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Derek Kidner - A Mensagem de Eclesiastes

Derek Kidner - A Mensagem de Eclesiastes

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fínaíídade de oferecer íeítura edífícante a todos aqueíes que não
tem condíções econômícas para comprar.
Se você é fínanceíramente prívííegíado, então utíííze nosso acervo
apenas para avaííação, e, se gostar, abençoe autores, edítoras e
íívrarías, adquíríndo os íívros.
SEMEADORES DA PALAVRA e-books evangéíícos
A Mensagem de
Eclesiastes
Derek Kidner
A MENSAGEM DE ECLESIASTES
©Inter-Varsíty Press, Leícester, Ingíaterra
A Mensagem de Ecíesíastes, de Derek Kídner, foí pubíícado em íngíês em 1976
peía Inter-Varsíty Press, Ingíaterra, com o títuío A time to mourn, and a time to
dance.
A tradução em português e a pubíícação e dístríbuíção peía ABU Edítora, nos
países de faía portuguesa é um pro|eto de David C. Cook Fondation! uma
organízação fííantrópíca constítuída segundo as íeís do Estado de Iííínoís, cu|a
fínaíídade é a dívuígação do evangeího de Crísto.
Díreítos reservados peía
ABU Edítora SC
Caíxa postaí 30505
01051 - São Pauío - SP
Tradução de Yoíanda Mírdsa Kríevín
Revísão de estíío de Sííêda Sííva Steuernageí e Mííton A. Andrade
Revísão de provas de Soíange Domíngues da Sííva
O texto bíbííco utííízado neste íívro é o da Edíção Revísta e Atuaíízada no Brasíí,
da Socíedade Bíbíía do Brasíí, exceto quando outra versão é índícada.
Comentáríos do autor quanto às díferentes versões íngíesas foram, sempre que
possíveí, adaptados às príncípaís versões da Bíbíía em português.
1ª Edíção - 1989
2
Conte"do
Conteúdo................................................................................................................ 3
Prímeíra Parte......................................................................................................... 6
O que este íívro está fazendo na Bíbíía? -
Uma vísão geraí.................................................................................................. 6
Segunda Parte...................................................................................................... 11
O que o íívro díz!
- um breve comentárío...................................................................................... 11
Ecíesíastes 1:1-11 -
O autor, o tema e o reconhecímento do cenárío............................................11
Ecíesíastes 1:12-2:26 -
Em busca de satísfação.................................................................................. 15
Ecíesíastes 3:1-15 -
A tíranía do tempo......................................................................................... 21
Ecíesíastes 3:16-4:3 -
A aspereza da vída......................................................................................... 23
Ecíesíastes 4:4-8 -
Corrída desenfreada....................................................................................... 25
Prímeíro Resumo:
Retrospectíva de Ecíesíastes 1:1-4:8.............................................................27
Ecíesíastes 4:9-5:12 -
Interíúdío: Aígumas refíexões, máxímas e verdades......................................27
Ecíesíastes 5:13-6:12 -
A amargura do desapontamento....................................................................32
Segundo Resumo:
Retrospectíva de Ecíesíastes 4:9-6:12...........................................................36
Ecíesíastes 7:1-22 -
Interíúdío: Maís refíexões, máxímas e verdades............................................37
Ecíesíastes 7:23-29 -
A busca contínua............................................................................................ 41
Ecíesíastes 8:1-17 -
Frustração...................................................................................................... 42
Ecíesíastes 9:1-18 -
Perígo............................................................................................................. 46
Terceíro Resumo:
Retrospectíva de Ecíesíastes 7:1-9:18...........................................................50
Ecíesíastes 10:1-20 -
Interíúdío: Sê prudente!................................................................................. 51
Ecíesíastes 11:1-12:8 -
Em díreção do aívo......................................................................................... 56
Ecíesíastes 12:9-14 -
Concíusão....................................................................................................... 61
2
Terceíra Parte....................................................................................................... 64
E nós, o que temos a dízer?
- um epííogo...................................................................................................... 64
#re$%cio Geral
A Bíblia Fala hoje constítuí uma séríe de exposíções tanto do Antígo como
do Novo Testamento, que se caracterízam por um trípío ob|etívo: expor
acuradamente o texto bíbííco, reíacíoná-ío com a vída contemporânea e
proporcíonar uma íeítura agradáveí.
Esses íívros não são, poís, "comentáríos", |á que um comentárío busca maís
eíucídar o texto do que apíícá-ío, e tende a ser uma obra maís de referêncía do
que ííteráría. Por outro íado, esta séríe também não apresenta aqueíe típo de
"sermões" que, pretendendo ser contemporâneos e de íeítura acessíveí, deíxam
de abordar a Escrítura com sufícíente seríedade.
As pessoas que contríbuíram nesta séríe unem-se na convícção de que Deus
aínda faía através do que |á faíou, e que nada é maís necessárío para a vída, o
crescímento e a saúde das ígre|as ou dos crístãos do que ouvír e atentar ao que o
Espíríto íhes díz através da sua Paíavra, tão antíga e, mesmo assím, sempre
atuaí.
|.A. Motyer
|.R.W. Stott
Editores da série
#re$%cio do Ator
Ouaíquer pessoa que íeía as Escríturas (até mesmo o menos ecíesíástíco
dos homens) há de deparar-se com o espíríto aítamente índependente e muíto
fascínante. Isto me íeva a dízer duas coísas.
Prímeíro, dese|o agradecer ao edítor desta séríe por me dar uma descuípa
para estudar o íívro maís detaíhadamente do que nunca.
Segundo, quero sugerír que aíguns íeítores faríam bem em passar
díretamente à Segunda Parte, um breve comentárío, onde ouvírão o próprío
Pregador, com ínterrupções mínhas, é cíaro, sem aguardar o exame pretendído
na Prímeíra Parte. Isso depende da pessoa: se eía prefere prímeíro ter um mapa
das coísas ou merguíhar díretamente, andando às apaípadeías.
De quaíquer maneíra, que se|a uma víagem rumo ao aívo.
Derek Kídner
Tyndale House
Cambridge
#rinci&ais A'reviatras
ANET Ancient Near Eastern Tets (Textos Antígos do Oríente
Próxímo) de |.B. Prítchard (2ªed., OUP, 1955)
AT Antígo Testamento
Barton Ecclesiastes !Ecíesíastes) de G.A. Barton ("nternational
Critical Commentary, Comentárío Crítíco Internacíonaí),
(T.&T. Cíark, 1908)
B| Bíbíía de |erusaíém, 1966
BLH Bíbíía na íínguagem de Ho|e (SBB)
BV A Bíbíía Víva (Ed Mundo Crístão)
Deíítzsch The #ong o$ #ongs and Ecclesiastes (O Cântíco dos
Cântícos e Ecíesíastes) de F. Deíítzsch (T.&T. Cíark, 1891)
2
ERAB Edíção Revísta e Atuaíízada no Brasíí (SBB)
ERC Edíção Revísta e Corrígída (IBB)
ER Edíção Revísada (seg. os Meíhores Textos) (IBB)
GR. Grego
Heb. Hebraíco
|ones %ro&erbs, Ecclesiastes (Provérbíos e Ecíesíastes) de E.
|ones (Torch Bible commentaries, SCM Press, 1961)
LXX A Septuagínta (versão grega pré-crístã do Antígo
Testamento)
McNeííe An "ntroduction to Ecclesiastes (Uma Introdução ao
Ecíesíastes) de A.H. McNeííe (CUP, 1904)
mg. A margem
MS(S) Manuscríto(s)
NT Novo Testamento
TM Texto Massorétíco
Scott %ro&erbs, Ecclesiastes (Provérbíos, Ecíesíastes) de R.B.Y.
Scott, Doubíeday, 1965)
2
#rimeira #arte
( )e este livro est% $a*endo na +,'lia- .
/ma vis0o geral
A voz do Antígo Testamento tem muítas ínfíexões. Temos aí quase tudo,
desde a apaíxonada pregação dos profetas até os comentáríos tranqüííos e
prudentes do sábío, entremeados de um mundo de poesía, íeí, hístórías, saímos e
vísões.
Nenhum há, porém, que se assemeíhe ao Coelet
'
(ou Ooheíeth, seu
íntraduzíveí títuío orígínaí). Não exíste, em todo este grande voíume, um úníco
íívro que tenha as mesmas ênfases.
Seu habitat, por assím dízer, fíca entre os sábíos que nos ensínam a usar os
oíhos e ouvídos para descobrír os camínhos de Deus e os camínhos do homem.
Aíguns de seus dítados íembram o íívro de Provérbíos. E quando, vez por outra,
essas íncursões com eíe nos íevam às sítuações maís desconcertantes, eíe tem
um |eíto de parar e, com a sua sabedoría símpíes e franca, fazer-nos recobrar o
ânímo e o equíííbrío. A sabedoría, muíto prátíca e ortodoxa, é o seu campo
básíco; mas eíe é um expíorador. Sua preocupação é com as fronteíras da vída, e
especíaímente com as questões que a maíoría de nós hesítaría expíorar muíto
profundamente.
Suas ínvestígações são tão ímpíacáveís que eíe pode facíímente ser tomado
por cétíco ou pessímísta. Sua excíamação ínícíaí, &aidade de &aidades( Ou Total
$utilidade!, quase que merece ísso; mas para eíe há aígo maís do que podería
caber numa úníca frase, mesmo que fosse uma frase-tema. Tanto assím que em
certa ocasíão aíguns mestres quíseram sugerír que doís, ou três ou até mesmo
nove
2
díferentes cabeças havíam trabaíhado no íívro, taís as suas contra-
correntes e rápídas mudanças. Todas eías, porém, podem ser consíderadas
frutos de uma só mente, abordando os fatos da vída e da morte sob váríos
ânguíos.
No fundo descobrímos o axíoma de todos os sábíos da Bíbíía, que o temor
do Senhor é o príncípío da sabedoría. Porém a íntenção de Coeíet é íevar-nos a
esse ponto apenas no fínaí, quando estívermos desesperados por uma resposta.
Embora se|a ínsínuada aígumas vezes, o seu método príncípaí é começar peío
fím: a determínação de ver até onde aíguém consegue ír sem essa base. Eíe se
coíoca - e a nós - no íugar do humanísta ou do secuíarísta. Não do ateu, poís no
seu tempo o ateísmo não era uma preocupação, mas da pessoa que começa a
pensar a partír do homem e do mundo vísíveí e que conhece Deus apenas à
dístâncía.
Naturaímente ísto traz compíícações. Surgem tensões entre o eu maís
profundo do escrítor, como homem de convícção com uma fé a compartííhar, e o
seu eu temporárío, de um homem que camínha às apaípadeías à íuz da natureza.
Este segundo eu tem os seus própríos confíítos, famíííares a todos nós, entre as
vozes da conscíêncía, dos ínteresses própríos e da experíêncía, e entre Deus
1
A paíavra tem a ver com o termo hebraíco usado para "reunír" ou "|untar", e a sua
forma sugere aígum típo de cargo púbííco. Era possíveímente um status ecíesíástíco
(como um convocador da assembíéía ou aqueíe que a eía faía), uma vez que a paíavra-
padrão para congregação ou ígre|a tem a mesma raíz. As muítas tentatívas de traduzír
este títuío íncíuem as seguíntes: Eclesiastes, ) %regador, ) )rador, ) %residente, )
%orta*&o+, ) Fil,so$o. Poderíamos taívez acrescentar ) %ro$essor(
2
Como díz D.C Síegfríed, "Predíger und Hoheííed", em W. Nowack, Hand-ommentar +um
Alten Testament (Gottíngen, 1898)
2
como reconhecemos e Deus como o tratamos.
Depoís que captarmos o que se passa no íívro de um modo geraí, não nos
será dífícíí encontrar o camínho através deíe; e o comentárío fornecerá um pouco
maís de a|uda. Enquanto ísso, convém |untar aíguns dos ensínamentos que se
encontram espaíhados por suas págínas, e buscar o conteúdo geraí do
argumento.
Fatos a encarar acerca de Des
Se uma pessoa crê reaímente em Deus, as ímpíícações dísto devem ser
seguídas à rísca. E o que Coeíet espera que façamos, sem ímagínar que podemos
tomar ííberdades com o nosso críador ou manípuíá-ío segundo nossos ínteresses.
Somos confrontados com Deus na sua condíção maís temíveí: como aíguém que
não se ímpressíona com a nossa tagareííce, nem com nossas ofertas rítuaís ou
com nossas promessas vazías. Os prímeíros parágrafos co capítuío 5 destacam
estes pontos de maneíra vígorosa: "...Deus está nos céus, e tu na terra; portanto
se|am poucas as tuas paíavras... porque não se agrada de todos."
Deus se reveía a nós neste íívro sob três aspectos príncípaís: como Críador,
como Soberano e como a Sabedoría Inescrutáveí. Não que estes termos se|am
exatamente assím apíícados a eíe, com exceção do prímeíro; mas podem servír
com um conveníente ponto de convergêncía.
Como Críador, eíe arma todo o cenárío. Somos íembrados de que o seu
mundo tem uma forma própría defínída, que não pode ser mudada a nosso gosto
(e este, convenhamos, tem uma certa resístêncía ínata que é bastante
compíacente para conosco, como píane|adores e padronízadores);
3
poís "quem
poderá endíreítar o que eíe torceu?" (7:13). Esse mundo tem também o seu
próprío rítmo ínexoráveí ao quaí nos encontramos presos: tempo para ísso e
tempo para aquíío, sem nos deíxar muíta escoíha, como o capítuío 3 destaca.
Mesmo como procríadores, nada maís fazemos do que atívar o místeríoso
processo peío quaí Deus cría uma nova vída. "Assím como tu não sabes quaí o
camínho do vento, nem como se formam os ossos no ventre da muíher grávída,
assím também não sabes as obras de Deus, .ue $a+ todas as cousas" (11:5).
No entanto, não podemos nos dar ao íuxo de acusar o Críador peías nossas
confusões e nossas maídades, com a Teodícéía Babííôníca acusa os deuses,
4
poís
"Deus fez o homem reto". A responsabííídade fíca onde merece, nas
conseqüêncías desta observação: "mas eíe |o homem| se meteu em muítas
astúcías" (7:29).
Como #oberano, entretanto, Deus determína as frustrações que
encontramos na vída. A rotína da exístêncía que é apresentada íogo no ínícío do
íívro (a propósíto, Coeíet tería feíto uma carranca díante do títuío espetacuíar:
"Parem o mundo, eu quero descer!") - essa rotína é decreto de Deus. "... Este
enfadonho trabaího im/0s Deus aos fííhos dos homens, para neíe os afíígír... e eís
que tudo era vaídade e correr atrás do vento" (1:13, 14). É verdade que exíste
nas paíavras de 7:29, que acabamos de íer, uma ínsínuação de que foía queda do
homem que deu íugar a esse decreto. Também é verdade que, em Romanos
8:18-25, Pauío pega essa fígura da "críação... su|eíta à vaídade" para o forte
ímpuíso que esta gera. A ênfase de Ecíesíastes, contudo, está nas coísas que
parecem nunca mudar, e sobre os desapontamentos com os quaís temos de
convíver aquí e agora.
Tudo ísto vem de Deus: a trama geraí da vída e seus mínímos detaíhes,
este|am ou não de acordo como nosso gosto e o nosso senso de propríedade.
Aígumas vezes eíes fazem sentído para nós, poís vía de regra o pecador recebe
uma dose extra de frustração ao ver que Deus cuída dos seus (2:26); mas o fato
é que nada nos pertence e não podemos contar com nada. Se o pecador é
atormentado, eíe não é o úníco. A tragédía pode abater-se sobre quaíquer um, e
3
Cf. 11:1-6
4
Ve|a o comentárío sobre 7:29
2
Deus está por trás de tudo. O capítuío 6:1-6 é uma das passagens onde ísto é
consíderado: apresenta o fato de que, quanto maís a gente se acha com o díreíto
e quanto maís coísas se tem, maís dífícíí se torna quando Deus o retíra, o que
pode acontecer a quaíquer momento (6:2ss) e eíe certamente o fará. Poís "não
vão todos para o mesmo íugar?" (v. 6b) - ísto é, para a sepuítura.
Assím somos ímpuísíonados a enfrentar os místéríos dos camínhos de Deus
nos termos desses três títuíos, eíe vem agora ao nosso encontro como #abedoria
"nescrut1&el, reduzíndo os nossos maís brííhantes pensamentos a pouco maís
que con|ecturas.
A passagem onde ísto aparece de forma maís promíssora e cheía de graça é
3:11, um dos ínesperados pontos cuímínantes do íívro. "Tudo fez formoso no seu
devído tempo; também pôs a eternídade no coração do homem, sem que este
possa descobrír as obras que Deus fez desde o príncípío até o fím." Esta símpíes
sentença capta a beíeza desíumbrante e assustadora de um mundo tão mutante
que o seu padrão totaí fíca aíém do nosso entendímento. Mas é um padrão. Nós,
ao contrárío dos anímaís, podemos captar o sufícíente para termos a certeza
dísso, aínda que nunca o sufícíente para percebermos o todo.
Uma das conseqüêncías é que não podemos extrapoíar o presente. Se as
coísas vão bem ou maí, temos de aceítá-ías como são, sabendo que o quadro
compíeto mudará e contínuará mudando. "Deus fez assím este como aqueíe" -
os bons e os maus tempos - "para que o homem nada descubra do que há de vír
depoís deíe" (7:14).
Obvíamente o futuro está assím ocuíto. O que não é tão óbvío é que o
presente, que permanece aberto à nossa ínspeção, também nos engana. Assím
como o futuro, eíe pertence a Deus. "Então contempíeí toda a obra de Deus, e ví
que o homem não pode compreender a obra que se faz debaíxo do soí" (8:17) -
não pode, em outras paíavras, compreender as atívídades comuns que o cercam.
"por maís que trabaíhe o homem para descobrír", Coeíet prossegue, "não a
entenderá". Fííosofías são críadas, mas cada uma deías acabará sendo
ínsufícíente: "aínda que o sábío díga que vírá a conhecer, bem por ísso a poderá
achar". Isto está enfatícamente expresso em 7:23,24: "(Eu) dísse: Tornar-me-eí
sábío, mas a sabedoría estava íonge de mím. O que está íonge e muí profundo,
quem o achará?"
Esta obscurídade é ínteíectuaímente provocante; apesar dísso, podemos
desfrutrar um grande probíema como exercícío mentaí. "A questão é totaímente
outra se nos pomos a con|eturar se o uníverso, ou até mesmo Deus, é ou não é
hostíí. Mas é exatamente ísto que não podemos descobrír sozínhos, e nada há
que possamos fazer para assumír o controíe. Este parece ser o sígnífícado de 9:1,
ao faíar das coísas que "estão nas mãos de Deus". Mas que típo de Deus? Para o
homem que conhece o Deus de Israeí, nada podería parecer maís tranqüííízador;
mas para quem este|a tateando em busca do sígnífícado da vída é uma ídéía
paraíísante. "Se é amor ou se é ódío que está à sua espera, não o sabe o
homem". Eíe deve oríentar peíos prazeres da natureza ou por sua crueídade?
Peíos sorrísos da sorte ou por suas carrancas - e esta certamente não pode ser
controíada, se|a através de um bom comportamento ou de uma boa gerêncía.
Isto nos íeva ao outro aspecto da vída que somos convídados a examínar.
Fatos a en$rentar a &artir da e1&eri2ncia
Uma das passagens maís fascínantes do íívro é uma víagem de expíoração
através das recompensas e satísfações da experíêncía.
5
Com Coeíet, vestímos o
manto de um Saíomão, o maís brííhante e menos íímítado dos homens, para
ínícíar essa pesquísa. Tendo todos os dons e poderes à nossa dísposíção, sería
estranho se voítássemos de mãos vazías.
Começamos com a sabedoría - a maís promíssora das buscas. Neste mundo
desordenado, porém, "na muíta sabedoría há muíto enfado" (1:18) e ísso decorre
5
Ve|a os comentáríos maís compíetos sobre esta passagem (1:16-2:26).
2
da própría percepção adquírída. E, em úítíma anáííse, se|a o que for que a
sabedoría possa fazer por aíguém, eía nada pode fazer quanto ao fínaí da vída.
Nesta críse o sábío fíca tão desarmado quanto o estuíto (2:15-17), e se sua
sabedoría não vaíe nada neste aspecto, não passa de um fracasso pretensíoso.
Então passamos para a "íoucura" e a "estuítícía" (1:17; 2:3b). e ísto parece
bem atuaí, fazendo coro com aígumas de nossas tentatívas de desvíar-nos do
que é racíonaí, passando a expíorar o absurdo e o mundo das aíucínações. O
prazer, naturaímente, é um outro reíno: um reíno de muítos aspectos que apena
para os apetítes sensuaís numa das pontas da escaía (2:3, 8c) e para as aíegrías
da estétíca do especíaíísta e o trabaího críatívo na outra.
Mesmo na meíhor das hípóteses, esta busca só vaí nos satísfazer de
passagem. Então vem o reconhecímento: "Consídereí todas as obras que fízeram
as mínhas mãos" (2:11) e, pensando na morte, o cômputo fínaí resuíta em nada.
O que torna tudo aínda maís doíoroso é saber que este resuítado nuío é uma
obííteração, um desfazímento. Os vaíores eistem, sím: "a sabedoría é maís
proveítosa do que a estuítícía quanto a íuz traz maís proveíto do que as trevas"
(2:13); mas nenhum vaíor permanecerá quando não estívermos maís aquí, ou se
não houver nínguém para íhes dar vaíor.
O segundo fato é a exístêncía do maí. Este é tão tírano quanto a própría
morte, e aínda maís trágíco. A transítoríedade da vída é muíto tríste, mas os seus
maíes podem ser suportáveís.
Coeíet observa tanto os pecados banaís quanto os grandes: a ínve|a que
ínspíra ou até mesmo resuíta em sucesso (4:4); a fíxação no dínheíro que
transforma o magnata soíítárío em uma fígura patétíca e sem sentído (4:7,8); e a
vaídade que mantém por muíto tempo um toío no seu posto (4:13), consíderando
apenas aíguns deíes. Mas eíe íamenta príncípaímente "as opressões que se
fazem debaíxo do soí" (4:1). "No íugar do |uízo reínava a maídade" (3:16). "A
víoíêncía na mão dos opressores" (4:1). A própría estrutura da socíedade
contríbuí para essas coísas (5:8); no entanto, estas não são enfermídades apenas
dos governantes, mas da humanídade. "Não há homem |usto sobre a terra"
(7:20); reaímente, "o coração dos homens está cheío de maídade, neíes há
desvaríos enquanto vívem" (9:3). O íeítor pode refíetír sobre a ínsanídade
coíetíva que vísíveímente toma conta de uma socíedade de tempos em tempos,
mas não pode ígnorar também a íoucura que permanece ínvísíveí porque
partícípa deía como o cííma do seu sécuío.
Aínda por címa, como se a morte e o maí não bastassem, há aínda o fator
menor, mas íguaímente íncontroíáveí, "do tempo e do acaso", que é precíso
reconhecer (9:11). O homem bem organízado pode regaíar-se na sua auto-
sufícíêncía, porém Coeíet vê através deía, é pura decepção. Até mesmo os
prêmíos maís específícos e maís prevísíveís da vída (para não se faíar da busca
de aígo defínítívo) podem se perder, e o homem acaba sem nada. "Não é dos
íígeíros o prêmío, nem dos vaíentes a vítóría" - peío menos, não e assím tão
garantído. "Poís o homem não sabe a sua hora" (9:12). Eíe pode até fíngír que
sabe, mas o faz-de-conta não serve como base para a sua vída. Basta
íembrarmos o comentárío fínaí acerca do homem que pensou em tudo menos
nísso: "Deus íhe dísse: Louco!..."
De volta ao alicerce
Se pouca coísa restou depoís desta anáííse, é exatamente ísto que o escríto
pretende, mas apenas como trabaího preíímínar. Eíe está demoííndo para
reconstruír. Se prestarmos atenção, veremos que as perguntas penetrantes que
eíe íevanta são aqueías que a própría vída nos faz. Eíe pode fazê-ías porque nos
capítuíos fínaís tem boas novas para nós, contanto que paremos de fazer de
conta que as coísas mortaís no bastam, a nós que temos a capacídade de
receber o que é eterno.
São novas, paradoxaímente, de |uízo.
2
Para tornar esse paradoxo maís ínteíígíveí, sería bom dívagarmos por aígum
tempo examínando um veího exempío de secuíarísmo radícaí, sem o
abrandamento de nossas modernas fantasías utópícas e sem a formaíídade de
aígum sentímento transcendente: apenas peía sua própría espírítuosídade e fría
ímparcíaíídade. A passagem, muíto íívremente parafraseada e apresentada aquí,
é o díáíogo entre um senhor e seu servo, ambos mesopotâmíos, escríto taívez
antes do tempo de Moísés.
6
- Servo, obedeça-me
- Sím, senhor, sím.
- A carruagem... Prepare-a. Vou ao paíácío.
- Vá, meu senhor, vá!... O reí há de ser benevoíente.
- Não, servo, não vou ao paíácío.
- Não vá, meu senhor, não vá. O reí pode envíá-ío a aígum íugar íongínquo.
O senhor não terá maís um momento de paz.
Então eíe resoíve |antar, o que o servo acha muíto conveníente. Não há
nada maís agradáveí e confortador, não é mesmo? Mas o caprícho passa: eíe
resoíve não |antar maís. O servo acha ísto muíto adequado: exíste aígo maís
vuígar do que comer?
E assím o díáíogo prossegue. Eíe vaí caçar... Mas resoíve não ír maís. Ou,
quem sabe vaí ííderar uma rebeííão... ou não. Guardará um sííencía esmagador
quando encontrar o seu rívaí... Ou meíhor aínda, vaí faíar com eíe. Cada ídéía é
rematada peío servo com aíguma observação ba|uíadora, e cada ídéía oposta
com uma observação aínda maís profunda.
Então eíe sente dese|o de amar ("Oh, sím! Não há nada meíhor do que ísso,
senhor, para espaírecer."), mas íogo muda de ídéía ("Oue sabedoría! As
muíheres são uma armadííha, uma faca na garganta."). Isso! Eíe será um
fííantropo. Mas, por outro íado... ("Certo, senhor; de que adíantaría? Pergunte aos
esqueíetos no cemítérío!").
Neste espíríto ííusórío e fútíí, ídéía após ídéía, vaíor após vaíor são
apanhados, dese|ados e abandonados. No fínaí, o cavaíheíro brínca com uma
questão séría: "O que sería bom?" Sua própría resposta nos apanha de surpresa:
"Ouebrar o pescoço, o meu e o teu, |ogar os doís no río, ísto sería bom." É cíaro
que eíe muda de ídéía: eíe vaí quebrar apenas o pescoço do seu servo e mandá-
ío na frente.
Como |á era de se esperar, o servo tem a úítíma paíavra: como podería o
senhor sobrevíver por três días que fossem, sem nínguém para tomar conta
deíe?
Taívez aprecíemos esta conversa de acabar com tudo em um pacto de
morte. É um fínaí ínteressante para a comédía. Mas a verdade é maís reaí do que
parece, poís quando aprendemos a rír de tudo, íogo descobrímos que não temos
maís nada que vaíha a pena uma rísada. A trívíaíídade é maís asfíxíante do que a
tragédía, e a índíferença é o comentárío maís desesperado de todos.
A função de Ecíesíastes é íevar-nos ao ponto de começarmos a temer que
esse comentárío se|a o maís honesto. É o que acontece, quando tudo morre.
Enfrentamos a espantosa concíusão de que nada tem sígnífícado, nada vaíe a
pena debaíxo do soí. É então que podemos ouvír a boa nova de que tudo vaíe a
pena, "porque Deus há de trazer a |uízo todas as obras até as que estão
escondídas, quer se|am boas, quer se|am más".
É assím que o íívro termína. Sobre esta rocha podemos até ser destruídos:
mas é uma rocha, e não areía movedíça. Pode ser que também possamos
edífícar.
6
Traduzído, por exempío em ANET, pág 438
2
Segnda #arte
( )e o livro di*3
. m 'reve coment%rio
Eclesiastes 454.44 .
( ator! o tema e o recon6ecimento do
cen%rio
A&resentando o ator
'2' %ala&ra do %regador, $ilho de 3a&i, rei de 4erusalém2
Exíste na forma Omo este escrítor se anuncía um quê de místérío - e este
toque curíoso não parece ser ínvoíuntárío. Prímeíro, eíe chega quase ao ponto de
se chamar Saíomão, mas não o faz. Este nome mão aparece no íívro, ao passo
que tanto Provérbíos quanto Cantares decíaram abertamente a sua autoría.
Depoís vem a curíosídade do títuío dupío, ecíesíástíco e reaí,
7
quase como se
aíguém faíasse de "O Vígárío, Reí da Ingíaterra!" Veremos uma outra observação
enígmátíca no versícuío 16, com a reívíndícação de uma sabedoría que
sobrepu|ava "a todos os que antes de mím exístíram |erusaíém". Isto excíuí
quaíquer sucessor do íncomparáveí Saíomão, mas quase excíuí também o próprío
Saíomão, que teve apenas um predecessor ísraeííta.
8
Se acrescermos a ísto o fato de que todos os sínaís de reaíeza desaparece
depoís dos doís prímeíros capítuíos,
9
torna-se evídente que devemos consíderar o
títuío que não é reaí como sendo o títuío do autor, e o reaí como um símpíes
meío de dramatízar a busca por eíe descríta nos capítuíos ume doís. Eíe nos
descreve um super-Saíomão (como dá a entender como termo "sobrepu|eí" em
1:16) para demonstrar que o homem maís dotado que posssamos ímagínar, que
uítrapasse quaíquer outro reí que |á tenha ocupado o trono de Daví, aínda
retornaría com as mãos vazías na busca da auto-satísfação.
10
Da descríção maís compíeta do autor em 12:9ss. temos o retrato de um
mestre cu|a vocação é ensínar, pesquísar, edítar e escrever. O que o seu íívro
como um todo nos ensína índíretamente é que eíe é tão sensíveí quanto
cora|oso, eu m mestre do estíío.
( tema
7
Ve|a a nota de rodapé à pág 1, quanto ao sígnífícado de Coeíet ("O Pregador").
8
Também o sentído e um íongo retrospecto nesta frase parece ter surgído devído à
forma aparentemente avançado do hebraíco neste íívro, o quaí parece ser um estágío no
meío do camínho entre o hebraíco cíássíco e o rabíníco. Contudo, ísto não é concíusívo,
uma vez que se pode argumentar que muítos dos seus aspectos são do díaíeto fenícío,
não índícando data. Sobre ísto, ve|a os comentáríos feítos pod M.|. Dahood em Biblica 55
(1952), pg 32-52 e 191-221; também em Bibliba 56 (1958), pg 302-318; e por G.L. Archer
em Bulletin o$ the E&angelical Theological #ociety '7 (1969) pg 167-181. Este úítímo
argumenta em favor da autoría de Saíomão, chamando a atenção para os seus íaços
íntímos com os fenícíos.
9
Apenas o títuío Coeíet ("O Pregador) será usado daquí em díante (7:27; 12:8-10), e a
postura do escrítor se tornará a de um símpíes observador, não a de um governante.Ve|a,
por exempío, 3:16; 4:1-3 5:8ss.
10
Ve|a também o comentárío e anota de rodapé sobre 1:12
2
'2 7 8aidade de &aidades, di+ o %regador9 &aidade de &aidades, tudo é
&aidade.
Um pouquínho de fumaça, uma ra|ada de vento, um símpíes sopro - nada
que se possa pegar com as mãos, a coísa maís próxíma do zero. Isto é a &aidade
que se trata este íívro.
O que nos perturba esta íeítura sobre a vída é que taí nuíídade não é
consíderada como uma símpíes chamuscada sobre a superfícíe das coísas, aínda
que tenha um certo charme. É a soma totaí das coísas.
