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A morte pede passagem

Está chegada a hora de revermos nossas


atitudes, sentimentos e responsabilidades na
hora da morte, amém.

Todo ser humano deveria ajudar alguém a nascer e alguém a morrer. Em ambas oportunidades,
diferentes aprendizados tornariam o homem mais próximo do que seja vida e morte e,
consequentemente, mais próximo de Deus.
Trazer à vida é um mergulho na abundância, na prosperidade, é fazer parte da criação. Um
momento único quando nos tornamos cúmplices do Criador e percebemos quanto é belo sua obra.
A alegria desse momento não tem comparação com nada nesse mundo. O júbilo do nascimento
toma conta do nosso ser e ficamos, assim, em estado de graça por muito tempo. Quem já foi mãe
ou teve contato direto com o nascimento de uma criança, sabe do que estou falando.
Entre nascer e morrer, lidar com o nascimento é a melhor parte e, aparentemente, mais fácil.
Até porque estamos mais predispostos a essa experiência. Somos criados e condicionados a receber
a nova criança como uma Dádiva de Deus e o nascimento é exatamente isso.
A morte, em contrapartida, é para todos nós uma etapa muito difícil de vencer. Acompanhar
alguém á morte é ter contato direto com a sobriedade, o breu, o silêncio. Tudo definha, tudo
apodrece e se esvai. Cuidar de uma pessoa em estado terminal é muito duro, principalmente se for
um idoso, quando cada tentativa de auxílio nos parece uma investida em vão. Trabalhar com sua
dependência e cuidar de sua alimentação, de sua higiene é frustrante e desgastante. Todas as
cruezas com as quais temos que lidar, são as mesmas que administramos muito bem em um bebê,
entretanto, no doente ou idoso, tudo parece mais difícil. Queremos distância da morte, ela nos
assusta e por puro instinto sentimos aversão e contrariedade ao nos aproximarmos dela. Tudo
porque nos falta a intimidade com a morte, o respeito com as tradições já esquecidas e a
naturalidade de se lidar com algo que é inerente a própria vida. Afinal, tudo o que nasce, um dia
morre.

Ajudar alguém a morrer é tão


nobre quanto ajudar alguém a
nascer ou viver.
Talvez fosse hora de resgatarmos nosso contato com a morte. Estamos reaprendendo os
caminhos que permeiam essa experiência até mesmo com a vida. Estamos, de volta, valorizando o
parto natural, a presença do pai, estamos nos posicionando de forma reverente a esse momento tão
sagrado e mágico. De todas as maneiras, estamos tentando humanizar o nascimento e envolver os
mais próximos para receber com naturalidade e harmonia o pequeno ser que se junta à família. Por
que não, então, humanizar e rever nossas atitudes com relação a morte. É preciso nos preparar para
ela, saber reverencia-la e respeitar suas diferentes formas de manifestação.
Hoje, quando alguém fica gravemente doente ou envelhece e, de alguma forma, percebemos que
é chegada a sua hora, entramos em profundo conflito. Afinal, nada sabemos a respeito da morte e,
não raro, somos criados distantes de toda tradição religiosa que poderia nos dar algum conforto e
orientação. As religiões têm sempre um capítulo especial sobre a morte, seu significado e rituais
que oficializam o momento e nos preparam para ele, mas nesse nosso mundo moderno, as tradições
esbarram na praticidade e na suposta moralidade social. Para nós, hoje, é muito difícil encaixar o
doente ou o idoso nas nossas atividades diárias e nos parece lógico que tudo deve ser feito para
salvar uma vida. Assim, nossos moribundos são entregues, até o último momento, aos hospitais,
médicos, medicamentos, picadas de injeções, soros, alimentação intravenosa, tubos de oxigênio,
sondas, fisioterapias, salas especiais, etc. É claro que tudo isso é bem vindo e muito importante
quando se procura salvar alguém que muito tem ainda pelo que viver, mas passa a ser injusto e, até
cruel, quando se trata de uma vida sem grandes chances ou que está de partida depois de muitos e
muitos anos bem vividos.
Esse é o ponto crucial. Quando é o momento certo de parar e deixar morrer em paz? Alguns
aspectos devem ser levados em consideração para se responder a essa pergunta. De quem estamos
falando? Que idade ele tem? Que chances têm de ter uma vida plena e saudável? Qual é a atitude
dele diante da perspectiva da morte e qual é a atitude das outras pessoas próximas a ele? De
qualquer forma, em algum momento, é preciso parar para pensar. Deixar de lado nossas
preocupações morais e sociais, olhar bem dentro de nós e ouvir o que o nosso coração tem a nos
dizer.
Ajudar alguém a morrer é tão nobre quanto ajudar alguém a nascer, ou viver. Deveríamos ter
consciência disso e sem sentimentos de culpa, aflições ou ansiedade, cuidar para que nosso
protegido se vá dentro de uma atmosfera de paz e tranqüilidade. Há um momento em que não é
mais hora de chamar o médico, contratar uma enfermeira, internar em uma clínica especializada,
gastar fortunas e se sobrecarregar com cuidados, medicamentos e equipamentos hospitalares. Há
um momento em que tudo o que devemos fazer é ouvir, agasalhar, alimentar, trocar, banhar,
acariciar e respeitar a intimidade e introspecção daquele que está muito perto de viver uma das
mais significativas experiências da vida; a morte.

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