P. 1
o11

o11

|Views: 809|Likes:
Publicado porcartografia escolar

More info:

Published by: cartografia escolar on Aug 19, 2009
Direitos Autorais:Attribution Non-commercial

Availability:

Read on Scribd mobile: iPhone, iPad and Android.
download as PDF, TXT or read online from Scribd
See more
See less

02/06/2013

pdf

text

original

Durante o processo de acabamento e finalização da adaptação dos

materiais, pensou-se na construção diferenciada, entre planisfério e globo

terrestre, de alguns elementos a fim de compará-los para definir os de maior

eficácia, como o tipo de legenda (fixa no próprio material ou deslocada; com as

cotas altimétricas dispostas irregularmente ou no formato de escada), o uso de

cores e o uso de linhas pontilhadas ou contínuas e a legibilidade do braile (em

papel braile ou em plástico transparente com certa resistência). Para o uso do

globo, foi pensado um suporte que contemplasse a legenda e não o fixasse

definitivamente. Foi elaborado em uma pequena e fina tábua de madeira, com

um suporte de metal, utilizado para segurar papel, preso com uma camada de

porcelana fria, que permitiu a modelagem de uma elevação de cerca de 1 cm

43

feita para segurar a legenda. A permanência da base original propicia o seu

uso didático.

Para que fosse possível testar todos os elementos, foi necessário entrar

em contato com a professora Tieko Hirano, buscando uma avaliação preliminar

dos materiais com seus alunos com necessidades especiais. Para a avaliação,

decidiu-se utilizar também o globo terrestre que se pretende áudio-tátil, por já

conter algumas diferenciações no uso de cores e tipos de linhas.

Após a finalização dos materiais, iniciou-se a reflexão sobre a atividade

que nortearia a avaliação preliminar dos materiais com alunos com deficiência

visual. Por dispor de um globo e um planisfério adaptados à leitura tátil, com a

representação do relevo, pensou-se em trabalhar duas questões relevantes

aos estudos cartográficos: o processo de projeção do globo na representação

bidimensional do mapa e a distribuição das diferentes cotas altimétricas pelo

planeta Terra.

O processo de construção de mapas foi utilizado como explicação da relação

existente entre o globo terrestre e o planisfério, ou mapa. A partir disso, foi

possível discutir questões presentes na leitura dos mapas, tais como redução e

deformação, facilitando o entendimento das diferentes projeções possíveis no

processo cartográfico. A distribuição do relevo foi explorada apenas em sua

localização, não havendo avanços sobre os processos de formação do relevo,

geológicos e geomorfológicos.

Imagem 13: Foto dos materiais finalizados. Aline A. Bittencourt, 2007.

44

Ao pensar na aplicação da atividade durante a avaliação do material,

tornou-se necessário construir uma ilustração tátil em alumínio, que indica o

processo de produção de um mapa. Foi escolhida a imagem contida no Atlas

Ilustrado e Comentado (1999), sendo feita também uma ilustração detalhando

os gomos do globo que compõem um planisfério. Ainda como material auxiliar,

conseguiu-se um globo em miniatura, com a representação política impressa

em papel no formato de gomos, colados em uma base de plástico, para que os

alunos, apalpando o objeto, identificassem o processo presente na ilustração.

Imagem 14: Montagem com 5 fotos (da esquerda para direita): detalhe da ilustração utilizada
na explicação do processo de projeção; aplicação dos materiais durante avaliação preliminar;
alunos com necessidade especial se utilizando dos materiais propostos; detalhe para o uso do
pequeno globo, outro material auxiliar; detalhe para a leitura tátil da ilustração proposta. Aline
A. Bittencourt e Waldirene R. do Carmo, 2007.

Foi possível fazer uma avaliação preliminar dos materiais com apenas dois

estudantes com necessidades especiais, ambos com deficiência visual

adquirida. Este fato limitou significativamente a discussão dos resultados, pois

um aluno com cegueira congênita tem percepções diferenciadas daqueles que

possuem alguma lembrança de sua vida como videntes. Outra defasagem

presente na avaliação preliminar foi o fato de não ter sido possível testar os

materiais propostos com crianças em idade escolar. No entanto, a avaliação foi

bastante enriquecedora por trazer algumas contribuições importantes para a

produção de novos materiais.

A avaliação preliminar dos materiais ocorreu no dia 27 de novembro de 2007,

na Escola Estadual de Ensino Fundamental Heloísa de Assumpção, localizada

no Município de Osasco-SP, com a presença da pesquisadora Waldirene R. do

Carmo, da Professora Tieko Hirano, de um aluno com 21 anos e de uma aluna

com 30 anos. Os alunos que avaliaram os materiais didáticos propostos

freqüentam a escola três vezes por semana, estudando várias disciplinas.

