P. 1
o Publico e o Privado 14

o Publico e o Privado 14

|Views: 13|Likes:
Publicado porresch66

More info:

Published by: resch66 on Nov 16, 2013
Direitos Autorais:Attribution Non-commercial

Availability:

Read on Scribd mobile: iPhone, iPad and Android.
download as PDF, TXT or read online from Scribd
See more
See less

06/13/2014

pdf

text

original

Revista do Programa de PósGraduação em Políticas Públicas da Universidade Estadual do Ceará

O público e o privado

Dossiê Política, Comunicação e Cidadania

REITOR

Francisco de Assis Moura Araripe
VICE- R E I T O R

Antônio de Oliveira Gomes Neto
P R Ó - R E I T O R D E P ÓS - G R A D U A Ç Ã O E P E S Q U I S A

José Jackson Coelho Sampaio
CENTRO DE HUMANIDADES CENTRO DE ESTUDOS SOCIAIS APLICADOS

Marcos Antônio Paiva Colares
CONSELHO EDITORIAL EDITOR

Maria da Conceição Pio

João Tadeu de Andrade
CONSULTORES I N T E R N O S CONSULTORES EXTERNOS

João Bosco Feitosa dos Santos Eduardo Diatahy Bezerra de Menezes Francisco Horácio da Silva Frota José Filomeno de Moraes Maria do Socorro Ferreira Osterne José Jackson Coelho Sampaio Maria Barbosa Dias Maria Celeste Magalhães Cordeiro Maria Helena de Paula Frota Sofia Lerche Vieira Ubiracy de Souza Braga Liduina Farias Almeida da Costa Maria Glauciria Mota Brasil Elba Braga Ramalho Francisca Rejane de Bezerra Andrade Gisafran Nazareno Mota Juca Francisco Josênio C. Parente

Manoel Domingos (UFC) Jawdat Abu-EI-Haj (UFC) Pedro Demo (UNB) Ronald Chilcote (University California) Mariano Fernandez Enguita (Universidad de Salamanca) Luiz Jorge Wernek Viana (IUPERJ) Mauricio Domingues (IUPERJ) Maria Alice Resende de Carvalho (IUPERJ) Adalberto Moreira Cardoso (IUPERJ) Paulo Filipe Monteiro (Universidade Nova Lisboa) Maria Lucilia Monteiro (Universidade Nova Lisboa) Maria Celi Scalon (IUPERJ)

P R O J E TO G R Á F I C O

Clarice Frota
EDITORAÇÃO ELETRÔNICA

Cristiê Gomes Moreira - Nupes

ISSN 1519-5481

O Público e o privado. Fortaleza: UECE, 2003-. Semestral. Conteúdo: ano 7, n.14, Julho/Dezembro, 2009

1.Humanidades e Ciências Sociais

CDD 320.000

politicasuece.politicasuece.O público e o privado Revista do Programa de Pós-Graduação em Políticas Públicas da Universidade Estadual do Ceará . Av. recebendo também colaborações com temas diversos.com Políticas Públicas da UECE com diversas informações das atividades desenvolvidas.740. 1700. para a Editoria da Revista. Periódico semestral e temático. Fortaleza – Ceará. Paranjana.Mestrado Acadêmico em Políticas Públicas Secretaria: Cristina Maria Pires de Medeiros Endereço eletrônico: politicasuece@gmail.com do Programa de Pós-Graduação em www.UECE. CEP: 60. Correspondência A submissão de artigos deve ser feita através do endereço eletrônico revista@politicasuece.com Tel: (85) 3101-9887 . Correspondências via correio comum devem ser encaminhadas para: Programa de Pós-Graduação em Políticas Públicas .com.Mestrado Profissional em Planejamento e Políticas Públicas Secretaria: Maria de Fátima Albuquerque de Araújo Souza Endereço eletrônico: politicaspublicasuece@gmail.com revista@politicasuece.com Tel/fax: (85) 3101-9880 . Campus do Itaperi.9003 . Tem por objetivo divulgar artigos e comunicações resultados de pesquisas e estudos na área de políticas públicas. desde que relevantes para a área.UECE. A revista possui uma versão on line localizada na página www .

em especial quando recém ocorreu no Brasil a I Conferência Nacional de Comunicação. Conteúdos audiovisuais. a partir do Grupo de Estudos e Pesquisa em Políticas de Cultura e de Comunicação (Cult. se desdobrando em outras produções acadêmicas. comunicação pública. Agora. É oportuno destacar que esta publicação é de notória atualidade. João Tadeu de Andrade Editor Alexandre Barbalho Organizador do Dossiê . nacionais e internacionais.Com. de nosso Programa de Pós-graduação.Com). Esperamos que os artigos aqui reunidos promovam reflexões e intervenções. particularmente comunicação e cidadania. apresentamos o tema "Política. reunindo pesquisadores de vários estados brasileiros e de outros países. escola em um mundo cada vez mais digital e dinâmico são alguns dos ricos temas deste dossiê. Boa leitura. as políticas de comunicação. de pesquisadores destas temáticas. mais uma vez agregando variedade de pontos de vista sobre assunto tão fundamental para a contemporaneidade. redes sociais e comunicação. Importante acrescentar que o debate acerca das políticas voltadas para os campos cultural e comunicacional se insere em redes mais amplas. democracia. Comunicação e Cidadania". Na edição número 09 foi organizado o dossiê retratando múltiplas abordagens em políticas culturais. resultando em parcerias e publicações coletivas. contemplando outra área do Cult.Editorial Esta edição 14 de O público e o privado volta-se mais uma vez para questões de política cultural.

Elza Ferreira Redes Sociais e usos da Internet por migrantes brasileiros na Espanha Daiani Ludmila Barth. cultura e esfera pública César Ricardo Siqueira Bolaño. Valério Cruz Brittos O dono do mundo: O Estado como proprietário de televisão no Brasil Suzy dos Santos Políticas de Comunicação na Amazônia: entre o Estado e o mercado Alexandre Barbalho. Ana Paula Freitas. práticas e vivências de sociabilidade e cidadania em telecentros no Agreste da Borborema-PB Juciano de Sousa Lacerda Paradigma digital: capitalismo. Albornoz 83 107 125 137 147 .Sumário 05 11 25 35 51 67 Editorial DOSSIÊ POLÍTICA. COMUNICAÇÃO E CIDADANIA El papel de los medios masivos en la vida ciudadana. Denise Cogo Comunicação Comunitária e Local em Rede: lógicas. Fabrício de Mattos A contribuição da cota de tela no cinema brasileiro Anita Simis Un debate abierto: La clasificación de contenidos audiovisuales en España Luis A. Aportes y prácticas perversas Orlando Villalobos Finol Políticas de Comunicação e Sociedade Democrática: o papel da comunicação no desenvolvimento social Cida de Sousa Comunicação Pública: um espaço de construção da cidadania Horácio Frota.

Erotilde Honório Silva RESENHA 193 Alexandre Barbalho. Textos Nômades: política. cultura e mídia Luzia Aparecida Ferreira-Lia .Sumário 165 Linguagem e modos de subjetivação na relação práticas escolares e televisão Luciana Lobo Miranda TEMAS LIVRES 157 Quando a televisão produz suas próprias políticas de comunicação: uma análise do Merchandising Social nas Telenovelas Brasileiras Roberta Manuela Barros de Andrade.

Albornoz 83 107 125 137 147 .Summary 05 Editorial POLITICS . Fabrício de Mattos The contribution of the screen quota to the brazilian cinema Anita Simis An open debate: The classification systems of audio-visual in Spain Luis A. COMMUNICATION DOSSIER 11 25 35 51 67 The role of mass means of communication in citizen life: Contributions and perverse practices Orlando Villalobos Finol Policies of Communication and Democratic Society: the paper of the communication in the social development Cida de Sousa Public Communication: An area of construction of Citizenship Horácio Frota. culture and public sphere César Ricardo Siqueira Bolaño. COMMUNICA TION AND CITIZENSHIP POLITICS. practices and experiences of sociability and populations in telecenters in Agreste of the Borborema-PB Juciano de Sousa Lacerda Digital Paradigm: capitalism. Valério Cruz Brittos The owner of the world: The State like television owner in Brazil Suzy dos Santos Policies of Communication in the Amazon region: between the State and the market Alexandre Barbalho. Ana Paula Freitas. Elza Ferreira Social Networks and Internet use by brazilian migrants in Spain Daiani Ludmila Barth eDenise Cogo Communitarian and local communication in network: logics.

Summary
165
Language and subjectivity in the relationships > between school practices and television Luciana Lobo Miranda FREE THEMES

179 193

When the television produces its proper politics of communication: An analysis of the Social Merchandizing in the Brazilian soap opera Roberta Manuela Barros de Andrade, Erotilde Honório Silva REVIEWS

Luzia Aparecida Ferreira-Lia. Textos Nômades: política, cultura e mídia Alexandre Barbalho

(*) Orlando Villalobos Finol é Profesor - investigador de la Universidad del Zulia, Venezuela. Email: ovilla4748@yahoo.com.mx

11

El papel de los medios masivos en la vida ciudadana:
Aportes y prácticas perversas The role of mass means of communication in citizen life: Contributions and perverse practices**

Orlando Villalobos Finol*

RESUMEN : Se parte por establecer que el espacio comunicacional, particularmente RESUMEN:

el que está referido a los medios masivos, simboliza la opción de ganar presencia en el ámbito ciudadano, si se favorece una relación diferente con la audiencia que incentive la participación ciudadana y genere la opción para el periodismo de ser un factor para el diálogo y no para la versión sesgada y limitada. Pero el efecto de los medios tiene resultados paradójicos, porque también desestimula lo ciudadano y es fuente de prácticas desinformadoras y contrarias a la creación de hilos asociativos. El trabajo se sustenta en una perspectiva epistémico cualitativa. En los resultados se exponen certezas y conjeturas acerca del problema de la ciudadanía desde una idea más amplia, que remite a la participación, al diálogo y la solidaridad; y se revisa el impacto de la labor de los medios en la construcción de ciudadanía.

Palabras clave: comunicación, ciudadanía, participación, tejido social.

I

ntroducción

Dos preguntas decisivas se pueden mencionar para justificar el presente artículo. La primera, ¿cómo construir ciudadanía, en nuestras ciudades? La segunda, ¿cómo aprovechar el valioso recurso comunicacional que está representado por el aparato de medios público (o estatales) y privados? A partir de allí se genera la revisión crítica de las posibilidades que ofrece el poderoso dispositivo técnico o tecnológico de que dispone el aparato mediático,
O público e o privado - Nº 14 - Julho/Dezembro - 2009

** El trabajo es resultado del desarrollo del proyeto de investigación: “Incidencia de la comunicación masiva en la participación ciudadana en Maracaibo”, que cuenta con la aprobación y el financiamiento del Consejo de Desarrollo Científico y

12

Orlando Villalobos Finol

y desde luego de las posibilidades culturales y políticas que puede aportar la plataforma mediática, para superar la desigualdad social, la exclusión y las contradicciones que impiden el acceso a un código justo de ciudadanía, que se exprese en condiciones materiales (vivienda, salud, empleo) y socioculturales (educación, cultura, democracia, diversidad, identidad), que faciliten sociedades diferentes, capaces de revertir las condiciones de pobreza y de construir calidad de vida, ejercicio ciudadano pleno, cultura de paz y democracia. Ese es el debate que aquí se asume, en un esfuerzo por generar diálogo, reflexión teórica y mostrar otras opciones, diferentes a las conocidas. Cualquiera que se asome a nuestras ciudades encontrará una notoria conflictividad social, atizada por las precariedades de las condiciones de vida y por el cultivo de indicadores socioculturales desfavorables. El problema, entonces, es cómo revertir las condiciones actuales, cómo revisar la actuación del aparato mediático, para transformarlo; cómo crear vías para que sea posible el surgimiento y crecimiento de la vida ciudadana; cómo generar vías de inclusión social y derrotar su antitesis, la exclusión, que se traduce en precariedad, desempleo, deserción escolar, delincuencia y pérdida de la esperanza.

Justificación
El trabajo se sustenta en la perspectiva epistémica cualitativa. Se valora la subjetividad como forma de conocimiento. Para apoyar las reflexiones que se incluyen en el texto, se incorporan los testimonios de algunas fuentes claves entrevistadas, durante la investigación. El estudio se circunscribe al contexto de Maracaibo, una ciudad que reúne una serie de rasgos específicos: históricos, lingüísticos, culturales y comunicacionales. La ciudad resume un conjunto de características propias: su historia, su condición de ciudad-puerto y de ciudad-centro, sus particularidades económicas y culturales, el empleo del voseo (uso del vos, en Venezuela predomina el tú) en el habla, su condición de ciudad fronteriza con Colombia, y el signo distintivo que la convirtió, por mucho tiempo, en una región histórica solvente y autosuficiente.
Humanístico (Condes) de la Universidad del Zulia (VAC - Condes CH - CH - 0777-08)

Maracaibo tiene una integración espacial con permanencia en el tiempo; y tiene una condición de ciudad-puerto le permitió desde el siglo XIX comercializar sus productos con Europa y con otras regiones de América Latina y el Caribe. Según Cardozo (1985: 237), se puede definir como una región histórica

consumidores Desde los medios masivos se favorece la disyunción entre ciudadanía y consumo. Enfoque teórico Ciudadanos vs.Julho/Dezembro . que se ofrece como posibilidad de acceder al estatus.Nº 14 . por qué los hombres fuman cigarros. de factor clave para contribuir a generar una subjetividad que lo propicie. Las audiencias de los medios son tratadas como potenciales clientelas de los anunciantes. que reduce el ciudadano a la condición de cliente. de modo que puedan manipular más eficazmente hábitos y preferencias para ventaja suya. interesado en la promoción de los valores del consumo.2009 . no ser. O público e o privado . en la que se desplegaron campañas para persuadir al público norteamericano de la supuesta amenaza que ese país representaba. Importa tener. los medios masivos surgen como la plataforma que está llamada a cumplir ese rol de agente catalizador. (…) por qué las amas de casa caen en trance hipnótico cuando entran en un supermercado. Abarcaba el extenso territorio de la cuenca hidrográfica del lago y tenía abundantes recursos naturales. no importa la persona. De tal modo que los medios masivos se convierten en la vía a través de la cual se promueve el consumo desmedido. Se busca descubrir las debilidades o percepciones para influir de la manera más eficaz en el comportamiento de la gente. La publicidad hace el resto. Arendt (1998: 43) analizó que. Prevalece el enfoque filosófico que se nutre del pensamiento liberal. “era ya el centro de la actividad económica y comunicaciones del occidente venezolano”. En ese escenario. Esquemáticamente se puede mostrar de este modo: se coloca al ciudadano en el papel de espectador y se le niegan sus posibilidades como protagonista y actor.El papel de los medios masivos en la vida ciudadana: Aportes y prácticas perversas 13 que a principios del siglo XIX. Packard (1982: 10) explica que surgen los persuasores o manipuladores de símbolos que exploran los hábitos ocultos de la gente para aumentar su capacidad para manejar y ganar nuestro consentimiento (…) estos investigadores buscan por supuesto los porqués de nuestra conducta. Esta idea los ha llevado a investigar porqué los bancos nos asustan. Importa tener. Con motivo de la guerra de Vietnam. (…) por qué adquirimos un hogar.

no en el campo de batalla. tenían una ´teoría´ y todos los datos que no encajaban en ésta era negados o ignorados” (Arendt. con lo que está afuera del lenguaje. sino en el terreno de las relaciones públicas. como fin en si mismo. se coloca al servicio de la lógica que estimula el consumismo. No hicieron distinción entre una hipótesis plausible y el hecho de que ésta debe ser confirmada. Quisieron engañar y terminaron autoengañados. 1998: 48). son lo complementario. desestimulan lo ciudadano. No son lo esencial. o se les confina al rincón de lo secundario. o justamente por eso. Los medios se orientan en esa dirección de agentes persuasores y al mismo tiempo.14 Orlando Villalobos Finol los engañadores empezaron engañándose a sí mismo (. “No necesitan hechos. el contexto pasivo. Esa idea de la subjetividad sólo puede valorarse si se comprende que la realidad no es una simple abstracción. lo colectivo. la cooperación. Confiaron en sus propias teorías. ni información. con el misterio que opone resistencia a nuestras creaciones y a la vez es la condición de posibilidad de las mismas (Najmanovich. pero en ese caso los persuasores intentaron crear la idea de la invencibilidad. Los solucionadores de problemas erraron porque confiaron demasiado en sus premisas y se olvidaron de la realidad.) se hallaban tan convencidos de la magnitud del éxito. un mundo simbólico. Terminaron creyendo las imágenes que ellos habían elaborado. Los medios masivos se ajustan a un guión previamente asignado por la sociedad de consumo. La comunidad. la solidaridad quedan en entredicho. un mundo construido en nuestra interacción con lo real. Se .. 2001) El aparato mediático se instrumentaliza. una “espiritualidad”. que anticiparon una fe general y la victoria en la batalla por las mentes de los hombres. Lo ciudadano queda en segundo plano. Como se sabe EEUU fracasó en Vietnam. Para que eso sea posible se propicia una subjetividad.. Se crea desinterés por el otro. la política es menospreciada y colocada como una actividad de segundo orden. y tan seguros de sus premisas psicológicas acerca de las ilimitadas posibilidades de manipulación de las personas. El mundo en que vivimos es un mundo humano. sino en buena medida nuestra propia creación simbólico-vivencial. Son fuente de una subjetividad propensa al consumo que se agota en si mismo. que le sirve de sustento.

la cultura. una red de redes de lo que ya se ha hecho común denominar la sociedad civil. justicia social y solidaridad. del que somos inseparables” (Najmanovich. el estilo de vida. juegos electrónicos. ¿qué noción de ciudadanía se promueve desde los medios masivos? Se entiende de este modo que hay una influencia que éstos ejercen y luego que desde la plataforma mediática se promueve o estimula una visión. Wifi. La idea que favorece la expresión de ciudadanía.) el objeto debe ser la utilización de las capacidades O público e o privado .Julho/Dezembro . como parte de la misión social y pública que les corresponde. valores. que desde la cuna tratan de imponerle pautas. el medio masivo está llamado a favorecer la circulación del pensamiento y el derecho a la información. requiere un comportamiento de los medios. criterios. en el Informe Mcbride: La comunicación ya no debe considerarse sólo como un servicio incidental y su desarrollo no debe dejarse al azar (. En términos específicos. estilos de vida. entendida como el ejercicio benefactor emancipatorio. unos valores. sino que emerge en la interacción multidimensional de los seres humanos con su ambiente. los IPOD.2009 . por cuanto no incluyen la multidimensionalidad de factores que generan las nuevas metáforas de lo complejo. de la participación de muchos. ahora desde que nace interactúa con los medios masivos. Esa orientación viene de la televisión y hoy día incluye el entorno tecnológico que nos arropa y nos acompaña en nuestras manos.. que responda a una lógica de empoderamiento del ciudadano. diálogo. mesas. MP3. camas y sobre todo en la mente. Se apoya en los teléfonos celulares. los medios masivos están llamados a favorecer una democracia comunicacional.Nº 14 . Esta aspiración forma parte de una vieja bandera de lucha postulada. pantallas táctiles. que se traduce en pluralidad democrática. Hasta hace poco una persona podía vivir en el mundo de su pueblo. comprometido con esos propósitos. cada vez más sofisticados o multiespecializados. bolsillos. en el amplio arcoiris que ofrece Internet. aldea o comunidad.El papel de los medios masivos en la vida ciudadana: Aportes y prácticas perversas 15 instala un “programa” que dicta los valores. Palm. De allí la pertinencia de la interrogante. los PC. que la mayoría de las veces van en la dirección de favorecer el consumo que se agota en si mismo. De tal manera que las explicaciones simples pueden ser cómodas pero insuficientes. Hoy se puede concluir que “el mundo que construimos no depende sólo de nosotros. y desde luego. 2001). por ejemplo. En otras palabras..

Aquellos están allá y el ciudadano aparece un lugar distante. El rol de la ciudadanía se limita a “leer lo que hace el poder” (Miralles. La ley de los contrarios le pide al periodista que entreviste a la parte y a la contraparte. desde una posición distante. en razón del ejercicio mediático. No se trabaja con otros aspectos ni con otros actores. Esta forma de periodismo tiene como sólida referencia el paradigma liberal que postula que unos hacen la historia y otros –el periodismo. Se insiste en que las informaciones tienen dos lados: blanco y negro. en tercera persona. Rara vez se le concede la palabra al ciudadano. 2001: 26) . Es decir. El relato liberal se escuda detrás de la fachada de la objetividad y de la imparcialidad para evitar explicar los acontecimientos en toda su amplitud y su complejidad.la narra. Las raíces del problema están en un modelo informativo/periodístico que en lugar de promover el diálogo público y la participación. Ese es el papel reservado a los debates. reduce el ciudadano a la condición de espectador y de consumidor. y entonces la objetividad resultaría -¡cosa extraña!. al periodismo existe para narrar lo que ocurre.16 Orlando Villalobos Finol peculiares de cada forma de comunicación. Incluso los debates de opinión se montan sobre este modelo: el que defiende una idea y el que la ataca. Ese debate se convierte. especialmente en la televisión. NN) y las sociedades estén conscientes de sus derechos. invisible. desde una supuesta objetividad. 1987: 211). para que los hombres (y las mujeres. No se incluyen los matices. opaco. desde las interpersonales y tradicionales hasta las más modernas. y la promoción del crecimiento de individuos y comunidades en el marco más amplio del desarrollo nacional en un mundo interdependiente (McBride.de la bipolaridad y no de la proximidad a la realidad con todos sus matices. en un espectáculo de noticias que van y vienen. En el llamado “debate público” sólo se visibiliza a protagonistas con alguna posición de poder. (Miralles. la armonización de la unidad en la diversidad. descontextualizada. 2001).

Por esa razón responden a una lógica que marcha. la educación. en términos políticos. contradicciones. La reflexión. Para hacer el desmontaje este sistema tradicional se tiene que dar paso a un enfoque diferente que revalorice la presencia ciudadana. El relato liberal de la ciudadanía encuentra su sistema de legitimación en el modelo informativo/periodístico que actúa para crear audiencias cautivas y pasivas. que admita que el periodismo es un actor y no solamente un relator de la vida social” (Miralles. o de lo que podemos llamar las nociones e intereses del ciudadano promedio. muchas veces. las ideas. pero no cabe duda que éstos constituyen escenarios de poder. 2001: 10). “que promueva la deliberación y la acción pública. Son parte del relleno de la programación. valores y costumbres.El papel de los medios masivos en la vida ciudadana: Aportes y prácticas perversas 17 En ese juego de ataque y contraataque la ciudadanía queda al margen. La segunda incluye a medios alternativos. medios que expresan certezas. La primera es la lógica de los grandes medios masivos. de fomentar la banalidad. regionales. de reproducir el estilo de vida que uniforma gustos. están para velar por otros intereses. que fomente agendas que propicien la participación. los medios consiguen “independencia”. en la medida en que pueden influir en las pautas que rigen el comportamiento humano. Los medios masivos o grandes medios.2009 . O público e o privado . coincidan o no con lo comunitario. responden a propósitos expresos de estimular el consumo. anotados en la dirección globalizadora. para tener espectadores y no actores. pero fundamentalmente en lo sociocultural. precariedades y esperanzas. Estos ítems no están en el horario estelar.Nº 14 . en dirección contraria a la del ciudadano. Más allá de cualquier previsión teórica así ha ocurrido en los hechos.Julho/Dezembro . alimentados por capitales transnacionales. En vista de que es éste el desarrollo que han adquirido los medios. la música que estimula el pensamiento y la cultura han quedado reducidos a pequeños espacios. dudas. sus puntos de vistas no aparecen representados. puede entenderse que se distancien cada vez más de la comunidad. La lógica hegemónica de los medios masivos En el ámbito de la comunicación se han desarrollado dos lógicas. Entonces. comunitarios o mucho más cercanos a la vida complicada de la gente. Mucho puede debatirse sobre la influencia de los medios masivos.

4. 2. Internacionalización: transmisión de la información y de la cultura a través de fronteras nacionales que antes cerradas o restringidas. que los medios constituyen una industria.18 Orlando Villalobos Finol En la actualidad. cuyo desarrollo se expresa en cuatro tendencias principales señaladas por McQuail (1998: 436-441) a. . Expansión: incremento del volumen de la producción mediática (más canales. La privatización de las frecuencias. el discurso dominante ofrece propaganda política. El manejo de los medios hace que quienes tengan el dominio de éstos adquieran una capacidad de influir que se traduce en poder. (Gumucio. más mensajes). 1998: 440). Interactividad: creciente importancia de los “nuevos medios” electrónicos multimedios. Puede añadirse. La concentración de la propiedad de los medios se expresa en el control que ejercen los megagrupos mediáticos estadounidenses. El crecimiento constante de la importancia industrial y económica de los medios masivos. La ausencia de radio y televisión de servicio público. Entre estos megagrupos están: Walt Disney Company. en medio de una “correlativa reducción en el poder los gobiernos para regularla y controlarla” (McQuail. b. Pero además hay un plus. esos medios masivos muestran las siguientes características: 1. d. 2005. en cuotas de poder. el control mediático lo transforma en un consumidor pasivo de entretenimientyo y en espectador de la política por televisión (Carmona. crea opinión pública y persuade a favor de la ideología conservadora (…) en vez de informar al ciudadano para dotarlo de una visión crítica y vigilante. Hay concentración de la propiedad de los medios. “Por influencia de las grandes empresas multinacionales ya no se discute la información como un hecho cultural y social sino como un hecho de mercado”. que dominan los medios masivos en Estados Unidos y extienden su radio de acción hacia América Latina. AOL/Times Warner. The Washington Post. Comercialización: se depende de la publicidad comercial y de los auspicios y hay cada vez menos un control público de los medios. 2008: 70). En ellos. que deriva de la madeja de relaciones que ocurre entre estos medios y los corporaciones transnacionales y nacionales. The New Cork Times y Viacom. citado por Beltrán). un extra que es que el nos interesa resaltar ahora. 3. c.

soberanía. Comunicación y tejido comunitario Frente a ese panorama aleccionador. No es potestad de ningún campo. Emancipación es un sustantivo que refiere el acto de tomar conciencia. justicia. 2008: 229). no sujetas de ningún reflejo condicionado.Nº 14 . Como eso requiere superar la lógica mediática predominante. para remar en la dirección de nuevos valores asociados a la solidaridad. favorecen el predominio de tendencias perversas. Lo importante es persuadir. ganar soberanía. Recuperar la noción de que comunicación significa diálogo. tiene más pertinencia propiciar el desarrollo de corrientes contrahegemónicas capaces de revelar prácticas comunitarias y transformadoras (Villalobos.Julho/Dezembro . que en el caso de la influencia de los medios puede hacerse referencia de un paradigma que sea emancipatorio. que sea incluyente y corrija las perversiones generadas por la pobreza y la desigualdad. Enarbolar la idea de levantar o construir una nueva hegemonía no es suficiente. privados o comunitarios. Esa nueva lógica está en la comunicación humana. significa poner algo en común. ciudadanas. la cooperación y las acciones colectivas. porque se trata de proponer otro poder ligado a lo ciudadano. liberarse de la subordinación o sujeción. que van de la mano del crecimiento vertiginoso de las tecnologías de la información y la comunicación. de los seres humanos y de la naturaleza. “vender” ideas y vender mercancías. Desde la óptica perversa la “realidad” y la “verdad” se construyen. sean públicos. encuentro. entonces. es preciso propiciar tendencias y prácticas contrahegemónicas. obedecen a un guión. y por esa vía se pueden añadir más sustantivos vitales y centrales: dignidad. para construir comunidad. complejo y difícil surgen una serie de interrogantes. O público e o privado . De tal modo. derechos humanos y derechos de todos. se impone la filosofía del tener por encima del ser. revitalizadoras de lo humano? ¿Acaso puede surgir y desarrollarse una noción diferente.El papel de los medios masivos en la vida ciudadana: Aportes y prácticas perversas 19 Estas tendencias. En lugar de otra hegemonía. entendida como concepto integral.2009 . un paradigma emancipatorio? Esta es la idea clave. Si hablamos de medios técnicos está en los medios masivos. ¿Qué hacer para rescatar el sentido comunitario de la comunicación? ¿Cómo hacer para que la comunicación incluya y haga posible opciones democráticas. tejido social. que haga de los usuarios y usuarias personas conscientes.

no reflejan un afán por favorecer el desarrollo de la región. solvente y menos apegada a rígidas conceptualizaciones. que tiene en El Zulia Ilustrado uno de sus mejores emblemas. Posteriormente. específicos. para comprender el valor efectivo de la comunicación se requiere de una visión que incorpore lo social. Quiere llegar a . y simplificadores. y vínculos con una comunidad humana específica. resultados y consideraciones mínimas La investigación sobre el impacto de la labor los medios masivos en la ciudad. críticos. Aplicaciones. como íconos. diversa.20 Orlando Villalobos Finol Eso implica entender la comunicación a partir de aproximaciones teóricas que permitan un reconocimiento más amplio del contexto. económicos o políticos. o dicho de otro modo. interesada en contribuir a ofrecer una explicación crítica. amplia. busca la verdad y no deja imponer los límites de determinados intereses. la Chinita. Más allá de las determinaciones instrumentalistas y de enfoques mecanicistas. que se quiere comprender y explicar. y no para cumplir la labor de medio de servicio público. con intereses propios. Se utilizan los símbolos locales para exaltar una cierta condición marabina. sugiere una revisión exigente de cómo se constituyen el tejido social y el ejercicio de la ciudadanía. busque dilucidar la trama de relaciones que hacen posible la convivencia humana y se recupere la perspectiva que presente la comunicación como una acción dialógica. En ese sentido. convivencia. en la que participan sujetos activos. Cuando uno se aproxima. en la conformación de ciudadanía en Maracaibo. pero no para marchar junto a la comunidad. En síntesis. pero se quedan en eso. interpreta e informa. A fines del siglo XIX y a principios de los XX predomina un periodismo cultural y literario. cobra vigencia un tipo de periodismo que sigue los moldes del periodismo industrial: 1. que investiga. Han sido empleados muchas veces para defender intereses particulares. a la que se dice defender. conviene observar que la comunicación incluye una pluralidad de prácticas y saberes. en términos favorables para la comunidad. el paradigma emancipatorio reclama ver la comunicación desde una perspectiva de complejidad. coloca de manifiesto que los medios masivos no reflejan la ciudad o no la reflejan lo suficiente. Lo local es un pretexto para ganar cobertura. a través de los relatos recabados. el lago o la gaita. al periodismo que se ejerce en Maracaibo consigue distintas tendencias y desarrollos. propone una visión diferente que tome en cuenta una demanda que viene de la ciudadanía y que fielmente se refleja en la frase recogida de un graffiti: “Basta de medios. desde mediados del siglo pasado. queremos enteros”.

¿verdad?. ¿verdad?. Luce desproporcionado lo señalado por un entrevistado en el sentido de que “la ciudad durante muchos años aprendió a pensar. en los símbolos que identifican al marabino. según se desprende de los relatos de vida. porque se va generando otro tipo de cosas. y ¿qué pasa?. el periodismo del siglo XIX.El papel de los medios masivos en la vida ciudadana: Aportes y prácticas perversas 21 amplias audiencias con informaciones de interés público y deja en lugar secundario la investigación y la interpretación. pero nada o casi nada que contar. Cabe la acotación siguiente. y 3. Francisco Eugenio Bustamante y toda esa gente defendía la tesis de que Colón debió ser para un puerto no un teatro. de alguna manera. Fue fundado en 1914 3 Entrevista realizada el 4 de junio de 2003 . En lugar de formar y multiplicar sus posibilidades culturales y educativas queda a merced de los intereses comerciales y políticos circunstanciales. porque Colón no tenía nada que ver con el teatro y pidieron que se le rindiera un homenaje a Baralt y consiguieron eso. Mariana1: “Lo que pasa es que el periodismo. No obstante. esto es una hipótesis que yo tengo. de hacer cosas.2009 3 1 Entrevista realizada el 20 de mayo de 2003 2 Panorama es un diario local de antigua data. en las tradiciones que predominan e. y no es que el periodismo construye la ciudad. es pautado u orientado desde los medios masivos.Nº 14 . entonces eso le daba a la gente una conciencia. para explicar el comportamiento social de la ciudad se requiere de la valoración del papel ejercido por los medios. peleaban por las cosas que les interesaban como comunidad. si tú te pones a ver. Ciro : “La ciudad durante muchos años aprendió a pensar. sino la ciudad la que construye al periodismo y se transforma en otra cosa. que en ese tiempo hubo un sentimiento de reivindicar a Baralt y luego Dagnino. al teatro Baralt lo iban a llamar Teatro Colón. o sea.Julho/Dezembro . ése era más o menos el tono. Eso se puede determinar o comprobar un poco en expresiones populares. las defendían. yo no la puedo probar. al principio. y entonces algunos intelectuales se opusieron a eso. El imaginario colectivo. También tuve oportunidad de ver una guerra de ésas porque. en literatura en 1883. La influencia que ejercen los medios es notoria. que además fue una exquisitez de publicación. había 16 revistas literarias especializadas en teatro. Eso se refleja en el lenguaje y en la forma de pensar. el primer periodismo fue un periodismo formativo (…) por eso se crea una conciencia de ser regionalista que tomó un peso específico y tomó una capacidad histórica. primero. O público e o privado . donde los grandes intelectuales escribían…Yo ubiqué El Zulia Ilustrado. tal como Panorama se lo enseñó. que una vez que ese periodismo ya no es formativo. entonces se vuelve un periodismo brollero (intrascendente). incluso. 2. Los medios masivos no reflejan la ciudad o no la reflejan lo suficiente y se desaprovecha la potencialidad de lo local o regional. tal como Panorama2 se lo enseñó”. Entonces ése es el tipo de discusión en los medios que tú después no ves”. bueno. por ejemplo. A los ciudadanos se les trata como meros consumidores a los que hay mucho que vender.

de acuerdo con los testimonios aquí expuestos. La influencia que ejercen los medios es específica. Se dan casos como el de mi mamá. y todavía una parte de los que tienen 40 años. Por ejemplo. y así sucesivamente. “Son simples agentes informadores y explotadores de la noticia”. Están discutiendo. Entonces se ha aprendido. 4 Entrevista realizada el 14 de junio de 2003 5 Entrevista realizada el 7 de abril de 2008 Se asume la actividad periodística como un negocio del que se espera una rentabilidad y se hace poco o nada por convertirla en un servicio público. hay en el consciente colectivo de las generaciones. Lo que me estaba pidiendo era el diario El Nacional. El ejemplo de Ciro coloca de manifiesto que hay un imaginario colectivo de alguna manera pautado u orientado desde los medios masivos. por ejemplo. Pero esa influencia es limitada. que no creen en los hechos sino lo leen a través de Panorama. una manera de pensar. no utiliza otra hojilla que no sea la Gillette. y en eso tienen que ver mucho los medios”. ´léelo en Panorama. Siempre hay una barrera infranqueable para los medios: la conciencia ciudadana. algo sobre béisbol ¿no?. Eso se refleja en el lenguaje y en la forma de pensar.22 Orlando Villalobos Finol la credibilidad que tiene la gente con Panorama. 60 ó 70 años. Los medios masivos influyen y el testimonio incluido lo revela. ‘no chico. dice Gastón5. aquí la gente no bebe otro café que no sea El Imperial. que el juego se perdió porque la culpa la tiene. En lo que se refiere al aporte de los medios impresos la percepción que prevalece no es favorable.. de la mayonesa no se consume sino la Kraft. y me iba a visitar.. eso lo leí en Panorama y eso es verdad. sino de Gillette. se puede demostrar. . Por tanto. y sigue siendo el periódico que más se vende en el occidente del país. de creer y de valorar la ciudad que Panorama ha servido como el puente o la inyección de esa manera de pensar. sobre todo. o sea. y te dicen. es más. porque El Impulso no vende más que Panorama”. Gertrudis4: “Indudablemente que los medios han incidido bastante en la forma de ser de los marabinos. se obvian las responsabilidades de información y de atención a la ciudadanía. Esa influencia es innegable. La capacidad de decidir de los usuarios y usuarias. en las tradiciones que predominan e incluso en los símbolos que identifican al marabino. allí ésta`. que viajaba mucho a Caracas porque yo vivía allá. léete Panorama pa´ que veáis’. y cuando llegaba allá decía: ‘Mijo comprame un Panorama que quiero leer el Panorama de Caracas’. los lectores de 50. como parte de su patrimonio. no habla de hojilla. Eso es lo que demuestra que la gente asume lo que consume. con conciencia plena de su responsabilidad social. hay muchas personas mayores.

especially that refered to in mass means of communication. ni los periodistas. Ernesto (2008) “Los amos de la prensa en América Latina”. Que una historia morbosa de muerte que es lo que gusta leer más a la gente no creo que ayude mucho. Él dice que a la gente no hay que darle lo que quiere. This paper is based on a qualitative epistemological perspective.El papel de los medios masivos en la vida ciudadana: Aportes y prácticas perversas 23 En el criterio de Celina periodista6. Buenos Aires. no me parece que ayude mucho a rescatar los valores de la gente. Yo creo que allí priva lo que dijo el colombiano Javier Restrepo. con responsabilidad social. 237-263 Carmona. social fabric. asumen plenamente. and which reviews the impact of the effort of mass means of communication in the construction of citizenship. Los periódicos. Keywords: communication. España: Taurus Arendt. Haciendo olas: historias de comunicación participativa para el cambio social. Hannah (1998). Germán (1985) “La región marabina. dialogue and solidarity. symbolizes the option of establishing presence in the citizenry environment. Documento presentado en el III Congreso Panamericano de la Comunicación.2009 . Referencias república. Terrorismo Mediático. and not simply another blind and/or limited version of reality.Nº 14 . www. The results offer wider certainties and conjectures in relation to this problema from the perspective of the common citizen. which favors a different relationship which the audience that promotes citizen participation and generates the option in which mass communication becomes an option for dialogue. ABSTRCT : ABSTRCT: 6 Entrevista realizada el 6 de febrero de 2008 Artigo Recebido: 08/08/2009 Aprovado: 20/10/2009 We begin by establishing that communicational space. sino lo que necesita”. el papel que les corresponde en la creación de ciudadanía.Julho/Dezembro . Firme CARDOZO. The Rockefeller Foundation. Luis Ramiro (2005) La comunicación para el desarrollo en Latinoamérica: un recuento de medio siglo. citado por BELTRAN. siglo XIX”. Alfonso (2001). III. Los medios de público. El interés por vender el producto periodístico se sobrepone al servicio público que se presta. participation. which includes participation. citizenry. Crisis de la república irme irme.com/both/temas/lramir) Mc QUAIL. Amorrortu Editores comunicación y el interés público O público e o privado . Buenos Aires. en Encuentro Latinoamericano Vs.portalcomunicación. Denis (1998) La acción de los medios. New York. Tierra F Vol. since they are a source of dis-informational practices and often contrary to the creation of associative links. “realmente no ayudan mucho porque el hecho de que sucesos sea la sección más leída. But the effects of mass means of communication are paradoxical. Venezuela: Ministerio del Poder Popular para la Información y la Comunicación Gumucio-Dagron.

Año 6 N° 14. Universidad de Zulia. (2008) Medios masivos y globalización: ¿Cómo el campo de la subjetividad interviene en la disputa por el poder? En SALAZAR. Venezuela. Buenos ard. La globalización indolente en América Latina Latina. opinión pública y agenda ciudadana. Bogotá: Grupo Editorial Norma ciudadana NAJMANOCICH. A. 0. (2001) Periodismo. . R. Ana M.24 Orlando Villalobos Finol múltiples. MIRALLES. ance (1982) Las formas ocultas de la propaganda. “Pensar La Subjetividad”. V Pack Aires: Editorial Sudamericana VILLALOBOS FINOL. Argentina: Ediciones Insumisos . Denise (2001). México: MaC BRIDE. Revista Internacional de filosofía Iberoamericana y Teoría Latinoamericana Social. Sean et al (1987) Un solo mundo. y CHAVEZ. Vance ackard. voces múltiples Fondo de Cultura Económica. Utopía y Praxis Latinoamericana. Septiembre 2001.

O impacto positivo da comunicação pode ser sentido nos projetos de desenvolvimento. Ocorre que. Democratização. temos assistido ao desenvolvimento de um processo de concentração dos media que. possibilitar a participação da sociedade nas etapas de sua produção. ajudada pela omissão dos poderes públicos.Nº 14 .(*) Cida de Sousa é Professora do Curso de Comunicação Social da UFC. A implementação de políticas de comunicação que visem não apenas ao acesso ao consumo da informação. Palavras-chave: Comunicação.2009 . Sociedade. ao mesmo tempo em que historicamente se tem defendido este direito. Políticas de Comunicação. O presente artigo reflete sobre as políticas públicas de comunicação e discute a comunicação para o desenvolvimento. portanto. E-mail: cida@ufc.Julho/Dezembro . sobretudo se pensarmos na possibilidade de consolidação de uma sociedade verdadeiramente democrática que. o que é fundamental para a construção da sociedade democrática. mas possibilitem O público e o privado . I ntrodução A Comunicação é tema de indiscutível relevância no mundo contemporâneo. Devem visar não apenas o acesso ao consumo da informação mas.br 25 Políticas de Comunicação e Sociedade Democrática: o papel da comunicação no desenvolvimento social Policies of Communication and Democratic Society: the paper of the communication in the social development Cida de Sousa* Resumo: As políticas públicas de comunicação devem ser pensadas como ferramentas no trabalho de promover a democratização da sociedade. inviabiliza a democratização. Desenvolvimento. não pode prescindir do direito à informação.

de alguma forma mantêm as relações com o sistema de mídia existente. independentemente do compromisso dos governos com a democracia. as políticas de comunicação expressam as relações que se estabelecem entre governos e veículos de comunicação de massa. desperta preocupação. O Pensador boliviano. os donos das grandes empresas de comunicação na América Latina iniciam uma campanha contra o debate e possíveis mudanças. definir políticas de comunicação é aproximar os campos político e jurídico do campo da . Assumem a defesa do modelo vigente e iniciam uma batalha silenciosa contra uma possível comunicação libertadora para a América Latina. Postura de fácil compreensão se atentarmos para o fato de que a comunicação está relacionada com a ordem social. todos os países têm sua política de comunicação. entendendo por sistema a totalidade das atividades de comunicação massiva ou não massiva” (BELTRÁN. Assim. Outros estudiosos da comunicação.26 Cida de Sousa a participação da sociedade nas etapas de sua produção é fundamental para a construção da sociedade democrática. De fato. contribuindo para a internacionalização de elementos culturais e ratificando a força de grupos hegemônicos. como Mauricio Antezana. evitando que as discussões ganhem visibilidade. políticos e econômicos vigentes. ou seja. reforçava a necessidade de se refletir sobre o tema. é somente no final da década de 1970 que se percebe a necessidade de uma nova ordem mundial para a comunicação. herdeira das contradições dos grandes centros do mundo. ressaltam princípios e normas que constituem o sistema de comunicação de cada país. visto que. 1997). Quando a Organização das Nações Unidas para a educação. debater a comunicação é debater a própria estrutura social. Pensando o conceito de políticas de comunicação A discussão em torno das políticas de comunicação data do final dos anos de 1960. o que não interessa aos dominantes (GOMES. comprometendo sua legitimação.: 1997). seguindo a mesma linha de pensamento. Mas. citado por GOMES. a ciência e a cultura – UNESCO defende a necessidade do debate e recomenda a seus membros que estudem maneiras de formular políticas de comunicação. com os processos sociais. O contexto de desencanto com a política econômica marcado pela dependência da América Latina. Neste ou em outro contexto. O monopólio da comunicação. A dependência comunicacional começa a ser questionada. Dessa forma. Luiz Ramiro Beltrán define políticas de comunicação como “um conjunto de normas integradas e duradouras para reger a conduta de todo sistema de comunicação de um país.

Políticas de Comunicação e Sociedade Democrática: o papel da comunicação no desenvolvimento social 27 comunicação. a fim de que tal espaço se transforme. Políticas Públicas de Comunicação A noção de comunicação pública como sendo simplesmente aquela praticada pelo governo é um equívoco. 2004. É preciso. Podem ser concebidas de forma mais democrática ou menos democrática. que ao invés de contribuir para a democratização. embora o governo se constitua num dos principais atores do espaço público. conforme os espaços de discussão que se estabelecem na sociedade com suas representações. findam por interferir significativamente na implementação das políticas de comunicação dos governos. O espaço público não se restringe ao estatal. dada a sua própria natureza. como as rádios comunitárias. As políticas de comunicação estão diretamente ligadas ao sistema econômico e a tudo que ele representa. seu papel no processo de acumulação capitalista. tanto de governo no campo da comunicação. limita. ela envolve toda a comunicação de interesse público que é praticada não apenas pelos governos.2009 . pelo Terceiro setor e pela sociedade em geral. necessária para que se efetive a comunicação pública. p. que contemplam aspectos das realidades política. Pode ser estatal e público não-estatal. Pressão que se expressa na forma da Lei 9. quase sempre apresentados como sinônimos. pois.Nº 14 . cabe a toda a sociedade ocupar seus espaços construindo uma cidadania plena. a falta de um sistema não-comercial realmente forte para disputar audiência. Uma definição sempre contextualizada de políticas de comunicação deve concebê-la como um complexo de leis. como dos próprios veículos de comunicação. mas também por empresas.188). A comunicação pública é mais que isso. a inexistência de controle público. econômica e cultural de um país. de fato. Enfim. O caráter de classe dos meios de comunicação de massa. é preciso refletir sobre esse cenário em que os donos dos meios de comunicação pressionam políticos e governos a desestimular e até impedir o surgimento de meios alternativos. O público e o privado . compreender que essa relação se vai estabelecendo num determinado chão histórico com todas as suas marcas como (no caso brasileiro) a concentração. Um outro equívoco que precisa ser desfeito diz respeito ao que é público e ao que é estatal. que orientam e definem ações. Assim. Desfazer tal engano é imperativo para que a sociedade compreenda que “o espaço público é responsabilidade de todos e requer o engajamento e participação ampla da sociedade.612/ 98 que institui o Serviço de Radiodifusão Comunitária no País. o monopólio exercido pelas corporações da mídia.Julho/Dezembro . Devemos entendê-lo como o que é de todos e para todos. normas e recomendações. num espaço de cidadania” (Oliveira.

precisamos reconhecer a importância da comunicação. mais diálogos participativos. Cabe ao Estado promover políticas públicas de comunicação que respeitem as complexidades e pluralidades do corpo social visando à democracia. participação é uma palavra-chave.28 Cida de Sousa As políticas públicas de comunicação devem ser pensadas como ferramentas no trabalho de promover a democratização da sociedade. Dar voz a todos e fazer com que essas vozes sejam ouvidas é tornar o desenvolvimento sustentável. Para Bordenave (1994). eliminar a pobreza econômica e financeira. deve ajudar a promover ações que impliquem em mudanças culturais e de atitudes na sociedade. Comunicação e desenvolvimento local O desenvolvimento local é um caminho que leva à construção da cidadania. e quisermos ainda que os direitos sociais dos países pobres sejam reconhecidos e não esquecidos. O Congresso Mundial sobre Comunicação para o Desenvolvimento finaliza seus trabalhos declarando que “Comunicação é Desenvolvimento” e demonstrando que a Comunicação para o Desenvolvimento é uma ferramenta essencial que precisa ser fortalecida na agenda global. em Roma o World Congresso on Comminication for Development (WCCD) ou Congresso Mundial sobre Comunicação para o Desenvolvimento discutiu a importância desta área e fez recomendações sobre como aplicá-la em políticas de desenvolvimento. Os líderes precisam dar maior prioridade à comunicação. então Vice-Ministra dos Negócios Estrangeiros da Itália. A própria comunicação deve ser pensada como ferramenta de gestão. Patrizia Sentinelli. ou seja. Nesse sentido. a participação é inerente a natureza social do homem e não participar representa . A principal orientação aos mais de setecentos participantes de todo o mundo foi sintetizada na frase: “vão para casa e ouçam as pessoas”. fazer menos propaganda e promover mais engajamento. Essa mudança de postura representa maior transparência e um tratamento mais justo para todos. deve construir condições para as ações dos governos dando visibilidade a elas. Comunicação e desenvolvimento Um país não poderá se desenvolver sem que o acesso ao conhecimento e a informação seja democrático. Ela lembrou que se quisermos atingir as Metas de Desenvolvimento do Milênio. proferido na cerimônia de abertura do Congresso. Em seu discurso. Em 2006. afirmou que a comunicação anda de mãos dadas com o desenvolvimento e está no âmago da dimensão social dos direitos.

Demo (1988). então. em seu livro “Participação é Conquista” discute o lugar da participação na política social.2009 . que há sociedades cujos gestores não estão interessados em abrir espaços. graças ao caráter heterogêneo e plural de toda sociedade. Para entendermos o papel da comunicação no desenvolvimento local. adotando ações que impeçam a destruição da natureza. Nesse processo é comum a existência de conflitos. o desenvolvimento sustentável consiste em criar um modelo econômico que seja capaz de gerar riqueza e bem-estar ao mesmo tempo em que promove a harmonia social. a qualidade de vida superando as desigualdades sociais. Para ser sustentável deve garantir a conservação dos recursos naturais para as gerações futuras. visando o crescimento econômico justo. Para a Comissão Mundial sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento. o que pode levar a importantes parcerias e aliaças que aproximem a sociedade dos processos decisórios. Numa sociedade de democracia representativa. As experiências vividas a partir desses conflitos permitem que todos aprendam a lidar com as contradições e diferenças. e os canais de participação na luta pela consolidação da democracia econômica e política. A qualidade da participação é. da Organização das Nações Unidas.Políticas de Comunicação e Sociedade Democrática: o papel da comunicação no desenvolvimento social 29 uma frustração que só será resolvida numa sociedade que permita e facilite sua participação. faz-se necessário reivindicar. antes é preciso lembrar que este representa uma transformação nas bases econômica e social.Nº 14 . É um processo que se dá internamente. a força da participação se manifesta a partir da possibilidade de influenciar nas decisões que serão O público e o privado . Portanto. O desenvolvimento local sustentável. lutar. provocando melhoria da qualidade de vida e mudanças na economia com o aumento da renda. destacando questões como emprego e renda. é aquele que atende às necessidades presentes sem comprometer a possibilidade de que as gerações futuras satisfaçam as suas próprias necessidades. portanto. que só se efetiva com a mobilização da sociedade explorando todas as suas potencialidades. Quando isso ocorre. e conquistar a participação. no entanto. forças e energias em torno de um projeto coletivo. imprescindível e se manifesta quando cada cidadão mobiliza suas iniciativas. Sabemos. respeitando e preservando a natureza e valorizando o local sem perder de vista o global. é aquele que se dá a partir de iniciativas locais fazendo uso de suas potencialidades.Julho/Dezembro .

É condição sine qua non nos processos de desenvolvimento humano e social. O Papel da Comunicação A comunicação é um fator de organização social e tem como missão dar visibilidade a questões sociais. . mas não impossível. E para merecer o crédito de democrática. Fora desse cenário. de investir no caráter qualitativo. de ampliação do diálogo entre representantes da sociedade civil e poder público. Daí a importância. A comunicação é um direito e sua democratização é uma questão de cidadania. Tarefa nem tão simples num pais marcado pelo fracasso das instituições representativas. Isso significa tomar decisões que vinculam os representados como se eles mesmos as houvessem tomado. em defesa dos homossexuais e outros). tornando os atores sociais sujeitos da produção de informação e conhecimento e não apenas meros e passivos receptores. sejam temáticos (com os movimentos sociais em defesa do meio ambiente. é o poder de comunicar que precisa ser democratizado. Tarefa difícil no contexto da dinâmica do capitalismo globalizado que supervaloriza o caráter privado e tem os meios de comunicação social como uma força a favor do mercado. para o desenvolvimento local sustentável. associações). Ou seja. ser formadora de opinião. sejam corporativos (com os sindicatos. o que inviabiliza o desenvolviomento sustentável. é preciso compreender que o desempenho desse papel está diretamente ligado a uma das mais importantes reivindicações no Brasil: a democratização da comunicação. Estes são alguns dos aspectos de relevância no papel da comunicação na sociedade e seu desempenho é preponderante na construção do desenvolvimento. Mas. O que não ocorre sem uma vigilância efetiva da sociedade.30 Cida de Sousa tomadas por instâncias de autoridade estabelecida. Não se trata apenas de investimento quantitativo. e de todos os atores sociais. Difícil. isso sim. uma decisão deve ser influenciada por todas as pessoas na mesma medida em que estas serãos afetadas. trata-se. É bom lembrar que uma das dimensões de representação política é a de poder representar. É necessário e urgente criar possibilidades de participação da sociedade na etapa de produção da comunicação. e ser ferrementa de educação pública. As decisões politicas estarão mais próximas de serem democráticas. de preservação da cultura e das artes. sejam comunitários (com as mais diversas associações comunitárias). sendo seu capital intelectual peça essencial para as organizações. da participação das organizações não governamentais sem fins lucrativos (as ONG´s). a cultura política autoritária e excludente não será superada. Isso significa que não basta facilitar e ampliar o acesso aos meios de comunicação. federações.

dentre os quais destaco: · O princípio da confiança que deve estar presente na produção da mensagem. seja ela governamental. jornalística ou publicitária. na produção e seleção de imagens no jornalismo e na publicidade.2009 . ratificando sua importância na sociedade. Dentre os princípios constitucionais destaco aqui: · o princípio da dignidade da pessoa humana. · O princípio da transparência pelo qual a comunicação e todo seu processo deve ser transparente. · O princípio da função social. em sendo respeitados garantem aos veículos maior credibilidade. Há também os princípios extraconstitucionais da Comunicação Social. que se edifica na Constituição Federal. bem como ao consumo e a mudança de atitude. · O princípio do dever da informação que consiste em fazer conhecer como o poder estatal é exercido e como se manifesta o poder econômico. A propaganda governamental assim como a eleitoral devem respeitar o princípio da confiança. que impõe à Comunicação. o dever de respeitar a pessoa. que deve ter resguardado seu direito de comunicação percebida conscientemente. exige respeito aos valores sociais da pessoa e decorre da cidadania e da dignidade da pessoa humana. Pela notícia. Fica evidenciado que não é regra geral um compromisso rígido e resistente dos meios de comunicação de massa com os princípios básicos da O público e o privado . noticiosa. não expondo sensacionalisticamente suas mazelas. ou publicitária (publicidade enganosa é crime). não é compatível com a dignidade e a liberdade da pessoa. os meios de comunicação social possibilitam o exercício do direito à informação. Uma informação pode levar a pessoa a tomada de decisões. · O princípio da veracidade da mensagem exige que a mensagem seja verdadeira e honesta. como na publicidade sublininar. A manipulação da comunicação social.Nº 14 .Políticas de Comunicação e Sociedade Democrática: o papel da comunicação no desenvolvimento social 31 Estratégias de Comunicação Antes de pensar sobre as estratégias de comunicação convém fazer referência a alguns princípios básicos da Comunicação Social que. sendo inconteste a necessidade do respeito a esse princípio.Julho/Dezembro .

quero lembrar o Primeiro Congresso Mundial sobre Comunicação para o Desenvolvimento. visto que pode proporcionar capacitação. Uma outra estratégia que deve ser posta em prática. . produção e distribuição de um conteúdo verdadeiramente democrático e plural. debate e participação. No Brasil há uma visível necessidade de maior diálogo dos meios de comunicação com sociedade. Quando pensamos. “O grande desafio da comunicação ao mobilizar é tocar a emoção das pessoas. Só a mobilização da sociedade por políticas democráticas de comunicação pode ampliar o acesso democrático aos meios e levar à formulação de um novo modelo de comunicação que respeite princípios e contribua para o desenvolvimento. A mobilização é uma importante estratégia para o desenvolvimento local.32 Cida de Sousa Comunicação Social. valorização dos contextos culturais. por exemplo. visto que promove a inserção de pessoas da comunidade local nos processos de intervenção para o desenvolvimento. quando sua função é mobilizar a sociedade em torno de questões de interesse público. vemos que esta começa a faltar desde o processo de concessão de Rádio e TV. a avaliação do ambiente sócio-político. contudo manipulá-las. que tem sido usado para fazer barganha política. de democratização da comunicação e da própria sociedade. 1998). compartilhamento de conhecimento e de informação. ela será autoritária e imposta” (PERUZZO. Aqui. ampliando o espaço público. Isso se constitui num sério problema cuja solução pode se dar a partir do processo de democratização. 2006). Soma-se a isso o desconhecimento dos prícipios e das leis que regem a Comunicação Social por uma significativa parcela da sociedade. treinamento. construção de mútuo entendimento. porque se assim o fizer. no Brasil” (LAHNI. de forma incisiva é o fortalecimento das Rádios Comunitárias. mais uma vez. sobre a transparência. 2008). realizado em Roma. Historicamente têm sido autoritários e os poucos espaços que são abertos produzem um pseudo-poder de participação. sem. Elas são instrumentos de desenvolvimento local. identificação das necessidades de desenvolvimento. ação cooperativa e fortalecimento dos agentes e das capacidades de cada local” (WCCD. formado pelos meios de comunicação hoje. As estratégias de comunicação voltadas para o desenvolvimento local sustentável devem perseguir a democratização dos meios de comunicação. “O fortalecimento das emissoras com essas características é um caminho corretivo para a situação do monopólio de propriedade e de divulgação de um pensamento único. O documento elaborado no final dos trabalhos diz que os exemplos de estratégias bem sucedidas de superação da pobreza passam por modelos de comunicação que envolvem “diálogo.

é fundamental a participação da sociedade no trabalho de acompanhar as ações da gestão pública na execução das políticas públicas. associações.Políticas de Comunicação e Sociedade Democrática: o papel da comunicação no desenvolvimento social 33 A estratégia de fortalecimento da cultura local. organizações nãogovernamentais. como foi dito antes. O público e o privado . As políticas de comunicação devem potencializar o uso das tecnologias de difusão em processos de desenvolvimento local.Julho/Dezembro . As Rádios Comunitárias são um exemplo de que isso é possível.Nº 14 . é o fortalecimento da luta pela democratização da comunicação a principal estratégia para o desenvolvimento. Referências BORDENAVE.2009 . A comunicação é parceira na luta pela construção do desenvolvimento e. ampliando ainda mais a participação da comunicação no movimento social de luta contra a doença. Nesta e em outras questões. Politics of Communication. para promover a melhoria da qualidade de vida da população. The communication positive impact should been felt on the development projects. sindicatos. Brasiliense. Society. é preciso criar alternativas a ele. Development. como a Aids. os movimentos sociais. assumir seu papel nessa luta. 84 p. conseqüentemente. a toda a sociedade. enfim. Democratization. preservando as identidades culturais. tem nas Rádios Comunitárias o espaço necessário para se desenvolver. pois sua programação prioriza a comunidade. reconheçam e denunciem o oligopólio da mídia. to enable the society participation on the production steps.. São Paulo. to promote the society democratization. este não se efetivará sem que o acesso ao conhecimento e a informação seja democrático. which is basic to build a democratic society. 1994. Cabe aos partidos políticos. O Que é Participação. inclusive na perspectiva de prevenção do HIV/AIDS. The present article reflects about the communication politics and discusses the communication for development. Desenvolver estratégias para o controle social voltadas para diferentes temas. Considerações Finais Não basta que a sociedade e.11. inclusive avaliando seus resultados. com a preservação das identidades.2008 Aprovado: 20/12/2008 Keywords: Communication. em especial. They should aim not only at information consume access but. Mas. na construção de um modelo econômico e social mais justo. visto que. Juan Enrique Diaz. A B S T R A C T : The public communication politics should been thought as work tools Artigo Recebido: 12.

