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ISBN 97 8- 8 S - 2 B - 0 3 6 9 - 8

9 7 88528

303698

o

-

O

.~ u

rJl

r:l.t

Psicologia

Uma ( n ova) introdução

Luís C l a u d i o M . Figueired o Pedro Luiz Ribeiro de Santi

PONTIF í C I A UN I VE R S I DA D E CATÓL I C A

D E SÃO PAU L O

Re ir o r a : Maur a P ar din i B ic ud o Véras

v i c e - Re it o r a Ac ad ê mi c a : Badcr Burih a n Sawa i a

ED UC - E ditora d a P UC - S P

CO l1 se lh o E dit o ri a l

A n a Mar i a Rap a s s i

Badc r Bur ihan Sawa i a ( Pr es i d e l 1t e)

Bc

rn ar dct c

A . G a tt i

C í b c l c Is a ac Saa d Ro d r i g u cs

D in o Pret i

Ma r ce l o Fi g u c ír c d o Mar i a d o C a r mo Gu c d cs

Mar i a E l iz a M azz i l l i P e r e ir a

M a ur a P a r d ini Bi c ud o Vó r as

On és imo de O l i ve ir a Ca rd oso

Sc ipi o n e Di Pi c rro Net t o ( in m e m o r ia m )

V l a dmir O. S i l ve i r a

AUOeIOÇOO

8r~ 1t O

[kYffijm[5CJ~[J

~~

LUÍS CLAUDIO M. FIGUEIREDO PEDRa LUIZ RIBEIRO DE SANTI

PSICOLOGIA

Uma (no v a) introdução

Um a v i s ão hi s tóri ca da p s i c ologia como c i ê n c i a

3 a e di ção

Sã o Paulo

2008

© Lu ís C l a udi o M e n do n ça

F í g u e i re d o e P ed r a Lui z R i bei r o d e Sa n t i .

F

oi f e it o o de pó s i t o

l ega l

Fi c h a cat a l ográ f ica e l aborada pe la B ibl ioteca R e it o r a Nad ir Go u vêa Kfo u ri / P U(-S P

F

t g u cí r c d o, L u í s C l a u dio M e ndon ça, 1 9 4 5-

 

P

s i c o l og i a , um a ( no v a ) in t rod u ç ão:

u m a visã o h i s t ó ri ca

d a

s i co l og i a

p

L u íz

co m o c i ê n c i a / L u í s C l a u d i o M . Fi g ue i r e d o;

Rib e ir o d e Sa n ti . - 3 c d. - São P a ul o : E D U C, 2 00 8.

1 04 p . ; 1 8 e m . - ' (Sé ri e T ri l h as)

D a d os s o br e o s a ut ore s

I S B N 97 8-8 5-283- 0 3 6 9 ·8

Pe dro

1 . P sic o l o g i a.

2 . P síc o l o gía - H i s t ó ri a. ! . Sa n t i , P e d r o Lu i z

Ribe ir o d e. l I . T í tu l o . Ill. S c r i c .

C D D 1 50

1 5 0 -9

1a ed i ção Re i mpr essões:

(Ps i co l og i a. Uma i n t r o du ção ) : 199 1 ; 2 " e d ição : 1997

( 2 ) , 2 002, 2 0 03, 200 4, 2 0 06, 20 0 7

1 998, 19 99 , 2000

S

é r i e Tr il h as c oo r de n a d a

Ma ri a E li za M azz i ll i P e r e ir a

p o r

E D U C - E d itora d a P U C - SP

Di reçã o

M i g u e l Wa d y Chai a

r o du ç ã o E dito ri a l

So ni a Mon ton c

P

Pr e para ç ão e R e v i s ã o Son i a Ran g e l

E ditora ção E l e tr ô ni c a

d e m i o l o e c apa

Wa ldir A n to n i o A l ves

Ca pa

M a ri l á D a r d ot

Sec r e t á r i o Ro n a l d o D e c i c i n o

ecJU(.'

R u a M o nt e A l eg r e , 97 1 - sal a 38CA

T

050

14 - 001

- São P a u l o - S P

e l . / F ax : ( ll ) 3670-8 0 8 5

e 3670 - 8558

E- m a i l : c du c @ p u cs p .br - S í t c: w w w .p u c sp . br /c du c

Para Ma ria Pa t r í c i a, C a ro lin a,

M arina e Y n a i ê . L . c . F .

P a r a A l es s an â ra .

P . L . R. S.

SUMÁRIO

P

R EFÁC I O

 

9

A PS IC O LO G I A C OM O C I ÊNC I A I NDEPENDE N TE

1 3

 

U

m a v i são p a nor â mi ca

e c r ít i ca

1 3

PREC O ND I ÇÕ E S SOC I OCU L TURA l S PARA O A P AREC I MENTO DA PS I COLOG I A

COMO C I ÊNC I A NO

SÉCU L O X I X

 

1 9

 

A

e x pe r iê n c i a da s ub jetivida d e p ri v at i z a d a

1 9

C

o n s ti t u ição e des d o b ramentos

d a n oção

de s ubj e ti v idad e n a Mod er nid a d e

 

24

A

cr i se d a Mod e rnid a d e e d a s ubj e ti v id a d e

m

o d er n a

e m a l g u m a s d e suas expressões

ilo sóf i cas

f

 

3 3

S

i s t ema merc a n t il e i ndi vi du a li z ação

 

. 40

I

deo l o g ia l i b e r al il um ini sta , romanti s mo

e regime di sc i p li nar

 

46

A cr i se d a s ub j e tiv i dade pr i va ti zada

 

ou a d ece p ção n eces s ár i a

 

48

S

ínt ese

52

)< A P R ÁT I CA C I EN TÍ F I CA E A EME R GÊ N C I A DA PSICO L OG I A COMO C I ÊNC I A Conh e ci m e n t o cie n tíf i co: priv a cidad e

55

 

e

d ifer e nça

5 5

i os P R O J ETOS D E PS I CO L OG I A CO M O C I ÊNC I A I NDEP E NDEN T E

 

61

 

O

pr oj e t o d e Wundt :

61

O

pr ojeto d e Ti t chene r

64

A

psicologia fu n c i ona l

66

O

comporta m e nta li smo

68

Pr

o j etos de p s i co l og i a e co n d i çõ e s d e produção

71

 

A

p s i c olo g i a d a Ges t a lt

75

O

c omportam e nta l ismo

diferen c iado:

o

b e h a v ío r í s mo r a di ca l d e Skinn e r

77

A

p s i c ol og i a cog ni tiv i sta d e P íage t

e

a ps i can á li se f r e udi a n a

80

A

PSICOLOGIA COMO PROFISSÃO E COMO CULTURA

8 9

 

O

p s i c ól og o :

f unçõ es e mitos

89

BIBLIOGRAFIA COMENTADA

 

93

QUESTÕES DE ESTUDO E DISCUSSÃO

95

 

A

p s i c ol og i a c omo c i ê nc i a ind e p e nd e nt e

95

x Pr e co ndi ções soc i oc ul tu r a is par a

 
 

o

a p a r ecim ent o

da p s i c olo g ia c omo ci ê n c ia

 

n

o século XiX

·

95

A

p rá ti ca c i e n t í f i c a e a e m e r gê nci a

d

a p s icolo g i a como ci ê ncia

9 7

O

s proj e to s de psi c olo g ia

 

co

mo ci ê n c i a indep e nd e nt e

97

 

A

p sico l og i a c omo pr of i ss ão

e

co m o c ultu ra

:

100

NOTA SOBRE OS AUTORES

101

PREFÁCIO

A primeira

v e rsão

d e st e

trab a lho

de 1980, quando

foi

escrita no final da década

um de nós (LCF) fazia o caminho

que vai do

livro Matri z es do pensam e nto psi c ológico à sua

t e se de li v re-doc ê ncia na U SP, publicada com o

título A invenção do psicológico. Quatro s é cu-

lo s de subjetiva ç ão (1 5 00-1900 ) .

"Matri ze s"

havia sido elaborado

no início dos anos 80 e

já no final de seu último capítulo se formulava

histórica do

"psicológico", ou seja, a formação ao longo dos

a tarefa de pensar a constituição

s é culos d e sse campo de conhecim e ntos e práti-

s e instalaram os proje -

cas sui g e n e ri s em que

tos de psicologia como ci ê ncia ind e pendente e,

a e les associados, os psicólogos com suas ativi-

dades profissionais e de pesquisa . Esse campo, embora abrigue qu e stões muito antigas, sob alguns aspectos universais, só s e d e limitou plenam e nt e ao final do século XI X. O problema era o de compr e ender como se deu e por qu e fase passou esse processo de delimitação e, em seguida, o processo de ocupação desse novo território . A isso foram dedicados muitos anos

d e pesquisa. A pro x imadam e nt e no m e io dess e

período (1988), surgiu o con v it e p a ra escrev er

10

PSICOLOGIA

uma p e qu e n a in t rodu ç ão à psicolo gi a e em du a s s e m a na s es ta v a pronto o present e - li v ro.

com que, na hora das publicações, toda essa cronologia

ficasse embolada: Matri z es do pensam e nto psi - c oló gico e P s i c ologia . U ma introdução saíram

As dificuld a d e s editoriais fi z eram

junto s e m 1 991 e , logo e m seg uida, A in ve n ç ão

do p s ic o l óg i co, e m 1 9 92.

O s li v r os fizera m alg um s uc es so e as rei m-

pressões começara m a o cor r er : "Ma t r i zes" ch e -

go u à 4 a edição , " A

U ma intr o du ção r e c e b e u um a no v a r ei mp res -

são a c a d a a no d es d e o se u l a n çame nt o .

qu e todo s esses li v ros po d er i a m

m e lh o r a d os , mas a t é h o j e fa ltou-nos coragem

para e mpreend e r

in ve n ç ã o" il 3 a e Ps i co lo g i a .

É cl ar o

se r rev i s to s e

a t arefa . E m vez di sso , e m

1 995 , publi camos R evisi t a n do as ps i co l ogi a s.

D a e pis t e m o l oq i a à é ti ca d as pr á ti cas e d i sc u r-

sos ps i co l ógicos e m qu e se acres c e nt ara m m a t e-

riais result a n tes d e no vas p es quis as

p os t e rior es . (Mai s r ecent e m e nt e d e nós - P.L . R.S. - publicou

Elem e nto s para

- 1 99 7 -, um

e r ef l ex õ e s

uma história

da psi c ologia que, igu a lm e nte,

r eto ma v a as qu es tões d e A in ve nção do p s icoló-

g i c o e nriqu ece ndo-as com m a t e riais pro ve ni e n-

tes d e n ovas p es qui s a s.) N o c aso d es t e p e qu e no li vro introdu tório, con t u d o, a n e c essi d a d e d e

u ma rea lm e nt e no va e m a i s c omp le t a ve r sã o

se mpr e n os p areceu mais urg e nt e . P a ra tornar este p r o jeto viáve l, foi n ecessár ia a c ol a bo r a ç ão

PREF Á CIO

11

e um seg und o a utor ( P. L . R . S . ) qu e tam b é m rea - -

e ssa s m esm a s

d o t ex to e

suas finalidades did á t i c as não for a m a lter adas ,

d

l

n

i z a p esqu isas - inclu s i ve

a do seu doutorado

á r e a s . A estrutur a

mas todo o esc rito foi r ev i s to, muita s p e quenas

compl e m e nt aç õ e s

pud e ram

s er f e it as e surgi-

n ovas e a l g uns

ac r é s c im os s ub s t a n c i a i s a seções ex i stentes.

li vr o c o n tin u a, a n o sso ver, de um b om tam a -

nho e n ível de c omp lexidade c ap azes d e t orn á-

10 útil p ara o in íc io d a for m açã o em

r am dua s seções int e i ra m e nt e

O

psico l og i a

e

t a mb _ ém p ara um a apr ese nt ação d a p s i co l o -

g

i a e m á r eas a fin s . Po d e, i g u a lm e n te,

c om o

t e mos n otíc i a d e j á t e r aco nt ec id o ,

serv ir p a r a

a p rese nt ar a Ps i c olo gia a col eg i a i s ava n ça do s.

N

po u c o m ais rico, m as sem restr i ngir se u s u sos,

e esp eramos

ú t il c om o parece t er s id o até ago r a.

osso o bj et i vo ,

e nfim, f oi o d e torná- l o um

ser tão

q u e e l e contin u e p odendo

Sã o P a ulo , no ve mb ro d e 1997 .

