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Manual Cuidador

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Manual para cuidadores de idosos
Manual para cuidadores de idosos

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Leda Almada Cruz de Ravagni

Introdução

Este capítulo tratará do cuidador da pessoa idosa na sociedade brasileira
contemporânea, especialmente do cuidador formal, isto é, daquele que rece-
beu formação especial para trabalhar como cuidador e pode se empregar como
um assalariado, na moradia de uma pessoa idosa, numa instituição de longa
permanência para idosos (ILPI) ou em outros serviços para pessoas idosas.
Sabemos que a velhice não deve ser considerada uma doença, mas a idade
acarreta perdas funcionais no indivíduo e torna necessária uma adequação no
seu estilo de vida e novas formas de relacionamento com o meio. (ver assunto
Diminuição da capacidade funcional, fragilização e dependência).
A situação complica-se quando ocorre a perda da saúde e da indepen-
dência, exigindo cuidados especiais. Estes eram tradicionalmente realizados
pela família, mais especificamente por um membro feminino – mulher, filha,
irmã, ou uma parenta solteira, que dedicava sua vida a este trabalho, muitas
vezes sem reconhecimento, e normalmente sem remuneração. Na falta de con-
dições ou na inexistência do núcleo familiar, o atendimento à pessoa idosa era
realizado por instituições de longa permanência para idosos, as quais, muitas
vezes, aumentavam a sua dependência.
As grandes mudanças que ocorreram nas últimas décadas, na sociedade
brasileira, especialmente a migração das famílias do campo para as cidades e o
aumento do número de mulheres que trabalham fora, a substituição da família
extensa pela família nuclear e a elevação da expectativa de vida do brasileiro,
encontraram as famílias despreparadas para enfrentar este problema.
As leis brasileiras de proteção à pessoa idosa – Política Nacional do Idoso
(artigo 3º I) e o Estatuto do Idoso (artigo 3º), baseadas na Constituição Brasileira
(artigo 230), reafirmam que é obrigação da família cuidar da pessoa idosa. Mas
as leis deixam claro também que essa obrigação é exercida juntamente com a

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comunidade, a sociedade e o poder público. No entanto, até agora, a maior
carga de responsabilidade recai sobre a família, especialmente sobre a mulher,
que sem preparo anterior, se vê transformada em cuidadora da pessoa idosa. Este
cuidador é denominado cuidador informal para diferenciar do cuidador formal,
cujas características já mencionamos anteriormente, no início deste capítulo.
A capacitação de recursos humanos, isto é, do “cuidador”, tanto o infor-
mal como o formal, tornou-se uma necessidade com o envelhecimento da
população, o que passou a ser feito através da organização de cursos, que ofe-
recem treinamentos em serviços de apoio às atividades da vida diária, de ajuda
no processo saúde/doença, e de agir como fator facilitador da integração idoso/
família e idoso/sociedade. Através desta formação o cuidador terá condições
de exercer com maior capacidade sua obrigação, favorecendo, desta forma, a
melhoria da qualidade de vida das pessoas idosas.

Quais os pré-requisitos para se tornar um cuidador?

Como já mencionamos anteriormente, existem duas categorias de

cuidador:

cuidador informal – membro familiar, esposa(o), filha(o), irmã(ão),
normalmente do sexo feminino, que é “escolhido” entre os familiares
por ter melhor relacionamento ou intimidade com a pessoa idosa e por
apresentar maior disponibilidade de tempo. Podemos colocar neste
grupo a amiga ou vizinha, que mesmo não tendo laços de parentesco,
cuida da pessoa idosa, sem receber pagamento, como voluntária.
O fato de ter sob sua responsabilidade o cuidado de uma pessoa idosa,
não significa que possui conhecimentos básicos e indispensáveis de como cui-
dar de “seu idoso”. Na maioria das vezes é levada(o) pela intuição, pela emo-
ção, sentimentos de amor, carinho. O fato de ter uma história comum com
a pessoa cuidada pode tornar mais difícil e estressante realizar os cuidados.
Agrava o seu desgaste, sua incerteza de estar agindo corretamente e o pouco
domínio de técnicas que permitem cuidar melhor da pessoa idosa, com menor
desgaste físico e emocional. (Ver assunto O cuidador principal é sua relação
com os demais cuidadores
).
cuidador formal é o profissional, que recebeu um treinamento espe-
cífico para a função e exerce a atividade de “cuidador” mediante
uma remuneração, mantendo vínculos contratuais. Ele pode ser con-