Por uma outra comunicação: mídia mundialização cultural e poder. 414 p. Comunicação. Pedro.34 Cida de Sousa DEMO. J. 176 p. Ed. Murilo César. Participação é Conquista. Direito da Comunicação Social.. 34-42. Unisinos. In MARQUES DE MELO. Maria José da Costa(Org. SP: Editora Alínea. FERNANDES NETO. Petrópolis. 201 p. Comunicação nos Movimentos Sociais Populares: Participação na Construção da Cidadania.). Nº 42. OLIVEIRA. 2004. São Paulo. Comunicação Pública. São Paulo.). ética. 2003. 2004. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais. Guilherme. Comunicação Social: filosofia. SP: Umesp. Rádios Comunitárias: entre a comunicação democrática e a perseguição. 126 p. Vozes. Cecília Maria Krhling. RAMOS.worldbank. “Direitos à Comunicação na Sociedade da Informação”. Pedro Gilberto. 1988. 1998.Comunicado de Prensa Nº 2007/119/ DevComm. MORAES Denis de (Org. In Revista Adusp. GOMES. PERUZZO. 1997. Direitos Sociais e Políticas Públicas. 342 p. 2005. Rio de Janeiro: Record. Cláudia Regina. São Bernardo do Campo.org/RB95C2I950. pp. L. RJ. LAHNI. http://go. Cortez. política. São Leopoldo: Ed. . SATHER. Campinas. 368 p.

Estado Novo e Ditadura Militar e saúda como promissora a proposta do atual governo de estabelecer uma Política Nacional de Comunicação. que quer dizer cidade. portanto. I ntrodução A palavra cidadania se origina no latim “civitas”. desde que não fossem estrangeiros. não se efetivará. O argumento defendido é o da necessidade de engajamento dos movimentos sociais na luta pela democratização da comunicação com o entendimento de ser a informação um direito que.Nº 14 . Palavras-chave: cidadania.br Elza Ferreira é Discente do Mestrado Profissional em Planejamento e Políticas Públicas -UECE. E-mail: fhsf@uece. Os direitos políticos garantem aos cidadãos O público e o privado . estrangeiros e escravos não gozavam dos mesmos direitos. à igualdade perante á lei.2009 . já que mulheres. à liberdade.Julho/Dezembro . direito à informação.br 35 Comunicação Pública: um espaço de construção da cidadania Public Communication: An area of construction of Citizenship Horácio Frota Elza Ferreira* Resumo: O trabalho discorre sobre a comunicação pública como um debate novo no Brasil com o propósito de analisar sua importância na construção da cidadania. Apenas homens maiores de idade e proprietários de terras. que são os direitos civis. crianças. comunicação pública.(*) Horácio Frota é Professor do Mestrado Profissional em Planejamento e Políticas Públicas da Universidade Estadual do Ceará. sem a participação ativa da sociedade. à propriedade.com. Foi usada na Roma antiga para indicar a situação política de uma pessoa e os direitos que essa pessoa tinha ou podia exercer. não eram cidadãos. cemocratização da comunicação. E-mail: elza_ferreira@terra. eram cidadãos. Ser cidadão é ter direito à vida. reduzindo assim a idéia de cidadania. Apresenta a comunicação pública realizada nos períodos de cerceamento da liberdade .

faz campanha de promoção e de resgate da cidadania. portanto com a participação consciente e responsável do indivíduo na sociedade. etárias etc. A cidadania é a expressão concreta da democracia. à saúde de qualidade. políticos e sociais. um termo que embora pouco estudado no Brasil diz muito sobre a cidadania do ponto de . surge a cidadania como uma mercadoria que se implanta. ao trabalho justo. estando sujeito a deveres que lhe são impostos. baseado nos deveres dos súditos. zelando para que seus direitos não sejam violados. étnicas. reivindicatórios de direitos que extrapolam meramente o direito político ou econômico. os direitos humanos. Relaciona-se. a palavra cidadania ganha alento e vira uma espécie de fetiche. possuidora de virtudes mágicas de inclusão social. participantes. a cidadania está nos alicerces. Os direitos civis e políticos não asseguram a democracia sem os direitos sociais. é sua materialização expressa na igualdade dos indivíduos perante a lei. o direito à educação.36 Horácio Frota Elza Ferreira participar do destino da sociedade. A realização dos direitos que vai efetivar a cidadania exige que sejamos ativos. no mundo ocidental. que se concede. e passaram a estruturá-lo a partir dos direitos dos cidadãos. Esses dois eventos romperam o princípio de legitimidade que vigia até então. a democracia. sexuais. pertencendo a uma sociedade organizada. aqueles que garantem a participação do indivíduo na riqueza coletiva. o Brasil reconstrói sua democracia. minorias nacionais. votar e ser votado. a ética. como resgatar algo que não se construiu? É a cidadania consentida. Face à emergência dos movimentos sociais. Exercer a cidadania plena é ter direitos civis. Percebe-se na banalização do vocábulo um instrumento de manutenção da estrutura de classe em nosso país. Após o longo período de cerceamento de direitos. Como uma construção. Construir cidadania é também construir novas relações sociais e consciências. crianças. É nesse contexto que se quer discutir a comunicação pública. Ora. Desse momento em diante. para as mulheres. civis e políticos. É o poder do cidadão de exercer o conjunto de direitos e liberdades políticas. que se doa. todos os tipos de lutas foram travados para que se ampliassem o conceito e a prática de cidadania. A cidadania instaura-se a partir dos processos de lutas que culminaram na independência dos Estados Unidos da América do Norte e na Revolução Francesa. podemos dizer que no Brasil. a uma velhice tranqüila. estendendo-a. socioeconômicas de seu país. a ecologia. A classe dominante se apropria do discurso da cidadania. A cidadania deve ser perpassada por temáticas como a solidariedade. a despeito de permanecerem todas as desigualdades sociais.

hábitos e códigos à sociedade. este. Com o fim do regime militar. numa época em que a comunicação ocupa espaços importantes na vida de todos. Já o Art. porém. as rádios comunitárias. . em seu parágrafo único determina que aquele que estiver em gozo de imunidade parlamentar não pode exercer a função de diretor ou gerente de empresa concessionária de rádio ou televisão. No mundo todo. como sinônimo de comunicação estatal. A O público e o privado .2009 O Art. dentre as quais se destacam cinco possibilidades: comunicação pública é a comunicação que se dá na esfera pública entre o governante e a sociedade.Comunicação Pública: um espaço de construção da cidadania 37 vista dos direitos sociais. não será o objeto do nosso foco que se limitará à comunicação pública entendendo que avançar nesse debate é uma contribuição fundamental para a construção da cidadania. é a comunicação realizada pelo terceiro setor quando este se relaciona com o estado.Julho/Dezembro . 1 As origens do debate sobre a Comunicação Pública A expressão comunicação pública surge no Brasil. legitimada pelo interesse geral e pela utilidade pública das mensagens. a comunicação pública é a comunicação realizada por meio da radiodifusão pública. Lei 4117/62. é a comunicação praticada pelo setor público e realizada pelo próprio governo. privada e pública. 54 da CF.Nº 14 . 38 do Código Brasileiro de Telecomunicações. proliferando. a manipulação das informações pelo maior grupo de comunicação eletrônica do país fortaleceram o debate sobre a democratização dos meios de comunicação e a luta pelo fim do monopólio das comunicações. diferenciando-se da comunicação praticada pelo setor privado. e que a frase informação é poder mais do que nunca é realidade. O que é Comunicação Pública São múltiplos os sentidos atribuídos à expressão comunicação pública. advinda da Constituição de 1988 que instituiu os serviços de radiodifusão estatal. não há ainda uma definição exata sobre o tema e diferentes abordagens podem ser feitas. A consolidação da democracia nos anos 90 representa o surgimento de novos atores e uma nova visão política de estado e da participação da sociedade civil. na década de 80. No Brasil. embora a literatura sobre o tema não seja ainda das mais férteis. a sociedade começa a se organizar e debater a necessidade de democratização da comunicação.1 Dadas as limitações desse estudo. A prodigalidade do primeiro governo civil na distribuição de concessões de emissoras de rádio e tevês como moeda de sustentação do governo. então. letras a e b di item I proíbe que deputados e senadores mantenham contrato ou exerçam cargos funções ou empregos remunerados em empresas concessionárias de serviços públicos. a comunicação enquanto produção de informação e de entretenimento está nas mãos de poucos grupos de grande poder econômico. sete grupos controlam 80% de toda a informação veiculada na mídia e 31% das concessões públicas de rádio e tevês estão nas mãos de políticos. assim a Constituição Brasileira e o Código Brasileiro de Telecomunicações. impondo valores. com o mercado e com a sociedade. segundo dados do Movimento Pró-Conferência Nacional de Comunicação. Por se tratar de estudos recentes. desrespeitandose.

apesar de não se ter chegado a um acordo sobre o que ela é ou deveria ser. Ao afirmar que a área é um conceito em processo de construção. Na Europa. principal estudioso do tema. PUF. p. com a comunicação política e comunicação da sociedade civil organizada. e de acompanhar as mudanças. E é com estes autores que pretendemos trabalhar. o conceito de comunicação pública começou a ser estudado também na década de 80. Col. é resultado dessas mudanças ocorridas tanto no estado quanto na sociedade civil.38 Horácio Frota Elza Ferreira compreensão da expressão comunicação pública como mera comunicação estatal torna-se incompatível com a nova realidade fundamentada ainda na expansão dos meios de comunicação em razão das novas tecnologias A transformação da expressão comunicação pública em um conceito com novo significado. Que sais-je? Paris 1995 . O autor pontua quatro funções para a comunicação pública. não há ainda uma formulação acabada do que é comunicação pública. as expectativas. 1995). publicado em 1995 na França. tanto as comportamentais quanto as da organização social. Uma das dificuldades do estudo da comunicação pública no Brasil é o número reduzido de pesquisadores e conseqüentemente as poucas fontes literárias. sentimento de pertencer ao coletivo. a autora em suas pesquisas e análises sobre os múltiplos significados e acepções da comunicação pública 2 La Comunication Publique. assim como a manutenção do liame social cuja responsabilidade incube as instituições públicas (ZÉMOR. relacionando-as com as finalidades das instituições públicas: de informar. existindo apenas uma tradução resumida da professora Elizabeth Pazito Brandão. detendo-nos na análise da comunicação pública como comunicação do estado e/ou governamental. como lembra Brandão (2007. prestar conta e valorizar. tomada de consciência do cidadão enquanto ator. O francês Pierre Zémor. de contribuir para assegurar a relação social. Mesmo o livro de Zemor2. não se encontra disponível na língua portuguesa. Se ainda não é consenso o que é comunicação já há um consenso sobre o que não é.15) uma característica de quase todos os autores da área é o cuidado extremo em citar o que a comunicação pública não é. define comunicação pública como a comunicação formal que diz respeito à troca e a divisão de informações de utilidade pública. que ainda não é consensual. Por se tratar de uma área recente da comunicação. as interrogações e o debate público. de ouvir as demandas. conduzindo o debate para o imbricamento que nos propomos de comunicação pública como um espaço de construção da cidadania. levar ao conhecimento. Para alcançarmos este objetivo deixaremos de analisar alguns significados tais como comunicação pública identificada com a comunicação organizacional. com a comunicação científica.

61). 3) Comunicação pública identificada com comunicação do Estado e/ou governamental. Durante vários minutos. portanto. Rubens Ricúpero. estimulando o pluralismo e coibindo o domínio da informação por monopólios privados que produzem e vendem informação como mercadoria ou como espetáculo. Um processo de negociação através da comunicação. no conceito já explicitado. A comunicação pública não é uma comunicação de governo posto que este tem caráter transitório. certos de que os microfones estavam desligados. (2007. p. do estímulo a mobilização e ao engajamento da sociedade podemos cair em um pessimismo que seguramente não contribuirá para o longo processo que O público e o privado . Para Brandão. o que é ruim a gente esconde”. da transparência. confidenciou ao jornalista Carlos Monforte que vinha aproveitando do cargo para promover ativamente a candidatura de Fernando Henrique. instaura políticas públicas voltadas para a democratização da informação. O episódio foi identificado como um abuso da máquina administrativa para favorecer um candidato e levou à demissão do ministro Ricupero.9) aquele que diz respeito a um processo comunicativo que se instaura entre o Estado. provocando uma comoção nacional. no auge da primeira disputa presidencial entre Luís Inácio Lula da Silva e Fernando Henrique Cardoso.2009 3 Na noite de 1 de setembro de 1994. 2) Comunicação pública identificada com comunicação científica. . a conversa estava sendo transmitida via satélite e foi captada por antenas parabólicas em várias regiões do país. o governo e a sociedade e que se propõe a ser um espaço privilegiado de negociação entre os interesses das diversas instâncias de poder constitutivos da vida pública no país. conversavam animadamente sobre as manobras de Ricupero para promover Fernando Henrique. próprio das sociedades democráticas.Nº 14 . compreendida como comunicação de Estado. a comunicação pública é uma vertente da comunicação política. enquanto esperava para ser entrevistado no estúdio da TV Globo para o Jornal Nacional. é feita muito mais como um jogo de manutenção do poder. 4) Comunicação pública identificada com comunicação política e 5) Comunicação pública identificada com estratégias de comunicação da sociedade civil organizada. disse Ricupero. o então ministro da Fazenda. o que é bom a gente fatura. aquele que atende aos requisitos modernos do direito de informar e de ser informado e que.Comunicação Pública: um espaço de construção da cidadania 39 identificou cinco áreas diferentes de conhecimento e atividade profissional.Julho/Dezembro . ou uma comunicação imbuída de natureza publicitária em que não faltam as modernas técnicas de marketing persuasivo em detrimento do conteúdo educativo. governo e sociedade. escandalizados. no entanto. sobre temas de interesse coletivo. 2007. Ao observarmos o cenário brasileiro em que a comunicação pública. que. como bem defende Duarte: praticar comunicação pública implica assumir espírito público e privilegiar o interesse coletivo em detrimento de perspectivas pessoais e corporativas (DUARTE. já captado pela indiscrição de uma antena parabólica3. Um ponto comum de entendimento é. Além da transitoriedade dos governos. a saber: 1) Comunicação pública identificada com os conhecimentos e técnicas da área de comunicação organizacional. não é permitido desconhecer que interesses governamentais nem sempre se coadunam com o interesse público este que deve ser o denominador comum da comunicação pública. Para Matos. definindo comunicação pública como o processo de comunicação que se instaura na esfera pública entre o Estado. “Eu não tenho escrúpulos. Comunicação pública é. uma comunicação de Estado na compreensão do Estado ideal. Sem que os dois soubessem. Foi gravada por vários espectadores. o debate que se dá na esfera pública entre Estado. além disso. em referência aos índices de inflação. p. E acusou o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) de ser “um covil do PT”. o governo e a sociedade com o objetivo de informar para a construção da cidadania. enviaram fitas gravadas aos jornais.

Entretanto. o Brasil é conhecido como o País de leis que não são cumpridas. o Código do Consumidor. o acesso à informação é um direito fundamental. de intervenção social. há uma negação absoluta de acesso aos direitos que estão nas leis sem que se registre nenhuma reação. Dallari (1988. explicada pelos estudiosos como originária do nosso passado escravocrata. ao contrario percebe-se uma aceitação. Como se direitos fossem concessões de quem tem poder àqueles desfavorecidos. A discussão sobre a comunicação pública precisa de cada um de nós num processo de construção da cidadania. Estatuto da Criança e do Adolescente. portanto sua cidadania como defende Dallari. Quem não tem cidadania está marginalizado ou excluído da vida social e da tomada de decisões. Muitas vezes.14) conceitua cidadania como um conjunto de direitos que dá à pessoa a possibilidade de participar ativamente da vida e do governo de seu povo. já desponta no horizonte. Na . plebiscito e outros instrumentos. a querer resolvê-las com um jeitinho. A informação é um bem público. falta-nos a prática da cidadania. Esta cultura dificulta ou impede a efetividade da cidadania que é construída a partir da nossa capacidade de organização. promulgada em 5 de outubro de 1988. Aliás. p. Há uma subserviência entranhada nas relações sociais. Não são os estatutos legais que asseguram a efetividade dos direitos. esta é a essência da comunicação pública que devemos perseguir. Após a redemocratização. e a própria Constituição. Comunicação é um direito Aqui voltamos ao ponto inicial dessa reflexão. O cenário político do país exigiu uma transformação na natureza da comunicação pública que embora ainda tímida. um conformismo ao aceitar como natural aquilo que é criminalmente discriminatório ou injusto. com as amizades com quem detém poder. O acesso á informação é uma ferramenta indispensável a qualquer indivíduo para participar ativamente da vida e do governo do seu país. É uma resignação culturalmente impregnada e os que destoam desta matriz são rotulados de barraqueiros. ficando numa posição de inferioridade dentro do grupo social. Fomos educados para achar normal a injustiça. Estatuto do Idoso. Temos uma legislação das mais avançadas na questão ambiental. exercendo. o Brasil construiu fortes instrumentos de defesa dos direitos das minorias.40 Horácio Frota Elza Ferreira precisamos encarar. estabeleceu formas de democracia direta fomentadoras da participação popular e de cidadania ativa como o referendo. O que assegura a efetividade dos direitos é a nossa prática e a comunicação pública tem um importante papel a desempenhar na construção da cidadania.

Realizado em 04 de setembro de 2003. 4) comunicação pública não deve se centrar na promoção pessoal dos agentes públicos. a SECOM. que reuniu os agentes da comunicação nas diversas áreas do Governo. sabendo debater (GUSHINKEN. 2003). programa de discussão permanente de temas da agenda do governo. um grupo de pesquisadores. em exposição no III Seminário Internacional Latino-Americano de Pesquisa da Comunicação. levando-se em conta a necessidade de manter a esperança depositada no novo governo. Ministro Luiz Gushiken. 1) o Cidadão tem direito à informação que é a base para o exercício da cidadania. tem conseguido levar o debate para além dos muros da universidade. sintetizados em oito pontos. e marketing político.Julho/Dezembro . e as agências de publicidade. cujas diretrizes foram apresentadas pelo então Secretário Chefe da Secretaria de Comunicação do Governo e Gestão Estratégica da Presidência da República. embora o Ministro Gushiken tenha em diversos momentos usado a expressão norte significando rumos a serem adotados na comunicação governamental. Sinalizando este posicionamento o tema foi escolhido para inaugurar os Fóruns do Planalto. o primeiro Fórum teve como tema a Política Nacional de Comunicação.Nº 14 . demonstrou a dificuldade de conceituar a comunicação pública no âmbito do Governo. A isto o ministro chama de pensamento estratégico e elaborado para a comunicação governamental: o que importa em matéria de comunicação é a totalidade dos agentes públicos desenvolvendo um diálogo com a sociedade. é latente a preocupação de que a comunicação não seja apenas o Órgão institucional. A unidade da comunicação e a transparência do Governo são apontadas como atributos importantes na comunicação para que o povo saiba reconhecer em cada ação do governo aquilo que está sendo feito. O Fórum. sabendo informar. fez-se uma salada de componentes de educação cívica. educativo e de orientação social. porém bastante atuante. O Ministro Gushiken apresentou os princípios da comunicação pública.2009 . propaganda política. Inicialmente ainda confusa. 5)0 promover o diálogo e a interatividade. 6) estímulo do O público e o privado . Política Nacional de Comunicação A comunicação ganha um novo significado no Governo que tomou posse em janeiro de 2003. 2) É dever do Estado informar. de políticas públicas e de práticas inovadoras na gestão pública. promovidos pela Casa Civil. infelizmente ainda pequeno.Comunicação Pública: um espaço de construção da cidadania 41 área acadêmica. contribuindo decisivamente para a qualificação da comunicação pública. Em 2005. É necessário destacar que considerável número desses pesquisadores atua profissionalmente em áreas governamentais. 3) Zelo pelo conteúdo informativo. sabendo esclarecer. realizado em São Paulo.

teatro. é necessário reconhecer que é a partir desse governo que o debate sobre comunicação pública ganha força. o Governo criou. Na Radiobrás. Já defendemos antes que a comunicação pública é uma comunicação de Estado não de governo.42 Horácio Frota Elza Ferreira envolvimento do cidadão com as políticas públicas. 8)comunicação pública tem de se basear na ética com qualidade comunicativa. tiveram um viés de tutela. compromisso com a universalização do direito à informação. 4 Este é um país que vai pra frente Poucas vezes a comunicação foi pensada como política pública no âmbito dos governos brasileiros e quando isto aconteceu a sistematização produzida e o conjunto de leis estabelecido não teve como foco o cidadão e muito menos colaborou com a emancipação da sociedade. governo e vida nacional. com a verdade e com a qualidade da informação. em dezembro de 1939 transformou-se no DIP . a comunicação governamental esteve sob a orientação do Departamento de Imprensa e Propaganda4. à cidadania. transparência. divulgação. Antes do DIP. direito fundamental para o exercício da cidadania. No Governo Getúlio Vargas. No Estado Novo. Trabalhamos para universalizar o acesso à informação. pela primeira vez em sua história foi definida missão: somos uma empresa pública de comunicação. Diz respeito ao processo e ambiente de informação e diálogo entre governo e os diversos atores sociais sobre temas de interesse coletivo. criado por decreto presidencial para difundir a ideologia do Estado Novo junto às camadas populares. no início de 1938º DPDC transformou-se no Departamento Nacional de Propaganda e. sendo pensada. em 1931. Com uma estrutura altamente centralizada e uma concepção clara de subordinação das informações à ideologia estadonovista. É o Governo o responsável pela disponibilização e viabilização dos instrumentos que tornarão a comunicação pública efetiva e eficiente. o Departamento Oficial de Publicidade que em 1934 transformou-se em Departamento de Propaganda e Difusão Cultural. às diferenças. cinema. empresa estatal de comunicação. orientando mas principalmente censurando. finalmente. debatida e elevada ao status de política pública. imprensa e turismo. coordenando. a cidadania ativa. A informação é a primeira etapa do processo que tem como fim a transparência. Buscamos e veiculamos com objetividade informações sobre Estado. a participação. E valores que perpassam conceitos como respeito ao caráter público. um polvo com tentáculos nas áreas de radiodifusão. a mobilização. A empresa criou também um conselho editorial. Percebe-se em todas estas ações um avanço na compreensão e no exercício da comunicação governamental embora ainda não no patamar que se espera de uma administração guindada ao poder pelas forças populares e que mantém em seus quadros diversos militantes da causa de democratização da comunicação Entretanto. 7) Serviços públicos têm de ser oferecidos com qualidade comunicativa. . ao contrário.

Emblemático desse período foi a criação do programa Voz do Brasil. A principal marca do período é a censura e a perseguição indistintamente à pessoas físicas e jurídicas que pregassem ou defendessem a liberdade. ou seja. Invadiu e destruiu oficinas gráficas.Comunicação Pública: um espaço de construção da cidadania 43 o DIP exerceu durante quase uma década o total controle sobre a comunicação e a vida cultural do país. representando 36% do total do mercado O público e o privado .Nº 14 . A Agência Nacional garantia a uniformização das notícias distribuídas gratuitamente ou como matérias pagas e o Departamento de Censura assegurava o filtro que mantinha as empresas privadas sob controle. incentivada sua difusão nas escolas. editado em 05 de dezembro de 1968. prendeu e torturou jornalistas e quando mais suavemente atuou foi na manutenção da censura prévia com funcionários públicos absolutamente amestrados no papel de censores a bater cartão nas redações decidindo o que seria ou não publicado. Não informava. No Cinema. eficiência e objetivos: propaganda e censura. Muitas outras mídias integravam a estrutura do DIP que não nos deteremos na análise porque não é esse o objetivo do estudo. É um período negro que além da legislação repressiva e centralizadora recebida do Estado Novo criou novos instrumentos como a Lei de Segurança Nacional. atuou com a mesma ideologia. fechou jornais. documentários de curta metragem difundindo e glorificando feitos do governo. os atos institucionais cujo símbolo maior é o AI-5. Legislativo e Judiciário. Além da censura política. outro instrumento eficaz dos regimes militares na sua política de comunicação foi a pressão econômica com a suspensão dos anúncios publicitários nos veículos contrários a ditadura e generosas verbas publicitárias aos alinhados com o pensamento verde-oliva. Durante o regime militar foi criado o Sistema de Comunicação Social que. industriais e comerciais com o pretexto da promoção da cooperação entre os entes federados. em forma de autocensura ou censura prévia. que permanece até hoje com transmissão obrigatória no mesmo horário.2009 . No editorial “Retirada” em que Niomar Muniz Sodré Bittencourt. a informação que chegaria à sociedade era aquela escolhida pelo governo naturalmente tendo como matriz a manipulação dos fatos na tentativa de dar um polimento à ditadura militar.Julho/Dezembro . empastelou edições. formava. estabelecimentos agrícolas. O radio viveu um período de expansão. e que divulga as ações dos Poderes Executivo. também de exibição obrigatória antes das sessões. no Governo Costa e Silva que se revelou um instrumento ditatorial muito mais poderoso que a própria censura no campo das comunicações. proprietária do jornal Correio da Manhã divulga sua posição de abandonar o jornal. foi criado o Cinejornal Brasileiro. financiada pelos contribuintes. sem a penetração e capilaridade do DIP . considerado nobre pela lógica da publicidade. a empresária afirma que “a publicidade do Estado.

ocupada por profissionais oriundos das forças armadas. É sob esse signo que floresceu o império das organizações Globo.44 Horácio Frota Elza Ferreira publicitário foi sonegada maciçamente a uma instituição com quase 70 anos de relevantes serviços(. a generosidade do povo brasileiro. Em um estudo sobre a censura no Brasil. Ofereceu-se. centralizando os órgãos governamentais de propaganda. O Governo gastava milhões com publicidade procurando enaltecer a miscigenação. houve até efeitos secundários. Gláucio Ary Dillon Soares aponta também os efeitos colaterais da censura: Num país em que o Estado desempenha um papel econômico e financeiro fundamental. o Regime Militar criou. a censura agiu com mais repressão nas peças teatrais. empresas privadas que. O colaboracionismo com a ditadura era premiado na forma de verbas publicitárias e concessões de canais de tevê e rádio. publicações literárias como livros e revistas de cunho político que nas transmissões televisivas.. não necessariamente jornalistas. . ainda no Governo Costa e Silva. ações do partido de oposição. Havia uma preocupação e cuidado dos militares no sentido de diferenciarem a AERP do DIP com o receio de que a associação criasse um desgaste maior junto à opinião pública já desencantada com a chamada gloriosa. Tal foi o caso da Editora José Olympio. inclusive. para pagar o contrato já feito. que suspendeu o contrato de publicidade c o m Opinião porque aguardava um empréstimo do BNDE. isto é. Internamente. Isso explica porque na linha de cultura e entretenimento. suspenderam a sua própria publicidade. Foi a época do milagre brasileiro e as campanhas tinham um tom ufanista: este é um país que vai pra frente. que chegou a criar um departamento de autocensura alegando que o custo da contratação de altos funcionários aposentados do Serviço Nacional de Informação SNI era menor que o prejuízo econômico provocado pelos cortes ou a censura total nas produções.. transformando-se em rede nacional.)” . a censura alcançava além das matérias de cunho informativo sobre os movimentos sociais. a AERP – Assessoria Especial de Relações Públicas. o MDB. ame-o ou deixe-o. Brasil. diretamente coagidas ou simplesmente receosas da suspensão de negócios com o Estado. intelectuais e artistas que discordavam do regime além de personalidades consideradas “inimigas do Estado”. com o objetivo de “motivar a vontade coletiva para o esforço de desenvolvimento nacional”. Produziu-se então uma comunicação calcada em valores morais com apelos cívicos entrelaçados à ideologia do regime. mas não desejava que os anúncios saíssem publicados No rádio e na televisão. a idéia de um país forte e uma nação coesa.

ainda no Governo do Presidente João Figueiredo.650. especialmente na mídia eletrônica. A tentativa de uma comunicação diferenciada. além de suas atribuições específicas de radiodifusão educativa. . não desprovida dos matizes ideológicos. retorna o nome inicial. na ditadura militar. da comunicação social de Governo.2006. entendido como um conjunto de ações e estratégias que visam aumentar a aceitação e fortalecer imagens com foco no mercado. Em 2006. não resistiu ao insucesso do plano cruzado – plano econômico que tentou controlar a inflação.8 As mudanças na legislação são acompanhadas de um deslocamento na natureza da comunicação pública. em contraponto ao ufanismo dos governos militares. incorporando a Empresa Brasileira de Notícias – Radiobrás. especialmente no Governo Collor (1990-1992) e Fernando Henrique Cardoso (1995-2002). com a alteração na estrutura da presidência da Republica6.799 7 No Decreto nº 5. O caráter da comunicação pública nos governos civis assume a estética do governante.Nº 14 . inicio da redemocratização. de 18. nos governos civis a comunicação pública passa a adotar técnicas de marketing.849. 8 As últimas alterações foram efetuadas pela Medida Provisória nº 360.6. a AERP. centralizando as ações de comunicação institucional do Governo e dando ao órgão a responsabilidade pelo assessoramento sobre gestão estratégica e pela formulação da concepção estratégica nacional. supervisão e gerenciamento da publicidade governamental da administração pública federal. No Estado Novo. com o nome de Subsecretaria de Comunicação Institucional. A partir daí predominou a técnica publicitária O público e o privado .7 a SECOM passou a integrar a estrutura da Secretaria-Geral da Presidência da República. A Assessoria Especial de Relações Públicas dos governos militares foi transformada em Secretária de Comunicação Social. O tema cidadania e justiça surge na comunicação pública. de abril de 1979 6 Lei 10. recreativa e institucional.2007. de 29.Comunicação Pública: um espaço de construção da cidadania 45 Nem DIP nem AERP ou quando tudo isso mudar A redemocratização trouxe novos parâmetros para a comunicação pública no âmbito dos governos e exigências da sociedade que dia-a-dia avança em movimentos sociais organizados emergindo uma nova cidadania. que dentre outros. foi criado um Plano de Comunicação Social que visava criar um distanciamento da comunicação do período ditatorial e uma identidade para o governo civil. o DIP.Julho/Dezembro .2009 5 Decreto 6. e Decreto nº 4. Mudanças na legislação foram atribuindo funções e responsabilidades à SECOM tais como coordenação. Foi instituído o regimento interno da Secom. Logo no Governo Sarney. execução e controle.5 Em 2003. Secretaria de Comunicação Social e incorpora a antiga Secretaria de Imprensa e Porta-Voz. responsável pelas ações de planejamento.683. ou seja. com foco nos direitos de diversos segmentos. inclusive dos contratos de publicidade.3. de 28 de maio de 2003.

com autoridade. sem a compreensão da informação no campo dos direitos sociais e uma luta permanente pelo seu exercício configurando-se um espaço de construção da cidadania. Experiências como o orçamento participativo já bastante difundido no seio da sociedade embora adotado como uma decisão espontânea de alguns governos. A comunicação pública precisa assumir um foco diferente daquele dos veículos comerciais. Criar uma nova matriz nas relações com a sociedade. torná-la palpável e presente no dia-a-dia não é desafio somente dos profissionais de Comunicação ou dos Governos. construir referenciais teóricos de comunicação pública com foco no exercício da cidadania. O direito de ser eficientemente informado não se efetivará sem uma mobilização dos movimentos sociais.46 Horácio Frota Elza Ferreira onde o governo e a administração aparecem como produtos. alguns já disciplinados na legislação. realizado em 1997. Concebendo comunicação pública como um processo. documento conclusivo do Parlamento Nacional de Relações Pública. . a existência de um sítio na internet com a divulgação de todos os gastos com o dinheiro público são transformações que ampliam o espaço da comunicação democrática. Considerações Finais Materializar a Política nacional de Comunicação. informação e serviços de utilidade para a sociedade. Este viés se acentua no Governo Collor em que a marca do governo é a juventude e o dinamismo e a do Brasil é a de um país atrasado que precisa daquele presidente forte. que vai conduzi-lo à modernidade do mundo globalizado. como estão fazendo pesquisadores e a própria academia. centrando-se em educação. traçamos um quadro da comunicação pública no Brasil para reforçar nosso entendimento sobre o papel da Política Nacional de Comunicação e da importância da comunicação como espaço de construção da cidadania. definiu comunicação pública como “um conceito de comunicação comprometida com o exercício da democracia. onde a autoridade de turno exerce o direito de informar. Da mobilização dos movimentos sociais emergirá um novo tratamento na comunicação pública estabelecendo parâmetros de exercício do direito que é a informação. disciplinar comunicação pública como o fez o governo são passos importantes no caminho que se quer trilhar. Entretanto é preciso que cada um de nós compreenda a informação como um direito e lutemos para que ele se efetive. mas onde também deve ser exigido o direito dos cidadãos de serem eficientemente informados”. debater e conceituar comunicação pública. De forma sucinta. afirmamos que muito já se avançou. a criação de conselhos representativos de segmentos sociais. A Carta de Atibaia.

Em benefício do governo. A exemplo de outros países.Nº 14 . 22310. na expressão da pluralidade social. a TV Brasil nasce com a proposta de se diferenciar da tevê comercial e da tevê governamental. é necessário que nos engajemos em sua defesa. A criação da tevê pública é sem dúvida uma aspiração antiga dos movimentos organizados em torno da bandeira de democratização da comunicação. Em seu sítio na internet. cuidar para que assim seja é sem dúvida um bom exercício para iniciarmos o processo de participação que desaguará na efetivação do direito à informação como dever do Estado e. obviamente estes ataques têm relação direta com a volumosa verba publicitária governamental. público e estatal. no bom jornalismo. Compete ao Poder Executivo outorgar e renovar concessão. Artigo Recebido: 14/05/2008 Aprovado: 20/07/2008 10 . deve oferecer uma programação diferenciada da que é exibida pela TV comercial. conforme preconizada na Constituição de 88. a TV Brasil assim se expressa sobre seu objetivo: A TV Pública. de 10 de outubro de 2007 criou EBC – Empresa Brasil de Comunicação Art.Julho/Dezembro .2009 9 Medida provisória 398. deve-se mencionar a natureza do Conselho curador da TV Brasil que tem 15 representantes da sociedade civil entre seus 20 membros com o objetivo de fiscalizar a observância das finalidades da tevê pública e poderes. com participação direta da sociedade em sua gestão. ainda não cobrindo todo o território nacional. como já se realizou Conferência da Cidade. para destituir os seus diretores. observado o princípio da complementaridade dos sistemas privado. por meio de seu presidente Tasso Jereissati. exigiu ao Ministro Guido Mantega. Com apenas cinco meses no ar. Art. inclusive. permissão e autorização para o serviço de radiodifusão sonora e de sons e imagens. dessa forma. É oportuno lembrar que por ocasião da votação da continuidade da CPMF no Senado Federal. Entretanto. Para que a iniciativa tenha conseqüência e se consolide como tevê pública. cultural e científica. com ênfase na informação artística. torna-se impossível avaliar a correlação entre o planejado e o executado. da Saúde. o PSDB. no debate das questões nacionais. livre de manipulações políticas ou governamentais. o arquivamento ou o adiamento da implementação da EBC – Empresa Brasil de Comunicação para que os tucanos votassem a favor do imposto do cheque. O público e o privado . o Presidente Lula demonstraria que estava disposto a cortar seus gastos correntes. da Assistência Social e o estabelecimento de novos marcos legais com a revogação da legislação retrograda do setor. Justificou que.Comunicação Pública: um espaço de construção da cidadania 47 O Governo criou em outubro de 20079 uma Tevê pública que tem sofrido violento bombardeio dos grandes grupos de comunicação. sua programação não obedecerá as regras do mercado e nem ás do poder político. 223. ou seja. cumprindo o papel de um canal com a sociedade é uma ameaça ao poder hegemônico dos grandes grupos privados de comunicação. Tamanho despropósito só tem uma explicação: uma tevê pública com um orçamento adequado e com controle social. Não é tudo. Devemos perseguir a realização da Conferencia Nacional de Comunicação. fortalecedor da cidadania. conseqüentemente.

gov. Dalmo. Bernardo. Altamiro. The argument is defended the need for engagement of social movements in the struggle for democratization of communication with the understanding of the information is a right that without the active participation of society. Quem são os inimigos da TV Brasil. 194 f. 2003. CARVALHO. Acesso em 13.2008 HAGUETTE. right to information. Fortaleza: UFC. O cidadão e o estado: a construção da cidadania brasileira. São Paulo.1998. Teresa Maria Frota.ufscom. is not effective. It presents the communication held in periods of restriction of freedom . Acesso em: 02 fev. 1994. Disponível em www. Portal o Vermelho. DAGNINO. Fóruns do Planalto.2007.br/casacivil/foruns. DUARTE. (Org) Comunicação pública: estado. Cidadania no Brasil: o longo caminho. Ricardo Constante. São Paulo: Brasiliense. A síndrome da antena parabólica: ética no jornalismo.arqanalagoa.48 Horácio Frota Elza Ferreira Keywords: citizenship. Dissertação (Mestrado em Ciências Sociais) . public communication. Luiz.10. 4.05. MARTINS. José Murilo de. São Paulo: Moderna.vermellho.Centro de Educação e Ciências Humanas. 2007. acesso em05 de fevereiro de 2008. DALLARI. São Paulo: Atlas. Jorge. mercado. Referências BORGES.State and New Military Ditadura as promising and welcomes the proposal of the present government to establish a National Policy on Communication. Direitos humanos e cidadania. Ditadura militar e propaganda: a revista manchete durante o Governo Médici.br. sociedade e interesse público. KUCINSKY.planalto. democratisation of communication. . São Paulo. São Paulo: Fundação Perseu Abramo.2008 . Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. ed. GUSHINKEN. Universidade Federal de São Carlos. Disponível em http:// www.1999. A Política Nacional de Comunicação.br. Eveline. 1994. Coluna de 31. Disponível em www. A B S T R A C T : The work talks about the public communication as a new debate in Brazil with the aim of analyzing its importance in the construction of citizenship. (org) Os anos 90: política e sociedade no Brasil. 1988.org.

Acesso em 05 fev. SILVA.anpocs. Disponível em HTTP// www.Comunicação Pública: um espaço de construção da cidadania 49 MATOS. Acesso em 05 fev.br.fafich.2008. SOARES. In XXI CONGRESSO BRASILEIRO DE CIÊNCIAS DA COMUNICAÇÃO DA SOCIEDADE BRASILEIRA DE ESTUDOS INTERDISCIPLINARES – INTERCOM. In XII ENCONTRO ANUAL DA ASSOCIAÇÃO NACIONAL DE PÓSGRADUAÇÃO E PESQUISA EM CIÊNCIAS SOCIAIS. Censura durante o regime autoritário.Nº 14 . O público e o privado . 1988.org. democracia e cidadania: o caso do legislativo. Comunicação pública. 1999.Julho/Dezembro . Anais eletrônicos. Disponível em http//www.ufmg. Luiz Martins da (Org) Comunicação pública: algumas abordagens Brasília – DF: Casa das Musas. Anais eletrônicos.2009 .br. Heloisa. Gláucio Ary Dillon. 2003.2008. 6.

destacamos. 51 Redes Sociais e usos da internet por migrantes brasileiros na Epanha** Social Networks and Internet use by brazilian migrants in Spain Daiani Ludmila Barth Denise Cogo* Resumo: Este artigo aborda os usos da internet. centrada nos estudos de recepção latino-americanos. redes sociais.Julho/Dezembro . nas experiências de construção e manutenção de redes sociais de migrantes brasileiros na Espanha. realizado em Curitiba de 4 a 7 de setembro de 2009. Skype e Chat.2009 (**)Trabalho apresentado no GP Comunicação para a Cidadania do XXXII Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação (Inercom).com. e ancorada em uma abordagem metodológica baseada em etnografia da Internet. I ntrodução Esse trabalho traz os resultados de uma pesquisa de mestrado1 que teve como objetivo abordar as relações entre os usos da internet. duas dimensões dos usos sociais da internet no âmbito das migrações transnacionais: (1) a internet como ambiente e ferramenta de construção do objeto da pesquisa e abordagem empírica das migrações transnacionais e (2) a internet como espaço de interação de migrantes transnacionais no âmbito das redes sociais de brasileiros na Espanha. especialmente MSN.br. 1 A dissertação. especialmente na vertente dos chamados usos sociais. migrações transnacionais. especialmente MSN. Skype e chat Uol.com Denise Cogo é Professora Titular do Programa de PósGraduação em Ciências da Comunicação da Unisinos e Pesquisadora Produtividade do CNPq. A pesquisa orienta-se por uma perspectiva qualitativa. O público e o privado . A partir de breve discussão conceitual sobre redes sociais. E-mail: daianiludmila@gmail. de autoria de Daiani . E-mail denisecogo@uol. Como resultados da pesquisa empírica. internet. Palavras-chave: comunicação. para análise.(*) Daiani Ludmila Barth é Mestre em Ciências da Comunicação pela Unisinos.Nº 14 . nas experiências de construção e manutenção de redes sociais de brasileiros em experiência migratória na Espanha. internet e migrações transnacionais.

2 Redes sociais. conseqüentemente. nesse artigo o percurso teórico-metodológico da pesquisa centrada nos usos sociais. migração transnacional e redes sociais” e foi defendida em março de 2009 no Programa de Pós-Graduação em Ciências da Comunicação da Universidade do Vale do Rio dos Sinos – Unisinos. particularmente a partir do sentimento de que os interesses individuais estão ligados aos interesses do grupo”. em um sistema de redes sociais. para análise. nos preocupamos em resgatar brevemente três noções conceituais . através de usos específicos em redes sociais que abrangem a constituição de vínculos com familiares e amigos. . internet e migrações transnacionais: itinerário conceitual da pesquisa Inicialmente. a (re) atualização de contatos com o país de nascimento (Brasil). Na visão de Lozares. sob a orientação da Profª Dra. especificamente de brasileiros na Espanha. Internet e migrações transnacionais . Dessa maneira. p. Denise Cogo. Nessa perspectiva. a Antropologia. a Matemática. Em grupos migrantes. duas dimensões que se tornam relevantes para o estudo dos usos sociais da internet no âmbito das migrações transnacionais: (1) a internet como ambiente e ferramenta de construção do objeto da pesquisa e abordagem empírica no contexto do trabalho de campo com migrantes transnacionais e (2) a internet como espaço de interação de migrantes transnacionais. fluida.15)3. Ludmila Barth. a vivência com migrantes e não migrantes no país de migração (Espanha) e a constituição de experiências de caráter organizativo e coletivo de apoio às migrações transnacionais. Como resultados da pesquisa empírica. fixos e inabaláveis. intitulase “Brasileiras na Espanha: Internet.2 As redes sociais são fundamentais para a compreensão de fenômenos para diversas áreas de conhecimento. e em uma abordagem empírica baseada na etnografia da Internet. compartilhamos da proposição de Resumimos brevemente aspectos da discussão conceitual desenvolvida de modo aprofundado na dissertação de mestrado. permeável assim como comportar hierarquizações entre seus integrantes. a união entre seus membros as transformariam em processos coesos. as redes sociais são compreendidas como “coesão subjetiva” e têm a função de “identificación de los miembros del grupo con los de su grupo. composta por observação e entrevistas. pode ser transitória. dentre as quais estão a Sociologia. Ao contrário. nos processos de vivência migratória transnacional. seria importante a construção de um sentimento de solidariedade e de coesão entre seus membros. vertente dos chamados estudos de recepção latinoamericanos.redes sociais. a Psicologia. 3 Tradução das autoras: “Identificação dos membros do grupo com o seu grupo.que foram centrais na formulação do problema e desenvolvimento da pesquisa. destacamos.52 Daiani Ludmila Barth Denise Cogo retomamos. en particular a partir del sentimiento de que los intereses individuales están ligados a los intereses del grupo” (1996. nem sempre uma rede social tende a configurar a coesão social sugerida ou pressupor um profundo sentimento de solidariedade. Entretanto. e. esse sentido aprofundaria a sustentabilidade dessas redes sociais.

Boase. é uma dessas maneiras de acessar. para acessar documentos chamados de páginas web (homepages). e o recentemente lançado Google Chrome. compartilhar e armazenar informações a partir da internet. estruturada em nível global. pagers e outros aparelhos como o iPhone. cujas informações trocadas são realizadas por uma variedade de linguagens conhecidas como protocolos. Wellman (2006) reconhecem a internet como uma mídia de comunicação e informação. ou simplesmente web. os mesmos autores apontavam que a maioria das interações sociais na internet acontecia entre pessoas que já se conheciam anteriormente na vida offline. a partir de empresas de telefonia que comercializam o serviço.4 Em estudos anteriores. para assim estarem conectados à grande rede internet. ao contrário do que se imaginava. sons e vídeos. Ainda. gráficos. também celulares. à diversidade e à complementaridade. uma vez que os migrantes estariam mais conectados por desejarem se relacionar com o que deixaram para trás. Todos estes formam uma rede na qual qualquer um desses aparelhos pode se comunicar com outro. é importante não confundi-las Ao abordarem relacionamentos online e offline. que podem conter textos. em geral. tendo como base. mais recentemente.” No entendimento dos recursos online utilizados. A internet é uma “rede de redes”. Haveria. mais abertas ao pluralismo.Nº 14 . 4 Entretanto. . Assim. Estas páginas são ligadas umas as outras através de links. A world wide web (www). portanto. seria equivocado afirmar que houvesse a diminuição do interesse pela vida online. Embora a Web seja a grande responsável pela popularização alcançada pela internet e. A Web é. Através dela. por exemplo. apenas uma das maneiras pelas quais a informação pode ser disseminada pela Internet. Mozilla Firefox. mas como práticas sociais foram compreendidas de modo inter-relacionado.2009 As experiências online e offline foram abordadas separadamente na pesquisa desde um ponto de vista de operacionalização do empírico. para os usuários leigos os dois termos possam parecer sinônimos. a possibilidade de ocorrer o contrário O público e o privado . e. ainda. a internet não teria o poder de alterar significativamente as atividades rotineiras das pessoas. No entanto.Redes Sociais e usos da internet por migrantes brasileiros na Espanha 53 Scherer-Warren (1999. é necessário propor uma diferenciação entre internet e web. obtido. uma vez que se torna impossível demarcar quantitativamente as interações sociais individuais ou coletivas.Julho/Dezembro . 33-34) quando define as redes sociais como “formas mais horizontalizadas de relacionamento. desde que disponham de acesso. esta poderia ser considerada apenas como uma tendência. a web utiliza o protocolo HTTP (Hypertext Transfer Protocol). p. milhões de computadores estão conectados. para transmitir informações e precisa de navegadores (browsers) tais como o Internet Explorer. mas lembram que as pessoas continuam mantendo suas relações sociais fora dela. os processos de migração transnacional focalizados nesse trabalho.

.ine. ou seja. como amigos e a família. ainda.54 Daiani Ludmila Barth Denise Cogo 5 São possíveis algumas pistas a partir do estudo “Internet. conforme nos dedicaremos a analisar posteriormente nesse trabalho. importa lembrar que essas redes não se limitam à comunicação mediada por computador. vivenciados no cotidiano das transformações culturais da sociedade contemporânea. apesar de recente.5 Os usos de recursos da internet realizados no cotidiano dos migrantes podem abranger desde o contato com as pessoas mais próximas. através de sites de relacionamentos6. entre os próprios migrantes entrevistados em nossa pesquisa. Por fim.br”. 6 do exposto pelos autores.es/inebase>. mas que tem sido muito utilizado pelos brasileiros. os brasileiros Neste exemplo. Acesso em: 25 set. Além disso. a cada 10 pessoas que acessam a Internet de casa. chats. a constituição de redes sociais. da Espanha. Outra questão a ser referida é que. as pessoas podem se conhecer offline e incorporarem este relacionamento também ao contexto online e mesmo manterem simultaneamente relacionamentos online e offline em seu cotidiano. no início dessa década. Skype e chat Uol ferramentas que permitem a comunicação simultânea entre interlocutores . Disponível em: <http:/ /www. e a reconfiguração no território europeu na migração de retorno ao Brasil. se mostrou fundamental no decorrer da experiência transnacional. Conforme o Ibope/NetRatings (março/2008).midiamigra. uma vez no exterior. em 2006. a reflexão sobre configurações e reconfigurações de usos e vivências da internet no âmbito dos movimentos migratórios exige que consideremos que a internet vem se constituindo como um importante meio de busca de informações sobre a vida no exterior bem como visibilidade e sustentação de identidades no mundo digital. 7 usam o Orkut. 2005). Daiani Ludmila Barth. vive e constitui-se em processo constante e fluído de atribuição de sentidos. trabalho ou. que não é considerado uma ferramenta de comunicação simultânea. realizada como Trabalho de Conclusão de Curso de Jornalismo da Unisinos. MSN e Skype. comportando um caráter interpessoal não mediado que atravessa a história das migrações. Ou seja. a vivência da migração e sua reconfiguração no território europeu. Ainda assim. cito principalmente o site de relacionamentos Orkut. a migração de brasileiros para a Espanha cresceu consideravelmente nos últimos anos. processos de aprendizados em torno dos idiomas e da cultura de cada local de migração. bem como na relação afetiva e emocional proporcionada através da vivência de estar online. Esses usos geram e dinamizam contatos que também podem configurar redes sociais que comportam os mais variados níveis de organização e permanência. imaginário e migrantes brasileiras: o sonho de morar na Europa visto do site www. pela co-autora desse trabalho. 2008. Essas reflexões nos conduzem a entender o MSN. A mudança geográfica constitutiva das migrações transnacionais significa não apenas uma mudança de localização e sim a construção de espaços simbólicos entre os lugares por onde o sujeito passa.com. até a orientação para conseguir documentação. 7 Dados do Instituto Nacional de Estatísticas (INE). vale mencionar que. no Brasil.a partir dos sentidos que os migrantes lhe atribuem e dos usos que fazem delas. (MEZZADRA. De acordo com o Instituto Nacional de Estatísticas (INE) 7. Sua proposta configura-se na reflexão sobre usos da internet por um grupo de migrantes brasileiras a partir de três experiências em que as migrações se relacionam ao imaginário europeu: o projeto de migração para a Europa. o uso cotidiano da internet tem sido preponderante na criação e manutenção de redes sociais entre migrantes transnacionais.

(COGO. mais especificamente da etnografia na internet que contempla a possibilidade de nos apropriarmos e inserirmos em uma O público e o privado . no contexto dos quais. ficando atualmente cinco vezes maior do que no início da década. registra-se uma forte desigualdade econômica. especialmente na vertente dos chamados usos sociais. (2005. b b c . comparado aos 4 milhões 274 mil 821 estrangeiros que vivem na Espanha.10). em função principalmente do alto índice de desemprego do país.Julho/Dezembro .730. alcançando mais de 80 mil em 2005. existem outros. Acesso em: 18 mai. 2008). os indivíduos são sujeitos ativos no processo de comunicação. com uma razoável conta bancária e. segundo propõe Martín Barbero (1987). desde a crise econômica global desencadeada em 2007. A noção de usos sociais nos possibilita. 8 . ainda. Há aqueles em condições financeiras favoráveis e aqueles em posições menos favoráveis. nossa pesquisa. ainda. da etnografia como perspectiva de abordagem metodológica. Disponível em: <http:/ /www. fazendo uso da conhecida estratégia da cama quente. Usos da internet na construção do objeto da pesquisa e abordagem empírica das migrações transnacionais Em termos teórico-metodológicos. no âmbito do coletivo de brasileiros em vivência transnacional no contexto espanhol. No âmbito dos usos sociais. Vale lembrar. inclusive. pensar a ação dos receptores nos espaços dos conflitos e de mestiçagens culturais. e. conferindo e negociando usos específicos em relação às mídias. deve ser considerado o fato de que as estatísticas oficiais não registram a presença de migrantes clandestinos ou não regularizados. ver matéria da BBC Brasil.8 Outro fator importante é que..shtml>. Mesmo representando um número pequeno. c o . (JACKS.. recebem ajuda de algum familiar radicado no Brasil. podemos distinguir modos de atuação da hegemonia e de mobilização da resistência assim como resgatar os processos de apropriação e réplica das classes subalternas. 2008).2009 Na leitura desses dados. mas abarca a compreensão dos processos de circulação dos sentidos produzidos.] enquanto existem brasileiros que chegam a dividir sua própria cama. de caráter qualititativo. conforme explica Cavalcanti: [. nos valemos. p.Redes Sociais e usos da internet por migrantes brasileiros na Espanha 55 somavam 13. memórias e imaginários sociais. Sobre isso. quando as ‘coisas apertam‘. 09. ainda. o contingente de brasileiros praticamente duplicou a cada ano. u k / portuguese/multimedia/ 2009/05/090512_ abreespanha_ video. Os usos sociais favorecem a nossa análise sobre as diferentes abrangências da relação dos receptores com as tecnologias da comunicação em uma dimensão temporal e espacial mais ampla que não se limita ao momento da recepção. embora os processos mediáticos intervenham fundamentalmente na constituição e na conformação das interações. nos orientamos pela percepção de que. Desde essa perspectiva. situa-se no contexto dos estudos de recepção latino-americanos. está sendo registrado um crescente significativo de retorno de brasileiros da Espanha. para sobreviver.Nº 14 .