A PSICOLOGIA COMO CIÊNCIA INDEPENDENTE

Uma visão panorâmica e crítica

É muito freqüente

que os livros que tra-

tam da história da psicologia comecem falando da filosofia ocidental desde os gregos e conti- nuem, já nas épocas mais recentes, com físicos, fisiólogos e filósofos em cujas idéias podem ser encontrados elementos que hoje fazem parte do domínio da "psicologia científica".

O objetivo do presente texto, contrariando a regra acima, é apresentar resumidamente . uma visão panorâmica e crítica da psicologia contemporânea.

Na verdade, só em época muito recente surgiu o conceito de ciência tal como hoje é de uso corrente, e foi ainda mais recentemente que começaram a ser elaborados os pr í me í ros projetos de psicologia como ciência indepen- dente. Ou seja, só a partir da segunda metade do século XIX surgiram homens que preten- diam reservar aos estudos psicológicos um território próprio, cujo êxito se fez notar pelos discípulos e espaços conquistados nas institui- ções de ensino universitário e de pesquisa. Só

14

PSICOLOGIA

en t ão passo u a exist i r a f i gura do ps i có l ogo e passara m a s e r criadas as ins t i t uições volta- das para a produção e trans m issão de conheci- me n t o p sico l ógico .

,

É c l aro qu e o pr ocesso de cr i a r u ma n ova

ciência é m u ito c o m pl ex o : é pr eciso mos t rar

qu e e l a te m um objeto

ade q ua d os

enfi m, cap az d e fi r m ar -s e co m o u ma ciê n c ia

próprio e m étodos

ao es tu do d esse o bj eto , qu e e l a é ,

A P S ICO L OG IA C O MO C I ÊNCI A I N DEPE N DE N TE

15

SOC i e d ad e e q u e d ep e n di am f un d a men t a l men te

d a s condi ç õ e s históricas e so c iai s d e um a dada comunid a d e . Ne sta medida, os t e mas da psi-

co l ogia e s t avam disp e rsos en t r e es p e culações

il osóficas" c i ê n c ia s fís i cas e bi o l óg i cas e c i ê n-

f

c

i as sociai s . O q u e re s tar i a para uma psico l og i a

c

omo c i ê nc i a in d e p e ndente ? N ada!

Embora, à p ri m e i ra

v i sta, possa parecer

s urp re e nde n te , esta fo i exatam e n te a resposta

i n d e p e n de nt e

das o u tras á r eas d e sa b e r .

de u m i m po rta n te

fi l ósofo franc ê s

 

P a r a a p sico l ogia, a q uestão

era extrema-

X I X , A u g ust e Comte ( 1798 - 1857 ).

d o s éc ul o No seu sis -

men t e com pli cada , j á qu e todos os gra nd es sis-

t

e ma d e c i ê nc i as não cabe u ma "psico l ogia"

temas fil os ófi cos d es d e a A nt ig uid ade in c luíam

e

n tre

as "c i ê n cias b io l óg i cas" e as " socia i s". O

n

oções e conceitos relac ion a d os ao qu e h o j e fa z

p

rí n c ip a l e m p e c il ho para a psico l ogia seria s e u

p

arte d o d o m í ni o d a p sic ol ogia ci e n tí fi ca, co mo

je t o: a " psiq u e",

ob

e nten d ida

como "me nte" ,

o

co m porta m ento,

o "espírito" o u a "a l ma" do

não se aprese n ta

como u m o b jeto o b s e r v áv e l ,

h

omem. J á n a Id a d e Mo d e rn a , f í s i cos, anatorn í s-

n

ão se e nqu a d ra nd o,

p or isto, nas exigê ncias

tas

, m é di co s e f i s iól og o s tr ata r a m d e d ive r sos

d

o po s i tivismo . É b e m ver d a d e qu e o p ró pr io

as

p ectos d os comporta m e n tos

i nvo lu ntár io s

Co m te , n u m certo momento, reco nh ec e

a p o s -

e

mesmo d e com p orta m entos voluntários d o

si

bili dad e de uma psicologia, mas s e mpre c o m o

homem , ou s e ja, d aq u e l es qu e , ao me n o s a p a-

u ma ár e a de conhecim e nto parc i a l m e n t e de p e n -

rentemen t e , revel ariam

rito " p or d e t rás das ações hu ma n as. Ta mb é m n a

a pr ese n ça de um "es p í -

e nt e ou da b io l ogia o u da socio l og i a. Ai nd a hoj e, a p ós m a i s d e ce m a n os d e esforços pa r a

d

Idade Mode rn a, particular m ente no sécu l o X I X ,

se criar u ma psico l ogia

ci e ntíf i ca, os estu d os

começaram a s e constituir as ciê n cia s d a soc i e -

ps i cológicos ma n t ê m re l a ç ões estre itas

c om

dade, como a Econo m ia Po l ít i ca, a H i stória, a

m

u i t as ci ê n c i as bio l óg i cas e co m m u i t as

ciên -

Antro p o l og i a, a Soc i o l og i a e a Li ng ü íst i ca. Essas ci ê ncias tamb é m tratava m das ações h uma n as

e das s u as obras, em particu l ar dos compor-

tam e n tos hu mano s ma i s importantes para a

c i as socia i s . I sso p arece ser b o m e, na v e r d ade ,

i

por ex e m pl o , u m p s i cólogo exp er im e ntal i sta

qu e traba lh a em l a b oratór i o s

n di s p e n sáve l !

Mas vár i as vezes é m ais fác il,

c o m a n i m a i s, tai s

16

P SI CO L OG IA

como o rato e o po mb o , e nt e nd er -s e

bi ó l ogo do qu e com um p s i có l ogo soc i a l qu e

Es t e , p or s u a

estu d a o hom e m e m

co m um

soc i e d ade .

ve

z , po d erá t e r d iá l o g o mai s fác il com a nt ro-

l o g os e lin g üi s t as do

qu e co m mu i t os

p si -

l o g os

q u e foram se us co l egas n a fac uld a d e

e

qu e h o j e se d ed i ca m à c l í ni ca p si co t e r á pi ca .

E, qu a ndo o p s i c ólo g o se põ e a e studar

el e

in e vitav e l ment e s e aprox im a da f ilo sof i a e , em

p a rti c ul ar, d a t e o r ia d o co nh e ci m e nt o .

c

t e ma s

o m o p e n sa m e nto

e so lução d e probl e ma s,

A s itu a ç ão

c i e ntífi ca, po r-

um

e n t r e a s ci ê nci a s (e para isso

da p s i c olo g i a

t a nt o , é c u r i o s a . Po r um l a d o , r e i v indica

l uga r à p a rt e

c

ri a m -se fac uld a d es e institutos

d e p es quisa

e

m ps i co l o g ia ) ; ao mes mo t e mpo o p sicó lo go

prát i co exi ge qu e s u a co mp e t ê n c i a

se j a rec onh e c id a

c om o os co n s e lho s

a p resen ça d e outro s profis s ionais

de a tu ação l e ga lm e nt e r eservada s

lo go) . Por outro l a d o, não cons e g u i u s e d ese n-

vo l v e r sem es ta b el e c e r

es t reitas com as c i ê n cias biol ógicas e co m as da soc i e d a d e .

es p ecíf i ca

(e p a r a i ss o ex i s t e m ó r g ão s

de p s i co l og i a qu e exc luem

n a s áreas a o psic ó -

re l açõ e s ca d a v ez m a i s

E s sa s itu açã o p o d e ri a ju st i f ica r a primiti v a

p os i ção d e Co mt e d e qu e n ã o h á lu g ar p ar a um a

ps i co l ogia ind e pe n d e nte

d e s e nvo l v ê ss e m os n ossos es t udos p sicológicos

junt o a essas o utr as di sc ipli nas , d e nt ro d e se u s

e m e lh or faríamos s e

A PSICOLOGIA COMO CIÊNCIA INDEPENDENTE

17

centro s d e pesquisa. E, no e nt a nto, alg o p a r ece

s e opor a e ssa dispersão

a psicolo g i a d e m a n e ir a m a i s int egra da, r es p e i -

tando -se , é c laro , e ssa mu l tipli c id a d e lo s e a bord a g e n s .

muit a s dú v id as ace r ca do

probl e ma , e é pr efe rí ve l, por e nqu a nto, n ã o

e stab e l ec er n e nhuma con c lusão. D e qu a lqu e r

man e ir a , a psicolo gi a est á aí c om s u a s p re t e n-

s õ es d e a uton o mi a e, ind e p e nd e n t e m e nt e

conclu são a qu e c h eg u e m os,

ta r co m p ree nd er as or ige ns e as i mpli caç õ es da exi s t ê n c ia d e ssa disciplin a , por m a is c aótica que ela s e ja ou nos pare ç a.

é i mp o r tan te t e n-

d a

e exigir qu e s e p e n se

d e â n g u -

H á , r ea lm e nt e ,

PRECONDIÇÕES SOCIOCULTURA I S PARA O APARECIMENTO DA PSICOLOGIA COMO CIÊNCIA NO SÉCU L O XIX

A experiência da subjetiv i dade privatizada

Pa r a qu e ex i sta um interesse em co nh ecer

c i e n t i f i c am e nt e o " ps icol ógic o", s ão nece s sári as

du as c o ndi ções (a l é m, n atura lm e n te, d a cre n ça

d e qu e a c i ê nc ia co m seu s m étodos e téc n i-

cas ri gorosas é u m meio ins ub sti tu ível

co nh ec i mento) : a) u ma experiê n c i a muit o c l ara

p ara o

d

a s ub jetiv id a d e privat i zada ; e b ) a exper i ência

d

a cri se d essa s u b j e ti v id ade .

I sso , à p r i mei ra

v

i sta, pode p a r e c er mui to o b scur o, mas t r atare -

mo s d e c l ar i f ic ar essas id éias.

T

er u ma

exper i ê n cia

d a subjetiv id a d e

p

rivat i za d a

b e m nítida é para n ós m u i t o fác il

e

n a tur a l :

t o d os sentem

q u e parte

de s u as

ex

p e ri ê n cias

é ínti ma , qu e m ai s n i n g u ém

tem

a cess o a e l a . É p ossíve l, p or exe mpl o, fic ar u m

l

u ma c oisa, qu ase deci d ir por u ma e , no f i na l,

a c a b ar faze nd o a o ut ra , sem q u e n i n g u ém

senti -

fi qu e saben d o d e na d a . Com fre qü ência,

ongo te m po p e n sand o

se vamos ou n ão faze r

20

PSICOLOG I A

mo s a l egrias e tri stezas int e n sas e pro c ur a mo s e s c ond ê -Ia s . A poss i bilidad e d e mant e rmo s n ossa pri vac i da d e é ' a l ta m e nt e va lori z ad a por n ós e r e l aci o n a d a a o n o ss o d ese jo d e ser mo s li vres pa r a d ecidi r nosso d estino. A ex p e ri ê nci a d a so lid ã o , ans i ada ou t e mid a , é tamb é m a lt a -

e nt e ex pr ess i v a d a quilo qu e a creditam o s nos sa individu a lidad e .

m

s er

 

A

ind a

co m m a i or

fr e qü ê ncia,

t e mos

a

s

d e

qu e a no ssa v id a é úni ca , d e qu e o qu e

e p e n s am os é totalm e nt e ori g inal e quas e inco- muni cáv e l . P ois bem, historiadores e antropó-

lo gos c om s u as p es quisas m os tram qu e es s as

fo rmas d e pensa rm os e s entir m os nos s a pró-

E ssa ex p e-

ri ê n c i a d e se rmo s suj e ito s c a p azes d e d e cisões,

se n ti m e n t o s

pria existênc i a nã o são un iversa is.

d e q u e a qu i l o qu e es t a mo s

nun ca f oi v i v ido a n tes po r m ais nin g u é m,

e n sação

v i ve nd o

se ntimos

e e mo ç õ es p r i va do s só se d e s e n -

volv e , se a profunda e s e difund e amplament e

n uma so c i e d a d e com d e terminadas ca ract e rís -

ti cas . N o ssa pre o c u pação é id e ntificar s umaria-

m e nt e essas carac t eríst i ca s .

