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A Linguagem visual: um guia para navegantes de primeiras paisagens

A composição: é o ato de estruturar os elementos que constituem uma imagem. Para Vassily Kandynski o ponto, a linha e a superfície eram os elementos constituintes da linguagem plástica (para nós, visual). Tudo na fotografia 1 pode ser visto como formado por pontos, linhas e superfícies que, organizadas nos dão, dentre outras, a impressão de que existe profundidade nesta superfície bidimensional que é a imagem em questão. A fotografia 1 é uma imagem figurativa, e os pontos, as linhas e as superfícies que a constituem formam figuras. À estruturação destes elementos (pontos, linhas e superfícies) é que se da o nome de composição da imagem.

Fotografia n ? 1: Henri Cartier-Breson - Florence , Itália.

Enquadrar : não confundir nunca com "mirar". O fotógrafo é, por vezes, considerado um caçador de imagens, mas isto não significa que ele deva mirar, ou seja, colocar o aspecto central do seu tema no centro do quadro.

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o fotógrafo pode centralizar o modelo ou a parte mais importante do assunto. uma em cada mão. Os pés estão cortados da maneira menos apropriada. é uma opção de enquadramento que só ajuda a agravar a má composição e enquadramento da imagem. Isto.2 É o que acontece na fotografia abaixo mas não é o caso da fotografia à direita: Fotografia n? 2 fotografo amador. do deslocamento do personagem. O menino desliza faceiro e sorridente. o que na maioria das situações não é interessante para a composição da imagem. O contrário acontece na fotografia de Henri Cartier-Bresson. desejando. O equilíbrio da condução do olhar por meio dos "erros" de enquadramento fazem coro à descontração e leveza da cena. se sobrepõe à linha formada pela quina da parede ao fundo. Ele carrega duas garrafas de vinho. 1978 Fotografia n? 3: Henri Cartier-Bresson O enquadramento da fotografia n? 2 é típico do leigo: assunto principal (ser humano) centralizado em primeiro plano. tronco e cabeça coincide. Paisagem ao fundo e uma quantidade de espaço desnecessária e inconveniente acima da cabeça do modelo. 2 . neste caso. talvez com o próprio fato de estar sendo fotografado. parecendo orgulhoso com algo. mas a tensão que este corte cria é compensada pela quantidade de massa que sobra no "teto" (parte superior) da foto. Mas neste caso. onde os "erros" se articulam criando um novo tipo de equilíbrio e harmonia. da pior forma. É certo que não existe proibição quanto ao enquadramento do estilo "mira". A linha formada por suas pernas. sem falar nos pés cortados que. A foto está inclinada em um ângulo indeciso. a tensão criada por estas incertezas da composição abrem um diálogo com a fragilidade e a leveza da cena.

qual seria o sentido do seu movimento? Horizontal? Vertical? Diagonal? Qual das duas diagonais? De acordo com pesquisas realizadas pelos psicólogos da Gestalt (psicologia da forma). não é este o caso.3 Em alguns casos este é o diferencial. na maioria das fotografias que olhamos nos álbuns de família. mas. Onde colocar os objetos no quadro? Observe o quadro abaixo. Imagine: se o ponto preto estivesse em movimento. no início do século XX. mas mudando sempre o ponto preto de lugar: 3 . a maioria das pessoas entrevistadas escolheu o seguinte sentido diagonal: Em seguida os psicólogos da Gestalt fizeram a mesma pergunta.

Se os ângulos atraem o nosso olhar e o centro também.4 Chegaram então à conclusão de que em um quadrado branco. ao colocarmos um ponto entre os dois criamos uma espécie de linha invisível que conduz o olhar na diagonal. então. existem "forças perceptivas" atuando. As imagens que trabalham com diagonais são dinâmicas. mesmo quando este está vazio. 4 . a nossa antenção visual sofreria a atração de determinadas localidades do quadrado branco. Estas regiões que teriam este poder de atrair os olhos seriam os ângulos. O nosso olhar. o centro. e a cruz formada pela horizontal e pela vertical.