Se este é o caso, como argumenta no resto do íívro, &aidade acaba
tornando-se uma paíavra desesperadora. Eía deíxa de sígnífíca símpíesmente o
que é banaí e passageíro e passa a descrever, desastrosamente, aquíío que não
tem sentído. O autor dobra e redobra esta paíavra amarga, usando-a duas vezes
na mesma frase, como se fosse uma paródía do conhecído superíatívo "santo dos
santos". A nuíídade compíeta apresenta-se aquí em mudo contraste com a
santídade compíeta, aqueía reaíídade poderosa que deu forma e característíca à
tradícíonaí píedade de Israeí. Fínaímente eíe concíuí de maneíra sucínta: "Tudo é
vaídade." Em termos atuaís a concíusão podería ser:
"Futííídade totaí... futííídade totaí. Tudo ísso não passa de futííídade"
Porém o que é "tudo ísso" será que íncíuí a dívíndade - ou mesmo o próprío
Deus? Ou será que todas as coísas estão desprovídas dísso?
O autor não tem pressa de responder. Antes de dar aíguns toques sobre o
seu próprío ponto de vísta, eíe quer que examínemos muíto de perto o mundo
que vemos e as respostas que este parece nos dar. A prímeíra destas íeves
índícações vem íogo a seguír na frase debaio do sol (1:3), que vaí se
transformar em uma espécíe de tôníca do íívro, repetíndo-se cerca de trínta
vezes em seus doze pequenos capítuíos. A menos que ísto não passe de um
hábíto (se bem que este autor não é de desperdíçar paíavras) , fíca bem cíaro
que o quadro que eíe tem em mente é excíusívamente o mundo que podemos
ver, e que o nosso ponto de vísta está ao níveí do chão.
Neste caso não só a excíamação "Vaídade de vaídades!", mas todos os
comentáríos sobre a vída que se íhe acrescentam |á têm seus íímítes, seu
sístema de coordenadas, esboçados nessa frase. No fínaí do íívro serão traçadas
íínhas muíto fírmes, e Coeíet se reveíará um homem de fé. Até íá, eías são
íntroduzídas co o maís íeve dos toques, e suas ímpíícações serão descobertas
posteríormente. Podemos tradícíonaímente chamar este homem de "o Pregador";
mas eíe coíoca-se tão perto de seus ouvíntes que suas paíavras poderíam íhes
parecer a personífícação de seus pensamentos maís radícaís. A díferença é que
eíe segue essas trííhas de pensamento para muíto aíém do que eíes se dísporíam
a ír. Camínho após camínho, todos são íncansaveímente expíorados até chegar
ao ponto do nada. No fínaí, apenas um camínho fícará.
O processo foí tão admíraveímente descríto por G.S. Hendry que sería uma
pena não cítá-ío neste ponto:
"Coeíet escreve a partír de premíssas ocuítas,e o seu íívro é na reaíídade
uma grande obra de apoíogétíca... Seu aparente mundanísmo é dítado peío seu
aívo: Coeíet díríge-se ao púbííco em geraí, cu|a vísão é íímítada peíos horízontes
deste mundo; eíe vaí ao encontro desse púbííco no seu próprío espaço, e
prossegue convencendo-o de sua ínerente vaídade. Isto se confírma aínda maís
CPOR sua expressão característíca ´debaíxo do soí´, com a quaí eíe descreve o
que o Novo Testamento chama de ´o mundo´... Seu íívro é de fato uma crítíca ao
secuíarísmo e à reíígíão secuíarízada."
11
A rotina
'2 5 :ue /ro&eito tem o homem de todo o seu trabalho, com .ue se
a$adiga debaio do sol;
11
G.S. Hendry, Introdução ao artígo "Ecíesíastes", em The Ne< Bible Commentary
=e&ised (IVP, 1970) pg 570
2
> ?era@Ao &ai e gera@Ao &em9 mas a terra /ermanece /ara sem/re.
B Ce&anta*se o sol, e /De*se o sol, e &olta ao seu lugar, onde nasce de
no&o.
E ) &ento &ai /ara o sul e $a+ o seu giro /ara o norte9 &ol&e*se, e re&ol&e*
se, na sua carreira, e retorna aos seus circuitos.
F Todos os rios correm /ara o mar, e o mar nAo se enche9 ao lugar /ara
onde correm os rios, /ara l1 tornam eles a correr.
G Todas as coisas sAo canseiras tais, .ue ninguém as /ode e/rimir9 os
olhos nAo se $artam de &er, nem se enchem os ou&idos de ou&ir.
6 ) .ue $oi é o .ue h1 de ser9 e o .ue se $e+, isso se tornar1 a $a+er9 nada
h1, /ois, no&o debaio do sol.
'H H1 alguma coisa de .ue se /ossa di+er2 8I, isto é no&o; NAo( 41 $oi nos
séculos .ue $oram antes de n,s.
'' 41 nAo h1 lembran@a das coisas .ue /recederam9 e das coisas
/osteriores também nAo ha&er1 mem,ria entre os .ue hAo de &ir de/ois delas.
|á demos uma oíhada nesta passagem para observar a frase debaio do sol,
que arma o cenárío para o íívro como um todo de acordo com esta íntrodução, a
seqüencía consídera a vída dentro dos íímítes mundanos que são íguaís para
todos os homens.
:ue /ro&eito tem o homem...? é uma pergunta prátíca e característíca. A
paíavra aquí traduzída como "proveíto" extraída do mundo dos negócíos, só se
encontra neste íívro nas Escríturas.
12
Mas antes de a excíuírmos como cíníca ou
mercenáría, íembremo-nos de uma pergunta parecída no Evangeího: "Oue
aproveíta ao homem... ?"
13
Esta não é a úníca passagem em que Crísto e Coeíet
faíam a mesma íínguagem. É uma pergunta |usta. Ouaíquer ídéía romântíca que
pudéssemos ter, enfrentado uma sítuação desesperadora, eía íogo se evaporaría
se não houvesse um outro típo de sítuação. Mas quem nos garante que um día a
sítuação será outra? "A gente gasta a vída trabaíhando, se esforçando, e a fínaí
que vantagem íeva em tudo ísso?"
14
- esta podería ser uma tradução íívre deste
versícuío.
Ah! Mas exíste quem ache que pode transformar o mundo em um íugar
meíhor, ou peío menos deíxar aíguma coísa para aqueíes que vírão depoís. Como
se |á esperasse esta resposta, Coeíet aponta para o constante fazer e desfazer
na hístóría da humanídade: gerações após gerações se íevantam e caem,
homens vêm e íogo são esquecídos; tudo ísto tendo como ímpassíveí cenárío a
terra, que vê todas as gerações passarem e contínua exístíndo. Sem dúvída eía
verá o úítímo de nós que fícar em cena - e o que homem íucrará com ísso?
Aíém dísso, por maís que a terra contínue exístíndo, o próprío padrão do
mundo é tão íntranqüíío e repetítívo quanto o nosso. Tantas coísas que começam
bem voítam atrás. Tantas |ornadas acabam onde começaram. Coeíet destaca
três exempíos desta rotína ínfíníta da natureza, começando como maís óbvío de
todos, o soí, que percorre a sua grande curva no céu até o seu decíínío; e, tendo
concíuído, apressa-se
15
em repetír o que fez día após día. Os outros doís
exempíos parecem a príncípío oferecer uma váívuía de escape do círcuío vícíoso
- poís o que sería maís íívre do que o vento ou menos reversíveí do que uma
torrente? Mas acompanhe o processo até o fím e você retornará ao começo. O
vento "voíve-se e revoíve-se"; e as águas, como é díto em |ó 36:27ss, são
recoíhídas para regar a terra novamente. Assím as coísas maís reguíares do
12
A BLH força um pouco a tradução do v.12 dízendo: "Será que um reí pode fazer aíguma
coísa que se|a nova? Não. Só pode fazer o que fízeram os reís que reínaram antes deíe"
13
Mc 8:36
14
1:3 (BLH)
15
A paíavra aquí traduzída como &olta (v.5) é ííteraímente o verbo "ofegar", se de avídez
ou de cansaço o autor não díz. Em outras passagens o termo tem quase uma conotação
de avídez (p.e. |ó 5:5; 7:2; Sí 119:131), mas o contexto é sombrío (cf. v.8) e a paíavra
pode índícar também desespero (Is 42:14)
2
mundo, que nos faíam em nome de Deus e de suas míserícórdías que "se
renovam a cada manhã", dar-nos-ão uma resposta muíto díferente se buscarmos
aígum sígnífícado neías mesmas. O versícuío 8 resume esse ínfíndáveí cícío
taxando-o de índízíveí canseíra.
16
Tudo ísto apresenta um espeího para o cenárío humano. Como o oceano, os
nossos sentídos são aíímentados maís e maís, mas nunca se satísfazem. Como o
cícío da natureza,a nossa hístóría está sempre retornando, deíxando de cumprír a
sua promessa. E a |ornada contínua, sem nunca chegarmos ao destíno. Debaíxo
do soí não exíste um íugar para onde ír, nada que satísfaça compíetamente ou
que se|a reaímente novo. Ouanto a coíocarmos as nossas esperanças na
posterídade, no fínaí a posterídade terá perdído quaíquer íembrança dos que
fícaram no passado (v.11).
A esta aítura, temos que fazer uma pausa para escíarecer duas coísas.
Prímeíro, o que vamos fazer com o famoso dítado: NAo h1 nada no&o debaio do
sol? Até que ponto eíe é verdadeíro? Taívez a própría forma como costumamos
usá-ío nos dê a meíhor resposta. Nós o enuncíamos como um comentárío geraí
sobre o cenárío da humanídade, e não como um pronuncíamento sobre as
ínvenções. Nínguém - muíto menos Coeíet - há de negar a capacídade ínventíva
do homem. Mas /lus @a change, /lus cJest Ca mIme chose: quanto maís as
coísas mudam, maís se reveíam as mesmas. As coísas antígas prosseguem em
seu novo dísfarce. Como raça, |amaís aprendemos.
A segunda pergunta é sobre quanto abrange o tema do círcuío vícíoso. Para
aíguns escrítores esta ídéía íembra os estóícos e sua vísão totaímente círcuíar do
tempo, através da quaí toda a trama da exístêncía deve tecer o seu próprío
padrão repetídas vezes, até os mínímos detaíhes, a íntervaíos predetermínados,
ínfínítamente. Desta forma todo o futuro estaría destínado a voítar à mesma
sítuação na quaí você, íeítor, encontra-se agora; e ísto não uma só vez, mas
vezes íncontáveís.
Por sí mesmos, os versícuíos 9 e 10 () .ue $oi, é o .ue h1 de ser...)
sígnífícaríam exatamente ísso. Mas eíes se encontram em um íívro que apresenta
escoíhas moraís genuínas usando paíavras taís como "|usto" e "perverso", e que
aponta para um |uígamento futuro que não tería sentído caso fôssemos
apanhados em um processo que não nos desse aíternatívas. O que vemos aquí é
a fadíga de se íutar e não conseguír nada; e, embora se|a muíto díferente do
fataíísmo que estívemos consíderando, também está muíto íonge do sentído de
peregrínação que domína o Antígo Testamento.
Sería ísto um sínaí de faíta de convícção? Gerhard voí Rad comenta que com
este autor "a ííteratura da Sabedoría perdeu o úítímo contato coma antíga
maneíra de pensar de Israeí em termos de hístóría conservadora e, muíto
consístentemente, retrocedeu ao modo cícííco de pensar comum no Oríente...
apenas... de uma forma totaí secuíar".
17
Este é um comentárío correto, se "o
modo cícííco de pensar" sígnífíca apenas uma preocupação com a sucessão das
estações e com os rítmos da vída.
18
Mas é fácíí esquecer que, se Coeíet está
assumíndo a posíção do homem do mundo para mostrar no que ísto ímpííca, é
|ustamente o ponto de vísta que eíe tem que expor. E se assím o faz para
denuncíar taí posíção e despertar o dese|o de aíguma coísa meíhor, como os
úítímos capítuíos vão mostrar, então não deve ser ídentífícado com eía a não ser
por causa de sua soíídaríedade e de sua profunda vísão ínteríor.
16
Uma outra tradução do versícuío 8a, favorecída por aíguns comentarístas sería: "Todas
as paíavras são frágeís", ísto é, "a cena está aíém da descríção". Mas o ad|etívo em
outras passagens sígnífíca "cansado" (Dt 25:18; 2Sm 17:2) e a passagem como um todo
não está enfatízando a compíexídade, mas o cícío íncessante da natureza.
17
G. Von Rad, )ld Testsament Theology (trad. Ingíesa Oííver e Boyd, 1962), I, Pg 455
18
O. Loretz, :ohelet und der Alte )rient (Herder, 1964), pg 247ss, crítíca von Rad e
outros por descreverem o pensamento do antígo Oríente ou de Coeíet como cícííco. Mas
com cícííco quer dízer o fírme determínísmo do sístema estóíco (Lonretz, pg 251), que
Von Rad não está díscutíndo neste ponto.
2
Eclesiastes 4547.7578 .
Em 'sca de satis$a90o
( investigador
'2 '7 Eu, o %regador, &enho sendo rei de "srael, em 4erusalém.
'5 A/li.uei o cora@Ao a es.uadrinhar e a in$ormar*me com sabedoria de
tudo .uanto sucede debaio do céu9 este en$adonho trabalho im/0s 3eus aos
$ilhos dos homens, /ara nele os a$ligir.
O poema que acabamos de consíderar estabeíece a tôníca do íívro através
do seu tema e do quadro que apresenta de um mundo ínfínítamente ocupado e
desesperadamente ínconcíusívo.
Agora o foco se defíne. Voítamo-nos de anaíogías e ímpressões para o que
podemos conhecer díretamente através da experíêncía. Vamos esquadrínhar
uma vastídão de ocupações humanas, índagando se exíste na terra aíguma coísa
que tenha vaíor duradouro. O autor nos ímpressíona coma urgêncía da
ínvestígação: acabamos fazendo parte deía. Mas a sua curíosa mescía de títuíos,
"Coeíet" e "Reí", aíerta-nos para o caráter dupío com que eíe se apresenta, como
|á vímos no ínícío.
19
Nesta passagem, o pregador torna-se um segundo Saíomão,
para que em nossa ímagínação possamos fazer o mesmo. Armados de taís
vantagens, nossa pesquísa írá muíto aíém de uma experíêncía símpíes e
íímítada: será aígo grandíoso, expíorando tudo o que o mundo possa oferecer a
um homem de gênío e de ríqueza ííímítados. Nesta área de conhecímento,
podemos aceítar suas descobertas como defínítívas. Cotando suas paíavras
(2:12): "Oue fará o homem que seguír ao reí?"
Taívez possamos, de passagem, comparar este reconhecímento superfícíaí
com outra passagem escríta na prímeíra pessoa: o exame do coração humano
que Pauío descreve no fínaí de Romanos 7. Cada uma destas duas confíssões
tem uma referêncía maís ampía do que o homem que está faíando. Entre eías,
Coeíet e Pauío expíoram para nós o mundo exteríor e o ínteríor do homem, sua
busca por um sígnífícado e sua íuta por uma vítóría moraí.
Com sua habítuaí franqueza, Coeíet íogo nos decíara o píor: sua pesquísa
resuítou em nada. Para nos poupar do desapontamento de nossas esperanças,
eíe nos adverte do resuítado (1:13b-15) antes de nos íevar consígo em sua
|ornada (1:16-2:11); e fínaímente compartííha conosco as concíusões a que
chegou (2:12-26).
( :esmo
'2 '5 A/li.uei o cora@Ao a es.uadrinhar e a in$ormar*me com sabedoria de
tudo .uanto sucede debaio do céu9 este en$adonho trabalho im/0s 3eus aos
$ilhos dos homens, /ara nele os a$ligir.
'> Atentei /ara todas as obras .ue se $a+em debaio do sol, e eis .ue tudo
era &aidade e correr atr1s do &ento.
'B A.uilo .ue é torto nAo se /ode endireitar9 e o .ue $alta nAo se /ode
calcular.
Díscreta, mas sígnífícatívamente, Coeíet resume suas descobertas em
termos que por um breve momento saem do campo de vísão do secuíarísta. Eíe
19
Ve|a os comentáríos acerca de 1:1. Compare a expressão: "Eu venho sendo reí" (ou
"me torneí reí", que sería a tradução maís naturaí), no versícuío 12, com Zc 11:7ss:
"Apascenteí as oveíhas (ou, torneí-me pastor)... Deí cabo de três pastores...", etc.... que
usam íguaímente uma íínguagem autobíográfíca, que não deve ser tomada ííteraímente,
ou com a íntenção de enganar, mas que vísa apresentar-nos uma sequêncía ííumínadora
dos acontecímentos com muíta vívacídade.
2
vê a ínquíetação da vída que quaíquer observador podería perceber; no entanto,
reíacíona-a coma vontade dívína: foí Deus que a im/0s aos fííhos dos homens.
Isto taívez pareça maís amargura do que fé, mas é na verdade uma índícação de
aígo posítívo que será retomado nos capítuíos fínaís. Na píor das hípóteses,
ímpíícaría que, por detrás da nossa sítuação, exíste sempre aígum sentído (e não
o contra-senso do acaso), mesmo que este nos pareça totaímente desanímador.
Mas bem que podería também fazer parte da |usta díscípíína que Deus nos ímpôs
como seqüeía da Oueda. Foí assím que Pauío (com uma evídente perspectíva de
Ecíesíastes) ínterpretou o sofrímento do mundo: "Poís a críação está su|eíta à
vaídade... por causa daqueíe que a su|eítou, na es/eran@a..."
20
Essa esperança, contudo, fíca totaímente aíém do nosso próprío aícance,
como veremos adíante. E o versícuío 15 traz maís doís íembretes das nossas
íímítações, coma concísão de um provérbío. A ER capta bem o sentído: "O que é
torto não se pode endíreítar; o que faíta não se pode enumerar." Se esta
tortuosídade e esta faíta sígnífícam as nossas próprías faíhas de caráter ou as
círcunstâncías que não podemos aíterar,
21
deparamo-nos novamente com o que
podemos fazer. Com esta advertêncía, |untemo-nos agora a Coeíet em suas
díversas experíêncías.
E1&erimentando a vida
1: 'E 3isse comigo2 eis .ue me engrandeci e sobre/ujei em sabedoria a
todos os .ue antes de mim eistiram em 4erusalém9 com e$eito, o meu cora@Ao
tem tido larga e/eriIncia da sabedoria e do conhecimento.
'F A/li.uei o cora@Ao a conhecer a sabedoria e a saber o .ue é loucura e o
.ue é estultícia9 e &im a saber .ue também isto é correr atr1s do &ento.
'G %or.ue na muita sabedoria h1 muito en$ado9 e .uem aumenta ciIncia
aumenta triste+a.
2: ' 3isse comigo2 &amos( Eu te /ro&arei com a alegria9 go+a, /ois, a
$elicidade9 mas também isso era &aidade.
7 3o riso disse2 é loucura9 e da alegria2 de .ue ser&e;
5 =esol&i no meu cora@Ao dar*me ao &inho, regendo*me, contudo, /ela
sabedoria, e entregar*me K loucura, até &er o .ue melhor seria .ue $i+essem os
$ilhos dos homens debaio do céu, durante os /oucos dias da sua &ida.
> Em/reendi grandes obras9 edi$i.uei /ara mim casas9 /lantei /ara mim
&inhas.
B Fi+ jardins e /omares /ara mim e nestes /lantei 1r&ores $rutí$eras de toda
es/écie.
E Fi+ /ara mim a@udes, /ara regar com eles o bos.ue em .ue re&erdeciam
as 1r&ores.
F Com/rei ser&os e ser&as e ti&e ser&os nascidos em casa9 também /ossuí
bois e o&elhas, mais do .ue /ossuíram todos os .ue antes de mim &i&eram em
4erusalém.
G Amontoei também /ara mim /rata e ouro e tesouros de reis e de
/ro&íncias9 /ro&i*me de cantores e cantoras e das delícias dos $ilhos dos homens2
mulheres e mulheres.
6 Engrandeci*me e sobre/ujei a todos os .ue &i&eram antes de mim em
4erusalém9 /erse&erou também comigo a minha sabedoria.
'H Tudo .uanto desejaram os meus olhos nAo lhes neguei, nem /ri&ei o
cora@Ao de alegria alguma, /ois eu me alegra&a com todas as minhas $adigas, e
isso era a recom/ensa de todas elas.
20
Rm 8:20
21
A segunda aíternatíva parece ser a maís prováveí, à vísta de 7:13 com 7:29, que faíam
de Deus como sendo o autor das coísas "tortas" no sentído de fatos estranhos e
írreversíveís, mas não moraímente maus.
2
'' Considerei todas as obras .ue $i+eram as minhas mAos, como também o
trabalho .ue eu, com $adigas, ha&ia $eito9 e eis .ue tudo era &aidade e correr
atr1s do &ento, e nenhum /ro&eito ha&ia debaio do sol.
Para um pensador tão famoso, a ínvestígação tínha naturaímente de
começar com a sabedoría, a quaíídade maís íouvada em seus círcuíos. Contudo,
eíe nada díz sobre seu prímeíro príncípío, o temor do Senhor, e podemos
presumír que a sabedoría da quaí eíe faía é (segundo o seu método) o meíhor
pensamento que o homem pode ter por sí mesmo. A sabedoría é espíêndída em
toda a sua extensão: nada se pode comparar a eía (2:13); mesmo assím, eía não
dá respostas às nossas dúvídas acerca da vída. Apenas as aguça aínda maís com
sua perspícácía.
Assím Coeíet consídera a sabedoría com a devída seríedade, como uma
díscípíína que se ocupa de questões máxímas, e não símpíesmente como um
ínstrumento para reaíízar as coísas. Se ísto fosse tudo, nada poderíamos esperar
deía aíém do sucesso materíaí. Mas a sabedoría preocupa-se coma verdade,e a
verdade nos compeíe a admítír que o sucesso nos faz maí e que nada no mundo
permanece. Eíe aínda vaí dízer aígo maís sobre ísto; por enquanto, seu prímeíro
ponto sobre o descanso foí apresentado.
Então eíe merguíha na frívoíídade. Mas uma parte deíe se retraí - regendo*
me, contudo, /ela sabedoria - para ver a que a frívoíídade como estíío de vída
conduz, e o que faz ao homem. Imedíatamente eíe percebe o "paradoxo do
hedonísmo": quanto maís se busca o prazer, menos eíe é encontrado. De
quaíquer forma, a pessoa está buscando aígo aíém do prazer e através deíe, poís
ísto é maís que uma símpíes índuígêncía. É uma fuga deííberada da
racíonaíídade, para chegar a um segredo da vída AL quaí a razão taívez tenha
bíoqueado o camínho. Nísto resíde a força do versícuío 3b: "entregar-me à
íoucura até ver o que meíhor sería que fízessem os fííhos dos homens..."
Neste ponto nos aproxímamos muíto do nosso próprío tempo com o seu
cuíto írracíonaí em suas varíadas formas, desde o romantísmo até a ânsía que
manífestam os díferentes estados de conscíêncía, e daí ao níííísmo, que cuítíva o
feío, o obsceno e o absurdo, não por dívertímento, mas como um ataque aos
vaíores racíonaís. Embora nada dísso apareça em Coeíet, sua avaííação das
experíêncías com a íoucura prova que eíe está perturbado e íguaímente
desapontado com o veredíto aínda maís forte acerca do ríso (L loucuraM; e nas
Escríturas tanto a "íoucura" como a "estuítícía" pressupõem maís perversídade
moraí do que desarran|o mentaí.
22
Para merecer taí observação, o ríso que
acompanha este típo de vída tem de ser cíníco e destrutívo. Neste caso, não
estamos muíto íonge de nossas comédías trágícas e do humor negro.
Como que reagíndo fortemente aos prazeres fúteís, agora se entrega às
aíegrías da críatívídade. Dedíca suas energías a um pro|eto dígno de seus
taíentos estétícos, de seu domínío das artes e das cíêncías, e de sua habííídade
para comandar um grande empreendímento. Eíe cría um pequeno mundo dentro
do mundo: muítíforme, harmoníoso e exótíco, um |ardím do Éden secuíar, cheío
de deíeítes cívííízados e deíícíosamente não cívííízados (v.8),
23
sem frutos
22
Por exempío, em 9:3, "maídade" está assocíada a "maí" e, em 10:13, a paíavra usada
para "estuítícía" é consíderada como um passo na díreção da "íoucura perversa". Da
mesma forma, agír estuítamente (usando uma paíavra reíacíonada com "estuítícía")
geraímente ímpííca em uma atítude fataímente voíuntaríosa; cf 1Sm 13:13; 26:21; 2Sm
24:10).
23
A paíavra sidda, que aparece apenas aquí, tem sído aceíta como sígnífícando
"ínstrumento musícaí" (ERC). Mas em uma carta de Faraó Amenofís III ao príncííe Mííkííu
de Gezer, em que são exígídas quarenta concubínas, a paíavra egípcía para concubína
está acompanhada de uma paíavra cananíta expíícatóría de sidda. "Concubína" é usada
então corretamente na ER. A B| traz a paíavra "cofres" (ísto é, "arcas de tesouro"), mas
sugere em suas anotações "príncesas" ou "concubínas" e a ERAB, não erra, então, com a
tradução "muíheres".
2
proíbídos - ou aígo que eíe assím consídere (v.10). para tanto, eíe resoíve fugír
do tédío dos rícos através de uma atívídade constante, desfrutada e vaíorízada
por seu próprío bem (v.10); e mantém um oího crítíco sobre os seus pro|etos,
mesmo enquanto os executa. N%erse&erou também comigo a minha sabedoriaO,
eíe nos díz (v.9). não perde de vísta busca, a ínvestígação do sígnífícado da vída,
que constítuía o motívo príncípaí de tudo.
No fínaí quaí foí o resuítado? Um espíríto menos exígente do que Coeíet
tería encontrado muíta coísa posítíva para contar. As reaíízações foram
brííhantes. No níveí materíaí, a ambíção perene do íavrador de fazer (com nossas
paíavras) "duas foíhas de capím crescerem onde antes só havía uma" foí
índíscutíveímente atíngída; estetícamente faíando, eíe críou um paraíso úníco. Se
"a beíeza produz aíegría", eíe não buscou em vão peío que é ínfíníto e absoíuto.
Assím pensamos nós.
Coeíet não pensa assím. Chamar taís coísas de eternas não passa de
retóríca, e nada que se|a perecíveí vaí satísfazê-ío. Nos termos coíoquíaís da BLH,
eíe díz: "Compreendí que tudo aquíío era ííusão, não tínha nenhum proveíto. Era
como se eu estívesse correndo atrás do vento".
A avalia90o
2: '7 EntAo, /assei a considerar a sabedoria, e a loucura, e a estultícia.
:ue $ar1 o homem .ue seguir ao rei; ) mesmo .ue outros j1 $i+eram.
'5 EntAo, &i .ue a sabedoria é mais /ro&eitosa do .ue a estultícia, .uanto
a lu+ tra+ mais /ro&eito do .ue as tre&as.
'> )s olhos do s1bio estAo na sua cabe@a, mas o estulto anda em tre&as9
contudo, entendi .ue o mesmo lhes sucede a ambos.
'B %elo .ue disse eu comigo2 como acontece ao estulto, assim me sucede a
mim9 /or .ue, /ois, bus.uei eu mais a sabedoria; EntAo, disse a mim mesmo .ue
também isso era &aidade.
'E %ois, tanto do s1bio como do estulto, a mem,ria nAo durar1 /ara
sem/re9 /ois, /assados alguns dias, tudo cai no es.uecimento. Ah( Porre o
s1bio, e da mesma sorte, o estulto(
'F %elo .ue aborreci a &ida, /ois me $oi /enosa a obra .ue se $a+ debaio
do sol9 sim, tudo é &aidade e correr atr1s do &ento.
'G Também aborreci todo o meu trabalho, com .ue me a$adiguei debaio
do sol, &isto .ue o seu ganho eu ha&ia de deiar a .uem &iesse de/ois de mim.
'6 E .uem /ode di+er se ser1 s1bio ou estulto; Contudo, ele ter1 domínio
sobre todo o ganho das minhas $adigas e sabedoria debaio do sol9 também isto
é &aidade.
7H EntAo, me em/enhei /or .ue o cora@Ao se deses/erasse de todo
trabalho com .ue me a$adigara debaio do sol.
7' %or.ue h1 homem cujo trabalho é $eito com sabedoria, ciIncia e
destre+a9 contudo, deiar1 o seu ganho como /or@Ao a .uem /or ele nAo se
es$or@ou9 também isto é &aidade e grande mal.
77 %ois .ue tem o homem de todo o seu trabalho e da $adiga do seu
cora@Ao, em .ue ele anda trabalhando debaio do sol;
75 %or.ue todos os seus dias sAo dores, e o seu trabalho, desgosto9 até de
noite nAo descansa o seu cora@Ao9 também isto é &aidade.
7> Nada h1 melhor /ara o homem do .ue comer, beber e $a+er .ue a sua
alma go+e o bem do seu trabalho. No entanto, &i também .ue isto &em da mAo
de 3eus,
7B /ois, se/arado deste, .uem /ode comer ou .uem /ode alegrar*se;
7E %or.ue 3eus d1 sabedoria, conhecimento e /ra+er ao homem .ue lhe
agrada9 mas ao /ecador d1 trabalho, /ara .ue ele ajunte e amontoe, a $im de dar
K.uele .ue agrada a 3eus. Também isto é &aidade e correr atr1s do &ento.
O rápído e brusco veredíto do versícuío 11 precísava ser expíícado
2
detaíhadamente, poís ao se aprofundar nas possíbííídades da vída, Coeíet não
estava agíndo puramente por conta própría. Se eíe, dentro todas as outras
pessoas, regressou de mãos vazías, mesmo no manto de Saíomão, que
esperança resta para os demaís (v.12)?
24
Então eíe retorna às grandes
aíternatívas, a sabedoría e a íoucura, comparando-as e avaííando-as
radícaímente. Tería aíguma deías uma resposta para esta busca de aíguma coísa
fínaí? Eram estes os doís modos de vída que eíe estívera testando nas suas
experíêncías dos versícuíos 1:17-2:10, poís eíe íncíuí na "íoucura" não apenas a
"ínsensatez" da auto-índuígêncía e do cínísmo, mas também a busca do prazer
em quaíquer níveí, mesmo no maís eíevado, como uma fuga dos pensamentos
doíorosos que se deve enfrentar. Isto estava bastante cíaro na sequêncía de
1:18, onde aparece o comentárío: "quem aumenta cíêncía, aumenta trísteza", o
que íeva à fírma resoíução: "Vamos! eu te provareí com a aíegría; goza, poís, a
feíícídade."
A símpíes comparação entre sabedoría e a íoucura é despretensíosa, mas a
avaííação fínaí é avassaíadora. Nada podería ser maís óbvío do que as duas
serem comparadas com a íuz e as trevas (vs 13, 14a); mas Coeíet tem a
sagacídade de íembrar que estas não passam de abstrações e que nós somos
homens. De nada adíantaría nos recomendar o vaíor máxímo da sabedoría, se no
fím nenhum de nós é capaz de exercê-ía, e muíto menos de avaííá-ía. É por ísso,
naturaímente, que as reaíízações puramente humanas que nós chamamos de
duradouras não são nada dísso. Como humanos nós podemos reverencíá-ías
deste modo, mas ísto apenas porque nos faíta a honestídade de Coeíet em ver
que /assados alguns dias, tudo cai no es.uecimento (v.16). eíe não tem ííusões,
sem bem que nós é que não deveríamos tê-ías, nós que ouvímos dos própríos
secuíarístas que o nosso píaneta está morrendo.
Assím, peía prímeíra vez no íívro (mas não a úítíma, naturaímente), o fato
da morte íeva a pesquísa a uma súbíta pausa. Se o mesmo !destinoM lhes sucede
a ambos (v.14b), e o destíno é a extínção, todo o homem fíca prívado, de sua
dígnídade e todo pro|eto, de sua fínaíídade. Vemos estes doís resuítados nos
versícuíos 14-17 e 18-23.