A o l ermo s c om a t e n ç ão as obra s d e histo -

r i a d ore s, ve r e m o s qu e a s g rand e s irrup ç õ e s

e xp e ri ê nci a s ubj e ti va privati za da ocorr e m e m

da

s ituaçõe s d e c ris e s o c i a l, qu a ndo um a tradição

c ultu ral (va l ores , n ormas e c o s tum e s ) é c ont es-

t a d a

ções c omo esta s, os hom e ns se vêe m obri g ados

e s u rgem n ovas for m as d e v id a . E m situa -

PRECONDIÇÓES SOCIOCULTURAIS

21

a tomar d e cisões para as quais não cons e guem

apoio na sociedade. Nessas épocas, as artes e a literatura rev e lam a exist ê ncia d e homens mais

solitários e ind e cisos

quais dominam as v elhas tradi ç õ es

tem gra v es conflitos. Qu a ndo há uma d e s ag r e - gação das velhas tradiçõ e s e uma prolife ra çã o

de novas alternativas,

gado a r e corr e r com m a ior con s tância

"foro íntimo" - aos s e us s e ntim e nto s ( qu e n e m

s empr e condiz e m com o sentim e nto ge r a l ) , a os

seus crit é r i os do qu e é ce rto e do qu e é e rrado (e na soci e dad e e m cris e há vários crit é rios dis- ponív e is, mas incompatív e is) . A p e rda d e r e fe- rências coletiva s , c omo a r e ligião , a "raç a" , o "po v o", a famíli a ou um a l e i con fí á ve l ob r i ga o

hom e m a c onstruir r e f e r ê n c ias in te rna s . S ur ge um e spaç o par a a e x p e ri ê nci a da sub jet i v i-

dad e pri v atizad a :

quem sou e u, c omo sin to, o

que d e s e jo, o que consid e ro justo e ad e quado?

N essa situação,

d

pons áve l por e l a s . A con seqü ê n c i a

textos é o d ese n v ol v im e nt o da r ef l exã o moral e

do s e ntido da trag é dia.

do que em é poca s nas

e n ã o ex is-

cada hom e m se v ê obri-

ao s e u

o hom e m d e scobr e qu e é c ap az

d e cisõ es e que é r e s -

d e ss es con -

e tom a r s uas p r óprias

U ma trag é dia s e d á quando um indiv íduo

e ntre

du a s obri g açõ e s i g u a lm e nt e fort es, mas incom- patí ve i s . É, t a mb é m , num a situ açã o como e ssa

que os hom e n s

s

e encontra

numa situ açã o

d e c on f lito

s ã o l ev ados

a se qu e stionar

2 2

PS I COLOG I A

PRECO N DIÇÓES SOC IOC U LTURAIS

2

3

ace rca d e qu e é cer to e do qu e é e rrado e a pro - urar n a s u a pr ó p r i a c on sc i ê nc i a uma r e spost a

p a ra e ss a qu e stão .

c

No campo das art e s , a l é m do s u rgimento

e

d e senvo l v im e nto d o g ê n e ro "tragédia", observa-

s

l írica . N e l a o po e ta ex p ress a s e us sentim e ntos

d e s e jo s co m o se ntim e n t o s e desejo s particula-

e s e muit a s ve z e s opo st o s ao qu e a s o c iedade

d e l e es p era, c omo a mor es soci a lm e nt e não

r e comend a dos ou m e smo proibidos.

r

e , na lit e ratura,

o ap a r e cime n to

da poesia

e

A s a rt es plásticas t a mbém testem u n h a m o

aprof u ndam e nto d a exp e ri ê ncia subj e tiva pri va-

ti z ada , se j a r e alçan d o os traços p artic ul ares d e

se

us mod e lo s , na escultur a ou na pint u ra repre-

se

ntati vas, se ja ex pr e ss a ndo de forma cada ve z

mais indi v iduali z ada a s ubj e ti v idad e do artista, d e form a qu e , p e la an á li se das ob r a s , pod e mo s

id

e nt i f i c ar com muit a s eg urança s e u autor e

m

e smo es p ecul a r com a l g uma bas e sobr e quem

e

como e l e e r a . Finalm e nt e , não podemos

d ei-

É p reciso ter c l aro que esse movime nto na

direção d e u m a p rofundamento

s ubj e ti va pr i vatiz ad a não foi um processo l in ear

da exp e riê n c i a

p

e l o qu a l t e nh a m p assado t o d as as soc i e d a d es

h

uman as. São m uito i m p or t a nt es

os estu dos d e

a n t r opó l ogos que se d e dicaram

a d es c re ver

a a n a l isar socied a d es não oc id e n tais

e em que a

s u b j et i v ização e a i n di v id u a l ização da ex istênc i a

permaneceram e m ní v ei s m u ito m e nos e lab o -

ra d os. Mes mo nas sociedades ocidentais , pro-

e l atin a , No con -

junto, p oré m , p o d e-se di zer qu e ao l o n go d os

ve ni en t es das tra d içõ e s judaica , gr e ga

o pro cesso foi re pl eto de z i g u ezagu e s .

séc ul os as exper i ê n cias da s ubj etivida d e pr iv a-

t iza d a foram se tornando ca da vez mais

m i n antes d a consc i ê n cia que os h om e ns têm da

s u a p rópria existência. Ou s e ja , nos primórdios

da nossa história, eram po u cos os e l e m e ntos d e

uma soci e dade que podiam g ozar d e lib e rda d e para s e r e conhecerem como ser e s moralmente

a u tônomos, capazes d e iniciativas, dotados de

Hoj e , ao c o n-

sen

deter -

t i mentos

e d ese j os pró p r i os .

xar de m e nciona r qu e o p e nsamen t o re l igioso a comp a nh a e sse pro ces so d e s u bj e tivização

individu a li zaç ão e qu e nos mom e ntos de cris e

d e d esag r eg a ção s o c i oc ultural sur ge m no v os

si s t e m as r e li g ioso s , o u var iant es

h e r e si as qu e e n f ati za m a r e sponsab i lidad e indi-

v idual e at r ibu e m à c ons c i ê ncia e às intençõ e s mais valo r qu e aos pr ó prios atos e obras .

 

trá

r io, esta se to rn o u a imagem genera liza d a

e

qu

e temos de nós mesmos. A li ás, boa parte d e

n ós se s e n t e bastante i ncomo d ada quando essa

crença é colocada em dú v id a ; resistimos à i d é ia

de qu e n ã o t e nhamos controle de nossas v i d as .

A cr e nça na li berdad e do s hom e ns é um d os

e l ementos básicos da d e mocracia e da socie -

d a d e d e consu mo e não e stamos d ispostos, em

d e antigos, e

2

4

PSICOLOG IA

gera l , a pôr e m ri sco nossos va l ores. C omo se verá a segu i r, em a l g un s as p ectos i m port a nt es essa im agem é co mpl etamente ilu sór i a , e um a

das t arefas da p s i co l og i a será ta l vez a d e reve -

l a r essa ilu são .

Constituição e desdobramentos da noção de subje t ividade na Modern i dade

Co m o f oi di t o a cim a , po r es tr a nho

p

nossa ex p e ri ê ncia como indi ví duo s au t ô nomos

não é na tu r al n e m n ecessári o ,

de um mo v im e nto d e ampl as tr a n s formaçõ e s

pe l as

tór i a, so b ret u do n a Mode rnid a d e .

qu e

areça, no ss o

modo

a tu a l d e e nt e nd e rmos

m as sim part e

qu a i s o h om e m t e m passa d o e m s ua hi s-

De forma s imp li ficada,

podemos di zer

que nossa noção d e s u bje t ividade pr i va d a dat a

aproximadament e

da passagem

Mo d erna. O s uj e i to moder n o

tuído nessa passagem e s u a crise v i r i a a se c on- su m ar n o f in a l d o séc ul o X I X .

dos úl timos

três

séc u l o s :

d o

R enasc i mento para a Idad e

teria se c on s ti -

Em A in ve n ção do p s i co l óg i co, d ese n v ol -

t e ri a

s

c i as . A fal ê n c i a d o mund o m e di eva l e a ab e r-

ve m os a id é i a d e qu e , n o R e n asc i me nto,

u rg i do u ma ex p eri ê n c i a

d e p e rd a d e r e f e r ê n-

PRECONDIÇÔES S OCIOCULTUR A IS

2S

tura d o O cid e n te ao r est a nt e

do mund o t e riam

l a n ça d o o h o m e m e ur ope u nu ma con di ção d e desa m paro .

m e d ieva l faz i a co m qu e o

hom e m se sen t i sse p a rt e d e um a orde m s up e-

r i or qu e o amparava

te mp o. Por um l ado, a p e r da d esse sentimen t o

d

A exper i ê n c i a

e constrang i a ao mes m o

traz

e c omunh ão

com um a o rd e m s u p e r i or

uma gra nd e sen sação d e lib e rd a d e

sem l i mit es para o

mundo,

dido e ins eg uro : como esc olh e r o qu e é c e r to e errado sem um pont o seg uro d e a poio ?

e a p oss i-

bilidad e d e um a a b ert ur a

ma s , p o r outro , d e i xa o homem p er -

O R e n asc im e nto

foi, po r tudo i sso , um

p

ex

m e nto . O co ntat o c om a di ve r s id a d e

do s hom e n s e d as cultur as impô s n ov o s mo d os

d e s e r.

e ríodo mui t o ri c o e m va ri e dad e

p e ri ênc i as

e d e

d e f o rmas e

p r odu ç ão i nt e n sa d e co nh ec i -

d as co i sas,

Não pod en do

d e

iu -se

ca minho s e arca r co m

d e s u a s op ções. Nesse c on -

esp era r p e lo co n se lho

o h o m e m

v

uma f i g ur a

o b r i gado a esco l he r seus

as c on seq ü ê n cias

tex to , hou ve u ma va l or i zação

do "Hom e m ", qu e p ass ou a ser p ensa do

ce nt ro do mundo .

d e a ut or id a d e,

cada vez mai or

co m o

A cre n ça

e m

D e u s

não

d esa p arece u

e

nt ão , m as p arece qu e E l e s e di s t a n c iou

e se

c

olocou " s obr e " o mundo: E l e foi o cr iador d a

ordem do mundo e ca b e ao Hom e m a dmir á- I a ,

26

PS I COLOG I A

conhecendo e controla n do a nat ur eza. Assim,

ca d a v ez

menos como sagrado e mais como objeto d e uso - movido por forças m e cânicas ~ a serviço dos homens . Ess a transformação é parte es sen-

cia l da origem da c i ência mo d erna.

no

Hom e m, g erada s pela conc e pç ã o de qu e el e é o

c e ntro do mundo e l ivre para s e gui r seu cami- nho, fazem nas cer o humanismo mod e rno.

o mundo p a ssou a s e r consid e rado

A gr a n d e

v a l ori z a ç ão

e confiança

O s é culo XV I vê s u r g irem di v er s os p e rso-

nagens, r eai s ou fictícios, donos de u m "mundo interno" rico e profun d o . Le o nar d o da Vinci , Dom Qu i xote, Harnl e t, entr e m u itos . Al é m disto,

os p e r s ona g en s liter á rios contribuíam também

para a construção da i n teriori d ade dos l eitores. Segundo Philippe Ar íe s, em História da v i da pr i - vada ( Companhi a d as L e tr a s, v. 3 ,1 99 1), o sur - gim e nto da impr e nsa proporcionou uma das

e xperi ê ncias mais decisivas da mod e rnidade: a

difusão da l e itu ra s il e ncio sa . Ela pos s ibi l ita qu e

s e escap e a o control e da comunidad e e cria um

diá l o g o int e rno que d e senvolve a constr u ção d e

um ponto de v ista próprio . O traba l ho int e l ec-

tua l p a ss a a s er pro g r e ssi v am e nt e um ato indi -

v idual e m e smo a r e ligio s id a d e pôd e se tornar

uma ques tão íntima, j á qu e cada ve z mais pes - soas podiam t e r aces so dir e tam e nte aos t ex tos sagra dos, se m a i nt e rm e di ação d e s a ce rdot e s.

PRECON DI ÇÓES SOClOCUL T U R A I S

27

Cert a m e nt e, e s sa e xp e ri ê n c ia f oi f und a m e nt a l à

R e forma prot e st a nt e ,

forma çã o do suj e ito mod e rno .

mo v im e nto e ss e ncia l na

O pen sador f r a n cê s Mi c h e l d e Mo nt a i g n e

d á um test e munho

i

di

a ssun t o, ainda qu e su a v id a seja c omum, total-

como

cl á ssi co da va lori z a ç ão

da

n t e r i oridad e .

Na introduçã o

d e s e us Ensaios,

z ao leitor qu e tomará

a si m e smo

m

ve is . O "eu" de Montaí gn e s e rá o assunto

e nt e desp r ov i da

d e f e itos heróicos

ou not á -

do

l i v ro e , e nqua n to

lon g o d e qua s e v inte anos e mai s d e mil p ág i-

nas), e sse " e u" v a i s e t r an s form a n d o . foi muito cri t icado com o argum e nto

uma v id a comum não m e r ece ri a se r obj e to d e

tal obra, ma s a qu e stão qu e nos int e r e s s a é jus-

tament e o s u rgimento

indi v íduo, da constr u ção d e cad a indiv idu a li-

d a d e úni c a.

