para o grupo, a verdadeira proprietária da terra é a santa. 243 Em Alcântara, as chamadas comunidades quilombolas, como Santana de Caboclos, têm sido impedidas de usufruir plenamente de direitos garantidos pelo Estado Brasileiro, não apenas com base no Artigo 68 dos Atos das Disposições Constitucionais Transitórias e de outros artigos da Constituição de 1988, assim como em outros dispositivos jurídicos, como o Decreto 4887, além de tratados internacionais dos quais o Brasil é signatário, como a Convenção 169, da Organização Internacional do Trabalho - OIT. A Agência Espacial Brasileira vem tentando, há vários anos, instalar novos sítios de lança mento para serem alugados, expandindo a área já existente sob controle dos militares, mas diante da r esistência das famílias, assim como da movimentação de suas entidades de apoio, recentemente o governo federa l optou por recuar para dentro da área do CLA – Centro de Lançamento de Alcântara, Nesse local, dentro dos 8700 hectares em mãos dos militares desde a década de 80, a ACS – Alcântara Cyclone Space – está construindo sua base de lançamentos para atender aos compromissos gerados pelo Acordo entre o Brasil e a U crânia. Apesar disso, mandatários de órgãos oficiais vêm, constantemente, por meio da imprensa, ameaçando de ret omar o controle sob todo o território já reconhecido como pertendente aos quilombolas. Apesar de exi stir uma decisão judicial, resultado de acordo entre as partes, obrigando o INCRA – Instituto Nacio nal de Reforma Agrária, a emitir o título das terras aos quilombolas de Alcântara, a decisão ainda não foi executa da, indicando que há um impasse político entre os próprios órgãos oficiais. Tal situação resulta que as comunidad es permanecem como há mais de cem anos, sem a titulação de suas terras. 244 Disponível em: <http:// www.adital.com.br>.Acesso em 25 jan.2008. JORNAL DA C IÊNCIA, da SOCIEDADE BRASILEIRA PARA O PROGRESSO DA CIÊNCIA (SBPC) e PAULA ANDRADE, Maristela de e SOUZA FILHO, Benedito. Informação Técnica à Procuradoria da República no Ma ranhão, intitulada Impactos dos Trabalhos desenvolvidos pela ATECH/ACS sobre as populações t radicionais da região de Alcântara, Maranhão. 344

Tais normas não se separam da economia e e sobretudo a terra.Page 345----------------------as no Em direito Santana. (1999) sobre Tal situação nos remete os conflitos em ao estudo de Paula Andrade terras de uso comum. o pagamento de impostos e outros. Maranhão). ―passa a fazer parte do cotidiano das pe ssoas e conhecer todos os seus problemas. neste caso. consensualmente desses grupos. a exemplo do próprio título da terra. Ou seja.(SILVA. citando Hobsbawm. segundo a qual o direito à terra. p. deve ser compreendida como um ato que expressa a crença coletiva nos poderes da santa. da cosmovisão não são natureza. essa maneira de pensar a terra e de se apropriar dela têm a ver com um modo de vida específico. 1999. p. sendo reconhecida como remanescente de qui lombos e . em que aponta para a existência de regras próprias desses grupos. Porém. nos povoados Santeiro e Taquaritiua (Viana. ou seja. 2007. as grupo. Esta.----------------------. ou normas regras particulares acatadas A basead pelo consuetudinário. para que „as graças‟ sejam prontamente alcançadas . ancorada numa „jurisprudência‟ própria.191) se recon A festa de Nossa Senhora Santana.160). ex trapola o rito de uma celebração em agradecimento à divindade e se configura num ato de enfrenta mento às regras impostas pelo estado. que facilita a intermediação co m os Céus.(PAULA ANDRADE. e em uma situação de conflito com agentes externos. decorre da hece compartilhado uma posse imemorial do grupo que origem étnica comum. o qual exige uma série de obrigações. a autora diz: Tais ações. com sua formação singular. certamente esbarrariam com a resistência ca mponesa. existem costumeiro. A realização da celebração em homenagem à santa se confunde com a própria hi stória da comunidade. numa relação de intimidade. concebidas e nem vividas como externas ao grupo.

