Carlos Pedala

Biciclética
Entre nuvens e automóveis

1ª Edição

Rio de Janeiro
Carlos Menezes Filho

2013

 

A todos os ciclistas urbanos do Planeta Terra.

A POESIA EM MOVIMENTO

Em Biciclética, Carlos Pedala privilegia a bicicleta como tema, dando, desta forma, uma unidade a seus textos. No poema que dá título ao livro aparecem as noções de ética e estética que norteiam a obra, em jogo de palavras sugerido pelo neologismo criado pelo autor.

Do ponto de vista ético, a bicicleta simboliza o exercício do ciclismo, e, por extensão, questões contemporâneas relativas ao meio ambiente e à vida nas metrópoles. Ou seja, o poeta explicita que há um conteúdo temático para ser dito, e uma linha de pensamento que propõe reflexões.

O objeto bicicleta vai além do fato de ser uma alternativa para o transporte urbano e uma proposta de melhoria na qualidade de vida do cidadão; ela, aqui, se quer metonímia de uma visão ecológica, politicamente correta, que se relaciona com outras condutas do homem no início do século XXI.

Em Ética, temos:
“Vejo muitas bicicletas nas ruas. Vejo pessoas preocupadas com o tempo. Elas se importam com o mundo. Elas têm consciência. Incentivam o uso de tal veículo.”
Ou em Futuro, lemos:
“Economizam combustível e dão esperança aos que estão a caminho.”
Estes dois poemas mostram como a bicicleta, mais do que um veículo, expressa um modo de ter consciência e representa um gesto, ainda que aparentemente pequeno, para modificar o mundo. No último poema, os ciclistas lidam com o concreto (combustível) e o abstrato (esperança), e linguisticamente os igualam, criando uma equação na qual economia de combustível passa a significar esperança. Já em Diversidade, temos a fusão de espaço e tempo, mostrando como o meio ambiente se relaciona com a época, e a bicicleta nos leva magicamente para outro tempo, não para outro lugar.

“Esse é o modelo básico, fácil, de levar a gente a qualquer lugar, quiçá ao futuro do planeta.”
Diante disto, podemos constatar o uso consciente de estruturas binárias como abstrato/concreto e tempo/espaço, na elaboração dos versos deste poeta. E este é apenas um dos muitos recursos formais de seu vasto repertório. Como exemplos, citamos, ainda, os neologismos (cicleata, facim), a mescla das dicções oral e formal, o cavalgamento (como quebra da medida e da ordem sintática), rimas originais (como pântano e semântica), a substituição do concreto pelo abstrato (“As dúvidas chegam aos bandos”) etc.

Todas estas observações acima mostram que a bicicleta também é fenômeno estético, e aqui não nos referimos ao modelo ou design. Apropriada pela poesia, ela adquire significados outros escrita, como o de tempo pretérito e gasto na alusão à “roda de bicicleta enferrujada”, em Lembrança.
Carlos Pedala é um poeta da sua cidade. Se antes, há um século, havia a figura do flâneur, agora temos a do ciclista, que percorre as ruas com seu olhar e mapeia uma região do Rio de Janeiro. As referências aos bairros inserem a realidade local em sua literatura: Aterro do Flamengo, Enseada de Botafogo, Baía da Guanabara, Icaraí, Madureira, Central do Brasil, Saara, Cosme Velho, Laranjeiras, Morro da Viúva Arpoador, Copacabana.

O leitor carioca identifica alguns cartões-postais do Rio, como Aterro e Arpoador, mas isto não quer dizer que a obra siga um percurso turístico, apenas circunstâncias biográficas levaram o escritor a retratá-los. Sem dúvida, em alguns casos, a paisagem é agradável e encantadora, quase um locus amoenus; mas a vida, por sua vez, não. E as reflexões do ciclista ocorrem, como se fossem aforismos, versos que podem ser destacados por sua força afirmativa. Eis exemplos: “Apenas mísero inseto/, talvez com ele algo se instaure definitivo”; “Pessoas entregando mercadorias e vidas”; “A vida não se compara,/ o existir é único.”, “E lembrar que viver também machuca.” ou “A tal pergunta só quem não a faz tem resposta.”

Em Manifestação, o autor já havia dito que “o poeta distribui poesia e perplexidade.” Ora, o passeio pela cidade serve para pensar a vida e não fotografar a paisagem e se esquecer; serve para tornar o olhar:
“A vida segue junto com a bicicleta, as rodas rodam e ninguém se importa com o vazio existindo, ali, entre raios”.
Estaria o poeta aludindo ao vazio entre os aros da bicicleta ou a algum vazio da vida? Não nos esqueçamos também do tom irônico e do discurso duplo que permeiam todos os textos.