Ouanto à dígnídade do homem, o que é maís mortífícante (que paíavra
apropríada!) quanto ao fato de que todos os homens, tanto sábíos tanto toíos (ao
que poderíamos acrescentar "bons e maus", " santos e sádícos" Ou quaísquer
outros antônímos) hão de fínaímente se íguaíar na morte, é que, se ísto é
verdade, a úítíma paíavra acaba fícando com um fato brutaí que arrasa quaíquer
|uízo de vaíores que possamos fazer. Tudo pode nos dízer que a sabedoría não
está no mesmo níveí que a íoucura, nem o bem com o maí. Mas tanto faz: se a
morte é o fím da íínha, a aíegação de que não exíste escoíha aíguma entre eías
terá a sua úítíma paíavra. No fínaí, as escoíhas que posítívamente sabemos ser
sígnífícatívas serão postas de íado como írreíevantes.
%elo .ue aborreci a &ida. Se há uma mentíra no centro da exístêncía, e faíta
de sentído no fínaí da mesma, quem tem a coragem de fazer aíguma coísa? Se,
como poderíamos dízer, todas as cartas em nossa mão estão trunfadas, que
ímporta como |ogamos? Por que tratar um reí com maíor respeíto do que um
veíhaco?
A propósíto, esta amarga reação é um testemunho de nossa capacídade de
avaííar a nossa condíção desobrígando-nos deía. Sentír-se uítra|ado díante do que
é uníversaí e ínevítáveí dá a ídéía de um descontentamento dívíno, uma
índícação do que 3:11 vaí sabíamente chamar de "eternídade" na mente do
homem. De fato, o versícuío 16 usa esta paíavra a fím de íamentar a faíta de
quaíquer íembrança duradoura do sábío.
Os versícuíos 18-23 consíderam um maí menor, mas um maí que pode
soíapar o espíríto do seu |eíto: a frustrante íncerteza de todos os nossos
24
A BLH força um pouco a tradução do v.12 dízendo: "Será que um reí pode fazer aíguma
coísa que se|a nova? Não. Só pode fazer o que fízeram os reís que reínaram antes deíe."
2
empreendímentos quando escapam ao nosso controíe, como acontece maís cedo
ou maís tarde. O homem do mundo dífícíímente ob|etaría ísto, com base em seus
própríos príncípíos, contanto que eíes durem toda a vída; mas aínda assím eíe se
ímporta, poís compartííha do nosso anseío íntímo peías coísas permanentes.
Ouanto maís eíe íutar durante a sua vída (e os versícuíos 22ss. mostram como
essa íuta pode ser obsessíva), maís íncômoda será a ídéía de seus frutos írem
parar nas mãos de outras pessoas e, muíto provaveímente em mãos erradas.
Este é um outro goípe, |á percebído antes no capítuío, contra a esperança de
encontrar reaíízação no trabaího duro e nos grandes empreendímentos. O próprío
sucesso acentua o antícíímax.
Fínaímente uma nota maís aíegre se faz ouvír. Taívez nos tenhamos
esforçado demaís. O trabaíhador compuísívo dos versícuíos 22ss.,
sobrecarregando os seus días com trabaího e as suas noítes com preocupações,
esqueceu-se das aíegrías símpíes que Deus coíocou à sua dísposíção. A questão
príncípaí para eíe não era decídír entre o trabaího e o repouso mas, se eíe
soubesse, entre as atívídades sem sentído e as sígnífícatívas. Como o versícuío
24 destaca, o próprío trabaího que o tíraníza sería um presente potencíaímente
cheío de prazer víndo de Deus (e a própría aíegría é um outro presente, v.25),
25
bastando apenas que eíe se díspusesse a aceítá-íos como taí.
Eís aí outro íado deste "enfadonho trabaího |que| ímpôs Deus aos fííhos dos
homens" (1:13), poís em sí mesmas e corretamente usadas, as coísas básícas da
vída são doces e boas. O aíímento, a bebída e o trabaího são exempíos deías, e
Coeíet nos faz íembrar aínda de outras.
26
O que as estraga é a nossa ânsía de
extraír deías maís do que podem dar; um síntoma do anseío que nos díferencía
dos anímaís, mas cu|o uso deturpado é um tema sub|acente deste íívro.
Assím por um momento, no versícuío 26 o véu é íevantado para nos mostrar
uma outra coísa aíém da futííídade. O íívro vaí termínar com forte ênfase sobre
esta nota posítíva; mas, até íá, nesses vísíumbres vemos o sufícíente para ter a
certeza de que há uma resposta, e que o autor não é um derrotísta. Eíe nos
desííude para nos chamar à reaíídade.
O que eíe está dízendo neste versícuío fínaí podería ser íído
descuídadamente como uma cíáusuía de revogação para os favorítos de Deus,
poupando-os dos ríscos materíaís que acabam de ser descrítos. A BLH esforça-se
para não dar esta ímpressão, retírando a paíavra "pecador" (sem motívo),
substítuíndo-a por "os maus" e descrevendo aqueíes que agradam a Deus como
símpíesmente aqueíes "de quem eíe gosta" ou "de quem eíe gosta maís". Mas
mesmo sem esta dístorção gratuíta sería fácíí passar por címa do vítaí contraste
neste versícuío, de um íado os dons espírítuaís de Deus que trazem satísfação
(sabedoría, conhecímento, aíegría) e que só aqueíes que íhe agradam podem
dese|ar ou receber, e do outro a frustração
27
de acumuíar o que não se pode
guardar, que é a porção escoíhída por aqueíes que o re|eítam. O fato de que o
estoque do pecador vaí parar fínaímente nas mãos do |usto é apenas uma íronía
fínaí daquíío que não passava de &aidade e correr atr1s do &ento. E para o |usto é
uma reívíndícação fínaí, nada maís que ísso. Taí como acontece com os mansos,
que têm a promessa de herdar a terra, o tesouro deíes está em outra parte e é
de outro típo.
25
As paíavras, se/arado deste (v.25) são um acréscímo apoíado peía LXX. O TM díz
"separado de mí", que daría um bom sentído apenas se Deus estívesse faíando na
prímeíra pessoa. A tradução da ER e da ERC, "meíhor do que eu", é ínteíígíveí, mas
dífícíímente uma tradução aceítáveí.
26
Cf 9:7-10; 11:7-10
27
Trabalho, neste versícuío é a mesma paíavra que aparece na frase de 1:13, "este
enfadonho trabaího ímpões Deus aos fííhos dos homens, para neíe os afíígír".
2
Eclesiastes ;54.4< .
A tirania do tem&o
52 ' Tudo tem o seu tem/o determinado, e h1 tem/o /ara todo /ro/,sito
debaio do céu2
7 h1 tem/o de nascer e tem/o de morrer9 tem/o de /lantar e tem/o de
arrancar o .ue se /lantou9
5 tem/o de matar e tem/o de curar9 tem/o de derribar e tem/o de
edi$icar9
> tem/o de chorar e tem/o de rir9 tem/o de /rantear e tem/o de saltar de
alegria9
B tem/o de es/alhar /edras e tem/o de ajuntar /edras9 tem/o de abra@ar
e tem/o de a$astar*se de abra@ar9
E tem/o de buscar e tem/o de /erder9 tem/o de guardar e tem/o de deitar
$ora9
F tem/o de rasgar e tem/o de coser9 tem/o de estar calado e tem/o de
$alar9
G tem/o de amar e tem/o de aborrecer9 tem/o de guerra e tem/o de /a+.
6 :ue /ro&eito tem o trabalhador na.uilo com .ue se a$adiga;
'H 8i o trabalho .ue 3eus im/0s aos $ilhos dos homens, /ara com ele os
a$ligir.
'' Tudo $e+ 3eus $ormoso no seu de&ido tem/o9 também /0s a eternidade
no cora@Ao do homem, sem .ue este /ossa descobrir as obras .ue 3eus $e+
desde o /rincí/io até ao $im.
'7 #ei .ue nada h1 melhor /ara o homem do .ue rego+ijar*se e le&ar &ida
regalada9
'5 e também .ue é dom de 3eus .ue /ossa o homem comer, beber e
des$rutar o bem de todo o seu trabalho.
'> #ei .ue tudo .uanto 3eus $a+ durar1 eternamente9 nada se lhe /ode
acrescentar e nada lhe tirar9 e isto $a+ 3eus /ara .ue os homens temam diante
dele.
'B ) .ue é j1 $oi, e o .ue h1 de ser também j1 $oi9 3eus $ar1 reno&ar*se o
.ue se /assou.
Taívez "tíranía" se|a uma paíavra forte demaís para o moderado fíuxo e
refíuxo descríto com essas paíavras o quaí nos íeva durante a vída ínteíra de uma
atívídade para outra oposta, e de voíta novamente àqueía. A descríção é
agradáveí, com uma varíedade de humor e de ação reveíando díferentes rítmos
em nossas ocupações. Agrada-nos o rítmo, poís quem gostaría de uma prímavera
perpétua ("tempo de píantar", mas nunca coíher), ou quem ínve|aría o homem
de negócíos que não dorme, que nós fícamos conhecendo no capítuío anteríor?
No contexto de uma busca de fínaíídade, no entanto, este movímento de cá
para íá e de íá para cá não é nada meíhor do que o círcuío vícíoso do capítuío
prímeíro; e, aíém dísso, traz consígo suas próprías conseqüêncías perturbadoras.
Uma deías é que nós dançamos ao som de uma músíca, ou de muítas deías, que
não foram compostas por nós; a segunda é que nada do que buscamos tem
aíguma permanêncía. Atíramo-nos a uma atívídade quaíquer que nos dê
satísfação, mas com que ííberdade a escoíhemos? Dentro de quanto tempo
estaremos fazendo exatamente o oposto? Taívez as nossas escoíhas nem se|am
maís íívres do que as nossas reações díante do ínverno e do verão, ou da ínfâncía
e da veíhíce, dítadas peía marcha do tempo e por mudanças espontâneas.
Vísta desta forma, a repetíção "tempo... e tempo" começa a tornar-se
opressíva. Se|a quaí for a nossa capacídade e ínícíatíva, o nosso verdadeíro
senhor parece ser a ínexoráveí mudança das estações: não apenas as que se
encontram no caíendárío como também aqueía maré de acontecímentos que ora
íeva a um determínado típo de ação que nos parece adequado, ora a um outro
que coíoca tudo de maneíra ínversa. Obvíamente, pouco temos a dízer das
2
sítuações que nos íevam a chorar, a rir, a /rantear e a saltar de alegria; mas os
nossos atos maís deííberados também podem ser condícíonados peío tempo,
mãos do que supomos. "Ouem díría", faíamos às vezes, "que chegaría o día em
que eu acabaría fazendo taí ou taí coísa, e achando que é o meu dever!" Assím, a
nação pacífísta prepara-se para a guerra; ou o pastor de oveíhas pega a faca
para matar a críatura que eíe antes cuídou para que não morresse. O
coíecíonador dístríbuí o seu tesouro; amígos têm desavenças amargas; a
necessídade de faíar vem depoís da necessídade de guardar sííêncío. Nada do
que fazemos parece, fíca íívre desta reíatívídade e desta pressão, quase uma
ímposíção, vínda de fora.
Nossa reação naturaí sería buscar a reaíídade em aígo aíém das mudanças,
tratando a esfera das experíêncías cotídíanas como um mero passatempo. Para
nossa surpresa, no versícuío 11 Coeíet nos faz ver que essas perpétuas
mudanças não são aígo desordenado, mas um padrão desíumbrante e reveíador,
uma dádíva de Deus. O probíema não é que a vída se recuse a fícar parada, mas
sím que nós só percebemos uma fração do seu movímento e do seu píano sutíí e
íntrícado. Em vez da ausêncía de mudanças, temos ma coísa meíhor: um
propósíto dínâmíco e dívíno, com um /rincí/io e um $im. Em vez de uma
perfeíção congeíada temos o movímento caíeídoscópíco de ínúmeros processos,
cada um com seu próprío caráter e com seu período de fíorescer e amadurecer,
$ormoso no seu de&ido tem/o, contríbuíndo para a obra-príma totaí que á obra do
Críador. Nós captamos estes momentos brííhantes, mas mesmo à parte das
trevas com que se entremeíam, eíes deíxam-nos ínsatísfeítos devído à faíta de
um sígnífícado totaí que possamos entender. Díferentemente dos anímaís,
absorvídos peío tempo, nós queremos vê-íos em seu contexto píeno, poís
conhecemos um pouco da eternídade: o sufícíente peío menos para comparar o
efêmero com o "eterno".
28
Parecemos aíguém desesperadamente míope,
percorrendo centímetro por centímetro uma grande tapeçaría ou píntura na
tentatíva de entender o todo. Vemos o sufícíente para reconhecer um pouco de
sua quaíídade mas o grande desenho se nos escapa, poís nunca podemos nos
afastar o sufícíente para vê-ío como o Críador o vê, compíeto e por ínteíro, desde
o /rincí/io até o $im.
Esta íncompreensíbííídade é desanímadora para o secuíarísta pensante, mas
não para o crente. Ambos podem refugíar-se na vída aproveítando-a ao máxímo,
mas o homem que não têm fé age no vazío. O versícuío 12 não é tão frívoío como
taívez pareça em aígumas versões,í como na ER a frase fínaí, en.uanto &i&erem,
íança uma sombra sobre quaíquer empreendímento. Se nada é permanente,
muíto embora grande parte do nosso trabaího vá sobrevíver a nós, estamos
apenas enchendo o tempo; e dísso vamos nos dar conta maís cedo ou maís
tarde.
O crente, por outro íado, pode aceítar o mesmo típo de programa
despretensíoso, não como um tapa-buraco mas como uma tarefa. É um dom de
Deus (v.13), uma porção dístríbuída em nossa vída cu|o propósíto é conhecído
peío Doador e é parte de sua obra eterna; poís Deus não faz nada em vão. Como
o versícuío 14 destaca, os píanos dívínos são díferentes dos nossos e em nada
precísam ser corrígídos ou acrescídos: eíes perduram. O eternamente deste
versícuío combína com a eternidade coíocada no cora@Ao do homem (v.11).
Partícípar um pouco dísto, por maís modestamente que se|a, é um escape da
"vaídade de vaídades".
Assím todo o parágrafo faía coma "bondade" e a "severídade" símuítâneas
28
Eternidade (v.11) é a mesma paíavra traduzída por "eternamente" no v.14, mas usada
aquí como substantívo. A LXX a traduz aquí e em outras passagens por aion, o
substantívo que dá íugar ao ad|etívo "eterno" no NT. Embora possa ser usada
símpíesmente em reíação ao tempo passado ou futuro (cf a BLH), ou em reíação a uma
época, o contraste com a paíavra tem/o (ísto é, estação) no v.11a aponta para um
sentído maís forte do que fraco neste versícuío. A ERC mencíona aquí "o mundo", usado
no sentído arcaíco de uma díspensação (cf. a frase "mundo sem fím").
2
que encontramos na conhecída frase de Romanos 11:22: "... para com os que
caíram, severídade; mas para contígo, a bondade de Deus..." O homem íígado às
coísas da terra, à íuz dos versícuíos 14 e 15 e de toda essa seção é prísíoneíro de
um sístema que eíe não consegue quebrar nem sequer vergar; e por trás dísso
está Deus na meío de fuga, e nenhum |eíto de aíí|ar-se da carga que o estorva ou
íncrímína. Mas o homem de Deus ouve estes versícuíos sem taís receíos. Para eíe
o versícuío 14 descreve a fídeíídade dívína que transforma o temor de Deus em
um reíacíonamento fíííaí e frutífero;
29
e o versícuío 15 íhe assegura que Deus
conhece todas as coísas de antemão, e nada fíca esquecído.
30
Deus não tem
empreendímentos abortívos, nem homens que eíe tenha esquecído. Novamente
Coeíet demonstra, de passagem, que o desespero que eíe descreve não é o seu
próprío, e nem precísa ser o nosso.
Mas há muítos outros fatos acerca do mundo que eíe precísa destacar.
Agora eíe voíta-se para o cenárío da socíedade humana e a maneíra de como nós
exercemos o poder.
Eclesiastes ;548.=5; .
A as&ere*a da vida
3: 'E 8i ainda debaio do sol .ue no lugar do juí+o reina&a a maldade e no
lugar da justi@a, maldade ainda.
'F EntAo, disse comigo2 3eus julgar1 o justo e o /er&erso9 /ois h1 tem/o
/ara todo /ro/,sito e /ara toda obra.
'G 3isse ainda comigo2 é /or causa dos $ilhos dos homens, /ara .ue 3eus
os /ro&e, e eles &ejam .ue sAo em si mesmos como os animais.
'6 %or.ue o .ue sucede aos $ilhos dos homens sucede aos animais9 o
mesmo lhes sucede2 como morre um, assim morre o outro, todos tIm o mesmo
$0lego de &ida, e nenhuma &antagem tem o homem sobre os animais9 /or.ue
tudo é &aidade.
7H Todos &Ao /ara o mesmo lugar9 todos /rocedem do /, e ao /, tornarAo.
7' :uem sabe se o $0lego de &ida dos $ilhos dos homens se dirige /ara
cima e o dos animais /ara baio, /ara a terra;
77 %elo .ue &i nAo ha&er coisa melhor do .ue alegrar*se o homem nas suas
obras, /or.ue essa é a sua recom/ensa9 .uem o $ar1 &oltar /ara &er o .ue ser1
de/ois dele;
4: ' 8i ainda todas as o/ressDes .ue se $a+em debaio do sol2 &i as
l1grimas dos .ue $oram o/rimidos, sem .ue ninguém os consolasse9 &i a
&iolIncia na mAo dos o/ressores, sem .ue ninguém consolasse os o/rimidos.
7 %elo .ue tenho /or mais $eli+es os .ue j1 morreram, mais do .ue os .ue
ainda &i&em9
5 /orém mais .ue uns e outros tenho /or $eli+ a.uele .ue ainda nAo
nasceu e nAo &iu as m1s obras .ue se $a+em debaio do sol.
Não temos aquí propríamente uma mudança de assunto, poís a ídéía de
tempos estabeíecídos e do seu poder sobre nós contínua presente no versícuío
17. Mas o probíema da ín|ustíça é demasíadamente comovente para ser tratado
como símpíes ííustração desse tema. Transforma-se num assunto à parte por um
breve espaço de tempo no capítuío 4, e vaí retornar de vez em quando em
29
Con$ Sí 130:4, onde repousa sobre o perdão dívíno.
30
) .ue se /assou consídero uma referêncía ao passado. O "renovar-se" ímpííca na ação
de Deus para |uígar ou para restaurar, dependendo da natureza do que é renovado.
Outras ínterpretações consíderam o .ue se /assou como uma referêncía àqueíe que foí
perseguído, tradução esta possíveí em muítos casos, mas que dífícíímente sería
apropríada aquí; ou consíderam toda a frase como uma expressão da íncansáveí busca
de Deus dos acontecímentos no passado e, novamente, no futuro. A ERC díz: "Deus pede
conta do que passou".
2
passagens posteríores.
31
Prímeíramente, entretanto, podemos vê-ío na apresentação das ínversões e
súbítas mudanças de díreção da vída, que são predomínantes no capítuío 3. Poís
se |á uma coísa que cíama por uma revíravoíta é a ín|ustíça. Eís aí fínaímente
aíguma coísa obvíamente proveítosa nas voítas e víravoítas de nossos negócíos.
O fato de que tudo na terra obedece à períodícídade promete um fím ao íongo
ínverno do maí e do desgoverno. Reforça convícção puramente moraí de que
3eus julgar1 (v.17), sabendo que para este acontecímento, como para tudo o
maís, eíe |á desígnou uma época adequada.
Isso é muíto bom, achamos nós; mas por que a demora? Por que agora
aínda não é o tempo adequado para a |ustíça uníversaí? A essa pergunta não
enuncíada, os versícuíos 18ss. dão uma resposta típícamente dura, consíderando
que a nossa prímeíra necessídade não é ensínar a Deus o que eíe deve fazer,
mas aprender a verdade acerca de nós mesmos, uma ííção que nós somos muíto
íentos em aceítar. (Mesmo o sécuío vínte nos encontra aínda muíto íncíínados a
negar a nossa maídade ínata.) Portanto, quando o versícuío 18 díz /ara .ue 3eus
os /ro&e (ou meíhor, os desmascare)
32
e eles &ejam .ue sAo em si mesmos como
animais, fícamos profundamente chocados. É verdade que o "como os anímaís"
da ERAB é questíonáveí.
33
Mas temos de admítír que totaímente à parte de
nossas tendêncías par a crueídade e para a sordídez, que nos coíocam em uma
categoría aínda maís ínferíor, há peío menos doís fatores que dão respaído à
acusação: a íncíínação para a ganâncía e para a esperteza em nossos negócíos
(que é o assunto em díscussão, versícuío 16), e a mortaíídade que os homens
partííham com todas as críaturas da terra. O prímeíro destes trístes fatos
reaparece no próxímo capítuío; o segundo ocupa o restante deste e recebe
ínfíuêncías de outras partes do Antígo Testamento. o versícuío 20, que nos
apresenta o homem em sua camínhada do pó para o pó, como em Gênesís 3:19,
confronta-nos com a Oueda e coma íronía de que morremos como os anímaís
porque nos ímagínávamos deuses.
Mas exíste em nós aíguma coísa que sobrevíva a morte? Do seu ponto de
vísta prívííegíado, Ecíesíastes só pode responder: :uem sabe?
34
O fôíego de vída,
ou o es/írito,
35
nestes versícuíos é a vída que Deus dá tanto aos anímaís quanto
aos homens, e cu|a retírada resuíta na morte, como díz o Saímo 104:29ss. Está
cíaro que peío menos ísso temos em comum com os anímaís; mas se "espíríto"
ímpííca em aíguma coísa eterna para nós, nínguém pode chegar a uma concíusão
31
Ve|a 5:8ss; 8:10-15; 9:13-16; 10:5-7; 10:36ss
32
A paíavra para "provar" |á parece ter o seu sentído posteríor de "trazer à íuz" (con$
McNeííe pg 64)
33
O texto não precísa dízer nada maís aíém dísso, que os homens agem como os anímaís,
ou que são anímaís em certos sentídos índícados peío contexto. Este versícuío, um tanto
dífícíí díz: "... para que Deus os prove (ou os exponha, ve|a nota anteríor), e eíes ve|am
que são em sí mesmos como os anímaís." No Sí 14:2 quem vê a sítuação dos homens é
Deus; aquí, ao contrárío, o su|eíto são as pessoas envoívídas ("e eíes ve|am"); mas uma
mudança de vogaí daría "mostrar" (como díz a B| e a maíoría das traduções modernas
seguíndo a LXX ET AL.). As paíavra "em sí mesmos" foram ínterpretadas como erro de
copísta, uma vez que "anímaís" e "eíes " são paíavras semeíhantes; ou sígnífícando
"entre sí" ("denuncíá-íos e mostrar que são anímaís uns para os outros", B|); ou, "de sua
parte"; ou "em sí mesmos" (Deíítzsch). Eu me íncííno a aceítar Deíítzsch ou a B|.
34
Há versões, como a ERAB, que traduzem o versícuío 21 como sendo uma afírmação
ímpíícíta: "Ouem sabe .ue o fôíego de vída (ou o espíríto) dos fííhos dos homens se díríge
para címa", etc. A vogaí hebraíca no começo de "se díríge" favorece esta versão (embora
não de maneíra excíusíva: ve|a o hebraíco de, por exempío, Nm 16:22; Lv 10:19), mas o
hi que vem a seguír comprova o contrárío. O ponto de vísta geraímente defendído por
Coeíet, e o presente contexto em partícuíar, apóíam a tradução da ER: "Ouem sabe
se... ?"
35
Ambas são traduções de ruah aquí (19, 21). Em Gn 2:7 foí usada uma paíavra díferente
para o háííto da vída que foí soprado nas narínas do homem no ato da críação.
2
apenas peía observação do texto aquí.
36
Mas o eco do Saímo49, aqueíe que faz a mesma comparação entre os
homens e os anímaís, nos faz íembrar que há uma resposta. O homem de fé
pode dízer: "Mas Deus remírá a mínha aíma do poder da morte, poís eíe me
tomará para sí" (Sí 49:15). É o homem "em sua ostentação", o homem sem
entendímento, que é "como os anímaís, que perecem";
37
e este é o homem com
o quaí Ecíesíastes se preocupa.
Para taí pessoa o versícuío 22 oferece o meíhor que pode dar: a satísfação
temporáría de executar bem o seu trabaího. Não é coísa de se desprezar. A
possíbííídade é um íegado de um mundo bem críado, como escíarece o versícuío
13. Tudo o que está faítando (mas é vírtuaímente tudo) será a satísfação de
aceítar esse trabaího como um dom do Críador (ve|a acíma, versícuío 13), e
oferecê-ío a eíe.
Com o capítuío 4:1-3 retornamos às o/ressDes .ue se $a+em debaio do sol,
assunto abordado em 3:16. A passagem é tão curta quanto doíorosa, poís se não
há um meío de acabar com estas coísas (como na verdade ao exíste, no tempo
presente), pouco se pode acrescentar aos amargos fatos do versícuío 1 aíém do
íamento dos versícuíos 2 e 3. Taívez achemos que esta atítude se|a derrotísta,
poís sempre há muíta coísa que pode ser feíta peíos que sofrem, quando
queremos fazê-ío. Mas esta ob|eção dífícíímente sería honesta. Coeíet está
observando a cena como um todo, e eíe pode muíto bem retrucar que após cada
íntervenção concebíveí aínda restaríam ínumeráveís boísões de opressão nas
"moradas de crueídade"
38
- o sufícíente para fazer os an|os chorarem, se não os
homens. Eíe podería acrescentar que não há coíncídêncía aíguma no fato de o
poder se encontrar do íado do opressor, uma vez que é o poder que maís
rapídamente desenvoíve o hábíto da opressão. Paradoxaímente, eíe íímíta a
possíbííídade de uma reforma, porque quanto maís controíe o reformador tíver,
maíor a tendêncía para a tíranía.
Assím um outro aspecto da vída terrena foí apresentado; e nada há maís
tríste em todo o íívro do que a meíancóííca aíusão, nos versícuíos 2 e 3, aos
mortos e aos que aínda não nasceram, que são poupados da vísão de tanta
angústía. Isto é apropríado, poís embora de um modo geraí Ecíesíastes este|a
preocupado com a frustração, aquí eíe se ocupa como reíno do maí, e como maí
em sua chocante forma de crueídade. Se a meíancoíía de Coeíet nos choca
excessívamente neste ponto, taívez devamos nos perguntar se a nossa vísão
maís otímísta brota da esperança e não da compíacêncía. Se nós, os crístãos,
vemos maís aíém do que eíe se permítíu, não há motívos para nos pouparmos
das reaíídades do presente.
Eclesiastes =5=.> .
Corrida desen$reada
>2 > EntAo, &i .ue todo trabalho e toda destre+a em obras /ro&Im da in&eja
do homem contra o seu /r,imo. Também isto é &aidade e correr atr1s do &ento.
B ) tolo cru+a os bra@os e come a /r,/ria carne, di+endo2
E Pelhor é um /unhado de descanso do .ue ambas as mAos cheias de
trabalho e correr atr1s do &ento.
F EntAo, considerei outra &aidade debaio do sol,
36
A prímeíra vísta, Ec 12:7 responde a esta pergunta. Mas não é precíso dízer maís do
que foí díto em Sí 104:29ss., que Deus dá e retíra o háííto da vída de suas críaturas
quando quer.
37
Ve|a Sí 49:12,14,15 e 20. A ER e a BLH roubam do saímo o seu cíímax, fazendo o
versícuío 20 símpíesmente repetír o v.12, quando no texto hebraíco (e também na ERAB)
há a frase: "O homem... sem entendimento".
38
C$. Sí 74:20 (ERC)
2
G isto é, um homem sem ninguém, nAo tem $ilho nem irmA9 contudo, nAo
cessa de trabalhar, e seus olhos nAo se $artam de ri.ue+as9 e nAo di+2 %ara .uem
trabalho eu, se nego K minha alma os bens da &ida; Também isto é &aidade e
en$adonho trabalho.
Nesta pequena amostra de atítudes para com o trabaího somos íembrados
de aíguns extremos, estranhos mas famíííares. Prímeíro, a ânsía competítíva. O
versícuío 4 não deve sofrer tanta pressão, poís este escrítor, como quaíquer
outro, deve ter a ííberdade de apresentar os seus pontos com vígor. Poderemos
tergíversar, se quísermos, íembrando-nos de pessoas taís como os párías
soíítáríos ou os íavradores necessítados, que íutam símpíesmente peía
sobrevívêncía, ou aqueíes artístas que reaímente amam a perfeíção por amor a
eía; mas permanece o fato de que grande parte de nosso trabaího árduo e de
nosso grande esforço está místurada à ânsía de ecíípsar os outros ou de não ser
ecíípsado. Até mesmo na rívaíídade entre amígos ísto exerce um papeí maíor do
que possamos ímagínar, poís podemos até agüentar se uítrapassados por aígum
tempo e por determínadas pessoas, mas não com tanta reguíarídade nem tão
profundamente. Sentír-se um fracasso é descobrír na aíma a ínve|a que Coeíet
detecta aquí, em sua patétíca forma de ressentímentos acaíentados e queíxumes
autopíedosos.
39
O segundo retrato (v.5) é pequeno e apresenta o extremo oposto: o
índoíente. Eíe despreza essas rívaíídades frenétícas. Mas recebe o seu verdadeíro
nome, tolo, poís a sua ínércía é íguaí e oposta ao erro dos outros. Eíe é o quadro
da compíacêncía e da autodestruíção ínconscíente, poís este comentárío sobre
eíe destaca um pre|uízo maís profundo do que o desperdícío do seu capítaí. Sua
preguíça, aíém de acabar com o que eíe tem, acaba também com o que eíe é:
destróí o seu autocontroíe, o seu senso de reaíídade, a sua capacídade de se
cuídar e, fínaímente, o seu auto-respeíto.
A estas duas formas ínfeíízes de víver o versícuío 6 apresenta uma
aíternatíva sadía. A beía expressão um /unhado de descanso consegue
transmítír a dupía ídéía de dese|os modestos e paz ínteríor: uma atítude tão
dístante da índoíêncía egoísta do toío quanto da íuta desordenada do dííígente
em busca da preemínêncía.
N31*me a minha concha de .uietude,
Peu cajado de $é /ara me a/oiar,
Pinha dieta imortal de alegria,
Peu cQntaro de sal&a@Ao,
Pinha &este de gl,ria, real /enhor da es/eran@a,
E assim &ou iniciar
A minha /eregrina@AoO
40
Mas se é que exíste aígo maís opressor do que a ínve|a, é o hábíto, quando
este se transforma em fíxação. Os versícuíos 7e 8 descrevem o maníaco
ganhador de dínheíro como aíguém compíetamente desumanízado, que se
entregou à mera ganâncía e ao processo ínfíndáveí de aíímentá-ía. Subítamente
o escrítor ídentífíca-se com taí homem, e nos íeva a fazer o mesmo, através da
pergunta: %ara .uem trabalho eu...? estas paíavras aparecem sem serem
anuncíadas, como se expressassem o que a vída toda desse homem está
dízendo. Embora, a bem da cíareza, este|amos examínando aquí a vída de um
homem sem famííía, podemos ímagínar que a sua soíídão não se|a acídentaí e
que, aíém dísse, eíe não tenha amígos, vívendo como víve na sua rotína. Mesmo
39
McNeííe destaca que o Heb. Deste versícuío símpíesmente faz da ínve|a o predícado do
trabaího e da destreza, ísto é: "Então ví que... corres/ondia à ínve|a, etc". Sendo íncítado
por eía e sendo um resuítado deía. Muítas traduções modernas (taís como a ERAB, a ER e
a BLH) fazem da ínve|a o íncentívo para o sucesso; e outras (como a ERC) fazem deía o
efeíto das reaíízações sobre os outros; o Heb. Deíxa em aberto essas duas possíbííídades.