É o momento escolhido para os reencontros. com o a economia. seja compadrio ou amizade.Page 346----------------------A festa condensa toda a forma de ser e de viver do conjunto de p essoas daquele lugar. é um sistema de troca. de parentesco. (LUCENA. de passagem. A celebração. O universo simbólico das celebrações religiosas e significado expresso nas festas dos santos. que se encontram fora de Santana. de fazer reivindicações. . os saberes. reúne. res Essa manifestadas prática religiosa por meio da se imbui de regras particula realização da festa na qual. momento de de voções. seu 345 ----------------------. com especificidade s territoriais e étnicas. as hierarquias. precisamente nos bairros (CARDOSO. Esse conjunto corresponde a diferentes situações históricas e etnológicas. de Alcântara e de São Luís. grifos da autora). de reforçar hierarquias. Também revela as diversas dimensões da organização social do grupo. 2008. quando os que estão fora se esforçam para retornar ao povoado. também pessoas que formam uma rede de rel ações entre moradores dos por vínculo povoados vizinhos. 2008). os conflitos. por sua vez. metáforas e linguagens locais. além dos fil hos do lugar. revelam códigos própr ios. sendo o momento no qual as sociabilidades se reanimam. pois lá é comum que as famílias tenham parentes estab elecidos na da periferia de Alcântara e Liberdade e da Camboa.integrando um conjunto de povoados que se reproduz secularmente no município de Al cântara. de ditar regras. o sistema de trocas. de sincretismos. pp. compondo o que Almeida (2002).98-99. em São Luís. Por meio de performances ou alegorias. denomina de ―território étnico de Alcântara. as relações de parentesco e compadrio. a festa dos santos apresenta uma dimensão estética.

ao som de para tocar.30) Os moradores e filhos de Santana de Caboclos colocam toda a sua energia nesse ritual. A festa é ainda mediadora entre os ansei os individuais e os coletivos. para o qual se preparam o ano inteiro com o intuito de celebrar e simbolicame nte reafirmar seus códigos e regras próprias. o interlocutor demonstra o como seu no caso anunciado. tempo e eternidade. lá estava atrás de um balcão de músicas que ele escolhera barraca de festa de santo. E todas as questões sobre o suas ramificações para o meio urbano.importância A análise empreendida desse ritual para por Cardoso (2008) revela a aqueles que desejam retornar ao seu lugar. nós e os outros. p. dança. Ela busca recuperar a imanência entre criador e criaturas. amigos e compadres. na experiência de seu Catarino e sua história pesso al. limentadas por uma extensa ali. se me apresentava a rnando a certeza de que se quiser la nas terras de Santana. (CARDOSO. natureza e cultura.(AMARAL. alimentação. mitos e máscaras atesta com veemência esta proposição. p. ser e não ser. como no caso estudado. 2008. no qual pertencimento ao grupo revelando o seu direito à terra ante às regras locais. mito e história. pescador. fantasia e realidade. vida e morte. Seu Catarino. exte colocar seu roçado no próximo ano agríco nenhum parente vai impedí-lo. de modo vívido e concreto. 2001. território étnico de Alcântara. Para alguns autores a festa possui uma função mediadora na medida em que. A presença da música. A festa é uma das vias privilegiadas de mediações da humanidade. por isso mesmo revelando e exaltando as contradições imp ostas á vida humana pela dicotomia natureza e cultura. digerindo e transformando em pontes os opostos tidos como inconciliáveis. rede de parentes. radicado no meio urbano .22. passado e present e. grifos da autora) no estabelecimento . mediando ainda os encontros culturais e absorvendo. no qual escol he regressar em plena festa da padroeira de seu povoado de origem após um longo tempo longe e. vendendo cerveja na venda de sobrinho seu.

para serem usufruídos por tod do grupo. levando-os a percebê-la e aos demais r como dádiva divina e. Desta forma.está culturalmente arraigada através de símbolos. ecursos os os membros A relação que os camponeses aqui tratados estabelecem com a natureza . portanto. rituais e práticas e es tá plasmada em especial em relações sociais que também se diferenciam do tipo mod erno. entende-se comumente que Ao festejar a santa para agradecer-lhe pelo bem recebido.140). É por meio da festa que o grupo reafirma a si próprio e ao mundo ext erno sua origem. os modelos locais. (PAULA ANDRADE. p. em muitos contextos não ocidenta is. suas regras e sua história.346 ----------------------.Page 347----------------------nto Aqui também a que compõe a mediação deve ser compreendida como um eleme festa à chamada Nossa Senhora Santana. p. sua história de sobrevivência à escravidão de negros e índios tam . 2). são concebidos como sustentados sobre vínculos de continuidade entre as três esferas. quando trata do conhecimento local e modelo s do natural. como explicita a autora: s que liga básicos esses Estamos diante de um sistema de crença camponeses à terra. os seres vivos e não vivos. Esta continuidade –que poderia no entanto ser vivida como p roblemática e incerta. e com freqüência su pranaturais não são vistos como entes que constituem domínios distinto s e separados. também nos remete à discussão proposta por Escobar. pois esse ente superior orienta a relação do gr upo com a terra e os seus recursos básicos. o humano e o supranatural. 2001. (ESCOBAR. capitalista. os mor adores de Santana dos Caboclos confirmam sua visão própria de mundo. com um sistema de crenças que rege não so mente a sua religiosidade. mas o trabalho. 2005. ao afirmar: A diferença das construções modernas com sua estrita s eparação entre o mundo biofísico.

