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Faculdade de Direito da UCP

CUMPRIMENTO E NÃO CUMPRIMENTO DAS OBRIGAÇÕES

ANO LECTIVO 2011/2012 TODAS AS TURMAS PROF. JOÃO TIAGO ANTUNES

HIPÓTESES PRÁTICAS

I

Américo vendeu a Benedito, maior, um tractor com reboque pelo preço de 10.000 €. Américo comprometeu-se a entregar o tractor e o reboque, mediante o pagamento simultâneo do preço acordado, no dia 31 de Agosto de 2006. Na data estipulada para o cumprimento do contrato, Américo entregou a Benedito o tractor e disse-lhe que o reboque só poderia ser entregue daí a 15 dias. Estará Benedito obrigado a aceitar o tractor sem o reboque?

De acordo com o Princípio da Pontualidade (art. 406º/1 CC), o cumprimento deve coincidir ponto por ponto em toda a linha com a prestação a que o devedor se encontra adstrito. Resulta como corolário deste princípio, o Princípio da Integralidade (art. 763º) segundo o qual o devedor deve realizar a prestação integralmente e não por partes, não podendo o credor ser obrigado a aceitar o cumprimento parcial. Pretendendo o devedor efectuar uma parte apenas da prestação e recusando-se o credor a recebe-la não existe mora do credor (art. 813º - existe uma causa legal justificativa), mas existe mora do devedor, a partir da data do vencimento da prestação, relativamente a toda a prestação e não apenas quanto à parte que não cumpriu (art. 804º). Pode ainda existir excepção do não cumprimento do contrato, operando em relação a toda a prestação a que está adstrito (art. 428º), na medida em que as obrigações emergentes são sinalagmáticas.

Importa ainda salientar que o Princípio da Integralidade poderá apresentar excepções legais (obrigações incorporadas em letras e cheques; regime da imputação do cumprimento;

incorporadas em letras e cheques; regime da imputação do cumprimento; Maria Luísa Lobo – 2011/2012 Página
incorporadas em letras e cheques; regime da imputação do cumprimento; Maria Luísa Lobo – 2011/2012 Página

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pluralidade de fiadores que gozem do benefício da divisão art. 649º; compensação com dívida de menor montante art. 847º/2); resultantes da boa fé ou dos usos.

1)

Se Benedito fosse interdito por anomalia psíquica, a quem é que Américo estaria obrigado a entregar o tractor e o reboque?

Se o contrato de compra e venda também tivesse sido celebrado pelo interdito, o contrato era anulável por incapacidade de exercício e assim mesmo que a coisa fosse entregue ao representante legal, o cumprimento estava padecido de um vício, podendo- se exigir a repetição do indevido.

Considerando que Benedito tinha capacidade para celebrar ou considerado que o contrato foi celebrado pelo seu representante, este seria válido.

Nos termos do art. 769º do CC, a prestação deve ser realizada ao credor ou ao seu representante. Uma vez que o credor, Benedito, era interdito por anomalia psíquica, Américo encontrar-se-ia obrigado a entregar o tractor e o reboque ao representante legal de Américo.

Nos termos do art. 764º, o cumprimento feito a um incapaz é em princípio um cumprimento anulável e sujeito o devedor a um novo cumprimento, segundo a regra clássica de que quem paga mal paga duas vezes. Contudo, esta regra admite duas excepções previstas no nº2 do art. 764º. Uma é a de a prestação feita ao incapaz chegar ao poder do seu representante; outra é a de o património do incapaz ter enriquecido com a prestação. No primeiro caso, considera-se eficaz o cumprimento; no segundo caso considera-se eficaz na medida do enriquecimento. Não há motivo, na verdade, nestes casos, para a anulação total do cumprimento.

Em suma, Américo estaria obrigado a entregar o tractor e o reboque ao representante de Benedito, podendo ainda assim entrega-los ao próprio Benedito correndo todavia o risco que esse cumprimento seja anulado, excepto se se enquadrar numa das duas excepções em cima enunciados.

excepto se se enquadrar numa das duas excepções em cima enunciados. Maria Luísa Lobo – 2011/2012
excepto se se enquadrar numa das duas excepções em cima enunciados. Maria Luísa Lobo – 2011/2012

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2) Suponha que Américo, em vez de entregar o tractor e o reboque a Benedito, o fez ao pai deste, Carolino. No dia seguinte, Benedito morreu num acidente de viação. Poder-se-á considerar que Américo cumpriu o contrato celebrado com Benedito? E se Benedito não tivesse morrido, a solução seria a mesma?

A prestação pode e deve ser feita ao credor ou ao seu sucessor, a título universal ou a título particular nos termos do art. 769º, 138º e 764º/2. Caso Benedito fosse maior e incapaz para receber a prestação, quem a deveria receber seria o seu pai na medida em que seria o seu representante legal. No entanto não foi o que sucedeu, pois Américo era maior e perfeitamente capaz pelo que em princípio a prestação feita a terceiro foi mal feita.

Nos termos do art. 770º, a prestação feita a terceiro não extingue a obrigação sendo ineficaz perante o credor, podendo no entanto o autor da prestação exigir a sua restituição com fundamento no enriquecimento por prestação. Há todavia casos em que a prestação feita a terceiro extingue o vínculo obrigacional, liberando o devedor, como se fosse feita ao próprio credor.

Aplicar-se-ia a al. c) do art. 770º à primeira parte do caso, na medida em que Carolino adquiriu o crédito mortis causa. O cumprimento não deixou, em tal hipótese, de ser mal feito, desde que a aquisição do crédito é posterior ao acto solutório. Contudo, não seria razoável nem conveniente que se anulasse a prestação efectuada a terceiro, forçando o devedor a cumprir de novo perante o antigo credor, para que este, por seu turno, efectuasse nova prestação a quem dela foi privado.

Caso Benedito não tivesse falecido, o contrato só poderia considerar-se celebrado, se tal tivesse sido estipulado ou consentido pelo credor (art. 770º al. a)); se o credor o ratificasse (art. 770º al. b)), ou se o credor não tivesse interesse em um novo cumprimento da obrigação, o que sucederia se ele viesse a aproveitar-se do cumprimento (art. 770º al. d)).

sucederia se ele viesse a aproveitar-se do cumprimento (art. 770º al. d)). Maria Luísa Lobo –
sucederia se ele viesse a aproveitar-se do cumprimento (art. 770º al. d)). Maria Luísa Lobo –

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3) Imagine, agora, que, depois de ter concluído o contrato com Benedito, Américo se lembrou que o tractor e o reboque lhe faziam falta para as vindimas. Na data estipulada para o cumprimento do contrato, Américo entregou a Benedito uma furgoneta, avaliada em 12.500 €. Quid iuris?

De acordo com o Princípio da Pontualidade (art. 406º/1 CC), o cumprimento deve coincidir ponto por ponto em toda a linha com a prestação a que o devedor se encontra adstrito. Como consequência deste princípio resulta o facto de o obrigado não se poder desonerar, sem o consentimento do credor, mediante prestação diversa da que é devida, ainda que a prestação efectuada seja de valor equivalente ou até superior, excepto se o credor aceitar sendo que nesse caso a situação já não é de cumprimento mas antes de dação em cumprimento.

A dação em cumprimento (art. 837º) sendo uma forma de extinção das obrigações

consiste na realização de uma prestação diferente da que é devida com o fim de mediante acordo do credor extinguir imediatamente a obrigação. É necessário um acordo das partes uma vez que envolvendo a realização de uma prestação diferente da

devida ela só extinguirá o crédito se o credor der o seu assentimento (tácito ou expresso)

no momento em que a dação se realiza. Da dação em cumprimento consagrada no art.

847º distingue-se a dação em função do cumprimento. Esta, consagrada no art. 840º, tal como a dação em cumprimento também necessita do assentimento do credor, mas difere

da mencionada na medida em que não consiste num meio de extinguir a obrigação, mas

sim de facilitar a sua extinção. Deste modo, será sempre necessário interpretar a intenção do devedor, ou seja se pretendeu extinguir imediatamente a obrigação ou se apenas pretendeu facilitar o seu cumprimento.

a obrigação ou se apenas pretendeu facilitar o seu cumprimento. Maria Luísa Lobo – 2011/2012 Página
a obrigação ou se apenas pretendeu facilitar o seu cumprimento. Maria Luísa Lobo – 2011/2012 Página

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II

Diogo emprestou 5.000 € a Eduardo. O empréstimo foi garantido através da

constituição de uma hipoteca sobre um imóvel pertencente a Eduardo e seguro na Seguradora Sinceridade, S.A.

1)

Poderá Diogo pagar o prémio de seguro em atraso?

Em princípio é sobre o titular passivo da relação obrigatória que recai o dever de prestar. A lei admite no art. 767º que a prestação possa ser feita pelo devedor (pode não ser o devedor originário, tendo-se em vista o devedor à data do cumprimento) ou representante legal, e ainda por terceiro, embora o credor se lhe possa opor quando a prestação não seja fungível. Deste modo, embora o credor só possa exigir a prestação do devedor, ela pode em princípio ser realizada por terceiro, sem que o credor a tal se possa opor.

Nos termos do art. 767º/2, o terceiro só não terá legitimidade para cumprir se a prestação tiver caracter infungível (por natureza ou por convenção das partes), ou seja quando se encontre directamente relacionada com a pessoa do devedor, por atender às qualidades ou à situação especial deste, na medida em que substituição do devedor por outrem prejudicaria o credor. Caso a prestação seja infungível, o credor não poderá ser constrangido a receber de terceiro a prestação, podendo por conseguinte recusá-la e exigir que o cumprimento seja realizado pessoalmente pelo devedor.

No presente caso, uma vez que estamos perante uma obrigação pecuniária que é naturalmente fungível e ainda pelo facto de não haver convenção em contrario, Diogo, embora terceiro, pode pagar o premio à seguradora.

Razão de ser: se um terceiro cumprir a obrigação todos em rigor ficam satisfeitos o credor vê o seu interesse realizado, não por intermédio do seu devedor mas por intermédio de um terceiro; mas o próprio devedor também não fica prejudicado pois na pior das hipóteses terá de pagar ao terceiro aquilo que devia ao credor.

pior das hipóteses terá de pagar ao terceiro aquilo que devia ao credor. Maria Luísa Lobo
pior das hipóteses terá de pagar ao terceiro aquilo que devia ao credor. Maria Luísa Lobo

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2) Caso Eduardo se oponha a que Diogo pague o prémio de seguro, pode a Seguradora Sinceridade, S.A. recusar-se a receber o pagamento do prémio?

No presente caso já se verificou que o terceiro tem legitimidade para cumprir a

prestação, pelo que à partida o credor não pode recusar a prestação por ele oferecida, e

se o fizer incorre em mora como resulta da conjugação do art. 768º/1 e art. 813º.

A lei (art. 768º/2) apenas admite a recusa por parte do credor se o devedor também se

opuser ao cumprimento, desde que o terceiro não tenha interesse directo na satisfação do crédito, por ter garantido a obrigação ou por qualquer outra causa. A existência de interesse directo corresponde às situações em que a não realização da prestação lhe acarreta prejuízos patrimoniais próprios, independentes das consequências do incumprimento para o devedor.

No presente caso, o credor (Seguradora) não pode recusar-se a receber a prestação, independentemente da oposição do devedor (Eduardo), na medida em que existe uma

sub-rogação legal (art. 592º) em que o terceiro (Diogo) é directamente interessado na satisfação do crédito, sendo titular de um direito real de garantia sobre a coisa objecto

da obrigação.

3)

Se Diogo pagar o prémio de seguro, poderá exigir a Eduardo o valor pago?

Nos termos do art. 593º/1 Diogo poderá existir a Eduardo o valor pago na medida em que existe uma transmissão do crédito.

Caso não estivéssemos perante um caso de sub-rogação (art. 591º a 599º) coloca-se a questão de saber que direitos teria o terceiro que cumpre e que não está sub-rogado. Neste caso, tal dependeria da relação interna entre o terceiro e o devedor: poderia ter actuado enquanto gestor de negócios (art. 464º a 472º); poderia ter actuado enquanto

gestor de negócios (art. 464º a 472º); poderia ter actuado enquanto Maria Luísa Lobo – 2011/2012
gestor de negócios (art. 464º a 472º); poderia ter actuado enquanto Maria Luísa Lobo – 2011/2012

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mandatário; poderia estar a efectuar uma liberalidade (doação); poderia existir lugar ao enriquecimento sem causa, por exemplo.

III

Fernando e Guilherme venderam a Helena um carro por 5.000 €. No contrato foi estipulado que Helena só teria de pagar o preço no dia 1 de Janeiro de 2011. O pagamento da quantia em dívida foi garantido pessoalmente por Isabel. Fernando teve conhecimento de que Helena se encontra insolvente. Poderá Fernando exigir hoje de Helena o pagamento dos 5.000 €?

O momento em que a obrigação deve ser cumprida pode ser fixado por convenção das

partes ou por disposição legal. No presente caso é claro que os interessados estipularam um prazo, a data em que a obrigação se vencia, ou seja o momento a partir do qual a

obrigação podia ser exigida.

As obrigações podem ser classificadas, tendo em conta o tempo do seu vencimento, em dois grupos: obrigações puras (aquelas cujo cumprimento pode ser exigido ou realizado a todo o tempo) e obrigações a prazo ou a termo (aquelas cujo cumprimento não pode ser exigido ou imposto à outra parte antes de decorrido certo período ou chegada certa data; o prazo marca a data antes da qual o credor não pode exigir a prestação, se o devedor ainda não a tiver efectuada ou não pode ser forçado a recebe-la).

O

art. 779º estipula que o prazo se tem por estabelecido a favor do devedor quando não

se

mostre que foi a favor do credor, ou de um e outro conjuntamente. Uma vez que nada

nos é dito na hipótese presume-se que o prazo foi estabelecido a favor do devedor, ou

seja enquanto o prazo não findar a dívida é pagável mas não é exigível pelo credor.

No presente caso, a fixação do prazo não envolve a necessária caducidade do negócio mas apenas a faculdade de o credor, vencido o prazo sem que a obrigação seja cumprida resolver o negócio ou exigir uma indemnização pelo dano moratório, pelo que estamos perante um negócio fixo relativo ou simples, e não perante um negócio fixo absoluto.

negócio fixo relativo ou simples, e não perante um negócio fixo absoluto. Maria Luísa Lobo –
negócio fixo relativo ou simples, e não perante um negócio fixo absoluto. Maria Luísa Lobo –

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Existem contudo situações que determinam o vencimento imediato da obrigação, por caducidade do prazo estabelecido, apesar de a obrigação ser a prazo e de este ser estabelecido em benefício exclusivo ou conjunto do devedor. Nestes casos, o credor pode exigir o pagamento antes do fim do prazo existindo uma antecipação da exigibilidade nos termos do art. 780º.

Uma das situações que importa a perda do benefício do prazo nos termos do art. 780º é

a insolvência. A Insolvência consiste na situação em que se encontra o devedor, que por

carência de meios próprios e por falta de credito, se mostre impossibilitado de cumprir pontualmente as suas obrigações vencidas, quando o activo seja manifestamente superior ao passivo. Logo que tal se verifique, a obrigação a prazo torna-se imediatamente exigível a medida em que se deixa de justificar a confiança do credor que está na base da concessão do prazo, não sendo necessária para o efeito a declaração judicial previa da insolvência do devedor. Após a sentença de declaração de insolvência não ocorre apenas a perda do benefício do prazo, verificando-se antes o vencimento antecipado de todas as obrigações do insolvente não subordinadas a uma condição suspensiva, independentemente da interpelação. Actualmente, a lei exige a verificação de uma efectiva situação de insolvência não bastando o justo receio da mesma, na medida em que a lei considera que essa solução permitiria uma reacção excessiva dos credores capaz de levar efectivamente o devedor à insolvência.

De acordo com o exposto, o credor (Fernando) poderia exigir hoje ao devedor (Helena)

o pagamento da quantia.

Nos termos do art. 782º, a perda do benefício do prazo não afecta a terceiros que tenham garantido pessoalmente o cumprimento da obrigação, sendo que como a lei não distingue entre garantias pessoais (fiador) e reais (hipoteca, penhor ou consignação de rendimentos) aplica-se a disposição a ambos. Em qualquer caso, só ao devedor que deu causa ao vencimento imediato da obrigação pode ser exigido o cumprimento (total ou parcial) antes de terminar o prazo.

pode ser exigido o cumprimento (total ou parcial) antes de terminar o prazo. Maria Luísa Lobo
pode ser exigido o cumprimento (total ou parcial) antes de terminar o prazo. Maria Luísa Lobo

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IV

Em Maio de 2005, António, residente no Porto, vendeu a Bernardo, residente em Coimbra, uma mota de água, que se encontrava depositada num armazém, propriedade de Carlos, em Sines. O contrato foi formalizado em Leiria, tendo as partes acordado (i) que o preço de 20.000 € seria pago em quatro prestações mensais de igual valor, que se venceriam no primeiro dia útil de cada mês e, bem assim, (ii) que a 1.ª prestação seria paga no dia 1 de Junho de 2005, data em que o bem seria entregue. Mais tarde, em Agosto de 2005, Bernardo vendeu a António, por escritura pública lavrada num Cartório Notarial da cidade de Coimbra, um imóvel de que aquele era proprietário nessa cidade, pelo preço de 200.000 €, tendo ficando António devedor de metade do preço. Daniel, amigo de António, constituiu uma hipoteca sobre um andar de que era dono para garantir a dívida de António.

Pergunta-se:

1) Em 1 de Junho de 2005, Bernardo quer pagar 5.000 €. Qual o local apropriado para o fazer? Onde deve, por seu turno, António entregar a mota de água?

Conforme resulta do art. 772º/1, e em obediência ao Princípio da Pontualidade, a determinação do lugar do cumprimento cabe em princípio as partes, resultando assim de convenção entre elas, a qual pode ser inclusivamente tácita (art. 217º), derivando da própria natureza das prestações.

Não havendo convenção das partes a estabelecer o lugar do cumprimento a regra geral é que ele deve ser realizado no domicílio do devedor, na medida em que se está perante uma obrigação de colocação (art. 772º/1), sendo esta todavia uma regra meramente supletiva.

(art. 772º/1), sendo esta todavia uma regra meramente supletiva. Maria Luísa Lobo – 2011/2012 Página 9
(art. 772º/1), sendo esta todavia uma regra meramente supletiva. Maria Luísa Lobo – 2011/2012 Página 9

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Se a obrigação tiver por objecto a entrega de uma coisa móvel (mota de água), nos termos do art. 773º a regra é a de que a obrigação deve ser cumprida no lugar onde a coisa se encontrava ao tempo da conclusão do negócio (armazém em Sines de Carlos).

Se a obrigação tiver por objecto certa quantia em dinheiro (preço da mota de água), nos termos do art. 774º a regra é a de que a obrigação deve ser cumprida no domicílio que o credor tiver ao tempo do cumprimento. Estando face a uma obrigação de entrega, tal deriva da facilidade que actualmente o devedor possui de proceder à transferência de quantias em dinheiro e de a solução oposta poder ser particularmente onerosa para o credor que seria obrigado a ir buscar o dinheiro ao domicílio do devedor.

Porém estas regras cedem em certos casos particulares, como por exemplo o previsto no art. 885º que estabelece que o lugar do cumprimento da obrigação de pagar o preço da venda é o mesmo da obrigação de entrega da coisa vendida, só se aplicando a regra geral do art. 774º se o prazo do cumprimento das duas obrigações não for coincidente.

Para se invocar a excepção de não cumprimento constante no art. 885º, a obrigação de pagar o preço no momento e no lugar da entrega da coisa constitui um nítido afloramento do caracter sinalagmático do contrato no momento da execução da venda sinalagma funcional podendo o devedor recusar a entrega da coisa enquanto o preço não lhe for pago.

Nos termos do art. 885º/2, a 2º prestação devera ser realizada no domicílio que o credor tiver ao tempo do cumprimento, na medida em que a cláusula de pagamento em momento diferente da entrega funciona em regra no interesse do comprador sendo justo por isso o benefício que em contrapartida se estabelece a favor do vendedor.

isso o benefício que em contrapartida se estabelece a favor do vendedor. Maria Luísa Lobo –
isso o benefício que em contrapartida se estabelece a favor do vendedor. Maria Luísa Lobo –

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2) Em 1 de Junho, Bernardo cumpriu, contra a entrega do bem, a sua obrigação de pagamento. Porém, em 1 de Julho, invocando “passar por sérias dificuldades financeiras resultantes de um despedimento de que tinha sido vítima”, Bernardo falha o pagamento da 2ª prestação. Quid iuris?

De acordo com o Princípio da Pontualidade (art. 406º/1), o cumprimento deve coincidir ponto por ponto em toda a linha com a prestação a que o devedor se encontra adstrito. O devedor não goza do chamado beneficium competentiae, ou seja não pode exigir a redução da prestação estipulada com fundamento da precária situação económica em que o cumprimento o deixaria. A regra constante do art. 601º e 604º é ade que mesmo em caso de insuficiência o património do devedor continua a responder integralmente pelas dívidas assumidas, apenas se excluindo de penhora certos bens que se destinem à satisfação de necessidades imprescindíveis (art. 822º e 824º-A CPC), existindo como excepção a obrigação de alimentos (art. 2004º e 2012º) e a indemnização em renda (art.

567º).

Uma vez que não existe uma alteração anormal das circunstâncias, ou seja uma vez que a situação invocada encontra-se prevista nos riscos próprios da contratação não se poderia invocar o regime do art. 437º.

Nos termos do art. 781º encontram-se abrangidas as situações de venda a prestações, sendo que nas dívidas a prestações caso o devedor falte ao pagamento de uma das prestações admite-se a perda do benefício do prazo. O presente artigo só se aplica às prestações instantâneas fraccionadas em que o objecto se encontra fixado desde a constituição da dívida, não se aplicando deste modo às prestações periódicas.

Afim de saber o momento em que existe mora em relação as prestações é necessário apurar se a referida norma consagra uma situação de antecipação da exigibilidade ou de antecipação do vencimento.

Em relação à segunda prestação não existe dúvidas que no momento em que vence a prestação existe mora, colocando-se a questão em relação às restantes prestações.

mora, colocando-se a questão em relação às restantes prestações. Maria Luísa Lobo – 2011/2012 Página 11
mora, colocando-se a questão em relação às restantes prestações. Maria Luísa Lobo – 2011/2012 Página 11

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No entendimento do Prof. Antunes Varela, à semelhança do que sucede no art. 780º, o art. 781º constitui uma situação de antecipação da exigibilidade na medida em que o vencimento imediato das prestações cujo o prazo ainda não se vencera constitui um benefício que a lei concede ao credor, não prescindido consequentemente da interpelação do devedor, sendo que esta constitui uma manifestação da vontade do credor em aproveitar o benefício que a lei lhe atribui. Importa ainda referir que caso estivéssemos perante uma situação de antecipação do vencimento tal poderia conduzir a uma insolvência do credor. Deste modo, só existirá mora a partir do momento em que o credor exige e o devedor não paga.

No entendimento do Prof. Almeida Costa, a norma do art. 781º refere-se a uma situação de antecipação do vencimento, sendo que existirá mora no próprio dia em que se vence a segunda prestação (art. 805º/2 e art. 806º). Na medida em que é a própria letra da lei que se refere a vencimento, o Prof. João Tiago Antunes entende que neste caso dever-se-á seguir a solução de antecipação do vencimento.