Sob a ótica ainda da metalinguagem, registremos a intertextualidade, através da citação de outros escritores, de modo implícito ou explícito. Há, pois, referências aos poetas: Pessoa, Gullar, Cabral, Drummond, Oswald de Andrade e Cruz e Souza. Este diálogo intertextual não só mostra parte do repertório de leitura do autor, como também a sua capacidade de assimilar antropofagicamente (como diria o citado Oswald de Andrade) realizações autorais diversas, e ter voz própria ao mesmo tempo. O questionamento do fazer literário que se dá em Biciclética mostra que a concepção do poético vai além da palavra. Em Sempre poesia, temos a seguinte afirmativa:
“A poesia está sempre presente, até quando não aparece de imediato, vejo-a no mendigo a catar lata, ou no passear distraído do ciclista.”
Em outro momento, ciclista e poeta se confundem, porque este ciclista é duplo: se a bicicleta é poética, quem a usa também adquire outro estatuto, afinal estes são os dois eixos centrais da obra: a própria poesia e o ciclismo.
Tanto em Todo ciclista:
“Todo ciclista é poeta, no sentido que escreve por linhas tortas, por linhas tênues, por linhas inúteis, aquilo que é certo.”
quanto em O ciclista
“O ciclista é o poeta do trânsito. Escreve de noite em horas vazias, ele imagina um dia de plena euforia.”
Vemos o verbo escrever atribuído ao ciclista, deslocando-se, assim, de um agente para o outro.

Se agora me permitirem um jogo de palavras, diremos que Carlos Pedala sabe que a via da poesia é o desvio, o desvio realizado pela palavra que, em contínuo movimento, não se deixa aprisionar por sentidos fixos. Ágil, o poema-bicicleta se oferece às nossas mãos para que passeemos pelas pistas da linguagem, com certeza de que a leitura nos será aprazível e instigante. Aproveitando-nos do poeta sevilhano Antonio Machado, terminamos dizendo que para o poeta-ciclista não há caminho, pois o caminho se faz pedalando e escrevendo. Sempre.

Marcus Vinicius Quiroga

Biciclética 

Biciclética é uma palavra nova,
neologismo, precisa ser explicada.
Antes de tudo, esclarecer o modo:
composto, derivado? Classe: substantivo,
Comum ou abstrato? Ora, o que importa?
Se quem for fazer uso dela seja poeta.
Esse ser inventivo, subversivo também,
que prega sempre desordem, e tem como
palavra de ordem o simples desdém.
Ah, então ela tem algum sentido, talvez,
seja a mistura da bicicleta com a poética.
Ou, quem sabe, a forma de andar reto.
Nesse caso, está próxima da ética.
Haveria semelhança com a estética?
Ou apenas segredo, jogo, brinquedo.

Lembrança

Sábado, à noite,
um pouco antes de dormir.
De um vento frio por debaixo da porta
veio a lembrança de quando era mais novo,
era menor que o caçula, sem ser criança.
E visitara com meu pai a nossa antiga casa.
Ela seria demolida, já estava sem teto.
Encostado na parede, onde fora a cozinha.
Ele me dizia: - Puxa! A vida passa.
Saí pelo buraco da porta.
Sem porta, sem chave, sem fechadura
no antigo quintal,
a roda de bicicleta enferrujada
misturando-se aos cheiros de jabuticabas,
e me falando coisas que só compreendo agora.

Aeroporto

O dia vai chegando, enquanto, distraído,
buscava em Pessoa frase lida sobre barulhos,
barulhos de pneus de automóveis passando.
Ele escutara no Templo da Igreja, em dia chuvoso,
agora as luzes tremulam do outro lado da Baía de Guanabara,
É a praia de Icaraí.
E a aurora vem nascendo em tons de azuis, marrons, rosas e mais...
Vistos de dentro da janela.
Os carros continuam passando e os pássaros cantam nos intervalos.
É primavera.
As dúvidas chegam aos bandos.
Enquanto penso na tela, e medito no frio que sinto.
As dúvidas vão revoando a Baía de Guanabara.
Enquanto aguardo a hora de sair de bicicleta.
Enquanto aviões nos céus esperam o Aeroporto Santos Dumont abrir para pouso.

Aranha

As poesias estão postas em cima da mesa,
melhor, os livros de poemas
estão ali esperando.
Dentro deles há algo pronto para ser trazido à vida.
Faremos uma análise fria dos períodos, dos estilos.
Vamos demonstrar sabedoria.
Nem perdendo o melhor do momento,
abriremos mão da superioridade intelectual.
Devemos utilizar metáforas e analogias,
comparar poesias e bicicletas.
Mesmo os livros ficando em cima da mesa,
Quem sabe?
De dentro deles possa surgir
pequena aranha a nos fitar nos olhos.
Apenas mísero inseto,
talvez com ele algo se instaure definitivo.