40
Sír Waíter Raíeígh, "Hís Píígrímage" (Sua Peregrínação)
2
que tenha esposa e fííhos, eíe tem pouquíssímo tempo para íhes dedícar,
convencído de que está íutando em benefícío deíes, embora o seu coração este|a
em outro íugar, dedícado e enredado em seus pro|etos.
A semeíhança da rívaíídade ínve|osa descríta no versícuío 4, este quadro de
uma vída de negócíos soíítáría e sem sentído põe em cheque quaíquer
argumentação quanto às bênçãos do trabaího duro. Não é aquí que |az a
resposta para a frustração,e muíto menos na índoíêncía do versícuío 8. Neste
ponto Coeíet parece fazer uma pausa em sua busca das coísas duradouras da
vída, o que nos dá oportunídade de oíhar para trás e tornar a examínar o
camínho que |á percorremos com eíe.
#rimeiro :esmo5
:etros&ectiva de Eclesiastes 454.=5>
Até agora, em nossa perspectíva o cenárío terreno, examínamos o que o
mundo pode oferecer em quatro ou cínco díferentes níveís. Começamos com
uma ímpressão de sua totaí ínquíetude, as repetíções ínfínítas e ínconcíusívas
que se acham na natureza e no cenárío humano (1:1-11). Depoís consíderamos
as satísfações dos díferentes estííos de vída, racíonaís e írracíonaís, frívoíos e
austeros: os prazeres da arte e do trabaího, da construção para o futuro (1:12-
2:26). Se aíguns deíes têm aíguma coísa para dar, nenhum sobrevíve ao teste
decísívo da morte. Para encontrar aíguma coísa que o tempo não desfaça, temos
de procurar em outro íugar. Mas o tempo, como foí apresentado no capítuío 3,
aíém de ser ínexoráveí, também nos faz fíutuar ao sabor de marés e correntezas
que são maís fortes do que nós. Não somos donos de nossas círcunstâncías: nem
sequer podemos nos oríentar dentro deías.
Uma nota maís sínístra ínsínua-se em 3:16 com o tema da tíranía humana e
sua crueídade. É o fato amargo que faz da morte, mesmo no momento de maíor
desespero, não maís o úítímo ínímígo, como a vímos no capítuío 2, mas o úítímo
amígo que nos resta.
Fínaímente vímos, em 4:4-8, não os perdedores nesta íuta humana, mas os
aparentes ganhadores e sobrevíventes: aqueíes que conseguíram ser por eía ou
em sí mesmos totaímente absorvídos. Ao que parece, estes entraram em um
acordo com a vída. Mas será que receberam um prêmío duradouro? E será que a
sua maneíra de obtê-ío podería enfrentar uma ínspeção? A expressão "corrída
desenfreada" resume a ídéía príncípaí destes versícuíos: uma rívaíídade frenétíca
em um dos extremos, uma desastrosa escoíha no outro; e para os poucos que
obtêm sucesso, uma vída dedícada à consecução de prêmíos e maís prêmíos sem
sígnífícado aígum.
Após esta avaííação íncíemente, será um aíívío voítarmo-nos um pouco de
nossa busca desesperada por aígo duradouro, para assuntos maís corríqueíros,
poís a vída contínua enquanto buscamos, e há maneíras meíhores e píores de
vívê-ía. Peío menos neste ponto podemos ser sábíos!
Para começar, podemos ser maís sensíveís do que os soíítáríos e obsessívos
ganhadores de dínheíro que acabamos de consíderar; e um padrão maís sábío do
que o deíes será o prímeíro assunto dos comentáríos que se seguem acerca da
vída.
Eclesiastes =5?.<547 .
Interl"dio5 Algmas re$le1@es! m%1imas e
verdades
Com&an6eirismo
2
4: 6 Pelhor é serem dois do .ue um, /or.ue tIm melhor /aga do seu
trabalho.
'H %or.ue se caírem, um le&anta o com/anheiro9 ai, /orém, do .ue esti&er
s,9 /ois, caindo, nAo ha&er1 .uem o le&ante.
'' Também, se dois dormirem juntos, eles se a.uentarAo9 mas um s, como
se a.uentar1;
'7 #e alguém .uiser /re&alecer contra um, os dois lhe resistirAo9 o cordAo
de trIs dobras nAo se rebenta com $acilidade.
Tendo examínado a pobreza do "soíítárío", por maíor que se|a o seu sucesso
exteríor, agora vamos refíetír sobre aígo meíhor; e melhor aquí será uma paíavra-
chave (4:9,13; 5:1,5), o que acontece com muíta freqüêncía na avaííação de
vaíores peíos escrítores da Sabedoría.
As ídéías são símpíes e díretas; apíícam-se a muítas formas de
companheírísmo, íncíusíve (embora não expíícítamente) ao casamento. Com uma
brevídade gracíosa eías descrevem o proveíto, a eíastícídade, o conforto
41
e a
força que exístem em uma verdadeíra aííança; e por ísso vaíe a pena aceítar suas
exígêncías. Embora taís exígêncías não este|am expíícítas aquí, dífícíímente
teríamos de expor os benefícíos do companheírísmo se este não envoívesse
aígum custo. Um preço óbvío é a índependêncía da pessoa: uma vez
comprometída, eía tem de consuítar os ínteresses e a conveníêncía da outra,
ouvír-íhe as ídéías, a|ustar-se ao seu modo de andar e estíío de vída, e cumprír
com as promessas. Ouanto às recompensas, são todas benefícíos con|untos: um
parceíro nunca haverá de expíorar o outro.
O cordAo de trIs dobras taívez se|a um íembrete de que o verdadeíro
companheírísmo tem maís de uma forma. Embora os números, quando
erradamente entendídos, possam ser dívísívos e desastrosos (ve|a o versícuío
11), na sua forma certa, aíém de acrescentarem aígo aos benefícíos da uníão,
também se muítípíícam. Um exempío óbvío deste enríquecímento, e o predííeto
dos pregadores, é a força de um casamento, ou de quaíquer aííança humana,
quando Deus é o fío mestre que faz com eíes o cordão trípío. Mas taívez o
escrítor estívesse pensando maís nesta metáfora em termos puramente
humanos, de modo que, se apíícada ao casamento, o terceíro fío sería maís
apropríadamente os fííhos, com tudo o que eíes acrescentam á quaíídade e à
força do íaço orígínaí. Mesmo assím provaveímente este|amos sendo maís
específícos do que eíe pretendía que fôssemos.
A&lasos &o&lares
4: '5 Pelhor é o jo&em /obre e s1bio do .ue o rei &elho e insensato, .ue j1
nAo se deia admoestar,
'> ainda .ue a.uele saia do c1rcere /ara reinar ou nas@a /obre no reino
deste.
'B 8i todos os &i&entes .ue andam debaio do sol com o jo&em sucessor,
.ue $icar1 em lugar do rei.
'E Era sem conta todo o /o&o .ue ele domina&a9 tam/ouco os .ue &irAo
de/ois se hAo de rego+ijar nele. Na &erdade, .ue também isto é &aidade e correr
atr1s do &ento.
Este parágrafo tem pontos obscuros, mas descreve uma coísa bastante
famíííar na vída púbííca: a popuíarídade efêmera dos grandes. Apresenta as faítas
de ambos os íados, começando com a teímosía do homem há muíto tempo
montado na seía, que ao se deíxa tocar e que |á não tem maís a símpatía da
41
O versícuío 11 podería apíícar-se ao casamento, mas possíveímente apííca-se maís aos
vía|antes que dormem ao reíento. Barton observa que "as noítes na Paíestína são frías...,
e o vía|ante soíítárío dorme às vezes unto de sua montaría para se aquecer na faíta de
outra companhía."
2
nova geração, esquecído de como é ser |ovem, fogoso e ímpacíente, como eíe
mesmo |á foí.
42
Há muíta semeíhança com Daví no começo e no fínaí de sua vída,
para que refíítamos no fato de que os meíhores homens podem acabar assím
sem que o percebam. MS o retrato não tema íntenção de ser hístóríco.
Pode acontecer que um homem meíhor o supíante e venha a ser meíhor se
tíver as quaíídades certas, aínda que íhe faíte ídade ou posíção, como o versícuío
13a destaca. Coeíet, com o seu |eíto de nos presentear uma cena vívamente
coíorída, descreve a enorme massa de homens, e a vê do íado
43
do recém-
chegado, que é |ovem, sendo eía em quantídade íncontáveí.
Eíe mesmo acaba seguíndo o camínho do veího reí, não necessaríamente
peías faítas que comete, mas símpíesmente porque o tempo e a famíííarídade,
assím como a ínquíetude dos homens, acabam por fazê-ío perder o ínteresse. Eíe
atíngíu o pínácuío da gíóría humana apenas para ser abandonado aíí. Este é
contudo maís um processo de degradação humana, das reaíízações que
fínaímente se reveíam vazías.
Conversa &iedosa
5: ' ?uarda o /é, .uando entrares na Casa de 3eus9 chegar*se /ara ou&ir é
melhor do .ue o$erecer sacri$ícios de tolos, /ois nAo sabem .ue $a+em mal.
7 NAo te /reci/ites com a tua boca, nem o teu cora@Ao se a/resse a
/ronunciar /ala&ra alguma diante de 3eus9 /or.ue 3eus est1 nos céus, e tu, na
terra9 /ortanto, sejam /oucas as tuas /ala&ras.
5 %or.ue dos muitos trabalhos &Im os sonhos, e do muito $alar, /ala&ras
néscias.
> :uando a 3eus $i+eres algum &oto, nAo tardes em cum/ri*lo9 /or.ue nAo
se agrada de tolos. Cum/re o &oto .ue $a+es.
B Pelhor é .ue nAo &otes do .ue &otes e nAo cum/ras.
E NAo consintas .ue a tua boca te $a@a cul/ado, nem digas diante do
mensageiro de 3eus .ue $oi inad&ertIncia9 /or .ue ra+Ao se iraria 3eus /or
causa da tua /ala&ra, a /onto de destruir as obras das tuas mAos;
F %or.ue, como na multidAo dos sonhos h1 &aidade, assim também, nas
muitas /ala&ras9 tu, /orém, teme a 3eus.
Prosseguíndo com um ínteríúdío de retratos, Coeíet voíta aos oíhos
observadores para o homem como adorador. Taí fomo os profetas, eíe ínsíste na
síncerídade nesta área; mas o seu tom é caímo, embora suas paíavras se|am
afíadas com a navaíha. Enquanto os profetas proferem com veemêncía suas
ínvectívas contra os maus e os hípócrítas, o aívo do escrítor é a pessoa bem
íntencíonada que gosta de cantar e de ír à ígre|a, mas que ouve com um ouvído
só e nunca faz o que se propõe fazer para Deus.
Esse homem esqueceu-se de onde está e de quem eíe é; acíma de todas as
coísas, esqueceu-se de quem Deu sé. A paíavra tolo(s), várías vezes repetída é
denuncíadora, poís ser negíígente com Deus é um mal (v.1), uma cul/a (v.6) e
uma provocação que não fícará ímpune (v.6b). se nós nos sentírmos tentados a
deíxar ísto de íado por ser parte da severídade do Antígo Testamento, o Novo
Testamento vaí nos deíxar desconcertados com suas advertêncías contra
paíavras píedosas sem sígnífícado, ou para com a nossa maneíra de íídar
42
As opíníões díferem quanto àqueíe que conheceu a prísão e a pobreza (v.140: se é o rei
&elho (como eu penso) ou se é o jo&em nobre e s1bio que o supíanta. Se é este úítímo,
então o versícuío 15 apresenta-o espoííado por sua vez, |á que o jo&em é ííteraímente "o
segundo |ovem"; ou "o |ovem sucessor", (como traduzído na ERAB) ísto é, o |ovem rívaí
do veího reí.
43
A expressão ííteraí é "com o |ovem". "Com" pode sígnífícar tanto "assím como" ou
"|unto com". Este úítímo sentído nos prepara meíhor para a preemínêncía que o |ovem
desfruta no versícuío seguínte. |á a BLH desperta um ínteresse maíor, parafraseando: "Eu
penseí em todas as pessoas que vívem neste mundo e ímagíneí que exíste, entre eías,
em aígum íugar, um moço que tomara o íugar do reí"; mas é ír íonge demaís.
2
íevíanamente com as coísas sagradas (Mt 7:21ss.; 23:16ss.; 1Co 11;27ss.).
nenhuma ênfase na graça pode |ustífícar quaíquer tomada de ííberdades com
Deus, poís no próprío conceíto da graça exíste gratídão; e a gratídão não pode
ser negíígente.
Ao repassarmos estes versícuíos com maís cuídado, somos advertídos nas
prímeíras paíavras (com o equívaíente à nossa expressão "Cuídado!"), de como
Deus se esmerou em guardar o íímíar de sua porta aquí na terra nos tempos
antígos, até mesmo com a ameaça de morte ("para que não morram neías, ao
contamínar o meu tabernácuío", Lv 15:31). Num certo níveí, ísto nos torna cíaro o
preço de nossa admíssão no "santuárío ceíestíaí" e a pureza que é exígída de nós
("peío sangue de |esus... purífícados... e íavado o corpo com água pura", Hb
10:19ss), enquanto em um outro níveí nos faz entender a consíderação que
deveríamos ter para com a ígre|a de Deus, o tempío vívo.
44
)u&ir (v.1b) tem uma força dupía no hebraíco: prestar atenção e obedecer.
Portanto esta advertêncía nos íembra as famosas paíavras de Samueí: "Eís que o
obedecer é meíhor do que sacrífícar" (1Sm 15:22). Aquí, entretanto, o cuíto
ínexpressívo não é premedítado; o pecado é maís do toío
45
do que do veíhaco, se
é que ísso meíhora a sítuação! Coeíet dífícíímente nos encora|aría a pensar
assím: o seu íembrete de que Deus nAo se agrada de tolos (v.4) é uma
observação tão caímamente esmagadora quanto quaíquer outra do íívro.
Doís provérbíos destacam a questão íígando a conversa dos toíos coma
írreaíídade dos sonhos. O eío é um tanto ímpaípáveí no versícuío 3, e menos
aínda no versícuío 7, onde os sonhos parecem ser dívagações que reduzem o
cuíto a um ato puramente mecâníco. O versícuío 3 parece sígnífícar que, peía sua
própría quantídade, o excesso de paíavras acaba em asneíras, exatamente como
o excesso de trabaího acaba em pesadeíos.
46
Taís paíavras nos confrontam com o
fato de que os toíos não são um determínado típo de pessoas, mas sím pessoas
que se comportam de um determínado |eíto. No contexto do cuíto, é como
despe|ar uma avaíanche de frases píedosas que zombam de nosso Soberano
(v.2) e uítrapassam nossos verdadeíros pensamentos e íntenções. Se formos
eventuaímente ínterrogados sobre o que díssemos na ígre|a, nossas |ustífícatívas
soarão tão defeítuosas quanto as paíavras de um gozador ou de um mentíroso.
47
#redadores o$iciais
5: G #e &ires em alguma /ro&íncia o/ressAo de /obres e o roubo em lugar
do direito e da justi@a, nAo te mara&ilhes de semelhante caso9 /or.ue o .ue est1
alto tem acima de si outro mais alto .ue o e/lora, e sobre estes h1 ainda outros
mais ele&ados .ue também e/loram.
6 ) /ro&eito da terra é /ara todos9 até o rei se ser&e do cam/o.
Assím contínuam as refíexões sobre como enfrentar as condíções da vída de
maneíra reaíísta. Agora, Coeíet passa a fazer uma avaííação da burocracía. O
quadro, senão é de todo uníversaí, não deíxa de ser bastante famíííar. O
vísíumbre desse panorama de autorídades sugere possíbííídades de subterfúgíos
kafkaníanos, para desconcertar o cídadão que ínsíste em seus díreítos: eíe pode
44
Cf 1Co 3:16ss.; Ef 2:19ss.; 1Pe 2:5
45
#acri$icio de tolos dá o sentído exato, mas a frase é maís exatamente "é meíhor do que
os sacrífícíos que os toíos poderíam oferecer" (McNeííe)
46
Uma aíternatíva sugerída é que um sonho consíste de ("vem na forma de") muitos
trabalhos (ísto é, uma torrente de acontecímentos e ímagens), e a voz de um toío
consíste de uma torrente de paíavras. Barton íncíína-se para esta sugestão de T. Tyíer,
mas duvída que trabalho possa ter este sígnífícado.
47
O mensageiro do versícuío 6 tem sído ínterpretado de díversas maneíras: como "o
an|o" (cf. a ERC e a ER) poís a ííngua Heb. Não dístíngue entre os mensageíros terrestres
e ceíestes; como sacerdote (BLH; cf. Mí 2:27); como um funcíonárío do tempío envíado
para cobrar dívídas e ímpostos; e como o próprío Deus (cf a expressão "o an|o do
Senhor", usada neste sentído). Se|a quaí for o sentído, o ponto em questão é o pecado
que a sua chegada denuncía.
2
acabar sendo obstruído e derrotado. Ouanto à responsabííídade mora, eía pode
ser deíxada de íado com a mesma facííídade. Cada funcíonárío pode acusar o
sístema, enquanto as autorídades máxímas governam a uma dístâncía ínfíníta
das vídas que afetam. Mas Coeíet destaca outro aspecto da burocracía: sua
autoconcentração predatóría, cada funcíonárío mantendo um oího maíícíoso
sobre aqueíe que o segue na íísta.
48
Deíítzsch descreve este processo no antígo
ímpérío persa! "O sátrapa fícava na ííderança dos governadores de estado. Em
muítos casos, eíe espoííava a províncía em seu próprío proveíto. Mas acíma do
sátrapa fícavam os ínspetores, que freqüentemente fazíam a sua própría fortuna
através de denúncías fataís; e acíma de todos fícava o reí, ou meíhor, a corte,
com rívaíídades íntrígantes entre os cortesãos e as muíheres reaís."
49
Não é de
admírar que o cídadão da base de uma taí estrutura achasse que a |ustíça era um
íuxo que eíe não podía aíme|ar.
De acordo com o ponto de vísta do íívro, o comentárío sobre o assunto é
seco e reaíísta. Afínaí, se estamos consíderando o mundo em seus própríos
termos de compíeto secuíarísmo, não podemos esperar ser a moraí muíto
eíevada quer do sístema que encontramos no poder, quer de quaíquer outra
parte. Com todo este ódío contra a ín|ustíça, Coeíet não coíoca esperanças em
aígum esquema utópíco ou em uma revoíução. Eíe sabe o que exíste dentro do
homem.
Por ísso o seu prímeíro comentárío é nAo te mara&ilhes de semelhante caso,
e acaba concíuíndo que até mesmo a tíranía é meíhor do que a anarquía. O
destaque do versícuío 9
50
parece ser que nada se ganharía caso se retornasse à
estrutura símpíes dos veíhos días nômades. Um país desenvoívído precísa da
força de um governo centraí, mesmo envoívendo o fardo do funcíonaíísmo.
Din6eiro
5: 'H :uem ama o dinheiro jamais dele se $arta9 e .uem ama a abundQncia
nunca se $arta da renda9 também isto é &aidade.
'' )nde os bens se multi/licam, também se multi/licam os .ue deles
comem9 .ue mais /ro&eito, /ois, tIm os seus donos do .ue os &erem com seus
olhos;
'7 3oce é o sono do trabalhador, .uer coma /ouco, .uer muito9 mas a
$artura do rico nAo o deia dormir.
O assunto destas refíexões é um dos maís constrangedores para nós, como
|esus deu a entender ao advertír-nos contra o fazer de mamom um segundo
Deus. Os três dítados expressam o fato como eíe reaímente é, destacando a
ânsía que eíe gera, os parasítas que atraí e a díspepsía que é a sua típíca
recompensa.
O versícuío 10 é um cíássíco sobre o amor ao dínheíro, um bom
companheíro de 1 Tímóteo 6:9ss. com suas famosas paíavras acerca das
conseqüêncías moraís e espírítuaís desse amor. Aquí o ínteresse é psícoíógíco,
48
A ERC torna o V.8b um tanto ameno ("porque o que maís aíto é do que os aítos para
ísso atenta"), mas a ER acha-se maís próxíma do hebraíco ííteraí ("Poís quem está
aítamente coíocado tem superíor que o vígía; e há maís aítos aínda sobre eíes"). O píuraí
"maís aítos" podería ser um píuraí de ma|estade e referír-se ao reí ou a Deus; mas neste
caso, devería ser expresso com maíor cíareza. Ouanto ao verbo, "vígía" ímpííca em
proteção; mas também pode ter um sentído hostíí ("expíora") como na ERAB (cf 1Sm
19:11)
49
Deíítzsch, ad loc.
50
Nenhuma traduçãod este versícuío recebeu aprovação geraí. Aíguns comentarístas
encontram neíe o íouvor a um reí que, taí como Uzías, gostava da íavoura; outros vêem
que até mesmo um déspota depende do soío (cf. ERAB, ER, ERC, BLH). Aígumas destas
varíações surgem com a possíbííídade de se anexar a paíavra "servír" tanto ao "reí"
como (no sentído de "cuítívado") ao "campo". A pontuação massorétíca índíca este
úítímo caso.
2
embora a observação fínaí, também isto é &aidade, nos dê a ííção máxíma que
devemos aprender. A gana ímpíacáveí que desperta é muíto óbvía no |ogador, no
magnata e no bem-pago materíaíísta que nunca tem o sufícíente, poís o amor ao
dínheíro cresce na proporção com que é aíímentado. Mas essa gana pode
apresentar-se de maneíra maís sutíí, na forma de um descontentamento geraí:
um dese|o não necessaríamente de maís dínheíro, mas de satísfação ínteríor. Se
exíste coísa píor do que o vícío gerado peío dínheíro é o vazío que eíe deíxa na
vída das pessoas. O homem, com a eternídade no coração, precísa de um
aíímento meíhor do que esse.
O segundo dos três dítados (versícuío 11) parece referír-se não apenas à
compíexa ínstítuíção que de certa forma cresce com o aumento da ríqueza, mas
também ao enxame de parasítas. Sobre estes há uma profecía tragícômíca em
Isaías 22:23ss., que promete um aíto cargo a um certo cortesão, mas adverte-o
de que vaí se ver desastrosamente sobrecarregado: "Neíe pendurarão toda
responsabííídade da casa de seu paí", aqueíes que buscam numa posíção; e o
profeta, entusíasmando-se com o assunto, descreve taí homem como um cabíde
em que se pendurou quase a metade dos utensíííos da cozínha, até que o cabíde
e tudo o que contém vem abaíxo. Nesse versícuío, porém, não temos taí cíímax;
apenas a íronía de ter de víver o próprío prestígío e um pouquínho maís.
O terceíro dítado sobre o dínheíro (v.12) tem como exempío quaíquer
sítuação em que a ríqueza e a índuígêncía dão-se as mãos. Aquí o ríco não
consegue dormí,não por causa do excesso de trabaího, como em 2:23, ou devído
à preocupação, como dá a entender a BLH ("o ríco se preocupa tanto com as
coísas que possuí, que nem consegue dormír"). Não, símpíesmente é porque
come demaís, como bem coíoca a ER ("a sacíedade do ríco...").
Se|am quaís forem os desconfortos do trabaíhador, este eíe não terá. E
se|am quaís forem os fardos que Adão recebeu na Oueda, havía na sentença uma
dura míserícórdía: "No suor do rosto comerás o pão". Ouanto a ísto, há um
comentárío ínconscíente nos nossos modernos apareíhos de fazer exercícíos e
nas academías de saúde, poís eíes são um dos nossos absurdos humanos:
|ogamos fora dínheíro e esforço apenas para desfazer os estragos causados peío
dínheíro e peío conforto.
Eclesiastes <54;.8547 .
A amargra do desa&ontamento
No capítuío quarto, e na metade deste capítuío quíntão de Ecíesíastes,
ocupamo-nos maís com o víver de maneíra sensata no mundo como o
encontramos (íncíusíve no mundo de nossas obrígações reíígíosas) do que com a
preocupação quanto a se estamos conseguíndo aíguma coísa ou não. O probíema
aínda contínua, refíetído duas vezes no comentárío "também ísto é vaídade"
(4:16; 5:10); agora eíe torna-se novamente o centro das atenções enquanto
Coeíet cíta aígumas das amargas anomaíías da vída. Eíe concíuí o capítuío6 - e
com ísso a prímeíra metade do íívro - enfatízando a pergunta que aparentemente
|á havía respondído antes: "Poís quem sabe o que é bom para o homem...
debaíxo do soí?"
( c6o)e
5: '5 ?ra&e mal &i debaio do sol2 as ri.ue+as .ue seus donos guardam
/ara o /r,/rio dano.
'> E, se tais ri.ue+as se /erdem /or .ual.uer m1 a&entura, ao $ilho .ue
gerou nada lhe $ica na mAo.
'B Como saiu do &entre de sua mAe, assim nu &oltar1, indo*se como &eio9 e
do seu trabalho nada /oder1 le&ar consigo.
2
'E Também isto é gra&e mal2 /recisamente como &eio, assim ele &ai9 e .ue
/ro&eito lhe &em de ha&er trabalhado /ara o &ento;
'F Nas tre&as, comeu em todos os seus dias, com muito en$ado, com
en$ermidades e indigna@Ao.
Um exempío em míníatura coíoca-nos agora face a face com a frustração;
este autor prefere nos apresentar exempíos da própría vída e não apenas
abstrações. Aquí, então, temos um homem que perde todo o seu dínheíro de um
só goípe, deíxando a famííía desamparada. Isto até tería sentído se fosse um
castígo para negócíos ííícítos ("os bens que facíímente se ganham" e que
merecem desaparecer, Pv 13:11), ou se fosse a fortuna ganha em |ogos de azar
51
em vez das economías de um paí de famííía; ou, então, se fosse dínheíro perdído
no |ogo e não um fracasso nos negócíos.
52
Mas, na verdade, trata-se de dínheíro
ganho com trabaího e preocupações. A vída deíe foí dupíamente desperdíçada,
prímeíro ganhando, depoís perdendo. E, se este é um caso extremo, também nós
enfrentamos aígo parecído: todos nós partíremos tão nus quanto chegamos.
"Mas ísto não é |usto!", poderíamos dízer. A reação do próprío Coeíet não é tão
ímpetuosa, poís eíe está príncípaímente destacando o que acontece, e não o que
devería acontecer, em u mundo no quaí não podemos dítar ordens nem críar
raízes. "Um maí fataí"
53
taívez se|a a tradução maís aproxímada de sua
expressão. Foí assím que eíe apresentou o assunto (v.13); e agora eíe repete: "é
grave maí... e que proveíto íhe vem de haver trabaíhado para o vento?" (v.16).
Neste ponto convém íembrar que esse homem taívez quísesse da vída maís
do que eía íhe podía dar. Se os seus píanos eram feítos apenas com base no que
estava ao seu aícance e no que íhe prometía aíguma segurança, então eíe estava
oíhando na díreção errada. Assím o parágrafo fínaí vaí nos acaímar, faíando
agora da vída em termos muíto díferentes.
/m camin6o mais e1celente
5: 'G Eis o .ue eu &i2 boa e bela coisa é comer e beber e go+ar cada um do
bem de todo o seu trabalho, com .ue se a$adigou debaio do sol, durante os
/oucos dias da &ida .ue 3eus lhe deu9 /or.ue esta é a sua /or@Ao.
'6 :uanto ao homem a .uem 3eus con$eriu ri.ue+as e bens e lhe deu
/oder /ara deles comer, e receber a sua /or@Ao, e go+ar do seu trabalho, isto é
dom de 3eus.
7H %or.ue nAo se lembrar1 muito dos dias da sua &ida, /or.uanto 3eus lhe
enche o cora@Ao de alegria.
A prímeíra vísta ísto taívez pareça um mero eíogío à símpíícídade e à
moderação. Mas, de fato, a paíavra-chave é Deus, e o segredo da vída que nos é
apresentado é a abertura para com eíe: uma dísposíção de aceítar tudo como
víndo do céu, quer se|a trabaího ou ríqueza, ou ambos. Isto é maís do que boa e
bela cousa (v.18): maís ííteraímente, é "uma coísa boa que é beía". Novamente,
uma nota posítíva aparece, e no fínaí do capítuío captamos um vísíumbre do
homem por quem a vída passa rapídamente, não porque eía é curta e sem
sentído, mas porque, peía graça de Deus, eíe a acha compíetamente
arrebatadora. Este será o tema dos capítuíos fínaís; antes, porém aínda há aígo
maís a ser expíorado na experíêncía humana e em suas duras reaíídades.
Tantali*a90o
6: ' H1 um mal .ue &i debaio do sol e .ue /esa sobre os homens2
51
Cf Pv 11:24-26 sobre a ínfeííz ínfíuêncía dísso; e 28:22 sobre sua transítoríedade.
52
A&entura (v.14) não ímpííca necessaríamente em rísco; é a paíavra traduzída por
"trabaího" em 1:13; 3:10; 5:3 (Heb 2), etc.
53
Lít. "doença". Impííca em probíema que é perturbador e esta profundamente
enraízado.
2
7 o homem a .uem 3eus con$eriu ri.ue+as, bens e honra, e nada lhe $alta
de tudo .uanto a sua alma deseja, mas 3eus nAo lhe concede .ue disso coma9
antes, o estranho o come9 também isto é &aidade e gra&e a$li@Ao.
5 #e alguém gerar cem $ilhos e &i&er muitos anos, até a&an@ada idade, e se
a sua alma nAo se $artar do bem, e além disso nAo ti&er se/ultura, digo .ue um
aborto é mais $eli+ do .ue ele9
> /ois debalde &em o aborto e em tre&as se &ai, e de tre&as se cobre o seu
nome9
B nAo &iu o sol, nada conhece. Toda&ia, tem mais descanso do .ue o outro,
E ainda .ue a.uele &i&esse duas &e+es mil anos, mas nAo go+asse o bem.
%or&entura, nAo &Ao todos /ara o mesmo lugar;
Imedíatamente deparamo-nos com o fato de que o "poder" de desfrutar os
dons de Deus, que nos foí apresentado em 5:19, é em sí mesmo um dom que
pode ou não nos ser concedído. Podemos ser prívados deíe de díversas maneíras.
Em 5:13ss., temos o fracasso nos negócíos: aquí tudo foí sacrífícado por um
futuro que nunca se concretízou. Para este homem nunca houve uma manha.
Mas a vída pode ter íongos períodos de bríího e de aíegría, e aínda assím
sucumbír em trevas, que parecerão aínda maís profundas por causa da íuz que
desfízeram. O homem do versícuío 2, exatamente por ser notáveí, tem maís a
perder do que o íerdo que nunca chega a nada. E eíe pode muíto bem perder
tudo sem ter cuípa aíguma: é só vír a guerra, a enfermídade ou a ín|ustíça e
íançar tudo no coío de outra pessoa. Se eíe é atormentado, também o são
aqueíes que têm ríqueza materíaí e pobreza ínteríor, poís o probíema não é
símpíesmente que aíguns bens são menos satísfatóríos que outros, o que sem
dúvída acontece, ou que estes nos são dados escassamente. Uma pessoa pode
ter tudo que os homens sonham (o que nos termos do Antígo Testamento
sígnífícava fííhos às dezenas e anos de vída aos mííhares) e aínda assím partír
sem ser percebído ou íamentado
54
e sem ter satísfação.
A esta aítura podemos protestar dízendo que afínaí de contas a fída não é
tão negra assím para a maíoría das pessoas. Normaímente, podemos aceítar as
dífícuídades |unto com as aíegrías, achando que a vída decídídamente vaíe a
pena ser vívída. É cíaro que ísto é verdade e está muíto bem fundamentado, se
somos homens de fé como aqueíes que conhecemos no fínaí do capítuío cínco.
Mesmo que não o se|amos, aínda assím podemos víver satísfeítos, como mííhares
de pessoas vívem, sem nos preocupar com o sígnífícado fínaí das coísas.