Ambos alegaram ter lembranças de mapas e também de globos terrestres, pois

o aluno ficou cego aos dezesseis anos, tendo também uma deficiência auditiva

45

considerável, e a aluna está perdendo a visão gradualmente, possuindo visão

residual. Graças à presença dela, foi possível testar o uso de diferentes cores,

pensadas em seus contrastes durante a produção dos materiais.

Depois de uma breve demonstração do material utilizado nesta

avaliação, iniciou-se a atividade com o manuseio do globo. Ao tatear as

diferentes partes do globo terrestre, o aluno fez uma interessante colocação, a

saber, a de que não dimensionava a quantidade de água (oceanos) do planeta,

alegando ser no mapa o dado mais difícil de perceber.

Em seguida, passou-se ao uso do pequeno globo, com seus gomos

parcialmente fixos à base de plástico, e à utilização da ilustração em alumínio,

para demonstrar o processo de confecção do mapa e as distorções

necessárias na projeção. Para demonstrar a falta de proporcionalidade entre

dimensões correspondentes no planisfério e no globo terrestre, utilizou-se a

Antártida, comparando–se seus formatos.

Imagem 15: Montagem com 5 fotos (da esquerda para direita): aplicação dos materiais durante
avaliação preliminar; detalhe para a leitura tátil do exemplo dado com o continente Antártico;
aluna com necessidade especial tateando a Antártida, durante a percepção da distorção
necessária no processo de produção de mapas; aluno com necessidade especial tateando o
pequeno globo terrestre; aluna com necessidade especial estudando os materiais auxiliares
propostos. Aline A. Bittencourt e Waldirene R. do Carmo 2007.

Após uma introdução ao processo de projeção, os alunos iniciaram um

teste efetivo sobre os materiais propostos, o planisfério e o globo terrestre

adaptados, efetuando uma avaliação preliminar sobre a representação do

relevo em ambos. Foi apontado no início do teste, pelos dois alunos, a

necessidade de se nomear as regiões, os continentes ou os principais países,

além dos oceanos, como forma de localização prévia para a definição da

distribuição do relevo.

As explicações sobre a distribuição das diferentes cotas altimétricas sobre

a superfície terrestre se basearam na diferenciação das áreas de terras

emersas em relação ao nível do mar, com a distribuição das curvas de nível,

definindo diversas formas do relevo pelas diferenças de altimetria. A legenda

46

dos materiais foi um recurso indispensável nesse processo, pois permitiu o

entendimento da relação entre a quantidade de massa, disposta em camadas

sobrepostas, e a altura dos territórios.

A avaliação preliminar foi fundamental, tanto para o apontamento de

questões relevantes dos usuários, quanto pela comprovação de bons

resultados na transmissão das informações. Os alunos mostraram uma

satisfação considerável na leitura dos materiais didáticos e de suas legendas,

aprovando os materiais escolhidos para a adaptação, como a porcelana fria e a

tinta.

Alguns elementos se mostraram importantes para a boa legibilidade dos

materiais, como a indicação do norte e as legendas impressas e feitas em

braile. O braile feito em material transparente se mostrou eficiente apenas para

alunos

com leitura fluente em braile, pois sua textura é menos expressiva do que o

braile feito em papel específico, utilizado em reglete e máquina Perkins.

Imagem 16: Montagem com 7 fotos (da esquerda para direita): aplicação do globo terrestre
adaptado; detalhe para a leitura tátil da legenda do globo; aluna com necessidade especial
tateando o globo, detalhe para a aluna com visão residual durante a leitura tátil da legenda do
globo; leitura tátil do planisfério; detalhe para a leitura da legenda da altimetria do planisfério;
detalhe para leitura tátil da indicação de norte presente no planisfério. Aline A. Bittencourt e
Waldirene R. do Carmo, 2007.

6. DISCUSSÃO DOS RESULTADOS

Os resultados da presente pesquisa atestam o fato de ter sido

indispensável uma avaliação preliminar dos materiais propostos neste trabalho,

pois a atividade prática de aplicação mostrou outros caminhos, além dos que

teriam sido delineados apenas com as pesquisas teóricas. Torna-se

fundamental a realização de novas avaliações e testes por muitos outros

alunos, além de um retorno à escola onde foi realizada a primeira avaliação, a

fim de incluir os alunos com cegueira congênita nos testes e eleger materiais

47

que tiveram observações diversas entre os dois alunos que efetuaram a

avaliação preliminar.

Para que se obtenham melhores resultados, é fundamental o

aprofundamento das avaliações e a ampliação dos testes com os materiais

propostos, de forma a envolver um número elevado de alunos e professores,

de diferentes escolas. A avaliação preliminar demostrou o fato de ser

absolutamente necessária a aplicação de atividades que preparem os usuários

para o entendimento da linguagem cartográfica, introduzindo noções básicas

como proporção, lateralidade, localização e orientação, entre outras, para que

alunos compreendam informações mais complexas como escala e projeção

cartográfica.