Bicicletas e profetas

Quem anda de bicicleta escreve
por linhas tortas, embora não pareça,
como em folha em branco sem pautas.
Quem anda de bicicleta percebe,
mesmo não querendo, que o querer
pouco importa pra quem é poeta.
Quem anda de bicicleta poupa o mundo
pra seus netos e se, hoje, não faz diferença,
fique certo que o futuro está na semente.

Quem anda de bicicleta fica à margem
do mundo do automóvel, mas apenas
porque não entendem a justa proposta.
Quem anda de bicicleta é um pouco
tratado como desajustado, talvez, louco.
Todavia, a história aguarda os novos profetas.

Compasso

Tantas vezes a poesia desaparece

e o poema some de vista entre as
árvores, junto à lataria dos carros,
nas pistas. A morte passa ao lado,
passa rápido, depressa, deixando o
aceno. O medo cruza a espinha.
Por um segundo, ou mínimo espaço,
deixaria o eu de ser eu. O nada seria
para mim o nada. Cheio de não ser,
o eu não caberia no caber do poema.
Nem seria, então, não poderia não
ser. Mas aquilo passa e as coisas
continuam. As rodas da bicicleta
rodam e rodam todas no mesmo
compasso do tempo, feito música.

Em si

O céu está cheio de gaivotas à tarde,

elas planam soltas, suspensas por corrente
de ar, fazem filas e voam leves sobre nós.
Na Baía de Guanabara, o vento enche as
velas dos barcos. Velozes, cheios de si, eles
partem. O Pão-de-Açúcar reflete a luz do sol.
Ciclistas passeiam descansados pela ciclovia,
curtem a orla do Rio de Janeiro. A cidade
aguarda os dias de chuva, as madrugadas frias.
O céu tem nuvens mais altas, mais rosas.
E os pássaros vão em fila embora, para onde?
Para aquela ilha na costa, ou para terras distantes.
Alguma coisa intensa nos afeta. Talvez a beleza
infinita; talvez o insight das coisas, do tempo.
Ou o contentamento que é, por si, indescritível.

Espaço vazio

Existe um espaço, um vazio entre

os raios da roda da bicicleta. Esse
espaço roda com as rodas, sustenta
o aro. Os raios apoiam a tensão
das forças físicas. Elas se entrelaçam
e rodam junto com a roda e o vazio.
Mas esse vazio de que falo é na real
um espaço tridimensional. Ele roda
junto com as rodas. E o que fica por
onde ele passa? O vazio deixa o vazio
por onde passa, abrindo o espaço
tridimensional entre os raios da roda.
A vida segue junto com a bicicleta,
as rodas rodam e ninguém se importa
com o vazio existindo, ali, entre raios.

Futuro

Vejo muitas bicicletas nas ruas.

Vejo pessoas preocupadas com
o tempo. Elas se importam com
o mundo. Elas têm consciência.
Incentivam o uso de tal veículo.
É difícil acreditar em um novo
modo de ser, de uma forma
nova de se encarar a vida, sem
carros ocupando inteiramente
os espaços, os desejos e os sonhos.
Mas vejo as bicicletas passarem.
Vejo pessoas felizes ao pedalar tal
engenho. Elas ajudam o trânsito.
Economizam combustível e dão
esperança aos que estão a caminho.

Ganhando o pão

Há aqueles que ganham a vida na bicicleta,

esses não são atletas, apenas trabalhadores.
Todos os dias e noites, batem à porta.
Trazem a padaria, a drogaria, o mercado, tudo
o que precisamos para não sair de casa, não
pisar na rua, não sermos expostos às profecias.
Eles não usam capacete, não vestem roupas
coloridas, não ficam com as caras estampadas
nas revistas, não são passistas, ganham o pão.
Os seus triciclos ficam estacionados, em frente
às lojas, ficam a postos, preparados para saída.
Todos os dias, ou noites, batem à porta.
Estão por todos os lados, em vindas e idas.
Invisíveis entre os automóveis,
suprimidos entre os edifícios,
pessoas entregando mercadorias e vidas.

Gravidade

O sol amanheceu quente, o brilho

entra, espalha-se na casa, convida-nos
a senti-lo na rua. O céu azul de poucas
nuvens embebeda-nos logo cedo.
A vida se enche pelos recantos da
cidade. Só os jornais são tristonhos.
É segunda-feira, dia de voltar à labuta,
de limpar os sapatos e tirar fotografias
justas para pregar em falsos documentos.
A qualquer momento devemos provar
nossa identidade. Lembramos do filme
antigo, e da questão do tempo, do fluxo.
Encostada no canto, a bicicleta à espera
de uma alma, de um sujeito que dê vida
às rodas e a leve, livre de tanta gravidade.