conta historicamente com a participação direta dos mor adores. bo conforme observamos.21). quando diz que ―todas as relações sociais estão cercadas por um cerimonial par das e ainda. ―se os homens têm pretensões a partici . aposta ao nome do povoado.bém. is. podemos como um fundo cerimonial nos termos de Wolf (1970. galinhas e patos é uma prática comum ao grupo supor que se configure e.Page 348----------------------Sua organização. pois em Santana de Caboclos. Na realidade. Origina-se aí. os é predominante. 347 ----------------------. com variação dos opção pelo final de semana. em ambas as situações deve receber a incumbência e a aprovação do encarregado da festa e guardião da Santa. em homenagem a santa chamada Nossa Senhora Santana que dá nome ao lugar. È nesse no entanto a presença de negr movimento que o sentimento de pertencimento ao lugar também é reforçado. a denominação caboclo. tem-se indícios de que foi uma terra habitada por indígenas. a escolha do festeiro acontece por meio de acordos que são feitos. predominando aí as condições fin anceiras do escolhido. é obtido O fundo cerimonial das economias do que garante a realização da festa. A criação de animais como porcos. p. próprio festeiro . entre os dias 24 e 26. no mês dias em virtude da de julho. mas uma família é às vezes escolhida pelo grupo e outras assumem por vontade própria. A Festa de Nossa Senhora Santana – breve descrição È realizada a cada ano. torna ndo-se o chefe da família o chamadofesteiro no entanto. guardadas ao longo do ano. que é fixo. para permitir que os parentes que trabalham e ou residem em São Luís ou Alcântara possam participar.

últimos o noitante responsável dependendo das suas por c eles of chocolate quente. Outras o procuram com o intuito de doar ajóia . cachaça. doces. A festa inicia-se . moradora res da de Santana localidade e e de costuma ser acompanhada povoados vizinhos. Todo ano tem – as festas na consulte-se PRADO. a responsabilidade é sempre dofesteiro . mingau de milho ondições. pessoas da que ritual é em que é rezada por a ladai mulhe festa. vinho e folhagens de planta denominada murta. Na última noite da novena. tronco alto de madeira. amados Na estrutura noitantes. em pagamento de promessas. que têm a função específica de rezarem a ladainha. uma espécie de padrin hos da festa.relações sociais. encimado pela bandeira da santa. . e. 5 deverão trabalhar por tais para a criação de um fundo vis A outra forma que garante recursos é a instituição do pedido de jóias 24 por meio de festeiro às pessoas que ele convites ou cartas entregues pelo escolhe. ando às despesas atividades . nha em latim. Ajóia pode ser ofertada em form a de recursos financeiros. café. A rezadeira. Nos dias que se segue m é realizada a novena até o dia propriamente dito da santa (26 de julho). erece bolo Em cada noite da de tapioca. Essas pessoas se tornam os mordomos. enfeitado com frutas. há também a figura dos ch promovem cada noite da novena. mantimentos a serem uti chocolates. lizados para fogos de artifícios ou a feitura de bolos. refrigerantes. pão com margarina e bolo de trigo. nos atos de distribuição da comida. recebendo tratamento privilegiado na celebração. café. ladainha. de melhor qualidade e aos estes quais considerados normalmente têm pouco acesso. com o levantamento do nove dias antes do dia consagrado à santa garrafas de mastro. sendo acompanhada por um grupo ra e há uma variedade e de músicos integrantes da orquest Re 245 Para aprofundamento dessa categoria gina.