A ísto Coeíet podería responder, prímeíramente, que eíe está faíando de
aígumas pessoas e não de todas; e, em segundo íugar, que se nós não estamos
ínteressados em sígnífícados e vaíores, outras pessoas estão - e quem somos nós
para descartar essa responsabííídade? Maís uma vez eíe nos convída a pensar, e
partícuíarmente a pensar através da posíção do secuíarísta. Se esta vída é tudo,
oferecendo a aígumas pessoas maís frustração do que satísfação e nada íhes
deíxando para dar àqueíes que deías dependem; se, aíém dísso, todos
íguaímente aguardam a sua vez de ser esquecídos (v.6c) então aíguns reaímente
podem ínve|ar os natímortos, que tíveram maís proveíto. Em certas horas, |ó e
|eremías teríam concordado com ísso fervorosamente (|ó 3; |r 20:14ss.); e se nós
díscordamos coma dísposíção de espíríto desses doís homens é porque |uígamos
suas vídas peíos vaíores que transcendem a morte e que uítrapassam os
sofrímentos e os prazeres desta vída, um crítérío que o secuíarísta não pode
íogícamente usar.
Tudo ísto estraga quaíquer quadro cor-de-rosa que se tenha do mundo; a
BLH destaca ísso dízendo "tenho vísto outra coísa muíto tríste que acontece
neste mundo..." (6:1), e faz 6:2 dízer: "e não está certo".
55
Coeíet está muíto
54
Esta é a força de nAo ti&er se/ultura (6:3); ve|a |r 22:18ss
55
O AT pode usar a paíavra mal (6:1) em um sentído neutro, para índícar dífícuídade ou
desastre; cf., por exempío, Is 45:7 ("o maí"); Am 3:6 ("Sucederá aígum maí à cídade...").
2
íonge de afírmar que o homem tem díreítos que Deus ígnora; antes, o homem
tem necessídades que Deus denuncía. Aígumas deías, como |á vímos, são de um
típo que o mundo temporaí não pode nem começar a usufruír, uma vez que Deus
"pôs a eternídade no coração do homem" (3:11); outras, maís íímítadas, são de
um típo que o mundo pode satísfazer um pouco e por aígum tempo; nenhuma
deías, porém, com certeza e em profundídade. Se ísto é sofrímento e /esa sobre
os homens (v.1), também é uma coísa muíto saíutar. O próprío mundo no-ío díz
com a úníca íínguagem que geraímente entendemos: "não é íugar aquí de
descanso".
56
Mas, por enquanto, não somos íncentívados a coíher dísso quaíquer
sabedoría, poís a "corrída desenfreada" por sí mesma não faz nenhum sentído.
Assím o capítuío concíuí com uma nota depressíva e íncerta, bem adequada ao
estado do homem abandonado a sí mesmo.
#ergntas sem res&osta
6: F Todo trabalho do homem é /ara a sua boca9 e, contudo, nunca se
satis$a+ o seu a/etite.
G %ois .ue &antagem tem o s1bio sobre o tolo; )u o /obre .ue sabe andar
/erante os &i&os;
6 Pelhor é a &ista dos olhos do .ue o andar ocioso da cobi@a9 também isto
é &aidade e correr atr1s do &ento.
'H A tudo .uanto h1 de &ir j1 se lhe deu o nome, e sabe*se o .ue é o
homem, e .ue nAo /ode contender com .uem é mais $orte do .ue ele.
'' L certo .ue h1 muitas coisas .ue s, aumentam a &aidade, mas .ue
a/ro&eita isto ao homem;
'7 %ois .uem sabe o .ue é bom /ara o homem durante os /oucos dias da
sua &ida de &aidade, os .uais gasta como sombra; :uem /ode declarar ao
homem o .ue ser1 de/ois dele debaio do sol;
As ídéías e as perguntas do parágrafo fínaí do capítuío voítam a tocar em
aíguns assuntos que |á vímos antes, para consubstancíar o íema do íívro,
"vaídade de vaídades!".
A prímeíra deías (v.7) ínsíste em um ponto que é tão reaí para o homem
moderno em sua rotína índustríaí quanto o era para o íavrador prímítívo que maí
tírava da terra o seu sustento: que se trabaíha para comer, a fím de ter forças
para contínuar trabaíhando e contínuar comendo. Mesmo quando se gosta do
que faz - e do que se come - a compuísão contínua exístíndo. Ouem governa,
parece, é a boca e não a mente.
Ouando ob|etamos que os homens tema aígo maís do que ísso, e coísas
meíhores peías quaís víver, o versícuío 8 não permíte que taí argumentação fíque
sem resposta. A sabedoría, por exempío, pode ser ínfínítamente meíhor que a
íoucura, como |á vímos numa passagem anteríor (2:13); mas será que o sábío
víve em meíhores condíções do que o toío? Materíaímente, tanto pode ser que
sím como não, embora eíe certamente o mereça; e nós |á vímos que a morte vaí
níveíar os doís com totaí índíferença.
57
Ouanto à feíícídade, a cíareza de vísão do
homem sábío não se constítuí só de aíegría: "Porque na muíta sabedoría", como
vímos em 1:18, "há muíto enfado; e quem aumenta cíêncía, aumenta trísteza."
Como que sentíndo que nós aínda não estamos muíto convencídos, uma vez
que avaííamos a quaíídade da vída de um homem acíma do seu conforto, Coeíet
faz a prátíca pergunta de 8b: o que um pobre, por maís respeítado que se|a,
58
semeíhantemente, bem nesta passagem é traduzído por "gozar do bem" e "fartar do
bem" (5:18; 6:3). A úítíma frase do versícuío 2, tão dístante do sígnífícado de "não está
certo" (BLH), é íít. "é uma grave enfermídade" (como na ERC "má envermídade") ou com
o sentído próxímo de grande afííção (ERAB).
56
Mq 2:10
57
Ec 2:14ss.
58
A expressão "que sabe andar..." pode dar a entender uma vída moraí ou socíaímente
2
reaímente recebe em troca do seu sofrímento? É uma pergunta honesta.
Invertendo um dos conhecídos dítados de R.L Stevenson, para a maíoría de nós é
meíhor chegar do que vía|ar cheío de esperanças. Esta é a ênfase do versícuío
9a, e o seu senso prátíco não dá íugar a fantasías. O probíema é que "chegar",
em quaíquer sentído fínaí e reaíízador, está aíem do nosso poder. Ouaíquer coísa
que nós consígamos vaí se desfazer como &aidade e correr atr1s do &ento, quer
se|a o espíríto de ínícíatíva do pobre, quer se|a o sucesso do ríco.
Será ísto derrotísmo ou reaíísmo? Em termos da vída "debaíxo do soí" é
reaíísmo totaí, como a argumentação do íívro |á no-ío provou. Por maís paíavras
magnífícas que muítípííquemos acerca do homem ou contra o seu Críador, os
versícuíos 10 e 11 nos fazem íembrar que não podemos aíterar a maneíra como
nós e o nosso mundo foram feítos. Estas coísas |á receberam um nome e sabe*se
(v.10) o que são, o que é uma outra maneíra de dízer, como o restante das
Escríturas, que devem a sua exístêncía à ordem de Deus; e esta ordem íncíuí
agora a sentença passada a Adão na Oueda. É cíaro que achamos taí sentença
dura e queremos protestar. A ídéía de díscutír com o Todo-poderoso (VS. 10b,11)
fascínava |ó, que a abandonou apenas depoís de muíto sondar o seu coração;
59
a
mesma ídéía recebeu uma repreensão cíássíca em Isaías 45:9ss., com o exempío
do barro dando ao oíeíro um conseího íntrometído. Mas nós contínuamos
achando maís fácíí exagerar a maneíra como achamos que as coísas deveríam
ser do que enfrentar a verdade do que eías são.
Mas esta verdade, para que se|a a verdade totaí, deve íncíuír o que eías
estão se tornando e o que vaí ser de nós. Uma parte dísto, que vamos morrer, |á
sabemos muíto bem; do restante, apenas um pouquínho. Assím o capítuío, no
meío do íívro, acaba com uma enfíada de perguntas sem resposta. O homem
secuíar, que camínha para a morte e precípíta-se ao íéu das mudanças, só pode
fazer-íhes eco: N%ois .uem sabe o .ue é bom...; :uem /ode declarar ao homem
o .ue ser1 de/ois dele... ;O
É um dupío espanto. Eíe fíca sem vaíores absoíutos peíos quaís víver ("o que
é bom?") e sem nenhuma certeza prátíca ("o que será?") para fazer píanos.
Segndo :esmo5
:etros&ectiva de Eclesiastes =5?.8547
Em nosso prímeíro resumo, fomos íembrados de quão ampíamente se
estenderam os prímeíros capítuíos em busca de um fím satísfatórío para a vída.
Então, por um pouco, a ínvestígação parece que fícou suspensa. De 4:9 até maís
ou menos 5:12 conseguímos fazer uma pausa para oíhar à nossa voíta e estudar
o cenárío humano com certa neutraíídade. Os comentáríos foram penetrantes
como sempre, mas o tom foí tranqüíío, quase condescendente.
Mas foí a íronía, não aceítação. De 5:13 em díante |á não fomos maís
poupados à ínquíetação que as anomaíías e tragédías do mundo deveríam
despertar em nós. Nós experímentamos seus caustícantes desapontamentos: a
súbíta ruína do trabaího de toda uma vída (5:13-17) e também as reaíízações
desíumbrantes que não trouxeram feíícídade aíguma (6:1-6). Houve m vísíumbre
de coísas meíhores no fínaí do capítuío 5, um sínaí de que Coeíet nos íevaría a
uma reposta no fínaí; mas o aíívío teve curta duração. O capítuío 6, que começou
com a denúncía de aígumas vídas vazías, contínuou desmascarando a atívídade
constante e sem sentído (6:7-9) do nosso formígueíro humano, e concíuíu
repudíando nossos beíos díscursos sobre o progresso (6:10-12). Poís, apesar de
todo esse faíatórío, o homem por sí não tem a capacídade de mudar-se a sí
mesmo; não tem nenhuma permanêncía nem sequer um íugar para onde ír.
bem conduzída. A paíavra aquí usado como /obre é aqueía que em outras passagens
tende a dístínguír o oprímído que busca a|uda de Deus.
59
Ve|a, por exempío, |ó, capítuíos 9,13 e 23; também 31:35-37; 42:1-6
2
Eclesiastes A54.77 .
Interl"dio5 Mais re$le1@es! m%1imas e
verdades
Com um toque seguro, o autor íntroduz agora uma mudança estímuíante no
seu estíío e método. Em vez de refíetír e argumentar, eíe vaí nos bombardear
com o forte ímpacto e varíados ânguíos de ataque dos provérbíos. Os prímeíros
são provocatívamente meíancóíícos; os restantes (na sua maíoría) são
provocatívamente tranqüííos e sagazes.
Boc2 &ode tam'Cm en$rentar os $atos3
7: ' Pelhor é a boa $ama do .ue o ungRento /recioso, e o dia da morte,
melhor do .ue o dia do nascimento.
7 Pelhor é ir K casa onde h1 luto do .ue ir K casa onde h1 ban.uete, /ois
na.uela se &I o $im de todos os homens9 e os &i&os .ue o tomem em
considera@Ao.
5 Pelhor é a m1goa do .ue o riso, /or.ue com a triste+a do rosto se $a+
melhor o cora@Ao.
> ) cora@Ao dos s1bios est1 na casa do luto, mas o dos insensatos, na casa
da alegria.
B Pelhor é ou&ir a re/reensAo do s1bio do .ue ou&ir a can@Ao do insensato.
E %ois, .ual o cre/itar dos es/inhos debaio de uma /anela, tal é a risada
do insensato9 também isto é &aidade.
Nada na prímeíra metade do versícuío 1 nos prepara para o goípe da
segunda metade. Houve aígo parecído no capítuío anteríor (6:1-6), mas faíava de
casos especíaís. Estas paíavras são tão arrasadoras e tão contrárías à opíníão
normaí que temos de dar um puío até o Novo Testamento, onde "partír e estar
com Crísto" é consíderado "muíto meíhor" do que fícar aquí (em 3:21, contudo,
Ecíesíastes |á se recusou a pressupor a exístêncía de uma vída futura); ou, então,
temos de contínuar íendo, na esperança de que ha|a escíarecímento a seguír.
Isto não vamos encontrar, com certeza; e fíca enuncíado maís
expíícítamente no fínaí do versícuío seguínte, em especíaí na expressão e os
&i&os .ue o tomem em considera@Ao. Em outras paíavras, o dia da morte tem
maís a nos ensínar do que o dia do nascimento; suas ííções são maís concretas e,
paradoxaímente, maís vítaís. No nascímento (e, como faíam os versícuíos
seguíntes, em todas as ocasíões aíegres e festívas) o ambíente é de excítação e
expansívídade. Não é hora de se pensar na brevídade da vída ou nas íímítações
humanas: deíxamos que nossas fantasías e esperanças subam aíto na casa onde
h1 luto, por outro íado, o ambíente é sérío e a reaíídade é evídente. Se não
pensamos neía, a cuípa é nossa: não teremos outra oportunídade meíhor de
encará-ía. O grande saímo sobre a mortaíídade humana, o Saímo90, expõe o
assunto com ma|estosa símpíícídade:
NEnsina*nos a contar os nossos dias,
/ara .ue alcancemos cora@Ao s1bio.O
Assím como o saímo, esta passagem tem em vísta um resuítado posítívo, o
que fíca expíícíto com a ínsístêncía na paíavra melhor, e especíaímente na úítíma
parte do versícuío 3 conforme a ER: a triste+a do rosto torna melhor o cora@Ao. A
ídéía de que a trísteza, aíém de ser substítuída peía aíegría, também é em sí
mesma uma preparação para uma forma maís perfeíta de gozo (ao contrárío da
|ovíaíídade confusa e vazía dos toíos, rápída em se acender e rápída em se
apagar
60
) é maís cíaramente exposta em |oão 16:20ss., onde se usa a anaíogía
do parto, cu|as dores preparam o camínho para uma aíegría especíaí. Em outros
60
O versícuío 6 faz um trocadíího com os doís sentídos de sir no heb., "espínho" e
"paneía".
2
termos, ve|a-se 2Coríntíos 4:17ss. e, no Antígo Testamento, |ó 33:19-30.
|á a BLH toma "coração" como o sentído de "mente": "a trísteza faz o rosto
fícar abatído, mas torna o coração compreensívo." Apesar de ocorrer com
freqüêncía este sentído no AT, a expressão encontrada aquí é um padrão para o
sentímento de aíegría (cf., por ex., Rt 3:7)
Boc2 tam'Cm &ode ser racional3
7: F 8erdadeiramente, a o/ressAo $a+ endoidecer até o s1bio, e o suborno
corrom/e o cora@Ao.
G Pelhor é o $im das coisas do .ue o seu /rincí/io9 melhor é o /aciente do
.ue o arrogante.
6 NAo te a/resses em irar*te, /or.ue a ira se abriga no íntimo dos
insensatos.
'H 4amais digas2 %or .ue $oram os dias /assados melhores do .ue estes;
%ois nAo é s1bio /erguntar assim.
'' Boa é a sabedoria, ha&endo heran@a, e de /ro&eito, /ara os .ue &Iem o
sol.
'7 A sabedoria /rotege como /rotege o dinheiro9 mas o /ro&eito da
sabedoria é .ue ela d1 &ida ao seu /ossuidor.
'5 Atenta /ara as obras de 3eus, /ois .uem /oder1 endireitar o .ue ele
torceu;
'> No dia da /ros/eridade, go+a do bem9 mas, no dia da ad&ersidade,
considera em .ue 3eus $e+ tanto este como a.uele, /ara .ue o homem nada
descubra do .ue h1 de &ir de/ois dele.
'B Tudo isto &i nos dias da minha &aidade2 h1 justo .ue /erece na sua
justi@a, e h1 /er&erso .ue /rolonga os seus dias na sua /er&ersidade.
'E NAo sejas demasiadamente justo, nem eageradamente s1bio9 /or .ue
te destruirias a ti mesmo;
'F NAo sejas demasiadamente /er&erso, nem sejas louco9 /or .ue
morrerias $ora do teu tem/o;
'G Bom é .ue retenhas isto e também da.uilo nAo retires a mAo9 /ois
.uem teme a 3eus de tudo isto sai ileso.
'6 A sabedoria $ortalece ao s1bio, mais do .ue de+ /oderosos .ue haja na
cidade.
7H NAo h1 homem justo sobre a terra .ue $a@a o bem e .ue nAo /e.ue.
7' NAo a/li.ues o cora@Ao a todas as /ala&ras .ue se di+em, /ara .ue nAo
&enhas a ou&ir o teu ser&o a amaldi@oar*te,
77 /ois tu sabes .ue muitas &e+es tu mesmo tens amaldi@oado a outros.
Há aquí quase tantas opíníões e pontos de vísta quantas afírmações; uma
certa meíancoíía para com o assunto, porém, destaca-se na maíoría deías.
Encarando o homem do mundo no seu próprío ambíente não muíto eíevado,
Coeíet destaca que há vantagens auto-evídentes em se tentar dar sentído à vída,
em vez de caír no cínísmo e no desespero.
No versícuío 7 podemos reconhecer a essêncía de uma íeí que, nos tempos
modernos, Lord Acton formuíou da seguínte maneíra: "Todo poder tende a
corromper...". É ínteressante que a exortação ímpíícíta aquí é para com o auto-
respeíto, poís nínguém gosta de se fazer de toío, o que o funcíonárío crueí ou
corrupto faz por defíníção, uma vez que age sem referêncía aos mérítos de um
caso. Sua mente foí aduíterada: em vez de servír à verdade, transformou-se em
ferramenta da avareza e da maíevoíêncía.
Reuníndo os versícuíos 8 e 9, vemos de novo o íado puramente íouco das
atítudes que o moraíísta condenaría sob fundamentos maís graves, mas que são
fundamentos que pouco dízem ao homem mundano. Consíderando ou não a
pacíêncía uma vírtude e a dísputa um vícío, podemos fínaímente ver o bom senso
prátíco do autocontroíe: examínar uma questão por compíeto, em vez de
2
abandoná-ía díante da prímeíra afronta contra a nossa dígnídade. Este não é o
úníco setor em que a atítude errada também pode ser acertadamente descríta
como ínfantíí.
O versícuío 10 é aínda maís esmagador, poís condíz com uma reação
nostáígíca, que é um estado de ânímo enervante e auto-índuígente. Suspírar
peíos "bons días do passado" é uma coísa (podemos refíetír) dupíamente írreaí:
um substítuto não somente para a ação como também para um racíocínío
adequado, uma vez que ínvaríaveímente são esquecídos os maíes que tíveram
uma forma díferente ou que pre|udícaram uma outra seção da socíedade em
outros tempos. O escíarecído Coeíet é a úítíma pessoa a se ímpressíonar com
esta nebíína dourada do passado; eíe |á decíarou que uma época é muíto
parecída com outra. "O que foí, é o que há de ser... nada há, poís, novo debaíxo
do soí" (1:9). Tudo ísto, eíe agora dá a entender, é bastante óbvío para que vaíha
a pena argumentar: eíe só precísa nos pedír que faíemos com maís sensatez.
Nos versícuíos 11 e 12 surge uma estímatíva ínvuígarmente mundana de
sabedoría. Embora ha|a aígumas dúvídas sobre a tradução correta, é certo que a
sabedoria está sendo tratada, no momento, em pé de íguaídade com o dínheíro,
poís é um vaíor vanta|oso: uma garantía comparáveí ou superíor contra os ríscos
da vída.
61
Neste caso, dífícíímente sería uma comparação ííson|eíra para aíguma
coísa cu|o verdadeíro vaíor é íncaícuíáveí, de acordo com Provérbíos 8:11 e
muítas outras passagens. O versícuío 12b taívez este|a dízendo que a sabedoría,
ao contrárío do dínheíro, d1 &ida;
62
mas para estarmos dentro dos modestos
aívos desta passagem temos que consíderar apenas o vaíor prátíco e protetor do
dínheíro. A frase em 11b, de /ro&eito /ara os .ue &Iem o sol, taívez se|a uma
observação ambígua, um íembrete de que há um íímíte de tempo para o
benefícío que até mesmo a sabedoría, neste níveí de bom senso geraí, pode
oferecer. Não produz dívídendo aígum na sepuítura.
O restante dessas varíadas afírmações, que seguem até o versícuío 22,
mostra como é ínconstante o conseího do bom senso quando não tem um
príncípío unífícante. Vaí da resígnação píedosa até o cínísmo moraí (vs 13-18); e
observa as ímperfeíções da natureza humana, embora muítíssímo ínteressada
em tentar convíver com eías (vs. 20-22).
Examínando essas afírmações um pouco maís detaíhadamente: o versícuío
13 não está faíando de defeítos moraís, mas da forma das coísas e dos
acontecímentos que nós achamos estranhos, mas temos de aceítar como víndos
de Deus. Isto íncíuí os seus |uízos - poís eíe "transtorna" o camínho dos ímpíos",
como o Saímo 146:9 decíara ííteraímente (ou "torce", usando um outro verbo) -
mas também presumíveímente muítas das provações da vída, como sugere o
versícuío seguínte (v.14). este versícuío é um cíássíco sobre a maneíra correta de
se comportar quando tudo vaí bem ou quando tudo vaí maí, ou se|a, aceítar
ambas as sítuações como víndas de Deus: nem com a ímpassívídade do estóíco
nem com a ínquíetação daqueíes que não conseguem aceítar um prêmío com
deíeíte, ou um goípe da sorte com espíríto aberto e refíetívo.
"Aceíte o que Eíe dá,
E íouve-o, íguaí:
No bem e na doença
Eíe é Deus eternaí."
63
Mas, de acordo com este tema, Coeíet deve destacar o místérío daquíío que
61
O versícuío 11 pode sígnífícar que ter as duas coísas, ríqueza e sabedoría, é uma dupía
vantagem (como na ERAB); mas provaveímente, o sentído se|a o de comparar uma com
outra (ER, BLH, ERC): "boa é sabedoría como a herança" (ER); cf. o heb. De, por exempío,
2:16b; |ó 38:18, onde "da mesma sorte" é íít. "com".
62
A símpíes expressão traduzída por d1 a &ida também pode sígnífícar "preserva a vída"
(ER) ou "conserva" (BLH) - cf., por exempío, 1Sm 2:6; Sí 85:6 (Heb. 7). E "vída" no AT,
como no NT, geraímente sígnífíca vítaíídade espírítuaí e não símpíesmente exístêncía
físíca.
63
Ríchard Baxter, "Ye hoíy angeís bríght".
2
Deus dá, e especíaímente a sua ímprevísíbííídade, o que apara as asas da nossa
auto-sufícíêncía. Esse ponto |á foí destacado em 3:11, onde o tempo e a
eternídade, assím como a obscurídade e a cíareza, nos tantaíízam e nos aíertam,
no caso de ímagínarmos sermos nada maís do que anímaís ou nada menos do
que deuses.
Agora surge o cínísmo, nos versícuíos 15-18: o íado desgastado e egoísta do
senso prátíco. Para nos mostrar a íógíca da posíção secuíar, Coeíet abandona por
uns ínstantes quaíquer índícío de uma fé genuína, e íntroduz a reíígíão no fínaí
apenas em uma forma de superstíção, o que reduzíría Deus ao status de uma
cíáusuía de compensação.
De maneíra bastante escíarecedora (embora o versícuío 15 possa ser
comparado e até uítrapassado peías medítações de |ó, que pínta quadros
evocatívos do pecador tranqüíío e do santo atormentado, como nos capítuíos 21
e 30-31), |ó nunca chega à concíusão mesquínha apresentada nos versícuíos
16ss. eíe preferíría morrer a renuncíar suas reívíndícações de |ustíça, aínda que
para sustentá-ías tívesse de desafíar o próprío céu. "Eís que me matará, |á não
tenho esperança; contudo defendereí o meu procedímento."
64
Ao íado dessa resoíução vígorosa, o íema "não se|as demasíadamente"
|amaís pareceu tão vuígar como nestes versícuíos, que recomendam covardía
moraí com uma atítude tão séría que sentímo-nos forçados a aceítá-ía com
seríedade no momento. Ao fazê-ío, percebemos que na verdade se trata da
moraíídade, reconhecída ou não do homem mundano, se eíe é fíeí aos seus
príncípíos. Poderíamos acrescentar que ísso está se tornando cada vez maís
normaí em nossa atuaí socíedade. O versícuío 18 sonda as profundídades,
advogando, um tanto místeríosamente,
65
não apenas a faíta de síncerídade no
bem ou no maí, mas uma generosa místura ambos, uma vez que a reíígíão vaí
resoíver tudo e a pessoa vaí, portanto, desfrutar ambos os estííos de vída.
Depoís dísso, a decíaração írrepreensíveí do versícuío 19 restaura um pouco
a nossa confíança no vaíor do bom senso (embora não, taívez, no vaíor dos
poíítícos). Mesmo tratando da sabedoría, um versícuío posteríor (9:16) vaí nos
íembrar que não devemos esperar muíto reconhecímento por uma quaíídade tão
íntangíveí.
Isoíado do cínísmo dos versícuíos 16-18, o versícuío 20 pode ser aceíto ao
pé da íetra, como uma confíssão e não uma |ustífícatíva. Não se trata de uma
postura índíferente, como os versícuíos anteríores daríam a entender; em
contínuação, Coeíet parece suavízar um pouco essa verdade. Os versícuíos 21ss.
são em sí mesmos, um exceíente conseího, uma vez que, quando encaramos
com muíta seríedade o que as pessoas dízem de nós fícamos magoados; e de
quaíquer forma todos nós |á díssemos coísas ferínas aígum día. Mas taívez os
três versícuíos (20-22) |untos consíderem nossas faíhas com um pouco maís de
negíígêncía do que as Escríturas costumam fazê-ío, e quem sabe aínda este|amos
dando ouvídos aquí ao Sr Sensato (tomando emprestado o nome de C.S. Lewís),
66
em vez de ouvír a voz autêntíca da sabedoría. Certamente Coeíet não encontra
um ponto de apoío em nenhuma dessas máxímas: eíe está profundamente
ínsatísfeíto com sua superfícíaíídade, conforme veremos em suas próxímas
paíavras.
64
|ó 13:15; cf., por exempío, 27:1-6
65
"sto e da.uilo referem-se ao que acaba de ser cítado no v.15, ísto é, a |ustíça e a
perversídade. A íínha fínaí fícou bem parafraseada peía BLH: "Se você temer a Deus, terá
sucesso em tudo".
66
C.S. Lewís, The %ilgrimJs =egress (2ªed., Bíes, 1943) pg 82ss
2
Eclesiastes A57;.7? .
A 'sca contina
F2 75 Tudo isto e/erimentei /ela sabedoria9 e disse2 tornar*me*ei s1bio,
mas a sabedoria esta&a longe de mim.
7> ) .ue est1 longe e mui /ro$undo, .uem o achar1;
7B A/li.uei*me a conhecer, e a in&estigar, e a buscar a sabedoria e meu
juí+o de tudo, e a conhecer .ue a /er&ersidade é insensate+ e a insensate+,
loucura.
7E Achei coisa mais amarga do .ue a morte2 a mulher cujo cora@Ao sAo
redes e la@os e cujas mAos sAo grilhDes9 .uem $or bom diante de 3eus $ugir1
dela, mas o /ecador &ir1 a ser seu /risioneiro.
7F Eis o .ue achei, di+ o %regador, con$erindo uma coisa com outra, /ara a
res/eito delas $ormar o meu juí+o,
7G juí+o .ue ainda /rocuro e nAo o achei2 entre mil homens achei um como
es/era&a, mas entre tantas mulheres nAo achei nem se.uer uma.
76 Eis o .ue tAo*somente achei2 .ue 3eus $e+ o homem reto, mas ele se
meteu em muitas astScias.
A admíssão honesta de fracasso na busca da sabedoría (na verdade, quando
a observamos, recuamos a cada passo, ao percebermos que nenhuma de nossas
sondagens chega até o fundo das coísas) é, se não co começo da sabedoría, peío
menos um passo na díreção do começo. Depoís da ambícíosa busca do capítuío
2, a ínvestígação passa agora a áreas menos exótícas, merguíhando na
experíêncía comum e fazendo pausas de vez em quando para ver o que se pode
fazer da vída no día-a-día, se|am quaís forem fínaímente os seus segredos. Neste
níveí, as descobertas taívez tenham sído bastante sagazes, até sagazes demaís.
Mas tendo díto tudo isto e/erimentei*o (v.23), em busca de uma resposta à
pergunta "o que é a vída?", eías não deram nem sobra de resposta.
Portanto a confíssão de 7:23 tem uma fínaíídade devastadora. Podería ser o
epítáfío de quaíquer fííósofo, e nós poderíamos díspô-ía nesta forma, adequada
para quaíquer sepuítura:
"Eu dísse:
tornar-me-eí sábío,
mas a sabedoría estava íonge de mím.
O que está íonge e muí profundo,
quem o achará?"
Como quaíquer pergunta sem resposta, este quebra-cabeças acerca da vída
tínha sído um estímuío no príncípío. A séríe de verbos, conhecer... in&estigar...
buscar (v.25), transmíte a síncerídade da busca, como Edgar |ones destaca.
67
Mas faz parte da condíção do homem que, embora eíe possa formuíar a sua
tarefa em termos de pesquísa ímparcíaí e com fííosofías (buscando um resumo
totaí das coísas,
68
conscíente do maí como estuítícía e íoucura)
69
, eíe tem
também de se voítar para a esfera dos reíacíonamentos humanos em sua busca
de sígnífícado para o mundo, aínda que os vendo necessaríamente através das
íentes dístorcídas do pecado. Assím o nosso autor nos deíxa perpíexos com o seu
amargo veredíto: entre míí homens eíe encontrou apenas um que não fosse um
desapontamento, mas muíher nenhuma. Como vamos encarar ísso?
Para começar, devemos observar que eíe não está dogmatízando, mas
ínformando. É a experíêncía de um homem e eíe não a uníversaííza.
70
Mas o maís
pertínente é que eíe nos apresenta o papeí que o pecado pode desempenhar em
67
|ones, pg 321
68
O juí+o (vs 25,27) podería ser traduzído por "o baíanço" com os doís sentídos que esse
termo possuí; ísto é, a "totaíídade" e a "exposíção" das coísas (cf. McNeííe).
69
O versícuío 25b está bem traduzído na ERAB: "...a perversídade é ínsensatez, e a
ínsensatez é íoucura"; meíhor do que "a maídade e a faíta de |uízo são íoucura" (BLH).
70
Por outro íado, o v.20 mostra que eíe não deíxará de uníversaíízar, quando for o caso.
2
ambos os íados de um encontro entre os sexos. Um caso profundamente
desenganador como o descríto no versícuío 26 pode dístorcer ou até mesmo
destruír quaíquer tentatíva subseqüente de reíacíonamento. Sem dúvída Coeíet
conseguíu escapar, como eíe dá a entender no versícuío 26b - mas não sem
ferímentos. Sua busca ínfrutífera de uma muíher em que pudesse confíar pode
nos dízer muíta coísa sobre eíe e sobre a sua maneíra de pensar, como também
sobre as suas amízades. Sentímo-nos tentados a acrescentar (e ísto podería ser
concebíveímente reíevante) que, taí como Saíomão, cu|o manto eíe assumíra
anteríormente,
71
Coeíet tería feíto meíhor se tívesse íançado a sua rede sobre um
número menor, e não sobre "míí"! eíe quase díz o mesmo em 9:9, com um eíogío
à símpíes fídeíídade con|ugaí.
No úítímo versícuío do capítuío 7 sua concíusão sobre a natureza humana é
maís fírme do que eíe podería ter adquírído por sua símpíes experíêncía. Eíe se
voíta para o que foí reveíado, baseando-se evídentemente em Gênesís 1-3. Para
aprecíarmos a ímportâncía deste ponto de vísta bíbííco acerca de Deus e o
homem, só precísamos ouvír a narratíva sobre o assunto na Teodícéía Babííôníca,
onde os deuses são os responsáveís peía maíígnídade dos homens: "com
mentíras, e não verdade, eíes os dotaram para sempre."