Inútil

A Marcus Vinicius Quiroga

Ao acordar, percebo o vento de chuva,
o vento de inverno, o vento frio. Não,
hoje não é um bom dia para andar de
bicicleta. O pneu vazio e o vento contra
são adversários tenazes dos ciclistas.
Fecho a janela e me fecho dentro de mim.
Reflito nos caminhos que tenho seguido,
procuro entender os objetivos, as ações
empreendidas, numa forma da dar algum
sentido à vida. Folheio um livro de Quiroga.
Troco as cordas do varal, sou compreensivo
comigo. Lá fora, no céu, vejo as gaivotas
rabo-de-tesoura aproveitarem o vento.
Por que então eu não aproveito? Sim, hoje,
é um bom dia para ler poesia, inútil dia.

Lua Azul

Para Sylvia Ripper

Duas luas cheias é coisa rara.
Nas eternas madrugadas ouço
a velocidade dos motores combustíveis.
Percorrendo distâncias que
de certa forma não são minhas.
Mas duas luas cheias é coisa rara.
Nas horas em que acordo, o luar
esparrama-se na mesa da cozinha.
Lá em cima está ela, parada, nua, sobre
a cobertura vizinha. Eu olho. Ela espia.
Mas duas luas cheias é coisa rara.
Se em outros planetas, não seria.
Porém, da Terra é que se fala, é rara.
Se estivéssemos em Plutão,
E em outras ciclovias, o silêncio se faria.

Logo cedo

Quem anda cedo de bicicleta,

embora não pareça, procura
palavra certa, mesmo por linhas
curvas, mesmo por linhas tortas.
Talvez a busca no lugar errado
seja de fato o medo de encontrar
resposta para o significado,
mesmo inexistente e incompleto.
Qual a diferença real entre debruçar-se
sobre a língua, o texto, o guidom, ou selim,
se ao final, verificarmos que isso pouco
importa no local em que estamos expostos?
Claro que a brisa, ao bater nos rostos,
o passear entre a noite e o nascer do dia,
traz felicidade, traz alegria e nada mais.

Lua

A poesia dentro do laboratório

equacionada em fórmulas, feito
a análise química da fotossíntese.
Fruto da superioridade intelectual
construída por anos e anos a fio.
A poesia como o modelo ideal.
Reinando única, soberana, sendo
representação mais pura do real,
feito a pintura equilibrada, racional.
A poética dissecada com maestria
por mãos treinadas e pés no chão.
No céu, no infinitesimal vazio, a Lua
Eternamente: cheia, minguante, nova,
crescente, como dissemos: eternamente
o poeta a admirá-la (sempre).
E ninguém a reparar nas bicicletas.

Manhã

A manhã logo vem, logo chega.

Pois assim espero. Como sei? Não
sei dizê-lo de modo claro. É escuro
e assim espero. Não, não ouço galo
a tecê-la como num poema.
A manhã logo vem. Procuro vê-la
clara no céu escuro. Pois assim espero.
Nada me assegura de encontrá-la.
Mas sei. Ela vem. Como as outras
encontrei. Ela logo vem.
A manhã logo vem. De onde vem?
Não sei. Mas ela chega cedo, bem.
Os ciclistas passam antes dela, em fila.
E ela em seguida vem, como sei? Não
sei dizê-lo de modo claro. Mas ela vem.

Manifestação

Os ciclistas protestam, querem ciclovia.
Querem andar em segurança entre Cosme
Velho e Laranjeiras. Fazem cicleata.
Contratam banda de músicos que anda
de bicicleta e toca instrumentos. Gritam:
- Queremos ciclovia! - Queremos ciclovia!
Os automóveis, como sempre, buzinam,
acham que são os ativistas que entopem
as vias, as veias, as artérias da Cidade.
Os ônibus também se enganam, impacientes,
ameaçam, forçam passagem, como se fossem
de fato chegar de imediato ao seu destino.
O poeta distribui poesia e perplexidade,
diante da plateia de questionadores,
diante da inegável e etérea realidade.

Marte

Do dia a dia é do que tratamos, da vida.

Feito pegar o trem em Madureira para
ir à Central do Brasil, fazer compras no Saara.
Pesquisar o preço daquela bicicleta
e refletir. Pensar antes de assumir as
prestações, ter responsabilidade.
A vida não se compara, o existir é único.
Cada um na sua singularidade, tentando sobreviver.
Nada de dar mole, ficar alerta, atento.
Se vacilar, der bobeira, paga-se o preço.
A lei é a do mais forte: farinha pouca, meu 
pirão primeiro. Amizade não significa ser otário. 

Precisamos acordar cedo, tomar café 
com leite, comer pão com mortadela,
E na manhã ver no céu Marte flutuando.

Nuvem

O poema não se explica.
Nem o poema errado.
Posto que tudo que o poeta
diz em bom português é fado.
Ora, vivo a explicar o sem sentido.
Sou eu quem leva a bicicleta
ou é ela quem leva o poeta?
Mas não se vê o encoberto.
De fato, o coração, ou melhor, o pulmão
não suporta tal fardo.

Que em hebraico seria cruz.
Em antigo latim, peso leve,
sendo em mim nuvem.