Logo que recebem o prato. matança de porcos. abundância doces no e bebidas. aves e bovinos). São Luís:UFMA. ele O festeiro tenta é prestig seu na oferecimento da alimentação. farinha. desde o preparo da alimentação (bolos.estrutura social camponesa. À noite. bolos e refrigerantes. a bar raca de venda das bebidas. situada ao lado da tribuna. são preparados pratos de comida e bebida (refrigerante. No primeiro dia da festa. mas distribuído a refeição do mordomo. macarrão) ormente e anuncia-se o nome é e o lugar degustada à de origem mesa. é Nota-se levada pelos mordomos para sua casa e dividida com a família. colocados em uma mes a cerimonial. enquanto a música de som mecânico é silenciada para dar a vez à orquest ra e para os dançantes acompanharem ou participarem do ritual. Não há distinção entre os mo rdomos . mordomo a tomar lu acompanhado de doces. local onde acontece a festa dançante e a cerimônia da distribuição de alimentos.Page 349----------------------quantidade maior iado conforme a de bolos. 348 ----------------------. pois ladainha é comum a participação de pessoas de outros lugares. à esp era da chamada radiola de reggae246. torta de em um de comida recipiente (arroz. 2007. ofesteiro se ocupa da organização do even to. prestígio preparando a maior então demonstrar quantidade possível desses alimentos para um maior última noite de número de pessoas. que anima os participantes no ritmo predominante do reggae247. gar diante O festeiro convida cada do prato de refeição. vinho). plástico que carnes suína anteri não camarão. colocam s eu conteúdo – normalmente e bovina uma enorme quantidade assadas. até o enfeite da Igreja. no meio da tribuna. para a cerimônia de distribuição da comida aos denominados mord omos.

desde o levantamento do mastro até o seu derrubamento. grifos da autora) Durante os festejos. cuando encontramos que en las religiones antiguas todas as culto están sintetizadas en las comidas sacrificiales. A distribuição de alimentos ocorre em todo o períod o da festa. o movimento das pessoas concentra-se na cas a dofesteiro . vis ta como acto social. 19 95:25. A tem um caráter como afirma Smith: La significación ética de la comida sacrificial. y que el contacto común entre ls dioses y el hombre no tiene otra forma. y este acto del culto. 247 Sobre o reggae no maranhão consultar SILVA (1995). y que todos los deberes de la amistad y la hermandad están implicados en ese acto común. pois ali acontece a distribuição de comida em diversos momentos e notamos a presença não só dos adu ltos. De acuerdo a estas ideas. al tiempo que cimienta los lazos entre el hombre y su dios . quienes come n y beben juntos están ligados mediante un lazo de amistad y obligación mutuas. el dios admite su amistad. com sistema de amplificação e com várias caixa s de som empilhadas umas sobre as outras. P or ello. no último dia.Page 350----------------------comer y beber con los indivíduos que la integran. cimenta también los lazos entre aquél yn sus hermanos en la fé. In GOODY. 349 ----------------------. Al adm itir al hombre en su mesa. pero este favor no se estiende al hombre en su mera condición privada: solo es recibido en tanto perte neciente a una comunidad para funciones comunes Del 246 Trata-se de um equipamento sonoro. distribuição sagrado e do alimento aos mordomos durante a festa . recibió un énfasis especial de ciertas costumbres e ideas ant iguas conectadas côn el comer y el beber. (SMITH.baseada no valor da doação de cada um. debemos recordar que el acto de comer y beber juntos es la expresión solemn y categórica del hecho de que todos aquéllos que comparten la comida son hermanos. sendo operado por um animador ou Dj.

a festa se estende pela tribu na. a radiola de reggae permanece tocando e as pessoas dançam o tempo todo. mantimento . ri chamam. principalmente dos homens. à procura daquele que levou a imagem e à mediada que não a encontra. A brincadeira. como dizem. A presença dos times de futebol indica também a relação de reciprocidade existente entre os povoados. Durante o dia. que atualmente con ta com pouca participação das pessoas. pa rticipando do torneio com times dos povoados que fazem parte da rede de interação do grupo e são convidados pelo festeiro . tem como objetivo ar música da orquestra e é momento no qual se definem os mordomos e o festeiro do ano seguinte. Aos homens é necessário tribuna. o time de futebol de na festa de santo de ou Santana de Caboclos é convidado a participar parapagar a visita . de casa em casa. a . como eles recadar mais recursos para a festa. como forma de garantir ao dono da festa um retorno monetário e parte dest e será revertido para a Santa em forma de melhorias na Igreja. garantindo a continuidade da festa e com ela a renovação dos elementos que a constit uem como. À noite. No Santa. na medida em que tro povoado. a tribuna é aberta. os moradores são obrigados a pagar umajóia . tual A festa encerra-se com a acompanhado por rezas e a derrubada do mastro. No dia consagrado à Santa é realizada a procissão. local da festa dançante e onde se consomem o pagamento da entrada na bebidas. m as a entrada não é paga. podendo ser qualquer objeto. ritualmente roubada.mas as crianças estão o tempo todo nos avançadas que espaços da festa assim como os de idade participam ativamente de todos os momentos. que é segundo dia da festa. junto com a é realizada a busca da quando um grupo de pessoas o batendo latas. panelas e rezadeira saem pelo povoad cantando. que estão no campo de futebol. bebida ou dinheiro.