O livro de qu e

o l i vr o v ai sendo esc rito (ao

da va l ori z ação

de cada

A obra d e Montai g n e tamb é m

foi consi-

vaidad e. Mas

h á a í um p a r a do x o: ao m esmo t e mpo e m qu e

indubita ve lm e nt e o a u tor v alori za s e u "e u", e l e

d e nun c i a a grand e i l us ã o do hom e m ao se pr e -

tender um s er privile g iado na n a tureza

d e conh ecê -I a e dominá - I a .

d

e ra d a

fr u to

de uma e xtr e m a

cap az

Toda a fa l ta de r e f e r ê n c ias

a

b so l u t as

a

qu e nos ref e rimo s

tamb é m um a e scola da f il oso f i a g r eg a ch a mada

c e ti c ismo. O s cé ticos acha v am impossíve l qu e

ma i s acima f e z r e nasc e r

28

P S IC OL O GI A

pud é ssemo s obter algum conh e cim e nto seguro sobr e o mundo: a qua l qu e r afirmação pode s e r opo s ta outra d e i gua l valor; qualquer impr e s- são qu e tenhamos po d e ser um en g ano de nos - so s ór gã o s do s s e ntido s .

A ssim, podemos considerar que a consti -

tui ç ão do suj e ito moderno é cont e mpor â nea a o

iní ci o d a crít ica a esse m e smo suj e ito : a utor e s

como Mont a i g n e, Er a s mo e Shak es p ea r e

vã o

d e nun c i a ndo d e sd e e nt ã o a va idad e do homem,

qu e pa ssa a ass umir os a tribut os at é e nt ã o p ró -

p r i os a Deu s (cf . Sa nti, 1 997) .

a o gr ande

individu a li s mo n asce nt e , ac a b a r a m por p r odu-

z i r um a reação qu e , n a ve rd a d e, ass umiu du as

A d e s cre n ça

cé ti ca , s omad a

eições b e m di s t i nt as : a reação r acio n a li s ta

f

e a

r e a ção e mpiri s t a . E m ambas, c ontudo, tr a ta v a-

no v a s e m a i s s eg ur as ba ses

s e d e es t a b e l ece r

p

pro c ur ava m - s e

ri ê ncias subj e ti v as .

a r a as cre n ças e par a as ações hum a nas,

e

e s sas ba ses no â mbito d a s ex p e -

Já no séc ulo XV I s urgiram t e ntati v as

d e

con te r e cir c un screv e r

É c omo s e hou ve s se o d e sejo de pod e r vo l tar ao mundo m e di e v a l, em q u e uma única ord e m

r e i nava. M a s , c om o

t e mpo, a ord e m

a se r bu sc ada a pa rt ir d e e nt ã o

tinh a qu e le v ar em con s ideração

no va s cre n ç a s do homem, sobretudo a r e cém- adquirid a c r e n ça n a lib er dad e . A I gre j a C a tó l ica

a s a ç õ e s dos homen s .

n ão é possí ve l v oltar

no

uma s é rie d e

P

RECONDI ÇÕES S OC I OCULTURAI S

29

e

as n ovas I g r e j as Pr o te s tant es

( Lut e rano s e

eno r m e

Ca

l v i ni s tas)

f iz e ram um e s f or ç o

e m

a

r ticu l a r a c ren ç a num D e us onipot e nte

e o

li

v re-arb í trio humano .

U

ma solução - ba s tant e pr ec o ce, mas

c ujo

e

s pírito foi muito duradouro

- fo i dada p e lo

humani s ta Pico D e l l a M irandol a qu e , a inda no

fin a l do séc ulo XV , r eesc re ve ndo a G ê n ese , c h e -

go u à co n c e p çã o d e qu e a lib erda d e t e r i a s ido

o g rand e e e x c l usi v o

a o hom e m, j á qu e est e t er i a sido o úl t imo d o s

seres a s er cri ad o e n e nhum a

r estar a p ara forjá-lo,

dom qu e D e us t e ria d a do

m a t ér i a orig in a l

T e ndo o dom da lib e rd a d e ,

o

hom e m pod e s e r r e comp e nsado s e fize r um

b

o m

u so d e l a e pun i do

caso se d e i xe p e r d e r d o

bom ca minho . E ssa ar t i c ul açã o é impo rta n te n a

a c r e nça na lib er -

d a d e hum a na,

essa lib er d a d e

nho r e to . O s uj e ito

mais , a uma ord e m superior, d e svalorizando

D a í surg e d eve se r

controlado e desv a l oriza d o,

fonte d e de sejo e dispersão ( c f . "O s ilê ncio e a s falas do corpo", e m Fi g u e ir e do, 1 995 ).

m e did a e m qu e , pr e s e r va ndo

co l o c a - se a imposi çã o d e di r i g i r c om muit a di s c iplin a a um ca m i -

d eve "suj e it ar - se", uma vez

s e us d e s e jo s e proj e tos parti c ul ares . um r eg im e ond e o corpo, sobr e tudo,

pois e le s e mpre é

Ess a r eaç ão à di s p e rsão sur g iu, prim e ira -

mente , como era de s e e sp e rar, no âmbito r e li-

gioso, embora t e nha

al é m d e l e . E ntr e a R e fo r ma e a Contra - R e fo r ma

s e esp a lhado para muito

3 0

P SICOLOGIA

vão nascendo tanto a individua l idade q u anto os modos de contro l e d o indiví du o que conhe - cemos até hoje . :

A maior parte dos estudos sobre a moder- nidade costuma identif i car como se u marco d e

i

do raciona l ismo moderno . Certamente , a cons-

tituição da moder n idade foi a l tamente com - plexa e longa, mas, se é preciso estabelecer um marco, Descartes se presta bem a isso . Descartes pretende esta b e l ecer as cond i - ções de possibilidade para que obtenhamos um

co n hecimento seg u ro da verdade . E l e se a lin ha

n ício o pensamento de Descartes, o fundador

entre aque l es

d ispersão do Renascimento

mais importante, superar o ceticismo .

que quiseram s u perar a gran d e

e, o que talvez é o

Ao lermos as primeiras

páginas d o Discurso

do método, vemos o depoimento de um homem nascido no limite do Renascimento, em meio

a uma profusão tamanha de idéias e opiniões,

que se via levado a desacreditar todas elas. Não

querendo entregar-se ao ceticismo, impôs-se

o projeto

qual não pairasse a menor sombra de dúvida

e pudesse, assim , tornar - se o fundamento para toda a construção de conhecimento vál i do .

Para isso, curiosamente, utilizou o instrumento cético : a dúvida . Sua intenção era submeter

toda e qualquer idéia , impressão

uma dúvida metódica: as idéias erradas seriam

de buscar

alguma verdade

sobre a

ou crença a

PRECO N DI ÇÕ E S S O CI OC U L TURAI S

31

descartadas; as incertas seriam igualmente des - cartadas , ao menos provisoriamente; somente idéias absolutamente claras e distintas pode- riam ser consideradas verdadeiras e servir de base para a fi l osofia e as ciências. Tudo aqu ilo que se mostrasse incerto teria que ser anali - sado a partir do elemento verdadeiro revelado ao f i nal do processo.

O procedimento parece conduzir Descartes

ao ceticismo. Seus mestres, os l ivros, as leis e os cr i térios morais de cada cidade, tudo parece incerto . Seus órgãos do sentido também se mos- tram passíveis de enganos e seus sentimentos ainda mais, por serem tão mutáveis . Conforme

a dúvida se aprofunda, Descartes se vê cada

vez mais acuado, até imaginar a existência de

u m "gênio ma li gno",

toda e qualquer idéia que f i zesse do mundo. Nesse ponto extremo da dúvida, quando parece

que ela é insuperável, Descartes inverte a ques- tão e acredita ter superado a dúvida e encon- trado um fun d amento inquestionável para o

co n hecimento .

tomo como objeto d e meu julgamento se mos-

tra incerto , mas , no momento mesmo em que duvido, a l go se mostra como u ma idéia indubi- tável; enquanto duvido, existe ao menos a ação

d e d u vida r , e essa ação requer u m sujeit o . Daí nasce a famosa frase "penso, logo existo" . Todo

o movimento de duvi d ar traz a evidência de

capaz de enganá - lo

em

E l e diz: parece que tudo o que

32

P SI CO L OG IA

qu e , a o m e no s e nqu a nto

du v id a), e u ex isto. Es ta é minh a únic a c er t e za:

a ind a n ão se i se o s o u t r os ex i ste m e m e smo

e u

se m e u p ró prio c orpo ex i s t e . A ev id ê ncia pri-

um se r qu e pensa (e

m

e ir a é a d e um " e u" e e l e se r á a p a rtir

d e ag or a

o

f und a m e nt o d e t o do o co nh ec im e nto.

Descar t es

é tom ado c omo in a u g urador

d

a m o d ernid ade no se n t id o e m qu e e le marca

o

f im d e todo um c onjun to

d e c r e n ç as

qu e

und a m e nt av am

f

o c onh ec im e nto.

O hom e m

mod e rno não b u sca a ve rdade num além, em

a l g o transce ndente ;

a dquirir uma repr e s e ntação corr e ta do mundo .

E ssa r e pr e sentação é int e rna, ou s ej a, a verdade

r es id e no hom e m, dá-s e para e l e . O sujeito do

c onh ecim e nto (o "e u") é tornado

agora um el e -

a v e rdad e agora sig n if i ca

m

e n t o tr a n sce nd e nt e , " fora do mundo", pura

re

p rese nta ção

sem d ese jo ou c orpo, e por isso

s up os t a m e nt e cap az d e p r odu zir um c onh e ci -

m e nt o o bj e ti v o do mundo.

O f il ós ofo Fran c i s Bac on, cont e mpor â n e o

d

fund a dor d o mod e rno e mpi r i s m o . Su a pr e ocu-

pa ção, c omo a d e D e s ca r tes , e r a a d e e stabel e -

ce r b ases seg ur a s para o conh e cim e nto

e , t a mb é m co mo D e s ca r tes, no camp o d as exp er i ê n c i as

re n ça e r a qu e para Ba c on a r a z ã o d e ixada e m

t

seja

como o

e D esca rt es ,

pod e s e r a p rese nt a d o

vá lido

e l e a s p r o c ura v a

s

ubj e ti v a s .

A dif e -

tão e specula-

o ta l l i b e rd a d e

pod e - s e tornar

tiva e delirant e qu e nada do qu e produza

P RECON DI ÇÕ E S S O C l OC UL TURAIS

3 3

digno d e c r é dito. É n ecessá rio

d a r à razão uma

b a s e nas ex p e ri ê n c i as

ç ão, desd e qu e essa p e r ce p çã o t e nh a s id o p uri-

fica da, l ib e rad a

subm e tida n o co tidi a no . B a con escreve u um a

s é ri e d e obr as i mp o rt a nt es, e ntr e as qu a i s o

N ovum or q anum , e m qu e e l a bor a s u as p ro p os-

tas de como se li vra r do e rro e e ncontr a r

dade t e ndo com o ba se a ex p e ri ê n c ia

s e nsoria l

do s sentido s , n a p erce p -

d e e rros e ilusõ es a qu e e stá

a ver- s ubj e tiva

e r a cion a l. Bacon, como D esc artes ,

é u m dos grandes pion e iros

com o M é todo na produção d e conh e cim e n- tos fi l osóficos e ci e n tíficos q u e marcou toda a Modernida d e ocidental desde o séc ul o XVII até os d i as de h oje .

na pr e o c up açã o

A crise da Modernidade e da subjetividade moderna em algumas de suas expressões filosóficas

A cr e n ça d e qu e o hom e m pod e a tin g ir a ve rdad e ab s o l u ta e indubitá ve l , d es d e qu e sig a

e

seja el e o ra c ional d e D esca r t es ou o e mpíric o

d e B a con, a ca bou por s e r c riti ca d a no séc ul o

s eg uint e no int er ior

m e nto f i losófico qu e , no s é culo XV III, r e pr ese n -

tava o qu e havi a d e m a i s a v ançado e prog r essis t a no terreno das id é i a s. No Iluminismo , as g r a n -

stritam e nt e

o s pr e c e ito s

do M é todo co rre to,

do I l umini s mo ,

o mo v i -

34

PSICOLOG I A

d

e

r i

f il ósofos em pi ristas,

g

ca minh os , n o s é c ulo XV III , a qu ase onipot ê ncia do " e u", d a razão uni versa l e d o m é todo seg uro afirmad a no séc ulo XV II foi criti c ada. Por um

l

q

r a nd e co rr e n te da Mo d e rnid a d e . Por di ve r s o s

es co nqui stas

d o r ac i ona li smo

cartesia no

r am arti c ul adas c om

a va lori zação da s ex p e -

ê n cias indi v i d u ais ta l como p ro mo v id as p e lo s

u e f or m ava m

a out ra

a d o, i ss o r e pr ese n to u

um a con sc i ê nci a mai s

PR E CO N DI ÇÕES SOC I OCULTUR AIS

3S

çã o d a cr e n ça e m c onh ec im en to s

A c ríti c a d a r azão p ura,

a b soluto s . E m

a fi rma qu e o ho m e m só

t e m acesso às c oi sas t a i s

p ara e l e : a i sso e l e c h a m a "f e n ô m e n o " . A ú ni ca

fo r ma d e p r o d u z i rmos al g u m con h ec i m e nto

ao ca mp o d os f e n ô-

m e no s , p o i s a s " c oi sas e m si " (ind e p e nd e n tes

d o s uj e it o ) são in c o g no s cí veis.

ao m esm o t e mp o , Kan t l eva a ind a mais lo nge

É ver d a d e q ue ,

vá li d o é nos r e strin gir m os

como s e apresen t am

pro f u n d a,

só lid a e comp l exa d e to da a p ro bl e -

a

s p re t ensõ e s

d o " s u j e it o": se, de u m l a d o e l e

máti ca d o co nh ecim e nt o, m as , d e to da a for ma ,

n

ão crê n a

ca p ac id ade d e o ho m em co nh ec e r a

c om eçou a se co lo c ar e m xe qu e a sob e r a nia do

v

e r d a d e a b s olut a

d as "coisas em s i ", d e o u tro,

" e u " , se j a o "eu" da r azã o , sej a o " e u" do s se nti -

dos purific a do s .