O ciclista

O ciclista entra na pista depressa.

Parte em busca de algo urgente,
ele olha longe, pedala com força.
O ciclista é um atleta esforçado.
Às vezes, não sabe aonde vai,
ele sonha alto, olha longe demais.
O ciclista é um homem qualquer.
Acorda cedo e trabalha bastante,
ele tem medo, vê os carros de perto.
O ciclista é um ecologista acirrado.
Às vezes, pensa no mundo novo,
ele gosta da vida, do ar no pulmão.
O ciclista é o poeta do trânsito.
Escreve de noite em horas vazias,
ele imagina um dia de plena euforia.

Passagem

O autorretrato que faço é imagem

que olho na fotografia,
que espio no espelho,
que vejo quando penso em mim.
São três realidades, qual delas
seria isso, esse lugar de onde falo?
ou, às vezes, calo?
Sem pensar que, ao me ver,
você
faz imagem,
esta jamais será verdade.
Posto que não sou figura ou coisa.
Sou paisagem na janela do automóvel,
miragem ou passagem por onde
todas as bicicletas do mundo correm.

Pequeno encontro
         A Ferreira Gullar

O poeta já disse em um poema que

o jasmim é um sistema. Assim,
o aroma que sinto é um perfume.
Sim, uma bruma leve me encontra,
quando passo por ela de bicicleta.
Mas ela também suave me ultrapassa.
Ora, é verdade, ela passa por mim.
Por um momento andamos lado a
lado, sem pressa, sem pensamento
algum. De fato, é um breve instante,
um átimo dentro da eternidade. Sem
importância, nenhuma consequência.
O espanto é que o universo também é
grande conjunto. Bilhões e bilhões de
estrelas, e a gente ali passando...

Quem entenderia?

Quem entenderia o poeta

a andar de bicicleta no meio
dos ônibus e carros apressados?
Quem entenderia o planeta
esgotado de combustíveis fósseis,
coberto por uma poeira inútil?

Quem entenderia a proposta
de evitar o consumo fácil de
um bem escasso, de um bem raro?
Quem entenderia o verso branco,
feito o grito perdido sob o açoite
na longa e negra escuridão da noite?
Quem entenderia a mensagem
feita de pedais leves, dia após dia,
enviada por metáforas em ciclovias?

Reciclagem

A bicicleta precisa de manutenção.

Reparo e pinto suas peças. Uso lixa,
pincel e tinta. Aos poucos, vejo-a
nova e reluzente, o brilho do intenso
se instaura. Recompensado, descanso.
As cores diferentes mudam a paisagem,
por onde passamos, há transfiguração,
as ruas estão mais limpas e as pessoas
mais amigas e felizes. Até o número
de carros diminui, o trânsito flui rápido.
No selim sinto o cheiro do jasmim, o tal
jasmim de que fala Gullar em poemas.
Mas não cabe dentro da palavra o aroma
de nenhuma flor, apenas carregamos na palavra
as múltiplas sensações vividas na cidade.

Respiração curta

Vejo-me a volta com uns problemas

cultivados por mim. Talvez, uma simples
questão de linguagem, de fala clara.
Eles me cercam, volta e meia enchem
os pensamentos e prendem os pulmões.
A respiração fica pesada, rápida e curta.
A bicicleta é uma boa saída. Certamente
fuga. A válvula de escape a ser
utilizada até o coração ser visível.
Sim, pois em meio ao turbilhão, por
momentos, esqueço-me do humano, do
humano existente por trás da pele.

A bicicleta é o santo remédio, nela
consigo me livrar dos tormentos, deixo
pra trás mais e mais rápido um pouco de mim.

Resposta

O ciclista passa em velocidade, em fuga.
Corre de si mesmo, do outro que o habita,
há sempre o perigo que na próxima curva
ele o alcance, é luta. Luta de vida, de morte.
Mas sobre essa corrida tudo já se falou.
Vencer a si mesmo, eis a grande vitória.
E quem é que perde? Sim, pois há perdedor
nessa história. Alguém fica para trás.
O ciclista passa devagar, sem pressa.
Não se importa com o tempo, está no
lugar certo. Teria ele perdido a partida?
Mas andar assim devagar, não seria falsa
modéstia? Um se sentir completo, sem
ambição de vitória, sem ânsia da glória.
A tal pergunta só quem não a faz tem resposta.

Sempre poesia

A poesia é um caso de amor:

não se pode perder a cabeça nunca
e lembrar que viver também machuca.
Como a queda da bicicleta, mesmo sem
termos qualquer culpa. A força da terra
ou, melhor, da gravidade leva-nos ao chão.
A poesia está lá presente, até onde
você pensa não haver graça alguma, pode
ter certeza, há a constância do nonsense.
Como num rasgo de histeria da pessoa amada,
por conta de um descuido, uma coisa nada,
tal qual o olhar distraído para a mesa ao lado.
A poesia está sempre presente, até quando
não aparece de imediato, veja-a no mendigo
a catar lata, ou no passear distraído do ciclista.

