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A Educação na Idade Média

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A Educação na Idade Média: a Retórica Nova (1301) de Ramon Llull

Ricardo da COSTA In: LAUAND, Luiz Jean (coord.). Revista NOTANDUM, n. 16, Ano XI, 2008, p. 29-38. Editora Mandruvá - Univ. do Porto (ISSN 1516-5477). Palestra de encerramento da VI Jornada de Estudos Antigos e Medievais, evento organizado pelo Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Estadual de Maringá entre os dias 03 e 05 de outubro de 2007. Conferência proferida no I Encontro Internacional e II Nacional de História Antiga e Medieval do Maranhão – Rupturas, Transformações e Permanências: Sociedade e Imaginário, evento ocorrido entre os dias 13 e 16 de novembro de 2007.

Eloquii si quis perfecte noverit artem, Quodlibet apponas dogma, peritus erit. Transit ab his tandem studiis operosa juventus Pergit et in varias philosophando vias, Quae tamen ad finem tendunt concorditer unum, Unum namque caput Philosophia gerit. 1
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pois a Filosofia tem uma só cabeça”. no entanto. A laboriosa juventude se envereda e parte desses estudos. a capacidade retórica do orador é expressa na imagem. chegam ao mesmo fim. estudantes universitários que . 92). Peter perg. extasiada e comovida. No meio da multidão. escuta a eloqüente pregação de um bispo sobre a vida de São Francisco – até a natureza se verga para ouvi-lo melhor (repare na inclinação de metade da árvore em direção ao pregador). humanista da Escola de Chartres. além do comprimento de seus dedos: na Idade Média. defendendo-a dos ataques dos cornificianos.Detalhe da iluminura 2 do Breviculum (Badischen Landesbibliothek Karlsruhe aus der Klosterbibliothek Sankt Peter Signatur: St. será um perito em qualquer disciplina em que for interrogado. Ramon (de vermelho). que. Além da atenta multidão que o escuta. “Se alguém conhecer a arte da eloqüência. 1115-1180). e sua beleza está diretamente associada à capacidade oratória. se referiu à Retórica em pleno século XII. Assim João de Salisbury (c. o gesto é fundamental. sobretudo através do tamanho e do movimento de suas mãos. filosofando em vários caminhos.

costumava aconselhar-lhes o ofício de padeiro. Mas como ela se inseria na Educação Medieval? A Retórica é a arte do engodo. Dizia que. A Retórica medieval. e convém sobretudo aos que procuram menos a instrução do que um ganha-pão. professor de Chartres. I. é auxiliar de todos os demais.2 Esse ataque por parte dos cornificianos à unicidade dos estudos não era novidade para os acadêmicos medievais: alguns anos antes. na verdade. mas. Dessa forma. Um dos manuais de Retórica mais estimados na Idade Média foi a Retórica a Herênio (Rethorica ad Herennium)4. nem outro trabalho. Gilberto de la Porrée (1076-1154).). quando via aquela pequena multidão correr para os estudos universitários (muitos sem a menor vocação). filha da Retórica clássica Diretamente herdeira da Retórica clássica.desejavam uma redução dos programas de estudos. Salisbury mantinha o ideal de totalidade do saber. fascinada que estava pelo desenvolvimento da Dialética. a Retórica medieval desenvolveu seu manancial a partir basicamente de três fontes: a Retórica a Herênio.. como se costuma pensar? Por que o filósofo Ramon Llull escreveu uma Retórica que intitulou de nova? E por qual motivo inseriu a caridade em seu tratado retórico? São essas as perguntas que tentaremos responder nesse pequeno trabalho. a Doutrina oratória (Institutio oratoria. de Quintiliano [35-95]) e a tradição cristã (desde São Jerônimo [340420] até Santo Agostinho [354-430]). Escrito no século I antes de Cristo em meio à crise da República romana. É muito fácil de exercer. no caso da Retórica. e.C. de autor desconhecido.”3 Portanto. e defendeu o ideal clássico do estudo desinteressado. Ele nos conta que. defendia sua importância por manter a comunidade humana unida pela graciosidade da harmonia das palavras. já no século XII o ensino da Retórica sofria críticas por parte da emergente educação laica.. em seu país. o tratado não deixava de destacar as . esse ofício era o único que aceitava todos que não tinham outro ofício. também combateu esse mesmo partido dos cornificianos. dizia a eles o seguinte: “. texto então atribuído a Cícero (106-43 a.

