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Introdução à Teologia

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Introdução à Teologia: José Aristides da Silva Gamito, Conceição de Ipanema, 2009.
Introdução à Teologia: José Aristides da Silva Gamito, Conceição de Ipanema, 2009.

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INTRODUÇÃO À TEOLOGIA
Curso de Teologia Popular: Conceição de Ipanema, 2009

Conceito de teologia A palavra teologia1 vem da língua grega e significa “estudo sobre Deus”. O termo foi criado pelo filósofo Platão (428-347 antes da Era comum). Agostinho (354430 da Era comum) deu-lhe um sentido cristão. Atualmente, é entendida como a reflexão sistemática dos fundamentos da revelação. Portanto, o seu objeto de estudo não é Deus em si. Porque se considerarmos a infinitude divina tal tarefa é impossibilitada pela finitude da inteligência humana (HARBIN, 2001). Karl Barth afirma que só é possível falar de Deus de forma comparativa, a partir da experiência do homem. Às vezes, a teologia é chamada de ciência. Esta classificação só pode ser feita considerando-a apenas como uma forma de investigação racional da fé. A sua matéria de estudo não é empírica. A disciplina estuda a realidade sobre Deus e sua relação com o homem. A revelação é o ponto de partida e de delimitação da reflexão teológica. A revelação possui seu lado divino porque é Deus quem se revela, e um lado humano, pois é o homem que acolhe a verdade revelada. E na história, os homens da cada época refletem sobre o sentido do que foi revelado limitado pela sua compreensão. Portanto, existe uma só revelação, mas existem muitas teologias, pois os homens são diversos e diversas são as culturas. Objetivo O objetivo principal do estudo da teologia é o amadurecimento da fé, e consequentemente, o crescimento espiritual daquele que crê. No mundo contemporâneo recheado de avanços de toda natureza é necessário que as pessoas tenham consciência das suas escolhas, dentre elas está a religião. Esta deve ser a primeira a ser bem fundamentada e esclarecida. O apóstolo Pedro admoesta dizendo que é preciso que o cristão esteja pronto “a dar as razões da sua esperança a todo aquele que a pedir” (1Pd 3,15). O cristianismo se encontra dividido hoje por herança de uma época deficiente de conhecimento bíblico e de esclarecimento do que significava essa religião. Tipos A teologia baseia sua reflexão na liberdade de pensamento e na experiência de cada lugar e cada época. Devido a essa flexibilidade existem vários tipos de teologia, às vezes, chamados de escolas. Dois modos de se fazer teologia são destacados: a teologia clássica – que se restringe a assuntos estritamente religiosos e confessionais; e a teologia dinâmica – que se abre à reflexão sobre diversos aspectos da religião, de modo crítico e ecumênico. No Brasil, destacam-se a teologia pentecostal que se prende ao

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Na língua grega, theós “Deus”, logos “discurso, razão, palavra”.