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tratado para exercer suas funções na residência de uma família, em
Instituições de Longa Permanência para Idosos (ILPI), ou acompa-
nhar a pessoa idosa em sua permanência em Unidades de Saúde
(hospitais, clínicas, etc.).

Reconhecimento da ocupação de cuidador formal

A função de cuidador da pessoa idosa é uma ocupação reconhecida pelo
Ministério do Trabalho, pela Classificação Brasileira de Ocupações (CBO) que
reconhece, nomeia e codifica as ocupações existentes no mercado de traba-
lho brasileiro. Esta ocupação está descrita na CBO 2002 na categoria da famí-
lia ocupacional de cuidadores de crianças, jovens, adultos e idosos sob o
número 5162-10.

O cuidador que trabalha para uma pessoa jurídica, isto é, hospital, clínica
ou ILPI terá um contrato de acordo com a CLT. Se ele trabalha em residência
familiar será regido pela legislação de empregado doméstico. O registro na
carteira profissional é feito na ocupação de serviço doméstico: cuidador de
idoso e para o pagamento do INSS utiliza-se o código 1600. (Ver assunto Os
direitos trabalhistas do cuidador formal da pessoa idosa
).
Sendo reconhecida apenas como ocupação e não como profissão, os cur-
sos que capacitam o cuidador da pessoa idosa não estão ainda regulamentados.
Não existe uma padronização e normas fixas sobre o conteúdo ou de horas míni-
mas obrigatórias para eles. Até o presente, o programa e o tempo de duração
estão ao critério do profissional ou da entidade que os organizam. O mesmo
acontece com relação às exigências sobre o perfil do aluno.
Mas, desde 1998, quando foi realizado em caráter experimental o curso
“O processo de cuidar do idoso” pela Secretaria de Assistência Social, ocorreram
inúmeros encontros com organizações, que oferecem cursos de formação para o
cuidador da pessoa idosa, com o objetivo de definir diretrizes para esses cursos.
Em relação à idade, ficou estabelecido que o futuro cuidador formal deve
ser maior de 18 anos. Quanto à escolaridade mínima, deve ter completado o
correspondente ao ensino fundamental.
O curso deve ter o mínimo de 100 horas de duração, com 80 aulas teó-
ricas e 20 práticas. Nele devem ser abordados os diversos aspectos do envelhe-
cimento, as condições para manter uma boa saúde, as doenças mais comuns
que ocorrem na velhice, as relações interpessoais: idoso x família x cuidador,

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informações sobre rede de serviço e legislação, a ética e a função do cuidador
e, finalmente, o auto-cuidado do cuidador. Nas aulas práticas devem ser traba-
lhadas e observadas as diversas funções do cuidador da pessoa idosa, de modo
a colocar em prática os conhecimentos adquiridos em sala de aula.
Através deste curso o aluno sairá com habilidades técnicas e conheci-
mentos
necessários para exercer suas funções.
Além destes requisitos, o cuidador deverá ter outras qualidades como

as descritas abaixo.