como se depreende nessa passagem: Convém que todo o discurso daqueles que sustentam um parecer tenha a utilidade como meta. do bem e da verdade como alicerces da verdadeira Retórica: . ser capaz de discernir sobre o plausível é ser igualmente capaz de discernir sobre a verdade (. da justiça. tão avesso à Retórica em sua República ideal. 261a) para se chegar à verdade. Em sua Retórica. a verdadeira finalidade da Retórica não era agradar aos homens.técnicas para se obter a docilidade e a benevolência dos ouvintes – como é típico dos tópicos da Retórica – mas as fundamentava no conceito de justiça e. 273e). como defendiam os sofistas. raiz em Aristóteles (384-322 a.). Assim. por isso.) A matéria honesta divide-se em reto e louvável. a verdade e a justiça serão necessariamente vencidas pelos seus contrários.. Reto é o que se faz com virtude e dever. fez Sócrates afirmar que ela. o Estagirita sustentou as bases filosóficas da virtude. discernir o bem e o mal.. De sorte que se os juízos se não fizerem como convém. por sua vez. o fato é que a tradição grega contrária aos sofistas elevou a Retórica à categoria de valor.C. desde a filosofia de Platão.os homens têm uma inclinação natural para a verdade e a maior parte das vezes alcançam-na.C. (os grifos são nossos)5 Esse sólido alicerce ético exposto na Retórica a Herênio tem. deveria estar a serviço da filosofia da educação. com certo método.) Mas a retórica é útil porque a verdade e a justiça são por natureza mais fortes que os seus contrários.. coragem e modéstia. mas agradar a Deus (Fedro. E.. e isso é digno de censura (os grifos são nossos)6 Embora a Retórica de Aristóteles tenha sido pouco lida7.. Mesmo Platão (c.. como “arte de guiar a alma por meio de raciocínios (Fedro..). para deixar de ser uma adulação. justiça. No debate político a utilidade divide-se em duas partes: a segura e a honesta (. 429-347 a.8 . Prudência é a destreza que pode. Subdivide-se em prudência.. especialmente na diferença entre o bem e o mal. de modo que o plano inteiro de seu discurso venha a contemplá-la. à justiça e ao bem.

Nele.15 E foi dessa época a defesa acadêmica . ou seja. Isso só ocorreria a partir do século XI. com a eloqüência própria para persuadir o justo e o bom”. especialmente através de São Jerônimo (c. Ao escrever sua obra-prima em 95 d. afamadíssimo professor de Retórica do primeiro século de nossa era. em seu Livro XII. A partir de então.11 Todo esse manancial ético clássico que norteou a Retórica foi generosamente sorvido pela tradição cristã. desaparecesse o destempero: todas as energias do Estado e do indivíduo deveriam. abandonar seu cariz ético: “Retórica é a ciência do bem dizer nos assuntos civis.9 Esses pressupostos estão muito presentes em Quintiliano. mas sobretudo um homem bom (“vir bonus. 340-420) e Santo Agostinho (354-430). e.C. o bispo realizou uma importante compilação de excertos e circunscreveu a Retórica ao discurso forense. particularmente por seus costumes. o estudo da Retórica ficou restrito ao universo monástico. sobretudo. fortaleceu a ponte entre os dois mundos.. a tradição clássica grega legou aos romanos a noção que a verdadeira Retórica deveria estar a serviço da ética. e que o verdadeiro estadista e o verdadeiro retórico deveriam escolher bem suas palavras e praticar suas ações com o intuito de infundir a justiça nas almas dos cidadãos.14 Sua obra foi muito difundida e consultada ao longo de toda a Idade Média.Em outras palavras. por fim. não a colocavam em prática. não à satisfação dos desejos. quando a Retórica passou a ser utilizada na composição de cartas e documentos. Isidoro de Sevilha (560-636). portanto. tanto educandos quanto educadores. este romano-espanhol de Calahorra não teve qualquer receio em seguir a tradição de Catão (234-149 a. que a retransmitiram aos medievais (Jerônimo através de suas cartas 12 e Agostinho em suas Confissões13). a Doutrina oratória10. a moderação.) e definir. dedicar-se à busca do bem. contudo. e dedicou um livro de suas Etimologias (Livro II) à Retórica e à Dialética. sem. dicendi peritus”). fazendo com que neles reinassem a prudência. o orador ideal como um homem perito na arte do bem dizer.C. e tornou-se uma epistolografia: era o nascimento da ars dictaminis (ou dictandi). salvo raríssimas exceções.