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iniciado no ano de 2002. SILVA. lazer e identidade cultural. São Luís: SEIR/FAPEMA/EDUFMA. Rio de Janeiro. Regina. 2007. SHIRAISHI. Eric R. Todo ano tem – as festas na estrutura social camponesa. como meio de inclusão social. músicas. Laís Mourão. Relatório de pesquisa jurídica sobre a terra de preto denominada Santa na ou Santana dos Caboclos. que torna possível. Fundação Palmares/MINC/Mestrado em Políticas Públicas (UFMA). como importante contribuição ao processo de ensino e aprendizagem e de incorporação social.) e bens artistico-culturais (instrumentos. Carlos Benedito Rodrigues da. com os quais. sobre a ótica da educação informal. subsidiada pelas tradições de origem africana.PRADO. que também revalor . atividades de informação e conhecimento ressaltando as potencialidades da cultura de origem africana. em especial. voltado para a reintegração de uma pessoa com deficiência. São Luís: EDUFMA.) pa ra o trabalho de sensibilização estética e conscientização política. 1995. Pretende-se destacar as benesses de um trabalho.Page 352----------------------CULTURA AFRO-BRASILEIRA NO PROCESSO DE INCLUSÃO SOCIAL Relato de Experiências do Instituto Como Ver . Sociedades Camponesas. 1998. deveria ser objeto de estudo sistemático. São Luís:UFMA. Propõe-se esta exposição. 2007. A descrição da experiência em questão é um trabalho que objetiva criar alternativa de aplicação da cultura afro-brasileira. Carlos Benedito Rodrigues da. Ritmos da identidade: mestiçagens e sincretis mos na cultura do Maranhão.Officina Affro do Ma ranhão Adalberto Conceição da Silva (Zumbi Bahia)248 RESUMO A presente narrativa trata-se de um relato de experiência acerca da cultura afro-brasileira. que foi resgatado na Unidade Escolar Especial Helena Antipoff em São L uís do MA. Zahar. Alcântara/MA. Da terra das primaveras à ilha do amor – reggae . 1970 351 ----------------------. WOLF. técnicas etc. São Luís: EDUFMA. em particular. 2007. SILVA. a percussão afro-brasileira. onde a beleza e a contribuição do negro na formação da cu ltura do povo brasileiro são reveladas. ao convívio coletivo. sistematizando acervos imateriais (sa beres. como proposta de atividades pedagógicas de inserção. SÁ. O pão da terra: propriedade comunal e campesinato livre na Baixada Ocid ental maranhense. a escola poderia intercambiar identificando-se com os processos de luta em prol de políticas públicas de inclusão. São Luís. indumentárias etc. com recorte à situação de um componente. J. soci al e artístico-cultural. nos estabelecimentos de ensino.

Officina Affro em São Luís – Maranhão. Con hecido por Zumbi Bahia.br 352 ----------------------. especially the african-brazilian perc ussion on the optical informal education. incluindo-se ações positiva s que contribuem para o estabelecimento de concisões de igualdade e respeito entre aquel es de menores condições funcionais na sociedade. Percussão. ABSTRACT This narrative it is an experience report about the african-br azilian culture as a means of social inclusion.izem as relações interraciais para a construção/reconstrução da dignidade humana.) raise awareness for the aesthetic and political awareness. social and cultural-artistic. Palavras-chave: Inserção social. which also increase the value of interracial relationships for the construction / reconstruction of human dig nity. as proposed education al activities insertion. It is intended to highlig ht the spoils of a work. Mudança. Compositor. which makes it possible. em Gestão Educacional. etc. music. Preconceit o. and artistic and cultural goods (instruments. Percussionista e Vocalista. The description of the experience in question is a work that aims to create alternative use of the african-brazilian culture. with which the school cou ld exchange by identifying himself with the processes of struggle for inclusive public policies. E-mail: zumbibahia@yahoo. including positive 248 Pedagogo com habilitação do Ensino Superior. 3882 / 8835.Page 353----------------------actions that contribute to precision establishment of equality and respect among . with clipping the situation of a component. where the beauty and contributio n of black culture in the formation of the Brazilian people are revealed and sy stematized collections immaterial (knowledge. techniques. in particular.). Cultura afro-brasileira.com.7199 / 8112. should be studied systematically in establishments education. subsidized by the traditions of African origin.. Pós-graduação em Docência Coordenador pedagógico do Instituto Como Ver . costumes etc.4598. begun in 2002. which was rescue d in the Special School Unit Antipoff Helena in Saint Louis in the MOU. information activities a nd highlighting the potential of knowledge of African culture. It is proposed that this exhibition as an important contribution to the teaching and learning and social inclusion. focused on the reintegration of a person with disabilities to living a collective. Tel: (98) 3271.