Com o não cumprimento da segunda prestação do preço, o credor passou a ser credor de uma segunda prestação em falta com juros de mora, e na medida em que se venceram as restantes prestação (antecipação do vencimento) terá o direito aos juros de mora das prestações restantes. O art. 886º não se poderá aplicar neste caso uma vez que a referida norma implica a reunião de dois requisitos cumulativos para não se poder resolver o contrato (1) Transmitida a propriedade da coisa, ou o direito sobre ela; (2) feita a sua entrega traditio e no presente caso uma vez que tais requisitos se encontram verificados não é possível a resolução.

Estando perante uma venda a prestação é ainda necessário ter em consideração a norma do art. 934º que exige a verificação de cinco requisitos cumulativos que impedem a resolução do contrato ou a perda do benefício do prazo: (1) vendida a coisa a prestação; (2) reserva de propriedade (irrelevante para a questão da perda do benefício do prazo); (3) feita a sua entrega ao comprador; (4) falta de pagamento de uma só prestação; (5) que não exceda a oitava parte do preço. No presente caso, sendo a prestação em falta no valor de 5mil€ excedendo, deste modo, 1/8 do preço, António poderia resolver o contrato ou ocorrer a perda do benefício do prazo por parte de Bernardo.

contrato ou ocorrer a perda do benefício do prazo por parte de Bernardo. Maria Luísa Lobo
contrato ou ocorrer a perda do benefício do prazo por parte de Bernardo. Maria Luísa Lobo

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3) Suponha, agora, que Bernardo efectua o pagamento da 2ª, 3ª e 4ª prestações do preço a Carlos, convencido de que este adquirira o referido crédito a António por contrato de cessão de créditos que, afinal, não chegou nunca a ser celebrado. Considera estes pagamentos válidos? Justifique.

Nos termos do art. 577º, a cessão de créditos consiste numa forma de transmissão de crédito que opera por virtude de um negócio jurídico, normalmente um contrato entre o credor e terceiro, independentemente do consentimento do devedor.

Para que ocorra uma situação de cessão de créditos é necessária a reunião dos seguintes requisitos cumulativos: (1) negócio jurídico a estabelecer a transmissão da totalidade ou de parte do crédito; (2) inexistência de impedimentos legais ou contratuais a essa transmissão; (3) não ligação do crédito em virtude da própria natureza da prestação à pessoa do devedor.

No ordenamento jurídico português, o cumprimento efectuado ao credor aparente não se considera eficaz, salvo em certos casos excepcionais em que por atenção à boa fé do devedor a lei reconhece como tal. Uma primeira situação consiste na prestação efectuada pelo devedor ao cedente, antes de aquele ter conhecimento da cessão (art. 583º/1 e 2); uma segunda situação consiste na realização da prestação ao antigo credor, por erro, depois de o fiador haver cumprido a obrigação mas não ter avisado o devedor (art. 645º/1). Nos restantes casos, a prestação efectuada a terceiro (leia-se credor aparente) não goza de eficácia liberatória, sendo que o devedor pode repetir a prestação (art. 476º/2), ou seja terá de efectuar uma nova prestação perante o credor.

Em suma, uma vez que não existe uma cessão de créditos e não se enquadrando a hipótese em nenhuma das excepções referidas, os pagamentos realizados por Bernardo a Carlos não se consideram válidos pelo que poderá ter de efectuar uma nova prestação face a António.

pelo que poderá ter de efectuar uma nova prestação face a António. Maria Luísa Lobo –
pelo que poderá ter de efectuar uma nova prestação face a António. Maria Luísa Lobo –

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4) Admita, ainda, que a dívida referenciada no segundo parágrafo do texto se vencia em 30 de Outubro de 2005, e que nessa mesma data António (que deveria proceder ao pagamento do remanescente do preço) pede a dita soma emprestada a Bernardo, que aceita tal pedido, tendo ambos declarado que consideravam extinta a dívida primitiva e que António passaria a dever

a mesma quantia, não já na qualidade de comprador, mas na de mutuário. Suponha, também, que as partes acordaram que a soma mutuada deveria

ser restituída, de uma só vez, a 31 de Novembro de 2005, tendo António falhado esse prazo. Face a esta situação, Bernardo reage intentando uma acção com vista a promover a execução judicial da hipoteca, ao que Daniel responde alegando, em síntese, que se extinguiu, em 30 de Outubro de 2005,

a obrigação que garantira com a hipoteca do seu imóvel. Quem tem razão? (extraído do exame final de CNCO de 30 de Janeiro de 2006)

Na presente hipótese coloca-se a questão de saber se ocorreu uma novação ou uma modificação da causa.

A novação, sendo uma forma de extinção das obrigações, consiste na convenção pela qual as partes extinguem uma obrigação mediante a criação de uma nova obrigação.

A novação pode ser subjectiva (art. 858º), envolvendo a vinculação do devedor perante um novo credor ou traduzindo-se na substituição do obrigado exonerado pelo credor por um novo devedor extinguindo a obrigação anterior, ou pode ser objectiva (art. 857º), podendo existir uma substituição do objecto como uma simples mudança da causa ou da fonte da mesma prestação, ocorrendo sempre que a nova obrigação se constitui entre o mesmo credor e o devedor da obrigação antiga.

No presente caso a fim de descobrir se estamos perante uma novação objectiva teremos de interpretar a vontade das partes declarada, sendo necessária a existência de uma declaração expressa com a intenção de constituir uma nova obrigação que vá extinguir a antiga, não existindo relevância jurídica da declaração tácita. A referida necessidade da existência de declaração expressa encontra-se consagrada no art. 859º, sendo que a

de declaração expressa encontra-se consagrada no art. 859º, sendo que a Maria Luísa Lobo – 2011/2012
de declaração expressa encontra-se consagrada no art. 859º, sendo que a Maria Luísa Lobo – 2011/2012

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declaração expressa aqui referida deve ser interpretada como a declaração que visa extinguir a obrigação primitiva e não como a declaração relativa à contracção de nova obrigação. Deste modo terá sempre de existir a intenção das partes em extinguir a obrigação anterior criando uma nova em sua substituição.

No presente caso diz-se ‘’expressamente’’ que ambas as partes declaram extinta a obrigação anterior, pelo que estaremos perante uma novação objectiva.

Deste modo, da existência da novação objectiva resulta a consequência de eliminação das garantias e acessórios pelo que Daniel teria razão.

Caso estivéssemos perante uma modificação do conteúdo da obrigação as garantias mantinham-se.

Para finalizar cabe referir que o Prof. Vaz Serra defendia que, uma vez que é de imensa dificuldade interpretar a vontade das partes, seria lícito presumir que existia a intenção de novar quando a relação obrigação se apresentasse economicamente diferente como uma relação por completo diferente da que existia.

V

Em 10 de Janeiro de 2006, António celebrou com Bento um contrato de compra

e venda de um iate pertencente a este último, sujeito às condições seguintes:

(i)

O preço era de 200.000 €, a pagar em 10 prestações mensais e iguais, vencendo-se a primeira no dia 1 de Fevereiro de 2006, contra a entrega do iate, e as seguintes no primeiro dia de cada um dos meses subsequentes;

(ii)

Para assegurar o cumprimento, António constituiu uma hipoteca a favor de Bento, sobre uma vivenda que possuía no Algarve e que estava avaliada em 250.000 €.

uma vivenda que possuía no Algarve e que estava avaliada em 250.000 €. Maria Luísa Lobo
uma vivenda que possuía no Algarve e que estava avaliada em 250.000 €. Maria Luísa Lobo

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Pergunta-se:

1) Se as partes nada tiverem estipulado a esse respeito, onde deverá ser entregue o iate? E onde devem ser pagas as prestações do preço?

Conforme resulta do art. 772º/1, e em obediência ao Princípio da Pontualidade, a determinação do lugar do cumprimento cabe em princípio as partes, resultando assim de convenção entre elas, a qual pode ser inclusivamente tácita (art. 217º), derivando da própria natureza das prestações.

Não havendo convenção das partes a estabelecer o lugar do cumprimento a regra geral é que ele deve ser realizado no domicílio do devedor, na medida em que se está perante uma obrigação de colocação (art. 772º/1), sendo esta todavia uma regra meramente supletiva.

Se a obrigação tiver por objecto a entrega de uma coisa móvel (iate), nos termos do art. 773º a regra é a de que a obrigação deve ser cumprida no lugar onde a coisa se encontrava ao tempo da conclusão do negócio.

Se a obrigação tiver por objecto certa quantia em dinheiro (preço do iate), nos termos do art. 774º a regra é a de que a obrigação deve ser cumprida no domicílio que o credor tiver ao tempo do cumprimento. Estando face a uma obrigação de entrega, tal deriva da facilidade que actualmente o devedor possui de proceder à transferência de quantias em dinheiro e de a solução oposta poder ser particularmente onerosa para o credor que seria obrigado a ir buscar o dinheiro ao domicílio do devedor.

Porém estas regras cedem em certos casos particulares, como por exemplo o previsto no art. 885º que estabelece que o lugar do cumprimento da obrigação de pagar o preço da venda é o mesmo da obrigação de entrega da coisa vendida, só se aplicando a regra geral do art. 774º se o prazo do cumprimento das duas obrigações não for coincidente.

774º se o prazo do cumprimento das duas obrigações não for coincidente. Maria Luísa Lobo –
774º se o prazo do cumprimento das duas obrigações não for coincidente. Maria Luísa Lobo –

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Para se invocar a excepção de não cumprimento constante no art. 885º, a obrigação de pagar o preço no momento e no lugar da entrega da coisa constitui um nítido afloramento do caracter sinalagmático do contrato no momento da execução da venda sinalagma funcional podendo o devedor recusar a entrega da coisa enquanto o preço não lhe for pago.

Nos termos do art. 885º/2 e do art. 774º, a 2º prestação devera ser realizada no domicílio que o credor tiver ao tempo do cumprimento, na medida em que a cláusula de pagamento em momento diferente da entrega funciona em regra no interesse do comprador sendo justo por isso o benefício que em contrapartida se estabelece a favor do vendedor.

2)

Caso Bento fosse menor e o contrato tivesse sido celebrado pelo seu representante legal, seria válida a entrega do barco feita por Bento, na data aprazada?

Nos termos do art. 764º/1, a lei ao exigir a capacidade do devedor para cumprir a obrigação, supõe que a prestação tenha por conteúdo um acto de disposição. Entende-se por acto de disposição aquele que incidindo directamente sobre um direito existente, se destina a transmiti-lo, revoga-lo ou alterar de qualquer modo o seu conteúdo. Tratando- se de um mero facto material, como a prestação de um serviço ou na omissão não é exigível a capacidade do adimplens.

Tendo sido validamente celebrado o negócio jurídico, a prestação poderá normalmente ser realizada pelo devedor incapaz, na medida em que se está perante um acto material uma vez que a transferência da propriedade ocorreu no momento da celebração do contrato por força do art. 408º/1.

Em suma, uma vez que estamos face a um acto material não existe qualquer problema de a entrega do iate ser realizada pelo menor em cumprimento de uma obrigação emergente de um contrato de compra e venda.

cumprimento de uma obrigação emergente de um contrato de compra e venda. Maria Luísa Lobo –
cumprimento de uma obrigação emergente de um contrato de compra e venda. Maria Luísa Lobo –

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3) Se, após terem sido pagas as duas primeiras prestações do preço, António causar inadvertidamente um incêndio na vivenda que hipotecou, provocando uma diminuição do seu valor em 30.000 € poderá Bento fazer alguma coisa? E se o incêndio tiver sido intencionalmente causado por Cardoso, conhecido piromaníaco que fugira do hospital psiquiátrico onde se encontrava internado?

O art. 779º estipula que o prazo se tem por estabelecido a favor do devedor quando não se mostre que foi a favor do credor, ou de um e outro conjuntamente. Uma vez que nada nos é dito na hipótese presume-se que o prazo foi estabelecido a favor do devedor, ou seja enquanto o prazo não findar a dívida é pagável mas não é exigível pelo credor. O fundamento subjacente ao regime da referida norma assenta na ideia de confiança do credor no devedor, sendo que tal desaparece a partir do momento em que o devedor pratica um acto que diminui as garantias desaparecendo a confiança que o credor depositou no devedor, ainda que as garantias diminuídas continuem ainda a ser suficientes.

Existem contudo situações que determinam o vencimento imediato da obrigação, por caducidade do prazo estabelecido, apesar de a obrigação ser a prazo e de este ser estabelecido em benefício exclusivo ou conjunto do devedor. Nestes casos, o credor pode exigir o pagamento antes do fim do prazo existindo uma antecipação da exigibilidade nos termos do art. 780º.

Uma das situações que importa a perda do benefício do prazo nos termos do art. 780º é a da diminuição das garantias do crédito por causa imputável ao devedor, ainda que a garantia não se tenha tornado insuficiente.

Deste modo, de acordo com a antecipação da exigibilidade, Bento poderá pedir as restantes prestações, sendo que se estas não forem pagas existirão juros de mora.

Nos termos do art. 780º/2, Bento poderá, em lugar do cumprimento imediato da obrigação, pedir a substituição ou o reforço das garantias na medida em que estas

pedir a substituição ou o reforço das garantias na medida em que estas Maria Luísa Lobo
pedir a substituição ou o reforço das garantias na medida em que estas Maria Luísa Lobo

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sofreram uma diminuição. Esta norma refere-se a uma situação de diminuição da garantia prestada, não se exigindo a insuficiência desta. Caso a diminuição das garantias ocorra devido a Carlos, piromaníaco que havia fugido do hospital psiquiátrico onde se encontrava internado, não ocorria a perda do benefício do prazo por parte de António na medida em que este não praticou nenhum acto que importe a mesma, não de podendo deste modo aplicar o regime do art. 780º.

O art. 701º estabelece um regime especial de perda do benefício do prazo, exigindo que

a diminuição das garantias deva ser de tal forma grave que ameace o cumprimento da

obrigação, e se tal efectivamente acontecer o credor poderá exigir o reforço das garantias (ao contrário do que sucede no art. 780º em que para além do reforço das garantias é possível exigir o cumprimento imediato da obrigação).

No presente caso, não seria possível aplicar o art. 701º na medida em que a diminuição

das garantias foi no montante de 3mil€, não se tornando estas insuficientes. Por sua vez,

o art. 692º só se aplica aos casos em que a coisa hipotecada seja destruída, havendo uma

diminuição do seu valor e o proprietário tenha sido indemnizado. Nestes casos, o credor continua a ter preferência sobre todos os credores.

Nos termos do art. 489º e 491º que consagram o regime da responsabilidade civil por

factos ilícitos, o princípio geral é o de que existe obrigação de indemnizar no caso de os incapazes causarem prejuízos a terceiros. Neste caso, quem iria suportar os danos seria

o Hospital, presumindo-se que incumpriu o seu dever de vigilância, a menos que nos termos do art. 489º por algum motivo o Hospital não garantisse o pagamento da obrigação, sendo o incapaz a suportar o valor da indemnização.

Deste modo abrangendo o direito do credor hipotecário a indemnização devida por terceiro (a qual ocupa a sub-rogação o lugar da coisa hipoteca) deve entender-se que ao credor é legítimo agir directamente contra o devedor da indemnização. O credor ira manter a garantia e não há perda do benefício do prazo há a manutenção da garantia através de sub-rogação legal.

prazo – há a manutenção da garantia através de sub-rogação legal. Maria Luísa Lobo – 2011/2012
prazo – há a manutenção da garantia através de sub-rogação legal. Maria Luísa Lobo – 2011/2012

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4) Imagine agora que Bento reservou a propriedade do iate até ao pagamento integral do preço e que, após ter liquidado as primeiras oito prestações, António falha o pagamento da nona (vencida em 1 de Outubro de 2006). Em consequência disso, Bento enviou a António uma carta a resolver o contrato, exigindo a imediata restituição do iate. Quid iuris?

A nossa lei estabelece um regime segundo o qual a transferência da propriedade se dá no momento da celebração do contrato nos termos do art. 408º/1. Deste modo, os contratos que implicam a constituição ou a transmissão de direitos reais sobre certas e determinadas produzem em regra por si mesmo essa consequência, sem necessidade de qualquer acto posterior.

Todavia a nossa lei não consagra em termos absolutos o Princípio da Transferência de domínio por força do contrato, estabelecendo-o como simples regra supletiva e desde logo estabelece o nº2 do mesmo artigo algumas excepções a este regime. É ainda lícito às partes afastar este regime supletivo através de uma cláusula de reserva de propriedade prevista no art. 409º. Esta cláusula permite que os interessados estipulem que a transferência da propriedade se opera apenas com o cumprimento total ou parcial das obrigações do adquirente, com a entrega efectiva da coisa ou com a verificação de qualquer outro evento. Tal cláusula visa salvaguardar o direito de propriedade, tendo função de garantia.

No presente caso, estamos face a uma compra e venda a prestação de um bem móvel não sujeito a registo, compra e venda esta que foi registada com uma cláusula de reserva de propriedade pelo que à partida se o comprador não pagar o preço o vendedor pode resolver o contrato, caso haja incumprimento definitivo nos termos do art. 801º. Para além deste direito o credor tem ainda direito a exigir judicialmente o pagamento do preço nos termos do art. 817º, os juros de mora nos termos do art. 804º e 806º e a exigir automaticamente o pagamento antecipado das restantes prestações nos termos do art. 781º. Contudo, é necessário chamar à colação um outro artigo que se relaciona com o

é necessário chamar à colação um outro artigo que se relaciona com o Maria Luísa Lobo
é necessário chamar à colação um outro artigo que se relaciona com o Maria Luísa Lobo

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art. 408º/1 e o art. 801º/1: o art. 886º. Este artigo apresenta-se como norma excepcional ao regime do art. 408º/1 uma vez que havendo transferência da propriedade e a entrega da coisa, o credor perde o direito à resolução, pelo que o vendedor não poderia resolver este contrato. Porém temos de ter em conta que existe uma cláusula de reserva de propriedade, pelo que embora tenha havido entrega da coisa não houve transmissão da propriedade e sendo estes dois requisitos cumulativos, não se verificando um deles, não impede portanto a resolução do contrato. Assim ao se aplicar o art. 409º aplica-se o art. 801º e não o art. 886º.

Todavia, uma vez que estamos face a uma compra e venda a prestações é necessário considerar o art. 934º que estabelece que não pode ocorrer a resolução do contrato quando: (1) venda a prestações; (2) com reserva de propriedade; (3) feita a entrega ao comprador; (4) falte ao pagamento de uma só prestações; (5) prestação essa que não exceda a oitava parte do preço.

Ora no caso em apreço estão preenchidos todos os requisitos cumulativos pelo que o vendedor se vê assim impedido de resolver o contrato, podendo apenas: (1) exigir judicialmente o pagamento do preço da prestação em falta nos termos do art. 817º; (2) exigir os juros de mora nos termos do art. 804º e 806º; (3) poderia exigir o pagamento antecipado das restantes prestações como prevê o art. 781º, porem o art. 934º impede este artigo de funcionar uma vez que não importa a perda do benefício do prazo.

5)

Dada a recusa de Bento em receber as prestações de Outubro e Novembro, António depositou-as num banco, em conta à ordem daquele. Terá ficado liberado da dívida?

(extraído do exame final de Direito das Obrigações de 29 de Junho de 2000)

Nos termos do art. 841º/1, a consignação em depósito, sendo uma causa de extinção das obrigações, consiste na possibilidade reconhecida ao devedor nas obrigações de prestação de coisa de extinguir a obrigação através do depósito judicial de coisa devida (é um processo judicial), sempre que não possa realizar a prestação com segurança por

judicial), sempre que não possa realizar a prestação com segurança por Maria Luísa Lobo – 2011/2012
judicial), sempre que não possa realizar a prestação com segurança por Maria Luísa Lobo – 2011/2012

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qualquer motivo relacionado com a pessoa do credor ou quando o credor se encontra em mora (art. 813º).

A lei não considera justo que nestes casos o devedor fique indefinidamente vinculado ao cumprimento, apenas em virtude de o credor não prestar a colaboração necessária para esse cumprimento, pelo que confere ao devedor um meio de produzir a extinção da obrigação sem colaboração com o credor.

Nos termos do art. 841º/2 Trata-se de uma faculdade do devedor que o devedor não é obrigado de exercer pelo que é lícita a actuação do devedor não realizar a prestação nas hipóteses referidas no art. 841º.

Na presente hipótese teremos de apurar se existe efectivamente consignação em depósito e isso depende da verificação dos pressupostos a que esta se encontra adstrita:

(1) terá de existir mora do credor nos termos do art. 813º o que efectivamente se encontra verificado; (2) sendo a consignação um processo judicial este tem de ser feito nos precisos termos correntes da lei; (3) a consignação tem de ser realizada na Caixa Geral de Depósitos, na medida em que esta é o Banco do Estado.

No presente caso o devedor entregou as prestações em causa a ‘’um banco’’ pelo que se coloca a questão de saber se ficou ou não liberado. Para ter ficado liberado tal depende da aceitação ou não da consignação pelo credor, não obstante todas as consequências jurídicas que ocorrem da mora do credor (o risco corre por conta do credor). Além de tal, o banco referido na hipótese teria de ser a Caixa Geral de Depósitos pela razão já referida anteriormente.

VI

Amílcar deve a Benedita 1.000 €, vencendo-se a obrigação de pagamento em 31 de Outubro de 2002. Considere as seguintes hipóteses:

de pagamento em 31 de Outubro de 2002. Considere as seguintes hipóteses: Maria Luísa Lobo –
de pagamento em 31 de Outubro de 2002. Considere as seguintes hipóteses: Maria Luísa Lobo –

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1) Em Junho de 2002, Amílcar apresenta-se junto de Benedita propondo-lhe a cessão de um crédito que tem sobre Cardoso, com vista à total extinção do seu débito. Benedita aceita o negócio proposto. Poucos dias depois, Benedita informa Amílcar de que a sua dívida para consigo se mantém, uma vez que, ao tentar cobrar o crédito a Cardoso, este invocara, justificadamente, a prescrição. Amílcar sustenta, porém, que nada deve a Benedita. Quid iuris?

Nos termos do art. 577º, a cessão de créditos consiste numa forma de transmissão de crédito que opera por virtude de um negócio jurídico, normalmente um contrato entre o credor e terceiro, independentemente do consentimento do devedor.

Para que ocorra uma situação de cessão de créditos é necessária a reunião dos seguintes requisitos cumulativos: (1) negócio jurídico a estabelecer a transmissão da totalidade ou de parte do crédito; (2) inexistência de impedimentos legais ou contratuais a essa transmissão; (3) não ligação do crédito em virtude da própria natureza da prestação à pessoa do devedor.

Na presente hipótese será necessário interpretar a vontade das partes para saber se estamos perante uma dação em cumprimento ou uma dação em função do cumprimento.

O art. 840º/2 estabelece a presunção que quando existe uma cessão de créditos esta é

feita com o intuito de facilitar o seu cumprimento, pelo que a exoneração do cedente só

se verifica quando o cessionário obtenha a cobrança do crédito devido, ou seja existe a

presunção de que quando estamos perante um caso de cessão de créditos esta é realizada

pró solvendo. Contudo, esta presunção pode ser ilidida nos termos do art. 350º/2, podendo ser demonstrado que as partes quiserem com a cessão de créditos extinguir imediatamente a obrigação, pelo que nesse caso estaríamos perante uma dação em cumprimento nos termos do art. 837º.