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modelo clássico e a teologia da libertação que une de modo crítico fé e vida, cujo principal teólogo2 é Leonardo Boff. Método Quando se fala de método, estamos dizendo da técnica ou do modo de estudar teologia para que haja garantia de uma reflexão de qualidade que seja classificada como teológica. A teologia é uma disciplina baseada no raciocínio, análise e discussão a partir dos problemas da fé, tendo como base o texto bíblico3 e a tradição eclesial4. Há a liberdade para se refletir sobre todo assunto, mas o princípio delimitador é a revelação. A verdade em teologia é o que é consoante ou harmônico com a revelação. Divisões A teologia possui muitos séculos de história, e como resultado do esforço dos teólogos de organizar todo o conhecimento sobre a doutrina cristã chegou a até nós um esquema de divisões da teologia por áreas. Cada área estuda um aspecto da revelação. A teologia se divide em dois ramos: especulativo e prático. O grupo especulativo está subdividido em: Teologia bíblica; Teologia dogmática e Teologia moral. A teologia bíblica inclui a história, a técnica e a interpretação da Bíblia. A dogmática sistematiza e explica as principais doutrinas cristãs. A moral estuda os valores e o comportamento cristão tanto pessoal quanto coletivo. O conjunto prático se subdivide em: Teologia espiritual, Liturgia, Teologia pastoral e Direito pastoral. A teologia espiritual estuda o processo de santidade do ser humano, a sua vida religiosa. A Liturgia estuda os ritos e seus significados. A teologia pastoral estuda a ação evangelizadora. O Direito pastoral estuda o regimento e as normas da Igreja enquanto instituição. Subdivisões De modo harmônico e organizado, cada divisão da teologia possui outros ramos internos chamados de tratados. Dentro da área especulativa, temos: A teologia bíblica é composta de hermenêutica, exegese e teologia. A sistemática possui antropologia, teontologia, cristologia, pneumatologia, mariologia, cosmologia, protologia, soteriologia, eclesiologia, sacramentologia, escatologia, patrologia e história da Igreja. E dentro do âmbito prático, temos: A liturgia se divide em fundamental e histórica. A pastoral se constitui de teorias e técnicas da evangelização. A espiritual procura compreender o caminho da santidade (mística) e a prática para crescer nele (ascética). O Direito pastoral é estudo das normas que organizam a Igreja, contidas no Direito canônico. As origens da teologia
Dá-se o nome de teólogo ao profissional que se dedica ao estudo dessa ciência. O material recomendado para essa primeira fonte é uma boa tradução da Bíblica auxiliada por bons comentários bíblicos. 4 A tradição eclesial é conjunto de tudo aquilo que a Igreja ensinou e viveu desde a antiguidade. Para se conhecer a tradição é bom ter em mãos: Catecismo da Igreja Católica e Compêndio do Vaticano II.
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As origens da teologia estão na necessidade que os cristãos tinham de defender a fé diante da sociedade do Império Romano durante o período das perseguições (de 64 a 313 da Era comum). Quando as gerações foram se passando e o Evangelho corria o risco de ser mal interpretado, alguns apóstolos escreveram os livros do Novo Testamento para registrar a memória de Jesus. A partir do ano 95, surgiram os primeiros escritos que interpretavam pontos desses escritos ou da fé cristã. Mas somente a partir de 150, aparecem os chamados apologistas5. Estes eram filósofos e estudiosos que se convertiam ao cristianismo e não se contentavam com as explicações do senso comum. Eles começaram uma literatura de defesa do cristianismo. O mais antigo que se conhece é Quadrato (HERRERA, pp.4-5). Depois da liberdade aos cristãos concedida pelo imperador Constantino, a Igreja começou a sistematizar a sua doutrina através dos concílios, e mais escritores foram debatendo esses temas. Então, no século VIII, João Damasceno escreveu a obra “Exposição da Fé ortodoxa”, iniciando-se a reflexão teológica. Assim, fez Pedro Lombardo no século XII, escrevendo “Sentenças”. Mas quem lançou o primeiro texto organizado foi Tomás de Aquino, com a Suma Teológica. No século XIX, a teologia, através dos estudiosos alemães adotou o método científico, tornando-se crítica. Depois do Concílio Vaticano II, o esclarecimento da fé passou a ser interesse de todos, não somente de padres e pastores. Hoje muitos leigos são teólogos. Problemas teológicos Sempre quando resolvemos estudar um assunto, estamos em busca de algumas respostas. A teologia possui suas principais perguntas nas quais se inserem os ramos da teologia. Temos as perguntas: Quem somos? De onde viemos? Qual o sentido da vida? Para onde vamos? No caso da teologia, essas respostas são iluminadas pela fé. Esses são os problemas primários. Os secundários provêm da investigação sobre a segurança que o cristianismo nos dá ao responder essas questões. QUESTÕES EXISTENCIAIS Quem somos? De onde viemos? Qual o sentido da vida? Para onde vamos? QUESTÕES TEOLÓGICAS Somos filhos de Deus em Cristo Deus é o princípio de tudo A vida sincera no Espírito Esperamos pela comunhão eterna com Deus

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A proposta cristã é umas das respostas em meio a tantas outras. É preciso conhecê-la para poder dialogar sabiamente com as outras. QUESTÕES EXISTENCIAIS Quem somos? De onde viemos? Qual o sentido da vida? Para onde vamos?
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QUESTÕES CIENTÍFICAS Organismo complexo, racional, homo sapiens Dos elementos da natureza/Big Bang O sentido é construído individual/coletivamente Retorno indistinto à natureza

Apologista ou apologeta significa “defensor”, nesse caso, defensor da fé cristã.