Qualidades físicas e intelectuais – Deve ter boa saúde física para ter
condições de ajudar e apoiar o idoso em suas atividades de vida diária. Também
tem que ter condições de avaliar e tomar decisões em situações de emergência
que necessitam de iniciativas e ações rápidas.
Capacidade de ser tolerante e paciente – Deve compreender os momen-
tos difíceis que a família e a pessoa idosa podem estar passando, com a dimi-
nuição de sua capacidade física e mental, de seu papel social, que pode afetar
seu humor e dificultar as relações interpessoais.
Capacidade de observação – O cuidador deve ficar atento às alterações
que a pessoa idosa pode sofrer, tanto emocionais quanto físicas, que podem
representar sintomas de alguma doença.
Qualidades éticas e morais – O cuidador precisa ter respeito e digni-
dade ao tratar a pessoa idosa e nas relações com ele e com sua família. Deve
respeitar a intimidade, a organização e crenças da família, evitando interferên-
cia e sobretudo exercendo a ética profissional.
Responsabilidade – Lembrar sempre que a família ao entregar aos seus
cuidados a pessoa idosa está lhe confiando uma tarefa que, neste momento,
está impossibilitada de realizar, mas que espera seja desempenhada com todo o
carinho e dedicação. Como em qualquer trabalho, a pontualidade, assiduidade
e o compromisso contratual devem ser respeitados.
Motivação – Para exercer qualquer profissão, é necessário gostar do que
faz. É importante que tenha empatia por pessoas idosas, entender que nem
sempre vai ter uma resposta positiva pelos seus esforços, mas vai ter a alegria e
satisfação do dever cumprido.
Bom senso e apresentação – O cuidador, como qualquer trabalhador,
deve ir trabalhar vestido adequadamente, sem jóias e enfeites, que podem

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machucar a pessoa idosa, com cabelo penteado e, ser for longo, com ele preso,
sem maquiagem forte, pois não está indo a uma festa. As unhas devem estar
cortadas e limpas. De preferência, deve usar uniforme.

Quais as principais tarefas do cuidador formal?

O cuidador é contratado para cuidar da pessoa idosa. Muitas famílias,
ignoram as tarefas que lhe cabe e também cobram dele os afazeres domésticos.
O perigo é que ao fazer estes serviços, ele deixa de atender a pessoa idosa. Cabe
ao cuidador da pessoa idosa esclarecer ao familiar suas obrigações e atividades
inerentes à ocupação, no momento de ser contratado.

Podemos destacar como próprias de sua ocupação as tarefas abaixo descritas.
1. Ajudar, estimular e realizar, caso seja indispensável, as atividades
de vida diária
, ou seja, a higiene pessoal e bucal, alimentação, loco-
moção, etc.
2. Cuidar do vestuário (organizar a roupa que vai ser usada, dando sempre
à pessoa idosa o direito de escolha), manter o armário e os objetos de uso
arrumados e nos locais habituais; e cuidar da aparência da pessoa idosa
(cuidar das unhas, cabelos) de modo a aumentar a sua auto-estima.
3. Facilitar e estimular a comunicação com a pessoa idosa, conver-
sando e ouvindo-a; acompanhando-a em seus passeios e incenti-
vando-a a realizar exercícios físicos
, sempre que autorizados pelos
profissionais de saúde, e a participar de atividades de lazer. Desta
forma, ajudará a sua inclusão social e a melhorar sua saúde.
4. Acompanhar a pessoa idosa aos exames, consultas e tratamentos
de saúde, e transmitir aos profissionais de saúde as mudanças no
comportamento, humor ou aparecimento de alterações físicas (tem-
peratura, pressão, sono, etc.).
5. Cuidar da medicação oral da pessoa idosa, em dose e horário pres-
critos pelo médico. Em caso de injeções, mesmo com receita médica,
é proibido ao cuidador aplicá-las. Deverá recorrer a um profissional
da área de enfermagem.
6. Estimular a auto-suficiência da pessoa idosa, por isto, o cuidador
deverá, sempre que possível, fazer com ela e não para ela.

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Observação importante

Muitas vezes surgem dúvidas sobre as responsabilidades que o cuidador
da pessoa idosa pode assumir. A CBO 2002 afirma que “no caso de atendi-
mento a indivíduos com elevado grau de dependência, exige-se formação
na área de saúde, devendo o profissional ser classificado na função de
técnico/auxiliar de enfermagem”.

Sugestões para leituras:

CAOVILLA, Vera Pedrosa e CANINEU, Paulo Renato – Você não está sozinho,
São Paulo ABRAZ, 2002.
SILVA, Marleth. Quem vai cuidar dos nossos pais? Rio de Janeiro: Record, 2006.

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