O crédito a que o cessionário fica investido é o mesmo que pertencia ao cedente, pelo

que as vicissitudes da relação creditória, que podem enfraquecer ou destruir o crédito (as excepções oponíveis ao cedente) são transmitidas ao cessionário. Não pode em

oponíveis ao cedente) são transmitidas ao cessionário. Não pode em Maria Luísa Lobo – 2011/2012 Página
oponíveis ao cedente) são transmitidas ao cessionário. Não pode em Maria Luísa Lobo – 2011/2012 Página

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princípio o devedor ser colocado perante o cessionário numa situação inferior àquela em que se encontrava diante o cedente.

Nos termos do art. 837º, a Dação em Cumprimento, sendo uma forma de extinção da obrigação, consiste na realização de uma prestação diferente da que é devida, com o fim de mediante acordo do credor extinguir imediatamente a obrigação. É necessário um acordo das partes uma vez envolvendo a realização de uma prestação diferente da devida, ela só extinguirá o crédito se o credor der o seu assentimento (no momento em que a dação se realiza).

Por sua vez, a dação em função do cumprimento, tal como a dação em cumprimento, também necessita do assentimento do credor, mas difere-se da referida na medida em que não consiste num meio de extinguir a obrigação, mas sim de facilitar a sua extinção, sendo que a dívida se mantém ate o credor conseguir com o bem extinguir a obrigação.

Como no caso não nos são fornecidos elementos para podermos interpretar a vontade das partes é necessário abrir as duas hipóteses.

No caso de estarmos perante uma dação pro solvendo, na medida em que se presume que a cessão de créditos é feita pro solvendo (art. 840º/2), como a obrigação não foi extinta, pelo art. 585º e art. 578º Cardoso pode opor a Benedita o meio de defesa da prescrição pelo que a obrigação não é cumprida, mantendo-se válida a obrigação primitiva: Amílcar não extinguiu a sua dívida para com Benedita, continuando a dever- lhe 1 000€.

No caso de estarmos perante uma dação em cumprimento, admitindo que se fez prova em contrário da presunção do art. 840º/2, com a cessão de créditos extinguiu-se por completo a obrigação. Neste caso é necessário ainda referir que o art. 587º estabelece que quem cede o crédito tem de garantir a existência e a exigibilidade (qualidade do crédito que pode ser exigido judicialmente) deste: estando o crédito prescrito este não é exigível.

judicialmente) deste: estando o crédito prescrito este não é exigível. Maria Luísa Lobo – 2011/2012 Página
judicialmente) deste: estando o crédito prescrito este não é exigível. Maria Luísa Lobo – 2011/2012 Página

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Deste modo, o credor (Amílcar) violou esta obrigação nos termos do art. 587º. Na medida em que a cessão de créditos aqui presente é onerosa aplicam-se as regras relativas ao contrato de compra e venda, pelo que nos termos do art. 838º o credor tem de possuir a garantia da coisa ou do direito transmitido, sendo que neste caso de acordo com o regime do contrato de compra e venda tem o direito a ser indemnizado dos prejuízos resultantes da dação em cumprimento irregular, podendo optar pela prestação primitiva e reparação dos danos sofridos (1 000€ acrescidos dos juros e mora).

2)

Imagine que o crédito não tinha prescrito, mas que Cardoso era pai de Benedita. Se Cardoso morrer, pode Amílcar considerar que a sua dívida para com Benedita se extinguiu nesse momento?

O caso sub Júdice remete-nos para a matéria da cessão de créditos e da confusão.

Como já foi demonstrado na hipótese anterior, quando estamos perante uma cessão de créditos esta pode ser uma dação em cumprimento ou uma dação em função do cumprimento, resultante esta da presunção que consta do art. 840º/2. Contudo, o presente caso levanta também a possibilidade de podermos estar perante a confusão.

A confusão (art. 863º) consiste na extinção simultânea do crédito e da dívida em

consequência da reunião, na mesma pessoa, das qualidades de credor e devedor. Para podermos estar perante este instituto é necessário que se encontrem observados alguns requisitos: (1) reunião na mesma pessoa das qualidades de credor e devedor, o que efectivamente sucede; (2) inexistência de prejuízo para os direitos de terceiro (art. 871º/1): a confusão justifica-se por não existir necessidade jurídica de manter a obrigação, como instrumento de colaboração inter-subjectiva, a partir do momento em que se verifica a reunião das posições do credor e do devedor na mesma pessoa; (3) não pertença do credito e da divida a patrimónios separados: no caso de o credito e a divida pertencerem a patrimónios separados determina o art. 872º a não verificação da confusão. A consequência que decorre deste último requisito assenta na impossibilidade de verificação da confusão uma vez que esta a ocorrer poria em causa essa mesma separação ao fazer desaparecer os valores activos de um património em benefício da extinção de responsabilidade de outro património. Se a confusão se verificar em consequência

de outro património. Se a confusão se verificar em consequência Maria Luísa Lobo – 2011/2012 Página
de outro património. Se a confusão se verificar em consequência Maria Luísa Lobo – 2011/2012 Página

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de o devedor adquirir o credito por herança, continua ele a responder pela sua obrigação até à liquidação e partilha (art. 2074º/1 + 2070 pelo menos durante 5anos-mesmo que uma pessoa seja o único herdeiro para assegurar a realização das preferências findo os 5anos pode acontecer que ainda seja a herança não tiver sido partilhada), altura em que se extingue a separação de patrimónios (ate à liquidação integral herança jacente pressupõe que existem vários herdeiros). Ora, no presente caso, este último requisito (não pertença do crédito e da dívida a patrimónios separados) não se encontra verificado uma vez que a herança é um património autónomo que não se confunde com o património pessoal do herdeiro. Poderíamos ainda levar a questão da herança deficitária: só se pode dizer que uma determinada dívida se extingue quando se entende que Benedita (credor e devedor simultâneo) tem interesse em considerar a sua dívida paga através da cessão de créditos. Sendo a herança deficitária Benedita como herdeira do seu pai iria pagar alguma coisa e assim sendo em rigor o credito dele não iria ser pago. Deste modo a divida Amílcar e Benedita não se extingue, na medida em que o devedor nunca iria pagar nada a Amílcar (herança enquanto património autónomo só responde pelas suas dividas e só ele responde por elas) logo ela tem todo o interesse em cobrar o que Amílcar deve a Benedita. Uma vez que com a confusão a dívida não se extingue, pode acontecer conjugar-se as regras da confusão com a da dação pro solvendo (presunção do art. 840º/2 no âmbito da cessão de créditos). Em suma, não existindo confusão, a dívida de Amílcar par com Benedita mantém- se; se pelo contrario se tivesse existido confusão, e sendo o activo superior ao passivo na herança de Cardoso a dívida de Amílcar para com Benedita seria extinta: Benedita teria interesse em tal uma vez que não teria de pagar o que devia enquanto herdeira de Cardoso. Havendo confusão e sendo a herança deficitária a dívida de Amílcar para com Benedita não se extinguiria, e Benedita, enquanto herdeira de Cardoso, não teria de pagar nada a Amílcar, tendo interesse em cobrar dinheiro a este.

3) Suponha, agora, que em Novembro de 2002, Benedita escreve a Amílcar lembrando-o de que a obrigação de pagamento (dos 1.000 €) se vencera em 31 de Outubro de 2002, e que, nessa medida, iria avançar com uma acção em tribunal a reclamar o pagamento da dita quantia, acrescida dos

acção em tribunal a reclamar o pagamento da dita quantia, acrescida dos Maria Luísa Lobo –
acção em tribunal a reclamar o pagamento da dita quantia, acrescida dos Maria Luísa Lobo –

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respectivos juros de mora. Em resposta, Amílcar alega ser credor de Benedita em 2.000 € e respectivos juros, contados desde Outubro de 2001, mês em que sofrera prejuízos no seu bom nome e honra, em resultado de uma notícia, falsa, posta a circular por Benedita no jornal “24 Horas” nos termos da qual se dizia que “A era arguido num processo criminal por suspeitas de burlas telefónicas cometidas no verão de 2000”. Quid iuris?

Nos termos do art. 847º a compensação consiste numa forma de extinção da obrigação que permite que quando duas pessoas estejam reciprocamente obrigadas a entregar coisas fungíveis da mesma natureza é admissível que as respectivas obrigações sejam extintas, total ou parcialmente, pela dispensa de ambas de realizar as suas prestações ou pela dedução a uma das prestações da prestação devida pela outra parte. A compensação apresenta como vantagens o facto de produzir a extinção das obrigações dispensando a efectiva realização das prestações facilitação de pagamentos; e de permitir ao declarante extinguir a sua obrigação, mesmo que não tenha qualquer possibilidade de receber o seu próprio credito por insolvência do seu devedor garantia (atípica) dos créditos. A compensação pode revestir um de duas modalidades: ou ser legal (requisitos positivos do art. 847º e requisitos negativos do art. 853º), ou ser convencional (segundo o Prof. Antunes Varela a lei prescinde dos requisitos do art. 847º, mas as partes não podem derrogar a aplicação dos requisitos do art. 853º). No presente caso, parece claro que estamos perante um caso de compensação legal, pelo que desta forma teremos de analisar se os requisitos positivos (art. 847º) e os requisitos negativos (art. 853º) se encontram preenchidos. Verifiquemos primeiro os requisitos positivos. O primeiro requisito positivo assenta na Reciprocidade de créditos: é essencial que o devedor, seja por outro lado credor do seu credor, sendo que o credito com o qual o declarante extingue a sua dívida se chama crédito activo (aquele que é invocado depois para contrapor/extinguir o crédito que é pedido, ou seja é o credito de quem invoca a compensação). O crédito passivo representa aquele contra o qual a compensação opera. Parece claro que este primeiro requisito se encontra verificado. O segundo requisito positivo assenta na Validade, Exigibilidade e Exequibilidade do contracrédito (do compensante), do crédito activo: é necessário que o crédito do compensante seja judicialmente exigível e que o devedor não lhe possa opor qualquer excepção, peremptória ou dilatória, de direito material (art. 847º/1 al. a)). Só podem assim ser

dilatória, de direito material (art. 847º/1 al. a)). Só podem assim ser Maria Luísa Lobo –
dilatória, de direito material (art. 847º/1 al. a)). Só podem assim ser Maria Luísa Lobo –

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compensados os créditos em relação aos quais o declarante esteja em condições de obter a realização coactiva da prestação. Deste modo não podem ser compensados créditos de

obrigações naturais com dívidas respeitantes a uma obrigação civil. E também não pode ser efectuada a compensação se o crédito ainda não estiver vencido (art. 849º) ou a outra parte puder recusar o cumprimento (invocação da excepção de não cumprimento (art. 428º), da prescrição (art. 300º), nulidade e anulabilidade -em relação a esta ultima exige-se que ela tenha ocorrido antes do momento em que se verificou a compensabilidade dos créditos (art. 850º)). Em suma, o crédito activo não pode ser um credito não vencido ou natural. Este segundo requisito também se encontra verificado.

O terceiro requisito assenta na fungibilidade do objecto das obrigações: cabendo a uma

das partes determinar o objecto da prestação só se poderá recorrer à compensação se a escolha implicar prestações de coisas fungíveis homogéneas para ambos os créditos. O requisito da homogeneidade é corolário do principio de que ninguém pode receber uma coisa diversa da devida. Contudo já não é necessário que a quantidade das coisas objecto da prestação seja idêntica. O facto de as dividas não serem de igual montante determina apenas que a compensação seja parcial em relação à divida de montante superior (847/2). Por outro lado, o facto de ainda não estar determinada a quantidade devida não impede que se opere imediatamente a compensação (art. 847/2) averiguando-se posteriormente o montante em que ela ocorreu. Este requisito também parece verificado. Por fim, o último requisito positivo assenta na existência e validade

do crédito principal/passivo: o declaratário tem que ser titular de um crédito valido, sem

o que o compensante nunca poderia operar, já que o declarante nem sequer seria

devedor. Esse crédito do declaratário tem que estar na situação de poder ser cumprido pelo devedor. Não pode assim o declarante pretender compensar uma divida sua ainda não vencida, se o prazo tiver sido estabelecido em beneficio do credor. Já não constitui condição para a compensação operar que o declaratário esteja em condições de poder exigir judicialmente o cumprimento, pelo que nada impede o declarante de compensar dividas ainda não vencidas se o prazo correr em seu beneficio. Pode igualmente o declarante utilizar a compensação para extinguir dividas naturais suas com créditos civis que tenha sobre o declaratário uma vez que em relação a elas se verifica a possibilidade de cumprimento, ao qual a lei atribui causa jurídica quando espontaneamente realizado (art. 817º). Mais uma vez, o requisito também se encontra verificado. Uma vez verificados todos os requisitos positivos, será necessário atender às especificações do

os requisitos positivos, será necessário atender às especificações do Maria Luísa Lobo – 2011/2012 Página 28
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art. 583º (requisitos negativos). O art. 583º/1 al. a) considera como causa de exclusão da compensação os créditos provenientes de factos ilícitos culposos. Resulta da lei reprimir este tipo de comportamentos e retirar os benefícios que dele poderiam resultar. Contudo,

o Prof. Antunes Varela interpreta esta norma num sentido diferente em que nada

impede que lesado venha invocar a compensação para extinguir a sua dívida, sendo que quem não pode invocar a compensação neste caso seria o devedor da obrigação de indemnizar pela pratica de factos ilícitos dolosos. A compensação também não poderia operar se ambos os créditos respeitassem a factos ilícitos culposos. Tal deriva do facto de a compensação visar simplificar os pagamentos e de ser garante da obrigação de forma atípica (não se encontra prevista no art. 604º).

4) Suponha, ainda, que a obrigação de Amílcar para com Benedita resultava de um contrato de compra e venda de um computador portátil e estava garantida com um penhor de uma jóia pertencente a Cardoso. Suponha, ainda, que em 31 de Outubro de 2002, data em que Amílcar deveria proceder ao pagamento do preço, este “pediu a dita soma emprestada a Benedita, que aceitou, passando, assim, aquele a detê-la a título de mutuário”, tendo ficado acordado entre as partes que a referida soma deveria ser entregue, o mais tardar, até ao dia 31 de Outubro de 2003. Nessa mesma data, Amílcar falha o pagamento, tendo, nessa medida, Benedita interpelado Cardoso, na sua qualidade de garante, para o fazer. Cardoso, contudo, recusa-se a fazê-lo, alegando, em síntese, que “a dívida garantida se extinguira com o novo acordo celebrado em 31 de Outubro de 2002” e que “ainda que assim não se entendesse, nada devia a Benedita, pois esta estava, por sua vez, obrigada a devolver-lhe 1.500 € na semana seguinte, em virtude de um contrato de mútuo celebrado entre ambos”. Quid iuris?

No caso sub Júdice, na sua primeira parte, estamos perante a questão de saber se ocorreu uma novação (objectiva) ou se ocorreu uma modificação da causa

A novação (forma de extinção das obrigações) consiste na convenção pela qual as parte

extinguem uma obrigação mediante a criação de uma nova obrigação.

A novação pode ser subjectiva (art. 858º), envolvendo a vinculação do devedor perante

um novo credor ou traduzindo-se na substituição do obrigado exonerado pelo credor por

ou traduzindo-se na substituição do obrigado exonerado pelo credor por Maria Luísa Lobo – 2011/2012 Página
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um novo devedor extinguindo a obrigação anterior, ou pode ser objectiva (art. 857º), podendo existir uma substituição do objecto como uma simples mudança da causa ou da fonte da mesma prestação, ocorrendo sempre que a nova obrigação se constitui entre o mesmo credor e o devedor da obrigação antiga. No presente caso afim de descobrir se estamos perante uma novação objectiva teremos de interpretar a vontade das partes declarada, sendo necessária a existência de uma declaração expressa com a intenção de constituir uma nova obrigação que vá extinguir a antiga, não existindo relevância jurídica da declaração tácita. A referida necessidade da existência de declaração expressa encontra-se consagrada no art. 859º, sendo que a declaração expressa aqui referida deve ser interpretada como a declaração que visa extinguir a obrigação primitiva e não como a declaração relativa à contracção de nova obrigação. Deste modo terá sempre de existir a intenção das partes em extinguir a obrigação anterior criando uma nova em sua substituição. Ora o presente caso parece sugerir que estamos perante uma modificação da causa da obrigação, pelo que não houve constituição de uma nova obrigação e não se extingui a antiga pelo que as garantias permanecem.

O Prof. Vaz Serra defendia que, uma vez que é de imensa dificuldade interpretar a

vontade das partes, seria lícito presumir que existia a intenção de novar quando a

relação obrigação se apresentasse economicamente diferente como uma relação por completo diferente da que existia. No caso sub Júdice, a segunda parte deste, remete-nos para a questão de apurar se estamos perante uma compensação.

A compensação (art. 847º) consiste numa forma de extinção da obrigação que

permite que quando duas pessoas estejam reciprocamente obrigadas a entregar coisas fungíveis da mesma natureza é admissível que as respectivas obrigações sejam extintas, total ou parcialmente, pela dispensa de ambas de realizar as suas prestações ou pela dedução a uma das prestações da prestação devida pela outra parte. A compensação apresenta como vantagens o facto de produzir a extinção das obrigações dispensando a efectiva realização das prestações facilitação de pagamentos; e de permitir ao declarante extinguir a sua obrigação, mesmo que não tenha qualquer possibilidade de receber o seu próprio credito por insolvência do seu devedor garantia (atípica) dos créditos. A compensação pode revestir um de duas modalidades: ou ser legal (requisitos positivos do art. 847º e requisitos

modalidades: ou ser legal (requisitos positivos do art. 847º e requisitos Maria Luísa Lobo – 2011/2012
modalidades: ou ser legal (requisitos positivos do art. 847º e requisitos Maria Luísa Lobo – 2011/2012

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negativos do art. 853º), ou ser convencional (segundo o Prof. Antunes Varela a lei prescinde dos requisitos do art. 847º, mas as partes não podem derrogar a aplicação dos requisitos do art. 853º). No presente caso, parece claro que estamos perante um caso de compensação legal, pelo que desta forma teremos de analisar se os requisitos positivos (art. 847º) e os requisitos negativos (art. 853º) se encontram preenchidos. Verifiquemos primeiro os requisitos positivos, sendo eles:

(1) reciprocidade de créditos; (2) validade, exigibilidade e exequibilidade do contracrédito; (3) fungibilidade do objecto das obrigações; (4) existência e validade do crédito principal/passivo. Daqui resultam dois pontos a salientar que podem impedir a existência de compensação. O primeiro refere-se ao requisito da reciprocidade de créditos: o art. 851º/1 consagra uma excepção na medida em que sendo o declarante terceiro estaria a invocar um credito de terceiro (devedor de devedor). Contudo, a parte final do mesmo artigo, consagra a hipótese de tal acontecer uma vez que ele é titular de um direito real de garantia (é garante de um penhor). O segundo ponto a salientar refere-se ao requisito da existência, exigibilidade e validade do crédito activo na medida em que o crédito ainda não é exigível pelo que este requisito não se verifica e consequentemente a compensação não pode operar.

5) Em 31 de Julho de 2002, tomando conhecimento de um conjunto de graves fatalidades que se abateram sobre a pessoa de Amílcar, Benedita escreve a àquele uma carta onde, em síntese, “lhe propôs o perdão da dívida”. Amílcar nunca respondeu a esta carta. Entretanto, e como a referida dívida fora igualmente assumida por Cardoso, possuidor de uma vasta fortuna pessoal, Benedita exigiu, na data do vencimento da dívida, que a mesma fosse paga, por inteiro, por Cardoso. Este recusa-se a pagar, invocando, a conselho do seu advogado, que “houve um perdão de dívida que o beneficia como devedor solidário”. Quid iuris?

de dívida que o beneficia como devedor solidário ”. Quid iuris? Maria Luísa Lobo – 2011/2012
de dívida que o beneficia como devedor solidário ”. Quid iuris? Maria Luísa Lobo – 2011/2012

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No caso sub Júdice estamos perante a possibilidade de existir uma remissão. A remissão

da dívida (art. 863º) assenta na renúncia do credor ao direito de exigir a prestação, feita

com a aquiescência da contraparte. A remissão na existência de uma prévia obrigação e

da existência de um contrato entre o credor e o devedor pelo qual aquele abdique de

receber a prestação devida (caracter contratual).

A doutrina discute se a renúncia deve ou não ser tratada como um contrato. Neste

sentido, o Prof. Vaz Serra defendia que a remissão poderia ser feita por contrato, ou quando fosse gratuita mediante declaração unilateral do credor, embora o efeito extintivo da renúncia pudesse ser destruído nesse caso pela declaração de recusa do devedor. Por sua vez, o Prof. Antunes Varela: considera que em qualquer das situações

do art. 863º a remissão tem de ser um contrato, na medida em que a renúncia do credor

constitui uma forma de enriquecimento patrimonial do devedor, que se liberta da obrigação que onerava o seu património não podendo ser imposta ao titular passivo da relação creditória. Deste modo, não basta a declaração abdicativa ou renunciativa do credor, na medida em que esse efeito só resulta do acordo ente os dois titulares da relação creditória, ainda que a lei seja especialmente aberta à prova de aceitação do devedor (art. 234º). É na ideia de que o obrigado não deve ser beneficiado se não quiser que se funda a solução da essencialidade do consentimento do devedor para o enriquecimento imediatamente criado no seu património com a liberação do débito. Contudo existe ainda quem defenda, como o Prof. Menezes Leitão que a regra geral é os direitos extinguirem-se por acto unilateral e se no caso do direito de crédito justifica-se tomar em consideração a posição do devedor, ate por força o invito benefictum non datur não se vê razão para a exigência do contrato no instituto da remissão bastando atribuir-lhe a possibilidade de rejeitar o beneficio, à semelhança do que sucede no contrato a favor de terceiro (art. 447º/1). Na grande maioria dos casos o credor não espera resposta á declaração de perdão da divida, nem o devedor vê necessidade de a ele

responder, o que pode tornar problemática a verificação do contrato, exigido pelo art. 863º/1. Sendo a obrigação uma relação complexa, a extinção do vínculo obrigacional por meio da remissão não envolve apenas uma perda definitiva do poder de exigir, implicando do mesmo modo um enriquecimento do devedor, traduzido na supressão de um elemento negativo. O facto de a remissão ter de ser considerada como um negocio bilateral não impede que se reconheça o papel preponderante do credor, no caso da remissão a titulo gratuito. Deste modo, poder-se-á dizer que a remissão é no seu cerne

gratuito. Deste modo, poder-se-á dizer que a remissão é no seu cerne Maria Luísa Lobo –
gratuito. Deste modo, poder-se-á dizer que a remissão é no seu cerne Maria Luísa Lobo –

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uma renuncia ao direito do credito. Deste modo, uma vez que Amílcar nunca chegou a responder é crucial a posição que tomamos para saber se existiu remissão ou não. De acordo com a posição do Prof. Antunes Varela, defendo a necessidade de existência de contrato, então neste caso não estaríamos perante um caso de remissão pelo que Benedita e Cardoso continuavam obrigados (obrigação solidária). Por outro lado, de acordo com aqueles que defendam que que não é necessário a existência de contrato então a remissão teria efectivamente se verificado. Quais as consequências que resultariam da admissão da remissão? O efeito imediato seria a perda definitiva do crédito e a liberação do débito. Uma vez extinta a obrigação, com ela se extinguem os acessórios e garantias pessoais ou reais sem necessidade da intervenção de terceiros que as tenham prestado (interpretação do 866/1). De seguida será necessário verificar se a remissão é in rem ou in personam, ou seja se era concedida a todos os devedores ou apenas a um dos devedores. A remissão in rem traduz-se no facto de o credor renunciar ao poder de exigir a prestação a qualquer um dos devedores, sendo que deste modo beneficiaria Benedita e Cardoso. Se a remissão for in personam, aplicava-se o regime do art. 864º, sendo que Cardoso assumiria a dívida como devedor solidário: assunção cumulativa (art. 595º). Cabe ainda referir o âmbito de aplicação do art. 864º: se a remissão é in personam, a regra é a de que a remissão exonera o devedor apenas na sua quota parte (nº1); se a remissão apenas produz efeitos nas relações externas o credor exige os 1 000€ a Cardoso e este depois exerce o direito de regresso contra Benedita

(nº2)

VII

Abel, Bernardo e Carlos celebraram com Duarte um contrato de compra e venda em virtude do qual ficaram solidariamente obrigados a pagar a Duarte 900 €.