5 Linguagem Visual? É para comer ou para colar na parede? Como no caso da linguagem verbal.. Point ligne plan (1926).diferentes matizes de cinza branco). ao redigir. Os elementos: dos tratados pedagógicos da Bauhaus e de alguns outros redigidos posteriormente. combinando e compondo os diversos elementos. objeto etc. formas mais complexas. A partir de uma leitura de tratados pedagógicos da Bauhaus e de outros escritos posteriormente. articulamos verbos.] uma lista implícita de elementos que são os comuns a toda dimensão plástica" (AUMONT. o melhor é recorrer aos trabalhos empíricos dos artistas. Quais são os elementos da linguagem visual? Na linguagem verbal. 1995. períodos extensos ou curtos. No aprendizado da linguagem visual os princípios são semelhantes. bordas. Em um guia de dicas rápidas para redação podemos ver as seguintes instruções: frases curtas. a partir desses elementos simples. 1995. à questão da superfície. p. parágrafos curtos. na linguagem visual. a escolha de uma articulação simples entre os elementos. Para Aumont. A cor . apontam para a simplicidade. Aumont extrai "[. (AUMONT. uso preferencial do singular etc. substantivos e adjetivos em suas funções sintáticas de sujeito. p. às encarnações 5 . cor. 267). Assim Kandinsky dedica todo um livro. 267).. quais são os elementos? Jacques Aumont considera que a questão de uma gramática da imagem (imagem plástica) é tão complexa que a grande maioria das tentativas teóricas até hoje empreendidas não obtiveram resultados nem ao menos razoáveis. As estruturas: o trabalho do artista plástico consiste em fabricar. Podemos usar. escolhemos períodos simples ou compostos etc. A gama dos valores (preto . o uso de elementos simples. Essa breve lista coincide de maneira impressionante com a dos elementos da percepção visual: luminosidade. Mas os elementos são outros. pode-se tirar uma lista implícita de elementos que são os comuns a toda dimensão plástica: ? ? ? A superfície da imagem e as gradações do corte dessa superfície em elementos mais ou menos finos [ponto e linha]. E na linguagem visual. o iniciante deve sempre optar pela simplicidade: o uso de poucos elementos. também fornecida como uma gama contínua (cujo paradigma é o arco iris).

a impressão é de que hoje há um levantamento do domínio plástico. que não representam porém uma grande contribuição. mais geralmente. Atribuímos acima (cf. para retomar o título de um livro do pintor e escultor Matila Ghyka. e na maioria das vezes bastante vaga. 1995. da superfície pintada. sem que com isso se tenha chegado a uma abordagem verdadeiramente teórica. como superfície organizada. embora mais exata. de que se conhecem algumas categorias fundamentais. na linha ou em uma porção de superfície. a reflexão permanece empírica. Em resumo. geometricamente harmoniosa.2) a composição às funções do quadro. No entanto.] A estruturação: enfim. dúzias de análises mais ou menos convincentes. a reflexão sobre o domínio plástico leva a isolar o momento do trabalho sobre os elementos para fabricar uma estrutura. Trata-se agora de insistir na concepção tradicional dessa estruturação"(Aumont. (Aumont. e às relações mútuas entre estas três entidades. 1. continua a tratar valores plásticos como pertencentes ao domínio do inefável.269). ou. capítulo 3. Diversos pintores. p. 1995. Mesmo uma obra de síntese. da imagem. [. p. p. da superfície da tela (ou. Essa idéia suscitou. do que se chama suporte)... no papel da pincelada. 1995. neste ponto.267) composição: “Este trabalho de estruturação que acabamos de evocar é o que se designa tradicionalmente como composição da obra. inúmeros artigos e obras. haveria uma Estética das proporções na natureza e nas artes. o momento da estruturação ativa do material. insistem assim no papel da mão que traça e coloca a tinta. destinadas a provar que este ou aquele quadro é construído segundo proporções geométricas simples e alguns chegaram até a fornecer modelos de alcance “universal” de recorte do retângulo do quadrado de acordo com proporções “harmoniosas”.” (Aumont. estruturada. como a de René Passeron (1962). de intuito teórico. Esthétique des proportions dans la nature et dans les arts (1927). em textos como os de Vasarey. em seus escritos.6 desse valor plástico fudamental no ponto. A composição seria a arte das proporções. desde o início do século. encontram-se entre outras. Composição e geometria: uma idéia difundida e sempre reforçada por análises de quadros clássicos pretende que a composição seja antes de tudo uma questão de divisão.269) 6 . por exemplo. A tendência à gramaticalização da abordagem empírica foi ainda ressaltada.