Vontade. Ramon decidiu simplificá-la. quando então compôs sua Retórica nova.16 Em Chipre. a base estrutural do texto encontra-se em sua Arte – um sistema lógico-metafísico “ilustrado por Deus” e aplicável a qualquer tema ou problema específico. no último livro de sua Doutrina cristã. a Poetria nova (1200). a redação da Retórica nova se inscreve em um momento especial da vida do filósofo. Para isso. nosso autor encontrou um momento de descanso naquele mosteiro. Ramon se encontrava na ilha de Chipre. seu fervor apologético não diminuíra. Verdade e Glória). segundo seu criador. hospedado no mosteiro de São João Crisóstomo de Bufavento. por exemplo. e com o objetivo de converter os infiéis. Grandeza. Sua viagem à Ásia Menor fora estimulada pela crença de cristianizar os mongóis. III. a Arte luliana tomava como ponto de partida de sua construção teórica as dignidades de Deus que eram aceitas pelas três religiões monoteístas (Bondade. a exemplo de Santo Agostinho que. já que a finalidade da eloqüência é a verdade. Ademais.17 Embora a dupla “antiga/nova” já fosse utilizada pelos autores da época – como. Sabedoria. sua Retórica nova deveria estar a serviço da pregação. um projeto de ordenação e ornamentação das palavras há muito desejado. do gramático Geoffroy de Vensauf18 – o adjetivo “nova” no título da obra de Ramon se referia à sua vontade de renovar as bases da Retórica com sua Arte. defendeu que a Retórica deveria estar a serviço da pregação da palavra de Deus. Como em todas as suas obras. ou seja. Tratava-se. Virtude.da Retórica feita por Gilberto de la Porrée e João de Salisbury contra os cornificianos. Poder.20 Ademais. para ele. Mesmo com quase setenta anos. de uma ferramenta para investigar a verdade das criaturas. Eternidade. na qualidade de um pequeno tratado de homilia. Os especialistas denominam esse período de sua . Abatido com o fracasso da recepção de sua Arte na Universidade de Paris em 1289. serviria para ensinar técnicas retóricas a pregadores19. A Retórica nova (1301) de Ramon Llull Em setembro de 1301. como ele nos conta em sua autobiografia intitulada Vida coetânia (1311).