Foram realizadas também incursões no contexto dos chats oferecidos pelo portal Terra Brasil e Terra-Espanha. que são viabilizadas por ela. sobretudo. a etnografia na internet nos exigiu adaptações das ferramentas clássicas de entrevistas e conversação a partir dos usos das “novas tecnologias”. no Terra-Brasil.Espanha. as que se apresentavam com nicks de mulheres abandonavam as salas quando começávamos o diálogo. no processo da pesquisa. mas que não dependem de um único entendimento sobre ela.56 Daiani Ludmila Barth Denise Cogo rede relacional situada no tempo e no espaço. impõe uma distância geográfica entre pesquisadoras e os sujeitos migrantes pesquisados que limita o acesso presencial offline à realidade das migrações. pela própria experiência transnacional que. Essa estratégia metodológica de encontro com os entrevistados reafirmou que a utilização de recursos online favorece o estudo das migrações transnacionais em virtude dessa presença relevante das redes sociais mediadas pela internet. mediada por diferentes usos da internet. is encouraging news for ethnography of the Internet. em dimensão similar à descrita por Hine: The emergence of multi-sited ethnography. especificamente na sala de bate-papo “Brasileiros no Exterior”. tivemos dificuldades no carregamento da página que ficava indisponível ao tentarmos entrar em uma das salas. porém sem circunscrições a uma territorialidade geográfica concreta no que se refere à convivência entre pesquisador e sujeitos pesquisados. interactive and engaged exploration of connectivity. colaborou fundamentalmente para a localização dos entrevistados e realização das entrevistas. 9 (2000. conceived of as an experiential. no Terra. Isso amplia as possibilidades de desenhos metodológicos /ou/ de estudos baseados nas conexões internas e em torno da internet. encontramos apenas “brasileiros no Brasil” ao passo que. a própria inserção dos migrantes brasileiros em redes sociais. 9 Tradução das autoras: “A emergência de uma etnografia multi-situada. 61) Vale mencionar que. Quando contatávamos com nicknames femininos nos chats. Nesse sentido. Nestas entradas a campo. é interessante mencionar as várias tentativas frustradas de conversarmos com mulheres. concebida como uma exploração experimental. Em ambas tentativas não obtivemos sucesso. mesmo fazendo referência à pesquisa. Uma primeira etapa de realização da pesquisa empírica visando à construção do objeto de estudo esteve orientada por uma pesquisa exploratória através da realização de buscas no chat Uol. não conseguíamos manter uma conversação. Em geral. interativa e engajada de conectividade. é uma boa notícia para a etnografia da internet.“. muitas vezes. p. Essas dificuldades colaboraram para a abordagem empírica inicial ficasse limitada ao chat Uol. It offers up possibilities for designing a study which is based on the connections within and around the Internet and enabled by it but not reliant on any one understanding of it. uma vez que. mas também e. .

apenas os dois interlocutores vêem a conversação). o tempo de migração e o tempo de utilização e de acesso à Internet. o r ku t . c o m . Um quinto brasileiro foi contatado através de lista de discussão do Yahoo e entrevistado por e-mail. utilizamos a possibilidade “reservada” (ou seja. integrante das listas de grupos Yahoo. Posteriormente. 08.Julho/Dezembro . (4) Internet Cidadania e (5) Migração transnacional.aspx?uid= 8975712732970420281>. estabelecendo-se em território espanhol. utilizamos uma comunidade desse grupo que foi criada no site de relacionamentos Orkut. Uma quarta migrante foi contatada pelo Orkut e entrevistada através de e-mail. b r / Profile. procuramos outros modos de contato com brasileiros na Espanha. encontrado no chat Uol. utilizamos um roteiro composto por questões organizadas em cinco blocos temáticos: (1) Identificação. o nível de escolaridade. Um sexto entrevistado. mas retornaram e se estabeleceram no Brasil. 2) Migração de múltiplos trânsitos: brasileiros que saíram do Brasil e viveram em mais de um país. mas entrevistado O público e o privado . 3) Migração de retorno: brasileiros que viveram na Espanha. posteriormente. foi adicionado ao MSN. foi possível perceber três experiências distintas de migração. a idade. Para a realização das entrevistas. Ao longo do trabalho de campo. Dentre esses critérios. Para além do chal Uol. Realizamos sete entrevistas com migrantes brasileiros na Espanha. Essa estratégia permitiu iniciar contato. a partir do chat Uol. Acesso em: 20 set. estavam morando na Espanha. e que. 11 Publicamos recados sobre a pesquisa nos perfis de quatro integrantes da comunidade. intitulada “Rede brasileiros no exterior”. e entrevistados no MSN. no esforço11 de diversificar as experiências de migração a serem focalizadas no estudo.Nº 14 . . na época da entrevista. adotamos outra estratégia: ao invés de esperar que um dos usuários disponíveis viesse conversar. estão o gênero. (3) Interações online/offline. com a única mulher brasileira que integrou o grupo de entrevistados.2009 10 Disponível em: < h t t p : / / w w w. também se constituíram como critérios da amostra final de migrantes pesquisados no trabalho: 1) Migração com destino à Espanha: brasileiros que saíram do Brasil com destino prévio à Espanha e não residiram em outros países. lançando a pergunta: “Alguém da Espanha?”. Três brasileiros foram encontrados pelo chat Uol. Essas três modalidades de migrações foram cruzadas ainda com outros critérios na perspectiva de diversificação da amostra de migrantes que nasceram no Brasil e estavam em vivência migratória na Espanha e com os quais fomos nos aproximando no decorrer da abordagem empírica.10 onde identificamos perfis de mulheres brasileiras na Espanha. Inicialmente. a partir da lista de discussão “brasileirosebrasileirasnaeuropa”.Redes Sociais e usos da internet por migrantes brasileiros na Espanha 57 Nas últimas entradas a campo utilizando o chat. e enviando-a a todos os usuários. (2) Usos de ferramentas de comunicação. com ou sem pretensão de se estabelecerem naquele país. que.

face-a-face. causando até certo desconforto. durante los segundos e. Blanca Callén e Carmen Pérez. simplesmente. de tecnologias disponibilizadas pela internet no processo comunicacional na abordagem empírica através do uso da entrevista. O que foi possível perceber é que. inclusive. os riscos da conexão ser interrompida por algum problema com os servidores utilizados. no contato presencial offline. minutos de espera que podem transcorrer desde que envias uma pergunta até que recebas uma resposta. sentado. E. ¿será que está hablando con otras personas en otros ‘privados’ mientras está haciendo la entrevista conmigo?. por fim. muitas vezes acoplada na parte superior do computador. a comunicação se favorece dos múltiplos sentidos e dimensões que aparecem envolvidos nos processos de interação entrevistador-entrevistado. uma última entrevista foi realizada pessoalmente. constituindo-se na única abordagem em que foi contemplada a modalidade de migração de retorno. O que nos lembra o relato das pesquisadoras Elisenda Ardèvol.83) . Marta Bertrán. ¿será que me está escribiendo una respuesta muy larga?12 (2003. será que está escrevendo uma resposta muito longa?” Y como ‘quien espera desespera’. a partir do acionamento de uma webcam. incluso. em Porto Alegre. passavam um longo tempo sem responder às questões propostas. Outra especificidade da abordagem dos entrevistados através da internet que observamos empiricamente é a atenção dispensada ao momento da entrevista. durante os segundos e. que havia sido experimentado durante o processo exploratório da pesquisa. offline. como o tipo de conexão que deve ser favorável para que a imagem possa ser transmitida com maior nitidez ou. Além disso. p. Concorre. ¿se la estará pensando?. Além das palavras. simplesmente. minutos de espera que pueden transcurrir desde que lanzas una pergunta hasta que recibes la respuesta. têm-se os gestos. muitas vezes. ou não.58 Daiani Ludmila Barth Denise Cogo através do Skype. para isso. nos possibilitou refletir sobre semelhanças e diferenças na mediação. para que possa ser visto por seu interlocutor. não havíamos previsto realizar uma entrevista presencial. a questão das condições de acesso à internet. não são possíveis de serem notados ou sequer vivenciados. utilizada durante as entrevistas por MSN e Skype. desespera’. Quando os entrevistados não mostravam sua imagem pela webcam. ainda. exige que o entrevistado fique em uma mesma posição. Este procedimento. expressões. é inevitável que passem muitas coisas pela cabeça: será que entendeu a pergunta? Será que está pensando nela? Será que está conversando com outras pessoas reservadamente enquanto faz a entrevista comigo? Será que o telefone tocou? Ou. ainda. ¿le habrán llamado por teléfono? O. es inevitable que nos pasen muchas cosas por nuestras cabezas: ¿habrá entendido la pregunta?. sobre essas mesmas questões de espera da resposta do entrevistado no uso de chats em seus trabalhos etnográficos online: 12 Tradução das autoras: “E como ‘quem espera. maneiras de posicionar-se perante o outro. Até pelo fato de que a própria webcam. que.

posteriormente. caracterizamos os migrantes entrevistados e apresentamos um breve mapa de seus acessos à internet no sentido de oferecer referências contextuais para. tivemos que nos adaptar ao uso dessa ferramenta que exige outro modo de estruturação de uma entrevista. sintetizamos os perfis dos sete entrevistados 13: PERFIL DOS ENTREVIST ADOS ENTREVISTADOS N o m e Idade Migração Murilo 1 Migração Fábio 2 34 Onde mora Camarma de Esteruelas14 Barcelona Escola. 15 Joana morou em Barcelona durante os seis meses em que viveu na Espanha. Inicialmente. a segunda dimensão de usos desenvolvida na nossa pesquisa em que a internet aparece como espaço de interação de migrantes brasileiros na Espanha através de seus usos na constituição de vínculos transnacionais com familiares e amigos. na vivência com migrantes e não migrantes no país de migração (Espanha) e na constituição de experiências de caráter organizativo e coletivo de apoio às migrações transnacionais. compreender os usos específicos que os migrantes fazem da internet relacionado às suas experiências migratórias. as questões foram enviadas em blocos e levaram cerca de um mês para serem respondidas.Estado ridade C i v i l Superior Casado Ocupação Biólogo Tempo de migração 14 anos 37 PósCasado graduação Migração Vicente 3 Elisa Silvia Raul Joana15 23 37 25 33 24 Madri Madri Madri Madri Porto Alegre Ensino médio Ensino médio Superior Superior Superior Solteiro Casada Solteira Solteiro Solteira Coordenador 3 anos de associação de migrantes brasileiros Empregado 2 anos em mercado Auxiliar 12 anos administrativo Cuidado de 2. Os usos da internet em espaços de interação nas redes sociais de migrantes brasileiros na Espanha Passamos a analisar. No quadro abaixo.Redes Sociais e usos da internet por migrantes brasileiros na Espanha 59 Também não imaginávamos.Nº 14 . até a entrada em campo. O público e o privado .Julho/Dezembro . na (re) atualização de contatos com o país de nascimento (Brasil).6 anos crianças Serviços gerais 3 anos 6 meses Psicóloga 13 Por questões éticas. que teríamos que utilizar o e-mail para entrevistar dois dos imigrantes brasileiros na Espanha que compuseram nossa amostra. os nomes dos entrevistados foram alterados. Entretanto. a seguir. 14 Cidade situada a 35 km de Madri.2009 . em função da preferência dos entrevistados. Para ambos os entrevistados.

por exemplo. possam contribuir para que o primeiro seja mais acessado do que o segundo. só digitar. e mais reduzida no Skype (para os entrevistados que conhecem o recurso). talvez o desconhecimento com relação aos recursos disponíveis através do Skype. Já o Skype parece não ser tão difundido. afirmou: “akilo la. por exemplo. a afirmação do uso cotidiano desse recurso pelos quatro migrantes. nas entradas metodológicas realizadas no chat. ainda. que o MSN parece se configurar como uma ferramenta de comunicação mais amigável para a escrita do que o Skype. Sílvia. tendo em vista. num ambiente público. levando a supor. o fato do chat não possibilitar o uso da webcam. traduzida em conhecer pessoas e conversar. Dos sete entrevistados da nossa pesquisa. foi necessário contornar as propostas ou sugestões ligadas. suas expressões faciais conforme o ambiente onde estavam no momento da entrevista. Alguns entrevistados controlavam. na opinião dos entrevistados. tem muita gente aqui”. conforme o ambiente em se encontravam. eu entro as vezes mas nem gosto mto. e mentira”. assim como em manter os contatos já existentes. um trânsito por ambos recursos ou. portanto. foi possível perceber. os entrevistados podiam optar pelo uso de um ou outro. contudo. 16 Nesta e em outras citações. Vicente e Silvia. ta uma chatisse. 16 Em geral. Isso não significa. foi respeitada a grafia utilizada pelos entrevistados. ao se referir a essa modalidade de conversação na web. Durante as próprias entrevistas. foi possível vivenciar algumas dessas especificidades mencionadas por alguns dos entrevistados quando. ja os chats é muita sacanagem. de que “não posso falar com você agora. O número de pessoas online é o que diferencia o uso de cada recurso. O MSN também foi apontado pelos entrevistados como recurso importante para a sociabilidade. o entrevistado preferia escrever a usar a voz. Raul. O MSN posso selecionar as pessoas q quero conversar e q eu tenha confiança. principalmente. Apesar de os dois programas terem o recurso da câmera web. Assim. a popularização do MSN entre brasileiros e. A afirmação de Raul. sobretudo. o MSN figura na preferência de contato online da maioria dos migrantes brasileiros entrevistados. quatro deles foram encontrados a partir do chat Uol: Murilo. no decorrer da entrevista. é ilustrativo desse condicionamento do local de uso. A quantidade de contatos é maior no MSN. a sexo pela internet. a dimensão qualitativa de encontro com as pessoas com as quais os entrevistados mantêm contato freqüente.60 Daiani Ludmila Barth Denise Cogo Na utilização de ferramentas de comunicação simultânea. A menor quantidade de contatos limita. . ainda. no processo de procura por desconhecidos para a inclusão no MSN.

as relações familiares são dinâmicas e fluídas. muitas vezes. Nos vínculos mantidos com brasileiros no Brasil. Dentre elas. Dentre os entrevistados. .129) Com o advento de diferentes tecnologias de comunicação. cada entrevistado tem sua história de interação pela internet no relacionamento com a família. mudando de acordo com os acontecimentos do ciclo de vida (incluindo nascimento. A mãe de Joana teve que aprender a utilizar o MSN durante o tempo em que a filha esteve na Espanha. Os usos da internet favorecem. não se sente à vontade para ligar para a família e conversar em voz alta. uma das questões relevantes diz respeito às especificidades das reconfigurações das relações familiares produzidas pela experiência da migração. e a internet. Novamente. a obtenção de informação sobre oportunidades de empregos. A mãe e a irmã de Vicente também se conectam quase diariamente ao MSN para conversar com o filho. realizados por Wilding.17 (2006. O caráter transnacional de dinamização dos relacionamentos familiares possibilitado pela condição de migrante é vivenciado pelo grupo de entrevistados tanto através do uso de ferramentas de comunicação online como de outras tecnologias anteriores à internet. Uma webcam foi adquirida para as sessões que reuniam a família aos domingos.Nº 14 . embora nos locutórios que freqüenta sejam disponibilizados aparelhos telefônicos. possibilitando. o telefone é deixado de lado. Skype e chat Uol. neste trabalho. amigos e conterrâneos. hospedagem e assistência financeira no local de migração. Skype e chat Uol no planejamento dos projetos migratórios para o exterior. família e transnacionalismo. shifting according to life-cycle events (including birth.Julho/Dezembro . representadas. Nos estudos sobre migrações. Na maioria das vezes. mais O público e o privado . pelo MSN. segundo os relatos dos entrevistados. family relationships are dynamic and fluid. foram quase nulas as referências de utilização do MSN. contatos pessoais com parentes. foi possível constatar a preferência pela utilização de ferramentas de comunicação online. especialmente através do MSN e e-mail.2009 17 Tradução das autoras: “Em primeiro lugar. a partir desta investigação. De acordo com a autora: “First. como o telefone. apenas Sílvia chegou a trocar informações acerca da Espanha com uma pessoa que classificou como “conhecido” e que já vivia naquele país europeu.Redes Sociais e usos da internet por migrantes brasileiros na Espanha 61 Por fim. death and migration) and perceptions of affection and emotional closeness”. p. Os outros brasileiros entrevistados buscaram maneiras diferentes de obter informações sobre o destino e efetivar a migração. falecimento e migração) e percepções de proximidade afetiva e emocional“. muitas vezes com a presença dos avós. o entrevistado lembrou que. ganha preferência para os contatos. Sobre essa questão. ganha destaque a questão da ausência de privacidade que os entrevistados relatam vivenciar nesses espaços de acesso coletivo a internet.

Ocorre também. Do grupo de entrevistados. vamos andar. vamos conhecer um lugar novo. Na formação de um vínculo afetivo mais estável. Possivelmente contribua para isso o atual posicionamento da Espanha como um dos maiores destinos de migrantes na Europa. Quando a gente não tinha. O que sugere. perguntávamos: ‘o que vamos fazer hoje à noite?’ Vamos sair. ocorrem desde uma perspectiva interpessoal não mediada pelas tecnologias. inclusive. incluindo espanhóis e outros migrantes. assim. Porque quando tu tem internet. Joana. a convivência entre pessoas de diversas nacionalidades. a convivência intercultural dos entrevistados merece uma reflexão. uma comunicação não mediada: 18 É importante destacar que a Espanha tem uma constituição histórica híbrida determinada pela própria migração. quando existem. a distância geográfica vivenciada pelos migrantes parece potencializar ou mesmo intensificar usos da internet. com a população de espanhóis. A maior parte dos entrevistados considerou ter maior proximidade com pessoas em situação similar de migração na Espanha.62 Daiani Ludmila Barth Denise Cogo uma vez. o MSN foi o mais lembrado. uma redução “qualitativa” dos amigos a partir do uso dessas ferramentas. o relacionamento parece ser mais formal. uma de nossas entrevistadas. ainda.18 Além disso. principalmente pelas interações vivenciadas em âmbito online e offline. tu acaba ficando mais confortável . As conversas tanto formais quanto informais. todos os entrevistados afirmaram se relacionar com a população local. vamos para algum lugar. privilegiando o contato cotidiano com quem está mais longe fisicamente em detrimento do que estão mais próximos. tendo vivido. o que pôde ser constatado é que nenhum deles utiliza a internet para se comunicar com a população local. Porém. certo caráter de distanciamento entre esses migrantes brasileiros entrevistados e os espanhóis. Na vivência migratória na Espanha. o que se reflete na necessidade de hierarquização das amizades em função do tempo dispensado à internet. o que a converte em um contexto nacional onde se potencializa. os dados levantados evidenciam uma maior relação dos entrevistados com os poucos amigos no Brasil e com as pessoas na mesma situação migrante na Espanha do que com a população local de espanhóis. conforme o relato dos entrevistados. atribuiu a falta acesso à internet em momentos de sua estadia na Espanha como um dos principais motivos de ter vivido o que podemos definir com uma “migração offline” e assim dispor de mais tempo para conhecer melhor a cidade onde residia e vivenciar. de forma crescente. Combinada com as relações familiares. Nenhum deles mantem contato apenas com brasileiros. experiências massivas de emigração para outros países da Europa e América Latina.

tais como. (COGO.orkut. poder saber notícias daqui. E não deixava de ser interessante. a própria relevância que tem assumido a internet na dinamização de experiências de caráter coletivo e organizativo dos migrantes. e ainda a Rede de Brasileiros no Exterior. 2007). Associações e coletivos de migrantes têm atuado para suprir espaços não preenchidos pelo poder público na prestação de assistência e orientação aos migrantes. Fábio 20. que tem.Redes Sociais e usos da internet por migrantes brasileiros na Espanha 63 em casa. Disponível em: http://www. se evidenciava a emergência da própria migração como sentido ou posição de pertencimento étnico e/ou cultural em que se ancoram as estratégias comunicativas no contexto das mídias impressas e/ou online produzidas pelos migrantes e suas organizações. vários exemplos de associações podem ser encontrados no universo online21. Acesso em 02 dez. Disponível em: http://www. educação (especialmente o aprendizado linguístico) ou ainda no apoio direto à obtenção de trabalho e de regularização jurídica por parte dos migrantes. a qual mantém também uma lista de discussão no Yahoo.Nº 14 . fazemos eventos e algunas reunioes sobre outros temas também. 08 21 A nossa Associaçao esta voltada a passar informaçoes para as pessoas q querem montar seus negocios aqui. tinha alguém com quem falar. Associação Hispano Brasileira de Apoio aos Imigrantes em Espanha. Como associação onde atua Eliza ainda não conta com uma sede física própria. porque mesmo fora. inclusive. Em outra pesquisa.com> Acesso em: 20 nov. Elisa19.com/ Main#Community.orkut. poder falar com alguém do Brasil. numa perspectiva de movimentos culturais.aspx? cmm=53795918. saúde. Por fim.Brasil/ España. O público e o privado . participar de encontros de samba. e que se orienta a incentivar o empreendedorismo de mulheres brasileiras na Espanha. Disponível em: http:// w w w.com/ Main#Community. Por ser um dos fundadores do Coletivo Brasil Catalunya. o que observamos entre a migração brasileira na Espanha. Costuma organizar reuniões. Outra iniciativa similar é a do Coletivo Brasil-Catalunya -. . ao mesmo tempo em que realiza contatos regulares por e-mail. Disponível em: http://www.2009 Somente no site de relacionamentos Orkut. tendo em vista. já q temos flexibilidade para todos os temas q vao surgindo das pessoas q entram em contato com a gente. Esse é o exemplo da AME . a qual estou cadastrada. os contatos são realizados regularmente por e-mail e telefone: 19 Disponível em <http://asociacioname.orkut. lazer. outros de nossos entrevistados. Fábio lembra que dedica grande parte do seu tempo às atividades da associação. 08. blogspot.aspx? cmm=39812805.aspx? cmm=46848406. não foge a certas características organizativas que demarcam a trajetória dos movimentos migratórios transnacionais na atualidade. em diversos âmbitos. Disponível em: http:// brasilcatalunya. 08 20 Fábio é um dos organizadores do Coletivo Brasil Catalunya.Julho/Dezembro . já observávamos o quanto. no que se refere ao caráter coletivo que assumem os usos da internet no contexto das redes sociais migrantes. blogspot.aspx? cmm=40775085. o r ku t .com/ Main#Community.com/. Os acessos foram realizados em 02 dez. Assim como estas duas. NEBE – Núcleo de E n t i d a d e s BrasilEspaña. onde atua uma de nossas entrevistadas.Asociación de Mujeres Emprendedoras . existem vários exemplos: Associación de Mujeres Empreendedoras. meio acomodada ali porque tu tinha que fazer aquilo. entre seus organizadores. c o m / Main#Community.

(eds). Internet.> Acesso em: 25 out.. p. Leonardo.uab.php/relacoesinternacionais/ article/viewFile/282/270> Acesso em: 25 out. 2006. Barry.com. transnational migrations. 2006.htm Acesso em: 09 abril 2009. BARTH. 2006.utoronto. São Leopoldo.br. Personal relationships: on and off the Internet. especially regarding so called social uses. A participação de ambos entrevistados em associações de brasileiros no país de migração evidencia a incidência das práticas online. 709-723. WELLMANN. que se combinam com iniciativas offline. imaginário e migrantes brasileiras: o sonho de morar na Europa visto do site www. Cambrigde: Cambridge University Press.chass. “Imigrados”. nos esforços de organização. A presença brasileira no contexto da imigração na Espanha. de 2008.uniceub.br/index.ca/~wellman/netlab/PUBLICATIONS/_frames. Universidade do Vale do Rio dos Sinos – Unisinos. Being results of empirical research we highlighted two dimensions of social uses of the internet (in the field of transnational migrations) for analysis: (1) the internet as the research objective's enviroment and construction tool using an empirical approach to transnational migrations and (2) the internet as an area for interaction between transnational migrants with respect to Brazilians in Spain and their social networks Referências ARDÈVOL E. “Estrangeiros”. Disponível em: <http://antalya.72la entrevista semiestructurada en línea. Jeffrey. internet.midiamigra. Skype and chat Uol) by using construction and maintenance knowledge about these social networks. Disponível em:<http:// www.pdf.. social networks. 108 f. 2008 . “Imigrantes”. e a fabricação do “outro” imaginário. It is sounded on an Internet ethnography methodological approach. et al. CAVALCANTI.publicacoesacademicas. Monografia (Trabalho de Conclusão do Curso de Jornalismo) – Centro de Ciências da Comunicação. 3.64 Daiani Ludmila Barth Denise Cogo Artigo Recebido: 09/09/2009 Aprovado: 20/11/2009 K ey W ords: Words: communication. nos sentimentos envolvidos nestes espaços associativos e no empenho no exercício da solidariedade aos migrantes transnacionais. Cambridge hanbook of personal relationships. BOASE. Daiani L. Etnografia virtualizada : la observación participante y Digital. Disponível em: http://www. 2003. The research is based on qualitative perspectives and is centered on Latin-American reception studies. Athenea Digital 92. ABSTRA CT : This article looks at internet uses by Brazilian Migrants in Spain (especially ABSTRACT CT: MSN. p.es/athenea/num3/ardevol.

Fronteiras migrantes. Cidadania sem fronteiras. Sandro. Disponível em: <http:// www. Global Networks 6. Instituto Portal teórico-metodológicas. por/ n_aab_lec_1.Acesso em: 10 de abril de 2009. Jesus. Christine. Papers Sociologia. London: Sage Publications Ltd.portalcomunicacion. De los medios a las mediaciones Gustavo Gilli.9.64 . 1996. 2008.189.125-142. Madrid: Traficantes Sueños.144. .Julho/Dezembro . nº 48. HINE. P Comunicación (InCOM) de la UAB (Universidade Autônoma de Barcelona). Os estudos de recepção na América Latina: perspectivas nstituto de la ortal de la Comunicación Comunicación. Disponível em: http://www. Ethnography. Revista F p. 2007.. São Paulo: Hucitec. Carlos. Denise.com/ . Denise. ‘V transnational contexts. 1996.2009 . Argentina: Instituto Mexicano para el Desarrollo Comunitário/ Universidad Nacional de La Plata. Mexico: MARTIN-BARBERO. Ilse. 1987. apers: revista de LOZARES.42/ojs/index. p. Guadalajara. México/ La Plata. MEZZADRA. irtual’ intimacies? Families communicating across ‘Virtual’ WILDING.73. 199-202. 2008. Ações coletivas na era da globalização. OROZCO GÓMEZ. 2009.Redes Sociais e usos da internet por migrantes brasileiros na Espanha 65 COGO.Nº 14 . Raelene.ine.php/ fronteiras/article/view/3156>. Acesso em: 09 de abril de 2009. Virtual Ethnography INSTITUTO Nacional de Estatísticas da Espanha. Disponível em: <http://200. Migrações contemporâneas como movimentos sociais: uma análise desde as mídias como instâncias de emergência da cidadania dos ronteiras – Estudos Midiáticos. 2005. 2. COGO. Nilda. La investigación en comunicación desde la perspectiva cualitativa. 1999.asp?id_llico=48. São Leopoldo. Blackwell Publishing Ltd & Global Networks Partnership (2006). v. Guillermo. O público e o privado . 219. La Teoria de Redes Sociales. Derecho de fuga: migraciones. ciudadanía y globalización.es/inebase> Acesso em: 25 set. mediaciones. 2000. n. SCHERER-WARREN. Revista Anthropos – Jesus Martín Barbero – Comunicación y culturas em América Latina. JACKS. Recepción y usos sociales de los médios. p.

orkut.com h t t p : / / w w w.orkut.orkut.com/Main#Community.aspx?cmm=40775085 http://www.blogspot.com.es/inebase http://www.orkut.com/Main#Community. c o .shtml http://www. u k / p o r t u g u e s e / m u l t i m e d i a / 2 0 0 9 / 0 5 / 090512_abreespanha_video.aspx?cmm=53795918 .aspx?uid=8975712732970420281 http://www.br/Profile.com/Main#Community.aspx?cmm=39812805 http://www.orkut.com/Main#Community.ine. b b c .66 Daiani Ludmila Barth Denise Cogo Sites consultados http://brasilcatalunya.aspx?cmm=46848406 http://www.

pretendemos fazer o mapeamento das condições tecnológicas em multimídia dos telecentros da região. a perspectiva da pesquisaparticipante. Com isso.br 67 Comunicação Comunitária e Local em Rede: lógicas.Nº 14 . das pessoas e grupos que participam de O público e o privado . em ambientes digitais midiático-comunicacionais. sistematizar a produção digital local e comunitária. inclusão digital.(*) Juciano de Sousa Lacerda é Professor e pesquisador do Departamento de Comunicação Social da UFRN. Palavras-chave: comunicação comunitária em rede. E-mail: jucianolacerda@yahoo. no Agreste da Borborema-PB. evento componente do XXXII Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação. C ontextualização e problematização Em busca de avançar na produção de conhecimento sobre práticas comunicativas. tendo em vista identificar tipos de agência cidadã ou contra-hegemônica em seus modelos e resultados. região polarizada por Campina Grande-PB. midiografia dos telecentros e entrevista em profundidade. práticas e vivências que caracterizam a condição de agentes1 produtores de comunicação e informação local e comunitária. pretendemos nesta pesquisa analisar as lógicas. mídias digitais. práticas e vivências que caracterizam a condição de agentes produtores de comunicação e informação local e comunitária. cidadania. num modelo plural e flexível de webgrafia.2009 (**) Trabalho apresentado no GP Comunicação para a Cidadania do IX Encontro dos Grupos/Núcleos de Pesquisa em Comunicação. como referencial metodológico.com. practices and experiences of sociability and populations in telecenters in Agreste of the Borborema-PB Juciano de Sousa Lacerda* Resumo: Apresentamos neste texto uma proposta de investigação das lógicas. 1 Uma das contribuições da pesquisa será a . telecentros comunitários. em ambientes digitais midiáticocomunicacionais.Julho/Dezembro . práticas e vivências de sociabilidade e cidadania em telecentros no Agreste da Borborema-PB** Communitarian and local communication in network: logics. usos e apropriações comunitárias e locais das novas tecnologias da comunicação e das mídias digitais. das pessoas e grupos que participam de projetos de inclusão digital públicos e gratuitos. Adotamos.

Em nossa visão. que provocam tanto uma aproximação entre distintos espaços culturais como a produção de distinções. Desta forma. especializações dentro desses espaços. Cada uma faz parte de um espaço de significação específico. A ambiência é um lugar que põe em relação (BATESON. TREMBLAY. a inclusão digital não pode se resumir a conectar pessoas à rede mundial de computadores. 2003). 269-270). 270). a partir das contribuições de Renato Ortiz. É nessa perspectiva. o território (pais/estado) e o lugar. que é fruto da diversidade e num acontecer repetitivo. As redes garantem a realidade empírica do global (mundo). nacional ou global. No contexto da comunicação regional e da relação local-global. em que atuam ou se estabelecem fronteiras. que não dá conta dos processos nos ambientes digitais. . com suas gramáticas e modos de organização próprios. a região de Campina Grande. como forma de avançar na polaridade emissor-receptor. 2006). segundo ele. LATOUR. no contexto das práticas políticas de inclusão digital. 1998). com o paradigma global da Sociedade da Informação (CASTELLS. 2002. espaço pessoal e espaço dos objetos técnicos (arquitetônico). Nosso primeiro movimento será sistematizar o conceito tendo como ponto de partida proposições de Bruno Latour sobre a ActorNetwork-Theory (ANT) (SEGATA. Contudo. OPPENHEIM. mas ganham uma dimensão única no local. Na perspectiva das redes. na Paraíba. 2006. ao mesmo tempo em que o global. 2002. mesmo. autor sobre qual temos nos debruçado no GrupCiber (PPGAS/UFSC). Cicilia Peruzzo. É essa dimensão única que buscamos captar em cada investigação nessas diversas localidades. 2005. 1998) distintas semiosferas culturais (LOTMAN. de fenômenos sociais agregados. até incompreensíveis se as observássemos somente em suas manifestações locais ou regionais. 1996). 2008. 2007. que só existe se visto em relação ao regional. Joinville-SC (2008) e. na contigüidade. no processo de conhecimento mútuo e de inserção em um dado mundo cultural comum. 2002). são três os tipos de solidariedade.68 Juciano de Sousa Lacerda fundamentação teórica e aplicada do conceito de agente. podemos pensar a ambiência dos telecentros como um lugar de relação entre distintas semiosferas: espaço digital. mas ali se encontram numa fronteira que as põe em O lugar é a terceira totalidade. agora. desenvolvida por Milton Santos. Milton Santos (2002) assevera que “cada vez mais as redes são globais”. onde fragmentos da rede ganham uma dimensão única e socialmente concreta. baseados num acontecer solidário. O acesso à tríade computador-telefonia-provedor de acesso não pode ser visto como única política de inclusão digital (SILVEIRA & CASSINO. na região Agreste da Borborema-PB. MATTELART. propõe o caráter relacional do local. que não exclui a surpresa (SANTOS. SCHAFF. que em nossas pesquisas empíricas temos observado o processo das redes de comunicação digital em telecentros em diversas localidades: Curitiba-PR (2007). pois há sempre o risco de colocar luz sobre a tecnologia de hardwares (equipamentos e estruturas) e softwares (programas) e deixar na sombra as condições humanas e sociais (WARSCHAUER. entre elas as redes de informação e do comércio. graças a ocorrência. p. admite que “estas [redes locais/regionais] são também indispensáveis para entender como trabalham as redes à escala do mundo” (SANTOS. comprometem as fronteiras/contratos nos territórios. 1995. a ambiência midiático-comunicacional2 dos telecentros precisa ser compreendia através das práticas locais de inclusão digital relacionadas com o panorama de políticas brasileiras e latino-americanas e. 2004. 2 projetos de inclusão digital públicos e gratuitos. manifestas em três totalidades: o mundo. necessitaria tornar-se local para se realizar (PERUZZO. p. 144). E seriam. p. por sua vez. Barcelona (Catalunha) (2006). Desta forma.

registramos diversos ambientes específicos ou categorias4 em que navegaram 136 internautas dos telecentros Aristides Vinholes. compartilham experiências e opiniões no ambiente digital. 18. 5 Identifiquei um amplo uso de ferramentas e interfaces conversacionais na ambiência digital dos telecentros de acesso público gratuito de Curitiba. O aspecto significativo é que o advento das mídias sociais.856 minutos no Vila Real.71%). 3 Abordaremos a proposta da Webgrafia na estratégia metodológica da pesquisa. uma espécie de ecologia em rede (PISCITELLI. com proeminência das plataformas de mídias sociais (SPYER. nos dias 13 e 14/10/2007. Estamos diante de um novo sistema midiático que engloba todas as formas de comunicação humana em um formato digital (PAVLIK. . E acrescenta: “Precisamos descobrir uma maneira de fazer com que as várias manifestações desse saber se transformem em comentários uma das outras. acessam informações. no final. 17. O tempo de permanência no Orkut nos três telecentros alcançou 2.07%). o que lêem. em que as pessoas se comunicam. ler e estudar na rede. como uma semiosfera de intersecção. 2005). nos dias 03. 4 Registramos 3.Julho/Dezembro . O fenômeno também era semelhante em Barcelona (Espanha). Ou seja.14% do tempo de permanência dos internautas observados na investigação.48%). O uso do editor de textos correspondeu a 97 minutos (1.553 minutos (27. em termos de permanência efetiva na espacialidade digital. Na webgrafia3 realizada durante o doutorado nos telecentros de CuritibaPR. Telêmaco Borba (Faróis do Saber) e Vila Real (Paranavegar). entretenimento e TV com 1.63%). Com o processo de convergência midiática. e 760 minutos no Telêmaco Borba. Os sites de buscas e pesquisas escolares chegaram a 456 minutos (8. 2003). 2005) com forte caráter midiáticocomunicacional. uma iluminando o que outra obscurece” (GEERTZ.409 minutos (42. Identificamos. softwares gestados para internet. 2000). correspondentes a 15 internautas (até 1h por cada um). correspondente a 57 internautas (até 1h por pessoa). jogos on line. 2008) em termos de por onde navegam. Alejandro Piscitelli (2005) descreve características desse uso em termos de escrever.Comunicação Comunitária e Local em Rede: lógicas. naquilo que a distingue da mídia tradicional: a possibilidade de o internauta expressar-se. etc. 19 e 20/10/ 2007. naquele contexto. Paraná.Nº 14 . algo mais que saber local”. p. com 54. Esse tipo de interação não acontece dentro das condições de produção tradicionais dos players da mídia impressa e eletrônica.064 minutos de navegação no Aristides Vinholes. o que fazem as pessoas e grupos em seu tempo cotidiano dedicado à internet em telecentros de acesso público gratuito? A compreensão dessas diversas singularidades das práticas locais nos possibilitará ir mais além. meebo.2009 relação: o telecentro como ambiência midiático-comunicacional. 2001. da maior interatividade e o estabelecimento de uma intensa conversação digital. referentes a 64 internautas (até 30 min por pessoa). na espacialidade digital dos três telecentros. chat. na mídia digital que o hospeda. era voltado para a conversação digital via orkut. seguido de sites com temas sobre esportes. 1. a internet se tornou uma incubadora de mídias (LEMOS. práticas e vivências de sociabilidade e cidadania em telecentros no Agreste da Borborema-PB 69 E no local. que as condições tecnológicas dos telecentros não são propícias para se produzir conteúdos que ultrapassem as formas conversacionais. Abordamos os internautas nos telecentros investigados em Curitiba (LACERDA. 2007). como afirma Clifford Geertz: “Necessitamos. msn. o que publicam e como se comunicam com outras pessoas em rede. Também são baixos os índices de leitura de conteúdos produzidos por instituições midiáticas tradicionais reconhecidas como a “velha mídia” (DIZARD. seja segundo as normas vigentes ou em oposição a elas. Definimos como caráter midiático da internet. por mais que os gestores afirmem o contrário.5 atuam diretamente sobre a lógica sobre O público e o privado . 353). 11 e 26/10 e 01/11/2007. nos dias 04.

na fala dos entrevistados. estavam acostumados. demonstraram. circulação e troca de produtos culturais ou informativos de interesse local ou comunitário? Em segundo lugar. Lagoa Seca. mas produz lógicas de sociabilidade. Montadas. 6 É nessa perspectiva que problematizamos a experiência da região Agreste da Borborema-PB. Fagundes. Massaranduba.6 em relação às experiências locais anteriormente investigadas. 2006. como possibilidade de identificar. É importante destacar que o Brasil representou na América Latina. 2006) em plataformas de mídias sociais (SPYER. distintos das iniciativas de parceria público-privadas ou somente privadas. Campina Grande. PASQUALI. Ou seja. 2004: 53). correio eletrônico) em condições concretas de produção de informação (multimídia. em grande parte não midiatizadas pelos grandes conglomerados produtores de conteúdo. Fonte: SOUSA. A dupla postura de fascínio e de crítica às tecnologias e sua relação com as organizações de mídia. Luiz Gonzaga de. Remígio e Solânea. em grande parte contrahegemônicas. pois não só reproduz. Os internautas demonstraram a capacidade de reconhecer os problemas e possibilidades da digitalização. podendo conduzir a uma perspectiva meramente consumista da informação (MENOU et al. em que os interesses comerciais entram em conflito com os objetivos sociais e cuja contribuição não passa da conectividade e do conhecimento básico de informática. Pocinhos. interação e comunicação local-cidadã. é mister buscar desvendar/desvelar (HEIDEGGER. suas tendências. em que condições o acesso e o uso de tecnologias de produção multimídia em telecentros de acesso público gratuito tornam possível a ampliação da conversação digital em termos de produção. MSN. de que modos essa produção informativa/expressiva pode ser caracterizada como um tipo de agência cidadã ou contra-hegemônica? Quais as semelhanças e diferenças . A microrregião é composta por 12 municípios: Areial. atencipando. nas cidades em que há telecentros. produtores e produtos de interfaces digitais midiático-comunicacionais. Meebo. Edición electrónica gratuita. a defesa de programas nacionais de telecentros de caráter governamental. Portanto. em aúdio ou audiovisual) cidadã ou contrahegemônica (HALL. a fragilidade de se pensar um ethos midiático centrado na lógica do poder econômico. 1984. Caracterização das terras agrícolas paraibanas. In: ____. visual. textual. Esperança. a ampliação da conversação digital em que os participantes do diálogo interativo e produtivo se reconheçam como agentes do processo (para além das trocas textuais e icônicas em ambientes como Orkut. eumed. 2005. 2007) da Internet. Texto completo em www. Queimadas. em telecentros cuja tecnologia não possibilita outras formas de produção de conteúdo. Análise de desempenho das culturas agrícolas da Paraíba . quando possível. hipertextual. em empresas de mídia. a partir de experiências dos governos municipais e estaduais. Puxinanã. por estabelecer outras lógicas de interação. TREMBLAY. 2001) os fenômenos comunicacionais e midiáticos. A conversação digital é um tipo de agência significativa. 2005) de interesse/enfoque local ou comunitário (PERUZZO.70 Juciano de Sousa Lacerda a qual os profissionais. Identificamos a conversação digital como um tipo de prática significativa em rede que problematiza as lógicas. chats.net/libros/ 2006a/lgs.

Conferir seção “Unidades” no site do projeto Casa Brasil: [http://www. circulação e troca de produtos culturais ou informativos de interesse local ou comunitário. O caminho se faz ao andar. por fim.2009 Conferir o Mapa das Redes de Pontos de Cultura no endereço eletrônico [http:// mapasdarede. integrados a projetos culturais locais de maior amplitude. oficialmente reconhecidas. Fagundes (2). vamos avaliar e comparar o modo como as diferenças e semelhanças entre as ambiências de telecentros sediadas em Campina Grande e nos municípios satélites operam significativamente sobre as vivências.7 O projeto interministerial Casa Brasil.Comunicação Comunitária e Local em Rede: lógicas. não era significativa a presença de telecentros voltados para a produção de conteúdos.Nº 14 . mas como diz o poeta sevilhanoO público e o privado . Areial (1). que ainda eram uma promessa. Remígio (1) e Solânea (3).br/]. são 824 Pontos com apoio de verbas do Ministério da Cultura em todo o Brasil. Durante a pesquisa empírica do doutorado. Outros 57 pontos de inclusão digital (PIDs) são atendidos por diversos programas públicos e privados. Acesso em 30/ 03/2009. com foco na comunidade estudantil. Para isso. Acesso em 30/ 03/2009. modos de uso e apropriação das pessoas que usufruem dos serviços e tecnologias ofertados. práticas e vivências de sociabilidade e cidadania em telecentros no Agreste da Borborema-PB 71 entre a ambiência dos telecentros de acesso público gratuitos em Campina Grande. Os outros 16 espaços são abertos para a comunidade em tempo integral e estão distribuídos nos municípios de Campina Grande (9 deles).org. 8 . em comparação com as demais localidades da microrregião atendidas por projetos de inclusão digital? E. tendo em vista identificar tipos de agência cidadã ou contra-hegemônica em seus modelos e resultados.ipso. 7 Percurso da investigação Não há um caminho já traçado entre um acontecimento ou fato concreto – que nos provoca – e sua transformação em objeto estruturado de uma pesquisa científica.br/ mapa/]. atualmente. sendo 41 deles sediados em escolas públicas de Campina Grande. Hoje.Julho/Dezembro . Por fim. coordenado pelo Ministério da Ciência e Tecnologia tem. cidade de referência do Agreste da Borborema-PB. 73 unidades em funcionamento no país. segundo dados do Instituto de Pesquisas e Projetos Sociais e Tecnológicos.8 Na região Agreste da Borborema-PB há dois Pontos de Cultura e duas Casa Brasil. Pretendemos na pesquisa caracterizar os produtos e modos de produção informativa/expressiva realizados nos telecentros dos Pontos de Cultura e Casa Brasil do Agreste da Borborema-PB. todos em Campina Grande. a exemplo dos Pontos de Cultura ou do Casa Brasil. de que modo essas diferenças e semelhanças operam significativamente sobre os modos de uso e apropriação das pessoas que usufruem dos serviços destes telecentros? As perguntas se justificam pelas mutações do fenômeno dos telecentros nos últimos tempos.casabrasil. vamos mapear e descrever as lógicas das condições de acesso e uso de tecnologias multimídia em telecentros de acesso público gratuito para produção. gov.

experimentações e procedimentos que vão dando feição ao objeto do conhecimento. atendendo aos objetivos da pesquisa. e nada mais. definimos outros 16 telecentros do Agreste da Borborema-PB. UFPB e UEPB. são teus rastros o caminho.esenviseu. Como propõe Jiani Bonin. 2008.org. é demarcado pelos telecentros de uso comunitário que possuem estrutura tecnológica para produção de informação local e comunitária.Rede Viva de Culturas Populares Empreendedoras (www. em todos os seus níveis. faz-se caminho ao andar. para atender ao objetivo 3 da pesquisa: avaliar e comparar o modo como as “Caminante. a metodologia pode ser pensada como dimensão que norteia. em distintos suportes multimídia.” [ h t t p : / / ocanto. no hay camino. definimos como primeira parte do recorte empírico da pesquisa quatro telecentros de Campina Grande-PB: a) o Ponto de Cultura Espaço CUCA – Centro Universitário de Cultura e Arte. ricamente estruturada (BACHELARD. que vão se inscrevendo em lógicas atuantes na captura e fabricação pensada deste objeto (BONIN. encaminha os processos de construção da pesquisa. y nada más. 2006: 125).br/redeviva). caminante. caminhante. son tus huellas el camino. apontando o recorte empírico da investigação. Portanto. cuja gestão é da Prefeitura Municipal de Campina Grande. Ou poderíamos atribuir metáforas para representar a dimensão metodológica da pesquisa. cuja gestão é da UEPB.net/ d e s t a q u e / machado. como instância corporificada em fazeres. não há caminho. T r a d u ç ã o : “Caminhante. orienta. o caminho feito pela pesquisa na transformação de um fenômeno imediato em uma experiência construída. coordenado pela Fundação Parque Tecnológico da Paraíba. em parceria com a UFCG. os aspectos que situam o comunitário e o local como produção informativa. 9 . como “dimensão norteadora”.htm]. “bússola”. b) o Ponto de Redes Culturas Populares Empreendedoras .9 Esses rastros são o que poderíamos interpretar em Bachelard como o percurso metodológico. “mapa”. Desta forma. p. passaremos a detalhar o nosso percurso.72 Juciano de Sousa Lacerda madrilenho António Machado: “são teus rastros o caminho”. operações. nove deles em Campina Grande e 7 em cidades da região. o tipo de postura investigativa e as estratégias e critérios de coleta e organização dos dados. O recorte empírico dos telecentros do Agreste da Borborema O nosso recorte principal. que representam o artesanato articulado em torno da fabricação de um objeto de conhecimento. c) a Casa Brasil Campina Grande. se hace camino al andar” . d) e a Casa Brasil UEPB. Completando o recorte empírico. 121).paqtc.

MDIC Os outro sete telecentros. ficam fora do recorte desta investigação. 3) Telec. Programa/ projeto.Prefeitura Municipal de Fagundes. Massaranduba. Programa/projeto GESAC.Programa/projeto. 3 – TIN Solânea. Programa/projeto Ação Digital Nordeste – RITS. 6) Estação Digital Campina Grande. O público e o privado . pretendemos fazer a distinção entre informação comunitária e local. Fagundes (2) 1 .Julho/Dezembro . Programa/projeto Telecentros Comunitários Banco do Brasil. Programa/projeto TIN – MDIC.Nº 14 . Programa/projeto Ação Digital Nordeste – RITS. Programa/projeto GESAC.10 contudo no Mapa da Inclusão Digital do IBICT (http://inclusao. 7) Casa Brasil Orgulho da Gente (não consta no site do Casa Brasil). 2 – Telecentro Comunitário de Fagundes. 9) TIN Campina Grande/Amde. não farão parte da investigação neste momento. por sua representatividade. Solânea (3) -1 – Central das Associações Comunitárias de Solânea. Muitos deles abrem no fim de semana para o uso comunitário. Queimadas e Esperança. Remígio (1) TIN Remígio. TIN – MDIC.Centro de Serviços Sócio-Educativos e Técnico-científicos para o desenvolvimento Comunitário. mas. em Campina Grande outros 41 pontos de inclusão digital (PIDs) localizados em escolas públicas. Montadas. Programa/projeto TIN . Diante disso. mas seu principal foco é atender às demandas de ensino-aprendizagem das escolas. Informação comunitária e local: cidadania e disputas hegemônicas 10 Neste segundo movimento de construção do percurso metodológico. 8) TIN Campina Grande. Programa/projeto TIN – MDIC. Os nove telecentros de Campina Grande são: 1) 31º Batalhão de Infantaria Motorizado.br/) não há registros da existência de telecentros nestas cidades. Peruzzo (2006). portanto. nos interessam para um próximo projeto de investigação. práticas e vivências de sociabilidade e cidadania em telecentros no Agreste da Borborema-PB 73 diferenças e semelhanças entre eses telecentros operam significativamente sobre os modos de uso e apropriação das pessoas que usufruem dos serviços e tecnologias ofertados. Pocinhos. Há. .Comunicação Comunitária e Local em Rede: lógicas. 4) Prefeitura Municipal de Campina Grande. Puxinanã. TIN – MDIC. 2) 5ª Delegacia do Serviço Militar da 23ª CSM. 2 . nos fins de semana. Programa/projeto GESAC. Programa/projeto GESAC. 5) Fundação Sementes da Vida. Programa/projeto: GESAC. Fundação Sistêmica-Somos Um. a partir das contribuições no campo da comunicação de Cicilia K. Programa/projeto Estações Digitais Fundação Banco do Brasil. distribuídos nos demais municípios da região Agreste da Borborema-PB são: Areial (1) TIN Areial . ainda.2009 São eles Lagoa Seca. focado justamente nessa característica específica de contexto de uso das tecnologias da informação e da comunicação: atender às escolas como foco principal para o ensinoaprendizagem e à comunidade.ibict. Da região Agreste da Borborema fazem parte outros 7 municípios.

a “luta cultural” com outras formas não-hegemônicas. ou seja. tipos de públicos. 143). em termos da compreensão do local. “Ela pressupõe a existência de elos mais profundos e não meros aglomerados humanos” (PERUZZO. Muitas dessas práticas são contra-hegemônicas. “las rupturas culturales de hoy pueden recuperarse para apoyar el sistema de valores y significados que domine mañana” (1984). diante das condições locais de produção de informação e as relações de poder que se estabelecem. como “um espaço determinado. . Há. Contudo. Tomamos aqui duas perspectivas como ponto de partida para essa distinção. 2006. p. p. podendo representar forças emergentes de produção de informação. 2006. um lugar específico de uma região. Portanto. p. da mesma forma como é problemático estabelecer fronteiras claras entre as espacialidades comunitárias. recuperação” (HALL. que serão melhor problematizadas durante o decorrer da pesquisa. 144). enquanto permanece a disputa. objetivos. segundo Peruzzo. interesses. em seus modos de gestão. Esse será um avanço em termos das investigações anteriores que realizamos. tergiversação. 2007). portanto. nas palavras de Stuart Hall. 2006. cujo enfrentamento se realiza de diversas formas: “incorporação. PAIVA. aptidões. locais e regionais (PERUZZO...74 Juciano de Sousa Lacerda como recorte do tipo de produção informacional que analisaremos nos telecentros supracitados do Agreste da Borborema-PB. Já a comunidade não pode ser confundida com um território (bairro. 145). A primeira. até mesmo a intersecção entre essas características. 2006. pois não havíamos trabalhado uma definição metodológica clara sobre como classificar os telecentros em locais ou comunitários. social e cultural (HALL. resistência. cidade etc) ou com segmentos e agrupamentos da sociedade (MARQUES DE MELO. pretendemos considerar os telecentros selecionados para a pesquisa em seu caráter comunitário ou local. não bastaria falar de coisas do lugar para um meio de comunicação ser considerado comunitário. uma tendência de a comunicação midiática local manter-se dentro da “ordem cultural dominante”. uma relação de consonância com a estruturas hegemônicas vigentes no mundo político. 2006. é preciso laços fortes entre os participantes em torno de um coletivo capaz de fazer a superação das amarras do individualismo. 1980). A ordem dominante ou hegemônica procura então manter seu sistema de valores e significados como válidos. 1984).) muito embora as demarcações territoriais não lhe sejam determinantes” (PERUZZO. No contexto acima apresentado. É o espaço que lhe é familiar (. negociação. no qual a pessoa se sente inserida e partilha sentidos. PERUZZO. O primeiro movimento é a impossibilidade de delimitar fronteiras totalmente demarcadas entre práticas midiáticas locais e comunitárias. uma vez que é impossível um limite exato entre elas.

portanto é de experimentação criteriosa na perspectiva da observação direta participante. práticas e vivências de sociabilidade e cidadania. pois pode se transformar numa receita e perder seu caráter de experimentação (BONIN. de flexibilidade. a necessidade de movimentos táticos no sentido de qualificar ainda mais os instrumentos de pesquisa em função do cotidiano concreto das pessoas que atuam nos telecentros selecionados. na qual “o investigador social se implica directa y activamente en la vida cotidiana del grupo” (GARCÍA FERRANDO. e depois. é importante ter em claro as questões que se quer investigar.Nº 14 . Desta forma.Comunicação Comunitária e Local em Rede: lógicas. 91). sistematização da investigação. Contudo. mas o conjunto de procedimentos não precisa estar totalmente definido e fechado de antemão.Julho/Dezembro . capaz de produzir novos conhecimentos no campo.2009 . 1975). que gera uma aparência de segurança. 2008). 1996). SANMARTÍN. Numa observação participante. primeiramente de modo exploratório em Barcelona (Catalunha). estratégias e critérios de coleta e organização dos dados O próximo movimento é explicitar o conjunto plurimetodológico de procedimentos que operacionalizamos para o registro. que na perspectiva qualitativa sempre pode ser aperfeiçoado. 1995. Qualidade necessita de disciplina e. as estratégias metodológicas aqui propostas são nosso ponto de partida. organização. Nossa postura. nossa implicação com o local e risco de tomarmos uma postura O público e o privado . SANMARTÍN. “No hay reglas de correspondencia que liguen teoría y objeto de la observación. de modo sistemático. em 2007. 132). práticas e vivências de sociabilidade e cidadania em telecentros no Agreste da Borborema-PB 75 Postura investigativa. Na observação direta e participante. mas compromete os resultados (GARCÍA FERRANDO. no percurso. Temos consciência de que no cotidiano dos usos e apropriações dos telecentros configuram-se lógicas. em Curitiba-PR (2007). uma construção metodológica nunca está dada ou é definitiva. em que tudo é válido. cabendo. 1996. 1996. Os procedimentos que vamos explicitar foram construídos e aplicados durante a pesquisa de doutorado. pois corre-se o risco de uma aplicação mecânica em campo. p. E para poder identificá-las e interpretá-las é preciso “estar ao mesmo tempo em posição exterior para escutar e ser um participante das conversações naturais onde emergem as significações das rotinas dos participantes” (COULON. Entendemos que a perspectiva qualitativa na observação direta e participante não é o lugar da informalidade. No contexto da investigação das práticas comunicacionais e midiáticas nos telecentros no Agreste da Borborema. 121). pois importaria somente a “qualidade”. nossa postura é de que a metodologia da pesquisa participante é um artesanato intelectual (MILLS. p. SANMARTÍN. também. p. sino maneras enormemente específicas de conducirse em la interacción social em cuyo seno se va desarrollar la observación participante” (GARCÍA FERRANDO.

como o objeto comunicacional nos interpela em seus vários nuances. 2006: 286). Interessa questionarmos sobre. 2003: 138). precisam de sujeitos que se comuniquem. mas deve se constituir como imperativo. para que tenham um valor de cientificidade. somos vistos. 2005: 146). Esse movimento operativo os torna co-produtores do conhecimento sobre sua própria comunicação e. Diante disso. com bom critério podem denominar-se ‘estilos’” (GITLIN. temos papéis distintos nas atividades cotidianas realizadas no telecentro. como pesquisadores. principalmente quando o comunitário e o local vivenciam as lógicas das tecnologias digitais de comunicação. de que não somos “nativos” do grupo.11 11 “Os processos de comunicação não acontecem por si só. quando se consolidam e se tornam habituais. Na pesquisa . que denominamos como webgrafia. GASKELL & ALLUM. 2003: 18). é preciso ter consciência crítica de si mesmo.76 Juciano de Sousa Lacerda militante é muito maior do que em outros métodos. classificamos as partes. Esse pluralismo não se confunde com dispersão ou efeito de cientificidade. “Com o fim de controlar o incontrolável. midiografia do tempo/espaço dos telecentros e entrevista em profundidade com enfoque na história das práticas e vivências digitais do sujeitos da pesquisa. GASKELL & ALLUM. mais do que reforçar o imaginário dualista entre perspectiva qualitativa (interpretativa) e quantitativa. Do ponto de vista da sistematização dos dados. Essas atividades de definir. “definimos nossos favoritos. 2003: 24). A natureza dos processos comunicacionais e midiáticos requer formulações plurimetodológicas no contato com a realidade empírica numa perspectiva investigativa. E para reduzir sua enormidade a uma escala humana de convivência cômoda com tanta informação. “Cada pesquisa empírica demanda a estruturação de instrumentos técnicos de observação. cultivamos estratégias de navegação que. Webgrafia da produção comunitária e local Para desenvolver a Webgrafia como procedimento metodológico. experimentação. 2005: 146). “Uma cobertura adequada dos acontecimentos sociais exige muito mais métodos e dados: um pluralismo metodológico se origina como uma necessidade metodológica” (BAUER. no jogo da observação. a partir de suas competências. contribuem ativamente para os estudos ou formulações sobre a Comunicação enquanto lugar de produção de saberes” (LACERDA. nos centramos em determinados segmentos e fazemos o possível para ignorar o restante” (GITLIN. O conjunto plurimetodológico de procedimentos está articulado em três eixos relacionados entre si. partimos da metáfora elaborada por Todd Gitlin (2005) da “correnteza” ou do “dilúvio” midiático que inunda de informações nosso cotidiano. Mas. registro. é preciso perceber que não há quantificação sem qualificação ou análise estatística sem interpretação (BAUER. dessa forma. do ponto de vista metodológico. teste e sistematização de informações” (MALDONADO. desenvolvam uma capacidade de reflexividade e relatabilidade sobre suas práticas. é preciso que estes sujeitos. ainda. classificar ou nos focar em determinados tipos de informação se constituem como “estratégias de navegação”.

possibilidades e limites técnicos encontrados na espacialidade digital (ciberespaço) dos telecentros investigados. Procuraremos identificar em um questionário pistas sobre hábitos. a qualidade das acomodações. segundo os autores. produziremos imagens com câmera digital. Falamos em pixels. certas impressões ou insights se produzem ou são provocados somente naquele contexto.Comunicação Comunitária e Local em Rede: lógicas. dos seus ambientes digitais favoritos.13 C. inclusive para registrar “pensamentos marginais” advindos de pensamentos da vida diária. de consumidor a produtor de informações. isso pode se converter num problema.Julho/Dezembro . de conversar que ouvimos na rua.2009 “O filme e a prata não são mais os elementos. Como primeiro procedimento. para chegar aos sentidos que elaboram sobres tais práticas. a partir de anotações em dois tipos de diário de campo: textual e digital. nos limitamos à descrição das estratégias de navegação dos internautas. E a sensação de poder descartar as não . Wright Mills (1975) indica a produção de um diário como parte do artesanato intelectual. em intervalos de uma hora. filtros. por parte dos agentes. mais importante ainda. Talvez sua principal diferença em relação à fotografia convencional seja a possibilidade de se poder ver as fotografias “no lugar” e. até mesmo sonhos. número. A partir da construção de um novo instrumento que possa dar conta do registro sistemático das práticas e astúcias dos agentes na produção de informações comunitárias ou locais e de bens culturais. astúcias. Ao mesmo tempo. minuto a minuto. práticas e vivências de sociabilidade e cidadania em telecentros no Agreste da Borborema-PB 77 de doutorado (2004-2008). Nesta nova investigação. do sentido de cidadania e de O público e o privado . estrutura tecnológica. 2004). ao demorar em avaliando as “melhores” as fotos. como ambiência midiática digital. pela descrição detalhada. em função da qualidade de softwares.Nº 14 . por fim. vivências e percepções dos internautas sobre sua agência produtiva face às ofertas e condições tecnológicas de produção dos telecentros. os ambientes por onde navegavam os internautas. acessos. trabalharemos principalmente o mapeamento das estratégias de produção. 2004: 278). sem o registro perdem-se como possibilidade de levar a um raciocínio estruturado. práticas. interdições. tomando-as como um caderno de campo digital (ACHUTTI & HASSEN. Para narrar essas comparações e estabelecer um diálogo com os dados escritos. compreendendo os períodos de sua experiência com a mídia tradicional e as mídias digitais. a ambiência midiáticocomunicacional dos espaços dos telecentros. Esse instrumento foi aliado a um questionário breve sobre as preferências de navegação e sobre as atividades que realizavam no telecentro. pelo risco de perder um tempo precioso dos sujeitos da pesquisa ou para a observação. No momento da observação mesma nos telecentros. O objetivo é captar nas significações produzidas nas entrevistas se há o reconhecimento. tipos e configurações de computadores e equipamentos midiáticos acessíveis à população. durante a fase das entrevistas em profundidade. realizaremos o registro e a descrição do espaço informacional arquitetônico de cada telecentro.12 Compararemos com os registros os tipos de ambiente. naquele momento (timing). mas a memória como suporte da identidade individual e coletiva). 12 Midiografia do espaço/tempo dos telecentros Com o que denominamos de midiografia do espaço/tempo dos telecentros temos como meta caracterizar. 13 Entrevistas em Profundidade: histórias das práticas e vivências digitais Para fazer relações necessárias entre práticas. poder selecioná-las “no lugar” (ACHUTTI & HASSEN. bits e memória (não somente cartões de memória. a partir de um mapa em que registrávamos. optamos no enfoque da entrevista em profundidade pela linha da história das práticas e vivências digitais. As câmeras fotográficas digitais garantiram consideráveis mudanças no trabalho de campo. plugins. rotinas. fluxos. e.

We adopt. cidades periféricas do Agreste da Borborema). as methodological referential. a articulação da entrevista em profundidade com o diário de campo textual é fundamental também como espaço de pensarse do pesquisador. “confiante e cético em relação à sua experiência” (1975: 213). 15 14 Mills adverte que o pesquisador tem que ser. in a plural and flexible model of webgraphy. a partir dos telecentros. digital inclusion. mas de médio prazo. retomadas. Que envolve processos de exploração.78 Juciano de Sousa Lacerda classificadas. distante do calor da hora. Para fortalecer o aspecto participante. paralelo a outros registros etnográficos de imersão na vida da população investigada (GALINDO CÁCERES. in the Agreste of the Borborema-PB. em vários momentos. practical and ABSTRACT CT: K ey W ords: Words: communitarian communication network. teria um valor para a pesquisa ou como registro histórico. em campo. ao tomar nota sobre si. Não se trata de uma proposta metodológica de história de vida como concebida strictu sensu e consolidada na etnografia. Principais contríbuições da pesquisa Com os resultados da pesquisa. Mesmo se tratando de uma entrevista em profundidade. a sua “efetivação exige um considerável esforço do pesquisado. in mediatic-communications digital environments. num processo temporal longo e intenso. de capacitação em informática básica) e do lugar onde se localizam (Campina Grande. de forma que as narrativas possam contemplar os diferentes matizes. e essa ambigüidade o mantém vigilante sobre suas próprias práticas de pesquisa de campo. 2000. A partir do grupo de pessoas que participarem mais ativamente da fase da webgrafia e midiografia. of the people and groups that participate of public and gratuitous projects of digital inclusion. de acesso a conteúdos e troca de mensagens. Com isso. Artigo Recebido: 04/08/2009 Aprovado: 10/10/2009 ação contra-hegemônica em suas práticas de produção comunicativa e expressão cultural na Internet. relacionadas às políticas públicas de inclusão digital. citizenship. uma vez que se trata uma pesquisa participante. pretendemos fortalecer: a) no campo da comunicação a teorização sobre as plataformas digitais de mídias sociais com enfoque local e comunitário. com idas e vindas. descrição e análise de fundo das histórias de vida. 6). mediagraphyof the telecenters and interview in depth. no contexto do paradigma da Sociedade da Informação. em função das diferentes modalidades de telecentros (de produção de conteúdo multimídia. a inspiração metodológica de “confiança ambígua”15 nos faz ver o desafio de construir uma relação de intensidade com os entrevistados num período de tempo relativamente curto. the perspective of the research-participant. we intend to . digital medias. pode fazer perder imagens que. telecenters communitarian experiences that characterize the condition of producing agents of communication and communitarian local information and. enquanto aplica os procedimentos de pesquisa. b) no âmbito da comunicação regional. region polarized for Campina Grande City. Por fim.14 mas como método inspirador e auto-reflexivo para se pensar e apropriar-se do processo de entrevista em profundidade. With this. Neste aspecto. esperamos contribuir para o pensamento desenvolvido no campo da comunicação regional em torno do uso das mídias digitais/sociais em práticas de cidadania e da democratização da informação e da produção cultural. ampliar a discussão das políticas públicas de comunicação. definiremos um grupo significativo que represente as especificidades encontradas em campo. p. ABSTRA CT : We present in this text a proposal of inquiry of the logics. a teorização sobre o local e o comunitário na perspectiva das novas tecnologias da comunicação e mídias digitais. portanto deve ser efetuada quando as condições de amadurecimento da inter-relação pesquisador-pesquisado alcancem um nível bom de produtividade e criação” (MALDONADO. ao mesmo tempo. 1998: 371-375).