Super-herói

Misturar poesia com bicicleta pode
não parecer coisa certa, quem sabe,
desrespeito ao poeta e ao atleta.
A priori, atuam em campos diferentes,
diríamos, completamente opostos.
Um trata de letras e rimas; outro, de pedais.

Mas o que à primeira vista é distante,
num exame atento revela surpresa.
A beleza é presente em ambos.
Ou melhor, tudo é frágil e sensível,
tudo é suave. Como o ciclista a passar
entre as latarias dos automóveis.
Ou o poeta a procurar enxergar e dizer,
a ternura que há nesse ser ágil e veloz,
que, sem o saber, é super-herói do planeta.

Todo ciclista

Todo ciclista é marginal, no sentido que

anda à margem da pista, na sarjeta, no
local próximo ao meio-fio, na água fluvial.
Todo ciclista é imaterial, no sentido que
anda quase sem ser visto, passa rápido
pelas retinas, quando se percebe, sumiu.
Todo ciclista é irreal, no sentido que
não é possível acreditar que alguém tenha
coragem de enfrentar a engrenagem assim.
Todo ciclista é sonhador, no sentido que
aposta num mundo melhor, contra a lógica
do automóvel como motor maior do planeta.
Todo ciclista é poeta, no sentido que
escreve por linhas tortas, por linhas tênues,
por linhas inúteis, aquilo que é certo.

Um menino

Do fundo da loja veio o menino,
O menino feio. Digo, em repará-lo
sujo de graxa. Baixo, de óculos
fundo de garrafa. É um menino.
Ele mexe com raios das rodas das
bicicletas. Ele vive no fundo da loja,
escuta o que se passa, sujo de graxa.
É um menino e eu o vejo sujo de graxa.
Ele faz os reparos e instala as peças
da bicicleta. Há o insistente cheiro:
cheiro das peças, cheiro da graxa,
cheiro das moças. É um menino.
Ele mexe com as moças que mexem
com rodas da bicicleta. Ele no fundo,
sonhando o que se passa, sujo de graxa.

Urbanidade

O ato de escrever é limite.

Como o andar de bicicleta nas cidades.
O cuidado é pouco.
Vai-se indo, conforme
trânsito deixa, palavras
brotam. Sinal vermelho,
parada obrigatória.
Espera-se e seguimos em frente.
Colocamos força no pedal,
no começo, pois fluir e fácil.
Atenção: não tropeçar nas
irregularidades da língua
ou nos buracos da ciclofaixa.
Lugares conhecidos são
perigosos, evita-se o comum.

Voo noturno

A cidade feita de concreto armado
e ferro, imensa parede recoberta
de vidro. Terra de asfalto negro.
À noite, milhares de luzes acessas
espalham-se no meio de tudo,
e de tudo, nada sustenta as asas.
O avião dá voltas, ensaia o pouso.
O absurdo das coisas me alcança,
lembro-me do andar de bicicleta.
Lembro-me rapidamente das crianças.
Ao meu lado, a mulher se deita no
ombro. Foge da falta de sentido.
Escuto coisas sem objetivo (viagem
deserta). Tocar no solo nos balança,
pegamos um táxi na fila, sem pressa.

Fortaleza

Amor é o caminho sem volta

por onde passamos na hora certa
dizer nada é menos arriscado
do que seguir as trilhas do poeta
Ficar quieto, calado, mudo,
Apenas pronunciar as palavras rotineiras
onde nada e dito de verdade
com as perguntas costumeiras
Mas se a paixão te acende a fogueira
que os dizeres se calem por inteiro
e os corpos falem a linguagem verdadeira
sabendo ser isso muito perigoso
são crianças brincando à beira da janela
melhor seria passear tranquilo em Fortaleza
e andar de bicicleta nas praias da beleza.

Escritos

Os poemas moravam no vento,

escapando a qualquer instante,
voltando a qualquer momento.
Assim diziam os poetas,
escravos de seus escritos
Com o tempo, as coisas mudaram.
Os poemas já não voam tanto,
feito em outras eras.
Mas o que haveria mudado?
A poesia ou os poetas?
Por causa desse mistério
que ronda tudo o que falo.
Não obtive êxito no concurso pra funcionário.
Agora, vivo calado, incompleto, faminto
de sonhar bicicletas extintas...

In Rio

Há pedaços de oceano

Que cultivo feito quem cultiva auroras e espinhos
Nos vagalhões entre muros e carros
Percorro caminhos esquecidos, vazios.
Ando de bicicleta na orla do Rio.