exatamente como faz Aristóteles em sua obra Retórica. além de abstrações teológicas trinitárias. infame. as artes liberais são mensageiras da Avareza e da Luxúria. obsceno – Ramon logo chama a atenção para a face moral da Retórica. matéria e fim. o Livro das Virtudes e dos Pecados. e.26 A preocupação com a Retórica por parte do filósofo se insere no combate aos pecados que poderiam estar associados a cada arte liberal. isto é. Beleza. Por isso. Através dela. Por exemplo. a obra se divide em quatro partes: Ordem. sem ela. e o homem luxurioso através da Retórica e da Música. de 1313. repugnante. abjeto. Ciência e Caridade. Ela existe para que se estabeleça entre o orador e seus ouvintes aquela paz e amizade mútuas que nascem das palavras ordenadas e belas.25 Com a Ciência. Virtude das virtudes. grande novidade no tratamento da Retórica em relação à tradição clássica. a quarta parte. Ramon mostra qual pecado pode se manifestar em qual arte liberal. em detrimento da teoria dos quatro elementos da etapa anterior. Em um dos sermões dessa obra (XLVI). com uma adequada congruência. como reflexo da Santíssima Trindade. nenhuma palavra pode ser bela. já que nosso autor enfatiza nas obras dessa época certas combinações ternárias. tem uma tríade que a configura: forma. Mas antes de passarmos à análise do tratamento dado à caridade na Retórica nova. há ainda um aspecto que merece ser ressaltado que consta em outra obra de Ramon. a caridade articula todas as outras. a Luxúria é o pecado que ronda a Música e a Retórica: O homem avaro discorre seu raciocínio através da Aritmética e da Geometria. enquanto a Avareza pode se manifestar na Aritmética e na Geometria. todos podem ornar e decorar24 suas palavras com harmonia. da Caridade. os homens podem discernir as palavras ordenadas e belas das desordenadas e torpes (e ao utilizar o adjetivo torpe – o que é desonesto.23 A Beleza é a própria matéria da Retórica. A Ordem confere virtude e eficácia às palavras e. pois “falar bem deve ser o princípio da amizade”. que as levam das letras à imaginação e as . como vimos).produção como “fase ternária” (1290-1308)21. Por fim.22 Pois bem.

mas se regozija com a verdade. Portanto. Nada faz de inconveniente. não se ostenta. Os temas e seus respectivos exemplos são os seguintes: Temas/Provérbios: “A caridade. imagem da divindade que os homens devem seguir em sua ação no mundo.” 5) .” 4) . (Livro das Virtudes e dos Pecados.. sempre com uma breve instrução no fim de cada um sobre a melhor aplicação do exemplo na oratória.faz conseguir o que se deseja.humilha arrogantes e soberbos. linhas 68-71).” . certamente..edifica o ouvintes.1.. a caridade é prestativa.” 6) .faz amar o bem e odiar o mal.. graças à caridade.. tudo espera. espelho do comportamento do Cristo. não se incha de orgulho. “As palavras surgidas da caridade refulgem esplendorosamente belas” Por que o filósofo inseriu a caridade em um tratado de Retórica? A base dessa imersão da Retórica no âmbito cristão por parte de Ramon. não procura o seu próprio interesse.. Não se alegra com a injustiça. tratar a Retórica com a devida virtude e caridade é essencial para afugentar a luxúria do orador! II. Sermão 2. 4-7). 1) . não se irrita... (1Cor 13.faz com que o orador e ouvinte tenham amor mútuo. o filósofo desenvolve o tema com dez provérbios e dez exemplos. níveis de beleza retórica impensados antes. tudo suporta. tudo crê.. se encontra na descrição paulina: A caridade é paciente. não é invejosa. 46.apresentam ao raciocínio. Assim.. Para isso.faz esquecer as injustiças e ofensas.. São quinze verbos que caracterizam o comportamento que a caridade suscita no caridoso.” 2) . Tudo desculpa..” 3) ... veremos que o tratamento dado ao tema por parte de Ramon tem o objetivo de alcançar. não guarda rancor.

7) . embora o exemplum luliano esteja inserido na pregação urbana característica do século XIII29.2. uma pergunta se faz necessária: qual a relação dos exempla da Retórica nova com a realidade? A utilização do exemplum (e suas metáforas) como documento histórico para uma análise da vida cotidiana do homem medieval é uma tese defendida por Jacques Le Goff.. se são ditas pela caridade e na caridade (Retórica nova. Exemplos e provérbios Antes de prosseguirmos. II.”. ele não se enquadra exatamente na definição do exemplum clássico medieval (um relato breve e verídico para ser inserido num sermão ou em .” 10) .. nas quais expusemos..torna belas as palavras torpes. 28 Em outras palavras: quando Ramon inicia seus exemplos com um “Contam que.” 9) .alegra tanto o orador quanto o ouvinte.27 Igualmente. ou adapta e rearranja uma história verdadeira? Ou ainda. pelo menos..” Ao fim.faz com que o repreendedor não seja repreendido. será que ele só se vale de um recurso literário que não tem relação alguma com a realidade? Dos dez exemplos. de conhecimento público? Por outro lado. a maneira como as palavras podem ser embelezadas com o esplendor da beleza.. Ramon diz: São suficientes estas explicações da quarta parte desse livro que trata da caridade. somente dois (o terceiro e o décimo) não iniciam com o verbo contar. narra uma história verídica (que soube de primeira mão ou não).” 8) . § 201). um dos grandes especialistas deste tipo de fonte histórica... por meio de provérbios e exemplos. Josep Batalla afirma que a representação dos atos virtuosos dos personagens dos exempla sobre a caridade na Retórica nova revela a capacidade de observação psicológica e social do filósofo maiorquino.faz desdenhar o dinheiro.... O que isso significa? Será possível que as histórias narradas tenham sido verídicas ou.