Gustavo L. 2006. Tecnologias 2004.. p. Manuel. Rio de Janeiro: Zahar. jan. GASKELL. A nova mídia : a comunicação de massa na era da informação. Frederico Antonio Almeida de. 2./jun. Técnicas de la investigación O público e o privado .. in view of identifying to types of agency against-hegemonic citizen or in its models and results.Comunicação Comunitária e Local em Rede: lógicas. p. 2008. epistemologia. GALINDO CÁCERES. ano 10. 2004. Vozes. Petrópolis: 1995 COULON. In: Horizontes Antropológicos Antropológicos. Pesquisa qualitativa com te Vozes. Lisboa: Quimera. systemize the digital and communitarian local production. Luiz Eduardo Robinson. Caderno de campo digital – Antropologia em novas mídias. Maria de Nazareth Agra. In: GALINDO CÁCERES. n. Explorações sobre práticas metodológicas na pesquisa AMECOS AMECOS. Etnometodologia COSTA. Martin W. n. BAUER. Petrópolis: texto. 2000. Nicholas C. BONIN. p. Wilson.2009 . Porto Alegre. Pasos hacia uma ecologia de la mente Aires: Lohlé Lúmen. Etnografía: El oficio de la mirada y del sentido. José Jorge. de. 2003. quantidade e interesses do conhecimento.). Gaston..Julho/Dezembro . Revista F dezembro de 2008. Qualidade. set. ed. Lisboa: Edições 70. ecnologias de Informação Comunicação. Jesús (org. Cultura e T Informação. xto. SP: Nupec/Unitau. 121-127. Grande-PB como pólo tecnológico.csonlineunitau. BACHELARD. HASSEN. OLIVEIRA. A epistemologia mente. Porto Alegre. George. A Internet e a sociedade em rede. ALLUM. 1998. FAMECOS em comunicação. GASKELL. Martin W. CARDOSO./dez. práticas e vivências de sociabilidade e cidadania em telecentros no Agreste da Borborema-PB 79 make the mapping of the technological conditions in multimedia of the telecenters of the region. Antonio Roberto Faustino da. Acervo On-Line de Mídia Regional Taubaté. Gregory.br/midiaregional/] DIZARD. Mídia e desenvolvimento regional: a constituição discursiva de Campina Regional. In: OLIVEIRA. Alain. 273-289. In: BAUER. Jiani Adriana. Jesús. 10. BARREIROS. Buenos BATESON. Referências ACHUTTI. Etnometodologia. José Paquete.Nº 14 . quadrimestral. 221-244.com. George. nº 37. CASTELLS. Disponível em [http:// www. imagem e som som. 21.

En: Culture. GEERTZ.ar/index. DF: Pearson/Addison Wesley Longman. Disponível no site Nombre F [http://www. 2005. Estudios Culturales: Dos Paradigmas. Ricardo. Ralph (ed. 347-383. SANMARTÍN. 2001. p. IBÁÑEZ. 1996. Barcelona: Paidós. 2008. Disponível no Causas y azares also. 1998. LACERDA. O saber local GITLIN. also.com. GARCÍA FERRANDO. In: _____. . 9-32. Ambiências comunicacionais e vivências digitais. Barcelona: Editores del Serbal. Martin. Barcelona. lenguaje. México. Madrid: Alianza Editorial. Enfermos de información. Programa de Pós-graduação em midiáticas digitais Ciências da Comunicação São Leopoldo: UNISINOS. cultura y comunicación comunicación. Estilos de navegación e implicaciones políticas. Historia popular y teoría socialista. p. media y lenguaje London. In: HEIDEGGER.php?pag=70] HALL.php?pag=71] HALL. Martin.php?pag=93] HEIDEGGER. El análisis de la realidad social: métodos y técnicas de investigación investigación. p.). Notas sobre la desconstrucción de «lo popular» Publicado en SAMUEL. www. 4ª ed. 237 p. Nº 1. 2003. Petrópolis: Vozes. Apuntes sobre Estudios Culturales Falso. Juciano de Sousa. Todd. [http:// site Nombre F Falso.com.ar/index. 1984. Jesús. Manuel. Redes digitais de solidariedade social Dissertação de Mestrado. 2001.ar/index. Programa de Pós-graduação em Ciências da Comunicação São Leopoldo: UNISINOS. Codificar y Decodificar. artículos. Disponível no site: Nombre F Estudios Culturales [http://www. 115-146.com.). In: GARCÍA FERRANDO. 145-212. Manuel. O saber local: fatos e leis em uma perspectiva comparativa.80 Juciano de Sousa Lacerda en sociedad. p. Tese de Doutorado. In: GITLIN. La pregunta por la técnica. 129-139. Traducción de Mirko Lauer. HALL. 1994. Stuart. Todd. ALVIRA. Juciano de Sousa. 291 p. LACERDA. La observación cientifica y la obtención de datos sociologicos. Hutchinson.nombrefalso. Apuntes sobre Falso. Traducción: Silvia Delfino. Francisco (orgs. Stuart. Publicado en la Revista azares. Clifford.nombrefalso. Apuntes sobre Estudios Culturales. Conferencias y artículos social.nombrefalso. 1980. 249-356. Stuart. Pág. p. local. Crítica: also.

London: technology.Nº 14 . 197 p. Alberto Efendy. In: MILLS. trilhas e saberes. Michel J.comp. DELGADILLO POEPSEL. p. Robert. C. La semiosfera I I. In: LOTMAN.2009 . A imaginação sociológica.uk/sociology/papers/Latour-Recalling-ANT. 2007. Para reinterpretar a comunicação comunitária In: PAIVA. Wright. 7. José. 11-23. Anthropological Theory 2007 Sage Publications. p. Karin. IN: ____. São Paulo: MATTELART. em [http://www. 1975. Madrid: Ediciones Cátedra.. Actor-network theory and anthropology after science. André. MENOU. p. Trilhas e Metodologias de P Pesquisa Processos. Wright. Disponível em: <http://www. 2003. 1.net/index. 2006. MILLS.com/cgi/content/ abstract/7/4/471] PAIVA. The Journal of Community Informatics Informatics. Raquel (org). informação. Do artesanato intelectual. 2007. Práxis teórico/metodológica na pesquisa em comunicação: fundamentos. STOLL. Iuri M. 21-42.ac. 2007. Porto In: LEMOS. Iuri M. MARQUES DE MELO. Acesso em 10 de novembro de 2007. São Paulo: Paulus. cidadania. E et al.lancs. Klaus. Rio de Janeiro: Zahar. Lancaster University Sociology University. Disponível em [http://ant.ci-journal. In: MALDONADO. vol. ‘On Recalling ANT‘. O público e o privado . Latin American Community Telecenters: “It’s a long way to TICperary”. ed. Paulo. esquisa em Comunicação : Olhares. 2004. p.sagepub. A. Raquel. História da sociedade da informação Loyola. 2006. 1998 disponível Sociology. Acerca de la semiosfera. 1.pdf] LEMOS. práticas e vivências de sociabilidade e cidadania em telecentros no Agreste da Borborema-PB 81 LATOUR.php/ciej/article/view/191/ 146>. Olhares sobre a cibercultura Alegre: Sulina. 133-148. OPPENHEIM. LOTMAN. Rio de Janeiro: Mauad X. C. comunidade. published by the Department of . 211-243. A.271-294. Porto Alegre: Sulina. p. 39-57. O retorno da comunidade p. and society. CUNHA. MALDONADO. cibercultura. p. Teoria do Jornalismo 125-144. 471. Bruno. André. Jornalismo comunitário: o fortalecimento da Jornalismo. 2002.Comunicação Comunitária e Local em Rede: lógicas. 1996. Cibercultura: alguns pontos para compreender a nossa época. Lancaster LA1 4YN.Julho/Dezembro .

la imprenta del siglo XXI Gedisa. 2005. no Brasil. Cicília M. 1995. SP: Umesp. El periodismo y los nuevos médios de comunicación Barcelona: Paidós. p. Mark. 2005. São Paulo: EDUSP .cencib.pdf] SILVEIRA. 2005. L. Jean. José.K. espaço. p. XXI. 2002. João (orgs.org/simposioabciber/PDFs/CC/Jean%20Segata. São Paulo: PUC/SP . Análise de desempenho das culturas agrícolas da P Edición electrónica gratuita. Software livre e inclusão digital digital. Um breve glossário descritivo sobre a comunicação e informação. Luiz Gonzaga de. 2006. Adam. São Paulo: Conrad Editora do Brasil. La sociedad de la información y la nueva economía: promesas. TREMBLAY. Gaëtan.net/libros/ 2006a/lgs] SPYER. Mídia local e suas interfaces com a mídia comunitária 2006. São Paulo: Editora Senac. A sociedade informática. x clusão ex WARSCHAUER. SEGATA. Rio de Janeiro: Zahar. Disponível em [http:/ /www. John V. 2003. Direitos à comunicação na sociedade da informação informação. 2005. SATHLER. Texto completo em [www. 141-162. São Paulo: Brasiliense. araíba araíba.. In: MARQUES DE MELO. Anuário Internacional de Comunicação Lusófona 2006 São Paulo: Intercom.Associação Brasileira de P Cibercultura Cibercultura. SANTOS.) Direitos à Comunicação na Sociedade da Informação Informação. In: MARQUES DE MELO. Juliano. Sérgio Amadeu da. p. realidades y faltas de um modelo ideológico. 2007. Luciano (orgs. Tecnologia e inclusão social: a e digital em debate debate. In: II Simpósio esquisadore em Pesquisadore Nacional da ABCiber . 2006 . SOUSA. PERUZZO. São Bernardo do Campo-SP: Umesp. A natureza do espaço SCHAFF.82 Juciano de Sousa Lacerda PASQUALI. PAVLIK. 15-48.). Paraíba In: ____. José. 9-paginas. São Bernardo do Campo. CASSINO. 49-63. p. Antonio. Conectado: o que a internet fez com você e o que você pode fazer com ela. 2008. Caracterização das terras agrícolas paraibanas. Barcelona: PISCITELLI. Entre sujeitos: o ciberespaço e a ANT.eumed. Internet. Milton. 2006. Alejandro. SATHLER. comunicación.

Economia Política. que arrasta praticamente o mundo todo na direção de um novo O público e o privado . César. construída pelos principais países capitalistas. Comunicação e Globalização. cultura e esfera pública aradigm: Digital P Paradigm: capitalism.(*) Valério Cruz Brittos é Professor no Programa de Pós-Graduação em Ciências da Comunicação UNISINOS. comunicação.Julho/Dezembro .com. o que está relacionado com transformações profundas no modo de produção. onde se pode encontrar. culture and public sphere Valério Cruz Brittos César Ricardo Siqueira Bolaño* Resumo: Este artigo condensa uma parte do marco teórico desenvolvido pelos autores para análise da TV digital. I ntrodução A atual reestruturação capitalista. Palavras-chave: convergência. Neste texto faz-se a opção de apresentar o estado da arte dos debates sobre internet. economia política. permite uma ampla subsunção do trabalho intelectual. na perspectiva da Economia Política da Comunicação.1 Por toda parte fala-se de uma sociedade da informação. regulação. ademais. fruto da revolução micro-eletrônica. seguindo a perspectiva de Marx a respeito das duas primeiras revoluções industriais. além de avançar na discussão sobre a democratização das comunicações.bri@terra. E-mail: val. de maneira que as tecnologias da informação e da comunicação adquirem um protagonismo crucial no processo. In: III C O L Ó Q U I O .Nº 14 . paralela a uma intelectualização geral de todos os processos de trabalho. na base de considerações sobre cultura e esfera pública. um exame mais extenso da história do desenvolvimento dessa tecnologia no Brasil e no mundo.br 83 Paradigma digital: capitalismo. tecnologia. foi formulada inicialmente por BOLAÑO. convergência e seus impactos sobre a economia das telecomunicações e da televisão.2009 1 A idéia de subsunção do trabalho intelectual como característica fundamental da terceira revolução industrial. de modo que a relação entre trabalho manual e intelectual tende a alterar-se.br César Ricardo Siqueira Bolaño é Professor na UFS e no Programa de Pós-Graduação em Ciências da Comunicação da UnB. E-mail: bolano@ufs.

comunicação e capitalismo. nos 70 –. “a concepção modular das funções de comutação. mais recentemente. (Org. considerando as citadas conseqüências mais gerais do fenômeno. Uma análise mais extensa. 24.enstbretagne. cujo resultado será diferente em regime de concorrência ou de monopólio. 11. Disponível em: <http:/ /www-eco. por exemplo. abre-se um paradigma novo. for instaurada a disputa entre capitais no setor. encontra-se em BOLAÑO. Anais. O operador que conservar o monopólio em tal caso de prestação. a questão das normas de interconexão torna-se absolutamente central na economia das telecomunicações e toda uma teoria e prática a respeito se desenvolve para embasar as ações das autoridades. Globalização e Regionalização das Comunicações Comunicações. mas se. p. São Paulo: EDUC. n. se traduziu.)”. informática) ou produtores de conteúdos (audiovisual. a sinalização entre comutadores não é mais efetuada através do próprio canal da conversação. a separação entre transporte e sinalização podem permitir à concorrência ter acesso aos recursos de rede do operador. N’GUYEN. Aracaju. em condições similares às dele”.84 Valério Cruz Brittos César Ricardo Siqueira Bolaño padrão de acumulação de capital.fr/biblio/ ecotel.pdf>. modificando modos de vida. nas telecomunicações. levando a sua reestruturação geral. enfim. .. valores. 3 2 Impactos sobre a economia das telecomunicações No que se refere à economia das telecomunicações – beneficiada também por outras inovações. PHAN. depois na comutação. Godefroy. são oferecidas oportunidades de transformação radicais “nos setores fornecedores de meios (telecomunicações.3 Assim. dez.). os satélites ou a telefonia móvel –. aprofundando brutalmente a tendência de expansão de uma cultura global. A revolução da micro-eletrônica. p. cujo exemplo mais acabado são as indústrias culturais. com a invenção do transístor. como as fibras óticas. p. Nesta direção. Revista da Sociedade Brasileira de Economia Política olítica. a digitalização da comutação facilita a separação das funções de administração e controle das chamadas e de transporte da informação ou comunicação. Denis. 2002. Aracaju. ante isso. destacando que. Texto republicado em BOLAÑO. 1999. o que permite uma gestão mais econômica das redes. especificamente capitalista. de forma que todo esse processo é traduzível pelo desenvolvimento progressivo de uma convergência funcional “entre as redes informáticas de telecomunicações e. tem sua vantagem competitiva reforçada. nos anos 50 e 60.2 BRASIL-FRANÇA DE CIÊNCIAS DA COMUNICAÇÃO. Godefroy. Acesso em: 14 dez. Rio de Janeiro. 1999. Phan e N’Guyen bem resumiram a problemática.. 1995. de teledifusão”. de modo que. PHAN. desencadeada em 1948. 24. Trabalho intelectual. com a digitalização da informação. op. relações sociais de todo tipo. evidenciando o fato de que a constituição do mercado competitivo depende de dois elementos que podem ser tomados como duas condições sine qua non: tecnologia e regulação. 1995.. edição escrita e musical etc. sendo seu ritmo de desenvolvimento dependente do rendimento dos semicondutores. N’GUYEN. especialmente a radiodifusão e a internet. cit. Economie des Télécommunications et de l’Iternet l’Iternet. César. acabando por constituir um novo paradigma tecnológico. em um processo progressivo de digitalização – primeiro na transmissão. César. 53-78. mas de um canal semáforo específico. “associado às técnicas informáticas que constituem o seu suporte genérico”. contrariamente. Denis.

quarto maior operador de rede de longa distância. o principal operador pesado concorrente direto da AT&T. as RBOCs norte-americanas e os herdeiros das infra-estruturas dos antigos monopólios públicos da Europa e do resto do mundo). a comunicação entre computadores através das redes de telecomunicações. de operação das redes e o protocolo TCP/IP permitem uma gestão completamente descentralizada dos fluxos de informação. segundo o conceito defendido pelos informáticos. cujo auge é o desenvolvimento da internet. cit.Nº 14 . portanto. por outro lado. Não interessa entrar aqui nas especificidades da economia da internet. atrás da AT&T.5 O caso da norte-americana Worldcom ilustra a possibilidade de passagem da terceira para a segunda categoria através de um movimento de fusão ou aquisição. de inteligência centralizada. o importante a ressaltar é que o sucesso do protocolo TCP/IP deve-se. dandolhes em certos casos vantagens competitivas importantes. CASTAÑEDA.Paradigma digital: capitalismo. por outro lado. os usuários podem controlar o valor agregado associado à circulação de informação. Marcos. precisamente a essa descentralização e à localização da inteligência na periferia da rede. N’GUYEN. vide HERCOVICI. Aracaju: Editora UFS. mostrou-se mais reativo e competitivo que as mega-alianças O público e o privado . oferecendo serviços especializados. ela iniciou suas operações como operador leve e acabou realizando uma série de aquisições que culminaram. que adotam uma estratégia de nicho. da própria MCI e da Sprint... Denis. podendo ameaçar o negócio tradicional da telefonia vocal assim que as dificuldades técnicas que prejudicam a qualidade desse tipo de comunicação estiverem resolvidas. Alain. com uma infraestrutura mínima e custos de entrada relativamente baixos. a Telecom USA. Godefroy.4 das telecomunicações ou nos detalhes dos diferentes avanços tecnológicos que vêm sendo introduzidos no setor. BOLAÑO César. os pesados (concorrentes diretos dos primeiros em todos os segmentos. 2007. reduzindo-se os operadores de rede à condição de simples fornecedores de capacidades de transmissão. em custos de entrada extremamente elevados) e os leves.. Phan e N’Guyen dividem os operadores de telecomunicações em três grupos: os históricos (AT&T. por pacotes.Julho/Dezembro . op. Com isso. . Assim.6 O fato é que essa combinação de uma estrutura de custos vantajosa com uma oferta focalizada tornam muito eficientes os operadores leves. um operador leve como Equant . 6 No caso da Worldcom. “no caso da oferta global para os grandes clientes multinacionais [.].2009 A esse respeito. dirigindo-se a um público específico. cultura e esfera pública 85 A digitalização permite.. sem o qual o promissor comércio eletrônico encontra uma barreira fundamental –. promovendo uma revolução na transmissão de dados. VASCONCELOS Daniel. em 1990. 5 4 PHAN. O modo assíncrono. Será útil. extremamente eficaz porque fundado na otimização das filas de espera nos roteadores. com a da MCI. além do fato de funcionar em meio heterogêneo. que já havia adquirido. Deixando de lado o problema da segurança que essa gestão descentralizada acarreta – exigindo esforços muito importantes de desenvolvimento de sistemas de codificação. incorrendo. o que reduz enormemente o custo das chamadas. em 1998. Economia Política da internet internet. resumir o panorama dos agentes do setor em nível mundial após a reestruturação dos anos 80 e 90 do século XX. por oposição ao modelo convencional das telecomuicações.

poder-se-iam citar contra-exemplos. e. uma estratégia de multinacionalização de atividades novas. “funcionam bem. formada por AT&T. Em ambos os casos... SBC e Disney. de fato. p. a internacionalização de um operador histórico o levará. uma ofensiva. finalmente. O mesmo raciocínio pode ser utilizado para o caso da internacionalização dos operadores leves. em 1994. da aquisição de empresas privatizadas no Terceiro Mundo) para oferecer seu produto tradicional em posição de quasemonopólio. Worldpartners. os quais: perseguem uma política agressiva. que tenderiam a investir em empresas congêneres. apesar de uma pressão concorrencial mais forte devido ao papel de challenger que ocupa a filial comum”. de internacionalização multi-doméstica. a aliança. por proximidade cultural. por exemplo. Ibid. porque “o poder de mercado dos clientes. Ibid. a homogeneidade das ofertas e a agressividade dos operadores ‘leves’ desbastaram as margens. entre Bell South. 80. numa perspectiva.8 Em todo caso.7 7 Ibid. pois o objetivo é fundamentalmente o de preservar a carteira de grandes clientes. no mais das vezes. TCI. A outra aliança global. 81-82. de 25% do capital da Time Warner pela US West. pois uma baixa drástica de todas as tarifas [. exercendo assim seu papel tradicional de operador dominante em um contexto novo. Unisource (KPN/Swuisscom/Telia) ou Concert (BT/MCI)”.. entrando em mercados externos (através. como a telefonia celular. por sua vez.] custaria ao antigo monopólio uma forte queda dos seus lucros ou uma reação da agência de regulação. p. 80. 8 9 O ponto fraco dessa estratégia de especialização dos operadores leves para ganhar as fatias mais saborosas do mercado dos operadores históricos é que estes podem “identificar mais facilmente a ameaça e ajustar a reação ao segmento de mercado atacado. a capacidade de resposta do operador histórico aos operadores leves torna-se mais difícil se ele estiver sendo atacado em diferentes frentes. uma de internacionalização global. p. ameaçada pela ação dos operadores leves. Ibid. Neste caso. que pode. sem questionar necessariamente toda a sua estrutura tarifária”. Eles esperam que o operador histórico não procure responder de forma muito bruta a essa entrada massiva. Mas este tipo de estratégia internacional das grandes operadoras de telecomunicações acabou não funcionando e as quatro alianças globais se dissolveram – segundo Phan e N’Guyen. em 1995. vale citar a aquisição. ao contrário. como no caso das fracassadas alianças globais mencionadas acima. 80.. uma filial comum. Ibid. Por outro lado. constituindo-se uma espécie de concorrência cruzada. em 1993. que pode levar a acordos de não beligerância. ser um entrante pesado no mercado interno do primeiro. que se revela no montante dos investimentos irreversíveis que fazem para a instalação das suas redes. enquanto as dificuldades inter-culturais dos parceiros não tornaram a filial muito reativa”... Alianças multinacionais fundadas sobre a complementaridade dos parceiros. o audiovisual9 ou a internet. oferecendo soluções integradas às multinacionais. Comcast e Cox e. comparativamente com a estratégia dos entrantes pesados. Ameritech. basicamente também defensiva. a Uniworld. de forma semelhante. a investir em um operador pesado para afrontar o operador histórico local. KDD e Singapore Telecom.86 Valério Cruz Brittos César Ricardo Siqueira Bolaño de operadores históricos que foram Global One (France Télécom/Deutsche Telekom/Sprint). entre Sprint. Phan e N’Guyen definem quatro estratégias adotadas pelos operadores históricos face à nova concorrência: uma defensiva (comercial ou organizacional) sobre o mercado doméstico. com a Unisource (que adquiriu também parte da Worldpartners). chegou a criar. p. .

revolucionada efetivamente com a introdução dos sistemas pagos. de uma transformação profunda na esfera econômica apenas “muito relativamente” relacionada com a inovação tecnológica: Ver BOLAÑO. aumentando a rentabilidade e a remuneração da produção. estas características genéricas hão de matizar-se seriamente em uma escala de transformações. 1999. está a tendência de aproximação da TV ao modelo O público e o privado . cultura e esfera pública 87 Incidências sobre a economia da televisão A TV digital terrestre se apresenta. Enrique. com suas variações de vídeo próximo por demanda (near video on demand). TREMBLAY. . Gaëtan (Orgs. Valério.13 Entre essas mudanças. Jean-Guy. encurta o ciclo financeiro da TV convencional. mas não necessariamente condicionadas por eles. capaz de provocar profundas alterações na relação entre oferta e demanda. portanto.Nº 14 . reduzindo a importância absoluta de indicadores como a maximização e fidelização permanente da audiência. MONZONCILLO. à televisão “interativa” ou o vídeo por demanda. In: ______. esfera pública e movimentos estruturantes. La televisión digital: referencias básicas.Paradigma digital: capitalismo.Julho/Dezembro . César. à semelhança da internet. nos diferentes mercados da chamada convergência entre audiovisual. nos EUA. a partir dos anos 80. 13 12 11 10 Não obstante. 1995. como um novo desafio para os atores hegemônicos.11 A pay TV – o modelo convencional da televisão segmentada conhecido – introduz pela primeira vez no televisual uma lógica de club. neste ponto. BRITTOS. cit. O sistema televisivo a pagamento.2009 BUSTAMANTE. 24. passando pela pay per view ou televisão de produto. com diversos graus de “interatividade” e “convergência”. constituindo-se na “mudança mais importante sem dúvida do audiovisual depois da própria expansão da televisão e o desenvolvimento do vídeo doméstico. A televisão brasileira na era digital digital: exclusão. p. p. segundo Bustamante. p. situando a TV digital no interior da linha evolutiva da indústria do audiovisual. o que leva a uma maior estabilidade da indústria audiovisual. Torna-se interessante.12 ou de distinção. discutir a problemática tecno-econômica da televisão.. Presente y futuro de la television digital digital. possibilitadas certamente pelas tecnologias e os suportes. a capacidade de escolha do telespectadorcliente e a especialização do consumo. op.). José María Álvarez (Orgs. que permitirá uma mudança econômica e financeira. 21-32. La théorie des industries culturelles face aux progrès de la numérisation et de la convergence. Aumenta. nos anos 70 (excetuando-se experiências pouco exitosas anteriores) e na Europa e no resto do mundo. Madrid: Edipo. Sainte-Foy: Presses de l’Université du Québec. In: LACROIX. 10 É o surgimento da televisão por assinatura. Gaëtan. 25. que vai da pay TV ou televisão por assinatura. Trata-se. telecomunicações e informática. Enrique.). portanto. São Paulo: Paulus. ademais. BUSTAMANTE. ao re-introduzir a exclusão pelos preços. Categorias claramente econômicas. por fim. com uma retração da lógica publicitária da velha TV aberta. de modalidades de pagamento e estratégias financeiras e mercantis. TREMBLAY. Les autoroutes de l’information l’information: un produit de la convergence. com notáveis conseqüências sobre a economia do audiovisual”. 2007.

se re-transmite um filme de êxito a cada dez minutos. Vitória: Fundação Ceciliano A. MIÈGE. apesar de permitir. diretor e sinopse. com o assinante pagando por escolha. pagar para ver) –15 um sistema de oferta de conteúdo audiovisual por produto específico. são colocados à escolha do cliente. intérprete. de forma que uma quantidade limitada de produtos sempre está começando. Com a televisão digital e o sistema de video on demand (VOD. ION. mas aproximado. que utiliza vários canais para distribuir um mesmo filme. 17 Mais difundido. Alain. 18 Ibid. uma recepção muito rápida do programa escolhido. determina o horário específico para receber a atração –. a situação histórica de desenvolvimento da regulação e das infra-estruturas nacionais de transmissão. 16 Para adquirir essas atrações em separado. de Almeida. no chamado near video on demand (NVOD. LEFEBVRE. 24. cada um em um horário diferente. o consumidor deve previamente já ser assinante de um dos pacotes disponibilizados pela operadora. por exemplo) –. 26. L’ i n d u s t r i a l i s a t i o n de l’áudiovisuel l’áudiovisuel: des programmes pour les nouveaux médias. Ramon. há uma reviravolta completa do velho paradigma da cultura de onda. HERSCOVICI. Jacques. mas o emissor elege ainda os programas e seleciona os de êxito majoritário para uma difusão de maior periodicidade. prenunciado pelos modelos de pay per view (PPV. Enrique. em curtos intervalos de tempo. Bernard. 1986. como quando. Economia da cultura e da comunicação comunicação. da BUSTAMANTE. inclusive no Brasil. em alguns casos. – as possibilidades de convergência e de desenvolvimento da multimídia. Alain. e ainda que os produtos isolados sigam situados no tempo constrangendo o consumo do espectador. com forte apelo de venda. o near video on demand é uma técnica de programação de menor caráter interativo. e a contra-programação não é possível. cit. Crenoble: PUG. Armel. ao reduzir os custos de transmissão e permitir uma oferta maior de canais e serviços e uma maior fragmentação do consumo. Paris: Aubier. PAJON. René. aprofundando tendências já existentes. 15 14 editorial de organização das indústrias culturais.16 cujo impacto sobre o consumo e a economia do audiovisual ainda não se verificou. Bernard. vantagens de precedência etc. 1995. Capitalisme et I n d u s t r i e s C u l t u r e l l e s . o qual. MIÈGE. no qual filmes digitalizados. p. Esse sistema.88 Valério Cruz Brittos César Ricardo Siqueira Bolaño HUET. como filme. Jean-Michel.. ZALLO. esporte. Patrick.17 ainda não permite ao telespectador uma resposta à seleção simultânea e no mesmo suporte: Na pay per view a programação foi eliminada como macromontagem de programas. op.14 Não obstante. segundo a classificação amplamente aceita pela Economia da Comunicação e da Cultura. p. agrupados a partir de informações como título. a pay TV constitui uma transição em direção a um modelo “abstrato e perfeito” de vídeo-serviços. ao decidir. 1978. Economía de la Comunicación y la Cultura Cultura. este consegue uma maior responsabilidade na auto-programação e paga já pelo conteúdo (ou o tempo) que consome. gênero. por um produto isolado que tem seu preço específico. Madrid: Akal. que é a parte básica do funcionamento e da oferta da televisão interativa. UFES. mas não sem um processo anterior de desregulamentação. Em todo caso. SALAÜN. 1988. ligado a estratégias econômicas e políticas globais. segundo os diferentes suportes. PERON.. evento ou temporada de um acontecimento (um torneio esportivo. .18 A digitalização é uma inovação técnica que amplia – de forma assimétrica. vídeo por demanda) – um serviço interativo em alto grau. vídeo próximo por demanda).

Canal Plus-Nethold) que tendem a concentrar-se mais fortemente mediante fusões ou alianças intra ou intercontinentais (como Sky ou Galaxy na América Latina)”. vídeojogos. . a espetacularização e a comercialização. entretanto. cultura e esfera pública 89 televisão convencional. tele-compras). definitivamente. centralização e transnacionalização do capital. que chegaria. a concorrência está centrada no “controle de uma sólida e atrativa carteira de direitos de programas em gêneros” bastante específicos. o sistema audiovisual digital segue quatro tendências observáveis. fazendo abstração dos debates clássicos sobre serviço público e universalização. esportes de massa. a se constituir segundo um modelo editorial puro. p. a conversão de uma economia de oferta em outra regida pela demanda. Kirch. 30. Disney.2009 19 20 21 22 Ibid. marcado pela consolidação da TV segmentada convencional. que compete ainda com a velha televisão de massa. Ibid. da presença de canais indispensáveis. em segundo lugar..21 A importância dos conteúdos citados. previamente dispondo.19 de modo que se renovaria a liberdade de criação e expressão. de redes de cabo potentes ou de abundantes concessões hertzianas). em que a maior proximidade entre emissor e receptor e a cessão da função de programação para este último estariam ligadas à “restituição da proporcionalidade entre consumo e remuneração do audiovisual com o reequilíbrio conseguinte da economia do audiovisual em benefício da produção”. Bertelsmann. mas isto implica um amplo conhecimento do mercado (carteira de clientes) e um saber fazer notável no marketing”.. com garantia.Paradigma digital: capitalismo. 28. colocando dúvidas sobre a transparência e o pluralismo que o novo sistema poderia ensejar.22 O público e o privado .Nº 14 . faz aumentar “geometricamente seu valor estratégico revelando o crasso erro de quem se preocupa unicamente com as redes e as infraestruturas”. Do ponto de vista da estrutura empresarial. ao menos teoricamente. Na prática. Mesmo reconhecendo a dificuldade em se fazer generalizações a partir dessas experiências ainda amplamente minoritárias no panorama televisivo mundial. foi observada nas experiências já em curso a onipresença de determinado tipo de conteúdos.. p. p. garantindo um máximo de pluralismo e a viabilização econômica e sociológica das mensagens inovadoras e minoritárias. Murdoch. o setor será.20 Como o controle simultâneo desses elementos básicos supõe investimentos milionários e riscos enormes. e uma brutal concentração. em segundo lugar. p. disponíveis através de transponders múltiplos no satélite. juntamente com “a capacidade de sua ‘edição’ em pacotes segmentados para os diversos mercados. que se orientam prioritariamente para a função divertimento. 30. chave para a amortização dos investimentos a curto e médio prazo (filmes.. o dos chamados vídeo-serviços. que marcam. Ibid. Ibid. como esportes de massas e filmes-acontecimento.Julho/Dezembro . naturalmente dominado por “poucos grupos gigantescos (Time-Warner-Turner. assim. 30.

Presente y futuro de la television digital digital. Madrid: Edipo. inflação de custos. José María Álvarez (Orgs. operadores de telecomunicações e redes de televisão. 283-295. Finalmente. El desarrollo del multimedia: un desplazamiento de la correlación. são sumarizadas no quadro 1. 1999. 300. 297-314. O normal é uma mistura dessas duas formas de financiamento. as novas redes digitalizadas podem transportar tanto sinais de TV como outros serviços de telecomunicações. Em todo o caso. dados os interesses convergentes dos diferentes agentes principais envolvidos. p. informáticos. Enrique. MONZONCILLO. 1999. sempre que a legislação nacional e os recursos permitam. reforço da posição dos intermediários de direitos. as empresas do setor são levadas a abarcar as diferentes possibilidades. In: BUSTAMANTE. Jean Paul. Presente y futuro de la television digital digital. E n r i q u e .90 Valério Cruz Brittos César Ricardo Siqueira Bolaño implicando em elevação de preços. aumento da integração vertical entre difusão e produção etc. La televisión del siglo XXI: será o no será! In: BUSTAMANTE. José María Álvarez (Orgs. a experiência mostra que a pura e simples substituição do financiamento publicitário pelo pagamento direto por parte do usuário não passa de um mito. Q uadro 1. Estrutura da economia dos meios Variáveis Tecnologia de produção Essa integração pode se dar através do aparelho de TV (WebTV) ou do computador (como no projeto Intercast. MONZONCILLO. As experiências de integração entre televisão e internet23 são uma tendência efetiva. com a publicidade adequando-se aos mercados hiper-segmentados. Madrid: Edipo. 23 Imprensa Imprensa Papel Editor Estrada Trem Filme Película Câmera Película Produtor Projetor Disco Rádio/TV Telecomunicações Telefone Cabo de cobre PTT Rede Aparelhagem Câmera de de gravação gravação DiscoVinil Fita Editor Estrada Trem Nenhuma Nenhuma Ondas Difusor Suporte de transmissão Sistema de produção Tecnologia de distribuição Emissor/ Receptor Regulador Serviço público Regulação Concorrência Autorização Liberdade Ideologia Cultura de imprensa nacional Regulador Serviço universal Fonte: GARNHAM. trata-se de uma vitória da comunicação de massa sobre a comunicação interativa ou individual. da Intel). Nicholas. amplamente conhecida no campo. p. A esse respeito. Problematizando a convergência As características da economia da comunicação convencional.). . indústria eletro-eletrônica. vide LAFRANCE.). p. Em terceiro.

p. o que envolve “o conflito entre o operador de telecomunicações e os modelos informáticos de desenho e controle da rede e a concorrência entre operador de telecomunicações. E n r i q u e . os modos de consumo e os mercados. 301. internet pode ser o modelo do futuro. manipulação e visualização de combinações de texto. por exemplo. Presente y futuro de la television digital digital. José María Álvarez.25 O público e o privado . 297-314. as questões centrais são aquelas ligadas à convergência entre o audiovisual e as indústrias editoriais.2009 GARNHAM.Nº 14 . companhias de cabo e difusores pelo controle do acesso às residências e às empresas”. o principal agente global”. fundada puramente na tecnologia. 25 24 Ibid. In: BUSTAMANTE. as conseqüências do tele-trabalho podem ser o problema e Microsoft. novos meios. “a penetração do computador pessoal pode ser o estímulo tecnológico. Nicholas. o que põe em relevo as questões relativas ao controle do acesso. tornando possível a entrada de novos agentes em cada setor. de fazer uma clara distinção entre os meios e seus respectivos mercados. banda larga e comutado). exigindo inclusive mudanças na legislação.).. p. 3) convergência dos modos de consumo dos meios (entre os de sentido único e os interativos. cultura e esfera pública 91 Segundo Garnham.24 Isto repercute em todos os níveis do sistema. à publicidade. aos direitos de autor e ao desenvolvimento de novos gêneros midiáticos. sons e imagens móveis e fixas) – neste caso. . 2) desenvolvimento de produtos multimídia ou convergência de novas formas de meios de comunicação (armazenamento controlado por computador. El desarrollo del multimedia: un desplazamiento de la correlación. (Orgs. ao menos potencialmente. o que se vê embaralhado com as novas possibilidades de convergência. “a incidência da digitalização neste sistema de meios de comunicação herdados vai romper. as barreiras técnicas entre essas indústrias”. as normas sobre propriedade cruzada de meios de comunicação dependem da possibilidade. até os canais de distribuição. nova concorrência inter-setorial. MONZONCILLO. No caso da regulamentação.Julho/Dezembro . desde a produção e a definição dos gêneros. Quanto ao concernente à convergência. 4) convergência dos modos de financiamento no sentido do pagamento pelo usuário por acesso. 301. Garnham distingue entre: 1) Convergência de rede ou de canais técnicos de distribuição (num sistema comum de cabo digital. comutados e não comutados). ao financiamento público ou ao controle dos dados sobre os consumidores. 5) convergência de mercados domésticos e comerciais – neste caso.Paradigma digital: capitalismo. 1999. Madrid: Edipo. p.

Paralelamente.. nos próximos 10 anos. que utiliza efetivamente a rede de telecomunicações. numa perspectiva pessimista. É possível. esse cenário ampliaria a capacidade de escolha do usuário e a diversidade. mas fornecidos em redes competidoras. 304. não convergentes ou. todos eles. o isolamento. enquanto reconhece continuar a telefonia vocal sendo o motor do sistema.28 O resultado dependerá em grande parte da ação das entidades de regulação. de fato. Ibid. . se incrementará a concorrência entre operadores de telecomunicações – que poderão oferecer vídeo – e de tele-distribuição – que. mas permitirá ainda a oferta de uma série de novos serviços interativos de entretenimento e informação – vídeo-jogos. pagos pelo usuário em função do uso efetivo. não apenas à distribuição de todos os serviços de tele-difusão e telecomunicação através da mesma rede. Numa visão otimista. 301. por sua vez. O primeiro argumento de Garnham para demonstrar o irrealismo desse cenário é de ordem técnica: o autor parte do pressuposto de que. não obstante. a fragmentação social e a decadência da esfera pública. p. 70 e 80 fracassaram as tentativas de integração de redes. Garnham se refere à internet. o que levará. tele-compras e outros sequer imaginados que substituirão possivelmente os serviços tradicionais de sentido único por serviços interativos. o que sugere prudência na análise das promessas atuais. de forma alternativa. em um terminal informático multimídia.26 Nos anos 60. tornando-se um exemplo de natureza híbrida e não propriamente de convergência de redes ou de indústrias. devido a sua maior capacidade financeira. uma rede convergente monopolística que ofereça uma série de formas de meios de comunicação não convergentes”. sem a qual.92 Valério Cruz Brittos César Ricardo Siqueira Bolaño Cada um desses processos seguirá sendo diferente. lembrando que. “alcançar o desenvolvimento de um grande mercado para os produtos e os serviços multimídia. se bem que. Mas importantes barreiras tecnológicas ainda impedem uma convergência uniforme: 26 27 28 Ibid. fora do controle dos operadores de telecomunicações. e cresceu a partir de uma cultura informática e não de telecomunicações”. em alguns casos.27 O cenário da convergência comumente apresentado é assim resumido: uma rede de banda larga comutada oferecendo todos os serviços eletrônicos para os lares e empresas. se verão aptos a oferecer serviços de telefonia comutada a seus clientes – pelo controle do enlace fixo local que provavelmente continuará tendo características de monopólio natural. as redes de telecomunicações se transformaram em extensos sistemas informáticos de distribuição. Ibid. a vantagem seria dos operadores de telecomunicações. isso poderia incrementar o controle monopolista da informação. por exemplo. ela se baseia principalmente “na capacidade informática instalada. enquanto que.. p.

o elemento determinante da estrutura de mercado de uma rede em convergência dificilmente seria dado por vantagens de custo na rede. quanto à capacidade de comutação atual. Não obstante. a manterá. mesmo que os problemas técnicos sejam resolvidos.Julho/Dezembro .2009 29 30 Ibid. 306. de modo que não se deve esperar que um canal de distribuição venha a dominar o mercado. O público e o privado . as emissoras. O software que se precisa para dita comutação é de tal complexidade que nada se sabe ainda sobre se pode fazer funcionar com a confiança que requer uma rede de telecomunicações pública. não a transmissão. especialmente de um serviço audiovisual. os editores de tele-vendas. Não há dúvida de que dito crescimento se verá freado quando os usuários tiverem que pagar. o problema para os operadores de telecomunicações consiste em contar com serviços que gerem ingressos suficientes para explicar os custos de melhora das prestações da rede. Seu rápido crescimento já está dando lugar a problemas de capacidade. num futuro previsível. os fabricantes de vídeo-jogos. Com a queda progressiva dos custos de transmissão em relação aos custos de prestação de um serviço. Para justificar as conexões domésticas à banda larga é preciso dispor de um fluxo de ingressos notável”. cultura e esfera pública 93 Não está claro que tenha sentido fundir redes desenhadas em grande medida para o oferecimento de serviços de televisão em sentido único com redes desenhadas para otimizar a oferta de serviços de banda estreita. A digitalização da transmissão hertziana.. se se amplia a interatividade da internet em banda larga.. dado que a engenharia civil.Nº 14 . Ibid. 305. .Paradigma digital: capitalismo. as barreiras econômicas à convergência continuam sendo notáveis. como a forma de maior eficiência de custos para se atingir audiências economicamente viáveis.30 o que vem sendo procurado através da oferta de video a la carte pelos operadores de telecomunicações que entram no mercado audiovisual. por outro lado. O poder econômico se desloca cada vez mais da distribuição – que pode encontrar sempre mecanismos alternativos – para o controle da propriedade intelectual. “Certamente. nem as instalações de comutação. entra-se no campo do desconhecido. Os exemplos de convergência existentes são basicamente exemplos de condução compartilhada. comutados e de ida e volta. p. reduzindo o problema da escassez de freqüências e barateando esse tipo de transmissão. seguem sendo o principal elemento de custo na implantação de uma rede. dando crescente vantagem competitiva para as empresas cinematográficas. p.29 Em segundo lugar.

307. aos titulares de direitos. Ao mesmo tempo. manejando. os interesses dos titulares de direitos) e dirigir esforços no sentido de garantir o uso social das tecnologias da informação e da comunicação. que envolve uma contradição básica entre a pressão por flexibilizar as normas de propriedade cruzada dos meios de comunicação34 e aquela para incrementar o nível da concorrência na produção de programas. as pautas de inversão. ou reforçar-se no caso da telefonia fixa local –.. Os problemas consistem na coordenação de uma mão de obra criativa. Implica a criação constante de novos protótipos e a venda dos mesmos em um mercado doméstico muito incerto. acompanhada de uma política de serviço universal clara. garantindo uma estrita separação entre suporte e conteúdo (à qual se oporão os operadores de rede). em um mercado cuja elasticidade de preços não é muito elevada. É provável que tenham uma incidência mínima nas telecomunicações existentes ou nas indústrias de programação audiovisual”. O mercado audiovisual é bastante distinto. Ibid. 307 Essas diferenças se vêm reforçadas pelos diferentes mercados dos quais as indústrias dependem: “a relação entre comprador e vendedor no mercado de empresas ao qual se dirigem em grande medida as telecomunicações (por exemplo. no sentido da melhoria da qualidade de vida e da eficácia dos sistemas de saúde. sobre a base de cálculos de probabilidades e economias de escala. protegendo e ampliando a diversidade informativa e cultural. é completamente marginal em comparação com os ingressos da telefonia. baseados na infra-estrutura técnica e do parque de computadores pessoais nos mercados profissionais e de teletrabalho.31 Uma terceira barreira para a convergência estaria no “tremendo abismo existente entre as culturas dos operadores de telecomunicações e o setor de programas audiovisuais”. Ibid. educação. a importância da confiança do serviço em comparação com o próprio preço). Estes serviços competirão pelo mercado tanto com as lojas de vídeo como com outros canais de cinema por assinatura”. O mais provável é o desenvolvimento de novos produtos e serviços multimídia “a partir de indústrias especializadas do software informático e de edição. neste caso.94 Valério Cruz Brittos César Ricardo Siqueira Bolaño 31 32 Ibid. p. basicamente dirigidos a empresas clientes. participação política . Isto remete à necessidade de uma regulação forte. economicamente avançada e sustentável. como agora.. os fluxos de quantidades de bits não diferenciados e faturando ditos serviços. o consumo médio atual de cinema por esse meio nos domicílios assinantes (um filme por ano) é desalentador.33 Regulação e poder global A estes três tipos de barreiras soma-se aquela relativa ao problema da regulação. 306. Mas em realidade só uma parte desses recursos iria para o operador da rede e a maior parte iria. de maneira que. este é muito sensível ao preço e se vê muito limitado pela renda disponível. “Os operadores de telecomunicações estão acostumados a tratar com a venda de uma série reduzida de serviços normalizados. as prestações exigidas etc. mesmo “que este mercado se desloque totalmente à rede dos operadores de telecomunicações. Assim.. são muito distintas das que distinguem o mercado do entretenimento doméstico e da infor- Se for verdade que o consumo doméstico de vídeo nos EUA demonstra a existência de um mercado potencial importante para tal. p. p. que busque otimizar tanto o desenvolvimento como o acesso às redes – cujas características de monopólio natural tendem a manter-se. é preciso reforçar os meios para contra-restar a tendência ao aumento da concentração do controle dos conteúdos (contra.32 Esta particularidade torna difícil combinar as habilidades distintas de uns e outros e associar as estruturas adequadas dentro de uma mesma organização corporativa. o controle dos direitos e marketing”..

como sabemos. visando a injeção de capital estrangeiro.. enquanto que na Espanha.. não deveria permitir-se utilizar a chegada do multimídia.. p. Em curto prazo.. O significado desse movimento para a reestruturação das relações de hegemonia no setor de telecomunicações foi apresentado de forma cristalina pelos autores do O público e o privado .Nº 14 .. o programa será comandado pelos ministérios respectivos ligados à área econômica. traduzir-se-á. 307 No caso dos EUA. a tendência é ainda mais clara [. Em minha opinião.] No caso da União Européia. enquanto cada país buscaria uma estratégia própria no nível da infra-estrutura.] foi em infra-estrutura [.] sem maior preocupação com a qualidade de pesquisa. Canadá.] Acertadamente (para o contexto americano). o bloco pôs prioridade em aplicações [..] com gerações anteriores da tecnologia. o que.] Por uma parte. o que reforça a tendência instaurada em 1984.. questionados sobre a base de uma perigosa confusão entre multimeios e trans-meios por parte dos defensores de empresas que “são já trans-mídia no sentido de que exercem sua atividade em diversos meios. Pretendem que esta integração horizontal lhes permita. quando os EUA passaram a pressionar o resto do mundo para a abertura dos mercados nacionais de telecomunicações. a tecnologia em si mesma tem pouco que oferecer [. claramente o foco das ações na fase de decolagem da NII [. Ibid.... na Europa. Não há nada. conseguir economias de escala e de envergadura [.. cultura e esfera pública 95 etc. Portugal e Brasil. A hegemonia norte-americana na área traduz-se nas diferentes ênfases que os programas terão naquele país e na União Européia.. não depende da tecnologia: muitas dessas melhoras prometidas poderiam ter sido postas em prática faz anos [. que leva todos os países do mundo a implantar ambiciosos e caros programas de reestruturação das suas infra-estruturas nacionais de comunicação. Não se romperão se se deixa o desenvolvimento exclusivamente em mãos do mercado que parcialmente as criou. tais como legislação. difusão etc. as regras que limitam a propriedade transversal dos meios não impedem a criação de projetos multimídia. por exemplo. Mais recentemente. com o projeto Global Information Infra-structure (GII)...36 Essa estratégia nacional. por exemplo: mação. só põem fronteiras ao poder oligopolista sobre canais de distribuição normalmente competitivos. . de tal sorte que aplicações (e temas associados.. O objetivo maior parece ter sido colocar uma operação rápida em movimento acerca do tema “sociedade da informação”. p. deixou-se a prototipagem de aplicações para a livre iniciativa de pesquisadores e empreendedores.] As barreiras são econômicas. O problema de criar uma estrutura corporativa viável que sirva para ambos mercados com a mesma eficácia pode muito bem resultar insuperável”. por exemplo. França e Japão.. através de sinergias.35 Pois a digitalização é um dos sustentáculos da retomada da hegemonia norteamericana.2009 Vale citar a defesa que o autor faz da necessidade de se manter os mecanismos que impedem a propriedade transversal de meios. as vantagens econômicas dessas sinergias estão longe de serem demonstradas. na aceleração do processo de privatização de empresas de telecomunicações. Por outro lado.. sociais e políticas e estão profundamente arraigadas.Paradigma digital: capitalismo. 307 33 34 Ibid. só existe um controle sobre os canais de distribuição hertziana. a iniciativa será encabeçada pelos Ministérios de Ciência e Tecnologia. Nos EUA. que impeça as empresas de imprensa produzir películas e programas de televisão.Julho/Dezembro .) fossem tratados em nível de bloco. na área de infra-estruturas.

313. p. os modelos adotados em relação à P&D variam entre os EUA e a UE. p.. Ibid. p. 37 Uma das principais diretrizes que nortearam tanto a política de telecomunicações como a de informática no Brasil. Já no caso da União Européia.gov. na origem. . p..pdf no Brasil >. como um mega-programa de ações políticas [.br>.464 383 289 93 -3. devido à necessidade de acelerar ações de países rumo à sociedade da informação através da desregulamentação e liberalização dos mercados de telecomunicações. MINISTÉRIO DA CIÊNCIA E TECNOerde LOGIA. não somente no Brasil como em todo o mundo.mct. por exemplo.804 1998 5. 94. No primeiro caso. Brasil: Balança comercial – informática e telecomunicações (em US$ milhões) Variáveis Importações Computadores e periféricos Telecomunicações Exportações Computadores e periféricos Telecomunicações Déficit 1996 4. ao longo da década de 90.008 3.. g o v. 94. p. No programa 1999/2002 da União Européia. tendo em vista a contínua e progressiva deterioração da balança comercial do setor. como argumento contra a pluralidade desejável das fontes de informação e diversão”. foi a ênfase em domínio tecnológico e na produção de equipamentos e software no país.662 1. Disponível em: <http:/ / w w w.37 No caso do Brasil. op.] dentro do qual há um componente de P&D e de infra-estrutura de redes para educação e pesquisa”. a iniciativa foi estruturada.744 1997 5. como um mega-programa de pesquisa dentro do qual se inseriu um componente de articulação de aplicações e de difusão para o setor privado/ governamental. desde pelo menos a década de 70. desde 1992 e. cit.287 553 329 224 -4. referente a incentivos à informática –. Acesso em: 5 out. Disponível em : <http://www. Acesso em: 20 maio 2003.96 Valério Cruz Brittos César Ricardo Siqueira Bolaño em suas diversas modalidades. os autores do Livro Verde brasileiro consideram “bastante provável que qualidade de P&D nos temas selecionados tenha critérios mais rígidos agora do que no quadriênio 1994/98. Ibid. entre as principais motivações que levaram a União Européia a recomendar a privatização de empresas estatais da área em seus países membros.993 592 337 255 -4.br/Temas/Socinfo/Livro_Verde/ca03.. MINISTÉRIO DA CIÊNCIA E TECNOLOGIA..248. Na área de telecomunicações. o documento defende a geração de tecnologias locais – apoiando explicitamente a Lei 8. Fonte: MINISTÉRIO DA CIÊNCIA E TECNOLOGIA.357 3. “o esforço foi estruturado na origem. p. Tal necessidade está.070 2..416 Ibid.. 35 36 Livro Verde da Sociedade da Informação no Brasil. Quadro 2. ao analisar a política brasileira de telecomunicações e informática: Ibid. como demonstra o quadro 2.126 2. 109.015 1. Livro V Verde da Sociedade da Informação no Brasil Brasil. Em todo caso. 2004. a partir de 1997. tal diretriz foi colocada em prioridade secundária. 314. m c t . ainda que a ênfase permaneça nas aplicações. Informática e telecomunicações Brasil. de 23 de outubro de 1991. 95. quando a iniciativa européia decolou”. sobretudo.

da pluralidade no tratamento da informação. tendo em vista a instalação de grandes empresas dos setores de informática e telecomunicações. Os elementos potencialmente contrários à lógica capitalista. refletindo-se também nos movimentos dos agentes não-hegemônicos. a conseqüente. mudanças no processo inovativo. cada vez mais. César. articulação dos movimentos sociais em redes virtuais. Nueva Sociedad Sociedad. jan. 110. sistemas de governo eletrônico.Nº 14 . da disponibilização de conteúdos locais. como o aperfeiçoamento de certas tecnologias educacionais. política tecnológica e domínio neoliberal. Elas afetam diretamente a esfera pública. esfera pública e mudança social As mudanças estruturais do capitalismo iniciadas no final do século XX referem-se ao conjunto da sociedade global. É nesse processo contraditório que se situam as alternativas democráticas de uma comunicação popular organizada a partir dos movimentos sociais. interessadas no mercado latino-americano no seu conjunto. em especial no campo das comunicações. . mais ou menos permeáveis às pressões de grupos de interesse hegemônicos ou contra-hegemônicos. são limitados pela força e controle dos capitais. Tecnologia. Caracas. mas principalmente pela definição das políticas nacionais de comunicação. Ver BOLAÑO.38 as quais levariam. Na nova esfera pública que emerge na confluência entre reorganização do capitalismo.Paradigma digital: capitalismo. novos lugares são perifericamente articulados. sendo pautada.2009 38 39 Ibid. n. O público e o privado . e a conseqüente criação de um ambiente propício à inovação. envolvendo o desenvolvimento de elementos que poderão ser importantes para um pleno exercício da cidadania. 147.Julho/Dezembro . a abrir a opção estratégica para o Brasil de posicionar-se como exportador na área. La génesis de la esfera publica global. tudo isto dependendo não apenas da ampliação do número de canais e meios de comunicação por força do desenvolvimento tecnológico simplesmente. que apontam para a possibilidade de práticas de comunicação mais democráticas. o desenvolvimento das tecnologias da informação e da comunicação se insere na sociedade de modo determinado historicamente.39 Assim. 1997. pelo princípio econômico da exclusão pelos preços. não se limitando à economia e à política. certas tendências de reforço da diversidade cultural. 88-95. p.. por outro lado./fev. incorporando as contradições inerentes à esfera pública burguesa. onde a mídia em geral – afetada profundamente em seu trabalho e em seus negócios pela introdução do paradigma da digitalização – exerce um importante papel. p. ainda que problemática divulgação de idéias não-hegemônicas. cultura e esfera pública 97 A própria expansão do uso das tecnologias da informação e da comunicação no país tende a agravar ainda mais essa situação. propugnando por “iniciativas judiciosamente planejadas de substituição de importação de itens de alta densidade tecnológica”.

da segmentação e da fragmentação. atingindo o espaço público. O fato é que. . O debate em torno da TDT pode ser entendido como uma oportunidade fundamental para a democratização dos meios de comunicação e a inclusão digital. o rádio e a televisão – e a fotografia. mas tal papel é muito melhor desempenhado pela internet e sistemas audiovisuais que incorporam aparatos capazes de captar imagens e áudio remotos. ocorre um movimento de concentração oligopolista que afasta o sistema do ideal liberal dos seus primeiros ideólogos. cabos e ligações de fibra ótica. tanto econômicos. desde o século XIX. Fica claro que os recursos da técnica têm aproximado compradores e vendedores ou investidores e instituições financeiras.98 Valério Cruz Brittos César Ricardo Siqueira Bolaño Na nova esfera pública globalizada. como vem sendo feito no Brasil. fruto da revolução micro-eletrônica e destinada precipuamente a facilitar a circulação da informação mercadoria. através de satélites. Mas também o mundo da produção de bens e serviços materiais se vê afetado pelo desenvolvimento conjunto dos sistemas de transporte e dos meios de comunicação que impulsionam uma homogeneização dos padrões de consumo e dos modos de vida. inerente ao desenvolvimento da cultura de massas. como ícone impulsionador da venda de jornais – incrementaram o consumo. permitida pelo deslocamento instantâneo de enormes montantes de recursos financeiros e de informações indispensáveis à realização dos negócios. fundamental para vencer os limites à expansão do capital e da cultura ligada aos ditames do consumo. é preciso decidir o modelo de esfera pública a implantar. excessivamente fixados no momento. O avanço tecnológico está na base da atual reestruturação econômica. muitas vezes imperceptível àqueles que. também característico da situação atual. tecnologias como o cinema. a tecnologia e os novos meios geram impactos. marcada pela crescente interdependência de mercados. tanto no setor financeiro quanto no produtivo. A atual digitalização geral. A implantação da televisão digital terrestre deve ser vista nesses termos. Ao longo do século XX. também pode servir à concretização de uma comunicação popular libertadora. não são capazes de perceber a dinâmica massificação/ diferenciação. por imposição de necessidades internas ao processo de acumulação do capital em suas diferentes fases de desenvolvimento. antes de discutir o modelo de negócio mais adequado ao meio. quanto políticos e nas formas de sociabilidade. articulando democracia e cidadania e testando e construindo potencialidades de liberação. Neste sentido. reduzindo distâncias. bem como na organização dos fluxos de informação.

é a ampliação dos lugares mercadológicos.40 A técnica pode ser re-funcionalizada. . cultura e esfera pública 99 A questão tecnológica. p. zonas de baixos salários e de reduzida proteção social”. justaposto aos confrontos que se dão nas diversas arenas sociais. Não se trata de uma valorização excessiva dos palcos comunicacionais. com a ajuda de seus Estados. justamente num momento de expansão do caráter excludente do capitalismo. ligadas à esfera pública. no tocante à intensidade do trabalho e à precariedade do emprego” permitiu “aos grupos americanos e europeus a possibilidade de constituir. Isso evidencia a contradição inerente àquilo que Habermas chama de esfera pública burguesa. requer intervenção estatal. pois define um embate no espaço dito virtual. Jürgen. social e econômica sem precedentes.41 O marco tecnológico contemporâneo comporta um enorme potencial que não pode ser desprezado pelos setores populares. O que ocorre. A mundialização do capital capital. não pode ficar à mercê de voluntarismos. significa inicialmente apenas o deslocamento dos momentos de produção social e de poder político conjugados na tipologia das formas de dominação da Idade Média avançada. o que remete à necessidade do empreendimento de ações em direção à utilização e recriação da mídia. para o autor. 35. François. para seu uso como instrumento do espaço público. como em algumas experiências alternativas. Com a expansão das relações econômicas de mercado surge a esfera do “social” que impede as limitações da dominação feudal e torna necessárias formas de autoridade administrativa. mas de um reconhecimento de que as instituições legais. ao reduzir o poder do Estado sobre a sociedade: A esfera pública burguesa desenvolveu-se no campo de tensões entre Estado e sociedade. mas de tal modo que ela mesma se torna parte do setor privado. 169.Julho/Dezembro . Mudança estrutural da esfera pública pública. no entanto. 1996. A separação radical entre ambas as esferas.Nº 14 . não é a fundamental. forjada com a derrocada do poder feudal e o desenvolvimento do capitalismo mercantil do século XVI. então. na qual se fundamenta a esfera pública burguesa. há muito já não O público e o privado .Paradigma digital: capitalismo. Economia e política se articulam. constitui-se alguma condição de base para o surgimento ou a reestruturação da esfera pública que garante a legitimidade do sistema de dominação. Sua constituição representa. A partir dos dispositivos técnicos.2009 40 CHESNAIS. assim. um efetivo avanço democrático. mas. com a internet e a TV digital. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro. 41 HABERMAS. uma organização política. Chesnais lembra que a resultante da combinação “das novas tecnologias e das modificações impostas à classe operária. São Paulo: Xamã. 1984. centradas nos parlamentos. necessariamente na definição dos rumos que serão dados às redes de comunicação. p.