H

um e,

u m

d os g rand es

filóso f o s

da

é p o c a , c h ega a n ega r qu e o "e u " se ria al g o e stá-

qu e p er man eça m es m o a o l o n g o d a di ve r s id a d e

ve l e s ub s t a n c i a l

id ê ntic o a s i d e suas ex p e -

i ê n c i as : e l e seri a mui t o ma is o e f e ito d e s u a s

r

do qu e o se nhor d e sua s ex p e -

ri ê n c i as ; som os , p ara H um e , a l go q u e se f o r ma

e se transforma

e

xp e ri ê ncias

n os em b a t es d a ex p eri ê ncia

e

j á n ão p o d emos n o s conce b e r co mo ba se e su s-

t o d a a qu e s t ã o do co nhe c im e nt o é radicalm e nte

co l oca d a e m ter m os s ubj et i vos, po is t u d o qu e é "co nh ec í v e l " re p o u sa na s ub je ti v id a d e hu mana.

Es s a s ub j e t i v id a d e ,

d

v id a d e t ransce n d e nta l e un iv e rsal do Ho m e m.

E mbo r a e ssa s ubj e ti v id a d e uni versa l se j a m an-

t

lid a d e " d e t o das as e x p er i ê n c i as,

s ub jet i v i d ad e s empír i cas e p art i c ul ar es d e ca d a

u m d e nós , d e ve m a p render a v i ve r e m u m

cont u do, não é a s u bj e tiv i -

a de p arti c u lar

d e c ada in d iv íduo, é a su b j e ti-

id a e va lo r i z ad a

c omo " c ondi ç ã o d e p oss ibi-

as o ut ras, as

t

e n tação do s co nh ec im e ntos e d e nó s m es mo s .

m

undo d e i n cer t ezas

e hi póteses n u nca pl ena-

N

essa m ed id a , o c onh e ci m e nto e nt e ndido

c omo

m

e nt e confirmad as, p r o c u ra ndo, sem pr e com

d

o m i ni o do s obj e to s

por um s uj e ito s o b e rano

muit a di f i c uld a d e ,

e xe rc e r o c on t r o l e rac i o n a l

n

ão p o d e ma i s se su st e nt a r.

so

b re seu s impul sos,

seu s d e sejos,

s u as p ro-

O ut ro f il ósof o i lumini sta d o sé culo XV III ,

E m an u e l Ka n t, p roc ur a opor -se a essa s f ormu -

l ações t ão r a di cai s , m as a c e it a a probl e matiz a -

p e n sões . Para Ka n t , a so b era n ia d o s u jei t o , s u a

d e se -

a ut o n o mi a, é um a t are f a supre m a m e n te

j áve l - é a met a d e t o do esforço ét i co - e aind a

36

P S ICO L OGIA

possível,

p orque as necessi d a d es, os d ese j os e os impul-

sos n un ca po d erão ser d ef in itivame nt e s oss e -

ga do s pe l a razã o.

o s é culo

mas é sempre

m uito probl e m át ica

A l é m d a a utocríti ca

ilumini s t a ,

XVIII tro u xe o ut ras f o r m as d e c r í ti ca às pr e t e n -

sões

d o M é t o do .

do

séc ul o XV III ex atam e nt e c om o um a crítica ao

to t a liz a nt es

do "e u " , d a r azão uni ve rsal e

nas ce u

no

fin a l

O R o m a ntismo

P

R E CON DI ÇÕES SOC l OCUL T URAI 5

37

nature z a

ve rdad e iro, à c i v ili zaçã o c om

m é todo s e s u a e t i qu e t a .

op õe-se, co mo al g o m a i s origi nal e

suas r egra s, se u s

O Ro m anti s mo

t o m a

o s ma is

di verso s

asp e cto s , o qu e torn a muito di f í c il s u a d ef ini-

ç ão pr ec i sa, m as p a r ece qu e e l e reg ul ar m e nt e

r

e um a

nostalgia d e um est a d o a n ter io r p e rdid o .

e pr e s e nt a um a crítica à m od e rnid a d e

A qui l o qu e na " f und açã o" da mod e rnid a d e

d eve s e r exc luíd o do " e u " ou mant i do so b o f é r-

I

luminism o

e , m a is parti c ula r ment e , à v ert e nt e

r

e o controle do M ét odo parec e a g ora in v adi- Ia.

r

ac ion a l i s ta

do I lumini s mo (com a v ertent e

A

razão é destronada, o M é todo feito e m p e d a-

e

mpiri s t a , o s românti c os

pud e ram at é estabe -

ç

os e o " e u" ra c ional e m e tódico é d e slo ca do

do

l

ece r uma convivência muito m a is am i stosa) .

c

e ntro da subj e ti v idad e e tomado

ag or a c omo

Ou se j a , à id é ia cartesiana

d

e qu e o homem

uma sup e rf í c i e

m ais ou m e nos

c obre a l go profundo e ob s curo.

i l u só ria

qu e

é

essen c i a lm e nt e

um se r ra cional (o ser pe n -

 

en

sa

nt e d o C o g ito ) é contr a po s t a

a id é ia d e que

o

ho m e m é um se r passional e se n síve l .

Q u an do p en sa m o s h o j e em Romanti s mo,

ve m -nos à me n te

a l g o s u av e , d e li ca do e li g ado

Uma imag e m cl á ssi ca disso é a pintur a d o

in g l ês Turn e r, qu e fr e qü e nt e ment e

p estad es

os limit e s e ntr e cé u , m ar , c hu va e n e blin a ; e m

p i nt a t e m-

no m ar , n as qu ais mal s e d ef in e m

ao a m or, o qu e t a mb é m n ão d eixa d e se r v e r -

 

al

g un s c aso s a p arece um b a r c o tot a lme nt e

à

d

a d e . Mas a orige m do m ov im ento na . Ale m a nha

m

e r cê da s forças na tur a i s. O barco r e p rese n t a

o

t

eve um se n t ido

b e m di s tinto : um a prim e ira

e

mpr ee ndim e nt o hum a no d e c ont r ol e racio n a l

ma ni fes t açã o

rom ânt i ca

t eve

o nome

d e

e

m e tódi c o do mund o , e a ima ge m n ã o d e i xa

"Te mp es t a d e e ímp e to " , o qu e j á s u gere m e lhor

a ca r acte rí s ti c a d e ss a se nsibil i d a d e . Tr a t a-se d e

ev id e n c i a r a pot ê n c ia do s impul s o s e forç a s da

n at ur eza, e m muito s up e r i o r à da c onsci ê ncia ou do hom e m como um todo . A va lorização da

dú v id a s qu a nt o à s u a impo tê n c ia .

A s s im, o Rom a nti s mo

e ssenci a l n a cri se do suj e ito mod e rno p e l a d es -

tit

d e

s e nhor, d e sob e r a no .

é um mome nto

u ição

do " e u " d e s e u l ugar privi l eg i a do

38

PSICOLOGIA

A l é m di ss o, a Rom a nti s mo

tr az a ex p e -

ri ê n cia d e qu e a hom em p oss u í ní ve i s d e profun-

did a d e qu e e l e m es ma, n a e nt a nto, d esc onh ece.

P a r a do xa lm e nt e, portant o , há uma gr and e va la-

riza çã a d a indi v idualidad e

id é i a d e "gê nio . " ex pr es sa b e m es s a va loriz ação:

e l e s er i a um indi v íduo . n a tu ra lm e nt e esp e cial , dana d e um dom única qu e t e m a obri g a ç ã o d e

em

si, ele te m uma grand e índísposíção

d a d e em s u a v ida pr á ti c a . Tr a ta - s e d e uma sen -

s ibilid a d e intimista e ao . m es ma t e mpo . crente

n a gr a ndíosidade de sua miss ã o. Quando . pen-

sarnas na alta grau d e individualismo . e solidão

pr e s e nt e s na século . XX, é in e vit á v e l pensarmos

e d a intimidad e .

A

rea li za r; par outro l a do, par se u m e r g ulha

e dificul-

n

a pr e s e n ç a e m nós da suj e ita rom â ntico.

A

o . lon g o da século . X I X , a f í rmou - s e a partir

d

e di versas fontes a d e posi çã o da " e u" d e s e u

lu ga r p r i v il eg iada.

Par exe mplo : a id é ia d e qu e

a

co mpor ta m e nto

da hom e m é det e rminada

p

ar l e i s q u e n ã o . pod e co n tro l ar e qu e fre q üe n-

t e m e nt e n e m m es ma

d e M ar x , e nt re out ros : na m e sma

se n t id a va i a a f i r m açã o . d a t e o r i a da ev olu ç ã o

p e n sa m e nto .

c onh ece e st á pr e s e nt e na

d e D arw in d e qu e a ho me m é um se r natural

c ama as d e mais, não . po ss uindo uma orig e m

d i s t int a ima ge m e se m e lhan ça d e D e us) .

M as ta l vez a ponto m a is a g uda d e ssa cris e

t e nh a s id o . a f ilosofi a d e Ni e t zsc h e .

id é i as d e " e u" ou " s uj e ita"

Nela, as

s ã o . int e rpr e tadas

PRECON DI ÇÓES SOCIOCUL T URAIS

39

d á c ontinuidad e à c rític a

d e Hume à suposta substanci a lidad e e e sta-

bilidad e da s uj e ita ) . Com s e u proc e dime nto,

c hamada " ge n ea log í a" , N í e t zsch e procura d e s- constru í r a s f und a m e nta s d e toda a f ilos ofia

acid e nt a l d esd e Plat ã a . B asi c am e nt e ,

cama ficçõe s (na qu e

tra ta- s e

d e mos t r a r cama cada e l e m e nto . torn a do c ama

fundamenta a bsoluto o u ca u sa prim e i ra d e tudo .

a que e x ist e foi tamb é m, par su a vez , c ria da num determinada mom e nto c om uma d e t e rmi -

nada finalidade. S e alga foi criada ao . lon g o da tempo , não . é eterna ou causa primeira. Assim,

a "idéia" platônica, D e us, a sujeita moderno d e

Descartes ou d e Bacon são . rev e ladas cama cria -

ções humanas. Nossas cr e nças e valo re s estão . comprometidos com a persp e ctiva e m que nas

c olocamos a cada in s tant e .

fixa e est áve l s e ria uma n e c e ssidad e humana,

d e cr e r qu e t e m control e sob re a

na t e ntati v a

d ev ir. N íe tzsc h e dá um passa b e m l a r g a e radi-

cal: n ã o . só a hom e m é d eslo c ado da po s i ç ã o d e

A cr e n ç a e m alga

c

e ntro . da mundo, c ama a própri a id é i a d e qu e

a

mundo . t e nh a um ce nt ro . ou uma unidad e

é

d

e stru í da. Assim , quando . N íe tzsc h e d e nuncia

a

carát er ilu s ória

e n ã o . n e cess á ria

faz

e r hum a na, i sso . não . re pr esenta

d e t a da a

a d efesa da

abandono d a ilus ã o . e m fa v or d e outro mod o

. d e s e r mai s l e gítima

ou b e m fundame nt a da

(cama na c rítica c atólica ou rom â nt í ca à ma der -

nidade). A ilusão . não . pod e s e r substituída par

40

PSICOLOGIA

nad a m e lhor por qu e simpl e sm e nte

nad a m e lhor. A qu estão para Niet z sch e é s a b e r

o q u a n to cad a ilu são e m ca d a c ont ex to s e mos -

tra útil

n ã o ex ist e

à expans ã o da v ida.