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MÓDULO 01: TEOLOGIA FUNDAMENTAL A nossa primeira incursão no terreno da teologia é analisar os fundamentos desse conhecimento. A fonte do conhecimento teológico é a experiência da fé. Então, primeiramente, é necessário compreender a virtude da fé e a natureza do conhecimento do mundo a partir daquele que crê. Uma atitude crítica em relação ao tema evita que caiamos no fideísmo: uma crença ingênua em tudo que as pessoas nos dizem. Agostinho de Hipona (354-430) dizia “crê, para que entendas”. Anselmo de Cantuária (1033-1109) completou “crê, para que entendas” e “Entende, para que creias”. É necessário partir da fé para compreender seus mistérios, mas compreendendo-os, enriquece-se a fé, por conseqüência. Teologia no mundo contemporâneo Na era contemporânea, a partir dos avanços dos conhecimentos do homem a verdade passou a ser histórica e situacional, portanto, relativa. Não existe verdade, existem discursos com sentido. O homem possui questões básicas de sua existência e para cada época e lugar há diferentes respostas. Para a origem da vida: na Antigüidade, a religião deu uma resposta baseada na experiência da época e do lugar. Por exemplo, a Bíblia diz Elohim criou o céu e a terra e organizou tudo. Os filósofos defenderam a geração espontânea. A ciência a liga a determinadas reações químicas ocorridas na matéria. São todas respostas do mesmo homem para seu antigo problema da sede do saber. São todas respostas válidas em suas épocas e situações, uma não pode se impor à outra. A reposta do Gênesis não é científica, é poética. A resposta da ciência não é poética e nem mítica, é experimental. Atualmente há três tendências de relação com a religião: A fé, o fundamentalismo e a indiferença. Por causa dos erros das pessoas de fé muitos se distanciaram da religião. Pois a religião foi perdendo a sua função de promotora humana para se tornar manipuladora ideológica e econômica. Muitos crentes usam a violência física e psicológica em nome de Deus para nivelar as pessoas e fazer aceitar a todo custo que seu ponto de vista é a verdade. O teólogo Leonardo Boff perguntou ao Dalai Lama6 qual era a melhor religião, esperando ouvir que era o budismo. O sábio respondeu: “a melhor religião é aquela que te faz melhor”. A religião violenta é anti-humana. O papel dos crentes é refletir sobre os verdadeiros valores de sua fé. Tudo aquilo que desvia do verdadeiro motivo do Evangelho é anticristão e antirreligioso. A religião é para promover a vida: “Eu vim para que todos tenham vida e a tenham em abundância, e a tenham em abundância” (Jo 10,10). A teologia hoje deve ser bem crítica, lúcida e atenta ao progresso da humanidade e deve apontar para uma religião simples, prática e humana. Por isso, é necessário pensar a fé para que não cometamos os mesmos erros do passado. Relações entre ciência e fé Quando se discute a relação entre ciência e religião, a saída mais sensata é a definição de papéis. No século XVI, Galileu Galilei (1564-1642) já chamava a atenção para esta diferença: “à ciência cabe dizer como vai o céu, e à religião como se vai ao céu”. A dificuldade de se separar a função da ciência e da função da religião foi a causa de muitas polêmicas no início da era moderna, quando a ciência começou a se definir como a entendemos hoje. Galileu foi pressionado a se retratar diante do tribunal da
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Dalai Lama é título do líder do budismo tibetano, cujo nome é Tenzin Gyatso.

