Você está na página 1de 6

A Invenção do Ser Humano Social

Dr. L. Marshall

O filósofo francês Jean-Jacques Rousseau (1712-1778) foi o pensador que talvez tenha feito, de forma analítica, o melhor retrato teórico da trajetória civilizacional do ser humano. Em seu Discurso sobre a Origem da Desigualdade entre os Homens, em resposta à questão proposta pela Academia de Dijon, Rousseau desenhou um cenário sobre o ambiente primitivo em que vivia o ser humano e o processo de transformação por que este passou após o advento do assim chamado ambiente social. Rousseau dividiu a condição humana em duas perspectivas: o ser natural e o ser social. A primeira é descrita na primeira parte de sua obra e a segunda está reservada para a parte final do trabalho. Nelas, o filósofo faz um exercício de imaginação tentando caracterizar o ambiente e as condições em que vivia o ser natural e qual o fenômeno que teria feito ele se transformar em um ser social, no sentido de ser um habitante de um espaço de interação, controle, coerção e dominação. Para o filósofo francês, o ser humano natural era um ser que vivia o presente, integrado ao espaço e ao tempo da natureza, em estado de harmonia com as condições que o mundo lhe oferecia. Rousseau via o ser natural “saciando-se debaixo de um carvalho, matando a sede no primeiro regato, encontrando o seu leito ao pé da mesma árvore que lhe forneceu o repasto; e eis satisfeitas as suas necessidades” (ROUSSEAU, XXX). Os únicos bens que o ser natural conhecia, suas preocupações imediatas, eram a nutrição, uma fêmea e o repouso. O que lhe perturbava, os únicos males que ele temia, eram a dor e a fome.

Digo a dor, e não a morte; porque jamais o animal saberá o que é morrer; e o conhecimento da morte e dos seus terrores foi uma das primeiras aquisições que o homem fez afastando-se da condição animal. (ROUSSEAU, XXX)

Ao contrário de Thomas Hobbes, que defendia que o homem era o lobo do homem, Rousseau acreditava que o ser humano era naturalmente bom. A razão disto reside no simples fato, para Rousseau, de que o ser humano natural não possuía valores morais coletivos e desconhecia o significado dos conceitos de bem e de mal, do certo e do errado, do belo e do feio etc. O homem primitivo era, enfim, um ser puro, completamente alheio às convenções morais ditadas pelas regras de distinção e poder entre os seres humanos sociais.

Hobbes não viu que a mesma causa que impede os selvagens de usar a razão, como o pretendem os nossos jurisconsultos, impede-os também de abusar das suas faculdades, como ele próprio o pretende; de sorte que se poderia dizer que os selvagens não são maus, precisamente porque não sabem o que é ser bom. Com efeito, não é nem o desenvolvimento das luzes, nem o freio da lei, mas a calma das paixões e a ignorância do vício que os impedem de fazer mal (ROUSSEAU, XXX)

Ademais, para Rousseau, o homem primitivo não era dado nem mesmo às reflexões ascéticas ou metafísicas sobre sua condição e sua natureza. Era um ser sem aptidão ou vocação voltada para as questões do espírito e da mente. Ele chega a dizer que o pensamento reflexivo não era próprio do homem selvagem, e que, se fosse encontrado em algum dos seres naturais, poderia ser considerado uma verdadeira depravação da natureza humana na época.

O espetáculo da natureza torna-se-lhe indiferente à força de se lhe tornar familiar: é sempre a mesma ordem, são sempre as mesmas revoluções; não tem o espírito de se admirar das maiores maravilhas; e não é nele que se deve procurar a filosofia de que o homem tem necessidade para saber observar, uma vez, o que viu todos os dias. Sua alma, que coisa alguma agita, entrega-se ao sentimento único de sua existência atual sem nenhuma idéia do futuro, por mais próximo que possa estar; e seus projetos, limitados como suas vistas, estendem-se apenas até ao fim do dia (ROUSSEAU. XXX)

Para o teórico, a vida do homem selvagem era, portanto, apenas contemplativa, pacífica e rotineira. Se as intempéries ou as necessidades biológicas lhe abatassem, ele tratava de se conduzir a uma outra situação. Ele era dominado apenas pelo instinto e se dedicava a viver ordinariamente cada dia como um dia qualquer. Não tinha ambição, desejo, nem instinto de poder. Quem viesse lhe perturbar a alma, seria tratado com desdém ou desídia. O estado natural acompanhou o homo sapiens natural durante sua trajetória de mais ou menos 100 mil anos 1 .