geloneze. o exemplo mais conhecido com certeza. Assim como o "pi". dá uma relação de 1. fazer da soma total dos termos da proporção anterior o segundo termo da proporção que se está gerando. que é a simetria.foi tema de preocupação do famoso geômetra grego Euclides. etc. ou golden ratio. 7 .0618" (RIBEIRO. A partir da primeira proporção. (AUMONT. ou ainda divina proporção. A imagem . obtem-se a segunda e assim por diante. é fácil verificar.com.7 Regra de ouro: Neste ponto Aumont passa a falar da conhecida “secção de ouro” como um exemplo de procedimento para este tipo de abordagem.br ) sobre a razão áurea:: Neto A Famosa Razão Áurea: a razão áurea. 8:13. 3:5. primeira grande obra de geometria. "A regra de ouro tem como módulo a proporção matemática ? 1. 151-156. o que.Jaques. que é assim constituída: 1:1. 2:3. 1:2.269). A secção de ouro é representada aritmeticamente pela série de Fibonacci1. 1993. Os gregos e os egípcios usaram a razão áurea para projetar seus "edifícios" e monumentos. Sabe-se hoje que existe uma ligação entre a razão áurea e a série de Fibonacci. É por isto que Aumont define a secção de ouro como sendo a “relação entre duas dimensões na qual ‘uma está para a outra assim como esta está para a soma das duas’(em termos matemáticos: a/b = b/(a+b). 618 _ chamado ‘número de ouro’_ entre os lados”. e cientistas. 21: 34.hpg. Saiba mais sobre a razão áurea na Revista Galileu Dezembro/2000 Ed. Milton.263. Artistas como Leonardo da Vinci e George Seurat usaram a razão áurea para fazer suas pinturas. 151) Vejamos agora o que nos diz Antônio Geloneze ( www. 13: 21. Brasília: Linha. 1995. Globo - 1 AUMONT. Esses artistas e arquitetos descobriram que utilizando a relação 1: (fi). em seguida. Planejamento visual gráfico. Para isto basta considerar como primeiro termo da próxima proporção o último da anterior e. 1993. estão descobrindo muitas aplicações da razão áurea na matemática e na natureza. p. p. autor de Os Elementos. Ver também: RIBEIRO. poderiam criar um sentimento de ordem em seus trabalhos. Ainda hoje há artistas usando a divina proporção em seus trabalhos. p. como Roger Penrose. 5:8. o número "fi" (razão áurea) é um número irracional.

8 Templos Egípcios 8 .

sendo que um brotoleva dois meses para produzir o seu primeiro broto. eles.9 Apesar das teorias da Gestalt terem caído em descrédito no âmbito da psicologia. Suponhamos que nasça um novo broto de um galho a cada mês. 9 . devido aos avanços das neurociências. juntamente com as "forças perceptivas" invisíveis do centro e dos ângulos. alguns de seus princípios aplicados ao trabalho com imagens e seus fundamentos filosóficos acabam por mantê-la em uso até o presente. afinal. A experiência acima referida que identifica as "forças perceptivas" do quadrado. Certas plantas mostram os números de Fibonacci no crescimento de seus galhos. Não é em vão que os antigos consideravam estes pontos do retângulo como os mais indicados para colocarmos nossos elementos. formam diagonais. Os pontos áureos do retângulo áureo ficam em uma posição bastante semelhante às dos pontos da experiência da Gestalt. tornando a percepção da imagem mais dinâmica. que vieram colocar abaixo alguns postulados vitais da psicologia da forma (Gestalt). coincidem com os postulados matemáticos dos antigos.

Este aspecto geométrico da composição é conseqüência de uma série de fatores. as duas.10 Mas nem só de razão áurea (divinas proporções. secção áurea etc) vive a composição de uma imagem. com as duas vasilhas com as quais os meninos pegam água. consideradas na simetria que formam. mas as cabeças. Na imagem abaixo partes do corpo humano sugerem ou até chegam a formar figuras geométricas. são figuras bem aproximadas de circunferências. o ângulo de tomada (Câmara alta ou plongée ) Foto: Sandro Alves (1988-92) 10 . As costas dos meninos se aproximam de retângulos. dentre eles.