Supondo que Bernardo detém um crédito de 300 € sobre Duarte e que Carlos se encontra insolvente, pergunta-se:

a)

A quem pode Duarte dirigir-se para obter o cumprimento da prestação devida?

pode Duarte dirigir-se para obter o cumprimento da prestação devida? Maria Luísa Lobo – 2011/2012 Página
pode Duarte dirigir-se para obter o cumprimento da prestação devida? Maria Luísa Lobo – 2011/2012 Página

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Nos termos do art. 512º e do art. 519º/1, estamos perante um caso de solidariedade passiva, na medida em que existem vários devedores adstritos à mesma prestação e um

só credor, podendo este exigir o cumprimento da prestação devida a Abel, Bernardo e a

Carlos.

O credor poderá exigir 900euros a um dos três devedores (existindo depois direito de

regresso entre eles) ou pode exigir de qualquer dos obrigados uma parte apenas da

prestação, desde que tal não exceda no conjunto das execuções o montante do seu crédito. Tal representa uma faculdade estabelecida no interesse do credor.

b) Suponha que Duarte se dirige a Abel e este:

(i) Mostra-se disposto a pagar apenas a sua parte;

Nos termos do art. 518º, se o credor interpelar um dos devedores para cumprir em tudo,

o devedor solidário não goza do direito de apenas cumprir a sua parte (exclusão do direito à divisão), mesmo que chame os co-devedores.

A razão de ser do art. 518º prende-se com o facto de sendo demandado pela totalidade

da prestação, ou por uma parte dela superior à quota que lhe compete nas relações internas, o devedor tem a faculdade de chamar todos os outros à demanda para com ele se defenderem. Embora não se exima do dever de efectuar toda a prestação, o demandado terá interesse em utilizar este meio, não só para que os outros colaborem com ele na defesa, como para se munir desde logo com o título executivo capaz de lhe assegurar e facilitar a realização do direito de regresso contra os condevedores.

Em suma, Abel, enquanto devedor solidário demandado pelo credor para cumprir integralmente a prestação, terá que fazê-lo gozando depois de direito de regresso em relação a Bernardo e a Carlos nos termos do art. 524º.

(ii) Recusa-se a pagar.

Se a prestação debitória se tornar impossível por causa não imputável a nenhum dos devedores, a obrigação solidária extinguir-se-á em relação a todos eles, sem prejuízo do ‘’Commodum’’ de representação (art. 794º) de que goza o credor, na hipótese da

de representação (art. 794º) de que goza o credor, na hipótese da Maria Luísa Lobo –
de representação (art. 794º) de que goza o credor, na hipótese da Maria Luísa Lobo –

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impossibilidade da prestação proporcionar ao devedor algum direito sobre certa coisa ou contra terceiro.

Se a prestação debitória se tornar impossível por causa imputável a um ou a alguns dos

devedores, há que distinguir quanto à indemnização entre a parte desta, correspondente

ao valor da prestação devida e a parte excedente que corresponda ao dano do credor.

Quanto à primeira parte, nos termos do art. 520º, mantém-se a responsabilidade solidária de todos os devedores, sendo que quanto à segunda parte só responde por ela o

devedor ou devedores a quem o facto é imputável.

O art. 520º estabelece um princípio geral relativo à impossibilidade da prestação,

impossibilidade está absoluta definitiva e total de cumprimento da prestação que deve ser entendida no sentido de responsabilidade contratual. O Prof. Antunes Varela entende que este artigo poder-se-á ainda aplicar aos casos de simples mora. Neste artigo fundam-se as soluções no princípio de que os acontecimentos relativos a cada um dos devedores solidários não devem beneficiar nem prejudicar os outros.

Em suma, Abel encontra-se obrigado ao pagamento integral da prestação mais juros de mora, tendo direito de regresso em relação a Bernardo e a Carlos no tocante à prestação integral apenas.

c)

E se for Carlos quem se recusa a pagar em virtude da sua situação de insolvência?

Nos termos do art. 526º/1, a quota parte do insolvente é repartida proporcionalmente entre os demais. Deste modo, se Carlos for insolvente Duarte terá de exigir a prestação a Bernardo ou a Abel. Quando um dos devedores cumprir na totalidade a prestação

surgem dois factos: (1) o interesse do credor, Duarte, satisfaz-se e a obrigação extingue- se em relação a todos nos termos do art. 523º; (2) o devedor que satisfaz o cumprimento

da

obrigação fica com direito de regresso em relação aos demais devedores nos termos

do

art. 524º, presumindo-se que comparticipam em partes iguais na dívida nos termos

do

art. 516º.

Deste modo, caso Abel ou Bernardo cumpra integralmente o cumprimento da prestação fica com direito de regresso no valor de 450€.

da prestação fica com direito de regresso no valor de 450€. Maria Luísa Lobo – 2011/2012
da prestação fica com direito de regresso no valor de 450€. Maria Luísa Lobo – 2011/2012

Cálculos Auxiliares

Valor Total da Prestação: 900€

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3 devedores com uma prestação de 300€ cada

Um devedor insolvente pelo que nos termos do art. 526º a sua quota-parte é distribuída em termos proporcionais pelos demais devedores. Logo,

300€:2=150€

Cada um dos dois devedores (Abel e Bernardo) tinha uma prestação de 300€ à qual acresce a quantia de 150€ = 450€

Nota: Nos termos do art. 526º, caso o devedor demandado tenha demorado a exercer o seu direito de regresso contra o devedor que veio a tornar-se insolvente ou não relacionou o seu crédito, e se em virtude de tal resultou a impossibilidade de cobrar a prestação, a responsabilidade do devedor que pagou incide exclusivamente sobre ele, pelo que não poderá exercer o seu direito de regresso no que respeita à quota do insolvente.

Querela Doutrinal sobre o art. 516º

Segundo o Prof. João Tiago Antunes, nos termos do art. 516º, presume-se que quer os credores solidários quer os devedores solidários participem em partes iguais no crédito. Tal entronca na assunção de dívida, que possui dois efeitos sendo ou cumulativo ou liberatória. O novo devedor passa a ser solidário com o antigo se a assunção for cumulativa, o que corresponde a uma obrigação solidária.

O Prof. Antunes Varela entende que nestes casos não existe em rigor entre os dois devedores uma perfeita solidária na medida em que não se aplica a norma do art. 526º. Na assunção cumulativa de dívida, o assuntor cumprindo não poderá exigir o direito de regresso pois tal violaria a assunção. Existindo quem entenda que podendo ser a assunção cumprida pelo assuntor e sendo tal verdade, é igualmente verdade que não estaremos perante uma verdadeira solidariedade passiva na medida em que o que caracteriza tal é o credor poder exigir a um dos devedores toda a prestação. Não existindo direito de regresso tal não desqualifica a obrigação como solidaria, até porque segundo o art. 516º presumem-se nas relações internas que os devedores respondem em termos iguais, mas que pode não existir direito de regresso.

respondem em termos iguais, mas que pode não existir direito de regresso. Maria Luísa Lobo –
respondem em termos iguais, mas que pode não existir direito de regresso. Maria Luísa Lobo –

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Segundo o Prof. Januário Gomes da Costa, o simples facto de não existir direito de regresso não significa que não estejamos perante uma obrigação solidária.

d) Suponha, agora, que Duarte acciona Bernardo. Poderá este invocar algum meio de defesa?

O Prof. Antunes Varela indica a existência de três meios de defesa

Meios de defesa que apenas podem ser invocados pelo devedor a que respeitam, beneficiando todos os devedores do ponto de vista das relações externas, tal como a compensação por exemplo.

Meios de defesa que apenas podem ser invocados pelo devedor a que respeitam, não só não beneficiando os outros devedores nas relações externas como prejudicando os mesmos nas relações internas, tal como a menoridade por exemplo.

Meios de defesa que apenas podem ser invocados pelo devedor a que respeitam, não produzindo nenhuma consequência pratica nas relações internas e externas, tal como a prescrição por exemplo.

No presente caso, de acordo com o primeiro meio de defesa mencionado anteriormente, Duarte exigindo a Bernardo o cumprimento da totalidade da prestação conduz a que Bernardo possa invocar em defesa um crédito que possui no valor de 300€ sobre ele. Deste modo, Bernardo pagaria a Duarte apenas 600€ (900€-300€). Nos termos do art. 523º, o interesse de Duarte encontrar-se-ia satisfeito.

Tendo Bernardo pago 600€ e compensado 300€ goza de um direito de regresso no valor de 600€, ou seja 300€ de cada um dos restantes devedores (Abel e Carlos).

VIII

António e Berta, que vivem em economia comum numa casa de que são comproprietários, contrataram com Carlos e David a pintura da sua casa, em data do mês de Agosto a fixar pelos proprietários e com as cores por estes escolhidas.

de Agosto a fixar pelos proprietários e com as cores por estes escolhidas. Maria Luísa Lobo
de Agosto a fixar pelos proprietários e com as cores por estes escolhidas. Maria Luísa Lobo

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Considere as seguintes hipóteses, isoladamente:

1) Durante o mês de Agosto, António e Berta exigem a pintura da casa a Carlos e a David. Carlos comunica-lhes que David se ausentou para férias, pelo que a casa só poderá ser pintada em Setembro. António e Berta pretendem que Carlos lhes pinte a casa, sozinho.

a) Podem reclamar a pintura de toda a casa apenas a Carlos?

No presente caso estamos face a uma obrigação indivisível, uma vez que a prestação foi assumida por duas pessoas não podendo ser realizada por partes sem que se prejudique o seu valor económico global.

Nos termos do art. 535º, a obrigação indivisível considera-se conjunta, salvo se a solidariedade tiver sido estipulada pelas partes ou resultar de lei. Deste modo, nada nos dizendo que a obrigação indivisível é solidária, presume-se que é conjunta pelo que o seu cumprimento só poderá ser exigido a todos os devedores simultaneamente, neste caso a Carlos e David.

Nota: poder-se-ia colocar a questão de saber se se poderia aplicar o regime do art. 537º. Tal, como o artigo 520º, pressupõe um incumprimento definitivo o que por consequente pressupõe uma tomada de posição sobre a impossibilidade (definitiva e absoluta) e a própria obrigação. O facto de Daniel se ter ausentado em Agosto não faz com que a prestação se torne definitiva e absolutamente impossível, o que é pressuposto da aplicação deste artigo. Diferente seria o caso de os credores pretenderem vender a casa em Setembro, tratando-se neste caso de uma obrigação com termo absolutamente essencial segundo o Prof. Baptista Machado. Neste último caso, estaríamos no âmbito de aplicação do art. 537º e Carlos ficaria desonerado. Contudo, não sendo este o caso tudo indica para que estejamos face a uma situação de simples mora. Posteriormente ocorrerá a fixação de um novo prazo, mas como entretanto correm juros de mora nos termos do art. 804º, quem os irá suportar será o devedor que teve culpa neste caso David sendo que tal resulta da interpretação do art. 537º com o art. 520º.

sendo que tal resulta da interpretação do art. 537º com o art. 520º. Maria Luísa Lobo
sendo que tal resulta da interpretação do art. 537º com o art. 520º. Maria Luísa Lobo

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b) Se Carlos aceitar, voluntariamente, pintar a casa sozinho, que direitos lhe assistem em face de David?

Nas relações entre os vários credores vigora o princípio de que cada um dos obrigados responde apenas pela quota que lhe pertence ao débito comum. Se algum dos devedores realiza a prestação indivisível devida sem o concurso dos outros terá o direito de exigir de cada um deles o que lhe compete na responsabilidade comum. No plano das relações externas, o solvens poderá exigir dos demais devedores a sua quota-parte na responsabilidade comum.

Nota: o risco da insolvência corre integralmente por conta do devedor da obrigação que, renunciado à garantia do art. 535º, opta por cumprir a prestação perante o credor.

c)

Se Carlos aceitar, voluntariamente, pintar a casa sozinho, pode exigir o pagamento integral do preço convencionado a António e a Berta?

No presente caso, o pagamento da prestação constitui uma obrigação divisível, na medida em que o seu fraccionamento é possível sem prejuízo.

Nos termos do art. 534º trata-se de uma obrigação conjunta pelo que Carlos terá apenas direito ao crédito da sua parte, que se presume igual à parte de David. Relativamente a essa metade, poderá pedir ¼ do preço a cada um dos devedores.

Nota: caso António e Berta fossem casados aplicar-se-ia o regime da solidariedade consagrado no art. 1691º e 1695; caso fossem casados com separação de bens não existiria solidariedade nos termos do art. 1695º/2. Caso António decidisse pagar a prestação integralmente não estaríamos perante um caso de solidariedade, mas sim de prestação efectuada por terceiro (interessado ou não), não sendo um caso de sub- rogação legal nos termos do art. 592º, dependendo portante da relação entre este e Berta (gestão, enriquecimento sem causa, mandato, doação, etc.)

este e Berta (gestão, enriquecimento sem causa, mandato, doação, etc.) Maria Luísa Lobo – 2011/2012 Página
este e Berta (gestão, enriquecimento sem causa, mandato, doação, etc.) Maria Luísa Lobo – 2011/2012 Página

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2) Durante o mês de Agosto, encontrando-se Berta ausente no estrangeiro e incontactável, António exige de Carlos e David a pintura integral da casa a “preto”, para fazer uma surpresa a Berta. Carlos e David, receosos de que Berta não venha a gostar da cor escolhida, recusam-se a pintar a casa enquanto esta não regressar. Existe fundamento legal para essa recusa?

Nos termos do art. 538º, a lei optou pela solução de dar a qualquer dos credores o direito de por si só exigir a prestação inteiro, sendo que o devedor enquanto não for citado judicialmente só poderá exonerar-se efectuando a prestação a todos os credores caso contrário poderá ter de cumprir de novo perante qualquer um dos outros credores.

O regime do art. 538º significa que a citação judicial do devedor por um dos credores transforma a obrigação conjunta em solidária.

Nota: a lei não refere neste caso a possibilidade de extinção da obrigação em relação a algum ou alguns dos credores, mas parece que neste caso a solução não pode ser diferente da consagrada no art. 536º. Deste modo, os restantes credores só podem exigir a prestação do devedor se lhe entregarem o valor da parte que cabia à parte do crédito que se extingui.

IX

António e Bernardo estavam obrigados a entregar a Carlos e Daniel cinco toneladas de bananas que estes lhes tinham comprado no dia 7 de Agosto. As bananas foram colhidas na propriedade de António no dia 10, pesadas por Bernardo no porto do Funchal no dia 11, carregadas no navio do transportador Eduardo no dia 12 e descarregadas em Lisboa no dia 21 do mesmo mês.

1)

Por via de uma ruptura no navio de Eduardo, ocorrida durante uma tempestade na viagem, as bananas ficaram inundadas e estragaram-se. Carlos e Daniel têm de pagar o preço acordado a António e Bernardo?

Compra e Venda das Cinco Toneladas de Bananas: 7 de Agosto

e Bernardo ? Compra e Venda das Cinco Toneladas de Bananas: 7 de Agosto Maria Luísa
e Bernardo ? Compra e Venda das Cinco Toneladas de Bananas: 7 de Agosto Maria Luísa

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Colheita das Bananas: 10 de Agosto Pesagem das Bananas: 11 de Agosto, Porto do Funchal Carregadas no Navio: 12 de Agosto Descarregadas do Navio: 21 de Agosto, Lisboa

No presente caso, estamos perante uma obrigação genérica, ou seja o objecto encontra- se determinado em função do seu género (bananas) e pela sua quantidade (5 Toneladas). Uma vez que nada na hipótese indica que os adquirentes, Carlos e Daniel, compraram as únicas bananas existentes, não sendo deste modo o objecto mediato e indivisível ou concretamente fixado, não se pode considerar que estejamos perante uma obrigação específica.

A regra constante no art. 796º é que o risco corre por conta do proprietário, independentemente da entrega já se ter realizado ou não.

A regra geral constante no art. 408º/1 é a de que a transferência da propriedade se dá por mero efeito do contrato, o que no presente caso seria dia 7 de Agosto. Contudo, o nº2 do referido artigo contém uma excepção consagrando que quando a coisa seja indeterminável a transferência ocorrerá apenas no momento da sua determinação. Ao referido regime excepcionam-se ainda as obrigações genéricas pelo que a transferência ocorre apenas no momento da concentração da obrigação.

Nos termos do art. 541º, a regra é a de que a concentração ocorre no momento do cumprimento, pelo que neste caso seria dia 21 de Agosto.

Existem contudo situações em que a concentração ocorre antes do cumprimento, passando de obrigação genérica a específica, estando estas situações previstas no art.

541º:

Acordo das Partes: a escolha na falta de estipulação em contrário compete ao devedor nos termos do art. 539º. Contudo, as partes tem a faculdade de confiá-la a qualquer uma delas ou a terceiros nos termos do art. 400º/1, sendo que para ser

uma delas ou a terceiros nos termos do art. 400º/1, sendo que para ser Maria Luísa
uma delas ou a terceiros nos termos do art. 400º/1, sendo que para ser Maria Luísa

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eficaz a escolha precisa de ser notificada ao devedor quando realizada pelo credor.

Extinção Parcial do Género: para que ocorra a concentração, nem sempre será necessário que do género reste apenas uma das coisas nele compreendidas, bastando que reste uma quantidade igual ou inferior à que é devida deixando de existir margem de escolha do objecto da prestação debitória.

Quando o credor incorra em mora: na falta de acordo, mesmo que se trate de uma prestação que deva ser levada ao credor, há-de o devedor oferecer a prestação por inteiro da coisa escolhida ao credor, recusando-se este a recebê-la ou a dar a respectiva quitação, tendo-se a obrigação por concentrada a partir do momento da oferta da prestação.

Entrega ao transportador, expedidor ou receptor da coisa nos termos do art. 797º:

tratando-se de coisa que deva ser enviada por local diferente do cumprimento, a concentração ocorre logo com a entrega antes por conseguinte da chegada da coisa ao local de destino

No presente caso é necessário saber por quem corre o prejuízo resultante do perecimento da coisa devido a caso fortuito ou de força maior, sendo que para o efeito é necessário abrir duas hipóteses.

Se considerarmos que não se insere em nenhuma das excepções previstas no art. 541º o risco corre por conta do alienante, sendo que o perecimento da coisa ocorre antes da concentração o prejuízo corre por conta do devedor, quer ele continue ainda vinculado quer fique exonerado por ter desaparecido todo o género em que a prestação deveria ser concretizada. Deste modo, António e Bernardo de efectuar um novo cumprimento (entregar novas bananas).

Contudo, nos termos do art. 773º, a entrega das bananas deveria fazer-se na Madeira mas existindo um acordo em que a entrega deve ser realizada em Lisboa poder-se-á concluir pela existência de uma dívida de envio nos termos do art. 779º. Deste modo, a

existência de uma dívida de envio nos termos do art. 779º. Deste modo, a Maria Luísa
existência de uma dívida de envio nos termos do art. 779º. Deste modo, a Maria Luísa

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concentração da obrigação ocorre antes da entrega da coisa no dia 12 de Agosto, ocorrendo em tal dia a transferência da propriedade. Se o perecimento da coisa é posterior à concentração, ou seja sendo o momento em que a obrigação genérica se converte numa verdadeira obrigação específica o prejuízo corre por conta do credor

(adquirente) que não poderá exigir a restituição do preço ou terá de pagá-lo se ainda não

o tiver feito. Deste modo, Carlos e Daniel continuariam vinculados à prestação,

continuando obrigados a pagar o valor acordado e a não receber novas bananas (norma

de natureza supletiva).

Nota: O Prof. Almeida Costa coloca a questão de saber se o art. 541º não deverá ser interpretado em consonância com o regime do art. 408º/2. Se a lei exige no art. 408º/2 o conhecimento de ambas as partes não deverá haver esse conhecimento para existir a transferência do risco e da propriedade nos casos previstos pelo art. 541º? O autor impõe a conclusão segundo a qual a concentração da obrigação que ocorra antes do cumprimento não pode ocorrer independentemente do conhecimento das partes. Se a concentração se der nos casos do art. 541º sem o conhecimento das partes só se poderá dizer que ocorrer a transferência da propriedade e do risco quando tiver ocorrido o conhecimento de ambas as partes. Esta tese releva especialmente para os casos de destruição parcial do género em que as partes, ou só o adquirente vêm a ter conhecimento dessa destruição mais tarde: nestes casos a transferência da propriedade

só ocorre quando for do conhecimento de ambas as partes.

2)

António e Bernardo são credores de Carlos e Daniel da quantia de 60.000 €. Quanto é que o credor António pode exigir ao devedor Carlos?

No presente caso estamos perante uma obrigação divisível, na medida em que o seu fraccionamento é possível sem prejuízo. É uma obrigação conjunta, na medida em que a solidariedade só existe quando resulte de disposição legal ou de vontade das partes, nos termos do art. 513º.

Sendo que cada credor só pode exigir a cada um dos devedores metade da sua prestação, cada credor pode exigir a cada um dos devedores ¼ do valor da sua prestação, pelo que

no presente caso António poderia exigir a Carlos 15625€.

pelo que no presente caso António poderia exigir a Carlos 15625 €. Maria Luísa Lobo –
pelo que no presente caso António poderia exigir a Carlos 15625 €. Maria Luísa Lobo –

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Sendo um contrato comercial, quer para os compradores, quer para os vendedores o regime seria o das obrigações solidárias nos termos do art. 100º do Código Comercial.

3)

Distinga uma prestação de coisa fungível de uma prestação fungível, dando exemplos com base nos elementos constantes da hipótese.

Prestação de Coisa Fungível: prestação que tem por objecto uma coisa que pode ser substituída por outra da mesma espécie sem causar qualquer prejuízo ao credor nos termos do art. 207. Exemplo: venda de bananas.

Prestação Fungível: prestação que pode ser realizada por pessoa diferente do devedor uma vez que as qualidades deste não revelam para o credor, sendo que a substituição daquele não prejudica o interesse deste. Exemplo: entrega das bananas ou pagamento do preço.

X

António reservou no hotel “Serra Natura Spa” a suite com vista de montanha do primeiro ou segundo andar. O hotel tem sete andares, e uma suite com vista de montanha por andar.