Senhor. Ramon acusa a cavalaria de ser composta de “mártires dos diabos”: Grande rei. não é realista. o exemplum luliano. A crítica luliana à cavalaria É notável nos escritos lulianos a capacidade de nosso filósofo em observar a realidade e criticá-la.32 Por sua vez. o caráter amoroso do capítulo dedicado à caridade – e suas possíveis aplicações reais ou não – elevou o tema da Retórica a um nível ético ainda mais sublime que a tradição clássica. visto que a caritas paulina é considerada. em regra geral. 1273-1274)35. não é ilícito supor que as estórias narradas tenham sido extraídas de situações verídicas. a matéria e o fim daquelas palavras. § 27). o grau mais elevado de amor criado pelo homem. A defesa da verdade das palavras pode ser uma base para afirmarmos que os exemplos de Ramon podem ter algum grau de veracidade. Seja como for. pois a verdade entendida nas palavras torna amáveis os falantes (Retórica nova. Isso faz com que os ouvintes entendam claramente e se unam amorosamente àqueles que falam. vemos que os cavaleiros deste mundo. até porque o próprio autor defende a beleza da verdade: Quando alguém diz palavras verdadeiras. combatem e morrem para ter nome.33 Contudo. nem pretende ter um valor de documento histórico. No Livro da contemplação (c. Um dos estamentos sociais mais sujeitos à sua verve foi o da cavalaria. ao dialogar com Deus.3. na íntegra ou em suas diferentes partes. por exemplo.34 II. apreço das gentes e para ter terras e .30 Oriundo da retórica antiga – a partir da Retóricade Aristóteles31 – o exemplum medieval possuía uma estrutura literária bastante rígida e repetitiva. pois era normalmente destinado a um auditório iletrado. filosoficamente falando. o próprio esplendor da verdade faz manifestamente visíveis aos ouvintes a forma.um discurso teológico com o objetivo de convencer uma platéia através de uma lição moral). pois Ramon busca sempre uma atemporalidade e uma utopicidade aplicáveis universalmente. liberal em todos os bens e em todas as graças.

a consolava e. Há a possibilidade de essa história ter sido real? Sabemos que a cortesia dos homens em relação às mulheres foi um longo percurso civilizacional. muito zeloso. Mas a caridade. não sabem escutar admoestações como bons cristãos. era costume surrá-las e maltratá-las. sentia-se bastante inclinada a consentir com o outro cavaleiro. com seu exemplo. outro que ficava surpreso como um rei suportava as repreensões de seu sacerdote (§ 198). Mas de que vale a eles a fama das gentes depois da morte? E o que eles aproveitam depois da morte do que roubaram das gentes? E por que são mártires dos diabos? (CXII. que enchia a mente da dama. 7) Já na Retórica nova há um exemplo sobre um cavaleiro que se irritou com seu escudeiro (§ 193). que lhe pedia insistentemente que o aceitasse. injustamente golpeada pelo marido. Tanto era assim que a dama. . Mas vejamos esse triste e último exemplo sobre o cavaleiro ciumento e sua esposa paciente e virtuosa: 191. Este provérbio. A caridade é a forma que informa a vontade36 para que ela queira o bem e odeie o mal. vencida a inclinação ao mal. a mantinha na observância da caridade. e outro que surrava sua bela esposa por ciúmes (§ 191). inaugurado somente com o surgimento do amor cortêsno final do século XII. se é dito nesse caso ou em outro semelhante.37 Antes disso. muitas vezes a batia. Seu marido. pois a descoberta da cortesia na nobreza do século XII não se difundiu rapidamente por todo o corpo social. especialmente nas camadas sociais inferiores (burgueses e camponeses). Ou seja. os cavaleiros são facilmente suscetíveis e irritadiços. e que outro cavaleiro a amava.tesouros. e são violentos com as mulheres – ao invés de protegê-las e defendê-las. torna belas as palavras. Dizem que um cavaleiro tinha uma mulher muito bela e cheia de caridade. e muitas vezes a injuriava.