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Inquisição, dizendo que era falsa a idéia de que a Terra girava em torno do seu eixo e em torno do sol. Com a modernidade, a ciência desenvolveu métodos próprios de investigação e se tornou laica, isto é, independente da religião. Mas este processo foi lento e até hoje muitas pessoas ainda têm dificuldade em conciliar ciência e fé. Augusto Comte (17981856) defendia que o conhecimento humano passa por três estágios: o religioso, o filosófico e o científico. Na época religiosa, o homem explica os fenômenos recorrendo a causas sobrenaturais; na época filosófica, explica recorrendo a princípios racionais; na época científica, explica por meio das leis naturais, as quais explicam por si só os fenômenos. Porém, na prática as pessoas continuam vivendo esses estágios de maneira desigual. As três grandes religiões do planeta, judaísmo, cristianismo e islamismo, passaram por resistência à ciência, mas seus segmentos mais esclarecidos atualmente aceitam as explicações da ciência e separam textos sagrados e teorias científicas. Os mulçumanos tiveram bons matemáticos e filósofos como Avicena e Averróis; os judeus nos deram nada menos que Albert Einstein, os cristãos nos deram Mendel, Hegel etc. Muitos homens de fé estudaram ciência sem criar conflitos. No século XIX, até a Bíblia passou a ser lida cientificamente. Os pastores alemães Karl Bath, Paul Tilich e Rudolf Bultmann desenvolveram métodos para uma leitura crítica da Bíblia. A partir deste período os teólogos passaram a seguir semelhante visão. No século XX, a relação melhorou ainda, o arqueólogo jesuíta Teilhard de Chardin conciliou cristianismo e teoria da evolução. Na década de 90, muitos cientistas cristãos defendem a teoria do Design Inteligente. Definição de Papéis O ser humano é dado a exageros. Na Idade Média, a fé era considerada superior à razão (a verdade estava com a religião), na Idade Moderna, a ciência passou a ser considerada superior à religião, muitos cientistas se tornaram ateus (a verdade estava com a ciência), atualmente, é mais aceito que fé e religião são conhecimentos complementares do mundo (a verdade está com as duas). Antes de qualquer debate que compare religião e ciência, é sensato observar. A ciência e a religião são duas formas de o homem se relacionar com o mundo. São duas maneiras de responder às suas indagações internas. Elas são complementares e não opostas. Seus papéis não podem ser tomados um pelo outro devido a diferença da natureza do conhecimento que há entre as duas. A religião é um conhecimento simbólico-místico, explica o mundo através de causas sobrenaturais. A ciência é um conhecimento racional-empírico, explica o mundo através das leis da natureza e da experiência. São duas respostas válidas. A religião deve se ocupar de questões relativas à fé ( “como se vai ao céu”) e a ciência da explicação da natureza e de seus fenômenos (“como vai o céu”). Diálogo e contribuição das ciências O crente do século XXI não pode medo ou preconceito em relação a outros saberes. É preciso ter uma abertura para dialogo com o diferente: seja outra religião, seja uma ciência. Existem várias visões de mundo, além do cristianismo. Alguns pontos são completamente diferentes. A filosofia niilista afirma que não existe a verdade. A parapsicologia diz que não existe o sobrenatural (milagres, espíritos). A ciência conta outra origem para o mundo: O universo iniciou-se de uma explosão (13,7 bilhões de anos), a vida surgiu pela reunião casual de moléculas (3,5 bilhões de anos) e o homem surgiu de um processo de evolução (200 mil anos).

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As ciências auxiliares da teologia A teologia não se faz somente pelo conhecimento advindo da fé, ela tem as conquistas das ciências humanas e naturais como pontos de apoio. São essas contribuições que mantém a religião atualizada e condizente com o mundo moderno. As principais ciências são: a filosofia, a psicologia, a história, a biologia, a sociologia e a parapsicologia. Elas ajudam a compreender fenômenos que somente pela fé não se obtém respostas satisfatórias. Neste sentido, afirmava o cientista Albert Einstein “a ciência sem a religião é manca; religião sem ciência é cega”. Epistemologia da fé O ser humano realiza sua faculdade de conhecer por diversos modos. Houve períodos na história que se priorizou ora um, ora outro. O homem é conhecido como um ser racional desde antiguidade. Hoje, porém, sabemos que a definição de homem é complexa: ele pensa e sente. Existe uma dimensão lógica, formal e real e existe outra sensível, simbólica e transcendental. A nossa mente conhece de forma conjunta usando sentimentos e pensamentos. Os dois modos de conhecer que procedem da complexidade humana são a razão e a sensibilidade. A razão procura entender o mundo através da lógica e da ciência. A sensibilidade usa a intuição, os sentimentos, portanto, a fé. Mas conhecimento lúcido exige a participação das duas faculdades. A fé genuína tem de ser razoável, assim como a razão prudente tem de ser intuitiva. Conceito de fé Em hebreus 11, 1, lemos que “a fé é a substância das coisas que se esperam e o argumento das coisas que não se veem”. Tomás de Aquino7 considerava essa afirmação como a mais completa definição bíblica da fé. É a vivência antecipada do que se espera, é a convicção sobre o invisível. Segundo Libânio (2000, p.213), o ato de crer é graça de Deus, liberdade humana e tem uma racionalidade profunda. Aqueles que creem sem esforço da razão caem no fideísmo. Aqueles que procuram a razão em tudo caem no racionalismo. Outros transformam a questão em mera vontade, é o voluntarismo. Além disso, a fé tem uma base pessoal, mas também a influência da cultura, do espaço e da época. A fé se relaciona com as duas outras virtudes: a esperança e o amor. Muitos procuram na fé uma certeza que passa por cima dos fatos. As características da fé são justamente uma experiência humana que mescla certeza e dúvida. A fé e a esperança andam juntas, quando se diz ter fé, quer dizer que se tem uma esperança dada por Cristo que ultrapassa todo desânimo e falta de sentido do mundo. Quando Pedro fala das razões da esperança, isso alcança também as razões da fé (BENTO XVI, Spe Salvi8, 2). O conteúdo da fé Em que cremos? O conteúdo da fé é a revelação. (LAMBIASI, 1997). Segundo o Evangelho, crer em Jesus significa aceitar a pessoa e não meramente os seus ensinamentos. Portanto, a fé é em alguém e não em algo. A salvação provém da fé, ou seja, da aceitação dessa pessoa como um todo. A salvação é sempre salvação de algum perigo, nesse caso, é a preservação da grande esperança de que a vida possui um sentido pleno. A fé tem forma bíblica na expressão “Jesus é o Senhor”(Fl 2, 9-11).
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Tomás de Aquino (1225 – 1274) foi o maior teólogo da Idade Média. Spe salvi é latim e significa “Salvos pela esperança”.