A) Chegado ao hotel, António fica descontente por lhe ter sido destinada a

suite do segundo andar, invocando “ter medo de alturas”. Exige ficar na suite do

primeiro andar, que está ocupada.

1) Pode fazê-lo?

No presente caso, estamos perante uma obrigação composta na medida em que o seu conteúdo é múltiplo e não uno. Deparamo-nos com uma subcategoria de obrigações compostas, as obrigações alternativas nos termos do art. 543º, devendo-se tal ao facto de a determinação do objecto depender de uma escolha feita pelo devedor neste caso: o Hotel obrigou-se a hospedar António na suite com vista de montanha do primeiro ou do segundo andar. A escolha é o acto de opção ou selecção por meio do qual se opera em regra a concentração da obrigação. Numa das prestações em alternativa a que o devedor se encontra adstrito é colocado termo à indeterminação.

a que o devedor se encontra adstrito é colocado termo à indeterminação. Maria Luísa Lobo –
a que o devedor se encontra adstrito é colocado termo à indeterminação. Maria Luísa Lobo –

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Nos termos do art. 543º/2, na falta de convenção ou disposição legal em contrario é ao devedor a quem cabe a escolha, ou seja é ao Hotel que cabe decidir em qual das suite com vista para a montanha António fica, sendo que se este recusar a aceitar a prestação incorre em mora, uma vez que não existe causa justificativa.

2) A sua resposta seria a mesma se António, após a reserva, tivesse recebido um fax do hotel a comunicar-lhe que ficaria instalado na suite do primeiro andar?

Embora o art. 549º se refira apenas à escolha efectuada pelo credor ou por terceiro, o Prof. Antunes Varela entende que nos casos em que a escolha da obrigação alternativa compete ao devedor não há motivo nenhum para não considerar que uma vez efectuada essa escolha pelo devedor e sendo esta declarada ao credor não fique sujeita ao art. 542º e seja irrevogável. Ou seja, embora não se possa aplicar directamente o art. 549º nestes casos existe a remissão para o art. 542º.

Em suma, se o Hotel quiser oferecer outra suite o credor já pode recusar sem entrar em mora nos termos do art. 813º na medida em que existe uma causa justificativa.

Nota: nas obrigações genéricas a solução é distinta, na medida em que estas só se tornam em princípio específicas no cumprimento e se a escolha for feita pelo devedor antes do cumprimento não produz efeitos a não ser que o credor tenha dado o seu consentimento.

B) Admita que ocorreu um incêndio na suite com vista de montanha do

primeiro andar.

1) Pode o hotel recusar-se a alojar António na suite do segundo andar?

Caso a impossibilidade incida apenas sobre uma ou alguma das prestações, não sendo no presente caso o incêndio imputável as partes, e como na hipótese nada se diz presumimos que é o caso, a obrigação considera-se limitada às prestações ainda

que é o caso, a obrigação considera-se limitada às prestações ainda Maria Luísa Lobo – 2011/2012
que é o caso, a obrigação considera-se limitada às prestações ainda Maria Luísa Lobo – 2011/2012

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possíveis nos termos do art. 545º. Deste modo, restando apenas uma prestação a obrigação irá se concentrar nessa única, na medida que o devedor tem de prestar aquilo que é objectivamente possível. Caso se recuse a fazer, ou seja a instalar António na suite do segundo andar, o Hotel incorre em mora que pode vir a transformar-se em incumprimento definitivo.

Em suma, o Hotel terá de hospedar António na suite que sobreviveu ao incêndio, a suite

no 2ºandar.

Nota: a lei não se ocupa expressamente da impossibilidade originária ou da ilicitude de uma ou de varias prestações, hipóteses em que tendo a obrigação a sua origem num negócio jurídico vigoram as normas gerais relativas à nulidade parcial deste nos termos

do art. 280º e 292º. Em princípio a escolha fica limitada às restantes prestações ou

substituindo apenas uma, a obrigação torna-se simples. Só não será assim de acordo com as regras de redução quando se mostre, com base na vontade real ou hipotética das contraentes que estes não celebrariam o negócio sem a parte viciada. Além disso pode suceder que o vício atinja todo o negócio e ele resulte inteiramente nulo.

A impossibilidade superveniente consiste na impossibilidade que ocorra entre a

constituição do vínculo obrigacional e a escolha, encontrando o seu regime no art. 545º

a 547º. A escolha constitui a transformação da obrigação em específica e

consequentemente à impossibilidade que venha a verificar-se aplicar-se-á o regime do

art. 790º.

Não se prevê o caso da impossibilidade total por causa imputável às partes, sendo necessário aplicar as regras gerais. Se a culpa é o devedor a obrigação extingue-se nos termos do art. 790º e ss; se a culpa é do devedor este é responsável como se faltasse culposamente ao cumprimento da obrigação nos termos do art. 801º.

2)

Se tivesse sido acordado que caberia a António escolher em que suite ficaria alojado, a sua resposta à alínea anterior seria a mesma, caso o incêndio fosse imputável ao hotel?

alínea anterior seria a mesma, caso o incêndio fosse imputável ao hotel? Maria Luísa Lobo –
alínea anterior seria a mesma, caso o incêndio fosse imputável ao hotel? Maria Luísa Lobo –

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Sendo a impossibilidade imputável ao devedor (Hotel), é necessário distinguir se a escolha lhe pertencia ou não. Nos termos do art. 546º, 1ª parte se a escolha pertencesse ao Hotel ele deveria efectuar uma das prestações possíveis; na 2ª parte da norma caso a escolha coubesse ao credor, este poderia exigir uma das prestações possíveis ou pedir a indemnização pelos danos provenientes de não ter sido efectuada a prestação que se tornou impossível ou ainda resolver o contrato nos termos gerais pelo interesse contratual negativo.

3) E se tivesse sido acordado que caberia a Beatriz, noiva de António, escolher entre uma das duas suites?

Se a escolha pertencer a terceiro e tornando-se uma ou algumas das prestações impossíveis por facto imputável às partes existe uma lacuna na lei na medida em que não existem normas expressas. Contudo o Prof. Antunes Varela e o Prof. Almeida Costa entendem que:

Não sendo a impossibilidade da prestação imputável a nenhuma das partes aplica-se o regime do art. 545º

Sendo a impossibilidade imputável ao devedor, o terceiro pode optar por uma das prestações possíveis ou pela indemnização dos danos resultantes do não cumprimento da prestação que se tornou impossível nos termos do art. 546º. Afigura-se que a opção pela resolução do contrato em virtude do seu caracter pessoal compete apenas ao credor, sendo o terceiro apenas parte.

Sendo a impossibilidade imputável ao credor considera-se cumprida a obrigação. Ressalva-se todavia a faculdade de o terceiro optar ela prestação possível com indemnização dos danos que o devedor tenha sofrido nos termos do art. 547º.

C) Suponha que António marcou no hotel a suite com vista de montanha do

primeiro andar, mas o hotel reservou a faculdade de o alojar na suite com vista de piscina do mesmo andar.

a faculdade de o alojar na suite com vista de piscina do mesmo andar. Maria Luísa
a faculdade de o alojar na suite com vista de piscina do mesmo andar. Maria Luísa

1)

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Pode António exigir ficar alojado na suite com vista de montanha se o hotel o alojar na suite com vista de piscina?

No presente caso estamos face a uma obrigação com faculdade alternativa. Tais caracterizam-se por terem por objecto uma só prestação mas o devedor tem a faculdade de se desonerar mediante uma outra prestação ou o credor tem direito de exigir uma prestação diferente da devida: poder de substituição. O regime jurídico não é o das obrigações alternativas mas sim o das obrigações específicas, não existindo lugar a nenhuma escolha sendo essa a única prestação que o credor tem direito de exigir e podendo faze-lo logo que a obrigação se vença. O credor não pode exigir a prestação alternativa, mas terá de aceitá-la, se o devedor optar por ela sob pena de incorrer em mora.

No caso em análise, tendo o Hotel reservado a faculdade de alojar António numa suite com vista para a piscina, o credor terá de aceitar a situação que resultar da escolha feita pelo Hotel, caso contrário incorre em mora nos termos do art. 813º.

2)

Suponha agora que houve um incêndio na suite com vista de montanha reservada. António exige ficar alojado na suite com vista de piscina. O hotel recusa, invocando estar ocupada. Quid iuris?

No presente caso, sendo a impossibilidade superveniente a obrigação extinguir-se-á quando respeitar à prestação devida, em que com este fundamento se extingue a obrigação simples nos termos do art. 790º.

É necessário saber quem a quem a impossibilidade da prestação é imputável. Se o facto

é imputável ao devedor, neste caso o Hotel, aplicar-se-ia o regime do art. 798º e do art.

801º. Se o facto é imputável a terceiro, a caso fortuito ou de força maior aplicar-se-ia o regime do art. 790º, ficando o devedor exonerado e do art. 795º podendo exigir de volta

a contraprestação. A obrigação manter-se-á enquanto a impossibilidade afectar apenas a segunda prestação.

XI

enquanto a impossibilidade afectar apenas a segunda prestação. XI Maria Luísa Lobo – 2011/2012 Página 48
enquanto a impossibilidade afectar apenas a segunda prestação. XI Maria Luísa Lobo – 2011/2012 Página 48

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1. António, credor de Berta por 10.000 €, cedeu o seu crédito a Carla. Berta, que não foi notificada da cessão, pagou a António o referido montante. Que direitos assistem a Carla?

Nos termos do art. 577º, a cessão de créditos consiste numa forma de transmissão de crédito que opera por virtude de um negócio jurídico, normalmente um contrato entre o credor e terceiro, independentemente do consentimento do devedor.

Para que ocorra uma situação de cessão de créditos é necessária a reunião dos seguintes requisitos cumulativos: (1) negócio jurídico a estabelecer a transmissão da totalidade ou de parte do crédito; (2) inexistência de impedimentos legais ou contratuais a essa transmissão; (3) não ligação do crédito em virtude da própria natureza da prestação à pessoa do devedor.

No ordenamento jurídico português, o cumprimento efectuado ao credor aparente não se considera eficaz, salvo em certos casos excepcionais em que por atenção à boa fé do devedor a lei reconhece como tal. Um desses casos consiste na prestação efectuada pelo devedor ao cedente, antes de aquele ter conhecimento da cessão (art. 583º/1 e 2).

Nos termos do art. 583º/1, embora a cessão de créditos não pressuponha um acordo do devedor, este tem de ser notificado e caso não o seja e nem saiba da cessão o cumprimento realizado ao credor aparente será oponível ao cessionário, tendo o pagamento eficácia liberatória nos termos do art. 770º al. f).

Para que o cumprimento realizado ao credor aparente não seja oponível ao cessionário é necessário, nos termos do art. 583º/2, que este prove que o devedor conhecia a cessão.

Neste caso, o empobrecido irá agir contra o credor que recebeu o dinheiro de acordo com as regras do enriquecimento sem causa.

2. Suponha, agora, que quando Carla exige de Berta o pagamento dos 10.000 €, esta não paga em virtude da sua situação de insolvência. Poderá Carla exigir a António o pagamento do referido montante?

Poderá Carla exigir a António o pagamento do referido montante? Maria Luísa Lobo – 2011/2012 Página
Poderá Carla exigir a António o pagamento do referido montante? Maria Luísa Lobo – 2011/2012 Página

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Nos termos do art. 587º/2 é necessário apurar se no momento em que é constituída a cessão de créditos António garantiu a Carla a solvência do devedor, ou seja de Berta. Caso tenha garantido estamos face a um incumprimento do contrato pelo que Carla terá direito a ser indemnizada. Caso não tenha garantido, por aplicação do regime supletivo, quem irá suportar os danos será Carla, cessionária.

3. António, que tinha um crédito de 10.000 € sobre Berta, cedeu parcialmente esse crédito, no valor de 7.000 € a Carla e sub-rogou Dário no montante restante. Se Berta apenas possuir 5.000 € para cumprimento da dívida, como se opera a satisfação dos créditos?

Nos termos do art. 593º/2, existindo confronto entre o cessionário e o credor sub-rogado quem prevalece será o cessionário, salvo se existir convenção em contrário. No presente caso, nada nos dizendo sobre a existência de convenção em contrário prevalece Carla, cessionária.

XII

António e Benilde Santos devem 200.000 € ao Banco X e 100.000 € ao Banco Y. Em face das dificuldades económicas sentidas no último ano, António e Benilde decidiram vender o único imóvel de que eram proprietários ao seu filho Carlos, residente em Madrid. Uma vez que, para garantir o cumprimento da dívida contraída junto do Banco Y, tinham constituído uma hipoteca sobre o referido imóvel e do contrato constava uma cláusula de acordo com a qual, em caso de incumprimento, o Banco se tornaria proprietário da fracção autónoma, António e Benilde decidiram pagar os 100.000 €, na data de vencimento da obrigação.

1)

Pronuncie-se sobre a validade da cláusula inserida no contrato celebrado entre António, Benilde e o Banco Y.

inserida no contrato celebrado entre António, Benilde e o Banco Y . Maria Luísa Lobo –
inserida no contrato celebrado entre António, Benilde e o Banco Y . Maria Luísa Lobo –

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A cláusula inserida no referido constrato é nula na medida em que substancia um Pacto

Comissório nos termos do art. 694º. Por Pacto Comissório entende-se a convenção através da qual o credor garantido através de uma hipoteca, penhor ou de outro direito real de garantia se atribui a ele próprio o direito de ficar com a coisa dada em garantia caso o devedor não cumpra a obrigação.

A razão que levou o legislador a proibir este tipo de cláusulas é não só a de evitar

situações de usura (devedor fraco e credor forte, como é o caso do banco sendo que tal seria uma situação em que se estipularia com sanção da anulabilidade e não a nulidade, uma vez que é essa a sanção para os casos de usura), mas também de tutelar os demais credores, uma vez que uma cláusula destas pode criar uma situação de vantagem para certos credores (interesses de natureza pública), sendo que o art. 604º consagra a igualdade de credores. Em suma, estamos face a uma razão complexa que incide sobre três grandes focos de interesse: (1) proteger o devedor de situações de usura; (2) interesses gerais do comércio jurídico; (3) interesses de outros credores que devem ser pagos numa posição de igualdade e não numa posição de preferência.

Nota: o pacto comissório é extensivo a outros direitos reais de garantia, tais como o penhor e a consignação de rendimentos. O Pacto Comissório pode revestir uma de duas modalidades, sendo ambas proibidas pelo art. 694º: (1) pactos comissórios reais:

verificando-se o incumprimento da obrigação ocorre automaticamente a transmissão para o credor; (2) pactos comissórios obrigacionais: o credor garantido tem o direito de exigir a transmissão da coisa.

O Prof. Antunes Varela entende que a proibição consagrada no art. 694º é apenas aplicável às convenções realizadas antes do incumprimento, considerando que as convenções celebradas depois do incumprimento revestem o caracter de dação em (função do) cumprimento. Contudo, o autor considera que caso o pacto tenha sido acordado depois com o objectivo de o credor beneficiar de um novo prazo estar-se-á novamente no âmbito de aplicação do art. 694º, uma vez que o pacto está a ser ajustado antes do vencimento da obrigação.

vez que o pacto está a ser ajustado antes do vencimento da obrigação. Maria Luísa Lobo
vez que o pacto está a ser ajustado antes do vencimento da obrigação. Maria Luísa Lobo

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Figura prima do Pacto Comissório é o Pacto Marciano: este, consagrado no art. 11º da Lei dos Novos Acordos da Autonomia Financeira, teve origem na reclamação efectuada pelos bancos na medida em que as garantias financeiras eram insuficientes. Não se verificando a restituição da garantia em dívida, o Banco ficaria com o crédito mas teria de restituir o remanescente. Pacto Marciano, permitido apenas nas situações e garantia financeira, distingue-se do anterior na medida em que o beneficiário da garantia verificando o incumprimento do devedor pode fazer sua a coisa da em cumprimento desde que restitua a diferença em relação ao crédito (problema da violação do princípio da igualdade quanto aos outros credores; regra da igualdade do património do devedor).

Existe uma querela doutrina acerca do facto de saber se o Pacto Marciano será válido fora do diploma específica e se poder-se-á fazer entre dois particulares. Ou seja, segundo o art. 694º apenas o Pacto Comissório é nulo?

Segundo o Prof. João Tiago Antunes, sendo o art. 604º uma norma estrutural no direito das garantias e não existindo causa legítima de preferência todos os credores se encontram na mesma posição de igualdade, pelo que o Pacto Marciano apenas se poderá aplicar aos casos previstos no diploma, sendo nulo nos termos do art. 694º, sob pena de causar uma distorção no Princípio da Posição de Igualdade dos Credores.

Uma visão mais liberal considera que não se deve atender ao art. 604º, não existindo verdadeira igualdade entre os credores.

2)

O que pode fazer o Banco X para acautelar os seus direitos?

Nos termos do art. 615º/2, quando o pagamento é realizado ao Banco Y não poderá existir impugnação pauliana, uma vez que o cumprimento da obrigação vencida não é susceptível de ser atacado pela impugnação.

Embora o negócio jurídico simulado (venda realizada ao filho) seja nula, a lei considera no art. 615º/1, que a simples circunstância de um acto ser nulo não impede que se possa impugnar paulianamente o acto. Nos termos do art. 605º/2 o acto declarado nulo regressa à esfera jurídica do devedor, ficando lá até ser atacado por aquele que invocou

jurídica do devedor, ficando lá até ser atacado por aquele que invocou Maria Luísa Lobo –
jurídica do devedor, ficando lá até ser atacado por aquele que invocou Maria Luísa Lobo –

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nos termos do art. 616º/1. No entanto é necessário relembrar que provar a simulação por vezes se torna bastante difícil uma vez que se encontram proibidas a prova testemunhal e a prova documental.

Para se poder invocar a impugnação pauliana é necessário que se verifiquem os requisitos elencados no art. 610º e 612º: (1) acto que envolva uma diminuição da

garantia patrimonial; (2) crédito anterior a esse mesmo acto; (3) sendo o acto posterior,

o acto terá de ter sido praticado com dolo; (4) desse mesmo acto resulte a

impossibilidade para o credor de obter a satisfação integral do seu crédito; (5) sendo o acto oneroso, o terceiro e o devedor se encontrarem de má fé.

Embora seja mais fácil requer a acção de nulidade na medida em que não é necessário provar que o acto nulo agravou ou gerou a insolvência do devedor, é necessário relembrar que provar a simulação por vezes se torna bastante difícil uma vez que se encontram proibidas a prova testemunhal e a prova documental.

Nos termos do art. 611º, o ónus da prova cabe ao credor provar que não existiam mais bens para cobrir a dívida e ao devedor provar que ainda conserva bens impenhoráveis que satisfaçam o direito do credor, sendo mais fácil a prova de facto positivo pelo devedor que a prova de facto negativo pelo credor.

Se se encontrarem verificados todos os requisitos, o Banco X poderá executar o imóvel

directamente ao património Carlos nos termos do art. 616º/1. Sendo a impugnação uma garantia pessoal patrimonial, ela só aproveitará ao credor que impugnou tal como se

encontra consagrado no art. 616º/4. O credor tem o prazo de 5anos para impugnar o acto

de acordo com a regra contida no art. 618º.

3) A resposta anterior seria a mesma se, em vez de terem vendido o imóvel ao seu filho Carlos, António e Benilde tivessem prometido vender-lhe o referido andar, através de um contrato-promessa ao qual tivessem atribuído eficácia real, e constasse da escritura pública que o preço tinha sido integralmente pago nesse momento?

pública que o preço tinha sido integralmente pago nesse momento? Maria Luísa Lobo – 2011/2012 Página
pública que o preço tinha sido integralmente pago nesse momento? Maria Luísa Lobo – 2011/2012 Página

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Coloca-se a questão de saber se pode exigir impugnação pauliana num contrato promessa com eficácia real, nos termos do art. 413º, em que já houve pagamento integral do preço.

Numa primeira posição, poder-se-ia dizer que não pode haver impugnação pauliana na medida em que existe apenas um contrato promessa de compra e venda e ainda que já tenha sido p pago o preço não houve a venda efectiva, logo a propriedade do bem ainda se encontra na esfera jurídica do devedor pelo que ainda não ocorreu a diminuição das garantias não se encontrando preenchido deste modo um dos requisitos do art. 610º. O facto de Carlos ter na sua esfera jurídica um direito real de aquisição, segundo esta posição não é relevante pois nada garante que ele não vá resolver o contrato ao invés de recorrer à execução específica em caso de incumprimento.

Numa segunda posição, considera-se que efectivamente já houve uma diminuição das garantias pois o preço já foi integralmente pago (ter em consideração que o dinheiro é um bem material facilmente dissipável), pelo que é de admitir a impugnação pauliana pois estamos perante um negócio de fraude à lei.

XIII

No dia 20 de Janeiro de 2004, Carlos celebrou com Daniel um contrato de compra e venda de um apartamento, propriedade de Carlos, pelo preço de 250.000 €. Daniel, que não dispunha do referido montante, contraiu um empréstimo junto do seu amigo Edgar. As partes acordaram que Daniel deveria restituir a quantia mutuada no dia 30 de Outubro de 2004. Para garantir a restituição da quantia mutuada, o Edgar celebrou com Joel um contrato de fiança. Na data acordada, Daniel não restituiu a quantia mutuada.

1)

Qual o valor da garantia prestada por Joel, se o contrato de mútuo tivesse sido celebrado por documento escrito assinado pelo Daniel?

mútuo tivesse sido celebrado por documento escrito assinado pelo Daniel ? Maria Luísa Lobo – 2011/2012
mútuo tivesse sido celebrado por documento escrito assinado pelo Daniel ? Maria Luísa Lobo – 2011/2012

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Entende-se por fiança, o vínculo jurídico pelo qual um terceiro (fiador) se obriga pessoalmente perante o credor, garantindo com o seu património a satisfação do direito de crédito deste sobre o devedor. Nos termos do art. 628º, a declaração de fiança necessita de revestir a forma exigida para a obrigação principal, não vigorando o Princípio da Liberdade de Forma constante no art. 219º, mas sim o da equiparação à obrigação principal. Tal deriva do facto de a dívida contraída pelo fiador ter em regra o mesmo conteúdo que a dívida principal. A lei exige ainda que a declaração de vontade de prestar fiança seja expressa, ou seja a vontade de cobrir a obrigação do devedor tem de resultar directamente da declaração do fiador.

Nos termos do art. 1143º o contrato te mútuo seria nulo por inobservância de forma (remissão para o art. 220º).

Nos termos do art. 632º/1 considera-se que a fiança não é valida se a obrigação principal, neste caso o mútuo, não o for. Tal configura a característica da acessoriedade enunciada no art. 627º/2 determinado que a obrigação do fiador se apresenta na dependência estrutural e funcional da obrigação do devedor, sendo determinada por essa obrigação em termos genéticos, funcionais e extintivos.

Nota: se estivéssemos a falar de um contrato de mútuo entre comerciantes o contrato não estaria sujeito a forma escrita nos termos do art. 396º do Código Comercial. Se o contrato de mútuo fosse celebrado entre o particular e um banco nesse caso o contrato seria válido desde que tenha sido celebrado por qualquer documento assinado pelo mutuário.

2)

Suponha que Edgar se dirige a Joel e que este não paga, alegando que Daniel ainda tem bens que podem responder pela dívida. Quid iuris?