Portanto. para o filósofo. que é a trama do nosso estar no mundo. entre quem pensa a teoria e quem efetivamente “põe a mão na massa”. Ginzburg atentou para o fato de que nunca houve uma distância tão grande entre a reflexão metodológica e a prática historiográfica. um texto do direito de Aardenburgo (cidade flamenga que seguia o costume de Bruges) dizia a respeito das mulheres burguesas: “Um homem pode bater na sua mulher. combater o relativismo cético reinante atualmente no cenário intelectual. “O fio e os rastros”. Ginzburg acentua ainda mais a crítica do que denomina o “radical ceticismo antipositivista”. do falso e do fictício. e trabalha com os textos de época. ele não comete nenhum malefício contra o senhor. o que de fantasia e o que de realidade havia por trás dos . Conclusão Há alguns anos o prestigiado historiador italiano Carlo Ginzburg chamou a atenção para a importância de se voltar a estudar a Retórica para trazer de volta às ciências humanas os conceitos de verdadee de prova e. tivemos esse pressuposto conceitual em mente. desde que. ela sobreviva. cortá-la. qual seja.39 Em seu último livro. provavelmente Ramon utiliza uma situação real que teve informação para adorná-la com a caridade e assim mostrar ao estudioso de Retórica como ornamentar suas palavras e fazer com que os ouvintes amem o bem e odeiem o mal – como ainda hoje nos escandalizamos quando lemos sobre alguma brutalidade cometida contra uma mulher. segundo ele. assim. fazia-se necessário resgatar o estudo da Retórica para devolver à História o estatuto de investigação judicial do passado. rachá-la de alto a baixo e aquecer os pés no seu sangue. o de estabelecer. voltando a cosê-la.Por exemplo. um mal terrível que deveria ser combatido com o refinamento da educação.”38 Portanto.40 Ao pretendermos analisar a Retórica nova de Ramon Llull. ainda no século XIV. através das ordenadas palavras retóricas do pensador catalão. e defende que o verdadeiro ofício do historiador é destrinchar o entrelaçamento de verdadeiro.

319. 5. * – Este pequeno trabalho é dedicado a Josep Batalla.. p. 93. p. São Paulo: Hedras. Consola escutá-las no século XII. 103. Ernest Robert. nós. Literatura Européia e Idade Média Latina. 7. . Ernest Robert.Citado em CURTIUS. 2005. diz ele. imagem fortalecida se levarmos em conta que ninguém melhor que um moralista medieval para dissecar com cores vívidas as mazelas da sociedade de seu tempo. Livro III. sua visão a respeito da sociedade da época.exemplos narrados em sua obra.CURTIUS. os jovens. São Paulo: Martins Fontes. 6. notável investigador do Editorial Obrador Edèndum que generosamente me presenteou com um exemplar da Retórica nova. 1355a.” – CURTIUS. cit. sofrem impropérios como: „Que quer o burro velho? Por que nos cita palavras e feitos dos antigos? Tiramos nosso saber de nós mesmos. p. 153. Ou. não reconhecemos os antigos. p. 2. e do movimento estudantil do século XX. op. Os que respeitam os auctores. de Ana Paula Celestino Faria e Adriana Seabra).Citado em GILSON. assim permitindo-me aprofundar meus conhecimentos sobre esse aspecto da obra luliana – Notas        1. A Filosofia na Idade Média. 1996. Etienne. Volume VIII. 90. 117. Lisboa: Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa / Imprensa Nacional-Casa da Moeda. Retórica a Herênio. p. p. na segunda parte do Fausto. Retórica a Herênio (trad. Literatura Européia e Idade Média Latina. 1995. Tomo I. op. estabelecer qual era. Ernest Robert. Literatura Européia e Idade Média Latina. São Paulo: HUCITEC.. a gramática e a retórica. 3. de fato.“Queixa-se ele (Salisbury) de que essa orientação desdenha os autores.ARISTÓTELES. Retórica. cit. 4. 2005. e introd. no mínimo.‟ Como nos parecem familiares essas palavras! Conhecemo-las da cena dos estudantes. Obras completas. 3.