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A Igreja tomando essa revelação sintetizou todo o mistério de Cristo nas profissões de fé. A mais conhecida delas é o Credo apostólico recitado atualmente nas missas. A fé é pessoal, mas ao mesmo tempo eclesial. Ninguém crer sozinho (LIBÂNIO,2000). Inicialmente, os cristãos viveram e celebraram aquilo que acreditavam. Somente no século II, houve a necessidade de escrever uma fórmula que contivesse os princípios da fé. O texto mais antigo que se conhece é a Carta aos Apóstolos, entre 160 a 170 da Era comum, que possui artigos professando a fé na Trindade, na Igreja e no perdão dos pecados. Em 3259, aparece uma versão definida em concílio, e depois completada em 381:
Creio10 em um só Deus, Pai todo-poderoso, Criador do céu e da terra, de todas as coisas visíveis e invisíveis. Creio em um só Senhor, Jesus Cristo, Filho Unigênito de Deus, gerado do Pai antes de todos os séculos: Deus de Deus, Luz da luz, verdadeiro Deus de verdadeiro Deus, gerado, não feito, da mesma substância do Pai. Por Ele todas as coisas foram feitas. E, por nós, homens, e para a nossa salvação, desceu dos céus: Se encarnou pelo Espírito Santo, no seio da Virgem Maria, e se fez homem. Também por nós foi crucificado sob Pôncio Pilatos; padeceu e foi sepultado. Ressuscitou dos mortos ao terceiro dia, conforme as Escrituras; E subiu aos céus, onde está assentado à direita de Deus Pai. Donde há de vir, em glória, para julgar os vivos e os mortos; e o Seu reino não terá fim. Creio no Espírito Santo, Senhor e fonte de vida, que procede do Pai (e do Filho); e com o Pai e o Filho é adorado e glorificado: Ele falou pelos profetas. Creio na Igreja Una, Santa, Católica e Apostólica. Confesso um só batismo para remissão dos pecados. Espero a ressurreição dos mortos; E a vida do mundo vindouro. Amém (DENZINGER, 1948).