É importante salientar que estudos no campo da Cartografia Tátil têm

demonstrado ser necessária uma introdução a noções básicas, principalmente

escala, ponto de vista, orientação, localização geográfica e linguagem gráfica.

Um programa de treinamento para a linguagem cartográfica é fundamental na

preparação do aluno com necessidades especiais para o uso do material

adaptado. Como destaca Vasconcellos (1993):

Verificou-se que este treinamento é imprescindível para que o usuário com deficiência

visual possa utilizar, com eficácia, a linguagem gráfica. Torna-se importante destacar

que esta preparação é condição, também, para o entendimento da linguagem dos mapas

pelas crianças e adultos que podem usar todos os seus sentidos sem restrições. Sabe-

se que alunos do Ensino Fundamental não conseguem retirar a maioria das informações

representadas nos mapas. Com os alunos com deficiência visual, a situação é mais

grave ainda, pois normalmente, eles não têm disponível material didático em alto relevo

para ser percebido pelo tato ou na forma adaptada à visão residual (subnormal).

Ainda que não tenha sido possível realizar atividades de preparação

para o uso das representações táteis do relevo, o processo de construção dos

mapas e uso das projeções cartográficas mostrou-se um interessante recurso

didático para explicações sobre as relações existentes entre o globo terrestre e

o planisfério. O uso de materiais auxiliares, como a ilustração deste processo e

um pequeno globo com os gomos não inteiramente colados, foi de grande valia

para o entendimento dos alunos sobre a questão. Para a compreensão da

48

distribuição do relevo na superfície terrestre houve observações fundamentais

dos usuários, como a indicação do norte e da toponímia mais importante.

Cada representação gráfica adaptada pode contribuir de forma diferente

para o processo de ensino-aprendizagem de crianças e jovens, podendo ser

instrumentos da educação especial. O planisfério é o tipo de representação

mais familiar e de fácil leitura e o globo é uma representação mais próxima da

realidade por manter a esfericidade da terra. Neste trabalho, a combinação do

globo e planisfério foi pensada no sentido de esclarecer o processo de

produção de mapas, introduzindo o conceito de projeção cartográfica.

Os usuários, mesmo depois das explicações a respeito das projeções

cartográficas, não apresentaram entendimento satisfatório sobre a escala, não

fazendo uso deste conceito durante a leitura do mapa. Os alunos com

deficiência visual apresentaram pouco interesse pelas escalas gráfica e

numérica, alegando não compreender o seu significado. A Professora Tieko

Hirano, que possui ampla experiência didática com alunos com deficiência

visual, relatou outros exemplos que demonstram a dificuldade no entendimento

do conceito de escala, o que reforça a necessidade de aplicação de atividades

preparatórias para a leitura dos mapas e globos.

Em se tratando da definição sobre o melhor uso e escolha dos materiais,

foram importantes as contribuições durante a avaliação preliminar. Na

diferenciação dos tipos de legenda, entre a legenda fixa no material (presente

no planisfério) e a deslocada (no caso do globo), entre a legenda de

representação das classes altimétricas, no formato de escada (planisfério), e

em formato irregular, (globo terrestre), os dois usuários dos materiais

apresentaram preferência pela legenda presa ao material. Quanto ao formato

da legenda, as observações foram diferenciadas, pois a aluna mostrou

preferência pela legenda utilizada no planisfério, no formato regular de escada,

enquanto o aluno alegou compreender de forma mais eficaz a legenda

irregular, por sua semelhança às ocorrências no globo. A aplicação de novos

testes possibilitará delinear melhor tais questões.

Em relação ao uso de materiais diferentes para a confecção das

legendas em braile, atestou-se a não inclusão de pessoas em processo de

alfabetização em braile no caso do uso de plástico transparente e resistente.

49

Por ter visão residual, a aluna alegou ter iniciado o aprendizado do braile há

apenas dois meses, já efetuando leituras de forma satisfatória, além de sua

freqüência escolar, assim como a do outro usuário, ser de apenas três vezes

por semana. Colocou a sua dificuldade presente na leitura do braile em plástico

transparente, em comparação à leitura efetuada do braile feito em papel,

presente nas ilustrações utilizadas de modo auxiliar. A fonte utilizada nas

legendas impressas (tamanho 19) não foi de tamanho suficiente para que a

aluna as conseguisse ler. Atestou-se, junto à sugestão da Professora Tieko

Hirano, a possibilidade de se utilizar uma fonte de tamanho superior a 28, para

a inclusão da classe de baixa visão, entre os alunos com necessidades

especiais, lembrando-se que este tipo de convenção não é universal, pois,

além do grupo de usuários com visão reduzida ser bastante heterogêneo

quanto às suas necessidades, modifica-se em cada cultura.