42 Isso certamente degrada a proposta original de um lugar de conversação racional. mas pôr-se em comunicação com ele”. Brecht apresentava a questão com toda clareza. presente nas bordas da forma publicidade dominante. representa. Disponível em: <http://www. o seria se não somente transmitisse. mas o crescente domínio que sobre ela exercem os interesses privados que o liberalismo. um espaço público parcial. v. Teorias de la radio. mas também recebesse. n. Acesso em: 22 mar. por sua vez. tornando-se “o consenso na questão” gradativamente supérfluo devido ao “consenso no procedimento”. há uma formalização da discussão. inerente ao capitalismo e à esfera pública burguesa. nesse modo de produção. em outro trecho: 42 HABERMAS.. portanto. cit. Já nos anos 30 do século XX. Mas a contradição fundamental está posta já desde o início. voltado para a formação de uma opinião pública livre. 43 mas é parte destas obrigações da autoridade suprema informar regularmente a nação. tanto do Estado como da racionalidade econômica capitalista. ao apontar que “o rádio seria o mais fabuloso aparato de comunicação imaginável da vida pública. não permitisse somente ouvir a radioescuta. um sistema de canalização fantástico. constituindo-se. Berttold. A massificação. num primeiro momento não há porque imaginar que a simples inovação tecnológica vá representar sua ampliação. Jürgen.eptic. Com a indústria cultural. BRECHT. maio-ago. ademais. 2003. não se esgota em transmitir estas informações. com. converter os informes dos . ou seja. A tarefa da radiodifusão.100 Valério Cruz Brittos César Ricardo Siqueira Bolaño protegem os cidadãos contra o Estado. tem que organizar a maneira de pedir informações. Essa lógica contraditória. apenas radicaliza uma tendência que lhe é inerente. Eptic On Line LineRevista de Economía Política de las Tecnologías de la Información y Comunicación. na estrutura dos meios de comunicação. se manifesta. enquanto os conflitos que resultam “em polêmica pública são desviados para o nível de atritos pessoais”. O Fórum Social Mundial é um exemplo atual dessa separação. replicando. mediante o radio. Aracaju. como um todo. 2. princípio com longa tradição no pensamento político e social ocidental. a contraditoriedade intrínseca ao desenvolvimento tecnológico. 194. Como a ágora grega. Além disto. 43 Ou. a esfera pública habermasiana nunca incorporou toda a sociedade. Se a parcialidade da esfera pública é inerente à própria condição do capitalismo.br>. segundo Habermas. desde os debates filosóficos da Grécia clássica. que desatrela a sociedade civil. p. questões fundamentais são definidas como problemas de etiqueta. ao contrário. acerca de sua atividade e da legitimidade de sua atuação. assim. 2003. na medida em que reflete as desigualdades do sistema em que está inserida. senão também fazer falar. ele próprio. ao incorporar demandas de setores antes não representados. O que a afasta do ideal liberal não é seu caráter parcial. Subjaz uma necessidade de retorno à distinção entre público e privado. op. e não isolar. 5.

do ponto de vista da economia. as disputas das cidades. cit. o que obriga os diferentes agentes a adaptar-se a seus ditames para poder participar da arena política. próxima da concepção original de Habermas. os debates sobre aumento do preço do pão. O espaço público. que se traduz. segue restrita a setores cultos e relativamente ricos. a sua evolução no sentido do refinamento dos instrumentos de dominação e as possibilidades liberadoras que lhe são próprias. o cinema ou o jornal possam cumprir um papel de espaço público inclusivo têm que inverter sua lógica atual. segue como uma meta a ser alcançada. construída e representada. na privatização da esfera pública. O papel do Estado Assim. cultura e esfera pública 101 governantes em respostas às perguntas dos governados. ainda. Isto porque a lógica subjacente ao desenvolvimento da internet é a mesma daquela relativa à implantação da televisão segmentada. São. o rádio. o único caminho para a maior parte dos cidadãos orientar-se e informar-se sobre o mundo. O público e o privado . de forma semelhante ao que ocorria com a esfera pública burguesa clássica do século XIX.Nº 14 . enquanto dinâmica incorporadora. a internet. op.44 Ou seja. por oposição à TV de massa: a da exclusão pelos preços. o que permite explicitar. Com o desenvolvimento das tecnologias midiáticas viabilizadoras da interconexão mundial de certos segmentos sociais. mas construída socialmente. mas o palco em que a realidade social é. A idéia de uma contradição inerente à esfera pública no capitalismo é central nesta concepção. mas mais diretamente vinculada a Marx e à discussão sobre a atual reestruturação capitalista. a televisão aberta. São eles os pauteiros da sociedade. A radiodifusão tem que fazer possível o intercâmbio. Se consideram isto utópico. no campo da política. que não é determinada tecnologicamente. à disposição de todos e voltada para a participação multicultural. ou uma internet que remonte às utopias projetadas nos seus inícios. Berttold. lhes rogo reflexão sobre porque é utópico. Conceber outra televisão. para que a TV digital. Só ela pode organizar grandemente as conversas entre os ramos do comércio e os consumidores sobre a normalização dos artigos de consumo. ao mesmo tempo. permanecendo.Julho/Dezembro . retoma-se a idéia de constituição de uma esfera pública global. Não são as indústrias culturais simples mediadoras complementares de um debate travado externamente.2009 44 BRECHT. . a um tempo. a esfera pública viabilizada pela tecnologia contemporânea. envolve deixar de encarar os meios como ativos materiais e imateriais e vê-los como parte bastante significativa do que pode vir a ser um espaço público democrático.Paradigma digital: capitalismo.

quando surge a Indústria Cultural e a cultura de massas. tendendo a dominá-los de forma muito mais profunda do que anteriormente”. que prevalecerá. que acabariam por esterilizar o seu potencial crítico e transformador. que se afigura mais hegemônico que nunca no seio do pilar da regulação. decorrentes da interatividade e do trabalho em rede. elegendo a produção de sentido como fator único a ser contabilizado no jogo comunicacional. Boaventura de Sousa. sob “a égide do princípio do mercado. como se observa. não só os proprietários. o que já estava posto no momento da sua mudança estrutural. A crítica da razão indolente indolente: contra o desperdício da experiência. na passagem do capitalismo concorrencial ao monopolista. assim. Porto: Afrontamento. capaz de incorporar todos os cidadãos. da esfera pública original. mas também o Sobre o tema. mas restrito. durante o século XX. mas toda uma política de incorporação das massas. BOLAÑO César. A situação atual pode ser identificada. no sentido progressista. 143. estudada por Habermas. ver HERCOVICI. no limite. portanto.102 Valério Cruz Brittos César Ricardo Siqueira Bolaño para a imensa maioria da população mundial. com aquele momento de passagem da esfera pública burguesa clássica para o sistema de manipulação das consciências. em um aspecto fundamental. não é o Estado o único antagonista na luta dos movimentos sociais por espaço público verdadeiramente democrático que. CASTAÑEDA. para além de seu protótipo do século XVIII. a inviabilidade de se construir uma esfera pública popular e dialógica longe do processo de discussão acerca das macromudanças econômicas e sociais. 2007. invertendo-se o processo original.46 Fica clara. p. bem como a impossibilidade de fazê-lo sem uma ação do Estado. em que este era o ente que deveria justamente ser controlado e submetido às leis daquele fórum democrático. 2000. A esfera pública poderia ser aquele lócus. Alain. o que exige não apenas a disponibilização da infra-estrutura. como chegam a celebrar seus conteúdos. sem o qual a democratização e o ideal de autonomia dos sujeitos não poderiam se realizar. 46 45 . VASCONCELOS Daniel. A luta agora é pelo acesso aos novos meios interativos. de modo que se renova a luta pela eliminação das fronteiras que excluem a maioria da população mundial. Economia Política da internet internet. Isto implicaria a superação do conceito burguês original de esfera pública. Por isso. por exemplo. SANTOS. totalmente válido o paradigma da cultura de massas. Não obstante.45 o que passa por uma reorientação do modo de pensar a comunicação. incluindo a socialização do capital cultural. na organização do Fórum Social Mundial. projetada como negócio nos discursos pós-modernos. Aracaju: Editora UFS. no seu trabalho dos anos 60. A reestruturação atual repõe em grande medida o caráter crítico. são inegáveis as possibilidades de efetivos avanços democráticos que o novo meio oferece. não apenas sua autonomia em relação ao Estado. Marcos. dado que produz um excesso de sentido que invade o princípio do Estado e o princípio da comunidade. propõem agora. segundo o autor. os quais não só desresponsabilizam a mídia. em que se forjam as lutas políticas de nosso tempo.

representam uma possibilidade concreta de democratização da esfera pública global. está posta. que ganha expressão e muitas vezes lugar na mídia. por interesses oligopolistas. mas sobrepõemO público e o privado . a partir da pressão social. por exemplo. deve ainda ser entendido como lócus da luta de classes e.47 Mas esse mesmo Estado. questionável.Nº 14 . por sua vez. parcelas irrisórias de cidadãos de alguns países. pode. Mas os novos movimentos sociais. observa que o alargamento da esfera de ação estatal e a consolidação do setor privado da economia não foram percebidos como objetivos contraditórios. são demonstração de um nível de articulação de setores da cidadania no nível mundial. na construção da sociedade industrial.Julho/Dezembro . cuja origem de classe e condição de instrumento de dominação são conhecidos. cultura e esfera pública 103 controle do próprio mercado. que é interventor ou absenteísta. 1978. 47 . prevalecem hoje os espaços públicos que não conseguem ser aglutinadores. Em todo caso. como ocorreu no Brasil. submetidos muitas vezes a governos que ainda combatem qualquer arremedo de sociedade civil no âmbito dos países que controlam. apoiados muitas vezes em organizações não-governamentais (ONG) e fóruns internacionais. Isto não significa que o Estado seja um agente neutro. não é a digitalização que resolverá o problema da construção de uma esfera pública democrática e popular. 290-291. enquanto que a imensa maioria da população mundial permanece presa aos mecanismos cada vez mais inócuos dos Estados nacionais. Eli. um fenômeno ainda mais excludente do que suas manifestações no plano nacional. O controle do mercado exige a regulamentação estatal. e de modo informal. Eli Diniz. no grau que seria exigido.2009 DINIZ. sem qualquer relação com os (fracos) mecanismos institucionais que compõem a espinha dorsal do Império. conforme os interesses dos capitais. Rio de Janeiro: Paz e Terra. Estado e capitalismo no Brasil Brasil: 1930/1945. portanto. pois se trata basicamente de uma ficção. estudando a relação entre Estado e empresários no período inicial da industrialização brasileira. por exemplo. os quais se puderem superar o risco de voltar-se apenas para a micropolítica. nesse sentido. nesse sentido. A “participação de agentes oriundos de localidades subalternas”. promover medidas tendentes a viabilizar a construção de um espaço público democrático. espaço também de ação visando à transformação social. Nisso convergiam os defensores do sistema autoritário e as lideranças empresariais. A esfera pública global é. após o fim da ditadura Vargas. Sendo assim. incluindo apenas. Considerações conclusivas A idéia de uma sociedade civil mundial é.Paradigma digital: capitalismo. dominado hoje essencialmente. senão que solidários. nessas condições. O Estado mesmo. Empresário. ainda no processo de industrialização. p.

Assim. 198. Revista da olítica olítica. Berttold. que construa novas formas de organização das entidades produtoras.48 ou ricos e pobres. programadoras e distribuidoras de fluxos comunicacionais. communication. Teorias de la radio. (Org.. 2. v. 1999. 11. . ed. 2007. Nueva Sociedad Sociedad. Referências BOLAÑO.. _____. cabo: Recepção e TV a cabo a força da cultura local. regulation. p. maio-ago. 5. Disponível em: <http://www. Trabalho intelectual. ed. 2. from the perspective of political economy of communication. pois o problema da exclusão não se circunscreve em fenômenos específicos. Recepção e TV a cabo cabo: a força da cultura local. Caracas. Valério. Globalização e Regionalização das Comunicações São Paulo: EDUC./fev. n. Rio de Janeiro. A televisão brasileira na era digital exclusão. esfera pública e movimentos estruturantes. Aracaju. Eptic On Line Line-Revista de Economía Política de las Tecnologías de la Información y Comunicación. São Leopoldo. a more extensive history of the development of this technology in Brazil and the world. La génesis de la esfera publica global. where is possible to find. BRECHT. Comunicações. Política Sociedade Brasileira de Economia P 53-78. In: III COLÓQUIO BRASIL-FRANÇA DE CIÊNCIAS DA COMUNICAÇÃO. César.). comunicação e capitalismo. 2003. 2001. p.com. _____. 2002. dez.eptic. digital: _____. on the considerations about culture and public sphere. Anais. moreover. Valério. Acesso em: 22 mar. technology. 88-95. 2. Valério. BRITTOS. Artigo Recebido: 26/05/2009 Aprovado: 18/07/2009 K ey W ords: Words: convergence. ABSTRA CT : ABSTRACT CT: This article condenses some of the theoretical framework developed by the authors for analysis of digital TV. 1995. n. 1997. n. mas é inerente ao capitalismo. This text makes the option to present the state of the art of debate on the Internet. BRITTOS. and advance the discussion about the democratization of communications.104 Valério Cruz Brittos César Ricardo Siqueira Bolaño 48 BRITTOS. Aracaju. Economia Política.br>. Aracaju. _____. é preciso um amplo movimento. political economy. convergence and its impact on the economics of telecommunications and television. para que a mídia fuja da mera produção de mercadorias e se aproxime do ideal da ágora grega universalizada. São Leopoldo. 147. 2001. como a globalização. Comunicação e Globalização. 2003. p. se as diferenças “entre nações dominantes e dominadas”. 1995. São Paulo: Paulus. jan.

Enrique. Bernard. Presente y futuro de la television digital Edipo.). DINIZ. Patrick. Informática e Brasil. SALAÜN. José María Álvarez (Orgs. Presente y futuro de la television digital digital. Marcos. 1999. 1978. GARNHAM. Economia da cultura e da comunicação Fundação Ceciliano A. Disponível em: <http://www. Livro V da Informação no Brasil Brasil. Crenoble: PUG. O público e o privado . Paris: Aubier. Enrique. Madrid: Edipo. François.br>. MONZONCILLO.gov. 297-314. ION. Armel. Alain. Presente y futuro de la television digital digital. 1995. São Paulo: Xamã. l’áudiovisuel: des programmes pour les nouveaux L’industrialisation de l’áudiovisuel médias. In: BUSTAMANTE. Disponível em : <http://www. BOLAÑO César. José María Álvarez (Orgs. 1986.2009 . Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro. HERCOVICI. MONZONCILLO. olítica da internet VASCONCELOS Daniel. 2007. 1978. Enrique. p. Mudança estrutural da esfera pública pública. René. comunicação. La televisión del siglo XXI: será o no será! In: BUSTAMANTE. 2004.Julho/Dezembro . MIÈGE. Acesso em: 5 out. HABERMAS. El desarrollo del multimedia: un desplazamiento de la correlación.Nº 14 . Economia P Política internet. Jacques. Alain. CASTAÑEDA. 1984. Bernard.mct. HUET. 21-32.mct. Empresário. p. 283-295. MONZONCILLO. de Almeida. Jean Paul. de da Sociedade er erde Ver MINISTÉRIO DA CIÊNCIA E TECNOLOGIA. PAJON. Aracaju: Editora UFS. Capitalisme et Industries Culturelles LAFRANCE. MIÈGE. Jean-Michel. CHESNAIS. José María digital.br/ telecomunicações no Brasil Temas/Socinfo/Livro_Verde/ca03.Paradigma digital: capitalismo. Acesso em: 20 maio 2003. p. PERON. cultura e esfera pública 105 BUSTAMANTE. La televisión digital: referencias básicas. Rio de Janeiro: Paz e Terra. Madrid: Edipo. A mundialização do capital capital. Eli. UFES. 1999.). MINISTÉRIO DA CIÊNCIA E TECNOLOGIA. Vitória: HERSCOVICI. Culturelles. 1999.gov. LEFEBVRE. 1996. Madrid: Álvarez (Orgs.pdf >.). Nicholas. Estado e capitalismo no Brasil Brasil: 1930/1945. In: ______. Alain. Jürgen.

N’GUYEN. Porto: Afrontamento. 1999. A crítica da razão indolente indolente: contra o desperdício da experiência. 1988. Jean-Guy. La théorie des industries culturelles face aux progrès de la numérisation et de la convergence. Cultura.enst-bretagne. Acesso em: 14 dez.106 Valério Cruz Brittos César Ricardo Siqueira Bolaño PHAN.fr/biblio/ et de l’Iternet ecotel. . TREMBLAY. In: LACROIX. Les autoroutes de l’information l’information: un produit de la convergence. Madrid: ZALLO. 2000.pdf>. Boaventura de Sousa. SANTOS. TREMBLAY. Economie des Télécommunications l’Iternet. Economía de la Comunicación y la Cultura Akal. Denis. 1995. Sainte-Foy: Presses de l’Université du Québec. Gaëtan. Godefroy. Gaëtan (Orgs. Ramon. Disponível em: <www-eco.).

H O caso acabou envolvendo o suicídio da fonte da BBC. a BBC. e um inquérito público no qual o relatório do juiz. o Governo acusou a BBC de ser parcial e não investigar corretamente a informação. retransmitindo programação das redes já existentes em localidades de difícil acesso. o relatório governamental sobre a existência de armas de destruição em massa no Iraque. comunicação. á alguns anos teve ampla visibilidade uma longa batalha entre a TV pública britânica. nos ambientes da produção e da distribuição de conteúdo televisivo. Em um momento em que o governo brasileiro começa executar um plano de uma TV estatal fortalecida. publicado em setembro de 2002. É possível dividir esta atuação em duas funções. absolveu o Governo pela responsabilidade no suicídio e O público e o privado .Nº 14 . Lord Brian Hutton. gerando programação para canais específicos e.(*) Suzy dos Santos é Professora do Programa de Pós-Graduação e da Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Uma primeira em que o Estado atua como produtor. uma segunda. trazia dados propositalmente exagerados. Palavras-chave: estado. televisão.Julho/Dezembro . E-mail: suzysantos@ufrj. Do outro lado.2009 . após a divulgação de seu nome pelo Governo. e o primeiro-ministro Tony Blair.br 107 O dono do mundo: O Estado como proprietário de televisão no Brasil The owner of the world: The State like television owner in Brazil Suzy dos Santos* Resumo: Este artigo pretende analisar a atuação do Estado brasileiro como proprietário de meios de comunicação. em que atua apenas como distribuidor. Segundo reportagem exibida no programa de rádio Today. o debate sobre as condições de independência nas emissoras estatais existentes pode jogar alguma luz acerca deste processo.

Pois eles. tal qual no século XIX. Não é nosso objetivo discutir aqui a Empresa Brasil de Comunicação. constituidores principais da esfera pública contemporânea. em qualquer época. E cidadania não há sem acesso à informação. de debate tão amplo sobre a própria televisão. no País”1. em 28 de janeiro de 2004. 53). p. das comprovações de plágio no dossiê do serviço de inteligência britânico até a divulgação do ‘relatório Hutton’. escravo. ainda que relativa. Hoje ainda. Ramos afirmava que: 1 Criada pelo Requerimento nº 470. o que pretendemos é nos focar na complexa e fragmentada estrutura existente até então. pois escravo é todo aquele que não pode se apresentar diante do outro como verdadeiro cidadão. a privação. Lá. Em um momento em que o governo brasileiro começa executar um plano de uma TV estatal fortalecida. nem seus condicionantes. e principalmente. nosso liberalismo estabelece um limite claro para seu avanço democrático: o limite da escravidão. juntamente com as organizações estatais – e eu friso – entre as mais públicas. a Comissão elaborou um vasto relatório contendo proposições para o setor. de algum modo. Murilo César Ramos aponta a ausência de visibilidade no cenário televisivo sobre as questões relativas ao próprio negócio como uma barreira à prática de cidadania no país. 1998. O conflito entre Governo e BBC abalou a imagem das duas instituições e causou as demissões de altos funcionários da companhia pública de radiodifusão e da assessoria de imprensa do Primeiro-Ministro. pode ser quase tão cruel. o povo era privado da sua liberdade no sentido mais absoluto. o debate sobre as condições de independência nas emissoras estatais existentes pode jogar alguma luz acerca deste processo.108 Suzy dos Santos condenou a BBC por ter divulgado uma informação com base em única fonte. “Destinada a Analisar a Programação de Rádio e TV. informação sobre os interesses e o funcionamento dos meios de comunicação. as mais transparentes. a polêmica tem servido de pano de fundo para nova discussão sobre a condução e a manutenção da independência das empresas públicas de radiodifusão. de 1995. Inclusive. . têm o dever de estar. Em depoimento à Comissão Especial do Senado. em fevereiro de 2003 pelo Channel 4. aqui. de todas as instituições sociais (Simon. Desde a divulgação. pois um homem privado da informação continua a ser. Na história da televisão brasileira nem há episódio onde uma emissora educativa tenha questionado com tanta intensidade o Estado nem vivência.

porém. Tales Faria. uma das grandes figuras do telejornalismo brasileiro. Alberto Dines. traduziu recentemente a expressiva dependência da televisão pública às índoles políticas locais e regionais. vinculado à Secretaria O público e o privado . “sócio” da TVE). o apresentador do programa. A TV Educativa integra o IRDEB – Instituto de Radiodifusão Educativa da Bahia. Antônio Carlos Magalhães2. é possível alegar que. Nas palavras de Dines: a TVE tem dono. que integra as emissoras públicas.O dono do mundo: O Estado como proprietário de televisão no Brasil 109 O exemplo mais próximo de programação televisiva como a requerida pelo autor é o Observatório da Imprensa exibido pela Rede Pública de Televisão. O jornalista alegou.Nº 14 .2009 Intitulado Memória das Trevas: uma devassa na vida de Antônio Carlos Magalhães. Mais: a TVE da Bahia (um feudo do senador ACM) ao longo daquela terça-feira deu sucessivos indícios de que não retransmitiria o ‘Observatório’. Em fevereiro de 2001. embora o projeto em curso seja convertê-la em rede pública. autor de um livro-denúncia contra o senador. ele mesmo uma vítima das perseguições de ACM. . pela Geração Editorial..Julho/Dezembro . O próprio programa. 2 Ampliando o recurso figurado de Dines. da IstoÉ em Brasília. um dos poucos – talvez o único – capazes de tirar a televisão educativa da crise em que se encontra.. 2001. [. Fernando Barbosa Lima.] Acresce ainda que o programa coincidiria com o início da gestão do novo presidente da TVE.. o que evidentemente eliminaria qualquer possibilidade de isenção com uma saraivada de críticas ao senador durante uma hora de programa. o livro foi lançado em janeiro de 2001.] E o governo federal vive uma crise política protagonizada justamente pelo senador ACM (teoricamente aliado e. [Em linha]). que a exibição do programa poderia ser usada para prejudicar o então presidente da TVE-Rede Brasil. estatais e privadas sem caráter comercial. Os outros oito recusaram sob os mais variados pretextos. cancelou a edição do programa que entrevistaria João Carlos Teixeira Gomes. dentre outros motivos. portanto.. é do governo federal. o jornalista Fernando Barbosa Lima. falecido em julho de 2007. o senador Antonio Carlos Magalhães era na época ‘proprietário’ também da afiliada regional da emissora na Bahia. Acresce que dos nove comentaristas políticos convidados para participar do programa. além de ‘sócio’ da TVE. O Executivo paga e manda [. criando um “imbróglio” político que respingaria no presidente recémempossado (Dines. apenas um aceitou.

Utilizamos aqui a versão apresentada no segundo volume da coletânea The Political Economy of Media. pelos mesmos autores. Golding. por ser ‘arranjado’. No entanto. a televisão. editada. com uma entrevista do autor de Memória das Trevas. p. 1997b.110 Suzy dos Santos de Cultura e Turismo do Estado. p. o programa Vitrine. em 1997. e sua programação foi fortemente influenciada pelo Senador nos longos períodos em que seus aliados estiveram nos cargos centrais do governo estadual. As diferentes naturezas dos serviços fizeram com que a telefonia fosse regulada prioritariamente em relação à distribuição/transporte de informações e a radiodifusão em relação ao conteúdo. 3 Whenever access to the communications and information resources required for full citizenship depends upon purchasing power (as expressed directly through customer payments or indirectly through the unequal distribution of advertising subsidies to production). como também na divulgação da convicção de que era indissolúvel o casamento entre eficiência tecnológica e os valores morais de justiça. no que se refere ao provimento de conteúdo (radiodifusão) e ao tráfego de informações (telefonia/transmissão de dados). posteriormente. v. igualdade e bem público (Mosco. 39. (1989). 1043). De maneira adversa à idéia de TV pública independente. os episódios de atrelagem da TV Educativa a uma elite política regional foi pouco questionado. quando transmitia uma entrevista ao vivo com Andrei Meireles. 100-115. Information poverty and political inequality: citizenship in the Age of Privatized Communications. a necessária autocrítica do setor nem políticas públicas que incluam o controle do conteúdo transmitido pelas estações educativas. não reflete a felicidade ‘até que a morte os separe’: A referência da primeira publicação do texto é: MURDOCK.. GOLDING. a TV educativa baiana deixou de retransmitir outros dois programas que continham acusações contra Antônio Carlos Magalhães: o programa Opinião Brasil. tiveram papel fundamental não apenas na criação de uma indústria totalmente nova. a justificativa dada pela TV Educativa da Bahia foi a de que problemas técnicos tiraram o sinal do ar. este casamento. Nos dois episódios. 1996. p. cresceram e foram regulados sob lógicas e instâncias normativas distintas (Garnham. 3. no país. No mesmo 2001 em que ocorreu a suspensão da entrevista no Observatório da Imprensa. 34). 1996. Tanto o rádio quanto. Journal of Communication Communication. e. p. . Os serviços de telecomunicações. P. a Indústria Cultural. substantial inequalities are generated that undermine the nominal universality of citizenship (Murdock. o jornalista da revista Istoé co-autor da reportagem que continha a declaração do Senador sobre sua participação em uma violação do painel de votos do Senado. Como não há. G. ainda são escassas no país as estações públicas que não estão diretamente condicionadas aos poderes públicos. n. 1995). Richeri. em junho. 180-195. 1990. em 24 de janeiro.

com base em três princípios genéricos: acesso universal (common carriage). controle de preços (tarifas não discriminatórias).aqueles instrumentos e aparatos foram consequentemente adaptados. Encarado como questão estratégica nas políticas de desenvolvimento do século XX. e . genericamente chamado de comunicações. e. Os sistemas regulatórios evoluíram em seguida para evitar danos morais. tanto a distribuição quanto o conteúdo eram fortemente controlados pelos Estados fosse nos modelos público. prevenir excessiva concentração de poder. estatal ou comercial. em seguida a TV . e sua estrutura regulatória foi desenvolvida em relação à estrutura física. Na radiodifusão. Na medida em que novas tecnologias deram origem a novos meios de comunicação de massa . regular a relação trabalhista entre empregados e proprietários dos meios. estando baseada em princípios diversos das telecomunicações e mais próximos à lógica aplicada anteriormente à imprensa. o controle destes serviços era regido especialmente por um enfoque geopolítico e de segurança do Estado.Nº 14 .particularmente nas democracias liberais da Europa ocidental e nos Estados Unidos garantir formas de competição econômica suficiente para frustrar o estabelecimento de monopólios (1997. exceto nos EUA. Ainda segundo Jambeiro.Julho/Dezembro . estes serviços usualmente estão incluídos dentro de um setor único. licenciar freqüências de rádio e TV. interconexão. Como sustenta Othon Jambeiro: Histórica e universalmente.o cinema. muitas vezes para permitir que se pudesse continuar a policiar e controlar a mídia. Esta regulação incluía critérios culturais e econômicos. Apesar das distinções no mercado e na natureza da regulação. O conteúdo das transmissões era considerado uma transação privada e jamais foi controlado.O dono do mundo: O Estado como proprietário de televisão no Brasil 111 Os serviços de telefonia e transmissão de dados se consagraram historicamente como monopólio estatal.2009 . depois o rádio. no qual o Estado assume as funções de proprietário. os sistemas regulatórios desenvolvidos para governar a indústria da TV têm derivado diretamente dos instrumentos legais e aparatos burocráticos que os estados-nações criaram para tratar com a Imprensa. promotor ou regulador. p. além dos políticos. 148). O público e o privado . salvo em períodos de guerra ou convulsão social.

regionais ou nacionais. como dependiam dos aparatos estatais. tal qual definido por Jambeiro (2000). Apesar de ser ator preferencial na expedição de outorgas para a prestação de serviços de radiodifusão. p. esses canais estiveram sempre submetidos às injunções políticas e econômicas dos poderes onde estavam localizados. Como mencionado anteriormente. que eliminem as incertezas e desequilíbrios (Jambeiro. por exemplo. do período posterior a 1964. E. dos Estados. e concede incentivos e subvenções. gerando programação para canais específicos e. É também Estado Promotor. A tentativa de estabelecer uma rede estatal nacional de televisão educativa encontrou no próprio Estado seu maior complicador. no caso da televisão. a maioria das geradoras federais e estaduais se diferencia da idéia de TV Pública como instituições independentes dos governos e do mercado tanto na forma . na sua função de fixar regras claras de instalação e operação. retransmitindo programação das redes já existentes em localidades de difícil acesso. Tão recorrente quanto a queixa é a exigüidade das situações onde o jornalismo das estatais cumpre seu papel de watchdog alertando os telespectadores quanto aos abusos dos poderes locais. centros de documentação. Uma primeira em que o Estado atua como produtor. a participação da União. do Distrito Federal e dos Municípios como proprietários. É possível dividir esta atuação em duas funções. em que atua apenas como distribuidor. Esta corriqueira relação de amor e ódio tem ancestralidade na Rádio Nacional de Getúlio Vargas. uma segunda. faz inversões de infra-estrutura. à bibliotecas. no que se refere. a participação do Estado como produtor terminou por ser pouco expressiva e fragmentada. Embora seja pouco discutida a atuação estatal no cenário brasileiro de radiodifusão. A infraestrutura de telecomunicações possibilitou tecnicamente a constituição destas redes mas. finalmente. ao espectro eletromagnético e às emissoras de rádio e TV que explora diretamente. é parcela considerável da distribuição de programação televisiva. é Estado Regulador. 23). porque traça as estratégias públicas para o desenvolvimento do setor. 2000.112 Suzy dos Santos Ele é Estado Proprietário. “Síndrome de Estocolmo” das TVs Estatais: os conflitos no Estado Produtor Não raro ouve-se de dirigentes de TVs estatais queixas sobre a atuação dos governos frente às instituições de radiodifusão. e berço nos governos militares. nos anos 30.

20 membros natos: representantes de instituições educativas e culturais públicas e privadas cujos mandatos são coincidentes ao período em que os titulares permanecem nos cargos. o Conselho Curador da Fundação Padre Anchieta é composto por 46 conselheiros assim distribuídos: um membro emérito. A principal exceção ao controle direto do Estado é a Fundação Padre Anchieta . [Em linha]). três membros vitalícios. sendo obrigatória a renovação anual de um terço dos membros. 21 membros eletivos. a TV Cultura não pode ser considerada no mesmo rol das fundações privadas que vêm ganhando espaço. e. indicados pelo próprio conselho. eleito em votação direta e secreta (Fundação Padre Anchieta. inicialmente indicados pela fundadora. Por outro lado. A contradição na implantação do modelo de TV pública está exatamente no período desta criação. Uma TV pública formada no auge do autoritarismo militar não poderia ser totalmente independente do Estado. Renata Crespi da Silva Prado. um representante dos funcionários da Fundação. dois exemplos que também se aproximam da idéia de gestão pública são a TVE-RS .Fundação TV Minas Cultural O público e o privado . Assim. A TV Cultura é o único caso da Rede Pública de Televisão no país em que a estrutura administrativa é desvinculada dos poderes executivos nacional. nem nas instituições estatais de radiodifusão. O mandato é de três anos reelegível por mais três. Ela configura uma espécie singular de fronteira entre estas classificações. Criada em 1967.Julho/Dezembro . estadual ou municipal. a dependência direta das verbas públicas fez com que a TV Cultura estivesse sujeita aos ‘humores’ dos Governos em questão. após seu falecimento.Fundação Cultural Piratini. eleitos pelos próprios conselheiros vitalícios. Por ser administrada por um conselho que inclui diversas representações da sociedade.2009 . a Fundação Padre Anchieta já nasceu com administração independente do governo estadual inspirada nos moldes da BBC. e a Rede Minas de Televisão .Nº 14 . nos últimos anos. Dentre as televisões tradicionalmente definidas como estatais. por não traduzir um modelo de televisão cujo financiamento esteja vinculado a normas que proporcionem a sua independência em relação ao Estado. tal qual nas emissoras estatais.Centro Paulista de Rádio e Televisão Educativa. gestora da TV Cultura-SP .O dono do mundo: O Estado como proprietário de televisão no Brasil 113 de controle quanto no financiamento. Não tendo seus membros indicados pelo poder público. o fundador da instituição. a TV Cultura também não se insere nas definições de radiodifusão pública. Juridicamente impedidas de veicular publicidade estas emissoras dependem exclusivamente do aparato estatal para a sua sobrevivência.

aprovado pelo Decreto 53. 2007 online). Contudo. a programação de televisão cultural ou educativa com fins político-partidários ou divulgar idéias que incentivem preconceitos de raça. sua rede de retransmissoras no estado para a TV Liberal. Mas. Ambas estão vinculadas às Secretarias de Estado da Cultura e condicionadas a indicação de membros dos Conselhos Curadores pelos governadores dos estados onde se inscrevem. afirmou que o acordo consistia em uma permuta pela qual o governo recebia 30 minutos mensais de espaço publicitário na grade da TV Liberal (LOBATO. estabelece a promoção da liberdade de expressão e a proibição da censura (Art. pode ser 4 A Folha de São Paulo é jornal diário e a ISTOÉ semanário.502. o Estatuto da Fundação TV Minas. parágrafo único. na composição dos conselhos gestores destas fundações. Um primeiro dispositivo que as distingue das demais empresas estatais de radiodifusão é a presença de representantes de esferas distintas da estatal. tal qual ocorre na Fundação Padre Anchieta. revelada por Elvira Lobato.114 Suzy dos Santos e Educativa. ouve-se falar da comercialização de espaços publicitários em algumas emissoras ou de programas sensacionalistas em outras. as duas publicações tratam do mesmo contrato. como instituições de ensino e entidades de classe. proíbe à Fundação “utilizar. . definido pela Lei Nº 10. por pelo menos 25 anos. a revista Istoé dizia que a retransmissora da Rede Globo recebeu R$ 200 mil para ceder sua programação às retransmissoras estatais (ISTOÉ. O Artigo sexto. 1997). sob qualquer forma. A Folha de São Paulo e a Istoé4 mostraram funções distintas no acordo. A Funtelpa – Fundação de Telecomunicações do Pará. alugou. Também a proximidade entre Estado e mercado de televisão comercial é tradição no Brasil. De tempos em tempos. vinculada à Secretaria Especial de Promoção Social do Estado. de 30 de março de 1994. 3º §§ 3º e 4º). de 08 de agosto de 1995. mas igualmente incisivo. Embora com uma diferença de três anos entre si. retransmissora da Rede Globo. e assegurar a possibilidade de expressão e confronto de diversas correntes de opinião”(TVE. A permuta. Enquanto a coluna de Elvira Lobato. ambos com expressiva circulação no território nacional. 2007 online. a rara situação de cessão da estrutura estatal de radiodifusão para um canal comercial chama atenção.535. classe ou religião” (Rede Minas. no Pará. publicada no jornal diário. Outro dispositivo é relativo à coibição do uso político-partidário das emissoras. A transmissão de conteúdo distinto do comercial também não está garantida nas TVs estatais brasileiras. Um pouco menos elaborado. 2000). garante que os serviços da Fundação “funcionarão de modo a salvaguardar sua independência perante o Governo Estadual e demais Poderes Públicos. O estatuto da Fundação Piratini. os estatutos destas fundações trazem dispositivos que buscam assegurar a independência ideológica.

O dono do mundo: O Estado como proprietário de televisão no Brasil 115 confirmada no Balanço de Promoção Social da Secretaria da Fazenda do Pará. a situação de ausência de controle dos canais estatais deve-se também à sua pequena expressão na totalidade do sistema televisivo.2009 5 Trecho da defesa da Funtelpa citado por Elvira Lobato (LOBATO.Julho/Dezembro . podendo para tal realiza-lo diretamente ou por delegação. 2000). . a Funtelpa exerce a gerência direta de manutenção de 76 (setenta e seis) retransmissoras de televisão. Segundo Elvira Lobato. em 1997. o Governo Federal também é operador de oito retransmissoras em estados diversos e dos canais. No âmbito federal são seis geradoras de televisão aberta: três em Brasília-DF . O público e o privado . TV Justiça e NBR. Não se tem. uma em São Luis-MA. Além destes. possuindo também sob sua responsabilidade a operacionalização do sistema digital de televisão. e. por assinatura. O convênio chegou a ser objeto de uma ação popular. que proporciona a transmissão via satélite da imagem da quase totalidade de nossos 143 (cento e quarenta e três) municípios através dos sinais da TV Liberal (Secretaria da Fazenda. a TV Cultura com duas retransmissoras próprias. notícia de qualquer observação da Anatel ou do Ministério sobre o caso. por força de convênios passou a executar a despesa com pagamento de publicidade e publicações do governo estadual. onde se afirma que A Funtelpa é responsável também pela implantação e funcionamento do Sistema Estadual de Repetidoras e Retransmissoras de Sinais de Televisão – SIERT em todo o Estado. uma no Rio de Janeiro. TV Senado e TV Nacional.8% do total de outorgas do país. 1998 [em linha]). Através de repetidoras de televisão. como a televisão”5. assim como. uma em Natal. As TVs operadas por governos estaduais estão distribuídas conforme a figura a seguir. em detrimento da TV Cultura do estado também vinculada à Funtelpa.Nº 14 . Além das políticas públicas confusas. a TVE Maranhão com seis retransmissoras próprias. de 1998. a TVE – Rede Brasil.TV Câmara. As geradoras e retransmissoras vinculadas às administrações Federal e Estaduais não ultrapassam 6. como um ato político de integração social afirmando que “um dos objetivos do Estado é integrar a população através dos meios de comunicação de massa. também. o governo estadual justificou a parceria com a TV Liberal. espalhadas por vários municípios do Estado.

Agência Nacional das Telecomunicações. vários episódios recentes em que tem transparecido o interesse em buscar alternativas para fortalecer uma televisão pública nacional. de maio de 1998. no cerne do ambiente estatal. Mais recentemente.-Lei nº236. as discussões recentes sobre televisão pública estão excessivamente voltadas ao financiamento dessas TVs. A legislação em vigor proíbe essa forma de financiamento (Art. . 6 Embora seja possível observar. esses canais passaram a trabalhar com patrocínio e mesmo com publicidade.116 Suzy dos Santos Ilustração 1: Distribuição nacional das TVs de Governos Estaduais6 Os canais educativos brasileiros tiveram sempre uma média de audiência pequena.637. 19 da Lei 9. tecnologias ultrapassadas e financiamento insuficiente. Fonte: Ministério das Comunicações. 2007. entrando dentro da lógica dos canais particulares. a Justiça não dá prosseguimento a processos intentados por canais particulares ou por multas de órgãos de controle. de 28 de fevereiro de 1967) mas um dispositivo facilitador foi o Art. Dec. Há canais que extrapolam este limite mas como sem a publicidade estariam condenados à extinção. 13º. que liberou a publicidade institucional sob a forma de patrocínio (apoio cultural).

Julho/Dezembro . Este serviço teve alterações significativas em 19887. . “deve-se levar sempre em consideração a importância das injunções políticas que influenciam fortemente a estrutura econômica dos meios de comunicação de massa no Brasil e que sempre atuaram no sentido de manutenção das posições dominantes” (Bolaño.O dono do mundo: O Estado como proprietário de televisão no Brasil 117 A formação de uma rede pública complementar às estatais e privadas somente pode ser pensada como uma política pública mais global. de 1989. de 12 de julho de 1980.074. a qualquer momento. Tanto as retransmissoras educativas quanto as O público e o privado . Como conta o editorial da revista Tela Viva. Esta alteração agregou um atrativo político ao serviço de retransmissão educativa.291 e.854. de 15 de maio.2009 Nesse ínterim. 7 Os permissionários ganharam uma sobrevida.educativas e em fronteiras de desenvolvimento do país . em até 15% do total. O serviço de retransmissão de TV é o primordial facilitador deste objetivo. Estas permissionárias tinham o prazo de dois anos para adaptarem-se às novas regras. o governo voltou atrás antes do prazo extinguir.600 de 25 de abril. Qual é a música. a retransmissão de televisão não se insere no mesmo processo de licitações previsto para a radiodifusão. O Ministério pode. de 08 de outubro de 1979. 1999. Em 1998.Nº 14 . as retransmissoras mistas . 87.593. de 31 de março de 1982. Como era previsível. com a publicação do Decreto nº 3. O Dec.que poderiam inserir programação local. a Portaria 93. nada isonômica. logo após. 96. nº 84. com prazo indeterminado para a extinção. Regulamentada pela primeira vez em 1978.451 (09/ 05/2000). maestro? As parcas notas do Estado Distribuidor O bem sucedido projeto dos governos militares de fazer a televisão chegar a todos os pontos do país transformou o Estado em importante distribuidor destes sinais.064. em pouco tempo começaram a aparecer fundações e associações controladas por vereadores e deputados em várias partes do país. normas complementares foram sendo expedidas através dos seguintes decretos: nº 84. 81. especialmente nas localidades onde o interesse comercial em explorar radiodifusão de sons e imagens é inexistente. geradas por elas próprias. porém. [Em linha]). 2. pelo Dec. estabeleceram uma nova categoria. cancelar as permissões ou mantê-las ad infinitum sem ser necessário que elas passem por qualquer processo de avaliação do serviço como requisito para a renovação das outorgas. As permissões são concedidas diretamente por portarias do Ministério das Comunicações e têm caráter precário. estas chamadas retransmissoras mistas foram extintas pelo Dec.

Como a legislação aplicável aos serviços de radiodifusão educativa não prevê o lançamento de editais para a concessão dos canais. 1. Ao todo são 3. 2000).561 municípios brasileiros.341 outorgas de retransmissoras nas mãos de prefeituras. onde já existem emissoras comerciais.118 Suzy dos Santos microgeradoras poderão funcionar nas mesmas condições atuais até que uma geradora se instale na mesma praça ou poderão solicitar a transferência do canal para o Plano Básico de TV. poderão transformar-se em geradoras. Agência Nacional de Telecomunicações: 2006. dos 5. isto é. A maioria das RTVs educativas está instalada em regiões de alta densidade populacional. Ilustração 2: Distribuição das outorgas de retransmissoras das prefeituras municipais8 800 437 400 375 152 8 161 112 136 162 159 68 19 21 1 4 14 10 Fontes: Ministério das Comunicações. Lembro que ambas não precisaram enfrentar a tramitação no Congresso (e atualmente os processos licitatórios) obrigatória para uma concessão comercial. A participação das prefeituras municipais neste serviço é representativa. os atuais permissionários ganharão sem concorrência a freqüência que ocupam no espectro (FALGETANO. E aí mora a grande distorção.676 têm retransmissoras outorgadas às prefeituras. pois as permissões foram dadas pelo Ministério das Comunicações. Segundo os dados oficiais. 59 5 1 1 66 43 33 47 55 AC AL AM AP BA CE E S G O MA MG MS MT PA P B P E PI PR RJ RN RO RR RS SC S E SP TO .

Amparadas pelo parco conhecimento público de suas limitações e pelas dificuldades operacionais da Anatel para fiscalizar todo este rol de estações. reproduzidas na versão em rede do Observatório da Imprensa. . um pronunciamento . o único espaço reservado pela legislação para a propaganda eleitoral. Mas não é possível afirmar que apenas 6. Alagoas. Sylvio Costa e Jayme Brener detalham algumas situações nas quais o poder federal beneficia prefeituras dos partidos aliados. as prefeituras desligam os equipamentos de transmissão quando as geradoras estão exibindo programação que prejudica os interesses locais.Julho/Dezembro .2009 As retransmissoras educativas estão distribuídas entre onze estados: São Paulo e Rio de Janeiro. Maranhão. cinco. Mato Grosso e Paraíba. quatro. “a chance de uma emissora dessas ser punida por causa do conteúdo de sua programação é próxima a zero” (COSTA. Amazonas. Sarney não podia participar do horário político gratuito. três.341 permissões de retransmissão concedidas à prefeituras apenas 389 são de caráter educativo e 168 encontram-se na área onde são permitidas as estações retransmissoras mistas10. o ex-presidente e atual senador José Sarney (PMDB-AP). algumas prefeituras fazem das retransmissoras seus porta-vozes sem serem incomodadas pelo poder federal.de caráter inequivocamente eleitoral .18% do total de retransmissoras das prefeituras geram programação própria. em entrevista ao jornal Correio Braziliense. o senador usa o pronunciamento para explicar O público e o privado . Na série de reportagens. Terno claro e com a mesma expressão grave com que falava à nação em cadeia nacional ao tempo em que era presidente. ou as prefeituras fazem doações de terrenos a retransmissoras educativas ou mistas controladas por aliados dos prefeitos. Embora efetivamente a maioria das RTVs seja usada apenas para fazer chegar o sinal das grandes redes às pequenas cidades do país.Nº 14 . que atua na ilegalidade. a governadora Roseana Sarney (PFL) e o senador Epitacio Cafeteira (PPB) disputavam o segundo turno quando o pai de Roseana. Uma delas retrata um exemplo de como as elites políticas regionais fazem uso das RTVs em períodos eleitorais: 9 Nas eleições de 1994. deputado Walter Pinheiro (PT/BA). impossível de precisar. Gravou. Por não ser candidato no Maranhão. 1997). Mato Grosso do Sul. Minas Gerais e Paraná. então. Comunicação e Informática – CCTCI da Câmara dos Deputados.veiculado em todo o estado pelas repetidoras em poder das prefeituras. Como declarou. Rondônia e Tocantins. duas. Goiás e Piauí. 10 Estas retransmissoras são permitidas na região da Amazônia Legal que engloba: Acre. há uma parcela. Amapá.O dono do mundo: O Estado como proprietário de televisão no Brasil 119 Dentre as 3. uma prefeitura permissionária de retransmissora educativa em cada. ou. BRENER. Pará. foi protagonista de uma curiosa operação montada para ajudar a filha. oito permissões. um dos membros titulares da Comissão de Ciência e Tecnologia. Roraima. Mato Grosso. ainda. Rio Grande do Sul.

11 Um dos programas mais antigos e de maior audiência exibidos pelo canal SBT o Qual é a música? constitui-se de um jogo de advinhação musical apresentado pelo empresário Silvio Santos . Vai contar com a minha ajuda. Para além do uso eleitoreiro. “Roseana”.14% do território nacional e por 34. Se a pergunta “o que as prefeituras municipais exibem em suas retransmissoras?” fosse feita no game show musical de Silvio Santos11. Fazendo uma busca em sites de prefeituras e jornais de pequenas cidades. Os esforços em demonstrar transparência nas ações estatais parecem condicionados pelo bordão “uma nota. E conclui: “Peço ao Maranhão que me ajude a continuar ajudando o Maranhão”. o de Cafeteira. por exemplo. O segundo.120 Suzy dos Santos aos eleitores que eles deveriam optar entre “dois quadradinhos”. com autorização da geradora. ou da RIT – Rede Internacional de Televisão. o do “programa da concórdia”. cuja duração foi de 2 minutos e 45 segundos. o jogador estaria em sérios apuros para continuar no programa. O primeiro. Sendo responsáveis pela cobertura de 30. maestro Zezinho” e. vai fazer um governo de união pela paz”. que dá título a este tópico. neste caso. cuja cópia foi obtida pelo Correio Braziliense. denuncia a irregularidade ao alertar que a fala do ex-presidente. 1997). seria “o quadradinho da velha politicagem e do ódio”. de propriedade do líder da Igreja Internacional da Graça de Deus. BRENER. ligada à Igreja Católica. determinar os índices exatos de abrangência das redes nacionais. nunca na propaganda eleitoral do TER” (COSTA. vai contar com a ajuda de Fernando Henrique. o de Roseana. há também a dificuldade em saber quais são e como são escolhidos os canais que as prefeituras retransmitem. é comum encontrar referências sobre visitas de comissões da Rede Vida. o dublador Pablo interpretaria uma espécie de canção afônica. O destaque fica por conta das redes religiosas onde são freqüentes as referências às parcerias entre prefeituras e igrejas. continuou Sarney. deveria ser exibida “em horário de telejornal.13% das retransmissoras de TV no país. “tem um programa de governo definido. estes dados jamais foram tornados públicos. Embora exista a exigência de que as operadoras do serviço de retransmissão entreguem ao poder concedente a indicação do canal a ser retransmitido. às prefeituras para estabelecer acordos de retransmissão ou financiamentos para a instalação de retransmissoras vinculadas a estas igrejas. A própria fita de vídeo repassada às prefeituras. a ausência de identificação clara dos canais retransmitidos impossibilita. .

O dono do mundo: O Estado como proprietário de televisão no Brasil 121 No estado de São Paulo. Em Vargem Grande do Sul. além de traduzir uma fatia maior de audiência para este canal.Rede Vida. por exemplo. a obtenção da outorga é creditada à atuação do vereador Fábio Augusto Porto Junqueira (PSDB) (GAZETA. a televisão brasileira mal conseguiu exibir suas canelas em público. O esforço necessário para precisar qual o real alcance dos canais comerciais. há três outorgas ligadas a canais religiosos12 . a divulgação de algumas listas de acionistas ou a adoção de processo licitatório para a concessão dos serviços principais. Ligeiras Conclusões A recente transição para um modelo democrático de Estado teve como característica fundamental a manutenção das elites políticas já estabelecidas em todo o país. A adesão de uma prefeitura à afiliação de um canal específico. não religioso.2009 12 Embora a Rede Record seja vinculada à Igreja Universal do Reino de Deus e tenha programação religiosa na sua grade. Uma analogia com as vestes humanas diria que. indicam prefeituras como afiliadas. 2003) que também indicou à prefeitura o pedido de verba para a instalação do equipamento transmissor (CÂMARA. 2003). educativos ou religiosos fatalmente encontra na ausência de transparência das outorgas seu maior obstáculo. significa também minimizar os custos da geradora na implantação de retransmissoras próprias. quase vinte anos após a volta da democracia. por exemplo. Em São José do Rio Pardo a situação é diferente. em junho de 2003 (TV CANÇÃO. apenas três permissões de retransmissão. Porém. Das três permissões da cidade.Nº 14 .Julho/Dezembro . algumas tentativas. Rede Mulher e TV Canção Nova – que concorrem com cinco canais comerciais e um não identificado que é retransmitido pela Prefeitura. neste estudo ela é considerada um canal comercial. Praticamente todas as redes nacionais. como. 2002). Embora o processo de privatização do sistema de telefonia tenha O público e o privado . Esta relação de continuidade política fez com que as políticas públicas e privadas de comunicação de massa jamais fossem efetivamente desnudadas do denso véu que as cobriu ao longo de seu desenvolvimento. não há geradoras. sim. diz respeito ao fato de que a retirada do Estado das operações de serviços de comunicações não ocorreu na televisão da mesma forma sistemática que ocorreu nas telecomunicações em meados dos anos 90. a ausência de revisão das outorgas já concedidas e a persistência das práticas clientelistas no âmbito estatal fazem com que as iniciativas de desnudamento sejam tímidas. a primeira a ser inaugurada foi do canal católico. Houve. Apesar de não retransmitir a rede católica. registradas em nome da prefeitura. Outro aspecto que merece ser destacado. . exceto a Rede Globo. as redes católicas têm forte ligação com as prefeituras municipais.

Estado saiu da operacionalização da telefonia e serviços conexos. A retransmissão dos canais televisivos pelas prefeituras. 2005]. 26 nov. the State acts only like distributor. BOLAÑO. 2002. [Em linha]. Disponível em: <http://www. br/servlet/navSrvt?cmd=ultimaata>. atinge mais de 30% dos municípios brasileiros. [consultado em 19 out. ABSTRA CT : This article intends to analyze the acting of the Brazilian State like ABSTRACT CT: Artigo Recebido: 23/01/2008 Aprovado: 20/03/2008 Key W ords: state. . It is possible to divide this acting in two functions: 1. por outro lado. tanto na esfera federal quanto estadual.122 Suzy dos Santos produzido uma profunda rearticulação nas comunicações nacionais. [consultado em 11 dez. producing planning for specific channels and 2. In a moment in which the Brazilian government begins to execute a plan of a strengthened state-owned TV . estes canais. Além da atuação como retransmissor. tanto nos domínios federais quanto estaduais.gov. com gestão desvinculada do poder político. Referências AGÊNCIA NACIONAL DE TELECOMUNICAÇÕES (ANATEL).anatel. as geradoras de televisão por ele operadas.camarasjriopardo. the State acts like producer.sp. Conforme foi apontado. nos poucos canais estatais existentes é visível a persistência do Estado como produtor de conteúdo televisivo em oposição à idéia de transformação destes canais em canais públicos. Disponível em: <http://www. C. estas outorgas têm possibilidade de geração de conteúdo e o controle sobre elas é praticamente inexistente como também é inexistente a definição dos critérios que pautam a escolha dos canais a ser retransmitidos. Embora historicamente tenham pouco alcance também em termos de audiência. [Em linha]. mai. retransmitting planning of the already existent nets in towns of difficult access. 2003]. 17. não chegam a 10% do total. poderiam representar um diferencial qualitativo na programação televisiva. Words: communication.htm>. the discussion on the independence conditions in the existent state-owned broadcasting stations can play some light about this process. 2005]. Por um lado. A Economia Política da televisão brasileira. Ata da 35ª Sessão Ordinária. mantendo-se apenas como regulador e. in the environments of the production and of the distribution of television content.es/ publicaciones/latina/a1999hmy/98cesar. [Em linha]. como ocorre com a TV Cultura de São Paulo. por sua natureza educativa e não comercial.gov. Disponível em: <http://site.n.ull. television. In: Revista Latina de Comunicación Social.br>. a televisão aberta ainda depende fundamentalmente das Prefeituras Municipais para atingir as regiões menos interessantes ao mercado em termos econômicos. CÂMARA Municipal de São José do Rio Pardo. também. (1999). [consultado em 24 nov. media owner.

Editorial.br/artigos/ iq140220016.Nº 14 . E. _________. [Em linha]. global culture and the economics information. Disponível em: <http://200. 1997 [reprodução de uma série de matérias originalmente publicadas no jornal Correio Braziliense]. Glasberg. Disponível em <http:// www. GARNHAM.br>. 2004].com. 2003.-fev. GOLDING. MURDOCK. o b s e r v a t o r i o d a i m p r e n s a . 2000. [Em linha].[consultado em 19 out. 2005]. Capitalism and communication. (1991) La economía política de la comunicación: el caso de la televisión. UK. Disponível em: <http://www. Disponível em <http://observatorio. Disponível em: < h t t p : / / w w w. FALGETANO.br/istoe/faxbras/146709.com. [consultado em 19 out. ISTOÉ. Cheltenham. jun. Brookfield. G. v.Julho/Dezembro . Lisboa: Universidade O público e o privado . The Political Economy of the Media. J. BRENER.). 1997a.157. 2004]. II. 2005]. US: The International Library of Studies in Media and Culture. disponível em <http://www. FUNDAÇÃO Padre Anchieta.com. US: The International Library of Studies in Media and Culture. Coluna Fax Brasil.. política e econômica. Observatório da Imprensa. (eds.. Londres: Sage. [Em linha]. 2005]. [Em linha]. GAZETA do Rio Pardo. N.htm>. c o m . Dossier das Concessões de TV. Fundesco: n. TV Canção Nova traz programação variada. 94. I. 1990. 28. S. 12 de nov. p.15/telaviva/revista/094/capa. [Em linha] jun.tvcultura. The Political Economy of the Media. (1997). O. _________.ig. [consultado em 19 out. Tela Viva.com. Tendências XXI. 68-75. de 1997.htm>. v. Brookfield. Jornal do Brasil.htm>. Fui manchete do Globo.terra.[consultado em 08 mar. 2001. P . A Regulamentação da TV em tempos de convergência tecnológica. Cuaderno Central: Economía de la información y la comunicación. dez.161. [Em linha]. DINES. 10 fev. 04 out. A. In: Telos. Cheltenham.htm>. [consultado em 08 mar.2009 .br/ noticias/ler. UK. b r / a r t i g o s / mat2008d. 1997b.ultimosegundo.gazetadoriopardo.O dono do mundo: O Estado como proprietário de televisão no Brasil 123 COSTA. n. JAMBEIRO.asp?edi=2146&Id=538>.

Rádio & TV no Brasil: diagnósticos e perspectivas. La transición de la televisión. SIMON. Disponível em <http://www. [Em linha]. p.mc. 2003. REDE Minas. P .124 Suzy dos Santos Nova de Lisboa/Associação Portuguesa para o Desenvolvimento das Comunicações. Coluna Pensata.folha. [consultado em 24 nov. Folha Online. SECRETARIA da Fazenda do Pará. V.br/contgrl/balancos/bal98/sintese/ ccin/73. 2004]. 1998.htm>. disponível em <http:// www. Disponível em: <http:/ /www.br/institucional/ leieestatuto/leieestatuto. 2.pa. Relatório da Comissão Especial de Análise da Programação de Rádio e TV. LOBATO. 04 nov. [consultado em 28 jun. Disponível em <http://www. The political economy of communication: rethinking and renewal.uol. 2005]. RICHERI. 1995.htm>. [consultado em 12 ago.com. set. instituída em atendimento ao Requerimento nº470/95.sefa. 2003]. A força da Globo.br/folha/pensata/ lobato_20001104. 146-157. _________. 2000.br/arquivo/28062003/>. 2005]. Regulando a TV: uma visão comparativa no Mercosul.com.gazetavg.fmcultura. 2000. TV CANÇÃO Nova começa a ser retransmitida em Vargem. [consultado em 08 mar. Disponível em <http://www. Brasília: Senado Federal.gov.conteudos. Salvador: Edufba. [consultado em 12 ago. [Em linha].com. (Relator). Londres: Sage.htm>. 28 jun. 2005].gov. Barcelona: Paidós. 1996.br>. MOSCO. G. [Em linha].br/ redeminas/redeminas/decreto35502. E. [Em linha]. [consultado em 12 ago. [Em linha]. Disponível em: <http://www1.com. TVE. MINISTÉRIO DAS COMUNICAÇÕES. .asp>. n. [Em linha]. Gazeta de Vargem Grande. Balanço de Promoção Social. 2005].

