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Variações sobre aquelas duas últimas semanas

I

Melancolia. Eis a palavra que resume o meu estado psicológico permanente. Uma espécie de realidade clínica com raízes ontológicas. Não fossem os acontecimentos das últimas duas semanas e nunca compreenderia esse facto elementar que se resume ao significado de uma só palavra. Melancolia. O mais avassalador é que, depois da tomada de consciência desse simples facto, a minha melancolia parecia ter-se redobrado.

Só aquelas duas semanas tiveram o dom de me libertar desse estado em que sempre vivi imergido. Foram duas semanas particularmente perturbadoras, quando não, catastróficas. Em certo sentido, elas precipitavam a morte. Por isso, essa terrível escolha: a melancolia ou a morte?

Preferi a melancolia (que é uma morte desacelerada!) e, consequentemente, a capitulação face às minhas exigências quixotescas a uma vida impossível. Em certo sentido, ao renegar aquelas duas semanas, renunciei ao sonho. Tenho consciência disso.

II

Jonas, olhando através da janela, não contemplava os intensos prados borrifados de orvalho lá fora. A única paisagem a que se dedicava devaneava algures dentro da sua cabeça. No que tocava à visão era composta de malabaristas, equilibristas, homens e mulheres marginais, que viviam dos prazeres da carne, do sonho, das drogas, da transgressão intencional da moral como projecto de vida.

Depois as senhoras exibindo frontalmente a sua indignação, proferindo palavras injuriosas contra essas pessoas, cuspindo no chão com asco. Os senhores que conspiravam contra as suas pessoas, no café, na praça, em conversas de ocasião. Que chamaram a polícia por distúrbios, que os ofendiam verbalmente e incitavam-nos à luta física. Que chantagearam o senhorio para que este lhes abrisse um processo judicial que conduzisse ao despejo dos seus excêntricos inquilinos. Que, por fim, no silêncio da noite densa arremessaram improvisados cocktail´s de molotov partindo as suas janelas e provocando um incêndio de dimensões catastróficas.

Que se regozijaram pela voracidade da destruição que eles mesmos quiseram e

provocaram. Assomando aos pares à janela, contemplando sem moralidade as labaredas consumindo-se a si mesmas. Os olhos incendiados de malícia resplandecendo. Os filhos

do mal esticando-se em bicos de pé para chegarem com o queixo ao parapeito da janela.

A inarrável descoberta de um poder que está para além da inocência e da culpa. O

tecido da comunidade fortalecido pela ignobilidade do crime não interiorizado.

III

Em certo sentido pode dizer-se que tudo começou quando a Dona Cutilde viu o Senhor Acácio a falar com uma mulher singular. A senhora parecia estrangeira, talvez nórdica. Trazia o cabelo ruivo pelas orelhas e denunciava um certo peso na idade. Na casa dos cinquenta. O que espantava mesmo era a jovialidade que de si imanava e que parecia constantemente sobrepor-se à velhice que trazia involuntariamente incrustada na pele, coberta de rugas e outras cicatrizes.

Tanto que, os seus brilhantes olhos azuis preservaram uma vivacidade absoluta não subordinada à voracidade do calendário.

Dona Cutilde viu como ambos falavam e como o Senhor Acácio procurava iluminar as suas palavras esboçando gestos largos em direcção à sua pequena casa inabitada. Apontando para uma janela partida ou assinalando uma vintena de telhas quebradas. “Umas poucas obras a realizar”. Dizia. E pensava ao mesmo tempo na satisfação que lhe prometia poder arrancar, finalmente, da montra do café, o formalíssimo anúncio de arrendamento que já há muito havia amarelecido e estava quebradiço e corria o risco de estalar se recebesse a pressão certa.

IV

Era uma moradia toda em pedra, de carácter vetusto. À parte o pequeno quintal, definitivamente tomado pela vegetação selvagem, conservava uma integridade invejável.

“Sim, vai precisar de umas obrazitas. Uma ou duas semanas no máximo e têm a casa pronta. Eu telefono a informar quando é que se poderão mudar para cá. Muito obrigado. Adeus. Até breve. ”

A casa de pedra envelhecida estava coberta de uma leve penugem de musgo e esse

verde húmido nos intervalos das pedras suscitando representações românticas. Um ténue nevoeiro envolvendo a moradia numa aura mística e nostálgica. Ou mística porque nostálgica e vice-versa. O telhado parcialmente degradado como pedra-de-toque a essa representação burguesa.

A futura inquilina que após se despedir do proprietário ainda demorou o olhar para

aquela que viria a ser a sua casa. Imaginando, talvez, que futuro lhe reservaria aquele

lugar. Ali, a felicidade? O aconchego, a família, a liberdade? Uma pomba rasgou-lhe o olhar e acabou por poisar na grande chaminé fulgenta da sua futura moradia.