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A Revolução Mundial

Eric Hobsbawm

No século XX, a revolução foi a filha da guerra.


Sozinha a guerra não é capaz de conduzir crises colapsos e
revoluções, mas as tensões da guerra total do século XX sobre os
Estados envolvidos foram sem precedentes, e apenas os Eua saíram
ilesos, e até mais fortes das duas Grandes Guerras.
Com o velho mundo condenados partidos socialistas cresciam
cada vez mais na Europa. A revolução Russa, em 1917, foi a mais
fundamental, com conseqüências práticas duradouras, com uma
expansão global sem comparações, e trinta anos depois, quase um
terço da humanidade se encontrava sob regimes dela derivados.
Por muito tempo o comunismo se achava um sistema alternativo
ao capitalismo, e até mesmo superior. O século XX assistiu uma
política mundial como sendo um duelo entre dois sistemas. Lênin não
queria apenas uma vitória nacional, e sim uma numa escala global. A
Rússia após as guerras, parecia pronta para uma revolução, contando
com o entusiasmo e patriotismo das massas. Curiosamente, os
próprios revolucionários marxistas partilhavam da opinião de que a
derrubada do czarismo e do sistema de latifúndios produziria apenas
uma “revolução burguesa”. Uma Rússia liberal-burguesa teria de ser
conquistada pelo levante de camponeses e operários alienados, ou as
forças que faziam à revolução iriam além do estagio liberal-burgues,
passando para uma radical “revolução permanente”.
Sem condições para uma revolução socialista na Rússia, para os
revolucionários ela teria que se espalhar para outros lugares. O
colapso político e a inquietação social herdados da primeira Guerra
elevaram o perfil político dos socialistas, ao tempo que o movimento
trabalhista crescia cada vez mais. Em 1917 havia se tornado um
monte de explosivos sociais.
O maior feito de Lênin foi transformar a incontrolável onda
anárquica que havia derrubado o czar, em poder bolchevique. Porem
poucos sabiam realmente o que significava os rótulos dos partidos. O
slogan “pão, paz e terra!” conquistava apoio: os pobres reivindicavam
pão, os oitenta por cento de russos que viviam da agricultura pediam
terra e todos concordavam que queriam o fim da guerra.
Quando os bolcheviques se viram em maioria ficou claro que era
o momento de acabar com o Governo Provisório. O novo regime
pouco fez pelo socialismo, e foi sobrevivendo, e contra todas as
expectativas conseguiram ampliar seu poder por mais tempo.
A revolução mundial não ocorreu, e isso comprometeu a Rússia
com isolamento e atraso econômico. Contudo, dois anos depois uma
onda de revoluções varreu o globo, enquanto Marx e Lênin tornaram-
se ícones.
Mas, embora a situação da Europa estivesse longe de ser
estabilizada, era claro que a revolução bolchevique não estava nos
planos ocidentais, e em 1921 a revolução estava em retirada na
Rússia, embora politicamente o poder bolchevique fosse
inexpugnável. Isso significava uma divisão dos revolucionários pelas
próximas gerações.
O ano de levantes deixou para trás não apenas um imenso país
atrasado governado por comunistas, como também um movimento
internacional disciplinado, toda uma geração comprometida com a
revolução mundial.
No fim, os interesses da URSS prevaleceram sobre os interesses
revolucionários mundiais da Internacional Comunista que Stalin
acabou reduzindo a um instrumento da política de Estado soviético,
dissolvendo e reformando seus componentes como melhor lhe
conviesse.
A revolução mundial era uma retórica do passado e só seria
tolerada se não conflitasse com os interesses de Estado soviético e
pudesse ser posta sob controle direto. Os velhos partidos comunistas
continuavam sendo em grande parte os maiores grupos da extrema
esquerda, mas a essa altura o velho movimento comunista perdera o
ânimo.
A força do movimento pela revolução mundial se encontrava na
forma comunista de organização de Lênin. Por outro lado, os
sentimentos das verdadeiras “massas” frequentemente entravam em
choque com as idéias de seus líderes. A aliança entre um forte Partido
Comunista emergente da clandestinidade e vários grupos marxistas
radicais logo se dividiu e foi superada, para alívio da comunidade
européia.
O caminho para a revolução mundial pela guerra de guerrilha foi
descoberto tardiamente pelos revolucionários. Os bolcheviques que
travaram tanto guerra irregular quanto regular durante a Guerra Civil,
se tornou padrão nos movimentos de resistência, sendo abandonada
gradualmente.
Contudo a segunda Guerra Mundial produziu um novo incentivo,
mais imediato e geral à tomada do caminho pela guerrilha para a
revolução: a necessidade de resistir à ocupação da maior parte da
Europa continental, pelos exércitos da Alemanha de Hitler e seus
aliados. Os regimes comunistas que se estabeleceram no leste e
sudeste da Ásia pós-45 também podem ser encarados como filhos da
resistência da guerra. A segunda onda de revolução social mundial
surgira da segunda Guerra, bem como a primeira havia surgido da
Primeira, porém dessa vez era a própria guerra não a repulsa a ela
que levava a revolução ao poder.
A revolução mundial estava avançando. Em vez de uma única
URSS fraca e isolada, estava emergindo algo como uma dezena de
estados da segunda onda de revolução global, e tampouco se exauria
seu ímpeto.
Muitos observavam que o capitalismo tinha se mostrado fácil de
derrubar onde era fraco. A preocupação destes estados não era com o
futuro do socialismo, e sim com a reconstrução de seus paises
empobrecidos pela guerra. Paradoxalmente a mesma preocupação
rondava os ideólogos ocidentais. A Guerra Fria que se instalou no
mundo após a segunda onda de revolução mundial foi uma disputa de
pesadelos, por assim dizer.
Mudara o mundo, embora não da maneira como esperavam
Lênin e seus inspirados. Fora do ocidente havia muitos Estados que
passaram por uma combinação de revolução, guerra civil, resistência
e libertação. Os anos após a Resolução Russa iniciaram o processo de
emancipação colonial e descolonização e introduziram a política de
contra-revoluções e a de social-democracia na Europa. A história do
Breve Século XX não pode assim ser entendida sem a Revolução
Russa e todos seus efeitos diretos e indiretos no globo.

Juliana Sabage
2000710808

1º ano B