N ã o s ó o privil é gio do " e u" na mod e rni-

ocident a l parec e

s er c ol oc ad a e m xe qu e a í. M a s, como ver e mos,

o proj e to

human is m o r ess u rg ido no séc ulo XX mant ê m

esse p ro j et o v i v o. A seg uir, r e tomar e mo s

dad e , ma s t oda a met afís ic a

ci e ntífico do s sé culos X I X e XX e o

o c aminho

d a

c on s titui ção e d os des d o br a m e nto s

d e " s ubj e ti v id a d e

d as c ondi çõe s s o c io ec on ô mi c as qu e d e ram sus -

d e i ndi v idualiza çã o no

o c id e n te

r efe r e n c i a l qu e pod e r e mo s c ompr ee nd e r as

d im ensões c ul t u r ai s d a mod e rn i dad e por um

outro â ngulo qu e no s s erá b e m útil para e nten-

d er mos o nascim e nto da s ps ic ologias.

t

pri va da " por outro vi é s, o

da no ção

e n tação ao p rocess o

mod e rno. Se r á a p a rtir d e sse outro

Sistema mercantil e individualização

No ini c io da se ç ão ant e rior,

e sti ve mos

r e l ac ionando a import â n c ia qualitati va e quan-

ti ta ti va da s ex p eri ê n ci a s da s ubj et i v id a d e pri v a- ti za d a a o s ' p e r ío do s d e d es a g r e g açã o e c on f lito s so c io c ul t u rais (sem nos preocup a rmos com as o r i ge n s d ess e s p e ríodo s , tar e f a qu e comp e t e aos hi sto ri a do res). Co n vé m ass in a l a rmos, n es t e

PRECONDIÇÕES SOCIOCULTUR A IS

41

mom e nto, a e x i s t ê ncia econômico qu e , tal ve z

e t rans f ormações

funda e uni ve rsaliza aqu e las ex periê ncias:

r efe rimo-nos ao sist e ma m e rcantil pl e nament e

d ese n v ol v ido.

d e um si s tem a so c ial e

p e l a c ar g a d e conflito s

apr o -

que car r eg a cons i g o ,

Em qu ase toda s as s o c i e dad es,

h á a l g um a

a

t i v idad e d e tro c a com er ci a l, princip a lme nt e

e

m t er mo s d e t ro ca s e n t r e c omunid a d es. O

p

r odut o

exce d e nt e

de uma família, d e um clã

ou d e um a ald e i a pod e ser d e t e mpo s e m t e m -

po s t r o ca d o p e l o pr o dut o

famíli as, c l ãs o u a ld e i as " esp ec i a li z adas"

outro t ipo d e produ ç ão .

du çã o é efe tu a d a p ara ate nd er às n ecess id a d es

d e qu e m produz, qu e r di ze r, c ad a c omunidad e

pro c ura s e r aut o- sufici e nt e. A t é re c e nt e m e nt e ,

s e f ôs sem os

N esses c a s o s, a pro-

exce d e nt e d e out ras

e m

ao i nt er ior do Brasil, ob se r va ría-

grand e s faz e nd a s conti -

qu e seus

morador e s c on s umiam , e esse s produto s não

eram produzidos para s e rem trocados.

Esse quadro muda quando s e d e s e n v olve um a produ ç ão par a a troca, e m qu e cada um

p assa a produzir

tado. J á en c ontr a mo s

pri va ti za da: c ad a

ex p e ri ê n cia d a s ubj et i v id a d e

mo s como inúm e ra s nua v am produz í ndo

muito daquilo

aquilo a qu e e st á mais cap a ci-

aí um fort e moti v o p a ra a

um d eve s er cap a z d e i d e ntifi c ar a s ua e sp e cia- lidad e , a p e rf e i ç oar - s e n e l a , id e ntifi car -se

p r odu-

e l a . Mas i sso n ã o b ast a . Os p ro dut os

com

42

PSICOLOGIA

zidos p ara a troca d eve m s e r le va dos ao m e r -

cado.

fa z em e comprar aquilo qu e não produzem, mas de que nec e ssitam para viver. Todo mundo que comprou ou vend e u conh e ce a situação de

barganha: cad a um qu e r e ndo ser mai s e sperto,

v e nder m a i s caro e comprar mais barato. O mer-

ca do cri a in ev ita ve lm e nt e a id é ia d e qu e o lucro

de um pod e se r o pr e ju íz o do outr o

um de ve d efe nder

Quando o m e r c ado toma conta de tod as a s r e la- çõ e s humanas, isto é, quando todas as re lações

e ntre o s hom e ns se dão por meio d e compra e

venda de produtos elaborados por produtores particul a r es, un í versal í za-s e a exp e ri ê ncia de

que os int e r e ss e s de c ada produtor são para ele mais imp o rt a ntes do qu e os interes ses da soci e -

d a d e c omo um todo e ass im d eve se r . O ra, es s a

é ex atam e n te a situa çã o num a s o c i e d a d e m e r-

cantil pl e n a m e nt e d e s e n v ol v ida

Mas n e m se mpr e foi a ss im, n e m é pr e ci s o que

s e mpr e o s e ja. Enquanto for, o obj e ti v o conti - nuará se ndo, como dizi a um comer c i a l de tele - vis ã o , "tirar v antage m".

N es t e , o s produt o r e s

vão ve nd e r o qu e

e qu e cad a int ere ss e s.

se u s próprio s

como a nossa .

Por é m ainda há m a i s a

diz e r . O mercado

d

e

produto s n ã o é tudo: h á t a mb é m o m e r c ado

d

e trab a lho . P a r a e st e vã o o s hom e n s qu e não

t

ê m m e io s p ró prios p a r a produzir e s obr ev i ve r,

n e c e ssi ta nd o

lho para r ece b e r em troca um salário com o

a lugar su a ca pacidade d e traba-

PRECONDI Ç ÕES SOCIOCULTURAI S

4 3

qu a l d eve m co mpr a r os p r oduto s

d e qu e n e c e s -

s itam. C omo ess es hom e n s foram re du z idos à

d

produ çã o é uma históri a triste d e ex plora ç ões e violênci a s , roubos e gu e rra s, mas qu e não cab e

do s m e io s d e

e p e nd ê n c ia dos prop r i e t á rios

a profundar n e st e mom e nto. O important e agora

é a v ali ar mo s os e f eito s d a ex p er i ê n c i a do indi-

ví duo n o m e r c ado d e tr a b a lho, qu a ndo es t e s e

ge n e r a li za, so br e a subj e ti v idad e pri va tiza da.

lu gar , o qu e se di sse s obr e

a consci ê ncia de sua esp ec ialidad e como pro -

dutor, d e su a habilid a d e ,

aplica-s e i g ualmente ao trabalhado r

E m p ri m e ir o

destr eza e r a pidez

a

ssala-

riado, e mbora muita s v eze s ess e trabalhador, pelo car á t e r da ativid a d e qu e e x e r ce , v e nha a ser subm e tido a uma ati v idad e d e t a l modo

p a droni za d a

i sso j á é um a outra hi s t ór i a a qu e vo lta r e mo s adia nt e .

qu e pou c o lh e r est a d e se u . Ma s

D e for m a a e nt e nd e r com m a i s pro f undi-

dad e o s i g nificado da ec on o mia m e r ca ntil para

a indi v idualiza çã o,

d e v e mos con s id er ar

com

mais at e n ç ão as condiçõ e s que antece d e m a própri a fo r ma çã o do r eg im e assal ar iado. Para

qu e e xist a m trabalh a dor e s ne cess i tado s d e

g a rantir a pr ó p r i a s ob rev i vê ncia, a lu ga ndo s ua

or ça d e t ra b a lho,

f

é p rec i s o qu e e l es t e nh a m

p

e rdid o s u as c ondi ç õ e s m a i s a nti gas d e v id a e

p

r odu çã o. I sso signific a a ruptura d os v ín c ulos

qu e na s so c i e dad e s tradi c i ona is pr é-ca pi talistas

44

P SIC OLOGI A

uniam os produtor e s

aos m e ios de produção.

uns aos outro s e todos A produção

e ra s em -

pr e dir e tam e nt e socia l: e mbora pudesse ha ve r

al

g um as e spe c i a l izações entre os membros

d

e

um a famí li a ou entr e os membros de um a

p

e

quen a comunidad e , a e xist ê ncia d e cada u m

dependia f undamentalm e nt e

com o gr u po.

pod i am s e r d e uso comunitário, como florestas

e pastagen s . E aqu e l e s m e ios de produção par-

ticu l ar e s e r a m tão r ú sticos que o acesso a el es

n ã o e n c ontra va probl e m a s . A l é m do s v ín c ulo s

com o s m e ios d e prod u ç ã o e da interd e pend ê n -

ci a comun i tária , havia r e laçõ e s e ntr e senhor e s

e s e r v o s ou e s c r a vo s qu e se , por um lado conti- nham um e l e m e nto de ex ploraç ã o de uns pelos outros , por outro lado, estab e leciam obrigaçõ e s

d e prot e ção, d efe sa e apoio dos fort e s em rela - ção ao s fr acos .

para qu e

de sua vinculação

Muitos dos me i os de produção

Tudo isso pr e cisa des a par e c e r

s urja o trabalh a dor

ir ao m e rcado de trabalho par a arranjar uma

o c upa ç ão . E ssa lib e rdade, contudo, é muito

ambí g u a . E la é princip a lm e nte uma lib e rdad e

negativa , isto é , o suj e ito, ao ganhá-Ia, perd e uma porção de apoios e meios de sustentação.

P e rd e a solidari e dade do seu grupo: a família ou

a a l deia d e ixam de ser auto-suficientes , e cada

indivíduo vai isoladamente procurar o seu sus-

li v re, qu e pod e e nec e ssita

t e nto . Perde a proteção de um s e n h or:

o pa t rão

PRECO N D I ÇÓES SOCIOCULTU R AI S

45

qu e empr e ga o assalariado

el e f i car doent e, por exemplo (isto hoje fica por

não o mant e rá

s e

conta do sistema da pre v id ê ncia,

qu e é a forma

d

e fazer com que um assalariado

pa g ue a conta

da do e nça, da inva li dez ou d a aposen t adoria do

outro). A s oci e dad e

zada, quer diz e r, em v e z d e comunidad e s pro- dutivas, temos indivíduos livres produz i ndo ou

ve nd e ndo sua força d e tr a balho a propri e tários

privados . Mas e sse in d ivíduo l i vr e é um des a m-

parado.

mas, m e smo qu e a e scolha s e ja r e al, e l e passa

f i ca, d e ssa forma, atomi -

El e pode escolh e r

(at é certo p o nto),

a

conviver com a indecisão:

s e u destino, pelo

m

e nos teoricam e nte,

pa s sa a dep e nd e r d e l e, d e

sua capacidad e , d e sua det e rminaç ã o, d e sua

força d e vontade , d e sua inte l i gê ncia

b é m, d e sua espert e za, de sua art e d e ve ncer,

d e pa ssar por cima dos concorrent e s, de ch e g a r

primeiro - e d e sua so r t e . El e tem, é v e rdade,

l

mudar d e posiç ã o na sociedad e (na s ce pob r e, mas pode morr e r rico ) , o qu e , numa socie dad e mais tr a dicional , é quase impos s íve l. Toda v ia,

se pode subir , pod e tamb é m d e sce r, pod e ch e -

gar à mis é ria

condições m e lhore s, d e

e , tam-

a

i b e rdad e

d e lutar por

sem que ninguém se preoc u p e

com ele - e isso numa sociedade tradicion a l tamb é m é m u ito improvável .