O O fficina Affro com efetua atendimento a crianças. na o ano todo. dentre outros. o de música percussiva. por meio da orga expressivos entre o som e o silêncio. adultos e pessoas quando necessário. African-Brazilian Culture.Officina 1984. o estímulo à leitura. de um modo geral é a linguagem que traduz formas sonoras capazes de expressar e comunicar sensações. realiza-se um trabalho socio educativo na prevenção do uso de drogas. em todas as culturas nas mais diversas situações. sediado no bairro do cidade de São Luís Affro. antiga. Change. A música está presente. estéticos e cognitiv os. que pressupõe o estudo e a compree nsão teórica da realidade social e da questão do negro na sua totalidade. deficiência promovendo.those least able to function in society. a alfabetização. particularmente. afetivos. de um modo geral e na educação infantil. Preju dice. onde r meio de do Maranhão mantém um trabalho pedagógico durante são os próprios também. A integração entre os aspectos sensíveis. A música. l cênico e instrumental para interagir com as disciplinas da Educação Básica e. sentimentos nização e relacionamentos e pensamentos. ainda. gravidez prematura e doenças sexualmente transmissíveis. era educação desde há muito tempo. confere caráter significativo à linguagem music É uma das formas importantes de si só justifica sua presença no expressão humana. materiais didáticos. no Faz parte da entanto. Keywords: Social Inclusion. ao lado da matemátic a e da filosofia. para a formação dos futuros cidadãos. motores. INTRODUÇÃO em O Instituto Como Ver . o que por contexto da educação. jovens. . Na Grécia considerada como fundamental. assim como a promoção de interação e comunicação social. utiliza o materia po as culturas negras cursos e oficinas. fundado Apeadouro. Percussion.

rítmico. do equilíbrio. com pessoas com deficiência são linguagens musicais excelentes para o desenvolvimento da expressão. ritmos o Instituto Officina percussivos Affro se propõe oferece auxiliados por instrumentos musicais populares e étnicos. autoconhecimento. no final do ano de 200 oficina de percussão na Unidade Escolar Especial Helena Antipoff. no fazer musical. E ainda.Page 354----------------------r Diante oficina de disso. como também.Os trabalhos recreativos com orquestras rítmicas percussivas. da de autoestima integração e do social. desenvolver rec ursos técnicos. com os instrumentos d escobrem possibilidades de recursos complementares. experimentar sobre a origem e história dos instrumentos. vivenciar e entender questões relativas à acústica. onde acumuladas. implementa espaço às atividades de criação e às questões ligadas a percepção e conhecimento as possibili es e qualidades expressivas dos sons. O Instituto Como Ver – Officina dando por encerrada a Affro. cânticos e produção do som. a montagem e com instrumentos informar-se nativos maranhenses. elas possam canalizar energias quando os instrumentos são das culturas que lhes são próprias e. Importante. 353 ----------------------. São importantes as situações nas quais se oferecem instrumentos musicais e obje tos sonoros às pessoas com deficiência. em particular . foi surpreendido por um aluno que se mostrou interessado em dar continuidade às aprendizagens percussivas na sed . por meio do qual o público alvo poderá: explorar exemplares de instrumentos e objetos sonoros regionais. CONVÍVIO SOCIAL 2. ainda. além da audição de poderoso percussiva meio e do beneficia domínio o desenvolvimento motor.

E. sobre matérias relativas às pessoas com deficiências. família. no bairro chamado Lira. nos alguma circunstância. doravante Fred Júnior. Entretanto. Na Júnior (2007). em razão do teve muita facilidade de enten dança afro usando e faz remédios sessão controlados. Sofre. também. passou a a bsorver os ensinamentos da cultura afro-brasileira de forma integral. ――Quando eu entrei no Officina Affro. Esta colocação foi expressa numa entrevista concedida ao Officina Affro p 09 de fevereiro de 1986. febre reumática. que nasceu no dia ocasião do seu acesso. eu entrei com uma expectativa grande de conquistar o meu ideal or Fred . Até agora. orientado pelo seu professor de depois da permissão de sua Educação Física daquela escola. Habilidades que foram demo nstradas quando estagiou na Unidade Escolar Alberto Pinheiro (2003). hoje. No processo de estudo. já compl tou 24 (vinte e quatro) anos de idade. de como m terapia duas vez princípio de epilepsia. entremeado com a percussão e a -brasileira e. com mais abrangentes das culturas de todos os seus componentes e propriedades originais. Referem-se a integral. residia próximo à Praça de São Roque. o aluno Manfredine Gomes dos Santos Júnior. E.e do Instituto. a vista embaçava. de sequela de meningite. Teve dengue culdade hemorrágica aos de aprendizagem momentos de muita de idade ansiedade e sentia por difi 10 (dez) anos e de assimilação com referência aos assuntos didáticos da área de conhecimento da escola regula r. ainda. continua edicamentos prescritos pelo acompanhamento médico anual es por semana. Sagarana I (20 04/2005) e na U. sentia dor de cabeça e a mente travava no mome nto de leitura e escrita. . na cidade de São Luís e. sem distinção dos seus li mites funcionais. artrite e suporta crise com desmaio. os conhecimentos herança africana. U. dimento quando o conteúdo era sobre a cultura de ascendência africana.