Portanto, esta é a forma eclesial da fé, é uma resposta à pergunta “o que é o cristianismo?” “Em que creem os cristãos?”. A profissão é divida em partes: 1) fé na natureza e missão de Deus uno e trino; 2) fé na Igreja e em seus ensinamentos ; 3) fé na condição humana. Revelação: fonte da teologia e conteúdo da fé Dissemos que a fonte da teologia é a revelação. Portanto, a segurança do conteúdo da fé cristã é a Palavra, entendida como comunicação e evento. A Bíblia é o testemunho escrito desta revelação. “Este plano de revelação se concretiza através de acontecimentos e palavras intimamente conexos entre si, de forma que as obras realizadas por Deus na história da salvação manifestam e corroboram os ensinamentos e as realidades significadas pelas palavras” (DEI VERBUM, 2). Em síntese, a revelação é a comunicação de Deus e de sua vontade de salvar a todos e fazê-los participar da plenitude da vida (Id., 6). E a completude e a concretude desta revelação é uma pessoa, Cristo (Id., 4). A teologia clássica entende o processo nas seguintes etapas: Deus se revelou (revelação), inspirou o homem a captar esta verdade e transmiti-la por escrito (inspiração) e finalmente, iluminados, compreendiam o que foi revelado (iluminação). À Igreja coube preservar e transmitir o conteúdo e a interpretação do que foi revelado (FERREIRA, 2005, pp.40-41). A inspiração divina

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Nessa data aconteceu o Concílio de Niceia, o primeiro que envolveu toda a Igreja. Crer em grego se diz pistéuo e o sentido é “acreditar, confiar, ser convencido”.

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A autoridade dos textos bíblicos reside na ideia de que eles foram inspirados pelo Espírito Santo. Portanto, neles contém a Palavra de Deus. O evento da inspiração já foi entendido de diversos modos: Teorias da intuição, da iluminação, do ditado e teoria dinâmica. A inspiração é a profunda comunicação entre Deus e o homem, que faz segundo perceber a presença e o apelo de Deus. Acima de tudo, é um acontecimento humano, pois o autor sagrado usa a sua inteligência, sua reflexão para transmitir a experiência de Deus. Não se pode entender o evento como um ditado direto de Deus ou uma “possessão” do Espírito Santo. A transmissão e a interpretação A transmissão foi através da sucessão apostólica. Ou seja, uma cadeia de pessoas que copiaram, conservaram e interpretaram os textos bíblicos ao longo da história. A Igreja possui quase dois mil anos de ação. A interpretação é feita primeiramente pelo Magistério, depois pela teologia. O magistério é a faculdade que os bispos reunidos e em consenso têm de interpretar a fé cristã. A assistência do Espírito Santo é compreendida no sentido de comunhão. Historicidade da transmissão O processo de registro e de transmissão da Revelação acontece dentro da realidade humana, dentro dos limites da cultura. A Bíblia gastou 1.100 anos para ser escrita. Os livros foram escritos bem depois dos fatos. Somente no século IV é que se decidiu quais livros eram inspirados. Os textos foram recopiados ao longo de 1.900 anos. Hoje restam 5.700 manuscritos repletos de divergências textuais. Portanto, a Bíblia é histórica, de difícil interpretação, motivo de muitos desentendimentos (EHRMAN, 2008, pp. 51-78). Consequências da fé A fé deve ser vivencial. Sem a prática ela perde o sentido de ser e se torna teoria sobre Deus, pois “a fé sem obras é morta” (Tg 2, 14-17). Mas antes de tudo é necessário ter uma clareza sobre que tipo de fé é sustentada. Ela deve ser bíblica e eclesial. Não ter medo de ser humana e se defrontar com a dúvida e o sofrimento. Por fim. Ela deve apontar para a vida e a felicidade e nunca justificar estruturas violentas. Porque as virtudes andam sempre juntas: “a fé, a esperança e o amor. A maior delas, porém, é o amor” (1 Cor 13, 13). REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BENTO XVI. Carta encíclica Spe salvi. Roma: Vaticano, 2007. DEI VERBUM, Constituição Dogmática. Compêndio do Vaticano II: constituições, decretos e declarações. Petrópolis: Vozes, 2000. DENZIGER, Heinrich. Enchiridion symbolorum et definitionum. Barcelona: Herder editorial, 1948. EHRMAN, Bart. O que Jesus disse? O que Jesus não disse? Rio: Ediouro, 2005. FERREIRA, Júlio Andrade. Antologia teológica. São Paulo, Fonte editorial, 2005. HARBIN, Christopher Byron. Introdução à teologia sistemática. Porto Alegre: 2007. HERRERA, Jaime Morales. Patristica: los padres apostólicos y los apologistas. 2009. LAMBIASI, Francesco. La estructura teológico-fundamental de la fe. Roma: Pontificia Universidad Gregoriana, 2007. LIBÂNIO, João Batista. Eu creio, nós cremos: tratado da fé. São Paulo: Loyola, 2000.