O aparecimento do ser humano social se dá num momento histórico singular,

onde podemos demarcar o início da sociedade e da civilização. Segundo o Rousseau, este momento acontece quando “o primeiro [homem] que, tendo cercado um terreno, se lembrou de dizer: Isto é meu, e encontrou pessoas bastante simples para o acreditar, foi o verdadeiro fundador da sociedade civil” (ROUSSEAU, XXX).

Quantos crimes, guerras, assassínios, misérias e horrores não teria poupado ao gênero humano aquele que, arrancando as estacas ou tapando os buracos, tivesse gritado aos seus semelhantes: "Livrai-vos de escutar esse impostor; estareis perdidos se esquecerdes que os frutos são de todos, e a terra de ninguém! (ROUSSEAU, XXX).

A mansidão e o estado pacífico da ordem natural dos seres humanos foram

quebrados quando o homem decide demarcar seus bens e tomar posse do espaço de terra em que ele semeou sua produção. Cansado de levantar todos os dias e sair em busca de comida - pela caça ou pela coleta o homem passou a trazer para perto de si os alimentos necessários para sua subsistência. Deste ato instintivo de engenhosidade, mas de preservação, o homem acabou dando início a um incipiente processo de produção

agrícola e pastoril, mas, de quebra, acabou criando a instituição da propriedade privada.

O homem queria facilitar a vida, mas criou o ambiente para o início da

desigualdade entre os próprios homens. Alguns passaram a possuir propriedades privadas e outros não. Alguns passaram a acumular riquezas e outros ficaram à margem deste processo econômico. Alguns passaram a viver de modo confortável e outros tiveram que continuar sua saga diária pela busca da sobrevivência. Nascia assim a desigualdade entre os homens e o próprio ser humano social. A

1 Os autores são divergentes neste período, chegando alguns a imaginar que a história do homo sapiens tenha apenas cerca de 40 mil anos.

propriedade privada, a riqueza, o comércio, a moeda (no princípio, o sal) estabeleceram as bases do que viria a se constituir no regime de diferenciação e estratificação humana característica da coletividade moderna chamada de sociedade. Imediatamente ao processo de criação da propriedade, os que se tornaram proprietários trataram de erigir as leis que protegiam suas posses daqueles que nada possuíam, levantando um muro gigantesco entre os que ‘possuíam e os que não possuíam’ para que estes últimos não invadissem o ‘território’ dos primeiros. Os códigos originais (e o todo direito romano) passaram a estar assentados na defesa e na preservação dos bens e das posses, sejam elas materiais, como alimentos, objetos ou pertences, ou imateriais, como a própria honra, a dignidade e os valores éticos. Ao contrário do ambiente natural, a lei e as regras morais se esparramam pela sociedade, estabelecendo o que se podia e o que não se podia fazer. A lei e a moral se transformaram nas principais armas dos que ‘tinham’ para se defender dos que não ‘tinham’. Nasce deste modelo de sociedade, o próprio processo de casamento, como contrato entre pais para proteger os bens e as posses de cada prole. Nasce, ao mesmo tempo, o conceito de família, a partir da construção de uma moral puritana, que ascendeu uma nova barreira entre os que ‘tinham e os que não tinham’, para que ninguém ultrapassasse o muro social entre os dois estratos. Em síntese, o ser social, para Rousseau, é um ser ambicioso, movido a interesses e vícios, que se apodera dos recursos naturais e estabelece um regime inexpugnável de desigualdade entre os seres humanos. O ser humano natural, naturalmente bom, dá lugar a um ser humano social, naturalmente mau. Na mesma ótica, o ser humano é naturalmente bom, a sociedade é que o deprava. Em uma obra posterior, O Contrato Social, Rousseau viria a defender o retorno do ser humano à sua condição primitiva, a partir da renúncia coletiva dos homens a toda sorte de bens, propriedades e riquezas. Rousseau inscreveu-se eternamente na galeria dos humanistas, pela preocupação em fazer o ser humano retornar ao seu estado de felicidade original. Contudo, Rousseau também passou a ser enquadrado como um sonhador utópico, pela impossibilidade criada pela ‘natureza’ da sociedade em promover este retorno.

A invenção social do ser humano

O homem é um ser social, por excelência. Ele necessita obrigatoriamente da

interação e da convivência com outros homens para se constituir como ser humano.

Somente como um ser integrante de um ambiente coletivo, onde haja o processo natural do aprendizado biológico, da experiência, do reconhecimento, do sentimento de pertença, da irradiação dos signos e dos valores que constituem o ambiente simbólico coletivo, é que se pode falar na condição humana.