Nos termos do art. 638º/1, de acordo com a característica da subsidiariedade, existe a possibilidade de o fiador invocar o benefício da execussão impedindo o credor de

de o fiador invocar o benefício da execussão impedindo o credor de Maria Luísa Lobo –
de o fiador invocar o benefício da execussão impedindo o credor de Maria Luísa Lobo –

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executar o património do fiador enquanto não tiver tentado sem sucesso a execução através do património do devedor. Deste modo, a razão assiste a Joel.

Nota: nos termos do art. 638º/2, o fiador pode recusar-se a pagar se foi por culpa do credor que não pode pagar. Para além de tal o art. 639º refere que a subsidiariedade da fiança opera mesmo existindo garantias reais constituídas por terceiro antes da fiança, já que o fiador tem igualmente o direito de exigir a execussão prévia das coisas sobre que recai a garantia real. O benefício da execussão é um meio pessoal de defesa que permite limitar a obrigação assumida pelo fiador, sendo a fiança a última garantia a ser chamada.

art. 641º/1: ónus de chamar o devedor à demanda, sendo que não chamar o fiador está a renunciar a beneficio da execussão.

3)

A solução seria diferente se Joel se tivesse constituído como fiador e principal pagador?

Nos termos do art. 640º al a) a subsidiariedade da fiança constitui uma característica não essencial uma vez que o fiador pode renunciar a ela.

4) Uma vez que o Edgar devia, por sua vez, 250.000 € a Daniel, quando aquele interpelar Joel para cumprir a obrigação em dívida, poderá este invocar a compensação entre o crédito de Daniel contra Edgar e o seu débito, para extinguir a sua obrigação?

Daniel contra Edgar e o seu débito, para extinguir a sua obrigação? Maria Luísa Lobo –
Daniel contra Edgar e o seu débito, para extinguir a sua obrigação? Maria Luísa Lobo –

Faculdade de Direito da UCP

Nos termos do art. 847º, a compensação consiste numa forma de extinção da obrigação que permite que quando duas pessoas estejam reciprocamente obrigadas a entregar coisas fungíveis da mesma natureza é admissível que as respectivas obrigações sejam extintas, total ou parcialmente, pela dispensa de ambas de realizar as suas prestações ou pela dedução a uma das prestações da prestação devida pela outra parte. Para que se verifique a compensação é necessário que se encontrem reunidos os requisitos positivos do art. 847º e do art. 851º.

Nos termos do art. 642º é permitido ao fiador recusar o cumprimento enquanto o direito do credor puder ser satisfeito por compensação com um crédito do devedor ou se este tiver a possibilidade de se valer da compensação com uma divida do credor, sendo ainda lícito ao fiador recusar o cumprimento enquanto o devedor tiver a possibilidade de impugnar o negócio.

Nos termos do art. 637º, o fiador pode exercer perante o credor para alem dos meios de defesa que lhe são próprios as excepções que competem ao devedor, salvo se tais forem incompatíveis com a sua obrigação. Deste modo, o fiador pode utilizar perante o credor tanto as excepções respeitantes à relação de fiança como as excepções relativas à própria obrigação do devedor, não produzindo a renúncia deste a essas excepções qualquer efeito em relação ao fiador.

Existe uma querela doutrinal que assenta em saber se o fiador chamado a cumprir a obrigação pelo credor, pode invocar a compensação com a sua obrigação de fiador com um crédito que o seu devedor tenha para com o credor. Tal levante o problema do art. 651º/2, na medida em que segundo esta norma na compensação o compensante só pode utilizar créditos seus, sendo o compensante o fiador e estando a utilizar créditos de uma terceira pessoa, designadamente créditos do devedor afiançado para o com o credor.

Segundo

compensação contudo o art. 851º impede que assim seja. O âmbito de abrangência do art. 851º assenta nas garantias reais, não incluindo a fiança. O art. 637º é uma norma que consagra que nas relações entre o credor e o fiador este último possa exercer contra o credor todos os meios de defesa que lhes sejam próprios e aqueles que competiam ao devedor, só não podendo invocar os meios de defesa do devedor se estes forem

existir

o

Prof.

Antunes

Varela,

em

princípio

pelo

art.

637º

poderia

existir o Prof. Antunes Varela , em princípio pelo art. 637º poderia Maria Luísa Lobo –
existir o Prof. Antunes Varela , em princípio pelo art. 637º poderia Maria Luísa Lobo –

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incompatíveis, parecendo que cabe na letra desta norma a compensação. Contudo,

optando por esta interpretação em que o art. 851º/2 nega a possibilidade de

compensação e em que o art. 637º afirma o extremo oposto, existe o art. 642º que

desempata ao afirmar que se o direito do credor puder ser satisfeito por compensação, o

fiador pode recusar-se a cumprir enquanto essa compensação seja possível. Em suma,

ao art. 642º não permite invocar a compensação mas permite recusar o cumprimento por

parte do fiador pelo que deve prevalecer sobre o art. 637º - norma especial prevalece. O

Prof. João Tiago Antunes afirma que face a uma recusa do cumprimento nunca

existiria reciprocidade de créditos.

Segundo o Prof. Menezes Cordeiro, no confronto entre o art. 637º e o art. 642º

prevalece o primeiro na medida em que, se por exemplo nesta hipótese, Edgar decidir

pagar a divida que tinha face ao seu devedor Daniel não é possível ao fiador recusar o

pagamento. O Prof. João Tiago Antunes não concorda com esta posição.

XIV

Análise do Acórdão de Uniformização de Jurisprudência nº 4/2001, de 23 de Janeiro.

XV

Paulino, construtor civil, obteve um empréstimo do Banco X, mediante a

constituição de uma hipoteca sobre um edifício para habitação cuja construção

Paulino estava a realizar. Depois de concluído, o prédio foi constituído em

propriedade horizontal e Paulino celebrou seis contratos-promessa de compra e

venda com diferentes promitentes-compradores. Estes passaram desde logo a

habitar nos respectivos andares.

Ao fim de alguns meses, apurou-se que Paulino não dispunha de meios para

satisfazer as suas dívidas ao Fisco e à Segurança Social. Entretanto, o Banco X

pretende executar judicialmente a hipoteca constituída a seu favor sobre o edifício

construído, mas também os habitantes das seis fracções autónomas, bem como o

mas também os habitantes das seis fracções autónomas, bem como o Maria Luísa Lobo – 2011/2012
mas também os habitantes das seis fracções autónomas, bem como o Maria Luísa Lobo – 2011/2012

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Estado consideram ser titulares de garantias especiais relativas à satisfação dos respectivos créditos.

Quid iuris?

No presente caso, existe entre o Banco X e Paulino um contrato de mútuo e uma hipoteca. Por sua vez, Paulino celebrou com seis promitentes-compradores seis contratos de compra e venda acompanhados de traditio. Deste modo, os promitentes- compradores possuem um direito de retenção sobre a hipoteca resultante da conjunção do art. 755º/1 al f) com o art. 759º/2. Por fim, Paulino possui dívidas em relação à Segurança Social e ao Fisco consubstanciando tal privilégios imobiliários gerais (incidem sobre todos os imóveis).

Embora se entendesse antigamente que o Estado se encontrava em primeiro lugar, hoje a hierarquia passa: (1) Direito de Retenção nos termos do art. 759º/2; (2) Hipoteca; (3) Privilégios Creditórios nos termos do art. 751º (Estado) e do art. 749º

Razão de ser: O Código Civil em 1986 admitiu os privilégios imobiliários, quer os gerais ou especiais. Entendia-se que os privilégios imobiliários seriam sempre especiais até surgir a legislação ordinária em 1980 que consagrou a possibilidade de os referidos também poderem ser gerais.

Colocou-se a questão de saber se os privilégios imobiliários gerais se encontravam inseridos no âmbito de aplicação do art. 751º. Durante muito tempo acreditou-se que sim, surgindo sempre o Estado à frente do Direito de Retenção e das hipotecas. Deste modo, a hierarquia naquela altura seria: (1) Privilégio Imobiliário (especial ou geral); (2) Direito de Retenção; (3) Hipoteca

Nota: nos termos do art. 733º, o privilégio tem como fonte a lei tendo por base a ideia que este produz efeitos em relação a terceiros independentemente do registo. Segundo os Acórdãos era extremamente injusto que um credor diligente procurasse alguma garantia para tutelar uma dívida de que era titular e verificando que aquele imóvel não tinha nenhum registo registava a sua hipoteca e posteriormente poderia ter de responder por uma dívida do Estado. Segundo o Prof. Antunes Varela o credor diligente dever-

do Estado. Segundo o Prof. Antunes Varela o credor diligente dever- Maria Luísa Lobo – 2011/2012
do Estado. Segundo o Prof. Antunes Varela o credor diligente dever- Maria Luísa Lobo – 2011/2012

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se-ia indagar junto daquela pessoa e averiguar se esta tinha ou não dívidas fiscais, gerando tal um choque com o princípio da confidencialidade.

XVI

Análise dos Acórdãos do Tribunal Constitucional nº 362/2002 e nº 363/2002.

XVII

António, proprietário de uma garagem que se dedica à compra e venda e reparação de automóveis, vendeu a Bento uma carrinha usada por 7.500 €. As partes convencionaram que o preço seria pago em 10 prestações de 750 € cada, mas que a carrinha seria entregue quando tivessem sido cumpridas as duas primeiras prestações.

1) Pagas as cinco primeiras prestações, Bento encarrega António de proceder à mudança de óleo no automóvel que lhe tinha comprado. Poderá António recusar-se a entregar o automóvel até que o preço da mudança de óleo seja pago?

No presente caso, num primeiro momento temos o facto de António vender o automóvel a Bento e consequentemente ser credor do preço, e num segundo momento o facto de existir um contrato de prestação de serviços pelo pagamento do preço do próprio serviço de mudança de óleo. Deste modo, o crédito que António possui sobre Bento provém de um contrato de prestação de serviços (mudança de óleo). Sabendo que Bento não paga o serviço e que António pretende ficar com a carrinha enquanto o preço não for efectuado, coloca-se a questão de saber se tal é possível.

Uma primeira hipótese seria existir nos termos do art. 428º uma excepção de não cumprimento do contrato, sendo que tal aplica-se nas relações sinalagmáticas. Tal não se aplica no presente caso uma vez que António já prestou o serviço, e a entrega do

presente caso uma vez que António já prestou o serviço, e a entrega do Maria Luísa
presente caso uma vez que António já prestou o serviço, e a entrega do Maria Luísa

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carro é acessória à obrigação principal que é a reparação. Em suma, não existe sinalagma entre a mudança de óleo e a entrega do carro.

Uma segunda opção seria existir nos termos do art. 754º e ss direito de retenção, sendo que se António se encontra obrigado a entregar a coisa a Bento possui, simultaneamente, um crédito. Para poder existir direito de retenção é necessária a existência de uma conexão entre ambos: danos causados pela coisa e despesas feitas por causa da mesma. No presente caso, a mudança de óleo consubstanciou a despesa pelo que existe a conexão exigida pela norma podendo haver direito de retenção.

Nota: Enquanto o direito de retenção pressupõe que o devedor se encontre adstrito à prestação que tenha por objecto a entrega da coisa, consubstanciando-se a dívida na obrigação de entrega da coisa, a excepção de não cumprimento pode consubstanciar uma obrigação facere. Por outro lado, a excepção de não cumprimento pressupõe um nexo de sinalagma, ou seja que uma obrigação seja causa da outra. No direito de retenção não se exige a referida conexão, mas sim e apenas a do art. 754º. A excepção de não cumprimento pode ser afastada pelo regime do art. 428º/2 comparando com o art. 756º se outra parte prestar garantias. O direito de retenção não funciona quando a outra parte prestar caução suficiente.

Funções do Direito de Retenção:

Função de Garantia: será igual às outras garantias reais, ou seja se o direito de retenção visa derrogar a regra da igualdade de credores, não criando problema de preferência de credores, a maior garantia é a dada pelo direito de propriedade, sendo este um direito real de garantia. Existindo um crédito e não sendo este pago garante-se o respectivo credor com a possibilidade.

Função Compulsória: consubstancia-se na obrigação de cumprimento, ou seja consiste na função máxima dada pela sanção pecuniária compulsória pelo que por esta segunda função se deve admitir mesmo tendo como objecto coisas próprias.

segunda função se deve admitir mesmo tendo como objecto coisas próprias. Maria Luísa Lobo – 2011/2012
segunda função se deve admitir mesmo tendo como objecto coisas próprias. Maria Luísa Lobo – 2011/2012

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Só há lugar ao direito de retenção quando se verifique:

Um caso do art. 755º - não sendo necessário analisar os requisitos positivos do art. 754º nem os requisitos negativos do art. 756º.

Haja alguém que se encontre obrigado a entregar determinada coisa (devedor de uma obrigação entrega), sendo o devedor simultaneamente credor da pessoa a quem essa coisa deve ser entregue e possuindo um credito especifico (quer por despesas feitas por conta da coisa ou por danos que essa coisa tenha causado).

Subhipotese: imaginando a hipótese igual mas com reserva de propriedade, por exemplo que a propriedade só se transferiria com a última prestação estaríamos perante um caso de retenção de uma coisa própria (proprietário).

2) Se Bento pagar a mudança do óleo, pode António recusar-se a entregar o automóvel, invocando que o primeiro não pagou a última prestação do preço do automóvel?

que o primeiro não pagou a última prestação do preço do automóvel? Maria Luísa Lobo –
que o primeiro não pagou a última prestação do preço do automóvel? Maria Luísa Lobo –

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Não existindo uma conexão material, ou seja uma vez que o crédito não resulta de despesas realizadas por causa da coisa, falha um dos requisitos do art. 754º não podendo deste modo existir direito de retenção.

Não existindo sinalagma entre as duas prestações, ou seja entre a que se pretende cumprir e a que foi incumprida, sendo que a coisa seria entregue com as duas primeiras prestações não se pode invocar a excepção de não cumprimento. Não existe sinalagma na medida em eu a entrega da coisa já foi inicialmente feita antes do pagamento, sendo as próprias partes a dizer que a entrega da coisa não tem a contrapartida de pagar o preço, ou seja as próprias partes afastam o sinalagma, sendo que estar-se-ia perante um venire contra factum próprio admitir a excepção de não cumprimento.

Em suma, António encontrava-se obrigado a entregar o automóvel a Bento.

Nota: coloca-se a questão de saber se existe direito de retenção sobre um bem pertencente a terceiro. Imaginando que Bento, comprador com reserva de propriedade, levou a arranjar a um terceiro o automóvel, e não pagando este o preço poderia o terceiro reter a coisa? Segundo o Prof. Júlio Gomes é duvidoso que o direito de retenção possa funcionar sobretudo quando não foi o terceiro proprietário da coisa devida que deu origem ao crédito, sendo que à partida, nestas hipóteses, deve-se rejeitar o direito de retenção.

XVII

Francisco contratou Michael, famoso tenista estrangeiro, para lhe dar uma aula de ténis. Michael adoeceu gravemente ficando, assim, impossibilitado de dar a aula a Francisco.

1)

Terá Francisco de pagar a Michael o preço correspondente à aula de ténis?

Francisco de pagar a Michael o preço correspondente à aula de ténis? Maria Luísa Lobo –
Francisco de pagar a Michael o preço correspondente à aula de ténis? Maria Luísa Lobo –

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No presente caso existem duas obrigações: a do aluno pagar preço da aula se esta ocorrer e a do professor dar a aula.

A presente hipótese refere-se a um incumprimento não imputável ao devedor (professor), havendo nos termos do art. 790º e 797º um não cumprimento da aula, tornando-se a prestação impossível por caso fortuito (abrange desde logo os casos em que o devedor não cumpre a prestação porque está doente).

Considerando que a impossibilidade é temporário, ou seja admitindo que o professor irá recuperar, aplicar-se-ia o art. 792º. Embora a impossibilidade temporária que o art. 792º consagra seja uma norma gémea do regime jurídico da mora, a distinção passa pelo facto de no regime da mora o devedor se encontrar obrigado a indemnizar o credor.

Nos termos do art. 792º, a impossibilidade temporária não conduz, em princípio, nem à extinção da obrigação nem à mora do devedor. O cumprimento é apenas protelado para um momento posterior (para quando for possível), sem consequências para o devedor. Este fica exonerado apenas enquanto a impossibilidade se mantiver, não incorrendo em mora por não cumprir durante o período do impedimento.

Deste modo, não sendo o devedor responsável pelo retardamento da prestação não terá de indemnizar o credor desta prestação pelos prejuízos que haja sofrido, sendo o credor que responde por estes prejuízos. Mantém-se a contraprestação, ou seja o professor de ténis continua obrigado a dar a aula não se colocando deste modo nenhum problema de risco de contraprestação.

Necessário será notar que de acordo com o art. 792º/2, a impossibilidade só é verdadeiramente temporária enquanto o interesse do credor se mantiver pelo que existe a possibilidade de transformar a impossibilidade temporária em definitiva.

Por outro lado, considerando que a impossibilidade é definitiva, uma vez que o professor adoeceu gravemente é necessário apurar se o devedor fica exonerado e o que sucedeu à contraprestação.

apurar se o devedor fica exonerado e o que sucedeu à contraprestação. Maria Luísa Lobo –
apurar se o devedor fica exonerado e o que sucedeu à contraprestação. Maria Luísa Lobo –

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A primeira questão a colocar é se a prestação em causa tem caracter fungível ou

infungível. Estar-se-á perante uma prestação infungível, no caso de a prestação pela sua

natureza, estipulação das partes ou disposição legal implicar que o devedor não possa ser substituído por terceiro, bastando a impossibilidade subjectiva para a extinção da obrigação (art. 791º). Se pelo contrário a prestação for fungível, só a impossibilidade objectiva constitui causa extintiva do vínculo (art. 790º).

No presente caso, presume-se que a prestação seja infungível (‘’Michael, famoso tenista estrangeiro’’), sendo que por aplicação do art. 791º a obrigação extingue-se ficando o devedor exonerado. Ou seja, o credor perde o direito de exigir a prestação assim como não tem direito à indemnização pelos danos provenientes do não cumprimento.

O risco da contraprestação encontra-se regulado no art. 795º, sendo este regime

aplicável a contratos bilaterais/sinalagmáticos. Por força do sinalagma a impossibilidade

deve afectar ambas as partes do contrato devido ao Princípio da Interdependência das Prestações, impedindo que uma prestação seja efectuada sem que a outra o seja. Embora

a solução seja a extinção de ambas as prestações é necessário distinguir se a impossibilidade é ou não imputável ao credor.

No presente caso, não sendo imputável ao credor, nos termos do art. 795º/1 o credor fica desobrigado da sua contraprestação, se a prestação do devedor se tornou impossível. É o corolário natural da chamada condição resolutiva tácita. Se já tiver realizado a sua contraprestação, pode pedir a restituição dela nos termos prescritos paras o enriquecimento sem causa. o aluno não terá de pagar o preço.

Em suma, caso estejamos perante um caso de impossibilidade definitiva nem o professor se encontra obrigado a dar a aula de ténis, nem o aluno se encontra obrigado a pagar o preço da aula.

2)

Suponha, agora, que Michael não pôde dar a aula devido a um temporal que ocasionou um corte de luz durante todo o período em que o famoso professor esteve em Portugal. Terá Francisco de pagar o preço acordado?

professor esteve em Portugal. Terá Francisco de pagar o preço acordado? Maria Luísa Lobo – 2011/2012
professor esteve em Portugal. Terá Francisco de pagar o preço acordado? Maria Luísa Lobo – 2011/2012

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Nos termos do art. 790º, estamos perante um caso em que a impossibilidade é definitiva (‘’temporal ocasionou um corte de luz durante todo o período em que o famoso professor esteve em Portugal), não sendo esta imputável ao devedor na medida em que se trata de um caso fortuito. Nos termos do referido artigo, o devedor fica exonerado e a obrigação extingue-se.

Devendo-se a impossibilidade a um caso fortuito (‘’corte de luz’’), não imputável ao devedor deste modo, nos termos do art. 795º/1 o credor fica desobrigado da sua

contraprestação, se a prestação do devedor se tornou impossível. É o corolário natural

da chamada condição resolutiva tácita. Se já tiver realizado a sua contraprestação, pode

pedir a restituição dela nos termos prescritos paras o enriquecimento sem causa. o aluno não terá de pagar o preço.

3) Imagine que é Francisco quem adoece faltando, por isso, à aula de ténis. Sabendo que Michael já se encontrava em Portugal, para onde se deslocou, excepcionalmente, a fim de dar a referida aula, terá Francisco de pagar a Michael o preço correspondente à aula de ténis?

A presente hipótese levanta o problema teórico de saber se existe efectivamente

impossibilidade. Tal depende da noção de prestação: se se entender que tal inclui o interesse do credor existe impossibilidade; se por outro lado entender-se que tal não inclui o interesse do credor, mas apenas a conduta devida, sendo a prestação abstractamente possível, pressupondo a prestação a colaboração do credos e não sendo nestes casos já essa colaboração viável então existirá igualmente impossibilidade.

É necessário distinguir três tipos de situações:

Frustração do Fim da Prestação: encontra-se relacionado com o efeito útil, não podendo mais ser realizado existem situações em que a impossibilidade provém de um facto relativo ao credor mas sem que este possa ser assacada a menor culpa na sua verificação. Exemplo: A contrato B, medico, para o operar com vista a remover um tumor. Estando a operação marcada para o diz X, o

com vista a remover um tumor. Estando a operação marcada para o diz X, o Maria
com vista a remover um tumor. Estando a operação marcada para o diz X, o Maria

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doente morre antes dessa doente. Nesta circunstância em que se contratou uma prestação que não vai ser realizada pelo devedor porque existe uma situação superveniente que se verificava no nascimento da obrigação, extingue-se a obrigação na medida em que deixa de fazer sentido: a obrigação já não tem objecto.

Realização da Prestação por outra via que não a realização da conduta devida. Exemplo: o doente que contrata o médico para ser operado, antes da operação cura-se operação desnecessária. Obrigação é contratada mas depois da sua contratação, verifica-se uma situação, em que de acordo com a finalidade da operação esta deixa de fazer sentido. Em suma, a obrigação ainda tem objecto mas já não tem interesse para o devedor. Problemas jurídicos destas duas situações:

Problema Teórico: nos casos de frustração do fim da prestação e nos casos da realização da prestação por uma via diferente do cumprimento ainda se pode falar em impossibilidade? Exemplo: quando o doente morre ou se cura antes de ser operado ainda estamos perante uma situação de impossibilidade de prestação por parte do médico? Há quem entende que quando se fala em impossibilidade, esta apenas ocorre quando a prestação do devedor se torna impossível de tal forma que já não haverá impossibilidade nos casos em que a prestação ainda pode ser realizada pelo devedor mesmo que nenhum interesse tenha para o credor. O Prof. Antunes Varela entende que o médico pode operar um cadáver ou uma pessoa que julgava doente, mas qual é o interesse que o devedor tem? A resposta depende de saber se dentro do conceito de impossibilidade se equacionam duas variáveis: se estiverem reunidos então são casos de impossibilidade nestes casos existe a falta de interesse do devedor.