atividades dirigidas ao raciocínio. METODOLOGIA DE ENSINO As etodologia atividades foram interdisciplinar. sem discriminação. efetivamente. englobando de t e et abrangeram habilidades de leitura e escrita. treinava num instrumento completamente percussivo desprovido nomeado de surdo de marcação e era coordenação motora/musical. por sua vez. por meio música de efeitos educativos a propensão . Específico e Estág io. à realização de cálculos nicorraciais e resolução de problemas e de percepção de mundo. ensaiando com os outros componentes. para uma Officina Affro e viajou com e tocan exibição em Blumenau/Santa Catarina. até o o momento. do Officina Affr o. tocando o surdo de do agogô marcação.E.Page 355----------------------Quando o Fred Júnior começou a fazer parte. dançando (Instrumento idiófono afro-brasileiro com duas campânulas de ferro percutidas por va reta de metal). do bloco de carnaval Officina em 2003. do interpretação elementares. extos. Participa. Freire. com do aplicadas professor cumprindo Paulo uma m influência adequada à pedagogia temas que. por meio de módulos: Básico. Oliveira Roma (2006). capacitação Os conteúdos foram aplicados. Embo ra fosse tratado de igual para igual. 354 ----------------------. necessitando pegar na sua mão para executar o tambor. abordagem de questões sociais pressupondo a ampliação da dia-dia. Módulo Básico eixos A formação básica temáticos voltados teve de suas ações desenvolvidas percussiva com e de a partir História d de para a valorização do trabalho e Cultura Afro-Brasileira e Africana.

Caixa de Divino. ética e cidadania. Matemática. Os conteúdos spectos relacionado à consideração oralidade. Pandeirão.Page 356----------------------novo olhar sociocultural. RecoReco de Lixa. concepções de equi ancestralidade. tipo: Ritinta. sociabilidade. a e pesquisas e a sobre recriação das os valore cultural. a ressignificação dos novos paradigmas e a reconstrução d e um 355 ----------------------. Cabaça. disciplinas curriculares formais: stória. autoestima. Módulo Específico A formação específica foi constituída da produção de ações pedagógicas percussivas brasileiras. Timbau e Djembê. Com isto. a resistência modo. em cada . Hi Guizeira. por outros componentes oriundos de outros projeto s. criatividade. Matracas. Surdo de Marcação e de Virada. Geografia. Bloco Sonoro. Artes e Educação Física. O desenvolvimento das atividades foi dividido em trimestres e. Agogô. a oralidade. Platinela.os princípios norteadores afrode Rosa temas levaram Margarida. Clave. a diversidade e a prospecção de ressaltou-lhe o respeito pel reformular o imaginário negativo sobre a cultura negra. fabricados. As musicais atividades percussivos aplicadas com as conjugaram Português. com Maria Candau base nas concepções e Kabengele conjugados dos Munanga. Caxixi. em Vera a brasileiros. os instrumentos Ciências. Tambor de Mão. organização. Ber imbau. Maracá. As aulas foram constituídas de atividades auxiliadas por instrumentos mu sicais percussivos populares e étnicos. Repique. com apoio em estudos s e costumes afro-brasileiros. Surdinho. que permitiu ao citado componente e seus colegas vocadas pertinente a de curso à desconstrução temática sobre o elemento negro.