O caso histórico de uma criança encontrada nos bosques franceses no século

XVIII reforça esta evidência. Como narraram os historiadores, a criança, com seus seis

ou sete anos de idade, foi encontrada em estado precário, com o comportamento próprio

dos animais selvagens. Ele não falava, apenas grunhia, não era dócil nem sociável, e não

reagia e interagia aos estímulos emitidos pelas pessoas que o abrigaram. Durante anos,

tentou-se domesticar o pequeno animalzinho e transformá-lo em um autêntico ser

humano. Todos os esforços foram em vão. A criança cresceu, tornou-se um adulto, mas

nunca assumiu o comportamento e a postura de um humano civilizado. Permaneceu um selvagem até o fim dos seus dias.

A pergunta que precisamos fazer é porque, afinal, esta criança não assumiu a

condição humana? O que faltou em seu processo de formação para ele viesse a se tornar um ser civilizado?

A explicação reside exatamente no fato de que o pequeno ser nunca vivenciou a

situação da sociabilidade, da intersubjetividade e da alteridade, processos fundamentais para a constituição dos homens. Ele não aprendeu (ou recebeu) as senhas vitais, em cada etapa biológica de seu desenvolvimento, para que adquirisse gradualmente as referências sociais do que é ser e se tornar um humano.

A partir desta infeliz experiência histórica, é certo afirmar que a condição

humana do conhecimento, da comunicação e da inteligência não são inatas. Todos os seres humanos precisam necessariamente do convívio e do estímulo provocado pela troca simbólica para formar sua essência social. Não há e nunca poderá haver, portanto,

ser humano e nem sociedade se não houver o princípio primordial da interação e da interdependência. Neste processo, podemos dizer que o indivíduo e a sociedade estão interligados umbilicalmente. A sociedade não pode ser entendida apenas como uma equação que soma indivíduos, instituições, convenções, crenças, regras e penduricalhos legais. Ao mesmo tempo, o indivíduo não pode ser entendido como o átomo isolado e perdido em meio a uma multidão de seres. A sociedade faz o indivíduo e o indivíduo faz a sociedade 2 .

A humanidade específica do homem e sua socialidade estão inextricavelmente entrelaçadas. O homo sapiens é sempre, e na mesma medida, homo socius (BERGER & LUCKAMNN, 1973, 75).

Indivíduo e sociedade estão entrelaçados por um processo ao mesmo tempo antropológico, sociológico, psicológico, histórico e biológico. A natureza humana

decorre dos estímulos biológicos que fizeram o homo sapiens sapiens se diferenciar dos demais animais pela linguagem, pela comunicação e pela inteligência. Sendo a linguagem uma instituição social, como acertadamente observou Ferdinand Saussure, o conteúdo psicológico (o imaginário) humano nasce do processo sociológico (o simbólico) e retroage permanentemente pelo mesmo caminho. Neste sentido, a tessitura

e o entrelaçamento dos mecanismos biológicos, psicológicos e sociológicos estabelecem

a jornada civilizacional humana (histórica) e explicam, conjunta e contextualmente, o

processo que estrutura a essência dos seres humanos (antropológica). Em síntese, o homem, como indivíduo, é formado pela comunhão dos estímulos imateriais (a ação da cultura simbólica) e da sua inter-relação com a natureza (a ação da cultura material). Sem estes estímulos, o homem seria um ser oco, vazio, desprovido de qualquer elemento simbólico ou cognitivo, a não ser aqueles provenientes dos seus instintos primitivos. O fato, entretanto, é que os estímulos imateriais e materiais (hexógenos) derivam da totalidade de ações individuais (endógenas) que constroem o universo de significações para as criações humanas. Por isso, dizemos que o indivíduo cria a sociedade, mas é criatura dela, ou, em certo sentido, o homem é a sociedade que ele criou. Longe de querermos induzir nossa hermenêutica a uma exegese determinista ou

2 Portanto, olhar o indivíduo sem visualizar a totalidade social ou considerar a sociedade sem compreender suas partículas é um delito acadêmico contra a inteligência.