46

PSICOLOGIA

Ideologia liberal iluminista , romantismo e r egime disciplinar

Nos séc ul os XV III e X I X d esenvo l ver am- se na cu l t u ra oc i dent a l d u as formas d e pe n sa-

m e n t o qu e r e f l e t e m m uito as e xp e riênc i as

s ub j e tivi d a d e priva ti za d a n um a soci e dade m er -

ca n t il e m p l e n o p rocesso d e d e s e n v o l v im e n t o :

a id e o l og i a L ib e r a l Ilumini sta e o Roma n t i sm o . De acordo co m a i d e olo g i a Lib e r a l , c u ja s prin -

c ipa i s id é ias m a ni fes t ara m - s e

Fr an ce sa , os home n s são ig u ais em ca p aci d a d e

e d e v e m ser i g ua i s e m di r e i tos . S e n do ass im,

todos d e v e m s e r l iv r es . Con tu do, para q u e essa

li ber d ad e não r e dund e

e m caos, todos deve m

s e r so lid ários un s c o m os o u tros, s e m r en u nciar

d a

na R e vo lu ção

a

essa li ber d ade . S e to d os são i g u ais , é nat u ra l

q

u e d e vam s e r li vres

p ara d efen d e r

se u s i nt e -

r

e s se s s e m li m i taçõ es . E nt retanto,

co m o t o do s

são i g u a i s, é possíve l s u por q u e, em ú lt ima an á li s e, possa m ser frat e rnos . Como v ere m os adiant e , e ssa últi m a suposição , in fe l izme nt e, ainda não se realizo u

No Roman t i smo

do i n ício do s é c ul o X I X ,

mo v ime n to qu e se expresso u intensame nt e no cam p o das art es e d a fil osof i a, como vi m os

a n ter i or m en t e - , r ec onh ece-se a d if e rença en tr e

os ind iví du os , e a lib er d a d e

liber d ad e

serem d i fer e nt es e úni cos, l á

é exata m e nt e

a A p esar d e todo s n o f und o é possí -

d e ser di ferent e .

PRECONDIÇÕES SOCIOCULTURAIS

47

v el bus c ar um a comunicaç ã o

dif e r e ntes:

ti s mo , por exe mplo, as di fere nça s s e a nul a m .

e ntr e esses se r es

n as a r tes , na re ligi ã o e no p a trio-

V

emos , ass i m ,

qu e tanto

Liberal como no Romanti s mo

na Id e olo g i a se ex pr essa m

o

s problema s

d a ex p e ri ê nci a subj et i va priva -

ti

za da: s eg undo a Id e olo g i a

Lib e ral, t o d os sã o

i g u a is,

m as t ê m int eres s es

p ró prio s (ind iv i -

c ada um é

dif e r e nt e, m as sent e saudad e do t e mpo e m

qu e tod os v i v i a m co munit a ri a m e nt e

p e lo r e t or n o

ve m, o s rom â nti cos

int e nsos s e n t im e ntos p o d e m r e unir o s hom e n s ,

ap e s a r d e s ua s dif ere n ças. J á o s lib e r a i s a p os -

t a m n a ut ó pi ca f ra ter nid a d e .

du a is); s eg und o o Romanti s mo,

e es p era iss o n ã o

d esse t e mpo . E nqu a nto

ac r e ditam qu e o s gra n d e s e

P a r ece qu e d e fat o a lib e rdad e

individ u a l

aca bou n ã o sendo v i v id a c omo t ão bo a assim

p o rqu e, d e um j e ito ou d e outro, todo s p a r e c e m

se d e f e nd er contr a

o d esamp a ro, a s olid ã o

e a

im e n sa car ga d e r espon s ab i lidad e

s e r li v re, ser s in g ular ,

lares e s e r dif e r e nt e . É n a bu sca d e r e duzi r o s "in c on v eni e nt es" da lib e rdad e , da s d ifere n ças

singular es,

um

ve rdadeiro

ti c ação do s indi v íduos,

em risco tanto a s id é ia s lib e rais como as româ n -

ti c a s, e mbor a t e n te s e disfar ç ar medi a nt e a l g u -

qu e implic a

t

e r int e r esses particu -

e tc . qu e se f oi in s talando

e se ndo

ac e ito e ntr e n ós , ocid e nt a is

e mod er n os ,

s ist e m a d e do c iliz aç ão,

d e dom es-

si s t e m a qu e c olo ca

48

P S I C OL O G IA

mas a l i a n ç as c om o Lib e ralismo e com o próprio Rom a nti s mo . Esse si s t e ma qu e e n v ol ve a e l a - bo raçã o e a p li cação d e t é cnic as "ci e ntíficas" de control e social e indi v idu a l s e rá chamado de R eg im e Discip l inar ou , mais s impl e sment e,

"

Dis c ipl i na s "

e pode

s e r e n c ontr a do

muito

faci l m e nt e n a s pr á ticas d e tod as as g randes a gê n c i a s so c iais, como as escola s , a s fábricas, as prisõ e s , os hospitais, os órgãos administra- tivos do E s tado , os meios de comunicação de mass a , et c . Embora e ssa s Di sc ip li nas red u zam em muito e fetivamente o campo de exe r ci - cio das subjet i v id ades privatizadas, im p o n do

padrões e co n t rol es m ui to fortes às

à imaginação, a o s sen ti m e ntos,

à s e mo ç ões in d iv i d u a i s , faz parte de se u mo d o d e funcionamento dissimular - s e , escon d er - se , d e i x ando-nos crer qu e somo s cada vez mais

li vre s, profundos

qu e vai se instalando um c e rto

vã o se c riando condiçõ es para a s u s p e ita dos hom e ns e m r e lação a si m es mo s . É disso, do

c r e scim e nto

sub je ti v os que tratar e mos no pró x imo it e m .

cond ut as ,

aos d ese j os e

e s in g ul a r es . É cl a ro, por é m,

mal - estar

e

d a s Disciplinas e d e se us e feitos

A crise da subj e tividade privatizada ou a decepção nec e ssária

Be m, at é agora f al a mos principalm e nte

uma d a s condições para qu e surjam proj e tos de

de

P RECON DI ÇÔES SOCIOCUL T URAIS

49

psicologi a

ri ê ncia d a s ubj e ti vi d a d e

ci e nt íf ic a : uma c l ara id é i a d a ex p e-

Mas h á nt re e m

pr í v a r íz ada.

outra : é pr ec i so qu e essa ex p e ri ê n c i a

c ri s e, e a l g um as d as m a nif esta ç õ es fil osófi cas

e

n os ite n s a nt e - p ríva t í za d a

rior e s . Enqu a n t o

não est á s e ndo c on testad a

o Romanti s mo n ã o a c ont e stam, p e lo co ntrár io

a afirmam como d a do í nqu e stíon áve l ), n ã o h á

por qu e s e faz e r ci ê n c ia psicoló g ic a. Fa z e r c i ê n-

Para iss o,

é preciso que e u de sconfi e delas, qu e e l a s n ã o

sejam compr ee ndid a s fac il mente . No com eç o do co n hecim e nto h á s e mpr e uma d e sconfia nç a

cia é s e mpr e ir a l é m das apar ê nci as.

d

ess a c ri se j á fora m a pont a d as

a s ubj e ti v idad e

(e o Lib era lis mo e

e

no f i m há s e mpr e

um a d e c e pção . Ma s ' o q u e

te

r á levado os hom e n s do século XI X a d e scon -

fiarem de suas própri as ex p e riências ?

A subj e ti v idad e pri v ati z ada e nt ra e m c rise

e a di fe -

r e n ç a são, e m g rand e m e dida , ilusõ es , qu a ndo

a p rese n ça f o r t e , m as se mpre di s-

f ar ç ada, da s D isci plin as e m todas a s esferas d a

v ida , inclu s i ve n as m a i s í ntima s e pr of u n d as.

seri a po ssíve l ,

aind a qu e todo s d efe nd esse m s e u s in teresse s particul a r es, n ã o . so br ev í ve u por muito tem po .

A c r e nç a d e qu e a fra t er n í d a d e

qu a ndo s e d escobr e

se d escob re

qu e a lib e rd a d e

Os int e r e s ses p a rticul a r es

a lib e rdad e p a r a c a da um tratar d e

cio d e s e nc a d e ou

trabalhador e s no s é culo X I X foram

l eva m a c on f l ito s ;

se u n eg ó - Os

a o s pou-

e g u e rra s .

cri ses, lutas

50

PS I COLOG I A

P

RECON DI ÇÓ E S S ~ )c I O C UL T URAIS

51

cos descobri ndo

q ue se defenderi am me l h or

s

a b e r o qu e s omo s, qu e m s omo s, como s o mos,

u nid os em si n dicat os e par t idos

nh os . O Estado , a a dm i ni s t ração

f i cara m i n ertes . P a r a c om bater os mo v im e nto s

d o qu e soz i- pú bli ca n ão

por qu e ag im os d e um a o u outra man eir a, s ur ge

par a o Es t a do a n ecessi d a d e d e rec o r r er a p rá-

ti ca s de pr ev i são

e cont r ol e : c omo lidar m e lho r

o

p erá rio s rei v indi c ató rio s, p a r a p ôr um pou c o

com o s su je i t o s indi vi du a i s?; como e du c á - l os d e

d

e or d e m n a v id a s o c i a l - e m qu e ca d a um

orm a m a is ef i caz, t reí n á -los, sel e c í on á -lo s p a r a

f

d efen di a

qü ê n c i as para todo s - e p a r a d efe nd e r o s int e -

resses dos p r odutor es

d

cresceram o Es tado , a b u rocrac i a ,

a s fo r ças a rm a das .

a qu e l a id é ia d e lib e rdad e i ndividual? A inda no

A pa r ti r daí , como fica v a

d e um a n ação co ntra o s

o qu e era se u se m

p e n sar n as c ons e -

as o u t r as ,

a adm i ni s tr ação

públi c a cr es c e u,

c r es c e ra m

s

éc ulo XIX, conjuntam e nt e com as burocracias,

c

r esce a g r a nd e i ndústria b a s ea da na produção

p

a droni zada e meca n i z ada, cr es c e o consumo

d

e massa p a ra os p r odut os

indu s triais .

Ond e

ficava, e n tã o,

ún i co e di fer e nt e do s d e m a i s?

Quand o os h omens passa m p e las ex p e-

r i ências de u ma su b jet i vida d e p riva ti za d a

mesmo tem p o p erce b em q u e nã o são t ã o li v r es

aqu e la id éi a d e qu e c a da um é

e ao

e

tão si n g u lares qu anto im agi n ava m , f icam

p

erp l exos.

Põe m -se a p e n sar

ace r ca d as

c a u-

sas e do s i g ni fica d o

d e t ud o qu e fazem,

se n -

t e m e p e n sa m

estão f i cando m a duro s

cie n t í f i ca.

s obr e e l es m es m os. O s t e mpo s

p ara um a p s i c o l ogia

Ao l a do d es s a n eces sid a d e

qu e e m e rg e

no c o ntexto d a s ex ist ê n cias indi v idu a i s ,

d e s e

os di ve rso s t ra balho s? Em toda s e s sas qu es t ões

s e

suj e ito indi v idual e a esp e r a n ça

ex pr e s s a o r ec onh ec im e nto d e qu e exis t e um

d e qu e é po s sí-

v el padroni zá -Io seg undo uma disciplin a , n o r -

matízá-lo, coloc á -Io, e nfim, a serviço da o r d e m socia l. Surge, d e sse modo, a d e mand a por uma psico l og i a ap li cada , principa l m e nte nos c ampo s

da e du ca ç ã o e do t r ab a l ho . Ou s e j a , o R e gime

d e

psicoló gi c o d e

d e

forma a tornar m a i s e ficaz e s s u as t é cnic a s

u m certo tipo d e conh e cimento

Disci p li nar, em si mesmo, e xige

a p ro du çã o

contro l e . Mas tamb é m as subj e t ividad es f o r- madas p e lo s mod e los lib e rais e r om â ntic os ,

sentindo-se cont e st a das e prob l e mática s , sã o atraídas p e lo s estudo s psicológicos .