Qualquer palavra se escuta, se diz e se cala em Copacabana.
Frente ao recital dos passarinhos,
O vento exala cheiro de moça,
Restos de sentimentos invadem em ondas o calçadão, sendo varridos e expostos às moscas.
Efeito das massas,
O tempo em pressa; passa...
Cego, vejo a clareza dos elos; olho no olho, fundindo os céus.
E a poesia seminua se ressecando na areia.

Morte

Porquanto venha em mim silêncio

acrescido de abismo
gravitacionando tempo e o consumindo
da forma de buraco negro
emito palavras em preto
ou melhor, meus dedos falam
conceitos que desconheço, desde que são ditos
soam de modo estranho
como as bicicletas no trânsito do Centro
como o absurdo da poesia posta no concreto
ou o despropósito do beijo na boca
onde as línguas se tocam em diálogo mudo
a sentir o gosto do falar do outro
e o gesto escorrega pra o meio
na erupção do gemido, do gozo, do grito;
nascido pronto,
feito morto.

Tempo

As dimensões do tempo são insuspeitas,

maestro dos mares, dono das eras
sempre presente em quaisquer lugares
inexistente como quimeras
Nos raios das tempestades
no girar dos raios das rodas das bicicletas
companheiro de detentos em celas
componente dos jogos de rodas de infantes
Eterno fluir, constante em seres assim
somente os poetas tentam te agarrar os cabelos,
seus amantes, luta de brios.

Confusão de ancas, peitos e seios, no coito.
No roçar das línguas, instante do grito, do gozo.
Ausente, ausente de corpo eternamente.

Antigos

Releio antigos poemas,

antigo é o que se dizia
do barulho dos carros, sinfonia.
No céu, pesadas nuvens espiam a Cidade do Rio.
Bicicletas andam espremidas no meio-fio.
Não cabe aqui lamento,
bem antes, relato.
Pois logo virão outros dias.
E no futuro se perguntarão:
como assim se vivia?
O tempo é sempre mistério,
constante fluir pro além, sem fundo,
sem paradeiro, sem dar satisfação a ninguém.

Mais um dia
 

É cedo, mais um dia nascendo,

nada tão comum, apenas mais
um dia, com aurora e poesia.
É cedo, mais um dia nascendo,
o sol subindo no horizonte,
e sombras se escondendo.
É cedo, mais um dia vem vindo,
como em milhões e milhões de anos,
cheio de tango e desenganos.
É cedo, mais um dia chegando.
As ciclovias estão vazias. Porém,
logo, totalmente transbordando.
É cedo, mais um dia e num piscar de olhos,
completamente escuridão ou razão.
E tudo isso se dando num único dia.

Parque do Flamengo

Em frente à janela do apartamento
a Baía de Guanabara
com suas águas sujas, azuis e plácidas
onde os barcos a vela flutuam
e os aviões sobrevoam em curva
Tocando a Terra, fazendo fumaça
no toque
correndo na pista, livres de tudo que é leve
a gente passando de bicicleta entre os coqueiros
com o vento do Parque do Flamengo,
fazendo vista
A gente não sabe como isso nos alcança
alguém joga capoeira, o outro se balança,
o passarinho pia, a moça canta.
Seria isso poesia? Ou o que seria?

Garrincha

           Para  Maurão Salles

No amanhecendo,
passarinhos cantam
Em momento, lembro-me de
Garrincha bebendo cachaça,
num canto
Apenas lembrança,
feito nuvem de fumaça
que o vento desvaneça,
em forma de poema
talvez nunca se esqueça
Em momento, apenas lembrança
Meu pai andando de bicicleta e eu,
Criança
em forma de poema
Talvez nunca se esqueça.

Avião

O pouso do metal captura o sol.
Em voo suave, em toque leve.
Estremecidamente à terra entregue.
Acompanho no campo visual seus gestos,
da bicicleta, encontro-o rasgando os céus.
No piscar de luzes,
em meio a mandingas e cruzes.
Cruzando igual cenário,
deslizando acima da Baía da Guanabara.
Na pista, o correr livre da leveza dos ares.
Vieste de Buenos Aires?
Ou de quais lugares vieste?
Quantos azuis mares sobrevoaste?
Atravessaste quais olhares?
Através de quais montanhas e nuvens aqui chegaste?

O sagrado

O canto da morte nas letras

de Cruz e Sousa, a presente agonia.
Quisera andar de bicicletas em infinitas,
delirantes e suaves ciclovias.
Quisera ler a completa poesia da vida
do poeta. Palavra justa, palavra certa.
Do criador de voluptuosos hinos,
de soluçar incessante e sonetos finos.
Do desespero a flor dos olhos.
De inebriantes vinhos e visões dos infernos.
Da sublimação dos sentidos,
da graça, da forma, da formosura.
Da manutenção da compostura
diante da revelação de tudo o que é sagrado
sendo esse, talvez, o mor desespero.