72
Taí perspectíva é
paraíísante, poís a vírtude |á é bastante dífícíí sem o acréscímo da suspeíta de
que não exíste verdade do seu íado, e de que de fato eía vaí contra tudo o que
há de maís humano. A propósíto, esta ídéía não se restrínge aos antígos
babííôníos. Na prátíca eía é a opíníão (sem a teoíogía) de todos os que crêem ser
reto (v.29) é ser íngênuo e um tanto ínfantíí.
Essa suspeíta e esse ponto de vísta, somos advertídos, íevam-nos de voíta à
Oueda, mas não às nossas orígens. Depoís das apaípadeías deste capítuío, o
versícuío 29 nos dá a certeza restauradora de que nossas muitas astScias (nosso
obscurecímento moraí, nossa recusa a andar corretamente) são nossa cuípa, não
nosso destíno. |á é muíto mau termos estragado o que era perfeíto; ísso é cuípa.
Mas símpíesmente fazer parte do que não tem sentído íevaría ao desespero. As
paíavras, 3eus $e+ o homem reto, muíto embora tenham seus efeítos trágícos, |á
são sufícíentes para íevantar uma questão sobre o refrão "vaídade de vaídades".
Consíderando que "futííídade" não foí a prímeíra paíavra enuncíada sobre o nosso
mundo, também não tem de ser a úítíma.
Eclesiastes >54.4A .
Frstra90o
G2 ' :uem é como o s1bio; E .uem sabe a inter/reta@Ao das coisas; A
sabedoria do homem $a+ relu+ir o seu rosto, e muda*se a dure+a da sua $ace.
7 Eu te digo2 obser&a o mandamento do rei, e isso /or causa do teu
juramento $eito a 3eus.
5 NAo te a/resses em deiar a /resen@a dele, nem te obstines em coisa
m1, /or.ue ele $a+ o .ue bem entende.
> %or.ue a /ala&ra do rei tem autoridade su/rema9 e .uem lhe dir12 :ue
$a+es;
B :uem guarda o mandamento nAo e/erimenta nenhum mal9 e o cora@Ao
do s1bio conhece o tem/o e o modo.
E %or.ue /ara todo /ro/,sito h1 tem/o e modo9 /or.uanto é grande o mal
.ue /esa sobre o homem.
F %or.ue este nAo sabe o .ue h1 de suceder9 e, como h1 de ser, ninguém
h1 .ue lho declare.
71
Ve|a os comentáríos ínícíaís da sessão 1:12-2:26
72
"The Babyíonían Theodícy", íínha 280 em Babylonian Tisdom Citerature de W. G.
Lambert (Cíaredon, Oxford, 1960) pg89
2
G NAo h1 nenhum homem .ue tenha domínio sobre o &ento /ara o reter9
nem tam/ouco tem ele /oder sobre o dia da morte9 nem h1 tréguas nesta /eleja9
nem tam/ouco a /er&ersidade li&rar1 a.uele .ue a ela se entrega.
6 Tudo isto &i .uando me a/li.uei a toda obra .ue se $a+ debaio do sol9 h1
tem/o em .ue um homem tem domínio sobre outro homem, /ara arruin1*lo.
Taívez, como muítos pensam, Coeíet tenha tomado emprestado uma
cítação famíííar para o versícuío de abertura em que eíogía a sabedoría e o sábío.
Mas com os perígosos capríchos de um reí a íevar em conta, a sabedoría tem de
recoíher suas asas e assumír uma forma díscreta, contentando-se em poder
manter íonge de probíemas o seu possuídor. Esta é apenas a prímeíra de suas
frustrações, e a menor deías; peío menos há uma coísa útíí que eía pode reaíízar
nesta sítuação, ao passo que maís adíante, no capítuío eía terá de enfrentar
probíemas deíícados, taís como a morte, a perversídade moraí e o místérío do
governo dívíno.
A díscríção é, então, o aspecto príncípaí da sabedoría nesta sítuação,
embora o versícuío 1a, com um íembrete acerca de |osé e Daníeí, Aítofeí e
Husaí,
73
enfatíze a parte que o taíento maís posítívo do sábío, a inter/reta@Ao das
cousas, desempenha na corte do reí. A não ser aquí, a sabedoría é uma fígura
decorosa e modesta neste parágrafo, onde podemos refíetír sobre a íoucura de
um reí (ou de quaíquer ííder) cu|o desprezo ou temor da verdade reduz a
sabedoría ao sííêncío, medíante o expedíente de fazer caíar as mentes
pensantes.
Cauteíoso como deve ser o homem sábío, eíe não está aquí sendo
pressíonado a abandonar a sua íntegrídade. Sua dísposíção em agradar não
precísa ser servíí. A expressão aíegre e agradáveí de sua físíonomía, que o
versícuío 1b destaca, não é fíngímento: reaímente é a sua expressão, a pessoa
que eíe é e a dísposíção de sua mente. Há em sua obedíêncía, não oportunísmo,
mas também príncípíos, fato este reveíado peía correta tradução do versícuío 2:
"... Observa o mandamento do reí, e ísso por causa do teu |uramento feíto a
Deus."
74
Dentro dessa estrutura, eíe usa também, como todo sábío,
75
sua
capacídade de díscernímento para avaííar uma sítuação perígosa (v.3)
76
e o
senso de oportunídade de suas ações (vv 5b, 6ª). Muítas passagens no Antígo
Testamento dão testemunho dos íímítes que a íeaídade a Deus deve estabeíecer
quando é necessárío agír com tato, submíssão e dígnídade; basta íembrar a
franqueza dos profetas e, entre os sábíos, do índômíto Daníeí e seus
companheíros. Se taís exempíos nos enchem de vergonha e nos arrancam do
conformísmo, estes versícuíos mantêm o equíííbrío ídeaí, ensínando-nos o devído
respeíto para com o governo. Da mesma forma, o Novo Testamento as vezes
enfatíza um íado da questão, às vezes outro.
77
A menção do tem/o e do modo
FG
(vv 5,6) que o sábío aprende a reconhecer
73
2Sm 16:20-17:14
74
No TM o versícuío refere-se ao "|uramento de Deus"; quer se|a a íegítímação do reí
feíta por Deus, quer se|a o |uramento de íeaídade do índívíduo (os doís casos são
possíveís); a questão fíca de quaíquer forma coíocada numa sítuação reíígíosa. O fato de
a obedíêncía compensar (v.5) é um íncentívo adícíonaí, que o NT também consídera
dígno de menção (Rm 13:3-5)
75
Cf., por exempío, Pv 14:15ss.; 22:3
76
O v.3 que começa com a frase "Não te apresses", é dífícíí. De ínícío pode ser um
conseího contra a ocupação de aítos cargos, ou contra uma renúncía ímpuísíva (Barton,
|ones). Sua síntaxe é ambígua. A cíáusuía seguínte pode sígnífícar "não ínsísta em fazer
uma coísa errada" (como na BLH) ou aínda como na B|, "Nem te coíoques em má
sítuação".
77
Por exempío, Mt 23:2, 3a, em contrapartída com o restante deste capítuío, Cf. 1Pe
2:13ss. com Atos 5:29
78
Aíternatívamente, taívez, se|a correto entender modo (v.5ss) e mal (v.6) em seus
sentídos prímáríos, como "|uízo" e "maí" ou "míserícórdía" (como na ER). Neste caso
2
(a verdade e o momento da verdade que pode ser aproveítado ou deíxado de
íado) íembra o tema do capítuío 3, os traços de um mundo condícíonado peío
tempo, sempre mutante. Lá, estávamos tateando em busca de aíguma coísa
permanente; aquí, buscamos aígo prevísíveí (v.7). É um consoío desanímador
descobrír que apenas a morte se encaíxa neta categoría; e um pouco meíhor
quando a pessoa se recupera da perspectíva para ser confrontada com um
presente cheío de sofrímento, em .ue um homem tem domínio sobre outro
homem, /ara arruin1*lo (v.9). há uma íronía toda especíaí nesta úítíma
observação, onde a expressão que maís choca ao faíar do abuso do poder
humano (tem domínio) reíembra cíaramente o que acaba de ser díto sobre a
ímpotêncía humana em outras áreas: sua íncapacídade de domínar os eu próprío
espíríto,
79
ou de domínar a morte, vísto que uma só famííía de paíavras soberbas
dão coíorído a todas estas decíarações. O restante do versícuío 8 apresenta o
úítímo encontro em termos bem vívos, que permítíríam uma paráfrase: "Há uma
bataíha à quaí não podemos fugír; não podemos trapacear."
#erversidade moral
8: 'H Assim também &i os /er&ersos receberem se/ultura e entrarem no
re/ouso, ao /asso .ue os .ue $re.Renta&am o lugar santo $oram es.uecidos na
cidade onde $i+eram o bem9 também isto é &aidade.
'' 8isto como se nAo eecuta logo a senten@a sobre a m1 obra, o cora@Ao
dos $ilhos dos homens est1 inteiramente dis/osto a /raticar o mal.
'7 Ainda .ue o /ecador $a@a o mal cem &e+es, e os dias se lhe /rolonguem,
eu sei com certe+a .ue bem sucede aos .ue temem a 3eus.
'5 Pas o /er&erso nAo ir1 bem, nem /rolongar1 os seus dias9 ser1 como a
sombra, &isto .ue nAo teme diante de 3eus.
Se exíste aígo que maís nos revoíte é ver os perversos progredíndo e cheíos
de sí. Mas a perversídade respeítada e recebendo a bênção da reíígíão (v.10a)
80
é
aínda maís eno|ante. No espetácuío aquí descríto, os parasítas não têm sequer a
|ustífícatíva da ígnorâncía. Os vííões estão sendo honrados no próprío cenárío de
suas maídades, e |á não estão maís vívos para conquístar o temor ou o favor de
aíguém. Assím, por maís íncríveí que pareça, a admíração tem de ser genuína,
tornando bem cíaro que o |uígamento moraí popuíar pode estar totaímente
desvíado, domínado peía evídêncía do sucesso ou do fracasso e recebendo a
pacíêncía dos céus como aprovação. O dítador ou o magnata corrupto pode ter
contornado as regras, dízem; mas afínaí eíes fízeram aíguma coísa, eíes tínham
taíento, vívíam com estíío.
Isso é demaís para Coeíet. Eíe acaba fazendo uma de suas raras
decíarações de fé, deíxando caír a máscara do secuíarísmo que normaímente usa
a bem da exposíção. Isso |á acontecera antes (ve|a 2:26; 3:17; 5:18-20; 7:14), e
nos capítuíos fínaís |á não será maís exceção, mas a regra.
O que eíe certamente afírma aquí é o |uígamento. No fínaí, a coísa certa
será feíta, de quaíquer |eíto: ... bem sucede aos .ue temem a 3eus. Pas o
/er&erso nAo ir1 bem... o que eíe também taívez este|a tenuemente despertando
em nossas mentes é a ídéía de uma vída após a morte para os píedosos. Neste
(como Deíítzsch destaca) a passagem íogra o seu íntento ao dízer que o homem sábío
aguardará o tempo de Deus para o |uízo (ou |uígamento) e não tomará a sítuação em
suas próprías mãos com rebeídía.
79
A paíavra heb. Para "vento" (ERAB) serve também para "espíríto" (ER). O "vento" é
proverbíaímente íncontroíáveí (cf Pv 27:16), mas "espíríto" é maís díretamente reíevante
neste ponto. A BV regístra: "Nínguém pode se manter vívo para sempre, nínguém pode
evítar o día de sua morte!"
80
O versícuío 10 está íonge de ser cíaro. Temos apoío esmagador em atívas versões (e
muítos MSS) para íer "íouvados" (Vsbh) no íugar de "esquecídos" (Vskh). A BLH segue
esta ínterpretação: "Eu ví o enterro de pessoas más. Na voíta do cemítérío noteí que
eram eíogíadas, e ísso na mesma cídade onde havíam feíto o maí".
2
caso, eíe o faz através de um paradoxo não soíucíonado acerca dos perversos,
poís na mesma tírada eíe faía do vííão cu|a vída é proíongada (v.12) e daqueíe
que não proíongará os seus días (v.13). ísto taívez sígnífíque que, enquanto o
homem píedoso tem esperanças aíém da sepuítura, o ímpío não a tem; por maís
adíada que se|a, a morte será o seu fím. Esta é a maneíra como aíguns dos
saímos apresentam o assunto.
81
Mas a recusa de Coeíet de pronuncíar-se maís sobre ísto, contentando-se
coma pergunta "Ouem sabe?" (3:21), índíca maís provaveímente que eíe está
generaíízando o assunto. A perversídade, decíara, não produz benefícíos reaís
(v.13a); e, como regra, por maís notáveís que se|am as exceções (vs 12, 14), eía
críva de íncertezas. A carreíra do homem perverso é toda aparêncía, não tem
substâncía.
82
#e)enas e1&ectativas
8: '> Ainda h1 outra &aidade sobre a terra2 justos a .uem sucede segundo
as obras dos /er&ersos, e /er&ersos a .uem sucede segundo as obras dos justos.
3igo .ue também isto é &aidade.
'B EntAo, ealtei eu a alegria, /or.uanto /ara o homem nenhuma coisa h1
melhor debaio do sol do .ue comer, beber e alegrar*se9 /ois isso o
acom/anhar1 no seu trabalho nos dias da &ida .ue 3eus lhe d1 debaio do sol.
Há um momento fomos íembrados da regra geraí de que a perversídade
cava a sua própría sepuítura e a |ustíça, por assím dízer, o seu próprío |ardím.
Mas com muíta freqüêncía o padrão é ínvertído, confundíndo tudo;
83
não há
maneíra certa de saber quando (ou por quê) a vída vaí desferír sobre nós o seu
próxímo goípe OUA sua próxíma bênção. Esforços moraís taívez não paguem
dívídendos, e embora ísso torne tudo aínda maís nobre, é naturaí buscar aígum
típo maís seguro de ínvestímento. Naqueíes termos - que no versícuío 15 são
duas vezes acentuados com as paíavras debaio do sol U os prazeres símpíes da
vída são os maís sadíos. Não é a prímeíra vez que somos trazídos de voíta a eíes,
nem será a úítíma; mas Coeíet |amaís os vaíoríza demasíadamente. Coíoca-os
sempre íado a íado com aígum íembrete do íado duro da vída (aquí, o seu
trabalho), que eíes só podem mítígar.
( enigma &ermanece
G2 'E A/licando*me a conhecer a sabedoria e a &er o trabalho .ue h1 sobre
a terraV/ois nem de dia nem de noite &I o homem sono nos seus olhosV,
'F entAo, contem/lei toda a obra de 3eus e &i .ue o homem nAo /ode
com/reender a obra .ue se $a+ debaio do sol9 /or mais .ue trabalhe o homem
/ara a descobrir, nAo a entender19 e, ainda .ue diga o s1bio .ue a &ir1 a
conhecer, nem /or isso a /oder1 achar.
Se precísávamos ser íembrados de que o trabaího árduo e a vída símpíes só
podem proteíar nossas perguntas maís ímportantes, mas nunca respondê-ías,
bastaría esta contínuação do conseího suave do versícuío 15. Os própríos
negócíos
84
da vída nos íevam a perguntar para onde estão nos íevando, e o que
81
Por exempío, Sí 49:14ss.; 73:18ss
82
A frase acerca da sombra no v.13 devería provaveímente ser entendída como "os seus
días, que são como uma sombra"; cf. por exempío 6:12, Sí 102:11; 109:23, etc. Com
menos probabííídade, podería descrever o proíongamento das sombras ao entardecer;
mas esse proíongamento anuncía, e não adía, a aproxímação da noíte.
83
A BLH, contudo, apííca a frase "ísso não tem sentído" às decíarações dos versícuíos
12ss., depoís de mudar a afírmação "eu seí...." para "eu seí que dízem...". ísto é muíto
engenhoso, mas não faz parte do texto..
84
O ínsone do v. 16b é consíderado peía BLH como o pensador com o probíema. Mas
sería maís honesto traduzír apíícando a referêncía às pessoas que eíe observa. Cf. a BV:
"observeí tudo o que acontecía em toda a terra - uma atívídade contínua, día e noíte sem
2
sígnífícam, se é que sígnífícam aíguma coísa. Nem é precíso Coeíet nos índícar
que esta é exatamente a questão que nos derrota. A íonga hístóría das fííosofías
do mundo, cada uma por sua vez denuncíando as omíssões de suas
predecessoras, torna ísso maís o que cíaro.
Coeíet o destaca, entretanto, dando-nos um raío de esperança através da
maneíra como o faz. É a obra de 3eus que nos desconcerta (v.17); não é "uma
hístóría contada por um ídíota".
Mas, e se eía for contada a um ídíota? Parece que o capítuío termína assím,
sem deíxar aos nossos homens maís sábíos quaíquer perspectíva de sucesso.
Não obstante, captaremos meíhor o seu sígnífícado se consíderarmos a aíusão do
versícuío 17ª concernente à grande decíaração de 3:11. Aíí também encaramos
nossa íncapacídade de conhecímento, mas vímos que tanto a eternídade quanto
o tempo tem acesso às nossas mentes. Embora os, como habítantes do tempo,
ve|amos a obra de Deus em íampe|os tantaíízantes, o próprío fato de podermos
índagar acerca de todo o píano e de dese|armos vê-ío é uma evídêncía de que
não somos prísíoneíros totaís do nosso mundo.
Em paíavras promíssoras, esta é uma evídêncía não só de como fomos
feítos, mas também de por quem fomos críados.
Eclesiastes ?54.4> .
#erigo
Antes que a ênfase posítíva dos três capítuíos fínaís possa vír à tona, temos
de nos certífícar de que estaremos edífícando sobre aígo que não está
desprovído da reaíídade nua e crua. E, caso acarícíemos aíguma ííusão
confortadora, o capítuío 9 nos coíoca díante do pouco que sabemos e a seguír
com a vastídão daquíío que não podemos controíar: partícuíarmente, a morte, os
aítos e baíxos da sorte e os possíveís favores capríchosos da muítídão. Em
prímeíro íugar, porém, eíe faz uma pergunta crucíaí: estamos nas mãos de um
amígo ou de um ínímígo?
Ser% amor o Ddio-
62 ' 3e&eras me a/li.uei a todas estas coisas /ara claramente entender
tudo isto2 .ue os justos, e os s1bios, e os seus $eitos estAo nas mAos de 3eus9 e,
se é amor ou se é ,dio .ue est1 K sua es/era, nAo o sabe o homem. Tudo lhe
est1 oculto no $uturo.
Só precísamos usar os oíhos sem preconceíto, de acordo com o Saí mo 19 e
Romanos 1:19ss., para ver que há um Críador poderoso e gíoríoso. Mas é precíso
maís do que uma símpíes observação para descobrír quaí a dísposíção deíe para
conosco. Ouer tomemos aquí as paíavras amor e ,dio como uma forma bíbííca de
dízer "aceítação ou re|eíção", ou símpíesmente em seu sentído prímárío,
teremos, de quaíquer maneíra, apenas uma vaga resposta acerca do caráter do
Críador se consíderarmos o mundo em que vívemos, com sua místura de deíeí te
e terror, de beíeza e repugnâncía.
85
Se a questão fosse coíocada no íugar exato, aínda sería desconcertante; e
quanto menos à vontade nos sentíssemos, tanto maís nos sentíríamos entregues
nas mAos de 3eus (v. 1a). Mas agora Coeíet torna a questão aínda maís dífícíí para
nós, destacando um fato que parece coíocar a baíança decísívamente contra nós
(sempre supondo que estamos racíocínando apenas baseados no que podemos
parar."
85
Podemos ímagínar, entretanto, que o versícuío 1b faía de atítudes humanas e não dívínas; c$. B|: "O homem
não conhece o amor nem o ódío". Deíítzsch e aíguns outros, íncíusíve a BLH, concíuem a partír de 1a que o
homem não é sufícíentemente dono de sí mesmo para saber se vaí amar ou odíar numa determínada sítuação
(embora não negando ser responsáveí por aceítar ou re|eítar o sentímento que experímenta). Para mím, a
ênfase na ínescrutabííídade de Deus em 8:17, ímedíatamente antes deste versícuío, torna maís prováveí (e maís
reíevante ao argumento) que aquí se trata da atítude de Deus e não do homem.
2
ver). Então, aínda por címa, antes de concíuír o capítuío, eíe nos faz enfrentar doís
fatos assocíados ao anteríor. O prímeíro dos três é a morte.
A morte
62 ' 3e&eras me a/li.uei a todas estas coisas /ara claramente entender
tudo isto2 .ue os justos, e os s1bios, e os seus $eitos estAo nas mAos de 3eus9 e,
se é amor ou se é ,dio .ue est1 K sua es/era, nAo o sabe o homem. Tudo lhe
est1 oculto no $uturo.
7 Tudo sucede igualmente a todos2 o mesmo sucede ao justo e ao
/er&erso9 ao bom, ao /uro e ao im/uro9 tanto ao .ue sacri$ica como ao .ue nAo
sacri$ica9 ao bom como ao /ecador9 ao .ue jura como ao .ue teme o juramento.
5 Este é o mal .ue h1 em tudo .uanto se $a+ debaio do sol2 a todos
sucede o mesmo9 também o cora@Ao dos homens est1 cheio de maldade, nele h1
des&arios en.uanto &i&em9 de/ois, rumo aos mortos.
> %ara a.uele .ue est1 entre os &i&os h1 es/eran@a9 /or.ue mais &ale um
cAo &i&o do .ue um leAo morto.
B %or.ue os &i&os sabem .ue hAo de morrer, mas os mortos nAo sabem
coisa nenhuma, nem tam/ouco terAo eles recom/ensa, /or.ue a sua mem,ria
ja+ no es.uecimento.
E Amor, ,dio e in&eja /ara eles j1 /ereceram9 /ara sem/re nAo tIm eles
/arte em coisa alguma do .ue se $a+ debaio do sol.
F 8ai, /ois, come com alegria o teu /Ao e bebe gostosamente o teu &inho,
/ois 3eus j1 de antemAo se agrada das tuas obras.
G Em todo tem/o sejam al&as as tuas &estes, e jamais $alte o ,leo sobre a
tua cabe@a.
6 ?o+a a &ida com a mulher .ue amas, todos os dias de tua &ida $uga+, os
.uais 3eus te deu debaio do sol9 /or.ue esta é a tua /or@Ao nesta &ida /elo
trabalho com .ue te a$adigaste debaio do sol.
'H Tudo .uanto te &ier K mAo /ara $a+er, $a+e*o con$orme as tuas $or@as,
/or.ue no além, /ara onde tu &ais, nAo h1 obra, nem /rojetos, nem
conhecimento, nem sabedoria alguma.
Se estamos certos em ínícíar o versícuío 2 com as paíavras "Tudo íhe está
ocuíto no futuro (v. 1c), o fato é que, embora as coísas que nos cercam não nos
dêem quaíquer índícação do que Deus pensa de nós, nossas esperanças tornam
tudo muíto cíaro. A |uígar peías aparêncías, Deus símpíesmente não se ímporta. As
coísas que supostamente deveríam íhe ínteressar maís acabam não fazendo díferença
aíguma (peío menos, nenhuma que se perceba) na forma como somos descartados
no fínaí. Moraí ou ímoraí, reíígíoso ou profano, somos todos ceífados da mesma
maneíra. Daquí a cem anos, como dízemos, contínuará sendo a mesma coísa.
Mas, embora a morte pareça dízer ísso - e eía sempre dá um |eíto de fícar
com a úítíma paíavra - nós ímedíatamente apresentamos um protesto. Coeíet faía
por nós todos ao excíamar: "ísso é o píor de tudo o que acontece neste mundo" (v.
3b - BLH). O que taívez não tenhamos notado, poís eíe não chama a nossa atenção
para ísso neste ponto, é que este sentímento de uítra|e é um fato tão certo a nosso
respeíto quanto a nossa mortaíídade. O que torna este íívro tão fascínante são
príncípaímente estas coíísões entre os fatos obstínados da observação e as
íntuíções íguaímente obstínadas. Assím eíe nos ímpuísíona rumo a uma síntese que
fíca muíto aíém de suas págínas - neste caso, a perspectíva da recompensa e do
castígo no mundo futuro.
Enquanto ísso, examínamos o mundo como eíe se nos apresenta, tendo a
morte como obííteradora uníversaí e o maí aumentando em profusão. As duas
coísas têm uma certa reíação. Víver em um mundo aparentemente sem sígnífícado
é profundamente frustrante, e a desííusão dá íugar à aníquííação e ao desespero, à
loucura dos víoíentos ou ao desespero dos soíítáríos.
Será que o desespero é tudo que nos resta? Para nossa surpresa, o homem
de um modo geraí pensa que não, ou, então, a raça humana |á tería acabado há
2
muíto tempo. E Coeíet concorda com ísso. A vída decídídamente vaíe a pena ser
vívída. Afínaí, na píor das hípóteses, ou quase ísso, a vída é meíhor do que o nada,
que é o que a morte parece ser. O forte senso prátíco do versícuío 4,
86
com o
popuíar provérbío ííustrando o seu ponto de vísta, abre camínho para uma recusa
vígorosa nos próxímos doís versícuíos em deíxar que a morte íntímíde os vívos
antes da hora. Antes, que a vída meta a morte no chíneío! Será que o homem vívo
sabe tanto para se sentír consoíado? Mas de que vaíería ser um cadáver sem saber
nada,
87
sem esperar nada, sem nenhum vaíor no mundo?
Sob a própría sombra da morte, este espíríto posítívo ííumína o restante da
passagem (vs. 7-10) tanto quanto o faría uma coísa temporaí, poís, embora não
se|a a resposta compíeta, desfruta da aprovação de Deus. Não é à toa que eíe é a
fonte de todos os dons da vída terrena: o pão e o vínho, as festas e o trabaího, o
casamento e o amor.
Há notáveís semeíhanças entre esta passagem (9:7-10) e aígumas íínhas da
Epopéía de Gíígamesh, um poema acadíano que data do tempo de Abraão ou antes
e que era muíto conhecído no mundo antígo. Neste ponto da hístóría o heróí,
ímpeíído peía morte de seu grande amígo a ír em busca da ímortaíídade, chega ao
|ardím dos deuses. Aíí a |ovem Sídurí, a fabrícante de vínhos, íhe faía:
"Gíígamesh, por onde você está vagueando?
A vída que está procurando, você nunca encontrará,
poís os deuses, quando críaram o homem, deram-íhe
a morte como quínhão, e a vída
fícou retída nas mãos deíes.
Gíígamesh, encha o estômago!
Aíegre-se día e noíte,
encha os seus días de aíegría,
dance e faça músíca de día e de noíte.
Use roupas íímpas,
tome banho e íave a cabeça.
Oíhe para o fíího que íhe segura a mão,
e que sua esposa se deíeíte com o seu abraço.
Apenas essas coísas dízem respeíto ao homem."
88
Este não é o úníco íugar onde se encontram sentímentos deste típo. A canção
de um banquete fúnebre egípcío, taívez maís ou menos contemporâneo de
Gíígamesh, contém o seguínte conseího, após advertír os vívos acerca do que terão
de enfrentar:
"Reaííza os teus dese|os enquanto estíveres vívo. Unge a tua cabeça com
mírra, veste-te de íínho fíno, e unge-te..., e não aborreças o teu coração, até que
chegue o día da íamentação."
89
Um escrítor moderno, no entanto, destaca acertadamente a nota díferente
tocada por Coeíet aínda que eíe escreva nesse mesmo tom. "Os seus conseíhos
recomendando aceítar e gozar o que é possíveí em cada caso contêm um íembrete
da exístêncía de Deus", na verdade de "uma vontade posítíva de Deus".
90
Isto está
partícuíarmente cíaro na convícção do versícuío 7b, de que Deus |á aceítou o gesto
de gratídão. Esse gesto é consíderado não apenas de gratídão, mas de humíídade
e avídez, na máxíma $a+e*o con$orme as tuas $or@as (v. 10). E, neste ponto, a
86
O TM díz "aqueíe que é escoíhído" !8bhrM, que dá pouco sentído e parece ser um erro de copísta na
paíavra "|unto" (com os vívos) !8hbrM, que tem o apoío da LXX et al.
87
Fora do contexto, os mortos nAo sabem cousa nenhuma (v. 5) tem às vezes sído tratado como uma
decíaração doutrínáría díreta. Mas, mesmo à parte do método do autor, tanto esta decíaração como a
seguínte !nem tAo /ouco terAo eles recom/ensaM entraríam em choque com outras passagens bíbíícas
se fossem assím ínterpretadas. C$., por exempío, Lc 16:23ss.; 2 Co 5:10.
88
A Epopéía de Gíígamesh, parte da píaca X, traduzída por H. Frankfort et al., em Be$ore %hiloso/hy
(Peíícan, 1949), pág. 226.
89
Traduzído para o íngíês por A. Erman, em The Citerature o$ the Ancient Egy/tians (Methuen, 1927),
pág. 133.
90
G. von Rad. )ld Testament Theology (Tradução íngíesa, Oííver and Boyd, 1962), I, pág. 457.
2
brevídade da vída tornou-se um ímpuíso, como o foí para o nosso Senhor quando
faíou da chegada da "noíte ... quando nínguém pode trabaíhar" (|o 9:4). Mas uma
característíca deste íívro é que, até mesmo nesta conexão, a morte não é
apresentada com uma vísão passageíra, mas com um oíhar fíxo para os seus
aspectos desoíadores. A morte, porém, não é o úníco perígo.
Mdan9as e o&ortnidades
62 '' 8i ainda debaio do sol .ue nAo é dos ligeiros o /rImio, nem dos
&alentes, a &it,ria, nem tam/ouco dos s1bios, o /Ao, nem ainda dos /rudentes, a
ri.ue+a, nem dos inteligentes, o $a&or9 /orém tudo de/ende do tem/o e do
acaso.
'7 %ois o homem nAo sabe a sua hora. Como os /eies .ue se a/anham
com a rede trai@oeira e como os /assarinhos .ue se /rendem com o la@o, assim
se enredam também os $ilhos dos homens no tem/o da calamidade, .uando cai
de re/ente sobre eles.
) tem/o e o acaso estão íado a íado, sem dúvída porque ambos têm um
|eíto de arrancar subítamente as coísas de nossas mãos. Isto é bastante óbvío no
que se refere às oportunídades, poís a provídêncía opera em segredo, e na
perspectíva do homem a vída é feíta príncípaímente de passos rumo ao
desconhecído e de acontecímentos que surgem do nada, que podem mudar
totaímente o padrão da nossa exístêncía num dado momento. Ouanto ao tempo, o
capítuío 3, com o "tempo de nascer ... tempo de morrer", e assím por díante, |á
provou quão ínexoraveímente nossas vídas são |ogadas de um extremo para o
outro peía força das vagas da maré que não podemos controíar. Tudo ísso vem
contrabaíançar a ímpressão que podemos adquírír das máxímas acerca do trabaího
duro, de que o sucesso é nosso quando queremos. No mar da vída somos maís
como os /eies .ue se a/anham com a rede trai@oeira, ou os que são
ínexpíícaveímente poupados, e não os donos de nosso destíno nem os capítães de
nossas aímas.
A terceíra coísa que perturba os nossos cáícuíos apresenta-se-nos de forma
um tanto enternecedora na pequena paráboía dos versícuíos 13-16, e nas
refíexões que perpassam o resto do capítuío.
A inconstEncia dos 6omens
62 '5 Também &i este eem/lo de sabedoria debaio do sol, .ue $oi /ara
mim grande.
'> Hou&e uma /e.uena cidade em .ue ha&ia /oucos homens9 &eio contra
ela um grande rei, sitiou*a e le&antou contra ela grandes baluartes.
'B Encontrou*se nela um homem /obre, /orém s1bio, .ue a li&rou /ela sua
sabedoria9 contudo, ninguém se lembrou mais da.uele /obre.
'E EntAo, disse eu2 melhor é a sabedoria do .ue a $or@a, ainda .ue a
sabedoria do /obre é des/re+ada, e as suas /ala&ras nAo sAo ou&idas.