Madison: University of Wisconsin Press. vol. 40. 76. 870-871. enfeite. Palma de Mallorca: Editorial Moll.RAMON LLULL. 363. 78. Robert. Teoria i pràctica de la Literatura en Ramon Llull. 20. Prólogo. 539-589. p. 1990. Rio de Janeiro : Imago. Teoria i pràctica de la Literatura en Ramon Llull. 31-32. 1957. comentarios. C. 22.BADIA. 19. Retórica nova. 97-119. 1989. Obres Selectes de Ramon Llull (1232-1316). ornamento. p.BADIA. Antoni. Paidéia. A formação do homem grego. 1989.. Werner. Historia intelectual del occidente medieval. índice y estudios de Alfonso Ortega Carmona). 1962. Lluís Cabré i Marcel Ortín). 2000. Une lecture de la Poetria Nova de Geoffroy de Vinsauf. Paidéia. 2000.PRING-MILL. Mallorca: Editorial Moll. 3.“Introducció”. São Paulo: Martins Fontes. 1991. 122. Barcelona: Quaderns Crema. Obra Completa (trad. cit. p. Braga: Livraria Apostolado da Imprensa. 24. 13. 3454). cinco volumes. p.PAUL. p. Dom Paulo Evaristo. In: RAMON LLULL.. formosura. por sua vez. 1996-2001. Retòrica nova (a cura de Josep Batalla. vol. 1992. o que tem graça. de decus – .                 8. p.ARNS. 2006.. I. 11. Salamanca: Publicaciones Universidad Pontificia. In: Textual Dynamics of the Professions (ed.SAN ISIDORO DE SEVILLA.No original decore (de decor – o que convém. A técnica do livro segundo São Jerônimo. Lola. 23. Lola. Jacques. op.RAMON LLULL. Turnhoult / Santa Maria de Queralt: Brepols / Obrador Edèndum. 10.lià. 15. 9. VIII.JAEGER. 21. Werner. p. 17. A formação do homem grego. Madrid: Cátedra. 1993. Jean-Ives. Confissões. Etimologías I. op. encanto. Les.JAEGER. Paradis). cit. § 31-35 (OE.BONNER. p.AGOSTINHO. “The medieval art of letter writing – Rethoric as institucional expression”. Madrid: Biblioteca de Autores Cristianos. 466467. Vida coetânia. 12. Bazerman and J. p. 18. p. 16.QUINTILIANO DE CALAHORRA.PERELMAN. El Microcosmos Lull. 2003. p. 14. 2.TILLIETE. beleza corporal. Des mots à la Parole.