É a s sim qu e no f inal do s é culo X I X estã o dadas as cond içõe s p ar a a e labora çã o dos pro-

j e tos d e p s icolo gia como ci ê ncia ind epe nd e nt e e

para a s t e nt a ti vas d e d e finição do pap e l do p s i-

nas ár eas d e sa úd e ,

educ a ção e tr a b a lho . T o da aqu e l a ve r tent e

f i l osofia mod e rna qu e , c omo e sti ve mo s ve ndo anteriorment e , v inh a pondo e m qu estã o d e sd e

do sujeito - alg uns

o sécu l o XVIII a s ob er ania

cólo g o como p r o f i ssion a l

da

52

PSIC O LOGI A

f il ósof o s il umi ni stas ( pri n cipa l me n te os er n p í-

r

istas ) e o s f il ósofos rom â n ticos

- d a r á s ub s í -

di

o s

im p o rt an t es

para a tarefa

de cons t r u i r

u

q uis a e conh eci m e nto.

ma p s i c olo g i a

co m o á r ea es p ec í f i ca

S í nt e s e

d e p es -

Convém , a tít ul o d e sí nt ese , r eca pitul ar -

mos as i d éias expostas

passa r mos a o tó p i co seg uint e .

n es t a seção a nt es de

1 ) A ex p e r iên cia da s u b j e t iv idad e

pri va -

t i zada, em q u e n ós n o s r eco nh e c e mo s como

l ivre s, d ifer e nt es ,

sent i mentos , t er dese j os e p e n sa r i n d e p ende n-

teme nt e d os de m a i s m e m b ro s

u ma p rec ond i ção

tos de psicolog i a

essas experiências s ejam ó b vias, os est u dos hi s -

t óricos e an t ropo l ógicos reve l am que n em s em-

pr e é assim e m outras socie d ades e c ul t ur a s. 2) O u tra precondição para a form ul ação de

pro j e tos

d e que não somos assim tão li v r es e t ã o di fe r e n-

É a s u speit a d e q u e

tes q u anto i mag i náva m os.

há outras " forças invisív e is " nos co nt ro l a nd o

e d e q ue não c o nsegu i mos esponta n ea m ente

d e o qu e

n ossas ações qu e n o s l eva a i nve sti g ar

ver com cl a r e za as ca u sas e os sig nific a d os

ca p aze s d e ex p e ri me n ta r

d

a so ci e d a d e

é

p a r a qu e se formul e m pr o j e -

c i entíf i ca. Em b or a pa ra nós

de psicologia ci e nt íf ica é a expe ri ê n ci a

PRECONDIÇÓES SOCIOCULTURAI S

53

ci a s e ge n era liz a

Li bera l Ilumini sta e do Rom an ti s mo q u e , cada

um à s u a m a n e ir a , man t inh am inqu est ion ável a no ç ão de subj e ti v id a de individual, e mbora j á s e

e n c aminhasse m par a po s içõ e s muito c ríticas a

r espe ito. Ess e c olap s o e s tá a ssociado ao d e s e n-

v

Disciplin a r e se ex pr e ssa e m e labo r açõ e s

sófi c as qu e põ e m e m qu est ão a sob e r a ni a , a autonomia e a identidad e dos ind iv íduos.

c om o c ol a pso d a id e olo g i a

ol v im e nto

e a o d o mínio cr e s ce nt e

do Reg ime

f ilo -

3 ) A s uspei ta de qu e a lib e rd a d e e a sin-

gularidade dos indi v íduo s são ilusórias, a qual

e mer g e com o d e clínio d a s cr e nças lib e rais e rom â nticas, abr e espaço, fin a lm e nt e, par a os

proj e tos d e pre v ísão e cont r ol e ci e n t ífi c os d o comport a mento individual. E sse s e rá um dos

como c i ê n -

cia a ser v iço das Di s ciplin a s. M a s a b re e sp a ç o ,

t a mb é m, p ar a

ticas das subj e tividad es totalm e nt e a v e ssas ao

r

das e scolas cont e mporân e as do p e nsame nto psicológico e , princip a l me nt e , suas in c id ê ncias na c línica e n a edu c a ç ão.

e qu e

principais

obj et ivos d a p s icolo g i a

p r obl e m a ti zaç õ es t e ó r ic a s e pr á -

a lim e nt a r ã o muit as

e gim e di sciplin ar

A PRÁTICA CIENTíFICA E A

EMERGÊNCIA DA PSICOLOGIA COMO CIÊNCIA

Conhecimento científico:

privacidade e diferença

As condições socioculturais at é a gor a r e f e - ridas foram o terreno sobre o qual pud e ram ser elaborados os proj e tos de psicolo g ia como

ci ê nc i a ind e p e ndent e

e, o qu e é ainda mais

important e , o t e rr e no p r opício à ampla difusão

desses proj e tos

p e lo conjunto da so c i e dad e .

e à s u a assimila ç ão

crescente

c ontudo, o c om eç o d a

psicologi a "ci e ntífica " p re ci s amo s c o n s id e r a r mais d e p e rto o qu e s e p ass a va e nt re o s c i e ntis -

tas e os f il ósofos do s é cu l o XIX, poi s foram eles que, l evados por preo c upaçõ e s com a própria

d es s e novo

domínio d e conhecimento.

ci ê ncia , iniciaram a d e m a rcação

Par a e nt e nd e rmo s,

t a l como a s conh e-

c e mos hoj e, são form a s bastant e

produção d e conhecim e nto. Foi ap e n as a partir

dos quatro

A s ci ê n c ias natur a is,

re c e nt e s

d e

últimos séc ulos que se c r i a ram os

56

PSICOLOGIA

Nas práticas ci e ntíficas modernas a posi -

ção do suj e ito que produz bastante contraditória.

com o

pod e r e com o direito de lidar com os fenô- m e nos naturais para conhec ê -los, des v endar seus mist é rios, domín á -los, manípul á -los em

experimentos bem controlados, etc. Nenhuma

dessas atitudes e procedimentos é possível, por e xemplo, e nquanto subsista um respeito místico e religioso p e la natureza - caso em que devemos apenas amá-Ia, apreciá-Ia, respeitá- Ia. Em outras palavras: a ciência moderna está baseada na suposição de que o homem é o

a

natur e za a s e u serviço. Essa suposição está cla- ramente associada ao que dissemos acerca do aprofundam e nto da e xperiência subjetiva indi-

vidualizada,

dos homens para decidir e agir de acordo com sua própria cabeça e s e m qualquer tipo d e limi- tação, elaborando suas crenças e avaliando-as a partir de suas exp e ri ê ncias pessoais, d e suas conv e niências e intere ss e s, livres das restrições impo s tas pelas tradições.

senhor que tem o poder e o direito de colocar

o conhecimento é

Por um lado, o ci e ntista

sente - se

já qu e esta enfatiza a liberdade

Por outro lado, os procedimentos científi- cos e xigem que os cientistas sejam capazes de "objeti v idad e ", isto é , qu e deixem de lado seus pr ec on ceitos, seus s e ntimentos e seus d e sejos para obter e m um conhecimento "verdadeiro".

A PRÁTICA CIENT í FICA E A EMERGÊNCIA: .

57

Como disse Francis Bacon (1561-1626) - o filó- sofo inglês que, como vimos anteriormente, foi

um dos precursores do novo espírito científico

e contemporâneo

não se v ence senão quando se lhe obedece" . Para vencer é preciso obedecer e para obedecer é preciso disciplinar a mente, eliminar todos os "subjetivismos" . A metodologia científica que vem se d e senvolvendo desde os quatro últi- mos séculos representa exatamente o esforço de disciplinar o espírito para melhor obedecer à natureza.

de Descartes -, "a natureza

não é fácil e foi o pró-

prio esforço para impô-Ia que levou os cientis- tas a reconhecerem a força e a profundidade dos fatores subjetivos. É difícil não confundir

o que se · espera encontrar com o que "de fato"

se encontra no fim de uma pesquisa, o que se quer ver com o que se vê "de fato", Pode, tam-

bém, ser difícil conciliar o que um

conclui com as conclusões de outro indivíduo

que

obs e rvou o mesmo fenômeno; e mesmo o

que o indi v íduo observou com o que foi obser- vado p e los demais . Enfim, é a própria liberdade

dos sujeitos e suas diferenças que ficam acen- tuadas no momento em que se faz um enorme esforço para ser objetivo.

Nessa medida, as práticas ci e ntíficas con- tribuíram para o reconh e cimento, entre os próprios cientistas, com seus ideais de objet í vi -

Ora, essa disciplina

indivíduo

58

PSICOLOGIA

dade, de qu e há fatores subjeti v os e indi v iduais permanentemente em ação . Bacon chamou-os de "ídolos do conhecim e nto", e a denúncia des- ses ídolos é a primeira obrigação do f i lósofo e do cientista. Isto reforça a idéia de uma expe- riência subjetiva individuali zada, privada, aces- sível apenas a quem a vive.

Mas para a ciência progredir seria neces-

s

á rio conh e c e r e controlar essa subjeti v idade

e

essas dif e renças

individuais,

e é assim que

o

homem, o sujeito individual,

deixa de ser

apenas um possível pesquisador para vir a se

tornar um possível objeto da ciência. A episte- mologia (teoria do conhecimento) e a metodo- logia (regras e procedimentos da produção do conhecimento válido) desembocam na psico-

logia: a d e núncia

conh e cim e nto" exigem um estudo pré v io da

subjeti v idad e e de s e us subterrân e os.

Os e studos psicoló g icos científicos come- çaram e se desenvolveram sempre marcados por essa contradição: por um lado, a ciência moderna pr e ssupõe sujeitos li vres e diferen- ciados - senhores de fato e · de direito da nat u - reza; por outro, procura conhecer e dominar essa própria subjetividade, reduzir ou mesmo

e liminar as diferenças individuais, de forma a

garantir a "objetividade", ou sej a , a validade

intersubjeti v a dos achados. Em contraposi- ção, como veremos adiante, muitos psicólogos

e o expurgo dos "ídolos do

A PRÁTICA CIENTíFICA E A EMERGÊNC I A

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repudiam e ssa meta d e conh e cer para dominar os meandros da subjetividade e a firmam, ao

contrário, que o que int e ressa é conh e cer esses

aspectos profundos

dar - lhes voz, para expand í- los, para fazê - los

mais fortes e livres. É claro que os que pensam assim qu e rem fazer da psicologia uma "ciên -

cia" sui q e n e ris não só por ter um campo e um

objeto próprios ,

às demais c i ê ncias, outros métodos

e poderosos

do "eu" para

mas por adotar,

e m r e lação e outras

metas. Diante disso, estamos agora em condições

de entrar no domínio das psicologias "cien-

tíficas" (ou nem tanto!) para tentarmos

preender os pr i ncipais projetos de psicologia que aí foram elaborados com toda a sua ator- doante diversidade teórica, metodológica e de propósitos.

com -

OS PROJETOS D E PSICOLOGIA COMO C I ÊNCIA INDEPENDENTE

O projeto de Wundt

o a l e mão W. W undt (18 3 2-1 92 0) co s tuma ser r eco nh e cido como um pion e ir o na form u l a-

çã o d e um proj e to d e p s icologia como c i ê ncia

i

nadas à p e squisa e ao e nsino da ps í co l o g í a e

na forma ç ão de inúmeros psicólogos não só

a l e mã e s, mas tamb é m

d e s. Para W undt, a psicolo g ia e r a uma ciê ncia

int

a s ci ê nci a s da cultura . S ua o br a s e es tend e da

psico l o g i a e xp e rim e ntal fi s ioló g i ca à psicolo- gia soci a l . Ou s e ja, d e sd e s e u inicio, o lu ga r da

e

ndep e nd e nt e,

na c riação d e in s tituiçõ e s

d e sti -

d e outras nacionali d a -

e rm e di á ria

e ntr e as c i ê n c i a s d a n a tureza

psicolo g ia e ntr e as ciência s é um t a nto in ce rto,

e um do s m é rito s d e W undt

foi o d e con ce b e r

a psicolo g ia n essa posi çã o int er m e di á ria .

objeto da p s i c olo g ia

é, para W undt, a ex p er i ê n-

c i a i m e diata dos suj e itos, e mbora e l e não e ste ja

primordi a l ment e

i n di v iduais ent ~e e sse s suj e itos . Exp e riê n c ia

O

int e ressado nas dife renças

im e diata é a ex p e ri ê ncia

vive ant es de se pôr a p e n s ar s ob re e l a , ant es

de comuni c á-Ia,

ta l como o s uj e ito a

antes d e "con h ecê- I a". É, em

62

PSICOLOG I A

outra s p a lavra s ,

a ex p e ri ê ncia

tal c omo se dá .

Contudo, Wundt n ã o re duz a t a r e fa da psi c olo -

g i a à d es cri ção d e ss a ex p e ri ê n c i a s ubj etiva. E l e

fa z ê -lo d e du a s fo r m as : a )

qu er ir a l é m e te nta

util iza ndo o mé t o do ex p er im e nt a l , ele pr e t e nd e

o s proce ss o s el e m e nt a r es

. p es qui s ar

d a v ida

m

e n ta l qu e são aqu e l es

proc ess os mai s f ort e -

m

e nt e d et e rminados

p e las co nd i çõ es

fí si ca s

do am bi e nt e

e p e l as

c ondi ç õ es fi s io l ó g i cas do s

o rga n ism o s . C om o m é todo ex p e rim e n ta l, e m

situ ações contro l adas d e la b ora t ó rio, W und t

pr

im e di ata e as fo rm as

na çã o d e s ses e l e m e nt