O uso de diferentes tipos de linha foi feito na diferenciação dos

materiais: no globo áudio-tátil utilizou-se linhas pontilhadas nas fronteiras das

terras emersas com os mares e oceanos, no globo terrestre proposto na

presente pesquisa, não foram utilizadas linhas e no planisfério foram colocadas

linhas contínuas. A aluna alegou preferir a linha pontilhada por sua maior

expressividade, enquanto o aluno se mostrou indiferente em um primeiro

momento, declarando, posteriormente, a preferência pela ausência de linhas,

evitando confusão, tanto no uso de linhas contínuas, quanto no uso de linhas

pontilhadas.

A avaliação sobre o uso de cores foi feita apenas pela aluna com visão

residual. Quando foi construído o globo áudio-tátil, as cores foram selecionadas

pensando em um contraste mais efetivo, fazendo uso do azul escuro para

oceanos e mares, verde claro para as terras emersas e marrom escuro para as

áreas montanhosas. Nessa primeira proposta, não havia preocupação com as

classes de cores utilizadas na representação do relevo, pois o material apenas

ilustra a localização das principais cadeias montanhosas. Já entre os materiais

propostos no presente trabalho, pensou-se em alterar o tipo de contraste,

buscando uma diferenciação da primeira proposta. Para a confecção do

planisfério, foram selecionadas as seguintes cores: azul claro para oceanos e

mares, verde para a classe de 0 a 200 metros de altitude, amarelo claro para a

50

classe de 200 a 500 metros, laranja para a classe de 500 a 2000 metros e

marrom escuro para a classe de altitudes acima de 2000 metros de altitude. Na

construção do globo terrestre, utilizou-se azul claro para os mares e oceanos e

uma classificação de cores para as cotas altimétricas, que parte do verde

musgo (0 a 600 metros), passando pelo amarelo ouro (600 a 2000 metros) até

o marrom (maior que 2000 metros). A aluna alegou preferir o uso das cores

presentes no planisfério e no globo terrestre, ambos com a representação do

relevo, afirmando ser mais efetiva a visualização das cores nestes materiais, do

que o é no globo ainda não concluído, feito em uma primeira proposta.

As colocações efetuadas pelos usuários do material, como importantes

contribuições presentes em uma avaliação preliminar, serão adotadas no

futuro, incluindo os materiais que se pretende confeccionar para doação à

escola onde foi realizada a avaliação. Além da oportunidade de anexar as

contribuições dadas pelos usuários, confirmando sua valorização no processo

de produção dos materiais por eles usados, pretende-se ampliar os testes aos

alunos com deficiência visual, em diferentes escolas, considerando sua

heterogênea formação enquanto grupo. Os materiais propostos na presente

pesquisa serão doados para o acervo do LEMADI, a fim de atender um maior

número de profissionais que lidam com necessidades especiais.

O ponto mais importante sugerido pelos alunos que efetuaram a

avaliação preliminar dos materiais adaptados foi a nomeação das regiões para

facilitar a localização das informações sobre a distribuição do relevo. Eles

forneceram diversas idéias de como incluir os nomes dos oceanos e mares e

os nomes dos continentes por inteiro, por haver bastante espaço, ou ainda,

nomear os principais países utilizando-se números referidos na legenda. Em

uma próxima etapa, serão confeccionados materiais de forma diversificada, a

fim de encontrar o melhor caminho para a compreensão, por parte dos

usuários, das informações geográficas contidas nos materiais adaptados.

Outra importante contribuição a ser ressaltada é a necessidade de se

construir um suporte para o globo que inclua a legenda, dando uma mobilidade

prática para o material. A Professora Tieko Hirano sugeriu, para o globo

terrestre, a indicação de norte utilizada convencionalmente nos materiais

produzidos pelo projeto em parceria com as Universidades do Chile e

51

Argentina, que consiste na colocação de pequenos retângulos de madeira, com

as dimensões de aproximadamente 3 mm de altura, 3 mm de largura e 10 mm

(1cm) de comprimento, no topo do globo terrestre. Quanto à indicação de norte

utilizada no planisfério, apesar de não haver dificuldade expressiva em seu

uso, os usuários alegaram preferir a indicação proposta pela Professora, por já

ser familiar em virtude da presença nos materiais encontrados na escola.

You're Reading a Free Preview

Descarregar
scribd
/*********** DO NOT ALTER ANYTHING BELOW THIS LINE ! ************/ var s_code=s.t();if(s_code)document.write(s_code)//-->