FUNTELPA. O relatório de maio de 2007 da Comissão de Inquérito Administrativo que analisou o caso. E-mail: anapaula. e sim de um contrato.br 125 Políticas de Comunicação na Amazônia: entre o Estado e o mercado Policies of Communication in the Amazon region: between the State and the market Alexandre Barbalho Ana Paula Freitas Fabrício de Mattos* Resumo: O presente artigo discute a relação entre políticas de comunicação. o que se observa é que.freitas@gmail. democracia.Nº 14 . tendo como ponto focal as relações de desenvolvimento e integração regional. pois muitos dos atores envolvidos neste debate afirmam que não se trata de um convênio. afirma que “No instrumento propriamente dito.Julho/Dezembro .com Ana Paula Freitas e Fabrício de Mattos são mestrandos do Programa de Pós-Graduação em Políticas Públicas e Sociedade da UECE. por serem os campos formadores dos imaginários sociais em nossa sociedade. foi .com. assim.(*) Alexandre Barbalho é Professor do PPG em Políticas Públicas da UECE . I 1 ntrodução O presente artigo sugere uma análise de um “convênio”1 firmado entre o Estado e uma grande empresa privada de telecomunicações. Palavras-chave: políticas de comunicação.com. Ao analisar este caso. a partir do estudo de caso do "convênio" entre uma grande empresa de telecomunicações do Estado do Pará. cultura. democracia e espaço público na Amazônia. assim como os desafios para a construção da democracia na Amazônia contemporânea. amazônia. fsdemattos@yahoo.2009 Não desconhecemos a relação polêmica que a palavra “convênio” traz a este caso. O público e o privado . espaços públicos. os campos da comunicação e da cultura como os campos protagonistas das relações de poder na contemporaneidade. Percebemos. visando problematizar as relações de poder inerentes aos campos da comunicação e da cultura. e a Fundação de Telecomunicações do Pará. E-mail: alexandrebarbalho@hotmail. a TV Liberal. e aprofundando a intersecção entre eles. colocamse sob nossos olhos as relações de poder que permeiam a comunicação e a cultura.

composta de empresários de comunicação e governantes. descontínua e desigual. cultural. Este posicionamento resulta na análise de políticas de caráter exclusivista. quando o Governo do Estado do Pará firma pela primeira vez um contrato com a empresa TV Liberal Ltda. Por este motivo. já que as disputas políticas atualmente acontecem muito mais no plano simbólico e. Essa lógica está baseada numa relação de clientelismo e favorecimento de uma parte da elite amazônica. ver a discussão de A L V A R E Z . o que não encontra respaldo legal” (CARNEIRO. 2007) .126 Alexandre Barbalho Ana Paula Freitas Fabrício de Mattos Pensando sob a perspectiva de uma construção permanente da democracia2. 3 Sobre a ampliação dos espaços públicos. mas de observar questões mais complexas. e as possíveis disputas de interpretação. pautando a circularidade dos significados nas lógicas dos mercados econômico e político. na estruturação das dinâmicas culturais do Estado do Pará. é necessário desenvolver uma crítica a esse tipo de política de comunicação. a palavra será sempre usada entre aspas. sustentamos que as políticas de comunicação devem atuar a favor da construção de espaços públicos3 os mais ampliados possíveis. recebia da TV Liberal. pois Sobre o conceito de democracia ver BOBBIO (2000). assim como a concepção de democracia como uma construção permanente. pela utilização de seus retransmissores em algumas localidades do interior do estado. 2 Apresentando o caso O caso apresentado aqui se inicia há mais de trinta anos. DAGNINO. 7). comprometia-se a veicular a programação educativa da Funtelpa. (PINHEIRO. Uma vez que a sociedade contemporânea é ambientada e estruturada pelo campo comunicacional.. firmado um contrato. demonstrados sucintamente na apresentação que segue. consequentemente. como o próprio desenvolvimento do processo democrático e como este tipo de política interfere na criação de espaços públicos. com a denominação de convênio. é fácil perceber a lógica que norteou a política de comunicação do Estado do Pará entre os anos 1997 a 2006. que restringe a participação democrática no campo midiático. Não se trata apenas de debater ou quantificar os prejuízos causados aos cofres públicos. 2007. p. na circulação de significados simbólicos e. afiliada da Rede Globo de Televisão no Pará. pela manhã. em que a empresa privada veiculava parcialmente sua programação. em 1977. ESCOBAR (2000). et al. e a disponibilizar horário para a divulgação de assuntos de interesse do Governo do Estado. Ao ler os termos do “convênio”. portanto. e objetivando a manutenção do poder de uma elite local. num processo hegemônico imbricado e mais complexo do que prevê o senso comum. Este primeiro contrato consistia num pagamento mensal que a Fundação de Telecomunicações do Pará (FUNTELPA).

27 de outubro de 1997.). prorrogou o convênio por mais 12 meses. foram publicados 14 aditivos ao “convênio”. ceder inserções de propaganda institucional em sua programação diária ao Governo do Estado do Pará. finalmente. 4 IV . o texto prevê que a TV Liberal deveria. Caderno 1. via inserções propostas. refere-se ao objeto e ao objetivo do “convênio”: O presente convênio tem por objeto a recepção pela FUNTELPA da programação local/regional. de assuntos concernentes aos objetivos e ao desempenho da Administração Estadual. uma aos domingos.. 5 O termo “GERADORA” se refere à Tv Liberal. No período entre 1998 e 2006. percebe-se as premissas que dão sustentação à implementação do ‘convênio’: a lógica de integração do estado permeada por uma idéia de desenvolvimento econômico e cultural. (DIÁRIO OFICIAL DO ESTADO DO PARÁ. neste trecho do texto.. a TV Liberal pagava também uma porcentagem de 1% de sua arrecadação publicitária veiculada nas cidades da região em que utilizasse os retransmissores da Funtelpa. de reivindicações dos variados segmentos sociais e. produzida. de duas inserções diárias de 90 (noventa) segundos cada. de numerosos temas de utilidade pública e conveniência para esta Unidade Federativa e seus jurisdicionados. em contrapartida. o contrato anterior foi reformulado. que aconteceu em 1997.) do interior do estado. A cláusula primeira do documento publicado em 27 de outubro de 1997 no Diário Oficial do Estado do Pará. também do PSDB.Em contrapartida pela utilização de suas retransmissoras de TV´s (. referente às obrigações das partes. membro do Partido dos Trabalhadores (PT) no início de 2007. de problemas gerais do Pará e de suas soluções possíveis.Julho/Dezembro . a TV LIBERAL assegura à FUNTELPA a veiculação em todas as localidades aonde chegue sua programação (. que abrange o segundo mandato de Almir Gabriel e o mandato de Simão Jatene. assumido por Ana Júlia Carepa.. .2009 O “convênio” foi firmado durante o primeiro mandato do Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB).. no governo de Almir Gabriel. de segunda à sábado. no primeiro intervalo comercial regional do Fantástico. O público e o privado . Pode-se questionar. pela GERADORA5 e transmitida para todo Estado (. inclusive com o acompanhamento.. desde este primeiro contrato. mas queremos nos ater a uma mudança mais relevante.Políticas de Comunicação na Amazônia: entre o Estado e o mercado 127 Além disso. sendo uma no primeiro intervalo comercial regional do Jornal Nacional. recebendo o nome de “convênio”. Além disso. Ao final de 19974. enquanto que os termos “RECEPTORA e RETRANSMISSORA” referem-se à Funtelpa. os vínculos entre as políticas de comunicação dos governos e a empresa. O último aditivo.Nº 14 . 4.) através do serviço LIBSAT. p. abrangendo o primeiro ano do mandato do novo governo do Estado do Pará. visando a maior integração da comunidade paraense quanto a seus problemas e suas aspirações.. grifos nossos) Na segunda Cláusula do documento. ao final do governo Jatene.

aos esforços dirigidos ao desenvolvimento do Estado. 15 (quinze) minutos semanais de temas que promovam a valorização das atividades econômicas.) Estas inserções também são pertinentes a Mensagens Institucionais do Governo do Estado. culturais e científicas do Estado do Pará. igualmente. por este instrumento. assegura à FUNTELPA. VII – A Geradora se compromete a divulgar. sobre as atividades da administração e a divulgação de matérias de interesse do Pará e serão inseridas igualmente na área de cobertura da TV Liberal Canal 7 de Belém. distribuídos em inserções nos intervalos comerciais da programação. (.) §3º . contendo chamadas relativas às veiculações da Funtelpa previstas no Convênio. no mínimo. com a duração de 30 (trinta) segundos cada. assegura à FUNTELPA. como veículo para informar a comunidade sobre atividades e matérias de interesse do Pará.. preservando e estimulando o desenvolvimento da economia e da cultura paraense.. no mínimo.) a divulgação em sua programação local/ regional de. via moderno dispositivo de comunicação. 25 (vinte e cinco) minutos adicionais de espaço publicitário. V – A TV LIBERAL. no vasto território paraense. é . que compete à Geradora. a integração de todos os segmentos da sociedade.. alusivas à utilização do serviço LIBSAT. em Convênio com a FUNTELPA.128 Alexandre Barbalho Ana Paula Freitas Fabrício de Mattos além de uma inserção de segunda a sexta feira. sendo 02 (duas) no horário matutino. 02 (duas) no vespertino e 02 (duas) no noturno.. com exceção do previsto no item V.. VIII – A produção de todo o material a ser veiculado. com o objetivo de integrá-lo. (. 06 (seis) mensagens institucionais do Governo do Estado. no primeiro intervalo comercial regional do Globo Ciência e aos domingos. a veiculação de mais 03 (três) inserções diárias de 15(quinze) segundos cada.. nos intervalos comerciais de sua programação. uma inserção no primeiro intervalo comercial regional do Globo Rural. no horário de 19:00 às 22:30 horas. artísticas. mensalmente. colimando.A TV LIBERAL LTDA. VI – A TV LIBERAL. também assegura à FUNTELPA (.

Instalação e prestação de assistência técnica as suas expensas. a fatura de pagamento que data de janeiro de 2007. em Belém. utilizando seus equipamentos e processos exclusivos (LIBSAT). devendo.Julho/Dezembro . da Região e dos Municípios. ibidem. fornecimento. (DIÁRIO OFICIAL DO ESTADO DO PARÁ. notícias do Estado.47 (quatrocentos e sessenta e um mil. incluindo cobertura de eventos. noventa e sete reais e quarenta e sete centavos). Caderno 1.. de sinais de radiodifusão de sons e imagens em áudio e vídeo. 3) O “convênio” descreve ainda as obrigações da FUNTELPA. p. correspondia à R$ 461. grifos nossos) Segundo o Relatório da Comissão de Inquérito Administrativo (2007). que seriam: Em contrapartida pelos serviços técnicos de disponibilização de sua estação terrena. a FUNTELPA pagará a TV Liberal. p. com qualidade técnica satisfatória e compatível com o sistema e formato utilizado pela Geradora. que compete à TV LIBERAL. pelas inserções de que tratam as cláusulas IV VI e VII deste convênio. (Up Link) do segmento espacial do satélite Brasil Sat B1. com exceção do previsto no item V.(. LUNA. jornalismo.097. NETO. . o valor mensal de R$ 200.000. aos equipamentos de recepção do serviço LIBSAT. nas retransmissoras da Funtelpa. através de suas estações no interior.00 (duzentos mil reais) atualizado anualmente pelo IGP (Índice Geral de Preços)6.2009 6 Segundo o relatório da Comissão de Inquérito Administrativo (2007). instalação e manutenção dos equipamentos de recepção e especialmente. para divulgação pela Funtelpa de toda a Programação Local/Regional da Geradora. ser entregue a esta. sem qualquer ônus para a TV LIBERAL. dentro dos prazos e das normas praticadas pela TV LIBERAL. 4) O público e o privado .Políticas de Comunicação na Amazônia: entre o Estado e o mercado 129 de responsabilidade exclusiva da FUNTELPA.Nº 14 .) Produção de todo o material a ser veiculado. 4 de maio de 2007. analisando os termos do “convênio”. também fazem parte das obrigações da TV LIBERAL: Fornecimento ao sistema integrado estadual de retransmissão de televisão no Pará. (idem. a partir de 1 de outubro de 1997. de sua propriedade. 27 de outubro de 1997. (CARNEIRO..

em 1959. 4-5) Dessa forma. Nos foi informado. luz. somando-se o pagamento mensal efetuado pela FUNTELPA a TV LIBERAL aos gastos relativos à manutenção das estações retransmissoras de TV – que são de responsabilidade da Funtelpa – chega-se a mais de quarenta milhões de reais em gastos do Estado com este “convênio”: (. Belém. 8 Sobre o conceito de fronteira em movimento ver VELHO (1979). Propomos iniciar este debate analisando como a ideologia da “integração” atua para respaldar os processos de colonialismo interno. que o valor estimado dos gastos indiretos com o convênio giram em torno de R$5. da rodovia Belém-Brasília e.130 Alexandre Barbalho Ana Paula Freitas Fabrício de Mattos Até janeiro de 2007. Anatel etc. diárias para as equipes de manutenção da capital visando conserto dessas retransmissoras.000. (.. segundo as informações disponibilizadas pelo Governo do Estado do Pará7. A partir da inauguração.. (CARNEIRO et al. a Funtelpa arcava. enquanto que a programação veiculada em 78 municípios (dos 143 que compõe o estado) foi e será gerada pela TV Liberal até pelo menos junho de 2008.000. oitocentos e seis reais e doze centavos). pessoal. foi o montante de R$35. pela diretoria.) sem correção. a Agência Pará. As Políticas de comunicação sob a ótica da integração Para compreender a lógica de uma política de comunicação como esta. veiculadas pela agencia de noticias do estado. no período dos governos militares (1964-1985). é necessário pensar sobre os vários processos complementares que conformam a realidade da região amazônica.806. com todas as despesas relativas às Retransmissoras de TV do interior que estão nas mãos da TV Liberal. Além do valor pago diretamente a TV Liberal. A idéia de “integração” pautou e ainda pauta a construção do imaginário coletivo sobre a região. implementados recentemente no território amazônico. percebida como uma “fronteira em movimento”8.00 (cinco milhões de reais).) o valor total pago a TV Liberal durante o prazo de vigência do convênio. o governo afirma que até junho de 2008 serão retomadas as retransmissoras do interior do Pará.050.. e ainda arca. 2007. Segundo 7 Em matérias jornalísticas recentes. posteriormente. cinqüenta mil. . a região Amazônica foi alvo de políticas públicas que a consideravam como área estratégica para o desenvolvimento econômico e a manutenção da soberania nacional. a programação da FUNTELPA alcançava apenas a região metropolitana da capital paraense.12 (trinta e cinco milhões.. p. isso significa gastos com água.

Julho/Dezembro . em três anos. destinando a maior parte de sua programação aos programas da emissora nacional. conhecida como “paraensismo”. como existe no inglês.Nº 14 . empreendeu um projeto de padronização da linguagem e dos valores culturais através de sua programação. que continuava usando os retransmissores estatais. no entanto. portanto diferente dos desenvolvimentistas e militares. nos âmbitos da cultura e da comunicação. mantendo uma relação de tutela e clientelismo com a empresa. É sabido que as retransmissoras da Rede Globo de Televisão produzem e transmitem pouca produção local.2009 9 Trata-se da distinção que não existe nas línguas latinas. Com isso queremos inferir que sempre existe uma relação outra. foram construídas cerca de 12 mil km de estradas e. p. franqueados à rede Globo de Televisão. entre as várias estratégias de integração da Amazônia. num sentido distinto: o de relações de poder inerentes e imbricadas às políticas governamentais9. Em 1997. . estava a implantação de redes de integração espacial: Sobretudo através da construção de estradas. Faz isso partindo de uma lógica neoliberal. pode-se afirmar também que muitos programas veiculados pela TV Liberal fazem circular significados que reiteram certa identidade amazônica. Ver a esse respeito ORTIZ (2008). porém. 2006. (CASTRO. ou seja. privilegiada pelo regime militar e que assim. entre politics e policy. seja uma empresa privada.110 km de um sistema de comunicação por microondas. Em cinco anos. Além disso. para além da simples gestão administrativa que o termo “política de comunicação” implica. ainda utilizando dos termos de uma “integração do estado” o Governo do Pará inverte os papéis do “convênio”.5) É neste período que é situado o primeiro “convênio” feito entre o Governo do Estado do Pará e a TV LIBERAL. permitindo que o protagonista que dinamiza essa nova integração. mote da campanha O público e o privado . a TV Liberal tem a maior parte de sua produção voltada à região metropolitana de Belém. e. BARBALHO (2008). delegando ao mercado esta função. foram implantados 5. mas também por meio da implementação de um sistema de transmissão televisivas e telefônicas. Queremos por em relevância a política. tornando-se ele próprio o locatário dos serviços dessa empresa privada. em que a empresa pagava ao Estado pelo “aluguel” de seus retransmissores. onde está seu centro de produção jornalística e publicitária. Nossa hipótese consiste em pensar que o Governo do Estado do Pará não apenas inverte a lógica da integração.Políticas de Comunicação na Amazônia: entre o Estado e o mercado 131 Fábio Horácio-Castro (2006). mas reconfigura o processo de colonialismo interno no estado. Completando este quadro.

Democracia. Para um aprofundamento na dialética da integração da Amazônia ao território nacional e as irrupções identitárias desta região ver o conceito de ‘Moderna Tradição Amazônica’ CASTRO (2006). . que afirmam que apenas a TV Liberal dispunha da tecnologia necessária para a transmissão via satélite de sua programação. como informação e entretenimento audiovisual.132 Alexandre Barbalho Ana Paula Freitas Fabrício de Mattos cultural dos governos do PSDB no período em que vigorou o “convênio”. as pessoas que não tinham disponibilidade de comprar uma antena parabólica recebiam apenas o sinal da empresa. em muitos municípios e localidades do estado do Pará. A relação de proximidade entre a principal rede de televisão do estado do Pará e o grupo político que compunha o governo do estado ainda proporcionava mais um privilégio: a larga vantagem que este possuía em relação aos outros grupos políticos.10 A partir do debate acima. tinha também uma contínua campanha publicitária durante quase 10 anos. já podemos elaborar uma questão: numa sociedade em que os significados simbólicos circulam. Essa campanha cultural era veiculada pela propaganda institucional. para além de uma visão estadista ou protecionista de cultura. Enfim. todos estes fatores acabam tornando mais contraditória e problemática esta suposta “integração”. além de possuir a máquina administrativa do Estado. além de outros veículos utilizados. assim como são predominantes na formação das esferas públicas e da cidadania. também é razoável pensar num certo ‘monopólio de significados’. principalmente. 11 Sobre o conceito de indústrias culturais ver BARBALHO (2008). Num trabalho recente sobre a importância de legislar sobre as indústrias culturais e as empresas de comunicação. difundidos pela retransmissora. Néstor García Canclini (2001) afirma que os meios de comunicação são os principais formadores dos imaginários sociais na contemporaneidade. até que ponto a construção da democracia e do espaço público é afetada por uma política que delega o campo comunicacional. que tinham várias inserções diárias (garantidas nos termos do “convênio”) na programação da Tv Liberal. Ou seja. porque. espaço público e comunicação: intersecções Partindo das informações presentes no texto do “convênio”. mídia e identidade cultural nacional ver o conceito de ‘Moderna Tradição Brasileira’ ORTIZ (1989). ao mercado. durante esse período. é necessário articular as demandas sociais com os aparatos comunicacionais presentes no entorno social: 10 Sobre a relação entre integração nacional. Sendo assim. através dos meios de comunicação de massa e das indústrias culturais11. é bastante razoável concluir que. sob a ideologia de “integração e desenvolvimento”? É este debate que pretendemos seguir. principal campo estratégico de construção de imaginários sociais.

sobre todo de las innovaciones tecnológicas y artísticas (CANCLINI.Julho/Dezembro . En tanto la tecnologia facilita la circulación transnacional. derechos. de identidades. uma política de comunicação eficiente.2009 . estéticas y valores. En el campo de la circulación hoy dia se desarolla uma lucha tenaz. que reverberariam do e no tecido social. no es tanto la producción de sentido sino en su circulación donde se juegan proyetos de vida. mucho más que en la producción. Como situa Martín Hopenhayn: El campo decisivo de lucha en la articulacion entre cultura y política se da cada vez más en la industria cultural. 109) O público e o privado . de quiénes y con qué recursos se relacionarán com la cultura. apesar da construção permanente da democracia ser um processo descontínuo e desigual. 2001. y que dicha articulación no se decide tanto en ‘el modo de producción’ como en las ‘condiciones de circulación’. molecular y reticular por apropriarse de espacios comunicativos a fin de plantear demandas.Políticas de Comunicação na Amazônia: entre o Estado e o mercado 133 Si el sentido de la cultura se forma también en la circulacion y recepción de los productos simbólicos (. Um posicionamento de viés mais democrático tenderia a pensar a mídia como um espaço que deve ser disputado. e não na sua restrição e monopolização a partir da circularidade de um único discurso midiático. que realmente visasse “a maior integração da comunidade paraense quanto a seus problemas e suas aspirações”. 2001.. La privatización creciente de la producción y difusión de bienes simbólicos está ensanchando la grieta entre los consumos de elites y de masas. 72 apud BARBALHO. No se trata de que exclusivamente el Estado se ocupe de todo esto. En otras palabras. sino de averiguar cómo coordinarlos para que todos participemos de modo más democrático en la selección de lo que va a circular o no.Nº 14 . ni de volver a oponerlo a las empresas privadas. deveria ser pautada na possibilidade de ampliação e no aprofundamento de espaços públicos alternativos. p. la cultura deviene política (HOPENHAYN. autoafirmación. En la circulación. p 8) Assim.. se agrava la brecha entre los informados y los entretidos al disminuir la responsabilidad del Estado por el destino público y la accesibilidad de los productos culturales. partindo de pressupostos de politização da cultura.). 2008. p. quiénes decidirán lo que entra o no en la agenda pública. visiones de mundo y sensibilidades.

Along the analysis of the case. é um espaço restrito e de certa maneira direcionado. onde as leis dos mercados econômico e político passam a ser os reguladores sociais. em larga medida. E. de modo a incluir o conjunto das práticas sociais e culturais. uma vivência de isolamento e exclusão. Essa relação corresponde. podemos pensar neste “convênio” como uma mostra de como reverbera no tecido social latinoamericano esse autoritarismo social. tanto nas politicas públicas quanto na lógica do mercado. mesmo que seja por uma reutilização das velhas argumentações inseridas do binômio “desenvolvimento e integração”: uma região sem cidades. Observa-se que. 1994. sem homens e sem mulheres. fundamentalmente. a região é tratada simplesmente como objeto de lucro e interesses privados. no caso da Amazônia. ABSTRA CT : This article discusses the connections between communication policies. (AGNINO.134 Alexandre Barbalho Ana Paula Freitas Fabrício de Mattos Portanto. democracy. culture. recorrentemente. significa uma ampliação e aprofundamento da concepção de democracia. and also the challenges for the construction of democracy in the contemporary Amazon. the TV LIBERAL. sua eliminação constitui um desafio fundamental para a efetiva democratização da sociedade. constituído desde a colonização e baseado na experiência da dominação e da violência. o espaço público/midiático (que é um dos espaços públicos possíveis) que se desenvolve com esse tipo de política.104-105) Partindo dessas considerações. Acrescentando a essas relações sociais. Nesse sentido. taking the case of the "agreement" between a telecommunication corporation of the State of Pará. ABSTRACT CT: Artigo Recebido: 06/03/2009 Aprovado: 10/05/2009 K ey W ords: Words: communication policies. democracy and public sphere in the Amazon. and the Fundação de Telecomunicações do Pará. a um exemplo paraense do que Evelina Dagnino (1994) conceitua como autoritarismo social: O autoritarismo social engendra formas de sociabilidade numa cultura autoritária de exclusão que subjaz ao conjunto das práticas sociais e reproduz a desigualdade nas relações sociais em todos os seus níveis. public sphere. amazon. uma concepção de democracia que transcede o nível institucional formal e se debruça sobre o conjunto das relações sociais permeadas pelo autoritarismo social e não apenas pela exclusão política no sentido estrito. A consideração dessa dimensão implica desde logo uma redefinição daquilo que é normalmente visto como o terreno da política e das relações de poder a serem transformadas. . também consituinte das bases das relações de poder em sua sociedade. FUNTELPA. p. it stands out the relations of power that permeate both communication and culture.

F. S. DAGNINO. São Paulo: Brasiliense. _________. Acesso em 03 de abril de 2008. Fortaleza: Banco do Nordeste do Brasil.Julho/Dezembro . E..br/ downloads/RELATORIO_FUNTELPA. CARNEIRO.pa. México: Septiembre-Octubre.php/pculturais/article/view/ 2618 Acesso em 21 de julho de 2008. N. 2000. R elatório da Comissão Processante Processante. N. NETO.pdf . BARBALHO. 2000. Textos nômades: Política. São Paulo: Brasiliense. Disponível em http://www. desenvolvimento. 27 de outubro de 1997. (orgs. ORTIZ. 1988.gov.br/index. eorganizações ganizações identitárias na Amazônia brasileira Papers do Laboratório de Sociomorfologia. UFPA. 2001.Nº 14 . M. Disponível em http://www. Comissão de Inquérito administrativo instituída pela portaria nº 049 de 07 de março de 2007. 1994. 2006.2009 . Acesso em 21 de julho de 2008. 2008. O público e o privado .R. Cultura e desenvolvimento Ano I n° 1. R. Porque legislar sobre industrias culturales. 2008. In Políticas Culturais em Revista. DAGNINO. Anos 90: política e sociedade no Brasil. In Revista Nueva Sociedad.php . R eor brasileira.Políticas de Comunicação na Amazônia: entre o Estado e o mercado 135 Referências ALVAREZ. A moderna tradição brasileira. A.cholonautas. Disponível em: http://www.). CANCLINI.. LUNA.edu. Regras BOBBIO. cultura e mídia. DIÁRIO OFICIAL DO EST ARÁ. CASTRO. A... Rio de Janeiro: Paz e Terra. Belo Horizonte: UFMG. A. PARÁ ESTADO ARÁ ADO DO P Caderno 1.portalseer. Futuro da Democracia: uma defesa das R egras do Jogo.pe/biblioteca. E.ufba. Belém. Cultura e política nos movimentos sociais latino-americanos. ESCOBAR.

br/nova/novas_2007_01_10. O.com. Tv Liberal:Mamata de 30 milhões com a F untelpa . pode acabar Disponível em: In:Caros Amigos on line.terra. A. acabar. 1979. São Paulo: DIFEL. http:// carosamigos.136 Alexandre Barbalho Ana Paula Freitas Fabrício de Mattos Funtelpa PINHEIRO. campesinato: um estudo VELHO. Capitalismo autoritário e campesinato comparativo a partir da fronteira em movimento. .asp Acesso em 30 de maio de 2008.

desde o econômico até o educativo. a produção de bens culturais vem assumindo um papel determinante em diversos âmbitos.2009 N . como ocorreu. cota de tela.Nº 14 . principalmente como meio de entretenimento. No entanto. obrigatoriedade de exibição. no caso do cinema. por exemplo. a chamada cota de tela. O público e o privado . este trabalho analisa um dos instrumentos mais utilizados para alavancar a produção cinematográfica no Brasil.Araraquara. 137 A contribuição da cota de tela no cinema brasileiro The contribution of the screen quota to the brazilian cinema Anita Simis* Resumo: Procurando contribuir para alargar o campo dos estudos sobre a política cultural voltada para a produção audiovisual.Julho/Dezembro . Neste sentido. E-mail: anitasimis@gmail. Inserido neste contexto. mas também como indústria que emprega considerável número de pessoas. as sociedades contemporâneas. já apontada no passado como reserva de mercado. o presente trabalho busca analisar um dos instrumentos um dos instrumentos mais antigos e mais utilizados para proteger e assim fomentar a produção audiovisual nacional: a obrigatoriedade de exibição. Essa imposição. o Brasil ainda não tem uma produção estável e permanente que seja auto-sustentável.(*) Anita Simis é Professora do PPG em Sociologia da UNESP . o destaque é o produto audiovisual. uma expressão imprecisa já que não reserva a totalidade do mercado para a exibição do filme nacional.com. Palavras-chave: cinema brasileiro. hoje é habitualmente divulgada como cota de tela. com a informática no início de sua introdução.

da censura até a estruturação de órgãos estatais. um para cada programa exibido nas salas de cinema. permuta. o Decreto também diminuiu as taxas alfandegárias sobre o filme impresso. Esta última.1 Assim. Vejamos como isso ocorreu. sejam elas de produção. alterada para a exibição compulsória de um filme brasileiro por mês. procuro mostrar como este decreto estava relacionado a um projeto para o desenvolvimento de uma indústria cinematográfica . pela primeira vez. Seus artigos sintetizam conveniências de vários setores. Referimonos à campanha liderada por Ademar Gonzaga e Pedro Lima. pois só entrou em crise no final dos anos 80. SIMIS. a organização de programas com um filme nacional e um estrangeiro (estes obtidos em troca dos nossos). posteriormente. essa legislação só foi efetivamente testada.2 No entanto. cujas reivindicações incluíam.138 Anita Simis Foi por meio de publicações como Selecta. 2008). o Decreto. mas com uma redução 30% menor que a do filme virgem e centralizou a censura. reivindicada desde os anos 20. estimulando o diálogo e delineando assim. Paratodos e Cinearte que. O decreto é ilustrativo de todas as intenções da política oficial e contém também os germes de grande parte das medidas introduzidas ao longo dos anos posteriores. comercialização. passou a ser exigida efetivamente durante o governo de Getúlio Vargas. 2 Entre outras medidas. abrangendo um leque amplo de medidas.estável e permanente –. Examinando-se o conjunto de seus artigos. afora ter estabelecido uma taxa alfandegária que facilitava a importação do filme virgem. como disse Paulo Emílio S. além da isenção de taxas alfandegárias para o filme virgem. 1 Em outros trabalhos. cerca de três meses antes de eclodir o confronto entre paulistas e o governo provisório de Getúlio. depreendemos tratar-se de uma medida de caráter sistêmico que constituiu a base de um padrão ideológico e político da relação Estado/Sociedade e que perdurou por anos. foi baixado o Decreto 21. importação ou ainda de exportação de obras cinematográficas. reprodução. “um marco a partir do qual já se pode falar de um movimento de cinema brasileiro”. exibição. 54). da forma como o Estado interveio nas atividades cinematográficas. tratando desde o cinema educativo até o cinema comercial. Concebida como uma forma de coibir os abusos do mercado traduzidos pela má vontade dos exibidores e a ganância das companhias cinematográficas estrangeiras que procuravam impedir a entrada de novos concorrentes. antes dispersos pelo País. locação. cujo sentido interventor era trazer os conflitos expressos para uma solução disciplinadora. . uma “tomada de consciência cinematográfica nacional”. os cineastas. a partir de 1934. em seu art. isto é. já durante os anos 20. tornava-se a oportunidade de provar que o cinema nacional venceria pela qualidade e pela exigência das platéias. pela primeira vez. 12. 1997. fornecendo informações. agora ampliando-se a exigência para a exibição de um filme de curta metragem (e não apenas um filme educativo) em cada programa. venda. instituiu a obrigatoriedade de exibição para os filmes educativos. iniciaram os contatos entre si. sem mediações e centralizadora.240. e explicito porque esta via não foi trilhada pelos cineastas (Cf. p. Gomes (1980. Em 1932.

Entre as diversas dificuldades encontradas. para evitar que a fiscalização ficasse prejudicada e para que não houvesse concorrência entre as distribuidoras. já que os exibidores O público e o privado . a não ser a diferença de um para dez na taxação alfandegária imposta aos filmes virgens em relação aos filmes impressos. com a obrigatoriedade de exibição para os filmes ressurge um clima de euforia.2009 . a obrigatoriedade de exibição para os filmes foi em grande medida responsável pela salvação da produção cinematográfica nacional. encontramos a campanha veiculada na imprensa contra a obrigatoriedade de exibição. mas o grosso da produção se concentrou em algumas empresas. então. com três cópias cada um.F. chegando em 1939 a indicar uma cifra menor que a de 1937 (de 1349 passou para 1496). o filme americano. rebaixando os preços. Ora. Mas. pois para atender à exigência era necessário apresentar oito filmes por semana. uma distribuidora. tendo em vista que até 1939 não havia nenhuma outra medida legislativa de incentivo à produção cinematográfica.B. De fato. Certamente o entusiasmo motivou iniciantes a entrarem na atividade. toda esta efervescência também resultou em algo nem sempre suficientemente assinalado: o crescimento da produção do curta-metragem favoreceu a produção de filmes de longa metragem ainda que em números inferiores aos de anos anteriores (chegando ao máximo de 13 em 1940) pois também é preciso lembrar que trata-se de um período em que o cinema falado trouxe novas barreiras para o desenvolvimento do nosso cinema. a Distribuidora de Filmes Brasileiros. perdeu posições.Julho/Dezembro . Além disso. Constituiu-se. Dois anos depois.Nº 14 . D. punição que compreendia a identificação das autoridades competentes para impô-las e arrecadá-las. estes resultados positivos e todo este empenho não foram suficientes para consolidar uma indústria cinematográfica nacional que pudesse competir com o produto estrangeiro. muitas delas semelhantes às atuais. apenas um terço das salas então existentes cumpriam o Decreto. foram lançados no mercado cerca de 100 complementos com 330 cópias produzidas por 19 empresas. significativamente. as cópias dos 600 filmes produzidos multiplicaram-se por três. Era o princípio da formação da burocracia e da instituição de diversas medidas legislativas que procuraram combater às fraudes. No entanto.A contribuição da cota de tela no cinema brasileiro 139 Pelos dados numéricos obtidos em fontes oficiais. prejudicando a arrecadação com que contavam os produtores que passaram então a reivindicar que houvessem multas aos infratores. Quatro meses depois que a medida entrou em vigor. enquanto que seu principal concorrente. tão cariocas quanto a sede do governo federal. no período compreendido entre 1935 e 1939 houve um crescimento ascendente da produção de filmes nacionais (de 486 para 789). o número de empresas existentes havia triplicado.

realizados a partir de 1938. Foi com o Departamento de Informação e Propaganda –DIP. produzindo apenas Argila (1940). Entre as empresas que produziram filmes de longa metragem neste período. a partir de 1946 nota-se o crescimento da produção de filmes de longa metragem. se as influências patrimonialistas e as concessões pleiteadas. De acordo com os dados. além dos filmes do DIP.140 Anita Simis articularam novas formas de escapar do controle. No outro extremo. cinco dos oito em 1938 e três dos sete em 1939. há uma perda considerável4. um dos seis em 1937. Depois. Por outro lado. não conseguiu manter seus estúdios trabalhando com continuidade. e do SIA. tal medida (Decreto-lei 1949/39) foi instituída quando os curtas independentes ganharam um novo competidor no espaço destinado à exibição compulsória: os filmes oficiais3. seja dificultando a fiscalização ao exibir o filme ao final da sessão. atenderam às pressões das principais empresas cariocas. que havia produzido apenas três filmes de longa metragem antes da obrigatoriedade: Onde a Terra Acaba (1933). do Ministério da Educação. Em 1940. A medida favorecia uma empresa criada apenas alguns anos antes. foi responsável pela produção de quatro longasmetragens de um total de sete em 1936. Certamente esta produção se refere mais aos filmes de curta metragem levando em conta que algumas empresas privadas trabalharam inclusive para atender às encomendas oficiais. que se arrastou de 1936 a 1948. estava a Cinédia. Ao mesmo tempo instituíram-se ainda os percentuais de locação e distribuição dos filmes de curta e longa metragem (nem sempre cumpridos) e igualou-se o prazo de permanência da exibição dos filmes nacionais e estrangeiros. considerando-se o volume total da produção (filmes de curta. duas se destacam: a Brasil Vita Filmes.que pela primeira vez se estipulou a obrigatoriedade de exibição para os filmes de longa metragem. média e longa metragem de ficção ou não ficção) podemos notar que ela se manteve no mesmo ritmo dos anos anteriores. e ainda co-produziu longas com outras produtoras. a Atlântida. seja agregando o mesmo complemento a várias casas de diversões. mas que já havia produzido sucessos como Moleque Tião (1943). de outro legitimaram e fortaleceram um modelo de intervenção estatal. Do que foi exposto. e o início do Estado Novo. chegando até a diminuir a produção de longa-metragens. 4 . se abriu um 3 Os filmes oficiais compreendiam filmes do INCE. de um lado. mas em seguida. Com certeza. Mais que uma conquista. Com o fim da ditadura Vargas. antes mesmo da criação oficial do DIP . este crescimento se deu por conta da extensão da obrigatoriedade de exibição do longa-metragem de um para três filmes ao ano . cuja exibição passou a ser exigida pelo DIP .que. ao menos nas grandes cidades como São Paulo e Rio de Janeiro. e por isso mesmo rigorosamente cumprida. a obrigatoriedade de exibição da longa metragem pode ter influído no salto ocorrido em 1940. Com o golpe de 1937. por exemplo. os cineastas se depararam com novas mudanças. Rua sem Sol (1954) e Rico Ri À Toa (1957). é preciso ter em conta que. sucessor do DIP . Mas. a introdução da obrigatoriedade de exibição para o longa metragem. Favela dos Meus Amores (1935) e Cidade-Mulher (1936). a Cinédia produz apenas Pureza. Inconfidência Mineira. quando foi de fato cumprida. É Proibido Sonhar (1943). ocorreu em dezembro de 1945 -. bem aparelhada e com estúdios. Tristezas Não Pagam Dívidas (1944) ou Não Adianta Chorar (1945) e contava com uma produção de três a quatro filmes ao ano. de sete para 13 filmes. do Ministério da Agricultura. determinada pelo Departamento Nacional de Informações.

Mas. as medidas tomadas amenizaram a situação. era dividida por igual entre todos os filmes. como vimos aumentou-se de um para três o número de filmes de longa-metragem exigidos para serem exibidos nas salas de cinema. uma seqüência de outros decretos reafirmaram a obrigatoriedade de exibição e deram algum alento para a continuidade. embora estas últimas tenham vivenciado uma crise prematuramente.2009 5 O sistema de lote impedia o exibidor de escolher os filmes de longa metragem isoladamente. não conseguiu romper com o sistema de lote. redigido por Jacques Deheizelin. se o cinema tem um programa O público e o privado . Tal crescimento também estava estreitamente ligado ao avanço da Atlântida. gerou um número maior de filmes produzidos e empurrou em 1950 a obrigatoriedade de 3 filmes de longa metragem por ano para 6. bem como ao surgimento da Vera Cruz e suas primas Maristela e Multifilmes. por sua vez.A contribuição da cota de tela no cinema brasileiro 141 espaço para o produto nacional.Nº 14 . Assim. Com isso. Com isso se em 1945 tínhamos oito. em 1945.064/42. antes do Decreto 4. posteriormente a Vera Cruz. Se é certo que esse declínio provocou reflexão e pesquisa sobre a economia do cinema. por outro lado. os dois dígitos vão sendo paulatinamente num crescendo até atingirem 31 filmes em 1952. que continuou impedindo que filmes nacionais de sucesso se mantivessem em cartaz e ainda acarretou em distorções. O mesmo ocorreu com os percentuais fixos de locação. já que o produtor não raro negociava com o exibidor um percentual menor para obter a exibição de seu filme. Na verdade. como o relatório da Comissão Municipal de Cinema (1955)6. Maristela. foi fruto das pressões das empresas mais ativas Cinédia e Atlântida. prejudicando muitas vezes o produto nacional que batia recordes de bilheteria.Julho/Dezembro . a famosa “lei 8X1” de 1951. concluindo que o principal fator de crise era o preço dos ingressos cobrados naquele momento. A ampliação da reserva de mercado para a exibição de longas com a modificação do critério que regulava a reserva de mercado. e. como a transformação do filme nacional -com grandes expectativas de bilheteria. obrigando-o a adquirir um lote deles e a renda do lote. mas não chegaram a recuperar as empresas. as propostas do setor produtor para romper com a crise visavam apenas resolver os problemas mais imediatos decorrentes das ambigüidades e falhas da legislação e foi assim que se formulou um novo critério para a proteção à produção nacional: a reserva de mercado proporcional. aumento que. Essa conquista foi ainda completada com a exigência de um representante do Sindicato Nacional da Indústria Cinematográfica para colaborar na fiscalização e explica. 6 Referimo-nos ao trabalho chamado “Situação Econômica e Financeira do Cinema Nacional”. . tal qual a cota de tela para o curta. de um filme de longa metragem para cada oito estrangeiros para um filme de longa metragem para cada oito programas de filmes estrangeiros. a mudança em 1952.em cabeça-de-lote5. e Multifilmes. ainda que a exigência para a exibição de filmes não tenha proporcionado um ambiente tão propício para o desenvolvimento de uma indústria cinematográfica estável e permanente.

É interessante notar que não houve diferença substancial em termos do número de dias de exibição compulsória dos filmes nacionais entre 1950 e 1963.a partir de 1963. em 1973. 84 e depois 98. 63. em 1971. 4. 112. Podemos dizer que o critério da proporcionalidade não chegou a aumentar a cota de tela e ainda gerou críticas ainda mais incisivas. em 1970. A partir da Resolução Concine n. sobre a cota de tela do curta. 2008b). Concine n. se tem dois. baseando-nos na cronologia da legislação. nem o ano e fixa em 140 dias a quota para salas que funcionam os 7 dias da semana. a obrigatoriedade de exibição nas salas de cinema foi paulatinamente aumentando o número de dias. se tem três. que em 1962 foi prorrogado pelo Decreto 446 e. 12. 56 dias por ano. 1. consultar outro trabalho onde apresento uma retrospectiva das principais resoluções e observações sobre todo processo da chamada Lei do Curta ( SIMIS. a ser estipulada pela proporcionalidade. 7 Outras quatro resoluções reiteram os 140 dias para o período de 1980 a 1983. foi de 42 dias. seis filmes deveriam ser nacionais. em 1978. a Res. do número fixo de dias de exibição por ano.140 Na verdade a proporcionalidade e as várias portarias a ela relacionadas refletem as várias pressões contra e a favor da obrigatoriedade de exibição e as formas de fiscalizá-la e significa mais um paliativo. que. Em 1988. 133 e depois 1407. ainda hoje utilizado. em 1961. Em 1963. 4. e também corresponde no mínimo a 42 dias de exibição. que se traduz em 42 dias de exibição. 84. foi estipulada a cota de filmes nacionais para a televisão: um para cada dois estrangeiros (Decreto 50450). para 28.Atualm. 4. é fixado o critério. 35 dias por ano (esta só vai ser revogada pela Res. até 1963. em 1975. 3. finalmente. em 1969. em 1973. de 1950. 18 e assim por diante. . /62. 8 Se avançarmos nossa análise sobre as medidas de imposição da exibição de filmes que foram tomadas ao longo do tempo. de 22/10/19768).142 Anita Simis semanal. em 1994. art. Apenas o critério é alterado: a obrigatoriedade de exibição de seis filmes ao ano. podemos resumir assim a temática: 1. entravam os filmes de curta metragem com a exigência de 28 dias por ano. e finalmente. depois. uma moeda de troca (Getúlio Vargas atendia uma das reivindicações mais solicitadas e assim conseguia amenizar as críticas e a oposição em relação ao projeto que encomendara a Alberto Cavalcanti: o projeto do Instituto Nacional de Cinema) que um dispositivo partícipe de uma política sistêmica. 171 já não especifica a programação. passa. em 1959. críticas que argumentavam ser uma proteção que antecede a uma produção de filmes significativa e de qualidade. 2. alterada para um filme nacional por semana na televisão que não exceder 50% do preço médio de filmes para a TV (Decreto 697). em 1951. Parece haver um lapso na legislação sobre o período de 1984 a 1987. a partir do governo Collor. verifica-se uma queda: em 1992 a obrigatoriedade cai de 140 dias/ano para 42 dias/ano.

estipula-se filmes de longa metragem por 63 dias por ano10. em 2002. em 1997. . 11 Esclarecemos que as datas aqui se referem à data da legislação. portanto ainda sob o regime militar. principalmente os financiamentos realizados primeiro com o Instituto Nacional de Cinema e depois com a Embrafilme. embora os reflexos dessas medidas no cinema nacional sejam difíceis de avaliar. Assim. mesmo sem prever financiamento. em 2000 baixa para 28. analisando o ritmo da produção neste período. sobe para 49 dias. em 2003. neste mesmo ano. que o filme na televisão já era uma realidade que avançava e. Talvez não seja exagero afirmar que. foi a prevalência da ideologia neoliberal que refletiu na política cinematográfica e temos um novo ciclo. a cota de tela certamente contribuiu para incentivar uma produção de mais de meia centena de filmes e sem dúvida chegou aos 140 dias. realizada por Alfredo Palácios no início dos anos 60 e seguida de Cidade Aberta e Águias de Ouro. No entanto. localizados em um mesmo complexo e pertencentes à mesma empresa. Assim. a legislação para esta modalidade tenha incentivado a produção da primeira série de filmes para a TV da América Latina: Vigilante Rodoviário. espaço.2009 9 O Decreto fixa o número de dias por ano em que deverão ser exibidos filmes nacionais nos cinemas de acordo com o número de salas das empresas cinematográficas. Neste período outras formas de intervenção se articularam. podemos afirmar que a obrigatoriedade de exibição é fruto e ao mesmo tempo agente (até porque em diversos momentos forçaram o seu aumento).A contribuição da cota de tela no cinema brasileiro 143 5. embora já respirando o ar da democracia. novamente 2 filmes de longa metragem por 35 dias (para uma sala) por ano e em 2006. Esse resumo sugere algumas observações interessantes: 1. ou local de exibição geminados ou não. a partir de 1968. Com o desaparecimento de diversos mecanismos e instituições na área O público e o privado . em 1978. a primeira centena. e a partir de então ela irá oscilar para cima e para baixo e em função do número de salas: em 1996.Nº 14 . ou seja. o que foi estipulado em 2007. após termos produzido. notada pelos cineastas brasileiros como uma nova janela para se desenvolver. em 2004. a partir do governo Collor. 10 Para o ano de 2004 ficou fixado em sessenta e três dias por sala. segundo consta de seu registro na Agência Nacional do Cinema . é o que efetivamente passou a vigorar em 2008. volta-se para 2 filmes de longa metragem por 28 dias (para uma sala) por ano.Julho/Dezembro . portanto. 35 dias (para uma sala) por ano9. o mesmo que foi estipulado em 200711. 3. sobe para 2 filmes de longa metragem por 35 dias (para uma sala) por ano. 2. a produção não parece ter avançado depois disso. que durante o período do regime militar a obrigatoriedade para filmes nacionais alcançou o seu ponto máximo: 140 dias por ano nas salas que mudassem sua programação de uma a três vezes por semana e funcionassem sete dias por semana.

Assim. Em 2006. SIMIS. em 2007 foram obrigados a passar filmes brasileiros por só 28 dias. A redução valeu também para os cinemas com três (de 147. existentes sob o mesmo teto e pertencentes à mesma empresa: entre 1997 e 2003. para 196). 441 e 448. Os de duas salas. desde sua criação em 1948 (Cf. por exemplo. ela sobe um pouco: 49 dias em 1997. por isso mesmo muitas vezes fortalecendo posições e atores autoritários.287) tinha razão quando afirmava que o produtor “se interessa por uma legislação de amparo ao cinema . espaços ou locais de exibição comercial geminados ou não. foram abertas 546 salas Multiplex no Brasil. certamente concluiria que ela contribuiu para a sobrevivência da produção nacional na medida em que garantiu a exibição dos seus filmes. Uma avaliação genérica sobre a reserva de mercado. A partir de então. os filmes brasileiros passaram a ter menos espaço nos cinemas menores e ganharam nos complexos com mais salas. inúmeras salas deixaram de cumprir a obrigatoriedade de exibição. por meio de recursos impetrados. 378. cinemas de apenas uma sala. Nos cinemas entre cinco e oito salas. aumentando a intervenção do Estado e. os complexos exibidores formados por salas. por exemplo. especialmente nos períodos ditatoriais. as cotas representaram cerca de 14% do mercado para filmes nacionais. em 2007. as cotas permaneceram as mesmas (280. Foi também utilizado em diversos países e por isso mesmo curiosamente constituiu-se na única exceção entre os dispositivos constantes no GATT. 1999). Em 2000 há uma alteração na legislação em decorrência das profundas transformações do setor exibidor. a obrigatoriedade recuou para um número de dias muito inferior e mesmo assim. antes obrigados a projetar produções nacionais por 84 dias (somadas ambas as salas. agora passaram que exibi-las por 70 dias ao todo (35 em cada). FSP Filme nacional perde dias de exibição em cinema pequeno 30/12/06 Conclusão Chamada de reserva de mercado. com diferentes modalidades e ainda o é. sob diversos governos e regimes. em cada caso). obrigatoriedade de exibição ou cota de tela (ou ainda cota de projeção). no total. para 126) e quatro salas (de 224. o que correspondia a 42 dias em cada). este expediente foi usado no Brasil durante anos. embora sob diferentes modalidades. mas tornou a legislação cada vez mais complexa. p. Posteriormente. Paulo Emílio Sales Gomes (1981. que em 2006 eram obrigados a exibir pelo menos 35 dias de filme nacional por ano.144 Anita Simis cultural e cinematográfica. isto é.

Crítica de Cinema no Suplemento Literário Literário. deslocando a grande disputa entre cineastas e o tradicional exibidor das salas de cinema para os produtores de conteúdo audiovisual e os programadores de mídias. Artigo Recebido: 10/11/2008 Aprovado: 05/12/2008 politics turned to the audiovisual production. não havia uma projeto para o desenvolvimento da indústria cinematográfica e a cota de tela era apenas um dispositivo emergencial. screen quota. Paulo Emílio Sales. 1981. Neste sentido. 1980.Julho/Dezembro . que impõe cotas de programação nacional aos canais de TV paga e obriga as operadoras a oferecer mais canais de conteúdo nacional. percebe-se que se com Vargas o cinema estava inserido num projeto mais geral.2009 .” Assim. Cinema: trajetória no subdesenvolvimento. ou seja. dificilmente irão contribuir para o desenvolvimento de produtoras de audiovisual fortes e estáveis. exhibition obligation.A contribuição da cota de tela no cinema brasileiro 145 nacional mas não passa por sua cabeça que o objetivo final possa ser o de colocar os filmes brasileiros em pé de igualdade com os estrangeiros. O público e o privado . “Situação Econômica e Financeira do Cinema Nacional”.2. sem estarem inseridas em um projeto integrador. fica a questão: é uma disputa que irá fortalecer nossa produção audiovisual. com prioridades e metas claramente definidas. comparando-se o período da política implementada por Getúlio Vargas (Decreto 21. 1955 (mimeo). K ey W ords: Words: brazilian cinema. do deputado Jorge Bittar. que seja o resultado de um diagnóstico da atual situação do audiovisual. the so called screen quota. mesmo as medidas que hoje tem proposto novas cotas em novas mídias. por mais sedutoras que possam parecer. Paulo Emílio Sales. Referências COMISSÃO Municipal de Cinema. especialmente a televisão aberta ou por assinatura.Nº 14 . GOMES. Mesmo assim. outros atores irão compor o cenário. com diversos outros períodos. São Paulo. Cinema Rio de Janeiro: Paz e Terra/Embrafilme. RJ: Paz e Terra.240/32). this work analyses one of the most used instruments to increase the cinematographic production in Brazil. vol. ainda em seu primeiro período democrático. GOMES. diversificado conteúdos e empregando um contingente expressivo de trabalhadores? ABSTRA CT : Trying to contribute to enlarge the field of studies about the cultural ABSTRACT CT: 12 Ver sobre o Projeto de Lei 29/2007. Secretaria de Educação e Cultura da Prefeitura de São Paulo. nos outros governos as medidas visavam apenas resolver os problemas mais imediatos decorrentes das ambigüidades e falhas da legislação.12 É possível inclusive identificar desde já que se as formas de como reservar parte do tempo de exibição de filmes nos cinemas foram mudando ao longo dos anos e incorporaram sempre novas fórmulas para exigir que fossem cumpridas.

In: Políticas Culturais em R evista no. ano I. 1. de Estudos Interdisciplinares Sobre Cultura e Desenvolvimento. O GATT e o Cinema Brasileiro. Annablume. 1. . Anita.br. 2008. Anita. olítica olítica.ufa. 2008b. Estado e cinema no Brasil 2008a. 2ª edição. Concine 1976-1990. . 1999.Revista do Grupo SIMIS.75 a 80.politicasculturaisemrevita. Disponível em www.146 Anita Simis Brasil. p. SIMIS. Cenários . In: Revista SIMIS. n. nº 9. Anita. Revista SIMIS. Anita. 1. Acesso em: 20 ago. Cinema e cineastas em tempo de Getúlio Vargas. 1997. p. Araraquara. . 103-9. evista. Curitiba: Departamento de Ciências Sociais da Política de Sociologia e P UFPR. São Paulo. vol.

E-mail: lalbornoz@falternativas.(*) Luis A. como películas cinematográficas. Albornoz é Profesor da Universidad Carlos III de Madrid.Julho/Dezembro . Dirección General de Investigación 2006/ 03962/001.Nº 14 . sistemas de clasificación. Una primera versión de este artículo fue presentada al 1er. I ntroducción Uno de los debates actuales en el campo de las ciencias sociales tiene como eje los potenciales efectos nocivos de algunos contenidos audiovisuales. esboza una serie de reflexiones acerca de los retos y las perspectivas que hoy en día plantean los sistemas de clasificación de contenidos audiovisuales tanto para los organismos estatales y los agentes de las industrias culturales como para distintas organizaciones de la sociedad civil involucradas. Las distintas sociedades han establecido diferentes O público e o privado . un recorrido por los sistemas nacionales de clasificación de contenidos audiovisuales que en la actualidad afectan al consumo de un gran número de productos culturales. Palabras-chave: Audiovisual. programas de televisión o videojuegos. sociedad y televisión en España (19562006). considerados como los colectivos más vulnerables de la población1.org. A modo de conclusión. políticas públicas. autoregulación. Congreso Nacional de . considerando la realidad española. 147 Un debate abierto: La clasificación de contenidos audiovisuales en España** An open debate: The classification systems of audio-visual in Spain Luis A.2009 (** (**)Este trabajo se ha realizado en el ámbito y con la ayuda del proyecto Cultura. especialmente aquellos dirigidos a niños y adolescentes. Albornoz* Resumen: El presente artículo propone. Ante este panorama emerge con fuerza la demanda de indicadores claros y objetivos que ayuden a conocer qué tipos de productos audiovisuales son los más adecuados para los diferentes grupos de edades. Ministerio de Educación y Ciencia.

17 de noviembre de 2006. Si en el primer caso el Estado dicta las reglas de juego.se/ clearinghouse. Al respecto ver los trabajos que desde 1998 vienen editando las investigadoras Cecilia von Felitzen y Ulla Carlsson en el Centro Internacional de Intercambio de Información sobre Niños. en los países que integran la Unión Europea la calificación de las obras audiovisuales corre por cuenta de organismos estatales3. o diversos dispositivos de identificación de usuarios para poder utilizar dispositivos electrónicos. en el segundo. comunicación y cultura”. En el caso español. sector privado y sociedad civil.que atañen básicamente a tres tipos de productos: películas cinematográficas. 20th Century Fox.nordicom. como los denominados “pictogramas de temática”. Universidad de Sevilla. El más común de éstos. programas de televisión (y spots publicitarios) y videojuegos / juegos de PC. en el marco de las democracias capitalistas. los criterios de calificación de las obras audiovisuales no se encuentran armonizados. “La mayoría de los investigadores sigue un modelo de desarrollo piagetiano. .148 Luis A. 2 1 mecanismos de defensa que tienen por finalidad ofrecer una guía a los responsables de los menores (padres y/o tutores) sobre las características de los productos audiovisuales en circulación. que aglutina a los principales estudios (Paramount. 2006 : 33). controla su cumplimiento y sanciona a los infractores. ¿es posible que recaiga en grupos sociales significativos o colectivos profesionales? Así cada sociedad se ha dotado de diferentes mecanismos donde la regulación y la auto-regulación del sector se manifiestan como los principales. que complementan la clasificación por franjas de edades. Jóvenes y Medios de Comunicación (con el apoyo de la U N E S C O ) : www. 3 Si bien la mayoría de los Estados posee nociones similares sobre conceptos como pornografía o incitación a la violencia. son los principales agentes privado-comerciales los encargados de establecer sus propios criterios y de auto-cumplirlos voluntariamente. Albornoz ULEPICC-España “Pensamiento crítico.php?portal=publ. lo cual puede generar importantes obstáculos a la Las películas cinematográficas: control estatal Mientras que en Estados Unidos la clasificación de largometrajes y cortos cinematográficos corre por cuenta de la propia industria a través de la patronal Motion Picture Association of America (MPAA). En los últimos años. el cual distingue distintas etapas para las edades 3-7. Universal y Warner Bros. el sistema audiovisual cuenta con sus propios sistemas de clasificación de contenidos audiovisuales -los cuales implican distintos tipos de relaciones entre Estado.gu.). ¿deben ser las propias empresas productoras y distribuidoras?. Ahora bien. Disney. es la clasificación de contenidos por franjas etarias basada en criterios de índole psicopedagógica referidos al desarrollo evolutivo de los niños2. se han ensayado nuevos sistemas de clasificación. en un contexto caracterizado por un crecimiento de la oferta audiovisual y la multiplicación de canales/soportes de acceso a ésta. 7-11 y 11-16 las que se corresponden con la capacidad de realizar tareas mentales” (Shor. la arista política del debate pasa por determinar quién o quiénes tienen el deber y la responsabilidad social de establecer las relaciones entre determinados productos audiovisuales y determinadas franjas de edades: ¿son los poderes públicos?. Sony Pictures.

la Comisión de Calificación de Películas Cinematográficas.Un debate abierto: La clasificación de contenidos audiovisuales en España 149 En España cualquier película antes de su exhibición pública (incluyendo las promociones) debe ser calificada obligatoriamente. regida según el Real Decreto 81/1997. Para que una obra sea calificada debe presentarse al ICAAA una solicitud junto con una copia de la película (en el caso de aquellas películas no habladas en alguna de las lenguas oficiales -castellano. el DVD y la televisión. Película X (No aptas para menores de edad debido a su carácter pornográfico y/o al empleo de imágenes violentas. Estás obras sólo pueden exhibirse en salas X). No recomendada para menores de 7 años de edad. No recomendada para menores de 18 años de edad. a través de una comisión encargada de dicho menester conformada por representantes de asociaciones de padres.mediacat. y los ministerios de O público e o privado . principalmente. de 9 de julio. organismo dependiente del Ministerio de Cultura. asume esta tarea. tiene validez en todo el territorio español. del mundo audiovisual. educadores.com/media/docs/ 68218096. La calificación de las obras cinematográficas.Julho/Dezembro . distribuidores y exhibidores que la protección de la defensa de los niños y jóvenes. La actuación de la Comisión de Calificación ha recibido críticas diversas de grupos conservadores debido.doc. Ver en la Web: www.debe incluirse la traducción de los diálogos). Cultura y Deporte de España con apoyo de la Comisión Europea). . Para todos los públicos. son nombrados por el Ministerio de Cultura) y a la sospecha de que a la hora de calificar muchas películas pesan más los criterios económicos que favorecen a productores. que aplica el sistema siguiente Sistema de clasificación por edades a las películas cinematográficas u obras audiovisuales: Especialmente recomendada para la infancia. de fomento y promoción de la cinematografía y el sector audiovisual audiovisual. Existe una comisión encargada con carácter exclusivo. entre siete y diez. No recomendada para menores de 13 años de edad. celebrado en mayo de 2002 en Sevilla. Actualmente (finales de octubre de 2006). catalán.Nº 14 . eusquera o gallego. que respetando sus diferencias culturales otorguen una seguridad a la circulación de obras y películas”. se recomendó: “se debería estudiar la adopción de sistemas análogos de calificación para el cine. apuntaría a reestructurar la calificación de películas por edades.que. psicólogos. Así en las conclusiones del s e m i n a r i o “Seguimiento de la Comunicación sobre el futuro de la i n d u s t r i a cinematográfica y audiovisual” (Ministerio de Educación.2009 circulación de algunas las películas. Una Comisión de Calificación de Películas Cinematográficas que pertenece al Instituto de la Cinematografía y de las Artes Audiovisuales (ICAA). se está estudiando la promulgación de una nueva normativa -reemplazaría la actual Ley 15/2001. entre otros elementos. al mecanismo poco transparente de elección de los responsables de calificar la producción cinematográfica (la cual es presidida por el responsable del ICAA y sus vocales.