o meu jeito de andar. O processo avaliativo realizado antes. na sede da Instituição e em escolas da rede pública circunvizinha. mas. com uma de f um Júnior tornou-se empreendedor felicitações. no foi identificado na observação co decorrer e no final do projeto. nas quai s o Officina Affro icas estabelece parceria. auxiliado pela sua esposa e mais adiante. contribuição e rendimento nas atividades individuais habilidades). junto com seu pai. quando tem tempo disponíve l continua assumindo o papel de agente multiplicador nas oficinas de percussão para crianças e pessoas com deficiência. Isto demonstra uma parcela dos resultados adquiridos. o meu jeito de se expressar. acima citada. ilha. passou a gerenciar um pequen o restaurante. no município de Itapecuru -mirim. Fred Júnior (20 aprendizado. eu aprendi muito dentro do Officina Affro . já casado. entrevista. No entanto. instrumento compondo percussivo mús interpreta denominado . e com a alfabetização complementada a loja de no Instituto. que as e se Timbau autoacompanha (tambor 356 ----------------------. Considerando e a grupais (desenvolvimento assiduidade e de partici sobreposição dos aspectos qualitativos pação nas atividades) em relação aos quantitativos. AVALIAÇÃO APLICADA ntínua. RESULTADOS ALCANÇADOS Num dos trechos 07) afirma: ――O meu da (seminário.trimestre era trabalhada uma unidade. por um jove m de credibilidade social fragmentada. considerando a participação em trabalhos. Revelou-se afro-brasileiras. Fred mensagens de hoje.Page 357----------------------tocando um compositor.

a percussão afro-brasileira. percepção de ritmo . enquanto que o ato de educar é tirar de dentro do indivíduo potencial e no seu estado tudo mais aquilo que lá se encontra em rudimentar. Entende-se. ainda difícil para muitas pessoas ditas ―normais .M. com oficina de percussão. cuja tensão é obtida ue é percutido com as mãos). possibilitando resgate e o exercício das potencialidades. CONCLUSÃO Entende-se que a educação é a preparação para a vida. C. A form conhecimentos da música percussiva poderia ser voltada para a obtenção de um efeito únic o com as disciplinas curriculares formais. O Instituto Officina Affro prestou atendimento há 30 jovens da Unidade E scolar Especial Helena Antipoff no ano de 2001/2002. especificamente. domínio rítmico. de formato cilíndrico. que pressupõe um complemento associado ao desenvolvimento das capacidades e habilidades específicas necessárias d o educando. jovens em oficinas realizad Manoel Beckman e na própria sede no bairro do Apeadouro. em 200 5. Sagarana I. assim como. perc e q indivíduo uma autoacompanhar habilidade apurada. já foram atendidos mais de 50 as na U. coberto na extremidade superior por uma pele. Em razão disto. po rque exige o aprimoramento dos componentes psicomotores: coordenação. Nos últimos anos. educacional escolar eficaz. cerca d e 30 jovens com deficiência participaram da oficina de fotografia.E. E. sistemática veiculada de de transmitir forma os interdisciplinar. ussivamente que para necessita um de com uso se de vergalhão de ferro. da preservação dos para a garantia do . considerada como a tônica educacional comp lementar dos a discentes. na sede da entidade. de espaço e de corpo.confeccionado com madeira ou chapa. nas escola s deveriam ser tratadas como prática pedagógica obrigatória. circunstância.

d negada e fortalecendo a autoestima e a identidade étnica. os educand escala. de maneira singul ar. rejeitando a sua identidade étnica. o étnicos. ersais. a negação pelos ritmos e de os outros dentro da escola. em larga alguma religião adversa. estudos afro-brasileiros. orientados pelos 357 ----------------------. nas inst ministrada pelo viés do ―folclore . ns professores. instrumentos consideram barulhentos e fazem uma relação pejorativa com a prática de feitiçaria. princ ipalmente. se negam a participar das oficinas de pe rcussão.639/03. qu e preconiza o ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e Africana. social e regional. as maranhenses haveriam de sentir a necessidade de reformular os seus ensinamentos educacionais . atendimento propondo-se dos seus integrantes às atualizações e a comunidade .Page 358----------------------Salvo era conduzido e de algu discussõe transv sensibilidade tímidas de temas a estimular por intermédio Parâmetros Curriculares Nacionais e atualmente pelo disposto na Lei n  10. associado às influências maléficas e demoníacas. Neste contexto. para africana e a beleza das culturas afro-brasileiras. as escolas públicas e privadas e. zo e Ainda é comum se observar. É ituições de notório que a ensino. distante da obrigatoriedade. com vistas ao e bem como. criando grupos de s pesquisa e percussivas.valores de ascendência espertando assim. se os os gestores pertencerem a afro-brasileiros. anteriormente. ainda cultura seja afro-brasileira que até a praticada então. que despre impre extraídos dos atabaques gnados de preconceitos. carregados de baixa autoestima. pelo medo de gozação e deboche dos colegas. um seguimento. no âmbito da Educação Básica Naci onal. em orquestra geral. que se arriscavam s de Pluralidade Cultural e Questões Etnicorraciais.

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