levantar uma tese reducionista do ser humano, queremos dizer que a química mental, espiritual e orgânica do homo sapiens sapiens deve ser entendida como um movimento que só pode ser compreendida em uma espécie de totalidade ontológica. Sem vermos o que forma as partes, não vemos o todo. Sem vermos o que forma o todo, não vemos as partes. Isto é: sem vermos o movimento dialético, endógeno e hexógeno, centrípeto e centrífugo, instituinte e instituído, da relação indivíduo-sociedade, não podemos compreender nem o indivíduo nem a sociedade. Muitos teóricos, como Ernest Cassirer, Cornelius Castoriadis, Gaston Bachelard, entre tantos outros, já tentaram demonstrar, a partir de ângulos singulares, este processo de formação do homem. As melhores páginas da antropologia, da filosofia e da sociologia estão dedicadas à busca deste entendimento, já que esta proposta reside na interrogação ancestral sobre a própria escatologia humana. Harold Blummer e George Herbert Mead, com a teoria do Interacionismo Simbólico, nos anos 1940, e, mais recentemente, Peter Berger e Thomas Luckmann, com a Teoria da Construção Social da Realidade, a partir do final dos anos 1960, parecem ter sido os teóricos que melhor demonstraram a estrutura operacional deste processo de constituição da natureza humana. Berger e Luckamnn mostram que a interação social, por meio dos signos e símbolos, é a argamassa essencial da natureza dos seres humanos. A tese da Construção Social da Realidade diz, essencialmente que a criação da realidade social é um processo de ‘compartilhamento’ intersubjetivo, de reificação e de interiorização. Os homens criam mentalmente a realidade e passam a aceitá-la como uma factualidade objetiva, independente dos seus poderes criativos e subjetivos.

É importante acentuar que a relação entre o homem, o produtor, e o mundo social, produto dele, é e permanece sendo uma relação dialética, isto é, o homem (evidentemente não o homem isolado, mas em coletividade) e seu mundo social atuam reciprocamente um sobre o outro. O produto reage sobre o produtor. A exteriorização e a objetivação são momentos de um processo dialético contínuo. O terceiro momento deste

é a interiorização (pelo qual o mundo social

processo [

é reintroduzido na consciência no curso da socialização). Cada um deles corresponde a uma caracterização essencial do mundo social. A sociedade é um produto humano. A sociedade é uma realidade objetiva. O homem

é um produto social (BERGER & LUCKMANN, 1973,

87).

]

A tese está assim assentada em três etapas:

1. Exteriorização: criação da realidade pela subjetividade:

A subjetividade humana cria o universo objetivo e subjetivo através da formação

de um mundo de signos. Este universo de signos encobre a natureza como um manto simbólico por meio da linguagem e é transmitido de homem para homem através da comunicação interpessoal. A este manto simbólico chamamos de cultura, a projeção de nossas próprias criações subjetivas para o mundo material ou imaterial.

A exteriorização nasce no indivíduo, mas só se viabiliza mediante o processo de

intersubjetividade coletiva, arena simbólica onde os sujeitos brincam com a imaginação para inventar a realidade total. A interação subjetiva é o que garante que as criações

individuais sejam aceitas e compartilhadas como a realidade.

2. Objetivação: a realidade subjetiva torna-se uma realidade objetiva:

Pela ação criativa e subjetiva humana, o homo sapiens cria um ambiente social como ação mental necessária para instituir uma ordem para a realidade. Por não possuir um ambiente ‘social’ específico, o ser humano precisa ordenar o mundo em que vive. Neste processo de ‘ordenação’, o homem transforma a realidade subjetiva em realidade objetiva, onde ele acaba estruturando processos de institucionalização dos fenômenos da

realidade, fato que significa, na verdade, o processo de dar vida concreta aos processos mentais de criação subjetiva da realidade.

A institucionalização se caracteriza pela manutenção e reprodução da ordem

social por meio dos hábitos, dos costumes e das tradições enraizadas no senso comum. Reproduzindo e aceitando papéis e convenções sociais como já instituídas no mundo, o homem acaba naturalizando a realidade subjetiva como realidade objetiva.

3. Interiorização: a realidade objetiva retroage como realidade subjetiva:

A realidade reificada, transformada em factualidade e objetividade, é apreendida pelos sujeitos sociais como uma realidade imediata, cotidiana e comum, dotada de sentido próprio, muito distante de sua natureza subjetiva e intersubjetiva. O homem deixa de assumir o mundo como uma criação dele próprio e assume a realidade como se fora uma criação de outros. O sujeito entra no processo de socialização instituído pela reificação da realidade.

O primeiro modo é o da socialização primária. Este momento acontece na

infância, quando a criança passa por um processo de codificação do mundo social como

um processo de natureza concreta e categórica. O segundo modo é o da socialização secundária. Acontece na fase adulta, quando o sujeito ‘já socializado’ estende seu processo de ‘aprendizado’ da realidade objetiva a esferas mais desenvolvidas dos ‘códigos’ instituídos do mundo social.