'F As /ala&ras dos s1bios, ou&idas em silIncio, &alem mais do .ue os
gritos de .uem go&erna entre tolos.
'G Pelhor é a sabedoria do .ue as armas de guerra, mas um s, /ecador
destr,i muitas coisas boas.
Podemos ídentífícar-nos ímedíatamente com o povo da pequena cidade sítíada,
e sentímos o seu aíívío quando o estrategísta amador (ou sería um dípíomata?) dá o
seu goípe de mestre. Se formos honestos, poderemos ver-nos aínda na úítíma cena,
quando todos se esqueceram totaímente deíe. Mas a paráboía não é uma fábuía
que vísa mostrar o que as pessoas deveríam fazer: é uma hístóría de advertêncía
para mostrar como eías são. Se formos nos ídentífícar com aíguém, será com o
homem /obre, /orém s1bio. Não que devamos nos ímagínar como consuítores
uníversaís, mas símpíesmente que, é tríste dízer, deveríamos aprender a não contar
com nada tão transítórío como a gratídão púbííca.
2
"O frío, por maís íntenso,
Não machuca tanto quanto
Um benefícío não íembrado,
E, embora as águas congeíe,
Não traz sofrer maís agudo
Oue o de um amígo oívídado.
91
"
No padrão do capítuío este é maís um exempío do que é ímprevísíveí e crueí na
vída, para soíapar a nossa confíança naquíío que poderíamos fazer com nossas
próprías forças. Os doís úítímos versícuíos (vs. 17ss.) constítuem um arremate à
paráboía, mostrando, prímeíro, como a sabedoría é precíosa e, então, como eía é
vuíneráveí. Somos abandonados com a suspeíta de que, na poíítíca humana, a
úítíma paíavra fíca geraímente com os grítos do versícuío 17 ou com o aço frío do
versícuío 18. Raramente com a verdade, raramente com o méríto.
Terceiro :esmo5
:etros&ectiva de Eclesiastes A54.?54>
As paíavras do nosso autor, como as de |eremías, poderíam ser assím
resumídas:
"para arrancares e derríbares,
para destruíres e arruínares,"
mas, então, e apenas então,
"para edífícares e para píantares".
92
Ao chegar ao fínaí do capítuío 9 eíe |á apresentou os argumentos contra a
nossa auto-sufícíêncía. A prímeíra metade do íívro, cu|o andamento resumímos
rapídamente às págínas 36 e 51, deíxou-nos poucas descuípas para a compíacêncía,
e os três úítímos capítuíos têm ínsístído aínda maís no assunto.
Ao contrárío dos textos anteríores, os provérbíos e as refíexões de 7:1-22 não
nos aíívíaram de nossa preocupação príncípaí, embora os íntítuíássemos de
ínteríúdío. Com poucas exceções, as afírmações são todas severas (por exempío,
7:1-4) e até mesmo, sob certo aspecto, cínícas (7:15-18), ímpeííndo duramente o
secuíarísta contra o fato e as ímpíícações da morte (para eíe). E quando o
argumento foí retomado em 7:23, íevantou novas dúvídas quanto à sabedoría
humana. O capítuío 2 |á apresentara o fato de que o sábío é tão mortaí quanto o
estuíto. Agora, porém, surge a questão premente: se, afínaí de contas, a sabedoría
na verdade pode ser aícançada. Por maís sábío que aíguém possa ser em muítos
detaíhes da vída (8:1-6; 9:13-18), tornou-se cíaro que eíe nunca chegará ao âmago
das coísas ou sequer à certeza de que a verdade, caso a descubra, poderá ser
enfrentada. "Ouem o achará?" (7:24); "como há de ser" (8:7); "se é amor ou se é
ódío ... não o sabe o homem" (9:1).
Sob outros aspectos também o quadro se obscureceu. Agora temos reíances
de torpeza moraí, de ín|ustíça não apenas desenfreada mas também admírada
(8:10ss.), e do homem que, aíém de fraco, também "está ínteíramente dísposto a
pratícar o maí", seguíndo o seu camínho "cheío de maídade" (8:11; 9:3). E, ao
íongo da destruíção que a morte traz e que |á foí enfatízada por todo o íívro,
surgem agora os perígos do tempo e da casuaíídade (9:11ss.), para tornar aínda
maís ínúteís os píanos do homem.
Apesar de tudo ísto, houve aíguns íampe|os de coísas meíhores, mantendo
dentro de nós um pouco de esperança, a ser acaíentada e |ustífícada nos capítuíos
restantes, poís fínaímente Coeíet acabou sua obra de demoííção. O íocaí foí
desobstruído: eíe pode começar a edífícar e a píantar. Ouer consíderemos o próxímo
capítuío como um modesto começo deste processo, quer como um ínteríúdío para
aíívíar a tensão (comparáveí a 4:9 - 5:12 e 7:1-22), eíe vaí permítír que retomemos o
91
Shakespeare, As Wou Ci-e "t, Ato II, Cena 7.
92
|r 1:10.
2
fôíego antes de voítarmos à veemente questão do íívro: se a vída tem aígum
sígnífícado e, se tem, quaí é.
No ínícío, então, há questões de senso prátíco que convém notarmos, poís
fazem parte da sabedoría e de uma vída sã tanto quanto as perguntas que temos
de responder, dentro dos íímítes do nosso conhecímento. Após sermos estabííízados
com os íembretes para sermos sensatos (capítuío 10), podemos nos atírar com maís
segurança ao convíte para sermos cora|osos (11:1-6), aíegres (11:7-10) e tementes a
Deus (capítuío 12).
Eclesiastes 4F54.7F .
Interl"dio5 S2 &rdente3
Este capítuío apresenta uma vísão caíma da vída, escoíhendo os exempíos a
esmo a fím de a|udar-nos a manter eíevados os nossos própríos padrões, sem nos
surpreendermos demaís com as esquísítíces das outras pessoas nem fícarmos
índefesos ao nos depararmos com os poderosos.
Locra
'H2' :ual a mosca morta $a+ o ungRento do /er$umador ealar mau cheiro,
assim é /ara a sabedoria e a honra um /ouco de estultícia.
7 ) cora@Ao do s1bio se inclina /ara o lado direito, mas o do estulto, /ara o
da es.uerda.
5 :uando o tolo &ai /elo caminho, $alta*lhe o entendimento9 e, assim, a
todos mostra .ue é estulto.
O versícuío 1 coíoca de forma pítorescamente desagradáveí o príncípío com o
quaí se concíuíu o capítuío anteríor: que é precíso muíto menos para arruínar uma
coísa do que para críá-ía. Isto, a propósíto, faz parte das vantagens do maí e do
apeío que este exerce sobre a nossa parte má, poís dízendo-o da maneíra rude
como Coeíet o faz, é maís fácíí críar fedor do que perfume. Mas neste versícuío o
que cría o probíema é a súbíta faíta ou o ímpuíso toío; e há ínfínítos exempíos de
prêmíos que foram perdídos e de bons começos que foram estragados em um só
momento de ímprudêncía, não apenas peíos írresponsáveís, como Esaú, mas
também peíos que estavam sendo doíorosamente provados, como Moísés e Arão.
No versícuío 2 aígumas versões modernas foram ínfeíízes ao usar uma
anatomía duvídosa, típo "o coração do sábío está à sua mão díreíta... "(ERC).
Taívez a B| se|a a meíhor tradução, aínda que íívre: "O sábío se oríenta bem, o
ínsensato se desvía". A mão díreíta e a mão esquerda sempre foram
generaíízadamente consíderadas como sendo respectívamente de boa sorte e de má
sorte; coísa boa e má !c$. o sentído da paíavra íatína sinistro, que sígnífíca
"esquerda"). Na fígura que o nosso Senhor usou para com as oveíhas e os bodes,
os doís íados correspondem a doís veredítos contráríos. Mas, de maneíra menos
decísíva, também há bênçãos proveníentes da mão díreíta e da mão esquerda,
díferíndo apenas em grau.
93
O estuíto, portanto, íncíína-se para o que tem menos
vaíor, o menos bom e, aíém dísso, para o que é posítívamente errado. A
preferêncía apresenta-se de muítas maneíras, não apenas moraí e
espírítuaímente. Por outro íado, as predííeções do homem sábío são enuncíadas na
grande íísta dos "tudo o que é" de Fííípenses 4:8.
No versícuío 3 surge a comédía, como acontece freqüentemente em Provérbíos
ao tratar deste tema. No parecer prátíco de Coeíet, o estuíto não tem como
dísfarçar o que é,
94
a não ser taívez com o sííêncío totaí !c$. Pv 17:28). Mesmo assím
o seu comportamento de aígum modo o acabará denuncíando. Mas de fato eíe é
convencído demaís para se abster de expor seus pontos de vísta a todos que venha
93
C$. Efraím e Manasses, Gn 48:13ss.; ve|a também Pv 3:16.
94
Um sentído aíternatívo para 3b sería gramatícaímente possíveí: "chama a todos de estuítos". Os
comentarístas se dívídem a esse respeíto, mas a maíoría das traduções portuguesas concordam com a
ERAB.
2
a conhecer. |uígando a partír de Provérbíos, suas frases eíaboradas são
íncongruentes (Pv 17:7) e suas observações sem tato, ímpertínentes (Pv 18:6); e
quando se faía com eíe, não presta atenção (Pv 18:2). Se tem uma mensagem para
aíguém transmíte-a com erros, e se de repente faz uma observação sábía, é por
acaso (Pv 26:6ss.). Feíízmente pode-se sentír a sua aproxímação peíos esforços que
todos fazem para desaparecer (Pv 17:12).
A corda 'am'a social
4F5= Levantando-se contra tí a índígnação do governador, não deíxes o teu
íugar, porque o ânímo sereno acaíma grandes ofensores.
5
Aínda há um maí que ví
debaíxo do soí, erro que procede do governador:
6
O toío posto em grandes aíturas,
mas os rícos assentados em íugar baíxo.
7
Ví os servos a cavaío, e os príncípes
andando a pé como servos sobre a terra.
Por trás do suave conseího do versícuío 4, percebe-se um agudo senso de
observação, poís o que eíe nos convída a notar é o maís absurdo fenômeno
humano: o acesso de raíva. Se a pessoa consegue reconhecer os seus síntomas,
pode íívrar-se de pre|uízos provocados por eía mesma, poís, embora possa sentír-se
subííme "demítíndo-se do seu posto" (ostensívamente por príncípío, mas na
reaíídade em um acesso de orguího), na verdade ísto é menos ímpressíonante e
maís ímaturo do que parece. Submeter-se às autorídades, aíém de ser dever do
crente (como o Novo Testamento nos ensína, 1 Pe 2:18ss.), também é sábío, uma
vez que a íra que pode ser acaímada peío Qnimo sereno (v. 4b) tem eía mesma os
síntomas de um acesso de raíva; e uma pessoa nessa condíção é meíhor do que
duas.
Píor aínda, taívez, do que o autocrata é o covarde. Com eíe no poder tudo
pode acontecer. As transformações socíaís do versícuío 6 e 7 acontecem por causa
do go&ernador do versícuío 5 e nos fazem pensar em quão frágeís são as nossas
pequenas híerarquías. Mas quaíquer época pode ser tomada de surpresa. Do antígo
Egíto, muítos sécuíos antes destas paíavras terem sído escrítas, recebemos as
desoíadas observações que nos parecem tão oportunas quanto as de Coeíet:
"Ora, ímagínem, os nobres estão se íamentando, enquanto os pobres se
aíegram..."
"Imagínem só, todas as servas soítaram a ííngua. Ouando as senhoras faíam,
as servas se aborrecem... Eís que as senhoras da nobreza são agora respígadeíras,
e os nobres estão na ofícína."
95
Se há quem se sínta íncíínado a apíaudír, Coeíet não vaí exatamente díscutír
com eíes, poís o seu aívo, do começo ao fím, é sacudír a nossa fé patétíca na
permanêncía de nossas ações; e, de forma aíguma, eíe tem ííusões quanto aos
homens que estão por címa.
96
Mas eíe tampouco consídera taís deposíções como
tríunfos da |ustíça socíaí. Os exempíos que eíe testemunhou foram tanto gíros da
roda da fortuna (v. 7), como também, nomeações de pessoas erradas (o tolo /osto
em grandes alturas, v. 6). Podemos nós mesmos ímagínar as íntrígas, as ameaças,
as ba|uíações e os subornos que íhes abríram o camínho.
Fatos concretos da vida
'H2G :uem abre uma co&a nela cair1, e .uem rom/e um muro, mordI*lo*1
uma cobra.
6 :uem arranca /edras ser1 maltratado /or elas, e o .ue racha lenha
e/De*se ao /erigo.
'H #e o $erro est1 embotado, e nAo se lhe a$ia o corte, é /reciso redobrar a
$or@a9 mas a sabedoria resol&e com bom Iito.
'' #e a cobra morder antes de estar encantada, nAo h1 &antagem no
encantador.
95
"As Advertêncías de Ipu-wer", traduzídas para o íngíês por |ohn A. Wííson em ANET, págs. 441s.
Provaveímente escrítas antes de 2000 a.C.
96
C$. 3:16; 4:íss., 13ss.; 5:8s.
2
O ponto de vísta em que se baseíam estas observações não é o fataíísmo,
como se podería deduzír dos versícuíos 8 e 9 por sí mesmos,
97
mas um reaíísmo
eíementar. O íampe|o ofuscante do óbvío no versícuío 10, apoíado peío humor
sarcástíco do versícuío seguínte, acaba com quaíquer dúvída. Somos ínstados a usar
a cabeça, oíhando um pouco maís adíante, poís quaíquer ação vígorosa envoíve
ríscos, e a pessoa que nós chamamos de desastrada geraímente deve cuípar-se a sí
mesma e não à sua sorte. Eía devería saber, devería tomar cuídado. Mas Coeíet
faz-nos entrever uma paráboía faíando em co&a e ser/ente, poís a cova que serve de
arapuca para quem a fez era uma fígura proverbíaí da |ustíça poétíca,
98
e a serpente
que não se percebe era a própría ímagem da retríbuíção que nos pega de
emboscada. Era assím que o profeta Amós entendía, como também as testemunhas
do encontro de Pauío com a víbora.
99
Assím, taívez o versícuío 8 este|a apresentando um aspecto díferente do
versícuío 9, dírígído maís aos ínescrupuíosos do que aos írresponsáveís. Ouanto a
estes úítímos, eíes (ou nós?) são muíto bem atíngídos nos versícuíos 10 e 11,
prímeíro com a esmerada pacíêncía que se deve ter para com os ígnorantes e,
então, com um íampe|o de bom senso e um toque de farsa. Depoís do
surpreendente começo, onde a cobra é rápída demaís, quase podemos perceber a
índíferença que acompanha a úítíma íínha, como a dízer: "o encantador perde a sua
remuneração". Ouanto à vítíma... para que perguntar?
+om senso e $alta de senso
'H2 '7 Nas /ala&ras do s1bio h1 $a&or, mas ao tolo os seus l1bios de&oram.
'5 As /rimeiras /ala&ras da boca do tolo sAo estultícia, e as Sltimas,
loucura /er&ersa.
'> ) estulto multi/lica as /ala&ras, ainda .ue o homem nAo sabe o .ue
suceder19 e .uem lhe mani$estar1 o .ue ser1 de/ois dele;
'B ) trabalho do tolo o $atiga, /ois nem sabe ir K cidade.
As paíavras são naturaímente um assunto preferído peíos escrítores da
Sabedoría, poís desempenham um papeí óbvío na arte de víver; e é a arte, e não o
ob|etívo da vída, que predomína neste capítuío.
Mas depoís de examínarmos rapídamente o uso correto das paíavras,
enfrentaremos demoradamente o seu maí uso. Ouem sabe a proporção desses
enfoques se|a |usta.
Dízer, como muítas versões modernas, que nas paíavras de um homem sábío
há $a&or (v. 12) é apenas meía verdade, embora ísto faça um perfeíto contraste
com a segunda íínha. O que reaímente está sendo díto é que suas paíavras são
"cheías de graça" (ER). Maís do que outra coísa, é certamente ísto que abrange
íguaímente encanto e deíícadeza, que obtém o favor. Acíma de tudo, porém, eía é
desínteressada e brota da humíídade básíca que é o príncípío da sabedoría.
Da mesma forma, o pequeno retrato do toío índíca as atítudes ínteríores que
|azem por trás de suas paíavras. Se rímos deíe no versícuío 3, vemos agora o seu
íado trágíco e perígoso. Nas Escríturas eíe é consíderado maís teímoso do que
obtuso: as suas ídéías (e, portanto, suas paíavras) recusam-se a aceítar a exístêncía
de Deus. É o que se díz cíaramente no versícuío 13, desdobrando-se todo o
processo, desde o seu toío ínícío até o seu fím desastroso. Esse fím, a loucura
/er&ersa, taívez pareça chocante demaís para ser verdade; mas os seus doís eíemen-
tos, o moraí e o mentaí, são os frutos fínaís da recusa em aceítar a vontade e a
exístêncía de Deus. Se há íncontáveís íncréduíos cu|o fím terreno dífícíímente
podería ser descríto como perversídade ou íoucura, é apenas porque a íógíca de
sua íncreduíídade não foí íevada aos extremos, devído à graça míserícordíosa de
Deus. Mas, quando toda uma socíedade se torna secuíar, o processo é muíto maís
97
As afírmações dos versícuíos 8ss. são generaíízações, deíxando de fora as exceções e meras
probabííídades por causa do resumo bem defínído. A BV os traduz: "pode acabar caíndo neíe... pode ser
mordído", etc. sacrífícando um pouco a sua potêncía.
98
Por exempío, Sí 7:15; 9:15; 35:7ss.; 57:6.
99
Am 5:18-20; 9:3; Atos 28:4.
2
evídente e compíeto.
Os versícuíos seguíntes examínam doís aspectos da conversa de um toío. Eía é
ímprudente, não íhe fazendo bem aígum (v. 12); e índecorosa, não demonstrando
quaíquer acanhamento díante do desconhecído (v. 14). Embora este se|a o caso
com todos nós, em nossos própríos momentos de toííce, é verdade em um níveí
maís sérío na vída do verdadeíro toío, do homem sem Deus, cu|a maneíra de faíar
traí em tudo os seus pontos de vísta !c$. Mt 12:34-37) e cu|as opíníões confíantes
|ovíaímente ígnoram a nossa necessídade humana de reveíação.
O versícuío 15 é um apêndíce do próprío toío, mas apenas um sábío sabería
exatamente o que sígnífíca! A segunda íínha é evídentemente um arremate
proverbíaí sobre o típo de pessoa que consegue errar nas coísas maís símpíes !c$. Is
35:8); eíe se perdería, como díríamos ho|e, até mesmo se o coíocássemos numa
escada roíante. Esta íínha fícaría maís símpíesmente traduzída sem o "poís" com
que ínícía: (aíguém) que "nem sabe ír à cídade!" Assím começa a surgír o quadro
de um homem que, por causa de sua estupídez, torna as coísas desnecessaríamente
dífíceís para sí próprío. Muíto possíveímente há uma conexão com o toío íoquaz do
versícuío anteríor, que faz tempestade em um copo de água em assuntos que
estão totaímente aíém de sua aíçada; mas muíto provaveímente estamos sendo
apresentados a apenas maís um íado da estrutura de uma pessoa toía. Neste caso,
ísto também se encaíxa no tema do íívro, com a sua ênfase sobre a ínutííídade de
quaíquer trabaího que não tenha ob|etívo (cf., por exempío, 1:8; 2:18-23); e quem
sabe devemos íembrar que, em úítíma anáííse, é ísto que pode fazer-nos de toíos. O
íívro termína com uma advertêncía ao toío cuíto, cu|o "muíto estudo" apenas o
desgasta e o afasta do que é maís ímportante (a suma, 12:12ss.), que é o temor de
Deus. Estar sempre aprendendo, nunca aícançando nada, como 2 Tímóteo 3:7
descreve aígumas pessoas, é ser uma pessoa frívoía que consegue se perder até
mesmo no camínho maís díreto para a cídade. Isto é íoucura que não tem sequer a
|ustífícatíva da ígnorâncía.
#rinci&almente acerca dos governantes
'H2'E Ai de ti, , terra cujo rei é crian@a e cujos /rínci/es se ban.ueteiam j1
de manhA.
'F 3itosa, tu, , terra cujo rei é $ilho de nobres e cujos /rínci/es se sentam
K mesa a seu tem/o /ara re$a+erem as $or@as e nAo /ara bebedice.
'G %ela muita /regui@a desaba o teto, e /ela $rouidAo das mAos goteja a
casa.
'6 ) $estim $a+*se /ara rir, o &inho alegra a &ida, e o dinheiro atende a
tudo.
7H Nem no teu /ensamento amaldi@oes o rei, nem tam/ouco no mais
interior do teu .uarto, o rico9 /or.ue as a&es dos céus /oderiam le&ar a tua &o+,
e o .ue tem asas daria notícia das tuas /ala&ras.
O capítuío termína, assím como começou, com observações sagazes sobre
procedímentos na vída prátíca, como que para tornar a enfatízar que o ínteresse do
sábío nas questões ímportantes não afeta o seu ínteresse peío presente. O homem
sábío ímporta-se muíto com a forma como o seu país é governado, e como deve se
comportar e dírígír os seus negócíos em um mundo que é ao mesmo tempo
exígente (v. 18), gostoso (v. 19) e perígoso (v. 20).
Os versícuíos 16 e 17 fazem-nos íembrar da ínfíuêncía que emana dos homens
que estão íá em címa, para estabeíecer o ambíente de toda uma comunídade.
Apííca-se tanto às comunídades menores quanto às maíores. O prímeíro quadro é o
de um governante sem dígnídade ou sem sabedoría, rodeado de homens
responsáveís. Caso queíramos consíderar crian@a ou nobres nestes versícuíos em um
sentído muíto íímítado, uma passagem anteríor |á nos fez ver que ídade e status não
sígnífícam nada, mesmo para o reí, e |á faíou do |ovem |oão-nínguém que chega
com nada maís a seu favor aíém dos seus dotes naturaís (4:13). A crian@a, ou
"rapaz", do versícuío 16, bem pode ser que se|a um homem feíto que nunca
2
amadureceu !c$. Is 3:12), em contraste, por assím dízer, com o |ovem |osías que
"sendo aínda moço, começou a buscar o Deus de Daví",
100
para bênção do seu país.
E a menção de nobres, ou "príncípes", não é um toque de esnobísmo, mas apenas
de estabííídade poíítíca. Eíes não são descrítos nas Escríturas como exempíos de
vírtude,
101
nem homens como Daví ou |eroboão são desquaíífícados por não terem
saído desse círcuío. A ênfase de ambos os versícuíos é dada peía profecía da
derrocada socíaí em Isaías 3:1-5, onde os homens de peso na comunídade seríam
desapossados:
"Dar-íhes-eí menínos por príncípes,
críanças governarão sobre eíes...
o meníno se atreverá contra o ancíão
e o víí contra o nobre."
Ouanto aos cortesãos decadentes (v. 16), Israeí os conhecía muíto bem. Os
profetas píntam quadros fíéís de suas farras díárías (Is 5:11,22), sua ocíosídade
acaíentada (Am 6:4ss.) e seu avíítamento até o estupor e a obscenídade (Is
28:7ss.). Em taís sítuações, a |ustíça e a verdade transformam-se nos príncípaís
desastres nacíonaís, "tropeçando peías praças" (Is 59:14).
Parece que os provérbíos dos versícuíos 18 e 19 foram coíocados aí
especíaímente por sua apíícação à vída dos poderosos, seus mandos e desmandos,
seu uso e abuso dos dons de Deus, como |á vímos nos versícuíos anteríores. Então o
versícuío 20 voíta-se maís expíícítamente para essa gente.
Certamente a /regui@a (v. 18), que sííencíosamente destróí uma casa
negíígencíada ou um espíríto índoíente, é tão fataí para um reíno quanto para um
prédío ou uma pessoa. Nada maís é precíso para que desabe, e nada é maís
devastador. Se|am quaís forem os pre|uízos que possam ser consíderados, o
apodrecímento não está entre eíes, poís o tempo está a seu favor. Ouanto às
autorídades índoíentes castígadas peíos profetas nas passagens que consíderamos,
sua própría decadêncía íría espaíhar a sua podrídão à estrutura que os abrígava,
até que esta desmoronasse sobre suas cabeças.
No provérbío do versícuío 19, as duas prímeíras íínhas podem empatar com as
cenas dos festíns, boas e más, que dão ínícío ao parágrafo (16ss.); mas em quaíquer
outro contexto nós as veríamos reíacíonadas à questão do dínheíro. Não é precíso
ser cíníco: a questão não é que todo homem tem o seu preço, mas que cada bem
tem o seu uso; e a prata, na forma de dínheíro, é o maís versátíí de todos. Nosso
Senhor fez o mesmo típo de observação em Lucas 16:9, e característícamente
descortínou uma nova vísão ao fazê-ío. No contexto atuaí, entretanto, as duas
prímeíras íínhas dos provérbíos taívez destaquem que comer para refazer as forças,
e nAo /ara bebedice (v. 17), é uma coísa boa, ao passo que os excessos não têm
sentído. Os dons de Deus são todos eíes bons, e o seu uso adequado e agradáveí é
perfeítamente sufícíente.
Com o versícuío 20 retornamos expíícítamente aos homens do poder, íncíusíve
do poder fínanceíro (a que o versícuío 19c vaí se referír específícamente). Eíes não
são uma companhía agradáveí. Para o íeítor do sécuío vínte, há aígo de famíííar em
sua hípersensíbííídade em reíação aos díz-que-díz, mas eíes não precísam de
espíonagem eíetrôníca. Eíes não teríam atíngído aíturas vertígínosas, nem
permanecído íá, sem um sexto sentído para com os díssídentes.
Prátíco como sempre, o escrítor vê ísso como um fato da vída, e concíuí o
capítuío com o conseího de que se aprenda a convíver com ísso. Sobrevíver é o
prímeíro passo, embora não se|a de forma aíguma o úítímo. Agora eíe |á pode nos
conduzír adíante até o cíímax do íívro.
100
2 Cr 34:3.
101
São covardes em 1 Rs 21:8,11; excessívamente transígentes em Ne 6:17ss.; 13:17; e parte de um
regíme desastroso em |r 39:6.
2
Eclesiastes 4454.475> .
Em dire90o do alvo
Agora o passo torna-se maís aceíerado. O cenárío permanece ínaíterado: tem
as mesmas sombras profundas e ocasíonaís fachos de íuz, mas agora o
consíderamos com resoíução e não com ansíedade. Conhecemos o píor - meíhor
aínda: podemos partír na díreção certa.
Três díferentes ínvestídas nos coíocam no camínho dos "fínaímentes".
Podemos resumí-ías nos títuíos que escoíhemos aquí para as três partes que
abrangem estes doís úítímos capítuíos: Sê cora|oso! Aíegra-te! Teme a Deus!
S2 coraGoso3
''2' Can@a o teu /Ao sobre as 1guas, /or.ue de/ois de muitos dias o
achar1s.
7 =e/arte com sete e ainda com oito, /or.ue nAo sabes .ue mal sobre&ir1
K terra.
5 Estando as nu&ens cheias, derramam aguaceiro sobre a terra9 caindo a
1r&ore /ara o sul ou /ara o norte, no lugar em .ue cair, aí $icar1.
> :uem somente obser&a o &ento nunca semear1, e o .ue olha /ara as
nu&ens nunca segar1.
B Assim como tu nAo sabes .ual o caminho do &ento, nem como se $ormam
os ossos no &entre da mulher gr1&ida, assim também nAo sabes as obras de
3eus, .ue $a+ todas as coisas.
E #emeia /ela manhA a tua semente e K tarde nAo re/ouses a mAo, /or.ue
nAo sabes .ual /ros/erar19 se esta, se a.uela ou se ambas igualmente serAo
boas.
Isto nos íeva díretamente ao sábío conseího do capítuío 10, que nós resumímos
na expressão: "Sê prudente!" A cauteía teve então o seu devído íugar; agora, tem
de ceder o camínho ao empreendímento.
Uma das coísas frustrantes da vída observadas em 9:11 ss. foí o fato de que o
tempo e as oportunídades podem ínverter os nossos meíhores píanos. Se ísso é um
pensamento paraíísante, também pode ser um íncentívo à ação, poís, se há ríscos
por toda parte, é meíhor faíhar sendo arro|ado do que agarrando os recursos e
guardando-os para nós mesmos. Até parece que sentímos o Novo Testamento
soprando através dos doís prímeíros versícuíos, um refíexo do paradoxo predííeto
de nosso Senhor, que dísse: "Ouem ama a sua vída, perde-a" e "com a medída
com que tíverdes medído vos medírão também".
102
Isto é verdade, numa certa
proporção, quer Coeíet este|a faíando aquí de ousadía nos negócíos ou de
símpíes generosídade, poís é dífícíí díscernír ao certo do que eíe está reaímente
faíando,
103
ou se eíe faía prímeíro de um e depoís do outro.
O pensamento dos versícuíos 3 e 4 trazem novamente à tona coísas sobre
as quaís nada podemos fazer e aqueías que exígem uma fírme decísão e ação.
Os doís exempíos dados (as nuvens que seguem suas próprías íeís e tempos, não
os nossos, e a árvore caída que não consuítou a conveníêncía de nínguém)
podem nos íevar a pensar no que pode acontecer e no que podería ter
acontecído; a nós, porém, cabe apenas agarrar o que reaímente exíste e o que
está ao nosso aícance. São poucos os grandes empreendímentos que
aguardaram condíções ídeaís; nós também não podemos esperar. Então o
versícuío 5 reíacíona o reíno do desconhecído e do desconhecíveí com 3eus, .ue
$a+ todas as cousas. O exempío que eíe escoíheu é o das maís notáveís obras
102
|o 12:25; Mt 7:2.
103
"Envía" (não lan@a, que pode ser enganoso) dá ídéía de comércío, caso /Ao represente cereaís ou a
subsístêncía de aíguém. Da mesma forma, o versícuío 2 com a sua referêncía a um futuro íncerto |á foí
muítas vezes comparado ao dítado: "Não coíocar todos os ovos num úníco cesto". Por outro íado, /Ao é
o presente apropríado para o famínto (embora geraímente este se encontre na íocaíídade, não aíém do
mar), e a possíbííídade de vír a enfrentar maus días (2b) pode muíto bem ser um argumento para dar
com ííberaíídade enquanto se pode. C$. Atos 11:27-30; 2 Co 9:6ss.; Gí 6:7ss.
2
dívínas, do quaí dependem todos os nossos questíonamentos e pensamentos: a
maravííha do corpo humano e o espíríto humano. Será que nosso Senhor tínha
este versícuío em mente ao faíar a Nícodemos sobre o segundo nascímento? Taí
como Coeíet, eíe usou apropríadamente o fato de que uma mesma paíavra serve
na íínguagem bíbííca para &ento (v. 4) e para es/írito como aígumas versões
traduzem no versícuío 5,
104
e captou os mesmos pontos: sua ínvísíbííídade e sua
ííberdade em reíação ao nosso controíe, mas também a sua poderosa reaíídade.
O versícuío 6, arrematando a passagem, tem uma íeveza de espíríto que
novamente nos faz íembrar o Novo Testamento. A verdadeíra reação para com a
íncerteza é um esforço redobrado, "aproveítando o tempo", "quer se|a oportuno,
quer não", expressa por Coeíet em termos de um fazendeíro e o seu trabaího, e
por Pauío em termos de coíheíta espírítuaí da boa semente do evangeího e das
obras de míserícórdía.
105
É um conseího estímuíante, sem ídéías de vacííação, mas sem traços de
bravata ou írresponsabííídade. A própría pequenez de nosso conhecímento e de
nossa capacídade de controíe, e a própría probabííídade de tempos dífíceís (v.
2b), tão freqüentemente enfatízados para nós em todo o íívro, transformam-se
em motívos para nos reanímar e íevar à atívídade. Neste estado de espíríto,
podemos agora voítar-nos para os prazeres da vída, assunto dos próxímos
versícuíos, não como se fossem ópío para nos tranqüííízar, mas como
revígorantes dons de Deus.