Problema prático: o que acontece à contraprestação? Exemplo: um médico tem direito a cobrar o dinheiro da cirurgia do doente que morreu ou que se curou? Quem é o causador da impossibilidade? Aplica-se o art. art. 795º/1 ou o art. 795º/2? Segundo o Prof. Antunes Varela, na sequencia do Professor Vaz Serra e Professor Baptista Machado e Professor Menezes Leitão tal são casos em que rigor se não pode aplicar nem o nº1 nem o nº2 uma vez que pensando bem nas

se não pode aplicar nem o nº1 nem o nº2 uma vez que pensando bem nas
se não pode aplicar nem o nº1 nem o nº2 uma vez que pensando bem nas

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duas hipóteses (doente que morre ou que se cura) a causa da impossibilidade esta mais próxima do doente (credor) e tal levaria à aplicação do nº2. Contudo como este problema não é em rigor de impossibilidade, e como tal também poderia ser injusto na maioria dos casos, aplica-se o regime da gestão de negócios, art. 468º do CC. O médico embora não tenha operado pode ter perdido tempo na análise do caso, por exemplo, sendo justo uma indemnização indemnizado das despesas que fundadamente tenha considerado indispensáveis. O risco da contraprestação é mitigado pagando o credor das despesas descritas anteriormente.

Não exercício do credor do direito a uma prestação com termo absolutamente fixo: estamos perante um caso de risco da prestação, que se designa como ‘’a terra de ninguém’’ nas palavras do Prof. Baptista Machado. Estamos perante casos de impossibilidade não imputável e de mora do credor, ou seja de não exercício definitivo do direito por causa imputável ao credor. No presente caso, o professor de ténis vinha de propósito a Portugal para dar a aula de ténis e esta acabou por não se realizar devido a doença do aluno a prestação era possível no momento aprazado para o cumprimento da obrigação. Existe o não exercício do direito no momento próprio, visto tratar-se de prestações com termo absolutamente fixo. Exemplo: compra de um bilhete de cinema para a sessão das 15h. Chegando atrasada já não me deixam entrar. Casos de impossibilidade? Não só a obrigação era possível de cumprir (chego atrasado porque quero) como o terá sido na maior parte dos casos (no cinema o filme é exibido). A prestação do devedor é teoricamente possível como a obrigação é inclusivamente cumprida por parte do devedor prestação com prazo absolutamente fixo que não é aceite por parte do credor por um facto que lhe é imputável. Não sendo um tema de impossibilidade na medida em que a obrigação cumpriu-se e extinguiu-se o problema prático assenta em saber o risco da contraprestação.

Inicialmente, tendeu-se a classificar estas situações como casos de impossibilidade não imputável ao credor (art. 790º ou 791º & art.

795º/1).

não imputável ao credor (art. 790º ou 791º & art. 795º/1). Maria Luísa Lobo – 2011/2012
não imputável ao credor (art. 790º ou 791º & art. 795º/1). Maria Luísa Lobo – 2011/2012

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Surgiu alguma doutrina a clarificar estas situações como casos de mora do credor, na medida em que tal pressupõe uma situação em que o credor não aceita a prestação ou não pratica os actos necessários à realização da prestação e a verdade é que não existe motivo justificado para o fazer. Só se deve dizer que há impossibilidade não imputável quando a prestação não é cumprida por um determinado facto relativo a pessoa do credor mas mesmo que essa situação não existisse ainda assim a obrigação não poderia ser cumprida. Exemplo: aluno que contrata um guia de montanha e não comparece pode ser impossibilidade não imputável caso no dia em que o aluno não compareceu não se podia ir a montanha por causa do tempo; caso o tempo fosse óptimo e não se tivesse realizado porque ele não comparou então é mora do credor - só não sendo quando exista um motivo justificado/legal, não incluindo em tal os casos de doença do credor.

Prof. Baptista Machado: é um instituto cinzento que distingue os casos de impossibilidade definitiva da mora do credor. Quando existe uma causa para ‘’não ir ao cinema’’ ocorre a aplicação do art. 815º/2.

Prof. Antunes Varela: tais situações não se tratam de casos de mora do credor nem de impossibilidade não imputável, mas sim de prestações com prazo absolutamente fixo. Existia um prazo temporal muito curto para que a prestação fosse aceite: o credor não aceita a prestação que lhe é oferecida dentro daquele prazo, existindo o não exercício pelo credor do direito a uma prestação, prestação essa que tem um prazo absolutamente fixo. Não são casos de impossibilidade na medida em que não só a prestação que o devedor assumiu é possível mas sem colaboração do próprio devedor, como sucede na maior parte dos casos, senão em todos foi realizada. É necessário distinguir entre risco da prestação e risco da utilização da prestação que corre sempre por conta do credor. O autor considera que nos casos de ‘’terra de ninguém’’ por força do art. 795º/2 deve-se incidir o risco junto da pessoa do credor.

força do art. 795º/2 deve-se incidir o risco junto da pessoa do credor. Maria Luísa Lobo
força do art. 795º/2 deve-se incidir o risco junto da pessoa do credor. Maria Luísa Lobo

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Não sendo um caso de impossibilidade não se pode aplicar o art. 795º, interpretando o autor o art. 813º. Em suma, no não exercício do credor de uma prestação com prazo absolutamente fixo aplica-se analogicamente o regime do art. 815º - situação em que há lugar à contraprestação

Prof. Maria de Lurdes Pereira & Prof. Menezes Leitão: nos casos de ‘’terra de ninguém’’ estamos perante uma situação de mora do credor. A referida autora interpreta o art. 813º tendo em conta que o motivo justificado é só em relação à primeira parte do artigo, só fazendo sentido quando o credor não aceita a prestação. Deste modo, há mora do credor quando se verifica (1) ele não aceita, ou (2) existe motivo justificado. A referida, influenciada pelo pensamento da mora do credor do 813º interpreta a doença como casos fortuitos que podiam ser entendidos como motivos justificados. Quando é necessário ao credor praticar uma serie de actos para realizar a prestação é irrelevante saber se existe ou não motivo justificado.

No presente caso estamos perante uma situação de mora do credor nos termos do art. 813º: o credor que, sem motivo justificado, recusar a prestação ou não praticar os actos necessários à realização da prestação incorre em mora. Alguma doutrina defende que o motivo justificado só releva para a primeira parte da norma, sendo indiferente o facto de o credor estar doente na medida em que existia uma parte da prestação que só poderia ser realizada com a sua colaboração.

4) Caso Michael não fosse estrangeiro e a aula de ténis pudesse ter lugar num dia diferente do acordado, poderia o professor recusar-se a dar aula num dia diferente e simultaneamente receber o preço convencionado com Francisco?

Embora o problema presente no caso seja semelhante ao da alínea anterior, coloca-se a questão de estabelecer a diferença entre o regime da impossibilidade e o regime da mora do credor, não se colocando na verdade um problema de ‘’terra de ninguém’’.

não se colocando na verdade um problema de ‘’terra de ninguém’’. Maria Luísa Lobo – 2011/2012
não se colocando na verdade um problema de ‘’terra de ninguém’’. Maria Luísa Lobo – 2011/2012

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A lei estabelece no 813º que o credor incorre em mora sempre que sem motivo justificado não aceita a prestação que lhe é oferecida nos termos legais ou não pratica os actos necessários ao cumprimento da obrigação. Pressupostos: (1) recusa ou não realização pelo credor da colaboração necessária para o cumprimento; (2) ausência de motivo justificado para essa recusa ou omissão

A fronteira entre a impossibilidade da prestação e a mora do credor constitui uma das

questões jurídicas mais controversas actualmente. Tradicionalmente entendia-se que quando o credor estava impedido por uma causa estranha de colaborar no cumprimento, se estaria perante uma situação de impossibilidade não imputável, com a consequente exoneração do credor em relação à realização da contraprestação 795º nº1.

Posteriormente passou-se porém a entender que o impedimento do credor para aceitar a prestação ou colaborar no cumprimento não constitui impossibilidade, mas antes mora, não ficando assim o credor exonerado do dever de efectuar a contraprestação. Só haveria assim impossibilidade se mesmo com a colaboração do credor, fosse impossível para o devedor realizar a contraprestação. Se a razão da não realização da prestação

reside apenas na falta da colaboração do credor, seja qual for o motivo porque esta não ocorreu, há mora do credor, tendo este que continuar a realizar a contra prestação. Em suma, tem de contraprestar a não ser que o credor alegue e prove que mesmo que ele tivesse praticado os actos necessários ao cumprimento da prestação que a prestação não

se teria realizado ex. o aluno estava doente logo não pode ir a aula mas mesmo que ele

não tivesse doente e mesmo que ele tivesse ido a aula teria havido um corte de luz e a

aula não poderia ser dada na mesma.

Segundo o Professor Antunes Varela este tipo de situações não se reconduz à impossibilidade (porque os factos radicam próximos da pessoa do credor) mas também não constitui mora (neste caso porque estar doente é um motivo justificado), o que estes casos podem configurar é uma situação em que o credor não recebe uma prestação a que tem direito num prazo absolutamente fixo temos de distinguir o risco da prestação e o risco da utilização da prestação e fazer incidir o risco no credor para o obrigar a contraprestar, ou seja suportar todas as despesas que o devedor teve de fundadamente

ou seja suportar todas as despesas que o devedor teve de fundadamente Maria Luísa Lobo –
ou seja suportar todas as despesas que o devedor teve de fundadamente Maria Luísa Lobo –

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suportar por conta dessa prestação neste caso seria a viagem . Ao valor desta indemnização vamos abater todas as vantagens e benefícios que o devedor tenha tido com o facto de não ter realizado a prestação se o professor não deu a aula aquele aluno mas deu a outro aluno. Se por qualquer motivo a prestação se tornar impossível por facto não imputável a nenhum das partes ex. O professor morreu aplicamos o 792º. Aplicamos as normas jurídicas do regime da impossibilidade e da mora

Segundo o Prof Baptista Machado embora considere que a inutilização da prestação por motivo atinente ao credor gravita na mesma esfera de problemas da mora do credor, pois o risco está mais próximo do credor (temos de distinguir entre risco da utilização da prestação e risco da prestação), não considera que esses casos se possam integrar sem mais neste instituto, atento ao pressuposto da ausência de motivo justificativo. O autor vem afirmar que não é mora é um caso de lacuna na lei resolve dizendo que o 816º - norma que contem um principio geral aplica-se mesmo que não haja mora do credor por aplicação analógica do 808º - o devedor pode fixar um prazo ao credor para que ele esteja disponível para ele cumprir se não tivesse disponível o aluno na nova aula a obrigação extingue-se

Segundo o Prof. Menezes Leitão deve ser aplicado o regime da morado credor e não o da impossibilidade a todos os casos em que o credor omita a prática dos actos necessários ao cumprimento independentemente do motivo por que o faz. Efectivamente o devedor ao se obrigar a prestar não assume o risco de a sua prestação não se realizar por ausência de colaboração do credor, mesmo que não derivada de culpa deste. Não se justificaria por isso exonerar nestas situações o credor do dever de efectuar a contraprestação, como resultaria da aplicação do regime da impossibilidade a prestação não se extingue, existindo mora porque interpreta o 813º “sem motivo justificado” – só respeita á recusa da prestação nesta tese 815º nº2 risco corre por conta do credor + indemnização - 816º - não se pode recusar a dar a aula no dia seguinte

XIX

- 816º - não se pode recusar a dar a aula no dia seguinte XIX Maria
- 816º - não se pode recusar a dar a aula no dia seguinte XIX Maria

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António vendeu a Joaquim toda a sua produção de laranjas, por 5.000 €. Ficou acordado que as laranjas seriam colhidas no mês seguinte. Quinze dias depois e antes das laranjas serem colhidas, a poluição provocada por uma unidade fabril provocou o apodrecimento de metade da fruta. Joaquim já tinha pago os 5.000 €. 1) Quem era o proprietário das laranjas, quando a poluição provocada pela unidade fabril provocou o apodrecimento de metade da fruta?

A regra constante do art. 408º/1 é a de que o direito de propriedade se transmite por efeito do contrato. Contudo, uma vez que a presente hipótese respeita a frutos naturais, no âmbito do art. 408º/2 a transferência da propriedade só ocorre no momento da colheita ou da separação, pelo que o vendedor (António) é o proprietário. Nos termos do art. 796º/1 o risco corre por conta do proprietário pelo que terá de devolver metade da quantia recebida (2500euros), ou se não quiser devolver este valor terá de efectuar uma nova (metade da) prestação.

2)

Com que fundamento é que Joaquim pode pedir a restituição do que havia pago a mais?

é que Joaquim pode pedir a restituição do que havia pago a mais? Maria Luísa Lobo
é que Joaquim pode pedir a restituição do que havia pago a mais? Maria Luísa Lobo

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Nos termos do art. 440º ocorreu uma antecipação da totalidade do cumprimento, existindo entre a antecipação e a entrega da coisa um facto que provocada a destruição

de metade da produção.

Trata-se de um caso de impossibilidade parcial imputável a terceiro, pelo que nos termos do art. 793º, fica extinta uma parte da obrigação por impossibilidade de cumprimento o devedor cumprirá o que for possível.

Havendo lugar a um simples cumprimento parcial da obrigação, nos termos do art. 793º, haverá igualmente lugar à redução proporcional da contra prestação a que a outra parte estiver vinculada, sendo que daqui se conclui que o risco do preço, da contraprestação ou da compensação corre por conta do devedor desonerado da prestação por impossibilidade desta.

A

redução da contraprestação é feita nos termos prescritos no art. 884º, sempre que se

se

trate de um contrato oneroso de alienação de bens ou de estabelecimento de encargos

sobre eles, como resulta do art. 939º.

Em suma, nos termos do art. 796º o risco não corre por conta do comprados na medida em que não é o proprietário das laranjas no momento em que ocorre a destruição de

metade destas. O devedor terá que entregar as laranjas que não foram destruídas, sendo

a contraprestação é proporcionalmente reduzida, ou seja só irá receber 2500euros (correspondente a metade das laranjas) por força do art. 795º.

Nota: o regime do art. 795º (risco em contratos obrigacionais), no presente caso, encontra-se em consonância com o regime do art. 796º (risco em contratos com eficácia real). Caso ocorresse uma divergência aplicar-se-ia o artigo 796º.

3)

Estará Joaquim obrigado a aceitar metade da fruta?

o artigo 796º. 3) Estará Joaquim obrigado a aceitar metade da fruta? Maria Luísa Lobo –
o artigo 796º. 3) Estará Joaquim obrigado a aceitar metade da fruta? Maria Luísa Lobo –

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Nos termos do art. 793º/2, não existindo interesse justificado, por parte do credor, no cumprimento parcial, este pode resolver o negócio.

O Prof. Baptista Machado entende que o devedor pode obstar à resolução do contrato, fundada na impossibilidade parcial da prestação, eliminando os defeitos da prestação ou procedendo à substituição desta, dentro do prazo razoável ficado pelo credor, nos termos do art. 808º/1. Dificilmente se concebe, no entanto, que uma prestação verdadeiramente impossível (mesmo só em parte) possa ser corrigida ou substituída por outra, a não ser por outro arranjo contratual livremente negociado por ambas as partes.

4)

Se António tiver direito a receber 2.700 € pelos danos causados pela unidade fabril, que poderá fazer Joaquim?

O ‘’Commodum’’ de representação ou Sub-Rogação Real Legal consagrada no art. 794º é uma figura com muito pouca aplicação pratica no nosso ordenamento jurídico na medida em que pressupõe a não transferência da propriedade. Ora, a regra no Direito Português é a de que a transferência da propriedade das coisas ocorre por mero efeito do contrato, nos termos do art. 408º/1, pelo que passam a pertencer ao credor, devendo ser ele directamente o titular da indemnização sem necessidade de sub-rogação. O ‘’Commodum’’ de representação só se aplica nos casos do art. 408º/2 e nos casos do art.

409º.

Uma vez que a presente hipótese remete-nos para a matéria dos frutos naturais, incluindo-se no âmbito do art. 408º/2, coloca-se a questão de saber como conciliar o regime do ‘’Commodum’’ de representação, presente no art. 794º com o regime do art. 795º, referente aos contratos bilaterais.

art. 794º com o regime do art. 795º, referente aos contratos bilaterais. Maria Luísa Lobo –
art. 794º com o regime do art. 795º, referente aos contratos bilaterais. Maria Luísa Lobo –

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Trata-se de uma opção: o credor da obrigação recíproca terá que fazer uma escolha: ou opta por exercer os direitos que decorrem do ‘’Commodum’’ de representação e, no presente cabo, recebe 2700euros mas continua obrigado à contraprestação, ou opta pela desoneração da contraprestação e recupera aquilo que prestou, ou seja os 2500euros. Neste caso, a solução mais conveniente seria a que deriva do ‘’Commodum’’ de representação na medida em que o valor é superior.

XX

No dia 10 de Março de 2006, António vendeu a Bento uma cómoda D. Maria de pau-santo por 5.000 €. As partes convencionaram que António deveria entregar a referida cómoda na casa de Bento, no dia 15 desse mesmo mês, contra o pagamento do respectivo preço. A cómoda ficou destruída por um incêndio fortuito ocorrido no armazém de António. Para responder a cada uma das alíneas só deverá ter em conta em conta o corpo da hipótese.

1)

Se o incêndio tiver ocorrido no dia 14 de Março, terá Bento de pagar o preço da cómoda a António?

A regra constante do art. 408º/1 é a de que o direito de propriedade se transmite por efeito do contrato, pelo que Bento será o proprietário.

No presente caso, estamos perante uma impossibilidade objectiva não imputável a nenhuma das partes, na medida em que a destruição da comoda ocorreu devido a um incêndio. Ou seja, existe uma impossibilidade objectiva derivada de caso fortuito ou de força maior, pelo que nos termos do art. 790º/1 o devedor ficaria desonerado de entregar a cómoda.

Coloca-se a questão de saber quem suporta o risco da contraprestação. Nos termos do art. 795º/1, Bento sendo o proprietário desde de dia 1 de Março não teria de pagar o preço. Contudo, o referido artigo cede face ao art. 796º quando ocorra uma divergência. Deste modo, nos contratos com efeitos reais em que se aplica o art. 796º este prevalece

contratos com efeitos reais em que se aplica o art. 796º este prevalece Maria Luísa Lobo
contratos com efeitos reais em que se aplica o art. 796º este prevalece Maria Luísa Lobo

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face ao art. 795º devido a uma relação de especialidade. Nos termos do art. 796º/1 o risco corre por conta do adquirente, sendo que quem irá suportar o risco será Bento, encontrando-se obrigado a pagar o preço mas a não receber a cómoda.

Nunca se colocaria a questão de aplicação do ‘’Commodum’’ de representação (art. 794º) na medida em que a transferência da propriedade ocorreu com o contrato, pelo que seria sempre Bento a receber a prestação.

2)

A resposta à pergunta anterior seria a mesma se as partes tivessem convencionado que a propriedade da cómoda só se transferia para Bento quando este procedesse ao integral pagamento do preço?

No presente caso existe uma cláusula de reserva de propriedade (art. 409º), pelo que nos termos do art. 796º/3 é necessário apurar quem suporta o risco.

Existe uma divergência doutrinal acerca da natureza jurídica da cláusula da reserva de propriedade, pelo que a solução irá sempre depender da posição adoptada.

Segundo o Prof. Antunes Varela, o Prof Pires de Lima é impossível afirmar que a cláusula de reserva de propriedade é uma condição na medida em que incide sobre um elemento essencial do negócio. No entanto, apesar de afirmarem tal entendem que nestes casos se aplica analogicamente o regime do art. 796º/3, 2ªparte por uma razão de bom sendo, na medida em que se a não transferência da propriedade até que o preço seja pago visa proteger o vendedor, faz todo o sentido que o risco corra por conta dele.

Deste modo, segundo o Prof. Antunes Varela e a Jurisprudência a cláusula de reserva de propriedade constitui uma cláusula suspensiva, consagrada no art. 796º/3, 2ªparte. Na condição suspensiva o domínio ou o direito (real) sobre a coisa não se transfere ou não se constitui enquanto o evento não se verificar, pelo que o risco durante a pendencia da condição corre por conta do alienante; uma vez verificada a condição, o risco passa naturalmente a correr por conta do credor (adquirente). Ou seja, enquanto não se verificar o evento condicionante que pode ser o pagamento do preço, a propriedade fica

evento condicionante que pode ser o pagamento do preço, a propriedade fica Maria Luísa Lobo –
evento condicionante que pode ser o pagamento do preço, a propriedade fica Maria Luísa Lobo –

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suspensa não ocorrendo a transferência da propriedade como se transferia nos termos do art. 408º/1.

Segundo o Prof. Menezes Leitão, a cláusula de reserva de propriedade constitui uma condição resolutiva, pelo que nos termos do art. 796º/3, 1ªparte, a cláusula não impede o efeito translativo (imediato) do contrato, sendo que o risco do perecimento da coisa corre por conta do credor (adquirente), necessitando para tal que a coisa lhe tenha sido entregue. Assenta na ideia da relação entre o art. 409º e o art. 886º que derrogam o art. 801º tornando-se resolúvel o contrato promessa. Deste modo, o risco já não corre por conta do adquirente nessa mesma pendencia caso a coisa lhe tenha sido entregue.

Nota: segundo o Prof. João Tiago Antunes mesmo que se seguisse o entendimento que a cláusula de reserva de propriedade consistia numa condição resolutiva, no presente caso nunca se poderia aplicar o art. 796º/3, 1ªparte na medida em que tal pressupõe a entrega da coisa, entrega essa que no presente caso não ocorreu.

3) Terá Bento de pagar o preço da cómoda, caso esta só pudesse ser entregue no dia 15, porque António precisava dela até esse momento?

No presente caso estamos perante uma compra e venda, em que a coisa não é entregue e fica na posse do alienante durante certo período de tempo, período esse em que ocorreu um incêndio não imputável a nenhuma das partes.

Nos termos do art. 796º/2, tendo a coisa ficado em poder do alienante, em consequência de termo constituído a seu favor, o risco só se transfere para o adquirente com o vencimento do termo ou a entrega da coisa, salvo se houver mora do alienante (art. 807º), não bastando que a coisa seja colocada à disposição do adquirente.

Deste modo, o risco corre por conta de António ficando este sem a coisa e sem o valor da comoda na medida em que Bento não é obrigado a pagar o preço.

o valor da comoda na medida em que Bento não é obrigado a pagar o preço.
o valor da comoda na medida em que Bento não é obrigado a pagar o preço.

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4) Imagine que o incêndio ocorreu no dia 16 de Março e que António não tinha procedido ainda à entrega da cómoda, porque se esqueceu que tinha combinado com Bento entregar a cómoda no dia 15. Terá Bento de pagar o respectivo preço?

No presente caso, estamos perante uma situação em que existe mora do devedor uma vez que a entrega da comoda deveria ter sido realizada no dia 15 de Março e não foi (art. 798º, 801º, 804º e 805º/2).

A mora do devedor foi seguida de impossibilidade definitiva não imputável a nenhuma das partes, ou seja presumindo-se o incêndio fortuito. A consequência prática da impossibilidade objectiva definitiva não imputável a nenhuma das partes e posterior à mora do devedor encontra-se consagrada no art. 807º/1.

O regime do art. 807º/1 constitui uma excepção ao regime consagrado no art. 790º, sendo que a mora perpetua a obrigação. Da aplicação desta norma resulta que: (1) o devedor ao incumprir terá de indemnizar os prejuízos causados pelo não cumprimento; (2) o risco da contraprestação corre inteiramente pelo devedor em mora, pelo que o credor não terá de contraprestar (art. 795º). Daqui resulta que António ficará sem a coisa (a cómoda ficou destruída no incêndio), e sem o dinheiro, sendo ainda suspeito de um caso de responsabilidade contratual tendo Bento direito a uma indemnização.