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VOCABULÁRIO TEOLÓGICO ANTROPOLOGIA: Tratado sobre a condição do homem a partir de Cristo. ASCÉTICA: É o exercício de fé para o crescimento da vida espiritual. APOLOGÉTICA: É a defesa sistematizada da fé cristã. CATEQUÉTICA: É o ramo da teologia que estuda a definição, objetivos e conteúdo da catequese. COSMOLOGIA: Tratado sobre a relação de Deus com o mundo. CRISTOLOGIA: Tratado sobre a pessoa de Deus Filho, Cristo. DOGMÁTICA: É a parte que sistematiza e estuda as doutrinas principais do cristianismo. DOGMA: Princípio de fé adotado pela tradição da igreja, de modo geral, quer dizer crença. ECLESIOLOGIA: Tratado que estuda a definição, estrutura e doutrina sobre a Igreja. ESCATOLOGIA: Tratado sobre os últimos acontecimentos na condição humana a partir da fé; estudo sobre o destino do homem. ÉTICA: É conjunto de costumes e valores de uma sociedade. Chama-se também moral. EXEGESE: É a interpretação técnica de um texto bíblico; a explicação de seu sentido. HERMENÊUTICA: É a técnica que estabelece os métodos de interpretação e compreensão dos textos bíblicos. PATROLOGIA: É o estudo da literatura cristã antiga como referência do pensamento e prática original da Igreja. Chama-se patrística a doutrina desenvolvida por esses escritores. MARIOLOGIA: Tratado da doutrina sobre Maria, seu lugar na Igreja. MÍSTICA: É a busca da experiência e da relação com Deus. ORTODOXIA: Doutrina verdadeira, oficial, em relação a uma interpretação paralela. PNEUMATOLOGIA: Tratado sobre a pessoa do Espírito Santo. PROTOLOGIA: Tratado sobre a criação; as origens segundo a fé. Insere-se na cosmologia. SACRAMENTOLOGIA: Tratado sobre a história e significado dos sacramentos. SOTERIOLOGIA: Tratado sobre o processo e as condições da salvação. TEODICEIA: Tratado sobre a coexistência de um Deus bom com o mal e o sofrimento. TEONTOLOGIA: Tratado sobre a pessoa de Deus pai. SUGESTÃO DE PESQUISA MÓDULO 01 COLETIVO Problemas da fé: Eu creio? Em que creio? Qual a garantia do que eu creio? O que a minha fé muda em minha vida?

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Problemas do conhecimento: A origem do mundo: criacionismo x Big bang A origem da vida: criacionismo x evolução A existência de Deus: crença, ateísmo e agnosticismo A identidade do homem: criatura, animal O sentido da vida: vida espiritual, felicidade O destino do ser humano: eternidade, natureza Resposta pessoal... Resposta cristã QUESTÕES EXISTENCIAIS Quem somos? De onde viemos? Qual o sentido da vida? Para onde vamos? Resposta científica QUESTÕES EXISTENCIAIS Quem somos? De onde viemos? Qual o sentido da vida? Para onde vamos? Diálogo entre as repostas... PLANO MENSAL DE ESTUDOS GRUPO DE TRABALHO Questão A razão da esperança do cristão A finalidade da religião O que é a fé A forma bíblica da fé As conseqüências da fé A relação entre as virtudes cristãs Referência 1 Pd 3, 15 Jo 10, 10 Hb 11, 1 Fl 2, 9-11 Tg 2, 14-17 Cor 13, 13 QUESTÕES CIENTÍFICAS Organismo complexo, racional, homo sapiens Dos elementos da natureza/Big Bang O sentido é construído individual/coletivamente Retorno indistinto à natureza QUESTÕES TEOLÓGICAS Somos filhos de Deus em Cristo Deus é o princípio de tudo A vida sincera no Espírito Esperamos pela comunhão eterna com Deus

Leituras e anotações: a) Hebreus 10, 19-39;11-12, 1-4. Refletir sobre o significado da fé e seu alcance, a sua presença na história da salvação. b) Tiago 1, 16-26; 2. Refletir sobre a responsabilidade de quem tem fé e a relação entre fé e obras. c) Credo Apostólico. Ler e refletir sobre cada artigo de fé contido na profissão. d) As virtudes teologais. Refletir sobre elas a partir de 1 Cor 13.

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