La Sexta). Antena 3 de Televisión y Sogecable) el “Acuerdo para el fomento de la autorregulación sobre contenidos televisivos e infancia”8. La Secretaría de Estado de Telecomunicaciones y para la Sociedad de la Información. del Ministerio de Trabajo y Asuntos Sociales. tiene la competencia de controlar el contenido de las e m i s i o n e s televisivas.4 millones de euros. Madrid. A éste se sumaron durante 2006 las nuevas televisiones hertzianas nacionales (Gestora de Inversiones Audiovisuales La Sexta. Justicia.150 Luis A. parcialmente5. así como la Oficina de Defensor del Menor y los consejos audiovisuales.000 niños y niñas ven televisión después de las 22:00 horas. debemos señalar que desde 1994 rige en territorio español un horario de protección al menor -contemplado en la Directiva europea de Televisión sin Fronteras6. 5 4 Educación. Mundo. firmó un acuerdo con las principales compañías de televisión (Televisión Española. fuera del horario protegido. más allá de las 00:00 horas”7. los c a m b i o s injustificados en los contenidos de las parrillas. la infancia y la educación. los contenidos televisivos dedicados a niños y adolescentes son una permanente preocupación de expertos. en resumidos términos. televisión. profesionales. dependiente del Ministerio de Industria. agrupadas en la Federación de Organismos de Radio y Televisión Autonómicos (FORTA)9. Albornoz Ver Borja Hermoso: “El Gobierno pretende financiar el cine español gravando el El americano”. durante 2005 abrió 107 expedientes que acabaron con 25 multas por un total de 3.000. Veo TV. el pasado 9 de diciembre de 2004 el actual Gobierno español. Dicha plural comisión tendría a su cargo la calificación de “todas las obras audiovisuales que vayan a ser emitidas o exhibidas en salas. videojuegos. y unos 200. Internet. Turismo y Comercio. En primer término. de los cuales 34 se transformaron en multas por un total de 3. elaborado por el Instituto Oficial de Radio y Televisión (IORTV) de Radiotelevisión Española (RTVE) y la Dirección General de las Familias y la Infancia. y Net TV) y las televisiones públicas de ámbito regional. en manos del Partido Socialista Obrero Español (PSOE). Cultura. la emisión Los programas de televisión: la apuesta por la autorregulación Como señala el informe “Programación infantil en televisión: orientaciones y contenidos prioritarios” (2005). A diferencia de lo que ocurre en la industria cinematográfica. Los expedientes tuvieron sus orígenes en la emisión excesiva de publicidad. 7 de octubre de 2006. Durante 2004 la Secretaría abrió 147 expedientes por infracción de la legislación vigente en cuestiones relacionadas con los contenidos. en manos de los propios licenciatarios. En medio de una amplia polémica por la calidad de los programas emitidos por los operadores hertzianos de ámbito nacional. la regulación de los contenidos televisivos en España está. investigadores y Administraciones relacionadas con la televisión. establece: .7 millones de euros. la existencia de tal franja no garantiza la pretendida protección ya que “cerca de 800. Como consecuencia de la firma de este acuerdo. en marzo de 2005 entró en vigor el “Código de Autorregulación sobre contenidos Televisivos e Infancia”10 que.que abarca una franja horaria que se extiende desde las 6:00 horas de la mañana hasta las 22:00 horas de la noche. etcétera”4. Sin embargo. Gestevisión Telecinco. Asuntos Sociales.

Se fijan unas guías o principios inspirados. Estas franjas horarias abarcan los siguientes días y horarios: lunes a viernes. Orientaciones para una buena relación de los menores con la televisión y los videojuegos” (Madrid. Normas de señalización de las emisiones televisivas. reglamentarias y administrativas de los Estados miembros relativas al ejercicio de actividades de radiodifusión t e l e v i s i v a . No recomendados para menores de 18 años de edad (NR 18). pero de manera dispersa.es/oficial/ 7 . y sábados. modificada por la Directiva 97/36/CE. Una diferencia entre “público infantil” (menores de 13 años de edad) y “público juvenil”. de 3 de octubre. Para todos los públicos. sobre la coordinación de determinadas disposiciones l e g a l e s . sobre la protección de la salud y del derecho al honor. modificada por la Ley 22/1999. La transposición española se realiza a través de la Ley 25/ 1994. de 8:00 a 9:00 horas y de 17:00 a 22:00 horas.Julho/Dezembro . 2006). o que. de 9:00 a 12:00 horas. A fin de evaluar el cumplimiento del Código se han puesto en funcionamiento dos órganos: un Comité de Autorregulación compuesto por operadores. elaborada teniendo en consideración las calificaciones por edades otorgadas por el ICAA a las películas cinematográficas (en especial las no recomendadas para los menores de 13 años de edad): Especialmente recomendadas para la infancia. y establece una “franjas de protección reforzadas” para el primero en las cuales no pueden emitirse programas calificados como no recomendados para menores de 13 años de edad. incluso desarrolle los principios del código estableciendo mayores exigencias. las televisiones se comprometieron a “respetar unos principios de protección de los menores en la programación que se emite durante el horario señalado evitando la emisión de determinados contenidos y fomentando el control de de los padres para facilitar una selección crítica de los programas. “Infancia y c o n t e n i d o s audiovisuales. domingos y festivos nacionales.rtve. los informativos y la publicidad”. sobre publicidad.”.Un debate abierto: La clasificación de contenidos audiovisuales en España 151 Una tipología de programación compuesta por cinco categorías de programas. en normas que ya se encuentran en vigor. No recomendados para menores de 7 años de edad (NR 7). 6 Directiva 89/552/ CEE del Consejo. dirigido a los padres y/o tutores de menores de edad. fundamentalmente. No recomendados para menores de 13 años de edad (NR 13).Nº 14 . Adicionalmente. Desde el preámbulo del Código de Autorregulación se subraya que el mismo es sólo una suerte de común denominador de mínimos iluminado por normativas en uso: “La adopción de este código no impide que cada operador mantenga su propia línea editorial o normas deontológicas internas. y el exceso de interrupciones durante la emisión de programas.2009 de publicidad encubierta o perjudicial a menores. etc. tríptico publicado por el Instituto de RTVE y el Ministerio de Trabajo y Asuntos Sociales. del Consejo de la Comunidad Europea. Mediante la suscripción al código. en multitud de regulaciones diversas: sobre la protección de la infancia y la juventud. las cadenas se comprometen a poner especial cuidado en la aparición de los menores en los programas de entretenimiento. Disponible en la Web: www. O público e o privado .

152

Luis A. Albornoz

i o r t v / tripticoinfancia.pdf (consultado el 20.X.2006).
8

Ver en la Web: www.tvinfancia.es/ Te x t o s / A c u e r d o / Acuerdo.htm.
9

productores de contenidos y periodistas, cuya misión es emitir dictámenes relativos a las dudas o quejas que puedan plantearse; y una Comisión Mixta de Seguimiento integrada por ocho miembros representantes de los canales de televisión, productoras, periodistas y asociaciones de padres, de telespectadores y de protección de la infancia y la juventud. Esta última Comisión ha puesto, en marcha, entre otras iniciativas, el sitio web TVInfancia.es (www.tvinfancia.es) donde los telespectadores pueden encauzar sus reclamaciones. A falta de un organismo regulador independiente en materia audiovisual 11 que vele por el cumplimiento del Código, la responsabilidad cae en los televidentes. El pasado mes de junio de 2006 la Comisión Mixta de Seguimiento dio a conocer su primer informe -de carácter obligatorio, anual y público- en relación al cumplimiento del Código. En el mismo se indica que el Comité de Autorregulación recibió un total de 124 quejas por la difusión de contenidos potencialmente perjudiciales para menores; se trató, principalmente de imágenes violentas, amenazas, empleo de lenguaje inapropiado y discriminación por razones de sexo. GRÁFICO 1: RECLAMACIONES SOBRE TV POR TEMAS

La auto-regulación de contenidos no es nueva en el panorama español; ésta registra su primer antecedente en el año 1993 cuando los operadores de televisión firmaron un primer acuerdo destinado a salvaguardar la infancia y la juventud de contenidos potencialmente nocivos.
10

17% 40%

Ver en la Web: www.tvinfancia.es/ T e x t o s / CodigoAutorregulacion/ Codigo.htm.
11

Comportamientos sociales Violencia Sexo 23% Temática conflictiva

20%

Cuya creación ha sido sugerida tanto por el Consejo de E u r o p a (Recomendación 23 del año 2000) como por el Consejo para la reforma de los medios de comunicación de titularidad del Estado en su Informe (febrero de 2005).

Fuente: Comisión Mixta de Seguimiento del Código de Autorregulación de Contenidos Televisivos e Infancia, Madrid, junio de 2006. Todos los porcentajes se han redondeado al entero más próximo.

Del total de 124 quejas recibidas, la gran mayoría de éstas (el 87,9 por ciento) fue dirigida contra las emisoras privado-comerciales Tele 5 y Antena 3. Sin

Un debate abierto: La clasificación de contenidos audiovisuales en España

153

embargo el Comité sólo estimó doce (seis a cada una de las emisoras nombradas), es decir un 10,6 por ciento… a todas luces un porcentaje muy bajo. Tanto los representantes de agrupaciones de espectadores, como la Asociación de Usuarios de la Comunicación (AUC) o la Agrupación de Telespectadores y Radioyentes (ATR), como los defensores del Pueblo o del Menor de la Comunidad de Madrid coincidieron en calificar de “decepcionante” el resultado de la aplicación del Código de autorregulación. Así, por ejemplo, el tercer informe presentado por la ATR12 establece que a excepción de La 2, de Televisión Española (TVE), el resto de las señales no han modificado su programación con la finalidad de cumplir con el Código. Asimismo, en relación al sitio TVInfancia.es el informe concluye que “una página web que podría haberse convertido en una eficaz plataforma para el diálogo social (…) ha resultado ser un instrumento poco actualizado, poco visitado y, de momento, ineficaz como cauce para canalizar las reclamaciones sobre niveles de cumplimiento del Código. No existen de momento datos en la web de las quejas planteadas y las resoluciones emitidas por el Comité”.

12

Los videojuegos: la escala europea
Otro frente polémico que ha impulsado la necesidad de contar con un sistema de clasificación es el abierto por los videojuegos, gran puerta de acceso a la producción multimedia para la nueva generación. Consiente de las numerosas críticas que despertaron entre padres y educadores el contenido violento de varios de los videojuegos más vendidos, el primer impulso de clasificación de contenidos provino del sector privado. En abril de 2001 la Asociación de Española de Distribuidores y Editores de Software de Entretenimiento (AEDESE) impulsó un Código de Autorregulación, con el apoyo de las Administraciones Públicas de Consumo y Protección del menor. Sin embargo, como consecuencia de la integración económico-jurídica de los países miembros de la Unión Europea, las distintas reglamentaciones sectoriales de carácter nacional están siendo modificadas y “armonizadas” a nivel continental. Así, con la participación de gobiernos, empresas creadoras y distribuidoras, se ha impulsado la creación de una catalogación a nivel europeo: el código PEGI13. Se trata del primer sistema a escala europea, gestionado por miembros de la industria junto al Instituto Holandés de Clasificación de Material Audiovisual (NICAM), en establecer una clasificación por edades para los videojuegos y los juegos de
O público e o privado - Nº 14 - Julho/Dezembro - 2009

ATR-Villanueva: “III Informe ATRVillanueva. Seguimiento del Código de Autorregulación (firmado el 9 de diciembre de 2004). Horario de protección reforzada de la infancia”, Madrid, 15 de junio de 2006. Este informe da cuenta del trabajo de campo realizado a partir del visionado de la programación emitida por seis televisiones de ámbito nacional (TVE 1, La 2, Antena 3, Cuatro, Tele 5 y La Sexta ) y una de ámbito autonómico (TeleMadrid) de lunes a viernes entre el 6 y el 31 de marzo de 2006 entre las 17:00 y las 20:00 horas. Disponible en la Web: w w w . a t r. o r g . e s / d o w n l o a d s / III_INFORME_ATR.pdf.
13

PEGI son las siglas correspondientes a Pan European Game Information (Información Paneuropea sobre Juegos). Ver en la Web: www.pegi.info/ pegi/index.do.

154

Luis A. Albornoz

ordenador14 cuya finalidad es proporcionar a padres, compradores y consumidores online “una mayor confianza al saber que el contenido del juego es apropiado para un grupo específico de edad”15. El sistema PEGI, vigente en 27 países europeos (IEAB, 2006), entre los que se cuenta España, es más complejo que los vigentes en el territorio español para las películas cinematográficas y los programas de televisión. Se trata de una doble catalogación: por franjas etarias y por tipos de contenidos a través de “pictogramas de temática” (cinco categorías teniendo en consideración el contenido didáctico, agresivo o violento del videojuego): a) Clasificaciones por edades: es señalada mediante un pictograma que contiene un número y el signo +, indicando que el videojuego sólo es apto para personas mayores de una determinada edad. Los pictogramas son los siguientes:

Las clasificaciones del PEGI se aplican también a los productos vendidos a través de la red Internet, jugados o descargados en un entorno de juego online, o que estén incluidos en los discos de revistas.
15

14

b) Clasificación por tipos de contenidos: diferentes pictogramas advierten que el videojuego contiene una o varias de las siguientes temáticas:

Lenguaje soez soez. El juego contiene palabras malsonantes.

Asimismo, las clasificaciones del PEGI “tienen la finalidad de establecer una recomendación sobre el contenido del producto y sobre su idoneidad de visión pero no valoran su jugabilidad o accesibilidad”.

Discriminación Discriminación. El juego contiene escenas o argumentos que pueden favorecer la discriminación, entre sexos, entre razas o entre religiones. Drogas Drogas. Por ejemplo, el juego contiene escenas en las que se habla de drogas, se usan drogas o se hace apología de las drogas. Miedo Miedo. El juego contiene escenas de miedo que pueden asustar al menor.

Nokia y Take Two Interactive.com. es decir que un videojuego para 16+ clasificado como violento será más violento que uno con la misma clasificación para 12+. Violencia Los pictogramas temáticos vienen a complementar la clasificación por franjas etarias. Vivendi. se han adherido al sistema PEGI. Sony. en 2003. . Según AI la clasificación del Código PEGI con frecuencia es poco rigurosa y confusa. nos hace reflexionar acerca de la efectividad final del empleo del Código PEGI. director de AI España: “Basar la protección de los menores frente a contenidos que banalizan las violaciones de los O público e o privado . Madrid. el hecho que una reciente encuesta realizada en España demuestre que un 33 por ciento de los menores juega con videojuegos clasificados para mayores de 18 años de edad y que un 15 por ciento desconoce la clasificación de los juegos que utiliza (IORTV/MTAS. conversaciones sobre sexo o apología del sexo. Proein. En España. Activision.Un debate abierto: La clasificación de contenidos audiovisuales en España 155 Sexo Sexo. cuarto mercado europeo de videojuegos y consolas que en 2005 facturó unos mil millones de euros16. Microsoft. los principales fabricantes y distribuidores (agente de primordial importancia en países importadores) de videojuegos: Planeta Interactive. Electronic Arts. En palabras de Estaban Beltrán.pueden contener índices de edades o pictogramas de temática diferente a los anteriores. 2007).Julho/Dezembro . ya que la información suministrada por los iconos no es suficiente para conocer el contenido del producto. Atari. Ahora bien.2009 16 Sin embargo solamente un dos por ciento de los programas comprados fueron desarrollados en España (Carlos G. El juego contiene escenas violentas. Virgin Play.VI.Nº 14 . CincoDías. 06. iolencia. FX Interactive. Ante esta situación el capítulo español de Amnistía Internacional (AI) viene exponiendo reiteradamente su preocupación por la desprotección de la infancia y denuncia que el Gobierno delega la protección de los menores en las empresas privadas de videojuegos.2006). El juego contiene escenas de sexo. Ubisoft. Asimismo algunos videojuegos exitosos con varias secuelas estrategia empleada por numerosas empresas de la industria del sector. ya que éstos (puede tener uno o más de uno por cada videojuego) siempre están en función de la edad. 2006) o que se constate que “los puntos de ventas de videojuegos no disponen de medidas para controlar el acceso de los menores a contenidos no adecuados para su edad” (AI. Abajo: “Los videojuegos se acercan a los adultos y a las chicas”.

156

Luis A. Albornoz

derechos humanos exclusivamente en un código de libre adhesión por parte de las empresas de software de entretenimiento es una dejación de responsabilidad por parte del Estado. Las empresas que lucran, legítimamente, en el mercado del videojuego no pueden ni deben ser a la vez garantes de los derechos de los niños y niñas” (AI, 2007). A nivel europeo, el actual Comisario responsable de Justicia, Libertad y Seguridad de la UE, Franco Frattini, expresaba a finales de 2006, que si bien la influencia en los menores de imágenes violentas varía en función de una multiplicidad de factores (el bien estar del niño, el nivel educativo y de desarrollo mental, el nivel económico de la familia, la presencia activa de los padres o tutores, etc.), éste es un problema de Salud Pública. Es preciso, en palabras de Frattini, complementar la información suministrada a los consumidores por el Código PEGI con la educación acerca de los medios de comunicación (media literacy) y las soluciones técnicas que impidan el acceso indiscriminado a cualquier tipo de contenidos.

Las nuevas redes digitales: el caso de la telefonía 3-G
Las nuevas redes digitales (como la red Internet o las redes de telefonía celular) junto a los terminales móviles (consolas, ipod, agendas electrónicas) son canales y soportes para la difusión y visionado de productos audiovisuales de todo tipo. Si tomamos en consideración a la telefonía móvil, por ejemplo, encontramos que la tercera generación de aparatos receptores (3G) no sólo permite la navegación a través de Internet sino que admite la descarga de programas, el intercambio de correo electrónico o la mensajería instantánea. Ante las posibilidades brindadas por las redes y soportes digitales, tradicionales y nuevos proveedores de contenidos se posicionan. Así, la industria erótico-pornográfica ha encontrado un novedoso y lucrativo canal de distribución. El informe “Mobile to Adult–Personal Services, Third Edition” (septiembre de 2006), de la consultora Juniper Research, estima que durante el presente año las ventas mundiales de contenidos distribuidos a través de las redes y dispositivos móviles alcanzarán los 1.400 millones de dólares y que en 2011 superarán los 3.300 millones de dólares (una media anual de crecimiento del 19 por ciento). Frente a este inquietante escenario las propias firmas industriales y los gobiernos de una minoría de países han comenzado a crear e implementar medidas tendentes a impedir que algunos contenidos estén al alcance de cualquier usuario.

Un debate abierto: La clasificación de contenidos audiovisuales en España

157

Así, por ejemplo, del lado corporativo podemos señalar la iniciativa del Independent Mobile Classification Body (IMCB / www.imcb.org.uk), asociación conformada por los operadores de telefonía móvil británicos (Orange, O2, T-Mobile, Virgin Mobile, Vodafone y 3). Ésta, a principios de 2004, desarrolló un código de prácticas17 que incluye la categoría “Adulto”, la cual incluye pornografía dura (hardcore) y blanda (softcore), apuestas online, violencia, juegos, salas de chat y algunos servicios premium de mensajes cortos. Por el lado de las actuaciones de los poderes públicos, podemos referirnos a la acción del gobierno de Israel, país que cuenta con 6,3 millones de usuarios de telefonía móvil, lo cual representa una penetración de la telefonía celular del 95 por ciento. Desde finales de 2004, el Ministerio de Comunicaciones de este país obliga a los operadores que prestan servicios en su territorio a que éstos exijan a sus clientes la introducción de un código para poder acceder a servicios para adultos. La situación en España, país que cuenta con más líneas de teléfonos móviles que habitantes18, no parece ser diferente. Proveedores de contenidos, como por ejemplo Olemovil.com (www.olemovil.com), ofertan en sitios web y medios impresos, vídeos (“Video strippers y más…”), juegos (“Susana Reche, sexy poker), videollamadas (“se lo montan con la música en cada llamada”) o gemitonos (el teléfono suena con los gemidos de un/a chico/a o pareja) de carácter erótico o pornográfico. Las opciones para los vídeos sexualmente explícitos van desde el visionado único (streaming) a la descarga en el terminal. Un estudio realizado por la asociación Protégeles entre dos mil niños y niñas madrileños de 7 a 11 años de edad reveló que un 9 por ciento de los menores que dispone de teléfono móvil recibió imágenes pornográficas en su terminal. Asimismo el estudio expone: “Es cada día más frecuente la recepción de mensajes de publicidad de todo tipo a través del teléfono móvil. Son especialmente preocupantes aquellos que incitan a los menores a participar en concursos y juegos de azar tipo ‘casino’. Respecto a esta cuestión, el 72 por ciento de los menores afirma haber recibido SMS invitándole a participar en sorteos o juegos de azar” 19. Ante las inquietudes que despierta la posibilidad que los menores de edad accedan a contenidos nocivos o ilegales a través de la telefonía móvil, los principales operadores han entrado en negociaciones con empresas que crean dispositivos capaces de filtrar contenidos indeseados al permitir la recepción sólo de mensajes que provengan de emisores que se encuentran en la lista de contactos del usuario, establecer restricciones horarias para el uso del terminal y filtrar imágenes según su categoría20.
O público e o privado - Nº 14 - Julho/Dezembro - 2009

“UK Code of Practice for the SelfRegulation of New Forms of Content on Mobiles”, 19 de enero de 2004. Disponible en la Web: w w w . t mobilepressoffice.co.uk/ company/contentcode.pdf. El informe “Estadísticas del sector-IV trimestre de 2006” dado a conocer por la Comisión del Mercado de las Telecomunicaciones informó la existencia de 46,2 millones de líneas de telefonía móvil para una población cercana a los 44 millones de habitantes (tasa de penetración: 103,4 por ciento). “Seguridad infantil y costumbres de los menores en el empleo de la telefonía móvil”, Madrid, 2004. Disponible en la Web: www.protegeles.com/ telefonia.doc.
20 19 18

17

En este sentido la firma de seguridad informática Optenet anuncia que “dichos sistemas están ya desarrollados y se están generalizando en países como

158

Luis A. Albornoz

Reflexiones Finales
A continuación ofrecemos una serie de reflexiones acerca de los vigentes sistemas de clasificación de productos audiovisuales en España: - Falta de coordinación entre los sistemas de calificación Al principio fue el cine, luego la radio, décadas después la televisión… hoy son las nuevas redes y soportes digitales que permiten la distribución, intercambio y visionado de contenidos audiovisuales y multimedia. Frente a este escenario novedoso y altamente complejo (mayor número de agentes, de productos audiovisuales disponibles y de canales y dispositivos de recepción) distintos sectores sociales plantean la necesidad de contar con un marco integral de regulación tendente a resguardar los sectores más vulnerables de la ciudadanía.
Francia o Gran Bretaña donde los sistemas que se ofrecen a los padres incluyen la posibilidad no sólo de impedir la descarga de fotografías pornográficas sino también la posibilidad de restringir la salida y entrada de SMS o MMS en función de las horas o los días rechazar los SMS indeseables o impedir la realización de compras y votaciones en concurso” (Natalia Gómez del Pozuelo: “Fomentar el uso correcto del móvil es cosa de todos”, Madrid, 28.VII.2006. Disponible en la Web: www.optenet.com/es/ detalles.asp?c=1&idn=3; consultado el 20.X.2006).

El caso español muestra claramente la existencia de diferentes sistemas de calificación de la producción audiovisual que no se encuentran del todo coordinados entre sí. Sin embargo, sí existe conciencia por parte de los responsables políticos de la importancia de actuar coordinadamente frente a un problema común: el propio preámbulo del “Código de autorregulación sobre contenidos televisivos e infancia” se señala que “es deseable que los (diferentes) sistemas de clasificación de contenidos por edades sean más homogéneos y coherentes entre sí”. Una política pública que contemple la integridad del complejo audiovisual debería estar orientada a dotar a los diferentes sistemas de clasificación de contenidos operativos de una coherencia interna. En este sentido debemos señalar la existencia de un proyecto interuniversitario e interdisciplinario, liderado por la psicóloga Victoria Tur (Universidad de Alicante) y financiado por el Ministerio de Educación y Ciencia y por Fondos Europeos de Desarrollo Regional (FEDER), cuyo objetivo es crear un código similar al existente para los videojuegos destinado a los programas televisivos, indicando si éstos albergan imágenes violentas, conductas sexuales inapropiadas o lenguaje soez, entre otros parámetros. Por otra parte, el estudio de la reglamentación que afecta a los productos audiovisuales muestra la coexistencia de distintos niveles o ámbitos de actuación: el local / regional (la existencia de, por ejemplo, operadores de televisión autonómicos o de consejos del audiovisual regionales), el nacional y el supranacional (Unión Europea). Esta dispersión de la autoridad que en las últimas décadas afecta al Estado Español tiene directa

con la incorporación a la UE y.2009 .Un debate abierto: La clasificación de contenidos audiovisuales en España 159 relación. NR 13. 12+. miembros de la ISFE. Discriminación. Adhesión voluntaria Cumplimiento obligatorio. Cuadro 1: Sistemas de calificación de productos audiovisuales en España Largometrajes y cortometrajes cinematográficos Regulación estatal: Comisión de Calificación de Películas Cinematográficas (ICAA. falta de una oferta educativa amplia Fuente: elaboración propia.Real Decreto 81/ 1997: Calificación de películas por franjas etarias: Especialmente recomendadas para la infancia (ERI). con procesos de descentralización que han reforzado los poderes de la comunidades autonómicas (ver cuadro 1). NR 18. imposición de sanciones . . a nivel externo. Película X Crítica: opacidad del mecanismo .Código de autorregulación sobre contenidos televisivos e infancia (vigencia: desde III.Nº 14 . Drogas. Todos los públicos. Miedo.Código PEGI: Doble sistema de calificación por franjas etarias (3+.2005): Calificación de programas franjas etarias: Especialmente recomendadas para la infancia.Horario de protección reforzada (por días y franjas horarias) Crítica: poca efectividad del mecanismo . Ministerio de Cultura) Programas de televisión Auto-regulación: acuerdo entre el Gobierno nacional y los principales licenciatarios públicos y privados de ámbito nacional y regional (RTVE. O público e o privado . Xbox y Nintendo) Nivel: supranacional (UE) Adhesión voluntaria Nivel: nacional Nivel: supranacional (UE) / nacional / regional. NR 7. Sexo. 7+. a nivel interno. FORTA. Todos los públicos.Julho/Dezembro . NR 18. NR 13. Violencia) Crítica: mecanismo poco riguroso y confuso.Directiva 89/552/CEETelevisión Sin Fronteras: horario de protección al menor (6:00 a 22:00 horas). NR 7. fabricantes de videoconsolas (Playstation 2. UTECA) Videojuegos y juegos para PC Auto-regulación: principales editores y desarrollo de juegos de juegos. 16+ y 18+) e pictogramas de temática (Lenguaje soez.

sostiene que “una auto-regulación corporativa. será inevitablemente interesada y parcial. Y entienden que la misión de controlar la emisión de contenidos televisivos debe recaer en una autoridad que no responda a intereses políticos. . en octubre de 2004. Victoria Camps (2006). el pluralismo. económicos o religiosos particulares. como el catálogo de 21 puntos elaborado por los gestores de Tele 5. escogen o realizan la programación. Y de la mano de auto-regulación se ha remarcado constantemente que la responsabilidad última por lo que ven los niños es de los padres y/o tutores. se alzan muchas voces críticas que plantean la insuficiencia de la autoregulación a la hora de defender el interés general (la libertad de expresión. El código que suscribieron en 1993 las cadenas públicas y privadas con el Ministerio de Educación y los correspondientes departamentos autonómicos no dio los frutos esperados. la diversidad cultural o la protección de los consumidores). para evitar la emisión de contenidos que puedan vulnerar los derechos de los menores. Tampoco iniciativas individuales de los operadores privados. La preconizada minimización de la actuación del Estado. pasado más de un año de funcionamiento del Código de Autorregulación.160 Luis A.Límites de la auto-regulación En los últimos lustros la preeminencia de la corriente neoliberal ha dado lugar a procesos de desregulación e internacionalización de los distintos sectores económicos. signado por un carácter marcadamente comercial. la experiencia de la auto-regulación se ha dado en el terreno televisivo. 2006) en el cual se aconseja a padres y madres “acompañar a los hijos frente a las pantalla” o “hablar con los hijos sobre el programa de televisión que han visto y los videojuegos que les gustan”. actual vicepresidenta del Consejo Audiovisual de Cataluña. Hoy. frente a un mayor protagonismo de los agentes económicos consagró a la auto-regulación como el mecanismo de control por excelencia ante aquellos comportamientos socialmente no deseados. No sólo eso. Ejemplo de esto último es el “Decálogo de buenas prácticas” editado por el Instituto de RTVE junto al Ministerio de Trabajo y Asuntos Sociales (IORTV/MTAS. En el caso del paisaje audiovisual español. Albornoz . realizada únicamente por los mismos que producen. sino que las dificultades que conlleva interpretar hasta qué punto un programa televisivo está yendo más allá de lo aceptable hacen más sensato y prudente confiar la evaluación de los contenidos a agentes externos y con una pluralidad de puntos de vista”.

las asociaciones O público e o privado . realizada en mayo de 2006. En relación con el mercado de los videojuegos. por ejemplo. Comisaria para la Sociedad de la Información y los Medios de Comunicación: “(…) la protección de los menores en cuanto a comunicación móvil es responsabilidad de todas las partes interesadas: la industria. .2009 . la Comisión Europea realizó una consulta pública.Los desafíos de las redes digitales Las nuevas redes digitales plantean desafíos de gran escala: la red Internet. Asociación de Usuarios de la Comunicación o Amnistía Internacional España) revelan las insuficiencias del vigente sistema de auto-regulación de escala continental. Teniendo en consideración que el uso de teléfonos móviles entre niños y jóvenes ha crecido espectacularmente en el continente europeo (según una encuesta Eurobarómetro. al tiempo que reclaman la intervención tanto de los ministerios de Cultura y de Sanidad y Consumo a nivel nacional como de las Comunidades Autónomas. si no lo han hecho ya. Los proveedores de contenidos y servicios se han multiplicado y la convergencia tecnológica permite el acceso a éstos a través de redes de radiodifusión o de telecomunicaciones.Un debate abierto: La clasificación de contenidos audiovisuales en España 161 La figura de un Consejo Nacional del Audiovisual surge como la respuesta más contundente a las dudas que plantean las insuficiencias de la autoregulación. las miradas se dirigen a los operadores de las redes. esto se traduce en organismos reguladores que no dependan del gobierno de turno ni de los operadores. por ejemplo. y un 23 por ciento de los niños entre 8 y 9 años de edad posee un teléfono móvil). Hace más de cinco años que el Consejo de Europa (Recomendación 23/2000) y el Comité de Ministros (20/XII/2000) instaron a los gobiernos de los países miembros de la UE a “instaurar. Según Viviane Reding. Ante la dificultad de controlar y sancionar a un amplísimo universo productor y difusor de contenidos y servicios. que ofrece una amplia oferta audiovisual a la cual se accede. desde ordenadores portátiles o teléfonos móviles 3 G.Nº 14 . para ver cómo se les puede proteger ante posibles peligros. no conoce fronteras geográficas. En este sentido no sólo se habla de sistemas de calificación sino también del empleo de filtros y mecanismos de verificación de edades para determinados contenidos/servicios. un 70 por ciento de los jóvenes de entre 12 y 13 años de edad. entre el 25 de julio y el 16 de octubre de 2006. las voces críticas de diferentes instituciones y asociaciones (Defensor del Menor de la Comunidad de Madrid. autoridades independientes de regulación del sector de la radiodifusión”.Julho/Dezembro .

IN Classificação Indicativa no Brasil.juniperresearch.): Edutec 95. Albornoz para la seguridad infantil y los organismos públicos. BUCCI. Disponible en la Web: http:// europa. menos necesaria será la intervención estatal”. public politics. Jesús y otros (coords. Estrasburgo: Dirección General para la Sociedad de la Información y los Medios. ABSTRA CT : The present article proposes. que nos revelan un cuadro heterogéneo.pdf. White Paper.pdf. a trip for ABSTRACT CT: Artigo Recebido: 31/10/2008 Aprovado: 20/12/2008 K ey W ords: Words: Audio-visual. Comisión Europea. like cinematographic movies. Child Safety and Mobile Phone Services”. COMISIÓN EUROPEA (2006): “Consultation Paper. La gran mayoría de los países miembros de la UE aún no cuenta con marcos regulatorios y/o auto-regulatorios específicos tendentes a brindar seguridad a de los menores de edad en su uso de teléfonos móviles. BRUCE. the national systems of classification of audio-visual contents that at present they affect to the consumption of a big number of cultural products. Juniper Research.162 Luis A. Ana María (1996): Videojuegos: del juego al medio didáctico. Bibliografía Amnistía Internacional España – AI (4 de enero de 2007): “Aumenta el consumo de videojuegos mientras el Gobierno deja a los menores en manos de las empresas”. Gibson (septiembre de 2006): Mobile to Adult – Personal Services. Sin embargo el tema está siendo debatido en varios países y hay iniciativas en marcha. Redes de comunicación.int/information_society/activities/sip/docs/public_consultation/ sip_public_consultation_2006_en. Desafios e Perspectivas. it outlines a series of reflections about the challenges and the perspectives that nowadays raise the classification systems of audio-visual contents both for the state organisms and the agents of the cultural industries and for different involved organizations of the civil society. considering the Spanish reality. classification systems. Disponible en la Web: www. Brasilia: Ministerio de Justicia. television programs or video games. 129-138. Cuanto más eficiente sea la autorregulación. IN SALINAS.eu. Third Edition. IN: CALVO. Maria Rita (2006): Deve o Estado classificar IN: indicativamente o entretenimento a que o público tem acesso?. autoregulation. Eugênio y KEHL.com/pdfs/ whitepaper_madult3. Basingstoke (Hampshire). p. como los códigos de conducta para servicios SMS o Premium. comunicado de prensa. redes . Madrid: AI España. As conclusion.

Barcelona: Proyecte Educatiu de Ciutat Barcelona. Awareness. Disponible en la Web: www. Parlamento Europeo. p. Youth and Media. The New York Times. Libertad y Seguridad. Franco (13 de diciembre de 2006): “Déclaration sur les jeux violents”. 331-340. Madrid: Instituto Oficial de Radiodifusión y Televisión (IORTV) / Ministerio de Trabajo y Asuntos Sociales (MTAS). Can IN: Cecilia Von FEILITZEN y Ulla CARLSSON Children Be Protected? IN O público e o privado . NORDICOM / Göteborg University. Telos. RÍO ÁLVAREZ. (2006): When Childhood Gets Commercialized. Juliet B.es/oficial/iortv/tripticoinfancia. Mariano (ed. Ministerio de Trabajo y Asuntos Sociales.2009 . Estrasburgo: Comisario europeo de Justicia.rtve. Cameras. Disponible en la Web: www. Now This: Sex Is Latest Cellphone Feature”. CARLSSON. CONSEJO para la Reforma de los medios de comunicación de titularidad del Estado (febrero de 2005): Informe para la reforma de los medios de comunicación de titularidad del Estado. INSTITUT d’Educació de l’Ajuntament de Barcelona – IEAB (octubre de 2006): ¿Quién pone las reglas del juego?. Institut d’Educació de l’Ajuntament de Barcelona. Göteborg: The International Clearinghouse on Children. Empowerment. Ulla (ed. IORTV/MTAS (2006): “Infancia y contenidos audiovisuales. Michel (17 de septiembre de 2005): “Ring Tones. Young People and Harmful Media Content in the Digital Age.pdf. 68. RICHTEL.) (2006): Regulation. Madrid: Instituto Oficial de Radio y Televisión / Dirección General de las Familias y la Infancia. Matt y MARRIOTT. Orientaciones para una buena relación de los menores con la televisión y los videojuegos” (tríptico). FRATTINI. Madrid.es/oficial/iortv/guia_infantil.rtve. Victoria (julio-septiembre de 2006): “Del Senado a la experiencia del Consejo Audiovisual de Cataluña”. Madrid: Fundación Telefónica de España. Miguel (del) y ROMÁN BLAS.Julho/Dezembro .Nº 14 . CAMPS.) (2005): Programación infantil de televisión: orientaciones y contenidos prioritarios. Mallorca: Servicio de Publicaciones de la Universidad de las Islas Baleares.Un debate abierto: La clasificación de contenidos audiovisuales en España 163 de aprendizaje. SCHOR. núm.pdf.

Qué son y cómo nos afectan. Jóvenes y Medios de Comunicación / NORDICOM Universidad de Gotemburgo.): In the Service of Young People? Studies and Reflections on Media in the Digital Age. 27-47. Manuel (2003): Los videojuegos. p.164 Luis A. Barcelona: Ariel. . Albornoz (ed. Ricardo y PEREGRINA DEL RÍO. TEJEIRO SALGUERO. Gotemburgo: Centro Internacional de Intercambio de Información sobre Niños.

(*) Luciana Lobo Miranda é Professora do PPG em Psicologia da UFC e coordenadora do Projeto de extensão TVEZ: Educação para o uso crítico da mídia. E-mail: lobo.lu@uol.com.br

165

Linguagem e modos de subjetivação na relação práticas escolares e televisão
Language and subjectivity in the relationships between school practices and television

Luciana Lobo Miranda*

RESUMO: Em tempos de cultura midiática, onde os objetos culturais, as relações

sociais e a subjetividade encontram-se necessariamente atravessadas pela tecnologia audiovisual, é comum o debate a respeito do declínio da palavra escrita. A sociedade contemporânea seria marcada pelo colapso dos textos e pela hegemonia das imagens. Por outro lado, a disponibilidade da imagem na educação é vendida como um dos grandes trunfos, por exemplo, da educação à distância. Entre a resistência à imagem como produtora de conhecimento e o discurso da disponibilidade pela tecnologia da imagem, a escola parece oscilar. O presente trabalho pretende articular a discussão conceitual acerca da linguagem da televisão com base em autores como, Pierre Bourdieu e Rosa Bueno Fischer dentre outros, e a experiência na coordenação de curso de extensão universitária "Diálogos Escolares Contemporâneos" realizado com professores da rede pública municipal de Fortaleza, Maranguape e Maracanau. A partir do conceito de discurso de Michel Foucault, o presente trabalho discute a televisão como um campo de subjetivação presente no cotidiano escolar, onde se destaca o fato de tanto a escola quanto a mídia se destinarem a "modos de educar" distintos e muitas vezes conflitantes entre si. Por outro lado, em ambas, a despeito da veiculação de um ideal de cidadania e criticidade, suas práticas cotidianas apontam para uma propensão à passividade seja do espectador, do aluno ou do próprio professor (com relação à gestão e às políticas públicas educacionais).

Palavras-chave: discurso, modo de subjetivação, escola, televisão.

cultura midíatica contemporânea, sob forte influxo da tecnologia audiovisual, com sua onipresença na nossa vida cultural e psíquica, parece-nos pautar o debate sobre o declínio da palavra escrita. A sociedade contemporânea seria marcada pelo colapso dos textos e pela

A

O público e o privado - Nº 14 - Julho/Dezembro - 2009

166

Luciana Lobo Miranda

hegemonia das imagens. Por outro lado, a disponibilidade da imagem na educação é vendida como um dos grandes trunfos, por exemplo, da educação à distância. Entre a resistência à imagem como produtora de conhecimento e o discurso da disponibilidade pela tecnologia da imagem, a escola parece oscilar. Na tentativa de compreender a relação entre escola, televisão e os modos de subjetivação na contemporaneidade, faremos, no primeiro momento, uma discussão a respeito da TV como um dispositivo audiovisual engendrado na confluência de um “modo de ver” já existente. Em seguida abordaremos a TV enquanto aparato discursivo e dispositivo pedagógico, para, por fim, pensar as possibilidades da educação formal (escolar) neste contexto. Para tal nos valeremos da experiência como pesquisadora e coordenadora de projeto de extensão na área de mídia-educação.

A Construção de uma TV Nossa de Cada Dia
Embora as primeiras experiências da televisão ocorreram nos anos 1936 e 1941 na Grã-Bretanha e nos EUA, respectivamente, ela somente começa a se firmar como fenômeno de massa no pós-guerra, a despeito da opinião da imprensa desses países, bem como de analistas de mercado afirmando que tal veículo não suscitaria o interesse das camadas populares (BRIGGS e BURKE, 2004). Com os custos de sua fabricação barateada, e a incorporação do modelo de programas de rádio, entre 1947 e 1952, a televisão saltou a produção de aparelhos de 178 mil para 15 milhões, atraindo cada vez os mais setores populares. No Brasil, no dia 03 de abril de 1950, a TV tem sua pré-estréia e em 18 de setembro é inaugurada oficialmente pela TV Difusora em São Paulo, seguindo o modelo norte-americano de exploração comercial. A difusão inicial restrita começa a se modificar com a importação de 220 aparelhos por Francisco de Assis Chateaubriand Bandeira de Mello, o “Chatô” (GUARESCHI e BIZ, 2005). Nos anos seguintes surgem várias canais de televisão, tais como TV Paulista (1952), a TV Record e TV Rio(1955), TV Excelsior (1960, cassada durante a ditadura militar). A TV Globo Rio inaugurada em 1965 já nasce grande devido ao forte investimento de capital humano e financeiro estrangeiro. Aos poucos vai se constituindo como uma corporação, engendrando o “padrão Globo de qualidade” que nos dias atuais chega a deter mais da metade da audiência nacional e 53% do mercado publicitário, (GUARESCHI e BIZ, 2005). No contexto brasileiro, mesmo sendo uma concessão pública, ela encontrase concentrada nas mãos de alguns grupos político-econômicos. Esta concentração se configura na forma horizontal (poucos grupos controlam a

Linguagem e modos de subjetivação na relação práticas escolares e televisão

167

televisão aberta e paga); vertical (canais de TV aberta comercializam seus programas para outros paises); propriedade cruzada (ampliação do monopólio através da posse de outros meios como por exemplo jornais e revistas, provedor de internet); e monopólio em cruz (em nível regional há a reprodução de propriedade cruzada bem como a instalação de repetidoras dos seus sinais) (LIMA in GUARESCHI E BIZ, 2005)1. No entanto, seus avanços corporativos nunca foram ausentes de crítica em relação aos efeitos à subjetividade. Em meados dos anos 1950, a televisão passa a gerar grande expectativa tanto com relação ao possível prejuízo à inteligência das pessoas, quanto às possibilidades educacionais decorrentes de seu uso para esse fim. No livro “Uma história Social da Mídia” Burke e Briggs (2002), trazem à luz a polêmica:

Havia pouco consenso sobre o significado da televisão: era o ‘olho universal’, mas o arquiteto Frank Lloyd Wright chamou-a de ‘chicletes’ para os olhos. A crítica era maior nos Estados Unidos, onde a ênfase nas redes de televisão e rádio centrava-se em entretenimento estereotipado, levando Newton Minow, presidente da FCC em 1961 (...), a dizer que a televisão em rede era uma vasta ‘terra inútil’. Em Londres, Milton Schulman, que fazia vigorosas críticas de certos programas em jornais, chamou a televisão britânica de ‘a menos pior do mundo’, mas também observou, como Lloyd Wright, que, ‘para muito as pessoas, o ato de ficar fixado na tela’ tinha se tornado ‘mais um habito do que um ato discriminatório consciente’. Para Schulman, a televisão era ‘o olho voraz’. Para outros, era o ‘olho do mal’, mal occhio, destruindo não somente os indivíduos que a assistiam, mas todo o contexto social. (BURKE e BRIGGS, 2002, p.244, grifos dos autores)
Quanto sua função educativa os autores afirmam:

1

Educar, não entreter, esse permanecia o objetivo prioritário para alguns dos primeiros defensores da televisão contra as acusações de que ela exercia uma influência inevitavelmente corruptora da sociedade e da cultura, e de que levava os espectadores a gastar mais tempo com ela do que com outras atividades. (BURKE e BRIGGS, 2002, p.252).
O público e o privado - Nº 14 - Julho/Dezembro - 2009

Segundo Guareschi e Biz (2005) “Seis das principais redes privadas nacionais (Globo, SBT, Record, Bandeirantes, Rede TV!, CNT) estão vinculadas, entre canais próprios e afiliadas, que representam 263 das 332 emissoras brasileiras de TV” (p.84), duas delas exorbitando o número de emissoras próprias permitidas pela lei.

uma pessoa pronuncia um discurso e. à leitura de cem páginas sobre o mesmo assunto. justamente porque pouca gente pode consagrar o dia todo. No Brasil seu alcance cobre quase todo o território nacional. a figura do orador.. daí a pouco. a expressão da sua face. das festas. Vejamos então o texto visionário escrito pelo poeta Olavo Bilac em 1904 que narra a invenção do cronófono. Já os homens de hoje são forçados a pensar e executar. passando pela fotografia e pelo cinema. 2004). A vida moderna é feita de relâmpagos no cérebro. ou ainda uma hora toda. a mobilidade dos seus olhos e dos lábios. dos desastres. pelos físicos franceses Gaumon e Decaux. e ilustrado com projeções animatográficas. haja vista a presença deste meio em . A atividade humana aumenta. Desta maneira Bucci (ib. em um minuto. que vivemos a representar no imenso tablado do planeta. O livro está morrendo. a um só tempo. sobre a tela branca. BRIGGS e BURKE. sérias ou fúteis. como reproduz.. a impressão auditiva e visual dos acontecimentos. p. Mesmo antes de existir efetivamente a TV já tinha o seu lugar imaginário.) defende que “aquilo que o telespectador vê na tela emerge não apenas da tela em si. Da pintura renascentista. o que os avós pensavam e executavam em uma hora. instantâneas e multiplicadas – seja o jornal falado. dando. 2004. e de rufos de febre no sangue. não somente repete todas as suas frases. os seus gestos.29). já estava demandando antes” (p. das catástrofes. a sua fisionomia. Talvez o jornal do futuro seja uma aplicação dessa descoberta. mas também de algo que ele. 2004. (BILAC apud BUCCI.168 Luciana Lobo Miranda Entre o entretenimento e a educação. a grande aceitação deste novo dispositivo audiovisual deve-se em parte pelo fato das massas já terem um “olhar educado” para o modelo broadcasting de difusão da imagem eletrônica.27 e 28) Mesmo corroborando com a idéia de que a televisão não inaugura propriamente um novo processo. Talvez o jornal do futuro – para atender à pressa. à exigência furiosa de informações completas. telespectador. a televisão nasce na confluência de um “modo de ver” que já havia sido “inaugurado” (BUCCI in BUCCI e KEHL. intensificando fluxos de um “modo de ver” que foi se constituindo ao longo dos anos. de todas as cenas alegres ou tristes. uma combinação de fonógrafo e cinematógrafo: Diante do aparelho. desta interminável e complicada comédia. numa progressão pasmosa. à ansiedade. certamente seu modelo broadcasting foi se fazendo cada vez mais presente em nosso cotidiano.

seja externa. Faz-se então necessária uma análise da televisão. publicitário. No entanto para Foucault (1998) não há discurso sem exclusão. futuras e presentes” (p. Dispositivo pedagógico e modo de subjetivação A televisão tem se afirmado cada vez mais como um discurso. Foucault as define como “um modo de ação sobre a ação que age direta ou indiretamente sobre os outros. 57% das crianças brasileiras ficam mais de 3 horas assistindo TV . político. A exclusão externa compreende ao longo da história a interdição (a palavra proibida. seja interna. Ele é constituído num “campo de relação que pode ser estabelecer como sujeito a alguém pelo controle e dependência e preso à sua própria identidade por uma consciência ou autoconhecimento. mas que age sobre sua própria ação. Assim por exemplo. institucional e social (as práticas discursivas são inseparáveis de uma série de regras. discurso feminista. que existem propriamente como prática discursiva. psicológico. em setembro de 2004. 2 Televisão: Discurso. só perdendo para o fogão (mas ganhando da geladeira) em número total de aparelhos (PNAD. etc) acaba por configurá-la como um campo discursivo de grande alcance. quanto aqueles engendrados em seu fazer diário (discurso jornalístico.Julho/Dezembro . oratória. Ele também não se opõe à prática. 17 de outubro de 2004. em funções de práticas sociais muito concretas. 1998) o discurso não se confunde com a fala. ou atuais. nos dizem o que dizer. quando a publicidade diz “você é o que você aparenta”. Para Foucault (1986. tendo crianças e jovens como público preferencial que chega a passar em média mais de quatro horas por dia diante da tela2. Foucault afirma que o discurso é prática justamente porque os discursos não só nos constituem. Fala-se então em discurso pedagógico. na sua relação com os modos de subjetivação na contemporaneidade e a escola como espaço de mediação desta relação. os quais se constituem sempre como prática. enquanto os dados do Ibope afirmam que. por dia. ou melhor. formas de comunicação. discurso científico. O discurso é ele mesmo uma prática. como acontecimento histórico. 4 Para Foucault (1995) não existe sujeito a priori. normas. constituindo como modo de subjetivação privilegiado na contemporaneidade4. Fonte: Castro in Folha de São Paulo.243). tanto de ordem exterior (discurso jurídico. crianças e jovens entre 4 e 17 anos.Linguagem e modos de subjetivação na relação práticas escolares e televisão 169 93% dos lares brasileiros (nove entre dez). mas efetivamente ela engendra e produz práticas/ marcas em nosso corpo. sobre ações eventuais. teledramatúrgico. pensar e sentir o mundo. como também são alterados. .235). Uma ação sobre a ação. higiênico-assistencialista dentre outros). científico. de liberdade. constrói-se no interior dessas mesmas práticas. 2006). responsável por modos de ver. nos subjetivam. O público e o privado . ficaram em média quatro horas e 25 minutos. modos de exercício do poder. lutas políticas).Nº 14 . A nossa hipótese consiste em pensar que a intensa circulação de discursos presentes na televisão. que envolvem relações de poder3. pois não se pode falar qualquer coisa em qualquer lugar). pois todos são constituídos de uma série de enunciados. Só há relação de poder mediante sujeitos ativos. ela não está apenas dizendo. Ambos sugerem uma forma de poder que subjuga e torna sujeito a” (p. frases e enunciações. o discurso pode ser entendido como um conjunto de enunciados de um determinado campo do saber. Assim.2009 Segundo o Instituto Ipsos. 3 As relações de poder em Foucault (1995) compreendem a possibilidade de reação.

dando-lhes um tratamento científico.22). para finalmente retornar ao senso comum. com o conceito de campo jornalístico formulado pelo sociólogo Pierre Bourdieu em seu livro “sobre a Televisão” (1997). e especificamente a TV. que por sua vez pode deslocar-se ao jurídico.49). ou seja. há sempre algumas pessoas que estão para se explicar (“por que vocês fazem isso. devidamente aprofundado. os discursos que. permanecem ditos e estão por dizer.16) Há também a exclusão interna. . na cobertura jornalística feita pela televisão. e que passam como ato mesmo que os pronunciou. o discurso do senso comum (comentário) pode ser conduzido ao discurso científico. muito regularmente nas sociedades. para além de sua formulação. a exemplo do Fantástico da TV Globo. no entanto. os transformam ou falam deles. às vezes. uma revista eletrônica. parece fazer a “ligação” entre estes mais variados discursos. a mídia. por que causam transtornos aos usuários? etc”. 1998. são ditos. Para Foucault é este último que tem se tornado mais forte em nossa sociedade apregoada pela ciência: “as grandes mutações científicas podem talvez ser lidas. Conforme afirmamos. Em um programa de variedades. ao comentário e outros a certa permanência. indefinidamente. numa extensa cadeia discursiva em que nada pode ser. Segundo Bourdieu (1997) grosso modo. mas podem também ser lidas como a aparição de novas formas na vontade de verdade” (p. como conseqüências de uma descoberta. (FOUCAULT.170 Luciana Lobo Miranda a separação (segregação da loucura) e a oposição “verdadeiro” ou “falso” (vontade de verdade). pode-se supor que há. uma espécie de desnivelamento entre os discursos: os discursos que “se dizem” no correr dos dias e das trocas. numa mesma reportagem. Para pensar os mecanismos de exclusão presentes no discurso da TV articularemos o conceito de exclusão presente no conceito de discurso em Foucault.49) e outras que estão para explicar “para proferir um metadiscurso” (p. É também recorrente o uso de especialistas para corroborar matérias jornalísticas. (p. p. jurídicos. literários e científicos: Em suma. que hierarquiza os discursos. a exemplo dos textos religiosos. e os discursos que estão na origem de certo número de atos novos de fala que retomam. Assim podemos pensar que os especialistas estão para referendar uma “vontade de verdade”. uns ligados ao dia a dia.

jornais. Certamente. pensa a mídia enquanto um dispositivo pedagógico. à revelação permanente de si. notícias de variedades. 1997. nossos animadores de debates.2009 . deixam de mostrar acontecimentos: “Ora. é que essas coisas tão fúteis são de fato muito importante na medida em que ocultam coisas preciosas” (BOURDIEU. “Está perfeitamente ajustada às estruturas mentais do público” (p..Julho/Dezembro . Fundamentada no conceito de dispositivo sexualidade. nossos comentaristas esportivos tornaram-se pequenos diretores da consciência que se fazem.Linguagem e modos de subjetivação na relação práticas escolares e televisão 171 Da mesma forma que enfatizamos que a TV se instaura num processo já existente. E se minutos tão preciosos são empregados para dizer coisas fúteis. a partir do qual haveria uma incitação ao discurso sobre “si mesmo”. o tempo é algo extremamente raro na televisão.Nº 14 . fatos que não devem chocar. pois. e quem ao preencher um tempo precioso na TV.um aparato discursivo (já que nele se produzem saberes. o dispositivo pedagógico é descrito como: .23) Em consonância com o pensamento foucaultiano Fischer (2002. que dizem “o que se deve pensar” sobre o que chamam de “os problemas da sociedade”.65) Outro mecanismo de exclusão presente no discurso televisivo deve-se ao fato dela ocultar mostrando. a TV é essencialmente conservadora. os porta-vozes de uma moral tipicamente pequeno-burguesa. 2006). ela serve também para potencializá-lo. elevá-lo ao quadrado. sem ter que forçar muito... de produzir. discursos) e ao mesmo tempo não discursivo (uma vez que está em jogo nesse aparato uma complexa trama de práticas. tais práticas vêm acompanhadas de uma produção e veiculação de saberes sobre os próprios sujeitos e seus modos confessados e aprendidos de ser e estar na cultura em que vivem. rádio. Ela evita polêmicas em nome da audiência.. em que o sujeito é chamado a falar sobre si mesmo e se reconhecer a partir de sua sexualidade. Nossos apresentadores de jornais televisivos. revistas. as agressões nos subúrbios ou a violência na escola. Informações omnibus – para todo mundo. numa determinada sociedade e num certo cenário social e político). p. há de se considerar ainda o simultâneo reforço de controles e igualmente de O público e o privado . voltando a Bourdieu (1997). veicular e consumir TV.64). (p.

sua separação idade/ série. cujo conteúdo. para fortalecimento do Estado Nação (Foucault 1977). seja de como cuidar da casa. em seus mais diversos dispositivos. na maioria das vezes. Desta forma a televisão acabou por ser fazer pedagógica. No entanto. do sujeito cidadão. Por outro lado a educação parece transbordar para todos os lados. a exacerbação de uma cultura individualista e de intolerância ao outro. e que estão vivos. como satisfazer o seu (sua) parceiro(a). para o sujeito consumidor. a entrada das chamadas “novas tecnologias da informação” no campo educacional e o questionamento de suas próprias práticas cotidianas. da durabilidade. A ampliação da rede informal de educação através do crescimento do terceiro setor e dos meios de comunicação de massa. principal elemento do receituário neoliberal. para a velocidade. atualmente. tais como. guiado pela lógica da razão. com sua rotina. a mídia. isto é. locus tradicional de transmissão de saber voltado ao passado. o indivíduo é pensado e cooptado em sua força produtiva. reconfigurando assim o espaço escolar. mas de disciplinarização dos corpos.3) O espectador é constantemente interpelado a produzir opinião sobre os mais diversos assuntos. a escola tem ocupado um lugar central na transmissão do legado cultural e na formação do sujeito. é voltado para a atualidade. onde. ela se encontra cada vez mais destinada à “educação” das pessoas. De um lado a escola. insistentemente presentes nesses processos de publicização da vida privada e de pedagogização midiática (p. em seu corpo. A partir do século XVII.o exame. mostra uma realidade em que a disciplina é incapaz de dar conta. num constante borramento de fronteiras do que outrora se chamou de público e privado. seus filhos. como educar seu cachorro. etc. a excessiva velocidade dos fluxos e relações sociais. a escola transformou-se em um lugar não apenas de transmissão do conhecimento. para o privilégio do agora e do . Televisão e escola: encontro possível? Na história moderna. dentre outros. O Estado mínimo.172 Luciana Lobo Miranda resistências. do telos. trouxe à tona uma querela entre dois entes. De outro. para a promoção do impacto e do emocional. e da combinação entre ambas . em acordo com determinadas estratégias de poder e saber. atuando como um modo de subjetivação privilegiado na contemporaneidade. através da vigilância hierárquica e da sanção normalizadora. este lugar parece não ser mais o mesmo. no contexto europeu.

2004). Neste trabalho será privilegiado o trabalho de extensão do projeto TVEZ5. V. O TVEZ conta com uma bolsa de extensão da UFC. não pode se eximir do debate acerca da relação subjetividade e mídia na contemporaneidade. com foco no processo dialógico educador-educando e que lança mão de uma estrutura tecnológica de produção autônoma de mídias educativas. que visou à implementação de um Projeto de Comunicação Educativa (PCE) em três escolas da rede pública nos municípios de Fortaleza. escutam ou lêem? Como trazer estas reflexões para o próprio cotidiano educacional? São temas que precisam ser problematizados por todos aqueles que fazem a escola. Sampaio e por mim. fanzines e jornal escolar. é lógico. com base na análise de publicações de livros brasileiros entre 1998 e 2008. objetivamos compreender a mídia. internet. como professores podem se propor a investigar com os jovens como eles significam aquilo que vêem. câmeras fotográfica e de vídeo e mesa de O público e o privado . que versem sobre a possibilidade do uso da televisão/ vídeo no cotidiano educacional. A ação compreleza. além. Neste. ou mesmo esvaziadas de pensamento crítico acerca de seu fazer pedagógico. mesmo não desconsiderando as implicações midíaticas no cotidiano escolar (vistas muitas vezes de forma maniqueísta. spots. Diante deste “quadro”. No intuito de pensar a inserção da televisão no cotidiano escolar e a possibilidade da problematização de seu discurso. como responsáveis pela má formação de valores e costumes na infância e na juventude).Julho/Dezembro . com apoio das três secretarias municipais de educação. (MIRANDA. além de orientar na graduação e no mestrado monografias e dissertações ligadas ao tema “Subjetividade. O PCE consiste numa metodologia de ensino-aprendizagem por meio da arte e da comunicação. cujo objetivo é promover a educação para o uso crítico das mídias. p. tendem a rechaçálas. 199) Em atividades desenvolvidas no âmbito da pesquisa e da extensão temos procurado trabalhar este campo de possibilidade da escola. viabilizada com a implantação de um Laboratório de Comunicação Educativa (LACE) equipado com computador. quanto na facilitação dos cursos. Já no âmbito da pesquisa. Maracanaú e Maranguape. com ênfase na televisão. impressora.Nº 14 . como lugar de discussão e apropriação da mídia em seu cotidiano. com o próprio salário. O projeto é coordenado pela Profa. voltados para profissionais de educação. blogs. abordaremos o trabalho realizado no TVEZ em parceria com a ONG de Fortaleza ENCINE6. Arraigadas em modelos tradicionais. 2007. com a participação de estudantes de comunicação e de psicologia da UFC. tais como vídeos. como território privilegiado de produção de subjetividade na con- . Preocupados com inúmeras avaliações. mídia e educação”. ende tanto a discussão quanto a apropriação das mídias no cotidiano escolar. relatórios. Dra. através de ações integradas em escolas da rede pública de Forta. A colaboração dos integrantes do TVEZ consistiu tanto na fase diagnóstica. as escolas.Linguagem e modos de subjetivação na relação práticas escolares e televisão 173 efêmero (VIVARTA. Inês Silva. como estabelecer um diálogo entre o discurso televisivo e o educacional? Em outro texto afirmamos: 5 A escola como lugar legitimado de produção e circulação de saber. atualmente encontra-se no segundo ano de Iniciação Científica a pesquisa “’Entulho imagético’ ou tesouro educacional? Uma Análise da relação subjetividade e mídia no cotidiano escolar” com apoio da FUNCAP e da UFC. no planejamento. projetos.2009 O TVEZ é um projeto de extensão interdepartamental.