De bicicleta

Andar de bicicleta, nada é mais simples
nada de contar as letras ou silabas
encontrado o equilíbrio, é seguir em frente
ver os dias passando, perseguindo nuvens
a via é livre e o verso, branco.
Respirar fundo a maresia, overdose de oxigênio
perceber as cores do mundo (azul e verde).
No Rio de Janeiro, é o exercício perfeito,
transcorrer solto com o vento no peito.
Deslizar pela enseada de Botafogo
tendo o Pão de Açúcar como paisagem
é a brincadeira pra qualquer idade.
Tal qual tirar fotos com Drummond de Andrade.
Ter coragem para conceber um poema
de rima fácil, gasta, evidente.
No meio da ciclovia de Ipanema.

Hálito

O fluir das bicicletas na ciclovia
de Copacabana.
O bater das ondas nas areias.
O perguntar por ti as estrelas,
indagando-as sobre o mistério das coisas.
Houvesse sentido nos hóspedes do Hotel Windson,
ou o haver por havido.
Houvesse apenas um segundo,
instante antes de tudo.
Houvesse a pequena promessa.
Bem antes de existir a Baía de Guanabara.
Bem antes das nuvens sobre o Pão de açúcar.
Houvesse apenas uma nanonésima fração
da possibilidade de significado.
Ela estaria em teu hálito.

Canto de chuva

À noite, a chuva molha em segredo

os logradouros e muda em silêncio o som,
ou melhor, o barulho dos pneus dos carros.
Feito o poema de rimas toantes.
E a luz do dia, ela (chuva) se esparrama.
Inundando os lados, as pessoas, as ciclovias.
Tal qual o lençol de seda a cobrir a cama,
tal qual o desejo a possuir o corpo.
No Parque do Flamengo, vê-se a ausência
dos frequentadores, nenhuma bicicleta
passeando nas pistas, nenhum cachorro vira-lata.
Mas um pássaro recita num canto seus versos:
alegria, encanto ou lamento?
Não importa, qualquer canto é indiferente
quando ninguém o escuta.

Encanto

Encanto-me ao atravessar as ruas de bicicleta,

enquanto a aurora cai sobre a Baía de Guanabara
e o vento leve sopra em nós.

No céu cor de rosa, 
a Lua sorri em prata.
A impossibilidade de dizê-la,
de descrevê-la, de minuciá-la.
Cala-me prolixo, eloquente mudo.
Já os pássaros cantam esse momento,
enquanto os tons das cores se misturam.
E a poesia imana.
E a poesia é por ela e teima em sê-la,
enquanto no monumento tremula a bandeira.
E, enquanto escrevo, ouço os carros
dentro dos minutos, dentro dos silêncios.
Enquanto paro, enquanto espero, enquanto Rio de Janeiro.

Insignificantes

Implausível pouso da poesia
outrora em folhas brancas.
Hoje, em tela de bytes digitais.

Da janela, vejo os voos das gaivotas
sobre o Morro da Viúva, no Flamengo,
ou melhor, o flutuar leve feito Lua.

Contraste com céu celeste,
por um segundo paro e admiro o azul
sem nuvens, sem rimas...

Algumas das janelas se abrem e olham,
escuta-se silêncio dessas alturas.

Nas ruas os automóveis movem
as ruas e seus pneumáticos.

O atrito com o asfalto esfarelam as insignificantes
coisas que se deparam: como bicicletas.

Lagoa Rodrigo de Freitas                                  

                                      Para Cid

Depois da chuva as ruas ficam limpas e secas.

O gato grita e o grito ecoa
nas janelas dos apartamentos da Lagoa.
O sabiá canta enquanto o dia se anuncia.

O dia cheira a comum metafísica das coisas.
E tudo, sim. Todo o conjunto inteiro de tudo cabe
no infinitivo
um.

Um que há é o um do instante que já
não há e continua sendo sempre um,
eternamente.

Como o giro da roda da bicicleta no entorno dela.
Mas uma dor nas costas me atormenta.
Afugenta pássaros e peixes para longe.

E o gato grita,
E o grito ecoa nas margens da Lagoa Rodrigo de Freitas.

Rap das meninas de bicicleta

Para o 3030 e Vinícius de Moraes
Rio de Janeiro onde lindas
meninas andam de bicicletas,
entre a maldade da rua
e a brisa do mar.
Rio de Janeiro onde belas
meninas andam de bicicletas,
entre a crueldade da rua
e o clima do mar.
Rio de Janeiro onde jovens
femininas andam de bicicletas,
entre a dureza da rua
e a leveza do mar.

Rio de Janeiro onde tantas
belezas andam de bicicletas,
entre as impurezas da rua
e os cheiros do mar.
Sendo cria desse berço
fazer poesia fica
assim, assim,
facim, facim...

Copyright © by Carlos Menezes Filho 

Capa: Filipe Sena

Webmaster: Pedro sena

todos os direitos reservados 

ISBN 978-85-915413-0-0 

ano 2013

Contato: camefil@bol.com.br

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