Devils. Les exempla médiévaux: nouvelles perspectives. “O tempo do exemplum (século XIII)”.. 1. Claude. tem sido desde há muito tempo explorado como fonte de informes sobre as realidades concretas da sociedade medieval e.Introducció”. 123. São Luís. 267. op. In: O Imaginário Medieval. em particular. p. Ernest Robert. e DE BEAULIEU.. da vida quotidiana. 1998. 97. “L‟Exemplum médiéval est-il un genre littéraire? I. assim. 21-28. In: RAMON LLULL. 1997. p. 1994. . 28. 32. virtude). p. Rio de Janeiro: Editora Record. cit. Lisboa: Editorial Estampa. cit. 29-42. São Paulo: Companhia das Letras. Exemplum et littérarité”. 144. Claude. Esse conceito faz com que a Retórica seja submetida à natureza. Jacques.        beleza moral. Llibre de virtuts e de pecats. “L‟Exemplum médiéval est-il un genre littéraire? I. 26. p. Os vivos e os mortos na sociedade medieval. Paris: Honoré Champion. o exemplum. a palavra retórica realça a beleza inerente à coisa na qual ela alude. 29. em que aparecem a medida e a temperança com certo esplendor de nobreza”. 25. cit. Biografia.SCHMITT. 31. isto é. In: BERLIOZ. Jean-Claude. Nova Edició de les Obres de Ramon Llull (a cura de Fernando Domínguez Reboiras). à razão e. 30. 324-344 (onde o autor trata de alguns exempla medievais relativos a São Luís).LE GOFF. 84 e 86-87. Jacques.aquilo que é concorde com a natureza. 27.“. p.. Retòrica nova (a cura de Josep Batalla. simplesmente. como é o caso do folclore ou.” – LE GOFF. volum I. Congruência – Harmonia duma coisa com o fim a que se destina. 1999..BREMOND. Literatura Européia e Idade Média Latina. Albany: State University of New York Press. Joan Young.. op. women and jews: reflections of the other in the medieval sermon stories. e LE GOFF.. op. 1990. GREGG. p.CURTIUS. In: O Imaginário Medieval. Exemplum et la nouvelle”. coerência. Lluís Cabré i Marcel Ortín). p.. 1990. op. Marie Anne (org.RAMON LLULL. Palma de Maiorca: Patronat Ramon Llull. cit. Jacques.). p. Jacques.. “Realidades sociais e códigos ideológicos no início do século XIII: umexemplum de Jacques de Vitry sobre os torneios”. 1999.o tipo de texto – de documento – que aqui nos interessa. CAZALÉ-BÉRARD.96) “. Segundo Cícero (De officis. sobre certos domínios esquecidos ou ocultados pela maioria das outras fontes.

COSTA. permanece aí. falso. p. Carlo. John.4uotg2oH.dpuf . Ricardo da. Apuntes sobre familia. História. II. Lola. firme e sem inquietude. Introdução Histórica ao Direito. Hannah. Nesta proximidade perto-de. 607.GILISSEN.“Na fruição. 35-36. Colección Fuentes y Estudios Medievales 12..GINSZBURG. retórica. Relações de força. 2007.. 4-28. São Paulo: Companhia das Letras. XVIII. 36.BONNER. diciembre de 2003. Priscilla Lauret. Anthony.. vol. Ramon Llull. 37.“Informa tua vontade com a caridade”. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian. p.). “Entre a Pintura e a Poesia: o nascimento do Amor e a elevação da Condição Feminina na Idade Média”. Todo o amor é tensão dirigida para essa fruiçãoi (. 39. A realização é a beatitude (beatitudo). 40. Livro dos Mil Provérbios. prova. encontra a sua realização. 34. Universidad Nacional de Mar del Plata (UNMdP). 1. já não procura mais nada. Lisboa: Instituto Piaget. O conceito de amor em Santo Agostinho.ricardocosta.) Fruir é estar perto do objeto desejado. Mar del Plata: GIEM (Grupo de Investigaciones y Estudios Medievales). o amor acaba. Carlo. Vida. das Letras. que não consiste em amar mas em fruir daquilo que é amado e desejado.com/artigo/educacao-naidade-media-retorica-nova-1301-de-ramonllull#sthash. Todo o amor é tensão dirigida para essa realização. Nilda (dir. RAMON LLULL. s/d. 118-119. p. 35. no tranquilo estar-perto-de. 2002. In: GUGLIELMI. Obres Essencials (OE). a procura é levada até o fim. p.        33.GINZBURG.See more at: http://www. Ensaio de interpretação filosófica. São Paulo: Cia. e COUTINHO. matrimonio y sexualidad en la Edad Media. 38. Barcelona: Editorial Empúries. pelo contrário. BADIA. pensament i obra literária. fictício. .” – ARENDT. Barcelona: Editorial Selecta. s/d. 2001. 1960. O fio e os rastros – verdadeiro.

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