Para além de uma capacitação técnica. um docente comentou. cujo réu era a televisão brasileira. A idéia é promover a auto-gestão do LACE. se ela sair do único recurso que ela tem. um recurso educativo” A acusação lê o artigo 221 da Constituição Federal “’A produção e a programação das emissoras de rádio e televisão atenderão aos seguintes princípios: Preferência a finalidades educativas. O julgamento foi devidamente gravado. passamos um vídeo editado com cenas do julgamento. com participação efetiva de representantes do corpo discente. divididos em duas equipes.. A formação docente “Diálogos Escolares Contemporâneos” (DEC) teve carga horária de 60 horas e o curso de Arte Comunicadores Sociais (ARCOS). muitos se mostravam surpresos pelo vídeo e comentavam a sua qualidade técnica. A título de exemplo. Assim.174 Luciana Lobo Miranda temporaneidade e a escola como espaço de mediação desta relação. iniciou-se o “julgamento”. um que continha cenas de programas de TV considerados de boa qualidade e educativos.que sentira falta de algumas falas. sem qualquer explicação prévia. No término da exibição do primeiro vídeo. Dissemos então que tínhamos uma segunda surpresa e o outro vídeo foi apresentado. o PCE compreende um espaço para a escola pensar o seu próprio cotidiano. voltado para os discentes do ensino fundamental segundo ciclo. A ENCINE é também responsável pelo programa Megafone.. Ao final. Com falas que argumentavam ora a favor ora contra a qualidade da TV brasileira. Atualmente é Ponto de Cultura pelo Ministério da Cultura e conta com o apoio da Secretaria Especial de Direitos Humanos do Governo Federal. manual de classificação educativa. após alguns comentários iniciais. teve carga horária de 120 horas. deveriam preparar um corpo argumentativo com relação à defesa ou à acusação da televisão brasileira. permanecia a fala do jurado que melhor referendasse a intencionalidade de cada vídeo. artísticas. Propositalmente. Juiz e o corpo jurado ficaram a cargo da equipe da ENCINE e do TVEZ. O que estas crianças têm em casa? Onde estão os livros? Será que a escola tem livros? A casa tem livros? Que contexto é esse que a gente quer para essa criança. meio sem jeito – afinal como tecer crítica a algo feito por especialistas? . veiculado as tardes de domingo na TVC. mesclados aos melhores momentos da defesa. pois sentiam falta de algumas falas que haviam sido cortadas. No encontro seguinte. Estatuto da Criança e do Adolescente. Em uma aula do DEC. dentre outros. com base no material que compreendia: legislação. professores refletiram sobre a inserção da TV como modo de subjetivação presente em seu cotidiano bem como sua relação com a escola7. outros concordaram enfatizando o caráter “tendencioso” do vídeo. dois materiais foram preparados. feito por jovens. promoção da cultura nacional e regional e estímulo à produção independente que objetive sua divul- . após a fase diagnóstica das escolas iniciou-se o trabalho de formação de docentes e discentes. simulamos um julgamento. O segundo mesclava imagens usualmente consideradas “apelativas” com os piores momentos da defesa e os melhores momentos da acusação. culturais e informativas. propusemos um debate. No inicio. além do fato de se verem. 6 A ONG ENCINE desenvolve ao longo dos últimos 10 anos experiências na área de audiovisual com jovens oriundos das classes populares. eis um dos argumentos da defesa: “mas aí vem a questão. No entanto. Os professores. Após uma hora de preparo e com os “advogados” devidamente constituídos. 7 desenho. a fim de problematizar a televisão enquanto discurso. com os piores momentos da acusação. A gente tem que considerar que [a TV] é um recurso pedagógico sim.

No entanto.’ Na realidade o que nós temos são filmes de violência sendo apresentados no horário em que crianças estão acordadas”. pois implica a articulação do uso e produção da mídia como instrumentos de ensino-aprendizagem. transbordam inúmeros discursos. estética e política. Artigo Recebido: 22/10/2009 Aprovado: 15/12/2009 ..Nº 14 . capturar. as práticas pedagógicas. indagamos aos docentes o porquê de termos feito dois vídeos. Na produção subjetiva contemporânea engendrada seja no cotidiano escolar. O público e o privado . em última instância.Julho/Dezembro .2009 gação. com base no mesmo julgamento em que todos se encontravam presentes. Estética. professores. seja na mídia. que buscam estratégias para tornar a escola o ambiente positivo de aprendizagem. Discutimos assim a não neutralidade do discurso televisivo. Regionalização da produção cultural. escola e mídia. a uma reflexão tanto sobre a comunicação cotidiana (sua produção e seus meios de propagação). ou mesmo excluir modos de subjetivação que escapam aos seus modelos instituídos. Por fim foi discutida a possibilidade de inserção a respeito da televisão no cotidiano das escolas em questão. quanto com a própria escola. pela polifonia de diversos lugares enunciativos que fazem parte dos sujeitos que os constituem e os produzem. O trabalho apresentado compreende uma possibilidade onde se possa pensar a diversidade das situações concretas vividas tanto na relação com a televisão. abordamos os discursos presentes na televisão. conforme percentuais estabelecidos por lei. alunos e funcionários que tentam não se acomodar. Desta forma. a saber: pedagógica. especificamente do telejornalismo.Linguagem e modos de subjetivação na relação práticas escolares e televisão 175 Após a exibição do segundo material. qualquer experiência de mídia no campo educacional deve auxiliar na produção de novos modos de educar no cotidiano escolar. explorando outras linguagens não usuais na mídia comercial. Malgrado o empenho explícito isolado daqueles que fazem o seu cotidiano. A escola também é um lugar de transformação e de resistência. Vemos diariamente em seu cotidiano. quanto sobre a própria escola. em que algumas vozes são privilegiadas em detrimento de outras. Política. normalmente são reguladoras da negação do outro enquanto co-criador de conhecimento. num campo de luta onde também resistências são possíveis. apesar de todas as condições adversas. pois a discussão do uso da mídia no cotidiano escolar levaria. Com base numa vivência coletiva e portanto heterogênea. por exemplo. artística e jornalística. estes dois loci de modos de subjetivação.. A inserção da televisão ou de qualquer outro dispositivo midiático deve ser pensado na interação de três perspectivas. Televisão e escola: disciplina e resistência As práticas discursivas cotidianas presentes tanto no discurso televisivo quanto no discurso educacional tendem a classificar. Pedagógica. também se encontram marcados pelas inúmeras vozes. pois deve compreender a abertura para a criação. para o campo do sensível.

17/10/2004. Michel. _________________ . Maria Rita. n. ABSTRA CT : The media age. BUCCI. Superligados na TV. 2004. Rio de Janeiro: Jorge Zahar. RABINOW. Eugênio KEHL. television. could be of great help in long distance education. the student or the teacher himself (concerning public educational practices). Educação e Pesquisa. On the other hand images are easily available and. 151-162.. 1997. Maranguape and Maracanau. BRIGGS. 1995. Jorge Zahar. Starting with Michel Foucault's concept of discourse. 1. 28. be it on the part of the spectator. Vozes. when cultural objects. 2004. Disponível em redalyc. Belo Horizonte: 2006 FOUCAULT .mx/redalyc/pdf/298/ 29828111. Videologias: Ensaios sobreTelevisão. in spite of the broadcasting of an ideal of citizenship and criticism. Referências BOURDIEU. it is common to hear about the decline of written word. Rosa Maria Bueno. Hubert.uaemex. though very different and sometimes conflicting ones. school. _________________. Asa e BURKE. Televisão e Educação: Fruir e Pensar a TV. 2ª ed. uma trajetória filosófica: para além do estruturalismo e da hermenêutica. The present work intends to articulate the conceptual discussion about television language based in authors like Pierre Bourdieu and Rosa Bueno Fischer among others and the experience in coordinating the extension university course "Contemporary School Dialogs". therefore. 1986. their everyday practices point more to passive approach. The school system seems to balance between the resistance to image as a possible producer of knowledge and its availability. Rio de Janeiro. emphasizing that both the school and the media are ways of teaching. 1977. O sujeito e o poder. O Dispositivo Pedagógico da Mídia: Modos de Educar na (e pela) TV. subjectivity.176 Luciana Lobo Miranda K ey W ords: Words: discourse. São Paulo (SP). 3º ed. In: DREYFUS. Rio de Janeiro. 2002 __________________________ . Pierre. FISCHER. Michel Foucault. Arqueologia do Saber. Paul. p. Folha Ilustrada In Folha de São Paulo. we intend to discuss television as a subjectivity field present in the school routine. Sobre a televisão.pdf. Forense. social relations and subjectivity ABSTRACT CT: are intertwined with audiovisual technology. Contemporary society is marked by the collapse of texts and the omnipresence of images. v. São Paulo. carried through with teachers of the municipal public system of Fortaleza. Petrópolis. Rio de janeiro: Forense Universitária. Vigiar e Punir: Nascimento da Prisão. D. CASTRO. In both of them. Peter. . Uma história Social da Mídia: De Gutenberg à internet.

i b g e . 1998 GUARESCHI. Veet. O público e o privado . conteúdo e participação nos programas de televisão para adolescentes. São Paulo: Cortez. b r / h o m e / e s t a t i s t i c a / p o p u l a c a o / trabalhoerendimento/pnad2006/default. P N A D h t t p : / / w w w. educação e cidadania: tudo o que você deve saber sobre mídia.shtm VIVARTA. g o v. Pedrinho e BIZ. Osvaldo A. Mídia.Julho/Dezembro . A Ordem do Discurso. Remoto Controle: linguagem. RJ : Vozes.Petrópolis.2009 .Nº 14 . 2005.. (2004). SP: Loyola.Linguagem e modos de subjetivação na relação práticas escolares e televisão 177 _________________ .

televisão. olíticas de Comunicação em tempos de TV Brasileira: a criação do Merchandising Social Ao nos referirmos às políticas públicas de comunicação. E-mail: eroh@unifor. procura afinar o sistema midiático aos direitos e às demandas da sociedade civil. enquanto o poder público procura fornecer diretrizes ao sistema de comunicação. Doutora em Sociologia pela Universidade Federal do Ceará (UFC). à revelia dos órgãos públicos. que em tese. a partir da perspectiva de sua audiência. a televisão brasileira promove políticas que orientam a sua programação a fim de alçá-la à categoria de empresa cidadã. a pretensão de analisar o MS apresentado na telenovela Laços de Família (2000-2001). pois.br.br. Erotilde Honório Silva é Professora Titular da Universidade de Fortaleza (UNIFOR). E-mail: manubarros@secrel. permissão ou autorização de canais de radiodifusão ou de televisões abertas aos projetos O público e o privado . Este trabalho tem. ao longo do tempo. suas próprias políticas de comunicação. 179 Quando a televisão produz suas próprias políticas de comunicação: uma análise do Merchandising Social nas Telenovelas Brasileiras When the television produces its proper politics of communication: An analysis of the Social Merchandizing in the Brazilian soap opera Roberta Manuela Barros de Andrade Erotilde Honório Silva* RESUMO: As políticas públicas de comunicação têm.Julho/Dezembro . o termo tenta dar conta de um amplo conjunto de ações que vão desde a concessão. Em meio ao debate aberto na sociedade civil sobre educação. participação e inclusão social. Mas. traçar uma série de marcos regulatórios.Nº 14 . Tal enfoque se baseia no fato de que as políticas de comunicação só podem ser responsavelmente avaliadas a partir de objetos concretos por meio dos quais essas políticas adquirem visibilidade social. Uma das mais importantes alavancas das emissoras para atingir tal meta tem sido a introdução em sua ficção seriada do Merchandising Social (MS). Doutora em Sociologia pela Universidade Federal do Ceará (UFC).(*) Roberta Manuela Barros de Andrade é Professora Adjunto da Universidade Estadual do Ceará (UECE).2009 P . produzida pela Rede Globo de Televisão. a mídia vai construindo. merchandizing social.com. tentado Palavras-chave: políticas de comunicação.

enquanto o poder público tenta mapear o sistema de comunicação brasileiro. a Rede Globo de Televisão se destaca não só pelo seu pioneirismo na área. mas também. constroem outros significados para as concepções de democracia. Martin-Barbero (2000) em reflexão sobre as políticas públicas colombianas para os meios de comunicação afirma que existe uma esquizofrenia entre o que pensa o poder público sobre o papel da mídia na sociedade colombiana e o real impacto da televisão nas transformações sociais neste país. algumas vezes. estima-se que 8779 ações de MS foram produzidas na ficção seriada brasileira produzida pela Rede Globo de Televisão. Brasil 500 e Amigos da Escola. entre 1991 e 2004. Segundo Schiavo (2004). em tese. uma estratégia de comunicação. Assim. 2 Mas. A televisão brasileira. saúde reprodutiva. Por detrás dessas orientações normativas. O MS é. em moda. Nesta prática. Globo e Universidade. desemprego. incorporando o discurso moderno da responsabilidade social. surgida em meados dos anos noventa do século passado. . prevenção e abuso de drogas. atenta ao debate existente na sociedade civil e nos órgãos públicos sobre participação. dados apontam que foram 320 mil inserções em todo o país. o que pode ser detectado claramente pelas políticas públicas para a comunicação na Colômbia. Só em 2003.180 Roberta Manuela Barros de Andrade Erotilde Honório Silva de lei que debatem os marcos regulatórios tanto das televisões pagas quanto os do ciberespaço. em linhas gerais. versando sobre os mais diferentes temas como direitos humanos. cidadania. usada pelas emissoras para dar credibilidade social a seus produtos de entretenimento. A veiculação de campanhas de utilidade pública é tradição na emissora. pela quantidade. entre campanhas próprias e de terceiros (Herkenhoff. Uma das mais importantes alavancas das emissoras para atingir tal meta tem sido a introdução em sua ficção seriada do Merchandising Social (MS). O que une todas essas ações é a noção de que se trata de medidas a serem tomadas pelo poder público com a finalidade. lá os meios não são percebidos pelo poder público como criadores de cultura apenas como transmissores ou difusores de práticas sociais. inserido em sua narrativa ficcional de maior sucesso. Mas foi graças à inovação do MS. que tal imagem se . ao longo dos últimos trinta e cinco anos. inclusão social e educação que não estão presentes nem nos discursos oficiais nem nas mesas redondas e fóruns que tentam conjugar a visão da academia sobre o assunto e as demandas da sociedade civil organizada1. de sintonizar o sistema de comunicação com os direitos e demandas da sociedade civil. do MS em suas telenovelas2. trabalhado a sua imagem por meio de programas sociais desenvolvidos pela empresa ou em parceria como Criança Esperança. inclusão social e educação no Brasil. participação. respeito aos idosos e desenvolvimento social sustentável. neles incluindo os discursos ditos “educativos”. alardeando o que denomina de forma genérica de “seu papel social”. equidade de gênero. a mídia vai construindo suas próprias políticas de comunicação. Globo Serviço. 1 . Obviamente que ações que têm como princípio a construção de uma imagem pública positiva da Rede Globo não surgem somente a partir do MS. na contramão das expectativas do que essas instituições desejam divulgar. não desprezível. no Brasil. traça políticas próprias que orientam a sua grade de programação. Ação Global. numa clara tentativa de alavancar audiências. inclusão social e educação. participação. Para MartinBarbero. direito das crianças e dos adolescentes. 2000). A Rede Globo tem.as telenovelas-. está presente um debate generalizado sobre democracia. sexualidade. dando-lhe determinadas diretrizes. priorizando programas de maior audiência.

Neste sentido é imprescindível para as empresas de comunicação divulgarem para a sua audiência os variados elementos dos quais lançam mão ao desenvolverem sua cota de responsabilidade social. Nessa perspectiva. assim. o MS auxilia as telenovelas da emissora a saírem das páginas das revistas de fofocas e passarem a agendar as discussões sociais que perpassam a grande imprensa. produzida pela Rede Globo de Televisão. O MS está presente. Não é à toa. células-chave para a discussão sobre as políticas de comunicação? A fim de construirmos pistas para esta reflexão esse trabalho se propõe a realizar uma análise do Merchandising Social apresentado na telenovela Laços de Família. garantida pelo MS. que a emissora incorporou essa estratégia de comunicação em sua teledramaturgia. a traumas (ciúme excessivo.Quando a televisão produz suas próprias políticas de comunicação: uma análise do Merchandising Social nas Telenovelas Brasileiras 181 sedimenta com maior força em sua audiência. Tal enfoque se baseia no fato de que as políticas de comunicação só podem ser responsavelmente avaliadas a partir de objetos concretos por meio dos quais essas políticas adquirem visibilidade social. usando o MS como instrumento para a construção de sua imagem como uma empresa-cidadã. uma vez que está relacionado a doenças incuráveis ou com percentual mínimo de cura. dos seus deveres para com a comunidade em que vivem e a sociedade em geral. A leucemia. individualmente e em conjunto. Portanto.Nº 14 . A Rede Globo incorporou esse conceito. hoje. Nesta pesquisa. além do que. como essa política de comunicação tem contribuído para um debate mais profundo sobre educação. a responsabilidade social concretiza-se por meio da adoção de atitudes. comportamentos e práticas positivas que contribuem para o bem comum. nas rodas oficiais. dantes assunto restrito às revistas médicas especializadas. violência doméstica) ou a doenças psíquicas.Julho/Dezembro .2009 . Este conceito se fundamenta no princípio de que as ações individuais têm impacto na vida da coletividade. torna-se O público e o privado . garantindo à Rede Globo o título. de empresa com responsabilidade social. de repercussão importante na família e na sociedade. O termo responsabilidade social é definido por Herkenhoff (2000) como o reconhecimento e assunção pelos cidadãos. em todos os horários de veiculação das novelas globais. selecionamos como objeto de estudo a telenovela Laços de Família porque o MS ali inserido foi uma das discussões de maior impacto na mídia impressa e televisiva já realizada em torno de uma temática social. participação e inclusão social. o que nos perguntamos então é: apesar das óbvias intenções desta emissora em alavancar audiência. apesar de ser mais intensificada no horário das 20h. no horário das 20h. frequentemente. A repercussão social em termos de audiência é. entre maio de 2000 e fevereiro de 2001.

Entrementes. durante o período de veiculação da novela.tipo de câncer que compromete os glóbulos brancos (leucócitos) do organismo. Mas. após seis meses de sua veiculação. jovem que se descobre portadora da doença na trama. no auge da novela. retornou aos níveis anteriores nos principais órgãos responsáveis pela coleta dessas informações4. entre 25 e 30 anos de idade. as inscrições mensais passaram. Tal dado nos ajuda a desmistificar a noção. a Unidade de Transplante de Medula Óssea do Hospital Celso Ramos registrou de 20 a 30 pedidos por dia (de cadastro). No Rio Grande do Sul. . Telenovela e Sociedade A Novela Laços de Família apresentou como ponto central de seu enredo a leucemia . não leva a um efetivo processo de mudança social. o impacto de tal política de comunicação esteja muito mais na pauta temporária do debate público. o seu efeito termina ao acabar a novela. de nível universitário. ex-portadores de leucemia. Tomamos como ponto central dessa discussão a forma como mulheres espectadoras fidelizadas às novelas globais e particularmente da telenovela em questão.182 Roberta Manuela Barros de Andrade Erotilde Honório Silva 3 . nível de escolarização e faixa etária semelhantes à da personagem vítima da doença na trama5 refletem sobre o MS. apregoada pelos departamentos de marketing da emissora. ocorreu o que chamamos de “efeito Camila” que se materializou no aumento do interesse pela doação de sangue e órgãos. esse número caiu para a média de dois semanais. naturalmente. No Instituto Estadual de Hematologia (HemoRio). afetando sua função e velocidade de crescimento. Não se trata de um projeto contínuo. em especial da medula óssea em função do drama abordado na novela em questão3. No Instituto Nacional do Câncer (Inca) que registra potenciais doadores de medula. de que o MS tem repercussões no social em termos de mudanças diretas e lineares no comportamento social do brasileiro no que diz respeito a ações sociais efetivas. o número de consultas sobre a leucemia passou de 871 para 2427 no mesmo período. apesar do um aumento significativo durante a emissão da novela. assumido pelas políticas de governo. a partir de um recorte específico. foi realizadas entrevistas estruturadas com ex-portadores de leucemia. dando-lhe significados em seu cotidiano. O Hemocentro de Ribeirão Preto (SP) verificou também um aumento de cadastros de doadores no primeiro semestre de 2002 (período final da novela). que foram audiência ativa da citada novela em seu período de veiculação. 4 capa das maiores revistas jornalísticas do País e tema constante nas páginas dos jornais impressos e nas chamadas dos telejornais durante o período de veiculação da novela. Em Santa Catarina. e. no segundo semestre do mesmo ano.o número de cadastros chegou a uma média de 30 por semana. chega- Merchandising Social. O argumento centrou-se nas informações sobre a doença ao mesmo tempo em que promoveu uma campanha de doação de medula baseada na experiência da personagem Camila. Os . o interesse pela doação de sangue e órgãos. Nesse sentido é que para compreendermos algumas dimensões da repercussão social deste MS. somente em janeiro (no auge da novela). os telefonemas para a Secretaria de Saúde pedindo informação sobre a doença aumentaram de 1 para 10 chamadas por dia. Atrelada à novela. de classe social. de dez para cento e quarenta e nove e no Registro Nacional dos Doadores de Medula Óssea (Redome) subiram de vinte para novecentas inscrições mensais durante a abordagem da temática por esta ficção seriada. O que nos leva a pensar que talvez. Cremos que um tal viés de análise é profícuo na medida em que tal pesquisa de recepção nos ajuda a entender como efetivamente as políticas de comunicação projetadas pelos próprios meios repercutem no social. o que nos chama a atenção é o fato de que. No Disque Saúde.

que tem como função básica alavancar a audiência de uma dada ficção seriada. As informações veiculadas por personagens relacionados à temática posta em discussão lembram. Esse discurso. usual nas telenovelas brasileiras como pano de fundo das tramas.2009 ram 154 pessoas querendo se cadastrar como doadoras quando o número em dezembro do mesmo ano não chegou a dez por mês. um discurso “socialmente engajado” que não faz parte necessariamente da função melodramática da trama. que é inserido na narrativa centrado em um discurso claramente pedagógico. Informações retiradas do site oficial da Federação das AABB/ Cidadania acessado em 15 de fevereiro de 2009.br). em linhas gerais. em um aumento substancial de audiência em uma novela específica (uma vez que se tornaram corriqueiros em todas as telenovelas da emissora). em determinados momentos. garantindo. não raro. Merchandising Social é. pela sua existência na trama. se o MS nem sempre repercute. A abordagem de questões sociais em uma telenovela é um elemento constante nos enredos teleficcionais brasileiros desde os anos setenta do século passado. clara e direta. quase sempre. No entanto. ao mesmo tempo em que procura construir uma imagem da emissora de empresa cidadã. O MS é. . típica da práxis incorporada pelos profissionais do campo. (www. No entanto. não deve ser confundida com o merchandising social. 5 . que.Julho/Dezembro . chegando. Entrementes. estruturada e com propósitos educativos bem definidos de questões sociais na produção teleficcional brasileira. 2000). em momentos diferentes da narrativa incorporou a essa temática a lógica de argumentação do que se convencionou chamar de Merchandising Social. assim. não pode ser confundida com a apresentação do contexto social contemporâneo. distante dos apelos emocionais que a temática destila em outros momentos da estória. Esse discurso. as personagens. O árduo e extenso trabalho de campo realizado por Ana Giovana Lima Leandro forneceu o material que permitiu fazer as análises que se seguem. ressaltamos que tal estratégia de comunicação. muitas vezes. e muito próximo de uma retórica baseada nos princípios da racionalidade moderna. de cunho essencialmente educativo.org. construindo uma inserção que aparece.Quando a televisão produz suas próprias políticas de comunicação: uma análise do Merchandising Social nas Telenovelas Brasileiras 183 sofrimentos em vários níveis diferentes ocasionados pela aquisição da doença por uma personagem da trama foi o mote da narrativa. Amparadas por esse discurso. quase sempre. sistemática. se choca com a linguagem folhetinesca. só aparece na teledramaturgia brasileira de forma clara a partir dos anos noventa do século passado.fenabb. a se criar um verdadeiro monólogo entre a personagem-pedagoga e o telespectador-aluno. em termos de reflexão O público e o privado . o sentido de verossimilhança das tramas. sempre carregadas de forte teor emocional. numa óbvia tentativa de elevar a audiência das telenovelas que havia sofrido uma substancial perda de pontos no ibope (cerca de 20%) nesta década (Borelli e Priolli.Nº 14 . a inserção intencional. o discurso jornalístico pelo seu apelo a uma linguagem objetiva. descolada da trama. são “suspensas” dos conflitos emocionais da narrativa para repassarem informações que os autores julgam pertinentes para esclarecer a questão posta em debate. em parte.

no uso de MS nem sempre expressas pelos índices de audiência. hoje.Laços de Família. Camila era uma jovem de 21 anos. Na trama. em segunda instância. renunciando a um homem que também se torna objeto de amor de Camila. Em primeira instância. plaquetas e glóbulos brancos. mas verificáveis principalmente pelas mudanças de atitude reveladas em depoimentos como os de famílias que se reconciliam com os filhos (homossexualidade masculina. os MS são projetados por departamentos específicos da emissora. O tratamento para esta disfunção é muito doloroso. baseado na quimioterapia. Em geral. provoca desmaios. O transplante da medula óssea é a alternativa para a sua cura Na novela em questão. que ao voltar. se sacrifica mais uma vez.Manoel Carlos). é um excelente ponto de partida. Estas células não apresentam as funções normais dos glóbulos brancos. criam seus próprios merchandisings sociais. Além disso. 6 . exibido no dia 11 de dezembro . em geral. seguido da queda de cabelo e da resolução melodramática da personagem de raspar.Silvio de Abreu) e no aumento da procura por tratamento ou serviços de apoio (alcoolismo. ao sofrer um aborto espontâneo. se sacrifica pela filha. recém-casada. descobre. para com a doação do futuro irmão. que tem como objetivo central inserir tal proposta nas telenovelas da emissora. Helena. os profissionais especializados na área de marketing social trabalham em harmonia com estes autores que já levantaram em suas próprias sinopses a oportunidade de abordar esta ou aquela temática na trama. no capítulo em que Camila teve sua cabeça raspada devido à doença. do qual estava separada há anos. existe um bloqueio na fabricação das células normais. universitária. Nesse caso.existiram dois casos de leucemia: o da personagem principal da trama –Camila– que conseguiu se recuperar graças à uma doação de medula de um irmão que viera ao mundo justamente com o propósito de lhe salvar a vida e o de Marcela– personagem secundária da trama que não sobreviveu à doença. Helena. engravidando do pai de Camila.A leucemia mielóide é um dos quatro tipos conhecidos de leucemia e se caracteriza pelo crescimento descontrolado e exagerado das células indiferenciadas chamadas de blastos. apesar de ser mais intensificada no horário das 20h. criando uma deficiência de glóbulos vermelhos.184 Roberta Manuela Barros de Andrade Erotilde Honório Silva acadêmica. salvar por meio de um transplante de medula. em vários níveis diferentes. fraqueza e queda de cabelo. de uma mãe por uma filha. pesquisas apontam determinadas repercussões sociais. já grávida da lua de mel. em sintonia com as Organizações Não Governamentais. de acordo com o perfil das personagens que aparecem na sinopse da novela. ser portadora de leucemia mielóide aguda6. a mãe de Camila. A ideia central de Laços de Família é o sacrifício.Por amor (1997). O MS perpassa. a cabeça. uma vez que nos permite avaliar como essa política de comunicação da emissora tem repercutido no social. No entanto. todos os horários de veiculação das novelas globais. Segundo Lima e Camacho (2001). Como afirma Motter (2003). por fim. existem autores como Manoel Carlos e Glória Perez que. A novela revela em minúcias o início do tratamento de quimioterapia.A próxima vitima (1995). a vida da filha.

afirmou J. esclarecendo e instruindo as pessoas. Para elas. seu papel positivo na sociedade ocorre porque. pela primeira vez. traz uma reflexão sobre o tema abordado. uma empresa não européia foi a ganhadora do prêmio. o que os educadores mais lamentam é o fato de que. e faz parte da cultura do brasileiro assistir a novelas. 79% dos televisores estavam sintonizados na novela. tivemos a pretensão de analisar o entendimento de como se forma a crença na intervenção das telenovelas nos parâmetros de acesso ao tratamento da doença e na diminuição do preconceito relativo à leucemia na sociedade como um todo. A repercussão do MS desta novela foi tamanha que em 2001. Elas acreditavam que o MS é “algo inserido dentro da novela que tenta mover a sociedade para o lado social”. Das restantes. Na era digital. efeitos sociais e educação cidadã Todas as entrevistadas perceberam o MS como uma propaganda inserida no interior das novelas que retratava uma questão social.S. a informação não é acessada pela grande maioria da população brasileira. exceto com uma das entrevistadas que residia em Fortaleza.Nº 14 . composta de 33 perguntas. foi aplicada entrevistas estruturadas. chegando a atingir um pico de audiência de 61 pontos. um dos prêmios de responsabilidade social mais conceituados internacionalmente. desenvolvimento e cura da doença. Merchandising Social. O público e o privado . Para tal.Quando a televisão produz suas próprias políticas de comunicação: uma análise do Merchandising Social nas Telenovelas Brasileiras 185 de 2000. na qual as informações proliferam em todos os lugares. No grupo social selecionado para esta pesquisa. usadas para uma campanha real de doação de órgãos. segundo elas. Nesse sentido.Julho/Dezembro . posteriormente. por e-mail. quatro residem em São Paulo e uma no Rio Grande do Sul. O destaque do evento é que. “daí muita gente pega essas informações”. não temos dúvida de que a informação tem um papel fundamental na produção do conhecimento. A grande quantidade de perguntas dizia respeito ao fato de necessitarmos de uma série de informações sobre a descoberta. As entrevistas foram realizadas via internet. o MS é muito importante. e ambos são cruciais tanto para o desenvolvimento econômico quanto para os processos de democratização no âmbito da cultura e da política. jovens ex-portadoras de leucemia pertencentes à classe média brasileira. inclusive. a Rede Globo de Televisão é agraciada com o BitC Awards for Excellence. Hoje.2009 . a informação é essencial tanto para a formação do discurso político como na própria ação política. mesmo disponível. As imagens da personagem raspando a cabeça foram.

Aqui. e em diversos níveis. que dependem de uma campanha contínua e mais bem elaborada da mídia. e principalmente as telenovelas. pois. Elas acreditavam que o efeito é insuficiente a não ser que se tenha uma campanha mais contínua. a cultura não parece ter nada a ver com os processos educativos. No entanto. o que é um absurdo”.R contou que conheceu um “menino pela internet que quando soube que ela foi portadora de leucemia não quis conhecê-la por medo de pegar a doença”.mas. orkuts e twiters são espaços virtuais que promovem a interação social. o diferencial do MS em relação a outras estratégias de comunicação é que informações sobre as mais diferentes temáticas. como se a mídia fosse uma instituição social autônoma e soberana em relação à sociedade maior. são absorvidas em paralelo aos desdobramentos da trama. não necessariamente a troca de informações ou de conhecimentos. Trata-se de formular soluções mágicas para os problemas da educação. “O MS tem pouca durabilidade. e não questionam o papel da família. nas palavras de Barbero (2000). cabe aos meios de comunicação de massa educar ao povo brasileiro. afirmou M.R.Blogs. cada um tem suas atividades e não vai parar para ajudar”. Entrementes. em um ambiente educacional difuso e descentrado no qual o MS se destaca como uma estratégia de comunicação que se faz valer à revelia da escola e do livro. Vivemos. as pessoas lembram-se do assunto na hora. . J. apenas 33% das entrevistadas acreditam que o MS ajuda em relação ao aumento da doação de órgãos e medula. Todas acreditavam que o MS tem um papel positivo na sociedade. Todas citaram o fato de que é necessário conscientizar as pessoas em relação às doações voluntárias. Os depoimentos acima nos fazem refletir sobre o fato de que as audiências percebem os meios de comunicação. “A novela desmistificou muita coisa sobre a doença. M. mais bem elaborada a fim de que a temática fique “marcada” na vida das pessoas. que deve acontecer à revelia do livro. em especial no que se refere ao preconceito”. da escola ou da igreja nesse processo. Desta forma. Se a procura de informações não é a motivação central dos fãs das telenovelas. Para elas. da escola e da família. instituições sociais tradicionalmente detentores dos saberes. como se nunca tivesse existido. mas dificilmente alguém ajuda.186 Roberta Manuela Barros de Andrade Erotilde Honório Silva O uso da internet para fins de socialização7 em detrimento de busca de informações é confirmado nas pesquisas dos estudiosos da área. 7 . as informações oriundas do MS são seu resíduo necessário. assim. como agentes solitários de mudança do social. todas as entrevistadas consideraram que o interesse das pessoas sobre a doença e seu possível engajamento “só dura o tempo da novela”.S ressaltou que “quando a novela comenta um problema como esse é como se tivesse acabado de surgir.

Todas as entrevistadas iniciaram seu tratamento em hospitais públicos.H. Das depoentes. em vários níveis. Nenhuma das entrevistadas modificou sua percepção sobre a doença depois da novela. afirmou J. afirmaram ter descoberto. as coisas eram mostradas da forma mais fácil”. parecia ser bem maior do que o físico. A diminuição do preconceito não implica em uma reviravolta imediata no comportamento social dos indivíduos. já separada.Nº 14 . Aquelas que tiveram leucemia durante a novela afirmaram que as pessoas ficaram mais curiosas para saber se era assim que acontecia. Das entrevistadas. cujos frutos ainda são bastante nebulosos.S.diz C. uma política de comunicação conjuntural e imediatista. As jovens portadoras de leucemia. tudo era perfeito. enquanto que 33% afirmaram que “foi um absurdo a forma como colocaram a leucemia na novela”. 33% das entrevistadas não viam uma sintonia entre a realidade e a ficção porque afirmavam que a novela só mostrava o viés de quem possuía acesso aos hospitais e tratamentos adequados. observa-se que o processo de informação e. depois da emissão da novela. voltar ao antigo relacionamento e engravidar para salvar a filha “é coisa de novela mesmo”. Neste caso. 67% afirmaram que o sofrimento mostrado na novela é real. em hospital particular. ou esclarecimento sobre uma determinada temática não resulta necessariamente em uma ação social consequente. o sofrimento social inerente a tal situação de precariedade pública. Então a novela foi uma fonte de informação.2009 . “Eu não passei O público e o privado . a novela revelava apenas o tratamento que era dado a quem tinha dinheiro para realizá-lo. como eu ainda não tinha a doença.Julho/Dezembro .Quando a televisão produz suas próprias políticas de comunicação: uma análise do Merchandising Social nas Telenovelas Brasileiras 187 Nessa perspectiva. para elas. sabia muito pouco sobre ela. assim. uma vez que “para Camila. se elas sofriam tudo aquilo que a Camila passava. Assim. todos podiam largar o trabalho para ficar com ela o tempo todo no hospital”. a carência dos desassistidos. apenas uma deu continuidade a ele. A totalidade das entrevistadas afirma que o autor havia retratado o sofrimento de Camila em condições privilegiadas. 67% afirmaram que o seu dia-a-dia como portadoras não era igual ao de Camila porque ela “era muito mimada e sendo ela de classe social alta. Todas acreditaram ainda que o atendimento dado à Camila (de primeira qualidade) não se repetia para o povo brasileiro que sofre com a precariedade dos hospitais e que o fato da mãe. É inegável que o MS proporciona uma discussão pública sobre o assunto. mas que nem sempre acontece de forma pertinente. que algumas de suas informações eram equivocadas. mas equivocou-se algumas vezes”. o que era uma representação distinta da realidade das classes populares no Brasil que “dão atenção (os familiares e amigos) mas não 24 horas porque afinal todos têm suas vidas para cuidar”. “Naquela época. O MS demonstra ser. Entretanto.

ficando desesperadas. é esta mesma intensa carga emotiva que proporciona o engajamento emocional das audiências e. conscientizando os telespectadores sobre o drama vivido na ficção. pois. O fato do MS está embutido em uma narrativa de teor melodramático acaba por desfigurar o discurso pedagógico incrustado no MS. segundo elas. Das depoentes. A telenovela mostra não só aspectos de uma realidade pertinente a uma classe social privilegiada. recordavam do sofrimento da personagem e se perguntavam quem seria o doador delas e se ficariam carecas. 83% das entrevistadas disseram que a novela diminuiu o preconceito porque sensibilizou. vemos como as experiências imediatas dos indivíduos moldam suas visões de mundo. fazendo com que muitas informações acabem desaparecendo da temática ou mesmo se afastem da realidade devido ao teor de exagero que a telenovela necessita ter para fidelizar sua audiência. . Os depoimentos acima nos fazem refletir sobre a relação entre MS e a estrutura folhetinesca. Aqui. uns mais agressivos. enquanto 33% defenderam a ideia de que o acento nos recursos audiovisuais e melodramáticos se fazia necessário para “chamar a atenção das pessoas” sobre a doença. os closes) criavam uma atmosfera mais pesada em relação à doença o que levaram-nas a concluir que “a novela deveria ter dramatizado menos e explicado mais”. magras e feias. no entanto. nem tanto. 67% pensavam que os recursos televisivos (o som.F. afirmou C. O problema. Nenhuma das entrevistadas acreditou que a novela tenha chocado. Como a novela retratou o caso de uma leucemia aguda incutiu na sociedade a ideia de que todas as pessoas que tem leucemia estão predestinadas à morte. garantindo a eficácia do MS como política de comunicação. por conseguinte. é que existem vários tipos de leucemia. também recorta do real apenas os aspectos da doença que podem contribuir para a exacerbação da estrutura dramática. As jovens entrevistas gostariam de ter nos MS “mais informação e menos dramatização”. ou que sofrem muito.188 Roberta Manuela Barros de Andrade Erotilde Honório Silva pela metade do sofrimento de Camila”. No entanto. sua fidelidade ao gênero em questão. Assim. outros. típica do gênero. quanto à contribuição da novela ao aumento ou à diminuição do preconceito relativo à doença. 83% afirmaram que quando se descobriram portadoras automaticamente lembravam da novela. ainda que algumas cenas tenham sido marcantes como a da personagem Camila cortando os cabelos. o que não é regra geral. o que não aconteceu com elas. Nenhuma delas precisou de doador e apenas uma teve que raspar a cabeça. no entanto. mas. apenas 33% lembraram de que outra personagem portadora de leucemia na novela havia morrido devido à doença. paradoxalmente.

Essa visão das audiências sobre o impacto do MS sobre a sociedade brasileira. “mais dentro de nossa realidade”. no entanto. mas. “aumentar a audiência”. ainda que se destaque o seu papel de educador social.Julho/Dezembro . ao mesmo tempo. podemos verificar que o MS é compreendido pelas entrevistadas como uma ferramenta de esclarecimento e discussão social importante para a sociedade brasileira. 87 % das entrevistadas consideraram o MS realizado em Laços de Família positivo e importante e na medida do possível bem explorado. mas há também um “lado cultural da emissora. ter abordado “coisas mais reais”. mas. mas que poder-se-ia ter diminuído o glamour e a ilusão que a “novela passa sobre a doença”. não dá conta da necessidade das pessoas ajudarem efetivamente com doações. 17% acreditaram que o tema com abordagem mais real deveria ser objeto jornalístico porque “se for para ser tratado em uma novela deve ser com uma perspectiva mais positiva. enquanto a outra metade pensou que o MS ajudou o tema a se tornar conhecido.Quando a televisão produz suas próprias políticas de comunicação: uma análise do Merchandising Social nas Telenovelas Brasileiras 189 Quanto ao incentivo à participação dos telespectadores na doação de órgãos. em especial. diz J. Ao final.Nº 14 . Em relação ao MS. cria mitos que não deveriam existir”. “fingir ter participação social”. em especial no que diz respeito à diminuição do preconceito em relação a algumas temáticas sociais. mais leve e com menos enfoque”. metade das entrevistadas acreditou que sim. coloca em xeque a linha de pesquisa em comunicação (corrente nos anos 70 e início dos anos 80 do século XX) denominada de “Educação para os Meios”. A sua repercussão social é inegável como demonstra os dados fornecidos por esse trabalho. No entanto. o autor deveria. Enquanto isso. e por último “esclarecer sobre o assunto”. Nessa perspectiva. a grande maioria concebe o MS como um instrumento mercadológico usado pela Globo a fim de atrair audiências. no que diz respeito a seu papel como educador social. Durante a pesquisa de campo. O público e o privado . que o MS esclarece e incentiva à participação. assim.2009 .S. todas acreditavam que “ele serve para esclarecer a população. a pesquisa de campo realizada com uma audiência seleta de Laços de Família revelou alguns aspectos interessantes da questão que devem ser ressaltados. acreditam que a Rede Globo faz MS para atrair a audiência (porque a população se envolve com o sofrimento das personagens). Todas acreditam que a Rede Globo faz MS em suas telenovelas para “criar uma imagem de boazinha”. o MS parece ser uma estratégia de comunicação inserida na ficção seriada que tem se mostrado eficaz tanto no aumento da audiência bem como na produção de uma imagem positiva da Rede Globo de Televisão como uma empresa de responsabilidade social. No mais. uma vontade de ajudar mostrando mesmo os problemas de nosso país”.

. as audiências a terem uma leitura crítica destes. tentava-se construir uma pedagogia para os meios. que vinculada aos idearios da Teoria Crítica8. 1996). tendo uma boa concepção de suas contradições internas. as entrevistadas. pelo menos. como qualquer outro tipo de estratégia de comunicação. Destacamos.190 Roberta Manuela Barros de Andrade Erotilde Honório Silva de caráter denuncista. O grupo estudado ressalta o fato de que o MS de Laços de Família. Todas as entrevistadas revelaram a compreensão de um MS cujo efeito social é temporário. de forma geral. há uma distinção clara entre “estar esclarecido” e “participar socialmente”. concebia os meios de comunicação. Está claro para essas audiências que o “efeito Camila” só “dura o tempo da novela”. demonstra o poder do MS em estabelecer um diálogo com a sociedade. os resultados dessa pesquisa com as audiências (assim como muitas outras ao longo dos anos noventa) demonstram que as audiências tem uma visão muito própria dos meios de comunicação. desconsiderando as condições materiais de existência das classes sociais menos favorecidas. de um processo educativo mais voltado para a doutrinação do que para o fazer crítico que propunham. Tratava-se. por meio de cursos ministrados por um bom número de instituições sociais. para as audiências. apesar das boas intenções dos teóricos a ela vinculados. retratou a leucemia a partir da perspectiva de uma classe social privilegiada. Os dados fornecidos por instituições na área de saúde comprovam um grande declínio do interesse mostrado pela população pela doença após o término da novela. Ao mesmo tempo. em sua totalidade. Aqui. na parcialidade da qual o discurso jornalístico pretende há séculos se eximir. em especial. Entrementes. ao mesmo tempo em que propunham a criação de meios de informação alternativos aos da ordem dominante. apesar de associar as repercussões da doença a um universo de classe média alta. Para as entrevistadas. Todas as jovens entrevistadas acreditam muito mais na eficácia do MS como ferramenta de informação/esclarecimento do que como estímulo à participação social como o engajamento das audiências em torno das causas discutidas. acreditam que as informações passadas sobre a doença em si são pertinentes. 8 . Referiram ainda que o MS recaiu em alguns equívocos. preenchendo as audiências com informações que dificilmente teriam acesso ou interesse em acessar se não se tratasse de um discurso engajado no interior de uma trama global. Entrementes. aqui. apesar de pretender mostrar um discurso “universal” sobre dado tema. O MS. quando associou a leucemia (que se revela em quatro níveis diferentes) a apenas uma de suas manifestações. indícios de repercussão crítica do MS em uma audiência seleta. No entanto. Termo que se refere à produção intelectual global da Escola de Frankfurt. recai. como reprodutores ideológicos do status quo (Lopes. que ajudasse.

Nesse sentido. Referências BARROS FILHO. O público e o privado . 2001. the pretension to analyze the SM presented in the soap opera "Laços de Família" (2000-2001). De Fleur e BallRokeach. ABSTRACT CT: 9 . A agenda midiática pressupõe uma pauta recíproca entre as empresas de comunicação ( Wolf. se estas conversas podem vir a ser o alicerce de processos educativos e participatórios maiores. cujo principal mérito é a capacidade de gerar conversas cotidianas. Social merchandising. the Brazilian television promotes politics that guide its programming in order to put it into the category of company citizen. São Paulo: Summus. É inegável que o MS ocasiona uma agenda midiática9.Julho/Dezembro . podem nos ajudar a esclarecer melhor a questão. servindo de pauta para a elaboração de matérias jornalísticas tanto impressas como audiovisuais. But.Quando a televisão produz suas próprias políticas de comunicação: uma análise do Merchandising Social nas Telenovelas Brasileiras 191 não se pode negar que o primeiro passo para a participação social passa pela prática informacional. its proper politics of communication. Pedro Lozano. to the default of the public agencies. BORTOLOZZI. durante certo período de tempo. Such approach if bases on the fact of that the communication politics only can responsibly be evaluated from concrete objects by means of which these politics acquire social visibility. ampliadas para segmentos sociais diversos. O MS. A telenovela. PRIOLLI. television. 1993). S. that in thesis. a pautar o menu cotidiano de assuntos da mídia. A Deusa ferida. uma agenda social. então. Artigo Recebido: O5/10/2009 Aprovado: 15/12/2009 attemped to trace a regulatory landmark series. while the public power search to supply lines of direction to the communication system. therefore. G (ccords). One of the most important handspikes of the senders to reach such goal has been the introduction in its soap operas the Social Merchandizing (SM). com o poder de agendamento que possui. K ey W ords: Words: communication politics. it looks to sharpen the media system to the rights and the demands of the civil society. cria-se. from the perspective of its hearing. Nenhum jornal ou programa de entrevista traz uma discussão tão interessada por parte das audiências de assuntos que em outras esferas midiáticas seriam objeto de curiosidade de poucos. temporariamente. Clóvis. Ética na comunicação: da informação ao receptor. throughout the time. a inserção do MS nos enredos das telenovelas brasileiras tem pautado as telenovelas brasileiras fora de seus próprios termos.H. São Paulo: Editora Moderna. traz à esfera pública temas que só circulavam na sociedade ou em espaços acadêmicos ou em campos especializados. This work has. A partir daí. 1985. ABSTRA CT : The public politics of communication have. Mas. Barros Filhos e Bortolozzi. 2001 BORELLI. via MS. produced for the Net Globe of Television. A agenda midiática pode ser definida como o elenco temático selecionado. durante a veiculação da novela. In way to the debate opened in the civil society on education. the media goes constructing. somente pesquisas mais apuradas. uma agenda midiática que produzirá. 2000. As discussões sobre as temáticas sociais abordadas de forma pedagógica nas telenovelas saem do âmbito das revistas de fofoca e penetram na imprensa “séria”. participation and social inclusion. pelos meios de difusão como importante para a discussão social. passa.2009 .S.Nº 14 .

17.intercom.pdf. Merchandising Social: as telenovelas e a construção da cidadania apresentado em 2002 no XXV Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação disponível em http://www. Telenovela e Educação: um processo interativo. Jesus. Rio de Janeiro: Zahar. Mauro.br/papers/xxv. Comunicação e Educação. Marcio Luiz. Teoria da comunicação de massa. IN: Comunicação & Educação.54-60. (6).mai/ago. S. WOLF. Desafios culturais da Comunicação à cultura IN: Comunicação & Educação. jan/abr. n. Pesquisa de recepção e educação para os meios.ci/ np14/NP14SHIAVO. 1996. Teorias da comunicação. . São Paulo.2000. p. Maria Immacolata Vassalo. João Batista. São Paulo. SCHIAVO. Porto: Editorial Presença. Manaus: Valer. MARTIN-BABERO. 1985. e BALL-ROKEACH. maio/agos.192 Roberta Manuela Barros de Andrade Erotilde Honório Silva DE FLEUR. LOPES. MOTTER. (18). 2000. 2000.org. 1993 HERKENHOFF. A cidadania. Maria Lourdes. Melvin L.

Estado. muitas vezes a cultura se encontra inacessível até mesmo aos pesquisadores da temática. O livro dividido em nove capítulos perfaz um total de 130 páginas. Entendo assim que após a leitura do livro o que nos fica é a lucidez. 2008 O livro Textos nômades: política. foi a junção dos mesmos que acabou criando o que esta tão bem apontado no prefácio de Durval Muniz a de Albuquerque Júnior intitulado de "As Energias da Embriaguez". Trata-se de texto límpido e envolvente que. Minorias e Mídia: Ou Algumas Questões que as Minorias Propõem ao Liberalismo. E-mail: liafera@usp. demonstram que o pensamento do autor caminhou sim. cultura e mídia. cultura e mídia. Políticas de Cultura.br 193 Resenha Luzia Aparecida Ferreira-Lia* BARBALHO.2009 Artigo Recebido: 04/11/2009 Aprovado: 01/12/2009 . São textos policulturamidiaticamente pensados. Estado Autoritário Brasileiro e Cultura Nacional. nos faz pensar: que seria isto exatamente o que eu gostaria de falar. Cidadania. temos a certeza de que nos apossamos das chaves que o autor transfere para abrirmos as enormes portas que dão acesso aos meandros da cultura.(*) Luzia Aparecida Ferreira-Lia é Doutora em Ciências da Comunicação pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo. Política e Economia da Cultura. Do primeiro ao O público e o privado . Políticas de identidade. melhor dizendo. escondida em pequenos cômodos. Especialista em Política e Gestão Cultural. Textos Nômades: política. Alexandre.Nº 14 . a cada momento de sua leitura. O Jogo das Diferenças e Idéias sobre uma Política Cultural para o Século XXI. Do Real ao Surreal. Isto porque. Embora já tenham sido publicados separadamente. e das veredas deste seu nomadismo temos como frutos novas idéias com as quais não só nos alimentamos mas que também temos a possibilidade de embasar saberes que sustentarão outros pensares para a política. Mídia e Identidade. Fortaleza: Banco do Nordeste do Brasil. Textos cuidadosamente escolhidos: Por um Conceito de Política Cultura.Julho/Dezembro . cultura e mídias é o resultado das reflexões efetuadas por Barbalho entre os anos de 2000 e 2006.

Isto permite percebe que Barbalho possui o domínio da questão cultural devido a facilidade com a qual transita entre os vários teóricos. O autor parte das primeiras tentativas de esboçar conceitos de política cultural no pós-guerra. cultura e mídia é apresentado de forma decodificada pelo estudioso Barbalho. propositadamente. insere o leitor no cenário da política e cultura brasileira. sobre a identidade. Isto torna possível o entendimento das contradições deste período conturbado no qual Getúlio Vargas é presidente. R?diger. confundindo muitas vezes o público. ora pela política. cultura e mídia da Coleção Banco do Nordeste do Brasil é um livro que deve estar presente em todas as bibliotecas das escolas brasileiras. que cumpre assim a função da prática universitária de tornar os saberes acessíveis a um maior número de pessoas. por exemplo. Debord. ao tratar da temática cultural e de suas implicações de modo coerente e aprofundado. Neste capítulo. No capítulo nono. mais especificamente de Bolaños. A política e economia da cultura é tratada no capítulo mais denso do livro no qual o autor elabora um diálogo a partir de suas leituras de Jameson. Isto se deve ao cuidado do autor em escrever. ora pela indústria cultural. ao deixar algumas idéias para ser pensada sobre qual a política cultural seria a ideal para o século XXI. É também nele que generosamente o autor permite ao leitor apossar-se da temática cultural. O tema recorrente política. ele abre um espaço para nossa própria reflexão sobre a temática. contudo. Morin. onde existem desconstruções-construções ladeadas. deixar o seu pensar mais ampliado em questões. de maneira . tema abordado com extrema clareza pelos diálogos que no suscitam. No restante do livro o autor.194 oitavo o autor efetuou subdivisões nos textos. Baudrillard. da Escola Francesa. ao beber na fonte de seus conhecimentos. Adorno e Horkeheimer. Assim. demonstrando que a temática é um debate contemporâneo. principalmente no que diz respeito a questões fundamentais para que se tenha o entendimento requerido pelos estudiosos da área. de Zallo e de Alan Hercovici. isto além de facilitar a leitura tornou suas reflexões didáticas. após um preâmbulo onde trata especificamente do Partido Comunista Brasileiro. o privado e a cultura. somadas a dos teóricos da Escola de Frankfurt. por se útil aos estudantes desde o primeiro ano do segundo grau até últimos anos dos cursos de pós-graduação das universidades. Roncagliolo. Textos Nômades: política. Prosseguindo em suas reflexões vai tecendo um discurso bastante lógico e de fácil entendimento sem.

Antologia comentada da literatura cearense (com Oswald Barroso . 2000). concluídos em 1997. Seu doutorado em Comunicação e Cultura Contemporâneas foi realizado na Universidade Federal da Bahia e concluído em 2004. A modernização da cultura (UFC. 2007). em 1993. 2003). acaba entregando ao leitor um texto palatável. 2005).Fund.195 simples. Cultura e política (A Casa.Julho/Dezembro .Nº 14 . contracultura e cultura brasileira.UFBA. assuntos tão complexos e.2009 . Demócrito Rocha. minorias. 1998). Comunicação e cultura das minorias (com Raquel Paiva . também é professor adjunto do curso de História e dos Programas de Pós-Graduações em Políticas Públicas e Sociedade na Universidade Federal do Ceará. Lívio Xavier. estado. Atualmente. 2008) e coorganizador de: Letras ao sol. trabalhando com os seguintes temas: política cultural.Paulus. Alexandre de Almeida Barbalho é formado pela Universidade Estadual do Ceará onde cursou licenciatura em História no início da década de 1990. fez bacharelado em Ciências Sociais e seu mestrado em Sociologia. cultura e mídia (Fund. mídia. Cultura e imprensa alternativa (UECE. Demócrito Rocha. com ênfase em Políticas de Comunicação e Cultura. desta forma. promovendo seu desenvolvimentos intelectual. onde também realiza doutorado em Sociologia. É organizador de Brasil. nesta mesma Universidade. O público e o privado . 2005) e Políticas Culturais no Brasil (com Albino Rubim . cultura. editado pela Universidade de Ijuí em 1998. que se constitui em um instrumento facilitador ao permitir acesso a informações primordiais para amplas camadas sociais. Posteriormente. É autor de vários livros: Relações entre Estado e cultura no Brasil. Suas experiências são nas áreas de Comunicação e Estudos Culturais. além de ser ocupar a função de professor em Comunicação. brasis: Identidades.

O resumo deve ser seguido por uma lista de 2 a 5 palavras-chave. Artigos em inglês devem conter títulos. Em Temas livres são reservados assuntos diversos. 3. São aceitos textos em português. assim como exatidão. Os Artigos devem ser inéditos. ficando proibida a reprodução total ou parcial. identificando autores (nome completo. resumos e palavras-chave na língua original e em português. fonte das citações e revisão ortográfica. inglês e francês. margens de 2. 5. espanhol. Enviar à Revista os originais em arquivo eletrônico para o endereço revista@ politicasuece. formatados em processadores de texto compatíveis com o sistema Windows ou Macintosh . se for o caso. Textos em português. não excedendo o tamanho de 1. em sintonia com a linha editorial do Periódico. resultados e conclusões do trabalho. Tais seções devem apresentar títulos e eventualmente subtítulos. incluindo notas e referências. Os artigos publicados na Revista devem ser encaminhados com autorização dos respectivos autores. Questões éticas relativas a pesquisas com seres humanos. 2.196 O Público e o privado SUBMISSÃO DE AR TIGOS ARTIGOS Instruções nstruções Gerais 1. bem como o conteúdo e relevância das contribuições.200 caracteres (sem espaço). espanhol e francês devem apresentar títulos. após aprovação. endereço para correspondência e endereço eletrônico. resumos e palavras-chave na língua original e em inglês. O Editorial é de responsabilidade do editor e/ou organizador(es). temas livres e resenhas. corpo 12. A Revista está estruturada em 4 seções: editorial. 5. O Resumo deve ser auto-contido. Discussão e Conclusões. titulação). devem ser acompanhadas da informação de autorização do Comitê de Ética. artigos. O título do artigo deve dar uma idéia precisa do conteúdo do trabalho e ser o mais curto possível. Conceitos e opiniões expressos nos diversos artigos. a serem de propriedade da Revista. O texto pode ser estruturado (não obrigatoriamente) observando-se as seguintes partes: Introdução. em qualquer meio de divulgação. 2. 3. passando. importantes para a . Metodologia. Resultados.000 caracteres (sem espaço). devendo sumariar objetivos. instituições a que pertencem. resultado de pesquisas empíricas e/ou de estudos conceituais acerca de assunto da edição temática.com politicasuece. A aprovação dos textos será efetuada mediante o exame do Conselho Editorial e de pareceristas ad hoc levando-se em conta a adequação à linha editorial da Revista. 4. digitados em espaço duplo. Resenhas são textos concisos comentando publicações recentes de interesse de O Público e o privado. na fonte Times New Roman. conforme a Resolução 196/96 do Conselho Nacional de Saúde (MS) e de acordo com as diretrizes da Declaração de Helsinque da Associação Médica Mundial. relacionado ao campo das políticas públicas. orientação teórica. em processador Word ou em outro compatível. Formato do artigo 1. 4.5 cm. O artigo deve apresentar no máximo 40. 6. sem a autorização prévia deste Periódico.com. são de exclusiva responsabilidade do(s) autor(es). métodos de pesquisa.

). 3. mapas e fotografias devem se integrar ao arquivo do texto. 4. Texinfo ed.eu. Salvador: EDUFBA. (Tese de Doutorado).197 indexação do artigo. Outros Elementos do T e xto Te 1. 7. 1. São Paulo: Boitempo. As Resenhas devem contemplar informes breves sobre livros publicados nos últimos 2 anos. devem ser em ordem alfabética. M. São Paulo: Ed. Artigo em periódico: DUARTE. Germany: WindSpiel. Riqueza e miséria do trabalho no Brasil. 9. 5. (org. mapas e fotografias devem obedecer às normas da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT). n. Alice´s Adventures in Wonderland [online]. Desempregados do Brasil. 1. Arthur J. D. Deve ser inserida uma linha em branco entre o quadro. ISBN 0681006447. A.3.500 caracteres (sem espaço). Cultura. Devem ser evitadas linhas órfãs (linha única em um parágrafo ou no início ou fim de página). 2. conforme os exemplos abaixo listados: 1. Ano 4. gráfico. 1. Horizontes Antropológicos. tabelas. Referências Bibliográficas 1. . com o mesmo limite de tamanho. In: ANTUNES.Coletânia: CAROSO. 2006. local (cidade) da publicação. tecnologias em saúde e medicina : perspectiva antropológica. Artigo em coletânea: POCHMANN. Available from : http:// www. por autor. Dortmund. tabelas. fonte ou autoria. 1. gráficos. numerada e deve conter. Quadros. Deverão conter nome do(s) autor(es). 6. 2008. Nov. 1984. Belo Horizonte: Faculdade de Direito da UFMG. Livro: FURTADO. outubro de 1998.1. 1994. o tipo itálico.5 Artigo em formato eletrônico: CARROLL. Fontes matemáticas ou outras fontes diferentes das utilizadas nos estilos descritos acima deverão ser integradas ao texto e cópias dos arquivos dessas fontes deverão ser fornecidas juntamente com o arquivo do texto original.html.net/books/carroll/ alice. Ricardo. listadas em folha separada ao final do texto. Tese acadêmica: DINIZ. acompanhado de key words. Celso. preferencialmente. Para ênfase no corpo do texto deve ser utilizado. editora e data. gráficos. A legenda deve ser centralizada. tabela. Aqueles elementos gráficos não incorporados ao texto em formato eletrônico não poderão ser processados e o artigo será devolvido a (os) seu(s) autor(es). [cited 10 February 1995].2. Lewis. Carlos (org.4. As legendas de quadros. título. 1. A formação econômica do Brasil. Direito internacional público e o estado moderno. Pessoa e dor no Ocidente. Nacional.). mapa e fotografia e o texto procedente. As referências.germany. 1975. devendo estar em formato eletrônico. em no máximo 2. 2. Luiz F.1. se necessário. referência imediata. O abstract deve ser uma versão em inglês do resumo em português.Recomenda-se o sistema autor-ano para citações bibliográficas. Não deve ser deixada uma tabela ou figura sozinha numa página onde ainda há espaço remanescente de pelo menos cinco linhas de texto.6. devidamente legendados.

You're Reading a Free Preview

Descarregar
scribd
/*********** DO NOT ALTER ANYTHING BELOW THIS LINE ! ************/ var s_code=s.t();if(s_code)document.write(s_code)//-->