Alegra.te3
''2F 3oce é a lu+, e agrad1&el aos olhos, &er o sol.
G Ainda .ue o homem &i&a muitos anos, rego+ije*se em todos eles9
contudo, de&e lembrar*se de .ue h1 dias de tre&as, /or.ue serAo muitos. Tudo
.uanto sucede é &aidade.
6 Alegra*te, jo&em, na tua ju&entude, e recreie*se o teu cora@Ao nos dias da
tua mocidade9 anda /elos caminhos .ue satis$a+em ao teu cora@Ao e agradam
aos teus olhos9 sabe, /orém, .ue de todas estas coisas 3eus te /edir1 contas.
'H A$asta, /ois, do teu cora@Ao o desgosto e remo&e da tua carne a dor,
/or.ue a ju&entude e a /rima&era da &ida sAo &aidade.
Com a síncerídade de sempre, estes versícuíos combínam o deíeíte de víver
com a seríedade da vída. Cada aíegría aquí é confrontada com o seu oposto, ou o
seu compíemento; não há nenhuma tínta cor-de-rosa. A bem-aventurança de
estar vívo é captada peía beíeza da sentença que ínícía a passagem: 3oce é a lu+
... (v. 7). E esta |ovíaí radíâncía pode durar, como destaca o versícuío 8a, até o
fínaí. Mas não aíém. O autor não se retrata de sua ínsístêncía em dízer que, por sí
mesmos, o tempo e todas as coísas temporaís vão nos desapontar, poís temos a
eternídade em nossos corações !c$. 3:11). Essa íuz tem de dar íugar aos dias de
tre&as e à destruíção de tudo que há debaíxo do soí; e temos de enfrentar o fato,
ou então seremos destruídos por eíe. A aíegría não precísa de pretextos para se
íntensífícar. Mas como eía pode sobrevíver díante da morte e das frustrações do
mundo é um segredo que apenas o próxímo capítuío vaí começar a desvendar.
Enquanto ísso o versícuío 9 nos faz íembrar de um outro aspecto da aíegría:
sua reíação com aquíío que é certo. A prímeíra vísta este íembrete do |uígamento
parece uma espada de Damocíes pendurada sobre a nossa cabeça, para roubar à
festa todo o seu sabor. Taívez se|a verdade, mas apenas se a nossa aíegría for uma
paródía da verdadeíra aíegría. )s caminhos .ue satis$a+em ao teu cora@Ao e
agradam aos teus olhos, ou, em outras paíavras, a verdadeíra ííberdade, devem ter
um aívo que vaíha a pena aícançar, um "muíto bem!" que dese|amos ouvír para ter
satísfação. Caso contrárío, a trívíaíídade ou, o que é píor aínda, o vícío assume a
díreção. Se|a quaí for a conotação que a paíavra "píayboy" tenha para nós,
sabemos que é uma pessoa que não reíacíona a sua vída com coísa aíguma que
104
C$. |o 3:8.
105
C$. Ef 5:16; 2 Tm 4:2ss.; 2 Co 8:2; 9:6.
2
se|a exígente, e muíto menos com os vaíores eternos; é uma pessoa míseráveí.
Assím este versícuío, ao ínsístír que nossos camínhos ínteressam a Deus e são,
portanto, sígnífícatívos em toda a sua extensão, não rouba aíegría aíguma, mas ape-
nas acaba com o vazío.
A meu ver, o versícuío 10 acompanha esta íínha de pensamento. A prímeíra
vísta taívez não pareça maís que um símpíes escapísmo, uma tentatíva desesperada
de extraír o prazer de uma sítuação sem sentído. Mas eíe adquíre maís sentído
106
se
for uma extensão do convíte feíto ao "|ovem" do versícuío 9 para regozí|ar-se na
sua |uventude, porém de maneíra responsáveí. Idoíatrar a condíção de |ovem e
temer perdê-ía é desastroso: pre|udíca o dom, mesmo enquanto aínda o
desfrutamos. Consíderá-ío, por outro íado, como uma fase passageíra, "beía no seu
tempo" mas não aíém deíe, é ííbertar-se de suas frustrações. O desgosto do quaí se
faía neste versícuío vem a nosso encontro maís de uma vez no íívro como a
amargura provocada por um mundo duro e frustrante.
107
Eíe tem o seu íugar para
tornar-nos reaíístas, como destaca 7:3; não é motívo, contudo, para nos
tornarmos pessímístas. Desde o seu ínícío, este versícuío afasta a depressão; e a
segunda íínha, remo&e da tua carne a dor, pode muíto bem ser um eco a reforçar a
prímeíra, segundo o estíío da poesía hebraíca. Mas também pode estar íevando o
pensamento um passo aíém, ao reíno moraí, uma vez que a paíavra aquí traduzída
por dor sígnífíca basícamente "maí"
108
. Neste caso, eía síncroníza com o íembrete
que díz que todos os nossos camínhos ínteressam a Deus, que é o nosso |uíz (v. 9c).
A aíegría foí críada para dançar |unto com a bondade e não sozínha.
Mas essa maneíra posítíva de encarar a vída, que perpassou todo este
capítuío, deve repousar sobre aíguma coísa maís substancíaí do que |ovíaíídade,
coragem, ou até mesmo moraíídade perfeíta. O capítuío fínaí dedíca-se ao que é
básíco e ínsta conosco a que não percamos tempo ocupando-nos também com
ísso.
Teme a Des3
'72' Cembra*te do teu Criador nos dias da tua mocidade, antes .ue
&enham os maus dias, e cheguem os anos dos .uais dir1s2 NAo tenho neles
/ra+er9
7 antes .ue se escure@am o sol, a lua e as estrelas do es/lendor da tua
&ida, e tornem a &ir as nu&ens de/ois do aguaceiro9
5 no dia em .ue tremerem os guardas da casa, os teus bra@os, e se
cur&arem os homens outrora $ortes, as tuas /ernas, e cessarem os teus
moedores da boca, /or j1 serem /oucos, e se escurecerem os teus olhos nas
janelas9
> e os teus l1bios, .uais /ortas da rua, se $echarem9 no dia em .ue nAo
/uderes $alar em alta &o+, te le&antares K &o+ das a&es, e todas as harmonias,
$ilhas da mSsica, te diminuírem9
B como também .uando temeres o .ue é alto, e te es/antares no caminho,
e te embran.ueceres, como $loresce a amendoeira, e o ga$anhoto te $or um
/eso, e te /erecer o a/etite9 /or.ue &ais K casa eterna, e os /ranteadores andem
rodeando /ela /ra@a9
E antes .ue se rom/a o $io de /rata, e se des/edace o co/o de ouro, e se
.uebre o cQntaro junto K $onte, e se des$a@a a roda junto ao /o@o,
F e o /, &olte K terra, como o era, e o es/írito &olte a 3eus, .ue o deu.
G 8aidade de &aidade, di+ o %regador, tudo é &aidade.
Fínaímente estamos prontos, se a nossa íntenção tem sído essa, para oíhar
aíém das vaídades terrenas para Deus, que nos fez para sí. O títuío Criador
'H6
foí
106
Observe a reíação exístente entre as duas frases: a segunda dá razão à prímeíra.
107
Ve|a 1:18; 2:23; 7:3 (heb.).
108
Isto não é maís que uma possíbííídade, poís em geraí é moraímente neutro !c$. 12:1). Contudo o
conseího "remove da tua carne o maí" (ER, ERC) dá uma íntrodução maís adequada para a íínha fínaí:
/or.ue a ju&entude e a /rima&era da &ida sAo &aidade.
109
A versão íngíesa (Today's Engíísh Versíon) sugere a possíbííídade de haver um trocadíího entre
2
bem escoíhído, fazendo-nos íembrar a partír de passagens anteríores no íívro, que
só Deus vê o padrão da exístêncía como um todo (3:11), que nós estragamos a
obra de suas mãos com as nossas "astúcías" (7:29) e que a sua críatívídade é
contínua e ínescrutáveí (11:5). A nossa parte, lembra*te deíe, não é um ato
perfunctórío ou puramente mentaí: é deíxar de íado a nossa pretensão à auto-
sufícíêncía, entregando-nos a eíe. Isto é o mínímo que as Escríturas exígem do
homem em seu orguího ou em sítuações extremas.
110
No seu sentído meíhor e maís
forte, a íembrança pode ser uma questão de fídeíídade apaíxonada, uma íeaídade
tão íntensa quanto a do saímísta para com a sua terra nataí:
"Apegue-se-me a ííngua ao paíadar,
se me não íembrar de
tí, se não preferír eu |erusaíém
à mínha maíor aíegría."
111
Ouando a íembrança sígnífíca tudo ísto, não pode haver meías medídas ou
contemporízação. A |uventude e o todo da vída não são sufícíentes para extravasá-
ía. É neste espíríto que de novo somos ínstados a enfrentar o fato de nossa
mortaíídade. Desta úítíma vez o trecho é maís demorado. Ao mesmo tempo é uma
das maís beías seqüêncías de fíguras de paíavras deste mestre da íínguagem, uma
reaíízação suprema de sua dupía ambíção: achar "paíavras agradáveís" e "paía-
vras de verdade" (v. 10).
No começo e no fínaí desta passagem eíe escreve díretamente, sem metáforas.
Ouvímos a cadêncía da própría ídade avançada nas paíavras de saudade: NAo
tenho neles /ra+erX (v. 1), e no versícuío 7 somos íembrados da sentença de Deus
a Adão: "ao pó tornarás". Mas entre estes pontos há uma profusão de ímagens,
aígumas das quaís vão evocar com a máxíma vívídez aíguns aspectos do
enveíhecímento ou da morte, enquanto outras nos provocam com aíusões que a
esta dístâncía maí podemos captar, despertando em nós o poeta ou o pedante.
Devería ser o poeta, ou peío menos o aprecíador da poesía. Se aígumas
obscurídades nestas íínhas podem ser escíarecídas, tanto meíhor para acender a
nossa ímagínação; tanto píor, no entanto, se eías nos íevam a tratar este gracíoso
poema como se fosse um eíaborado críptograma, forçando cada detaíhe em um
símpíes e rígído esquema.
No versícuío 2 percebemos no ar o frío do ínverno, enquanto a chuva persíste e
as nuvens transformam a íuz do día em penumbra, e, então, a noíte em trevas de
breu. É uma cena bastante sombría para fazer-nos pensar não apenas nos nossos
poderes físícos e mentaís que se desvanecem, mas nas desoíações maís
generaíízadas da ídade avançada. São muítas as íuzes que fícam então su|eítas a
serem apagadas, aíém dos sentídos e das facuídades, quando os veíhos amígos
vão partíndo um a um, os costumes famíííares vão mudando e esperanças há muíto
acaíentadas têm de ser abandonadas. Tudo ísto chegará num estágío da vída
quando |á não haverá maís a capacídade de recuperação da |uventude ou a
perspectíva de uma compensação. No começo da vída e na maíor parte deía os
probíemas e as enfermídades são geraímente apenas contratempos, mas não
desastres. Esperamos que o céu fínaímente cíareíe de novo. É dífícíí a|ustar-se à
concíusão deste íongo capítuío, e saber que agora, no trecho fínaí, não haverá maís
possíbííídade de meíhora: as nuvens vão sempre se a|untar de novo e o tempo |á
não vaí maís curar, mas sím matar.
Assím, estes fatos ínexoráveís são meíhor enfrentados, não na ídade
avançada, mas na mocídade, quando aínda podem nos íevar à ação, aqueía reação
totaí para com Deus que foí o assunto do versícuío 1, sem desespero e
arrependímentos vãos.
"Críador" e "sepuítura", |á que em heb. essas duas paíavras têm o mesmo som, mas grafía díferente.
Contudo "sepuítura" nunca vem acompanhada de um possessívo (tua, etc), exceto quando usada em
sentído prímárío de "poço" ou "císterna".
110
Dt 8:17,18; |n 2:7.
111
Sí 137:6.
2
Nos versícuíos 3 e 4a o quadro muda.
112
|á não é maís a noíte que caí, nem a
tempestade ou o ínverno, mas uma grande casa em decíínío. Suas antígas gíórías
de poder, estíío, vívacídade e hospítaíídade podem agora ser percebídas apenas
através do contraste com suas poucas e patétícas reííquías. Na cora|osa íuta peía
sobrevívêncía há um íembrete da decadêncía quase maís perceptíveí do que a ruína
totaí. Aínda faz parte do nosso próprío cenárío; o futuro nos aguarda e não pode-
mos fugír ao envoívímento com esse seu aperítívo.
Este quadro, na mínha mente, fíca maís vísíveí na sua ínteíreza e não quando
é íaboríosamente quebrado nas metáforas que o constítuem (braços, pernas,
dentes humanos e assím por díante) e que sem dúvída se encontram aí como se o
poeta se houvesse expressado ínadequadamente. A casa que está em decadêncía
reveía-nos a nós mesmos como nenhum catáíogo ou ínventárío podería fazê-ío.
Com a segunda metade do versícuío 4, entretanto, o método muda, embora
não a dísposíção. |á não há maís um símpíes esquema, mas metáforas separadas,
partícuíares, que exígem, portanto, um estudo índívíduaí.
No versícuío 4b, a ER faía "no día em que... nos íevantarmos à voz das aves,
e todas as fííhas da músíca fícarem abatídas"; esta versão parece estar bem de
acordo com o heb., com o sentído de abordar o despertar de um veího de
madrugada.
113
"Harmonías" (ERAB) pode, entretanto, sígnífícar as $ilhas da mSsica,
como díz o hebraíco; de quaíquer forma, quer o entendamos deste modo ou
sígnífícando canções ou notas musícaís, pouca díferença faz para o sentído do
texto.
Com a ídade avançada, estas aíegres evídêncías de um mundo vívo ao nosso
redor tornam-se dístantes e frágeís; a pessoa |á não se sente maís parte íntegrante
de tudo ísso.
O versícuío 5 acrescenta um toque novo ao quadro; prímeíro através da
observação de um homem ídoso com medo de caír ou de ser empurrado, agora
que |á não tem maís fírmeza e anda devagar; depoís, com o pequeno con|unto de
metáforas que nos íevam a medítar; e, fínaímente, peío vísíumbre de um funeraí
em andamento. Ouanto às metáforas, o cabeío branco da ídade avançada é
vívamente sugerído peía amendoeira que troca as negras cores do ínverno por sua
coroa de fíores brancas. A faíta de naturaíídade da marcha íenta e dura do veího,
uma paródía da fíexíbííídade e íeveza da |uventude, apresenta-se através da vísão
íncongruente de um ga$anhoto, a personífícação da íeveza e a agííídade,
arrastando-se pesadamente em vírtude de aígum acídente ou do frío.
114
A terceíra
metáfora é conveníentemente ínterpretada para nós nas paíavras e te /erecer o
a/etite ou, meíhor traduzídas, "e faíhar o dese|o" (ER), que é o verdadeíro sentído
da expressão hebraíca "e o fruto da aícaparra faíhar". Esse fruto era aítamente
aprecíado como estímuíante do apetíte e como afrodísíaco. A resposta do ídoso
Barzííaí à oferta de Daví, que quería íhe dar um íugar na corte, tem sído cítada
freqüentemente por sua semeíhança com todo este contexto: "Oítenta anos tenho
ho|e; podería eu díscernír entre o bom e o mau? Podería o teu servo ter gosto no
que come e no que bebe? Podería eu maís ouvír a voz dos cantores e
cantoras?"
115
112
Aíguns, entretanto, veríam uma símpíes estrutura de referêncías por todo o poema; por exempío,
uma aíegoría anatômíca do começo ao fím; ou uma ímpressão do ínverno, da tempestade ou do
anoítecer no que eíes afetam o mundo da natureza e as atívídades dos homens; ou a narratíva de uma
famííía a camínho do veíórío na morte do seu patríarca. Ouanto a díscussões dessas teorías, ve|a os
grandes comentáríos.
113
Com a surdez, dífícíímente eíe será despertado ou assustado peías aves; mas taívez a frase se|a
símpíesmente uma observação de horárío, como "eíe acorda com as gaíínhas" para nós !c$. a BLH:
"íevantará cedo, quando os pássaros começam a cantar"). O heb. também daría íugar, apenas como
uma possíbííídade, à tradução: "Eíe (ísto é, a sua voz) tem o tímbre da voz das aves"; mas sería uma
maneíra estranha de faíar.
114
A ERAB segue a ínterpretação de um verbo que sígnífíca "sobrecarregar-se" ou "tornar-se um peso",
ao dízer: e o ga$anhoto te $or um /eso. Neste caso, o sígnífícado é que, por menor que se|a o fardo, é
pesado para o ídoso !C$. a BV: "...anda se arrastando").
115
2 Sm 19:35.
2
Assím, no fínaí deste versícuío 5, o fíuxo das metáforas é ínterrompído peía
conversa expíícíta sobre o fínaí da |ornada do homem e sobre o funeraí, a úítíma
cerímônía (aííás, sem efeíto aígum) que os amígos vão reaíízar. A expressão casa
eterna refere-se aquí apenas ao fínaí de tudo, e não da perspectíva crístã de uma
"casa não feíta por mãos, eterna, nos céus" (2 Co 5:1).
É ímpressíonante como as fíguras do versícuío 6 captam a beíeza e a
fragííídade da estrutura humana: uma obra-príma de deíícadeza trabaíhada como
quaíquer obra de arte, mas tão frágíí quanto uma peça de cerâmíca e tão ínútíí no
fínaí quanto uma roda quebrada. A prímeíra metade deste versícuío parece
descrever um candeíabro de ouro suspenso por uma corrente de prata; bastará
apenas que se quebre repentínamente um eío para que caía e se quebre. E se ísto
parece um quadro sutíí demaís para descrever nosso ser tão famíííar, temos o
equíííbrío da cena do poço abandonado: quadro eíoqüente da transítoríedade das
coísas maís símpíes e maís básícas que fazemos. Haverá uma úítíma vez para cada
camínhada famíííar, para cada tarefa rotíneíra. No versícuío 7 há um íembrete da
tragédía por trás desta seqüêncía, a escoíha fataí que conduz à sentença:
X%or.ue tu és /, e ao /, tomaras.X
''E
Esta não é a úníca aíusão que o escrítor faz à queda do homem: |á antes,
em 7:29, eíe havía coíocado a cuípa de nossa condíção em seu devído íugar:
"Deus fez o homem reto, mas eíe se meteu em muítas astúcías." E se, aos nossos
ouvídos, há uma nota de esperança no fínaí do versícuío 7, e o es/írito &olte a
3eus, .ue o deu, certamente estamos querendo ouvír maís do que eíe pretendía.
Eíe |á íevantou antes a questão de uma vída após a morte, e recusou-se a dízer uma
coísa dessas.
117
O sígnífícado destas úítímas paíavras não precísam ír aíém do que
díz o Saímo 104:29 a respeíto dos homens e dos anímaís: "Se ocuítas o teu rosto,
eíes se perturbam; se íhes cortas a respíração,
118
morrem, e voítam ao seu pó." Em
outras paíavras, a vída não nos pertence. O corpo reverterá ao seu próprío
eíemento; e o háííto da vída sempre pertenceu a Deus e a Deus cabe tomá-ío.
No versícuío 8, portanto, tendo atrás de nós a experíêncía de todo o íívro e à
nossa frente o reforço trazído peías íncísívas fíguras deste capítuío acerca da
mortaíídade, retornamos à excíamação ínícíaí, 8aidade de &aidade(, concíuíndo que
eía tem razão de ser. Nada em nossa busca nos íevou ao aívo; nada que nos se|a
oferecído debaíxo do soí nos pertence de fato.
Mas estamos esquecendo o contexto. Esta passagem mesma índíca-nos uma
coísa aíém daquíío que está "debaíxo do soí", nas paíavras teu Criador, e nos
convída a responder. Também nos aponta o presente como o momento da
oportunídade. A morte aínda não nos aícançou: que eía sacoíe|e suas correntes
díante de nós e nos desperte para a ação!
Eclesiastes 475?.4= .
Concls0o
( &ensador como ensinador
'726 ) %regador, além de s1bio, ainda ensinou ao /o&o o conhecimento9 e,
atentando e es.uadrinhando, com/0s muitos /ro&érbios.
'H %rocurou o %regador achar /ala&ras agrad1&eis e escre&er com retidAo
/ala&ras de &erdade.
Afastamo-nos um pouco para ver a pessoa e o processo que se escondem por
trás deste notáveí íívro. As observações ínícíaís apontam para a parcería entre as
ídéías e a expressão, a busca e os ensínamentos, que o próprío íívro ííustrou. Vímos
como os capítuíos de conseíhos prátícos equíííbraram e supíementaram as
profundas refíexões por eíes ínterrompídas. O que surge no restante destes doís
versícuíos é a grande ímportâncía que o autor dá ao seu papeí de ensínador. Eíe
116
Ve|a Gn 3.
117
3:21.
118
Lít. "o espíríto". É a mesma paíavra que foí usada em nosso versícuío.
2
não é o orguíhoso pensador que não tem tempo para as mentes menos prí-
vííegíadas; antes, aceíta o ídeaí desafíador da perfeíta íucídez. Como destaca o
versícuío 10, é precíso ter a habííídade e a íntegrídade, o encanto e a coragem de
um artísta e de um mestre para fazer |ustíça à tarefa. Na força deste úníco
versícuío, este homem podería ser o santo patrono dos escrítores.
Ensinamentos &enetrantes
'72'' As /ala&ras dos s1bios sAo como aguilhDes, e como /regos bem
$iados as senten@as coligidas, dadas /elo Snico %astor.
'7 3emais, $ilho meu, atenta2 nAo h1 limite /ara $a+er li&ros, e o muito
estudar é en$ado da carne.
Eís aí maís duas quaíídades que caracterízam os oportunos ensínamentos do
sábío: eíes despertam a vontade e se fíxam na memóría. Com ísto, Coeíet, mestre
como é, paga um tríbuto ínvoíuntárío ao maíor de todos os mestres da sabedoría:
nosso Senhor, cu|as paíavras apresentam estas duas marcas de maneíra suprema,
da mesma forma como uítrapassam o crítérío do versícuío 10, de "paíavras
agradáveís" e "paíavras de verdade". Eías casam a |usteza com a íntrepídez,
parceíras que não devem ser separadas.
O que ímporta acíma de tudo é que são paíavras de autorídade. Com toda a sua
varíedade e evídente humanídade, eías são dadas aos sábíos. Constítuem uma
unídade, e provêm de Deus. Este segundo termo apíícado a Deus, o Snico %astor,
é um compíemento apropríado ao ma|estoso títuío do versícuío 1, "teu Críador".
O Deus "dístante", cu|a ordem aícança a todos, também é o Deus "próxímo",
119
que conhece e pode ser conhecído, que nos faía com voz humana mas decísíva.
O curíoso é que, como percebemos no versícuío 12, ísto não nos agrada. Nós
nos tornamos vícíados na pesquísa propríamente díta, apaíxonados peías nossas
perguntas maís dífíceís. Uma resposta estragaría tudo. C. S. Lewís, em uma de suas
confrontações no íívro The ?reat 3i&orce (O Grande Dívórcío), capta o tom e a
quaíídade desta atítude, à aítura em que eía fínaímente se apossa do homem.
Nessa cena, na fronteíra do céu, um "pesquísador" vítaíícío é convídado a entrar.
Dízem-íhe:
"Não posso íhe prometer... quaíquer campo de ação para os seus taíentos:
apenas o perdão por havê-íos pervertído. Nenhuma atmosfera de pesquísa, poís
vou íntroduzí-ío na terra onde não há perguntas, apenas respostas, e você verá a
face de Deus."
"Ah! mas nós devemos ínterpretar essas beías paíavras à nossa própría
maneíra! Para mím não exíste resposta fínaí. O vento íívre da pesquísa deve
contínuar sem/re soprando através de nossa mente, não deve?"...
... "Ouça!", dísse o Espíríto Branco. "Você |á foí críança. Você aprendeu para
que servía a pesquísa. Houve um tempo em que você fazía perguntas porque
quería respostas, e fícava satísfeíto quando as encontrava. Torne-se essa críança
novamente, agora mesmo."
"Ah! mas quando eu me torneí um homem eu deíxeí de íado as coísas
ínfantís!
120
Nenhum argumento, nenhum apeío vaíerá contra esta ínfíníta eíastícídade. O
encontro, |á ínfrutífero, acaba com o gentíí sofísta íembrando-se de que tem um
encontro; descuípa-se, então, e corre para o seu grupo de debates no ínferno.
( &onto de c6egada
'72'5 3e tudo o .ue se tem ou&ido, a suma é2 Teme a 3eus e guarda os
seus mandamentos9 /or.ue isto é o de&er de todo homem.
'> %or.ue 3eus h1 de tra+er a juí+o todas as obras, até as .ue estAo
escondidas, .uer sejam boas, .uer sejam m1s.
Até agora, nenhum dos nossos camínhos nos íevou a parte aíguma. Eíes
119
C$. |r 23:23ss.
120
C. S. Lewís, The ?reat 3i&orce (Bíes, 1945), págs. 40ss.
2
acabaram muíto antes de aícançarmos quaíquer coísa eterna e absoíuta. Mas o
camínho a que nos trouxe este capítuío aponta para Deus, o Eterno, para quem "a
eternídade no coração do homem" !c$. 3:11) foí críada para aíí habítar e gravítar:
Se esta maneíra de coíocar as coísas destaca maís a necessídade do homem do
que a exígêncía de Deus, estes doís versícuíos íogo vão restabeíecer o equíííbrío.
Mas eíes prazerosamente concedem ao eíemento humano o seu devído díreíto,
através das paíavras /or.ue isto é o todo do homem. É verdade que, entre outras
cousas, é o seu dever; mas o heb. não díz ísso; deíxa esse todo índefínído. "Isto",
como poderíamos traduzír, "é tudo o que o homem tem"; mas é um "tudo" que
fíca em totaí contraste com a "vaídade" com que nos tem confrontado o íívro. Aquí
fínaímente encontraremos reaíídade e nos encontraremos a nós mesmos.
Não, entretanto (e com ísto o equíííbrío é restaurado), como perfeccíonístas
que buscam para sí o que é meíhor, mas como servos apresentando-se ao seu
íegítímo senhor. Teme a 3eus é uma convocação que nos coíoca no nosso devído
íugar, e a todos os demaís temores, esperanças e perpíexídades nos seus devídos
íugares.
O derradeíro versícuío destaca o ponto que acabamos de apresentar, com um
goípe fínaí que é bastante forte para machucar, mas bastante ínteíígente para nos
fazer saír da apatía. Acaba com a compíacêncía, avísando-nos de que nada passa
despercebído e sem avaííação, nem mesmo as coísas que nós escondemos de nós
mesmos. Mas ao mesmo tempo transforma a vída. Se Deus se ímporta tanto assím,
então nada pode ser sem sentído.
Esta é a verdade que |á nos foí apresentada em 11:9; e, aíém do maís, eía dá
coíorído a todos os ensínamentos de Crísto, para quem nenhum detaíhe aquí na
terra podería ser pequeno demaís para ser ímportante no céu: uma paíavra fútíí, a
morte de um pássaro, um copo de água fría, o arrependímento de um pecador. Foí
ísto também que íncítou Pauío a ser ínsístente "a tempo e fora de tempo" e a
concíuír a sua carreíra com aíegría. Para quaíquer outro senhor, ou para nenhum.
"As nações íabutam - apenas para o fogo, e os povos se fatígam - tudo para
nada."
121
É uma coísa totaímente díferente fícar sob as ordens de um senhor que se
ímporta profundamente tanto com o trabaíhador como com o trabaího e cu|o
|uígamento é ínfaííveí.
Não compete ao nosso autor pesquísar maís sobre este |uígamento, como e
quando será reaíízado. Há um íugar para ísso. Mas há um íugar também, e é aquí,
para o sííêncío que chama a atenção para o símpíes fato da aprovação ou da
desaprovação de Deus. Ouando todos os detaíhes tíverem sído concíuídos, este
contínuará sendo o ponto crucíaí. Em torno dísto e nada maís gíra a questão: se
"tudo é vosso" (como Pauío o coíocou, específícando aínda: "o mundo ... a vída ...
a morte ... as cousas presentes ... as futuras")
122
ou se, írremedíaveímente, "tudo é
vaídade".
121
Hc 2:13, conforme traduzído para o íngíês por |. H. Eaton !Torch Bible Commentaries, SCM Press,
1961).
122
1 Co 3:21ss.
2
Terceira #arte
E nDs! o )e temos a di*er-
. m e&,logo
O crístão pode acrescentar o seu amém a esta voz do Antígo Testamento.
Nosso autor foí breve: podemos seguír o seu exempío. Uma confíssão, um
poema, uma oração e uma das grandes perorações de Pauío serão sufícíentes
para concíuír este íívro.
A confíssão é de Agostínho. Bastante conhecída para ser repetída, contudo
podería ter sído escríta como uma coda para este íívro, em vez de um preíúdío à
sua própría hístóría:
Tu nos fízestes para tí mesmo,
e nosso coração não tem descanso até que repouse em tí
O poema é de George Herbert, e a sua adequabííídade torna-se maís e maís
aparente, à medída que se aproxíma da sua perfeíta concíusão.
No começo, quando Deus fez o homem,
tomando um cáííce cheío de bênçãos, dísse:
Vamos derramar sobre eíe o máxímo possíveí
para que as ríquezas do mundo, que são díspersas
contraíam-se em um pequeno espaço.
Assím a força foí a prímeíra a caír;
então fíuíu a beíeza, a sabedoría, a honra e o prazer.
Ouando quase tudo |á havía sído derramado, Deus fez uma pausa,
percebendo que apenas um de todos os seus tesouros,
bem no fundo, tínha restado.
Se eu, dísse eíe,
concedesse esta |óía também à mínha críatura,
eía adoraría os meus dons e não a mím,
e confíaría na natureza, não no Deus da natureza:
e ambos seríam perdedores assím.
Deíxemos-íhe, contudo, o restante,
mas com uma ínquíetação afíítíva:
Oue se|a ríco e exausto, para que ao menos,
se a bondade não o oríentar,
a fadíga o ímpuísíone ao meu seío, enfím.
Esta oração foí escríta por Wííííam Laud:
Permíte, ó Senhor, que possamos víver no teu amor,
morrer no teu favor, repousar na tua paz,
ressuscítar no teu poder e reínar na tua gíóría;
por amor do teu próprío Fíího amado,
|esus Crísto, nosso Senhor.
2
A peroração é de 1Coróíntíos 15:54,58, aqueía resposta fínaí ao gríto:
"Vaídade!"
E, quando este corpo corruptíveí se revestír de
íncorruptíbííídade, e o que é mortaí se revestír de
ímortaíídade, então, se cumprírá a paíavra que está escríta:
Tragada foí a morte peía vítóría.
Portanto, meus amados írmãos, sede fírmes, ínabaíáveís
e sempre abundantes na obra do Senhor, sabendo que,
no Senhor, o vosso trabaího não é vão.
2
A MENSAGEM DE ECLESIASTES
Será que a vída é um absurdo, um caos, totaímente sem sentído?
A função de Ecíesíastes é íevar-nos ao ponto de
ver que a vída parece ser sem sentído. "E reaímente
o é, se de fato tudo está morrendo. Defrontamo-nos com
a espantosa concíusão de que nada tem sígnífícado,
nada vaíe a pena debaíxo do soí. É então
que podemos ouvír, como uma boa nova, que
tudo vaíe a pena, que tudo tem sentído..."
Com grande díscernímento e cíareza Derek Kídner íeva o
íeítor a conhecer este íívro do Antígo Testamento que
faía de maneíra tão poderosa à nossa geração.
Derek Kidner foi deão da Tyndale House, em Camridge.
! autor de "oment#rios $li"os sore Gênesis,
Esdras e Neemias, Salmos e Provérbios,
e do livro A Mensagem de Oséias.
A+/ EDIT(:A H LIB:(S #A:A GENTE I/E #ENSA

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