Nota: Segundo o Prof. Vaz Serra ‘’Parece razoável que, estando em mora o devedor, se presuma que a impossibilidade da prestação devida a facto a ele não imputável se verificou justamente por causa dessa mora. É de crer que, se a obrigação não tivesse sido cumprida em tempo, tal impossibilidade se não teria dado.’’

Precisamente porque se trata de uma presunção a da existência dum nexo de causalidade entre a mora e a perda ou deterioração da coisa o devedor é admitido a provar que o credor teria sofrido igualmente o dano, se a obrigação tivesse sido cumprida. É esta a doutrina do art. 807º/2, tratando-se de um caso de relevância negativa da causa virtual do dano. A prova imposta ao devedor é difícil. Devem ocorrer circunstancias muito especiais, para que possa considerar-se afastado o nexo de

muito especiais, para que possa considerar-se afastado o nexo de Maria Luísa Lobo – 2011/2012 Página
muito especiais, para que possa considerar-se afastado o nexo de Maria Luísa Lobo – 2011/2012 Página

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causalidade pressuposto na lei. Mas, feita a prova, não há razão que possa justificar a responsabilidade do devedor, devendo ele responder apenas pelos efeitos da mora.

5) Suponha, agora, que não foi António quem se esqueceu de entregar a cómoda, mas foi Bento que não recebeu a cómoda, por ter decidido aproveitar os primeiros dias soalheiros de 2006 e ir para Vila Nova de Mil Fontes. Terá Bento de pagar o preço da cómoda? A resposta seria a mesma se o incêndio se devesse a uma imprudência indesculpável de António?

Relativamente à primeira parte do caso, existe uma situação de mora do credor nos termos do art. 813º na medida em que não existe motivo justificado que leve Bento a não aceitar a prestação. Os motivos que justificam o não recebimento na prestação podem dizer respeito ao seu objecto ou à forma por que o devedor pretende cumprir a obrigação. O motivo justificado que o credor pode invocar para não incorrer em mora tem de ser um motivo que encontre a sua justificação na lei, ou seja um motivo legítimo.

Nos termos do art. 815º/1 o risco corre por conta do credor (Bento), que apesar do incêndio terá de pagar o valor da coisa (o devedor só responde se a impossibilidade resultar de dolo, e não quando resulte de mera culpa art. 795º/2).

Nos termos do art. 815º/2, 1ªparte o credor não se encontra exonerado da contraprestação, pela extinção da obrigação do devedor, visando-se não prejudicar o obrigado em consequência da mora accipiendi.

Nos termos do art. 815º/2, 2ªparte se o devedor retirar algum benefício com a extinção da sua obrigação deve o valor de tal benefício ser descontado na contraprestação.

Relativamente à segunda parte do caso, coloca-se a questão de saber se se trata de um caso de dolo eventual ou de negligência inconsciente.

Configurando uma situação de dolo eventual, o agente previu o resultado como consequência da sua possível conduta, não se abstendo porem de a empreender e

da sua possível conduta, não se abstendo porem de a empreender e Maria Luísa Lobo –
da sua possível conduta, não se abstendo porem de a empreender e Maria Luísa Lobo –

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conformando-se com a produção do resultado; configurando um situação de negligencio consciente, o agente, admite, prevê como possível a realização do resultado típico, mas confia podendo e devendo não confiar, em que o mesmo não se realiza ou mostrando-se indiferente à sua produção.

Resulta da conjugação do art. 814º/1 com o art. 815º/1, que o risco corre por conta de Bento. Contudo, uma vez que António entra em mora nos termos do art. 807º/1 ocorre uma inversão do risco que passa a correr por conta do alienante.

Existe igualmente um agravamento do risco o que leva a responsabilidade contratual por causa não imputável.

6)

Se Bento não tivesse recebido a cómoda, porque se encontrava hospitalizado por ter sofrido um ataque cardíaco, continuaria obrigado a pagar os 5.000 € acordados?

No presente caso, não existe mora do credor nos termos do art. 813º uma vez que existe uma causa justificativa. Tal consubstancia uma situação de difícil fronteira entre impossibilidade por causa não imputável a nenhuma das partes e impossibilidade por causa imputável ao credor.

Nos termos do art. 790º existe uma situação de impossibilidade objectiva ficando o devedor desonerado, e nos termos do art. 792º existe uma situação de impossibilidade temporária pelo que o devedor não vai responder pela mora.

A regra constante do art. 408º/1 é a de que o direito de propriedade se transmite por efeito do contrato, pelo que de acordo com o art. 796º/1 será Bento quem suporta o risco. Daqui resulta que Bento ficará sem a cómoda (cómoda destruída no incêndio) mas terá de pagar o preço (5mil Euros).

Nota: aplica-se o art. 796º/1 ao invés do art. 815º/1, na medida em que este é mais favorável a Bento que não terá de suportar a negligência.

este é mais favorável a Bento que não terá de suportar a negligência. Maria Luísa Lobo
este é mais favorável a Bento que não terá de suportar a negligência. Maria Luísa Lobo

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7) Caso as partes tivessem acordado que a propriedade da cómoda só se transferiria para Bento quando este tivesse pago o preço, estaria Bento obrigado a fazê-lo se o incêndio fortuito tivesse ocorrido em sua casa, depois da cómoda lhe ter sido entregue, mas antes dele ter liquidado o seu preço?

A regra constante do art. 408º/1 é a de que o direito de propriedade se transmite por efeito do contrato, pelo que de acordo com o art. 796º/1 o risco corre por conta de Bento independentemente da entrega da coisa.

Contudo, no caso em análise existe uma cláusula de reserva de propriedade (art. 409º) pelo que não se encontram verificados todos os efeitos da compra e venda presente no art. 879º: (1) transferência da propriedade não; (2) entrega da coisa sim; (3) pagamento do preço não.

Existe uma divergência doutrinal acerca da natureza jurídica da cláusula da reserva de propriedade, pelo que a solução irá sempre depender da posição adoptada.

Segundo o Prof. Antunes Varela, o Prof Pires de Lima é impossível afirmar que a cláusula de reserva de propriedade é uma condição na medida em que incide sobre um elemento essencial do negócio. No entanto, apesar de afirmarem tal entendem que nestes casos se aplica analogicamente o regime do art. 796º/3, 2ªparte por uma razão de bom sendo, na medida em que se a não transferência da propriedade até que o preço seja pago visa proteger o vendedor, faz todo o sentido que o risco corra por conta dele.

Deste modo, segundo o Prof. Antunes Varela e a Jurisprudência a cláusula de reserva de propriedade constitui uma cláusula suspensiva, consagrada no art. 796º/3, 2ªparte. Na condição suspensiva o domínio ou o direito (real) sobre a coisa não se transfere ou não se constitui enquanto o evento não se verificar, pelo que o risco durante a pendencia da condição corre por conta do alienante; uma vez verificada a condição, o risco passa naturalmente a correr por conta do credor (adquirente). Ou seja, enquanto não se verificar o evento condicionante que pode ser o pagamento do preço, a propriedade fica

evento condicionante que pode ser o pagamento do preço, a propriedade fica Maria Luísa Lobo –
evento condicionante que pode ser o pagamento do preço, a propriedade fica Maria Luísa Lobo –

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suspensa não ocorrendo a transferência da propriedade como se transferia nos termos do art. 408º/1.

Segundo o Prof. Menezes Leitão, a cláusula de reserva de propriedade constitui uma condição resolutiva, pelo que nos termos do art. 796º/3, 1ªparte, a cláusula não impede o efeito translativo (imediato) do contrato, sendo que o risco do perecimento da coisa corre por conta do credor (adquirente), necessitando para tal que a coisa lhe tenha sido entregue. Assenta na ideia da relação entre o art. 409º e o art. 886º que derrogam o art. 801º tornando-se resolúvel o contrato promessa. Deste modo, o risco já não corre por conta do adquirente nessa mesma pendencia caso a coisa lhe tenha sido entregue.

O problema coloca-se quando a coisa já foi entregue. Existe uma lacuna na lei, na medida em que na condição resolutiva afirma-se que o risco só se transfere quando ocorra a entrega, nada se dizendo quanto à condição suspensiva.

Uma interpretação literal do art. 796º/3, 2ªparte seria que o risco corre sempre por conta do alienante. Contudo, o Prof. Antunes Varela, Galvão Telles e Pires de Lima fazem uma interpretação sistemática da referida norma e defendem que, nos casos em que a condição é suspensiva, o risco corre por conta do alienante na pendencia da condição, mas se a coisa for transferida para o adquirente durante a pendencia da condição o risco passa a correr por conta deste.

Nota: o Prof. Ferreira Pinto entende que a cláusula de reserva de propriedade é uma condição suspensiva apenas quanto à transferência da propriedade.

8)

Por último, suponha que, na data acordada, António se recusa a entregar a cómoda, alegando que Bento ainda não lhe pagou o preço de um relógio antigo que António lhe vendeu, em Janeiro desse mesmo ano, pelo preço de 8.000 €. Quid iuris?

No presente caso, poderiam existir teoricamente duas opções para proteger Bento: (1) excepção de não cumprimento nos termos do art. 428º. Contudo, neste caso não poderia ser invocada uma vez que não existe sinalagma entre as duas obrigações em causa, e

uma vez que não existe sinalagma entre as duas obrigações em causa, e Maria Luísa Lobo
uma vez que não existe sinalagma entre as duas obrigações em causa, e Maria Luísa Lobo

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alem disso são dois contratos diferentes; (2) direito de retenção nos termos do art. 754º. Para existis pressupõe uma conexão material, ou seja o crédito tem que resultar de despesas tidas com a cómoda ou danos por ela causados, coisa que aqui não acontece.

Nestes termos, António terá que entregar a cómoda e se não entregar sujeita-se a incorrer em mora ou em incumprimento.

XXI

António, coleccionador de relógios antigos, encontrou no antiquário de Bernardo um relógio Gray de 1765. António comprou o relógio a Bernardo por 4.500 €. Foi acordado que o preço só teria de ser pago 30 dias depois da celebração do contrato. Como o preço não foi pago, Bernardo pretende saber:

1)

Se pode exigir a António os 4.500 € acrescidos de uma indemnização?

O art. 779º estipula que o prazo se tem por estabelecido a favor do devedor quando não se mostre que foi a favor do credor, ou de um e outro conjuntamente.

Nos termos do art. 804º estamos perante um caso de mora do devedor, sendo que para tal se encontram verificados os requisitos: para além da culpa verifica-se que está é certa, liquida e exigível.

Presumindo-se que o retardamento da prestação é imputável ao devedor, nos termos do art. 804º, o vendedor pode exigir os 4500euros.

Nos termos do art. 806º, uma vez que estamos no âmbito das obrigações pecuniárias o vendedor tem direito a uma indemnização a partir do 30ºdia de atraso (desvio às normas do art. 563º). Sendo uma obrigação civil, o juro civil é de 4%; se constituir uma obrigação comercial, o juro comercial é regulado de 6 em 6 meses, sendo que actualmente ronda à volta dos 9%.

é regulado de 6 em 6 meses, sendo que actualmente ronda à volta dos 9%. Maria
é regulado de 6 em 6 meses, sendo que actualmente ronda à volta dos 9%. Maria

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Nota: no caso em análise não se pode aplicar o art. 806º/3 na medida em que esta norma não se aplica aos casos de responsabilidade civil contratual, mas tão só aos casos de responsabilidade civil extracontratual. O Prof. Antunes Varela critica:

O critério geral fixado no art. 566º/2 para o cálculo da indemnização em dinheiro devida pelo lesante, sempre que a restituição natural não proceda, conduz em princípio ao resultado que o art. 506º/8 consagra, com o inconveniente de sugerir que tal não possa ocorrer quando não haja mora do lesante.

Dificilmente se concebe que, na prática, no âmbito da responsabilidade civil extracontratual ou da responsabilidade fundada no risco, credor e devedor possam ter convencionado qualquer juro compensatório ou um juro moratório diferente do legal.

2)

Se pode exigir a António a devolução do relógio?

António só poderia obter a devolução do relógio caso resolvesse o contrato. Para tal resolução ocorrer tal teria de ser realizada nos termos do art. 808º através da transformação da mora em incumprimento definitivo, ou seja realizando uma interpelação admonitória.

Contudo, no caso em análise encontram-se verificados os pressupostos do art. 886º: (1) Transferência da Propriedade no momento da celebração do contrato por força do art. 408º/1; (2) Entrega da Coisa; pelo que não pode haver resolução do contrato impedindo a devolução do relógio.

Se não tivesse ocorrido a entrega do relógio, poderia o credor transformar a mora em incumprimento definitivo através dos mecanismos do art. 808º e do art. 801º o que levaria à possibilidade de reaver o relógio.

3)

No caso de lhe ser devolvido o relógio, se pode pedir uma indemnização a António decorrente do facto de, depois de lhe ter vendido o relógio, ter

António decorrente do facto de, depois de lhe ter vendido o relógio, ter Maria Luísa Lobo
António decorrente do facto de, depois de lhe ter vendido o relógio, ter Maria Luísa Lobo

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aparecido no seu antiquário outro coleccionador que estava disposto a pagar 5.000 € por aquele relógio, mas que entretanto morreu?

Ao ocorrer a devolução do relógio ocorreu anteriormente a resolução do contrato por aplicação do art. 801º/2.

No presente caso, o credor pede uma indemnização pelo interesse contratual negativo, ou seja quer ficar colocado na situação em que estaria se o contrato não tivesse sido celebrado. Nos termos do art. 564º/1, in fine o lucro cessante seria de 500euros uma vez que tal corresponde à diferença resultante da oportunidade perdida de vender o negócio e o valor do contrato celebrado com António.

Coloca-se a questão de saber o credor pode cumular a resolução com a indemnização por interesse contratual negativo.

Nos termos do art. 562º e ss sim, uma vez que a indemnização pedida resulta das regras gerais dos referidos artigos pelo que em primeiro lugar deve-se atender à restituição natural, e só não sendo possível esta restituição é que a indemnização é em dinheiro.

É de notar que esta indemnização abrange tanto os danos emergentes como os lucros cessantes, tal como resulta do art. 564º.

Nota: coloca-se a questão de saber se na indemnização pode-se incluir os danos morais. O Prof. Antunes Varela considera que não devido a razes de certeza e segurança jurídica e para não aumentar a litigiosidade. Contudo, tal argumento é rebatível na medida em que o art. 496º/1 refere os danos morais que pela sua gravidade merecem tutela do direito (posição da doutrina e da jurisprudência). Coloca-se ainda a questão de saber o art. 494º é ou não aplicável a responsabilidade contratual. Embora o Prof. Menezes Leitão considere que sim, o Prof Antunes Varela considera que não, na medida em tal artigo é uma norma excepcional e deste modo não comporta interpretação analógica lacuna da lei.

XXII

modo não comporta interpretação analógica – lacuna da lei. XXII Maria Luísa Lobo – 2011/2012 Página
modo não comporta interpretação analógica – lacuna da lei. XXII Maria Luísa Lobo – 2011/2012 Página

Faculdade de Direito da UCP

António obrigou-se, por escrito particular, a vender a Bernardo uma fracção autónoma de um edifício situado no concelho de Cascais. A título de sinal e de princípio de pagamento, Bernardo entregou a António 100.000 €. Ficou, igualmente, acordado que a escritura pública seria feita até ao final do ano de 2006. No dia 4 de Outubro, António telefonou a Bernardo, para lhe comunicar que já não estava interessado em vender-lhe o andar. Em face deste comportamento, Bernardo considera que tem direito a receber imediatamente 200.000 €.

1)

Como qualifica a declaração telefónica de António?

Declaração Antecipatória Inequívoca: declaração através da qual o devedor, antes do vencimento da obrigação, declara em termos claros e inequívocos que não vai cumprir a obrigação.

Existe uma divergência doutrinária acerca da relevância da Declaração Antecipatória Inequívoca.

Segundo o Prof. Antunes Varela, o Prof. Ribeiro de Faria e o Prof. Menezes Cordeiro (numa primeira fase) existe um incumprimento definitivo da obrigação imputável ao devedor, sendo que um incumprimento definitivo num contrato promessa conduz à resolução do contrato ou à devolução do sinal em dobro ou à perda deste.

Segundo o Prof. Menezes Leitão, o Prof. Galvão Telles e o Prof. Almeida Costa existe uma situação de simples mora (art. 805º/2 al. a) e c)), pelo que embora existam casos em que a interpelação admonitória deixa de fazer sentido, e mesmo sem interpelação existe mora, neste caso faz sentido em que o devedor mediante declaração afirme claramente que não vai cumprir. Ou seja, não faz sentido que o credor tenha de interpelar o devedor nos casos em que este já disse que não vai cumprir. No contrato promessa incumprido a simples mora já autoriza a resolução do contrato (condição resolutiva tácita art. 442º/3, in fine).

Segundo o Prof. Pessoa Jorge não se está perante um caso de incumprimento definitivo da obrigação imputável ao devedor nem perante um caso de mora: não atribui qualquer

imputável ao devedor nem perante um caso de mora: não atribui qualquer Maria Luísa Lobo –
imputável ao devedor nem perante um caso de mora: não atribui qualquer Maria Luísa Lobo –

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relevância jurídica dessa declaração, sendo que o credor só pode exercer os seus direitos se se verificar o incumprimento uma vez que o devedor tem ate ao fim do prazo para cumprir (está a recusar a um benefício que a lei lhe confere pelo que não se pode dizer que declarando ele não vai cumprir).

2)

Considera que Bernardo tem direito a receber imediatamente 200.000 €?

Nos termos do art. 442º, mesmo que se entenda que se trata de um caso de simples mora, existe a possibilidade de receber o sinal em dobro.

XXIII

Ana, negociante de antiguidades e proprietária de um piano avaliado em 5.000 €, acorda com Benedita, pianista, trocá-lo por um vaso antigo pertencente a esta, com valor de mercado de 6.000 €. Antes da entrega do vaso este foi destruído, porque Benedita o deixou cair, por descuido.

1)

Poderá Ana recusar-se a entregar o piano e exigir que Benedita lhe entregue 1.000 €?

No presente caso, estamos perante um incumprimento definitivo imputável ao devedor. Coloca-se de saber se no âmbito dos direitos dos credores, se pode cumular o pedido de resolução do contrato com o pedido de indemnização pelo interesse contratual positivo.

Segundo a posição clássica defendida pelo Prof. Antunes Varela, Prof. Galvão Telles, Prof. Almeida Costa, Prof. Ribeiro de Faria e pela Jurisprudência quase na sua totalidade a resolução opera-se por meio de declaração unilateral recíproca do credor (art. 436º), tornando-se irrevogável logo que chega ao poder do devedor ou dele é conhecida (art. 224º/1 e art. 230º). Mesmo nos casos de resolução existe direito à indemnização pelo interesse contratual negativo, ou seja pelo prejuízo que o credor teve com o facto de celebrar o contrato, prejuízo que ele não sofreria se não tivesse celebrado o contrato. Pelo interesse contratual negativo visa-se repor a situação de origem como se

interesse contratual negativo visa-se repor a situação de origem como se Maria Luísa Lobo – 2011/2012
interesse contratual negativo visa-se repor a situação de origem como se Maria Luísa Lobo – 2011/2012

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o contrato nunca tivesse sido celebrado. Pretende-se a exoneração da obrigação que assumiu e a reposição do seu património no estado em que se encontraria se não tivesse sido celebrado o contrato. Argumentos a Favor:

Efeito Retroactivo da Resolução (art. 434º)

Equiparação dos efeitos da resolução aos efeitos da nulidade/anulabilidade (art.

433º)

Segundo o Prof. Vaz Serra, o Prof. Baptista Machado, a Prof. Ana Prata e o Prof. Romano Martinez o credor pode optar pela indemnização quer seja a que resulta do interesse contratual positivo quer seja a que resulta do interesse contratual negativo. Verificando-se o incumprimento definitivo resolutivo, que tem por fonte um contrato bilateral, o credor pode optar entre a Grande Indemnização (art. 801º/1) e a Pequena Indemnização (art. 801º/2). A Grande Indemnização corresponde à totalidade do valor da prestação incumprida, caso em que ele terá de cumprir a sua contraprestação. A Pequena Indemnização corresponde ao credor pedir a diferença que resulta entre a prestação incumprida por parte do devedor e o valor da sua própria contraprestação, sendo que ele não se encontra obrigado a realizá-la, podendo utilizá-la com o intuito de compensar o valor da prestação incumprida que lhe terá de ser indemnizada. Argumentos a Favor:

Nem sempre ocorre o efeito retroactivo da resolução (art. 434º/1). Exemplo:

contratos de execução prolongada ou quando se mostre contrário à vontade das partes.

A lei não distingue no art. 801º o tipo de indemnização em causa, pelo que pode ser perfeitamente interpretado de maneira a conceber esta indemnização como indemnização pelo interesse contratual positivo, ou seja colocando o credor na situação em que estaria se o contrato tivesse sido pontualmente cumprido.

De acordo com o art. 802º, num regime de impossibilidade parcial a lei consagra que o credor pode resolver o contrato ou optar por manter em qualquer um dos

o credor pode resolver o contrato ou optar por manter em qualquer um dos Maria Luísa
o credor pode resolver o contrato ou optar por manter em qualquer um dos Maria Luísa

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casos o direito à indemnização. Deste modo estar-se-ia a tutelar mais o credor numa hipótese de impossibilidade parcial do que numa impossibilidade total.

Segundo o Prof. Menezes Leitão, tal como o Prof. Antunes Varela defende, não é possível pedir uma indemnização pelo interesse contratual positivo se a prestação já tiver sido efectuada. Contudo, numa hipótese em que o credor cujo crédito ficou desfeito em termos finais e absolutos quer resolver o contrato para não ter de prestar, tal como o Prof. Batista Machado defende, pode haver indemnização pelo interesse contratual positivo, ou seja quando a prestação se torna impossível e o credor de tal ainda não cumpriu. O Prof. Menezes Leitão apoia-se em duas teorias:

Teoria da Sub-rogação (Prof. Antunes Varela): existe a obrigação de entregar a coisa para receber a indemnização, sendo que a prestação impossível passa a ser substituída pelo seu valor expresso em dinheiro.

Teoria da Diferença (Prof. Batista Machado): não é necessário a entrega da coisa, mas sim o seu abatimento.

Teoria da Diferença Atenuada: é o credor quem escolhe, podendo ter em alguns casos um interesse ou não.

Em suma, segundo o Prof. Menezes Leitão é necessário distinguir duas situações diferentes:

Se a obrigação incumprida foi por parte do devedor quando o credor já havia contraprestado, a resolução do contrato tem de ser acompanhada pelo interesse contratual negativo

Se à data em que se verifica o incumprimento o credor ainda não contraprestou ele não tem de contraprestar e pode receber a diferença, ou seja pode ser indemnizado pelo interesse contratual positivo.

ou seja pode ser indemnizado pelo interesse contratual positivo. Maria Luísa Lobo – 2011/2012 Página 90
ou seja pode ser indemnizado pelo interesse contratual positivo. Maria Luísa Lobo – 2011/2012 Página 90